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CENTRO DE EDUCAÇÃO SUPERIOR DE BRASÍLIA

INSTITUTO DE EDUCAÇÃO SUPERIOR DE BRASÍLIA


BACHARELADO EM COMUNICAÇÃO SOCIAL

MARCELA ROCHA DE SÁ

ACESSIBILIDADE PARA PESSOAS COM DEFICIÊNCIA EM RESTAURANTES


DAS ASAS SUL E NORTE

Brasília – DF
2010
MARCELA ROCHA DE SÁ

ACESSIBILIDADE PARA PESSOAS COM DEFICIÊNCIA EM RESTAURANTES


DAS ASAS SUL E NORTE

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado


ao Curso de Comunicação Social com
Habilitação em Jornalismo do Instituto de
Educação Superior de Brasília, como requisito
parcial para obtenção do grau de Bacharel em
Comunicação Social.

Orientador: Prof. Msc. Juliana Doretto

Brasília - DF
2010
MARCELA ROCHA DE SÁ

ACESSIBILIDADE PARA PESSOAS COM DEFICIÊNCIA EM


RESTAURANTES DAS ASAS SUL E NORTE

Trabalho de Conclusão de Curso aprovado


pela Banca Examinadora com vistas à
obtenção do Título de Bacharel em
Comunicação Social, área de concentração:
Jornalismo, do Instituto de Educação Superior
de Brasília.

Brasília, DF _____ de Dezembro de 2010.

Banca Examinadora:

___________________________________________
Prof. Msc. – orientador

___________________________________________
Prof. Dr.

____________________________________________
Prof.
Dedico este trabalho a todos os portadores de
deficiência, principalmente aqueles que
participaram deste projeto e me ajudaram a
concretizá-lo. E a todos que estiveram
presentes durante este tempo, oferecendo
apoio, ajuda e contribuindo para o melhor
resultado possível.
AGRADECIMENTOS

Chegar até aqui exigiu muita dedicação, persistência e principalmente, o


apoio de várias pessoas. Por isso, é inevitável agradecer a todos que estiveram
juntos nessa caminhada.

A Deus, que deu todas as oportunidades para que eu chegasse com saúde
e alegria aonde cheguei e ao lado de todas as pessoas mencionadas abaixo.

Aos meus pais Moema e Abadá, que todos os dias da minha vida me
apoiaram, me aplaudiram, me amaram e confiaram em mim. Por nunca terem
desistido de lutar juntos pela minha vida e pela nossa vitória.

À minha irmã Carol e meu cunhado Felipe. À minha avó Zenaide, aos tios e
tias, primos e primas que também contribuíram cada um com seu jeito, para a
chegada até aqui.

Aos meus amigos, que sempre foram fiéis nos momentos bons e ruins; que
torceram a cada dia pelo sucesso e vibraram em todas as conquistas. Ao Coxa, em
especial, por ter estudado comigo madrugadas adentro para que eu fizesse uma boa
prova de vestibular. Aos amigos do Iesb que viveram juntos durante esses quatro
anos, apoiando uns aos outros.

Ao Pedro, meu namorado, que nos últimos dois anos esteve ao meu lado
diariamente, vivendo cada instante, com amor e dedicação, e apoiando todas as
conquistas.

À minha orientadora Juliana Doretto, que, além de me orientar e de me


ensinar técnicas de jornalismo, me acalmou em diversos momentos e acreditou,
junto comigo, nesse projeto, contribuindo para sua consolidação.

Aos que ajudaram diretamente nesse trabalho, como o publicitário Marcos


André Coutinho, minha madrinha Gabriela Tanezini, a intérprete Tatiana
Maximiniano, a arquiteta Gaby Galvão de Melo e Aurora e todas as pessoas com
deficiência.
“Você pode até dizer que sou um sonhador,
mas eu não sou o único. Espero que um dia
você se junte a nós e o mundo, então, será
como se fosse um só”

John Lennon
RESUMO

Este Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) aborda a situação dos restaurantes


das Asas Sul e Norte de Brasília em relação à acessibilidade para pessoas com
deficiência. Para tanto, foi produzido um encarte de uma revista com uma
reportagem sobre acessibilidade, envolvendo os aspectos legais, psicológicos e
sociais, além de um guia de serviço, com indicação dos restaurantes mais
acessíveis das Asas. Foram analisados restaurantes selecionados a partir da edição
regional da revista Veja Comer & Beber 2010/2011, considerando-se o
comportamento desses estabelecimentos em relação ao cumprimento das normas e
da legislação relacionadas à acessibilidade. Também são apresentadas as
dificuldades e expectativas dos portadores de deficiência para frequentar esses
estabelecimentos.

Palavras-chave: Grande reportagem. Jornalismo de Revista. Jornalismo Cívico.


Deficiência.
ABSTRACT

This Final Paper deals with the treatment given by restaurants in Asa Sul and Asa
Norte in Brasília to the accessibility of people with physical disabilities. In order to
deal with this subject, it was produced a cover of a magazine in which there is a
publication about accessibility, its legal, psychological and social aspects, and a
service guide, which indicates the most accessible restaurants in Asa Sul. The
restaurants target of this research were select from a regional edition of the
magazine Veja Comer & Beber 2010/2011, taking into account the behavior of these
places in what concerns to their attention to the rules and legislation related to
accessibility. Furthermore, this work presents the difficulties faced by people
with physical disabilities when going to these places.

Key-words: Great Story. Journalism Review. Civic Journalism. Disabilities.


SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO .............................................................................................. 09
1.1 Escopo ...................................................................................................... 10
1.2 Justificativa .............................................................................................. 10
1.3 Objetivo Geral .......................................................................................... 11
1.4 Objetivos Específicos .............................................................................. 12
1.5 Metodologia .............................................................................................. 12

2 O QUE É DEFICIÊNCIA................................................................................ 15
2.1 A discussão sobre os termos ................................................................. 18
2.2 A imprensa e a deficiência....................................................................... 19
2.3 Agenda - setting........................................................................................ 23
2.4 Acessibilidade........................................................................................... 24

3 Jornalismo cívico...................................................................................... 26
3.1 Jornalismo de revista............................................................................... 29
3.2 Ferramentas do jornalismo...................................................................... 31
3.2.1 Grande reportagem.................................................................................. 31
3.2.2 Entrevista................................................................................................. 32
3.2.3 Perfil......................................................................................................... 32

4 Projeto Editorial........................................................................................... 35
4.1 Projeto Gráfico.......................................................................................... 37

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS.......................................................................... 38

6 REFERÊNCIAS............................................................................................. 43

ANEXO A – Questionário da acessibilidade nos Restaurantes.............. 45


9

1 INTRODUÇÃO

A ideia de fazer uma grande reportagem impressa sobre acessibilidade para


deficientes decorreu da constatação de que há poucos estabelecimentos acessíveis
para os deficientes. Entre eles, destacam-se em nossa observação, alguns
restaurantes das Asas Sul e Norte de Brasília. No Distrito Federal vivem 370 mil
pessoas com deficiência, segundo dados do Censo Demográfico do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2000.
O tema foi escolhido também por razões pessoais, por ter vivenciado,
temporariamente, restrições para locomoção. Tais dificuldades motivaram-me, como
jornalista, a estudar e divulgar o tema, com vistas a sensibilizar os diferentes atores
sociais envolvidos com a questão, e estimular a resolução das dificuldades impostas
às pessoas com deficiência.
A Constituição Federal, promulgada em 1988, garante como Direitos e
Garantias Fundamentais, no artigo 5º, que ―todos são iguais perante a lei, sem
distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros
residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, a liberdade, à igualdade, à
segurança e à prosperidade‖. No inciso XV do mesmo artigo diz que ―é garantida a
livre locomoção no território nacional em tempo de paz, podendo qualquer pessoa,
nos termos da lei, nele entrar, permanecer ou dele sair com seus bens‖. Assim, o
direito de ir e vir é de todos, e não de alguns.
Esse direito para os deficientes é expresso, no espaço, pela garantia da
mobilidade, viabilizada pelos diferentes meios de acessibilidade. Em palavras
simples, esse conceito é permitir que as pessoas com deficiência tenham acesso
fácil a todos os locais. É um direito do cadeirante frequentar um bar ou restaurante
com banheiro adaptado. É exemplo de acessibilidade um cego escolher sua própria
refeição por meio do cardápio em braile, previsto na legislação do Distrito Federal. É,
também, direito do deficiente auditivo ter uma comunicação fluente dentro dos
estabelecimentos, seja por meio da linguagem de sinais, seja por meio dos
cardápios ilustrativos.
10

1.1 Escopo

Este memorial descritivo foi elaborado durante o processo de produção da


matéria. No primeiro capítulo, Introdução - constam os principais motivos que
levaram à escolha desse tema e à elaboração de uma revista. Também são
apresentados os objetivos geral e específico do trabalho e a metodologia utilizada
para seu desenvolvimento.
O segundo capítulo apresenta os principais conceitos teóricos adotados para
a elaboração deste trabalho, como a deficiência, abordando sua definição,
terminologias utilizadas, relação entre mídia e deficiência e uma breve conceituação
de acessibilidade. Essas referências foram fundamentais para a construção do
material, pois contribuíram para contextualizar a proposta principal desse trabalho.
O terceiro capítulo abordou sobre o jornalismo cívico e de revista, por terem
sido usados, esses dois tipos, para a construção do material jornalístico. Foram
utilizados ainda os conceitos de grande reportagem, perfil e entrevista, com objetivo
de estudar com mais profundidade as ferramentas da reportagem.
O quarto e último capítulo trata do projeto editorial e gráfico da revista,
produto escolhido para publicação da reportagem, discorrendo sobre seu formato,
sua diagramação e expectativas de publicação, além da definição da pauta.
Por fim, são apresentadas as considerações finais acerca da pesquisa e da
elaboração da matéria e as referências utilizadas.

