1

Gabriel Garcia Márquez Como contar um conto

2

1997 3ª Edição

Casa Jorge Editorial Ltda. Rio de Janeiro-RJ

3

ÍNDICE Prefácio Introdução O enigma do guarda-chuva Ladrão de Sábado

PRIMEIRA PARTE (1ª jornada de trabalho) A dupla, a trinca e a máscara Rumo a outras alternativas (2ª jornada de trabalho) À procura dos limites Sobre o mental e o visual (3ª jornada de trabalho) Em estado de loucura Quando não acontece nada (4ª jornada de trabalho) A morte em Samarra, II O triunfo da vida

SEGUNDA PARTE (5ª jornada de trabalho) História de uma paixão argentina O chamado da selva - O dia em que os argentinos invadiram o mundo - O último tango no Caribe - O inferno tão temido

TERCEIRA PARTE (6ª jornada de trabalho) Recapitulações, I O primeiro violino sempre chega tarde História de uma vingança (7ª jornada de trabalho)

4

Sidália e Belinda .Epílogo O Elogio da cordura 5 .Travesti Love . II Amores equivocados .Recapitulações.

México. mas no sentido de que o cinema será sempre novo quando um jovem latino-americano disparar a câmara afirmando ou buscando sua identidade. os quatro se reuniram em Havana para discutir a criação de outra escola de cinema.PREFÁCIO Nos anos 50. com sedes em Cuba. não no sentido do iluminado movimento dos anos 60. um projeto ousado e difícil: montar um espaço de formação de telecineastas que fosse também uma “central de energia criadora”. inebriante e tirana de inventar romances e contos. caipira costa atlântica da Colômbia. sua paixão de adolescente. apesar da dedicação compulsiva. que desempenhariam papéis fundamentais na eclosão do Nuevo Cine (Cinema Novo). Entre os colegas mais chegados ao Gabo (creio que aí ganhou o apelido) estavam os cubanos Tomás Gutiérrez Alea e Julio García Espinosa e o argentino Fernando Birri. Escreveu roteiros para filmes mexicanos e desejou que sua literatura fosse transcodificada à tela. a realização de trinta filmes. no Centro Sperimentale di Cinematografia. fomento à produção (viabilizou. Era a época mais brilhante do Centro Sperimentale. Uma escola do Cinema Novo. foi estudar cinema em Roma. de braços com outros “trabalhadores da luz” do continente (o Comitê de Cineastas Latino-americanos). de Perón e de Cem Anos de Solidão). Os velhos amigos do Centro Sperimentale. para romper os atavismos que o amarravam a Aracataca e começar a aventura de andarilho que o levaria a palmilhar a Terra e outras dimensões da realidade. Colômbia e Venezuela. Montou a Fundación del Nuevo Cine Latinoamericano. Esta terceira linha de atividade é a Escuela 6 . concordaram que aquele era o momento para materializar um sonho antigo. como definiu Birri. Foi a porta escolhida para entrar no mundo grande. com Zavattini e Rossellini circulando pelas salas de aula e pelos corredores e o neo-realismo enchendo as telas com sua ternura e formatando cabeças jovens. Durante este tempo García Márquez não havia conseguido nem querido afastar-se do cinema. telesséries e vídeos) e capacitação. o mais importante movimento cinematográfico da América Latina. em oito anos de existência. e três linhas de atividade: pesquisa (levantamento de todas as informações referentes à expressão audiovisual do continente). Gabriel García Márquez. nada a ver com continuismo ou dirigismo. García Márquez liderou o processo de implantação. Trinta anos depois (depois da Revolução Cubana.

Trabalhamos nas últimos anos na mesma área da escola (Dramaturgia e Roteiro) e por isso estive presente em muitas sessões destes workshops de idéias e articulação dramática de idéias. o homem meteria tudo o que ganha na escola de San Antonio. sua mulher. este inclusive. com a liberdade e o espírito aquariano que campeiam neste laboratório de criação audiovisual. Não por isto. O menino é mesmo pai do homem. Este livro é o resumo da gravação de uma destas oficinas. também conhecida como Escola de Três Mundos porque seu curso mais importante é dedicado a jovens de África. noites de autógrafos e outras atividades). Para participar de momentos mágicos. Ásia e América Latina/Caribe (de qualquer maneira. Para materializar o sonho antigo. Dizem que se não fosse por Mercedes. doou seu prêmio Nobel para a nova escola. assessorando roteiros para os filmes de fim de curso. são destinados à escola. agora famoso e intenso. mas principalmente para ser seu professor. na membrana dos neurônios. magrinho e vibrátil. e da oficina anual Como se cuenta un cuento. onde se põe em prática a tênue e escorregadia ciência da narratividade. A indiscrição familiar nos dá uma medida do envolvimento de García Márquez com esta instituição. O processo das oficinas é simples e instigante: os alunos sugerem idéias. neste cultivar de talentos e inquietações plantado às margens do rio Ariguanabo. A escola de San Antonio é sua casa. destinada a roteiristas e escritores de língua espanhola e portuguesa. conferências. em seguida. os direitos autorais de alguns de seus livros. de instituições internacionais e pessoas. mas para peruar mesmo. em Cuba. Uma boa provocação seria dizer que de destinou tanto esforço e dinheiro não apenas para proporcionar saber e estímulo às novas gerações de telecineastas ou ter seu nome ligado ao que muitos consideram a melhor escola de cine/tv do mundo. o calor que se desprende do ato de criação de García Márquez. o professor abre várias portas desenvolvimento dramático 7 . e recorrente. de empresas. com o apoio oficial de outros países. a bem da verdade. com quem mantém encontros ao longo do ano. bem como os ganhos auferidos em entrevistas. Não foi o bastante e aquele estudante colombiano de cinema em Roma. aí sua alma se alimenta do pólen da juventude e das interrogações e floresce com a alegria da eterna primavera. que sabe cuidar destas coisas e do futuro da família.Internacional de Cine y Televisión de San Antonio de los Baños. Professor dos alunos avançados do curso de formação. para sentir na pele. García Márquez e seus amigos cineastas contaram com a decisiva contribuição do Estado cubano e.

fecha outras. 8 . Este livro pode revelar um pouco deste desnudamento do filho/pai de Macondo. lhes abençoe. Cuba. desencontram e tornam a encontrar articulações. deus da beleza e do cinema. Se não se sentirem saciados. norteamentos. Orlando Senna * San Antonio de los Baños. pensante. García Márquez é uma bússola viva. que lhes levem a um drama. Universidade Estadual do Norte Fluminense. de sua imaginação prodigiosa. movendo-se na superfície e nas profundezas de sua galáxia interior. setembro de 1994 * Ex-diretor geral da Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños. que Oxumaré. Serpente Arco-íris. e outras deixa apenas encostadas. pulsante.destas idéias. a uma emoção. atualmente diretor da Escola Brasileira de Cinema e Televisão de Campos. se forem aceitos. Neste redemoinho de possibilidades os autores das idéias encontram. inscrevam-se para a próxima oficina e.

E feito uma flechada. na televisão. e de repente descobrimos uma coisa: as televisões pagam muito mal. Mas.Vou contar a vocês como é que tudo começou. mesmo que seja de um só . ou seja. o papel vale quase nada. No fim. me levaram catorze idéias. Cheguei. na Oficina. que agora estamos pensando em fazer mil meias-horas. outra de mistério. porque havíamos tentado escrever histórias de uma hora de duração. fui até lá e disse aos alunos: “Precisamos de treze histórias de amor. outra de horror..ou de uma só. Oferecemos as treze histórias a diversas emissoras. de treze em treze. bem entendido: na verdade quase todos os nossos alunos são mulheres -. O trabalho acabou sendo tão divertido. e não tinha saído nada. só uma pessoa escreve a história: ou a mesma que a pensou. a tarefa tem de ser de um só. só para começar.. Um belo dia. E. 9 . ou outra pessoa da Oficina. Saímos por aí oferecendo esse trabalho e nos disseram que comprariam. Queriam me pedir treze histórias de amor passadas na América Latina. mas na hora de escrever o roteiro. que a idéia. Isso. recebi um telefonema de um canal de televisão. e no futuro continuar com outras séries parecidas: uma cômica. Porque é claro que as linhas gerais da história podem ser elaboradas coletivamente. de comum acordo.. acaba sendo a coisa mais humilhante do mundo: significa que você está se transformando em uma mercadoria.INTRODUÇÃO O enigma do guarda-chuva GARCÍA MÁRQUEZ .. então. no dia seguinte. seja desenvolvida com a participação de todos. Decidimos então criar uma empresa produtora.. E sempre trabalhando em grupo. E pusemos mãos à obra.. Acerta ou não acerta. desde que meu nome aparecesse nos créditos. de meia hora cada uma”. dando crédito a cada autor mas encabeçando cada história com um letreiro dizendo: “A Oficina de García Márquez. uma atrás da outra. realizar as treze histórias. Como eu tinha uma Oficina de Roteiros no México. à conclusão de que meia hora era o formato ideal. Percebemos que. Foi uma coisa surpreendente.”. que pode parecer muito agradável e lisonjeiro. para poder vender o produto acabado. afinal. Decidimos fazer a série com treze histórias de amor. o que fazer? Resolvemos.

Quando acharmos que alguma coisa não estiver direita. de gente que tenha passado por esta Oficina da Escola: gente que não se assuste com nada. de frio ou do que for desde que seja capaz de fazer uma coisa que não pode ser vista nem tocada. que faz com que o simples desejo de contar histórias se transforme numa paixão. e depois as continuaremos na Oficina do México. Que tipo de mistério é esse. folheando uma revista Life. aparece a imperatriz.. e mais ao fundo ainda. tornei-me um viciado no trabalho coletivo.a Escola Internacional de Cine e Televisão de San Antonio de los Baños o dinheiro que será arrecadado com a venda dos filmes. Vi essa foto maravilhosa e a primeira coisa que me veio ao coração foi que ali havia uma história. encontrei uma fotografia enorme. com um véu negro e um guarda-chuva negro. Iremos desenvolvendo as histórias na Oficina que dirijo todos os anos aqui na Escola.Portanto. me desfiz completamente dos guardas vestidos de branco. e no centro da foto. É uma foto do enterro de Hiroíto. e a agir como se estivéssemos fazendo terapia de grupo. e que afinal. Mas nesse meio tempo. a esposa de Akihito. o momento exato em que uma história surge. dando voltas. morrer de fome. li um sem-fim de conclusões.. Ao fundo. é preciso opinar com absoluta franqueza. Uma história que. tive a ilusão de estar acreditando . o que estou propondo é. aparecem os guardas com suas capas brancas. em resumo. vamos dizer: É preciso aprender a dizer a verdade cara a cara. Mas agora acho cada vez mais difícil que isso aconteça. totalmente vestida de negro. a que a fotografia está contando. Dia desses. Nada. Principalmente. coletivamente. Não consigo saber quando isso acontece. claro. que já esteja curada do medo. virou um vício. aparece a nova imperatriz. solitária e muito magra. Já eliminei o fundo. Desde que comecei a dirigir estas oficinas ouvi inúmeras gravações. não serve para nada? Algumas vezes acreditei . das pessoas. mas outra: uma história de meia hora. 10 . Está chovendo. o mistério da criação. o seguinte: vamos fazer meias-horas e destinar a esta escola aqui . não é a da morte do imperador. tentando ver se descubro o momento exato em que a idéia surge. Fiquei com essa idéia na cabeça. Porque em uma Oficina como esta.que ia descobrir de repente. a multidão com guarda-chuvas. A coisa mais importante deste mundo é o processo de criação.ou melhor. num segundo plano. Esta coisa de inventar histórias em grupo. fora de foco. Nela. pensando bem. e ela continuou lá. e que um ser humano seja capaz de morrer por essa paixão. jornais e pedaços de pano na cabeça.

Hugo. porque ela nunca mais seria a mesma. Quando Consuelo apresentou essa história na Oficina. E então. a casa fica afastada. é noite. Acontece que a menina vê a ladrão. fica pensando. Hugo pensa: “Por que ir embora correndo. Acho também que é mais fácil ler esse roteiro do que tentar contar essa mesma história com nossas próprias palavras. mas logo descartei também. Ana. pois o marido . Um momento: eu não tinha percebido que já tenho aqui uma meia-hora. porque Hugo cortou os fios do telefone. e ele a conquista com alguns truques de mágico. o ladrão que durante a semana é vigia em um 11 . Mas não pode fazer muita coisa. chamava-se Ladrão de Noite. Agora se chama Ladrão de Sábado. E quero deixar bem claro que não vou criar nenhuma armadilha para forçar esse encontro. Poderia ficar o fim de semana inteiro e aproveitar a situação. de um jeito ou de outro. entra numa casa. Durante o jantar. enquanto prepara o jantar em um jeito de arrancar o sujeito da casa. porque sem música não dá para viver. calça os chinelos do dono da casa e pede a Ana que cozinhe alguma coisa. Estou absolutamente convencido de que existe uma história nesse guarda-chuva. se aqui está tão bom?”. Mas nosso objetivo são os filmes de meia hora. Estou pensando: se nós lermos essa história. a única coisa que me ficou foi o guarda-chuva. seu título definitivo. Tenho a impressão de que. eu proporia a vocês que partíssemos desse guarda-chuva para tentarmos fazer um longa-metragem.. Se a nossa Oficina tivesse uma finalidade diferente da que tem. Ameaçada por uma pistola. uma mulher bela que tem trinta anos e também uma insônia sem remédio.Por um momento. e ninguém vai passar por ali. que tire vinho da adega e ponha alguma música para o jantar. É um roteiro de Consuelo Garrido. O ladrão não pensa muito.. preocupada com Pauli. vamos acabar encontrando o tal guarda-chuva no caminho.ele sabe porque vigiou antes – só volta da sua viagem de negócios na noite de domingo. Vamos lá: alguém aí é voluntário para ler este roteiro em voz alta? Ladrão de Sábado Na noite de um sábado. um ladrão que só rouba nos fins de semana. a filha de três anos. Ana. a dona da casa. fiquei unicamente com a imagem da imperatriz debaixo da chuva. descobre Hugo em plena ação: flagrante total. a mulher entrega todas as jóias e coisas de valor. e pede ao ladrão que não se aproxime de Pauli. vai ser mais fácil saber o que queremos fazer.

os três ficam juntos. dá alguns conselhos sobre como impedir que ladrões entrem na casa. Mas agora é tarde: o remédio para dormir já está no copo e o ladrão está bebendo. um ritmo que a fascina. ela diz. Agora. enquanto a noite cai. Hugo e Pauli brincam. dançando pelas ruas do bairro. Hugo conserta as janelas e o telefone. adorou o jeito daquele ladrão preparar o café da manhã. o programa de música popular que escuta todas as noites. Hugo fica nervoso. aos gritos. sem falta. e enquanto escutam Benny Moré cantando Cómo fue. e se despede das duas com um bocado de tristeza. olhando fixo para os olhos dele. e aplaude. pois ele se comporta com tranqüilidade e não tem a menor intenção de feri-la ou violentála. Ana fica surpresa ao ver como os dois se dão bem. E. passa por ali uma amiga de Ana. O ladrão de sábado vai embora feliz. Nesse momento. descobre que Ana é a apresentadora de seu programa de rádio favorito. e os dois se encaixam tão bem que ficam dançando até o meio da tarde. e assovia. Ana desperta em seu quarto. para desfrutar do domingo. e finalmente adormece. pensando bem. No jardim. que cai num sono profundo. os dois acabam estendidos num sofá da sala. depois de um bom café da manhã. é um Deus-nos-acuda: está na hora de o marido voltar: Embora Ana resista. falam de música e de músicos. Ana se arrepende de ter posto Hugo fora do ar. ela o chama. Quando Hugo está quase desaparecendo. o tal ladrão é bastante atraente. Assim. Pauli os observa.banco. feliz da vida. Ana o vê afastar-se. 12 . que no próximo fim de semana seu marido vai viajar de novo. Exaustos. Hugo acaba devolvendo a ela quase tudo que havia roubado. E quando Hugo regressa. e nunca tem com quem. Só que houve um tremendo engano: quem toma o copo com o remédio para dormir é a própria Ana. que quebrou na noite anterior. Ana nota que ele dança muito bem. Ana começa a sentir uma estranha felicidade. Ele a convida. mas Ana inventa que a menina está adoentada e rapidamente despede a amiga. Na manhã seguinte. ela que adora dançar o danzón. Além disso. completamente vestida e bem abrigada por um cobertor. convidando-a para correr um pouco. Hugo é seu admirador.

PRIMEIRA PARTE

PRIMEIRA JORNARDA DE TRABALHO

A dupla, a trinca e a máscara GARCÍA MÁRQUEZ - Bem, vamos lá: está na hora de retalhar Ladrão de Sábado... MARCOS - Foi escrita por uma mulher. Deixa uma sensação, sem menor dúvida, de ser feminina. GARCÍA MÁRQUEZ- Você teria percebido isso se não soubesse antes? MARCOS - Teria. GARCÍA MÁRQUEZ - Pela impressão geral, ou por algum detalhe em particular? MARCOS - Desde o começo, senti uma espécie de angústia. Isso está nas sensações da mulher. GARCÍA MÁRQUEZ - Consuelo vai gostar de saber disso. Porque é verdade, a história é contada do ponto de vista de uma mulher. A protagonista é ela. Talvez não seja a melhor das histórias que foram apresentadas aqui, mas acho que é a mais exemplar: É mais ou menos, o que queremos fazer. Primeiro, é “comercial”. Dá para saber que a maioria dos espectadores vai gostar: Aliás, o empresário da Televisão decidiu comprar essa história. Vai agradar e terá qualidade, será bem filmada. Certa noite levamos um susto. Um dos alunos telefonou para a minha casa. “Ligue no canal 5” - disse ele. “Estão passando a história da Consuelo, inteirinha”. Ligo no canal 5 e vejo um sujeito tomando um banho de banheira, cheia de espuma... Era um filme de Hitchcock! Sábado, sete e meia da noite, e para mim, o mundo desmoronou. “Como é possível?”, eu me perguntava. “O que será que aconteceu com a Consuelo? Como é que fizeram essa história, igualzinha à dela?”. Mas era um alarme falso. Conforme o filme avançava, percebi que não tinha nada a ver com a outra história. Sempre que eu ligo a televisão para ver um filme, tenho a esperança de que seja um bom filme:. Mas, naquela noite, queria que o filme fosse ruim, que fosse a pior droga do mundo. Até que percebi que era outra coisa: não era um ladrão que entrava numa casa

13

para roubar, e sim um fugitivo, um sujeito que tinha escapado da cadeia e que mantinha a protagonista debaixo de terror e no fim ela, tentando evitar que aquele homem a matasse, fingia obedecer... Quando afinal o sujeito sai da casa, a polícia está lá fora, esperando. Ele enfrenta a polícia e... ufa!, que alívio... que descanso!... Nada a ver: Mas tomamos certos cuidados. Logo de saída, cortamos a cena do banho. Morri de pena. É bonito alguém tomando banho. Poderíamos ter conservado aquela cena. Na verdade, é muito difícil encontrar uma história que não seja parecida, de uma forma ou de outra, há muitas histórias conhecidas. Acabamos eliminando a tal cena. A realidade, aliás, estendeu outra armadilha para mim, quando eu estava escrevendo O Outono do Patriarca. Eu havia imaginado um atentado que não parecia nenhum dos atentados habituais: colocavam uma carga de dinamite no porta-malas de um automóvel. A mulher do ditador apanhava o carro para ir fazer compras, e no caminho o automóvel explodia e ela ia parar no telhado do mercado. Fiquei tranqüilo com a imagem do carro voando pelos ares porque, francamente, achei que era muito original. Pois não é que, três ou quatro meses mais tarde, fazem um atentado exatamente igual, contra o almirante Carrero Blanco, na Espanha? Fiquei furioso. Todo mundo sabia que eu estava escrevendo a história em Barcelona, e naquela mesma época; ninguém iria acreditar que eu tinha tido a mesma idéia muito antes. O jeito foi inventar um atentado completamente diferente: levam ao mercado alguns cachorros sanguinários, especialmente. treinados, e quando a mulher do ditador chega, os cães se lançam em cima dela e a despedaçam. Depois, fiquei contente por terem estropiado o atentado do automóvel. Até hoje fico alegre com isso. O dos cães é mais original ainda, e está mais dentro do espírito do meu livro. Eu até acho que não devemos nos preocupar muito com isso: se uma cena não funciona ou cai, o que se há de fazer? Procurar outra. O curioso é que, na maior parte das vezes, a gente acaba encontrando outra melhor. Se tivéssemos ficado com a primeira, teríamos perdido. O problema é mais sério quando a gente encontra, logo de saída, a melhor. Aí sim, não tem jeito. Mas, como saber? É a mesma coisa que descobrir se a sopa ficou pronta. Ninguém pode saber, a não ser provando. Mas voltando às semelhanças, vemos deixar que elas nos assustem, desde que não se relacionem com aspectos essenciais da história. Porque a verdade é que existem histórias muito diferentes e que, no entanto, têm muitas coisas em comum.

14

É preciso aprender a jogar fora. A gente conhece um bom escritor não tanto pelo que ele publica, mas pelo que joga no lixo. Os outros não ficam sabendo, mas o escritor sim: ele sabe o que joga fora, o que vai deixando de lado e o que vai aproveitando. Se o escritor se desfaz do que está escrevendo, está no bom caminho. Para escrever, o escritor tem de estar convencido de que é melhor que Cervantes; senão acaba sendo pior do que na verdade é. É preciso apontar para o alto e tentar chegar longe. E é preciso ter critério, e coragem, é claro, para riscar o que deve ser riscado e para ouvir opiniões e refletir seriamente sobre elas. Um passo a mais, e já estaremos em condição de pôr em dúvida e submeter à prova até mesmo aquelas coisas que nos parecem boas. E tem mais: mesmo que todo mundo ache que essas coisas são realmente boas, o escritor precisa ser capaz de colocá-las em dúvida. Não é fácil. A primeira reação que tenho, quando começo a suspeitar que devo rasgar uma página, é uma reação defensiva: “Como é que vou rasgar isso, se é o que mais gosto?”. Mas é preciso examinar bem e se a gente chegar à conclusão de que, realmente, não funcionava dentro da história, está desajustando a estrutura, contradizendo o caráter do personagem, indo por outro caminho... bem, aí não tem jeito, é preciso rasgar mesmo. Isso dói na alma da gente... no primeiro dia. No dia seguinte, dói menos; dois dias depois, um pouco menos; três dias, menos ainda; e no quarto dia, a gente nem se lembra mais... Só é preciso tomar cuidado com a tendência a guardar em vez de rasgar, porque existe o perigo, se o material rejeitado estiver à mão, de a gente tornar a pegá-lo para ver se “cabe” em algum outro momento. É difícil enfrentar essa encruzilhada sozinho. Aqui, na Oficina, é isso o que torna o trabalho do roteirista diferente. A história é elaborada entre todos nós, mas o roteirista está só e é ele, sozinho, que tem de escolher: O trabalho do roteirista não exige apenas esse nível de perspicácia. Exige também uma grande humildade. A gente, como roteirista, sabe que está numa posição subalterna em relação ao diretor. O roteirista é o amanuense do diretor, ou pelo menos, alguém que está ajudando o diretor a pensar: A história é do roterista, sim; mas o roteirista sabe que no fim, quando passar para a tela, ela será do diretor. Nunca vi, na tela, um único fotograma que eu possa dizer que seja meu. Não sei quantos roteiros fiz, uns bons, outros ruins, e no fim, o que vejo na tela nunca é o que eu tinha na cabeça. Sempre imaginava os enquadramentos completamente diferentes. As vezes, me esmerava indicando ao diretor, através de desenhos, a forma em que eu via o enquadramento ou a cena. “Olha aqui”dizia - “a câmera está aqui; este personagem está em primeiro plano, e este

15

outro, está de costas; se a câmera se mover para cá, o outro personagem aparece ao fundo...”. Ia ver o filme e, na verdade, os enquadramentos eram completamente diferentes; o diretor havia criado a cena à sua maneira. Se alguém quiser ser roteirista e continuar sendo roteirista, tem de respeitar isso. Quase todos os roteiristas sonham ser diretores, e acho isso muito bom, porque todo diretor deveria ser capaz de escrever um roteiro. O ideal seria que a versão final um roteiro fosse escrita a quatro mãos, pelo diretor e pelo roteirista. E já que estamos falando de trabalho em dupla, falemos também do trabalho a três. Estou me referindo ao produtor: Insisti para que a Escola trate de incluir entre seus planos um curso de Produção Criativa. Todo mundo costuma achar que produtor é o sujeito que existe para evitar que o diretor gaste o dinheiro antes do tempo. É um tremendo erro. Muitas vezes, a gente percebe que determinado filme é ruim porque o trabalho de produção falhou. Faz pouco tempo, soube de um produtor que estava feliz da vida porque tinha obrigado o diretor a se submeter a um orçamento rígido... e quando assisti o filme, vi o que ele havia conseguido com isso. Em vez de dois atores de primeira, A e B, que tinham sido indicados, o diretor precisou usar C e D, dois atores mais baratos... em todos os sentidos. O resultado estava na cara. A falta de dinheiro aparecia por tudo que é canto e, de fato, acabou com o filme. O barato saiu caro, como costuma acontecer. O produtor deve saber que ele não é simplesmente um empresário, um financista; seu trabalho requer imaginação e iniciativa, numa dose de criatividade sem a qual um filme perde o pé. Quando alguém se empenha em escrever um roteiro, não deve desanimar diante dos obstáculos. E preciso colocar a honra do roteirista na frente do destino do roteirista. É preciso tentar escrever roteiros ótimos, mesmo que depois o diretor faça barbaridades com ele. E repito: para fazer um bom roteiro, o único remédio é apagar, riscar muitas linhas, e jogar muitos papéis fora. Isso é o que a gente chama de sentido crítico, aquilo que Hemingway chamava de shit-detector. O diretor com quem melhor trabalho é Ruy Guerra, porque não se sente constrangido comigo: me diz com toda franqueza o que tem a dizer, e ponto final. E eu também sou assim com Ruy. Tenho um enorme respeito por ele como diretor e criador, mas isso não me impede de falar francamente. O que não presta, não presta; e é preciso jogar fora, seja de quem for. O assunto se resume nisso: é preciso evitar que chegue à tela. Gosto de Ladrão de Sábado porque é um roteiro muito original, embora não pareça: não me lembro de ter lido essa história antes, nem de ter visto essa

16

Eu acho que uma das virtudes deste roteiro é a sutileza com que o gênero é estabelecido. Depois. em si. o sujeito vai embora.história. veríamos o personagem como uma fera. o importante é conseguir descobrila. vai: faz o que todos nós 17 . Ele tira um objeto que estava oculto. na primeira seqüência. A mulher vê pelo espelho que o sujeito é um tremendo gato. Ainda bem que cada um de nós leva. Eu percebi isso na cena do espelho. um prestidigitador. sua própria técnica. uma espécie de pequeno argentino que vai nos dizendo o que temos de fazer. e que não tem nada a ver com a casa. o tom de comédia. ele poderia ir amaciando.. Dá para imaginar o que vai acontecer. e isso é importante. Só que se desde o princípio ficar evidente que ele é bom.Essa história tem muita coisa de comédia.. GARCÍA MÁRQUEZ . e esse é um ponto no qual a gente se engana muito: temos a história e achamos que isso resolve tudo. O ladrão está caracterizado de um jeito que faz com que eu seja partidário até mesmo de que ele use aquela pequena máscara que os ladrões das histórias em quadrinhos usavam. O espectador tem que saber logo de saída se o que está vendo é um drama ou uma comédia..A idéia original é um mágico. O tom de comédia vai sendo imposto gradativamente. Acho mais atraente a gente pensar nele como um bichopapão. pronta para ser passada ao diretor... Outra coisa: a dose é decidida pelo roteirista. porque está bem contado. que a gente acabe num beco sem saída. ou o estilo. A mistura pode vir.A história admitiria esse tipo de recurso. só que quando o ladrão dá de presente a Pauli a pombinha de porcelana. capaz até de matar e que tudo mude quando a menina entrar e começar a relação dela com o ladrão. que ele mesmo havia trazido. Consuelo quis estabelecer. mas de repente começamos a escrever e erramos o tom. Está contado no tom que a história requer. mas não importa. fica claro que ninguém quis esconder que se trata de uma comédia. Pode acontecer com isso.O personagem se apresenta como bonzinho desde o primeiro momento. Mas agora que você está dizendo. desde o começo. Talvez na próxima vez não vá mais.. não há nada que proíba que esse tom seja ressaltado depois. lá dentro.. Acho. mas depois.. Para o roteirista. GARCÍA MÁRQUEZ . só que agora. A gente não pode se enganar nunca ao insinuar o gênero. que esta versão de Ladrão de Sábado é a versão definitiva. Rumo a outras alternativas REYNALDO . REYNALDO . Essa idéia de Papai Noel é ótima. E digo ainda bem porque há muitos métodos para escrever roteiros. enfim. mas na verdade nenhum deles serve: cada história traz. seria lógico que ela notasse que é um objeto da casa. e depois.

Por que não mente? Deveria dar a informação ao contrário.Volto ao tratamento dos personagens. o seguinte: começam a contar uma história que. a estrutura não serve para nada. o tom não serve para nada. Essa coisa de todos os personagens dizendo sempre a verdade: acho mentira. percebem que o material está se esgotando e não sabem o que fazer:. Seria mais interessante que o espectador fosse descobrindo. a precipitar os acontecimentos. Antes.Tudo bem.supúnhamos que ia fazer. A estrutura perde totalmente o equilíbrio (já encontraremos tempo para falar da estrutura). pelas suas previsões. só para ver-nos obrigados. Enquanto não houver o tom. GARCÍA MÁRQUEZ . E um profissional. Isso é gravíssimo. Ana.Eu consigo ver Ana. mas uma coisa me preocupa: o tempo.Não gosto do beijo. corremos o risco de começar como se estivéssemos fazendo um longa-metragem. por sua conta. não há história que sirva. para que depois a gente percebesse que ela mentiu. Ou seja. sua personalidade. Se vamos empacar na caracterização dos personagens. mas olhando bem. Acontece com os romacistas. Estamos falando de meia hora na tela. GLÓRIA . ele teria todas as informações. É natural: na medida em que a história vai se ajustando.E que eu não sinto que ele seja um ladrão profissional. os defeitos vão se tornando mais evidentes. ou de parecer.E se ele já soubesse tudo? Ela diria. confessa: “Não saímos quase nunca”. Ela diria: “Saímos quase todos os dias”. depois. Mas agora não gosto mais. Depois. diz que seu marido chegará no domingo à noite.Eu sinto falta é da descrição de Ana. Uma história de trinta minutos tem suas próprias leis. Ele até gostaria de ser. REYNALDO . por exemplo. enquanto não houver um estilo homogêneo. referindo-se ao marido: “Ele chega amanhã”. para ser exato.. GARCÍA MÁRQUEZ . dividida em partes: 18 . REYNALDO . Desde o começo.. De vinte e sete minutos. GARCÍA MÁRQUEZ .Isso até contribuiria para despertar a admimiração dela. SOCORRO . e no segundo ou terceiro capítulo. Podemos dizer a mesma coisa dos outros elementos. as mentiras da mulher: GARCÍA MÁRQUEZ . gostava. e é preciso saber obedecê-las. e enquanto não houver inspiração. REYNALDO .Eu também não. e o homem contestaria: “Chega domingo”. ele diria: Juntos? Não saem quase nunca”. deveria ter umas quatrocentas páginas.. às vezes. e desse jeito. dá para ver que é apenas um filhinho de papai.

GARCÍA MÁRQUEZ. Ou defendemos as nossas histórias. GARCÍA MÁRQUEZ .A menina tem três anos. e seria muito difícil inventar um tio para ela. E ele.Confesso que não sei direito o que significa ter três anos. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . não pode se deixar arrastar pelas idéias que façam com que ela seja contraditória..Pois eu acho que deveria ter mais.. GARCÍA MÁRQUEZ . quando a convida para correr. De noite.Já está derrotada. quando se levanta. não pára de maquinar sua defesa: telefonar.antes de dormir. nas comédias é preciso perdoar certos lugares-comuns... E não há nada pior do que uma história curta que foi esticada. Por isso a imaginei assim.Só tenho medo é de que essa idéia nos leve diretamente a um longa-metragem.Há um ponto no roteiro em que se estabelece que o ladrão vê Ana “no batente da porta”.. por exemplo. já preparou o café da manhã.Gostei muito da cena da amiga. e me dá a impressão de que no ano que vem ele ainda não vai saber falar.. por sua vez. Mas enfim. SOCORRO. Eu não consigo mesmo é gostar da troca de cálices. Isso não quer dizer que deva ficar do jeito que está. pegar uma faca. E um recurso muito conhecido.. Mas. SOCORRO .... porque as comédias não devem ser levadas muito a sério. VICTORIA . já relaxou. Quero deixar claro que não estou defendendo esta história.. VICTORIA. Uma menina de três anos é difícil de ser dirigida em cena... Tenho um neto que vai fazer dois. A idade da menina. principalmente numa situação como esta. antes de beber o copo de vinho. e não de mudá-la. mas acho que devemos tratar de melhorá-la. SOCORRO. GARCÍA MÁRQUEZ .Nada disso: uma criança de três anos se comunica muito bem.. no dia seguinte. É fácil de conduzir.O problema é que uma menina maior teria mais consciência dos laços familiares. Um roteirista tem de ser mais cuidadoso 19 . preocupada com esse tipo de coisa. ou cedemos à tentação de convertê-las em histórias diferentes. e depois. É típico de uma classe social. de gente de dinheiro.Acho que Ana é casada com alguém de muito dinheiro. A idéia de que ela seja uma locutora de rádio e que tenha um programa popular não me convence.Quando a gente tem uma história nas mãos.

.O roteiro também deveria deixar claro que Ana tem a idéia de usar o remédio para dormir quando abre o armário do banheiro. GARCÍA MÁRQUEZ .... armar os detalhes da préprodução.Insisto: esse negócio da troca de cálices continua me incomodando. E na realidade. se é branca ou negra... Ela não beija o ladrão no batente: beija no vão da porta.. já está claro o seguinte: existem alternativas. A seqüência de ações poderia ser a seguinte: ela vai ao banheiro. quando fecha.. Mas não sabemos qual a sua idade. o vão é o espaço que a porta fecha.E se ela.. na certeza de que ele cairia no sono e ela. que tudo ainda está muito verde. fingiria um ataque de histeria e jogaria o copo no chão. MARCOS . mas será também mais criativo. O batente é onde a porta está presa. loura ou morena. preferisse botar na garrafa? Faria isso confiando na própria resistência. diante de uma situação dessas diria a ela: “Prefiro beber no mesmo copo que você”. se está de pijama ou de roupão.. É preciso dar outra demão. em vez de botar o remédio no copo. Ou pelo menos. GARCÍA MÁRQUEZ . e o que tiver de fazer o break-dowv. e não sabemos como está vestida. abre de novo.E se for ele quem troca os copos? Ela perceberia e. ou seja. e sabe que o remédio faz efeito. o umbral é a parte de baixo. vacila. Essa é uma falha técnica do roteiro. o mais provável é que ele ofereça seu próprio copo. GLÓRIA . não vai saber que vestuário irá precisar. e apanha o remédio. ao se ver forçada a tomar o vinho com o remédio. SOCORRO.com a linguagem. 20 . simpática ou chata..Se ele fosse um verdadeiro profissional.Para mim. abre o armário e quando vai fechar. Mas parece que não tem outro jeito. Se ela está acostumada a tomar remédio para dormir. nada está consolidado.. porque dá para sentir. e seria obrigada a voltar ao banheiro para apanhar outro remédio.. Será mais arbitrário. Então. O coitado do encarregado de arregimentar o elenco vai ficar louco. é a moldura da porta. como quando estamos pintando uma parede e percebemos que falta alguma coisa para chegar á espessura adequada da tinta. Pois bem: tudo que sabemos dela é isso: está no vão da porta. o batente é a estrutura onde a porta está montada. ela teria que servir outro copo para o ladrão. acontece o contrário: ele não dorme. não. VICTORIA . Mas devemos insistir. que ele dormiria primeiro. O dintel é a parte de cima do batente. ela sim. Ou melhor. jamais o tomaria com vinho. GARCÍA MÁRQUEZ .Ou ela procura um pretexto para não ter que beber.Mas se ela fizer isso. na medida em que vamos incorporando elementos. REYNALDO ..

GARCÍA MÁRQUEZ . O espectador sabe que um dos dois está a ponto de cair duro. Não sabemos qual dos copos tem o remédio. É a mais criativa. Será que tem um erro nessa história? Por que será que nenhum dos dois boceja de leve. Nós também não sabemos qual dos dois tomou o copo com o remédio para dormir. Ela não pode dizer “pode deixar. esta proposta parece ser a melhor.. as que fazem a história avançar.. Não sente nenhum gosto estranho.. Pertencem à técnica alguns recursos – onde colocar a câmera. apanha o copo dela. Não me perguntem como. 21 . nem isso? Sim. Ele toma um gole.será muito ouvida aqui na Oficina. ela já não sabe ao certo qual dos copos é o dela.Ela poderia entrar com a bandeja e ele. Mas as idéias fundamentais. – que nos ajudam a dizer da melhor maneira possível o que queremos dizer.. qual sai depois. esta palavra .Achei! Ele já tomou o seu copo.. qual ator entra primeiro. Aliás. enquanto ela se limitaria a molhar os lábios. Ela faz a mesma coisa. Ela trouxe os copos já servidos.Eu acho melhor ele trocar os copos de propósito. SOCORRO. e colocou-os na mesa. O remédio ainda não fez efeito. criativa . dormindo.criativo.Acho que isso é importante: o espectador não sabe qual dos dois copos é o bom.. Mas os dois continuam conversando. O remédio está num deles.SOCORRO . animados. REYNALDO .. ir ao seu encontro: “Com licença”. até que alguém desmorone no chão.E se ela souber que ele gosta de beber? Ele poderia liquidar seu vinho num vupt. Ele se levanta. ao campo da criação. eu sirvo”: tem de ceder. não sabemos em qual. gentil. e como a garrafa não está na mesa. Vamos reservá-la para as soluções que não sejam simplesmente técnicas. E apanha a bandeja.. Torna a beber: Chega o momento em que os dois esvaziaram seus copos. GARCÍA MÁRQUEZ . com muito cuidado. Vamos esquecer o remédio para dormir.

Alguém tem uma boa meia-hora para contar? Ou. Desistimos de chamar os bombeiros. o rapaz e uma moça. Ouvem marteladas.SEGUNDA JORNADA DE TRARALHO À procura dos limites GARCÍA MÁRQUEZ . tira 22 . mas agora sim. Ele se vira sorridente para a moça: “Viu só?”. De repente. já sabem que estamos aqui”. que sofro de claustrofobia. começou o movimento. Já voltamos”. De repente. A moça fica muito nervosa. chamamos os bombeiros. agora ouve-se uma campainha longa. somos dois”. porque quem mais medo sou eu.Vamos ver se a experiência de Ladrão de Sábado nos ajuda a fazer a nossa primeira meia-hora. vamos colocar assim: quem tem menos medo? Não se preocupem. De repente. aí no teto? Solte os parafusos”. é uma campainha que ninguém nunca ouve. Com umas roldanas. já vamos tirar vocês daí”. E então. Lá de cima. Como todo mundo sabe. com um grupo de pessoas. o grupo sai. O rapaz tenta tranqüilizá-la. Se não conseguirmos. mas não conseguimos achar os mecânicos. Existe uma história que quero fazer com o diretor colombiano Lisandro Duque.. está bem?”. já aprendi a me dominar. A história é muito simples. No edifício. isso se resolve depressa. O elevador sobe. E já que ninguém quer quebrar o gelo. torna-se a ouvir a voz lá do alto: “Desculpem. eles conseguirão mover este nosso elevador”.comenta o rapaz. Vamos chamar os mecânicos. Ele vai dirigir o filme. “Devem estar subindo pelo outro elevador” . Vamos lá. o elevador dá um solavanco e pára entre dois andares. ouvem uma voz que vem lá do alto: “Estão aí?” “Sim. veja só.. não tem mais problema. O rapaz grita: “Está começando a esfriar aqui”. Vamos ter de esperar até amanhã. porque eles arrebentariam tudo. uma voz: “Não se preocupem. se vocês preferirem. Mas o tempo passa. Fiquem serenos. e o rapaz comenta: “Pronto. “Não se preocupem. respondem: “Está vendo essa gradezinha da ventilação. Só ficam no elevador que tornou a se movimentar.”. eu mesmo me ofereço como voluntário. O rapaz faz isso. Até eu. ruídos que descem pelo poço do elevador. Ele aperta o botão do alarme. Um rapaz entra num elevador. “Não se preocupe. pára de andar. “A casa de máquinas está lá em cima.

Nova dissolução. o necessário para passar a noite no elevador. esses ruídos. grita. Agora. conseguem que o elevador dê um salto e se detenha no andar seguinte. “Sim.uma plaqueta de metal. existe um colchãozinho. penso que daria até um longa-metragem. No teto. gritam. “Com toda essa poluição. Nas paredes há quadrinhos e vasos com flores. “Mande o volume dois!”. Vocês não ouviram falar daquela história de cocô que também discutimos em outra Oficina? É muito bela.. Você sabia que. São contratos sérios.. no meio da rua?”. Finalmente. então. Os dois se juntam num esforço e fecham a porta. No final. mas tornaram-se exigentes. A história ainda não está desenvolvida. E realmente chega o gravador pelo buraco do teto.. vamos mandar algumas coisas”. “estamos mandando agora mesmo”. uma longa dissolução de imagens. e a moça está grávida outra vez. mas. esses assaltos em plena luz do dia. e fica evidente que são os bombeiros. ele compram merda como adubo? Distribuem uns saquinhos plásticos pelas casas.Você não deixou nenhum detalhe de fora. Claro que entre o rapaz e a moça começa a existir uma relação diferente. respondem lá do alto. GARCÍA MÁRQUEZ . Ele está terminando de ler um livro. O cestinho perde-se lá no alto e demora a voltar com o pedido. de mais familiaridade. no outro. As vezes. A gente aceita tudo. fica o buraco. mas elas irão se ajustando quando começarmos a pensar na história milimetricamente. E com uma corda mandam cobertores. lá de fora. um belo dia tornam a ouvir vozes e ruídos lá no alto. Na manhã seguinte. Mas o tempo passa.Isso está resolvido: saquinhos plásticos. “Esperem.. no Japão... abre a porta e. Gritam: “Que diabos está acontecendo com o gravador? Continuamos sem música!”.. O rapaz e a moça se negam a sair.Tem um problema de credibilidade. senhor”. os dois são acordados por uma voz: “O técnico acaba de chegar: Preparem-se para sair”. e nada. descobre o pequeno paraíso. Num canto do elevador. Falta escrever o processo inteiro. Coloca o livro no cestinho e dá um puxão na corda. MARCOS. Os dois já têm um bebezinho... um fogareirinho. Os dois parecem estar confortavelmente instalados no pequeno espaço..Que nada: ainda existem muitas pontas soltas. e tem exatamente meia 23 . Aquilo é um pequeno paraíso. Alguém.. a moça aparece grávida. e o banheiro? GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS . “Nem pensem em voltar aqui!”. Há. uma cestinha com água e sanduíches.. “Lá para fora?”. e passam para recolher no dia seguinte. para marcar a passagem do tempo. E ponto final. dizem.

encontram amebas em todas as amostras. o sonho de sua vida.ou com o leitor as regras são jogo: n peão é movido assim. Acontece assim: muita gente quer emigrar para os Estados Unidos. às cinco da tarde. A chave do enigma está na grande jogada. todo mundo passa com êxito pela prova das fezes. 35 anos depois. A gente estabelece com o espectador . Felizes da vida. Sobre o mental e o visual CECÍLIA . nunca deixou de amá-lo. Vamos ver se vocês acreditam nela. Um dia. e a vida dela mudou completamente. Assim. A partir do momento em que essas regras são aceitas. você está salvo.De meia hora? 24 . esperando por ela. quais os limites do verossímil. o bispo dessa forma. embora carregando suas amebas.. Como aquela outra. É. E lá está ele. E ao examinar o cocô dessas pessoas. com filhos e netos. a torre desse outro jeito. E o dono desse cocô tem a idéia de vender merda.Tenho uma história. Os dois fugiriam juntos. Em todos.. Pendura o espelho no quarto e de repente descobre que dentro do espelho existe um sujeito. e consegue ir para os Estados Unidos. é preciso passar por exames médicos. É como jogar xadrez. na própria história.hora de duração. o carteiro vai até a casa dela para entregar uma curiosidade: uma carta que foi encontrada no fundo de uma caixa de correio – dessas onde as pessoas colocam a correspondência . ela decide ir ao encontro impossível. Meia hora de amor impossível entre duas pessoas que não podem se encontrar porque vivem em épocas diferentes. Abre e lê: é uma carta crucial. Ela e o homem dos seus sonhos. em pleno século XX. Seu amado marca um encontro no café tal. São mais amplos do que a gente imagina. Ela olha o envelope. sua própria merda.. realmente. Outra meia-hora: a de uma mulher mais velha. Não tem jeito. mas é preciso ser consciente desses limites. Era outra vida. Daria um exemplo perfeito de meia-hora. Ele mora no espelho. Mas um belo dia ele desapareceu. se a gente tentar trocá-las no meio do caminho. A caixa estava lá há 35 anos.. GARCÍA MÁRQUEZ . em pleno século XIX. mas para conseguir. Ela transcorre numa aldeia da Bolívia. menos em um: existe um cocô sem amebas. o único que amou. como tinha feito todas as quartas-feiras às cinco da tarde. o outro jogador não aceitará. Acontece uma série de coisas e no fim. na quarta-feira. e ela mora fora. da moça que compra um espelho do século XIX. embora bem conservada. Se acreditarem na sua história. Quem foi que disse que não existe amores eternos? Eu e interesso muito por esse tipo de história porque permite perceber até onde podemos forçar a realidade. pode continuar jogando sem problemas. para ela. elas passam a ser invioláveis. na verdade.quando reformaram todas as caixas da cidade.

vê que o homem já está vestido e pronto para ir trabalhar. Eu vou levar as crianças para a escola. compara os dados e exclama: “Como é que eu pude fazer isso?”. “Elas me obrigam a fazer coisas que não quero fazer”..Quem obriga. CECÍLIA .. diz.. vemos como ele serve uma colherada e toma. sem nada. esperando que a mulher sirva o jantar: Ela põe na frente dele um prato delicioso. remédios. os números estão mudados. É verdade. “É que está faltando o primeiro ponto!” – grita ele . quem faz? Ele ou as mãos? Porque você está guardando o mistério das mãos. talvez um xarope. O homem é contador. com os filhos. O homem vai se levantar. chega em casa mal-humorado.Vocês irão decidir: E a história de um senhor que um belo dia acorda cedo. seria fazer o corpo inteiro ir se rebelando. No escritório. Tira da escrivaninha um caderno de anotações. na verdade. O homem é bastante hipocondríaco.. se distrair”. E não consegue. “O corpo não me responde”. e a mão não responde. E são números que ele mesmo anotou. vê o homem na cama e pergunta a ele porque ainda não levantou. Ela suspira. O chefe está furioso. GARCÍA MÁRQUEZ . A mulher vem da cozinha. comprimidos.. Diz que não entende nada. Os filhos trocam olhares entre si.O que aconteceu com a mão dele? CECÍLIA. diz. E de repente. Esta noite. mas a mulher impõe silêncio com um gesto. olhando para as próprias mãos. Ele rejeita.. O criadomudo está cheio de frascos. e descobre de repente que perdeu seus reflexos.O corpo inteiro parece fazer coisas estranhas.“É natural que ninguém entenda mais nada!”. Mas admito que é uma 25 . vemos como as mãos saem na direção do prato que ele acaba de recusar. GARCÍA MÁRQUEZ . O homem sai do escritório. “Você tem que descansar.CECÍLIA . até que no final o homem estivesse totalmente dominado pelo corpo.. acha que é um capricho ou uma brincadeira. Na frente dele há um vidro de remédio.O truque. a secretária traz de volta um balancete que ele havia apresentado ao chefe da empresa no dia anterior. O homem ficaria sem trabalho. Adoraria comer tudo. sem família.. “Está vendo só?”. conversa com um amigo. Quando regressa. O homem está sentado à mesa. Quer pegar um copo do criado-mudo. como todos os dias. vão dizer alguma coisa. mas está com o aparelho digestivo paralisado. e isso não dá certo: você tem que soltar esse mistério logo. Mas só desta vez”. Chama a secretária: será que não foi ela quem mudou o original? Ela nega com firmeza. sacode os ombros e diz: “Tudo bem. diz o homem à mulher. O homem percebe que todos. e o amigo o tranqüiliza: “São os nervos”. diz ele. A secretária o faz notar que ele mesmo revisou e assinou o documento.

Tampouco é uma história muito visual.história difícil. como é que vou conseguir?”.. grita. e alguém diz: “E que você está ficando verde”. Com aquela altura. de Kafka? “Certa manhã. Apertar os lábios. CECÍLIA. Você teve de “explicála” para que pudéssemos entender o que acontece. e depois com ele mesmo contando suas experiências. porque a história não é muito visual. faz o que ela quer”.Eu acho que é pouco visual. Gregorio Samsa viu-se convertido em um inseto monstruoso”. 26 . botar a cabeça para trás .Tive essa idéia ouvindo as pessoas dizendo: “Fulana? Ah. GARCÍA MÁRQUEZ . Ele se sente diferente do corpo que lhe coube na roleta da vida. com essa história? Quer contar o quê? CECÍLIA . depois de um sono intranqüilo. GARCÍA MÁRQUEZ .. Ele se vê. Por isso fala-se tanto no filme.O que existe de tremendo em A Metamorfose é que Gregorio Samsa amanhece realmente transformado num enorme inseto. faria isso ou aquilo”. claro. Mas aqui. Não é só a mão: é uma rebelião paulatina do corpo inteiro. Como diferenciar ele do corpo? O que fazer para deixar claro que quem está agindo são suas mãos. essas sensações sobre as quais ele não tem nenhum controle. e que imediatamente isso fica demonstrado. aqui a gente não sabe o que está acontecendo até que o próprio sujeito diz: “Esta mão safada não faz o que eu quero. com um narrador. CECÍLIA . primeiro.. a mulher está acostumada. Não é que ele acha: não é um pesadelo ou uma alucinação. E o que realmente acontece. A idéia é essa. ou vermelho. percebe: “Porra. nós o vemos.Você lembra de A Metamorfose. por ter contado mal a história.. paulatino. GARCÍA MÁRQUEZ . mas pouco a pouco acabam aceitando porque ele sempre foi meio hipocondríaco. CECÍLIA . GARCÍA MÁRQUEZ. Dá para ver. conseguiu esse trabalho de modelo pela figura que tem. o caso é que o tipo fica colorido. Aí essas sensações estranhas são contadas. Acho que a transformaram em filme e foi resolvida. justamente. costuma dizer o homem. “Se eu tivesse outro corpo.E que se trata de um processo lento. ao despertar.Quando for comer. por exemplo. você se propõe a dizer o quê. é esse. não. No começo acaba sendo inacreditável para quem rodeia o homem. Verde. Não é como a história de um camarada que fica verde. ou roxo.. Um dia.. e não ele? ELID . ou melhor quando a mão levar comida à boca do homem.Pode ser que a culpa seja minha.O grande problema da história. “Mas com essa pinta. tanto faz. o que está acontecendo comigo?”. ele teria que resistir feito uma criança.

aquelas pernas. qualquer um consegue”. não é? Uma espécie de dissociação entre o que esse sujeito é e o que gostaria de ter ou de ser. tem muita gente que não está de acordo com o próprio corpo.Eu acho que uma história não existe enquanto não puder ser contada em uma página. Você quer tentar? CECÍLIA.google. nada faz mal. Quando. Minha digestão é muito lenta..Isso ficou claro..”. claro.. eu tenho um estômago que não presta para nada. aquele cabelo .. Já eu ... “. CECÍLIA... Estaria completo. será um prazer recebê‐lo em nosso grupo.aquele corpo. não é?”. Dizem: “Você sim. falando de um jogo de futebol: “Sim.. e além disso a inteligência que tenho.. Se quiser outros títulos nos procure http://groups. Enfim.1 1 Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar o acesso ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras. Existe aí um conflito. 27 .E talvez um pouquinho de dinheiro . só podia mesmo correr. além disso. GARCÍA MÁRQUEZ. fulano jogou bem. Mas com aquela corpulência. GARCÍA MÁRQUEZ . é hipocondríaco .E tem aquele que diz..Até o infinito? GARCÍA MÁRQUEZ .com/group/Viciados_em_Livros. Mas o problema é como concretizar isso visualmente. tem sorte! Pode comer de tudo.. E tem ainda quem acrescente: “Se eu tivesse tudo aquilo.

do começo ao fim. de um longametragem. disse ela. falei para Mercedes. De repente. “Como?”. e de que você o copiou”. A idéia completa. Os filhos moram com o casal. Uma semana mais tarde. o quarto capítulo sumiu. é um gênio. Então. Pode ser a eletrônica. falei comigo mesmo. Alejandro Doria me telefona. e que sem querer tinha rasgado também a cópia do quarto capítulo. e eu ia pondo as folhas em ordem. que você vai acabar me deixando louca”. Pessoalmente. Ela chegou inteirinha. Acende o fogão. “Por favor não faça uma coisa dessas comigo. precisamos de uma história. Continuam a procurando. vamos ter de fotocopiá-lo de novo. “Não faz mal”. Olha só. Atrasado. não gostei do final. Estava com uma atriz que já não é tão jovem. comecei a tirar fotocópias do livro que estava escrevendo. rascunhos. para uma mulher de quarenta anos”. e quando volta o copo não está mais lá. E disse a ele: “Trabalho com você. E sobre uma mulher casada com um cientista. embora eu tenha certeza de ter visto esse capítulo. E ela ficou me olhando. Deixa um copo aqui. de Um Corpo que Cai. pedi a Mercedes que me ajudasse. a mulher começa a perceber que as coisas mudam de lugar. isso ainda não está muito definido. Ele topou. porque vinha de Hitchcok. põe uma panela no fogo. rasguei sem perceber”. Eu disse: Mercedes. Primeiro.Um dia. “Não pode ser. este que estou copiando agora é o quinto”. e quando volta. trabalhando em alguma coisa com Ruy Guerra. não sei. lá de Buenos Aires. Ela ia fotocopiando. reparei que havia estado rasgando papéis. não lembro qual. Eu fiquei furioso: “Como é que você me pede isso. e nada. tive a idéia.TERCEIRA JORNADA DE TRABALHO Em estado de loucura GARCÍA MÁRQUEZ . É verdade que. “aqui está o quarto. A coisa ficou nisso. depois. Pus as cópias bem aqui. e me disse: “Escuta. Eu copiei. “Bom. a panela está em cima de um 28 . E bem nesse momento. como se estivesse encomendando dez metros de pano?”. e não tornei a pensar no assunto. Um belo dia. mas você me ajuda a terminar esta história”. Mas profissionalmente.. sai. em casa. “O Alejandro está precisando disso!”. Eu estava. e depois porque não valia a pena. naquela época. não tem jeito. o quarto capítulo não está aqui”.. mas já são adultos. o marido é um sujeito insignificante.

Mas nota que está perdendo o sentido da realidade. a rua. Tem mais: é ela própria. mas eu ainda não escrevi nada. como espectadores.. Fica alerta. que não precisa mais competir com ninguém. Ela se tranqüiliza. e entrar num acordo com a amante para enlouquecer a sua mulher. é porque ele enlouqueceu.. Assim. Então. A sensação de solidão produz na mulher uma espécie de choque. todo mundo saiu: o marido foi trabalhar. Primeiro.. Essa pessoa começou a pesquisar e chegou à conclusão de que os suicídios tinham três coisas em comum. quando descobre que o marido tem outra mulher. não é mais amante.. A única coisa que ele faz é tentar reviver com a amante os anos em que foi feliz com a mulher.. a última veio antes da primeira: a vida com a amante é anterior à vida com a mulher. todas as suicidas pareciam 29 . principalmente em mulheres da sua idade e que tiveram uma vida muito ocupada. É uma pessoa madura e uma de suas características é justamente a serenidade. Decide consultar uma amiga psiquiatra. Ninguém tem culpa de nada. Ela não serve para nós. que se matavam sem motivo aparente. Demora. ele obtém facilmente o divórcio. algum tempo depois vi. temos mulheres idênticas e casas idênticas. e era o que ele queria: um divórcio sem complicações. aliás. aqui na Oficina. na França. Será que tudo o que ela está vivendo não faz parte de um plano do marido para enlouquecêla? Começa a investigar e descobre que a amante é exatamente igual a ela. no filme. em sua casa. Principalmente ela. A outra se comporia exatamente como ela. Sente-se feliz. Aliás. que diz que aquilo tudo é muito normal. Ela ficou sozinha em casa. Quase que podemos dizer vidas idênticas. Agora. Agora ela virou esposa. que as coisas estão mudando de lugar. parece uma cópia. o casal está feliz. até o dia em que descobre. mas ela consegue se superar. muito séria. Tem uma carreira profissional bem feita. Até um outro dia. mas com uma diferença: para o marido.fogão apagado. Certo dia. E então percebemos que nesse caso aconteceu a mesma coisa de sempre. o que a mulher ainda não sabe: o marido reproduziu sua própria casa na casa da outra. com o argumento da loucura. E sabemos agora. ou seja: quando um marido começa a pensar que sua mulher está louca. As coisas escapam dela. A pesquisa foi realizada por uma pessoa que observou vários casos de mulheres. de casamentos aparentemente bem sucedidos.. as duas serão interpretadas pela mesma atriz. os filhos foram estudar. seu ar grave. que alguém tinha feito um estudo que poderia se chamar As Esposas Felizes se Matam às Seis. porque foi pensada para ser um longa-metragem de pelo menos noventa minutos. mas conseguem. A mulher começa a seguir a amante do marido em seus movimentos cotidianos: o mercado. A história acaba aí.

mas não podemos. 30 . bufando. na sua frente.Num quartinho onde mal cabe um catre. não consegue ver o próprio rosto.e se oculta atrás de um muro. sobe uma escada. tropeça. X sai do banheiro e começa a correr. “O que é isso?”. Numa das paredes há. Temos que passar a outra história. Na banheira. esticado na cama. que chora no berço. insiste. terceiro. É seu filhinho. mas cujo rosto não está coberto por nenhuma máscara. Seu assombro aumenta quando o recém-chegado coloca.. Na verdade. X joga o boneco nas costas e vai ao banheiro. e agora nós o vemos em casa. etc. acenda a luz. desta vez mandando X sair dali. ele tira a máscara mas como não existe espelho. Agora. é a primeira vez que ele. diz ela.. torna-se a ouvir a voz da tela. nesse exato instante.felizes. pegue o boneco. os guardas arrombam a porta aos pontapés. Dali sai um indivíduo que veste o mesmo macacão azul. vê os guardas se aproximando.. percebe que a imagem está vestida com um macacão azul. sai num telhado. Sua mulher está chamando.e vai caindo numa espécie de torpor. espia o berço do bebê – cuja cara. Ouve-se o choro de uma criança. pam!. Veste um macacão azul e tem o rosto coberto por uma máscara. Uma pesquisa posterior permitiu descobrir a razão disso tudo. A de ELID. “está ficando tarde”. para que X contemple o próprio rosto. talvez? Quando não acontece nada ELID .não parece humano . pendurado. encontra outras pessoas todas com o rosto descoberto . Mas a porta que se abre é a de seu verdadeiro quarto. Vamos chamá-lo de X.que começa a dar ordens a X: levante-se. De repente. vê a rosto de outra pessoa. no meio da sua fuga. X fica surpreso ao vê-lo. recorda a do boneco que vimos . nos deter nesse assunto. Abre os olhos. aliás.. chamando os guardas. que deixe de cobrir o rosto. E mais: começa a insultar o ente misterioso da tela da tevê. de repente.. mas não se vê nenhuma imagem. quase ocultos pela cortina. X entra a sai do banheiro. entra a mulher. e por ela. cai. agora. e. um desses gorros que cobrem o rosto inteiro e deixam os olhos à mostra. A voz grita. “Acorde”. que se rebele. esconde-se num quartinho e. X começa a se vestir e quando vai dar o nó na gravata diante do espelho.. Atravessa ruelas desertas. o que o devolve à fuga: mete-se em labirintos de escadarias. junto a uma tela de televisão. o sujeito diz a X que tire a máscara de uma vez. E. segundo. há escombros. um boneco. um sujeito dorme. todas tinham mais de quarenta e cinco anos. aparece na tela um rosto estranhíssimo . Soa um alarme. X se levanta e tenta contar o sonho à mulher mas ela não dá a menor importância. “Você vai chegar atrasado no trabalho”. O café da manhã está servido. se suicidavam sempre às seis da tarde. Lá. E claro que a tevê está ligada. edifícios em ruínas. um espelho. diz ela.

