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Intifada, a caçula - entrevista com Yasser Arafat

Intifada, a caçula - entrevista com Yasser Arafat

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Entrevista concedida por Yasser Arafat à revista italiana L´Espresso por ocasião do bicentenário da Revolução Francesa, no qual ele afirma estar "intimamente ligado à Revolução Francesa", assim como o movimento que liderava.
Entrevista concedida por Yasser Arafat à revista italiana L´Espresso por ocasião do bicentenário da Revolução Francesa, no qual ele afirma estar "intimamente ligado à Revolução Francesa", assim como o movimento que liderava.

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Published by: Ricardo Figueiredo de Castro on Feb 07, 2011
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02/07/2011

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da má teologia, de uma falta de sentido da história, e me permita dizer, também da ausência de fé.

O integralismo está presente também na Igreja atual, mas o Vaticano II cancelou toda sua sustentação teológica. O Concilio prefere falar da Igreja não mais como "sociedade perfeita", mas como "mistério de comunhão". O Concilio, além disto, esclareceu definitivamente a característica laica da política, da economia, das ciências e, conseqüentemente, a autônoma responsabilidade dos cristãos nestes campos. A guinada é profunda: significa que a Igreja não tem uma missão política, nem econômica, mas essencialmente ética e religiosa. Cai, pois, a sobreposição entre fé e política, que caracterizava a cristandade

medieval e também o Ancien Regime do período anterior à Revolução. P - Mas o catolicismo intransigente encontrou novo alimento com o pontificado de Karol Wojtyla. R - É fácil e cômodo limitar-se a episódios discutíveis. O que é mais importante é colher, na atividade de João Paulo II, aquelas linhas reveladoras da conexão entre o Concilio e a presença operante da religião num mundo que vai se modificando. A solidariedade entre os homens e as nações como caminho para a paz e o desenvolvimento, a penetração da fé como cultura na realidade pluralista e secularizada da Europa, tais são as mensagens do atual pontificado.

ARAFAT
Os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade são mais atuais hoje no Terceiro Mundo do que nos países desenvolvidos

INTIFADA, A CAÇULA
Yasser Arafat, neste fim dos anos 80, tornou-se mesmo um homem da História. A constituição da OLP em Estado e o reconhecimento do direito de existência do Estado de Israel projetaram Arafat e a sua nação atormentada para a ribalta da iniciativa política mundial. P - Presidente Arafat, a Europa se apronta a celebrar o bicentenário da Revolução Francesa. É uma revolução que envolve apenas os países ocidentais, ou também os países do Terceiro Mundo? R - A Revolução Francesa possui um grande significado para todos os povos do mundo. Influenciou todas as outras revoluções democráticas da Europa. O modelo revolucionário foi adotado em seguida por todos os países do mundo. Num certo sentido também a revolução chinesa e outras revoluções nacionais do Terceiro Mundo, mesmo indiretamente, tiveram sua origem na Revolução Francesa. Aqueles ideais democráticos mantêm grande atualidade entre os países do Terceiro Mundo que vivem ainda em condições de dependência e de

