Deleuze Filosofia Virtual

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Éric Alliez

coleção TRANS

Éric Alliez DELEUZE FILOSOFIA VIRTUAL
Tradução Heloisa B.S. Rocha

Deleuze Filosofia Virtual

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EDITORA 34 Distribuição pela Códice Comércio Distribuição e Casa Editorial Ltda. R. Simões Pinto, 120 Tel. (011) 240-8033 São Paulo - SP 04356-100 Copyright © 34 Literatura S/C Ltda. (edição brasileira), 1996 Deleuze philosophie virtuelle © Les Empêcheurs de penser en rond, Éd. Synthélabo, 1996 L’Actuel et le virtuel © Éd. Flammarion, 1996 (autorização especial para essa edição, lançada por ocasião dos Encontros Internacionais Gilles Deleuze, Rio de Janeiro/São Paulo, 10 a 14 de junho de 1996, organizados pelo Colégio Internacional de Estudos Filosóficos Transdisciplinares) Agradecimentos: Claire Parnet
A FOTOCÓPIA DE QUALQUER FOLHA DESTE LIVRO É ILEGAL, E CONFIGURA UMA APROPRIAÇÃO INDEVIDA DOS DIREITOS INTELECTUAIS E PATRIMONIAIS DO AUTOR.

Título original: Deleuze philosophie virtuelle Capa, projeto gráfico e editoração eletrônica: Bracher & Malta Produção Gráfica Revisão técnica: Luiz Orlandi 1ª Edição - 1996 34 Literatura S/C Ltda. R. Hungria, 592 Jd. Europa CEP 01455-000 São Paulo - SP Tel./Fax (011) 816-6777 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Alliez, Éric Deleuze filosofia virtual / Éric Alliez ; tradução de Heloisa B.S. Rocha — São Paulo : Ed. 34, 1996 80 p. (Coleção TRANS) Tradução de : Deleuze philosophie virtuelle ISBN 85-7326-029-7 1. Filosofia. I. Deleuze, Gilles. II. Título. III. Série. 96-0138 CDD - 1(44)

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Éric Alliez

................................DELEUZE FILOSOFIA VIRTUAL Éric Alliez Deleuze filosofia virtual .............. 47 59 7 Deleuze Filosofia Virtual 5 ............ Obras de Gilles Deleuze (1925-1995) ................. Anexos: Gilles Deleuze O atual e o virtual .............

6 Éric Alliez .

no Rio de Janeiro (Centro Cultural Banco do Brasil): “Gilles Deleuze: uma vida filosófica”.Éric Alliez DELEUZE FILOSOFIA VIRTUAL In memoriam* * Versão modificada da palestra que encerrou a homenagem organizada pelo Colégio Internacional de Estudos Filosóficos Transdisciplinares em 5 de dezembro de 1995. Deleuze Filosofia Virtual 7 .

8 Éric Alliez .

Não se perguntará o que os princípios são. Gilles DELEUZE Deleuze Filosofia Virtual 9 . mas o que eles fazem.

10 Éric Alliez .

não é menos verdade que a relação de duplicação que Deleuze haverá mantido com a história da filosofia — ver o Prólogo sempre citado de Différence et répétition: “Seria preciso que a resenha em história da filosofia atuasse como um verdadeiro duplo. Bergson. Kant ou Espinosa propõem uma verdadeira gênese do pensamento deleuziano. ou. sumariamente. não sobre a identidade filosófica de seu pensamento (uma “filosofia da diferença”. de Gilles Deleuze. É com base nesse paradoxo e nessa dificuldade que entendo a conclusão de Roberto Machado no livro que Deleuze Filosofia Virtual 11 . Nietzsche. mais rigorosamente. mas quanto à prática e à realidade dessa filosofia que não tem de resto outra questão que não a do pensamento e das imagens do pensamento que a animam. e que comportasse a modificação máxima própria do duplo” — acaba por semear confusão. Pois se é incontestável que os estudos monográficos sobre Hume. é montar e desmontar um paradoxo com o qual de um modo ou de outro se haverá defrontado todo leitor.O que pretendo aqui fazer. amador ou experimentado. segundo a definição mais genérica. uma “filosofia do acontecimento”).

onde cada elemento vale por si mesmo. no fundo. por que se esmerar em reconstituir a equação em todos os seus supostos termos se o resultado mostra com clareza que se está lidando com uma multiplicidade qualitativa e contínua — e não com uma soma de pensamentos cuja medida seria fornecida pelo número de elementos que contém? Situação “bergsoniana” que experimentei em La signature du monde. A primeira. qual será a questão que eu gostaria ao menos de levantar esta noite: sob que condições é possível afirmar que o discurso indireto livre a que recorre Deleuze para constituir o espaço diferencial de sua obra — “como um muro de pedras livres. a diferença”1. por transparência e diferença. de ligação múltipla” (“Bartleby ou la formule”) — é criador de um pensamento novo e de uma nova imagem do pensamento: o deleuzismo? Duas opções são a meu ver possíveis. não cimentadas. teórica. e todavia em relação aos outros” ou “um patchwork de continuação infinita. ela é uma suma de pensamentos que relaciona por expressarem. em maior ou menor grau. Vocês já podem imaginar.consagra a Deleuze e a filosofia: “Mais do que anunciar um novo pensamento. consiste em instalar-se num plano definido em extensão por Mille plateaux e em intensão por Qu’est-ce que la philosophie?. e em situarse em posição de sobrancear as monografias. ou qu’est-ce que la philosophie de Deleuze et Guattari? 12 Éric Alliez . Mas.

indefinidamente múltiplo e singularmente universal. do Mundo e do Eu [Moi]a (centro. mas as coisas em estado livre e selvagem. nas palavras de Foucault que se aplicam perfeitamente a essas filosofias postas-em-devir por Deleuze? Pensamento-Acontecimento ou. Um Ideal-materialismo do acontecimento puro. através de Nietzsche e Bergson enfim reunidos. Já nesse nível. “criação” de pensamento que procede por virtualização. o que haveria de “novo” em Deleuze seria que a radicalidade especulativa de sua ontologia determina nessa linha sem contorno (ou linha de fuga) a possibilidade de um materialismo filosófico enfim revolucionário. Quando em nome da an-árquica diferença a filosofia empreende a exclusão de todos os princípios transcendentes que pode haver encontrado em sua história para se adaptar às Formas de Deus. esfera e círculo: “tríplice condição para não se poder pensar o acontecimento”2). quando a filosofia afirma a imanência como a única condição que lhe permite re-criar seus conceitos como “as próprias coisas. E tudo indica que se poderia qualificar desta maneira o movimento de “dessubstanciação” e de “problematização” da história da filosofia operado por Deleuze sob o nome de desterriDeleuze Filosofia Virtual 13 . para além dos ‘predicados antropológicos’”. consiste em apreender nas monografias filosóficas aquilo que Deleuze não faz voltar nem seleciona como puros estados intensivos da força anônima do pensamento senão para afirmar a transmutação da filosofia enquanto tal. prática ou empírica.A segunda.

