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CONFISSÕES Livros VII, X e XI

Santo Agostinho

Tradutores :
Arnaldo do Espírito Santo / João Beato / Maria Cristina Castro-Maia de Sousa Pimentel

www.lusosofia.net

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Texto publicado na L USO S OFIA . NET com a benévola e graciosa autorização dos Tradutores, do Autor da Introdução, o Prof. M. B. da Costa Freitas, do Director do CEFi – Centro de Estudos de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), Prof. Manuel Cândido Pimentel, e do Prof. António Braz Teixeira, Presidente da Imprensa Nacional – Casa da Moeda, onde a obra foi integralmente publicada, em edição bilingue (latim / português) : S ANTO AGOSTINHO, Confissões, IN-CM, Lisboa, 2001

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Covilhã, 2008

F ICHA T ÉCNICA Título : / Confessiones / Confissões, Livros VII, X e XI Autor : Santo Agostinho Tradutores : Arnaldo do Espírito Santo / João Beato / Maria Cristina Castro-Maia de Sousa Pimentel Colecção : Textos Clássicos de Filosofia Direcção da Colecção : José M. S. Rosa & Artur Morão Design da Capa : António Rodrigues Tomé Composição & Paginação : José M. S. Rosa Universidade da Beira Interior Covilhã, 2008

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tão próprio das almas fervorosas! [ . numa linguagem que passa do mais frio raciocínio cerebral ao mais ardente arroubo místico de uma alma enlevada no amor de Deus. um livro filosófico e místico. Santo Agostinho. realista e poético. numa polifonia de evocações tantas vezes inapreensíveis e até mesmo intraduzíveis. rosas só perfume ou só espinhos. o movimento do estilo augustiniano. traduzir as Confissões.1 Traduzir as Confissões de Agostinho representa um esforço por atingir um objectivo quase inatingível.i i i i NOTAS PRÉVIAS À TRADUÇÃO «O clássico inerte da nossa língua paganizada e incompatível com o movimento do estilo augustiniano. 109 e 110 (1a ed. em que há frutos só doçura ou só amargura.. como e 0 latim cristão. futuro bispo de Hipona. complexo e delicado. períodos e períodos.. mas cheio da pujança de uma língua antiga e renovada. profundamente impregnada de ritmos ciceronianos e ecos de autores clássicos. qual e 0 de transpor para outra língua uma experiencia que e única. ] Caso grave. como se deu conta Teixeira de Pascoaes. e muito grave. a experiencia literária do retor. e segmentos oracionais. um espaço teológico e astronómico. Lisboa. Nem sempre é fácil verter na mesma frase. desvirtuariam essa sensação Teixeira de Pascoaes. a serem eliminados. carregado de hebraísmos e helenismos semânticos. Porque as palavras se desdobram em significados múltiplos. em tal avalanche de experiências e emoções. 1945). onde os anjos e as estrelas ardem na mesma claridade». cruza-se a cada momento com 0 vocabulário áspero. veículo de uma torrente de sentimentos sublimados em experiencia religiosa. 1 i i i i . Por seu lado. A mais pequena partícula não pode ser desprezada numa tradução que se pretenda fiel ao pensamento e às emoções de Agostinho. 1995. vozes e murmúrios.. frases e frases. Assírio & Alvim. articulados entre si por polissíndetos encadeados que. relâmpagos e nuvens. pp. Sucedem-se em catadupa palavras de ligação.

uma transposição de afectos do plano i i i i . abunda em efusões místicas. Agostinho não desdenhou do vocabulário de um Catulo . dizer. ou de até resultar em gongorismo a tentativa de conservar estas marcas de escrita. em figuras etimológicas sucessivas amiserar-se dos miseráveis {--} que a cada momento desafiam a imaginação e competências do tradutor. e que não raras vezes o deixam frustrado perante a impossibilidade de tal ou tal jogo de palavras ser impossível de reproduzir em português. Sirva-nos este exemplo para justificar o uso de certa linguagem. ou melhor. pela fidelidade ao estilo de Agostinho. também neste aspecto. diz que os Maniqueus fazem da sua pança uma enorme oficina onde transformam os alimentos. que Agostinho. Espírito inflamado. Agostinho. muitas vezes o risco de cair em asperezas. não era liber (livre) de se dedicar inteiramente a Deus. até deflagrarem numa espécie de explosão fantástica de luz. num crescendo progressivo de trevas. não ceder à tentação de amaciar as rugosidades. no entanto. mas.ou de um Horácio . para não dizer pieguice. por exemplo. optou-se.dimidium animae meae (metade da minha alma) -. nunca exagerado.deliciae meae (minha delícia) . num gesto de supremo sarcasmo. Para o mesmo efeito contribuem as repetições de vocábulos da mesma raiz. só comparáveis às declarações apaixonadas que se encontram nos poetas cantores do amor humano. até. E. que se manteve na tradução. sem recear as conotações que tal vocabulário trazia à memória do leitor. que com isso pretendeu operar uma transição. cheia de meiguice. a linguagem de infância. Correndo. Parece. matéria degenerada. sempre que a língua portuguesa o permitiu. por causa dos liberi (filhos) dos seus concidadãos. às vezes chocante. Também não adoçamos ou tornamos falsamente piedoso o que o não é. Seria fácil substituir pança por ventre. Foi propósito nosso. a ironia com que Agostinho fala da teoria maniqueísta leva-o a escolher um termo propositadamente chocante e ofensivo. pois. em substância divina. ou suavizar a violência das palavras atiradas como pedras contra o erro e a heresia. Não foi possível. com todo o efeito retórico do original.i i i i de dúvidas e angústias acumuladas. de facto.

substituir por uma forma de apreensão mais imediata um grito extático de Agostinho. Para orientar a leitura. Agostinho analisou conceitos. subtítulos inspirados na Patrologia Latina de Migne. manipulou sentidos. porventura. em outra língua. enquanto tradutores. criou imagens. nem paráfrase. não quisemos retirar ao leitor o prazer de ir um pouco mais além da simples leitura. 19861994). A tradução é acompanhada por um aparato de fontes. para cuja constituição foram de suma importância as colecções de textos disponíveis em suporte informático. foram acrescentados. Nestes e em outros casos. no infinitamente pequeno da natureza ou no infinitamente grandioso e magnífico do universo. i i i i . sem exegese. mas seria banalizar o alcance do texto substituir fórmulas como esta. Para os que se ficarem pela tradução. para tornar o texto mais compreensível. faz da palavra e do discurso o veículo da expressão profunda do que há de mais sublime na intimidade de Deus e na interioridade do homem. Mas seria um erro fatal. com toda a sua profundidade conceptual. 1995). O leitor estranhará. a expressão. Schwabe & Coo AG. ó verdadeiro ser». deu largas ao seu temperamento artístico. assegurarmos. que é a nossa. por um mais acessível "Ó paz verdadeira. dando nobreza e elevação àquele quando se subordina a este. que fizemos um esforço por atingir o inatingível: verter Agostinho.i i i i humano para o divino. Percorrendo os palácios da memória humana ou mergulhando no tempo sem tempo antes do tempo. Augustinus-Lexikon. aliás bíblica. de que o leitor da língua portuguesa só desfrutará plenamente confrontando a tradução com o original latino. maneja a língua como poucos. transformando-a num exercício de descoberta e de reflexão pessoal. especificamente a Patrologia Latina Database. quando exclama: Ó «em paz». O texto latino utilizado é o da edição crítica de Cornelius Mayer (Augustins Werke und kritische Editionen. entre parênteses. ó «ser em si mesmo». publica da em CD-ROM por Karl Heinz Chelius (Corpus Augustinianum Gissense a Cornelius Mayer editum. Verlag. Basel. a língua dele. Agostinho é um génio literário. ou duvidosamente mais actual.

USA. USA. A RNALDO DO E SPÍRITO S ANTO J OÃO B EATO M ARIA C RISTINA C ASTRO -M AIA DE S OUSA P IMENTEL i i i i . A estes professores. José Maria Silva Rosa. Seattle. e o Packard Humanities lnstitute Greek and Latin Dics. As notas de carácter cultural foram reduzidas ao estritamente indispensável a uma melhor compreensão do texto. O mesmo princípio foi adoptado quanto às notas de âmbito filosófico. bem como ao Prof. Joaquim Cerqueira Gonçalves. o Bibleworks for Windows. Alexandria. Manuel Barbosa da Costa Freitas e do Dr. Hermeneutika Computer Bible Research Software. agradecemos o cuidado posto na leitura desta tradução. que são da autoria do Prof..i i i i Chadwyck-Healey Inc.

de Arnaldo do Espírito Santo. Paris.net] cumpre-se este segundo desiderato. de teologia. uma das primeiras etapas na constituição de uma psicologia racional. Lisboa. p. 2000. da Costa Freitas. lançada durante o Congresso. a par do De Anima de Tertuliano e do Diálogo de Gregório de Nissa com a sua irmã Macrina sobre a alma e a ressurreição. Lisboa. Contudo. Lisboa. e outra exclusivamente em português. Recherches sur les Confessions de saint Augustin. Pode dizer-se que as Confissões são simultaneamente uma obra de psicologia. embora tudo isto se conjugue para demonstrar a intervenção de Deus através de todas as causas segundas no itinerário espiritual de Agostinho (Pierre Courcelle.i i i i INTRODUÇÃO Desde o início que a intenção dos organizadores do Congresso Internacional comemorativo dos 1600 anos da redacção das Confissões de Santo Agostinho. de poesia e de mística. Introdução de M. IN-CM. 1 i i i i . João Beato e Maria Cristina de Castro-Maia de Sousa Pimentel. os temas Confissões. X e XI para a LusoSofia. Como relato autobiográfico. as Confissões constituem. que se realizou na Universidade Católica Portuguesa. fora promover uma dupla edição da tradução da mesma obra: uma bilingue1 . em Novembro de 2000. Com a presente edição portuguesa [da qual se extraem os livros VII. trad. B. 27). Notas de âmbito filosófico de Manuel Barbosa da Costa Freitas e José Maria Silva Rosa. 1950. de filosofia.

1950. 4). No entanto.net i i i i . Agostinho explicou (Conf. “Originalität und Ueberliferung in Augustins Begriff der Confessio”. que hoje se pode considerar praticamente encerrada. É este precisamente o sentido essencial das palavras latinas confiteri e confessio. tantas vezes sem ele mesmo disso se aperceber (Conf. Ora. Sermo 67. “Introduction” a Les Confessions. o seu valor histórico e unidade temática. decidindo-se a maioria dos autores. In Ps. Deste modo.i i i i 8 M. como justamente observa Le Blond. sabe-se que estava terminada nos fins de 400. manteve-se. por diversas vezes e em diversos lugares. Confessio vem a ser. e II. “Dupla é a confissão. Les Belles Lettres. I. em Revue des Études Augustiniennes. mais particularmente. Sobre o seu valor histórico. 4. no entendimento do nosso autor. 19). confissão significa. p. tantas vezes manifestada por Agostinho. que é sem pecado e. que estabelece o pecador na sua verdade e o dispõe ao perdão de Deus. 6-11). Barbosa da Costa Freitas que vêm sendo estudados com maior empenho são a sua origem e a data de composição e. In Jo. 3. 1957. 29. A unidade da obra ressalta claramente do título e da intenção. de louvar a Deus pelos bens e pelos males recebidos (Retr. as Confissões são isto mesmo: a proclamação da presença constante de Deus na vida de Agostinho. Labriolle. 6). A isto chama Agostinho fazer a verdade diante de Deus. XV). por isso. X. durante quase um século. I. a do pecado e a do louvor” (In Ps. confessar os pecados é identicamente louvar Deus. graças à distinção entre factos e juízos. P. 94.. uma acesa discussão. como. www. 2. a confissão dos pecados.. 1052. pela veracidade histórica dos factos narrados por Agostinho (cf. Portanto. 1925). J. p.. declaração dos pecados e louvor da misericórdia e das grandezas de Deus (Les conversions de saint Augustin.. diz Agostinho. devolvendo o pecador à sua primeira condição de inocência (cf. 94. 4). Paris. ao mesmo tempo. É praticamente impossível datar com absoluta precisão a redacção das Confissões. VII. “há a confissão do homem que louva e a confissão do homem que geme” (id. pode perdoar.. 2. XII. 375-392)... o que Deus fez por ele em toques discretos. Ratzinger.lusosofia. 1. Paris. 13.

por insignificante que seja o número daqueles que cheguem a ler este escrito (id. L. o que se revela mais difícil. renunciar à própria justificação e reconhecer a graça de Deus. ao tema do contuitus – atenção presente –. disponível para todos. mas também na presença dos homens (ibid. com a evocação do repouso do Sétimo Dia. Agostinho. respondendo a todos os que a consultam (id. ao tema da exspectatio – antecipação do futuro. que. na tentativa de surpreender a articulação lógica que presidiu à sistematização interna dos treze livros. em geral. Agostinho dá um testemunho não só pessoal. deste modo. Demonstrada a unidade de facto das Confissões. www. Na presença de Deus e à luz da sua verdade. Fazer a verdade não apenas diante de Deus. 37). XXVI. depois de ter considerado a totalidade da criação na sua realidade material e na sua significação espiritual. As Confissões representam. que se abriu para nós a partir da eternidade do fiat criador e se encerra na eternidade do repouso celeste. em particular.net i i i i .). X. X. como pastor e doutor. dentro da intenção geral de confissão.lusosofia. II. à primeira vista. como figura da Igreja e do Universo dos santos. muito justamente.i i i i Introdução 9 seu único e verdadeiro interlocutor nesse longo e misterioso diálogo. a verdade substancial que paira por toda a parte. I. o esforço de Agostinho para se situar na verdade de Deus (id. antes que um olhar mais atento aí descubra o mestre interior. e da humanidade. 1). mais parece um monólogo interior de si consigo mesmo. Precisamente. com razão. Alguns autores recorrem a uma determinada sequência temática. Landsberg. III. da paz do Sábado. para seu proveito e edificação. quer dizer. recolhida da terminologia de Agostinho. seguido por Le Blond. 2.. II. p. que ao terminar o livro XIII. a melhor maneira de fazer esta verdade é a confissão. e o grupo XI-XIII.. deu por concluída toda a sua obra. 5). o livro X. fechando o ciclo dialéctico do tempo.. da presença misericordiosa de Deus em todos os acontecimentos e vicissitudes da sua vida e da história de cada homem. Aimé Solignac considera. importa demonstrar a sua unidade de direito ou intencional. mas sobretudo eclesial. que não conhece ocaso (“Introduction” a Les Confessions. faz corresponder o grupo I-IX ao tema da memoria – evocação do passado –.

IX. 460-461). sob a imagem da peregrinatio animae. na revista Hermès. VI. Knauer. 216-248). 85. que a criou (Conf. XXVII. numa alusão clara à parábola do filho pródigo. De resto. VII. XIII. minha luz.. 24. a ponto de conquistar. com que sempre o acompanhou (id. que falam das Santas Escrituras – de scripturis sanctis (Retr. XXXVII). II. desvelo e carinho. publicado em 1957. 12. estatuto de universalidade. Só então o inquietum cor encontra perfeita e definitiva paz no seio de Deus (id. as constantes demonstrações de ternura. www. 10. N. minha doçura (id. X. IV. em brincada e graciosa linguagem de infância. I. a outros três. I. um esquema unitário das Confissões que. A conversão de Agostinho. pouco a pouco. nos quais fala de si (de me). Zur Frage der Einheit der augustinischen Konfessionen”. I. será sempre possível descobrir nelas os temas essenciais e permanentes do homem em busca da verdade e da paz. capaz de explicar mais satisfatoriamente que o Agostinho místico e lírico é também o Agostinho filósofo e teólogo. 1). Barbosa da Costa Freitas 23-24).. É neste contexto dramático que as Confissões contam publicamente o reencontro de Agostinho com o seu Deus. tal como ele a revive e descreve. IX.net i i i i . X. IX. p. o negro abismo da queda no termo do seu afastamento de Deus (Conf.. de modo a tornar-se alma viva. 14). pela sua verdade e profundidade humana.i i i i 10 M. Por sua vez.. minha saúde. IX. a evocar.. ou itinerário da alma. X.. no fundo. X. num artigo notável (“Peregrinatio animae. p. não desdenhando chamar-lhe. 27. pelas brenhas sinuosas do pecado. 7. É natural que exista entre os dois grupos de livros uma relação muito mais profunda. sob influência divina. volvendo sobre si. à semelhança de Deus. à eterna Hierusalem (id. 18). e replica ou dobra o movimento natural pelo qual a criatura espiritual se forma correctamente. antes de ser reconduzido.. sendo o relato das Confissões eminentemente pessoal e intensamente vivido. a toda e qualquer conversão. V. XXI. em resposta ao apelo do Verbo divino. Certamente que Agostinho não se limitou a justapor dez livros. desenvolve.lusosofia. J. minha riqueza. conduz Agostinho à regio egestatis (região da indigência) e à regio longiqua (região longínqua). 38). à regio ubertatis. corresponde.

21). perdoa e abraça em transportes de alegria e felicidade. VI. As duas metáforas designam ao mesmo tempo a tensão constitutiva do www. João da Cruz e tantos outros. nutre. seguram na sua omnipotente verdade o mundo por elas criado! (Conf. porque espera. Infinito. porque tudo criou gratuitamente.. a sua imanência no seio de todas as criaturas. porque chama. Como são belas as mãos que. e. do homem em particular. VII. III. é profundamente imanente. por isso. para aí encontrar o seu Criador. sem que nada o possa contaminar. acalenta.. 1986. O Deus presente nas Confissões é absolutamente transcendente. 5).. como já vimos. O paradoxo do ser e do agir de Deus. convoca. Esta breve definição de Deus diz ao mesmo tempo. VI. de Hipona. Criador. acima de si. O Agostinho convertido teve que entrar em si e descer ao mais fundo de si mesmo ou. I. frequentes notícias nos chegam a cada passo por Teresa d’Ávila. E a cada passo o poeta inspirado adianta-se ao filósofo austero e ao teólogo intransigente. Transcendente. nada lhe faz obstáculo. a incapacidade da linguagem humana em dizê-lo adequadamente. ordena e dirige com mão forte e suave.net i i i i . 4 e 5). paradoxalmente.lusosofia. p. XV. Deste modo se corrige e vence toda a tentação panteísta. Pai de Bondade. O Deus de Agostinho. Amor Infinito. cheias de bondade. é salmodiado em tom de júbilo e de acção de graças (Conf. nada tem a ver com a “omnipotência do Ser uno e idêntico” de Plotino (Enn. cuida. Providente. Paris. ao mais elevado de si. segundo o movimento dialéctico expresso na fórmula tradicional. IV. 155-166). 4-V. amamenta. servindo-se como mote de certos versículos colhidos dos Salmos. Poque. L. E. Omnipotente. para dar desafogo ao tropel de sentimentos que o submergem (cf. Mãe de Misericórdia. Salvador e Redentor de todos os homens em seu Filho Jesus Cristo. e a sua transcendência acima de tudo o que o espírito humano tem de mais sublime.. 11). Les Psaumes dans les Confessions de saint Augustin et la Bible. tipicamente augustiniana: Tu autem eras interior intimo meo et superior summo meo – Mas tu eras mais interior do que o íntimo de mim mesmo e mais sublime do que o mais sublime de mim mesmo (id. ser Pessoal.i i i i Introdução 11 9).

lusosofia. Este acto de interioridade provoca ao mesmo tempo uma renovação do olhar. VII. então. o Deus do coração (id. X.i i i i 12 M.. A partir deste momento.” O seu interrogar é agora o olhar mais humilde e atento. 17). o ser que está aí com todo o esplendor da sua beleza – interrogatio mea intentio mea responsio eorum species eorum (id. como sinal e símbolo. continua a ser fundamentalmente um intus. descobre a relatividade do seu ser. 39. X. 3). Um supra que. A contemplação do mundo exterior constitui a primeira etapa no itinerário do espírito para Deus.. 9). a mim mesmo e a mim mesmo disse: ‘Tu quem és?’ E respondi: ‘Um homem. 12). Barbosa da Costa Freitas espírito humano na sua relação a Deus e o movimento de transcendência que como tal o caracteriza. 72). a terra. sinais e vectores para o Ser.. um dentro de mim enquanto eu andava por fora – ecce intus eras et ego fo- www. a resposta das coisas. X. A terceira etapa consiste em procurá-lo n’Ele mesmo. interiormente a julgam. 10). para o Bem e Verdade em si mesmos (id. comparando-a com a verdade aí descoberta (id. VI. Mas a alma é superior porque anima o corpo. da sua bondade e beleza. ao vê-la fora. só pela alma poderá o homem ascender a Deus – per ipsam animam meam ascendam ad illum (id. acrescido de maior acuidade. X. X.. Xl. uma coisa exterior. comunicando-lhe a vida. Só o homem interior está apto a descobrir o seu Deus.net i i i i . ao meu serviço.. outra interior” (id. 11).. E isto porque a própria alma se mostra contingente. o céu. X. é o espectáculo maravilhoso e deslumbrante que nos depara o mundo interior. mutável – si tuam naturam mutabilem inueneris transcende et teipsum (De Vera reI. em relação ao mundo exterior. “Dirigi-me.. II. E Deus é ainda superior à alma porque é nela a vida da sua vida. que. 9). XXVI... e sabe ouvir e recolher em seu coração alvoroçado a resposta jubilosa: “Foi Ele quem nos fez. acerca do seu Deus.’ E eis que estão em mim. A segunda. mas acima de si – in te supra me (id. os que. Por isso. VI. mas só a interpretam correctamente. o mar. com os imensos palácios da memória – et uenio in campos et lata praetoria memoriae (id. IV. da sua verdade. VI. X. Agostinho sente-se habilitado a interrogar todas as coisas. A beleza das coisas está patente a todos. 37). VIII. um corpo e uma alma.

Do esforço em responder à vocação da imagem. se transformar em semelhança. XXXlII. que não só não aliena. IIl. vivo e sensível da Bíblia. de certo modo. que transporta consigo em sucessivas e crescentes aproximações. www.net i i i i . comovida. com imensa mágoa. Nele se condensa e resume. na posse da verdade de si mesmo. Daqui o instante apelo de Agostinho a não nos deixarmos andar por fora. a regressarmos quanto antes à nossa interioridade. ama e tudo promove. 11). tudo o que de ontológico e estrutural implica o ser imagem. humilde e dadivoso. desse modo convertido. em liberdade e consciência. XlII. o homem é chamado a realizar. toda o homem que vem a este mundo. 48. o absoluto Outro. que é já participação da vida divina. quer dizer. Deus é.lusosofia. porque por fora e longe de si. em natureza.. Criado à imagem de Deus. o Deus de Agostinho não se confunde com a longínqua e nublosa Causa sui da metafísica clássica. inacessível a toda a invocação de piedade e de louvor que saia. 72). do qual Cristo é a fonte e o princípio inspirador como Palavra Encarnada do Pai. Simultaneamente imanente e transcendente ao homem. XXVII. para. 38). que deve ser interpretado o pensamento augustiniano. Este binómio intus-foris é um dos esquemas mais expressivos de toda a antropologia e ontologia de Agostinho. A comovidíssima descrição que dessa experiência nos deixou Agostinho constitui. mas porque.i i i i Introdução 13 ris (Conf. do coração humano. mais eu do que eu mesmo. que tudo cria e sustenta a partir do nada – de nihilo enim a te. porque é ai que habita a verdade por que ansiosamente suspiramos – in interiore homine habitat ueritas (De Vera rel. non de te – com mão tente e poderosa (Conf. como diz P. por assim dizer. de verdade e de graça. Claudel (Vers d’exil). para alumiar. o que de desgraça e infelicidade representa o ter andado tanto tempo por fora e longe de Deus. depende a sua felicidade.. É superior.. descobre. 39. dominante nas Confissões. Deste modo. X. tudo precede e funda como Amor infinito e providente. mas a todos quer. VI. Deus é. finalmente. tudo o que encontramos de mais dramático e emotivo na experiência de uma vida na qual. não porque acima e dominador. É à luz do Deus pessoal.

V. XV. um dos melhores exemplos do lirismo que nos surpreende nas Confissões. insucessiva (semel) e simultânea (simul) da imutável presença de Deus a si e a todas as criaturas (Conf. sobre a cidade de Deus e a Igreja. por exemplo. da graça e da predestinação. que não é mais do que o derramar-se ou distender-se da alma pelo passado. que é antes dos tempos. muitas das páginas que escreveu sobre a liberdade e a graça. etc. VI.net i i i i . De resto. companheira inseparável da homem nesta vida mortal ou morte vital (id. O andar por fora e alheado de si. II. XXVII.lusosofia. tarde te amei! E eis que estavas dentro de mim e eu fora. e eu. se em ti não fossem” (Conf.. 38). Poucos homens exerceram sobre o pensamento europeu uma influência tão profunda e duradoura como Agostinho de Hipona. Barbosa da Costa Freitas no dizer de um crítico literário. para os fazer imortais – uocans temporales. o melhor dessa influência reside no contributo positivo para a actual configuração do espírito europeu. beleza tão antiga e tão nova. Tu estavas comigo e eu não estava contigo. mas o Verbo eterno. XII. chama à vida os seres temporais. faciens aeternos (In Ps. XI. Retinham-me longe de ti aquelas coisas que não seriam. não hesita www.. nascido no tempo. 101. na história das doutrinas do pecado original. XXIX. a ponto de ser considerado por muitos como Pai comum do Ocidente. tornaram-se clássicas e são ainda hoje uma referência inevitável tanto em teologia como em filosofia. que lhe tarda. em alguns casos. e pelo futuro. que lhe foge.. por exemplo. 7). sobre a razão e a fé. 10-11).. como. 18). A paz ou quietude final não a pode o homem alcançar só por si. será resgatado e absorvido pela eternidade perene (semper). Entretanto. a alma fiel luta todos os dias contra a dispersividade ou dissipação (distentio) pela concentração em si mesma (intentio) e de olhar fixo nos bens que não têm fim (id. Karl Jaspers. em desacordo com a ontológica condição de imagem. 39). sem beleza. precipitava-me nessas coisas belas que tu fizeste. repercute-se ao nível da consciência psicológica em termos de inquietação. “Tarde te amei.i i i i 14 M. X.. O próprio tempo. Apesar de negativa. e aí te procurava.

5. a reconhecer em si o dom de Deus. Por sua vez.. possam ajudar os homens de hoje a fazer a sua verdade interior com liberdade e isenção.i i i i Introdução 15 em incluí-lo entre os que fundam a filosofia e continuam a fundá-la (Les grands philosophes. O seu fascínio é geral. de que abundantemente se serve para fazer a sua verdade diante de Deus e no meio dos homens. Aí se relata a história de um homem convertido. t. e que aprendeu a dialogar com Ele através dos versículos bíblicos porque Deus tomou a iniciativa de descer a trato familiar com os homens. Que as Confissões de Agostinho.). III. Martin Buber vê nele um dos primeiros pensadores que ousaram conjugar a existência na primeira pessoa (Le problème de l’homme. X.. 1962. I.. p. II). M ANUEL BARBOSA DA C OSTA F REITAS www. As Confissões são hoje uma das obras mais lidas e comentadas. sólidas e justas no interior consigo mesmos. Como no tempo de Agostinho. E também hoje não falta quem pretenda saciar os insaciáveis apetites de uma opulenta indigência com ideias e doutrinas que ostensivamente ignoram ou desdenham a ordem fixada desde sempre para apagar a sua sede espiritual e oferecer alimento substancial à fome de eternidade (id. tantas vezes oculto e ignorado. A conversão pô-lo em condição de compreender o grande livro da criação do céu e da terra (Gén. 1. que voltou a Deus. II. I. e II. com Deus e com toda a humanidade.net i i i i . 2. em presença e linguagem humanas. ou seja. lidas e meditadas. porque nelas se reflecte o homem universal que vive em cada um de nós. XII. Paris. porque de Deus tudo depende e nada se lhe pode esconder (Conf. isto é. para dizer e proclamar o que realmente é. 4). 19). 22 ss.lusosofia. também o homem de hoje tem fome e sede de Deus. 2). de modo que se criem relações cada vez mais verídicas.

i i i i CONFISSÕES Santo Agostinho i i i i .

sem qualquer hesitação eu punha-o antes do que é violável. 1. num abrir e fechar de olhos4 . quanto mais velho em idade. Clamava violentamente o meu coração3 contra todos estes meus fantasmas e. com todo o meu ser. I. tanto mais abjecto em futilidade. e entrava na juventude. E. sendo eu homem – e que homem! – esforçavame por te conceber como supremo. porque. acreditava que tu és incorruptível.i i i i Confissões. Não te imaginava. mal era rechaçado. Estava já morta a minha adolescência. meu Deus. i i i i . sob a forma de um corpo humano. no entanto via claramente e estava certo de que aquilo que é corruptível é inferior àquilo que não é corruptível. sempre evitei isso e alegrava-me por ter encontrado a mesma maneira de ver na fé da nossa mãe espiritual. a tua Igreja católica. Deste modo. 1 Coríntios 15:52. de tal modo que não me era possível conceber uma substância a não ser aquela que se costuma ver com estes olhos do corpo. desde que comecei a ouvir falar de filosofia. embora não te concebesse sob a forma 2 3 4 João 17:3. mas não me ocorria outra coisa que pudesse conceber acerca de ti. Lamentações 2:18. e imutável. de novo aglomerado. com um único golpe. único e verdadeiro Deus2 . logo voltava e se precipitava sobre o meu semblante e o obnubilava. e aquilo que é inviolável. e inviolável. não sabendo por que razão nem por que modo. VII 17 Livro VII [Deus concebido como um ser corpóreo e difuso no universo] VII. e que o que não está sujeito a nenhuma espécie de mudança é superior àquilo que pode sofrer mudança. má e abominável. esforçava-me por afugentar da visão do meu espírito o bando da imundície que esvoaçava em torno de mim: e que. e.

Na verdade. e ao violável. com o coração engordurado5 . Actos 28:27. e do ar. quer difuso para além do mundo. enquanto tu não acabavas em parte alguma. porque tudo aquilo que eu privava de tais espaços parecia-me ser o nada. e o inviolável. ou não se dilatasse. ou não se difundisse. nem mesmo o vazio. governa. quer imanente ao mundo. o meu coração seguia através daquelas imagens. todas as coisas que criaste. Assim. das maiores às mais pequenas. Assim o supunha eu. E assim. 2. concebia que tu. Mateus 13:15. de toda a parte. e do mar. e o imutável que eu antepunha ao corruptível. um ser imenso. penetrando-o. eu. porque não podia conceber outra coisa. ou não se concentrasse. mas também o da terra. para receber a tua presença que. te eram acessíveis e penetráveis por todas as partes. mas todavia há um lugar vazio. Na verdade. não impede que a luz do sol passe por ele. nem eu próprio esclarecido nem para mim mesmo. penetravas toda a massa do mundo. mas era falso. entendia que era o nada absoluto tudo aquilo que não se expandisse por uma certa quantidade de espaço. do ar ou do céu. de tal modo que te contivesse a terra. o céu e todas as coisas. seja ele da terra. através das quais costumam seguir os meus olhos. e ao mutável. mas o nada absoluto. e fora dela. através dos espaços infinitos. assim também eu julgava que não só o corpo do céu. com invisível inspiração. pela imensidão sem fim. também. 5 Salmo 118:70. i i i i .i i i i 18 Santo Agostinho de um corpo humano. deste ar que está por cima da terra. e que fosse justamente isso o incorruptível. e nem via que esta mesma reflexão com que eu formava aquelas mesmas imagens não era da mesma natureza: todavia ela não as formaria se não fosse uma coisa grandiosa. e todas elas acabassem em ti. em todas as direcções. como quando se tira um corpo de um lugar e fica o lugar esvaziado de qualquer corpo. ou não incluísse ou não fosse capaz de incluir algo como isto. vida da minha vida. mas enchendo-o por completo. sem o romper ou rasgar. Assim como a massa do ar. era todavia levado a conceber alguma coisa de corpóreo espalhado pelos espaços. pelo infinito. como se fosse um ‘nada espaçoso’. interior e exteriormente. da água.

