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LAURA INGALLS WILDER

À MARGEM DA LAGOA PRATEADA

Copyright, 1941, sobre o texto, by Laura Ingalls Wilder Copyright, 1953, sobre as ilustrações, by Garth Williams Capa e ilustrações de Garth Williams Direitos reservados para a língua portuguesa por DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA LTDA. Avenida Erasmo Braga, 255 – 8.° – Rio de Janeiro (GB) ZC-P

DA AUTORA Uma Casa na Floresta Uma Casa na Campina O Jovem Fazendeiro à Beira do Riacho  Margem da Lagoa Prateada O Longo Inverno Uma Pequena Cidade na Campina Anos Felizes

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Índice
1. Visita inesperada ...........................................................................................................................1 2. Crescida.........................................................................................................................................3 3. Viajando nas carruagens................................................................................................................5 4. Fim da linha...................................................................................................................................9 5. Acampamento da ferrovia............................................................................................................12 6. Os pôneis pretos...........................................................................................................................14 7. Começa o Oeste...........................................................................................................................18 8. Lagoa Prateada.............................................................................................................................22 9. Ladrões de cavalos.......................................................................................................................25 10. A tarde maravilhosa...................................................................................................................28 11. Dia de pagamento......................................................................................................................33 12. Asas sobre a Lagoa Prateada.....................................................................................................38 13. O acampamento é desfeito.........................................................................................................40 14. A casa dos agrimensores............................................................................................................44 15. O último homem a partir............................................................................................................47 16. Dias de inverno..........................................................................................................................50 17. Lobos na Lagoa Prateada...........................................................................................................51 18. Pa encontra a gleba....................................................................................................................53 19. Véspera de Natal........................................................................................................................55 20. A noite antes do Natal................................................................................................................58 21. Feliz Natal..................................................................................................................................60 22. Felizes dias de inverno...............................................................................................................64 23. No caminho do peregrino..........................................................................................................68 24. A corrida da primavera..............................................................................................................71 25. A aposta de Pa...........................................................................................................................74 26. A febre da construção................................................................................................................76 27. Vivendo na cidade.....................................................................................................................78 28. Dia de mudança.........................................................................................................................82 29. A cabana na gleba .....................................................................................................................85 30. Onde crescem violetas...............................................................................................................89 31. Mosquitos..................................................................................................................................92 32. As sombras do anoitecer............................................................................................................93

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Agora não conseguia ver nem a luz mais forte. Laura estava lavando a louça quando o velho Jack. – O que temos para o almoço? – perguntou a mãe. a vaca estava seca e as galinhas ainda não tinham iniciado a postura do verão. no caso de a mulher se demorar até lá. o pai tivera apenas duas fracas colheitas de trigo. referindo-se ao almoço com uma visita. no Oeste. à mãe: – O que é bom para nós também é bom para qualquer pessoa! O buggy parou e a desconhecida ficou sentada nele. precisava de um bom homem para encarregado do armazém. havia muito tempo. Depois da praga dos gafanhotos. Mary. E. Dócia! – Estava curiosa em saber se me reconheceria – observou a mulher. – É uma mulher desconhecida. um empreiteiro que trabalhava na nova estrada de ferro. cedo demais para haver vegetais na horta e. olhando para Laura e a mãe. Era primavera. Carolina. e Laura também. Charles – informou a Tia Dócia. que usara o vestido com botões que pareciam amoras. Traz um chapéu castanho e conduz um cavalo baio – disse Laura. de ouvido atento na direção do buggy. O seu bonito cabelo louro desaparecera. Vinha saber se o pai queria ir com ela. devagar: – Parece que poderei ganhar um bom ordenado e ao mesmo tempo procurar o tal lote. Laura sentiu-se envergonhada dos seus pés descalços. era o fato de que a febre ter se concentrado nos olhos de Mary e a ter deixado cega. No Riacho das Ameixeiras só restavam alguns peixes pequenos. Era uma bonita mulher. A mãe suspirou. mas menos de dia para dia. sem proferir uma palavra. 1 . Havia dois anos que queria ir para o Oeste e reservar uma gleba. Agora era uma senhora casada. Mas pior do que tudo. além do mais. Só dificilmente conseguira não se endividar. Não chorara ao longo das semanas e semanas em que ainda conseguia enxergar um pouco. O pai o cortara por causa da febre e a sua pobre cabeça raspada parecia a de um rapaz. não houvera ninguém para ajudar o pai e Laura. mas agora havia a conta do médico. A mãe continuava a não querer ir para o Oeste. mas continuava paciente e corajosa. na Grande Floresta do Wisconsin. O pai não gostava de uma região tão velha e explorada ao ponto de a caça escassear.1. – Aconteceram tantas coisas desde que vocês partiram do Wisconsin! Era a bela Tia Dócia. O seu marido. também tiveram a doença. que viviam do outro lado do ribeiro. rosnou avisando-a de que vinha alguém. Agora ela já conseguia se levantar. Disse. o que estava pensando. Mas a mãe estava tão fraca e Laura tão cansada que não se preocuparam excessivamente. Como os Nelsons. deitado ao sol no degrau da porta. Havia pão. Tinha vergonha da casa desarrumada. no Baile do Açúcar de Bordo na casa do Avô. Queria ir para o Oeste. mas a mãe não desejava abandonar a região já povoada. sozinha num buggy. muito pior. Carrie. O médico fora à casa todos os dias e o pai não sabia como pagaria a conta. do vestido sem graça e das tranças por fazer. embrulhada em mantas. Olhou ao redor da cozinha e para Carrie e Laura. Casara com um viúvo com dois filhos. Depois a mãe exclamou. – Quem poderá ser. A Tia Dócia conduzira o buggy sozinha do Wisconsin até ali e dali seguiria para os acampamentos da estrada de ferro no território de Dakota. vem aí uma mulher desconhecida. além disso. e esse emprego estava ao dispor do pai. guarda-livros e apontador. paradas à entrada da porta. a quem o pai dissera que deveria ser os olhos de Mary. mas não viam o que se passava à frente deles e Mary nunca mais poderia utilizá-los para dizer a Laura. o tio Hi. que tinha Grace ao colo. e até os coelhinhos de cauda branca foram tão caçados que rareavam. Mais nada. Laura foi ver e viu um buggy atravessando o vau pedregoso do Riacho das Ameixeiras. A tensão das faces magras do pai diminuiu e os seus olhos azuis iluminaram-se. Visita inesperada UMA MANHÃ. não havia dinheiro. Os seus olhos azuis ainda eram bonitos. Laura respondeu. melaço e batatas. a pequena Grace e a mãe tinham todas contraído escarlatina. – O ordenado é de cinquenta dólares por mês. devagar: – Oh. a esta hora da manhã? – perguntou a mãe. e sentar -se na velha cadeira de balanço de nogueira da mãe. com um bonito vestido castanho estampado e touca. – Ma – avisou -. em tom firme.

Não. eu só posso dizer que a aceitemos. que as pessoas viajavam de trem. – disse – Que acha. O Nelson prometeu levar as nossas coisas à estação e vocês irão todas de trem. serradas. pela simples razão de vivermos neles. A casinha de troncos mudara de dono diversas vezes e agora era um celeiro de milho.. Temos o sítio. – parece providencial. Pareceu passar muito tempo antes de a mãe responder. mas excitava-a. Carolina – rogou o pai. Carolina. – insistiu o pai. ou melhor. uns dois meses. o almoço estava pronto na casa varrida e arrumada. Até a Susana Negrinha. Laura sabia. – Como poderíamos ir agora? – perguntou a mãe. Se o tio Sam está disposto a dar-nos uma fazenda para substituir aquela de que nos expulsou. e praticamente não havia uma família em toda aquela região que não tivesse um gatinho seu. cinquenta dólares por mês. no Território Índio. Carolina? – Espero que seja para o melhor.– Não sei. por ela. deve decidir como achar melhor. Charles – murmurou. Agora já poderiam fazer uma casa de tábuas. considerando o modo como o Tio Henrique o poupara e estragara com mimos. Conheciam o seu rugido e o seu apito assustador e penetrante. e a terra é tão boa como esta. até que Mary esteja boa e forte. – Quando se quer. em dinheiro. se o condutor não conseguia detê-los. a Tia Ruby. Mary perguntou: – De trem? Nunca pensaram em viajar de trem.. Laura ficou tão agitada que nem conseguia fazer o trabalho da casa como devia ser. Vou falar com o Nelson. Eram todos bons caçadores de ratos. mas o avô dizia que bons e fortes troncos de carvalho davam melhores paredes do que tábuas finas. Laura. Carrie e a mãe fitaram-no. gorda e lustrosa dos ratos que apanhava. – parto amanhã de manhã com a Dócia e você fica aqui com as meninas. Continuava a viver no celeiro. Digamos. derrubava árvores e transportava-as no Mississipi. estavam arregalados e medrosos no seu rosto pequeno e pontiagudo. Laura desejava tanto ir que tinha dificuldade em manter-se calada. casara e tinha dois meninos e uma bonita menininha chamada Dolly Varden. Dócia! – o pai levantou-se e pôs o chapéu. – podemos obter oitenta hectares no Oeste. Nelson dava-lhe duzentos dólares. na sua grande casa de troncos. Charles – respondeu a mãe. 2 . a gata que Laura e Mary abandonaram ao partir da sua casinha na floresta. Charles. É pegar ou largar. O Hi precisa de um homem agora. Quando o pai voltou. – E terra para nos instalarmos. com a serenidade habitual: – Estou certa de que nos arranjaremos bem. imediatamente. – A Mary ainda não está suficientemente forte para viajar. tudo se arranja. Tenho tudo planejado – interrompeu-a o pai. de orelhas grandes e cauda comprida como a Susana Negrinha. mas era frequente haver desastres e morrer gente. mas nada convencia a gata a ir viver noutro lado. claro. O Avô e a Avó continuavam a viver no mesmo lugar. – Chega para pagarmos tudo quanto devemos e ainda sobra alguma coisa. foi dando notícias do Wisconsin: a irmã. O Tio Jorge era lenhador. – mas como. – Dê ouvidos à razão. A família do Tio Henrique estava toda bem e Charley revelou-se melhor do que prometera. e o pai estava jubiloso. A Tia Dócia ajudou-a e. – Espere que eu lhe digo. e perguntou à Tia Dócia: – O emprego não poderia esperar? – Não. esses. suavemente: – Bem. Os olhos de Carrie. Charles. com a Laura e a Carrie a ajudando-me.. – São cinquenta dólares por mês. – Aceito. – Isso é verdade – admitiu o pai. Os cavalos disparavam. Vendera o sítio. quando viam aproximar-se um trem. com grandes rolos de fumaça negra a sair da máquina e ficando para trás. Mas aqui estamos instalados. A mãe disse.. um homem pode ter toda a carne que quer. A caça é boa no Oeste. lá continuava ainda a viver. enquanto trabalhavam. Viram o trem passar velozmente pela campina. Não sabia dizer se a ideia a assustava.

deu uma 3 . – Pa. Jack. hein. Não sabia como explicar-lhe. Dormia ali desde que se mudaram para aquela casa. Jack – disse Laura. depois os das mandíbulas e agora já nem as orelhas eram castanhas. Que acha de viajar de carroção. lentamente. fatigado. Jack observou-a. mas serviria para a curta viagem. e ele compreendeu. – concordou o pai. ele ajudara-a sempre em todos os problemas. Atravessara rios a nado e guardara o carroção todas as noites. Laura afagou-lhe a cabeça grisalha e as orelhas e sentiu o quanto ele estava cansado. enquanto Laura dormia no seu interior. mostrara-se sempre ansioso e brincalhão quando via o pai por a cobertura no carroção. Jack era. ela esquecera-se. limitou-se a apoiar a cabeça em Laura e a meter o focinho debaixo da sua mão. na Grande Floresta. e de novo para ali. num canto do alpendre. nem mesmo no carroção. ele não aguentaria a viagem a pé. – Meu bom e velho Jack – disse-lhe Laura. Andavam todos tão atarefados que não reparavam no velho buldogue. – Não foi por querer. Jack encostou a cabeça a Laura e suspirou. contente por ela estar lhe fazendo a cama. pois Laura dormia no sótão e ele não podia subir a escada. olhe para o Jack – disse Laura. à noite. Jack olhava para tudo aquilo. Bastou aquele momento para ela compreender que o velho cão estava cansado. porque via o carroção pronto para viajar de novo e ele estava tão velho e cansado. para tomar conta dela. Por isso. Mas durante toda a tarde foi-lhe dizendo. Talvez durante todo esse tempo tivesse se sentido solitário e esquecido. Jack tomara conta dela quando era pequena e ajudara-a a tomar conta de Carrie quando esta era o bebê da família.2. tão cansado que não conseguiria percorrer todo o caminho até o território do Dakota debaixo do carroção. naquele momento. e percorrera trotando todo o caminho do Wisconsin para o Território Índio. da mãe e das irmãs. Laura fez uma espécie de ninho redondo e deu-lhe palmadinhas. Não pulava. Ocupara o seu lugar debaixo dele. Pa. Sempre que o pai se ausentara. agora. Parou. de cabeça inclinada e rindo. depois de lavada a louça e posta a mesa para o café da manhã. Mas. Primeiro tinham sido os do nariz. na manhã seguinte. Anteriormente. vamos para o Oeste! Não queres ir outra vez para o Oeste? Anteriormente. que teria de ser muito cedo. – Oh. Os seus pêlos tornaramse cinzentos. todas as noites. meu velho? Jack acenou uma vez com a cauda. pois o pai partiria cedo. A cama de Jack era uma velha manta de cavalo. Durante cinco anos dormira lá e Laura encarregara-se de arejar-lhe a cama e de mantê-la limpa e confortável. não podemos abandoná-lo! – Lá isso é verdade. à sombra do veículo e atrás das patas dos cavalos. mas o cobertor estava cheio de altos e baixos e grumos. Inclinou-se e afagou a cabeça do animal. mas a cauda não abanou e ele limitou-se a olhá-la tristemente. e fizera-o na relva debaixo do carroção. enquanto ela o sacudia e o dobrava de modo que ficasse confortável. Mas. sempre que podia: “bom cão. especialmente. Tinha o focinho tristemente franzido e o coto da cauda pendente. Sempre se compreenderam. para descansar as pernas rígidas e virou-se outra vez. adoeceram com escarlatina. que devia ir no carroção com o pai e deixá-la. pois agora sofria de reumatismo. Laura o viu parado entre a casa e o carroção. e depois a mãe. em virtude de haver tanto que fazer. Fizera-o quando era um jovem cãozinho. o cão de Laura. o Jack não pode andar uma distância tão grande! – exclamou Laura. como era seu costume. Ele tentara endireitá-la com as patas. Todas as manhãs. mostrando-lhe que estava pronta. a pedir-lhe que o afagasse devagarinho. Sentia-se perturbado. A Tia Dócia e Carrie ajudaram-no a carregar o carroção. Mudo o saco da ração para outro lado e arranjo lugar para ele. na porta dos fundos. Laura prestara menos atenção a Jack. mas não podia ajudá-la quando havia doença em casa. Sorriu e sacudiu o rabo. – Pa.” deu-lhe um bom jantar e. O pai colocou os arcos no velho carroção e estendeu a cobertura de lona por cima. Não pôde ficar muito tempo com ele. É uma coisa que os cães costumam fazer. aqui dentro. Laura ajoelhou-se e abraçou-o como costumava fazer quando era pequena. Não queria ir. Estava parado com as pernas hirtas. fez-lhe a cama. Jack sempre dava três voltas antes de se deitar para dormir. quando partiam. Jack ficara com Laura. Desde que Mary e Carrie. ultimamente. no trem. – Jack. mesmo quando tinha as patas doloridas de tanto andar. se alegrava com ela ao ver o sol nascer e os cavalos serem atrelados. Estivera sempre pronto para um novo dia de viagem. Talvez ele não compreendesse que ela ia depois. até que. delicadamente. estava muito gasta. enquanto Laura lavava e passava a ferro e cozia biscoitos especiais para a viagem. Jack. de súbito. – Tinha me esquecido dele. Jack entrou no ninho e andou uma vez em círculos. Crescida HAVIA muito que fazer. e desviou a cabeça.

faz-se e já se é crescida. Jack não estava ao lado de Laura. as levar em segurança para o Oeste. 4 . quando Laura desceu a escada à luz do candeeiro. para lhe tocar na mão com a ponta da língua. Queria dormir. Nunca mais meteria o focinho debaixo da mão de Laura. mas tinha quase treze anos e não tinha ninguém de quem pudesse depender. O pai e Jack partiram e a mãe precisava de ajuda para cuidar de Mary e das pequenas e de. e pensou que ele fora sempre muito bom. – Os bons cães têm a sua recompensa. E quantas vezes a ajudara a levar as vacas para o estábulo. com as orelhas espetadas e a boca a rir. atrás do buggy da Tia Dócia. suspirando. apanhar uma lebre. Agora só havia vazio onde das outras vezes houvera os olhos de Jack a lhe dizer que estava ali. Ela afagou o lugar entre as orelhas.terceira volta e deixou-se cair. Talvez conseguisse. o pai ia sair. De manhã. hirto e frio. se encontrava enroscado na manta. quando regressara a casa. Mas conservou a cabeça levantada. depois de terem partido todos para o Oeste. Quando tem de se fazer isso. Pa? – conseguiu Laura perguntar. – Sério. que já não era uma menina pequena. mas o cão não se mexeu. Laura. suspirou e fechou os olhos. o pai partiu no ruidoso e velho carroção. a pedir-lhe festas. como costumava correr nas bonitas campinas selvagens do território índio. Depois afundou o pescoço nas patas. e não afagara! – Não chore Laura – disse o pai. a vê-lo partir. no vau. O pai deitou pazadas de terra por cima da caixa e alisou o montinho. à noite! Como foram felizes a brincar ao longo de Riacho das Ameixeiras e na lagoa onde morara o velho caranguejo feroz! E quando ela andara na escola encontrara-o sempre à espera. junto da trilha que ele costumava descer tão alegremente quando ia buscar as vacas com Laura. – Bom Jack. em alguma alta campina. Jack andasse a correr alegremente ao vento. Agora estava só e tinha de olhar por si. Jack nunca mais aspiraria o ar da manhã nem saltaria por cima da relva baixa. – Ele foi para os felizes campos de caça. finalmente. Enterraram-no na encosta baixa que ficava acima do campo do trigo. Laura não era muito grande. Cresceria ali relva. Ela estivera sempre em segurança. Só o corpo de Jack. Tentara tantas vezes apanhar uma daquelas lebres de orelhas e patas compridas. nos felizes campos de caça. sem o conseguir! Nessa manhã. Laura compreendeu. bom cão – murmurou. onde os pelos eram mais finos. Talvez. então. Ele virou a cabeça. para tomar conta dela. para tratar dos animais. no tocante a lobos ou índios. Ela poderia tê-lo afagado tantas vezes sem ele pedir. porque Jack estava presente. Falou a Jack. fosse como fosse. a fim de olhar para Laura.

lavar e passar a ferro. não vai? – Virá ao nosso encontro – respondeu a mãe. O seu chapéu de palha de aba larga tinha uma fita azul. Passaram os últimos dias atarefados. como a mãe lhe dissera. 5 . não disse nada. Nunca se sabia o que podia acontecer quando se viajava de trem. de tomarem banho e vestirem–se. Por isso. satisfeita. Assim vai amarrotar todo o vestido. mas agora. –. ter se irritado com Mary. mentalmente. tinham passado.. corajosamente: – Talvez o Pa já tenha escolhido a nossa gleba. Por isso. estendidos à sua frente. apertou os pequenos fechos de aço. Os trens andavam mais depressa do que os cavalos. Laura disse. Uma pessoa nunca sabia o que podia lhe acontecer num trem. Viajando nas carruagens QUANDO chegou a altura. timidamente –. O vestido de Mary era de tecido cinzento com raminhos de flores azuis. com os pés metidos dentro de sapatinhos novos. e sentou-se ao lado de Carrie. Laura estendeu o pescoço para olhar para Carrie. em volta da copa. Carrie tinha realmente medo de viajar de trem. Carrie vestia um vestido cor-de-rosa e tinha fitas da mesma cor nas tranças castanhas e no chapéu. Laura não as perdia de vista. As duas malas grandes estavam na gare ensolarada. Dali a uma hora viajariam nos vagões do trem. Mary – disse a mãe. debaixo do chapéu. uma fita encarnada. e nós teremos de esperar por ele em Tracy. por Mary achar que não estava se comportando bem. mas Laura sabia. de súbito. Agora só lhes restava esperar. no seu vestido de lã fina com gola e punhos de renda branca! O seu chapéu de palha preta tinha uma aba estreita virada para cima e um raminho branco de lírios-do-vale espetado num dos lados da copa. Estavam em setembro e no céu corriam. Levantouse e ia a passar defronte da mãe sem dizer palavra. Não era como partirem todos juntos num carroção. mesmo sem ver! – Pois está. O cabelo pendia-lhe pelas costas em duas compridas tranças castanhas. em que o tempo fora ocupado a fazer malas. que estava sentada do outro lado de Mary. o Pa vai esperar-nos com certeza. Àquela hora. Os seus lindos olhos azuis não viam nada. terá de vir de carroção do acampamento. pequenas nuvens. Com licença. Era de tecido castanho salpicado de florzinhas encarnadas. e Mary sorriu. e Laura quase disse: “venha para o meu lado. Claro que nunca o confessaria. e aquela manhã estava muito bonita para viajar de carroção ao longo de estradas novas. fora da sala de espera. limpar.3. assim como a azáfama dos últimos momentos. e mexa-se à vontade!”. – Com licença. e a mãe respondeu esperar que sim. Laura alisou o vestido. Andavam tão terrivelmente depressa que às vezes havia desastres. atada à volta da cabeça. Limpas e com as melhores roupas bem engomadas na manhã de um dia de semana. nem a elas nem a Grace. A mãe meteu os bilhetes na carteira de madrepérola e. As semanas e os meses pareceram intermináveis. Viajar de trem custava dinheiro. O seu chapéu também tinha. – Ele chegará. Esta se sentiu mais segura entre Laura e Mary. de vestidinho e touca de fino tecido branco engomado. Carrie. Laura envergonhou-se de. esfregar. a mãe tirou o dinheiro da carteira e contou-o cuidadosamente. presas por um único laço de fita encarnada. e depois imagino eu. Para viajar de carroção nunca precisaram pagar nada. Ma. Ma? – insistiu Carrie. Corou tristemente. Mary – disse Laura. A mãe teve de lhe recordar: – Peça licença. Carrie. Sentou-se e passou Grace para o seu colo. sentaram-se ao lado umas das outras no banco da sala de espera. a Laura também está agitada! Sei que está. Grace estava imóvel. E. delicadamente. cuidadosamente. a casa e todas as encostas e todos os campos que conhecera tão bem ficariam para trás e nunca mais os veria. o seu pobre cabelo curto estava afastado da cara por uma fita azul. apressadas. Estava tão bonita. Mas isso não a impediu de dizer: – Fique quieta. enquanto a mãe comprava os bilhetes. todas as meninas estavam na escola e veriam o trem passar ruidosamente e saberiam que Laura viajava nele. – Ma – perguntou Carrie. Carrie. Laura. Pequenina e magra.. Foram uma hora mais cedo para terem a certeza de que não perderiam o trem. No guichê dos bilhetes. Ele chegará antes de ser noite. Mas nesse momento o rosto de Mary iluminou-se de alegria e ela disse: – Ma. Laura teve dificuldade em acreditar que fosse verdade. o que levará um dia inteiro. Imagina como será. Riacho das Ameixeiras.

na gare. A máquina apitou e deram ambas um pulo. para ver a mãe. logo atrás da saia da mãe. O lugar era fofo e Laura teve vontade de saltar nele. O pior terminou: o trem não as atingiu: passou. café-com-pão”–. Laura conduziu ansiosamente Mary. – Está andando! – gritou Carrie. desfilavam pastagens. – Que é. Laura fez Mary parar. campos e casas de lavoura e celeiros. Agora se sente e. O monstro rugidor avançou direito a elas. por elas. passando as pontas dos dedos pelo banco. 6 .. – Você e a Mary tenham cuidado! – Sim. Segredou: – Mary. a chaminé subia e alargava. a lançar golfadas de fumaça preta. mas conteve-se. A serraria. enorme. Ma? – perguntou Carrie. um fio telegráfico. Laura não sabia como meteriam as malas no trem. Mary disse parecer-lhe que o ouvia. do fim do trem. Ma. Por fim. Laura? – perguntou a mãe. – Quem é ele. a estação ficou para trás e as rodas do trem começaram a mover-se. A mãe sentou-se numa das poltronas de veludo e ajeitou Grace no colo. de terno escuro e boné. A janela redonda da frente da máquina brilhou ao sol como um olho enorme. mas pareceu fazê-lo porque estava preso entre os postes. subiu através do fumaça uma golfada branca e depois o apito soltou uma espécie de grito longo e penetrante. para a qual se subia por meio de degraus. venha atrás de mim com a Mary. Um desconhecido. as poltronas são de veludo vermelho! – Sim. Não subiu e desceu. Choques e entrechoques percorreram toda a extensão dos vagões de carga e dos vagões-plataformas. O queixo de Laura bateu com força nas costas da poltrona e o chapéu escorregou-lhe da cabeça. O trem chegara e elas tinham de embarcar. – Venham. um passo de cada vez. o vagão era quase tão claro como se estivessem no exterior e raios de sol atravessavam obliquamente as pessoas e o veludo vermelho. Estava muito calma e muito bonita no seu vestido escuro com gola de renda branca e com as lindas florzinhas brancas no chapéu.. Depois perguntou: – Aquelas malas são suas. Encontrava-se preso a uma espécie de maçanetas de vidro verde que brilhavam ao sol e escureciam quando os rolos de fumaça passavam por cima deles. O trem deu um solavanco que empurrou a mãe para trás. também de veludo vermelho. Todo o trem oscilava no compasso do movimento das rodas e a fumaça preta passava pelas janelas. e abriu a porta do vagão com o ombro. Nisto. ruidoso. O seu coração começou a bater tão depressa que mal ouviu a mãe. Quando a saia parou. Mas tem cuidado! O trem aproximava-se e já se ouvia melhor. vivamente. os fundos da igreja e a frente da escola também ficaram para trás e não se viu mais nada daquela cidade. que pareceu subir e descer. A mãe levantou-se com Grace ao colo e com a outra mão apertou bem a de Carrie. estou vendo – respondeu Mary. Chegaram à última carruagem. As laterais do vagão eram quase totalmente compostas por janelas. – Upa! – exclamou. Para lá do fio. e levantou Carrie no ar e colocou-a ao lado da mãe. cheios de gente. a fazer tremer tudo com o seu barulho. O trem preparava-se para partir. com as malas. Laura e Mary. realmente. através das tábuas da gare. você e Mary sentem-se nesse banco à minha frente. cada vez maior. senhora? – Sim. e o trem começou a estremecer e a estação dava a impressão de que andava para trás. – Laura! – disse a mãe. ritmadamente: “Café-com-pão. com as suas grandes rodas. Pararam junto das malas. e viram-no chegar.Não podiam conversar muito bem. Seguiram-no entre duas filas de poltronas de veludo vermelho. A mãe tinha as duas mãos ocupadas e Laura tinha de segurar Mary. O estremecimento tornou-se mais rápido e mais ruidoso. Novo solavanco. enquanto Laura ajudava Mary a subir os degraus. menos violento. Viram surgir e desaparecer. – Que temos à nossa frente? – São as costas de outra poltrona. por favor – respondeu a mãe. em rolos que se desintegravam. Laura ajoelhou-se no lugar. – Laura. Laura conduziu Mary para o banco e sentaram-se. pois devia comportar-se convenientemente. do lado de fora da janela. O homem passou-lhes alegremente pela frente. ajudou a mãe a subir com Grace ao colo. – Quem era aquele homem? – Era o ajudante do condutor. cada vez mais depressa. pois estavam sempre à espera e à escuta do trem. até pararem. Estavam comprimidas num espaço reduzido. Disse a Carrie que se sentasse a seu lado e acrescentou: – Laura. Depois Laura ouviu como que um zumbido tênue e distante.

depois de beber. Upa! Dois. Bastalhe girar a manivela e a água sai. a caminho. um berrantíssimo chapéu de veludo escarlate com rosas cor-de-rosa. Agora está bebendo e seu pomo-de-adão sobe e desce. Abriu pequenos buraquinhos redondos nos bilhetes. Mary. A porta abriu-se e entrou um homem alto. por isso. Upa! Três! É assim. Pôs-se. – Cada janela é uma grande chapa de vidro e até as tábuas de madeira entre elas brilham como vidro. – O sol entra obliquamente pelas janelas do lado sul. encheu a caneca apenas parcialmente e levou-o à mãe.Iam tão depressa que Laura praticamente não tinha tempo de ver essas coisas. destinado a esgotar qualquer água que entornasse. e apalpou o vidro e passou as pontas dos dedos pela madeira brilhante. sinto-o – disse Mary. com esta rapidez. tem tantos botões de latão brilhantes no casaco! E na frente do boné lê-se: condutor! – E é alto – observou Mary. Girou a manivela em sentido contrário e a água deixou de correr. Do lado de fora das janelas grandes. ninguém desconfiava de que nunca pusera. Com certeza. Era capaz de andar quase tão bem quanto o condutor. tentava ser os olhos da irmã e raramente Mary precisava de lhe pedir: “veja em voz alta para mim. Não conseguiu caminhar reto. Debaixo da caneca havia um pequeno buraco.. e a mãe e Mary não tinham sede. através das quais se vê o céu azul. as quais ora se estendem. Nesse momento passou alguém e Laura levantou a cabeça.. que mal surgiam logo desapareciam. com uma máquina que tinha na mão. os pés num trem. por favor. Mais adiante vão dois homens novos. – Sim. Laura tomou uma decisão: perguntou à mãe se podia ir beber água e a mãe disse que sim. 7 . Pergunto a mim mesma. Na terrível manhã em que Mary deixara de ver o sol a bater-lhe em cheio nos olhos. Laura tentou explicar à irmã a que velocidade desfilavam os postes telegráficos: – O fio balança entre eles e depois sobe. Mary. Parou em todos os lugares e pediu os bilhetes. anteriormente. contente. pois. – prosseguiu Laura. muito próximas umas das outras. Seguram um grande mapa branco. Tem as mãos ásperas e calejadas. o pai dissera que Laura deveria ver por ela: “os teus dois olhos e a tua língua são muito rápidos. de ambos os lados. Mas chegou ao fim do vagão e olhou para a reluzente manivela. mas desta vez Laura não precisou tocar em nenhum banco... Como acha que. A mãe entregou-lhe três bilhetes: Carrie e Grace eram tão pequeninas que podiam viajar no trem sem pagar.. Depois prosseguiu: – Passou mesmo agora um homem magro.. – À nossa frente vai uma cabeça com uma careca em cima e com suíças. ao passar. – A sua voz soou lá muito de cima. de sobrancelhas farfalhudas. no fundo do vagão. à volta das casas. ora se retraem. e ao longo de todo o meio do teto há um lugar mais alto. para a torneira e para a prateleira que ficava por baixo e onde se encontrava a brilhante caneca de folha. poderás usá-los para a Mary. está girando uma pequena manivela. Era tudo tão perfeito e maravilhoso que teve vontade de encher e tornar a encher a caneca. – Eu percebo que é rápido. Entretanto. repor a caneca no seu lugar. Também batem no chão pontas de sol. Mas seria um desperdício de água. Laura foi. ainda. Mary! Pôs a caneca numa prateleirinha e vem aí de novo. compridas e baixas. O movimento do trem obrigou-a a oscilar e a agarrar-se às costas das poltronas. durante todo o caminho. Usava um terno azul com botões de latão e um boné onde se lia: “condutor”.. o trem ia avançando velozmente e a região ficando para trás. de tão polidas.. em pequenos maciços. e fez sair água! A água cai direitinho numa caneca de folha. Girou a manivela só um bocadinho e saiu água pela torneira. com muito cuidado. feito de paredes pequenas de janelinhas minúsculas. Está outra vez enchendo a caneca.” E Laura prometera que o faria. rápida. Carrie e Grace beberam e não quiseram mais. sinal de que são bons trabalhadores. O condutor seguiu e Laura disse. em faixas largas que se refletem nos lugares de veludo vermelho e nas pessoas. a madeira reluzente encurva a partir das paredes de ambos os lados. Oh. O trem vai tão depressa que ele não consegue caminhar direito. a região desfila. oh. Numa hora. Por isso.. – e contou-os: – Um. Laura. Creio que também vão reservar um lote de terreno. Por isso. há medas de feno junto dos estábulos e arvorezinhas amarelas e vermelhas. O homem lê um jornal e não olha pelas janelas.. Mary. eu vejo – disse Mary. Os campos de feno estão amarelos. bigode comprido e pomo-deadão. Depois de o homem passar. olham para ele e falam a seu respeito. em voz baixa: – Oh. Por cima das janelas. “Agora vou ver as pessoas – continuou Laura a murmurar.” – Ambos os lados do vagão têm janelas. Laura nunca vira nada tão fascinante. Mais adiante. O vagão continuava balançando. vai uma mulher de cabelo muito loiro e. de chapéu na cabeça. o trem percorreria mais de trinta quilômetros – tanto quanto os cavalos num dia inteiro.

por fim. Ma – lembrou-lhe Carrie. Quando chegou junto de Laura. Resolveram comer um e guardar o outro para o dia seguinte. 8 . ruidosa e demoradamente.Depois passou um rapaz no corredor com um cesto no braço. O rapaz mostrou as guloseimas à mãe e ofereceu: – Deliciosos confeitos. e depois Carrie foi para o banco de Mary e Laura e repartiu o restante. Depois pegou a caixa e deu-a a Carrie. Estavam só olhando. também mais devagar. Quando o rapaz se afastou. – Só dez centavos. a mãe disse. mas. Laura resolveu provar o segundo. sem que ela se apercebesse. Grace dormia e a mãe disse que os bebês não deviam comer doces. também. Era meio-dia e tinham chegado a Tracy. pouco a pouco. mas o rapaz abriu uma caixa e mostrou os confeitos coloridos. Chuparam-nos todos. A mãe respondeu. Parava e mostrava o cesto a toda a gente e algumas pessoas tiravam certas coisas e davam-lhe dinheiro em troca. devemos celebrar a nossa primeira viagem de trem. algum tempo depois de comido o primeiro. – Espero que não tenham perdido o apetite para o almoço com os confeitos – observou a mãe. O rapaz sacudiu um bocadinho a caixa. você e Mary tenham cuidado. senhora – insistiu o rapaz. a mãe abriu a bolsa e tirou duas moedas que colocou nas mãos do rapaz. distraída: – Vamos almoçar no hotel. Depois a carruagem começou a andar mais devagar e os fundos das cabanas do caminho foram ficando para trás. Couberam dois confeitos a cada uma. Depois Carrie provou o dela e. também. para si. Tirou só um pequenininho. Ainda estavam a lamber os dedos quando a máquina apitou. mas sem derrubar os confeitos. – Nós não trouxemos almoço. ela viu que o cesto estava cheio de caixas de confeitos e de compridos paus de alcaçuz. Mary cedeu. uns vermelhos. Laura. sabiam que não podiam ter aquela guloseima. senhora? Alcaçuz? A mãe abanou a cabeça. a justificar-se por ter gasto tanto: – No final das contas. As pessoas começaram a reunir as suas coisas e a pôr os chapéus. Laura e Carrie. Eram belos confeitos de Natal. porém. De súbito. ouviu-se um grande estrondo e o trem parou. A respiração de Carrie produziu um som sibilante. outros amarelos e alguns com listras vermelhas e brancas.

senhora. ela não queria que ele fosse diferente do que era. O ajudante do condutor. em sentido contrário. – Parece tudo tão grosseiro – insistiu Mary. ao lado da do trem. o que se vê é o mesmo que se ouve? – perguntou Mary. O maquinista. na calçada. para lá da estação. – Oh. e as dormentes de madeira. 9 . Laura. Por momentos. mas noutra linha. ali no chão. Mas. desta vez com a frente da máquina virada para trás. entre os trilhos. Agora. Carrie estava boquiaberta de espanto. embaraçado. A sineta do almoço está tocando. Debaixo do letreiro. fizeram uma viagem que de outro modo duraria uma semana inteira e Laura vira a locomotiva virar-se (para percorrer o mesmo caminho. capazes de conduzir as grandes locomotivas de ferro e os trens velozes e perigosos. debruçou-se da máquina. – O aspecto não é mau. Chocou com a retaguarda do trem. e com ele outros homens. Laura estava tão estupefata que nem sabia explicar a Mary o que se passava. Oh. – Chegamos à porta do hotel – disse-lhe Laura. claro. para ela poder levar o trem em sentido inverso. disse muito depressa: – É melhor apressarmo-nos. O hotel ficava ao fundo de uma pequena rua. depois de alguns armazéns e terrenos desocupados. até as extremidades dos trilhos se ajustarem de novo. Não havia nada tão maravilhoso como os trens e os ferroviários eram grandes homens. Havia uma comprida composição de vagões de carga noutra via. bump!. quase desejou que o pai fosse ferroviário. a máquina recuou e. na realidade. numa única tarde). Alguns gritaram e um homem novo e forte começou a cantar o hino preferido da mãe. Fim da linha O PAI não estava naquela estação desconhecida. O ajudante do condutor ajudou a desengatar a máquina do trem. A distância que percorreu foi curta. deram uma volta completa. O ajudante do condutor colocou as malas na gare e ofereceu: – Se a senhora esperar um momento. afirmava.4. um homem agitava uma sineta manual. anunciava: “hotel”. A sineta não parava de tocar e as botas dos homens faziam um barulho sincopado na rua poeirenta e na calçada de tábuas. Em seguida parou e Laura não pôde acreditar no que via. fugazes momentos. pararam todos e saltaram dos carroções. – Não – respondeu-lhe a irmã. mas Laura nem pensara nisso. tinha de ser mesmo assim. o trem e a máquina estavam voltados para leste. a fazer puf! Puf! E chug! Chug! Enquanto a sineta tocava. Compreendia agora o que o pai queria dizer quando falava dos tempos maravilhosos que estavam vivendo. A mãe seguiu calmamente o seu caminho. todo vermelho e mascarrado de fuligem. A máquina avançou sozinha. A sineta tocou. Trata-se apenas de uma cidade e eles são apenas homens. A máquina voltou ao puf! Puf! Chug! Chug. Como aqui é o fim da linha. quando viram a mãe e se calaram. temos de virar a máquina ao contrário. homens gritaram e fizeram gestos com os braços. Nunca existiram tais maravilhas na história do mundo. Os trilhos de aço. mas com palavras diferentes: Há uma pensão Não muito longe Onde servem presunto com ovos Três vezes por dia. Descreveram um círculo. numa manhã. Passou pelo trem e ultrapassou-o um bocadinho. como os pensionistas gritam Quando ouvem a sineta do almoço! Ah. que bem os ovos cheiram Três vezes por dia! O jovem estava a cantar estas palavras profanas. e homens estavam a descarregá-los para carroções. sinceramente. – Obrigada – agradeceu a mãe.'. O ajudante do condutor sorriu-lhe amigavelmente e explicou: – Aquilo é a plataforma giratória. nem mesmo os ferroviários eram maiores ou melhores do que o pai e. apenas. E pronto. Também vou para lá. Um letreiro. levo-a ao hotel. Nisto. Claro. Todos os vagões se entrechocaram. Depois puxou a corda de uma campainha. com Grace ao colo e a dar a mão a Carrie. a tremer. para observar. debaixo da máquina.

