You are on page 1of 152

HELENA MORLEY

Vera Brant

Há mais de um século uma menina de treze anos,


em Diamantina, começava a escrever o seu diário, por
sugestão do pai, filho de ingleses nobres que vieram
para o Brasil em busca de um clima para curar a
tuberculose do seu chefe, o médico Dr.John Dayrell.

A família esteve, inicialmente, em Nova Lima, na


Mina do Morro Velho e, depois, em Diamantina, onde o
Dr. John fundou a Santa Casa e ali trabalhou durante
toda a vida, até morrer, aos noventa anos.

O pai de Alice, Felisberto Dayrell, era minerador.

O diário de Helena Morley, pseudônimo de Alice


Dayrell Caldeira Brant, tem a data inicial de 5 de janeiro
de 1893.

Dotada de uma inteligência agudíssima e de uma


sensibilidade invulgar, ela foi anotando no seu caderno
escolar os acontecimentos que se desenrolavam ao
seu redor, naquela cidadezinha mineira de gente
simples e extremamente bondosa.

Enquanto seu pai escavava a terra à procura de


diamantes e de ouro, ela acompanhava a mãe e os
irmãos, atravessando becos e pontes em direção ao
rio, onde lavavam as roupas da família.
Ela esfregava a roupa com as suas pequenas
mãos, enquanto o seu olhar e a sua sensibilidade
acompanhavam o que se passava ao redor: o barulho
da queda a água naquele pequeno regato de pedrinhas
redondas e claras, as borboletas que voavam, o seu
irmão Renato pescando lambaris.

E quando chegava em casa anotava tudo, para


guardar na lembrança aqueles momentos.

A mestra Joaquininha a considerava a aluna mais


inteligente da escola. Mas ela duvidava, pois não
gostava de estudar, só gostava, e muito, de ler histórias
e romances, e de escrever.

“Eu acho que se fosse má seria mais feliz”,


escrevia ela quando voltava, aos prantos, da casa de
duas amigas da mãe, aonde fora levar umas broas de
fubá e as encontrara enforcando um gatinho.

“Hoje fui chegando para o almoço e encontrando


Nhonhô na porta da rua com uma asa do meu curió na
mão e dizendo: Olha o que a gata fez; comeu seu curió.
Eu não posso dizer o que senti, mas caí na cama com
os livros na mão, soluçando tão alto que mamãe veio
correndo na cozinha, pensando que tinha havido
alguma coisa”.

“ Mamãe diz que não se deve ficar alegre na


Semana Santa, porque é a semana do sofrimento de
Jesus. Eu creio muito nas outras coisas da religião,
mas não acredito que ninguém fique triste do
sofrimento de Jesus Cristo, depois de tantos anos, e
dele já estar no Céu, ressuscitado e feliz”.

“Meu pai diz sempre que gosta mais do meu gênio


que do de Luizinha; que eu sou franca, digo o que
penso e o que faço e Luizinha é das caladinhas que
são mais perigosas”.

A tia Carlota confessando-se com o Bispo e ele


fazendo-lhe mil perguntas em lugar de deixá-la à
vontade, contando-lhe os seus pecados.

Os tachos de angu, os leitões nos dias de festa. O


tutu de feijão. Os torresmos. As cocadas. As
macumbas. As velas acesas. As promessas. A
criadagem na ginga.

A tristeza de não compreender as criaturas ao seu


redor, com pensamentos e sentimentos limitados,
rasos.

A paixão pela avó que vivia exclamando: “Forte


coisa!” E que a amava muito e a defendia sempre.

Quando a sua querida avó adoece, ela escreve,


sentida, percebendo o perigo de perder a sua protetora:

“Nestes dias da doença de vovó eu me esqueci de


todas as felicidades que tenho tido e fico só pensando
nos sofrimentos. Quem encontrarei mais na vida para
dizer-me que sou inteligente, bonita e boazinha?”.

A dificuldade de entender a decepção do pai


quando voltava do garimpo sem encontrar o ouro: “Se
ele não guardou o ouro lá, por que se decepcionou?”.

A preocupação com a desigualdade social, com o


sofrimento dos pobres.

“Depois do almoço mamãe não nos deixa meter os


pés na água porque diz que faz mal. Sempre pergunto
que mal faz mas nunca explica. Pergunto por que não
faz mal aos mineiros que entram na água até os joelhos
logo depois de comerem, e ficam na água o dia inteiro,
e ela responde que é por estarem habituados”.

Quando fui morar no Rio, em 1956, passei a


conviver muito com Alice. Ela morava numa bela casa,
na Lagoa Rodrigo de Freitas.

Ia à sua casa duas vezes por semana com a


Sarita, sua filha.

Aos domingos havia a reunião da família toda,


umas quinze pessoas.

Alice sentava-se à cabeceira da mesa com o seu


porte elegante e sua personalidade fortíssima e
comandava aquele bando de malucos inteligentíssimos,
contando histórias extravagantes e muito interessantes.

Falavam quase todos ao mesmo tempo e Abgar


Renault, seu genro, casado com a sua filha Ignez,
pedia: “Silêncio! Vamos falar só quatro de cada vez,
senão ninguém se entende”.

Mas, quando Alice começava a contar as suas


histórias, era aquele silêncio. Todos a escutavam,
encantados. Eram sempre assuntos diferentes,
espirituosos, interessantes.

Certa vez Alice, que nunca saía de casa, me


informou que iria, no dia seguinte, visitar a irmã do meu
namorado para ajudar no meu casamento. E queria que
eu fosse com ela.

Eu trabalhava no Ministério da Educação e tive


que conseguir, com o meu chefe, uma folga para
acompanhá-la. Saí mais cedo do serviço e fui para a
sua casa.

Ela estava tentando colocar dois lindos brincos de


brilhantes. Não entendi bem aqueles brilhantes durante
o dia, mas ela insistia tanto que resolvi ajudá-la. Os
furinhos das orelhas já estavam fechados, cicatrizados,
de tanta falta de uso, foi uma luta para abri-los de novo.
Depois de muita peleja, ei-la elegante e bela, com um
vestido chique, pronta para a aventura.

Lá fomos nós. Eu, meio sem entender nada,


imaginando até que ela havia tramado com a
Margarida, irmã do namorado, um pedido de noivado.

O apartamento era uma graça.

A irmã e a sobrinha do meu namorado eram


mulheres muito bonitas e prendadas. Mostraram-nos
toalhas que elas mesmas bordaram, colchas de tricô
que elas mesmas tricotaram e, para o meu desespero,
todos os bolos e salgadinhos na mesa do lanche
tinham sido preparados pelas duas mais-que-perfeitas.

Entre uma demonstração de habilidade e outra,


elogiavam o irmão.

E Alice, nada. Nem um elogiozinho a mim, para


equilibrar.

Quando provou o biscoito de nozes que estava


mesmo uma delícia, não se conteve e exclamou,
constrangida:

_Coitada da Verinha, não vai poder entrar para


esta família. Ela não sabe fazer nada!

Fiquei arrasada.

Na volta para casa, exclamei:

_Mas você, hein, Alice? Vem para ajudar no meu


casamento e estraga tudo, acaba com ele.

_Mas o que foi que eu fiz?

_O quê? Não se lembra? Apenas disse, com todas


as letras, que eu não sei fazer nada, não sirvo para
casar.

Ela teve um acesso de riso tão forte que contagiou


a mim e ao Rubens, seu motorista. Ele teve que parar o
carro, porque não conseguia apertar o acelerador, de
tanto rir.

Quando chegamos à sua casa, o seu marido,


Augusto Mário, nos esperava na varanda. Estava
curioso para saber o resultado da visita e perguntou:

_Como foi o passeio?

A Alice pretendeu dizer que foi uma tragédia mas


não conseguiu chegar ao final da frase porque teve
outro acesso de riso. E eu, mesmo sendo a
prejudicada, também não conseguia parar de rir.
Fomos direto para o banheiro.

Quando a Sarita chegou, também curiosa para


saber as novidades, o Augusto Mário disse:

_Eu acho que as duas enlouqueceram. Desde que


chegaram não pararam de rir e não conseguiram dar
uma palavra.

Mas não foi por isso que acabou o namoro. Foi o


desencontro das águas. Acho que a minha família não
entendeu, até hoje, como foi que eu consegui namorar
aquele rapaz, tão pouco inteligente, durante tantos
meses e, o pior de tudo, encantada.

Se eu não freqüentasse uma família tão


inteligente e irreverente, aquele namoro talvez até
desse certo. Mas era demais. Nunca vi gente tão
impaciente com a burrice alheia. O Eduardo, filho da
Sarita, e o Flávio, seu irmão, ambos inteligentíssimos,
faziam perguntas ao meu namorado só para
desmoralizá-lo. As respostas eram trágicas.

Depois dele eu só namorei homens


inteligentíssimos, o que também não deu certo.

Quando fui à Europa, pela primeira vez, namorei um rapaz bonito,


inteligente e culto, que, meses depois, veio ao Rio passar as férias.
Levei-o para almoçar na casa de Alice, no domingo. Ele falava um
italiano misturado com espanhol, mas se fazia entender. E entendia o
que falávamos.

Até Augusto Mário, que era uma pessoa cultíssima


– fora jornalista, economista, político, escritor, é autor
do livro “Viagem à Argentina” – e exigente, ficou
impressionado.

Fiquei eufórica. Estava resgatada, junto à família.


A minha capacidade de escolher namorados já não
estava em baixa. Todos concordaram com a beleza, a
cultura e a inteligência. Mas concluíram que eu não
tinha interesse definido por determinado tipo físico, nem
mental. O Paolo era loiro, olhos azuis, alto, magro,
totalmente diferente do Ivan que era moreno.

Só que o italiano ficava à minha disposição dia e


noite. Foi me dando um enjôo tão grande que não sabia
mais o que fazer.

Resolvi contar a Alice e pedir-lhe um conselho.

Ela ficou horrorizada:

_ Verinha, você vai acabar solteirona. Um rapaz


bonito, bem de vida, culto, com aqueles olhos azuis.

Eu disse:

_Eu acho que foram os olhos azuis que me


enjoaram, Alice. O céu é azul mas se enche de
nuvens, escurece, chove, anoitece, depois fica azul de
novo. Mas, os olhos, não. É aquele azul forte o tempo
todo, me olhando. Não estou suportando. Amor não
tem nenhum compromisso com inteligência, sabedoria,
beleza, nada disso.

Ela me respondeu:

_Com a beleza não tem nada a ver, não. Mas com


a inteligência tem, sim. Você não suportaria viver,
durante muito tempo, com um homem pouco
inteligente.

Quando eu adoecia, ia passar uns dias em casa de


Alice, pois não tinha ninguém para cuidar de mim. A
Hilda, minha empregada, só ia duas vezes por semana.

Alice tinha o hábito de dormir à tarde, mas,


naqueles dias, ia para o meu quarto e ficávamos
conversando horas seguidas.

Um dia ela me contou que, quando menina, sua tia


havia dado uma surra na escrava. A escrava era o
dobro da tia, que era franzina e muito brava.

Alice estava louca para saber como ela havia


conseguido aquela proeza, mas tinha muito medo da tia
brava.

Certa vez, tomou coragem e perguntou:

_Minha tia, como foi que a senhora conseguiu dar


uma surra na fulana que é muito mais forte que a
senhora?

A sua tia respondeu:

_Eu experimentei, dando um tapinha. Ela não


reagiu, eu avancei.

Nunca, na vida, me esqueci dessa lição. A


qualquer ameaça de tapinha, moral ou física, eu reagia
logo, antes que o inimigo avançasse.

A Maria da Penha era uma figura humana


interessantíssima. Tinha vinte e poucos anos, era
bonita, simpática, excelente empregada. Só tinha um
defeito, grave: Não podia acordar sem ser
naturalmente. Se alguém a chamasse de manhã,
durante o sono, ficava num mau humor de ninguém
suportar. Então, a única solução era deixá-la dormir até
o sono acabar.

Adorava bichos e resolveu criar gatos. Em poucos


meses havia mais de dez gatos.

Certa manhã, Alice desceu mais cedo para a


cozinha e a gataria toda começou a puxar a sua saia e
arranhar as suas pernas, com certeza pedindo leite ou
comida.

Lá pelas tantas ela perdeu a paciência e chamou o


Rubens, motorista. Ele estava exatamente limpando e
lubrificando o carro que Augusto Mário mantinha,
sempre, na garagem para, na hipótese de morte de
algum amigo, ou de uma autoridade, não ter que
incomodar ninguém. Acontece que, quando morria um
amigo, ou o carro estava enferrujado ou o Rubens
sumido.

Neste dia estava tudo certo: o carro lubrificado e o


Rubens ali.

Alice não perdeu tempo: chamou o Rubens e


determinou que colocasse todos os gatos num saco e
os soltasse no mato. Ele adorou a idéia de poder
passear um pouco. Em poucos minutos juntou a gataria
ao redor do prato de leite, colocou-os no saco e se
mandou para a rua.

Quando a Maria da Penha acordou e soube da


confusão toda, abriu o maior berreiro:

_ A senhora é um monstro, como pôde fazer


tamanha maldade? E agora, o que vai ser dos pobres
gatinhos, quem lhes dará leite. Os pobrezinhos no
mato, com cobra e tudo, morrendo de frio à noite. Ai,
meu Deus! E chorava, chorava.

Alice foi entrando em pânico. Acho que já estava


arrependida e assim não deu uma palavra e saiu de
mansinho para a cozinha, pois já sabia que, naquele
dia, não ia ter nem um ovo frito para comer, se
dependesse da Maria da Penha.

Quando o Rubens voltou, já era mais de meio dia.


Alice foi dando ordem:

_ Volte lá e só retorne depois que encontrar o


último gato.

Alice havia acordado cedo e o Rubens estava


lubrificando o carro, justamente porque havia morrido
um amigo do casal. O enterro seria às quatro horas da
tarde. Todos prontos para sair e, cadê o Rubens?
Nada. Cansaram de esperar e chamaram um táxi.

Lá pelas sete horas da noite, quando Augusto


Mário e Alice já haviam regressado, também de táxi,
chegou o Rubens, todo suado e arranhado, e só com
dois gatos.

A Maria da Penha brigou com ela e foi embora


para a casa da Sarita.

Meses depois, ela disse à Sarita que queria de


volta a Maria da Penha.

Sarita teve um trabalho enorme para substituir a


Maria da Penha para trazê-la de volta para a casa da
sua mãe. Duas semanas depois, avisou a Alice que
traria a empregada no dia seguinte.

Alice, na maior tranqüilidade, respondeu:

_Não traga não, porque não a quero mais.

Sarita, desapontada:

_Mas, mamãe, eu tive um trabalho enorme para


conseguir outra empregada e agora você muda de
idéia?.

E, Alice, calmamente:

_E você acha que eu sou mulher para ter uma


opinião só a vida inteira?

Num domingo, eu não fui à casa de Alice para o


almoço porque estava indisposta, com dor de
estômago. Na segunda feira ela foi ao meu
apartamento, me visitar.

Era um apartamento mínimo, com quarto e sala, e


uma janela enorme, no décimo andar.

Ela foi entrando e dizendo:

_Verinha, que apartamento perigoso! Se você


entrar nele com muito entusiasmo, vai sair pela janela.

Ficamos a tarde inteira conversando. Ela me contou o quanto gostava


da minha mãe, sua prima. Que freqüentava muito a nossa casa, quando
eu era pequena.

Perdi a minha mãe com oito anos e pedi a Alice


que me contasse detalhes de sua personalidade, das
coisas das quais eu não podia me lembrar.

Lembro-me de uma das histórias, ótima: a sua


nora, Elza, estava brigando muito com o seu filho Caio
e fazendo-lhe muitas críticas. Dizia, no entanto, que o
amava.

Alice decidiu:

_Vamos à casa de Amália. Lá você vai ver o que é


amor.

Foram. A Elza, uma mulher linda e chique, chegou


à nossa casa toda animada para ver o amor de perto.
Só encontrou um bando de crianças descabeladas:
éramos nove, o mais velho com dezoito anos e a mais
nova, recém-nascida.

A mamãe, linda, cuidando dos filhos, fazendo doce


de casca de laranja, o que o Zezé mais gostava – dizia
com a maior alegria - porque Zezé pra cá, Zezé pra lá,
e contava casos do Zezé. E vinha menino, chateava,
ela mandava sair para o jardim, vinha outro, enchia a
paciência, ela colocava para dormir. A pequenina
chorava, ela ia correndo acudir e já a trazia no peito,
continuando as histórias e... mais Zezé, mais Zezé.

A Elza, dizia Alice, estava completamente zonza.


Ela, que só tinha dois filhos, Felisberto e Arnaldo, que
viviam limpos, penteados, com as babás, tudo em
ordem, não estava se adaptando àquela bagunça e
cutucava Alice para irem embora.

Quando Alice ameaçou sair, a mamãe não deixou:

_De jeito nenhum, vocês vão esperar o Zezé, está


na hora dele chegar.

E contou mais histórias para distraí-las enquanto o


Zezé não chegava.

E chegou o Zezé, meu pai: baixo, feio, falando tão


depressa que não dava para entender nada.

Os olhos da minha mãe faziam ondas, refletiam a


felicidade. E o Zezé falando duas palavras de cada vez,
Alice e Elza não entendendo nada e a minha mãe
traduzindo, aquela confusão.

Cansaram de tanta loucura e foram embora,


deixando os dois pombinhos com a filharada.

No caminho, Elza quis saber de Alice qual era o


sentido daquela visita, o seu vestido branco todo sujo
de mão de menino, aquele cansaço de confusão mental
completa. E ouviu a resposta:

_Amor é isso, minha filha. A mulher, quando ama,


tira de letra um dia como este, que para você pareceu
um martírio, na maior tranqüilidade. Quando o Zezé
chega, passa a borracha nas tormentas todas e cai nos
seus braços como no primeiro dia de casamento. Você,
desocupada do jeito que é, com o marido bonitão que
tem, fica botando minhoca na cabeça e criando
problema onde não existe. Acho que é desamor. Não
tem outra explicação.

Esta história é uma definição de Alice. Ela não


precisava sair de casa para mostrar o que era o amor.
O exemplo era ela própria, com Augusto Mário.

Alice possuía uma memória fantástica. Contava-


me episódios da sua infância, no final do século
atrasado, pois ela nasceu em 1.880, e eu ficava
extasiada com a sua coragem e personalidade.

Sempre havia imaginado que, naquela época, até


muitos anos depois, as mulheres eram umas bobocas,
fazendo só o que os pais e os maridos permitissem e
dizendo amém a todos. Mas, não. Alice dialogava com
os pais, dizia-lhes o que bem entendia, discordava,
opinava, concordava às vezes, não arredava um
milímetro do que considerava ser o correto.

O namoro com Augusto Mário, seu primo e sua


única paixão, começou quando ele voltou de São
Paulo, onde passara vários anos estudando Direito e,
tendo-se formado, voltara para Diamantina.

Quando estava para voltar, a família toda se


organizou para recebê-lo com festas e homenagens.

Alice não tinha uma só roupa que prestasse. Só


possuía uma saia nova e não tinha dinheiro para
comprar uma blusa.

O seu Luís, que era encantado com ela e queria


namorá-la, era filho do seu Mota, dono da loja de
tecidos. Quando ela lhe contou o seu aperto, ele se
propôs a levá-la à loja e pedir ao pai que desse a ela
um pedaço de tecido para fazer a blusa. Foram. Foi
feita a blusa.

Vindo de São Paulo, Augusto Mário passou uns


dias em Belo Horizonte e, lá, quis saber dos primos
como estava Diamantina e, principalmente, como
estavam as moças que ele havia deixado anos atrás,
meninas ainda.

Um dos primos fez-lhe o relatório de cada uma das


moças, umas lindas, outras, estudiosas, interessantes,
chiques. Mas... existe uma, a Alice, que não sendo
bonita, nem a mais elegante, é a mais encantadora de
todas. No ambiente em que ela se encontrar, depois
que começa a falar, com tanto espírito, inteligência e
simpatia, cresce e supera todas as outras, por mais
bonitas que sejam.

Aquilo ficou gravado na memória de Augusto


Mário. E ele pensava: Será possível a Alice, aquela
menina magrela, agressiva, irreverente, ter se tornado
uma mulher tão interessante?

Afinal, chegou a Diamantina.

A família inteira reunida e orgulhosa do seu doutor


em Direito, formado em São Paulo.

Foram todos para a casa de seus pais, onde seria


a festa. Dois amigos iriam buscá-lo na estação e levá-lo
à casa.

Quando ele chegou, foi aquela quantidade de


palmas e sorrisos, abraços. Um das primas trouxe-lhe
um ramo de flores. Ele, encabulado, sem saber o que
fazer com as flores, procurou com os olhos alguém a
quem entregá-las e encontrou Alice, que estava
próxima, e ofereceu-lhe o ramo de flores. Foi a conta:
o seu Luís ficou morto de ciúmes e queria porque
queria que Alice lhe devolvesse a blusa.

Para o sábado seguinte estava programada uma


festa com dança e tudo, e o sofrimento de Alice
começou de novo. E a roupa?

Depois de muita luta, conseguiu um pano e fez um


vestido de festa.

As mulheres estavam muito chiques e ela se sentia


humilhada. E não conseguiu fazer sucesso porque ficou
calada, num canto.

Qual não foi a sua surpresa quando Augusto


Mário, depois de dançar com várias moças, foi buscá-la
para dançar. Ela ficou encabulada. Seu coração dava
pulos no peito e foi uma luta para encontrar o rítmo.

Controlou-se e começaram a conversar. Ele não a deixou mais, até o


final da festa.
Naquela noite, quando chegou à casa, ela se
ajoelhou

aos pés da cama e pediu a Santo Antônio, com todo o


fervor, que, se não fosse para casar com ele, tirasse
aquela ilusão de sua cabeça de uma vez por todas,
porque não queria sofrer aquele amor que já brotava
com tanta força em seu coração e que ela imaginava
muito violento.

Mas não era só ela quem estava apaixonada por


ele. Uma meia dúzia de moças também. Era, naqueles
dias, o assunto de Diamantina.

Ela, então, decidiu sumir da vida dele, para evitar


sofrimentos.

Um dia, tendo ido ao armarinho comprar botões e


fitas, percebeu que ele a acompanhava. Andou mais
rápido e ouviu o barulho de seus passos. Ouviu-lhe a
voz, chamando-a . Apertou os passos e saiu correndo,
ele correu atrás.

Quando chegou à porta de casa, já exausta,


começou a subir as escadas, com dificuldade.

Foi quando ele, alcançando-a, puxou-a pelos


cabelos e lhe deu um beijo.

Ela ficou tonta, desnorteada, sem entender nada.

_Quer se casar comigo?, sussurrou ele.

_Agora, querendo ou não querendo, temos de nos


casar, pois você já me beijou e estou desonrada,
respondeu Alice.

Casaram-se. E parece-me que Alice foi, durante


toda a vida, a companheira que mais amou o homem
com quem se casou.

Um dia, acordei com Alice me passando a maior


descompostura:
_Você deve estar pensando que também é rica
porque convive com Ignez, Sarita e Yolanda, mas você
é pobre, Verinha. Convença-se disso! Comece a fazer
loucuras e depois vai se encalacrar toda, encher-se de
dívidas e não vai conseguir pagar com este emprego
mixuruca.

Eu, sem entender nada, resmunguei:

_ Ser pobre já é desagradável, mas ter alguém que


já, de manhã cedo, vem me xingando de pobre é o fim
da picada. O que foi que eu fiz para esse xingatório
todo?

_Comprou uma geladeira elétrica a prestações. E


não me pergunte quem me contou porque eu estou
proibida de dizer, foi falando.

_Mas, Alice, você com esta fama toda de


inteligente, não raciocinou ainda que aquela geladeira
de gelo que você me deu foi o maior presente de grego
do mundo? Dia sim, dia não, tenho de comprar uma
barra enorme de gelo que se derrete e vai para o
esgoto. Vou passar a minha vida inteira jogando o meu
dinheirinho minguado no esgoto? Já uma geladeira
elétrica, com uma prestação um pouquinho mais alta do
que as barras de gelo, ficará para a vida toda. Para
você ter uma idéia, pretendi dar a geladeira de gelo
para o porteiro e ele não aceitou. Foi mais inteligente
do que eu.

Ela ficou parada, olhando para a minha cara um


tempão e saiu com a proposta mais extravagante que
já recebi em toda a minha vida:

_Sabe de uma coisa, Verinha? Você é mesmo


muito inteligente e não pode continuar nessa pobreza.
Vamos escrever um livro, juntas. O José Olympio anda
louco para publicar outro livro meu. Aí, ele publica,
todos ficam conhecendo o seu talento e você fica rica.

Pela manhã, normalmente, eu sou muito lerda. Me


sinto como televisão antiga que, quando a gente ligava,
ficava rodando um tempão, até focalizar o mundo. Por
isso não respondi logo à sua sugestão.

À tarde, entreguei-lhe uma pequena carta,


demonstrando aceitação à sua proposta.

Minha querida Alice:

Você diz, entre outras coisas maravilhosas, que a


única inteligência importante é a de quem sabe viver.

Tenho pretendido aprender esta arte com você,


mas existe uma incapacidade de minha parte que me
deixa completamente frustrada.

Gostaria de poder me aprofundar nos pequenos


momentos que me dão alegria, fixá-los bem, explorá-
los até o último instante e guardá-los na memória, para
os dias e as tempestades seguintes.

Mas os trovões só me recordam tormentas e essas


me trazem à memória catástrofes, e eu me perco e me
desmorono nelas.

Quantas e quantas noites tentei imitar você,


recordando pedaços de vida em que fui feliz. Quantas
vezes passei filmes pela minha imaginação, como você
faz, procurando me distrair. Mas meus filmes eram
sempre tristes e eu tinha logo que matar os
personagens, para que eles parassem de sofrer e eu
pudesse dormir.

Que inveja sinto de você que, às oito horas da


manhã, acorda bem humorada, vai, mentalmente a
Paris, passeia, faz compras, visita museus, igrejas e, às
onze horas, senta-se à mesa para almoçar, exausta de
tanto passear.

Que mágoa eu sinto de não conseguir viajar assim,


na recordação, como você faz, ora na sua infância e
mocidade em Diamantina, ora no seu exílio na
Argentina, em Paris, ou em Portugal, que você tanto
adora.

Às vezes exploro as suas histórias para me distrair


um pouco, mas nunca consigo me lembrar delas
inteiras.

Aquela sua volta da Europa, no navio, com as


mulheres francesas, que você considerou ótimas
companhias, só ficou na minha lembrança até o
momento em que o navio se aproximou de outro,
repleto de marinheiros, a quem elas deram todas as
suas conservas, queijos e bebidas e você passou a
detestá-las, lembra-se? Como foi que você prosseguiu
a viagem? Conte-me.

Empilharei as suas histórias na minha memória


para futuras recordações, quando estiver apertada para
me lembrar de coisas alegres e engraçadas.

As minhas lembranças não conseguem me distrair.

É que falta a mim o que sobra em você:


inteligência para viver.

Muitos beijos,

Vera

Alice me respondeu:

Verinha querida:

Como você não compreendeu bem a minha


filosofia de vida, venho hoje explicar-lhe.

