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Gabriel Garcia Márquez Como contar um conto

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1997 3ª Edição

Casa Jorge Editorial Ltda. Rio de Janeiro-RJ

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ÍNDICE Prefácio Introdução O enigma do guarda-chuva Ladrão de Sábado

PRIMEIRA PARTE (1ª jornada de trabalho) A dupla, a trinca e a máscara Rumo a outras alternativas (2ª jornada de trabalho) À procura dos limites Sobre o mental e o visual (3ª jornada de trabalho) Em estado de loucura Quando não acontece nada (4ª jornada de trabalho) A morte em Samarra, II O triunfo da vida

SEGUNDA PARTE (5ª jornada de trabalho) História de uma paixão argentina O chamado da selva - O dia em que os argentinos invadiram o mundo - O último tango no Caribe - O inferno tão temido

TERCEIRA PARTE (6ª jornada de trabalho) Recapitulações, I O primeiro violino sempre chega tarde História de uma vingança (7ª jornada de trabalho)

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Travesti Love .Epílogo O Elogio da cordura 5 . II Amores equivocados .Recapitulações.Sidália e Belinda .

Uma escola do Cinema Novo. Entre os colegas mais chegados ao Gabo (creio que aí ganhou o apelido) estavam os cubanos Tomás Gutiérrez Alea e Julio García Espinosa e o argentino Fernando Birri. como definiu Birri. caipira costa atlântica da Colômbia. Os velhos amigos do Centro Sperimentale. em oito anos de existência. García Márquez liderou o processo de implantação. Trinta anos depois (depois da Revolução Cubana. México. Esta terceira linha de atividade é a Escuela 6 . Colômbia e Venezuela. que desempenhariam papéis fundamentais na eclosão do Nuevo Cine (Cinema Novo).PREFÁCIO Nos anos 50. sua paixão de adolescente. inebriante e tirana de inventar romances e contos. a realização de trinta filmes. foi estudar cinema em Roma. no Centro Sperimentale di Cinematografia. Era a época mais brilhante do Centro Sperimentale. nada a ver com continuismo ou dirigismo. com Zavattini e Rossellini circulando pelas salas de aula e pelos corredores e o neo-realismo enchendo as telas com sua ternura e formatando cabeças jovens. de Perón e de Cem Anos de Solidão). mas no sentido de que o cinema será sempre novo quando um jovem latino-americano disparar a câmara afirmando ou buscando sua identidade. apesar da dedicação compulsiva. telesséries e vídeos) e capacitação. um projeto ousado e difícil: montar um espaço de formação de telecineastas que fosse também uma “central de energia criadora”. para romper os atavismos que o amarravam a Aracataca e começar a aventura de andarilho que o levaria a palmilhar a Terra e outras dimensões da realidade. fomento à produção (viabilizou. Foi a porta escolhida para entrar no mundo grande. de braços com outros “trabalhadores da luz” do continente (o Comitê de Cineastas Latino-americanos). concordaram que aquele era o momento para materializar um sonho antigo. Gabriel García Márquez. não no sentido do iluminado movimento dos anos 60. os quatro se reuniram em Havana para discutir a criação de outra escola de cinema. com sedes em Cuba. e três linhas de atividade: pesquisa (levantamento de todas as informações referentes à expressão audiovisual do continente). Escreveu roteiros para filmes mexicanos e desejou que sua literatura fosse transcodificada à tela. o mais importante movimento cinematográfico da América Latina. Durante este tempo García Márquez não havia conseguido nem querido afastar-se do cinema. Montou a Fundación del Nuevo Cine Latinoamericano.

Uma boa provocação seria dizer que de destinou tanto esforço e dinheiro não apenas para proporcionar saber e estímulo às novas gerações de telecineastas ou ter seu nome ligado ao que muitos consideram a melhor escola de cine/tv do mundo. doou seu prêmio Nobel para a nova escola. magrinho e vibrátil. e da oficina anual Como se cuenta un cuento. García Márquez e seus amigos cineastas contaram com a decisiva contribuição do Estado cubano e. Não foi o bastante e aquele estudante colombiano de cinema em Roma. para sentir na pele. Este livro é o resumo da gravação de uma destas oficinas. o calor que se desprende do ato de criação de García Márquez. destinada a roteiristas e escritores de língua espanhola e portuguesa. e recorrente. o professor abre várias portas desenvolvimento dramático 7 . onde se põe em prática a tênue e escorregadia ciência da narratividade. assessorando roteiros para os filmes de fim de curso. são destinados à escola. conferências. O menino é mesmo pai do homem. com quem mantém encontros ao longo do ano. Trabalhamos nas últimos anos na mesma área da escola (Dramaturgia e Roteiro) e por isso estive presente em muitas sessões destes workshops de idéias e articulação dramática de idéias. Para participar de momentos mágicos. a bem da verdade. noites de autógrafos e outras atividades). este inclusive. Para materializar o sonho antigo. de empresas. também conhecida como Escola de Três Mundos porque seu curso mais importante é dedicado a jovens de África. O processo das oficinas é simples e instigante: os alunos sugerem idéias. bem como os ganhos auferidos em entrevistas. Dizem que se não fosse por Mercedes. A indiscrição familiar nos dá uma medida do envolvimento de García Márquez com esta instituição. em Cuba. aí sua alma se alimenta do pólen da juventude e das interrogações e floresce com a alegria da eterna primavera. com o apoio oficial de outros países. em seguida.Internacional de Cine y Televisión de San Antonio de los Baños. Não por isto. o homem meteria tudo o que ganha na escola de San Antonio. sua mulher. mas principalmente para ser seu professor. A escola de San Antonio é sua casa. que sabe cuidar destas coisas e do futuro da família. Ásia e América Latina/Caribe (de qualquer maneira. de instituições internacionais e pessoas. agora famoso e intenso. mas para peruar mesmo. os direitos autorais de alguns de seus livros. na membrana dos neurônios. Professor dos alunos avançados do curso de formação. neste cultivar de talentos e inquietações plantado às margens do rio Ariguanabo. com a liberdade e o espírito aquariano que campeiam neste laboratório de criação audiovisual.

fecha outras. movendo-se na superfície e nas profundezas de sua galáxia interior. se forem aceitos.destas idéias. deus da beleza e do cinema. e outras deixa apenas encostadas. Cuba. a uma emoção. norteamentos. setembro de 1994 * Ex-diretor geral da Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños. de sua imaginação prodigiosa. atualmente diretor da Escola Brasileira de Cinema e Televisão de Campos. pensante. inscrevam-se para a próxima oficina e. desencontram e tornam a encontrar articulações. García Márquez é uma bússola viva. Orlando Senna * San Antonio de los Baños. Universidade Estadual do Norte Fluminense. Se não se sentirem saciados. lhes abençoe. Este livro pode revelar um pouco deste desnudamento do filho/pai de Macondo. que lhes levem a um drama. 8 . que Oxumaré. pulsante. Serpente Arco-íris. Neste redemoinho de possibilidades os autores das idéias encontram.

que pode parecer muito agradável e lisonjeiro. de treze em treze. bem entendido: na verdade quase todos os nossos alunos são mulheres -.. acaba sendo a coisa mais humilhante do mundo: significa que você está se transformando em uma mercadoria. Como eu tinha uma Oficina de Roteiros no México. de comum acordo.INTRODUÇÃO O enigma do guarda-chuva GARCÍA MÁRQUEZ . Cheguei. para poder vender o produto acabado. Um belo dia. só uma pessoa escreve a história: ou a mesma que a pensou. fui até lá e disse aos alunos: “Precisamos de treze histórias de amor. E feito uma flechada. Oferecemos as treze histórias a diversas emissoras. No fim. de meia hora cada uma”. E sempre trabalhando em grupo. só para começar.”. outra de mistério. E pusemos mãos à obra. O trabalho acabou sendo tão divertido. Acerta ou não acerta. Isso.. na televisão. porque havíamos tentado escrever histórias de uma hora de duração. afinal.ou de uma só. outra de horror. realizar as treze histórias. Foi uma coisa surpreendente. desde que meu nome aparecesse nos créditos. ou seja. Mas. que agora estamos pensando em fazer mil meias-horas. no dia seguinte. 9 . e não tinha saído nada. uma atrás da outra. à conclusão de que meia hora era o formato ideal. então... me levaram catorze idéias.Vou contar a vocês como é que tudo começou. ou outra pessoa da Oficina. Decidimos fazer a série com treze histórias de amor. Saímos por aí oferecendo esse trabalho e nos disseram que comprariam. dando crédito a cada autor mas encabeçando cada história com um letreiro dizendo: “A Oficina de García Márquez. o papel vale quase nada. na Oficina. Percebemos que. E. Decidimos então criar uma empresa produtora. e de repente descobrimos uma coisa: as televisões pagam muito mal. mesmo que seja de um só . recebi um telefonema de um canal de televisão. a tarefa tem de ser de um só. e no futuro continuar com outras séries parecidas: uma cômica. mas na hora de escrever o roteiro. Queriam me pedir treze histórias de amor passadas na América Latina. Porque é claro que as linhas gerais da história podem ser elaboradas coletivamente. o que fazer? Resolvemos. seja desenvolvida com a participação de todos... que a idéia.

que ia descobrir de repente. e ela continuou lá. aparece a nova imperatriz. de frio ou do que for desde que seja capaz de fazer uma coisa que não pode ser vista nem tocada. e que um ser humano seja capaz de morrer por essa paixão. o seguinte: vamos fazer meias-horas e destinar a esta escola aqui . e no centro da foto. Uma história que. Iremos desenvolvendo as histórias na Oficina que dirijo todos os anos aqui na Escola. jornais e pedaços de pano na cabeça. Não consigo saber quando isso acontece. Nela. o mistério da criação. de gente que tenha passado por esta Oficina da Escola: gente que não se assuste com nada. a que a fotografia está contando. Esta coisa de inventar histórias em grupo. tornei-me um viciado no trabalho coletivo. tentando ver se descubro o momento exato em que a idéia surge. Fiquei com essa idéia na cabeça. num segundo plano. Desde que comecei a dirigir estas oficinas ouvi inúmeras gravações. A coisa mais importante deste mundo é o processo de criação. o que estou propondo é. Mas agora acho cada vez mais difícil que isso aconteça. morrer de fome. aparecem os guardas com suas capas brancas. dando voltas. encontrei uma fotografia enorme. solitária e muito magra. fora de foco. Ao fundo. não é a da morte do imperador. e depois as continuaremos na Oficina do México.. vamos dizer: É preciso aprender a dizer a verdade cara a cara. que já esteja curada do medo. não serve para nada? Algumas vezes acreditei .a Escola Internacional de Cine e Televisão de San Antonio de los Baños o dinheiro que será arrecadado com a venda dos filmes. pensando bem. com um véu negro e um guarda-chuva negro. e mais ao fundo ainda. e que afinal. Vi essa foto maravilhosa e a primeira coisa que me veio ao coração foi que ali havia uma história. Dia desses. coletivamente. totalmente vestida de negro. a multidão com guarda-chuvas. o momento exato em que uma história surge. Quando acharmos que alguma coisa não estiver direita. aparece a imperatriz. Porque em uma Oficina como esta. me desfiz completamente dos guardas vestidos de branco.ou melhor. mas outra: uma história de meia hora. Nada. das pessoas. Está chovendo. a esposa de Akihito. É uma foto do enterro de Hiroíto. é preciso opinar com absoluta franqueza. virou um vício. que faz com que o simples desejo de contar histórias se transforme numa paixão. folheando uma revista Life. 10 .. em resumo. Principalmente. li um sem-fim de conclusões. claro.Portanto. Mas nesse meio tempo. Já eliminei o fundo. e a agir como se estivéssemos fazendo terapia de grupo. Que tipo de mistério é esse. tive a ilusão de estar acreditando .

enquanto prepara o jantar em um jeito de arrancar o sujeito da casa. eu proporia a vocês que partíssemos desse guarda-chuva para tentarmos fazer um longa-metragem. Agora se chama Ladrão de Sábado. que tire vinho da adega e ponha alguma música para o jantar. e ninguém vai passar por ali. Mas não pode fazer muita coisa. a única coisa que me ficou foi o guarda-chuva. Hugo pensa: “Por que ir embora correndo. um ladrão que só rouba nos fins de semana. Um momento: eu não tinha percebido que já tenho aqui uma meia-hora. Estou absolutamente convencido de que existe uma história nesse guarda-chuva. Vamos lá: alguém aí é voluntário para ler este roteiro em voz alta? Ladrão de Sábado Na noite de um sábado. calça os chinelos do dono da casa e pede a Ana que cozinhe alguma coisa. Acho também que é mais fácil ler esse roteiro do que tentar contar essa mesma história com nossas próprias palavras. uma mulher bela que tem trinta anos e também uma insônia sem remédio. E então. Se a nossa Oficina tivesse uma finalidade diferente da que tem. fiquei unicamente com a imagem da imperatriz debaixo da chuva. Ameaçada por uma pistola. e ele a conquista com alguns truques de mágico. a casa fica afastada. a filha de três anos. porque ela nunca mais seria a mesma.ele sabe porque vigiou antes – só volta da sua viagem de negócios na noite de domingo. fica pensando. seu título definitivo.. E quero deixar bem claro que não vou criar nenhuma armadilha para forçar esse encontro. Poderia ficar o fim de semana inteiro e aproveitar a situação.. a mulher entrega todas as jóias e coisas de valor. Acontece que a menina vê a ladrão. mas logo descartei também. de um jeito ou de outro. vamos acabar encontrando o tal guarda-chuva no caminho. pois o marido . vai ser mais fácil saber o que queremos fazer. se aqui está tão bom?”. Ana. entra numa casa. Estou pensando: se nós lermos essa história. e pede ao ladrão que não se aproxime de Pauli. Mas nosso objetivo são os filmes de meia hora. é noite. a dona da casa. Tenho a impressão de que. O ladrão não pensa muito. porque sem música não dá para viver. Durante o jantar. preocupada com Pauli. descobre Hugo em plena ação: flagrante total. o ladrão que durante a semana é vigia em um 11 . Quando Consuelo apresentou essa história na Oficina. Ana. Hugo. É um roteiro de Consuelo Garrido. chamava-se Ladrão de Noite.Por um momento. porque Hugo cortou os fios do telefone.

para desfrutar do domingo. E. Ana fica surpresa ao ver como os dois se dão bem. os três ficam juntos. Quando Hugo está quase desaparecendo. mas Ana inventa que a menina está adoentada e rapidamente despede a amiga. ela diz. O ladrão de sábado vai embora feliz. pensando bem. adorou o jeito daquele ladrão preparar o café da manhã. feliz da vida. descobre que Ana é a apresentadora de seu programa de rádio favorito. Agora. falam de música e de músicos. No jardim. que cai num sono profundo. e assovia. e aplaude. o programa de música popular que escuta todas as noites. dá alguns conselhos sobre como impedir que ladrões entrem na casa. ela o chama. ela que adora dançar o danzón. Ele a convida. e finalmente adormece. Hugo e Pauli brincam. passa por ali uma amiga de Ana. Exaustos. olhando fixo para os olhos dele. dançando pelas ruas do bairro. 12 . Ana desperta em seu quarto. pois ele se comporta com tranqüilidade e não tem a menor intenção de feri-la ou violentála. Ana começa a sentir uma estranha felicidade. os dois acabam estendidos num sofá da sala. Só que houve um tremendo engano: quem toma o copo com o remédio para dormir é a própria Ana. sem falta. Hugo é seu admirador. Nesse momento. e nunca tem com quem. convidando-a para correr um pouco. enquanto a noite cai. Ana nota que ele dança muito bem. completamente vestida e bem abrigada por um cobertor. aos gritos. um ritmo que a fascina. Hugo conserta as janelas e o telefone. é um Deus-nos-acuda: está na hora de o marido voltar: Embora Ana resista. E quando Hugo regressa.banco. Assim. o tal ladrão é bastante atraente. e enquanto escutam Benny Moré cantando Cómo fue. e se despede das duas com um bocado de tristeza. Hugo acaba devolvendo a ela quase tudo que havia roubado. Ana se arrepende de ter posto Hugo fora do ar. que quebrou na noite anterior. depois de um bom café da manhã. Mas agora é tarde: o remédio para dormir já está no copo e o ladrão está bebendo. e os dois se encaixam tão bem que ficam dançando até o meio da tarde. que no próximo fim de semana seu marido vai viajar de novo. Na manhã seguinte. Além disso. Ana o vê afastar-se. Hugo fica nervoso. Pauli os observa.

PRIMEIRA PARTE

PRIMEIRA JORNARDA DE TRABALHO

A dupla, a trinca e a máscara GARCÍA MÁRQUEZ - Bem, vamos lá: está na hora de retalhar Ladrão de Sábado... MARCOS - Foi escrita por uma mulher. Deixa uma sensação, sem menor dúvida, de ser feminina. GARCÍA MÁRQUEZ- Você teria percebido isso se não soubesse antes? MARCOS - Teria. GARCÍA MÁRQUEZ - Pela impressão geral, ou por algum detalhe em particular? MARCOS - Desde o começo, senti uma espécie de angústia. Isso está nas sensações da mulher. GARCÍA MÁRQUEZ - Consuelo vai gostar de saber disso. Porque é verdade, a história é contada do ponto de vista de uma mulher. A protagonista é ela. Talvez não seja a melhor das histórias que foram apresentadas aqui, mas acho que é a mais exemplar: É mais ou menos, o que queremos fazer. Primeiro, é “comercial”. Dá para saber que a maioria dos espectadores vai gostar: Aliás, o empresário da Televisão decidiu comprar essa história. Vai agradar e terá qualidade, será bem filmada. Certa noite levamos um susto. Um dos alunos telefonou para a minha casa. “Ligue no canal 5” - disse ele. “Estão passando a história da Consuelo, inteirinha”. Ligo no canal 5 e vejo um sujeito tomando um banho de banheira, cheia de espuma... Era um filme de Hitchcock! Sábado, sete e meia da noite, e para mim, o mundo desmoronou. “Como é possível?”, eu me perguntava. “O que será que aconteceu com a Consuelo? Como é que fizeram essa história, igualzinha à dela?”. Mas era um alarme falso. Conforme o filme avançava, percebi que não tinha nada a ver com a outra história. Sempre que eu ligo a televisão para ver um filme, tenho a esperança de que seja um bom filme:. Mas, naquela noite, queria que o filme fosse ruim, que fosse a pior droga do mundo. Até que percebi que era outra coisa: não era um ladrão que entrava numa casa

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para roubar, e sim um fugitivo, um sujeito que tinha escapado da cadeia e que mantinha a protagonista debaixo de terror e no fim ela, tentando evitar que aquele homem a matasse, fingia obedecer... Quando afinal o sujeito sai da casa, a polícia está lá fora, esperando. Ele enfrenta a polícia e... ufa!, que alívio... que descanso!... Nada a ver: Mas tomamos certos cuidados. Logo de saída, cortamos a cena do banho. Morri de pena. É bonito alguém tomando banho. Poderíamos ter conservado aquela cena. Na verdade, é muito difícil encontrar uma história que não seja parecida, de uma forma ou de outra, há muitas histórias conhecidas. Acabamos eliminando a tal cena. A realidade, aliás, estendeu outra armadilha para mim, quando eu estava escrevendo O Outono do Patriarca. Eu havia imaginado um atentado que não parecia nenhum dos atentados habituais: colocavam uma carga de dinamite no porta-malas de um automóvel. A mulher do ditador apanhava o carro para ir fazer compras, e no caminho o automóvel explodia e ela ia parar no telhado do mercado. Fiquei tranqüilo com a imagem do carro voando pelos ares porque, francamente, achei que era muito original. Pois não é que, três ou quatro meses mais tarde, fazem um atentado exatamente igual, contra o almirante Carrero Blanco, na Espanha? Fiquei furioso. Todo mundo sabia que eu estava escrevendo a história em Barcelona, e naquela mesma época; ninguém iria acreditar que eu tinha tido a mesma idéia muito antes. O jeito foi inventar um atentado completamente diferente: levam ao mercado alguns cachorros sanguinários, especialmente. treinados, e quando a mulher do ditador chega, os cães se lançam em cima dela e a despedaçam. Depois, fiquei contente por terem estropiado o atentado do automóvel. Até hoje fico alegre com isso. O dos cães é mais original ainda, e está mais dentro do espírito do meu livro. Eu até acho que não devemos nos preocupar muito com isso: se uma cena não funciona ou cai, o que se há de fazer? Procurar outra. O curioso é que, na maior parte das vezes, a gente acaba encontrando outra melhor. Se tivéssemos ficado com a primeira, teríamos perdido. O problema é mais sério quando a gente encontra, logo de saída, a melhor. Aí sim, não tem jeito. Mas, como saber? É a mesma coisa que descobrir se a sopa ficou pronta. Ninguém pode saber, a não ser provando. Mas voltando às semelhanças, vemos deixar que elas nos assustem, desde que não se relacionem com aspectos essenciais da história. Porque a verdade é que existem histórias muito diferentes e que, no entanto, têm muitas coisas em comum.

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É preciso aprender a jogar fora. A gente conhece um bom escritor não tanto pelo que ele publica, mas pelo que joga no lixo. Os outros não ficam sabendo, mas o escritor sim: ele sabe o que joga fora, o que vai deixando de lado e o que vai aproveitando. Se o escritor se desfaz do que está escrevendo, está no bom caminho. Para escrever, o escritor tem de estar convencido de que é melhor que Cervantes; senão acaba sendo pior do que na verdade é. É preciso apontar para o alto e tentar chegar longe. E é preciso ter critério, e coragem, é claro, para riscar o que deve ser riscado e para ouvir opiniões e refletir seriamente sobre elas. Um passo a mais, e já estaremos em condição de pôr em dúvida e submeter à prova até mesmo aquelas coisas que nos parecem boas. E tem mais: mesmo que todo mundo ache que essas coisas são realmente boas, o escritor precisa ser capaz de colocá-las em dúvida. Não é fácil. A primeira reação que tenho, quando começo a suspeitar que devo rasgar uma página, é uma reação defensiva: “Como é que vou rasgar isso, se é o que mais gosto?”. Mas é preciso examinar bem e se a gente chegar à conclusão de que, realmente, não funcionava dentro da história, está desajustando a estrutura, contradizendo o caráter do personagem, indo por outro caminho... bem, aí não tem jeito, é preciso rasgar mesmo. Isso dói na alma da gente... no primeiro dia. No dia seguinte, dói menos; dois dias depois, um pouco menos; três dias, menos ainda; e no quarto dia, a gente nem se lembra mais... Só é preciso tomar cuidado com a tendência a guardar em vez de rasgar, porque existe o perigo, se o material rejeitado estiver à mão, de a gente tornar a pegá-lo para ver se “cabe” em algum outro momento. É difícil enfrentar essa encruzilhada sozinho. Aqui, na Oficina, é isso o que torna o trabalho do roteirista diferente. A história é elaborada entre todos nós, mas o roteirista está só e é ele, sozinho, que tem de escolher: O trabalho do roteirista não exige apenas esse nível de perspicácia. Exige também uma grande humildade. A gente, como roteirista, sabe que está numa posição subalterna em relação ao diretor. O roteirista é o amanuense do diretor, ou pelo menos, alguém que está ajudando o diretor a pensar: A história é do roterista, sim; mas o roteirista sabe que no fim, quando passar para a tela, ela será do diretor. Nunca vi, na tela, um único fotograma que eu possa dizer que seja meu. Não sei quantos roteiros fiz, uns bons, outros ruins, e no fim, o que vejo na tela nunca é o que eu tinha na cabeça. Sempre imaginava os enquadramentos completamente diferentes. As vezes, me esmerava indicando ao diretor, através de desenhos, a forma em que eu via o enquadramento ou a cena. “Olha aqui”dizia - “a câmera está aqui; este personagem está em primeiro plano, e este

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outro, está de costas; se a câmera se mover para cá, o outro personagem aparece ao fundo...”. Ia ver o filme e, na verdade, os enquadramentos eram completamente diferentes; o diretor havia criado a cena à sua maneira. Se alguém quiser ser roteirista e continuar sendo roteirista, tem de respeitar isso. Quase todos os roteiristas sonham ser diretores, e acho isso muito bom, porque todo diretor deveria ser capaz de escrever um roteiro. O ideal seria que a versão final um roteiro fosse escrita a quatro mãos, pelo diretor e pelo roteirista. E já que estamos falando de trabalho em dupla, falemos também do trabalho a três. Estou me referindo ao produtor: Insisti para que a Escola trate de incluir entre seus planos um curso de Produção Criativa. Todo mundo costuma achar que produtor é o sujeito que existe para evitar que o diretor gaste o dinheiro antes do tempo. É um tremendo erro. Muitas vezes, a gente percebe que determinado filme é ruim porque o trabalho de produção falhou. Faz pouco tempo, soube de um produtor que estava feliz da vida porque tinha obrigado o diretor a se submeter a um orçamento rígido... e quando assisti o filme, vi o que ele havia conseguido com isso. Em vez de dois atores de primeira, A e B, que tinham sido indicados, o diretor precisou usar C e D, dois atores mais baratos... em todos os sentidos. O resultado estava na cara. A falta de dinheiro aparecia por tudo que é canto e, de fato, acabou com o filme. O barato saiu caro, como costuma acontecer. O produtor deve saber que ele não é simplesmente um empresário, um financista; seu trabalho requer imaginação e iniciativa, numa dose de criatividade sem a qual um filme perde o pé. Quando alguém se empenha em escrever um roteiro, não deve desanimar diante dos obstáculos. E preciso colocar a honra do roteirista na frente do destino do roteirista. É preciso tentar escrever roteiros ótimos, mesmo que depois o diretor faça barbaridades com ele. E repito: para fazer um bom roteiro, o único remédio é apagar, riscar muitas linhas, e jogar muitos papéis fora. Isso é o que a gente chama de sentido crítico, aquilo que Hemingway chamava de shit-detector. O diretor com quem melhor trabalho é Ruy Guerra, porque não se sente constrangido comigo: me diz com toda franqueza o que tem a dizer, e ponto final. E eu também sou assim com Ruy. Tenho um enorme respeito por ele como diretor e criador, mas isso não me impede de falar francamente. O que não presta, não presta; e é preciso jogar fora, seja de quem for. O assunto se resume nisso: é preciso evitar que chegue à tela. Gosto de Ladrão de Sábado porque é um roteiro muito original, embora não pareça: não me lembro de ter lido essa história antes, nem de ter visto essa

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Eu acho que uma das virtudes deste roteiro é a sutileza com que o gênero é estabelecido. Acho mais atraente a gente pensar nele como um bichopapão. Só que se desde o princípio ficar evidente que ele é bom.. mas na verdade nenhum deles serve: cada história traz. Mas agora que você está dizendo. não há nada que proíba que esse tom seja ressaltado depois. Rumo a outras alternativas REYNALDO . o importante é conseguir descobrila. Consuelo quis estabelecer. O ladrão está caracterizado de um jeito que faz com que eu seja partidário até mesmo de que ele use aquela pequena máscara que os ladrões das histórias em quadrinhos usavam. Dá para imaginar o que vai acontecer.história. em si. REYNALDO . o sujeito vai embora. A mistura pode vir. lá dentro. uma espécie de pequeno argentino que vai nos dizendo o que temos de fazer. que a gente acabe num beco sem saída. e esse é um ponto no qual a gente se engana muito: temos a história e achamos que isso resolve tudo. veríamos o personagem como uma fera. ou o estilo. Está contado no tom que a história requer.O personagem se apresenta como bonzinho desde o primeiro momento. mas de repente começamos a escrever e erramos o tom.. Outra coisa: a dose é decidida pelo roteirista. O espectador tem que saber logo de saída se o que está vendo é um drama ou uma comédia. desde o começo.. sua própria técnica. A mulher vê pelo espelho que o sujeito é um tremendo gato. que ele mesmo havia trazido.. Acho. só que agora. só que quando o ladrão dá de presente a Pauli a pombinha de porcelana. mas depois. que esta versão de Ladrão de Sábado é a versão definitiva. mas não importa. e isso é importante. o tom de comédia. Para o roteirista. Ainda bem que cada um de nós leva. na primeira seqüência. porque está bem contado. um prestidigitador. Eu percebi isso na cena do espelho. vai: faz o que todos nós 17 . e depois.A história admitiria esse tipo de recurso.. capaz até de matar e que tudo mude quando a menina entrar e começar a relação dela com o ladrão. e que não tem nada a ver com a casa. pronta para ser passada ao diretor. GARCÍA MÁRQUEZ . Talvez na próxima vez não vá mais. GARCÍA MÁRQUEZ . ele poderia ir amaciando. O tom de comédia vai sendo imposto gradativamente..A idéia original é um mágico.Essa história tem muita coisa de comédia. Ele tira um objeto que estava oculto. E digo ainda bem porque há muitos métodos para escrever roteiros. Pode acontecer com isso. fica claro que ninguém quis esconder que se trata de uma comédia. A gente não pode se enganar nunca ao insinuar o gênero. enfim.. seria lógico que ela notasse que é um objeto da casa. Essa idéia de Papai Noel é ótima.. Depois.

Antes.E se ele já soubesse tudo? Ela diria. percebem que o material está se esgotando e não sabem o que fazer:. dá para ver que é apenas um filhinho de papai. dividida em partes: 18 .Isso até contribuiria para despertar a admimiração dela. E um profissional. REYNALDO . GARCÍA MÁRQUEZ . Desde o começo.Não gosto do beijo. para ser exato. ele diria: Juntos? Não saem quase nunca”. Ele até gostaria de ser. e enquanto não houver inspiração. sua personalidade. os defeitos vão se tornando mais evidentes. REYNALDO . É natural: na medida em que a história vai se ajustando. as mentiras da mulher: GARCÍA MÁRQUEZ . não há história que sirva. deveria ter umas quatrocentas páginas. o tom não serve para nada. por sua conta. GARCÍA MÁRQUEZ . Enquanto não houver o tom. Uma história de trinta minutos tem suas próprias leis. mas olhando bem. Seria mais interessante que o espectador fosse descobrindo. por exemplo. Por que não mente? Deveria dar a informação ao contrário..Volto ao tratamento dos personagens. mas uma coisa me preocupa: o tempo. A estrutura perde totalmente o equilíbrio (já encontraremos tempo para falar da estrutura).E que eu não sinto que ele seja um ladrão profissional. ele teria todas as informações. e o homem contestaria: “Chega domingo”. Ou seja. Depois.. diz que seu marido chegará no domingo à noite. a estrutura não serve para nada. confessa: “Não saímos quase nunca”. SOCORRO . Ela diria: “Saímos quase todos os dias”. Estamos falando de meia hora na tela. o seguinte: começam a contar uma história que. ou de parecer. Podemos dizer a mesma coisa dos outros elementos. só para ver-nos obrigados. Mas agora não gosto mais.Tudo bem.Eu sinto falta é da descrição de Ana. De vinte e sete minutos. Acontece com os romacistas. às vezes. GARCÍA MÁRQUEZ . Isso é gravíssimo. gostava. pelas suas previsões. a precipitar os acontecimentos. enquanto não houver um estilo homogêneo.Eu também não. REYNALDO .. para que depois a gente percebesse que ela mentiu. e desse jeito.Eu consigo ver Ana. Essa coisa de todos os personagens dizendo sempre a verdade: acho mentira. Ana. depois. e no segundo ou terceiro capítulo. Se vamos empacar na caracterização dos personagens. GLÓRIA . referindo-se ao marido: “Ele chega amanhã”. e é preciso saber obedecê-las.supúnhamos que ia fazer. corremos o risco de começar como se estivéssemos fazendo um longa-metragem.

E um recurso muito conhecido..Nada disso: uma criança de três anos se comunica muito bem. GARCÍA MÁRQUEZ . VICTORIA . antes de beber o copo de vinho. Quero deixar claro que não estou defendendo esta história. nas comédias é preciso perdoar certos lugares-comuns. VICTORIA.A menina tem três anos. Eu não consigo mesmo é gostar da troca de cálices. já relaxou.Há um ponto no roteiro em que se estabelece que o ladrão vê Ana “no batente da porta”..Pois eu acho que deveria ter mais...Só tenho medo é de que essa idéia nos leve diretamente a um longa-metragem. não pode se deixar arrastar pelas idéias que façam com que ela seja contraditória. já preparou o café da manhã.. Mas. de gente de dinheiro. mas acho que devemos tratar de melhorá-la. A idéia de que ela seja uma locutora de rádio e que tenha um programa popular não me convence. e seria muito difícil inventar um tio para ela. Uma menina de três anos é difícil de ser dirigida em cena. por sua vez. E não há nada pior do que uma história curta que foi esticada.. SOCORRO .O problema é que uma menina maior teria mais consciência dos laços familiares. principalmente numa situação como esta..Gostei muito da cena da amiga. Tenho um neto que vai fazer dois. GARCÍA MÁRQUEZ . E ele. De noite. pegar uma faca..antes de dormir.Acho que Ana é casada com alguém de muito dinheiro. Um roteirista tem de ser mais cuidadoso 19 . A idade da menina. não pára de maquinar sua defesa: telefonar. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ. e me dá a impressão de que no ano que vem ele ainda não vai saber falar. porque as comédias não devem ser levadas muito a sério.. quando a convida para correr. e depois.. SOCORRO. Mas enfim... por exemplo. preocupada com esse tipo de coisa. quando se levanta.Já está derrotada. GARCÍA MÁRQUEZ . no dia seguinte. ou cedemos à tentação de convertê-las em histórias diferentes. Por isso a imaginei assim. Isso não quer dizer que deva ficar do jeito que está.. e não de mudá-la. GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO. É fácil de conduzir.Quando a gente tem uma história nas mãos. Ou defendemos as nossas histórias..Confesso que não sei direito o que significa ter três anos. É típico de uma classe social.

O coitado do encarregado de arregimentar o elenco vai ficar louco. Se ela está acostumada a tomar remédio para dormir.. Ela não beija o ladrão no batente: beija no vão da porta.. abre o armário e quando vai fechar. e o que tiver de fazer o break-dowv. preferisse botar na garrafa? Faria isso confiando na própria resistência. nada está consolidado. ela sim. na certeza de que ele cairia no sono e ela.E se for ele quem troca os copos? Ela perceberia e.. o umbral é a parte de baixo.Ou ela procura um pretexto para não ter que beber.. 20 . abre de novo. o batente é a estrutura onde a porta está montada. MARCOS . E na realidade. GARCÍA MÁRQUEZ . já está claro o seguinte: existem alternativas.. não vai saber que vestuário irá precisar. em vez de botar o remédio no copo. fingiria um ataque de histeria e jogaria o copo no chão.O roteiro também deveria deixar claro que Ana tem a idéia de usar o remédio para dormir quando abre o armário do banheiro. quando fecha. O batente é onde a porta está presa. Pois bem: tudo que sabemos dela é isso: está no vão da porta. jamais o tomaria com vinho. Ou melhor. ao se ver forçada a tomar o vinho com o remédio. REYNALDO . porque dá para sentir.E se ela. É preciso dar outra demão.. que ele dormiria primeiro. o vão é o espaço que a porta fecha.. é a moldura da porta. Mas não sabemos qual a sua idade. e sabe que o remédio faz efeito. se é branca ou negra. VICTORIA .. Mas parece que não tem outro jeito. e apanha o remédio. na medida em que vamos incorporando elementos.Para mim. e seria obrigada a voltar ao banheiro para apanhar outro remédio. Mas devemos insistir. Então. ela teria que servir outro copo para o ladrão. não. GARCÍA MÁRQUEZ .. armar os detalhes da préprodução. A seqüência de ações poderia ser a seguinte: ela vai ao banheiro. diante de uma situação dessas diria a ela: “Prefiro beber no mesmo copo que você”.Insisto: esse negócio da troca de cálices continua me incomodando. que tudo ainda está muito verde.Se ele fosse um verdadeiro profissional. se está de pijama ou de roupão. GARCÍA MÁRQUEZ .com a linguagem. O dintel é a parte de cima do batente.. ou seja. Será mais arbitrário. simpática ou chata.Mas se ela fizer isso. e não sabemos como está vestida. como quando estamos pintando uma parede e percebemos que falta alguma coisa para chegar á espessura adequada da tinta. o mais provável é que ele ofereça seu próprio copo.... GLÓRIA . Essa é uma falha técnica do roteiro. loura ou morena. acontece o contrário: ele não dorme. vacila. Ou pelo menos.. mas será também mais criativo. SOCORRO.

SOCORRO.. Torna a beber: Chega o momento em que os dois esvaziaram seus copos. criativa . e colocou-os na mesa. Será que tem um erro nessa história? Por que será que nenhum dos dois boceja de leve.. Ele toma um gole. Vamos reservá-la para as soluções que não sejam simplesmente técnicas. E apanha a bandeja. até que alguém desmorone no chão. Ela faz a mesma coisa. esta proposta parece ser a melhor.será muito ouvida aqui na Oficina.. O espectador sabe que um dos dois está a ponto de cair duro. ir ao seu encontro: “Com licença”. Mas os dois continuam conversando. dormindo. apanha o copo dela. esta palavra .Achei! Ele já tomou o seu copo.Acho que isso é importante: o espectador não sabe qual dos dois copos é o bom. Ele se levanta. Vamos esquecer o remédio para dormir.criativo. Ela não pode dizer “pode deixar. nem isso? Sim. O remédio ainda não fez efeito. Aliás. – que nos ajudam a dizer da melhor maneira possível o que queremos dizer. gentil. Não me perguntem como. ela já não sabe ao certo qual dos copos é o dela.Ela poderia entrar com a bandeja e ele..E se ela souber que ele gosta de beber? Ele poderia liquidar seu vinho num vupt. enquanto ela se limitaria a molhar os lábios. Ela trouxe os copos já servidos. eu sirvo”: tem de ceder.. Nós também não sabemos qual dos dois tomou o copo com o remédio para dormir.. as que fazem a história avançar. O remédio está num deles. 21 .. Pertencem à técnica alguns recursos – onde colocar a câmera.Eu acho melhor ele trocar os copos de propósito. GARCÍA MÁRQUEZ . Não sabemos qual dos copos tem o remédio. qual ator entra primeiro. animados. É a mais criativa.SOCORRO . Não sente nenhum gosto estranho. e como a garrafa não está na mesa. com muito cuidado. Mas as idéias fundamentais. não sabemos em qual. REYNALDO . qual sai depois. GARCÍA MÁRQUEZ . ao campo da criação..

veja só. o elevador dá um solavanco e pára entre dois andares. porque quem mais medo sou eu. “Devem estar subindo pelo outro elevador” . Existe uma história que quero fazer com o diretor colombiano Lisandro Duque. já aprendi a me dominar. porque eles arrebentariam tudo. respondem: “Está vendo essa gradezinha da ventilação. E então. já vamos tirar vocês daí”. Alguém tem uma boa meia-hora para contar? Ou.. Ouvem marteladas.Vamos ver se a experiência de Ladrão de Sábado nos ajuda a fazer a nossa primeira meia-hora. não tem mais problema. O rapaz tenta tranqüilizá-la. aí no teto? Solte os parafusos”. Até eu. começou o movimento. ruídos que descem pelo poço do elevador.comenta o rapaz. e o rapaz comenta: “Pronto. torna-se a ouvir a voz lá do alto: “Desculpem. De repente. que sofro de claustrofobia.”. A história é muito simples. E já que ninguém quer quebrar o gelo. De repente. eu mesmo me ofereço como voluntário. O elevador sobe. é uma campainha que ninguém nunca ouve. Vamos lá. pára de andar.SEGUNDA JORNADA DE TRARALHO À procura dos limites GARCÍA MÁRQUEZ . o grupo sai. chamamos os bombeiros. “Não se preocupe. Ele vai dirigir o filme. Vamos chamar os mecânicos. “A casa de máquinas está lá em cima. De repente. Com umas roldanas. com um grupo de pessoas. se vocês preferirem. Vamos ter de esperar até amanhã. Já voltamos”. Como todo mundo sabe. O rapaz grita: “Está começando a esfriar aqui”. já sabem que estamos aqui”. Fiquem serenos. Ele se vira sorridente para a moça: “Viu só?”. somos dois”. mas não conseguimos achar os mecânicos. mas agora sim. Desistimos de chamar os bombeiros. vamos colocar assim: quem tem menos medo? Não se preocupem. ouvem uma voz que vem lá do alto: “Estão aí?” “Sim. eles conseguirão mover este nosso elevador”.. Só ficam no elevador que tornou a se movimentar. “Não se preocupem. Ele aperta o botão do alarme. A moça fica muito nervosa. uma voz: “Não se preocupem. Se não conseguirmos. O rapaz faz isso. agora ouve-se uma campainha longa. tira 22 . o rapaz e uma moça. Um rapaz entra num elevador. está bem?”. No edifício. Mas o tempo passa. Lá de cima. isso se resolve depressa.

existe um colchãozinho. e a moça está grávida outra vez. Finalmente. Ele está terminando de ler um livro.. O rapaz e a moça se negam a sair. mas tornaram-se exigentes. Claro que entre o rapaz e a moça começa a existir uma relação diferente. Falta escrever o processo inteiro. um belo dia tornam a ouvir vozes e ruídos lá no alto. para marcar a passagem do tempo. a moça aparece grávida. descobre o pequeno paraíso. ele compram merda como adubo? Distribuem uns saquinhos plásticos pelas casas. Os dois parecem estar confortavelmente instalados no pequeno espaço. o necessário para passar a noite no elevador. no meio da rua?”. Alguém. MARCOS . MARCOS. No final. “estamos mandando agora mesmo”. lá de fora. uma cestinha com água e sanduíches. grita. “Nem pensem em voltar aqui!”. No teto.. Num canto do elevador. vamos mandar algumas coisas”. esses ruídos... fica o buraco. São contratos sérios.Isso está resolvido: saquinhos plásticos. e tem exatamente meia 23 . no Japão. e passam para recolher no dia seguinte. “Lá para fora?”.. A gente aceita tudo. Na manhã seguinte. Vocês não ouviram falar daquela história de cocô que também discutimos em outra Oficina? É muito bela. As vezes. Os dois já têm um bebezinho. no outro. E realmente chega o gravador pelo buraco do teto. Nas paredes há quadrinhos e vasos com flores. e fica evidente que são os bombeiros. Nova dissolução. abre a porta e.. e nada.. uma longa dissolução de imagens. dizem. O cestinho perde-se lá no alto e demora a voltar com o pedido. E com uma corda mandam cobertores.. Aquilo é um pequeno paraíso. Mas o tempo passa. “Mande o volume dois!”. Coloca o livro no cestinho e dá um puxão na corda.Tem um problema de credibilidade. gritam.. mas elas irão se ajustando quando começarmos a pensar na história milimetricamente. “Com toda essa poluição. os dois são acordados por uma voz: “O técnico acaba de chegar: Preparem-se para sair”. de mais familiaridade. E ponto final. Gritam: “Que diabos está acontecendo com o gravador? Continuamos sem música!”. Os dois se juntam num esforço e fecham a porta. “Sim. Há..Que nada: ainda existem muitas pontas soltas. Você sabia que. esses assaltos em plena luz do dia. “Esperem. então. mas. respondem lá do alto. um fogareirinho.uma plaqueta de metal. GARCÍA MÁRQUEZ .Você não deixou nenhum detalhe de fora.. penso que daria até um longa-metragem. e o banheiro? GARCÍA MÁRQUEZ . conseguem que o elevador dê um salto e se detenha no andar seguinte. A história ainda não está desenvolvida.. Agora. senhor”.

nunca deixou de amá-lo. se a gente tentar trocá-las no meio do caminho. ela decide ir ao encontro impossível. o outro jogador não aceitará. Vamos ver se vocês acreditam nela. Ela e o homem dos seus sonhos..hora de duração. Pendura o espelho no quarto e de repente descobre que dentro do espelho existe um sujeito. o bispo dessa forma. Mas um belo dia ele desapareceu. em pleno século XX. Era outra vida.Tenho uma história. como tinha feito todas as quartas-feiras às cinco da tarde. embora carregando suas amebas. sua própria merda. e ela mora fora. realmente. Não tem jeito. A gente estabelece com o espectador . com filhos e netos..De meia hora? 24 . embora bem conservada. elas passam a ser invioláveis. Ela transcorre numa aldeia da Bolívia. e consegue ir para os Estados Unidos. A partir do momento em que essas regras são aceitas. Os dois fugiriam juntos. E o dono desse cocô tem a idéia de vender merda. Acontece uma série de coisas e no fim. Felizes da vida. quais os limites do verossímil. na quarta-feira.quando reformaram todas as caixas da cidade. da moça que compra um espelho do século XIX. E lá está ele. Assim. GARCÍA MÁRQUEZ . mas é preciso ser consciente desses limites.. Como aquela outra. encontram amebas em todas as amostras. Se acreditarem na sua história. Ela olha o envelope. Sobre o mental e o visual CECÍLIA . é preciso passar por exames médicos. E ao examinar o cocô dessas pessoas. Quem foi que disse que não existe amores eternos? Eu e interesso muito por esse tipo de história porque permite perceber até onde podemos forçar a realidade. esperando por ela. Seu amado marca um encontro no café tal. e a vida dela mudou completamente. mas para conseguir. A caixa estava lá há 35 anos. menos em um: existe um cocô sem amebas. Outra meia-hora: a de uma mulher mais velha. para ela. Um dia. A chave do enigma está na grande jogada. na própria história. em pleno século XIX. você está salvo. Meia hora de amor impossível entre duas pessoas que não podem se encontrar porque vivem em épocas diferentes. às cinco da tarde. Acontece assim: muita gente quer emigrar para os Estados Unidos. Em todos. o único que amou. na verdade. o carteiro vai até a casa dela para entregar uma curiosidade: uma carta que foi encontrada no fundo de uma caixa de correio – dessas onde as pessoas colocam a correspondência . É. o sonho de sua vida.ou com o leitor as regras são jogo: n peão é movido assim. todo mundo passa com êxito pela prova das fezes. Abre e lê: é uma carta crucial. São mais amplos do que a gente imagina. pode continuar jogando sem problemas.. Ele mora no espelho. 35 anos depois. Daria um exemplo perfeito de meia-hora. É como jogar xadrez. a torre desse outro jeito.

