DISCLAIMER Estes apontamentos não dispensam o estudo dos manuais recomendados pelo Professor Regente e Assistente.

DIREITO PROCESSUAL CIVIL I
PROF. TEIXEIRA DE SOUSA
Faculdade de Direito de Lisboa

Direito Processual Civil I – Lara Geraldes @ FDL CAPÍTULO I: INTRODUÇÃO AO PROCESSO CIVIL

O Direito Processual Civil

§1: HETEROTUTELA. A ordem jurídica privada não só deve atribuir direitos subjectivos, mas também garantir a possibilidade de o seu titular exercer as faculdades neles contidas. Subsidiaria e excepcionalmente, o titular poderá exercê-las com recurso a formas de autotutela tipificadas na lei [vide art. 336º ss CC]. Todavia, proíbe-se genericamente a autotutela, salvo impossibilidade de recurso em tempo útil aos meios coercivos normais, a heterotutela [art. 1º]. Conclui-se: a garantia jurisdicional dos direitos subjectivos constitui a forma normal da sua defesa [cfr. art. 20º-1 CRP].

§2: ACÇÕES. O Direito Processual Civil parte do princípio de que a todo o direito subjectivo ou interesse legalmente protegido corresponde uma acção [art. 2º], assumindo uma função instrumental em relação a todas essas situações subjectivas. Constituem, todavia, excepções a esta correspondência entre direitos e tutela jurisdicional, as obrigações naturais [art. 402º CC] e os direitos prescritos [art. 304º-1 CC]. Considerando que a cada direito corresponde uma acção, podemos, no âmbito das acções, estabelecer a seguinte distinção:

Acções declarativas [art.4º-2]: o tribunal só desenvolve uma actividade que terminará com a decisão; incumprimentos posteriores deverão ser resolvidos num processo com outro objecto

o Aos direitos de monopólio [bens materiais ou imateriais exclusivos, vg
direito de propriedade] corresponde uma acção de simples apreciação [art. 4º-2a] – vg declaração de nulidade.  Positivas: declaração de existência de um direito/facto Negativas: declaração de inexistência de um direito/facto [art. 502º-2]

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o Aos direitos a uma prestação [pretensões, vg direitos de crédito]
corresponde uma acção de condenação [art. 4º-2b] – pressupõe reconhecimento de situação preexistente; vg indemnização, acção de reivindicação ou incumprimento.

Prestação de facto positivo ou negativo, passado ou futuro [art. 472º-2]

Entrega da coisa

o Aos direitos potestativos [impõem sujeições a terceiros, vg direito ao
divórcio] corresponde uma acção constitutiva [art. 4º-2c] – situação nova na ordem jurídica; vg acção de preferência, investigação de paternidade, anulação de contrato, anulação de casamento,

declaração de indignidade sucessória ou acção de despejo.


 

Constitutiva proprio sensu Modificativa Extintiva

Acções executivas [art. 4º-3]: o tribunal verifica o incumprimento da prestação e faculta ao titular do direito os meios [coactivos] à obtenção da prestação ou de sucedâneo pecuniário

§3: PROCEDIMENTO. O processo caracteriza-se pela pluralidade de actos das partes e do tribunal encadeados e relacionados entre si, constituindo uma realidade unitária e estruturada. À sequência das formalidades exigidas para a apresentação das posições das partes e para o proferimento da decisão chama-se procedimento, enquanto um processo no sentido formal e formalista do conceito. O encadeamento lógico dos actos processuais pode ser exemplificado com recurso a um exemplo: se nenhum aluno se pronunciar contra a data de exame proposta pelo professor, vg, este marcá-lo-á sem mais; se os alunos, por outro lado, sugerirem outras datas, cabe ao professor optar por uma delas. Embora num outro plano, interessa relembrar o disposto no art. 1º CPA, relativamente ao procedimento administrativo.

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§4: FORMALIDADES. As formalidades processuais pautam-se pela complexidade por duas razões fundamentais: por um lado, evitar um défice procedimental e diálogo insuficiente entre as partes e, por outro lado, obstar à crise de legitimação do processo em geral, e da decisão em particular. A primeira das razões permite o enquadramento da conflituosidade em questão e a formação de consensos que, em última análise, poderão até determinar a extinção do processo mediante realização espontânea da prestação em falta, vg. Quanto à segunda das razões apontadas, permite que as partes aceitem mais facilmente uma decisão legitimamente proferida após intenso e transparente debate entre as partes e o tribunal.

§5: PROCESSO CIVIL. O processo será civil quando respeitar aos direitos subjectivos e aos interesses atribuídos pelo direito privado [âmbito próprio], ou enquanto forma residual de tutela de todos os direitos e interesses que não possam ser tutelados ou exercidos mediante uma outra forma processual [âmbito residual]. O Processo Civil é o processo paradigmático para os demais processos jurisdicionais [processo de trabalho, penal, constitucional, administrativo e tributário], sendo-lhes aplicável supletivamente na falta de regime específico. É um ramo do direito público na medida em que regula o exercício da função jurisdicional pelos tribunais, órgãos de soberania dotados de ius imperii [art. 202º CRP].

§6: SUJEITOS. Os sujeitos processuais são as partes e o tribunal. A parte que requer a acção declarativa é o autor, enquanto que o réu será a parte contra a qual essa acção é requerida. As testemunhas e os peritos, por outro lado, serão meros participantes processuais quando intervierem no processo pendente.

§7: OBJECTO. O objecto do processo é a matéria sobre a qual o tribunal é chamado a pronunciar-se, sendo constituído pelo pedido [forma de tutela jurisdicional requerida: apreciação, condenação, constituição ou execução] e pela causa de pedir [factos, essenciais ou probatórios, necessários à fundamentação do direito].

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Direito Processual Civil I – Lara Geraldes @ FDL Segundo o princípio da disponibilidade das partes, a delimitação do objecto do processo pertence-lhes. Correlativamente, cabe ao tribunal um dever de cognição segundo duas perspectivas: enquanto dever de apreciar os factos apresentados [omissão de pronúncia, art. 660º-2] e enquanto dever de não apreciar factos não invocados [excesso de pronúncia, art. 661º-1]. Ambos os extremos da pronúncia constituem fundamento de nulidade da sentença [art. 668º-1d].

§8: VALOR DA CAUSA. Independentemente da natureza patrimonial ou não patrimonial do objecto do processo, a toda a causa deve ser atribuído um valor certo, expresso em moeda legal, e correspondente à utilidade económica do pedido [art. 305º-1]. O valor da causa releva para a fixação da competência do tribunal, a aferição da forma do processo comum e a definição da relação da causa com a alçada do tribunal, para efeitos de recurso. O valor da causa poderá ser aferido mediante critérios gerais [a quantia certa em dinheiro, art. 306º-1] ou especiais [validade do acto jurídico, direito de propriedade ou estado das pessoas e interesses materiais, vg, arts. 310º-312º] A alçada, essa, será o limite ou o valor até ao qual o tribunal decide sem recurso para instância superior. Conforme disposto no art. 24º LOFTJ, as alçadas são as seguintes [conforme a reforma de Agosto de 2007]: • • 1ª Instância: 3.740€ [5.000€ a partir de 1 de Janeiro de 2008] 2ª Instância: 14.963€ [30.000€ a partir de 1 de Janeiro de 2008]

§9: FORMA. Quanto à forma, o processo declarativo pode ser especial ou comum [art. 460º-1]. O processo especial aplica-se aos casos expressamente designados, vg interdições e inabilitações, inventário sucessório e divórcio. O processo comum é aplicável a todos os casos a que não corresponda processo especial, por exclusão. A tripartição das formas do processo comum em forma ordinária, sumária e sumaríssima, releva para a complexidade da tramitação processual [art. 462º]. Se o valor da causa exceder a alçada da Relação [> 14.963€/30.000€], empregar-se-á o processo ordinário [art. 467º ss]. Empregar-se-á o processo sumaríssimo [art. 793º ss] se o valor da causa não exceder a alçada da 1ª instância [< 3.740€/5.000€] e se a acção se destinar ao cumprimento

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Direito Processual Civil I – Lara Geraldes @ FDL de obrigações pecuniárias, à indemnização por dano e à entrega de coisas móveis. O processo sumário [art. 783º ss] será empregue em todos os outros casos em que o valor da causa não exceda a alçada da Relação [< 14.963€/30.000€].