6 Salmo 17:29. para ela corrupta. porque formada de uma só e mesma substância. uma parte menor. para ela que era servil. Ora. contra aqueles enganados enganadores e palradores mudos. i i i i . o que quer que tu sejas. isso mesmo também seria falso e abominável. e todas as coisas estariam cheias de ti de tal maneira que o corpo do elefante receberia mais de ti que o do pássaro. pela qual tu és. 3. se tu com ela não tivesses querido lutar?’. dissessem que é corruptível. nas partes pequenas. VII 19 desse modo. que a tua substância. Nebrídio costumava propor. tudo isso seria falso e execrável. pois. II. ao invés. Mas tu ainda não tinhas iluminado as minhas trevas6 . Era-me bastante. tornarias presentes as tuas partes grandes nas partes grandes do mundo. para ela manchada. dividido em partículas. é incorruptível. bastante aquilo que já há muito tempo. Senhor. mas também ela própria corruptível. isto é.i i i i Confissões. e que esta parte era a alma. não haveria causa para lutar. a parte maior da terra teria uma parte maior de ti. sendo aquele maior do que este. pura. se. Portanto. porque. e carecesse de auxílio com que pudesse ser libertada e purificada. ainda em Cartago. íntegra. dissessem que em nada essas coisas te poderiam prejudicar. e lutar de tal modo que uma certa parte de ti e um teu membro ou a geração da tua própria substância se misturaria com os poderes adversos e com as naturezas criadas por ti. porque através deles não soava a tua palavra. desde a primeira palavra. e se corromperia e mudaria para pior. e as pequenas. ocupa um lugar maior. e uma mais pequena. e assim. era-me. em socorro da qual veio a tua palavra. tu serias violável e corruptível. [Evocação dos argumentos de Nebrídio contra os Maniqueus] VII. Mas não é assim. E deste modo. na proporção em que da felicidade se transformasse em miséria. pelo contrário. se respondessem que te poderia causar alguma coisa de mal. Se. se os Maniqueus dissessem que tu. livre. e todos os que o tínhamos ouvido ficámos impressionados: ‘Que te poderia fazer aquela espécie de gente das trevas que os Maniqueus costumam opor como massa adversa.

i i i i 20 Santo Agostinho bastava-me só isto contra aqueles que. senão com um horrível sacrilégio do coração e da língua. e não apenas as nossas almas e os nossos corpos. Deus verdadeiro. não tinha por explicada e esclarecida a causa do mal. via que era preciso procurá-la de modo a que. que criaste não só as nossas almas. Na verdade. ou que eu próprio me convertesse naquilo que eu procurava. quando queria ou não queria alguma coisa. porém. de todo o modo. causa do pecado] VII. E assim. afundava-me de novo. também ainda. mas também os nossos corpos. embora dissesse e acreditasse firmemente que és incontaminável e inalterável e sob nenhum aspecto mutável. Fosse ela qual fosse. em virtude da qual eram de opinião que é mais a tua substância que está sujeita a sofrer o mal. i i i i . 7 8 Eclesiastes 9:3. não tinham por onde escapar. cada vez mais. E esforçava-me por compreender o que ouvia: que o livre arbítrio da vontade é a causa de praticarmos o mal e o teu recto juízo8 a de o sofrermos. Mas. [O livre arbítrio. mas não conseguia compreender essa causa com clareza. tinha absoluta certeza de que quem queria ou não queria não era outro senão eu. sentindo e dizendo estas coisas acerca de ti. tentando arrancar do abismo o olhar do meu espírito. era preciso expulsar como um peso de dentro do peito. mas também todos nós e todas as coisas. Salmo 118:137. e muitas vezes tentava e me afundava uma e outra vez. III. nosso Deus. 4. porque os via. 5. do que a deles a fazê-lo. procurando donde provinha o mal. procurava-a em segurança e certo de que não era verdade o que diziam aqueles que eu evitava com toda a minha alma. graças a ela. Romanos 1:29. Por isso. não fosse obrigado a acreditar que é mutável o Deus imutável. tu. cheios de maldade7 . porque. elevava-me para a tua luz o facto tanto de saber que tinha uma vontade como o de saber que vivia. E assim. E via.

E aquilo que fazia contra vontade via que era mais padecer do que fazer. podia já. ali onde eu via que o incorruptível deve ser preferido ao corruptível. É que nenhuma alma alguma vez pôde ou poderá conceber alguma coisa que seja melhor do que tu. o que quer que fosses. Sendo então absolutamente verdadeiro e certo que o incorruptível se deve antepor ao corruptível. [Deus tem de ser incorruptível] VII. pois. esforçava-me por descobrir as restantes coisas. Mas de novo dizia: ‘Quem me fez? Porventura não foi o meu Deus. por isso. 9 10 Hebreus 12:15. de anjo bom se tornou diabo. proclamava que tu.i i i i Confissões. onde ninguém te confessa10 . tinha sido criado por um criador sumamente bom?’ De novo me deixava abater e sufocar com estes pensamentos. também a ele. aí te devia eu procurar e daí aperceber-me onde está o mal. tal como eu já fazia. tal como já tinha descoberto que é melhor o incorruptível do que o corruptível. com o pensamento. donde veio o mesmo diabo? Mas se também ele. donde tem origem a própria corrupção. que é não apenas bom. mas o próprio bem? Donde me vem então o querer o mal e o não querer o bem? Será para haver um motivo para que eu seja castigado justamente? Quem colocou isto em mim. mas não me deixava arrastar até àquele inferno do erro. era castigado não injustamente. VII 21 que aí estava a causa do meu pecado. 6. i i i i . que és o supremo e o melhor bem. donde lhe veio. pelo qual. e. e plantou em mim este viveiro de amargura9 . IV. como eu logo confessava. mas castigo. quando se julga que és tu a padecer o mal. se tu não fosses incorruptível. isto é. Por isso. és incorruptível. na sua totalidade. por uma vontade perversa. considerandote justo. e julgava que isso não era culpa. embora todo eu tenha sido feito por um Deus tão doce? Se o autor é o diabo. Salmo 6:6. pela qual a tua substância de modo algum pode ser violada. quando o anjo. a má vontade pela qual se tornaria diabo. atingir alguma coisa que fosse melhor do que o meu Deus. e não o homem que o pratica. Assim.

e procurava mal. quer os que efectivamente eram corpos. Seria. através da imensidão. que conheces todas as coisas? Nenhuma natureza existe senão porque a conheces. que é Deus. a corrupção viola o nosso Deus. sem dúvida. quer os que eu próprio tinha imaginado como espíritos. mas ainda os mesmos enquanto corpos ordenados cada um em seu lugar. sem dúvida finita por todos os lados. rodeando-a e penetrando-a por todas as partes. mas no entanto finita. V. e o ar. E para que é que dizemos tantas coisas para explicar porque é que não é corruptível a substância. na minha própria indagação. 7. E punha em presença do meu espírito11 toda a criação. nem por um acaso imprevisto. nem por necessidade alguma. tudo quanto nela podemos ver claramente. e concebi-a imensa. mas infinito em todas as direcções. E que coisa pode ser imprevista para ti. ser corrompido não é um bem. e os seres mortais. como sejam a terra. no entanto. e essa esponja estivesse inteiramente cheia. e ele tivesse dentro de si uma esponja tão grande quanto se possa imaginar. por todas as partes. e as árvores. porque não o podia saber. por todas as partes. a vontade e o poder de Deus são o próprio Deus. não tão grande como era. desse imenso mar: assim eu julgava a tua criação finita.i i i i 22 Santo Agostinho De nenhum modo. se tu próprio fosses maior que tu próprio. porque ele próprio é Deus e é bom aquilo que deseja para si. maior. não seria Deus? [De novo a origem do mal e as suas raízes] VII. e as estrelas. quando. 11 Salmo 15:8. Senhor. e o mar. e. de acordo com a minha imaginação. porque a tua vontade não é maior do que o teu poder. nem por vontade alguma. se o fosse. e um único mar infinito. e todos os anjos e todos os seres espirituais dele. ora. com efeito. e concebia-te. Nem podes ser obrigado ao que quer que seja contra vontade. e ele próprio é o mesmo bem. não via o mal. e tudo quanto nela não vemos. como o firmamento do céu por cima de nós. i i i i . tal como se houvesse um mar em toda a parte. mas como me aprouve. E procurava a origem do mal. e fiz dessa tua criação uma massa imensa dividida por géneros de corpos.

E.i i i i Confissões. se o tememos sem fundamento. e que só ele próprio fosse o inteiramente verdadeiro. e dizia: ‘Eis aqui Deus e eis as coisas que Deus criou. que tememos. que és infinito. e tememos. porque a deixou ser assim durante tanto tempo. se não era bem que não fosse fabricada alguma coisa boa e a criasse ele. e intensíssima e imensissimamente superior a elas. durante os infinitos espaços anteriores do tempo. se era eterna. sendo bom. com a mesma omnipotência. e formou-a. e ordenou-a. Donde vem então o mal? Será que. tinha poder para transformá-la e mudá-la na totalidade. sendo omnipotente. podia preferir fazer com que ela não existisse. e tanto tempo depois lhe pareceu bem fazer alguma coisa a partir dela? Ou então. Mas então onde está o mal e donde e por onde aqui se insinuou? Qual a sua raiz e qual a sua semente? Ou é absolutamente inexistente? Então. e supremo. ou existe o mal. mas. fez todas estas coisas boas12 . i i i i . ou este mal existe. todavia. com que ela não existisse em absoluto? Ou. a não ser sendo ajudado por aquela matéria que ele próprio não tinha criado’. na verdade. mas. mas deixou nela qualquer coisa que não teria transformado em bem? E porquê isto? Será que. no entanto. e é um mal tanto mais grave quanto não temos que temer. de modo a que nada de mal restasse? Finalmente. Por isso. porque o tememos. sendo bom. será que ela podia existir contra a vontade dele? Ou. uma vez que Deus. e é um Deus bom. porque tememos e evitamos o que não existe? Ou. porque é que quis fazer dela alguma coisa e não preferiu fazer. e perfeito. se de repente quis fazer alguma coisa. tanto o Criador é bom como são boas todas as coisas criadas. donde vem então o mal? Na verdade. por certo já o próprio temor é um mal. se não pudesse criar alguma coisa de bom. o maior e supremo bem fez boas as coisas mais pequenas. criou as coisas boas: e eis como as rodeia e enche. suprimindo e reduzindo a nada a matéria que era má. que em vão atormenta e tortura o coração. que era bom. podia ele próprio criar uma matéria boa donde criasse todas as coisas? Pois não seria omnipotente. naquilo donde as fez. embora sendo omnipotente. havia alguma matéria má. Tais coisas revolvia no meu 12 Génesis 1:31. e infinito bem? Ou. VII 23 cheia de ti.

mas. consultor curioso. mas que as conjecturas dos homens têm muitas vezes a força do acaso e que. sem que os que as diziam soubessem. mas acertando nelas. educado nas artes liberais e cultivado na eloquência. 15. um jovem de alma admirável. com que me opus a Vindiciano. do mais íntimo da minha alma.i i i i 24 Santo Agostinho pobre coração. de nome Firmino. ainda informe e indecisa. 21. como disse. aquele que afirmava com veemência. de facto. Salmo 106:8. me tivesse consultado. a fé no teu Cristo. i i i i . no entanto. frequentemente. Como este homem. a ti confesse. e a Nebrídio. 8. um ancião arguto. em muitos aspectos. que não existe a arte de prever o futuro. motivadas pelo temor da morte e pela verdade não encontrada. na verdade. todavia. se diziam algumas que haviam de acontecer. no seio da Igreja católica. mas. Também sob esse aspecto. absolutamente tu – pois quem mais nos liberta da morte de todo o erro senão a vida que não conhece a morte. e a sabedoria. um diligente consultor dos astrólogos. que ilumina as mentes necessitadas. ignorando até que ponto isso podia destruir a teoria daquela arte. por não se calarem – tu proporcionaste-me um amigo. a minha alma não a abandonava. 31. VI. com alguma dúvida mas. fora da norma da doutrina. sabedoria pela qual o mundo é governado até às folhas das árvores levadas pelo vento? – tu acudiste à minha obstinação. acerca de uns assuntos seus. [Rejeição das previsões dos astrólogos] VII. todavia. firmemente se fixava no meu coração. este dizendo. sobre o que me 13 14 2 Pedro 2:20. como a um amigo caríssimo. pelas tuas misericórdias14 ! Tu. Também já tinha rejeitado as adivinhações enganadoras e os ímpios delírios dos astrólogos. não muito versado nestes estudos. pelo contrário em cada dia mais e mais dela se impregnava. e todavia sabia uma coisa que dizia ter ouvido a seu pai. em relação aos quais a sua esperança terrena tinha crescido. meu Deus. dizendo muitas coisas. não necessitando ela de nenhuma luz. Senhor e nosso Salvador13 . sobrecarregado de preocupações que me dilaceravam.

para o escravozinho. as mesmas constelações. embora hesitante. entre os seus. mal nascesse uma criança. a ponto de observarem até os momentos do nascimento dos animais que não falam. e assim aconteceu que. dizia ter ouvido a seu pai que. os partos até das suas cadelas. numa casa sumptuosa. espertavam o fogo do seu coração para essas ninharias. os da escrava. mas como eu. faziam com que facilmente as notícias fossem comunicadas de imediato. até ao mais ínfimo pormenor. E. seguia pelos caminhos mais resplandecentes do século. E todavia Firmino. tendo contado. um. ambos comunicavam um ao outro o que acontecia em casa de cada um. VII 25 parecia segundo aquilo que chamam ‘as suas constelações’. apesar disso. contava que aqueles que tinham sido enviados por cada um deles se tinham encontrado a distâncias iguais das respectivas casas. enquanto i i i i . acrescentando.i i i i Confissões. a ponto de nenhum deles poder registar uma posição diferente dos astros e diferentes fracções de tempo. para ambas as crianças nascidas. Eles. se alguns pariam em casa. que. com a mais escrupulosa observação. logo fosse anunciado ao outro: como se estivessem no seu próprio reino. e prepararam mensageiros para enviarem um ao outro. e de notarem a posição do céu relativamente a tais coisas. assim. com a mais criteriosa diligência. E. também a uma certa criada daquele amigo de seu pai lhe ia crescendo a barriga. sobre este assunto. com igual empenho e perspectiva. um. ele contou-me então que seu pai fora interessadíssimo em tais livros e que tivera um amigo que seguia igualmente e com ele tais coisas. os da esposa. de tal modo que. estando a mãe de Firmino grávida dele mesmo. de tal modo que foram obrigados a traçar. o outro. e era cumulado de riquezas e enaltecido de honras. o outro. donde pudessem recolher dados daquela espécie de arte. assim. não me recussasse de facto a conjecturar e a dizer o que se me oferecia. ambas deram à luz ao mesmo tempo. Tendo as mulheres entrado em trabalho de parto. já começava a inclinar-me para a opinião de Nebrídio. E tal facto não pôde passar despercebido ao amo. que procurava conhecer. para o filho. os dias e as horas e as mais pequenas divisões das horas. que estava já quase persuadido de que aquelas coisas eram ridículas e vãs. nascido.

diria mentiras. Daí resultava que. E daí. e que as que se dizem falsas não o são por imperícia da arte. mas. ou Firmino a mim. observadas as constelações. lhe tinha contado mentiras. observando os mesmos mapas. Daí deduzi sem qualquer dúvida que as coisas que. E não serão verdadeiras porque. 10. se dizem verdadeiras.i i i i 26 Santo Agostinho o servo. dos quais muitos saem do ventre de tal modo um a seguir ao outro que esse pequeno intervalo de tempo. se dissesse verdades. observando eu as mesmas coisas. que o seu nascimento fora livre. diria coisas diversas. observadas as suas constelações. ver nelas que os seus pais eram os primeiros entre os seus pares. e todas as restantes coisas tão diferentes e muito diversas das anteriores. nelas ver que a sua família era humílima. nas artes liberais. que era uma nobre família da sua cidade. que a sua educação fora esmerada. dizendolhe que. me pudesse objectar argumentando que. servia seus amos. servil. mas por engano do acaso. não são ditas mercê da arte. tomando isto como um começo. pelo contrário. não pode todavia ser percebido pela observação humana e é absolutamente impossível registá-lo nos mapas astrais. de nenhuma maneira aliviado do jugo da sua condição. sem qualquer dúvida. ou o pai dele a ele. se dissesse as mesmas coisas. para que dissesse a verdade deveria eu. ele deveria dizer as i i i i . para que nenhum daqueles mesmos tresloucados que procuram tal lucro. que o astrólogo há-de observar para que revele coisas verdadeiras. eu deveria. e comecei por tentar dissuadir o próprio Firmino daquela curiosidade. pôr a ridículo e refutar. E assim. eu próprio fixei a minha reflexão naqueles que nascem gémeos. mas do acaso. e ruminando comigo mesmo estas coisas. mas se aquele servo me tivesse consultado sobre as mesmas constelações – pois elas também eram as dele – para que também a ele dissesse a verdade. 9. conforme relatava ele próprio. a sua condição. os quais eu cada vez mais desejava atacar. por grande que seja a força que sustentam haver na natureza das coisas. tendo ouvido e acreditado nestas coisas – atendendo a quem as narrava – toda aquela minha relutância caiu desfeita. que o conhecia.

E assim. mas do acaso. Êxodo 13:14. silenciosa a contrição da minha alma. grandes eram os clamores à tua misericórdia. 18:15. 16:15. procurava. não diria coisas verdadeiras mercê da arte. [Atormentado pela dúvida sobre a origem do mal] VII. ages por desígnio secreto. nosso Senhor. e fortalecidas firmemente no meu espírito. ouça aquilo que lhe convém ouvir. Portanto. Salmo 17:3. quando cada um consulta. e procurava ainda a origem do mal. para o qual não eram suficientes nem o tempo nem a minha boca? Contudo. ninguém. que gemidos. ia ao 15 16 17 Salmo 35:7. que cuidas dos homens e os julgas. inflamado. intensamente te procurava. Que tormentos aqueles os do meu coração. não diria as mesmas coisas: mas observaria as mesmas coisas.i i i i Confissões. Logo. VII. não o diga. segundo o abismo do teu justo juízo15 . E como. mas não sucederam as mesmas coisas a ambos. ou. VII 27 mesmas coisas acerca de Esaú e Jacob. meu Deus! E aí estavam os teus ouvidos. A esse juízo não diga o homem: Que é isto?16 Porquê isto? Não o diga. 58:18. fosse arrancado à fé. i i i i . justíssimo moderador do universo. Deste modo. que a autoridade da tua Igreja católica reconhece. 11. em função dos méritos secretos das almas. em dores de parto. postas a salvo estas coisas. se dissesse a verdade. sem o conhecerem os que consultam e os que são consultados. teu Filho. meu auxílio17 . tu colocaste o caminho da salvação humana. que a tua substância é imutável. o astrólogo teria dito mentiras. Tu. Tu sabias o que eu padecia. Eclesiástico 39:26. Senhor. e de entre os homens. e que em Cristo. por nenhum turbilhão do pensamento. já me tinhas libertado daquelas cadeias. sem eu saber. de modo que. Mas não me permitias que. graças à qual eu acreditava que tu existes. donde provém o mal. e nas Santas Escrituras. em silêncio. em direcção àquela vida que depois desta morte há-de vir. e não havia saída. Pois que importantes eram as coisas que a minha língua transmitia aos ouvidos dos que me eram mais íntimos! Porventura percutia neles todo o tumulto da minha alma. porque é homem.

[O socorro da misericórdia divina] VII. Génesis 1:26-27. e diante de ti estava o meu desejo. servindo-te. Salmo 84:6. na gorda cerviz do meu escudo21 . e separava-me de ti o meu tumor. i i i i . porque te compadeces 18 19 20 21 22 23 24 Salmo 37:9-11. porque humilhaste o soberbo tal como um ferido22 . e tu a verdadeira alegria para mim. E isto era a justa medida e a região intermédia da minha salvação: que eu permanecesse semelhante à tua imagem20 e que. quando eu voltava. tumultuosamente. Senhor.i i i i 28 Santo Agostinho encontro do teu ouvido tudo o que rugia por causa do gemido do meu coração. dominasse o meu corpo. Pois eu era superior a essas coisas. Estava dentro de mim. mas inferior a ti. Salmo 88:11. Salmo 101:13. E eu fixava-me naquelas coisas que estão contidas em lugares. enquanto eu via e pensava. permaneces para sempre23 e não te deixas para sempre levar pela ira contra nós24 . mas eu fora. e em nenhum lugar havia repouso e alívio. de todos os lados. 12. nem essas coisas me acolhiam de forma a que eu pudesse dizer: ‘Basta’ e ‘Está bem’. e ela não estava em um lugar. me erguesse contra ti e corresse contra o Senhor. e a luz dos meus olhos não estava comigo18 . Mas como. Elas próprias atacavam-me. Génesis 1:28. que me submetia a ti. como se me fosse dito: ‘Para onde vais. Tu. e tu tinhas submetido a mim aquelas coisas que criaste abaixo de mim19 . ser indigno e abjecto?’ Mas estas coisas tinham crescido da minha ferida. e o rosto demasiado inchado cerrava-me os olhos. nem me deixavam voltar quando para mim estivesse bastante bem. Job 15:26. em massa. também essas coisas abaixo de mim se puseram acima de mim. orgulhosamente. e não encontrava aí lugar para descansar. e esmagavam-me. porém. VIII. mas as próprias imagens dos corpos opunham-se-me.

o que foi feito é Eclesiástico 17:31. porque o teu Verbo se fez carne e habitou entre os homens30 . 13. sendo aqui seguido por Porfírio e Jâmblico. henótica. no conjunto. Em Atenas. conversiva. contra a traição dualista e céptica dos Académicos a Platão. E o meu tumor decrescia graças à mão oculta da tua medicina. na linha de uma filosofia não-materialista. que. primeiramente. tu para mim fosses uma certeza. nos finais do séc. e com quanta misericórdia tua foi indicado aos homens o caminho da humildade. Salmo 18:15. mas com muitas e variadas razões. 27 Vergílio. IX. corrente filosófica que começou a ter expressão escolar. e a vista conturbada e obscurecida da minha mente de dia para dia28 ia sarando. religiosa. 28 Salmo 60:9. não exactamente nestas palavras. 30 João 1:14. que. [O neoplatonismo e as Escrituras: concepções sobre a divindade e a encarnação do Verbo] VII. 31 Agostinho refere-se ao Neoplatonismo. uns certos livros dos Platónicos31 traduzidos da língua grega para a latina. 26 25 i i i i . pretendia restaurar o pensamento platónico supostamente originário. princípios do séc. em Roma.i i i i Confissões. dás a tua graça aos humildes29 . proporcionaste-me. e aí li. 95:2. Eneida XI 337. através da visão interior. para que estivesse inquieto. IV (Amónio Sacas). mercê do penetrante colírio das dores salutares. no princípio. 29 Provérbios 3. e sem ele nada foi feito. E. Tiago 4:6. todas as coisas foram feitas por ele. 2 Coríntios 4:16. foi um dos seus mais eminentes representantes (Enéades). em Alexandria. Isaías 58:2. por intermédio de um certo homem inchado de enormíssimo orgulho. E impelias-me com os teus aguilhões interiores27 . querendo mostrar-me quanto resistes aos soberbos e. III. junto de Deus. discípulo de Amónio juntamente com Orígenes. Daniel 3:40. Longino e Proclo foram os seus maiores representantes. se argumentava isto mesmo: no princípio era o Verbo e o Verbo estava junto de Deus e Deus era o Verbo: este estava. procurando reconduzir tudo à transcendência do Uno. Plotino. Eclesiástico 5:8. pelo contrário. VII 29 do pó e da cinza25 . soteriológica. e aprouve-te corrigir as minhas deformidades na tua presença26 . 1 Pedro 5:5. até que.34.

Filipenses 2:9-11. e que a todos quantos o receberam deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.i i i i 30 Santo Agostinho vida nele. João 1:16. mas que o Verbo se fez carne e habitou em nós37 . Filipenses 2:7-9. e as trevas não a dominaram32 . a eles que crêem no seu nome35 . permanece imutavelmente teu Filho unigénito. Deus. todavia ela própria não é a luz. João 1:11-12. mas que se aniquilou a si mesmo tomando a forma de escravo. é que é a luz verdadeira. isso não o li eu aí. ao nome de Jesus. e toda a língua confesse que o Senhor Jesus está na glória de Deus Pai40 : isso não o dizem aqueles livros. terrestres e infernais. nem da vontade do homem. que o Filho. Deus. não nasceu da carne. por natureza. i i i i . que está acima de todo o nome. João 1:13. Mas que. Aí li. realmente. João 1:14. Filipenses 2:6. co-eterno contigo. se dobre todo o joelho dos seres celestes. Indaguei. naqueles textos. na forma do Pai. nem do sangue. dito de várias maneiras e de muitos modos. e que a alma humana. e que estava neste mundo. nem da vontade da carne. sim. é isso mesmo. e que da sua plenitude recebem41 as 32 33 34 35 36 37 38 39 40 41 João 1:1-5. embora dê testemunho da luz. e a luz brilha nas trevas. que ilumina todo o homem que vem a este mundo33 . João 1:8-9. 14. que o Verbo. e morte na cruz: por isso Deus o exaltou39 dos mortos e deu-lhe um nome. para que. João 1:10. mas sim de Deus36 . porque. humilhou-se. não considerou rapina ser igual a Deus38 . não o li eu aí. feito à semelhança dos homens e tido como homem pela aparência. e a vida era a luz dos homens. antes de todos os tempos e acima de todos os tempos. e o mundo foi feito por ele. e o mundo não o reconheceu34 . Mas que veio para o que era seu e os seus não o receberam. mas o Verbo. fazendo-se obediente até à morte.

no tempo previsto. Mateus 11:28-29.i i i i Confissões. dos quadrúpedes e das serpentes51 . dizendo que são sábios. Génesis 25:33-34. Salmo 24:9. ensoberbecidos. levantados no coturno como que de uma doutrina mais sublime. e que. embora conheçam Deus. i i i i . Romanos 5:6. Salmo 24:18. e dirigirá os mansos na justiça. das aves. vendo a nossa humildade e o nosso sofrimento e perdoando-nos todos os nossos pecados48 . em teu lugar. morreu pelos ímpios43 e que não poupaste o teu único Filho. insensato. mas tornam-se vãos nos seus pensamentos. Mas aqueles que. lia também aí que a glória da tua incorrupção foi mudada em ídolos e em várias imagens. não o glorificam como Deus ou lhe dão graças. porque sou manso e humilde de coração. VII. que permanece nela42 . Mateus 11:25. a cabeça de 42 43 44 45 46 47 48 49 50 51 52 Sabedoria 7:27. por causa da qual Esaú perdeu a sua primogenitura52 . 15. porque é manso e humilde de coração46 . para que viessem até ele os que sofrem e os que estão sobrecarregados. portanto. e o seu coração. são renovadas. E. ou seja. mas que. mas por nós todos o entregaste44 : isso não está lá. Porque tu escondeste estas coisas dos sábios e revelaste-as aos pequeninos45 . não o ouvem dizer: Aprendei de mim. porque o povo primogénito adorou. Romanos 1:23. e encontrareis repouso para as vossas almas49 . à imitação da imagem do homem corruptível. VII 31 almas o serem felizes. e ele os aliviasse. e ensinará aos pacíficos os seus caminhos47 . Romanos 1:21-22. para que sejam sábias: isso está lá. obscurece-se. tornaram-se estultos50 . pela participação da sabedoria. Romanos 8:32. Mateus 11:29. a comida egípcia.

E não fixei a atenção nos ídolos dos Egípcios. uma luz imutável. i i i i . e consegui. a sua alma55 . Actos 17:28. e curvando a tua imagem. pelo teu Apóstolo. outra coisa muito diferente de todas essas. [Progressão no entendimento das coisas divinas] VII. para o Egipto54 . diante da imagem de um bezerro que se alimenta de feno56 : isto encontrei eu aí e não comi. Actos 7:39. que em ti vivemos e nos movemos e somos. Entrei e vi com o olhar da minha alma. nem tão-pouco 53 54 55 56 57 58 59 60 61 62 63 Êxodo 32:1-6. E eu viera dos gentios para ti. acima do mesmo olhar da minha alma. Senhor. não esta vulgar e visível a toda a carne. Pois que te aprouve. segundo eles. Génesis 25:23. e daí vinham certamente aqueles livros. 11:2.i i i i 32 Santo Agostinho um quadrúpede53 . E disseste aos Atenienses. Salmo 56:7. voltando-se. para que o mais velho servisse ao mais novo58 . 16. entrei no mais íntimo de mim. e chamaste os gentios para a tua herança59 . seja ele qual for. admoestado a voltar daí para mim mesmo. Ela não era isto mas outra coisa. tal como uns certos disseram61 . Salmo 118:22. aos quais com o teu ouro serviam aqueles que transformaram a vontade de Deus em mentira e prestaram culto e serviram a criatura em detrimento do Criador62 . porque te fizeste meu auxílio63 . Salmo 29:11. guiado por ti. Romanos 9:12. Romanos 1:25. em seu coração. X. E. tirar de Jacob o opróbrio57 da sujeição. Salmo 105:20. acima da minha mente. onde quer que estivesse. como se ela brilhasse muito e muito mais claramente e ocupasse tudo com a sua grandeza. porque era teu. Êxodo 3:22. Salmo 78:1. e fixei a atenção no ouro que quiseste que o teu povo trouxesse do Egipto60 . nem era uma maior como que do mesmo género.

Lucas 15:13. numa região de dissemelhança67 . por ti suspiro dia e noite65 . Jeremias 31:15. tal como se ouve no coração. e disse: ‘Porventura nada é verdade. nem em absoluto não são: na verdade. para que visse que existe aquilo que via e que eu não era ainda de molde a poder ver. XI. brilhando intensamente sobre mim. por64 65 66 67 68 69 70 71 72 Salmo 42:2. i i i i . 20. porque feito por ela. e eu inferior. porque ela própria me fez.i i i i Confissões. mas era superior a mim. são. eterna verdade e verdadeiro amor e amorosa eternidade! Tu és o meu Deus64 . VII 33 estava acima da minha mente como o azeite sobre a água. Tu não me mudarás em ti. E ouvi. eu sou o que sou71 . mas tu serás mudado em mim. e mais facilmente duvidaria de que vivo do que da existência da verdade. Salmo 1:2. E quando te conheci pela primeira vez. já que ela não está difundida pelos espaços dos lugares. como o alimento da tua carne. Salmo 38:12. Salmo 26:10. E observei as restantes coisas abaixo de ti e vi que nem em absoluto são. O amor conhece-a. 17. a qual se apreende e entende nas coisas que foram criadas72 . como se ouvisse a tua voz vinda do alto68 : ‘Eu sou o alimento dos adultos: cresce e comer-me-ás. Quem conhece a verdade. Romanos 1:20. e já não havia absolutamente nenhuma razão para duvidar. tu pegaste em mim66 . conhece-a. Lucas 15:13. conhece a eternidade. Êxodo 3:14. Oh. nem finitos nem infinitos?’ E tu clamaste de longe70 : Pelo contrário. Jeremias 9:1.’ E reconheci que por causa da iniquidade corrigiste o homem e fizeste consumir-se a minha alma como uma aranha69 . nem como o céu sobre a terra. E deslumbrastre a fraqueza do meu olhar. e quem a conhece. e estremeci de amor e horror: e descobri que eu estava longe de ti. [De como as criaturas são e não são] VII.

nem se não fossem bens. não causaria dano. é bom] VII. porque. se não fosse boa. 73 74 75 Salmo 72:28. enquanto são. [Tudo o que é. que. Mas ele. não é substância. renova todas as coisas74 . porque cada uma delas. e tu és o meu Deus. que se corrompem. e aquele mal. individualmente. não haveria o que neles pudesse ser corrompido. não existirão em absoluto: pois. E assim vi e me foi mostrado que tu fizeste todas as coisas boas e que não existem absolutamente nenhumas substâncias que tu não tenhas feito. serão melhores. cuja origem eu procurava. a corrupção causa dano e. todas as coisas que são. se existirem e já não puderem ser corrompidas. seriam incorruptíveis. porque não fizeste todas as coisas iguais. mas não são. porque. seria um bem. Portanto. Porque existe verdadeiramente aquilo que permanece imutavelmente. não se poderia corromper. ou. ou a corrupção não causa dano. nem se fossem bens supremos. de toda a maneira um grande bem. Mas para mim é bom estar unido a Deus73 . são boas. porque permanecerão incorruptivelmente. são boas. mas. Sabedoria 7:27. porque não precisas dos meus bens75 . E foi-me mostrado que são boas as coisas que se corrompem. se não diminuísse o bem. i i i i . por isso todas elas são. se não fossem bens. Na verdade. permanecendo em si mesmo. porque. Salmo 15:2. por perderem todo o bem? Logo. se forem privadas de todo o bem. se fosse substância. são privadas do bem. Mas. E. não existirão em absoluto. Logo. porque não são aquilo que tu és. E que há de mais aberrante do que dizer que aquelas coisas se tornaram melhores. o que não é possível. 18. se não permanecer nele. nem em mim poderei permanecer. todas as coisas. Com efeito. XII. se forem privadas de todo o bem. ou seria substância corruptível. as quais não poderiam corromper-se. o que é certíssimo.i i i i 34 Santo Agostinho que procedem de ti. ou seria substância incorruptível. E. se fossem bens supremos.