Quer pegar um copo do criado-mudo. sem família. Tira da escrivaninha um caderno de anotações. O homem está sentado à mesa.. A secretária o faz notar que ele mesmo revisou e assinou o documento. vê o homem na cama e pergunta a ele porque ainda não levantou. Mas admito que é uma 25 . Ela suspira. seria fazer o corpo inteiro ir se rebelando. os números estão mudados. “Está vendo só?”.“É natural que ninguém entenda mais nada!”. O criadomudo está cheio de frascos. diz o homem à mulher.Quem obriga. mas está com o aparelho digestivo paralisado. Esta noite. A mulher vem da cozinha. Na frente dele há um vidro de remédio.. vemos como as mãos saem na direção do prato que ele acaba de recusar. e isso não dá certo: você tem que soltar esse mistério logo. com os filhos. Diz que não entende nada. “Elas me obrigam a fazer coisas que não quero fazer”. O homem é bastante hipocondríaco. como todos os dias. na verdade. sacode os ombros e diz: “Tudo bem. a secretária traz de volta um balancete que ele havia apresentado ao chefe da empresa no dia anterior. Quando regressa.O corpo inteiro parece fazer coisas estranhas.O truque. O homem vai se levantar. O homem ficaria sem trabalho.. Eu vou levar as crianças para a escola. chega em casa mal-humorado. se distrair”. Os filhos trocam olhares entre si. e descobre de repente que perdeu seus reflexos. diz. “É que está faltando o primeiro ponto!” – grita ele . quem faz? Ele ou as mãos? Porque você está guardando o mistério das mãos. compara os dados e exclama: “Como é que eu pude fazer isso?”. O chefe está furioso. remédios. mas a mulher impõe silêncio com um gesto. Ele rejeita. sem nada.CECÍLIA . É verdade. Mas só desta vez”.. O homem sai do escritório. talvez um xarope. e a mão não responde. vê que o homem já está vestido e pronto para ir trabalhar. Chama a secretária: será que não foi ela quem mudou o original? Ela nega com firmeza. diz. vão dizer alguma coisa.. e o amigo o tranqüiliza: “São os nervos”. CECÍLIA . GARCÍA MÁRQUEZ . “Você tem que descansar.. O homem percebe que todos. O homem é contador. vemos como ele serve uma colherada e toma. acha que é um capricho ou uma brincadeira. No escritório.O que aconteceu com a mão dele? CECÍLIA. E de repente. “O corpo não me responde”. olhando para as próprias mãos. diz ele. comprimidos. conversa com um amigo. E são números que ele mesmo anotou. E não consegue. GARCÍA MÁRQUEZ . Adoraria comer tudo. até que no final o homem estivesse totalmente dominado pelo corpo. esperando que a mulher sirva o jantar: Ela põe na frente dele um prato delicioso...Vocês irão decidir: E a história de um senhor que um belo dia acorda cedo.

e que imediatamente isso fica demonstrado. Verde. “Mas com essa pinta. essas sensações sobre as quais ele não tem nenhum controle. Apertar os lábios. o que está acontecendo comigo?”..história difícil. de Kafka? “Certa manhã. Tampouco é uma história muito visual. 26 .. tanto faz. faz o que ela quer”. Gregorio Samsa viu-se convertido em um inseto monstruoso”. Não é como a história de um camarada que fica verde. CECÍLIA. paulatino. e alguém diz: “E que você está ficando verde”. justamente. GARCÍA MÁRQUEZ . Dá para ver..O grande problema da história.Tive essa idéia ouvindo as pessoas dizendo: “Fulana? Ah. com um narrador. GARCÍA MÁRQUEZ. com essa história? Quer contar o quê? CECÍLIA . conseguiu esse trabalho de modelo pela figura que tem.. por ter contado mal a história.Eu acho que é pouco visual. Aí essas sensações estranhas são contadas. CECÍLIA . No começo acaba sendo inacreditável para quem rodeia o homem. ou melhor quando a mão levar comida à boca do homem. depois de um sono intranqüilo. Ele se vê. a mulher está acostumada. ou roxo.Pode ser que a culpa seja minha. Com aquela altura.O que existe de tremendo em A Metamorfose é que Gregorio Samsa amanhece realmente transformado num enorme inseto. Você teve de “explicála” para que pudéssemos entender o que acontece. Um dia. como é que vou conseguir?”. Como diferenciar ele do corpo? O que fazer para deixar claro que quem está agindo são suas mãos. Ele se sente diferente do corpo que lhe coube na roleta da vida. Não é que ele acha: não é um pesadelo ou uma alucinação. E o que realmente acontece. CECÍLIA . faria isso ou aquilo”. costuma dizer o homem. nós o vemos. botar a cabeça para trás . ou vermelho. não. Acho que a transformaram em filme e foi resolvida. GARCÍA MÁRQUEZ . é esse. Por isso fala-se tanto no filme. o caso é que o tipo fica colorido. Mas aqui. Não é só a mão: é uma rebelião paulatina do corpo inteiro. e não ele? ELID .E que se trata de um processo lento. GARCÍA MÁRQUEZ . claro. porque a história não é muito visual. você se propõe a dizer o quê. primeiro. e depois com ele mesmo contando suas experiências. A idéia é essa. “Se eu tivesse outro corpo. por exemplo. grita. aqui a gente não sabe o que está acontecendo até que o próprio sujeito diz: “Esta mão safada não faz o que eu quero.. percebe: “Porra. ao despertar.Você lembra de A Metamorfose. mas pouco a pouco acabam aceitando porque ele sempre foi meio hipocondríaco.Quando for comer. ele teria que resistir feito uma criança..

Enfim.Isso ficou claro.google. não é?”.com/group/Viciados_em_Livros. não é? Uma espécie de dissociação entre o que esse sujeito é e o que gostaria de ter ou de ser. qualquer um consegue”. CECÍLIA. E tem ainda quem acrescente: “Se eu tivesse tudo aquilo..1 1 Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar o acesso ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras. além disso. Estaria completo. Já eu ..E talvez um pouquinho de dinheiro . “. é hipocondríaco . Mas o problema é como concretizar isso visualmente. nada faz mal..”. falando de um jogo de futebol: “Sim... Dizem: “Você sim. será um prazer recebê‐lo em nosso grupo. aquele cabelo .... tem muita gente que não está de acordo com o próprio corpo..Eu acho que uma história não existe enquanto não puder ser contada em uma página. Você quer tentar? CECÍLIA. tem sorte! Pode comer de tudo. GARCÍA MÁRQUEZ . Quando. claro.. eu tenho um estômago que não presta para nada. e além disso a inteligência que tenho.. Se quiser outros títulos nos procure http://groups. GARCÍA MÁRQUEZ. só podia mesmo correr. fulano jogou bem. aquelas pernas.Até o infinito? GARCÍA MÁRQUEZ .E tem aquele que diz. 27 . Existe aí um conflito. Minha digestão é muito lenta..aquele corpo. Mas com aquela corpulência.

Estava com uma atriz que já não é tão jovem. Atrasado. embora eu tenha certeza de ter visto esse capítulo. E sobre uma mulher casada com um cientista. Continuam a procurando. trabalhando em alguma coisa com Ruy Guerra. a mulher começa a perceber que as coisas mudam de lugar. Alejandro Doria me telefona. Primeiro. é um gênio. rasguei sem perceber”. em casa. e quando volta o copo não está mais lá. não gostei do final. A coisa ficou nisso. Acende o fogão. disse ela. e que sem querer tinha rasgado também a cópia do quarto capítulo. A idéia completa. “Não faz mal”. Pessoalmente. mas você me ajuda a terminar esta história”. e quando volta. naquela época. “Não pode ser. de um longametragem. Pode ser a eletrônica. e depois porque não valia a pena. comecei a tirar fotocópias do livro que estava escrevendo. e não tornei a pensar no assunto. que você vai acabar me deixando louca”. de Um Corpo que Cai. E ela ficou me olhando. não lembro qual. “Por favor não faça uma coisa dessas comigo. falei comigo mesmo. o quarto capítulo não está aqui”. Eu disse: Mercedes. Deixa um copo aqui. e eu ia pondo as folhas em ordem. Olha só. este que estou copiando agora é o quinto”.. Ela ia fotocopiando. Eu fiquei furioso: “Como é que você me pede isso. porque vinha de Hitchcok. para uma mulher de quarenta anos”.Um dia. mas já são adultos. Pus as cópias bem aqui. Um belo dia. Mas profissionalmente. pedi a Mercedes que me ajudasse. rascunhos. lá de Buenos Aires. o quarto capítulo sumiu. como se estivesse encomendando dez metros de pano?”. põe uma panela no fogo. do começo ao fim. Ela chegou inteirinha. Uma semana mais tarde. Os filhos moram com o casal. E disse a ele: “Trabalho com você. isso ainda não está muito definido. a panela está em cima de um 28 . “Bom. e nada. não sei. Então. vamos ter de fotocopiá-lo de novo. “Como?”. tive a idéia.TERCEIRA JORNADA DE TRABALHO Em estado de loucura GARCÍA MÁRQUEZ . Ele topou. e de que você o copiou”. E bem nesse momento. É verdade que. “aqui está o quarto. “O Alejandro está precisando disso!”. De repente. precisamos de uma história. falei para Mercedes. Eu copiei. depois. reparei que havia estado rasgando papéis. o marido é um sujeito insignificante. Eu estava. sai. e me disse: “Escuta. não tem jeito..

que as coisas estão mudando de lugar. a última veio antes da primeira: a vida com a amante é anterior à vida com a mulher. A sensação de solidão produz na mulher uma espécie de choque. Aliás. principalmente em mulheres da sua idade e que tiveram uma vida muito ocupada. A história acaba aí. quando descobre que o marido tem outra mulher.. a rua. de casamentos aparentemente bem sucedidos. mas com uma diferença: para o marido.. os filhos foram estudar. que alguém tinha feito um estudo que poderia se chamar As Esposas Felizes se Matam às Seis.. seu ar grave. o que a mulher ainda não sabe: o marido reproduziu sua própria casa na casa da outra. Tem uma carreira profissional bem feita. A única coisa que ele faz é tentar reviver com a amante os anos em que foi feliz com a mulher. Tem mais: é ela própria. Essa pessoa começou a pesquisar e chegou à conclusão de que os suicídios tinham três coisas em comum. aliás. as duas serão interpretadas pela mesma atriz. Será que tudo o que ela está vivendo não faz parte de um plano do marido para enlouquecêla? Começa a investigar e descobre que a amante é exatamente igual a ela. temos mulheres idênticas e casas idênticas. Então. Primeiro. Assim. ou seja: quando um marido começa a pensar que sua mulher está louca. não é mais amante. Ela não serve para nós.. muito séria. até o dia em que descobre. como espectadores. Principalmente ela. Fica alerta. todo mundo saiu: o marido foi trabalhar. mas ela consegue se superar.. que se matavam sem motivo aparente. Ninguém tem culpa de nada. As coisas escapam dela. mas conseguem. É uma pessoa madura e uma de suas características é justamente a serenidade. na França. Ela se tranqüiliza. e era o que ele queria: um divórcio sem complicações. com o argumento da loucura. parece uma cópia. em sua casa. Decide consultar uma amiga psiquiatra. Agora ela virou esposa. e entrar num acordo com a amante para enlouquecer a sua mulher. Quase que podemos dizer vidas idênticas. Até um outro dia.fogão apagado. Certo dia. o casal está feliz. Agora. A mulher começa a seguir a amante do marido em seus movimentos cotidianos: o mercado. mas eu ainda não escrevi nada. E sabemos agora. é porque ele enlouqueceu. que diz que aquilo tudo é muito normal. A pesquisa foi realizada por uma pessoa que observou vários casos de mulheres. porque foi pensada para ser um longa-metragem de pelo menos noventa minutos. aqui na Oficina. A outra se comporia exatamente como ela. Sente-se feliz. que não precisa mais competir com ninguém. algum tempo depois vi.. E então percebemos que nesse caso aconteceu a mesma coisa de sempre. Ela ficou sozinha em casa. Demora. no filme. ele obtém facilmente o divórcio. Mas nota que está perdendo o sentido da realidade. todas as suicidas pareciam 29 .

. percebe que a imagem está vestida com um macacão azul. Na banheira.e se oculta atrás de um muro. É seu filhinho. espia o berço do bebê – cuja cara.não parece humano . “está ficando tarde”. no meio da sua fuga. talvez? Quando não acontece nada ELID . um desses gorros que cobrem o rosto inteiro e deixam os olhos à mostra. Na verdade. A voz grita. aparece na tela um rosto estranhíssimo . esticado na cama. Mas a porta que se abre é a de seu verdadeiro quarto. E claro que a tevê está ligada. Sua mulher está chamando. X joga o boneco nas costas e vai ao banheiro. cai. pam!. não consegue ver o próprio rosto. na sua frente. pegue o boneco. X entra a sai do banheiro. e agora nós o vemos em casa. recorda a do boneco que vimos . junto a uma tela de televisão. chamando os guardas. ele tira a máscara mas como não existe espelho. todas tinham mais de quarenta e cinco anos. A de ELID. sai num telhado. desta vez mandando X sair dali. X sai do banheiro e começa a correr. agora. um sujeito dorme. diz ela. Uma pesquisa posterior permitiu descobrir a razão disso tudo. quase ocultos pela cortina. segundo. “O que é isso?”. Abre os olhos. E. se suicidavam sempre às seis da tarde. pendurado. vê a rosto de outra pessoa.. aliás. bufando. Numa das paredes há. Vamos chamá-lo de X. e. torna-se a ouvir a voz da tela. Seu assombro aumenta quando o recém-chegado coloca. terceiro. mas cujo rosto não está coberto por nenhuma máscara. mas não se vê nenhuma imagem. X se levanta e tenta contar o sonho à mulher mas ela não dá a menor importância. diz ela. encontra outras pessoas todas com o rosto descoberto . Soa um alarme. Veste um macacão azul e tem o rosto coberto por uma máscara. sobe uma escada. edifícios em ruínas. 30 . mas não podemos. de repente.que começa a dar ordens a X: levante-se. os guardas arrombam a porta aos pontapés. o sujeito diz a X que tire a máscara de uma vez. Lá. Temos que passar a outra história.. X fica surpreso ao vê-lo. para que X contemple o próprio rosto. e por ela. um espelho. nesse exato instante.Num quartinho onde mal cabe um catre.. Agora. que se rebele. O café da manhã está servido.. etc. há escombros. Dali sai um indivíduo que veste o mesmo macacão azul. esconde-se num quartinho e. Ouve-se o choro de uma criança.. Atravessa ruelas desertas. que deixe de cobrir o rosto. o que o devolve à fuga: mete-se em labirintos de escadarias. entra a mulher. E mais: começa a insultar o ente misterioso da tela da tevê. insiste. X começa a se vestir e quando vai dar o nó na gravata diante do espelho. acenda a luz. vê os guardas se aproximando. “Acorde”. é a primeira vez que ele. que chora no berço. nos deter nesse assunto. um boneco.felizes.e vai caindo numa espécie de torpor. De repente. “Você vai chegar atrasado no trabalho”. tropeça.

..Você leu Orwell? Esse tela não faz lembrar o Big Brother? ELID . “está tudo bem”. 31 . GARCÍA MÁRQUEZ .esfriando. diz.. some. Para abreviar.Bem. GARCÍA MÁRQUEZ . O homem.Supõe-se que seja. GARCÍA MÁRQUEZ .Não acho necessário que ele saiba. e puf!. “Então. Perto. claro: está num lugar. vemos um homem. qual é a realidade que ele está vivendo.Não. X deixa escapar um grito e o vemos tentando se erguer na sua cama.Eu sinto que a ação é muito rica. aquilo era um pesadelo. “Ah!”. o homem está se submetendo a uma experiência psiquiátrica. X pergunta onde estão. o que é que acontece? De repente.Não é só a tela. SOCORRO .. arfando. A imagem se congela.Mas é isso justamente o que me interessa: que X nunca saiba direito qual é o sonho e qual é a realidade. desaparece. desaparece. etc. com um olhar inexpressivo. existem muitas peripécias.. “Não lembra? O senhor se ofereceu como voluntário para esta experiência”.. não. e médico responde: “No Instituto”. a perseguição termina com os guardas descobrindo X atrás de uma pilha de escombros. É o Instituto de Pesquisas Psicológicas. X fica boquiaberto. que está pronto para dar a injeção. Já não existem teto. GARCÍA MÁRQUEZ . acabamos de ver o filme. Abre a boca. Um sujeito misterioso. de costas. A necessidade de se rebelar contra a tela é muito similar. Disparam nele. Cada um pode ver a realidade do jeito que quiser. sorri de maneira estranha. de sua cama. E enquanto dá a injeção. ELID. você é a roteirista. nem paredes.E o espectador também não? ELID . a que conta a história do filme.Sim. “Fique tranqüilo”.... Você tem de saber o que está acontecendo. X. mas é o único elemento da história que pode fazer pensar no livro 1984. contempla. GARCÍA MÁRQUEZ . Pode inclusive perguntar a si mesmo qual o grau de realidade que existe em sua própria vida. Está preparando uma seringa para dar uma injeção em X. murmura X.. Afinal. o céu estrelado.. ELID .. é um truque cinematográfico. pergunta. mas sem saber direito o que acontece. e esta é a realidade”. de barbicha e avental de médico. a cama de um hospital. Está amarrado por umas correias. começa a desaparecer. Tudo vai se desvanecendo. A mulher dá meia-volta e em vez de se afastar.. É isso? ELID . “O senhor acha?”..

E. “Esta manhã. quando a gente sentir que já esgotou a própria experiência vital como fonte de criação. SOCORRO . “era um gesto de 32 . um eixo ao redor do qual a história seja construída. diz. acontece um monte de coisas. que ele já não consegue separá-los da realidade. No começo daquela mesma tarde.mas falta um esquema que dê coerência a tudo isso. “Não era uma ameaça”.Existem histórias de quinze minutos que podem ser contadas mais rapidamente. desenvolvimento e fim. GARCÍA MÁRQUEZ .Acontece que. Os sonhos parecem tão reais. com princípio. pode começar a explorar outros caminhos..O problema é que a gente se vê obrigado a segui-la sem contar com nenhum antecedente. mas não acontece nada. Pode-se chegar ao tipo de história como a que você contou depois de ter escrito muitas outras baseadas em experiências reais. “Senhor”. GARCÍA MÁRQUEZ . olhando bem. E até lá? Será que temos de confiar tanto na paciência do espectador. meio e fim. Ou melhor. a realidade é esta aqui.ELID. eu acho que o problema é esse. você fez ao meu criado um sinal ameaçador”.. ele vá seguir até o fim? Cada nova peripécia só faz aumentar o desconcerto do espectador..Faltou que eu esclarecesse que quando X está fugindo e se encontra com os outros camaradas. E uma ambigüidade que quero manter. responde a Morte. Não é uma história orgânica. Mas temo que começar do jeito que você começou é percorrer o caminho ao contrário. o amo encontra a Morte no mercado. sem nenhum antecedente. Ele tem consciência disso.. ROBERTO . já começa a surgir sua confusão entre a realidade e os sonhos. com princípio. O amo dá a ele um cavalo e dinheiro.Talvez seja uma história de quinze minutos que se estendeu demais.. REYNALDO . ELID ... será que você não poderia tentar recordar um episódio da sua própria vida. GARCÍA MÁRQUEZ . diz.. Assim.. O criado foge. Vocês se lembram de A Morte em Samarra? O criado chega aterrorizado a casa do amo.. a ponto de supor que... Só no final é que descobrimos que X se apresentou para fazer parte de uma experiência. e diz: “Fuja para Samarra”. “vi a Morte no mercado e ela me fez um sinal ameaçador”. que possa ser contado de maneira mais simples? E sempre bom começar por esse caminho. Não me interessa dizer ao espectador: veja bem. nessa história não acontece nada. Como é que X se transforma em um rebelde? De que maneira seus conflitos internos são transmitidos a nós? E qual é o conflito central? Ou é que nessa história tudo é conflito?.

Dá para fazer um longa-metragem com isso? Dá. Eu estou justamente tentando adaptar Maria. resumi-la numa página. Porque eu o estava vendo aqui. ou sobra alguma coisa. Só que permaneço firme em uma convicção que já revelei aqui: se você não pode contar a história numa página. mas o preço é esticar demasiado. Claro. e transformá-lo em cem episódios. então pode ter certeza que que nessa história falta alguma coisa. O General em seu Labirinto. onde tenho que pegá-lo hoje mesmo ainda esta tarde”. Escrevi duzentas e oitenta páginas ao redor desta frase. uma história. O livro que acabo de terminar. tão longe de Samarra. e eu já disse a vocês que para mim não existe nada pior que esticar arbitrariamente. coisas que eu acho que valem a pena dizer sobre a história da Colômbia e a situação no vale do Cauca. e não o fizeram por uma razão muito simples: aí está o segredo inteiro do desastre que o país vive. 33 . O que eu queria era completar um episódio que os historiadores colombianos não haviam desenvolvido nunca.surpresa. sobre Simón Bolívar está tirado de uma frase: Após uma longa e penosa viagem pelo rio Magdalena. morreu em Santa Marta abandonado por seus amigos”. livro de Jorge Isaacs. é um romance onde existem muitas coisas explícitas.

Um ônibus vai pela estrada..E por que ele faz isso? MANOLO . Todos os passageiros parecem gente do litoral. com gravata. lá na moviola. Nada a ver com os outros passageiros. Entre eles vemos um homem cinqüentão.Muito bem.Ele é de Bogotá.. GARCÍA MÁRQUEZ .A gente quase pode dizer que a doença o salvou. G. Sonha com uma moça muito bonita. na hora da montagem do filme. Para onde ele vai. M. Vê a si mesmo saindo da sua casa para apanhar o resultado de um exame médico. com um terno de veludo meio puído.QUARTA JORNADA DE TRABALHO A morte em Samarra. O ônibus chega a um povoado.. Cochila. mas na verdade. e pára. E atendido por um médico que informa o seguinte: ele sofre de uma doença que não tem cura. Um senhor cinqüentão. a gente arma tudo isso conforme nos dê na veneta.. sem mudar nem de repartição. chapéu e guardachuva. A paisagem é dos trópicos. O camarada observa a paisagem pela janela. GARCÍA MÁRQUEZ . deixar sua antiga vida para trás.. É um cachaco. Tem pouco tempo de vida..uma moça.Por que você não conta para nós em linha reta? Depois. 34 . II MANOLO . Desce correndo do ônibus. vestido com um terno negro de veludo. para o Vale Dupar ou para a Venezuela? MANOLO . Ele tem seis meses de vida. entra num hospital público de Bogotá. e deixa que vá. O homem sai. A doutora diz que sua doença é incurável. vinte anos de burocrata.Para o Vale Dupar. Faz calor. está recordando. E assim que os moradores do litoral da Colômbia chamam o pessoal de Bogotá. MANOLO . entra no primeiro ônibus que passa. Pergunta aos moradores do lugarejo onde pode passar a noite.. Ou será que nunca esteve ali? O homem vê que o ônibus vai partir. olha pela janela e vê . no hospital público. a moça sumiu. MANOLO . GARCÍA MÁRQUEZ .Porque decidiu fugir. Ele passou vinte anos trabalhando como funcionário.ou acha que vê . O homem desperta. vestem camisa esporte. um ônibus que diz Cartagena ou Curumaní...Tornamos a vê-lo no ônibus.

. dona Lina aceita alojá-lo. da conduta do homem. o que foi fazer no povoado. para ver se acontece alguma coisa estranha com ele. GARCÍA MÁRQUEZ . e aparece uma moça. É importante que diga para nós. o homem desce num povoado qualquer sem razão aparente. O que não entendo é porque o homem não vai ao 35 .... mas enquanto isso o que que nós vemos é a realidade: a vida monótona e rotineira de um funcionário público.O homem é um cachaco. a tantas horas da noite. Seria a primeira vez na vida que ela sairia dali. e um belo dia. Conta o que imagina. e depois de roubar o dinheiro da tia vá buscá-lo e não o encontre. Eles se vestem desse jeito. Naquela mesma noite irá roubar o dinheiro. aliás. GARCÍA MÁRQUEZ . ou seja. e bate na porta de uma casa. Chega. Um senhor de uns cinqüenta anos. e quem vem abrir é a moça com a qual ele havia sonhado. GARCÍA MÁRQUEZ . Ela. Não teve coragem.. pelo homem imaginário. uma série de coisas. Nem ao menos sabem que dentro da Colômbia existe outro país. mas sua tia tem bastante e ela sabe onde está guardado.Indicam a ele a pousada da dona Lina. mas pintada e maquiada feito uma gueixa. é da serra colombiana. GARCÍA MÁRQUEZ . que se baseará numa grande mentira: o homem vai contando sua vida a ela. e lá da cama submete o recém-chegado a um verdadeiro interrogatório: se é cachaco. É a sobrinha de dona Lina.Ele não disse nada.Vamos ver. bate na porta. sem nem mesmo prestar atenção no rumo que está tomando.. emoções e perigos.. O homem vai ao encontro marcado. uma vida cheia de surpresas. Toma então a decisão de viajar para mudar de ares. Bate na porta. Enfim. fazer coisas diferentes. Então acontece o que MANOLO contou. de uns sessenta anos. é verdade. o lazarilho de sua tia.Seu aspecto.. simplesmente. Vão precisar de dinheiro. No fim. ela mesma propõe que fujam juntos do povoado. como se fosse a vida de um aventureiro. CECÍLIA . de vida chata e monótona.. onde a gente usa roupas diferentes.O que pensei é que a moça marque um encontro com ele em um determinado lugar.E quando é que a moça vai ficar sabendo que ele está desenganado pelos médicos? MANOLO . Não sonhou nada. recebe a notícia de que vai morrer em pouco tempo. vamos começar a contar o filme de novo. MANOLO . O fato concreto é que a moça se apaixona perdidamente por ele... enfim.. ela foi os olhos. É um elemento que forma parte da situação.. O homem responde a esmo. é uma senhora cega.. a vida inteira. o homem usa roupas esquisitas. Vai começar assim um romance entre o homem e a moça. Entra num ônibus.Mas você deve saber.

36 . porque os de agora são alegres e alguns até dançam melhor do que nós. percebe que tem um câncer. Trabalha num tribunal. Se fosse viúvo teria uma filha que não moraria com ele. os de antigamente. a Morte em Samarra.O que eu pensei é que a moça era a Morte. em pessoa. GARCÍA MÁRQUEZ . Digo. Este dado não será necessário no filme. Era escrivão. É o que põe a história em marcha.. Não pode abandonar desse jeito a companheira da vida inteira. E então vai embora. a que lavou suas cuecas e tudo. Mas. do litoral. Os chefes destinavam a ele trabalhos urgentes. Mas a história está pronta. vamos ver: é melhor que o homem tenha ou não tenha família? SOCORRO. o homem trabalhava num cartório ou num tribunal. Não morre de doença. provavelmente. Ele vai buscá-la. Por que você não quer que ele seja viúvo.Mas ele deve entrar no ônibus sem nenhuma bagagem. A única coisa que falta é o final. o filme de Kurosawa? SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ . na sala de espera. talvez porque entre ambos tenha sido criada uma certa expectativa. Era um burocrata de burocratas. como estava previsto. Mas pode nos servir para explicar sua conduta a decisão que ele toma. Um escrivão de caligrafia muito boa.Eu prefiro que seja o médico quem diga.Casado.Tudo levava a crer que ele fosse viúvo.com quem mantém uma relação mórbida.Ah!.. MANOLO . Ou seja.Não sendo viúvo. Por algum motivo. esse plano de fuga se transforma na morte do homem. sem querer. ele pode se mandar sem se despedir. ou num cartório. Por exemplo: no momento em que ele chega para fazer a mala.. muito meticuloso. Não chega a entrar no consultório médico. Manolo? MARCOS .O homem é viúvo? MANOLO . teríamos a chance de vê-la uma vez. mas no apartamento vizinho.A idéia era justamente essa.. Esse poderia ser um final. Como é mesmo aquela história de viver. então existe uma senhora . mas não tem filhos.encontro. CECÍLIA . não pode abandonar sua mulher sem se despedir. ou a faxineira . muito bom cumpridor de seus deveres.a empregada.Se tiver. É que todos os cachacos parecem viúvos. mas porque a Morte vai buscá-lo. pelos sintomas de outros pacientes. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ .O personagem. ou certos equívocos. Se for viúvo. REYNALDO .Em meia hora. GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO ..Sem dar a notícia a ninguém? Essa notícia ele tem de dar.

e no fim. Vai morrer mesmo. Mas a médica balança a cabeça: não há mais nada a ser feito. bem.Primeiro. Por isso ele tem a idéia. E esse. GARCÍA MÁRQUEZ . e pensa: por que não? MARCOS . E em seguida.A rodoviária está bem na frente do bar.Manolo e eu tínhamos pensado que sua doença fosse cirrose. GARCÍA MÁRQUEZ .”. Chega e senta no mesmo lugar de sempre. fazendo em esforço enorme. diz. mas vai logo dizendo: “Veja só o que aconteceu comigo. Esse pessoal que fica atrás de um balcão de bar. “Traga alguma coisa forte”. “Veja só”. e depois vai para a rodoviária e pergunta: “Qual é o próximo ônibus?”. eles são os confessores dos bêbados. GARCÍA MÁRQUEZ . “O de Curumani”. conta toda a sua tragédia. telefona para a mulher dando a notícia. todos eles! Não volto para o escritório. conta isso. começa a ação propriamente dita. O médico . Ele conta ao cara do bar o que aconteceu. respondem... Para o inferno.MIGUEL . “Vida de merda! O trabalho que tive para deixar de beber. e de cirrose. sem nenhuma palavra. Há anos ele é conhecido ali. Ela não sabe que ele foi ver o médico.Quer dizer que o homem parou de beber.O sujeito entra no bar. e olha só o que aconteceu comigo.E verdade.Não é um bar qualquer. que deixou de beber há tempos. Mas desta vez. Depois entra no bar.ou a médica . e ela não o deixa falar: começa a contar a história de não sei quem. MANOLO . O personagem. E de repente. REYNALDO . MARCOS . Chega o momento em que é preciso dizê-las. e a partir daí. Ele sai do hospital público angustiado. e para quê?”. não conhece o cara do balcão.. ele recusa com um gesto.É neste momento em que começa a acontecer um monte de coisas. diz ele. E quando fica sabendo. E na mesma hora ele compra a passagem. ele telefona para a mulher. é o momento em que o homem agarra o dono do bar e conta o que aconteceu.. não adiantou nada. O garçom olha sem entender nada. a primeira coisa que faz é entrar num bar e mandar ver. Vê as pessoas entrando e saindo. trazem o seu café.pergunta: “O senhor foi alcoólatra?”. no primeiro que encontra. O bêbado sempre se confessa ao cara do balcão. E tem mais: não volto nem para casa. E para que você fique sabendo: não vou pagar essa coisa 37 . aqui... GARCÍA MÁRQUEZ .Exato: o espectador não tem de se dar ao trabalho de adivinhar essas coisas. É o lugar onde ele vai todos os dias tomar um café. “trinta anos enfiado num escritório para ter uma aposentadoria e garantir uma velhice tranqüila.

de ele fazer a catarse na frente de um copo. por exemplo. Por isso. quem é?”. No cinema. Mas aqui. Quando apagavam a luz. Esse é o filme. 38 . GLÓRIA . As vezes acordo de repente e vejo um ator e pergunto: “E esse aí. Para quem não sabe como contar uma história com imagens. é uma reação natural. mas a necessidade de se confessar. Um sujeito que está na situação dele tem essa reação: a primeira coisa é contar a história para alguém. porque se enganou de vida. não é nem mesmo um recurso narrativo. Resisto um pouco a fazer um filme no qual as coisas sejam tão faladas. e ponto final.. pelo menos. Só falta contar como as coisas acontecem. O que vem depois. eu tinha de dormir: Por isso hoje em dia. é o que contamos. GARCÍA MÁRQUEZ . A única coisa que sabemos com certeza até agora. que o leva diretamente para a morte.que estou bebendo. Sai e entra no primeiro ônibus que passa.Não sabemos se ele vai ou não vai telefonar. agradeço essa deferência. Sempre durmo quando estou vendo filmes. GARCÍA MÁRQUEZ . durmo. Eu. no qual as situações se resolvam verbalmente. se fosse um recurso arbitrário ou fácil. uma coisa que recorda os romances policiais ou os filmes de caubói. Depois acontece uma coisa estranha. nesta situação. O cara precisa desabafar. se a minha proposta for aceita. Fui condicionado. Que vá tudo à merda! Ouviu bem?”. Eu entenderia suas objeções. Falando sério. Para mandar todo mundo à merda. numa situação como essa.É porque você é um diretor muito jovem. MARCOS . Que desabafe com o dono do botequim é tão natural que chega a ser um lugarcomum. Inclusive isso. quando estou vendo televisão com a luz acesa e chega alguém e apaga. e bordar bem a história para que fique ajustada e não passe de meia hora.Eu gosto dessa idéia: ele se mete no primeiro bar que aparece. ROBERTO. durmo profundamente. que eu mesmo faço o roteiro. desde pequenino. Vocês não gostam da minha proposta? Deixem comigo. Poderíamos procurar outro confidente.O que eu não entendo é essa história de ele ir embora sem telefonar para a mulher. porque não parece forçado. nós já sabemos. ROBERTO.. é a mesma coisa: assim que começa a sessão e a luz é apagada. a associar a escuridão com o sono.Eu tenho minhas reservas. a única saída é pôr um ator para contar tudo. Quando você for um pouco mais velho irá perceber que as pessoas nem sempre entendem os argumentos. num instante. é melhor contar diretamente. E ponto final..

se acontecesse alguma coisa diferente comigo! Se eu pudesse mudar de vida! Eu iria embora com o primeiro que batesse nessa porta e que me propusesse. mesmo que seja por um tempo breve. Eu tenho uma história de um minuto.. quimioterapia.Podem ter receitado um tratamento.. Agora. não está ouvindo coisa nenhuma. REYNALDO .. mas ele se nega a obedecer. estou pensando que podem em existir alternativas. diz a si mesma: “Puxa.. e acontece que o que ele encontra é a morte. Ela tem que esfregar o chão. Muito colombiana. Porque a gente imagina que ele vai encontrar a felicidade. mas no fundo. GARCÍA MÁRQUEZ .O dono do bar acha que é só mais um desses bêbados que contam sempre a mesma história. A Morte preocupou seu caso de um modo muito normal. para quê? Porra nenhuma de tratamento!”. porque devem ter receitado algum tratamento... MANOLO .O que me preocupa é a coisa da cirrose. ou qualquer coisa parecida. alguém bate na porta.Aí. ele começa a contar a história. É formidável que ele deboche da Morte. é verdade. o diabo? Para ficar careca? E no fim. procura outra morte. lavar a roupa.Claro. sua morte antecipando-se à Morte. 39 .E fica escutando sem se mexer. temos que saber quem é o tipo que bate na porta. Mas antes.Eu pensava que ele tinha um câncer. com sua reação. Anotem isso. E se a moça que abre a porta estivesse esperando por ele? MANOLO .. . Um belo dia. No meio de um montão de escombros.Isso dá para um longa-metragem. É muito maltratada. Um filme que começaria com a moça levantando-se da cama e começando a cuidar das tarefas domésticas.. Ou melhor. pois daí nasce outro filme.. de repente. É uma empregada. REYNALDO . casas queimando.Estou louco para chegar à porta.. tudo muito burocraticamente. faz cara de quem está prestando a maior atenção. Gosto dessa reação. espalhados por aí. E. Uma cidade em ruínas desolada. e ele. Você quer chegar à porta porque é aí que o filme começa de verdade.Pois é.Pede uma bebida e quando o cara do balcão serve. GARCÍA MÁRQUEZ .. com colunas de fumaça no horizonte. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . soldados e cavalos com as tripas de fora. “Como é que é? Radioterapia.. GARCÍA MÁRQUEZ . arma uma jogada inesperada. CECÍLIA . seria outro o filme. Uma morte antecipada.

SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ .Sabendo.Eu pensava nesses trens que a gente vê no Brasil. E. fazendo ginástica rítmica. e não uma garota. meninas. que o homem vai morrer tudo que acontecer ao seu lado fica tendo um valor excepcional. GARCÍA MÁRQUEZ . Encontra um cadáver. “Venho buscar depois”. uma índia.. Como espaço e como imagem. De repente. Peru. É um oficial agonizante. vestidas.. havia muito pouca gente. ferido.. ROBERTO . teríamos que sair do clichê: deveria ser uma mulher feita. São todas freiras. Eu ia pegálo e cheguei na estação muito cedo.Eu tenho outra.Eu fiquei me perguntando. Existe um enorme salão com vinte ou trinta moças belíssimas. Pode até mesmo existir alguma armadilha por aí. no lugar do ônibus? GARCÍA MÁRQUEZ . “Segure isso”. que é chamado Trem da Morte. outro. e diz: “Senhor ganhamos”. com uma 40 . o trem é mais interessante. O salão fica deserto. E sumiu. GARCÍA MÁRQUEZ . O rapaz se inclina sobre ele. inteirinho. ROBERTO . ROBERTO . que se arrasta buscando alguma coisa. pergunta: “E para onde é que você vai?”. Ainda percebemos suas insígnias no uniforme. e. As moças correm para os vestiários. Ele está no bar. como sabemos. disse ela.alguma coisa se move. É uma idéia que Buñuel teria adorado. Mas. entrando em terras quentes. Parecia carne. Sei que é o começo de um filme.Podemos copiar isso.. totalmente nuas. coloca um pacote no meu colo. coberto de pó e de pedras. Um personagem que iria sentar-se ao seu lado quando o ônibus chegasse às terras quentes.. Sentei. de repente. Uma mulher bela. o trem saiu. uma mulher. As moças saem. porque achava que ele ia lotar. Lembro também do trem da Bolívia. Poderia ir passando por cafezais. mas madura. mas qual o quê. E ele responde: “Sei lá. ouve um gemido. dormi e de madrugada acordo e me vejo rodeado por uma verdadeira multidão. O dono do bar que o conhece muito bem..Pois o que eu imaginei era outro personagem. chega de distração: vamos voltar aos nossos trinta minutos. ouvese um sino e uma voz: “Muito bem. mas nunca descobri como continua. o ônibus descendo da serra.. a aula acabou”. quando aumentasse o calor.. depois por canaviais. Em relação à moça.Eu imaginava uma sucessão de paisagens diferentes. Vou à merda” Corte para o trem. de repente. É rapaz jovem. faz uma espécie de saudação. o tempo todo: não será melhor o homem pegar um trem..Sim. enfim. Nunca pensei que pudesse caber tanta gente num trem. Nunca soube o que era.

MANOLO .Vamos. Afinal. tranqüilo. podemos perder o frescor da história. sem perceber. ele desce do ônibus. SOCORRO: qual era o personagem que você pensou em pôr sentado ao lado do homem? SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ . ele quer driblar a morte. para a morte. e o homem. Ao se sentar. Se formos procurar um jeito de uma coisa levar a outra. o homem não queria novas experiências? Que se dane agora! REYNALDO . Acho bom a gente ir fazendo um arquivo com os personagens que forem sobrando.. ROBERTO . Para ele. morto há quatro anos. a graça está nos atos dele. como aconteceu com o Roberto.Isso. Ela acaba de exumar os restos do marido. e ponto final. que parecem arbitrários. naquela cidadezinha. Gloria . ver o seguinte: deixaram com o homem um pacote de carne. inevitavelmente. no trem.Diga uma coisa. Vamos guardar esse personagem para outro filme.. nada nele mudou. então. tanto faz ficar ali.O ônibus pára. e porque está cheio de tudo.Ou melhor a mulher do pacote desce do trem sem nenhum aviso. Mas. até que não seria má idéia. ou em qualquer outra. GARCÍA MÁRQUEZ .Uma lápide.É preciso tomar cuidado para que a natureza das suas decisões fique clara. que fica lá comendo. GARCÍA MÁRQUEZ . vai atrás dela: “Senhora seu pacote.história atrás. O importante.E quem se importa com o que aconteça no trem? Não dissemos que o filme começa na porta? GARCÍA MÁRQUEZ . Não tem a menor vontade de se apressar. Todo mundo come com pressa. Não pode ser um travesti. Se o homem deixar as coisas acontecerem.O ônibus é mais íntimo que o trem. A única coisa definida. Mas agora. REYNALDO . e tem 41 .”. para mim. pensando bem. que entra no ônibus levando uma placa de mármore. começa a limpar a lápide com um pano. podem acontecer mais coisas. e bate na porta que quer. e agora leva a lápide para casa. Desce no povoado que quer.Mas. trasladou-os ao ossário.Eu não acho que a gente precise situar tudo numa corrente de causas e conseqüências.Uma mulher negra. isso sim. SOCORRO . a gente vê depois. são os impulsos do personagem. É uma lápide. ao lado de um camarada que vai morrer? E alegórico demais. É o que aconteceu sempre. o homem. é que tem de ser uma pessoa do sexo feminino. ROBERTO . Aqui. menos ele. os passageiros descem para comer.

O espectador ficará pensando que ele está falando de Veneza ou coisa parecida. Vocês não acham que aos poucos o personagem vai sendo esculpido.Em bogotá. CECÍLIA .O que deve ser ressaltada é a sua atitude. Algo assim como o litoral peruano. GARCÍA MÁRQUEZ . ou faço pipi aqui mesmo”. ouça bem o que estou dizendo: ou pára. exigindo parar.. na verdade. fazer o que me der na veneta. diz alguém. fui um burocrata.O que MANOLO disse do almoço: “O ônibus está indo embora? Deixa ir. “Meu senhor. Ele nunca foi a lugar nenhum. raquítico. MARCOS . o trem parou porque há um obstáculo nos trilhos. por uma rotina estrita. ROBERTO . uma paisagem meio deserta. o espectador pode pensar que estamos escondendo alguma coisa. Fui a Sipaquirá em alguns domingos para comer batata salgada. me deixei dirigir sempre por um horário. SOCORRO . e dá para sentir que ficou impressionado. GARCÍA MÁRQUEZ . e todo mundo desce para ver o que está acontecendo. É uma pedra enorme. Tudo é pobre. Ele tem que armar uma confusão no ônibus.Se não fizermos desse jeito. e fique porque ficou. Ou. Isso deve ficar claro. vai continuar a viagem. ficando redondo? CECÍLIA . então. Fica olhando a paisagem.. para eliminar suspeitas de que ele estaria descendo em um lugar conhecido. Não: está pensando em um lugar qualquer. GARCÍA MÁRQUEZ .Na Colômbia. Sobe uma colina. “Mas aqui não é parada. VICTORIA . e começa a andar naquela direção. Ele. E ele responde: “Mas é aqui mesmo que eu quero descer. então. Agora. Ele pensa: estou doente porque segui determinadas normas. Agora. Eu ainda não acabei de comer”. porra!”. por exemplo.Eu imagino. onde já esteve antes. Todos tratam de tirar a tal pedra. 42 .que viver de um modo mais intenso. ele disse ao homem do bar: “Nunca saí daqui. mas ele vai andando. não. e isso foi tudo. eu não posso parar aqui”. é preciso ir até Guajira. vê uma cidadezinha perto.Aí. quero viajar. entra em jogo um elemento de fascinação. uma coisa carismática.Ou. sensações desconhecidas. Tem que acontecer algo muito forte para que ele fique onde está. e ponto. Enquanto isso. o trem apita. “motorista. meu senhor”. Nada de grandes montanhas. porque quis.. Esse foi sonho da minha vida”. pare aí um instante que eu vou fazer pipi”. para encontrar isso.Talvez já tenha começado a perceber uma série de elementos novos dentro dele. para liberar os trilhos. “Então. vou viajar..

