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+Marcelo Gleiser

Sobre o riso
A piada abre os canais para expressarmos impulsos
socialmente proibidos ou reprimidos

MARCELO GLEISER,
é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover
(EUA), e autor do livro "A Harmonia do Mundo"

Um português e um físico entram num bar e encontram um buraco
negro aos prantos, tomando uma cerveja. O físico, pasmo, não
acredita no que vê e fica olhando, desconfiado, da porta. Já o
português, encantado com a visão, se aproxima do buraco negro:
"Ó, seu buraco negro, sinto-me muito atraído por você". E o buraco
negro responde: "Seu falso! Todos me dizem a mesma coisa antes
de sumir..."

Por que rimos? Ninguém sabe. O riso tem uma qualidade universal:
todas as culturas têm seus contadores de piadas. E, mesmo que a
piada tenha graça só para uma cultura, as pessoas reagem sempre
da mesma forma. Não importa se a língua é completamente
diferente, se a pessoa é da Mongólia, um aborígene australiano ou
um índio tupi, o riso é sempre muito parecido, uma reação física a
um estímulo mental. Mas que estímulo mental é esse que nos faz
reagir fisicamente de uma forma tão característica?

As teorias são muitas, começando desde a Antigüidade. Platão e
Aristóteles diziam que o riso vem de uma sensação de
superioridade, vendo o humor como um modo de expressar nosso
desprezo pelos que julgamos ser inferiores. Na piada acima, o
português faz esse papel. O físico, esperto, sabe que devemos nos
manter longe dum buraco negro. Já o português, coitado, se
aproxima e tem o mesmo fim dos infelizes que desconhecem as leis
da física.

Mas esse não é o único tipo de humor. Existem vários outros, como
quando rimos com um jogo de palavras: "O trabalho é a maldição
das massas alcoólatras", disse Oscar Wilde, o mestre inveterado
das frases feitas. Kant, o grande filósofo alemão, teorizou que o riso
é resultado do rompimento inesperado de uma expectativa, o que
às vezes é chamado de "teoria da incongruência".

A piada é uma história que esperamos que tenha um fim lógico. É o
rompimento inesperado da lógica numa direção absurda que nos
faz rir.

Por isso, quando explicamos uma piada ela perde completamente a
graça.

O desafio, como afirma o autor Jim Holt em seu recente livro "Stop
Me If You've Heard This" (Me Interrompa Se Você Já Ouviu Essa,
em inglês, editora W.W. Norton), é entender por que o rompimento
com a lógica provoca uma reação física tão peculiar. O que uma
coisa tem a ver com a outra?

Entra Freud com a sua "teoria do alívio". Segundo Freud, a piada
abre os canais para expressarmos impulsos socialmente proibidos
ou reprimidos, não só relacionados ao sexo e à agressividade
como, também, o impulso lúdico que adultos, infelizmente, tendem
a desprezar em sua pressa diária.

Basta conviver com uma criança para ver como o riso corre mais
solto, como tudo é mais engraçado. O riso, para Freud, permite
sermos criança mais uma vez, deixando escapar as inibições que
nosso superego constrói ao longo de nossas vidas. O que não
temos coragem de falar fica sancionado numa boa piada suja ou de
conteúdo racista, machista ou xenófobo. No universo da piada vale
tudo.

O problema com essa teoria é que ela prevê que, quanto mais
inibida a pessoa, mais ela rirá com a piada, maior será o seu alívio.
E estudos mostram justamente o oposto. As pessoas sexualmente
mais "abertas" são as que riem mais das piadas sujas.

Existe até uma teoria que explica o riso através da teoria da
evolução de Darwin. Segundo ela, o riso era um modo de
comunicação pré-verbal -os chimpanzés, por exemplo, também
riem- que visava diferenciar inimigos de amigos. O riso na chegada
de um visitante era o sinal para o grupo de que não existia perigo.
Seja qual for a explicação ou as explicações, uma coisa é certa: rir
só faz bem.
MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth
College, em Hanover (EUA), e autor do livro "A Harmonia do
Mundo"

Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe1008200806.htm

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