E. porque te mostram digno de louvor. porque não existe nada fora de ti que irrompa e corrompa a ordem que lhe impuseste. os príncipes e todos os juízes da terra. que lhe é adequado. a neve. ó nosso Deus. melhores que as superiores. todas as tuas virtudes. VII 35 é boa. em conjunto. as árvores de fruto e todos os cedros. considerava as coisas superiores como melhores que as inferiores. nas suas partes. porque não estão em conformidade. i i i i . em conjunto. todas as estrelas e a luz. ainda que as contemplasse apenas a elas. e os céus dos céus e as águas. não apenas para ti. Eclesiástico 39:21. mas também já só por estas coisas te deveria louvar. o gelo. o fogo. Mas. os animais selvagens e todos os rebanhos. XIII. todos os teus anjos. com uma apreciação mais correcta. os anciãos com os jovens louvam o teu nome77 . louvem-te. te louvam também dos céus. 76 77 78 Génesis 1:31. que estão acima dos céus. os reis da terra e todos os povos. Salmo 148:1-5. são muito boas. Longe de mim dizer: ‘Oxalá essas coisas não existissem’. Salmo 148:7-12. o sol e a lua. [Toda a criação é um louvor a Deus] VII. algumas coisas são consideradas más para outras coisas. para ti. as montanhas e todas as colinas. e boas em si mesmas. nas alturas. porque. a que chamamos terra. mas essas mesmas coisas estão em conformidade com outras e são boas. isoladamente. louvem o teu nome78 : eu já não desejava coisas melhores e. desejaria sem dúvida outras melhores. os répteis e as aves que têm penas. porque o nosso Deus fez todas as coisas muito boas76 . E todas as que não estão em conformidade entre si estão em conformidade com a parte inferior das coisas. que tem o seu céu enublado e ventoso. o mal não existe absolutamente. de facto. mas todas elas. 19. os dragões e todos os abismos.i i i i Confissões. na terra. que executam a tua palavra. porém. mas também não para toda a tua criação. o granizo. e todas elas. o sopro da tempestade. Como. os jovens e as donzelas.

voltando daí. tanto aqueles que passaram como aqueles que hão-de passar. E daí que tenha caído na teoria das duas substâncias. não começaste a operar depois dos inumeráveis espaços dos tempos. e todas as coisas são verdadeiras. mas porque. e tinha-o colocado no seu coração. e tinha julgado que esse eras tu. E observei as outras coisas e vi que te devem o facto de existirem. tu seguras todas as coisas na tua mão. mas de uma maneira diferente. i i i i . XV. E porque a minha alma não se atrevia a que lhe desagradasse o meu Deus. e fechaste os meus olhos para que não vissem a vaidade81 . não como num espaço. ela não queria que fosse teu tudo quanto lhe desagradava. 79 80 81 Salmo 37:4. e vi-te infinito de outra maneira. XIV. com a verdade. e a falsidade não é outra coisa senão quando se julga que existe o que não existe. ela tinha criado para si mesma um Deus pelos infinitos espaços de todos os lugares. e despertei em ti. e tinha-se tornado de novo templo do seu ídolo80 . templo digno de ser abominado por ti. tal como eu não estava ao desagradaremme muitas coisas que fizeste. e dizia coisas despropositadas. vi que todas as coisas finitas estão em ti. mas também com os tempos. e não tinha repouso. Mas depois que acariciaste a cabeça deste ignorante. 20. descansei um pouco de mim e a minha loucura adormeceu. E. Não estão no seu perfeito juízo79 aqueles a quem desagrada alguma coisa da tua criação. e que tu. 21. [Verdade e falsidade nas criaturas] VII. na medida em que existem. 8 2 Coríntios 6:16. que és o único eterno. e essa visão não era tirada da carne. E vi que cada uma delas está em conformidade não só com os seus lugares.i i i i 36 Santo Agostinho [Não há coisas más na criação] VII. Salmo 118:37. nem passariam nem viriam senão porque tu operas e permaneces.

e caía nestas coisas. Mas comigo estava a lembrança de ti. adequadas às partes inferiores da tua criação. E indaguei o que seria a iniquidade. torna a alma pesada. por experiência. desde a criação do mundo. e estava certíssimo de que as tuas coisas invisíveis. i i i i . às quais também os próprios iníquos são adequados. e porque estava eu pronto a emitir um juízo correcto 82 83 84 Eclesiástico 10:10. e não persistia em fruir do meu Deus. que é agradável para o paladar saudável. e logo a seguir era arrancado de ti. que é corruptível. que se desvia da suprema substância. quanto mais se tornam semelhantes a ti. mas. Romanos 1:20. para as coisas ínfimas. de ti. e não duvidava de forma alguma de que existe um ser a que me pudesse unir. bem como a virtude sempiterna e a tua divindade. mas eu ainda não estava capaz de me unir. quer celestes. e muito mais a víbora e o verme. 22. XVI. Sabedoria 9:15. pelo meu peso. XVII. Procurando por que motivo aprovava eu a beleza dos corpos. [Obstáculos ao conhecimento das coisas divinas] VII. não a um fantasma em vez de ti. VII 37 [O bom e o apto] VII. 23.i i i i Confissões. pela tua beleza. e a morada terrena oprime a mente que pensa muitas coisas83 . quanto mais dissemelhantes são de ti. por meio das coisas que foram criadas84 . que és Deus. E admirava-me por já te amar a ti. e esse peso era o hábito carnal. para os olhos doentes. gemendo. são adequados às partes superiores. ao paladar não saudável. e que lança de si o que tem no seu íntimo82 e entumesce por fora. porque o corpo. e que. seja causa de sofrimento até o pão. quer terrestres. se contemplam e compreendem. que tu criaste como coisas boas. seja odiosa a luz. por outro lado. que é aprazível para os olhos sãos. que não é para admirar que. mas sim a perversidade de uma vontade. E a tua justiça desagrada aos iníquos. e não encontrei que fosse uma substância. mas era arrebatado para ti. E soube.

o qual me chamava e dizia: Eu sou o caminho. aquilo não deve ser assim. tinha descoberto a imutável e verdadeira eternidade da verdade. num relance de vista trepidante86 . a verdade e a vida90 . o homem Cristo Jesus88 . Romanos 9:5. E procurava o caminho para adquirir força que fosse conveniente para eu fruir de ti. e daqui passando de novo à capacidade raciocinante. 1 Timóteo 2:5. gradualmente. o motivo pelo qual conhecia o próprio imutável – porque. elevou-se até à sua inteligência e desviou o pensamento do hábito85 . para que descobrisse com que luz era aspergida quando clamava. à qual o sentir do corpo anuncia as coisas exteriores.i i i i 38 Santo Agostinho a respeito das coisas mutáveis e a dizer: Isto deve ser assim. E assim. Tusculanas I 38. acima de todas as coisas. descobrindo-se também mutável em mim. tanto quanto é possível aos animais irracionais. desde os corpos até à alma. a qual. e não encontrava. Então. e o ali85 86 87 88 89 90 Cícero. e da alma até à sua força interior. enquanto não abraçasse o mediador de Deus e dos homens. João 14:6. o motivo por que julgava. não levava comigo senão uma lembrança que ama. [Só Cristo é o caminho da salvação] VII. à qual compete julgar o que é apreendido pelos sentidos do corpo. XVIII. Romanos 1:20. mas não consegui fixar o olhar e. acima da minha mente mutável. entregue uma vez mais aos meus hábitos. se não o conhecesse de algum modo. sem nenhuma hesitação. de nenhum modo o anteporia. quando assim julgava. e como que desejosa de alimentos bem cheirosos que ainda não podia comer. que é. ao mutável – e chegou àquilo que é. Deus bendito por todos os séculos89 . i i i i . porém. com certeza absoluta. subtraindo-se às multidões antagónicas dos fantasmas. pois. 24. que sente através do corpo. repelido de novo pela minha fraqueza. buscando. 1 Coríntios 15:52. que o imutável deve antepor-se ao mutável. contemplei e compreendi as tuas coisas invisíveis por meio daquelas coisas que foram feitas87 .

Mas eu pensava outra coisa e somente sentia acerca do meu Senhor Cristo o que se sente acerca de um homem de extraordinária sabedoria. enquanto. diante dos seus pés. débil. para que não se afastassem para mais longe. nascido maravilhosamente da Virgem. que eu era incapaz de tomar. i i i i . foram escritas e transmitidas. Génesis 3:21. XIX. para que a tua sabedoria. curando o tumor e alimentando o amor. alegrou-se. verdade eterna. VII 39 mento. O teu Verbo. erguendo-se. Eu. me parecia ter merecido. por meio da qual derrubaria de si mesmos aqueles que haviam de ser submetidos e levaria até si. amamentasse a nossa infância. nas partes inferiores. Apenas sabia. e ela. conversou. que aquela carne não se uniu ao teu Verbo senão com a alma e a mente 91 92 93 94 95 96 João 1:14. vendo. e.i i i i Confissões. acerca dele. cansados. João 1:14. mas que antes se tornassem fracos. sobretudo porque. dormiu. a partir das coisas que. Mas o que tinha de mistério a expressão E o Verbo se fez carne96 não o podia sequer suspeitar. Provérbios 9:1. uma casa94 humilde. por meio da qual fizeste todas as coisas92 . se prostrassem diante dela. humilde. por causa da confiança em si mesmos. [Erro e verdade sobre o Verbo incarnado] VII. a quem ninguém se pode igualar. dominando as partes superiores da tua criação. uma tão grande autoridade de magistério. por divina providência para connosco. levanta até si mesma os que se lhe submetem. Génesis 2:7. não tinha por meu Deus o humilde Jesus. 25. em virtude da participação da nossa túnica de pele95 . entristeceu-se. misturado à carne. andou. nem sabia de que coisa podia ser mestra a sua fraqueza. que comeu e bebeu. construiu para si. os levantasse. a divindade. Colossenses 1:16. por outro lado. com o nosso barro93 . porque o Verbo se fez carne91 . para exemplo do desprezo das coisas temporais por causa da conquista da imortalidade.

seja não o ser. rejubilou com a fé católica e juntou-se a ela. pensava que os católicos crêem que Deus está revestido de carne. eleito bispo de Smirmium (Panónia) em 343-344. 98 João 1:14. Se estas coisas escritas acerca dele fossem falsas. que eu já conhecia. e naqueles textos não restaria nenhuma salvação pela fé para o género humano. confesso que aprendi um pouco mais tarde como é que. não pela essência da verdade. Mas. seja ser atingido por algum afecto. não podiam ter acontecido sem uma criatura dotada de vida e de razão. Eu. Porque a refutação dos hereges faz sobressair o que a tua Igreja pensa e o Segundo as palavras de Agostinho (Enarrationes in psalmos 2: 29. seja proferir. também todas as coisas estariam comprometidas pela mentira. seja estar em silêncio. não apenas corpo de homem ou um espírito com corpo sem mente. na Galácia. seja mover os membros do corpo. foram deixadas aos vindouros. reconhecendo que este é um erro dos heréticos apolinaristas97 . 2-3).i i i i 40 Santo Agostinho humana. a carne. reconhecia. porque são verdadeiras as coisas escritas. um homem completo. seja não os mover. na medida em que podia. tinha apenas o corpo. e considerava que nele não se podia falar de alma e mente humanas. 99 Fotino. Efectivamente. mas considerava que o próprio homem. Sabe isto todo aquele que conhece a imutabilidade do teu Verbo. de tal modo que não havia em Cristo senão Deus e a carne. mas por uma grande excelência da natureza humana e por uma participação mais perfeita da sabedoria. Negava a divindade e a eternidade de Cristo e afirmava que a sua sublimidade moral podia ser alcançada por outros homens. a heresia dos Apolinaristas consistia em afirmar que o Verbo de Deus desempenhava em Cristo as funções da alma humana e que este. por acção da vontade. devia ser colocado à frente de todos os outros. E porque tinha como absolutamente certo que aquelas coisas que. são coisas próprias da mutabilidade da alma e da mente. Mas depois. porém. do homem. a verdade católica diverge da falsidade de Fotino99 . em Cristo. era originário de Ancira. por meio de signos. O 97 i i i i . n. sábias opiniões. e disso não duvidava absolutamente nada. Alípio. no facto de o Verbo ter incarnado98 . acerca dele. onde seguira Marcelo. por meu lado. mais devagar se movia em direcção à fé cristã.

101 1 Coríntios 11:19. e. Onde estava. e depois de por eles ter sido levado a procurar a verdade incorpórea. se não procurasse o teu caminho105 em Cristo. Conversava muito. 26. vi e compreendi as tuas coisas invisíveis por meio daquelas que foram feitas102 . o Apóstata. antes de meditar sobre as tuas Escrituras. repelido. que edifica107 a partir do alicerce da humildade. e. por nenhuma parte e nenhum movimento. 102 Romanos 1:20. 108 1 Coríntios 3:11. que é Jesus Cristo108 ? Ou quando é que aqueles livros ma ensinariam? Creio que tu quiseste que eu deparasse com eles. 104 Romanos 11:36. és outro ou de outro modo. certo de que tu és e és infinito. Na verdade. 103 Salmo 101:28. a fim de que ficasse gravado na imperador Juliano. Hebreus 1:12. não seria perito mas pereceria. por esta única solidíssima prova: serem. que és sempre o mesmo103 . já começava a querer parecer sábio. lidos aqueles livros dos Platónicos. acima de toda a medida. estava realmente seguro destas coisas. 105 João 14:6. VII 41 que a sã doutrina100 contém. Na verdade. e. aquela caridade. e que verdadeiramente és tu. nosso Salvador106 . 2:1. Mas então. pois. 100 2 Timóteo 4:3. XX. foi conveniente que houvesse hereges para que os comprovados na fé se tornassem visíveis101 entre os vacilantes. felicita-o numa carta por ter negado que Deus possa assumir carne no seio de uma mulher. i i i i . cheio do meu castigo. todavia demasiado fraco para fruir de ti. Tito 1:9. e inchava-me com a ciência. 106 Tito 1:4.i i i i Confissões. 107 1 Coríntios 8:1. e não chorava. senti o que não me era dado contemplar através das trevas da minha alma. [A procura da verdade nos livros dos Neoplatónicos] VII. sem todavia te difundires pelos lugares finitos ou infinitos. e que todas as restantes coisas procedem de ti104 . como se fosse perito.

i i i i . nas quais durante algum tempo me pareceu que ele se contradizia a si mesmo e que o texto do seu discurso não estava de acordo com os testemunhos da Lei e dos Profetas109 . e aprendi a exultar com tremor111 . para que fique 109 110 111 112 113 114 Mateus 5:17. talvez estes ou me tivessem arrancado à solidez da piedade. e revelou-se-me um só rosto dos castos discursos110 . Pois se. sobretudo. julgaria que. como se não tivesse recebido112 não só aquilo que vê. 7:12. e o caminho que conduz à pátria bem aventurada. que as curaram. se alguém tivesse estudado apenas aqueles livros. se persistisse no afecto salutar que tinha bebido. Hebreus 1:12. mas também a ser curado. com grande sofreguidão. Lucas 16:16. por aqui era dito com a garantia da tua graça. e depois tivesse caído naqueles livros. não apenas para a contemplar. para que quem vê não se vanglorie. 27. e as minhas feridas foram tocadas pelos teus dedos. e desapareceram aquelas questões. entre os que vêem para onde se deve ir e não vêem por onde. 1 Coríntios 4:7. quando mais tarde encontrei o apaziguamento nos teus Livros. mas também o poder ver – pois que coisa tem que não tenha recebido113 ? – e para que seja levado não só a ver-te a ti. do apóstolo Paulo. E comecei e descobri que tudo quanto de verdadeiro por lá tinha lido. Salmo 101:28. e no contacto familiar com elas me tivesses dulcificado. 1 Coríntios 4:7. discernisse e distinguisse que diferença havia entre presunção e confissão. que és sempre o mesmo114 . em primeiro lugar. tivesse sido instruído nas tuas Santas Escrituras. XXI. mas também para a habitar. Salmo 2:11. lancei mão do venerável estilo do teu espírito e.i i i i 42 Santo Agostinho minha memória de que modo fui afectado por eles. e de que. Assim. também neles poderia adquirir esse mesmo afecto. ou. Salmo 11:7. [O que há nas Escrituras e não nos livros dos Neoplatónicos] VII.

de longe. meu 115 116 117 118 119 120 121 122 123 124 125 126 127 128 Romanos 7:22-23. e que aquele que. as lágrimas da confissão. a salvação do povo. João 14:30. a Cidade esposa127 . não pode ver. agimos iniquamente117 . por intermédio de Jesus Cristo nosso Senhor121 . o coração contrito e humilhado126 . nós. Romanos 7:24-25. VII 43 contigo. o espírito atribulado. e. i i i i . fomos entregues ao antigo pecador. 29. Daniel 3:27. e te veja. Apocalipse 21:2. Ninguém aí canta: Não há-de a minha alma submeter-se Deus? Dele vem. príncipe da morte. João 8:44. pela qual não se manteve na tua verdade120 . e te retenha. comportámo-nos impiamente118 . na lei do pecado.i i i i Confissões. Lucas 23:14-15. percorra no entanto o caminho por onde venha. porque persuadiu a nossa vontade da semelhança da sua vontade. e que o leva. Tobias 3:2. Salmo 31:4. Que fará o infeliz ser humano? Quem o libertará do corpo desta morte senão a tua graça. a minha salvação: pois ele próprio é o meu Deus e a minha salvação. Salmo 118:137. a taça do nosso resgate. Colossenses 2:14. nos seus membros. com efeito. Salmo 50:19. porque. o teu sacrifício. Senhor116 . Não têm aquelas páginas o semblante desta piedade. com justiça. segundo o homem interior. pecámos. 2 Coríntios 5:5. e o matou: e foi anulada a acusação que nos era contrária125 ? Isso não o têm aqueles escritos. 3 Reis 8:47. os penhores do Espírito Santo128 . que está nos seus membros115 ? Porque tu és justo. que fará da outra lei que. e sobre nós pesou a tua mão119 . Provérbios 8:22. cativo. porém. em quem o príncipe deste mundo123 não encontrou nada digno de morte124 . luta contra a lei da sua mente. que geraste coeterno e criaste no princípio dos teus caminhos122 . ainda que o homem se regozije na Lei de Deus.

onde aqueles que abandonaram a milícia celeste não fazem assaltos. Aí ninguém ouve chamar: Vinde a mim. e ficava apavorado135 . Mateus 11:25. 129 130 131 132 133 134 135 Salmo 61:2-3. Pois tu escondeste estas coisas dos sábios e dos prudentes e revelaste-as aos pequeninos131 . Salmo 90:13. protegido pelo cuidado do seu celeste governante. 1 Coríntios 15:9. Não se dignam aprender dele. Deuteronómio 32:49. e esforçar-se. em vão. cercando-nos em volta e armando emboscadas os desertores fugitivos com o seu príncipe. ao ler o mínimo dos teus Apóstolos134 . leão e dragão133 . por lugares ínvios. a pátria da paz132 . outra coisa é seguir o caminho que aí conduz. porque é manso e humilde de coração130 .i i i i 44 Santo Agostinho sustentáculo: não mais vacilarei129 . Habacuc 3:2. do cimo de um monte frondoso. vós que sofreis. Todas estas coisas se entranhavam dentro de mim de modos admiráveis. e meditava sobre as tuas obras. E uma coisa é ver. Mateus 11:28-29. e não encontrar o caminho até ela. i i i i . pois o evitam como a um suplício.

I.i i i i Confissões. por isso falo e nesta esperança me alegro138 . de tal modo que eu começo 136 137 138 139 140 141 142 1 Coríntios 13:12. porque aquele que a põe em prática alcança a luz140 . diante de cujos olhos está nu141 o abismo da consciência humana. porquê confessá-las?] X. que os meus gemidos são testemunhas de que não me agrado a mim mesmo. Senhor. 20. que haveria de oculto em mim. e és desejado. poderia esconder-te de mim. que eu te conheça. Mas tu amaste a verdade139 . porém. mas não esconder-me de ti. Que eu te conheça. Pois as restantes coisas desta vida tanto menos se devem chorar quanto mais por causa delas se chora. 2. II. ó conhecedor de mim. Esta é a minha esperança. quando experimento uma sã alegria. diante de muitas testemunhas. Hebreus 4:13. Também a quero pôr em prática no meu coração: diante de ti. Romanos 12:12. X Livro X [Esperança e alegria só em Deus] X. tal como sou conhecido por ti136 . Salmo 50. i i i i . Eclesiástico 42:18. Agora. nos meus escritos. Efésios 5:27.8. e tanto mais se devem ser chorar quanto menos por causa delas se chora. 1. [Se Deus conhece as coisas ocultas. na minha confissão. Mas para ti. Ó virtude da minha alma. tu refulges. ainda que eu to não quisesse confessar142 ? Na verdade. para que a tenhas e possuas sem mancha nem ruga137 . e agradas-me. e és amado. João 3:21. entra nela e molda-a a ti.

i i i i . porém. 1 Coríntios 2:11. quando me ouvem falar de mim próprio. Senhor. senão por ti. não é mais do que não o atribuir mim. e me desprezo. sendo ele ímpio145 . porque 143 144 145 146 147 148 2 Coríntios 5:11. Faz-se em silêncio quanto ao estrépito. E não faço isto com palavras e vozes da minha carne. portanto. que os teus ouvidos conhecem. como sabem se eu digo a verdade. mas antes justifica-lo. em tudo aquilo que eu possa ser. Eu estou patente diante de ti143 . nem a ti nem a mim. Salmo 5:13. ó meu Deus. não poderão dizer: ‘Deus mente’. e te escolho a ti. Assim. nada de verdadeiro digo aos homens que antes tu não tenhas ouvido de mim. Confessar-me a ti quando sou mau. uma vez que nenhum homem sabe o que se passa no homem. e não agrado. Com efeito. 3. Romanos 4:5. te ouvirem a ti falar deles. porque tu.i i i i 46 Santo Agostinho a ter vergonha de mim. se conhece a si mesmo e diz: ‘É falso’. Salmo 102:3. E acabei de dizer com que fruto a ti me confesso. III. não é mais do que desagradar-me de mim. mas confessar-me a ti quando sou piedoso. nem também ouves de mim coisa alguma que tu antes me não tenhas dito. Salmo 95:6. faz-se em silêncio e não se faz em silêncio. [Com que fruto confessa Agostinho quem é. não quem foi?] X. mas com palavras da minha alma e com o clamor do meu pensamento. a não ser o espírito do homem que está nele próprio?148 Se. bendizes o justo144 . Mateus 4:23. como se eles houvessem de curar todas as minhas enfermidades147 ? Que gente curiosa de conhecer a vida alheia e que indolente em corrigir a sua! Porque querem ouvir de mim o que eu sou e não querem ouvir de ti o que eles são? E. na tua presença146 . Senhor. mas grita quanto ao afecto. a minha confissão. O que é ouvirmos-te falar de nós mesmos senão conhecermo-nos a nós mesmos? Quem. Mas que tenho eu a ver com os homens para que oiçam as minhas confissões. a não ser que esteja a mentir? Mas.

i i i i . por ela. saber. mas porque foram e não são. Com que fruto. por meio destas páginas. aos quais não posso provar se é verdade aquilo que confesso. Na verdade. Cântico 5:2. pois. nem o seu olhar. com que fruto. mas acreditam-me aqueles a quem a caridade abre os ouvidos. mais confiada na esperança da tua misericórdia do que na sua inocência. mas esteja vigilante no amor151 da tua misericórdia e na doçura da tua graça. se torna consciente da sua fraqueza. porém. pois. a caridade. a quem todos os dias se confessa a minha consciência. desejam sabê-lo muitos que me conhecem. quando são lidas e ouvidas despertam o coração. as confissões dos meus males passados. Querem. que perdoaste e apagaste150 para me tornares feliz em ti. nem a sua mente podem penetrar. 2 Coríntios 12:9-10. deleita-os ouvir os males passados daqueles que já deles estão libertos. Mas tu. a fim de que ele não durma no desespero e diga: ‘Não posso’. 4. Salmo 31:1. médico do meu íntimo. com a qual é poderoso todo o fraco152 que. 7. o que é que eu sou interiormente. mas cujos ouvidos não estão junto do meu coração. quem ainda agora sou e não quem fui? É que eu vi esse fruto e recordei-o. transformando a minha alma com a fé e o teu sacramento. ligados uns aos outros. confesso também aos homens. X a caridade tudo crê149 – sobretudo entre aqueles que. pergunto. Senhor meu. Aos bons. Senhor. de tal modo que o ouçam os homens. 149 150 151 152 1 Coríntios 13:4. mediante a minha confissão. nem os seus ouvidos.i i i i Confissões. onde eu sou tudo aquilo que sou. Mas quem ainda agora sou. precisamente no momento das minhas confissões. querem-no. dispostos a acreditar em mim: mas estarão na disposição de me conhecer? No entanto. e não me conhecem aqueles que ouviram alguma coisa. ela unifica – assim também eu me confesso a ti. vinda de mim ou a meu respeito. diante de ti. faz-me ver claramente com que fruto é que eu faço isto. e não os deleita por serem males. onde.

diz-lhes que eu. tanto o hino como o lamento. mas esse espírito fraterno que. subam. 153 154 155 156 157 158 159 160 1 Coríntios 13:4. 108:21. ao aprovar-me. quer me aprove quer me desaprove. não o dos filhos alheios. e é ela mesma que neles acredita em mim153 . dos corações fraternos. Apocalipse 8:3-4. 2 Coríntios 1:11. cuja boca falou vaidade e a sua dextra é a dextra da iniquidade155 . Respirem naqueles e suspirem nestes. i i i i . deleitado com o perfume do teu santo templo157 . Tu. me tem amor. por causa do meu peso? Revelar-me-ei a tais pessoas. mercê da tua graça. não minto. e conclui o que em mim está inacabado160 . de modo algum. e orar por mim. segundo a tua grande misericórdia158 . Senhor. ao ouvirem quanto me atraso. IV. Que um espírito fraterno ame em mim o que ensinas a amar e que lamente em mim o que ensinas a lamentar. Os meus bens são os teus preceitos e os teus dons.i i i i 48 Santo Agostinho que os torna bons. ao ouvirem quanto me aproximo de ti. Salmo 24:11. Revelar-me-ei a tais pessoas: respirem nos meus bens. e não abandones. Salmo 143:7-8. suspirem nos meus males. ao desaprovar-me. [Grandes são os frutos deste género de confissão] X. a obra que começaste. Com efeito. meu Deus. por causa do teu nome159 . que são os teus turíbulos. à tua presença156 . 78:9. e que muitos te implorem por nós. se alegra por causa de mim e. não é pequeno fruto. Filipenses 1:6. compadece-te de mim. que muitos te dêem graças por nossa causa154 . por mim se entristece. 7. Senhor. ao confessar-me. os meus males são os meus pecados e os teus juízos. Mas com que fruto o querem saber? Acaso desejam congratular-se comigo. não um estranho. porque. 1 Coríntios 3:17. porém. e. Salmo 50:3. 5. Que faça isto um espírito fraterno.

Salmo 2:7. a tais pessoas. Por isso eu faço isto com obras e com palavras. És tu. não somente diante de ti. V. e de a minha fraqueza te ser conhecida. que estás comigo e antes que eu estivesse contigo. e uma íntima tristeza com esperança. Estes são os teus servos. 15. Salmo 61:2. mas não me julgo a mim mesmo169 . te estar sujeita166 . que tu quiseste que fossem teus filhos e senhores meus. João 13:15. na realidade. pois tu és todo o meu bem. mas quem já sou e quem ainda sou. os que me precederam. 1 Coríntios 4:3. que me julgas. E que assim seja ouvido. 21. Salmo 101:28. participantes da minha alegria. e não fosse adiante de mim com obras163 . consortes da minha mortalidade. se contigo e de ti quero viver. com um íntimo júbilo com tremor161 . tu. não quem fui. não fora o facto de a minha alma. 7. Revelarei. [O homem não se conhece inteiramente] X. embora nenhum homem saiba o que é próprio do homem. meus concidadãos e comigo peregrinos. crêem. meus irmãos. de entre os filhos dos homens162 . 31. X 6. com um perigo enorme. Filipenses 2:12. i i i i . os que hão-de vir depois de mim. mas como sou: confessar-te isto. Sou uma criancinha. e faço-o sob a protecção das tuas asas164 . Hebreus 1:12. não já como fui. o Omnipotente. Senhor. Salmo 106:8. sob a protecção das tuas asas165 . pois. aos quais me mandaste servir. a não ser o espírito 161 162 163 164 165 166 167 168 169 Salmo 2:11. Este é o fruto das minhas confissões. mas também aos ouvidos daqueles que. E esta tua palavra era pouco para mim. Salmo 16:8. ele é o mesmo167 que me gerou168 e me protege. se ela mandasse apenas com palavras. Salmo 16:8. mas o meu Pai está sempre vivo e ele é para mim um tutor de confiança. e os que são companheiros da minha existência.i i i i Confissões. porque. a quem me mandas servir.