. perdidos na planície. Sua frustração consiste em um ponto: vai fazer determinadas coisas.Não podemos dar ao homem emoções que ele não tem. Sobe no carrossel. que estaria falando com a dona do restaurante. pode ver a moça. onde está a história? Não precisa ser uma rebeldia violenta. Depois. Temos que escolher. VICTORIA . Coisas que ele não fazia desde menino. ou de um trem. e vê isso. são coisas que não podem sair dele. Na verdade. VICTORIA . ROBERTO . para quem vai morrer a qualquer momento.Uma coisa precisa ficar clara: esse camarada está se rebelando contra a sua vida. que está sofrendo um processo de transformação. encontra dentro de si coisas que até agora estavam ocultas. ele vai procurar um lugar onde se hospedar e quando abrem a porta.É desse jeito que ele encontra a mulher.E por que não? Ele vê agora coisas que não via antes. mais complexo. a que viveu. Porque se não for assim. e como quem se apavora e mergulha ainda mais na passividade. DENISE . Pode ser meio achatada. é ela. Esse negócio da emoção da paisagem. ROBERTO . 43 .Se ele for comer. e passa a ser outro. Um desses povoados solitários. E porque tem música. a gente sempre vê alguma coisa quando espia pela janela de um ônibus. o que é e o que não é importante? ROBERTO .Pelo visto.O personagem que a gente conhece não é do tipo capaz de se rebelar de repente. ou da birra infantil. GARCÍA MÁRQUEZ . mas é tarde demais. SOCORRO . há duas maneiras de caracterizar este homem: como quem se rebela e manda tudo à merda. ou contra a morte? MARCOS . Ele deixa de ser um personagem plano. O que ele está procurando não é o que os turistas procuram. REYNALDO . o burocrata. ou de um carro. Ele espia pela janela do ônibus ou do trem. SOCORRO . Porque.Eu pensei que a gente estava de acordo nesse linha.Ele desce num desses povoados porque vê que é dia de feira.Quem vai morrer não tem vontade de fazer coisas. ou na roda gigante. prefere se deixar levar: É preciso averiguar qual é seu próprio desejo. GLÓRIA .Contra a sua vida. Existe alguma coisa nela que chama a atenção do homem. colocá-lo numa situação e ver como ele se deixa arrastar pelas circunstâncias.Quer dizer: o homem se rebela pela primeira vez na vida. porque não estão nele. Na América Latina.. pensando bem. a de rebeldia.A paisagem não precisa ser grandiosa.

Vai morrer.. E. MARCOS . fica observando o cartão postal. e então. de repente. tira os sapatos e deixa as ondas lamberem seus pés. MARCOS . e existe uma coisa . mas preciso dar uma saída. o mar batendo nas pedras.Eu gostaria de combinar o tema do mar com o do cartão postal. Está muito ligado às emoções. MANOLO . SOCORRO .O mar pode exercer esse tipo de atração que eu andava procurando. ROBERTO . a orla. SOCORRO . Ele chega na rodoviária e vê uma série de cartões postais. O camarada desce numa aldeia à beira-mar. não: continuo pensando no ônibus. a gente vê o homem entrando num ônibus.. corte. com paisagem de montanhas lá fora.E por que não? Esse lugar poderia ser o símbolo de uma libertação. e já vemos o homem no trem. ele vai descer num lugar que acha parecido ao do cartão postal. Dá voltas ao cartão. É a história de um homem que nunca saiu das montanhas. É aí onde ele vai descer mais tarde.. Tem uma fantasia sobre isso. Eu não vejo é a moça. vira.não é fácil de explicar que ele precisa fazer. MANOLO . e decide viajar porque vê que a empresa de ônibus se chama “Mar Azul”.. e depois. me contam o filme. o sujeito não tem que pegar um ônibus ao acaso. REYNALDO . Na rodoviária. descida para as terras quentes e.Em Bogotá. SOCORRO . gravata. Quando eu voltar. vê de onde é. ele vê um cartão postal onde aparece o mar. MARCOS .Vocês me perdoem. Porque eu defendo o trem.. no final.É o que eu estava perguntando: quando chegamos à porta? 44 . Um deles é em preto e branco.Pois é. apanha o cartão.Eu insisto encontrar certas motivações.É fácil. contavam a história de um camarada dos Andes no litoral: “Quem conhece o mar?”. estabelecer um paralelo? ROBERTO ..Eu.E está de paletó.. Em Bogotá. chapéu. Quando é que ela aparece.. e chama a sua atenção de maneira especial.GARCÍA MÁRQUEZ . Seriam três cortes: interior do ônibus.Sim.Você quer criar uma metáfora. aos sentimentos. O Triunfo da vida ROBERTO.

É uma sereia.Encontra a mulher. Tinha feito outra idéia do mar. Ele chega a litoral. a partir do cartão postal. Olha de novo o cartão postal.Existe ação interna. ROBERTO .Estamos buscando duas idéias.Ou é a filha de um pescador. a mulher deve ter uma relação específica com o mar. Precisa comer alguma coisa.Vai a um restaurante desses de praia. Por isso.A mulher está na água. SOCORRO . Outra. Contempla o entardecer com os pés na água. boquiaberto. e se impressiona.O homem vai comer numa pensão. diz o homem a si mesmo. olha o mar. É quem serve as mesas.O cartão postal deve servir como elemento de contraste..Então: que o homem encontre a mulher no mar. e lá encontra a moça. e é aí que a mulher aparece. MARCOS . mas percebe que alguma coisa está nascendo. GLÓRIA .O que eu não vejo nisso é ação. joga na água e vai embora.Ele está com fome. O homem fica surpreso. Primeiro. diante da reação dela. ROBERTO . SOCORRO . e é quando começa a nascer uma coisa: ele não sabe o que é. MARCOS .GLÓRIA .. E a gente partiu do princípio de que iríamos fazer um filme “comercial”. tira os sapatos. sabemos que seu objetivo é o mar. ele compara a sua fantasia com a realidade. Em termos visuais. REYNALDO . agora. servindo as mesas. num restaurante.. Ela tem uma briga com o patrão. SOCORRO .Mas o mar não pode ser uma paisagem. SOCORRO . MARCOS . ROBERTO . terceiro. ele tem de fazer a pergunta: e agora? Começa a andar. mete os pés na água. ele se sente motivado pelo cartão postal. sente-se desiludido. como relacionar a mulher com o mar. Já estou aqui. E. como fazer o homem entrar na aldeia. Está se afogando. tira o postal do bolso.E o conflito? Porque precisa existir um elemento de tensão nisso tudo. seria assim: o homem chega. VICTORIA ..Ele não sabe nadar. observa o postal. Uma. REYNALDO . entra. 45 . Tem que desempenhar outro papel. ROBERTO . joga fora o postal e começa a andas. e não é a mesma coisa. É agora? Joga o postal fora. Isso também é ação.Pode ser que ele fique impressionado diante do espetáculo do mar: Mas. por quanto tempo? Cedo ou tarde. e lá está ela. Segundo. joga os pratos no chão e se manda.

pela sua sensualidade.Mas não no sentido sexual.Uma atriz como Sônia Braga. e ela vem no barquinho. então. esperando pelo homem. MANOLO .O que ela fizer no momento do primeiro encontro deve conter. o que ela vai fazer no final. não pode deixar de rir: “O que fazendo aí.Ele sente atração porque. nesse caso.E por que ele se lembra dela? ROBERTO . Quem olha primeiro para quem: ele para ela. com essa pinta toda?”. GLÓRIA .É uma coisa que ficaria soterrada. Ela o atrai. quando se encontram. com aquela roupa insólita.Ele pergunta à moça: “Onde se pode passar a noite.Pensando bem.Começa a conversar e depois pergunta onde ele está hospedado. Deve fazer alguma coisa a favor dela.. Vem com uma sombrinha e um vestido de flores.Ela repara nele.Você mesma disse: ela é toda energia. E ao vê-lo. deve se aproximar com uma amiga. vem andando em direção contrária. GLÓRIA. VICTORIA . É uma bela senhora do litoral. e ela. desde o primeiro momento.Não vamos nos esquecer de que ela é a Morte.Um barquinho chega ao cais.Ele teria que fazer alguma coisa que o ligasse a ela.. e o leva. para não criar logo de saída uma situação entre os dois. Se a mulher representa a Morte. quebra os pratos no chão.Eu tinha proposto a briga no restaurante. que ela estava sempre ali.. de que aquele encontro não é casual. a Morte tem aparência de vida.GLÓRIA . ela não tem razão para ser agressiva com o homem. nesta 46 .. ROBERTO . DENISE . VICTORIA .É uma moça. Ela é impulsiva. MARCOS . que é uma pescadora. Ele está caminhando pela praia. ROBERTO . SOCORRO . CECÍLIA .Ele poderia vê-la primeiro no mar. e depois encontrá-la no restaurante. Já haveria uma relação visual entre eles.Isso quer dizer. feito uma semente. que estamos trabalhando com símbolo e tudo! MARCOS . ROBERTO .Senhora? Não tínhamos dito que era uma moça? GLÓRIA . ou ela para ele? ROBERTO . como um sentimento.Ela o seduz. o espectador deve ter a sensação. chama a atenção pela sua beleza. ROBERTO . SOCORRO . diz ela. REYNALDO . E que não agüenta mais a vida que leva. Aliás.

E.Temos de tirar partido da forma de o homem se vestir.Pela janela do restaurante. ela o convida para ir à praia. ROBERTO . deve haver mais uma mesa ocupada: uns caras barulhentos.Ele chega. Certa noite. e se senta. irá fazendo o homem mudar. por favor. Com certeza vão fazer amor na areia. É um sujeito estranhíssimo.Quando saem da sala principal do restaurante e chegam à parte dos fundos e ela começa a limpar a lapela do terno dele. Não há nenhuma necessidade de criarmos outro espaço. pouco a pouco. ela debochando dele. GLÓRIA . e pronto. Vamos ficar sabendo no final. bebendo cerveja e jogando baralho ou dominó. Mas ele não chega a ir. Não sei como. REYNALDO . sem querer: “Ai..cidade?” SOCORRO . uma briga. mas 47 . A segunda é a de Roberto: que o encontro seja na praia e que a relação aconteça em tom de deboche. comenta. MARCOS ..Ele entra no restaurante para comer. para dar ao encontro um toque de agressividade. ela pode se afastar com o homem. me desculpe. e ela se aproxima da mesa e diz secamente: “Só temos peixe”. naquele ambiente. acabamos perdendo a história do impacto. seduzindo-o. em tom brincalhão: “E o que o senhor está fazendo por aqui vestido desse jeito?”.No caminho. ele fica na cidadezinha e ela. Morre antes. a moça vê o homem se aproximando. VICTORIA . MARCOS .Por que estamos insistindo tanto nessa história de restaurante ou bar? O homem vem caminhando pela praia e encontra a moça. e fica olhando fixo para ele.. se senta. ROBERTO . aquele momento do encontro no qual ele fica impressionado pela vitalidade da moça. Ou melhor. venha por aqui”. SOCORRO . Para marcar uma distância. a terceira. Deixe-me limpá-lo. Por que será que olha desse jeito? Por simples curiosidade? Ainda não sabemos.O que vocês acham de fazermos um balanço das propostas? A primeira proposta é a de GLÓRIA: que eles se encontrem num restaurante e que se estabeleça entre eles uma relação de contraste através de um escândalo. indicando os fundos do restaurante. A situação poderia se enriquecer fazendo que ela derrame um pouco de qualquer coisa no terno do homem.Não deve haver mais ninguém no bar. se pergunta. Depois.. Por isso. é de Marcos: que ela seja a garçonete de um restaurante e veja o homem chegar de longe. Ela chega para servir a mesa. sem problemas. e fica olhando para ele: “De onde será que tirou essa roupa?”.

MARCOS . estamos falando de outro filme. sem querer. Bem na hora! GARCÍA MÁRQUEZ . ou que o encontre na estação. É lindíssima.Não. MARCOS. O camarada toma um trem e sai de Bogotá porque quer ver o mar.Aí estão as três seqüências.Fizemos algumas mudanças. cai duro. Limpa o terno na mesa mesmo. bom: então. acaba manchando o terno dele.. Ele fica impressionado pela graça. MARCOS . vê isso pela janela. VICTORIA . GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ .Coitado desse cara! A única vez na vida em que vai ficar com uma mulher bonita.. na beira do mar. na frente de todo mundo.E aí..Olha só quem chega: García Márquez. e é ela quem abre. mortinho! SOCORRO. Ele decidiu visitar aquele lugar. MANOLO . ROBERTO . Ele fica impressionado pelo desembaraço da moça. Mas como é mesmo que acontece o encontro? VICTORIA .Bem. Ela passa com uma cesta de peixes. um cartão postal. e é aí que vê o homem se aproximando. para buscar peixe... MANOLO . com esse calor. pela desenvoltura da moça.Vamos fazer que seja na praia mesmo.Pois é. entrando pela porta dos fundos. contem tudo para mim. por que o senhor não muda essa roupa?”.Inventamos um estímulo.. Bate numa porta. Dá algumas voltas pela aldeia.Existem duas possibilidades: que o homem tenha esse cartão postal em seu escritório. comendo no tal restaurante. ele 48 . Paga e vai embora. nem se ele vai de trem ou de ônibus. SOCORRO . ou outro parecido. Ainda não sabemos o que acontecerá no trajeto. Vai servir ao homem. Na realidade o que ele quer é conhecer o mar.Ela havia ido à praia pouco antes. O homem vai caminhando pela praia. virou outro filme.morre. corte. O homem chega ao restaurante e se senta. aí está um projeto de final de filme. Ela está fritando o peixe.. Desde que o mar entrou. MARCOS .E a porta? Ele não bate mais? MANOLO . procurando um lugar para passar a noite. um tipo de beleza diferente do que ele conhece. Agora.O que chama tanto a atenção dele é o fato de ela ser uma mulher praieira. terminaram o filme? Vamos ver.. O que sabemos com certeza é que encontra a mulher lá. para vermos o homem sentado.Ah. MANOLO .E aí. Brinca: “Puxa. Depois voltou ao restaurante.

leva uma pancada e desmaia. Nosso problema agora é a estrutura. MANOLO . decidi batizar de Natalio. Passam. Ouvimos a música. porque ela é garçonete e sem querer mancha o terno dele. duas. onde há uma feira. está numa cadeirinha da rodagigante. Agora.Ela tira o paletó dele. Ele está cochilando e. Depois. vê a moça. não tem nada de biquíni. que o ônibus no qual ele viaja poderia parar na estrada de um povoado. Mas não faz mal.Não.. Como é que o camarada morre? Vejo duas possibilidades: uma. discretamente. GARCÍA MÁRQUEZ . de repente. Até o homem sair de Bogotá procurando o mar. para limpá-lo. É uma aldeia de pescadores.. de sunga. que o marido o mate. Fizeram um parquinho infantil num lugar horrível e há um momento em que o personagem se senta num balanço e começa a cantar uma canção. GARCÍA MÁRQUEZ .. Por quê? Porque ela. MANOLO . tem uma coisa: essa história não é mais a que eu apresentei. Mas o que vem depois.Isso que você chama de relevo deve surgir justamente da relação entre os dois..É que tudo ainda está muito vago. quando batia na porta. ele continua vestido de cachaco. a força do absurdo.Veja bem: tudo parece estar flutuando.. MARCOS.aparece o marido dela e arma uma confusão. o fato era totalmente insólito: você bate numa porta e encontra a Vida. e roda parou um instante e a cadeirinha e a janela ficaram quase que no mesmo nível. GARCÍA MÁRQUEZ . um pelo outro. para identificá-lo melhor . e então . A moça e a amiga começam a rir. Vê a moça no mesmo nível da janela..Eu penso numa coisa que você falou. com uma amiga. tudo bem. abre os alhos e quase que na sua frente. que ela descubra o cartão postal e diga a ele que conhece aquele lugar.Pelo que estou vendo. ROBERTO. Essa roda-gigante me lembra outra ver Viver. uma praia quase deserta. Isso tem uma força especial.Não podemos nos esquecer que ela é a Morte.caminha pela praia e ela vem andando com um cesto ou uma sacola de peixe . Ao despertar. quando a roda-gigante gira de novo e as duas se perdem no alto. Nosso homem que. que na verdade é a Morte. ele vai comer num restaurante e lá acontece o primeiro contato.esta é a possibilidade . Antes. que se ele quiser ela pode levá-lo até lá. de Kurosawa. dos calções. falta relevo. GARCÍA MÁRQUEZ .. no meio dos biquínis. a caçoar dele. uma quermesse. aliás. Então o homem se levanta e sai do ônibus. E é onde ele morre. pela janela. com a câmera fixa bem na sua 49 . vê que ela está cuidando dele. ainda não sei como..

estamos caminhando. claro. Quem viu esse filme não esquece nem essa canção. deveria fazer coisas insólitas.. nem aquele parque horrível. Seria a viagem que o levaria diretamente para a morte. seus sentimentos. temos que meter na cabeça que ela é a Morte.No fundo. GARCÍA MÁRQUEZ . esse gabarito. Talvez depois a gente precise mais desse elemento e ele possa ser deixado de lado. GARCÍA MÁRQUEZ . de viver em plenitude. de repente. E aí começa processo de sedução por parte dela. O camarada olha o cartão. o destino bateu à porta. o lugar do cartão postal. Na nossa história.A iniciativa é dela. seria mais um encontrão do que um encontro propriamente dito. o homem sufocou suas emoções. a morte. nem ao primeiro encontro dos dois...A idéia do cartão postal e do mar tem força. sem trocar sua de cachaco. não de quem chega. agora. quando acha a possibilidade de expressá-los. É a Morte travestida de Vida. GARCÍA MÁRQUEZ . com uma sensualidade que o impressiona. visse a mulher. Nós não conseguimos dar ao personagem esse fôlego. Aliás. mas sem fazer nada. ela passa. o personagem vai crescer. mas não nos esquecemos dela jamais. nós não gostávamos da idéia de o homem bater na porta. e agora. MANOLO sugeriu que ela se oferecesse para leválo ao lugar exato que ele procura. eu entendo. e tem a visão do mar pela primeira vez.. O filme da horta é o filme de quem está dentro da casa. a moça. É a história de uma pessoa para quem nunca acontece nada e sente que. entendem? Aquelas coisas que no velho cinema eram 50 . Se ela é a Morte.. não será justamente esse o problema. Quase uma topada.. É uma canção em japonês.. CECÍLIA ..Está se movendo.Na verdade. Então. ROBERTO . Isso é tudo que ele quer fazer antes de morrer: conhecer o mar: Desce do ônibus nessa aldeia de pescadores. se acreditarmos nisso. O destino.Sim. GARCÍA MÁRQUEZ . Com isso acaba morrendo do mesmo jeito que viveu: frustrado. rrruuurrrmm!. sempre? ROBERTO . vê o mar.Tudo bem. caminha pela praia deserta.. nós não demos relevância a ela. ou sei lá o quê. O que eu mais gostei é a idéia de que ele vá ao mar e dali.Existe um problema sério com o personagem da moça: ele não tem o vigor necessário para representar o que na verdade é. e o desejo surge. Durante toda a sua vida. ROBERTO . exatamente do mar..Vamos chegar lá. porque é a canção da Morte. encontra a morte. Uma coisa assim meio. Na verdade.frente. o fato de ela estar sempre caminhando? CECÍLIA.

de repente. Ela seria uma espécie de flautista de Hamelin. uma coisa bem do cotidiano. nada de idealizado ou fantástico. instantâneo e definitivo.Sim. Tem a impressão de que o sujeito quer se matar: Ele avança. Quando desperta vê. Fica adormecido na areia. 51 . e entra na água. a personagem vai-se desenhando. ROBERTO . seu canto.Mas é assim mesmo que a história acaba saindo. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . mais todos nós tínhamos uma posição diferente diante da história. para que nos juntarmos aqui? E não sairiam essas idéias loucas. mas ela já veio com ele. Mesmo que ela não cante no filme. inclinada sobre ele.A mulher deve ser negra.É bom que a Morte o salve de uma morte que não é a dele. na verdade.E se nós antecipássemos sua presença de outra maneira? Escutaríamos sua voz. ELID . Ela tem que surgir diante dele como algo insólito. acostumada a cantar. REYNALDO . ela entra. não houve nenhum acordo. Uma negra corpulenta..Eu gostaria de resumir o que fizemos. É por isso que a gente faz uma Oficina. Ela está observando. cortando cabeças de peixes. nem se vêem. SOCORRO . dizendo que..acompanhadas por golpes da orquestra: taran. GARCÍA MÁRQUEZ . embora a gente não tenha tempo agora para analisála. SOCORRO .Ele chega à beira do mar vestido de terno.Essa é uma aldeia de pescadores. E isso produz uma espécie de susto.Pode até cantar: Uma mulher assim como Maria Bethânia. como a que estou tendo agora: a mulher viaja no mesmo ônibus que o homem. Ele sentiria o feitiço daquela voz e. que não chegou ainda. Não se encontram no ônibus. com uma aura mística. tem um momento de vacilação e regressa à praia. providencial. Já começo a ver essa negra. se pergunta o homem. E é quando vê a moça limpando os peixes. Se fosse de outro jeito. MARCOS .Por que não voltamos à idéia da comparação entre o mar do cartão postal e o da realidade? “Bem. tira os sapatos e as meias. E. Todas as praias são iguais. e tudo muda. tarataram. no momento em que ele chega à praia. de longe. Houve propostas gerais. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ .. limpando peixe. O esquema poderia ser este: ele está numa situação que. O que não consigo ver é a locação. e agora?”. encontraria a mulher atrás de uma pedra. aparentemente. uma mulher enorme.. nem eu saiba de onde vem ou para onde vai.Pouco a pouco. vai determinar o curso de toda a ação. orientando-se por ela.

Vamos ficar com a idéia do cartão postal. RORERTO . É isso o que quero dizer: Vocês estão muito sérios. de que ele deve ir ao mar para encontrá-la.Eu estou achando que a praia ainda não é o lugar. ELID . mas isso é fácil de resolver. Não faz nada. e assim por diante... onde é que a estrada ia dar..Ele tem que começar a fazer coisas que nunca tinha feito. Pois bem: que o homem se aproxime e pergunte: “Onde posso conseguir uma garrafa de rum?”. estão uns sujeitos jogando dominó. Todos os brasileiros são mediterrâneos. no bar.Você é um romântico grego. e quando volto encontro o mesmo camarada empenhado em chegar a um lugar. Como nas novelas de cavalaria. O camarada só fica ali na frente do mar. a não ser entrar num ônibus. uma.Está faltando loucura nessa história. Confesso que isso me tirou do eixo. ou “Onde é que fica o bordel daqui?” Pode ser que ele encontre uma bailarina no bordel. Ele vê um monte de cartões. GARCÍA MÁRQUEZ . ou então caminha pela praia.. Sem saber. REYNALDO . MANOLO ... ELID . depois outra... Antes saía buscando aventuras. porque deixei aqui um sujeito sem destino exato. ou na pensão ou restaurante onde a mulher trabalha.. tudo bem: ele vai para o mar.Como é? GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . Porque acontece que o personagem vai em busca de aventuras.. saí para ver o que acontecia. ROBERTO .GARCÍA MÁRQUEZ . e. não é porque queira ir a esse lugar específico.Estou falando do final da viagem. Você é mediterrâneo.. GARCÍA MÁRQUEZ . escolheu o lugar da sua morte. é pura questão de técnica. 52 . Quando ele seleciona o cartão postal. depois esperar que seque.É isso o que estamos tentando averiguar: o que ele faz depois? ELlD . sem destino. Existem postais do mar da selva..É um bom recurso visual..Concordo com isso: colocar o homem fazendo coisas loucas.Ou de crianças. mas na verdade não faz nada. mas porque quer conhecer o mar. Um cartão em preto e branco. nas aventuras de cavaleiros andantes. GARCÍA MÁRQUEZ .Mas a sua proposta de situar a moça no ônibus contradiz a idéia de que ela “vem” do mar.Não é preciso se impacientar: Lembrem-se das diferentes camadas de pintura: primeiro. das montanhas. e escolhe do mar. Alguém dizia que. No ônibus ou no trem podem acontecer coisas. um pouco à deriva. Mas..

SOCORRO . As rochas. Os pescadores se assustam: o que aconteceu? Só a moça sabe.. o céu.GARCÍA MÁRQUEZ . construir a relação a partir dessa idéia de coisa engraçada. GARCÍA MÁRQUEZ. levantam. porque em nenhum momento a gente pensava que ele ia morrer. metem o homem na água. o camarada morre. Ou seja..Sim. diz um dos pescadores quando vê o cachaco se aproximando. A viagem começa com uma simples brincadeira.Tem uma história. limpando peixe. ao vê-lo vestido de terno. Ela.Ela e os pescadores se oferecem para levá-lo ao tal lugar que ele procurava. GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO . Há piadinhas.. no final. “Vamos gozar esse aí”. ROBERTO .Até as crianças da aldeia debocham. GARCÍA MÁRQUEZ .Isso dá muita vida ao filme. rodeada de 53 . por causa de uma piada! Ou seja. Ninguém quer fazer mal ao homem. ROBERTO .As crianças levam o homem. no final. colete e gravata.ensinam o gringo a tomar chimarrão. mas acaba se tornando um pesadelo.É uma travessura. trazem. MARCOS. o mar... da moça. MANOLO . À medida em que avançam.. não existe nada. Enquanto a gente não tiver construído o personagem. E acontece que por causa de uma dessas piadinhas ele acaba sendo morto. É uma boa imagem. onde tudo acontece normalmente .Essa imagem da mulher. Vocês lembram de O Soparso? É impressionante.E o matam de brincadeira. SOCORRO .e.. matam o homem sem querer. sem querer. esquentam a bombinha do chimarrão.. DENISE .. E.Sacodem..E por que levou? MARCOS . Tem uma baía muito estreita. GARCÍA MÁRQUEZ . a montar a cavalo .. cortando cabeças de peixe.Seria bom resgatar a idéia da verdadeira. Quando chegam.. precisamos buscar imagens. a do gringo que chega ao pampa. mais um bordel. mas acabam fazendo..Só de maldade...Tenho a impressão que o cinema não agüenta outro outro prostíbulo.. da piada. Só ela tem consciência de ter levado o homem para a morte. o caminho vai-se fazendo mais tortuoso. o camarada chega à aldeia de pescadores com seu colete preto.Na costa atlântica da Colômbia existe uma aldeia de pescadores que se chama Tacanga. Não muito pesadas: meio inocentes. com a blusa ensangüentada. GARCÍA MÁRQUEZ.

Quando ele descobre o mar. com sua inocência. quase inacessíveis. Os vigias são chamados de falcões. e depois. e deixá-lo lá. GARCÍA MÁRQUEZ . diga logo! MANOLO . e quando vêem entrar um cardume de peixes. Depois seu cadáver é descoberto. existe também uma dose de crueldade.O cadáver entra na baía flutuando com colete e tudo. uns vigias que observam o mar dos rochedos. MANOLO . GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . embora também ache que seria bom 54 . eu renuncio a ela.Ou aberto. para que eles fechem a rede.a imagem de um vice-rei que se afoga num poço . Agora. É aí que ela chega.mas não faz mal. quando caminha pela praia. Acho bom. Já temos o final.Uma brincadeira coletiva. sozinha. para ver o que é que ele faz.Deixam Natalio lá. seja homem. deve ser uma coisa muito exótica. flutuando sobre os peixes.As crianças. avisam aos pescadores. onde os pescadores jogam suas redes. E uma boa imagem: ele flutuando na água transparente. Além do mais. E no dia seguinte.Por que você não diz de uma vez que é a baía mais bonita do mundo? Ou não é? Vamos. e para eles um cachaco. podem ser extremamente cruéis. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . de paletó. Quero dizer que tenho essa imagem num roteiro que nunca foi filmado .E ele. ROBERTO . Há alguns homens. E fica com ele. só falta o recheio. MANOLO . flutuando na baía. acaba criando para si um ambiente idílico. só de brincadeira. MANOLO .Ela estava observando os vigias. será interrompido de maneira brutal por uma bola de areia que os meninos jogam nele. Uma simples travessura. desaparece. pode surgir a idéia de escalar a montanha.Espanta as crianças como se fossem moscas. como é que se arranja numa situação dessas. GARCÍA MÁRQUEZ . ao ver entrar na baía um cardume de peixes.. Por isso mesmo.Ela o salva das crianças.E ela? Na sedução. vê também o cachaco. lá do alto. essas crianças vivem numa aldeia da costa..A água está tão quieta e transparente que a pesca é feita ali na margem.E com o guarda-chuva fechado sobre o peito. De repente.montanhas.. que se transforma em um crime coletivo. vestido da cabeça aos pés. um dos vigias. lá em cima. SOCORRO . poético. SOCORRO . ROBERTO . Pois bem: podem levar Natalio a um desses ninhos de falcões.

A aldeia inteira obrigou-o a aceitar aquele papel.Todo mundo na aldeia estava esperando a chegada de alguém odiado. Ele é simplesmente confundido com outro homem.. aqui todo mundo conhece o senhor”.. não tente disfarçar. GARCÍA MÁRQUEZ . ao chegar.Dá tempo. um inspetor ou coisa parecida.Uma espécie de atentado.. colete. Mas os verdugos não ficam sabendo jamais que a vítima não tem nada a ver com a pessoa que eles esperavam. ou temido.Pela primeira vez na vida. coitado. pensam que é um personagem oficial. enfim.. sem que ele queira. estamos danados. alguma coisa está acontecendo em sua vida. Mas. MARCOS . Mas como ele chega vestido de maneira tão solene chapéu. só para levá-lo até a armadilha. GLÓRIA ... sei perfeitamente quem é o senhor. Eu imagino essa armadilha onde ele cai. GARCÍA MÁRQUEZ . mas acaba entrando na dança. quando a confusão é descoberta .Alguém aí se lembra de Deus precisa dos homens. por exemplo. No nosso caso. GLÓRIA . Não se assustem...tentarmos uma coisa mais louca: o homem. O homem começa dizendo não. não lembro como é que tudo termina. o sacristão fica sentindo-se padre e. alguém que pode descobrir alguma coisa não muito limpa.. e um belo dia. tem capacidade para isso.. ou não fazemos esse filme. mas como todo mundo detesta o outro. Por isso matam o recém-chegado. e depois. e tem até quem acha que o reconhece. por favor. a vida arrasta o camarada e. e quando está no apogeu. Simulam aquela alegria toda. SOCORRO .. aceitando a contragosto a homenagem e depois. acabam matando o nosso personagem.com a chegada do personagem verdadeiro. de mentiroso. afinal. Olha só: acabamos de entrar num filme simbólico. estou brincando. Agora. por exemplo .. ou fazemos direito. enfim. O camarada chega a 55 . acaba assumindo o papel que quis interpretar a vida inteira.Mas a gente não precisa de muito tempo para desenvolver uma situação dessas? GARCÍA MÁRQUEZ . importante. é confundido com alguém muito importante. esse homem vive um momento de triunfo. temos tempo. mas a idéia é muito boa..Não vejo nenhuma razão para o personagem verdadeiro chegar. e essa coisa envolve a aldeia inteira.. e as pessoas obrigam o sacristão a rezar missa.. porque.ele acaba sendo acusado de farsa... guarda-chuva -. E celebram a sua chegada com uma grande festança. ou de Os pescadores da ilha de Siena? É um lugar que fica sem o padre. O presidente da República.. mesmo que seja tudo por engano. “Ora. e ele cai. e depois a confessá-los.

CECÍLIA . E graças a isso. falta saber se o descobrem ou não. o senhor. o traço de um pintor primitivo. e o feitiço se desfaz. GARCÍA MÁRQUEZ . Como se fosse o desenho. O que vejo é que sua saída de cena se articula com sua chegada. para ele. e o homem foi enviado pelo governo para servir de mediador. mesmo que cada uma tenha uma cor diferente.Enquanto tem poder. ELID . que afetam os interesses da embaladora de peixe. todas exatamente iguais. “Seja bem-vindo.. a propósito: já que este conto é tão artificial. com autoridade. Morrer. a carruagem torna a virar abóbora. Sim. conceder.Ou o contrário: sente-se tão fascinado pelo poder.Mas esta história é um conto de fadas.viver o grande momento da sua vida . não importa mais. Conquistado pela hospitalidade das pessoas da aldeia. é lógico que sua chegada desperte expectativas. mas quem é que ela está esperando? GARCÍA MÁRQUEZ . ele toma decisões que. Agora.fama. ROBERTO . para que dê certo. Claro que o conhecemos: o senhor é o Fulano de Tal”.A moça é a primeira a reconhecê-lo.E se o camarada decidisse construir uma pirâmide? MANOLO .Vocês nem imaginam que lugar estranho é Tacanga. O que querem de mim?”. poder . me descobriram. do outro. feito um bumerangue.e já pode morrer tranqüilo. ROBERTO . que as esperanças dos moradores se projetem nele. Os pescadores têm um conflito com uma empacotadora. se voltam contra ele. porque necessitam uma pessoa assim.Ele chega vestido de autoridade. a história do estranho. com suas casinhas de madeira.Numa aldeola assim. toma decisões muito drásticas.Eles inventam o personagem que esperaram. depois. por desfrutar do poder que não quer morrer: E tem mais: quer perpetuar sua fama. e todo mundo considera a sua chegada como uma coisa providencial. E ele vai-se deixando convencer aos poucos. os pescadores recuperam algo que tinha sido tomado 56 . porque ele chega vestido de Poder e morre no apogeu do seu poder. “Bem. quando perde o poder. Glória. GARCÍA MÁRQUEZ . Aliás.Nós já sabemos que a aldeia o espera. e ele sabe que tem um prazo para acabar: Vinte e quatro horas. E eles começam a pedir e ele. ROBERTO . O que isso me faz lembrar? Acho que a eterna história do forasteiro que chega ao povoado. ora. vamos fazê-lo mais artificial ainda. não disfarce: mas estávamos à sua espera.... GARCÍA MÁRQUEZ . Tudo ali é tão artificial como essa história. fazer uma obra que o imortalize.

e a gerência da embaladora de peixe decide se vingar dele.Se conseguirmos descobrir o mecanismo que leva à morte. ou se apoderam do que reclamavam como se fosse deles. ROBERTO . Não precisamos de mais nada. não convém que os problemas sejam resolvidos.. ele é morto por todo esse amor. entre radiações.. Mas.Mas isso é um longa-metragem. Estamos metidos até o pescoço no terreno do mito e agora não podemos voltar à realidade cotidiana. ROBERTO . o fato. teremos o filme pronto. ele tem de fazer alguma coisa que o afirme como um deus.. O que mata o nosso homem é o mito. GARCÍA MÁRQUEZ . Não vamos deixá-lo morrer por causa desse sacrifício que estão pedindo a ele. MARCOS . Não pode existir nenhuma embaladora de peixe..Os pescadores se vingam nele de uma coisa que ele não fez. Quando chega.Ah. E são justamente esses personagens que matam o homem. GARCÍA MÁRQUEZ . e quimioterapia.Como é que não consegue? Ora. Nunca descobrirão a verdade. GARCÍA MÁRQUEZ . REYNALDO . mas também certos personagens que se sentem contrariados.No apogeu da GLÓRIA. mas morre como se fosse um santo. Porque ele sabe que a morte é inevitável. as pessoas dizem: “Finalmente! Sabíamos que ele viria!”. GARCÍA MÁRQUEZ .Uma morte grandiosa. que o situe além da morte. ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ .É um farsante.Ele é confundido com um benfeitor. Já estamos no terreno do mito. bem diferente daquela outra que o esperava no hospital. e fazem um grande enterro.. Quer fazer alguma coisa grandiosa.Não. Para eles. MANOLO . 57 .Todo mundo na aldeia fica alegre com a sua chegada. Da farsa que foi imposta a ele. Ele já se sente Deus. não seja cruel! Pelo menos. nem grupos rivais. ELID .O cara é enterrado vivo.Farsante de uma farsa que não quis protagonizar. Ele morre afogado. e nós estamos elaborando um sonho.Que sacrifício? GARCÍA MÁRQUEZ.deles.. Os pescadores se vingam do que fizeram com o homem. REYNALDO . com quem ele foi confundido? Com um senador? GARCÍA MÁRQUEZ .Mas ele não consegue. E quando descobrem que o homem não é o mediador se negam a devolver o que tomaram.Sei lá. conceda ao homem essa última alegria.

de Rossellini. para nosso espanto. fica mais fácil de acreditar. Podemos fazer qualquer coisa.. claro. uma visão. com a ilusão de que ele era a pessoa esperada.GARCÍA MÁRQUEZ . O verdadeiro general também está preso mas ocultou sua identidade para salvar a vida.uma cadeia para presos políticos -. e esta é uma delas.Isso mesmo. protagonizado por Vittorio de Sica? Acabo de perceber que essa é a história que estamos tentando contar. chega esse sujeito. O nosso homem descobre que as pessoas precisam dele. acaba sendo o General De la Rovere. as pessoas descobrem no nosso homem alguma coisa que todos necessitam. até um drama grego na ilha de Creta.Você lembra do filme De Crápula a Herói. Com velas acesas. E acho bom. Por que não? Afinal. todo mundo se convence de que ele é o general. Mas enfim. que deve fazer esse favor. Ele se deixa crucificar Ele quer que todo mundo fique contente. as pessoas veneram um santo que.Em Kagemusha. Um santo. GARCÍA MÁRQUEZ . o General De la Rovere. GARCÍA MÁRQUEZ . E sobre um pobre coitado que é preso numa cadeia da Itália . Vemos a imagem do recém-chegado nos altares de todas as casas. isso ficou bonito! 58 . porque sou um grande admirador desse filme. Várias vezes eu disse por aí que os três melhores filmes que já vi na vida foram O Encouraçado Potemkin. vamos lá: nós já temos a história.Em que sentido ele se deixa crucificar? Ele se sacrifica para alcançar seu propósito. o homem chegou a conclusão de que não pode frustrá-los. Por alguma razão. arrisca a própria vida.E ele chega mesmo a se achar o santo.Acham que ele é um médico milagroso. Puxa. e além disso. Cidadão Kane e De Crápula a Herói. e de repente aparece esse sujeito que se faz passar por ele. de Kurosawa. REYNALDO .Em todas as casas da aldeia. SOCORRO . E para demonstrar isso.Não. Puro milagre. GARCÍA MÁRQUEZ .Tudo bem. MARCOS . desiludi-los. sem vacilar. só existem trinta e seis situações dramáticas. de repente. tem um caso parecido. que é igualzinho ao santo. Mas morre crucificado? GARCÍA MÁRQUEZ . mas consegue o seu objetivo. sim. E assim. GARCÍA MÁRQUEZ .É que com um italiano.. Estavam velando o santo e. ROBERTO . é igualzinho ao homem.. Morre.Crucificado. ROBERTO . Os presos acabam convencendo o homem de que ele é o outro. e todos os outro presos o confundem com um líder. uma aparição.

Não.: o cara olha para a câmera. Que ele faça dois ou três milagres rápidos. e não o contrário.E ele chega a crer nos milagres.. ele entra no mar mesmo.. Acredita de verdade que é milagroso. de repente.. REYNALDO . Antes. é um filme muito bonito. você é amigo ou inimigo? ROBERTO . saber como é que tudo isso termina.CECÍLIA . E é a seguinte: um 59 . desaparece. Na verdade. Melhor até do que imaginamos. e ponto. o dia da sua chegada à aldeia. sorri.Ela entra na água e o homem vai atrás. Vamos fazer primeiro o filme que nos convém. virou longa-metragem de novo. é justamente o dia do santo. O importante é que nós já temos a história. MARCOS .Afinal. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ .Aí.Vamos desenvolver cena por cena. GARCÍA MÁRQUEZ . não é mesmo? E. GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO . fez até milagres. GARCÍA MÁRQUEZ .Faz uma paralítica voltar a andar.Ninguém sabe como nem por onde ele chegou.O homem não precisa mais morrer.E aquele dia. O filme acaba assim. ROBERTO . como se fosse caminhar pela superfície da água. Uma imagem muito bíblica. ROBERTO . Não acho que leve mais de meia hora para chegar ao primeiro milagre. a gente expulsa você. para ver onde a história nos leva.. GARCÍA MÁRQUEZ . Tivemos um trabalho danado para chegar até aqui. lindo.A gente fica com vontade de saber o que vem depois. O homem pode morrer ou continuar vivo. é o homem que é igualzinho ao santo.. inventam milagres e os atribuem a ele.Como eu nunca vi um santo sorridente.Olha..Pois é: aí voltamos à longa-metragem...O santo é o padroeiro dos pescadores.Ele chega à aldeia sem que ninguém veja..Um santo que fez muito bem.Está bem. SOCORRO .As pessoas inventam. GARCÍA MÁRQUEZ .. Olha. imagino este fina.Se você derrotar o nosso filme. e depois o do santo. O final não importa mais. REYNALDO . REYNALDO .Pois eu continuo achando que ele devia morrer. O filme pode terminar com o primeiro milagre. GARCÍA MÁRQUEZ . Afinal. ele ia morrer porque a gente não sabia o que fazer com ele. e faz o milagre. ROBERTO . MANOLO . o homem vai morrer? GARCÍA MÁRQUEZ .

CECÍLIA . como alguém disse aqui. estão lembrando! Quando ele chega. CECÍLIA .. GARCÍA MÁRQUEZ. Porque o filme não é sobre a criança doente. E o médico responde: “Depende.A mulher estava esperando por ele na aldeia. O homem andou se recusando. Os detalhes virão depois. no princípio do filme. esticar. No momento em que o homem decide que vai pôr a mão no doente. meio vago. mas acaba cedendo. GARCÍA MÁRQUEZ .. Se ela crescer muito.Esse aí seria o final. se ela ressuscita ou não. desenganado pelos médicos. e é tanta a insistência dos devotos que afinal põe a mão sobre uma criança doente ou moribunda que acabam de trazer e. É verdade que o Vaticano encrenca. E os devotos não gostariam que a gente brincassem com o seu santo.acaba acreditando que é santo. ROBERTO . Temos que trabalhar mais.Eu já tinha me esquecido do mar. tão menor. milagre! O filme poderia até acabar com o rosto do homem.. quando vê a si próprio venerado em todas as casas . ROBERTO . com um médico que fazia milagres. não consegue se decidir. só que já não pode fazer mais nada. mas a semelhança é tão grande. danou-se. Na beira do mar. é uma avalanche que a Igreja não consegue parar. pode desandar e se perder E tem uma coisa que me preocupa: a imagem dos altares não deve ser muito parecida à de São Gregório. porque o povo já o canalizou. perplexo: não sabe o que aconteceu. que ponha a mão em tal Lugar. precisamos garantir que a história caiba em meia hora.Não precisamos mais falar da cirrose.porque é parecido de verdade com o tal santo . a do camarada condenado a morrer.São coisas diferentes. e começa a levar a cabo um velho sonho: conhecer o mar: Chega a uma aldeia de pescadores. deixou de nos interessar.Parece que a outra história. que tinha vivido uma vida tão chata.. É sobre ele e sua incrível santidade. O diálogo fica assim.As circunstâncias se impõem sobre ele. REYNALDO . decide mudar de vida radicalmente. Alguém pede ao homem que cure um doente. Esta é a história. GARCÍA MÁRQUEZ . Agora. chega a viver a vida de um santo. onde o confundem com um santo.democrata de Bogotá. O que interessa agora é ver como esse sujeito. A conversa começa com o sujeito perguntando ao médico: “E quanto tempo o senhor acha que eu ainda tenho de vida?”. ele mesmo não se explica o que ocorreu. Pode ser três meses ou três anos”.A mulher negra. ela diz: 60 . e no começo ele vacila.Agora a morte é um simples pretexto para fazer o nosso homem viajar. e o milagre acontece. REYNALDO . Quando ele vê os altares.