Princípios Processuais Civis

§1: PRINCÍPIOS. Os princípios processuais civis assumem uma função estruturante do Direito Processual Civil, enquanto princípios orientadores para os quais foram reconduzidas opções globais de política legislativa. Enformando o sistema processual no seu todo, constituem a estrutura que sustenta e congrega normas dispersas e que condiciona as soluções técnicas consagradas. Esses princípios podem ser classificados em princípios essenciais e instrumentais. Serão essenciais quando conaturais e indispensáveis ao Processo Civil, admitindo apenas consagração absoluta e excepções substanciais pontuais insusceptíveis de aplicação analógica [ius singulare, art. 11º CC]; serão instrumentais quando, não sendo essenciais, procurem a optimização do uso e dos resultados do processo, admitindo-se consagração de maior ou de menor amplitude e regimes especiais e excepcionais susceptíveis de aplicação analógica [por não constituírem um ius singulare]. Assim, serão estudados os seguintes princípios:

Princípios essenciais: o Dualidade das partes

o Igualdade das partes [art. 3º-A] o Contraditório [art. 3º]
o Instrumentalidade

 
o

Efeitos contra legem Efeitos praeter legem

Auto-suficiência do processo

o Legalidade da decisão [art. 158º]

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Princípios instrumentais:

o Dispositivo [art. 264º] 
 o Impulso processual Disponibilidade do objecto

Oralidade   Imediação Publicidade

o

Legalidade do processo

§2: DUALIDADE DE PARTES. O princípio da dualidade das partes exige uma parte activa [o autor] e uma parte passiva [o réu], impossibilitando que uma parte represente a outra ou que ambas sejam representadas pelo mesmo mandatário judicial, vg.

§3: IGUALDADE DE PARTES. As partes são iguais em direitos, deveres, poderes e ónus [igualdade formal]. Todavia, face a factores sociais, culturais ou económicos, a todos é garantido o direito ao patrocínio judiciário [igualdade material ou substancial], art. 20º CRP e 3º-A: frequentes são, ainda assim, as situações de desequilíbrio substancial sob o manto de uma simples igualdade formal. É o próprio regime processual que preconiza alguns desvios a estes corolários, vg através da delimitação do âmbito do objecto do processo, pelo autor, ou através da atribuição de competência ao tribunal do domicílio do réu. Cumpre, nestes termos, ser assegurada a plena igualdade formal às partes, relativamente ao exercício de faculdades e ao uso de meios de defesa, bem como, simultaneamente, superar factores de desigualdade substancial através do apoio judiciário [dispensa de honorários de advogados e do pagamento de taxas e custas, vg]. Quanto ao juiz, deve tratar de modo igual situações semelhantes, independentemente das condições

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Direito Processual Civil I – Lara Geraldes @ FDL económicas ou sociais da parte beneficiada [vg no que concerne ao aperfeiçoamento dos articulados, seja qual for a parte que os subscreva].

§4: CONTRADITÓRIO. Relativamente às partes entre si, todo o pedido, requerimento, afirmação ou prova apresentado por uma das partes pode ser contestado ou impugnado pela contraparte [art. 3º e 517º-1]. O processo civil é dialéctico: Petição inicial --- contestação Réplica --- tréplica --- [art. 3º-4, em audiência] Parece-nos patente a consagração do brocardo audietur et altera pars, enquanto consequência da igualdade das partes supra. Todavia, nem sempre o contraditório pode ser acautelado: vg restituição provisória da posse [art. 394º] ou providências cautelares [medidas destinadas a salvaguardar o efeito útil de uma decisão] podem ser decretadas sem audição da parte requerida – periculum in mora [art. 385º]. Neste caso, o contraditório é diferido [art. 388º]. A inobservância deste princípio redunda em nulidade inominada, conforme disposto no art. 201º-1. Quanto a terceiros, o princípio do contraditório releva para a inoponibilidade do caso julgado da decisão proferida entre as partes a terceiros: a sentença, em princípio, não vincula terceiros [excepto art. 674º].

§5: INTRUMENTALIDADE. O processo civil [direito adjectivo] é instrumental perante o direito substantivo, pelo que não pode alcançar efeitos que aquele direito material não permite. Importa distinguir os efeitos contra legem [contrários ao direito] dos efeitos praeter legem [não proibidos nem expressamente permitidos por lei]. Os primeiros relevam para a inadmissibilidade da desistência do pedido numa acção de alimentos, vg, por se tratar de um direito irrenunciável [art. 2008º-1 CC e 295º-1]. Os segundos, por seu lado, relevam para a falta de qualquer base legal na constituição de obrigações, vg, falta essa que deve ser tida como irrelevante e expressão da liberdade contratual das partes.

§6: AUTO-SUFICIÊNCIA. Baseando-se no princípio da tutela provisória da aparência, conforme formulado por CASTRO MENDES, este princípio possibilita que um tribunal

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Direito Processual Civil I – Lara Geraldes @ FDL incompetente tenha competência para apreciar a sua própria competência, vg [KompetenzKompetenz].

§7:

LEGALIDADE

DA

DECISÃO.

O

julgamento

do

tribunal

fundamenta-se

exclusivamente em critérios legais [normativos ou não normativos, vg equidade e poderes discricionários, art. 1410º], e não extralegais. Constitui corolário deste princípio o dever de fundamentação das decisões judiciais, sob pena de nulidade das mesmas [arts. 158º e 668º-1bc]. Outros casos existem, todavia, em que ao tribunal apenas compete verificar a validade dos actos, vg homologação da confissão, desistência do pedido ou transacção entre as partes [art. 300º-3].

§8: DISPOSITIVO. O processo encontra-se na disponibilidade das partes, na medida em que respeita predominantemente a interesses privados que devem ser acautelados mediante atribuição de faculdades [ónus] às partes. Este princípio subdivide-se em dois subprincípios que cumpre apreciar: o impulso processual e a disponibilidade do objecto. O primeiro respeita à prática de actos, pelas partes, que determinem a pendência da causa e o andamento do processo, através do ónus de impulso processual inicial e sucessivo [arts. 3º-1 e 264º] – não há oficiosidade [art. 664º], cujo incumprimento poderá redundar na interrupção ou na extinção da instância por deserção [arts. 285º, 287º-c e 291º]. A este subprincípio opõe-se o princípio da oficialidade [a promoção dos actos incumbiria ao tribunal], com parca expressão no nosso ordenamento, salvo na recusa de actos impertinentes ou dilatórios, pelo tribunal [art. 266º]. O segundo subprincípio, esse, determina que incumbe às partes o ónus de definição do objecto do processo [art. 467º-2] e o ónus de realização da prova dos factos alegados [art. 342º CC]. A este subprincípio opõe-se o princípio inquisitório, permitindo ao tribunal a investigação dos factos relevantes, essenciais ou instrumentais, em casos excepcionais [art. 264º-2 e 645º], e o princípio da oficiosidade [conhecimento oficioso], possibilitando que o tribunal conheça matérias de facto e de direito oficiosamente, recaindo sobre factos na disponibilidade das partes ou inquiridos pelo próprio tribunal [vg nulidade]. Prova, pelo juiz: art. 265º.

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§9: ORALIDADE. A discussão da matéria de facto e de direito realiza-se oralmente entre as partes e o tribunal, face às vantagens do carácter imediato da comunicação, do imediato esclarecimento de dúvidas e do combate à mentira e à litigância dolosa. Este princípio implica dois subprincípios: o princípio da imediação obriga que a discussão da causa e a produção da prova decorram perante o tribunal [com excepções relativas à prova pericial, vg], e o princípio da publicidade das audiências, garantia da transparência do processo e da informação pública, salvo em situações de salvaguarda da dignidade das partes, vg. O incumprimento de ambos redunda em nulidade processual [art. 201º].

§10: LEGALIDADE DO PROCESSO. A tramitação do processo e os actos processuais têm uma forma legalmente prescrita, que se impõe às partes e ao tribunal [processo rígido].

As Situações Subjectivas Processuais Civis

§1: PODERES-DEVERES. As faculdades do tribunal de constituição, modificação e extinção de situações processuais são poderes-deveres, ou poderes funcionais, na medida em que o tribunal não pode deixar de exercê-los face à boa administração da justiça. Assim, poderes como a exigência da comparência pessoal das partes ou a obtenção dos esclarecimentos necessários, vg, constituem na verdade deveres que respeitam ao exercício, pelo tribunal, dos poderes específicos da função jurisdicional.

§2: DIREITOS, DEVERES E ÓNUS. Os deveres das partes são obrigações legalmente prescritas, correlativas de poderes-deveres do tribunal e de direitos da contraparte. Já os ónus processuais constituem poderes que, não sendo exercidos, redundam na imposição, à parte, de uma situação desvantajosa. O não exercício desse poder não implica qualquer violação de uma norma, embora possa cominar numa consequência desfavorável para a parte que o preteriu.

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Direito Processual Civil I – Lara Geraldes @ FDL Os ónus processuais são consequências do princípio do dispositivo, na medida em que o tribunal não pode substituir-se às partes no suprimento da falta de exercício dos poderes em causa.