Tu. Eu. e todas as coisas que neles existem me dizem a mim. Feriste o meu coração com a tua palavra. e não cessam de o dizer a todos os homens. Senhor. dás-nos também os meios para que possamos resistir175 . que o fizeste. com a tentação. e a terra. que nele está. contudo sei de ti alguma coisa que de mim ignoro. 1 Coríntios 13:12. ainda que na tua presença me despreze e me considere terra e cinza172 . enquanto peregrino longe de ti174 . desconheço a que tentações posso resistir e a quais não posso.i i i i 50 Santo Agostinho do homem que está nele170 . É certo que agora vemos como por um espelho. e. eu. e concederás a tua misericórdia àquele para quem fores misericordi170 171 172 173 174 175 176 177 1 Coríntios 2:11. conhece. mas firme. Amo-te. i i i i . estou mais presente a mim do que a ti e. e o que de mim ignoro não o sei. todavia. Mas eis que o céu. E a minha esperança está em tu seres fiel e não permitires que sejamos tentados acima do que podemos suportar. por isso. porque o que sei de mim sei-o porque tu me iluminaste. 8. pois. porém. João 21:15-16. mas tu. Senhor. 1 Coríntios 10:13. em enigma e ainda não face a face173 . enquanto as minhas trevas se não tornarem como o meiodia176 na tua presença. compadecer-te-ás mais profundamente de quem te compadeceres. conheces171 todas as suas coisas. Romanos 1:20. porém. confessarei também o que de mim ignoro. porém. e eu amei-te. que te ame. 2 Coríntios 5:6. Salmo 89:8. Tobias 3:16. Eclesiástico 10:9. Job 42:6. com uma consciência não vacilante. sei que tu de nenhum modo podes ser ultrajado. de tal modo que eles não têm desculpa177 . o que sei de mim. Confessarei. [A procura de Deus nas suas criaturas] VI. mas. todavia há alguma coisa do homem que nem o próprio espírito do homem. por toda a parte. 8:9.

voz. Interroguei o mar. já que não sois vós. e um certo perfume. luz. no entanto. Contemplá-las era a minha pergunta e a resposta era a sua 178 179 180 181 182 183 Romanos 9:15.i i i i Confissões. não os membros agradáveis aos abraços da carne. E disse a todas as coisas que rodeiam as portas da minha carne: ‘Falai-me do meu Deus. Salmo 99:3. com voz forte: ‘Foi ele que nos fez’183 . não as doces melodias de todo o género de canções. 9. e onde exala perfume o que o vento não dissipa. não a fragrância das flores. 16:15. e todas as coisas que nela existem responderam-me o mesmo. e os seres vivos que rastejam182 . quando amo o meu Deus. é para surdos que o céu e a terra entoam os teus louvores179 . nem esta claridade da luz. Génesis 1:20. e eles responderamme: ‘Não somos o teu Deus. quando amo o meu Deus. Job 28:14. quando amo o meu Deus. perfume. tão amável a meus olhos. Interroguei as brisas que sopram. Eclesiástico 39:26. eu não sou Deus’. e o ar todo com os seus habitantes disse-me: ‘Anaxímenes está enganado. e uma certa voz. não o maná e o mel. mas foi ele mesmo que me fez’. Êxodo 13:14. a lua. Interroguei o céu. Mas que amo eu. e onde dá sabor o que a sofreguidão não diminui. Isto é o que eu amo. quando te amo? Não a beleza do corpo. dizei-me alguma coisa a seu respeito’. onde brilha para a minha alma o que não ocupa lugar. e onde ressoa o que o tempo não rouba. amo uma certa luz. i i i i . e um certo alimento. o sol. e dizem-me: ‘Nós também não somos o Deus que tu procuras’. alimento. Interroguei a terra e ela disse: ‘Não sou eu’. as estrelas. X oso178 : de outra forma. Salmo 68:35. abraço do homem interior que há em mim. nem a glória do tempo. E. Não é isto o que eu amo. E que é isto?180 Interroguei o conjunto do universo acerca do meu Deus e ele respondeu-me: ‘Não sou eu. e os abismos181 . E elas exclamaram. e onde se une o que a saciedade não separa. e um certo abraço. e dos perfumes. e dos aromas. procura acima de nós’.

Com efeito. fala a todos. Com efeito. a voz recebida de fora. de modo a aparecer a um de uma maneira. como mensageiros. e ele respondeu-me: ‘Não sou eu. conheci estas coisas. sem avaliar. desde a terra até ao céu. mas. por meio do capacidade de sentir do meu corpo. Qual destas coisas é aquela em que eu devia procurar o meu Deus. e. interroga. eu enquanto espírito. ao meu serviço. Interroguei o conjunto do universo acerca do meu Deus. isto é. aparecendo da mesma maneira a ambos. a Verdade diz-me: ‘O teu Deus não é a terra e o céu. a razão não preside aos sentidos. 10. E respondi: ‘Um homem’. da terra. é muda para o primeiro. outra interior. eu. ficam sujeitos a elas. a fim de que contemplem e entendam as coisas invisíveis de Deus. Romanos 1:20. Por isso a este. sem dúvida. 2 Coríntios 4:16. os raios dos meus olhos? Mas o interior é. uma coisa exterior. que eu já tinha procurado por meio do corpo. mas foi ele que me fez’. eu. até onde pude enviar. se um apenas vê. enquanto homem interior. é que todos os mensageiros do corpo faziam saber as respostas do céu. então. Acaso esta beleza não é visível a todos aqueles que têm intacta a capacidade de sentir? Porque é que ela não diz o mesmo a todos? Os animais pequenos e grandes186 vêem-na. Dirigi-me. quando dizem: ‘Não somos Deus’ e ‘Foi ele que nos fez’184 . E elas não respondem aos que tão-só perguntam. o melhor. e de todas coisas que neles existem. Romanos 7:22. a mim mesmo e a mim mesmo disse: ‘Tu quem és?’. neles. porém. O homem interior185 conheceu estas coisas pelo ministério do exterior. enquanto o outro. mas só a compreendem aqueles que conferem com a verdade. podem interrogá-la. como presidente e juiz. por meio das coisas que foram criadas187 . vendo. E eis que estão em mim. uma vez submetidos. i i i i . Salmo 103:25. Efésios 3:16. 184 185 186 187 Salmo 99:3. a sua beleza. mas não a podem interrogar. mas.i i i i 52 Santo Agostinho beleza. e fala para o segundo: mais ainda. Os homens. dentro de si mesmos. nem mudam a sua voz. e a outro de outra. não conseguem avaliá-las. um corpo e uma alma. amando estas. para avaliar o que eles transmitem.

Irei além da minha força. quando amo o meu Deus? Quem é aquele que está sobre o vértice da minha alma? É por meio da minha alma que subirei até ele. mas também sensifico a minha carne. O que é. X nem corpo algum’. i i i i . quer aumentando. De resto. sou eu que to digo. pois também a possuem o cavalo e o muar: também eles a sentem por meio do corpo. ordenando aos olhos que não ouçam. ascendendo por degraus até àquele que me criou. Nesta força não encontro o meu Deus: pois assim também o encontrariam o cavalo e o muar. Estás a ver? A matéria é menor na parte do que no todo. Aí está escondido também tudo aquilo que pensamos. Há outra força com a qual não só vivifico. Romanos 11:8. [Não é possível encontrar Deus com o poder dos sentidos] X. aos ouvidos que não vejam189 . Isto diz a natureza das coisas. VIII.i i i i Confissões. que não têm inteligência188 . e dirijo-me para as planícies e os vastos palácios da memória. um só espírito. mas àqueles que eu veja por meio deles. quer variando de qualquer modo que seja as coisas 188 189 Salmo 31:9. és superior porque és tu que animas a mole do corpo. proporcionandolhe a vida que nenhum corpo confere ao corpo. Já tu. desempenho por meio deles. 11. ó alma. [O poder da memória] X. 12. e é esta a mesma força com que vivem também os seus corpos. Irei também além desta minha força. eu. com a qual estou preso ao corpo e encho de vida o seu organismo. apesar de diversas. VII. Irei também além desta força da minha natureza. a estes que eu ouça por meio deles. funções que. que eu amo. quer diminuindo. o teu Deus é também para ti a vida da tua vida. onde estão tesouros de inumeráveis imagens veiculadas por toda a espécie de coisas que se sentiram. que o Senhor moldou para mim. então. e a cada um dos restantes sentidos o que é próprio dos seus lugares e funções.

de forma distinta e classificada. não são as próprias coisas que entram. que eu quiser. e nela são armazenadas. Todas estas coisas recebe. outras. pela entrada da boca. trago à memória as cores. pelo sentido de todo o corpo. cada uma por sua porta. todos os odores. pelos olhos. que ali estão à disposição do pensamento que as recorda. pelos ouvidos. Tudo isto acontece quando conto alguma coisa de memória. se apresentam tal como são chamadas. dos seus escaninhos. elas saltam para o meio como que dizendo: ‘Será que somos nós?’ E eu afasto-as da face da minha lembrança. Contudo. e distingo o branco do negro. até que fique claro aquilo que eu quero e. umas das outras. o que é macio ou áspero. e ainda tudo aquilo que lhe tenha sido confiado. cedendo-o. se quiser. escondem-se. o que é quente ou frio. Mas quem dirá o modo como foram formadas estas imagens. mas sim as imagens das coisas. peço que me seja apresentado aquilo que quero: umas coisas surgem imediatamente. o vasto recôndito da memória e as suas secretas e inefáveis concavidades: todas estas coisas entram nela. e não se intrometem os sons nem perturbam aquilo que considero absorvido por meio dos olhos. e que o esquecimento ainda não absorveu nem sepultou. compareça na minha presença. e as que as vêm antes cedem lugar às que vêm depois. com facilidade e em sucessão ordenada. e. embora estejam lá e estejam latentes. como que i i i i . todos os sabores. quer interior ao corpo. o que é duro. e nela depositado. Ali estão arquivadas. pesado ou leve. Outras coisas há que. percebidas pelos sentidos. precipitam-se em tropel e. quer exterior. para reaparecerem de novo quando eu quiser. quando estou às escuras ou em silêncio. ainda que seja visível por que sentidos foram captadas e escondidas no interior? Na verdade. e. 13. todas as coisas que foram introduzidas cada uma pela sua entrada: a luz e todas as cores e formas dos corpos. quando uma é pedida e procurada. outras são procuradas durante mais tempo e são arrancadas dos mais secretos escaninhos. pela entrada do nariz. todas as espécies de sons. Quando aí estou. o que é mole. e para as retomar.i i i i 54 Santo Agostinho que os sentidos atingiram. com a mão do coração. e outras cores. para as recordar quando é necessário. ainda.

canto quanto quiser. aí se encontram. no entanto. Quem lhe chegou ao fundo? E 190 O arrobe (defritum) era o vinho novo que. Aí me encontro também comigo mesmo e recordo-me de mim. excepto aquelas de que me esqueci. distingo o perfume dos lírios do das violetas. sem nada cheirar. quando e onde o fiz. Realizo estas acções no meu interior. quer aquelas em que acreditei a partir das que experimentei. a partir destas. consoante me agrada. congemino as acções futuras. imensamente grande. quando se volta a mexer no outro tesouro que entrou pelos ouvidos. chamo-os. Hist. 15. Aí estão todas as coisas de que eu me recordo. com todas as coisas que neles pude perceber pelos sentidos. prefiro o mel ao arrobe190 e o macio ao áspero. cheia de imagens de tantas e tão grandes coisas. XIV 11 . como se estivessem presentes. se interponham nem interrompam. sem que aquelas imagens das cores que. e de que modo fui impressionado quando o fazia. ‘Oh se acontecesse isto ou aquilo!’ ‘Deus não permita isto ou aquilo!’ Digo isto comigo mesmo e. e segue-se isto ou aquilo. quer aquelas que experimentei quer aquelas em que acreditei. mas apenas recordando. e os acontecimentos. ‘Farei isto e aquilo’ – digo comigo mesmo no recôndito imenso da minha alma. estão diante de mim as imagens de tudo o que digo. quer as que experimentei. com as coisas passadas. E. e. Juntava-se ao vinho fraco para o encorpar. no imenso palácio da minha memória. e. por fervura. Plínioo-Velho. se reduzia a metade para lhe aumentar o grau alcoólico. ó meu Deus. e o mar. se me apetece. não diria absolutamente nada disso. com a língua em repouso e a garganta em silêncio. 14. i i i i . e a terra. Columela XII 37. e as esperanças. eu teço ainda umas e outras semelhanças das coisas. Do mesmo modo recordo. sem nada provar nem tocar. Nat. A partir dessa mesma abundância. ao dizê-lo. e. Grande é essa força da memória. Cf. as restantes coisas que são introduzidas e acumuladas pelos outros sentidos. e aparecem logo e. X armazenados à parte. Aí está à minha disposição o céu. vindas do mesmo tesouro da memória e. do que fiz. se elas faltassem.i i i i Confissões. e todas estas coisas. mais uma vez. santuário amplo e sem limites.

paixão. e as ondas alterosas do mar. tempo. e a imensidão do oceano. o não abarca? Muita admiração me causa isto. como que escondidas num lugar interior. Aqui estão também todas aquelas que. então. quantidade. E. tal como uma voz impressa pelos ouvidos. os montes. os exemplos de Agostinho). ou ela teria soado e passado. modalidade. o espírito é estreito para se abarcar a si mesmo: então onde poderá estar o que de si mesmo ele não abarca? Acaso fora de si mesmo e não dentro de si? Como é que. mas sim as suas imagens. de se afirmar ou negar algo de algo (cf. e as órbitas dos astros. eu deixaria de fora a coisa. se a sua imagem não estivesse gravada. ainda não se perderam. todavia. e o oceano a que dei crédito. em espaços tão vastos. o que é a literatura. não as absorvi. e não levo comigo as suas imagens. ‘o ser diz-se de muitos modos’. relação. e os astros que vi. todo este tipo de coisas que sei está de tal modo na minha memória que. Estes modos de o ser se dizer ou de se predicar. Logo. embora já não ressoasse. como se os visse fora de mim. Na verdade. ou como um perfume. 16. qualidade. e todavia não as diria. quando eu dizia todas essas coisas. com um vestígio pelo qual seria recordada como se ressoasse. 191 i i i i . acção. lugar. que não é lugar. mas as próprias coisas.i i i i 56 Santo Agostinho esta é a força do meu espírito e pertence à minha natureza. e os cursos larguíssimos dos rios. quando as vi com os olhos. e não prestam atenção a si mesmos nem se admiram de que. vendo essas coisas. não as via com os olhos. Mas essa capacidade da minha memória não encerra apenas essas coisas. constituem a tábua das dez categorias: substância. o que é a perícia dialéctica. posição. Deslocam-se os homens para admirar as alturas dos montes. e nem eu consigo captar o todo que eu sou. [A memória das artes liberais] IX. isto é. e não são essas coisas que estão em mim. tomadas das artes liberais. e os rios. a estupefacção apodera-se de mim. e sei a partir de que sentido do corpo cada coisa foi impressa em mim. se interiormente não visse na minha memória. quando passa e se desvanece nos Em Aristóteles. e as ondas. quantas espécies de questões existem191 .

ou como um alimento que. Pois. ou como alguma coisa que se sente no corpo. X.i i i i Confissões. e admiti que eram verdadeiras e confiei-lhas. as reconheci e disse: ‘Sim. mas não estavam na memória. se não as toquei. nem as vi em lugar algum. o sentido do gosto diz também: ‘se não têm sabor. e que. relembro as imagens dos sons de que se compõem estas palavras e sei que elas passaram pelo ar. mas tão afastadas e escondidas. essas coisas não penetram na memória. com ruído. todavia. lembrando. como que o produz na memória. não as indiquei’. mas reconheci-as no meu. Na verdade. como que depositandoas onde pudesse ir buscá-las quando quisesse. não dei crédito ao coração de outra pessoa. mas as próprias coisas. ao serem proferidas. é verdade’? A não ser que o fizesse porque já estavam na minha memória. se puderem. tocando. ou por que motivo. X ares. quando ouço dizer que há três espécies de questões: ‘se uma coisa é. o que é. por certo. Mas as próprias coisas que são significadas por esses sons não as atingi por nenhum sentido do corpo. fomos nós que as indicámos’. como que nas concavidades i i i i . já não produz sabor no estômago e. os ouvidos dizem: ‘se têm som. Donde e por onde entraram na minha memória? Não sei como. porém. Na verdade. Que elas digam. e onde maravilhosamente se vão buscar. e guardei no fundo da memória não as suas imagens. Quando. os olhos dizem: ‘se têm cor. e já não existem. pois. e depositadas como que em maravilhosos compartimentos. quando as aprendi. fomos nós que as anunciámos’. recordando. e já antes de as ter aprendido. estavam lá. por onde entraram em mim. passaram por mim’. fora do meu espírito. o nariz diz: ‘se têm cheiro. donde traz à memória a imagem de si que podemos retomar. Portanto. também separado de nós. e como é’. percorro todas as portas da minha carne e não encontro por qual delas entraram. o tacto afirma: ‘se não têm corpo. não me perguntes a mim’. mas só as suas imagens são captadas com maravilhosa rapidez. se imagina com a memória. atinge o olfacto. Com efeito. eu não as toquei e. 17. Mas. [Os conteúdos das artes liberais não entram na memória pelos sentidos] X.

pois. reparando nelas. sem imagens. 192 Em Platão e nos Platónicos. do mesmo lugar – pois não é outro o seu espaço – e reunidas de novo. de tal maneira que. colocadas à disposição. Com efeito. de tal maneira que cogitari se aplica propriamente àquilo que se recolhe (conligitur). onde antes. naquele sentido. todavia. pensando. por sugestão de alguém. [O que é aprender?] X. de uma carência presente. coisas que já foram encontradas e. não noutro lugar. cogo está para cogito como ago para agito e facio para factito. indistinta e desordenadamente. ou anamnese. Por conseguinte. verificamos que aprender essas tais coisas. têm de ser arrancadas. pensando. o espírito reivindicou. mas sim no espírito.i i i i 58 Santo Agostinho mais recônditas. situando-se mais na linha do desejo carente e amoroso do Banquete platónico: o conhecimento do Bem não é fruto de uma anterior contemplação. esta palavra. cujas imagens não absorvemos pelos sentidos. dentro de nós mesmos. as coisas. estavam ocultas. continha. de tal maneira voltam a submergir e a deslizar para os recônditos mais afastados. recolhidas como que de uma espécie de dispersão: por isso se diz que a palavra cogitare deriva de cogere . i i i i . Contudo. tal como disse. dispersas e esquecidas. XI. mas vemos. mas. que de novo. apesar de algumas vezes utilizar a noção de presciência em obras de juventude. como se fossem novas. ocorram facilmente à atenção já familiar. junta (cogitur). um saber a partir da privação: um conhecimento por ausência. para que possam ser conhecidas. tal como são. que estão como que colocadas à disposição na própria memória. isto é. antes. aquilo que a memória. não é outra coisa senão como que recolher. em si mesmas. é um processo de reconhecimento actual das Ideias contempladas numa existência anterior. 18. talvez eu não pudesse pensar nelas192 . e se diz que nós aprendemos e conhecemos! E se eu deixar de as recordar por pequenos espaços de tempo. nunca aceitou a reminiscência e a preexistência da alma. como própria de si. A anamnese agostiniana é. e fazer com que. se de lá não fossem arrancadas. a reminiscência. Este despertar da alma para o verdadeiro conhecimento e para a sua essência imortal supõe a doutrina da sua preexistência. isto é. E quantas coisas desta natureza a memória encerra. Agostinho. e das quais nos esquecemos.

por isso. ou seus conjuntos. Quem os não vê. quando digo isto. outra as coisas. nenhuma das quais foi impressa pelos sentidos do corpo. quando muitas vezes pensava Diferença entre os números numerantes. quando se ri de mim. Também percebi. falsas. Mas existem outros números com os quais fazemos cálculos. verdadeiras. e de outra em Latim. quando se disserta acerca delas. [A memória da memória] XIII. porque elas mesmas não têm cor. e os números numerados. nem tocadas. e que não são imagens dos anteriores e. com todos os sentidos do corpo. contra estas. interiormente. 193 i i i i . ria-se de mim. nem foram saboreadas. que são aduzidas em contrário. estruturas inteligíveis do real.i i i i Confissões. Com efeito. ao passo que me lembro de as ter distinguido muitas vezes de outra forma. nem de qualquer outro idioma. com a maior falsidade. e agora vejo que distingo estas coisas de uma forma. Ouvi os sons com que essas coisas são significadas. enquanto as coisas nem são gregas. Ouvi e conservo na memória muitas outras coisas que são alegadas. mas uma coisa são os sons. X [A memória das matemáticas] X. e estas. 19. que podem ser discriminados pelos sentidos. Vi linhas traçadas por artífices. 20. todavia não é falso que eu me lembre delas. nem som. Conservo todas estas coisas na memória e conservo-as na memória como as aprendi. embora essas coisas sejam falsas. os sons dessas palavras soam de uma maneira em Grego. têm mais existência193 . princípios onto-gnosiológicos da numeração e das operações aritméticas. e também me lembro de ter distinguido entre aquelas coisas. isto é. sem pensar em qualquer espécie de corpo. nem cheiro. os números de que nos servimos quando contamos. não são imagens daquelas linhas que me deram a conhecer os olhos da carne: e conhece-as quem. dos números sensivelmente concretizados em entes discretos. XII. e que eu tenha pena. finíssimas como um fio de teia de aranha. De igual modo a memória contém as inumeráveis noções e leis dos números e dimensões. as reconhece. mas essas linhas são outra coisa. nem latinas.

recordo-me da minha tristeza passada e. se me recordar de que agora pude rememorar estas coisas. como que passadas para o estômago. Pelo contrário. sendo o espírito também a própria memória – pois. dizemos: ‘Não ficou no meu espírito’ e ‘Escapou-se-me do espírito’. estando o meu espírito alegre pelo facto de que nele há alegria. sem nada temer. me lembro de uma dor do corpo passada. Por isso. Isto não é de admirar a respeito do corpo: porque uma coisa é o espírito. porém. sem estar triste. Com efeito. lembro-me de me ter lembrado. 21. recordo que algumas vezes tive medo e. mas de outro modo muito diferente. quando mandamos fixar algum assunto de cor. sem dúvida que a memória é como uma espécie de estômago da alma. A mesma memória também encerra as impressões do meu espírito. recordo a minha tristeza passada. Neste ponto. mas não podem i i i i . lembro-me muito mais vezes de ter compreendido estas coisas. assim como. estando alegre. podem lá ser guardadas. não é de admirar se. outra o corpo. da alegria. posteriormente. Por isso. recordo-me da minha antiga cobiça. e o que agora distingo e compreendo guardo-o no fundo da memória. quando as sofre. e a minha memória a tristeza e. pois. Por isso. estando triste. porque é que quando.i i i i 60 Santo Agostinho nelas. chamando espírito à própria memória – sendo. [A memória dos afectos] XIV. pelo facto de que nela há tristeza? Acaso a memória não faz parte do espírito? Quem ousaria dizê-lo? Portanto. recordo a minha tristeza passada e. alegrando-me. recordo-me de ter estado alegre e. não do mesmo modo como as tem o próprio espírito. também algumas vezes. quando nos esquecemos. não está triste a minha memória. dizemos: ‘Vê lá se o conservas no teu espírito’ e. assim. hei-de recordá-lo certamente pela força da memória. enquanto a alegria e a tristeza são como uma espécie de manjar doce e amargo: quando são confiadas à memória. sem nada cobiçar. o meu espírito sente a alegria. de maneira a que posteriormente me lembre de o ter compreendido agora. como é próprio da força da memória. sem estar alegre. estando alegre.

o desejo. de livre vontade. Então porque é que quem as discute. por isso. isto é. se é por meio de imagens ou não. na memória encontro. todavia. trazendo-as à memória. e estavam lá antes que eu as recordasse e voltasse ao contacto com elas. segundo as imagens gravadas pelos sentidos do corpo. 194 Cícero. ou a própria memória reteve. X ter sabor. i i i i . Nomeio a dor do corpo. o que digo. mediante a recordação. Mas. quem facilmente o poderia dizer? Na verdade. a alegria. nomeio o sol. 22. se. mas que o nosso espírito. sem. na boca do pensamento. se não encontrássemos na nossa memória.11. confiou à memória.i i i i Confissões. pela ruminação. que não recebemos por nenhuma porta da carne. dividindo e definindo cada uma segundo as espécies dos respectivos géneros. quando as evoco. quem. e o que quer que acerca delas puder dissertar. quem as recorda. assim como a comida é tirada do estômago. sem dúvida que as suas imagens estão à disposição na minha memória. Talvez portanto. [A memória do que está ausente] XV. mas também não são dissemelhantes sob todos os aspectos. a tristeza194 . falaria de tais coisas. não sente. Tusculanas 4. pela recordação. nomeio a pedra. me perturbar com nenhuma dessas perturbações. Dos limites extremos do bem e do mal 3. e aí vou buscar. outras tantas fôssemos obrigados a sentir tristeza e medo? E. 23. quando estas coisas não estão presentes aos meus sentidos. assim também estas coisas são tiradas da memória. a doçura da alegria e a amargura da tristeza? Porventura as duas situações são dissemelhantes por não serem semelhantes sob todos os aspectos? Na verdade. o medo. puderam de lá ser tiradas.35. não falaríamos delas. sentindo-as pela experiência das suas paixões. Mas eis que eu tiro da memória a afirmação de que são quatro as perturbações da alma. todas as vezes que nomeamos a tristeza ou o medo. mas também as noções dessas mesmas coisas. no entanto. sem que estas coisas lhe tenham sido confiadas. não apenas os sons das palavras. É ridículo considerar estas coisas semelhantes àquelas.

e. quando nomeio o esquecimento e. nem. ao ouvir a palavra esque- i i i i . 24. se eu me tivesse esquecido dessa coisa. com que me lembro. se conservamos na memória aquilo de que nos lembramos. a distinguiria do prazer. como é que ele está presente. Nomeio a memória e reconheço o que nomeio. mas eles mesmos. mas à coisa que ela significa. se a mesma imagem não tivesse sido conservada neles pela força da memória. se a sua imagem não estivesse na minha memória. quando a relembro. no entanto. não é a imagem da sua imagem que eu recordo. E. reconheço o que nomeio. é a própria memória que por si mesma a si mesma está presente. de que me lembro. me lembro do esquecimento. Nomeio a imagem do sol e esta está presente na minha memória. E onde o reconheço senão na própria memória? Acaso também ela está presente a si mesma por meio da sua imagem e não por si mesma? [A memória do esquecimento] XVI. o esquecimento. quando. e logo estão presentes na minha memória não as suas imagens.i i i i 62 Santo Agostinho e não está presente em mim quando nada me dói. embora a própria coisa esteja ausente do seu corpo. ao ser dita a palavra saúde. sem dúvida não poderia reconhecer a que equivalia aquele som. Nomeio a saúde do corpo. porém. Mas que é o esquecimento senão a privação da memória? Logo. não só a memória está presente mas também o esquecimento: a memória. Por conseguinte. quando está presente? Mas. e se não nos lembrássemos do esquecimento. a ponto de eu me lembrar dele. a própria coisa está presente em mim. quando não sou capaz de me lembrar dele. Nomeio os números de que nos servimos para fazer cálculos. reconheceriam o que lhes é dito. de nenhum modo eu recordaria o que significa o som desta palavra. ao falar da dor. contudo. de nenhum modo poderíamos. se não me lembrasse dele? Não me refiro ao som desta palavra em si mesmo. quando estou são de corpo. quando me lembro da memória. mas a própria imagem. nem os doentes. se a sua imagem não estivesse presente na minha memória. É ela que se me torna presente. como o reconheceria. do mesmo modo. não saberia o que dizia.

i i i i Confissões. é necessário que antes esteja presente a mesma coisa. Eu. quando ele está presente. se estivesse presente por si mesmo. quando tenho a certeza de que me lembro do esquecimento? Acaso hei-de dizer que não está na minha memória aquilo de que me lembro? Acaso hei-de dizer que o esquecimento está na minha memória precisamente para que eu não me esqueça? Ambas as hipóteses são completamente absurdas. X cimento. uma vez que. República 1. não faria com que nos lembrássemos. e não o próprio esquecimento. a partir da qual se possa gravar aquela imagem? É assim que me lembro de Cartago. 19. embora eu. pois. mas sim com que nos esquecêssemos? Finalmente. Acaso se deve entender a partir disto que o esquecimento. pois. Énio. inquieto-me com isto. De diuinatione 2. Mas o que é que está mais próximo de mim do que eu próprio? E. eis que não abarco a capacidade da minha memória. uma vez que. Com efeito. espírito. Senhor. quando se imprime na memória a imagem de cada coisa. é conservada na minha memória. não estamos a explorar as regiões do céu196 . não é de admirar que esteja longe de mim tudo aquilo que eu não sou. não me possa dizer a mim mesmo. Assim. assim de todos os lugares em que estive. Sou eu que me lembro. o que hei-de eu dizer. Scen. nem medimos as distâncias dos astros. mas por meio da sua imagem. reconhecer a coisa que ela significa: então o esquecimento está conservado na memória. nem indagamos os pontos de equilíbrio da terra. eu. quando nos lembramos dele.30. 244V / 187. pela minha parte. não está na memória por si mesmo. fora dela. Qual é. quem poderá indagar isto? Quem compreenderá como isto é? 25. i i i i . para que não nos esqueçamos daquelas coisas de que nos esquecemos. no entanto. presente. Com efeito. Está. Cícero. quando me lembro dele? E de que forma direi isto. assim do rosto dos homens que vi e das informações dos demais senti195 196 Génesis 3:17. inquietome em mim mesmo: tornei-me uma terra de dificuldades e de muito suor195 .30. a terceira? De que forma poderei dizer que a imagem do esquecimento.

[O poder da memória é grande. mas insuficiente para chegar a Deus] XVII. a memória guarda. dado que está no espírito tudo o que está na memória. ó meu Deus. Que me dizes? Eis que eu. e isto é o espírito. a memória. Portanto. pois. nos antros e cavernas inumeráveis e inumeravelmente cheios das espécies de inumeráveis coisas. ele mesmo. quer por imagens. 26. dado que o esquecimento. isto sou eu mesmo. multímoda e extraordinariamente ampla. como é que registava a sua imagem na memória. assim da saúde e da dor do corpo: estando estas coisas presentes. Que sou eu então. que eu pudesse contemplar em presença e trazer de novo ao meu espírito. como a das artes. mesmo ausentes. irei além dessa minha força que se chama memória. 197 Eclesiastes 11:7. captou imagens. minha verdadeira vida? Irei também além desta minha força que se chama memória. sem dúvida. um não sei quê de horrendo. a partir delas. como as das impressões do espírito. esvoaço por aqui e por ali. meu Deus? Que natureza sou? Uma vida multiforme. irei além dela a fim de chegar até ti. e também entro nela até ao fundo quanto posso. estou certo de que me recordo do próprio esquecimento. como as de todos os corpos.i i i i 64 Santo Agostinho dos. quando me recordasse também daquelas coisas. de qualquer forma. apaga mesmo aquilo que encontra já registado? E. embora esse processo seja incompreensível e inexplicável. quer por não sei que noções e observações. as quais. quer pela presença. tu. e em parte alguma está o limite: tão grande é o poder da memória. ainda quando o espírito as não sofre. Eis-me nas planícies da minha memória. no entanto. se é pela sua imagem e não por si mesmo que o esquecimento se conserva na memória. estando presente. minha doce luz197 . tão grande é o poder da vida no homem que vive mortalmente! Que farei. ó meu Deus. Mas. Percorro todas estas coisas. pelo qual é apagado tudo aquilo de que nos lembramos. que estás acima de mim. com a sua presença. estava presente. i i i i . Grande é o poder da memória. subindo pelo meu espírito até junto de ti. uma profunda e infinita multiplicidade. para que a sua imagem fosse captada.

portanto. alguma coisa. Não dizemos que encontrámos o que estava perdido200 . irei além da memória para te encontrar. Irei. se não nos lembrarmos: mas aquilo que. para te encontrar? Se te encontrar fora da minha memória. não da memória. como qualquer corpo visível. não a descobriria. além da memória para alcançar aquele que me distinguiu dos quadrúpedes e me fez mais sábio que as aves do céu198 . X querendo alcançar-te pelo modo como podes ser alcançado. 27. pois. até que seja restituída à vista. Têm memória os animais e as aves: de outro modo não voltariam às suas tocas nem aos seus ninhos. por acaso. ‘Não é. e prenderme a ti pelo modo como é possível prender-me a ti. estava perdido para os olhos. Se não estivesse lembrado dessa coisa. Contudo. E sei-o porque. E sempre assim acontece. E. ao procurar alguma delas e ao ser-me dito: ‘Porventura é isto?’. 198 199 200 Job 35:11. se não estou lembrado de ti. Lucas 15:8. desaparece da vista.i i i i Confissões. Logo que for encontrada. até que aparecesse aquilo que procurava. aquilo?’. é reconhecida pela imagem que está dentro de nós. quando procuramos e encontramos uma coisa que perdemos. e. i i i i . durante esse tempo eu dizia: ‘Não é’. ó suavidade segura. talvez. ó verdadeiro bem. como saberia se era aquela. nem poderiam habituar-se a coisa alguma senão por meio da memória. ainda que ela aparecesse. nem a muitas outras coisas a que estão habituados. qualquer que ela fosse. se. Tendo-a. como é que te encontrarei? [Só se reconhece o que se encontra na memória] XVIII. se não estivesse lembrada dela. estou esquecido de ti. porque não a reconheceria. e procura-se. encontrado. de facto. Lucas 15:9. se não o reconhecemos. não a teria encontrado199 . conservava-se na memória. Uma mulher perdera uma dracma e procurou-a com uma candeia. conserva-se interiormente a sua imagem. nem o podemos reconhecer. se dela não estivesse lembrada? Lembro-me de ter procurado e encontrado muitas coisas perdidas.

qualquer outro nome diferente que ocorresse não se ligaria com ela. não podemos procurar uma coisa perdida que tivermos esquecido completamente. te procuro. dizemos: ‘É isto’. não nos lembramos dele. tal nome seria rejeitado. mas recordando-o. por isso. porque a memória sentia que recordava em conjunto aquilo que em conjunto costumava recordar. mesmo que nos lembrem. ó meu Deus. Se. e não a reconheceríamos. até que se apresentasse outro em que o conhecimento da pessoa. verificamos que é esse nome que nos disseram. procurava-se a outra parte. a partir da parte que se conservava.i i i i 66 Santo Agostinho [O que é recordar-se?] XIX. Por conseguinte. e procurássemos o seu nome. habitual e simultaneamente associado ao nome. se não nos lembrássemos. rejeitamo-la até que nos ocorra aquela que procuramos. se nos oferece uma coisa por outra. logo que nos ocorre. Acaso não tinha desaparecido na totalidade. exigia que lhe fosse restituída a parte que lhe faltava? Por exemplo: se víssemos uma pessoa conhecida ou pensássemos nela. senão na mesma memória? E se aí. onde é que por fim a procuramos. casualmente. sem dúvida tínhamonos esquecido dela. 28. Que eu te procure. e. coxeando. que esquecêramos. não o recebemos como coisa nova. como acontece quando nos esquecemos e procuramos recordar. estivesse perfeitamente de acordo com o nome. o que não diríamos. Com efeito. E. procuro uma vida feliz. para que a i i i i . quando o reconhecemos lembrados por alguém. porque não seria costume pensar nessa pessoa com esse nome e. Nem ainda nos esquecemos inteiramente mesmo daquilo que nos lembramos de ter esquecido. [Para desejar a felicidade. E donde se nos torna presente esse nome senão a partir da própria memória? Na verdade. ela. mas. porém. Senhor? Quando. é preciso conhecê-la] XX. se não a reconhecêssemos. como que mutilado o hábito. E então? Quando a própria memória perde alguma coisa. é da memória que ele procede. 29. se apaga inteiramente do espírito. Como é que eu te procuro. Portanto.