A vida é sempre cheia de problemas para todos


nós, desde a infância. Quando eu me refiro à
inteligência para a vida, refiro-me à pessoa que sabe se
afastar de todos os problemas e tirar proveito das
coisas boas; que nasce com juízo para se afastar dos
perigos, que guarda um pouco do que ganha para não
passar necessidades, que evita as doenças, as más
companhias e sabe tirar proveito da inteligência, como
Churchill, por exemplo.

Tenho conhecido homens de nenhum dom


intelectual que se transformam em grandes homens,
somente pelo trato, talvez adquirido na infância.

E conheço outros, que todos nós sabemos, cujas


inteligências só serviram para desmoralizá-los.

Quanto a saber viver, você sabe melhor do que eu.


A diferença é que você está vivendo o presente e eu só
vivo, hoje, o passado.

Mas eu sei que você, como nenhuma de suas


companheiras poderá, no futuro, viver o passado
porque não o terão tido.

A vida na infância só é agradável no campo, com a


natureza, os animais, as aves e, acima de tudo, com a
liberdade. E quem é que cria os filhos, hoje, com
liberdade? A vida das crianças em casa, enquanto
pequenas, e nos colégios, quando vão crescendo,
cheia de trabalhos e obrigações, é vida? Não, não é
vida. E nada disso vai servir para pensar, depois de
velha.

Mas eu, com toda a pobreza de meus pais, vivi a


minha infância. E, depois de casada, ensinei Augusto
Mário a viver.

Hoje quero lhe descrever alguns episódios na


minha vida, depois de casada.
Não me cansava de obrigar Augusto Mário a fazer
aventuras. Imagine nós dois viajando a cavalo, com
uma família de doze pessoas e uma grande carga, com
colchões, travesseiros e mantimentos! Isso, com mais
três filhos pequenos e mais uma menina que eu criava.

A viagem era de dois dias, dormindo-se no


caminho, em ranchos abertos.

Uma vez em que íamos a Santa Bárbara e nos


arranchávamos para dormir, a empregada foi afastando
uma pedra para fazer a cama dos meninos quando viu,
embaixo, um ninho de escorpiões.

Eu estava, nessa hora, no rio, dando banho nos


meninos, por isso não vi. Augusto Mário proibiu que me
contassem e passou a noite sentado à beira da cama,
lendo e vigiando os pequenos.

Hoje estou sem ocupação e vou passar algumas


horas me distraindo, recordando o passado.

Para a estação de Santa Bárbara nós tínhamos o


hábito de ir uma vez por ano. Aconteceu que, numa das
vezes, várias pessoas de Diamantina resolveram ir
também fazer uso das águas.

Foram Alcídes, Belinha, Dr. Telles com a Donana e


duas filhas, Serafim Libano e Dona Augusta e os dois
filhos rapazes e Padre Manoel Alves com uma amiga
minha, Catarina Neves.

Além desses, foi também um industrial de Montes


Claros, com a mulher e dez filhos.

Nossa família, Alcides e Belinha, ficamos no


Arraial numa fazenda abandonada. O Dr. Telles, numa
única casa que havia no arraial. Os outros
companheiros fizeram rancho de sapê, próximo das
águas, que formavam um grande poço, espécie de
piscina de água quente.

O padre, além do rancho, mandou construir uma


capelinha com um altar e todo o necessário.

Todos os domingos nós, do arraial, tínhamos que


assistir à missa. Como era longe, íamos a cavalo.

Para assistir à missa, vinha todo o pessoal da


redondeza e ia se acampando por fora da Igreja.

Não havia um só domingo que não houvesse


casamentos. Lembro-me de uma vez que foram quatro
casais e todas as moças se casaram com um só
vestido e um só véu. Acabava um casamento e a noiva
tirava o vestido e o véu e entregava à outra noiva. E
todas nós, animadas com a novidade, ajudando as
moças a se vestirem.

Quando ajudávamos a última do grupo, chega na


porta do rancho do padre e grita: Ô donas, não vistam a
Maria que eu não caso com ela! Que tragédia! A
pobrezinha caiu no pranto.

Eu fui lá fora implorar ao João para se casar com a


Maria. E ele me respondeu: Se a senhora faz questão
de me casar, então me case com a Joana. Ele havia
viajado com as duas e, no caminho, verificou que a
Joana era mais bonita que a Maria.

Não posso, também, deixar de contar as


originalidades da mulher do industrial, minha xará: ela
criava todos os filhos amamentados por uma cabra,
que atendia ao choro da criança, subia na cama e lhe
colocava a teta na boca. Um dia, quando chegamos ao
poço, ela estava terminando um forno de barro, para
assar pão. No dia seguinte, começou a fabricar o pão.
Engraçado é que ela manejava tudo com uma cuia.
Cuia para encher de barro, cuia para amassar o pão,
cuia para lavar a roupa. E era cada cuia do tamanho de
uma bacia.

O industrial, marido dela, tinha uma fábrica de


tecidos e uma grande fazenda. Mais de uma vez vimos
chegar carroça cheia de tudo para eles. Apesar dessa
fartura, a mulher era muito miserável. Se jantávamos
ou almoçávamos com eles, era sempre a convite do
marido.

Um dia, Augusto Mário resolveu ir às águas


palestrar com o industrial, que era muito simpático. O
homem prendeu-o para jantar. A mesa era debaixo de
uma grande árvore e comprida, para caber toda a
família. Jantaram. Terminado o jantar, veio o café. O
marido perguntou pela sobremesa e ela respondeu:
Não tenho. Um dos filhos, de uns cinco ou seis anos,
gritou do meio da mesa: E aquelas latas de doce que
estão debaixo da cama?

A mulher foi ao quarto, trouxe uma lata, de uns dez


quilos, de doce de leite, distribuiu para todos com
fartura.

Esse incidente foi um desapontamento para todos


nós.

O rancho da dona Augusta era uma simpatia. Os


filhos o colocaram num lugar bem agradável. As mesas
de jantar de todos os ranchos eram fora de casa,
sempre debaixo de uma árvore. E nunca chovia.

Um dia, chegando nas águas e indo ao rancho de


dona Augusta, só encontramos um montão de cinzas.
Os filhos embeberam um maço de algodão no álcool,
acenderam-no na ponta de um bambu para acabar com
uma caixa de marimbondos que estava sobre o rancho!
Engraçado é que ninguém comentou a estupidez. Os
rapazes fizeram, numa só noite, outro rancho.

Um episódio também marcante em Santa Bárbara


deu-se, um dia, comigo: Donana e Belinha descobriram
um sítio onde havia frutas. Relacionaram-se com a
família e foram lá duas vezes, sem mim.

Quando eu soube, protestei, chamei-as de amigas


ursas e me zanguei, deveras.

Donana, mais velha dez anos do que eu, explicou-


me: Não te levamos porque sabíamos que, se você
fosse lá, inutilizará o nosso passeio. Há coisas que dão
vontade de rir e nós nos contemos. Mas você não seria
capaz de se conter. Você mesma sabe disso. Eu lhes
disse que brigaria se fossem sem mim, de outra vez.

Chegou o dia delas irem atrás das frutas e dos


ovos. Chamaram-me e disseram: Hoje nós vamos ao
sítio do seu Juca, mas você fique sabendo que ele é
assassino e que não pode rir na cara dele.

Eu respondi: Vocês estão me julgando uma louca


que não pode conviver com os outros?

Donana retrucou: Se é assim, vamos.

Saímos a três pelo campo. O sítio era distante de


nossa casa.

Durante a viagem pela estrada, Donana não fez


outra coisa senão me recomendar: Quando você vir
que vai cair nos seus acessos de riso, procure antes se
lembrar de qualquer coisa triste.

Eu, então, reclamei: Chega, Donana.

Ela ainda teimava: Não ria, não ria! Estou temendo


que você vá nos fazer perder este sítio.

Eu já estava indignada com tanta recomendação e


já morta de vontade de rir vendo o medo de Donana.

Fomos andando e chegamos ao sítio. Do lado de


fora, próximo à porta, estava um homem gordo, com
uma grande barba, amolando um facão, numa pedra.
Donana foi dizendo: Boa tarde, seu Juca! O homem
levantou a cabeça, com aquele facão na mão e
respondeu: boas tardes, madames!

Não foi preciso mais nada para que eu caísse no


acesso de riso. As duas, que também caíram no riso,
dispararam a correr pelo campo afora me deixando
sozinha com o homem. Eu, sem conseguir parar de rir,
larguei também o homem e fui brigar com as duas, por
terem me abandonado. Mas as encontrei iguais a mim,
no mesmo acesso de riso.

Desta estação poderia, ainda, contar muita coisa


engraçada.

Mas já escrevi bastante e sei que você não terá


paciência de ler.

Um beijo, Alice.

Alice querida:

Acho que compreendi a sua explicação: saber


viver é ter capacidade de afastar uma porção de coisas,
inclusive problemas.

Você teve tão poucas dificuldades no passado que


procurava os perigos para ter do que se afastar.

E não se contentava em ir sozinha: levava o


menos aventureiro de todos os homens, que é o
Augusto Mário, e com ele se acampavam sobre ninhos
de escorpiões.

Você se abasteceu de muita alegria na sua


infância e na mocidade, daí a sua capacidade de
dominar as tristezas que a vida trouxe, mais tarde, para
você.

Não quero me aprofundar nos problemas de


infância para não chegar à conclusão de que estou
completamente liquidada.
Pelo fato de não ter muito do que lembrar é que
peço emprestadas as suas memórias.

Uma das poucas vezes que surpreendi você triste,


Alice, foi naquela tarde em que fomos com Felisberto,
Duga e Flávio à chácara da Gávea.

Passeamos durante um longo tempo pelo campo,


imenso, quase todo plantado por você, descemos uma
colina, passamos naquela ponte próxima da piscina e,
de repente, você ficou triste.

Corri, apanhei um cajá-manga e dei a você.

Eu nunca soube o que fazer com a tristeza de


alguém.

Adoro ouvir os casos lá da chácara. Você me


conta alguns?

Como se chamava aquele empregado a quem


você deu meia hora para aprender a dirigir o
automóvel, porque você precisava sair para fazer umas
compras e visitar Augusto Mário na Casa de Correção?

E aquele que tocava piano, desenhava, tirava o


forro dos sofás, lavava e colocava tudo de novo
direitinho?

Conte-me tudo.

Um beijo, Vera
Verinha, querida:

Havia em Belo Horizonte, no meu tempo, um


comerciante rico, chamado Avelino Fernandes.

Um jornalista, insaciável por dinheiro, escreveu no


Estado de Minas um artigo elogioso ao Avelino, na
esperança de arrancar-lhe algum. No dia seguinte à
saída do artigo, o Avelino foi ao jornal: Vim lhe
agradecer as boas palavras que o senhor disse a meu
respeito, mas quero lhe dizer, também, que o senhor
exagerou, eu não sou nada daquilo que o senhor disse
no jornal.

O jornalista: É sim, seu Avelino. O senhor é que é


muito modesto e não reconhece.

Qual o quê, Doutor. Eu conheço os meus


adjetivos.

Gostei da frase do Avelino e nunca a esqueci.

É muito raro uma pessoa reconhecer os seus


“adjetivos”, mas eu reconheço os meus.

Isto vem a propósito da resposta à sua carta.


Escrevi ontem e, quando terminei e reli, achei-a sem
graça e rasguei-a .

Sou como o Avelino, reconheço quando o que


escrevo está sem graça. Mas como você insiste na
resposta, vai aí:

A minha época na chácara da Gávea foi a mais


divertida possível. Lá havia de tudo: macumbeiros
fazendo macumba; criadas surrando umas às outras,
baile da criadagem na garagem, enfeitada de bambus e
folhagens.

A criadagem se reunia e dava, cada um, certa


quantia para as comedorias. Quem fazia os pastéis,
sanduíches, batidas e limonada eram as minha
empregadas, cozinheiras e a copeira. Elas arranjavam
na garagem uma grande mesa e enchiam-na. Nós
ficávamos, de nossa varanda, apreciando o baile. Era
engraçadíssima a gana do pessoal! Antes do baile
avançavam, todos, nas comedorias.

Ignez tinha como ama do Luiz Roberto uma moça


clara, de uns trinta anos, metida a importante e
ajuizada. Nunca se misturava aos empregados.

Num desses bailes, ela ficou da janela, vendo os


criados dançarem e eu verifiquei que ela estava com
inveja do pessoal. Perguntei-lhe: Por que você não vai,
também, dançar, Edite?

E ela: A senhora acha que eu posso me misturar


com eles?

Acho. Por que você não pode se misturar se você


é empregada como eles?

Ah! Se a senhora pensa assim, então eu vou.

Foi e se divertiu à grande!


Sabe de uma experiência que eu adquiri na
Gávea? Verifiquei que muitas vezes a gente se distrai
mais vendo os outros se distraírem.

As macumbas eram importantes e dispendiosas.


Numa das vezes, o macumbeiro levou um tiro na boca
e eu tive de telefonar para a assistência.

Quanto à sua pergunta a respeito do Pedro, quero


lhe contar do princípio a história dele.

Augusto Mário mandou fechar o laboratório do


Paulo, que estava dando prejuízo. Pedro era
empregado do laboratório e ficou sem colocação. Paulo
mandou-o para a chácara do Gávea, dizendo: Vocês o
puseram na rua sem emprego, agora ele terá de ficar
aqui na chácara e receber o mesmo ordenado que
recebia lá.

Mas o que farei com ele, já tenho tantos


empregados?

E o Paulo: Não precisa fazer nada, é só dar o


ordenado e deixá-lo andar pela casa.

Eu disse isso ao Pedro e ele respondeu-me:

_Já vi o que vou fazer. A tinta da casa está


precisando de reforma. Dê-me o dinheiro e eu vou à
cidade comprá-la. Trouxe a tinta e pintou a casa toda,
em pouco tempo.

Depois disso descoseu os sofás, as cortinas, tirou


os panos, lavou tudo e colocou de novo.

Foi indo num crescendo de atividade e habilidade


incríveis. Não havia nada que Pedro não fizesse. Fazia
malas, era carpinteiro, pedreiro, tudo, tudo.

Não sei se já lhe contei o caso dele copiar,


igualzinho, o Cristo de um bom pintor. Quando o
motorista encrencava o carro e o deixava na estrada,
chamava o Pedro para consertá-lo.
Eu, vendo que ele já havia terminado todos os
consertos da casa, resolvi colocá-lo como chofer.
Chamei-o e lhe disse:

_Pedro, eu estive pensando que você, que sempre


vive consertando o automóvel, poderia ser um bom
volante. Por que você não guia?

Ele:

_ Porque nunca encontrei um carro para eu


aprender.

_Então, vá aprender no meu. Tome a chave.

Ele foi no alto da Tijuca, exercitou durante uma


hora, voltou e entregou-me a chave, dizendo:

_Já sei guiar, se a senhora que ir à cidade,


podemos ir.

Fui com ele à Casa de Correção e continuei


andando, sem nunca haver atropelo.

Alice

Um domingo, Alice resolveu fazer um almoço


muito elegante e convidou várias amigas suas, de
Ignez e da Sarita. Sarita e eu voltamos da praia e esta
pediu-me que colocasse rolinhos nos seus cabelos e
fizesse um penteado bem bonito, para o almoço. Fiz
tudo direitinho. Sarita sempre foi tão bonita que
qualquer penteado lhe ficaria bem.

Quando chegamos para o almoço, onde, dentre


várias pessoas, estava a grande poeta Cecília Meireles,
amiga da Ignez, todos elogiaram a elegância de Sarita.
_E quem foi que fez o seu cabelo?, perguntou
Alice.

_Foi Verinha, disse Sarita.

Mais tarde, quando terminou o almoço, Alice


chamou-me num canto e disse:

_Olhe, minha filha, já descobri um jeito de você ficar rica. Vou comprar
uma bacia e um secador de cabelos para você fazer os cabelos da Sarita
e de todas as suas amigas. Você vai ganhar um dinheirão.

Nesta hora, fiquei um pouco desanimada. Então, o meu talento de


escritora era só aquele tiquinho?

Eu estava louca para melhorar de emprego, com um ordenado melhor, e


queria fazer concurso para Inspetora de Ensino do Ministério da
Educação, mas não havia concurso nenhum a ser feito.

Depois de muito pedir, consegui ser nomeada para


uma coisa completamente diferente: Técnica de
Seguros do Instituto de Seguros do Instituto de
Aposentadoria e Pensões dos Ferroviários e
Aeroviários ( Iapfesp).

Entrei em pânico. Eu não era técnica de coisa


alguma, como é que iria tomar posse?

Fui ao Augusto Mário pedir conselhos. Era um


homem extremamente culto, sábio. Foi excelente
jornalista, vivia no seu escritório lendo e estudando.

Ele me desanimou completamente:

_Minha filha, esse é um cargo da maior


importância, você não tem a menor competência para
ocupá-lo. Você teria de saber, corretamente, o alemão,
o inglês, o francês, corresponder-se constantemente
com a Bélgica, Alemanha e Suíça, onde existem os
melhores profissionais e escolas do ramo. Você terá
de fazer previsões de quantos operários poderão
morrer numa obra de determinado gabarito, quantos
aviões poderão cair a cada mil aviões que levantam
vôo.
_ Então eu fui nomeada suplente de Deus, disse-
lhe eu. Qual é o elemento humano, por mais culto que
seja, que tem condições de prever uma coisa dessas?
Nem aqui, nem na Alemanha, nem na China, admito
que possa haver. Esse cargo não deveria existir. Seria
o mais lógico.

Fui ao Ministério da Educação para saber onde


havia um curso destes para que eu pudesse fazer,
rápido. Não havia. Nunca existira um só registro de um
curso dessa natureza.

Cada vez eu me complicava mais.

Foi quando o Eduardo, filho da Sarita, que é


extremamente inteligente, raciocinou:

_Se nunca existiu o curso, ninguém é formado. Se


foram nomeados vários, vá lá e veja se alguém tomou
posse. Se tiver tomado, você toma também. Fui.

O prédio era um horror. Subi e procurei saber onde


era que eu deveria me apresentar.

Encontrei um senhor sentado diante de uma mesa


enorme, sem um só papel. Ao seu lado, outro senhor.
O tal, a quem eu tinha que me apresentar, tinha uma
cara muito estranha, de pessoa burra. Fui até ele,
estendendo-lhe o Diário Oficial.

_ Fui nomeada técnica de seguros e vim tomar


posse.

_ Mas... a senhora é técnica?

_Eu, não. O senhor é?

_ Não, mas sou o chefe dos técnicos.

_ Piorou muito, respondi.

O senhor que estava a seu lado soltou uma


gargalhada e o chefe dos técnicos ficou furioso.
Tomei posse e fiquei esperando qual o serviço que
me caberia para eu não fazer, por incompetência. Não
havia serviço nenhum.

Só quem trabalhava lá era uma tal de Teresa, que


não era técnica, nem bonita, mas tinha umas lindas
pernas. O chefe mandava que ela colocasse os
processos sobre um armário, parecendo um guarda-
roupa, só para ficar olhando as suas pernas, quando
ela subia no banco para apanhá-los.

Um dia, a Teresa faltou ao serviço e ele me


chamou e pediu que retirasse um processo sobre o
armário.

_ Não pego não, respondi. Eu sou técnica. Me dê


um serviço técnico e eu faço.

_ A senhora não vai saber fazer.

_E o senhor não vai saber me dar.

Pedi para ser aproveitada nalguma seção onde eu


pudesse encher o tempo, já estava exausta de ficar à
toa.

Mandaram-me para a seção de aposentadoria por


invalidez. O meu chefe era alto, bem moreno, olhos
verdes, camisa colorida, parecia um porta estandarte.
Mas era muito melhor que o anterior.

Comecei a folhear alguns processos e, já no


segundo, fiquei horrorizada: Num processo em que
viúva reclamava que o marido, havia quatro anos,
morrera de acidente numa construção e, até aquela
data, ela não recebido um só tostão de seguro, ele
havia despachado: continue aguardando.

Corri com o processo ao Departamento Jurídico,


para ver o que seria possível fazer pela coitada da
viúva. Encontrei um advogado atencioso que deu a
maior gargalhada quando leu o despacho. Dias, depois,
despachou o processo concedendo a pensão.

Fui fazendo o mesmo com vários processos, com


a ajuda do tal advogado. Um dia, o meu chefe pediu-
me que despachasse por ele.

Eu levava os processos para casa e pedia ao


Eduardo, que estudava Direito, para me ajudar.

Fazia tudo certo, num português correto, e o


bandido do meu chefe modificava algumas palavras,
para pior, e acrescentava, impreterivelmente, a palavra
outrossim.

Eu quase morria de ódio.

Fui à casa de Alice, contei tudo a ela e disse que


iria pedir demissão do emprego, não estava suportando
tanta burrice.

Ela:

_Verinha, você não pode ser louca ao ponto de


perder o emprego por causa de outrossim.

Fui ficando, agüentando a barra e despachando.


Até que certa manhã, ele falou outrossim.

Comecei a gritar:

_ Não, tudo tem um limite na vida: outrossim


falado e, pela manhã, é demais para os meus nervos!
Eu vou pedir demissão.

O meu chefe me olhava, horrorizado. Acho que ele


usava essa palavra até com a sua mulher, na cama,
tamanha a naturalidade e insistência com que a
pronunciava. Não tinha a menor idéia do porquê do
meu ataque de nervos.

Disse-me:

_ Dona Vera, a senhora está se sentindo mal?


_ Eu não me dou bem com as manhãs, acordo
nervosa, respondi.

_Então, de agora em diante, a senhora só venha à


tarde.

Fui direto para casa de Alice para contar-lhe e


ouvir as suas gargalhadas. Ela riu bastante e depois,
séria, me disse:

_ Verinha, você é a mais louca de toda a família.


Controle essa loucura, do contrário a sua vida vai ficar
difícil. Você não pode continuar nesse descontrole.

E contou-me um porção de histórias de pessoas


que engoliram sapos e lagartos para continuar no
emprego.

Meses depois, o cargo foi extinto, graças a Deus!

Na falta do que fazer, decidi entrar na roda de


biriba da Ignez, Yolanda, Sarita e um grupo de
desquitadas.

Um dia, uma delas me disse:

_ Vera, você é jovem, hoje é sábado, deveria estar


com uns amigos da sua idade se divertindo,
namorando, e fica aqui jogando biriba com esse bando
de mulher desquitada?

Eu respondi:

_ Pois é, vocês namoraram, noivaram, casaram,


desquitaram e chegaram à conclusão de que a melhor
coisa do mundo é jogar biriba. Resolvi economizar
meu sofrimento e vir direto para o biriba.

.................
Alice contou-me uma história deliciosa, que demonstra bem a diferença
de temperamento dela e do Augusto Mário:

Ela estava com ele, à noite, vendo televisão, na


biblioteca, e teve vontade de chupar uma manga.
Augusto Mário foi logo desanimando-a:

_ Mas, manga, Alice? A essa hora? Aqui em casa


nunca houve uma faca amolada. Você não vai
conseguir descascar a manga com as facas que
existem aqui. Mas, sendo você muito teimosa, vai
querer ir ao quintal amolar uma faca na pedra. Choveu
muito. Você vai escorregar, vai cair e se machucar e, a
essa hora, médico nenhum vem até a Lagoa Rodrigo
de Freitas para acudir alguém. Desista, Alice.

Ela desistiu.

Uma outra vez foi o caso do mel. Ela detestava


mel. Um dia, Augusto Mário trouxe-lhe uma garrafa de
mel e a colocou sobre o móvel da sala.

Quando ela viu a garrafa, foi tomar satisfação com


ele:

_ Você comprou o mel, mesmo sabendo que eu


detesto?

_Ainda detesta? Pensei que tivesse mudado de


idéia e já gostasse. Então, para que é que você está
criando abelhas?

_ Para jogar o mel fora, foi a resposta rápida de


Alice.

O Flávio, um de seus filhos, era muito inteligente e tinha também


tiradas incríveis. Ele tinha a mania de casar. Separava de uma mulher e
casava com outra. Ao todo, durante a vida, teve sete esposas.
No aniversário de Alice iam quase todas, que se
separavam do Flávio mas continuavam apaixonadas
pela sogra. Cada uma com o marido novo, e o Flávio,
muito irreverente, dizia:

_Puxa vida, só trombo em mulher minha, nesta


noite!

Num dos casamentos do Flávio, fomos todos


comemorar a mulher nova, o apartamento novo e os
móveis, idem. Tudo era lindo e a mulher encantadora.
Duas amigas nossas, muito viciadas no jogo de biriba,
após o jantar resolveram sentar-se numa poltrona e
jogar.

No dia seguinte o Flávio ligou para a Sarita, sua


irmã, e foi dizendo:

_Aconteceu um desastre, o meu sofá novo, onde


Yolanda e Conceição estavam jogando, amanheceu
furado de cigarro. Ou foi a Yolanda, que fuma, ou a
Conceição virou vagalume.

Num daqueles movimentados almoços em casa de


Alice, o assunto era a paixão do Felisberto, seu neto,
filho do Caio e da Elza, a que estivera lá em casa para
conhecer o amor.

Felisberto namorava uma moça bem mais velha do


que ele e, num elegante jantar, já de pileque, viu passar
uma mulata linda, nova, de belíssimo corpo e olhando
para ele. Acompanhou-a com o olhar e a namora, a seu
lado, viu e fez cara de desdém, murmurando:

_Uma mulatinha!

Ao que o Felisberto retrucou:

_É mulatinha mas não é recauchutada!.

Foi a conta. Levou o maior fora da história e caiu


de cama apaixonado e foi para a casa de Alice.

Alice fazia-lhe todas as vontades: dava-lhe


caldinho o dia inteiro, dizia que paixão dá um nó na
garganta e que apaixonado não podia comer coisas
sólidas porque engasgava. Que paixão é a maior
doença do mundo, que ele não podia tomar chuva, nem
vento, nem sol, que iria piorar. Com aquele apoio moral
de Alice, o Felisberto não ia mais ao trabalho, deixou a
barba crescer, o olhar entornado, olhava além das
pessoas, a coisa foi ficando séria e exigindo um basta.
Era a conversa do almoço. O Flávio, que se dizia
entendido em medicina, veio com esta de que, num
estudo profundo, havia chegado à conclusão de que a
vitamina D, misturada com a vitamina B-12 e K, curava
qualquer paixão, por mais forte que fosse.

Fomos à Farmácia, compramos as vitaminas e


demos ao Felisberto. Nada. O máximo que
conseguimos foi tirá-lo da cama e colocá-lo à mesa do
almoço.

A Elza, mãe, estava angustiada com o sofrimento


do filho. E disse que, naquela manhã, havia ido à
Igreja e colocado uma vela no altar para a namorada
voltar.

E o Flávio:

_ De que lado você botou a vela, do esquerdo ou


direito?

_Do esquerdo, disse a Elza.

_ Ah, então foi por isso que o remédio não deu


resultado. Lado esquerdo é para a namorada não voltar
nunca mais.

O olhar do Felisberto despencou, quase caiu ao


chão, de pânico.

Um dia, abateu-se sobre aquela casa feliz uma tristeza enorme. O Carlos
Alberto, filho da Ignez e do Abgar, morrera num acidente de automóvel
nos Estados Unidos. Ele era um rapaz forte, bonito, inteligente,
espirituoso. Onde estivesse, animava o ambiente. Vinte anos de idade.
Que pena!