1.2 Justificativa

Como justificativa, durante os quatro anos do curso de jornalismo,


aprendemos, entre tantas técnicas e regras, que a profissão tem um objetivo
clássico: o de contar histórias, relatando fatos e realidades, na intenção de
chamarmos a atenção da sociedade e na esperança de que mudanças sejam
realizadas. Partindo desse objetivo, que norteou a minha escolha por essa profissão,
surgiu a necessidade de discutir as dificuldades encontradas por deficientes em
restaurantes, por serem locais frequentados tanto para atender às necessidades de
alimentação quanto para o entretenimento.
11

Este trabalho é direcionado, primeiramente, para as pessoas com deficiência


(cadeirantes, cegos e surdos), maiores prejudicados pela pouca adaptação dos
espaços públicos e dos restaurantes. Além deles, a reportagem será útil para os
cidadãos brasileiros que têm dúvidas e curiosidades sobre o assunto. Mais do que
isso, este trabalho pretende, também, despertar o interesse e atenção daqueles que
até então parecem não se importar com a acessibilidade.
A partir de depoimentos colhidos de deficientes, entrevistas com
empresários e representantes do governo, levantamento de dados e de políticas
públicas, foi possível elaborar a reportagem com enfoque social. A matéria tem a
finalidade não apenas de discutir as questões relacionadas à acessibilidade nos
restaurantes selecionados, mas também informar os locais com melhores condições
de acessibilidade.
Trata-se, portanto, de uma provocação ao setor de gastronomia e ao poder
público, a fim de instigá-los a cumprir a legislação sobre acessibilidade, para garantir
condições adequadas às necessidades dos deficientes. Espera-se ainda que a
discussão desse tema gere uma mudança de atitude nas empresas, contribuindo
para que os empresários passem a perceber as pessoas com deficiência como
consumidores ativos e importantes, atitude que possibilita não apenas a
lucratividade, mas, também, auxilia no alcance da cidadania.
Além disso, a reportagem é uma oportunidade para abordar um tema
sensível, capaz de contribuir para a construção de uma sociedade que pensa na
inclusão social. É também, um desafio acadêmico, uma vez que envolveu um
grande trabalho de apuração, pesquisa e aplicação de técnicas sobre grande
reportagem.

1.3 Objetivo geral

Produzir uma revista impressa, sobre acessibilidade para pessoas com


deficiência em restaurantes das Asas Sul e Norte, a partir das experiências
vivenciadas por cadeirantes, cegos e surdos nesses ambientes, bem como o
embasamento legal que assegura o direito à acessibilidade aos deficientes.
12

1.4 Objetivos específicos

- Pesquisar e realizar a leitura da bibliografia específica sobre deficiência,


grande reportagem, jornalismo de revista e jornalismo cívico;
- Visitar restaurantes das Asas Sul e Norte para conhecer os ambientes, a
fim de reunir dados sobre acessibilidade de cada um deles;
- Reunir informações e dados sobre portadores de deficiência nas Asas Sul
e Norte e sobre acessibilidade em restaurantes no mesmo local;
- Ouvir e coletar histórias de pessoas com deficiência nos estabelecimentos
e escrever perfis sobre os entrevistados.

1.5 Metodologia

Após definir a pauta da grande reportagem, várias fases foram


desenvolvidas para se alcançar o resultado final. A primeira etapa, para embasar a
elaboração deste memorial descritivo e da revista, consistiu em estudar e
compreender a Constituição Federal, uma vez que o direito à acessibilidade está
relacionado ao disposto em seu artigo 5º, que garante igualdade, liberdade,
segurança, prosperidade e o direito à vida. A partir dessa legislação mais ampla,
pesquisamos e estudamos todas as leis e normas técnicas que tratam da
acessibilidade no Distrito Federal.
A segunda etapa foi a elaboração da revisão bibliográfica onde foram
utilizados livros e artigos científicos para compreender os principais conceitos que
circundam este trabalho, como deficiência, jornalismo cívico e jornalismo de revista.
Entender seus significados, identificar os pontos-chave para tornar uma sociedade
acessível e as necessidades básicas da pessoa com deficiência contribuiu para a
elaboração da terceira etapa deste trabalho, baseada em pesquisa.
Na terceira fase elaborou-se um questionário com nove perguntas (anexo),
endereçadas à identificação da situação dos restaurantes em relação à
acessibilidade. Foram feitas perguntas sobre a presença de: cardápio em braile ou
ilustrativo para que os surdos possam apontar o prato desejado; funcionário fluente
na linguagem de sinais (Libras); espaço e banheiro adaptado para cadeirante e a
13

realização de treinamentos dos empregados para atender aos deficientes, entre


outras.
Essa pesquisa foi realizada em todos os restaurantes das Asas Sul e Norte
que constam na revista ―Veja Brasília Comer & Beber‖, da editora Abril (edição de
2010), e foi realizada por meio de visitas e de entrevistas por telefone. Por meio
dessa apuração foi possível traçar um panorama da acessibilidade nesses
estabelecimentos.
Com todos os dados relacionados (nome e endereço dos restaurantes e
suas opções de acessibilidade), passamos para um outro processo de apuração
jornalística, as entrevistas com os personagens. Representantes de entidades que
reúnem pessoas com deficiência, como Associação Brasiliense do Deficiente Visual
(ABDV), Associação dos Pais e Amigos do Deficiente Auditivo (APADA) e
Associação dos Deficientes de Brasília (ADB), foram ouvidos, com objetivo de que
eles pudessem relatar as principais necessidades para propiciar a inclusão social do
deficiente, quanto ao aspecto da acessibilidade, nas ofertas da gastronomia
brasiliense. Por meio dessas entidades foi possível, ainda, conhecer as pessoas
com deficiência, entrevistadas para a reportagem.
Almoços, lanches e jantares foram realizados com os deficientes físicos,
auditivos e visuais, a fim de registrar e avaliar o serviço e o atendimento oferecidos
por alguns restaurantes da cidade, seus pontos falhos em relação à comunicação
entre o deficiente e o funcionário e, principalmente, o nível de acessibilidade. As
entrevistas foram agendadas e com personagens pré-determinados, que
consentiram em participar deste projeto.
Para abordar o tema da acessibilidade nesses locais, nos baseamos em um
dos preceitos básicos do jornalismo: ouvir os vários lados envolvidos em uma
questão. Portanto, além de entrevistarmos os deficientes, foco desta reportagem,
também ouvimos empresários do segmento gastronômico, para que pudessem
explicar as dificuldades e possibilidades de tornar os estabelecimentos acessíveis,
além de psicólogo e assistente social, para oferecer suporte especializado à pauta.
O presidente do Instituto de Defesa do Consumidor de Brasília (Procon),
Oswaldo Moraes, falou sobre a fiscalização da oferta de cardápio em braile, cuja
presença é obrigatória por lei no DF. Márcia Muniz, coordenadora técnica da
Comissão Permanente de Acessibilidade do Governo do Distrito Federal (GDF), foi
procurada inúmeras vezes pela reportagem para que se pudesse entender como é
14

feita a fiscalização do espaço urbano, no entanto, a coordenadora não atendeu aos


contatos realizados. Ouvimos ainda o presidente do Sindicato dos Hotéis, Bares e
Restaurantes (Sindhobar), Clayton Faria Machado, que explicou a atuação da
entidade relativamente à acessibilidade.
Adicionalmente, pesquisamos sobre o número de pessoas com deficiência
no Distrito Federal, que foi obtido por meio do Censo do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE) de 2000 e por meio de informações das entidades já
citadas. Para complementar o texto, usamos recursos como fotografias, arte gráfica
e tabelas, sobretudo para apresentar dados dos restaurantes mais acessíveis.
Por se tratar de uma reportagem que aborda a acessibilidade como forma de
inclusão na sociedade, a matéria conta com recursos para torná-la acessível a todos
os deficientes, principalmente aqueles que contribuíram para a elaboração da
reportagem. A reportagem foi traduzida em braile, pela ABDV, e convidamos uma
intérprete para traduzir, para a linguagem de sinais, a apresentação deste trabalho
para a banca avaliadora.
15

2 O QUE É DEFICIÊNCIA

A maneira como a deficiência é entendida e percebida pela sociedade vem


das concepções individuais de cada pessoa. Muitos cidadãos enxergam a pessoa
com deficiência como alguém doente e, por isso, tratam-na com discriminação e
distância. Portanto, é fundamental a compreensão dos conceitos relacionados à
deficiência, para que a sociedade compreenda o assunto e passe a ser menos
hostil. É o que pretende este tópico do memorial.
A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) elaborou, em 2004, a
Norma Brasileira (NBR) 9.050, que trata de ―Acessibilidade a edificações, mobiliário,
espaços e equipamentos urbanos‖. A Norma define deficiência como:

Redução, limitação ou inexistência das condições de percepção das


características do ambiente ou de mobilidade e de utilização de edificações,
espaço, mobiliário, equipamento urbano e elementos, em caráter temporário
ou permanente (ABNT 9.050/2004).

A Lei Federal Nº 10.098, de 19 de dezembro de 2000, definiu a pessoa


portadora de deficiência ou com mobilidade reduzida como aquela que ―tem sua
capacidade de relacionar-se com o meio e de utilizá-lo reduzida, temporariamente
ou permanentemente‖. Essa legislação estabelece normas gerais e critérios básicos
para a promoção da acessibilidade.
Já o Decreto Nº 5.296, de 2 de dezembro de 2004, que regulamenta a lei
anterior, subdivide deficiência em três tipos. A física é aquela em que a pessoa tem
―alteração completa ou parcial de um ou mais segmentos do corpo humano,
acarretando o comprometimento da função física‖. Essa deficiência pode ser
apresentada sob diversas formas: entre elas, paraplegia (paralisia dos membros
inferiores), paraparesia (paralisia incompleta de nervo ou músculos inferiores),
tetraplegia (paralisia dos quatro membros secundários), triplegia (condição rara em
que três membros são afetados).
O segundo tipo de deficiência, definida no mesmo decreto e utilizada neste
trabalho, é a auditiva: aquela em que ocorre a perda bilaterial, parcial ou total, de 41
decibéis ou mais, aferida por audiograma. A deficiência visual, o terceiro tipo de
deficiência, é conceituada como ―cegueira, na qual a acuidade visual é igual ou
menor que 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica; a baixa visão, que
16

significa acuidade visual entre 0,3 e 0,05 no melhor olho, com a melhor correção
óptica; os casos nos quais a somatória da medida do campo visual em ambos os
olhos for igual ou menor que 60o; ou a ocorrência simultânea de quaisquer das
condições anteriores‖.
A Convenção da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre os Direitos
da Pessoa com Deficiência, de 2002 (assinada em 2007 pelo Brasil), foi proposta
para promover, defender e garantir condições de vida com dignidade aos cidadãos
nessas condições. O texto define pessoa com deficiência, como:

Aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental,


intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras,
podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em
igualdades de condições com as demais pessoas (ONU, 2007).