Tusculanas 5. Os que são felizes com a esperança. por isso. não a amaríamos. ou pelo desejo de a conhecer. nós. não se deleita.28. se. deleitamo-nos. Tusculanas 5. Hortênsio fr. Quando um Grego a ouve. Ali.28. de tal maneira que nem sequer me lembro de me ter esquecido. X minha alma viva201 . Mas são melhores do que aqueles que não são felizes nem com a coisa. em relação ao qual desejo ardentemente saber se reside na memória. 36 M / 58. já um dia fomos felizes – não procuro agora saber se todos. porque a própria coisa que os Gregos 201 202 203 204 Salmo 68:33. Então como procuro eu uma vida feliz? Porque eu não a tenho enquanto não disser: ‘Já chega! Está ali!’. porque. no qual todos morremos e do qual todos nascemos na infelicidade204 . têm-na não sei com que conhecimento. não tivessem uma vida feliz. Há um outro modo pelo qual cada um é feliz quando a tem. não quereriam ser felizes203 desta forma: e não há dúvida nenhuma de que eles o querem. em Latim. ????. se a não conhecêssemos. i i i i . 36 M. sem dúvida. porém. não sei de que modo. como se a tivesse esquecido e ainda conservasse a lembrança de que me tinha esquecido. Não sei como é que a conhecem e. onde devo dizer como a procuro. / 58 ???? 1 Coríntios 15:22. Cícero. ou se naquele homem que primeiro pecou. Hortênsio fr. se aí está. tal como ele se a tivesse ouvido em Grego. e há os que são felizes em esperança. quer nunca a tenha conhecido. sendo-me ela desconhecida. de algum modo. Porventura não é precisamente uma vida feliz o que todos querem202 e não há absolutamente ninguém que a não queira? Onde é que a conhecem. individualmente. Estes têm-na de forma inferior àqueles que já são felizes com a própria coisa. porque não é o som que nos deleita. Cícero. quer dela me tenha esquecido. Com efeito. mas procuro saber se a vida feliz está na memória. já que assim a querem? Onde a viram para a amarem? Temo-la. porque ignora o que foi dito. se pela recordação. Ouvimos a expressão ‘uma vida feliz’ e todos confessamos que desejamos a própria coisa. Pois o meu corpo vive da minha alma e a minha alma vive de ti.i i i i Confissões. nem com a esperança.

fui inundado de uma certa alegria que. e desejaram sê-lo – embora não se deleitassem senão por um conhecimento interior. consoante a diversidade daquelas coisas com as quais me lembro de ter-me alegrado. nem toquei a minha alegria com os sentidos do corpo. em relação às coisas torpes. e são muitos os que o desejam ser – daí se vê que ela está no conhecimento deles – todavia. amamo-la. porque não é corpo. Portanto. nem quisessem ser eloquentes. aquele que os tem no conhecimento já não procura alcançá-los. detesto e abomino. e nunca vi. enquanto temos a vida feliz no conhecimento e. Acaso do mesmo modo como nos lembramos da alegria? Talvez.i i i i 68 Santo Agostinho e os Latinos e os homens das restantes línguas desejam possuir não é grega nem latina. e deleitaram-se. se lhes pudéssemos perguntar se queriam ser felizes. a vida feliz não se vê com os olhos. mas experimentei-a no meu espírito quando me alegrei. se a própria coisa. fui inundado de uma i i i i . Acaso do mesmo modo como nos lembramos dos números? Não. recordando agora. Acaso do mesmo modo como nos lembramos da eloquência? Não: embora. nem provei. pelos sentidos do corpo. Porventura está na memória do mesmo modo como se lembra de Cartago aquele que a viu? Não. outras com desejo. ao ouvir a palavra ‘eloquência’. Na verdade. se não se deleitassem – ao passo que não é por nenhum sentido do corpo que experimentamos nos outros a vida feliz. é conhecida de todos aqueles que. 30. e. lembro-me da minha alegria. me lembro da vida feliz. nem cheirei. se lembrem da própria coisa aqueles que ainda não são eloquentes. em relação às coisas boas e honestas. e o conhecimento dela fixou-se na minha memória para poder recordá-la. às vezes. repararam em outros que são eloquentes. tal como. cujo nome é esta expressão. e todavia queremos ainda alcançá-la para sermos felizes. O que não aconteceria. De facto. não estivesse contida na sua memória. por isso. que queriam. responderiam a uma só voz. nem ouvi. estando infeliz. [Como a memória contém a felicidade] XXI. mesmo estando triste. umas vezes com desdém. sem nenhuma hesitação.

Tusculanas 5. Hortênsio fr. 31. 36 M. com qualquer alegria com que me alegre. desejando. triste.28. Porque isto é uma coisa que ninguém pode dizer não ter experimentado. pois. que desejam sê-lo. que julgam 205 206 207 Cícero. se lhes perguntassem isso. 32. não quereríamos com vontade tão firme. porém. com conhecimento tão firme. sem qualquer hesitação. mas absolutamente todos queremos ser inteiramente felizes205 . Longe de mim. Aqueles. por isso mesmo. mas àqueles que desinteressadamente te servem. todavia só há um objectivo que todos se esforçam por atingir: a alegria. / 58 ???? Cícero. Hortênsio fr. se. cuja alegria és tu mesmo. ela é reconhecida quando se ouve a expressão ‘vida feliz’. E então? Ora. recordo.28. embora essas coisas por acaso não estejam presentes. Tusculanas 5. lhes perguntarmos se querem ser felizes. e. que se te confessa.i i i i Confissões. Senhor. pelo contrário. longe do coração do teu servo. Onde. 36 M. X certa alegria que. assim também estariam de acordo em querer sentir alegria. longe de mim considerar-me feliz. e ame. poderá acontecer que uma delas responda que quer e outra que não quer. se não conhecêssemos. poderá acontecer que ambas digam de imediato. e não é por outro motivo que um quer ser militar e o outro não quer. senão o de serem felizes. e quando experimentei a minha vida feliz para que a recorde. se perguntarmos a duas pessoas se querem ser militares. Será porque um sente alegria numa coisa e outro noutra? Assim como todos estão de acordo em quererem ser felizes206 . Ainda que um o consiga por um caminho e outro por outro. O que. i i i i . por ti: esta é a vida feliz e não há outra. / 58 ???? Isaías 48:22. E a vida feliz consiste em sentir alegria junto de ti. em ti. [A felicidade: qual e onde?] XXII. recordo a alegria passada. Há uma alegria que não é concedida aos ímpios207 . e a esta alegria chamam vida feliz. por isso. ao encontrá-la na memória. e deseje? E não eu somente ou com umas tantas pessoas.

Com efeito. salvação da minha face. porque aquilo de que não são capazes não o querem tanto quanto é necessário para serem capazes. que és a Verdade210 . Pois a vida feliz é uma alegria que vem da verdade.i i i i 70 Santo Agostinho que há outra vida feliz. porque aqueles que não querem sentir alegria em ti. e não a amariam se dela não houvesse algum conhecimento na sua memória. Contudo. então. Onde é que. pois. mas. 12. Conheci. ó Deus. a sua vontade não se afasta de uma certa imagem de alegria. por experiência. É uma alegria que vem de ti. eles conhecem esta vida feliz senão onde conhecem também a verdade? E amam a verdade porque não querem ser enganados. muitas pessoas que queriam enganar. João 14:6. ó meu Deus212 . como não hesitam em dizer que querem ser felizes. o que é a única vida feliz. em vez de os fazer felizes aquilo de que tenuemente 208 209 210 211 212 Gálatas 5:17. que não é outra coisa senão a alegria que vem da verdade. Ou será que todos o querem. e contentam-se com isso. 1 Coríntios 13:6. então. Não é certo. 33. que és a minha luz211 . Todos querem esta vida feliz. caem naquilo de que são capazes. a ponto de não fazerem o que querem208 . todos querem a alegria que vem da verdade. não querem realmente a vida feliz. mas ninguém que quisesse ser enganado. pergunto a todos se preferem encontrar a alegria na verdade ou na falsidade209 : não hesitam em dizer que preferem encontrá-la na verdade. quando amam a vida feliz. i i i i . XXIII. não sentem alegria na verdade? Porque é que não são felizes? Porque se ocupam mais empenhadamente em outras coisas que os fazem infelizes. 42:5. e. perseguem outra alegria que não a verdadeira. que todos queiram ser felizes. porque a carne tem desejos contrários ao espírito e o espírito desejos contrários à carne. todos querem esta vida que é a única feliz. Porque é que. amam de facto também a verdade. Salmo 41:6-7. Salmo 26:1.

fazendo com que aqueles que não querem ser por ela denunciados. Amam-na quando resplandece. i i i i . e não te encontrei fora dela. 35. desde que te aprendi. Por isso. caminhem. porque não queriam ser enganados. A moça que veio de Andros 68. quer estar oculto. João 3:20. procurandote. amam-na quando ela se revela. Todavia. se. caminhem. Na verdade. não querem ser convencidos de que estão enganados? E assim odeiam a verdade por causa daquilo que amam em vez da verdade. sendo infeliz. sem que nenhuma infelicidade o perturbe. em virtude da qual são verdadeiras todas as coisas. Feliz será. Senhor.i i i i Confissões. que não é senão a alegria que vem da verdade – a não ser porque a verdade é amada de tal modo que todos aqueles que amam outra coisa querem que seja verdade aquilo que amam e. mesmo assim cego e débil. X se lembram. [Deus tem um lugar na memória] XXIV. e se tornou inimigo para os homens aquele que prega a verdade215 – apesar de eles amarem a vida feliz. ela os denuncie mesmo sem eles quererem. Mas porque é que a verdade gera o ódio214 . se alegrar unicamente com a verdade. Assim. Pelo contrário. e odeiam-na quando ela os denuncia. mesmo assim o espírito humano. Gálatas 4:16. João 8:40. 34. para não serem apanhados pelas trevas213 . odeiam-na quando censura216 . Com efeito. 5:35. ainda há um pouco de luz entre os homens. 213 214 215 216 João 12:35. ela retribuir-lhes-á. é-lhe dado que ele não esteja oculto à verdade. e ela mesma não se lhes revele a eles. Eis quanto me alonguei na minha memória. uma vez que não querem ser enganados e querem enganar. Terêncio. pois. torpe e indecoroso. Por enquanto. mas não quer que nada lhe esteja oculto. E não encontrei nada a teu respeito que não tivesse recordado. mas que a verdade lhe esteja oculta a ele. mesmo assim antes quer sentir alegria nas coisas verdadeiras do que nas falsas. assim.

Estas são as minhas santas delícias que. Com efeito. lembramos. E porque procuro em que lugar dela habitas. [Onde se encontra Deus?] 217 218 João 14:6. esquecemos e qualquer outra coisa deste género. que ele tem na minha memória. enquanto tu permaneces imutável acima de todas as coisas. não me esqueci de ti. [Em que lugar da memória se encontra Deus?] XXV. entristecemos. Senhor. porque tu. aí encontrei o meu Deus. e não te encontrei lá. onde é que nela estás? Que habitáculo fabricaste para ti? Que santuário edificaste para ti? Tu concedeste esta honra à minha memória. me deste. entre as imagens das coisas corpóreas. como é aquela com que nos alegramos. Salmo 30:8. e te dignaste habitar na minha memória. e nela te encontro quando de ti me lembro. e tu não estavas lá. e todas estas coisas mudam. desde que te aprendi. desejamos. porque. E entrei na sede do meu próprio espírito. por tua misericórdia.i i i i 72 Santo Agostinho desde que te aprendi. como se de facto aí existissem lugares? Certamente habitas nela. és o deus do espírito. Senhor. nem uma sensação própria do ser vivo. i i i i . assim como não és uma imagem corpórea. Por isso. onde encontrei a verdade. permaneces na minha memória e aí te encontro. Ao recordar-te. a de permaneceres nela. tememos. porque o espírito também se recorda de si mesmo. deixei de lado as partes da memória que os animais também possuem. a própria verdade217 que não esqueci desde que a aprendi. mas em que lugar dela permaneces é o que estou a considerar. e cheguei às partes da memória onde coloquei as impressões da minha alma. porque me lembro de ti desde que te aprendi. desde que te aprendi. Mas onde estás na minha memória. 36. porque não te encontrava aí. quando me recordo de ti e em ti me deleito. olhando218 para a minha pobreza. assim também não és o próprio espírito.

cheiro. mas nem sempre ouvem o que querem. dada a sequência dos cinco sentidos: ouvido. e viva será a minha Apesar de a edição adoptada ter optado pela lição flagrasti. 221 Mateus 5:6. e afastaste a minha cegueira. Retinham-me longe de ti aquelas coisas que não seriam. 220 Salmo 33:9. 222 Salmo 62:9. Tu respondes claramente. 223 Salmo 9B:28 (10A 7). Então. Tarde te amei. beleza tão antiga e tão nova. X XXVI. exalaste o teu perfume219 . Tu estavas comigo e eu não estava contigo. Onde é que. vista. e tenho fome e sede221 . ainda que sobre coisas diversas. em toda a parte estás à disposição de todos os que te consultam. Quando estiver unido a ti222 por todo o meu ser. 38. ainda não estavas na minha memória antes de eu te aprender. saboreei-te220 . se em ti não fossem. 1 Coríntios 4:11. tacto. traduzimos por ‘exalaste o teu perfume’ (fragrasti) e não por ‘incendiaste-me de amor’. brilhaste. mas antes em querer aquilo que de ti ouvir. e eu. [As misérias desta vida] XXVIII. 1 Pedro 2:3. e aí te procurava. tarde te amei! E eis que estavas dentro de mim e eu fora. e rompeste a minha surdez. 89:10. sabor. precipitava-me nessas coisas belas que tu fizeste. acima de mim? E não há lugar em parte alguma. e inflamei-me no desejo da tua paz. [Como é que a beleza de Deus atrai o homem?] XXVII. 39. e eu respirei e suspiro por ti. Todos te consultam sobre o que querem. sem beleza. 219 i i i i . e não há lugar em parte alguma. e respondes ao mesmo tempo a todos os que te consultam. Ó Verdade. onde é que eu te encontrei para te aprender? Com efeito. e afastamo-nos e aproximamo-nos. Chamaste. 37. senão em ti. e clamaste.i i i i Confissões. então. cintilaste. O melhor dos teus servos é aquele que não concentra mais a sua atenção em ouvir de ti aquilo que ele próprio quer. tocaste-me. eu te encontrei para te aprender. mas nem todos te ouvem claramente. não existirá para mim em parte alguma dor e labor223 .

prefere. compadece-te de mim!224 Ai de mim! Eis que não oculto as minhas feridas: tu és o médico. oxalá não quebrante a capacidade de suportar! Acaso a vida humana sobre a terra não é uma provação sem nenhuma pausa? [Em Deus reside toda a esperança] XXIX. Senhor. por causa do receio da adversidade e por causa da corrupção da alegria! Ai das adversidades mundanas. ama alguma coisa. Ninguém ama o que suporta. Efectivamente. Diz alguém: E sabendo eu que ninguém pode ser continente se Deus não lho conceder. uma. eu estou doente. E toda a minha esperança não está senão na imensidão da tua misericórdia. duas e três vezes. ao mesmo tempo que a ti. tu és misericordioso. As minhas alegrias. que não ama por causa de ti. Exiges de nós a continência. Acaso a vida humana sobre a terra não é uma provação225 ? Quem deseja desgraças e dificuldades? Mandas suportá-las. por causa do desejo de prosperidade e. todavia. porque é dura a própria adversidade. porém. Ainda que se alegre em suportar. Na verdade. Ó amor que ardes continuamente e nunca te extingues. porque de ti não estou cheio. Agora. pela continência saímos da dispersão e somos reconduzidos à unidade. onde a vida humana não seja uma provação? Ai das prosperidades mundanas. dignas de júbilo. litigam com as minhas tristezas. era já fruto da sabedoria o saber de quem era este dom226 . da qual nos dissipámos em muitas coisas. e eu não sei de que lado está a vitória. eu sou um miserável. uma e outra vez. i i i i . que nada haja que suportar. e receio a adversidade na prosperidade. Desejo a prosperidade na adversidade. eu sou um peso para mim mesmo. Concede-me o que ordenas e ordena-me o que queres. não amá-las.i i i i 74 Santo Agostinho vida inteiramente cheia de ti. Que meio termo existe entre elas. 11. Job 7:1. dignas de pranto. 40. ca224 225 226 Salmo 40:5. Sabedoria 8:21. ama-te menos aquele que. porque tu levantas aquele a quem enches de ti. Ai de mim. embora ame suportar.

i i i i Confissões. é tão a grande a diferença que. sobre a qual tanto falei. descobrimos que não fizemos aquilo que todavia lamentamos de certo modo ter sido feito em nós. estando eu a dormir. aconselhaste-me uma coisa melhor228 . permanece inabalável? Porventura fecha-se a mente ao mesmo tempo que os olhos? Porventura adormece com os sentidos do corpo? E porque é que. e da concupiscência dos olhos. 1 Coríntios 7:38. A ilusão na minha alma tem tanto poder na minha carne que. ao acordarmos. estando acordado. e. e. vêm ao meu encontro quando estou acordado. i i i i . e nele permanecendo castissimamente. graças à qual uma pessoa acordada resiste a tais sugestões e. ordenas-me que me abstenha da concupiscência da carne. em relação ao próprio matrimónio. não damos nenhum assentimento a tais tentações? E. resistimos. e. a mente. porque mo concedeste. Senhor meu Deus. aconteceu. não sou eu nesse momento? E. todavia. Sem dúvida. durante o sono. [Agostinho confessa como enfrenta as tentações da carne] XXX. muitas vezes. naquele momento em que passo da vigília ao sono e volto a passar do sono à vigília! Onde está. pois. embora desprovidas de forças. Mas ainda vivem na minha memória. imagens dessas tais coisas que o meu hábito nela fixou. todavia. as verdadeiras não conseguem. chegam não só ao deleite. Acaso. ó meu Deus. E. inflama-me! Ordenas a continência: concede-me o que ordenas e ordena-me o que queres. ainda antes de eu me tornar administrador do teu mistério229 . voltamos à tranquilidade da consciência. e da ambição do século227 . 1 Coríntios 4:1. mas também ao consentimento e a um efeito absolutamente igual. e. X ridade. que tu permitiste. 227 228 229 1 João 2:16. mas. mesmo no sono. pela mesma diferença. as falsas visões levam-me àquilo que. se as próprias coisas se lhe deparam. lembrados do nosso propósito. Ordenaste-me que me abstenha do prazer da carne. quando sucede de outro modo. é tão grande a diferença entre mim e mim mesmo. 41.

i i i i 76 Santo Agostinho 42. exultando com tremor233 naquilo que me deste. Na verdade. i i i i . Salmo 2:11. 43. 1 Coríntios 6:13. para que ela não seja rebelde para consigo. até à paz total que em ti terá tudo aquilo que eu sou dentro e fora de mim. em mim. quando a morte for absorvida na vitória235 . já to disse. Senhor. Mateus 6:34. esperando que completes em mim as tuas misericórdias234 . Mateus 4:23. Salmo 102:6. mas nem sequer nelas consinta. 1 Coríntios 15:53. o que ainda sou. mais e mais. mesmo no sono. até ao fluxo da carne. Acaso não é poderosa a tua mão. não só não cometa tais torpezas de corrupção. Salmo 102:3. [As tentações da gula] XXXI. quando matares a indigência com uma maravilhosa saciedade e revestires este corpo corruptível da eterna incorruptibilidade238 . Efésios 3:20. porém. que tal coisa nada me deleite. e para que. todos os movimentos lascivos do meu sono? Aumentarás. porém. não é grande coisa para ti. comendo e bebendo antes que destruas os alimentos e o estômago237 . Isaías 25:8. por maior abundância da tua graça. também no casto afecto de quem dorme. para sarar todas as enfermidades231 da minha alma e até para extinguir. 1 Coríntios 15:54. é-me suave 230 231 232 233 234 235 236 237 238 Números 11:25. e lamentando-me naquilo que ainda não consegui. por meio de imagens sensuais. não só nesta vida mas também nesta idade. restauramos a degradação quotidiana do corpo. liberta do visco da concupiscência. os teus dons para que a minha alma. ou tão pouco quanto possa ser impedido pela vontade. Com efeito. tu que és omnipotente e podes ir além daquilo que pedimos e compreendemos232 . a ti que és o meu bom Senhor. me siga até junto de ti. Agora. Tem o dia outra malícia que oxalá lhe bastasse236 . ó Deus omnipotente230 . neste género de mal que é o meu. Agora.

a pretexto da conservação da vida. o que é suficiente para a conservação da vida é pouco para o prazer. e trago junto de ti as minhas inquietações. 44. ou se é a falaciosa voluptuosidade do prazer que pede disfarçadamente para ser servida. e invoco a tua mão direita. Efectivamente. de tal modo que. Mas. e contra esta suavidade eu combato para me não deixar dominar. por causa dele. não se sabe ao certo se é o necessário cuidado do corpo que ainda exige ser satisfeito. e. chamamos delícia à calamidade. por causa da conservação da vida. a água e o céu estão ao serviço da nossa fraqueza. tal como a febre. com frequentes jejuns239 . junta-se-lhe como companheiro um perigoso prazer que. X a necessidade. se não os socorrer o remédio dos alimentos. infeliz. sobre este assunto.i i i i Confissões. a fim de que. a minha opinião ainda não é segura. Tu ensinaste-me240 a ir tomar os alimentos como se fossem medicamentos. se obriga a ir adiante. E como a conservação da vida é a causa do comer e do beber. porque. essa passagem é um prazer e não existe outra passagem por onde se passe para onde a necessidade obriga a passar. 239 240 1 Coríntios 9:26-27. começa a alegrar-se e. e travo uma luta diária. visto que este remédio está à nossa disposição. i i i i . se faz aquilo que eu digo ou quero fazer. muitas vezes. E. quando passo do desconforto da necessidade ao conforto da saciedade. reduzindo o meu corpo à servidão. encubra a satisfação do prazer. Com efeito. a fome e a sede são uma espécie de dores. muitas vezes. e as minhas dores são eliminadas pelo prazer. congratulando-se por não ser evidente o que é suficiente para o equilíbrio da saúde. na mesma passagem o laço da concupiscência arma-me ciladas. Perante esta incerteza. Salmo 70:17. matam. prepara a justificação da sua desculpa. nisso. Esforço-me todos os dias por resistir a estas tentações. por meio dos quais a terra. 2 Coríntios 6:5. graças ao conforto dos teus dons. a alma. Não é o mesmo o modo de ser de ambos: na verdade. queimam e.

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Santo Agostinho

45. Ouço a voz do meu Deus que me ordena: Não se tornem pesados os vossos corações com a intemperança e a embriaguez241 . A embriaguez está longe de mim: tu terás compaixão para que ela se não aproxime de mim. Mas a intemperança, por vezes, insinua-se no teu servo: tu terás compaixão para que ela se afaste para longe de mim. Ninguém pode ser continente se tu não lho concederes242 . Muitas coisas nos dás quando suplicamos e todo o bem que de ti recebemos antes de suplicarmos, de ti o recebemos; e recebemos de ti que depois o reconhecêssemos. Eu nunca fui bêbedo, mas conheço bêbedos que tu tornaste sóbrios. Por conseguinte, foste tu que fizeste com que não o fossem os que nunca o foram, fizeste com que não o fossem sempre os que o foram, também fizeste que uns e outros soubessem que tu o fizeste. Ouvi outra voz tua: Não vás atrás das tuas concupiscências e refreia os teus apetites243 . Por dádiva tua, ouvi também aquela voz que muito amei: Se comermos, não ganhamos nada, e se não comermos, nada perdemos244 ; que é como dizer: Nem aquilo me fará rico, nem isto miserável. Ouvi ainda outra voz: Eu aprendi a contentar-me com o que tenho. Sei viver na abundância e sei suportar a penúria. Tudo posso naquele que me conforta245 . Eis um soldado das milícias celestiais, não o pó que somos. Mas lembra-te, Senhor, que somos pó246 , e do pó criaste o homem247 , e tinha-se perdido e foi encontrado248 . E ele não pôde em si, porque ele mesmo foi pó, ele que eu amei e disse tais coisas pelo sopro da tua inspiração: Tudo posso, diz, naquele que me conforta249 . Conforta-me para que eu possa, concede-me o que ordenas, e ordena-me o que queres. Ele confessa ter recebido e gloria-se
241 242 243 244 245 246 247 248 249

Lucas 21:34. Sabedoria 8:21. Eclesiástico 18:30. 1 Coríntios 8:8. Filipenses 4:11-13. Salmo 102:14. Génesis 3:19. Lucas 15:24, 32. Filipenses 4:13.

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Confissões, X de que se gloria no Senhor250 . Ouvi outro que pede, para receber: Tira de mim, diz, as concupiscências do ventre251 . Donde se vê claramente, meu santo Deus, que tu dás, quando se faz o que mandas que se faça. 46. Ensinaste-me252 , Pai bondoso, que para os puros todas as coisas são puras253 , mas são um mal para o homem que come provocando escândalo254 ; e que toda a criatura é boa e nada se deve rejeitar do que se toma com acção de graças255 ; não só porque não é a comida que nos torna recomendáveis a Deus256 , mas também para que ninguém nos julgue pela comida ou pela bebida257 , e para que aquele que come não despreze aquele que não come e aquele que não come não condene o que come258 . Eu aprendi estas coisas: graças a ti, louvores a ti, meu Deus, meu mestre, tu que bateste à porta dos meus ouvidos259 e iluminaste260 o meu coração, livra-me de toda a tentação261 . Eu não temo a impureza do alimento, mas a impureza do prazer. Sei que a Noé foi permitido comer toda a espécie de carne que pudesse servir de alimento262 , que Elias se restabeleceu com um alimento de carne263 , que João, dotado de uma admirável abstinência, não foi contaminado pelos animais, isto é, os gafanhotos que lhe serviam de comida264 , também sei que Esaú foi enganado pelo apetite de umas lentilhas265 , e que Da250 251 252 253 254 255 256 257 258 259 260 261 262 263 264 265

1 Coríntios 1:31; 2 Coríntios 10:17. Eclesiástico 23:6. Salmo 70:17. Tito 1:15. Romanos 14:20. 1 Timóteo 4:4. 1 Coríntios 8:8. Colossenses 2:16. Romanos 14:3. Apocalipse 3:20. Salmo 30:17. Salmo 17:30. Génesis 9:2-3. 3 Reis 17:6. Mateus 3:4. Génesis 25:34.

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Santo Agostinho

vid se repreendeu a si mesmo por ter desejado água266 , e que o nosso rei não foi tentado com carne, mas com pão267 . Por isso, o povo no deserto mereceu ser repreendido, não por ter desejado carne, mas por ter murmurado contra o Senhor por causa do desejo da comida268 . 47. Exposto, pois, a estas tentações, luto todos os dias contra a concupiscência do comer e do beber: não há uma coisa com que eu possa cortar e não mais voltar a ela, como consegui fazer com a relação carnal. Por isso, devem ser dominadas as rédeas do paladar, afrouxando-as e puxando-as de forma equilibrada. E quem há, Senhor, que não seja arrastado um pouco para lá dos limites da necessidade? Seja ele quem for, é grande, e engrandeça o teu nome. Eu, porém, não o sou, porque sou um homem pecador269 . Mas, por um lado, eu engrandeço o teu nome270 , por outro aquele que venceu o mundo271 intercede junto de ti pelos meus pecados272 , contando-me entre os membros enfermos do seu corpo273 , porque os teus olhos viram a imperfeição deles, e todos hão-de ser escritos no teu Livro274 . [A sedução dos perfumes] XXXII. 48. Da atracção dos perfumes não tenho muito para dizer: quando os não tenho, não os procuro, quando os tenho, não os rejeito, sempre também preparado para deles prescindir. Assim me parece; talvez me engane. Com efeito, são deploráveis estas trevas nas quais se oculta esta capacidade que há em mim, de o meu espírito, quando se interroga a si mesmo sobre as suas forças, julgar que não deve confiar
266 267 268 269 270 271 272 273 274

Samuel 23:15-17. Mateus 4:3. Números 11:1-20. Lucas 5:8. Salmo 68:31; Apocalipse 15:4. João 16:33. Romanos 8:34. Romanos 12:5; 1 Coríntios 12:12, 22. Salmo 138:16.