§3: LITIGÂNCIA/COOPERAÇÃO DE BOA FÉ. O dever de litigância de boa fé [art. 266A] desdobra-se nos deveres de não formular pedidos ilegais [má fé substancial], de não articular factos contrários à verdade [má fé substancial] e ainda de não requerer diligências meramente dilatórias [má fé instrumental], art. 456º. A litigância de má fé [art. 519º-2] pressupõe o conhecimento da falta de fundamento do pedido, o conhecimento da não veracidade do facto alegado ou o abuso dos meios processuais através de diligências inúteis e dilatórias [art. 344º-2 CC: inversão do ónus da prova, dando-se por provado]. Requer-se o dolo da parte, não bastando culpa, mesmo que grave, e pode ser unilateral ou bilateral, quando ambas as partes litigaram dolosamente [vg simulação processual ou fraude à lei, art. 877º CC e 665º]. A má fé unilateral, quer substancial, quer instrumental, justifica a condenação da parte ao pagamento de uma multa, embora a última possa conjugar-se com a procedência da causa a favor da parte litigante de má fé [art. 456º-3], e já não a primeira, que poderá redundar em consequências penais [vg falsa declaração]. A má fé bilateral, por seu lado, implica invalidade do processo e insusceptibilidade de este produzir qualquer efeito.

A Instância e as Condições Processuais

§1: INSTÂNCIA. A instância é a relação que se estabelece entre as partes e o tribunal durante a pendência da causa [art. 264º], mantendo-se desde a propositura da acção ao julgamento, mesmo que uma parte seja substituída por outra, o objecto seja alterado ou o processo seja remetido para outro tribunal. As vicissitudes da instância podem determinar a sua suspensão, interrupção, extinção ou renovação. Exige condições de existência, validade, admissibilidade e procedência, nos termos infra expostos.

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Direito Processual Civil I – Lara Geraldes @ FDL §2: CONDIÇÕES DE EXISTÊNCIA. Referem-se à pendência de uma causa num tribunal, exigindo-se, para tal, entrada na secretaria do tribunal de uma petição inicial ou de um requerimento [art. 267º]. A secretaria pode recusar o recebimento de qualquer uma dessas peças se não apresentarem os requisitos externos exigidos por lei [art. 213º]: não endereçados ao tribunal, sem identificação das partes, sem identificação do valor da causa, não acompanhados dos duplicados prescritos e não assinados [arts. 467º, 314º-3 e 152º-3]. A pendência simples da causa [existência do processo], antes da citação do réu [art. 267º-2], implica a distribuição da petição inicial ou do requerimento [art. 211º ss] e o proferimento de um despacho liminar de indeferimento [art. 474º] ou de citação [art. 480º]. Se o autor desistir da instância, pondo termo ao processo, responde por custas [arts. 295º-2 e 451º]. A pendência qualificada da causa, após a citação do réu, importa efeitos processuais e materiais. Os primeiros respeitam à estabilidade de elementos subjectivos e objectivos e à inadmissibilidade de propositura de acção sobre a mesma questão, quer pelo autor, quer pelo réu, com correlativa excepção de litispendência [arts. 481º b) c) e 268º]. Por litispendência entende-se a excepção preconizada pela repetição da causa, encontrando-se a anterior ainda em curso e obstando a que o tribunal contradiga ou reproduza decisão anterior [art. 497º]. Os segundos, por seu lado, respeitam à cessação da boa fé do possuidor, interrupção da prescrição, da usucapião e da caducidade [art. 481º a].

§3: CONDIÇÕES DE VALIDADE. As condições de validade do processo podem decorrer de actos cuja invalidade afecte todo o processo [vg ineptidão da petição inicial, art. 193º], ou de circunstâncias verificadas durante a pendência da causa, mediante impugnação do caso julgado da respectiva decisão [vg simulação processual ou fraude à lei em processo ou falta ou nulidade de citação do réu, arts. 771º e].

§4: CONDIÇÕES DE ADMISSIBILIDADE. As condições de admissibilidade equivalem aos pressupostos processuais: as condições necessárias para que, no processo declarativo, possa ser proferida uma decisão sobre o mérito da causa. Requerem a anterior verificação das condições de existência do processo e definem as condições em que uma situação subjectiva pode ser exercida em juízo, assegurando a

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Direito Processual Civil I – Lara Geraldes @ FDL especialização do tribunal segundo a matéria em apreciação, a defesa dos interesses das partes e a constituição do objecto da acção. Os interesses em questão podem ser de duas ordens: os interesses do próprio órgão jurisdicional e os interesses das partes.

§5: CONDIÇÕES DE PROCEDÊNCIA. As condições processuais de procedência referemse a aspectos dos quais depende a concessão da tutela jurisdicional requerida pelo autor. Específicas das acções constitutivas e de condenação, e já não das acções de simples apreciação, por serem independentes da existência ou da constituição da situação subjectiva alegada, relevam para a accionabilidade da pretensão, em processo declarativo

[susceptibilidade de o cumprimento dessa pretensão ser obtido judicialmente]. Exemplo paradigmático da qualificação da accionabilidade enquanto condição processual de procedência encontra-se na caducidade dos direitos potestativos, constituindo condição da tutela, e não elemento constitutivo do direito. A excepção em causa não extingue o direito, mas somente impede o seu exercício, excluindo a sua accionabilidade.

§6: PRESSUPOSTOS PROCESSUAIS. Relativamente aos pressupostos gerais, podemos distinguir as seguintes modalidades:

Respeitantes ao tribunal:

o Competência [pressuposto positivo] •
Respeitantes às partes: o Personalidade judiciária

o Capacidade judiciária [pressuposto positivo]
o o o Representação judiciária Patrocínio judiciário Legitimidade processual

o Interesse processual [para TEIXEIRA DE SOUSA, e não para PAULA
COSTA E SILVA]

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Respeitantes ao objecto: o Existência do objecto

o Não verificação da excepção da litispendência [pressuposto
negativo, cfr. supra art. 497º], e já não da excepção de caso julgado [excepção peremptória, e não pressuposto processual] – mérito da causa [vg prescrição, nulidade…]. Compete ao autor assegurar o cumprimento dos pressupostos processuais, mesmo relativamente àqueles que directamente não lhe digam respeito [vg representante de réu incapaz].

§7: EXCEPÇÕES DILATÓRIAS. O não preenchimento dos pressupostos processuais, positivos ou negativos, constitui uma excepção dilatória, circunstância alegada por uma parte ou conhecida oficiosamente pelo tribunal [art. 495º] que impede o conhecimento de mérito da causa [arts. 493º-2 e 494º - exemplificativo]. Binómio acção/excepção [autor/réu]. A contestação, pelo réu, pode ser feita de dois modos:

• •

Indirectamente – por excepção [art. 487º] Directamente – por impugnação

Quando arguida pelo réu, este não pretende negar ou discutir a pretensão do autor, limitando-se a invocar um facto que obsta à pronúncia do tribunal. Por isso, as excepções dilatórias conduzem à absolvição do réu da instância ou, em caso de incompetência, à remessa do processo para o tribunal competente [art. 493º-2]. Quanto à eficácia das mesmas, estas podem limitar-se a obstar ao conhecimento do mérito da causa [vg pressupostos negativos - excepções próprias] ou, possuindo dupla eficácia [ainda que mais raramente], impugnando qualquer um dos pressupostos positivos [vg competência do tribunal – excepções mistas]. São excepções dilatórias nominadas aquelas que constam do disposto no art. 494º. Quando susceptíveis de serem afastadas pelo preenchimento superveniente do pressuposto em falta, as excepções dilatórias consideram-se sanáveis [art. 288º-3 e 265º-2].

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Direito Processual Civil I – Lara Geraldes @ FDL O não preenchimento dos pressupostos processuais comporta uma consequência desfavorável para o autor, tão-só: a não pronúncia, pelo tribunal, sobre o mérito da causa e a não obtenção da tutela pretendida.

§8: PROVA. É ao autor que incumbe o ónus da prova dos factos relevantes, bem como o preenchimento dos pressupostos processuais supra. Relativamente às excepções dilatórias, quando próprias, a prova incumbe ao réu, e já não ao autor [art. 342º-2 CC e 516º]. Quando, todavia, as excepções contradigam ou impugnem os pressupostos positivos [vg réu que contesta a competência do tribunal], cumpre ao autor realizar a prova desses factos controvertidos [ou deverá o tribunal julgar-se incompetente].

§9: CONHECIMENTO PELO TRIBUNAL. Quando os pressupostos processuais e as respectivas excepções dilatórias são de conhecimento oficioso, cumpre ao tribunal, no caso de insuficiência dos factos alegados pelo autor, conhecer da respectiva excepção e absolver o réu da instância [arts. 288º-3 e 493º-2]. Faltando algum dos pressupostos processuais, cumpre ao tribunal a emissão de um despacho liminar de indeferimento [art. 474º], de um despacho saneador [art. 510º-1a] e de sentença final que conheça da excepção em causa. A declaração genérica, no despacho saneador, sobre o preenchimento dos pressupostos constitui caso julgado formal e obsta a que o tribunal se volte a pronunciar sobre a questão concretamente apreciada [art. 510º-3]: a absolvição do réu da instância implica caso julgado formal e consequente arquivo do processo [questão jurídica fica pendente], enquanto que a condenação da causa de pedir implica caso julgado material e não repetição da acção sobre a mesma causa e entre as mesmas partes.