Podem sentar-se lá. mas praticamente nenhum homem levantou a cabeça. Sentem-se. ao lado da mãe. Laura receava esse momento e sabia que Mary sentia o mesmo. As cadeiras eram estofadas de pelúcia púrpura. quando Laura acabou. – Estão todas com um ar lavado e agradável. se quiserem. temos um quarto reservado para a senhora. O ruído de comer abrandou. – Não se esqueçam de ter maneiras à mesa. – Viemos – respondeu a mãe. Laura preferiria não parar em lado nenhum. presas nos lados. A mãe molhou um lenço limpo e lavou a cara e as mãos de Grace e as suas próprias. num prato menor. Era difícil encarar tantos desconhecidos. até ao fim da estrada. quando a maioria das pessoas vêm na primavera.O ajudante de condutor entrou à frente e pousou as malas. Uma toalha sem fim era muito prática: as suas extremidades estavam cosidas uma à outra e girava num rolo. A sua menina mais velha é cega. Em cima da mesa do centro estava um candeeiro com a parte de baixo de latão. A sala tinha um tapete no chão e papel florido nas paredes. Ninguém falava. Limparam-se todas na toalha sem fim. depois de se lavarem. Depois despejou a bacia num balde que estava ao lado do lavatório e voltou a despejar água para Mary e de novo para Laura. O homem que tocara a sineta disse à mãe: – Sim. As paredes estavam forradas de papel marrom e numa delas via-se um calendário com o retrato grande e reluzente de uma bonita moça num trigal maduro. na sala. havia cúpulas de rede fina e debaixo de cada uma delas uma travessa de carne ou um prato de vegetais. A água fria causou-lhes uma sensação agradável na cara suja de poeira e fuligem e. preferiria seguir para a frente. à grande mesa. – O seu marido trabalha na ferrovia? – Trabalha. a comida era abundante. e fiquem quietas. Os homens entraram todos e dirigiram-se para uma grande sala onde se encontrava uma mesa comprida com uma toalha branca e posta para o almoço. – Creio que vêm reservar uma gleba? – perguntou à mãe. no tapete. meninas. Se viesse. muito para lá do fim da estrada que Laura distinguia. ficou preta. senhora”. O chão precisava ser varrido. sem entornar nada. esta tarde. com Grace ao colo. Espalhados por toda a mesa. A janela tinha cortinas de renda. e a moça que trouxera o café começou a empilhar os pratos e a levá-los para a cozinha. enquanto Grace dormia. e Mary e Laura sentaram-se no sofá. Vem aqui ao nosso encontro. mas não conseguiam chegar à comida que se encontrava em baixo. Carrie subiu para uma grande cadeira. Os dedos sensitivos de Mary permitiram-lhe servir-se do garfo e da faca perfeitamente. – disse a mãe. de uma ponta e outra da mesa. Ficaram todas quietas e caladas. Chegara a hora de irem para a sala de jantar. Carrie também dormiu um bocadinho e até a mãe cochilou. senhora. – Arrumou as malas na portaria e perguntou: – Talvez desejem lavar-se antes de comer? Num quartinho pequeno havia um lavatório: um grande jarro de louça estava dentro de uma grande bacia de louça e da parede pendia uma toalha sem fim. não é? Que pena! Bem. de forma que todos encontravam um espaço seco para se limparem. Passaram a tarde toda sentadas. quietas. Havia cadeiras vagas e puderam sentar-se todas em fila. até o seu marido chegar. Ao lado de cada prato encontrava-se uma grande fatia de torta. – A Grace está ficando pesada. 10 . Era uma pena que a excitação lhes tirasse o apetite. um dia viveriam todos no novo lote de terra. os homens acabaram todos de comer a torta e foram-se embora. e através dela Laura podia ver a campina e uma estrada que a atravessava. – Foi o que imaginei – disse a moça. Talvez o pai viesse por essa estrada. suspirarando de alívio. Mas comeram pouco. As moscas passeavam e zumbiam por cima das cúpulas de rede. conduzindo Mary. Havia pratos de pão com manteiga e de picles. As pernas curvas da mesa terminavam em bolas de vidro. Só dispuseram de uma pouca de água para cada uma e o jarro ficou vazio. – É engraçado que tenham vindo para cá nesta época do ano. jarros de melaço e de creme e açucareiros. para que Grace adormecesse e dormisse a sua sesta da tarde. Uma moça trouxe-lhe uma xícara de café. Foram todos amáveis e estenderam os pratos de comida à mãe. O almoço custava vinte e cinco centavos e poderiam comer o que quisessem. partiriam todos também por ela e algures. por cima da toalha branca. A mãe deixou-se cair numa cadeira de balanço. em resposta ao “obrigada” da mãe. Era forte e bem-humorada e tinha cara larga e cabelo loiro. Passados instantes. a sala fica do outro lado do escritório. a não ser para murmurar um “não tem de quê. A mãe entrou primeiro. fosse ele onde fosse. Laura cortou a carne de Mary em pedacinhos e passou-lhe manteiga no pão. quando entraram na sala de jantar. depois seguiu-se Carrie e por fim Laura. A mãe voltou a pô-lo com cuidado na bacia.

pouco a pouco. Como estavam num hotel. Grace já estava acordada e foram todas espreitar pela janela. não puderam ir a correr ao seu encontro. Mas um momento depois ele entrou e exclamou: – Viva. O carroção adquiriu o tamanho normal e viram que era o do pai. que o conduzia. maiores.O sol estava quase se pondo quando uma pequena parelha e um carroção surgiram na estrada e foram se tornando. cá estão as minhas meninas! 11 .

os cavalos mastigavam a sua aveia na manjedoura. via-se um pequeno piscar de luz na terra escura. Lhes fez sentirem-se paradas. mas os cavalos continuaram a andar. O pai ainda não procurara uma gleba. – Brilha muito ao longe. uma de cada lado. O pai levou os cavalos a beber no riacho. O riacho falava sozinho. para oeste. Elas quase não reparam os cinco quilômetros de sacudidelas quando iam de Riacho das Ameixeiras à cidade. mais todas as sacudidelas do meio-dia ao pôr do sol eram estafantes. mas a sua luz era fria. Mas todas as sacudidelas do nascer do sol ao meio-dia. para deixarem tudo limpo. teriam adormecido todas. Os únicos ruídos eram o clip-clop dos cavalos e os pequenos estalidos do carroção. por isso. mas Laura preferia o carroção. – Espera que passemos a região povoada e verá! – replicou o pai. As estrelas eram maiores. E acrescentou: – Os homens já foram embora. e as rodas a girar e a tábua dura a absorver e a comunicar-lhes os solavancos do carroção.5. para mergulharem os ovos à medida que os comiam. Sabiam que Mary não conseguia acompanhar o carroção e elas não podiam deixá-la sozinha e cega. daqui a uns dias. de terra nua e solta. 12 . ao contrário da do pequeno piscar. com fazendas aqui e ali. que nos esperam lá uma casa e gente. bons ovos cozidos e um papel com sal e pimenta. Ajudaram-na. numa tábua que atravessava a caixa do carroção. Laura – confirmou o pai. mas não o disseram. A tarde foi mais comprida do que a manhã. só ficaram dois carroceiros ao lado da família da Dócia. Depois o pai disse: – Lá está a luz da cabana. Escureceu. o pai não pusera a cobertura de lona. Carrie suspirou: – Estou cansada. Durante muito tempo ninguém falou. O pai disse que o tio Hi acabara o seu primeiro contrato e ia para um acampamento novo. Nasceram as estrelas. surpreendido. enquanto a mãe e Laura apanhavam as cascas dos ovos e os bocados de papel. – Pensei que fosse diferente – explicou Laura. Laura disse: – Julgava que íamos para oeste. Viajar de trem era cômodo e rápido. Havia pão com manteiga. e Carrie e Laura sentavam-se com Mary atrás deles. – É uma centelhazinha amarela. iam todos no carroção. – mas endireitou-se logo e acrescentou: – não muito. e diz-nos que continuemos a avançar. Laura não encontrou muitas coisas que valesse a pena ver para Mary. arranjaria uma mais para oeste. Acampamento da ferrovia NA MANHÃ SEGUINTE. – Carrie não queria queixar-se. os campos e as casas eram como as de onde vinham. havia tempo para verem tudo. onde se sentiam mais os solavancos. por isso. na escuridão. – Então também vamos partir? – perguntou a mãe. Uma sacudidela não era nada. O pai voltou a atrelar os cavalos e gritou: – Vamos! Laura e Carrie gostariam de ir um trecho a pé. O frescor da manhã passou. Muito ao longe. cedinho. O meio-dia passou muito depressa. e a mãe estendeu uma toalha na relva quente e abriu a caixa do almoço. daqui a uns dias. porque Mary tinha de ir no meio. o sol ficou a pino e o pai parou os cavalos junto de um riacho. A certa altura. Laura e Carrie tinham de ir sentadas nas extremidades da tábua dura. Carrie suspirou. A certa altura. Os cavalos percorriam a estrada que atravessava a campina. Se não fosse a tábua sempre a saltar. Sentiam constantemente através da tábua onde estavam sentadas os pequenos solavancos do carroção parecia que o sol nunca subira tão devagar. mais para oeste. – E estamos indo para oeste. Mas Laura não podia fazer nada por ela. Mary – disse Laura. A sua carinha pontiaguda estava pálida. Como a viagem seria só de um dia. no banco. Ao lado da estrada ficava sempre o aterro da ferrovia. Cobria-os o céu todo e a campina estendia-se para todos os lados. E também podiam conversar naturalmente uns com os outros. Grace ia sentada entre a mãe e o pai. A norte. Terão de derrubar as últimas barracas e de levar a madeira. O vento arrefeceu. atrás do carroção. – Sim. O carroção ia devagar e. a subir e sentaram-se na tábua. Por fim. com a diferença de serem mais novas e menores.

Laura deitou-se no cobertor e não tardou a adormecer profundamente. – Trabalhou como um burro de carga todo o verão! – afirmava ela. Eu também os sei conduzir. pode ir comigo. Mas a mim deixa e amanhã vou buscar a roupa lavada. ali dentro. Estava zangada porque ele trabalhara duramente todo o verão e não recebera nada. Laura gostou dela. Também não era um lobo. Quer? – Quero! Se a mãe me deixar. O barracão estendia-se. O tio Hi tentava acalmá-la. baixo e escuro.– E jantar – disse Mary. inclinadas. querem que aceitemos outro contrato. Lena achava muito divertido dormir na tenda. mas a Tia Dócia disse a ela e a Lena que fossem deitar-se. Johnny gritou de novo. mas muito devagarzinho. Johnny era um rapazinho de onze anos. Os rostos tornavam-se vagos e a voz distante. Carolina e meninas! E você. É tudo quanto consigo ver. em bico. Lena e Johnny. não dizem nada às primas? – Como estão? – cumprimentou Lena. 13 . Charles. à luz das estrelas. ainda por cima. levantou-se. A tenda estava vazia. rápido com os cavalos. Depois começou a brilhar firmemente e redonda. Estava quente. O Johnny não sabe. O pai não o deixa sair com o buggy. mal segura nas pernas. e a pequena tenda do escritório parecia fantasmagórica. escuro e frio. até se juntarem em cima. Parou tudo. e depois gritou aos cavalos: – Aí-ô! Os cavalos pararam imediatamente. – Você gosta de andar a cavalo? – perguntou Lena a Laura. Laura não sabia o que era. sem darem outro passo sequer. As madeixas curtas encaracolavam-se à volta da testa. – Não nos despimos? – perguntou Laura. como recompensa. Só havia relva. e que o pai e a mãe estivessem ali. – a Tia Dócia conserva o jantar quente para nós. Laura! Vamos dormir na tenda do escritório! Lá fora era tudo muito grande. o candeeiro iluminava uma longa mesa. só se via o escuro parado e frio. e agora que chegou ao fim a companhia diz que lhe devemos dinheiro! Estamos em dívida com ela pelo nosso trabalho duro de todo o verão! E. Nas camas da Tia Dócia não havia espaço para Laura e Lena nem para Johnny. A luz foi-se tornando maior. num sobressalto. – Agora vê-se que é uma janela – disse Laura a Mary. ainda é muito pequeno. e depois explicou a Laura: – É o Johnny. Quando o jantar acabou. Depois saiu luz de uma porta e a Tia Dócia disse: – Entrem. mas não gostava de dormir no chão num lugar desconhecido. De súbito. mas Lena tinha um ano a mais do que Laura. Passado muito tempo. tentando nos assustar. mas Laura tornou-se menos tensa e o sono voltou. – É uma casa comprida e baixa. não nos assusta! – gritou Lena. Por isso. não temos com que nos cobrir. Mary e Carrie também andavam todas hirtas. Os seus olhos eram pretos e vivos e o seu cabelo era o mais preto possível e naturalmente ondulado. Tinha tanto sono que nem lhe perguntou para que era preciso ir buscar a roupa de buggy. e Laura. Ele ia ficar no barracão com os homens e Lena disse: – Anda. O tio Hi era gordo e bonacheirão. Na escuridão há duas outras casas compridas e baixas. e cheirava ao jantar que esperava no forno. – Até conduziu as suas próprias parelhas no aterro e passamos o tempo todo a poupar e a economizar. até lhe custou se manter acordada para jantar. e o Hi vai aceitar! É isso que ele vai fazer: aceitar! O tio Hi tentou de novo acalmá-la e Laura tentou manter-se acordada. E muito longe da cabana iluminada. o pescoço a fazia levantar a cabeça. A Tia Dócia perguntou: – Então. para termos alguma coisa quando o trabalho acabasse. – Para quê? Só para termos de nos vestir outra vez de manhã? Alem disso. sonolenta. mas Lena volveu: – Vai embora. Se quiser. até que. Mary e Carrie perguntaram o mesmo. – Temos dois pôneis pretos e andamos neles. e paredes de lona que subiam. O jantar está à espera! A escuridão gelada infiltrara-se nos ossos de Laura. bancos e paredes de tábuas não lixadas. debaixo do céu vasto. – É tudo quanto resta do acampamento – disse o pai. Laura sentiu-se perdida e solitária. Não era um índio. – Ora. rapazinho! Não fui criada na floresta para me deixar assustar por uma coruja! Johnny voltou a gritar. para ajudar a lavar a louça. Não se importaria de dormir no carroção. acordou muito assustada. viu-se que formava ângulos retos. E os solavancos e as sacudidelas pararam também. tropeçando e bocejando. mas as suas tentativas só serviam para que ela falasse ainda mais depressa. o alto da cabeça era ondulado e as pontas das tranças também eram formadas por caracóis. A Tia Dócia falava muito depressa. O seu coração parou de bater. Na sala comprida. Da imensa escuridão da noite erguia-se uma espécie de uivo selvagem e agudo. Deixou-se logo cair num cobertor aberto no chão. no chão.

sob o céu cheio de sol. Depois. temos de ir buscar a roupa lavada! – disse Lena. A grande gargalhada do pai vibrou como música. os pôneis pretos começaram a trotar alegremente. mas como morava a cinco quilômetros de distância representava uma viagem de dez quilômetros. quando esta passou. Homens derrubavam uma das cabanas. Ela e a Tia Dócia não paravam do nascer do sol até alta noite. a correr quanto podiam. Ajudou a pôr-lhes os arreios. Laura ajudou Lena a levar os arreios para o buggy e a ir tirar os pacatos pôneis das cordas. – Vamos. Lena começou a cantar: Conheço um bonito moço amável. menina preguiçosa. O buggy ia tão depressa que Laura tinha a impressão de que o banco ia saltar de baixo dela. e mesmo assim não conseguiam deixar o trabalho em dia. oh. cozinhar. Os pôneis pretos O SOL que entrava pela lona bateu na cara de Laura e acordou-a. As rodas do buggy giravam. e soprava um vento fresco. As cabanas eram pequenas. O café da manhã foi agradável. e a passar-lhes o rabicho por baixo da cauda. oh. pois verás. que montanhas de pratos para lavar! Lena disse que aqueles pratos não eram nada comparados com o que tinham sido: pratos de 46 homens três vezes por dia e.6. Dizia que ela não era suficientemente forte para contê-los. não precisaram de se vestir. nos intervalos. toma cuidado! Laura nunca ouvira a cantiga. se eles se espantassem. Assim que Lena pegou nas rédeas. – Anda. – Deixe-os correr! – gritou Lena. oh. de crina e cauda pretas ao vento. Mas depois. dorminhocas! O desjejum está na mesa. com o varal do buggy no meio. enquanto se levantava de um pulo. e a coelheira no pescoço quente e preto. a bater-lhes com as rédeas. As compridas crinas e caudas pretas ondulavam ao vento. Toma cuidado. – Dispararam! – gritou Laura. Dobraram o cobertor e a arrumação do quarto ficou pronta. linda pequena. Toma cuidado. – Primeiro temos de tomar o café da manhã – disse Lena. 14 . Fora por isso que a Tia Dócia mandara lavar a roupa fora. toma cuidado! Capaz de ser muito prestável. Laura! Depressa! Todos estava à mesa – menos a Tia Dócia – que fritava panquecas. – Lavem-se e penteiem-se. Abriu os olhos ao mesmo tempo que Lena abria os seus. velozes. e mais velozes as rodas. Como não se despiram. para a manhã clara e alegre. mas os pôneis não podiam ir mais depressa do que já iam. e prenderam os tirantes de couro rígido aos balancins. Saltaram para o exterior. Passava tudo tão depressa que não se via nada. mas não é graças a você. as duas. A mulher de um colono lavava a roupa da Tia Dócia. a relva agitava plumas de sementes acastanhadas. A sua touca voava. soltavam um pequeno relincho e lá iam. Os pôneis trotadores tocavam com o focinho um no outro. para norte. olharam uma para a outra e riram-se. Rindo. oh. Cuidado. atrás. ida e volta. toma cuidado! – ih-iipi! Iipi! – gritavam. Os pôneis iam cada vez mais depressa. – não podem se chocar com coisa nenhuma. empurraram-nos para trás. Tia Dócia deu uma palmada em Lena. o freio na boca. ele anda de má-fé! Toma cuidado. Laura e Lena riam de contentamento. Subiram para o buggy e Lena pegou nas rédeas. toma cuidado! Não confies. com um ruído alegre de tábuas caindo. a não ser com o mato – e gritou aos animais. sincero não é. Adejavam e cantavam pássaros por cima da relva agitada pelo vento. os cascos martelavam o chão e o buggy ia de vento em popa. Os pôneis esticavam-se todos. ela agarrava-se à borda do banco. mas em breve cantava o estribilho com todas as forças. Toma cuidado. A leste e a oeste corriam o aterro da estrada de ferro e a estrada. presa ao pescoço pelas fitas tensas. O pai nunca deixara Laura conduzir os seus cavalos. Naquela manhã estava tão bemhumorada quanto o tio Hi. Era a primeira vez que Laura ouvia falar em semelhante coisa. Na relva ondulada pelo vento pastavam os dois pôneis pretos.

Não paro desde antes do nascer do sol. os seus braços e os seus pés descalços estavam queimados. Depois falaram simultaneamente: – Ela era apenas um pouco mais velha do que eu – disse Laura. um ferroviário. Nesse momento. eu não me quero arrumar.Com um lavrador não casaria. toda orgulhosa. com uma expressão quase assustada. Lizzie não devia ter de trabalhar mais do que trabalhava antes. – Sim. Cantando e gritando. enquanto os pôneis galopavam. mas o meu pai não deixa. Lena deu-lhe as rédeas e explicou: – Tem apenas que segurá-las. mas ela arranjou um bom homem e eu respondi-lhe que era melhor arrumar-se cedo. que queria esquecer os problemas de ser crescida. e puxou as rédeas até os pôneis passarem do galope ao trote e depois ao passo. Eu também casei nova. Galopavam porque lhes apetecia galopar ao vento. – Sempre desejei. Prefiro que a responsabilidade seja da minha mãe. esganiçadamente. muito séria: – Pois não. 15 . Laura segurou bem as rédeas e gritou: – ih! Ih! Iipi! Tanto ela como Lena se esqueceram do cesto da roupa. generosamente. – Agarre bem. No regresso. não disseram nada durante algum tempo. Laura concordou. os pôneis tocaram de novo os focinhos um no outro. eles abrandavam um pouco e depois se lançavam outra vez a toda à velocidade. como deve ser! Oh. já sei! Vou casar com um ferroviário. mas não quero tanta responsabilidade. Estava despenteada e usava um vestido desalinhado e pouco limpo. – Bem – observou Laura -. – O pai dela disse que com treze anos era muito nova. um ferroviário. Era uma casinha pequena. os pôneis tocaram com o focinho um no outro e relincharam. De um ferroviário noiva serei! – Acho que é melhor deixá-los tomar fôlego – disse Lena. Quando pararam junto das cabanas a fim de desatrelarem os animais e de os prenderem às cordas. de modo que parecia apenas metade de uma casinha. Lena disse que. nunca. A mulher do colono dirigiu-se para o buggy carregada com o cesto da roupa. – Eu sou um ano mais velha do que ela – disse Lena. da cor de couro. Laura apoiou bem os pés e agarrou as rédeas com toda a sua força. chegaram num instante à cabana do colono. Assim. – Além disso – declarou Lena -. do sol. durante ainda muito tempo. A sua cara. Os pôneis sabem o caminho. Entreolharam-se de novo. – O quê. Até os pôneis trotavam gravemente. e fariam o que lhes apetecia e mais nada. com uma debulhadora ruidosa. Casar com um ferroviário preferiria. de camisa às riscas. Pareceu tudo sereno e lento. um ferroviário para mim. Era menor que as medas de trigo que alguns homens estavam debulhando mais adiante. eu gostaria de ter a minha própria casa. relincharam e partiram outra vez disparados. repararam que as camadas superiores da roupa lavada estavam no chão do buggy. trotavam e galopavam de novo. de qualquer modo. Depois Lena sacudiu a cabeça morena e encaracolada e declarou: – Foi uma idiota! Agora nunca mais poderá se divertir. – Você conduz na volta para casa – prometeu Lena. pois anda na terra sempre a mexer. Laura e Lena entreolharam-se. – Posso conduzir agora? – perguntou Laura. ou então será com um ferroviário e passarei a vida toda a viajar mais para o Oeste. Laura! Agarre bem! – gritou Lena. – Pelo menos agora fará o seu próprio trabalho. os debulhadores vieram esta manhã e eu com esta roupa para lavar. agora já não pode brincar. ainda mal comecei o trabalho do dia e já não tenho a minha pequena para me ajudar. Todas as vezes que Lena puxava as rédeas para os pôneis tomarem fôlego. Nesse exato momento. – Você pode conduzir um pouco – ofereceu Lena. A minha filha casou-se ontem. e terá crianças. na sua própria casa. foram galopando através da campina. – Desculpem o meu aspecto. Sentia que os pôneis não faziam aquilo por mal. a Lizzie se casou? – perguntou Lena. casou-se ontem – respondeu a mãe de Lizzie. – Quem me dera saber conduzir! – disse Laura. debaixo dos bancos. Passado um bocado. Foram todo o caminho de regresso gritando e cantanado pela campina afora. de tábuas na horizontal e com o telhado inclinado só de um lado. no lote por ele reservado. Com ar culpado. gosto de crinaças e não me importaria de trabalhar. Nem sequer casarei.

– Vêm com um ar de quem não quebra um prato – observou a Tia Dócia. agarre-se. O pônei de Lena apareceu ao lado dela. Laura quis perguntar como se parava em segurança. queres? – Quero – respondeu Laura. com uma das mãos. – Não é justo! – gritou Lena. preso pela corda. O pônei de Johnny parecia maior de minuto a minuto. As suas tranças desfizeram-se. Iam demasiado depressa. pararam perto dela e Lena e Johnny saltaram para o chão. Viu as cabanas. e compreendeu que. Assim que a louça foi lavada. Ouviu Lena dizer. agarrou-se ao topete do pônei. tentando saltar para a garupa enquanto o pônei corria. subiu pela massa quente e escorregadia do animal. os animais se tinham voltado na direção do acampamento. mas antes de cair realmente parecia-lhe que ia cair do outro lado e os solavancos faziam-lhe entrechocar os dentes. Viu a crina preta ondulante do animal e as suas mãos ferradas nela. Basta gritar-lhe. e. se não quiser que eu conte que tentou nos assustar a noite passada – aconselhou-lhe a irmã. Era suficientemente grande e forte para matar Laura. Laura ficou a ver Lena e Johnny correrem em círculos e gritarem como índios. Tinha tanto medo de montá-lo que não podia deixar de tentar. Quase o conseguia. Anda. desta vez. mas iam como música e nada lhe poderia acontecer enquanto a música não parasse. A tarde foi ainda mais emocionante do que a manhã. – Eu não te disse que era divertido? – perguntou-lhe Lena. – Que andaram a fazer. se quisesse. Laura caiu duas vezes e de outra a cabeça do pônei bateu-lhe no nariz e fêlo sangrar. Muito ao longe. Não é trotar que te interessa. Laura – disse Lena. O outro pônei galopava num círculo. – Eu te ajudo a subir – prontificou-se Lena. e as mãos bem presas à crina esvoaçante dos animais e as pernas queimadas de sol a apertarem os flancos dos cavalos. Os pôneis curvavam e desviavam-se. – Deixe-a montar o teu! – É melhor você se portar bem. Ao mesmo tempo. o que te interessa é fazer o teu pônei galopar. ela e o pônei. enquanto Lena empurrava-a para cima. num movimento que se transmitia do pônei a Laura e os mantinha como que a navegar sobre ondas de ar fustigante. a galopar um atrás do outro na campina como pássaros a voar no céu. Lena e Johnny punham sempre os pôneis a correr e só 16 . vamos andar muito tempo. debaixo de si. hein? – Nada. generosamente. ouvia Lena gritar: – Agarre-se. Johnny montara um deles e atravessava velozmente a campina.apanharam-na e endireitaram-na e levaram o cesto pesado para a cabana. – Bem. vagamente: – Agarre-se à crina! Estava agarrada à crina do pônei. estava agarrada com toda a força a grandes punhados de crina. mas o animal era muito maior do que ela. soltou a corda e saltou do chão para a garupa do animal. com o cabelo ao vento. onde a Tia Dócia e a mãe estavam a pôr o almoço nos pratos. e tão alto que ela quebraria os ossos se caísse dele. Tinha a todos os instantes a impressão de que estava a cair. Pararam de repente. mas não conseguiu falar. o que não a impedia de saltar de tal maneira que não conseguia pensar. – Anda. só fomos buscar a roupa no buggy. e isso enfurecia o animal. mas não totalmente. – Porque dá tantos solavancos? – É o trote. Apoiou o pé na mão de Lena. Laura! Depois tudo se acalmou no mais suave dos movimentos ondulantes. não sabia como. – Pode montar o pônei do Johnny. Depois os solavancos recomeçaram. os seus cotovelos e os seus joelhos fincavam-se no pônei. – Não sei se sou capaz – disse. era forte e tinha a garupa alta. Os pôneis regressaram a galope. Laura agarrou a crina do pônei. Os olhos fechados de Laura abriram-se e ela viu. – Quem disse? – perguntou o rapaz. com ela sentada na garupa do pônei. Cavalgavam estendidos. enrouqueceu de tanto rir e gritar e ficou com as pernas arranhadas de correr através da relva áspera. mas ela nunca largou a crina. Agora grita! Foi uma tarde maravilhosa. a relva que o vento puxava para trás. e depois passou uma perna por cima da garupa do pônei e começou tudo a moverse rapidamente. Laura nunca se teria cansado de observá-los. Lena e Laura voltaram a correr para junto dos pôneis. ao mesmo tempo em que se baixava e estendia a outra mão para servir de apoio a Laura. O chão estava tão lá em baixo que nem se atrevia a olhar. muito ao longe. – Nunca andei a cavalo. Lena agarrou-lhe na crina. como eu gritei.

Não ouviram a Tia Dócia chamá-los para jantar. não me lembro de a Laura se parecer tanto com um índio selvagem! – Ela e a Lena formam um grande par – redarguiu a Tia Dócia.depois saltavam. para ver qual dos dois conseguia montar mais depressa e chegar a certo local. Dócia. cheia de espanto. desde que viemos para aqui. Apostavam corridas. 17 . e não terá outra antes de acabar o verão. – E enfim. a mãe olhou para Laura. a Lena não tinha uma tarde livre. O pai veio à porta e gritou: – Jantar! Quando entraram em casa. para fazer o que quisesse. e disse: – Francamente.

Termina – disse Laura. agrimensores cravavam estacas e faziam medições. – A estrada prolonga-se até à Lagoa Prateada. embora não fosse capaz de se explicar. por isso. nem pessoas. Na relva amassada e nos lugares de terra à vista. de manhã muito cedo. apenas. mas sim. 18 . quase oculta pela relva. – Partiremos assim que o Hi resolver os seus assuntos – disse a Tia Dócia. pareciam pequenos. não só porque o carroção não tinha cobertura nem camas. – Então acho que não devia dizer coisas assim. o próprio carroção e a parelha. onde existiram cabanas. Às vezes é um rio grande. Laura não saberia dizer como. – Bem sei – concordou Laura. Não ficou nada no acampamento além da cabana da Tia Dócia. – Pa. Só o sol se movia. Agora estavam no território do Dakota e viajavam mais para oeste. mesmo até à beira do mundo. O pai guiou toda a manhã ao longo da trilha quase invisível sem que nada mudasse. menores pareciam e menos impressão tinham de estarem se dirigindo para qualquer lado. – Eu estava dizendo o que pretendia dizer. sem nunca saírem daquele lugar imutável. havia tantas maneiras de ver as coisas e tantas maneiras de dizê-las! Para lá do Grande Sioux não voltaram a ver mais campos. pararam para dar de comer aos cavalos e comerem também um almoço de piquenique na grama limpa. – Devemos ter sempre o cuidado de dizer exatamente o que pretendemos. enquanto o pai gritava aos cavalos para partirem e as rodas começavam a girar. – A estrada empurra a terra relvosa e acaba a pouca distância. mas agora está tão seco que não é maior do que Riacho das Ameixeiras. nem casas. estavam de novo todos no carroção. e o pai disse: – Em frente fica o grande Rio Sioux. Pouco depois. para o aterro ferroviário que ainda não fora iniciado. Começa o Oeste NO DIA SEGUINTE. O sol batia forte no carroção descoberto. para a construção de uma nova cidade. O pai disse que eram estacas colocadas pelos agrimensores. A terra relvosa era constituída por curva baixa atrás de curva baixa e a estrada parecia um promontório curto. causavam lhe uma estranha sensação. – Não pode ser. que nem sequer saberia da sua presença. – Esta campina é como um enorme prado – disse Laura a Mary – estende-se numa grande distância em todas as direções. As ondas infindáveis de relva florida. Laura vislumbrava uma pequena estaca de madeira. uma vaga trilha aberta pelos carroções. Sem parecer. Na realidade. E também não havia aterro ferroviário. que não sabia explicar. a estrada se curvou para baixo. Aqui e ali. Só se vê o céu enorme. Corre num fio de lagoa em lagoa. Quanto mais penetravam no Oeste. Laura pensou nas muitas vezes que comeram debaixo do céu. – Voltaremos a nos ver na Lagoa Prateada! – gritou Lena a Laura. Mas esta vez era diferente de todas as outras. Todos que iam no carroção. através de terra ondulada. Quando estava a pino. não havia nenhuma estrada. mas aquela campina era diversa. – observou Mary. Laura começou a “ver em voz alta” para Mary: – A estrada desce por um aterro baixo para o rio.7. durante a longa viagem do Wisconsin para o Território Índio e depois de novo para trás. O vento imprimia sempre a mesma ondulação interminável à relva e os cascos dos cavalos e as rodas faziam sempre o mesmo som ao passarem por cima da relva. o sol subia firmemente no céu. terra coberta de relva e um riachinho baixo. – Bebam o mais que puderem. mas também por qualquer outra razão. mas o vento estava frio e era agradável viajar daquele modo. quando encontrar o lote para nos instalarmos será como o que tivemos no território índio? – perguntou ao pai. – protestou Laura. Aqui e ali. mas não há árvores. Laura pensou que podiam continuar assim eternamente. As sacudidelas da tábua que servia de banco também eram sempre as mesmas. Era bom descansar no chão depois de viajarem toda a manhã no carroção. – discordou Mary. estava tudo pronto para partirem. Este não fora descarregado e. para o Minnesota.– disse o pai aos cavalos – Não haverá mais água numa distância de uns cinquenta quilômetros para lá do rio. através de extensões de saibro seco e planícies lodosas secas e gretadas. e até o pai. brandamente. Os cavalos vão parar para beber. homens trabalhavam nos seus campos e de vez em quando passava um carroção puxado por uma parelha. sob o céu sem nuvens.

grandes. Era um silêncio enorme. sem verem mais do que relva e céu. venham-se embora. Carolina. abertos bem fundo no solo e agora cobertos de relva. De todos os lados. O pai falou do seu novo trabalho. Eram o gado dos índios e os brancos tinham abatido todos. para o horizonte distante e límpido. Seguiu-os não muito depressa. – disse a mãe. – Cerca de quinze quilômetros – respondeu o pai. – E o melhor de tudo. que foram charcos de chafurdo de búfalos e onde agora também crescia a relva. A trilha que seguiam estava assinalada apenas por relva dobrada e partida. Que o tio Sam é tão rico que dará uma fazenda a cada um! Até Grace se juntava ao coro. Laura viu antigos caminhos índios e trilhas de búfalos. viu estranhas depressões. Dirigiria o armazém e escrituraria nos livros a conta de cada homem do acampamento. antes de responder: – Não. Que o nosso tio Sam é tão rico Que dará uma fazenda a cada um! O sol baixava a ocidente. sensatamente. a campina estendia-se. Não te sei dizer exatamente em quê. Charles? – perguntou a mãe. Na realidade. venham para esta terra e não tenham medo nenhum. Seria o gerente do armazém e o apontador da companhia no acampamento da Lagoa Prateada. – Poderemos escolher à vontade o nosso lote de terra. No entanto. E quando estavam silenciosos sentiam o grande silêncio aproximar-se mais. por isso. – estamos a oeste do Minnesota e a norte do Território Índio e. Todos os pequenos ruídos das ervas agitadas pelo vento e dos cavalos a mastigar. Charles – concordou a mãe. e saberia ao certo quanto dinheiro era devido a cada um deles pelo seu trabalho. mas a aproximar-se mais. ali havia mais qualquer coisa que não existia em nenhum outro lugar. Olhavam constantemente para trás. já embora! Venham para esta terra E não tenham medo nenhum. Laura nunca tinha visto um búfalo e o pai disse ser improvável que viesse a ver algum. Nem ninguém disse mais nada. venham-se embora! Oh. o pai pagaria a cada um dos homens. quilômetro após quilômetro. Continuaram a viajar durante toda a tarde. nos dias de pagamento. Carolina. sem nunca verem uma casa ou qualquer sinal de gente. cinquenta dólares por mês durante todo o verão! – É maravilhoso. enquanto o sol descia lentamente. – Eu a acho muito semelhante. ainda por cima. as ervas e as flores não são as mesmas. Seria tudo quanto teria a fazer e por esse trabalho receberia cinquenta dólares todos os meses. de lados retos e fundo plano. com 19 . quando apareceu um cavaleiro na campina. embora não se importasse em nada com a melodia: Oh. Esta região é diferente. O vento nunca parava de soprar e de tornar onduladas as ervas da campina. Causa uma sensação diferente. A cantiga que mais vezes cantou foi: Oh. Mas não era a isso que o pai e Laura se referiam. atrás do carroção. E quando o tesoureiro levasse o dinheiro. não conseguiam perturbar o enorme silêncio daquela campina. venham-se embora! Sou eu que lhes digo. mas esta campina é diferente. enquanto conduzia. o pai foi cantando ou assobiando. A mãe não disse mais nada. que os fazia sentirem-se silenciosos. venham-se embora! Venham-se já. depois de subtraídas as despesas de alojamento e a conta no armazém. para o cavaleiro que os seguia. Seguia-os. Não havia ainda muito tempo. deserta. e até os ruídos de todos eles a comer e a falar. que o sol acastanhara. enfim! Oportunidade de primeira escolha numa terra nova e. – A que distância estamos da Lagoa Prateada.Ele pensou. e todas as vezes que olhavam ele estava um pouco mais perto. venham-se embora. – Não vive ninguém mais perto? – Não. pastaram naquela região imensas manadas de milhares de búfalos. Mas toda a conversa deles não significava nada perante o enorme silêncio daquela campina. atrás do carroção. não existia quase diferença nenhuma nas flores e nas plantas. Durante toda a tarde. quilômetro atrás de quilômetro. será que nos contaremos entre os primeiros a virem para aqui! – acrescentou o pai. Felizmente a nossa sorte mudou. naturalmente.

estava cheia de sombras. podia ir para onde quisesse. – É um mestiço. A mãe receava que o outro homem estivesse emboscado. Mas nenhuma parelha poderia puxar um carroção carregado tão depressa quanto um homem podia cavalgar. Abriu a boca para falar. entre as ondas da campina. e queria ir com Big Jerry aonde quer que este desejasse. A flamejante camisa vermelha e o cavalo branco desapareceram na forte luz dourada. não tinha sela nem rédeas. Os que voavam na frente chamavam os bandos que os seguiam e cada ave respondia por seu turno. Alcançou o primeiro cavaleiro e avançaram os dois juntos. montado num cavalo branco e de camisa encarnada. pois não usava chapéu. despreocupadamente. – jogador e. ladrão de cavalos. Os cavaleiros alcançaram o carroção e o pai levantou a mão e saudou: – Olá. Mary! – exclamou. Uma fina linha prateada. Laura sentiu curiosidade em saber onde estaria. Laura? O pai olhou rapidamente para trás e depois pareceu tranquilo. mas não perguntou ao pai. junto à linha do céu era a Lagoa Prateada e as cintilações que se viam a sul dele eram os Lagos Gêmeos. no horizonte longínquo. – Que está acontecendo. Eram cada vez em maior número as linhas escuras que riscavam o ar azul claro. O outro homem envolveu todos num olhar furioso e continuou a galopar. O que dissera era verdade. – preparam-se para pousar e passar a noite nos lagos. O pai trouxera a espingarda para o oeste. O homem já se encontrava tão perto que Laura lhe podia ver duas pistolas em coldres de couro. branco como a neve. porque nada do que pudesse dizer faria alguma diferença. O cavalo era livre. – Aquele é o Big Jerry. do qual emergiram de novo como se fossem direitos ao ofuscante sol redondo. Ele e o cavalo branco ainda estavam muito longe e pareciam muito pequenos. Não disse nada. Tinha o chapéu puxado para os olhos e um lenço encarnado frouxamente atado ao pescoço. – O cavalo branco como a neve e o homem alto e moreno. francês e índio. A cada vez que o pai olhava para trás. Charles. com um cabelo tão preto e uma camisa tão vermelha! A campina castanha a toda a volta e eles cavalgando para o sol mesmo quando ele se afundava no ocaso! Cavalgarão no sol. Havia lagos. O pai disse que era um grande choupo-do-canadá. segundo alguns. Parecia índio. e tinha o seu rosto magro acastanhado. mas um tipo excelente. Não sabia por que. enquanto cavalgava. Cavalga no chão. – respondeu o pai. antes de dizer: – Laura. assustada. mas Big Jerry ficou ao lado do carroção. mas o pai tranquilizou-a: – Não se preocupe! O Big Jerry foi à frente para encontrá-lo e ficar com ele até chegarmos ao acampamento. mas aquele momento em que o belo cavalo livre e o homem selvagem mergulharam no sol duraria eternamente. era a Árvore Solitária. para apressá-los. como toda a gente. Olhou outra vez para trás e viu outro cavaleiro aproximar-se. A mãe olhou para trás para ver se as filhas estavam bem e aconchegou Grace no colo. e não tencionava alcançá-los enquanto o sol se não pusesse. Não gostava de viajar naquela região erma com a noite se aproximando e homens como os que passaram a cavalgar na campina. entre eles. à volta do mundo! Mary pensou um momento. Do céu que esmorrecia vinham chamados selvagens de aves. – disse o pai. – Quem é o Big Jerry? – perguntou a mãe. “Honk? Honk! Honk!” “Quank? Quank! Quank!” – Estão voando baixo. nos quadris. Permaneceram ao lado do carroção apenas um momento. E o seu cavalo. O Jerry se encarregará de evitar que alguém nos moleste. A sua camisa era de um vermelho flamejante e o cabelo preto e escorrido caía-lhe nos zigomas salientes. Mas Laura sabia que a mãe nunca quisera sair de Riacho das Ameixeiras e não gostava de se encontrar ali. para roubá-los. Um pontinho escuro. O cavalo e o homem movimentavam-se como se fossem um só.certeza. Jerry! – Olá. em voz baixa: – Agora são dois. Ingalls! – respondeu Big Jerry. Mas Laura não achou que tivesse mentido. – O que é? – perguntou Mary. Era alto e forte. Depois afastaram-se num belo e suave galope para um pequeno vale. em frente. Laura respirou fundo. mas não a levava no carroção. Todo o céu vibrava. mas vinham depressa. a sua mão fazia um pequeno movimento e batia nos cavalos com as rédeas. Big Jerry não deixará ninguém nos assaltar. estupefata. mas sem ponta de gordura. sabe que ele não poderia cavalgar para o sol. – afirmou. – Agora já está tudo bem. a única árvore existente 20 . Henry e Thompson. por cima deles – formações perfeitas de patos selvagens e compridas cunhas de gansos selvagens. A mãe disse. mas depois fechou-a e não disse nada. – Oh. onde estavam. O sol já descera tanto que cada curva baixa. A mãe olhou-o. a galope.

Carolina? Abundância de água e bom solo para alimentar aves selvagens. – É uma surpresa. para Mary. Laura e Mary ficaram aconchegadas no colchão de palha nova e ruidosa. A terra parecia estar deitada.. desapareceu em nuvens escarlates e prateadas. onde Laura fora quando era pequena. toda azafamada. – Sim. Aquela devia ser. fresca e limpinha – disse o Tio Henrique. a respirar suavemente. Meia Canequinha! Olá. No fim de contas. das quais as estrelas pendiam. portanto. amainou com o desaparecer do sol e passou a murmurar entre a vegetação alta. a não ser campina plana e ar. a falar e a convidá-los todos a entrar. havia um beliche para o pai e para a mãe e do outro dois beliches estreitos. E era o primo Charley! Tratava-se do rapaz que atormentara o Tio Henrique e o pai no campo de aveia e fora picado por milhares de vespas.entre o grande Rio Sioux e o Rio Jim. Transformado numa bola de luz líquida e latejante. Carolina. a levantar a lanterna para que pudessem ver as paredes de madeira nova e os beliches feitos encostados a elas. A noite toda era uma cintilação de estrelas. todo contente. baixas e brilhantes. As camas já estavam feitas nos beliches. hein? – o primo Charley ajudou-as a descer do carroção. Carolina. estou vendo – respondeu a mãe. e o pai apagou a lanterna. A relva alta roçava contra as rodas em movimento. Mary! E esta é a bebê Carrie. 21 . que durante todo o dia soprara com força. De um lado. Entre nós e o acampamento não há nada. – Arranjaremos algumas sementes dela para pôr na nossa terra. Viu uma porta aberta. O vento. Eram as luzes do acampamento da Lagoa Prateada. a casa do Tio Henrique na floresta grande. um por cima do outro. Tomavam conta do refeitório e cozinhavam para os homens que trabalhavam no nivelamento. com o lençol e as mantas puxados para o nariz. Erguia-se numa pequena elevação de terreno que não era larga do que uma estrada. Laura. De súbito. a surpresa foi tão grande que me tirou a respiração! – exclamou a mãe. da qual jorrava luz. – Olá. até podiam ser estrelas. Num abrir e fechar de olhos.. o Tio Henrique acendeu uma lanterna e levou-os à cabana que os homens tinham construído para o pai. Charles. Percebe como essa região é boa para a caça. O pai continuou a conduzir debaixo das estrelas. Os cascos dos cavalos batiam suavemente no solo relvoso. muito ao longe algumas luzinhas minúsculas furavam a escuridão. O sol se pôs. – disse o pai. baixas e por todos os lados. Laura estava cansada e sentia frio. Muito. – É toda de madeira nova. Na ofuscação da luz do candeeiro. As luzes estavam muito longe. depois apareceu a prima Luísa. a prima Luísa encarregara-se disso. enquanto o Tio Henrique pegava em Grace e o pai ajudava a mãe a descer pela roda. Ergueram-se no oriente frias sombras purpúreas que alastraram lentamente através da campina e depois se transformaram em alturas e alturas de trevas. – Não preciso ver a trilha nos próximos treze quilômetros – disse o pai à mãe. sobressaltada. Depois um homem forte riu-se. roçava sem parar contra as rodas que também não paravam. entre os Lagos Gêmeos. – disse o pai. – Achei melhor não te dizer que o Henrique estava aqui. – basta um homem conduzir sempre na direção das luzes. fica quinze quilômetros a noroeste da Lagoa Prateada. – Henrique! – exclamou a mãe. cintilavam grandes estrelas que pareciam fazer desenhos no escuro. – Palavra. A prima Luísa e Charley já eram ambos adultos. sob a noite estival. Depois do jantar. Carrie e Grace. e tornara-se grande porque as suas raízes chegavam à água. roçava. – O Lago Spirit não se vê daqui. Mas os homens tinham jantado havia muito tempo e estavam todos dormindo no barracão-dormitório. Por cima deles. o Tio Henrique aproximava-se a rir. pois era lá que o Tio Henrique morava. Laura abriu os olhos. agora uma menina crescida! Deixou de ser a neném. A prima Luísa falou de tudo isso enquanto servia o jantar que mantivera quente no fogão.

ao mesmo tempo em que pegava no balde e ia. na majestade do nascer do sol. a Mary e eu vamos dar um passeio e ver o acampamento. Um ganso selvagem ergueuse da água. e uma após outra as aves do seu bando responderam-lhe. a fim de formar dois quartos: um dela e do pai e outro das filhas. quando chegou. e o seu pequeno telhado descia só para um lado. Quando chegou para almoçar. o pai ficou satisfeito ao ver tudo tão bem arrumado e arranjado. a bater as asas contra o vento do alvorecer. – Depois do almoço. Poderemos escolher o melhor. Depois a bola dourada do sol surgiu por cima do horizonte oriental do mundo. Fez uma cortina e penduraram-na atravessada na cabana. O vento fraco entrava pela porta aberta e a cabana da ferrovia tinha um ar muito agradável e acolhedor. Laura – disse a mãe. e puseram do outro lado da sala a cadeira de balanço da mãe e a de Mary. pareceu tudo fresco. Ma. o céu pálido parecia debruado de faixas carmesim e ouro. enquanto trabalhava. a mãe comprou no armazém da companhia uma quantidade de metros de tecido estampado alegre. buscar água fresca no poço. era uma casinha quase perdida no meio da relva. O brilho dessas faixas estendia-se à volta da margem sul e brilhava na margem alta. No noroeste ainda persistiam sombras da noite. Carolina? – perguntou. 22 . para cortinas. e com as mantas. a sul do aglomerado de cabanas que constituíam o acampamento dos niveladores. Depois encheu o balde. Começou apressadamente a ajudar a mãe a preparar o café da manhã e. levantaram voo e seguiram-no. Depois fez outra e penduraram-na entre os beliches. com um enorme molho de asas fortes a bater. o nascer do sol! Só queria que visse! – exclamou Laura. Laura respirou fundo. como se fosse só meio telhado. temos um dia atarefado à nossa frente – e destinou-lhes o trabalho. contra o vento. a ocultar os beliches. mas disse simplesmente: – Bem. Brilhava. Entretanto. Lagoa Prateada. debaixo daquele telhado tão baixo. – Onde está a pastora de porcelana. Para lá da margem oriental do lago. A mãe sorriu a Laura. o lago e tudo – disse Laura. com o fogão de cozinhar junto da porta. Mas o telhado é estanque e nós não precisamos de janela. estamos só de passagem. sem ninguém a não ser os niveladores dos trilhos. demoradamente. enquanto os bandos de gansos selvagens voavam recortados nelas. pois pela porta entra muito ar e muita luz. com tocos de raízes de relva obstinada. o grande triângulo de gansos selvagens ergueu-se. junto da Lagoa Prateada. até conseguires o lote de terra. – Tive de ficar vendo-o. mas quando estes ficaram prontos com os colchões de palha e de penas da mãe. Era muito pequena. – Eu ouvi. – Era tal clamor de aves que parecia um manicômio. e levou-o correndo para a cabana.8. filhas. Faixas de luz dourada subiam cada vez mais alto no céu oriental. por cima do lago. ao sol. A nova cabana erguia-se isolada junto da margem do lago. Tinham que desembalar tudo e arrumar a cabana antes do meio-dia. Os colchões da prima Luísa tinham de ser arejados e devolvidos e os da mãe cheios de palha seca e nova. E agora estou vendo tudo. que partirão antes de o inverno chegar. Gaivotas voavam. mas a Lagoa Prateada estendia-se como um lençol de prata na sua moldura de vegetação alta e bravia. A cabana era tão pequena que as cortinas tocavam nos beliches. onde começava o Grande Pântano. – Não vamos ficar vivendo aqui. A mãe e Laura colocaram a mesa de abas encostada à parede lateral. – Oh. – disse Mary. amarela. O chão era de terra nua. com um grito vibrante. – Não desembrulhei a pastora. O pai riu-se. mas varreram-no muito bem. – Esta é outra espécie de casinha só com meio telhado e sem janela – observou a mãe. defronte da porta aberta. Charles. Laura. apressada. na manhã seguinte. – Disponho de muito tempo para escolher o que mais me agradar! Olha para esta grande campina. para o almoço. com a cabeça descoberta. sobre o lago. milhares de patos selvagens quase cobriam a água e gaivotas voavam. O SOL ainda não nascera. foi dizendo como o sol subia do outro lado da Lagoa Prateada e inundava o céu de cores maravilhosas. em que a sua luminosidade tocou na água e se refletiu nela. O espaço à frente da cortina passou a ser a sala de estar. – Estávamos esperando a água. Deu um beliscãozinho na orelha de Carrie e levantou Grace no ar – não a podia atirar ao ar. Ouviam-se patos entre a relva densa do lado sudoeste. – respondeu a mãe. Você faz quadros quando fala. quando Laura meteu o balde no poço pouco fundo. que se erguia da água dos lados leste e norte. a gritar. bonito e acolhedor. aos gritos.