O problema. traz para a gente ver. Essa é a história.Acho que não precisamos mais revirar essa história.Não.Melhor até do que ele poderia imaginar. Ao contrário: manda tudo à merda. GARCÍA MÁRQUEZ . Sem querer. não é a vida que ele teve.É a melhor coisa que poderia ter acontecido com ele. MARCOS . seu porte. GARCÍA MÁRQUEZ . “Porra”. E o jeito é manter a história tensa o tempo inteiro. GARCÍA MÁRQUEZ .Então. Hemingway dizia que um livro acabado era um leão morto. GARCÍA MÁRQUEZ . então. Quando tiver terminado o primeiro tratamento do roteiro.. MANOLO .A mulher ficou flutuando por aí porque nesta nova versão ela já não importa tanto.“Estávamos a sua espera”. Não podemos nem piscar. ver a história de MARCOS. a primeira versão. Ele quer se libertar. e sim a vida que tem pela frente.Ele se realiza. por isso é preciso tomar cuidado. A tendência é ir além da meia hora. nos impressiona. Ou preferem descansar? Cada vez que sai um livro meu. A figura da mulher. GARCÍA MÁRQUEZ . A do cachaco é um leão morto.É o filme das casualidades.. porque ainda não sabemos que ela é a Morte. Por isso não se mete num hospital nem se tranca em casa para que cuidem dele.Eu tenho outra história. em seguida começarão as perguntas: “Êpa. o que importa é a incerteza do homem: “Quanto tempo de vida eu tenho? Vou sofrer muito?”. acho que é uma boa idéia. e isso aí.Muito bem. ROBERTO . e por acaso.. como é mesmo? E aquela outra coisa ali?”. eu respondo. a primeira coisa que os jornalistas perguntam é: “O que o senhor está escrevendo agora?”. Porque se a gente piscar. A vida que ele teve é o que explica a sua decisão. Chega a ter tudo: o poder e a GLÓRIA. “não me deixam nem descansar um pouco!” Vendo a cara de vocês. Agora. Vamos parar quinze minutos? 61 . GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO . pronto: você mesmo. SOCORRO . agora. Vamos. desenvolve a história. com a informação que tem. consegue a sua realização pessoal.

que parece ser frígida . ao imaginar a história.. foram as locações. Um deles é negro. palmeiras. de repente. um cara famoso. um grande ruído no céu e centenas de mãos na varanda agitam bandeirinhas. as praias.SEGUNDA PARTE QUINTA JORNADA DE TRABALHO História de uma paixão argentina .Vou contar primeiro o começo do filme. vai visitar.. está no hotel há vinte e quatro horas e ainda não se animou a descer até a praia.É. não sabe dançar. o outro é branco. Gostaria de poder filmar nesses lugares: os hotéis. é claro. É meio frígida. Essa é a imagem. a paisagem. enquanto escuta música em um walkman. tomando sol com dois algodõeziuhos tapando os olhos. Assim o filme começa. uma pessoa que procura no Caribe o que não pôde encontrar em seu país.O chamado da selva MARCOS . numa praia do Caribe... Confesso que minha primeira motivação. outra de mariachis -. De repente. Primeiro plano de uma mulher cinqüentona. Varanda de um hotel cinco estrelas. O aparelho pousa suavemente no heliporto do hotel. A psicóloga .E ela. porque alguém disse a 62 .tem uma aventura louca com esses dois personagens. Estão dando as boas vindas a um helicóptero. O clássico estereótipo: céu azul. GARCÍA MÁRQUEZ . Veio ao Caribe nnma excursão de quinze dias. quem é? Quais são os seus antecedentes? Como chegou ali? MARCOS . acompanhado de seus guarda-costas. parecido com o Hilton Palace de São Domingos.. por exemplo.a orquestra de salsa. músico. A história é a seguinte: essa mulher é uma psicóloga argentina que deciciiu passar férias no Caribe. que a psicóloga. nunca teve um namorado. O cara das maracas mora num bairro muito pitoresco.. ao mesmo tempo.. Nunca teve um namorado.. e toca todas as maracas na orquestra de salsa do hotel. populares. E agora. os ambientes. começa duas aventuras amorosas com dois sujeitos. Queria brincar visualmente com certos estereótipos latino-americanos: os músicos . tanto que chegou no hotel em seu próprio helicóptero.

. imagine só.. A paciente responde: “Ah. mais dinâmica. e ela: “E as relações eiticas?”. Vamos ver se. sozinha. puxa.Não é preciso nos determos para descrever sua personalidade. fazer amor numa rede. ROBERTO .Então o divã é sopa no mel. Quando a outra mulher sai. MARCOS . GARCÍA MÁRQUEZ .Porque a gente não começa numa sessão de psicoterapia? GARCÍA MÁRQUEZ . quando levar o tocador 63 . MARCOS. ela pensa: “Está resolvido: vou para o Caribe”. de repente. uma profissional. tomando sol no terreça do hotel. “Acho a senhora meio cansada. “A senhora bem que anda precisando de umas férias no Caribe: outros céu.. Você deve contrapor o mundo dela à realidade caribenha. no hotel. a vegetação. Mas o que você tem não é uma história: é uma idéia. diz a amiga..Comédia. frígida ou tímida. se misturem algumas pautas culturais próprias da América Latina... falando de sua viagem ao Caribe. meio distraída.Sim. claro. GARCÍA MÁRQUEZ .. Como você vê a história Marcos: drama ou comédia? MARCOS.. A paciente está deitada no divã. Mora em Buenos Aires. ROBERTO . e de repente...A doutora aos poucos vai deixando de ser quem é. não vá ser roubada”.Muito bem. se enrosca com dois e vive um romance apaixonado com cada um. MARCOS . Agora é uma pessoa totalmente diferente. corte: ela está no avião. ROBERTO . não existe nada parecido”. A personalidade pode se manifestar através da atmosfera do consultório..ela “cuidado. GARCÍA MÁRQUEZ . Viu só? A situação inteira pode acontecer através de perguntas e respostas.Ela vai descobrir isso na própria carne. ROBERTO . tudo ao mesmo tempo.Ela vai se entusiasmando.”. o entardecer..Eu acho interessante que. tudo muito impessoal. A psicóloga escuta. Sabemos que a mulher é argentina.. psicóloga ou psiquiatra.Através de uma amiga que acaba de voltar de uma viagem idêntica.. muito ascético. e começa a viver sua própria fantasia. o produto de uma psicanálise ao contrário: a paciente a psicanalisou. outras pessoas. mais sensual. doutora.. Por isso está ali. Conte mais coisas. trabalhando somos capazes de arrancar uma história daí. A paciente está recordando o calor.. a cor das paredes. doutora”.. Como é que ela vai parar nessa excursão? MARCOS .. mas vistas como estereótipos. Um caso assim não deixa de ser atraente: uma mulher incapaz de tratar com um homem e que. lá tudo é diferente.Você me tirou isso da boca.

Os olhos da psicóloga brilham mais do que nunca. vão dar o suporte.Mas como é que uma mulher tão seca. Tudo acontece ao contrário. voltamos ao consultório de Buenos Aires. ouvimos a voz da paciente em off. Logo que chega ao hotel. e sim o contrário. Até agora.Podemos apelar para um recurso técnico. No final. e não dela. com cinquenta anos.Noa só vai para a cama com ele. o fio condutor que você precisa. MARCOS . MARCOS . tão rígida e. Mas nada sai do mesmo jeito.. Tudo dá errado para a psicóloga. Aí começa o jogo da comédia. E o filme acaba aí. ainda por cima. passar por uma experiência parecida. Não é que agora ela vá para a cama com dois ou três sujeitos. Ouvimos as respostas sobre seu rosto. O questionário da psicóloga. embora não seja necessariamente pior. pensa. ou uma caricatura. Começa o interrogatório pela psicóloga. A paciente está estendida no divã. Agora. as coisas acontecem ao contrário.de maracas para a cama. Mas seria necessário manter esse elemento de contradição: para ela.Ela ouviu essa história da paciente. a voz em off da paciente. Isso não é tão difícil assim. ou uma grande retrospectiva.. não tem uma coisa orgânica e articulada: você tem uma idéia. duas aventuras fenomenais. SOCORRO . Também convém que a gente saiba o que ela anda procurando. O filme continua. vai levar esse homem para o quarto? GARCÍA MÁRQUEZ . Real ou imaginária? Não sabemos. num grande hotel do Caribe. REYNALDO . como conta toda a sua vida. O que vemos na tela não é o que a voz conta. ela não tinha feito outra coisa além de ouvir histórias dos outros. Suas relações com o sujeito das maracas e com o magnata não são o que ela esperava. uma mulher madura que nunca viveu uma paixão amorosa tem. como turista. GLÓRIA .Sinto necessidade de resumir a história. sai tudo ao contrário. 64 .A história pode ser resumida dessa maneira: enquanto se hospeda. Vemos que seus olhos começam a brilhar. mas agora não há mais perguntas. é que agora ela está alerta para outras alternativas. de repente.Funciona. para ver se funciona. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . e decide repeti-la.Ela vai acabar fazendo amor com o homem que menos imaginava. O que vimos não é outra coisa além de uma antecipação.Isso é problema nosso. vemos que ela come o maleteiro com os olhos. e que de repente nem é do gosto dela? CECÍLIA . O problema é que você ainda não tem a estrutura. quer contar a sua. “Amanhã estou indo para o Caribe”. A paciente respondeu à última pergunta. Seu entusiasmo aumenta a cada resposta. Corte.

cujo desenvolvimento é desconhecido. Disseram que esse tocador de maracas era o tal. encontra uma amiga na esquina.o das maracas. Tinha o olhar parado no vazio.. temos um personagem que é o protagonista. MARCOS . toca maracas numa orquestra há vinte e cinco anos. eles descobrem que moram no mesmo bairro.ao mesmo tempo. no hotel xis tem um tocador de maracas que é um encanto. e uma contrafigura. GARCÍA MÁRQUEZ . O sujeito é uma espécie de gigolô.E o filme.. a outra é contando passo a passo o que acontece: uma mulher se levanta.Bom. Viu só? Está saindo a história. no cabaré do hotel Capri.. a psicóloga argentina.Tudo bem. rapidamente. nesse tempo. a situação não pode se prolongar: a excursão dura quinze dias. em vez disso.E ela vai direto ao assunto. Mas.Ao chegar aos trópicos. Tem um instrumento deste tamanho!”.. Eu acho que o mais certo é ter as ações bem claras. O sujeito também mora em Buenos Aires. a brisa. ela acabasse se enrolando com um argentino. Seja como for. A idéia me bateu una noite. GARCÍA MÁRQUEZ .. E o filme 65 .Seria formídável se a história com o tocador de maracas não desse certo e. e tocava suas maracas por pura inércia: chac-chac-chac. A primeira é começando pela síntese: conta-se a medula de uma história que ainda não existe. GARCÍA MÁRQUEZ . Mas este outro tocador de maracas não tem tempo para se aborrecer. são quase vizinhos. sai. Na verdade. GARCÍA MÁRQUEZ . a psicóloga sente o cheiro do mar. resumi-las em alguns parágrafos e analisá-las conforme formos escrevendo. em Havana. entra num ônibus. e assim que ela chega começa a procurá-lo. insuportável. o calor. quantas psicanalistas argentinas caíram em suas mãos? Pelo menos cinqüenta. com calma.. aqui. MARCOS . MARCOS . GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO .Ela foi ao Caribe para isso: procurar o amor.O personagem não nasceu assim. para começar. Há duas maneiras de conceber um roteiro. e depois. ganhando duzentos e cinqüenta pesos por mês. Vai ver. ouvindo uma orquestra de uns quinze músicos interpretando velhos boleros.Tudo bem. É magnífico. mas em certo sentido. meia hora. A razão dessa popularidade nós sabemos através da paciente: “Doutora. o sabor. claro . Estou querendo dizer que a até a sua pele desperta.. E um dos músicos . Este homem. É relativamente jovem e muito popular entre as turistas..não fazia outra coisa a não ser sacudir as maracas... era um músico subordinado ao Ministério da Cultura. o músico caribenho que toca maracas.

mas tudo dá errado porque o tocador de maracas está em outra. apesar de ser muito profissional. ser. SOCORRO . e o outro é potência. e pouco a pouco a vida a empurra para o outro.. Ela pode dizer a si mesma: “O que é isso? Viajar tanto para me enroscar com um argentino?”. Mas viveram no mesmo bairro.Um é poder. E a psicóloga. GLÓRIA .Vamos tirar alguns aninhos dela? Não precisa ter cinquenta. GARCÍA MÁRQUEZ . Não está cheio de argentinos indo ao Brasil atrás de aventuras eróticas e de todos os tipos? GARCÍA MÁRQUEZ . vendeu um Caribe de fantasia para a psicóloga. depois de ter ouvido tantas histórias e ter sido obrigada a vivê-las monasticamente. em plenos trópicos.A única coisa que ela sabe é que o sujeito tem as medidas.O que temos aqui é um jogo entre a paixão e o poder. MARCOS .O cara não pode ser famoso. é até veado. No fim.Essa situação me faz lembrar de uma história que 66 . senão ela o conheceria. uma moça fantasiosa. os dois se frustrando . no divã..Não pode. Então. VICTORIA . É o que chega no helicóptero. VICTORIA . capar de inventar mil aventuras para compensar suas frustrações. GARCÍA MÁRQUEZ . Agora não estamos mergulhados em um drama. os centímetros cúbicos necessários.E dificilmente morariam no mesmo bairro. Ela vai atrás do tocador.poderia acabar assim: os dois voltando juntos para a Argentina.. Ela já tem referências de confiança sobre os gostos dele. enquanto a outra conta suas férias no Caribe com todos os detalhes. acaba indo embora no helicóptero com ele. GARCÍA MÁRQUEZ . ela pensa: e por que não? O que me impede? GARCÍA MÁRQUEZ . Vamos deixá-la com quarenta e dois e sentindo-se frustada do mesmo jeito. A paciente. Mas não consegue seduzir o tocador de maracas. metido com uma argentina?”. feito padre.cada um à sua maneira -. Aqui já temos o núcleo de uma comédia de situações. porque o sujeito também deve pensar: “E que porra estou fazendo aqui. Vai ver. MARCOS . CECÍLIA .Não é um argentino qualquer. REYNALDO .Mas se ela foi procurar outra coisa! Ela não agüentaria ficar falando com um argentino.. O tocador de maracas seria a paixão. e sim em dois. e agora são felizes graças a esse encontro casual no hotel... morre de inveja ao ouvir.Acho isso interessante.Talvez a paciente seja isso.Uma comédia cheia de enredos.

Estamos tentando construir uma história a partir de uma situação. os sucos. ela se sente irritada quando encontra seu compatriota. ouço risos. GARCÍA MÁRQUEZ.Por enquanto.Ele insinua: “Por que não damos uma volta hoje à noite?”. Um dia ele veio e me disse: “Quer dizer que você está indo para Amsterdam? Eu estou viajando para lá...Ela experimenta as frutas. ouço música. Por que a gente não se encontra na quinta-feira. O bar está num porão. Era ele quem levava a alegria.Bem. Newton ainda não havia chegado.Está bem. mas alguma coisa tem de acontecer.Para ela. O bar é bonito.O que falta é a história. Ou seja. o tal sujeito. Era a lugar mais chato do mundo! E de repente. que nada vai ocorrer com ela. acaba caindo na rede. ROBERTO . É o destino. de noite.. num barzinho que está na esquina da Rua Canal com a rua tal? Você nunca viu lugar mais alegre e divertido. GARCÍA MÁRQUEZ .eu batizei de “O bar de Newton”. diante de uma mesa. MARCOS . VICTORIA . A psicóloga se instala no mesmo lugar e descobre que não acontece coisa alguma.. uma certa cordialidade.. e aquilo parecia um velório: as pessoas imóveis. Vir de tão longe para acabar na mesma coisa de sempre!”. ela não rejeita de maneira dura. no filme. sem perder o bom humor.. imagine só!”. “Olha só. e ele vinha descendo a escadinha. estamos no Caribe. de um ambiente. Ouço vozes. GARCÍA MÁRQUEZ . Quando o pessoal o viu chegar.Não. abre uma certa intimidade. um jogo de simetrias. ROBERTO . é a mesma coisa: é a paciente que arma todo barulho no hotel e onde quer que chegue. como autômatos. ouvimos. ela responde: “Olha.. MARCOS . uma farra que durou até o dia raiar. embaixador no México. E ela. No dia combinado eu fui. e me sentei sozinho. O camarada está em outra. Bom. E no entanto.E enquanto ela faz isso. Isso iria parecer intencional demais.O que você disse também é verdade: ela não interessava tanto ao sujeito. bebendo em silêncio. Olho. dia 17. e sabem quem eu vejo? Newton. que sabia direito o que queria. GARCÍA MÁRQUEZ .. armou-se aquele barulho. Olhei à minha volta. O que ele queria mesmo é uma mulata. Não deixe de ir”.. brasileiro.. GARCÍA MÁRQUEZ . Vem fugindo da Argentina e 67 . Não conhece ninguém ali. se recusa: “Mas não tem sentido. em off. por isso convida a mulher para sair.E por que não? Afinal. mas Newton não imaginaria como é chato quando ele não está. MARCOS . e não gosta de nada.”. Newton era um amigo meu. tudo despertou.”. uma grande decepção. a voz da paciente: “Lá existem uns sucos de fruta que são a maravilha das maravilhas.

Ela irá viver a prefiguração de sua aventura. faz o possível e o impossível para não o encontrar de novo. O gênero é uma coisa que devemos definir desde o começo. ROBERTO . Além disso. Não há nada pior que uma comédia involuntária.. mas só. Sendo uma profissional. pensando bem.O esclarecimento é oportuno.Não. mas não acabam só se enrolando: descobrem que são vizinhos em Buenos Aires. o material que temos não dá para outra coisa. corte para ela no avião e a voz em off. encontrar o tocador de maracas. MARCOS . GARCÍA MÁRQUEZ . Ela evita. Sinto que a história está crescendo. Já sabemos uma coisa: o que vamos ver é um desadelo.E se ela não fosse tão profissional? E se fosse uma psicóloga medíocre? VICTORIA . É um lugar comum.Muito bem. tem de ser psicanalista.Ora. O que faz uma psicanalista? Ajuda o paciente a encontrar seu próprio caminho.E quando ela. Obrigado. REYNALDO . GARCÍA MÁRQUEZ ..O chamado da selva. Mas o personagem deve ser um personagem. ela pode ser ao mesmo tempo uma excelente profissional e sentir atração pelo desconhecido.Podemos começar pelo questionário da psicóloga. como: Rivadavia. GARCÍA MÁRQUEZ . ela não deve ser psicanalista. ROBERTO . É uma funcionária pública.Não acho conveniente. o rosto da doutura e. de repente. de jeito nenhum.Então. 46? Não pode ser! Eu moro no 48!”. E quem fez com que ela sonhasse essa história foram suas pacientes. Isto é uma comédia de enganos.“Mas. que vive de um salário magro e fez um esforço enorme para economizar e realizar o seu sonho: passar uma semana num hotel de luxo no Caribe.encontra um galã argentino. como é que acredita que vai 'viver' a mesma experiência de suas pacientes? Pode sentir-se atraída por certos detalhes. DENISE . Se é argentina. E pode até ser que as duas 68 . GARCÍA MÁRQUEZ .Mas seria conveniente tirar esse caráter estereotipado de “psicanalista argentina”. agradeço este esclarecimento. e não uma caricatura. na imagem. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . Obrigado. a voz em off estará justamente falando dele. essa coisa de todo mundo achar que está fazendo um drama e o que está saindo é uma comédia. REYNALDO . a paciente estendida no divã.

E o cara? GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO . “Mas. Tango! O relações públicas está disposto e decidido a promover o tango.O recepcionista dá o quarto 303 para o argentino. E no dia seguinte. pergunta. e não acaba frase. só isso. o tocador de maracas.. aliás.. responde ele. 69 . por favor?”. A salsa que vá para o diabo. Tará-tan-tan-tan. diz.. Em vão.Ela encontra esse sujeito no hotel.. “Mas. Prometem contratar uma orquestra de tangos.”.Quando percebem que está sozinha e que é argentina. “Claro. se aproxima da mesa onde a mulher está. perguntam.O hotel tem essa filosofia: ajudar cada hóspede solitário a encontrar o seu par. o senhor não estava. CECÍLIA .A paciente.Que cara? O dia em que os argentinos invadiram o mundo GARCÍA MÁRQUEZ . não é? Quem dizer: as visões não coincidem.. se o hotel está cheio de argentinos?”. O ar-condicionado estava com defeito”. sozinha por quê.O músico que a psicóloga encontra é o real. o galã. no momento de preencher a ficha na recepção. E então ele. Quer ser amável. o vê a mulher chegando. e ao ver que os dois são argentinos e estão sozinhos. GARCÍA MÁRQUEZ . contou isso a ela: que muitíssima gente havia encontrado naquele hotel o par sonhado. como.Mas é o mesmo. GARCÍA MÁRQUEZ . O Caribe. responde o recepcionista. todos se mobilizam. faz o possível para que se encontrem.. “Estava. Acaba sempre encontrando o argentino. Ele está preenchendo a ficha no balcão. mas me mudaram de quarto. senhorita”. que vá tudo à merda. GARCÍA MÁRQUEZ . O da paciente é de fantasia. ao sair do quarto. as maracas. e o 305 para a argentina. ELID .visões não coincidam: o tocador de maracas descrito pela voz não é o mesmo que ela está vendo. CECÍLIA . E ela leva um susto. Ela percebe.No hotel há um animador ou um relações-públicas. “A senhora chegou no vôo número tal?”. ela encontra o argentino saindo da porta em frente.Daí em diante ela foge sem parar. DENISE . “Poderia me colocar em outro andar. MARCOS . seu par ideal.

“Tenho uma surpresa para você: pedi a um amigo argentino que saísse com a gente... Ontem à noite bebi com ele.. Ela não tem outra saída.. MARCOS . acabam sempre se encontrando de novo.Ela sai com o músico.Não. mas não importa. SOCORRO . O sujeito se apressa a esclarecer: “Não. piantao.Tanto desejou o tocador de maracas. vai ficando irritada: “O senhor me desculpe. ROBERTO . Perceberam que a vida.Ela não encontra jamais n tocador de maracas.”.“Mi Buenos Aires querido. GARCÍA MÁRQUEZ . uma noite. “Estão juntos”. que por acaso coincidiram na porta... Se aceitamos isso.Os dois se despedem.” MARCOS . não é? REYNALDO . fugindo sempre um do outro.Essa decisão é esquisita demais.É que o tocador de maracas tem medo que a argentina se chateie sozinha com ele.O negro não dá conta. talvez ela se sinta mais à vontade em sua companhia.. mas descobre que ele também convidou o argentino. mas ela.“Eu vim para cá justamente para passar quinze dias sem ver nenhum argentino na minha frente. Os dois... E a partir daí.Que tudo isso acabe virando uma piada de argentinos. GARCÍA MÁRQUEZ . a não ser concordar..Qual risco? GARCÍA MÁRQUEZ . e vão embora alegres e felizes. 70 . GARCÍA MÁRQUEZ . tomamos rum. aquela do Pizzolla. Quero dizer. REYNALDO .Este é o final.Primeira situação: o restaurante do hotel está lotado... Começam a falar de maneira muito civilizada. está lá longe: não têm nada para fazer aqui.. ROBERTO ..e a convida para dançar. correndo um risco enorme. pergunta o maitre.”. são colocados em em uma mesma mesa.. se não tiver nenhum inconveniente”. Estamos. GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS . tem compromissos demais. GARCÍA MÁRQUEZ . Dançam de maneira absolutamente sensacional.”. é claro. E pensa: como o outro sujeito é argentino. a verdadeira vida deles. pouco a pouco. para no fim acabar com seu vizinho! SOCORRO . piantao”.“Ya sé que estoy piantao. é um tipo supersimpático. mas não estou disposta a passar as férias entre compatriotas. no Caribe. como se estivessem obedecendo a uma maldição. Dançam resignados. só nos falta preencher o espaço vazio com algumas situações engenhosas..

Os dois vão juntos ver o jogo. ROBERTO . não perde nenhum lance. no bar. e também muda de hotel. a psicóloga e o cara. ROBERTO . um montão de turistas argentinos. É uma reconciliação ou uma resignação? Não importa.e eles aproveitam e vão até o bar. sei lá os dois começam a rir. muda para outro.Ora.Ela. Mas o jogo está passando na televisão. E leva os dois para apresentar ao time. ao ver que o hotel se encheu de argentinos. você levanta uma pedra e encontra lá embaixo um argentino. para uma conversa tranqüila na frente de um cuba-libre. Esse poderia ser o final.Outra situação: vai ser disputada uma partida de futebol. E ela responde: “Não temos nada a perder”. Mas não se preocupe: estamos tentando 71 . chegam os jogadores. GARCÍA MÁRQUEZ . E atrás dos jogadores.Ah. cada por sua conta.. o destino.É que estamos fazendo uma comédia.acompanha as jogadas. o time todo. MARCOS . E então. GARCÍA MÁRQUEZ .Os dois.Há uma cerimônia de boas-vindas em pleno campo. Só que acontece a mesma coisa com o sujeito. está jantando no restaurante do hotel. GARCÍA MÁRQUEZ. DENISE . E ela. então.Pode ser até que eles tenham de cantar o hino nacional. e a função de anjo da guarda do relações-públicas. não: tudo faz parte do mesmo jogo.Isso é uma piada. REYNALDO . A seleção argentina se hospeda no mesmo hotel. ROBERTO . DENISE . Quando se encontram de novo . os jogadores de futebol”.Eu queria fazer um filme aqui no Caribe. Nesse hotel. vieram sozinhos. REYNALDO .parece que todos foram ao estádio .a casualidade. A delegação inteira.E mais ainda. DENISE . não se contém: fica de pé e canta o hino. e todo mundo até o barman e vários argentinos . O fulano diz: “Acabam de chegar uns compatriotas seus.. MARCOS . É o momento em que ele diz: “Por que não jantamos juntos no restaurante da praia ?”.Que anjo da guarda? DENISE . e pelo visto vou precisar de dúzias e dúzias de argentinos. com muita gente daqui.Esse pode ser o final da filme.. desse jeito. Os jogadores ficam em posição de sentido e começam a cantar o hino.O hotel está vazio de argentinos .Mas.. a gente perderia a idéia dos “coitados dos argentinos sozinhos”.ROBERTO . o galã: não agüenta a invasão. ROBERTO . o tal que fica armando casais.

Ou do caribenho típico? GARCÍA MÁRQUEZ .O elevador fica preso. todas as que dê para encontrar. A que servir. Ela já começou a fugir do argentino. de repente. MARCOS? Você esqueceu? Quando você tiver uma idéia como essa. mas o fio condutor está aí. Não trocam nenhuma palavra. 2 Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar o acesso ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras. MARCOS . Não temos ainda uma estrutura. na hora de se registrar é um argentino. Aqui está a sua chave.Não.Tem uma coisa que me interessa pôr no filme: um desse restaurantes especializados em carne. é forte demais. Introduz um ruído no sistema. a que não servir. Quando o cara vai embora atrás do maleteiro.. Uns falam uma coisa. 72 . as lingüiças penduradas no teto. GARCÍA MÁRQUEZ .. será um prazer recebê‐lo em nosso grupo. fabricado em série.Acho que avançamos um pouco. Se quiser outros títulos nos procure http://groups.encontrar situações. com dez argentinos dentro. o recepcionista fala com ela: “Doutora Ricovix. na paciente e nesta psicóloga que se deixou convencer de que a vida está no Caribe. senhor Ribarola. ao sair do quarto. Os bifes. outros falam outra. e a torcida arrasta os símbolos: bandeiras. um argentino. por favor!” reclama a mulher. Mas ela ouve o recepcionista dizendo: “Seja bemvindo. Mas no dia seguinte. Quarto 205”. camisetas.google. não a abandone nunca. Quem será? Quem é esse camarada tão importante que se dá ao luxo de chegar de helicóptero? ROBERTO . Começam a discutir a situação do país. vê o argentino entrando no quarto da frente. Depois organizamos tudo.. E tudo sendo filmado por Marcos. muito longe da Argentina. Quem será que está chegando? A mulher está tomando sol no terraço do hotel e.. chega aquele aparelho.com/group/Viciados_em_Livros..E o helicóptero. A psicóloga chega ao hotel e a primeira coisa que encontra. No final. apenas se olham com o rabo do olho. serve.2 MARCOS . ROBERTO . não serve. A chegada do time de futebol arrasta uma torcida. “Não..Não vamos nos dispersar: O fato é o seguinte: a tela vai se enchendo de argentinos.. não cabe mais nenhum. “Não tem outro mais lá no alto? Não gosto de andares baixos”. aquilo vira uma loucura. Não é o retrato do argentino típico? REYNALDO .. tudo idêntico.Maradona. seja bem-vinda.. quarto 203”.. GARCÍA MÁRQUEZ . O que não dá para fazer agora é parar de procurar.

tem mais vida que as maracas. GARCÍA MÁRQUEZ . como instrumento. A melhor carne argentina. VICTORIA . um mulato de um metro e noventa.Espero que esteja lá a orquestra de salsa. ainda cru. O nosso helicóptero poderia carregar um touro amarrado. Como espetáculo é lindo. estamos desenvolvendo a história. e o trombone. Os Van Van.“A melhor carne do mundo”. Um defeito no chuveiro ou no ar-condicionado.É um símbolo fálico. Tenho interesse num personagem como Pedrito.Um churrasco inteiro. ROBERTO .Nós perdemos a voz em off.Ela não consegue acreditar no que está vendo. REYNALDO . e um de seus melhores números é justamente o de uma negra que canta um blue acompanhada por um trombone.Tiveram que mudá-lo.Têm outra orquestra muito boa. GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO . Grande Noite dos Pampas!”. chapéu branco de aba larga. não é? MARCOS . O grande churrasco dessa noite de festa.Não.. ROBERTO .Boa idéia.. os Irakere. o trombone de vara. E o contrário do que pensávamos: primeiro. Do pescoço do touro balança um cartaz: “Legítima carne argentina”. Um touro vivo. MARCOS . porque com aquele movimento. Tem a ver. GARCÍA MÁRQUEZ .Mas você já tem esse personagem: o tocador de maracas. MARCOS . Vocês sabem quem é? GARCÍA MÁRQUEZ . o cantor dos Van Van. impecável: bigodão.Um Cristo. vocês se lembram de A Doce Vida? Começa com um helicóptero que transporta uma estátua. dente de ouro. por exemplo. Podemos elaborá-la depois que tivermos terminado o conto. muito bem arrumado. GARCÍA MÁRQUEZ .. 73 . ROBERTO . Eles anunciam pelo hotel inteiro: “Não perca: este sábado. GARCÍA MÁRQUEZ . depois vamos acrescentar o relato da paciente..E que eu estou vendo o Pedrito..Aliás. De repente.Um touro argentino. MARCOS.Um touro caído do céu.A Noite dos Pampas. ROBERTO .. a mulher abre os olhos e vê um touro voando. que será comido naquela mesma noite.Todo amarrado por cordas. Mas lá está o churrasco.

zás. e o que aparece é uma orquestra de tango. damas empetecadas de jóias. esquecemos o incidente. com as costelas sanguinolentas. GARCÍA MÁRQUEZ .O Caribe mexicano: Cancun. ROBERTO .Poderia ser Acapulco.. é preciso organizar tudo. Uma imagem explosiva. todos mastigando os bifes. depois. do touro e do time de futebol. – de faca na mão. E no fim. Todo mundo muito elegante.GARCÍA MÁRQUEZ .. pouco depois. A psicóloga e o sujeito são dois dançarino sensacionais. e todo mundo comendo o touro. evitá-los do jeito que for. nos conformamos com o touro. MARCOS . GARCÍA MÁRQUEZ . Vi fazerem isso no Brasil: um desfile de vacas num hotel de luxo. há um desfile de várias vacas pela pista de dança. Teria que passar no México. O que sobra para que a gente veja? O tango. temos a chegada dela. Mas que seja um touro argentino. Estão felizes por ter-se encontrado.. temos surpresas.Baixam o touro. esquartejado. transformado em churrasco. as vacas.. e encontra os açougueiros . GARCÍA MÁRQUEZ ..Que inclui o jogo de futebol. ROBERTO . por causa do futebol.. o touro enfeitado. zás. Não acham que é um filme engraçado? MARCOS. E lá está o touro. GARCÍA MÁRQUEZ . do sujeito.Ao sair do restaurante. Desse jeito. vemos o touro aberto pelo meio.No nosso caso. ela se engana cie porta e vai dar na cozinha. Eu já me vejo filmando esse helicóptero com o touro balançando sobre a cidade. E de noite.”. como num desfile de beleza. múúú!. como anúncio da Semana Argentina! Porque o que existe no hotel é exatamente isso: uma Semana Argentina. Nós o vemos atravessar o salão com uma grinalda de flores dependurada no pescoço.Olha aqui.Os turistas estão esperando a banda de salsa. 74 . mesas com toalhas de renda.Uma ilha do Caribe. e ela o vê perder-se em um canto de jardim.E antes que a orquestra desande a tocar. E.. completamente esquartejado. MANOLO .. E ponto final.Eu acho. O mestre de cerimônias anuncia: “Senhoras e senhores: nesta noite. Depois. O que mais podemos pedir? Já temos situações suficientes para preencher trinta minutos. Agora. E. é proibido fazer alusões insolentes! MARCOS . E depois... GARCÍA MÁRQUEZ .Ela está tentando fugir dos argentinos. e de repente. A meia-hora se acabou. esquartejando o animal. dependurado em um gancho.

E. dominado pelo canto? Ou prefere deixar tudo para nós. aproveitamos para mostrar a cidade. Você não gostaria de um final desses. vira o escrivão da Oficina.. por causa do rio da Prata. está tudo bem. ou melhor. GARCÍA MÁRQUEZ . a paciente. como bom argentino. e você mesmo aparece na tela explicando: “Respeitável público: agora. A pista de dança fica coberta de casais.. Eu sei que é um sacrifício. GARCÍA MÁRQUEZ . ela está passando pelo controle de passaportes. O que você acha? É preciso ousar fazer umas coisas dessas. REYNALDO . Por que não voltamos à seqüência da chegada? O avião acaba de pousar. GARCÍA MÁRQUEZ .A única coisa que eu disse foi esta: chega de tango. GARCÍA MÁRQUEZ . E os dois dançam tão bem que ganham o prêmio da noite: são coroados “Os Argentinos de Ouro”..Quer saber o que você pode fazer? Pára o filme no meio. o divã.e uma canção maravilhosa.Poderiam ficar presos no elevador depois do jantar.. E a noite acaba assim. por cima.As damas que me perdoem: ele arrota sem querer. MARCOS . ROBERTO ..Eu. e que a gente elabore uma história adequada para um argentino.Acho que deveríamos retomar o fio da meada. de Prata. é a hora do tango. Peço desculpas”. Se vamos fazer uma escaleta. com todo mundo cantando na frente da câmera o hino nacional argentino..ROBERTO . Ela que saia em julho.. MARCOS . Estão empanturrados de carne e de vinho. dia da Pátria.. bem na nuca da mulher. quase não consegue participar.Você esqueceu o final de El resplandor? Termina com um velho retrato . sem argentinos? MARCOS . a propósito: eu a faria sair da Argentina no inverno.Nove de julho. Eu não queria fazer esta cena. Aí. quem toma notas não tem tempo para mais nada. mas alguém precisa fazer isso.todos estão mortos . GARCÍA MÁRQUEZ . ou seja.. vamos começar pelo verdadeiro começo: o consultório. para nos acostumarmos ao ambiente. da Oficina.Depois do jantar. como aconselha a etimologia. que é o verão daqui.O inverno de lá.Ela tomou um táxi para o hotel. a psicóloga. mas fui obrigado.. DENISE .Até o momento da chegada ao hotel.Espera aí. Ninguém está anotando. estou achando esse tango meio suspeito. a orquestra toca um tango. ROBERTO . 75 .

quando vista pelos fundos. ao balcão hotel. sinto muito”.Neste tipo de história.. Não parece muito com o que o vídeo de turismo exibido no avião mostrava. “Ah. De um lado está o mar.No Rio. vê que ele está na varanda vizinha.Vamos retomar a idéia do táxi. projetam numa tela . REYNALDO . SOCORRO . Escuta o que o recepcionista diz quando dá a chave do homem. quando ela sai na varanda do quarto. não tinha? Agora. as favelas. é verdade. precisei mudar de quarto.Também pode ser o seguinte: ela chega na janela e vê a cidade. diz ela apontando para baixo. e então se apropria do método. GARCÍA MÁRQUEZ . A realidade está lá. e pode fazer tudo sozinho. “mas o senhor não estava. e quando sai na varanda do quarto. Temos que estabelecer a ordem visual. é preferível definir uma linha de ação que seja muito clara. Pelo menos por enquanto. “Vai custar um pouco mais caro”. GARCÍA MÁRQUEZ .não imagina como a paisagem é diferente. Os dois se olham. Quando a gente chega nesses hotéis . GARCÍA MÁRQUEZ . é claro. e depois ir complicando durante o primeiro tratamento.GARCÍA MÁRQUEZ . ela teria visto algumas dessas imagens. o hotel Sheraton está na frente das favelas. é evidente: só o óbvio. O avião aterrissa e passamos. a primeira versão. só que a janela está nos fundos do hotel.Acho bom a gente começar a tomar decisões.?”. Não imagens de cartão postal. Chega no balcão e nota que o sujeito que está se registrando é argentino.No Brasil. e um quarto com vista para o mar”. na parte de trás. E em determinado momento.O homem imediatamente muda de quarto. para o táxi. é claro . aqui está: o 807”. o estereótipo. ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . Aí está a graça da Oficina: a gente vê como se desenvolve. Quando dão a ela o quarto 305. “Muito bem. Pergunta.A gente tinha voz em off. REYNALDO .imagens do lugar: Poderia acontecer a mesma coisa aqui: já antes de chegar..dentro do avião. porque o ar-condicionado do outro estava com defeito. Portanto vamos voltar à recepção... Do táxi. “Não faz mal”. ela está no hotel. Outro corte. quando o avião está chegando a uma cidade turística. num corte.. Como vai? Veja só. do outro.Ela sobe. perplexos “Desculpe”. ela contempla o ambiente d cidade. “Não.Depois que ela retoma o protagonismo. MARCOS . Esta 76 .pela frente.. não tornamos a ouvir a voz. acabou. encontra uma vista panorâmica da cidade. Então eu queria um andar mais alto. ela percebe o perigo e não vacila: “Tem vista para o mar”.

água quente.Ficamos no seguinte ponto: na recepção. O diretor que decida. olhando o folheto. Aquela música ambiental.Machu Picchu. SOCORRO . querendo se livrar dele.Vamos deixar isso de lado. tudo irritante.. onde está ele? Mudando de quarto? GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . Mas existe aí um vazio que precisamos preencher: E preciso dar tempo para que o homem descubra que seu ar-condicionado não funciona. já teve tempo de mudar de quarto..De repente. GARCÍA MÁRQUEZ. obrigada”. quando se instala. GARCÍA MÁRQUEZ . somos criadores: é preciso dar à história o tempo que ela quiser.Praias. não. veja.Quem faz isso é o boy que levou sua bagagem.Antes. é o controle de luz. ela liga o rádio.As paredes do quarto estão cobertas de enormes fotografias de paisagens. no fim..Estamos pensando em uma montagem paralela? 77 . ela ouve barulho do quarto vizinho. senhora. torna a ver o sujeito. Nós não somos produtores. GARCÍA MÁRQUEZ .Que horror! REYNALDO . “Aqui. e que a mulher esteja sentada.Não.. peça outro quarto. desesperante. o pampa argentino.Ela se instala. sai à varanda. GARCÍA MÁRQUEZ . nós dissemos que ela está vestindo roupas de inverno? CECÍLIA. GLÓRIA .Não. experimenta dois maiôs antes de descer para a piscina. SOCORRO . A cordilheira dos Andes. palmeiras contra a luz. Enquanto isso. que apareça na varanda. quer merecer a gorjeta. a psicóloga exige um outro quarto.Ele subiu primeiro.Também pode ser que o boy tenha dado a ela a programação noturna do hotel. Claro que o rapaz insiste: afinal. sim. GLÓRIA . Aliás. o ar-condicionado. Ela responde: “Sim. e lá está o galã argentino. MARCOS .E. Alguns minutos mais tarde.Eu me perdi.. SOCORRO . CECÍLIA . arruma as roupas no armário. MARCOS . água fria”.O boy ligou a televisão para ela. chegue lá e. aqui. SOCORRO . O banheiro é logo ali.história tem a desgraça de estimular a imaginação: todo mundo tem alguma coisa para acrescentar.E a gente precisa terminar nesta jornada. MARCOS. MARCOS ..

Isso abre espaço para situações mais engraçadas. óculos escuros. cada vez que a encontra.. vê o homem. e então sai à varanda. faz um gesto de cumprimento.. e.Ela fica lá mesmo. GARCÍA MÁRQUEZ . se arruma e.. faz um leve gesto de cumprimento e ela não consegue se conter: “Mas o senhor não estava em outro andar?”.Entra no quarto. porque.GARCÍA MÁRQUEZ .Não. É preciso tentar armar a escaleta e medir o tempo. é melhor não mudar a mulher de quarto. CECÍLIA .Não precisa explicar mais nada. Ela fica: vai aceitando a fatalidade aos poucos. Ela muda de roupa. ainda vestido de argentino. encontra o galã.A próxima seqüência seria a dela mudando de quarto. GARCÍA MÁRQUEZ . desliga.Mas isso não impede que ele seja gentil com a mulher. Ele acha que a reconhece. aspira profundamente a maresia do Caribe. Esta história é muito difícil. Talvez ele seja um executivo que anda pelo Caribe vendendo aparelhos de ar-condicionado. no quarto ao lado. nunca sabemos direito o que vai acontecer: Agora. como é de um enredo atrás do outro. Desiste. o jogo de esconde-esconde. Porque senão. E o mesmo boy. disca o número e.Não acho bom ela ver o homem na varanda. ROBERTO . GLÓRIA . vai até o telefone disposta a pedir outro quarto. ele também anda procurando um romance tropical.Nós já demos a esse camarada tempo suficiente. Essa é a sua primeira capitulação. estamos na metade ou na terceira parte do filme? 78 . Ele está na varanda vizinha. ágeis. Ele a reconhece. tenta escapar dele.Eu prefiro assim: situações breves.Ela se resigna. sem esperar resposta. GLÓRIA . tentando repetir a rotina.. Ela é que não disfarça sua rejeição. torna-se 'tropical' à maneira dos turistas: blusa colorida.. mas está pensando em outra coisa. arrumando suas coisas já no outro quarto. MARCOS . não. Quando o boy sai e ela fica sozinha no quarto. de novo. por exemplo.Meu medo é que já temos dessas situações de sobra. Não tem por quê ficar esticando cada piada. quando sai do quarto. de repente. estamos calculando tempo. GARCÍA MÁRQUEZ .. no final se resigna.. se transforma. Mas nós já dissemos que o camarada não estava interessado na psicóloga. GARCÍA MÁRQUEZ .. poderia parecer que o filme é isso. que está entrando. acompanhado do mesmo boy com as malas. REYNALDO . GLÓRIA . e.Não. Não abandonamos a mulher em nenhum instante.

estão os dois “encontros” da mulher: o do Caribe.E aí o que acontece..Muito bem. E a transfiguração turística da realidade exterior.Como diria Cortázar..A gente não ia trocar as maracas por outro músico? REYNALDO . uma coisa dessas faz com que se sintam vivos. Primeiro.E os rumbeiros por uma orquestra? ELID . Nos hotéis. Guadalupe.Ou seja.E cadê o time de futebol? GARCÍA MÁRQUEZ . Por exemplo.. A orquestra de salsa está tocando. folhas e flores. ela aceita a primeira fatalidade. ELID .Para a maioria dos turistas. GARCÍA MÁRQUEZ . e o do argentino. Bem. É uma forma de dizer: está vendo como conheço os hábitos do lugar? GARCÍA MÁRQUEZ . ficam encantados. Fui de ilha em ilha e descobri que as ilhas são um mundo e os hotéis das ilhas outro mundo muito diferente. Daí passamos. MARCOS . Barbados. Estamos entre cinco e sete minutos.ROBERTO .. cinco minutos depois do começo do filme. ao cabaré do hotel.. que anuncia todas as desgraças posteriores.Ela já mudou de roupa. Temos de ir passo a passo. A voz em off é ouvida de novo. MARCOS? Qual é a idéia? MARCOS . Na verdade. coroado de frutas.fuuuff.. com mais domínio da situação. cheios de felicidade por terem conhecido algo tão típico. Ela pede a bebida xis e o que levam é uma taça 'Carmem Miranda': um copo enorme. Antigua. não. Ela olha fixo para o tocador de maracas. MARCOS .O seu 'destino sul-americano'. porque ela vem fugindo da Argentina e dos argentinos e a primeira coisa que encontra no hotel.Tanto assim. Entra no elevador e vai direto para o bar.Um encontro que é um desencontro.. fazendo o retrato idealizado do personagem.. Quando eu estava escrevendo O Outono do Patriarca percorri as Antilhas Menores: Martínica. como o chapéu da cantora. de repente. está caçando o músico. uma labareda tremenda . nenhum deles com menos de cinqüenta anos. ELID . uma bebida cubana com nome japonês. GARCÍA MÁRQUEZ . corte a corte. REYNALDO . Como já tem referências das coisas do Caribe através da paciente. eles pegam um pedaço da realidade exterior e o transformam.e os gringos. no hotel o churrasco é servido por negros vestidos de pirata e que trazem uma frigideira enorme e. botam fogo .É preciso não deixar amontoar. esse 79 . fica plantada na frente do barman e pede um mojito. Não pode mais escapar. Trinidad e Tobago. se lá fora a carne é assada sobre brasas.