.”. consoante uma “troca perpétua entre o virtual e o atual” que define o plano de imanência enquanto tal. cava um vazio motor. por razões que não são apenas de cronologia.. tantos agenciamentos suscetíveis de se atualizarem nas figuras e nas questões as mais diversas: da filosofia como arte dos agenciamentos de que dependem os “princípios” (e não o inverso.). em que se trata menos de potencializar as filosofias (formalizando-as) do que de virtualizá-las (e atualizá-las). sobre a qual é doravante colocado o acento ontológico. cujo ato não é senão um complemento ou um produto. criação problematizante que coincide com a emergência do novo. 14 Éric Alliez . publicado em anexo à presente edição... Tantos autores. a virtualização fluidifica as distinções instituídas. Tudo se passando como se a desterritorialização deleuziana elevasse os “autores” à potência de flutuantes nós de acontecimentos em interface recíproca e reciprocamente envolvidos num único e mesmo plano de imanência3. se virtualizar. Isso fazendo. como o indica Pierre Lévy.torialização. dever-se-á necessariamente partir. consiste antes de tudo em transformar “a atualidade inicial em caso particular de uma problemática mais geral.) A optar por este segundo método. aumenta os graus de liberdade. (Essa iluminação da questão do novo pela noção de virtual é autorizada por um texto póstumo intitulado “L’Actuel et le virtuel”. do encontro de Deleuze com o empirismo. que não tem por sujeito senão o virtual.

ou antes como um Erewhon de onde saem. os ‘aqui’ e os ‘agora’ sempre novos. como um aqui-e-agora. diversamente distribuídos” — conforme escreve Deleuze no mesmo Prólogo? O Empirista. como o faria um autor de science-fiction. o empirista não trata precisamente o conceito “como objeto de um encontro.Afinal. inesgotáveis. ou o grande Experimentador. Deleuze Filosofia Virtual 15 .

16 Éric Alliez .

publicado em 1953 (o “agenciamento-Hume”.*** Ora. devemos reconhecer que as relações não derivam da experiência.. elas são o efeito dos princípios de associação (. “se chamamos experiência à reunião das percepções distintas. breve se lerá) dá efetivamente início à pesquisa por aquilo que Deleuze descobre no empirismo: uma filosofia da experiência que valha imediatamente. inclusive) enquanto crítica da representação. constituem um sujeito capaz de ultrapassar a experiência”. Essai sur la nature humaine selon Hume. na experiência. Assim. como crítica das metafísicas da consciência e das filosofias do objeto (fenomenologia e formalismo lógico.. e no mesmo movimento. É portanto Deleuze Filosofia Virtual 17 .) que. Empirisme et subjectivité. pelo ponto de vista imanente que põe em jogo (o do associacionismo). Pois “as representações não podem apresentar as relações” através das quais o sujeito se constitui num dado que não é outro senão o fluxo do sensível como conjunto das percepções irredutível a um estado de coisas e conjunção das relações exteriores a seus termos.

Por haver assim enfrentado o paradoxo das relações. e por haver desse modo explorado o campo da empiria (esse mundo aparentemente fictício que é de fato o nosso. esta última se define por e em um movimento de subjetivação cujo agenciamento de crenças e de paixões. 18 Éric Alliez . transformando a teoria em enquête.... a filosofia empirista pode ser concebida como um “protesto vital contra os princípios” (Dialogues. partindo sempre de situações muito concretas. Uma espécie de pop’filosofia avant la lettre selando a “grande conversão da teoria à prática”. que o ser se iguala ao aparecer para uma subjetividade de essência prática. em lugar de reduzi-lo à forma de interioridade do juízo de atribuição.). fora de qualquer transcendência (do sujeito ou do objeto). que não ignora um certo caráter “transcendental” da sensibilidade. com Claire Parnet).. é de ajuste da imanência em relação ao devir num continuum de intensidades que compõe o fluxo intensivo da corrente de consciência e remete à intensidade da idéia na corrente de pensamento4. alternando exercício de ficções e prática de artifícios. Nem teórica (em posição de fundamento ou de representante) nem psicológica (em situação de interioridade representada). escrito uns vinte anos mais tarde —.num mundo de exterioridade — “mundo onde o próprio pensamento tem uma relação fundamental com o Fora”. destacará Deleuze em seu artigo “Hume”.

PROPOSIÇÃO I: A filosofia deve constituir-se como teoria do que fazemos. pois o pensamento só diz o que é ao dizer o que faz: re-construir a imanência substituindo as unidades abstratas por multiplicidades concretas. um mundo de fragmentos não-totalizáveis comunicando-se através de relações exteriores). não como a teoria do que é. Deleuze Filosofia Virtual 19 . o É de unificação pelo E enquanto processo ou devir (uma multiplicidade para cada coisa.

individuação como processo (élan vital). com os dois artigos publicados em 1956 (“Bergson” e “La conception de la différence chez Bergson”) sistematizados dez anos mais tarde em Le bergsonisme (1966) — e não Bergson. um Leibniz.. atingir-se a essência pura de um Tempo não cronológico. um Spinoza. Pois a igualdade entre o ser e a diferença só será exata se diferença for diferençação.. e se. (e também um Kant. implica indivíduos já constituídos. processo e criação.) Tempo-potência 20 Éric Alliez . sem ser atual. assim como houve um Nietzsche. mas “é no virtual que o passado se conserva”. que define o atual”. possui enquanto tal uma realidade intensiva (quantidade intensiva abstrata) dotada de uma potência de singularização por pontos relevantes. (“É o presente que passa.* O trabalho sobre Bergson realizado após a publicação de Empirisme et subjectivité. ao qual seremos levados a voltar) —. a partir de um virtual que. um Foucault. isto é. destina-se a pensar a questão do Monismo como afirmação vitalista da Diferença na irredutível multiplicidade do devir.

a distinção entre o virtual e o atual corresponde à cisão mais fundamental do Tempo. na imagem da Dama de Xangai. de modo que a matéria de que difere é ainda duração”: a matéria é o grau mais baixo da diferença (como a distensão face à contração. Estabelecendo uma relação de imanência do virtual com sua atualização. ou o atual face ao virtual). situado aquém da oposição dialética entre o um e o múltiplo. que só adquire sentido concebendo-se a multiplicidade como um verdadeiro substantivo. multiplicidade Deleuze Filosofia Virtual 21 . que foi substituída pela diferença entre os dois tipos de multiplicidade: a multiplicidade numérica. matéria e duração. “A Duração difere da matéria por ser antes de tudo aquilo que difere de si. material e atual. o vitalismo bergsoniano é investido de modo a permitir afirmar a existência de um inconsciente ontológico diferencial cujo volume cônico obtura qualquer dualismo entre sensível e inteligível. surge a imagemcristal. e de um só lance opera uma crítica à soberania do negativo e à oposição dialética como falso movimento. É toda a dimensão bergsoniana da fórmula proposta por Deleuze: “pluralismo = monismo”..contra Estado-dos-lugares. isto é. o cristal de tempo descoberto por Deleuze no cerne da criação cinematográfica. Fundado numa crítica à categoria de possível que retrojeta sobre si mesma um real todo feito e pré-formado.. uma maneira de cristalização entre o virtual e o atual quando não há mais limite identificável entre os dois.