No livro ―O que é deficiência‖, Débora Diniz cita ―A cegueira‖, do escritor


argentino Jorge Luis Borges, obra na qual a deficiência visual aparece descrita como
um modo de vida. Para a autora, essa ideia de a cegueira ser vista como uma
maneira diferente de viver é uma revolução, pois se afasta a concepção de
deficiência como anormalidade.

Um corpo com deficiência somente se delineia quando contrastado com


uma representação do que seria o corpo sem deficiência. Ao contrário do
que se imagina, não há como descrever um corpo com deficiência como
anormal. A anormalidade é um julgamento estético e, portanto, um valor
moral sobre os estilos de vida (DINIZ, 2007, p. 8).

A autora escreve que o desafio de Borges era assumir um discurso


positivo sobre a deficiência, considerando que ela não é apenas uma expressão da
restrição de funcionamento ou habilidade. Embora o conceito médico tenha um
caráter biológico, pois define a deficiência visual como alguém que não enxerga, o
modelo social da deficiência vai além. ―A experiência da desigualdade pela cegueira
só se manifesta em uma sociedade pouco sensível à diversidade de estilos de vida‖
(DINIZ, 2007, p. 9).
Conforme dito, esse pensamento representou uma revolução dos estudos
sobre deficiência, que surgiu no Reino Unido e nos Estados Unidos nos anos 1970.
―De um campo estritamente biomédico confinado aos saberes médicos, psicológicos
e de reabilitação, a deficiência passou a ser também um campo das humanidades‖
(DINIZ, 2007, p. 9). Nesse sentido, segundo a autora, a deficiência passa a ser um
conceito que reconhece o corpo com uma lesão, mas que também denuncia a
17

estrutura social que oprime a pessoa deficiente. Para a autora, esse é um campo
pouco explorado no Brasil, pois, além de a deficiência não ter se libertado da
autoridade médica, o assunto ainda é considerado como uma tragédia pessoal, e
não uma questão de justiça e de discriminação.
Débora Diniz, Lívia Barbosa e Wederson Santos (2010) escrevem também
que a deficiência não deve ser entendida, sob o conceito biomédico, como um
conjunto de doenças, mas sim como uma relação de desigualdade imposta por
ambientes com barreiras a um corpo com impedimentos. ―Quanto maiores forem as
barreiras sociais, maiores serão as restrições de participação impostas aos
indivíduos com impedimentos corporais‖ (DINIZ; BARBOSA; SANTOS, 2010, p.
101).
Wederson Santos (2010) explica que existe uma diferença entre ter um
corpo com impedimentos e experimentar a deficiência, pois, segundo ele, viver em
um corpo deficiente pode significar viver com discriminação e violação de direitos.
Isso acontece porque a sociedade ainda não reconhece esses homens e mulheres
como alguém que apenas tem uma diversidade corporal, a ponto de tratá-los com
igualdade. Na concepção de Santos, deficiência é:

Um conceito abrangente relacionado aos impedimentos corporais que,


pelas práticas, valores e estruturas sociais, reduzem a capacidade das
pessoas de participarem integralmente na sociedade em igualdade de
condições com as pessoas não deficientes (SANTOS, 2010, p. 133).

Diante de muitas discussões acerca da deficiência, nota-se que não há um


consenso sobre o conceito. As leis definem o termo como a redução da capacidade
da pessoa deficiente de interagir com o meio por tempo determinado ou
indeterminado. Enquanto alguns autores postulam que a deficiência, além de ser um
conceito biomédico, que delimita como doença, é também uma questão relacionada
à estrutura social que oprime e discrimina os portadores de deficiência. Portanto, a
deficiência seria o conjunto de doenças e patologias somado à desigualdade
imposta pela sociedade, que leva à discriminação da pessoa com tais
características.
18

2.1 A discussão sobre os termos

A utilização do termo adequado para designar a pessoa com deficiência tem


sido objeto de debates por estudiosos e por organizações representativas dos
deficientes. A utilização de expressões, como ―pessoa portadora de deficiência‖,
―pessoa com deficiência‖, ―pessoa com necessidades especiais‖ e até de alguns
considerados mais agressivos, como ―aleijado‖, ―débil mental‖ continuam em
discussão. No entanto, há o consenso de que essas expressões hostis não devem
ser usadas.
Escreve Diniz que, exceto pelo abandono dessas expressões que insultam,
ainda não há consenso sobre quais os melhores termos descritivos. ―Deficiente
seria, portanto, um termo politicamente mais forte que pessoa com deficiência, muito
embora alguns autores utilizem ambos de modo indiscriminado (DINIZ, 2007, p. 22).
Romeu Kazumi Sassaki escreve sobre ―terminologia sobre deficiência na era
da inclusão‖ no livro ―Mídia e Cidadania‖ (2003). Para ele, o cuidado com a
linguagem contribui para a construção de uma sociedade inclusiva. ―Na linguagem
se expressa, voluntariamente ou involuntariamente, o respeito ou a discriminação
em relação às pessoas com deficiência‖ (SASSAKI, 2003, p. 163).
Em publicação da Andi, é ressaltado que a comunidade midiática deve se
dedicar a transformar a mentalidade dos leitores. Por isso, é importante que o
jornalista saiba usar os conceitos corretos. ―O maior problema decorrente do uso de
termos incorretos reside no fato de os conceitos obsoletos, as idéias equivocadas e
as informações inexatas serem reforçados e perpetuados‖ (ANDI, 2003, p. 39).
De acordo com o texto, não é recomendado utilizar os termos ―portador‖ ou
―deficiente‖, pois as pessoas com deficiência argumentam que elas não portam uma
deficiência, como quem porta um objeto. Em relação à palavra ―deficiente‖, existe a
desvantagem em sugerir que a pessoa inteira é deficiente. A Constituição Brasileira,
no entanto, utiliza o termo ―pessoa portadora de deficiência‖.
Segundo Sassaki (2003), uma das palavras que não deve ser usada para se
referir à pessoa com deficiência é ―especial‖ ou ―excepcional‖, pois atribui ao
deficiente o sentido de alguém que foge dos padrões humanos de existência e de
comportamento.
19

De acordo com o autor, os termos corretos para designar são pessoa com
deficiência (usada sem especificar o tipo de deficiência); cego, pessoa cega ou
pessoa com deficiência visual para referir-se aos que não enxergam; pessoa surda
ou pessoa com deficiência auditiva para os que não ouvem. A pessoa que utiliza
cadeira de rodas deve ser chamada, na forma coloquial, como cadeirante ou
chumbado.
Algumas pessoas utilizam o termo ―mudinho‖ para se referir ao surdo, mas
Sassaki ressalta que a palavra mudo não corresponde à realidade do deficiente
auditivo. ―O diminutivo mudinho denota que o surdo não é tido como uma pessoa
completa. Há casos de pessoas que ouvem, mas tem distúrbio da fala e, em
decorrência disso, não falam‖ (SASSAKI, 2003, p. 164).
A publicação da Andi concorda com o autor sobre essa questão, pois
considera que o termo surdo-mudo revela, além de preconceito, desinformação
conceitual.
A surdez não tem relação direta com a mudez. Pessoas surdas não
apresentam, necessariamente, qualquer problema de voz. Não falam
porque não escutam e, assim, têm muita dificuldade de se expressar pelo
português, optando quase sempre pela língua de sinais brasileira, a Libras
(ANDI, 2003, p. 42).

A discussão sobre as terminologias que devem ser usadas é ampla e abarca


opiniões diferentes. No entanto, observa-se que, entre os autores, há um consenso
sobre a utilização de termos que não tratem a pessoa com deficiência com
discriminação e inferioridade. Fora isso, não há um padrão definido de como se
referir a elas. Neste trabalho, utilizamos os termos deficiência e pessoas com
deficiência.

2.2 A imprensa e a deficiência

Como vimos no tópico anterior, que aborda os conceitos de jornalismo, a


premissa básica dessa profissão, entendida como uma forma de comunicação é
servir para a sociedade como meio de informação capaz de tentar transformar a
realidade e despertar interesse em questões sociais que atingem os cidadãos. É
dessa forma que entendemos a importância e a necessidade de a mídia colocar em
20

pauta o tema da deficiência. Esta relação entre o tema da deficiência e a imprensa


será abordada neste tópico.
Publicação da Andi (2003) explica que, no Brasil, as pessoas com
deficiência são atingidas por várias formas de discriminação, tornando-se invisíveis à
cidadania. Por isso, acredita-se na importância de um envolvimento dos diversos
setores da sociedade para reverter essa segregação: ―daí a importância fundamental
dos meios de comunicação de massa, enquanto agentes facilitadores dessa troca de
informações‖ (ANDI, 2003, p. 6).
Acredita-se, então, que os meios de comunicação funcionam como uma
ponte entre a informação contextualizada e a sociedade, com objetivo final de
oferecer compreensão sobre a deficiência, para assim, tentar diminuir os
preconceitos.
Precisamos relembrar que os direitos à educação, à saúde, ao convívio
social, ao lazer estão todos assegurados pela Constituição Brasileira – e
que se aplicam a cada um dos cidadãos do País. Esta é a chave do
problema: entender que as pessoas com deficiência são cidadãs (ANDI,
2003, p. 7).