§10: PRIORIDADE. Se os pressupostos processuais devessem ser apreciados antes do julgamento do mérito da causa, esse julgamento dependeria da averiguação do preenchimento de todos os pressupostos. Fala-se, a esse respeito, num pretenso dogma da prioridade dos pressupostos processuais. A afirmação supra só fará sentido nos casos em que o tribunal detecte o pressuposto em falta e não possa, nesse momento, conhecer do mérito da causa, nomeadamente se o

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Direito Processual Civil I – Lara Geraldes @ FDL pressuposto se destinar a assegurar determinados interesses públicos [vg incompetência absoluta do tribunal]. Todavia, a solução deverá ser outra nos casos em que se verifique que os elementos do processo são já suficientes para conhecer do mérito da causa [vg falta de capacidade judiciária aliada à improcedência da acção] e que o pressuposto em falta se destine a acautelar determinados interesses das partes. Não deve o tribunal abster-se de proferir uma decisão de mérito quando se verifique que essa decisão possa ser favorável à parte beneficiada se o pressuposto tivesse sido preenchido.

Actos do Tribunal e Actos das Partes

§1: ACTOS PROCESSUAIS. Os actos processuais são os actos jurídicos que produzem directamente efeitos na constituição, modificação ou extinção de uma situação processual. Estão submetidos a um princípio de utilidade ou economia e são, em princípio, receptícios. Não podem ser submetidos a condição ou termo e são livremente revogáveis enquanto não tiverem constituído uma situação favorável para a contraparte. Em harmonia com o princípio da tipicidade e obrigatoriedade dos actos processuais, a tramitação da causa encontra-se, assim, legalmente definida.

§2: ACTOS DO TRIBUNAL E DAS PARTES. Os principais actos do tribunal são as decisões, que podem consistir em sentenças ou despachos [art. 156º-1] e que estão submetidas ao dever de fundamentação. Os actos das partes podem ser unilaterais [vg excepção] ou bilaterais [“contratos processuais], consoante o número de partes intervenientes, e constitutivos ou postulativos, consoante a produção de efeitos seja imediata [sem mediação de uma decisão do tribunal, vg contestação do réu] ou mediata [vg requerimentos apresentados, sujeitos a inadmissibilidade ou admissibilidade e, neste caso, procedência ou improcedência].

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Direito Processual Civil I – Lara Geraldes @ FDL §3: VÍCIOS DA VONTADE. Considera-se irrelevante a parte que omitiu

involuntariamente a prática do acto por falta ou vício da vontade [vs plano substantivo]. Todavia, a confissão, a desistência e a transacção, vg, podem ser declaradas nulas ou anuladas nos termos do art. 301º-1, com remissão para o regime geral dos actos jurídicos [art. 359º CC].

§4: PRAZOS. Os prazos processuais [art. 145º] são peremptórios ou preclusivos quando fixem o momento até ao qual o acto possa ser realizado, e dilatórios ou iniciais quando fixem o momento antes do qual o acto não possa ser praticado [vg contestação]. Os prazos judiciais são contínuos, sem interrupções [art. 144º], salvo justo impedimento [art. 146º]: evento imprevisível e estranho à vontade da parte que impossibilita a prática do acto por si ou pelo mandatário judicial. Admite-se, todavia, o prolongamento do prazo por três dias mediante o pagamento de uma multa progressiva [art. 145º-4 e 5].

§5: NULIDADES. Verifica-se uma nulidade processual sempre que é praticado um acto não permitido ou sempre que é omitido um acto imposto ou uma formalidade essencial [art. 201º-1]. Regem-se pelos princípios da essencialidade, do aproveitamento e da não renovação do acto nulo. Serão nominadas ou primárias quando legalmente previstas e, consequentemente, de conhecimento oficioso. Aquelas que devem ser arguidas pelas partes: prazo de 10 dias.

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Direito Processual Civil I – Lara Geraldes @ FDL CAPÍTULO II: COMPETÊNCIA DECLARATIVA DOS TRIBUNAIS COMUNS

Competência

§1: COMPETÊNCIA. A competência é, como se disse, um pressuposto processual: condição necessária para que o tribunal se possa pronunciar sobre o mérito da causa através de decisão de procedência ou de improcedência. É aferida em relação ao objecto apresentado pelo autor, na petição inicial. Neste âmbito, importa tecer as seguintes considerações: • Função jurisdicional: decisão de casos concretos pelos tribunais através de critérios normativos e não normativos. • Competência: medida de jurisdição de um tribunal adequada para a apreciação de um caso concreto.

Perpetuatio fori: a competência fixa-se quando a acção se propõe, sendo irrelevantes quaisquer modificações de facto ou de direito [art. 22º LOFTJ]. Razões subjacentes a este princípio: defesa de interesses do autor, vg réu que muda de domicílio na pendência da causa.

Competência interna: questões que não apresentam qualquer elemento de conexão com uma ordem jurídica estrangeira.

Competência internacional: questões que apresentam elementos de conexão com mais do que uma ordem jurídica.

o Normas de recepção: não são normas de competência porque não a
atribuem [equivalem às normas de conflitos no direito substantivo – DIP privado]. Trata-se de normas que definem as condições em que os tribunais de uma ordem jurídica são competentes para a resolução de uma questão de competência internacional. Consequência: os tribunais não podem recusar essa competência internacional, o que equivaleria a uma denegação de justiça. Podem servir para alargar ou restringir/afastar a competência aferida pelas normas de

competência territorialmente interna [CPC]. O ideal, de iure

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Direito Processual Civil I – Lara Geraldes @ FDL condendo, é que exista uma coincidência entre normas de recepção e normas de competência interna, embora não tenha que haver qualquer paralelismo entre ambas. TEIXEIRA DE SOUSA sublinha a necessidade de harmonização legislativa neste âmbito: vg o tribunal competente quando a acção respeite a direitos sobre imóveis ou responsabilidade civil extracontratual.

Exemplo: as normas do BRUX-I ou BRUX-II, infra.

Competência Internacional dos Tribunais Portugueses

§1: COMPETÊNCIA INTERNACIONAL. O Regulamento nº 44/2001, doravante BRUX-I, releva para a aferição da competência internacional dos tribunais dos Estados-membros que o adoptaram [todos excepto a Dinamarca], alcançando-se a livre circulação das decisões em matéria cível e comercial. Um outro regulamento irá, nesta âmbito, ser referido, ainda que mais superficialmente: Regulamento nº 2201/2003, doravante BRUX-II. Qualquer dos Regulamentos prevalece sobre o direito português ordinário, maxime sobre o CPC [são leis especiais face ao CPC]. De relevar que a anterior Convenção de Bruxelas, cuja aceitação carecia de ratificação, foi substituída pelo Regulamento em apreço [BRUX-I], facilitando a sua aplicação pelos Estados-membros. O BRUX-I aplica-se em matéria civil e comercial [art. 1º-1 BRUX-I], com excepção das questões relativas ao estado e à capacidade das pessoas singulares, regimes matrimoniais e testamentos, para as quais releva o disposto no BRUX-II. A natureza da jurisdição não releva, para efeitos da aplicação do BRUX-I [art. 1º-1 BRUX-I], não importando qual a espécie de tribunal ou a forma do processo adequadas, segundo o direito interno de cada Estadomembro. As regras relativas à competência internacional apenas são aplicáveis, em princípio, quando o réu tenha domicílio ou sede [pessoa colectiva] num dos Estados abrangidos [art. 2º1, 59º e 60º BRUX-I], independentemente da nacionalidade da parte [art. 2º-2 e 4º-1 BRUX-I].

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Direito Processual Civil I – Lara Geraldes @ FDL Em alternativa ao critério geral do domicílio, podem os sujeitos ser demandados noutro tribunal, quando tal resulte de um critério especial de competência. Neste caso, pode o autor optar entre o critério geral e o critério especial em causa [vg arts 5º a 7º BRUX-I]. Critérios especiais: • • • • • Matéria contratual: art. 5º-1 a) BRUX-I Obrigações de alimentos: art. 5º-2 BRUX-I Matéria extracontratual: art. 5º-3 BRUX-I Pessoas colectivas: art. 5º-5 BRUX-I Competência por conexão: art. 6º BRUX-I

Por outro lado, a competência pode ser exclusiva de um Estado-membro, em virtude do disposto no art. 22º BRUX-I, vg em acções que tenham por objecto direitos reais sobre imóveis. Quando haja concorrência de vários tribunais internacionalmente competentes, o autor pode escolher o tribunal da ordem jurídica que mais lhe convier para instaurar a acção [fórum shopping]: as vantagens podem advir do direito material escolhido ou dos custos processuais inerentes. Um caso concreto que determine a aplicação das regras de competência internacional não dispensa, ainda assim, a aferição do tribunal internamente competente, em termos que veremos infra §2. Relativamente aos pactos de jurisdição, remete-se esse estudo para o §3, infra.