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mas além disso. Às vezes. têm na voz e no canto as suas próprias melodias. ao qual não convém entregar a mente. muitíssimas vezes. Às vezes. não a ponto de ficar preso a elas. de melhor não se tornará pior. engana-me muitas vezes. No entanto. 50. sem me dar conta. peco nestas coisas e depois dou-me conta disso. quando quiser. Os prazeres do ouvido enredaram-me e subjugaramme mais tenazmente. procuram no meu coração um lugar de alguma dignidade. Mas o deleite da minha carne. i i i i . porém. porque a maior parte das vezes lhe é oculto o que há nele. mas tu soltaste-me e libertaste-me. A única esperança. quando assim são cantadas. mas de forma a poder ir-me embora. uma vez que mereceu ser admitido por causa dela. quando o sentimento não acompanha a razão de modo a ir resignadamente após ela. Agora. mas apenas lhes concedo o lugar apropriado. juntamente com as próprias frases que lhe dão vida. gostaria 275 Job 7:1. mas. e que todos os afectos do nosso espírito. encontro um pouco de repouso nas melodias a que as tuas palavras dão vida. parece-me que lhes atribuo mais honra do que convém. erro por excessiva severidade. evitando com algum exagero esta mesma falácia. a não ser que lhe seja revelado pela experiência. [Os prazeres do ouvido] XXXIII. quando são cantadas com uma voz suave e bem trabalhada. 49. confessoo.i i i i Confissões. Assim. quando sinto que o nosso espírito se move mais religiosa e ardentemente para a chama da piedade com aquelas letras sacras. não sabendo eu qual é a oculta afinidade com essas melodias que os desperta. que por ele seria necessariamente enfraquecida. para que possam entrar em mim. a única promessa segura é a tua misericórdia. do que se não fossem cantadas assim. cada um segundo a sua diversidade. a única certeza. X facilmente em si. tenta até ir adiante e guiá-la. e ninguém deve ter a certeza nesta vida – que toda ela é chamada uma provação275 – se aquele que pôde de pior tornar-se melhor.

e quando mesmo agora me comovo. e vê-me277 . mas com as coisas que se cantam. a fim de que. chorai por mim.i i i i 82 Santo Agostinho de afastar dos meus ouvidos e dos da própria Igreja toda a melodia das músicas suaves que acompanham o saltério de David. e cura-me279 . Na verdade. e inclino-me mais. Salmo 102:3. e compadece-te de mim278 . que derramei perante os cânticos da Igreja. o qual levava o leitor do salmo a entoá-lo com uma inflexão de voz tão pequena que parecia mais própria de quem recita do que de quem canta. quando me acontece que a música me comova mais do que as palavras. i i i i . reconheço de novo a grande utilidade desta prática. Todavia. não com o canto. e pareceme mais seguro o que recordo ter ouvido dizer a respeito de Atanásio. Senhor meu Deus. donde procedem as acções. volta para mim o teu olhar276 . então. 1 Coríntios 3:16-17. um espírito mais fraco se eleve ao afecto da piedade. estas coisas não vos comovem. a vós que as não praticais. Contudo. Resta o deleite destes olhos da minha carne. Mateus 4:23. 6:19. acerca do qual farei uma confissão. Salmo 79:15. 276 277 278 279 280 281 Salmo 12:4. 2 Coríntios 6:16. por meio do prazer dos ouvidos. preferiria não ouvir cantar. porém. tu. [Os prazeres do olhar] XXXIV. a cujos olhos me tornei para mim mesmo numa interrogação. Tu. Salmo 9:14. e é essa a minha doença280 . a aprovar o costume de cantar na igreja. bispo de Alexandria. quando são cantadas com uma voz clara e uma modulação perfeitamente adequada. Eis em que estado me encontro! Chorai comigo. nos primórdios da recuperação da minha fé. que os ouvidos do teu templo281 possam ouvir. Assim. vós que algum bem praticais no vosso íntimo. flutuo entre o perigo do prazer e a experiência do efeito salutar. escuta-me. confesso que peco de forma a merecer castigo e. quando me lembro das minhas lágrimas. 51. Salmo 6:3. apesar de não pronunciar uma opinião irrevocável.

X ouvidos fraternos e piedosos. Mas esta luz corporal. que ainda me fazem vibrar. ou a que Jacob via. Estando acordado. gemendo e ansiando ser revestido da minha habitação celeste283 . Oxalá estas coisas se não apoderem da minha alma. 52. mas sim reconhecê-los abençoandoos286 . prefiguradas nos filhos.i i i i Confissões. também ele privado da vista por causa da sua avançada idade. e caminhava à sua frente com os pés da caridade285 . entristece o espírito. que era vista por Tobias. esta luz que inunda tudo o que vemos onde quer que eu esteja durante o dia. sem nunca se perder. e uma só coisa são todos os que a vêem e amam. quando. e impôs as mãos misticamente cruzadas sobre os seus netos. amam 282 283 284 285 286 287 1 João 2:16. Génesis 1 :31. que dela se apodere Deus que. Tobias 4 :2. ameniza a vida àqueles que. filhos de José. da qual falava. infiltrando-se de mil maneiras. irradiou luz do seu luminoso coração sobre as gerações do povo futuro. na verdade. mas como ele próprio vislumbrava interiormente287 . cegos. ou a que Isaac via. Com efeito. procuramo-la com saudade e. i i i i . a única luz. acaricia-me. quando. a fim de concluirmos o tema das tentações da concupiscência da carne282 . fechados estes olhos. elas não me deixam durante todo o dia. Génesis 27 :1-40. ainda que me ocupe de outras coisas e nela não repare. agravados e velados os olhos carnais pela velhice. não me dão repouso como me é dado pelas vozes harmoniosas. ensinava ao filho o caminho da vida. com a sua doçura sedutora e perigosa. 2 Coríntios 5:2. E insinua-se com tal veemência que. se por muito tempo se ausenta. Ó luz. mereceu não abençoar os filhos reconhecendo-os. durante o silêncio. Ela é a luz. não como o pai deles o corrigia exteriormente. quando. a própria rainha das cores. Génesis 48:3-49:28. e às vezes por todas. Os olhos amam as formas belas e variadas. as cores vivas e alegres. fez estas coisas muito boas284 . Porque o meu bem é ele mesmo e não estas coisas. se de repente desaparece.

porém. porém. com os quais percorro o teu caminho. mas não a da sua utilização. Jeremias 9:1. 53. meu Deus e minha glória. Assim quero ser eu. Mas eu. é daí que os artífices e seguidores destas belezas exteriores deduzem a norma que estabelece o seu valor. Ambrósio. e destruindo em si aquilo que ele os fez.1 (PL 16. pois estão presos num laço. incorporam-na num hino a ti. Tu não cessas de os libertar.i i i i 84 Santo Agostinho o século. para que tu arranques do laço os meus pés289 . pois não dormes nem dormitas. Ora. 288 289 290 291 292 293 2 Macabeus 1:24. Salmo 58:10. e ergo para ti os meus olhos invisíveis. também enredo os meus passos naquilo que é belo. no seu adormecimento. a minha alma. nas pinturas e esculturas várias que muito ultrapassam o seu uso necessário e equilibrado e o seu piedoso significado. Que inumeráveis coisas acrescentaram os homens às tentações da vista com as variadas artes e requintes no vestuário. aprendem a fazer dela um motivo de louvor. mas tu libertas-me. Hinos I 2. nos utensílios. Quando. E esta também lá está. abandonando interiormente aquele que os criou. também por isto entoo um hino e ofereço um sacrifício de louvor291 a ti. Resisto às seduções dos olhos para que não se enredem os meus pés. Salmo 115:17 Salmo 1:2. seguindo exteriormente aquilo que criam. eu. Senhor. Salmo 24:15. em outros produtos do mesmo género. que me santificas. e a guardarem para ti a sua fortaleza293 . dia e noite292 . porque as coisas belas que passam para a mão do artista através da sua alma provêm daquela beleza que está acima das almas e pela qual suspira. Tu os libertas um após outro. no calçado. porém. mas não são consumidos por ela. Eu. e a não a dissiparem em deliciosas canseiras. tu que guardas Israel290 . com frequência fico preso nas armadilhas espalhadas por toda a parte. Salmo 120:4. quando exponho e examino isto. 1409). ó Deus criador de todas as coisas288 . e eles não a vêem de modo a não se afastarem para mais longe. i i i i .

Com efeito. Por isso. e que os olhos ocupam o primeiro lugar entre os sentidos em ordem ao conhecimento. a experiência geral dos sentidos é chamada. Salmo 39:12. a função de ver. na qual os olhos têm a primazia.i i i i Confissões. umas vezes sem eu sentir. como foi dito. eu deixo-me prender miseravelmente e tu libertas-me misericordiosamente. concupiscência dos olhos297 . não só dizemos: vê o que brilha. [Segundo género de tentação: a curiosidade] XXXV. No entanto. não dizemos: ouve o que brilha. também usurpam para si. mas também: vê o que soa. 1 João 2:16. Visto que esse apetite está no desejo de conhecer. X libertas-me. Na verdade. pois diz-se que todas estas coisas são vistas. porque só os olhos o podem sentir. existe na alma. uma espécie de apetite vão e curioso. ele é designado na Escritura por concupiscência dos olhos296 . ou: cheira como resplandece. porque a minha queda não tinha sido até ao fundo. Aos olhos pertence essencialmente a função de ver. vê o que tem sabor. disfarçado sob o nome de conhecimento e ciência. vê o que cheira. ou: apalpa como cintila. 294 295 296 297 Salmo 25:3. porque a tua misericórdia está diante dos meus olhos294 . além da concupiscência da carne. Usamos também a palavra ‘ver’ para os outros sentidos quando os aplicamos ao acto de conhecer. vê como é duro. outras vezes com dor. 54. perigosa sob muitos mais aspectos. por analogia. postos ao serviço da qual perecem os que se afastam de ti295 . ou: saboreia como reluz. mas sim de sentir por meio da experiência da carne. A isto acresce outra forma de tentação. 72:27. quando procuram conhecer algum objecto. porque os restantes sentidos. porque já estava atolado. não de se deleitar na carne por meio dos mesmos sentidos do corpo. que é inerente ao deleite de todos os sentidos e prazeres. i i i i . Na verdade. 1 João 2:16.

saborosas e macias. contudo. e nunca a minha alma consultou os espíritos. o que seria longo enumerar. mas sim pelo prazer da experiência e do conhecimento. os teatros já não me atraem. exibem-se nos espectáculos as coisas mais prodigiosas. quando ousarei dizer. quando ousarei dizer que nenhuma de tais coisas me chama a atenção para eu olhar e ser apanhado numa vã preocupação? Na verdade. como se alguém as tivesse obrigado a vê-lo. na própria religião. Que prazer há em ver num cadáver despedaçado aquilo que provoca horror? E. estando acordadas. para as experimentar. ó Deus da minha salvação299 . Com quantas sugestões e maquinações me não leva o inimigo a pedir um sinal. Daqui resulta também que se procure alguma coisa por meio das artes mágicas. uma vez que à minha volta uma tão grande quantidade de coisas deste género atordoa a nossa vida quotidiana. se um jaz em alguma parte. 56. João 4:48. Com isso se distingue mais claramente o que de prazer e o que de curiosidade é obtido por meio dos sentidos. nem procuro conhecer o curso dos astros. harmoniosas. 298 299 Lucas 11:16. contudo. ao passo que a curiosidade procura também coisas contrárias a estas. Nesta selva tão imensa. porque o prazer procura coisas belas. Daqui passa-se à indagação dos segredos da natureza –que está fora do nosso alcance – que não há nenhum proveito em conhecer mas os homens não desejam senão conhecer. não para sofrer contrariedades. E o mesmo sucede com os restantes sentidos. com o mesmo fim de uma ciência perversa. Por causa desta doença da curiosidade. i i i i . quando se lhe pedem sinais e prodígios298 . ou tivesse atraídas pelo rumor de alguma beleza. não para a salvação de alguém.i i i i 86 Santo Agostinho 55. Receiam até vê-lo em sonhos. suaves. a ti. mas unicamente por desejo da experiência. eis que eu cortei e expulsei muitas coisas do meu coração. 37:23. detesto todos os rituais sacrílegos. cheia de armadilhas e de perigos. Salmo 17:47. tal como concedeste que eu fizesse. acorrem pessoas para se contristarem. para empalidecerem. Resulta ainda daqui que. Deus seja posto à prova.

e depois. porque são animais pequenos. pelo nosso rei e pela nossa pátria. para não escandalizarmos os fracos. no campo. E que dizer quando. e a minha única esperança é a tua misericórdia. muito diferente é o objectivo da minha intenção. X Senhor meu Deus. No entanto. como que toleramos inicialmente aqueles que nos contam coisas banais. contudo. Já não dou atenção a um cão que corre atrás de uma lebre. ó criador admirável e ordenador de todas as coisas. fico estupidamente embasbacado. mas não é para te louvar que começo a reparar nisso. não com o corpo da montada. quando isso acontece no circo. o nosso coração se transforma em receptáculo de coisas desta natureza. Mas quando te peço pela salvação de alguém. i i i i . e transporta em si uma caterva de numerosas frivolidades. forçando-me a desviar-me.i i i i Confissões. imensamente grande300 . a pura e casta Jerusalém. se por acaso estou a passar. e concedes e conceder-me-ás que eu te siga de bom grado. progressivamente lhes prestamos atenção. ou uma aranha a enredar nas suas teias as que nelas caem? Acaso. E de tais coisas está cheia a minha vida. mas pela inclinação do coração. e se tu. Quando. e quantas vezes nos deixamos levar? Quantas aquelas em que. por meio de algum pensamento. quando fazes o que queres. quem poderá contar a grande quantidade de coisas tão insignificantes e desprezíveis. Uma coisa é levantar-me rapidamente e outra é não cair. 57. assim como o consentir nestas coisas está longe de mim. a quem devo servir na humildade e na simplicidade! Mas suplico-te. mostrando-me a minha fraqueza. de bom grado. por causa disso também as nossas orações são 300 Salmo 85:13. com que diariamente é tentada a nossa curiosidade. porém. assim também esteja sempre cada vez mais longe. não é o mesmo o que se passa? Passo daí ao teu louvor. muitas vezes me atrai a atenção uma osga a caçar moscas. sentado em casa. que. não me exortas imediatamente ou a que me eleve desse espectáculo até ti. ou a que desprezar tudo isso e passe adiante. uma caçada idêntica desvia-me talvez até de um pensamento elevado e volta para si a minha atenção.

uma vez que tu começaste a mudar-nos? E tu sabes301 em que medida é que me mudaste. e curares todas as minhas fraquezas. na tua presença. i i i i . e 301 302 303 304 305 306 Tobias 3:16. e. quando dirigimos a voz do nosso coração para os teus ouvidos. tu que não tens senhor. quando a ele receava submeter-me. 8:9. 58. Mas porventura. [Terceiro género de tentação: a soberba] XXXVI. e na verdade era assim. e é suave para mim. 1 João 2:16. Senhor. ou haverá alguma coisa que nos possa reconduzir à esperança. 59. tu resistes aos soberbos. porque assim o prometeste303 e cumpriste. e me coroares com a tua compaixão e misericórdia. nem temer-te castamente. por isso. Daí resulta não amar-te acima de tudo. de todos conhecida. e domaste a minha cerviz com o teu jugo. mas dás a tua graça aos humildes306 . para te tornares benévolo também para com todas as minhas restantes iniquidades. o querer ser temido e amado dos homens. Tiago 4:6. porventura cessou em mim ou pode cessar em toda esta vida também este terceiro género de tentação305 . tu que és o único que dominas sem orgulho. mas para que daí venha uma alegria que não é alegria? A vida é miserável. e eu não sabia.i i i i 88 Santo Agostinho muitas vezes interrompidas e perturbadas. tu que começas por me curar da vontade de reivindicar a minha independência. e saciares de bens o meu desejo302 . e. E agora eu levo-o. não sei como é interrompido um acto tão elevado com os pensamentos fúteis que nos assaltam. Mateus 11:30. não por outro motivo. Salmo 68:6. Salmo 102:3-5. Isaías 37:20. porque és o único verdadeiro Senhor304 . e resgatares da corrupção a minha vida. tu que abateste com o teu temor o meu orgulho. João 21:15-16. 1 Pedro 5:5. e vergonhosa a arrogância. Porventura deveremos considerar também isto entre as coisas que não têm importância. a não ser a tua misericórdia.

e nos agrade ser amados e temidos. julgandoo tu. condenando-o tu. Sê tu a nossa glória. eles servissem aquele que te imitou. X trovejas307 contra as ambições do século308 . aqueles que se tornaram semelhantes a ele. enquanto recebemos avidamente estes aplausos. vituperando-o tu. deste modo. o adversário da nossa verdadeira felicidade não nos dá tréguas. não para a concórdia da caridade. E assim. porém. é melhor aquele que o louvou do que ele. 307 308 309 310 311 312 313 314 Salmo 17:14. e estremecem os fundamentos das montanhas309 . para que. Aquele que pretende ser louvado pelos homens. Salmo 34:21. é necessário ser amado e temido pelos homens. Lucas 12:32. Isaías 26:13. não será defendido pelos homens. Salmo 9B:24 (10A:3). por caminhos perversos e tortuosos.i i i i Confissões. porém. nem será liberto. Nós. e. ele que determinou colocar a sua morada no aquilão311 . envolvidos pelas trevas e pelo frio. Isaías 14:13. i i i i . sejamos apanhados incautamente. para que. também este é louvado. e a coloquemos na falsidade dos homens. que foi louvado. Àquele agradou-lhe no homem o dom de Deus. nem será abençoado aquele que pratica a iniquidade314 . mas para a partilha do suplício. mas em vez de ti. espalhando por toda a parte nos seus laços um ‘muito bem! muito bem!’310 . não é louvado o pecador nos desejos da sua alma. como. por causa de certos deveres da sociedade humana. mas sim é louvado um homem qualquer por causa de algum dom que tu lhe deste. 28:3. os tenha consigo. somos o teu pequenino rebanho312 . mas tu censura-lo: por isso. apoderate de nós313 . Senhor. 1 João 2:16. Quando. que sejamos amados por causa de ti e que a tua palavra seja temida em nós. 39:16. Estende as tuas asas para que nos refugiemos debaixo delas. e ele se compraz mais em ser louvado do que em ter esse dom que é o motivo por que é louvado. Salmo 17:14-16. não por causa de ti. e desliguemos a nossa alegria da tua verdade. a este agradou-lhe mais o dom do homem do que o de Deus. 69:4.

quer por minha vontade. Exiges de nós continência também neste aspecto: dá-nos aquilo que ordenas e ordena-nos aquilo que queres. Então interrogo-me se me é mais ou menos penoso não as ter. eu não sei se consigo passar bem ou mal sem uma coisa. Somos diariamente tentados com estas tentações. porém. quando careço de tais coisas. para que o espírito se ponha à prova a si mesmo. que todos os que nos conhecem nos detestem? Que maior loucura se pode dizer ou pensar? Ora. somos incessantemente tentados. que se desejam para servir a uma destas três concupiscências. 60.i i i i 90 Santo Agostinho [A vanglória] XXXVII. Eclesiástico 15:20. possuindo-as. eu vejo quanto consegui poder refrear o meu espírito. elas podem ser abandonadas. A língua dos homens é a nossa fornalha quotidiana315 . se o louvor não só costuma mas também deve ser o companheiro da uma vida irrepreensível e das boas obras. tão infame e cruel. Mas. Efectivamente. quer por ausência delas. Na verdade. não é conveniente abandonar nem a sua companhia nem essa vida irrepreensível. e receio muito as minhas faltas ocultas317 . Salmo 37:9. Com efeito. acaso temos de viver de forma tão desonesta. Senhor. mas não os meus. mas também da supérflua curiosidade de conhecer. ou a duas delas. senão quando me falta. se o espírito não pode perceber claramente se as despreza. não consigo saber com facilidade até que ponto estou limpo desta peste. Tu conheces a este respeito o gemido que o meu coração316 te dirige. Na realidade. ou a todas. As riquezas. não só dos prazeres da carne. noutros géneros de tentações eu tenho uma certa capacidade de me examinar. 315 316 317 318 Provérbios 27:21. bem como os rios que brotam dos meus olhos. mas neste ela é quase nula. Salmo 18:13. para nos privarmos do louvor e com isso fazermos a experiência do que somos capazes. que os teus olhos conhecem318 . i i i i .

em mim. X 61. ou são louvadas as coisas que me desagradam. não só a aprovação aumenta a satisfação. visto que. insinua-se sorrateiramente em mim a desculpa que tu sabes qual é. a respeito de mim. ou ignora ou é bom. também me entristeço com os louvores que me dirigem. ser louvado por todos os homens. muitas vezes parece-me que me deleito com o progresso ou a esperança do próximo. portanto. quando me perturbo com esta minha miséria. mais uma vez. Com efeito. eu sei o que escolheria. confesso.i i i i Confissões. Marcos 12:30-31. quando. ou. pois isso lança-me na incerteza. não por eu ser motivado pelo bem dele. como é que eu sei se me sinto assim porque não quero que quem me louva discorde de mim. de que coisas devemos afastar o nosso amor. me entristeço com o seu mal. Mateus 22:37. a saber. se me for proposto se eu prefiro. por parte de uma boca alheia. de certo modo. i i i i . e. como também o vitupério a diminui. estando louco e errando em todas as coisas. estando são de espírito e firmíssimo na verdade. mas também a justiça. aumentasse em mim a satisfação. eu não gostaria que a aprovação de qualquer bem meu. quando não é louvado o juízo que de mim faço. Lucas 10:27. quando me deleito no louvor de alguém que faz uma boa apreciação a meu respeito. incerto de mim mesmo? 319 320 Salmo 68:6. ou são louvadas em mim aquelas coisas em que eu próprio me desagrado. Na verdade. Não estou. senão que me deleito nos louvores? Mas mais ainda na própria verdade do que nos louvores. que me agradam em mim. ou são louvadas mais as coisas que menos me agradam. O que é que. E. E. mas por os mesmos bens. ser escarnecido por todos. por vezes. a saber. neste género de tentação te confesso? O quê. e não apenas quiseste que te amássemos a ti. me serem mais agradáveis quando agradam também a outro? Efectivamente. ou também são mais apreciados do que deviam sê-lo os bens menores e insignificantes. Mas. pois. Mas. pelo contrário. não sou louvado. Uma vez que não só nos ordenaste a continência. Senhor. quando o ouço censurar aquilo que. 39. mas que também amássemos o próximo320 . em que é que o devemos colocar. ó Deus319 .

por causa do desejo de ser louvado. Peço-te. E não sei se sou assim. e sou melhor quando me desagrado a mim mesmo. o qual concentra os votos que mendiga numa espécie de enaltecimento pessoal: tenta-me. em oculto pranto. i i i i . [A vanglória é uma ameaça para a virtude] XXXVIII. para que o possa confessar aos meus irmãos. que hão-de orar por mim. é denunciada. 1 João 1:6. Salmo 108:22.i i i i 92 Santo Agostinho 62. Se sou levado. se alguém é vituperado injustamente. diante de mim? Porventura ignoro também isto? Acaso devo concluir que me engano a mim mesmo321 . eu próprio conheço-me menos a mim do que a ti. ó Verdade. e que não pratico a verdade322 . do que quando sou eu? Porque é que me morde mais a mim a afronta que é lançada contra mim do que a que. para que a minha boca não seja para mim o óleo do pecador a ungir a minha cabeça324 . Sou necessitado e pobre325 . enquanto a minha indigência não for reparada e aperfeiçoada até à paz que ignoram os olhos do arrogante. e as obras que se tornam conhecidas aos homens encerram uma tentação muitíssimo perigosa. Em ti. 63. As palavras. no meu coração e na minha língua? Afasta para longe de mim. essa loucura323 . é lançada contra outro. porém. pelo bem do próximo. Senhor. Interrogar-me-ei de novo com mais diligência. e quando por mim. e faz-me conhecer a mim mesmo aquilo que eu encontrar em mim ferido. mas por causa do bem do próximo. que saem da boca. muitas vezes. eu vejo que não me devo deixar levar pelos louvores por causa de mim. Neste aspecto. nos louvores que me dirigem. em mim. João 3:21. pelo mesmo facto de ser denunciada e. Provérbios 30:8. e procuro a tua misericórdia. porque é que me impressiono menos. ó meu Deus. com igual injustiça. pelo mesmo desprezo 321 322 323 324 325 Gálatas 6:3. diante de ti. Salmo 140:5.

Onde é que tu. todavia não a partilhando com outros. sentindo outras confundidas comigo. e nenhuma delas pude discernir sem ti. dentro de nós.i i i i Confissões. e distinguindo e enumerando os sentidos que mas transmitem e. observei a vida do meu corpo e os meus próprios sentidos. 65. e sinto que é mais frequente tu curares as minhas feridas do que eu não as infligir a mim mesmo. Daí entrei nos recônditos da minha memória. [A procura de Deus dentro e fora de si mesmo] XL. não a despreza. ou ainda como se fossem obtidos pela tua graça. ou lhes desagradem. e descobri que tu não eras nenhuma delas. não caminhaste comigo. mas obtidos por méritos seus. e. quando te manifestava as minhas baixezas. i i i i . mas privando-os dela. eu que as percorri todas e me esforcei por distinguir e avaliar cada uma delas. por isso. colhendo umas dos sentidos que mas davam a conhecer e interrogando-as. já nas largas riquezas 326 Habacuc 3:2. Mas. gloria-se vãmente. quando se gloria. 64. tu vês o tremor do meu coração. ó Verdade. Também dentro. e examinei-as atentamente. ainda que não agradem aos outros. e fiquei assustado326 . ou até como se fossem teus. as que pude. mas também dos teus bens como se fossem seus. desagradam-te muito a ti. X da vanglória. e te consultava? Percorri o mundo exterior com o sentido que pude e. no mesmo género de tentação. e nem procurem agradar-lhes. segundo o seu valor. já se não gloria do próprio desprezo da glória: com efeito. Nem eu mesmo sou o seu inventor. agradando a si mesmos. não só quando se gloriam de coisas não boas como se fossem boas. a partir de mim. múltiplas amplidões maravilhosamente cheias de inumeráveis riquezas. Em tudo isto e nos perigos e trabalhos deste género. outro mal que torna vãos aqueles que se comprazem em si e a si mesmos agradam. [Força e natureza do amor próprio] XXXIX. existe. ensinandome o que devo evitar e o que devo desejar.

eu não era a força com que o fazia. 107:7. ‘o que eram’ e ‘em quanto se deviam avaliar’: e ouvia-te quando me ensinavas e me davas as tuas ordens. E em nenhuma destas coisas. ‘se eram’. [A tríplice concupiscência] XLI. numa não sei que doçura interior. Mas eu. a concupiscência dos olhos e a soberba da vida (cf. 1 João 1:5. Por isso considerei as fraquezas dos meus pecados na tríplice concupiscência328 e invoquei a tua dextra para minha salvação329 . disse: ‘Quem pode chegar ali?’ Fui atirado para longe dos teus olhos330 . e. Com efeito. e nada de mim se afaste de ti. Mas com o peso das minhas misérias volto a cair nestas coisas e sou absorvido pelas coisas do dia-a-dia. quero estar ali e não posso. 331 João 14:6. E faço muitas vezes isto. refugio-me neste prazer. 102:3. 9:5. pela minha avareza. Mateus 4:23. em quem se possam reunir todas as minhas dispersões. E. sempre que posso desligar-me das minhas actividades obrigatórias. mas estou muito preso. não sei o que será. 330 Salmo 30:23. Tu és a Verdade331 que preside a todas as coisas. não te quis perder. vi o teu esplendor e. isto deleita-me. se em mim alcançar a plenitude. desvendando outras: e. Sou infeliz em qualquer dos lados. mas contigo quis possuir a mentira. 328 327 i i i i . quando isto fazia. a qual. com o coração ferido. porque esta vida não será. fazes-me entrar num afecto deveras invulgar. Tão grande é o preço do fardo da habituação! Posso estar aqui e não quero. 66. 329 Salmo 59:7.i i i i 94 Santo Agostinho da memória. 1 João 2:16). da mesma maneira que ninguém quer dizer uma mentira de modo que ele próprio João 1:9. e fico preso nelas e choro muito. encontro um lugar seguro para a minha alma senão em ti. não era eu mesmo. ou melhor. repelido. que percorro consultando-te. porque tu és a luz327 permanente a quem eu consultava. ocultando outras. por vezes. manejando umas. 8:12. A concupiscência da carne. acerca de todas as coisas. nem ela mesma eras tu. 12:46.

segundo ouço dizer. aquele falso mediador por quem. e atraíram a si.i i i i Confissões. No entanto. pelas quais seriam enganados com poderes mágicos. e caíram no desejo de visões temerárias e mereceram ser vítimas de ilusões. Por isso. 67. algo de semelhante aos homens. E pelo facto de este não possuir um corpo de carne. [Os falsos mediadores] XLII. Na verdade era o diabo transfigurando-se em anjo da luz333 . sendo em tudo semelhante aos homens. sendo em tudo semelhante a Deus. a soberba merece ser enganada. não sendo. não estivesse longe de Deus. com quem procuravam soberbamente reconciliar-se. procuravam-te com a arrogância do saber. perdi-te. as potestades deste ar332 . não estivesse longe dos homens. pelo facto de não estar revestido da carne mortal. por semelhança do seu coração. eles eram mortais e pecadores. Senhor. era necessário que o mediador entre Deus e os homens334 possuísse algo de semelhante a Deus. 2 Coríntios 11:14. i i i i . Com efeito. Romanos 6:23. mediador. para que. o pecado. exibindo-se em vez de baterem no peito. e ele não existia. X não saiba o que é verdade. 1 Timóteo 2:5. E assim. as companheiras e cúmplices da sua soberba. ao procurarem um mediador pelo qual se haviam de purificar. isto é. tentaram. Ensoberbecendo-se. para que se apresente como imortal. Quem é que eu encontraria que me reconciliasse contigo? Deveria eu recorrer aos anjos? Com que prece? Com que ritos? Muitos. ir por aí. porque tu não admites ser possuído juntamente com a mentira. esforçando-se por voltar a ti e não o podendo por si próprios. possui uma coisa comum aos homens. de acordo com os teus secretos juízos. és imortal e sem pecado. porque o salário do pecado é a morte335 . outra quer parecer tê-la em comum com Deus. seduziu fortemente a carne orgulhosa. ou. mas tu. Mas. deste modo. ele tem o pecado em comum 332 333 334 335 Efésios 2:2.

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com os outros homens, donde resulta ser condenado juntamente com eles à morte. [Cristo, verdadeiro mediador] XLIII. 68. Mas o verdadeiro mediador que, pela tua secreta misericórdia, revelaste aos humildes e enviaste, para que, com o seu exemplo, aprendessem também a mesma humildade, ele, mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus336 , manifestou-se entre os mortais pecadores e o imortal justo, mortal em comum com os homens, justo em comum com Deus, a fim de que – em virtude de a recompensa da justiça ser a vida e a paz337 – pela justiça unida a Deus, aniquilasse a morte338 dos pecadores justificados339 , a qual quis ter em comum com eles. Este mediador foi revelado aos antigos santos, para que eles próprios fossem salvos340 pela fé na sua futura paixão, tal como nós pela fé na sua paixão já passada. De facto, na medida em que é homem, nessa mesma medida é mediador, mas, enquanto Verbo, não está no meio, porque é igual a Deus341 e Deus junto de Deus342 , e, ao mesmo tempo, um único Deus. 69. Como nos amaste, ó Pai bondoso, que não poupaste o teu único Filho, mas o entregaste por nós, pecadores343 ! Como nos amaste a nós, a favor dos quais ele, não considerando rapina ser igual a ti, se fez obediente até à morte de cruz344 , sendo ele o único livre entre os mortos345 , e tendo o poder de entregar a sua vida, e o poder de a tomar nova336 337 338 339 340 341 342 343 344 345

1 Timóteo 2:5. Romanos 8:6. 2 Timóteo 1:10. Provérbios 17:15; Romanos 4:5. 1 Timóteo 2:4. Filipenses 2:6. João 1:1. Romanos 5:6; 8:32. Filipenses 2:6, 8. Salmo 87:6.

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Confissões, X mente346 , por nós, diante de ti, vencedor e vítima, e vencedor porque vítima, por nós, diante de ti, sacerdote e sacrifício, e sacerdote porque sacrifício, fazendo de nós, diante de ti, de servos, filhos347 , nascendo de ti e servindo-nos. Com razão, está nele a minha firme esperança de que curarás todas as minhas enfermidades348 , por intermédio daquele que está sentado à tua direita349 e intercede por nós350 : de outro modo, eu desesperaria. Muitas e grandes são essas enfermidades, são muitas e grandes; mas maior é a tua medicina. Poderíamos pensar que o teu Verbo estava longe de se unir ao homem, e poderíamos desesperar de nós, se não se tivesse feito carne e não tivesse habitado entre nós351 . 70. Aterrorizado com os meus pecados e com o peso da minha miséria, tinha considerado e meditado no meu coração fugir para a solidão, mas tu proibiste-me e encorajaste-me, dizendo: Cristo morreu por todos, a fim de que os que vivem já não vivam para si, mas para aquele que morreu por eles352 . Eis, Senhor, que eu lanço em ti a minha inquietação353 , a fim de que viva, e considerarei as maravilhas da tua Lei354 . Tu conheces355 a minha incapacidade e a minha fragilidade356 : ensina-me357 e cura-me358 . O teu Unigénito, em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência359 , redimiu-me com
346 347 348 349 350 351 352 353 354 355 356 357 358 359

João 10:18. Gálatas 4:7. Salmo 102:3; Mateus 4:23. Salmo 109:5. Romanos 8:34. João 1:14. 2 Coríntios 5:15. Salmo 54:23. Salmo 118:17-18. Tobias 3:16; 8:9; Salmo 68:6; João 21:15-16. Salmo 68:6. Salmo 142:10. Salmo 6:3. Colossenses 2:3.