Aquelas alegrias todas: vozes, risos, brincadeiras,


foram substituídas pelos suspiros. Passamos a escutar
até o badalar triste do carrilhão da sala. Nem tínhamos
reparado o quanto era triste o seu badalar. Ou será
porque, antes, a alegria não nos deixava escutar?

A casa transformou-se num velório. Visitas e mais


visitas, todo mundo suspirando.

A Ignez era a própria dor. Alice e Augusto Mário


ficaram mudos. Todos arrasados. Os outros dois filhos
da Ignez, Caio Márcio e Luiz, tristíssimos.

O Abgar, extraordinário poeta, fez um belo e


sentido poema. Um pequeno trecho:

“O que eu choro na sua ausência

não é a rosa do teu corpo jovem, abatida no


haste,

nem a tua alegria, que não mais verei:

doem-me os teus frutos, que, ao caíres,


esmagaste sobre ti;

amarga-me o quinhão de tempo e flor

arrebatado às tuas mãos de vida”.

.........................................

Aquela família passou a ser a minha âncora. Todos eram carinhosos


comigo: Alice, Augusto Mário, Paulo e Judith, Caio, Flávio, Sarita,
Ignez e Abgar. A Sarita, principalmente. Eu morava perto dela, só tinha
empregada duas vezes por semana e ela, preocupada com a minha
saúde, chamava-me para jantar quase todas as noites, durante a semana.
Aos sábados e domingos, normalmente, íamos para a casa de Alice.

Sarita era uma mulher linda, inteligente,


engraçada, bem humorada, um papo excelente. Onde
ela chegava, o ambiente virava festa. Extremamente
solidária, generosa, bondosa.

Eu sempre tive esperanças de que ela, com o seu talento, escrevesse


sobre a sua mãe. Sempre achei que as pessoas que haviam lido “Minha
Vida de Menina” teriam curiosidade de saber o que aconteceu, durante a
vida, com a menina Helena. E não havia ninguém mais competente para
contar esta história do que a Sarita. Escreve muitíssimo bem, é autora
do livro “ Contando Histórias”, que foi muito elogiado pela crítica e é,
realmente, muito bom.

Esperei que, depois desse livro, viesse aquele que


eu aguardava. Ainda espero.

Sarita achava todas as pessoas boas, tinha a


maior paciência com o ser humano.

Uma vez eu impliquei com uma amiga sua que era


burra, antipática, feia, orgulhosa e boba. Sarita deu-lhe
uma carona no carro e, pelo caminho, a mulher vinha
dizendo bobagens em série:

_ O meu maridinho, todas as manhãs, acorda me


fazendo carinho e perguntando de quem é essa
boquinha, esse narizinho.

Uma mulher de mais de quarenta anos, sem o


menor censo de ridículo, dizendo essas bobagens e a
Sarita ouvindo, sem se revoltar.

Na segunda idiotice eu pedi à Sarita que parasse o


carro, eu iria a pé mesmo, não me sentia obrigada a
ouvir aquela procissão de asneiras.

A Sarita ficou desorientada com o meu falatório e


quase atropelou um homem e, quando chegou à casa
de Alice, após ter despejado aquela idiota no final de
Copacabana, ainda levei a maior descompostura.

Sarita dizia à Alice:

_Mamãe, a Verinha está seriamente doente.


Precisamos conseguir para ela um psicanalista, com
urgência. A felicidade dos outros faz um mal tão grande
a ela que, só porque a minha amiga está feliz, casada
com um homem carinhoso, ela queria descer no meio
do caminho e quase me fez atropelar um homem.

Quando contei a Alice a quantidade de asneira que


a mulher havia dito, ela deu gostosas gargalhadas e me
deu total razão.

Sarita tinha dois filhos, um casal. A mais nova ,


Maria Alice, morreu aos oito anos, atropelada em frente
à casa de Alice, na Lagoa.

O outro é o Eduardo. Escritor, advogado, jornalista,


uma das pessoas mais inteligentes que eu conheço, pai
de três filhas lindas: Ana Cristina, Ana Maria e Ana
Luiza.

Sabia o quanto me sentiria sozinha sem essa


família, quando me mudei para Brasília. Quando,
durante um almoço, informei que estava disposta a vir
para cá, ninguém acreditou. Consideravam Brasília
uma loucura, um desterro, nunca podiam acreditar que
eu tivesse coragem mesmo de vir para cá. Houve todo
tipo de palpite. O Flávio achava que eu devia estar
apaixonada por algum engenheiro, ou deputado. Todos
concordaram que somente uma paixão me daria forças
para largar tudo e começar de novo, num lugar deserto,
sem amigos, sem programas, sem o calor humano que
sempre me fez falta.

Mas, infelizmente, não havia paixão nenhuma. O


que existia era a determinação de dar uma virada na
vida, de tentar outros caminhos num lugar novo, de
acompanhar o nascimento e o crescimento de uma
cidade, de ajudar, se me fosse possível, na
concretização do sonho do Juscelino.

O meu irmão, Celso, era deputado federal e eu vim


morar com ele.

Quando falei com Alice, em 1960, que havia


decidido morar em Brasília, ela tentou me desanimar.
Quando não teve mais nenhum argumento, saiu com
esta:

_Verinha, o que você irá fazer numa terra onde


não tem lagartixa?

_E o que eu iria fazer com lagartixa?

Aos domingos, na solidão do Planalto, ficava


imaginando o movimento e a alegria daquela casa e me
dava uma vontade enorme de voltar para o Rio.

À noite, ligava para Alice e ela me contava,


detalhadamente, o que eu havia perdido.

Até que, um dia, o Augusto Mário sofreu um


derrame e ficou com uma grande parte do corpo
paralisado.

Alice ficou arrasada. Aquele homem ágil,


inteligente, lúcido, culto, estudioso, ali parado, deitado
numa cama, sem ao menos ler um jornal. Ela sentou-se
numa poltrona num canto daquele quarto enorme e
lendo, tecendo tricô, crochê, fazia companhia ao seu
companheiro de toda a vida.

Escreveu-me esta carta:

Verinha querida,
Recebi sua carta e achei engraçado você, uma
moça solteira, estar lutando com a falta de
empregados.

É cedo, ainda, para isso. Largue o trabalho de casa e vá para qualquer


lugar procurar a sua metade.

Lembrei-me, agora, de uma conversa engraçada


da Esther. Ela diz que Deus, quando fez o mundo,
deixou laranjas partidas ao meio. Quando as duas
metades se encontram, o casamento é feliz. Mas como
ela não encontrou a sua metade, que já tinha
apodrecido, ela agarrou mesmo uma jaca e está
vivendo até hoje. Faça como ela, se não encontrar a
sua metade pegue mesmo uma jaca.

Eu acabando de ler sua carta lutando para criar os


filhos de seu irmão, tomei do jornal e, por acaso,
deparei com uma notícia interessante: Um casal de
americanos que se hospedou na casa de Maria do
Carmo Nabuco, veio aqui para se casar. O homem tem
76 anos e a mulher 79, mais velha de que ele 3 anos.
Ambos apaixonados, um pelo outro.

Ele contou que, ficando viuvo, saiu um dia para o


trabalho. Voltando à tarde ao apartamento, encontrou-o
todo florido. Sabendo depois que foi a noiva que tinha
arranjado as flores, resolveu pedi-la em casamento.

É assim que se conquista os homens, procurando


saber o que lhes agrada. Homem hoje está uma
mercadoria muito valorizada. De cem homens, se a
gente encontrar cinqüenta que queiram ou possam se
casar, é o mais. A maioria deles só procura moça rica.

Estou escrevendo assentada na cadeira que você


conhece e apreciando as artes de um pequeno que o
Amaro chamou na rua e mandou apanhar os cocos
maduros. O menino subiu até o último galho e, lá de
cima, vai atirando os cocos. Já pegou uns quinze.

Quando eu comprei este terreno não havia aqui


nem bananeiras. Eu plantei os coqueiros, manga,
abacate, fruta do conde, fruta pão, mamão, goiabeira,
laranja, grumichama e muita bananeira.

Este prazer de plantar e colher frutos se acabou,


com a mudança de casas para apartamentos, o que é
bem triste.

Sarita está nos convidando para morar com ela,


mas ainda não me decidi. Acho triste trocar casa por
apartamento.

Ando muito aborrecida com a idéia da mudança


de Ignez para Brasília. Não acredito que de lá ela
possa vir sempre, como vem agora de Belo Horizonte.
As passagens são muito mais caras.

Será que a vida, aí, anda enjoada como aqui?

A filha de Stalin deu uma entrevista no jornal que


saiu da Rússia porque não pode viver sem Deus. Será
que ela irá encontrá-Lo nos Estados Unidos?

Aqui, onde o povo só vive rezando, eu acho que


quem nos governa é Satanás. Deus anda aborrecido
com o Brasil, com tanta moça nua se exibindo na rua e
tanto homem furtando.

Eu nunca esperei ficar velha. Mas agora estou


convencida que vou até os cem anos.

Yolanda voltou para a vida enjoada com o


Guilherme. Ela não se queixa, mas a gente percebe
que ela não está feliz.

Os homens estão, como sempre, bem ruins. Mas,


felizmente, as mulheres estão lhe tomando a dianteira,
cada uma pior que a outra.

Se encontrar mil erros e tudo fora do lugar é


porque estou escrevendo sentada e já caducando
muito.

Sem mais, um saudoso abraço e um grande beijo


de

Alice

24-4-67

Respondi:

Alice, minha querida:

Coisa boa é receber uma carta sua. Tenho


vontade de conversar com muito pouca gente,
ultimamente. Só ouço bobagem misturada com idiotice
e chego a preferir voltar ao meu monólogo com as
crianças: Desça daí, não quebre a cabeça, cuidado
com isto, com aquilo, e vou emburrecendo também e
ficando igual aos outros.

Você diz, com simplicidade, as coisas mais


deliciosas. Esta da filha de Stalin sair procurando Deus
nos Estados Unidos foi genial! Só mesmo de você!

Deus deixou de ser um elemento espiritual para se


transformar num elemento geográfico. Em lugar das
criaturas se mergulharem em si mesmas, para
encontrar Deus, saem viajando pelo mundo, à sua
procura. E, logo nos Estados Unidos?
Por quê não na Índia, lugar de meditação?

Aqui está tão ruim quanto aí, sim. Recordo-me,


sempre, daquele amigo do Abgar que todas as noites
sentava-se na cama antes de adormecer, e se
queixava: tantos anos, tantos dias, tantos meses,
tantas horas e esta mesma porcaria!

E você ainda vem com essa bobagem de querer


que eu me case. Eu estou a fim é de simplificar a vida,
não complicá-la. Nasci sozinha e quero morrer só.
Quanto menos chateação, melhor. Imagina se ainda
vou me casar com um chato para aborrecer, mais
ainda, a minha vida e ainda ter filhos, como se a vida
fosse presente que se desse a alguém. Presente de
grego, eu acho. Nenhum horizonte, ameaças de todos
os lados, guerras atômicas pela frente e uma série de
chateações nos intervalos, é a isto que chamam vida?
E ainda estão nascendo crianças, isto é que me
espanta.

Eu também tenho plantado muitas árvores na


minha chácara. Cheguei à conclusão de que a única
coisa realmente importante e futurosa no nosso País é
plantar árvores. Pelo menos elas crescem, dão flores e
frutos e ninguém atrapalha.

Depois de uma série de empregadas loucas


consegui uma cuja única estranheza é gostar de vestir
bonecas. Faz vestidinhos o dia inteiro. Eu nunca achei
muito normais as pessoas que aceitam viver numa
cozinha de manhã à noite, fazendo comida para os
outros e lavando panelas. Acho um ideal tão raso que
só combina, mesmo, com loucos. A Consuelita é,
apenas, infantil. Além de vestir as bonecas ela gosta de
fazer biscoitos. É biscoito de toda a qualidade e gosto,
alguns uma delícia. E a criançada adora.

Acho que a Ignez gostaria de viver aqui, sim. Ela


gosta mais ou menos das mesmas coisas que eu
gosto: ler, conversar com pessoas inteligentes, ouvir
música, jogar um biriba e receber amigos. Tudo isso
existe aqui.

E você podia parar com essa mania de detestar


Brasília e vir para cá com ela. Você e Augusto Mário.

Vocês ficariam aqui em casa, comigo. Da janela,


você avistaria paisagens às pampas, árvores e
gramados a perder de vista. Seus coqueirinhos são
pinto perto do que existe aqui.

Plantaram árvores e mais árvores, de todas as


qualidades, para fazer companhia àquelas que já
existiam, secas, retorcidas, sofridas, e compensá-las
dos anos e anos de solidão.

E, da janela, só da janela, você terá a impressão


de viver num mundo florido, bom e justo. Os carros
correndo nas avenidas largas e lindas, as criaturas
atravessando parques, as crianças espalhadas,
brincando nos “play-ground”, onde existem brinquedos
de todas as espécies. Os prédios lindos, as tardes
maravilhosas, céu vermelho, vidraças vermelhas, lua
nascendo com força e clareando tudo, enfeitando o
lago, as árvores, as areias e os brinquedos das
crianças.

Fico, durante horas e horas na janela olhando,


ameaçada de virar estátua. E pensando o quanto o
nosso Juscelino foi capaz ao concretizar o seu sonho
de criar um cidade. E o quanto o nosso povo foi
competente, construindo Brasília em tão pouco tempo.

Você não me falou do Augusto Mário. Tenho uma


ternura enorme por ele. É exatamente a metade da
sua laranja. Pouquíssimas laranjas foram recuperadas
na Terra, inteiras. Vocês dois conseguiram esse
milagre.

Neste exato momento chegaram as crianças no meu quarto e estão


fazendo a maior algazarra. Uma delas está chorando. Já brigaram, com
certeza.

Voltarei a escrever e contarei umas novidades


daqui para provar a você que a loucura não é privilégio
daí.

Um beijo grande e carinhoso para você e Augusto


Mário. Abraços para a família e agregados.

Vera

12-5-67

Num dos meus telefonemas para saber notícias do


Augusto Mário, fiquei sabendo que o Nhonhô, irmão da
Alice, havia morrido e que Alice estava muito triste.

Mandei-lhe uma carta:

Alice, minha querida:

Sei o quanto você deve estar sofrendo com a


morte do seu irmão. Sei com que intensidade você ama
as pessoas do seu carinho e o vácuo que deve existir
na sua emoção, quando você perde uma delas.

Gostaria que o carinho da gente que a ama tanto


pudesse equilibrar, um pouco, este seu sofrimento.

Porque você, Alice, é uma das pessoas mais


bonitas que conheço. Foi o que encontrei na vida de
mais sensível, humano e generoso.

A humanidade está cada vez pior, concordo.

A salvação é que a gente consegue encontrar


criaturas como você, que justificam esta humanidade
tão cheia de ambição e tão sem grandeza.

Veja a atual situação do nosso Brasil.

Lembra-se do quanto você e Augusto Mário


sofreram, na ditadura do Getúlio, perseguições, exílios,
além do sofrimento de ver os amigos sendo presos,
torturados, separados de seus filhos?

Pois é. Está tudo igualzinho.

No Brasil, este problema de quartelada é cíclico.

A gente cria os filhos com o maior cuidado, como


você criou os seus e eu estou tentando criar os meus.
Quando eles ficam rapazes, lá vem quartelada de novo.
E todos os sentimentos de amor à pátria, dignidade,
bom caráter, lealdade, liberdade de pensamento, que
lhes ensinamos, fazem deles pessoas perigosas e ...
desce pancadaria sobre as suas cabeças.

Mas, se lhe déssemos orientação contrária, eles


não seriam visados, mas nós não iríamos suportá-los.

Fica difícil sonhar um futuro brilhante para eles,


num País tão pouco amadurecido como é o nosso.

Tenho pensado muito no Nhonhô. Ele me falava


de minha mãe com muito carinho e bondade.

Perdi a mamãe muito pequena, mas consegui


reencontrá-la, algumas vezes, em alguns olhares, em
alguns gestos. Em você, principalmente.

Morrer, para mim, não tem o sentido de acabar.


Quantas pessoas vivas morrem dentro de nós! E
quantas morreram e deixaram sementes tão bem
plantadas no nosso íntimo que, às vezes, não somos
senão reflexo do que elas foram, do que nos fizeram
ser.

Dê um beijo na Corina, outro na Maria Alice. Breve


lhes escreverei.
Espalhe beijos pela família: Sarita, Ignez, Abgar,
Iolanda, Augusto Mário.

Escreva-me. E não se esqueça de colocar o


endereço.

Afinal, nem eu sou tão grande, nem Brasília é tão


pequena.

Num beijo, toda a ternura de

Vera.

Verinha querida:

Recebi a sua boa e bonita carta.

Gostei de você ter se lembrado de meu querido


irmão.

Lembrei-me dele se referindo a você com simpatia.

Senti ele ter morrido antes de mim, eu o criei


desde pequeno e o queria como a um filho.

Graças a Deus, ele teve a morte que merecia,


morreu sem sofrer, sem sentir.

Eu não estou podendo, como você, me preocupar


com a situação do país. Vivo tão triste, preocupada,
vendo Augusto Mário há ano e meio, doente, sem
andar.

O que eu mais gostei de sua carta foi saber que


você vai recebendo bem a nova vida de mãe de três
filhos! Quando, meses atrás, nós conversávamos ao
telefone e você me disse que estava com três
sobrinhos, eu fiquei triste e com pena de você.

Mas, agora, vi pela sua carta que você está


levando bem a nova vida, apesar de trabalhosa. Antes
assim.

Só fiquei triste ao pensar que, agora, será mais


difícil a sua vinda aqui.

Não me conformo com esta Brasília, tão distante


que mais parece um deserto. Quando leio o jornal e
vejo o que escrevem contra o Juscelino, eu fico com
tanta pena dele que preciso me lembrar que ele fez
Brasília, para acabar a pena e me consolar.

Basta de tanta coisa triste.

Com um saudoso abraço de

Alice

Só agora entendo o que Alice quis dizer quando


me chamou a atenção para o fato de Brasília não ter
lagartixas. Brasília, no início, era uma cidade lisa, fria,
sem plantas, sem vegetação.

Agora, deitada na rede de minha varanda, rodeada


de plantas, samambaias e trepadeiras, vendo as telhas
envelhecidas cheias de lagartixas, entendo que tudo
isto significa lar, aconchego, amor, que ela sabia o
quanto me fariam falta.
Várias vezes fui ao Rio visitar Alice e Augusto
Mário.

Aquele homem culto, inteligente, afetuoso, que


vivia lendo no seu escritório, agora deitado naquela
cama, triste, quase sem se movimentar, dava uma
tristeza enorme na gente.

Alice não se afastava do quarto. Sentada no sofá,


lendo ou tecendo, não se separava do homem que
escolheu como companheiro e amou a vida inteira.

Quando Augusto Mário morreu, Alice foi para o


apartamento da Sarita.

Voltei ao Rio para vê-la.

Ela já não tinha mais entusiasmo para conversar.


Quando dizia alguma coisa, era sobre o Augusto Mário.
Não conheci, até hoje, alguém tão apaixonado.

Enquanto ela dormia, eu pensava:

Que mulher extraordinária! Que sorte eu tive de,


ainda jovem, quando vim para o Rio, encontrá-la. Eu
sozinha, solta na vida, sem rumo e sem prumo, com o
caráter ainda em formação, a personalidade, idem, sem
ter que prestar contas a ninguém dos meus atos, com
aquele sentimento de revolta por ter perdido a mãe
muito cedo, ter tido um pai pouco carinhoso e uma
madrasta doida, uma bagagem mais para uma descida,
um despencar na vida, do que para um equilíbrio, uma
subida, encontro esta fortaleza, esta admirável criatura
que me recebeu com um carinho que me era
totalmente desconhecido, estranho.

Acho que Alice transferiu para mim o amor que


sentia pela minha mãe. No primeiro abraço, percebi
isso. Ela me olhava, às vezes, buscando em mim a
amiga querida.
Eu nunca havia sentido uma admiração tão grande
por alguém. À medida que nos conhecíamos melhor, eu
a amava mais ainda. Nunca ouvi Alice falar mal de
qualquer pessoa.

Era profundamente amorosa, sem perder a


energia. A sua generosidade era discreta. Nada nela
era falso. Coerente, sensata, sóbria, solidária, franca.
Não dava muita importância ao fato de seu livro estar
sendo considerado best-seller em vários países do
mundo. O Abgar chegava com um artigo de um jornal
dos Estados Unidos, ou da França, ou da Itália, lia
para ouvirmos e ela não demonstrava o menor espanto,
nem grande alegria. Dava um sorriso e, pronto, já nos
chamava para almoçar.

Passei a creditar no ser humano e a ter


esperanças, quando conheci Alice. Pensei: Se existe,
realmente, uma criatura assim, o mundo não é tão ruim
quanto eu achava.

As palavras, os conselhos, a orientação, o carinho


com que transmitia os seus ensinamentos sem a
pretensão de estar impondo caminhos ou indicando
estradas. Dificuldade, sofrimento, tristeza ela conhecia
bastante. Ao contar, às vezes, estava pretendendo nos
ensinar como superá-los ou, no mínimo, sofrer com
menor intensidade. Não dizia: Você deve agir assim.
Apenas contava. Não desperdiçava palavras. Cada
frase que ela pronunciava, tinha um sentido. Cada
atitude, idem.

Uma amiga da Ignez, chamada Lurdes, ia muito à


sua casa e contava-lhe horrores do marido, que era
uma criatura péssima que a fazia sofrer muito. Quando
ele morreu de enfarte, por insistência da Ignez, Alice foi
visitá-la.

Quando abriu a porta do apartamento onde


estavam várias pessoas e a Lurdes veio ao seu
encontro, aos prantos, Alice foi dizendo:

_ Por quê este choro? Você devia estar feliz, ficou


livre daquele bandido que só a fazia sofrer. Eu não vim
para visita de pêsames, não. Vim comemorar.

Era assim, foi assim a vida inteira, desde menina.


Não fazia a menor concessão. Não abria uma brecha
para os sentimentos menores. Acho que ela
demonstrou isso desde menina, no seu diário. Só que
as criaturas que se dizem humanas vão se
deteriorando, durante a vida.

Alice, não.

..........................

Minha Vida de Menina

Em 1941 a família Brant morava num apartamento,


enquanto a sua casa estava sendo construída na
Lagoa Rodrigo de Freitas, perto do Corte Cantagalo
onde existe, hoje, o Edifício Helena Morley.

Alice detestava morar em apartamento.

Certa tarde de sábado, para distrair os filhos,


pegou dentre os seus guardados o diário que havia
escrito quando menina e resolveu ler para eles e para o
marido.

Todos escutavam encantados.

Ao final da leitura o marido Augusto Mário, sugeriu:

_ Por quê não publicamos esse diário? Muita gente


iria ter a oportunidade que estamos tendo de ouvir
histórias tão interessantes de uma menina inteligente
numa cidadezinha mineira, no final do século passado.

Alice não achou muita graça na idéia. Ignez, sua


filha, adorou.

Depois de muita discussão, Alice concordou em


transformar tudo aquilo num livro, desde que fosse com
pseudônimo, do contrário Diamantina inteira iria brigar
com ela.

Pensaram vários nomes. Alice preferiu Helena


porque achava um nome muito bonito. E o sobrenome
Morley, de sua avó materna.

Assim nasceu Helena Morley.

O livro foi lançado pela Livraria José Olympio em


1942.

Foi o maior sucesso. O Brasil inteiro comentava e


as edições se esgotavam, uma após outra.
No Jornal “A Manhã”, dia 19 de junho de 1943,
Gilberto Freyre escreveu um longo artigo sobre o livro e
dele retiramos o seguinte trecho:

“A narrativa é quase história natural; mas uma


história natural de que acabamos não sabendo separar
a história pessoal na menina chamada “Helena Morley”,
de tal modo nos habituarmos a vê-la, não só como uma
menina qualquer – um caso sociológico – mas com
seus característicos, seus cacoetes, suas sardas, na
variedade de situações sociais e psíquicas em que se
delicia em retratar-se no diário. Retratos sempre de
grupos; grupos de família, grupos de colegiais,
procissões até, das quais a autora do diário se destaca
sem que deixemos de ver sua mãe, sua avó, seu pai,
suas irmãs, suas tias, seus professores, as negras da
casa, as visitas.

Daí o interesse sociológico e histórico do diário de


menina brasileira agora publicado – mesmo que não
seja literalmente diário nem literalmente história. Como
a biografia do Barão Geraldo de Rezende por sua filha,
Dona Amelia de Rezende, esta quase auto-biografia de
menina mineira nascida ainda sob a influência social:
São Paulo, Minas, o Norte monocultor”.

No Jornal “Folha Carioca” de 29 de Abril de 1944,


Raquel de Queiroz escreveu uma bonita crônica e dela
retiramos o seguinte trecho:

“Se dona Helena Morley fosse mais pretensiosa


poderia dar ao seu livro um título mais ou menos assim:
“Retrato de uma cidade brasileira nos fins do século
XIX” – ou “Memórias do último período do
patriarcalismo escravocrata” (esse eu calquei numa
frase de Gilberto Freyre) ou qualquer coisa idêntica de
sabor sociológico e erudito. Porque esse diário de uma
menina representa na verdade um apanhado
maravilhoso dos costumes, das tradições, é um retrato
a bico de pena da cidade de Diamantina nos fins do
século passado, com seus tipos populares, suas festas,
seu pitoresco, seu primitivismo de localidade onde não
chegou ainda uma ponta de trilho, e está a meio século
de distância da primeira asa de avião”.

E Gustavo Capanema, numa carta à sua filha


Ignez, em 22 de maio de 1945:

Rio de Janeiro, 22 de maio de 1945

Minha cara Ignez,

Peço que dê a sua mãe uma informação.

Ontem aqui esteve para se despedir Georges


Bernanos, que, varrido pelo nazismo, morou quase sete
anos no Brasil e agora volta para a França.

Conversamos muita coisa: o após-guerra, o nosso


povo, De Gaulle, Euclides da Cunha, pintura, André
Gide ... Tendo eu dito que Gide é muito lido entre nós,
principalmente o jornal, Bernanos, numa súbita
associação de idéias, disse que um dos livros que já o
feriram é o de Helena Morley. Falou com veemência.
Guardo algumas: c’est une oeuvre géniale ... um livre
unique, impossible à traduire ... c’est um miracle,
comme lê miracle de Rimbaud ...

Falei essas coisas ao Abgar. Mas talvez não tenha


dito tudo. Depois, você é que é filha.

Tenho ouvido muito elogio ao livro de sua mãe.


Nada me parece tão forte como as palavras de
Bernanos.

Certamente elas hão de agradar ao seu coração.


Receba as cordiais expressões de amizade do seu
velho

Capanema

Em seguida, no dia 30 de maio de 1945, Alice


recebeu esta carta de Georges Bernanos:

Prezada Senhora:

Muito me emocionou a gentileza de enviardes a


mim o vosso livro, pois na verdade acredito que já
sabeis quanto o admiro e amo.