. uma mangueira acolá. Conheci um. nos encontrarmos aqui nos trópicos!”.Eu conheço os argentinos muito bem.. Ela já começou a mergulhar na vida artificial. o ambiente. tão agressiva.Quando o show termina.Ela está sentada na frente da sua cascata tropical. Ou vamos fazer um filme de surdos-mudos? Lá pelas tantas.É preciso aproveitar a atmosfera. E o que está acontecendo é que. GARCÍA MÁRQUEZ .. mas enfim. mas aqui dentro eles colocam tudo junto.Já é hora de ela e o argentino conversarem.É preciso que aconteça alguma coisa que sirva de gancho para manter o interesse do espectador. e ir complicando as coisas aos poucos. GARCÍA MÁRQUEZ . em Argel. mas advertindo que o sobrenome 80 .Ela e o sujeito poderiam chegar ao hotel no meio de uma grande confusão. MANOLO . têm os seus caprichos. Além do mais. ao vê-la. CECÍLIA . REYNALDO . Lá fora. GARCÍA MÁRQUEZ . o argentino. seca: “Eu não atravessei o continente para me encontrar com meus vizinhos. vemos uma bananeira aqui. que se mete com todo mundo. Não conseguem entender o que está acontecendo. ele mesmo se convida para se sentar ao seu lado.”. Pepino que nasce torto cresce torto. Ou. de sua copa 'Carmem Miranda'.Com o argentino. e isso agora nos convém. e eles não são tímidos..Eles nunca se atreveriam a dizer coisas assim. é claro. que faz piadas.. e mal consegue ver o tocador de maracas: precisar afastar as folhas e as frutas para poder vê-lo. quem sabe. ROBERTO .. é que nós temos trinta minutos e já gastamos dez. MARCOS . que se apresentava como sendo o senhor Pereira. porque o cinema também gosta de exagerar. É preciso começar com uma linha de desenvolvimento muito simples. atravessa o salão.. São tímidos. nunca tanto como a realidade.sentido da 'reprodução comercial' da realidade exterior se presta a todo tipo de exageros.Eu não a imagino assim. Claro. e você acaba não vendo nada. ele diz: “Que coincidência.... Como a noite acaba? DENISE . chega perto e gentilmente a convida para dançar. MARCOS . E ela..Ela vai procurar o músico e o músico está conversando justamente com. GARCÍA MÁRQUEZ ... Por que não voltamos ao tocador de maracas? Um sujeito com carisma..Ela está na sua mesa e o argentino. Um encontro casual... GARCÍA MÁRQUEZ .... ela vai diretamente aos camarins para tentar falar com o músico. REYNALDO .

tudo. Ele também anda caçando uma aventura: preferiria uma negra ou uma mulata. Os dois se viram pela última vez na cena da varanda. sente-se para escrever e desenvolva a seqüência inteira dessa noite. na piscina.Não sou capaz de imaginar uma psicóloga de Buenos Aires indo pessoalmente buscar o músico. e vai embora sem falar com ela. é justamente atrás dela. REYNALDO . a viagem. não é?. acha que são amigos.A situação dos dois tem que ficar definida nesta noite. ela vai ver o músico das maracas..Muito bem.E o lugar dele . A psicóloga mandou um recado ao músico: “Sou argentina. se conforma com a argentina. O argentino chega perto. “Eu sinto muito. no final da noite. sou o substituto. Corte para a cara da psicóloga. animados. é verdade.Esse trenzinho. na verdade.. onde ela vê o helicóptero chegar. desolada: ficou sem programa para esta noite. Posso encontrá-lo depois do show? “ SOCORRO . MARCOS . o rejeita: “Ora. um agarrando o outro pela cintura. GARCÍA MÁRQUEZ . encaixa uma pessoa na outra. Pedrito está numa turnê com a banda dele. se aproxima. O capricho deste aqui é dançar com a psicóloga..Nesses cabarés é comum. Ninguém dança a conga: encaixa. sem pensar duas vezes. o animador convocar todo mundo para dançar numa espécie de trenzinho.Manda o recado por um garçom. GARCÍA MÁRQUEZ . mas se não aparecer nenhuma. Não se esqueça que a seqüência seguinte é a da piscina. E ela. um atrás do outro. SOCORRO . o sabor das Antilhas. vir até aqui para acaba dançando tango!”.. da mesa dela. GLÓRIA . Deixa claro que está procurando outra coisa. imagine só..O músico. nervosa. MARCOS: você acaba de encontrar uma maneira muito argentina para definir uma dança chamada conga..Ela tem um pretexto: sua paciente. O músico sai do camarim. MARCOS . Corte para o dia seguinte: vemos a mulher tomando sol.no cordão..Quero ficar um pouco mais nessa noite: quando o show acaba. esperando o tocador de maracas acabar de trabalhar para abordá-lo! A galanteria de seu compatriota ameaça estropiar a noite. que manda lembranças. mas encontra o argentino. GARCÍA MÁRQUEZ . Marcos. No fundo. vê os dois conversando.. muito diferente. Ele agora se insinua e ela. então. amiga de Fulana de Tal. da cena de Romeu e Julieta.era com y: Pereyra. ela não desiste 81 . mas não sou o Pedrito... GARCÍA MÁRQUEZ .veja só que coincidência! . na Venezuela”.

Ela aproveita uma pausa da orquestra para mandar o recado pelo garçom. Mas se ele tiver ido embora.Acho que o dia da chegada está resolvido. guarachas. GARCÍA MÁRQUEZ . É a hora da velha conversa: “Imagine. é o substituto. GARCÍA MÁRQUEZ . não tem mais nada a dizer. MANOLO . “Sou seu vizinho”. vocês não desistem da cena do tango. e senta sem esperar a resposta. e aparece a piscina. devo dizer que estou tentando tirar esse músico de circulação.o mesmo argentino que nós não víamos desde a cena da varanda. Mesmo que seja outro tocador de outras maracas. não perdemos o nosso tocador de maracas? MARCOS .. cha-cha-cha . ainda contraída. SOCORRO . Quantas vezes uma coisa parecida não aconteceu com a gente? Quantas vezes ao longo da vida. O músico chega até a mesa e diz o que combinamos: ele sente muito. contraída.E que a gente não pára de misturar as cenas. A coisa começa com a chegada do time de futebol. mas não é o Pedrito. sem tirar os olhos do tocador de maracas. GARCÍA MÁRQUEZ ... Não desempenha nenhuma outra função no resto do filme. O que importa agora é a relação dela com o argentino. passamos a outro da cara dela. MARCOS.Para chegar onde chegamos. Um show forte . MARCOS . o argentino chega . ele mudou. ela passa a ter essa opção. De agora em diante não precisamos mais do músico das maracas..mambos. as bandeirinhas.Essa frase dela é fundamental. e vamos acabar ficando sem entender nada. tão longe de casa”. nós aqui.Quero ressaltar uma coisa: quando o músico substituto diz a ela que Pedrito foi para Caracas.Pelo que estou vendo. não é? A noite começa no cabaré. para ser bem sincero.Faz parte do clima criado ao redor da Semana Argentina. Ou melhor.da idéia do tocador de maracas. ELID . etc. mas agora virou fumaça. porque é justamente assim que o filme deve terminar: com os dois dançando tango. GARCÍA MÁRQUEZ . diz ele.. O personagem foi uma isca para levar a psicóloga ao Caribe.. “Posso?”. ela perde duas vezes: nem argentino. De repente. nem músico. há um corte abrupto. MANOLO ..De um plano da cara da mulher.. ouvindo o tocador de maracas.Eu calculo que uns sete minutos.E se o argentino continuar ali.Ele já deu um certo peso à história. arrastando a torcida.Você tem razão..e ela sozinha na sua mesa. etc.Olha. REYNALDO . quanto tempo foi gasto? GARCÍA MÁRQUEZ . vendo o helicóptero 82 .

GLÓRIA . Pode até colocar entre aspas.. GLÓRIA . Como a tiramos dali? Arrancar uma pessoa que está tomando sol numa piscina não é nada fácil. olha por cima do muro e vê os jogadores chegando. minha senhora. MARCOS . GARCÍA MÁRQUEZ . para que ninguém tenha dúvidas. a senhora. Marcos. sente um ruído que vem da rua.O pessoal do hotel não sabe lidar com esses bichos. centenas de turistas argentinos agitando bandeirinhas argentinas.Depois que acontece a história do touro. você está salvo! Com esta cena. o vento leva o chapéu da psicóloga pelos ares.O que ela vê são os olhos do touro. se dirige à recepção para apanhar a chave e. Ela agarra uma toalha..Esses eventos são realizados sempre pelo país “homenageado”. é claro! O argentino é o organizador Semana da Argentina! ROBERTO .Ela está esticada placidamente na espreguiçadeira. sombrinhas. E então percebe que o touro está dependurado no helicóptero. sim. abatidas pelo vento. Atrás deles. você tem que ver outra vez A Doce Vida.. deixando bem claro que se trata citações.E se ele escapar e espalhar pânico entre os hóspedes? GARCÍA MÁRQUEZ ..Eu também me preocupo é com ela.O corte é para a cara dela. E sobre as palmeiras. passa a touro.. Liga a 83 . e sobe para o quarto. diga.Ou até mesmo antes: ao ouvir a mulher falar. e quando ela ainda está no terraço do hotel.Ela consegue se refazer da surpresa. se ela visse as bandeirinhas antes. faz virar um turbante. você leva o o filme lá para cima. ao lado da piscina. Mas uma cara sonolenta e depois atônita por causa da surpresa do vento e do ruído. Se pelo menos tivéssemos um argentino à nossa disposição. que é argentina...chegar.MARCOS.. o gerente exclama: “Ah. De lá também se ouve o ruído da rua. GARCÍA MÁRQUEZ . o time de futebol invade o hotel. como uma alucinação. . nesse momento. balançando por cima do muro. CECÍLIA . MARCOS . Bem: o que fazemos com o touro? SOCORRO . Poderíamos conseguir uma cena muito curiosa.Quando o helicóptero desce e deposita o touro no terraço.A ventania do helicóptero faz voar mesas.É feito um furacão. parecem estar olhando diretamente para ela. poderia nos explicar como fazemos para tirar esse touro do jardim? GARCÍA MÁRQUEZ . E que tal fazer que o argentino seja o organizador disso tudo? Ora. GARCÍA MÁRQUEZ . ELID . para pegar alguns elementos.

ela vê a recepção do time pela televisão. os turistas agitando a bandeirinhas. temos de ver para que tipo de hotel. Quando sobe para o quarto. ROBERTO . REYNALDO . para depois preenchê-la com calma. E. se ninguém impedir. Está dando uma entrevista. O sujeito é o organizador do evento.. escuta os foguetes e os morteiros. ao mesmo tempo. depois.. acabam entrevistando até o touro.. GARCÍA MÁRQUEZ . depois.Se o sujeito for mesmo o organizador do evento. ser o organizador. ela entrando no hotel e subindo para o quarto.O hotel ameaça virar um lugar insuportável. está tudo lotado.Vamos ver a seqüência “os argentinos vêm aí”. ela vai encontrar a República Argentina inteira..Não tem ninguém anotando? Assim perdemos coisas. Primeiro.Ela não deve mudar de hotel... O recepcionista explica.Ela tenta de todas as maneiras.. Enquanto está no terraço. apitos. Pode até ser o intermediário que vendeu o touro. MARCOS ... necessariamente. camisetas. mas antes ela viu a chegada do time. ou participar dele de algum jeito. a chegada do time de futebol. De repente. ela telefona para a recepção: “Será que alguém pode me explicar o que está acontecendo?”. aqui. daria na mesma: a cidade inteira está do mesmo jeito.Mas isso não quer dizer que não tente mudar. GARCÍA MÁRQUEZ . Bonés. O que mais ela precisa? É sempre melhor inventar uma ação. que ter que explicá-la. Precisamos armar uma boa estrutura.. ROBERTO . mas não encontra lugar. ela vê o alvoroço armado com a chegaria do time. GARCÍA MÁRQUEZ .televisão e quem ela vê? O argentino.Ele não precisa. cheios de torcedores. vai até a varanda e torna a uma a multidão. Nesse meio tempo..Quando sobe para o quarto. Pode ter alguma coisa a ver com o evento. o helicóptero e o touro. vê a chegada do 84 . e eu espero que não sejam elementos da estrutura. não vai ter nem cinco minutos de tempo livre. MARCOS .Se ela for mudar de hotel. a televisão está sobrando. GARCÍA MÁRQUEZ . É desse jeito que ela fica sabendo quem ele é.. porque o evento não tinha começado e o time não tinha chegado. Até agora andou vagabundeando por ali. foram chegando os ônibus. Não existe mais nenhum lugar onde ela possa se meter. GARCÍA MÁRQUEZ . bandeirinhas.Acho que. MANOLO . senão. com muito tempo livre. eles acabam dançando um tango num hotel mequetrefe.E mesmo que ela mudasse de hotel.Sim. os torcedores. CECÍLIA . SOCORRO .. Vocês.

É uma seqüência tumultuada'. leva sombrinhas pelos ares. porque sente que a confusão vem lá de baixo. claro. Ninguém quer perder esse jogo: Argentina contra o resto do mundo. Mas tudo isso poderia ser feito na mesma locação: o bar da piscina tem uma televisão e. Uma pasta verde cai em cima dela. tenta em vão mudar de hotel. GARCÍA MÁRQUEZ . CECÍLIA . MARCOS . e sim a do apresentador de televisão. vão matar você em Buenos Aires! Se não fosse um filme sério.E exigindo explicações por telefone. pede um táxi pelo telefone do quarto. GARCÍA MÁRQUEZ . e observa tudo pela janela. E.É a redundância absoluta. Ela.Bem.Quando ela perceber o que está acontecendo. REYNALDO .. um telefone. liga para outro hotel e dizem que não há nenhum quarto vazio.Ou seja: para quem não queria sopa. GARCÍA MÁRQUEZ . no momento em que o touro larga um aguaceiro de cocô. Com todos os argentinos.Então. Aí.Ela procura a guia telefônica. enquanto isso. na piscina. Ela recebe a mesma informação por três vias diferentes. Todo mundo corre de um lado a outro. embora esteja claro para nós que o filme não é sobre ela e o argentino. GARCÍA MÁRQUEZ . VICTORIA .. não precisamos falar do cocô.Ela precisa sentir alguma coisa. 85 .time. ela já está no quarto... ouve a notícia pelo telefone. então. fisicamente: não basta receber apenas o impacto visual. MARCOS . vai até a varanda.. GARCÍA MÁRQUEZ . não ouvimos a resposta do recepcionista. que 'responde' à sua pergunta. chegam logo três caldeirões: vê o time pela televisão. a psicóloga despertaria.Temos a ventania: o vento arranca o seu chapéu de palha de abas enormes. REYNALDO .. e sim sobre ela com os argentinos. REYNALDO . que sente o cheiro e dispara atrás de um chuveiro para se lavar. a cerimônia toda. ela já fez o que tinha para fazer.Quando telefona para a recepção para saber quê diabos está acontecendo. cadê o argentino? Onde é que ele se meteu? Temos de saber isso. No fim. MARCOS. saindo do chuveiro. GLÓRIA . e respondem que não existe nenhum táxi disponível.MARCOS. por causa da chegada do time. Quando você der o corte.Argentina contra a Seleção Mundial. os guarda-sóis. a ordem da seqüência está clara.

agora. Está rodeada. GARCÍA MÁRQUEZ . Precisa cuidar de seus assuntos.e temos. Ela nota que ele não é nenhum bobo. Está lendo a entrevista. GARCÍA MÁRQUEZ .Ela continua no quarto. só dá para isso. GLÓRIA . GARCÍA MÁRQUEZ . Ela pode começar a se sentir um tanto paranóica.E depois? Estamos construindo um roteiro sem saber o que vai acontecer no minuto seguinte. não é? MARCOS .Ele está sendo entrevistado pela televisão. MARCOS . DENISE . então. ROBERTO .. A cidade está invadida.Está parecendo que essa história vai durar um dia só.A informação que estava faltando é dada pelo recepcionista.pelo menos.Eu acho que agora ela precisa de um momento de repouso. Aliás.. Quando começamos. MARCOS .É para isso que temos cabeça.O que precisamos contar agora é justamente isso: o que aconteceu a essa pobre argentina quando os argentinos invadiram seu mundo. a sua imagem .Sentou-se para ver. GARCÍA MÁRQUEZ .Na entrevista. o que me preocupa é aquilo que você perguntou antes: onde diabos foi parar o argentino? O último tango no Caribe CECÍLIA .Ele. como um narrador de radionovelas: quanto tempo vai demorar até ele entrar definitivamente em sua vida? CECÍLIA . GARCÍA MÁRQUEZ .GARCÍA MÁRQUEZ . o camarada diz alguma coisa que chama a atenção da psicóloga. por telefone. poderia se chamar O dia em que os argentinos invadiram o mundo. para poder pensar no que está acontecendo. Mas agora. “Pense bem.Pelo menos já sabemos quem é argentino. o que podemos fazer? É o seu país contra o mundo inteiro!”.Essa seqüência. 86 . Nessa seqüência demos toda a informação necessária.Vou pensar nisso. REYNALDO . E já entrou no quarto dela .É o relações-públicas do time de futebol. que começa com o helicóptero e termina com a tentativa de fuga. senhorita. também não sabíamos. o direito de nos perguntarmos. não tem mais tempo para nada.

os dois vão se encontrar. abatida.Mas se ela está desconsolada e desgraçada. Aliás. precisamos filmar o jogo. não dá para ninguém sair nas ruas.Filmar esse jogo não é fácil.Coitada! Primeiro. está deprimida.Ela. MARCOS . Ou estamos pensando em material de arquivo? REYNALDO . Estamos nos inclinando na direção de um final feliz. MARCOS . alguém bate suavemente à sua porta. tem de resignar a passar as férias no meio de 87 .. CECÍLIA . A psicóloga protesta. acabamos de perder o nosso final. porque o músico estava viajando: agora. GARCÍA MÁRQUEZ . na grande festa final..É ele.E com isso. seja como for. fez-se enfim um instante de silêncio. o que você faria no lugar dele? REYNALDO . MARCOS . GARCÍA MÁRQUEZ . de recepção. ELID .. Desligou a televisão.GARCÍA MÁRQUEZ .Nós nunca saberemos quem ganhou. A festa.. na seqüência final do filme. GARCÍA MÁRQUEZ .Que final? MARCOS . é a de boas-vindas.A Argentina não pode perder. GARCÍA MÁRQUEZ . senão o nosso filme estaria danado.Ficou claro. GLÓRIA . como ele está no quarto vizinho. para mim.Mas a argentina vai perder! GARCÍA MÁRQUEZ .A frustação dela.E lá está o argentino para consolá-la. O jogo vai ser no dia seguinte. o barulho da rua continua chegando pela janela.. GARCÍA MÁRQUEZ . que foi levar um convite de festa para ela. Ainda bem que com o argentino não temos nenhum problema. está resignada ou fascinada? GARCÍA MÁRQUEZ ..Faz um prognóstico sobre o resultado do jogo. que os trópicos foram para a cucuia. o que você quer que ele faça? Aliás. celebrar a vitória. no fim. Talvez dê a entender ao camarada que viu a entrevista pela televisão.. se resignou a não ver o músico. ela cede.ela. para depois.Os trópicos se argentinizaram... agora. reclama. Ainda bem. de repente. mas deprimida de verdade. Vocês sabem quem é? GARCÍA MÁRQUEZ ..Ela está no quarto. ROBERTO . ELID . depois de sua tentativa inútil d emudar de hotel. ele insiste.Não existe mais o tocador de maracas.E.O que interessa é que ela aceita o convite.

Vamos vendo a mulher de corte em corte. vai buscá-la e a convida a juntar-se 88 . Lá fora. ele torna a insistir em seu convite.. como o argentino.E é verdade que o 'diálogo'. Está com os nervos em frangalhos. Só quer saber de dormir. E. tira do armário um vestido de gala e.. no meio da alegria geral. num bilhetinho. chega à festa no momento em que o touro está no meio do salão. a festa já começou. CECÍLIA ...Ela também pode apresentar alguma resistência. o ruído continua.. que traz um presente. mas a voz em off acaba triunfando. GARCÍA MÁRQUEZ . É o boy. O touro está desfilando.argentinos. surge de maneira natural. rodeado de fotógrafos. Ela não quer saber de ninguém.Um prato especial.Há um aspecto aí que acho interessante: ela se estender rígida na cama. Toma um comprimido para dormir.Não vamos nos enganar: o argentino é um sujeito verdadeiramente encantador. e vemos a mulher vestida de gala. DENISE . O que ela pretende fazer? Psicanalisar a psicóloga. em sua visita.Vendo a festa pela televisão. obrigada. GARCÍA MÁRQUEZ . não. Fica estabelecida. Corte. REYNALDO . De repente. um churrasco preparado para homenagear os argentinos. corn uma certa dose de arrogância: “Não. entrando numa festa. como uma coisa muito orgânica. Quando ela desce e entra na festa. havia notado que ela estava deprimida.. Sai da cama. tenho outros compromissos”. uma analogia com o divã do seu consultório. Vai persuadi-la a ir à festa. A psicóloga entrega os pontos. CECÍLIA .Um diálogo pelo avesso. A psicóloga insiste.. de antemão. não quer saber de nada. CECÍLIA . não se entregar tão facilmente.. ele . Um ramo de flores? GLÓRIA .que está numa mesa com vários amigos . No grande salão do hotel. resolveu mandar um presente. o que está fazendo? MARCOS . esse ruído fica menor: é a paciente.Poderíamos ainda dar uma outra volta a esse parafuso diálogo com a paciente: Batem na porta.Ela diz ao homem. sempre contrapondo sua depressão ao barulho alegre da festa.Não. E ela. Estende-se na cama. GARCÍA MÁRQUEZ . O cara não se dá por vencido. no quarto. Mas o ruído da festa entra pela varanda. REYNALDO . então. SOCORRO .Previsível demais.se levanta.Ela ainda não desceu do quarto. GARCÍA MÁRQUEZ ...

Não gosto que ela se tranque. GLÓRIA . tira o vestido mais elegante. ela estranha: “Deve ser algum engano. ROBERTO . senhorita. desmorona na cama. e com razão: “Por que diabos vou comer aqui.Ora. e que o galã faça essas gentilezas: um prato especial. Assim que ela tira a tampa da bandeja. e pronto. sorriem. fazem um comentário banal.Durante a conversa com a paciente. deixando rolar uma lágrima furtiva. mude a roupa e se apresente na festa. GARCÍA MÁRQUEZ .Ele pode ter batido na porta e entregado o convite. Pode ser um daiquiri.. ELID . é porque pensa que ela vai ficar no quarto. ele pode ter reparado isso de algum outro jeito. e não para esculhambar os argentinos. é uma entrega a pedido do etc”. Ela não pode deixar de se comover com o gesto. sozinha?”. Tem argentino por tudo que é canto.. vê a si mesma no espelho. caminha até o armário. ELID .Quando batem na porta e aparece o boy com o carrinho.Mas. Ela recusou..É melhor ela ficar em seu quarto..Se ele manda a comida. a psicóloga deve reafirmar seu argentinismo. GARCÍA MÁRQUEZ . Então. Sentam-se juntos. Mas logo percebe que não tem onde se enfiar. por exemplo. um objeto de artesanato do país. vê o bife fumegante.. Ela vê a comida. não pedi nada. Ela torna a encontrar o camarada no bar. Não é nenhum engano. e fica pensativa. que se mostre tão passiva.. para que suba de novo ao quarto.. REYNALDO . e aí entra a voz em off.. o churrasco. SOCORRO . desta vez.Cuidado: este é um filme para exaltar o patriotismo argentino. GARCÍA MÁRQUEZ . CECÍLIA . SOCORRO . Ela tenta combater sua depressão indo ao bar e tomando alguns drinques. deprimida. DENISE .Ela poderia manter seu diálogo imaginário com a paciente em algum canto solitário de bar. Com toda a confusão que o sujeito tem que resolver.O carrinho e o diálogo são suficientes para decidir a rendição 89 .. O filme é isso. Fica com medo de enlouquecer e corre para se trancar no quarto. chega o carrinho.Um momento: o carrinho e o boy substituem a visita pessoal do argentino? Eu acho que essa visita é necessária.A bebida acaba dando coragem a ela.”. não precisa ser nenhum mojito. para que ele veja com seus próprios olhos que ela está deprimida. ainda encontrou tempo para cuidar dela. Disse a si mesma..ao grupo.

GLÓRIA . que a convida para a festa.Ela desce. Está sitiada. GARCÍA MÁRQUEZ . porque continuo com uma dúvida. É. calcular quanto tempo ainda temos e preencher esse buraco até completarmos meia hcrra.. mas estou vendo que. A mulher.Mas deve pelo menos tentar.. Nesse momento. VICTORIA . estão esquartejando o touro. ROBERTO .de uma mulher como esta? GARCÍA MÁRQUEZ . vê que se aproxima um gruoo de argentinos a tenta escapulir.Volto atrás. A história da entrevista do camarada pela televisão permanece? Porque.. REYNALDO . Temos que terminar a estrutura. não existe filme. O que mudaria é o caráter da sua decisão: agora. estamos mais ou menos dc acordo. Ainda não viu a praia. depois de uma hora e meia. Uma imagem atroz. Se ela não se render.Essa mulher não pode sair. Ele não volta mais ao próprio quarto. mas que pode ser interessante.Bem. MARCOS . REYNALDO .Eu gostaria de retomar uma idéia que ficou perdida pelo caminho. vai acabar se rendendo uma hora depois. 90 . Já está vestido a rigor.Tudo se arma nessa direção: o diálogo imaginário. GARCÍA MÁRQUEZ .. Ele nota que a mulher andou chorando. estamos querendo dizer que é um jantar. a gentileza do argentino..Ah. a hostilidade do ambiente. GARCÍA MÁRQUEZ .Não podemos perder a escaleta de vista. simplesmente ir caminhar pela praia. Até aqui. Vai ver agora. pela primeira vez. “Desculpe. não desce por causa dele: é por causa dela. Em que momento ele entrega o convite? Ao cair da tarde.. ele não pode estar ali convidando-a pessoalmente. Além disso.Se ela não capitular depois de meia hora. o que ouve?”. encontra o camarada no corredor. não é? Já tentou escapar e não conseguiu. GLÓRIA . Ou será que vai ficar fugindo até o fim? ELID . então já é de noite? GARCÍA MÁRQUEZ . por algum problema de vocabulário: quando falamos que haverá uma comida. ela tentou mudar de hotel. não é? Quando vai sair do quarto. então. frustrada em sua fantasia tropical. Toma consciência da bobagem que está fazendo. ou então.A entrevista pode ter sido gravada. se tranca no quarto. Afinal. e por engano empurra uma porta que vai dar na cozinha. nesse caso.Talvez não tenha ficado claro. ela decide sair do hotel.Ela está sitiada. também veio ao Caribe para isso.

Essa cena da cozinha é horrível. ROBERTO . finalmente..Estamos preparando o passo seguinte.Enquanto ela continua em seu quarto sem decidir se desce ou não. com começo. ela cairá na resignação total. GARCÍA MÁRQUEZ . desfilando pelo salão com um colar de gardênias no pescoço. não importa a duração. Senão perde o sentido. podemos esquecer o gênero por um momento. REYNALDO . Vamos pedir a ele que dê ênfase ao significado do jogo: Argentina contra o resto do mundo.Só o time brasileiro pode enfrentar o resto do mundo. Mas é verdade: o fracasso deve ter uma razão dramática sólida. Depois. MANOLO . somos sempre vizinhos de quarto no hotel Ritz de Madri..Olha aqui.Os brasileiros não perdoariam isso. MARCOS .Então. MARCOS . Quando tivermos uma boa estrutura. GARCÍA MÁRQUEZ .Quando estamos trabalhando na estrutura. MARCOS . MARCOS . e com prazer: Conheço o Pelé. a gente ajusta depois.Vamos ter problema com o tempo.SOCORRO .Essa festa é uma mina. O tom. MANOLO . você pode trabalhar nela 91 . Sabem o que posso propôr a ele? Que dê as boas-vindas ao time argentino. começa a festa. Quando a tentativa de fuga se frustrar. O touro foi adquirindo uma importância que não tinha.O que vocês acham de metermos o Pelé no filme? GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ .Isso depende do tom. GARCÍA MÁRQUEZ . Agora. Quando coincidimos na Espanha. Pelé faz o discurso de boas-vindas.Estou tentanto chegar ao final.Um toque de humor negro. GARCÍA MÁRQUEZ . meio e fim. ajustaremos os tempos.A fuga da mulher não me convence.. E.A história perdeu seu caráter de comédia. não vou falar o que ia dizer: que a festa dessa noite seria mais espetacular que o carnaval do Rio. Uma vomitadinha no meio da comédia nunca pega mal. jamais.. GARCÍA MÁRQUEZ . a gente vê o touro pendurado no helicóptero.Primeiro. Tenho certeza de que aceitaria. para ver se podemos contar com uma boa estrutura. GARCÍA MÁRQUEZ . esquartejado na cozinha. Com chances de vitória. DENISE . quero dizer. acho bom vocês guardarem a ironia e as piadinhas e todo o resto para o filme.Se ele estiver passando por ali na hora da filmagem podem deixar comigo.

E com isso estaremos dizendo o quê? ROBERTO . enfim. MARCOS . satisfeito da vida. cantando o hino nacional. É o carrinho com a comida que o argentino mandou. Invente.O que não está muito claro para mim é a ordem dos fatos.Mas é que eu acho muito duvidosa essa idéia de tocar o hino nacional às duas da manhã. Vê. estão esquartejando o touro na cozinha. vê um letreiro “Saída de emergência” -.Ela está no quarto. volta tudo de novo. tudo é proibido. ROBERTO . depois. Ela não está no começo mas estará no final. com a mão no peito. e fazer o que bem entender: discurso. De repente. toma outro elevador.É a apoteose do nacionalismo. Marcos. apitos. batem na porta. Eles se sentem inspirados. e cai na cozinha.Por que não voltamos para a idéia da montagem paralela? Na festa estão cantando o hino nacional e. A festa termina de madrugada. que estão de uniforme. CECÍLIA .A festa começa com o hino nacional. GARCÍA MÁRQUEZ . E todos vestidos a rigor. MARCOS . O ruído lá de baixo. O diretor faz o que quer com a trilha sonora. E não venha me dizer. na cozinha estão esquartejando o touro.. empurra outra porta. menos os membros do time.. GARCÍA MÁRQUEZ . bandeiras. Se você termina com o tango. Não é a mesma coisa terminar com o tango: o hino é melhor. com um tango. ficaríamos todos com a sensação de que está faltando dizer alguma coisa.Mas esse esquartejamento deve acontecer na perspectiva dela. vira-se para a câmera e canta o hino nacional. Não consegue passar por nenhum lado. que isso está errado porque a festa está acontecendo dez andares abaixo.E por que não? O que estou propondo é que a festa comece com o hino nacional e termine com o tango.. MARCOS . proporia um 92 . e cantam.Se eu soubesse não proporia uma imagem. da festa ou da celebração. regressa ao seu quarto e se joga na cama. Todo mundo dançando tango e. Então todo mundo. REYNALDO . vai dar numa espécie de porão.. Entra num elevador. ali. E como por ali não pode sair do hotel. desfile do touro.. que o touro está sendo esquartejado. balões de gás. enquanto isso.como se fosse uma filmagem separada.Todos os participantes da festa se levantam solenes.A única função do tango é conceder aos dois um momento de triunfo: são coroados como Os Argentinos de Prata. MARCOS . não a deixa descansar. Impossível. GARCÍA MÁRQUEZ .. E. GARCÍA MÁRQUEZ . Portanto. ela desce e tenta sair do hotel.

pela multidão. 93 . Sente que está sitiada. porque introduz uma montagem paralela.Por favor. MARCOS . Eu insisto que devemos contar a história sem rebuscar muito.Se você soubesse. GARCÍA MÁRQUEZ . para conseguirmos uma comédia clara. A cara dela reflete o quê? Susto ou asco? Acho que aí pode existir uma metáfora sugestiva. não vamos perder a estrutura de vista. para ver o que ela nos diz. altera a proposta original e. cantando o hino. GARCÍA MÁRQUEZ . Descreva a imagem. ROBERTO . Ela se sente acossada pelo ruído. Inclusive.O touro não é símbolo de nada.Claro. ELID . onde todos estão de pé. vê como destripam o touro que pouco antes voava feito um anjinho e desfilava feito uma rainha de beleza. diria. Ela foge e vai dar no salão. começa a ouvir o hino. utilizando como pretexto aquela parte do hino que diz “Lá no céu uma águia guerreira..Os açougueiros estão morrendo de rir. como se fosse pouco. para que o gado não fuja...”. sem necessidade.. O corte argentino é diferente de todos os outros. muda o método de narração.Isso nem sempre é possível.Quando ela sai no porão e atravessa o último corredor. Depois virão todas as cenas que a gente quiser. VICTORIA. Seria como uma celebração do encontro definitivo do casal. Quer fugir. E de repente. E como se o país a perseguisse. temos que armar a cerca. mas primeiro. poderíamos ver os dois no avião de volta. sai para um corredor vomita e volta para o quarto. GARCÍA MÁRQUEZ ..Vieram da Argentina especialmente para cortar a carne.Muito bem. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . Chega na cozinha e estão esquartejando o touro: dois ou três planos de violência.O hino final é a apoteose. Eles também estão bebendo e comemorando. mas os símbolos da pátria a perseguem.Ela chega na cozinha. pela quantidade de informação que recebeu pela televisão e pelo telefone.. membros da delegação.Mas que conspira contra o gênero. É como se tivesse visto Lady Di sendo esquartejada.. São argentinos. ROBERTO ..texto. limpa. O impacto é tão grande que ela não suporta. MARCOS . mas é uma imagem muito forte. com os açougueiros.

O homem se levanta e oferece um lugar em sua mesa. perseguindo uma quimera. e agora está mergulhada numa realidade que parece mais fantástica ainda. Ou as vozes. Não resolvemos esse problema. Explode em coro o hino nacional e os dois somam suas vozes às outras. E ponto final. embora com os papéis invertidos. isso não está muito claro. O sujeito vai embora. mas suspeito que sim. 94 . ROBERTO . Nesse momento.Por que ela decide descer para a festa? CECÍLIA .Caímos. Estava ali. Nós nem a vemos se vestir. com uma depressão gigantesca.Porque ela mesma se psicanalisa. desejando bom apetite. que quando ela se olhe no espelho ouvirá em off. porque ela também fala. Está reconstruindo mentalmente o diálogo da sessão de análise. Ela olha com espanto. E acho que a falha está no primeiro encontro dos dois. O esquartejamento nos leva à ditadura militar: O sangue provoca tanto horror na mulher que ela foge para se trancar no quarto. Se isso não for um filme. Pode até ser que se apaixone depois que for dormir. a Mulher argentina por excelência.. Ela. e portanto não resta outro remédio a não ser encará-la. não sei que diabos estou fazendo aqui! SOCORRO . Os dois dançam tão bem que o pessoal vai abrindo uma roda e deixando-os sozinhos na pista. mas agora ela só está buscando um flerte. a orquestra toca um tango e todo mundo começa a dançar.. GARCÍA MÁRQUEZ . Corte direto para o sujeito. Ela está radiante.VICTORIA .Isso ainda não sabemos. Destampa a caçarola e vemos um enorme pedaço de carne. uma fantasia que a paciente enfiou na sua cabeça. e um filme que dá para ser vendido. A vida segue seu curso: é irremediável e fatal.A voz em off seria mantida? GARCÍA MÁRQUEZ . “Já que a montanha não vai a Maomé”.. e 'ouve' a própria voz. porque é uma capitulação no bom sentido. a da sua própria vida. e repetindo o convite para a festa. então.. GARCÍA MÁRQUEZ . na metáfora. inevitavelmente. é a grande dama argentina. enojada.Para mim. fica pensando. e do ponto de vista subjetivo dele. na festa. A capitulação que se produz como conseqüência desse diálogo também é ao contrário. lembre-se disso. ovação.Ela volta para o quarto. A partir daí.Você não está pensando que ela desceu porque se apaixonou por ele. Ela se levanta. Traz um carrinho de comida. ela assume sua realidade. Nisso. No final. MARCOS . E nesse momento que o argentino bate na porta. com bandeirinha e tudo. vemos a mulher chegar. Os refletores iluminam a dupla.

Essa cena marcou época. e. ROBERTO .. seu tocador de maracas.ELID .. com o enquadramento picado. por enquanto. a câmera se aproxima e fica assim. o que aceitarmos como consenso agora será derrubado um minuto mais tarde.. Agora poderia se chamar Libertad Lamarque. de perfil. vestida com uma roupa azul e branca. GARCÍA MÁRQUEZ .... GARCÍA MÁRQUEZ .. mas do ponto de vista do argentino”. do mesmo jeito que o helicóptero era uma citação de A Doce Vida. chega o carrinho com a comida. ou não neste filme. ela se olha no espelho e.. como a bandeira. no argentino.Todo mundo sai dançando. REYNALDO . na anotação número treze..A dança é uma citação de Rodolfo Valentino. enfim. primeiro.Desce para afesta.Anotação número catorze: “Vemos a mulher entrando. se reúne com o sujeito e dança um tango com ele. de repente. segundo.Ela encontrou. pelo menos. REYNALDO . O que você acha.. ou melhor ainda..Por que não deixamos as novas sugestões para depois que a estrutura estiver pronta? Do contrário. O que acho é. e. GARCÍA MÁRQUEZ . Imperio Argentina.E o filme deveria se chamar Último Tango no caribe. está: “Ela está de volta ao seu quarto. que por isso mesmo não desenvolvemos o primeiro encontro dos dois. ou. ROBERTO .Ela se encontrou. me refiro à cena em que Valentino dança assim. MarcosS? Tem alguma coisa nesta história que você não goste? 95 .Está radiante. GARCÍA MÁRQUEZ . que não conhecemos realmente o argentino.Não acho que seja preciso alguém ir para a cama.Eu anotei tudo. CECÍLIA . mas no final deixam os dois sozinhos. se rende”.. Aqui. porque não saberíamos como resolvê-lo. CECÍLIA . e pecisamos impedir isso do jeito que for: Vocês estão agrupando as vacas antes de terem erguido a cerca.

faço o café da manhã. Só que eu pergunto: e vale a pena? O resultado justifica que se fique o tempo inteiro trabalhando? ROBERTO .. tomo consciência de que sou imortal. pode até existir quem trabalhe o dia inteiro e não se canse. é melhor. parei nesta parte”. O nome do filme é O Santo.. a primeira coisa que faço é um esforço para saber quem sou.. De manhã... GARCÍA MÁRQUEZ .A gente começa a falar de outras coisas. e aborrecido.Bem que a gente se esforça. esqueçam de tudo.O cachaco se chama Natalio.Soube que vocês varam noites discutindo os projetos. mas não dá.. vamos ver. se continuar remexendo nesse assunto. Ora. MANOLO . “Será que isso encaixa aqui? Não. a história de Santo Antero.É preciso aprender a se dominar. MARCOS .Acabam de inventar um nome para esse tipo de gente: são os workaholics. vou para o estúdio sento para trabalhar.”. esse é um leão morto. eu acordo. não penso mais nisso.. Querem um conselho? Quando saírem da Oficina. não tornem a pensar no trabalho até o dia seguinte. Pronto. estarei cansado no dia seguinte.SEXTA JORNADA DE TRABALHO Recapitulações.. Para mim.. sem interrupções.Eu não acredito que a gente chegue a ficar exausto com a nossa história. colocar ali. mas como é confundido com o santo padroeiro da aldeia. Mas a partir do momento em que apago o computador e me levanto. até m dia seguinte. sim. Se eu não fizer assim. Nesse instante. em inglês. Nada de exaustão mental. 96 . e sentirei que a história empacou e não saberei como continuar. até as duas e meia ou três da tarde..Quer dizer que o coitado do cachaco virou Santo Antero? MANOLO . MANOLO . Isto basta para acabar de me acordar: Imediatamente começo a pensar como andava ontem o meu trabalho: “Ah. GARCÍA MÁRQUEZ . mas acabamos sempre na mesma. I MÁRQUEZ ... Então. Tomo um banho de chuveiro.. E uma espécie de vício.

Um santo que.. Não convém.Pensam que ele é uma aparição. ROBERTO . e que era o primeiro a se surpreender com isso. todo personagem protagonista acaba sendo. Prestem muita atenção agora: vamos ver o que essa galega tem para nós. E que aí.Como disse Flauhert: “Emma Bovary c'est moi”. O sujeito está feliz.ROBERTO diz que eu sou a psicóloga. a história terminava. mas de morte estúpida. Uma menina morre e o pai acha que ela é santa.. quando percebem que ele não consegue.É inevitável. Um belo título. Digo. Na medida em que a história se desenvolve.Bem. eu poderia ser acusado de impor a vocês o meu ponto de vista. REYNALDO .Que ia morrer. cresce a possibilidade de encontrar títulos melhores. virgem e mártir. enquanto agora morre num clima de santidade. sim. GARCÍA MÁRQUEZ . o único a ficar surpreso.Voltando ao tema dos workaholics: MARCOS e eu continuamos discutindo o projeto dele. quase nunca. Porque a aldeia já tinha a sua imagem. certo? Por isso é que o 'reconhecem' quando ele chega. REYNALDO . Ia morrer de um jeito ou de outro. GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS .Pedem a ele que faça um milagre.. MARCOS . porque já fizeram um filme que acaba assim. em maior ou menor medida nós mesmos. dar o nome antes. um milagre.É o título. dizem ao pai: “O santo é você”. GLÓRIA . Mas no final. é de pau. REYNALDO . É Milagre em Roma. porque os bons títulos quem dá é a própria história. matam o homem a pedradas.GARCÍA MÁRQUEZ . é uma morte que ele não esperava. o da psicóloga argentina. primeiro. GARCÍA MÁRQUEZ . REYNALDO . E o que tenho para vocês pode se resumir numa frase: “O primeiro violino sempre chega atrasado”. e com argumento de minha autoria. por ser farsante . GARCÍA MÁRQUEZ .Trata-se do primeiro violino de uma orquestra? Esse é o título do filme? GARCÍA MÁRQUEZ . e depois é de carne e osso.Era isso o que estava previsto? GARCÍA MÁRQUEZ . se for assim..Eu fiquei com a idéia de que ele fazia um milagre. porque seu corpinho se mantém incorrupto. Por mais que a gente disfarce.Não sou galega. 97 . Santo Antero.Estou achando a GLÓRIA impaciente.

Corte. metido em seu estojo. Entram no quarto. empurra uma portinha semi-oculta e. entram no automóvel e se perdem ao longe.. vai até uma loja de música.Porque ele saiu de casa com seu violino dentro de um estojo de violino.. E tem mais: quando ela telefonou. discos. cumprimenta o empregado da loja. nos bastidores de um teatro: “Não. CECÍLIA . Sexta-feira... e dá adeus com a mão. Os dois acabam de tomar o café da manhã.. GLÓRIA . porque o violinista não teria tempo de chegar.. desde que o homem saiu? A gente fica com a impressão de que são atos consecutivos. Vemos pianos..O primeiro violino sempre chega tarde GLÓRIA . Todos os seus movimentos são mecânicos.Espera aí.Vivaldi dá. 98 . É melhor pôr Albinoni. digamos.. pedem a chave com naturalidade e entram no elevador. cada um levando um violino metido em seu respectivo estojo. GARCÍA MÁRQUEZ . no telefone. Corte. Corte. sem largar os violinos. Corte. não chegou ainda.Que suspicaz! GLÓRIA . pensei que ia marcar um encontro com o amante.Nesse caso.. o primeiro violino sempre chega tarde”. Ele sai.. Evidentemente. Corte para ela.. com cara de surpresa. o violinista e outro homem. Ele apanha um violino. caminham até a recepção.. A mesma portinha se abre e saem duas pessoas. que era violinista. Corte.. e porque ela. quanto tempo passou. GARCÍA MÁRQUEZ . Ele vai até o banheiro.A história começa assim: um rádio despertador começa a tocar uma música de Vivaldi. aparelhos estranhos.. vai até os fundos. senhora. A mulher disca um número de telefone e alguém responde. MARCOS .E como sabemos que ele é um violinista? GLÓRIA . e dois personagens se levantam da cama: marido e mulher. Chegam a um hotel. são hóspedes do hotel.Quando ela telefona para o teatro.. eu não sei. aproveitando a saída do marido. gramofones. GARCÍA MÁRQUEZ . ela vai à cozinha... GARCÍA MÁRQUEZ . O homem entra. atravesssam a rua. má sorte. Estou sabendo agora porque você contou. Colocam os estojos com os violinos em cima da cama. o telefonema nem se justificaria.O fato é que agora o carro do violinista está estacionado numa rua. Saem da loja.

.. GLÓRIA . Baixa o rifle e começa a desarmá-lo de novo. e o que vemos pela mira telescópica.”. ergue o rifle. Desarmado em várias peças que estão repartidas nos dois estojos. GLÓRIA . do outro lado da rua. Corte. Assim que ele entra. esperando. a seqüência da rotina não corresponde ao outro dia. O violinista está entrando em casa. que nesse momento gesticula sobre o palanque. aquela pequena luneta. A mulher está sentada na sala. Por exemplo: agora ela não sai para se despedir dele. O violinista se junta a ele. Enquanto isso. em tom de inquisição: “Onde é que você foi se meter? Telefonei para o. Mas o homem não dá a menor confiança. os dois personagens se levantam da cama e a mesma rotina se repete. No hotel o violinista e seu acompanhante permanecem tranqüilos. 99 . GARCÍA MÁRQUEZ .E um cenário. e dispara. vemos que o homem cai.E agora.E algumas outras diferenças. com bandeiras e cadeiras.Dois rifles.e se junta ao ensaio. O violinista.. atravessa a sala sem dizer nenhuma palavra e vai para o quarto. se repete todo o processo até que o violinista aparece na janela. Corte. O violinista afina a pontaria buscando com a mira ponto exato onde está o orador Dispara em seco. CECÍLIA . GARCÍA MÁRQUEZ..abrem as tampas e vemos que lá dentro não há violinos: há um rifle com mira telescópia. O maestro olha para ele com cara de poucos amigos. enquanto o outro olha discretamente pela janela. GLÓRIA . Pela mira telescópica. É de noite. sexta-feira o primeiro violino sempre chega tarde”.Um. Parecem satisfeitos. mas vazio.Com enquadramentos diferentes. Vemos a confusão que se arma no palanque. e sim à semana seguinte. GLÓRIA . e a responder a mesma coisa: “Não senhora. em cima do sofá. O violinista se senta num lugar de honra . sem dizer nada. Deixa o violino dentro do estojo. ela grita.Desta vez. é um palanque. aponta. com o violino na mão. entra apressado onde a orquestra já está ensaiando.aquele normalmente reservado ao primeiro violino . Está na calçada.Mas é sexta ou sábado? GLÓRIA .É preciso deixar isso bem claro. CECÍLIA . GARCÍA MÁRQUEZ... vê que o ato público já começou. Eles estão preparando um atentado. o outro mede o tempo com o seu relógio. Corte.É evidente que haverá um ato público e alguém vai fazer um discurso daquele palanque.. aponta com a mira telescópica para o orador. Mas telefona para o teatro. como se fossem violinos. O violinista começa a armar o rifle.. Soa o rádio despertador.