Milhões de sussurantes folhas de relva produziam um som murmurante e milhares de patos e gansos selvagens. Canarinho! – disse o pai. Depois se lembrou do balde que tinha na mão. Quando forem passear. A margem do lago tornava-se cada vez mais baixa na direção do Grande Pântano.O vento soprava. Há toda a espécie de homens grosseiros a trabalhar na estrada de ferro. mas firme e seca. e o Grande Pântano seguia para sudoeste. no seu modo sereno: “Charles. Brilhavam pequenas poças entre a relva e na água abundavam as aves selvagens. tinha de obedecer ao pai. Laura e Carrie estavam imóveis. Os cavalos vinham lado a lado pela campina. Os seus pés descalços mergulhavam lentamente no lodo. só se via luz trêmula passar sobre a relva. – Charles – disse a mãe. mas desta vez Laura. Todo o ar explodia numa confusão de grasnidos. vindo do nordeste. numa fila comprida. Não havia nem uma nuvem no céu imenso e numa grande distância. margem nenhuma. Carrie – frisou o pai. À medida que o vento soprava na água azul. escura e serpenteante. quando nessa tarde saíram para passear. queimados do sol e de camisas às riscas azuis e brancas. entre a relva! 23 . conversando entre a relva e a comer azafamadamente raízes.. que subiam até à sua altura. Laura parou. Pa – prometeu Laura e Carrie repetiu. curiosos. constante e forte. todos a cantar a mesma cantiga. A mãe abanou só um bocadinho a cabeça ao pai. Os olhos de Carrie estavam muito abertos e assustados. tanto melhor. cuás e quonks. Através do lago cintilante. ofegante. A vegetação do pântano. o chão é todo mole! – exclamou Mary. Não se esqueça. Encheu-o no poço o mais depressa que pôde e regressou correndo. Pa. grous e pelicanos tagarelavam viva e ruidosamente no vento. Carrie! – gritou Laura. Pa! E os homens todos a cantar! – Recupere o fôlego. de hastes ásperas. com relva curta até à beira-d’água. e os homens caminhavam de cabeça e braços nus. que se erguia a metro e meio e um metro e oitenta de altura. suspensa pelas fitas. e a cantiga era a sua bandeira. Todas aquelas aves se alimentavam entre a relva dos pântanos. ao menos uma vez. – Tive. Não queria ouvir linguagem imprópria. e virou-se muito depressa para trás. Então o pai olhou bem para Laura e disse: – Afastem-se do acampamento.. as parelhas chegarem ao campo. e despenteava Laura. quase num murmúrio: – Sim. mantiveram-se afastadas das cabanas. cantando. até não haver. embora não soubesse bem o que isso era. Sentiam a relva quente e macia nos pés. Laura. que lhas comprimia contra as pernas nuas. mais nada. esta era baixa. e pousavam de novo. À medida que Laura e Carrie avançavam através da relva do pântano. a bater as asas. a oeste daqui! Duzentos homens e parelhas a condizer. Devia ter visto o acampamento de Stebbins. garças. Geralmente todos sabiam o que a mãe pretendia quando dizia. a olhar e a escutar. As parelhas estavam chegando ao acampamento. mas a de Laura estava caída. mas. Um pequeno pântano desembocava no lago. O vento batia-lhes nas saias. gritando novidades umas às outras. E você também. debaixo do céu vasto e deserto. tenras plantas aquáticas e peixinhos. O lago ficava à sua esquerda. erguia-se acima das suas cabeças e produzia um som áspero. – Vai afundar! O lago está aqui. luzindo ao sol. Com as patas espalmadas esticadas debaixo da cauda. Laura teria gostado de ouvir alguma. entornando água pelas pernas nuas abaixo. Pareciam um pequeno exército a atravessar a terra imensa. e quanto menos os virem e ouvirem.”. pequenas ondas prateadas subiam e desciam e desfaziam-se na margem. asas ríspidas batiam subitamente e olhos redondos cintilavam. na direção do Grande Pântano. – São tantas. não se aproximem dos lugares onde estiverem homens trabalhando e não se esqueçam de voltar sempre antes de eles virem para passar a noite. Levantavam voo. batida pelo vento forte. Carrie e o pai olharam-na. com uma cara muito séria. E o vento trazia o som de muitas vozes de homens. até o fim da coluna se reunir à multidão que alastrava à volta das cabanas baixas e a cantiga se confundir com o som vago das suas vozes fortes.. O lago fundia-se com o pântano e formava pequenos charcos rodeados pela relva áspera e viçosa do pântano. Mary e Carrie tinham as toucas bem apertadas debaixo do queixo. ao vento. realmente. – explicou. – Sim. na vasta planura. – Volte para trás. pois não gostava de ter lama nos pés. – Cinquenta parelhas e setenta e cinco ou oitenta homens constituem apenas um pequeno acampamento. Partiram ao longo da margem do lago. numa extensa curva de vegetação alta e bravia. cinzentas ou simplesmente azuis.. – Oh. patos e gansos passavam velozmente sobre a relva e descreviam uma curva para descerem para o charco seguinte. Laura via a margem oriental e a margem sul. claro. Por isso. de ver. e usando linguagem imprópria. a rir.

e à sua frente brilhavam charcozinhos entre a vegetação alta. Desejava avançar mais e mais pelo pântano. a norte da casa. – Que poderá ser aquela casa e quem morará lá? – perguntou. porque não tem estábulo nem nenhuma terra lavrada. piavam e equilibravam-se nos caules da vegetação alta e dobrada pelo vento. voltou com elas para trás.A lama macia e fria parecia aspirar-lhe os pés. Mary riu-se. curta e anelada. batidas pelo vento e cheias de ar fresco e sol. à volta dos tornozelos. No portal. para ver se as via. que eu ouvi! A tarde findava quando regressaram. na relva. com as cabanas limpas e novas. em chusma. a relva e a água! Não vale a pena ficar pensando na casa. Por isso. que pendia pelas fitas. Depois dele ficava o barracão-dormitório. Mary. podemos perguntar ao Pa o que é. Gafanhotos levantavam voo. – Você a pos agora mesmo. e mais longe ainda ficava a comprida barraca do refeitório da prima Luísa. diante dos seus pés. ao regressarem do trabalho. Viam todo o acampamento. com o grande depósito de forragens atrás. e toda a espécie de passarinhos pequenos esvoaçavam. agitada e dobrada pelo vento. Acenaram-lhe. você está com a touca na cabeça? Com ar culpado. pela primeira vez. uma casa verdadeira. com o fumaça do jantar já subindo pela chaminé. onde os homens dormiam. Fora construído numa dobra da campina e o seu telhado era de erva do pântano. Mary sentou-se na cadeira de balanço com Grace ao colo e falou-lhe dos patos que grasnavam no Grande Pântano e dos enormes bandos de gansos selvagens que iam dormir no lago. – Laura. Primeiro ficava o armazém onde o pai trabalhava. onde o mato lhe chegava à cintura. estendendo-se ao longo da margem do lago. Laura viu uma casa. De novo à porta da cabana. mas não podia deixar Mary e Carrie. E os homens também faziam muito barulho. comprido e baixo. Depois Carrie pôs o grande ramo num jarro de água. a mãe esperou que elas chegassem. Apanharam lírios rajados. Seguia-se o estábulo para as parelhas de trabalho. Dissera a Mary tudo quanto vira e a irmã exclamou: – Que lugar tão bonito. isolada na margem norte do lago. pequenina devido à distância. Por toda a parte se viam galinhas da campina. enquanto Laura punha a mesa para o jantar. de um vermelho flamejante. Foi então que. Laura puxou a touca. – Oh. para a campina mais dura e mais alta. na margem da Lagoa Prateada. a mãe protegia os olhos com a palma da mão e olhava. com o telhado inclinado só para um lado erguia-se isolada e minúscula. e cresciam manchas de erva-búfalo. com as suas braçadas de lírios rajados e vagens cor de púrpura. 24 . Vem aí outro bando de patos selvagens. A pequena cabana. que bela campina selvagem! – exclamou Mary. – Não é nenhuma fazenda. às corridinhas. feliz. ao longo da beira do pântano e em terreno mais alto colheram longos caules bifurcados de vagens de cor púrpura. entre as aves selvagens. – Estou sim. Bandos e bandos de patos e de gansos selvagens desciam do céu e preparavam-se para passar a noite no lago.

e novamente depois do almoço. Uma manhã. – Teríamos sido todos mortos. Limitou-se a responder ao que lhe perguntavam. – Então o que está acontecendo? – Nada – respondeu o pai. no rio Verdigris. Enfim. e depois volta à noite com a quadrilha e as leva. Quando chegava aos homens que trabalhavam no aterro. para que os homens sedentos pudessem beber sem parar de trabalhar. as correntes levantavam os pesados baldes do chão e Johnny imobilizava-os com as mãos. – O Big Jerry esteve no acampamento – contou o pai. se não fosse um índio puro – lembrou-lhe o pai. Por fim. é jogar. – Isso é assunto do Hi – disse a mãe. Ladrões de cavalos UMA NOITE. Em seguida enchera um baldezinho de chá quente e dera tudo a Big Jerry. Charles? – Estou bem. É por isso que alguns deles teriam prazer em dar-lhe um tiro. mas os seus olhos azuis brilhavam alegremente e ele trotava sempre o mais depressa que podia. enrugado e curvado. Esteve aqui uma semana e agora foi-se embora. 25 . – Ele é tão fraco e tão velho. os melhores cavalos são roubados depois de ele ir embora. – Disse a mãe. – Espero que o deixes resolvê-lo.9. Carolina. Se o Jerry lhes ganha o dinheiro. Passados momentos. Por esse motivo. – Não teríamos corrido sequer algum risco de ser mortos se não fossem aqueles selvagens berrando. antes do café da manhã. o pai quase não falou. de meios-índios. Nunca existiu homem de coração mais bondoso do que o Big Jerry. debaixo da carga. a mãe insistiu. Afirmam que todas as vezes que o Big Jerry visita um acampamento. enquanto lhes suportava o peso com os ombros. – Isso é verdade – admitiu a mãe. – As refeições da cantina não lhe caem bem. em passinhos curtos e rígidos. a culpa é deles próprios. – Não te preocupes. Os rapazes dizem que ele está metido com a quadrilha de ladrões de cavalos. os rapazes foram avisados para estarem atentos a ladrões de cavalos. ao jantar. Importa-se de lhe dar um caneca de chá quente e qualquer coisa para o café da manhã? A mãe pusera num prato diversos dos seus biscoitos quentes e leves e colocara ao lado um bolo frito de batata esmagada e uma fatia de carne de porco salgada bem frita. O seu rosto era um emaranhado de rugas. Carolina. nem sequer. Cada balde de água tinha a sua concha de folha. E lá ia. – O problema. a mãe perguntou-lhe: – Não se sente bem. Pensam que fica apenas o tempo suficiente para escolher as melhores parelhas e ver em que baias se encontram. – Se há uma coisa tão má como beber. é que vem ao acampamento depois do dia de pagamento e ganha no pôquer o dinheiro todo dos rapazes. que trabalhara toda a vida na ferrovia e agora estava velho demais para isso. em cada extremidade da canga. Johnny era tão velho que estava mirrado e curvado. mas Laura pensou que ele o dizia como se esperasse que o fato de o dizer bastasse para que fosse verdade. senhora! – exclamara Big Jerry. Big Jerry aparecera à porta e dissera à mãe que o velho Johnny passara a noite toda agoniado. Era um velho irlandês pequeno. com peles frescas de esquilo suspensas da cintura – e a mãe emitiu um som inspirado pela recordação do cheiro das ditas peles. – Não creio que o Jerry roube cavalos – disse o pai. inclinava-se e suspendia os baldes de dois ganchos que pendiam de correntes curtas. brandamente: – Gostaria que desabafasse. Endireitava-se então com um gemido. – disse a mãe. para que nenhum sequioso tivesse de esperar para matar a sede. Laura e Carrie entreolharam-se e depois olharam para a mãe. protegido pela escuridão. Charles. que não gostava de índios. o verdadeiro problema. Basta ver como toma conta do velho Johnny. Todas as manhãs. – Sempre ouvi dizer que não se pode confiar num mestiço. o velho Johnny ia ao poço encher os seus dois grandes baldes de madeira. Seria capaz de dar a camisa do corpo. Carolina. Johnny trotava ao longo da linha de trabalho. – Nada com que valha a pena te preocupares. O velho Johnny era o aguadeiro. a companhia dera-lhe o trabalho de levar água aos homens. esta noite. – Admira-me que o Hi permita isso. depois atravessava a canga de madeira nos ombros. – Eles não são obrigados a jogar se não quiserem.

Depois do café da manhã o pai fora ao dormitório ver o velho Johnny e. Vira-os muitas vezes. 26 . Charles! Com certeza não farão isso! – exclamou a mãe. Responderam-lhe do pântano outros gansos e seguiu-se um grasnar de patos encenados. nas trevas. agitada pelo ar que entrava pela porta aberta. à escuta. que dormia. – não tenho sono. galopando na campina. e a relva agitava-se. Disse que meia dúzia de homens estavam emboscados à volta do estábulo. Lembraram-se todos como Big Jerry surgira da campina no seu cavalo branco. quando o desconhecido os seguia. que quase gritou. – ordenou a mãe. A escuridão engolira-o. No exterior via-se um retângulo de céu e estrelas sobre o horizonte distante da terra escura. – Quero fazer alguma coisa. frio. – Não poderias encontrar o Pa. mais escuras do que a escuridão da noite. Abotoou-o todo e levantou a gola. no escuro. Big Jerry usava sempre uma berrante camisa encarnada. Só desejo que o Jerry não venha ao acampamento esta noite. e o respirar mais acelerado de Mary e Carrie. – Eu não tenho sono. não. Laura. nos ouvidos. – E agora já. mas o pai já tinha saído. quase não se viam. para que não se visse a camisa cinzenta. O pai pendurara o chapéu e estava sentado no banco. Ma. A própria cortina produzia um som muito leve. e regressou. um zumbido que era como se se ouvisse a si própria a escutar. acachapadas na terra. mas se tiver oportunidade não deixará de lhe meter uma bala no corpo. – Não fiques levantada à minha espera. – Não poderia tratar melhor do próprio pai do que tratou do velho Johnny. Fique quieta e calada e deixe o pai tomar conta de si próprio. Laura pensava em Big Jerry no seu cavalo branco. mas não descalçara as botas. Não vale a pena ir para a cama quando não temos sono. – Bem – disse o pai. só quem sabia onde se encontravam as distinguia. O pai pôs o chapéu e disse: – O que mais tem falado já matou um homem. – Oh. Levantou a cabeça quando Laura entrou e depois levantou-se e vestiu o sobretudo. nem ele quer que o encontre. o respirar lento de Grace. Os pés descalços de Laura atravessaram silenciosamente a sala e ela sentou-se ao pé da mãe. Enquanto lavava a louça. Preferia fazer alguma coisa – insistiu Laura. levantando-se muito devagar – tenho de ir vender aos rapazes munições para as suas armas. a mãe voltou-se para dentro e disse: – É hora de dormir. ao pôr do sol. apesar do frio. Foi à porta e olhou. Passados instantes. tremendo. – Fique quieta. muito séria. Laura olhou. Grace dormia atrás da cortina e a mãe ajudava Mary e Carrie a se deitarem. – afirmou o pai. Não se via uma luz no acampamento. – Creio que não me vou deitar. O vento murmurava. O vento suspirava. mais tarde. O pai pôs o chapéu. abatem-no a tiro. deixe-me sair e ir procurar o pai – murmurou Laura. mas mesmo assim cumpriu pena na prisão estadual. em tom despreocupado. percorreu o corpo todo de Laura. O pai foi para o armazém e a mãe começou a levantar a mesa. Um grito vibrante. Brilhava um pouco de luz das estrelas sobre a Lagoa Prateada. pelo menos já – disse a mãe. à cabana. – Ma. perdido do seu bando. com as armas carregadas. Laura não disse uma palavra. andava sempre com a cabeça descobreta e o seu cavalo branco nunca trazia arreios. e passara a noite sem se cobrir. Ouvia também a respiração da mãe. A mãe veio de trás da cortina. E o Big Jerry “limpou-o” no último dia de pagamento. não faço ideia do que nós próprios lhe devemos. Se ele aparecer para ver como o velho Johnny está e for ao estábulo deixar o cavalo. A noite estava escura quando o pai regressou do armazém. Johnny dissera que Jerry até o cobrira com o seu próprio cobertor. Não tem a hombridade de enfrentá-lo cara a cara. a volta da qual se estendia a campina negra. dissera à mãe que Big Jerry tratara dele a noite inteira. Fora apenas um ganso selvagem. escutando. plana sob o veludo verde do céu recamado de estrelas. Sentou-se na cadeira de balanço de nogueira que o pai fizera para ela. A mãe baixou a luz e depois apagou-a. Carolina – recomendou. Era hora de dormir. para mantê-lo quente. Ficaram sentadas às escuras. As cabanas às escuras. Carolina. Laura ouvia um zumbidozinho muito fraco. à espera. a relva roçagava e ouvia-se o som fraco e incessante de pequenas ondas a lamberem a margem do lago. – Por favor. Teve sorte. deixe-me ficar também de pé – pediu Laura. como se tivesse medo. que estavam acordadas atrás da cortina. Ma. no Território Índio. pois alegou que o fizera em legítima defesa.

– Como sabe. Laura e a mãe ouviram passos e. se aparecesse de manhã. ouviu-o dizer à mãe. 27 . – O sol e o vento estão deixando o seu cabelo ressecado. As tranças eram tão compridas que podia me sentar nelas. à espera de ouvirem o som de tiros.. girando à sua volta. moveu-se de leste para oeste e. mas a mãe ficou inerte na cadeira. – Não era necessário. num instante. – Sim. – Como sabe que o Big Jerry. Lentamente. – O melhor de tudo. Depois ele e o seu cavalo branco afastaram-se a galope. na direção do lugar onde os homens estavam trabalhando. O pai estava à porta. em voz baixa. no entanto. Não disse mais nada. – Não há novidade com o Big Jerry. pai? – perguntou Laura. Está tudo bem. Junto da ombreira escura da porta via-se brilhar uma grande estrela. – Eu tinha um lindo cabelo comprido quando casei com o teu pai. – no escura.– Eu também. Continuou a afagar o cabelo de Laura enquanto escutavam. mais lentamente ainda. Deve escová-lo mais. De súbito. A gargalhada sonora do pai soou como um toque de sinos. Laura viu Big Jerry passar pela cabana no seu cavalo branco. Precisamos dormir tanto quanto pudermos antes de nascer o sol. é que nunca será roubado um cavalo sequer do acampamento da Lagoa Prateada. as estrelas menores acompanharam-na. Carolina? – perguntou o pai. ele não virá esta noite ao acampamento. Laura. Não me surpreenderia. no seu cavalo branco. Laura levantou-se de um pulo. antes de se deitare.. e acenou-lhe. na manhã seguinte. a mão da mãe começou a afagar suavemente a cabeça de Laura. Carolina. Deve dar-lhe cem escovalas todas as noites. Efetivamente. Canarinho! – interrompeu-a o pai. alegremente. mãe – murmurou Laura. Agora vai para a cama. Nunca foi roubado um único cavalo no acampamento da Lagoa Prateada. – Não se preocupe. – Amanhã vamos ter um grupo de homens muito sonolentos trabalhando no nivelamento! Enquanto Laura se despia atrás da cortina e o pai descalçava as botas do outro lado da mesma. que se foi deslocando com o passar do tempo. – Ainda de pé. as estrelas deixaram de se ver. Saudou o pai. que estava no armazém.

como deve ser. Lena sabia muitas cantigas novas e Laura aprendeu-as depressa. enquanto lavava a louça do café da manhã. a Tia Dócia mudou-se para o acampamento e trouxe duas vacas. mas do trabalho propriamente dito ela só via uma mancha de poeira que subia da fulva campina. Pois anda na terra sempre a mexer. Levavam-nas a beber ao lago. Era uma vaca bonita. Encontravam-se todas as manhãs e todas as tardes para tratarem delas. que secava rapidamente ao vento e ao sol. a fim de irem buscar os seus cavalos. Queria saber onde os homens estavam trabalhando e como faziam o aterro para a estrada de ferro. para acertar a música: Compre uma vassou-oura. Os seus dedos sensitivos permitiam-lhe embainhar muito bem e era capaz de coser uns aos outros retalhos de cobertas. Lena cantava docemente. fazia a sua tarefa de remendar e costurar. era cada vez maior o número de aves selvagens que voavam para sul e o pai dizia que o inverno não tardaria. em boa relva. para relva fresca. Queria ver os homens construindo a estrada de ferro. – É a única maneira de arranjar algum aqui. Laura. A tarde maravilhosa TODAS AS MANHÃS. Laura ajudava a mãe na barrela e a levar para casa a roupa lavada e perfumada. Mas Laura não pensava no inverno. Eles partiam todas as manhãs e regressavam sempre ao meio-dia e à noite. Casar com um ferroviário preferiria.10. Mas Laura gostava mais das valsas. uma vassou-oura! Compre uma vassoura. de um vermelho lustroso. e firmemente. Ás vezes. Depois ouvia-se um barulho de arreios e uma confusão de palavras e gritos e os homens e as parelhas seguiam para o trabalho. a oeste. deixando o silêncio atrás de si. mudavam as estacas de lugar. Leve-a para um lugar onde a relva seja boa e não se esqueça de cravar bem a estaca. se lhe dispusessem as cores. borrifava a roupa e ajudava a mãe a passá-la a ferro. O vento tornava-se mais frio ao anoitecer. Adorava a canção da vassoura. De camisa às riscas. Ao meio-dia. – Trouxe o nosso leite comigo. Uma das vacas era para o pai. Uma casa no fundo ondulado. muito cedo. A essa hora o pai vinha do armazém e comiam na pequena cabana. O pai desatou-a da traseira do carroção da Tia Dócia e estendeu a corda a Laura: – Tome. Os dias iam passando. Mary estava a aprender a coser sem ver. Laura podia olhar pela porta aberta e ver os homens sair da refeitório e dirigirem-se para o estábulo. a campina ondulava suavemente até ao horizonte distante. Laura e Lena puseram as vacas não muito longe uma da outra. com o vento a soprar e a vasta campina fora da porta. compre uma vassoura! Compra a este bávaro errante uma vassoura? Os insetos varrerá Que venham incomodá-la E muito útil a achará Seja de dia ou de noite que tenha de usá-la! 28 . enquanto o leite esguichava para os baldes areados: Uma vida na onda oceânica. onde não há agricultores. apesar de terem de dizer “vassoura” muitas vezes. com o regresso dos homens e das parelhas para o almoço. e depois as ordenhavam. Cantavam juntas. Já tem idade para tomar conta dela. o acampamento voltava a ficar ruidoso. Os sapinhos agitam a cauda E as lágrimas rolam-lhes pela cara. Às terças-feiras. Suavemente colorida de todos os tons de castanho-escuro até ao avermelhado e ao fulvo. Charles – disse. um igual ao outro. chamada Ellen. Às quartas-feiras. Um dia. e Laura também: Com um lavrador não casaria. E enquanto as ordenhavam cantavam. embora não gostasse. Às segundas-feiras.

o aterro terminava bruscamente. Então. e agora estavam num improvisado acampamento ferroviário e tão cedo aquela região não seria civilizada. que lhe não sobrava tempo nenhum para brincar. a desbravar uma larga faixa de campina. mas é turbulenta e a Tia Dócia não soube educá-la como deveria. com os baldes de leite morno e de odor doce. Lena tinha tanto que fazer. – Bem. Mas. serenamente. e cantavam. Ao anoitecer. Se queres ir ver esses homens rudes trabalhar na terra. o pai parou e disse: – Cá estás. púrpura e ouro. Por isso. volta do mesmo modo e não se fala mais disso. ter boas maneiras e serem sempre umas senhoras. À frente. Depois de o pai ter voltado para o armazém. Viveram sempre em lugares selvagens. fechou a porta a cadeado e meteram-se os dois à campina. Laura sabia que não devia gritar. iríamos ver os homens trabalhar – respondeu Lena. pois tinham de coar o leite antes da nata começar a subir e de ajudar a fazer o jantar. a ajudar a Tia Dócia e a prima Luísa. – Sabe o que eu faria se o meu pai não tivesse posto os nossos pôneis pretos a trabalhar no aterro? – perguntou Lena. Laura? – Nada. Encontravam-se no cimo de uma pequena elevação. O pai estava sozinho no armazém. – Sim. esforçou-se por manter a voz baixa. – Não queria? – Queria. Por fim.. Depois. Quero vê-los construir uma estrada de ferro – respondeu Laura. Levo-a lá e deixo-a ver com os teus olhos. Disse querer que as suas filhas soubessem comportar-se. em frente. e caminharam os dois durante algum tempo. um dia. Diante deles. muito depressa. também dispunha de muito tempo. admirada. limpou o bigode e disse: – Você faz muitas perguntas. quase nunca se encontravam. lavando-se nas bacias de água que se encontravam no banco junto da porta e penteando-se. ou dar um pequeno passeio pelo lago. Pôs o chapéu de abas largas. não fique tão agitada – admoestou a mãe.As vacas ficavam quietas. tirando algum tempo em Riacho das Ameixeiras. Estaria bem ir sossegadamente com o pai ver os trabalhos. Àquela hora. sim. pronto. embora não trabalhasse tanto. Laura e Lena regressavam a casa. ao longo do caminho poeirento que os seus passos abriram na campina. a ruminar. Ma – respondeu Laura.. a mãe achava melhor não se darem com ninguém. o céu incendiava-se de vermelho. mas devia comportar-se bem e lembrar-se que uma senhora nunca fazia nada que pudesse atrair as atenções. ao almoço. – Sim. 29 . – Oh. a mãe falou muito friamente com Laura. se conseguisse escapar. a Lena também pode ir? – Resolvemos isso depois – disse a mãe. Em poucos minutos os seus altos e baixos ocultavam as cabanas e não se via nada além da trilha poeirenta da estrada e do aterro da estrada de ferro. – Laura não precisou decidir se desobedeceria ou não ao pai. quando não havia sombras. como se ouvissem as cantigas enquanto as ordenhavam. – E outra coisa: não quero que leves a Lena – prosseguiu a mãe. – Não. Contra o céu. uma noite. ao perguntar: – Pa. O pai agarrou o chapéu e Laura inclinou a cabeça. com o vento a fustigar-lhe a touca. a campina parecia plana. – Não compreendo porque queres ir – confessou Mary. em casa. Inesperadamente. erguia-se a mancha de poeira que o vento levava. homens com parelhas e arados revolviam a terra na direção oeste. Pôs a touca. E o sol nascia sobre o lago de prata. Ma. e se tivéssemos os pôneis. só desta vez. Aí pelas duas horas. falar decentemente em voz baixa. e decidiu que a manteria na cabeça. – Mas o quê. a não ser à hora da ordenha. Por isso. então vai sossegadamente com o teu pai. ao lado. escuros. Até lá. – A Lena é boa moça e trabalhadeira. – É muito mais agradável ficar aqui. Pa! – exclamou Laura. Que farias? – indagou Laura por seu turno. Canarinho. o sol pusera-se e as parelhas e os homens regressavam. quando saiu. – Então. Queria que Laura se afastasse do acampamento e não travasse conhecimento com nenhum dos homens grosseiros que lá trabalhavam. E a Laura. Meia Canequinha. o pai pousou a xícara do chá. Laura. põe a tua touca e passa pelo armazém. Lena ia para a cabana da Tia Dócia e Laura para a da mãe. pois de qualquer maneira não poderiam ir. – Mas eu quero ir. os homens estavam saindo do dormitório. mas não era. De manhã.

para ver como fazem uma escavação e uma terraplenagem. Do lado abrupto do aterro. mais para oeste. outro homem agarrava os cabos da raspadora e levantava-os o suficiente para enterrar a ponta redonda da raspadeira na terra solta do solo arado. de modo que o aterro ficasse regular. fazem o aterro mais alto. debaixo de poeira. Observava o despejar das raspadoras e a terra a rolar. dizia-o igualmente e o condutor fazia os cavalos andarem mais devagar. ou escavação. e onde ele é alto escavam para fazer o aterro nivelado. Depois o homem largava os cabos. – Porque assim poupa trabalho. passando pela extremidade do aterro e voltando atrás para atravessarem a faixa arada. o capataz. havia outras coisas a ver: – Ande. Toda a terra era ali despejada. e com uma inclinação de cabeça ou uma palavra dizia a cada condutor quando devia despejar a sua raspadora. – respondeu o pai. e depois efetuavam o trajeto inverso. nem ninguém se apressa. – E raspadoras. Mais para oeste. para lá de uma pequena elevação da campina. onde as ervas mortas e esmagadas pareciam feno caído no pó. Laura nunca se cansaria de ver aquilo. Devia compreender isso sem precisar que te dissesse. observando. de aço. trabalhava tudo sincronizadamente. – Repare. Trinta parelhas e trinta raspadoras. tudo no seu lugar e a tempo. enquanto andavam à volta do círculo. Se acontecia o contrário. as raspadoras nunca paravam de se encher e despejar. horizontalmente no chão e os cavalos puxavam-na à volta do círculo e pelo lado do aterro acima. – Veja. sobre a terra arada e pelo aterro acima. Laura. cada raspadora tinha dois cabos curtos. “Quando uma raspadora se enche. Se uma parelha afrouxava. o outro homem pegava nos cabos e levantava-os o suficiente para enterrar a ponta redonda da pá na terra solta. curvava de um lado da raspadora para o outro. mais tarde. que eram as raspadoras. – disse o pai. Pa? – perguntou Laura. As parelhas tinham de estar espaçadas regularmente. chega outra para substituí-la e o homem lá está para agarrar nos cabos e enchê-la. e os arados retrocederem pelo interior do círculo e deixá-lo para avançarem de novo. faziam um corte. Meia Canequinha. ninguém pára. Estão a fazer excelente trabalho. – Ora observe. mais adiante. Aí. através de terreno mais elevado. pois parecia-lhe estranho pensar que homens com arados avançassem naquela região que nunca fora lavrada para construírem uma estrada de ferro. o homem que conduzia a parelha segurava os cabos da raspadora e inclinava-a numa reviravolta para o lado do aro curvo a que os animais estavam atrelados. As parelhas nunca paravam de andar. O leito de uma estrada de ferro tem de ser o mais nivelado possível. – Funciona tudo como um relógio. e todas as parelhas duplas e os arados. Laura acompanhou o pai ao longo da trilha dos carroções. 30 . Fred estava no monte de entulho a ver as parelhas e as raspadoras andando em círculo. em círculo.– Fazem-no com arados? – perguntou Laura. outros homens construíam outra extensão do aterro da estrada de ferro. para que os trens possam andar. raspadora atrás de raspadora eram inclinadas e despejadas. E um meio arco forte. ele dizia ao condutor e este conduzia mais depressa. – Porque os trens não podem ir pelas elevações da campina? – não havia verdadeiros montes e parecia um desperdiço de trabalho duro escavar todas as pequenas elevações e encher todas as pequenas concavidades só para que o leito da via ficasse nivelado. de modo que as raspadoras passavam por cima do solo acabado de arar e as parelhas dos arados voltavam para trás e aravam de novo o solo que fora raspado. como o pai dissera. onde o outro a despejava outra vez. até a encher de novo. que se encontrava de pé. A parelha estava atrelada a essa curva de aço. Parelha atrás de parelha percorriam o círculo. a curva alargava. homens e parelhas andavam lentamente. As parelhas puxavam pás largas e altas. e todos os condutores e os que seguravam nos cabos das pás. exatamente como um relógio. Entre os homens que trabalhavam com os arados e o fim brusco do aterro. Mas o pai disse que. Em vez de um cabo de pá comprido. Laura – explicou o pai – onde o terreno é baixo. no aterro da nova estrada de ferro. Fred é um bom capataz”. E quem fazia tudo trabalhar assim era Fred. – Por que. À medida que o solo solto era retirado da terra arada. As raspadoras nunca têm de esperar pelos arados e estes só avançam determinada distância antes de voltarem para trás e ararem de novo o solo que foi raspado. Para cada seis parelhas havia um homem que se limitava a ficar parado. direito e nivelado. Na pequena concavidade a seguir à elevação estavam fazendo uma terraplangem e. a raspadora apoiava-se. E a parelha voltava a puxá-la à volta do círculo e pelo lado íngreme do aterro acima. enquanto a parelha continuava a puxar e a raspadora se enchia de terra. Quando um homem e a sua parelha chegavam à terra arada. enquanto a parelha puxava a raspadora vazia pelo aterro abaixo e percorria o círculo até à terra arada.

– o carvão tem de ser tirado das minas. desciam o aterro íngreme. de cada lado da vala. Pa? – Mais vias férreas. para carregar de novo. sim. As parelhas grandes. Laura não conseguia imaginar um país com tantas vias férreas nem tão rico que quase toda a gente pudesse andar de trem. a fim de subir a extremidade do aterro alto que seguia para o corte. – Isso se deve ao capataz. enquanto homens e parelhas descreviam os seus círculos juntos. a entrar no corte e a sair dele. poderá exigir mais trabalho e gastar mais dinheiro construir um leito nivelado. mas também não se esforçou verdadeiramente por imaginá-lo.Laura compreendia que uma via nivelada pouparia trabalho a cavalos. no extremo do enchimento e ao longo dos círculos. pois tinham chegado a uma elevação donde podiam ver os homens trabalhando na escavação e na terraplenagem. voltando ao extremo do enchimento e passando de novo por baixo da plataforma. – explicou o pai. Todas as vezes que uma raspadora despejava a sua carga. Observavam os homens e as parelhas e faziam-nos mover-se sincronizadamente. todas bem sincronizadas umas com as outras. – O quê. Mas ali as raspadoras não descreviam um círculo e. extasiada. para o corte e para fora do corte. O corte tornava-se cada vez mais fundo e o enchimento cada vez mais comprido. O círculo de carroças saía da vala e curvava para trás. As parelhas saíam do corte umas atrás das outras. Ao subir o aterro. Continuavam a avançar. Havia um buraco no meio da plataforma e a terra fora nivelada à boa altura. agora. assim como da vala e do fundo da elevação. Tábuas fortes e grossas escoravam os lados da vala e formavam sobre ela uma plataforma plana. Continuavam sempre. Depois seguia em frente. Não me surpreenderia se vivesses numa época em que todos andassem de trem e praticamente não restasse nenhum carroção. debaixo do buraco da plataforma. enquanto as parelhas com as raspadoras andavam em círculos. Ao mesmo tempo. as parelhas com arados e as parelhas com raspadoras estavam subindo uma vala larga. uma espécie de gancho estreito e comprido. andavam para trás e para frente. apressavam outra. mas queima carvão – esclareceu o pai. ali. mas mais tarde poupará dinheiro e trabalho que poderão ser úteis para construir outra coisa qualquer. do cimo do corte: – Rapazes! Andem um pouco mais depressa! 31 . Subia constantemente uma grande nuvem de poeira. a cauda e o pêlo dos cavalos estavam cheios de pó que. Os capatazes estavam na elevação acima do corte. mas uma locomotiva era um locomotiva que nunca se cansava. por cima dos homens e dos cavalos suados. – ele os faz marcar o compasso exatamente como se estivessem tocando uma melodia. Subiam o aterro até ao cimo da vala de depósito e atravessavam a plataforma. A cara e os braços dos homens estavam pretos de queimados do sol e do pó. As carroças não tinham caixas. – Pois não. está por baixo uma carroça para receber a terra. sem nunca pararem. firme e regularmente. Olha para o capataz e vera como se consegue. o carroceiro inclinava as pranchas. É um bom trabalho. e isso é trabalho. – Nunca falham! – exclamou Laura. estava uma carroça debaixo do buraco. uma de cada vez. um cavalo de cada lado. arrastando as raspadoras. Ninguém parava ou esperava. um círculo de carroças atravessava a vala. através da vala. davam a volta e regressavam ao corte para encher de novo as raspadoras. com o suor. Ninguém chegava atrasado ao seu lugar. Para despejar a terra. O depósito de entulho era uma vala funda no extremo do corte e transversal a ele. Aqui mandavam afrouxar um pouco uma parelha. Soprava poeira dos arados e das raspadoras. Uma máquina queima menos carvão se correr em uma reta do que se for subir e descer. Passavam por cima do buraco. formava uma espécie de pasta lamacenta nos seus flancos. Laura ouviu o capataz gritar. enquanto o condutor despejava nele a terra raspada. com os arados. de um lado. descrevendo o círculo debaixo da plataforma. para recolher a terra. Cada carroça esperava que lhe fossem despejadas dentro cinco cargas. e do outro por cima do depósito de entulho. Por isso. a fim de formar uma estrada ao nível da plataforma. antes de partir e o seu lugar ser ocupado pela carroça que estava atrás. puxando as raspadoras carregadas. descia na extremidade do enchimento e reiniciava o círculo sem fim. as suas camisas azuis e cinzentas estavam manchadas de suor e poeira e a crina. – Todas as vezes que uma raspadora despeja. Através da elevação da campina onde os trens passariam um dia. cada carroça despejava a sua terra e tornava-o mais extenso. enquanto os arados andavam para trás e para frente. eram apenas plataformas de tábuas pesadas.

– As dormentes terão de ser mandadas para cá e assentadas antes de chegar a altura dos trilhos. Mas Laura continuava a ver o movimento dos homens e dos cavalos numa sincronização tão perfeita que quase seria capaz de cantar a melodia a que obedeciam. sim. – estavam quase chegando ao armazém e o pai acrescentou: – Agora corra para casa. não se esqueça de contar tudo à Mary. Depois. – É a casa dos agrimensores. onde a estrada de ferro passaria. Pa! – prometeu Laura. Laura lançou a tudo um último e longo olhar e acabou-se. Ainda não havia ali nenhuma estrada de ferro. – Verei tudo em voz alta para ela. mas esqueceia-se sempre. Uma vez que já sabe como se faz o aterro de uma estrada de ferro. – E depois colocarão os trilhos – disse Laura. e quanto tinham de aprofundar os cortes. – Oh. Os trilhos e os trens não estavam ali. Enquanto estiveste sem fazer nada. Os agrimensores mediram e calcularam tudo com exatidão. antes de irem outras pessoas para ali. Eram horas de regressar ao armazém e a casa. Nem uma estrada de ferro nem nada que valha a pena. a lançar fumaça e vapor. chegaram os homens do arado. O vento soprava agora sem poeira e Laura deixou a touca cair para as costas. os agrimensores foram para a região deserta e marcaram e mediram uma estrada de ferro que ainda ali não existia. através da imensa terra relvosa. a rir.. todos a apontar para oeste. foi isso que fez aparecer a primeira estrada de ferro? – perguntou. Canarinho. os raspadores. creio que é quase certo que ela aconteça. acabei outro retalho de manta. – mas não conseguem enganar um bom capataz. todos os bocadinhos. alguém pensara em fazer uma estrada de ferro. agora? – Vêm e vão. a fim de poder senti-lo nas faces e ver toda a enorme campina. contarei. além de cortes abertos através das elevações da campina. na margem norte do lago. nos altos. E todos eles diziam que estavam trabalhando na estrada de ferro. Laura fez o possível. – Que casa é aquela. mas um dia os compridos trilhos de aço assentariam. o pai mostrou-lhe os números pintados nas pequenas estacas enterradas no chão. A tarde passara toda enquanto o pai e Laura viam aqueles círculos andar à roda. Canarinho.– Está quase na hora de parar e todos eles abrandaram um pouco.. O sol estava tão baixo que cada ondulação da campina começava a ter a sua sombra projetada para leste e do céu imenso e pálido começavam a descer bandos de patos e compridas cunhas de gansos. é isso que faz as coisas acontecerem: o fato de as pessoas pensarem nelas primeiro. na cabana agradável e limpa. – Quando o aterro estiver pronto. No caminho. Roma não se fez num dia e uma estrada de ferro também não se constrói num dia. a fazer o aterro da estrada de ferro. quando ainda não haviam? O pai pensou alguns momentos. e os carroceiros com as suas carroças. As estacas foram enterradas pelos agrimensores e os números indicavam aos niveladores quanto tinham de altear o aterro. Se um número suficiente de pessoas pensarem numa coisa e trabalharem nela com afinco. Havia dias que tencionava perguntar ao pai que casa era aquela que se erguia sozinha. Pa? – Qual? – Aquela. para recolherem a terra solta. mas Mary limitou-se a comentar: – Palavra que não percebo porque prefere ver esses homens grosseiros trabalhando na terra a ficar aqui. Tenho coisas a assentar nos livros. extensões de aterros que na verdade não passavam de estreitos e curtos sulcos de terra. de súbito. – observou o pai. apontando. Não havia nada ali realmente. direitos. – disse o pai – virão os homens das pás manuais e alisarão manualmente os lados do aterro e nivelá-lo-ão na parte de cima. Em seguida. – aconselhou o pai. antes de responder: – Tem razão. aquela casa a sério – explicou Laura. – Do que está falando? – Há estradas-de-ferro porque as pessoas pensaram nelas primeiro. em linha reta. – Pa. isolada. para a transportarem. embora essa ainda não existisse. que tinha sido apenas imaginada por alguém. se o tempo e o vento o permitirem. Primeiro. nos lugares baixos. mas Laura via-os quase como se estivessem. para arrancar a relva da campina. Sim. sobre o que foram cortes e enchimentos e os trens passariam ruidosos e velozes. 32 . – Eles estão lá. – Não ande tão depressa. a caminho do repouso noturno na Lagoa Prateada.