Escrevestes um desses livros raros em todas as


literaturas, livros que nada devem à experiência, ao
talento, mas tudo devem ao ingenium, ao gênio, pois
não se deve ter medo dessa palavra tantas vezes
desviada do seu significado, ao gênio considerado em
sua própria fonte, ao gênio da adolescência. É que aí
as recordações de uma simples menina de Minas
apresentam o mesmo problema que os fulgurantes
poemas de Rimbaud. Por mais prodigiosamente
diferentes que pareçam aos imbecis, sabemos que
essas recordações pertencem à mesma parte
misteriosa – mágica – da vida e da arte.

É provável que ignoreis o valor do que nos destes.


Eu, que o sinto tão profundamente, não saberia defini-
lo. Conseguis que nós vejamos e amemos tudo o que
vistes e amastes naqueles dias distantes, e cada vez
que fecho o vosso livro convenço-me de que o espírito
dessa narrativa me escapa. Mas que importa?

É bem emocionante que se diga que a menina que


fostes, bem como o pequeno universo em que ela
viveu, não morrerão nunca.

Peço-vos que aceiteis as minhas homenagens.

G. Bernanos

Paulo Mendes Campos escreveu num artigo em


que conta o seu pressentimento:

“Não sou profeta, mas “Minha Vida de Menina” há


de ficar na literatura como um desses clássicos
peculiares como os diários de Pepys, de Maria
Baskirtseff, de Anne Frank. Ao contrário da obra de
Lewis Carroll, aí se conta a história de uma menina em
um país de verdade. A composição do mural é tão
intuitivamente certa que espanta: as experiências se
desdobram e completam a pintura com uma
naturalidade admirável.

Tenho a pretensão de conhecer melhor Minas


Gerais e seu povo depois dessa leitura. Por outro lado,
li algumas passagens a uma garota de sete anos, e a
sua reação foi exigir um exemplar somente para ela. É
a grande doçura do livro: não tem idade. Por isso
mesmo, acho que o editor da obra andaria avisado se
fizesse publicar um volume ilustrado por um desenhista
capaz de traduzir o enternecimento (sem qualquer
pieguice) de “Minha Vida de Menina”. Já é tempo de
dar essa obra como um esplêndido presente, à infância
e à juventude.”

Guimarães Rosa escreveu-lhe esta cartinha:

Rio, 15 de julho de 1958.

À ilustre conterrânea e admirável escritora D. Alice


Brant, muito e vivamente agradeço o gentil,
oferecimento do “Minha Vida de Menina” – que já lera e
relera, em outra ocasião, com encantamento e amor,
considerando-o como um dos maiores livros brasileiros,
dos mais importantes.

E em grata e cordial homenagem beija-lhe as


mãos o

Guimarães
Rosa.

“... E, vinda de Minas Gerais, também surgiu a


extraordinária Helena Morley, com o seu “Minha Vida
de Menina”. Esse é um caso único na literatura
brasileira, e o seu comentário exige artigo à parte”.

“ Senhores do artifício e da invenção, romancistas


do retorcido e do complicado...vinde aprender uma
lição de clareza e de simplicidade. Porque este diário
de uma menina representa, na verdade, um apanhado
maravilhoso dos costumes, das tradições, é um retrato
a bico de pena da cidade de Diamantina nos fins do
século passado...Poucas vezes, em minha vida, tenho
percorrido uma obra impressa com tão integral
emoção”.

Rachel de Queiroz

“É uma biografia disfarçada, esta, de Helena


Morley, mas ao mesmo tempo é uma espécie de
história natural da vida da família brasileira no último
período do patriarcalismo escravocrata e numa região
menos conhecida que o nordeste da cana de açúcar.
Sob esse aspecto é que o diário de Helena Morley me
interessa mais vivamente”.

“Uma série de fatos, aparentemente sem


importância, são recordados num português tão
simples...que lembra o inglês dos bons e autênticos
diários britânicos e norte americanos de moças e
mulheres. E através dessa série de fatos miúdos e
quotidianos, mas significativos, o leitor se familiariza
com a menina-moça... e com o mundo quase completo
de sua experiência, de sua vida de família, de seu
desenvolvimento de colegial em normalista. Um
desenvolvimento a que não faltam situações
moderadamente dramáticas: a morte da avó querida,
por exemplo”

Gilberto Freyre

“ A leitura do livro confirmou minha expectativa,


fundada nos elogios que à obra tinham feito homens
como Bernanos. Como ele, sinto também que aquele
mundo de Diamantina não morrerá jamais. Sinto
igualmente que o centro daquele seu mundo é a figura
da avó; eis um dos mais fortes e impressionantes
retratos da nossa literatura”.
Manuel Bandeira

Uma poetisa norte-americana, distinguida com o


Prêmio Pulitzer (a maior laurea literária dos Estados
Unidos concedida a Hemingway, Thornton, Wilder e
outros de igual categoria), veio morar no Brasil.

Chamava-se Elizabeth Bishop.

Fixou sua residência em Petrópolis.

Amiga de Manuel Bandeira, pediu-lhe que lhe


indicasse alguns livros capazes de contribuir,
eficazmente, para a sua descoberta do Brasil

Um dos livros indicados pelo poeta foi “Minha Vida


de Menina” e Elizabeth Bishop ficou de tal maneira
encantada que resolveu traduzí-lo;

Foi a Diamantina e conheceu todos os lugares que


Alice percorreu na sua infância.

Traduziu o livro com enorme competência e


sensibilidade e o sucesso foi enorme.

Eis como o “Time” saudou “The Diary of Helena


Morley”.

“O Diário é cheio de graça, da beleza e de alguns


dos dissabores da vida de uma cidade provinciana”.

Em 1958, no “Diário de Notícias” Rubem Braga


escreveu esta crônica:

“Não me espanto desse livro estar em quarta


edição; se o brasileiro tivesse algum hábito de ler ele
devia estar na décima. É difícil imaginar um livro mais
macio, mais simples, mais engraçado e comovente, um
livro que seja assim capaz de agradar a qualquer
pessoa, seja qual for seu gosto em leituras. Se você
quiser dar um livro de presente, dê esse, porque dá
sempre certo: estou falando de “Minha Vida de Menina”
de Helena Morley. É o diário verdadeiro de uma menina
de Diamantina, no fim do século passado. A autora,
que na verdade é a senhora Alice Brant, ordenou os
cadernos em que fazia suas composições, na infância,
para mostrá-los às suas netas, e daí veio a idéia do
livro.

Já está ele traduzido para o inglês pela excelente


poetisa norte-americana Elizabeth Bishop, que vive no
Brasil; acho que a Divisão Cultural do Itamaraty devia
se interessar pela sua tradução em outras línguas, pois
é um comovente retrato da vida brasileira em certa
época e em certa região.

É um livro, como se costuma dizer, sem literatura;


chegará a ser arte o que não é elaborado, o que não
sofre nenhuma transposição? Mas aí é que está o
milagre da coisa. Muitas outras meninas viviam em
Diamantina no fim do século, e o professor de
português da Escola Normal obrigava as alunas a
fazerem uma composição quase todo dia. A realidade
era mais ou menos a mesma para todas. A
sensibilidade especial dessa menina, aliada a um jeito
natural para escrever, é que permitiu esse milagre de
nos trazer até hoje, e para sempre, viva, essa
Diamantina de mais de 60 anos atrás. E isso não é
arte? E qualquer escritor pode aprender muito aqui e
muito tem a invejar, principalmente esse casamento
perfeito da linguagem com o assunto. O português não
é sempre correto, do ponto de vista gramatical; é
corretíssimo, é magistral como expressão do tempo e
do meio, e merece todo um estudo de filosofia.

Como eu gostaria de ver esse livro ilustrado! Teria


de ser um desenho bem simples, sem nenhuma
pretensão, talvez Percy Lau ou Noêmia, em todo caso
o desenhista teria de ser documentado sobre
Diamantina e assessorado pela autora sobre as modas
do tempo e o jeito das pessoas. Faça isso para a quinta
edição, José Olímpio, e mesmo que encareça o livro
não tem importância, ele merece e vale.”

Rubem Braga

Tribuna da Imprensa, 8 de janeiro de 1958:

As evocações de uma menina


brasileira, no fim do século passado, no
município mineiro de Diamantina, estão
apaixonando, cada vez mais, o público norte-
americano, advertido por vários críticos
categorizados da existência, numa admirável
tradução inglesa, de uma obra realmente
encantadora, que guarda em suas páginas o
encanto mágico da infância.

A Sra. Alice Caldeira Brant, já cientificada


deste e de outros honrosos julgamentos, disse
à Tribuna da Imprensa:
- “Talvez os americanos tenham
gostado da simplicidade com que escrevi. É a
única explicação que encontro para tudo o que
está acontecendo.

- Trata-se de registros sentimentais


feitos por uma criança e sujeitos, por isso
mesmo, à volubilidade própria da infância.
Sempre que eu desejava criticar alguém, meu
pai me pedia para não fazer diante dele ou de
mamãe, ou mesmo diante de minhas amigas.
Mandava que eu escrevesse tudo,
desabafasse diante de uma folha de papel.
Anotando os dias, comecei o meu livro aos
treze anos de idade. Até a idade adulta,
continuei com o hábito. Devo dizer que jamais
tive a intenção de publicar coisa alguma. Mas
minha família insistiu, convenceu-me de que
eu era realmente uma escritora. O livro saiu
no Brasil e eu pensei que tudo tivesse
acabado aí. Mas sua história continua...”.

Julgamentos:

Uma nova edição de “The Diary of Helena Morley”,


pois as três anteriores se esgotaram, está sendo
providenciada pela editora norte-americana que lançou
a autora brasileira. Segundo o “Chicago Sunday
Tribune” “tem as raras qualidades da observação,
compreensão humana e o inato espírito de descrever
com simplicidade tudo o que viu e sentiu”.

E o “Globe Democrat” acentuou que ela “deu ao


seu Diário uma duradoura universalidade, um
sentimentalismo que rompe as fronteiras de sua
pequena cidade e elcança o mundo”.

O “Harper’s Bazaar” proclamou que, graças à


tradução de Elizabeth Bishop, Helena Morley “ mantém
as mesmas qualidades humanas que emergem das
páginas de seu Diário”.

No Jornal do Brasil, em 8 de julho de 1958,


Fernando Sabino escreveu:

“Não fosse o entusiasmo com que o receberam


uns poucos escritores de sensibilidade mais apurada,
por ocasião de seu lançamento, e o grito transbordante
de entusiasmo com que o saudaram Bernanos, então
vivendo entre nós, a considerá-lo obra de gênio, e
talvez não tivesse sobrevivido à onda de sucessos
transitórios que de vez em quando afoga nosso
mercado editorial. E ressurge agora, em mais uma
edição, depois de inesperado sucesso que foi seu
lançamento em inglês, constituído em best-seller e
saudado pelos melhores críticos americanos”.

Ainda em 1958, 2 de fevereiro, o Jornal do Brasil


publicou, na coluna do Nelson Coelho:

Caminha para o “Best Seller” o Diário da brasileira


Helena Morley.

Um fator da impressionante aceitação que o livro


vem tendo aqui, é por tratar-se de um diário de menina.
O tema está na moda. Vejam este trecho de Mildrea
Adams, no “New York Times”: “As anotações alegres
da jovem anglo-brasileira estão em tempo,
circunstâncias e geografia, alguns mundos distanciados
das revelações sombrias da alemã Anne Frank.
Embora ambas sejam, ostensivamente, produto de
adolescentes sensíveis. Tendo aceitado a tragédia da
realidade de Anne Frank, o leitor precisa agora
contrabalançá-la com essa nova afirmação de que a
juventude não é sempre torturada”.

Outro fator prende-se ao “exotismo” brasileiro.


Observem este trecho de uma crítica que saiu na capa
do “Book Review”, do “New York Herald Tribune” entre
duas grandes e boas fotos de Diamantina, sob o título
de “Menina Encantada, Diário Clássico”, observem o
desejo de imprimir ao cenário, costumes, às coisas, aos
homens, tons exóticos que lembram folhetos de
turismo: “Minas Gerais, maior que o Texas, foi cenário
de grandes comoções no século dezoito, quando
aventureiros para lá seguiram em busca de ouro e
diamante. São terras misteriosas e perdidas, quase
todas circundadas por montanhas e onde se
encontram pequenas e poucas cidades, fundadas nos
dias coloniais. De todas elas, Ouro Preto é a mais
interessante...” O critico, que é Hubert Herring,
prossegue falando das estranhas maravilhas de Ouro
Preto, de Aleijadinho, das igrejas barrocas e que
conclui que Diamantina é uma cidade pobre, como o
era em 1893, quando Helena Morley escreveu o seu
diário.

...........................

Em 1960 o livro já estava na sua sexta edição e, num


artigo no Suplemento feminino do “Estado de São
Paulo”, Bráulio Pedroso escreveu, dentre outras coisas:

“Na verdade o que há nesta obra, além de qualquer


comparação de época e costumes, é uma deliciosa
evocação do mundo infantil. As impressões da menina
provinciana de Diamantina ressurgem por vezes as
relações de uma sociedade menos complexa, de um
Brasil atrasado, sem as formas organizadas de
produção, onde permanecia – principalmente na região
evocada – um simpático aventureiro a jogar com as
dádivas da terra. Mas apesar destas diferenças – que
uma atualidade industrializadora exagera – não houve
modificações essenciais nos conflitos humanos. Ao se
rememorar os tempos passados como os melhores, há
apenas um saudosismo que sempre existiu nas
gerações mais velhas.

Não é pela simplicidade dos hábitos de Diamantina


dos fins do século passado – como promete a autora –
que a leitura de ”Minha Vida de Menina” nos seduz. O
encantamento está no retorno que empreendemos aos
nossos valores infantis, a nossa efabulação
descompromissada, no reviver os julgamentos que
precederam nosso encontro com a realidade adulta”.

“Gazeta de São Paulo”, 1/8/58:

Esta “obra prima”, como a classificou Georges


Bernanos, traduzida para o inglês pela poetisa
Elizabeth Bishop, conquistou o mais alto galardão para
as letras femininas do Brasil. Um livro escrito com as
tintas indeléveis da poesia e da ternura; um livro que
hoje se inclui entre os mais famosos diários jamais
escritos em quaisquer idiomas.

Com o lançamento da quarta edição de “Minha Vida


de Menina”, de Helena Morley, a Livraria José Olympio
Editora está reapresentando um dos grandes êxitos
brasileiros da literatura de memórias. Escrito sob a
forma de diário, o livro descreve a vida de uma
adolescente brasileira nos fins do século passado,
integrada no ambiente típico de uma cidade provinciana
da época - a cidade de Diamantina, no Estado de
Minas Gerais. Relato minucioso da existência
quotidiana numa cidade que conhecera os seus dias de
glória com a mineração de diamantes, “ Minha Vida de
Menina” é portanto um rico manancial de hábitos,
costumes e tradições populares e, sobretudo, o retrato
fiel de uma família brasileira há quase setenta anos
passados. Escrita com admirável simplicidade, graça e
emoção, esse diário constitui a mais autêntica
revelação de uma escritora.

Helena Morley deu à literatura brasileira o seu livro clássico no


gênero, que é ao mesmo tempo um extraordinário documento
sociológico. Precisamente o que mais sobressai nesse livro encantador é
o seu aspecto humano, o conteúdo psicológico, os retratos admiráveis
de homens e mulheres, crianças e adolescentes, que nos chegam do
fundo do passado cheios de autenticidade e de calor, mundo recriado
pela memória e por sua legítima vocação literária que não precisaria de
outras provas para garantir sua própria sobrevivência. “Um milagre,
como o de Rimbaud”, asseverou Bernanos: “ um dos mais fortes e
impressionantes retratos da nossa literatura”, escreveu Manuel
Bandeira.

Oscar Mendes, na sua coluna Alma dos Livros escreveu, em 1958:

“ O pai que lhe conhecia bem a vivacidade e a


inteligência, aconselhou-a a escrever diáriamente o que
visse e sentisse e a menina Helena Morley
( pseudônimo da Sra. Alice Brant), neta de inglês, com
treze anos de idade, começou a anotar em seus
cadernos de colegial os acontecimentos de sua vida
cotidiana, na cidade de Diamantina, aí pelos anos 1893
a 1895.
Quase meio século depois, aparecem em livro essas
anotações do dia a dia de uma adolescente. O livro,
pelo seu frescor e pelo seu viço, pela sua franqueza,
pela sua limpidez, pela sinceridade de seu depoimento,
pela veracidade da observação, pela ausência de
literatura reformante, pela veracidade da observação,
pela ausência da literatura deformante pela vida que
nele pulula e vibra torna-se um “best-seller”, na sua
quarta edição e arranca de escritores como Bernanos
frases assim: “obra genial, livro único, impossível de
traduzir, milagre, como o milagre de Rimbaud”, é
traduzido para o inglês e os críticos norte americanos
aclamam-no com entusiasmo.

Qual o segredo, qual a magia oculta que faz dessas


páginas escritas sem intenção de publicadas, uma
pequena obra prima de graça, de ingenuidade , de
emoção e de poesia? Nelas não há profundezas
psicológicas, precocidades geniais, requintes de forma,
acontecimentos importantes e sensacionais. Há
simplesmente a vida, a vida que flui, no seu
cotidianismo, mas a vida vista através da curiosidade e
da sensibilidade, da inteligência e do espírito de uma
adolescente num meio provinciano, em fins do século
passado”.

Mais adiante: “A vida que flui... eis o segredo da


graça e do sabor desse livro. A vida vista pelos olhos
de uma menina numa cidade do interior de Minas.
Menina viva, inteligente, perspicaz, que vai observando
os contrastes, as contradições, as complicações, os
absurdos, os enigmas, as desigualdades e as injustiças
da nossa decaída condição humana e dando opiniões,
apontando ridículos, concenando o que lhe parece
errado ou injusto. Nessas opiniões e comentários,
predomina a franqueza e há neles, por vezes, uma nota
de malícia, de ingênua desfaçatez dum sabor
delicioso”.

E termina o longo artigo:

“Onde está o resto de tão delicioso depoimento?


Existem outros cadernos? E se existem, por quê não
publicá-los? Por quê privar-nos de tão puro e
refrescante sorvo de vida? “.

Foram vários e vários artigos elogiando o livro e, de


todos, retiramos estes:

New York Times:

“ Encantador... uma notável evocação da


adolescência...um verdadeiro ato de gênio. Plyllis Mc
Grinly”.

“O Diário de Helena Morley, traduzido por Elizabeth


Bishop, um livro notável... um quadro
extraordinariamente detalhado e vívido do mundo de
uma pequena cidade visto pelo olhar jovem e agudo de
uma jovem que tinha grande entusiasmo pela vida em
todas as suas fases...Colocado de maneira deliciosa,
de modo vivo e articulado. Rosemary Benet”

Tribune- Chicago:

“Ela tinha os raros dons de um olhar perscrutador,


um coração compreensivo, e o gênio inato de uma
maneira inteiramente natural de escrever o que via e
sentia. Fanny Butcher”

Em 22 de junho de 1960, Maritônio Meira publicava


na sua Coluna no Jornal do Brasil:

“O livro Minha Vida de Menina, de Helena Morley –


pseudônimo da brasileira Alice Brant –foi publicado há
pouco em Paris e vem recebendo grandes elogios da
imprensa parisiense. A revista feminina Elle está
aconselhando a suas leitoras a leitura das páginas da
escritora brasileira, comprando-a a Anne Frank.

Quem nos dá essa informação é o repórter Luis


Edgard de Andrade, do JB, que está em Paris”.

PARIS (Via Panair) – Publicando uma seleção do


diário de Helena Morley, escrito em Diamantina – Minas
Gerais, entre 1893 e 1895, por D. Alice Dayrell Brant, a
revista feminina Elle aconselha a suas leitoras
francesas: “Leiam algumas páginas. Vocês serão
imediatamente conquistadas. A menina Helena se
tornará para vocês a irmãzinha de Marie Bashkerstaf e
de Anne Frank”.

A tradução francesa de Minha Vida de Menina, de


Helena Morley – feita pela Sra. Marlyse Meyer – acaba
de ser lançada, em Paris, pela editora Calmon-Levy (a
mesma casa que publicou, na França, o diário de Anne
Frank), e o seu prefácio é um fac-simile da carta que,
em 30 de maio de 1945, Georges Bernanos, então
exilado no Rio de Janeiro, dirigiu à sua autora.

O Jornal das Letras, em outubro de 1958,


informava:
O enorme sucesso de “Minha Vida de Menina” nos
Estados Unidos repete-se agora em maior escala na
Inglaterra. A versão inglesa do “Diário de Helena
Morley foi indicada para a “Escolha de Setembro”, pela
The Book Society, de Londres. A revista “THE
BOOKMAN”, que é o boletim da The Book Society,
publica em seu número de julho/agosto o seguinte
comentário a respeito de “Minha Vida de Menina” – cuja
4a. edição brasileira esgotou-se em dois meses,
estando já em preparo uma 5a. edição

Edições no exterior:

Edição Norte-Americana:

The Diary of Helena Morley”

A girlhood journal of life in a mountain town of


Brazil at the turn of the century.

Translated, edited and prefaced by Elizabeth


Bishop.

New York, Farrar, Strauss and Cudahy, 1957

Edição Inglesa:

The Diary of Helena Morley

Translated from the Portuguese by Elizabeth


Bishop
London, Victor Gollanck Ltda, 1958

Edição Portuguesa:

Introdução de Alexandre Eulálio

Lisboa, Guimarães Editores, 1959

Edição Francesa:

Journal D’Helena Morley

Traduit par Marlyse Meyer, avec une lettre de


George Bernanos. Paris, Calmann-Levy, 1960

Edição Italiana:

Uma Ragazza in Diamantina

Traduzione di Giuseppe Valdania e Giovanne


Visentin

Edirore Officine Grafiche – SEI, 1963

Alice morreu em 20 de junho de 1970.

Em 30 de agosto de 1980, Carlos Drummond de


Andrade escreveu essa belíssima crônica em sua
homenagem.
HELENA E ALICE NUM CENTENÁRIO

Missa no Mosteiro de São Bento, pelo centenário


de nascimento de Alice Dayrell Caldeira Brant. Entre
parênteses, no convite pelo jornal: Helena Morley. Está
dito tudo. Há cem anos nascia a autora de Minha Vida
de Menina, livro sem par na literatura brasileira.

Dispomos de outros registros da vida infantil,


assinados por pessoas que, chegando à idade madura,
se voltaram com nostalgia para que o poeta chamava
de “aurora da minha vida”. Nenhum desses
testemunhos, entretanto, oferece a singularidade que
torna o livro de Helena Morley incomparável: ele não
recompõe o passado, com maior ou menor fidelidade;
vive-o, respira-o, insere-se nele. Porque se resume na
seleção de notas de uma garota do interior, a quem o
professor recomendava que fizesse redações. Então a
garota foi registrando em cadernos o dia-a-dia familiar.
Muitos anos mais tarde, por inciativa do marido e de
uma filha, esses apontamentos foram publicados em
livro – e com isso ganhamos um texto que conquistou
para o Brasil o interesse e a simpatia de inúmeros
leitores estrangeiros, à frente dos quais um Georges
Bernanos e uma Elizabeth Bishop.

A espontaneidade da expressão é o primeiro trunfo


de Helena para conquistar leitores com que ela nunca
sonhou. Helena é simples, direta, alheia a literatura, e
só conta o que viu e sentiu. Em 24 de agosto de 1893,
chega em casa “tão diferente que Renato foi me
olhando e dizendo: Olha a cara dela! Luisinha que é
melhor mil vezes do que ele disse: Como você ficou
bonita, Helena! Quem te arranjou assim? Eu respondi:
foi Éster. Conversando com elas na pedreira eu disse
que sabia que era feia mas não me incomodava porque
mãe Tina me criou sabendo que o feio véve, o bonito
véve, todos vévem. Quando eu disse que era feia,
Éster exclamou: Você feia? Deixe-me arranja-la e você
verá. Consenti, ela pegou na tesoura e cortou-me o
topete, penteou-me, depois me pôs pó-de-arroz, e
quando eu olhei no espelho vi que não era feia. Elas
riram muito quando eu contei o nosso sistema aqui de
untar o cabelo com enxúdia de galinha até ficar bem
empastado. Ela me disse que lavasse os cabelos
depois anelasse e fosse lá para me pentear. Que bom
eu ter feito amizade com a família de dona Gabriela.
Elas são tão boas! Se não fossem elas eu nunca me
lembraria de cortar o topete e pentear os cabelos na
moda. Éster achou graça de eu lhe contar que mãe
Tina dizia que o bonito véve, o feio véve. Ela disse: É
verdade, mas o bonito véve melhor. Como estou hoje
feliz de ter ficado bonita!”

O livro todo é nessa toada, e precisamente porque


não pretende senão o exercício de escrever, numa
espécie de diário doméstico, atinge fundo na descrição
do ambiente da família brasileira modesta em zona de
mineração. Tudo está refletido aí: a pobreza, o sonho
de libertação das necessidades, o convívio social, a
despreocupação, a alegria, e a tristeza do viver,
sobretudo a alegria, pois a infância de Helena “tem o
gênio de rir de tudo”. Confissão: “Eu sou impaciente,
rebelde, respondona, passeadeira, incapaz de
obedecer e tudo o que quiserem que eu seja”. Mas é,
principalmente, dona de um espírito vivaz, bem-
humorado, que capta o aspecto grotesco das cenas e
das coisas e se diverte em passar em revista o
minimundo de Diamantina. Seu Broa, Siá Ritinha, Iaiá,
Madrinha Quequela, o professor Catãozinho, Tia
Madge, o ladrão misterioso que virou cupim, chichi
Bombom ... as figuras são reais, as lendas são
imaginação mística do povo. Só que Helena, cabecinha
crítica, não vai nessa história de ladrão que depois de
furtar, vira cupim. Por que não prendem o cupim? –
indaga. Pergunta que ainda hoje se pode fazer, sem
resposta: por que não descobrem, por que não
prendem os que praticam atentados terrorisstas, em
tantos lugares diferentes do Brasil?

Quase que eu ia fugindo ao meu assunto, que é o


centenário de Helena. Uma data de família que
assumiu aspecto de data literária nacional, pois repito,
Minha Vida de Menina (que José Olympio teve o faro
de identificar e lançar em 1942, hoje em 15a. edição, e
traduzido para o inglês, francês e italiano, além de
publicado igualmente em Portugal) é livro único na
galeria de memorialistas nacionais.

Menina de eterno viço, lembro-me de sua autora


na última quadra de sua existência: era a criatura
encantadora de sempre, com uma verve, uma
irreverência intelectual que se manifestava a todo
momento. Relembrarei o que ela me contou certa
ocasião:

Santo Antônio é o santo de minha antipatia.

Por que, dona Alice?

Eu era garota e apareceu lá em casa um


garimpeiro que preveniu mamãe: “Vim aqui para salvar
seu marido de fazer sociedade com seu Antonico. As
terras em que ele vai trabalhar não têm um tico de
diamante. “Mamãe respondeu: “Foi Santo Antônio que
mandou você aqui. Acabei de rezar uma novena a ele”.
Papai não fez sociedade, e os diamantes estrelaram na
bateia. Ficamos os únicos pobres da família. Viu o que
Santo Antônio fez com a gente?

Alice Brant e seu pseudônimo Helena Morley


formaram uma só pessoa rara, pela sensibilidade e
pelo talento.