Saem assim. Corte. O homem abre um estojo de violino e o cúmplice coloca dentro. o primeiro violino muito perto da beira palco.e sem abrir o estojo. ela entra em outro. e enfim entra no teatro. consegue alcançá-lo o começa a discutir com o marido em plena rua. GLÓRIA . O homem sai com o estojo. através de um corte. se aproxima dele pelas costas. e grita alguma coisa pode ser algo assim como “este violino você não toca nunca mais” . com o estojo do violino nos braços. A mulher olha para ele. vestidos de fraque. Ela corre atrás dele. o concerto está a ponto de começar. Os músicos . A mulher. Daí passo. Avança até o palco. Falta pouco. a mulher. são conhecidos.. sem que ninguém os detenha nem pergunte nada a eles? GLÓRIA . quase pode tocá-lo com as mãos. REYNALDO . a seqüência termina com o atentado. etc. O maestro entra. Cada um em seu estojo.. Chega. Só que. como se fosse um violino... joga o suposto violino no chão. Uma função de gala. tranqüilamente. a mulher fica furiosa. Ao ver que o marido não dá confiança. desta vez. O fogo e a fumaça 100 . Corte. O que está acontecendo? Por que tanto mistério? Por que toda sexta-feira você. entra no automóvel e vai embora. O camarada outra vez. deixa a mulher falando sozinha.Desarmam o rifle. Na verdade.entre eles. com muito cuidado. Mas o homem continua caminhando. A orquestra inteira está em pé. do começo ao fim. O homem se dirige ao teatro.Não pensei nisso. pelo corredor central aparece. atravessa a rua. uma bomba. Estão hospedados ali há vários dias. guardam as peças em seus respectivos estojos. vê o homem sair e continua a segui-lo.Sim. café da manhã. entre as poltronas da platéia. O homem fica perplexo em saber o que fazer. GARCÍA MÁRQUEZ . que estacionou ali perto. com seu cúmplice.. No filme inteiro. Assim que vê o homem sair de automóvel. na loja de música.. De repente. ela não fica em casa: vai atrás dele.. não trocaram nenhuma palavra. Para mim. A sala está lotada. certo? GLÓRIA . etc.Numa situação dessas. GARCÍA MÁRQUEZ . arranca um dos violinos da sua mão e escapa. o violinista . A explosão é brutal.Você está contando a história mas não está propondo uma estrutura.É que pensei nessa história assim mesmo: ela nasceu completa. os estojos dos violinos deveriam chamar a atenção. Todos os músicos estão nos bastidores.vão ocupando seus assentos na orquestra. São hóspedes. outra vez à rotina do dia: despertador. estaciona numa rua lateral e desce com dois violinos. saída do violinista. ele nunca responde. é lógico.. e saem. Corte.

É preciso definir melhor esse sujeito. Não seria conveniente que a orquestra tocasse no ato onde o orador ia falar? O cara é. de quem já está farto? Para ele.. ele achava que ela tinha levado o violino.sei lá.E se a bomba fosse destinada justamente a acabar com a mulher? CECÍLIA . ele pede emprestado outro violino e esquece a mulher. A orquestra está lá para ajudar a animar o comício..Mas você está deixando muitas coisas para o acaso. SOCORRO . e em seguida vai se livrar da mulher? MARCOS . Não é um violinista. GLÓRIA . dava no mesmo matá-la ou não. Precisa é de análise.É um profissional.Primeiro ele atira no orador. o estojo onde está a bomba. digamos. GARCÍA MÁRQUEZ.. Terá tempo para discutir isso com a mulher quando voltar para casa. um líder sindical. gritar avisando todo mundo.. E sendo assim. Ainda não foi cometido o atentado. – porque sabe que ela está com a bomba. ROBERTO .E se o homem chegar tarde ao ato. GLÓRIA ... vai deixar que a mulher fique com a bomba? GLÓRIA . REYNALDO .. como não teria se livrado da mulher.. teremos de fazer um esforço adicional.Eu queria brincar com a idéia de que ele não percebia.como acaba jogando -.Mas não sabe que ela vai atirar o estojo no chão.. fugir. Esta história não precisa de continuidade. GARCÍA MÁRQUEZ . o ato. Como é possível que ele fique assim tão tranqüilo? GLÓRIA . Mas quando ele vê a mulher entrar no teatro e avançar pela platéia com o estojo na mão. que a bomba exploda ou não.Volto atrás. E como hoje faltam alguns alunos.Bem. ou melhor. e alguém já tiver 101 . sei lá. precisa fazer alguma coisa ... como ele.Bem. E mesmo que ache que ela vai jogar .O que eu vejo aí é um problema sério: como acreditar na história da bomba? Ela arranca o estojo das mãos do marido. que seja o violino ou a bomba.Eu gostaria de manter a estrutura da história.. E um profissional do terrorismo. teríamos de aplicar outro método de trabalho. Os dois estojos eram idênticos e pesavam quase a mesma coisa. não haveria a possibilidade de a bomba não explodir? CECÍLIA . não é apenas um violinista: é também um terrorista. que o violino. até chegar ao teatro e abrir o estojo que estava com ele. Ou seja.ocupam toda a tela. É capaz de matar um ministro a sangue-frio. ROBERTO .

o homem.O tiro foi disparado por um fuzil de mira telescópica. do diretor da orquestra. Vocês repararam que ela prepara o café da manhã. e o quarto estava hospedando o senhor Fulano de Tal. GARCÍA MÁRQUEZ . O homem. GARCÍA MÁRQUEZ .GLÓRIA. cheio de confiança. Vou fazer algumas perguntas elementares.E quando ele repara..Eu o imagino bem conservado.Dá para saber. meio de ópera. num lugar tranqüilo. REYNALDO . Um cadáver como esse não é enterrado e ponto final: há investigações.. Viam o homem sair da loja de música. que ninguém faz até fazer. Com um exame balístico é possível determinar exatamente de onde o tiro veio.Esse é o calcanhar-de-aquiles do homem: ele não cuida da relação com a mulher. ela se sente muito infeliz.matado o orador? VICTORIA . 102 . e sim a polícia. porque ele nem olha para ela.Pois eu acho que a falha está no aspecto policial da história. de uma grande distância. sempre.Qual a idade do violinista? GLÓRIA . O perigo vem é dela. Estes dois homens são violinistas que vão ensaiar ali. GARCÍA MÁRQUEZ . quem seguia o violinista não era a mulher. REYNALDO .O quarto pode estar em nome da orquestra. VICTORIA . um casal no qual nenhuma das partes sabe absolutamente nada da outra. Não é fácil saber. com a orquestra inteira voando pelos ares. aos pedaços. é tarde demais. ROBERTO . ROBERTO .Quarenta ou quarenta e cinco anos. GARCÍA MÁRQUEZ . O tiro saiu da janela daquele quarto. porque a mulher continua apaixonada por ele. porque o sujeito tem vida dupla e esconde a mais espetacular.A história desse casal.E a mulher é a sua condenação. GLÓRIA ... averiguações judiciais. e quando o obrigavam a parar o carro para revistá-lo achando que só estava levando aquele estojo . você quer contar exatamente o quê? GLÓRIA . dessas. daquele hotel.Você não pode contar um filme onde matam um personagem importante sem saber o que acontece depois. porque a mulher não o interessa.. vai até a porta se despedir tem ciúmes? E claro.. com um estojo de violino debaixo do braço. boa-pinta. GLÓRIA . O quarto do hotel está em nome de quem? O dono do hotel também pertence à organização terrorista? GLÓRIA ...Eu não gosto é desse final da bomba. E a mulher.Numa primeira versão.

Contada direito. Será que não vai denunciá-lo'? Não.Aí. com fios soltos.Então. mas porque a mulher o descobriu. o atentado já terá sido feito e a notícia correu a cidade. se naquele dia ele também chega atrasado? GLÓRIA . E não porque esteja cansado dela.. quando ele chega no teatro. é outro filme. há mais coisas para serem amarradas.Quem fornece o álibi é a mulher. Naquele dia.Sim. É preciso amarrar tudo isso a uma investigação policial...É que o atentado. Descobriu tudo. foi preciso empurrá-lo. meticulosamente.. GARCÍA MÁRQUEZ . Além disso. REYNALDO . E quando chega o momento.e mostrava. os músicos da orquestra estão justamente falando no assunto.Não era um presidente. Depois. dá com o hotel. tem o álibi perfeito. se enganava e abria. SOCORRO . isso era o que ele achava.Sabem o que eu acho? Que ele mata a mulher. comete um atentado. de um atentado terrorista.. o da bomba. E isso não pode ficar assim. que supostamente serviria de álibi para o homem. Ou seja. GARCÍA MÁRQUEZ . com o violinista. o assunto seria o seria o seguinte: um violinista.Mas primeiro você mata um presidente e depois quer que eu me interesse mais pela história do assassino e da mulher. SOCORRO .Primeiro. é um crime político.. Mas surge um fato com o qual ele não contava: sua mulher percebeu. O filme acabava assim. com o quarto e. você nos conta a história de um crime. seria outro filme. Preparou esse atentado passo a passo... É uma arma que ela reserva para uma chantagem sentimental. GARCÍA MÁRQUEZ . que pertence a uma organização terrorista. GARCÍA MÁRQUEZ .E ela o encobre.. Para que serve o álibi do trabalho. por último. Na verdade. para dominá-lo? GARCÍA MÁRQUEZ . a polícia investiga. E o que é pior: sabe que ele sabe que ela sabe.Seja como for. Havíamos dito que era líder sindical. O sujeito não é apenas um virtuoso do violino: é também um virtuoso do crime. E isso abre muitas interrogações. GLÓRIA . mas como os dois estojos eram idênticos. 103 .. sozinho. GARCÍA MÁRQUEZ . Não vai deixar nenhuma pista.o verdadeiro . pense no rótulo. Está claro? GLÓRIA .puxava outro estojo . E sabe que ele também sabe. do ensaio. porque ela sabe que isso não é verdade. percebeu que ele é o autor do atentado. Talvez fosse esta a história que eu queria contar. Diz que naquele dia ele saiu tarde de casa porque o automóvel não funcionava.

O problema da bomba é que ela traz problemas demais. E o marido percebe o que acontece: ela sabe. ROBERTO .Isso se ajusta melhor ao formato de meia-hora. o mais provável é que ela não morra sozinha. aos culpados.declara à polícia o contrário.. para que não vire um filme policial.Então. todos morriam. fica evidente que a relação entre os dois está muito deteriorada. ao se ver descoberto.Se mantivermos a bomba em circulação. Deixa o marido ficar sabendo talvez com o objetivo de fazer chantagem . ROBERTO . Cúmplice posterior digamos.. GARCÍA MÁRQUEZ . Ela mata o marido de ciúmes. com um revólver. outro galo cantaria quando ela descobre que o marido está preparando um atentado. outros caminhos que não nos desviem do projeto original. Como o violinista não iria saber em que estojo está a bomba. dois casos..e ele.. GLÓRIA .O exame balístico leva ao hotel. e se frustra justamente por causa dela. “Sim senhor. O que aconteceria se o atentado não ocorresse? O atentado é frustrado.Mas por que a polícia iria suspeitar dele? GARCÍA MÁRQUEZ . vamos eliminar a bomba.Seja como for. Agora.. Ele não havia dito nada a 104 . de repente.. a mulher se torna cúmplice do marido. E pode ser resumido assim: uma mulher descobre que seu marido. Ou seja. GARCÍA MÁRQUEZ .. GLÓRIA. Eu acho que é preciso evitar todo o processo de investigação. GARCÍA MÁRQUEZ . o seguinte: é isso que Glória quer contar? E se for como podemos ajudá-la para que conte à sua maneira? GLÓRIA .O dono do hotel não tem por quê dar pistas: ele também é cúmplice. se andou carregando um violino a vida inteira e sabe exatamente quanto pesa? ROBERTO . o hotel leva aos hóspedes com estojos de violino. é autor de um atentado.Não é fácil responder. Ela imagina que o marido sempre chega tarde nas sextas-feiras porque vai encontrar outra mulher.Na sua versão. GARCÍA MÁRQUEZ .E você acha que a polícia não iria suspeitar? Não é tão fácil disfarçar um crime desses. Nesta só morre ela? GLÓRIA . mata a mulher. por dedução simples. um inocente violinista que toda sexta-feira chega atrasado ao trabalho.. sem aviso prévio. em nenhum desse.Estamos mudando a história sem perguntar se não haveria outras alternativas.. SOCORRO . Se fosse boa. e os estojos. eu mesma levei meu marido 0de automóvel hoje de manhã.. deixei-o a tal hora na porta do teatro”.

ou que ele não desista e ela decida denunciá-lo. deixa a maleta no chão. também podem acontecer duas coisas: que ele não desista. Muito bem.. o maestro reclama do atraso. comprova que o ato já começou. surpresa!. quero dizer. já examinou na noite anterior. O homem entra no supermercado.Tirar do homem a sua condição de primeiro violino? Nunca! MARCOS .E. GLÓRIA . cria uma expectativa. mas agora que ela sabe. e apanha por engano o estojo do violino do marido. podem acontecer duas coisas: que a mulher decida ficar calada. o comício. se dirige ao seu lugar na orquestra.Mesmo assim.Vamos imaginar que levou. Talvez o personagem não devesse tocar violino.A mulher também poderia ser violinista. jamais levaria armas para casa. GARCÍA MÁRQUEZ . Na manhã da sexta-feira.. ELID . Ela descobre que seu marido está preparando um atentado quando decide estudar. que já está ensaiando.Um profissional do crime. O sujeito não vai ficar examinando o estojo antes de sair. dá a entender que. o que existe é uma bomba. REYNALDO . e sim ser técnico. sei lá. MARCOS . SOCORRO . E. por quê? 105 . vai até o caixa.ela para que a mulher não se preocupasse. Ninguém nunca descobre a história do supermercado. Quando ela vê a notícia na televisão. um mecânico. Só que a mulher descobre.. o atentado não vai acontecer. ela troca o estojo por outro.. O atentado se frustrou.Mas agora. na maior tranqüilidade. o supermercado vai pelos ares.. como ele. ou que decida fazê-lo mudar de idéia. Na noite de quinta-feira... e que ainda assim ela dê cobertura. em casa. ele mata a mulher. Um homem desce. neste último caso.. O camarada chega ao hotel. apanha uma coisa qualquer. neste último caso. GLÓRIA . quando ele vai ao banheiro. ela balbucia uma desculpa e se senta para ensaiar. levando na mão uma maleta. GLÓRIA . paga e sai. Não tem nenhuma razão para fazer isso. Lá dentro. abre o estojo para apanhar o rifle e.. Estamos criando no espectador uma expectativa que depois não será satisfeita. ao lado de uma estante. a mulher descobre o fuzil desarmado dentro do estojo. que suspeita do marido? Mas. para encobrir o marido. no estojo do violino só tem mesmo um violino. O camarada chega impassível ao teatro.E que tal se o filme começasse simplesmente assim? Um automóvel chega na frente de um supermercado.. Vemos o automóvel se afastar e um instante depois. olha pela janela. REYNALDO ..A idéia do atentado continua nos desviando da história. a polícia não descobre jamais.

em montagem paralela está telefonando para o teatro. ela não nota nada. GARCÍA MÁRQUEZ . não está claro. prepara uma armadilha mortal. mas também porque sente que desta forma pode dominá-lo ou.É precisa armar essa história completa. ou viceversa.. CECÍLIA . Eu prefiro a primeira. vira-se tranqüilamente para ele e diz: “Quem cometeu esse atentado foi você”. percebe também o perigo latente: ela sabe. a mulher . SOCORRO . tenta ajudá-lo. eram só ciúmes. retê-lo. por amor: Por amor. ROBERTO . GLÓRIA . nem nada parecido.E isso que nós temos de descobrir. Mas que ele mate a mulher. naquela noite. Ele a preparou de tal forma que inevitavelmente vai explodir nas mãos da mulher: Trata-se. Diante desse impasse. Ela havia começado a remexer a casa inteira e tinha percebido. ROBERTO . Até aquele momento.Para se desfazer dela impunemente. para que ela escolha. O que é que realmente estamos querendo fazer? GARCÍA MÁRQUEZ . O sujeito percebe que na atitude da mulher há uma dose de chantagem e. sim.Existem duas opções: que o marido mate a mulher. mas só como um meio para se desfazer dela. Nem ela nem o espectador suspeitam disso. que alguma coisa esquisita estava acontecendo. por certos detalhes. quando está com o marido vendo a notícia na televisão. Enquanto o camarada está entrando no supermercado. A bomba está no pacote.. como dizem os advogados. ao mesmo tempo sem que ela perceba.Até o último momento. de uma operação da 106 . Estão vendo? Nada de investigação policial. GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO . como bom conspirador.Dar opções a GLÓRIA. Como? Fazendo com que a mulher vire cúmplice do projeto terrorista. O favor é o seguinte: levar um pacote e deixá-lo em determinado lugar. supostamente. “O primeiro violino? Não. e ela concorda. se quiser. Tudo acontece exclusivamente através da relação do casal.Ele concebe um atentado no qual ela será a bomba. e portanto pode denunciá-lo à polícia. sextafeira o primeiro violino sempre chega tarde”.Mas eu não imagino como é possível convencer uma mulher assim a virar terrorista.Ela não vira terrorista.O camarada pede à mulher um grande favor. Mas. com premeditação e aleivosia. pelo menos. GLÓRIA . Quando descobre que o marido leva uma vida dupla. da noite para o dia.GARCÍA MÁRQUEZ .Para mim.Confesso que não vejo essa situação muito clara. ROBERTO . minha senhora. ele faz com que ela acredite que vai normalizar sua vida e.

e a forma como ele irá tecendo a teia de aranha para que a mulher caia na armadilha sem perceber. ao supermercado.Depende. Todo mundo vê o suspeito.mas não diz nada. A fita é salva e mostrada pela televisão. A bomba explode. ela tem um palpite: é ele. um bigode falso. Bem. só por um instante. tenho a impressão de que encontramos o caminho..qual ele também participa. E isso não deixa de ser uma vantagem: vai nos permitir armar a história em meia hora. uma câmera de vídeo gravava tudo o que acontecia lá dentro. O importante é esse passo prévio. quero dizer. O que a mulher encontra na sacola. aparentemente para dar cobertura à mulher: Ela desce do carro e caminha apressada para o lugar combinado. Ele se disfarça. Mas o suspeito está irreconhecível. não tem nenhum escrúpulo. mas tem alguma coisa naquele homem . GLÓRIA . achei que seria absolutamente impossível encaminhar a história por onde você queria. Ele fez algumas compras.. Como resolver os problemas que um atentado representa? Como tornar verossímil a conduta da mulher e do marido. óculos. vendo a mulher se aproximar do palco levando a bomba? Mas agora estamos esboçando uma história possível. é verdade.que o deleta. que a gente acaba resolvendo.O supermercado tinha um sistema de vigilância eletrônica. fica no automóvel. De frente. GARCÍA MÁRQUEZ .ou pelo menos suspeita . o que dá a pista..um tique. é a sacola do supermercado. mas não me convence. Achava tudo muito confuso. GLÓRIA. REYNALDO . GLÓRIA . Ele tira a peruca tranqüilamente. vigiando. porque de costas qualquer um reconhece qualquer pessoa. O camarada é impiedoso. GLÓRIA . GARCÍA MÁRQUEZ . A forma pela qual ele vai matar a mulher não me preocupa.a proposta parece boa. A sacola tem o nome e o endereço do supermercado em letras enormes. sempre.Mas a partir do momento em que vê o suspeito na televisão. guarda essa impressão e começa a investigar.. o jeito de mover a cabeça . Uma pessoa pode se disfarçar tão bem que nem sua própria mãe é capaz de reconhecê-lo. quando ela o descobre.Vou confessar uma coisa: no começo.Eu volto. Está irreconhecível. quando ela. arranca o estojo das mãos dele? Como interpretar a atitude do homem. por causa do disfarce. É um problema técnico. GARCÍA MÁRQUEZ . acelera e se afasta. são as peças desse disfarce: uma peruca. o que a mulher encontra na casa. 107 . não é? Antes de deixar a maleta no chão. na frente do teatro. Aqui a mulher o reconhece .Agora sim. no dia seguinte.

Quando ela vê a imagem do suspeito na televisão. Poderia estar relacionado com o violino.. Eu havia concebido uma história sem diálogos. ROBERTO . GLÓRIA . agora eu lembro que na sua versão. ROBERTO .diálogos curtos e contundentes . GARCÍA MÁRQUEZ .GLÓRIA . basta. GARCÍA MÁRQUEZ . a polícia identifica o cadáver e. GARCÍA MÁRQUEZ . ou então estão sendo localizadas.Essa ia ser a única frase no filme inteiro. GLÓRIA . e se intensifica quando o espectador intui que o marido está preparando uma armadilha para a mulher.. Com isso.A única coisa que lamento é que se perca o caráter não verbal da história. justamente o que ela reconhece. E o homem é.Você tem razão: fazer um filme totalmente mudo é uma exibição técnica desnecessária. à polícia. O que se informa.Seja como for. com a ajuda da mulher -. ROBERTO .Não vá complicar demais a vida.Ela morre.E por que não? Vamos fazer um filme mudo. GLÓRIA . senhora. voluntariamente. Assim estará sendo criada uma tensão: será que ela sabe. a original. O locutor do noticiário pode falar. havia diálogos.A tensão surge quando ela começa a remexer a casa.GLÓRIA. mas ainda não suspeitamos que a vítima será ela. mas há alguma coisa estranha.Por que não desenvolver as duas linhas de tensão ao mesmo tempo? GARCÍA MÁRQUEZ . é que a polícia está procurando aquele homem. sexta-feira o primeiro violino.Exceto a televisão.Um detalhe qualquer o delata. vai informar ao marido o que aconteceu.E o que ele diz é que todas as pessoas que aparecem no vídeo já se apresentaram. Tem dúvidas. ROBERTO .Porque é mais complicado. Nesse momento a polícia ainda não suspeita dele.Se você usar poucos diálogos no filme . REYNALDO . aumenta o nível de intriga do filme.o espectador acabará tendo a impressão de que é um filme mudo. não deve ter certeza de que é o seu marido. e não justifica o esforço. cuja imagem vemos em câmera lenta. no noticiário da televisão. 108 . naturalmente. GLÓRIA ... ROBERTO . menos esse homem aí.Nós vemos o marido preparando o atentado seguinte desta vez. será que não sabe? GARCÍA MÁRQUEZ . sim: o da mulher falando por telefone com o sujeito do teatro: “Não. todas. GARCÍA MÁRQUEZ ...”.

No começo. Estou pensando no líder sindical: por que ele não pede a ela que ajude nesse atentado? REYNALDO . REYNALDO . GLÓRIA . mas ela não aparece no filme. sabe . GLÓRIA .é preciso ter -. do “terrorismo cotidiano”.. amanhã.. GARCÍA MÁRQUEZ ..” etc. e não um DomJuan.Ela telefonou para o teatro no momento em que ele entrou no supermercado. mas movida pelo ciúme. Uma sexta-feira o camarada manda um supermercado pelos ares. O que está.GARCÍA MÁRQUEZ . A figura misteriosa do supermercado serve para que a gente ponha a mulher em movimento. um pouco cruel e disparatada.e horroroso -. mas eu prefiro que não exista nenhuma investigação. sexta-feira. quando os dois assistem ao jornal na televisão. descobre que ele é um terrorista.Eu gosto da idéia de que ela descubra que o marido é o terrorista. Não diz nada. SOCORRO .São idéias. 109 .Pois é. É um delito . o motivo principal poderia ser ciúme.no nosso caso. Claro que o marido não pode pedir a ela: “Por favor leva essa roupa na lavanderia para mim”. Até aí. procurando um sinal de culpa? Encontra. o violinista . por acaso. O que me interessa é ressaltar o nexo que existe entre rotina e amoralidade. na sexta seguinte liquida uma figura pública.. senhora. e faz isso da mesma forma que os músicos . para que ela se sinta motivada. E tentando confirmar isso.tocam hoje Schubert e. “Não. GLÓRIA .Ela suspeita que o marido tem uma amante. ROBERTO .Eu gostaria que a gente explorasse a idéia. Tem que pedir alguma coisa importante. Beethoven: por hábito. Ai está o motivo. GARCÍA MÁRQUEZ . Mas o que parece estar contando é a preparação de um atentado. ciúme. GLÓRIA . motivando a mulher? Ciúme ou a suspeita de que o marido é o homem do supermercado? REYNALDO . a peruca ou uma caixa de maquiagem entre as coisas dele? De noite.Nós não podemos retroceder. com a mulher como centro da operação. mas que nos obriga a mostrar o processo de investigação policial. ela fica olhando fixo para o suspeito.ou melhor.O que o filme conta é a preparação de um crime perfeito.que é o marido. mas intui . Ela começa imediatamente a revistar a casa.. por exemplo.Quero saber em que ponta estamos.Tudo isso é muito abstrato. Achei que havia consensoem relação a um ponto: a filme começaria no supermercado..Tem uma investigação .

GARCÍA MÁRQUEZ . Esse é o detonador: o marido foi descoberto pela mulher. eu sei que foi você.Estou pensando o seguinte: o camarada do supermercado está de chapéu. ao mesmo tempo. VICTORIA ... a que mais convenha ao desenvolvimento da história. CECÍLIA . É um pouco grotesca. Pode estar latente alguns minutos. buscando as provas do delito .. que não sabe como explicar. vê que está vazia. ROBERTO .Eu consideraria. ao ver que suas suspeitas eram injustas. reconheço. VICTORIA .faz isso toda sexta-feira de manhã -. vai até o armário.Os ciúmes aguçaram os seus sentidos. O resto do filme seria dedicado a contar como ele se arranja para se livrar dela. GARCÍA MÁRQUEZ . E faz a pergunta de tal maneira. “Onde está o seu chapéu de inverno?”. o que significa começar com o verdadeiro drama.. ele vai fingir que a ama como 110 . É preciso contar isso em menos de trinta minutos. MARCOS . quando na noite dessa sexta-feira ela vê o sujeito com chapéu na televisão. um simulacro..Esse é um motivo que a gente não consegue manter por muito tempo. que já vamos ver quais são. Nós precisamos agarrar a alternativa que mais nos atraia. Nesta noite. e por isso.um lenço manchado de batom.Vamos deixar para estudar isso mais adiante.Isso nos dá outra opção: assim. mas que para ele pudesse. Da amante quero dizer.. com o episódio da televisão. Levanta. aquele que conduz ao desenlace. mas se desvanece em seguida. . um fio de cabelo louro na lapela do terno.Ao ver que foi descoberto.GARCÍA MÁRQUEZ .. a possibilidade de de começar com o supermercado. de qualquer modo. abre. GARCÍA MÁRQUEZ . quando o violinista e a mulher estão vendo o noticiário na televisão.. Já sabe que o marido esconde alguma coisa . a não ser que faça outro filme. ela vê a imagem do suspeito de costas. ela encontra uma coisa estranha.e nessa busca.. pergunta. A questão do ciúme é um conflito falso.Vamos tentar manter a idéia do atentado semanal. ela não precisa investigar nada.O ideal é que fosse algum objeto tipicamente feminino.. GARCÍA MÁRQUEZ .Os ciúmes a levaram a revistar a casa inteira. tira uma caixa de chapéu. servir para outras coisas. que ele sente que a mulher está dizendo: “Não adianta mentir..Pode ser até que ela se alegre e peça perdão ao marido. REYNALDO . mas diz muito sobre o caráter frio e desumano do terrorismo.

o simulacro duplo -.E também não seria isso . uma linha só. capaz de qualquer coisa. ele a redescobrisse como camarada.. e veremos que problemas cada uma traz..O que me preocupa é a idéia de que o crime político possa ser confundido com um crime passional. por que não? As duas coisas são possíveis. GARCÍA MÁRQUEZ . certo. que o fim justifica os meios.inclusive as sentimentais .. GARCÍA MÁRQUEZ . amanhã finge que ama.. REYNALDO . O violinista precisa matar a mulher. acreditar que acima de tudo existe a sua causa. SOCORRO .E por que não podemos brincar com um conflito de sentimentos? Hoje ele a ama. a do dever profissional. como você o descreve: frio. e tudo isso será apenas um engano premeditado.e talvez até mais – se simular um entusiasmo súbito pela mulher? GARCÍA MÁRQUEZ .Isso é verdade no ponto de vista dele. GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO .nunca. e até mesmo com mulher. GARCÍA MÁRQUEZ .Ele pensa. no fundo.para cumprir as normas de segurança. E vai fazer isso contando com um álibi perfeito. mesmo que a ame.. Não precisa fingir que a ama. Vamos desenvolver as duas opções. GARCÍA MÁRQUEZ .O fato concreto. SOCORRO . É como se agora. é que ele vai matá-la. mas o elemento do ciúme e do falso romance enriquecem o personagem dela.E que nesse caso. Tem que passar por cima de qualquer tipo de considerações . O homem é um tipo frio implacável. ao somá-la aos seus planos terroristas. Vão viver uma segunda lua-de-mel. deve evitar a tentação de complicá-la. Isso torna tudo mais dramático.Para falar claro: um tremendo filho da puta. como todo bom terrorista. E tudo isso também pode enriquecer o personagens da mulher..Por que não desenvolvemos as duas opções separadas? Uma seguiria as duas linhas .Para mim. mas de repente tem uma crise emocional. ROBERTO . o sujeito é exatamente assim. Mas sente que precisar eliminar a mulher é um sacrifício. os dois elementos se misturam. ele a ama.Porque. Eu gosto da idéia de que passe por 111 . GARCÍA MÁRQUEZ .Quando a gente tem uma boa história. a outra. que pode ser contada de maneira clara e simples. o que precisa é ser fanático. os momentos mais felizes da sua vida.É que ele não precisa fazer isso para matá-la. mesmo que seja passageira. Ele mata a mulher porque não tem outra alternativa... para dar a bomba a ela. GLÓRIA .

GLÓRIA . distraído. explodisse nele? REYNALDO . 112 . Acaba de cumprir sua pena.E se a bomba. VICTORIA . dizem a ele. por que não foge com ela? GARCÍA MÁRQUEZ . mais impessoal: ele só cumpre ordens. feito um autômato. tudo fica mais frio. E ponto final. com mesinhas de mármore e cadeiras de madeira . por algum erro de cálculo. REYNALDO .Se ele a ama tanto como vocês dizem.e entra suspirando.. Vê um bar – um velho botequim cheio de espelhos. seu rosto sulcado pelas rugas. e murmura: “Eu daria qualquer coisa para poder voltar atrás e começar de novo”.O sujeito se reúne com os membros da sua organização e conta a novidade: “Minha mulher sabe”. “ou nós matamos”.“Ou você mata”.Gostei: que seja a organização terrorista que decida que é preciso liquidar a mulher: Assim.Qual a idade do homem? ROBERTO . Está velho.Ainda não. Senta e pede uma bebida. História de uma vingança ROBERTO . GLÓRIA . É a história de um preso recém-saído da cadeia. como se enfim tivesse encontrado o refúgio que procurava. Ficou preso quarenta e cinco anos. inclusive do amor.Tenho um montão de anotações.Confirmar a idéia de que o crime não compensa.Deus te perdoe! ROBERTO ..Porque este é um filme selvagem.. João não agüenta o barulho. setenta. GLÓRIA . uma cidade grande. a vertigem da vida urbana. Caminha assustado por um bairro periférico da cidade. E ele sabe muito bem o que isso quer dizer. Podemos chama-lo de João. porque quanto mais implacável ele for. melhor. GARCÍA MÁRQUEZ .Agora? Setenta e cinco anos. “Então você tem de matá-la”. e vê seus cabelos brancos. ROBERTO . o trânsito infernal. que poderia ser São Paulo. Não tem para onde ir.cima de tudo. e mais brutal for a morte da mulher.Ou que a justiça divina existe. Olha para o espelho. Está na rua há algumas horas. VICTORIA . GARCÍA MÁRQUEZ .Acho bom avisar que trouxe uma história complicada. Vou trabalhar.O que a gente ganha com isso? SOCORRO .Tem título? ROBERTO ..

Sua voz soa no fundo do espelho, como um eco, como a voz da Morte. E João ouve que a mesma voz diz: “Eu concedo a você esse desejo, mas com uma condição: que esqueça o passado. No passado estão as sombras. GARCÍA MÁRQUEZ - Isso ainda não sabemos, mas suspeito que sim, que quando ela se olhe no espelho ouvirá em off. Ou as vozes, porque ela também fala, lembre-se disso, e 'ouve' a própria voz. Está reconstruindo mentalmente o diálogo da sessão de análise, embora com os papéis invertidos. A capitulação que se produz como conseqüência desse diálogo também é ao contrário, porque é uma capitulação no bom sentido. A partir daí, ela assume sua realidade, a da sua própria vida. MARCOS - Por que ela decide descer para a festa? CECÍLIA - Porque ela mesma se psicanalisa. ROBERTO - Para mim, isso não está muito claro. E acho que a falha está no primeiro encontro dos dois. Não resolvemos esse problema. GARCÍA MÁRQUEZ - Você não está pensando que ela desceu porque se apaixonou por ele... Pode até ser que se apaixone depois que for dormir, mas agora ela só está buscando um flerte. ELID - Ela encontrou, no argentino, seu tocador de maracas... ROBERTO - Não acho que seja preciso alguém ir para a cama, ou, pelo menos, por enquanto, ou não neste filme. O que acho é, primeiro, que não conhecemos realmente o argentino, e, segundo, que por isso mesmo não desenvolvemos o primeiro encontro dos dois, porque não saberíamos como resolvê-lo. GARCÍA MÁRQUEZ - Por que não deixamos as novas sugestões para depois que a estrutura estiver pronta? Do contrário, o que aceitarmos como consenso agora será derrubado um minuto mais tarde, e pecisamos impedir isso do jeito que for: Vocês estão agrupando as vacas antes de terem erguido a cerca. CECÍLIA - Eu anotei tudo. Aqui, na anotação número treze, está: “Ela está de volta ao seu quarto, chega o carrinho com a comida, ela se olha no espelho e, enfim, se rende”... GARCÍA MÁRQUEZ - Desce para afesta, se reúne com o sujeito e dança um tango com ele... ROBERTO - Está radiante, vestida com uma roupa azul e branca, como a bandeira. CECÍLIA - Anotação número catorze: “Vemos a mulher entrando, mas do ponto de vista do argentino”.

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REYNALDO - Ela se encontrou. Agora poderia se chamar Libertad Lamarque, ou melhor ainda, Imperio Argentina. GARCÍA MÁRQUEZ - E o filme deveria se chamar Último Tango no caribe. REYNALDO - A dança é uma citação de Rodolfo Valentino, do mesmo jeito que o helicóptero era uma citação de A Doce Vida... me refiro à cena em que Valentino dança assim, de perfil, com o enquadramento picado, e, de repente, a câmera se aproxima e fica assim... Essa cena marcou época. GARCÍA MÁRQUEZ - Todo mundo sai dançando, mas no final deixam os dois sozinhos... O que você acha, MARCOS? Tem alguma coisa nesta história que você não goste?

O Inferno tão temido MARCOS - A única coisa da qual eu não gosto é a maneira como vemos a transformação dela, sua decisão de ir à festa. Acho precipitada. A ordem é esta: ela vê o touro esquartejado e sente náusea; volta ao quarto passando mal; deixa entrar o carrinho com o prato de churrasco; olha a carne e vomita; deita na cama para chorar, sentindo-se a mulher mais infeliz do mundo... É então que começa o diálogo na frente do espelho? Para que uma pessoa que se encontre nessa situação consiga reagir e decida se vestir, se arrumar, apresentar-se sorridente numa festa... bem é preciso mais do que uma sessão de psicanálise. REYNALDO - Mas aí há uma falha na sucessão dos fatos. A verdadeira crise acontece diante do touro esquartejado, e não na frente do prato de carne. Ela vomita lá embaixo, ao sair da cozinha. É essa, falando de maneira literal, a sua catarse. CECÍLIA - Cuidado com o tom. A comédia está ficando séria demais. GARCÍA MÁRQUEZ - Essa seqüência da qual você está falando, Marcos, tem realmente um começo, um meio e um fim? ELID - O elo quebrado, nessa corrente, é o do espelho. Não sentíamos que fosse uma motivação suficiente. GARCÍA MÁRQUEZ - Mas, será que ela sentia? Como psicóloga, tem uma capacidade de introspecção muito maior que a nossa. Se não é capaz de fazer uma reflexão profunda num momento de crise como este, então nós nos enganamos de personagem...

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MANOLO - O carrinho com o churrasco no quarto é um pequeno Cavalo de Tróia... É aí que ela sente que violam a sua privacidade, que invadem seu reduto... VICTORIA - A República Argentina empurra e humilha a pobre psicóloga argentina. GLÓRIA - Enquanto ela sai da cozinha, volta ao quarto e enfrenta a crise, lá embaixo estão assando o boi e ela tem tempo para serenar e iniciar seu diálogo imaginário com a paciente. GARCÍA MÁRQUEZ - Não trabalhamos esse diálogo ainda, não sabemos como ele é. SOCORRO - Ele acontece antes ou depois da chegada do carrinho? REYNALDO - Depois. A chegada do carrinho marca, para ela, o momento da sua aproximação emocional com o sujeito, ou seja, sua relação com os argentinos em geral e com esse cara em particular... Esse gesto a reconcilia com o seu mundo. E, por isso, ela agora tira a tampa da bandeja do churrasco, olha a carne e acha que é apetitosa. Pode ser até que prove um pedaço. A reflexão começa aí. SOCORRO - Ela prova a mesma carne que há alguns minutos a fez vomitar? REYNALDO - Aquela carne era crua, sanguinolenta. Esta carne é um delicioso bife argentino. MARCOS - Talvez aconteça, aqui, um problema de tempo. É preciso dar a ela uma verdadeira oportunidade para pensar. Ela poderia sair horrorizada da cozinha e do hotel, e começar a caminhar sozinha pela praia. Aí, nós voltaríamos aos estereótípos visuais o crepúsculo, as palmeiras, as silhuetas a contraluz... como se ela estivesse recuperando seu projeto original. E, de repente, a voz da paciente. REYNALDO - Acho que tirar a mulher do hotel seria um erro. GARCÍA MÁRQUEZ - É verdade. Se ela sair do hotel, sai do problema. MARCOS - Mas o desafio que faz com que ela ceda continua sendo fraco para mim. Não me convence. GARCÍA MÁRQUEZ - Se eu tivesse uma proposta melhor, faria, Marcos mas acontece que não tenho. Não me ocorre nenhuma outra idéia. Estaremos buscando caminhos diferentes, sem perceber? Não será que vocé está querendo achar uma solução muito dramática, e nós continuamos no plano da comédia? ROBERTO - O que precisamos encontrar é um bom elemento de humor negro.

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GARCÍA MÁRQUEZ - Lá estão os açougueiros argentinos, felizes da vida. Fazendo piadinhas e dizendo coisas engraçadíssimas enquanto esquartejam o touro. SOCORRO - Aliás, quero dizer que essa idéia do vômito não me agrada nem um pouco. GARCÍA MÁRQUEZ - Já sei que, na hora da verdade, o vômito não vai ser filmado. Os diretores se atrevem a mostrar náusea, por exemplo, mas não chegam no vômito nunca. E, se filmam, depois cortam fora. MARCOS - Esse é um detalhe que não me preocupa. GARCÍA MÁRQUEZ - Já sei. Você está preocupado com a força dos fatores que levam a mulher a tomar a decisão de ir à festa. MARCOS - Exatamente. Quando chegamos a esse momento e dizemos “pronto”, eu, simplesmente, não sinto isso, não acredito nisso. ELID -É Verdade que ela está acostumada à introspecção, mas quando decide viajar ao Caribe já não é uma psicóloga, é uma pobre mulher que quer viver uma aventura. O que prevalece agora não é o racional é o emocional. E quando seu projeto fracassa e ela percebe que não pode fugir, recupera sua personalidade anterior. VICTORIA - Como um mecanismo defensivo. REYNALDO - Como Dom Quixote em seu leito de morte. O próprio ato de reflexão a devolve ao consultório, ao ponto de partida. ROBERTO - Poderíamos fazer com que a paciente, no consultório, tenha feito a psicóloga dizer alguma coisa que agora repete, algo assim como “nós não escolhemos o lugar onde nascemos”, ou “ninguém escolheu o país em que nasceu”. GARCÍA MÁRQUEZ - É melhor que seja o contrário. É ela quem diz isso à sua paciente. E, agora, lembra. Há uma linda frase de Che Guevara, que diz: “A saudade começa com a comida”. É verdade. A gente sente a mordida da saudade quando estamos longe do nosso país e temos, de repente, vontade de comer coisas que comíamos quando éramos criança. MARCOS - Ela tem de perguntar a si mesma: “Que diabos de profissional eu sou, dizendo coisas que não sou capaz de assumir?”. DENISE - É a fórmula clássica da moral dupla: “Faz o que eu digo, e não o que eu faço”. GARCÍA MÁRQUEZ - Ela não terá outro remédio além de chegar a esta conclusão: “Quem está mal sou eu, e não o meu país”. É ela quem tem que mudar. Ao assumir isso, ela se abre tanto às misérias quanto às grandezas de

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com a Academia nacional. no carrinho. E quando enfim me sentei para escrever sobre a viagem. quase sempre. como se estivesse longe há muito tempo. e me perguntava como conseguir. O touro chegou depois. não. porque tem algo dentro. um belo dia. disse: “Já sei.Vocês perdoem a minha insistência. para ela.O argentino mandou. na festa. E comecei a estudar Bolívar. uma confusão com a Academia de História. do resto do mundo. Era uma ilusão à toa da paciente. ela começa a pedir notícias da Argentina aos seus compatriotas. aquele guarda-chuva do qual falei no primeiro dia. que foi o seu ponto de partida.Agora.. GARCÍA MÁRQUEZ .. de três a zero. ROBERTO . pode valer. SOCORRO . a da psicóloga consigo mesma e com seu país.seu país. MARCOS . e o que saiu foi a vida de Simón Bolívar. quem sente saudades sou eu. GLÓRIA . não teríamos filme... Há anos eu queria escrever sobre uma viagem pelo rio Magdalena. um cartão. Uma viagenzinha simples pelo Magdalena acabou virando uma confusão sem fim. Por isso eu confio no meu guardachuva.. mas continuo achando que o personagem do argentino não tem força suficiente. GARCÍA MÁRQUEZ . ELID . que jeito tinha.. na verdade. um montão de anos depois. MARCOS ..De repente. e. Vou pôr o Bolívar nessa”. um simples elo de ligação da 'conexâo argentina'.O helicóptero sozinho. se diz alguma coisa. Desde que eu era menino sonhava com essa viagem.Sou solidário com você na sua dor.Só que agora ficou claro que esta não é a história de uma donzela. GARCÍA MÁRQUEZ . e o que está escrito nesse cartão a comove.Senhoras e senhores. Acabo de lembrar que. Marcos. É a história de uma relação difícil. sem ele. apertem os cintos: o tocador de maracas voltou de Caracas! E ela imediatamente nota que o fulano não vale nem dez réis de mel coado.E veja só onde é que viemos parar! É preciso ter fé em qualquer imagem original. o que saiu foi a última viagem de Bolivar. O sujeito passou a ser um elemento a mais. aconteceu a mesma coisa com a imagem do helicóptero e do touro.Repito: eu nâo consigo ver esse gesto como um detonador 117 . Para a outra.Mas.. MARCOS .. é. É o gesto dele que a obriga a pensar. saber como era. que nos diga alguma coisa. Com você. lembram? ROBERTO . queria fazer um filme sobre as maracas.E se empolga com a possibilidade de que o seu time ganhe. GARCÍA MÁRQUEZ ..

