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(any UM cRUPO DE criancas FORMA UM EM UM CANTO DO PAIS. EM OUTRO, UM SEGUNDO MAA Grupo raz . UMA HORA, ELES SE ENCO} OITA rats e Vina UMA were * EXPERIENCIA DA CERTO; ELES GRAVAM CDS, FAZEM E ACABAM CHEGANDO A PARIS. Wena fa] ELES 2UNTAM Um Bom , MAS NAO FICAM COM NADA. INVESTEM TUDO 0 QUE aM caniaRaM E Mais UM POUCO EM UMA SALA DE PARECE FICCAO, MAS ACONTECEU DE VERDADE LA EM |, CONHECE? A CIDADE FICA NO VALE DO JEQUITI- NHONHA, MINAS GERAIS, E E LA QUE ESTA 0 UNICO PROJETOR DE FILMES. DAREGIAO. ESTA E SO A SINOPSE DAHISTORIA. POR CRISTIANE ROGERIO. FOTOS: LALO DE ALMEIDA 402 mc |vai ao cinema azia um calor absurdo, mais de 30 graus, e criangas brincavam na praga. Se nao fosse a al- ‘gearra, até podia parecer cena defilme de bangue bangue de- poisdo tiroteio, quando todo mundo se esconde. Para com- pletar, 2s casas 0 redor tinham umar decadente, com janelas quebradase pintura desborada. De repente, uma construgio diferente aparece no meio desse lugar quase esquecido. E uma sala de ci- nema, ¢ 0 luminoso avisa: Cinema ‘Meninos de Aracuat. £ 14, nessa ci dade, que funciona o tinico projetor de filmes de todo o Vale do Jequiti nhonha, uma das regi6es mais carentes de Minas Gerais, se nio do Brasil. Daqui a pouco, vai passar “Anna coRei” em versio egendada. Euma historia bonita com Jodie Foster. Falcam duas horas para o filme comecar, mas o clima jé éde expec- tativa, A bilheteria estd aberta, os ingressos custam R$ 4, e Claudia dos Santos, 18 anos, torce para que acasa ote, “Fico ansiosa. As pessoas chegam em cima da hora porque ‘Apraca ainda nao tém cos- de Aragual —cume de ir ao cinema.” Bitwsee Claudia ainda nio vit o filme de hoje e, assim que ter minar de vender as entradas, vai as sistir mesmo que tenha que ficar de pé.“Adoro cinema’, diz ela, que ex perimentou a sensagio de entrar em tuma sala de exibicio muito antes de Aragual ter uma. Foi hi dez anos, quando esteve em Sio Paulo. Na sala, Marcos Paulo Lopes Nunes, 16 anos, est concentrado, Tem que dar tudo certo, 0 volume do som, a engrenagem do equipa- mento, o brilho da imagem, 0 black- ‘ut. Ble € um dos responsiveis pela exibigéo ¢, 0 contritio de Claudia, sé foi conhecer um longa-metragem fora da TV quando sala de Aracuai foi aberta, em fevereiro passado. “Desde pequeno sonhava em ir a0 cinema, com todo mundo se emo- cionando junto, rindo junto” Sé0 quase 20 horas,e um pequeno movimento comeca a surgit na porta do cinema. Alguns carros estacionam com tranqjilidade —nao ha guarda- dores, nem é preciso pagar por uma vaga de estacionamento. Também indo tem cartinho de pipoca, sorvete, doce oucachorro-quente’ vista De saia e blusa pretas, salto alto e maquiada, Silvana Leite, 50 anos, esti na porta com a filha Roberta, de 11 e Silvana naoa perde- ria de jeito nenhum, Ela jf esteve em um cinema, quando ha- via um em Aracuat “Tinha uma méquina girando como se fosse roda de bicicleta” © equipamento é mais moderno, ¢ ela esté adorandoisso.