HELENA MORLEY

Vera Brant
Há mais de um século uma menina de treze anos,
em Diamantina, começava a escrever o seu diário, por
sugestão do pai, filho de ingleses nobres que vieram
para o Brasil em busca de um clima para curar a
tuberculose do seu chefe, o médico Dr.John Dayrell.

A família esteve, inicialmente, em Nova Lima, na


Mina do Morro Velho e, depois, em Diamantina, onde o
Dr. John fundou a Santa Casa e ali trabalhou durante
toda a vida, até morrer, aos noventa anos.

O pai de Alice, Felisberto Dayrell, era minerador.

O diário de Helena Morley, pseudônimo de Alice


Dayrell Caldeira Brant, tem a data inicial de 5 de janeiro
de 1893.

Dotada de uma inteligência agudíssima e de uma


sensibilidade invulgar, ela foi anotando no seu caderno
escolar os acontecimentos que se desenrolavam ao
seu redor, naquela cidadezinha mineira de gente
simples e extremamente bondosa.

Enquanto seu pai escavava a terra à procura de


diamantes e de ouro, ela acompanhava a mãe e os
irmãos, atravessando becos e pontes em direção ao
rio, onde lavavam as roupas da família.

Ela esfregava a roupa com as suas pequenas


mãos, enquanto o seu olhar e a sua sensibilidade
acompanhavam o que se passava ao redor: o barulho
da queda a água naquele pequeno regato de pedrinhas
redondas e claras, as borboletas que voavam, o seu
irmão Renato pescando lambaris.

E quando chegava em casa anotava tudo, para


guardar na lembrança aqueles momentos.

A mestra Joaquininha a considerava a aluna mais


inteligente da escola. Mas ela duvidava, pois não
gostava de estudar, só gostava, e muito, de ler histórias
e romances, e de escrever.

“Eu acho que se fosse má seria mais feliz”,


escrevia ela quando voltava, aos prantos, da casa de
duas amigas da mãe, aonde fora levar umas broas de
fubá e as encontrara enforcando um gatinho.

“Hoje fui chegando para o almoço e encontrando


Nhonhô na porta da rua com uma asa do meu curió na
mão e dizendo: Olha o que a gata fez; comeu seu curió.
Eu não posso dizer o que senti, mas caí na cama com
os livros na mão, soluçando tão alto que mamãe veio
correndo na cozinha, pensando que tinha havido
alguma coisa”.

“ Mamãe diz que não se deve ficar alegre na


Semana Santa, porque é a semana do sofrimento de
Jesus. Eu creio muito nas outras coisas da religião,
mas não acredito que ninguém fique triste do
sofrimento de Jesus Cristo, depois de tantos anos, e
dele já estar no Céu, ressuscitado e feliz”.

“Meu pai diz sempre que gosta mais do meu gênio


que do de Luizinha; que eu sou franca, digo o que
penso e o que faço e Luizinha é das caladinhas que
são mais perigosas”.

A tia Carlota confessando-se com o Bispo e ele


fazendo-lhe mil perguntas em lugar de deixá-la à
vontade, contando-lhe os seus pecados.

Os tachos de angu, os leitões nos dias de festa. O


tutu de feijão. Os torresmos. As cocadas. As
macumbas. As velas acesas. As promessas. A
criadagem na ginga.
A tristeza de não compreender as criaturas ao seu
redor, com pensamentos e sentimentos limitados,
rasos.

A paixão pela avó que vivia exclamando: “Forte


coisa!” E que a amava muito e a defendia sempre.

Quando a sua querida avó adoece, ela escreve,


sentida, percebendo o perigo de perder a sua protetora:

“Nestes dias da doença de vovó eu me esqueci de


todas as felicidades que tenho tido e fico só pensando
nos sofrimentos. Quem encontrarei mais na vida para
dizer-me que sou inteligente, bonita e boazinha?”.

A dificuldade de entender a decepção do pai


quando voltava do garimpo sem encontrar o ouro: “Se
ele não guardou o ouro lá, por que se decepcionou?”.

A preocupação com a desigualdade social, com o


sofrimento dos pobres.

“Depois do almoço mamãe não nos deixa meter os


pés na água porque diz que faz mal. Sempre pergunto
que mal faz mas nunca explica. Pergunto por que não
faz mal aos mineiros que entram na água até os joelhos
logo depois de comerem, e ficam na água o dia inteiro,
e ela responde que é por estarem habituados”.

Quando fui morar no Rio, em 1956, passei a


conviver muito com Alice. Ela morava numa bela casa,
na Lagoa Rodrigo de Freitas.

Ia à sua casa duas vezes por semana com a


Sarita, sua filha.

Aos domingos havia a reunião da família toda,


umas quinze pessoas.

Alice sentava-se à cabeceira da mesa com o seu


porte elegante e sua personalidade fortíssima e
comandava aquele bando de malucos inteligentíssimos,
contando histórias extravagantes e muito interessantes.

Falavam quase todos ao mesmo tempo e Abgar


Renault, seu genro, casado com a sua filha Ignez,
pedia: “Silêncio! Vamos falar só quatro de cada vez,
senão ninguém se entende”.

Mas, quando Alice começava a contar as suas


histórias, era aquele silêncio. Todos a escutavam,
encantados. Eram sempre assuntos diferentes,
espirituosos, interessantes.

Certa vez Alice, que nunca saía de casa, me


informou que iria, no dia seguinte, visitar a irmã do meu
namorado para ajudar no meu casamento. E queria que
eu fosse com ela.

Eu trabalhava no Ministério da Educação e tive


que conseguir, com o meu chefe, uma folga para
acompanhá-la. Saí mais cedo do serviço e fui para a
sua casa.

Ela estava tentando colocar dois lindos brincos de


brilhantes. Não entendi bem aqueles brilhantes durante
o dia, mas ela insistia tanto que resolvi ajudá-la. Os
furinhos das orelhas já estavam fechados, cicatrizados,
de tanta falta de uso, foi uma luta para abri-los de novo.
Depois de muita peleja, ei-la elegante e bela, com um
vestido chique, pronta para a aventura.

Lá fomos nós. Eu, meio sem entender nada,


imaginando até que ela havia tramado com a
Margarida, irmã do namorado, um pedido de noivado.

O apartamento era uma graça.

A irmã e a sobrinha do meu namorado eram


mulheres muito bonitas e prendadas. Mostraram-nos
toalhas que elas mesmas bordaram, colchas de tricô
que elas mesmas tricotaram e, para o meu desespero,
todos os bolos e salgadinhos na mesa do lanche
tinham sido preparados pelas duas mais-que-perfeitas.

Entre uma demonstração de habilidade e outra,


elogiavam o irmão.

E Alice, nada. Nem um elogiozinho a mim, para


equilibrar.

Quando provou o biscoito de nozes que estava


mesmo uma delícia, não se conteve e exclamou,
constrangida:

_Coitada da Verinha, não vai poder entrar para


esta família. Ela não sabe fazer nada!

Fiquei arrasada.

Na volta para casa, exclamei:

_Mas você, hein, Alice? Vem para ajudar no meu


casamento e estraga tudo, acaba com ele.

_Mas o que foi que eu fiz?

_O quê? Não se lembra? Apenas disse, com todas


as letras, que eu não sei fazer nada, não sirvo para
casar.

Ela teve um acesso de riso tão forte que contagiou


a mim e ao Rubens, seu motorista. Ele teve que parar o
carro, porque não conseguia apertar o acelerador, de
tanto rir.

Quando chegamos à sua casa, o seu marido,


Augusto Mário, nos esperava na varanda. Estava
curioso para saber o resultado da visita e perguntou:

_Como foi o passeio?

A Alice pretendeu dizer que foi uma tragédia mas


não conseguiu chegar ao final da frase porque teve
outro acesso de riso. E eu, mesmo sendo a
prejudicada, também não conseguia parar de rir.
Fomos direto para o banheiro.

Quando a Sarita chegou, também curiosa para


saber as novidades, o Augusto Mário disse:

_Eu acho que as duas enlouqueceram. Desde que


chegaram não pararam de rir e não conseguiram dar
uma palavra.

Mas não foi por isso que acabou o namoro. Foi o


desencontro das águas. Acho que a minha família não
entendeu, até hoje, como foi que eu consegui namorar
aquele rapaz, tão pouco inteligente, durante tantos
meses e, o pior de tudo, encantada.

Se eu não freqüentasse uma família tão


inteligente e irreverente, aquele namoro talvez até
desse certo. Mas era demais. Nunca vi gente tão
impaciente com a burrice alheia. O Eduardo, filho da
Sarita, e o Flávio, seu irmão, ambos inteligentíssimos,
faziam perguntas ao meu namorado só para
desmoralizá-lo. As respostas eram trágicas.

Depois dele eu só namorei homens


inteligentíssimos, o que também não deu certo.

Quando fui à Europa, pela primeira vez, namorei um rapaz bonito,


inteligente e culto, que, meses depois, veio ao Rio passar as férias.
Levei-o para almoçar na casa de Alice, no domingo. Ele falava um
italiano misturado com espanhol, mas se fazia entender. E entendia o
que falávamos.

Até Augusto Mário, que era uma pessoa cultíssima


– fora jornalista, economista, político, escritor, é autor
do livro “Viagem à Argentina” – e exigente, ficou
impressionado.

Fiquei eufórica. Estava resgatada, junto à família.


A minha capacidade de escolher namorados já não
estava em baixa. Todos concordaram com a beleza, a
cultura e a inteligência. Mas concluíram que eu não
tinha interesse definido por determinado tipo físico, nem
mental. O Paolo era loiro, olhos azuis, alto, magro,
totalmente diferente do Ivan que era moreno.

Só que o italiano ficava à minha disposição dia e


noite. Foi me dando um enjôo tão grande que não sabia
mais o que fazer.

Resolvi contar a Alice e pedir-lhe um conselho.

Ela ficou horrorizada:

_ Verinha, você vai acabar solteirona. Um rapaz


bonito, bem de vida, culto, com aqueles olhos azuis.

Eu disse:

_Eu acho que foram os olhos azuis que me


enjoaram, Alice. O céu é azul mas se enche de
nuvens, escurece, chove, anoitece, depois fica azul de
novo. Mas, os olhos, não. É aquele azul forte o tempo
todo, me olhando. Não estou suportando. Amor não
tem nenhum compromisso com inteligência, sabedoria,
beleza, nada disso.

Ela me respondeu:

_Com a beleza não tem nada a ver, não. Mas com


a inteligência tem, sim. Você não suportaria viver,
durante muito tempo, com um homem pouco
inteligente.

Quando eu adoecia, ia passar uns dias em casa de


Alice, pois não tinha ninguém para cuidar de mim. A
Hilda, minha empregada, só ia duas vezes por semana.

Alice tinha o hábito de dormir à tarde, mas,


naqueles dias, ia para o meu quarto e ficávamos
conversando horas seguidas.

Um dia ela me contou que, quando menina, sua tia


havia dado uma surra na escrava. A escrava era o
dobro da tia, que era franzina e muito brava.

Alice estava louca para saber como ela havia


conseguido aquela proeza, mas tinha muito medo da tia
brava.

Certa vez, tomou coragem e perguntou:

_Minha tia, como foi que a senhora conseguiu dar


uma surra na fulana que é muito mais forte que a
senhora?

A sua tia respondeu:

_Eu experimentei, dando um tapinha. Ela não


reagiu, eu avancei.

Nunca, na vida, me esqueci dessa lição. A


qualquer ameaça de tapinha, moral ou física, eu reagia
logo, antes que o inimigo avançasse.

A Maria da Penha era uma figura humana


interessantíssima. Tinha vinte e poucos anos, era
bonita, simpática, excelente empregada. Só tinha um
defeito, grave: Não podia acordar sem ser
naturalmente. Se alguém a chamasse de manhã,
durante o sono, ficava num mau humor de ninguém
suportar. Então, a única solução era deixá-la dormir até
o sono acabar.

Adorava bichos e resolveu criar gatos. Em poucos


meses havia mais de dez gatos.

Certa manhã, Alice desceu mais cedo para a


cozinha e a gataria toda começou a puxar a sua saia e
arranhar as suas pernas, com certeza pedindo leite ou
comida.

Lá pelas tantas ela perdeu a paciência e chamou o


Rubens, motorista. Ele estava exatamente limpando e
lubrificando o carro que Augusto Mário mantinha,
sempre, na garagem para, na hipótese de morte de
algum amigo, ou de uma autoridade, não ter que
incomodar ninguém. Acontece que, quando morria um
amigo, ou o carro estava enferrujado ou o Rubens
sumido.
Neste dia estava tudo certo: o carro lubrificado e o
Rubens ali.

Alice não perdeu tempo: chamou o Rubens e


determinou que colocasse todos os gatos num saco e
os soltasse no mato. Ele adorou a idéia de poder
passear um pouco. Em poucos minutos juntou a gataria
ao redor do prato de leite, colocou-os no saco e se
mandou para a rua.

Quando a Maria da Penha acordou e soube da


confusão toda, abriu o maior berreiro:

_ A senhora é um monstro, como pôde fazer


tamanha maldade? E agora, o que vai ser dos pobres
gatinhos, quem lhes dará leite. Os pobrezinhos no
mato, com cobra e tudo, morrendo de frio à noite. Ai,
meu Deus! E chorava, chorava.

Alice foi entrando em pânico. Acho que já estava


arrependida e assim não deu uma palavra e saiu de
mansinho para a cozinha, pois já sabia que, naquele
dia, não ia ter nem um ovo frito para comer, se
dependesse da Maria da Penha.

Quando o Rubens voltou, já era mais de meio dia.


Alice foi dando ordem:

_ Volte lá e só retorne depois que encontrar o


último gato.

Alice havia acordado cedo e o Rubens estava


lubrificando o carro, justamente porque havia morrido
um amigo do casal. O enterro seria às quatro horas da
tarde. Todos prontos para sair e, cadê o Rubens?
Nada. Cansaram de esperar e chamaram um táxi.

Lá pelas sete horas da noite, quando Augusto


Mário e Alice já haviam regressado, também de táxi,
chegou o Rubens, todo suado e arranhado, e só com
dois gatos.

A Maria da Penha brigou com ela e foi embora


para a casa da Sarita.

Meses depois, ela disse à Sarita que queria de


volta a Maria da Penha.

Sarita teve um trabalho enorme para substituir a


Maria da Penha para trazê-la de volta para a casa da
sua mãe. Duas semanas depois, avisou a Alice que
traria a empregada no dia seguinte.

Alice, na maior tranqüilidade, respondeu:

_Não traga não, porque não a quero mais.

Sarita, desapontada:

_Mas, mamãe, eu tive um trabalho enorme para


conseguir outra empregada e agora você muda de
idéia?.

E, Alice, calmamente:

_E você acha que eu sou mulher para ter uma


opinião só a vida inteira?

Num domingo, eu não fui à casa de Alice para o


almoço porque estava indisposta, com dor de
estômago. Na segunda feira ela foi ao meu
apartamento, me visitar.

Era um apartamento mínimo, com quarto e sala, e


uma janela enorme, no décimo andar.

Ela foi entrando e dizendo:

_Verinha, que apartamento perigoso! Se você


entrar nele com muito entusiasmo, vai sair pela janela.

Ficamos a tarde inteira conversando. Ela me contou o quanto gostava


da minha mãe, sua prima. Que freqüentava muito a nossa casa, quando
eu era pequena.

Perdi a minha mãe com oito anos e pedi a Alice


que me contasse detalhes de sua personalidade, das
coisas das quais eu não podia me lembrar.

Lembro-me de uma das histórias, ótima: a sua


nora, Elza, estava brigando muito com o seu filho Caio
e fazendo-lhe muitas críticas. Dizia, no entanto, que o
amava.

Alice decidiu:

_Vamos à casa de Amália. Lá você vai ver o que é


amor.

Foram. A Elza, uma mulher linda e chique, chegou


à nossa casa toda animada para ver o amor de perto.
Só encontrou um bando de crianças descabeladas:
éramos nove, o mais velho com dezoito anos e a mais
nova, recém-nascida.

A mamãe, linda, cuidando dos filhos, fazendo doce


de casca de laranja, o que o Zezé mais gostava – dizia
com a maior alegria - porque Zezé pra cá, Zezé pra lá,
e contava casos do Zezé. E vinha menino, chateava,
ela mandava sair para o jardim, vinha outro, enchia a
paciência, ela colocava para dormir. A pequenina
chorava, ela ia correndo acudir e já a trazia no peito,
continuando as histórias e... mais Zezé, mais Zezé.

A Elza, dizia Alice, estava completamente zonza.


Ela, que só tinha dois filhos, Felisberto e Arnaldo, que
viviam limpos, penteados, com as babás, tudo em
ordem, não estava se adaptando àquela bagunça e
cutucava Alice para irem embora.

Quando Alice ameaçou sair, a mamãe não deixou:

_De jeito nenhum, vocês vão esperar o Zezé, está


na hora dele chegar.

E contou mais histórias para distraí-las enquanto o


Zezé não chegava.

E chegou o Zezé, meu pai: baixo, feio, falando tão


depressa que não dava para entender nada.
Os olhos da minha mãe faziam ondas, refletiam a
felicidade. E o Zezé falando duas palavras de cada vez,
Alice e Elza não entendendo nada e a minha mãe
traduzindo, aquela confusão.

Cansaram de tanta loucura e foram embora,


deixando os dois pombinhos com a filharada.

No caminho, Elza quis saber de Alice qual era o


sentido daquela visita, o seu vestido branco todo sujo
de mão de menino, aquele cansaço de confusão mental
completa. E ouviu a resposta:

_Amor é isso, minha filha. A mulher, quando ama,


tira de letra um dia como este, que para você pareceu
um martírio, na maior tranqüilidade. Quando o Zezé
chega, passa a borracha nas tormentas todas e cai nos
seus braços como no primeiro dia de casamento. Você,
desocupada do jeito que é, com o marido bonitão que
tem, fica botando minhoca na cabeça e criando
problema onde não existe. Acho que é desamor. Não
tem outra explicação.

Esta história é uma definição de Alice. Ela não


precisava sair de casa para mostrar o que era o amor.
O exemplo era ela própria, com Augusto Mário.

Alice possuía uma memória fantástica. Contava-


me episódios da sua infância, no final do século
atrasado, pois ela nasceu em 1.880, e eu ficava
extasiada com a sua coragem e personalidade.

Sempre havia imaginado que, naquela época, até


muitos anos depois, as mulheres eram umas bobocas,
fazendo só o que os pais e os maridos permitissem e
dizendo amém a todos. Mas, não. Alice dialogava com
os pais, dizia-lhes o que bem entendia, discordava,
opinava, concordava às vezes, não arredava um
milímetro do que considerava ser o correto.

O namoro com Augusto Mário, seu primo e sua


única paixão, começou quando ele voltou de São
Paulo, onde passara vários anos estudando Direito e,
tendo-se formado, voltara para Diamantina.

Quando estava para voltar, a família toda se


organizou para recebê-lo com festas e homenagens.

Alice não tinha uma só roupa que prestasse. Só


possuía uma saia nova e não tinha dinheiro para
comprar uma blusa.

O seu Luís, que era encantado com ela e queria


namorá-la, era filho do seu Mota, dono da loja de
tecidos. Quando ela lhe contou o seu aperto, ele se
propôs a levá-la à loja e pedir ao pai que desse a ela
um pedaço de tecido para fazer a blusa. Foram. Foi
feita a blusa.

Vindo de São Paulo, Augusto Mário passou uns


dias em Belo Horizonte e, lá, quis saber dos primos
como estava Diamantina e, principalmente, como
estavam as moças que ele havia deixado anos atrás,
meninas ainda.

Um dos primos fez-lhe o relatório de cada uma das


moças, umas lindas, outras, estudiosas, interessantes,
chiques. Mas... existe uma, a Alice, que não sendo
bonita, nem a mais elegante, é a mais encantadora de
todas. No ambiente em que ela se encontrar, depois
que começa a falar, com tanto espírito, inteligência e
simpatia, cresce e supera todas as outras, por mais
bonitas que sejam.

Aquilo ficou gravado na memória de Augusto


Mário. E ele pensava: Será possível a Alice, aquela
menina magrela, agressiva, irreverente, ter se tornado
uma mulher tão interessante?
Afinal, chegou a Diamantina.

A família inteira reunida e orgulhosa do seu doutor


em Direito, formado em São Paulo.

Foram todos para a casa de seus pais, onde seria


a festa. Dois amigos iriam buscá-lo na estação e levá-lo
à casa.

Quando ele chegou, foi aquela quantidade de


palmas e sorrisos, abraços. Um das primas trouxe-lhe
um ramo de flores. Ele, encabulado, sem saber o que
fazer com as flores, procurou com os olhos alguém a
quem entregá-las e encontrou Alice, que estava
próxima, e ofereceu-lhe o ramo de flores. Foi a conta:
o seu Luís ficou morto de ciúmes e queria porque
queria que Alice lhe devolvesse a blusa.

Para o sábado seguinte estava programada uma


festa com dança e tudo, e o sofrimento de Alice
começou de novo. E a roupa?

Depois de muita luta, conseguiu um pano e fez um


vestido de festa.

As mulheres estavam muito chiques e ela se sentia


humilhada. E não conseguiu fazer sucesso porque ficou
calada, num canto.

Qual não foi a sua surpresa quando Augusto


Mário, depois de dançar com várias moças, foi buscá-la
para dançar. Ela ficou encabulada. Seu coração dava
pulos no peito e foi uma luta para encontrar o rítmo.

Controlou-se e começaram a conversar. Ele não a deixou mais, até o


final da festa.

Naquela noite, quando chegou à casa, ela se


ajoelhou

aos pés da cama e pediu a Santo Antônio, com todo o


fervor, que, se não fosse para casar com ele, tirasse
aquela ilusão de sua cabeça de uma vez por todas,
porque não queria sofrer aquele amor que já brotava
com tanta força em seu coração e que ela imaginava
muito violento.

Mas não era só ela quem estava apaixonada por


ele. Uma meia dúzia de moças também. Era, naqueles
dias, o assunto de Diamantina.

Ela, então, decidiu sumir da vida dele, para evitar


sofrimentos.

Um dia, tendo ido ao armarinho comprar botões e


fitas, percebeu que ele a acompanhava. Andou mais
rápido e ouviu o barulho de seus passos. Ouviu-lhe a
voz, chamando-a . Apertou os passos e saiu correndo,
ele correu atrás.

Quando chegou à porta de casa, já exausta,


começou a subir as escadas, com dificuldade.

Foi quando ele, alcançando-a, puxou-a pelos


cabelos e lhe deu um beijo.

Ela ficou tonta, desnorteada, sem entender nada.

_Quer se casar comigo?, sussurrou ele.

_Agora, querendo ou não querendo, temos de nos


casar, pois você já me beijou e estou desonrada,
respondeu Alice.

Casaram-se. E parece-me que Alice foi, durante


toda a vida, a companheira que mais amou o homem
com quem se casou.

Um dia, acordei com Alice me passando a maior


descompostura:

_Você deve estar pensando que também é rica


porque convive com Ignez, Sarita e Yolanda, mas você
é pobre, Verinha. Convença-se disso! Comece a fazer
loucuras e depois vai se encalacrar toda, encher-se de
dívidas e não vai conseguir pagar com este emprego
mixuruca.
Eu, sem entender nada, resmunguei:

_ Ser pobre já é desagradável, mas ter alguém que


já, de manhã cedo, vem me xingando de pobre é o fim
da picada. O que foi que eu fiz para esse xingatório
todo?

_Comprou uma geladeira elétrica a prestações. E


não me pergunte quem me contou porque eu estou
proibida de dizer, foi falando.

_Mas, Alice, você com esta fama toda de


inteligente, não raciocinou ainda que aquela geladeira
de gelo que você me deu foi o maior presente de grego
do mundo? Dia sim, dia não, tenho de comprar uma
barra enorme de gelo que se derrete e vai para o
esgoto. Vou passar a minha vida inteira jogando o meu
dinheirinho minguado no esgoto? Já uma geladeira
elétrica, com uma prestação um pouquinho mais alta do
que as barras de gelo, ficará para a vida toda. Para
você ter uma idéia, pretendi dar a geladeira de gelo
para o porteiro e ele não aceitou. Foi mais inteligente
do que eu.

Ela ficou parada, olhando para a minha cara um


tempão e saiu com a proposta mais extravagante que
já recebi em toda a minha vida:

_Sabe de uma coisa, Verinha? Você é mesmo


muito inteligente e não pode continuar nessa pobreza.
Vamos escrever um livro, juntas. O José Olympio anda
louco para publicar outro livro meu. Aí, ele publica,
todos ficam conhecendo o seu talento e você fica rica.

Pela manhã, normalmente, eu sou muito lerda. Me


sinto como televisão antiga que, quando a gente ligava,
ficava rodando um tempão, até focalizar o mundo. Por
isso não respondi logo à sua sugestão.

À tarde, entreguei-lhe uma pequena carta,


demonstrando aceitação à sua proposta.
Minha querida Alice:

Você diz, entre outras coisas maravilhosas, que a


única inteligência importante é a de quem sabe viver.

Tenho pretendido aprender esta arte com você,


mas existe uma incapacidade de minha parte que me
deixa completamente frustrada.

Gostaria de poder me aprofundar nos pequenos


momentos que me dão alegria, fixá-los bem, explorá-
los até o último instante e guardá-los na memória, para
os dias e as tempestades seguintes.

Mas os trovões só me recordam tormentas e essas


me trazem à memória catástrofes, e eu me perco e me
desmorono nelas.

Quantas e quantas noites tentei imitar você,


recordando pedaços de vida em que fui feliz. Quantas
vezes passei filmes pela minha imaginação, como você
faz, procurando me distrair. Mas meus filmes eram
sempre tristes e eu tinha logo que matar os
personagens, para que eles parassem de sofrer e eu
pudesse dormir.

Que inveja sinto de você que, às oito horas da


manhã, acorda bem humorada, vai, mentalmente a
Paris, passeia, faz compras, visita museus, igrejas e, às
onze horas, senta-se à mesa para almoçar, exausta de
tanto passear.

Que mágoa eu sinto de não conseguir viajar assim,


na recordação, como você faz, ora na sua infância e
mocidade em Diamantina, ora no seu exílio na
Argentina, em Paris, ou em Portugal, que você tanto
adora.

Às vezes exploro as suas histórias para me distrair


um pouco, mas nunca consigo me lembrar delas
inteiras.

Aquela sua volta da Europa, no navio, com as


mulheres francesas, que você considerou ótimas
companhias, só ficou na minha lembrança até o
momento em que o navio se aproximou de outro,
repleto de marinheiros, a quem elas deram todas as
suas conservas, queijos e bebidas e você passou a
detestá-las, lembra-se? Como foi que você prosseguiu
a viagem? Conte-me.

Empilharei as suas histórias na minha memória


para futuras recordações, quando estiver apertada para
me lembrar de coisas alegres e engraçadas.

As minhas lembranças não conseguem me distrair.

É que falta a mim o que sobra em você:


inteligência para viver.

Muitos beijos,

Vera

Alice me respondeu:

Verinha querida:

Como você não compreendeu bem a minha


filosofia de vida, venho hoje explicar-lhe.