. contempla... e médico responde: “No Instituto”. Disparam nele. nem paredes...Mas é isso justamente o que me interessa: que X nunca saiba direito qual é o sonho e qual é a realidade. X pergunta onde estão. GARCÍA MÁRQUEZ .. GARCÍA MÁRQUEZ . a que conta a história do filme. diz. O homem. a perseguição termina com os guardas descobrindo X atrás de uma pilha de escombros. A necessidade de se rebelar contra a tela é muito similar. não. É o Instituto de Pesquisas Psicológicas. Cada um pode ver a realidade do jeito que quiser. que está pronto para dar a injeção. vemos um homem. existem muitas peripécias. Perto. “Não lembra? O senhor se ofereceu como voluntário para esta experiência”. Está preparando uma seringa para dar uma injeção em X.Você leu Orwell? Esse tela não faz lembrar o Big Brother? ELID . some.Supõe-se que seja. Um sujeito misterioso.Bem. Está amarrado por umas correias.Não é só a tela. X. Abre a boca. SOCORRO .. “Então. Afinal. Para abreviar. claro: está num lugar. etc.E o espectador também não? ELID . GARCÍA MÁRQUEZ . arfando. é um truque cinematográfico. GARCÍA MÁRQUEZ . a cama de um hospital. X fica boquiaberto.Não acho necessário que ele saiba. sorri de maneira estranha. murmura X. GARCÍA MÁRQUEZ . de costas. o homem está se submetendo a uma experiência psiquiátrica. “Fique tranqüilo”. você é a roteirista. e puf!. X deixa escapar um grito e o vemos tentando se erguer na sua cama. mas é o único elemento da história que pode fazer pensar no livro 1984. Pode inclusive perguntar a si mesmo qual o grau de realidade que existe em sua própria vida.. A imagem se congela. desaparece. Você tem de saber o que está acontecendo.. A mulher dá meia-volta e em vez de se afastar. E enquanto dá a injeção. acabamos de ver o filme. “Ah!”. Já não existem teto. começa a desaparecer. aquilo era um pesadelo. pergunta. desaparece. de sua cama.Não. “O senhor acha?”. 31 .. mas sem saber direito o que acontece. e esta é a realidade”. ELID .. É isso? ELID .. qual é a realidade que ele está vivendo.Sim.. ELID.Eu sinto que a ação é muito rica. com um olhar inexpressivo.esfriando. “está tudo bem”.. de barbicha e avental de médico. o que é que acontece? De repente. o céu estrelado. Tudo vai se desvanecendo.

quando a gente sentir que já esgotou a própria experiência vital como fonte de criação. eu acho que o problema é esse.Talvez seja uma história de quinze minutos que se estendeu demais.O problema é que a gente se vê obrigado a segui-la sem contar com nenhum antecedente... pode começar a explorar outros caminhos. acontece um monte de coisas. olhando bem. nessa história não acontece nada. o amo encontra a Morte no mercado. desenvolvimento e fim. a realidade é esta aqui. Pode-se chegar ao tipo de história como a que você contou depois de ter escrito muitas outras baseadas em experiências reais. O amo dá a ele um cavalo e dinheiro..Existem histórias de quinze minutos que podem ser contadas mais rapidamente. GARCÍA MÁRQUEZ ... com princípio. já começa a surgir sua confusão entre a realidade e os sonhos... com princípio. “era um gesto de 32 . você fez ao meu criado um sinal ameaçador”. Não é uma história orgânica. “Esta manhã. a ponto de supor que. meio e fim. GARCÍA MÁRQUEZ . E uma ambigüidade que quero manter. diz. ele vá seguir até o fim? Cada nova peripécia só faz aumentar o desconcerto do espectador. “vi a Morte no mercado e ela me fez um sinal ameaçador”. Assim.Faltou que eu esclarecesse que quando X está fugindo e se encontra com os outros camaradas. Como é que X se transforma em um rebelde? De que maneira seus conflitos internos são transmitidos a nós? E qual é o conflito central? Ou é que nessa história tudo é conflito?. e diz: “Fuja para Samarra”. E até lá? Será que temos de confiar tanto na paciência do espectador. mas não acontece nada. que ele já não consegue separá-los da realidade.ELID. SOCORRO . ROBERTO . Não me interessa dizer ao espectador: veja bem.. um eixo ao redor do qual a história seja construída. O criado foge.Acontece que. Os sonhos parecem tão reais. No começo daquela mesma tarde..mas falta um esquema que dê coerência a tudo isso.. sem nenhum antecedente. Só no final é que descobrimos que X se apresentou para fazer parte de uma experiência. Mas temo que começar do jeito que você começou é percorrer o caminho ao contrário. que possa ser contado de maneira mais simples? E sempre bom começar por esse caminho. Ou melhor. diz. “Senhor”. “Não era uma ameaça”. REYNALDO .. será que você não poderia tentar recordar um episódio da sua própria vida.. Ele tem consciência disso. ELID . Vocês se lembram de A Morte em Samarra? O criado chega aterrorizado a casa do amo. responde a Morte. GARCÍA MÁRQUEZ .E.

Escrevi duzentas e oitenta páginas ao redor desta frase. Claro. O General em seu Labirinto. Dá para fazer um longa-metragem com isso? Dá. onde tenho que pegá-lo hoje mesmo ainda esta tarde”. O livro que acabo de terminar. e eu já disse a vocês que para mim não existe nada pior que esticar arbitrariamente. Porque eu o estava vendo aqui.surpresa. resumi-la numa página. Eu estou justamente tentando adaptar Maria. sobre Simón Bolívar está tirado de uma frase: Após uma longa e penosa viagem pelo rio Magdalena. Só que permaneço firme em uma convicção que já revelei aqui: se você não pode contar a história numa página. mas o preço é esticar demasiado. morreu em Santa Marta abandonado por seus amigos”. e transformá-lo em cem episódios. O que eu queria era completar um episódio que os historiadores colombianos não haviam desenvolvido nunca. ou sobra alguma coisa. é um romance onde existem muitas coisas explícitas. 33 . então pode ter certeza que que nessa história falta alguma coisa. livro de Jorge Isaacs. uma história. coisas que eu acho que valem a pena dizer sobre a história da Colômbia e a situação no vale do Cauca. tão longe de Samarra. e não o fizeram por uma razão muito simples: aí está o segredo inteiro do desastre que o país vive.

..Para o Vale Dupar. com gravata. vestido com um terno negro de veludo.. a gente arma tudo isso conforme nos dê na veneta. Cochila.. mas na verdade.uma moça. deixar sua antiga vida para trás.QUARTA JORNADA DE TRABALHO A morte em Samarra. lá na moviola. no hospital público. 34 . O camarada observa a paisagem pela janela. vestem camisa esporte. com um terno de veludo meio puído. Para onde ele vai.A gente quase pode dizer que a doença o salvou.. MANOLO . a moça sumiu. um ônibus que diz Cartagena ou Curumaní. Faz calor.. M. está recordando. O homem sai. Um senhor cinqüentão. e pára. II MANOLO . na hora da montagem do filme.. Nada a ver com os outros passageiros. A doutora diz que sua doença é incurável. para o Vale Dupar ou para a Venezuela? MANOLO . vinte anos de burocrata. Pergunta aos moradores do lugarejo onde pode passar a noite. Entre eles vemos um homem cinqüentão.Por que você não conta para nós em linha reta? Depois. Ele passou vinte anos trabalhando como funcionário. O ônibus chega a um povoado. O homem desperta. entra no primeiro ônibus que passa.. E assim que os moradores do litoral da Colômbia chamam o pessoal de Bogotá. olha pela janela e vê .Ele é de Bogotá.Tornamos a vê-lo no ônibus. É um cachaco. A paisagem é dos trópicos. Sonha com uma moça muito bonita. e deixa que vá. GARCÍA MÁRQUEZ . Tem pouco tempo de vida. Vê a si mesmo saindo da sua casa para apanhar o resultado de um exame médico.ou acha que vê . MANOLO . Desce correndo do ônibus. Todos os passageiros parecem gente do litoral. entra num hospital público de Bogotá. G.E por que ele faz isso? MANOLO . GARCÍA MÁRQUEZ .Porque decidiu fugir.Um ônibus vai pela estrada.Muito bem.. Ou será que nunca esteve ali? O homem vê que o ônibus vai partir. chapéu e guardachuva. Ele tem seis meses de vida. sem mudar nem de repartição. GARCÍA MÁRQUEZ . E atendido por um médico que informa o seguinte: ele sofre de uma doença que não tem cura.

ela mesma propõe que fujam juntos do povoado. O que não entendo é porque o homem não vai ao 35 . dona Lina aceita alojá-lo. pelo homem imaginário. recebe a notícia de que vai morrer em pouco tempo. O homem responde a esmo. GARCÍA MÁRQUEZ . enfim. e um belo dia. GARCÍA MÁRQUEZ . Toma então a decisão de viajar para mudar de ares. a vida inteira. Eles se vestem desse jeito.. é da serra colombiana. É um elemento que forma parte da situação. é verdade. da conduta do homem. vamos começar a contar o filme de novo.. e depois de roubar o dinheiro da tia vá buscá-lo e não o encontre. sem nem mesmo prestar atenção no rumo que está tomando.O que pensei é que a moça marque um encontro com ele em um determinado lugar.. o homem usa roupas esquisitas. ou seja.E quando é que a moça vai ficar sabendo que ele está desenganado pelos médicos? MANOLO .Vamos ver. fazer coisas diferentes. a tantas horas da noite.. o lazarilho de sua tia.O homem é um cachaco.. e aparece uma moça. Então acontece o que MANOLO contou. Ela. como se fosse a vida de um aventureiro. simplesmente. Nem ao menos sabem que dentro da Colômbia existe outro país. GARCÍA MÁRQUEZ . emoções e perigos. de vida chata e monótona. ela foi os olhos. Um senhor de uns cinqüenta anos. e quem vem abrir é a moça com a qual ele havia sonhado. onde a gente usa roupas diferentes. e bate na porta de uma casa.. Naquela mesma noite irá roubar o dinheiro.. que se baseará numa grande mentira: o homem vai contando sua vida a ela. O fato concreto é que a moça se apaixona perdidamente por ele. É importante que diga para nós. Entra num ônibus. GARCÍA MÁRQUEZ . para ver se acontece alguma coisa estranha com ele. Conta o que imagina. Bate na porta.Indicam a ele a pousada da dona Lina.. O homem vai ao encontro marcado.Ele não disse nada. e lá da cama submete o recém-chegado a um verdadeiro interrogatório: se é cachaco. bate na porta. Enfim.. Não sonhou nada. uma vida cheia de surpresas. é uma senhora cega... Não teve coragem. mas sua tia tem bastante e ela sabe onde está guardado. aliás. Vão precisar de dinheiro. o homem desce num povoado qualquer sem razão aparente. MANOLO .Seu aspecto. Seria a primeira vez na vida que ela sairia dali. Vai começar assim um romance entre o homem e a moça..Mas você deve saber. mas pintada e maquiada feito uma gueixa. CECÍLIA . É a sobrinha de dona Lina. mas enquanto isso o que que nós vemos é a realidade: a vida monótona e rotineira de um funcionário público. o que foi fazer no povoado... No fim. uma série de coisas. Chega. de uns sessenta anos.

. do litoral. ROBERTO .encontro. esse plano de fuga se transforma na morte do homem. Um escrivão de caligrafia muito boa. o homem trabalhava num cartório ou num tribunal..Se tiver. em pessoa. Se for viúvo.Tudo levava a crer que ele fosse viúvo. GARCÍA MÁRQUEZ ..Casado. não pode abandonar sua mulher sem se despedir.O que eu pensei é que a moça era a Morte. mas porque a Morte vai buscá-lo.a empregada.O homem é viúvo? MANOLO . ou a faxineira . então existe uma senhora . os de antigamente. provavelmente. mas não tem filhos. Era escrivão. a que lavou suas cuecas e tudo. o filme de Kurosawa? SOCORRO . Era um burocrata de burocratas. sem querer. Mas. teríamos a chance de vê-la uma vez. a Morte em Samarra. GARCÍA MÁRQUEZ . ou certos equívocos. Por que você não quer que ele seja viúvo.A idéia era justamente essa. 36 . Não chega a entrar no consultório médico. porque os de agora são alegres e alguns até dançam melhor do que nós.com quem mantém uma relação mórbida. vamos ver: é melhor que o homem tenha ou não tenha família? SOCORRO.Em meia hora. Ele vai buscá-la. Digo. E então vai embora.Não sendo viúvo.Ah!. ou num cartório. GARCÍA MÁRQUEZ . Por exemplo: no momento em que ele chega para fazer a mala. Os chefes destinavam a ele trabalhos urgentes. mas no apartamento vizinho.O personagem. GARCÍA MÁRQUEZ . Se fosse viúvo teria uma filha que não moraria com ele. pelos sintomas de outros pacientes. Mas pode nos servir para explicar sua conduta a decisão que ele toma. GARCÍA MÁRQUEZ . na sala de espera. muito bom cumpridor de seus deveres. talvez porque entre ambos tenha sido criada uma certa expectativa. Como é mesmo aquela história de viver. Manolo? MARCOS .. como estava previsto. Por algum motivo. Trabalha num tribunal. É o que põe a história em marcha.Mas ele deve entrar no ônibus sem nenhuma bagagem. muito meticuloso. Mas a história está pronta. Ou seja. percebe que tem um câncer.. CECÍLIA .Eu prefiro que seja o médico quem diga. Esse poderia ser um final. A única coisa que falta é o final. REYNALDO . ele pode se mandar sem se despedir. Não pode abandonar desse jeito a companheira da vida inteira. Este dado não será necessário no filme. É que todos os cachacos parecem viúvos. Não morre de doença. MANOLO .Sem dar a notícia a ninguém? Essa notícia ele tem de dar.

Ele conta ao cara do bar o que aconteceu. fazendo em esforço enorme.A rodoviária está bem na frente do bar. REYNALDO . O garçom olha sem entender nada. Chega o momento em que é preciso dizê-las. respondem.Manolo e eu tínhamos pensado que sua doença fosse cirrose. O bêbado sempre se confessa ao cara do balcão. MANOLO . Chega e senta no mesmo lugar de sempre.Primeiro. e depois vai para a rodoviária e pergunta: “Qual é o próximo ônibus?”. “Traga alguma coisa forte”. Ele sai do hospital público angustiado. GARCÍA MÁRQUEZ . “O de Curumani”.. não adiantou nada. E de repente. É o lugar onde ele vai todos os dias tomar um café. e de cirrose. começa a ação propriamente dita.Não é um bar qualquer. E em seguida. diz ele. aqui.”. “Veja só”..E verdade. ele telefona para a mulher...O sujeito entra no bar. conta toda a sua tragédia. telefona para a mulher dando a notícia. E quando fica sabendo. e olha só o que aconteceu comigo.. ele recusa com um gesto. eles são os confessores dos bêbados. é o momento em que o homem agarra o dono do bar e conta o que aconteceu. GARCÍA MÁRQUEZ . e a partir daí. Vê as pessoas entrando e saindo. sem nenhuma palavra. E para que você fique sabendo: não vou pagar essa coisa 37 .MIGUEL .É neste momento em que começa a acontecer um monte de coisas.ou a médica . GARCÍA MÁRQUEZ . E tem mais: não volto nem para casa. Mas desta vez. Para o inferno. e pensa: por que não? MARCOS . bem. O personagem. todos eles! Não volto para o escritório. Mas a médica balança a cabeça: não há mais nada a ser feito.. a primeira coisa que faz é entrar num bar e mandar ver. e ela não o deixa falar: começa a contar a história de não sei quem.pergunta: “O senhor foi alcoólatra?”. GARCÍA MÁRQUEZ . diz. E na mesma hora ele compra a passagem. Por isso ele tem a idéia. e no fim. Vai morrer mesmo. que deixou de beber há tempos. não conhece o cara do balcão. trazem o seu café. O médico .Quer dizer que o homem parou de beber. conta isso. mas vai logo dizendo: “Veja só o que aconteceu comigo. e para quê?”. MARCOS . no primeiro que encontra. “Vida de merda! O trabalho que tive para deixar de beber.Exato: o espectador não tem de se dar ao trabalho de adivinhar essas coisas. E esse. Há anos ele é conhecido ali. “trinta anos enfiado num escritório para ter uma aposentadoria e garantir uma velhice tranqüila. Depois entra no bar. Esse pessoal que fica atrás de um balcão de bar. Ela não sabe que ele foi ver o médico.

O que vem depois. por exemplo. Mas aqui. uma coisa que recorda os romances policiais ou os filmes de caubói. Inclusive isso. e ponto final. pelo menos. a associar a escuridão com o sono. Quando você for um pouco mais velho irá perceber que as pessoas nem sempre entendem os argumentos. Esse é o filme. O cara precisa desabafar. Um sujeito que está na situação dele tem essa reação: a primeira coisa é contar a história para alguém. A única coisa que sabemos com certeza até agora. Quando apagavam a luz. a única saída é pôr um ator para contar tudo. ROBERTO. num instante. não é nem mesmo um recurso narrativo. E ponto final. As vezes acordo de repente e vejo um ator e pergunto: “E esse aí. Eu entenderia suas objeções. mas a necessidade de se confessar. porque se enganou de vida. que eu mesmo faço o roteiro. Só falta contar como as coisas acontecem.É porque você é um diretor muito jovem.. Para quem não sabe como contar uma história com imagens. é melhor contar diretamente. durmo profundamente.O que eu não entendo é essa história de ele ir embora sem telefonar para a mulher. Eu. nós já sabemos. porque não parece forçado. Depois acontece uma coisa estranha.. Resisto um pouco a fazer um filme no qual as coisas sejam tão faladas. desde pequenino. Sempre durmo quando estou vendo filmes. e bordar bem a história para que fique ajustada e não passe de meia hora. é a mesma coisa: assim que começa a sessão e a luz é apagada. se fosse um recurso arbitrário ou fácil. Poderíamos procurar outro confidente. agradeço essa deferência. Fui condicionado. Para mandar todo mundo à merda. nesta situação. MARCOS . Que vá tudo à merda! Ouviu bem?”. GARCÍA MÁRQUEZ . quando estou vendo televisão com a luz acesa e chega alguém e apaga. ROBERTO. durmo.Eu tenho minhas reservas. quem é?”. é uma reação natural. GLÓRIA . No cinema. GARCÍA MÁRQUEZ . Que desabafe com o dono do botequim é tão natural que chega a ser um lugarcomum. Sai e entra no primeiro ônibus que passa.Não sabemos se ele vai ou não vai telefonar.que estou bebendo. Vocês não gostam da minha proposta? Deixem comigo. eu tinha de dormir: Por isso hoje em dia. 38 . no qual as situações se resolvam verbalmente. numa situação como essa. se a minha proposta for aceita. de ele fazer a catarse na frente de um copo. Falando sério. que o leva diretamente para a morte. é o que contamos. Por isso..Eu gosto dessa idéia: ele se mete no primeiro bar que aparece.

diz a si mesma: “Puxa. mas ele se nega a obedecer. Porque a gente imagina que ele vai encontrar a felicidade. quimioterapia. ou qualquer coisa parecida. GARCÍA MÁRQUEZ . não está ouvindo coisa nenhuma.Eu pensava que ele tinha um câncer.Isso dá para um longa-metragem.Pois é. com sua reação. A Morte preocupou seu caso de um modo muito normal. Uma cidade em ruínas desolada. GARCÍA MÁRQUEZ . Um belo dia. REYNALDO . ele começa a contar a história.O que me preocupa é a coisa da cirrose.E fica escutando sem se mexer. E se a moça que abre a porta estivesse esperando por ele? MANOLO . procura outra morte..O dono do bar acha que é só mais um desses bêbados que contam sempre a mesma história. Você quer chegar à porta porque é aí que o filme começa de verdade. tudo muito burocraticamente. É muito maltratada. CECÍLIA . arma uma jogada inesperada. mas no fundo. soldados e cavalos com as tripas de fora. faz cara de quem está prestando a maior atenção. Uma morte antecipada. Ela tem que esfregar o chão. lavar a roupa.Claro.. Agora. para quê? Porra nenhuma de tratamento!”.. Mas antes.Pede uma bebida e quando o cara do balcão serve. GARCÍA MÁRQUEZ ... alguém bate na porta. e acontece que o que ele encontra é a morte.. Anotem isso. sua morte antecipando-se à Morte. Eu tenho uma história de um minuto.. espalhados por aí. . estou pensando que podem em existir alternativas. é verdade. porque devem ter receitado algum tratamento. MANOLO . GARCÍA MÁRQUEZ ... se acontecesse alguma coisa diferente comigo! Se eu pudesse mudar de vida! Eu iria embora com o primeiro que batesse nessa porta e que me propusesse. seria outro o filme.Aí.. e ele. casas queimando. o diabo? Para ficar careca? E no fim. pois daí nasce outro filme. É formidável que ele deboche da Morte..Podem ter receitado um tratamento. Um filme que começaria com a moça levantando-se da cama e começando a cuidar das tarefas domésticas.. Ou melhor. Gosto dessa reação. 39 . E. com colunas de fumaça no horizonte. É uma empregada. temos que saber quem é o tipo que bate na porta. GARCÍA MÁRQUEZ . No meio de um montão de escombros.Estou louco para chegar à porta. “Como é que é? Radioterapia. de repente. mesmo que seja por um tempo breve. Muito colombiana. REYNALDO .

É um oficial agonizante. “Segure isso”. E ele responde: “Sei lá. havia muito pouca gente. GARCÍA MÁRQUEZ .. Sei que é o começo de um filme.. no lugar do ônibus? GARCÍA MÁRQUEZ . quando aumentasse o calor. fazendo ginástica rítmica.. vestidas. Pode até mesmo existir alguma armadilha por aí. Uma mulher bela.... a aula acabou”. São todas freiras. ROBERTO . o ônibus descendo da serra. de repente. É rapaz jovem. O rapaz se inclina sobre ele.Eu imaginava uma sucessão de paisagens diferentes. que se arrasta buscando alguma coisa. Existe um enorme salão com vinte ou trinta moças belíssimas. que o homem vai morrer tudo que acontecer ao seu lado fica tendo um valor excepcional. Nunca soube o que era.Eu fiquei me perguntando. Poderia ir passando por cafezais. o trem saiu. chega de distração: vamos voltar aos nossos trinta minutos. ouve um gemido. O salão fica deserto. meninas. enfim. e não uma garota. dormi e de madrugada acordo e me vejo rodeado por uma verdadeira multidão. Mas. GARCÍA MÁRQUEZ . Vou à merda” Corte para o trem. É uma idéia que Buñuel teria adorado. teríamos que sair do clichê: deveria ser uma mulher feita. Ele está no bar. O dono do bar que o conhece muito bem. SOCORRO .. Como espaço e como imagem.alguma coisa se move. uma mulher. de repente. De repente. Um personagem que iria sentar-se ao seu lado quando o ônibus chegasse às terras quentes. coberto de pó e de pedras.Podemos copiar isso. e diz: “Senhor ganhamos”. As moças correm para os vestiários. e. GARCÍA MÁRQUEZ . com uma 40 . Parecia carne. Lembro também do trem da Bolívia. mas qual o quê. ROBERTO . Encontra um cadáver. coloca um pacote no meu colo. Nunca pensei que pudesse caber tanta gente num trem.. o tempo todo: não será melhor o homem pegar um trem. mas nunca descobri como continua. uma índia. entrando em terras quentes. pergunta: “E para onde é que você vai?”. Sentei. ouvese um sino e uma voz: “Muito bem.Eu tenho outra.Pois o que eu imaginei era outro personagem. inteirinho. como sabemos. Em relação à moça. o trem é mais interessante. E sumiu. faz uma espécie de saudação. depois por canaviais. totalmente nuas. mas madura. Ainda percebemos suas insígnias no uniforme.Sim. ferido. As moças saem. Peru. outro. ROBERTO .Eu pensava nesses trens que a gente vê no Brasil. porque achava que ele ia lotar. “Venho buscar depois”. que é chamado Trem da Morte.Sabendo. disse ela.. Eu ia pegálo e cheguei na estação muito cedo. E.

começa a limpar a lápide com um pano. e ponto final. sem perceber.história atrás.Uma lápide. É o que aconteceu sempre. para a morte. e tem 41 . Mas agora. ROBERTO . vai atrás dela: “Senhora seu pacote. para mim. podemos perder o frescor da história. e porque está cheio de tudo. Mas. podem acontecer mais coisas. Todo mundo come com pressa. SOCORRO: qual era o personagem que você pensou em pôr sentado ao lado do homem? SOCORRO . A única coisa definida. MANOLO . Se formos procurar um jeito de uma coisa levar a outra. Para ele. que parecem arbitrários. Aqui. Gloria . o homem.E quem se importa com o que aconteça no trem? Não dissemos que o filme começa na porta? GARCÍA MÁRQUEZ . Se o homem deixar as coisas acontecerem. a graça está nos atos dele. trasladou-os ao ossário. ver o seguinte: deixaram com o homem um pacote de carne.O ônibus pára. Desce no povoado que quer. ele quer driblar a morte. tanto faz ficar ali. no trem. pensando bem. que entra no ônibus levando uma placa de mármore. Afinal. tranqüilo.Uma mulher negra. GARCÍA MÁRQUEZ . naquela cidadezinha. são os impulsos do personagem. e o homem. inevitavelmente. Não pode ser um travesti. Acho bom a gente ir fazendo um arquivo com os personagens que forem sobrando. que fica lá comendo. O importante. Ao se sentar.Eu não acho que a gente precise situar tudo numa corrente de causas e conseqüências.É preciso tomar cuidado para que a natureza das suas decisões fique clara. ao lado de um camarada que vai morrer? E alegórico demais. É uma lápide. e bate na porta que quer.Vamos.. ou em qualquer outra.O ônibus é mais íntimo que o trem. Ela acaba de exumar os restos do marido. isso sim. REYNALDO . é que tem de ser uma pessoa do sexo feminino. os passageiros descem para comer.Mas. então. a gente vê depois. menos ele.. até que não seria má idéia.Diga uma coisa. Vamos guardar esse personagem para outro filme. e agora leva a lápide para casa. nada nele mudou. morto há quatro anos. ele desce do ônibus. SOCORRO . o homem não queria novas experiências? Que se dane agora! REYNALDO . GARCÍA MÁRQUEZ .Ou melhor a mulher do pacote desce do trem sem nenhum aviso. ROBERTO . como aconteceu com o Roberto.”. Não tem a menor vontade de se apressar.Isso. GARCÍA MÁRQUEZ .

para liberar os trilhos. porque quis. O espectador ficará pensando que ele está falando de Veneza ou coisa parecida. meu senhor”. não. diz alguém. VICTORIA . então. e dá para sentir que ficou impressionado. vê uma cidadezinha perto. ficando redondo? CECÍLIA .O que MANOLO disse do almoço: “O ônibus está indo embora? Deixa ir. Não: está pensando em um lugar qualquer. o trem parou porque há um obstáculo nos trilhos.Talvez já tenha começado a perceber uma série de elementos novos dentro dele. Eu ainda não acabei de comer”. Vocês não acham que aos poucos o personagem vai sendo esculpido. então. e todo mundo desce para ver o que está acontecendo. ouça bem o que estou dizendo: ou pára. É uma pedra enorme. “Então. raquítico. Enquanto isso. Todos tratam de tirar a tal pedra..Na Colômbia. Agora.que viver de um modo mais intenso. Ele pensa: estou doente porque segui determinadas normas. MARCOS .. Nada de grandes montanhas. Tem que acontecer algo muito forte para que ele fique onde está. Fui a Sipaquirá em alguns domingos para comer batata salgada. sensações desconhecidas. por exemplo. Ele tem que armar uma confusão no ônibus. “Mas aqui não é parada. entra em jogo um elemento de fascinação. vou viajar. vai continuar a viagem. GARCÍA MÁRQUEZ . Fica olhando a paisagem. Algo assim como o litoral peruano. e ponto. por uma rotina estrita.. e começa a andar naquela direção. e fique porque ficou.Aí. o espectador pode pensar que estamos escondendo alguma coisa. Ou.Eu imagino. quero viajar.Ou. Esse foi sonho da minha vida”. pare aí um instante que eu vou fazer pipi”.O que deve ser ressaltada é a sua atitude. exigindo parar. fui um burocrata. GARCÍA MÁRQUEZ . Ele. para eliminar suspeitas de que ele estaria descendo em um lugar conhecido.Em bogotá. Ele nunca foi a lugar nenhum. E ele responde: “Mas é aqui mesmo que eu quero descer. me deixei dirigir sempre por um horário. para encontrar isso. ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . Sobe uma colina. CECÍLIA . “Meu senhor. Tudo é pobre.Se não fizermos desse jeito. 42 . ele disse ao homem do bar: “Nunca saí daqui. na verdade. SOCORRO . é preciso ir até Guajira. uma coisa carismática. e isso foi tudo. “motorista. porra!”. eu não posso parar aqui”. mas ele vai andando.. fazer o que me der na veneta. uma paisagem meio deserta. Isso deve ficar claro. o trem apita. onde já esteve antes. ou faço pipi aqui mesmo”. Agora.

e passa a ser outro. GARCÍA MÁRQUEZ . Ele espia pela janela do ônibus ou do trem. pode ver a moça.Uma coisa precisa ficar clara: esse camarada está se rebelando contra a sua vida. ROBERTO . Porque. a gente sempre vê alguma coisa quando espia pela janela de um ônibus.É desse jeito que ele encontra a mulher.Quer dizer: o homem se rebela pela primeira vez na vida.Ele desce num desses povoados porque vê que é dia de feira. pensando bem. o que é e o que não é importante? ROBERTO . a de rebeldia. há duas maneiras de caracterizar este homem: como quem se rebela e manda tudo à merda. porque não estão nele.Eu pensei que a gente estava de acordo nesse linha. VICTORIA .O personagem que a gente conhece não é do tipo capaz de se rebelar de repente. Esse negócio da emoção da paisagem. a que viveu. SOCORRO . ou de um trem. é ela. para quem vai morrer a qualquer momento. Temos que escolher. Ele deixa de ser um personagem plano. Sua frustração consiste em um ponto: vai fazer determinadas coisas. GLÓRIA ..Se ele for comer. encontra dentro de si coisas que até agora estavam ocultas.Quem vai morrer não tem vontade de fazer coisas. 43 . REYNALDO . E porque tem música. DENISE . O que ele está procurando não é o que os turistas procuram. que está sofrendo um processo de transformação. Sobe no carrossel. ou na roda gigante. Um desses povoados solitários. ou da birra infantil. prefere se deixar levar: É preciso averiguar qual é seu próprio desejo.. e vê isso. onde está a história? Não precisa ser uma rebeldia violenta. ele vai procurar um lugar onde se hospedar e quando abrem a porta. ou de um carro. VICTORIA . mas é tarde demais. o burocrata. Pode ser meio achatada.Pelo visto. que estaria falando com a dona do restaurante. Porque se não for assim. são coisas que não podem sair dele. perdidos na planície. ou contra a morte? MARCOS . Coisas que ele não fazia desde menino.E por que não? Ele vê agora coisas que não via antes. Depois. Na verdade. Na América Latina. SOCORRO . mais complexo.A paisagem não precisa ser grandiosa. colocá-lo numa situação e ver como ele se deixa arrastar pelas circunstâncias. Existe alguma coisa nela que chama a atenção do homem. ROBERTO .Contra a sua vida. e como quem se apavora e mergulha ainda mais na passividade.Não podemos dar ao homem emoções que ele não tem.

.não é fácil de explicar que ele precisa fazer.Sim.O mar pode exercer esse tipo de atração que eu andava procurando. Eu não vejo é a moça. Quando é que ela aparece.. ele vê um cartão postal onde aparece o mar. Na rodoviária. Quando eu voltar.Vocês me perdoem. MANOLO . vira.Eu insisto encontrar certas motivações. descida para as terras quentes e. vê de onde é. É aí onde ele vai descer mais tarde.. SOCORRO . mas preciso dar uma saída. não: continuo pensando no ônibus. Está muito ligado às emoções. a orla.É o que eu estava perguntando: quando chegamos à porta? 44 . contavam a história de um camarada dos Andes no litoral: “Quem conhece o mar?”. Porque eu defendo o trem.E está de paletó.. e decide viajar porque vê que a empresa de ônibus se chama “Mar Azul”. Em Bogotá. e depois. Vai morrer. REYNALDO .. Ele chega na rodoviária e vê uma série de cartões postais. chapéu.Pois é.Você quer criar uma metáfora. MARCOS . Dá voltas ao cartão. E. apanha o cartão. corte. no final. É a história de um homem que nunca saiu das montanhas.. e existe uma coisa . com paisagem de montanhas lá fora.Em Bogotá. MARCOS .. e chama a sua atenção de maneira especial. o mar batendo nas pedras. e já vemos o homem no trem. ele vai descer num lugar que acha parecido ao do cartão postal. Um deles é em preto e branco.GARCÍA MÁRQUEZ . O camarada desce numa aldeia à beira-mar.É fácil. a gente vê o homem entrando num ônibus.Eu gostaria de combinar o tema do mar com o do cartão postal. fica observando o cartão postal. me contam o filme. SOCORRO .Eu. gravata. Seriam três cortes: interior do ônibus. o sujeito não tem que pegar um ônibus ao acaso. Tem uma fantasia sobre isso. de repente. SOCORRO . estabelecer um paralelo? ROBERTO .E por que não? Esse lugar poderia ser o símbolo de uma libertação. aos sentimentos. MARCOS . tira os sapatos e deixa as ondas lamberem seus pés. O Triunfo da vida ROBERTO. ROBERTO . e então.. MANOLO .

ROBERTO . joga na água e vai embora. REYNALDO . observa o postal. Contempla o entardecer com os pés na água.O homem vai comer numa pensão. Está se afogando.Ele está com fome. Outra.Existe ação interna. Uma. Ele chega a litoral. e é quando começa a nascer uma coisa: ele não sabe o que é. mas percebe que alguma coisa está nascendo.Ou é a filha de um pescador.Vai a um restaurante desses de praia.A mulher está na água. Primeiro. É quem serve as mesas.Estamos buscando duas idéias. ele tem de fazer a pergunta: e agora? Começa a andar. sabemos que seu objetivo é o mar. 45 . Ela tem uma briga com o patrão. Já estou aqui..Ele não sabe nadar. joga os pratos no chão e se manda.É uma sereia. E a gente partiu do princípio de que iríamos fazer um filme “comercial”.. como fazer o homem entrar na aldeia. O homem fica surpreso. e se impressiona. E. boquiaberto. Em termos visuais. ROBERTO . olha o mar. REYNALDO . e lá encontra a moça. tira o postal do bolso. Isso também é ação. SOCORRO . Tem que desempenhar outro papel. SOCORRO . MARCOS . diz o homem a si mesmo. ROBERTO . mete os pés na água. seria assim: o homem chega. Olha de novo o cartão postal. MARCOS . SOCORRO . a partir do cartão postal. É agora? Joga o postal fora. entra. GLÓRIA . terceiro. MARCOS . num restaurante. joga fora o postal e começa a andas. por quanto tempo? Cedo ou tarde. servindo as mesas.. ele se sente motivado pelo cartão postal. Segundo. e não é a mesma coisa. ROBERTO .E o conflito? Porque precisa existir um elemento de tensão nisso tudo. VICTORIA . Precisa comer alguma coisa.O que eu não vejo nisso é ação. tira os sapatos. Por isso.. como relacionar a mulher com o mar. SOCORRO . ele compara a sua fantasia com a realidade.O cartão postal deve servir como elemento de contraste. agora. e é aí que a mulher aparece. Tinha feito outra idéia do mar. diante da reação dela. a mulher deve ter uma relação específica com o mar. e lá está ela.Encontra a mulher.Pode ser que ele fique impressionado diante do espetáculo do mar: Mas.Então: que o homem encontre a mulher no mar. sente-se desiludido.Mas o mar não pode ser uma paisagem.GLÓRIA .

Você mesma disse: ela é toda energia. Deve fazer alguma coisa a favor dela.Senhora? Não tínhamos dito que era uma moça? GLÓRIA . quando se encontram. nesta 46 . desde o primeiro momento. REYNALDO . SOCORRO . e ela. VICTORIA . o espectador deve ter a sensação. pela sua sensualidade.E por que ele se lembra dela? ROBERTO . GLÓRIA.Ela repara nele. diz ela. que ela estava sempre ali.Um barquinho chega ao cais.. Aliás. ROBERTO .Ele sente atração porque. ROBERTO .Ele poderia vê-la primeiro no mar. esperando pelo homem. chama a atenção pela sua beleza. o que ela vai fazer no final. que é uma pescadora. para não criar logo de saída uma situação entre os dois.É uma moça. MARCOS . VICTORIA .Ele teria que fazer alguma coisa que o ligasse a ela. com aquela roupa insólita. E ao vê-lo.Ele pergunta à moça: “Onde se pode passar a noite.Uma atriz como Sônia Braga. ROBERTO . que estamos trabalhando com símbolo e tudo! MARCOS . ela não tem razão para ser agressiva com o homem. e o leva. É uma bela senhora do litoral.Começa a conversar e depois pergunta onde ele está hospedado. DENISE .GLÓRIA . Ela o atrai. nesse caso. MANOLO . de que aquele encontro não é casual.. deve se aproximar com uma amiga. Ele está caminhando pela praia.Não vamos nos esquecer de que ela é a Morte. com essa pinta toda?”. GLÓRIA .Mas não no sentido sexual. Já haveria uma relação visual entre eles. a Morte tem aparência de vida. não pode deixar de rir: “O que fazendo aí.. como um sentimento. CECÍLIA .Eu tinha proposto a briga no restaurante. Quem olha primeiro para quem: ele para ela. Ela é impulsiva. SOCORRO . Se a mulher representa a Morte. feito uma semente. e depois encontrá-la no restaurante. ROBERTO .Isso quer dizer.É uma coisa que ficaria soterrada.. E que não agüenta mais a vida que leva. Vem com uma sombrinha e um vestido de flores. vem andando em direção contrária.Ela o seduz. ou ela para ele? ROBERTO . então.O que ela fizer no momento do primeiro encontro deve conter.Pensando bem. e ela vem no barquinho. quebra os pratos no chão.

em tom brincalhão: “E o que o senhor está fazendo por aqui vestido desse jeito?”. Ou melhor. Morre antes. e fica olhando fixo para ele. MARCOS .Ele entra no restaurante para comer. venha por aqui”. sem problemas. ela debochando dele. é de Marcos: que ela seja a garçonete de um restaurante e veja o homem chegar de longe. É um sujeito estranhíssimo.Não deve haver mais ninguém no bar. VICTORIA . e pronto. ele fica na cidadezinha e ela.. mas 47 . GLÓRIA . bebendo cerveja e jogando baralho ou dominó. acabamos perdendo a história do impacto. e se senta. comenta. pouco a pouco. Mas ele não chega a ir. Vamos ficar sabendo no final.O que vocês acham de fazermos um balanço das propostas? A primeira proposta é a de GLÓRIA: que eles se encontrem num restaurante e que se estabeleça entre eles uma relação de contraste através de um escândalo. me desculpe. Depois. e ela se aproxima da mesa e diz secamente: “Só temos peixe”. A situação poderia se enriquecer fazendo que ela derrame um pouco de qualquer coisa no terno do homem. se senta..cidade?” SOCORRO ..Temos de tirar partido da forma de o homem se vestir. uma briga. Para marcar uma distância.Por que estamos insistindo tanto nessa história de restaurante ou bar? O homem vem caminhando pela praia e encontra a moça.Pela janela do restaurante. aquele momento do encontro no qual ele fica impressionado pela vitalidade da moça. Por isso. Com certeza vão fazer amor na areia. se pergunta. REYNALDO .. sem querer: “Ai. e fica olhando para ele: “De onde será que tirou essa roupa?”.Quando saem da sala principal do restaurante e chegam à parte dos fundos e ela começa a limpar a lapela do terno dele.No caminho. a terceira. irá fazendo o homem mudar. Ela chega para servir a mesa. E. ela o convida para ir à praia. SOCORRO . Não há nenhuma necessidade de criarmos outro espaço. ela pode se afastar com o homem. MARCOS . A segunda é a de Roberto: que o encontro seja na praia e que a relação aconteça em tom de deboche. por favor.Ele chega. seduzindo-o. Certa noite. Não sei como. Deixe-me limpá-lo. para dar ao encontro um toque de agressividade. indicando os fundos do restaurante. Por que será que olha desse jeito? Por simples curiosidade? Ainda não sabemos. deve haver mais uma mesa ocupada: uns caras barulhentos. naquele ambiente. a moça vê o homem se aproximando. ROBERTO . ROBERTO .

MARCOS .Fizemos algumas mudanças. Brinca: “Puxa. bom: então.Ela havia ido à praia pouco antes. Desde que o mar entrou. com esse calor.Aí estão as três seqüências.morre. Dá algumas voltas pela aldeia. O camarada toma um trem e sai de Bogotá porque quer ver o mar. Ela passa com uma cesta de peixes..Bem. Na realidade o que ele quer é conhecer o mar. terminaram o filme? Vamos ver. Ele fica impressionado pelo desembaraço da moça. O que sabemos com certeza é que encontra a mulher lá.Existem duas possibilidades: que o homem tenha esse cartão postal em seu escritório. GARCÍA MÁRQUEZ ..E aí.Pois é. Ele fica impressionado pela graça.E a porta? Ele não bate mais? MANOLO . corte. na frente de todo mundo. Paga e vai embora. MANOLO .Vamos fazer que seja na praia mesmo. pela desenvoltura da moça.Inventamos um estímulo. comendo no tal restaurante. SOCORRO . nem se ele vai de trem ou de ônibus. Bem na hora! GARCÍA MÁRQUEZ . Ele decidiu visitar aquele lugar.. contem tudo para mim. MARCOS .Olha só quem chega: García Márquez. cai duro. GARCÍA MÁRQUEZ . VICTORIA .. e é ela quem abre. Agora. para vermos o homem sentado. aí está um projeto de final de filme. entrando pela porta dos fundos. um tipo de beleza diferente do que ele conhece. Bate numa porta. ou que o encontre na estação. É lindíssima.O que chama tanto a atenção dele é o fato de ela ser uma mulher praieira. acaba manchando o terno dele. ou outro parecido.. Ainda não sabemos o que acontecerá no trajeto. MARCOS. e é aí que vê o homem se aproximando. O homem vai caminhando pela praia. Mas como é mesmo que acontece o encontro? VICTORIA . mortinho! SOCORRO. um cartão postal. para buscar peixe. por que o senhor não muda essa roupa?”.Não.. MARCOS .. Vai servir ao homem. ele 48 . Limpa o terno na mesa mesmo. estamos falando de outro filme. Depois voltou ao restaurante. MANOLO . MANOLO . sem querer..E aí. ROBERTO .Coitado desse cara! A única vez na vida em que vai ficar com uma mulher bonita. O homem chega ao restaurante e se senta. procurando um lugar para passar a noite. Ela está fritando o peixe. virou outro filme. vê isso pela janela. na beira do mar.Ah.

esta é a possibilidade .Isso que você chama de relevo deve surgir justamente da relação entre os dois. de sunga. está numa cadeirinha da rodagigante. uma praia quase deserta. com a câmera fixa bem na sua 49 . abre os alhos e quase que na sua frente.leva uma pancada e desmaia. ele vai comer num restaurante e lá acontece o primeiro contato. onde há uma feira. Passam. Depois. que se ele quiser ela pode levá-lo até lá. Isso tem uma força especial. A moça e a amiga começam a rir. Ouvimos a música. e então . Agora. de Kurosawa. quando a roda-gigante gira de novo e as duas se perdem no alto. GARCÍA MÁRQUEZ . falta relevo. tudo bem. GARCÍA MÁRQUEZ .Pelo que estou vendo. a caçoar dele. uma quermesse. a força do absurdo. ROBERTO. Mas o que vem depois...Veja bem: tudo parece estar flutuando. tem uma coisa: essa história não é mais a que eu apresentei. Vê a moça no mesmo nível da janela.caminha pela praia e ela vem andando com um cesto ou uma sacola de peixe . não tem nada de biquíni.. Essa roda-gigante me lembra outra ver Viver.. Por quê? Porque ela.Ela tira o paletó dele. no meio dos biquínis. Ele está cochilando e. aliás. ainda não sei como. para identificá-lo melhor ..É que tudo ainda está muito vago. MANOLO . decidi batizar de Natalio. ele continua vestido de cachaco.Não podemos nos esquecer que ela é a Morte. Nosso homem que. Mas não faz mal. o fato era totalmente insólito: você bate numa porta e encontra a Vida. duas. É uma aldeia de pescadores.Eu penso numa coisa que você falou. Então o homem se levanta e sai do ônibus. pela janela. para limpá-lo. Como é que o camarada morre? Vejo duas possibilidades: uma. quando batia na porta.. de repente.aparece o marido dela e arma uma confusão.. com uma amiga. Ao despertar. vê a moça. E é onde ele morre. porque ela é garçonete e sem querer mancha o terno dele. que na verdade é a Morte. um pelo outro. GARCÍA MÁRQUEZ . que ela descubra o cartão postal e diga a ele que conhece aquele lugar. que o marido o mate. MANOLO . Até o homem sair de Bogotá procurando o mar.Não.. e roda parou um instante e a cadeirinha e a janela ficaram quase que no mesmo nível. Fizeram um parquinho infantil num lugar horrível e há um momento em que o personagem se senta num balanço e começa a cantar uma canção. Nosso problema agora é a estrutura. vê que ela está cuidando dele. MARCOS. Antes. GARCÍA MÁRQUEZ . discretamente. dos calções. que o ônibus no qual ele viaja poderia parar na estrada de um povoado.

Com isso acaba morrendo do mesmo jeito que viveu: frustrado. mas sem fazer nada. vê o mar.Existe um problema sério com o personagem da moça: ele não tem o vigor necessário para representar o que na verdade é.Na verdade. o homem sufocou suas emoções.. entendem? Aquelas coisas que no velho cinema eram 50 . sempre? ROBERTO .Vamos chegar lá. ROBERTO . o destino bateu à porta. não de quem chega. claro.. Aliás.. encontra a morte. O camarada olha o cartão. seria mais um encontrão do que um encontro propriamente dito.Está se movendo. nós não gostávamos da idéia de o homem bater na porta.Tudo bem. Durante toda a sua vida. Talvez depois a gente precise mais desse elemento e ele possa ser deixado de lado. É a história de uma pessoa para quem nunca acontece nada e sente que. nem ao primeiro encontro dos dois.. se acreditarmos nisso. GARCÍA MÁRQUEZ . e agora. O destino.. É uma canção em japonês. não será justamente esse o problema. caminha pela praia deserta.frente. rrruuurrrmm!. Quem viu esse filme não esquece nem essa canção. agora. ou sei lá o quê. O que eu mais gostei é a idéia de que ele vá ao mar e dali. a morte. o lugar do cartão postal. e o desejo surge. Seria a viagem que o levaria diretamente para a morte. seus sentimentos.. estamos caminhando. com uma sensualidade que o impressiona. Na verdade. Isso é tudo que ele quer fazer antes de morrer: conhecer o mar: Desce do ônibus nessa aldeia de pescadores. eu entendo. MANOLO sugeriu que ela se oferecesse para leválo ao lugar exato que ele procura. CECÍLIA . de repente. ROBERTO . porque é a canção da Morte. ela passa.. Então. a moça. temos que meter na cabeça que ela é a Morte. exatamente do mar. deveria fazer coisas insólitas. GARCÍA MÁRQUEZ . nem aquele parque horrível. Quase uma topada. O filme da horta é o filme de quem está dentro da casa.. E aí começa processo de sedução por parte dela. GARCÍA MÁRQUEZ . Nós não conseguimos dar ao personagem esse fôlego. esse gabarito.No fundo. visse a mulher. Na nossa história. Uma coisa assim meio. GARCÍA MÁRQUEZ .A iniciativa é dela.. É a Morte travestida de Vida. sem trocar sua de cachaco. Se ela é a Morte. nós não demos relevância a ela. o fato de ela estar sempre caminhando? CECÍLIA.A idéia do cartão postal e do mar tem força.. quando acha a possibilidade de expressá-los. o personagem vai crescer.Sim. e tem a visão do mar pela primeira vez. de viver em plenitude. mas não nos esquecemos dela jamais.

Já começo a ver essa negra. GARCÍA MÁRQUEZ .. acostumada a cantar. Ele sentiria o feitiço daquela voz e. orientando-se por ela. tem um momento de vacilação e regressa à praia. O que não consigo ver é a locação. de repente. mas ela já veio com ele.Pouco a pouco. providencial.Eu gostaria de resumir o que fizemos. seu canto..Pode até cantar: Uma mulher assim como Maria Bethânia. Não se encontram no ônibus. e agora?”. nem se vêem. nada de idealizado ou fantástico. Mesmo que ela não cante no filme. encontraria a mulher atrás de uma pedra. cortando cabeças de peixes. É por isso que a gente faz uma Oficina. dizendo que.. SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ .Por que não voltamos à idéia da comparação entre o mar do cartão postal e o da realidade? “Bem. 51 . no momento em que ele chega à praia. Se fosse de outro jeito.A mulher deve ser negra. mais todos nós tínhamos uma posição diferente diante da história.E se nós antecipássemos sua presença de outra maneira? Escutaríamos sua voz. e entra na água. Fica adormecido na areia.É bom que a Morte o salve de uma morte que não é a dele. Quando desperta vê. inclinada sobre ele. aparentemente. REYNALDO . instantâneo e definitivo. nem eu saiba de onde vem ou para onde vai.acompanhadas por golpes da orquestra: taran. e tudo muda. Ela seria uma espécie de flautista de Hamelin. tira os sapatos e as meias. como a que estou tendo agora: a mulher viaja no mesmo ônibus que o homem. tarataram. ela entra.Ele chega à beira do mar vestido de terno. que não chegou ainda. limpando peixe. para que nos juntarmos aqui? E não sairiam essas idéias loucas. ROBERTO . Uma negra corpulenta. E isso produz uma espécie de susto. GARCÍA MÁRQUEZ . a personagem vai-se desenhando. de longe. Houve propostas gerais. vai determinar o curso de toda a ação..Sim. não houve nenhum acordo. Ela está observando. E é quando vê a moça limpando os peixes. Tem a impressão de que o sujeito quer se matar: Ele avança. GARCÍA MÁRQUEZ . se pergunta o homem.Essa é uma aldeia de pescadores. GARCÍA MÁRQUEZ . uma coisa bem do cotidiano. Ela tem que surgir diante dele como algo insólito. O esquema poderia ser este: ele está numa situação que. uma mulher enorme. Todas as praias são iguais. E. ELID . na verdade. MARCOS .Mas é assim mesmo que a história acaba saindo. embora a gente não tenha tempo agora para analisála. com uma aura mística. SOCORRO .

Ele tem que começar a fazer coisas que nunca tinha feito. GARCÍA MÁRQUEZ .Concordo com isso: colocar o homem fazendo coisas loucas. saí para ver o que acontecia. no bar.É isso o que estamos tentando averiguar: o que ele faz depois? ELlD . ELID . tudo bem: ele vai para o mar. GARCÍA MÁRQUEZ . porque deixei aqui um sujeito sem destino exato.. sem destino.. mas isso é fácil de resolver..Vamos ficar com a idéia do cartão postal.Você é um romântico grego. Antes saía buscando aventuras. MANOLO . um pouco à deriva. 52 . e assim por diante. Você é mediterrâneo.. não é porque queira ir a esse lugar específico. Mas. nas aventuras de cavaleiros andantes. Quando ele seleciona o cartão postal.Ou de crianças. e quando volto encontro o mesmo camarada empenhado em chegar a um lugar. Porque acontece que o personagem vai em busca de aventuras.. GARCÍA MÁRQUEZ ... O camarada só fica ali na frente do mar.É um bom recurso visual. uma. Pois bem: que o homem se aproxime e pergunte: “Onde posso conseguir uma garrafa de rum?”.. e.Não é preciso se impacientar: Lembrem-se das diferentes camadas de pintura: primeiro. onde é que a estrada ia dar. de que ele deve ir ao mar para encontrá-la..Estou falando do final da viagem.Mas a sua proposta de situar a moça no ônibus contradiz a idéia de que ela “vem” do mar. Todos os brasileiros são mediterrâneos. Não faz nada. Confesso que isso me tirou do eixo.GARCÍA MÁRQUEZ . é pura questão de técnica.. ELID . ou “Onde é que fica o bordel daqui?” Pode ser que ele encontre uma bailarina no bordel. RORERTO .. depois outra. No ônibus ou no trem podem acontecer coisas. mas na verdade não faz nada. Um cartão em preto e branco.Está faltando loucura nessa história. REYNALDO .. escolheu o lugar da sua morte. estão uns sujeitos jogando dominó. É isso o que quero dizer: Vocês estão muito sérios. Existem postais do mar da selva. mas porque quer conhecer o mar.Como é? GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO . Ele vê um monte de cartões. depois esperar que seque. GARCÍA MÁRQUEZ .Eu estou achando que a praia ainda não é o lugar... ou então caminha pela praia. a não ser entrar num ônibus. das montanhas. Sem saber. Como nas novelas de cavalaria. ou na pensão ou restaurante onde a mulher trabalha. e escolhe do mar. Alguém dizia que.

Sim.. com a blusa ensangüentada. o mar. Tem uma baía muito estreita. ROBERTO . DENISE .Tenho a impressão que o cinema não agüenta outro outro prostíbulo. onde tudo acontece normalmente .. É uma boa imagem. E. o camarada morre.Ela e os pescadores se oferecem para levá-lo ao tal lugar que ele procurava. GARCÍA MÁRQUEZ .É uma travessura. o caminho vai-se fazendo mais tortuoso. matam o homem sem querer. MARCOS. Ninguém quer fazer mal ao homem. mais um bordel.GARCÍA MÁRQUEZ ..Isso dá muita vida ao filme...As crianças levam o homem. ao vê-lo vestido de terno.. por causa de uma piada! Ou seja. limpando peixe. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ. Os pescadores se assustam: o que aconteceu? Só a moça sabe.Essa imagem da mulher.Só de maldade. mas acabam fazendo.. Vocês lembram de O Soparso? É impressionante.. rodeada de 53 . SOCORRO . ROBERTO . Ela. não existe nada. da moça. precisamos buscar imagens.. A viagem começa com uma simples brincadeira.. GARCÍA MÁRQUEZ. Só ela tem consciência de ter levado o homem para a morte. GARCÍA MÁRQUEZ . colete e gravata.. o camarada chega à aldeia de pescadores com seu colete preto. Ou seja. cortando cabeças de peixe. no final. MANOLO .e. Enquanto a gente não tiver construído o personagem. sem querer. mas acaba se tornando um pesadelo.ensinam o gringo a tomar chimarrão.. SOCORRO .Na costa atlântica da Colômbia existe uma aldeia de pescadores que se chama Tacanga. “Vamos gozar esse aí”. Não muito pesadas: meio inocentes... construir a relação a partir dessa idéia de coisa engraçada. metem o homem na água. porque em nenhum momento a gente pensava que ele ia morrer.Sacodem.. À medida em que avançam. E acontece que por causa de uma dessas piadinhas ele acaba sendo morto. SOCORRO . o céu. no final. diz um dos pescadores quando vê o cachaco se aproximando.E o matam de brincadeira. As rochas. da piada. levantam.Seria bom resgatar a idéia da verdadeira..E por que levou? MARCOS . trazem. a montar a cavalo . a do gringo que chega ao pampa. Quando chegam. esquentam a bombinha do chimarrão.Até as crianças da aldeia debocham.Tem uma história. Há piadinhas.

onde os pescadores jogam suas redes. acaba criando para si um ambiente idílico. E uma boa imagem: ele flutuando na água transparente. Quero dizer que tenho essa imagem num roteiro que nunca foi filmado . SOCORRO . avisam aos pescadores..mas não faz mal. eu renuncio a ela. como é que se arranja numa situação dessas. MANOLO . embora também ache que seria bom 54 .As crianças.Quando ele descobre o mar.. quando caminha pela praia.montanhas.Ou aberto. uns vigias que observam o mar dos rochedos. ROBERTO . lá do alto. GARCÍA MÁRQUEZ . vestido da cabeça aos pés. Agora. para ver o que é que ele faz. GARCÍA MÁRQUEZ . e quando vêem entrar um cardume de peixes. MANOLO . essas crianças vivem numa aldeia da costa. deve ser uma coisa muito exótica. poético. Já temos o final. e deixá-lo lá. seja homem.E com o guarda-chuva fechado sobre o peito. Pois bem: podem levar Natalio a um desses ninhos de falcões. Por isso mesmo. Além do mais. E fica com ele.Deixam Natalio lá. e depois.O cadáver entra na baía flutuando com colete e tudo. Uma simples travessura. será interrompido de maneira brutal por uma bola de areia que os meninos jogam nele. MANOLO . podem ser extremamente cruéis. GARCÍA MÁRQUEZ . De repente. só de brincadeira.. só falta o recheio. vê também o cachaco.Ela o salva das crianças. SOCORRO . que se transforma em um crime coletivo. Há alguns homens. flutuando na baía. flutuando sobre os peixes. desaparece. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . sozinha.E ela? Na sedução. Os vigias são chamados de falcões. existe também uma dose de crueldade. para que eles fechem a rede.Ela estava observando os vigias.Espanta as crianças como se fossem moscas.E ele.Uma brincadeira coletiva.Por que você não diz de uma vez que é a baía mais bonita do mundo? Ou não é? Vamos. É aí que ela chega. lá em cima. Depois seu cadáver é descoberto. GARCÍA MÁRQUEZ . E no dia seguinte. ROBERTO . ao ver entrar na baía um cardume de peixes. e para eles um cachaco.a imagem de um vice-rei que se afoga num poço . quase inacessíveis. um dos vigias. diga logo! MANOLO .A água está tão quieta e transparente que a pesca é feita ali na margem. com sua inocência. pode surgir a idéia de escalar a montanha. Acho bom. de paletó.

sei perfeitamente quem é o senhor. Mas.Não vejo nenhuma razão para o personagem verdadeiro chegar. GLÓRIA ..com a chegada do personagem verdadeiro. acaba assumindo o papel que quis interpretar a vida inteira.... porque. e depois. ou não fazemos esse filme. importante. aqui todo mundo conhece o senhor”... de mentiroso.. não tente disfarçar.. pensam que é um personagem oficial. mesmo que seja tudo por engano.Uma espécie de atentado. ou fazemos direito. estou brincando.Dá tempo.Pela primeira vez na vida. Mas como ele chega vestido de maneira tão solene chapéu. ou temido. quando a confusão é descoberta . O camarada chega a 55 . e quando está no apogeu. por exemplo .. GLÓRIA . tem capacidade para isso. não lembro como é que tudo termina. por exemplo. um inspetor ou coisa parecida. acabam matando o nosso personagem. o sacristão fica sentindo-se padre e. enfim. esse homem vive um momento de triunfo. guarda-chuva -. e essa coisa envolve a aldeia inteira. MARCOS . Não se assustem. mas como todo mundo detesta o outro. e tem até quem acha que o reconhece.. O presidente da República.Alguém aí se lembra de Deus precisa dos homens. enfim.ele acaba sendo acusado de farsa. E celebram a sua chegada com uma grande festança. Agora.. mas acaba entrando na dança.Mas a gente não precisa de muito tempo para desenvolver uma situação dessas? GARCÍA MÁRQUEZ . é confundido com alguém muito importante.. alguém que pode descobrir alguma coisa não muito limpa. Ele é simplesmente confundido com outro homem... ou de Os pescadores da ilha de Siena? É um lugar que fica sem o padre.tentarmos uma coisa mais louca: o homem. No nosso caso.Todo mundo na aldeia estava esperando a chegada de alguém odiado. Por isso matam o recém-chegado. por favor. Eu imagino essa armadilha onde ele cai. SOCORRO . colete. e as pessoas obrigam o sacristão a rezar missa. O homem começa dizendo não. só para levá-lo até a armadilha.. estamos danados. coitado. GARCÍA MÁRQUEZ . alguma coisa está acontecendo em sua vida. e depois a confessá-los. temos tempo. sem que ele queira. afinal. e um belo dia.. Simulam aquela alegria toda. Mas os verdugos não ficam sabendo jamais que a vítima não tem nada a ver com a pessoa que eles esperavam. “Ora. e ele cai. Olha só: acabamos de entrar num filme simbólico. A aldeia inteira obrigou-o a aceitar aquele papel.. GARCÍA MÁRQUEZ . a vida arrasta o camarada e.. aceitando a contragosto a homenagem e depois. mas a idéia é muito boa. ao chegar.