§2: ATRIBUIÇÃO DE COMPETÊNCIA. A organização judiciária que ora estudaremos é a seguinte: • • Tribunais arbitrais Tribunais estaduais: o o o Judiciais – 1ª instância Administrativos e fiscais Militares

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Direito Processual Civil I – Lara Geraldes @ FDL Os tribunais portugueses são internacionalmente competentes de acordo com o disposto nos arts 65º e 65ºA: resolução de litígios que apresentam conexões com mais do que uma ordem jurídica, para além da ordem jurídica portuguesa. Cumpre apreciar de que forma o disposto no CPC se concilia com convenções internacionais ou regulamentos comunitários. Primeiramente, as normas ordinárias cedem sempre que sejam de aplicar uma dessas convenções ou regulamentos [art. 65º-1]. Prevalece, naturalmente, o direito comunitário [maxime BRUX-I, cfr. supra §1]. Por outro lado, estas normas nada nos dizem relativamente ao tribunal português competente, na nossa ordem jurídica, uma vez aferida a competência internacional dos mesmos. Assim, as normas supra referidas deverão ser aplicadas conjuntamente com a LOFTJ. A atribuição de competência aos tribunais portugueses através de uma norma de recepção não implica a negação de idêntica competência a tribunais de outras jurisdições: as normas de recepção funcionam unilateralmente, excepto no caso da aplicação do critério da coincidência, infra. Estas normas justificam-se pelo acréscimo de competência aos tribunais portugueses, para além daquela que já resultaria dos critérios de competência internacional. Do art. 65º podemos concluir pelos critérios de atribuição de competência seguintes, segundo a ordem decrescente de aplicação prática proposta por TEIXEIRA DE SOUSA:

Critério da coincidência [art. 65º 1b e 65º-A]: simultaneidade entre a competência atribuída pelas regras de competência territorial interna [arts 73º ss] e internacional, da lei interna [arts 65º ss].

o TEIXEIRA DE SOUSA: critério que duplica inutilmente o modo de
aferição da competência internacional – dupla função, simultânea:  Elemento de conexão para a determinação da competência territorial  Elemento de conexão para a determinação da competência internacional

o Este critério é inútil e o disposto neste art. não pode funcionar como
norma de recepção, nos mesmos moldes que o BRUX-I [TEIXEIRA DE SOUSA].

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Direito Processual Civil I – Lara Geraldes @ FDL o Os tribunais portugueses são internacionalmente competentes porque a acção deve ser proposta em território português, de acordo com as regras de competência territorial da lei interna [arts 73º ss].

o Sugere-se uma ideia de desnecessidade das regras de competência
internacional. Mas ressalve-se que as regras de competência internacional que constam da lei interna só definem a competência dos tribunais portugueses, não excluindo a competência do tribunal de outras ordens jurídicas. Assim, se, para uma mesma acção, concluirmos pela competência de vários Estados, cada um deles “aceita” a sua própria competência, sem excluir as dos demais [relembre-se o critério Kompetenz-kompetenz, supra mencionado], devendo o autor escolher o foro que lhe parece mais adequado [forum-shopping, diz-se].

o Como compatibilizar com a competência exclusiva que consta do art.
65ºA? As regras de competência exclusiva aplicam-se

independentemente de qualquer norma de recepção, significando isso que a atribuição de competência aos tribunais portugueses, neste âmbito, implica já a negação de idêntica competência a tribunais estrangeiros.

A

competência

exclusiva

desse

art.,

para

efeitos da

competência internacional dos tribunais portugueses, não prevalece sobre o BRUX-I, se este reconhecer competência aos tribunais de outros Estados. As normas do art. 65ºA relevam, todavia, para o não afastamento das mesmas pelas partes, mediante pacto de jurisdição, e para a proibição da concessão de título executivo [confirmação da sentença] pelos tribunais portugueses, nos termos do art. 1096º c) [exequatur].

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Direito Processual Civil I – Lara Geraldes @ FDL O tribunal interno competente, uma vez aferida a competência internacional dos tribunais portugueses, é determinado consoante as regras de competência territorial que constam do art. 73º.

Critério do domicílio do demandado [art. 65º-1a]: o domicílio do réu em Portugal, enfim.

o Salvo se: a acção instaurada for relativa a direitos reais ou direitos
pessoais de gozo [vg arrendamento] sobre imóveis sitos em país estrangeiro, mesmo que o demandado tenha domicílio em Portugal.

o Tratando-se de pessoa colectiva: considera-se domiciliada em
Portugal se se localizar em território português [sede, sucursal, filial ou delegação], art. 65º-2.

o Do art. 85º-1 consta um critério geral de competência territorial do
tribunal do domicílio do demandado, sempre que outro tribunal não seja territorialmente competente por força dos arts anteriores [critério residual face aos critérios especiais]: vg acção de anulação de um negócio.

o Conclui-se: o art. 65º-1a) só se aplica quando, da aplicação de um
critério especial dos arts 73ºss, ficar excluída a competência dos tribunais portugueses e, ainda assim, o demandado tiver domicílio em Portugal. O raciocínio a observar neste âmbito é o seguinte: o demandado tem domicílio em Portugal; verificar a aplicação de um critério especial; excluída a competência dos tribunais portugueses, recuperar o critério geral do domicílio. o Este critério geral não chega para atribuir competência internacional aos tribunais portugueses, mesmo que o réu tenha domicílio em Portugal: pode ser invocado se e na medida em que critérios especiais procedam na conclusão da competência dos tribunais portugueses.

o Permite aferir a competência interna, para além da competência
internacional dos tribunais portugueses: o tribunal da comarca do demandado.

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Critério da causalidade e da necessidade: aplicáveis na medida em que o réu não seja domiciliado em Portugal.

o Causalidade [art. 65º-1c]: quando os factos que servem de causa de
pedir forem praticados em Portugal. PAULO NASCIMENTO conclui que, aqui, parece exigir-se que o facto praticado seja positivo, excluindo-se o incumprimento de um contrato, vg.

o Necessidade [art. 65º-1d]: mesmo que a competência internacional
dos tribunais portugueses não resulte das alíneas anteriores, os mesmos consideram-se competentes se tal for necessário para assegurar a efectividade do direito invocado [vg conflitos negativos de competência e impossibilidade prática].

o Em qualquer dos critérios o tribunal interno competente, aferida a
competência internacional dos tribunais portugueses, é determinado consoante o disposto no art. 85º-3: lugar do demandado, domicílio do autor ou tribunal de Lisboa, por esta ordem. Em conclusão, devem os factores atributivos de competência ser analisados, preferentemente, pela ordem indicada. Todavia, a competência internacional dos tribunais portugueses pode resultar de mais do que um deles, cumulativamente.

§3: PACTO DE JURISDIÇÃO. A competência internacional dos tribunais portugueses pode resultar de convenção celebrada entre as partes. Neste caso, as partes definem o tribunal internacionalmente competente para o julgamento de uma acção. Os pactos de jurisdição encontram-se regulados no BRUX-I [arts 23º e 24º BRUX-I] e no CPC [art. 99º]:

BRUX-I: como foi referido supra [cfr. §1 e 2], prevalece sobre o CPC. o Pelo menos uma das partes tem que ser domiciliada num Estadomembro da UE e a competência convencional é exclusiva no silêncio das partes [art. 23º-1 BRUX-I].

o O pacto de jurisdição tem efeito derrogatório da competência de
qualquer outro tribunal, segundo TEIXEIRA DE SOUSA.

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Direito Processual Civil I – Lara Geraldes @ FDL o Forma: escrita, ou verbal, com confirmação escrita [art. 23º-1 a) BRUX-I].

o O pacto de jurisdição é inválido se violar a competência exclusiva do
art. 22º BRUX-I, segundo o art. 23º-5 BRUX-I: não pode derrogar requisitos mais exigentes, consagrados como inderrogáveis. o Quando válido, o pacto atribui competência exclusiva aos tribunais da ordem jurídica designada e exclui a competência das restantes ordens jurídicas: competência exclusiva por extensão.

o Pactos tácitos de jurisdição [art. 24º BRUX-I]: se o requerido
comparecer num tribunal diverso daquele indicado pelas partes no pacto de jurisdição, sem arguir excepção dilatória de incompetência e sem se violar qualquer regra de competência exclusiva do art. 22º BRUX-I, passa a ser competente esse tribunal. A comparência do demandado equipara-se a aceitação tácita do pacto de jurisdição. Quando seja proposta acção em tribunal diverso daquele que resulta das regras de competência exclusiva do art. 22º BRUX-I, ou quando as partes acordarem a competência internacional de um tribunal [pacto de jurisdição] e o réu não compareça, deve o juiz declarar oficiosamente a incompetência [art. 25º e 26º-1BRUX-I]. Diversamente, se o réu comparecer para arguir a excepção de incompetência deve o tribunal conhecê-la. A lei interna [art. 99º] só é aplicável se o BRUX-I não o for: atribui competência internacional para conhecer litígios a qualquer tribunal de uma ordem jurídica com a qual a relação jurídica controvertida apresente elementos de conexão. Distingue dois tipos de pactos:

Pactos privativos de jurisdição: as partes privam os tribunais da competência que lhes é atribuída pela lei.