Sabia que ele não tinha medo e olhou para a espingarda. a conversar. A noite parecia mais escura e cheia de estranhos ruídos. Mas ninguém se lembraria de procurá-lo aí – e ninguém se lembrou. Nessa noite. – Porque não lhes pagaram o mês inteiro? – perguntou Laura. – Quero que tome conta disto. Mas agora não o podia ajudar. pois o pai dizia que a companhia ferroviária não queria que mais ninguém trabalhasse no escritório além dele. Laura acordou muitas vezes e de todas elas ouviu o pai mexer-se. A mãe sabia manejar armas. no beliche do outro lado da cortina. viu uma parelha veloz parar defronte da porta do armazém e um homem bem vestido sair apressadamente do buggy e entrar no armazém. iria ao escritório. – Não se pode esperar que eles compreendam como essas coisas são feitas. – Oh. e em Riacho das Ameixeiras ajudara-o a tratar dos animais e a colher o feno. – Eu tomo conta dele. Pa? – perguntou Laura. – É o dinheiro dos homens. Nesse dia não trabalhariam. o pai levou-o para o armazém. Tinha a certeza de que acontecera ali alguma coisa. – disse a mãe. Estava elaborando as folhas de tempo de trabalho. – Alguns homens parecem não compreender por que motivo só receberam duas semanas. no território índio. Subtraía o total dessas despesas do salário do homem e fazia a sua folha de tempo. de lona. Saíram de novo um por um e pararam em pequenos grupos. não é. fazer todas aquelas folhas de trabalho leva tempo e depois ainda é preciso mandá-las. Outros dois homens ficaram à espera no veículo. – ninguém se lembraria de procurá-lo aqui. Depois calculava quanto esse homem devia ao armazém. Ao jantar. Não havia o perigo de os ladrões se apoderarem do dinheiro. ajudara-o a acabar a casa. No entanto. Dia de pagamento DECORRERAM duas semanas e agora o pai trabalhava todas as noites depois do jantar no seu escritoriozinho. vigiando a porta e olhando para todos os lados. na direção do armazém. o pai entregava a cada homem a sua folha e o dinheiro que lhe era devido. No dia de pagamento. do armazém. e só então Laura lhe respondeu: – A lugar algum. Alguns não conseguem meter nas cabeças duras que têm de esperar duas semanas pelo pagamento. Se alguém pretendesse roubá-lo. – Não se preocupe com isso. Laura? – perguntara a mãe. Laura viu-lhe a coronha do revólver aparecendo na algibeira de trás. – Os homens que vinham com ele estavam com medo – continuou Laura. Era o tesoureiro. – Mas eles não o culpam. a um canto. Mas aqueles homens estavam bem armados e ainda traziam armas no buggy. Quando era muito pequena. ao que acrescentava a conta da cantina. eu não diria isso! Estavam apenas protegendo o tesoureiro. Contava no livro de ponto todos os dias que cada homem trabalhara e calculava quanto ele ganhara. O seu coração batia desabaladamente e quase parou quando viu o pai sair. na Grande Floresta. partiram rapidamente. Agora pago aos homens até o dia 15 e daqui a duas semanas pagarei a eles até agora. era dia de pagamento. e esperar que o tesoureiro traga o dinheiro. Laura. Ma. para pagar a todos os homens dos acampamentos. 33 . Laura saiu de casa a correr. Não tinham necessidade nenhuma de ter medo. e alguém podia tentar deitar-lhes a mão. Pouco depois. – Aonde vai. por cima da porta. Charles. – Foi aquele homem que o trouxe. sabia sempre o que o pai estava fazendo. para evitar que o roubassem – respondeu o pai – ele traz muitos milhares de dólares em dinheiro. são e salvo. Laura ajudara sempre o pai no seu trabalho. ao mesmo tempo em que embrulhava o saco num pano limpo e o metia bem fundo na saca da farinha. os homens reuniram-se todos à volta do armazém e foram entrando um por um. Charles – respondeu a mãe. porque o dinheiro estava na saca da farinha. Tirou da algibeira um saco pesado. Após mais um olhar em volta.11. como se tivessem medo. – Foi. Carolina – disse. o pai disse que tinha de voltar para o escritório. o primeiro homem saiu e entrou no buggy. Era o dia de pagamento. O pai entrou em casa e fechou a porta. – Compreenda. pois o armazém ficava bem à vista da porta da cabana e ela via todos que entravam e saíam. Queriam ser pagos exatamente até ontem. Pa? – perguntou Mary. Anteriormente. e para a sua caçadeira. De manhã cedo. Uma manhã. Depois do café da manhã. nos fundos do armazém. Quando o pai voltou para o armazém. ajudara-o a fazer as balas para a espingarda.

A multidão estava cerrada à volta do armazém. – para que todo esse barulho? Querem as mercadorias do armazém? Então amanhã tiraremos o que quisermos. Laura sentou-se ao lado de Mary. elas ainda lá estarão. As vozes gritaram de novo: – Queremos agora! Deixe de ganhar tempo! Vamos receber agora! – Não posso pagar-lhes agora. na relva. Era uma voz profunda e forte. Todo o crepúsculo ficou um momento silencioso. – Oh. perfeitamente audível apesar de não ser muito alta: – Que está havendo rapazes? Laura não podia ver a camisa encarnada na escuridão. pálida. Ouviu-se uma espécie de rugido e toda a massa dos homens avançou para o pai. Para lá deles. E Laura ouviu-lhe a voz serena e ficou a tremer. Laura estava ouvindo linguagem grosseira. à porta. a ver a luz apagar-se da água do lago – a vê-lo em voz alta. e com Carrie aninhada a seu lado. – Abra o armazém! – gritou alguém. – Queremos ser pagos – respondeu-lhe uma voz. atrás da multidão. do grupo. no meio do lago todo liso. De qualquer modo. mas como se gritasse. pela qual continuou a olhar. Depois os homens bateram de novo à porta e um deles gritou: – Abra a porta. onde os patos dormem. e tanto bastou para que todos gritassem: – Isso! Isso estará bem! Abra o armazém! Abra o armazém! – Não. rapazes. a rir. a água está fosca. e para lá dela a terra está escura. serenamente. que soltou uma estrondosa gargalhada: – Seus idiotas! – exclamou. para adormecê-la.. – Para trás. a descontar na sua conta. – Voltem amanhã de manhã e deixarei todos levarem o que quiserem. Mas a sua massa escura tornava se rapidamente maior. baixinho: – Venham para dentro. filhas. Mas Laura quase lhes não prestava atenção. Não diziam nada e nem sequer se ouvia o ruído dos seus pés. – A última luz brilha. Quando elas obedeceram. que temos? – perguntou.. As estrelas começam a piscar no céu cinzento. Mary. – respondeu o pai. A toda a volta. O grupo de homens estava silencioso. Não se aproximem tanto – disse o pai. Era Big Jerry quem a usava. Pouco depois a louça do jantar estava lavada e a mãe sentou-se a embalar Grace. à luz do candeeiro. Fechou a porta atrás dele e os dois homens que bateram voltaram a juntar-se ao grupo. deixando apenas uma frestazinha. deixe-me ir! Eles vão fazer mal ao pai! Deixe-me ir. mas Laura espreitou por baixo do braço da mãe. de súbito. como que impulsionada pelo rugido. tão depressa quanto eu tenha as folhas de tempo de trabalho feitas – respondeu o pai. E outras vozes gritaram: – Pagos na totalidade! Passe para cá as duas semanas que guardou! Vamos receber o nosso dinheiro! – Receberão daqui a duas semanas. – só terei dinheiro para lhes pagar quando o tesoureiro voltar. Dois homens subiram o degrau e bateram à porta. – Abra o armazém ou abriremos nós mesmos! – gritou um homem. Ingalls! A porta abriu-se e o pai apareceu. – há um grande grupo de homens. mas só Big Jerry era tão alto: a cabeça e os ombros ficavam acima dos vultos vagos do grupo. Vê-se o seu brilho amarelo nos fundos do armazém às escuras. – Ma! – chamou. – Então. rapazes. Depois olhou por cima da cabeça de Laura e Mary e disse. Mary sentou-se na cadeira com Carrie. rapazes – explicou o pai. com as mãos nos bolsos. fechou a porta. Laura passou por baixo do braço da mãe. tenho trabalho de escrituração a fazer no escritório. Depois ouviu outra voz. O pai ficou no degrau. O pai acendeu o candeeiro. num tom que nunca lhe ouvira antes. – Fique quieta! – ordenou-lhe a mãe. Uma confusão de vozes respondeu a Big Jerry. 34 . Tudo quanto ele dizia estava misturado com pragas e outras palavras que ela nunca ouvira. quando começarmos. A mãe levantou-se muito depressa e deitou Grace na cama. para Mary. mas a mão dela agarrou-a pelo ombro e puxou-a para trás. no escuro. via-se uma pálida sombra. eles vão fazer mal ao pai! – disse Laura num murmúrio. Ninguém nos deterá. que devia ser do cavalo branco. rapazes.– O pior de tudo é isso: não sei. não abro. Olhe! Os homens reuniam-se à volta do armazém.

dos outros campos todos. e Laura compreendeu que a mãe se sentou no joelho do pai. Jantaram na cantina e depois foram deitar-se no dormitório. O lago estava cor-de-rosa e aves selvagens levantavam voo. a ver. Big Jerry soltou um grito selvagem e o cavalo branco disparou pela campina fora. numa multidão que falava excitadamente. Tinha a impressão de que tudo nela se partira como um prato deixado cair. Carolina. estes acampamentos fecharão em breve e para o ano estaremos instalados na nossa gleba. Para lá da Lagoa Prateada. Partiram todos. Não fique tão transtornada. O aterro está quase pronto. – bocejou e sentou-se para descalçar as botas. o céu parecia ouro incendiado. o capataz. que chamava vários homens pelos nomes e falava em beberem e jogarem cartas. Os olhos da mãe estiveram ansiosos todo o dia e os seus lábios comprimidos.. Já foi. rapazes! – gritou. não posso me ausentar nem um minuto do armazém. Os homens correram todos para o estábulo e num instante começaram a sair. Um grande silêncio envolveu o acampamento. do armazém. do outro lado da cortina iluminada pelo candeeiro. Não se preocupe Carolina. filhas. vindas do acampamento. ouvia uma explosão de vozes ásperas. – todos para a farra! O cavalo branco empinou-se. Laura e Mary ainda estavam acordadas quando o pai regressou. – Bem! – exclamou a mãe. Depois os restantes separaramse em grupos menores e afastaram-se no escuro. – Macacos me mordam se não os levou para fazerem as suas diabruras noutro lado! – Onde? – perguntou vivamente a mãe. – Que fizeram. – Eu sei Charles. Os seus olhos abriram-se. Fred. De vez em quando. Depois Fred foi ao estábulo. – Aquele Big Jerry! – exclamou o pai. Ouviram um grito e viram Big Jerry saltar para o seu cavalo branco. Então a mãe fechou a porta e disse: – Está na hora de dormir.. Alguns foram com ele na direção do dormitório. A mãe e Laura pararam à esquina da cabana. quando Big Jerry tomara partido contra o pai. Eu te explico o que aconteceu. Os homens chegaram depois de escurecer. Sabe disso perfeitamente. obedecendo às ordens da mãe. – Quando vai escolhe-la? – perguntou a mãe. saiu da cantina e foi ao seu encontro. Carolina. andou à roda e empinou-se de novo. – Já não há motivo para preocupações. Que fizeram aos homens que. Conversaram uns momentos. e era manhã. Charles? Alguém ficou ferido? – Enforcaram o tesoureiro e um homem ficou gravemente ferido – respondeu o pai. montou a cavalo e partiu a galope para oeste. Agora o grupo estava todo à volta de Jerry. montados nos seus cavalos. Tens razão. O acampamento também estava barulhento. e a sua gargalhada vibrou. – Só fico transtornada quando acaba tudo – disse a mãe. – Há distúrbios no acampamento de Stebbins. De vez em quando. de repente. suspirava sem saber. Carolina. Os homens estavam reunidos à volta da barraca da cantina. Laura e a mãe. Ninguém sabia o que poderia acontecer no acampamento de Stebbins nem quando aquela turba perigosa regressaria. – Venha cá – disse o pai. Até lá. ruidosamente. Seria melhor agradecermos às nossas boas estrelas termos nos safado com tanta facilidade. em voz trêmula. Laura foi para a cama tremendo. Quietas no seu beliche. Mataram o tesoureiro? – Eles não o mataram. à procura de um médico. O pai ficou sério. Mas entraram no acampamento mais silenciosos do que tinham partido. Estão todos a irem para lá. Sabia que não adormeceria enquanto o pai não viesse para casa. 35 . A mãe disse-lhe não saber que motivos tinha ele para rir. – Assim que o acampamento fechar. tarde. Eles estão cansados e voltou o sossego. Viram o pai sair do armazém e dirigir-se para a cantina.pois sentia-se toda partida. O pai ria-se. – Vamos. e seguiram Big Jerry. não é caso para rir. ouviram os pais falarem. no sentido oeste. O pai não voltou. – colocaram-no numa carroça de lenha e partiram para leste. – eu sei que não ficas. atravessado por uma faixa vermelha. Laura e Mary não deram o passeio habitual. e outras vezes fragmentos de cantigas. Durante todo o dia reinou silêncio no acampamento.

Mas ninguém respondia. – Não o enforcaram? – Não chegaram a magoá-lo muito. Mary e Laura falaram muito baixinho. e depois abriu o guichê e o tesoureiro pagou a cada um e tudo quanto ele declarou ser-lhe devido. – Que vergonha para o tesoureiro! – exclamou Laura. a prudência é a parte mais valiosa da coragem. à procura de um médico. e o pai afastou a cortina. Os dois tipos atiraram-se ao tesoureiro e enfiaram-lhe a corda no pescoço. a turba foi com uma corda atrás do homem que o agredira. – Menos barulho – recomendou a mãe. As meninas estão acordadas – disse a mãe. Ma! – pediu Mary. de joelhos na cama e com os punhos cerrados. “Recebem em Stebbins mais de trezentos e cinquenta homens e queriam ser pagos até agora. sem que o pai ou a mãe tivessem tempo de dizer uma palavra. Um dos tipos que estavam no escritório cortou a corda e desceu o tesoureiro. mas depois não conseguiram encontrá-lo na vegetação alta. Debaixo das mantas. Charles. Quando verificaram que só lhes pagavam até ao dia 15. – explicou o pai. Por mim. O desgraçado caiu como um boi abatido e quando o arrastaram para o ar livre não conseguiram fazê-lo recuperar os sentidos. não. até a mãe apagar a luz. num murmúrio. Mary disse que gostaria de voltar para Riacho das Ameixeiras. – Oh. Quando voltaram ao armazém. praticamente não aconteceu mais nada. É um grande armazém e já tinha recuperado a maior parte do que os homens receberam. – De qualquer modo. mais alta do que eles até darem cabo de qualquer rasto que porventura ele tivesse deixado. baixinho. – concordou a mãe. Alguém reparou na corda e gritou: ‘Enforquem o tesoureiro!’E toda a multidão desatou a gritar: ‘Enforquem-no! enforquem-no!’ “Dois homens subiram no telhado do alpendre e abriram um buraco nas telhas. “Na confusão. dou graças por o tesoureiro ter sido sensato. – Ora. "Continuaram a procurá-lo até depois do meio-dia e a sorte dele foi não o encontrarem. também em voz baixa. – Cale-se. “Entretanto. dois homens começaram a discutir e um deles bateu na cabeça do outro com o peso da balança. Andaram de um lado para o outro procurando-o na relva áspera. manteve a porta fechada à chave e pagou aos homens por uma pequena abertura ao lado da porta. Não me obrigariam! – Aquela multidão era maior do que a nossa e o tesoureiro não teve a ajuda de Big Jerry – lembrou-lhe o pai. – Como ele pode pagar-lhes? Onde arranjou o dinheiro. “Por isso. Laura não lhe respondeu. para o qual tem uma porta e mais nada. Muitos deles andam armados e não saíram do armazém. 36 . – Não farias o quê? – perguntou o pai. a porta estava fechada à chave e não puderam entrar. O seu coração batia depressa e com força. – onde o arranjou? – No armazém. a não ser que recebessem o dinheiro todo. – Não lhes pagaria! Não me conseguiriam obrigar. se já tinha pago o que levara? – Tens razão. Continuaram a bater à porta do armazém e a gritar ao tesoureiro que abrisse e lhes pagasse. – Mas o Pa não o teria feito – teimou Laura. O escritório é uma espécie de alpendre nos fundos do armazém. Alguém pusera o ferido numa carroça e seguira para leste. Ninguém se preocupou com folhas de tempo de trabalho. Içaram-no uma ou duas vezes. e pronto. – Agora durmam. ficaram furiosos. Gostava de sentir a grande e agreste campina a toda a volta da pequena cabana. Um bom número de homens de outros acampamentos meteram-se na confusão e também receberam. “Uma turba de quase mil homens bêbedos é uma coisa feia de ver. começavam a chegar homens de todos os outros acampamentos. – ainda acordam a Grace. Ameaçaram desatar aos tiros naquilo tudo. Seguiram-no com facilidade até ao pântano. O tesoureiro ficou no escritório com o dinheiro. Alguns homens estavam a arrombar a porta do armazém com cangas e o encarregado abriu-a. Ele cedeu. filhas – ordenou a mãe. – Por favor. Deixaram a ponta da corda suspensa do telhado e a multidão agarrou-a. Mais vale um cão vivo do que um leão morto. Comeram tudo quanto encontraram na cantina e a maioria começou a beber. como os de cá. – Agora obedeçam à mãe e durmam – e deixou cair a cortina.Em Stebbins as coisas são como aqui. – Por que ele pagou? Eu não o faria! Não o faria! – gritou. Eles gastam tão depressa quanto ganham. Ma! Não fala a sério! – exclamou Laura.

a construírem a estrada de ferro ao ritmo de uma espécie de cantiga. Não queria voltar. nunca mais. mentalmente. 37 .Ouvia de novo. para Riacho das Ameixeiras. o som feroz e selvagem da turba e a voz serena do pai a dizer: “não se aproximem demasiado.” recordou-se também dos homens e dos cavalos suados a movimentarem-se através de nuvens de poeira.

Todos os dias. – eu a depeno e você esfola. mas outros estavam mortos havia muito. e temos o carroção e a parelha. Meia Canequinha. O pai caçava todos os patos e gansos que eles podiam comer. Nunca tinha visto nenhum a voar. através do avental. patos. Eram grandes gansos cinzentos. – Agora já não há remédio. garças. O cisne era. partiriam todos para oeste. os bicos azuis. Ora. a mãe levantou o avental e tapou a cara. Carolina. Laura! – exclamou a mãe. do norte. – Pa. Oh. e quando alvorecia levantavam de novo voo para prosseguir pelo ar. Pa. o pai veio da caça com uma grande ave toda branca. para Montana. era tão bonito que não deveria ser morto. até as suas penas cheiravam a peixe podre que a mãe nem as pôde aproveitar para almofadas. Eram capazes de mergulhar muito fundo e de ficar muito tempo submersos. confortavelmente instaladas na água que as sustinha suavemente. regressavam à Grande Floresta a fim de venderem a fazenda e na primavera. – É maior do que eu – disse Carrie. vinha atrás delas. – Porque não podemos ir? – insistiu Laura. antes de adormecerem e repousarem da sua longa viagem de norte para sul. não poderão ir para a 38 .. Os pelicanos não prestavam para comer. por fim. Ficaram todos a olhar tristemente para a bela ave branca que nunca mais voaria. asas que batiam. – disse. vamos para oeste! – Por favor. não sabia aonde. Eram pequenas galinhas do lodo e os pequenos mergulhões. uma noite. efetivamente. e Carrie e Grace apertaram o nariz. mas há muito tempo eu prometi à tua mãe que vocês iriam para a escola. havia aves. a fim de mostrar à mãe como era. com a ajuda das asas fortes e repousadas. e tão alto no céu azul quanto a vista podia alcançar. e aves a voar. juntamente com a Tia Polly. tão grande que o pai até o mediu: as suas asas brancas mediam dois metros e quarenta centímetros de ponta a ponta. a fim de poderem descansar no caminho.. e aves. pelicanos e grous.12. não podemos ir para oeste quando o Tio Henrique for? O Tio Henrique. Eram bernacas branquíssimas e menores. De leste para oeste. muito tempo. Ao pôr do sol. elas sabiam-no e partiam cedo. Eram garças. repousavam toda a noite. a mãe. pelicanos. como se escorregassem por longas vertentes de ar. – Não o teria feito. muito sério. Ao escurecer desciam interminavelmente do céu. – Vamos para oeste. quando estalava um tiro. Um dia. – Há todo o dinheiro que o Pa ganhou: trezentos dólares. – Leve-o. cercetas. – Vamos – disse. depois do jantar. Asas que batiam baixo sobre a água azul da Lagoa Prateada. Curtiremos a pele com a penugem. neste inverno. a fim de descansarem na água da Lagoa Prateada. – Você e eu queremos voar como as aves. Laura e a mãe arrancavam penas das peles escaldadas dos patos e dos gansos que o pai caçava para o jantar. o pai levou um pelicano para a cabana. – disse o pai. só sabia que queria ir. a “falar” entre si em toda a espécie de línguas de aves. cisnes e gaivotas. se soubesse. Charles. – Sinto muito. grous. – Eu sei. eram patos de muitas espécies: os grandes patos reais com uma luminosidade de púrpura e verde nas asas. Alguns peixes estavam frescos. todo o grande lago estava coberto de aves de todas as espécies. porque os falcões matam outras aves. – murmurou. o inverno impelia-as. que a todos transportavam para os verdes campos do sul. – assim. depressa! – disse a mãe. os patos de cabeça encarnada. – mas não prosseguiu. davam a Laura uma vontade de ir a qualquer lado. mas eu não fazia ideia nenhuma de que se tratasse de um cisne. abriu-lhe o comprido bico e caíram peixes mortos da bolsa de pele que ficava por baixo. as cercetas e muitos outros cujos nomes o pai não sabia. de manhã. de vez em quando. acertei num cisne. As asas. Durante todos os dourados dias outonais o céu esteve cheio de asas. no ar azul. em voz muito bondosa. Luísa e Charley tinham ganhado dinheiro suficiente para irem para oeste. matava um falcão. os mergulhões viravam-se de cabeça para baixo e desapareciam num abrir e fechar de olhos. asas de gansos. alto. – Não tardaremos a ter penas suficientes para outro colchão – disse a mãe. você e a Mary poderão dormir num colchão de penas. por cima do lago. o tempo dourado e o frio da geada. Asas sobre a Lagoa Prateada O TEMPO arrefeceu e o céu encheu-se de asas e de grandes aves a voar. Charles. mas tirando isso só abatia falcões. que pareciam neve na orla da água. – Seja o que for. de norte para sul. cujos corpos pretos e de pequenas dimensões salpicavam a água como pimenta. Noutro dia.

escola e ir para oeste. Quando esta cidade for construída, haverá aqui uma escola. Eu vou reservar uma gleba, Laura, e vocês, meninas, vão para a escola. Laura olhou para a mãe, e depois novamente para o pai, e compreendeu que teria de ser assim. o pai ficaria numa fazenda e ela iria para a escola. – Um dia me agradecerá, Laura. e você também, Charles – disse a mãe, brandamente. – Desde que te sintas contente, Carolina, eu também me sentirei – respondeu o pai. E era verdade; mas não era menos verdade que ele queria ir para o oeste. Laura voltou-se para a tina e continuou a lavar a louça do jantar. – Outra coisa, Laura, – continuou o pai. – sabes que a mãe foi professora, assim como a mãe dela. Ma tem todo o empenho em que uma de vocês seja também professora e eu creio que terá de ser você. Por isso, terás de ir à escola e aprender. O coração de Laura deu um pulo e depois pareceu cair-lhe aos pés. Não disse nada. Sabia que o pai e a mãe, e Mary também, pensaram que Mary seria professora. agora Mary não podia ensinar e... “oh, não serei, não serei!”, pensou Laura. “Não quero! Não posso!” mas depois disse a si mesma: “Terá de ser.” Não podia decepcionar a mãe e tinha de fazer o que o pai mandava. Por conseguinte, teria de ser professora, quando crescesse. além disso, não poderia fazer outra coisa para ganhar dinheiro.

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13. O acampamento é desfeito
TODA a imensa terra ondulava suavemente, tingida de cores leves, sob o céu esbatido. a relva tinha caules dourados e estendia pela campina como que uma manta amarelada, fulva, castanha e de um quente cinzento acastanhado. Só os pântanos se apresentavam mais verdes e mais escuros. As aves eram menos numerosas e mais apressadas. Era frequente, ao pôr do sol, um comprido bando “falar” ansiosamente, muito acima da Lagoa Prateada, mas em vez de descerem para comer e descansar na água, que tanto devia tentá-los, o líder cansado deixava-se ficar para trás, era substituído por outro e continuavam a voar para sul. O frio do inverno não vinha muito longe, atrás deles, e por isso não podiam parar para descansar. Nas manhãs de geada e nos frios finais de tarde, quando iam mungir as vacas, Laura e Lena levavam xales bem aconchegados na cabeça e presos debaixo do queixo. Tinham frio nas pernas nuas e o vento mordia-lhes o nariz, mas quando se acocoravam para ordenhar as vacas quentes os xales cobriam-nas todas, aconchegadamente, e os pés aqueciam-se. E cantavam enquanto ordenhavam:

Aonde vais, minha linda donzela? Vou mungir, senhor, disse ela. Posso ir contigo, minha linda donzela? Oh, sim, por quem é, gentil senhor, disse ela. Qual é a tua fortuna, minha linda 'donzela? A minha fortuna é a minha cara, senhor, disse ela. Então não posso casar contigo, minha linda donzela. Ninguém lho pediu, senhor, disse ela. – Bem, creio que não nos voltaremos a nos ver durante muito tempo – disse Lena, uma noite. O trabalho de nivelamento estava quase terminado, na Lagoa Prateada, e na manhã seguinte Lena, Jean e a Tia Dócia partiriam cedinho. Partiriam antes de nascer o sol porque levavam três grandes carroças de mercadorias dos armazéns da companhia. Não diziam a ninguém para onde iam, com medo de que a companhia os apanhasse. – Tenho pena de não termos tempo para cavalgarmos outra vez nos pôneis pretos – disse Laura. – Bolas! – Lena disse a palavra grosseira ousadamente. – Estou contente por o verão ter acabado! Detesto casas. – balançou o balde do leite e cantarolou: – Não mais cozinhar, não mais lavar louça, não mais lavar roupa, não mais esfregar. U-upi! – depois acrescentou: – Bem, adeus. creio que vais ficar aqui enquanto viveres. – Também me parece – concordou Laura, tristemente, convencida de que Lena ia para oeste, talvez até para o Oregon. – bem, adeus. Na manhã seguinte, Laura ordenhou solitariamente a vaca solitária. A Tia Dócia partira com uma carga de aveia do armazém das forragens. Lena levara um carroção de mercadorias do armazém das forragens. Lena levara um carroção de mercadorias do armazém, e Jean outra grande carga de raspadoras e arados. O tio Hi seguiria-os assim que acertasse as contas com a companhia. – Creio que a dívida do Hi é bastante grande, desta vez, com todas aquelas mercadorias debitadas na sua conta – disse o pai. – Não devias tê-lo impedido, Charles? – perguntou a mãe, preocupada. – Não me competia. – respondeu o pai. – As ordens que recebi foi para deixar o empreiteiro levantar tudo quanto quisesse e debitá-lo na sua conta. Não confunda, Carolina, não se tratou de roubo nenhum. O Hi não levou mais do que lhe é devido pelo seu trabalho aqui e no acampamento do Sioux. A companhia enganou-o lá e ele ajustou contas, aqui. Foi apenas disso que se tratou. – Bem – disse a mãe, a suspirar-, sentirei-me contente quando os acampamentos acabarem e pudermos nos instalar de novo. Todos os dias havia barulho no acampamento, com homens que recebiam o seu último salário e partiam. Carroção atrás de carroção partia para leste. Todas as noites o acampamento ficava mais vazio. Um dia, o Tio Henrique, Luísa e Charley iniciaram a longa viagem para o Wisconsin, a fim de venderem a fazenda. A barraca-cantina e o dormitório estavam desertos e o armazém vazio, E o pai só esperava que o funcionário da companhia viesse conferir as suas contas.

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– Teremos de ir para algum lugar, a leste, a fim de passarmos o inverno. – disse a mãe. – Esta cabana seria uma proteção fraca para temperaturas abaixo de zero, mesmo que a companhia nos deixasse ficar... e nós tivéssemos algum carvão. “Oh, Charles, ainda nem sequer encontraste a gleba! E se gastarmos o dinheiro que ganhaste, só para vivermos até à primavera... – Bem sei. mas que havemos de fazer? Posso procurar a gleba antes de partirmos e registrá-la na próxima primavera. Talvez no próximo verão consiga arranjar um emprego que nos permita viver e comprar a madeira para construirmos uma barraca. Poderia construir uma cabana de terra, mas mesmo assim gastaríamos tudo quanto temos para vivermos até à primavera, ao preço que as coisas estão aqui e com o carvão de que precisaríamos. Não, o melhor é irmos passar o inverno no leste. Era difícil resignar-se. Laura tentou se animar, mas não conseguiu. Não queria voltar para leste. detestava deixar a Lagoa Prateada para ir para leste. Já que tinham chegado até ali, queria ficar, em vez de ser outra vez empurrada para trás. mas se tinha de ser... Na próxima primavera poderiam recomeçar. Não servia de nada queixar-se. – Não te sente bem, Laura? – perguntava-lhe a mãe. – Sinto, sim. Ma! – respondia, mas a verdade é que se sentia tão triste e melancólica que o esforço para se mostrar alegre ainda a entristecia mais. O funcionário da companhia viera conferir os livros do pai e os últimos carroções do oeste estavam se indo. Até a lagoa estava quase deserta de aves e o céu nu, tirando um ou outro pequeno bando retardatário e apressado. Ma e Laura remendaram a cobertura do carroção e cozeram pão para a longa viagem. Nessa noite, o pai veio do armazém assobiando e entrou em casa todo contente. – Que dirias a ficar aqui todo o inverno, Carolina? – perguntou, alegre. – Na casa dos agrimensores! – Oh, Pa! – exclamou Laura. – Podemos? – Podes ter a certeza de que podemos, se a tua mãe quiser. – respondeu o pai. – É uma boa casa, Carolina, onde o mau tempo não entra. O chefe dos agrimensores esteve agora mesmo no armazém e disse que pensaram que teriam de ficar e armazenaram carvão e provisões suficientes para durar o inverno, mas que se eu me encarregasse de tomar conta das ferramentas da companhia até à primavera, irão passar o inverno em outro lugar. O funcionário da companhia concordou. “Há farinha e feijão, carne salgada e batatas, e, segundo me disse, até algumas conservas. E carvão. Poderemos ficar com tudo de graça, só a troco de passarmos aqui este inverno. poderemos servir-nos do estábulo para a vaca e para a parelha. Disse-lhe que lhe daria a resposta de manhãzinha cedo. Que dizes, Carolina? Olharam todos para a mãe, à espera. Laura estava tão agitada que quase não podia se manter quieta. Ficar na Lagoa Prateada! Não ter, afinal, de voltar para trás, para leste! A mãe estava decepcionada. Quisera retroceder para uma região povoada. mas respondeu: – Parece providencial, Charles. Disseste que havia carvão? – Não pensaria em ficar, se não houvesse, – respondeu o pai. – mas há carvão. – Bem, o jantar está na mesa. – disse a mãe. – Lava-te e comamos antes que esfrie. Parece-me uma boa oportunidade, Charles. Durante o jantar não falaram de mais nada. seria agradável viver numa casa cômoda e aconchegada. a choupana era fria, com vento a entrar pelas fendas, apesar de a porta estar fechada e o fogão aceso. – Não te faz sentir-se rica, Ma, só de pensar nas provisões para todo o inverno que já se encontram lá? – perguntou Laura. – Não gastaremos nem um centavo até à primavera – sublinhou o pai. – Sim, Laura, faz – respondeu a mãe, sorrindo. – Claro que tens razão, Charles; devemos ficar. – Se queres que te diga, não sei, Carolina... nalguns aspectos, talvez fosse melhor não ficarmos. Que eu saiba, não teremos nenhum vizinho antes de Brookins, que fica quase a cem quilômetros de distância. Se acontecesse alguma coisa... Uma pancada na porta sobressaltou-os a todos. Em resposta ao “Entre!” do pai, um homenzarrão abriu a porta. Vinha todo entrouxado em casacos grossos e trazia um cachecol. usava a barba preta curta e tinha as faces vermelhas e os olhos tão pretos como os do pequeno papuses do território índio que Laura nunca esquecera. – Olá, Boast! – saudou o pai. – Achegue-se para perto do fogo, que a noite está fria. Esta é a minha mulher e estas são as minhas filhas. O Sr. Boast registrou aqui uma gleba e trabalhou no aterro. A mãe deu uma cadeira ao Sr. Boast, junto ao fogão, e ele estendeu as mãos para o calor. Uma das mãos estava atada. – Feriu a sua mão? – perguntou a mãe, interessada.

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Mas talvez o Pete não saiba isso. na trilha que levava ao leste. boné puxado para os olhos e cachecol enrolado ao pescoço e a ocultar-lhe a boca. Boast e a do pai acordaram Laura. aqui não há nenhuma lei. vivos ou mortos. enquanto a mãe e Laura levantavam a mesa. Mary. Naquela manhã. se não fugiu com a parelha! Iria atrás dele e tiraria. do que ri? – perguntou-lhe Mary. e o último carroceiro passou. no seu buggy. – afirmou o Sr. Boast. de mais a mais com a mão aleijada. Boast saiu. Boast estava batendo à porta. porque gelara durante a noite. Boast. O Sr. Durante a noite. com linhas encarnadas de alto a baixo. xerife! Quando os dois homens saíram e fecharam a porta. pois teve de esperar que a sua mão melhorasse. O pai soltou uma grande gargalhada e deu-lhe uma palmada num joelho. desta vez acompanhava-o outro homem com um grande sobretudo. embora de modo diferente: os do Sr. – mas o calor ajuda. nem agentes da autoridade e nem sequer uma comarca. – Pronto! – exclamou.– Foi apenas uma distensão. 42 . homem! Por sorte. – Ainda cá estamos em número suficiente para resolver isso – disse o pai. Boast fazia rir todos rirem. O Pete ficou tão assustado que até entregaria o dinheiro e a parelha! Aquele patife tem motivos para ter medo da justiça. Boast partir e ouviram o barulho dos seus solavancos esbater-se pouco a pouco. ainda tenho algum papel de formato oficial. Não se puderam conter. se pudermos chegar antes de o inverno estar muito mau. mas o riso do Sr.. assim que o carroção do Sr. à porta: – Vi que tinha luz acesa e parei para lhe dizer que deu resultado. Eu lhe faço os papéis. O acampamento estava desfeito e não havia outro lugar onde comer. aqui estão as custas. Boast. O Sr. – Não falo nesse sentido. Boast riu. Boast – disse o pai. – Teríamos prazer em tê-los cá. que estivera a dormir e só ouvira a gargalhada do Sr. e ao mesmo tempo em que dava uma grande palmada na coxa desatava outra vez a rir.lhe os animais. Laura. grandes e azuis. Depois viram o carroção do Sr. o Sr. acrescidos dos custos deste processo! – as gargalhadas dos três pareceram abalar as paredes da choupana. Carrie e a mãe desataram também a rir. – respondeu o pai.. – Se vocês vão ficar aqui todo o inverno. – O riso do Sr. – Estive pensando. porém. Ingalls. Boast! Vá buscar o seu xerife. mas está adiando e agora. – Aqui tem. – respondeu o Sr. Boast cintilavam tanto como os do pai. O Sr. apressado. para poder conduzir a parelha. macacos me mordam. Boast faz cócegas – respondeu Carrie. a voz do Sr. o pai acabou de rir e disse à mãe: – Apostava tudo como se trata do chefe dos agrimensores! – afirmou. – De que se riem? – perguntou Carrie. A dignidade deste tribunal deve ser respeitada! Quando o Sr. Boast deixou de se ver. – depois se voltou para o pai e acrescentou: – Preciso de ajuda. xerife! – disse o pai ao segundo homem. – Ah! você quer que eu redija um documento qualquer para lhe apresentar? – Tenho um homem que está disposto a se fazer de xerife e apresentar-lhe. fazia uma pessoa sentir-se bem e feliz. – Apresente esta intimação e traga a parelha ou o dinheiro. – Que piada. nenhuma maneira de cobrar uma dívida. – Parece importante e ficou pronto mesmo a tempo. Boast apareceu para tomar o café da manhã com eles. por fim. O Sr. – Fique com a parte dele. Não quero briga com dois valentões ao mesmo tempo. – Certamente que teríamos – confirmou a mãe. O pai sentou-se e escreveu numa folha de papel grande. – Silêncio ou acordam a Grace – recomendou a mãe. – E você. para ficarmos também. O agrimensor não quis aceitar nada. – Então qual é o meu papel? – perguntou o pai. o pai levou o seu e a parelha para a porta. O pai olhou para o boné e para o cachecol que ocultavam o rosto do segundo homem e observou: – É uma sorte estar uma noite fria. os do pai. mas mesmo assim ele pôs-se a caminho do leste: ia a Iowa. Boast dizia. a fim de casar. Os olhos do Sr. Boast foi o último homem a partir. nas margens. Lembra-se da parelha que vendi ao Pete? Ele me pagou uma parte e disse que pagaria o restante no próximo dia de pagamento. mas o filho está com ele e com certeza lutariam. A campina ficou toda deserta e nem um bando de aves se via no céu frio. talvez me decida e traga a Ellie. Ee manhã. – Não quero aborrecimentos. Os agrimensores partiram para leste nessa manhã. Ingalls. – eu só aceito a minha. o riso do pai lembrava sinos grandes a tocar. disse que a brincadeira foi paga mais do que suficiente. a mão estava pior. Boast cintilavam pequenos e pretos.

Carolina! – chamou. além de nós. e hoje é dia de mudança! 43 . – Já não há mais ninguém no acampamento.– Vamos.

dava para um quarto pequeno. Passou pelos locais onde se erguera o acampamento. Com aquela já eram três divisões e ainda havia outra porta. com dois andares e janelas de vidro. Talvez o vento o tivesse levado. Laura pensou que deviam ter sido muitos agrimensores. Laura foi. Chegamos lá num abrir e fechar de olhos. e quando Mary. Laura abriu-a e espreitou. que se estendia para ambos os lados da escada. todos partiram. na relva. Corria contra o vento forte e constante. como o pai dissera. Laura sentiu-o liso e macio debaixo dos pés. depois de ajudar a pôr tudo cuidadosamente no carroção. pois a casa dos agrimensores ficava na margem norte do lago. nos fundos. Carrie. e áspera realmente morta. A terra estava dura. e o lambe-lambe da água do lago avançou aos saltinhos sobre a relva curta e seca. As botas dos agrimensores abriram uma trilha através da relva. abriu uma porta. menos confortável para pés descalços do que o chão de terra da cabana. em cima. ora quente e batendo com força. de longe. ao longo da margem. Laura estava ansiosa por vê-la. Seria divertido ver sozinha a casa dos agrimensores. esperaria e logo veria. com uma cama. Olhou para a grande sala da frente. mas no ar mal se ouviu. Depois a empurrou toda para trás. Siga pela margem do lago. Aquela seria. não havia mais ninguém ali. os agrimensores deixaram o fogão! era maior do que o trazido pela mãe de Riacho das Ameixeiras: tinha seis bocas. Canarinho. e entrou. ou o silêncio da terra e do céu desertos não quisesse ser perturbado. as paredes de tábuas ainda estavam amarelas. estavam barris e caixas. O tempo começava a transformar o amarelo das tábuas verticais em cinzento. diante dos seus olhos.? – Não lhe pode acontecer mal nenhum. Laura olhou por cima do ombro e o pai acenoulhe. e os raios de sol que entravam pela janela do lado ocidental projetavam-se. ficou surpreendida. Se quisesse gritar. 44 . Até o carroção ficara para trás. A campina – toda a enorme campina – o céu imenso e o vento estavam limpos e livres. A casa ergueu-se. Carolina. do lado de dentro.14. na garganta. Sempre devagarinho. junto da porta principal. O vento produzia um som triste contra as paredes. olhou para cima e viu a parte de dentro de um telhado inclinado e muito alto. mas mais fácil de conservar limpo.. Parecia saber que Laura estava ali. para evitar o vento. era grande. Pela janela do lado oriental. defronte dela subia uma escada íngreme. de súbito. quando parou de correr. pois. Não se via mais ninguém perto. Laura atravessou o alpendre pé ante pé e abriu a porta do lado oposto. Não a perderemos de vista todo o caminho. ouviu o barulho do vento. com o cano da chaminé e tudo. debaixo das prateleiras. mas não tinha ainda formado uma opinião a respeito dela. e duas portas de forno. esse quarto também tinha janela. O xale batia atrás dela. A largueza da casa deserta parecia esperar e escutar. poderia gritar. a mãe e Grace já estavam instaladas. pediu: – Pa. deixe-me ir correndo à frente? A mãe interveio: – Francamente. Na parede que se seguia viam-se três portas espaçadas e todas fechadas. e o frio do vento entrava-lhe pela roupa. caixas e latas. exatamente da largura da porta. Charles. a maior casa em que já vivera. amarelos e oblíquos. Saiu-lhe da boca um gritinho de emoção que assustou a casa à escuta. A casa dos agrimensores NÃO HAVIA necessidade de acondicionar nada.. tachos e panelas. tinha o dobro do tamanho da sala grande do rés-do-chão e uma janela de cada lado iluminava todo o espaço vazio debaixo do telhado. devagarinho. Ora sentia o sangue fraco e gelado. A casa estava assoalhada. A porta tinha um puxador de louça e abria-se para o alpendre. mas isso era do lado de fora. subiu alguns degraus e deparou-se com um enorme sótão. debaixo dos seus pés apressados. não se preocupe. não achas. e você. e a respiração agitava-lhe o peito. à sua frente. para precisarem de tanto espaço. mas aproximava-se. E gritou mesmo: “É nosso! Tudo nosso!” o grito pareceu-lhe alto. A toda a volta. e estava pronto para funcionar. Laura abriu a porta do meio. a menos de um quilômetro de distância da cabana. apressada. Todas as fendas estavam tapadas. Inclinou a cabeça protegida pelo xale. no chão. ao longo do sulco curvo que marcara no chão de tábuas. Laura atravessou a sala larga pé ante pé e. a correr à frente. uma casa de verdade. estava um pequeno armazém. Ali. e meteu-se pela trilha. entrava uma luz fria. Abriu a terceira porta. Em toda a altura das paredes da pequena sala havia prateleiras e nas prateleiras viam-se pratos.