A vida é sempre cheia de problemas para todos


nós, desde a infância. Quando eu me refiro à
inteligência para a vida, refiro-me à pessoa que sabe se
afastar de todos os problemas e tirar proveito das
coisas boas; que nasce com juízo para se afastar dos
perigos, que guarda um pouco do que ganha para não
passar necessidades, que evita as doenças, as más
companhias e sabe tirar proveito da inteligência, como
Churchill, por exemplo.

Tenho conhecido homens de nenhum dom


intelectual que se transformam em grandes homens,
somente pelo trato, talvez adquirido na infância.

E conheço outros, que todos nós sabemos, cujas


inteligências só serviram para desmoralizá-los.

Quanto a saber viver, você sabe melhor do que eu.


A diferença é que você está vivendo o presente e eu só
vivo, hoje, o passado.

Mas eu sei que você, como nenhuma de suas


companheiras poderá, no futuro, viver o passado
porque não o terão tido.

A vida na infância só é agradável no campo, com a


natureza, os animais, as aves e, acima de tudo, com a
liberdade. E quem é que cria os filhos, hoje, com
liberdade? A vida das crianças em casa, enquanto
pequenas, e nos colégios, quando vão crescendo,
cheia de trabalhos e obrigações, é vida? Não, não é
vida. E nada disso vai servir para pensar, depois de
velha.

Mas eu, com toda a pobreza de meus pais, vivi a


minha infância. E, depois de casada, ensinei Augusto
Mário a viver.

Hoje quero lhe descrever alguns episódios na


minha vida, depois de casada.

Não me cansava de obrigar Augusto Mário a fazer


aventuras. Imagine nós dois viajando a cavalo, com
uma família de doze pessoas e uma grande carga, com
colchões, travesseiros e mantimentos! Isso, com mais
três filhos pequenos e mais uma menina que eu criava.
A viagem era de dois dias, dormindo-se no
caminho, em ranchos abertos.

Uma vez em que íamos a Santa Bárbara e nos


arranchávamos para dormir, a empregada foi afastando
uma pedra para fazer a cama dos meninos quando viu,
embaixo, um ninho de escorpiões.

Eu estava, nessa hora, no rio, dando banho nos


meninos, por isso não vi. Augusto Mário proibiu que me
contassem e passou a noite sentado à beira da cama,
lendo e vigiando os pequenos.

Hoje estou sem ocupação e vou passar algumas


horas me distraindo, recordando o passado.

Para a estação de Santa Bárbara nós tínhamos o


hábito de ir uma vez por ano. Aconteceu que, numa das
vezes, várias pessoas de Diamantina resolveram ir
também fazer uso das águas.

Foram Alcídes, Belinha, Dr. Telles com a Donana e


duas filhas, Serafim Libano e Dona Augusta e os dois
filhos rapazes e Padre Manoel Alves com uma amiga
minha, Catarina Neves.

Além desses, foi também um industrial de Montes


Claros, com a mulher e dez filhos.

Nossa família, Alcides e Belinha, ficamos no


Arraial numa fazenda abandonada. O Dr. Telles, numa
única casa que havia no arraial. Os outros
companheiros fizeram rancho de sapê, próximo das
águas, que formavam um grande poço, espécie de
piscina de água quente.

O padre, além do rancho, mandou construir uma


capelinha com um altar e todo o necessário.

Todos os domingos nós, do arraial, tínhamos que


assistir à missa. Como era longe, íamos a cavalo.

Para assistir à missa, vinha todo o pessoal da


redondeza e ia se acampando por fora da Igreja.

Não havia um só domingo que não houvesse


casamentos. Lembro-me de uma vez que foram quatro
casais e todas as moças se casaram com um só
vestido e um só véu. Acabava um casamento e a noiva
tirava o vestido e o véu e entregava à outra noiva. E
todas nós, animadas com a novidade, ajudando as
moças a se vestirem.

Quando ajudávamos a última do grupo, chega na


porta do rancho do padre e grita: Ô donas, não vistam a
Maria que eu não caso com ela! Que tragédia! A
pobrezinha caiu no pranto.

Eu fui lá fora implorar ao João para se casar com a


Maria. E ele me respondeu: Se a senhora faz questão
de me casar, então me case com a Joana. Ele havia
viajado com as duas e, no caminho, verificou que a
Joana era mais bonita que a Maria.

Não posso, também, deixar de contar as


originalidades da mulher do industrial, minha xará: ela
criava todos os filhos amamentados por uma cabra,
que atendia ao choro da criança, subia na cama e lhe
colocava a teta na boca. Um dia, quando chegamos ao
poço, ela estava terminando um forno de barro, para
assar pão. No dia seguinte, começou a fabricar o pão.
Engraçado é que ela manejava tudo com uma cuia.
Cuia para encher de barro, cuia para amassar o pão,
cuia para lavar a roupa. E era cada cuia do tamanho de
uma bacia.

O industrial, marido dela, tinha uma fábrica de


tecidos e uma grande fazenda. Mais de uma vez vimos
chegar carroça cheia de tudo para eles. Apesar dessa
fartura, a mulher era muito miserável. Se jantávamos
ou almoçávamos com eles, era sempre a convite do
marido.

Um dia, Augusto Mário resolveu ir às águas


palestrar com o industrial, que era muito simpático. O
homem prendeu-o para jantar. A mesa era debaixo de
uma grande árvore e comprida, para caber toda a
família. Jantaram. Terminado o jantar, veio o café. O
marido perguntou pela sobremesa e ela respondeu:
Não tenho. Um dos filhos, de uns cinco ou seis anos,
gritou do meio da mesa: E aquelas latas de doce que
estão debaixo da cama?

A mulher foi ao quarto, trouxe uma lata, de uns dez


quilos, de doce de leite, distribuiu para todos com
fartura.

Esse incidente foi um desapontamento para todos


nós.

O rancho da dona Augusta era uma simpatia. Os


filhos o colocaram num lugar bem agradável. As mesas
de jantar de todos os ranchos eram fora de casa,
sempre debaixo de uma árvore. E nunca chovia.

Um dia, chegando nas águas e indo ao rancho de


dona Augusta, só encontramos um montão de cinzas.
Os filhos embeberam um maço de algodão no álcool,
acenderam-no na ponta de um bambu para acabar com
uma caixa de marimbondos que estava sobre o rancho!
Engraçado é que ninguém comentou a estupidez. Os
rapazes fizeram, numa só noite, outro rancho.

Um episódio também marcante em Santa Bárbara


deu-se, um dia, comigo: Donana e Belinha descobriram
um sítio onde havia frutas. Relacionaram-se com a
família e foram lá duas vezes, sem mim.

Quando eu soube, protestei, chamei-as de amigas


ursas e me zanguei, deveras.

Donana, mais velha dez anos do que eu, explicou-


me: Não te levamos porque sabíamos que, se você
fosse lá, inutilizará o nosso passeio. Há coisas que dão
vontade de rir e nós nos contemos. Mas você não seria
capaz de se conter. Você mesma sabe disso. Eu lhes
disse que brigaria se fossem sem mim, de outra vez.

Chegou o dia delas irem atrás das frutas e dos


ovos. Chamaram-me e disseram: Hoje nós vamos ao
sítio do seu Juca, mas você fique sabendo que ele é
assassino e que não pode rir na cara dele.

Eu respondi: Vocês estão me julgando uma louca


que não pode conviver com os outros?

Donana retrucou: Se é assim, vamos.

Saímos a três pelo campo. O sítio era distante de


nossa casa.

Durante a viagem pela estrada, Donana não fez


outra coisa senão me recomendar: Quando você vir
que vai cair nos seus acessos de riso, procure antes se
lembrar de qualquer coisa triste.

Eu, então, reclamei: Chega, Donana.

Ela ainda teimava: Não ria, não ria! Estou temendo


que você vá nos fazer perder este sítio.

Eu já estava indignada com tanta recomendação e


já morta de vontade de rir vendo o medo de Donana.

Fomos andando e chegamos ao sítio. Do lado de


fora, próximo à porta, estava um homem gordo, com
uma grande barba, amolando um facão, numa pedra.
Donana foi dizendo: Boa tarde, seu Juca! O homem
levantou a cabeça, com aquele facão na mão e
respondeu: boas tardes, madames!

Não foi preciso mais nada para que eu caísse no


acesso de riso. As duas, que também caíram no riso,
dispararam a correr pelo campo afora me deixando
sozinha com o homem. Eu, sem conseguir parar de rir,
larguei também o homem e fui brigar com as duas, por
terem me abandonado. Mas as encontrei iguais a mim,
no mesmo acesso de riso.

Desta estação poderia, ainda, contar muita coisa


engraçada.

Mas já escrevi bastante e sei que você não terá


paciência de ler.

Um beijo, Alice.

Alice querida:

Acho que compreendi a sua explicação: saber


viver é ter capacidade de afastar uma porção de coisas,
inclusive problemas.

Você teve tão poucas dificuldades no passado que


procurava os perigos para ter do que se afastar.

E não se contentava em ir sozinha: levava o


menos aventureiro de todos os homens, que é o
Augusto Mário, e com ele se acampavam sobre ninhos
de escorpiões.

Você se abasteceu de muita alegria na sua


infância e na mocidade, daí a sua capacidade de
dominar as tristezas que a vida trouxe, mais tarde, para
você.

Não quero me aprofundar nos problemas de


infância para não chegar à conclusão de que estou
completamente liquidada.

Pelo fato de não ter muito do que lembrar é que


peço emprestadas as suas memórias.

Uma das poucas vezes que surpreendi você triste,


Alice, foi naquela tarde em que fomos com Felisberto,
Duga e Flávio à chácara da Gávea.
Passeamos durante um longo tempo pelo campo,
imenso, quase todo plantado por você, descemos uma
colina, passamos naquela ponte próxima da piscina e,
de repente, você ficou triste.

Corri, apanhei um cajá-manga e dei a você.

Eu nunca soube o que fazer com a tristeza de


alguém.

Adoro ouvir os casos lá da chácara. Você me


conta alguns?

Como se chamava aquele empregado a quem


você deu meia hora para aprender a dirigir o
automóvel, porque você precisava sair para fazer umas
compras e visitar Augusto Mário na Casa de Correção?

E aquele que tocava piano, desenhava, tirava o


forro dos sofás, lavava e colocava tudo de novo
direitinho?

Conte-me tudo.

Um beijo, Vera
Verinha, querida:

Havia em Belo Horizonte, no meu tempo, um


comerciante rico, chamado Avelino Fernandes.

Um jornalista, insaciável por dinheiro, escreveu no


Estado de Minas um artigo elogioso ao Avelino, na
esperança de arrancar-lhe algum. No dia seguinte à
saída do artigo, o Avelino foi ao jornal: Vim lhe
agradecer as boas palavras que o senhor disse a meu
respeito, mas quero lhe dizer, também, que o senhor
exagerou, eu não sou nada daquilo que o senhor disse
no jornal.

O jornalista: É sim, seu Avelino. O senhor é que é


muito modesto e não reconhece.

Qual o quê, Doutor. Eu conheço os meus


adjetivos.

Gostei da frase do Avelino e nunca a esqueci.

É muito raro uma pessoa reconhecer os seus


“adjetivos”, mas eu reconheço os meus.

Isto vem a propósito da resposta à sua carta.


Escrevi ontem e, quando terminei e reli, achei-a sem
graça e rasguei-a .

Sou como o Avelino, reconheço quando o que


escrevo está sem graça. Mas como você insiste na
resposta, vai aí:

A minha época na chácara da Gávea foi a mais


divertida possível. Lá havia de tudo: macumbeiros
fazendo macumba; criadas surrando umas às outras,
baile da criadagem na garagem, enfeitada de bambus e
folhagens.

A criadagem se reunia e dava, cada um, certa


quantia para as comedorias. Quem fazia os pastéis,
sanduíches, batidas e limonada eram as minha
empregadas, cozinheiras e a copeira. Elas arranjavam
na garagem uma grande mesa e enchiam-na. Nós
ficávamos, de nossa varanda, apreciando o baile. Era
engraçadíssima a gana do pessoal! Antes do baile
avançavam, todos, nas comedorias.

Ignez tinha como ama do Luiz Roberto uma moça


clara, de uns trinta anos, metida a importante e
ajuizada. Nunca se misturava aos empregados.

Num desses bailes, ela ficou da janela, vendo os


criados dançarem e eu verifiquei que ela estava com
inveja do pessoal. Perguntei-lhe: Por que você não vai,
também, dançar, Edite?

E ela: A senhora acha que eu posso me misturar


com eles?

Acho. Por que você não pode se misturar se você


é empregada como eles?

Ah! Se a senhora pensa assim, então eu vou.

Foi e se divertiu à grande!

Sabe de uma experiência que eu adquiri na


Gávea? Verifiquei que muitas vezes a gente se distrai
mais vendo os outros se distraírem.

As macumbas eram importantes e dispendiosas.


Numa das vezes, o macumbeiro levou um tiro na boca
e eu tive de telefonar para a assistência.

Quanto à sua pergunta a respeito do Pedro, quero


lhe contar do princípio a história dele.

Augusto Mário mandou fechar o laboratório do


Paulo, que estava dando prejuízo. Pedro era
empregado do laboratório e ficou sem colocação. Paulo
mandou-o para a chácara do Gávea, dizendo: Vocês o
puseram na rua sem emprego, agora ele terá de ficar
aqui na chácara e receber o mesmo ordenado que
recebia lá.

Mas o que farei com ele, já tenho tantos


empregados?

E o Paulo: Não precisa fazer nada, é só dar o


ordenado e deixá-lo andar pela casa.

Eu disse isso ao Pedro e ele respondeu-me:

_Já vi o que vou fazer. A tinta da casa está


precisando de reforma. Dê-me o dinheiro e eu vou à
cidade comprá-la. Trouxe a tinta e pintou a casa toda,
em pouco tempo.

Depois disso descoseu os sofás, as cortinas, tirou


os panos, lavou tudo e colocou de novo.

Foi indo num crescendo de atividade e habilidade


incríveis. Não havia nada que Pedro não fizesse. Fazia
malas, era carpinteiro, pedreiro, tudo, tudo.

Não sei se já lhe contei o caso dele copiar,


igualzinho, o Cristo de um bom pintor. Quando o
motorista encrencava o carro e o deixava na estrada,
chamava o Pedro para consertá-lo.

Eu, vendo que ele já havia terminado todos os


consertos da casa, resolvi colocá-lo como chofer.
Chamei-o e lhe disse:

_Pedro, eu estive pensando que você, que sempre


vive consertando o automóvel, poderia ser um bom
volante. Por que você não guia?

Ele:

_ Porque nunca encontrei um carro para eu


aprender.

_Então, vá aprender no meu. Tome a chave.

Ele foi no alto da Tijuca, exercitou durante uma


hora, voltou e entregou-me a chave, dizendo:

_Já sei guiar, se a senhora que ir à cidade,


podemos ir.

Fui com ele à Casa de Correção e continuei


andando, sem nunca haver atropelo.

Alice

Um domingo, Alice resolveu fazer um almoço


muito elegante e convidou várias amigas suas, de
Ignez e da Sarita. Sarita e eu voltamos da praia e esta
pediu-me que colocasse rolinhos nos seus cabelos e
fizesse um penteado bem bonito, para o almoço. Fiz
tudo direitinho. Sarita sempre foi tão bonita que
qualquer penteado lhe ficaria bem.

Quando chegamos para o almoço, onde, dentre


várias pessoas, estava a grande poeta Cecília Meireles,
amiga da Ignez, todos elogiaram a elegância de Sarita.

_E quem foi que fez o seu cabelo?, perguntou


Alice.

_Foi Verinha, disse Sarita.

Mais tarde, quando terminou o almoço, Alice


chamou-me num canto e disse:

_Olhe, minha filha, já descobri um jeito de você ficar rica. Vou comprar
uma bacia e um secador de cabelos para você fazer os cabelos da Sarita
e de todas as suas amigas. Você vai ganhar um dinheirão.

Nesta hora, fiquei um pouco desanimada. Então, o meu talento de


escritora era só aquele tiquinho?

Eu estava louca para melhorar de emprego, com um ordenado melhor, e


queria fazer concurso para Inspetora de Ensino do Ministério da
Educação, mas não havia concurso nenhum a ser feito.

Depois de muito pedir, consegui ser nomeada para


uma coisa completamente diferente: Técnica de
Seguros do Instituto de Seguros do Instituto de
Aposentadoria e Pensões dos Ferroviários e
Aeroviários ( Iapfesp).

Entrei em pânico. Eu não era técnica de coisa


alguma, como é que iria tomar posse?

Fui ao Augusto Mário pedir conselhos. Era um


homem extremamente culto, sábio. Foi excelente
jornalista, vivia no seu escritório lendo e estudando.

Ele me desanimou completamente:

_Minha filha, esse é um cargo da maior


importância, você não tem a menor competência para
ocupá-lo. Você teria de saber, corretamente, o alemão,
o inglês, o francês, corresponder-se constantemente
com a Bélgica, Alemanha e Suíça, onde existem os
melhores profissionais e escolas do ramo. Você terá
de fazer previsões de quantos operários poderão
morrer numa obra de determinado gabarito, quantos
aviões poderão cair a cada mil aviões que levantam
vôo.

_ Então eu fui nomeada suplente de Deus, disse-


lhe eu. Qual é o elemento humano, por mais culto que
seja, que tem condições de prever uma coisa dessas?
Nem aqui, nem na Alemanha, nem na China, admito
que possa haver. Esse cargo não deveria existir. Seria
o mais lógico.

Fui ao Ministério da Educação para saber onde


havia um curso destes para que eu pudesse fazer,
rápido. Não havia. Nunca existira um só registro de um
curso dessa natureza.

Cada vez eu me complicava mais.

Foi quando o Eduardo, filho da Sarita, que é


extremamente inteligente, raciocinou:

_Se nunca existiu o curso, ninguém é formado. Se


foram nomeados vários, vá lá e veja se alguém tomou
posse. Se tiver tomado, você toma também. Fui.

O prédio era um horror. Subi e procurei saber onde


era que eu deveria me apresentar.

Encontrei um senhor sentado diante de uma mesa


enorme, sem um só papel. Ao seu lado, outro senhor.
O tal, a quem eu tinha que me apresentar, tinha uma
cara muito estranha, de pessoa burra. Fui até ele,
estendendo-lhe o Diário Oficial.

_ Fui nomeada técnica de seguros e vim tomar


posse.

_ Mas... a senhora é técnica?

_Eu, não. O senhor é?

_ Não, mas sou o chefe dos técnicos.

_ Piorou muito, respondi.

O senhor que estava a seu lado soltou uma


gargalhada e o chefe dos técnicos ficou furioso.

Tomei posse e fiquei esperando qual o serviço que


me caberia para eu não fazer, por incompetência. Não
havia serviço nenhum.

Só quem trabalhava lá era uma tal de Teresa, que


não era técnica, nem bonita, mas tinha umas lindas
pernas. O chefe mandava que ela colocasse os
processos sobre um armário, parecendo um guarda-
roupa, só para ficar olhando as suas pernas, quando
ela subia no banco para apanhá-los.

Um dia, a Teresa faltou ao serviço e ele me


chamou e pediu que retirasse um processo sobre o
armário.
_ Não pego não, respondi. Eu sou técnica. Me dê
um serviço técnico e eu faço.

_ A senhora não vai saber fazer.

_E o senhor não vai saber me dar.

Pedi para ser aproveitada nalguma seção onde eu


pudesse encher o tempo, já estava exausta de ficar à
toa.

Mandaram-me para a seção de aposentadoria por


invalidez. O meu chefe era alto, bem moreno, olhos
verdes, camisa colorida, parecia um porta estandarte.
Mas era muito melhor que o anterior.

Comecei a folhear alguns processos e, já no


segundo, fiquei horrorizada: Num processo em que
viúva reclamava que o marido, havia quatro anos,
morrera de acidente numa construção e, até aquela
data, ela não recebido um só tostão de seguro, ele
havia despachado: continue aguardando.

Corri com o processo ao Departamento Jurídico,


para ver o que seria possível fazer pela coitada da
viúva. Encontrei um advogado atencioso que deu a
maior gargalhada quando leu o despacho. Dias, depois,
despachou o processo concedendo a pensão.

Fui fazendo o mesmo com vários processos, com


a ajuda do tal advogado. Um dia, o meu chefe pediu-
me que despachasse por ele.

Eu levava os processos para casa e pedia ao


Eduardo, que estudava Direito, para me ajudar.

Fazia tudo certo, num português correto, e o


bandido do meu chefe modificava algumas palavras,
para pior, e acrescentava, impreterivelmente, a palavra
outrossim.

Eu quase morria de ódio.

Fui à casa de Alice, contei tudo a ela e disse que


iria pedir demissão do emprego, não estava suportando
tanta burrice.

Ela:

_Verinha, você não pode ser louca ao ponto de


perder o emprego por causa de outrossim.

Fui ficando, agüentando a barra e despachando.


Até que certa manhã, ele falou outrossim.

Comecei a gritar:

_ Não, tudo tem um limite na vida: outrossim


falado e, pela manhã, é demais para os meus nervos!
Eu vou pedir demissão.

O meu chefe me olhava, horrorizado. Acho que ele


usava essa palavra até com a sua mulher, na cama,
tamanha a naturalidade e insistência com que a
pronunciava. Não tinha a menor idéia do porquê do
meu ataque de nervos.

Disse-me:

_ Dona Vera, a senhora está se sentindo mal?

_ Eu não me dou bem com as manhãs, acordo


nervosa, respondi.

_Então, de agora em diante, a senhora só venha à


tarde.

Fui direto para casa de Alice para contar-lhe e


ouvir as suas gargalhadas. Ela riu bastante e depois,
séria, me disse:

_ Verinha, você é a mais louca de toda a família.


Controle essa loucura, do contrário a sua vida vai ficar
difícil. Você não pode continuar nesse descontrole.

E contou-me um porção de histórias de pessoas


que engoliram sapos e lagartos para continuar no
emprego.

Meses depois, o cargo foi extinto, graças a Deus!

Na falta do que fazer, decidi entrar na roda de


biriba da Ignez, Yolanda, Sarita e um grupo de
desquitadas.

Um dia, uma delas me disse:

_ Vera, você é jovem, hoje é sábado, deveria estar


com uns amigos da sua idade se divertindo,
namorando, e fica aqui jogando biriba com esse bando
de mulher desquitada?

Eu respondi:

_ Pois é, vocês namoraram, noivaram, casaram,


desquitaram e chegaram à conclusão de que a melhor
coisa do mundo é jogar biriba. Resolvi economizar
meu sofrimento e vir direto para o biriba.

.................

Alice contou-me uma história deliciosa, que demonstra bem a diferença


de temperamento dela e do Augusto Mário:

Ela estava com ele, à noite, vendo televisão, na


biblioteca, e teve vontade de chupar uma manga.
Augusto Mário foi logo desanimando-a:

_ Mas, manga, Alice? A essa hora? Aqui em casa


nunca houve uma faca amolada. Você não vai
conseguir descascar a manga com as facas que
existem aqui. Mas, sendo você muito teimosa, vai
querer ir ao quintal amolar uma faca na pedra. Choveu
muito. Você vai escorregar, vai cair e se machucar e, a
essa hora, médico nenhum vem até a Lagoa Rodrigo
de Freitas para acudir alguém. Desista, Alice.

Ela desistiu.

Uma outra vez foi o caso do mel. Ela detestava


mel. Um dia, Augusto Mário trouxe-lhe uma garrafa de
mel e a colocou sobre o móvel da sala.

Quando ela viu a garrafa, foi tomar satisfação com


ele:

_ Você comprou o mel, mesmo sabendo que eu


detesto?

_Ainda detesta? Pensei que tivesse mudado de


idéia e já gostasse. Então, para que é que você está
criando abelhas?

_ Para jogar o mel fora, foi a resposta rápida de


Alice.

O Flávio, um de seus filhos, era muito inteligente e tinha também


tiradas incríveis. Ele tinha a mania de casar. Separava de uma mulher e
casava com outra. Ao todo, durante a vida, teve sete esposas.

No aniversário de Alice iam quase todas, que se


separavam do Flávio mas continuavam apaixonadas
pela sogra. Cada uma com o marido novo, e o Flávio,
muito irreverente, dizia:

_Puxa vida, só trombo em mulher minha, nesta


noite!

Num dos casamentos do Flávio, fomos todos


comemorar a mulher nova, o apartamento novo e os
móveis, idem. Tudo era lindo e a mulher encantadora.
Duas amigas nossas, muito viciadas no jogo de biriba,
após o jantar resolveram sentar-se numa poltrona e
jogar.

No dia seguinte o Flávio ligou para a Sarita, sua


irmã, e foi dizendo:

_Aconteceu um desastre, o meu sofá novo, onde


Yolanda e Conceição estavam jogando, amanheceu
furado de cigarro. Ou foi a Yolanda, que fuma, ou a
Conceição virou vagalume.

Num daqueles movimentados almoços em casa de


Alice, o assunto era a paixão do Felisberto, seu neto,
filho do Caio e da Elza, a que estivera lá em casa para
conhecer o amor.

Felisberto namorava uma moça bem mais velha do


que ele e, num elegante jantar, já de pileque, viu passar
uma mulata linda, nova, de belíssimo corpo e olhando
para ele. Acompanhou-a com o olhar e a namora, a seu
lado, viu e fez cara de desdém, murmurando:

_Uma mulatinha!

Ao que o Felisberto retrucou:

_É mulatinha mas não é recauchutada!.

Foi a conta. Levou o maior fora da história e caiu


de cama apaixonado e foi para a casa de Alice.

Alice fazia-lhe todas as vontades: dava-lhe


caldinho o dia inteiro, dizia que paixão dá um nó na
garganta e que apaixonado não podia comer coisas
sólidas porque engasgava. Que paixão é a maior
doença do mundo, que ele não podia tomar chuva, nem
vento, nem sol, que iria piorar. Com aquele apoio moral
de Alice, o Felisberto não ia mais ao trabalho, deixou a
barba crescer, o olhar entornado, olhava além das
pessoas, a coisa foi ficando séria e exigindo um basta.
Era a conversa do almoço. O Flávio, que se dizia
entendido em medicina, veio com esta de que, num
estudo profundo, havia chegado à conclusão de que a
vitamina D, misturada com a vitamina B-12 e K, curava
qualquer paixão, por mais forte que fosse.

Fomos à Farmácia, compramos as vitaminas e


demos ao Felisberto. Nada. O máximo que
conseguimos foi tirá-lo da cama e colocá-lo à mesa do
almoço.

A Elza, mãe, estava angustiada com o sofrimento


do filho. E disse que, naquela manhã, havia ido à
Igreja e colocado uma vela no altar para a namorada
voltar.

E o Flávio:

_ De que lado você botou a vela, do esquerdo ou


direito?

_Do esquerdo, disse a Elza.

_ Ah, então foi por isso que o remédio não deu


resultado. Lado esquerdo é para a namorada não voltar
nunca mais.

O olhar do Felisberto despencou, quase caiu ao


chão, de pânico.

Um dia, abateu-se sobre aquela casa feliz uma tristeza enorme. O Carlos
Alberto, filho da Ignez e do Abgar, morrera num acidente de automóvel
nos Estados Unidos. Ele era um rapaz forte, bonito, inteligente,
espirituoso. Onde estivesse, animava o ambiente. Vinte anos de idade.
Que pena!