. devendo também ser explicado a partir dela (Riemann). Deleuze pôde reconhecer-se num certo estruturalismo (é o princípio da resposta à questão “À quoi reconnaît-on le structuralisme?”: pela estrutura como virtualidade. 22 Éric Alliez . onde a polaridade espaçoduração não é introduzida senão em função do tema anterior e mais profundo das duas multiplicidades. antes de denunciar sua incapacidade de dar conta de uma realidade própria ao devir num texto posterior de Mille plateaux: “Souvenirs d’un bergsonien”. nem um nem múltiplo. e a multiplicidade qualitativa que implica a duração enquanto coexistência virtual do um e do múltiplo. ou de singularidades. uma multiplicidade. quando se trata de reportar a pura duração à idéia de uma heterogeneidade pura.). multiplicidade de coexistências virtuais efetuando-se em ritmos diversos consoante um tempo de atualização multi-serial. E Deleuze não cessará de voltar à revolução introduzida por Bergson no segundo capítulo do Essai sur les données immédiates de la conscience. “Diferençado [Différentié] sem ser diferenciado [différencié]”. Com o que. diferença interna “diferencial [différentielle] em si mesma e diferenciadora [différenciatrice] em seu efeito”: este complexo que será deç signado pelo nome de diferenci ação im-põe a virtualidade como objeto mesmo da teoria onde a práxis se deve instalar para promover um sujeito sempre nômade.distinta que implica o espaço como uma de suas condições... mas pré-individuais”. “feito de individuações. mas impessoais..

pelo qual a ontologia se funde na univocidade do ser (segundo as famosas fórmulas de Logique du sens). Deleuze Filosofia Virtual 23 . puro dinamismo espaço-temporal destinado a nos permitir apreender o mundo em seu caráter ideal de acontecimento [événementialité idéelle] e “a experiência real em todas as suas particularidades” (heterogênese). Daí uma segunda proposição que resume esse naturalismo experimental para o qual a filosofia se confunde com a ontologia.Pois é a partir de seus estudos bergsonianos5 que Deleuze pode opor à sedentariedade da individuação numérica a insistência nômade do virtual no atual. PROPOSIÇÃO II: A filosofia é indissociável de uma teoria das multiplicidades intensivas à medida que a intuição enquanto método é um método antidialético de busca e de afirmação da diferença no jogo do atual e do virtual.

Com Nietzsche et la philosophie (1962). é o ser da diferença enquanto tal. Nietzsche ou o Retorno da diferença que iria permitir a Deleuze avançar na exploração do elemento prático da diferença enquanto afirmação ontológica elevada a sua mais alta potência no campo diferencial das forças. nesse sentido. Substituto inesperado da lembrança pura bergsoniana. da diferença livre de qualquer forma de interioridade (da alma. inclui todo 24 Éric Alliez . que se vê afirmado na doutrina do Eterno Retorno. uma vez estabelecido que o sentido não aparece senão na relação da coisa com a força de que ela é o signo (e todo signo.* Descoberta simultânea de Bergson e de Nietzsche. do sentido e do valor. da essência ou do conceito). Por haver investido a vontade como elemento diferencial da força. na alegria do devir-ativo “voltar é o ser da diferença que exclui todo o negativo”. exige avaliação dentro de uma lógica das forças: a força é afirmação de um ponto de vista6). o Eterno Retorno liberta-se da curvatura do círculo para não mais fazer voltar senão aquilo que afirma ou é afirmado.

.. o corpo do livro. a volta da diferença como forma de experiência vital quando “a seleção não incide mais sobre a pretensão mas sobre a potência” (segundo a fórmula definitiva de “Platão... Deleuze Filosofia Virtual 25 .. O ser como vivente. o corpo de Nietzsche sofrendo” voltando em todos os nomes da história (“Pensée nomade”) — isto é. é porque ele haverá sido o primeiro a ousar inscrever num corpo a relação com o fora como campo de forças e de intensidades: “o corpo da Terra.). Pois se Nietzsche denuncia como ninguém antes todas as mistificações que desfiguram a filosofia e desviam o pensamento da afirmação da vida (do ideal ascético ao ideal moral.o singular. os gregos” — modéstia da potência. o homem verídico. com o humanismo como a mais profunda e a mais superficial das mistificações: o homem superior. é preciso afirmar a filosofia como esse pensamento nômade que cria conceitos como maneiras de ser e modos de existência. em oposição à pretensão dos Rivais. prodigiosa cadeia de falsários. PROPOSIÇÃO III: Se a afirmação do múltiplo é a proposição especulativa e a alegria do diverso a proposição prática.). meu próprio corpo à medida que ele não é Carne e não tem mais Eu no centro. Corpo sem Órgãos. do ideal moral ao ideal do conhecimento..

” 26 Éric Alliez . pois “afinal o grande livro sobre o CsO não seria a Ética?”. mas também “Comment se faire un Corps sans Organes”. reaberta a golpes de martelo por Nietzsche. “Souvenirs à/d’un spinoziste”. Philosophie pratique [1981]. Qu’est-ce que la philosophie? [1991]. onde a Espinosa é outorgado o título de “príncipe da filosofia”. chega-se à celebração da “grande identidade Nietzsche-Espinosa”. própria a ligar a ontologia bergsoniana. Spinoza. a uma ética da expressão como atividade constitutiva do ser7.. “príncipe da imanência”. em Mille plateaux [1980]. de Dialogues [1977] e de Pourparlers [1990]. para a qual “tudo tendia”. e contudo deve ser construído. o bergsonismo de Deleuze.. “Pois ele é a um só tempo plenamente plano de imanência. para que se viva de uma maneira espinosista. estabelecimento e construção de um plano comum de imanência. onde se consuma Critique et clinique [1993]). “Sur Spinoza”. É que Espinosa desenvolve essa mesma passagem.* Com Spinoza et le problème de l’expression (1968) e as inúmeras retomadas a que Espinosa deu lugar (Spinoza [1970]. “Spinoza et les trois Éthiques”..