Pactos atributivos de jurisdição: as partes atribuem aos tribunais portugueses competência, numa situação em que não seriam competentes. Em caso de dúvida, ou no silêncio das partes, a competência presume-se alternativa, ao contrário do que resulta do BRUX-I [art. 99º-2 vs art. 23º BRUX-I].

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Direito Processual Civil I – Lara Geraldes @ FDL O litígio não pode respeitar a direitos indisponíveis, vg estado das pessoas [art. 99º-3 a], o pacto não pode recair sobre matérias da exclusiva competência dos tribunais portugueses [art. 99º-3 d] e deve ser reduzido a escrito [art. 99º-3 e) 1ª parte], com a ressalva do art. 99º-4.

Competência Interna

§1: COMPETÊNCIA INTERNA. Do art. 17º LOFTJ resultam os critérios atributivos da competência, em termos que explicitaremos infra [matéria, hierarquia e território]. Já a forma do processo, mencionada no disposto no art. 62º-2 e omissa no art. 17º LOFTJ, não é critério determinativo de competência interna, mas tão-só aferidor da espécie de tribunal competente dentro dos tribunais de primeira instância de competência específica: varas e juízos cíveis, vg. O mesmo se diga relativamente ao valor da causa: o art. 17º-1 LOFTJ enumera-o enquanto critério determinador da competência interna, o art. 20º LOFTJ remete para o CPC que, no seu art. 68º, devolve a remissão para a LOFTJ. Destas duas remissões nenhum comando se extrai, pelo que TEIXEIRA DE SOUSA sugere a interpretação abrogante de ambos, concluindo pelo valor da causa enquanto critério que não afere a competência interna. Regressemos, pois, à apreciação dos verdadeiros critérios de atribuição da competência interna [sublinhe-se que aqui apreciaremos, somente, a competência dos tribunais de primeira instância, tão-só].

§2: CRITÉRIO MATERIAL. Os critérios materiais de atribuição de competência interna determinam qual o tribunal onde, em concreto, a acção deve ser proposta e o recurso deve ser interposto [art. 66º e 67º]. A primeira apreciação a fazer é a seguinte, no âmbito dos tribunais judiciais de primeira instância, de competência residual [não abordaremos outras ordens de tribunais, arts 211º-1 CRP, 66º CPC e 18º-1 LOFTJ]: • Tribunais não civis: tribunais judiciais com competência definida expressa e casuisticamente pela LOFTJ para acções relativas a certas matérias. o Tribunais de menores, tribunais de trabalho, etc.

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Tribunal civil: tribunais judiciais com competência residual, para conhecer todas as causas que não sejam especificamente atribuídas pela lei aos tribunais supra [arts 34º e 67º CPC e 57º LOFTJ].

o Critério de atribuição positiva: matérias de direito privado em geral
[incluindo o direito comercial].

o Critério de atribuição negativa ou de competência residual: matérias
para as quais não exista nenhum tribunal competente, apesar de não terem por objecto uma situação jurídica fundamentalmente de direito privado [art. 94º LOFTJ].

o Tribunais de família, tribunais de comércio, tribunais marítimos, etc.
Nestes termos, permite o critério material reconduzir a causa, consoante a matéria controvertida, aos tribunais de primeira instância de: • Competência especializada [art. 78º LOFTJ]: família, menores, trabalho, comércio, marítimo, etc.

Competência genérica [art. 77º LOFTJ]: causas não atribuídas a outro tribunal.

§3: CRITÉRIO HIERÁRQUICO. Os tribunais civis que ora estudamos conhecem a generalidade das causas em primeira instância [art. 70º], salvo as causas que sejam atribuídas, pela lei, às Relações ou ao STJ [cfr. arts 71º e 72º CPC e 29º e 55º LOFTJ].

§4: CRITÉRIO TERRITORIAL. Os arts 73º ss permitem determinar qual o concreto tribunal competente face à divisão judicial do território [arts 15º-1 e 1º LOFTJ]: • Distritos judiciais: o Dos quais, círculos judiciais:  Dos quais, comarcas

A competência territorial articula-se com a competência hierárquica, no âmbito dos tribunais da primeira instância, relativamente à área das respectivas circunscrições geográficas [art. 21º LOFTJ]. Cumpre reter a seguinte distinção:

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Direito Processual Civil I – Lara Geraldes @ FDL • Critérios supletivos: podem ser afastados pelas partes

em pacto de competência [todos os critérios de competência territorial, salvo aqueles que constam dos arts 100º-1 e 110º].

Critérios exclusivos: não podem ser afastados por

acordo das partes, ou redunda em incompetência relativa de conhecimento oficioso [art. 110º-1 a) e c]. Os arts 73º ss fornecem-nos os seguintes critérios: • Critérios especiais: o Acção de anulação [constitutiva] ou declaração de nulidade [simples apreciação] de um contrato o o Acção de restituição por cumprimento de contrato nulo [condenação] Acção de investigação de paternidade

o Forum rei sitae [art. 73º]: local da situação do imóvel, incompetência
relativa de conhecimento oficioso [art. 110º].

Direitos reais ou pessoais de gozo sobre imóveis [art. 73º-1]: vg acção de reivindicação [art.1311º CC]

Móveis matriculados em circunscrições diferentes: autor pode optar por qualquer uma delas [art. 73º-2]

Universalidade de facto ou bens, móveis e imóveis, ou imóveis situados em circunscrições diferentes: local da situação do imóvel de maior valor [art. 73º-3, 1ª parte]

o Forum destinatae solutionis [art. 74º-1]: responsabilidade contratual.
  Tribunal do domicílio do demandado [art. 74º-1] Credor pode escolher o foro do lugar do cumprimento, ou do lugar onde a obrigação deveria ter sido cumprida [art. 74º-1, 2ª parte]

Quando o réu seja uma pessoa colectiva ou quando réu e credor tenham domicilio na área metropolitana de Lisboa ou do Porto.

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o Forum delicti comissi [art. 74º-2]: responsabilidade extracontratual
aquiliana e responsabilidade pelo risco.   O local do facto [art. 74º-2] Quando não seja possível apurar um só local para o delito [vg difamação de figura pública na televisão] o autor pode escolher o tribunal

o Forum actoris [art. 75º]: divórcio e separação de bens.
  O domicílio do autor Quando seja acção de anulação do casamento, vg por erro, aplica-se o critério geral residual do art. 85º [domicílio do demandado]

Critério geral: se o caso não se subsumir a qualquer

dos princípios especiais supra exemplificados, aplica-se o critério geral residual do domicílio do demandado/réu [art. 85º].

§5: CUMULAÇÃO. O que dizer quando, da competência territorial, se conclua pela cumulação de demandados ou cumulação de pedidos? Compreende-se a pertinência da questão: naturalmente que, havendo vários demandados ou vários pedidos, o tribunal competente não seja em princípio o mesmo. Para mais, não faria qualquer sentido se o autor tivesse que instaurar uma mesma acção em tribunais diferentes. Cumpre apreciar:

Cumulação de demandados: o Tratando-se de um só réu:

Pessoa singular: domicílio [actor sequitur forum rei] ou, encontrando-se ausente, o tribunal do seu último domicílio em Portugal, art. 85º

Pessoa colectiva: • Estado: domicílio do autor [art. 86º-1]

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Pessoa colectiva proprio sensu: sede, sucursal, filial ou agência [art. 86º-2]

Pessoa

colectiva

estrangeira

com

sucursal

ou

representante em Portugal: tribunal da sede [art. 86º2 vs art. 5º-5 BRUX I] o Havendo pluralidade de réus:   Domicílio do maior número de demandados [art. 87º-1] Foro da escolha do autor, se todos os domicílios forem em igual número

Cumulação de pedidos: o Cumulação simples:

Pedidos independentes: o autor pode optar pelo tribunal que seria competente para qualquer dos pedidos [art. 87º-2, 1ª parte], salvo se for competente o tribunal cuja violação da competência relativa possa ser apreciada oficiosamente [art. 87º-2, 2ª parte]: vg tribunal que é competente face a um dos pedidos, mas não relativamente a outro pedido – se a incompetência relativa de um dos pedidos for de

conhecimento oficioso, a acção deve ser proposta no tribunal que seria competente face a esse pedido.