Com esse preceito, o livro aborda a necessidade de colocar em pauta a


deficiência. Segundo a publicação, as redações brasileiras não se encontram
qualificadas para esse tipo de cobertura, da mesma forma como estão para outras
questões que elas consideram prioritárias da agenda social, como violência sexual
contra crianças ou o tráfico de drogas.
Um dos fatores que contribuem para essa situação seria o fato de que os
jornalistas não passam por um processo de capacitação nas faculdades e nas
redações para a cobertura de pautas que incluem os deficientes.

A lacuna tem origem no currículo defasado da grande maioria das


faculdades de comunicação e se nutre da falta de interesse das empresas.
Ambos os fatores contribuem de forma marcante para impulsionar a
engrenagem da exclusão que cerca as pessoas com deficiência (ANDI,
2003, p. 7).

Para incluir essa pauta nos meios de comunicação, alguns pontos devem
ser discutidos. Entre eles, a importância de os jornalistas compreenderem alguns
conceitos, como inclusão, ambiente inclusivo, direito das pessoas com deficiência e
acessibilidade. O conceito de incluir, sob o viés filosófico, é definido como ―a crença
de que todos têm direito de participar ativamente da sociedade‖ (ANDI, 2003, p. 20).
21

Sob a perspectiva ideológica, a inclusão ―vem para quebrar barreiras cristalizadas


em torno de grupos estigmatizados‖ (ANDI, 2003, p. 20), sem limites de credo,
religião, posição, política, etnia, opção sexual ou grau de deficiência.
Com relação às dificuldades dos órgãos de imprensa para veicular
informações sobre deficientes, a publicação da Andi acrescenta que alguns
profissionais de imprensa cobrem essa área, mas na maioria dos casos, a pauta
surge de um esforço individual do repórter, e não de uma linha editorial do veículo
de comunicação. A publicação da Andi afirma que os jornalistas têm muitas dúvidas
sobre a temática, e por isso evitam o assunto.

Para que a imprensa venha a desempenhar com eficiência o papel que lhe
cabe no processo de construção de um País menos vulnerabilizado pelas
injustiças sociais, será necessário, portanto, que se cristalize uma cultura
jornalística suficientemente madura para pensar as questões inerentes ao
desenvolvimento humano e à inclusão social como abordagem transversal à
cobertura oferecida a todas as grandes temáticas nacionais (ANDI, 2003, p.
7).

O desafio seria, portanto, que a imprensa tomasse consciência sobre a


necessidade de abordar, também, outros temas da pauta social, que não somente
aqueles de forte apelo midiático, como a violência. É importante que a mídia
disponibilize mais espaço para os demais assuntos que compõem o universo do
jornalismo social, como os relacionados a grupos sociais estigmatizados, a fim de
fortalecer e divulgar os mecanismos que possibilitem sua inclusão social.
Aliada à postura dos veículos de comunicação há a visão da sociedade
sobre o assunto, que muitas vezes ignora o tema da deficiência, pois acredita ser
algo distante de sua realidade. ―É dessa forma simplista e, portanto, trágica que a
sociedade enfrenta o fato de alguns indivíduos à sua volta terem deficiência‖ (ANDI,
2003, p. 12).
Nesse sentido, a mídia acaba reproduzindo o comportamento dos cidadãos,
de que é possível evitar as discussões que envolvem esse tema. ―A deficiência
ainda não é considerada uma questão de todos os brasileiros; no máximo, um
problema de alguns núcleos familiares‖ (ANDI, 2003, p. 11). Segundo a publicação,
isso se traduz na não-valorização do tema como utilidade e interesse público,
provocando o empobrecimento das matérias publicadas com esse enfoque nos
jornais.
22

Em consonância com esse entendimento e visando evitar a superficialidade


das abordagens sobre deficiência é oportuno destacar a recomendação da
instituição sobre a adequada conduta jornalística que deve ser perseguida por
aqueles que se propõem a escrever sobre deficiência:

É importante que o jornalista mantenha os mesmos critérios de rigor,


espírito investigativo, senso crítico, checagem de dados e confronto de
múltiplas opiniões que usa para elaborar uma boa matéria sobre qualquer
outra pauta (ANDI, 2003, p. 37).

Pesquisas feitas pela Andi, no entanto, demonstram que a maior parte dos
jornalistas que escrevem sobre deficiência entrevista apenas uma fonte, e assim, os
meios de comunicação acabam perdendo oportunidades de aguçar o senso crítico
dos leitores e estimulá-los a refletir sobre o assunto. Segundo a publicação, é
também essencial que os jornalistas escrevam sobre o tema em pautas diversas,
como turismo.
Por exemplo, seria extremamente útil que cadernos de turismo publicassem,
em suas reportagens, que hotéis têm ou não acessibilidade para pessoas
com deficiência em seus quartos, centros de convenção e restaurantes
(ANDI, 2003, p. 45).

Ratificando essa recomendação, que está de acordo com o propósito deste


trabalho, consideramos importante que a pauta ―deficiência" seja objeto de matérias
diversas, com o objetivo de atrair cada vez mais interessados e, assim, contribuir
para o conhecimento da complexidade do tema e minimizar o preconceito. Pautas
de educação, saúde, meio ambiente, infância e violência, por exemplo, deviam
abordar a questão, ou mesmo ouvir, como fontes, pessoas com deficiência, que
raramente são vistas na imprensa como entrevistados.
É preciso que jornalistas e faculdades pensem e escrevam sobre as pautas
que atinjam diretamente a sociedade, entre eles a deficiência. Uma frase da
publicação da Andi (2003) conclui esse pensamento:

Precisamos relembrar aqui, finalmente, que os direitos à educação, à


saúde, ao convívio social, ao lazer, estão todos assegurados pela
Constituição Brasileira – e que se aplicam a cada um dos cidadãos do País.
Esta é a chave do problema: entender que pessoas com deficiência são
cidadãs... (ANDI, 2003, p. 7).
23

2.3 Agenda-setting

Para justificar a ideia de que a sociedade é pautada e agendada pela mídia,


esse tópico explica a teoria do agendamento conhecida, também, como agenda-
setting.
Mauro Wolf (2001) cita Shaw para explicar a hipótese do agenda-setting, a
qual defende que o público sabe ou ignora elementos dos cenários públicos em
consequência da ação dos jornais, da televisão e dos outros meios de informação.

As pessoas têm tendência para incluir ou excluir dos seus próprios


conhecimentos aquilo que os mass media incluem ou excluem do seu
próprio conteúdo. Além disso, o público tende a atribuir àquilo que esse
conteúdo inclui uma importância que reflete de perto a ênfase atribuída
pelos mass media aos acontecimentos, aos problemas, às pessoas (SHAW
apud WOLF, 2005, p.143).

Para Wolf, o agenda-setting teria um impacto direto, ainda que não imediato,
sobre os destinatários. Essa influência poderia ocorrer em dois níveis: seja pelos
temas, assuntos e problemas presentes na agenda dos veículos de comunicação,
seja pela importância e pela prioridade dadas a esses elementos pelos meios de
comunicação.
Concordando com o Wolf sobre o entendimento de que a mídia influi na
opinião dos consumidores de notícia, Felipe Pena (2005) explica que essa teoria
defende a ideia de que os leitores qualificam como mais importantes aqueles
assuntos que são veiculados na imprensa, considerando, então, que os meios de
comunicação agendam as conversas. Ou seja, a mídia nos fala sobre o que debater
e também pauta nossos relacionamentos.

A hipótese do agenda-setting não defende que a imprensa pretende


persuadir. A influência da mídia nas conversas dos cidadãos advém da
dinâmica organizacional das empresas de comunicação, com sua cultura
própria e critérios de noticiabilidade (PENA, 2005, p. 144).

Assim, a teoria do agenda-setting afirma que os meios de comunicação são


capazes de pautar o interesse dos leitores sobre determinados assuntos. Acredita-
se que o consumidor de notícias tenha mais interesse e opinião sobre as pautas
publicadas na mídia. A revista produzida nesse trabalho se propõe a colocar em
pauta o assunto da deficiência, pouco inserido na mídia, e considerado então, de
24

acordo com a hipótese do agenda-setting, menos pautado pelos meios de


comunicação. Dessa forma, pretende-se agendar na mídia a pauta sobre deficiência
e acessibilidade, para estimular, cada vez mais, o interesse sobre o tema.

2.4 Acessibilidade

Discutir o tema da acessibilidade é envolver-se diretamente com um direito


do cidadão, ainda, pouco lembrado em nosso país, já que ela é uma forma de
permitir que os deficientes se integrem à sociedade, sem distinções.
A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) define acessibilidade,
na Norma Brasileira (NBR) 9.050/2004, como: ―a possibilidade e condição de
alcance, percepção e entendimento para utilização com segurança e autonomia de
edificações, espaço, mobiliário, equipamento urbano e elementos‖.
O consultor em inclusão Romeu Sassaki escreve, em publicação da Andi
(2003), que uma sociedade só está acessível após análise de quesitos básicos,
como acessibilidade arquitetônica, metodológica, instrumental, programática e
atitudinal. Abordamos aqui três dessas formas de acessibilidade, que foram
debatidas na reportagem.
Acessibilidade arquitetônica: não há barreiras ambientais físicas nas casas,
nos edifícios, espaços ou equipamentos urbanos e nos meios de transporte
individuais ou coletivos.
[...]
Acessibilidade comunicacional: não há barreiras na comunicação
interpessoal (face-a-face, língua de sinais), escrita (jornal, revista, livro,
carta, apostila, incluindo textos em braile, uso do computador portátil) e
virtual (acessibilidade digital).
[...]
Acessibilidade instrumental: não há barreiras nos instrumentos, utensílios e
ferramentas de estudo (escolar), de trabalho (profissional) e de lazer ou
recreação (comunitária, turística ou esportiva) (ANDI, 2003, p. 45).