Como se fosse o desenho. os pescadores recuperam algo que tinha sido tomado 56 .Enquanto tem poder.Nós já sabemos que a aldeia o espera. ROBERTO . ele toma decisões que. E eles começam a pedir e ele.. ROBERTO . para que dê certo. falta saber se o descobrem ou não. é lógico que sua chegada desperte expectativas. todas exatamente iguais. Sim. Tudo ali é tão artificial como essa história. GARCÍA MÁRQUEZ . E ele vai-se deixando convencer aos poucos. a história do estranho. CECÍLIA . ELID .Mas esta história é um conto de fadas.E se o camarada decidisse construir uma pirâmide? MANOLO . O que vejo é que sua saída de cena se articula com sua chegada. Aliás. Claro que o conhecemos: o senhor é o Fulano de Tal”. Conquistado pela hospitalidade das pessoas da aldeia. do outro. conceder. Glória. e todo mundo considera a sua chegada como uma coisa providencial.Vocês nem imaginam que lugar estranho é Tacanga. com autoridade. não disfarce: mas estávamos à sua espera. ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . fazer uma obra que o imortalize. o senhor.Eles inventam o personagem que esperaram. me descobriram. poder . a carruagem torna a virar abóbora.e já pode morrer tranqüilo. o traço de um pintor primitivo. toma decisões muito drásticas. depois. ora. O que querem de mim?”.A moça é a primeira a reconhecê-lo. Agora. e o feitiço se desfaz. e o homem foi enviado pelo governo para servir de mediador. porque necessitam uma pessoa assim.Ou o contrário: sente-se tão fascinado pelo poder.. que as esperanças dos moradores se projetem nele. para ele. “Seja bem-vindo.. O que isso me faz lembrar? Acho que a eterna história do forasteiro que chega ao povoado. por desfrutar do poder que não quer morrer: E tem mais: quer perpetuar sua fama. feito um bumerangue. vamos fazê-lo mais artificial ainda. “Bem.fama. Morrer. E graças a isso.Ele chega vestido de autoridade. não importa mais. mas quem é que ela está esperando? GARCÍA MÁRQUEZ .viver o grande momento da sua vida . quando perde o poder. a propósito: já que este conto é tão artificial.Numa aldeola assim. se voltam contra ele.. Os pescadores têm um conflito com uma empacotadora. com suas casinhas de madeira. porque ele chega vestido de Poder e morre no apogeu do seu poder. mesmo que cada uma tenha uma cor diferente. e ele sabe que tem um prazo para acabar: Vinte e quatro horas. que afetam os interesses da embaladora de peixe. GARCÍA MÁRQUEZ .

Quer fazer alguma coisa grandiosa. E são justamente esses personagens que matam o homem. GARCÍA MÁRQUEZ . ele é morto por todo esse amor.Mas isso é um longa-metragem.Como é que não consegue? Ora. ROBERTO . Ele já se sente Deus. REYNALDO . Quando chega. o fato. REYNALDO . e nós estamos elaborando um sonho.É um farsante. conceda ao homem essa última alegria. GARCÍA MÁRQUEZ .Uma morte grandiosa. nem grupos rivais.Ele é confundido com um benfeitor. Estamos metidos até o pescoço no terreno do mito e agora não podemos voltar à realidade cotidiana.Se conseguirmos descobrir o mecanismo que leva à morte. as pessoas dizem: “Finalmente! Sabíamos que ele viria!”. Já estamos no terreno do mito. Não precisamos de mais nada..Os pescadores se vingam nele de uma coisa que ele não fez.deles.Farsante de uma farsa que não quis protagonizar. Ele morre afogado. e quimioterapia. com quem ele foi confundido? Com um senador? GARCÍA MÁRQUEZ .Todo mundo na aldeia fica alegre com a sua chegada. bem diferente daquela outra que o esperava no hospital. GARCÍA MÁRQUEZ . Não pode existir nenhuma embaladora de peixe. ou se apoderam do que reclamavam como se fosse deles. mas morre como se fosse um santo. Mas. Os pescadores se vingam do que fizeram com o homem.O cara é enterrado vivo.No apogeu da GLÓRIA. GARCÍA MÁRQUEZ . mas também certos personagens que se sentem contrariados.. que o situe além da morte. 57 . ELID . ROBERTO . Porque ele sabe que a morte é inevitável.Não. não convém que os problemas sejam resolvidos.. entre radiações. Não vamos deixá-lo morrer por causa desse sacrifício que estão pedindo a ele. não seja cruel! Pelo menos. ROBERTO ..Que sacrifício? GARCÍA MÁRQUEZ. ele tem de fazer alguma coisa que o afirme como um deus. e fazem um grande enterro. GARCÍA MÁRQUEZ .Mas ele não consegue. e a gerência da embaladora de peixe decide se vingar dele. E quando descobrem que o homem não é o mediador se negam a devolver o que tomaram. MANOLO . teremos o filme pronto. MARCOS . Para eles. Da farsa que foi imposta a ele... O que mata o nosso homem é o mito.Sei lá. GARCÍA MÁRQUEZ . Nunca descobrirão a verdade.Ah.

e além disso.Você lembra do filme De Crápula a Herói. Puro milagre. Cidadão Kane e De Crápula a Herói. que deve fazer esse favor. e esta é uma delas. GARCÍA MÁRQUEZ . E acho bom. de Rossellini.Acham que ele é um médico milagroso. fica mais fácil de acreditar. só existem trinta e seis situações dramáticas.Em todas as casas da aldeia. desiludi-los. REYNALDO . tem um caso parecido.Tudo bem. Puxa. E sobre um pobre coitado que é preso numa cadeia da Itália . as pessoas descobrem no nosso homem alguma coisa que todos necessitam.Isso mesmo.Em Kagemusha. o General De la Rovere.É que com um italiano. mas consegue o seu objetivo. GARCÍA MÁRQUEZ .Crucificado. uma visão. Morre. uma aparição. GARCÍA MÁRQUEZ .uma cadeia para presos políticos -. claro. O verdadeiro general também está preso mas ocultou sua identidade para salvar a vida. Vemos a imagem do recém-chegado nos altares de todas as casas. acaba sendo o General De la Rovere. de repente. de Kurosawa. para nosso espanto. chega esse sujeito. Um santo.E ele chega mesmo a se achar o santo.. com a ilusão de que ele era a pessoa esperada. GARCÍA MÁRQUEZ . Por que não? Afinal. Mas morre crucificado? GARCÍA MÁRQUEZ . Podemos fazer qualquer coisa. Com velas acesas. sim. Estavam velando o santo e. porque sou um grande admirador desse filme. ROBERTO . E assim. e todos os outro presos o confundem com um líder. que é igualzinho ao santo. Por alguma razão. protagonizado por Vittorio de Sica? Acabo de perceber que essa é a história que estamos tentando contar. Os presos acabam convencendo o homem de que ele é o outro. e de repente aparece esse sujeito que se faz passar por ele.Em que sentido ele se deixa crucificar? Ele se sacrifica para alcançar seu propósito.. sem vacilar. arrisca a própria vida.Não. Várias vezes eu disse por aí que os três melhores filmes que já vi na vida foram O Encouraçado Potemkin. MARCOS . SOCORRO . vamos lá: nós já temos a história. Ele se deixa crucificar Ele quer que todo mundo fique contente. isso ficou bonito! 58 . Mas enfim. as pessoas veneram um santo que. é igualzinho ao homem.. O nosso homem descobre que as pessoas precisam dele. até um drama grego na ilha de Creta.GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO . o homem chegou a conclusão de que não pode frustrá-los. E para demonstrar isso. todo mundo se convence de que ele é o general.

Está bem. GARCÍA MÁRQUEZ .. ROBERTO . REYNALDO . SOCORRO . Antes.. GARCÍA MÁRQUEZ .Faz uma paralítica voltar a andar.. ROBERTO .CECÍLIA . Na verdade.. e depois o do santo.Pois eu continuo achando que ele devia morrer.Ele chega à aldeia sem que ninguém veja. fez até milagres. é justamente o dia do santo. GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO . E é a seguinte: um 59 . não é mesmo? E.Afinal. ROBERTO . O filme acaba assim. Afinal. GARCÍA MÁRQUEZ . é um filme muito bonito. o homem vai morrer? GARCÍA MÁRQUEZ .E ele chega a crer nos milagres. inventam milagres e os atribuem a ele.Ela entra na água e o homem vai atrás. Que ele faça dois ou três milagres rápidos. Tivemos um trabalho danado para chegar até aqui. ele ia morrer porque a gente não sabia o que fazer com ele. para ver onde a história nos leva. GARCÍA MÁRQUEZ . saber como é que tudo isso termina. Uma imagem muito bíblica. ele entra no mar mesmo. GARCÍA MÁRQUEZ .Vamos desenvolver cena por cena. O final não importa mais.Não. Melhor até do que imaginamos. REYNALDO . O homem pode morrer ou continuar vivo. Olha.O santo é o padroeiro dos pescadores... MARCOS . MANOLO . de repente.As pessoas inventam. e ponto.Como eu nunca vi um santo sorridente. o dia da sua chegada à aldeia. é o homem que é igualzinho ao santo. sorri.A gente fica com vontade de saber o que vem depois.. lindo. REYNALDO .: o cara olha para a câmera. imagino este fina. Vamos fazer primeiro o filme que nos convém. O filme pode terminar com o primeiro milagre.Se você derrotar o nosso filme.E aquele dia. O importante é que nós já temos a história.. como se fosse caminhar pela superfície da água.O homem não precisa mais morrer.Ninguém sabe como nem por onde ele chegou. desaparece. e faz o milagre. virou longa-metragem de novo. você é amigo ou inimigo? ROBERTO .Aí. e não o contrário.. Não acho que leve mais de meia hora para chegar ao primeiro milagre.Olha.Pois é: aí voltamos à longa-metragem. GARCÍA MÁRQUEZ ..Um santo que fez muito bem. a gente expulsa você. Acredita de verdade que é milagroso. GARCÍA MÁRQUEZ .

Quando ele vê os altares. Temos que trabalhar mais. GARCÍA MÁRQUEZ .Eu já tinha me esquecido do mar. E o médico responde: “Depende.São coisas diferentes. e começa a levar a cabo um velho sonho: conhecer o mar: Chega a uma aldeia de pescadores. ROBERTO .acaba acreditando que é santo. que tinha vivido uma vida tão chata. pode desandar e se perder E tem uma coisa que me preocupa: a imagem dos altares não deve ser muito parecida à de São Gregório.Agora a morte é um simples pretexto para fazer o nosso homem viajar. ela diz: 60 .Parece que a outra história.. com um médico que fazia milagres. GARCÍA MÁRQUEZ . Pode ser três meses ou três anos”.Esse aí seria o final. É sobre ele e sua incrível santidade. precisamos garantir que a história caiba em meia hora. No momento em que o homem decide que vai pôr a mão no doente.As circunstâncias se impõem sobre ele.A mulher estava esperando por ele na aldeia. esticar. Na beira do mar. Os detalhes virão depois.. Esta é a história. danou-se. O homem andou se recusando. perplexo: não sabe o que aconteceu. como alguém disse aqui. A conversa começa com o sujeito perguntando ao médico: “E quanto tempo o senhor acha que eu ainda tenho de vida?”. onde o confundem com um santo. e o milagre acontece. meio vago.democrata de Bogotá. CECÍLIA . não consegue se decidir. decide mudar de vida radicalmente. estão lembrando! Quando ele chega. É verdade que o Vaticano encrenca.Não precisamos mais falar da cirrose. Alguém pede ao homem que cure um doente. Agora. é uma avalanche que a Igreja não consegue parar. REYNALDO . Porque o filme não é sobre a criança doente. E os devotos não gostariam que a gente brincassem com o seu santo. e é tanta a insistência dos devotos que afinal põe a mão sobre uma criança doente ou moribunda que acabam de trazer e. CECÍLIA . GARCÍA MÁRQUEZ. chega a viver a vida de um santo.. Se ela crescer muito. mas a semelhança é tão grande. mas acaba cedendo. se ela ressuscita ou não. só que já não pode fazer mais nada. deixou de nos interessar. REYNALDO . desenganado pelos médicos.porque é parecido de verdade com o tal santo . O que interessa agora é ver como esse sujeito. porque o povo já o canalizou. no princípio do filme.. O diálogo fica assim. ROBERTO . a do camarada condenado a morrer.A mulher negra. que ponha a mão em tal Lugar. tão menor. quando vê a si próprio venerado em todas as casas . ele mesmo não se explica o que ocorreu. milagre! O filme poderia até acabar com o rosto do homem. e no começo ele vacila.

Agora. então.. nos impressiona. e sim a vida que tem pela frente. Não podemos nem piscar.“Estávamos a sua espera”. SOCORRO . Ele quer se libertar. ROBERTO .. agora. Por isso não se mete num hospital nem se tranca em casa para que cuidem dele. A figura da mulher. “Porra”.Eu tenho outra história.É a melhor coisa que poderia ter acontecido com ele.É o filme das casualidades.Muito bem. Chega a ter tudo: o poder e a GLÓRIA. porque ainda não sabemos que ela é a Morte. GARCÍA MÁRQUEZ . consegue a sua realização pessoal. como é mesmo? E aquela outra coisa ali?”.Não. com a informação que tem. desenvolve a história. Vamos parar quinze minutos? 61 . Ou preferem descansar? Cada vez que sai um livro meu. Porque se a gente piscar.O problema. Ao contrário: manda tudo à merda. a primeira coisa que os jornalistas perguntam é: “O que o senhor está escrevendo agora?”.Então. acho que é uma boa idéia. Hemingway dizia que um livro acabado era um leão morto. Essa é a história.. e isso aí. não é a vida que ele teve. GARCÍA MÁRQUEZ . seu porte. pronto: você mesmo. ver a história de MARCOS. GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO . MANOLO . a primeira versão. Quando tiver terminado o primeiro tratamento do roteiro. GARCÍA MÁRQUEZ .Ele se realiza.Melhor até do que ele poderia imaginar. GARCÍA MÁRQUEZ . A vida que ele teve é o que explica a sua decisão. A do cachaco é um leão morto. E o jeito é manter a história tensa o tempo inteiro. GARCÍA MÁRQUEZ . Sem querer. e por acaso.Acho que não precisamos mais revirar essa história. por isso é preciso tomar cuidado. traz para a gente ver. “não me deixam nem descansar um pouco!” Vendo a cara de vocês. Vamos. em seguida começarão as perguntas: “Êpa.A mulher ficou flutuando por aí porque nesta nova versão ela já não importa tanto. eu respondo. A tendência é ir além da meia hora. o que importa é a incerteza do homem: “Quanto tempo de vida eu tenho? Vou sofrer muito?”. MARCOS .

foram as locações. O cara das maracas mora num bairro muito pitoresco.É. ao imaginar a história. um cara famoso.. Estão dando as boas vindas a um helicóptero. a paisagem. ao mesmo tempo. as praias.E ela. e toca todas as maracas na orquestra de salsa do hotel.. não sabe dançar. Gostaria de poder filmar nesses lugares: os hotéis. tomando sol com dois algodõeziuhos tapando os olhos. tanto que chegou no hotel em seu próprio helicóptero. A história é a seguinte: essa mulher é uma psicóloga argentina que deciciiu passar férias no Caribe.tem uma aventura louca com esses dois personagens. está no hotel há vinte e quatro horas e ainda não se animou a descer até a praia. um grande ruído no céu e centenas de mãos na varanda agitam bandeirinhas. enquanto escuta música em um walkman. músico. É meio frígida.que parece ser frígida .. numa praia do Caribe. Assim o filme começa. vai visitar.. O clássico estereótipo: céu azul. acompanhado de seus guarda-costas. nunca teve um namorado. é claro. Nunca teve um namorado. outra de mariachis -. os ambientes. De repente. populares. palmeiras. Varanda de um hotel cinco estrelas. o outro é branco. E agora. Confesso que minha primeira motivação. quem é? Quais são os seus antecedentes? Como chegou ali? MARCOS . Queria brincar visualmente com certos estereótipos latino-americanos: os músicos .. Primeiro plano de uma mulher cinqüentona. Veio ao Caribe nnma excursão de quinze dias. por exemplo. começa duas aventuras amorosas com dois sujeitos. porque alguém disse a 62 . parecido com o Hilton Palace de São Domingos.a orquestra de salsa. A psicóloga . Um deles é negro. que a psicóloga.O chamado da selva MARCOS . uma pessoa que procura no Caribe o que não pôde encontrar em seu país..Vou contar primeiro o começo do filme.. GARCÍA MÁRQUEZ .SEGUNDA PARTE QUINTA JORNADA DE TRABALHO História de uma paixão argentina . de repente.. O aparelho pousa suavemente no heliporto do hotel. Essa é a imagem.

frígida ou tímida. sozinha.Sim. no hotel..Ela vai descobrir isso na própria carne. Agora é uma pessoa totalmente diferente. puxa. doutora”. e ela: “E as relações eiticas?”. “Acho a senhora meio cansada.Através de uma amiga que acaba de voltar de uma viagem idêntica.Não é preciso nos determos para descrever sua personalidade.Você me tirou isso da boca. Viu só? A situação inteira pode acontecer através de perguntas e respostas. ela pensa: “Está resolvido: vou para o Caribe”. corte: ela está no avião.Ela vai se entusiasmando. a vegetação. tudo ao mesmo tempo. o produto de uma psicanálise ao contrário: a paciente a psicanalisou. A personalidade pode se manifestar através da atmosfera do consultório.. mais dinâmica. de repente. se misturem algumas pautas culturais próprias da América Latina.. GARCÍA MÁRQUEZ .. ROBERTO .. “A senhora bem que anda precisando de umas férias no Caribe: outros céu.. e começa a viver sua própria fantasia. Você deve contrapor o mundo dela à realidade caribenha. diz a amiga. GARCÍA MÁRQUEZ .. meio distraída. mais sensual. imagine só.. tudo muito impessoal. Como é que ela vai parar nessa excursão? MARCOS . quando levar o tocador 63 .. mas vistas como estereótipos. Por isso está ali. outras pessoas. claro. ROBERTO ..Muito bem. Um caso assim não deixa de ser atraente: uma mulher incapaz de tratar com um homem e que. trabalhando somos capazes de arrancar uma história daí.A doutora aos poucos vai deixando de ser quem é. MARCOS. A paciente responde: “Ah. Como você vê a história Marcos: drama ou comédia? MARCOS. doutora. se enrosca com dois e vive um romance apaixonado com cada um. Quando a outra mulher sai. GARCÍA MÁRQUEZ .. lá tudo é diferente. psicóloga ou psiquiatra.. falando de sua viagem ao Caribe. A psicóloga escuta. ROBERTO .. fazer amor numa rede.Eu acho interessante que. uma profissional. MARCOS .. e de repente.Porque a gente não começa numa sessão de psicoterapia? GARCÍA MÁRQUEZ .ela “cuidado. a cor das paredes... Mas o que você tem não é uma história: é uma idéia. Mora em Buenos Aires. não vá ser roubada”. tomando sol no terreça do hotel. A paciente está deitada no divã. ROBERTO . Sabemos que a mulher é argentina. Vamos ver se. o entardecer. MARCOS .”.Então o divã é sopa no mel. A paciente está recordando o calor... não existe nada parecido”. Conte mais coisas.Comédia. muito ascético.

voltamos ao consultório de Buenos Aires. embora não seja necessariamente pior. vai levar esse homem para o quarto? GARCÍA MÁRQUEZ . a voz em off da paciente. Aí começa o jogo da comédia. passar por uma experiência parecida. uma mulher madura que nunca viveu uma paixão amorosa tem. E o filme acaba aí. duas aventuras fenomenais.Podemos apelar para um recurso técnico. Suas relações com o sujeito das maracas e com o magnata não são o que ela esperava. Corte. Também convém que a gente saiba o que ela anda procurando. Vemos que seus olhos começam a brilhar. e sim o contrário. Não é que agora ela vá para a cama com dois ou três sujeitos.Ela vai acabar fazendo amor com o homem que menos imaginava. tão rígida e. ou uma grande retrospectiva. O filme continua. O problema é que você ainda não tem a estrutura.Isso é problema nosso. REYNALDO . e decide repeti-la. como conta toda a sua vida. Mas nada sai do mesmo jeito.Mas como é que uma mulher tão seca. Isso não é tão difícil assim.Ela ouviu essa história da paciente. Tudo acontece ao contrário. Começa o interrogatório pela psicóloga. SOCORRO . para ver se funciona. O que vimos não é outra coisa além de uma antecipação. ou uma caricatura. e não dela. de repente. vemos que ela come o maleteiro com os olhos. O que vemos na tela não é o que a voz conta. sai tudo ao contrário. quer contar a sua.. 64 . GARCÍA MÁRQUEZ . “Amanhã estou indo para o Caribe”. num grande hotel do Caribe. não tem uma coisa orgânica e articulada: você tem uma idéia. as coisas acontecem ao contrário. com cinquenta anos. pensa. MARCOS . Ouvimos as respostas sobre seu rosto. Mas seria necessário manter esse elemento de contradição: para ela. vão dar o suporte. Logo que chega ao hotel.Sinto necessidade de resumir a história. Até agora. Os olhos da psicóloga brilham mais do que nunca. Tudo dá errado para a psicóloga. o fio condutor que você precisa. GARCÍA MÁRQUEZ . No final. é que agora ela está alerta para outras alternativas. Real ou imaginária? Não sabemos. Seu entusiasmo aumenta a cada resposta. ouvimos a voz da paciente em off. GLÓRIA . O questionário da psicóloga.. mas agora não há mais perguntas. A paciente está estendida no divã.Noa só vai para a cama com ele. A paciente respondeu à última pergunta. Agora. ela não tinha feito outra coisa além de ouvir histórias dos outros.A história pode ser resumida dessa maneira: enquanto se hospeda. como turista. e que de repente nem é do gosto dela? CECÍLIA . MARCOS . ainda por cima.Funciona.de maracas para a cama.

sai. a situação não pode se prolongar: a excursão dura quinze dias. É magnífico. Este homem. GARCÍA MÁRQUEZ . Mas este outro tocador de maracas não tem tempo para se aborrecer. no cabaré do hotel Capri. e uma contrafigura. MARCOS . E um dos músicos .E o filme. resumi-las em alguns parágrafos e analisá-las conforme formos escrevendo. É relativamente jovem e muito popular entre as turistas. e tocava suas maracas por pura inércia: chac-chac-chac.. e depois. insuportável. e assim que ela chega começa a procurá-lo. GARCÍA MÁRQUEZ . a psicóloga sente o cheiro do mar. Mas. Vai ver. ouvindo uma orquestra de uns quinze músicos interpretando velhos boleros.ao mesmo tempo. a brisa..Bom.. temos um personagem que é o protagonista.Tudo bem. com calma. A razão dessa popularidade nós sabemos através da paciente: “Doutora.. GARCÍA MÁRQUEZ . em Havana.. GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO . Tinha o olhar parado no vazio.. para começar. meia hora.Ela foi ao Caribe para isso: procurar o amor. toca maracas numa orquestra há vinte e cinco anos. mas em certo sentido.o das maracas. no hotel xis tem um tocador de maracas que é um encanto.Seria formídável se a história com o tocador de maracas não desse certo e.. encontra uma amiga na esquina. O sujeito é uma espécie de gigolô.Ao chegar aos trópicos. Tem um instrumento deste tamanho!”. são quase vizinhos. Na verdade.. Eu acho que o mais certo é ter as ações bem claras. GARCÍA MÁRQUEZ . O sujeito também mora em Buenos Aires. o sabor. Estou querendo dizer que a até a sua pele desperta. rapidamente. Disseram que esse tocador de maracas era o tal. Seja como for. o calor. cujo desenvolvimento é desconhecido. quantas psicanalistas argentinas caíram em suas mãos? Pelo menos cinqüenta.Tudo bem. eles descobrem que moram no mesmo bairro.O personagem não nasceu assim. A idéia me bateu una noite.. era um músico subordinado ao Ministério da Cultura. MARCOS . aqui. o músico caribenho que toca maracas. A primeira é começando pela síntese: conta-se a medula de uma história que ainda não existe. claro . ela acabasse se enrolando com um argentino. Viu só? Está saindo a história. E o filme 65 . ganhando duzentos e cinqüenta pesos por mês. nesse tempo.não fazia outra coisa a não ser sacudir as maracas. MARCOS . a outra é contando passo a passo o que acontece: uma mulher se levanta.E ela vai direto ao assunto.. em vez disso. Há duas maneiras de conceber um roteiro. a psicóloga argentina. entra num ônibus.

apesar de ser muito profissional. metido com uma argentina?”. e pouco a pouco a vida a empurra para o outro.O que temos aqui é um jogo entre a paixão e o poder.O cara não pode ser famoso. Mas viveram no mesmo bairro. e o outro é potência. vendeu um Caribe de fantasia para a psicóloga.poderia acabar assim: os dois voltando juntos para a Argentina. Mas não consegue seduzir o tocador de maracas. ser.Não pode. GARCÍA MÁRQUEZ .. acaba indo embora no helicóptero com ele.. CECÍLIA . Vamos deixá-la com quarenta e dois e sentindo-se frustada do mesmo jeito.. Ela pode dizer a si mesma: “O que é isso? Viajar tanto para me enroscar com um argentino?”. em plenos trópicos. Agora não estamos mergulhados em um drama. No fim.Uma comédia cheia de enredos. mas tudo dá errado porque o tocador de maracas está em outra.E dificilmente morariam no mesmo bairro.Talvez a paciente seja isso. VICTORIA .. é até veado.Um é poder. REYNALDO . A paciente. e agora são felizes graças a esse encontro casual no hotel. Aqui já temos o núcleo de uma comédia de situações.Não é um argentino qualquer.. MARCOS . ela pensa: e por que não? O que me impede? GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS . no divã. e sim em dois. E a psicóloga. VICTORIA . enquanto a outra conta suas férias no Caribe com todos os detalhes. É o que chega no helicóptero.A única coisa que ela sabe é que o sujeito tem as medidas.cada um à sua maneira -. O tocador de maracas seria a paixão. SOCORRO .Vamos tirar alguns aninhos dela? Não precisa ter cinquenta. GARCÍA MÁRQUEZ . capar de inventar mil aventuras para compensar suas frustrações. porque o sujeito também deve pensar: “E que porra estou fazendo aqui.. os centímetros cúbicos necessários. Não está cheio de argentinos indo ao Brasil atrás de aventuras eróticas e de todos os tipos? GARCÍA MÁRQUEZ . Ela vai atrás do tocador. Vai ver. Ela já tem referências de confiança sobre os gostos dele.Acho isso interessante.Mas se ela foi procurar outra coisa! Ela não agüentaria ficar falando com um argentino. Então. depois de ter ouvido tantas histórias e ter sido obrigada a vivê-las monasticamente.Essa situação me faz lembrar de uma história que 66 . os dois se frustrando . senão ela o conheceria. feito padre. uma moça fantasiosa. morre de inveja ao ouvir. GARCÍA MÁRQUEZ . GLÓRIA .

Ela experimenta as frutas. de noite. “Olha só. GARCÍA MÁRQUEZ.. e não gosta de nada. e sabem quem eu vejo? Newton. Bom... VICTORIA ... armou-se aquele barulho. MARCOS . e me sentei sozinho. GARCÍA MÁRQUEZ . ouço risos. A psicóloga se instala no mesmo lugar e descobre que não acontece coisa alguma.Está bem.E por que não? Afinal. Não deixe de ir”.Não. GARCÍA MÁRQUEZ . O bar é bonito. ela responde: “Olha. brasileiro. é a mesma coisa: é a paciente que arma todo barulho no hotel e onde quer que chegue. estamos no Caribe. acaba caindo na rede. No dia combinado eu fui. tudo despertou. e ele vinha descendo a escadinha. Ouço vozes.. ela se sente irritada quando encontra seu compatriota. no filme.Ele insinua: “Por que não damos uma volta hoje à noite?”.. Newton ainda não havia chegado. embaixador no México. que sabia direito o que queria.. dia 17. Era a lugar mais chato do mundo! E de repente. Estamos tentando construir uma história a partir de uma situação. E no entanto. Quando o pessoal o viu chegar. diante de uma mesa. os sucos. se recusa: “Mas não tem sentido. Não conhece ninguém ali. Por que a gente não se encontra na quinta-feira. E ela. MARCOS . mas Newton não imaginaria como é chato quando ele não está. Olho.Para ela. como autômatos.”. Isso iria parecer intencional demais. GARCÍA MÁRQUEZ . ouvimos. ROBERTO . MARCOS . Vem fugindo da Argentina e 67 . uma certa cordialidade. em off. abre uma certa intimidade.Por enquanto. O bar está num porão. ROBERTO . uma farra que durou até o dia raiar. ouço música. Um dia ele veio e me disse: “Quer dizer que você está indo para Amsterdam? Eu estou viajando para lá.. o tal sujeito. O camarada está em outra.Bem.. num barzinho que está na esquina da Rua Canal com a rua tal? Você nunca viu lugar mais alegre e divertido. por isso convida a mulher para sair. mas alguma coisa tem de acontecer.E enquanto ela faz isso. Ou seja. de um ambiente. a voz da paciente: “Lá existem uns sucos de fruta que são a maravilha das maravilhas. Era ele quem levava a alegria.O que falta é a história.”. um jogo de simetrias. imagine só!”. uma grande decepção. Olhei à minha volta. O que ele queria mesmo é uma mulata.O que você disse também é verdade: ela não interessava tanto ao sujeito. ela não rejeita de maneira dura. que nada vai ocorrer com ela. e aquilo parecia um velório: as pessoas imóveis.eu batizei de “O bar de Newton”. GARCÍA MÁRQUEZ . É o destino. sem perder o bom humor. Vir de tão longe para acabar na mesma coisa de sempre!”. Newton era um amigo meu. bebendo em silêncio.

Então. a paciente estendida no divã.“Mas. como: Rivadavia. É uma funcionária pública. E pode até ser que as duas 68 . Sendo uma profissional. Ela evita. Obrigado. como é que acredita que vai 'viver' a mesma experiência de suas pacientes? Pode sentir-se atraída por certos detalhes. essa coisa de todo mundo achar que está fazendo um drama e o que está saindo é uma comédia. REYNALDO . O que faz uma psicanalista? Ajuda o paciente a encontrar seu próprio caminho. agradeço este esclarecimento.encontra um galã argentino.. Obrigado. na imagem. DENISE . ela não deve ser psicanalista. de repente. E quem fez com que ela sonhasse essa história foram suas pacientes. faz o possível e o impossível para não o encontrar de novo. o material que temos não dá para outra coisa.Ora. GARCÍA MÁRQUEZ . mas só. GARCÍA MÁRQUEZ .Não acho conveniente. O gênero é uma coisa que devemos definir desde o começo. É um lugar comum.E se ela não fosse tão profissional? E se fosse uma psicóloga medíocre? VICTORIA .O esclarecimento é oportuno. REYNALDO .O chamado da selva. Além disso. encontrar o tocador de maracas. mas não acabam só se enrolando: descobrem que são vizinhos em Buenos Aires.Muito bem. pensando bem.. Sinto que a história está crescendo. ela pode ser ao mesmo tempo uma excelente profissional e sentir atração pelo desconhecido. e não uma caricatura. GARCÍA MÁRQUEZ . Não há nada pior que uma comédia involuntária. 46? Não pode ser! Eu moro no 48!”. o rosto da doutura e. tem de ser psicanalista. GARCÍA MÁRQUEZ . corte para ela no avião e a voz em off. MARCOS . GARCÍA MÁRQUEZ . Isto é uma comédia de enganos.Podemos começar pelo questionário da psicóloga.Ela irá viver a prefiguração de sua aventura.Mas seria conveniente tirar esse caráter estereotipado de “psicanalista argentina”. Mas o personagem deve ser um personagem. GARCÍA MÁRQUEZ . Já sabemos uma coisa: o que vamos ver é um desadelo.Não. ROBERTO . de jeito nenhum.E quando ela. ROBERTO . Se é argentina. que vive de um salário magro e fez um esforço enorme para economizar e realizar o seu sonho: passar uma semana num hotel de luxo no Caribe. a voz em off estará justamente falando dele.

Ele está preenchendo a ficha no balcão. Quer ser amável. “Mas. Em vão. se o hotel está cheio de argentinos?”.Daí em diante ela foge sem parar. que vá tudo à merda. Acaba sempre encontrando o argentino. DENISE . perguntam. SOCORRO ..No hotel há um animador ou um relações-públicas. pergunta. por favor?”. E no dia seguinte. “Mas. mas me mudaram de quarto. contou isso a ela: que muitíssima gente havia encontrado naquele hotel o par sonhado. “A senhora chegou no vôo número tal?”... GARCÍA MÁRQUEZ . o vê a mulher chegando. ela encontra o argentino saindo da porta em frente.. ELID . aliás. CECÍLIA . o senhor não estava. Tango! O relações públicas está disposto e decidido a promover o tango..E o cara? GARCÍA MÁRQUEZ . E ela leva um susto. senhorita”.Que cara? O dia em que os argentinos invadiram o mundo GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . o tocador de maracas. ao sair do quarto. sozinha por quê.Ela encontra esse sujeito no hotel. GARCÍA MÁRQUEZ . faz o possível para que se encontrem. e o 305 para a argentina. as maracas. responde o recepcionista. no momento de preencher a ficha na recepção. seu par ideal. “Poderia me colocar em outro andar. se aproxima da mesa onde a mulher está. “Estava. e não acaba frase. todos se mobilizam. só isso. não é? Quem dizer: as visões não coincidem.A paciente. diz. como. responde ele. Tará-tan-tan-tan. O da paciente é de fantasia.”.Mas é o mesmo.Quando percebem que está sozinha e que é argentina. CECÍLIA . Prometem contratar uma orquestra de tangos. 69 .O músico que a psicóloga encontra é o real. E então ele. MARCOS .visões não coincidam: o tocador de maracas descrito pela voz não é o mesmo que ela está vendo.O hotel tem essa filosofia: ajudar cada hóspede solitário a encontrar o seu par. O Caribe.O recepcionista dá o quarto 303 para o argentino. o galã. A salsa que vá para o diabo. e ao ver que os dois são argentinos e estão sozinhos.. “Claro. O ar-condicionado estava com defeito”. Ela percebe.

Ela não tem outra saída.Primeira situação: o restaurante do hotel está lotado.Este é o final. O sujeito se apressa a esclarecer: “Não. vai ficando irritada: “O senhor me desculpe. pouco a pouco. mas não importa.. a não ser concordar.”.. não é? REYNALDO . se não tiver nenhum inconveniente”.Essa decisão é esquisita demais. Os dois.e a convida para dançar.. a verdadeira vida deles. tem compromissos demais. SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ ...Qual risco? GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS . Dançam de maneira absolutamente sensacional. talvez ela se sinta mais à vontade em sua companhia..”.Ela sai com o músico.. Ontem à noite bebi com ele. fugindo sempre um do outro. GARCÍA MÁRQUEZ . tomamos rum. E a partir daí. são colocados em em uma mesma mesa.. GARCÍA MÁRQUEZ . Perceberam que a vida. MARCOS .O negro não dá conta.Ela não encontra jamais n tocador de maracas. correndo um risco enorme. E pensa: como o outro sujeito é argentino. ROBERTO .Os dois se despedem. Começam a falar de maneira muito civilizada. mas descobre que ele também convidou o argentino. é um tipo supersimpático. aquela do Pizzolla.. “Tenho uma surpresa para você: pedi a um amigo argentino que saísse com a gente. mas não estou disposta a passar as férias entre compatriotas. como se estivessem obedecendo a uma maldição.. pergunta o maitre. ROBERTO .” MARCOS .É que o tocador de maracas tem medo que a argentina se chateie sozinha com ele. no Caribe.“Ya sé que estoy piantao.. piantao. é claro. GARCÍA MÁRQUEZ . está lá longe: não têm nada para fazer aqui.. “Estão juntos”.. Estamos. só nos falta preencher o espaço vazio com algumas situações engenhosas. que por acaso coincidiram na porta. Se aceitamos isso. para no fim acabar com seu vizinho! SOCORRO .Não...Tanto desejou o tocador de maracas. uma noite. 70 .. Quero dizer. acabam sempre se encontrando de novo.”.Que tudo isso acabe virando uma piada de argentinos. mas ela. GARCÍA MÁRQUEZ . Dançam resignados. e vão embora alegres e felizes. REYNALDO .“Eu vim para cá justamente para passar quinze dias sem ver nenhum argentino na minha frente.“Mi Buenos Aires querido. piantao”.

e pelo visto vou precisar de dúzias e dúzias de argentinos. É o momento em que ele diz: “Por que não jantamos juntos no restaurante da praia ?”. o time todo. E leva os dois para apresentar ao time. não: tudo faz parte do mesmo jogo. E ela. e todo mundo até o barman e vários argentinos .Ora.e eles aproveitam e vão até o bar. sei lá os dois começam a rir..Os dois vão juntos ver o jogo. E ela responde: “Não temos nada a perder”. a gente perderia a idéia dos “coitados dos argentinos sozinhos”. Só que acontece a mesma coisa com o sujeito. então. Mas não se preocupe: estamos tentando 71 . Quando se encontram de novo . ROBERTO .. muda para outro. desse jeito. não perde nenhum lance. Os jogadores ficam em posição de sentido e começam a cantar o hino.Pode ser até que eles tenham de cantar o hino nacional. e a função de anjo da guarda do relações-públicas. ao ver que o hotel se encheu de argentinos. o galã: não agüenta a invasão. ROBERTO . o tal que fica armando casais.Que anjo da guarda? DENISE . Mas o jogo está passando na televisão. E então. no bar. cada por sua conta.Os dois.Há uma cerimônia de boas-vindas em pleno campo. REYNALDO . DENISE .Outra situação: vai ser disputada uma partida de futebol. os jogadores de futebol”.É que estamos fazendo uma comédia. ROBERTO .Mas.acompanha as jogadas. chegam os jogadores.Ela. não se contém: fica de pé e canta o hino. o destino. ROBERTO . O fulano diz: “Acabam de chegar uns compatriotas seus. Esse poderia ser o final.Isso é uma piada. É uma reconciliação ou uma resignação? Não importa. a psicóloga e o cara.parece que todos foram ao estádio .Eu queria fazer um filme aqui no Caribe. E atrás dos jogadores. A seleção argentina se hospeda no mesmo hotel. para uma conversa tranqüila na frente de um cuba-libre. REYNALDO .. um montão de turistas argentinos.E mais ainda.Esse pode ser o final da filme. MARCOS . DENISE .ROBERTO .. vieram sozinhos.a casualidade. e também muda de hotel. está jantando no restaurante do hotel. GARCÍA MÁRQUEZ .O hotel está vazio de argentinos . com muita gente daqui. GARCÍA MÁRQUEZ . A delegação inteira. Nesse hotel. GARCÍA MÁRQUEZ.Ah. MARCOS . você levanta uma pedra e encontra lá embaixo um argentino. DENISE .

google. tudo idêntico.Tem uma coisa que me interessa pôr no filme: um desse restaurantes especializados em carne. seja bem-vinda. Quarto 205”. ROBERTO .. muito longe da Argentina.. GARCÍA MÁRQUEZ . Não temos ainda uma estrutura.Ou do caribenho típico? GARCÍA MÁRQUEZ . fabricado em série. Os bifes. Não trocam nenhuma palavra. Ela já começou a fugir do argentino. MARCOS? Você esqueceu? Quando você tiver uma idéia como essa..Não. Aqui está a sua chave. Não é o retrato do argentino típico? REYNALDO . e a torcida arrasta os símbolos: bandeiras. No final. A que servir. Começam a discutir a situação do país..E o helicóptero. outros falam outra. a que não servir. não serve. MARCOS .2 MARCOS . mas o fio condutor está aí. GARCÍA MÁRQUEZ . todas as que dê para encontrar.com/group/Viciados_em_Livros.. Quem será? Quem é esse camarada tão importante que se dá ao luxo de chegar de helicóptero? ROBERTO . Mas no dia seguinte. será um prazer recebê‐lo em nosso grupo. de repente.Acho que avançamos um pouco. camisetas. com dez argentinos dentro.. “Não. E tudo sendo filmado por Marcos. Quando o cara vai embora atrás do maleteiro.. O que não dá para fazer agora é parar de procurar. é forte demais. A chegada do time de futebol arrasta uma torcida. Mas ela ouve o recepcionista dizendo: “Seja bemvindo. na hora de se registrar é um argentino. o recepcionista fala com ela: “Doutora Ricovix. chega aquele aparelho. A psicóloga chega ao hotel e a primeira coisa que encontra. Uns falam uma coisa. 2 Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar o acesso ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras. serve. Se quiser outros títulos nos procure http://groups. as lingüiças penduradas no teto. por favor!” reclama a mulher.O elevador fica preso. quarto 203”. Quem será que está chegando? A mulher está tomando sol no terraço do hotel e. “Não tem outro mais lá no alto? Não gosto de andares baixos”. Introduz um ruído no sistema. na paciente e nesta psicóloga que se deixou convencer de que a vida está no Caribe. aquilo vira uma loucura. senhor Ribarola. Depois organizamos tudo... não cabe mais nenhum.encontrar situações. 72 . apenas se olham com o rabo do olho.Maradona. não a abandone nunca. um argentino.. ao sair do quarto. vê o argentino entrando no quarto da frente.Não vamos nos dispersar: O fato é o seguinte: a tela vai se enchendo de argentinos.

ainda cru. impecável: bigodão. a mulher abre os olhos e vê um touro voando. vocês se lembram de A Doce Vida? Começa com um helicóptero que transporta uma estátua. depois vamos acrescentar o relato da paciente. Do pescoço do touro balança um cartaz: “Legítima carne argentina”. Um defeito no chuveiro ou no ar-condicionado. Tenho interesse num personagem como Pedrito. VICTORIA . e o trombone. De repente. MARCOS . dente de ouro. por exemplo. estamos desenvolvendo a história. MARCOS . GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO . E o contrário do que pensávamos: primeiro.Todo amarrado por cordas..Aliás.Têm outra orquestra muito boa. MARCOS. não é? MARCOS . muito bem arrumado.Um touro caído do céu. GARCÍA MÁRQUEZ .Um touro argentino. O nosso helicóptero poderia carregar um touro amarrado. GARCÍA MÁRQUEZ .Tiveram que mudá-lo.Espero que esteja lá a orquestra de salsa. tem mais vida que as maracas..Ela não consegue acreditar no que está vendo. porque com aquele movimento. ROBERTO . A melhor carne argentina. ROBERTO .Mas você já tem esse personagem: o tocador de maracas. um mulato de um metro e noventa..A Noite dos Pampas.É um símbolo fálico. ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO . Tem a ver. o cantor dos Van Van.Um churrasco inteiro.Não. Eles anunciam pelo hotel inteiro: “Não perca: este sábado. o trombone de vara.. Um touro vivo. chapéu branco de aba larga.. que será comido naquela mesma noite. O grande churrasco dessa noite de festa. GARCÍA MÁRQUEZ .. Grande Noite dos Pampas!”. Podemos elaborá-la depois que tivermos terminado o conto. Vocês sabem quem é? GARCÍA MÁRQUEZ .Um Cristo. 73 . os Irakere. REYNALDO .“A melhor carne do mundo”.Boa idéia.Nós perdemos a voz em off.E que eu estou vendo o Pedrito. Os Van Van. como instrumento. Mas lá está o churrasco. e um de seus melhores números é justamente o de uma negra que canta um blue acompanhada por um trombone. Como espetáculo é lindo.

GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO .Poderia ser Acapulco. GARCÍA MÁRQUEZ .No nosso caso. O que sobra para que a gente veja? O tango. e de repente.. Todo mundo muito elegante. múúú!. como anúncio da Semana Argentina! Porque o que existe no hotel é exatamente isso: uma Semana Argentina. todos mastigando os bifes. Desse jeito. como num desfile de beleza.Olha aqui. Agora. damas empetecadas de jóias.. esquartejando o animal. transformado em churrasco. esquecemos o incidente. E depois.. há um desfile de várias vacas pela pista de dança. com as costelas sanguinolentas. A psicóloga e o sujeito são dois dançarino sensacionais. GARCÍA MÁRQUEZ . e o que aparece é uma orquestra de tango. as vacas.Ao sair do restaurante. Não acham que é um filme engraçado? MARCOS.. é preciso organizar tudo.. temos a chegada dela. Estão felizes por ter-se encontrado. vemos o touro aberto pelo meio. Uma imagem explosiva. temos surpresas. pouco depois.Ela está tentando fugir dos argentinos. e ela o vê perder-se em um canto de jardim. ROBERTO .O Caribe mexicano: Cancun. e encontra os açougueiros . e todo mundo comendo o touro. o touro enfeitado. do sujeito. evitá-los do jeito que for.Os turistas estão esperando a banda de salsa.zás. O mestre de cerimônias anuncia: “Senhoras e senhores: nesta noite. E lá está o touro.E antes que a orquestra desande a tocar. Eu já me vejo filmando esse helicóptero com o touro balançando sobre a cidade.GARCÍA MÁRQUEZ . zás.. completamente esquartejado. MARCOS .Baixam o touro. E. Vi fazerem isso no Brasil: um desfile de vacas num hotel de luxo. Nós o vemos atravessar o salão com uma grinalda de flores dependurada no pescoço. E no fim.Eu acho. GARCÍA MÁRQUEZ .. ela se engana cie porta e vai dar na cozinha.Que inclui o jogo de futebol. nos conformamos com o touro. GARCÍA MÁRQUEZ . A meia-hora se acabou. é proibido fazer alusões insolentes! MARCOS . E... 74 . O que mais podemos pedir? Já temos situações suficientes para preencher trinta minutos. E ponto final. dependurado em um gancho. depois. do touro e do time de futebol. Depois.”. mesas com toalhas de renda.Uma ilha do Caribe. Mas que seja um touro argentino. por causa do futebol. Teria que passar no México. esquartejado. E de noite. MANOLO . – de faca na mão..

E a noite acaba assim. GARCÍA MÁRQUEZ . como aconselha a etimologia.Depois do jantar... a propósito: eu a faria sair da Argentina no inverno.As damas que me perdoem: ele arrota sem querer.O inverno de lá. que é o verão daqui. 75 . da Oficina. GARCÍA MÁRQUEZ . dominado pelo canto? Ou prefere deixar tudo para nós.. por causa do rio da Prata. de Prata. a orquestra toca um tango. E os dois dançam tão bem que ganham o prêmio da noite: são coroados “Os Argentinos de Ouro”. DENISE . quem toma notas não tem tempo para mais nada. Peço desculpas”. mas alguém precisa fazer isso. ela está passando pelo controle de passaportes.. ROBERTO .. a psicóloga. e você mesmo aparece na tela explicando: “Respeitável público: agora. E..Poderiam ficar presos no elevador depois do jantar. REYNALDO . e que a gente elabore uma história adequada para um argentino.Nove de julho. vamos começar pelo verdadeiro começo: o consultório.ROBERTO . Por que não voltamos à seqüência da chegada? O avião acaba de pousar. ou seja. mas fui obrigado.e uma canção maravilhosa.. Eu não queria fazer esta cena. estou achando esse tango meio suspeito.Até o momento da chegada ao hotel.Acho que deveríamos retomar o fio da meada. por cima. para nos acostumarmos ao ambiente.Ela tomou um táxi para o hotel. Eu sei que é um sacrifício. aproveitamos para mostrar a cidade. sem argentinos? MARCOS . ou melhor. vira o escrivão da Oficina. está tudo bem. Ela que saia em julho. a paciente.. dia da Pátria. com todo mundo cantando na frente da câmera o hino nacional argentino.Você esqueceu o final de El resplandor? Termina com um velho retrato .. Se vamos fazer uma escaleta. bem na nuca da mulher. Aí. GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO .Eu. MARCOS . o divã.Quer saber o que você pode fazer? Pára o filme no meio.todos estão mortos . quase não consegue participar.Espera aí.. é a hora do tango. GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS . A pista de dança fica coberta de casais. Estão empanturrados de carne e de vinho. como bom argentino. Ninguém está anotando. GARCÍA MÁRQUEZ .A única coisa que eu disse foi esta: chega de tango. Você não gostaria de um final desses. O que você acha? É preciso ousar fazer umas coisas dessas.

e quando sai na varanda do quarto. é preferível definir uma linha de ação que seja muito clara. perplexos “Desculpe”. O avião aterrissa e passamos. Pergunta. “Ah.. o hotel Sheraton está na frente das favelas. Quando a gente chega nesses hotéis . Portanto vamos voltar à recepção.. Outro corte.. “Não faz mal”. Os dois se olham.No Brasil. Como vai? Veja só. diz ela apontando para baixo. “mas o senhor não estava. do outro. Esta 76 . porque o ar-condicionado do outro estava com defeito. “Muito bem.. “Vai custar um pouco mais caro”. Chega no balcão e nota que o sujeito que está se registrando é argentino. num corte.?”. Quando dão a ela o quarto 305. e um quarto com vista para o mar”. ao balcão hotel. e pode fazer tudo sozinho. e depois ir complicando durante o primeiro tratamento. ela contempla o ambiente d cidade. ela está no hotel. “Não. ROBERTO . as favelas. encontra uma vista panorâmica da cidade.GARCÍA MÁRQUEZ .. precisei mudar de quarto. não tornamos a ouvir a voz. REYNALDO . Não parece muito com o que o vídeo de turismo exibido no avião mostrava. a primeira versão.Também pode ser o seguinte: ela chega na janela e vê a cidade. quando ela sai na varanda do quarto.Depois que ela retoma o protagonismo. sinto muito”.Acho bom a gente começar a tomar decisões. Não imagens de cartão postal.A gente tinha voz em off. SOCORRO . vê que ele está na varanda vizinha. o estereótipo. Pelo menos por enquanto. é verdade. quando vista pelos fundos.O homem imediatamente muda de quarto. na parte de trás. ela teria visto algumas dessas imagens. é claro . e então se apropria do método. Temos que estabelecer a ordem visual.Ela sobe. GARCÍA MÁRQUEZ ..pela frente. De um lado está o mar. não tinha? Agora.Neste tipo de história. Então eu queria um andar mais alto. GARCÍA MÁRQUEZ . E em determinado momento. projetam numa tela . MARCOS . A realidade está lá. só que a janela está nos fundos do hotel. quando o avião está chegando a uma cidade turística. é claro. acabou. Do táxi.não imagina como a paisagem é diferente. GARCÍA MÁRQUEZ . para o táxi.No Rio.imagens do lugar: Poderia acontecer a mesma coisa aqui: já antes de chegar. ela percebe o perigo e não vacila: “Tem vista para o mar”.dentro do avião. aqui está: o 807”. REYNALDO . é evidente: só o óbvio. Escuta o que o recepcionista diz quando dá a chave do homem. GARCÍA MÁRQUEZ .Vamos retomar a idéia do táxi. Aí está a graça da Oficina: a gente vê como se desenvolve.

Não. tudo irritante. e lá está o galã argentino. ela ouve barulho do quarto vizinho. água fria”.E. A cordilheira dos Andes. e que a mulher esteja sentada.Antes. Ela responde: “Sim. senhora. SOCORRO . MARCOS .O boy ligou a televisão para ela. GLÓRIA .Quem faz isso é o boy que levou sua bagagem. MARCOS . experimenta dois maiôs antes de descer para a piscina.Não. é o controle de luz. GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS. Aquela música ambiental. aqui. desesperante. chegue lá e. peça outro quarto. Mas existe aí um vazio que precisamos preencher: E preciso dar tempo para que o homem descubra que seu ar-condicionado não funciona. sim. nós dissemos que ela está vestindo roupas de inverno? CECÍLIA. Aliás.. no fim. CECÍLIA . Claro que o rapaz insiste: afinal..Praias. MARCOS . O diretor que decida. torna a ver o sujeito.Também pode ser que o boy tenha dado a ela a programação noturna do hotel. Alguns minutos mais tarde.Que horror! REYNALDO .Eu me perdi.Machu Picchu. somos criadores: é preciso dar à história o tempo que ela quiser.. veja. o pampa argentino. GLÓRIA . SOCORRO . palmeiras contra a luz. água quente. Enquanto isso. “Aqui. GARCÍA MÁRQUEZ . ela liga o rádio. sai à varanda. arruma as roupas no armário..Ele subiu primeiro.Ela se instala. O banheiro é logo ali. quer merecer a gorjeta. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . já teve tempo de mudar de quarto. querendo se livrar dele. GARCÍA MÁRQUEZ. o ar-condicionado..Ficamos no seguinte ponto: na recepção.De repente. obrigada”.história tem a desgraça de estimular a imaginação: todo mundo tem alguma coisa para acrescentar. olhando o folheto. que apareça na varanda. SOCORRO .As paredes do quarto estão cobertas de enormes fotografias de paisagens. não. quando se instala. Nós não somos produtores. onde está ele? Mudando de quarto? GARCÍA MÁRQUEZ .E a gente precisa terminar nesta jornada.Vamos deixar isso de lado..Estamos pensando em uma montagem paralela? 77 . SOCORRO . a psicóloga exige um outro quarto.

arrumando suas coisas já no outro quarto. disca o número e. Ela muda de roupa. MARCOS .. poderia parecer que o filme é isso. GARCÍA MÁRQUEZ .. por exemplo. faz um gesto de cumprimento. de repente..A próxima seqüência seria a dela mudando de quarto. óculos escuros.Não precisa explicar mais nada. nunca sabemos direito o que vai acontecer: Agora. Quando o boy sai e ela fica sozinha no quarto. sem esperar resposta. ágeis.. E o mesmo boy.Meu medo é que já temos dessas situações de sobra. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . Talvez ele seja um executivo que anda pelo Caribe vendendo aparelhos de ar-condicionado. Isso abre espaço para situações mais engraçadas. Porque senão. torna-se 'tropical' à maneira dos turistas: blusa colorida. estamos na metade ou na terceira parte do filme? 78 . Essa é a sua primeira capitulação. Ela é que não disfarça sua rejeição.Ela fica lá mesmo. Não tem por quê ficar esticando cada piada. CECÍLIA . no quarto ao lado. GARCÍA MÁRQUEZ .Entra no quarto. tentando repetir a rotina. de novo. estamos calculando tempo.GARCÍA MÁRQUEZ .Não. mas está pensando em outra coisa. cada vez que a encontra. encontra o galã.Nós já demos a esse camarada tempo suficiente.. GLÓRIA . É preciso tentar armar a escaleta e medir o tempo.Não acho bom ela ver o homem na varanda..Não. ainda vestido de argentino. quando sai do quarto. Esta história é muito difícil.. vê o homem.Eu prefiro assim: situações breves. ROBERTO . se transforma. Não abandonamos a mulher em nenhum instante. Ele está na varanda vizinha. Desiste. se arruma e. no final se resigna. não. GLÓRIA . porque.Ela se resigna. vai até o telefone disposta a pedir outro quarto. desliga. Mas nós já dissemos que o camarada não estava interessado na psicóloga. acompanhado do mesmo boy com as malas. Ela fica: vai aceitando a fatalidade aos poucos.Mas isso não impede que ele seja gentil com a mulher. é melhor não mudar a mulher de quarto. Ele acha que a reconhece. que está entrando. Ele a reconhece. e então sai à varanda. ele também anda procurando um romance tropical. o jogo de esconde-esconde. e. como é de um enredo atrás do outro. REYNALDO . GLÓRIA .. tenta escapar dele. faz um leve gesto de cumprimento e ela não consegue se conter: “Mas o senhor não estava em outro andar?”. aspira profundamente a maresia do Caribe. e.

cinco minutos depois do começo do filme. que anuncia todas as desgraças posteriores. GARCÍA MÁRQUEZ . ficam encantados.E os rumbeiros por uma orquestra? ELID .. uma bebida cubana com nome japonês.Ela já mudou de roupa.Muito bem. ao cabaré do hotel. REYNALDO . uma coisa dessas faz com que se sintam vivos. e o do argentino. A voz em off é ouvida de novo. A orquestra de salsa está tocando. Primeiro. MARCOS? Qual é a idéia? MARCOS . Bem. botam fogo .É preciso não deixar amontoar.E cadê o time de futebol? GARCÍA MÁRQUEZ . Antigua. porque ela vem fugindo da Argentina e dos argentinos e a primeira coisa que encontra no hotel. Entra no elevador e vai direto para o bar.A gente não ia trocar as maracas por outro músico? REYNALDO . de repente. E a transfiguração turística da realidade exterior. ela aceita a primeira fatalidade..Tanto assim. com mais domínio da situação. Temos de ir passo a passo.. Como já tem referências das coisas do Caribe através da paciente. está caçando o músico.e os gringos. Estamos entre cinco e sete minutos. se lá fora a carne é assada sobre brasas. Trinidad e Tobago. Daí passamos. Guadalupe. Quando eu estava escrevendo O Outono do Patriarca percorri as Antilhas Menores: Martínica. como o chapéu da cantora. Na verdade..O seu 'destino sul-americano'.. Ela olha fixo para o tocador de maracas. estão os dois “encontros” da mulher: o do Caribe. fazendo o retrato idealizado do personagem.. Fui de ilha em ilha e descobri que as ilhas são um mundo e os hotéis das ilhas outro mundo muito diferente. ELID . É uma forma de dizer: está vendo como conheço os hábitos do lugar? GARCÍA MÁRQUEZ . fica plantada na frente do barman e pede um mojito.. Barbados. não.ROBERTO . ELID . Ela pede a bebida xis e o que levam é uma taça 'Carmem Miranda': um copo enorme. corte a corte.Para a maioria dos turistas. nenhum deles com menos de cinqüenta anos.E aí o que acontece. MARCOS . Por exemplo.Como diria Cortázar. MARCOS .fuuuff. Não pode mais escapar.. coroado de frutas. uma labareda tremenda .Um encontro que é um desencontro. no hotel o churrasco é servido por negros vestidos de pirata e que trazem uma frigideira enorme e. cheios de felicidade por terem conhecido algo tão típico. folhas e flores.Ou seja. Nos hotéis. GARCÍA MÁRQUEZ . esse 79 . eles pegam um pedaço da realidade exterior e o transformam.