Pedidos interdependentes: a procedência de um pedido depende da procedência de outro, vg acção de simples apreciação de reconhecimento de propriedade de um imóvel cumulada com pedido de indemnização pela sua “ocupação”. A acção deve ser proposta no tribunal competente para conhecer do pedido de cuja procedência dependam os demais [art. 87º-3] – aqui, o tribunal da situação do imóvel [art. 73º].

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o Cumulação alternativa: pedidos relativos a direitos que, pela sua
natureza, são alternativos [art. 468º-1]. O autor pode escolher qualquer dos tribunais competentes para qualquer dos pedidos.

o Cumulação subsidiária: vários pedidos, dos quais o tribunal só deve
atender uns, se outros não procederem. O autor pode escolher qualquer dos tribunais competentes para qualquer dos pedidos.

o Cumulação objectiva de objectos processuais: quando vários objectos
se refiram a um mesmo efeito jurídico [vg acção de responsabilidade e consequente obrigação de indemnização]. O tribunal competente para um dos objectos é-o igualmente para os restantes [art. 664º-1].

§6: REPARTIÇÃO DA COMPETÊNCIA. A competência jurisdicional de um tribunal, uma vez aferida, carece de repartição dentro desse mesmo tribunal, determinando-se onde deve a acção ser proposta, concretamente. Eis os critérios a que podemos recorrer:

Forma do processo [art. 64º-2 LOFTJ]:

Tribunais de competência especializada: em função da matéria a que respeitem • • Global Específica

Tribunais de competência genérica: residualmente, ou se não existirem tribunais de competência específica nessa comarca • • Global Específica

o Tribunais de competência global: competentes para julgar qualquer
processo, independentemente da forma que assumam

o Tribunais de competência específica: competentes para julgar
processos que revistam determinadas formas, no âmbito do processo civil declarativo que ora estudamos [art. 96º-1 LOFTJ]

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Varas cíveis [art. 97º-1 LOFTJ]: acções de valor superior à alçada da Relação [processo ordinário]

Juízos de pequena instância cível [art. 101º LOFTJ]: processo sumaríssimo

Juízos cíveis [art. 99º LOFTJ]: competência residual [processo sumário e ordinário, residualmente]

• •

Acto processual Matéria, de facto ou de direito

§7: COMPETÊNCIA CONVENCIONAL. Como vimos, a competência pode resultar de convenção celebrada entre as partes em causa, quer se trate de um pacto de jurisdição ou de um pacto de competência:

• •

Pacto de jurisdição: cfr. supra. Pacto de competência: refere-se à competência interna, e não já à competência internacional dos tribunais portugueses. Aqui, as partes determinam o tribunal competente, na ordem interna, num caso que não tenha qualquer conexão com uma ordem jurídica estrangeira [art. 100º].

o Regras a afastar pelas partes: em razão do território, salvo art. 110º-1
 Bens, responsabilidade contratual, responsabilidade civil…

o Regras que não podem ser afastadas: em razão da matéria,
hierarquia, valor e forma do processo. o Forma: a forma do contrato controvertido, no mínimo verbal [art. 100º-2]. A competência convencional obriga tanto quanto a competência legal [art. 100º-3], pelo que a violação destas regras gera incompetência em termos que veremos infra.

Incompetência

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Direito Processual Civil I – Lara Geraldes @ FDL §1: INCOMPETÊNCIA JURISDICIONAL. A incompetência, em processo, será

jurisdicional quando resulte da violação de regras de competência jurisdicional [qual o tribunal competente]: internacional, formal, material, territorial ou convencional. Pode assumir três formas:

Incompetência absoluta [art. 101º ss]: violação de regras de competência o o o Material: competência genérica, especializada… Internacional: tribunais internacionalmente incompetentes Hierárquica: Relação, 1ª instância…

o Excepção dilatória nominada [art. 494º a], de conhecimento oficioso
em qualquer fase do processo [art. 102º-1 e 495º]. Implica absolvição do réu da instância [art. 105º-1], ou o indeferimento liminar [art. 234º]. Impede o tribunal de proferir uma decisão de mérito sobre a causa, ainda que possa haver a repropositura da acção [não faz caso julgado material]. Quando arguida antes do despacho saneador, só pode ser apreciada no momento em que seja proferido [art. 103º].

Incompetência relativa [art. 108º ss]: violação de competências relativas

o Valor da causa e forma do processo: vara cível, juízo cível… [sempre
de conhecimento oficioso, art. 110º-2] o o Divisão judicial do território Violação de um pacto de jurisdição ou de pacto de competência

o Excepção dilatória nominada [art. 494º a], arguida pelo réu [art. 109º]
e direito de resposta do autor. Será de conhecimento oficioso nos casos do art. 110º, casos em que só poderá ser suscitada pelo juiz até ao despacho saneador ou até ao primeiro despacho subsequente à fase dos articulados. Se houver remessa oficiosa para o tribunal competente [art. 111º-3], o processo é apreciado noutro tribunal, que não pode reapreciar a decisão de incompetência anterior [embora se possa declarar incompetente – kompetenz-kompetenz]. Se a

incompetência resultar de violação de pacto privativo de jurisdição

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Direito Processual Civil I – Lara Geraldes @ FDL não há remessa oficiosa, mas tão-só absolvição do réu da instância [art. 111º-3].

Preterição de tribunal arbitral [art. 290º, 494º j) e 495º]: se for devolvida competência ao tribunal judicial, este deve considerar-se competente, sob pena de conflito negativo de competência [TEIXEIRA DE SOUSA].

§2: INCOMPETÊNCIA FUNCIONAL. Resulta da violação de regras que delimitam, dentro dos tribunais, a competência dos seus diferentes órgãos para a prática de actos processuais [vg secretaria e juiz]. Constitui pressuposto legal de cada acto processual em concreto, sendo que a sua preterição não determina a absolvição do réu da instância, mas tão-só a nulidade do acto em causa.

§3: INCOMPETÊNCIA DECISÓRIA. Resulta do desrespeito, pelo tribunal, dos limites impostos aos seus poderes de apreciação da matéria de facto e de direito indispensável ao proferimento da decisão final [decisão de mérito]. Quando o tribunal ultrapassa a medida da sua competência decisória, vg por excesso de pronúncia, a decisão é nula [art. 668º-1d].

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Direito Processual Civil I – Lara Geraldes @ FDL CAPÍTULO III: AS PARTES PROCESSUAIS

Partes Processuais

§1: NOÇÃO. As partes processuais são os sujeitos que requerem ou contestam tutela jurisdicional para uma situação jurídica [partes principais] ou que auxiliam o autor ou o réu [partes acessórias, art. 335º-1]. Duas concepções poderão ser adoptadas neste âmbito: • Conceito formal de parte: é o autor quem requer tutela e o réu quem a contesta. • Conceito material de parte: é parte quem tem conexão com o objecto da causa, ainda que não se encontre em juízo [vg art. 122º]. A questão não é pacífica: já se entendeu que parte seria o titular da situação jurídica controvertida, ou o alegado titular da mesma. Do exemplo da figura do administrador da falência conclui-se que poderiam existir pessoas que, embora litigando em nome próprio, fizessem-no em prol de situações jurídicas alheias, de partes sem qualquer ligação com o objecto da acção. O art. 26º-3 solucionou este problema: insistiu no conceito formal de parte, admitindo, embora, situações de excepção ao princípio geral [vg substitutos processuais, que litigam em nome próprio por uma situação jurídica alheia]. Nos termos do preceito, a ligação entre o objecto da causa e a parte é assegurada através do pressuposto processual legitimidade. A parte já existe, pelo que este pressuposto não é uma condição sine qua non para a titularidade da situação jurídica litigada, mas sim um plus que se pode verificar ou não. Conclui-se: a ligação de uma pessoa à relação material controvertida é um qualificativo da parte; a parte será ilegítima quando não tenha qualquer ligação com o objecto da causa; os pressupostos processuais não são condições de existência do processo, mas sim requisitos para que possa ser proferida uma decisão de mérito; pode constituir-se o processo mesmo que uma das partes seja ilegítima [vg art. 269º].

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Direito Processual Civil I – Lara Geraldes @ FDL §2: PERSONALIDADE JUDICIÁRIA. Susceptibilidade de ser parte no processo [art. 5º]. Os critérios atributivos de personalidade são os seguintes: • Critério da coincidência [art. 5º-2]: tem personalidade judiciária quem tiver personalidade jurídica por força das regras gerais substantivas [art. 66º CC] • Critério da diferenciação patrimonial [art. 6º]: têm personalidade judiciária patrimónios autónomos como o o Herança jacente, ainda não aceite [art. 2046º CC] Patrimónios autónomos semelhantes, vg doação a nascituro [art. 952º1 CC] o o Associações sem personalidade jurídica e comissões especiais Sociedades civis [art. 980º CC]

o Sociedades comerciais antes do registo [para MENEZES CORDEIRO,
por seu lado, têm já personalidade jurídica porque o registo não tem efeito constitutivo], art. 5º CSC. o o • Condomínios Navios

Critério da afectação do acto [art. 7º]: atribui personalidade judiciária em função de determinadas entidades terem praticado o acto o o Sucursais, filiais, delegações ou representações Sociedades estrangeiras [recorde-se a prevalência do BRUX-I]

Consequências da não verificação: excepção dilatória nominada, de conhecimento oficioso [art. 494º c e 495º] e insanável, excepto o disposto no art. 8º. Verificada esta excepção, e havendo despacho liminar, a petição inicial deve ser indeferida liminarmente [art. 234ºA-1], dado ser insuprível. Se não houver despacho liminar, o pressuposto legitimidade deve ser apreciado no despacho saneador e, na ausência deste, absolve o réu da instância [arts 493º-2 e 288º-1c].

