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O_MONTADOR_INESGARCIAMARQUES

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ESCOLA SUPERIOR DE TEATRO E CINEMA PRATICA DA MONTAGEM I

O montador europeu e relação realizador/montador Roberto Perpignani: More to Feel than to Think

Inês Garcia-Marques nº670

principalmente durante o cinema clássico (e pela grande maioria do cinema americano contemporâneo) uma arte “de transparência” . as possibilidades da montagem eram ainda desconhecidas. dado que é ela que lhe permite construir sentido. em 1895. É a montagem que cria o filme e sem ela não existia cinema. Como Walter Murch muito bem descreve na foreword no Fine Cuts: “The construction of a coherent and emotional story from discontinuous and sometimes conflicting images is the fruitful paradox that lies at the heart of the equation: Motion Pictures + Montage = Cinema. em plano fixo e único. documentais ou encenados à sua frente. o teatro. a fotografia. a música. a pintura. A "magia" do cinema estava já presente neste filmes. a forma de arte como a conhecemos só aparece com a montagem. no entanto esta tendência para o seu esquecimento vem logo desde a sua origem. But we let the opportunity pass by”. Assim o cinema. uma vertente fundamental para a compreensão da linguagem fílmica. No mesmo foreword Walter Murch cita ainda Balázs onde diz que por não haver cobertura de informação suficiente sobre a descoberta desta nova forma de arte o homem perdeu uma enorme oportunidade. Isto têm possivelmente como origem o facto da montagem ser considerada. A ideia de que uma sequência está tão melhor montada quanto menos o espectador reparar nos seus cortes e transições.“ (…) one of the rarest phenomena in the history of culture: the emerge of new form of artistic expression. Na minha opinião a mais importante.Nota Introdutória O papel do montador: montagem do cinema americano e do cinema europeu Por vezes o cinema é referido como uma súmula de todas as outras artes e de facto. Existe no entanto uma disciplina. têm uma relação muito próxima com a arte cinematográfica. que é específica desta forma . mas consistia simplesmente na possibilidade de partilhar o olhar do operador de câmara sobre esses acontecimentos. Os filmes tinham normalmente a duração de 1 minuto. não ainda na criação de novos mundos. A montagem. Durante o Studios System os montadores não passavam de .”. Quando o cinema surgiu. resulta necessariamente do esquecimento desse dispositivo. significado.

Com a Nouvelle Vague a montagem tornou-se uma arte independente e começaram a surgir toda uma série de variações e rupturas com a montagem clássica narrativa. No entanto esta visão do montador como um colaborador central e de máxima importância no filme é muito mais comum no cinema europeu. O facto das principais rupturas e novas formas de entender a montagem ter aparecido no cinema europeu é possível justificar as significativas diferenças da essência da montagem europeia em contraste com a americana. Murch vai ainda mais longe estabelecendo uma relação entre o momento em que existe um novo pensamento e o piscar de olhos (blink) do actor. A utilização de jump-cuts e o rompimento com todas as regras que eram seguidas piamente por Hollywood trouxe uma revolução na montagem. Como Michael Kam diz no filme documentário “The Cutting Edge: The Magic of Movie Editing” ser considerado colaborador de um projecto é o maior reconhecimento que um montador pode ter. para o autor. continua a ser a principal ideia seguida no cinema de Hollywood. Reconhecendo que a montagem é essencial na formulação do filme como um todo. Assim. Ora esta ideia de estabelecer os limites de formulação de hipóteses de um . Hollywood contemporânea é ainda a larga escala afectada por esta herança. a grande maioria dos montadores é escolhido pela produção sem ter qualquer relação com o realizador. Ou seja o plano deve apenas deixar o espectador formular uma só hipótese por cada plano e não mais que isso. Os filmes da Nouvelle vague mudaram a percepção do espectador como simples observador exterior.técnicos cujo nome por vezes nem vinha mencionado nos créditos. Walter Murch. idealmente o espectador nunca sentiria o corte numa cena uma vez que piscaria os olhos simultaneamente com o corte. conhecido e galardoado montador norteamericano que montou filmes como Cold Mountain e Apocalypse Now defende a ideia que a duração do plano deve ser aquela em que o espectador permanece com o mesmo pensamento. percebemos que colaboradores fundamentais de filmes que para sempre vão ficar na história do cinema permaneceram em total esquecimento. Se por um lado temos certos realizadores que estabelecem uma relação pessoal com um determinado montador e confiam nesta colaboração todo o seu trabalho. A ideia de “montagem invisível” e submetida à narrativa acompanhada por toda uma serie de regras e normas.