MANOLO ... Conheci um. o ambiente. mas aqui dentro eles colocam tudo junto. Pepino que nasce torto cresce torto. É preciso começar com uma linha de desenvolvimento muito simples. e eles não são tímidos.. ele diz: “Que coincidência. GARCÍA MÁRQUEZ .. REYNALDO ... chega perto e gentilmente a convida para dançar. mas enfim.É preciso aproveitar a atmosfera.Com o argentino.. nunca tanto como a realidade. Claro. atravessa o salão. que faz piadas. ROBERTO . é claro. Além do mais..Ela está na sua mesa e o argentino. ao vê-la. São tímidos.Ela vai procurar o músico e o músico está conversando justamente com. MARCOS . o argentino. GARCÍA MÁRQUEZ . Ou.. que se mete com todo mundo. que se apresentava como sendo o senhor Pereira. tão agressiva. E o que está acontecendo é que. GARCÍA MÁRQUEZ .Eu não a imagino assim... vemos uma bananeira aqui. GARCÍA MÁRQUEZ ... Ou vamos fazer um filme de surdos-mudos? Lá pelas tantas. e mal consegue ver o tocador de maracas: precisar afastar as folhas e as frutas para poder vê-lo.. quem sabe. e isso agora nos convém.”. e você acaba não vendo nada. Como a noite acaba? DENISE .. MARCOS . seca: “Eu não atravessei o continente para me encontrar com meus vizinhos. é que nós temos trinta minutos e já gastamos dez.É preciso que aconteça alguma coisa que sirva de gancho para manter o interesse do espectador. nos encontrarmos aqui nos trópicos!”. E ela. em Argel.Quando o show termina. REYNALDO . Não conseguem entender o que está acontecendo.. ela vai diretamente aos camarins para tentar falar com o músico.Eu conheço os argentinos muito bem..sentido da 'reprodução comercial' da realidade exterior se presta a todo tipo de exageros.. de sua copa 'Carmem Miranda'. uma mangueira acolá. Por que não voltamos ao tocador de maracas? Um sujeito com carisma. têm os seus caprichos.. e ir complicando as coisas aos poucos. Um encontro casual.Ela está sentada na frente da sua cascata tropical. ele mesmo se convida para se sentar ao seu lado. Lá fora. mas advertindo que o sobrenome 80 .Já é hora de ela e o argentino conversarem.Eles nunca se atreveriam a dizer coisas assim. porque o cinema também gosta de exagerar. Ela já começou a mergulhar na vida artificial. GARCÍA MÁRQUEZ .Ela e o sujeito poderiam chegar ao hotel no meio de uma grande confusão. CECÍLIA .

sem pensar duas vezes. GLÓRIA . o animador convocar todo mundo para dançar numa espécie de trenzinho.A situação dos dois tem que ficar definida nesta noite. se aproxima. Ninguém dança a conga: encaixa. mas não sou o Pedrito.veja só que coincidência! .. a viagem. Corte para o dia seguinte: vemos a mulher tomando sol.Muito bem.Nesses cabarés é comum. SOCORRO . sou o substituto. tudo. é verdade. na verdade. nervosa. Não se esqueça que a seqüência seguinte é a da piscina. no final da noite. desolada: ficou sem programa para esta noite. Os dois se viram pela última vez na cena da varanda.. que manda lembranças.Manda o recado por um garçom. GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS . o rejeita: “Ora.. da mesa dela. Corte para a cara da psicóloga. se conforma com a argentina. imagine só. um agarrando o outro pela cintura. vê os dois conversando. O músico sai do camarim. vir até aqui para acaba dançando tango!”.no cordão. da cena de Romeu e Julieta. Posso encontrá-lo depois do show? “ SOCORRO . ela não desiste 81 .Quero ficar um pouco mais nessa noite: quando o show acaba. é justamente atrás dela.E o lugar dele . O capricho deste aqui é dançar com a psicóloga. A psicóloga mandou um recado ao músico: “Sou argentina. o sabor das Antilhas. MARCOS: você acaba de encontrar uma maneira muito argentina para definir uma dança chamada conga.. sente-se para escrever e desenvolva a seqüência inteira dessa noite.era com y: Pereyra. acha que são amigos. REYNALDO . Ele agora se insinua e ela... mas encontra o argentino. Ele também anda caçando uma aventura: preferiria uma negra ou uma mulata. O argentino chega perto. GARCÍA MÁRQUEZ . na piscina. ela vai ver o músico das maracas. Pedrito está numa turnê com a banda dele. Deixa claro que está procurando outra coisa. mas se não aparecer nenhuma. não é?. E ela. um atrás do outro.O músico. No fundo. “Eu sinto muito. esperando o tocador de maracas acabar de trabalhar para abordá-lo! A galanteria de seu compatriota ameaça estropiar a noite. GARCÍA MÁRQUEZ . e vai embora sem falar com ela. na Venezuela”. encaixa uma pessoa na outra.. GARCÍA MÁRQUEZ .. onde ela vê o helicóptero chegar.. animados.Esse trenzinho. muito diferente. MARCOS . Marcos. amiga de Fulana de Tal.. então.Ela tem um pretexto: sua paciente.Não sou capaz de imaginar uma psicóloga de Buenos Aires indo pessoalmente buscar o músico.

. De repente.E se o argentino continuar ali. para ser bem sincero. O músico chega até a mesa e diz o que combinamos: ele sente muito.. Mesmo que seja outro tocador de outras maracas. De agora em diante não precisamos mais do músico das maracas. passamos a outro da cara dela. “Posso?”. o argentino chega . tão longe de casa”. não tem mais nada a dizer. REYNALDO ...Faz parte do clima criado ao redor da Semana Argentina.. SOCORRO .Quero ressaltar uma coisa: quando o músico substituto diz a ela que Pedrito foi para Caracas. GARCÍA MÁRQUEZ .E que a gente não pára de misturar as cenas. e vamos acabar ficando sem entender nada. não é? A noite começa no cabaré. Não desempenha nenhuma outra função no resto do filme. Ou melhor. A coisa começa com a chegada do time de futebol. etc. devo dizer que estou tentando tirar esse músico de circulação. MARCOS. é o substituto. O que importa agora é a relação dela com o argentino.. arrastando a torcida.. diz ele. GARCÍA MÁRQUEZ .e ela sozinha na sua mesa. vocês não desistem da cena do tango. há um corte abrupto. as bandeirinhas.Acho que o dia da chegada está resolvido.De um plano da cara da mulher.da idéia do tocador de maracas. mas não é o Pedrito.Você tem razão.Eu calculo que uns sete minutos. vendo o helicóptero 82 . não perdemos o nosso tocador de maracas? MARCOS .mambos. GARCÍA MÁRQUEZ .Olha.. e senta sem esperar a resposta. ainda contraída. Ela aproveita uma pausa da orquestra para mandar o recado pelo garçom. sem tirar os olhos do tocador de maracas. MANOLO . É a hora da velha conversa: “Imagine. ela perde duas vezes: nem argentino. mas agora virou fumaça. quanto tempo foi gasto? GARCÍA MÁRQUEZ . Quantas vezes uma coisa parecida não aconteceu com a gente? Quantas vezes ao longo da vida..Essa frase dela é fundamental. guarachas.Ele já deu um certo peso à história. Um show forte . O personagem foi uma isca para levar a psicóloga ao Caribe. ouvindo o tocador de maracas. contraída.Para chegar onde chegamos. GARCÍA MÁRQUEZ . nós aqui.Pelo que estou vendo. nem músico. MARCOS . porque é justamente assim que o filme deve terminar: com os dois dançando tango. cha-cha-cha . Mas se ele tiver ido embora. etc. ela passa a ter essa opção. e aparece a piscina. “Sou seu vizinho”. ele mudou.o mesmo argentino que nós não víamos desde a cena da varanda. MANOLO . ELID .

que é argentina. . GLÓRIA . sombrinhas.Quando o helicóptero desce e deposita o touro no terraço..O corte é para a cara dela. E que tal fazer que o argentino seja o organizador disso tudo? Ora.. Bem: o que fazemos com o touro? SOCORRO . Se pelo menos tivéssemos um argentino à nossa disposição. minha senhora. passa a touro. você tem que ver outra vez A Doce Vida. GARCÍA MÁRQUEZ ... diga.Depois que acontece a história do touro.Ela consegue se refazer da surpresa. Como a tiramos dali? Arrancar uma pessoa que está tomando sol numa piscina não é nada fácil.E se ele escapar e espalhar pânico entre os hóspedes? GARCÍA MÁRQUEZ . GLÓRIA . a senhora. se dirige à recepção para apanhar a chave e. o gerente exclama: “Ah. MARCOS . para que ninguém tenha dúvidas. E sobre as palmeiras.Ou até mesmo antes: ao ouvir a mulher falar. GARCÍA MÁRQUEZ .O pessoal do hotel não sabe lidar com esses bichos.chegar.Esses eventos são realizados sempre pelo país “homenageado”. Pode até colocar entre aspas..A ventania do helicóptero faz voar mesas. Ela agarra uma toalha. parecem estar olhando diretamente para ela.MARCOS. ao lado da piscina... o vento leva o chapéu da psicóloga pelos ares. o time de futebol invade o hotel.O que ela vê são os olhos do touro.. centenas de turistas argentinos agitando bandeirinhas argentinas. você está salvo! Com esta cena. balançando por cima do muro. Liga a 83 . ELID . se ela visse as bandeirinhas antes. você leva o o filme lá para cima. e quando ela ainda está no terraço do hotel.Ela está esticada placidamente na espreguiçadeira. como uma alucinação. MARCOS . Poderíamos conseguir uma cena muito curiosa. nesse momento. é claro! O argentino é o organizador Semana da Argentina! ROBERTO . Mas uma cara sonolenta e depois atônita por causa da surpresa do vento e do ruído. E então percebe que o touro está dependurado no helicóptero. CECÍLIA . sim. GARCÍA MÁRQUEZ . De lá também se ouve o ruído da rua.É feito um furacão. e sobe para o quarto. Atrás deles. deixando bem claro que se trata citações. Marcos. sente um ruído que vem da rua. faz virar um turbante. poderia nos explicar como fazemos para tirar esse touro do jardim? GARCÍA MÁRQUEZ . para pegar alguns elementos.Eu também me preocupo é com ela. abatidas pelo vento. olha por cima do muro e vê os jogadores chegando.

O recepcionista explica. escuta os foguetes e os morteiros. Não existe mais nenhum lugar onde ela possa se meter. Nesse meio tempo. Pode ter alguma coisa a ver com o evento.. cheios de torcedores. temos de ver para que tipo de hotel. o helicóptero e o touro..Mas isso não quer dizer que não tente mudar. Está dando uma entrevista. MARCOS . para depois preenchê-la com calma. ela vai encontrar a República Argentina inteira. os torcedores. não vai ter nem cinco minutos de tempo livre..E mesmo que ela mudasse de hotel. acabam entrevistando até o touro. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . necessariamente. Até agora andou vagabundeando por ali. GARCÍA MÁRQUEZ . REYNALDO .Sim.Ele não precisa.Ela não deve mudar de hotel. ao mesmo tempo. a televisão está sobrando. Quando sobe para o quarto. mas não encontra lugar. com muito tempo livre. bandeirinhas. O que mais ela precisa? É sempre melhor inventar uma ação. apitos.. mas antes ela viu a chegada do time.Não tem ninguém anotando? Assim perdemos coisas. GARCÍA MÁRQUEZ . vai até a varanda e torna a uma a multidão. Enquanto está no terraço. vê a chegada do 84 . ROBERTO .Vamos ver a seqüência “os argentinos vêm aí”.Se o sujeito for mesmo o organizador do evento. Vocês. MANOLO . Precisamos armar uma boa estrutura. depois.O hotel ameaça virar um lugar insuportável... ROBERTO .. os turistas agitando a bandeirinhas.. ela telefona para a recepção: “Será que alguém pode me explicar o que está acontecendo?”. GARCÍA MÁRQUEZ . E.Quando sobe para o quarto.televisão e quem ela vê? O argentino. está tudo lotado. Primeiro. eles acabam dançando um tango num hotel mequetrefe. se ninguém impedir.Se ela for mudar de hotel. O sujeito é o organizador do evento. ser o organizador.. ela vê o alvoroço armado com a chegaria do time.. depois. aqui. De repente. É desse jeito que ela fica sabendo quem ele é.. que ter que explicá-la. a chegada do time de futebol. CECÍLIA . senão.. e eu espero que não sejam elementos da estrutura. camisetas. Bonés..Acho que. porque o evento não tinha começado e o time não tinha chegado. ela entrando no hotel e subindo para o quarto. daria na mesma: a cidade inteira está do mesmo jeito.Ela tenta de todas as maneiras. ela vê a recepção do time pela televisão. foram chegando os ônibus. ou participar dele de algum jeito. MARCOS . Pode até ser o intermediário que vendeu o touro. SOCORRO .

Aí. enquanto isso. não ouvimos a resposta do recepcionista.Temos a ventania: o vento arranca o seu chapéu de palha de abas enormes.Bem. ouve a notícia pelo telefone. chegam logo três caldeirões: vê o time pela televisão. Ela recebe a mesma informação por três vias diferentes. a cerimônia toda.. Ninguém quer perder esse jogo: Argentina contra o resto do mundo. que 'responde' à sua pergunta. Quando você der o corte.Ou seja: para quem não queria sopa. que sente o cheiro e dispara atrás de um chuveiro para se lavar. GARCÍA MÁRQUEZ .E exigindo explicações por telefone. Mas tudo isso poderia ser feito na mesma locação: o bar da piscina tem uma televisão e. Todo mundo corre de um lado a outro. GARCÍA MÁRQUEZ .. saindo do chuveiro. um telefone. GARCÍA MÁRQUEZ .Argentina contra a Seleção Mundial. ela já fez o que tinha para fazer.É uma seqüência tumultuada'. vão matar você em Buenos Aires! Se não fosse um filme sério. e sim sobre ela com os argentinos. tenta em vão mudar de hotel. No fim. cadê o argentino? Onde é que ele se meteu? Temos de saber isso. MARCOS . CECÍLIA . na piscina. e respondem que não existe nenhum táxi disponível.Ela procura a guia telefônica. 85 . a ordem da seqüência está clara. liga para outro hotel e dizem que não há nenhum quarto vazio.time. por causa da chegada do time.Quando telefona para a recepção para saber quê diabos está acontecendo.Então. fisicamente: não basta receber apenas o impacto visual. no momento em que o touro larga um aguaceiro de cocô. REYNALDO .. E. REYNALDO . VICTORIA . leva sombrinhas pelos ares. Uma pasta verde cai em cima dela. vai até a varanda. ela já está no quarto. não precisamos falar do cocô.. os guarda-sóis. e observa tudo pela janela. Ela. pede um táxi pelo telefone do quarto. MARCOS. REYNALDO . embora esteja claro para nós que o filme não é sobre ela e o argentino. a psicóloga despertaria.Ela precisa sentir alguma coisa. GARCÍA MÁRQUEZ . e sim a do apresentador de televisão.. claro.MARCOS. então. MARCOS .Quando ela perceber o que está acontecendo. porque sente que a confusão vem lá de baixo. GARCÍA MÁRQUEZ .É a redundância absoluta.. GLÓRIA . Com todos os argentinos.

como um narrador de radionovelas: quanto tempo vai demorar até ele entrar definitivamente em sua vida? CECÍLIA . que começa com o helicóptero e termina com a tentativa de fuga. só dá para isso.GARCÍA MÁRQUEZ . Precisa cuidar de seus assuntos. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ .Eu acho que agora ela precisa de um momento de repouso. Está lendo a entrevista.Ele. Aliás. E já entrou no quarto dela . Mas agora. “Pense bem. também não sabíamos.Ele está sendo entrevistado pela televisão. 86 .A informação que estava faltando é dada pelo recepcionista.e temos. não é? MARCOS . ROBERTO . Quando começamos.Essa seqüência. Nessa seqüência demos toda a informação necessária. Ela pode começar a se sentir um tanto paranóica. então. o direito de nos perguntarmos. Está rodeada.Na entrevista.pelo menos. DENISE .E depois? Estamos construindo um roteiro sem saber o que vai acontecer no minuto seguinte.É para isso que temos cabeça. poderia se chamar O dia em que os argentinos invadiram o mundo. MARCOS . o camarada diz alguma coisa que chama a atenção da psicóloga. a sua imagem . não tem mais tempo para nada. A cidade está invadida.Sentou-se para ver.Ela continua no quarto. GARCÍA MÁRQUEZ . o que podemos fazer? É o seu país contra o mundo inteiro!”. por telefone.. GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS .Vou pensar nisso. REYNALDO . GLÓRIA . para poder pensar no que está acontecendo. o que me preocupa é aquilo que você perguntou antes: onde diabos foi parar o argentino? O último tango no Caribe CECÍLIA . Ela nota que ele não é nenhum bobo.O que precisamos contar agora é justamente isso: o que aconteceu a essa pobre argentina quando os argentinos invadiram seu mundo..Está parecendo que essa história vai durar um dia só.É o relações-públicas do time de futebol.Pelo menos já sabemos quem é argentino. senhorita. agora. GARCÍA MÁRQUEZ .

GARCÍA MÁRQUEZ .Nós nunca saberemos quem ganhou. os dois vão se encontrar. na grande festa final.. O jogo vai ser no dia seguinte. ELID .A Argentina não pode perder.Ela.. ele insiste.Ficou claro.A frustação dela. que foi levar um convite de festa para ela. para mim. GLÓRIA . senão o nosso filme estaria danado.Que final? MARCOS . o que você quer que ele faça? Aliás. A festa. Ou estamos pensando em material de arquivo? REYNALDO . como ele está no quarto vizinho.. Ainda bem que com o argentino não temos nenhum problema. MARCOS . Vocês sabem quem é? GARCÍA MÁRQUEZ . ela cede.. depois de sua tentativa inútil d emudar de hotel.O que interessa é que ela aceita o convite. GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS . porque o músico estava viajando: agora. tem de resignar a passar as férias no meio de 87 . acabamos de perder o nosso final.Mas a argentina vai perder! GARCÍA MÁRQUEZ .ela. o barulho da rua continua chegando pela janela.Mas se ela está desconsolada e desgraçada. Estamos nos inclinando na direção de um final feliz. Ainda bem. na seqüência final do filme.E com isso. mas deprimida de verdade.É ele. está deprimida.E. Desligou a televisão. GARCÍA MÁRQUEZ .Faz um prognóstico sobre o resultado do jogo. alguém bate suavemente à sua porta. agora. precisamos filmar o jogo..Ela está no quarto. fez-se enfim um instante de silêncio. CECÍLIA .Coitada! Primeiro. A psicóloga protesta. de repente. está resignada ou fascinada? GARCÍA MÁRQUEZ .Não existe mais o tocador de maracas.Filmar esse jogo não é fácil. MARCOS . o que você faria no lugar dele? REYNALDO . abatida.. que os trópicos foram para a cucuia. para depois. no fim. GARCÍA MÁRQUEZ .GARCÍA MÁRQUEZ . celebrar a vitória. reclama. ELID .. Aliás. se resignou a não ver o músico.E lá está o argentino para consolá-la. ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . é a de boas-vindas. não dá para ninguém sair nas ruas. de recepção.. Talvez dê a entender ao camarada que viu a entrevista pela televisão.. seja como for..Os trópicos se argentinizaram.

Vendo a festa pela televisão.. E. CECÍLIA . Corte. Mas o ruído da festa entra pela varanda. de antemão. resolveu mandar um presente. o que está fazendo? MARCOS . O que ela pretende fazer? Psicanalisar a psicóloga. O touro está desfilando. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . obrigada.Não.. rodeado de fotógrafos. O cara não se dá por vencido. Só quer saber de dormir. CECÍLIA . Quando ela desce e entra na festa. E ela..Um diálogo pelo avesso. no meio da alegria geral. ele .E é verdade que o 'diálogo'. entrando numa festa.Poderíamos ainda dar uma outra volta a esse parafuso diálogo com a paciente: Batem na porta.. não quer saber de nada. Vamos vendo a mulher de corte em corte. um churrasco preparado para homenagear os argentinos.se levanta. vai buscá-la e a convida a juntar-se 88 . Estende-se na cama. No grande salão do hotel. que traz um presente. chega à festa no momento em que o touro está no meio do salão.Não vamos nos enganar: o argentino é um sujeito verdadeiramente encantador. a festa já começou. como uma coisa muito orgânica.que está numa mesa com vários amigos . De repente. não. ele torna a insistir em seu convite. no quarto. tira do armário um vestido de gala e. É o boy. A psicóloga insiste.. em sua visita. Ela não quer saber de ninguém. esse ruído fica menor: é a paciente..Há um aspecto aí que acho interessante: ela se estender rígida na cama. Está com os nervos em frangalhos. CECÍLIA . mas a voz em off acaba triunfando. GARCÍA MÁRQUEZ . não se entregar tão facilmente. e vemos a mulher vestida de gala. corn uma certa dose de arrogância: “Não. Toma um comprimido para dormir.. uma analogia com o divã do seu consultório. sempre contrapondo sua depressão ao barulho alegre da festa. o ruído continua. A psicóloga entrega os pontos. Sai da cama. Um ramo de flores? GLÓRIA . tenho outros compromissos”. surge de maneira natural.Ela ainda não desceu do quarto.Previsível demais.Ela diz ao homem. como o argentino. Lá fora. havia notado que ela estava deprimida. DENISE . SOCORRO . Fica estabelecida. GARCÍA MÁRQUEZ . REYNALDO ..Ela também pode apresentar alguma resistência.Um prato especial.argentinos... então. REYNALDO . num bilhetinho. Vai persuadi-la a ir à festa.

chega o carrinho.. ELID .. ainda encontrou tempo para cuidar dela. CECÍLIA . e não para esculhambar os argentinos. Disse a si mesma. vê a si mesma no espelho. Assim que ela tira a tampa da bandeja.. REYNALDO .É melhor ela ficar em seu quarto. para que suba de novo ao quarto.Durante a conversa com a paciente. Fica com medo de enlouquecer e corre para se trancar no quarto.Se ele manda a comida. ela estranha: “Deve ser algum engano.Quando batem na porta e aparece o boy com o carrinho. o churrasco. GLÓRIA . Mas logo percebe que não tem onde se enfiar. por exemplo.Ele pode ter batido na porta e entregado o convite.Ela poderia manter seu diálogo imaginário com a paciente em algum canto solitário de bar.. é uma entrega a pedido do etc”.A bebida acaba dando coragem a ela. Ela não pode deixar de se comover com o gesto. GARCÍA MÁRQUEZ ... é porque pensa que ela vai ficar no quarto.. vê o bife fumegante.Cuidado: este é um filme para exaltar o patriotismo argentino. tira o vestido mais elegante. Ela tenta combater sua depressão indo ao bar e tomando alguns drinques. deprimida. sozinha?”. a psicóloga deve reafirmar seu argentinismo. não pedi nada. mude a roupa e se apresente na festa. Pode ser um daiquiri. e fica pensativa.. caminha até o armário. Ela recusou.”.O carrinho e o diálogo são suficientes para decidir a rendição 89 . não precisa ser nenhum mojito. DENISE . desmorona na cama. que se mostre tão passiva. sorriem. Tem argentino por tudo que é canto.Um momento: o carrinho e o boy substituem a visita pessoal do argentino? Eu acho que essa visita é necessária. fazem um comentário banal..Ora. senhorita.ao grupo. ROBERTO . ele pode ter reparado isso de algum outro jeito. O filme é isso. para que ele veja com seus próprios olhos que ela está deprimida. Não é nenhum engano. Então. Ela torna a encontrar o camarada no bar. Com toda a confusão que o sujeito tem que resolver. e aí entra a voz em off. e que o galã faça essas gentilezas: um prato especial.. Sentam-se juntos. SOCORRO . Ela vê a comida. desta vez. ELID . deixando rolar uma lágrima furtiva. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO . e pronto. e com razão: “Por que diabos vou comer aqui.Mas. um objeto de artesanato do país. Não gosto que ela se tranque.

Nesse momento.A entrevista pode ter sido gravada. não é? Quando vai sair do quarto. por algum problema de vocabulário: quando falamos que haverá uma comida. que a convida para a festa. GARCÍA MÁRQUEZ ..de uma mulher como esta? GARCÍA MÁRQUEZ .. GLÓRIA . não existe filme. REYNALDO . ROBERTO . estamos mais ou menos dc acordo. Ou será que vai ficar fugindo até o fim? ELID . mas estou vendo que. Em que momento ele entrega o convite? Ao cair da tarde. GARCÍA MÁRQUEZ . estamos querendo dizer que é um jantar. MARCOS . porque continuo com uma dúvida. Está sitiada.Essa mulher não pode sair.Ela está sitiada. Além disso. O que mudaria é o caráter da sua decisão: agora.Ela desce.Talvez não tenha ficado claro. se tranca no quarto. não é? Já tentou escapar e não conseguiu. Até aqui. estão esquartejando o touro. simplesmente ir caminhar pela praia. o que ouve?”. também veio ao Caribe para isso. GLÓRIA . frustrada em sua fantasia tropical. Temos que terminar a estrutura. encontra o camarada no corredor. pela primeira vez. depois de uma hora e meia.Eu gostaria de retomar uma idéia que ficou perdida pelo caminho. Ele não volta mais ao próprio quarto.Ah. Se ela não se render. 90 . ele não pode estar ali convidando-a pessoalmente. Vai ver agora. mas que pode ser interessante. vê que se aproxima um gruoo de argentinos a tenta escapulir.. ou então. REYNALDO .. calcular quanto tempo ainda temos e preencher esse buraco até completarmos meia hcrra.. e por engano empurra uma porta que vai dar na cozinha. Ele nota que a mulher andou chorando. É. Afinal.. A história da entrevista do camarada pela televisão permanece? Porque. Uma imagem atroz. “Desculpe. vai acabar se rendendo uma hora depois. A mulher. GARCÍA MÁRQUEZ . ela tentou mudar de hotel. então já é de noite? GARCÍA MÁRQUEZ .Volto atrás. ela decide sair do hotel.Se ela não capitular depois de meia hora. a hostilidade do ambiente. VICTORIA . Ainda não viu a praia. Já está vestido a rigor.Bem.Não podemos perder a escaleta de vista. então. a gentileza do argentino. nesse caso.Tudo se arma nessa direção: o diálogo imaginário. Toma consciência da bobagem que está fazendo. não desce por causa dele: é por causa dela.Mas deve pelo menos tentar.

.. meio e fim..A história perdeu seu caráter de comédia. somos sempre vizinhos de quarto no hotel Ritz de Madri. REYNALDO . MARCOS . O touro foi adquirindo uma importância que não tinha. ajustaremos os tempos. finalmente. Depois. a gente vê o touro pendurado no helicóptero.Então.Quando estamos trabalhando na estrutura. esquartejado na cozinha. começa a festa. Vamos pedir a ele que dê ênfase ao significado do jogo: Argentina contra o resto do mundo.Isso depende do tom.Estou tentanto chegar ao final. desfilando pelo salão com um colar de gardênias no pescoço. GARCÍA MÁRQUEZ .Essa cena da cozinha é horrível.Se ele estiver passando por ali na hora da filmagem podem deixar comigo.A fuga da mulher não me convence. MARCOS . O tom. GARCÍA MÁRQUEZ . quero dizer. DENISE .Estamos preparando o passo seguinte. não importa a duração. jamais.O que vocês acham de metermos o Pelé no filme? GARCÍA MÁRQUEZ . Tenho certeza de que aceitaria. para ver se podemos contar com uma boa estrutura.Só o time brasileiro pode enfrentar o resto do mundo.Primeiro. Mas é verdade: o fracasso deve ter uma razão dramática sólida. MARCOS . ROBERTO . com começo. GARCÍA MÁRQUEZ . Sabem o que posso propôr a ele? Que dê as boas-vindas ao time argentino. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . Senão perde o sentido.Um toque de humor negro. MANOLO .Os brasileiros não perdoariam isso. você pode trabalhar nela 91 .SOCORRO .Essa festa é uma mina.Vamos ter problema com o tempo. Quando a tentativa de fuga se frustrar.. GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS . Agora.Enquanto ela continua em seu quarto sem decidir se desce ou não. Quando coincidimos na Espanha.Olha aqui. e com prazer: Conheço o Pelé. não vou falar o que ia dizer: que a festa dessa noite seria mais espetacular que o carnaval do Rio. E. acho bom vocês guardarem a ironia e as piadinhas e todo o resto para o filme. Pelé faz o discurso de boas-vindas. MANOLO . Com chances de vitória. Uma vomitadinha no meio da comédia nunca pega mal. ela cairá na resignação total. podemos esquecer o gênero por um momento. a gente ajusta depois. Quando tivermos uma boa estrutura. GARCÍA MÁRQUEZ .

que o touro está sendo esquartejado.Mas esse esquartejamento deve acontecer na perspectiva dela. É o carrinho com a comida que o argentino mandou. Se você termina com o tango. bandeiras. tudo é proibido. Entra num elevador. cantando o hino nacional. Vê. Eles se sentem inspirados. O ruído lá de baixo. Ela não está no começo mas estará no final. ficaríamos todos com a sensação de que está faltando dizer alguma coisa. ela desce e tenta sair do hotel. depois. De repente.A única função do tango é conceder aos dois um momento de triunfo: são coroados como Os Argentinos de Prata. Portanto. que isso está errado porque a festa está acontecendo dez andares abaixo. Invente. com a mão no peito. vê um letreiro “Saída de emergência” -. Não consegue passar por nenhum lado. E. batem na porta.Mas é que eu acho muito duvidosa essa idéia de tocar o hino nacional às duas da manhã. CECÍLIA . A festa termina de madrugada.E com isso estaremos dizendo o quê? ROBERTO . estão esquartejando o touro na cozinha. Então todo mundo.A festa começa com o hino nacional. ali.Por que não voltamos para a idéia da montagem paralela? Na festa estão cantando o hino nacional e. apitos.. não a deixa descansar. Marcos. Todo mundo dançando tango e.E por que não? O que estou propondo é que a festa comece com o hino nacional e termine com o tango.Se eu soubesse não proporia uma imagem. satisfeito da vida. MARCOS .O que não está muito claro para mim é a ordem dos fatos. toma outro elevador.como se fosse uma filmagem separada. e cai na cozinha..É a apoteose do nacionalismo.. E todos vestidos a rigor. E não venha me dizer. MARCOS . MARCOS . regressa ao seu quarto e se joga na cama. com um tango. GARCÍA MÁRQUEZ . na cozinha estão esquartejando o touro. balões de gás. GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO . MARCOS . GARCÍA MÁRQUEZ . O diretor faz o que quer com a trilha sonora. vira-se para a câmera e canta o hino nacional. vai dar numa espécie de porão. Não é a mesma coisa terminar com o tango: o hino é melhor. REYNALDO . Impossível... enquanto isso. empurra outra porta. da festa ou da celebração. desfile do touro. e fazer o que bem entender: discurso. E como por ali não pode sair do hotel. que estão de uniforme. menos os membros do time.Todos os participantes da festa se levantam solenes. e cantam. enfim. GARCÍA MÁRQUEZ . proporia um 92 . volta tudo de novo..Ela está no quarto.

muda o método de narração. para conseguirmos uma comédia clara. mas primeiro.O hino final é a apoteose. porque introduz uma montagem paralela. GARCÍA MÁRQUEZ .. pela multidão.. MARCOS . GARCÍA MÁRQUEZ . poderíamos ver os dois no avião de volta.Mas que conspira contra o gênero. O corte argentino é diferente de todos os outros. MARCOS . Eles também estão bebendo e comemorando. começa a ouvir o hino.Vieram da Argentina especialmente para cortar a carne. altera a proposta original e. 93 . vê como destripam o touro que pouco antes voava feito um anjinho e desfilava feito uma rainha de beleza.Claro. Descreva a imagem. ROBERTO . sem necessidade.Isso nem sempre é possível.Os açougueiros estão morrendo de rir. O impacto é tão grande que ela não suporta. não vamos perder a estrutura de vista. temos que armar a cerca. cantando o hino. Seria como uma celebração do encontro definitivo do casal. GARCÍA MÁRQUEZ . como se fosse pouco.. para que o gado não fuja. Ela se sente acossada pelo ruído. GARCÍA MÁRQUEZ . sai para um corredor vomita e volta para o quarto. ELID .Se você soubesse. Chega na cozinha e estão esquartejando o touro: dois ou três planos de violência. ROBERTO . São argentinos. Eu insisto que devemos contar a história sem rebuscar muito. GARCÍA MÁRQUEZ .O touro não é símbolo de nada. É como se tivesse visto Lady Di sendo esquartejada. GARCÍA MÁRQUEZ . mas os símbolos da pátria a perseguem. E como se o país a perseguisse.. Ela foge e vai dar no salão. membros da delegação. utilizando como pretexto aquela parte do hino que diz “Lá no céu uma águia guerreira.Por favor. Depois virão todas as cenas que a gente quiser. Sente que está sitiada. pela quantidade de informação que recebeu pela televisão e pelo telefone. mas é uma imagem muito forte.Ela chega na cozinha. limpa. VICTORIA.. para ver o que ela nos diz... E de repente. diria. Inclusive. Quer fugir.Muito bem. A cara dela reflete o quê? Susto ou asco? Acho que aí pode existir uma metáfora sugestiva.texto. com os açougueiros. onde todos estão de pé.Quando ela sai no porão e atravessa o último corredor.”..

Ela olha com espanto. Não resolvemos esse problema. fica pensando. então. E acho que a falha está no primeiro encontro dos dois. Está reconstruindo mentalmente o diálogo da sessão de análise. e portanto não resta outro remédio a não ser encará-la. não sei que diabos estou fazendo aqui! SOCORRO . vemos a mulher chegar. Pode até ser que se apaixone depois que for dormir. com uma depressão gigantesca. A vida segue seu curso: é irremediável e fatal. e repetindo o convite para a festa. e do ponto de vista subjetivo dele. e 'ouve' a própria voz. A capitulação que se produz como conseqüência desse diálogo também é ao contrário. E ponto final. mas suspeito que sim. Traz um carrinho de comida. No final. Explode em coro o hino nacional e os dois somam suas vozes às outras. lembre-se disso. porque ela também fala.. a orquestra toca um tango e todo mundo começa a dançar. é a grande dama argentina. O sujeito vai embora. a Mulher argentina por excelência. ela assume sua realidade. Se isso não for um filme. E nesse momento que o argentino bate na porta. e um filme que dá para ser vendido. Os refletores iluminam a dupla.. na metáfora. Nisso. O esquartejamento nos leva à ditadura militar: O sangue provoca tanto horror na mulher que ela foge para se trancar no quarto. na festa. A partir daí. MARCOS . Destampa a caçarola e vemos um enorme pedaço de carne.Você não está pensando que ela desceu porque se apaixonou por ele.Porque ela mesma se psicanalisa.A voz em off seria mantida? GARCÍA MÁRQUEZ . enojada.Isso ainda não sabemos.. ROBERTO . Ela. uma fantasia que a paciente enfiou na sua cabeça. Nós nem a vemos se vestir. mas agora ela só está buscando um flerte. e agora está mergulhada numa realidade que parece mais fantástica ainda.. inevitavelmente. GARCÍA MÁRQUEZ . embora com os papéis invertidos. Ela está radiante. GARCÍA MÁRQUEZ . ovação. desejando bom apetite. Nesse momento. porque é uma capitulação no bom sentido. isso não está muito claro.VICTORIA . Os dois dançam tão bem que o pessoal vai abrindo uma roda e deixando-os sozinhos na pista. Corte direto para o sujeito. perseguindo uma quimera. 94 .Para mim. Ou as vozes. que quando ela se olhe no espelho ouvirá em off. Estava ali. O homem se levanta e oferece um lugar em sua mesa.Por que ela decide descer para a festa? CECÍLIA . Ela se levanta. com bandeirinha e tudo. “Já que a montanha não vai a Maomé”.Ela volta para o quarto.Caímos. a da sua própria vida.

Todo mundo sai dançando. vestida com uma roupa azul e branca. O que você acha.Ela se encontrou. mas do ponto de vista do argentino”.Eu anotei tudo. chega o carrinho com a comida. ou melhor ainda. me refiro à cena em que Valentino dança assim. seu tocador de maracas.ELID . REYNALDO .E o filme deveria se chamar Último Tango no caribe. REYNALDO .. de perfil... que por isso mesmo não desenvolvemos o primeiro encontro dos dois.Desce para afesta. ROBERTO . ou não neste filme. Imperio Argentina. que não conhecemos realmente o argentino. ou. mas no final deixam os dois sozinhos.Ela encontrou. como a bandeira. e pecisamos impedir isso do jeito que for: Vocês estão agrupando as vacas antes de terem erguido a cerca.Anotação número catorze: “Vemos a mulher entrando. GARCÍA MÁRQUEZ ... porque não saberíamos como resolvê-lo. no argentino.. se reúne com o sujeito e dança um tango com ele. ROBERTO . pelo menos. Essa cena marcou época.Está radiante. MarcosS? Tem alguma coisa nesta história que você não goste? 95 . primeiro. e. Aqui...Por que não deixamos as novas sugestões para depois que a estrutura estiver pronta? Do contrário. GARCÍA MÁRQUEZ . na anotação número treze. com o enquadramento picado.A dança é uma citação de Rodolfo Valentino. está: “Ela está de volta ao seu quarto. a câmera se aproxima e fica assim.Não acho que seja preciso alguém ir para a cama. O que acho é. de repente. segundo. do mesmo jeito que o helicóptero era uma citação de A Doce Vida.. GARCÍA MÁRQUEZ . CECÍLIA . Agora poderia se chamar Libertad Lamarque. o que aceitarmos como consenso agora será derrubado um minuto mais tarde. enfim. GARCÍA MÁRQUEZ . ela se olha no espelho e.. por enquanto. CECÍLIA . e. se rende”...

Pronto.É preciso aprender a se dominar. estarei cansado no dia seguinte.O cachaco se chama Natalio. O nome do filme é O Santo. Só que eu pergunto: e vale a pena? O resultado justifica que se fique o tempo inteiro trabalhando? ROBERTO . não penso mais nisso. MANOLO . Mas a partir do momento em que apago o computador e me levanto.. vou para o estúdio sento para trabalhar..A gente começa a falar de outras coisas. em inglês.. GARCÍA MÁRQUEZ . colocar ali. E uma espécie de vício. faço o café da manhã. mas como é confundido com o santo padroeiro da aldeia. a primeira coisa que faço é um esforço para saber quem sou. MANOLO .Quer dizer que o coitado do cachaco virou Santo Antero? MANOLO . De manhã.. 96 . Nesse instante. GARCÍA MÁRQUEZ ..Bem que a gente se esforça. Querem um conselho? Quando saírem da Oficina.Eu não acredito que a gente chegue a ficar exausto com a nossa história. Então. até as duas e meia ou três da tarde.. Isto basta para acabar de me acordar: Imediatamente começo a pensar como andava ontem o meu trabalho: “Ah.. não tornem a pensar no trabalho até o dia seguinte. Nada de exaustão mental.”. até m dia seguinte. mas não dá. mas acabamos sempre na mesma.SEXTA JORNADA DE TRABALHO Recapitulações. I MÁRQUEZ . sem interrupções. “Será que isso encaixa aqui? Não. é melhor. Ora. tomo consciência de que sou imortal.. e sentirei que a história empacou e não saberei como continuar. parei nesta parte”. esse é um leão morto. Se eu não fizer assim. sim.. e aborrecido. Para mim. vamos ver. pode até existir quem trabalhe o dia inteiro e não se canse. Tomo um banho de chuveiro... a história de Santo Antero. eu acordo.Soube que vocês varam noites discutindo os projetos. se continuar remexendo nesse assunto. MARCOS .Acabam de inventar um nome para esse tipo de gente: são os workaholics.. esqueçam de tudo..

e que era o primeiro a se surpreender com isso. primeiro. enquanto agora morre num clima de santidade.É o título. cresce a possibilidade de encontrar títulos melhores.É inevitável. um milagre. todo personagem protagonista acaba sendo.Pedem a ele que faça um milagre.Um santo que..Bem.Estou achando a GLÓRIA impaciente. GLÓRIA .. sim. REYNALDO . MARCOS . Santo Antero.ROBERTO diz que eu sou a psicóloga.Pensam que ele é uma aparição. Uma menina morre e o pai acha que ela é santa.Voltando ao tema dos workaholics: MARCOS e eu continuamos discutindo o projeto dele. REYNALDO . dizem ao pai: “O santo é você”.Como disse Flauhert: “Emma Bovary c'est moi”. O sujeito está feliz. E o que tenho para vocês pode se resumir numa frase: “O primeiro violino sempre chega atrasado”. matam o homem a pedradas. ROBERTO . e com argumento de minha autoria. porque seu corpinho se mantém incorrupto.Trata-se do primeiro violino de uma orquestra? Esse é o título do filme? GARCÍA MÁRQUEZ . o da psicóloga argentina. GARCÍA MÁRQUEZ . É Milagre em Roma. em maior ou menor medida nós mesmos. Mas no final. por ser farsante . porque já fizeram um filme que acaba assim.. GARCÍA MÁRQUEZ . quando percebem que ele não consegue. Um belo título. é uma morte que ele não esperava.. certo? Por isso é que o 'reconhecem' quando ele chega. 97 . GARCÍA MÁRQUEZ . Prestem muita atenção agora: vamos ver o que essa galega tem para nós. REYNALDO . o único a ficar surpreso.Era isso o que estava previsto? GARCÍA MÁRQUEZ . Digo. Porque a aldeia já tinha a sua imagem. GARCÍA MÁRQUEZ .Que ia morrer. a história terminava.GARCÍA MÁRQUEZ . E que aí. quase nunca.Não sou galega. Por mais que a gente disfarce. REYNALDO . e depois é de carne e osso.Eu fiquei com a idéia de que ele fazia um milagre. eu poderia ser acusado de impor a vocês o meu ponto de vista. mas de morte estúpida. se for assim. é de pau. Na medida em que a história se desenvolve. virgem e mártir. MARCOS . dar o nome antes. porque os bons títulos quem dá é a própria história. Não convém. Ia morrer de um jeito ou de outro.

Ele sai. o violinista e outro homem. atravesssam a rua. vai até uma loja de música. vai até os fundos. são hóspedes do hotel.. Entram no quarto. Evidentemente. MARCOS .. Corte. pensei que ia marcar um encontro com o amante.... ela vai à cozinha. discos. Ele apanha um violino. A mulher disca um número de telefone e alguém responde. gramofones. não chegou ainda. com cara de surpresa. Estou sabendo agora porque você contou.A história começa assim: um rádio despertador começa a tocar uma música de Vivaldi. cumprimenta o empregado da loja.. É melhor pôr Albinoni.Quando ela telefona para o teatro.. O homem entra. aproveitando a saída do marido.. quanto tempo passou. CECÍLIA . aparelhos estranhos. e porque ela. Corte. digamos. Chegam a um hotel. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ .Vivaldi dá. Vemos pianos. nos bastidores de um teatro: “Não. Corte..Porque ele saiu de casa com seu violino dentro de um estojo de violino. o telefonema nem se justificaria. Sexta-feira.Que suspicaz! GLÓRIA .O fato é que agora o carro do violinista está estacionado numa rua.. e dois personagens se levantam da cama: marido e mulher.Nesse caso. Ele vai até o banheiro. caminham até a recepção. E tem mais: quando ela telefonou. Todos os seus movimentos são mecânicos. GARCÍA MÁRQUEZ . pedem a chave com naturalidade e entram no elevador. sem largar os violinos. metido em seu estojo.E como sabemos que ele é um violinista? GLÓRIA . Os dois acabam de tomar o café da manhã. empurra uma portinha semi-oculta e.Espera aí. eu não sei. Corte. entram no automóvel e se perdem ao longe..O primeiro violino sempre chega tarde GLÓRIA . no telefone. Corte. A mesma portinha se abre e saem duas pessoas.. GLÓRIA . cada um levando um violino metido em seu respectivo estojo.. que era violinista... senhora. Colocam os estojos com os violinos em cima da cama. GARCÍA MÁRQUEZ . e dá adeus com a mão. Saem da loja. desde que o homem saiu? A gente fica com a impressão de que são atos consecutivos. Corte para ela. 98 . má sorte. o primeiro violino sempre chega tarde”... porque o violinista não teria tempo de chegar.

entra apressado onde a orquestra já está ensaiando. O violinista afina a pontaria buscando com a mira ponto exato onde está o orador Dispara em seco. a seqüência da rotina não corresponde ao outro dia. Corte. O violinista se senta num lugar de honra . sexta-feira o primeiro violino sempre chega tarde”. sem dizer nada. Por exemplo: agora ela não sai para se despedir dele. Está na calçada.abrem as tampas e vemos que lá dentro não há violinos: há um rifle com mira telescópia. e a responder a mesma coisa: “Não senhora. Eles estão preparando um atentado. GLÓRIA . com bandeiras e cadeiras. O violinista se junta a ele.. é um palanque. enquanto o outro olha discretamente pela janela. CECÍLIA . com o violino na mão. GLÓRIA . No hotel o violinista e seu acompanhante permanecem tranqüilos. É de noite. Assim que ele entra.. GARCÍA MÁRQUEZ . Desarmado em várias peças que estão repartidas nos dois estojos. Pela mira telescópica. ela grita.É preciso deixar isso bem claro.E algumas outras diferenças. A mulher está sentada na sala.Um. e sim à semana seguinte.e se junta ao ensaio. ergue o rifle.É evidente que haverá um ato público e alguém vai fazer um discurso daquele palanque. Deixa o violino dentro do estojo.Desta vez. vê que o ato público já começou. Mas o homem não dá a menor confiança. em tom de inquisição: “Onde é que você foi se meter? Telefonei para o..”.. e o que vemos pela mira telescópica. O violinista. GARCÍA MÁRQUEZ. O violinista começa a armar o rifle.E um cenário.. Enquanto isso. os dois personagens se levantam da cama e a mesma rotina se repete. O violinista está entrando em casa. mas vazio.. vemos que o homem cai. atravessa a sala sem dizer nenhuma palavra e vai para o quarto. esperando..E agora. Corte. se repete todo o processo até que o violinista aparece na janela. e dispara. Baixa o rifle e começa a desarmá-lo de novo. O maestro olha para ele com cara de poucos amigos. o outro mede o tempo com o seu relógio. que nesse momento gesticula sobre o palanque. Soa o rádio despertador. GLÓRIA . GLÓRIA .Dois rifles. Vemos a confusão que se arma no palanque.Mas é sexta ou sábado? GLÓRIA . do outro lado da rua. Mas telefona para o teatro. CECÍLIA . Corte. em cima do sofá. Parecem satisfeitos. aponta. 99 . aponta com a mira telescópica para o orador. aquela pequena luneta.Com enquadramentos diferentes.. GARCÍA MÁRQUEZ. como se fossem violinos.aquele normalmente reservado ao primeiro violino .

estaciona numa rua lateral e desce com dois violinos.Numa situação dessas. joga o suposto violino no chão. O homem se dirige ao teatro.. No filme inteiro. e saem.. com seu cúmplice. certo? GLÓRIA . desta vez.. O maestro entra. através de um corte. como se fosse um violino. Para mim. guardam as peças em seus respectivos estojos. Uma função de gala. O homem sai com o estojo. O que está acontecendo? Por que tanto mistério? Por que toda sexta-feira você.Não pensei nisso. com o estojo do violino nos braços. atravessa a rua. GLÓRIA . do começo ao fim.Você está contando a história mas não está propondo uma estrutura.. o primeiro violino muito perto da beira palco. quase pode tocá-lo com as mãos. sem que ninguém os detenha nem pergunte nada a eles? GLÓRIA . a mulher.entre eles.É que pensei nessa história assim mesmo: ela nasceu completa. os estojos dos violinos deveriam chamar a atenção. o concerto está a ponto de começar. Corte. A mulher olha para ele. deixa a mulher falando sozinha. A sala está lotada. café da manhã. vestidos de fraque.. O homem fica perplexo em saber o que fazer. Cada um em seu estojo. A orquestra inteira está em pé. Os músicos . a seqüência termina com o atentado. arranca um dos violinos da sua mão e escapa. entre as poltronas da platéia. São hóspedes. O camarada outra vez.Desarmam o rifle. etc. Avança até o palco. entra no automóvel e vai embora. Estão hospedados ali há vários dias. O homem abre um estojo de violino e o cúmplice coloca dentro. A mulher. Ela corre atrás dele.e sem abrir o estojo. é lógico. Assim que vê o homem sair de automóvel. O fogo e a fumaça 100 . e enfim entra no teatro. ela entra em outro. outra vez à rotina do dia: despertador.. ela não fica em casa: vai atrás dele. Na verdade. são conhecidos.Sim. ele nunca responde. Todos os músicos estão nos bastidores. a mulher fica furiosa. REYNALDO . Chega. etc. A explosão é brutal. que estacionou ali perto. e grita alguma coisa pode ser algo assim como “este violino você não toca nunca mais” . Só que. Daí passo. o violinista . Falta pouco.. pelo corredor central aparece. consegue alcançá-lo o começa a discutir com o marido em plena rua. Corte. tranqüilamente.. Corte. Ao ver que o marido não dá confiança. na loja de música. Mas o homem continua caminhando.vão ocupando seus assentos na orquestra. não trocaram nenhuma palavra. GARCÍA MÁRQUEZ . De repente.Saem assim. GARCÍA MÁRQUEZ . saída do violinista. uma bomba. vê o homem sair e continua a segui-lo. com muito cuidado. se aproxima dele pelas costas.

Eu queria brincar com a idéia de que ele não percebia. Ainda não foi cometido o atentado.. não haveria a possibilidade de a bomba não explodir? CECÍLIA . o ato..Eu gostaria de manter a estrutura da história. GLÓRIA .. ROBERTO . A orquestra está lá para ajudar a animar o comício. até chegar ao teatro e abrir o estojo que estava com ele. Terá tempo para discutir isso com a mulher quando voltar para casa. de quem já está farto? Para ele. um líder sindical.E se o homem chegar tarde ao ato.Bem. Os dois estojos eram idênticos e pesavam quase a mesma coisa.Mas não sabe que ela vai atirar o estojo no chão. Como é possível que ele fique assim tão tranqüilo? GLÓRIA .O que eu vejo aí é um problema sério: como acreditar na história da bomba? Ela arranca o estojo das mãos do marido.. ele achava que ela tinha levado o violino.sei lá.como acaba jogando -. não é apenas um violinista: é também um terrorista. ele pede emprestado outro violino e esquece a mulher. GARCÍA MÁRQUEZ. ou melhor. REYNALDO . – porque sabe que ela está com a bomba. Esta história não precisa de continuidade. que seja o violino ou a bomba. o estojo onde está a bomba. E como hoje faltam alguns alunos. dava no mesmo matá-la ou não. E mesmo que ache que ela vai jogar ..Volto atrás. E um profissional do terrorismo.É preciso definir melhor esse sujeito. que o violino. sei lá. GLÓRIA . GARCÍA MÁRQUEZ ... que a bomba exploda ou não. como não teria se livrado da mulher. teremos de fazer um esforço adicional.Bem.. teríamos de aplicar outro método de trabalho. vai deixar que a mulher fique com a bomba? GLÓRIA . Mas quando ele vê a mulher entrar no teatro e avançar pela platéia com o estojo na mão. E sendo assim.Primeiro ele atira no orador.. Não seria conveniente que a orquestra tocasse no ato onde o orador ia falar? O cara é. SOCORRO . Ou seja. Precisa é de análise.ocupam toda a tela. gritar avisando todo mundo. e em seguida vai se livrar da mulher? MARCOS .É um profissional. É capaz de matar um ministro a sangue-frio.... digamos. precisa fazer alguma coisa . como ele. e alguém já tiver 101 .Mas você está deixando muitas coisas para o acaso. Não é um violinista. fugir.E se a bomba fosse destinada justamente a acabar com a mulher? CECÍLIA . ROBERTO .

e sim a polícia. e o quarto estava hospedando o senhor Fulano de Tal. O perigo vem é dela.Esse é o calcanhar-de-aquiles do homem: ele não cuida da relação com a mulher. porque a mulher não o interessa.A história desse casal. Não é fácil saber.. com um estojo de violino debaixo do braço. Com um exame balístico é possível determinar exatamente de onde o tiro veio. GARCÍA MÁRQUEZ ..matado o orador? VICTORIA . Estes dois homens são violinistas que vão ensaiar ali. quem seguia o violinista não era a mulher. daquele hotel. O tiro saiu da janela daquele quarto.Pois eu acho que a falha está no aspecto policial da história. boa-pinta. sempre. meio de ópera. averiguações judiciais. GLÓRIA . REYNALDO . num lugar tranqüilo.O tiro foi disparado por um fuzil de mira telescópica.Dá para saber. porque a mulher continua apaixonada por ele.Numa primeira versão.GLÓRIA. GLÓRIA ..E quando ele repara. GARCÍA MÁRQUEZ . você quer contar exatamente o quê? GLÓRIA . do diretor da orquestra. REYNALDO . de uma grande distância. ROBERTO .o homem.. é tarde demais. Vou fazer algumas perguntas elementares. VICTORIA . dessas.. com a orquestra inteira voando pelos ares. O quarto do hotel está em nome de quem? O dono do hotel também pertence à organização terrorista? GLÓRIA . cheio de confiança. vai até a porta se despedir tem ciúmes? E claro.E a mulher é a sua condenação. e quando o obrigavam a parar o carro para revistá-lo achando que só estava levando aquele estojo . porque o sujeito tem vida dupla e esconde a mais espetacular.. Vocês repararam que ela prepara o café da manhã.O quarto pode estar em nome da orquestra. ela se sente muito infeliz. que ninguém faz até fazer. GARCÍA MÁRQUEZ . porque ele nem olha para ela. O homem. ROBERTO .Qual a idade do violinista? GLÓRIA . E a mulher.Eu não gosto é desse final da bomba.Eu o imagino bem conservado. um casal no qual nenhuma das partes sabe absolutamente nada da outra.Quarenta ou quarenta e cinco anos.. GARCÍA MÁRQUEZ .Você não pode contar um filme onde matam um personagem importante sem saber o que acontece depois. 102 . Viam o homem sair da loja de música. aos pedaços.. Um cadáver como esse não é enterrado e ponto final: há investigações.

Diz que naquele dia ele saiu tarde de casa porque o automóvel não funcionava. E isso abre muitas interrogações. Preparou esse atentado passo a passo. Talvez fosse esta a história que eu queria contar. seria outro filme. Mas surge um fato com o qual ele não contava: sua mulher percebeu. Depois. Não vai deixar nenhuma pista. foi preciso empurrá-lo. GARCÍA MÁRQUEZ . com fios soltos. é outro filme.. isso era o que ele achava. Ou seja. de um atentado terrorista. comete um atentado. meticulosamente. Descobriu tudo. Na verdade. pense no rótulo.Primeiro. O filme acabava assim. GARCÍA MÁRQUEZ .o verdadeiro .. o da bomba. percebeu que ele é o autor do atentado.Aí. sozinho.Seja como for. É preciso amarrar tudo isso a uma investigação policial. dá com o hotel..Mas primeiro você mata um presidente e depois quer que eu me interesse mais pela história do assassino e da mulher.. que supostamente serviria de álibi para o homem. E quando chega o momento. mas porque a mulher o descobriu. é um crime político. que pertence a uma organização terrorista. SOCORRO . do ensaio.. Será que não vai denunciá-lo'? Não. REYNALDO . o assunto seria o seria o seguinte: um violinista. Está claro? GLÓRIA . Para que serve o álibi do trabalho.. E não porque esteja cansado dela. os músicos da orquestra estão justamente falando no assunto. O sujeito não é apenas um virtuoso do violino: é também um virtuoso do crime. E isso não pode ficar assim. É uma arma que ela reserva para uma chantagem sentimental.Não era um presidente. você nos conta a história de um crime. porque ela sabe que isso não é verdade. há mais coisas para serem amarradas.Sabem o que eu acho? Que ele mata a mulher. SOCORRO .. GARCÍA MÁRQUEZ . para dominá-lo? GARCÍA MÁRQUEZ . com o quarto e.. Havíamos dito que era líder sindical.Contada direito.Quem fornece o álibi é a mulher. o atentado já terá sido feito e a notícia correu a cidade. por último. se enganava e abria. Naquele dia. E sabe que ele também sabe. quando ele chega no teatro. GLÓRIA . com o violinista. GARCÍA MÁRQUEZ .puxava outro estojo . se naquele dia ele também chega atrasado? GLÓRIA .e mostrava. E o que é pior: sabe que ele sabe que ela sabe. a polícia investiga. mas como os dois estojos eram idênticos. tem o álibi perfeito.Então.. 103 .Sim. GARCÍA MÁRQUEZ .E ela o encobre.. Além disso.É que o atentado.

para que não vire um filme policial.. o hotel leva aos hóspedes com estojos de violino. o mais provável é que ela não morra sozinha. outro galo cantaria quando ela descobre que o marido está preparando um atentado.E você acha que a polícia não iria suspeitar? Não é tão fácil disfarçar um crime desses. o seguinte: é isso que Glória quer contar? E se for como podemos ajudá-la para que conte à sua maneira? GLÓRIA . Ele não havia dito nada a 104 . GARCÍA MÁRQUEZ . Como o violinista não iria saber em que estojo está a bomba.Seja como for. e os estojos. a mulher se torna cúmplice do marido.. por dedução simples.. GARCÍA MÁRQUEZ . todos morriam. fica evidente que a relação entre os dois está muito deteriorada. deixei-o a tal hora na porta do teatro”... Se fosse boa..e ele. ROBERTO ..Não é fácil responder. Ela mata o marido de ciúmes.declara à polícia o contrário. ROBERTO .O exame balístico leva ao hotel. Ou seja. dois casos..Então. Deixa o marido ficar sabendo talvez com o objetivo de fazer chantagem . Cúmplice posterior digamos.Isso se ajusta melhor ao formato de meia-hora. SOCORRO .. ao se ver descoberto. eu mesma levei meu marido 0de automóvel hoje de manhã. GARCÍA MÁRQUEZ . aos culpados. com um revólver. GLÓRIA .O problema da bomba é que ela traz problemas demais. mata a mulher. outros caminhos que não nos desviem do projeto original. O que aconteceria se o atentado não ocorresse? O atentado é frustrado.. Eu acho que é preciso evitar todo o processo de investigação. e se frustra justamente por causa dela. em nenhum desse. E o marido percebe o que acontece: ela sabe. E pode ser resumido assim: uma mulher descobre que seu marido. Agora. GARCÍA MÁRQUEZ . de repente. Ela imagina que o marido sempre chega tarde nas sextas-feiras porque vai encontrar outra mulher.Estamos mudando a história sem perguntar se não haveria outras alternativas.Se mantivermos a bomba em circulação. se andou carregando um violino a vida inteira e sabe exatamente quanto pesa? ROBERTO . “Sim senhor. sem aviso prévio. um inocente violinista que toda sexta-feira chega atrasado ao trabalho.Na sua versão. GLÓRIA. vamos eliminar a bomba. é autor de um atentado.O dono do hotel não tem por quê dar pistas: ele também é cúmplice. Nesta só morre ela? GLÓRIA .Mas por que a polícia iria suspeitar dele? GARCÍA MÁRQUEZ .

mas agora que ela sabe. levando na mão uma maleta. deixa a maleta no chão..A mulher também poderia ser violinista. O homem entra no supermercado. como ele. sei lá.. O camarada chega ao hotel.ela para que a mulher não se preocupasse. ELID . o atentado não vai acontecer. GLÓRIA . jamais levaria armas para casa. cria uma expectativa. Talvez o personagem não devesse tocar violino.Mas agora. Um homem desce.Tirar do homem a sua condição de primeiro violino? Nunca! MARCOS . ela troca o estojo por outro. ou que decida fazê-lo mudar de idéia. ou que ele não desista e ela decida denunciá-lo. GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO . O sujeito não vai ficar examinando o estojo antes de sair. E. quando ele vai ao banheiro. dá a entender que. e que ainda assim ela dê cobertura.. que suspeita do marido? Mas.Um profissional do crime. a polícia não descobre jamais. na maior tranqüilidade. GLÓRIA . Estamos criando no espectador uma expectativa que depois não será satisfeita. abre o estojo para apanhar o rifle e.. O camarada chega impassível ao teatro. MARCOS . Na noite de quinta-feira. olha pela janela. REYNALDO . o que existe é uma bomba. para encobrir o marido.. se dirige ao seu lugar na orquestra. já examinou na noite anterior. REYNALDO .E que tal se o filme começasse simplesmente assim? Um automóvel chega na frente de um supermercado. no estojo do violino só tem mesmo um violino. neste último caso. Na manhã da sexta-feira. comprova que o ato já começou. Lá dentro. em casa. Ela descobre que seu marido está preparando um atentado quando decide estudar... podem acontecer duas coisas: que a mulher decida ficar calada. também podem acontecer duas coisas: que ele não desista. apanha uma coisa qualquer. ele mata a mulher. a mulher descobre o fuzil desarmado dentro do estojo. o maestro reclama do atraso. paga e sai. um mecânico. por quê? 105 . Ninguém nunca descobre a história do supermercado. Só que a mulher descobre. ao lado de uma estante. quero dizer.A idéia do atentado continua nos desviando da história. surpresa!. e sim ser técnico. GLÓRIA ..Mesmo assim. e apanha por engano o estojo do violino do marido.. Muito bem.Vamos imaginar que levou. neste último caso. o supermercado vai pelos ares. ela balbucia uma desculpa e se senta para ensaiar. Vemos o automóvel se afastar e um instante depois. o comício. vai até o caixa. Quando ela vê a notícia na televisão.E. Não tem nenhuma razão para fazer isso.. que já está ensaiando.. O atentado se frustrou.