diz Deleuze). ética das relações que opõem as potências da vida às doutrinas do juízo. e do que se exprime na expressão”8.. serem suscetíveis de uma avaliação biológica que remete em última análise ao corpo como modelo e aos “poderes de afetar e de ser afetado que caracterizam cada coisa” no Plano de Vida. da imanência e da univocidade absolutas.. para todos os agenciamentos que o efetuam e para todos os conceitos que o exprimem. PROPOSIÇÃO IV: Ética do Ser-Pensamento. infinitamente variável e transformável (os afectos são devires). exalçandob o não-filosófico: “imanência da expressão naquilo que se exprime. Quando a potência do ser volta no conatus como potência de pensar porque o interior não é mais que um exterior selecionado e o exterior um interior projetado. a filosofia é uma onto-etologia à medida que seus conceitos formam mundos possíveis e acontecimentos presos no movimento de um infinito virtual-real. Quando a potência de pensar se define pelos afectos que é capaz de produzir para individuar a vida que a compreende e “explicar” o desejo de que é inseparável como potencial e acontecimento. a fórmula que consuma a filosofia. Em toda a face da Natureza um único Animal abstrato. ao modo das “noções comuns” espinosistas.A tomar Espinosa assim pelo meio (“nós no meio de Espinosa”. porque possui a fórmula mais simples. logo se percebe que ele encarna o perigo filosófico extremo. Deleuze Filosofia Virtual 27 . Daí os conceitos filosóficos.

desenvolvida em Différence et répétition e retomada em Logique du sens. é dífícil perceber o sentido do trabalho sobre Kant. ainda que se atenha à experiência possível e não à experimentação real (cf. Pourparlers). fracassa assim em produzir uma verdadeira gênese que ultrapasse o plano da representação. quando denuncia o uso transcendente das sínteses. quais são suas engrenagens. A crítica. consiste em mostrar que Kant não faz o que diz nem diz o que faz. uma vez dito que mesmo Kant. à medida que “se contenta” em decalcar dos caracteres do empírico o transcendental. condição da experiência possível de um 28 Éric Alliez ..* À vista da progressiva instalação desse Quadrante.. com o livro de 1963 (La philosophie critique de Kant) e sua retomada no mínimo inesperada no artigo de 1986: “Sur quatre formules poétiques qui pourraient résumer la philosophie kantienne” (retomado em Critique et clinique). Deleuze o faz para precisar tê-lo concebido como “um livro sobre um inimigo” que se tenta mostrar “como funciona. Ao falar sobre ele. é levado a erigir um plano de imanência.”.

É antes de tudo o livro sobre Kant que porta o subtítulo Doutrina das faculdades. pois essas categorias são a um só tempo demasiado gerais e excessivamente individuais para o sensível. a montante e a jusante.. Será assim preciso mergulhar na matéria da sensibilidade para dela extrair o caráter transcendental e conferir à estética transcendental um estatuto real — e não mais apenas formal. desenvolvendo uma função de contra-efetuação na qual se vem inscrever a posição problemática da modernidade. e que este último forma o “fundo vivo” pressuposto por todo acordo determinado. liberando o jogo das singularidades de um tempo submetido ao primado das categorias da consciência. Sucede que a crítica a Kant introduz uma dimensão nova na história da filosofia deleuziana. Mas “a rede é tão frouxa que por ela passam os maiores peixes”. à medida que ele manifesta a existência de um acordo livre e indeterminado entre as faculdades. e que investe a Crítica do juízo de modo a mostrar que só o senso comum estético pode ser objeto de uma gênese propriamente transcendental.real já individuado.9 Reencontramos aqui a cronologia bergsoniana que margeia.. que não concebe o diverso senão aprisionado na unidade a priori do sujeito e do objeto. enquanto as sensações estiverem ligadas à forma a priori de sua representação —. sob uma faculdade determinante e legisladora (entendimento: senso coDeleuze Filosofia Virtual 29 . A filosofia crítica de Kant. Em duplo nível.

“Com isso. o senso comum estético não completa os dois outros. porém. ultrapassando a bela forma. razão: senso comum moral). Com o artigo sobre as quatro fórmulas poéticas que “poderiam resumir a filosofia kantiana”. O juízo de reflexão manifesta um fundo que permanecia oculto no outro. revolução própria para. O romantismo kantiano seria assim portador de uma revolução copernicana bem outra que não a “clássica” submissão do objeto qualquer ao sujeito (do senso comum) lógico. Mas o outro. uma matéria fluida e cristalina que duplica a estética formal do gosto por uma “meta-estética material”. 30 Éric Alliez . numa relação de imanência radical. já então. Dito ainda de outro modo. ele os funda ou torna-os possíveis”. em estilo tão característico: “juízo determinante e juízo de reflexão não são como duas espécies do mesmo gênero. não era juízo senão por esse fundo vivo”. Deleuze não se propõe mais a restituir as linhas de força constitutivas da elaboração textual do método transcendental. mais radicalmente. ligando-se à matéria empregada pela natureza para produzir o belo. a submeter o pensamento kantiano à heterogênese de seu impensado a fim de arrastá-lo em direção a um fora explorado em outra parte em termos de capitalismo e esquizofrenia (conforme o título geral de L’Anti-Œdipe e de Mille plateaux).mum lógico. investir o ser mesmo do sensível como questão que está em jogo num empirismo transcendental — sob a forma de uma nova estética transcendental.

Deleuze Filosofia Virtual 31 . elevada a sua unicidade pura e vazia. com o tempo out of joint que se descobre pura ordem do tempo “como tempo da cidade e nada mais”. 2. o tempo da filosofia e a filosofia do tempo mais do que a história da filosofia. quando “a loucura do sujeito corresponde ao tempo fora dos eixos”.. reversão da Lei. quando “o antes e o depois não indicam mais do que uma ordem de superposições”. de inflexão. 4. Quando a história da filosofia se faz experiênciade-pensamento de um tempo situado sob o signo de seus elementos de curvatura. reversão do tempo em relação ao movimento intensivo da alma. em relação ao Bem. de bifurcação criadora. de declinação. de desregramento de todos os sentidos. e por conseguinte se é levado a considerar. 3. no ponto de uma imagem moderna do pensamento. com a descoberta da linha do tempo [fil du temps] que não cessa de reportar o Eu ao Euc sob a condição de uma diferença fundamental: “Eu é um outro” ou o paradoxo do sentido interno.. “para formar estranhas combinações como fontes do tempo”. estabelecimento de uma estética do belo e do sublime que nos propõe um exercício nos limites das faculdades...Quatro grandes reversões podem então ser definidas: 1. que nos anuncia o tempo kafkiano do julgamento diferido e da dívida infinita. reversão do tempo em relação aos movimentos cardeais do mundo.

ESCÓLIO I: De um ponto de vista filosófico. todavia também com as ciências e as artes. 32 Éric Alliez . história universal de um princípio de razão contingente. a história da filosofia só vale à medida que começa a introduzir tempo filosófico no tempo da história. Questão de devires que extraem a história de si mesma. ela poderá assim ser concebida como o meio onde se negocia o cruzamento necessário da filosofia com a história tout court.