Colocou à frente de cada um deles um pratinho de pêssegos de compota e dois biscoitos de fermento! – É um mimo. duas sacas cheias de batatas e uma saca quase cheia de feijão. deram um gosto diferente ao pato assado. de noite. e aquecido. com o reluzente candeeiro no centro. baixaram as abas da mesa e puseram a toalha quadriculada de branco e vermelho. em cima. satisfeito. O bom fogão já estava a dar calor e Mary sentou-se no canto quente. em salmoura. – Mas também são suficientemente baixos para caberem debaixo da nossa cama. de conserva. Depois. – Adivinhein o quê? – perguntou. O arco do violino roçou pelas cordas e o pai começou a tocar suavemente. o pai entrou com uma grande caixa pouco alta. a fim de ajudarem a mãe a tratar do jantar. biscoitos de fermento! A mãe viu tudo e ficou satisfeita. O terceiro. O carroção estava à porta. Laura e Carrie se atarefavam com as arrumações. a gritar: – Oh. uma para Carrie e outra para Laura e Mary. soprava agreste na charneca. no fim. A mudança estava feita. Laura nunca vira tanta carne de porco de uma vez. – Tenho de arranjar qualquer coisa para fazer cortinas – disse a mãe.O primeiro barril estava quase cheio de farinha de trigo. e puseram as caixas por baixo. sem dúvida – concordou. durante o dia. para celebrar o fato de vivermos outra vez numa casa. lamberam cuidadosamente as colheres. Olhou ao redor para todas. – Os lados têm altura suficiente para entalar os cobertores – disse o pai. empurraram-na para debaixo da cama grande e depois puxaram-na de novo. temos o mundo só para nós! Hoje só vi um bando de gansos selvagens. 45 . para ela não atrapalhar enquanto a mãe. elas arrumaram a mesa e as cadeiras da grande sala da frente. Charles? – perguntou-lhe a mãe. traga-me o violino. Laura saiu correndo. muito devagarinho. O jantar foi um banquete. estava cheio de bocados de carne de porco gorda e branca. Não pararam em nenhum dos lagos.. está quase a cem quilômetros de distância e o nosso vizinho mais próximo. A mãe instalou a cadeira de balanço de Mary junto da porta aberta do forno. Carrie. a entreter Grace. Até os gansos nos deixaram. a voar alto e depressa. Olha iam a toda a velocidade para o sul. – Já pensou Carolina que o nosso vizinho mais próximo. O pai parou com o arco sobre o violino. Devagarinho. Os bonitos pratos dos agrimensores tornavam a mesa alegre. O pai nem sequer precisou armar um fogão. – É muito agradável. junto de uma janela. a mãe foi à despensa e trouxe. negras. Pequenos pepinos ácidos. comeram os pêssegos doces e frios e beberam a calda dourada e. Traga-me a vassoura. para leste. pendurou a sua roupa e a do pai nos pregos que havia na parede e cobriu-a muito bem com um lençol.. onde se encontrava o carvão. Estavam de novo chegando as noites de inverno em que o pai tocava o violino. pôs o da mãe no alpendre. Mary! E um fogão e biscoitos. tirados de um frasco que os agrimensores deixaram. Laura! Esticou e afinou as cordas e passou resina pelo arco. Ma. venha ver depressa! Há tantas coisas! E um grande sótão. Laura e Carrie fizeram a caminha de Grace na caixa. Tenho a impressão de que foi o último bando da estação. Havia uma cana grande de maçãs secas. – e tão limpa! Podemos instalar-nos aqui num abrir e fechar de olhos. Depois levantaram depressa a mesa e lavaram a louça na despensa contígua. penduraram a roupa na parede da empena. A mãe sentou-se com Grace na cadeira de balanço e o pai disse: – Isto dá a um homem o desejo de tocar música. no grande sótão baixo. foram para baixo. quando o vento soprava agreste. – Para que é isso. com uma tampa bem apertada. A mãe fez a grande cama do quarto. enquanto ele acendia o fogão. Como já estava tudo arrumado. e o pai respondeu: – É a cama da Grace! – Era a única coisa que faltava! – exclamou a mãe. com chão de madeira e janelas de vidro a brilhar. e para as paredes que os mantinham confortáveis. para ela se deitar. para oeste. a quase sessenta e cinco quilômetros? Quando o inverno chegar de fato será como se eles estivessem ainda mais longe. depois de comerem. e às batatas fritas. contra a noite exterior. Havia uma caixa de madeira cheia de biscoitos de fermento quadrados e outra cheia de grandes pedaços de peixe salgado. Laura e Carrie fizeram duas camas nas armações que lá havia. Laura começou a cantar: Uma noite. Era agradável comer numa sala tão grande. No segundo havia farinha de milho. depois foram buscar a sua roupa e as suas caixas.

ficou surdo às suas súplicas. Mary e Carrie cantaram também. chegaram à porta. antes. mas os cães de guarda uivaram e os sinos da aldeia dobraram e os ventos sopraram através. tocou incansavelmente. – Em que estou eu a pensar? Vou tocar uma coisa que valha a pena cantar. – É. o pai parou de tocar.. 46 . não é verdade. – Esta canção não ajuda! – exclamou. Nunca te sentes carrancudo ou choroso. porém. – e nem sempre estivemos tão confortáveis e tão bem abastecidos. mas conduz o teu próprio barco! – Será isso que vamos fazer este inverno – disse o pai. e suplicou: pai. deixai-me entrar! tende piedade de mim. Laura levantou-se de um pulo e a mãe foi a correr confortar Grace. a balançar-se indolentemente e a escutar a música. também lhes não faltará comida com fartura e calor. Carrie continuou sentada.. sozinhos na campina. imóvel e branca. à porta do próprio pai. se as minhas dívidas forem pagas a horas. imploro-vos. Nada me importa. um uivo longo. jigas. o pai guardou o violino e o arco. tranquilizador.. Laura. Mary. O violino cantou alegremente e o pai cantou com ela. Por fim. O pai. ninguém disse que era hora de dormir. – corroborou o pai. – Então. nem uma voz. danças de roda. a mãe deitou Grace na sua caminha e fechou a porta. vindo da noite. A mãe. que gritava no quarto. cheias de música. Voltou a tocar violino. Charles – concordou a mãe. oh. de olhos muito abertos e redondos. temos todos os motivos para nos sentirmos gratos.. com toda a força: Viajei um bocado no meu tempo e trabalhos encontrei alguns. Laura e Carrie ouviram até ficarem cheias.chegou a jovem Mary com o filho de regresso a casa. – e já o fizemos muitas vezes. quando fechava a caixa. é apenas um lobo. Poucas necessidades tenho. Então ama o teu vizinho como a ti próprio enquanto pelo mundo fores viajando. ou o filho que tenho nos braços morrerá gelado pelo vento que sopra na agreste charneca. Carolina? – É. ouviram. É verdade. – Empilhei sacos de aveia em um dos cantos do estábulo. pois tratava-se da primeira noite que passavam na casa nova. danças rápidas e marchas. – Todos bem agasalhados e aconchegados. Carrie – disse-lhe Laura. Depois se sentou. a porta do estábulo está bem fechada. mas achei melhor em todos os climas conduzir o meu próprio barco. então? – disse o pai. solitário e triste e que soava muito perto. Carolina. Fujo da borrasca no oceano da vida enquanto conduzo o meu próprio barco. – Até parece que nunca ouviram um lobo! Sim. afinando o violino. nem um som. a fim de arranjar um lugar para a vaca e a parelha.

– Bem sei. a outra deve aguentar – disse. com um bom sobretudo. Aqueles lobos deviam ser muito grandes e pesados. Ao pensar no velho que partira com o último carroceiro. e não um vento de nevasca. está feita uma boa obra. quando esta manhã viu o fumaça da nossa chaminé. Começou a nevar enquanto Laura lhe passava os pregos e ele os pregava. “Mas está tão fraco que o carroceiro tentou convencê-lo a partir. Que era a sua última oportunidade. enquanto dizia: – Temos um vizinho cuja presença eu ignorava até ontem à noite: um velho doente e sozinho. para tornar as paredes mais sólidas. o pai observou: 47 . Passou o verão todo na cabana da gleba e preparava-se para passar também todo o inverno. viu uma luz a cerca de três quilômetros a norte do aterro e dirigiu-se para lá. O velho chama-se Woodworth. a não ser eles. aquele carroceiro é um excelente tipo. O lugar dele é com a sua família. o condutor chamou e o pai foi ver do que se tratava.. muitos. Não lhe acontecerá nada. disse-lhe. O pai examinava o estábulo cuidadosamente. A noite passada. Todos partiram. na esperança de encontrar um lugar para pernoitar. “Bem. ali. – Bem. “Enfim. ele não estava em condições de ficar sozinho numa cabana a vinte e cinco quilômetros de qualquer vizinho.. no carroção. para se certificar de que todas as tábuas estavam bem pregadas. no leste. Depois do café da manhã. quando a escuridão o surpreendeu. quando ouviram o barulho de um carroção. enquanto a mãe e Laura punham o café da manhã na mesa. Ao jantar. e pôs mais uma tranca na porta. com as suas coisas. queria ver os rastos dos lobos. Através da janela. ele só tinha pele e osso. para os seus pés. Não ficarão num lugar onde não poderão matar nada para comer. O pegamos com tanta facilidade como se fosse aqui a Carrie. enquanto largava o sobretudo e as luvas numa cadeira e se inclinava para o fogão. – Brrr! está esfriando – disse. mas era um vento normal. na casa aquecida. mas não conseguiram entrar. Terá muito mais conforto com a sua gente. afirmou tratar-se da única coisa que os médicos recomendavam como uma cura quase certa. mas estava decidido a continuar com a cura da campina. está tuberculoso e veio para cá a fim de buscar a cura do clima da campina. foi ao estábulo e. Nunca vira tão grandes nem tão profundos. Por isso. e. “Aquele carroceiro foi o último a partir. Carolina. a fim de se aquecer. os lobos terão também de ir embora. Laura viu-os a falar no vento frio. e durante todo o caminho entre o grande Sioux e o Jim não havia absolutamente alguém. Carolina. o carroceiro e eu o convencemos e o metemos. além disso. – Ia bem agasalhado. – Se uma se partir. As aves já partiram todas para o sul e os antílopes fugiram assustados pelos homens que estiveram trabalhando no aterro. na casa dos agrimensores. – Sim. Muitos e grandes. – Se não morrer gelado a viajar num carroção num dia frio como este – comentou a mãe. em toda a volta do estábulo. por isso. para ver se encontrava alguém que o ajudasse a persuadir o velho. o pai regressara de tratar dos animais e estava a aquecer as mãos junto do fogão. No fim. – Vem gente de todas as partes do mundo experimentá-la – observou a mãe. mas o vento estava mais frio e andava no ar um pressentimento de tempestade. – disse lhe o pai. – Os lobos-búfalos são os maiores da campina e muito ferozes. Partiu com o desconhecido e demorou algum tempo a regressar. o carroceiro parou. ficou contente por partir. era tão frio que não os deixava falar. Devem ser de lobos-búfalos. de uma só direção. pregou mais pregos. não. antes de tirar o cachecol. O veículo parou junto da porta principal. “Carolina. Vou vêlo e quando voltar lhes contarei tudo. O último homem a partir NA MANHÃ SEGUINTE o sol brilhava. Um instante depois o pai voltou e vestiu apressadamente o sobretudo e calçou as luvas. – Não gostaria nada de encontrar um sem ter uma arma comigo. Creio que estas campinas são praticamente a única coisa que cura a tísica. assim que o trabalho da casa ficou feito. a pôr mais carvão no fogão. esta manhã viu rastos de lobo? – perguntou Laura. Levaram dois longos dias para chegar ao grande rio Sioux. – Pa. encontrou uma cabana numa gleba e um velho sozinho. No entanto. Veio do rio Jim até aqui sem encontrar viv’alma. Laura pôs o xale e foi também. mas woodworth não se deixou convencer. mas se o tivesses visto. Laura teve realmente consciência de como a região estava deserta. O vento soprava forte e frio.15. o embrulhamos em cobertores e aquecemos um saco de aveia.

pequeninas. quando a última nota morreu. Parece que as nevascas atravessam o Minnesota ocidental e nós aqui estamos mais para oeste. cantaram todos juntos a alegre cantiga. tens de fazer a tua parte. a rir para trás. mas é triste. heróis. segurando as saias acima dos tornozelos. estejamos juntos à roda da nossa liberdade. o capitão teve uma fúria de pasmar e do exército foi enxotado! – Laura! – exclamou a mãe. com os bonitos olhos cegos e as mãos abandonadas no colo. Pa. – É lindo – disse Mary. pois sou o capitão Jinks da cavalaria marítima. dizem. É assim que se marcam os passos. – Agora. pois querida me era como luz e vida a minha terna Mary montanhesa. e cantaram juntos. eleitos do céu! firmes. Salve. – respondeu o pai. a paz e a segurança encontraremos. junto ao fogão. aqui. Por isso. – Que queres que toque para ti.– Não creio que os invernos vão ser muito maus. Mary? Ajude a cantar! – pediu. uso roupas finas. que exuberante o desabrochar do espinheiro quando à sua sombra fragrante a apertei ao meu peito! As horas douradas em asas angelicais voavam sobre mim e a minha amada. 48 . e ele cantou. suavemente. brejeiro: Sou o capitão Jinks da cavalaria marítima! Alimento o meu cavalo a milho e a feijão e não raro ultrapasso os meus meios para cortejar as jovens damas. – Então. e cantando: A moça Ilka seu namorado tem. olhou para Mary. como um grupo de irmãos amigos. – disse Laura. Depois o violino do pai tocou notas alegres. Explicou-lhes como deviam dar as mãos e mover-se ao compasso de uma polca. – É lindo. Depois tocou e elas dançaram enquanto ele cantava: Primeiro o calcanhar e depois o dedo. Depois do jantar. eu. vem para aqui com a Laura e vejamos o que sabes fazer. – Vou tocá-la. terra feliz! – cantou o pai com o violino. serenamente sentada na sua cadeira de repouso. Dizem que três graus para oeste é tão bom como um grau para sul. não tenho nenhum. mas não cantarei sozinho. e Laura levantou-se e fingiu estar atravessando um riacho. O pai tocou. pois do exército sou capitão! O pai fez sinal a Laura. unidos. por cima do ombro. – Gosto mais “De quando atravesso o riacho”. cabelo frisado. salve Colúmbia. Que suave o florescer das alegres folhas verdes. reuniram-se todos à volta do calor do fogão. Começaram as felizes noites de inverno. – respondeu o pai. – Acha bonito uma menina cantar semelhante canção? – Ela cantou-a bem. Carrie. que continuou a cantar com o violino: Sou a senhora Jinks de Madison Square. mas todos os moços me sorriem quando atravesso o ribeiro. um verso. A mãe embalou Grace devagarinho e Laura foi buscar a caixa do violino do pai. Mary? – Gostaria de ouvir a Mary montanhesa. – Não é justo eu ter de fazer a festa toda.

as duas. sentada ao colo da mãe.Primeiro o calcanhar e depois o dedo. sonolenta. meninas. Pa. – Havemos de fazer isto mais vezes. Quando Laura abriu a porta. – Mary – murmurou Laura – desconfio que os lobos foram embora. – flutuem com a música. este inverno. e foi junto dele que se despiram e. – Excelente. a toda a volta da casa o frio negro da noite era tão alto como o céu e tão largo quanto o mundo. os cobertores foram aquecendo. até estarem sem fôlego e cheias de calor. enquanto Grace. lentamente. Primeiro-o-calcanhar e-depois-o-dedo.. É assim que se marcam os passos. Subiu apressadamente. deslizem docemente e girem. desceu pela escada um frio cortante.. suavemente. com a lanterna acesa. – Agora vamos experimentar uma valsinha – sugeriu o pai.. para trás e para a frente e a rodopiar. – Oh. – Já passa muito da hora de deitar – respondeu-lhe o pai. Não os ouvi uivar. não é?! – protestou Laura. 49 . havia um calorzinho à volta do cano da chaminé. em longas ondas deslizantes. e a música jorrou suavemente. ela e Mary aninharam-se uma contra a outra e. de tanto dançarem e cantarem. meteram-se nas camas frias e Laura apagou a lanterna. também apressada. seguida por Mary e Carrie. e você? – Espero que se tenham ido embora – respondeu-lhe Mary. Laura e Carrie valsaram de um lado para o outro da sala e em seu redor. estão crescendo e precisam saber dançar. no escuro. Vão ser boas dançarinas. enfiaram as camisas de dormir por cima da roupa interior de flanela.. a bater os dentes. Tocou cada vez mais depressa e elas dançaram também cada vez mais depressa. – e haverá muitas mais noites longas e agradáveis antes da primavera. – disse o pai. não vai parar. com passos cada vez mais altos. – Deixem-se flutuar com a música – aconselhou o pai. as observava de olhos arregalados e Mary escutava serenamente a música e o som dos pés que dançavam. que vinha da sala de baixo. nele não havia nada além do vento solitário. com dedos trêmulos.

depois no outro. para secar. – A curiosidade matou o gato. ao fim de um jogo o pai arrumava sempre o tabuleiro. quando lhe contavam histórias. A mãe não gostava de jogar. A campina estava tão desolada e o vento era tão frio que Mary não saía de casa. Laura e Carrie ajudavam a mãe na lida caseira e Grace brincava. Colocou metade deles no fogão e foi virando-os. Pa – disse Laura. – Pronto. Mary não guardava a costura e costumava dizer a Laura: – Vejo quando você não enxerga. Depois era bom regressar à casa quente e confortável e jantar. num silêncio que aguçava ainda mais a curiosidade. com o lápis. embora tivesse a certeza de que nunca gostaria tanto de coser quanto Mary. Em toda a campina branca só se mexia a neve soprada pelo vento e o único som que quebrava o imenso silêncio era também o do vento. Então a mãe deitava-a na caminha. esfolava raposas. olhava para um turbilhão de flocos de neve e prestava atenção ao vento. Mas depois disso não jogaram tão imoderadamente. Pa? – perguntou Laura. subia para o colo de Mary. até ficarem todos pretos. Sentia-se muitas vezes desassossegada. e Mary contava-lhe sempre uma história. – O jogo das damas é um jogo egoísta. cantando e dançando. dentro de uma cercadura simples. Quando se cansava de brincar. mas o vento deixava sempre o gelo limpo. dividiu-o em pequenos quadrados. corriam um bocadinho e depois deixavam-se escorregar no gelo escuro e liso. então ia de janela em janela. – Que está fazendo. Laura! – exclamou. por isso. andavam de um lado para o outro. quadradinho não. primeiro num pé. puxa a cadeira para te ensinar como se joga. Laura era a mais alegre de todos. empurrava a neve para a vegetação alta dos pântanos e amontoava-a em ondas nas margens baixas. Depois colocou todos os quadradinhos nos quadrados da tábua e pôs esta nos joelhos. e. Na casa aconchegante. durante o serão passado ouvindo música. E. cuidadosamente. – Espere e verá – respondeu-lhe ele. Num dia tempestuoso. Grace adormecia. Aqueceu a ponta do atiçador no fogão. queimou quadradinho sim. ela e Carrie. coiotes e ratos almiscarados e esticava as peles em tábuas. Quando escurecia. Até Laura gostava das tardes aconchegadas passadas a se balançar nas cadeiras. brandamente: – Com franqueza. – Mas você parece muito saudável. serviu-se de outro bocado de madeira e fez vinte e quatro quadradinhos. iam escorregar na Lagoa Prateada. – Traga-me o violino. e. Nevava. O pai tratava dos animais e percorria a série de armadilhas que montara ao longo da beira do Grande Pântano. Laura tinha de sair. Quando a mãe as deixava. porque vejo com os dedos. Laura aprendeu tão bem que antes de a tempestade acabar já ganhara um jogo ao pai. até ficar rubra. a costurar e a conversar um bocadinho. não sei que te dá! Se o sol brilhava. capuzes. em casa. sapatos.16. junto do fogão. A Lagoa Prateada estava gelada. no alpendre. até a mãe dizer. – Pronto o quê? – Isto são damas e isto é um tabuleiro de damas. Gostava de estar sentada costurando na casa quente e agradável. E. e instalavam-se todas para uma tarde tranquila e agradável passada a tricotar. De mãos dadas. o pai levou um quadrado de madeira para junto do fogão e. luvas e cachecóis. nem Carrie. ofegantes. Canarinho. Eram maravilhosos esses dias em que podiam sair para o frio cintilante e cortante. quentes e risonhas. 50 . pois era o lugar mais quente. Laura. pois só dois podem jogar – disse. a dar pontinhos pequeninos e certos com a agulha que Laura lhe enfiava. – Sempre costuraste melhor do que eu – respondia-lhe Laura. – Foi uma coisa que sempre fizeste. a costurar e a fazer renda. estivesse o frio que estivesse. bem agasalhadas com casacos. Dias de inverno O TEMPO esfriou. com pequenas corridas de permeio. até os deixar pretos. a correr com passos hesitantes e curtos na grande sala.

– Não faz mal. Não lhe apeteciam jogos e quase nem ouvia a música do violino do pai. mas não fiquem até se gelarem. correram um pouco. de rompante. Teve vontade de voar. – Voltemos para trás – disse Laura. a terra era uma brancura infinita e não soprava vento. E lá. Laura não era capaz de se sentar a fazer qualquer coisa. estendiam-se planuras imóveis. corre! De mãos dadas. – quase tão claro como se fosse dia. Estava tão bonita que quase nem podiam respirar. Sentiu-se pessoalmente parte da vasta terra. – Escute como está tudo silencioso. os seus sapatos eram novos e as solas grossas. de tão frio. numa distância muito maior do que a percorrida a correr. Depois seguiram o caminho que os cavalos e a vaca abriram quando o pai os levava através da neve. Laura e Carrie apressaram-se a vestir os casacos e a pôr os gorros e as luvas. Anda. escorregaram no gelo liso. – murmurou Carrie. Depois pararam e olharam para a noite.17. – Eu também o vi. Tinha de ir a qualquer lado. Correu e deslizou e voltou a correr. para o ar que. por isso deu-lhe a mão e disse: – Vamos escorregar. indo reto para a margem alta do outro lado. Continuaram a correr e a deslizar sem dizer palavra até chegarem ao 51 . com uma tira. a casa dos agrimensores. escura e pequena. perto da margem e numa pequena elevação erguia-se. Qualquer coisa levou Laura a olhar para cima. mas não ouvia nada. para beberem no buraco que ele cortara no gelo do lago. mas sabia que precisava se mexer velozmente. à volta de cada meia. No meio ficava o lago escuro e liso. depois. fizeram uma corrida pela trilha coberto de neve até ao estábulo. Por isso. A grande lua redonda pendia do céu e a sua luz derramava-se sobre um mundo prateado. a não ser que se demorem tanto tempo que enregelem. a mão de Carrie não a deixava cair. gritou: – Carrie. E lá foram correndo e deslizando. – Lá fora está claro – respondeu Laura. muito depressa. – não há nada que lhes faça mal. admirada. numa refulgência gelada. recortado contra o luar. Para lá de cada janela o mundo branco estendia-se. Perto da margem oposta. no qual o luar parecia entrar e sair. Se Carrie perdia o equilíbrio. pararam. com a luz amarela da janela a brilhar no seu negrume. – Vou mais depressa do que você. Se era Laura que se desequilibrava. Carolina – disse o pai. a brilhar suavemente. Laura segurava-a. Saíram da casa quente. Muito. na direção da luz que jorrava da lua prateada. Não queria dançar. a mãe tricotara-lhes meias de lã e a roupa interior de flanela chegava-lhes aos joelhos e ajustava-se. O vento agitava-lhe o pêlo. Escutava para tentar ouvir mais algum som atrás delas. A vegetação alta erguia-se em linhas pretas de neve empurrada pelo vento para os pântanos. do céu distante e alto e do luminoso luar. o mais depressa que pôde. com o pé direito à frente. O coração de Laura dilatou-se. e virou-se arrastando Carrie consigo. estava um grande lobo! O animal olhava para ela. Afastaram-se cada vez mais da margem. As combinações de flanela também eram grossas e quentes e os vestidos e os casacos eram de lã. vamos deslizar no gelo! – À noite. e correndo e deslizando de novo. e o céu era uma curva de luz. muito ao longe. pelo cintilante caminho do luar. a mãe cedeu: – Podem ir dar uma corrida rápida. atravessado por um reluzente caminho de luar. ofegando – Era um lobo? – Não fale! – respondeu-lhe Laura. O estábulo encontrava-se. e conduziu Carrie ao longo da margem até estarem bem afastadas dele. quase na sombra do aterro alto. cortava a respiração e parecia vibrar. assim como os gorros e os cachecóis. Quase tinham a sensação de voar. Carrie! Vamos pelo caminho do luar! -gritou Laura. baixo e escuro. Lobos na Lagoa Prateada CHEGOU UMA NOITE em que o luar brilhava claro como prata. De súbito. Mas Carrie era pequena e estava quase assustada e. como se fossem feitas de luz suave. em todas as direções. – Que silêncio! – segredou Carrie. – Vamos depressa! Laura ouvia os pés de ambas a correr e a deslizar no gelo. para o cume do aterro. mas Carrie não se deixou ficar para trás. Laura? – perguntou a mãe. – Não devemos nos aproximar do buraco da água – disse Laura. – No caminho do luar.

com o vento a agitar-lhe o luar do pêlo. – Está na hora de dormir – disse. surpreendido. Ouviu-se um longo e selvagem uivo de lobo. o pai estava a falar muito sério com a mãe. Correram pela encosta acima até casa. Embrulhou outro e acrescentou: – E aqui está o teu. O pai levantou-se logo. para os pés da Mary também se esquentarem. fecharam-na com força e encostaram-se a ela. Laura e Carrie não pararam de correr. – respondeu Laura. Quando Laura fechou a porta da escada. – Não nos perseguiu. escancararam a porta da sala. Laura. – Onde está o lobo? – Não sei. – Sentem-se e descansem! Estão sem fôlego. – E se ele as tivesse apanhado? Depois calaram-se todos. Laura? – Espero que não encontre o lobo. quase num sussurro. Laura? – perguntou a mãe. A mãe ajudou-as a despir os agasalhos. Quando corriam pelo caminho acima. docemente. – Oh. no aterro – respondeu Carrie.caminho que passava pelo buraco da água. Pa. por tê-la levado tão longe. mas não acontecera nada. que se perdeu no silêncio. Pa. Pa. embrulhou-o bem num pano e deuo a Carrie. – Pa! – disse. a serená-la. enquanto Laura e Carrie descansavam. – Não me admira! – exclamou o pai. – respondeu Laura. – Seguimos o caminho do luar – explicou Laura. Quase lhe parecia ver outra vez o grande lobo. – Pensava que os lobos tinham partido. e o pai olhou-a de modo estranho. É quase um quilômetro. – Onde estava o lobo? – insistiu o pai. Laura? – perguntou Carrie. – Que foi? – perguntou. e podia ter-nos apanhado. com a desolada campina lá fora. Coloque-o no meio da cama. e Laura acrescentou: – No aterro alto da outra margem do lago. Laura olhou para trás. depois de o verem! não fazia ideia de que fossem tão longe. ofegando. Laura teve a impressão de que o coração lhe dava uma cambalhota e levantou-se. em voz baixa. Foi descuido meu. Atravessaram-no. desapareceu – respondeu Laura. depois de saírem da sala. Laura sentia-se grata por estar em segurança na sala aquecida. Respondeu-lhe outro e depois voltou o silêncio. admirada. – Mas por que. A mãe tirou um ferro de engomar quente da parte de trás do fogão. mas ela conseguiu. – Pobre pequena! Está tão nervosa e não é para menos – disse a mãe. ofegante. mas pálida. – Aqui está o ferro quente para os pés. um enorme lobo! Tive medo de que a Carrie não conseguisse correr depressa. – Vocês foram até lá? – inquiriu o pai. Se tivesse acontecido alguma coisa a Carrie a culpa teria sido sua. Mary estava imóvel. – Lá em cima. mas ela não ouviu o que diziam por causa do zumbido dos seus ouvidos. – Que é. a fazer um esforço para recuperar o fôlego. Sentiu-se grata ao sentir a mão da mãe no seu braço. 52 . através do lago. do outro lado. Amanhã vou procurá-los. – Era de se esperar! – comentou. mas não viu nada no lago nem no aterro. meninas! – exclamou. abriram a porta dos fundos e entraram correndo no alpendre. – O que as assustou? – Era um lobo. – Um grande. – Porque ele não nos perseguiu. – E correram todo o caminho até aqui. – Foi um lobo.

não eram lobos jovens. – mas foi isso que vocês fizeram: Foram direito à caverna dos lobos e os lobos estavam lá. Trata-se de uma caverna antiga e. não façam Pa esperar. no alpendre. não as perseguiram. admirada. Pa encontra a gleba NA MANHÃ SEGUINTE. Não me admiraria muito se fossem praticamente os últimos lobos-búfalos que jamais serão vistos nesta parte do país. através do Grande Pântano e pela campina. Atravessei o lago. Os trilhos e os povoados os vão expulsando sempre mais para oeste. sem precisarmos lamentar os sentimentos de animais selvagens! O que devem é sentir-se gratas por as feras não terem feito mais do que assustá-las a noite passada! – Mas ainda não disse tudo. 53 . Nem um momento esqueceu o grande lobo sentado. zangada. – Há muitas coisas de que ter pena. Mary e Carrie abriram a boca de espanto e a mãe exclamou: – Charles! – Agora é tarde para ter medo. Segui-os o tempo suficiente para me certificar de que não os poderia atingir a tiro. O pai olhou-a e perguntou-lhe: – Está contente por eles terem escapado. Pa? – perguntou Mary. muito agitadas. – e as maiores pegadas de lobos que já vi. – Não tem importância. ao luar que lhe brilhava no pêlo denso. Laura? – Estou. como se tivessem iniciado uma longa viagem e soubessem para onde iam. Demorei-me mais do que esperava. a mãe. – redarguiu o pai. Laura passou a manhã à espera de ouvir um tiro e sem querer ouvi-lo. Eu diria mesmo que viveram ali durante alguns anos. Talvez lá tivessem vivido antes de os caçadores matarem o último búfalo. trotaram lado a lado. pelo tamanho dos bichos. entrou. a noite passada estiveram naquela caverna dois grandes lobos-búfalos. seguindo as marcas que vocês deixaram. Charles. Passava muito do meio-dia quando bateu com os pés. mas não têm vivido lá neste inverno. – Suponho que vieram visitar o antigo lugar onde viveram antes de chegarem os niveladores e partirem os antílopes. quase não conseguia engolir nada. – Mais de dezesseis quilômetros. Mas confesso que não consigo imaginar porquê. não faça perguntas. Há tempos. filhas. Segui-lhes os rastos a partir de lá. Pa? – perguntou Carrie. “Os rastros eram frescos e todos os sinais indicavam claramente o que eles estiveram fazendo. para sacudir a neve das botas. onde. depois lavou a cara e as mãos na bacia de folha que estava no banco e. a olhar para o espelho que havia por cima. sim.18. ao responder: – Então. Carolina. colocou a espingarda na parede e pendurou o boné e o sobretudo no prego que lhes estava destinado. Carolina. “Os lobos não pararam. – Desculpe ter-me atrasado para o almoço. para secarem. Laura e Carrie. ao todo. A comida sufocavaa. depois do café da manhã. e tudo quanto fizeram aqui foi parar uma noite na velha caverna. – Encontrei a caverna dos lobos – disse o pai. Laura não disse nada. Laura continuava calada. Mary. então. – respondeu o pai. Pa?! Como é? A que distância fica? – perguntaram. na direção sudoeste. Uma coisa é certa. – Que distância percorreu. entrando e saindo. – Tenho novidades: encontrei a nossa gleba! – Oh. penteou o cabelo e a barba. – O que teriam ido fazer na velha caverna? – perguntou. o pai pegou na espingarda e saiu. Os rastros daqueles lobos fizeram-me andar muito! – Apanhou o lobo. talvez até esta manhã. suspendeu-as pelos polegares da corda estendida atrás do fogão. Para a mesa. desde o momento em que deixaram a antiga caverna. “Vieram do noroeste. O pai chegou atrasado para o almoço. que julgam que encontrei no aterro alto onde viram o lobo? – Encontrou o lobo – respondeu Carrie. – Valha-nos Deus! – exclamou a mãe. como se até àquele momento se tivesse esquecido de respirar. Quanto às luvas. apenas. Eu conto tudo. Eles não nos perseguiram. Partiram definitivamente. Meninas. ontem à noite. Conservei o almoço quente. se eu percebo alguma coisa de rastos de animais selvagens: aqueles dois lobos vieram direito do oeste e regressaram direito ao oeste. e foram direitinhos à caverna. havia lobos-búfalos em toda esta região. ontem à noite. – anunciou o pai. Laura. confiantemente. O pai sorriu para Carrie. tive de ir mais longe do que tencionava. Laura respirou fundo. – Vê-la. nem por aqui. imóvel. Pa. mas já não restam muitos. – Sim. – Pobres dos lobos. Ficaram nas imediações. Pa – lamentou Laura.

desse lado. daquele lado. a sul. 54 . confiante – Partirei para Brookins e registrarei a gleba na próxima primavera. Tudo quanto um lavrador poderia desejar.– Ainda bem – disse a mãe. O pai empurrou o prato para trás. o que significa que as meninas podem ir à escola. e bons pastos em toda a área. – Ninguém estará aqui este inverno – tranquilizou-a o pai. que será m bom lugar para construir. E fica perto do lugar destinado à cidade. mesmo a oeste. um pequeno monte. antes que apareça alguém à procura de terra. a sul do pântano. Fica a sul do ponto onde o lago se junta ao Grande Pântano e o pântano curva para oeste da gleba. nunca a teria encontrado se a perseguição aos lobos não me tivesse levado através do lago e ao longo do pântano. – É engraçado! Há meses que tenho andado por aí à procura e nunca encontrara uma área que me satisfizesse completamente. – Sentiria-me mais tranquila se a tivesses registrado no outono. Há uma elevação na campina. E ela ali à espera. desde o princípio! Provavelmente. limpou o bigode e explicou: – É conveniente em todos os sentidos. – Estou contente. bebeu o chá. Charles – disse a mãe. Na área de cultivo há feno de terras altas e terra arável. empurra o pântano para trás.

– Já sei! – exclamou Mary. – Vamos ter um Natal branco – disse. Laura e Mary tricotavam a toda a velocidade e quando a ouviam descer escondiam as luvas no cesto de costura de Mary até que ficaram prontas. a formar altura. – Pelo menos estaremos todos bem quentinhos e aconchegados. Laura fizera-lhe uma gravata de um pedaço de seda que encontrara no saco dos trapos da mãe. e eu dei-lhes uma ração maior. O pai virou-se. meteram-no na algibeira do avental. Esfolado. Como o vento estava fraco. a pele era tão delicada que a mãe não confiara a ninguém esse trabalho. Laura fizera um e Carrie o outro. mas depois tapou a boca com a mão e olhou muito depressa. Depois embrulharam o avental em papel de seda e esconderam-no debaixo dos retalhos da manta. será um alegre Natal – comentou a mãe. Mary encarregou-se dos pontinhos da bainha. – A Grace ficará mais encantadora do que qualquer boneca – declarou Mary. levou para casa o maior coelho que já tinham visto. mas como estamos todos aqui e todos bem. O cobertor estava puído. de pedaços de seda azul do saco dos trapos. de uma das cortinas de pano estampado que estiveram postas na cabana. Quebrou o gelo que se lhe formara no bigode e estendeu as mãos para o calor do fogão. – Vamos vesti-la agora. A mãe tirara a pele do cisne dos panos onde estava cuidadosamente embrulhada e cortara um pequenino capuz. a mãe pregoulhe uma gola de macia penugem de cisne e punhos estreitos. para sacudir a neve. Os sapatos estavam cuidadosamente escondidos no quarto da mãe. para aquecer as costas ao calor do forno. depois de a mãe coser o capuz de penugem de cisne ao forro. Sam e o David também estarão quentes e confortáveis. também de penugem de cisne. por ser véspera de Natal. a olhar para Carrie– – Não precisamos do Papai Noel. O presente de Natal de Grace seria o mais bonito de todos. Mas a mãe disse que o casaco e o capuz tinham de ficar guardados até ao Natal. na sala aquecida. Laura e Mary quiseram fazer luvas para Carrie. mas deixou Laura e Carrie unirem o forro. – É como fazer roupa para bonecas – observou Laura. Pelo menos. e os seus olhos brilharam. pois Grace era tão pequenina que não percebia de que se tratava. e olhou contente para elas todas. – Sim. E matou.. – disse. enquanto Carrie fazia a sua cama. para ver como fica! – pediu Carrie. e ficaram. e o pai levou a pá com ele. em segredo. para ver se Laura e Mary repararam como estivera quase a revelar os segredos. Havia um cobertor com riscas encarnadas e verdes nas extremidades. no saco dos trapos encontraram um bocado de bonita musselina branca e Laura cortara um quadrado e. mas nenhuma cor era suficiente para fazer as luvas. limpo e gelado. – A Ellen. quando foi tratar dos animais. com um teto por cima de nós. na caixa de Mary. um pouco de vermelha e um pouco de azul. – começou Carrie. Foi ela própria quem deu todos os pontos do capuz. Carolina? 55 . ao entardecer. a neve acumulava-se no chão. mas a lã não chegava. Por fim. Laura e Carrie coseram as costuras e abriram-nas. mas as pontas com as riscas estavam puídas a mãe aproveitara-as para cortar sapatos de dormir para Mary. ela e Carrie fizeram um avental para a mãe. e cortou um casaquinho. Esperava no alpendre. a dançar de excitação. aquele não se rasgaria. o casaco azul enfeitado com a branca penugem de cisne e o delicado capuz de penugem de cisne e forro tão azul como os olhos de Grace ficaram lindos. Trabalharam todas nele. – Que frio para a véspera do Natal! Está demasiado frio para o Papai Noel se aventurar aí por fora – acrescentou. – Faremos as mãos brancas e os punhos listrado de vermelho e azul! Todas as manhãs.. cosendo e virando e alindando-os com cordões e borlas de fio. Sozinhas no sótão. Em seguida a mãe voltou a procurar no saco dos trapos e escolheu um grande pedaço de fazenda de lã azul. A casa dos agrimensores estava cheia de segredos. Agora só esperavam que a manhã seguinte chegasse. não é. – Arre! – exclamou. Estivemos todas. no sótão. Mary tricotara umas meias novas e quentinhas para o presente de Natal do pai. O pai fora caçar. que em tempos fora do seu melhor vestido de inverno. Havia um pouco de lã branca. para que Mary os não encontrasse. para ser assado no outro dia. O pai veio do estábulo e bateu com os pés. Este Natal é muito bom. Véspera de Natal NEVARA todo o dia e ainda estavam a cair flocos macios e grandes. Mary embainhara-o com os seus belos pontos e fizera um lenço para a mãe. nas mangas. Disse que tencionava matar o maior coelho do território para o almoço do Natal.19.

e sentiram curiosidade quanto ao que seria feito dele. – disse Laura – não está perdido numa nevasca. que percorrera sessenta e cinco quilômetros para Independence. enquanto punha a terrina de flocos de milho quentes em cima da mesa e deitava o leite. quentes. Edward. Havia Carrie – o lobo não lhe fizera mal – e no colo da mãe estava sentada a irmã mais novinha. Nunca mais tiveram notícias do Sr. Toquem os sinos. desde que ele iniciara sozinho a descida do rio Verdigris. Porque tocam os sinos tão alegremente e toquem os sinos. Mas podemos fazer uma festinha de catequese só para nós. – Bem – disse – não podemos ter uma árvore. Charles – disse a mãe. tocou alegremente: Pelo rio abaixo. Todos fingiram que não repararam. Depois o pai desatou a rir. sim. e de volta. – A figura que eu fiz! – exclamou.– É. As canecas de folha e as moedas de centavo do território índio já não existiam. onde quer que ele estivesse. – Quase morri de fome durante três dias e três noites. a boneca de trapos que encontrara na sua meia de Natal na Grande Floresta. O mingau de milho foi comido. Durante o jantar conversaram de outros natais. mas acabou por ter de limpá-las com a mão. recordando-se daquele horrível Natal em que ele quase não regressara a casa e elas recearam que não regressaria nunca. Flocos de neve batiam na parte superior dos vidros. Subiram lágrimas aos olhos da mãe. – Não podemos cantar logo após o jantar. O pai sorveu a última gota de leite e bebeu o seu chá. – e talvez para o ano haja aqui catequese. encontrava-me debaixo do barranco do nosso próprio riacho. – Onde quer que esteja. Um jantar quente aquecer-te-á mais depressa do que qualquer outra coisa. Por instantes. no o-Hi-ot. E muitas nações virão e dirão: Vinde. sorrindo: – Já estão preparadas para cantar? a voz do violino modificou-se: ia cantar um hino. bem alimentados e felizes. – observou Laura. Grace. na verdade. a fim de lhes levar esses presentes do Papai Noel. que tentou disfarçá-las. – É só gratidão. mas foi tão maravilhoso! – Mas não foi tão bom como este. Todo o mundo despertará numa nova e dourada aurora. Mas o candeeiro brilhava na toalha quadriculada de branco e vermelho e via-se o fulgor do fogo pelas fendas de tiragem do fogão. ainda se encontrava Carlota. Charles – respondeu a mãe. toquem todo o caminho! Oh. desejemos que tenha tanta sorte como nós – disse o pai. – Sim. recordavam-no e desejavam-lhe felicidades. Nem. porque na Lagoa Prateada não há nem um arbusto. com o seu cabelo da cor do sol e os seus olhos tão azuis como violetas. mas Laura e Mary lembravamse do Sr. vêm aí melhores dias. o pai tocou algumas notas e a seguir cantaram todos: Sim. também. comi os biscoitos de ostra e os doces do Natal e. – por isso. Charles. a menos de cem metros de casa! – Creio que o melhor Natal foi aquele da árvore de Natal da catequese – disse Mary. enquanto a mãe e Laura lavavam e arrumavam a louça afinou-a e passou resina no arco. No andar de cima. realmente este é o melhor – concordou Mary. a quereríamos só para nós. Foi buscar a caixa do violino e. Passaram muitos natais juntos. – E o Pa está aqui. afinal. 56 . todos reunidos. como é divertido andar num trenó aberto de um cavalo só! Depois parou e perguntou-lhes. – Agora a Carrie já tem idade para se lembrar e temos a Grace. – vamosa comer. olharam todas silenciosamente para o pai. – observou o pai. vou só desemperrar o violino. Ele ensinar-nos-á A percorrer os seus caminhos. na caixa de Laura. Mary. – Você é muito pequena para se lembrar. Edward. subamos a montanha do senhor! E ele ensinar-nos-á. onde ainda não se acumulara a geada. Havia geada espessa nas vidraças e nas fendas à volta da porta. aliás. a assoar-se. Carrie. nasce uma manhã mais luminosa. e ali estavam de novo.

só para si. até todas fazerem coro e cantarem: O sol pode dar à erva vida. Mary? – perguntou o pai. – Que te pareceu ter ouvido. mas deles nasceu uma melodia que vibrou docemente.A voz do violino dispersou-se.. A mãe levantou-se. Um homem gritava na noite. oh. O orvalho. muito perto da casa.. Para lá do pequeno espaço acima da geada branca das janelas. E olhos podem brilhar e admirar a luz da primeira hora do outono. e ouro e pedras preciosas não são as coisas que satisfazem o coração. Mary perguntou: – Que foi aquilo? – O quê.. Mas. lá está de novo! Desta vez todos ouviram um grito. como será bela a terra! No meio da música. o candeeiro emitia uma espécie de leve crepitar e as brasas iam-se acamando suavemente no fogão. se quantos se reúnem À volta do altar e da lareira tiverem meigas palavras e doces sorrisos. Não é muito o que o mundo pode dar com toda a sua subtil arte. à flor pendente. ouçam. – Pareceu-me ouvir. que se refletia nos vidros. – Charles! Quem poderá ser? 57 . – Pareceu. Mas palavras que falam de ternura e sorrisos que sabemos sinceros são mais quentes do que o verão e mais luminosos do que o orvalho. E voltou a gritar. como se o pai estivesse a tocar os seus pensamentos. sobressaltada. os flocos de neve brilhavam à luz do candeeiro. escutem! Escutaram.. no meio da tempestade. Mary? – insistiu o pai.