Então. nem um filme sobre o sul da América do Sul. GARCÍA MÁRQUEZ . por que esse desprezo? ROBERTO . como Glória dizia muito bem. REYNALDO .É simplesmente a história de uma mulher que foi para os trópicos achando que ia encontrar o paraíso. GARCÍA MÁRQUEZ .O diálogo dos dois não pode ser considerado 'literatura' e nada mais. GARCÍA MÁRQUEZ . e o que você tem contra a literatura? ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . não está nunca em outro lugar...E qualquer um pode dançar o tango com ela. existe aqui uma série de situações e sensações que obrigam a psicóloga a pensar.E se a gente cortasse fora o argentino. GLÓRIA . e descobrir que ela vivia no paraíso. GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS . GARCÍA MÁRQUEZ .O gesto não é o detonador: é o fator detonante...A idéia. Eu adoro literatura. O verdadeiro detonador é o diálogo dela com a paciente. mas de repente tive a seguinte idéia: poderia ser O Inferno tão Temido. Ele já é.Quem tem de pensar é o espectador. VICTORIA . GLÓRIA .O primeiro que pedir.convincente.O chefe de relações públicas do hotel. Nem sei mais quantos títulos a gente deu a este filme. ROBERTO . o que iria acontecer? MARCOS . meu Deus. meu Deus! Não é mais um filme sobre os trópicos.Estamos fazendo roteiros.Que curioso: uma nova versão de A Morte em Samarra. para amar-te” . no inferno.Acho que fizemos um bom trabalho. mas o inferno acaba alcançando-a. por causa daquela frase de “Não se move. GARCÍA MÁRQUEZ .Porque estamos fazendo cinema. ROBERTO .Ora.. A verdade do paraíso e do inferno sempre está em cada um. poderia ser resumida assim: uma mulher foge do inferno. um elemento secundário no filme. ou se você preferir. quem vai fazer o convite? Quem vai mandar o carrinho com a comida? GARCÍA MÁRQUEZ . e não ela. CECÍLIA .. Além das palavras... nada.Nada. Nós pusemos esse sujeito aí só para que ela tivesse um interlocutor.Ai. MARCOS . Nossa tarefa 118 . então. a refletir.Isso aí é literatura. O sujeito não é imprescindível.Talvez não aconteça nada.Um momento: então.

afinal. como no boxe. não deveríamos começar por questionarmos se uma psicóloga é o tipo de personagem adequado para uma comédia de televisão? GARCÍA MÁRQUEZ . o touro. Eu sei o que posso fazer com ela. Vai ser um pouquinho mais difícil. VICTORIA . Mas se a idéia não convence você. um peso-leve tem que estar na melhor forma possível. Dentro do relato é preciso estabelecer categorias.. Marcos? Já acredita nela? GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS . mas sermos capazes de examinar o processo através do qual uma história é feita.não é tanto armar uma história . algo digno de Cidadão Kane. tem uma coisa: nós temos de trabalhar sempre nossos projetos como se fossem pesos-pesados.Sim.Tem tudo. pode ou não servir -. o time de futehol.Bem. ponha mãos à obra que você acaba alcançando com com ela. não tem grandes fissuras. GLÓRIA . um dinheiro que não é nem para o nosso bolso. Se para você uma idéia como a de Cídadão Kane é realmente mente atraente. aceito como presente.Estamos fazendo uma diversão para televisão para ganhar dinheiro. O que sempre serve é a procura. Marcos. o que precisamos estudar é o mecanismo da busca.E agora você a sente sua. Uma coisa. tudo bem. Se você quiser fazer o seu Xogum. Portanto. polir.O questionamento é inevitável. E isso é o que importa. o produto tem que ter sua dignidade.. o hino. que precisam ser desenvolvidas. E verdade que não estamos elaborando o roteiro de Xogum. como a festa. no nosso caso. GARCÍA MÁRQUEZ . e consiga identificá-las. Agora.que. do mesmo jeito que um pesopesado. se for assim. fazemos. Forma parte da busca. Mas queria deixar claro. eu posso dizer: estruturalmente. em seu nível. Mas há coisas. Mas ainda é preciso definir. Para sair lutando com dignidade. MARCOS .Não: esta história já está madura: tem o helicóptero. ajustar. É uma premissa do trabalho criador. que eu disse que esta história não sirva.Ou seja. GARCÍA MÁRQUEZ . se você não acha que pode fazer com ela o filme da 119 . mas no final a gente consegue.Eu me preocupo com o seguinte: que você encontre falhas na história. o hotel. MARCOS . e vale tanto se você quer vender uma comédia para a televisão quanto filmar Cidadão Kane. É procurando a história que encontramos o método.. Tem mais: se vocês não quiserem essa história. como se todos tivessem que ter a a mesma pegada de um peso-pesado. GARCÍA MÁRQUEZ .Eu estou de acordo com o peso que ela tem. Eu acho que tem.

. de Orson Welles. em se tratando do seu primeiro filme. descansa.Só que eu acho que estou vendo na sua cara uma sombra de dúvida. Você vai para o seu quarto. meu primeiro romance.O filme da sua vida não vai ser de meia hora. ROBERTO .sua vida.. Vamos dar um tempo. Veja bem. em compensação. desses que costumam ser muito críticos. MARCOS ... GARCÍA MÁRQUEZ ..”. A seqüência está aqui mas incompleta. não é um grande livro”. Sou incapaz de escrever alguma coisa melhor do que esse livro”. me salvei. que nesta história há muitos elementos que eu incluiria. ouve um pouco de música. dei os originais a vários amigos.Eu acho que para os efeitos do roteiro não devemos esquecer ou desprezar a proposta original: “Uma psicóloga que nunca teve um caso de amor de repente acaba tendo dois. me danei. porque se apressaram a acrescentar: “Nenhum... falta alguma coisa no ponto número catorze. e eles me disseram: “Parabéns.Não há quem consiga tirar da minha cabeça que alguma coisa muito importante escapou da nossa análise. sem dúvida. Eu me sinto profundamente satisfeito com o nosso trabalho.. Pensava: “Agora sim me danei. Devem ter notado alguma coisa no meu rosto.Tudo bem. MARCOS . no Caribe. MARCOS. ao mesmo tempo. Sofri uma desilusão tremenda.Pois eu. VICTORIA .. Se bem que poderia ser de uma hora. Isso faz que esta estrutura seja muito vulnerável.. GARCÍA MÁRQUEZ .Eu garanto que sim. é com você. e que de repente aqui.Estou vendo que aqui. e não conseguia parar de repetir: “Eu me danei. viva sua aventura com esse sujeito e. claro.Entâo. mas. Tomara que não seja a chave deste filme. meu problema já não é com a história: agora. Quando eu terminei O Veneno da Madrugada. mas não deixa de ser interessante o fato de que ela nunca encontrasse em seu país o príncipe encantado. no filme da minha vida. GARCÍA MÁRQUEZ . O personagem feminino é da Jeanne Moreau. GLÓRIA . numa ilha do Caribe”. Senti que o meu mundo caía. Vocês viram esse filme? Um filme tremendo! É a história de um marinheiro que volta para casa.. porque se empacamos aqui. nesta escaleta. MARCOS .. é boa. primeiro romance é um grande romance”. É verdade que a aventura com o argentino não é essencial. como A História Imortal.Uma espécie de Rosebud? GARCÍA MÁRQUEZ . nunca saberíamos a razão de. 120 . você pode se dar por satisfeito. pensa no assunto e depois a gente conversa.

..No Caribe. MARCOS . Édipo começa a investigar e acaba notando várias coisas: que ele era o herdeiro natural do trono de Tebas. que um dos supostos ladrões que ele matou era. e veja onde já estamos: num legítimo tango. MARCOS . sem altos e baixos. No final. Vocês lembram da história de Édipo Rei? Édipo é um pobre coitado que vai por uma estrada. mas o encarregado de cumprir a ordem ficou com pena e desobedeceu. ela encontra o amor. “Quando se descobrir quem matou o rei. GLÓRIA . Uns ladrões o assaltam. meu caro. filho do rei. acabaria matando o pai e casando com a mãe.. MARCOS . daqui em diante. “a peste acabará”. teu antecessor”. seu pai. Dentro dessa estrutura.Vou estudar cuidadosamente a estrutura. será como o tango: “Não haverá mais penas nem esquecimentos”. o resto a gente resolve fácil. Para impedir que a profecia fosse cumprida. a gente pode colocar o que quiser. Um homem é nomeado prefeito de uma cidadezinha. como a Tebas. seu próprio pai havia mandado matá-lo. Marcos? Veja só: você chegou aqui com uma mulher que vê um helicóptero descendo enquanto toma sol numa piscina. que perdera o marido. Édipo mata os ladrões. podemos discuti-la depois. suas contradições sejam resolvidas: não deixa de ser uma metáfora atraente.Vamos supor que. O que vocês acham disso? É uma estrutura perfeita. sem nenhuma trinca. é premiado: se casa com a rainha. Édipo vira rei. na verdade. na Colômbia. para que tente acabar com a violência.Mas eu não estou me queixando. De verdade! SOCORRO . Quando chega a Tebas..se reconcilie com seu país. e que a rainha. o homem descobre que ele mesmo é a causa da violência que tenta combater. Desta forma ele cumpria um agouro da pitonisa.. GARCÍA MÁRQUEZ .Por que não recapitulamns sobre nossa proposta de estrutura? 121 . mas enfim. Segundo essa previsão. a cavalo dado. aquele menino. Na verdade. que existia desde a época em que Edipo nasceu. DENISE .. GARCÍA MÁRQUEZ . na pessoa do seu vizinho.No Caribe. e Édipo vai consultar a pitonisa. Aliás. é exatamente o que pretendo fazer no roteiro de um filme que irá se chamar Édipo Prefeito..Pode até ser que a gente não tenha acrescentado grande coisa. Uma peste desaba sobre Tebas..Se conseguirmos encontrar uma boa estrutura. vaticina a pitonisa. num mundo tão diferente do seu. para ela.. O que mais você quer. mas também do lado de casa. era sua própria màe.. é isso que vem sendo feito há quatrocentos e cinquênta anos. com quem havia se casado. Se eu encontrar alguma falha. Que aqui.

aí. CECÍLIA .Ele mesmo levou o convite ao quarto da mulher. Se trocarmos agora essa estrutura. SOCORRO . não houve nem deixou de haver consenso.Mas há coisas que despertaram rejeição e outras que despertaram consenso. É verdade que a estrutura não é a história. uma idéia.Ou seja. com o diálogo dela com a paciente.Havia um convite anterior. tentanto fugir. e de noite seria papado no jantar. por outro. REYNALDO . O touro desfilaria na matinée. Ela sobe ao quarto. saímos ao corredor. porque faz parte do nosso jogo. MANOLO . não sobraria pedra sobre pedra. por um lado.Depois. ROBERTO . DENISE .. CECÍLIA .Muito bem. do argentino.. no momento em que ela estava querendo descer para tentar escapar. onde toma um comprimido para dormir. sua desistência. Marcos: agora.O grande problema parece estar entre os pontos treze e catorze: a decisão de ela ir à festa .Isso nos obrigaria a refazer a escaleta inteira.A festa poderia ter duas 'etapas' . mas é o que impede que a história se esparrame ou perca o rumo. você tem de começar a trabalhar. o touro estaria desfilando enquanto ela. mudar de hotel e. DENISE . além disso.. e fica adormecida ou semi-adormecida. onde já começaram a esquartejar o touro... Temos aqui uma estrutura. GARCÍA MÁRQUEZ .. CECÍLIA . com tudo que acontece depois. e vemos chegar o carrinho com o churrasco.uma matinée. isso não se discute.E em seguida acontece a reflexão. por telefone. ela estava indo para a matinée. sua rendição . Por exemplo. a idéia de tirá-la do hotel. o diálogo na frente do espelho. para facilitar a elipse. 122 . ELID . é preciso ver como se cruzam.. REYNALDO . REYNALDO . vendo pela televisão a entrevista do argentino. O que não ficou claro para mim foi a proposta da montagem paralela. e o esquartejamento. iria parar na cozinha.e que nós chamamos aqui de sua capitulação.Continuamos com medo de que existam fios soltos. está tentando. A Oficina é um jogo no qual estudamos a dinâmica de grupo aplicada à produção artística.Seja como for. É uma operação de brain-storming aplicada a uma história.e a chegada a festa... Podemos até fazer uma tentativa. ela. as ações e os tempos. e a de abrir mão do argentino. O convite que levou era para a noite de gala. e uma noite de gala.Sobre isso.Naquele momento. em seu quarto.

a experiência. não sabe o que dizer. não tem mais do que vinte e cinco anos. para começar a 'escrever' seu filme ali.repito.Ele mesmo. superestimar o tralho do roterista.ou pelo menos o cinema de ficção estará submetido à literatura. na frente dos atores? Seria um grande dia para o cinema. E hoje a grande falha no cinema. não vou discuti-la com ninguém”. volto para buscá-lo”. O que o cinema atual necessita é encontrar esse pobre coitado que um dia começa a imaginar uma mulher frustrada que está tomando sol ao lado da piscina e de repente vê aparecer um helicóptero. Quando torna a se olhar no espelho. que poderíamos dizer que é uma técnica criadora -. qual a corda de cada um que vibra. em todo mundo. em boa medida. Não é qualquer um que tem uma idéia dessas. não basta. A gente se sente tentado a dizer que sem roteiristas não há cinema . como num quebra-cabeças. e sim na falta de idéias originais. e ficaram nisso? A idéia morre ao nascer. pensativo. com a idade que tinha quando entrou na cadeia. Quantos terão imaginado essa cena. Será que alguma vez haverá um diretor que vá para a rua. talvez.. câmera na mão. VICTORIA . Claro que. João bebe. que é. Sem essa base literária mais estreita que ela seja. e murmura: “Aceito”. ou outra pessoa.uma imagem. vê um jovem. e a faísca. completamente diferente? ROBERTO . surpreso. achando que havia algum jovem atrás dele. Olha seus documentos e.. não vou mostrá-la a ninguém. qualquer coisa que possa chegar a se converter num filme. não haverá filmes. mas com quarenta anos a menos. sabemos como pensa cada um de nós. com helicóptero e até touro. mas isso seria.nem mesmo na técnica do roteiro. Isso é o que costuma ser chamado de trabalho em equipe. a cultura. aliás. Aqui nos conhecemos mutuamente. Oficinas como esta são feitas para quem não pensa assim. porque o trabalho de escrever romances é absolutamente pessoal. em que aspectos o talento se manifesta melhor. é agora um homem de vinte e cinco anos. realmente. 123 . João fica atônito. pela data de nascimento e pela fotografia. o cinema . Um trabalho. E então vemos como. Mas enquanto for preciso escrever um roteiro para rodar um filme. que não pode ser feito por um romancista. Gira a cabeça. através do debate. e a habilidade de cada um. só com isso. como era quarenta anos antes. se dissermos a nós mesmos: “É perfeita. Nada disso: é ele mesmo. No dia em que as sombras alcançarem você. cinema argumental -.Ele mesmo. João mal crê no que vê. todos esses elementos vão se encaixando e se completando mutuamente. um trabalho técnico. não está na técnica ... Naquele momento o garçom traz a bebida. Agora.

diz ele.De relógios. como foi que contrataram o João? ROBERTO . SOCORRO .tinha sido 124 . que vai garantir a João um emprego estável na sua empresa. e de que um juiz . ao ver o nome de João na lista nome e sobrenome . e podemos até chamar a cidade de Bonaire. sua cidade natal. e o empresário. sorridente. quando tinha a sua idade.Era um contrato de trabalhador temporário. se hospeda numa pensão humilde. Estão despedindo muitos operários. A fábrica havia recebido um pedido urgente de relógios. O empresário. E um belo dia. O empresário quer que o jovem saiba. Num deles há a notícia de um roubo.João sai do bar. consulta velhos jornais locais.. ainda mais um recém-contratado. mas finalmente começa a trabalhar como operário numa fábrica.ele acha que o amigo morreu -.Mas se estão mandando gente embora. talvez porque tenha pensado nele . VICTORIA . a duras penas. “São lembranças da minha juventude em xis”. na biblioteca.. a voz cavernosa da Morte: “Esqueça o passado”.ou da empresa que é dona da fábrica . E a idade do velho corresponde aos cálculos de João. explica que mandou chamá-lo porque João tem o mesmo nome e o mesmo sobrenome de um velho amigo seu. do assalto a um banco. Diz que acha curioso.... Lá. Todo mundo estranha. ROBERTO . feito por três indivíduos. o dono da fábrica . diz o velho. Controla seus nervos. VICTORIA . porque João inclusive se parece muito com o seu amigo. que ele não vê desde que era muito jovem. porque é raro que um grande empresário mande chamar um operário.ou no jovem que aquele homem tinha sido durante anos e anos. O homem tem mais ou menos a mesma idade verdadeira do João .. João se despede sem revelar a verdadeira identidade. o reconhece imediatamente. A verdade é que o jovem João.manda chamá-lo.uma figura destacada na cidade . João trata de se dominar: Ouve.uns setenta anos mas para João seus traços são inconfundíveis.Uma fábrica de quê? ROBERTO .decidiu falar com ele. e foi preciso reforçar a linha de montagem. porque o desemprego é grande. em homenagem ao seu falecido amigo .Mas reconheceu o velho. Tem que fazer filas enormes durante muitos dias. ao ver o empresário. dentro de si. e começa a buscar trabalho nas vizinhanças. então ficaria assim: “São lembranças da minha juventude em Bonaire”.”.Passam-se os dias e João não consegue se conter: Aproveita e vai a Bonaire. “de uma época na qual você ainda não havia nascido. Aquilo tudo acaba virando um capricho do velho ou uma história curiosa.

Era um homem sozinho. João e ele saem e nosso percebe. que lembra tanto seu companheiro de juventude. GARCÍA MÁRQUEZ . Eu imagino esta seqüência como um pesadelo: o bar está cheio de gente. tem muita experiência embora ninguém pudesse imaginar . mas não consegue esquecer. E de repente João. um ruído infernal. além disso. Gloria . informa que está satisfeito com seu trabalho.. e nada mais. é quem atirou no juiz . ROBERTO . uma atrás da outra. quer saber. VICTORIA . e convida João a sair com ele.Mas o espelho não tinha dito para ele esquecer o passado? ROBERTO .vocês já devem ter adivinhado que é o verdadeiro culpado. Deixa que o outro beba e fale pelos cotovelos. “ Vamos tomar alguma coisa”. A culpa dessa morte caiu em cima dele.Não obedece à Morte. o empresário . GARCÍA MÁRQUEZ . Ninguém mandou notícias para a cadeia. incita o outro a falar.. E isso é grave. ao ouvir o homem perguntar o que um homem que teria traído um amigo. Na realidade. embora ele soubesse muito bem que o tiro tinha sido dado por um dos cúmplices . Só sabe que não foi ele quem atirou. ROBERTO . Os cúmplices desapareceram sem deixar pistas. as imagens duplicando-se nos espelhos. do crime que o condenou injustamente.Foi preso e não soube o destino dos seus cúmplices. durante o assalto. o empresário bebendo e falando.não consegue viver com seu remorso e quer se redimir através daquele jovem. Quer descobrir o que aconteceu com seus dois cúmplices e. sem família. com surpresa. até chegar a ter um posto importante. com a simpatia do empresário. mostrando-se muito interessado.morto no assalto.e agora conta. diz.A partir do momento em que foi preso. Um belo dia o empresário manda chamá-lo.João é um bom trabalhador. Os outros dois fugiram e nunca mais se soube deles.não podia garantir qual dos dois. sobretudo. destruído a 125 .Por que João tem de ir a Bonaire para conseguir essa informação. SOCORRO .Aí é que está o problema: ele quer. VICTORIA . Agora. o que se falou da morte do juiz.Não é que ele perdeu a memória.Ele acabou sendo o único culpado. ele não soube mais absolutamente nada do que tinha acontecido. o mesmo onde sua metamorfose ocorreu. Pedem uma garrafa e o empresário começa a beber sem moderação. João mal prova a bebida. Assim. vai sendo promovido na fábrica ou na empresa. é que ele não sabe mesmo. João. Na verdade. que o empresário se dirige justamente ao bar dos espelhos.

apavorado.Bem. João rompeu o pacto. porque tem a 126 . a cara de João começa a se cobrir de rugas e seus cabelos vão embranquecendo.O problema é contar isso tudo em meia hora.. e quero dizer que não escolhi uma fábrica de relógios ao acaso. que encontrou em Bonaire – e começa a olhar para elas. diz João. o velho amigo que ele achava que tinha morrido na cadeia? No momento em que empresário morre. poderia fazer para se redimir . começa a trabalhar. fala de outra. O empresário olha aquele rosto. ROBERTO . Pode ser que tenha trabalhado na cadeia consertando relógios. Há uma fotocópia onde o próprio João aparece. Não seria assim. SOCORRO . quando fica sozinho em seu escritório. na atualidade. João morre junto. uma por uma.Porque a Morte veio buscá-lo.A maneira como João consegue trabalhar e vai sendo promovido é curiosa. ROBERTO .João tenta esquecer tudo. tem. as fotocópias. O empresário se apoia numa cadeira. ROBERTO . E quando o empresário entra..Eu não acredito. GARCÍA MÁRQUEZ .Aí existe uma contradição insolúvel: João pede à Morte outra oportunidade. porque tem uma coisa muito importante para mostrar.. e a primeira coisa que faz é romper o pacto.vida do amigo para sempre. tira da gaveta da escrivaninha umas cópias . e percebe tudo. SOCORRO .É um filme estranho. ROBERTO . O filme começa falando de uma coisa.Agora. E em relação à promoção.Ele é um operário qualificado. João já tirou um revólver e começou a disparar. o rosto do seu amigo. SOCORRO. e em seguida. GARCÍA MÁRQUEZ .dos jornais velhos.Morre? Por quê? ROBERTO.Eu acho que pode. GARCÍA MÁRQUEZ . Dá na mesma.. “Nada”.. que esse filme possa ter só meia hora. e João se senta na frente dele e olha sem dizer nada.João suspeitava. embora não entenda nada. ROBERTO.. algemado. vamos ver. acho que já expliquei: o empresário. VICTORIA . porque o que fez é imperdoável”. alguns dias mais tarde. Assim. ROBERTO . Mas o destino o coloca de novo cara a cara com seu passado. GLÓRIA . João liga para o empresário pedindo que por favor dê uma passada na sua sala. De repente. mortalmente ferido.é um filme de vingança. mas precisava ter certeza. mas porque nesta história tem tudo a ver com o Tempo. sendo levado para a cadeia. “Não pode fazer nada. vê a parede empapelada pelos recortes.

É preciso encontrar o tom adequado. do velho mestre. através de uma simples sucessão de imagens.Eu admito que o filme. com muito empenho. os espectadores fazem zapping: mudam de canal.João pode sair da cadeia com os recortes. ROBERTO . e entre elas estão os recortes. dobra tudo com cuidado e guarda numa gaveta. E aí vemos. REYNALDO . REYNALDO .. ROBERTO . Carrega um embrulho com suas poucas coisas. João podia morrer por lá.. depois que tivermos uma estrutura que nos permita contar a história em meia hora. Começa a subir na escala social. que se comprometeu a apagar da memória. GLÓRIA . Sua viagem é uma viagem ao passado. ele já tem os recortes de jornal em seu poder. Quando se hospeda na pensão . porque se não forem assim. Um erro grave.. depois com elegância. sua vida mudou radicalmente . Devo 127 .já é jovem. GARCÍA MÁRQUEZ . mas vacila. A menos. O mestre concorda em aceitá-lo como discípulo. Podemos estabelecer isso como um fato consumado. No começo. GARCÍA MÁRQUEZ . jogá-los no lixo. Acho que só vamos saber exatamente o que acontece. da maneira como se senta. o filme só teria cinco minutos. do fundo até o alto.. Eu creio que para resolver esse processo não é preciso recorrer a nenhum narrador. VICTORIA .Então.. favorece João. Podemos resolvê-lo visualmente. o erro fatal de todas as tragédias.Deveríamos tentar elaborar uma estrutura. com muita rigidez. ROBERTO . tem um jeito meio insólito. REYNALDO . Lembro de um menino que queria aprender judô e se aproxima. ou pode acontecer. e é então que vê aqueles papéis amarelados..Mas a vida costuma debochar das nossas previsões: o jovem João acaba sendo um cara de sorte. Portanto. como o próprio mestre...consciência culpada. claro.tira suas coisas do pacote. Num minuto ele percorre todo o trajeto.Vai ser difícil contar em meia hora a história dessa ascensão meteórica.. depois com arrogância e finalmente com uma grande dignidade. quando João vai consultar os jornais locais.Por que não começamos por limpar o caminho? Podemos suprimir a peripécia da viagem a Bonaire. que a gente use um narrador em off.Mas é assim que João começa a romper seu pacto com a Morte. decide rasgá-los. Eles são o seu passado. para colocá-las no armário. de um modo muito simples como se dá o processo de aprendizagem: através da postura do menino..A culpa clássica. depois com mais soltura. uma coisa que João precisa esquecer. ou seja.Os filmes para televisão têm que ser muito movidos.

Não. Põe uma armadilha para a Morte. não é assim..Nem pensava nisso. acontecem coisas tremendas. GARCÍA MÁRQUEZ .Nos filmes americanos está sempre acontecendo alguma coisa. GARCÍA MÁRQUEZ . inclusive para ele. Ou melhor. quer viver outra vida. esquecer o passado. Por isso continuamos ali.Mas aqui não é o tempo que reverte. com quarenta anos a menos.Na história do preso. ROBERTO . por um amigo. na cadeia. mas a gente sempre acaba com a impressão de que alguma coisa está quase acontecendo. 128 .reconhecer que me dá um trabalho enorme imaginar o movimento contínuo..Ele não cumpre a sua parte no acordo. o que tinha acontecido com seus cúmplices? Não podia ficar sabendo pelos jornais? ROBERTO .João está começando a trabalhar nessa fábrica de relógios.E durante quarenta anos João nunca tentou saber. só dispomos de meia hora para contar essa vida. ROBERTO .Então. O que atormenta João é o fato de ser um velho. Ele volta a ter o aspecto de um jovem. GLÓRIA. Poderíamos facilitar muito se João tivesse ruminado sua vingança na cadeia.. que já passou para todo mundo. o verdadeiro culpado. João está vivendo. não deixar que as sombras o alcancem.Ou é a Morte que põe a armadilha para ele.. mas isso é um disfarce: sua memória e seu caráter continuam intactos. durante esses anos todos. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . e ao sair fosse diretamente buscar seu cúmplice. um tempo real. será que ele suspeitava que a fábrica é do seu antigo cúmplice? ROBERTO . de haver perdido a vida na cadeia. é diferente: não acontece nada. GLÓRIA .. Nós não vamos desistir desta assim tão fácil: é um desafio que temos de enfrentar. GARCÍA MÁRQUEZ . Ele faria qualquer coisa para recuperar esses anos.. alguma coisa acontece. ROBERTO .. ROBERTO .. mas em espaços de tempo longos demais.A técnica da telenovela. Mas elas o alcançam. Por isso quer voltar no tempo. GARCÍA MÁRQUEZ . O tempo passou. é a idade do personagem..E o que o jornais sabiam? O único culpado foi ele.Eu posso trazer outra história.Seu objetivo não é a vingança.. ROBERTO . em compensação. Minha única preocupação é que...João tenta mudar. exceto no que diz respeito ao seu aspecto físico. porque ninguém pode fugir das próprias sombras. ter outra oportunidade. Em cada seqüência. esperando.

É como no jogo de xadrez. É pegar ou largar. O que interessa é nós acreditarmos nela. antes mesmo de começarmos a jogar. ROBERTO .Que amigos? Fora os cúmplices.é a maneira pela qual o empresário fica sabendo que o tal João trabalha para ele..Pois a partir daí. João não tinha amigos. sem oposição nem resistência será que é isso mesmo. Porque o assalto ao banco não poderia justificar uma condenação desse tamanho. GARCÍA MÁRQUEZ . Você pode fazer o que quiser.. e pede para conhecêlo.Não. ROBERTO . Cuahtémoc Ortodoxus.Uma condenação dessas. GARCÍA MÁRQUEZ .E a polícia nunca chegou a eles? ROBERTO . eu me sinto livre para fazer o que bem entender.. ou seja. por um crime que não cometeu. mas dentro da lógica que você mesmo impõe .Eu acho que você está se mostrando indulgente demais com você mesmo. E eu não consigo acreditar no que ROBERTO conta.Não interessa se a história é ou não é inacreditável.. GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO . em meia hora. o trabalhador teria de se chamar. tem que ter sido resultado de um longo processo judicial.João não abriu a boca. SOCORRO . Tudo acontece como num sonho. uma história que precisa ser contada num longa-metragem. Talvez eu esteja tentando contar. nem nada.e se impõe. misturados com outros cinqüenta numa listas de demissões. GARCÍA MÁRQUEZ . Para que o dono da fábrica ou o gerente de uma grande empresa reconheça o nome de um de seus trabalhadores. SOCORRO. A partir daí. Isso não está bem resolvido. a peça não pode mais se mover de outro modo.O que acho uma falha . E com toda razão. nem parentes. Por que o bispo se move de lado? Porque foi combinado e aceito assim. e eu pego. A terra engoliu. A única coisa em que acredito é o mais inacreditável de tudo. SOCORRO . que é quase de prisão perpétua. Ele se negou a delatar os cúmplices. pistas. um sonho? ROBERTO . sei lá. E nesse processo devem ter saído nomes. ou Pirilampo 129 .. a transformação de João num jovem de vinte e cinco anos.Não. quando faz que as coisas aconteçam assim com facilidade.admito .Eles sumiram.ROBERTO.Você está inquieto por causa do primeiro encontro de João com o empresário..E deixaram João apodrecendo na cadeia.

O empresário fica parado de susto. por que não o utiliza depois em algo que valha pena? ROBERTO .Ele só percebe no fim.Mas para consumar sua vingança. SOCORRO .Eu acho que os detalhes dessa história são convincentes. GARCÍA MÁRQUEZ . são os nomes do meu avô. “Morreu na cadeia”. ele vem. nesses casos? A criação é assim. GARCÍA MÁRQUEZ . pensa. 130 ..O empresário nunca suspeita quem João é de verdade? ROBERTO . Como este mundo é pequeno!.O seu coração explode. Se você apela para um recurso tão extraordinário como a mudança de idade.Mas o encontro deles não deve ser casual. GARCÍA MÁRQUEZ . embora queira. ou a implicação dos escritórios da empresa. sem vacilar: “Ah!. sinto muito”. GARCÍA MÁRQUEZ .Mas não é o que todo mundo faz. na presença do empresário. Como em O Retrato de Dorian Gray. que João não consegue fugir de seu passado.Mas você está fazendo isso de um modo muito peculiar: manobrando para que tudo se adapte aos seus propósitos.Se for inaugurada uma nova seção da fábrica. nem acontecer por causa de uma decisão de João. isso mesmo”..Mas precisa ser convincente. E diz: “E o que foi feito do avô?”. que ninguém pode fugir de suas próprias sombras. que quando era jovem morava em Bonaire?”.. E pode dizer ao empresário: “Sim.. ROBERTO . e. O empresário deve morrer de susto. segundo – uma conclusão derivada disso -.Porque então vê o verdadeiro rosto de João. ao perceber o que aconteceu. primeiro.. como podemos ver. e sim a história de uma redenção. ROBERTO .João não pode deixar que o culpado morra: precisa matá-lo. ao ver o verdadeiro rosto de Dorian Gray.Eu o utilizo para demonstrar. “Sim. O empresário insiste: “Você é neto de João Cabral. senhor. de seus fantasmas .não em primeiro lugar -. ROBERTO . Eu não queria contar a história de uma vingança .João gosto de João matar o empresário. e os trabalhadores forem convidados para um brinde. responde João. quando morre. Uma redenção impossível. SOCORRO .. REYNALDO . ROBERTO . Eu me chamo como ele”.Quando o empresário manda buscar o João. SOCORRO . não precisa ser um jovem. A iniciativa deve ser do empresário. GARCÍA MÁRQUEZ .Praxedes. senhor.

Além disso.. E fica sabendo porque o próprio empresário confessa. Eu sou João Cabral”.. Teve tempo para pensar nisso. REYNALDO . SOCORRO . SOCORRO . que foi o empresário quem atirou. como é que eles vão se delatar. e que ele fosse condenado por esse crime.Então. Quer se vingar. eu vou ajudar você. GARCÍA MÁRQUEZ .Estou preocupado com uma coisa: a culpa do empresário é ter matado o juiz? Ele também não é culpado por ter abandonado seu amigo na cadeia? ROBERTO .Poderia. não por ter matado o juiz e deixado que seu amigo fosse condenado.diz o empresário.O outro cúmplice desapareceu. e ajuda tanto que João se transforma. nós fomos grandes amigos .“Sou Edmundo Dantés”. E é então que chama o seu benfeitor e diz a verdade: “Eu não sou neto de João Cabral. justamente.E ajuda mesmo. “Antes que esse incidente lamentável acontecesse. mas por ter deixado que seu amigo apodrecesse na cadeia. indo visitá-lo? ROBERTO . REYNALDO .Mas os assaltantes eram três. SOCORRO . REYNALDO . em um personagem. o terceiro? ROBERTO . O culpado não poderia ter sido o outro. Mas o que João descobre agora é. sem nem ir visitá-lo..Durante quarenta anos.”. dentro da empresa.Existe a possibilidade de que o empresário se sinta culpado. existe o fator dinheiro. João? Em nome da amizade que me unia ao seu avô. como em O Conde de Montecristo. Ele não encontra o empresário por acaso: levou quarenta anos acariciando a idéia desse encontro. REYNALDO .E que.Sua culpa é ter deixado que botassem em João a culpa da morte do juiz.Podiam ter mandado algum recado. Isso é algo que não se diz: se deixa subentendido. ROBERTO . Nunca mais se soube dele..Dá a entender.E aí mesmo o empresário poderia acrescentar: “ Quer saber de uma coisa. Se três camaradas cometem um delito e um deles é preso e se nega a delatar os outros. tudo isso é lógico.. GARCÍA MÁRQUEZ . 131 . quer dizer que o roubo aconteceu? Nesse caso é preciso haver em João algum desejo de vingança. Os outros dois fugiram com o dinheiro roubado e ficaram com a parte de João. GLÓRIA .. É a história de Edmundo Dantés. por outro lado.

de que tipo de pessoa ele pode ser a essa altura da vida.Tenho uma proposta. A gente só 'decifra' com exatidão as profecias depois que elas se cumprem.. a gente acaba decifrando de um jeito que não havia pensado.. ele escolheu justamente essa. GARCÍA MÁRQUEZ . Aqui.Mas as profecias estão cifradas para se protegerem contra o fracasso. lendo um livro com toda tranqüilidade. Mas vamos começar lixando a madeira. GARCÍA MÁRQUEZ .. melhor para o nosso trabalho. só para colocálo à prova. E pela Morte. Se você acredita nas profecias e elas vaticinam que quando sair daqui. Não podem ocorrer o risco de se derrotar a si mesmo. Quem dá o primeiro passo? MARCOS . Você não pode nos privar do prazer de armar este móvel. GARCÍA MÁRQUEZ . No dia 27 de março você fica na cama. nós não viemos fazer obras-primas.Estou dizendo isso porque sou cabeça-dura.É como esses enigmas que a gente acha que pode decifrar de uma forma.. martelada a martelada. você. viemos aprender a carpintaria do ofício. e a profecia. fica sem comer.. quando estiver saindo da igreja”. ROBERTO .Quanto mais cabeça-dura você for. GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO.Eu proponho que a fábrica tenha o nome do empresário: 'Juan 132 . Prego a prego.João não foi procurar o homem: não tem idéia de onde ele pode estar. depois que acontece o que supostamente tinha de acontecer. REYNALDO . viemos ver como se constrói uma história imaginária. ou não vai sair daqui à uma e dez da tarde. REYNALDO . estão lembrando? Se a profecia não estiver cifrada. é claro. um tijolo vai acertar a sua cabeça. ou melhor. Faz muito tempo que penso nela. e na verdade são diferentes.Essa é a história que quero contar: a de um homem que é submetido a uma prova dura. E tem mais: repito que ele não sabe qual dos dois cúmplices matou o juiz. para tirar os nós e as farpas. e que coincidência! No meio de todas as fábricas de São Paulo.Não escolheu: a Morte o empurrou para lá. Como no caso de Édipo. Já que estou preso demais ao meu projeto e não conseguimos avançar.. veja só.. acho que é melhor eu trazer outra idéia.Não. e vou defender esta história até o fim. portanto. não virá aqui hoje. não se cumprirá jamais.Ora.. ROBERTO .ROBERTO . e o tigre se dana. quanto ela pode durar? Vem o próprio Nostradamus e anuncia: “No dia 27 de março você vai ser comido por um tigre. à uma e dez de tarde.

. Alexandre Dumas.. Voltar a viver. essa história de João pretender enganar a Morte. tirá-lo da cadeia de maneira espetacular.Não deixa de ser interessante. embora com um pouco mais de esforço. como consegue além disso. e ele responde: “Viver. GARCÍA MÁRQUEZ .Mas isso.. Como Dumas realiza essa façanha? 133 . Um ricaço pretende a moça e confabula com outros dois sujeitos para levantar uma calúnia política contra Dantés: acusam-no de bonapartista. por exemplo. Roberto.. uma das mais lindas do filme? GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . outra é violar as regras do jogo. Não nego isso. E João inventa a armadilha. E a Morte sabia disso: é a Morte que engana João. GARCÍA MÁRQUEZ . consegue um disfarce tão bom quanto o de João. Nesse momento o espectador não notaria nada. que nisso tudo é preciso que um sentimento de vingança esteja em jogo. ficarei agradecido: João é sincero quando promete esquecer tudo. vai direto procurar trabalho lá. Ele acha sinceramente que vai começar uma vida nova. Mas não consegue. que deverão ser passados num castelo. Arma o truque. Quando a Morte diz a ele “você precisa esquecer o passado”.O que João pede à Morte é tempo para poder consumar sua vingança.. mas da boca para fora. ele concorda.João vendeu a alma ao Diabo.Ah.Você está propondo que a gente elimine a seqüência do bar.Se vocês levarem isso em consideração.Tem uma coisa que a gente precisa saber: Você admite. ROBERTO . uma antiga fortaleza transformada em prisão. sim. Sem forçar nenhum elemento da realidade. não é? Dantés é um jovem marinheiro que tem uma namorada em Marselha.Uma coisa é violar o pacto. de onde não se pode fugir porque está numa ilhota. sem encomendar-se a Deus nem a Diabo. Assim. mas Roberto não pode violar as regras. que vai se livrar da sua frustração. Vocês conhecem o romance.. ROBERTO . como Fausto. O pobre marinheiro é julgado e condenado a muitos anos de cadeia. REYNALDO . mas depois. ROBERTO . João ao sair da cadeia. a certa distância da costa. mesmo de maneira inconsciente? ROBERTO . da sua raiva. não só consegue transformar esse pobre marinheiro num homem sábio e fabulosamente rico. É então que o autor.. a Morte não vai conceder. João pode violar o pacto. A Morte pergunta: “O que você quer na realidade: viver ou se vingar?”. VICTORIA .. faz uma das coisas mais extraordinárias da história da literatura.Perez Sociedade Anônima'.Edmundo Dantés.

Um marinheiro sabe nadar e fazer e desfazer nós. abre o saco usando a faca. falta um. através do túnel que os dois fizeram. e não se afoga. GARCÍA MÁRQUEZ . E como conde. do outro lado da parede. Começa a fazer a mesma coisa e pouco depois. Um dia Dantés sente. e vou ensinar a você que eu sei.Muito simples: cria outro personagem.. e pouco depois o tira de lá transformado em homem rico. O 134 . que alguém. anos atrás. Você sabe que aqui. Ou seja. quando alguém morre. a qualquer preço. desenterra o tesouro e. na sua cela. por que a gente não conseguiria? REYNALDO . O que vocês acham disso? Do ponto de vista da condição dramática. fizeram prender? Quando ficam sabendo da existência do Conde do Montecristo. numa cela separada.Podemos averiguar.. enfiado num saco. E nenhum dos culpados o reconhece: qual deles. Agora. O que me resta de vida não seria suficiente para você é jovem e forte.. e não saiu. segue suas instruções ao pé da letra. está cavando. rico e sábio”. Suponho que era para deixar estabelecida sua familiaridade com o mar.. O resto do romance é isso: ele se vinga do primeiro. Dantés aprende tudo o abade ensina durante aqueles anos. é impossível começar de novo. O abade Faria é um ancião conspirador e um sábio. E quando sentir que caiu na água. diz o velho. Assim voc6e poderá desfrutar da sua nova condição de homem livre.. se vinga do segundo... poderoso. sábio. E isso é o que torna a fuga de Dantés acreditável. tentam. Quando eu morrer esconde meu corpo no túnel e entra no saco. no mais absoluto segredo. Dantés se encontra com o abade Faria. e o mete na prisão.Seria bom saber em que consiste o segredo. faltam dois.. orientar-se pela água. nada até a costa e escapa. e quando o velho morre. Na minha idade. Que maravilha! O conde de Montecristo sai do anonimato para se vingar dos três que armaram contra ele. Vai até a ilha de Montecristo. põe em ação o mecanismo da vingança.. Dumas mete na cadeia um marinheiro pobre e semi-analfabeto. E se Dumas conseguiu fazer.. o abade Faria.. Além disso. “Achei que o túnel ia sair em tal lugar. Conhece o segredo de um grande tesouro e está armando a própria fuga. com uma pena de cinqüenta anos nas costas. magnatas habituados ao poder vai se lembrar daquele pobre marinheiro que. é mais difícil fazer tudo isso que convencer a Morte a rebaixar a idade de alguém. levando uma faca. forja sua nova identidade. da torre do castelo.. Eu sempre me perguntei por que Dumas havia dado ao seu personagem o ofício de marinheiro. vou dar o mapa de um tesouro que está enterrado na ilha de Montecristo. Ele é jogado ao mar. “Fiz um cálculo equivocado”. é o Conde de Montecristo. os carcereiros metem o cadáver num saco e jogam no mar. se transformar em seus amigos.

em outra situação..E se o empresário. Ele tem que sair decidido a se vingar. A graça é poder organizar bem. Mas eu digo que. só isso. que ele aceite e esqueça realmente o passado. que aceite de coração. Não me interessa o drama do empresário. Mas na história de João a coisa muda. não possa se conter e rompa a promessa. Aliás. de Edmundo para João.É a lei do crime. existe uma grande diferença entre a história de Edmundo Dantés e a de João Cabral. mas tem um defeito: é outro filme. Quer saber o que aconteceu. GARCÍA MÁRQUEZ .. Quando a Morte põe como condição o que nós contamos .Isso é muito bom. GARCÍA MÁRQUEZ . O que eu quero ressaltar é o seguinte: se você admite.. está livre porque seu amigo não delatou à polícia . ROBERTO . João não quer vingança. E. é difícil aceitar esse gesto de lealdade a um filho da puta do calibre do empresário. o pobre marinheiro é um ser insignificante e inofensivo: não há por que se preocupar com ele.Ao sair da cadeia. GARCÍA MÁRQUEZ .. ROBERTO .Em termos de construção dramática. mas com o propósito secreto de enganar a Morte. sabe que ele. João. decidisse persegui-lo? O jovem sentiria a iminência do perigo. “Sou Edmundo Dantés”. VICTORIA . Os duros não delatam seus cúmplices. que seu filme também conta uma história de vingança. três. porque o culpado é amigo e cúmplice do acusado. Para eles. GARCÍA MÁRQUEZ . o material que temos.que João esqueça o passado -. Dos dois dramas. sabe que seu companheiro levou uma cadeia perpétua por um crime que não cometeu. mas não saberia de onde ele vinha . não há nenhuma razão para pararmos no 135 . Ninguém reconhece Dantés porque ele mudou de personalidade. o do empresário é mais complexo. mas que ao encontrar o culpado. ROBERTO . sabendo que João vai sair da cadeia. e aí não temos vingança nem filme.Não podemos alterar a natureza da história.. que agora é muito conveniente. o empresário não teria esquecido de João nem por um minuto. porque mudou de idade.Coisa. o culpado...Essa última é justamente a minha idéia. GARCÍA MÁRQUEZ .Bem. Os três que caluniaram Dantés não tornam a se lembrar dele depois que o meteram preso.São atitudes parecidas.. Além do mais. não pode tirar o personagem da cadeia para deixá-lo flutuando. SOCORRO . sem mudanças substanciais.recém-chegado está na moda na alta sociedade. Roberto. não caberia em meia hora. se identifica. ROBERTO . Os sujeitos caem de costas.Se mudarmos o nome. podem acontecer duas coisas: uma.. e cada vez que o Conde arruina um deles. Principalmente. até o final. Duas: que faça de conta que aceita.. aliás.