Aquelas alegrias todas: vozes, risos, brincadeiras,


foram substituídas pelos suspiros. Passamos a escutar
até o badalar triste do carrilhão da sala. Nem tínhamos
reparado o quanto era triste o seu badalar. Ou será
porque, antes, a alegria não nos deixava escutar?

A casa transformou-se num velório. Visitas e mais


visitas, todo mundo suspirando.

A Ignez era a própria dor. Alice e Augusto Mário


ficaram mudos. Todos arrasados. Os outros dois filhos
da Ignez, Caio Márcio e Luiz, tristíssimos.

O Abgar, extraordinário poeta, fez um belo e


sentido poema. Um pequeno trecho:

“O que eu choro na sua ausência

não é a rosa do teu corpo jovem, abatida no


haste,

nem a tua alegria, que não mais verei:

doem-me os teus frutos, que, ao caíres,


esmagaste sobre ti;

amarga-me o quinhão de tempo e flor

arrebatado às tuas mãos de vida”.

.........................................

Aquela família passou a ser a minha âncora. Todos eram carinhosos


comigo: Alice, Augusto Mário, Paulo e Judith, Caio, Flávio, Sarita,
Ignez e Abgar. A Sarita, principalmente. Eu morava perto dela, só tinha
empregada duas vezes por semana e ela, preocupada com a minha
saúde, chamava-me para jantar quase todas as noites, durante a semana.
Aos sábados e domingos, normalmente, íamos para a casa de Alice.

Sarita era uma mulher linda, inteligente,


engraçada, bem humorada, um papo excelente. Onde
ela chegava, o ambiente virava festa. Extremamente
solidária, generosa, bondosa.

Eu sempre tive esperanças de que ela, com o seu talento, escrevesse


sobre a sua mãe. Sempre achei que as pessoas que haviam lido “Minha
Vida de Menina” teriam curiosidade de saber o que aconteceu, durante a
vida, com a menina Helena. E não havia ninguém mais competente para
contar esta história do que a Sarita. Escreve muitíssimo bem, é autora
do livro “ Contando Histórias”, que foi muito elogiado pela crítica e é,
realmente, muito bom.

Esperei que, depois desse livro, viesse aquele que


eu aguardava. Ainda espero.

Sarita achava todas as pessoas boas, tinha a


maior paciência com o ser humano.

Uma vez eu impliquei com uma amiga sua que era


burra, antipática, feia, orgulhosa e boba. Sarita deu-lhe
uma carona no carro e, pelo caminho, a mulher vinha
dizendo bobagens em série:

_ O meu maridinho, todas as manhãs, acorda me


fazendo carinho e perguntando de quem é essa
boquinha, esse narizinho.

Uma mulher de mais de quarenta anos, sem o


menor censo de ridículo, dizendo essas bobagens e a
Sarita ouvindo, sem se revoltar.

Na segunda idiotice eu pedi à Sarita que parasse o


carro, eu iria a pé mesmo, não me sentia obrigada a
ouvir aquela procissão de asneiras.

A Sarita ficou desorientada com o meu falatório e


quase atropelou um homem e, quando chegou à casa
de Alice, após ter despejado aquela idiota no final de
Copacabana, ainda levei a maior descompostura.

Sarita dizia à Alice:

_Mamãe, a Verinha está seriamente doente.


Precisamos conseguir para ela um psicanalista, com
urgência. A felicidade dos outros faz um mal tão grande
a ela que, só porque a minha amiga está feliz, casada
com um homem carinhoso, ela queria descer no meio
do caminho e quase me fez atropelar um homem.

Quando contei a Alice a quantidade de asneira que


a mulher havia dito, ela deu gostosas gargalhadas e me
deu total razão.
Sarita tinha dois filhos, um casal. A mais nova ,
Maria Alice, morreu aos oito anos, atropelada em frente
à casa de Alice, na Lagoa.

O outro é o Eduardo. Escritor, advogado, jornalista,


uma das pessoas mais inteligentes que eu conheço, pai
de três filhas lindas: Ana Cristina, Ana Maria e Ana
Luiza.

Sabia o quanto me sentiria sozinha sem essa


família, quando me mudei para Brasília. Quando,
durante um almoço, informei que estava disposta a vir
para cá, ninguém acreditou. Consideravam Brasília
uma loucura, um desterro, nunca podiam acreditar que
eu tivesse coragem mesmo de vir para cá. Houve todo
tipo de palpite. O Flávio achava que eu devia estar
apaixonada por algum engenheiro, ou deputado. Todos
concordaram que somente uma paixão me daria forças
para largar tudo e começar de novo, num lugar deserto,
sem amigos, sem programas, sem o calor humano que
sempre me fez falta.

Mas, infelizmente, não havia paixão nenhuma. O


que existia era a determinação de dar uma virada na
vida, de tentar outros caminhos num lugar novo, de
acompanhar o nascimento e o crescimento de uma
cidade, de ajudar, se me fosse possível, na
concretização do sonho do Juscelino.

O meu irmão, Celso, era deputado federal e eu vim


morar com ele.

Quando falei com Alice, em 1960, que havia


decidido morar em Brasília, ela tentou me desanimar.
Quando não teve mais nenhum argumento, saiu com
esta:

_Verinha, o que você irá fazer numa terra onde


não tem lagartixa?

_E o que eu iria fazer com lagartixa?

Aos domingos, na solidão do Planalto, ficava


imaginando o movimento e a alegria daquela casa e me
dava uma vontade enorme de voltar para o Rio.

À noite, ligava para Alice e ela me contava,


detalhadamente, o que eu havia perdido.

Até que, um dia, o Augusto Mário sofreu um


derrame e ficou com uma grande parte do corpo
paralisado.

Alice ficou arrasada. Aquele homem ágil,


inteligente, lúcido, culto, estudioso, ali parado, deitado
numa cama, sem ao menos ler um jornal. Ela sentou-se
numa poltrona num canto daquele quarto enorme e
lendo, tecendo tricô, crochê, fazia companhia ao seu
companheiro de toda a vida.

Escreveu-me esta carta:

Verinha querida,

Recebi sua carta e achei engraçado você, uma


moça solteira, estar lutando com a falta de
empregados.

É cedo, ainda, para isso. Largue o trabalho de casa e vá para qualquer


lugar procurar a sua metade.

Lembrei-me, agora, de uma conversa engraçada


da Esther. Ela diz que Deus, quando fez o mundo,
deixou laranjas partidas ao meio. Quando as duas
metades se encontram, o casamento é feliz. Mas como
ela não encontrou a sua metade, que já tinha
apodrecido, ela agarrou mesmo uma jaca e está
vivendo até hoje. Faça como ela, se não encontrar a
sua metade pegue mesmo uma jaca.

Eu acabando de ler sua carta lutando para criar os


filhos de seu irmão, tomei do jornal e, por acaso,
deparei com uma notícia interessante: Um casal de
americanos que se hospedou na casa de Maria do
Carmo Nabuco, veio aqui para se casar. O homem tem
76 anos e a mulher 79, mais velha de que ele 3 anos.
Ambos apaixonados, um pelo outro.

Ele contou que, ficando viuvo, saiu um dia para o


trabalho. Voltando à tarde ao apartamento, encontrou-o
todo florido. Sabendo depois que foi a noiva que tinha
arranjado as flores, resolveu pedi-la em casamento.

É assim que se conquista os homens, procurando


saber o que lhes agrada. Homem hoje está uma
mercadoria muito valorizada. De cem homens, se a
gente encontrar cinqüenta que queiram ou possam se
casar, é o mais. A maioria deles só procura moça rica.

Estou escrevendo assentada na cadeira que você


conhece e apreciando as artes de um pequeno que o
Amaro chamou na rua e mandou apanhar os cocos
maduros. O menino subiu até o último galho e, lá de
cima, vai atirando os cocos. Já pegou uns quinze.

Quando eu comprei este terreno não havia aqui


nem bananeiras. Eu plantei os coqueiros, manga,
abacate, fruta do conde, fruta pão, mamão, goiabeira,
laranja, grumichama e muita bananeira.

Este prazer de plantar e colher frutos se acabou,


com a mudança de casas para apartamentos, o que é
bem triste.

Sarita está nos convidando para morar com ela,


mas ainda não me decidi. Acho triste trocar casa por
apartamento.

Ando muito aborrecida com a idéia da mudança


de Ignez para Brasília. Não acredito que de lá ela
possa vir sempre, como vem agora de Belo Horizonte.
As passagens são muito mais caras.

Será que a vida, aí, anda enjoada como aqui?

A filha de Stalin deu uma entrevista no jornal que


saiu da Rússia porque não pode viver sem Deus. Será
que ela irá encontrá-Lo nos Estados Unidos?

Aqui, onde o povo só vive rezando, eu acho que


quem nos governa é Satanás. Deus anda aborrecido
com o Brasil, com tanta moça nua se exibindo na rua e
tanto homem furtando.

Eu nunca esperei ficar velha. Mas agora estou


convencida que vou até os cem anos.

Yolanda voltou para a vida enjoada com o


Guilherme. Ela não se queixa, mas a gente percebe
que ela não está feliz.

Os homens estão, como sempre, bem ruins. Mas,


felizmente, as mulheres estão lhe tomando a dianteira,
cada uma pior que a outra.

Se encontrar mil erros e tudo fora do lugar é


porque estou escrevendo sentada e já caducando
muito.

Sem mais, um saudoso abraço e um grande beijo


de

Alice

24-4-67

Respondi:
Alice, minha querida:

Coisa boa é receber uma carta sua. Tenho


vontade de conversar com muito pouca gente,
ultimamente. Só ouço bobagem misturada com idiotice
e chego a preferir voltar ao meu monólogo com as
crianças: Desça daí, não quebre a cabeça, cuidado
com isto, com aquilo, e vou emburrecendo também e
ficando igual aos outros.

Você diz, com simplicidade, as coisas mais


deliciosas. Esta da filha de Stalin sair procurando Deus
nos Estados Unidos foi genial! Só mesmo de você!

Deus deixou de ser um elemento espiritual para se


transformar num elemento geográfico. Em lugar das
criaturas se mergulharem em si mesmas, para
encontrar Deus, saem viajando pelo mundo, à sua
procura. E, logo nos Estados Unidos?

Por quê não na Índia, lugar de meditação?

Aqui está tão ruim quanto aí, sim. Recordo-me,


sempre, daquele amigo do Abgar que todas as noites
sentava-se na cama antes de adormecer, e se
queixava: tantos anos, tantos dias, tantos meses,
tantas horas e esta mesma porcaria!

E você ainda vem com essa bobagem de querer


que eu me case. Eu estou a fim é de simplificar a vida,
não complicá-la. Nasci sozinha e quero morrer só.
Quanto menos chateação, melhor. Imagina se ainda
vou me casar com um chato para aborrecer, mais
ainda, a minha vida e ainda ter filhos, como se a vida
fosse presente que se desse a alguém. Presente de
grego, eu acho. Nenhum horizonte, ameaças de todos
os lados, guerras atômicas pela frente e uma série de
chateações nos intervalos, é a isto que chamam vida?
E ainda estão nascendo crianças, isto é que me
espanta.

Eu também tenho plantado muitas árvores na


minha chácara. Cheguei à conclusão de que a única
coisa realmente importante e futurosa no nosso País é
plantar árvores. Pelo menos elas crescem, dão flores e
frutos e ninguém atrapalha.

Depois de uma série de empregadas loucas


consegui uma cuja única estranheza é gostar de vestir
bonecas. Faz vestidinhos o dia inteiro. Eu nunca achei
muito normais as pessoas que aceitam viver numa
cozinha de manhã à noite, fazendo comida para os
outros e lavando panelas. Acho um ideal tão raso que
só combina, mesmo, com loucos. A Consuelita é,
apenas, infantil. Além de vestir as bonecas ela gosta de
fazer biscoitos. É biscoito de toda a qualidade e gosto,
alguns uma delícia. E a criançada adora.

Acho que a Ignez gostaria de viver aqui, sim. Ela


gosta mais ou menos das mesmas coisas que eu
gosto: ler, conversar com pessoas inteligentes, ouvir
música, jogar um biriba e receber amigos. Tudo isso
existe aqui.

E você podia parar com essa mania de detestar


Brasília e vir para cá com ela. Você e Augusto Mário.

Vocês ficariam aqui em casa, comigo. Da janela,


você avistaria paisagens às pampas, árvores e
gramados a perder de vista. Seus coqueirinhos são
pinto perto do que existe aqui.

Plantaram árvores e mais árvores, de todas as


qualidades, para fazer companhia àquelas que já
existiam, secas, retorcidas, sofridas, e compensá-las
dos anos e anos de solidão.

E, da janela, só da janela, você terá a impressão


de viver num mundo florido, bom e justo. Os carros
correndo nas avenidas largas e lindas, as criaturas
atravessando parques, as crianças espalhadas,
brincando nos “play-ground”, onde existem brinquedos
de todas as espécies. Os prédios lindos, as tardes
maravilhosas, céu vermelho, vidraças vermelhas, lua
nascendo com força e clareando tudo, enfeitando o
lago, as árvores, as areias e os brinquedos das
crianças.

Fico, durante horas e horas na janela olhando,


ameaçada de virar estátua. E pensando o quanto o
nosso Juscelino foi capaz ao concretizar o seu sonho
de criar um cidade. E o quanto o nosso povo foi
competente, construindo Brasília em tão pouco tempo.

Você não me falou do Augusto Mário. Tenho uma


ternura enorme por ele. É exatamente a metade da
sua laranja. Pouquíssimas laranjas foram recuperadas
na Terra, inteiras. Vocês dois conseguiram esse
milagre.

Neste exato momento chegaram as crianças no meu quarto e estão


fazendo a maior algazarra. Uma delas está chorando. Já brigaram, com
certeza.

Voltarei a escrever e contarei umas novidades


daqui para provar a você que a loucura não é privilégio
daí.

Um beijo grande e carinhoso para você e Augusto


Mário. Abraços para a família e agregados.

Vera

12-5-67

Num dos meus telefonemas para saber notícias do


Augusto Mário, fiquei sabendo que o Nhonhô, irmão da
Alice, havia morrido e que Alice estava muito triste.

Mandei-lhe uma carta:

Alice, minha querida:

Sei o quanto você deve estar sofrendo com a


morte do seu irmão. Sei com que intensidade você ama
as pessoas do seu carinho e o vácuo que deve existir
na sua emoção, quando você perde uma delas.

Gostaria que o carinho da gente que a ama tanto


pudesse equilibrar, um pouco, este seu sofrimento.

Porque você, Alice, é uma das pessoas mais


bonitas que conheço. Foi o que encontrei na vida de
mais sensível, humano e generoso.

A humanidade está cada vez pior, concordo.

A salvação é que a gente consegue encontrar


criaturas como você, que justificam esta humanidade
tão cheia de ambição e tão sem grandeza.

Veja a atual situação do nosso Brasil.

Lembra-se do quanto você e Augusto Mário


sofreram, na ditadura do Getúlio, perseguições, exílios,
além do sofrimento de ver os amigos sendo presos,
torturados, separados de seus filhos?

Pois é. Está tudo igualzinho.

No Brasil, este problema de quartelada é cíclico.

A gente cria os filhos com o maior cuidado, como


você criou os seus e eu estou tentando criar os meus.
Quando eles ficam rapazes, lá vem quartelada de novo.
E todos os sentimentos de amor à pátria, dignidade,
bom caráter, lealdade, liberdade de pensamento, que
lhes ensinamos, fazem deles pessoas perigosas e ...
desce pancadaria sobre as suas cabeças.

Mas, se lhe déssemos orientação contrária, eles


não seriam visados, mas nós não iríamos suportá-los.

Fica difícil sonhar um futuro brilhante para eles,


num País tão pouco amadurecido como é o nosso.

Tenho pensado muito no Nhonhô. Ele me falava


de minha mãe com muito carinho e bondade.

Perdi a mamãe muito pequena, mas consegui


reencontrá-la, algumas vezes, em alguns olhares, em
alguns gestos. Em você, principalmente.

Morrer, para mim, não tem o sentido de acabar.


Quantas pessoas vivas morrem dentro de nós! E
quantas morreram e deixaram sementes tão bem
plantadas no nosso íntimo que, às vezes, não somos
senão reflexo do que elas foram, do que nos fizeram
ser.

Dê um beijo na Corina, outro na Maria Alice. Breve


lhes escreverei.

Espalhe beijos pela família: Sarita, Ignez, Abgar,


Iolanda, Augusto Mário.

Escreva-me. E não se esqueça de colocar o


endereço.

Afinal, nem eu sou tão grande, nem Brasília é tão


pequena.

Num beijo, toda a ternura de

Vera.
Verinha querida:

Recebi a sua boa e bonita carta.

Gostei de você ter se lembrado de meu querido


irmão.

Lembrei-me dele se referindo a você com simpatia.

Senti ele ter morrido antes de mim, eu o criei


desde pequeno e o queria como a um filho.

Graças a Deus, ele teve a morte que merecia,


morreu sem sofrer, sem sentir.

Eu não estou podendo, como você, me preocupar


com a situação do país. Vivo tão triste, preocupada,
vendo Augusto Mário há ano e meio, doente, sem
andar.

O que eu mais gostei de sua carta foi saber que


você vai recebendo bem a nova vida de mãe de três
filhos! Quando, meses atrás, nós conversávamos ao
telefone e você me disse que estava com três
sobrinhos, eu fiquei triste e com pena de você.

Mas, agora, vi pela sua carta que você está


levando bem a nova vida, apesar de trabalhosa. Antes
assim.

Só fiquei triste ao pensar que, agora, será mais


difícil a sua vinda aqui.

Não me conformo com esta Brasília, tão distante


que mais parece um deserto. Quando leio o jornal e
vejo o que escrevem contra o Juscelino, eu fico com
tanta pena dele que preciso me lembrar que ele fez
Brasília, para acabar a pena e me consolar.
Basta de tanta coisa triste.

Com um saudoso abraço de

Alice

Só agora entendo o que Alice quis dizer quando


me chamou a atenção para o fato de Brasília não ter
lagartixas. Brasília, no início, era uma cidade lisa, fria,
sem plantas, sem vegetação.

Agora, deitada na rede de minha varanda, rodeada


de plantas, samambaias e trepadeiras, vendo as telhas
envelhecidas cheias de lagartixas, entendo que tudo
isto significa lar, aconchego, amor, que ela sabia o
quanto me fariam falta.

Várias vezes fui ao Rio visitar Alice e Augusto


Mário.

Aquele homem culto, inteligente, afetuoso, que


vivia lendo no seu escritório, agora deitado naquela
cama, triste, quase sem se movimentar, dava uma
tristeza enorme na gente.

Alice não se afastava do quarto. Sentada no sofá,


lendo ou tecendo, não se separava do homem que
escolheu como companheiro e amou a vida inteira.
Quando Augusto Mário morreu, Alice foi para o
apartamento da Sarita.

Voltei ao Rio para vê-la.

Ela já não tinha mais entusiasmo para conversar.


Quando dizia alguma coisa, era sobre o Augusto Mário.
Não conheci, até hoje, alguém tão apaixonado.

Enquanto ela dormia, eu pensava:

Que mulher extraordinária! Que sorte eu tive de,


ainda jovem, quando vim para o Rio, encontrá-la. Eu
sozinha, solta na vida, sem rumo e sem prumo, com o
caráter ainda em formação, a personalidade, idem, sem
ter que prestar contas a ninguém dos meus atos, com
aquele sentimento de revolta por ter perdido a mãe
muito cedo, ter tido um pai pouco carinhoso e uma
madrasta doida, uma bagagem mais para uma descida,
um despencar na vida, do que para um equilíbrio, uma
subida, encontro esta fortaleza, esta admirável criatura
que me recebeu com um carinho que me era
totalmente desconhecido, estranho.

Acho que Alice transferiu para mim o amor que


sentia pela minha mãe. No primeiro abraço, percebi
isso. Ela me olhava, às vezes, buscando em mim a
amiga querida.

Eu nunca havia sentido uma admiração tão grande


por alguém. À medida que nos conhecíamos melhor, eu
a amava mais ainda. Nunca ouvi Alice falar mal de
qualquer pessoa.

Era profundamente amorosa, sem perder a


energia. A sua generosidade era discreta. Nada nela
era falso. Coerente, sensata, sóbria, solidária, franca.
Não dava muita importância ao fato de seu livro estar
sendo considerado best-seller em vários países do
mundo. O Abgar chegava com um artigo de um jornal
dos Estados Unidos, ou da França, ou da Itália, lia
para ouvirmos e ela não demonstrava o menor espanto,
nem grande alegria. Dava um sorriso e, pronto, já nos
chamava para almoçar.

Passei a creditar no ser humano e a ter


esperanças, quando conheci Alice. Pensei: Se existe,
realmente, uma criatura assim, o mundo não é tão ruim
quanto eu achava.

As palavras, os conselhos, a orientação, o carinho


com que transmitia os seus ensinamentos sem a
pretensão de estar impondo caminhos ou indicando
estradas. Dificuldade, sofrimento, tristeza ela conhecia
bastante. Ao contar, às vezes, estava pretendendo nos
ensinar como superá-los ou, no mínimo, sofrer com
menor intensidade. Não dizia: Você deve agir assim.
Apenas contava. Não desperdiçava palavras. Cada
frase que ela pronunciava, tinha um sentido. Cada
atitude, idem.

Uma amiga da Ignez, chamada Lurdes, ia muito à


sua casa e contava-lhe horrores do marido, que era
uma criatura péssima que a fazia sofrer muito. Quando
ele morreu de enfarte, por insistência da Ignez, Alice foi
visitá-la.

Quando abriu a porta do apartamento onde


estavam várias pessoas e a Lurdes veio ao seu
encontro, aos prantos, Alice foi dizendo:

_ Por quê este choro? Você devia estar feliz, ficou


livre daquele bandido que só a fazia sofrer. Eu não vim
para visita de pêsames, não. Vim comemorar.

Era assim, foi assim a vida inteira, desde menina.


Não fazia a menor concessão. Não abria uma brecha
para os sentimentos menores. Acho que ela
demonstrou isso desde menina, no seu diário. Só que
as criaturas que se dizem humanas vão se
deteriorando, durante a vida.

Alice, não.
..........................

Minha Vida de Menina

Em 1941 a família Brant morava num apartamento,


enquanto a sua casa estava sendo construída na
Lagoa Rodrigo de Freitas, perto do Corte Cantagalo
onde existe, hoje, o Edifício Helena Morley.

Alice detestava morar em apartamento.

Certa tarde de sábado, para distrair os filhos,


pegou dentre os seus guardados o diário que havia
escrito quando menina e resolveu ler para eles e para o
marido.

Todos escutavam encantados.


Ao final da leitura o marido Augusto Mário, sugeriu:

_ Por quê não publicamos esse diário? Muita gente


iria ter a oportunidade que estamos tendo de ouvir
histórias tão interessantes de uma menina inteligente
numa cidadezinha mineira, no final do século passado.

Alice não achou muita graça na idéia. Ignez, sua


filha, adorou.

Depois de muita discussão, Alice concordou em


transformar tudo aquilo num livro, desde que fosse com
pseudônimo, do contrário Diamantina inteira iria brigar
com ela.

Pensaram vários nomes. Alice preferiu Helena


porque achava um nome muito bonito. E o sobrenome
Morley, de sua avó materna.

Assim nasceu Helena Morley.

O livro foi lançado pela Livraria José Olympio em


1942.

Foi o maior sucesso. O Brasil inteiro comentava e


as edições se esgotavam, uma após outra.

No Jornal “A Manhã”, dia 19 de junho de 1943,


Gilberto Freyre escreveu um longo artigo sobre o livro e
dele retiramos o seguinte trecho:

“A narrativa é quase história natural; mas uma


história natural de que acabamos não sabendo separar
a história pessoal na menina chamada “Helena Morley”,
de tal modo nos habituarmos a vê-la, não só como uma
menina qualquer – um caso sociológico – mas com
seus característicos, seus cacoetes, suas sardas, na
variedade de situações sociais e psíquicas em que se
delicia em retratar-se no diário. Retratos sempre de
grupos; grupos de família, grupos de colegiais,
procissões até, das quais a autora do diário se destaca
sem que deixemos de ver sua mãe, sua avó, seu pai,
suas irmãs, suas tias, seus professores, as negras da
casa, as visitas.

Daí o interesse sociológico e histórico do diário de


menina brasileira agora publicado – mesmo que não
seja literalmente diário nem literalmente história. Como
a biografia do Barão Geraldo de Rezende por sua filha,
Dona Amelia de Rezende, esta quase auto-biografia de
menina mineira nascida ainda sob a influência social:
São Paulo, Minas, o Norte monocultor”.

No Jornal “Folha Carioca” de 29 de Abril de 1944,


Raquel de Queiroz escreveu uma bonita crônica e dela
retiramos o seguinte trecho:

“Se dona Helena Morley fosse mais pretensiosa


poderia dar ao seu livro um título mais ou menos assim:
“Retrato de uma cidade brasileira nos fins do século
XIX” – ou “Memórias do último período do
patriarcalismo escravocrata” (esse eu calquei numa
frase de Gilberto Freyre) ou qualquer coisa idêntica de
sabor sociológico e erudito. Porque esse diário de uma
menina representa na verdade um apanhado
maravilhoso dos costumes, das tradições, é um retrato
a bico de pena da cidade de Diamantina nos fins do
século passado, com seus tipos populares, suas festas,
seu pitoresco, seu primitivismo de localidade onde não
chegou ainda uma ponta de trilho, e está a meio século
de distância da primeira asa de avião”.

E Gustavo Capanema, numa carta à sua filha


Ignez, em 22 de maio de 1945:
Rio de Janeiro, 22 de maio de 1945

Minha cara Ignez,

Peço que dê a sua mãe uma informação.

Ontem aqui esteve para se despedir Georges


Bernanos, que, varrido pelo nazismo, morou quase sete
anos no Brasil e agora volta para a França.

Conversamos muita coisa: o após-guerra, o nosso


povo, De Gaulle, Euclides da Cunha, pintura, André
Gide ... Tendo eu dito que Gide é muito lido entre nós,
principalmente o jornal, Bernanos, numa súbita
associação de idéias, disse que um dos livros que já o
feriram é o de Helena Morley. Falou com veemência.
Guardo algumas: c’est une oeuvre géniale ... um livre
unique, impossible à traduire ... c’est um miracle,
comme lê miracle de Rimbaud ...

Falei essas coisas ao Abgar. Mas talvez não tenha


dito tudo. Depois, você é que é filha.

Tenho ouvido muito elogio ao livro de sua mãe.


Nada me parece tão forte como as palavras de
Bernanos.

Certamente elas hão de agradar ao seu coração.

Receba as cordiais expressões de amizade do seu


velho

Capanema

Em seguida, no dia 30 de maio de 1945, Alice


recebeu esta carta de Georges Bernanos:
Prezada Senhora:

Muito me emocionou a gentileza de enviardes a


mim o vosso livro, pois na verdade acredito que já
sabeis quanto o admiro e amo.