Mas como pensar o acontecimento a que está associado o nome de Leibniz — a saber. Le pli. o último livro de Deleuze voltado para um filósofo. dele fornece a impecável maneira.* Desdobrando o Pensamento-mundo de uma filosofia transcendental leibniziana “que se volta para o acontecimento mais do que para o fenômeno. como entrar no universo leibniziano sem refazer o gesto material que liberou as máquinas barrocas (a dobra que Deleuze Filosofia Virtual 33 . um fecho ou uma dobra que fará do próximo livro a narração em estilo direto do ser-mundo da filosofia (uma nomadologia) —. substitui o condicionamento kantiano por uma dupla operação de atualização e de realização transcendentais (animismo e materialismo)”. uma teoria do singular como acontecimento. assegurando a interioridade do conceito e do indivíduo. assumindo o conceito como um ser metafísico que participa de um mundo cujas relações são todas elas internas (a monadologia): e algo do percurso de Deleuze na história da filosofia a partir do empirismo se fecha aqui. Leibniz et le baroque (1989).

Adquire aqui todo seu sentido a observação de Alain Badiou. ao qual oferece a filosofia que faltava”. “em um novo tipo de narrativa onde (.. Compor um novo Barroco.. e que se poderá dobrar o texto leibniziano a fim de envolvê-lo em nosso mundo caótico constituído de séries divergentes que não mais se resolvem em acordos (caosmos: o jogo que diverge). a afirmação de um leibnizianismo virtual que implica o leibnizianismo real como sua versão restrita à última tentativa de reconstituir uma razão clássica. e o sujeito.. Ou seja.. segundo a qual essa definição do barroco se aplica maravilhosamente à maneira deleuzia34 Éric Alliez . sem restituir o ato operatório que soube definir seu ponto de inesão propriamente metafísico e que constitui a contribuição do leibnizianismo para a filosofia (o paradigma da dobra como método “organicista” de elevação do pensamento ao infinito do jogo labiríntico do mundo)? Sem reviver “as núpcias do conceito e da singularidade” e reencontrar todo um bergsonismo como presente entre os temas de Leibniz na fórmula Omnis in unum? É portanto num mesmo movimento que se poderá ver “o quanto Leibniz participa desse mundo [barroco].) a descrição toma o lugar do objeto. ponto de vista. um neoleibnizianismo revelase assim como endereçamento da imagem moderna do pensamento em seus processos de compossibilitação das mais radicais heterogeneidades. sujeito de enunciação”.vai ao infinito). o conceito torna-se narrativo.. Dobra sobre dobra..

(trans-)histórica. ESCÓLIO 2: Não há história filosófica da filosofia sem que se desenvolvam as filosofias virtuais que dramatizam um jogo de conceitos como expressão do jogo do mundo.na. que do ponto dessa imanência singulariza a individuação do pensamento em cada uma das dobras do mundo. em prol da Assinatura do mundo Leibniz(Bergson)-Deleuze10. em sua potência de narração em que todo Sujeito se resolve. mas ponto de vista. Deleuze Filosofia Virtual 35 . Tal é o fundamento do perspectivismo deleuziano: a Dobra como operador do Múltiplo. pura efetividade que compreende sua efetuação real. Ela não tem tal ou qual filosofia como objeto. como a inflexão primeira e a dobradura original de uma idealidade em si mesma inseparável de uma variação infinita.

36 Éric Alliez .

personagens conceituais que entram em ressonância num teatro multiplicado onde a dança das máscaras leva a potência do falso a um grau que se efetua não mais na forma (é o falsário) mas na transformação: “Mistério de Ariadne segundo Nietzsche”. nos quais imprime um verdadeiro devir-conceito11. destinados a serem investidos como heterônimos.*** Como uma aranha sempre refazendo sua teia. eis o profundo nietzscheísmo de Deleuze em seu uso dos nomes próprios. Deleuze extrai. de maneira que eles constituirão os únicos “sujeitos”d de sua filosofia (princípio altruísta de toda leitura generosa. seleciona de cada um de “seus” filósofos um universo virtual de conceitos que dobra sobre um mundo real de forças. crítica Deleuze Filosofia Virtual 37 . já que nunca se é tão bem servido quanto por seus outros). A heterogênese e a transmutação deleuziana dãose assim como (ou melhor: dão-nos) a ontogênese de uma filosofia-mundo que investe o plano de imanência ou de univocidade como campo de experiência radical de uma sobrefísica livre de toda Forma. intercessores.

o que afasta Deleuze a um só tempo da função-autor e da falsa enunciação do comentador — em prol de uma figura infinitamente mais “barroca” e borgesiana: maneirista. parece-me. nunca foi tentado” (grifo meu)13. o que. “o sistema não deve apenas estar em perpétua heterogeneidade.) Apreender a filosofia deleuziana como essa fenomenologia virtual do conceito cuja potência criadora e ontúrgica não se projeta no Aberto do pensamento sem voltar como maneira e matéria do ser. pois comenta. Com efeito. fenomenológica. Daí o caráter único da afirmação deleuziana da filosofia como sistema. pois fala à la Deleuze. O que nunca foi tentado foi essa virtualização sistemática da história da filosofia como modo de atualização de uma filosofia nova. substanciais ou funcionais. ele deve ser uma heterogênese. crítica de todas as formas de transcendência (inclusive em sua última figura. pela qual haverá “passado” toda a história da filosofia em sua colocação em variação contínua.de todas as formas essenciais. tampouco é comentador. (São as duas recriminações simétricas que o tempo todo foram dirigidas a Deleuze: ele não é autor. quando chega o momento de pensar a transcendência no interior do imanente12). desdobramento no plano de Natureza ou de composição de uma 38 Éric Alliez . de uma filosofia virtual cuja efetuação infinitamente variável não cessa de fazer dobras (dobras sobre dobras).

já antes. que não tem mais dentro: “rizoma coletivo. no último livro escrito com Félix Guattari (Qu’est-ce que la philosophie?. Maneirismo de uma criação continuada. mas ver. que se infinita entre as forças interiores da Terra e as forças exteriores do Caos para fazer fugirem os Mil platôs de um “Cosmos panteísta molecular” — sobre o fundo obscuro de animalidade envolvente (na magnífica expressão de Alain Badiou que não me canso de retomar). que não tem mais fora. Quando o próprio mundo se descobre cérebro.ontologia da experiência que não decalca do empírico o campo transcendental. portanto ‘experimentado’ (mas num tipo de experiência muito particular)”. enquanto “expressão e produção se abrem para a materialidade do moderno”14 e a relação homem/máquina torna-se expressiva/produtiva de um devir que não tem mais sujeito distinto de si mesmo. dá o nome sóbrio e luminoso de Pensamento-Cérebro. à qual Deleuze. territorial e desterritorializada. devir que porta consigo o pensamento como auto-objetivação da Natureza através de relações diferenciais. entretanto real e individual”. Rhizome [1976]).. como o faz Kant: “ele deve por isso ser explorado em nome dele mesmo. temporal e nervoso” (Mille plateaux).. “no momento em que toda diferença se esfuma entre a natureza e o artifício” (Pourparlers). longe de todo objeto. Mundo-Cérebro: independente de todo conteúdo. Óperamáquina para “uma imensa Máquina abstrata. essa filosofia é de Implicação do Moderno na idéia de um Dentro do Deleuze Filosofia Virtual 39 .