A mãe saiu da despensa. do exterior vinham vozes e o riso do Sr. Mas a vegetação. – Venha! Venha! Agarrou o sobretudo e o boné. Boast. neve e frio entraram num turbilhão e com eles. – disse o pai. – O cavalo estava quente. Por isso. – Frito-as cruas – disse-lhe a mãe. – Deve estar quase gelado! – exclamou a mãe. Boast se ri. Sra. ou não lhe restará terra nenhuma. Boast parecia uma grande trouxa de casacos e cobertores. – Veio todo este caminho a cavalo. Carolina. Boast. de novo. – Venha para junto do fogão! Deve estar quase gelada! – Oh. emoldurado por um capuz debruado de pele. – concordou o Sr. Ingalls. – ajudou a Sra. Não tinham presentes para o Sr. Boast a despir o casaco. – Não me lembro de ter comido uma refeição tão gostosa – disse a Sra. – Mesmo assim. este véu está gelado – observou a mãe. o Sr. para eu poder ficar com as mãos agasalhadas. Boast. A noite antes do Natal. O pai e o Sr. e apressou-se a pôr mais carvão no fogão. Boast? – perguntou a mãe. a desenrolar metros de véu de lã gelada da cabeça da Sra. passou as fatias por farinha e pô-las a fritar. a Sra. Laura pôs fatias de carne de porco salgada numa caçarola. na despensa – e fazemos um molho de leite e um bule de chá fresco. Boast. 58 . – Sente-se na minha cadeira. Boast riu-se e em casa riram-se todos. Nós vamos recolher os cavalos. não! – respondeu-lhe uma voz agradável. não! Apenas uns três quilômetros. também. para uma fervura. cujo rosto apareceu. Sr. puxou-os para fora do prego e saiu para o frio. É o lugar mais quente – ofereceu Mary. Vínhamos num trenó atrelado. A mãe estava mexendo massa de biscoitos. mas tivemos de deixar o trenó. A Sra. – É contagioso – disse. Vem aí o Iowa em peso e nós pensamos que seria conveniente adiantarmo-nos à confusão. enquanto Laura descascava e cortava batatas. – mas digo-lhe. Boast chegaram ao telheiro e fizeram muito barulho a sacudir a neve das botas. e a mãe meteu os biscoitos no forno. mas a Sra. não suporta nenhum peso. e para a Sra. Boast não parecia muito mais velha do que Mary. – a neve acumula-se em cima do mato alto do pântano e não se consegue distinguir onde este está. – Não os esperávamos antes da primavera. o país inteiro partirá para o Oeste na primavera. Até a mãe. mas que vamos fazer a respeito de presentes? Laura não pensara nisso. Você devia ter registrado uma gleba no outono. Boast? – cumprimentou. camada após camada. Sra. para fritar as batatas e fazer o molho. na primavera. Depois a porta abriu-se e o pai disse: – Está aqui a Sra. viemos sem querer saber do tempo. mas quando o Sr.. que a mãe lhe ajudou a tirar. Laura olhou-lhe para os olhos azuis e risonhos e pensou que ia ser um Natal alegre. Boast. Ingalls! – É o Boast! – exclamou o pai. Boast. num pântano. – Nós descobrimos isso mesmo. e Laura pôs a mesa. depois de jantar. – Não sei porque é – disse Laura à Sra. Boast. quando me sentei nele. – Oh. Boast também estava rindo. – Compreendo – disse a mãe. por baixo. – Como está. – O inverno é não é uma boa época para tal viagem. terá de se apressar. O PAI colocou o violino na caixa e abriu muito depressa a porta principal. A Sra. Até conduziu o cavalo. Tinha cabelos de um castanho suave e olhos azuis de compridas pestanas.20. Boast disse que se sentaria ao lado dela. Mas eu preparo o jantar num instante. e o Robert envolveu-me em tantos cobertores que o frio não podia chegar. Não há problemas quanto a comida. mas nos atolamos na neve.. depois escorreu a gordura da carne. finalmente. Robert conseguiu soltar a parelha. – O senhor e a sua mulher devem estar esfomeados. – nem sequer sabemos qual foi a graça. não queremos que algum espertalhão instale-se na nossa gleba. A parelha e o trenó caíram pela neve abaixo. Boast. um grito: – Ei. em voz baixa.

– Boa noite.. Seguiram-se o alto suave da Sra. – Que há de ser. – Boa noite! Boa noite! – disseram todos. Alegremente vibram no ar sinos de Natal. – Se estou! – admitiu a Sra. odores de Natal na brisa. – Vamos só cantar mais uma canção e depois todos para a cama! Tirou o violino do seu ninho. no meio da tempestade. Boast. e o Boast e eu ajeitamo-nos aqui. o sol da justiça brilha sobre a terra! Luz para caminhantes fatigados. muito sérios.. – explicou. feliz Natal na terra. e os presentes? – perguntou Laura. Carolina. – Os cobertores deles estão encharcados. não imaginam como nos alegrou. a pensar na gleba que o pai escolhera. e a sua voz de tenor juntou-se à de baixo do pai. A mãe foi ao sótão buscar a roupa da cama de Carrie para o pai e para o Sr. e pior ainda quando tivemos de abandonar o trenó e vir a cavalo.O pai e a mãe entreolharam-se.” 59 . junto do fogão – decidiu o pai. durante uma noite. o soprano de Laura e Mary e o contralto da mãe. Ele conduzirá os confiantes ao perfeito repouso. no mesmo tom de voz. mas a mãe limitouse a dizer: – Está ficando tarde e a Sra. Boast. – Não se preocupe. eu arranjarei algo. a Sra. Árvores de Natal. Boast deve estar cansada. Boast? – Feliz Natal na terra – respondeu o Sr. Ficamos tão contentes quando vimos a vossa luz! E quando nos aproximamos os ouvimos cantar. Boast. Boast cantarolava baixinho: “Luz para caminhantes fatigados. baixinho. na caixa. Boast. e experimentou para ver se estava afinada. durmam bem! Embaixo. Porque havemos de tão alegremente cantar com grata ventura? Olhai. – respondeu-lhe a mãe. Boast. Não faltou também a vozinha aguda e feliz de Carrie: Feliz. – Foi uma viagem dura. – Ma. conforto para os oprimidos. – Você dorme na cama com a Sra. – vocês podem dormir as três numa cama. –Agora durmam filhas – acrescentou alto.

pois o frio da neve andava a transpassar-lhe as botas e admirou a gravata que Laura fizera: – Vou pô-la assim que acabar de tomar o café da manhã! Palavra. Laura teve de fazer um esforço para se lembrar de que era crescida. graças ao fogão bem aquecido. – Nós não sabíamos que eles vinham! Não há nada que lhes possamos dar! – A mãe consegue remediar tudo – afirmou Laura. Grace correu para trás da mãe e agarrou-se às saias. Feliz Natal QUANDO Laura ouviu a porta fechar-se. Laura e. apertando as mãos magrinhas. O pai pegou-lhe e atirou-a ao ar. A chaleira fervia e a mesa estava posta. que por ser tão pequenina nem reparara na mesa do Natal. o pai e o Sr. pequenos e grandes. mas em cima do fundo dos pratos estavam embrulhos. – Feliz Natal! – disseram ao mesmo tempo a mãe e a Sra. por turnos. que soprara e limpara um espaço na geada do vidro da janela. exatamente como Laura fizera. A sala estava quente. listrados de vermelho e cinza. mas não ouvidas. – Feliz Natal! feliz Natal! – gritaram todos. mas podia tricotar outros e as visitas deviam receber presentes de Natal. vestiu-se. uns de papel de seda colorido e outros de simples papel de embrulho com cordel colorido. Boast abriu o seu embrulho e encontrou um lenço de cambraia com uma estreita renda à volta. a bater os dentes com frio. que lhe serviam perfeitamente. toda a imensa e silenciosa campina nevada estava cheia de sol. não posso esperar! – disse Carrie. – Não há nada para o Sr. – Estão todos na mesa. Lá fora. A Sra. Pô-lo logo e levantou-se para todos verem. Boast. e assim que se conseguiu libertar começou a correr e aos gritos. até a mãe lhe dizer. Estava um embrulhinho no prato da Sra. Carrie colocou-se entre ela e a mãe. Boast ficou encantada e muito surpreendida por haver um presente para ela e o Sr. e desceu. e para a Sra. a espreitar de vez em quando para o homem desconhecido. Grace. Boast. não tem outro remédio – respondeu-lhe Laura. – A senhora primeiro – disse a mãe à Sra. para Laura pôr rapidamente o embrulho no prato da mãe. E Grace riu ruidosamente. Boast entraram. – foi o que me disse ontem à noite. Boast também. como costumava fazer com Laura quando ela era pequena. Boast saírem para tratar dos animais. sim. assim ficarei vestido a primor para o Natal! Todos soltaram exclamações de admiração quando a mãe desembrulhou o seu bonito avental. o seu rosto pontiagudo estava branco e os seus olhos brilhavam muito abertos. A Sra. Laura voltou para o sótão e falou a Mary e a Carrie da mesa do café da manhã. O pai disse que as suas meias novas eram exatamente o que precisava. irrequieta.21. Boast e outro no do Sr. – Mas nós não podemos receber presentes! – exclamou Mary horrorizada. O seu presente foram punhos de lã. – Fuiz Natau! Fuiz Natau! – gritava Grace. Mas até Grace estava tão agitada que Mary teve dificuldade em abotoar-lhe o vestido. Olhou para a bainha e sorriu a Carrie: 60 . – Pode. – Mas como? – preocupou-se Mary. – Venha cá. por isso. que as crianças deviam ser vistas. viu em cada lugar o prato estava virado em cima da faca e do garfo. Boast já estava ajudando a mãe. – tranquilizou-a Laura. A luz das janelas cobertas de geada era prateada e no momento em que se sentaram àquela extraordinária mesa de Natal a janela do lado oriental tornou-se dourada. e pode olhar lá para fora – chamou Carrie. a mãe tricotara-os para o pai. brandamente. Era mais fácil para Grace. Ao olhar para a mesa. e estavam sendo feitas panquecas no fogão. Sentiam-se todos muito felizes no calor da sala cheia de bons odores de comida e com visitas para passarem o Natal na casa aconchegada. – Ontem não penduramos meias. Laura reconheceu-o: era o melhor lenço de domingo da mãe. temos os nossos presentes na mesa do café da manhã – disse a mãe. Boast! – A mãe resolverá isso. e. – A mãe sabia onde escondemos os presentes todos menos o dela – disse. como de costume. pois de contrário teria desatado também a rir alto. na forma comprida. até Carrie anunciar: – Eles vêm aí! Depois de sacudirem ruidosamente a neve no alpendre. baixinho. pois ela era uma visita. – Oh. para ajudar a mãe a preparar o café da manhã. Boast. depois de o pai e o Sr. – Feliz Natal – respondeu Laura. então. ficaram olhando para fora. Mas a Sra. Tirou o presente da mãe da caixa de Mary e escondeu-o atrás de si enquanto desciam a escada juntas.

A mãe cortarao da outra cortina. É um bonito avental. – A nossa vaca dá tão pouco leite que já não podemos fazer. cobriu-lhe o cabelo louro com o capuz de penugem de cisne. Boast. e Sra. emoldurando o rosto de Grace. Carrie – disse. embora ninguém tivesse combinado nada. – Uns pontos tão pequeninos no babado. Sr. – Quando não tem leite suficiente para deixá-lo azedar. Boast. Desembrulharam-nos ao mesmo tempo e cada uma encontrou um saquinho de pano cor-de-rosa cheio de confeitos. a mãe e Laura não souberam que cada uma estava fazendo um avental para a outra das velhas cortinas. a alisar o bonito tecido branco com florzinhas encarnadas. A Sra. – Oh. como conseguem fazer biscoitos tão deliciosos. – Então o Papai Noel não chegou cá na véspera do Natal? – perguntou o pai. e depois sorriu a Laura: – e os franzidos da Laura estão certos e bem cosidos. Havia ainda outro embrulho ao lado do prato de Laura. o pai e o Sr. rindo. Laura e Mary simultaneamente. mas a mãe não queria estragá-la com excessiva atenção. não o podiam dizer na presença da Sra. – Veja no bolso! A mãe tirou o lenço e ficou muito surpreendida. – Como os confeitos do Natal vieram parar aqui? – perguntou Mary. e combinava com os seus olhos luminosos. A mãe limitou-se a olhar para a bainha delicada e a dizer: – Que lenço tão bonito! Obrigada. Continha um avental feito do mesmo tecido estampado do avental da mãe! Era menor do que o da mãe e tinha dois bolsos e um folho estreito em toda a volta. assim como dos de Mary. assim que um dos seus cobertores ficasse puído. mãe! – gritou Carrie. Laura? – perguntou. de modo que os cavalos o pudessem puxar para fora do pântano. de leve. – Mas como fazem a massa azeda? – quis também saber a Sra. obrigada! Obrigada a todas! – agradeceu Laura. Interessava-se por tudo e mostrava grande curiosidade em saber como a mãe conseguia governar tão bem a casa. e elas exclamaram. toda ela de azul. e Mary e Carrie quase arrebentaram com os dois segredos. arregaçaram as mangas e lavaram a louça e trataram do almoço. Levaram pás para afastar a neve. quase ao mesmo tempo: – Oh. Por isso. E ainda havia o almoço de Natal. – Fazemos com massa azeda – respondeu-lhe Laura. Boast puseram os aventais. Um bocadinho do forro azul ficava de fora. acrescentou o fermento. Carrie cosera as costuras e Mary embainhara o folho. na cadeira de balanço. – Confeitos do Natal! – exclamaram Carrie. Pensar que na mesma manhã em que dera o seu melhor lenço recebia outro de presente! Até parecia que fora combinado. Mary sentou Grace no colo. – As minhas luvas do 4 de julho! Oh. Um café da manhã assim – como o Natal – só acontecia uma vez por ano. Estava tão bonita e tão feliz. Carrie calçou as suas luvas e bateu palmas. e. claro. a mãe. durante todo aquele tempo. Boast! Obrigada! Obrigada. Mary. – Há mais. obrigada! Depois chegou o melhor: todos olharam enquanto a mãe vestia o casaquinho azul em Grace e endireitava a gola de penugem de cisne. que não se cansavam de olhá-la. o sal e a farinha e enrolou os biscoitos na tábua. Carrie e Grace. – Começa-se por misturar farinha e água morna num frasco e deixa-se descansar até azedar – explicou a mãe. logo mandou-a ficar quieta e foi guardar o casaco e o capuz no quarto. uma taça de molho de bacalhau e um prato de vidro cheio de molho de maçãs secas. no mesmo dia! Depois do café da manhã. Depois de todos admirarem os sapatos de dormir de Mary e como tinham sido feitos das extremidades de um cobertor velho. Depois Laura recolheu todos os papéis dos embrulhos e ajudou a mãe a pôr na mesa a grande travessa de panquecas douradas. Grace tocou na penugem fofa e macia dos punhos e agitou as mãos. branco e ouro. Em seguida. – Peço desculpa por não termos manteiga. Mas. Mary! Oh. Boast era muito divertida. Boast disse que ia fazer uns para ela. Laura e a Sra. Sr. Laura mediu as xícaras de massa azeda. um prato de biscoitos quentes e outro de batatas fritas. toda ela cheia de vida e de riso. Boast nunca fizera biscoitos de massa azeda! Foi engraçado ensinar-lhe.– Embainhou muito bem. enquanto Carrie fazia as camas e varria. vejam as minhas luvas do 4 de julho! Depois Laura abriu o seu embrulho. Mas o molho de bacalhau ficou bem com as panquecas e as batatas e nada poderia ser melhor do que biscoitos quentes com molho de maçã. – disse a mãe. a Sra. Boast foram com a parelha buscar o trenó do Sr. 61 . Boast. Boast!. A Sra.

e soltou um profundo suspiro de satisfação. – confirmou a mãe. certamente muita gente festejará aqui o Natal e suponho que terão coisas mais finas. – A fome é o melhor molho – respondeu a mãe. encontrava-se o enorme coelho assado. Boast! – convidou o pai. Rapidamente. numa xícara de chá! À frente do pai. mas a Sra. Todos repetiram uma segunda vez. todas apoiadas no cabo. Boast. Lentamente. – observou o pai. Charles – disse-lhe a mãe. Charles. – Venham! – chamou a mãe. – O molho também é excelente. na prateleira junto do fogão. – Quer dizer que ainda há mais comida? – perguntou o pai. Boast tinham-se lavado e penteado. mas não vejo como poderão ter um conforto mais sólido do que nós tivemos. a mãe advertiu-o: – Reserve algum espaço. O enorme coelho estava assando. que pena não ter sabido que havia torta. O pai fungou. Boast dividiram entre si a única fatia que sobrou. ela e Laura tiraram os aventais de trabalho e puseram os de Natal. – Ainda bem que foi um bom almoço. 62 . A mesa estava linda. O almoço estava quase pronto quando o pai e o Sr. mas a mãe só quis um bocadinho de recheio e a Sra. Laura pôs a toalha branca lavada na mesa e colocou no centro o açucareiro de vidro. como estes. a toda a volta da mesa. Boast. – Sente-se e coma à vontade! Há muito mais lá em baixo. – Confesso que estou tão cheia que não posso comer nem mais uma garfada – afirmou. O pai e o Sr. mas isso era o máximo que conseguíamos. Boast. as batatas coziam e a cafeteira do café fervilhava. Boast. – disse o Sr. Depois. Quando o pai levantou de novo o garfo da travessa.– Depois. enquanto Laura punha os pratos todos empilhados no lugar do pai. – Venha. na despensa. – É verdade. guarda-se ficar sempre um bocadinho – disse Laura. A manhã pareceu passar num instante. – Ótimo! O chá é a bebida indicada para o homem no tempo frio – redarguiu o pai. cubro. – É a primeira vez que comemos coelho no almoço do Natal. do pão quente e do café. A mãe arrumou a louça que não era necessária na despensa e ajudou Laura e a Sra. assim. o jarro de vidro cheio de creme e o porta-colheres cheio de colheres de prata. quando entrou. do outro lado. – Parece-me que nunca provei um coelho tão bom. Boast encheram uma terceira vez os pratos e Mary. você e o Sr. com montes de recheio de pão e cebola a fumegar à volta. Boast regressaram com o trenó. – Acho que lhe melhora o sabor. Ingalls cobre-o de fatias finas de carne de porco salgada. – Sentes o cheiro de café. eram tão comuns que os comíamos todos os dias. – O almoço está pronto. Laura e Carrie não recusaram. Boast a levarem o último prato cheio para a mesa. Boast apenas mais um biscoito. em tão boa companhia. quando se utiliza. No Natal comíamos peru selvagem. e mais água morna – Laura deitou a água morna – tapa-se – tapou o frasco com o pano limpo e o prato. quando o assa. A casa recendia aos odores bons da carne assada. No futuro. – está sempre pronta para usar. recheio. mas a chaleira está fervendo para o teu chá. Então a mãe foi à despensa e trouxe a torta de maçã seca. – Não te preocupe. – Torta! – exclamou o pai. é o primeiro almoço de Natal que já se comeu nesta região do país. uma taça de suculento molho castanho. – No Território Índio não havia nenhuma despensa de agrimensores com picles e pêssegos à disposição. modestamente. – Nunca comi biscoitos tão bons – afirmou a Sra. Boast interveio: – Eu sei porque o coelho está tão bom. – depois coloca-se num lugar quente – colocou a massa no lugar habitual. Boast. na parte de trás do fogão. – nossa. batatas e molho. – e juntam-se as raspas da massa dos biscoitos. – Bem. – É verdade. Depois o pai e o Sr. Charles. na grande travessa. – lembrou lhe a mãe. – Torta de maçã! – exclamou o Sr. quando precisamos. Num prato ao lado estava um monte de purê de batata e. – observou o pai. – Onde vivíamos antes havia coelhos grandes. cada um comeu uma fatia de torta de maçã e o pai e o Sr. Havia pratos de pão de milho quente e de pequenos biscoitos quentes e um prato de pepinos de conserva. em certos aspectos. no forno. A mãe despejou o café forte e o chá fragrante. Carrie dispôs à volta da mesa as facas e os garfos e encheu os copos de água. enquanto o pai enchia os pratos de coelho assado. pôs em cada lugar um pires de vidro com meio pêssego em compota e calda dourada. – Não espero vir a comer um almoço de Natal melhor – disse o Sr. A Sra.

Boast. – Pois claro. do lado oposto ao fogão. quando o pai e o Sr.. Depois puseram a mesa encostada à janela. Levaram sorrateiramente o milho para casa e esconderam-no na despensa. Aqui não cabemos nem os quatro. – Não provo pipocas desde. Quando os homens saíram. muito depressa. – Laura e eu vamos já. Ao primeiro estalo. Boast a transportar o colchão de penas e as mantas e a fazer a cama. Charles – disse a mãe. A casa não tinha soalho e era tão pequena que a cama de casal mal cabia. até serem horas de tratar dos animais e do jantar e de o pai tocar violino. e a mãe começou a levantar a mesa. Boast ficou entalada entre a mesa e a cama e passou a constituir outro assento. ao lado. minha patife! – Vocês dois continuem a jogar! – respondeu-lhe a Sra. “deve ser porque estou crescendo. Boast. ainda não! – contradisse o Sr. a conversar e a rir. já as teria descoberto há mais tempo. – não perturbem o jogo por nossa causa. Boast instalaram o fogão. Mais tarde. Se eu soubesse que você trazia pipocas. – Estão demasiado ocupados para repararem em nós. e depois exclamou: – Nell. Boast levantou-se. por isso. Rindo. Boast estavam absortos no jogo.Passado um tempo. a mãe e os Boasts sentaram-se à volta da caçarola a comer. No canto junto da porta. Boast descarregavam o trenó. Laura e Carrie receberam um prato cheio de pipocas crocantes e tão macias que se derretiam na boca. – Pipocas! – exclamou. – Pronto! – exclamou o pai. – Você vai ajudar a Sra. que tinha sido o escritório dos agrimensores. Boast. relutante. – Oh. continham os pratos. e o pai. Boast. Laura e a Sra. Boast tirou debaixo dos pratos um cartucho de papel cheio. Que tal um jogo de damas. o pai e o Sr. e puseram embaixo duas cadeiras. depois de segredarem à mãe o que era. o pai olhou. Laura ajudou a Sra. rindo com os olhos azuis. mas na outra casa há espaço suficiente e. quando tudo ficou arrumado. atravessada numa das extremidades. foram pelo meio da neve até à minúscula casinha próxima. ainda não. até não caberem mais pipocas na caçarola. – Agora que estão instalados. – É uma surpresa – disse a Laura. Uma prateleira por cima do fogão e um caixote. o pai e o Sr. – Eu trato da louça – disse a Laura. A mala da Sra. aqueceram sorrateiramente gordura na cafeteira de ferro e jogaram um punhado de milho. a Sra. já o venci. Boast. pensou Laura. – Milho para pipocas! O Rob não sabe que eu trouxe. Boast – disse o pai. – Mas eu não trouxe pipocas – declarou o Sr. Boast a instalar-se. À porta. fica sendo o quartelgeneral. e pouco espaço sobrou para a porta se poder abrir contra a mesa. o Sr. e saíram para o frio cortante. – De qualquer modo.. Então Mary.” 63 . os cachecóis e as luvas. Fizeram outra cafeteira cheia. Por isso. “Cada Natal é melhor do que o anterior”. Boast agasalharam-se com os casacos e os capuzes. Boast? – Vão andando – disse-lhes a Sra. A mãe despejou os grãos de milho branco da cafeteira para uma caçarola e Laura salgou-os cuidadosamente. vamos.

Havia nele algo de moderno. leve. serenamente. – disse o pai. muito devagarinho. no fundo. – Tenho estado à espera de que o escritório do registro fundiário abra em Brookins. – Se partir antes de nascer o sol. por ser invulgar. como dizia. Sra. não faz ideia de quantos virão esta primavera. – Nunca tinha provado melhor mel. contra a parede. Se isto é uma amostra de um inverno do Dakota. tão pequeninos que pareciam de brincadeira. com bolhas douradas de creme derretidas e pontinhos negros de pimenta. muito em breve. levava a colher à boca e sorvia devagar. para conservar aquele gosto bom na língua o mais tempo possível. Boast. os seus risonhos olhos azuis e a cor viva das suas faces. Boast. – Acho. Felizes dias de inverno O SENTIMENTO de Natal prolongou-se dia após dia. na superfície. não chegará lá ninguém mais depressa do que eu – garantiu o pai. Primeiro. – elogiou a mãe. – É um bom começo do ano de 1880. Boast – disse o pai. tivemos todos sorte em vir para o oeste. 64 . de cima do qual serviu a comida. E depois uma grande bacia de pipocas tenras e salgadas. e sentarem-se. Se a Carolina achar bem. – Está decidido – declarou o pai. – É sem dúvida uma boa região – concordou o Sr. novo e tão diferente. Comida a última gota de sopa e repartidos e comidos os últimos biscoitos de ostras. Boast fez o almoço do dia de Ano Novo. mas o melhor é arrumar o assunto e não pensar mais nisso. Os seus olhos e todo o seu rosto brilhavam de contentamento. comeram sopa de ostras. A Sra. e por ser tão elegantemente servido nos bonitos pratos da Sra. não houve vento e ao fim de seis dias a neve desaparecera toda. deverei chegar ao escritório do registro depois de amanhã. mas substancial. com um tempo destes. Com a sopa foram servidos pequenos biscoitos redondos de ostras. melhor. – Acredite. Era sempre alegre e divertida e estava sempre muito bonita. disseram que o escritório de Brookins abriria no dia primeiro do ano e. mas parece que a de oitenta será melhor. – A década de setenta não foi muito má. – E as ostras também. – Ainda bem que o trouxe de Iowa. Ingalls. Na primeira semana. – Estou satisfeito por ter registrado a minha gleba de oitenta hectares e só desejaria que você também já tivesse registrado a sua. que estiveram atrás do fogão para se conservarem quentes. Mas caiam bem. Depois colocaram a mesa no centro exato da casa. por isso. com certeza. – recomendou o Sr. Mas havia espaço para entrarem todos. parto amanhã. Boast. um canto quase tocava no fogão e a outra extremidade ficava quase contra a cama. escrevam-nas e eu levo-as e ponho-as no correio em Brookins. – Quanto mais depressa. Charles – respondeu a mãe. com o seu macio cabelo escuro. se querem mandar algumas cartas para Iowa. Boast despachava rapidamente o trabalho do café da manhã e ia passar o tempo com “as outras meninas”. A campina mostrava-se nua e castanha e o ar parecia morno como leite. – Registrarei a antes que passe uma semana – garantiu o pai.22. a sua gleba. com o ar suave a entrar pela porta aberta. Nunca na sua vida Laura provara nada tão bom como aquela espécie de saboroso e fragrante leite quente com gosto de mar. a campina castanha a estender-se até muito longe e o céu sereno e azul a curvar ao seu encontro. Depois se sentaram a conversar na pequena casa. Deixou Laura ajudá-la a mudar as coisas. sim. o pai teria. e as pequeninas e escuras ostras de conserva. – Bem. Todas as manhãs a Sra. – Não me lembro de ter comido um prato tão bom como este almoço. pois agora. Ingalls. Foi esse o almoço do Ano Novo. para poupar mais de uma semana de viagem de ida e volta a Yankton. cedinho. Puseram a mesa em cima da cama e abriram a porta toda. por serem tão leves e pequenos. – não que me pareça haver algum perigo de chegar atrasado. em fila indiana. – Podem caber todos na minha casinha. que pusera na mesa uma toalha novinha em folha. o sol brilhou alegremente. houve biscoitos quentes com mel e calda de framboesa seca. Boast sentou-se junto do fogão. A Sra. ao menos uma vez – disse.

Boast falou-lhes de estantes-cantoneiras. satisfeita -. e de uma bonita senhora que se perdera nas cavernas. Por isso. Laura não disse que. Fez um recorte grande no meio e um menor de cada lado. Boast levava a sua costura ou a sua malha e passavam o tempo aconchegadamente. enquanto a mãe e Carrie tratavam do jantar. até ao dia seguinte. Irrompeu pela casa dentro e deixou-os cair no colo de Mary. brincavam juntas na neve alta. minhas meninas sensatas – concordou a mãe e. por sua vez. cuidadosamente. Boast mostrou-lhe um grande monte de jornais. Arrumou os jornais. Todos os dias lia mais uma parte da história e depois ficavam pensando.. quando o sol brilhava. sob o frio cortante. a maior para a parte de baixo e a menor para o alto. Charles. – Isso mesmo. tragá-os e poderá levar mais. Quando acabou. nunca saberemos o que aconteceu a essa senhora! – lamentou Mary. bem agasalhadas. a Sra.Terminou assim o almoço de ano novo. depois de deslizarem no gelo. a Sra. Frequentemente. com os 65 . a Sra. Neste jornal diz: “fim. disse que em Iowa todos estavam fazendo e que lhes mostraria como eram. a Sra. A prateleira de cima era tão alta quanto a mãe podia chegar sem dificuldade. por sua vontade. todas bem unidas entre si por ripas estreitas de madeira. olha o que eu trouxe! – exclamou. – Não fizeram isso. um dia. – procure no jornal seguinte. Vem na pilha toda de jornais. No tempo tempestuoso o pai tratou das suas armadilhas e estendeu peles para secar. o que iria acontecer à bonita senhora. vem um instante a minha casa. o que fará as histórias durarem mais. – Laura. Boast recortou uma cortininha de papelão. Ele fez cinco prateleiras de tamanhos graduados. – Olha. pois não tinha carvão. – respondeu a mãe. A seguir.” – É uma história em folhetins – disse a mãe. Laura procurou no seguinte. Nos dias tempestuosos. Mas a mãe interveio: – Deixa para lá o trabalho. muito juntinhos. leria tudo o mais depressa que pudesse. a cantoneira ajustava-se perfeitamente a um canto da sala e assentava firmemente sobre três pernas. com uma braçada de jornais. – e mais. Mas ao anoitecer começou a soprar um vento carregado de neve e a geada voltou a subir pelos vidros das janelas.. Laura e Carrie. – Histórias. – disse o pai. e a mãe preparou uma merenda para o pai levar. por isso. Laura e Mary nunca ouviram falar de uma história em folhetins mas a mãe tinha. aqui está! – exclamou. tudo graduado consoante o tamanho das prateleiras. Hei de obtê-la. Boast foi buscar lenha de arbustos junto ao lago Henry e partia-os para queimar. Está toda aqui. Ma? – perguntou Laura. Boast disse: – Laura. – Leve os que puder carregar. Laura foi com ela e a Sra. e mais. quando. No ponto mais emocionante depararam-se com as palavras: “continua” e não havia nem mais uma palavra dessa história. corriam e deslizavam na Lagoa Prateada. ansiosamente. atiravam bolas de neve e. a ler e a conversar. Laura começou a ler-lhes uma história maravilhosa sobre anões e cavernas onde viviam ladrões. Todos os dias poderemos ler uma parte. Depois a Sra. Laura nunca se rira tanto. de grande no fundo a pequeno em cima. para se ajustarem num canto. Dobraram cada quadrado obliquamente e depois ao meio e apertaram muito bem. A Sra. bem sei – respondeu a mãe. Laura! Leia-nos uma história. porque acha que imprimiram só uma parte da história? – Porque foi. Boast e a mãe escreveram cartas. rápido cuide do jantar. para colocar na aresta de cada prateleira. explicou ao pai como se faziam as prateleiras triangulares. Mary. – Isto não é tempo para se ir a lado nenhum. durante a tarde. e no outro: – Oh. – Não se preocupe com a gleba. corriam. Boast ensinou-as a cortar e dobrar pequenos quadrados de grosso papel de embrulho. Mary. São tudo histórias! – Oh. e no outro. Laura correu todo o caminho para casa. ela. Um dia. Quando os ler. Por isso. De mãos dadas. O Sr. trouxera de Iowa todos aqueles New York Ledgers. fizeram uma mulher de neve. para podermos ler! – pediu Mary. Carolina. regressavam a casa quentes e sem fôlego. E a Sra. depois de dobradas dúzias de quadrados. assim podemos reservar a parte seguinte para amanhã. Boast ensinou Laura a cosê-los em filas no papelão. Lutavam. – Bem – disse Mary. Boast os visitava todos os dias. – Oh. – Sim. Ao fim de uma tarde... a Sra.

pregaram cada cortina de papelão à sua prateleira. na realidade. Boast. Quando a cidade estivesse construída. Boast falavam. Os seus olhos fitavam brilhantes. contavam histórias. os recortes rígidos de cartão. uma estante-cantoneira – observou o pai. Depois o pai pintou cuidadosamente toda a cantoneira. e você dezessete. a Sra. Boast chamava-lhe Nell. talvez lá vendessem sementes. Era a canção favorita do Sr. gentil senhora. O pai tocava o violino todas as noites e as bonitas vozes dos Boasts juntavam-se ao coro. Arranjei mulher. meu rapaz! 66 . Não toldes de nuvens teu céu feliz. Laura gostava de “O aviso da cigana”: Não confies nele. Preferia! Até cantava pensando. – Pois é – confirmou a mãe. escuta o aviso da cigana. ainda que a sua voz seja baixa e terna. sem perturbar a conversa. Então a Sra. As minhas filhas vão frequentar a escola e levar uma vida civilizada. – Isto é. os cinco recortes de papelão ficaram bem cobertos de filas sobre filas de pequenas pontas de papel e sem pontos à vista. Cantava muito baixinho. Por fim. O pai tocava e cantava alegremente: Quando era novo e solteiro. A outra canção nova era: Quando eu tinha vinte e um anos. – esta será a nossa última mudança. para ocultá-los. e frequentemente a mãe. então. e depois ele continuava a cantar: Ela sabe fazer torta de cereja. não dês ouvidos ao que te ajoelha aos pés. O nome dela era. A Sra. com as pontinhas rígidas de papel. oh. que era a minha alegria. de castanho-escuro. A tua vida está agora na manhã. Boast coseu uma tira larga de papel por cima desses pontos e virou-a. Enquanto trabalhavam na casa acolhedora e quente. afinal. então. – E não há em Iowa nada que seja bom demais para ti. – Bem. a mãe. oh. Mas o melhor tempo de todos era depois do jantar. enquanto a música corria e girava. mas o Sr. Boast tinha sementes que davam para duas hortas e prometeu que as repartiria com a mãe. Ella. oh. que assim não teria de se preocupar com sementes. – A Sra. Laura não sabia se queria ou não instalar-se. – não é bonita? – É. A Sra. – disse a mãe. meu rapaz. a Sra. gentil senhora. Quando a tinta secou. O meu marido concordou com isso. que tinha vinte e um anos quando conhecera Nell. ela deve saber. então! Arranjei mulher. sobretudo das reservas. então! Arranjei mulher. colocaram a cantoneira no canto que ficava atrás da cadeira de Mary. Mary e Carrie cantavam com ela. que contava então dezessete. Boast ensinara-lhes duas cantigas novas. não lhe dês ouvidos. cantavam e conversavam. podia chocalhar o dinheiro e tudo ia bem comigo então. oh. Depois de aprender! Teria de ser professora e ela preferia pensar noutras coisas. e tudo ia bem comigo. cada fila ficava sobreposta na de baixo. o pai nunca cantava mais. ela não era uma boa esposa. A mãe e a Sra. a não ser os das filas de cima. Boast. por isso. Boast diz que está muito em moda em Iowa. então! Tudo ia bem comigo então. então! Como o resto da cantiga dizia que. Carolina. – concordou o pai. Boast trouxera muitas. e todas as pontas de papel. antes de partirmos do Minnesota. – Sentirei-me grata quando nos instalarmos. das hortas das suas amigas de Iowa. suplicando gentilmente. é um bonito trabalho.pontos por baixo. assentaram perfeitamente. cada ponto devia ficar entre dois pontos da fila de baixo e as filas deviam seguir as curvas do cartão recortado. ou talvez não.

Todas as noites cantavam também uma dança de roda. que lhes cortou a cauda com a faca de trinchar. de três ratinhos cegos? Continuavam a cantar até alguém se rir e. por qualquer razão. antes de a cadeia do sono me acorrentar. e não pode a mãe deixar. e eu tão triste. A mãe não gostava de apostas. Três ratinhos cegos! três ratinhos cegos! Correram atrás da lavradeira. ó passarinhos. e seguia-se o soprano de Laura. e continuava enquanto o alto da Sra. tocai o sino pela encantadora Nell. Laura nunca se sentira tão feliz e. enquanto o pai o Sr. à roda e à roda com palavras e música. mas é novinha.Ela sabe fazer torta de cereja. Boast se lhe juntava: três ratinhos cegos. bendita seja. voltava ao princípio sem parar e eles todos acompanhavam na sua altura. desafinada. A música continuava numa brincadeira. Depois era a vez de o baixo do pai fazer coro: três ratinhos cegos. encantador rapaz. a cantiga terminava. na noite silenciosa. tão de cuidados cheio? 67 . a doce recordação envolve-me na luz de passados dias que não vão voltar. mas mesmo assim o seu pé não podia deixar de bater o compasso quando o pai tocava tais músicas. o contralto da mãe e Mary e Carrie. Boast começava: três ratinhos cegos. então. a voz de tenor do Sr. morreu a noite passada. Quando o Sr.. Boast cantavam: Aposto na égua de cauda cortada e você aposta no cinzento. a sua felicidade era ainda maior quando cantavam: Ó margens e ribanceiras do bonito doon. entre risos e faltas de fôlego. Ela sabe fazer torta de cereja comum brilho no olhar. e o pai cantava algumas das antigas cantigas de “ir dormir”. Ben Bolt? da doce Alice de tão castanhos olhos? que chorava deleitada quando lhe sorrias e tremia de medo se franzias os sobrolhos? muitas vezes.. como podeis florir tão frescas e belas? Como podeis cantar. Já tinham ouvido semelhante história. nem sequer em cantigas. A minha noiva da velha vir-gí-nia! lembras-te da doce Alice. Boast chegava ao fim da cantiga. como dizia: Nellie era uma senhora. Oh.

a pôr água a ferver para o chá. uma cidade chamada Huron. só os seus olhos cegos continuavam inexpressivos e assustaram o reverendo Alden. Laura – mandou a mãe. Portanto. No caminho do peregrino NUMA NOITE DE DOMINGO. e o Sr. Mas Mary disse. Ouviu-se uma confusão de vozes e depois a porta abriu-se de repente e entraram dois homens cobertos de neve. Boast.23. – O Sr. mas nunca soube que houvesse por lá construções. de súbito.. não fui eu que fiz coro! Foi aqui o Scotty. que se aqueciam junto ao fogão. reverendo. 68 . a fazer biscoitos e a fritar batatas. O rosto de Mary brilhava de contentamento. – Deixei-os instalados no Riacho das Ameixeiras e não fazia ideia nenhuma de que estavam aqui. quase sem saber o que fazia. – Oh. O violino gemeu. nossos vizinhos. – Coloque a mesa. uns bondosos olhos azuis. quando o pai a pôs em cima da mesa e correu a abrir a porta. A Sra. já crescidas e umas mulheres! Laura não podia falar. o violino do pai tocava uma música dominical e todos eles cantavam alegremente: Quando alegres nos reunimos no nosso lar agradável e a canção da ventura alastra. O frio entrou de rompante e a porta bateu atrás dele. – Estavam todos cantando uma bonita canção quando passamos – disse o reverendo Alden. Sabemos que há uma povoação no Jim. Ele olhou rapidamente para a mãe e depois de novo para Mary. – Oh. de espanto. – Suponho que no caminho da estrada de ferro está assinalado o lugar para uma cidade. O pai veio do estábulo com mais dois homens que eram os donos da parelha. a não ser uma taberna – disse o pai. Um dos homens era alto e magro e Laura viu-lhe. O violino emudeceu. irmão Alden! Ele tirara o boné e assim todos puderam ver-lhe os olhos agradáveis e o cabelo castanho-escuro. Reverendo Stuart.. Boast falava com os visitantes. – Que prazer em vê-lo. – Chegue-se ao fogão. delicadamente: – Temos muito prazer em voltar a ver o senhor. enquanto o pai dizia. irmã Ingalls – afirmou o reverendo Alden.. Mas que surpresa! – Não está mais surpreendida do que eu. irmão Alden! – exclamou a mãe. enquanto punha o avental. o rosto vermelho de frio e os olhos cinzentos cintilantes. a alegria de rever o reverendo Alden punha-lhe um nó na garganta. Boast pôs também um avental e apresassaram-se todas a avivar o fogo. Tinham reservas e iam fixar-se no Rio Jim. ouviu a sua voz gritar: – Reverendo Alden! Reverendo Alden! – Não pode ser o irmão Alden! – exclamou a mãe. atrás deles: – Vou cuidar da parelha e volto já. Reverendo Alden – apresentou a mãe. E cá estão as minhas camponesinhas. enquanto o Sr. detemo-nos a pensar nas lágrimas que correm na solitária morada do sofrimento? Estendamos a mão. Boast observou: – O senhor também cantou muito bem. no Oeste. Laura ouviu o reverendo Alden dizer: – Nós dois somos apenas passageiros. aos fracos e cansados estendamos a mão aos que trilham o caminho do peregrino. somos todos amigos.. estes são velhos e bons amigos meus e os amigos deles. e no exterior uma voz forte cantou: . Tinha o cabelo de um ruivo flamejante. Eu estava enregelado. e a Sra. A sociedade missionária mandou-nos ir lá ver e preparar as coisas para construir uma igreja. entre o boné e o cachecol. mas o cabelo ruivo mantém-no quente. serenamente. O reverendo Stuart era tão jovem que não parecia mais do que um rapaz crescido. – Mais uma razão para pensarmos em construir uma igreja – redarguiu alegremente o reverendo Alden.