Para mim. de uma operação da 106 . ROBERTO .Mas eu não imagino como é possível convencer uma mulher assim a virar terrorista. a mulher . retê-lo. minha senhora. O sujeito percebe que na atitude da mulher há uma dose de chantagem e. que alguma coisa esquisita estava acontecendo. sim. ao mesmo tempo sem que ela perceba.Existem duas opções: que o marido mate a mulher. Ele a preparou de tal forma que inevitavelmente vai explodir nas mãos da mulher: Trata-se.Confesso que não vejo essa situação muito clara. não está claro.É precisa armar essa história completa. e portanto pode denunciá-lo à polícia. “O primeiro violino? Não. quando está com o marido vendo a notícia na televisão. Eu prefiro a primeira. por amor: Por amor. pelo menos. prepara uma armadilha mortal. GLÓRIA . ROBERTO .. por certos detalhes.GARCÍA MÁRQUEZ . Nem ela nem o espectador suspeitam disso. Quando descobre que o marido leva uma vida dupla. com premeditação e aleivosia. como dizem os advogados. SOCORRO . percebe também o perigo latente: ela sabe.Para se desfazer dela impunemente. eram só ciúmes. como bom conspirador. CECÍLIA . Mas. ROBERTO . ele faz com que ela acredite que vai normalizar sua vida e.O camarada pede à mulher um grande favor. Até aquele momento. mas também porque sente que desta forma pode dominá-lo ou. ou viceversa. O que é que realmente estamos querendo fazer? GARCÍA MÁRQUEZ . Tudo acontece exclusivamente através da relação do casal. ela não nota nada. nem nada parecido. O favor é o seguinte: levar um pacote e deixá-lo em determinado lugar. Como? Fazendo com que a mulher vire cúmplice do projeto terrorista. Diante desse impasse. Enquanto o camarada está entrando no supermercado. sextafeira o primeiro violino sempre chega tarde”. vira-se tranqüilamente para ele e diz: “Quem cometeu esse atentado foi você”.. e ela concorda. A bomba está no pacote. da noite para o dia.Dar opções a GLÓRIA. SOCORRO . supostamente. Mas que ele mate a mulher.E isso que nós temos de descobrir. tenta ajudá-lo. GLÓRIA . naquela noite.Ela não vira terrorista. Ela havia começado a remexer a casa inteira e tinha percebido. se quiser.em montagem paralela está telefonando para o teatro.Até o último momento. GARCÍA MÁRQUEZ .Ele concebe um atentado no qual ela será a bomba. GARCÍA MÁRQUEZ . para que ela escolha. Estão vendo? Nada de investigação policial. mas só como um meio para se desfazer dela.

Ele tira a peruca tranqüilamente.. fica no automóvel. mas tem alguma coisa naquele homem . ela tem um palpite: é ele. é a sacola do supermercado. ao supermercado. é verdade.. arranca o estojo das mãos dele? Como interpretar a atitude do homem. GLÓRIA . na frente do teatro. Ele se disfarça.que o deleta. quando ela o descobre. Está irreconhecível. porque de costas qualquer um reconhece qualquer pessoa. achei que seria absolutamente impossível encaminhar a história por onde você queria. GARCÍA MÁRQUEZ . mas não me convence.mas não diz nada. GLÓRIA. Bem. aparentemente para dar cobertura à mulher: Ela desce do carro e caminha apressada para o lugar combinado.Agora sim. só por um instante. GARCÍA MÁRQUEZ ..qual ele também participa. guarda essa impressão e começa a investigar.Eu volto. A fita é salva e mostrada pela televisão. Mas o suspeito está irreconhecível.. o jeito de mover a cabeça . 107 . Todo mundo vê o suspeito.O supermercado tinha um sistema de vigilância eletrônica. não é? Antes de deixar a maleta no chão. uma câmera de vídeo gravava tudo o que acontecia lá dentro. vigiando. Uma pessoa pode se disfarçar tão bem que nem sua própria mãe é capaz de reconhecê-lo. Aqui a mulher o reconhece . e a forma como ele irá tecendo a teia de aranha para que a mulher caia na armadilha sem perceber. GLÓRIA . o que a mulher encontra na casa. A sacola tem o nome e o endereço do supermercado em letras enormes. um bigode falso.a proposta parece boa. Achava tudo muito confuso. tenho a impressão de que encontramos o caminho. A bomba explode.Depende.Mas a partir do momento em que vê o suspeito na televisão. por causa do disfarce. A forma pela qual ele vai matar a mulher não me preocupa. sempre. quando ela. O camarada é impiedoso. quero dizer. Como resolver os problemas que um atentado representa? Como tornar verossímil a conduta da mulher e do marido. O importante é esse passo prévio. E isso não deixa de ser uma vantagem: vai nos permitir armar a história em meia hora. De frente.ou pelo menos suspeita . não tem nenhum escrúpulo.um tique. são as peças desse disfarce: uma peruca. GARCÍA MÁRQUEZ . óculos. REYNALDO . que a gente acaba resolvendo. o que dá a pista. GLÓRIA . O que a mulher encontra na sacola. no dia seguinte.Vou confessar uma coisa: no começo. É um problema técnico. Ele fez algumas compras. vendo a mulher se aproximar do palco levando a bomba? Mas agora estamos esboçando uma história possível. acelera e se afasta.

E o homem é. mas há alguma coisa estranha. ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . ou então estão sendo localizadas. GARCÍA MÁRQUEZ ..Um detalhe qualquer o delata.o espectador acabará tendo a impressão de que é um filme mudo.GLÓRIA .. O locutor do noticiário pode falar. e não justifica o esforço. cuja imagem vemos em câmera lenta. à polícia.Por que não desenvolver as duas linhas de tensão ao mesmo tempo? GARCÍA MÁRQUEZ .A única coisa que lamento é que se perca o caráter não verbal da história.Quando ela vê a imagem do suspeito na televisão. agora eu lembro que na sua versão. ROBERTO . a polícia identifica o cadáver e.A tensão surge quando ela começa a remexer a casa. Tem dúvidas.Ela morre. ROBERTO . Com isso. havia diálogos. basta. REYNALDO . será que não sabe? GARCÍA MÁRQUEZ . senhora. no noticiário da televisão. com a ajuda da mulher -. GLÓRIA .E o que ele diz é que todas as pessoas que aparecem no vídeo já se apresentaram..Porque é mais complicado.. aumenta o nível de intriga do filme. justamente o que ela reconhece. vai informar ao marido o que aconteceu. naturalmente.Se você usar poucos diálogos no filme . ROBERTO . Eu havia concebido uma história sem diálogos.Essa ia ser a única frase no filme inteiro. mas ainda não suspeitamos que a vítima será ela. GLÓRIA . não deve ter certeza de que é o seu marido.”. Assim estará sendo criada uma tensão: será que ela sabe.. O que se informa. voluntariamente.Exceto a televisão. sim: o da mulher falando por telefone com o sujeito do teatro: “Não. GLÓRIA .Seja como for. GLÓRIA . a original. Poderia estar relacionado com o violino. ROBERTO . é que a polícia está procurando aquele homem.. e se intensifica quando o espectador intui que o marido está preparando uma armadilha para a mulher. todas. GARCÍA MÁRQUEZ .E por que não? Vamos fazer um filme mudo.Não vá complicar demais a vida.Você tem razão: fazer um filme totalmente mudo é uma exibição técnica desnecessária. sexta-feira o primeiro violino. menos esse homem aí. GARCÍA MÁRQUEZ .GLÓRIA.Nós vemos o marido preparando o atentado seguinte desta vez.diálogos curtos e contundentes . Nesse momento a polícia ainda não suspeita dele. 108 .

Tem que pedir alguma coisa importante. Achei que havia consensoem relação a um ponto: a filme começaria no supermercado.Eu gosto da idéia de que ela descubra que o marido é o terrorista. Estou pensando no líder sindical: por que ele não pede a ela que ajude nesse atentado? REYNALDO . Beethoven: por hábito. ROBERTO .Nós não podemos retroceder. o violinista . O que está. Claro que o marido não pode pedir a ela: “Por favor leva essa roupa na lavanderia para mim”. mas movida pelo ciúme. A figura misteriosa do supermercado serve para que a gente ponha a mulher em movimento. quando os dois assistem ao jornal na televisão. 109 . GLÓRIA . Mas o que parece estar contando é a preparação de um atentado. SOCORRO . É um delito .Pois é.Tem uma investigação .Ela telefonou para o teatro no momento em que ele entrou no supermercado. motivando a mulher? Ciúme ou a suspeita de que o marido é o homem do supermercado? REYNALDO .Eu gostaria que a gente explorasse a idéia. para que ela se sinta motivada.Ela suspeita que o marido tem uma amante.Tudo isso é muito abstrato. e não um DomJuan. REYNALDO . ciúme. GLÓRIA .Quero saber em que ponta estamos.. do “terrorismo cotidiano”. ela fica olhando fixo para o suspeito. mas eu prefiro que não exista nenhuma investigação. por exemplo. GLÓRIA ..São idéias.” etc. GARCÍA MÁRQUEZ . GLÓRIA ..que é o marido. E tentando confirmar isso. Não diz nada. sexta-feira. Ai está o motivo. “Não. senhora. mas intui . e faz isso da mesma forma que os músicos . um pouco cruel e disparatada. O que me interessa é ressaltar o nexo que existe entre rotina e amoralidade. amanhã.O que o filme conta é a preparação de um crime perfeito.é preciso ter -.tocam hoje Schubert e. por acaso. GARCÍA MÁRQUEZ . mas ela não aparece no filme. sabe .. Uma sexta-feira o camarada manda um supermercado pelos ares. com a mulher como centro da operação.No começo.. mas que nos obriga a mostrar o processo de investigação policial.GARCÍA MÁRQUEZ .no nosso caso. procurando um sinal de culpa? Encontra.. descobre que ele é um terrorista. o motivo principal poderia ser ciúme.e horroroso -. Ela começa imediatamente a revistar a casa. na sexta seguinte liquida uma figura pública. Até aí. a peruca ou uma caixa de maquiagem entre as coisas dele? De noite.ou melhor.

“Onde está o seu chapéu de inverno?”. quando na noite dessa sexta-feira ela vê o sujeito com chapéu na televisão. de qualquer modo. VICTORIA . e por isso. eu sei que foi você.Ao ver que foi descoberto. O resto do filme seria dedicado a contar como ele se arranja para se livrar dela.. buscando as provas do delito . REYNALDO ..Vamos deixar para estudar isso mais adiante.Os ciúmes aguçaram os seus sentidos. Levanta. MARCOS . ROBERTO . que ele sente que a mulher está dizendo: “Não adianta mentir.. ao ver que suas suspeitas eram injustas.e nessa busca. o que significa começar com o verdadeiro drama. quando o violinista e a mulher estão vendo o noticiário na televisão. servir para outras coisas. CECÍLIA ..GARCÍA MÁRQUEZ ..um lenço manchado de batom. vê que está vazia. Da amante quero dizer.Os ciúmes a levaram a revistar a casa inteira.. A questão do ciúme é um conflito falso. GARCÍA MÁRQUEZ . um simulacro.. a não ser que faça outro filme. Nós precisamos agarrar a alternativa que mais nos atraia.Eu consideraria. GARCÍA MÁRQUEZ .Esse é um motivo que a gente não consegue manter por muito tempo. ela encontra uma coisa estranha. que já vamos ver quais são. É preciso contar isso em menos de trinta minutos. mas diz muito sobre o caráter frio e desumano do terrorismo. Já sabe que o marido esconde alguma coisa . VICTORIA .Isso nos dá outra opção: assim..Pode ser até que ela se alegre e peça perdão ao marido.Vamos tentar manter a idéia do atentado semanal. mas que para ele pudesse. ele vai fingir que a ama como 110 . a que mais convenha ao desenvolvimento da história. GARCÍA MÁRQUEZ . pergunta. tira uma caixa de chapéu. a possibilidade de de começar com o supermercado. Nesta noite.. que não sabe como explicar. um fio de cabelo louro na lapela do terno. Pode estar latente alguns minutos.O ideal é que fosse algum objeto tipicamente feminino. reconheço. abre. . ela vê a imagem do suspeito de costas. E faz a pergunta de tal maneira. É um pouco grotesca. Esse é o detonador: o marido foi descoberto pela mulher.Estou pensando o seguinte: o camarada do supermercado está de chapéu. com o episódio da televisão.. ao mesmo tempo. ela não precisa investigar nada.. mas se desvanece em seguida.faz isso toda sexta-feira de manhã -. vai até o armário. GARCÍA MÁRQUEZ . aquele que conduz ao desenlace.

deve evitar a tentação de complicá-la. Vão viver uma segunda lua-de-mel. por que não? As duas coisas são possíveis. ROBERTO .Para mim. como todo bom terrorista. GARCÍA MÁRQUEZ .Por que não desenvolvemos as duas opções separadas? Uma seguiria as duas linhas . mesmo que a ame. Isso torna tudo mais dramático. Vamos desenvolver as duas opções.E por que não podemos brincar com um conflito de sentimentos? Hoje ele a ama. amanhã finge que ama. REYNALDO . O homem é um tipo frio implacável. O violinista precisa matar a mulher. GARCÍA MÁRQUEZ .É que ele não precisa fazer isso para matá-la. ele a ama. ao somá-la aos seus planos terroristas. Mas sente que precisar eliminar a mulher é um sacrifício. para dar a bomba a ela. Ele mata a mulher porque não tem outra alternativa.inclusive as sentimentais . o que precisa é ser fanático. E tudo isso também pode enriquecer o personagens da mulher. GARCÍA MÁRQUEZ .e talvez até mais – se simular um entusiasmo súbito pela mulher? GARCÍA MÁRQUEZ .O fato concreto. a outra.E também não seria isso . capaz de qualquer coisa. acreditar que acima de tudo existe a sua causa.. os momentos mais felizes da sua vida.. que o fim justifica os meios.E que nesse caso. a do dever profissional. mesmo que seja passageira. mas o elemento do ciúme e do falso romance enriquecem o personagem dela. Tem que passar por cima de qualquer tipo de considerações . e veremos que problemas cada uma traz. GARCÍA MÁRQUEZ . os dois elementos se misturam. e até mesmo com mulher. GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO .o simulacro duplo -. mas de repente tem uma crise emocional.O que me preocupa é a idéia de que o crime político possa ser confundido com um crime passional.Isso é verdade no ponto de vista dele. certo. GLÓRIA . uma linha só. e tudo isso será apenas um engano premeditado.para cumprir as normas de segurança. no fundo.. Eu gosto da idéia de que passe por 111 .Ele pensa.nunca. GARCÍA MÁRQUEZ . é que ele vai matá-la..Quando a gente tem uma boa história. E vai fazer isso contando com um álibi perfeito. Não precisa fingir que a ama.. o sujeito é exatamente assim.Porque. que pode ser contada de maneira clara e simples.. como você o descreve: frio. ROBERTO . É como se agora. SOCORRO .. ele a redescobrisse como camarada.Para falar claro: um tremendo filho da puta..

REYNALDO .Qual a idade do homem? ROBERTO . feito um autômato. a vertigem da vida urbana. GLÓRIA . Podemos chama-lo de João. VICTORIA . Senta e pede uma bebida. distraído. GARCÍA MÁRQUEZ . Vou trabalhar.Tenho um montão de anotações.Acho bom avisar que trouxe uma história complicada. setenta. João não agüenta o barulho. GLÓRIA .“Ou você mata”. ROBERTO .Agora? Setenta e cinco anos. explodisse nele? REYNALDO . Está velho.Ainda não.Tem título? ROBERTO . Não tem para onde ir. e murmura: “Eu daria qualquer coisa para poder voltar atrás e começar de novo”. como se enfim tivesse encontrado o refúgio que procurava. dizem a ele. GARCÍA MÁRQUEZ . porque quanto mais implacável ele for. E ele sabe muito bem o que isso quer dizer. Olha para o espelho.e entra suspirando. GLÓRIA .Se ele a ama tanto como vocês dizem.O sujeito se reúne com os membros da sua organização e conta a novidade: “Minha mulher sabe”. 112 . e mais brutal for a morte da mulher.cima de tudo. Vê um bar – um velho botequim cheio de espelhos.Confirmar a idéia de que o crime não compensa.E se a bomba.Gostei: que seja a organização terrorista que decida que é preciso liquidar a mulher: Assim. Acaba de cumprir sua pena.Deus te perdoe! ROBERTO .Porque este é um filme selvagem. o trânsito infernal. seu rosto sulcado pelas rugas.. com mesinhas de mármore e cadeiras de madeira . melhor. “Então você tem de matá-la”. e vê seus cabelos brancos. que poderia ser São Paulo. mais impessoal: ele só cumpre ordens. inclusive do amor. por que não foge com ela? GARCÍA MÁRQUEZ . Ficou preso quarenta e cinco anos. VICTORIA ..O que a gente ganha com isso? SOCORRO . tudo fica mais frio. uma cidade grande. É a história de um preso recém-saído da cadeia. E ponto final. por algum erro de cálculo. Caminha assustado por um bairro periférico da cidade.. Está na rua há algumas horas.Ou que a justiça divina existe. História de uma vingança ROBERTO .. “ou nós matamos”.

Sua voz soa no fundo do espelho, como um eco, como a voz da Morte. E João ouve que a mesma voz diz: “Eu concedo a você esse desejo, mas com uma condição: que esqueça o passado. No passado estão as sombras. GARCÍA MÁRQUEZ - Isso ainda não sabemos, mas suspeito que sim, que quando ela se olhe no espelho ouvirá em off. Ou as vozes, porque ela também fala, lembre-se disso, e 'ouve' a própria voz. Está reconstruindo mentalmente o diálogo da sessão de análise, embora com os papéis invertidos. A capitulação que se produz como conseqüência desse diálogo também é ao contrário, porque é uma capitulação no bom sentido. A partir daí, ela assume sua realidade, a da sua própria vida. MARCOS - Por que ela decide descer para a festa? CECÍLIA - Porque ela mesma se psicanalisa. ROBERTO - Para mim, isso não está muito claro. E acho que a falha está no primeiro encontro dos dois. Não resolvemos esse problema. GARCÍA MÁRQUEZ - Você não está pensando que ela desceu porque se apaixonou por ele... Pode até ser que se apaixone depois que for dormir, mas agora ela só está buscando um flerte. ELID - Ela encontrou, no argentino, seu tocador de maracas... ROBERTO - Não acho que seja preciso alguém ir para a cama, ou, pelo menos, por enquanto, ou não neste filme. O que acho é, primeiro, que não conhecemos realmente o argentino, e, segundo, que por isso mesmo não desenvolvemos o primeiro encontro dos dois, porque não saberíamos como resolvê-lo. GARCÍA MÁRQUEZ - Por que não deixamos as novas sugestões para depois que a estrutura estiver pronta? Do contrário, o que aceitarmos como consenso agora será derrubado um minuto mais tarde, e pecisamos impedir isso do jeito que for: Vocês estão agrupando as vacas antes de terem erguido a cerca. CECÍLIA - Eu anotei tudo. Aqui, na anotação número treze, está: “Ela está de volta ao seu quarto, chega o carrinho com a comida, ela se olha no espelho e, enfim, se rende”... GARCÍA MÁRQUEZ - Desce para afesta, se reúne com o sujeito e dança um tango com ele... ROBERTO - Está radiante, vestida com uma roupa azul e branca, como a bandeira. CECÍLIA - Anotação número catorze: “Vemos a mulher entrando, mas do ponto de vista do argentino”.

113

REYNALDO - Ela se encontrou. Agora poderia se chamar Libertad Lamarque, ou melhor ainda, Imperio Argentina. GARCÍA MÁRQUEZ - E o filme deveria se chamar Último Tango no caribe. REYNALDO - A dança é uma citação de Rodolfo Valentino, do mesmo jeito que o helicóptero era uma citação de A Doce Vida... me refiro à cena em que Valentino dança assim, de perfil, com o enquadramento picado, e, de repente, a câmera se aproxima e fica assim... Essa cena marcou época. GARCÍA MÁRQUEZ - Todo mundo sai dançando, mas no final deixam os dois sozinhos... O que você acha, MARCOS? Tem alguma coisa nesta história que você não goste?

O Inferno tão temido MARCOS - A única coisa da qual eu não gosto é a maneira como vemos a transformação dela, sua decisão de ir à festa. Acho precipitada. A ordem é esta: ela vê o touro esquartejado e sente náusea; volta ao quarto passando mal; deixa entrar o carrinho com o prato de churrasco; olha a carne e vomita; deita na cama para chorar, sentindo-se a mulher mais infeliz do mundo... É então que começa o diálogo na frente do espelho? Para que uma pessoa que se encontre nessa situação consiga reagir e decida se vestir, se arrumar, apresentar-se sorridente numa festa... bem é preciso mais do que uma sessão de psicanálise. REYNALDO - Mas aí há uma falha na sucessão dos fatos. A verdadeira crise acontece diante do touro esquartejado, e não na frente do prato de carne. Ela vomita lá embaixo, ao sair da cozinha. É essa, falando de maneira literal, a sua catarse. CECÍLIA - Cuidado com o tom. A comédia está ficando séria demais. GARCÍA MÁRQUEZ - Essa seqüência da qual você está falando, Marcos, tem realmente um começo, um meio e um fim? ELID - O elo quebrado, nessa corrente, é o do espelho. Não sentíamos que fosse uma motivação suficiente. GARCÍA MÁRQUEZ - Mas, será que ela sentia? Como psicóloga, tem uma capacidade de introspecção muito maior que a nossa. Se não é capaz de fazer uma reflexão profunda num momento de crise como este, então nós nos enganamos de personagem...

114

MANOLO - O carrinho com o churrasco no quarto é um pequeno Cavalo de Tróia... É aí que ela sente que violam a sua privacidade, que invadem seu reduto... VICTORIA - A República Argentina empurra e humilha a pobre psicóloga argentina. GLÓRIA - Enquanto ela sai da cozinha, volta ao quarto e enfrenta a crise, lá embaixo estão assando o boi e ela tem tempo para serenar e iniciar seu diálogo imaginário com a paciente. GARCÍA MÁRQUEZ - Não trabalhamos esse diálogo ainda, não sabemos como ele é. SOCORRO - Ele acontece antes ou depois da chegada do carrinho? REYNALDO - Depois. A chegada do carrinho marca, para ela, o momento da sua aproximação emocional com o sujeito, ou seja, sua relação com os argentinos em geral e com esse cara em particular... Esse gesto a reconcilia com o seu mundo. E, por isso, ela agora tira a tampa da bandeja do churrasco, olha a carne e acha que é apetitosa. Pode ser até que prove um pedaço. A reflexão começa aí. SOCORRO - Ela prova a mesma carne que há alguns minutos a fez vomitar? REYNALDO - Aquela carne era crua, sanguinolenta. Esta carne é um delicioso bife argentino. MARCOS - Talvez aconteça, aqui, um problema de tempo. É preciso dar a ela uma verdadeira oportunidade para pensar. Ela poderia sair horrorizada da cozinha e do hotel, e começar a caminhar sozinha pela praia. Aí, nós voltaríamos aos estereótípos visuais o crepúsculo, as palmeiras, as silhuetas a contraluz... como se ela estivesse recuperando seu projeto original. E, de repente, a voz da paciente. REYNALDO - Acho que tirar a mulher do hotel seria um erro. GARCÍA MÁRQUEZ - É verdade. Se ela sair do hotel, sai do problema. MARCOS - Mas o desafio que faz com que ela ceda continua sendo fraco para mim. Não me convence. GARCÍA MÁRQUEZ - Se eu tivesse uma proposta melhor, faria, Marcos mas acontece que não tenho. Não me ocorre nenhuma outra idéia. Estaremos buscando caminhos diferentes, sem perceber? Não será que vocé está querendo achar uma solução muito dramática, e nós continuamos no plano da comédia? ROBERTO - O que precisamos encontrar é um bom elemento de humor negro.

115

GARCÍA MÁRQUEZ - Lá estão os açougueiros argentinos, felizes da vida. Fazendo piadinhas e dizendo coisas engraçadíssimas enquanto esquartejam o touro. SOCORRO - Aliás, quero dizer que essa idéia do vômito não me agrada nem um pouco. GARCÍA MÁRQUEZ - Já sei que, na hora da verdade, o vômito não vai ser filmado. Os diretores se atrevem a mostrar náusea, por exemplo, mas não chegam no vômito nunca. E, se filmam, depois cortam fora. MARCOS - Esse é um detalhe que não me preocupa. GARCÍA MÁRQUEZ - Já sei. Você está preocupado com a força dos fatores que levam a mulher a tomar a decisão de ir à festa. MARCOS - Exatamente. Quando chegamos a esse momento e dizemos “pronto”, eu, simplesmente, não sinto isso, não acredito nisso. ELID -É Verdade que ela está acostumada à introspecção, mas quando decide viajar ao Caribe já não é uma psicóloga, é uma pobre mulher que quer viver uma aventura. O que prevalece agora não é o racional é o emocional. E quando seu projeto fracassa e ela percebe que não pode fugir, recupera sua personalidade anterior. VICTORIA - Como um mecanismo defensivo. REYNALDO - Como Dom Quixote em seu leito de morte. O próprio ato de reflexão a devolve ao consultório, ao ponto de partida. ROBERTO - Poderíamos fazer com que a paciente, no consultório, tenha feito a psicóloga dizer alguma coisa que agora repete, algo assim como “nós não escolhemos o lugar onde nascemos”, ou “ninguém escolheu o país em que nasceu”. GARCÍA MÁRQUEZ - É melhor que seja o contrário. É ela quem diz isso à sua paciente. E, agora, lembra. Há uma linda frase de Che Guevara, que diz: “A saudade começa com a comida”. É verdade. A gente sente a mordida da saudade quando estamos longe do nosso país e temos, de repente, vontade de comer coisas que comíamos quando éramos criança. MARCOS - Ela tem de perguntar a si mesma: “Que diabos de profissional eu sou, dizendo coisas que não sou capaz de assumir?”. DENISE - É a fórmula clássica da moral dupla: “Faz o que eu digo, e não o que eu faço”. GARCÍA MÁRQUEZ - Ela não terá outro remédio além de chegar a esta conclusão: “Quem está mal sou eu, e não o meu país”. É ela quem tem que mudar. Ao assumir isso, ela se abre tanto às misérias quanto às grandezas de

116

na verdade.. GARCÍA MÁRQUEZ . Desde que eu era menino sonhava com essa viagem.. o que saiu foi a última viagem de Bolivar.E veja só onde é que viemos parar! É preciso ter fé em qualquer imagem original. não teríamos filme. um belo dia. Acabo de lembrar que. GARCÍA MÁRQUEZ ...Mas. de três a zero. uma confusão com a Academia de História. MARCOS .seu país. e o que saiu foi a vida de Simón Bolívar. e o que está escrito nesse cartão a comove. GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS . um cartão. ROBERTO . ELID . SOCORRO . Para a outra. com a Academia nacional. para ela. O sujeito passou a ser um elemento a mais.. GARCÍA MÁRQUEZ . Há anos eu queria escrever sobre uma viagem pelo rio Magdalena. se diz alguma coisa.Senhoras e senhores.. lembram? ROBERTO . Uma viagenzinha simples pelo Magdalena acabou virando uma confusão sem fim. porque tem algo dentro.. não.. aquele guarda-chuva do qual falei no primeiro dia. como se estivesse longe há muito tempo.Vocês perdoem a minha insistência. que jeito tinha. GLÓRIA . sem ele.Sou solidário com você na sua dor. que foi o seu ponto de partida.E se empolga com a possibilidade de que o seu time ganhe. um simples elo de ligação da 'conexâo argentina'.. e me perguntava como conseguir. na festa. quase sempre.Só que agora ficou claro que esta não é a história de uma donzela. que nos diga alguma coisa.. saber como era. aconteceu a mesma coisa com a imagem do helicóptero e do touro. ela começa a pedir notícias da Argentina aos seus compatriotas.O helicóptero sozinho. O touro chegou depois. Com você.De repente.Repito: eu nâo consigo ver esse gesto como um detonador 117 . Marcos. do resto do mundo. é. E quando enfim me sentei para escrever sobre a viagem. pode valer.Agora. queria fazer um filme sobre as maracas. apertem os cintos: o tocador de maracas voltou de Caracas! E ela imediatamente nota que o fulano não vale nem dez réis de mel coado. a da psicóloga consigo mesma e com seu país. e. E comecei a estudar Bolívar. Vou pôr o Bolívar nessa”. É a história de uma relação difícil. É o gesto dele que a obriga a pensar. um montão de anos depois. MARCOS . no carrinho. Era uma ilusão à toa da paciente. quem sente saudades sou eu.O argentino mandou. disse: “Já sei. Por isso eu confio no meu guardachuva. mas continuo achando que o personagem do argentino não tem força suficiente.

Estamos fazendo roteiros.. a refletir. ROBERTO . MARCOS . nem um filme sobre o sul da América do Sul. GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS ..Ora. existe aqui uma série de situações e sensações que obrigam a psicóloga a pensar.Acho que fizemos um bom trabalho. O sujeito não é imprescindível. e descobrir que ela vivia no paraíso.O gesto não é o detonador: é o fator detonante. A verdade do paraíso e do inferno sempre está em cada um. REYNALDO . O verdadeiro detonador é o diálogo dela com a paciente.. CECÍLIA . mas de repente tive a seguinte idéia: poderia ser O Inferno tão Temido. Eu adoro literatura.convincente.Que curioso: uma nova versão de A Morte em Samarra.O diálogo dos dois não pode ser considerado 'literatura' e nada mais. como Glória dizia muito bem..Isso aí é literatura. um elemento secundário no filme.A idéia. GARCÍA MÁRQUEZ . Ele já é.. GARCÍA MÁRQUEZ .Um momento: então. meu Deus. mas o inferno acaba alcançando-a. Nem sei mais quantos títulos a gente deu a este filme.O chefe de relações públicas do hotel. GLÓRIA .E qualquer um pode dançar o tango com ela.Então. Nós pusemos esse sujeito aí só para que ela tivesse um interlocutor. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . por causa daquela frase de “Não se move. Além das palavras. VICTORIA .E se a gente cortasse fora o argentino. quem vai fazer o convite? Quem vai mandar o carrinho com a comida? GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . no inferno. meu Deus! Não é mais um filme sobre os trópicos. então. nada.É simplesmente a história de uma mulher que foi para os trópicos achando que ia encontrar o paraíso.. GLÓRIA . poderia ser resumida assim: uma mulher foge do inferno.Porque estamos fazendo cinema. ou se você preferir.. por que esse desprezo? ROBERTO . o que iria acontecer? MARCOS . GARCÍA MÁRQUEZ . e o que você tem contra a literatura? ROBERTO ..O primeiro que pedir. ROBERTO . para amar-te” .Quem tem de pensar é o espectador.Nada. e não ela.Talvez não aconteça nada. não está nunca em outro lugar. Nossa tarefa 118 .Ai.

Marcos? Já acredita nela? GARCÍA MÁRQUEZ . GLÓRIA . o touro. ponha mãos à obra que você acaba alcançando com com ela. VICTORIA . Para sair lutando com dignidade.. MARCOS . mas no final a gente consegue.Eu estou de acordo com o peso que ela tem. no nosso caso. um dinheiro que não é nem para o nosso bolso.O questionamento é inevitável. É procurando a história que encontramos o método.Não: esta história já está madura: tem o helicóptero. Mas há coisas. e consiga identificá-las. não tem grandes fissuras. E verdade que não estamos elaborando o roteiro de Xogum. o hotel.Eu me preocupo com o seguinte: que você encontre falhas na história. Vai ser um pouquinho mais difícil.Tem tudo. Eu acho que tem.Estamos fazendo uma diversão para televisão para ganhar dinheiro. pode ou não servir -.. aceito como presente. Portanto. como a festa. MARCOS . em seu nível. que eu disse que esta história não sirva. do mesmo jeito que um pesopesado. como se todos tivessem que ter a a mesma pegada de um peso-pesado. Marcos. um peso-leve tem que estar na melhor forma possível. Eu sei o que posso fazer com ela. o time de futehol. Dentro do relato é preciso estabelecer categorias. polir. Mas queria deixar claro. ajustar. não deveríamos começar por questionarmos se uma psicóloga é o tipo de personagem adequado para uma comédia de televisão? GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . e vale tanto se você quer vender uma comédia para a televisão quanto filmar Cidadão Kane.Ou seja.Sim. afinal. se você não acha que pode fazer com ela o filme da 119 . como no boxe. Forma parte da busca.Bem. fazemos.. o hino. GARCÍA MÁRQUEZ . Se você quiser fazer o seu Xogum. algo digno de Cidadão Kane. O que sempre serve é a procura. É uma premissa do trabalho criador. Se para você uma idéia como a de Cídadão Kane é realmente mente atraente. mas sermos capazes de examinar o processo através do qual uma história é feita. Agora. o que precisamos estudar é o mecanismo da busca. tudo bem. se for assim. Mas ainda é preciso definir. Tem mais: se vocês não quiserem essa história. MARCOS . o produto tem que ter sua dignidade.E agora você a sente sua. tem uma coisa: nós temos de trabalhar sempre nossos projetos como se fossem pesos-pesados. E isso é o que importa. GARCÍA MÁRQUEZ . Mas se a idéia não convence você. eu posso dizer: estruturalmente. Uma coisa.que. que precisam ser desenvolvidas.não é tanto armar uma história .

falta alguma coisa no ponto número catorze.. claro. Tomara que não seja a chave deste filme. Sou incapaz de escrever alguma coisa melhor do que esse livro”.. no filme da minha vida. A seqüência está aqui mas incompleta.. no Caribe. meu problema já não é com a história: agora. mas. Isso faz que esta estrutura seja muito vulnerável. ouve um pouco de música. sem dúvida. Vamos dar um tempo. mas não deixa de ser interessante o fato de que ela nunca encontrasse em seu país o príncipe encantado. me danei.. Quando eu terminei O Veneno da Madrugada.. não é um grande livro”. dei os originais a vários amigos. ROBERTO . Se bem que poderia ser de uma hora.Não há quem consiga tirar da minha cabeça que alguma coisa muito importante escapou da nossa análise. porque se empacamos aqui. 120 . Vocês viram esse filme? Um filme tremendo! É a história de um marinheiro que volta para casa.Pois eu. Veja bem. Sofri uma desilusão tremenda. O personagem feminino é da Jeanne Moreau.. Eu me sinto profundamente satisfeito com o nosso trabalho. VICTORIA . e eles me disseram: “Parabéns.O filme da sua vida não vai ser de meia hora. MARCOS.Eu acho que para os efeitos do roteiro não devemos esquecer ou desprezar a proposta original: “Uma psicóloga que nunca teve um caso de amor de repente acaba tendo dois.”.. nunca saberíamos a razão de..Entâo. GARCÍA MÁRQUEZ .. descansa.Uma espécie de Rosebud? GARCÍA MÁRQUEZ .Eu garanto que sim. porque se apressaram a acrescentar: “Nenhum. MARCOS . Você vai para o seu quarto. é com você..Tudo bem. É verdade que a aventura com o argentino não é essencial.sua vida. primeiro romance é um grande romance”. meu primeiro romance. você pode se dar por satisfeito.Só que eu acho que estou vendo na sua cara uma sombra de dúvida. é boa. Pensava: “Agora sim me danei. GARCÍA MÁRQUEZ . que nesta história há muitos elementos que eu incluiria. viva sua aventura com esse sujeito e. MARCOS . e que de repente aqui. desses que costumam ser muito críticos. em compensação. numa ilha do Caribe”.. e não conseguia parar de repetir: “Eu me danei. ao mesmo tempo. em se tratando do seu primeiro filme. como A História Imortal..Estou vendo que aqui. Devem ter notado alguma coisa no meu rosto. de Orson Welles. MARCOS . Senti que o meu mundo caía. GARCÍA MÁRQUEZ . me salvei. nesta escaleta. pensa no assunto e depois a gente conversa. GLÓRIA .

filho do rei. Édipo mata os ladrões.No Caribe. para que tente acabar com a violência. a gente pode colocar o que quiser. No final. Édipo vira rei. suas contradições sejam resolvidas: não deixa de ser uma metáfora atraente.Se conseguirmos encontrar uma boa estrutura. O que mais você quer.. sem altos e baixos. Dentro dessa estrutura. sem nenhuma trinca.. Uns ladrões o assaltam. é exatamente o que pretendo fazer no roteiro de um filme que irá se chamar Édipo Prefeito.Vou estudar cuidadosamente a estrutura.Por que não recapitulamns sobre nossa proposta de estrutura? 121 . que existia desde a época em que Edipo nasceu. Aliás. é premiado: se casa com a rainha.Pode até ser que a gente não tenha acrescentado grande coisa. o homem descobre que ele mesmo é a causa da violência que tenta combater. como a Tebas.. Segundo essa previsão. acabaria matando o pai e casando com a mãe. meu caro. Se eu encontrar alguma falha. será como o tango: “Não haverá mais penas nem esquecimentos”. Para impedir que a profecia fosse cumprida.No Caribe. aquele menino. daqui em diante. para ela. Quando chega a Tebas. Um homem é nomeado prefeito de uma cidadezinha. Uma peste desaba sobre Tebas. o resto a gente resolve fácil. Marcos? Veja só: você chegou aqui com uma mulher que vê um helicóptero descendo enquanto toma sol numa piscina.. e Édipo vai consultar a pitonisa. num mundo tão diferente do seu. DENISE . na Colômbia..Mas eu não estou me queixando. GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS . a cavalo dado. O que vocês acham disso? É uma estrutura perfeita. e que a rainha. vaticina a pitonisa. que um dos supostos ladrões que ele matou era. que perdera o marido. Que aqui. GLÓRIA . MARCOS . na verdade. ela encontra o amor.. teu antecessor”. mas o encarregado de cumprir a ordem ficou com pena e desobedeceu.se reconcilie com seu país. MARCOS .... Vocês lembram da história de Édipo Rei? Édipo é um pobre coitado que vai por uma estrada. Na verdade. podemos discuti-la depois. era sua própria màe. “Quando se descobrir quem matou o rei. “a peste acabará”. seu pai. GARCÍA MÁRQUEZ .. na pessoa do seu vizinho. De verdade! SOCORRO .Vamos supor que. com quem havia se casado. mas também do lado de casa. Desta forma ele cumpria um agouro da pitonisa. e veja onde já estamos: num legítimo tango. Édipo começa a investigar e acaba notando várias coisas: que ele era o herdeiro natural do trono de Tebas. é isso que vem sendo feito há quatrocentos e cinquênta anos. mas enfim. seu próprio pai havia mandado matá-lo.

ROBERTO .Continuamos com medo de que existam fios soltos. além disso. isso não se discute. 122 .E em seguida acontece a reflexão.. mudar de hotel e. GARCÍA MÁRQUEZ . sua desistência. uma idéia. aí. não sobraria pedra sobre pedra.Ou seja. Se trocarmos agora essa estrutura.Ele mesmo levou o convite ao quarto da mulher. CECÍLIA .. É verdade que a estrutura não é a história. O convite que levou era para a noite de gala. e vemos chegar o carrinho com o churrasco.Seja como for.. a idéia de tirá-la do hotel. onde já começaram a esquartejar o touro. e uma noite de gala.Isso nos obrigaria a refazer a escaleta inteira. O que não ficou claro para mim foi a proposta da montagem paralela. com o diálogo dela com a paciente. e fica adormecida ou semi-adormecida.Mas há coisas que despertaram rejeição e outras que despertaram consenso. CECÍLIA . DENISE . não houve nem deixou de haver consenso. REYNALDO .A festa poderia ter duas 'etapas' . por um lado..Havia um convite anterior. ela estava indo para a matinée. Marcos: agora. em seu quarto. SOCORRO . por outro. É uma operação de brain-storming aplicada a uma história. MANOLO . por telefone. vendo pela televisão a entrevista do argentino. DENISE . tentanto fugir. do argentino. O touro desfilaria na matinée. Podemos até fazer uma tentativa. é preciso ver como se cruzam.. sua rendição . Por exemplo.e que nós chamamos aqui de sua capitulação. as ações e os tempos.. A Oficina é um jogo no qual estudamos a dinâmica de grupo aplicada à produção artística. e de noite seria papado no jantar.. você tem de começar a trabalhar. está tentando. REYNALDO .Naquele momento.e a chegada a festa. o diálogo na frente do espelho.Muito bem..Depois. REYNALDO . o touro estaria desfilando enquanto ela. com tudo que acontece depois.Sobre isso. para facilitar a elipse. no momento em que ela estava querendo descer para tentar escapar.uma matinée. porque faz parte do nosso jogo. saímos ao corredor. onde toma um comprimido para dormir.O grande problema parece estar entre os pontos treze e catorze: a decisão de ela ir à festa . ela. Ela sobe ao quarto. CECÍLIA . e o esquartejamento. Temos aqui uma estrutura. iria parar na cozinha.. e a de abrir mão do argentino. ELID . mas é o que impede que a história se esparrame ou perca o rumo.

não está na técnica .Ele mesmo. com helicóptero e até touro. Nada disso: é ele mesmo. porque o trabalho de escrever romances é absolutamente pessoal. surpreso. sabemos como pensa cada um de nós. como num quebra-cabeças. não basta. não vou mostrá-la a ninguém. Quando torna a se olhar no espelho. Sem essa base literária mais estreita que ela seja. volto para buscá-lo”. não sabe o que dizer. qualquer coisa que possa chegar a se converter num filme. pela data de nascimento e pela fotografia. é agora um homem de vinte e cinco anos. em boa medida. e sim na falta de idéias originais. Olha seus documentos e. Não é qualquer um que tem uma idéia dessas. através do debate. mas isso seria. em todo mundo. realmente. Mas enquanto for preciso escrever um roteiro para rodar um filme. aliás.. No dia em que as sombras alcançarem você. Quantos terão imaginado essa cena. Isso é o que costuma ser chamado de trabalho em equipe. e a faísca. mas com quarenta anos a menos. o cinema . Claro que. como era quarenta anos antes. achando que havia algum jovem atrás dele. cinema argumental -. Naquele momento o garçom traz a bebida. A gente se sente tentado a dizer que sem roteiristas não há cinema . que poderíamos dizer que é uma técnica criadora -. não haverá filmes.nem mesmo na técnica do roteiro. na frente dos atores? Seria um grande dia para o cinema. qual a corda de cada um que vibra. para começar a 'escrever' seu filme ali. superestimar o tralho do roterista. E hoje a grande falha no cinema. VICTORIA .repito. e ficaram nisso? A idéia morre ao nascer. a cultura. completamente diferente? ROBERTO . se dissermos a nós mesmos: “É perfeita.. que é. Será que alguma vez haverá um diretor que vá para a rua.Ele mesmo. Agora. Um trabalho. câmera na mão. em que aspectos o talento se manifesta melhor. Aqui nos conhecemos mutuamente. João bebe. e a habilidade de cada um. não vou discuti-la com ninguém”.ou pelo menos o cinema de ficção estará submetido à literatura. e murmura: “Aceito”. não tem mais do que vinte e cinco anos. Gira a cabeça. ou outra pessoa.uma imagem. E então vemos como. João mal crê no que vê. só com isso. com a idade que tinha quando entrou na cadeia. João fica atônito. 123 . que não pode ser feito por um romancista.. pensativo. a experiência. vê um jovem. um trabalho técnico.. talvez. todos esses elementos vão se encaixando e se completando mutuamente. O que o cinema atual necessita é encontrar esse pobre coitado que um dia começa a imaginar uma mulher frustrada que está tomando sol ao lado da piscina e de repente vê aparecer um helicóptero. Oficinas como esta são feitas para quem não pensa assim.

sorridente. João trata de se dominar: Ouve. E um belo dia.ou no jovem que aquele homem tinha sido durante anos e anos.tinha sido 124 . feito por três indivíduos. a voz cavernosa da Morte: “Esqueça o passado”. diz ele.decidiu falar com ele. Tem que fazer filas enormes durante muitos dias. Controla seus nervos. João se despede sem revelar a verdadeira identidade. ao ver o empresário. quando tinha a sua idade. Num deles há a notícia de um roubo..uns setenta anos mas para João seus traços são inconfundíveis. sua cidade natal. então ficaria assim: “São lembranças da minha juventude em Bonaire”. O homem tem mais ou menos a mesma idade verdadeira do João . talvez porque tenha pensado nele . ROBERTO .. porque o desemprego é grande.João sai do bar. na biblioteca. porque João inclusive se parece muito com o seu amigo. a duras penas. se hospeda numa pensão humilde. E a idade do velho corresponde aos cálculos de João.Passam-se os dias e João não consegue se conter: Aproveita e vai a Bonaire. A verdade é que o jovem João. Aquilo tudo acaba virando um capricho do velho ou uma história curiosa.manda chamá-lo.Mas se estão mandando gente embora. em homenagem ao seu falecido amigo . como foi que contrataram o João? ROBERTO .. Diz que acha curioso. e o empresário.uma figura destacada na cidade . VICTORIA .”. ainda mais um recém-contratado.. SOCORRO . explica que mandou chamá-lo porque João tem o mesmo nome e o mesmo sobrenome de um velho amigo seu. e de que um juiz .De relógios.ou da empresa que é dona da fábrica .. porque é raro que um grande empresário mande chamar um operário. Estão despedindo muitos operários. consulta velhos jornais locais. “São lembranças da minha juventude em xis”.Uma fábrica de quê? ROBERTO . o reconhece imediatamente. que ele não vê desde que era muito jovem. O empresário. Todo mundo estranha. e começa a buscar trabalho nas vizinhanças.ele acha que o amigo morreu -. “de uma época na qual você ainda não havia nascido.Mas reconheceu o velho. A fábrica havia recebido um pedido urgente de relógios. que vai garantir a João um emprego estável na sua empresa. O empresário quer que o jovem saiba. e podemos até chamar a cidade de Bonaire. e foi preciso reforçar a linha de montagem. o dono da fábrica .. dentro de si. mas finalmente começa a trabalhar como operário numa fábrica. VICTORIA . diz o velho. do assalto a um banco.Era um contrato de trabalhador temporário. Lá. ao ver o nome de João na lista nome e sobrenome .

informa que está satisfeito com seu trabalho.não consegue viver com seu remorso e quer se redimir através daquele jovem. “ Vamos tomar alguma coisa”. Só sabe que não foi ele quem atirou. que lembra tanto seu companheiro de juventude. Era um homem sozinho. Quer descobrir o que aconteceu com seus dois cúmplices e. SOCORRO . incita o outro a falar. Deixa que o outro beba e fale pelos cotovelos.Ele acabou sendo o único culpado.. ao ouvir o homem perguntar o que um homem que teria traído um amigo.morto no assalto.Aí é que está o problema: ele quer.vocês já devem ter adivinhado que é o verdadeiro culpado. ele não soube mais absolutamente nada do que tinha acontecido. Pedem uma garrafa e o empresário começa a beber sem moderação. que o empresário se dirige justamente ao bar dos espelhos.Mas o espelho não tinha dito para ele esquecer o passado? ROBERTO .Por que João tem de ir a Bonaire para conseguir essa informação.Não obedece à Morte. destruído a 125 . Assim. uma atrás da outra. Um belo dia o empresário manda chamá-lo. Eu imagino esta seqüência como um pesadelo: o bar está cheio de gente. E isso é grave. o mesmo onde sua metamorfose ocorreu. Gloria .Foi preso e não soube o destino dos seus cúmplices.Não é que ele perdeu a memória. o empresário bebendo e falando.e agora conta. durante o assalto. GARCÍA MÁRQUEZ . VICTORIA . é quem atirou no juiz . um ruído infernal. as imagens duplicando-se nos espelhos.João é um bom trabalhador. o que se falou da morte do juiz. ROBERTO . e nada mais. A culpa dessa morte caiu em cima dele. E de repente João. e convida João a sair com ele. sobretudo.. quer saber. até chegar a ter um posto importante. é que ele não sabe mesmo. Ninguém mandou notícias para a cadeia. Na realidade. mostrando-se muito interessado. o empresário . Na verdade. Os outros dois fugiram e nunca mais se soube deles. embora ele soubesse muito bem que o tiro tinha sido dado por um dos cúmplices . diz. do crime que o condenou injustamente. Agora. GARCÍA MÁRQUEZ . além disso. vai sendo promovido na fábrica ou na empresa.A partir do momento em que foi preso. com surpresa. João e ele saem e nosso percebe. João. Os cúmplices desapareceram sem deixar pistas.não podia garantir qual dos dois. VICTORIA . João mal prova a bebida. ROBERTO . com a simpatia do empresário. mas não consegue esquecer. tem muita experiência embora ninguém pudesse imaginar . sem família.

E em relação à promoção. o rosto do seu amigo. Assim. porque tem uma coisa muito importante para mostrar. O filme começa falando de uma coisa.Porque a Morte veio buscá-lo. que encontrou em Bonaire – e começa a olhar para elas. porque tem a 126 . Pode ser que tenha trabalhado na cadeia consertando relógios. mas precisava ter certeza. quando fica sozinho em seu escritório. Não seria assim. na atualidade. e em seguida. SOCORRO . ROBERTO . João já tirou um revólver e começou a disparar. GLÓRIA .. VICTORIA .Ele é um operário qualificado. apavorado.é um filme de vingança. “Não pode fazer nada. GARCÍA MÁRQUEZ .João tenta esquecer tudo. sendo levado para a cadeia.. porque o que fez é imperdoável”. e quero dizer que não escolhi uma fábrica de relógios ao acaso.vida do amigo para sempre. tem. De repente. as fotocópias. ROBERTO . embora não entenda nada.Bem. o velho amigo que ele achava que tinha morrido na cadeia? No momento em que empresário morre. E quando o empresário entra.dos jornais velhos. diz João. mortalmente ferido. O empresário olha aquele rosto. ROBERTO . “Nada”. ROBERTO .A maneira como João consegue trabalhar e vai sendo promovido é curiosa. João morre junto. a cara de João começa a se cobrir de rugas e seus cabelos vão embranquecendo. vamos ver. Mas o destino o coloca de novo cara a cara com seu passado.O problema é contar isso tudo em meia hora. poderia fazer para se redimir . SOCORRO. ROBERTO . João liga para o empresário pedindo que por favor dê uma passada na sua sala.Eu não acredito... SOCORRO . e percebe tudo. fala de outra. começa a trabalhar. que esse filme possa ter só meia hora. GARCÍA MÁRQUEZ . tira da gaveta da escrivaninha umas cópias .Morre? Por quê? ROBERTO. ROBERTO. Há uma fotocópia onde o próprio João aparece. acho que já expliquei: o empresário. mas porque nesta história tem tudo a ver com o Tempo.. alguns dias mais tarde. algemado. e João se senta na frente dele e olha sem dizer nada.. e a primeira coisa que faz é romper o pacto. João rompeu o pacto. uma por uma.João suspeitava. O empresário se apoia numa cadeira.É um filme estranho. vê a parede empapelada pelos recortes.Agora. Dá na mesma.Eu acho que pode. GARCÍA MÁRQUEZ .Aí existe uma contradição insolúvel: João pede à Morte outra oportunidade.

mas vacila.Vai ser difícil contar em meia hora a história dessa ascensão meteórica. claro. de um modo muito simples como se dá o processo de aprendizagem: através da postura do menino. que a gente use um narrador em off. Portanto. sua vida mudou radicalmente . A menos. Devo 127 . ele já tem os recortes de jornal em seu poder. do velho mestre. e é então que vê aqueles papéis amarelados. ROBERTO . VICTORIA .Mas é assim que João começa a romper seu pacto com a Morte.tira suas coisas do pacote.A culpa clássica. É preciso encontrar o tom adequado. e entre elas estão os recortes. GLÓRIA .consciência culpada... REYNALDO .Eu admito que o filme. quando João vai consultar os jornais locais.Os filmes para televisão têm que ser muito movidos. REYNALDO . Acho que só vamos saber exatamente o que acontece.Por que não começamos por limpar o caminho? Podemos suprimir a peripécia da viagem a Bonaire.já é jovem. O mestre concorda em aceitá-lo como discípulo. jogá-los no lixo.. João podia morrer por lá. Um erro grave. Eles são o seu passado.Então.Mas a vida costuma debochar das nossas previsões: o jovem João acaba sendo um cara de sorte.. uma coisa que João precisa esquecer. ROBERTO . E aí vemos. ou pode acontecer. REYNALDO . Começa a subir na escala social. para colocá-las no armário. depois com elegância. que se comprometeu a apagar da memória. com muita rigidez.. Eu creio que para resolver esse processo não é preciso recorrer a nenhum narrador. GARCÍA MÁRQUEZ ... os espectadores fazem zapping: mudam de canal. dobra tudo com cuidado e guarda numa gaveta. o erro fatal de todas as tragédias.. o filme só teria cinco minutos. Podemos estabelecer isso como um fato consumado.. depois com arrogância e finalmente com uma grande dignidade. GARCÍA MÁRQUEZ . favorece João. com muito empenho. Sua viagem é uma viagem ao passado.. Podemos resolvê-lo visualmente. através de uma simples sucessão de imagens. decide rasgá-los. como o próprio mestre. depois com mais soltura.João pode sair da cadeia com os recortes. ou seja. ROBERTO . Lembro de um menino que queria aprender judô e se aproxima. Carrega um embrulho com suas poucas coisas. depois que tivermos uma estrutura que nos permita contar a história em meia hora. do fundo até o alto. Num minuto ele percorre todo o trajeto.Deveríamos tentar elaborar uma estrutura. Quando se hospeda na pensão . porque se não forem assim. tem um jeito meio insólito. da maneira como se senta. No começo.

. GARCÍA MÁRQUEZ .. na cadeia..João está começando a trabalhar nessa fábrica de relógios.Não.. porque ninguém pode fugir das próprias sombras. acontecem coisas tremendas. não é assim. Nós não vamos desistir desta assim tão fácil: é um desafio que temos de enfrentar. inclusive para ele.Mas aqui não é o tempo que reverte.E o que o jornais sabiam? O único culpado foi ele. mas isso é um disfarce: sua memória e seu caráter continuam intactos. não deixar que as sombras o alcancem.. Ele volta a ter o aspecto de um jovem. mas a gente sempre acaba com a impressão de que alguma coisa está quase acontecendo. Em cada seqüência.Então. 128 . quer viver outra vida.A técnica da telenovela. GARCÍA MÁRQUEZ .. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . esperando. GARCÍA MÁRQUEZ .Ou é a Morte que põe a armadilha para ele. Mas elas o alcançam. GARCÍA MÁRQUEZ . é diferente: não acontece nada. mas em espaços de tempo longos demais.Nos filmes americanos está sempre acontecendo alguma coisa. GLÓRIA . exceto no que diz respeito ao seu aspecto físico. O tempo passou. Põe uma armadilha para a Morte. ROBERTO ..Ele não cumpre a sua parte no acordo. alguma coisa acontece. só dispomos de meia hora para contar essa vida. João está vivendo.Seu objetivo não é a vingança.reconhecer que me dá um trabalho enorme imaginar o movimento contínuo. Por isso quer voltar no tempo. o que tinha acontecido com seus cúmplices? Não podia ficar sabendo pelos jornais? ROBERTO . Minha única preocupação é que. ROBERTO .. ter outra oportunidade. ROBERTO . GLÓRIA..João tenta mudar. de haver perdido a vida na cadeia. que já passou para todo mundo. por um amigo. ROBERTO . em compensação. durante esses anos todos.Eu posso trazer outra história. O que atormenta João é o fato de ser um velho. um tempo real. esquecer o passado. e ao sair fosse diretamente buscar seu cúmplice. o verdadeiro culpado.Nem pensava nisso. ROBERTO . Ele faria qualquer coisa para recuperar esses anos. é a idade do personagem.. Por isso continuamos ali. com quarenta anos a menos.Na história do preso.. será que ele suspeitava que a fábrica é do seu antigo cúmplice? ROBERTO . Ou melhor.E durante quarenta anos João nunca tentou saber.. Poderíamos facilitar muito se João tivesse ruminado sua vingança na cadeia.

João não abriu a boca. Por que o bispo se move de lado? Porque foi combinado e aceito assim.Você está inquieto por causa do primeiro encontro de João com o empresário. pistas. e pede para conhecêlo. eu me sinto livre para fazer o que bem entender. ou Pirilampo 129 . E nesse processo devem ter saído nomes.admito . Talvez eu esteja tentando contar. É como no jogo de xadrez. ROBERTO . por um crime que não cometeu. que é quase de prisão perpétua. GARCÍA MÁRQUEZ . A única coisa em que acredito é o mais inacreditável de tudo.Eles sumiram. SOCORRO.. o trabalhador teria de se chamar. uma história que precisa ser contada num longa-metragem.é a maneira pela qual o empresário fica sabendo que o tal João trabalha para ele. ou seja.Não.e se impõe. SOCORRO . Ele se negou a delatar os cúmplices. É pegar ou largar.O que acho uma falha . SOCORRO . nem nada.Pois a partir daí. quando faz que as coisas aconteçam assim com facilidade.E a polícia nunca chegou a eles? ROBERTO . A terra engoliu.ROBERTO. Para que o dono da fábrica ou o gerente de uma grande empresa reconheça o nome de um de seus trabalhadores. um sonho? ROBERTO . a peça não pode mais se mover de outro modo. antes mesmo de começarmos a jogar..Eu acho que você está se mostrando indulgente demais com você mesmo. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . Isso não está bem resolvido. misturados com outros cinqüenta numa listas de demissões. Cuahtémoc Ortodoxus. João não tinha amigos. Você pode fazer o que quiser. E eu não consigo acreditar no que ROBERTO conta. ROBERTO .Não interessa se a história é ou não é inacreditável.E deixaram João apodrecendo na cadeia. sei lá. A partir daí. GARCÍA MÁRQUEZ . O que interessa é nós acreditarmos nela.. Tudo acontece como num sonho. mas dentro da lógica que você mesmo impõe ..Uma condenação dessas.Que amigos? Fora os cúmplices.. nem parentes. E com toda razão. ROBERTO . tem que ter sido resultado de um longo processo judicial. em meia hora. Porque o assalto ao banco não poderia justificar uma condenação desse tamanho.. sem oposição nem resistência será que é isso mesmo. e eu pego. a transformação de João num jovem de vinte e cinco anos.Não.