compreender e se apaixonar pela arte de montagem com uns dos maiores realizadores de todos os tempos. o “montador intelectual”. mas sem qualquer aviso as circunstâncias da vida levaram-no para outro lado completamente diferente. O montador europeu e a relação realizador/montador.“More to feel than to think” Ninguém melhor para incorporar esta diferença que Roberto Perpignani. Roberto cresceu assim rodeado de obras de arte clássica e desde de cedo se interessou pelas potencialidades e poder da imagem. O montador europeu trabalha em intima colaboração com o realizador e não procura uma montagem dogmática e objectiva. No entanto continuou a estudar há noite pintura. Um primo que era casado com a prima da mulher de Orson Welles convidou-o para trabalhar como assistente do seu próximo filme que era um documentário sobre Espanha para a televisão Italiana. A razão pela qual me interessou trabalhar sobre este montador foi essencialmente a sua abordagem poética e intelectual da montagem bem como o facto de ter iniciado o seu trabalho como assistente de uma figura emblemática como Wells. Perpignani começou a sua experiência de montagem com Orson Wells e montou filmes para Bertolucci e para os irmãos Taviani. Tendo ficado órfão de pai ainda muito novo teve que abandonar os estudos cedo para ir trabalhar. Este interesse pela pintura e pelas artes visuais provinha do trabalho como fotografo de obras de arte do seu pai. pouco têm haver com a abordagem de montagem europeia.espectador. A descrição que Perpignani faz no inicio do capitulo desta colaboração é extremamente interessante e inspiradora. Teve o privilegio de aprender. Não deixa de ser absolutamente inacreditável pensar que alguém que não têm qualquer . Roberto fala da experiência de trabalhar com Welles como um filho fale sobre crescer com um pai. Pretendia seguir uma carreira a trabalhar com crianças com dificuldades. mas procura antes tornar o filme o melhor possível abrindo qualquer possibilidade para o fazer. Roberto Perpignani não escolheu a arte da montagem mas foi atirado para ela pelas circunstâncias e oportunidades que a sua vida foi apresentado. Roberto Perpignani.

Muitas vezes.pretensões de trabalhar em cinema (Roberto interessava-se por cinema como se interessava pelas coisas do mundo) é lançado para ele por Orson Welles. descreve Roberto.existe a possibilidade de usar a imagem realista no cinema. Para Roberto não faz qualquer sentido a utilização de música no filme para gerar ou criar certas emoções em determinados momentos porque preferencialmente estas emoções já são atingidas pela imagem. Assim Roberto entende que o essencial que depreende da sua colaboração com Orson Welles é a capacidade de expressar o real da personagem. O resultado era uma elaboração que dava forma a sentimentos que eram absorvidos instintivamente e involuntariamente pelo material. Já Welles. O caso de Roberto Perpignani não é isolado e foram vários os montadores de gerações próximas que foram parar a arte de montar por mero acaso. Bertolucci costumava dizer que Niggo Baragli (seu antigo montador que adoptava o estilo de montagem clássico) atacava o material. Perpignani é assim conhecido por “more to feel than to think”. Esta colaboração foi com Bernardo Bertolocci. isto porque as conexões que fazemos com a realidade nem sempre são o resultado de uma pesquisa em relação ao trabalho consciente. Quando deixou de trabalhar com Welles iniciou uma nova colaboração onde iria amadurecer os seus conhecimentos e consagrar a sua posição como montador. Bertolucci e Welles têm visões muito diferentes do cinema e esta dualidade de visões foi muito importante para o seu percurso profissional. descobrem-se coisas novas nesse processo e é-se atraído por essas descobertas. Mas é capaz de ser na aleatoriadade da situação que reside essencialmente o seu interesse. costumava pensar incessantemente. Perpignani depois de trabalhar com Bertolucci. trabalhou também com os irmãos Tavianis e estes disseram sentir nele uma enorme relação com a música. Nós que estamos na escola de cinema e vamos trabalhar toda a nossa vida com o objectivo de vir a fazer parte integrante desta arte nunca iremos ter uma oportunidade como esta. Assim o que resulta da inserção de música é uma redundância que faz perder o poder e . Sendo esta capacidade a originalidade específica do cinema. enquanto Roberto precisava antes de tempo para absorver o material. descobrindo a certa altura que se pode utilizar este meio para contar histórias. Em muitos dos casos estava mais a perceber e entender as relações com os elementos principais do filme.