volume absoluto. com a etologia superior a que ela recorre para seguir os sulcos desconhecidos traçados no mundo-cérebro por toda livre criação de conceitos: novas conexões. De modo que a questão de Deleuze terá sido sempre a de uma imagem material e virtual-atual do SerPensamento. tomar como sujeito o virtual (“a atualização do virtual é a singularidade”) e responder enfim à questão “o que é a filosofia?” (“a filosofia é a teoria das multiplicidades”) — quando chega a velhice. no ponto singular onde o conceito e a criação se reportam um ao outro na grande identidade EXPRESSIONISMO = CONSTRUTIVISMO. de rizoma e de imanência. micro-cérebro. e a hora de falar concretamente..puro Fora. Toda uma pragmática do conceito como ser real. conceito.. dobra do cérebro sobre si mesmo. 40 Éric Alliez .. cristalização e coalescência. toda uma “maquínica” do pensamento será assim mobilizada para fazer o múltiplo (pois “é preciso um método que efetivamente o faça”). superfície auto-portadora. novas sinapses para novas composições que façam... no sentido complicado do genitivo leibniziano que já então tornava alucinatória toda percepção (porque a percepção não tem objeto). novas trilhas. do singular.

Gilles Deleuze ou o EXTRA-SUJEITOd da filosofia e o PLANO ABERTO do pensamento uma filosofia virtual para todos e alguns Deleuze Filosofia Virtual 41 .

42 Éric Alliez .

JeanLuc Nancy enviava-me sua contribuição a ser publicada no Deleuze Critical Reader editado por Paul Patton: “Pli deleuzien de la pensée”. citada em nota.. a ser publicado. La Découverte. e por intermédio de Claire Parnet.) M. no sentido em que hoje se emprega este termo. Paris. Tomo II. característico do “empirismo radical” deleuziano (a expressão é de W. ao longo de todo o texto traduziremos o primeiro por “Eu” e o segundo pelo mesmo termo. 1995. Ja4 3 2 a 1 Deleuze Filosofia Virtual 43 .” Em seguida viria a descobrir. 225. da T. o texto inédito de Deleuze sobre “O atual e o virtual” aqui publicado em anexo — não sem aí reencontrar a obra de Lévy. No momento em que eu revia a versão final deste texto. (N.. Gallimard. cf. “Theatrum philosoficum” (1970). J. Não havendo palavras diferentes em português para Je e Moi.NOTAS R. Deleuze e a filosofia. Para um desenvolvimento de inspiração deleuziano sobre a imagem virtual. 84.-Clet Martin. capítulos 1 e 9. Qu’est-ce que le virtuel?. A virtualização não é desrealização mas desterritorialização. Pierre Lévy. Paris. p.. a quem aqui agradeço. L’Image virtuelle. Aí encontrei com espanto o seguinte enunciado: “A filosofia de Gilles Deleuze é uma filosofia virtual. Machado.. Importância do encadeamento Hume-James. 1994. Foucault. Rio de Janeiro. cf. p. apenas que em itálico — “Eu”. Graal. 1990. antes de ser publicado. retomado em Dits et écrits.

pode deduzir da “confusão entre a imanência e o múltiplo” uma “forma pura da transcendência” qualquer. em nome de uma não-filosofia generalizada (?). Marabout.. pela Ed. Minneapolis-London. 5 Publicado em 1973 na História da filosofia dirigida por F. 3 (a sair em trad. Essa questão do signo-sentido foi magistralmente exposta por F. “al7 6 çar” deve fazer lembrar “exaustando/exaustão” — como no original francês exhaussant ou “elevando”. no caso da edição aumentada). bras. Laruelle. Lapoujade. PUF. no caso da edição reduzida). 1995). Hardt. University of Minnesota Press. O que explica em parte como a virtualização do estruturalismo condiciona Logique du sens (1969)..” (Philosophie. “alçando” faz lembrar exhaustion. Gilles Deleuze. “elevar”. o próprio Deleuze relaciona Sartre e James sob esse ponto de vista (citando em nota o artigo — em tom bem deleuziano — de D. nº 560-561. com a referência freqüente a La Transcendance de l’Ego de Sartre. 1970. o artigo “A quoi reconnaît-on le structuralisme?” abre-se com a frase “Estamos em 1967” — ou seja. assim como é escutada ou atendida uma promessa. para a crítica do Eu transcendental de Husserl. “Puissances de l’artifice”. Zourabichvili em Deleuze. 1994.mes). 34). Châtelet (Paris. “L’immanence: une vie. nº 47. cap.. affect”). sobre o empirismo de Deleuze. 1993. (N. “Le flux intensif de la conscience de William James”. da T. 1995). philosophie pratique?”. An Apprenticeship in Philosophy. No último texto publicado em vida. além do sentido de “exaltar”. signe. publicado no número dedicado a Gilles Deleuze. 8 44 Éric Alliez . Une philosophie de l’événement. b “Exalçando”. Papaïs. Paris. Cf. e minha resenha em Critique. O que será desenvolvido de outro modo em Proust et les signes (1964. Philosophie. (“Rencontre. M. 1979.) É difícil ver como F. um ano após a publicação do Bergsonisme. Perde-se contudo na tradução a homonímia entre exhaussant e exauçant — ou “escutando”. nº 46. ver o artigo de X.. 1994: “Deleuze.

E. 49-78. ou o que é a filosofia de Deleuze e Guattari?.. Payot. Deleuze Filosofia Virtual 45 . Nancy. E em “sujeito” [sujet] há que ouvir.). 1995 (III. “Le Pli: Leibniz et le baroque”.-Onto-etológicas). 1996 (II. Badiou. p. 34. Cf. Alliez. em compensação. (N.. Chimères. Paris. da T. 164-165. Sobre a filosofia francesa contemporânea. Cf.-L. le Collectif.) Cruzo aqui ainda com a análise de J. que observa com muito acerto que paralelamente ao “devir-conceito” dos nomes próprios a filosofia deleuziana imprime um “devir-nomepróprio” nos conceitos (e citar platô ou rizoma. La Non-Philosophie des contemporains. nota de tradução ‘a’. La philosophie de Gilles Deleuze. Rio. 1993. c 9 Cf.-Clet Martin. Laruelle. essa afirmação adquire um estatuto bastante único no corpus deleuziano. Ed. 1995. 80. Seuil. nº 17. “Sur Mille plateaux”. “assunto” — sentido que em português não nos ocorre de imediato associar a tal palavra. in Non-philosophie. A Assinatura do mundo.Posições da filosofia). também. Ed. Negri. Paris. 14 13 12 11 d 10 A. Extraída da Carta-prefácio de Gilles Deleuze ao livro de J. Rio. in Annuaire philosophique 1988-1989. Ed. No belo livro de Jean-Clet Martin serão reencontradas todas as variações da “demonstração” deleuziana: Variations. 1989. que esse autor reivindique para si mesmo os Axiomas de um pensamento não-espinosista.Compreende-se. Kimé. 1992. 34. pp. e sobretudo Da impossibilidade da fenomenologia. “Réponse à Deleuze”. A. pp. ritornelo ou dobra.