§3: CAPACIDADE JUDICIÁRIA. Susceptibilidade de uma parte estar por si, sozinha, em juízo, sendo juridicamente capaz para tal. Não tem capacidade judiciária quem não tiver

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Direito Processual Civil I – Lara Geraldes @ FDL capacidade jurídica de exercício nos termos da lei substantiva [arts. 123º ss CC]. Não há, todavia, uma total coincidência neste âmbito entre a lei substantiva e a lei adjectiva [vg aceitação de doação por incapaz, mas incapacidade de discutir a sua validade em juízo, art. 951º CC]. O suprimento da incapacidade judiciária opera pelos meios normais, art. 10º: • Menores: representação legal, pelos progenitores, ou tutela, subsidiariamente [art. 124º CC e 10º-2]. • • Interditos: tutela [arts. 10º-1 e 153º-1 CC] Inabilitados: curador [art. 10º-1 e 154º CC] Curador ad litem: deve ser nomeado quando o incapaz não tenha representante ou quando o mesmo, a existir, esteja impossibilitado de exercer a representação [art. 11º]. • Sub-representação [art. 15º]: quando os representantes de um incapaz réu não contestam, deve o MP representar o incapaz em juízo. A lei quer, deste modo, acautelar a hipótese de ter havido negligência dos representantes, afastando o regime da revelia [art. 483º].

§4:

REPRESENTAÇÃO

JUDICIÁRIA.

As

pessoas

colectivas

estão

sujeitas

a

“representação” orgânica [para MENEZES CORDEIRO, não é uma verdadeira forma de representação], bem como os incapazes que careçam de representação em juízo, nos termos supra §3. • Pessoas colectivas privadas [art. 21º]: a representação incumbe a quem a lei, o pacto social ou os estatutos designarem.


• •

Pessoas colectivas públicas, maxime o Estado [art. 20º]: MP Incertos [enquanto réus, entenda-se]: art. 16º-2, MP Ausentes e incapazes [art. 17º-2]: MP

A incapacidade judiciária stricto sensu verifica-se quando não haja lugar ao suprimento da incapacidade judiciária pelo representante legal ou pelo curador [vg menor em juízo não representado], arts 23º-1. A consequência é uma excepção dilatória nominada de

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Direito Processual Civil I – Lara Geraldes @ FDL conhecimento oficioso [arts 494º c) e 495º], sanável pela mera intervenção ou citação do representante [art. 23º-1]. Se não for sanada nos termos do art. 23º-2, 1ª parte, e se o incapaz for o autor, o processo extingue-se e o réu é absolvido da instância, sendo que tudo o que fora anteriormente praticado fica sem efeito [arts. 23º-2, 2ª parte, 493º-2 e 288º-1c]. Se o incapaz for o réu, fica sujeito ao regime da sub-representação [art. 23º-2, 2ª parte e 15º]. Quando a representação exista, mas seja irregular, vg por representação por falso curador ou tutor, gera excepção dilatória nominada [art. 494º c], de conhecimento oficioso [art. 495º] e susceptível de sanação nos termos do art. 23º-1. Se não se assistir à ratificação ou repetição do art. 23º-2, 1ª parte, o réu fica em revelia inoperante, nos termos do art. 485º b), sendo que os factos articulados pelo autor não se têm por confessados [revelia operante], mas antes prova nos termos do art. 513º. No caso de se tratar de pessoa colectiva, o art. 485º b) não pode ser aplicado, pelo que se a irregularidade não for suprida a pessoa colectiva entra em revelia absoluta [art. 484º-2], segundo PAULA COSTA E SILVA. Se, diferentemente, houver falta de autorização ou de deliberação, nos termos do art. 25º, essa falta redunda em excepção dilatória nos termos do art. 494º c) que, se não for suprida, absolve o réu da instância [art. 25º-1, 1ª parte] ou continua o processo como se o réu tivesse deduzido oposição [art. 25º-1, 2ª parte].

§5: PATROCÍNIO JUDICIÁRIO. Representação da parte por um profissional do foro, vg advogado ou solicitador. Não é, todavia, uma forma de suprimento da incapacidade proprio sensu, mas tão-só a confiança do exercício de faculdades complexas e do cumprimento de ónus processuais a um profissional com a devida habilitação técnica. Evita a propositura de acções sem fundamento e, nas acções pendentes, garante a defesa dos direitos e interesses das partes “representadas” em juízo. • • Facultativo [art. 34º] Obrigatório [art. 32º]

O mandato judicial designa o conjunto de poderes concedidos pela parte ao seu representante forense [arts. 36º e 37º]. A confissão de factos controvertidos em juízo pelo mandatário vincula o mandante, nos termos dos arts. 38º e 567º.

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Direito Processual Civil I – Lara Geraldes @ FDL Quando a parte não constitua mandatário judicial, numa situação de patrocínio judicial obrigatório, a excepção é dilatória nominada [art. 494º h], de conhecimento oficioso [art. 495º] e pode ser arguida em qualquer momento pela parte [art. 40º]. Se respeitar ao lado activo do processo, o réu é absolvido da instância [art. 40º-2, 494º h), 493º-2 e 288º-1 e]. Se, diferentemente, respeitar ao lado passivo, a defesa fica sem efeito [art. 33º-1] e o réu entra em revelia [arts 484º e 485º].

§6: LEGITIMIDADE. A legitimidade é a susceptibilidade de ser parte numa acção, aferida em função da relação dessa parte com o objecto daquela acção. Não se pretende apurar quem é que pode estar em juízo, em abstracto, mas tão-só quem é que pode ser parte numa determinada causa in concreto.

Singular:

o Legitimidade directa: reconhecida ao titular ou a quem tem interesse
em discutir com ele a titularidade do direito. Apreciada em função de dois elementos:

Interesse da parte na tutela favorável [ad causam]: elemento processual [art. 26º-1] – critério da coincidência entre a titularidade do direito subjectivo e a titularidade do interesse na tutela. O interesse na tutela [direito que deva ser defendido ou acautelado] não deve ser confundido com o interesse processual ou interesse em agir [só quando a parte possa retirar alguma utilidade da tutela jurisdicional

requerida], para TEIXEIRA DE SOUSA.

art. 26º-1 vs 26º-2: interesse directo em demandar ou contradizer [relação entre a parte e o objecto litigioso], no nº 1, vs interesse em demandar ou contradizer [utilidade decorrente, para o autor, da procedência da acção e pelo prejuízo sofrido com o réu com essa procedência], no nº2. Exemplo: credor

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Direito Processual Civil I – Lara Geraldes @ FDL com título executivo, art. 449º-2 c), parte legítima segundo o nº 1 mas falta-lhe o interesse do nº2.

Poder de produção, pela parte, dos efeitos jurídicos [elemento material da legitimidade processual]: elemento material

o

Legitimidade indirecta: concedida a alguém que se substitui ao titular do direito [também substituição processual]   Legal [vg art. 271º] Voluntária [vg art. 28ºA]

Plural: cumulação objectiva – pluralidade de partes principais ou assistência, art. 335º.

o Litisconsórcio: para TEIXEIRA DE SOUSA, trata-se de uma
legitimidade em segundo grau, verificável entre sujeitos que, singularmente, já tinham legitimidade para ser partes.

Necessário [art. 28º] – ilegitimidade dos que estejam em juízo • • Legal [vg arts 28ºA, 419º-1 CC e 496º-2 CC] Convencional [negócio jurídico] o o • Obrigações divisíveis Obrigações indivisíveis [vg art. 535º CC]

Natural [pela natureza do objecto, art. 28º-2]

Voluntário [art. 27º] – ausência não determina ilegitimidade; regra da coincidência entre a situação substantiva e adjectiva • • Comum [vg obrigações solidárias, art. 512º CC] Conveniente [vg obrigações conjuntas, art. 513º CC] Unitário / simples: decisão proferida é a mesma, ou


não

Conjunto

/

subsidiário:

pedido

é

formulado

conjuntamente, ou não

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Direito Processual Civil I – Lara Geraldes @ FDL

Simples / recíproco [CASTRO MENDES]: aumento de

partes implica o aumento de oposições na acção, ou não

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