quando ainda estava a trabalhar como assistente. ou em cortes. Ao mesmo tempo que se pensa em imagens. devia-se pensar no som associado seja ele música ou não. Esta perspectiva que Roberto têm em relação à música é na minha opinião totalmente certa e é um dos principais problemas da banda sonora no cinema português. Deixa de ser música propriamente dita e passam ser apenas sinais e símbolos representativos. Não existe no nosso país a posição de director de som com tudo o que isso inclui. Esta passagem foi feita no inicio da sua colaboração com Bertolucci que ao contrário de Welles lhe dava total liberdade de trabalho. isto é alguém que pensa na banda sonora do filme numa perspectiva geral e ao longo de todo o seu desenvolvimento. Roberto fala sobre como passou realmente a montador. A sequência está praticamente integralmente idêntica na cópia final do filme e assim Roberto Perpignani tornou-se montador de Bernardo Bertolucci.relevância da mesma. Referente a uma pergunta feita por Roger Crittenden durante a entrevista.parece quase uma sequência digna de filme com toda o dramatísmo e emoção necessárias. de complementar aquilo que ela já devia transmitir individualmente. Escolhi contar este pequeno episódio para demonstrar o quanto inspiradora pode ser a descrição de Roberto da sua vida profissional. e é assim todo o discurso de Perpignani. isto porque para Welles trabalhava como assistente. Durante a entrevista Roberto fala sobre a possibilidade de nos libertarmos . Bertolucci diz que vai de férias durante a época do Natal e deixa-lhe uma sequência para montar com a condição que a partir do seu trabalho naquela sequência iriam determinar se Roberto ficava como assistente ou mesmo como montador. Tal como Roberto Perpignani diz a música não deve ter o papel de acrescentar alguma coisa à imagem. Deste modo terminar primeiro a montagem da imagem e chamar depois um compositor que “acrescenta” a música não faz qualquer sentido pois parece que se está apenas a vestir o filme. mas estes dois campos deviam trabalhar como um todo que não resulta na redundância mas sim num ritmo quase poético. as formas têm que ser livres para dar uma contribuição autêntica e se o não o forem não transmitem qualquer originalidade. Perpignani passou dias a absorver o material sem ter coragem para cortar e montou toda a sequência de seguida na noite da passagem de ano. Para Roberto é um mau habito pensar nos elementos do filme por um principio hierárquico. Um dia.