46 Éric Alliez .

Flammarion.Gilles Deleuze O ATUAL EO VIRTUAL* * Texto originalmente publicado em anexo à nova edição de Dialogues. Deleuze Filosofia Virtual 47 . 1996). de Gilles Deleuze e Claire Parnet (Paris.

48 Éric Alliez .

Toda multiplicidade implica elementos atuais e elementos virtuais. conseqüentemente. cada partícula virtual rodeia-se de seu cosmo virtual.. de diferentes ordens. sobre os quais se distribuem e correm as imagens virtuais. É assim que uma partícula atual emite e absorve virtuais mais ou menos próximos. e todos rodeando e reagindo sobre o atual (“no centro da nuvem do virtual está ainda um virtual de ordem mais elevada. e à medida que essa brevidade os mantém.”1). Eles são ditos virtuais à medida que sua emissão e absorção. Todo atual rodeia-se de círculos sempre renovados de virtualidades.. Em Deleuze Filosofia Virtual 49 .. sua criação e destruição acontecem num tempo menor do que o mínimo de tempo contínuo pensável.1. Não há objeto puramente atual. Essa névoa eleva-se de circuitos coexistentes mais ou menos extensos.. sob um princípio de incerteza ou de indeterminação. cada um deles emitindo um outro. A filosofia é a teoria das multiplicidades. e cada uma por sua vez faz o mesmo indefinidamente. Todo atual rodeia-se de uma névoa de imagens virtuais.

As imagens virtuais são tão pouco separáveis do objeto atual quanto este daquelas. A esses círculos mais ou menos extensos de imagens virtuais correspondem camadas mais ou menos profundas do objeto atual.virtude da identidade dramática dos dinamismos. e nas quais o objeto atual se torna por sua vez virtual2. no conjunto dos círculos ou em cada círculo. um spatium determinado em cada caso por um máximo de tempo pensável. em velo50 Éric Alliez . O continuum de imagens virtuais é fragmentado. o spatium é recortado conforme decomposições regulares ou irregulares do tempo. cada vez mais amplos. Objeto e imagem são ambos aqui virtuais. Mas o atual passou assim por um processo de atualização que afeta tanto a imagem quanto o objeto. As imagens virtuais reagem portanto sobre o atual. uma percepção é como uma partícula: uma percepção atual rodeia-se de uma nebulosidade de imagens virtuais que se distribuem sobre circuitos moventes cada vez mais distantes. que se fazem e se desfazem. São lembranças de ordens diferentes: diz-se serem imagens virtuais à medida que sua velocidade ou sua brevidade as mantém aqui sob um princípio de inconsciência. elas medem. Desse ponto de vista. Estes formam o impulso total do objeto: camadas elas mesmas virtuais. e constituem o plano de imanência onde se dissolve o objeto atual. um continuum. E o impulso total do objeto virtual quebra-se em forças que correspondem ao continuum parcial.

segundo os cortes do continuum e as divisões do impulso que marcam uma atualização dos virtuais. Deleuze Filosofia Virtual 51 .cidades que percorrem o spatium recortado3. O plano divide-se então numa multiplicidade de planos. O atual é o complemento ou o produto. Mas todos os planos formam apenas um único. O virtual nunca é independente das singularidades que o recortam e dividem-no no plano de imanência. ao passo que o próprio atual é a individualidade constituída. A atualização do virtual é a singularidade. mas esta não tem por sujeito senão o virtual. O plano de imanência compreende a um só tempo o virtual e sua atualização. a força é um virtual em curso de atualização. o objeto da atualização. A atualização pertence ao virtual. segundo a via que leva ao virtual. Como mostrou Leibniz. tanto quanto o espaço no qual ela se desloca. sem que possa haver aí limite assimilável entre os dois. ao passo que a atualização o reporta ao plano como àquilo que reconverte o objeto em sujeito. O atual cai para fora do plano como fruto.

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2. Consideramos até o momento o caso em que um atual rodeia-se de outras virtualidades cada vez mais extensas, cada vez mais longínquas e diversas: uma partícula cria efêmeros, uma percepção evoca lembranças. Mas o movimento inverso também se impõe: quando os círculos se estreitam, e o virtual aproxima-se do atual para dele distinguir-se cada vez menos. Atingese um circuito interior que reúne tão-somente o objeto atual e sua imagem virtual: uma partícula atual tem seu duplo virtual, que dela se afasta muito pouco; a percepção atual tem sua própria lembrança como uma espécie de duplo imediato, consecutivo ou mesmo simultâneo. Com efeito, como mostrava Bergson, a lembrança não é uma imagem atual que se formaria após o objeto percebido, mas a imagem virtual que coexiste com a percepção atual do objeto. A lembrança é a imagem virtual contemporânea ao objeto atual, seu duplo, sua “imagem no espelho”4. Há também coalescência e cisão, ou antes oscilação, perpétua troca entre o objeto atual e sua imagem virtual: a imagem
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virtual não pára de tornar-se atual, como num espelho que se apossa do personagem, tragando-o e deixandolhe, por sua vez apenas uma virtualidade, à maneira d’A dama de Xangai. A imagem virtual absorve toda a atualidade do personagem, ao mesmo tempo que o personagem atual nada mais é que uma virtualidade. Essa troca perpétua entre o virtual e o atual define um cristal. É sobre o plano de imanência que aparecem os cristais. O atual e o virtual coexistem, e entram num estreito circuito que nos reconduz constantemente de um a outro. Não é mais uma singularização, mas uma individuação como processo, o atual e seu virtual. Não é mais uma atualização, mas uma cristalização. A pura virtualidade não tem mais que se atualizar, uma vez que é estritamente correlativa ao atual com o qual forma o menor circuito. Não há mais inassinalabilidade do atual e do virtual, mas indiscernibilidade entre os dois termos que se intercambiam. Objeto atual e imagem virtual, objeto tornado virtual e imagem tornada atual: são essas as figuras que já aparecem na óptica elementar5. Mas, em todos os casos, a distinção entre o virtual e o atual corresponde à cisão mais fundamental do Tempo, quando ele avança diferenciando-se segundo duas grandes vias: fazer passar o presente e conservar o passado. O presente é um dado variável medido por um tempo contínuo, isto é, por um suposto movimento numa única direção: o presente passa à medida que esse tempo se
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esgota. É o presente que passa, que define o atual. Mas o virtual aparece por seu lado num tempo menor do que aquele que mede o mínimo de movimento numa direção única. Eis por que o virtual é “efêmero”. Mas é também no virtual que o passado se conserva, já que o efêmero não cessa de continuar no “menor” seguinte, que remete a uma mudança de direção. O tempo menor do que o mínimo de tempo contínuo pensável numa direção é também o mais longo tempo, mais longo do que o máximo de tempo contínuo pensável em todas as direções. O presente passa (em sua escala), ao passo que o efêmero conserva e conserva-se (na sua escala). Os virtuais comunicam-se imediatamente por cima do atual que os separa. Os dois aspectos do tempo, a imagem atual do presente que passa e a imagem virtual do passado que se conserva, distinguem-se na atualização, tendo simultaneamente um limite inassinalável, mas intercambiam-se na cristalização até se tornarem indiscerníveis, cada um apropriando-se do papel do outro. A relação do atual com o virtual constitui sempre um circuito, mas de duas maneiras: ora o atual remete a virtuais como a outras coisas em vastos circuitos, onde o virtual se atualiza, ora o atual remete ao virtual como a seu próprio virtual, nos menores circuitos onde o virtual cristaliza com o atual. O plano de imanência contém a um só tempo a atualização como relação do virtual com outros termos, e mesmo o atual
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Os atuais implicam indivíduos já constituídos.como termo com o qual o virtual se intercambia. a relação do atual com o virtual não é a que se pode estabelecer entre dois atuais. 56 Éric Alliez . e determinações por pontos ordinários. Em todos os casos. ao passo que a relação entre o atual e o virtual forma uma individuação em ato ou uma singularização por pontos relevantes a serem determinados em cada caso.