Escrevestes um desses livros raros em todas as


literaturas, livros que nada devem à experiência, ao
talento, mas tudo devem ao ingenium, ao gênio, pois
não se deve ter medo dessa palavra tantas vezes
desviada do seu significado, ao gênio considerado em
sua própria fonte, ao gênio da adolescência. É que aí
as recordações de uma simples menina de Minas
apresentam o mesmo problema que os fulgurantes
poemas de Rimbaud. Por mais prodigiosamente
diferentes que pareçam aos imbecis, sabemos que
essas recordações pertencem à mesma parte
misteriosa – mágica – da vida e da arte.

É provável que ignoreis o valor do que nos destes.


Eu, que o sinto tão profundamente, não saberia defini-
lo. Conseguis que nós vejamos e amemos tudo o que
vistes e amastes naqueles dias distantes, e cada vez
que fecho o vosso livro convenço-me de que o espírito
dessa narrativa me escapa. Mas que importa?

É bem emocionante que se diga que a menina que


fostes, bem como o pequeno universo em que ela
viveu, não morrerão nunca.

Peço-vos que aceiteis as minhas homenagens.

G. Bernanos
Paulo Mendes Campos escreveu num artigo em
que conta o seu pressentimento:

“Não sou profeta, mas “Minha Vida de Menina” há


de ficar na literatura como um desses clássicos
peculiares como os diários de Pepys, de Maria
Baskirtseff, de Anne Frank. Ao contrário da obra de
Lewis Carroll, aí se conta a história de uma menina em
um país de verdade. A composição do mural é tão
intuitivamente certa que espanta: as experiências se
desdobram e completam a pintura com uma
naturalidade admirável.

Tenho a pretensão de conhecer melhor Minas


Gerais e seu povo depois dessa leitura. Por outro lado,
li algumas passagens a uma garota de sete anos, e a
sua reação foi exigir um exemplar somente para ela. É
a grande doçura do livro: não tem idade. Por isso
mesmo, acho que o editor da obra andaria avisado se
fizesse publicar um volume ilustrado por um desenhista
capaz de traduzir o enternecimento (sem qualquer
pieguice) de “Minha Vida de Menina”. Já é tempo de
dar essa obra como um esplêndido presente, à infância
e à juventude.”

Guimarães Rosa escreveu-lhe esta cartinha:

Rio, 15 de julho de 1958.

À ilustre conterrânea e admirável escritora D. Alice


Brant, muito e vivamente agradeço o gentil,
oferecimento do “Minha Vida de Menina” – que já lera e
relera, em outra ocasião, com encantamento e amor,
considerando-o como um dos maiores livros brasileiros,
dos mais importantes.

E em grata e cordial homenagem beija-lhe as


mãos o

Guimarães
Rosa.

“... E, vinda de Minas Gerais, também surgiu a


extraordinária Helena Morley, com o seu “Minha Vida
de Menina”. Esse é um caso único na literatura
brasileira, e o seu comentário exige artigo à parte”.

“ Senhores do artifício e da invenção, romancistas


do retorcido e do complicado...vinde aprender uma
lição de clareza e de simplicidade. Porque este diário
de uma menina representa, na verdade, um apanhado
maravilhoso dos costumes, das tradições, é um retrato
a bico de pena da cidade de Diamantina nos fins do
século passado...Poucas vezes, em minha vida, tenho
percorrido uma obra impressa com tão integral
emoção”.

Rachel de Queiroz

“É uma biografia disfarçada, esta, de Helena


Morley, mas ao mesmo tempo é uma espécie de
história natural da vida da família brasileira no último
período do patriarcalismo escravocrata e numa região
menos conhecida que o nordeste da cana de açúcar.
Sob esse aspecto é que o diário de Helena Morley me
interessa mais vivamente”.
“Uma série de fatos, aparentemente sem
importância, são recordados num português tão
simples...que lembra o inglês dos bons e autênticos
diários britânicos e norte americanos de moças e
mulheres. E através dessa série de fatos miúdos e
quotidianos, mas significativos, o leitor se familiariza
com a menina-moça... e com o mundo quase completo
de sua experiência, de sua vida de família, de seu
desenvolvimento de colegial em normalista. Um
desenvolvimento a que não faltam situações
moderadamente dramáticas: a morte da avó querida,
por exemplo”

Gilberto Freyre

“ A leitura do livro confirmou minha expectativa,


fundada nos elogios que à obra tinham feito homens
como Bernanos. Como ele, sinto também que aquele
mundo de Diamantina não morrerá jamais. Sinto
igualmente que o centro daquele seu mundo é a figura
da avó; eis um dos mais fortes e impressionantes
retratos da nossa literatura”.

Manuel Bandeira

Uma poetisa norte-americana, distinguida com o


Prêmio Pulitzer (a maior laurea literária dos Estados
Unidos concedida a Hemingway, Thornton, Wilder e
outros de igual categoria), veio morar no Brasil.

Chamava-se Elizabeth Bishop.


Fixou sua residência em Petrópolis.

Amiga de Manuel Bandeira, pediu-lhe que lhe


indicasse alguns livros capazes de contribuir,
eficazmente, para a sua descoberta do Brasil

Um dos livros indicados pelo poeta foi “Minha Vida


de Menina” e Elizabeth Bishop ficou de tal maneira
encantada que resolveu traduzí-lo;

Foi a Diamantina e conheceu todos os lugares que


Alice percorreu na sua infância.

Traduziu o livro com enorme competência e


sensibilidade e o sucesso foi enorme.

Eis como o “Time” saudou “The Diary of Helena


Morley”.

“O Diário é cheio de graça, da beleza e de alguns


dos dissabores da vida de uma cidade provinciana”.

Em 1958, no “Diário de Notícias” Rubem Braga


escreveu esta crônica:

“Não me espanto desse livro estar em quarta


edição; se o brasileiro tivesse algum hábito de ler ele
devia estar na décima. É difícil imaginar um livro mais
macio, mais simples, mais engraçado e comovente, um
livro que seja assim capaz de agradar a qualquer
pessoa, seja qual for seu gosto em leituras. Se você
quiser dar um livro de presente, dê esse, porque dá
sempre certo: estou falando de “Minha Vida de Menina”
de Helena Morley. É o diário verdadeiro de uma menina
de Diamantina, no fim do século passado. A autora,
que na verdade é a senhora Alice Brant, ordenou os
cadernos em que fazia suas composições, na infância,
para mostrá-los às suas netas, e daí veio a idéia do
livro.

Já está ele traduzido para o inglês pela excelente


poetisa norte-americana Elizabeth Bishop, que vive no
Brasil; acho que a Divisão Cultural do Itamaraty devia
se interessar pela sua tradução em outras línguas, pois
é um comovente retrato da vida brasileira em certa
época e em certa região.

É um livro, como se costuma dizer, sem literatura;


chegará a ser arte o que não é elaborado, o que não
sofre nenhuma transposição? Mas aí é que está o
milagre da coisa. Muitas outras meninas viviam em
Diamantina no fim do século, e o professor de
português da Escola Normal obrigava as alunas a
fazerem uma composição quase todo dia. A realidade
era mais ou menos a mesma para todas. A
sensibilidade especial dessa menina, aliada a um jeito
natural para escrever, é que permitiu esse milagre de
nos trazer até hoje, e para sempre, viva, essa
Diamantina de mais de 60 anos atrás. E isso não é
arte? E qualquer escritor pode aprender muito aqui e
muito tem a invejar, principalmente esse casamento
perfeito da linguagem com o assunto. O português não
é sempre correto, do ponto de vista gramatical; é
corretíssimo, é magistral como expressão do tempo e
do meio, e merece todo um estudo de filosofia.

Como eu gostaria de ver esse livro ilustrado! Teria


de ser um desenho bem simples, sem nenhuma
pretensão, talvez Percy Lau ou Noêmia, em todo caso
o desenhista teria de ser documentado sobre
Diamantina e assessorado pela autora sobre as modas
do tempo e o jeito das pessoas. Faça isso para a quinta
edição, José Olímpio, e mesmo que encareça o livro
não tem importância, ele merece e vale.”

Rubem Braga
Tribuna da Imprensa, 8 de janeiro de 1958:

As evocações de uma menina


brasileira, no fim do século passado, no
município mineiro de Diamantina, estão
apaixonando, cada vez mais, o público norte-
americano, advertido por vários críticos
categorizados da existência, numa admirável
tradução inglesa, de uma obra realmente
encantadora, que guarda em suas páginas o
encanto mágico da infância.

A Sra. Alice Caldeira Brant, já cientificada


deste e de outros honrosos julgamentos, disse
à Tribuna da Imprensa:

- “Talvez os americanos tenham


gostado da simplicidade com que escrevi. É a
única explicação que encontro para tudo o que
está acontecendo.

- Trata-se de registros sentimentais


feitos por uma criança e sujeitos, por isso
mesmo, à volubilidade própria da infância.
Sempre que eu desejava criticar alguém, meu
pai me pedia para não fazer diante dele ou de
mamãe, ou mesmo diante de minhas amigas.
Mandava que eu escrevesse tudo,
desabafasse diante de uma folha de papel.
Anotando os dias, comecei o meu livro aos
treze anos de idade. Até a idade adulta,
continuei com o hábito. Devo dizer que jamais
tive a intenção de publicar coisa alguma. Mas
minha família insistiu, convenceu-me de que
eu era realmente uma escritora. O livro saiu
no Brasil e eu pensei que tudo tivesse
acabado aí. Mas sua história continua...”.

Julgamentos:

Uma nova edição de “The Diary of Helena Morley”,


pois as três anteriores se esgotaram, está sendo
providenciada pela editora norte-americana que lançou
a autora brasileira. Segundo o “Chicago Sunday
Tribune” “tem as raras qualidades da observação,
compreensão humana e o inato espírito de descrever
com simplicidade tudo o que viu e sentiu”.

E o “Globe Democrat” acentuou que ela “deu ao


seu Diário uma duradoura universalidade, um
sentimentalismo que rompe as fronteiras de sua
pequena cidade e elcança o mundo”.

O “Harper’s Bazaar” proclamou que, graças à


tradução de Elizabeth Bishop, Helena Morley “ mantém
as mesmas qualidades humanas que emergem das
páginas de seu Diário”.

No Jornal do Brasil, em 8 de julho de 1958,


Fernando Sabino escreveu:

“Não fosse o entusiasmo com que o receberam


uns poucos escritores de sensibilidade mais apurada,
por ocasião de seu lançamento, e o grito transbordante
de entusiasmo com que o saudaram Bernanos, então
vivendo entre nós, a considerá-lo obra de gênio, e
talvez não tivesse sobrevivido à onda de sucessos
transitórios que de vez em quando afoga nosso
mercado editorial. E ressurge agora, em mais uma
edição, depois de inesperado sucesso que foi seu
lançamento em inglês, constituído em best-seller e
saudado pelos melhores críticos americanos”.

Ainda em 1958, 2 de fevereiro, o Jornal do Brasil


publicou, na coluna do Nelson Coelho:

Caminha para o “Best Seller” o Diário da brasileira


Helena Morley.

Um fator da impressionante aceitação que o livro


vem tendo aqui, é por tratar-se de um diário de menina.
O tema está na moda. Vejam este trecho de Mildrea
Adams, no “New York Times”: “As anotações alegres
da jovem anglo-brasileira estão em tempo,
circunstâncias e geografia, alguns mundos distanciados
das revelações sombrias da alemã Anne Frank.
Embora ambas sejam, ostensivamente, produto de
adolescentes sensíveis. Tendo aceitado a tragédia da
realidade de Anne Frank, o leitor precisa agora
contrabalançá-la com essa nova afirmação de que a
juventude não é sempre torturada”.

Outro fator prende-se ao “exotismo” brasileiro.


Observem este trecho de uma crítica que saiu na capa
do “Book Review”, do “New York Herald Tribune” entre
duas grandes e boas fotos de Diamantina, sob o título
de “Menina Encantada, Diário Clássico”, observem o
desejo de imprimir ao cenário, costumes, às coisas, aos
homens, tons exóticos que lembram folhetos de
turismo: “Minas Gerais, maior que o Texas, foi cenário
de grandes comoções no século dezoito, quando
aventureiros para lá seguiram em busca de ouro e
diamante. São terras misteriosas e perdidas, quase
todas circundadas por montanhas e onde se
encontram pequenas e poucas cidades, fundadas nos
dias coloniais. De todas elas, Ouro Preto é a mais
interessante...” O critico, que é Hubert Herring,
prossegue falando das estranhas maravilhas de Ouro
Preto, de Aleijadinho, das igrejas barrocas e que
conclui que Diamantina é uma cidade pobre, como o
era em 1893, quando Helena Morley escreveu o seu
diário.

...........................

Em 1960 o livro já estava na sua sexta edição e, num


artigo no Suplemento feminino do “Estado de São
Paulo”, Bráulio Pedroso escreveu, dentre outras coisas:

“Na verdade o que há nesta obra, além de qualquer


comparação de época e costumes, é uma deliciosa
evocação do mundo infantil. As impressões da menina
provinciana de Diamantina ressurgem por vezes as
relações de uma sociedade menos complexa, de um
Brasil atrasado, sem as formas organizadas de
produção, onde permanecia – principalmente na região
evocada – um simpático aventureiro a jogar com as
dádivas da terra. Mas apesar destas diferenças – que
uma atualidade industrializadora exagera – não houve
modificações essenciais nos conflitos humanos. Ao se
rememorar os tempos passados como os melhores, há
apenas um saudosismo que sempre existiu nas
gerações mais velhas.

Não é pela simplicidade dos hábitos de Diamantina


dos fins do século passado – como promete a autora –
que a leitura de ”Minha Vida de Menina” nos seduz. O
encantamento está no retorno que empreendemos aos
nossos valores infantis, a nossa efabulação
descompromissada, no reviver os julgamentos que
precederam nosso encontro com a realidade adulta”.

“Gazeta de São Paulo”, 1/8/58:

Esta “obra prima”, como a classificou Georges


Bernanos, traduzida para o inglês pela poetisa
Elizabeth Bishop, conquistou o mais alto galardão para
as letras femininas do Brasil. Um livro escrito com as
tintas indeléveis da poesia e da ternura; um livro que
hoje se inclui entre os mais famosos diários jamais
escritos em quaisquer idiomas.

Com o lançamento da quarta edição de “Minha Vida


de Menina”, de Helena Morley, a Livraria José Olympio
Editora está reapresentando um dos grandes êxitos
brasileiros da literatura de memórias. Escrito sob a
forma de diário, o livro descreve a vida de uma
adolescente brasileira nos fins do século passado,
integrada no ambiente típico de uma cidade provinciana
da época - a cidade de Diamantina, no Estado de
Minas Gerais. Relato minucioso da existência
quotidiana numa cidade que conhecera os seus dias de
glória com a mineração de diamantes, “ Minha Vida de
Menina” é portanto um rico manancial de hábitos,
costumes e tradições populares e, sobretudo, o retrato
fiel de uma família brasileira há quase setenta anos
passados. Escrita com admirável simplicidade, graça e
emoção, esse diário constitui a mais autêntica
revelação de uma escritora.

Helena Morley deu à literatura brasileira o seu livro clássico no


gênero, que é ao mesmo tempo um extraordinário documento
sociológico. Precisamente o que mais sobressai nesse livro encantador é
o seu aspecto humano, o conteúdo psicológico, os retratos admiráveis
de homens e mulheres, crianças e adolescentes, que nos chegam do
fundo do passado cheios de autenticidade e de calor, mundo recriado
pela memória e por sua legítima vocação literária que não precisaria de
outras provas para garantir sua própria sobrevivência. “Um milagre,
como o de Rimbaud”, asseverou Bernanos: “ um dos mais fortes e
impressionantes retratos da nossa literatura”, escreveu Manuel
Bandeira.

Oscar Mendes, na sua coluna Alma dos Livros escreveu, em 1958:

“ O pai que lhe conhecia bem a vivacidade e a


inteligência, aconselhou-a a escrever diáriamente o que
visse e sentisse e a menina Helena Morley
( pseudônimo da Sra. Alice Brant), neta de inglês, com
treze anos de idade, começou a anotar em seus
cadernos de colegial os acontecimentos de sua vida
cotidiana, na cidade de Diamantina, aí pelos anos 1893
a 1895.

Quase meio século depois, aparecem em livro essas


anotações do dia a dia de uma adolescente. O livro,
pelo seu frescor e pelo seu viço, pela sua franqueza,
pela sua limpidez, pela sinceridade de seu depoimento,
pela veracidade da observação, pela ausência de
literatura reformante, pela veracidade da observação,
pela ausência da literatura deformante pela vida que
nele pulula e vibra torna-se um “best-seller”, na sua
quarta edição e arranca de escritores como Bernanos
frases assim: “obra genial, livro único, impossível de
traduzir, milagre, como o milagre de Rimbaud”, é
traduzido para o inglês e os críticos norte americanos
aclamam-no com entusiasmo.

Qual o segredo, qual a magia oculta que faz dessas


páginas escritas sem intenção de publicadas, uma
pequena obra prima de graça, de ingenuidade , de
emoção e de poesia? Nelas não há profundezas
psicológicas, precocidades geniais, requintes de forma,
acontecimentos importantes e sensacionais. Há
simplesmente a vida, a vida que flui, no seu
cotidianismo, mas a vida vista através da curiosidade e
da sensibilidade, da inteligência e do espírito de uma
adolescente num meio provinciano, em fins do século
passado”.

Mais adiante: “A vida que flui... eis o segredo da


graça e do sabor desse livro. A vida vista pelos olhos
de uma menina numa cidade do interior de Minas.
Menina viva, inteligente, perspicaz, que vai observando
os contrastes, as contradições, as complicações, os
absurdos, os enigmas, as desigualdades e as injustiças
da nossa decaída condição humana e dando opiniões,
apontando ridículos, concenando o que lhe parece
errado ou injusto. Nessas opiniões e comentários,
predomina a franqueza e há neles, por vezes, uma nota
de malícia, de ingênua desfaçatez dum sabor
delicioso”.

E termina o longo artigo:

“Onde está o resto de tão delicioso depoimento?


Existem outros cadernos? E se existem, por quê não
publicá-los? Por quê privar-nos de tão puro e
refrescante sorvo de vida? “.

Foram vários e vários artigos elogiando o livro e, de


todos, retiramos estes:

New York Times:

“ Encantador... uma notável evocação da


adolescência...um verdadeiro ato de gênio. Plyllis Mc
Grinly”.

“O Diário de Helena Morley, traduzido por Elizabeth


Bishop, um livro notável... um quadro
extraordinariamente detalhado e vívido do mundo de
uma pequena cidade visto pelo olhar jovem e agudo de
uma jovem que tinha grande entusiasmo pela vida em
todas as suas fases...Colocado de maneira deliciosa,
de modo vivo e articulado. Rosemary Benet”

Tribune- Chicago:

“Ela tinha os raros dons de um olhar perscrutador,


um coração compreensivo, e o gênio inato de uma
maneira inteiramente natural de escrever o que via e
sentia. Fanny Butcher”

Em 22 de junho de 1960, Maritônio Meira publicava


na sua Coluna no Jornal do Brasil:

“O livro Minha Vida de Menina, de Helena Morley –


pseudônimo da brasileira Alice Brant –foi publicado há
pouco em Paris e vem recebendo grandes elogios da
imprensa parisiense. A revista feminina Elle está
aconselhando a suas leitoras a leitura das páginas da
escritora brasileira, comprando-a a Anne Frank.

Quem nos dá essa informação é o repórter Luis


Edgard de Andrade, do JB, que está em Paris”.

PARIS (Via Panair) – Publicando uma seleção do


diário de Helena Morley, escrito em Diamantina – Minas
Gerais, entre 1893 e 1895, por D. Alice Dayrell Brant, a
revista feminina Elle aconselha a suas leitoras
francesas: “Leiam algumas páginas. Vocês serão
imediatamente conquistadas. A menina Helena se
tornará para vocês a irmãzinha de Marie Bashkerstaf e
de Anne Frank”.

A tradução francesa de Minha Vida de Menina, de


Helena Morley – feita pela Sra. Marlyse Meyer – acaba
de ser lançada, em Paris, pela editora Calmon-Levy (a
mesma casa que publicou, na França, o diário de Anne
Frank), e o seu prefácio é um fac-simile da carta que,
em 30 de maio de 1945, Georges Bernanos, então
exilado no Rio de Janeiro, dirigiu à sua autora.

O Jornal das Letras, em outubro de 1958,


informava:

O enorme sucesso de “Minha Vida de Menina” nos


Estados Unidos repete-se agora em maior escala na
Inglaterra. A versão inglesa do “Diário de Helena
Morley foi indicada para a “Escolha de Setembro”, pela
The Book Society, de Londres. A revista “THE
BOOKMAN”, que é o boletim da The Book Society,
publica em seu número de julho/agosto o seguinte
comentário a respeito de “Minha Vida de Menina” – cuja
4a. edição brasileira esgotou-se em dois meses,
estando já em preparo uma 5a. edição

Edições no exterior:
Edição Norte-Americana:

The Diary of Helena Morley”

A girlhood journal of life in a mountain town of


Brazil at the turn of the century.

Translated, edited and prefaced by Elizabeth


Bishop.

New York, Farrar, Strauss and Cudahy, 1957

Edição Inglesa:

The Diary of Helena Morley

Translated from the Portuguese by Elizabeth


Bishop

London, Victor Gollanck Ltda, 1958

Edição Portuguesa:

Introdução de Alexandre Eulálio

Lisboa, Guimarães Editores, 1959

Edição Francesa:

Journal D’Helena Morley


Traduit par Marlyse Meyer, avec une lettre de
George Bernanos. Paris, Calmann-Levy, 1960

Edição Italiana:

Uma Ragazza in Diamantina

Traduzione di Giuseppe Valdania e Giovanne


Visentin

Edirore Officine Grafiche – SEI, 1963

Alice morreu em 20 de junho de 1970.

Em 30 de agosto de 1980, Carlos Drummond de


Andrade escreveu essa belíssima crônica em sua
homenagem.

HELENA E ALICE NUM CENTENÁRIO

Missa no Mosteiro de São Bento, pelo centenário


de nascimento de Alice Dayrell Caldeira Brant. Entre
parênteses, no convite pelo jornal: Helena Morley. Está
dito tudo. Há cem anos nascia a autora de Minha Vida
de Menina, livro sem par na literatura brasileira.

Dispomos de outros registros da vida infantil,


assinados por pessoas que, chegando à idade madura,
se voltaram com nostalgia para que o poeta chamava
de “aurora da minha vida”. Nenhum desses
testemunhos, entretanto, oferece a singularidade que
torna o livro de Helena Morley incomparável: ele não
recompõe o passado, com maior ou menor fidelidade;
vive-o, respira-o, insere-se nele. Porque se resume na
seleção de notas de uma garota do interior, a quem o
professor recomendava que fizesse redações. Então a
garota foi registrando em cadernos o dia-a-dia familiar.
Muitos anos mais tarde, por inciativa do marido e de
uma filha, esses apontamentos foram publicados em
livro – e com isso ganhamos um texto que conquistou
para o Brasil o interesse e a simpatia de inúmeros
leitores estrangeiros, à frente dos quais um Georges
Bernanos e uma Elizabeth Bishop.

A espontaneidade da expressão é o primeiro trunfo


de Helena para conquistar leitores com que ela nunca
sonhou. Helena é simples, direta, alheia a literatura, e
só conta o que viu e sentiu. Em 24 de agosto de 1893,
chega em casa “tão diferente que Renato foi me
olhando e dizendo: Olha a cara dela! Luisinha que é
melhor mil vezes do que ele disse: Como você ficou
bonita, Helena! Quem te arranjou assim? Eu respondi:
foi Éster. Conversando com elas na pedreira eu disse
que sabia que era feia mas não me incomodava porque
mãe Tina me criou sabendo que o feio véve, o bonito
véve, todos vévem. Quando eu disse que era feia,
Éster exclamou: Você feia? Deixe-me arranja-la e você
verá. Consenti, ela pegou na tesoura e cortou-me o
topete, penteou-me, depois me pôs pó-de-arroz, e
quando eu olhei no espelho vi que não era feia. Elas
riram muito quando eu contei o nosso sistema aqui de
untar o cabelo com enxúdia de galinha até ficar bem
empastado. Ela me disse que lavasse os cabelos
depois anelasse e fosse lá para me pentear. Que bom
eu ter feito amizade com a família de dona Gabriela.
Elas são tão boas! Se não fossem elas eu nunca me
lembraria de cortar o topete e pentear os cabelos na
moda. Éster achou graça de eu lhe contar que mãe
Tina dizia que o bonito véve, o feio véve. Ela disse: É
verdade, mas o bonito véve melhor. Como estou hoje
feliz de ter ficado bonita!”
O livro todo é nessa toada, e precisamente porque
não pretende senão o exercício de escrever, numa
espécie de diário doméstico, atinge fundo na descrição
do ambiente da família brasileira modesta em zona de
mineração. Tudo está refletido aí: a pobreza, o sonho
de libertação das necessidades, o convívio social, a
despreocupação, a alegria, e a tristeza do viver,
sobretudo a alegria, pois a infância de Helena “tem o
gênio de rir de tudo”. Confissão: “Eu sou impaciente,
rebelde, respondona, passeadeira, incapaz de
obedecer e tudo o que quiserem que eu seja”. Mas é,
principalmente, dona de um espírito vivaz, bem-
humorado, que capta o aspecto grotesco das cenas e
das coisas e se diverte em passar em revista o
minimundo de Diamantina. Seu Broa, Siá Ritinha, Iaiá,
Madrinha Quequela, o professor Catãozinho, Tia
Madge, o ladrão misterioso que virou cupim, chichi
Bombom ... as figuras são reais, as lendas são
imaginação mística do povo. Só que Helena, cabecinha
crítica, não vai nessa história de ladrão que depois de
furtar, vira cupim. Por que não prendem o cupim? –
indaga. Pergunta que ainda hoje se pode fazer, sem
resposta: por que não descobrem, por que não
prendem os que praticam atentados terrorisstas, em
tantos lugares diferentes do Brasil?

Quase que eu ia fugindo ao meu assunto, que é o


centenário de Helena. Uma data de família que
assumiu aspecto de data literária nacional, pois repito,
Minha Vida de Menina (que José Olympio teve o faro
de identificar e lançar em 1942, hoje em 15a. edição, e
traduzido para o inglês, francês e italiano, além de
publicado igualmente em Portugal) é livro único na
galeria de memorialistas nacionais.

Menina de eterno viço, lembro-me de sua autora


na última quadra de sua existência: era a criatura
encantadora de sempre, com uma verve, uma
irreverência intelectual que se manifestava a todo
momento. Relembrarei o que ela me contou certa
ocasião:
Santo Antônio é o santo de minha antipatia.

Por que, dona Alice?

Eu era garota e apareceu lá em casa um


garimpeiro que preveniu mamãe: “Vim aqui para salvar
seu marido de fazer sociedade com seu Antonico. As
terras em que ele vai trabalhar não têm um tico de
diamante. “Mamãe respondeu: “Foi Santo Antônio que
mandou você aqui. Acabei de rezar uma novena a ele”.
Papai não fez sociedade, e os diamantes estrelaram na
bateia. Ficamos os únicos pobres da família. Viu o que
Santo Antônio fez com a gente?

Alice Brant e seu pseudônimo Helena Morley


formaram uma só pessoa rara, pela sensibilidade e
pelo talento.

http://www.verabrant.com.br/cronicas/Helena%20Morley.htm
18/02/2011 11:37:59