A lei federal 10.098/2000 conceitua acessibilidade para pessoas com


deficiência como:
Possibilidade e condição de alcance para utilização, com segurança e
autonomia, dos espaços, mobiliários, equipamentos urbanos, das
edificações, dos transportes e dos sistemas e meios de comunicação, por
pessoa portadora de deficiência ou com mobilidade reduzida.

Nesse sentido, consideram-se como barreiras para o deficiente qualquer


entrave que limite ou impeça o acesso, a liberdade de movimento e a circulação com
25

segurança dessas pessoas. Esses obstáculos são classificados, pela lei, como
barreiras arquitetônicas urbanísticas (nas vias públicas e espaços de uso público,
como as ruas e praças), na edificação (no interior dos edifícios públicos e privados),
nos transportes (existentes nos meios de locomoção, como ônibus, metrôs e táxis) e
nas comunicações (entrave ou obstáculo que dificulte ou impossibilite a expressão
ou recebimento de mensagens, como ausência de textos em braile e intérpretes em
Libras).
Acessibilidade é, portanto, oferecer, às pessoas com deficiência, liberdade
de locomoção e acesso seguro aos locais públicos ou privados. É, também, oferecer
aos deficientes a facilidade de se comunicar, usando, por exemplo, os cardápios em
braile e a linguagem de sinais. Com o propósito de discutir o tema nos setores de
serviço, como os restaurantes, esse trabalho tratou da acessibilidade, por entender ir
e vir é direito de todos, sem distinções.
26

3 JORNALISMO CÍVICO

Uma das funções do jornalismo é informar à sociedade, tendo como norte o


interesse público. Ricardo Noblat (2002) escreve que o jornalismo antes de ser um
negócio, deve ser visto como um serviço público, e portanto, deve proceder como
servidor público. ―Mais do que informações e conhecimentos, o jornal deve transmitir
entendimento. Porque é do entendimento que deriva o poder. E em uma
democracia, o poder é dos cidadãos‖ (NOBLAT, 2002, p. 22)
Na teoria do jornalismo, as matérias que se dedicam com mais ênfase às
questões sociais recebem diferentes nomes dos diversos autores. Entre eles,
jornalismo público, cívico e social. São esses os termos que utilizaremos neste
memorial. Há uma visão de que esse jornalismo social é praticado por repórteres
sensíveis aos problemas da sociedade, que têm a intenção de divulgar a realidade
na tentativa de estimular o público a exercer a cidadania. Seria esse o único
jornalismo social?
Para Kotscho, a reportagem social é uma área nebulosa do jornalismo e por
isso é difícil defini-la. No livro ―A Prática da Reportagem‖, o autor define esse campo:

Não se trata simplesmente de registrar o fato, mas de ir mais fundo da


busca das suas causas e conseqüências. É nesta terra de ninguém dentro
da estrutura das redações que se vai encontrar as histórias da vida e da
morte dos desempregados, dos menores abandonados, o fim da linha da
violência e dos desencontros (...). Ali está o reverso do Brasil oficial dos
gabinetes, dos decretos, das discussões teóricas (KOTSCHO, 2002, p. 58).

De acordo com Martins, no livro ―Jornalismo Público‖, de 2004, esse


conceito teria surgido nos Estados Unidos, em 1990, criado pelo editor-chefe do
Whichita Eagle, David Merriot, jornal da cidade de Kansas. Um de seus objetivos
principais estava relacionado aos problemas sociais e comunitários, dentre eles, a
necessidade de motivar os norte-americanos a votar.
De acordo com Martins (2004), o que tem caracterizado, no entanto, o
jornalismo público é a intenção de não apenas se servir dos fatos sociais, mas
agregar aos valores-notícia tradicionais elementos de análise e de orientação do
público quanto à solução de problemas. Ainda de acordo com o autor, o jornalismo
público não atingiu, no Brasil, status de especializações tradicionais, como
jornalismo político, econômico e esportivo.
27

Nelson Traquina (2003) informa que nos Estados Unidos, na década de 80,
surgiu um movimento polêmico, que defendeu ―o novo jornalismo‖ (sem relação com
o ―new jornalism‖, ou literário, da década de 60). Essa nova forma de fazer
reportagens, segundo o autor, ficou conhecida por diferentes nomes: ―o jornalismo
comunitário‖ (Craig, 1995), ―jornalismo de serviço público‖ (Shepard, 1994),
―jornalismo público‖ (Rosen, 1994; Merriet,1995) e ―jornalismo cívico‖ (Lambethe e
Craig, 1995). Traquina prefere o termo ―cidadão‖ e utiliza a denominação de
―jornalismo cívico‖.
Para o jornalista Davis Merritt, o jornalismo cívico envolve diversas
mudanças. Entre elas, ele ressalta que esse tipo de reportagem deve ir além da
informação e oferecer uma visão mais ampla das notícias, com o objetivo de ajudar
a melhorar a vida pública. Merritt também afirma que o jornalista precisa deixar de
ser um ―observador desprendido‖ e assumir o papel de participante da notícia.
―Conceber o público não como consumidores, mas como atores na vida
democrática, tornando assim prioritário para o jornalismo estabelecer ligações com
os cidadãos‖ (MERRITT apud Traquina, 2003, p. 14).
Jay Rosen, jornalista e acadêmico, concorda com Merritt. Ele que prefere
utilizar o termo ―jornalismo público‖, partilha da visão de uma democracia
participativa e ressalta que o jornalismo deve representar um papel mais ativo na
construção de um espaço público e na resolução dos problemas da sociedade.
Traquina afirma que esse ―novo jornalismo‖ provocou uma discussão sobre
os valores fundamentais da profissão. Para ele, o futuro no jornalismo cívico
depende de o movimento procurar atingir uma reforma, e não uma revolução. ―O
jornalismo cívico tem o potencial para renovar o jornalismo se não pretender ser
uma ruptura com o seu capital já acumulado‖ (TRAQUINA, 2003, p. 17).
Entende-se, portanto, que esse novo jornalismo surgiu para trazer
reformulações no jornalismo diário. Embora todos saibam que o jornalista tem o
objetivo de informar e estimular mudanças na sociedade, o jornalismo cívico quer
além de noticiar, dar mais enfoque às grandes questões sociais.
Mário Mesquita parece se alinhar às idéias de Traquina e de Kotscho,
quando diz que esse jornalismo propõe substituir a natureza fragmentária das
práticas tradicionais por uma atitude baseada em maior atenção a cada tema. Ele
ressalta que o jornalismo não deveria limitar-se à superfície, mas teria de aprofundar
e identificar nas causas dos problemas da comunidade.
28

Em vez de saltar de acontecimento em acontecimento, seria desejável


aprofundar as matérias relevantes de modo a focar nelas a atenção da
comunidade. Só assim os cidadãos poderiam deliberar com conhecimento
de causa sobre as principais questões da vida comunitária. (MESQUITA,
2003, p. 19).

Com outra denominação, Felipe Pena (2008) utiliza o termo ―jornalismo


comunitário‖. Esse tipo de jornalismo seria então voltado para atender às demandas
da cidadania e servir para mobilização social.

O jornalismo comunitário tem por missão desvendar as causas e


conseqüências que justificam a condição de vida de uma determinada
comunidade. O compromisso não é apenas factual mas também social
(PENA, 2008, p. 185).

O autor escreve ainda que esse jornalismo precisa de disposição para levar
às comunidades informações importantes; portanto, o jornalista deve enxergar com
os olhos dessas comunidades. No artigo ―Jornalismo Público e Conhecimento
Público‖, de Anthony J. Eksterowicz, Robert Roberts e Adrian Clark (1988), o
jornalismo público também é descrito como uma tentativa de aproximar os jornalistas
das comunidades. O objetivo desse jornalismo seria ajudar os meios de
comunicação a envolverem-se com os cidadãos para atuar na resolução de
problemas. ―Para tal, estão envolvidos neste esforço os jornalistas enquanto
defensores de reformas políticas e, eventualmente, sociais no interior das suas
comunidades‖ (CASE 1994, p. 14 apud Traquina e Mesquita, 2003, p. 85).
Em termos mais simples, entende-se como jornalismo social (público ou
cívico) aquele que, primeiramente, segue os princípios do bom jornalismo, destinado
a informar, porém com objetivo específico de tentar transformar a vida dos cidadãos.
Essa transformação ocorreria por meio das matérias de cunho social, abordando
problemas como fome, desigualdade, miséria. A ideia é que o noticiário publique
mais que declarações e números: uma pesquisa social de fôlego, apresentando os
principais problemas vividos pelos cidadãos e possíveis resoluções.
29

3.1 Jornalismo de revista

A revista tem como característica o predomínio de reportagens, com textos


maiores e mais apurados. Em virtude das características desse veículo de
comunicação, adotamos a revista como produto para abordar a pauta proposta
neste trabalho, pois acreditamos que assim conseguiremos oferecer uma ampla
cobertura aos leitores.
Marília Scalzo (2004) explica que as revistas fazem coberturas mais
complexas, como análises, e não apenas fornecem as notícias factuais. ―As revistas
vieram para ajudar na complementação da educação, no aprofundamento de
assuntos, na segmentação, no serviço utilitário que podem oferecer a seus leitores‖
(SCALZO, 2004, p. 14).
A revista tem o objetivo de explorar novos ângulos, buscar notícias
exclusivas e entender o que é interessante para o público. Scalzo ressalta que é
necessário estabelecer um foco preciso para cada publicação. Os tipos de
segmentação podem ser por gênero, idade e temas. Em todos esses casos,
segundo a autora, o jornalista de revista deve atuar como prestador de serviço.

Usando as mesmas regras para fazer uma boa reportagem, o jornalista


também fará uma boa matéria de prestação de serviços. Isso significa
checar as informações, ouvir fontes confiáveis, cruzar dados, enfim, fazer
jornalismo, mesmo que seja para redigir uma pequena nota sobre a estréia
de uma nova peça teatral (SCALZO, 2004, p. 55).