L’Énergie spirituelle. e. Matière et mémoire.NOTAS Michel Cassé. Les Enjeux du mobile. pp. Bergson insiste nos dois movimentos. E o estudo de Pierre Lévy. Editions Odile Jacob. Bergson.. 72-73. “a lembrança do presente. Du vide et de la création. Deleuze Filosofia Virtual 57 . du Centenaire.”. p. 917-920. 5 A partir do objeto atual e da imagem virtual. Éd. ou ambos virtuais. du Seuil. em direção a um círculo cada vez mais estreito. a imagem. 250 (os capítulos II e III analisam a virtualidade da lembrança e sua atualização). Bergson.. a óptica mos4 tra em que caso o objeto se torna virtual. 3 Cf. Qu’est-ce que le virtuel?. Éd. Éd. Gilles Châtelet. atual. em direção a círculos cada vez mais amplos. 2 1 54-68 (das “velocidades virtuais” aos “recortes virtuais”). pp. pp. de la Découverte. mostra depois como o objeto e a imagem se tornam ambos atuais.

58 Éric Alliez .

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in Éric ALLIEZ. 34. “Faces et surfaces” (com S. pp. Deleuze. nova edição.d. Rocha. Flammarion. Deleuze Filosofia Virtual 77 . s. V) a Gilles Deleuze e Claire PARNET. Ed. Paris.e. Dialogues. entrevista a Claire PARNET realizada em 1988 e transmitida em série televisiva a partir de novembro de 1995 pela TV-ARTE. videocassete. São Paulo. Mélanges: pouvoir et surface. publicado como anexo (cap. CZERKINSKY).. FOUCAULT. tr. 1996. de Heloisa B. in G.S. Deleuze filosofia virtual.“L’actuel et le virtuel”. 1996. “Abécédaire”. s. Paris. M. 179-181. “O atual e o virtual”. br.

COLEÇÃO TRANS direção de Éric Alliez Para além do mal-entendido de um pretenso “fim da filosofia” intervindo no contexto do que se admite chamar. bárbaros. Catherine Peschanski Gregos.Um novo paradigma estético Gilles Deleuze Conversações Barbara Cassin. se porventura se verificasse que só se forjam instrumentos para uma outra realidade. mas por uma preocupação que não hesitaríamos em qualificar de política. no ponto de estranheza onde a experiência tornada intriga dá acesso a novas figuras do ser e da verdade. COLEÇÃO TRANS volumes publicados Gilles Deleuze e Félix Guattari O que é a filosofia? Félix Guattari Caosmose . estrangeiros .A cidade e seus outros Pierre Lévy As tecnologias da inteligência Paul Virilio O espaço crítico 78 Éric Alliez . contra um certo destino da tarefa crítica que nos incitaria a escolher entre ecletismo e academismo. TRANS quer dizer transversalidade das ciências exatas e anexatas. essa afirmação das indagações voltadas para uma exploração polifônica do real leva a liberar a exigência do conceito da hierarquia das questões admitidas. Nicole Loraux. até em sua alteridade “tecnocientífica”. ao arriscar-se no horizonte múltiplo das novas formas de racionalidade. transdisciplinaridade dos problemas. Não por um fascínio pelo Outro. Sob a responsabilidade científica do Colégio Internacional de Estudos Filosóficos Transdisciplinares. TRANS vem propor ao público brasileiro numerosas traduções. a crise da razão. para uma nova experiência da história e do tempo. A um só tempo arqueológica e construtivista. em todo caso experimental. transformação numa prática cujo primeiro conteúdo é que há linguagem e que a linguagem nos conduz a dimensões heterogêneas que não têm nada em comum com o processo da metáfora. aguçando o trabalho do pensamento sobre as práticas que articulam os campos do saber e do poder. incluindo textos inéditos. Em suma... humanas e não-humanas.

Capitalismo e esquizofrenia (Vols.Poder e potência em Spinoza André Parente (org. 2 e 3) Maurice de Gandillac Gêneses da modernidade Pierre Clastres Crônica do índios Guayaki Jacques Rancière Políticas da escrita Jean-Pierre Faye A razão narrativa Monique David-Ménard A loucura na razão pura Jacques Rancière O desentendimento . 1.O que é a filosofia de Deleuze e Guattari? Gilles Deleuze e Félix Guattari Mil platôs .) Imagem-máquina .Política e filosofia Éric Alliez Da impossibilidade da fenomenologia Michael Hardt Gilles Deleuze .Antonio Negri A anomalia selvagem .A era das tecnologias do virtual Bruno Latour Jamais fomos modernos Nicole Loraux A invenção de Atenas Éric Alliez A assinatura do mundo .Um aprendizado em filosofia Éric Alliez Deleuze filosofia virtual A sair: François Jullien Figuras da imanência Deleuze Filosofia Virtual 79 .

80 Éric Alliez . S UZANO DE PAPEL E CELULOSE PARA A E DITORA 34. EM JUNHO DE 1996. COM FOTOLITOS DA HOLT E IMPRESSO PELA E DITORA P ARMA EM PAPEL P ÓLEN 80 G /M2 DA CIA.ESTE LIVRO FOI COMPOSTO EM SABON PELA BRACHER & M ALTA .