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o seu sangue360 . Não me caluniem os soberbos361 , porque penso no preço da minha redenção362 , e como, e bebo363 , e distribuo, e, pobre, desejo saciar-me364 dele entre aqueles que dele se alimentam e saciam: e louvam o Senhor aqueles que o procuram365 .

360 361 362 363 364 365

Apocalipse 5:9. Salmo 118:22. Salmo 61:5. João 6:55, 57; 1 Coríntios 10:31; 11:29. Lucas 16:21. Salmo 21:27.

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uma vez que foste tu o primeiro a querer que as confessasse a ti. 366 367 368 369 370 371 Salmo 47:2.i i i i Confissões. que és o Senhor meu Deus. então. e pessoas que choram. Já te narrei muitas coisas. e obreiros da paz370 . antes mesmo de lho pedirdes368 . já que a começaste. manifestámos o nosso afecto para contigo. eu faço para ti a narração de todas estas coisas? Não é. decerto. porque nos chamaste para sermos pobres de espírito. 95:4. 144:3. para que as conheças por mim. Mateus 5:3-9. 1. XI Livro XI [Porque confessamos a Deus. e puros de coração. conforme pude e quis. Salmo 117:1. sendo tua a eternidade. confessando-te as nossas misérias e proclamando as tuas misericórdias para connosco369 . porque a tua misericórdia é eterna371 . João 14:6. i i i i . Mateus 6:8. mas apenas desperto o meu afecto para contigo. Salmo 32:22. a fim de que todos possamos dizer: O Senhor é grande e digno de todo o louvor366 . por um lado nós oramos. Porventura. e misericordiosos. ignoras o que te digo ou vês a cada momento o que se passa no tempo? Por que motivo é que. Por isso. bem como o daqueles que lêem estas páginas. porque és bom. não obstante. para que deixemos de ser infelizes em nós e sejamos felizes em ti. Senhor. por outro lado a Verdade367 diz-nos: O vosso Pai conhece aquilo de que necessitais. se ele tudo sabe?] I. e mansos. para que concluas a obra da nossa libertação. e têm fome e sede de justiça. Com efeito. Já o disse e voltarei a dizê-lo: é por amor do teu amor que o faço.

dentro e fora de mim. Salmo 60:2. i i i i . que eu não me engane nelas. e as orientações com que me levaste a pregar a palavra e a dispensar o teu mistério ao teu povo? Mesmo que fosse capaz de enumerar tudo isso por ordem. e todavia. Pois eu sou pobre e necessitado378 . Salmo 1:2. tu rico para com todos os que te invocam379 e. Salmo 85:1. e da aplicação do espírito. e todos os teus terrores. tomas-nos a teu cuidado. nem com elas engane os outros. Salmo 65:15. mas pretende ser útil ao amor fraterno: e tu vês no meu coração que assim é. lhes prestamos. toda a temeridade e toda a mentira. 372 373 374 375 376 377 378 379 380 Salmo 44:2. Ofereça-te eu em sacrifício o serviço do meu pensamento e da minha língua. e nela confessarte a minha ciência e a minha ignorância. até que a fraqueza seja devorada pela fortaleza. porque não é em meu benefício somente que ele se inflama. Senhor meu Deus. com a voz da minha escrita372 . Quando serei eu capaz de enumerar. Salmo 17:29. e as consolações. Salmo 9B:38 (10A:17). embora isento de cuidados. e do serviço que devemos aos homens. E não quero que se percam em outra coisa as horas que me ficam livres das necessidades do alimento do corpo. 3. Êxodo 6:12. os primeiros vislumbres da tua iluminação e os vestígios das minhas trevas374 . e que não devemos. 2. preciosas me são as gotas do tempo. E há muito que desejo ardentemente meditar na tua Lei373 . todas as tuas exortações. Que as tuas Escrituras sejam para mim castas delícias.i i i i 100 Santo Agostinho [Agostinho pede a Deus a compreensão das Escrituras] II. e dá-me tu aquilo que hei-de oferecerte377 . escuta a minha oração375 e que a tua misericórdia atenda o meu desejo376 . Romanos 10:12. Suprime dos meus lábios380 .

luz dos cegos e força dos fracos e. Mateus 7:7-8. Que eu te confesse tudo o que encontrar nos teus Livros. Salmo 26:7. tempo para meditarmos nos segredos da tua Lei e não a feches aos que batem à sua porta386 . e ouça a voz do teu louvor389 . Não abandones os teus dons. a tua voz388 suplanta a afluência de prazeres. XI Senhor. Salmo 28:9. para onde iremos384 ? Para onde dirigiremos o nosso clamor? Teu é o dia e tua é a noite385 : a um aceno teu. passeiam e se apascentam. Génesis 1:1. i i i i . se deitam e ruminam. Salmo 129:1-2. Dá-me o que amo: pois eu amo. Senhor. Salmo 73:16. nem desprezes esta tua erva sequiosa. Apocalipse 21:2. Salmo 118:18. aperfeiçoa-me387 e revela-me esses bosques. 10. Apocalipse 5:10. Nem em vão quiseste que se escrevessem os mistérios obscuros de tantas páginas. escuta-me381 . então. escuta a minha alma. Pois se os teus ouvidos não estiverem também presentes no abismo. Estou em crer que não é um desejo da terra. os instantes voam. 4. ou esses bosques não têm os seus veados que neles se abrigam e recompõem. até ao reino392 . Salmo 16:5. tem compaixão de mim e atende394 o meu desejo395 .i i i i Confissões. e possa inebriar-me de ti e sondar as maravilhas da tua Lei390 . 85:3. Concede-nos. Salmo 138:7. Salmo 26:7. nem de ouro e prata e pedras 381 382 383 384 385 386 387 388 389 390 391 392 393 394 395 Jeremias 18:19. luz dos que vêem e força dos fortes. A tua voz é a minha alegria. Lucas 11:9-10. Salmo 9B:38 (10A:17). contigo perpétuo. e isso foste tu que mo deste. Salmo 25:7. da tua Cidade Santa393 . Ó Senhor. em que fizeste o céu e a terra391 . e tem compaixão de mim. ao mesmo tempo. Senhor382 meu Deus. desde o princípio. e ouve-a clamando do fundo do abismo383 .

no qual também a mim: por ele te rogo. João 1:1. Lucas 11:9-10. ou de honras e poderes. ó Pai. no qual se encontram escondidos todos os tesouros de sabedoria e de ciência408 . Lamentações 1:9. Romanos 10:20. por quem chamaste à adopção o povo dos crentes406 . que eu encontre graça diante de ti. teu Único. É a estes mesmos que eu procuro nos teus Livros.i i i i 102 Santo Agostinho preciosas. Salmo 118:85. entre as quais também a mim. Isto te imploro por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo. 58:6. Salmo 79:18. Isaías 65:1. 396 397 398 399 400 401 402 403 404 405 406 407 408 409 410 Mateus 6:33. a nós que buscamos o teu reino e a tua justiça396 . ou de prazeres da carne nem de coisas necessárias ao corpo e a esta nossa vida de peregrinação: todas estas coisas nos são dadas por acréscimo. meu Deus. e vê. Filho do Homem. Lamentações 1:9. Salmo 9:14. e aprova. Eis donde vem o meu desejo. Vê399 . donde vem o meu desejo. Vê397 . Salmo 9:14. na presença da tua misericórdia400 . 58:6. mas não se comparam às da tua Lei. 3. Gálatas 4:5. Os ímpios deram-me a conhecer as suas alegrias. Salmo 18:15. A respeito dele escreveu Moisés: é ele mesmo que o diz409 . olha. i i i i . que estabeleceste402 como mediador entre ti e nós403 . teu Verbo por quem fizeste todas as coisas405 . por quem nos buscaste quando te não buscávamos404 e nos procuraste para que te procurássemos. o homem que está à tua direita. João 14:6. teu Filho. João 5:46. quando eu lhes bater à porta401 . Romanos 8:34. para que me seja franqueado o âmago das tuas palavras. Colossenses 2:3. Daniel 3:40 Mateus 7:7-8. 1 Timóteo 2:5. e seja tido por bem. Senhor398 . por ele que está sentado à tua direita e intercede por nós407 . é a própria Verdade410 que o diz. ou de vestes luxuosas.

sem os órgãos da boca e da língua e sem o ruído das sílabas: Ele diz a verdade. não tem nenhuma coisa que não tivesse antes: essa coisa é o ser mudado e alterado. e tu que concedeste àquele teu servo dizer estas palavras. XI [O que Moisés escreveu sobre a criação do céu e da terra não se pode entender se Deus o não conceder] III. peço-te. nem bárbara. e se Moisés falasse em língua hebraica em vão bateria à porta412 dos meus ouvidos. tudo aquilo que não foi feito e todavia existe. 73. [A criatura clama por Deus. peço-te. escreveu e partiu deste mundo. já que nenhuma ideia chegaria à minha mente413 . 5. meu Deus. falasse em Latim. na morada do meu pensamento. e pedir-lhe-ia. Mas como saberia eu se ele estava a dizer a verdade? E mesmo que o soubesse. Mateus 7:7-8. concede-me também a mim que as compreenda416 . acaso o saberia a partir dele? A verdade. diria de imediato àquele teu servo: Tu dizes a verdade. seu criador] IV. determinado e cheio de confiança. Proclamam também que não se 411 412 413 414 415 416 Génesis 1:1.i i i i Confissões. porém. detê-lo-ia. Isto escreveu Moisés. por certo me diria no meu íntimo. João 14:6. e suplicar-lhe-ia por teu intermédio que me aclarasse o sentido das suas palavras. Dado que eu não lhe posso perguntar. i i i i . compreenderia o que ele me dissesse. se. que não é hebraica. e eu. ó Verdade414 . Job 14:16. Faz com que eu ouça e compreenda como no princípio fizeste o céu e a terra411 . Salmo 118:34. perdoa os meus pecados415 . pois estão sujeitos a mudanças e a alterações. A língua hebraica não era conhecida por Santo Agostinho. nem latina. o céu e a terra e proclamam que foram feitos. Lucas 11:9-10. Pois se estivesse. 6. e agora já não está diante de mim. nem grega. e abriria os ouvidos do meu corpo aos sons que surgissem da sua boca. pois. Mas. pergunto-te a ti. Existem. passou daqui de junto de ti para junto de ti. na plenitude do qual ele disse a verdade. 144.

tu fizeste uma alma para que mandasse nos seus membros. E a voz deles que assim falam é a própria evidência. em si mesma. [O mundo criado do nada] V. nem são bons. o céu e a terra? Por certo nem no céu nem na terra fizeste o céu e a terra. com o seu olhar interior – e como poderia ela ser capaz disto. e comparados contigo nem são belos. 417 Lucas 18:11. Sabemos isto. no seu íntimo. Mas de que modo fizeste o céu e a terra e qual foi a máquina da tua acção criadora tão grandiosa? Não fizeste como um artífice humano.i i i i 104 Santo Agostinho fizeram a si próprios: ‘Existimos precisamente porque fomos feitos. nem são como tu és. que modela um corpo a partir de outro corpo. Todas estas coisas te louvam como criador de todas elas. possa transpor do espírito para a matéria aquilo que faz e comunique ao espírito o que foi feito. graças te sejam dadas417 . por decisão da sua alma capaz de impor. tu que és bom: e eles são bons. por que se rege. E donde proviriam todas estas matérias se tu as não tivesses criado? Tu fizeste um corpo para o artífice. sobre se está bem feito. 7. ou ao ouro. e. tu fizeste os sentidos do corpo. tu fizeste o talento com que possa conceber e ver dentro de si o que faz fora de si. de maneira a que ele. não existíamos antes de existir. portanto. ou à pedra. nem são. Senhor. de maneira a que pudéssemos fazer-nos a nós próprios’. a forma que ela vê. por qualquer modo que seja. sendo eles intérpretes. tu os fizeste. consulte a verdade. Portanto tu. seu criador. ó Deus. que já existia e tinha como ser. porque não havia onde fosse feito. ou a qualquer outra matéria. nem no ar ou nas águas. tu que és belo: e eles são belos. o nosso conhecimento é ignorância. por exemplo ao barro. Mas de que modo é que as fazes? De que modo é que fizeste. comparado com o teu conhecimento. senão porque tu a fizeste? – e esse artífice impõe uma forma à matéria. nem são tão bons. i i i i . porque também estas pertencem ao céu e à terra. ou à madeira. Nem são tão belos. tu fizeste a matéria com que ele faz o que quer que seja. com os quais. nem no universo fizeste o universo. tu que és: e eles são.

i i i i Confissões. É que essas palavras estão muito abaixo de mim e não existem. mediante cujos movimentos temporais aquela voz se propagasse por algum tempo. 8. vinda da nuvem. do mesmo modo como quando se ouviu a voz. Donde ressalta clara e distintamente que a proferiu um movimento de uma criatura. i i i i . 17:5. cujo ouvido interior está aberto ao teu Verbo eterno. soou e passou a última e. ainda que temporal. Mas como é que disseste? Não foi. e assim sucessivamente. Lucas 3:22. foram anunciadas pelo ouvido exterior à sabedoria da mente. com que 418 419 420 421 422 Génesis 1:1. houve silêncio. o qual. que dizia: Este é o meu Filho dilecto421 ? Essa voz soou e passou. para poder existir. serve a tua eterna vontade. ou. Nenhum corpo existia. até que. e disse: Uma coisa é muito distinta da outra. E a mente comparou estas palavras. porque fogem e passam: enquanto o Verbo de Deus permanece eternamente acima de mim422 . soando por algum tempo. é porque já havia uma criatura material antes do céu e da terra. depois das restantes. a terceira após a segunda. e assim fizeste o céu e a terra. João 1:1. o que é que existe a não ser porque tu existes? Por conseguinte. por acaso. eterno no silêncio. [Como é que Deus disse: Faça-se o mundo?] VI. que soaram por algum tempo. XI antes de ser feito. começou e findou. se existia. muito distinta é da outra. Isaías 40:8. E estas tuas palavras. porém. com o teu Verbo. depois da última. Salmo 32:9 Salmo 32:6. 9:35. Mateus 3:17. foi com palavras que soam e passam que disseste que se fizesse o céu e a terra. Se. por conseguinte. 3. Soaram as sílabas e passaram: a segunda após a primeira. Nem tinhas na mão coisa alguma com que pudesses fazer o céu e a terra: e donde te veio aquilo que não fizeras. antes do céu e da terra. com que pudesses fazer alguma coisa418 ? De facto. sem dúvida tu o tinhas feito sem recorreres a uma voz transitória. tu disseste e foram feitos419 e no teu Verbo os fizeste420 .

onde nada começa nem acaba. para que todas as coisas possam ser ditas. E. Porquê. não se acaba o que estava a ser dito. por meio da qual dissesses que se fizesse o céu e a terra. que é co-eterno contigo. não poderia de forma alguma existir se não tivesse sido criada por ti. Portanto. Senhor meu Deus? De certa maneira eu vejo-o. Sabemos. [O Verbo de Deus é o princípio que nos ensina toda a verdade] VIII. Assim nos chamas. e comigo sabe e te bendiz todo aquele que é não ingrato para com a Verdade infalível. dizes simultânea e sempiternamente todas as coisas que dizes. Deus junto de ti que és Deus423 . Isto sei eu. Com efeito. e dou-te graças. todavia. a não ser que tudo o que começa a existir e deixa de existir começa e deixa de existir no momento em que.i i i i 106 Santo Agostinho fizesses a voz transitória. 10. é conhecido 423 424 João 1:1. e faz-se tudo o que dizes que se faça. Senhor. Nada. pois. já existiria tempo e mudança e não verdadeira eternidade nem verdadeira imortalidade. do teu Verbo. na eterna razão. a compreender o Verbo. mas não sei como expressá-lo. por isso. nessa mesma medida morre e nasce. pois. nem fazes de outro modo que não seja dizendo: e. i i i i . no Verbo. com que palavra foi dito que se fizesse o corpo com que se fizessem essas palavras? [O Verbo de Deus é co-eterno com Deus] VII. ó meu Deus. mas todas simultânea e sempiternamente: se assim não fosse. Lucas 10:21-22. Sei. o qual sempiternamente é dito e no qual sempiternamente são ditas todas as coisas. porque ele é verdadeiramente imortal e eterno. Senhor. 9. e diz-se outra coisa. sabemos que na medida em que cada coisa não é o que era e passa a ser o que não era. peço-te. não são feitas simultânea e sempiternamente todas as coisas que fazes dizendo. qualquer que fosse a substância com que se fizesse tal voz. antecede e sucede. Com efeito. Mateus 11:25-27. confesso-te424 .

na tua verdade. onde o bom e único Mestre426 ensina todos os seus discípulos. voltamos do error. se não permanecesse estável. ele ensina-nos. porque é o princípio e nos fala428 . porque conhecemos. inflamo-me. na tua virtude. ó Deus. enquanto quem não nos ensina. rasgando a minha nuvem. Mateus 19:16. quando firmemente estamos e o ouvimos e enchemo-nos de alegria por causa da voz do esposo427 . onde verdadeiramente aprendemos. Ele é. De resto. e procurado interiormente. 11. a voz de quem me diz que nos fala aquele que nos ensina.i i i i Confissões. quem nos ensina senão a verdade inalterável? Porque. e de modo admirável fazendo. no teu Filho. sem o ferir? E tanto estremeço como me inflamo: estremeço. que brilha em mim. e encontrado na eterna verdade. mesmo por uma criatura mutável. Senhor. A sabedoria. Assim falou no Evangelho. não teríamos para onde voltar. voltamos. Quem o poderá compreender? Quem o poderá explicar? Que isso que brilha em mim e trespassa o meu coração. quando andássemos errantes. não nos fala. ainda que nos fale. que também é o princípio. Isso mesmo é o teu Verbo. e isso ressoou exteriormente aos ouvidos dos homens para que fosse acreditado. por meio da carne. na tua sabedoria430 . e para conhecermos. XI que devia ter começado ou ter acabado. Aí ouço a tua voz. pois. 23:8. João 8:25. Quando. na medida em que sou diferente disso. Neste princípio fizeste. Génesis 1:1. devolvendo-nos a nós mesmos ao lugar donde somos. é a própria sabedoria. na medida em que sou semelhante a isso. visto que. que 425 426 427 428 429 430 João 8:25. somos levados à verdade inalterável. 1 Coríntios 1:24. i i i i . de modo admirável dizendo. por certo. porque também nos fala425 . o princípio. no teu Verbo. [Como o Verbo de Deus fala ao coração] IX. porém. quando somos orientados. João 3:29. o céu e a terra429 .

falando no seu íntimo. cheio de confiança com as palavras do teu oráculo: Como são magníficas as tuas obras. ouça-te. a vontade de Deus não é uma criatura. e saciarás de bem o meu desejo. 433 Romanos 8:24-25. [Os que contra-argumentam: Que fazia Deus antes de criar o céu e a terra?] X. 2: carnalitas uetustas est. Agostinho. eu clamarei. se existiu em Deus algum movimento novo e uma nova vontade de criar um ser. todas as fizeste na tua sabedoria434 ! E esta é o princípio.i i i i 108 Santo Agostinho de novo me cobre. porque é que não esteve sempre assim também daí em diante. visto que a minha juventude será renovada como a da águia432 . cures também todas as minhas fraquezas. mas existe antes da criatura. e nada fazia. Salmo 102:3-5. 438 Génesis 2 :3. cf. 437 Génesis 1 :1. Senhor. por causa da escuridão e do acervo das minhas penas. quando nasce uma vontade que antes não existia? Pois. que antes nunca fora criado. Quem puder. mas também me hásde coroar na tua compaixão e misericórdia. e neste princípio fizeste o céu e a terra435 . da mesma forma que antes se absteve sempre de agir438 ? Na verdade. quando dela me afasto. Na esperança fomos salvos e na paciência aguardamos o cumprimento das tuas promessas433 . 436 Romanos 6:6. como é que há uma verdadeira eternidade. até que tu. se a vontade do CriSalmo 30:11. que te tornaste indulgente para com todas as minhas iniquidades. Efésios 4:22. 435 Génesis 1:1. Sermão 267. 432 431 i i i i . Colossenses 3:9. dizem eles. 12. porque nada seria criado. Senhor. 434 Salmo 103:24. Não é verdade que estão cheios do homem velho436 aqueles que nos dizem: ‘Que fazia Deus antes de fazer o céu e a terra437 ? Se estava ocioso. porque as minhas forças debilitaram-se de tal modo na indigência431 que não sou capaz de suportar o meu próprio bem. porque não só resgatarás a minha vida da corrupção.

ó luz das mentes. e esforçam-se por saborear as realidades eternas. com verdade. nem futura nem passada. veja. ainda não compreendem como são feitas as coisas que por meio de ti e em ti são feitas. por que razão também a criatura não é sempiterna?’ [Resposta: a eternidade de Deus não conhece tempo] XI. e veja que um longo tempo não é longo senão a partir de muitos momentos que passam e não podem alongar-se simultaneamente. determina os tempos futuros e passados? Será que. continuando vazio440 . Salmo 5 :10. ou que a mão da minha boca. nada é passado. a ponto de ele parar e ver como a eternidade. Aqueles que isto dizem ainda não te compreendem. que se manifesta falando. a minha mão consegue441 isto. e que todo o futuro se segue a partir de um passado. se na substância de Deus nasceu alguma coisa que antes não existia. que.i i i i Confissões. Quem poderá detê-lo e fixá-lo. e veja que ela é incomparável. pelo contrário. no que é eterno. 13. Génesis 31 :29. mas tudo é presente. porventura. que é fixa. realiza tão grande intento? [Que fez Deus antes da criação do mundo?] 439 440 441 Efésios 3 :10. não se diz. e a compare com os tempos nunca fixos. a vontade de Deus pertence à sua própria substância. ó sabedoria de Deus439 . Logo. XI ador não precedesse. a fim de que ele pare e por um momento capte o esplendor da eternidade sempre fixa. e que todo o passado e futuro são criados e derivam daquilo que é sempre presente? Quem poderá deter o coração do homem. mas o seu coração esvoaça ainda nos movimentos passados e futuros das coisas. que tal substância é eterna. Ora. mas se a vontade sempiterna de Deus era que existisse a criatura. enquanto nenhum tempo é todo ele presente: e veja que todo o passado é obrigado a recuar a partir do futuro. i i i i .

não hesito em afirmar: ‘Antes de Deus fazer o céu e a terra. 14. por que motivo se diz que tu te abstinhas de agir444 ? De facto. sendo tu o autor e criador de todos os séculos? Ou que tempos teriam existido que não tivessem sido criados por ti? Ou como podiam ter passado se nunca tivessem existido? Sendo tu o obreiro de todos os tempos. outra coisa é rir. [Antes dos tempos criados por Deus. se fazia alguma coisa. i i i i .i i i i 110 Santo Agostinho XII. desejo saber. Se. antes de tu fazeres os tempos. que tu és o criador de toda a criatura e. Com efeito. durante inumeráveis séculos te abstiveste de tão grande obra. não havia tempo] XIII. segundo se diz. utilmente. Eis a minha resposta a quem diz: Que fazia Deus antes de fazer o céu e a terra442 ? Não lhe dou aquela resposta que alguém. não fazia coisa alguma’. Deus omnipotente. tu tinhas feito o próprio tempo. em vez de dar uma resposta que pusesse a ridículo quem formulou questão tão profunda e gabasse quem respondeu erradamente. Esta não é a minha resposta. artífice do céu e da terra. que coisa fazia senão a criatura? E oxalá assim eu possa saber tudo aquilo que. e os tempos não puderam passar. Mas eu afirmo. ele que desperte e repare que se admira de coisas falsas. se existiu algum tempo antes de fazeres o céu e a terra443 . antes de a fazeres. terá dado. 15. no entanto. como podiam ter passado inumeráveis séculos. disse. e criador e sustentáculo de todas as coisas. tal como sei que não estava criada nenhuma criatura antes de ser criada alguma criatura. Uma coisa é ver. que tu próprio não tinhas feito. ó nosso Deus. Génesis 2:3. Génesis 1:1. iludindo com graça a violência da pergunta: Preparava. Mas se algum sentido volúvel vagueia pelas imagens dos tempos anteriores à criação e se admira de que tu. se sob a designação de ‘céu e terra’ se entende toda a criatura. Com efeito. não existia nenhum tempo 442 443 444 Génesis 1 :1. Preferiria responder: ‘Não sei o que não sei’. a geena para aqueles que perscrutam questões tão profundas.

pois não sucede ao de ontem. porque o teu dia de hoje não antecede o de amanhã. serão pretéritos. o tempo? Se ninguém mo pergunta. porém. ora. 17. 16. i i i i . sem dúvida compreendemos. se os tempos permanecessem os mesmos. E nenhuns tempos te são co-eternos. tu. pois. porque tinhas feito o próprio tempo. Não houve. sei o que é. O teu hoje é a eternidade: por isso. geraste co-eterno contigo aquele a quem disseste: Eu hoje te gerei447 . porque não passam: enquanto os nossos só existirão todos. e quando eles chegarem. não precederias todos os tempos. não sei: no 445 446 447 Salmo 101:28 . quando ouvimos alguém falar dele. e o teu dia não é todos os dias. Que é. Actos 13:33. Salmo 89:4. Hebreus 1:5. E tu não precedes os tempos com o tempo: se assim fosse. porque tu permaneces o mesmo. o tempo? Quem o poderá explicar facilmente e com brevidade? Quem poderá apreendê-lo. pois. pois. Tu fizeste todos os tempos e tu és antes de todos os tempos. [As três espécies de tempo: passado. 2 Pedro 3:8. não havia ‘então’. mas se quero explicá-lo a quem mo pergunta. e os que vão não são excluídos pelos que vêm. quando não havia tempo. Os teus anos não vão nem vêm: os nossos vão e vêm. Os teus anos são um só dia446 . e superas todos os futuros porque eles são futuros.i i i i Confissões. Mas precedes todos os pretéritos com a grandeza da tua eternidade sempre presente. O que é. porque não passam. futuro] XIV. por que razão se pergunta o que fazias então? Na realidade. não seriam tempos. és o mesmo e os teus anos não têm fim445 . Salmo 2:7. mas um ‘hoje’. tempo algum em que não tivesses feito alguma coisa. XI antes do céu e da terra. mesmo com o pensamento. e não houve tempo algum em que não havia tempo. e também compreendemos. Hebreus 1:12. Os teus anos existem todos ao mesmo tempo. 5:5. para que todos venham. quando todos não existirem. para proferir uma palavra acerca dele? Que realidade mais familiar e conhecida do que o tempo evocamos na nossa conversação? E quando falamos dele. presente.

pois: é longo. não existiria o tempo passado. se o presente. mas eternidade. e. Não digamos. uma vez que. chamamos ‘longo’ ao tempo futuro. por exemplo. digamos: foi longo. minha luz448 . se nada adviesse. o passado já não existe e o futuro ainda não existe. dizemos ‘há dez dias’. o passado e o futuro. De igual modo. como é que dizemos que existe também este. esses dois tempos. ele é cem anos anterior ao presente. não existiria o tempo presente. já não seria tempo. só passa a existir porque se torna passado. i i i i . se fosse sempre presente. para ser tempo. Não digamos. não existiria o tempo futuro. foi longo quando já era passado ou quando ainda era presente? Com efeito. ou seja. não podemos dizer com verdade que o tempo existe senão porque ele tende para o não existir? [A medição do tempo] XV. se dizemos ‘daqui a dez dias’. Chamamos ‘longo’ ao tempo passado. cuja causa de existir é aquela porque não existirá. no entanto. Mas como é que é longo ou breve aquilo que não existe? Com efeito. Logo. quando. o futuro ainda não existe? Quanto ao presente. mas não o dizemos senão em relação ao passado e ao futuro. e em relação ao futuro: será longo. Por outro lado. porque era 448 Miqueias 7:8. ele só podia ser longo. pois: O tempo passado foi longo – pois não encontraremos porque foi longo. 18. quando ele é cem anos posterior ao presente. e. pois. por exemplo. dizemos ‘tempo longo’ e ‘tempo breve’. acaso também aqui a tua verdade não escarnecerá do homem? Quanto ao facto de o tempo passado ter sido longo.i i i i 112 Santo Agostinho entanto. o passado já não existia. e por isso não podia ser longo o que não existia absolutamente. quando havia alguma coisa que pudesse ser longa: na verdade. se nada existisse. e não passasse a passado. se nada passasse. o passado já não existe. em relação ao passado. E. por um lado. uma vez que não existe a partir do momento em que se tornou passado – mas digamos: Foi longo aquele tempo presente. digo com segurança que sei que. se. e ‘breve’ ao tempo futuro. mas. chamamos ‘breve’ ao tempo passado. por outro. Meu Senhor. De que modo existem.

qualquer que seja o ano intermédio destes cem anos que tomemos como presente. 19. os outros estão para vir. e como futuras as i i i i . os outros hão-de vir. Se. XI longo enquanto era presente. havia alguma coisa que podia ser longa. Por conseguinte. cem anos não poderão estar presentes. 20. por isso. os restantes ainda não existem. Mas examinemo-lo também a ele. Eis que o tempo presente. Ainda não tinha passado de maneira a não existir e. Que me responderás? Acaso cem anos presentes são um tempo longo? Considera. se o tempo presente pode ser longo: pois te foi dada a capacidade de perceber e medir a sua duração. se for qualquer dia intermédio. se o ano que decorre é o único que está presente. o primeiro já passou. se decorre o segundo ano. e os restantes estão para vir. se é o segundo. pois. depois de ter passado. foi reduzido ao espaço de apenas um dia. primeiro. os depois dele estarão para vir. mas. os que estão antes dele terão passado. se cem anos podem estar presentes. mas somente um dia: se for o primeiro. ao passo que qualquer das intermédias tem como passadas as que estão antes dela. o único que considerávamos susceptível de ser chamado longo. a primeira das quais tem as outras como futuras e a última tem as outras como passadas. umas nocturnas e outras diurnas. por outro.i i i i Confissões. pelo menos. Por conseguinte. não existem: mas. E assim. Admitamos que nem sequer o mês que decorre está presente. nem o ano que decorre está todo ele presente e. Doze meses são um ano. esse mesmo está presente. se não está todo presente. ó alma humana. se é o primeiro mês que decorre. os restantes ou passaram ou estão para vir. Com efeito. dos quais qualquer mês que decorra. com efeito. não está o ano presente. se for o último. por um lado. está a decorrer o primeiro desses anos. nesse mesmo momento deixou também de ser longo aquilo que deixou de existir. Vejamos. esse está entre os que passaram e os que hão-de vir. Este compõe-se de vinte e quatro horas. esse mesmo está presente e os outros noventa e nove estão para vir e. porque nem sequer um dia está todo ele presente. Considera. por isso. outro está presente. um já passou. os outros terão passado.