– Sim. – Podemos orar todos juntos. Há um em Iowa. – Devemos confiar que o Senhor faz tudo para nosso bem. O reverendo Alden conversava muito sério com Mary. que olhasse para eles e lhes perdoasse os pecados e ajudasse a proceder bem.Depois de os viajantes terem jantado. agradeceu à mãe o bom jantar e depois disse: – Sinto muito. Ajoelharam todos junto das cadeiras e o reverendo Alden pediu a Deus. – acrescentou o reverendo Stuart. De manhã. A mãe agarrou com força a borda da bacia e o seu rosto assustou Laura. – Não se preocupe. se quiser. – de qualquer modo. – Só temos esta cama – disse a mãe. Ela sentia-o bater na garganta e pela cabeça passavamlhe pensamentos loucos e tão rápidos que nem se dava conta de alguns. Era realmente um refrigério. quando acabar de lavar a louça? – Sim. – Podemos nos considerar felizes por os termos encontrado aqui. seca e empoeirada a morrer numa seca e o silêncio fosse uma chuva fresca e branda. A Mary é um grande conforto para mim. o reverendo Alden levantou-se e disse que iriam todos ter o refrigério da oração antes de darem boa-noite e dormirem. 69 . irmão Alden.. Boast pegava em Grace e o Sr. em Riacho das Ameixeiras. Não sei se a senhora e o irmão Ingalls sabem que há colégios para cegos. – Não podemos pagar. Deve custar muito caro. – afirmou o reverendo. – Colégios. A mãe fez a cama no chão. – Não sei – disse Mary. ouviram o pai e os viajantes continuarem a conversar e a rir à volta do fogão. e durante algum tempo tivemos grandes dificuldades. – disse o reverendo Alden. a cair-lhe em cima. Antes de vermos a sua luz e os ouvirmos cantar. às escuras. Boast e os dois desconhecidos falavam com o reverendo Stuart e com o pai acerca do trigo e da aveia que ele tencionava cultivar assim que desbravasse e arasse a terra. – Há o quê para cegos? – murmurou Carrie. tenho a certeza. gostaria muito. irmão Alden – respondeu a mãe. junto dos pés de Mary. Arrumada a louça e lavadas as mãos. Mary. irmã Ingalls. Laura sentia-se como se fosse relva quente. – Nos cobriremos com os nossos sobretudos. Tivemos todos escarlatina. Desejo que sim. e a Sra. A mãe engoliu em seco e continuou a lavar a louça. Boast agradeceram ao irmão Alden e foram para casa. irmã Ingalls. que conhecia o seu coração e os seus pensamentos secretos. – A mãe sabe – segredou Laura. A sua voz branda pareceu sufocada e zangada quando perguntou: – Quanto custa? – Não sei. o reverendo foi à porta da despensa. – Às vezes é difícil resignarmo-nos à vontade de Deus. se não for muito caro. – Mas talvez mais tarde. – Mary é uma alma rara e uma lição para todos nós. mas informarei-. – respondeu a mãe. onde recebem instrução – respondeu Laura. para aquecerem debaixo dos cobertores gelados. No sótão. Não creio que haja qualquer possibilidade de eu ir. a mãe e Laura tiraram o avental e endireitaram o cabelo. enquanto ele falava. e pôs o ferro quente na cama. onde a mãe e Laura estavam a lavar a louça. – Ficaremos muito bem. – murmurou Mary – o reverendo Alden disse-me que há colégios para cegos. para poder ensinar e ajudar. enquanto a Sra. irmã Ingalls. – Devemos lembrar-nos de que Deus castiga aqueles que ama e que um espírito corajoso transforma em bem todas as nossas angústias. O coração de Laura batia com força. Talvez possa ir.. estudar. – murmurou. – Tenho a certeza de que todos gostarão. junto ao fogão. Laura ajudou Carrie a desabotoar o vestido. Depois o Sr. – respirou fundo e prometeu: – vou estudar muito. – respondeu-lhe o reverendo Alden. – pensava que era preciso ler. Reinava um grande silêncio na sala. o sofrimento que se abateu sobre Mary. Agora que se sentia tão fresca e forte parecia-lhe tudo muito simples e de bom grado trabalharia duramente e faria de tudo quanto fosse necessário para que Mary pudesse ir para o colégio. não poderia ir. – Como podem? – insistiu Carrie. Quando se aninharam umas contra as outras. tristemente. em tom de quem se desculpa – e receio que as cobertas não sejam suficientes. Quando a mãe entrou. Mas estou grata por não nos ter sido levada nenhuma das filhas. dolorido. Nunca se lamentou. – Laura. consigamos arranjar uma maneira. pensávamos que tínhamos de percorrer todo o caminho até Huron. – o reverendo Alden também lhe disse. sempre quis que Mary se instruísse. as vozes dos viajantes e um entrechocar de pratos acordaram Laura que saltou da cama para se vestir e descer. a fim de ajudar a mãe. e Laura e Carrie trouxeram para baixo o colchão de Carrie.

– Tem. farinha. – e disse a Mary. – O mais certo será aquele pobre rapaz acabar com a saúde – disse a mãe. como se isso significasse que não haveria problemas. Na primavera voltarei para organizar uma igreja.Estava frio. Boast. Ele terá de governar a casa e cozinhar para si mesmo. – Governar a casa sozinho e tentar viver da sua cozinha! – referia-se ao reverendo Stuart. mas o sol dourava as janelas cobertas de geada e dentro de casa estavam todos bem dispostos e alegres. quer chova. mas os viajantes iam iniciar a última fase da sua viagem para Huron e ninguém queria perder aquela oportunidade de ouvir um sermão. mas nunca provei nada parecido.. ficaram a ver o carroção seguir para oeste pela neve intacta e deixando as marcas das suas rodas atrás. Eu só vim para ajudá-lo a começar. Havia xarope de açúcar escuro e muito chá fumegante e perfumado. através de uma prega do xale. põem-se num prato e escorre-se parte da gordura. – Parto amanhã para Brookins. trouxera provisões: feijão. Como os viajantes gostaram daquele café da manhã! Elogiaram tudo quanto comeram. – sei que é carne de porco gorda salgada. foi agradável ter assistido ao primeiro serviço religioso desta terra. Entraram na casa quente. 70 . Quando estão crocantes. – Bem – disse a Sra. Findo esse. sal. nosso rei. chá e carne de porco salgada. Boast que viessem assistir a um pequeno serviço religioso. Depois torra-se um pouco de farinha na gordura que ficou na frigideira.. sopa de feijão e feijões estufados. – Importa-se de escrever a receita? – pediu o reverendo Stuart. O sol frio brilhava e o mundo branco refulgia. – Esta carne é deliciosa – disse o reverendo Stuart. Os biscoitos eram leves e crocantes. Quando a parelha e o carroção estavam prontos para partir. para dar uma fervura. o violino do pai tocou alegre e suavemente e todos cantaram. Subiu para o carroção e partiu. não é. pai? – inquiriu Laura. a canetinha de madrepérola e o frasco da tinta e escreveu a receita de carne de porco frita e molho. sobretudos e cachecóis. Embrulhados em xales. – Que lhe disse eu. – Ainda não tem nome. Depois o reverendo Alden pregou o sermão. o reverendo Alden disse: – Assistiram ao primeiro serviço religioso desta nova cidade. biscoitos de massa azeda. atravessado na boca -. quanto leite. as fatias de carne de porco delgadas e crocantes e o molho castanho e cremoso. acerca da corrida da primavera? – perguntou o Sr. – Meu deus! – exclamou a mãe. o reverendo Alden explicou: – O Scotty vai ficar no campo missionário. com as receitas da mãe no bolso. que serve para fazer as vezes de manteiga. Importa-se de me dizer como a faz. quer faça sol. no exterior. – admitiu o pai. – Sabe cozinhar. – Como se chama a cidade que vai haver aqui? – perguntou Carrie. até o molho estar pronto. Quando a água ferve. com milhões de minúsculos pontinhos de luz. Parecia estranho ter igreja na segunda-feira de manhã. luminosos como o dia. O reverendo Stuart.. O nome deve-se a um padre francês que veio para cá como pioneiro.. deixando-as com essa ideia e essa esperança. irmão Stuart? – perguntou a mãe. as batatas fritas douradas e fininhas. – Também notei isso. nos primeiros tempos. Depois passam-se as fatias por farinha e fritam-se até ficarem bem douradas. Há uma terra feliz e distante Onde os santos se erguem em glória. irmã Ingalls? Perante a surpresa da mãe. – já estão aí dois homens com reservas e março ainda mal começou. e ele respondeu que esperava aprender com a experiência. deita-se um pingo de leite e mexe-se enquanto ferve. pediu numa breve oração que fossem guiados em todos os seus empreendimentos dignos. Ingalls. – Ele é escocês – observou o pai. e à Sra. – quanta farinha. – cortam-se as fatias finas e metem-se em água fria. escorre-se. mas creio que posso calcular. – Eu nunca meço. Laura e Carrie: – teremos também catequese! Poderão ajudar todos a fazer uma árvore de Natal no próximo inverno. Para ouvirem os anjos glorificar Deus. Foi buscar uma folha de papel. É De Smet. O pai tocou violino e cantaram todos um hino. enquanto Laura levantava rapidamente a mesa e Carrie ia a correr pedir ao Sr. Boast. – A carne é fácil – continuou a mãe.

em tom firme. acima do trinco. por homem ou cavalo. A mãe protestou: – Valha-nos Deus. Acabaram-se as canções. Laura. entre aqueles desconhecidos. por fim. Carolina – respondeu o pai. a mãe fez jantar para os cinco desconhecidos. O trabalho do jantar estava feito. ou ainda para mais longe. E na noite seguinte mais. Charles. filhas. – Não vale a pena pôr-me a caminho. os jantares agradáveis e os serões confortáveis. perdem-se na campina e talvez morram congelados. durante a noite. em baixo. – acrescentou. Illinois. Antes mesmo da louça ter sido lavada. ela passou a cobrar vinte e cinco centavos por refeição e vinte e cinco centavos por abrigo durante uma noite. mas sabia que a mãe tinha razão. De manhã. uma parelha escura e um carroção cheio de homens. – Não ouço a sua voz. Boast. Uma manhã. sozinhos? – Não posso evitar. a casa estava de novo sossegada e em ordem. mas elas compreenderam que ela pretendia dizer que as não queria ali. as vozes dos desconhecidos e o entrechocar dos pratos do café da manhã. mas a mãe deteve Laura para lhe entregar um pedaço de madeira rija e dizer: – Meta isto na ranhura. não teremos uma noite em paz. Charles – disse a mãe. Ouviram. você é que sabe. – Eu e a mãe também não. – Aqui não há espaço para eles – declarou a mãe. – Não podemos recusar abrigo às pessoas. Laura encostou o rosto a um vidro e ocultou a luz do candeeiro com as mãos. – Eles levam tempo preparando-se para partir porque são novatos. Por isso. A corrida da primavera – ESTA NOITE não há música. Depois de toda a correria da última noite e daquela manhã. Carolina. Carolina. Michigan. Nessa noite chegaram mais desconhecidos. – Ficarei contente. – informou. Charles – disse a mãe. Um deles gritou de novo e depois outro saltou para o chão. depois de amanhã. à mesa do jantar. – disse o pai. Iam para Huron. prontas para fazerem camas no chão. – São cinco homens. – A viagem demora um dia e não faria sentido partir depois de nascer o sol e ter de acampar ao relento. mal os pratos estavam lavados. Laura sentou-se na cama. Wisconsin. Depois o pai voltou e fechou a porta. – Quem me dera que se fossem embora – disse Carrie. Assim ninguém poderá levantar o trinco e abrir a porta. a nossa gleba ficar registrada. – ouço alguém a falar. Não há outro lugar onde possam ficar ou arranjar qualquer coisa para comer. – Mas podemos cobrar por isso. A mãe suspirou. O pai não gostava de cobrar por dar abrigo e uma refeição. E de manhã não desçam enquanto eu não chamar. e ao almoço o pai disse que partiria para Brookins no dia seguinte. A parelha está cansada e eles são novatos nestas andanças. – Onde estará o pai? – perguntou. junto ao fogão. à escuta. ou para Forte Pierre. no Oeste. Ohio. Se tentarem chegar a Huron esta noite. que encheram a sala com o barulho das botas e das vozes altas e com as mantas que amontoaram.24. Mary e Carrie tinham de ir para o sótão e trancar a porta. Não era. Viu. não havendo outro lugar onde fiquem. Quero a porta bem fechada. a não ser que parta cedo. Quem está a falar é o Sr. Por isso. – Desconhecidos a caminho de Huron. a mãe tirou as mãos da água e disse serenamente: – Está na hora de irem para a cama. com este frio. Todas as noites havia desconhecidos enchendo a mesa do jantar e todas as noites. Laura. – não gosto de desconhecidos. Os desconhecidos vinham de Iowa. – disse Mary. 71 . nessa noite. Minnesota e até da distante New Yorque e de Vermont. em busca de reservas para se fixarem. – Bem. – respondeu-lhe Laura. O pai foi ao seu encontro e ficaram a conversar. Partiram. Grace dormia na sua caminha e a mãe estava embrulhando o lanche que o pai comeria a caminho de Brookins. Carrie foi atrás de Mary. – A mãe disse para não descermos enquanto nos não chamasse – repetiu Laura. Empurre bem e deixe-o lá. Mary e Carrie ficaram na cama depois de nascer o sol. – Tenho de me deitar cedo para me levantar cedo e. – Escutem. – Temos de abrigá-los durante a noite. na neve. pela escada acima.

Boast que ficassem aqui. lavava montanhas de pratos. De vez em quando. pensei que teria de intervir. Por fim. A casa estava tão cheia de homens desconhecidos. Nesse dia limparam a casa toda e mudaram as camas. – Se estavam! – confirmou o Sr. – Eu falo com o Rob e ele trata disso – prontificou-se a Sra. A mãe e a Sra. – explicou a mãe. no quarto. A Sra. O Sr. O Sr. Boast pensava não haver motivo para preocupação. a não ser que colocassem fogo à casa. de lábios quase cerrados. se ele não se apressar. A mãe voltou a deitar-se. O Sr. – Que aconteceu? – perguntou Mary. Vamos arrumar esta casa antes de chegarem mais viajantes. finalmente os carroções carregados partiram para o oeste e a mãe as chamou. Mary fora para cima. temos o que fazer. 72 . disse-lhes que o pai partira antes do nascer do sol. Boast. lavou a louça e ajudou a pôr o jantar na mesa para eles. admirada. A mãe sentou-se. cuidadosamente. Laura. Boast olhará pelas coisas enquanto o pai estiver ausente. – Ele pediu ao Sr. Boast apressaram-se a fazer o café da manhã. à escuta. os homens enfiavam botas e casacos. Trazia cinco homens. quando se encontraram na despensa.– Talvez tenha ido registrar a gleba – opinou Mary. Laura levantou a mesa. a mãe sacudiu-a devagarinho. trancou a porta. Não fazíamos ideia nenhuma de que as pessoas acorreriam desta maneira. Estavam todas muito cansadas quando. Boast ajudou a mãe a fazer o jantar. e março ainda mal começou. para depois voltar. sonolentos e de olhos avermelhados. – Este foi o pior dia. Mas outro estrondo acordou-a de novo de um sono pesado. – O Sr. Como a mesa era pequena e não havia pratos suficientes. subiu a escada atrás de Laura e Carrie e. – disse a mãe à Sra. teremos de pôr algumas camas no alpendre. a cantar. Boast voltavam a preparar o café da manhã e Laura lavava a louça e punha outra vez a mesa. Ma? A mãe falou tão baixo que a sua voz parecia mais alta do que toda a gritaria de baixo: – Cale-se. Dormirão no quarto e eu e a Grace ficamos lá em cima com vocês. a gritar: – Que foi aquilo. está na hora de fazer o café da manhã. A mãe. – Não há problema. Mary dormia. Quando. – Oxalá não venha ninguém até o pai voltar – disse Laura enquanto. Mas assim que se deitou acordou-a o barulho que faziam em baixo. Boast. que quase não conseguia passar pelo meio deles. para acordá-la. Desgrenhados. – Deus me valha. Havia silêncio no quarto. – Talvez não venha – desejou Carrie. Carrie adormeceu Grace. e murmurou: – Vamos. não é outro carroção? Laura teve de lavar a louça mais uma vez e de pôr de novo a mesa. enquanto ela e a Sra. – traziam garrafas e um garrafão de uísque. chegou um terceiro carroção com seis homens. Laura pensou que não conseguiria dormir. parte como um leão – disse a mãe. Boast ajudou-os a pôr os cavalos no estábulo e a Sra. De manhã. na cama. com Grace ao colo. Deixemos as outras dormir. vozes desconhecidas e casacões volumosos e botas enlameadas. Boast foi ajudá-las. Enquanto comiam. Boast. Laura teve de pôr a mesa e lavar a louça três vezes. dos seus cobertores e dos seus casacos para as camas. Boast levantara as camas. com a porta fechada. Outra pessoa qualquer registrará a gleba. Por fim. – vamos. Ainda não tinham acabado de comer quando chegou outro carroção com quatro homens. à última luz do poente. – Mas que noite! – exclamou a Sra. mas que poderia eu fazer contra uma turba de quinze bêbedos? Resolvi deixálos curar a bebedeira à vontade. olhos desconhecidos. e à Sra. viram um carroção vindo do leste. com Carrie. E eles terão de se servir das suas mantas. A certa altura. Ouviam vozes altas e passos. já tinham todos comido e o último prato estava lavado – pela última vez. Laura. O barulho aumentou. o que significava que o Sr. – Creio que estavam bêbedos – respondeu-lhe a mãe. e Laura voltou a levantar a mesa e a lavar a louça. meninas. Um estrondo sacudiu a casa e Laura sentou-se na cama. – Não queria partir e deixar-nos nesta bagunça. os homens partiram e a mãe chamou Mary. quase parava. – Não há espaço para quinze homens no chão. inesperadamente. e deite-se. Estava tão cansada que o barulho a atormentava. A porta estava aberta e o ar primaveril. mas não teve outro remédio. Desceram juntas. Laura. Isto se passou na primeira semana de março. – Quando março chega como um cordeiro. Boast. Boast está lá – tranquilizou-a a mãe e Laura readormeceu. – Sinto-me grata por não terem posto – comentou a mãe. para não estar no meio da balbúrdia. e Laura quase não conseguia conservar os olhos abertos enquanto se despia.

teremos aqui uma cidade antes de ele chegar – observou o Sr. pois não havia outro lugar onde ele pudesse comer. depois de ter acedido. – Se o Ingalls não voltar depressa. 73 . de Sioux Falls. Perdido por mil. – Só espero que não tenha chegado demasiado tarde para registrar a nossa gleba – redarguiu a mãe. preocupada. Pediram à mãe que os acolhesse e. Em termos agradáveis. um homem novo parou junto da casa com um carregamento de madeira. e a mãe não pôde recusar. A seguir chegou um homem com o filho. pediu à mãe que o acolhesse enquanto estivesse a construir.Nesse dia. Trouxeram madeira para construir uma mercearia. Trouxera as tábuas de Brookins para construir um armazém no lugar destinado à cidade. ela disse a Laura: – Perdido por cem. Boast.

À noite. Disse os números. Só o Sr. Não restavam dúvidas a Laura de que estava a ter dificuldades em registrar a gleba. na manhã seguinte. não?” – Oh. Charles? – admirou-se a mãe. – Bem. Um registrara uma gleba perto do Huron. mal acabei de comer pus-me a caminho do escritório. Carolina. Mas as minhas preocupações de então não eram nem uma sombra das que vieram depois. Cobrava vinte e cinco centavos só pelo jantar e até noite alta ela e a Sra. Acrescentou que era o único lote vago que restava perto desta futura cidade. – É verdade. fui com a multidão jantar no hotel e ouvi dois homens conversando. Laura sentia um ardor nas pálpebras e bocejava constantemente. – respondeu o pai. Nesse caso. – Com certeza não precisavas ter feito isso. no degrau. Hinz e os dois srs. Todo o dia. Comecei a pensar que talvez alguém à minha frente estivesse registrando o meu lote. e quando. e Laura disse: – Mas eles não sabiam que o Pa queria aquele lote. Canarinho! Bem. para Oregon. lamentosamente. É uma viagem fria de carroção! Deixem-me achegar ao fogão e me aquecer. À tarde. passou o inverno na Lagoa Prateada! Vai se fixar em De Smet. embora nunca o tivesse visto. não foi? – perguntou o pai. não. junto do fogão. – Todo. Devem ter esperado toda a noite uns quarenta homens. Boast cozinhavam e Laura lavava a louça. E não me afastei. Eram tantos os homens que apareciam para comer que nem tentou contá-los. filhas. isso não me preocupava. A mãe não queria deixar dormir mais desconhecidos em casa. – Ora. Harthorns. O que me preocupava eram as multidões. Mas eu instalei-me ali mesmo. Não regressou nessa noite. e logo atrás de mim estavam os dois tipos que ouvira falar. também não. O pai parecia ter partido havia muito tempo. – Não fui o único a ter essa ideia. Por isso. – Não precisava? – repetiu o pai. enquanto lhe estendia uma xícara de chá. – Julguei que estava fechado – observou Carrie. me apresentei no escritório. Acenou da passagem. Ao princípio. quando levava a cansada parelha para o estábulo. que dormiam no chão. pai? – perguntou Laura. Talvez não a obtivesse. – Brrr!. mas depois achei que o melhor seria não correr qualquer risco. embora não tivesse sono. para esfriá-lo.25. Pa! – exclamou Carrie. – Foi para isso que parti. não consegui aproximar-me da porta. para passar a noite. não é? – Eles não me conheciam de lugar algum. Pa! – exclamou Mary. na manhã seguinte. Charles? – perguntou. Hinz e os dois Harthorns. Por isso. – Nem acreditaria! Nunca vi tamanha multidão! Até parece que o país inteiro está tentando registrar terra. ouviam-se os seus martelos batendo na estrutura dos novos edifícios. – Deixe um homem recuperar o fôlego. chegaram para almoçar o jovem Sr. – Sem nada para comer? Oh. Havia tantos à minha frente que nesse dia a minha vez não chegou. Tinha de registrar aquela gleba à frente dele. O outro dizia que De Smet ia ser uma cidade melhor do que Huron e depois mencionou o mesmíssimo lote de terra que eu escolhera o inverno passado. – Tiveste problemas. partiriam talvez para Oeste. Ingalls! Então. O pai chegou ao fim da tarde do quarto dia. nem durante todo o dia seguinte. conseguimos a gleba! – Conseguiste! – exclamou a mãe. e depois entrou em casa sorridente. a rir. quando o escritório fechou. admirada. Ao meio-dia. pensei que me levantaria muito cedo. – Pois estava. para fazer chá. alegremente. Compreendi que não teria a mínima probabilidade se me afastasse daquela porta. Nem de longe! Foi uma sorte ter chegado primeiro. Canarinho. Cada homem tinha de se colocar na fila e aguardar a sua vez. O tempo não estava tão frio que os homens morressem gelados se dormissem nos carroções. Soprou o chá. – Ficou lá todo o dia. Pa? – perguntou Laura. isso pôs tudo a perder. 74 . havia de ser para ele. A aposta de Pa AQUELE DIA não pareceu real. Carolina. sequer. Cheguei a Brookins sem problemas. “Foi quanto bastou para mim. não imagina a quantidade de gente. A mãe espevitou o fogo e pôs a chaleira a aquecer. na primeira noite. – Que aconteceu. entre goles de chá – Até que um tipo se aproximou e gritou: “Viva. Ia registrá-lo logo de manhãzinha.

Então apostei com o tio Sam catorze dólares. – Quando a porta se abriu. e Laura prometeu. – Não há nada certo. Mas nesse instante. Carolina? – Oh. – Acho que sim. no território índio. – Por favor. – Nem um arranhão. – Como adivinhou Laura? – Ele gritava assim. Pa! – exclamou Carrie. com a brandura costumada. “Bem. “Eu trato dele! Ió-i-i!” O longo grito de gato selvagem do pai ecoou nas paredes e a mãe exclamou: – Pelo amor de deus.. Depois se pos de fora. alguém caiu em cima do homem de Huron como uma tonelada de tijolos.. eu seria empurrado por alguns duzentos homens. o homem de Huron empurrou-me para trás e disse ao outro tipo: “Entre! Eu o seguro!” aquilo daria pancada e enquanto eu lutasse com ele o outro me tomaria a gleba.. – disse-lhe o pai. – Está tudo bem quando acaba bem. Pa!”. Carolina. por fim a porta abriu-se. Pa. Ingalls!”. tens razão. Pa. era cada um por si. onde está ele? Trouxe-o? – Não consegui convencê-lo a vir comigo – respondeu o pai. 75 ..Mas ao nascer do sol a multidão duplicou e quando o escritório abriu. “Entre.” – Não gosto de pensar nisso em termos de aposta – disse a mãe. Edwards! – gritou Laura. Pediu-me que lhe desse recomendações. Charles – interrompeu-o a mãe. Charles! – Não imaginam quem era! – disse o pai. Mas a turba demorou algum tempo a acalmar eles. e se me desse mais chá. Carolina. Limitou-se a desencadear a confusão. Carolina. Sim. e Mary disse satisfeita. meninas. sim. ansiosamente. Naquele dia não havia fila. meninas. que conseguiremos tirar o sustento da gleba durante cinco anos. contra oitenta hectares de terra. É um gato selvagem do Tenessi – recordou Laura. Vão ajudar-me a ganhar a aposta? – Oh. assim que eu entrei e comecei a preencher o título de gleba. O pai ficou estupefato. – O Sr. preocupada. – Tentei persuadi-lo de todas as maneiras. gravemente: “Sim. e à Mary e a Laura. – É tudo mais ou menos um jogo. gritou-me. Nem calculam a confusão que ele desencadeou! – Ficou machucado? – perguntou a mãe. mas ele registrou uma gleba a sul daqui e tem de ficar lá para desencorajar os espertalhões que queiram tirá-la. continue! – pediu Laura. “Sim. a não ser a morte e os impostos. Nunca teria conseguido registrar a gleba se não fosse ele. Pa. Bem. não havia nada. num abrir e fechar de olhos. – Oh.

De manhã ficou surpreendida. Já se via a rua principal emergir do solo lamacento ao longo do aterro do trem. que andaram vocês a tramar? – Veja lá dentro. – Os lotes da cidade estão desaparecendo tão depressa que o pai pensa que poderá ganhar dinheiro se construir num deles. Laura. o mais depressa que podiam. impaciente. Pa. pois Mary. – Que homens? – perguntou o pai. – Pensava que íamos nos mudar para a gleba – observou Laura. – Para quem? – perguntou Laura. antes de termos de construir na gleba. Pa. – É uma surpresa. Quase não houve tempo para falarem. parou outro carroção à porta. – Olhe. As estradas estavam tão enlameadas que os carroceiros não podiam transportar grandes cargas. ganhavam alguns centavos em cada refeição e qualquer pouco que conseguissem ganhar era melhor do que nada. os desconhecidos podiam dormir no chão. Laura não se importava com os muitos pratos que tinha de lavar. branco e castanho. enquanto ele desatava o saquinho. Depois olhou para as caras delas. Do alvorecer até noite alta. mais um dólar e setenta e cinco centavos. A febre da construção NÃO HOUVE TEMPO para uma boa e demorada conversa com o pai. não é maravilhoso todo o dinheiro que estamos ganhando?! – Laura varria vigorosamente. – Dispomos de seis meses. Nessa noite houve sete desconhecidos para o jantar. homens que estavam construindo casas na cidade ou nas suas reservas. – Sim. espere. E também viu o pai levar uma carga de madeira na direção do local destinado à cidade. Laura e Carrie mudaram-se para o quarto. tirou o saquinho cheio de dinheiro. Ma. Os homens não tardam aí. enquanto Laura e a mãe começavam a fazer o jantar. onde estava escondido. de modo que já não ganhava tanto dinheiro. enquanto começava a varrer. que isso faz subir a poeira – recomendou a mãe. – explicou a mãe. de estarem tanto tempo dentro da água da louça. Antes de acabarem. Nessa semana a casa encheu-se de hóspedes fixos. olhe! O pai apalpou o pequeno saco. sal. O pai e a mãe estavam enriquecendo e ela estava a ajudando-os. à volta do fogão. Vai utilizar madeira das barracas da ferrovia e construir um armazém para vender. dizia ela. conseguiu despejar a tina e pendurá-la. feijão. e passou pela porta com uma braçada de roupa de cama que ia pôr a arejar fora de casa. nem com o sono e a fadiga que sentia. De qualquer modo. – Oh. tinha os dedos todos enrugados. Ma. e todos os dias se erguiam esqueletos amarelos de novos edifícios. surpreendido. contaram-lhe tudo quanto acontecera na sua ausência. O sol da janela do lado ocidental já atravessava o soalho e a mãe disse: – Temos de começar a tratar do jantar. teve de varrer e esfregar o chão enlameado às pressas. – Mas que vai o pai fazer? – perguntou à mãe. Todas as noites o chão da sala grande e do alpendre ficava coberto de camas. As provisões acabaram e agora a mãe tinha de comprar farinha.26. azul. Só pode vislumbrar o dia de março ensolarado e frio. – foi correndo à despensa e do saco de feijão quase vazio. – Carolina. – Oh. 76 . Todo o dia ouviram o barulho de carroções passando. mas não devemos contar com o ovo dentro da galinha. enquanto a mãe pegava outra trouxa de roupa. Carroceiros transportavam madeira de Brookins. ou seja. a mãe e Laura quase não tinham tempo para respirar. todas radiantes e sorridentes. com os desconhecidos. tantos eram os homens presentes para o café da manhã. – Vai construir um edifício no lugar da cidade. por favor. – Quinze dólares e vinte e cinco centavos! – Macacos me mordam! – exclamou o pai. Depois. Pa! – insistiu Laura. E agora que o pai estava em casa. porque os trens e os carroceiros cobravam um tanto pelo transporte. enquanto despejava a tina. – Arraste a vassoura. finalmente. – Para ele – respondeu-lhe a mãe. O pai dormia no chão. quando a mãe voltou. Mal tinha tempo de lavar tantos pratos e quando. e mais camas cobriam todo o chão do sótão. Os gêneros custavam três e quatro vezes mais do que custaram no Minnesota. carne e farinha de milho. pois já estava outra vez na hora de começar a descascar batatas para o almoço. não a levante dessa maneira. eu quero mostrar-lhe! – pediu Laura. para junto da mãe e de Grace.

Mary. desconhecidos. Se conseguissem poupá-lo. efetivamente. – Calculo que os agrimensores aparecerão agora de um dia para o outro. a fim de eu poder entregar-lhes a casa. – Mmm. como o silêncio que se nota quando uma nevasca termina. De súbito. apressado. o pai. O pai foi a correr a casa. ao longo de toda a rua principal. – Vamos pôr esse dinheiro de lado e não tocaremos nele. na campina onde antes não havia nada. A água do lago estava tão azul como o céu. – Quarenta e dois dólares e cinquenta centavos – disse Laura. muito sério. parcialmente cobertos de telhas. Um dia. – sabe que não gosto de ervas. – E eu quero cebola! – gritou Laura. Charles. Poderemos viver na cidade até eu vender o armazém. – Quero ervas! Laura. Laura? – Não. Subia fumaça cinzenta das chaminés dos fogões e janelas de vidro brilhavam ao sol. E também desejava poder falar-lhe a esse respeito. com dois andares de altura e retas em cima. Não havia tempo para conversar. a suspirar. Atrás das falsas fachadas as construções pareciam acocoradas sob os telhados inclinados.Laura desejava ter tempo para ver o edifício que o pai estava construindo. E nunca ouvi uma discussão tão tola! Sabem ambas que não temos ervas nem cebolas! A porta abriu-se e o pai entrou e. sem mais ninguém. a caça vai ser fraca. Só restava uma orlazinha de gelo à volta das margens da Lagoa Prateada e entre a relva morta do pântano. e você bem sabe. pensou Laura. doravante. Uma noite. – Confesso que não sabia que estava tão cansada – admitiu a mãe. “Dentro de uma semana estaremos trabalhando”. – continuou o pai. 77 . para oeste. Já lá viviam. ou como o apaziguamento da chuva após uma longa febre de seca. sentou-se nos calcanhares e replicou: – Não me importa que goste ou não. – Agrada-me ouvi-lo dizer isso. – declarou o pai. filhas?! – exclamou a mãe. – Muito bem. – ganhamos mais de quarenta dólares. Reinava um belo silêncio tranquilo e sereno. se pudermos – decidiu o pai. que estava lavando o chão. A confusão acabou tão subitamente como começara. – Do que esta cidade precisa é de um hotel. ouviu o chamamento solitário dos gansos selvagens. admirada. apoquentada. Gostava de levar o cesto carregado de roupa para a corda. Chegara na noite anterior com um carregamento de madeira vinda de Brookins. por pintar. Muito distante e tênue. – ganso assado com recheio de ervas! Não gostaria. – respondeu Laura. assim que puder começar. mas ele comia com os hóspedes e ia-se logo embora. – Mas eu não gosto de cebola! – exclamou Mary. com a caçadeira. seria bom – disse Mary. – O bando todo subiu quando chegou à Lagoa Prateada e continuou a voar para norte. os edifícios novos. no qual viu uma seta de pontinhos pretos. com eles. filhas – ralhou a mãe. – estão discutindo? – Quero ervas! – insistiu Mary. alardeavam as suas falsas fachadas. serenamente. No dia seguinte. mas agradável. Devem ter visto as novas construções e ouvido o barulho. – O primeiro bando da primavera está à vista! – anunciou. no meio do barulho da mesa do almoço. À volta deles estava de novo a sua própria casa. – Nem um ganso ao alcance de tiro. – Filhas. Laura. Carrie e Grace sentaram-se à mesa para jantar e não havia mais ninguém. a mãe. vindos do sul. seria uma ajuda para mandar Mary para o colégio. – Será melhor estarmos preparados para nos mudarmos. Amanhã lavaremos as roupas das camas e nos prepararemos para nos mudarmos – respondeu a mãe. O recheio será com cebola. pôs a caçadeira no seu lugar. – anunciou a mãe. Carroções passavam lentamente pela estrada enlameada. de vez em quando! – Então. declarou. Laura ouviu um homem dizer que estava construindo um hotel. Em duas semanas. – Que tal ganso assado para o almoço? – e voltou a sair. no tempo fresco. Laura ajudou a lavar todas as cobertas e cobertores. apressado. Era tão agradável jantarem outra vez sozinhos! – Laura e eu estivemos contando. A sua mulher viria com o carregamento seguinte. – não sei o que deu em você. Não falaram muito. irritada. Terá muito trabalho. erguia-se a cidade. – Ainda bem que você e as meninas deixaram de ter de trabalhar para estranhos – disse o pai. Parece que. de março. será com cebolas! Creio que também posso ter o que quero. – declarou.

A certa altura. Laura e Carrie esperaram que o carroção do pai se aproximasse e conduziram Mary ao lado dele. Já não se sentia sozinha e feliz na campina. e no meio da confusão. sentiu-se como que comprimida por tantas outras que se encontravam tão perto. Tanto frio que nem acordava. A mãe estendeu lençóis na corda. distante e silenciosa sob o céu claro. a campina limpa e verde ondulava. mas finalmente sentiu-se agradavelmente quente. Tinha frio. que ainda não tinham as ripas a cobrir as frestas. agora. e pelas travessas entre as construções. mas estava na cama e o uivar era apenas do vento. enquanto Laura ajudava o pai a armar a cama. Aninhou-se mais contra Mary e meteu a cabeça fria debaixo dos cobertores finos. Mas não passaremos frio. Do outro lado ficava uma porta de serviço e. Através da estrutura das construções. na cidade. As fachadas altas e falsas erguiam-se. A única coisa de que teve consciência. a dormir. A luz do candeeiro brilhava na cortina branca. Havia homens trabalhando apressadamente nas novas construções. para podermos ir ao sótão. sinto-me feliz como um grande girassol Que inclina a cabeça e se dobra com a brisa! E o meu coração está leve como o vento Que arranca as folhas das árvores! 78 . uma janela lateral. Atrás delas vinha o carroção carregado. O Sr. enquanto Mary entretinha Grace e a mãe preparava o jantar. Brilhava luz em janelas desconhecidas. Com o tempo assim quente. enquanto comeram. mas o fundo da sala comprida estava envolto em sombras e o ar frio que entrava pelas fendas fazia tremer a luz e agitava a cortina. a caminho da cidade. O pai levou Ellen e os dois cavalos para um pequeno estábulo nos fundos do lote. com uma janela de vidro de cada lado. – redarguiu a mãe – Agora porei apenas uma cortina atravessada para fazer dois quartos e termos onde dormir até ser possível fazer uma divisória. nem de forrar o interior. Carolina – disse o pai. e para lá de ambas as extremidades da rua. Deitada na cama com Mary no quarto escuro e arejado. ouviam-se passos de gente que passava com lanternas e soavam vozes. na qual as rodas dos carroções abriram fundos sulcos. Laura e Carrie caminhavam uma de cada lado de Mary.27. pois nascia relva nova por toda a parte. A Lagoa Prateada estava azul e a sua água clara refletia as grandes nuvens brancas do céu. O chão era de tábuas largas e as paredes também eram de tábuas. que a primavera chegou. sentia-se como que apanhada numa armadilha. para cobrir aquela grande fresta. mas na cidade havia agitação e barulho. Não havia mais lugar algum onde viverem a não ser na construção inacabada do pai. serragem e bocados de tábuas espalhados na relva nova. Timidamente. enlameada e pisada da rua. durante a noite. Havia muito espaço vago na casa. foi do pai a cantar: Oh. Viam-se aparas. até chegarem à esquina onde ficava o edifício do pai. a cortar metade do céu. Depois Carrie ajudou-a a fazer as camas. perto. do lado de fora. com o pai. – não tive tempo de pôr as tábuas para cobrir as frestas. sentia-se solitária e assustada. da pressa e dos negócios da cidade não existia ninguém que Laura conhecesse. Os agrimensores regressaram. sonhou com uivos de lobos. e a Sra. a mãe e Grace no banco e a vaca. Vivendo na cidade A TODA A VOLTA da pequena cidade inacabada a campina infindável enverdecia ao sol. – Terás de fazer uma escada. ruído de serras e de martelos. – Esta casa não é muito quente nem bem vedada. por cujas fendas e buracos dos nós da madeira entrava a luz do dia. A porta abria-se para uma sala comprida. embora ela não conseguisse distinguir as palavras que diziam. olhando a vaga cortina branca e escutar o silêncio. Devagar. Mesmo quando a noite silenciou. mas Laura não conseguia livrar-se da impressão de que havia desconhecidos perto. Mais nada. Iam mudarse para o armazém que o pai construíra na cidade. a seguir. e não há nenhuma cornija debaixo das telhas. Ellen. O edifício do pai tinha uma porta principal. Além de homens falando alto. Boast partiram para a sua gleba. Depois instalou o fogão e colocou uma corda para a cortina da mãe. não precisamos das fendas tapadas nem do forro do teto. o baque de caixotes e o estrondo de tábuas descarregadas de carroções. Os cobertores pareciam muito finos. e eu acabarei a construção em breve. A diferença devia-se ao fato de existir agora a cidade. Tremia. em toda a extensão da rua principal. amarrada atrás.

bando escuro atrás de bando escuro. enquanto todas as cavidades estavam azuis. com a pá. embrulhou bem Grace e levou-a a Mary. O vento da campina cheirava a terra molhada e a relva fresca. enquanto. Laura via-as voar. enquanto corria. Laura e Carrie ajudaram a segurar as tábuas e Grace brincou com as aparas. Depois foi ao estábulo. sacudiulhe a neve e correu. meninas! Laura e Mary ficaram absolutamente imóveis enquanto o pai lhes tirava a neve de cima. o sol nascia todos os dias mais cedo e. – Ter de tomar conta de um hotel enquanto o constroem por cima da sua cabeça! – É esse o preço de construir um país. aos gritinhos e aos saltinhos. o frio não pode demorar muito. O ar entrava. Eu as desenterro num instante. os cobertores pesavam-lhe e estava quentinha como uma torrada. e o frio traspassava os cobertores. a mesa e as camas no interior. A divisória fez um pequeno quarto com o fogão. a neve queima-me os pés! – exclamou. o céu azul modificava-se. Era tão emocionante acordar debaixo de neve que nem quis esperar na cama que Laura lhe sacudisse a roupa. disse: – Espere. que estava na cadeira de balanço chegada para o forno. à sua volta. Ficaram tremendo e olhando. o pai afastou a cortina e entrou. – Pelo menos taparei algumas das frestas – disse. às pazadas. assim que acender o fogão e libertar a mãe da neve. com a pá do fogão e a vassoura. Laura ouviu as tampas do fogão bater. ele tirava a neve de cima de Carrie e Grace. meninas! – chamou a mãe. Rapidamente. Que trará uma nevasca de abril? – Para começar. para o fogão. alguém teria se perdido e morrido congelado. – Bem. Foi uma autêntica nevasca. não se mexeu. O fogão quente tornava o ar tolerável. Pouco depois. Em toda a cidade se ouvia serrar e martelar. – Fique quieta. enquanto as pessoas estavam abrigadas. – Esta casa é uma boa peneira! – exclamou ele. no interior de outras construções. uma divisória. a neve desapareceu e a primavera voltou. Ninguém espera uma nevasca nesta época do ano. antes de os calçar. – Levantem-se. Havia neve ao longo de toda a rua. por todas as frestas. por cima da neve espalhada pelo chão frio. Sacudiu a combinação e o vestido tão depressa que a neve não teve tempo para se derreter. Fez tudo tão depressa que quando acabou de se vestir estava quente.Laura abriu um olho e espreitou por baixo dos cobertores. – observou o pai. – Oh! – exclamou. – Pensar que passamos o inverno todo sem uma nevasca e agora tivemos uma. enquanto durou. com os gritos das aves selvagens. Agora fiquem quietinhas. Laura ajudou a abotoá-la e depois vestiram os casacos e. – Mas eu tiro-a num abrir e fechar de olhos. sacudiu as meias e despejou a neve dos sapatos. – Há uns bons trinta centímetros de neve nestas camas! – exclamou. – disse a mãe. – Fiquem todas quietas. Nunca faríamos nada que nos agradasse se esperássemos que as coisas nos agradassem antes de nós as começarmos. a tentar encorajar se a si própria. Caiu-lhe neve na cara. apanharam e varreram a neve. para manter o calor perto deste fogão. como se costuma dizer. a rir. e com uma janela de onde se via toda a verde campina coberta de neve. Beardsley. – as chuvas de abril trazem as flores de maio. fazer o mesmo com Ellen e os cavalos. frio como gelo. uma grande quantidade de neve. Laura! – recomendou o pai. Laura saltou da cama quente e pegou na roupa. – Constrói-se por cima da cabeça e debaixo dos pés. que ficava para lá da cortina. que à noite pusera em cima de uma cadeira. – disse o pai. embora batesse os dentes com frio. Depois sacudiu a neve da roupa de Mary e ajudou-a a dirigir-se depressa para o calor do fogão. descalça. sequer. A mãe pôs a mesa quase encostada ao fogão e o café da manhã estava pronto quando o pai voltou. 79 . em abril! – exclamou a mãe. mas constrói-se. E assim fez. Dos montões de neve empurrada pelo vento emergiam os madeiramentos finos e amarelos das casas inacabadas. O sol nascera e todas as encostas nevadas estavam cor-de-rosa. Depois o pai trouxe mais tábuas cobertas de neve e começou a forrar as paredes. – disse a mãe. no colo de Mary. – Entrou neve por todas as fendas e infiltrou-se por baixo das telhas. ao longo do dia. pequenas no ar translúcido. Carrie veio a correr. com certeza. que empilharam nos cantos mais distantes da sala comprida. – Vou levantar uma divisória. – Tragam a roupa e vistam-se junto do fogão. A mãe aqueceu o xale. Todo o dia serrou e martelou junto do fogão. – Oh. – Tenho pena da Sra. Passados poucos dias. o raspar de um fósforo e o crepitar de aparas a arder. – Foi uma sorte ser de noite. antes que passe mais um dia. admirada. Se tivesse sido de dia. alto. Mary! Volto já e sacudo a neve da tua roupa. Cada pilha de madeira era uma montanha de neve.