A iniciativa deve ser do empresário. isso mesmo”.não em primeiro lugar -. Uma redenção impossível. ao ver o verdadeiro rosto de Dorian Gray. nem acontecer por causa de uma decisão de João.João não pode deixar que o culpado morra: precisa matá-lo. e. O empresário deve morrer de susto.Quando o empresário manda buscar o João.Eu acho que os detalhes dessa história são convincentes. GARCÍA MÁRQUEZ . ou a implicação dos escritórios da empresa. ROBERTO . são os nomes do meu avô.Ele só percebe no fim. senhor. sinto muito”. Eu não queria contar a história de uma vingança . Como em O Retrato de Dorian Gray. segundo – uma conclusão derivada disso -. não precisa ser um jovem. embora queira..Porque então vê o verdadeiro rosto de João. E diz: “E o que foi feito do avô?”.. ele vem. O empresário insiste: “Você é neto de João Cabral. REYNALDO . 130 . como podemos ver. SOCORRO . ao perceber o que aconteceu..Mas precisa ser convincente.O seu coração explode.Se for inaugurada uma nova seção da fábrica. pensa. Como este mundo é pequeno!.Mas não é o que todo mundo faz. GARCÍA MÁRQUEZ . Se você apela para um recurso tão extraordinário como a mudança de idade. na presença do empresário. SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ . E pode dizer ao empresário: “Sim.. senhor. e sim a história de uma redenção. GARCÍA MÁRQUEZ . nesses casos? A criação é assim. “Sim. e os trabalhadores forem convidados para um brinde. por que não o utiliza depois em algo que valha pena? ROBERTO . responde João. Eu me chamo como ele”.João gosto de João matar o empresário. quando morre..Praxedes. que quando era jovem morava em Bonaire?”. O empresário fica parado de susto. ROBERTO . sem vacilar: “Ah!.Mas você está fazendo isso de um modo muito peculiar: manobrando para que tudo se adapte aos seus propósitos.Mas para consumar sua vingança. ROBERTO . ROBERTO . que ninguém pode fugir de suas próprias sombras.Mas o encontro deles não deve ser casual. SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ . de seus fantasmas . “Morreu na cadeia”..O empresário nunca suspeita quem João é de verdade? ROBERTO . que João não consegue fugir de seu passado. primeiro.Eu o utilizo para demonstrar.

Quer se vingar. É a história de Edmundo Dantés. Os outros dois fugiram com o dinheiro roubado e ficaram com a parte de João. Nunca mais se soube dele. em um personagem.O outro cúmplice desapareceu.Existe a possibilidade de que o empresário se sinta culpado. 131 .. quer dizer que o roubo aconteceu? Nesse caso é preciso haver em João algum desejo de vingança. REYNALDO .E ajuda mesmo. SOCORRO . Mas o que João descobre agora é.Mas os assaltantes eram três. SOCORRO . indo visitá-lo? ROBERTO .E que. REYNALDO .Podiam ter mandado algum recado.Dá a entender.“Sou Edmundo Dantés”. existe o fator dinheiro. eu vou ajudar você.Poderia.Sua culpa é ter deixado que botassem em João a culpa da morte do juiz. justamente.. sem nem ir visitá-lo. não por ter matado o juiz e deixado que seu amigo fosse condenado. GLÓRIA . GARCÍA MÁRQUEZ . O culpado não poderia ter sido o outro. dentro da empresa. como em O Conde de Montecristo.diz o empresário. Isso é algo que não se diz: se deixa subentendido. mas por ter deixado que seu amigo apodrecesse na cadeia... nós fomos grandes amigos . Se três camaradas cometem um delito e um deles é preso e se nega a delatar os outros. e ajuda tanto que João se transforma..Estou preocupado com uma coisa: a culpa do empresário é ter matado o juiz? Ele também não é culpado por ter abandonado seu amigo na cadeia? ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . e que ele fosse condenado por esse crime. E fica sabendo porque o próprio empresário confessa.Então. Teve tempo para pensar nisso. Além disso.”. “Antes que esse incidente lamentável acontecesse. Ele não encontra o empresário por acaso: levou quarenta anos acariciando a idéia desse encontro. Eu sou João Cabral”. E é então que chama o seu benfeitor e diz a verdade: “Eu não sou neto de João Cabral. por outro lado.Durante quarenta anos. João? Em nome da amizade que me unia ao seu avô. SOCORRO . que foi o empresário quem atirou. REYNALDO . o terceiro? ROBERTO . tudo isso é lógico. ROBERTO . REYNALDO . como é que eles vão se delatar..E aí mesmo o empresário poderia acrescentar: “ Quer saber de uma coisa.

ROBERTO.. Mas vamos começar lixando a madeira. a gente acaba decifrando de um jeito que não havia pensado. ROBERTO . Quem dá o primeiro passo? MARCOS . viemos ver como se constrói uma história imaginária.João não foi procurar o homem: não tem idéia de onde ele pode estar.Ora. e na verdade são diferentes. Faz muito tempo que penso nela. de que tipo de pessoa ele pode ser a essa altura da vida.Tenho uma proposta. martelada a martelada. e vou defender esta história até o fim. nós não viemos fazer obras-primas.Não escolheu: a Morte o empurrou para lá.Estou dizendo isso porque sou cabeça-dura. você. estão lembrando? Se a profecia não estiver cifrada. lendo um livro com toda tranqüilidade. um tijolo vai acertar a sua cabeça.. Não podem ocorrer o risco de se derrotar a si mesmo..Essa é a história que quero contar: a de um homem que é submetido a uma prova dura. à uma e dez de tarde. quanto ela pode durar? Vem o próprio Nostradamus e anuncia: “No dia 27 de março você vai ser comido por um tigre..Eu proponho que a fábrica tenha o nome do empresário: 'Juan 132 . veja só. e que coincidência! No meio de todas as fábricas de São Paulo. Você não pode nos privar do prazer de armar este móvel.. GARCÍA MÁRQUEZ .Mas as profecias estão cifradas para se protegerem contra o fracasso. Se você acredita nas profecias e elas vaticinam que quando sair daqui. GARCÍA MÁRQUEZ . e a profecia.. e o tigre se dana. A gente só 'decifra' com exatidão as profecias depois que elas se cumprem. Prego a prego. Aqui. ou não vai sair daqui à uma e dez da tarde. GARCÍA MÁRQUEZ . No dia 27 de março você fica na cama. REYNALDO .. melhor para o nosso trabalho. acho que é melhor eu trazer outra idéia. para tirar os nós e as farpas. Como no caso de Édipo. só para colocálo à prova. é claro. ou melhor. viemos aprender a carpintaria do ofício. E pela Morte. ele escolheu justamente essa. depois que acontece o que supostamente tinha de acontecer. REYNALDO .É como esses enigmas que a gente acha que pode decifrar de uma forma.ROBERTO ..Quanto mais cabeça-dura você for. Já que estou preso demais ao meu projeto e não conseguimos avançar. quando estiver saindo da igreja”. portanto. E tem mais: repito que ele não sabe qual dos dois cúmplices matou o juiz. fica sem comer. GARCÍA MÁRQUEZ . não virá aqui hoje. não se cumprirá jamais.Não. ROBERTO .

sem encomendar-se a Deus nem a Diabo..Ah. João ao sair da cadeia. ele concorda.. mas da boca para fora. não só consegue transformar esse pobre marinheiro num homem sábio e fabulosamente rico. É então que o autor. E João inventa a armadilha. uma das mais lindas do filme? GARCÍA MÁRQUEZ . REYNALDO . mas Roberto não pode violar as regras. por exemplo. a certa distância da costa. que nisso tudo é preciso que um sentimento de vingança esteja em jogo. Nesse momento o espectador não notaria nada. outra é violar as regras do jogo. sim.Edmundo Dantés. Como Dumas realiza essa façanha? 133 . GARCÍA MÁRQUEZ . de onde não se pode fugir porque está numa ilhota.Se vocês levarem isso em consideração.. Alexandre Dumas. GARCÍA MÁRQUEZ .. tirá-lo da cadeia de maneira espetacular. A Morte pergunta: “O que você quer na realidade: viver ou se vingar?”. Um ricaço pretende a moça e confabula com outros dois sujeitos para levantar uma calúnia política contra Dantés: acusam-no de bonapartista. VICTORIA . O pobre marinheiro é julgado e condenado a muitos anos de cadeia. E a Morte sabia disso: é a Morte que engana João. uma antiga fortaleza transformada em prisão. embora com um pouco mais de esforço.Não deixa de ser interessante. consegue um disfarce tão bom quanto o de João.Mas isso. Quando a Morte diz a ele “você precisa esquecer o passado”. como Fausto. essa história de João pretender enganar a Morte.O que João pede à Morte é tempo para poder consumar sua vingança. não é? Dantés é um jovem marinheiro que tem uma namorada em Marselha. mesmo de maneira inconsciente? ROBERTO .Perez Sociedade Anônima'.Você está propondo que a gente elimine a seqüência do bar. ficarei agradecido: João é sincero quando promete esquecer tudo.. Mas não consegue. Voltar a viver. como consegue além disso. que vai se livrar da sua frustração. que deverão ser passados num castelo. Vocês conhecem o romance. mas depois. Ele acha sinceramente que vai começar uma vida nova. Sem forçar nenhum elemento da realidade. Assim. João pode violar o pacto.Uma coisa é violar o pacto. Não nego isso. Arma o truque.. vai direto procurar trabalho lá.Tem uma coisa que a gente precisa saber: Você admite.. GARCÍA MÁRQUEZ . a Morte não vai conceder. da sua raiva.João vendeu a alma ao Diabo. Roberto. e ele responde: “Viver. ROBERTO . faz uma das coisas mais extraordinárias da história da literatura. ROBERTO .. ROBERTO .

diz o velho. quando alguém morre. E quando sentir que caiu na água. a qualquer preço... e pouco depois o tira de lá transformado em homem rico. é o Conde de Montecristo. Assim voc6e poderá desfrutar da sua nova condição de homem livre. O que vocês acham disso? Do ponto de vista da condição dramática. O 134 . na sua cela.. Conhece o segredo de um grande tesouro e está armando a própria fuga. Na minha idade. põe em ação o mecanismo da vingança. que alguém. do outro lado da parede.. rico e sábio”... E nenhum dos culpados o reconhece: qual deles. através do túnel que os dois fizeram. Um dia Dantés sente. nada até a costa e escapa. O abade Faria é um ancião conspirador e um sábio. Quando eu morrer esconde meu corpo no túnel e entra no saco. com uma pena de cinqüenta anos nas costas. é impossível começar de novo. poderoso. e não saiu. Um marinheiro sabe nadar e fazer e desfazer nós. e quando o velho morre. Dantés aprende tudo o abade ensina durante aqueles anos. os carcereiros metem o cadáver num saco e jogam no mar. E como conde. GARCÍA MÁRQUEZ . segue suas instruções ao pé da letra. faltam dois. Dantés se encontra com o abade Faria. Você sabe que aqui.. magnatas habituados ao poder vai se lembrar daquele pobre marinheiro que. anos atrás.Seria bom saber em que consiste o segredo. O resto do romance é isso: ele se vinga do primeiro. e o mete na prisão. forja sua nova identidade. desenterra o tesouro e. abre o saco usando a faca.Podemos averiguar. está cavando. E isso é o que torna a fuga de Dantés acreditável.. sábio. Ou seja.Muito simples: cria outro personagem. Começa a fazer a mesma coisa e pouco depois. é mais difícil fazer tudo isso que convencer a Morte a rebaixar a idade de alguém. “Achei que o túnel ia sair em tal lugar.... levando uma faca. tentam. se vinga do segundo. orientar-se pela água. “Fiz um cálculo equivocado”. e vou ensinar a você que eu sei. E se Dumas conseguiu fazer. Ele é jogado ao mar. falta um. Além disso. enfiado num saco. Agora. Eu sempre me perguntei por que Dumas havia dado ao seu personagem o ofício de marinheiro. o abade Faria. da torre do castelo. Suponho que era para deixar estabelecida sua familiaridade com o mar. numa cela separada. se transformar em seus amigos. Dumas mete na cadeia um marinheiro pobre e semi-analfabeto. fizeram prender? Quando ficam sabendo da existência do Conde do Montecristo.. por que a gente não conseguiria? REYNALDO . O que me resta de vida não seria suficiente para você é jovem e forte. Que maravilha! O conde de Montecristo sai do anonimato para se vingar dos três que armaram contra ele. no mais absoluto segredo. vou dar o mapa de um tesouro que está enterrado na ilha de Montecristo. e não se afoga. Vai até a ilha de Montecristo.

Mas eu digo que. está livre porque seu amigo não delatou à polícia . se identifica. Quando a Morte põe como condição o que nós contamos .. não caberia em meia hora. GARCÍA MÁRQUEZ .Ao sair da cadeia. existe uma grande diferença entre a história de Edmundo Dantés e a de João Cabral. Ninguém reconhece Dantés porque ele mudou de personalidade. não há nenhuma razão para pararmos no 135 . decidisse persegui-lo? O jovem sentiria a iminência do perigo. o material que temos. VICTORIA . e aí não temos vingança nem filme. Dos dois dramas. João. o culpado. Ele tem que sair decidido a se vingar. Além do mais. o do empresário é mais complexo..que João esqueça o passado -. GARCÍA MÁRQUEZ . Os sujeitos caem de costas. que agora é muito conveniente. três. que seu filme também conta uma história de vingança. Quer saber o que aconteceu. o empresário não teria esquecido de João nem por um minuto.Não podemos alterar a natureza da história. não pode tirar o personagem da cadeia para deixá-lo flutuando. sabe que seu companheiro levou uma cadeia perpétua por um crime que não cometeu. só isso. porque o culpado é amigo e cúmplice do acusado. mas que ao encontrar o culpado. GARCÍA MÁRQUEZ .. João não quer vingança. Os duros não delatam seus cúmplices.. ROBERTO . mas com o propósito secreto de enganar a Morte.. porque mudou de idade.. Aliás. não possa se conter e rompa a promessa. O que eu quero ressaltar é o seguinte: se você admite. ROBERTO . SOCORRO .. “Sou Edmundo Dantés”. é difícil aceitar esse gesto de lealdade a um filho da puta do calibre do empresário.São atitudes parecidas. que aceite de coração. aliás. podem acontecer duas coisas: uma. mas tem um defeito: é outro filme. até o final. Os três que caluniaram Dantés não tornam a se lembrar dele depois que o meteram preso.Bem..Se mudarmos o nome.É a lei do crime. ROBERTO . sem mudanças substanciais. Principalmente. sabe que ele. e cada vez que o Conde arruina um deles. Roberto.recém-chegado está na moda na alta sociedade. mas não saberia de onde ele vinha . E. GARCÍA MÁRQUEZ ..Em termos de construção dramática.Essa última é justamente a minha idéia. Mas na história de João a coisa muda. de Edmundo para João. Para eles..Coisa. A graça é poder organizar bem. sabendo que João vai sair da cadeia. GARCÍA MÁRQUEZ . em outra situação.Isso é muito bom. ROBERTO . Duas: que faça de conta que aceita.E se o empresário. que ele aceite e esqueça realmente o passado. Não me interessa o drama do empresário. o pobre marinheiro é um ser insignificante e inofensivo: não há por que se preocupar com ele.

Por isso retardei esse reconhecimento e deixei quase que para o final o momento em que João descobre a traição. Mas enfim. é mais complicado. voltar a ter vinte e cinco anos é a melhor das vinganças. João sai da cadeia. GARCÍA MÁRQUEZ .Por enquanto. Conhecendo como conhecemos a alma humana. ROBERTO . e a Morte diz a ele que existem dois caminhos: o esquecimento ou a vingança.processo que vai da saída de João da cadeia a seu encontro com o empresário. Mas a Morte não faz pactos de graça. porque viola o pacto. Começa a pensar em como driblar a Morte. GARCÍA MÁRQUEZ . vê entrar um homem que ele reconhece como sendo seu cúmplice e suposto culpado do assassinato. além disso. enquanto está com uma moça num restaurante. Seria preciso dar todos os antecedentes do caso.“ou começa uma vida nova. ROBERTO . do jeito que você diz.Assim. apesar de querer cumprir seu pacto com a Morte. O que temos que detalhar é o eixo da situação. só você precisa saber disso. Depois veríamos como esses fatos podem acontecer. admirado e homenageado por todos. vai procurar o fulano: “Eu sou João Cabral”. se vê arrastado a executar a sua vingança. bem.Se João saísse da prisão decidido a se vingar. João o reconhece e. Com vinte e cinco anos. Deixe-me fazer uma pergunta estúpida: por que a Morte concede 136 . VICTORIA . para João. E um dia. se encontra com a Morte. mas com uma condição: esquecer o passado”. não vamos ter medo das coisas.Perdemos aí o efeito visual dos recortes de jornal. ao se comparar a ele. Agora. só porque elas sejam mais complicadas. GARCÍA MÁRQUEZ . E o pacto com a Morte ficará verossímil na medida em que a gente entender que. apesar de todos os seus esforços para esquecer o passado.Ele não precisa desses recortes. quase poderíamos apostar que João aceita o acordo só para ganhar tempo. a injustiça cometida fica muito mais insuportável. E no final. E aí se dana inteiro. “Agora você cumpre seus loucos desejos de vingança” diz a Morte . teria renovadas energias para cumprir seu plano. decide procurar trabalho na fábrica do sujeito. O que vamos ver é como João. poderoso. Um belo dia. João sabe quem é o empresário.João não vai à fábrica do sujeito. ela mesma atravessa o empresário no caminho de João: é um homem rico. Ali mesmo se danam todos os seus bons propósitos. Por isso mesmo. É contratado em outra fábrica. recuperando o tempo que perdeu. GARCÍA MÁRQUEZ .A Morte estende uma tremenda armadilha para ele. o espectador teria que saber a razão. a pergunta seria a seguinte: a Morte deixará João seguir até o fim? ROBERTO . Sua palavra de honra vai para o diabo.

Mas. ou não se sente como se fosse uma coisa pessoal. aqui.Até aí. mas com uma condição: esqueça esse tempo”.Tudo isso se simplificaria.. ainda assim. não tem problema..Ah.Eu gosto da fábrica. MARCOS .Há uma pergunta que continua sem resposta: como é que João chega à fábrica? E outra.Eu vejo tudo isso como falhas dramatúrgicas. reforçar o impacto da história.Mas então. A partir daquele momento. ROBERTO . a de devolver a juventude? CECÍLIA . A Morte faz um acordo com João respeitando sua vontade. mais importante: como é que a vingança chega? Como. operário qualificado na fábrica. a Morte concede essa graça por um sentido de justiça. Temos de imaginar esse ambiente. João é um peão. O culpado seria o latifundiário. GARCÍA MÁRQUEZ . o que ela faz com João. ROBERTO . Tinham privado João da sua juventude. você é livre para escolher e é nesse jogo que você perde. uma condição básica nos pactos com o Diabo. a lista de nomes.. porque é um universo fechado.No bar a Morte poderia dizer a João: “Eu ajudarei você a começar uma vida nova. Além disso.Eu só consigo ver é a Morte no fundo do espelho.. GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO . a corrente de promoções.. também. dar mais riqueza visual ao seu trabalho.essa graça a João. não é uma fábrica estritamente realista.Ah!... a uma fazenda do nordeste. mas não dá nada a troco de nada: “Eu devolvo a você o tempo perdido. eu acho.se prolonga demais. É um ato de justiça.Deve ser porque tinham roubado uma parte da vida dele. A Morte é justa. sou um cara essencialmente urbano. você quer inventar uma fábrica que responda 137 .. GARCÍA MÁRQUEZ .João é relojoeiro. Vá até a fábrica tal que você vai encontrar um emprego”. GARCÍA MÁRQUEZ .Para mim. ROBERTO . VICTORIA . Não. a partir daí. por exemplo.Não se deve escrever sobre o que não se conhece. GARCÍA MÁRQUEZ . CECÍLIA . o mecanismo da vingança funciona? Porque eu continuo pensando que a carreira de João na fábrica – ou na empresa . injustamente. se transportássemos a história ao ambiente rural.Vem a coincidência da fábrica. ROBERTO .Vocês acham que isso tudo é arbitrário? GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO . Mas não é isso o que acontece. não sei fazer histórias rurais. A pergunta não era tão estúpida como pensei. a Morte seria uma puta. Poderiam parecer arbitrárias e.

à lógica do espelho... ROBERTO - E uma estética que responda a essa idéia. Não é uma estética fantasiosa, mas tampouco é naturalista. GLÓRIA - E para isso, uma fábrica de espelhos até que seria bom. GARCÍA MÁRQUEZ - Para que todos ficassem loucos. ROBERTO- Eu acho que o cinema não agüenta outro espelho... GARCÍA MÁRQUEZ - Seja como for, está claro que João fica preso num labirinto, numa situação que o conduz, inexoravelmente, ao empresário. ROBERTO - Ao contrário: permite ao empresário atenuar seus remorsos com João. A outra coisa seria que João se empenhasse em fugir, em se afastar o máximo possível da fábrica, e que no fim terminasse matando o empresário. GARCÍA MÁRQUEZ - Uma vez mais, a Morte em Samarra, a história de uma fatalidade. SOCORRO - E se João soubesse, desde o princípio, não só quem é o empresário, mas também que ele matou o juiz... ROBERTO - Bem, aí o filme - ou pelo menos, o filme que eu vejo - não teria sentido. CECÍLIA - Seria O Conde de Montecristo de novo. GARCÍA MÁRQUEZ - O empresário acha que a história que João conta, dizendo ser neto de seu amigo, é verdade. Tem que ser um momento impressionante, porque o empresário está vendo com seus próprios olhos, naquele jovem de vinte e cinco anos, a imagem viva de seu amigo, tal como era quando foi traído pelo próprio empresário. Para ele, o jovem João é uma aparição. Olhando bem, é como se a Morte também aparecesse para o empresário. Nesse momento, quantas perguntas não passarão pela sua cabeça? DENISE - E se João matasse o empresário sem querer, como Édipo matou o pai? SOCORRO - Consumaria a vingança sem querer - só à última hora perceberia -, e voltaria para a cadeia. A morte teria dado a ele, nesse caso, o contrário do que prometeu: um breve prazo para que pudesse se vingar. GARCÍA MÁRQUEZ - É preciso tomar cuidado, para que o essencial da historia não seja alterado. Nossa função é acrescentar idéias para que a história acabe sendo o mais coerente e atrativa possível. DENISE - Tudo parece indicar que ninguém gosta da forma em que o encontro na fábrica acontece. SOCORRO - A fábrica está bem. O que está mal é que o ex-amigo de João, seu cúmplice, o culpado pelo seu destino, seja o gerente ou o dono.

138

GARCÍA MÁRQUEZ - Roberto acaba de dar uma informação nova: a fábrica foi concebida com uma ótica, como direi?, um pouquinho biruta, situada um milímetro além da realidade. Essa fábrica pode se prestar para um tratamento visual estupendo. Visual e também dramático. Nessa atmosfera, o encontro de João com o culpado deve permanecer puramente casual. Vai ver, o cara é um cliente que chega para fazer um pedido de compra, é levado para conhecer a oficina, e mostram a ele o trabalho dos operários qualificados. Nós sabíamos desde o princípio que nesse encontro não há nada de casual, e que a Morte se encarregou de organizar tudo. A Morte é melhor narradora do que a gente pensa. Não vai cometer o erro de levar João até essa fábrica, quando João sai da cadeia. Ao contrário, a Morte deixa João à vontade, solto. E João vai parar lá, do jeito que ela tinha previsto, por sua própria conta. REYNALDO - A encenação poderia ser esta: na fábrica, João sente um murmúrio às suas costas. Olha e vê a Morte, que por sua vez o está observando. A Morte, então, olha para a porta principal. Seguimos seus olhos e vemos o cliente entrando, acompanhado pelo capataz. João, claro, o vê também, e tem um palpite. “É ele”, pensa. GLÓRIA - Aí fica em evidência o papel insidioso da Morte. Ela está preparando uma armadilha para João. MANOLO - Está, simplesmente, fazendo João passar por uma prova. GARCÍA MÁRQUEZ - E o cliente, pelo menos aos olhos de João, tem um ar misterioso, alguma coisa que provoca receio. Ainda não sabemos nada do passado de João, mas de algum modo estranho associamos o recém-chegado com ele. Recordo a história do camarada que vai vai entrar num ônibus, e o chofer diz a ele: “Só tem lugar para um”. Bem, ele é um, mas o chofer falou com uma cara, e num tom, que fez com que o sujeito automaticamente desistisse de subir. O ônibus continua seu caminho e, ao dobrar uma esquina, bum!: explode. O que havia na cara do chofer; o que ele viu nela, que produziu essa recusa por parte do homem que ia entrar no ônibus? ROBERTO - Esse é o tom que eu quero dar ao filme, como se fosse de máscaras, uma brincadeira de disfarces. GARCÍA MÁRQUEZ - Se na primeira vez que João encontra o sujeito visse o camarada por um espelho... Não. Não serve. É um recurso técnico e estamos buscando outra coisa, e em outra direção. O que devemos ter em conta é que os distintos níveis da história - dramatúrgicos, técnicos, estilísticos, de tom... - têm que ser coerentes entre si. ROBERTO - Quando João, no bar, vê a Morte pela primeira vez, falando

139

com ele do fundo do espelho, o espectador não deve saber se se trata de uma alucinação ou de algo real. Essa imagem é impactante, e acho que devemos mostrá-la mais uma vez. GARCÍA MÁRQUEZ - Sua identidade deve ficar bem estabelecida. Que todo mundo saiba que é a Morte. Se você pudesse apresentá-la na forma do esqueleto com sua foice na mão, melhor. ROBERTO - A imagem da Morte é uma leve deformação da do próprio João. REYNALDO - “Somos nós mesmos a nossa própria morte”... Quevedo. ROBERTO - Quando é feito o acordo, cortamos, e vemos João saindo do bar com quarenta anos a menos. Não acho que seja necessário mostrar o processo de transformação. Além disso, não gostaria que fosse como no caso do lobisomem do cinema americano, aquela coisa de começar a surgir pêlos e a crescer unha e tudo isso... GARCÍA MÁRQUEZ - O Médico e o Monstro... O Lobisomem Americano em Londres. ROBERTO - João sai do bar transformado em jovem. É estrangeiro na cidade. Em quarenta anos, muitas coisas mudaram: os automóveis são diferentes, as pessoas se vestem de outra maneira... Para o jovem João, tudo é insólito, inquietante... MANOLO - Não viu televisão durante esses anos. Ou o filme acontece antes dos anos cinqüenta... GARCÍA MÁRQUEZ - Essa sensação de estranheza nós poderíamos compartilhar, mais ou menos, com João - pela expressão de seu rosto, por seus gestos... -, mas não chegaremos a conhecer sua verdadeira dimensão. Isso, só ele sabe, em seu coração. DENISE - Por que sabemos que João faz um pacto com a Morte e não com o Diabo? ROBERTO - Pelas condições do acordo. E pela graça que é concedida a ele. GARCÍA MÁRQUEZ - Bem, o Diabo poderia fazer exatamente a mesma coisa... GLÓRIA - Este interlocutor tem poderes benéficos. Poderia também ser Deus... GARCÍA MÁRQUEZ - Bem: seja Deus, o Diabo ou a Terra do sol, a verdade é é que isso por enquanto, não é problema nosso. O nó desta história continua onde estava: no momento do encontro. Porque é aí onde temos que ficar sabendo desse passado que João se comprometeu a esquecer.

140

ROBERTO - O empresário pode dizer a João que conheceu o seu avô, etc., mas não vai entrar em detalhes. Por isso, pensei nos recortes de jornal. Ali estaria tudo que precisamos saber: o assalto, a morte do juiz, a captura de João, a fuga de seus cúmplices, a quantidade de dinheiro roubado... SOCORRO - Ah, eu tinha esquecido: claro que chegaram a roubar o dinheiro... E, claro, não deram a João a parte que correspondia. MARCOS - E você queria o quê? Que ele levasse o dinheiro para a cadeia? GARCÍA MÁRQUEZ - Isso não muda o essencial. Nosso problema agora é ver como damos a informação necessária. E, por favor, vamos tentar não recorrer ao flashblack. SOCORRO - No bar, antes que a Morte apareça, João está confuso, e recorda o momento do assalto, quando foi preso. Ou talvez escute em off a voz do promotor durante o julgamento... DENISE - Suas recordações atravessam o espelho... GARCÍA MÁRQUEZ - Não vamos deixar os espelhos se transformarem em telas ou em projetores do passado. GLÓRIA - Quando vemos João saindo da cadeia, como sabemos quanto tempo durou a sua pena? Quem se encarrega de nos informar? GARCÍA MÁRQUEZ - Acho que, para dar a informação de modo verossímil, é é preciso aproveitar a conjuntura do encontro. Claro que com um flashback tudo seria facílimo, mas eu gostaria que pudéssemos evitar esse recurso. Não apenas por ser tão desgastado, mas porque não corresponde a este tipo de dramaturgia. REYNALDO - É uma questão de pureza de estilo? GARCÍA MÁRQUEZ - Não. É que se utilizarmos a flashback, o espectador inteligente, perceberá, em seguida, que não conseguimos pensar em nada melhor. Nos últimos meses, andei trabalhando num roteiro que se refere muito ao passado e, mesmo assim, não há nem um único flashback. É a história atual de uma relíquia de outros tempos, uma prostituta aposentada que teve seu momento de Glória em uma cidade que não existe mais: a Barcelona da época dos anarquistas. Sua zona de operações era o Paralelo. Como ver essa vida e essa época sem utilizar pelo menos dez retrospectivas? Acho que foi Lichi quem teve essa idéia. seduzem a velha para que ela se apresente num programa popular de televisão, um programa de entrevistas que é transmitido ao vivo. E aí começam a perguntar à velha: “Como a senhora chegou aqui?” E a velha com toda ingenuidade: “Bem, eu era uma menininha de doze anos em Pernambuco, e um marinheiro turco me comprou e me trouxe até aqui e me deixou no

141

mas os entrevistadores. etc.”. condenamos o acusado. vão fazendo a ela uma série de perguntas impertinentes tentando remexer sua vida privada. E João quer se vingar dele.. é se contentar com o banal. à prisão perpétua.. no programa. 142 . ainda jovem. manda tudo à merda. em termos dramáticos.. e depois uma terceira.Não vejo porque temos que começar com a saída da prisão. porque acho que apelar para o flashback é entregar os pontos da imaginação.ou seja. Quando a gente faz isso pela primeira vez. e a velha. Corte. pelo assassinato do juiz Fulano de Tal. E a velha começa a lembrar e a contar. O personagem da velha é estupendo: se apresenta. João Cabral. com uma frase.. a história -. SOCORRO . O secretário do tribunal lê: “. ofendida. cliente ou empresário . e pronto. Bastam dois momentos. o assassino.. em direção ao porto. mostrando seu protesto: “Juro por Deus que sou inocente!”.Eu não acho que para dar um veredicto a gente precise ler a sentença inteira. falando com muita autoridade sobre a belle époque. É pura preguiça. Vemos João. no máximo. está resolvido o problema.. realizado no dia tal do mês tal deste ano”. “Ah. que tem sua dignidade. membro do Supremo Tribunal. naquela época?”.. quarenta cinco anos depois. “E como era a cidade. está de pé entre dois guardas esperando a sentença.. três minutos. não há nenhum flashback em todo o filme..Paralelo. para dar ao programa uma certa tensão dramática. SOCORRO . Depois. Mas quando disse o que tinha a dizer . muito maquiada. muito assim tipo grande dama.”. Confesso que me senti muito satisfeito. e é suficiente para dizer tudo. o que a gente precisava para justificar. ao vivo. com umas poucas frases.dono.. come o fácil. saindo da cadeia. Sem recorrer ao flashback. João. e eles precisam cortar o programa e enfiar os anúncios num intervalo inesperado. Primeiro. termina mandando todos eles à merda. e que esse homem que estamos vendo . A entrevista dura. gerente.Para que vamos desperdiçar os dois ou três minutos dessa primeira seqüência? João pode exclamar de repente: “Agüentei quarenta anos de cadeia!”..era um dos seus cúmplices e ao que tudo indica. acaba se sentindo no direito de fazer uma segunda. Em resumo. então fazemos com que os entrevistadores comecem a se meter na vida pessoal da velha e ela. já transformado num ancião. aquele rolo jurídico enorme. O que o espectador precisa saber é João foi acusado por um crime que não cometeu. durante o assalto ao banco tal. dizendo porque João está sendo condenado. GARCÍA MÁRQUEZ . Barcelona era uma beleza! Quando você descia pela Rambla. podemos começar com o veredito nos tribunais.

GARCÍA MÁRQUEZ . qualquer coisa. cai nas mãos da polícia. GARCÍA MÁRQUEZ . Não devemos nos inibir. Dois dos assaltantes conseguem fugir. em uma pequena cidade do interior que. o empresário já não tem nada a pagar.Tem uma coisa aí que.Porque não era um trio de profissionais..Mas a sugestão é válida.ROBERTO. portanto.. não eram delinqüentes comuns.E é assim que deve ser: Até as bobagens devem ser ditas. MANOLO . João. e. Escandalizado pela tentativa de roubo. Existe até um gênero de cinema só para eles. ROBERTO . MARCOS . A polícia não tinha nem ficha deles. Podemos dizer que provocou a própria morte. A história foi assim: eles entraram no banco.Isso me faz lembrar daquela inesquecível observação de Bertold Brecht: “Qual a diferença entre assaltar um banco e fundar um banco?”. no entanto. GLÓRIA . O delito prescreveu depois de sei lá quantos anos.. mas também porque alguém pagou por ele. porque às vezes é delas que sai a luz. DENISE . Não vamos usar isso.O delito prescreveu não apenas pelo tempo que passou. é absolutamente necessário saber o que aconteceu quarenta e cinco anos atrás.. decidimos chamar de Bonaire... mas precisamos saber: Ou será que. se não me engano.Eu tinha a impressão que sobre isso já havíamos falado tudo que era para ser dito. ROBERTO . Convém que. ROBERTO .ROBERTO . por medo de dizer bobagens. é de ordem moral.Já estamos acostumados a pensar em voz alta.. São três sujeitos que assaltam um banco.. para saber isso.. Foi morto pelo nervosismo dos assaltantes.Do ponto de vista jurídico. para mim. tentou fazer alguma coisa: protestou. Aquele era o primeiro assalto que faziam. aqui. mas o terceiro. O único problema que resta. teremos de esperar pela estréia do filme? ROBERTO . os rostos cobertos por um lenço ou uma máscara. tentou sair.Não. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ .Tribunal e veredicto são dois recursos mais que manjados.Um problema de consciência. GARCÍA MÁRQUEZ ... uma pessoa muito conhecida e respeitada na cidade.O juiz que foi morto no assalto era um cliente do banco.. conseguiram se apoderar de um saco de dinheiro e justo naquele momento o juiz faz um escândalo e espalha o pânico. Maior bobagem que o ovo de Colombo. não ficou clara: as pessoas 143 . a gente diga tudo que nos passa pela cabeça.

Seus amigos dizem a ele que não se preocupe: eles assaltarão o banco. GARCÍA MÁRQUEZ . Dá aos parceiros a informação necessária para assegurar o êxito da operação. um fica esperando no carro.Eu também vou sair um pouco do esquema. O cara trabalhava no banco. começo dos anos quarenta. As coisas se estropiaram depois. Não. não pode sair do banco. Um dos dois mata o juiz.que estavam no banco na hora do assalto viram um dos assaltantes atirar no juiz..o atual empresário . em cima do balcão. E é aí que despejam nele a culpa pela morte do juiz.não seja um dos assaltantes.. Ferem e prendem João.Dos três assaltantes.E se a gente nunca soubesse quem é o culpado? O filme seria a história de uma dúvida. não poderão descobrir o desfalque. na hora da verdade. Quando estão saindo com o dinheiro. quarenta e cinco anos antes seria. O outro assaltante não saberia de nada. VICTORIA . trabalhador do banco. ROBERTO . a polícia chega. de algum modo. cometeu desfalque. Mas a idéia é boa. e João e seu amigo executam a ação. e no final fica sozinho com o dinheiro. dois entraram no banco e um ficou fora.São elementos soltos. A operação é realizada e. DENISE . SOCORRO . MANOLO . trairia João. mas os outros dois conseguem fugir. MANOLO . para que quando o submetam à prova da parafina.. Proponho que o traidor . e não o preso? GLÓRIA . como Glória propôs. que podem ser incorporados ou dispensados. e depois viram que um deles era preso.o camarada esconde a sacola. ele toca uma campainha de alarme e a polícia aparece. O sujeito seria o cúmplice de João.. e como nunca se saberá quanto dinheiro foi levado. porque trabalhava lá..João também atira quando vê a polícia chegando..E além disso. a do sujeito que já estava no banco. quem mata o juiz? GARCÍA MÁRQUEZ . Na confusão enquanto João cai ferido e o outro foge .Como ele consegue fazer isso? Onde esconde a sacola? Como tira o dinheiro? Se ele trabalha ali.Se eram três cúmplices. Não prestaram nenhuma declaração a respeito? Não disseram que o que havia atirado era outro. o 144 . Precisa fazer isso. no carro. embora tenha sido cúmplice. o resultado seja positivo. VICTORIA . E o sujeito. João sabe que foi o outro. mas quando o sujeito já está com o dinheiro dentro da sacola. As coisas ainda não tinham se estropiado. Tudo dá certo até que no último momento.Não seriam membros de algum grupo político? Vamos ver.Outra possibilidade: o futuro empresário. esperando para a fuga.

Isso empobrece a dinâmica do trabalho.Mas isso não pode acontecer no encontro. João descobre.Para mim. Isso deve se reservado para o final. Os dois caras falando e olhando-se nos olhos. E até em mim .Estamos tentando esclarecer algumas coisas.. REYNALDO . GARCÍA MÁRQUEZ . E se nos pressionarem. O que será? GARCÍA MÁRQUEZ .. no entanto.. meu grande amigo. sério. se for comparada a outras que tivemos.O importante é saber isso. que falta um elo fundamental do processo dramático. ROBERTO . foi menos produtiva. Foi uma bobagem atirar no juiz. “O coitado do seu avô teve azar”. o empresário ou o cliente diz ao jovem João: “Coitado do seu avô.camarada trai João. Não dá para resolver tudo ao mesmo tempo. Uma Oficina para todos os gostos. E João. porque nesse assunto. porque você o traiu. canalha!”. também filmamos.admito – faltou flexibilidade. Enfim. que João ignora. Uma coisa que ele não sabe o que é e que. é o momento-chave. GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO .. O que importa é a morte do juiz. A própria discussão. Caramba! 145 .A idéia original da Oficina é partir de um argumento para armar com ele. pode ser que não seja o melhor método. ao longo do debate... argumentos a partir de imagens. nós somos da pesada. GARCÍA MÁRQUEZ . quarenta e cinco anos depois do assalto. “Foram as más companhias. mais é mais divertido. E de repente.. não”.. ROBERTO . naquele assalto lamentável”. outras vezes trazem a imagem de uma mulher na praia vendo chegar um helicóptero. a estrutura de um média-metragem. Foi você.Tem alguma coisa. porque falta flexibilidade na minha proposta. tenho certeza de que vamos achar a solução. em toda essa história.. custou anos de cadeia para ele. diz o magnata. Fulano”.E agora.Lamento ter trazido uma história tão fechada. É um desafio do tipo criativo. Às vezes trazem uma história já estruturada. GARCÍA MÁRQUEZ . tinha um jeito tão impulsivo. onde fazemos tudo que nos for pedido: adaptações-escaletas. O que acontece é que os alunos nem sempre trazem um argumento. olhando-o nos olhos: “Não foi ele quem disparou. “Azar. responde João.O roubo pode ou não ser consumado. SOCORRO . não é? Portanto.vou pensar muito bem a cena do encontro..

mente. GLÓRIA . e vai fechar um importante evento pacifista.. é membro de uma organização pacífica. II SOCORRO .Você me convenceu: uma mulher é muito mais capaz de fazer tudo isso. e começam a trocar impressões: “Quer dizer que você agora é santo? Que 146 ..Todo o resto fica igualzinho.Eu comentei as mudanças com o resto do grupo. lembram?. e era mentira! Agora ela mata o marido. GARCÍA MÁRQUEZ . Mas. Glória.Igual. eu mato você. GARCÍA MÁRQUEZ . Ah!.O que muda é a ocupação dos personagens. coloca uma bomba no estojo.Mudou? De que jeito? GLÓRIA . GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ ...Mudei a história do violinista. você nos enganou! Você nos fez acreditar que confiava nos homens. GLÓRIA . é agora o dirigente dessa organização.. poderíamos fazer uma história de histórias.Ah. o marido..GLÓRIA tem uma surpresa para nós. GLÓRIA . pede ao pobre coitado que leve o violino ao teatro. GARCÍA MÁRQUEZ .SÉTIMA JORNADA DE TRABALHO Recapitulações. quem vai garantir para a gente que amanhã você não muda de idéia outra vez? GLÓRIA . GLÓRIA .A primeiro violino sempre chega tarde.Nenhuma mudança a mais. ela é a terrorista.. em algum lugar afastado. Os personagens saem de seus respectivos filmes e se encontram de noite.No fim. ela é a violinista.E o professor. A história fica assim. cadê? Não vale. GARCÍA MÁRQUEZ .Agora.. mata. Ele trabalha num escritório. GARCÍA MÁRQUEZ . Agora. Todo mundo gostou.. com todos os personagens reunidos.. E o líder sindical. Ele vai ser sacrificado.Ele. GLÓRIA . É isso? Ah. a sangue-frio. eu sabia que essa galega era perigosa! Mudou a história sem pedir licença. claro. mas acontece que agora é ela quem faz tudo: toca o violino. que um homem.

deveria ser fácil escolher. uma debilidade do júri. O prêmio ex aequo sempre foi. amores equivocados. é uma situação: o conflito de uma moça que sofre do mal de amor. “Vocês acham justo? Minha mulher me mata com uma bomba e fica lá. “Pois eu quero ir lá na Oficina. dando a cada personagem o papel que ele gostaria de interpretar.. GARCÍA MÁRQUEZ .. Tão diferentes.. DENISE: o que você tem aí? DENISE .Melhor ainda.Eu compreendo a GLÓRIA. Precisamos fazer um filme assim. Vamos ver.. principalmente. e o júri se dividiu: os dois grandes finalistas eram Yol e Desaparecido. nem sempre é fácil escolher. GARCÍA MÁRQUEZ . já imaginou? MARCOS .Amores tempestuosos? DENISE . GARCÍA MÁRQUEZ . Agora são a cores. desistimos: “Ex aequo”. Lembro de quando fui presidente do júri no Festival de Cannes. Amores equivocados .. sempre existe um elemento que determina a preferência de cada um. mas nem sempre dá.Eu diria. Fitzcarraldo.Para a gente. Mas o problema consistiu. Achava que em qualquer obra. em compensação. em qualquer filme. tocando violino”. O que tinha acontecido? Primeiro. para ver se em vez de ser psicóloga posso ser locutora de televisão”. é verdade. que não encontrávamos pontos de comparação. com matizes.. em Cannes... tivemos que nos dar por vencidos. para mim... e. Quando a gente tem várias opções pela frente e fica sozinho no quarto começa a pensar.maravilha! Eu. que naquele ano houve filmes excelentes: A Noite de São Lourenço. na verdade. Um filme com dez. Os filmes já não são em preto e branco. Mas. em 1982: eu achava detestável esse negócio de dividir um prêmio. voltando ao assunto. A seis da manhã do último dia.Estou louco para ver esse filme! MANOLO . era muito difícil dizer porque um filme era melhor que o outro. Eu tinha aceito o convite justamente quando soube quais os filmes que iam competir: E pensei: “Vai ser ótimo”.Travesti love 147 . E um belo dia. Às seis da manhã do último dia. na natureza dos dois grandes finalistas: eram filmes totalmente diferentes. chegou a hora de decidir. doze ou treze protagonistas.Mais que uma história. virei puta”. tranqüila. portanto.

começa a se transformar num menino: corta os cabelos. uma principiante que passa a ser chamada por Henrique. Terê se aproxima tímida de Henrique. Agora teme ficar louca. Ele mesmo confessa. Terê. mas sei qual é o desenlace: Henrique começa de repente a sair com uma mulher lindíssima. e além disso. E o que acontece nesse primeiro encontro é um amor à primeira vista. Os protagonistas são gente de teatro: Henrique Duarte. No ensaio.. inteirinha! Diga uma coisa: o amor à primeira vista é recíproco. tomam drinques. Henrique e Terê se encontram pela primeira vez num ensaio. Nesse primeiro dia. E pouco a pouco.DENISE . Terê dá algumas opiniões e ele se pergunta: “Quem será essa menina?”. Não fazem amor.A história está aí. conversam. e Teresa de Carvalho.. de “'Terê”. GARCÍA MÁRQUEZ . É dez anos mais velho que ela. nem mesmo se beijam.A ação se desenvolve no Rio de Janeiro.. que um dia Henrique a viu e não a reconheceu. foi perdendo sua identidade e acredita que é um rapaz: ficou louca. atraente. GARCÍA MÁRQUEZ . O aspecto exterior de Terê mudou tanto.Tem de ser. num teste de atuação: o diretor está testando candidatos para um dos papéis femininos da próxima peça. não apenas porque ele é uma estrela. puro Cupido.Isso não é tudo... mas isso é tudo. Não sei direito o que acontece depois. DENISE .. adota atitudes masculinas. Terê começa a freqüentar os lugares onde Henrique costuma ir à procura de aventuras homossexuais. Quando saem do teatro. ou seja. Tem vinte e cinco anos. até descobrir que Henrique é homossexual. Henrique leva Terê ao seu apartamento de solteiro? 148 . Terê desesperada. GARCÍA MÁRQUEZ . é inteligente. não é? DENISE . mas pelo simples desejo inconsciente de agradá-lo. Terê acha que Henrique é tímido e que precisa de tempo para se lançar. se pergunta se não será por culpa dela.Interessante. Terê chegou a suspeitar. Henrique convida Terê para ir até a casa dele.E você diz que isso é uma situação? A história está aí. um ator famoso.Henrique. descobrem quanta afinidade existe entre eles.. sem querer. Ela aceita sem titubear. GARCÍA MÁRQUEZ . tem trinta e cinco ou quarenta.É melhor trinta e cinco. Está impressionado com ela. enquanto isso. Na verdade. logo de saída. Mas a situação do primeiro dia se repete nos dias seguintes. embora não tenha experiência. mas sua atitude com ele não mudou por causa disso: estava realmente apaixonada.. Ele é dez ou quinze anos mais velho. mas quem começa? Quem quebra o gelo? DENISE . Ouvem música. É uma boa atriz. linda. mas porque é seu ídolo. muito feminina.

DENISE . poder inventar a vida! REYNALDO .Suponho que a peça de teatro que estão ensaiando terá alguma relação com o conflito que os dois irão viver. DENISE . um certo desgosto.O filme tem de começar com uma grande cena de amor entre Henrique e Teresa...DENISE ... Claro que Terê consegue o papel. e recomeçar. A cena parece real. ou se porque Henrique quis que o papel fosse dela. Terê não desistiria de trabalhar na peça. DENISE . O teste é interpretar essa cena com Henrique. causa uma reação negativa em Henrique. não será difícil resolver. conversar um pouco.O conflito da peça deve ser análogo ao que Terê e Henrique vão viver: Além disso.. Que coisa maravilhosa. Eu me pergunto: depois de uma cena dessas. e Henrique fica olhando para ela.Leva. seria clássica ou contemporânea? GARCÍA MÁRQUEZ . nas poltronas. Ela abre a boca e sorri. mas antes os dois vão a um bar para beber alguma coisa. mas não demora para a gente descobrir que é uma representação. a partir do momento em que pronuncia as primeiras palavras. é a separação.Na sua história não é a aproximação que importa. A questão é que ela não serve.Não sei ainda. REYNALDO . contemplando Henrique durante os ensaios. GARCÍA MÁRQUEZ .Terê está sendo testada para o papel. um beijo 149 . visualmente.A cena de amor poderia ser uma fantasia erótica da moça. noite após noite. Aquilo é uma declaração de amor autêntica.. Terê é a protagonista. na primeira candidata ao papel. Talvez o tom de voz da moça seja muito declamatório. Cheguei inclusive a pensar que Terê desiste de trabalhar na peça só para ficar ali.. mas nunca saberemos se conseguiu porque era a melhor. REYNALDO . GARCÍA MÁRQUEZ . Henrique dá um ósculo. uma peça de teatro.Que beijo? GARCÍA MÁRQUEZ . A primeira candidata é uma moça que. se conhecer . GARCÍA MÁRQUEZ . é a vez de Teresa. DENISE .A peça de teatro..Se for assim.O importante é que a gente veja o beijo. ou pareça falso.A cena de amor não termina com um beijo? Na outra moça. enfeitiçado. a aproximação dos dois? GARCÍA MÁRQUEZ . não é? São várias candidatas.Será do jeito que a gente quiser. Então. Eles já estão ensaiando. essa cena de amor com ele. o que ocorre no teatro não precisa necessariamente ser um teste: pode ser um ensaio.

muito cordial.Certo.E o grande Henrique Duarte também sai. que tem a ver com a transformação de Terê. Aliás. Terê não desconfiaria que ele é homossexual? GLÓRIA . e alcança Teresa de Carvalho e diz 'parabéns'. quase morreu asfixiado. É uma coisa que a gente vai adiar. para poderem conversar tranqüilos. E agora podemos insinuar que ele não costuma levar mulheres à sua casa. DENISE .. Nunca imaginou que uma moça como ela provocasse essa impressão no grande Henrique Duarte.. parecia machão nas telas. O pobre do Redford. MARCOS . obrigado. senhorita.Vou avançar nessa idéia. Está abrindo uma exceção. disse: “Vou com você”.falso. Ela aceita.No final.Não é paixão demais para um homossexual? CECÍLIA . GARCÍA MÁRQUEZ .E um homossexual atípico.ele ia dirigindo -. dos jovens motoqueiros com suas jaquetas de 150 . e o diretor tem que bater palmas duas vezes e gritar: “Obrigado. e chegam a um bar onde se arma um grande alvoroço quando Henrique entra. como se. Ouvem-se murmúrios.Um ator famoso..Nesse caso. Coitado! Vocês não imaginam o que aconteceu quando entramos no tal lugar. por favor”. atriz. com tanta gente correndo atrás.. E convida a moça para celebrar o triunfo. Terê sai do teatro como se flutuasse nas nuvens.. DENISE . e ponto. Ele. GARCÍA MÁRQUEZ . Ninguém ficou sabendo a verdade. SOCORRO ..Talvez por isso Henrique propõe a Teresa que é melhor tomar alguma coisa na casa dele. deixamos claro que ele é um ator muito conhecido.Terê não sabe que Henrique é. explicaria o amor à primeira vista? Ou terá sido uma simples reação química? GARCÍA MÁRQUEZ . que está metida até o pescoço nesse mundo. DENISE . GARCÍA MÁRQUEZ . nem ignora. e uma jovenzinha se aproxima dele para pedir um autógrafo. O cara gosta de motos. e se ele assumisse isso cem por cento. Com isso.Mas se ela soubesse que Henrique homossexual. que é muito tímido. Um belo dia estávamos andando de automóvel .Não sabe. vai ser um homossexual encoberto? É difícil.. Uma mulher como ela. não saberia? DENISE . Mas na hora da Teresa. A próxima. Henrique... ROBERTO .Rock Hudson. Não pode saber.. assisti a uma cena como essa acontecer com Robert Redford. Porque é evidente que ela conquistou o papel. quando tive a idéia de comprar lembro o quê. até que ele mesmo declarou que estava com Aids. sendo Homossexual.

couro. GARCÍA MÁRQUEZ - E quando chegar o momento, Terê vai comprar uma moto. Através de sua relação de amizade com Henrique, ela vai conhecendo os gostos dele, o tipo de efebos que o interessam. Henrique é seletivo. Terê vai se esmerar para encarnar o ideal masculino de Henrique. SOCORRO - Parece conveniente que, na primeira vez que os dois se encontrarem no apartamento dele, Henrique tente uma relação sexual com ela. DENISE - É obrigatório que ele tente. Ela tem certeza que os dois vão acabar na cama, e não disfarça. SOCORRO - Quando Henrique não consegue, ela acha que é por causa da tensão, do nervosismo da primeira vez. ROBERTO - E na segunda vez? Ou não vão acontecer novas tentativas? GARCÍA MÁRQUEZ - Não vamos nos precipitar. A coisa mais difícil era dar a informação prévia: que Henrique é um ator famoso, que Teresa é uma atriz bela e talentosa, mas sem experiência, e que entre os dois estalou um amor à primeira vista. Isso já está colocado. Em menos de dois minutos conseguimos dizer quem são os personagens e em que situação eles estão. A única coisa que ainda não sabemos é que Henrique é homossexual. Não é preciso dizer, nem deixar de dizer; vamos deixar as coisas fluírem, e esperar momento da revelação quando Terê percebe qual o tipo de rapaz que interessa a Henrique, e ela mesma começa a se transformar. O filme é esse, e não outro. DENISE- O que eu tenho até agora é: primeiro, Henrique e Teresa se encontram e surge um amor à primeira vista; segundo, eles percebem que têm uma grande afinidade e muitos interesses em comum; terceiro, não conseguem fazer amor de maneira satisfatória, embora ele tente; quarto, ela descobre que ele é homossexual, ou o próprio Henrique conta; e quinto, ela decide se transformar para conquistá-lo. GARCÍA MÁRQUEZ - Na terceira vez que Henrique a procura e torna a tentar em vão, Terê tem que chegar à seguinte conclusão: ou ele é impotente, ou então, é homossexual. Eu acho que o próprio Henrique confessa. Além do mais, nesta época, e nesse meio... Por que nos negamos a ver Henrique do jeito que ele é, maduro? Estamos tratando Henrique como se ele fosse um jovem meio sem jeito, inexperiente... SOCORRO - Ele é homossexual mas está apaixonado por Terê... Além disso tem um amante, um rapaz. Esse é o conflito de Henrique. GARCÍA MÁRQUEZ- Na primeira noite, quando saem do bar, Henrique não leva Terê ao seu apartamento: eles vão para a casa dela. Terê não tem

151

automóvel, Henrique oferece uma carona: “Posso levar você?” Diga uma coisa, DENISE: Henrique tem um motorista, ou ele mesmo dirige um carro esporte? DENISE - Um carro esporte... E ao chegar ao prédio de Terê, ela diz: “Vamos subir?”. GARCÍA MÁRQUEZ - Ao sair do bar entram no Porsche de Henrique, e ele pergunta a Terê: “Levo você até a sua casa?”, e ela responde: “Como você quiser”. Ele pergunta: “Onde você mora?”, e Terê percebe, na mesma hora, que o assunto terminou aí. Pelo menos, por essa noite. ROBERTO - Nesse momento, Terê leva um banho de água fria... GARCÍA MÁRQUEZ - O diálogo deles poderia se desenvolver em ambientes diferentes, durante o curso da noite... Henrique pergunta uma coisa em um bar, e Terê responde já em outro. O diálogo é contínuo, mas os cenários mudam. ROBERTO - É preciso mostrar esse processo até o fim. Se cortarmos para o dia seguinte, o espectador pode pensar que eles dormiram juntos. GARCÍA MÁRQUEZ - O diálogo não pode deixar nenhuma dúvida, é como quando a gente convida uma moça para ir ao cinema e ela responde: “Hoje não, porque estou menstruada”. Tem de ser assim, brutal. “Onde você mora?”. “Em tal rua”. Ele pára na frente do edifício. “Até amanhã”, “até amanhã”. Estamos contando o filme do ponto de vista de Terê. MARCOS - A noite acaba aí, mas no dia seguinte, Henrique diz a ela que gostaria de apresentá-la à mãe. Vão até a casa da mãe dele, almoçam, e a velha está contente, porque é a primeira namorada do filho que ela conhece. GARCÍA MÁRQUEZ - E se a mãe soubesse que o filho é homossexual e sem querer, no meio da alegria, desse uma pista a Terê? CECÍLIA - As ruas ficam sozinhas, e a mãe aproveita para dizer a Teresa: “É a primeira vez que Henrique traz uma namorada em casa. Você não sabe como eu estou contente. MARCOS - As mães nunca sabem. Ou são as últimas a saber. GARCÍA MÁRQUEZ - Quem disse isso? As mães sabem, sim, e além disso, ajudam. É um modo de manter os filhos amarrados. MARCOS - A família de Terê preferiria que ela não fosse atriz. É uma família mais ou menos burguesa... DENISE - Faz tempo que Terê não mora mais com a família. Ela divide o apartamento com uma amiga. GARCÍA MÁRQUEZ - Tome cuidado para que não pensem que ela é lésbica. Em meia hora é tão difícil dar todas as explicações, que a gente não

152

pode se dar ao luxo de cometer nenhum erro. DENISE - A casa de Terê fica no caminho entre a de Henrique e o teatro. Por isso, naquela mesma noite, ele pode dizer a ela: “Quer que eu pegue você amanhã, quando passar por aqui?”. GARCÍA MÁRQUEZ - E no teatro repetem a mesma cena de amor, de novo m um ao outro, imaginariamente... O ensaio acaba e Henrique diz a ela: “Quer uma carona?”. ROBERTO - A cena de amor poderia ser mostrada várias vezes, e a última, ter um toque diferente. Alguma coisa passou nesse meio tempo, alguma coisa se rompeu entre eles... GARCÍA MÁRQUEZ - Sempre a mesma cena, o mesmo beijo. A cada dez minutos, de novo: três vezes a mesma cena no filme... CECÍLIA - A história parece feita de repetições, porque a frustração do primeiro dia também vai se repetir: Henrique deixa Terê na casa dela, ou leva Terê até o seu apartamento de solteiro e tenta fazer amor, sem resultado. GARCÍA MÁRQUEZ - E por que não a leva antes a um bar de homossexuais? DENISE - Depressa assim? Isso é sadismo! ROBERTO - Terê entende que as coisas não podem continuar do jeito que estão, e diz a ele: “Essa relação me faz mal, Henrique. Não quero ver você mais”. E um dia, ao sair do teatro, percebe que há um rapazinho esperando por ele. Talvez tenha esperado em outras ocasiões, mas agora está claro que Henrique vai ao seu encontro. CECÍLIA - Mas eles dois - Terê e Henrique - têm que continuar se encontrando nos ensaios... GLÓRIA - Terê precisa saber desde o começo. É uma coisa que pode ser insinuada desde a primeira conversa, quando juntos percorrem os bares. Porque se ela não soubesse e de repente encontrasse esse rapazinho tão bonito esperando Henrique na saída do teatro... SOCORRO - Pode ser que Terê só queira ter um affaire com Henrique... DENISE - Nada disso. É grande amor mesmo. Uma paixão. Tem que ser assim, para que ela decida se transformar. GARCÍA MÁRQUEZ - Não vamos nos precipitar. Temos que ter tempo para pensar. Um dia, vamos dedicar quatorze horas seguidas ao debate, para liberar energias acumuladas. GLÓRIA - Mesmo que Teresa fique sabendo da história de Henrique, ela não desanima.