Para se ter uma visão exata da redação sobre a publicação, é importante


realizar o plano editorial, que vai definir o público alvo da revista. ―O plano editorial
ajuda a manter o foco no leitor. Revista bem focada é aquela que tem missão clara e
concisa, cujos jornalistas sabem exatamente para quem escrevem, e trabalham para
atender às necessidades ditadas pelos leitores‖ (SCALZO, 2004, p. 62).
Sérgio Villas Boas (1996) diz que as revistas fazem o jornalismo que está
em evidência nos noticiários, no entanto, soma-se na apuração, a pesquisa,
documentação e riqueza textual. Boas afirma, então, que isso: ―possibilita a
elaboração/produção de um texto prazeroso de ler, rompendo as amarras da
padronização cotidiana‖ (BOAS, 1996, p. 9). Assim, na visão do autor, os leitores
são os principais beneficiados com esse tipo de texto, uma vez que lêem textos
criativos e informativos.
30

Assim, o jornalismo de revista deve ter um tempero a mais do que a matéria


de jornal. Para Scalzo, o bom texto de revista é o que deixa o leitor feliz, além de
suprir suas necessidades de informação, cultura e entretenimento. Nesse tipo de
texto, cabe apresentar os personagens, humanizar as histórias, dar o máximo de
detalhes sobre elas, narrar e descrever a apuração.
Boas (1996, p. 14) informa que o texto de revista preocupa-se em interpretar
os fatos, oferecer uma visão detalhada da pauta e uma narrativa instigante, que faça
o leitor viver a história. Para isso, ele defende o uso do tom, um elemento marcante
para o texto: ―a tonalidade, no entanto, é um ponto que diferencia a revista do jornal,
dois estilos jornalísticos. Na revista, o tom é uma escolha prévia de linguagem
(humor, tragédia, drama, tensão, etc).‖
Para o autor, a ordem do relato do texto de revista não segue as mesmas
regras do texto de jornal, como o lead, que apresenta as informações mais
importantes no começo. Na revista, é possível até mesmo começar pelo final. ―A
ordem evidencia as características atemporais do texto de revista. É jornalismo do
que passou, mas não exatamente do que se passou ontem‖ (BOAS, 1996, p. 22). O
autor escreve que esse tipo de texto tem maior liberdade em termos de estilo, pois
está mais preocupado com a interpretação do que com a velocidade. Além de
técnica, o jornalista de revista deve ter inspiração e criatividade, para que os textos
tenham ritmo, clareza e concisão.

A revista é mais literária que o jornal no que se refere ao tratamento dado


ao texto. Admite usos estéticos da palavra e recursos gráficos de modo bem
mais flagrante que os jornais. Além disso, a revista é mais artística quanto
aos aspectos de programação visual (BOAS, 1996, p. 71).

Esse tipo de texto exige do jornalista mais apuração, criatividade e tempo


para produzir uma reportagem completa e mais aprofundada. De acordo com os
princípios explicados acima, procuramos, em nossa reportagem, utilizar todos os
requisitos para a produção do material jornalístico. Em nossa revista, realizamos
uma apuração extensa e detalhada, com objetivo de oferecer ao leitor todas as
informações essenciais para o entendimento da pauta.
31

3.2 Ferramentas do jornalismo

3.2.1 Grande reportagem

A grande reportagem é um tipo de matéria mais extensa que exige mais


tempo, apuração mais detalhada, e, portanto, maior fôlego do repórter designado
para cumpri-la.
O jornalista Ricardo Kotscho, no livro ―A Prática da Reportagem‖, afirma que
―este tipo de reportagem significa um investimento muito grande, tanto em termos
humanos, para o repórter, como financeiros, para a empresa‖ (KOTSCHO, 2002, p.
71). Ainda para o jornalista, esse estilo jornalístico é o mais fascinante para o
repórter, pois é onde sobrevive o espírito de entrega e amor pelo ofício.

É assim que, nas redações, se fala das matérias mais extensas, que
procuram explorar um assunto em profundidade, cercando todos os seus
ângulos. Elas têm esse nome não só porque realmente são grandes, em
número de linhas e de páginas de jornal — cada uma delas daria um livro à
parte (KOTSCHO, 2002, p.71).

Segundo o autor Nilson Lage, no livro ―A Reportagem‖, as pautas de


reportagem diferenciam-se de notícias, justamente por serem tipos distintos de
cobertura jornalística. ―Não se trata apenas de acompanhar o desdobramento (ou
fazer a suíte) de um evento, mas de explorar suas implicações, levantar
antecedentes — em suma, investigar e interpretar‖ (LAGE, 2001, p.39).
Por ser uma matéria extensa, que exige tempo e dinheiro dos meios de
comunicação, a grande reportagem é um estilo que tem merecido pouco espaço na
mídia. Para o escritor Gabriel García Márquez, no texto ―A melhor profissão do
mundo‖, a reportagem, considerada um gênero que exige mais investigação, está
enfraquecendo:
A pressa e a restrição de espaço, creio, minimizaram a reportagem, que
sempre tivemos na conta de gênero mais brilhante, mas que é também o
que requer mais tempo, mais investigação, mais reflexo e um domínio
certeiro da arte de escrever É na realidade a reconstituição minuciosa e
verídica do fato (MÁRQUEZ).
32

3.2.2 Entrevista

Depois de decidida a pauta de uma reportagem, é preciso iniciar a produção.


É o momento de realizar as entrevistas para entender o tema, conhecer os
personagens, apurar as informações e, por fim, escrever. Para Nilson Lage, a
entrevista é o procedimento clássico de apuração de informações em jornalismo. ―É
uma expansão da consulta às fontes, objetivando, geralmente, a coleta de
interpretações e a reconstituição de fatos‖ (LAGE, 2001, p. 73).
No livro, o autor fala sobre os diferentes tipos de entrevista. Selecionamos,
neste memorial descritivo, os que serão usados em nossa revista, como a entrevista
temática e testemunhal.
A entrevista temática, segundo Lage, aborda um tema em que o
entrevistado tem condições e autoridade para tratar do assunto. ―Geralmente,
consiste na exposição de versões ou interpretações de acontecimentos‖ (LAGE,
2001, p. 75). Já a entrevista testemunhal é aquela em que o entrevistado participou
ou lhe assistiu. Nesse caso, a reconstituição é feita do ponto de vista da fonte.
Em relação às circunstâncias de realização das entrevistas, o autor cita
quatro diferentes tipos. Usamos o dialogal, que é uma entrevista marcada com
antecipação em que prevalece o tom de conversa, permitindo o aprofundamento e
detalhamento do assunto abordado.
No livro de Cremilda Medina ―Entrevista: um diálogo possível‖, a autora usa
a conceituação do sociólogo Edgar Morin para elucidar diferentes tipos de entrevista.
Usamos, neste trabalho, a entrevista-diálogo. ―Este dialogo é uma busca em comum.
O entrevistado e o entrevistador colaboram no sentido de trazer à tona uma verdade
que pode dizer respeito ao entrevistado ou a um problema‖ (MEDINA, 2008, p. 15).

3.2.3 Perfil

Para descrever situações e histórias de vida de personagens, podemos


utilizar um dos estilos do texto jornalístico: o perfil. Segundo diversos autores, a
33

seguir referidos, esse é o tipo de texto em que o repórter tem um foco principal, que
pode ser um personagem ou um local, e precisa detalhá-lo.
De acordo com Cremilda Medina, quando enfoca pessoas, esse estilo é
nomeado como perfil-humanizado. ―Esta é uma entrevista aberta que mergulha no
outro para compreender seus conceitos, valores, comportamentos, histórico de vida‖
(MEDINA, 2008, p. 18).
Para Kostcho, o perfil é o estilo mais usado nas ―matérias humanas‖,
aquelas em que o objetivo é contar histórias de vida, pois oferece ao jornalista a
oportunidade de escrever um texto mais trabalhado, mas não apenas sobre alguém
ou algum lugar, como uma cidade, ou um prédio. Para fazer esse tipo de matéria,
segundo Kostcho, ―o repórter deve sempre estar livre de qualquer preconceito,
qualquer ideia pré-fixada pela pauta ou por ele mesmo‖ (KOTSCHO, 2002, p. 42).
Muniz Sodré e Maria Helena Ferreira, no livro ―Técnica de Reportagem:
Notas sobre a Narrativa Jornalística‖, afirmam que o perfil é um momento da
narrativa em que se prioriza a descrição de um personagem. Nesse tipo de perfil, o
interesse do repórter é pela atitude do entrevistado diante da sua própria vida.

Em jornalismo, perfil significa enfoque na pessoa, seja uma celebridade,


seja um tipo popular, mas sempre o focalizado é protagonista de uma
história: sua própria vida. Diante desse, o repórter tem, via de regra, dois
tipos de comportamento: ou mantém-se distante, deixando que o focalizado
se pronuncie, ou compartilha com ele um determinado momento e passa ao
leitor essa experiência (SODRÉ, FERREIRA, 1986, p. 126).

Portanto, por meio das obras lidas, inferiu-se que o perfil é um estilo de
jornalismo usado para descrever momentos e histórias de vida dos personagens,
que podem ser famosos ou pessoas comuns, ou até mesmo lugares. É nesse
momento que o jornalista precisa utilizar as entrevistas, para apurar todas as
informações e os detalhes da vida desse personagem. Além da apuração, o repórter
precisa ter sensibilidade para olhar, observar e conseguir descrever a situação
vivida.
Sérgio Vilas Boas (2003) afirma que os perfis podem dar enfoque em
apenas alguns momentos da vida do personagem, tratando-se assim, de uma
narrativa. Para ele, essa narração pode ter envolvimento do repórter, uma vez que
este pode descrever sua observação em relação ao personagem.
34

Os perfis cumprem um papel importante que é exatamente de gerar


empatias. Empatia é a preocupação com a experiência do outro, a
tendência a tentar sentir o que sentiria se estivesse nas mesmas situações
e circunstâncias experimentadas pelo personagem. Significa compartilhar
as alegrias e tristezas de seu interlocutor (BOAS, 2003, 14).