Carrie gostava da cidade. – Assim que eu vender este armazém. Olharam-na com os olhos muito abertos. – Estudem isso durante um quarto de hora. a hora de preparar o almoço – Podem vir todas as manhãs. nos pântanos e voltavam a levantar voo antes de o sol nascer de novo. Laura. Inclinaram a cabeça para o livro e estudaram. Laura lembrou-se da multidão do dia de pagamento que ameaçara o pai. a sorrir aprovadoramente. barulhenta e cheia de gente estranha!” – Pai. Laura não achava que fosse agradável e não tinha vontade nenhuma de fazer semelhante coisa. – Depois de amanhã. atravancada. em voz fraquinha. e diga-me o que aconteceu – pediu a mãe. pois a mãe não gostava de perder Carrie de vista. Digam à sua mãe que esta tarde atravesso a rua e vou lá. senhora – responderam Louise e Any. “Preferia estar na campina com a relva. quando chegou. É o tempo que preciso para construir uma cabana. 80 . estava tão contente por não ter de ensinar que começou a cantar enquanto varria o chão. mas era mais frequente virem elas visitá-la. Carolina? – perguntou. dizia-lhes que deviam estar quietas. Sempre que elas se mexiam. – O que diz de mudarmos já para o sítio. – Tchau. e Laura respondeu: – Obrigada. Laura. Mas disse. – Talvez elas sejam muito novinhas para apreciarem o valor da escola. Mexiam-se tanto que Laura se desesperava para conseguir mantê-las quietas e não era possível fazê-las estudar. Todo o dia se ouvia o barulho de martelos. – disse Mary. Any. botas e vozes. – Portaram-se todas muito bem. pensava. As aves selvagens não gostavam da cidade cheia de gente. Da janela. O pai sentou-se e respondeu: – Houve um assassinato. – Pelo menos. Parelhas e veículos paravam ao longo da rua lamacenta. já depois de posto o sol. Laura! Aconteceu qualquer coisa! Talvez seja por isso que elas não vieram. – Com diligência e perseverança. calmamente. ensinaste na primeira escola de De Smet. – Sim. Achou que. – observou a mãe. – mas o que me surpreende é a mãe delas. de cabelos ruivos. Laura. Queria sair e ver tudo e ficava horas a olhar pelas janelas. Não houve nunca um quarto de hora tão comprido. – disse a mãe. obedientemente: – Sim. andas tão inquieta que me enervas. E Laura também não. alegremente: estava contente. e até com lobos! Preferia estar fosse onde fosse menos nesta cidade lamacenta. quando Louise e Any chegaram para brincar com Carrie. – Se vai ser professora. Louise e Any? Assim a Carrie ficaria em casa e seria bom para todas. – Não estou desencorajada – respondeu Laura. e Louise. – disse-lhes. de cabelos castanhos. para lhe falar da nossa pequena escola. Estava juntando-se uma multidão defronte ao hotel. um dia. “Sim.Já não paravam em grandes bandos na Lagoa Prateada. Todos os dias chegavam mais carroções. Ma. Ma. – Sente-se. na manhã seguinte. Laura ouviu-as soletrar e a seguir marcou-lhes uma lição de aritmética. Charles. que Laura as ensinará.” Cada manhã. Sentou-as todas em fila e indicou-lhes uma lição para estudarem na antiga cartilha da mãe. creio que será uma boa professora – elogiou a mãe. Cada dia era mais difícil ensiná-las. e só as deixava falar se levantassem a mão para pedir autorização. se apresentavam com maior relutância. no fim de contas. Passados momentos. E pensou: “Se tenho de ser professora. Cada vez chegavam mais homens vindos de todas as direções. do lado de fora das janelas. As brigadas das pás estavam nivelando o aterro dos trilhos e os carroceiros descarregavam dormentes e trilhos de aço. o melhor é esforçar-me para ser uma boa professora. Laura disse-lhes que teriam aulas. viu o pai abrir caminho pelo meio da turba e vir para casa. senhora. as aves e o violino do pai”. – Hoje? – perguntou a mãe. a falarem em voz alta e excitada. porque não começa já? Não acha que seria agradável se todos os dias ensinasse Carrie. quando nos mudamos para a gleba? – perguntou. – depois recitem para eu ouvir. Só alguns bandos muito cansados pousavam. Por isso. enquanto Laura se sentava defronte delas. Um dia. – Não fique desencorajada. mas não disseram nada. – disse a mãe. Por fim. não perderia nada se experimentasse. não apareceram. Às vezes a mãe deixava-a atravessar a rua para visitar duas garotinhas que moravam do outro lado. – Francamente. enfim. Vinha muito sério. Carrie gritou: – Veja. À noite bebia-se ruidosamente nas tabernas.

– respondeu o pai. o que trabalhou no aterro. Hunter perguntou-lhe o que estava fazendo ali e ele deu-lhe um tiro e matou-o.A mãe abriu muito os olhos e conteve a respiração. com o pai. mas este chicoteou a parelha e fugiu. acho melhor irmos para a nossa gleba. – Um desses indivíduos que estão se apoderado das terras dos outros matou Hunter. onde prenderam o tipo. – Também acho. um homem abriu a porta e olhou para eles. Quando chegaram à cabana. Prenderam-no! – exclamou o pai. – Prepare-me um farnel e parto já. Nenhum deles estava armado. O velho chegou a Michael e esta manhã levou agentes da autoridade à gleba. Tentou matar também o velho. – Ao sul da cidade. Se tivéssemos sabido a tempo! – Charles – admoestou a mãe. furiosamente. Mudamo-nos amanhã. – O enforcamento seria bom demais para ele. Vou buscar uma carga de madeira e arranjar um homem para me ajudar a construir a cabana esta tarde. e levantou-se. – Mudaremo-nos assim que seja possível construir qualquer espécie de abrigo. – Aqui? – perguntou. – concordou a mãe. 81 . Hunter partiu ontem para as suas terras. antes que alguém a ocupe. – Bem.

Assim que a louça ficou limpa. – Hei de me arranjar. enquanto a mãe tratava do último caixote e o pai atrelava a parelha.28. pensou. para podermos ir todos no carroção. Encheram as chaminés dos candeeiros com papéis e envolveram-nas em toalhas. Carrie estava contente porque se sentia ansiosa por ver a gleba. – É dia de mudança! Levanta-te depressa. as costas dos homens e o carroção cresceram tanto que Laura deixou de poder ver os cavalos. e Laura lavou depressa a louça e Carrie limpou. Depois a mãe e Laura enrolaram os colchões bem enrolados. com ambas as mãos. De dentro do túnel formado pela touca via apenas a campina verde e céu azul. Mas. Laura estava contente porque iam sair da cidade. antes de as arrumarem ao lado dos candeeiros. debaixo das cobertas. e atirou Grace para o colo da mãe. Ele levou a cama e as caixas para o carroção e pôs-lhes os colchões em cima. com a mão no seu ombro. – Agora Mary – disse brandamente. – o que sobe tem de descer e eu arranjarei umas pranchas. apareceram de súbito no verde e no azul ensolarado dois cavalos castanhos com crinas e caudas pretas ao vento. e Grace cantava e gritava. a mãe guardou-a na tina. evidentemente. ao passar. coloque a tua touca! – exclamou a mãe. – Olhe. Os seus flancos e as suas espáduas brilhavam ao sol. – Mas não podes descarregar o fogão sozinho – protestou a mãe. Deixe o resto das coisas prontas que eu volto. tinham o pescoço arqueado e as orelhas espetadas e sacudiam orgulhosamente a cabeça. Quando os seus lados franzidos lhe envolveram as faces. que belos cavalos! – exclamou Laura. Laura puxou pelas fitas a touca que lhe pendia pelas costas abaixo. – Por favor. enquanto Laura e Carrie tomavam os seus lugares ao lado dela. não tardaremos a estar em casa. – São os jovens Wilder. empurrava Carrie de um lado para o outro. raramente se vê uma parelha assim! Laura desejou com todo o coração ter uns cavalos como aqueles. Devagar. Dia de mudança – ACORDA. vamo nos mudar para o sítio! Comeram rapidamente o café da manhã. a fim de lhe proteger a pele clara e macia. – Pegue! – gritou. Em cima de tudo pôs a estantecantoneira. dorminhoca! – chamou Laura ao mesmo tempo que. Desarmaram a grande cama da mãe e as duas camas mais pequenas e novas que o pai comprara na cidade. o pai estava contente porque gostava de estar sempre a mudar-se. – Tenho de fazer duas viagens. O pai colocou a mesa e as cadeiras em cima de tudo o mais e depois olhou para a carga e coçou a barba. Estava tudo preparado e à espera antes do pai voltar. Palavra. A mãe e Mary estavam contentes porque ia ser o fim das viagens. – O vento da primavera estraga-te a pele – e puxou a pequena touca de Grace mais para a frente. trotando ao lado um do outro. Depois Laura estendeulhe a caixa do violino e ele meteu-a cuidadosamente entre as mantas. o pai transportou para o carroção a mala. Carolina. nunca os poderia ter. Enquanto olhava. O pai virara-se no banco. Aquele era o dia de mudança mais alegre que Laura já conhecera. – informou. de costas. suba! – ajudou a mãe a subir pela roda para o banco. Continuou a olhar para eles enquanto se agarrava à parte de trás do banco e o seu corpo acompanhava os solavancos do carroção ao passar pelos sulcos de lama seca pelo vento. e ajudou-a a subir para a tábua colocada logo atrás do banco. as suas pernas esbeltas andavam elegantemente. os caixotes e a tina com a louça. Pa. contente por todos os outros estarem contentes. Laura. e outro homem mais alto ia atrás dele. ocultaram a cidade. de modo que não entornassem o querosene. e acondicionaram os candeeiros cuidadosamente numa caixa. para os ver também. – afirmou o pai. – Pronto. para que viajasse em segurança. Registaram glebas ao norte da cidade e têm os mais belos cavalos de toda esta região. depois a mãe ajudou-o a tirar o cano do fogão e levaram ambos para o carroção. a cara de Mary estava bem coberta pela touca e a da mãe também. Em seguida foi buscar Ellen e amarrou-a à parte de trás do carroção. para que não se riscasse. – O condutor chama-se Almanzo e o outro é o seu irmão. um homem jovem ia de pé no carroção a conduzir. – Oh. sem perderem tempo a falar. Subiu para o carroção e partiu. iam fixar-se na gleba e nunca mais se mudariam. Os cavalos puxavam um carroção leve. – Agora. 82 . Royal. olhe! Virou a cabeça para os ver o máximo de tempo possível. Lá há madeira para isso. Num instante.

A mãe sentou-se balançando-se devagarinho junto do portal sem porta. o luar pairava sobe a terra vasta e escura. – Quanto custam. e ouviam as rãs coaxarem no Grande Pântano. – redarguiu o pai. mas o soalho já estava assente. Só gente rica podia pagar tal quantia por cavalos. frio e prateado. 83 . com as patas compridas penduradas. – Porquê? – Por nada. – Vou pôr a pastorinha na peanha. com o violino: Quando as estrelas brilham. estavam instalados na engraçada casinha. A mãe riu-se. baixinho. O jantar foi feito e comido. – Lá está! – exclamou. se alguma vez fosse rica. Depois cantaram à noite e às estrelas: Oh. silenciosa e não inspirava receio. luminosas. – Está enganada. num murmúrio. o fogão funcionando. no chão. Não tinha janelas nem porta. O violino do pai respondeu-lhe com notazinhas que corriam como água ao sol e formavam um charco. o pai atravessou a parte estreita e subiu para o terreno mais alto. eis o lema para todos os homens. – Estou contente por estar em casa. Rapidamente. A casinha com o seu meio telhado inclinado era construída de tábuas toscas. E eu depressa acabarei o resto. de um charco de água levantou voo uma garça. O pai sentou-se do lado de fora. que fora bem guardada debaixo da cama da mãe. – É uma casinha só construída pela metade. Mary e Laura sentaram-se no patamar. Canarinho? – Cavalos como aqueles. o pai tirou o violino do seu ninho e afinou-a com gestos delicados. afasta os cuidados tristes. Laura – disse o pai. – O quê. Deixou o vento puxar-lhe a touca para trás e pensou no que seria ser transportada por cavalos tão velozes. dava para um porão. E um alçapão. havia de ter dois lustrosos cavalos castanhos com crina e cauda pretas. Por isso. A noite primaveril era tão bonita que ninguém quis o candeeiro aceso. A lua nascia. e observou: – Parece-me uma parte de um telheiro de lenha que foi partido ao meio. – Eu gostaria de ter um pouco de música. com Grace ao colo e Carrie a seu lado. enquanto o pai cantava docemente. encosta o ombro à roda. Não falavam. Do outro lado do carroção corria estreito e lamacento até à ponta apertada da Lagoa Prateada. numa cadeira. ao sol. Pa? – perguntou Laura. Parecia um brinquedo amarelo na grande campina ondulada. Viam as estrelas nascer. Em todo o céu imenso as estrelas piscavam alegremente. as camas estavam feitas e a cortina estava pendurada a dividir uma sala pequena em dois quartos minúsculos. afasta os cuidados tristes e faz o melhor que puderes. A relva mais viçosa e mais áspera do pântano enchia a sua cavidade irregular. o Grande Pântano alargava e prolongava-se. Laura foi buscar a caixa do violino. A sua luz cremosa alastrava pelo céu e as estrelas dissolviam-se nela. na direção do Grande Pântano.– disse o pai. através da campina verde e por uma encosta suave abaixo. que chorar é só padecer! Se as coisas hoje correm mal. uma por uma. Muito para oeste e sul. Antes do pôr do sol. amanhã é outro dia. – respondeu o pai. Vamos acabá-la agora e em breve construiremos a outra metade. talvez mesmo trezentos. A escuridão era aveludada.O pai seguia agora para sul. Trezentos dólares era tanto dinheiro que quase não podia imaginar. os pratos lavados e a escuridão desceu suavemente sobre a campina. com fendas entre elas. – mas agora estamos aqui! Ninguém pode ocupar a nossa gleba. – Ontem não tive tempo para mais do que escavar o porão e erguer as paredes. Soprava uma brisa. coberta de ondulante relva nova. Laura pensou que. – Dois cavalos assim emparelhados? Nem um centavo a menos do que duzentos e cinquenta dólares. quando o pai a ajudou a descer do carroção. Carolina. do outro lado. Charles – respondeu a mãe. Carolina. Perguntei só por curiosidade. e mesmo com essa metade inacabada. A pequena cabana do sítio brilhava. de nova. assim que o telhado estiver acabado por cima da nossa cabeça – disse a mãe.

quando as sombras do crepúsculo pairam sobre o prado. 84 .e os ventos suspirantes emudecem. há uma candeiazinha a brilhar no chalé sob o monte e eu sei que esse pequeno farol brilha para mim.

29. A cabana na gleba
– A PRIMEIRA COISA a fazer é abrir um poço – disse o pai na manhã seguinte. Pôs a enxada e a pá ao ombro e dirigiu-se assobiando para o pântano, enquanto Laura levantava a mesa do café da manhã e a mãe arregaçava as mangas. – Agora, meninas, – disse a mãe, alegremente – vamos trabalhar todas juntas com vontade e em breve estará tudo como deve ser. Mas naquela manhã até a mãe se mostrava perplexa. a pequena cabana estava cheia como um ovo, não cabia mais nada. Tinha de ser tudo organizado conforme o espaço. Laura, Carrie e a mãe levantavam e empurravam a mobília para um lado e para outro, paravam a pensar e experimentavam de novo. A cadeira de balanço de Mary e a mesa ainda estavam fora de casa quando o pai voltou. – Bem, Carolina, o teu poço está aberto! – anunciou ele. – Um metro e oitenta de profundidade e água boa e fria, em areia movediça. Agora vou fazer uma tampa, para que a Grace não caia nele, e fica pronto. – Olhou para a desarrumação, empurrou o chapéu para trás e coçou a cabeça. – Não consegue meter tudo lá dentro? – Havemos de conseguir, Charles. – afirmou a mãe. – Querer é poder. Foi Laura quem teve a ideia para a arrumação das camas. O problema era terem agora três camas. Se ficassem lado a lado, não haveria espaço para a cadeira de balanço de Mary. Laura pensou em colocar as camas pequenas juntas, bem aninhadas no canto, e encostar-lhes os pés da cama grande, com a cabeceira contra a outra parede. – Depois poremos uma cortina à volta das nossas camas – disse Laura à mãe – e outra atravessada ao lado da sua, e assim ficará com espaço para a cadeira, encostada à sua cortina. – Assim é que é, minha filha inteligente! – elogiou a mãe. A mesa ajustava-se contra os pés da cama de Laura e Mary, debaixo da janela que o pai estava abrindo nessa parede. A cadeira de balanço da mãe ficou ao lado da mesa e a cantoneira encaixou-se nesse canto, atrás da porta. No quarto canto ficou o fogão, com o armário da louça, feito de um caixote, atrás, e a mala ficou entre o fogão e a cadeira de balanço de Mary. – Pronto! – exclamou a mãe. – as caixas vão para debaixo das camas. Não poderia ficar melhor! Ao almoço, o pai anunciou: – Ainda hoje acabarei esta metade da casa. E acabou. Abriu uma janela ao lado do fogão, virada para sul, e colocou uma porta comprada na serração da cidade. Depois forrou todo o exterior da cabana com papel preto, de alcatrão, preso por sarrafos. Laura ajudou-o a desenrolar o largo papel preto, com cheiro de alcatrão, sobre o telhado inclinado e ao longo das paredes de tábuas novas e limpas, rescendentes a pinheiro, ajudou-o a cortá-lo e segurou-o, ao vento, enquanto ele pregava os sarrafos. O papel de alcatrão não era bonito, mas vedava todas as frestas e não deixava entrar o vento. – Pronto, está terminado um bom dia de trabalho – disse o pai, quando se sentaram para jantar. – É verdade, – concordou a mãe. – e amanhã acabaremos de desencaixotar as coisas e ficaremos finalmente instalados. Também preciso fazer pão. É uma felicidade ter outra vez fermento. Parece-me que nunca mais quero ver outro biscoito de massa azeda. – O teu pão leve é bom e os teus biscoitos de massa azeda também, – afirmou o pai. – mas não teremos uma coisa nem outra, se eu não arranjar qualquer coisa com que possas cozê-los. Amanhã trarei uma carga de lenha do Lago Henry. – Posso ir contigo, Pa? – perguntou Laura. – E eu também? – pediu Carrie. – Não, meninas. Vou me demorar muito e a mãe precisará de vocês. – Queria ver árvores – explicou Carrie. – Não a censuro. – disse a mãe. – Eu própria gostaria de voltar a ver algumas árvores. Descansariamme- os olhos de toda esta campina sem uma árvore. Não se vê sequer um arbusto, em todas as direções. – Esta região ainda ficará coberta de árvores – redarguiu o pai. – Não te esqueças de que o tio Sam está cuidando disso. Há uma reserva para árvores em cada seção e os colonos terão de plantar cinco hectares de árvores numa de cada três reservas. Daqui a quatro ou cinco anos verás árvores em todos os lados para onde olhares.

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– Nessa altura olharei para todas as direções ao mesmo tempo. – disse a mãe, sorrindo – Não há nada mais repousante do que bosques sombrios, no verão, além de as árvores também quebrarem a força do vento. – Bem, não sei... as árvores se alastram e você sabe como era na Grande Floresta do Wisconsin, passávamos a vida a arrancar tocos e a dar cabo das costas a desenraizar rebentos, para conseguirmos um pouco de terra livre para as colheitas. É repousante ter campina livre e desimpedida como esta, quando se pensa cultivar. Mas o tio Sam não parece ser dessa opinião e, por isso, não te preocupes, Carolina: Verás árvores com fartura em toda esta região. Provavelmente, quebrarão o vento e modificarão o clima, também, como dizes. Nessa noite estavam tão cansados que não desejavam ouvir música. Pouco depois do jantar estavam todos dormindo e no dia seguinte, de manhãzinha cedo, o pai pôs-se a caminho do lago Henry. O mundo inteiro estava alegre, ao sol matinal, quando Laura levou Ellen para beber no poço. Em toda a campina dançavam ao vento as florzinhas brancas da cebola brava. Pela encosta da colina abaixo, a seguir à cabana, manchas de açafrão bravo alastravam, amarelas e azuis, na relva tenra, e por toda a parte as azedinhas desenrolavam as suas florzinhas rosa-alfazema sobre as folhas lustrosas e em forma de trevo. Laura inclinava-se para as apanhar, enquanto caminhava, e mordiscava devagar os caules e as pétalas frescos e azedos. Da elevação relvosa onde prendeu Ellen podia ver a cidade, para norte. O Grande Pântano curvava no meio e alargava para sudoeste, desdobrado em hectares e hectares de vegetação alta e áspera. Todo o resto da enorme campina era um tapete verde com flores primaveris. Apesar de crescida, Laura abriu os braços todos ao vento e correu contra ele. Atirou-se para a relva florida e rolou como um potro. Ficou deitada no chão macio e perfumado a olhar para o grande céu azul e para as nuvens altas e cor de pérola que nele vogavam. Sentia-se tão feliz que lhe vieram lágrimas aos olhos. De súbito, pensou: “Deixei uma nódoa de relva no vestido?” levantou-se, olhou ansiosamente, e lá estava uma mancha verde no tecido. Teve consciência de que devia estar ajudando a mãe e partiu apressada para a pequena cabana escura, forrada de papel de alcatrão. – É tigrada – disse à mãe. – O quê, Laura? – perguntou a mãe, surpreendida; estava a arrumar os seus livros nas prateleiras de baixo da cantoneira. – Esta cabana, – respondeu Laura. – as riscas amarelas dos sarrafos sobre o preto do papel de alcatrão. – Os tigres são amarelos com riscas pretas – objectou Mary. – Abram as suas caixas, andem. – disse a mãe. – Vamos pôr todas as nossas coisas bonitas nas prateleiras de cima. Na prateleira por cima dos livros havia espaço para as caixinhas de vidro de Mary, Laura e Carrie. Cada caixa tinha flores baças de lado e flores coloridas na tampa. as três tornaram aquela prateleira bonita e alegre. A mãe pôs o relógio na quarta prateleira. A caixa de madeira partia, num desenho rendilhado, do mostrador de vidro redondo atrás do qual, pintado com flores douradas, o pêndulo de latão oscilava de um lado para o outro, tiquetaque, tiquetaque. Na prateleira por cima do relógio, que era a última e a mais pequena, Laura colocou o seu guarda-jóias de porcelana branca, com a minúscula xicarazinha e o pires dourados em cima, e Carrie pôs-lhe ao lado o seu cão de louça branco e castanho. – Fica muito bonito – aprovou a mãe. – quando a porta está fechada, a cantoneira orna bastante a casa. Agora vamos à pastora. Olhou em redor, rapidamente, e exclamou: – Meu deus, o meu pão já levedou? O pão estava, realmente, a levantar a tampa da caçarola. Apressadamente, a mãe enfarinhou a tábua do pão e amassou-o. Depois tratou do almoço. Estava pondo o tabuleiro dos biscoitos leves no forno quando o pai apareceu subindo a colina, no carroção. Atrás dele, a carroça do veículo vinha com uma grande altura de galhos de salgueiros que trazia para servir de combustível, no verão, pois não havia verdadeiras árvores do lago Henry. – Eh, Canarinho! o almoço que espere, Carolina. – gritou – Tenho uma coisa para lhes mostrar assim que prender a parelha. Rapidamente, tirou os arreios dos cavalos e atirou-os para cima do varal do carroção. Levou depressa os animais para as suas cordas e voltou com a mesma rapidez. Depois levantou uma manta de cavalo da parte da frente da caixa do carroção. – Aí está, Carolina! – exclamou, sorrindo – cobri-as para o vento as não secar.

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– O quê, Charles? – a mãe e Laura estenderam o pescoço, para espreitar, e Carrie subiu pela roda. – Árvores! – exclamou a mãe. – Arvorezinhas! – gritou Laura. – Mary, o Pa trouxe arvorezinhas! – São choupos-do-canadá, todas nascidas de sementes da Árvore solitária que vimos na campina quando vínhamos de Brookins. É uma árvore gigante, quando nos acercamos dela. Espalhou sementes ao longo de toda a orla do lago Henry. Desenraizei rebentos suficientes para fazer um quebra-vento à volta da cabana. Vais ter as tuas árvores crescendo tão depressa quanto as possa plantar. Tirou a pá do carroção e acrescentou: – A primeira é tua, Carolina. escolhe-a e diga-me onde a queres. – Só um momento. – a mãe foi correndo fechar o registro do fogão e puxar para o lado a panela das batatas; depois escolheu a árvore – Quero-a aqui mesmo, junto da porta. Com a pá, o pai marcou um quadrado na terra e arrancou a relva. Depois abriu um buraco e soltou o solo macio até ficar solto e fresco. Então, cuidadosamente, pegou na pequena árvore e transportou-a para o buraco, sem sacudir a terra das suas raízes. – Mantenha a copa reta, Carolina. A mãe segurou a pequena árvore pela copa, enquanto, com a pá, o pai ia deitando terra sobre as raízes, até encher o buraco. Depois calcou a terra firmemente e recuou. – Agora já podes olhar para uma árvore, Carolina. Para a tua árvore. Depois do almoço daremos um balde de água a cada uma delas. Mas primeiro temos de lhes pôr as raízes na terra. Vem, Mary, é a tua vez. O pai abriu outro buraco, em linha reta em relação ao primeiro, foi buscar outra árvore no carroção e, cuidadosamente, Mary manteve-a reta, enquanto o pai a plantava. Era a árvore de Mary. – A seguir é você, Laura. – disse o pai. – Faremos um quebra-vento quadrado, em toda a volta da casa. a árvore da mãe e a minha junto da porta e uma árvore para cada uma de vocês de cada lado das nossas. Laura segurou a árvore enquanto o pai a plantava. Depois Carrie segurou a sua. as quatro arvorezinhas erguiam-se, retas, das manchas de terra escura, na relva. – Agora é a vez da Grace. – disse o pai. – Onde está ela? – e pediu à mãe: – Carolina, traga cá a Grace para plantar a sua árvore! A mãe veio à porta da cabana e respondeu: – Ela está aí fora contigo, Charles. – Deve estar atrás da casa. eu vou buscá-la – disse Carrie e afastou-se correndo e gritando: – Grace! voltou logo a seguir, de olhos arregalados e assustados e as sardas muito visíveis no rosto pálido. – Não a encontro, Pa! – Deve estar perto – disse a mãe, e chamou: – Grace! Grace! – Grace! – chamou também o pai. – Não fiquem aí paradas! Vá procurá-la, Carrie! E você também, Laura! – mandou a mãe, e depois exclamou: – O poço! – e desatou a correr pelo caminho abaixo. Mas o poço estava coberto e, portanto, Grace não podia ter caído lá dentro. – Não se pode ter perdido – disse o pai. – Eu deixei-a aqui fora, pensei que estivesse com vocês – explicou a mãe. – Não pode ter se perdido. – insistiu o pai. – Não a perdi de vista um minuto. – e gritou de novo: – Grace! Grace! Laura subiu a encosta a correr e a ofegar. Não via Grace em lado nenhum. Olhou ao longo da orla do Grande Pântano, na direção da Lagoa Prateada, e por toda a campina florida. Voltou a olhar repetidamente, muito depressa, sem ver nada a não ser flores silvestres e relva. – Grace! Grace! – gritava. – Grace! O pai encontrou-a na encosta, quando ela descia correndo e a mãe subia, sem fôlego. – Ela deve estar à vista, Laura. – disse o pai. – Escapou-te, com certeza. ela não se pode... – nisto, deu um grito horrível: – o Grande Pântano! – virou-se e desatou a correr. A mãe correu atrás dele e gritou: – Carrie, fica com a Mary! Laura procure-a, anda, procure-a! Mary estava parada à porta, chamando: – Grace! Grace! – os chamamentos do pai e da mãe ouviam-se mais abafados, vindos do Grande Pântano: – Grace! Onde está você? Grace! Se Grace se perdera no Grande Pântano, como poderia alguém encontrá-la? A vegetação velha e morta era mais alta do que Laura e estendia-se por hectares e hectares, quilômetros e quilômetros. a lama funda aspirava os pés descalços e havia poças de água. Laura ouvia, onde se encontrava, o som da áspera

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– respondeu-lhe Laura. é melhor ficares. os gritos agudos da mãe: – Grace! Laura sentiu-se fria e agoniada. que quase abafava. até. e desatou a correr através da soalheira campina. – Por que não a procura? – gritou Carrie – Não fique aí parada! Faça qualquer coisa! Eu vou procurála! – A mãe disse que ficasse com a Mary. – por isso. – Também te disse que a procurasse! – gritou Carrie. – Vá procurá-la! Vá procurá-la! Grace! Grace! – Cale-se! Deixe-me pensar! – gritou Laura. esganiçadamente. um som abafadiço. 88 .vegetação do pântano batida pelo vento.

É muito grande e tem o fundo todo coberto por montões de violetas. macia. Grace . a relva fustigava-lhe. – Ande. Não havia nada. um lugar assim não se pode dever ao acaso. poderia ser. de violetas que cobriam o fundo plano de um grande buraco redondo. – mas as tuas fadas eram animais grandes e feios. é toda da mesma altura. para colher mais violetas. chamando: – Pa! Ma! Ela está aqui! Continuou chamando até o pai a ouvir e gritar por sua vez à mãe. nada a não ser relva e flores a oscilar ao sol.30. Fitou em Laura os grandes olhos tão azuis como violetas. – Pa. Grace. Esse lugar é um antigo chafurdo de búfalos. – mas são violetas reais e não há fadas. naquele buraco redondo e fundo. – admitiu a mãe. de tal maneira que quase caiu por uma pequena ribanceira íngreme. palavra – protestou Laura. Se ela fosse pequenina e andasse brincando sozinha. Laura. – Já és muito crescida para acreditar em fadas. desgrenhados e sujos de lodo. Os gritos do pai e da mãe. para sul. Voavam borboletas por cima das violetas. com chifres na cabeça e corcovas nas costas. – Perfumam a casa toda. – Onde a encontraste. ora ajudando-a a andar. tentando recuperar o fôlego. subiu a correr uma encosta baixa.. não são violetas vulgares. a toda a sua volta. a leste ou a sul desta odiosa campina!” – Grace! A horrível e ensolarada campina era tão grande! Seria impossível encontrar um bebê que nela se perdesse. porque não te vigiei?! Linda. Ali. Qualquer coisa o fez. à volta. O sol brilhava-lhe no cabelo dourado. Grace debruçou-se por cima do seu braço. não deves encorajar tais fantasias. pois Grace tinha quase três anos e era pesada. Grace andava tão devagar que durante um bocadinho Laura a levou ao colo. – Num. Assim. Sentia-se sem ar e estava tonta. realmente. não iria para o lodo e para a vegetação alta. muito embrenhada na vegetação alta. Grace devia ter ido para aquele lado. o vento quase não perturbava a fragrância das violetas. não parece real. Continuou correndo e. – Laura hesitou.. como sabes. ora andando com ela no colo. Laura tinha dificuldade em respirar. enquanto ajudava Grace a subir. – Charles. Búfalos são gado selvagem. Pegou as violetas que a irmã lhe dera e deu-lhe a mão. juntos. Continuou correndo. continuavam vindos do Grande Pântano. não estava lá. Eram gritos finos. – Temos que ir para casa. Laura levantou-se e levantou também Grace.. Laura? – perguntou a mãe. perdidos na enorme imensidão da campina. Sobre as flores esvoaçavam borboletas. “Oh. não foram mãos humanas que fizeram esse lugar. Grace estava ali.– disse. o terreno desceu à sua frente. A seguir voltou a lhe pegar. irmãzinha. sem fôlego e com uma dor no peito. – disse o pai. nada. saíram do Grande Pântano e subiram devagarinho para a cabana. chamando-a. Olhou ao redor da pequena cavidade. – e vejam como as violetas cheiram bem. não iria para o Grande Pântano escuro. Estavam rodeadas de uma quantidade infinita de violetas que se abriam sobre as folhas baixas e largas. sentia dores aos lados. Não podia ter ido para o Grande Pântano! Não subiria a colina. muito cansados e cheios de gratidão. voando ao vento. Nada. pequenina irmã indefesa!” – Grace! Grace! – chamou. Toda a extensão daquele lago de violetas. como as violetas que lhe enchiam as mãos. Onde crescem violetas LAURA corria diretamente. não havia nem um ponto de sombra na campina plana. chegou à cabana e entregou-a a Mary. “Oh. não te vejo em lado algum. Não havia um arbusto nem uma moita atrás dos quais Grace pudesse estar escondida. Estava ali sentada num grande charco de azul. ao mesmo tempo que pegava em Grace e se deixava cair na cadeira. os pés descalços. Talvez atrás de uma borboleta. Depois deixou-a andar. Laura – disse a mãe. Lentamente. as margens relvosas subiam quase a pique para o nível da campina. Estendeu-as a Laura e disse: – Cheira bem! Cheira bem! Laura deixou-se cair e pegou na irmã. 89 . – Tens razão. de súbito. Pegou-lhe com cuidado. Depois correu para o Grande Pântano. – Mas não é. Escavam o chão e chafurdam na poeira. Pa. sob as costelas. não vemos nada que indique a sua presença até chegarmos mesmo à sua beira. um anel de fadas? É perfeitamente redondo e o fundo perfeitamente plano.. A encosta. por cima via-se o céu e a toda a volta havia paredes de vegetação. O sol estava quente. pensou Laura. perdidos no vento.

Com o tempo. que estava debaixo da cama. e as batatas escorridas e farinhentas na panela. – os olhos da mãe sorriram-lhe e ele disse a Laura: – Podia cantar uma cantiga acerca daquela ferradura. Laura lavou a louça e Carrie secou-a. também continuava sem um arranhão e até parecia mais brilhante do que quando era nova. por cima delas. – disse o pai. Carolina. enquanto o pai a enterrava firmemente. Pa? – perguntou Laura. – só falta uma coisa. Carolina – prontificou-se o pai. Chafurdaram o chão e o vento levava a terra solta. havia tanto tempo.” – Porquê. Cuidadosamente. Laura levou a tina para os fundos da casa. Mary. A mãe instalou-se na sua cadeira. é verdade. O pai colocou a espingarda e a caçadeira por cima da porta e depois. Iiam sempre para os mesmos lugares e. que dia! Nem tive tempo de pregar o prego para a peanha. Uma terra onde pastaram tantos búfalos deve ser região boa para gado. deu alguns passos e despejou a água por cima da relva. – Eu trato disso assim que beber o meu chá. a fim de o sol do dia seguinte a secar. Meu Deus.. Grace era a única que tinha fome. O nosso lar é feliz. as manadas de búfalos tiveram esses lugares de chafurdo. Charles – disse a mãe. Afastamo-nos de todos os cuidados..exatamente como o gado. E a peanha que o pai fizera como presente de Natal para a mãe. alegre e luminoso. Espero que você e a Carrie não tenham deixado queimar os biscoitos. Mantém a ferradura sobre a porta! Dar-te-á sorte. – Bem. “Durante séculos. a saia de porcelana continuava larga e branca. o corpete justo de porcelana e o cabelo dourado estavam tão brilhantes como havia muito tempo. – Sim. – agora vai buscar a peanha e a tua pastora de porcelana! – exclamou. estamos contentes e nada mais pedimos. não me surpreenderia se as coisas nos corressem aqui muito bem. de todas as lutas. Depois vinha outra manada e voltava a chafurdar no mesmo lugar. mas isto é apenas um princípio. – Bem. está tudo bem quando acaba bem. e pregou um prego na parede. Teremos uma horta e um pequeno campo e sobretudo cultivaremos feno e criaremos gado. Nunca tivemos uma casa tão pequena como esta. Ma – respondeu Mary. Carrie e Laura deitaram em cada uma um balde cheio de água do poço. Os sapatinhos de porcelana. Se queres ser feliz e livre de cuidados Mantém a ferradura sobre a porta! – Parece-me muito encorajador. Ma – disse Laura. A mãe assim fez e ele pendurou a peanha no prego e pôs-lhe a pastora em cima. prendeu em um prego uma ferradura brilhante. Não vou desenraizar muita relva. – Eu frito a carne de porco e faço o molho. – observou. Tirou o martelo da caixa das ferramentas. Agora os búfalos desapareceram e cresce relva nos seus chafurdos. Laura foi buscar a caixa do violino e o pai sentou-se na soleira da porta e afinou-a. – Não. as faces rosadas e os olhos azuis. – Bem. novinha em folha. Carolina. a olhar em redor. entre a mesa e a cantoneira. A razão porque prosperamos. para embalar Grace e adormecê-la. de qualquer modo. para a cabana cheia e aconchegada – um cavalo pequeno escovase depressa. – Não sei. – Fique sentada e descanse. quando se sentaram à mesa – estamos finalmente instalados na nossa gleba. e já passa muito da hora do almoço. enquanto o pai tocava e cantava: Viajamos contentes pela vida fora e tentamos viver em paz com todos. Relva e violetas. e alegramo-nos quando os amigos nos visitam. Depois de todas as árvores plantadas. aumentaremos as divisões desta casa e talvez venhamos a ter uma parelha para passear e um buggy. – Enfim. para longe. A mãe ajudou Grace a segurar a sua arvorezinha. É porque temos uma ferradura sobre a porta. para se conservarem quentes. Antes de acabarem. ternos como sempre. e Carrie mostrou-lhe os biscoitos embrulhados num pano limpo. – concordou a mãe. Comeram devagar e depois o pai acabou de plantar o quebra-vento. estava na hora de cuidar do jantar. Talvez porque o terreno se tornasse barrento. A louça estava lavada e limpa. eternamente. digo-to agora. As primeiras estrelas 90 . na Grande Floresta.

o ar murmurava sozinho.” 91 . selvagens e eternos. Embora quase não houvesse vento.começavam a furar o céu pálido. “e agora nós somos colonos. Terra. “Os búfalos desapareceram”. Algumas luzes brilhavam. água e céu e ar eram solitários. pensou Laura. na relva. amarelas. mas toda a grande planura estava envolta em sombras. na cidadezinha. Laura quase sabia o que ele dizia.

– É do Grande Pântano. quando os frios ventos do inverno soprassem. – os mosquitos vem de lá. – Ninguém se lembrará de demarcar reservas no Grande Pântano. enquanto ele construía o estábulo a oeste da casa. O pai certificou-se de que não havia mato seco perto das fogueiras abafadas e alimentou-as de modo que durassem toda a noite. O seu zumbir e as suas ferroadas transformavam a noite num tormento. Nessa noite. contra o pequeno monte. Entravam no estábulo e picavam os cavalos. Ao pôr do sol vinham mosquitos do Grande Pântano e ficavam a noite inteira zumbindo. nunca. – nem sempre estará calor suficiente para ficarem ao relento e até no verão pode haver uma tempestade forte. Laura segurou as tábuas. – queixou-se a mãe. acendeu uma fogueira abafada de grama velha e úmida. “Além disso. de quem se der ao trabalho de cortá-lo – respondeu o pai. Mas o pai gostava do Grande Pântano. entravam na pequena casa e picavam todos. Eles precisam de abrigo. a relva da campina também está cheia de mosquitos. Na nossa gleba só há feno de planalto. a mãe pregou tela contra os mosquitos nas janelas. – temos de por tela contra os mosquitos nas janelas e na porta. – Isto assim não pode ser. O pai comprou metros de tela cor-de-rosa e trouxe também da cidade tiras de madeira para uma porta de rede. à noite. para o pai. – disse o pai. a picá-la e a sugar-lhe o sangue. no verão. Mosquitos – TEMOS de construir um estábulo para os cavalos – disse o pai. Depois pregou-a também na moldura da porta e o pai colocou-a. Ali ficaria abrigado de oeste e norte. até ela andar à roda e à roda à volta da estaca da corda.31. e estendeu-lhe as ferramentas e os pregos. Os dias estavam quentes. mas com o Grande Pântano tão perto podemos sempre cortar feno lá e ter todo quanto necessitamos. – Pronto! Creio que assim fica resolvido o problema dos mosquitos. – E a Ellen também. – O gado fica melhor ao ar livre. até se formarem grandes bolas vermelhas na cara e nas mãos. – Há ali hectares e hectares de feno que pode ser. que se espantavam. de graça. Os mosquitos não atravessariam a fumaça. Gostaria que tivéssemos ficado mais longe dele. de modo que a fumaça passasse pela porta do estábulo. Mas eu gosto de ter os cavalos num estábulo. 92 . a enxamear em volta de Ellen. Fez ainda outra fogueira para Ellen se proteger com a sua fumaça e ela foi logo para lá. Hoje vou à cidade e compro uma porção de tela. Pa? – perguntou Laura. Enquanto ele fez a porta.

Laura. Não havia mosquitos que lhes pudessem chegar. ao abrigo da fogueira abafada. As sombras do anoitecer DAVID descansavam sossegadamente no estábulo. Não havia nem uma das “feras” zumbidoras dentro de casa. doce lar. A mãe e Mary balançavam-se suavemente nas sombras. Laura correu a cortina. o jovem Johnny despediu-se da vida por amor de Barbara Allen. Tragame o violino. Laura. cidade onde nasci. com Carrie ao lado. Mas o luar entrava pela janela do lado sul e tocava na cara e nas mãos do pai e no violino. sentada ao lado de Mary. Grace estava deitada. Ellen. ouviu o pai e o violino cantarem suavemente: Lar! Lar! doce. presa à sua corda.32. No alegre mês de maio. quando os rebentos florescem. e teremos um pouco de música. observava tudo e pensava que o luar devia banhar o anel de fadas. – Agora estamos todos bem instalados – disse o pai – finalmente confortáveis na nossa gleba. era o nome dela. E. morava uma linda donzela cortejada por todos os moços dali. por muito humilde que seja não há palácio que se compare! 93 . enquanto o arco passava docemente sobre as cordas. onde cresciam as violetas. Bárbara Allen. ao adormecer ainda pensando em violetas e anéis de fadas e no luar que cobria a terra imensa onde ficava o seu sítio. quando ela e Mary se juntaram a Carrie e Grace no seu minúsculo quartinho. Estava uma noite apropriada para as fadas lá dançarem. com o fumaça a proteger-lhes a porta. estava confortavelmente deitada. pois a rede das janelas e da porta não as deixava entrar. O pai cantava com o violino: SAM E Em Scarlet.

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