153

GARCÍA MÁRQUEZ - Em que consiste o drama dela? Consiste em querer conquistá-lo ao preço que for. Quando vê que não consegue como mulher decide agir como homem. É simples assim, do jeito que falei. ROBERTO - Por isso é importante a gente saber antes que tipo de rapazes o atraem. Terê necessita de um modelo. GARCÍA MÁRQUEZ - Tenho uma dúvida aí: quando ela se transformar, como vai poder representar seu papel? DENISE - Isso não é um problema grave. Se ela cortou o cabelo, põe uma peruca na hora de representar e pronto. GARCÍA MÁRQUEZ - E outra dúvida: se o homossexualismo de Henrique fosse público e notório, será que a atitude dela seria a mesma, desde o primeiro dia? DENISE - Eu acho que sim. GLÓRIA - Eu acho que não. ELID - Ela se apaixonou por ele de verdade. GARCÍA MÁRQUEZ - Ela pode saber que Henrique é homossexual e ainda assim alentar a esperança de ter uma relação intensa com ele. O problema é quando descobre que Henrique, apesar dos seus esforços não consegue. DENISE - Henrique não é nenhuma bicha louca. Ao contrário: tem um aspecto muito viril. Suas atitudes são muito masculinas. GARCÍA MÁRQUEZ - Mas deve ficar bem claro que não é bissexual. Ele se apaixonou por ela, à sua maneira, mas não consegue consumar a relação no campo erótico. Isso é que o filme vai contar: como ela decide se transformar para agradá-lo. DENISE - Não se esqueçam de que nem tudo se reduz ao aspecto sexual. Há grandes afinidades espirituais entre os dois. GARCÍA MÁRQUEZ - Tudo isso que dissemos até aqui não é outra coisa além de um prólogo para entrar no assunto. E não podemos continuar dando voltas: precisamos entrar no assunto. DENISE - Eu acho importante ressaltar o fator afinidade, porque sem ele, que outro elemento de atração existiria entre Henrique e Terê? Por que continuam se procurando? Porque naquela primeira noite, quando andaram de bar em bar, conversando, se conhecendo, descobriram que um gostava da companhia do outro.. E isso aconteceu principalmente com ela, que agora não quer saber de outra coisa a não ser ficar ao lado dele. REYNALDO - Se isso não for amor... GARCÍA MÁRQUEZ - Eu estava me perguntando: como poderemos

154

Reconhece seu desejo no desejo dela. terá um ar cotidiano. como num espelho. pelas sucessivas apresentações da cena de amor: A última corresponderia à estréia. no sentido bíblico da palavra. E que tentasse mais de uma vez. Não podemos esquecer que através do homossexualismo Henrique não apenas se dilacera . vestindo jeans. Não é que ele finja querer..da ficção teatral . Quando Henrique abre o peito com Terê. é porque está se entregando a ela. 155 . realmente.seria uma espécie de anúncio do que vai acontecer na realidade . “quero apresentar meu galã a você”.Dos cinco pontos do meu esquema. mas não como um drama. DENISE .Eu gostaria que Henrique tentasse. GARCÍA MÁRQUEZ . o quarto é o que continua mais confuso: como ela descobre que Henrique é homossexual? Ou será que ele mesmo confessa? GARCÍA MÁRQUEZ .Henrique tem trinta e cinco anos e nunca sentiu nada parecido em relação a nenhuma outra mulher. querido.marcar a passagem do tempo? E percebo que é fácil: pelo teatro. SOCORRO . DENISE . vou buscar meu companheiro”. Henrique abre o coração para Terê. Estilo garçom.como agora acontece com Terê -. ou então. completamente.Esse diálogo dos dois .Ela mesma cortando os próprios cabelos.Eu gostaria que ele falasse do seu homossexualismo com toda a naturalidade. E é então quando decide se transformar. Terê compreende isso.se for feito com cuidado – pode acabar sendo comovedor: Trinta ou quarenta anos atrás teria sido um diálogo escandaloso. É que ele quer. com aplausos do público. quer prendê-la ao seu lado. mas também se realiza. E além disso...a realidade do filme. na maior tranqüilidade: “Tchau. que a maioria das pessoas não conhece. etc. suponho. porque são coisas que vivemos no dia-a-dia com os amigos homossexuais. mas no fundo não aceita uma situação que afasta Henrique dela definitivamente. E esse final da ficção . É quando a surpreendemos cortando os cabelos. mas agora.. GARCÍA MÁRQUEZ . experimentando uma jaqueta unissex. Poderia revelar coisas muito interessantes sobre o mundo dos homossexuais. para estabelecer um vínculo muito forte entre os dois. E esse grau de sinceridade serviria. “agradá-la”.Ele tem que dizer a Terê que chegou a esse extremo pela primeira vez. ao mesmo tempo. ela quer chegar ao final. quer conhecê-lo. Agora. Eles chegam e dizem. vamos dizer. como se dizia nos anos cinqüenta. SOCORRO .

A história ficaria muito comprida. eu sugiro o seguinte: quando Terê começar a mudar . pensa ele. numa cena só. Ainda é muito cedo para saber. Aliás. GARCÍA MÁRQUEZ . “Por que uma mulher tão inteligente como Terê”. de repente e em sua totalidade: cabelos. 156 . e então ela sorri para ele. por exemplo -. para o qual ela apela quando não encontra outra saída.. REYNALDO . pode acontecer em dois segundos. GARCÍA MÁRQUEZ . a mudança repentina de Terê. quer fazer uma surpresa para Henrique. e a conseqüente perturbação de Henrique. que Henrique se envolva com outra mulher. motocicleta. para tentar prendê-lo. É aí que está o conflito.Então.Eu gostaria que fosse gradual. contente com a própria travessura. e se já é um rapaz ou quase um rapaz. DENISE .o mesmo que ele admirou tantas vezes basta para esclarecer o equívoco. no final.ROBERTO . mas por outro lado faz com que ele se sinta incômodo.Pois eu acho que deve ser brutal. mas como mulher. SOCORRO .. DENISE .quando cortar o cabelo. Parece descabelado. Henrique fica olhando para ela e diz: “Você fica muito bem com esse penteado”. a de Terê transformando-se em menino e Henrique.Pensei até que Terê podia chegar a ser abjeta: conseguiria uns garotos para Henrique. “faz uma palhaçada dessas?”. REYNALDO .Continuo achando que a mudança deve ser gradual.E preciso ver se a história nos leva para esse ponto. E a gente só tem meia hora. por sua vez. de verdade. mas para ela só importava. GARCÍA MÁRQUEZ . DENISE .. Eu os vejo assim: Terê. com seu penteado e sua roupa de homem.Em compensação. por que Henrique não a aceita como a outra parte de um casal? GARCÍA MÁRQUEZ . a transformação dela é brutal ou gradual? DENISE . REYNALDO . saindo com outra mulher? Porque me faz pensar nas fábulas. Henrique abre.Quero fazer um comentário sobre o desenlace proposto por Denise: não acho que seja conveniente. ver Henrique feliz. atordoado.Esse é o paradoxo: Terê atraía Henrique. contempla por um segundo. É um recurso desesperado. e assume esse recurso assim. jaqueta de couro.Uma boa pergunta: se Terê realmente muda identidade. Esse sorriso .Calma. jeans. Bate na porta. Vamos ver.Sabem por que eu gosto desse final..

um elogio. ou com um eufemismo. desenhamos aquela seqüência noturna. e tenho medo que ela escape de todos nós.. com a pitada de loucura que todas as nossas histórias têm. onde Terê e Henrique vão passando sucessivamente por três bares diferentes.. Depois.Juntos? Desde o começo? Eu achei que Henrique ia levar Terê à sua garçonnière..um jovem muito bonito . de preferência num bar de homossexuais. finalmente. maquiagem e adotando certos gestos masculinos. no teatro.o processo de transformação de Terê. a cena de amor: E agora. a roupa. DENISE . de todos os seus adornos femininos .. enquanto estão conversando no bar chega um amigo de Henrique . DENISE . ele leva a moça tomar alguma coisa.Mas ele não deve encorajá-la. falamos de repetir três vezes.. nem alto nem baixo”.brincos. GARCÍA MÁRQUEZ . Henrique não sabe o que ela está planejando.Bem. não vamos pensar agora na estrutura ou nos detalhes. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ ..e Henrique o apresenta a Terê. a mudança gradual passaria a ser total.Existe um monte de homossexuais que falam de seus gostos com as amigas: “Sabe. “eu gosto de um companheiro assim: moreno. enquanto conversam. mas na seqüência dos fatos. DENISE .É só um cumprimento. Depois. SOCORRO . CECÍLIA .Não sei se estamos saindo do realismo para entrar em outro tipo de linguagem.Eu sinto que a poética desta história está muito coerente.Nesse processo ela vai se despojando.DENISE . DENISE .. eu gosto de meninos assim”. mais metafórico. Mas um dia elogia o penteado.Estamos tentando analisar a conduta dos personagens.Isso tudo vem com um toque especial. poderíamos dar em três fases . além disso. e quando vê. GLÓRIA .Existe uma grande angústia no fundo dessa relação.Não estou contando o filme: estou tentando imaginar como seriam as coisas na vida real. porque estamos deixando as aparências nos dominarem. E então. colares.o cabelo. E. Primeiro. Henrique e Teresa se encontram no teatro. saem os três juntos do bar. Primeiro. a última coisa que ela faz é cortar o cabelo. REYNALDO ..Vai ver. não é? GARCÍA MÁRQUEZ . 157 .Henrique nunca diria uma coisa dessas. outro dia elogia a calça de couro. SOCORRO . a moto .. Depois..

como se estivesse se preparando para seu próximo papel. Terê.Vou retomar a primeira versão de DENISE. como quem vai ao zoológico observar a conduta dos macacos? Mas.Eu imaginava uma coisa mais poética: Terê visitando sozinha o bar e observando discretamente a atitude dos homossexuais. e entendem que a coisa não avança. o rapaz irá atrás. e ela irá ao lado do motorista. como se fosse uma coisa muito natural. Está decidida a conquistá-lo. e na segunda-feira.GLÓRIA . Terê precisa ir no banco de trás. não haveria nenhum engano. Porque Henrique se delataria. tendo de ir a um bar 'observar' a conduta dos homossexuais..Eu acho que não.. quando saem juntos do teatro. os três . esse é o meu amigo Nélson”.Pois eu acho que sim. não se sente 158 . uma excelente atriz. GARCÍA MÁRQUEZ . diz Henrique. quando a vê. que bom que você veio!”. ROBERTO .Henrique. DENISE . e iria se reunir com eles. Deixa passar o fim de semana.Nesse caso. DENISE . e o rapaz.Cruéis. “Ah. DENISE . Os homossexuais não estão separados da sociedade. GARCÍA MÁRQUEZ . Sonho com essa cena.Por quê? REYNALDO . Henrique . senta-se na frente. em que mundo ela vive? Acho que estamos vendo o homossexualismo como uma coisa distante e estranha. “Deixa eu apresentar Terê. GARCÍA MÁRQUEZ . quando se encontrar em seu ambiente.que acaba de conhecer Terê e se sente deslumbrado por ela . ela perceberia que a relação amorosa é impossível. no dia seguinte. GARCÍA MÁRQUEZ . Quando Terê e Henrique tornam a se encontrar no apartamento dele. Porque o amigo de Henrique estaria lá. quando o correto é que todos nós formamos parte desse ambiente. É uma maneira muito gráfica de ver Terê posta de lado.. o amigo e Terê vão até o carro de Henrique. mas úteis.Ao saírem do bar. ela desiste de vêlo.Por que vocês só pensam em soluções cruéis? GARCÍA MÁRQUEZ .Eu vejo da seguinte maneira: quando Henrique confessa seu problema a Terê. colocada de repente em segundo plano. ela não se resigna. REYNALDO . Algum dia.Por tudo. E menos ainda da nossa sociedade. Volta ao bar que Henrique freqüenta e ele. porque agora Terê sabe como é a pessoa que está no lugar que ela quer tomar: O rapaz serve de modelo.E na vida real. A partir do primeiro momento.seria capaz de levá-la um bar de homossexuais? REYNALDO ..Uma atriz como ela. o amigo de Henrique está esperando por ele.

Por idealizar Henrique tanto. Henrique não a reconhecesse? MARCOS . GARCÍA MÁRQUEZ .O filme poderia acabar assim: Terê entrando no apartamento de Henrique. diz. não. É preciso ver o que acontece depois desse encontro . como podia ter dito ao tal Nélson. quando Terê muda. mas meia hora é pouco. que jorram fumaça.Eu imagino esse lance assim: Henrique e Terê marcaram um encontro no bar no cantinho de sempre.Mas estamos na metade ou no fim do filme? GARCÍA MÁRQUEZ . olha pelo vidro da janela. para que a coisa não acabe sendo grotesca. Corte.E o que aconteceria se. mostra-se amável. Ao contrário. porque o desejo pode variar de objeto”. Henrique chega. Por se negar a si mesma. a gente não sabe ainda. Ao contrário. e os dois passam momentos ótimos conversando. até mostrar Henrique com outra mulher? DENISE . dá meia-volta e vai embora..Não entendo como ela pode ser tão imatura. parece que ela controlou a situação com bastante maturidade. satisfazê-lo. Talvez fosse conveniente alongar a primeira parte . quero oferecer a você uma coisa muito especial”.Logo de saída. e depois? DENISE . DENISE . Gostaria que isso ficasse. “Que bom que você veio!”.. Reconheceu-a ou não? GARCÍA MÁRQUEZ .. DENISE .Eu sugiro que depois apresentássemos a outra mulher. REYNALDO .perseguido e nem recrimina nada. Vemos a moça chegando ao teatro de motocicleta. Acho que o problema é de formato. Trazem para o casal uma dessas bebidas borbulhantes. só para agradá-lo. “Senta aqui.Isso.Esta é uma história para meia hora.ou desse desencontro para poder calcular por 159 . porque gostaria de ressaltar a moral da história: “Jamais se transforme em objeto de desejo do outro.. implícito. GARCÍA MÁRQUEZ . Corte. Corte. de alguma forma.a agonia desse amor impossível – e deixar a surpresa da transformação para o final. Mas .Mas você levaria a história até aí.Para ficar louca ela teria de ter sofrido muito. Hummm. vestida de homem pela primeira vez. vestida de homem. ROBERTO . É preciso tomar cuidado com esses cortes.Até mostrar que Terê perdeu sua identidade e está a ponto de ficar louca. e eu não vi esse sofrimento em nenhum momento. Vemos Terê cortando o cabelo. uma coisa muito divertida. CECÍLIA . Uma hora e meia seria muito. Lá está ela.

ao longo de todo o filme.O que precisamos resolver .....Aos poucos é melhor.Eu me preocupo menos com isso e mais com a idéia de que. Para mim. mas desequilibra a estrutura. Aqui. não tem jeito..Eu gostaria que Terê conseguisse seduzir Henrique. Num longa-metragem. Por exemplo.. também podia ser seu neto.E a mudança dela.a propósito do meu personagem. Reynaldo. só temos trinta minutos. Mas para manejar essa situação discretamente dispúnhamos de quase duas horas. e metade desse tempo nós devemos dedicar a apresentar o problema.. Poderá não reconhecê-la de repente. vimos a conveniência de que a velha termine lá em cima. O que estou achando que ficou claro é que só pode ser repentina se nós deixarmos isso como imagem final.punha o exemplo do professor de judô..onde começamos. esta é uma história de amor.Seria preciso perguntar também se Henrique é homossexual ativo ou passivo. no final. não chegue a reconhecê-la .A idéia de que Henrique não a reconheça . ROBERTO . afinal como aconteceu? Progressiva ou repentina? GARCÍA MÁRQUEZ .visual e dramaticamente é o golpe de efeito dessa cena em que Terê. não podemos supor que o processo de transformação de Terê ocorra de modo tão gradual que acabe sendo imperceptível. GARCÍA MÁRQUEZ . mas resolve o problema do tempo. a diferença de idades entre a protagonista e o jovem já não é tão evidente. GARCÍA MÁRQUEZ . mas é só olhar bem . MARCOS .Mas seduzi-lo como mulher ou como homem?. ROBERTO . Não há tempo para isso.Temos três maneiras de resolver isso. João . Para conseguir isso de forma verossímil não tivemos outra saída a não ser rejuvenescer a velha aos poucos. rejuvenescida.nós até falávamos do inconfundível orriso de Terê .. Repentina é pior. Henrique possa não reconhecer Terê. MARCOS . porque se for passivo. DENISE . dançando uma valsa com um jovem de vinte e dois anos que poderia ser o seu galã mas que. psicologicamente.não se sustenta..Não tão extremos: Terê se transforma por dentro também. e essa idéia do desencontro por motivos externos. Outro dia. por um lado. E quando chega o momento da valsa.para ver quem é. imperceptivelmente. GARCÍA MÁRQUEZ . já transformada em 160 .. podemos tentar. Isso. Mesmo que fosse de um jeito traumático. na verdade. Por outro. na história em que estou trabalhando agora.. ROBERTO .ou melhor.

E à própria atriz. Essa transformação psíquica concordo com a sua preocupação. e das maiores. a luta de Terê não deveria levar ao fracasso: Henrique acaba possuindo-a.. GARCÍA MÁRQUEZ . Você está fazendo o papel de papel de advogado de defesa de uma história alheia.. apresenta-se a Henrique. Eu acho horrível que essa paixão se frustre. claro..os homossexuais sendo observados avidamente por uma mulher . Então. em termos visuais? ROBERTO . ROBERTO .homem..ela fosse se transformando? Numa cena assim. trata-se de um amor correspondido.Assim não vale.Vou fazer o papel de advogado do diabo. Só quem está apresentado a sua própria história é que não faz. MANOLO . ROBERTO ... uma história com moral no fim.Estou convencida de que a mudança de Terê deve ser gradual. À sua maneira. ao encarregado do guarda-roupa. ao mesmo tempo. você precisa ter alternativas. O fato é que 161 .. que supostamente deve acabar bem.Terê entra numa luta feroz contra as circunstâncias que a impedem de realizar sua paixão. sem se mexer de seu assento . plasticamente? Seria preciso perguntar ao maquiador.O olhar de Terê serviria de guia.Esse plano começa com uma tomada subjetiva . com um final aberto. GARCÍA MÁRQUEZ . E se pouco a pouco – mas ali mesmo. Essa história que Denise quer contar.Todos nós fazemos esse papel. Manolo poderá ser expressa visual.Como fazer isso. SOCORRO . o fluxo do tempo e o fluxo da consciência ocorreriam de uma vez só. Ela vai selecionando seus 'modelos' e.. Ou seja. quando deixa de ser ela. já que Henrique também participa da mesma paixão.A frustração também é uma situação dramática. se 'transformando' neles. SOCORRO . Pense na cena do bar. quando Terê vai observar os homossexuais. por um ato de mimetismo. ROBERTO. da qual você gosta tanto. A transformação de Terê seria mais psicológica do que física. Esse é o momento! DENISE . ou então Terê se transforma em homem e o filme acaba aí.e termina com uma visão objetiva: Terê transformada em efebo. Uma história não se frusta como drama porque os personagens se frustram. GARCÍA MÁRQUEZ . DENISE .Henrique ama Teresa pelo que ela é. Eu não estou contra o final feliz da frustração. no que diz respeito à sua própria mudança. Denise. e muito menos no caso de uma história de amor. GARCÍA MÁRQUEZ . E deixa de amá-la quando Terê renuncia à sua identidade.Mas como não há tempo para isso.

. E essa ambigüidade que mantém o conflito latente.. se pudesse. o lógico é que Teresa diga a ele: “Tudo bem. Ou reações químicas misteriosas. SOCORRO . Henrique diga a ela.. porque a gente nunca sabe onde começa e onde termina o desejo do outro. Henrique conheceu dúzias de mulheres tão atraentes e inteligentes como ela. sente essa atração sexual pela moça. GARCÍA MÁRQUEZ . É preciso dar a esse vínculo Terê-Henrique o nível de tensão necessário.. os amores à primeira vista não são reações que possam ser explicadas facilmente.Eu insisto na minha proposta. GARCÍA MÁRQUEZ . Ela também não teria grandes esperanças. Não consegue. mas isso é normal. estejamos todos atolados. Não continuo.. seus se que Henrique desce do seu pedestal. confessa que nunca esteve com uma mulher. SOCORRO . de repente. Mas sem muita esperança. para ver se saímos desse atoleiro.. Manolo. Henrique decide convidar Terê para ir ao seu apartamento. vou ajudar você”.estamos trabalhando sobre um tema que não conhecemos intimamente. DENISE . com uma evolução de sentimentos que nós não conhecemos bem.Terê tem que estar convencida de que Henrique se entregaria a ela por completo. e ela. Muito bem.. A gente não se conhece tão bem como achaque se conhece. Henrique é um ídolo. agora. por seu lado.. alcança Terê na rua e a convida para beber alguma coisa. porque acabo de perceber uma coisa: diante dessa situação. Vamos ver: vamos analisar a história de novo. E daí? Como é que ela ajuda? MANOLO . No dia seguinte. Para Teresa. Talvez por isso. São razões do coração.É isso o que eu gostaria de dizer: é absurdo querer se transformar em objeto do desejo de outro.É uma história muito delicada. eu quero”.Ora. É preciso ter cuidado para não nos enganarmos numa coisa tão polêmica.Que antes de sua primeira tentativa.. não pode atribuir esse limite a outra coisa porque não sabe do segredo de Henrique. mas que agora...E nem o nosso. Não vai além desse ponto. Pode ser que ele tenha sido até casado. Pode ser que a iniciação sexual de Henrique tenha sido heterossexual. e nada. sem meias palavras: “Nunca estive antes com uma mulher. que por favor deixe de inibições e nos dê uma mão. ele quer. ROBERTO ..Em outras palavras: ele pede ajuda a ela? ROBERTO . mas com mas com você. Se algum de nós for um homossexual enrustido. 162 .É. DENISE . GARCÍA MÁRQUEZ . é a primeira vez. e tenta fazer amor. Então.Não é fácil explicar porque diabos Henrique.

“depois de ter vivido vinte desenganos. ELID . decidir: agora prefiro o amor heterossexual. Se nos metermos 163 .Na primeira tentativa? Não. para nós? SOCORRO . mas ele que não é nada irremediável. faz tempo que estamos dando voltas ao redor de Henrique.Você esta insinuando que Henrique é bissexual? ELID . Como se comportaria um homossexual do tipo de Henrique. procurando parecer um pouco com ele. mais interessante será a evolução de Terê. numa circunstância como essa? Será que ele pode.Na primeira noite. ou a pretensão de trabalhar com dois pontos de vista ao mesmo tempo.A coisa ameaça complicar ainda mais. da noite para o dia.. porque o objeto do meu desejo passou a ser uma mulher? REYNALDO .. Nós simplesmente mudamos de ponto de vista. GARCÍA MÁRQUEZ . O que precisamos evitar a qualquer preço é a mudança de prespectiva.O número não interessa. qual a diferença de viver mais um?”. GARCÍA MÁRQUEZ . Quanto mais forte for a frustração daquela primeira noite. porque Henrique tem um amigo e não quer desistir dele por causa de Terê.Continuamos empacados em nossa ignorância. ELID . Precisamos nos manter firmes no ponto de vista dela.O conflito viria depois. ELID . E.. Henrique já teve relações heterossexuais normais.Eu acho que sei onde está a dificuldade dramática. Nesta história. Henrique poderia funcionar normalmente com Terê. como é natural: são aliás. e no entanto.Houve um trauma num determinado momento. É tamanha a atração que sente por ela. em termos de tempo. e não temos tempo.Suprime um obstáculo. Como diz o bolero. DENISE . Terê sente que está perdendo a batalha para o rival e apela para o disfarce. A história inteira está contada do ponto de vista de Teresa. Terê é quem toma a iniciativa. estamos danados. ROBERTO . com o efebo. Isso complicaria as coisas. Terê vai cometer erros de apreciação. para mim. DENISE . GARCÍA MÁRQUEZ . Não vamos nos preocupar com isso. está claro: se tratamos de assumir o ponto de vista dele.Eu me atenho à idéia da tentativa fracassada de Henrique. não convém.Não é preciso tocar nesse assunto. os nossos erros de apreciação.Quantas tentativas frustradas ela vai ter de suportar? REYNALDO . Isso não é nenhuma novidade para ele.E o que isso adianta.

suas capacidades miméticas. nunca mais vamos sair do buraco.. quando Henrique deixa Terê em casa. imagina as reações do outro . não resolve! ROBERTO . pode estar coberto de fotos de Henrique. na cena de amor que acaba de interpretar com Henrique. a história passa a ser nutra. sim. DENISE . GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ .Essa proposta parece boa. GARCÍA MÁRQUEZ . Ela começa a estudar seu personagem. REYNALDO .nos dilemas de Henrique. mas não expressa nada. ROBERTO .E quem disse que resolvia? Não. ela entra no quarto e vemos as fotos na parede. CECÍLIA .. DENISE .. GARCÍA MÁRQUEZ ..Ah. Ela poderia estar imaginando um romance com Henrique. por exemplo. muito punk. uma situação imaginária onde as fronteiras entre a verdade e a mentira acabam se apagando. e sairia muito melhor.Agora. uma moça muito moderna. fica sendo uma história barata.A maldição dos espelhos nos persegue.. mas o que precisa ficar bem claro é qual o momento em que Terê sente que está encurralada e decide continuar lutando até o fim. e elucubrando meios DENISE . mas desacreditaria a Oficina.E se começássemos a história da transformação ao contrário. por exemplo.e vai tecendo. Por esse caminho nós podemos terminar contando Hamlet. com Terê parecendo um menino desde o começo? Na realidade. mas muda o sentido da história.Você pode mostrar a transformação do jeito que bem entender..Naquela primeira noite. CECÍLIA .Nós dissemos que Terê é uma boa atriz mas não exploramos a sua imaginação.Mas esse jeito não resolve a história.que na sua fantasia são sempre as que Henrique teria .Pois eu me pergunto se será possível explorar essa linha sem nos desviarmos muito da idéia original. assim. muito unissex..Existem muitos detalhes que poderiam nos servir para dar a evolução sentimental de Terê. GARCÍA MÁRQUEZ . e os antecedentes. SOCORRO ..Pense nesse papel que Terê acaba de conseguir. dos personagens que ele interpretou no teatro. Se Terê não se disfarçar de homem. aí. 164 . estou tendo a seguinte idéia: o processo de transformação pode ocorrer através de detalhes.É um grande jogo de efeito... ou seja. Isso basta para deixar claro que Henrique já era seu ídolo há tempos. através de um espelho. Seu quarto. até se transformar num machão.

. A gente sempre apela para um final de efeito. vai ao bar e quando Henrique passa ao lado nem repara nela. GARCÍA MÁRQUEZ .A partir do momento em que Terê se disfarça. O ciclo se fecha e torna a se abrir onde começou.Vamos lá. sem perceber que é ela. fazendo tudo para agradá-lo. uma carga semântica muito forte. já travestida. SOCORRO .Eu gostaria que Terê. Insinua muito discretamente a idéia da transformação.. GARCÍA MÁRQUEZ . e que ele não a reconhecesse. e por isso perde o emprego e é preciso substituí-la por outra atriz.De acordo. sabendo que não consegue. aborrecido: “Mas que bobagem é essa?”. e não a de Teresa. GARCÍA MÁRQUEZ . e que. ROBERTO . mas é a história de Henrique.Assim que se aproximar e trocar duas palavras com ele. exclamasse.Eu acho essa idéia o máximo.GARCÍA MÁRQUEZ . ou perde. de novo: Terê se transforma. A vítima. ou que não quer. Henrique recomeça a manobra com a outra. quero dizer. mas é também a menos verossímil. GLÓRIA.E se Henrique avançasse direto no rapaz? GLÓRIA . DENISE . Eu preferiria que Henrique chegasse ao bar. Um jovem boa-pinta.Isso deixaria uma pergunta latente: o que aconteceria se a reconhecesse? REYNALDO ... quando não encontra outra opção. Isso quer dizer que ele já não gosta mais dela? De jeito nenhum. como dizem os lingüistas. GARCÍA MÁRQUEZ . ficamos sem moral da história. passasse na frente de Henrique. acha que ela ainda não não chegou e começa a olhar interessado para aquele garoto que está sentado ali perto. Henrique teria que ser muito superficial para que um simples corte de cabelo e 165 .É que esta última imagem tem.Se Henrique paquerar o suposto galã. Henrique é um sadomasoquista. ao vê-la.. as atrizes que trabalham com ele. Simula fazer esforços para consumar o amor. Henrique perceberá tudo. A primeira possibilidade é mais fácil de ser contada. porque agora ela é um rapazinho. Então. atraente. ROBERTO . podem acontecer duas coisas: ou ela conquista Henrique. mas que não faz o gênero de Henrique.. nele. onde ela está esperando com seu novo look.Tudo poderia ser um jogo sinistro que Henrique utiliza com suas vítimas.Ou então Henrique chega no bar. Quer dizer que ele gostava dela como mulher. se transforma e nesse processo deixa de cumprir os requisitos que seu personagem no teatro exigiu.

Henrique não aceita fisicamente Terê transformada em efebo. Mas. e diz. REYNALDO . GARCÍA MÁRQUEZ . Os homossexuais são muito frívolos. ou melhor.. eu vou até aqui. como mero pretexto para o encontro. É preciso tomar cuidado para não confundir as coisas.algum outro detalhe exterior o transformasse desse jeito. Terê. em todo caso. Pode até ser que hoje em dia menos. sei lá -. Senta numa mesa próxima. na ação? Pode ser que a chave do desenlace esteja em algum daqueles diálogos.Um momento. caminha decidida para ele. porque os homossexuais foram abrindo espaço na sociedade. sorrindo: “Alô”. Nós só utilizamos a peça no começo. Quem vai a um bar de veado também é veado. explode de raiva. Podemos dizer que esse tipo de pessoa seja superficial ou frívola? Para suportar tudo isso. São pessoas que desafiam preconceitos e códigos morais muito enraizados..Eu retorno ao encontro final. 166 .. Então Terê se levanta.. como se fosse um efebo a mais. Digamos que ela se mistura no ambiente sem muito esforço. Henrique olha para ela. Pode. no bar: O lugar está cheio de clientes. esperando que ela chegue. Henrique passa na sua frente e não a vê. Não tenho mais nenhuma outra idéia. jogue no chão e pisa em cima. mas por acaso aceitava como mulher? MARCOS . SOCORRO . uma correntinha. reconhece-a. é preciso ter um caráter muito forte.Não acho tão improvável.Vamos detalhar um ponto. pelo menos desse pobre diabo que passa de uma experiência a outra sem conhecer a verdadeira amizade.. e tudo isso a troco de quê? Eu suspeito que exista muita frustação na vida do homossexual. GARCÍA MÁRQUEZ . Deixamos de lado a peça de teatro que Henrique e Terê estão ensaiando. que não se definisse em termos dramáticos. Por que não tentamos integrá-la. Dissemos que Terê se disfarça de homem. GARCÍA MÁRQUEZ . fica estupefato. que enfrenta escárnio permanente. arrasta-a para fora do bar e começa a insultá-la. que. está sentada na frente de uma mesa..Poderia ser um desenlace visual. não a reconhece. agora. como faria um jovem que estivesse disposto a uma conquista.Eu não me atreveria a dizer isso. agarra a moça pelo braço.. Bom.. apóia as duas mãos na mesa. o verdadeiro companheirismo. e não é verdade: ela se disfarça de homossexual ativo. contra ventos e marés.. até ser que arranque um dos elementos do disfarce da moça um cinturão. Acabo de perceber uma coisa.. afirmam seu direito a existir.

GARCÍA MÁRQUEZ .e ela responderia com alguma coisa que a gente acha que conhece..Quando eles começam a modificar os diálogos para ajustá-los à sua própria verdade. mas à sua maneira. esperando Terê. o conflito permanece. Ela chega. nem nós.a dos diálogos repetidos e modificados . Existe algo mais profundo que une os dois. os protagonistas consumam sua amor. Entra no jogo.ROBERTO . enquanto na vida real Henrique e Teresa. diz alguma coisa . SOCORRO .. para utilizá-lo depois. MANOLO . ROBERTO . mas a gente sabe que.Vamos imaginar que Henrique esteja sentado no bar.Com isso damos ao espectador a ilusão de que as coisas terminam bem para os dois.Quer dizer que não é um amor frustrado? Que alívio! GARCÍA MÁRQUEZ . Henrique diria uma frase que já conhecemos .e ela responde.Precisamos imaginar essa cena e elaborar o diálogo com cuidado.uma coisa que nós já ouvimos Henrique dizer na peça de teatro . Henrique olha. Isso é Romeu e Julieta GARCÍA MÁRQUEZ ..Quer dizer que os dois só conseguem se comunicar no plano artístico.. senta-se ali perto. em sucessivos ensaios. e o deles se realiza? DENISE . mas não como estava previsto. reconhece. Talvez seja um caminho que ninguém esperava. até a história tomar seu próprio caminho. nem eles. e assim sucessivamente.Estou com a intuição de que essa fórmula . O que até agora nós víamos como a verdade do amor .. GARCÍA MÁRQUEZ .tem um potencial poético enorme. O filme pode terminar como um verdadeiro poema.Amor que termina numa cena de morte? Não é. através do texto dramático? ELID . mas que na realidade é uma coisa diferente. vestida de homem.. 167 .Eu pensei na possibilidade de uma cena de morte. GARCÍA MÁRQUEZ . na realidade.Na peça.A peça teatral poderia se referir a delas pessoas que têm dificuldades em assumir sua verdadeira personalidade. REYNALDO . entre eles. percebemos que estão rompendo as convenções sociais. um diálogo que revela o conflito dos dois.E que tal se a gente inverter os termos? O amor no teatro se frustra.a que eles representaram no teatro aparece como o obstáculo que se interpunha entre os dois. ROBERTO .ouvida duas ou três vezes . Assim começa.No começo tínhamos falado várias vezes em repetir a cena de amor.

Pode até ser engraçado. poderíamos tornar a Terê lésbica.Imaginem só a seguinte cena: a entrada de Henrique. Se a história muda para melhor. GARCÍA MÁRQUEZ ... DENISE.. Por exemplo: Terê vestida de homem. Um final maravilhoso. DENISE . Eu vejo esse filme. Terê corta o cabelo. DENISE . e de repente mudamos de gênero? GARCÍA MÁRQUEZ. e paz na terra e GLÓRIA aos céus nas alturas.o mais belo dos galãs convidando-a para dançar no grande salão de espelhos. vai ao bar.. do começo ao fim.. aqui estão Henrique e Teresa. Bem. em clima de comédia.Bom. GARCÍA MÁRQUEZ . Nós não podíamos mudar nada essencialna história.E eu. uma mulher belíssima. mudou.. Eu não sinto que isso de 'poder' e 'não conseguir' seja.. Lembrem-se de Dustin Hoffman em Tootsie.. ele aparece vestido de mulher. De repente. GARCÍA MÁRQUEZ .Para sermos coerentes. de repente. O que muda agora é a história inteira. um conflito profundo.Se impõe como mulher? E de que maneira? GARCÍA MÁRQUEZ . senta e fica esperando Henrique. Uma mulher maravilhosa..A única coisa que precisamos mudar é o tom. qual é o problema? ROBERTO .. uma Terê que desiste de disfarce e se impõe por direito próprio? REYNALDO . porque Henrique é um grande ator e pode fazer o que quiser com o seu próprio físico..Não é preciso mudar mais nada. ainda sem se reconhecer. GARCÍA MÁRQUEZ . como uma comédia. Henrique vestido de mulher..Quem podia mudar. para ele.A revelação.Pois eu confesso que para mim o problema principal está no seguinte ponto: nós não sabemos até que ponto esse drama é dramático para Henrique. um na frente do outro. por exemplo. podemos terminar do jeito que quisermos. ELID . REYNALDO .Não é mais Terê quem muda. cômico.Ô mulher! Só agora você diz isso? GLÓRIA . queria que Henrique acabasse com outra mulher. essa não.VICTORIA .. E.Acho que seria interessante fazer assim. Por que não a própria Terê. O encontro no bar. ora. A proposta vem da própria Denise. SOCORRO .E você. que já estava achando ótima a idéia da tragédia..Ora. Até que a morte os separe. é claro. se vai ser comédia... e o gesto de Teresa . ROBERTO . 168 . se veste de rapaz.

pode ser maravilhoso. brincar com as aparências. São exemplos.. amanhã estica os cabelos como Rodolfo Valentino.Terê.. Uma coisa assim de atores.Brincadeiras à parte.. Certa noite.Por quê? É um ator. o do baile. sei lá. o do cara que se transforma em burro e tem um diálogo com ela.o casal perfeito. e no final. mas creio que a coisa pode funcionar por aí. agora Henrique não é só homossexual: é a própria bicha louca. os dois têm um filho.GARCÍA MÁRQUEZ . que acabaram se encontrando. GLÓRIA . Hoje usa óculos. de Maria Félix em Dona Bárbara. ELID .Não sei. E daí vinha a flecha do cupido. o jogo erótico... vai ao bar de homossexuais vestido de dama antiga..E o espectador. Não é que ele se torne irreconhecível. REYNALDO . tem que ser um personagem diferente.. gosta de se disfarçar. Esse movimento final.Parece que a varinha de condão fui a palavra comédia.Na atuação de Terê.. muito de carnaval.. claro.Que horror! REYNALDO . como é que vai entender tudo isso? GARCÍA MÁRQUEZ . São os andróginos. Mas se buscavam por onde não era. amanhã usa cavanhaque. Cada vez que ele aparecer no bar. agora. Nesta noite em particular. Os dois estão sob o signo de Gêmeos. Agora. de Shakespeare.Ora . cada um é o outro. essa atração recíproca que sentiram desde o começo. quando encontra Terê. GARCÍA MÁRQUEZ . mas é sempre outro: hoje de bigode postiço e peruca. Henrique percebe isso. outra noite vai vestido de mosqueteiro. a barreira cai. e Henrique. DENISE . Basta vê-los dançar . ou de Gloria Swanson em Crepúsculo dos Deuses.. você agora quer estropiar o nosso filme.No bar Henrique poderia ir vestido da maneira com que Terê se 169 . o do burro. é ver como damos as diferentes metamorfoses de Henrique. Terê faz o papel de Titania. também freqüenta o bar sem que ele saiba. Por isso se buscavam..para entender tudo. depois da trabalheira danada que tivemos? ELID ...A barreira que os separa é a de seus respectivos sexos. vai disfarçado. Parido por ela. quando ela faz o teste no teatro. Todos os elementos estão aí: a metamorfose.Já sei qual é a peça que estão montando: Sonho de uma Noite de verão. Mas nossa tarefa. GARCÍA MÁRQUEZ . Não é preciso levar os dois até a cama. SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ . tem haver um toque de ironia. Quando os papéis se invertem. como lésbica.. mas com os papéis invertidos .

seja como for.Poderia ser A Cantora Careca. satisfeito: “Entendo”. na cena do bar: um diz maluquices ao outro. em algum momento responde uma coisa que não sabemos se é um disparate ou uma genialidade. comentam isso: como é estranho dizer coisas que eles mesmo não entendem.'Entendo' justamente porque não entende nada. Esse mesmo jogo é aplicado no final. ou falam o necessário.Vou ter de pensar nos prós e nos contras. REYNALDO . DENISE . sem nenhum tipo de amargura. GARCÍA MÁRQUEZ . DENISE . Henrique e Teresa.Beckett. ROBERTO .A peça poderia ser contemporânea. 170 .E eles. eu gosto mais. mas não a que serve para testar as atrizes. que peça é essa. E além do mais. E agora é uma comédia divertida. feito um disco rachado. e passada no campo.A sensação que produz é sufocante. GARCÍA MÁRQUEZ . ainda assim. tem a vantagem .No teste fazem perguntas. sem muitas complicações. É de época. O que mais a gente pode querer? . O teste é feito com uma obra romântica.Minha história é exatamente o oposto de Denise. Talvez seja uma réplica do drama dos andróginos. O que você acha. Por exemplo. Aliás.veste na peça que estão ensaiando. moralmente legítima e visualmente agradável. Denise? É pegar ou largar.de ser dramaticamente válida.Essa poderia ser a obra que eles vão representar. ROBERTO . e vice-versa.Sidália e Belinda SOCORRO . Henrique pergunta a ela: “O que isso quer dizer?”. mas não se entendem. daí sai a cena de amor que nós conhecemos. DENISE . de Ionesco. Uma história maluca que. mas eles se entendem perfeitamente. e Terê. Eles se sentem como se fossem papagaios. Lembro de um de seus personagens repetindo palavras. GARCÍA MÁRQUEZ . uma obra de Beckett: os personagens falam mas não dizem nada. tem sentido.Precisamos saber. as duas metades que não param de buscar suas identidades. ROBERTO . E ele..Eu acho que você não sacrifica nada essencial.eu acho . GARCÍA MÁRQUEZ . e ela responde: “Não sei”.. como atores. ou falam muito pouco.

. Sidália tem 52.São filhas do mesmo pai. DENISE . mas não se importava. muito elegante. Mas.Entre elas sobrevive. GARCÍA MÁRQUEZ . Entre as duas.. mas recebeu uma educação rígida. Porque Belinda não é normal: não fala. Ainda é lembrada com uma de suas roupas mais vistosas. que a criou. talvez motivado pela morte dos pais. Não é que seja nada: é que sofreu um trauma. Sidália foi filha única... a imagem da mãe. diga: quando é 171 . Chegou a conhecer o velho esplendor da família da aristocracia rural que naquela mesma época começou a cair em desgraça. como uma lenda. Assim que Sidália fez 15 anos. então. Sidália considera a irmã culpada pela sua própria tragédia. que eu até me lembro. Sidália conserva esse vestido de sua mãe como se fosse uma relíquia.GARCÍA MÁRQUEZ .É a história de duas irmãs. ditada por normas religiosas e morais muito estritas. Sente uma profunda rejeição em relação à irmã. Belinda. 18 anos. sente como uma obrigação moral cuidar dela pelo resto da vida. SOCORRO .Isso talvez influa em sua atitude com Belinda. até os quinze anos..Sidália tinha. passou a ser a filha de Sidália. três anos depois da morte da mulher. pela hostilidade do ambiente. um vestido de crinolina com uma sombrinha de lacinhos e sapatos de verniz.. a primeira que levou à cidadezinha as modas européias. de ponta arredondada. é lógico. mas virgem.. sua mãe morreu no parto de Belinda. SOCORRO . É tão próximo.Sidália não teve namorado? É como uma mãe solteira. GARCÍA MÁRQUEZ . Ele ainda vive? SOCORRO .. SOCORRO . Quando a família se arruinou. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . para efeitos práticos. certo? Belinda não viveu essa tragédia: ainda era muito pequeno.Não dá um pio.. Sidália.Morreu alcoólatra. há uma diferença de quinze anos.1930. Ou seja.. a mais moça. Ao mesmo tempo. Sidália sofreu na própria carne algumas das conseqüências. Foi muito mimada quando criança. O mais correto talvez seja dizer que ela não fala porque não tem vontade de falar.. a mais velha. Era uma mulher belíssima. desde o momento em que nasceu e as duas ficaram órfãs de mãe. Belinda tem 37. porque tinha o carinho dos pais e a memória do que havia vivido.Ora... Mas agora descarrega sua frustração em Belinda. Portanto. isso não é época! Isso é o ano passado. por exemplo. Tudo bem. e Belinda.De que época? SOCORRO .

Desperta a sua sexualidade. segundo. Belinda.Ela jamais saiu de casa. vive entre alucinações. Em alguns momentos Sidália se sente culpada e tenta ser solícita e carinhosa. sentiu pena. E na casa sempre fez o papel empregada: varre. Por alguma razão .que o filme começa? SOCORRO . em compensação. para evitar as traças... num mundo de fantasias. de acariciar o próprio corpo... SOCORRO . Sidália ficou furiosa com a irmã: gritou com ela. Nesses momentos. obrigou-a a tirar o vestido. Um dia. muito bem dobrado numa arca. enfim. arruma os quartos.. com naftalina. É beata. cuida do jardim. gosta de cantar. que só pensa em lhe dar desgostos e fazer o que quer. que Sidália é professora e com seu salário mantém a casa. Belinda tem uma estranha fixação por esse vestido. que eu também ia esquecendo: Belinda. sabemos que não é muda. ou melhor. GARCÍA MÁRQUEZ . Mas. E mais de uma vez Sidália surpreendeu Belinda usando o vestido.Para Berlinda. esqueci duas coisas: primeiro.. fazendo charme na frente do espelho ou fazendo a sombrinha girar graciosamente enquanto passeava pelo quarto. Mas. SOCORRO . o vestido tem um efeito estimulante. vive num vazio total. E. ao mesmo tempo. E essas fantasias têm um eixo: o vestido da mãe.Belinda também é solteirona frustrada? SOCORRO . sua irmã é um ser manhoso e egoísta.. surpreendeu-a masturbando-se enquanto usava o vestido. quando está sozinha.. se confessa. GLÓRIA . vai à missa. Vai consultar o padre. O que ela não pode perdoar em Belinda é outra coisa. GLÓRIA .o fato de ser um vestido de luxo.-. é um ser que dá pena.Está quase começando. prepara a comida. As duas são neuróticas. Sidália está muito preocupada. com um decote grande.Sidália sabe disso? SOCORRO . guardou-o na arca e ameaçou castigá-la. Sidália é professora. Ah. Há um detalhe importante. que diz a ela que a única coisa que pode aconselhar é procurar o boticário e pedir um remédio que tenha 172 .Uma relação de amor e ódio.. O único som que ouviu de Belinda são os murmúrios e os resmungos que a irmã faz quando dorme. Mas Sidália nunca ouviu a irmã cantar. ao mesmo tempo. é só Berlinda vestir essa roupa. que as duas irmãs continuam morando no velho casarão familiar..O vestido está guardado no quarto de Sidália – com todos os acessórios -. Para ela. E os vizinhos também.Está no limite da esquizofrenia. VICTORIA . tem contatos com o mundo exterior. Por isso. Sidália ficou tão escandalizada que quase morreu um ataque cardíaco. que começa a ter desejos de tocar.

passa na televisão? GARCÍA MÁRQUEZ . como se quisesse arrancá-lo. é claro. e sapatos de salto alto e meias. O boticário efetivamente prepara uma poção e recomenda que sejam administradas à paciente. GARCÍA MÁRQUEZ .Sim. SOCORRO . sofre um ataque no chão e começa a se contorcer em estranhas convulsões. é muito vital. em algum momento. Sidália busca um jeito para dar essas gotinhas à irmã.. é um trabalhão. desenvolvido do começo ao fim. É o nascimento da louca da cidade.A imagem de Belinda se masturbando. a cara coberta de maquiagem.Por isso ela se recusou a continuar tomando o remédio. come com faca e garfo? 173 . O roteirista tem que desenvolver seu trabalho da melhor maneira possível. algumas gotas por dia. com a sombrinha esfarrapada. primeiro.. torna a encontrar a irmã usando o vestido e se masturbando. Belinda se assusta. DENISE ..Belinda. Um dia. nossa tarefa é adaptá-lo. com o vestido da mãe todo remendado. O tecido cede. em compensação.Nós temos aqui um argumento. que logo passa a recusá-las porque cada vez que toma tais gotinhas se sente sonolenta. enquanto trata de ajudar a irmã. com muito cuidado.Por enquanto. como se fosse uma epilética. que abre as portas e as janelas da casa e sai à rua. e morre dois dias depois. Aliás. faz Sidália engolir o líquido achando que assim irá aliviar a irmã . O que Sidália mais temia acaba acontecendo. Na tarde do enterro.. muito recatada. toda emperiquitada. Não descarto a possibilidade de. É a mesma coisa em relação à produção. os vizinhos assistem a um estranho espetáculo. Ela se lança sobre Belinda e começa a puxar o vestido.propriedades calmantes.. Sidália se enfurece. Eu queria chegar a essa imagem.. Mas não vai ao enterro de Sidália. Não é um trabalho fácil.E o resto de seus hábitos sociais? Ela toma banho todo dia... a gente deve fazer o que acha que deve ser feito. eu quero saber uma coisa: Sidália é frígida? SOCORRO . Nem o remédio conseguiu derrubá-la. Mas. Belinda acabar falando. comprimi-lo no espaço de meia hora. apanha a poção do boticário. É Belinda. ao voltar da escola.a única lembrança pessoal que ela tem -. Ela é muito beata. isso não é problema nosso. volta para a sala.e com essa overdose acaba provocando em Sidália um dano irreparável. Depois vem a guerra contra as convenções e os códigos morais. Ela cai em estado catatônico. Quando Sidália percebe o que acaba de fazer com o vestido da mãe . e rasga em várias partes. GARCÍA MÁRQUEZ . Em relação à história. Agora. Vai correndo até a cozinha. sempre vestida de preto GARCÍA MÁRQUEZ .

ela teve tempo para guardar o vestido e fazer de conta que tudo está em ordem. fecha o portão.Nós precisamos de uma primeira seqüência espetacular..ou pelo menos.A verdadeira louca é Sidália. A loucura faz com que diga tudo que não disse antes. e tira o vestido correndo. ela se penteia. mas não conseguiu.Na casa existe pouca mobília. “Você gostou da salada. ainda são visíveis as marcas dos quadros que foram vendidos. Quase tudo que move essa história está implícito ou está oculto.. mas é só. atravessa a sala e aparece no quarto de Belinda. que vai surpreendê-la. SOCORRO . Enquanto Sidália entra. Belinda sabe que é Sidália. Nas paredes.. Sidália diz: “Por favor. SOCORRO . Em sua relação com ela. GARCÍA MÁRQUEZ ..Você nos danou. SOCORRO .. Sidália. Eu quero ver. Belinda. Um exemplo: na mesa. arrumando o cabelo na frente do espelho. A relação se dá através de um monólogo sutilmente agressivo. não consegue pensar em muita coisa. Ouve-se um ruído lá fora. Belinda tampouco tentou aprender a ler e escrever: Cada vez que a irmã tentava ensinar o alfabeto. passe o saleiro”. A única coisa de que ela realmente gosta são as flores. “Claro. 174 .Belinda não é lá muito asseada. que agarre o espectador e nos dê um respiro para podermos dizer ó. está muito boa”. Quando põe o vestido da mãe. essa mulher de repente saindo na rua. a maneira de usar os talheres. GARCÍA MÁRQUEZ .Come usando uma colher. Belinda?”. Belinda não intervém nunca. GARCÍA MÁRQUEZ .Sidália nunca consegue se comunicar normalmente com Belinda. Enquanto a gente não conseguir ver o personagem. por exemplo.O aspecto físico do personagem é muito importante. O salário de professora não dá para as duas.O final do filme é ótimo. e ela mesma responde: “Com prazer.. já bancando a louca. GARCÍA MÁRQUEZ . e acha que ninguém está ouvindo. minha irmã. SOCORRO . REYNALDO .SOCORRO ..Eu quero que se veja tudo . foi vendendo os móveis. e não há quem a faça parar. Sidália sempre tentou ensinar o ritual da mesa. a própria Sidália pergunta e responde. se deduza a partir das relações cotidianas entre as irmãs. que agarra de um jeito estranho. usando o vestido da mãe. e começa a falar e falar. Não é por acaso que só canta quando está no jardim.A primeira cena é a de Belinda no quarto. GARCÍA MÁRQUEZ . com certeza. digamos. querida irmã”. Belinda fugia.

porque acontece que precisamos responder perguntas sem narrador. Agora a mulher entra num quarto.. capaz de criar intriga e suscitar uma série de perguntas. vamos nessa.. Quando sente que lá fora alguém abriu o portão do jardim. Entende? Isso é o que eu chamo de uma cena dura.no filme. Durante um bom tempo a recémchegada não vai falar com ninguém.SOCORRO.. A partir daí.. já a vê usando o vestido. podemos fazer uma montagem 175 . SOCORRO . olhando-se num espelho. Se você a trouxesse da escola. REYNALDO . Portanto. Esse é o nosso material. Mas enfim. e depois com o padre.Como primeira? Haverá uma segunda? SOCORRO . repito. não é? Só ela mesma. com o fato de que. Belinda está cantarolando. Muito bem. quero dizer -. obriga-a a trocar de roupa. GARCÍA MÁRQUEZ . Está vendo por que eu digo que temos de ter uma seqüência inicial muito forte? É a nossa única maneira de tirar vantagem. Quem é ela? Não sabemos. SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ .Claro. GARCÍA MÁRQUEZ . entre essa primeira cena e o final. O vestido está rasgado. e a recém-chegada fica tão enfurecida que insulta a outra. Sabemos que a casa é dela porque tira a chave da bolsa com toda naturalidade.vamos em frente. GARCÍA MÁRQUEZ .. ela se cala.Na frente do espelho.. a única coisa que nós precisamos fazer é responder a essas perguntas da melhor maneira possível. mal nos sobra tempo para divagações. mostrar a relação entre as irmãs. SOCORRO . bate nela. Quando Sidália rasga o vestido sem querer. O espectador fica sabendo: essa mulher não é muda. ROBERTO .. Em vinte e cinco minutos. e vê o quê? Outra mulher. mãos a obra.Eu acho essa imagem interessante: na primeira vez que Sidália vê Belinda . ou na argola de rede que está na parede. E nós estamos danados. Pode ter sido um descuido.”. definir as personalidades.Quando você fala do vestido rasgado.Nos créditos de abertura.Você começa o filme com uma senhora entrando numa casa.Tenho medo que isso seja um jeito de precipitar as coisas. vestida como você quiser. sem interlocutores e quase sem palavras. mais jovem que ela. devemos ir direto ao assunto. temos de explicar os antecedentes.. saberíamos de saída que é professora: “Até amanhã. dona fulana. Contamos. ela se nega a falar.Então. está propondo que Belinda rasgue o vestido logo nessa primeira vez?. prende as suas mãos com uma corda e amarra-a ao pé da cama. a nosso favor.Esse trabalhinho é fogo.Na vida real elas já viveram essa mesma situação outras vezes.

chuta. GARCÍA MÁRQUEZ .Sidália nunca conseguiu arrancar uma palavra da irmã. No momento em que Belinda acaba de se vestir. Belinda cante e fale sozinha. fique muda. se faz de muda. MARCOS . Não é muda. Essa situação não é fácil de se resolver. nenhuma sílaba. É isso que precisamos explicar ou insinuar. ROBERTO ..O difícil é conseguir entender que Belinda se negue a falar com a irmã..Tem um problema técnico aí. E em determinado momento. GARCÍA MÁRQUEZ . resmunga. Sidália bate nela.. mas Belinda não solta nenhum ai. Sidália fala com a irmã. mas não é forte. Além disso. Aí já dá para estabelecer um contraste entre a delicadeza de Belinda . Sidália a tratará como se fosse muda. não é? Não a trata como se também fosse surda. Quando se enfurece. GARCÍA MÁRQUEZ .Uma cena tão bonita? ROBERTO . e que a irmã aceite essa situação. Não se pode contar o filme inteiro na primeira seqüência. que me preocupa: como tornar verossímil a atitude de Belinda.Esse 'como se' é decisivo. Belinda se senta no piano.. a grande surpresa: Belinda desanda a cantar:. ROBERTO . ROBERTO . No máximo. e começa a cantar feito um passarinho! Isso tem uma força dramática muitíssimo maior do que se soubéssemos logo de saída que ela não é muda.. imagine só a beleza da cena seguinte: sozinha na casa. E só quando a irmã está por perto.É bonita. Se nesse primeiro momento ela não falasse. como é natural: “Ela é muda”. não cantasse.Ela sabe que Belinda não é surda-muda. no que se refere á sua mudez? Sidália sabe que a irmã não é muda. SOCORRO . 176 . O espectador poderá pensar que ela é muda.Mas nós a ouvimos cantarolar enquanto se vestia.Já eu quero propor que nessa cena inicial. Quanto tempo isso pode tomar? ROBERTO . visível nas roupas e na forma de caminhar.paralela entre Sidália saindo da escola e Belinda pondo o vestido. em termos de atuação e encenação.Por que a gente vai parar nesse ponto logo agora? Até aqui.... o espectador pensaria.Se o espectador acreditasse que Belinda é muda. GLÓRIA ... toca suavemente o teclado. o fundamental é a questão do vestido e a relação entre as irmãs.Vou propor que a gente mude isso.vestido-se como uma noiva – e a dureza de Sidália. e quando Sidália chegar. GARCÍA MÁRQUEZ . Sidália chega ao portão do jardim.. na frente do espelho. não emitisse nenhum som.

. VICTORIA . Preciso conseguir aquela foto. protegendo-se do sol com uma sombrinha.. Ah!. REYNALDO .. Belinda se contempla com aquela roupa no espelho..Mas com a imperatriz não era um guarda-chuva? GARCÍA MÁRQUEZ . sofre uma transformação profunda. cairia de repente o raio de Sidália.. apareceu a imagem que eu estava procurando. Teríamos de imaginar as duas alternativas no contexto da montagem paralela. Quando Belinda põe o vestido.Se os vizinhos sabem. Parece que estou vendo avançar pela rua essa mulher vestida de preto. E canta. Quando Belinda põe o vestido. será que não tem a ver? Os 177 . como é que a irmã não vai saber. GARCÍA MÁRQUEZ . e me confundi. um tom mais lírico. ROBERTO . Belinda canta quando sai para arrumar o jardim. deduzimos que Belinda canta muito.. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ .. e não a audição. SOCORRO ..Sidália poderia receber rumores através do padre.O vestido deve ser associado com a elegância. Os vizinhos dizem que volta e meia ouvem Belinda cantar..Belinda.O único lugar da casa que está muito bem cuidado é o jardim.. com Sidália saindo da escola.Não.para ela e para nós . a cintura. Já que vamos brigar com os censores. Belisa. Acontece que eu não vi a foto original. que pelo menos seja uma briga das boas. É como se recuperasse o desejo de viver.são a vista e o tato.Aí ganhamos sutileza. chegando em casa.. mas perdemos impacto. os sentidos que passam a ser predominantes . GARCÍA MÁRQUEZ .Eu insisto: aí.A propósito: para dissimular aquela questão da masturbação para a censura. acaricia os próprios braços. REYNALDO . como a imperatriz do Japão se protegia da chuva. E nessa atmosfera idílica... requer mais tempo de desenvolvimento: um ritmo mais lento. pensaríamos: “Está experimentando um vestido de festa. VICTORIA .. ou um enxoval de noiva”. ROBERTO . vi uma reprodução em preto e branco.Mas eu gosto da idéia de associar o vestido ao canto. Se Belinda começasse a cantarolar enquanto se veste.. podemos fazer que Sidália seja amante do padre. com ou sem o padre? Todo mundo sabe.GLÓRIA . A do silêncio tem uma desvantagem.As duas opções podem funcionar.. Era uma sombrinha. com a sensualidade. Por isso. o silêncio me parece mais eloqüente que o canto. para que vocês vejam.Os vizinhos sabem de tudo.....