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tá de liberdade, condições comparáveis nelas que existiam na Europa antes da Revolução. Hoje, num certo sentido, podeK dizer que os ideais de liberdade, fraterniMbde e igualdade são mais atuais nos países idb Terceiro Mundo do que nos países industrializados. P - Mas o sr. se considera um descendente ou um adversário desta revolução? B. - Eu me considero, juntamente com o •uvimento que lidero, intimamente ligado à Revolução Francesa. Na minha pátria combate-se para que a liberdade, a igualdade e a democracia sejam os valores sugaremos da vida. P - Também no mundo árabe, islâmico? R - Com toda certeza, os ocidentais desconhecem o quanto é profunda a influência e o impacto da Revolução Francesa sobre a cultura do mundo árabe e islâmico. Entre os intelectuais, os escritores e os pensadores do século XIX do mundo árabe houve uma grande reflexão sobre a Revolução Francesa. O evento foi percebido como um acontecimento central da sociedade mun-ial, um acontecimento que abriu uma época. Napoleão, com a sua campanha do Egito, fez conhecer ao mundo islâmico os valores da Revolução, respeitando ao mesmo tempo os nossos costumes e as nossas tradições. Aliás, poucos sabem que Napoleão estava prestes a converter-se ao Islã. P - Três revoluções, aquela de Cromwell na Inglaterra, a de Robespierre na França, a de Washington na América: com qual o sr. se identifica mais? R - A revolução palestina extrai linfa do patrimônio de todas estas revoluções. Todavia, os princípios de Revolução Francesa tiveram um impacto, uma força propulsora particular, graças ao contacto cultural, histórico, geográfico, entre o mundo árabe e a Europa mediterrânea. P - Que acha a respeito da figura histórica de Robespierre? R - Sem dúvida alguma, uma grande figura. Uma figura trágica. Nestes últimos duzentos anos todos aqueles que se envolveram em processos revolucionários tiveram diante dos seus olhos aquele modelo trágico. Falo da tragédia de uma revolução que devora seus próprios filhos. Essa autodestruição do poder revolucionário deve ser evitada, é a grande lição negativa que devemos aprender da Revolução Francesa. P - Mas não é inevitável que as revoluções assumam formas violentas? R - Geralmente os poderes ocupantes ou dominantes, os poderes despóticos, as tiranias, não abandonam o campo por sua livre e espontânea vontade. Pode-se imaginar uma autêntica revolução sem nenhuma violência caso se verificasse que aquele poder

despótico, pelas pressões de um amplo consenso popular, saísse de cena por conta própria. Infelizmente, estas formas anacrônicas, antipopulares de poder, que sobreviveram dezenas de anos ou até séculos, nunca deixaram o poder mansamente. Então a irrupção da violência popular, da violência organizada das massas parece historicamente inevitável. Isso não quer dizer que ela representa um valor em si. P - Refere-se à revolta do seu povo nos territórios ocupados? R - A intifada do nosso povo é um produto particular no âmbito das revoluções populares. É um movimento que nasce de uma longa história de repressão e resistência. A sua força motora não é a violência, mas o endurecimento do ocupante israelense. Na intifada não há violência, pelo contrário, ela é o alvo da violência. P - Há relação entre a proclamação do Estado Palestino independente e a Declaração dos Direitos do Homem da Revolução Francesa? R - A nossa referência do ponto de vista legal é a Declaração Universal dos Direitos do Homem das Nações Unidas, aprovada depois da vitória contra as forças do nazismo e do fascismo na 2^ Guerra Mundial. Estou convencido de que os redatores daquela Declaração Universal inspiravam-se nas precedentes declarações dos direitos do homem. De todo modo, há de se dizer que a Carta da Revolução Francesa entrou em crise quando se tratou de aplicá-la às colônias. E isto vale também para os americanos, que preservaram a escravidão quase por um século além da data de sua proclamação dos direitos do homem. P - Qual é o político europeu que hoje representa melhor os ideais da Revolução Francesa? R - Existem diferenças culturais muito profundas na Europa. Poderá parecer mais fácil procurar entre os homens políticos franceses, porque pertencem à mesma tradição cultural da Revolução. Mas é inquestionável que um homem como Olof Palme, grande estadista e líder europeu, mesmo pertencendo a uma tradição cultural totalmente diferente daquela francesa, não deixa de representar uma encarnação daqueles ideais. P - Que acha de François Mitterrand? R - É um grande estadista, herdeiro consciente da Revolução Francesa. Faz dela um ponto de honra, acentuando esta herança. Talvez seja interessante refletir sobre o fato de que Mitterrand, que foi por dezenas de anos o adversário do general De Gaulle, hoje aparece aos olhos de muitos como o herdeiro daqueles aspectos da Revolução encarnados antes por De Gaulle.

Napoleão levou ao mundo islâmico os valores da Revolução. Poucos sabem que esteve prestes a converter-se ao Islã
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