Hervé Schneid numa conferência que assisti no Festival de Cinema de Espinho. e por isso . Na minha opinião (com o valor que ela têm) não acho que a colaboração entre o realizador e montador sofra por existir para além dessa colaboração uma relação de amizade próxima. contar a história pela interpretação das suas emoções. No sistema de percepção e pensamento estamos totalmente abertos para jogar com todos os elementos.com a memória. Pelo contrário. Roberto e Bertolucci eram demasiado cúmplices e tinham uma relação de amizade demasiado forte. Isto provocou obviamente algum distúrbio a Roberto e permite pensarmos sobre a relação realizador-montador agora sobre um novo aspecto. tinha que ter uma contribuição critica e dialéctica.do naturalismo. Se por um lado estamos a viver num espaço continuo. Quando o novo filme de Bernardo Bertolucci foi produzido pela Paramounts. Considera mais importante do que contar uma história no sentido clássico pelas suas acções. acho que a confiança que uma amizade trás é essencial para se criar o à vontade total na troca de ideias. de modo que tenhamos a coragem de utilizar os nossos instintos. Se as visões. Esta relação não é de modo algum fácil de alcançar e é por este motivo que as relações mais fortes entre montadores e realizadores são relações que se estabelecem no inicio de carreira. por outro estamos também a viver num espaço vertical. Isto porque apesar de ele já fazer parte do projecto. é mais dificil que encontrar a mulher certa” disse o montador de longa data de Jean-Pierre Jeunet.tudo o que entendemos com significante é uma interacção continuada. a produção levantou problemas em Roberto ser o montador. gostos e intelectos têm que estar em sintonia ou pelo menos complementarem-se uma à outra na relação de colaboração prefeita. sugestão. pensamentos. O montador. Se por um lado é importante uma total confiança um no outro.é algo em desenvolvimento. “Encontrar o montador certo. na perspectiva da produtora. É fundamental para o bem do filme que o realizador e o montador estabeleçam uma relação balançada e equilibrada. É importante que o montador assuma certamente uma atitude critica mas esta não é posta em causa por uma melhor relação entre os dois. isto também pode levantar problemas uma vez que se perde a visão do montador como a primeira visão objectiva e critica do filme. na coragem para arriscar e nas criticas por mais duras que elas sejam. Optaram assim por utilizar outra pessoa na montagem. Pelo menos é esta a forma da Paramounts ver as coisas.

Pelo seu testemunho para além de sermos convidado a com ele meditar sobre alguns aspectos concretos da arte. alterando e seguindo a sua evolução natural. O montador não deve levantar problemas mas soluções em colaboração estrita com o realizador. mas ainda assim longe de na totalidade. O meu interesse pela área da montagem têm vindo a crescer ao longo do meu percurso na escola. Perpignani estabelece esta relação além de com Bertolucci. A montagem é tão mais eficaz quanto maior for a eficácia dessa relação. Fazer cinema é por vezes um compromisso e o montador está mais consciente do peso deste compromisso do que o realizador. vai-se. Tal como Roberto Perpignani. e têm que neste sentido ser critico mas numa atitude activa e positiva. Isto é tinha alguma ideia do processo de “colagem” dos diferentes planos e do suporte técnico que o permitia. Se no décor há dois realizadores individualmente. De momento a momento. mas acima de tudo permanecendo fiel à inspiração central. porque o montador é a audiência. este trabalho de colaboração que já dura há trinta e cinco anos. Compreendo cada vez mais. na sala de montagem havia dois realizadores simultaneamente. principalmente com os irmãos Taviannis com quem sente sempre o maior prazer em trabalhar.estas relações além de precoces são também em muitos casos vitalícias. Roberto Perpignani é uma inspiração para qualquer pessoa interessada na área da montagem e especialmente para aqueles interessados em segui-la profissionalmente. filme a filme. Quando entrei na escola pouco sabia realmente sobre as componentes que unificam o filme e a noção que tinha de montagem era muito vaga e incidia sobre os aspectos técnicos concretos. a riqueza. O filme só se torna arte cinematográfica pela montagem e é nessa perspectiva o ultimo e principal actuante na sua construção.recebe o material pelo ecrã. considero a montagem um elemento muito mais intuitivo do que estruturado e dogmatizado. O material e temas que os filmes deles tratam interessam-lhe bastante bem como a própria metodologia de trabalho. a importância e a exigência intelectual e criativa que vigora na arte de montar um filme. na perspectiva de Roberto. percebemos a total dimensão que a montagem inclui e por isso a abertura de caracter necessária para seguir esta área.a essência da montagem está no espirito de colaboração. a dimensão. É obviamente necessário .

A montagem ultrapassa em larga escala os processos narrativos passando a pertencer a uma outra total dimensão. .pensar incessante durante o processo da montagem mas o pensamento deverá incidir mais sobre as formas do que sobre a história que está a ser contada. a uma dimensão mais rítmica que em vez de procurar apenas relações lógico-causais procura relações sonoromotoras de modo a conseguir construir através de pedaços desconectados e desfragmentados um todo coerente. O meu interesse por esta forma de arte não pára de crescer e procuro cada vez mais entender o seu papel no cinema e especialmente a relação que ela cria entre o espectador e o filme. A percepção das formas e do ritmo do filme deve transmitir um só sentido.

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