. GLÓRIA . GARCÍA MÁRQUEZ .Não deve ser um daguerreótipo.Não está parada: estão todos em movimento.. dois: um da mãe e outro do pai. SOCORRO . porque na tela os daguerreótipos não aparecem. REYNALDO . Nos dois lados. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO .Ou pisando nelas. casinhas de dois andares. GARCÍA MÁRQUEZ . As meninas saindo debaixo do sol. Os dois estão juntos na parede da 178 . e a casa por fora.Nós dissemos que ela é professora? Dá aulas num colégio de freiras. SOCORRO . Uma mulher dessas não desvia por causa de uma pocinha de nada.Novo corte: Belinda terminando de se vestir: Isso é o que vemos: uma mulher bastante bonita que está pondo uma roupa muito bonita. duas coisas: a distância que existe entre a escola e a casa.. “Até amanhã.. ela atrás. mas que visualmente é belíssimo. Anote a. Vapor aliás.. Tem que ser um grande retrato pintado a óleo. Corte..Está arrumando o cabelo na frente do espelho. A casa por dentro. Temos de ir construindo personagens.Mas está suja e despenteada.Parou de chover.E a fumaça que sobe.Na primeira vez que a vemos. Ou melhor. essas casas de muros brancos. vapor que sobe dos chacos.Amores de Dom Perimplim com Belisa em seu Jardim é uma peça de García Lorca. essa cidadezinha de ruas desertas. chuva que cai. como se fosse do inferno. dona Sidália”. embora um tanto antiquada. GARCÍA MÁRQUEZ . está o retrato da mãe. mas ela não se dá ao trabalho de fechar a sombrinha. abrindo a sombrinha.. quando cai um pé d'água.Vamos indicar isso para o assistente de produção: rua que reverbera debaixo do sol. em cima do baú. empedrada de paralelepípedos. E na parede. despedindo-se das alunas. que ninguém sabe explicar o que está fazendo aí. ROBERTO .. cobertas de cal.Vemos.Sidália vai saltando as poças.. parecida com a mãe. Percebemos isso? ROBERTO ..Belinda é bonita... das pedras. essa é uma história bem de Lorca: esse par de loucas trancadas num casarão. ROBERTO . ela está parada na porta da escola. Em alguns povoados do Brasil. Acaba de chover de terra úmida sobe um vapor denso”. assim. é tanto calor que quando chove. SOCORRO . sai fumaça do chão. E. Socorro: “Sidália via por uma rua ardente. essa mulher vestida de negro. olhando bem. Sidália entra no jardim.

mas não adiantou. morto heroicamente em batalha.. A gente sabe as horas pelos ruídos que chegam da rua.No momento em que Sidália entra em casa.Se Sidália sempre sai da escola à mesma hora. Belinda é reincidente. Fica claro que não é a primeira vez.Teríamos de filmar as duas propostas e ver no que dá. GARCÍA MÁRQUEZ .No retrato.Porque uma pessoa como Belinda não anda com um cronômetro. Só falta uma coroa para que ela pareça uma rainha. GLÓRIA .Não é. mas também por causa do cadeado. Por isso Sidália está tão furiosa: não só pelo vestido.Mas eu não desisto da idéia de que o vestido produza o mesmo efeito das flores.Nessas cidadezinhas ninguém precisa de cronômetro ou de relógio.. Por isso Sidália fica tão furiosa e diz a ela: “Chega!”. Belinda está cantando.É importante que isso seja notado..Sidália botou um cadeado na arca.São os dois únicos quadros que sobraram na casa. já que Sidália tomou providências para evitar que sua irmã tornasse a tirar o vestido da arca. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . GLÓRIA . GARCÍA MÁRQUEZ . com seu uniforme e suas condecorações de coronel da artilharia”. e é uma pessoa tão metódica. SOCORRO .No meu filme. não cantaria... como é que Belinda se deixa surpreender? ROBERTO . e do pai mesmo que é bom. na penumbra se detém sobre a moça adormecida. Belinda arrebentou o cadeado. Muito bem: isso resolve o problema.E se essa for a primeira vez que Belinda põe o vestido? CECÍLIA . A câmera passa por ali. VICTORIA . pela brisa que entra pela janela.. REYNALDO .Essa decisão ainda está pendente: nesta primeira seqüência. GARCÍA MÁRQUEZ .Se for assim..sala. Ele está vestindo seu uniforme de general. mas em off: não sabemos quem canta. a mãe está usando o famoso vestido. MARCOS . GARCÍA MÁRQUEZ .. pela sombra que se projeta no chão.Ali.. não vemos nada.. ROBERTO . 179 . uma sensação de euforia que a leva a cantar.Belinda põe o vestido para o pai. medindo os minutos. Belinda canta ou não canta? ROBERTO . Há roteiristas que escrevem: “Em cima do criado-mudo vemos um retrato do pai. por que não trancou o vestido à chave e guardou a chave no decote? SOCORRO .

Sidália quer ser como a mãe . GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ .Um diálogo? Entre quem e quem? REYNALDO .Ou com tanto ódio.Belinda tinha três anos quando o pai morreu. ROBERTO . MARCOS .Sidália ama também o pai..E se Sidália odiasse a mãe em segredo? GLÓRIA . MARCOS . GARCÍA MÁRQUEZ . poderia ir até o retrato da mãe e pedir desculpas. No parto.. SOCORRO . A relação entre as duas se define assim.Sim. por que guardaria o vestido com tanto amor? GARCÍA MÁRQUEZ .Por que não voltamos à seqüência inicial? Dissemos que Sidália. GARCÍA MÁRQUEZ .. na figura da mãe. porque Belinda se parece com a mãe. ROBERTO . REYNALDO .Bate por causa do vestido. REYNALDO . É que odeia sua irmã. 180 .Um monólogo.Ela não recorda do pai . ao surpreender Belinda com o vestido.Então. Depois.Não é que Sidália odeie a mãe. Esse vestido oculta um drama muito.. .. mas muito complicado mesmo.mas acontece que quem herdou a beleza da mãe foi a irmã louca. e também por causa do cadeado. De Sidália. embora um tanto vaga. CECÍLIA .Pedir a quem? SOCORRO ...É aí que mora o drama. aos olhos de Sidália. escondida. que as duas mulheres são irmãs. GARCÍA MÁRQUEZ . seus trapos. podemos pensar que se trata da relação entre uma senhora déspota e sua criada.E com a agravante de que. quando Sidália vai se confessar. mas o ama.Essa informação pode ser deixada para depois. Agora. SOCORRO .É preciso elaborar um diálogo muito sutil para insinuar sem dizer. Belinda matou a mãe.É disso que tenho medo. SOCORRO . aquela pele... Ama e se oferece a ele num ritual.aquele cabelo. Pediria desculpas por causa do vestido.conhece-o pelo retrato e pelo que Sidália contou -. Pode conservar alguma lembrança dele. Esta poderia ser uma das suas fantasias.A mãe.SOCORRO . Seria funesto que o espectador acreditasse que esta senhora está furiosa porque a empregada experimenta. O que ainda não sabemos é que são irmãs.Um solilóquio. Sidália fala sozinha. bate nela. feito Belinda..

ficamos sabendo que Sidália também sabe. Sidália explode. era a filha da velhice. e dá uma ordem duríssima: “Tire esse vestido imediatamente!”. ROBERTO.É isso que diziam dos romances de trinta anos 181 . ela era “o retrato vivo da mãe”.Essa primeira seqüência deve terminar com Belinda amarrada na cama. E nesse momento. e o pai via a filha menor como órfã. tinha pena dela. mas com as luvas.Sidália não odiava a mãe: invejava..O quadro das motivações está completo. GARCÍA MÁRQUEZ . têm de ser atrozes.. O vestido é uma espécie de símbolo dessa inveja. E. porque. GLÓRIA .Essas cenas de violência são uma dor de cabeça para os diretores. Assim matamos dois pássaros com uma só estilingada: revelamos o caráter de Sidália e damos informação sobre as relações familiares. Uma situação como essa não se dá facilmente entre pessoas normais. Sidália vai gritando todas as ofensas que passam pela sua cabeça. que chego a pensar: e agora? Como manter esse nível? Como continuar? REYNALDO .Isso resolve o problema de despir Belinda. Que imagem! E enquanto Sidália a amarra e insulta. sim. É uma situação muito tensa.. GARCÍA MÁRQUEZ . mas ouve bem o que eu vou dizer!”.E além disso. ROBERTO . Belinda olha com ódio. Mas esse momento não chega jamais. Representa a vitalidade. Agora.Primeiro Sidália fica plantada na frente de Belinda. Sidália fez com que ficasse assim.Belinda também vestiu umas luvas de renda. pelo que dizia. Portanto. SOCORRO . depois. “Não diga nada. Sidália a amarra assim. seminua. mas sem dizer nada.O pai também preferia Belinda..GARCÍA MÁRQUEZ .E não tira as luvas. quando vê a irmã com o vestido da mãe. Sidália sempre quis ter um vestido como esse. REYNALDO . Belinda não é assim. GARCÍA MÁRQUEZ . Os americanos. Enquanto amarra a irmã. Não são fáceis. quando rasgam o vestido? Só as luvas sobrariam intactas. os insultos de Sidália. a beleza que ela não tem. e o guarda para vesti-lo em algum momento muito especial da sua vida. Tão tensa. começa a insultá-la. sabem fazer isso. desgra‡ada! Engole essa língua. quando parece que tudo já está em ordem. GARCÍA MÁRQUEZ . Nós já sabemos que não é muda. GARCÍA MÁRQUEZ . Ela mesma tira o vestido.E por que não deixamos as luvas de rendas para a segunda cena de violência.

. o senhor acha que podemos exorcizá-la?”. sim.E Sidália. pela bestialidade da sua conduta.. Até onde chegamos.. ROBERTO . ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . Por quê? Quando? GARCÍA MÁRQUEZ . E fala disso com o padre: “Padre. isso é uma coisa muito séria. GARCÍA MÁRQUEZ . Sidália terá que desamarrá-la.”.atrás: “Os americanos. SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ . E para ela. às lágrimas ou ao cilício? SOCORRO . MARCOS .. enquanto 182 .. Isso nos convém.Nós ainda não sabemos como o filme continua. MARCOS .A cena seguinte é muito plácida: Sidália na igreja. Imagine que ela rompeu o cadeado da arca e tornou a pôr o vestido”.O que me preocupava era o depois.Por que amarrar Belinda? A moça pode ficar jogada num canto. GARCÍA MÁRQUEZ ..O que eu quero dizer é que fica difícil resolver na tela uma briga entre duas mulheres. não ponha Sidália no confessionário! Que seja uma seqüência em movimento.O grande problema desta história é que ela pode fazer a gente perder o sentido das medidas. dizia. Ela se sente culpada. GARCÍA MÁRQUEZ .Se a confissão de Sidália nos serve para alguma coisa. “Padre.Aqui. nesse ponto ele solta o rolo familiar inteiro. sempre no papel de vítima. E o padre. A outra é um animalzinho. O ideal seria que tanto ela como o padre estivessem montados em cavalinhos de carrossel.Sidália não acha que a irmã está louca.Sidália está louca mas não perdeu o contato com o mundo exterior. sempre disse que você e sua irmãzinha.. “E vosso finado pai. que descansa em paz e na Glória... rezando ou se confessando.Aí Sidália solta tudo. porque se associa à camisa de força. ela está pior que nunca.É que amarrar implica um elemento de loucura que opera nas duas direções: na de Sidália.. GARCÍA MÁRQUEZ .. Enfim.e que Deus o perdoe -. depois de levar uma surra.. fica claro que só uma ataca. Acha que está tomada pelo demônio.Por favor. que conheceu os pais das duas: “Vossa santa mãe. pois Sidália é das que se castigam com cilícios.. é para explicar que Belinda é sua irmã. SOCORRO . e que Sidália acha a irmã louca. a de se entregar à bebida . não se defende. porque nos permite sair da casa e arejar visualmente o filme. e na de Belinda. sabem escrever livros”..

Corte. SOCORRO . que é como uma mãe para você? O que você ganha fazendo-a sofrer?”.. padre. ofegante. alcança o padre e diz que precisa falar com ele. GARCÍA MÁRQUEZ . ela está fora de si”. O padre passa perto.. O que ela quer realmente é que o padre exorcize a irmã. Agora os dois estão caminhando na direção da casa. GARCÍA MÁRQUEZ . o padre contempla Belinda. esperou que o padre terminasse de resolver seus assuntos.E o padre desamarra Belinda como se ela fosse um avestruz. talvez com soluços afogados. Um diálogo cortado. Chegam. podemos recorrer a uma elipse: passaram-se vários dias. que fale com ela: “Ao senhor ela acata. padre”.. SOCORRO .Eu vejo a cena assim: Sidália está rezando.. Sidália se levanta..Sidália mandou um recado. O que eu me pergunto é outra coisa: por que não damos mais importância ao boticário? E inclusive.ficaria claro. tudo voltou ao ritmo normal. padre. SOCORRO .Sidália. no átrio da igreja.E quem chamou o padre? MARCOS . começa a abençoá-la e rezar e enquanto isso.Mas o padre.Se Sidália for diretamente procurar o boticário para buscar o sedativo. a desamarra. Arrebentou o cadeado e tornou a pôr o vestido”. Sidália abre a porta: “Que bom que o senhor chegou. O padre bate na porta da casa. murmurando: “Fez de novo.conversam. Corte. se você quiser. nós teríamos de eliminar o padre. é um elemento-chave. assim. para facilitar as coisas? GARCÍA MÁRQUEZ . percebe? O corte limpo só pode ser de Belinda.. ROBERTO . para Sidália na igreja. GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO . Tem um problema de continuidade.... Depois. aqui. SOCORRO . e o padre principalmente. 183 .. “Por que você se porta assim com a sua irmã..Pode haver um trânsito violento..Não é um corte limpo. que todo mundo est maluco. por que não metemos na casa alguma empregada velha. E assim Sidália abre o jogo no trajeto entre a sacristia e o átrio.Para deixar Belinda em liberdade. Sidália pede ao padre que vá ver a irmã. Pode haver passado o tempo que você quiser entre o momento que Sidália amarra Belinda e o momento que está na igreja rezando. padre! Ela está pior do nunca''. apressado. Impossível: ele não pode atendê-la nesse momento. amarrada. mas cheio de informação.. ajoelhada na frente de um grande crucifixo. “Rápido. Sidália amarra a irmã..Não.. pode criar um tempo morto com imagens de ambiente.

Deixe-me resolver esse assunto”. SOCORRO . Ela sentiu várias vezes a tentação de falar com o padre. Voltou ao seu estado normal... como gorjeios. sai correndo e se esconde em algum lugar. MARCOS . não dá. E quando Belinda se vê livre. a informação sobre o passado. totalmente calma. ou numa cadeira. GARCÍA MÁRQUEZ . Sidália trancou o vestido à chave.. SOCORRO . momentaneamente. Sua irmã vai surpreendê-la de novo? SOCORRO . vai dando conselhos a ela. porque não encontrava a chave do cadeado.... SOCORRO ..O padre entra sozinho. GLÓRIA . Agora temos que ver como a crise volta a se incubar: Eu vejo Belinda caminhando sozinha pela casa e articulando sons estranhos.. dura como uma estátua...Belinda pôs flores nos cabelos. E de repente. e enquanto desamarra Belinda... Por isso. Belinda tira a chave do seu esconderijo e entrega. voltará a sentir a urgência de pôr o vestido.Com a sombrinha.Terminamos de resolver o pedaço mais difícil. GARCÍA MÁRQUEZ . agora Belinda levanta. É preciso ver Belinda enlouquecer aos poucos.Não. Já podemos cortar para ela no jardim.Ou se levanta. e lá está Belinda no jardim..Sidália sai da farmácia com um vidrinho. Dentro de pouco.Não pode ser.. Deixou em cima da arca.Corte.Quando entregou a chave ao padre.O padre chega na casa e. cantando. GARCÍA MÁRQUEZ . Agora. trancando com o cadeado. GARCÍA MÁRQUEZ . é capaz de compreender os seus traumas. cantarolando. começa a cantar. conhece a moça desde que que ela nasceu.Sim. 184 . mas é preciso ver que tipo de cura Sidália quer para a irmã: uma cura espiritual ou uma cura corporal? As duas. Registrem: eu falei sombrinha. Está como reencontrando a si mesma.O padre é meigo com Belinda. ROBERTO .Ela se levanta. O padre estende a mão pedindo a chave. GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS . e torna a apanhar o vestido! REYNALDO .Cuidado: guarde essas imagens para o final.GARCÍA MÁRQUEZ .. Já est calma. e não guarda-chuva.. Belinda se rendeu. ordena a Sidália: “Fique aqui fora. na porta do quarto. com calma total. veríamos Sidália indo para a farmácia. A chave está com Belinda. Pelo menos. e fica ali. dobra o vestido cuidadosamente e guarda-o na arca.

quando Sidália a surpreende e rasga o vestido. Diz: “Belinda.... quando ela sai na rua falando pelos cotovelos.. E lembre-se de passar o espanador pelas prateleiras do quarto”. SOCORRO . e falando com elas...Belinda costuma se acariciar enquanto dorme. nem água corrente.Perderíamos o impacto da cena final. sua desgraçada!”.Todo mundo sabe que Belinda fala. mas ninguém – nem mesmo nós. uma pequena dose de vida cotidiana. Vê a irmã se contorcer. Tomam banho de balde. suspirar.. então ela não fala. tira água do poço.Estamos num povoado rural. GARCÍA MÁRQUEZ .Mas uma onanista não se masturba apenas nos “momentos de clímax”.Para a sua empregada.Precisamos de uma trégua. Eu vejo Belinda na casa.Belinda cozinha. Não tem eletricidade. SOCORRO .Belinda se masturba no banho? SOCORRO .Belinda fica sozinha o dia inteiro..Elas não têm água encanada? SOCORRO .Exato. GARCÍA MÁRQUEZ . Só emite sons. Ela só se masturba no momento clímax. e faz um sinal da cruz encandalizada... SOCORRO . REYNALDO . As duas irmãs estão tomando o café da manhã.Vamos voltar à rotina da casa. Fala com as flores numa linguagem codificada.É estranho que ela não tenha tido a idéia de amarrar guizos nos pulsos de Belinda. As duas irmãs dormem no mesmo quarto. você está perdida..Não. os espectadores . DENISE .Belinda não tem intenção de matar Sidália. limpe bem o armário do banheiro.. Sidália está dando a Belinda as instruções do dia.Poderíamos tentar até mesmo uma cena mais mórbida: 185 ...ouve Belinda falar.....GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO . ELID ... SOCORRO . lava.Bom. em 1930. GARCÍA MÁRQUEZ .E que momento é este? GLÓRIA . REYNALDO . DENISE . gritando do: “Agora sim. Sidália vê como Belinda se toca.. Por isso o vestido tem que ficar trancado a cadeado. nem nada. até o momento em que agarra uma faca e avança sobre a irmã. arrumando um vaso de flores que acaba de trazer do jardim.Mesmo com um toque de loucura. SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ .

desfazendo nós. Por exemplo: Belinda acaba de tomar banho e Sidália. Agora está arrumando seus cabelos. nunca conheceu um homem. Além disso. Sidália não tem nada a ver com o divino... SOCORRO . enquanto isso. entrou na menopausa sem nem mesmo ter tido um namorado. excitada... é a sua mãe. GARCÍA MÁRQUEZ . ou de mamãe.. Afinal. SOCORRO . mas cujo fundo secreto é a loucura.. Depois. os fragmentos da vida cotidiana..E Belinda está muito tranqüila.. sabe? Com gema de ovo. O que viria depois? 186 . nesta relação das duas. O rádio ainda não chegou ao povoado. REYNALDO . trata a irmã com muita ternura. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . como se fosse uma menina. SOCORRO . Primeiro.Para todos os efeitos.Na Colômbia. Não é possível que não tenha nem uma gota de sexualidade. com um vestido novo. GARCÍA MÁRQUEZ . CECÍLIA . e Sidália tocando os seus seios. necessariamente.Mas Sidália está sexualmente frustrada. E enquanto isso. SOCORRO . Há. Pode ser discretamente insinuada.as duas nuas . carícias. penteando.. ou da sua: da minha. GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS . uma espécie de servidão que não sabemos exatamente em que consiste.A loucura mística foi mais vista no cinema que a loucura simples. Não é uma relação lésbica.Esta não precisa ser escandalosa. MARCOS ..Elas podem estar escutando música.e armou-se um escândalo que chegou até o Congresso. deixando-se ser amada. tem ataques histéricos. CECÍLIA .Essa relação é muito boa..Quem anda precisando de marido é Belinda.. mas enquanto isso a acaricia..Não se pode esquecer que Sidália é uma beata.“Mamãe lavava a cabeça todos os dias...Eu acho que com o café da manhã e o penteado resolvemos as cenas de transição. porradas.. SOCORRO . deixa que suas lembranças fluam: “Você tem o mesmo cabelo de minha mãe”.Elas não têm rádio.. E gostava que eu escovasse o seu cabelo”. quando Belinda ainda não tinha nascido. GARCÍA MÁRQUEZ .. SOCORRO . Sidália criou a irmã. fizeram uma cena de lésbicas na televisão . enquanto a penteia.Belinda adormecida.Sidália conta à irmã como eram as festas que davam na casa.Não da nossa. Uma cena de lesbianismo incestuoso..Ou podemos abordar a questão de outro ângulo.Descreve a mãe numa dessas festas..

. Sidália..e sair às ruas para se diplomar de maluca.. arrumada..CECÍLIA . os seios.. GARCÍA MÁRQUEZ . Sidália briga com ela porque a irmã não quer falar.. Belinda se acariciando no sono..Já estamos na metade do filme. penteada... Agora dá banho. CECÍLIA .. ou a dependência mútua? GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . REYNALDO . MARCOS .E se encontrássemos outra cena sugestiva para deixar bem clara a relação de amor-ódio. saberá que é pecado não levar a irmã à missa dos domingos. vestida.E continua ensaboando....E Sidália vai de novo ao padre. SOCORRO . Temos que começar a desfazê-los.. CECÍLIA .A cena noturna. e põe perfume? Estou vendo as duas: “Ah. SOCORRO .Só podemos tirar Belinda de casa quando ela puser o vestido . GARCÍA MÁRQUEZ .. não responde. REYNALDO . Que momento! Diga a verdade: tem alguma coisa mais sugestiva? A irmã cinqüentona dando banho na irmãzinha de trinta.. mas não consegue se banhar. SOCORRO. esfregando..seu uniforme de louca . cozinhar arrumar a casa. ao boticário. penteia. Não podemos continuar dando nós. Sidália ouvindo seus suspiros. 187 ..E por que não? E o que todos nós fazemos.. e desde que amanhece. servindo o jantar a Sidália.”.Mas esse dia é domingo..Eu acho essa cena muito reveladora. GARCÍA MÁRQUEZ .. As boas meninas não mexem aí”. Por quê? A única resposta possível é a seguinte: porque Sidália não deixa. como a minha menina ficou bonitinha! Vamos ver.Se Sidália é tão católica. recrimina: “Isso é feio.Mas Sidália vai ficar falando sem parar? GARCÍA MÁRQUEZ . REYNALDO . E menos ainda com a aprovação de Sidália. as orelhinhas.Sidália não deixou nunca.E passa talquinho. SOCORRO . vê que a irmã acaricia o próprio sexo. mas com um avental.. Sidália bate palmas..Belinda não deve sair de casa.Enquanto está dando banho em Belinda.O que você acha deste: Sidália dá banho em Belinda. porque Belinda pode limpar...E quando termina de servir a irmã. vai até o piano e toca. E a cena termina assim: Belinda banhada. veste.. só isso já dava um filme! Belinda é como uma boneca. quando deixam. Belinda se veste e senta na sala com a esperança de que sua irmã a leve à missa.. Antes só penteava..

GARCÍA MÁRQUEZ . a dos chamados momentos da vida cotidiana. vou ler aqui: “como se Belinda fosse um avestruz”. E finalmente.Não. As duas irmãs estão dormindo.Que bom final para essa seqüência! A única coisa que falta é Sidália ir até o banheiro se masturbar.Sidália percebeu que a irmã está se masturbando. SOCORRO .Nesse momento. essas cenas serão cortadas depois. que filme até o fim. DENISE . Primeiro... Eu acho que agora seria bom dar algum antecedente do erotismo reprimido de Belinda. meu doce amor”. Além disso.“Me ame muito. e vemos que Sidália. nem passa pela cabeça de Sidália ralhar com Belinda. Os detalhes podem variar. ELID .. prefiro sugerir. SOCORRO . mas chora muito. e termina com o padre desamarrando Belinda. ela não canta: ela toca. que começa com Sidália banhando e penteando Belinda e termina com Belinda servindo o jantar e tocando piano para Sidália.Não... a que começa com Sidália saindo da escola enquanto Belinda põe o vestido. Isso nós ainda não vimos. Seja como for.Já vimos uma boa mostra do erotismo mórbido de Sidália.Esse é o eixo narrativo. Não pode haver tanto onanismo num filme tão curto. com os olhos muito abertos. é que ponha o vestido da mãe.Acho que me perdi. SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ ... GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . Chora no mais absoluto silêncio. não diz nada.. e termina com Sidália surpreendendo Belinda e amarrando-a na cama. Depois a que começa com a conversa entre Sidália e o padre. está prestando atenção a um barulhinho que chega da outra cama: é um ofegar que vai se acelerando e termina num suspiro de êxtase. aos borbotões. DENISE .Não. SOCORRO . 188 . Morde os lábios. Quando é que Sidália vai à farmácia? VICTORIA . a ponto de não conseguir mais suportar..REYNALDO .Pois vamos ver.De acordo com as minhas anotações. são três grandes seqüências iniciais. Nem bater nela: é como se reconhecesse que a irmã tem direito a esse mínimo de privacidade.A única coisa que deixa Sidália furiosa com a irmã. Está literalmente banhada em lágrimas.E aí: como a história continua? SOCORRO . E então começa a chorar.É verdade. É de noite. Se você decidiu filmar.. eu já falei: essas coisas. ou parecem estar.Seria bom esclarecer o que elaboramos até agora. ROBERTO . SOCORRO .

precisamos um filminho completo. Já podemos começar a última parte. embora depois tenham se complicado bastante . que caiba nesses dez minutos finais. mais ou menos. quando vê que sua irmã morreu.Ela disse a Belinda: “Tira essa roupa”. clímax e desenlance.. SOCORRO . o vestido não está rasgado.. que seja um obra-prima.Assim poderia começar a parte final: do pranto silencioso de Sidália. quem rasgaria o vestido? GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO.. saia à rua e se assuma como louca.. 189 . e em determinado momento. bate nela. SOCORRO . ELID . pleno processo de decadência. ela estivesse se masturbando -. Sidália costurando e ao mesmo tempo. Eu acho que não devemos continuar adiando o clímax.Morreu? Está morta? Eu pensava que só aí. Ela mesma havia rasgado.. Belinda acha que ela desmaiou. Sidália cai e bate a cabeça no pé do piano e fica imóvel. não precisamos mais de antecedentes. e a confusão é enorme. à atitude concentrada de Sidália remendando o vestido no dia seguinte. uma classe arruinada. durante a primeira disputa. você terá que analisar esta história a partir de seu contexto. porque desta vez Belinda não apanha quieta.Rasgar? Ninguém.na qual Sidália esteja remendando o vestido. No que diz respeito a nós. mas está remendado. ela é mais forte que Sidália. não têm por que dormir em camas separadas. porque senão. quando via a irmã morta. durante a cena da masturbação.Bem.Sidália dorme na cama de casal. GARCÍA MÁRQUEZ . quase ao seu lado. Belinda tocando piano. Você precisaria imaginá-la num ambiente da velha aristocracia rural. mas na verdade. E além disso.Se elas dormem no mesmo quarto.num daqueles momentos de trânsito que chamamos de vida cotidiana. Temos ainda dez minutos.Mas aí. Na verdade. numa cama menor.ROBERTO .Em algum momento. Belinda. enquanto puxava o vestido pelos ombros. Pode haver uma cena anterior . Empurra a irmã mais velha. Do ponto de vista da progressão dramática. Belinda abria a arca e punha novamente o vestido... além disso.Pois é.. nem vale a pena tentar. SOCORRO . Sidália torna a encontrar Belinda com o vestido – a idéia original era que. GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO . Agora. com introdução. é muito melhor que Belinda se vista. só agora. GARCÍA MÁRQUEZ .

e vimos quando ela chorou. ROBERTO . tira o vestido da arca e começa a costurá-lo. SOCORRO .. Assim.Um momento. a melhor coisa que se pode fazer é começar de novo. ELID .Depois de um momento desses. envolvidas na atmosfera sentimental de um melodrama. É domingo. Se vemos Sidália recuperada. as duas se sentam na sala: Sidália. é preciso um corte.As cenas noturnas não admitem graduações. e Belinda.. MARCOS . Já sabemos que esta paz vai terminar num desastre. Nós. mas de outra perspectiva? Sidália chorou um oceano. não: ela.E se voltarmos para a noite da masturbação. SOCORRO .Pode ser a manhã do dia seguinte. GARCÍA MÁRQUEZ . conforme for mais conveniente. o espectador logo acha que se trata da mesma noite. para tricotar.Poderia haver um corte para a madrugada desse dia – ou do dia seguinte . Se a gente passar de uma cena noturna a outra. Não estou falando de leis dramatúrgicas. estaríamos nos referindo às suas insônias constantes. mas de truques narrativos: quando se chega a um ponto muito alto. GARCÍA MÁRQUEZ . Belinda tocando. Socorro.Você pode situar a história um pouco antes ou um pouco depois. Quando Sidália termina de comer. A idéia da radionovela é boa: as irmãs costurando e bordando... e Belinda de tocar piano .Tanta placidez acaba sendo suspeita. Sidália se levanta. você tiraria força do choro.. se quisermos nos manter fiéis aos nossos princípios anarquistas. a cena perde força dramática. três seqüências.Em 1930? GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . precisamos de uma pausa. e agora está sem nenhum sono.SOCORRO .para que Sidália costurasse o vestido nessas horas..me refiro à primeira versão -.Mas isso foi há duas.Mas já vimos essa estrutura: Sidália comendo. a partir do qual é impossível continuar subindo.Nesse caso. uma cena de passagem. não consegue dormir: Belinda dorme profundamente. GARCÍA MÁRQUEZ . é porque precisamos de um vestido remendado 190 ....Eu preferiria adiantar a cena do remendo. ROBERTO ... SOCORRO . SOCORRO . Se reconhecemos a necessidade de rasgar e remendar o vestido. Tem que ser assim. Parecia que Sidália era incapaz de chorar. Agora.Elas podem estar ouvindo radionovela.. você sabe. acende uma lamparina. Aí consegue-se um momento muito tenso. para remendar o vestido. percorrer outra vez o trajeto inteiro. lá de baixo.

E ela acha que isso também aconteceu por culpa de Belinda.. quando Belinda saí à rua dando gritos. começa com Belinda. tocando. Sidália quer o vestido como um relíquia.. GARCÍA MÁRQUEZ . Agora. escolhemos este porque é agora que tudo será decidido. enquanto Sidália costura o vestido. para que exista. E nada mais. Já estamos remendando. SOCORRO .Poderíamos passar a esse plano através de uma fusão? GARCÍA MÁRQUEZ . se não soubéssemos isso.. mas num ato de fúria cega. um elemento de reconciliação que não estava previsto. as primeiras notas do piano poderiam entrar sobre esse pranto silencioso.A música do piano pode entrar por fusão no plano anterior e alcançar o volume pleno no primeiro fotograma desta cena. Agora... com a imagem é preciso tomar cuidado.Mas esta é a primeira vez que o vestido rasga.para a cena final.Você precisa prestar atenção na continuidade: de onde vem e para onde vai essa cena? A anterior é a do pranto de Sidália Portanto. reina a paz entre as irmãs.É curioso. a harmonia passa. a trilha sonora. discretamente. GARCÍA MÁRQUEZ . De todos os ciclos idênticos.. bem. Isso. Sidália costura o vestido na frente de Belinda.Agora. Muito bem. O ciclo que vai das lutas à reconciliação e às novas brigas não acaba nunca. Quando a câmera se move. Muito bem. para existir. meio de viés. como se as duas sofressem um ataque de amnésia. Que interessante.Sidália é quem rasga o vestido.Belinda toca piano e olha o vestido.. Agora entendemos que isso vem se repetindo há quinze.um significado adicional. para sentir-se viva.Sidália quer o vestido para conservá-lo. mas as irmãs disputam o vestido por razões diferentes. GARCÍA MÁRQUEZ . e Belinda está sentada ao piano. Mas agora acontece que sai daí – dessa cena do remendo .. Belinda. vinte anos. Belinda toca piano... de repente. descobrimos Sidália costurando. É uma manhã esplêndida. Por isso. SOCORRO . porém. não saberíamos o que fazer com o bendito vestido. ROBERTO . e Belinda quer para gastá-lo.. para que não se gaste. porque os recursos técnicos têm sua gramática própria. Reforçariam o dramatismo da situação e não demoraríamos a perceber que não se trata de um simples “comentário com Sidália. Nesse mundo de violência soterrada..Por isso fazemos o filme agora. GARCÍA MÁRQUEZ . como se esse vestido e esses rasgos no tecido não as fizessem recordar nada. SOCORRO .. a luz do sol se filtra pela janela. SOCORRO . sou partidário de que 191 . A imagem.. a reinar.

.Quem pode suspeitar que uns poucos minutos depois dessa cena. Pode botar um pouco de veneno na sopa. Eu fiz isso. com muito cuidado: uma.Ou o padre. Não porque seja mais letal que outro venenos. DENISE .Sidália não dá diretamente uma colherada a Belinda: derrama algumas gotas na colherinha. quando quero envenenar um personagem. Isso provoca em Sidália uma reação.Uma overdose de láudano. mas sua ação não é fulminante. faz com que ela engula um pouquinho de láudano..Como chegou. pergunta a Sidália: “Você deu o remédio a ela? Quantas gotas?”. quando estudava o cinema. eu queria que Sidália contasse ao padre o problema de excitação de Belinda. Podemos economizar. mas porque tem um belo nome: láudano. Belinda já está sob os efeitos do calmante. no final daquela primeira seqüência.. Mas agora. e como Belinda dá o remédio a Sidália? GARCÍA MÁRQUEZ . pega o frasco na despensa e obriga Belinda a engolir uma colherada.Mas não mata a irmã de forma violenta.E agora Belinda. Eu.E a dose? Porque é preciso saber que uma overdose pode ser fatal. DENISE ... Com o remédio de Belinda.. duas.Quem cozinha na casa é Belinda.. porque é uma substância muito amarga..Ou então. acho que o boticário não faz falta.Não precisa saber. SOCORRO . onde tudo é harmonia. GARCÍA MÁRQUEZ . ao ver que Sidália sofreu um ataque. GARCÍA MÁRQUEZ. o dineiro do boticário.. Quando Sidália amarra Belinda. Podemos falar disso mais tarde. O próprio padre pode ir até o armário da sacristia e dar o frasco do remédio a Sidália? GARCÍA MÁRQUEZ ..Como o espectador fica sabendo que é láudano? GARCÍA MÁRQUEZ . ao chegar e ver Belinda atordoada. Belinda vai matar a irmã? GARCÍA MÁRQUEZ .No começo. e que o padre a mandasse ao boticário. três.. o remédio já está na casa. GARCÍA MÁRQUEZ. é cumulativa. O arsênico é um veneno 192 .. SOCORRO .. façam exercícios práticos de montagem. SOCORRO . SOCORRO . As pessoas falam muito de arsênico. Mas como esse remédio foi parar lá? MANOLO .Sidália poderia morrer envenenada. Quando o padre chega. se vocês quiserem. para o produtor. uso sempre láudano. vai até a cozinha.os roteiristas se sentem na frente da moviola para editar os filmes. Assim o espectador fica sabendo onde está o frasco.

Para dizer ao espectador que agora. rasga um pouco a parte do decote. víamos Sidália saindo. É o mesmo filme. com seus alunos. porque de repente Belinda fica impaciente e ao ver que a irmã cospe. não veríamos Sidália saindo da escola mas em plena rua. e a própria Belinda tirava sozinha. ou vice-versa. Um mundo completamente diferente. é melhor.. Fade out. Revela muito melhor a relação entre as duas. o que havia na colherinha. Sidália ainda está meio atordoada.. A reconciliação aconteceu antes. É uma infusão que. revisa. GARCÍA MÁRQUEZ . na classe.Entregue ao ritual. poderia haver uma dissolução de imagem. GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO . ou uma tarefa de escola: a professora vigia. SOCORRO . REYNALDO . Dramaticamente. SOCORRO .. debaixo do olhar vigilante de Sidália. tem propriedades purgantes. GARCÍA MÁRQUEZ .Na primeira seqüência. Sidália deitada. Fecharíamos a seqüência do banho com essa cena. a obriga a abrir a boca e faz com que ela engula meio frasco de laúdano. REYNALDO .É.Agora sim. Sidália na escola dando aula. o vestido não rasga na primeira briga.. com uma mudança de enquadramento. SOCORRO . então. Outro remendo para a pobre roupa. É isso que causa o desmaio e dá a Belinda a idéia de reanimá-la com o remédio fatal. REYNALDO . indo para casa. vemos Sidália lá dentro. Sidália manda Belinda tirar o vestido. e pronto.Se for assim. SOCORRO . no dia seguinte.O vestido pode ter rasgos e remendos anteriores. na 193 . Belinda costuraria.E a cena da costura seria antecipada.Não sei se ficou claro que Sidália desmaia ao ver que rasgou o vestido. a transição teria que ser diferente: de Sidália chorando a Sidália na escola. Socorro.Eu gostava da idéia de associar o vestido à masturbação. Belinda está sozinha em casa. Agora. instintivamente. e pode achar que o que Belinda está dando a ela é o seu chá.Antes. Não há nenhuma razão para abrir mão dessa cena. GARCÍA MÁRQUEZ .Ou seja. GARCÍA MÁRQUEZ . aprova. Danou-se. em termos de montagem. GARCÍA MÁRQUEZ . Sidália.. É como um castigo.Sidália costuma tomar chá de erva-cidreira todos os dias a mesma hora. E acho que a gente iria conseguir isso fazendo que Sidália costurasse o vestido rasgado depois daquela noite. chorando.Desta vez.Seja como for não teria tempo de verificar. sem querer. para ela..para longa-metragens.

Mas agora Belinda arrebenta o cadeado. também aqui. Vemos a mesma Sidália dirigindo o coro na escola. CECÍLIA . Sidália terminando a aula. mas quando se carrega a bateria.. Dando aula de piano.. REYNALDO .Sabe o quanto está se arriscando. Enquanto Sidália ensina como se usam os talheres . MARCOS .Sidália.É uma ansiedade de tipo sexual. Depois virão os prantos e o arrependimento. quando Sidália banha e penteia Belinda. não tem medo que Belinda tire o vestido da arca.Por isso eu tive essa idéia. Com um corte. pondo o vestido. GARCÍA MÁRQUEZ ..Está muito rebuscado... Belinda arrebentando o cadeado. REYNALDO . ROBERTO . MARCOS . Não precisamos mais ver Sidália na rua. porque agora trancou-o com um cadeado e não deixa mais a chave em casa: carrega sempre com ela. Corte. SOCORRO .. Por exemplo: Sidália está ensinando aos alunos como se deve usar os talheres numa mesa.É o que fazem num colégio de freiras....Na escola. de solfejo.seqüência que Roberto destacou agora. entram. GARCÍA MÁRQUEZ . Belinda não encontra com quê abrir o cadeado e vai à cozinha e revolve os talheres e apanha uma faca.Está louca para pôr o vestido...isso é um ritual -. as vozes de um coro de meninos. por dissolução.O que eu disse: a possibilidade de criar um contraste. Agora a história torna a se repetir exatamente igual: Sidália na escola..Agora. a levamos para a entrado do jardim.. É uma música angelical. procurando alguma coisa para arrombar o cadeado. ROBERTO . com os alunos internos. o que importa é criar um contraste. Eu aprendi a amarrar os sapatos num colégio de padres. mas não importa.. Belinda em casa. dois filmes simétricos.E o que a gente iria ganhar com essa história dos talheres? ROBERTO .Por que não fazemos.. Eu preferiria ligar Sidália à música.. Pelo menos.. Corte. a campanhia acaba de tocar.. GARCÍA MÁRQUEZ . REYNALDO . uma montagem paralela? Sidália dando aula.No decote. que ficam para as refeições. banhado em lágrimas refiro-me à cena anterior -. SOCORRO . Belinda se vestindo. No espelho da tela. GLÓRIA .Não conseguiu agüentar a vontade. zona pecaminosa. por sua vez. MARCOS . Belinda desesperada.. 194 . ninguém pensa nas conseqüências:nem que pode ser surpreendido. nem que pode ser morto.Já sei: sobre o rosto de Sidália..

Não quer fazer nenhum mal à irmã.foi assim que Socorro propôs? Não importa.Isso. diante do piano. e desmaia. Para dizer que Sidália não estava em casa.Se a cena da escola não proporcionasse esse lucro visual. Por isso tem um ataque histérico. para decidir o que fazer agora.. não se ouve um mosquito.SOCORRO .Belinda deu a ela as gotas como se fossem remédio. Aqui. Ao contrário. GARCÍA MÁRQUEZ . Lá na escola. GARCÍA MÁRQUEZ . mostrar todo este ritual.O que não me convence é a idéia do desmaio. morta? GARCÍA MÁRQUEZ . Este é o final. acompanhado o coro infantil. GARCÍA MÁRQUEZ .Que maravilha. SOCORRO . no quarto. ELID .Nós não vimos isso na primeira vez. GARCÍA MÁRQUEZ . para costurar o vestido.O que eu mais gosto desta encenação é o candor com que contamos a história.Não dá tempo. O que eu acho importante é ver Belinda se vestindo.Depois de dar o remédio à irmã. Não se perdoa. talvez não valesse a pena fazê-la. ELID . ROBERTO .É o que Melville disse quando terminou Moby Dick: “Escrevi um livro malvado e me sinto tão imaculado como um cordeiro”. cadê Sidália? Está dormindo. Vimos que 195 .É preciso que ela faça isso. REYNALDO . Belinda se tranca em outro quarto. flutuando como anjinhos contra um fundo azul! GARCÍA MÁRQUEZ . a agressão ao vestido tem todas as características de uma auto-agressão. não precisaríamos ir parar aí.Para ela. cantam os anjinhos. é um choque.A história ficou simétrica. REYNALDO . SOCORRO . e merece o mesmo tempo que o da primeira seqüência. Não consegue suportar a idéia de ela mesmo ter rasgado o vestido. Está fazendo com Sidália o que Sidália faz com ela: papel de enfermeira. SOCORRO .Sidália.. Precisamos ver o que fizemos no começo.E enquanto Belinda costura. está num estado de êxtase. SOCORRO . quando sem querer rasga o vestido? GARCÍA MÁRQUEZ . atordoada.O de Sidália.Belinda vai pondo o vestido no mais absoluto silêncio. Tem vantagem de revelar até que ponto Sidália está emocionantemente ligada ao vestido. REYNALDO . para ela. a história mais torta que alguém poderia imaginar. esse coro de criancinhas vestidas de branco. quer reanimá-la.

SOCORRO . Conta as gotas com muito cuidado. Sidália agredia Belinda.Acho que a gente viu. cospe. na montagem paralela: Sidália saindo da escola.Lá. nesta segunda vez. como se ela fosse criança. Então Belinda vai para a sala. São coisas 196 .Tem uma coisa que precisamos ressaltar muito bem logo na primeira vez: o fator remédio.. e quando Sidália entra no quarto. Agora. cortamos para Sidália. Um pouco além da conta. quando Belinda vê Sidália desmaiada. tranqüilamente. E aqui. ROBERTO . Belinda se vestindo. invertemos os termos: vemos todo o começo ou todo o final da cerimônia. dos armários: chapéus. que a gente veja ela se vestindo desde o começo.Sim.Mas no começo já dá ao vestido seu verdadeiro significado. mete na boca da irmã e obriga Sidália a tomar um gole.O sabor das primeiras gotas é muito forte . e dá uma colherinha para a irmã beber. Sidália se auto-agride. e na segunda. sem nenhum corte. Se só víssemos o vestido já em Belinda.Eu prefiro deixar essa cerimônia para o final.quando termina de costurar o vestido. diz para Belinda. do de Belinda. ou se tranca num desvão.Tem alguma coisa de brutal ou de grotesco. com os mesmos argumentos que ouviu tantas vezes Sidália . tome seu remedinho!” . ROBERTO . E se acabou Sidália. três. Eu gosto mais assim.“Vamos. Eu acho que é uma questão de montagem. SOCORRO . Fazemos o mesmo corte de ida e volta. cinco gotinhas numa colher.dá a overdose. Podemos dizer que na primeira vez contamos a seqüência do ponto de vista de Sidália. sei lá.. Na primeira vez.. ou em outro quarto. Sidália. GARCÍA MÁRQUEZ ... Belinda agarra o frasco. quando Belinda começa a se vestir. as rasgar o vestido. sim. ELID . nessa ação de obrigar uma pessoa desmaiada a engolir um xarope.. como diz Reynaldo. Mas ao ver que Sidália ainda semiconsciente as recusa. não seja malvada.se continuarmos pensando no láudano .. e começa a costurar o vestido. ou seja. e pronto: adeus. Agora. porque está muito ligada ao clímax. luvas. SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ . véus.. DENISE . Belinda já está vestida.e Sidália reage. Então Belinda. ele perderia importância para nós. “tome essas gotinhas”. faz a mesma coisa: pões duas. vai buscar o remédio para sedá-la. e não mostrado inteiro. GARCÍA MÁRQUEZ . Não tem que ser o frasco inteiro. volta a si. “Vamos ver”.Belinda já estava com o vestido.O ritual pode ser sugerido. Quando Sidália amarra Belinda. Belinda começa a tirar coisas do baú. quando a irmã chegava.

precisamos verificar. Sorri satisfeita.. É muito parecida.. É preciso ver esse filme.que aparecem no retrato da mãe.E as flores? Perdemos as flores no caminho. ROBERTO . é um filme de atrizes. ROBERTO .. que estão vindo pela estrada. mas também e talvez por isso mesmo .que vontade de exclamar: “Pobre fotógrafo!”. começa a soltar um discurso patriótico.. GARCÍA MÁRQUEZ . Aquela que Sidália dizia que a mão cantava... mesmo que seja em silêncio..E Sidália? Morreu. do láudano.. do começo ao fim. desde o princípio. O retrato se reflete no espelho.que está possuída pelo espírito do pai. podemos passar ao final. a que todo mundo está esperando: Belinda sai à rua vestida de louca e começa a dar gritos.O discurso de Belinda na rua deve ser incoerente. GLÓRIA ..Dizendo o que lhe vier à cabeça.Ou um poema. GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS . de atmosferas. e de tal forma que. Qualquer coisa. à cena obrigatória.Não faz mal. GARCÍA MÁRQUEZ . afinal? SOCORRO . ROBERTO .. SOCORRO .Um filme de ambientes.É um filme lento. quando já está vestida: ela toma o retrato como modelo. de perfil.O que está faltando para nós? Deixar claro.Uma canção.. a história do conta-gotas. Você conta as batidas do coração enquanto repassa as cenas. e ela se coloca numa posição na frente do espelho. Assim. GARCÍA MÁRQUEZ . e o tempo que der é o aproximado.Nossa versão dá mais ou menos de meia hora? GARCÍA MÁRQUEZ . o general. um puro jogo de palavras. ROBERTO . Mas tente resgatar as flores. GARCÍA MÁRQUEZ . um duelo de atrizes.Belinda não se 'compara' ao retrato da mãe. não precisa. MARCOS . 197 ... SOCORRO .Sim: Belinda sente que está encarnando a mãe. a convocar o povo à luta contra os inimigos..Isso é o que eu mais ou menos entendo por poema: um texto que se mantém erguido só pelo prestígio das palavras. Agora você só pode medir essa versão pelas batidas do seu coração... Alem disso. embora não sejam exatamente as mesmas coisas. GARCÍA MÁRQUEZ . é inenarrável. Belinda passa pela frente do quadro e se compara: de frente. Na realidade.. E então.Nós também não ouvimos Belinda cantar no jardim.Acho que ficou curta. Eu gostaria de terminar com uma cena dessas... Quando vai sair à rua.

Momposo .Incluindo até pedaços do passado. em Roma.Quem foi que chamou a imaginação de “a louca da casa? Seja quem for sabia muito bem o que estava dizendo. Bonito final. no caso dos roteiristas.Ah. e com todas as características do velho melodrama. e todo mundo rodeando a mulher no meio da rua. Lá. A imaginação trabalha sobre esses dados e a realidade não tem limites. GARCÍA MÁRQUEZ . Merecemos um aplauso. Aqui. o Amor e a Morte. Fui ao Centro Experimental de Cinematografia. com três ruas que correm paralelas ao rio. toda família que se dê ao respeito tem seu maluco. segundo contam – é um lugar cheio de loucos. GARCÍA MÁRQUEZ . A cadeira 'Roteiro' era. para aprender o ofício de roteirista. aprender a mexer na moviola. SOCORRO .um tijolaço de quatro horas. E sem um único flashback. por termos metido em meia hora o argumento que Socorro trouxe para nós..Esse final da louca saindo pela rua. as situações dramáticas se esgotam rapidamente: não há trinta e seis. aprendemos a lidar com essa.. sobretudo quando tem visita. na especialidade de 198 .Eu? MARCOS . E os vizinhos aparecendo nas janelas.. MARCOS . mas sem deixar que se excedesse. E eu encontrei o seguinte quadro: não havia curso de roteiro.Você disse que os roteiristas deviam fazer exercícios práticos de montagem. falando sem parar.terra de Deus. Todas as outras cabem aí. aliás. Permitimos a essa senhora andar por onde quis. há umas três situações dramáticas grandes: a Vida. GARCÍA MÁRQUEZ . sim! Essa convicção vem dos tempos em que eu era estudante. Estão rindo do quê? Não é verdade. onde a pessoa deita sozinha e amanhecem doze. A história que Socorro vai filmar poderia voltar às origens de um povoado colombiano chamado Momposo. senhora muito melhor que Sidália lidava com Belinda.Você ia nos falar das relações entre a teoria e a prática.Você falou e disse. GARCÍA MÁRQUEZ . Conseguimos comprimir em meia hora .meia hora.Pela primeira vez na vida. Em compensação. E um vilarejo tipicamente colonial.. o que eu disse? Elogio da gordura GARCÍA MÁRQUEZ . e o amarra numa árvore do quintal. que me atrevo a classificar de suntuosa ..SOCORRO . uma a mais..

para um futuro Roteirista. Passava as tardes inteiras na Cinemateca junto à professora de montagem. Havia no porão uma cinemateca excelente. Minha mulher não gosta de ir ao cinema comigo. o plano de estudos incluía um cursinho prático de moviola. é preciso aprender a gramática”.para os futuros roteiristas. Devo admitir que para mim. porque a gente perde a ingenuidade. para na revisores. Aprender a passar de uma cena a outra . os alunos. Assim. uma senhora a quem nenhum dos meus colegas dava a menor importância . aqueles discursos não foram totalmente inúteis: me serviram para aprender italiano. Eu fiz um ano inteiro de exercícios na moviola. sem jamais tocar a moviola.ou seja. enquanto nós. porque fico o tempo inteiro dizendo: “Este corte da janela para o automóvel fui um pouco brusco”. ou a Teoria da Linguagem Fílmica.Direção. permanecíamos imóveis ou cabeceando no sono.. Falta um curso de moviola .os Sábios Doutores da Lei – que viviam convencidos de que não havia nada mais importante neste mundo. Eu me limitava a estudar como funcionava a continuidade num relato cinematográfico. agarrar erros e distrações -. oferecidas por uns senhores . Ficava com ela estudando o fenômeno da continuidade. E isso chega a se converter numa deformação profissional como é. Já falei várias vezes disso aqui na Escola de San Antonio de los Baños. de montagem prática . ou. Aquilo não era Roteiro. Além disso. porque dizia que sem conhecer as leis da montagem . deixei de ir às aulas. E você tinha que ver como eram dadas essas aulas. Creio que é uma experiência fundamental para os aspirantes a roteiristas. a “arte de construir uma boa frase de montagem”. os sábios Doutores passavam horas e horas falando e ouvindo para eles mesmos. que é um idioma belíssimo. tudo isso com maiúsculas. como diria Kulechov.acaba sendo muito difícil para quem não saiba ver essa operação como um problema dramático e visual. ou a História Sócio-Econômica do Cinema. e a possibilidade de freqüentar a Cinemateca. que nunca tinha visto nem teria chance de ver na Colômbia. Quando conheci essa senhora. graças à qual pude ver os clássicos do cinema.. Tratava-se de aulas puramente teóricas. o frescor do olhar e acaba vendo o invisível: os cortes e os deslocamentos da câmera. mas que era uma fera na moviola. Em compensação.algo que parece tão simples . Estava muito orgulhosa. esse aí: puseram a 199 . nem era nada.. além disso. Ou para dizer como a minha querida professora diria: “Primeiro.que era como conhecer a gramática do cinema . que a Estética do Cinema.os roteiristas não conseguiriam escrever direito nem uma única seqüência. ou “Belo corte.. entendi que naquelas aulas não havia muito para aprender.porque achavam que sua matéria não tinha nada a ver com Roteiro -.

disse: “Você devia ter filmado de maneira que desse para fazer um corte aqui.câmera de lado. cento e cinqüenta.ao lado do diretor. um orçamento muito mais reduzido do que o que seria evidentemente necessário.Hitchcok. E como foi dito tantas vezes. imediatamente comenta: “Claro. mas podemos sintetizá-las em um: criatividade. diz que quando a personagem da mulher cai morta na chão. seria fazer os futuros produtores compreenderem que eles formam parte de uma equipe de criação. uns duzentos. teríamos que procurar a equipe que fosse perfeita. essa ambientação”. e conseguimos”? Conheço um produtor que estava eufórico porque tinha forçado um diretor a se adaptar estritamente no orçamento. para voltar ao assunto... A mulher dele. E quando vi o filme. E. para que víssemos o cachorro passar”. E o que dá o sentido da continuidade.. São várias. ou desse curso. é o trabalho da moviola. O cinema sem continuidade . não havia jeito de fazer um corte limpo. como a vida sem continuidade.. DENISE . notei de onde saiu a economia.. Enfim..não tem sentido. e não de uma fábrica de salsichas. para que saísse melhor. Os produtores costumam se sentir felizes quando podem dizer: “Isso ia sair por sete. quando você vê o resultado na tela. numa outra.”. Assim. a aliança de todos os fatores que contribuam para que um filme seja feito.. o dobro ou a metade? Não seria melhor poder dizer: “Isso ia sair por sete e resolvi dar nove. para que desse para ver o olho. Se o roteirista não consegue visualizar o que escreve como um fluxo continuo. é trabalho coletivo. Creio que já falei disso para vocês. eu já disse. quando vem o produtor e diz: “Estou furioso. vi de onde tiraram cada centavo: numa cena. é claro -.como um romance. que era editora. e não para impedir que o diretor gaste ou torre um dinheiro que não é dele.. se a gente pudesse acabar de escrever o roteiro na frente da moviola .. Pelo contrário. assim que abrir a porta”. Por isso. consegui fazer por quatro”. e por isso conseguiu esses contrastes.. situado sempre entre um antes e um depois. em outra. porque a cena tinha sido mal filmada. falando de Psicose. ou “Deveriam ter cortado na saída do túnel. É a prática da montagem o que nos permite dizer “corta um segundo antes. e que estão lá para facilitar e enriquecer o trabalho da equipe. A primeira função dessa oficina. porque na cena da ruptura Fulano foi tantos dólares além do previsto”. acho também que deveriam criar aqui uma Oficina de Produção Criativa. para poder fazer esse corte 200 . etc.. em outro mais modesto: continuidade. tudo seria melhor: E seria possível manter sempre a coerência do relato. não vai resolver problemas: vai criar problemas. e ele tornou a filmar a cena inteira. . faltavam vinte dólares.. A pergunta é a seguinte: o que ele conseguiu fazer pelos quatro? A mesma coisa. e não aí!”.

E é horroroso.. como já veremos. no fim de um capítulo . Se a cena não for cortada no momento exato. ROBERTO . para deslocar para a frente . mas eu noto em seguida. ou de um milhão. pode pôr a perder o melhor filme do mundo. três.. por razões econômicas. o diagramador tenta engolir essa “viúva” ou até uma linha inteira.ou seja. para trazer da página anterior . eles fazem o possível e o impossível. porque dá a impressão de que passou um ano entre a pergunta e a resposta. e todo mundo fica em paz. ou quase. para economizar 201 . Isto não é um problema teórico. ponto e parágrafo. incorporar tudo na página anterior.ou um espaço maior que o que corresponde – quanto tempo terá transcorrido? E se esse espaço adicional aparece no meio de uma resposta.uma ou duas linhas. às vezes.. mas numa de trezentos mil. o espaço equivalente às linhas deslocadas.. ou melhor pedaços de uma linha.mínimo. Sempre. Pode ocorrer também o contrário. no relato. Nesse caso. esse lapso é controlado através do ponto: menos tempo.Vocês podem até não acreditar. E com essa companhia a “viúva” deixa de ser “viúva”.cujo único texto seja uma “viúva”. uma montagem deficiente. para que o livro tenha uma página a menos.Uma edição ruim. “distribui” o espaço entre um parágrafo e outro. Vocês acham que o editor não economiza nada com isso? Numa tiragem de três mil exemplares a economia é pequena. E o editor. ponto. menos da metade de uma linha. fica subentendido que. conforme eu dizia: para economizar uma página. o significado muda. Para isso. Porque ao deslocar essas linhas. 'Todo mundo. Tanto o ritmo quanto a duração têm conotações dramáticas. GARCÍA MÁRQUEZ .o que é pior transformar um ponto e parágrafo numa frase contínua. a gente sente esses vazios. mas acontece exatamente a mesma coisa com o texto impresso.. e o diagramador para que ninguém note esse vazio. porque para mim os espaços correspondem a um código secreto que tem a ver com o tempo narrativo. mais tempo. Eu não sei se o leitor percebe ou não. é preciso reduzir algumas entrelinhas ou . Pode ocorrer que exista uma página – por exemplo. só com o ponto. fica espantoso. menos o autor. se a um ponto forem acrescentados dois ou três espaços em branco . Por isso.ficam horrorizados diante da possibilidade de que em uma página sobrem algumas linhas soltas. O leitor sente. Os diagramadores de livros descendentes dos tipógrafos das velhas imprensas . Se o espaço tipográfico é maior.. essa página eqüivale a toneladas de papel. passou mais tempo. na página anterior sobra um espaço em branco. Chamam esses rabichos da “viúvas”.

GARCÍA MÁRQUEZ . até fazer. em termos de visão do mundo.. com medo do encontrar defeitos que tenham passado despercebidos. quando fiquei sabendo que tinham me 202 .. e portanto.. em compensação. vamos colálo aqui”. enquanto filmam. dá medo descobrir que estão todos enganados. Eu nunca torno a ler meus livros depois de editados. Depois. E tem mais: sem falsa modéstia. porque é sempre melhor editar no papel .e para que a edição custe menos. ROBERTO . Há. questão apenas de afinar detalhes.. tão bons que se permitem ao luxo de editar com a câmera. até ver montado.Isso é parte inseparável do processo de criação.. Os erros de um escritor são mais baratos e mais fáceis de serem corrigidos. do que editar na moviola. e que o livro.. Vigiava o desenvolvimento da cena. onde é preciso estar dizendo o tempo inteiro: “Vamos ver. o plano acabava ali... REYNALDO. na sala de edição.prevendo os cortes antecipadamente e depois filmar só o que se quer filmar. Eu nunca autorizo isso. Se o editor vai vender um milhão de exemplares. no entanto.. favorece essa manipulação. por não ter consciência suficiente dos problemas da montagem. Cortava durante a filmagem. “até ali”. Não há verdadeira criação sem riscos. Quando vejo a quantidade de exemplares vendidos e as maravilhas que os críticos dizem. cometem erros de continuidade absolutamente incríveis. diretores como Buñuel.. GARCÍA MÁRQUEZ . é uma merda. quer dizer que vai ganhar uma quantidade tão fabulosa de dinheiro que o mínimo que pode fazer é respeitar as pulsações internas do texto.. Ele mesmo dizia que facilitava muito as coisas. gritava “corta!” no momento exato e voilá... E o velho sempre ali..Um escritor tem mais possibilidades de controlar esses detalhes que um cineasta. grudado na moviola: “Até aqui”. na verdade. Eu me surpreendo que existam roteiristas com uma vocação esmagadora.Ninguém nunca está completamente seguro do que quer fazer. Eu não sou muito bunuelista. que é dado pelo que costumamos chamar de nível profissional. que são super-conhecidos no mundo do cinema e que.Mas qualquer ofício tem um mínimo de exigências. E nunca está seguro do que faz. ou então “procure aí aquele plano da porta e coloque atrás do da janela”. traga aquele pedaço ali. Bunuel fazia poucos cortes na moviola. críticos e leitores. o trabalho era simplíssimo.. sem uma cota de incertezas.. mas admiro esse lado profissional de Bunuel.. que além de participar do processo inteiro do roteiro. são bons editores. que para o autor é uma verdadeira catástrofe.

FIM 203 . mas ao mesmo tempo necessária.. minha primeira reação foi pensar: “Eles acreditaram. Essa dose de insegurança é terrível. que nunca têm dúvidas. para fazer algo que valha a pena.dado o Nobel. acabam dando tanta cabeçada que morrem disso. que sabem tudo. porra! Caíram na minha lorota?”.. Os arrogantes.