Neste projeto, optou-se pelo perfil, com enfoque na relação da pessoa com
deficiência e na experiência vivida nos restaurantes visitados com a reportagem. O
perfil, nessa grande reportagem, não aborda apenas a história de vida do
entrevistado, mas, principalmente, a situação vivenciada por cada um deles em seu
cotidiano. O foco desses perfis foi narrar as dificuldades encontradas quanto à
acessibilidade, as histórias de vida e superação, e unir essas informações.
35

4 PROJETO EDITORIAL

Como já dissemos, a reportagem tem como objetivo discutir a acessibilidade


para pessoas com deficiência, em restaurantes das Asas Norte e Sul, com ênfase
em seus direitos, estabelecidos por meio de legislação específica.
O tema foi escolhido por razões pessoais, por ter vivenciado,
temporariamente, restrições para locomoção. Tais dificuldades motivaram-me, como
jornalista, a estudar e divulgar o tema, com vistas a sensibilizar os diferentes atores
sociais envolvidos com a questão, e estimular a resolução das dificuldades impostas
às pessoas com deficiência.
Do ponto de vista jornalístico, a pauta foi delimitada levando em
consideração os direitos garantidos pela Constituição Federal e legislações
relacionadas à garantia dos direitos da pessoa com deficiência.
O desenvolvimento do projeto da reportagem partiu da ideia inicial de fazer
uma grande reportagem para a revista do Correio Braziliense, veiculada aos
domingos. De acordo com esse projeto, todos os restaurantes do Plano Piloto
seriam entrevistados. Após uma discussão com professores e colegas, constatou-se
a inviabilidade de sua execução, em função do pouco tempo disponível e do grande
número de restaurantes localizados nesse setor da cidade.
Outro fator que contribuiu para a desistência desse veículo foi o estilo
jornalístico desse produto. As reportagens publicadas nessa revista são matérias
leves, nem por isso pouco importantes, mas sem aprofundamentos sobre os temas,
diferentemente do que se pretende alcançar. Queremos atingir um tipo de leitor que
demonstre interesse pelo assunto e que seja mais exigente quanto ao
aprofundamento dos temas.
Pretendemos fazer um jornalismo de fôlego, de pesquisa e entrevistas, que
seriam mais bem divulgadas em uma revista especial, destinada a um público
específico. Assim sendo, foi escolhido o formato de revista encartada para a revista
Veja Comer & Beber, da Editora Abril, que possui tiragem de 60.600 mil exemplares.
Nessa publicação, poderia ser veiculada matéria voltada para a gastronomia e que
também atingisse um público interessado em assuntos correlatos, formado, entre
36

outros, por deficientes, cidadãos comuns, arquitetos, urbanistas, empresários do


setor, governo, entidades civis organizadas.
A revista Veja Comer & Beber é lançada anualmente entre os meses de abril
e dezembro. O editorial da revista explica o objetivo principal da série: ―São vinte
edições regionais que mapeiam o gosto e os hábitos alimentares dos brasileiros de
norte a sul‖ (2010, Veja Brasília). A missão, segundo a edição, é proporcionar aos
leitores um roteiro do que há de melhor em restaurantes, bares e casas de
―comidinhas‖ (como salgados e petiscos) de cada cidade ou área focada.
A publicação norteou o desenvolvimento deste projeto quanto à sua
finalidade – prestação de serviço -, mas, no entanto, em virtude de seu formato
restrito, não comporta a publicação de uma grande reportagem, ainda que
relacionada ao tema gastronomia.
Assim, o projeto desenvolvido – prestação de serviço e reportagem sobre
acessibilidade em restaurantes para pessoas com deficiência -, remete a uma
revista encartada, que iria além do que é normalmente oferecido pela revista.
No entanto, a matéria poderia ser publicada também em outro magazine
voltado para a gastronomia, que trabalham com reportagens, e não apenas
prestação de serviços.
O formato de texto escolhido, focado em perfis, não é comum nessas
publicações, mas entendemos que, a partir deles a sociedade possa conhecer
melhor a história de vida das pessoas com deficiência e suas necessidades. Ou
seja, oferece-se aqui a hipótese de ampliar o jornalismo que é normalmente
realizado nessas revistas, sugerindo o investimento em histórias de vida.
Os restaurantes entrevistados pela reportagem foram alguns dos listados na
revista Veja Brasília 2010/2011. Nessa edição constam 222 restaurantes localizados
na Asa Sul, na Asa Norte, nos shoppings, no Sudoeste, no Lago Sul, no Lago Norte
e no Setor de Clubes. Considerando o prazo restrito para realização da pesquisa
necessária para a realização deste projeto, optamos por pesquisar apenas as Asas
Sul e Norte. Esses setores foram escolhidos por localizarem-se no centro de
Brasília, o que atrai um grande número de clientes.
Com relação a impressão da revista, a gráfica Gravo, entrou como parceira,
pois considerou o assunto da publicação de relevância social e interesse público.
Assim, a empresa imprimiu mil cópias de Acessibilidade Gourmet, com o intuito de
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contribuir para a divulgação, que considerou ―um projeto excelente para ser
engavetado‖.

4.1 Projeto gráfico

Como já foi dito anteriormente, este trabalho foi inspirado pela revista Veja
Brasília Comer & Beber. No entanto, a proposta é que ela seja veiculada em
qualquer publicação gastronômica. Sendo assim, o projeto gráfico de Acessibilidade
Gourmet não seguiu o estilo da revista Veja e, sim, uma diagramação própria.
O primeiro destaque gráfico dessa revista se apresenta na escolha da fonte
utilizada no logotipo e nos títulos das matérias. A letra faz parte de um projeto para
pessoas com deficiência conhecido como Unique Types, da Associação de
Assistência à Criança Deficiente (AACD). Segundo o site da Unique Types (2010),
―usando as fontes você apoia a causa da AACD, mostrando que os deficientes
físicos podem fazer praticamente tudo que as pessoas sem deficiência podem‖.
Com relação ao trabalho gráfico da capa da publicação, foram utilizados
ícones verdes ao lado da refeição, com a ideia de mostrar o acesso livre para os
deficientes. A proposta foi inspirada nas fichas verdes e vermelhas usadas em
restaurantes que oferecem rodízio.
A revista segue um conceito de diagramação com muitas ilustrações e
leveza. O corpo das fontes usadas nas reportagens são maiores do que os usados
nas revistas gastronômicas consultadas para o projeto, com objetivo de não poluir
visualmente as páginas, uma vez que há uma grande quantidade de texto. As fotos
dos entrevistados, do banheiro adaptado e do cardápio em Braile foram feitas pela
reportagem. As demais foram encontradas em bancos de imagens livres, pela
diagramação.
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5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O interesse pelos temas sociais acompanha o presente pesquisador desde o


início da adolescência, quando se iniciaram os trabalhos voluntários com crianças e
idosos de baixa renda. A partir daí, houve mais com projetos sociais, como os
realizados em hospitais e em instituições com pessoas portadoras do vírus HIV.
Esse contexto também explica a escolha do tema da deficiência para o presente
trabalho: por ser um tema social que, como descrito no primeiro capítulo desse
memorial, motivou a escolha pelo jornalismo.
Desde o início, a proposta era analisar se os restaurantes são acessíveis
para receber as pessoas com deficiência, uma vez que é importante a que a
sociedade aceite todos como cidadãos e incluam-nas na vida social.
Após a pesquisa de campo, realizada em 122 restaurantes, foi possível
comprovar que poucos empresários seguem as leis e, portanto, não se preocupam
em adaptar seus estabelecimentos comerciais para atender a pessoa com
deficiência, ainda que haja previsão de sanções por inobservância da legislação.
Por meio das entrevistas, percebeu-se, também, que os proprietários de
restaurantes não são apenas despreocupados com a causa, mas, principalmente,
não consideram essas pessoas como consumidores em potencial, ou não pensam
que, ocasionalmente, venham a atender uma pessoa surda, cega ou cadeirante
(esta última, mais lembrada pelos empresários, de acordo com a pesquisa).
Ao perguntarmos sobre o cardápio em braile, que é uma obrigação
assegurada pela legislação, muitos funcionários nem mesmo sabiam do que se
tratava. Alguns chegaram a dizer ―cardápio em hebraico?‖, ―cardápio o quê?‖, ―o que
seria esse cardápio?‖. Outros sabiam o que significava, mas não o tinham. Alguns
entrevistados, no entanto, mostraram interesse no questionário e disseram que eram
importantes aquelas perguntas e que se esforçariam para ser acessíveis.
Em relação à linguagem brasileira de sinais (Libras), além de três
restaurantes localizados em hotéis de luxo, nenhum restaurante tem funcionário
capacitado em Libras.
Outra falha observada diz respeito aos banheiros adaptados. Muitos
entrevistados informaram que os banheiros de seus restaurantes são adaptados, o
que não se confirmou em algumas visitas feitas. Eles acreditam que um espaço
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grande é suficiente para atender às necessidades do cadeirante, quando, na


realidade, o banheiro adaptado deve seguir diversas normas, comentadas na
reportagem.
Portanto, verificou-se que não há, entre os empresários, consciência a
respeito da acessibilidade e da inclusão social das pessoas com deficiência. Foi
possível conferir, também que, além de os restaurantes não apresentarem
adaptação para receber os deficientes, os funcionários não são capacitados para
atendê-los. Essa constatação ocorreu durante as visitas feitas juntamente com os
deficientes, em várias casas.
Observou-se que os empregados sentiam-se desconfortáveis com as
dificuldades decorrentes de um atendimento para o qual não estavam preparados.
No entanto, para compensar essa limitação, certos garçons demonstraram
solidariedade e boa vontade para atender aos deficientes. Constatou-se, ainda, que,
se não houvesse esse sentimento por parte de alguns atendentes, os clientes não
teriam sido atendidos adequadamente em todos os locais visitados.
Outra ressalva refere-se ao entendimento sobre deficiência. Ao falar sobre
acessibilidade para pessoas com deficiência, a maioria dos entrevistados associa o
termo aos cadeirantes, enquanto os cegos e surdos são pouco lembrados.
Na pesquisa, apenas o restaurante de comida japonesa Ichiban apresentou
dúvida sobre como referir-se às pessoas com deficiência. Questionaram se o termo
correto seria ―aleijado‖, ou se teria uma expressão mais adequada. O restaurante de
comida alemã Fritz respondeu de uma forma inesperada. ―Meu restaurante é de
comida forte, é para gente saudável‖, disse o gerente. Ao perceber a gafe, tentou
consertar, dizendo que estava brincando.
Os casos ilustram o desconhecimento e a falta de sensibilidade de toda a
sociedade que tem uma visão de que a deficiência é resultado de doenças, e que os
deficientes não participam da vida social.
Além dos restaurantes, foram analisadas também as atribuições dos órgãos
de fiscalização do governo local. Nesse sentido, percebemos que o Instituto de
Defesa do Consumidor (Procon-DF), responsável pela autuação dos locais que não
têm cardápio em braile, realizam poucas fiscalizações. Neste ano, foram feitas
apenas duas autuações. Os dados refletem porque os empresários não temem a
fiscalização do órgão responsável nem o valor de possíveis multas que venham a
ser aplicadas.
40