“Venho para conhecer outros smundos, viajar mes- mo daqui de Aracuai. Adoro ver os atores, “VOU AO CINEMA PARA as atrizes, as roupas, PODER VIAJAR, CONHECER * ™2avisgens.Fu OUTROS aprendo muito.” ” _swana Leite A sesso comesa. Nasala, as luzes se apagam devagar, sd atela ilumina o ambiente. Um espectador distraido coloca um dos bragos sobre a cabeca, bem a von rade. O outro, atris, eclama e pede para o amigo néo atrapalhar a sua Visio. Siléncio, o filme vai comegar. construgio do nico cinemade Araguatde- pois de 30 anos —0 ilkimo, aqueleem que Silvana esteve, foi fechado nos anos 70— éumahist6ria complicada, que rio tem nada aver com cinema —e por sso mesmo parece ficgio. Hé der anos, o antropélogo mi- neiro Tido Rocha iniciou um tra- balho de arte-educacéo em Aragual. projeto animou tanto a primeira turma de criangas que elas pediram para aldm do que era oferecido (artes plisticas, danca, leitura, miisica ¢ reforco escolar). Elas queriam for mar um coral para um show de final deano, Tido gostou da idéia, mas os meninoseram desafinados demais. “DESDE PEQUENO EU SONHAVA EM ASSISTIR UM FILME AO LADO DOS AMIGOS, TODO MUNDO RINDO JUNTO, Sem saber resolver a questio, Tito pediu ajudaa Regina Bertola dirctors «do grupo teatral Ponto de Partida. O Ainicosendo seria a diseincia entre cles —Titioem Araguai,e Regina em Bar- bacena, em Minas, sé quea 15 horas de-viagem. O que seria uma répida passagem da diretora pela cidade acabou virando parceria de uma dé cada, ¢ resultou em dois CDs, cinco espeticulos em virias cidades do Brasil e até show em Pars, no Théa com a partici- Milton Nascimento, “Foi ‘em 2005, nascomemoragdesdo Ano do Brasil na Franga, um ano especial para o grupo. A viagem era apenas uma das conquistas. Outra boa noti- ciacraque,comavenda Produzida, dos CDseasentradas Stvanaiova dos espeticulos, os Sinema Marcos Paulo Lope rmeninos tinham juntado atéali RS 40 il. “Eles me perguntavam 0 que fa riam com o dinheiro. Dizia que cles podiam fazer o que quisessem dividir total entre todos, o que datia RS I mil paracada um’ diz Tido. ‘Em meio a divida, os meninos or- ganizaram uma espécie de plebiscito {erianges em Aracuai para saber Sombaia, 0 que os moradores em pipeca—queriam para acidade. Cerca de 40 propostas foram levanta das, Em 2006, cm repor cada na revista “Crescer" Editora Globo,os meninossonhavam com um cineteatro. Mas havia um problema: os R$ 40 mil nao eram su- ficientes nem para cinema, nem para teatro. A verba foi sé alavanca para dar forma 20 projeto. A partir dai,o trabalho foiconseguirpatrocinadores. Logo apareceram e foram somando recursos: a0todo, RS-428 mil Agora o cinema funciona de quartaa domingo. As veres, tarde, tem sessio especial, s6 para os alunos de escolas piiblicas. Nesta quarta uma turma vaiassisira “Happy F —a saga de um pingiiim que sa pateia em vez de cantar, como os ‘outros. Irao cinema foi o jeito que Alzirene Freire, supervisora pe- dagégica, encontrou pata falar de preconceito, “A gente discute aim- ade respeitar as diferengas, a8, ao ver um filme, as criangas tém uma identifcagio imediata Acentrada ¢ liberada, os meninos chegam ase perder na ala, Mas ogo sentam ¢ esperam o filme rodat. As- sim que pingiim aparece na tela, cles nao resistem: “Que Claudia, a mosa da bilheteria eta apresada, tem que arrumara malapara viajar amanhi bem cedo. Ela canta no >>