e afirmamos que este é o dobro ou o triplo. [Que tempo se pode medir e qual não?] XVI. mas este voa tão rapidamente do futuro para o passado que não se estende por nenhuma duração. quando será? Se. porque não existe. divide-se em passado e futuro: mas o presente não tem extensão alguma. Se se puder conceber algum tempo que não seja susceptível de ser subdividido em nenhuma fracção de tempo. tiver passado. Medimos também quanto um tempo é mais longo ou mais breve do que outro. E. que ainda não é. quando. os medimos. porque ainda não existirá aquilo que possa ser longo: se. Quando é. o tempo a que podemos chamar longo? Será o futuro? Na verdade não dizemos: é longo. porém. apercebemo-nos dos intervalos dos tempos. Mas medimos os tempos que passam. e dizemos que uns são mais longos e outros mais breves. pode sentir-se e medir-se. E até essa mesma única hora decorre em instantes fugazes: tudo o que dela escapou é passado. Então. também nesse instante ainda há-de vir. for longo no instante em que. ou que um é tanto como outro. Quando. a ponto de poder existir aquilo que pode ser longo. não será longo. e comparamo-los entre si. ou os futuros. o tempo está a passar. pois. porque ainda não existe o que possa ser longo. i i i i . de futuro. mas dizemos: será longo.i i i i 114 Santo Agostinho que estão depois dela. quando. esse é o único a que se pode chamar presente. a não ser que alguém ouse talvez dizer que se pode medir o que não existe. sentindo-os. no entanto. Na verdade. Senhor. se se estende. que ainda não existem. com efeito. porém. e aquele a unidade. como antes ficou dito. começar já a ser e a tornar-se presente. 21. então. não pode. já. tudo o que dela resta é futuro. ainda que a mais minúscula. contudo. o tempo presente proclama que não pode ser longo. que já não existem. quem pode medir os tempos passados.

ir mais longe na minha procura. quero saber onde estão. XI [Donde procede o passado e o futuro?] XVII. que onde quer que estejam. coisas passadas. não existem senão como presentes. 23. Mas se isso ainda não me é possível. mas vejo a sua imagem no tempo 449 450 Salmo 22:1. como verdadeiras. o que se vai buscar à memória não são as próprias coisas que já passaram. não afirmo: meu Deus. de nenhuma forma poderiam ser vistas. Até a minha infância. Existem. Se existem coisas futuras e passadas. quando de presente se torna passado? Onde é que aqueles que vaticinaram coisas futuras as viram. se elas ainda não existem? Não se pode ver o que não existe. mas as palavras concebidas a partir das imagens de tais coisas. que já não existe. [Como é que o passado e o futuro estão presentes?] XVIII. Na verdade. ao passarem pelos sentidos. tanto coisas futuras como passadas. ainda lá não estão. e se também aí são passadas. todavia. se as não tivessem visto claramente no seu espírito: se tais coisas não existissem. pois. Senhor. e não se distraia a minha atenção. 27:9. aí não são futuras nem passadas. Por conseguinte. onde quer que estejam e quaisquer que sejam. Salmo 70:5. Pergunto. quando de futuro se torna presente. se também aí são futuras. e o passado se afasta para alguma coisa oculta. Permite-me. que. assiste-me e guia-me449 . já que os outros dois não existem? Ou será que também existem. já lá não estão.i i i i Confissões. o presente e o futuro. mas o presente procede de alguma coisa oculta. sei. ó minha esperança450 . i i i i . e aqueles que narram coisas passadas não narrariam coisas realmente verdadeiras. existe no tempo passado. ó Pai. 22. o passado. mas presentes. gravaram na alma como que uma espécie de pegadas. Quem há que possa dizer-me que não há três tempos. tal como aprendemos quando éramos crianças. e ensinamos às crianças. que já não existe. Ainda que se narrem. mas apenas o presente.

se não existem. não existem. que hão-de existir. já existem. o que preanuncio é futuro: não é o sol. meu Deus. qualquer que seja a natureza deste misterioso pressentimento do futuro. como já existentes. Contemplo a aurora: preanuncio que o sol vai nascer. se não o imaginasse no meu espírito.i i i i 116 Santo Agostinho presente. as imagens das coisas que ainda não existem. Ofereça-me um exemplo a imensa variedade das coisas. nós premeditamos as nossas acções futuras e essa premeditação é presente. mas sim o seu nascimento. confesso-te. porque ainda está na minha memória. mas sim as suas causas ou. que é futuro. quando a evoco e descrevo. 24. mesmo o próprio nascimento. os seus sinais. porque é futura. Há uma coisa que eu sei: a maior parte das vezes. as coisas futuras ainda não existem e. talvez. embora o preceda. são preditas as coisas futuras concebidas no espírito. não se vêem essas mesmas coisas. que não sei. aqueles que predizem tais coisas. Se té semelhante a explicação também da predição do futuro. mas presente. que ainda não existem. As imagens dessas coisas. O que vejo é presente. e. e. como agora quando estou a falar dele. não são futuros. mas podem ser preditas a partir das coisas presentes. i i i i . mas já presentes para os que os vêem. não se pode ver senão o que existe. por sua vez. Ora. que já existe. e vêem-nas como presentes. não o poderia predizer. Assim. que ainda não existe: todavia. que já existem e se vêem. quando a empreendermos e começarmos a realizar aquilo que premeditávamos. ao passo que a acção que premeditamos ainda não existe. mas presente. Por isso. estes já existem: por isso. a ponto de se poder dizer antecipadamente aquele futuro. Mas aquela aurora que vejo no céu não é o nascimento do sol. a partir deles. Portanto. quando se diz que se vêem coisas futuras. o que já existe não é futuro. de tal forma que sejam tornadas presentes. ou seja. porque então já não será futura. não podem ser vistas de forma alguma. dentro de si. nem aquela imagem que está no meu espírito: ambas são vistas claramente como presentes. então essa acção existirá. se ainda não existem.

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Confissões, XI

[Como é que Deus revela coisas futuras?] XIX. 25. Diz-me, pois, tu que reinas sobre a tua criação, qual é o modo como ensinas às almas as coisas que hão-de vir? Pois ensinaste os teus Profetas. Qual é o modo pelo qual ensinas as coisas futuras, tu, para quem nada é futuro? Ou melhor, ensinas coisas presentes a respeito do futuro? Com efeito, o que não existe sem dúvida alguma também não pode ser ensinado. Esse modo está muito longe do alcance da minha visão; ultrapassa as minhas forças: só por mim não poderei atingi-lo451 ; poderei, no entanto, com a tua ajuda, quando tu mo concederes, ó doce luz452 dos meus olhos453 ocultos. [Como designar as três espécies de tempo?] XX. 26. Uma coisa é agora clara e transparente: não existem coisas futuras nem passadas; nem se pode dizer com propriedade: há três tempos, o passado, o presente e o futuro; mas talvez se pudesse dizer com propriedade: há três tempos, o presente respeitante ao às coisas passadas, o presente respeitante às coisas presentes, o presente respeitante às coisas futuras. Existem na minha alma estas três espécies de tempo e não as vejo em outro lugar: memória presente respeitante às coisas passadas, visão presente respeitante às coisas presentes, expectação presente respeitante às coisas futuras. Se me permitem dizê-lo, vejo e afirmo três tempos, são três. Diga-se também: os tempos são três, passado, presente e futuro, tal como abusivamente se costuma dizer; diga-se. Pela minha parte, eu não me importo, nem me oponho, nem critico, contanto que se entenda o que se diz: que não existe agora aquilo que está para vir nem aquilo que passou. Poucas são as coisas que exprimimos com propriedade, muitas as que referimos sem propriedade, mas entende-se o que queremos dizer.
451 452 453

Salmo 138:6. Eclesiastes 11:7. Salmo 37:11.

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Santo Agostinho

[Como é legítimo medir o tempo?] XXI. 27. Disse há pouco que medimos os tempos que passam, de maneira a podermos dizer que este espaço de tempo é o dobro relativamente à unidade, ou que este é tanto como aquele, embora seja possível, utilizando a medida, afirmar outra coisa qualquer relativamente às partes do tempo. Por conseguinte, como dizia, medimos os tempos que passam, e se alguém me disser: ‘Como é que sabes?’, responderei: ‘Sei, porque medimos, e não podemos medir o que não existe, e não existem coisas passadas ou futuras’. No que se refere ao tempo presente, como é que o medimos, uma vez que ele não tem extensão? Medimo-lo, portanto, quando passa, mas quando tiver passado, não se mede; pois não haverá nada para ser medido. Mas donde vem ele, por onde e para onde passa, quando se mede? Donde vem senão do futuro? Por onde passa senão pelo presente? Para onde se dirige senão para o passado? Logo, vem daquilo que não existe, passa por aquilo que não tem extensão e dirige-se para aquilo que já não existe. Mas que medimos nós senão tempo em alguma extensão? E nós não dizemos simples, e duplo, e triplo, e igual, e qualquer outra coisa deste modo no tempo, senão por referência a extensões de tempo. Em que extensão de tempo medimos, pois, o tempo que passa? Será no futuro, donde ele vem? Mas não medimos o que ainda não existe. Será no presente, por onde ele passa? Mas não medimos uma extensão que não existe. Será no passado, para onde se dirige? Mas não medimos o que já não existe. [Só Deus pode resolver este enigma] XXII. 28. O meu espírito anseia por compreender este enigma tão enredado. Não feches, Senhor meu Deus, Pai de bondade, por Cristo te peço, não feches ao meu desejo estas coisas, a um tempo comuns e misteriosas, e não impeças que ele nelas penetre e elas se tornem claras mediante a luz da tua misericórdia, Senhor. Quem consultarei a esse respeito? E a quem confessarei com mais fruto a minha ignorância senão a ti, para quem não são molestos os meus desejos ardentemente

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Confissões, XI

inflamados nas tuas Escrituras? Dá-me o que amo: pois eu amo, e isso foste tu que mo deste. Dá-mo, ó Pai, tu que verdadeiramente sabes dar dádivas valiosas aos teus filhos454 , dá, já que deliberei conhecer essas coisas e diante de mim está uma tarefa difícil455 , até que tu mas abras456 . Peço-te, por Cristo, em nome dele, Santo dos Santos, que ninguém me importune. E eu acreditei, e é por isso que falo457 . Esta é a minha esperança; para ela vivo, a fim de contemplar as delícias do Senhor458 . Eis que tornaste velhos os meus dias459 , e eles passam, e eu não sei como. E dizemos tempo e tempo, tempos e tempos: ‘Durante quanto tempo é que ele disse isto?’; ‘Durante quanto tempo fez ele isto?’; e: ‘Durante muito tempo não vi aquilo’; e: ‘Esta sílaba tem o dobro do tempo daquela simples breve’. Dizemos e ouvimos tais coisas, e somos compreendidos e compreendemos. São expressões muito claras e muito usadas, mas, sob outro ponto de vista, são extremamente obscuras, e a sua interpretação constitui novidade. [O que é o tempo?] XXIII. 29. Ouvi dizer a um certo homem douto que o tempo não é senão os movimentos do sol, da lua e das estrelas460 , e eu não concordei. Porque não serão antes os tempos os movimentos de todos os corpos? Será que, se as luzes do céu parassem e continuasse a moverse a roda do oleiro, deixaria de haver tempo com que medíssemos as suas voltas e disséssemos, ou que se move durante instantes iguais, ou que umas voltas são mais longas e outras menos, se a roda se movesse umas vezes mais vagarosamente e outras mais velozmente? Ou,
Mateus 7:11. Salmo 72:16. 456 Mateus 7:7-8; Lucas 11:9-10. 457 Salmo 115:1; 2 Coríntios 4:13. 458 Salmo 26:4. 459 Salmo 38:6. 460 É possível que Agostinho se esteja a referir a um seu antigo mestre (audiui), de quem terá ouvido as opiniões de Platão, expressas no Timeu, e as de Eratóstenes e Hestico de Perinto, os quais afirmavam que ‘o tempo é o movimento dos astros’.
455 454

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Se. existem. e os anos461 . do nascer do sol a outro nascer do sol. visto que se chama dia não só à demora do sol sobre a terra. O meu desejo é conhecer a força e a natureza do tempo. mas eu não diria que uma volta daquela roda de madeira é um dia. nem à demora do sol se. concede aos homens a possibilidade de observarem nas coisas pequenas as noções comuns às pequenas e às grandes coisas. ou não haveria nas nossas palavras umas sílabas longas. incluindo as respectivas noites. mas o sol daria a volta vinte e quatro vezes. que aquele movimento é mais demorado do que este no dobro do tempo. Por conseguinte. nem se chamaria dia ao movimento. neste momento não procuro indagar que coisa seja aquela a que se chama dia. não se considerando à parte a extensão das noites –. caso este parasse. mesmo que o sol completasse o seu curso em tanto espaço de tempo quanto o de uma hora. a demora fosse tão breve como a de uma hora. por exemplo. Se o dia fosse a segunda coisa. Existem os astros e os luminares do céu que servem de sinais para distinguir os tempos. diria que o tempo não existe. mas também a uma volta completa do sol de Oriente a Oriente. 30. a não ser porque aquelas ressoam durante um tempo mais longo e estas durante um tempo mais breve? Ó Deus. visto que o dia se completa com o movimento do sol e uma volta de Oriente a Oriente. por seu lado. então haveria dia. não falaríamos também nós no tempo. se o sol desse uma volta completa no espaço de uma hora. com que medimos os movimentos dos corpos e dizemos. graças à qual uma coisa é o dia. e os dias.i i i i 120 Santo Agostinho dizendo isso. Se o dia fosse ambas as coisas. De facto. o que nos permite afirmar: Passaram tantos dias – diz-se ‘tantos dias’. 461 Génesis 1:14. pergunto eu. passasse tanto tempo quanto ele costuma gastar a fazer uma volta completa de uma manhã a outra manhã. i i i i . então não haveria dia. mas antes o que seja o tempo. o dia fosse a primeira coisa. outra é a noite. com que. ou ambas as coisas. com efeito. se. nem esse homem. pergunto eu se é o próprio movimento que constitui o dia ou se é a demora em que esse movimento se completa. Na verdade. para completar o dia. outras breves.

no seu percurso de Oriente a Oriente. até deixar de ver. Mas se o vejo durante muito tempo. outras vezes o dobro. ninguém me diga que os tempos são os movimentos dos corpos celestes. porque também quando dizemos ‘quanto’. desde que começa a mover-se. dizemolo por comparação. mas o tempo ia avançando. e alguma coisa deste género. ainda que o sol demorasse. tendo o sol parado a pedido de um homem. porém. diríamos que ele o completou em menos de metade do tempo do que é costume. um corpo se move. umas vezes a unidade de doze horas. não posso medir senão talvez a partir do momento em que começo a ver. porém. Vejo. ou as partes dele. este. se o tivesse completado em tanto espaço de tempo quanto demoram a passar doze horas. para que pudesse levar a seu termo uma batalha vitoriosa. se se mover como 462 463 464 Josué 10:12-13. o combate travou-se e terminou durante o espaço de tempo que lhe era suficiente. Mandas-me estar de acordo se alguém disser que o tempo é o movimento de um corpo? Não mandas. ó luz463 . Mas não oiço dizer que o próprio movimento de um corpo é o tempo: não és tu que o dizes. de modo a não ver quando termina. e comparando um e outro tempo. Se. [O tempo é aquilo com que medimos o movimento] XXIV. João 14:6. afirmo apenas que foi muito tempo. ó Verdade464 . pois. É que eu oiço dizer que nenhum corpo se move senão no tempo: és tu que o dizes. o dobro. i i i i . como por exemplo: Isto durou tanto tempo como aquilo. porque. Mas vejo? Ou parece-me que vejo? Tu mo mostrarás. João 1:9. Portanto. diríamos que aquele é uma unidade. Com efeito. até que acaba. XI medindo o percurso do sol. pudermos notar as extensões dos lugares donde vem e para onde vai um corpo que se move. ou: Isto durou o dobro daquilo.i i i i Confissões. Quando. 31. que o tempo é uma certa extensão. o sol estava parado462 . E se eu não vi desde que começou e continua a moverse. mas não quanto tempo é. é com o tempo que eu meço a duração do seu movimento.

outras vezes está parado. [Nova interpelação a Deus] XXV. Dado que uma coisa é o movimento do corpo. [Como se mede o tempo?] XXVI. diante de ti. iluminarás as minhas trevas467 . Lucas 10:21. desde um lugar até ao outro. eu meço-os. ó meu Deus. que eu meço os tempos? Na verdade. i i i i . se o corpo umas vezes se move a um ritmo desigual. e não sei o que meço. com uma confissão verdadeira. Por conseguinte. e que este ‘há muito tempo’ não é outra coisa senão a duração do tempo. Salmo 17:29. Portanto. Gálatas 1:20. mais ou menos. Mateus 11:25. E confesso-te. mas também o seu repouso. Acaso não meço da mesma maneira o próprio tempo? Será que 465 466 467 Salmo 9:2. outra aquilo com que medimos a sua duração. Senhor. ou de parte dele. e dizemos: ‘Esteve tanto tempo parado como em movimento’. o tempo não é o movimento do corpo. meço o movimento dum corpo. Tu iluminarás a minha lucerna. ou qualquer outra coisa que a nossa medição tenha compreendido ou avaliado. Acaso a minha alma não te confessa. que sei que digo estas coisas no tempo. como costuma dizer-se. ou: ‘Esteve parado o dobro ou o triplo do tempo em que esteve em movimento’. e que há muito tempo estou a falar do tempo. podemos dizer quanto é o tempo a partir do momento em que se efectuou o movimento do corpo. porque eu não minto466 : digo-te o que me vai no coração. 33. medimos com o tempo. que ainda ignoro o que seja o tempo. quando não sei o que é o tempo? Será que não sei como exprimir o que sei? Ai de mim. meu Deus. Senhor465 . e de novo te confesso. ó meu Deus. não só o seu movimento. 32. quem é que não percebe a qual destas coisas de preferência se deve chamar tempo? Na verdade. como é que eu sei isso. que nem ao menos sei aquilo que não sei! Aqui me tens. Com o tempo. Senhor.i i i i 122 Santo Agostinho que em torno de si mesmo.

porque constam de tantos pés. estes pés são longos. dessa forma. quer de forma aproximada: ‘Este tempo é mais longo do que aquele’. não os que já passaram? Assim o tinha dito eu. quer também com precisão: ‘Este tempo é o dobro daquele’? Eu meço o tempo.i i i i Confissões. tal como medimos o comprimento de uma trave com o comprimento de um côvado? Na verdade. a duração dos pés pela duração das sílabas. Mas nem assim se apreende uma medida exacta do tempo. sei isso. Suplico-te. porque é o dobro da breve. mas não meço o futuro. se for recitado mais arrastadamente. porque se compõe de tantos versos. meu Deus. e será surpreendente se não for uma extensão do próprio espírito. Assim. se for recitado mais vivamente. que coisa é que eu meço e digo. medimos o espaço e não o tempo –. mas extensão de que coisa. XI poderia medir o movimento de um corpo. Daí que me tenha parecido que o tempo não é outra coisa senão extensão. durante o tempo em que ele existe e durante o tempo em que ele se desloca de um lugar para o outro. a duração das sílabas longas pela duração das breves. mas sim à medida que pronunciamos as palavras e elas passam. estes versos são longos. Que meço então? Acaso os tempos que passam. visto que pode suceder que um verso mais breve ressoe por maior espaço de tempo. porque já não existe. O mesmo se diga de um poema. e dizemos: Este poema é extenso. porque ainda não existe. do que um verso mais longo. se não medisse o tempo no qual ele se move? Então. porque se estendem por tantas sílabas. porque não se estende por nenhuma extensão. i i i i . a extensão dos versos pela duração dos pés. um tempo mais longo. de um pé e de uma sílaba. não sei. medimos a extensão de um poema pelo número dos versos. e não em número de páginas – pois. não meço o passado. é assim que parece que medimos a duração de uma sílaba longa com a duração de uma sílaba breve e dizemos que é o dobro. com que é que eu meço o próprio tempo? Será que medimos. não meço o presente. uma sílaba é longa. com um tempo mais breve.

antes de soar. e soa ainda. podia ser medida. Acaso podia ser medida noutro momento? Com efeito. logo que tiver cessado de soar. Havia de ser. nem aqueles que não se estendem por nenhuma duração. Fixa o teu olhar onde começa a despontar a verdade. nem os que estão a passar. em que deixa de soar. podia ser medida no momento em que soava. e soa. numa vibração contínua sem interrupção: meçamo-la. pois. nem os presentes. pois. já terá passado e nada haverá que possa ser medido. nem os passados. não medimos os tempos futuros. ou qualquer outra coisa. de modo a que se possa dizer em que medida é longa ou breve. foi ele que nos criou. medimos o próprio intervalo desde um início até a um fim. já que o presente não tem qualquer extensão. porque ainda não existia. i i i i . até ao fim. e não nós que nos criámos469 . Com efeito. Mas. em que podia ser medida. porque nesse momento existia o que podia ser medido. mesmo então. Meçamo-la com precisão e digamos qual a sua medida. nesse momento. e não podia ser medida. Por isso. minha alma. já não existirá. nem se pode dizer que seja igual a outra. Se. nem aqueles que já não existem. pode ser medida? E apesar disso. Por isso. ou que tenha com ela uma relação simples. Insiste. e no entanto medimos os tempos. passando. medimos os tempos.i i i i 124 Santo Agostinho [Como medimos o tempo que permanece no espírito?] XXVII. enquanto soa. 468 469 Salmo 61:9. e eis que deixa de soar. e agora não pode. Imagina que a voz de um corpo começa a soar. Mas ainda soa e não pode ser medida. então. Por conseguinte. a voz que ainda não cessou não pode ser medida. não aqueles que ainda não existem. 34. De que modo. Salmo 99:3. e a voz passou e já não há voz. e presta a devida atenção: Deus é a nossa ajuda468 . Logo que ela tiver cessado. nem aqueles que não têm limites. senão desde o início em que começa a soar. ou dupla. imagina que outra voz começa a soar e ainda soa. pois ia e passava. e faz-se silêncio. estendia-se por uma extensão de tempo. porque já não existe. não estava fixa.

a oitava). é formado por oito sílabas. XI 35. pertencente a um hino de Santo Ambrósio (Hinos I 2. não as sílabas que já não existem. a quarta. como hei-de reter a breve. 1409. meço. Note-se que sílaba longa: (--) tem uma duração dupla da sílaba breve: (U). Na medida em que essa percepção é distinta. Portanto. de forma a que essa impressão ficasse gravada. as quatro breves (a primeira. na medida em que se confia num ouvido apurado. a sexta. Mas. enquanto presente. 36. ó meu espírito. Em ti. Em ti. na medida em que o ouvido o percebe distintamente. enquanto presente. e apercebo-me de que a longa tem o dobro da breve. voaram. pronuncio-as e dou-me conta disso. a fim de verificar que ela tem o dobro da duração. Este verso. a terceira. quanto à extensão do tempo. Não me perturbes. outra é dupla. meço-a. quando soa uma após outra. quatro longas e quatro breves assim distribuídas: U--U--U-U--. se a primeira é breve e a segunda é longa.1: PL 16.i i i i Confissões. alterna sílabas breves com sílabas longas: e assim. ao medir. Por conseguinte. quando não a meço senão depois de terminada? Só depois de terminada é que é passada. e não as coisas que passaram. a sétima) são simples em relação às quatro longas (a segunda. O verso Deus Creator omnium470 . e é assim. já não existem: e eu meço-as e afirmo com segurança. quando meço os tempos. ao passarem. em relação a cada uma daquelas. passaram. e como hei-de aplicar a breve à longa. a quinta. Cf. ou melhor: não te perturbes com a multidão das tuas impressões. o que é que eu meço? Onde está a breve com a qual eu meço? Onde está a longa que eu meço? Ambas soaram. na minha memória. gravam em ti e que em ti permanece quando elas tiverem passado. Cada uma destas tem o dobro do tempo. Livro 9. meço os tempos. repito. Deus Creator omnium = Deus Criador de todas as coisas. de oito sílabas. E não o posso afirmar senão porque passaram e terminaram. visto que a longa não começa a soar senão depois de a breve deixar de soar? Acaso meço a mesma sílaba longa. 32). meço a sílaba longa com uma breve. que uma é simples. Meço a impressão que as coisas. mas. meço os tempos. cf. 2 Macabeus 1:24. meço alguma coisa que permanece gravado nela. 470 i i i i . e meço-a.

enquanto a atenção presente arrasta o futuro para o passado. todavia. através daquilo que é objecto da atenção. E quem nega que as coisas passadas já não existem? E. ainda existe. a atenção e a memória? Desta forma. ou essas coisas são tempos. não é longo o tempo futuro. através da qual tende a estar ausente aquilo que estará presente. confiando-o à memória. há três operações: a expectativa. todavia. e assim se prolonga. quem nega que as coisas futuras ainda não existem? E. ou não meço tempos. na verdade. E quem nega que o tempo presente não tem extensão. Por conseguinte. Portanto. crescendo o passado com a diminuição do futuro. todavia. Alguém que tenha querido emitir um som um pouquinho mais alongado e que tenha decidido mentalmente qual há-de ser a sua duração. qual a dimensão de um em relação ao outro. tudo é passado. e damo-nos conta das extensões dos tempos. Então? Quando medimos os silêncios e dizemos que tal silêncio durou tanto tempo quanto durou tal som. a fim de podermos afirmar alguma coisa acerca dos intervalos dos silêncios na extensão do tempo? Com efeito. aquilo que é objecto da expectativa passa. quaisquer que sejam. esse. delimitou a duração do tempo em silêncio e. Mas como diminui ou se extingue o futuro que ainda não existe. e qualquer discurso.i i i i 126 Santo Agostinho Por isso. versos. e as medidas do seu movimento. por- i i i i . porque passa num instante? E. recitamos mentalmente poemas. no espírito. sem dizer palavra nem mexer os lábios. pois a parte que se extinguiu sem dúvida soou. no espírito. ou como cresce o passado que já não existe. tal som soou e soará. com a extinção do futuro. acaso não estamos a dirigir o nosso pensamento para a duração do som. a memória das coisas passadas. senão porque no espírito. enquanto o que resta soará. 37. perdura a atenção. para aquilo que é objecto da memória. precisamente da mesma maneira como se os pronunciássemos em voz alta. como se ele estivesse a soar. que faz isso. já existe. até ao momento em que. a expectativa das coisas futuras. [Com o espírito medimos os tempos] XXVIII. começa a emitir esse som que soa até atingir o limite fixado: mais ainda.

sucede em cada uma das suas partes e em cada uma das suas sílabas. 471 472 473 474 475 Salmo 30:20. a fim de que eu alcance por meio daquele no qual também fui alcançado475 . logo que começar. nem é longo o tempo passado. mas um futuro longo é uma longa espera do futuro. 38. passar para a memória. Tenho a intenção de recitar um cântico que sei: antes de começar. porque a tua misericórdia é mais preciosa do que a vida472 . e para a expectativa. eis que a minha vida é uma dispersão. a minha memória amplia-se tanto quanto aquilo que eu desviar da expectativa para o passado. em muitas coisas e através de muitas coisas. E o que sucede no cântico na sua totalidade. que és uno. 39. mas.i i i i Confissões. da qual. de molde a tornar-se passado. e seja reconstituído a partir dos meus dias velhos. Filipenses 3 :12. 62:9. sucede ainda na vida do homem. a minha expectativa estende-se a todo ele. E quanto mais e mais isto avança. Salmo 62:4. de que são parte todas as vidas dos homens. até que esta fica de todo extinta. e a vida desta minha acção estende-se para a memória. uma vez acabada. porque não existe. aquele cântico seja uma pequena parte. quando toda aquela acção. talvez. está presente a minha atenção. isto mesmo sucede em todas as gerações da humanidade471 . Mas. Agostinho deseja ser reconstituído em Deus] XXIX. e a tua dextra acolheu-me473 no meu Senhor. XI que não existe. por causa daquilo que estou para recitar: no entanto. da qual são partes todas as suas acções. Filho do Homem. 1 Timóteo 2:5. mas um passado longo é uma longa memória do passado. Salmo 17:36. que somos muitos474 . [Disperso nas coisas temporais. na sua totalidade. e nós. por causa daquilo que recitei. mediador entre ti. através da qual passa o que era futuro. tanto mais se prolonga a memória com a diminuição da expectativa. sucede igualmente numa acção mais longa. i i i i .

Senhor. mas com atenção. os meus anos decorrem entre gemidos479 . Dizer de Deus que ele nunca criou. Salmo 143 :8. na minha forma. 1 Tessalonicenses 3:8. mas para aquelas coisas que estão adiante de mim. me una a ti. Fixar-me-ei e consolidar-me-ei em ti480 . que é a tua verdade. que pensem bem no que dizem e descubram que não se diz a palavra ’nunca’. quando não existe tempo. antes de todos os tempos.i i i i 128 Santo Agostinho seguindo-te só a ti. mas eu dispersei-me nos tempos. e não suportarei as perguntas dos homens que. portanto. que coisa é senão dizer que ele criou em nenhum tempo? Vejam. e que nenhuns tempos te são co-eternos. Filipenses 3 :13. por enfermidade resultante do pecado. cuja ordem ignoro. és meu Pai eterno. Agora. que nenhum tempo pode existir sem a criação e deixem de dizer tal vacuidade482 . e os meus pensamentos. e tu. Procurem também abarcar as coisas que estão diante de si483 e compreendam que tu. esquecido do passado e não distraído. e dizem: ‘Que fazia Deus antes de fazer o céu e a terra481 ?’ ou: ‘Porque é que lhe veio à mente a ideia de fazer alguma coisa. Filipenses 4:1. Salmo 30:11. não para aquelas coisas que hão-de vir e passar. minha consolação. 476 477 478 479 480 481 482 483 Filipenses 3 :12-14. 40. Génesis 1 :1. as entranhas mais íntimas da minha alma são dilaceradas por tumultuosas vicissitudes. limpo e purificado pelo fogo do teu amor. i i i i . és o eterno criador de todos os tempos. Senhor. mas atraído. até que. têm sede de saber mais do que lhes permite a sua capacidade. [Refutação dos que perguntam: Que fez Deus antes da criação do mundo?] XXX. Salmo 25 :7. porém. encaminho-me para a palma da celestial vocação476 . que não vêm nem passam. Salmo 26:4. onde ouvirei um cântico de louvor477 e contemplarei as tuas delícias478 . quando antes nada tinha feito?’ Concede-lhes. não com dispersão.

Tu conhece-las de maneira muito. qual é o recôndito do teu profundo mistério e quão longe daí me lançaram as sequelas dos meus pecados? Sara os meus olhos. varia a impressão e altera-se a sensação de quem canta cânticos conhecidos ou de quem ouve um cântico também conhecido. e os humildes486 de coração487 são a tua morada! Na verdade. Salmo 137:6. tu levantas os que caíram488 e não caem aqueles de quem tu és a sublimidade. pois. Mas longe de mim que tu. a ti. verdadeiramente eterno criador das mentes. esse espírito é extremamente admirável e assombroso no mais alto grau. Se existe. como conheceste no princípio o céu e a terra. todas as coisas futuras e passadas. Daniel 3:87. sem modificação do teu conhecimento. 145:7-8. realmente. criador das almas e dos corpos. Salmo 144:14. ao cantar aquele cântico. assim também fizeste no princípio o céu e a terra485 . o quê e quanto resta dele até ao fim. muito mais admirável e muito mais profunda. Confesse-te aquele que compreende e que te confesse aquele que não compreende. assim como eu não ignoro.i i i i Confissões. [O conhecimento de Deus e o conhecimento da criatura] XXXI. desta maneira. longe de mim pensar que tu conheces. embora exista alguma que possa estar acima dos tempos484 . Génesis 1 :1. mas não é assim que te sucede a ti. Com a expectativa dos sons que estão para vir e com a lembrança dos que passaram. para quem são conhecidas todas as coisas passadas e futuras da mesma maneira que para mim é conhecidíssimo um cântico. XI nem nenhuma criatura. Assim. e que eu me alegre com a tua luz. Oh! como és sublime. isto é. 41. visto que não ignora nada do passado nem do futuro. i i i i . criador do universo. que és imutavelmente eterno. Senhor meu Deus. um espírito dotado de uma tão grande ciência e presciência. 484 485 486 487 488 Os anjos. sem alteração da tua acção. o quê e quanto dele já passou desde o princípio.