Em relação às informações sobre a fiscalização dos aspectos arquitetônicos


e urbanísticos, como rampas, banheiros adaptados, piso tátil, faixas de circulação,
entre outros, os órgãos públicos responsáveis por elas não se mostraram
disponíveis para fornecê-las.
A Secretária do Governo do Distrito Federal (GDF) e presidente do Conselho
de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência (CODDEDE/DF), Márcia Muniz,
citada na revista, foi contactada durante sua participação em seminário sobre o
tema, ocasião em que se prontificou a conversar com a reportagem para prestar
esclarecimentos. No entanto, após diversas tentativas por telefone e por email, não
concedeu a entrevista prometida. Esse comportamento demonstra que o próprio
governo está despreparado para atender à sociedade em assuntos de interesse
social.
A Agência de Fiscalização do Distrito Federal (Agefiz), também órgão
fiscalizador integrante do Governo do Distrito Federal, foi burocrática e orientou que
a reportagem formulasse as perguntas oficialmente, por meio de uma carta. Nem
mesmo a assessoria de comunicação contribuiu para a entrevista. As respostas, no
entanto, não vieram.
Entendemos, também, que o governo não está acessível para prestar
informações acerca da acessibilidade, bem como faz um desserviço ao país, no que
tange à obstrução à formação profissional dos jovens, contrariando uma expectativa
da sociedade brasileira quanto à qualificação profissional de sua população, para
fomentar o desenvolvimento do país.
O primeiro contato como os restaurantes apresentou certa dificuldade, por
resistência dos responsáveis pelos estabelecimentos para falar sobre o assunto e
por falta de tempo. Durante o processo de elaboração da reportagem, percebemos
que nos horários entre às 16h e às 18h e entre às 22h e às 23h, os gerentes e
funcionários estão mais disponíveis para dar entrevista, por estarem menos
ocupados.
Durante a elaboração da reportagem, a fase de pesquisa sobre as leis,
decretos e normas referentes à deficiência também gerou dificuldades. Identificar
essa legislação foi uma tarefa complexa, por falta de familiaridade com esse aspecto
do tema, bem como pela diversidade e pelo volume de legislação, tendo sido
necessário o apoio de especialistas da área.
41

Igualmente, alguma dificuldade foi encontrada para a compreensão das


teorias e para a elaboração do texto acadêmico. No entanto, a leitura dos autores foi
essencial para entender os conceitos e refletir sobre eles, além de me despertar
para outras questões até então desconhecidas. Essa investigação teórica permitiu
melhor entendimento sobre o assunto, influenciando positivamente na apuração e,
consequentemente, na redação dos textos.
Percebemos ainda que os deficientes e as entidades que lidam com a
situação mostraram-se bastante interessados em relação a pauta. Destacaram ser
importante falar sobre acessibilidade também em locais como restaurantes, teatros e
cinema, por não ser uma prioridade da mídia e da sociedade e, principalmente, por
ser importante para a inclusão social da pessoa deficiente. Os entrevistados foram
todos bastante acessíveis e confirmaram a conclusão desse memorial: não há
acessibilidade para pessoas com deficiência em restaurantes. Além deles,
especialistas envolvidos com o tema como psicóloga e assistente social, também
foram bastante solícitos.
Portanto, colocar o assunto em pauta e agendá-lo na mídia e na sociedade é
uma forma de divulgar o tema ainda pouco discutido, a fim de tentar transformar
essa visão discriminatória existente e colaborar para a inclusão social das pessoas
com deficiência.
Para tal mudança de atitude é necessário um conjunto de ações integradas,
além de reportagens, como campanhas na mídia, fiscalização atuante por parte dos
órgãos de governo e mobilização da sociedade civil e das instituições de apoio ao
deficiente, além da atuação deles próprios, que devem lutar por seus direitos.
Acreditamos que a reportagem alcançou o objetivo de analisar e avaliar a
acessibilidade nos restaurantes pesquisados. Seu resultado permitiu confirmar a
hipótese levantada: ausência de acessibilidade nos restaurantes situados nas Asas
Sul e Norte do Plano Piloto. Também possibilitou identificar que não há um amplo
interesse por parte dos empresários sobre o assunto.
Em decorrência da confirmação da hipótese trabalhada, tem-se como
proposta veicular a revista na internet e promover suas distribuição em locais de
interesse, como em seminários, e nas associações e entidades que contribuíram
para a realização da reportagem. É importante destacar que o tema não foi
esgotado. Informações relevantes sobre os obstáculos impostos pelas restrições
42

urbanísticas não puderam ser identificados com a profundidade necessária, ainda


que apontados pelos restaurantes.
Foram identificados como impedimentos para o acesso dos deficientes aos
estabelecimentos a ausência de rampas, especialmente na Asa Norte; grandes
desníveis entre os blocos comerciais e as ruas de circulação de veículos; bem como
a ausência de transporte coletivo que possibilite um embarque e desembarque
seguro e mais próximo aos restaurantes.
Esse viés deve ser bastante discutido, por sua relevância social, pois trata
de limitações impostas às pessoas com deficiência, por inobservância da legislação
e atuação ineficiente dos órgãos de fiscalização.
Acrescentamos ainda que o tema e a produção de outras pautas poderão
apoiar a elaboração de novas dissertações e teses, as quais, por sua vez, poderão
apoiar a elaboração de pautas mais completas e atualizadas sobre o assunto,
fomentando e embasando sua discussão.
A acessibilidade e a deficiência são assuntos de fôlego, que não devem
deixar de ser pesquisados e estudados, pois, como lembra Diniz (2007), o mundo
em que os deficientes têm o direito de viver é o das ruas, avenidas, escolas,
universidades, fábricas, lojas, escritórios, prédios e serviços públicos, enfim, todos
os lugares onde as pessoas estão, vão, vivem, trabalham e se divertem.
43

6 REFERÊNCIAS

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1996.

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http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/lei10098.pdf>. Acesso em novembro de 2010.

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http://www.planalto.gov.br/ccivil/leis/L10048.htm>. Acesso em novembro de 2010.

BRASÍLIA. Lei Nº 2.996, de 3 de julho de 2002. Disponível em: <


http://www.mpdft.gov.br/sicorde/Leg_DF2996_2002.htm>. Acesso em novembro de
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http://sileg.sga.df.gov.br/legislacao/Distrital/leisordi/LeiOrd2005/lei_ord_3634_05.htm
>. Acesso em novembro de 2010.

DINIZ, SANTOS, Débora, Wederson. Deficiência e Discriminação. Ed. UNB:


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KOTSCHO, Ricardo. A prática da reportagem. 4. ed. São Paulo:Ática, 2002.

LAGE, Nilson. A reportagem: teoria e técnica de entrevista e pesquisa jornalística.


Rio de Janeiro: Record, 2001.

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44

MEDINA, Cremilda. Entrevista: o diálogo possível. 5. Ed. São Paulo: Ática, 2008.

PENA, Felipe. Teoria do Jornalismo.São Paulo: Contexto, 2008.

SCALZO, Marília. Jornalismo de revista. São Paulo: Contexto, 2004.

SODRÉ, Muniz; FERRARI, Maria Helena. Técnica de Reportagem: notas sobre a


narrativa jornalística. São Paulo: Summus, 1986.

TRAQUINA, Nelson; MESQUITA, Mário. Jornalismo Cívico. Livros Horizontes:


Lisboa, 2003.

WOLF, Mauro. Teorias da Comunicação. Presença: Lisboa, 2001.


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ANEXO A

QUESTIONÁRIO DA ACESSIBILIDADE NOS RESTAURANTES

Nome do restaurante:
Endereço:
Telefone:
Categoria Asa Sul/Norte:
Nome do entrevistado e cargo:
Prato mais pedido:

1- O restaurante tem cardápio em braile?


( ) SIM ( ) NÃO

2- O restaurante tem algum funcionário fluente na linguagem de sinais - LIBRAS?


( ) SIM ( ) NÃO

3- Dentro do restaurante há espaço suficiente para circulação de cadeira de rodas?


Tem mesas no térreo?
( ) SIM ( ) NÃO

4 - O banheiro é adaptado para portadores de deficiência?


( ) SIM ( ) NÃO

5 - O banheiro fica no nível superior ou inferior?

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6 – Há elevador para acesso de portadores de deficiência?


( ) SIM ( ) NÃO

7 – Em caso de restaurante self-service, a bancada permite que o portador de


deficiência sirva-se sozinho?
( ) SIM ( ) NÃO

8) O cardápio tem ilustração dos pratos voltado para os deficientes auditivos? Tem
fotos de todos os pratos ou apenas alguns?
( ) SIM ( ) NÃO

9) Os funcionários são treinados para lidar com deficientes físicos?


( ) SIM ( ) NÃO

Que tipo de treinamento?


___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________