Por isso mesmo. vai procurar o fulano: “Eu sou João Cabral”. apesar de todos os seus esforços para esquecer o passado. Depois veríamos como esses fatos podem acontecer. e a Morte diz a ele que existem dois caminhos: o esquecimento ou a vingança. o espectador teria que saber a razão. poderoso. “Agora você cumpre seus loucos desejos de vingança” diz a Morte . teria renovadas energias para cumprir seu plano. E um dia. E aí se dana inteiro. apesar de querer cumprir seu pacto com a Morte. só porque elas sejam mais complicadas. João o reconhece e. Conhecendo como conhecemos a alma humana. Agora. quase poderíamos apostar que João aceita o acordo só para ganhar tempo. João sai da cadeia.Ele não precisa desses recortes. ao se comparar a ele. Um belo dia. Começa a pensar em como driblar a Morte. GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO . E o pacto com a Morte ficará verossímil na medida em que a gente entender que. Com vinte e cinco anos. GARCÍA MÁRQUEZ . enquanto está com uma moça num restaurante. decide procurar trabalho na fábrica do sujeito. Seria preciso dar todos os antecedentes do caso. porque viola o pacto. vê entrar um homem que ele reconhece como sendo seu cúmplice e suposto culpado do assassinato. do jeito que você diz. O que vamos ver é como João. não vamos ter medo das coisas. GARCÍA MÁRQUEZ . O que temos que detalhar é o eixo da situação. só você precisa saber disso. se encontra com a Morte. admirado e homenageado por todos. E no final.Se João saísse da prisão decidido a se vingar. VICTORIA .Assim.Por isso retardei esse reconhecimento e deixei quase que para o final o momento em que João descobre a traição.processo que vai da saída de João da cadeia a seu encontro com o empresário. João sabe quem é o empresário. além disso. bem. é mais complicado.João não vai à fábrica do sujeito. a pergunta seria a seguinte: a Morte deixará João seguir até o fim? ROBERTO . mas com uma condição: esquecer o passado”. Sua palavra de honra vai para o diabo.A Morte estende uma tremenda armadilha para ele. para João. É contratado em outra fábrica. Ali mesmo se danam todos os seus bons propósitos. voltar a ter vinte e cinco anos é a melhor das vinganças.Por enquanto. Mas enfim. Mas a Morte não faz pactos de graça.Perdemos aí o efeito visual dos recortes de jornal. recuperando o tempo que perdeu. ROBERTO .“ou começa uma vida nova. ela mesma atravessa o empresário no caminho de João: é um homem rico. a injustiça cometida fica muito mais insuportável. Deixe-me fazer uma pergunta estúpida: por que a Morte concede 136 . se vê arrastado a executar a sua vingança. GARCÍA MÁRQUEZ .

VICTORIA . o que ela faz com João. ROBERTO . mais importante: como é que a vingança chega? Como. a lista de nomes.Eu só consigo ver é a Morte no fundo do espelho.Mas então.Ah.. GARCÍA MÁRQUEZ . a de devolver a juventude? CECÍLIA . não sei fazer histórias rurais.Até aí.Tudo isso se simplificaria. ROBERTO . Além disso.Vocês acham que isso tudo é arbitrário? GARCÍA MÁRQUEZ .Ah!. por exemplo.João é relojoeiro. não tem problema. não é uma fábrica estritamente realista. GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS .. Mas não é isso o que acontece. ainda assim. ROBERTO . A Morte é justa. aqui. você é livre para escolher e é nesse jogo que você perde. uma condição básica nos pactos com o Diabo. Poderiam parecer arbitrárias e. João é um peão. mas com uma condição: esqueça esse tempo”. a corrente de promoções.Vem a coincidência da fábrica.. a uma fazenda do nordeste. Vá até a fábrica tal que você vai encontrar um emprego”..essa graça a João. Mas. eu acho. A Morte faz um acordo com João respeitando sua vontade. também. porque é um universo fechado. ROBERTO . Tinham privado João da sua juventude. GARCÍA MÁRQUEZ .Eu gosto da fábrica. a Morte seria uma puta. operário qualificado na fábrica. ROBERTO . A pergunta não era tão estúpida como pensei. Não. GARCÍA MÁRQUEZ .Deve ser porque tinham roubado uma parte da vida dele. A partir daquele momento. reforçar o impacto da história.No bar a Morte poderia dizer a João: “Eu ajudarei você a começar uma vida nova. É um ato de justiça.se prolonga demais. o mecanismo da vingança funciona? Porque eu continuo pensando que a carreira de João na fábrica – ou na empresa .. ROBERTO .Não se deve escrever sobre o que não se conhece.Eu vejo tudo isso como falhas dramatúrgicas. ou não se sente como se fosse uma coisa pessoal. se transportássemos a história ao ambiente rural. a Morte concede essa graça por um sentido de justiça... você quer inventar uma fábrica que responda 137 .Para mim. CECÍLIA . mas não dá nada a troco de nada: “Eu devolvo a você o tempo perdido.. Temos de imaginar esse ambiente. sou um cara essencialmente urbano. a partir daí. O culpado seria o latifundiário. dar mais riqueza visual ao seu trabalho. injustamente. GARCÍA MÁRQUEZ .Há uma pergunta que continua sem resposta: como é que João chega à fábrica? E outra.

à lógica do espelho... ROBERTO - E uma estética que responda a essa idéia. Não é uma estética fantasiosa, mas tampouco é naturalista. GLÓRIA - E para isso, uma fábrica de espelhos até que seria bom. GARCÍA MÁRQUEZ - Para que todos ficassem loucos. ROBERTO- Eu acho que o cinema não agüenta outro espelho... GARCÍA MÁRQUEZ - Seja como for, está claro que João fica preso num labirinto, numa situação que o conduz, inexoravelmente, ao empresário. ROBERTO - Ao contrário: permite ao empresário atenuar seus remorsos com João. A outra coisa seria que João se empenhasse em fugir, em se afastar o máximo possível da fábrica, e que no fim terminasse matando o empresário. GARCÍA MÁRQUEZ - Uma vez mais, a Morte em Samarra, a história de uma fatalidade. SOCORRO - E se João soubesse, desde o princípio, não só quem é o empresário, mas também que ele matou o juiz... ROBERTO - Bem, aí o filme - ou pelo menos, o filme que eu vejo - não teria sentido. CECÍLIA - Seria O Conde de Montecristo de novo. GARCÍA MÁRQUEZ - O empresário acha que a história que João conta, dizendo ser neto de seu amigo, é verdade. Tem que ser um momento impressionante, porque o empresário está vendo com seus próprios olhos, naquele jovem de vinte e cinco anos, a imagem viva de seu amigo, tal como era quando foi traído pelo próprio empresário. Para ele, o jovem João é uma aparição. Olhando bem, é como se a Morte também aparecesse para o empresário. Nesse momento, quantas perguntas não passarão pela sua cabeça? DENISE - E se João matasse o empresário sem querer, como Édipo matou o pai? SOCORRO - Consumaria a vingança sem querer - só à última hora perceberia -, e voltaria para a cadeia. A morte teria dado a ele, nesse caso, o contrário do que prometeu: um breve prazo para que pudesse se vingar. GARCÍA MÁRQUEZ - É preciso tomar cuidado, para que o essencial da historia não seja alterado. Nossa função é acrescentar idéias para que a história acabe sendo o mais coerente e atrativa possível. DENISE - Tudo parece indicar que ninguém gosta da forma em que o encontro na fábrica acontece. SOCORRO - A fábrica está bem. O que está mal é que o ex-amigo de João, seu cúmplice, o culpado pelo seu destino, seja o gerente ou o dono.

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GARCÍA MÁRQUEZ - Roberto acaba de dar uma informação nova: a fábrica foi concebida com uma ótica, como direi?, um pouquinho biruta, situada um milímetro além da realidade. Essa fábrica pode se prestar para um tratamento visual estupendo. Visual e também dramático. Nessa atmosfera, o encontro de João com o culpado deve permanecer puramente casual. Vai ver, o cara é um cliente que chega para fazer um pedido de compra, é levado para conhecer a oficina, e mostram a ele o trabalho dos operários qualificados. Nós sabíamos desde o princípio que nesse encontro não há nada de casual, e que a Morte se encarregou de organizar tudo. A Morte é melhor narradora do que a gente pensa. Não vai cometer o erro de levar João até essa fábrica, quando João sai da cadeia. Ao contrário, a Morte deixa João à vontade, solto. E João vai parar lá, do jeito que ela tinha previsto, por sua própria conta. REYNALDO - A encenação poderia ser esta: na fábrica, João sente um murmúrio às suas costas. Olha e vê a Morte, que por sua vez o está observando. A Morte, então, olha para a porta principal. Seguimos seus olhos e vemos o cliente entrando, acompanhado pelo capataz. João, claro, o vê também, e tem um palpite. “É ele”, pensa. GLÓRIA - Aí fica em evidência o papel insidioso da Morte. Ela está preparando uma armadilha para João. MANOLO - Está, simplesmente, fazendo João passar por uma prova. GARCÍA MÁRQUEZ - E o cliente, pelo menos aos olhos de João, tem um ar misterioso, alguma coisa que provoca receio. Ainda não sabemos nada do passado de João, mas de algum modo estranho associamos o recém-chegado com ele. Recordo a história do camarada que vai vai entrar num ônibus, e o chofer diz a ele: “Só tem lugar para um”. Bem, ele é um, mas o chofer falou com uma cara, e num tom, que fez com que o sujeito automaticamente desistisse de subir. O ônibus continua seu caminho e, ao dobrar uma esquina, bum!: explode. O que havia na cara do chofer; o que ele viu nela, que produziu essa recusa por parte do homem que ia entrar no ônibus? ROBERTO - Esse é o tom que eu quero dar ao filme, como se fosse de máscaras, uma brincadeira de disfarces. GARCÍA MÁRQUEZ - Se na primeira vez que João encontra o sujeito visse o camarada por um espelho... Não. Não serve. É um recurso técnico e estamos buscando outra coisa, e em outra direção. O que devemos ter em conta é que os distintos níveis da história - dramatúrgicos, técnicos, estilísticos, de tom... - têm que ser coerentes entre si. ROBERTO - Quando João, no bar, vê a Morte pela primeira vez, falando

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com ele do fundo do espelho, o espectador não deve saber se se trata de uma alucinação ou de algo real. Essa imagem é impactante, e acho que devemos mostrá-la mais uma vez. GARCÍA MÁRQUEZ - Sua identidade deve ficar bem estabelecida. Que todo mundo saiba que é a Morte. Se você pudesse apresentá-la na forma do esqueleto com sua foice na mão, melhor. ROBERTO - A imagem da Morte é uma leve deformação da do próprio João. REYNALDO - “Somos nós mesmos a nossa própria morte”... Quevedo. ROBERTO - Quando é feito o acordo, cortamos, e vemos João saindo do bar com quarenta anos a menos. Não acho que seja necessário mostrar o processo de transformação. Além disso, não gostaria que fosse como no caso do lobisomem do cinema americano, aquela coisa de começar a surgir pêlos e a crescer unha e tudo isso... GARCÍA MÁRQUEZ - O Médico e o Monstro... O Lobisomem Americano em Londres. ROBERTO - João sai do bar transformado em jovem. É estrangeiro na cidade. Em quarenta anos, muitas coisas mudaram: os automóveis são diferentes, as pessoas se vestem de outra maneira... Para o jovem João, tudo é insólito, inquietante... MANOLO - Não viu televisão durante esses anos. Ou o filme acontece antes dos anos cinqüenta... GARCÍA MÁRQUEZ - Essa sensação de estranheza nós poderíamos compartilhar, mais ou menos, com João - pela expressão de seu rosto, por seus gestos... -, mas não chegaremos a conhecer sua verdadeira dimensão. Isso, só ele sabe, em seu coração. DENISE - Por que sabemos que João faz um pacto com a Morte e não com o Diabo? ROBERTO - Pelas condições do acordo. E pela graça que é concedida a ele. GARCÍA MÁRQUEZ - Bem, o Diabo poderia fazer exatamente a mesma coisa... GLÓRIA - Este interlocutor tem poderes benéficos. Poderia também ser Deus... GARCÍA MÁRQUEZ - Bem: seja Deus, o Diabo ou a Terra do sol, a verdade é é que isso por enquanto, não é problema nosso. O nó desta história continua onde estava: no momento do encontro. Porque é aí onde temos que ficar sabendo desse passado que João se comprometeu a esquecer.

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ROBERTO - O empresário pode dizer a João que conheceu o seu avô, etc., mas não vai entrar em detalhes. Por isso, pensei nos recortes de jornal. Ali estaria tudo que precisamos saber: o assalto, a morte do juiz, a captura de João, a fuga de seus cúmplices, a quantidade de dinheiro roubado... SOCORRO - Ah, eu tinha esquecido: claro que chegaram a roubar o dinheiro... E, claro, não deram a João a parte que correspondia. MARCOS - E você queria o quê? Que ele levasse o dinheiro para a cadeia? GARCÍA MÁRQUEZ - Isso não muda o essencial. Nosso problema agora é ver como damos a informação necessária. E, por favor, vamos tentar não recorrer ao flashblack. SOCORRO - No bar, antes que a Morte apareça, João está confuso, e recorda o momento do assalto, quando foi preso. Ou talvez escute em off a voz do promotor durante o julgamento... DENISE - Suas recordações atravessam o espelho... GARCÍA MÁRQUEZ - Não vamos deixar os espelhos se transformarem em telas ou em projetores do passado. GLÓRIA - Quando vemos João saindo da cadeia, como sabemos quanto tempo durou a sua pena? Quem se encarrega de nos informar? GARCÍA MÁRQUEZ - Acho que, para dar a informação de modo verossímil, é é preciso aproveitar a conjuntura do encontro. Claro que com um flashback tudo seria facílimo, mas eu gostaria que pudéssemos evitar esse recurso. Não apenas por ser tão desgastado, mas porque não corresponde a este tipo de dramaturgia. REYNALDO - É uma questão de pureza de estilo? GARCÍA MÁRQUEZ - Não. É que se utilizarmos a flashback, o espectador inteligente, perceberá, em seguida, que não conseguimos pensar em nada melhor. Nos últimos meses, andei trabalhando num roteiro que se refere muito ao passado e, mesmo assim, não há nem um único flashback. É a história atual de uma relíquia de outros tempos, uma prostituta aposentada que teve seu momento de Glória em uma cidade que não existe mais: a Barcelona da época dos anarquistas. Sua zona de operações era o Paralelo. Como ver essa vida e essa época sem utilizar pelo menos dez retrospectivas? Acho que foi Lichi quem teve essa idéia. seduzem a velha para que ela se apresente num programa popular de televisão, um programa de entrevistas que é transmitido ao vivo. E aí começam a perguntar à velha: “Como a senhora chegou aqui?” E a velha com toda ingenuidade: “Bem, eu era uma menininha de doze anos em Pernambuco, e um marinheiro turco me comprou e me trouxe até aqui e me deixou no

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Vemos João. não há nenhum flashback em todo o filme.. mostrando seu protesto: “Juro por Deus que sou inocente!”. dizendo porque João está sendo condenado. já transformado num ancião. aquele rolo jurídico enorme. e eles precisam cortar o programa e enfiar os anúncios num intervalo inesperado. E a velha começa a lembrar e a contar. etc. naquela época?”. três minutos. João Cabral. É pura preguiça. no máximo. “E como era a cidade. João. é se contentar com o banal. então fazemos com que os entrevistadores comecem a se meter na vida pessoal da velha e ela. com uma frase. durante o assalto ao banco tal. Primeiro.”.era um dos seus cúmplices e ao que tudo indica. com umas poucas frases. ainda jovem. O personagem da velha é estupendo: se apresenta. ofendida..Para que vamos desperdiçar os dois ou três minutos dessa primeira seqüência? João pode exclamar de repente: “Agüentei quarenta anos de cadeia!”. porque acho que apelar para o flashback é entregar os pontos da imaginação. em direção ao porto.Paralelo. e que esse homem que estamos vendo . para dar ao programa uma certa tensão dramática.. E João quer se vingar dele.. Sem recorrer ao flashback. gerente. vão fazendo a ela uma série de perguntas impertinentes tentando remexer sua vida privada.. condenamos o acusado. 142 . está resolvido o problema. muito assim tipo grande dama.Eu não acho que para dar um veredicto a gente precise ler a sentença inteira. Bastam dois momentos. à prisão perpétua..ou seja. mas os entrevistadores. o que a gente precisava para justificar. pelo assassinato do juiz Fulano de Tal. e é suficiente para dizer tudo. Depois. manda tudo à merda.dono. membro do Supremo Tribunal. Quando a gente faz isso pela primeira vez. muito maquiada. acaba se sentindo no direito de fazer uma segunda. O que o espectador precisa saber é João foi acusado por um crime que não cometeu. SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ . no programa. saindo da cadeia.. o assassino. Confesso que me senti muito satisfeito. A entrevista dura. cliente ou empresário . quarenta cinco anos depois. Barcelona era uma beleza! Quando você descia pela Rambla. em termos dramáticos. e depois uma terceira. Corte. Mas quando disse o que tinha a dizer . SOCORRO . Em resumo. falando com muita autoridade sobre a belle époque. come o fácil. “Ah... termina mandando todos eles à merda.”.Não vejo porque temos que começar com a saída da prisão.. a história -. que tem sua dignidade. podemos começar com o veredito nos tribunais. ao vivo. O secretário do tribunal lê: “. e pronto. realizado no dia tal do mês tal deste ano”. está de pé entre dois guardas esperando a sentença.. e a velha.

GARCÍA MÁRQUEZ . qualquer coisa. A história foi assim: eles entraram no banco.. ROBERTO . portanto. o empresário já não tem nada a pagar. mas precisamos saber: Ou será que..Já estamos acostumados a pensar em voz alta. mas o terceiro. não eram delinqüentes comuns. Não devemos nos inibir.Porque não era um trio de profissionais. Maior bobagem que o ovo de Colombo.Tem uma coisa aí que.. O delito prescreveu depois de sei lá quantos anos... não ficou clara: as pessoas 143 . GARCÍA MÁRQUEZ ..E é assim que deve ser: Até as bobagens devem ser ditas. Aquele era o primeiro assalto que faziam. GLÓRIA . em uma pequena cidade do interior que. GARCÍA MÁRQUEZ .Eu tinha a impressão que sobre isso já havíamos falado tudo que era para ser dito. São três sujeitos que assaltam um banco.Mas a sugestão é válida. teremos de esperar pela estréia do filme? ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . no entanto. A polícia não tinha nem ficha deles.Isso me faz lembrar daquela inesquecível observação de Bertold Brecht: “Qual a diferença entre assaltar um banco e fundar um banco?”. os rostos cobertos por um lenço ou uma máscara. aqui. DENISE . MARCOS . e. Podemos dizer que provocou a própria morte.O delito prescreveu não apenas pelo tempo que passou.ROBERTO . Foi morto pelo nervosismo dos assaltantes. ROBERTO . MANOLO . Existe até um gênero de cinema só para eles. tentou fazer alguma coisa: protestou. Dois dos assaltantes conseguem fugir.. tentou sair. a gente diga tudo que nos passa pela cabeça. João. decidimos chamar de Bonaire. Não vamos usar isso. para mim..Do ponto de vista jurídico. O único problema que resta..Um problema de consciência. uma pessoa muito conhecida e respeitada na cidade. GARCÍA MÁRQUEZ . é de ordem moral. porque às vezes é delas que sai a luz.O juiz que foi morto no assalto era um cliente do banco. conseguiram se apoderar de um saco de dinheiro e justo naquele momento o juiz faz um escândalo e espalha o pânico. cai nas mãos da polícia. se não me engano... por medo de dizer bobagens. para saber isso. ROBERTO . mas também porque alguém pagou por ele.Tribunal e veredicto são dois recursos mais que manjados..ROBERTO.Não. Convém que. Escandalizado pela tentativa de roubo. é absolutamente necessário saber o que aconteceu quarenta e cinco anos atrás.

quarenta e cinco anos antes seria. o 144 . para que quando o submetam à prova da parafina. a do sujeito que já estava no banco.São elementos soltos. em cima do balcão.E se a gente nunca soubesse quem é o culpado? O filme seria a história de uma dúvida. que podem ser incorporados ou dispensados. Não prestaram nenhuma declaração a respeito? Não disseram que o que havia atirado era outro. VICTORIA .Dos três assaltantes. O outro assaltante não saberia de nada. a polícia chega.que estavam no banco na hora do assalto viram um dos assaltantes atirar no juiz.não seja um dos assaltantes. porque trabalhava lá. DENISE .. Não. As coisas se estropiaram depois.Como ele consegue fazer isso? Onde esconde a sacola? Como tira o dinheiro? Se ele trabalha ali. A operação é realizada e.. cometeu desfalque.Não seriam membros de algum grupo político? Vamos ver. trabalhador do banco. E o sujeito.. e no final fica sozinho com o dinheiro. Proponho que o traidor . Dá aos parceiros a informação necessária para assegurar o êxito da operação.o atual empresário . Na confusão enquanto João cai ferido e o outro foge . mas quando o sujeito já está com o dinheiro dentro da sacola. SOCORRO . O cara trabalhava no banco. não pode sair do banco. não poderão descobrir o desfalque. um fica esperando no carro. no carro. Precisa fazer isso. e depois viram que um deles era preso. trairia João. E é aí que despejam nele a culpa pela morte do juiz. como Glória propôs. dois entraram no banco e um ficou fora.João também atira quando vê a polícia chegando. na hora da verdade.Outra possibilidade: o futuro empresário. Quando estão saindo com o dinheiro. e João e seu amigo executam a ação. embora tenha sido cúmplice. As coisas ainda não tinham se estropiado. de algum modo. GARCÍA MÁRQUEZ .o camarada esconde a sacola. VICTORIA .E além disso.. O sujeito seria o cúmplice de João. começo dos anos quarenta. Um dos dois mata o juiz.. Mas a idéia é boa.Se eram três cúmplices. Ferem e prendem João. MANOLO . mas os outros dois conseguem fugir. e como nunca se saberá quanto dinheiro foi levado. e não o preso? GLÓRIA . MANOLO . João sabe que foi o outro. ele toca uma campainha de alarme e a polícia aparece. o resultado seja positivo. Tudo dá certo até que no último momento..Eu também vou sair um pouco do esquema. ROBERTO . Seus amigos dizem a ele que não se preocupe: eles assaltarão o banco. esperando para a fuga. quem mata o juiz? GARCÍA MÁRQUEZ .

Estamos tentando esclarecer algumas coisas.. O que importa é a morte do juiz. Os dois caras falando e olhando-se nos olhos. o empresário ou o cliente diz ao jovem João: “Coitado do seu avô. é o momento-chave. Isso deve se reservado para o final. sério. E se nos pressionarem. responde João. É um desafio do tipo criativo.. canalha!”. A própria discussão. se for comparada a outras que tivemos.Lamento ter trazido uma história tão fechada. “Foram as más companhias.camarada trai João. GARCÍA MÁRQUEZ . foi menos produtiva. GARCÍA MÁRQUEZ . Isso empobrece a dinâmica do trabalho.. porque nesse assunto.vou pensar muito bem a cena do encontro. custou anos de cadeia para ele. GARCÍA MÁRQUEZ . Foi você. não é? Portanto.. Caramba! 145 . O que acontece é que os alunos nem sempre trazem um argumento. onde fazemos tudo que nos for pedido: adaptações-escaletas.. Uma Oficina para todos os gostos.A idéia original da Oficina é partir de um argumento para armar com ele. GARCÍA MÁRQUEZ .Tem alguma coisa. O que será? GARCÍA MÁRQUEZ . não”. em toda essa história. que João ignora. E até em mim . E João. naquele assalto lamentável”. que falta um elo fundamental do processo dramático. no entanto..Para mim. também filmamos. “Azar. Foi uma bobagem atirar no juiz. João descobre. E de repente. nós somos da pesada. Enfim. argumentos a partir de imagens. mais é mais divertido.Mas isso não pode acontecer no encontro.. porque você o traiu. olhando-o nos olhos: “Não foi ele quem disparou.. pode ser que não seja o melhor método. ROBERTO .. Não dá para resolver tudo ao mesmo tempo. tenho certeza de que vamos achar a solução.. Uma coisa que ele não sabe o que é e que. Fulano”. “O coitado do seu avô teve azar”. REYNALDO . ROBERTO . ROBERTO . quarenta e cinco anos depois do assalto. meu grande amigo.O roubo pode ou não ser consumado. porque falta flexibilidade na minha proposta. a estrutura de um média-metragem.E agora. Às vezes trazem uma história já estruturada.O importante é saber isso. tinha um jeito tão impulsivo. ao longo do debate. SOCORRO .admito – faltou flexibilidade. diz o magnata. outras vezes trazem a imagem de uma mulher na praia vendo chegar um helicóptero.

GLÓRIA . Mas. GLÓRIA . GLÓRIA . E o líder sindical. mata. que um homem. é membro de uma organização pacífica. claro. em algum lugar afastado. É isso? Ah. GARCÍA MÁRQUEZ .Eu comentei as mudanças com o resto do grupo. Glória.Você me convenceu: uma mulher é muito mais capaz de fazer tudo isso..Ele. é agora o dirigente dessa organização.SÉTIMA JORNADA DE TRABALHO Recapitulações. GARCÍA MÁRQUEZ . ela é a terrorista. Ele trabalha num escritório.GLÓRIA tem uma surpresa para nós.Ah.E o professor. ela é a violinista. e começam a trocar impressões: “Quer dizer que você agora é santo? Que 146 . mente. GARCÍA MÁRQUEZ .Nenhuma mudança a mais. poderíamos fazer uma história de histórias. eu sabia que essa galega era perigosa! Mudou a história sem pedir licença.Mudou? De que jeito? GLÓRIA . quem vai garantir para a gente que amanhã você não muda de idéia outra vez? GLÓRIA .Agora. lembram?. cadê? Não vale.Todo o resto fica igualzinho.. a sangue-frio. GARCÍA MÁRQUEZ . e era mentira! Agora ela mata o marido. coloca uma bomba no estojo. Ele vai ser sacrificado.O que muda é a ocupação dos personagens. você nos enganou! Você nos fez acreditar que confiava nos homens.. A história fica assim. GARCÍA MÁRQUEZ . mas acontece que agora é ela quem faz tudo: toca o violino... GARCÍA MÁRQUEZ .Mudei a história do violinista.. GLÓRIA . Todo mundo gostou..A primeiro violino sempre chega tarde.Igual.. Ah!.. GLÓRIA . e vai fechar um importante evento pacifista. Agora. com todos os personagens reunidos.. o marido. pede ao pobre coitado que leve o violino ao teatro. II SOCORRO .No fim. GARCÍA MÁRQUEZ . eu mato você. Os personagens saem de seus respectivos filmes e se encontram de noite.

virei puta”.Travesti love 147 .. amores equivocados.. GARCÍA MÁRQUEZ . que não encontrávamos pontos de comparação. “Pois eu quero ir lá na Oficina. dando a cada personagem o papel que ele gostaria de interpretar. nem sempre é fácil escolher. Mas.maravilha! Eu. Às seis da manhã do último dia. na verdade. Fitzcarraldo. voltando ao assunto. em qualquer filme. tranqüila. A seis da manhã do último dia. com matizes. E um belo dia. desistimos: “Ex aequo”. “Vocês acham justo? Minha mulher me mata com uma bomba e fica lá. deveria ser fácil escolher. Mas o problema consistiu. Lembro de quando fui presidente do júri no Festival de Cannes. que naquele ano houve filmes excelentes: A Noite de São Lourenço.. Amores equivocados . tivemos que nos dar por vencidos. para ver se em vez de ser psicóloga posso ser locutora de televisão”. principalmente. uma debilidade do júri. Os filmes já não são em preto e branco..Estou louco para ver esse filme! MANOLO . é uma situação: o conflito de uma moça que sofre do mal de amor.. doze ou treze protagonistas. em 1982: eu achava detestável esse negócio de dividir um prêmio. O que tinha acontecido? Primeiro. GARCÍA MÁRQUEZ . para mim. Quando a gente tem várias opções pela frente e fica sozinho no quarto começa a pensar. já imaginou? MARCOS . sempre existe um elemento que determina a preferência de cada um..Melhor ainda. Vamos ver. e o júri se dividiu: os dois grandes finalistas eram Yol e Desaparecido. Um filme com dez. chegou a hora de decidir. Tão diferentes.. Eu tinha aceito o convite justamente quando soube quais os filmes que iam competir: E pensei: “Vai ser ótimo”. em compensação.Mais que uma história.Eu compreendo a GLÓRIA. tocando violino”.. em Cannes. na natureza dos dois grandes finalistas: eram filmes totalmente diferentes.Amores tempestuosos? DENISE . Achava que em qualquer obra. Agora são a cores. portanto. e. era muito difícil dizer porque um filme era melhor que o outro. mas nem sempre dá. GARCÍA MÁRQUEZ ..Para a gente.. Precisamos fazer um filme assim.Eu diria. O prêmio ex aequo sempre foi. é verdade. DENISE: o que você tem aí? DENISE .

Terê dá algumas opiniões e ele se pergunta: “Quem será essa menina?”. É uma boa atriz. E o que acontece nesse primeiro encontro é um amor à primeira vista. Terê.Henrique.. Mas a situação do primeiro dia se repete nos dias seguintes. GARCÍA MÁRQUEZ .. tem trinta e cinco ou quarenta. Ela aceita sem titubear. uma principiante que passa a ser chamada por Henrique. conversam. Não sei direito o que acontece depois. GARCÍA MÁRQUEZ . se pergunta se não será por culpa dela. de “'Terê”. Terê desesperada. Nesse primeiro dia. um ator famoso. Ele mesmo confessa. E pouco a pouco. descobrem quanta afinidade existe entre eles. mas sei qual é o desenlace: Henrique começa de repente a sair com uma mulher lindíssima. atraente.É melhor trinta e cinco. Está impressionado com ela. muito feminina. não apenas porque ele é uma estrela. nem mesmo se beijam. mas porque é seu ídolo.E você diz que isso é uma situação? A história está aí. adota atitudes masculinas. DENISE . sem querer.A história está aí. É dez anos mais velho que ela. num teste de atuação: o diretor está testando candidatos para um dos papéis femininos da próxima peça. é inteligente. Terê acha que Henrique é tímido e que precisa de tempo para se lançar..DENISE .. Terê começa a freqüentar os lugares onde Henrique costuma ir à procura de aventuras homossexuais. linda. inteirinha! Diga uma coisa: o amor à primeira vista é recíproco. Terê se aproxima tímida de Henrique. mas pelo simples desejo inconsciente de agradá-lo. ou seja. GARCÍA MÁRQUEZ . Henrique convida Terê para ir até a casa dele. começa a se transformar num menino: corta os cabelos. GARCÍA MÁRQUEZ .Tem de ser. foi perdendo sua identidade e acredita que é um rapaz: ficou louca. Ele é dez ou quinze anos mais velho. que um dia Henrique a viu e não a reconheceu. embora não tenha experiência.Isso não é tudo. mas quem começa? Quem quebra o gelo? DENISE . Não fazem amor. Henrique e Terê se encontram pela primeira vez num ensaio. e Teresa de Carvalho. enquanto isso. Henrique leva Terê ao seu apartamento de solteiro? 148 . Tem vinte e cinco anos. Na verdade. logo de saída. No ensaio. Quando saem do teatro.A ação se desenvolve no Rio de Janeiro. mas sua atitude com ele não mudou por causa disso: estava realmente apaixonada. mas isso é tudo. tomam drinques. Os protagonistas são gente de teatro: Henrique Duarte. até descobrir que Henrique é homossexual. Terê chegou a suspeitar... não é? DENISE ..Interessante. puro Cupido. Agora teme ficar louca.. e além disso. O aspecto exterior de Terê mudou tanto. Ouvem música.

A cena de amor poderia ser uma fantasia erótica da moça. Eu me pergunto: depois de uma cena dessas. o que ocorre no teatro não precisa necessariamente ser um teste: pode ser um ensaio. Claro que Terê consegue o papel. se conhecer . DENISE . na primeira candidata ao papel. a aproximação dos dois? GARCÍA MÁRQUEZ . REYNALDO . A primeira candidata é uma moça que. uma peça de teatro. A questão é que ela não serve. Cheguei inclusive a pensar que Terê desiste de trabalhar na peça só para ficar ali. REYNALDO . Então. Eles já estão ensaiando. Terê não desistiria de trabalhar na peça. conversar um pouco. Que coisa maravilhosa. GARCÍA MÁRQUEZ .. seria clássica ou contemporânea? GARCÍA MÁRQUEZ .A cena de amor não termina com um beijo? Na outra moça. não será difícil resolver. um certo desgosto... Terê é a protagonista. GARCÍA MÁRQUEZ . ou se porque Henrique quis que o papel fosse dela. DENISE .. O teste é interpretar essa cena com Henrique.Leva. é a separação. não é? São várias candidatas. DENISE . Henrique dá um ósculo. noite após noite. essa cena de amor com ele. ou pareça falso. a partir do momento em que pronuncia as primeiras palavras. visualmente.. nas poltronas.O importante é que a gente veja o beijo.Que beijo? GARCÍA MÁRQUEZ .. um beijo 149 .Será do jeito que a gente quiser. e Henrique fica olhando para ela. A cena parece real.Se for assim. Talvez o tom de voz da moça seja muito declamatório.Na sua história não é a aproximação que importa. e recomeçar..Terê está sendo testada para o papel. mas não demora para a gente descobrir que é uma representação. mas nunca saberemos se conseguiu porque era a melhor.DENISE . causa uma reação negativa em Henrique. DENISE . Aquilo é uma declaração de amor autêntica.O conflito da peça deve ser análogo ao que Terê e Henrique vão viver: Além disso.. poder inventar a vida! REYNALDO . Ela abre a boca e sorri.Suponho que a peça de teatro que estão ensaiando terá alguma relação com o conflito que os dois irão viver. enfeitiçado. mas antes os dois vão a um bar para beber alguma coisa. contemplando Henrique durante os ensaios.O filme tem de começar com uma grande cena de amor entre Henrique e Teresa.Não sei ainda.A peça de teatro. GARCÍA MÁRQUEZ . é a vez de Teresa.

. deixamos claro que ele é um ator muito conhecido.. sendo Homossexual. Terê não desconfiaria que ele é homossexual? GLÓRIA . obrigado. O pobre do Redford. por favor”. Ela aceita.Vou avançar nessa idéia. Um belo dia estávamos andando de automóvel .. e se ele assumisse isso cem por cento.E um homossexual atípico. Ele. Está abrindo uma exceção.Terê não sabe que Henrique é. Ninguém ficou sabendo a verdade. Terê sai do teatro como se flutuasse nas nuvens. Ouvem-se murmúrios.E o grande Henrique Duarte também sai.No final. disse: “Vou com você”.. que é muito tímido. Henrique. É uma coisa que a gente vai adiar.Não é paixão demais para um homossexual? CECÍLIA . parecia machão nas telas. E convida a moça para celebrar o triunfo.falso. DENISE . GARCÍA MÁRQUEZ .. explicaria o amor à primeira vista? Ou terá sido uma simples reação química? GARCÍA MÁRQUEZ . senhorita. Aliás. O cara gosta de motos.Um ator famoso. com tanta gente correndo atrás. DENISE ..Certo. assisti a uma cena como essa acontecer com Robert Redford. ROBERTO . e alcança Teresa de Carvalho e diz 'parabéns'. MARCOS .ele ia dirigindo -.. Não pode saber. dos jovens motoqueiros com suas jaquetas de 150 . Mas na hora da Teresa. GARCÍA MÁRQUEZ . Nunca imaginou que uma moça como ela provocasse essa impressão no grande Henrique Duarte. A próxima.. e chegam a um bar onde se arma um grande alvoroço quando Henrique entra.Rock Hudson. Uma mulher como ela. e o diretor tem que bater palmas duas vezes e gritar: “Obrigado. Coitado! Vocês não imaginam o que aconteceu quando entramos no tal lugar. quando tive a idéia de comprar lembro o quê. e uma jovenzinha se aproxima dele para pedir um autógrafo.. SOCORRO . para poderem conversar tranqüilos. que está metida até o pescoço nesse mundo. que tem a ver com a transformação de Terê. quase morreu asfixiado. E agora podemos insinuar que ele não costuma levar mulheres à sua casa.Talvez por isso Henrique propõe a Teresa que é melhor tomar alguma coisa na casa dele. até que ele mesmo declarou que estava com Aids.Mas se ela soubesse que Henrique homossexual.Nesse caso. Porque é evidente que ela conquistou o papel. atriz. Com isso. DENISE . como se. GARCÍA MÁRQUEZ .Não sabe. não saberia? DENISE . vai ser um homossexual encoberto? É difícil. muito cordial. e ponto.. nem ignora.

couro. GARCÍA MÁRQUEZ - E quando chegar o momento, Terê vai comprar uma moto. Através de sua relação de amizade com Henrique, ela vai conhecendo os gostos dele, o tipo de efebos que o interessam. Henrique é seletivo. Terê vai se esmerar para encarnar o ideal masculino de Henrique. SOCORRO - Parece conveniente que, na primeira vez que os dois se encontrarem no apartamento dele, Henrique tente uma relação sexual com ela. DENISE - É obrigatório que ele tente. Ela tem certeza que os dois vão acabar na cama, e não disfarça. SOCORRO - Quando Henrique não consegue, ela acha que é por causa da tensão, do nervosismo da primeira vez. ROBERTO - E na segunda vez? Ou não vão acontecer novas tentativas? GARCÍA MÁRQUEZ - Não vamos nos precipitar. A coisa mais difícil era dar a informação prévia: que Henrique é um ator famoso, que Teresa é uma atriz bela e talentosa, mas sem experiência, e que entre os dois estalou um amor à primeira vista. Isso já está colocado. Em menos de dois minutos conseguimos dizer quem são os personagens e em que situação eles estão. A única coisa que ainda não sabemos é que Henrique é homossexual. Não é preciso dizer, nem deixar de dizer; vamos deixar as coisas fluírem, e esperar momento da revelação quando Terê percebe qual o tipo de rapaz que interessa a Henrique, e ela mesma começa a se transformar. O filme é esse, e não outro. DENISE- O que eu tenho até agora é: primeiro, Henrique e Teresa se encontram e surge um amor à primeira vista; segundo, eles percebem que têm uma grande afinidade e muitos interesses em comum; terceiro, não conseguem fazer amor de maneira satisfatória, embora ele tente; quarto, ela descobre que ele é homossexual, ou o próprio Henrique conta; e quinto, ela decide se transformar para conquistá-lo. GARCÍA MÁRQUEZ - Na terceira vez que Henrique a procura e torna a tentar em vão, Terê tem que chegar à seguinte conclusão: ou ele é impotente, ou então, é homossexual. Eu acho que o próprio Henrique confessa. Além do mais, nesta época, e nesse meio... Por que nos negamos a ver Henrique do jeito que ele é, maduro? Estamos tratando Henrique como se ele fosse um jovem meio sem jeito, inexperiente... SOCORRO - Ele é homossexual mas está apaixonado por Terê... Além disso tem um amante, um rapaz. Esse é o conflito de Henrique. GARCÍA MÁRQUEZ- Na primeira noite, quando saem do bar, Henrique não leva Terê ao seu apartamento: eles vão para a casa dela. Terê não tem

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automóvel, Henrique oferece uma carona: “Posso levar você?” Diga uma coisa, DENISE: Henrique tem um motorista, ou ele mesmo dirige um carro esporte? DENISE - Um carro esporte... E ao chegar ao prédio de Terê, ela diz: “Vamos subir?”. GARCÍA MÁRQUEZ - Ao sair do bar entram no Porsche de Henrique, e ele pergunta a Terê: “Levo você até a sua casa?”, e ela responde: “Como você quiser”. Ele pergunta: “Onde você mora?”, e Terê percebe, na mesma hora, que o assunto terminou aí. Pelo menos, por essa noite. ROBERTO - Nesse momento, Terê leva um banho de água fria... GARCÍA MÁRQUEZ - O diálogo deles poderia se desenvolver em ambientes diferentes, durante o curso da noite... Henrique pergunta uma coisa em um bar, e Terê responde já em outro. O diálogo é contínuo, mas os cenários mudam. ROBERTO - É preciso mostrar esse processo até o fim. Se cortarmos para o dia seguinte, o espectador pode pensar que eles dormiram juntos. GARCÍA MÁRQUEZ - O diálogo não pode deixar nenhuma dúvida, é como quando a gente convida uma moça para ir ao cinema e ela responde: “Hoje não, porque estou menstruada”. Tem de ser assim, brutal. “Onde você mora?”. “Em tal rua”. Ele pára na frente do edifício. “Até amanhã”, “até amanhã”. Estamos contando o filme do ponto de vista de Terê. MARCOS - A noite acaba aí, mas no dia seguinte, Henrique diz a ela que gostaria de apresentá-la à mãe. Vão até a casa da mãe dele, almoçam, e a velha está contente, porque é a primeira namorada do filho que ela conhece. GARCÍA MÁRQUEZ - E se a mãe soubesse que o filho é homossexual e sem querer, no meio da alegria, desse uma pista a Terê? CECÍLIA - As ruas ficam sozinhas, e a mãe aproveita para dizer a Teresa: “É a primeira vez que Henrique traz uma namorada em casa. Você não sabe como eu estou contente. MARCOS - As mães nunca sabem. Ou são as últimas a saber. GARCÍA MÁRQUEZ - Quem disse isso? As mães sabem, sim, e além disso, ajudam. É um modo de manter os filhos amarrados. MARCOS - A família de Terê preferiria que ela não fosse atriz. É uma família mais ou menos burguesa... DENISE - Faz tempo que Terê não mora mais com a família. Ela divide o apartamento com uma amiga. GARCÍA MÁRQUEZ - Tome cuidado para que não pensem que ela é lésbica. Em meia hora é tão difícil dar todas as explicações, que a gente não

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pode se dar ao luxo de cometer nenhum erro. DENISE - A casa de Terê fica no caminho entre a de Henrique e o teatro. Por isso, naquela mesma noite, ele pode dizer a ela: “Quer que eu pegue você amanhã, quando passar por aqui?”. GARCÍA MÁRQUEZ - E no teatro repetem a mesma cena de amor, de novo m um ao outro, imaginariamente... O ensaio acaba e Henrique diz a ela: “Quer uma carona?”. ROBERTO - A cena de amor poderia ser mostrada várias vezes, e a última, ter um toque diferente. Alguma coisa passou nesse meio tempo, alguma coisa se rompeu entre eles... GARCÍA MÁRQUEZ - Sempre a mesma cena, o mesmo beijo. A cada dez minutos, de novo: três vezes a mesma cena no filme... CECÍLIA - A história parece feita de repetições, porque a frustração do primeiro dia também vai se repetir: Henrique deixa Terê na casa dela, ou leva Terê até o seu apartamento de solteiro e tenta fazer amor, sem resultado. GARCÍA MÁRQUEZ - E por que não a leva antes a um bar de homossexuais? DENISE - Depressa assim? Isso é sadismo! ROBERTO - Terê entende que as coisas não podem continuar do jeito que estão, e diz a ele: “Essa relação me faz mal, Henrique. Não quero ver você mais”. E um dia, ao sair do teatro, percebe que há um rapazinho esperando por ele. Talvez tenha esperado em outras ocasiões, mas agora está claro que Henrique vai ao seu encontro. CECÍLIA - Mas eles dois - Terê e Henrique - têm que continuar se encontrando nos ensaios... GLÓRIA - Terê precisa saber desde o começo. É uma coisa que pode ser insinuada desde a primeira conversa, quando juntos percorrem os bares. Porque se ela não soubesse e de repente encontrasse esse rapazinho tão bonito esperando Henrique na saída do teatro... SOCORRO - Pode ser que Terê só queira ter um affaire com Henrique... DENISE - Nada disso. É grande amor mesmo. Uma paixão. Tem que ser assim, para que ela decida se transformar. GARCÍA MÁRQUEZ - Não vamos nos precipitar. Temos que ter tempo para pensar. Um dia, vamos dedicar quatorze horas seguidas ao debate, para liberar energias acumuladas. GLÓRIA - Mesmo que Teresa fique sabendo da história de Henrique, ela não desanima.

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GARCÍA MÁRQUEZ - Em que consiste o drama dela? Consiste em querer conquistá-lo ao preço que for. Quando vê que não consegue como mulher decide agir como homem. É simples assim, do jeito que falei. ROBERTO - Por isso é importante a gente saber antes que tipo de rapazes o atraem. Terê necessita de um modelo. GARCÍA MÁRQUEZ - Tenho uma dúvida aí: quando ela se transformar, como vai poder representar seu papel? DENISE - Isso não é um problema grave. Se ela cortou o cabelo, põe uma peruca na hora de representar e pronto. GARCÍA MÁRQUEZ - E outra dúvida: se o homossexualismo de Henrique fosse público e notório, será que a atitude dela seria a mesma, desde o primeiro dia? DENISE - Eu acho que sim. GLÓRIA - Eu acho que não. ELID - Ela se apaixonou por ele de verdade. GARCÍA MÁRQUEZ - Ela pode saber que Henrique é homossexual e ainda assim alentar a esperança de ter uma relação intensa com ele. O problema é quando descobre que Henrique, apesar dos seus esforços não consegue. DENISE - Henrique não é nenhuma bicha louca. Ao contrário: tem um aspecto muito viril. Suas atitudes são muito masculinas. GARCÍA MÁRQUEZ - Mas deve ficar bem claro que não é bissexual. Ele se apaixonou por ela, à sua maneira, mas não consegue consumar a relação no campo erótico. Isso é que o filme vai contar: como ela decide se transformar para agradá-lo. DENISE - Não se esqueçam de que nem tudo se reduz ao aspecto sexual. Há grandes afinidades espirituais entre os dois. GARCÍA MÁRQUEZ - Tudo isso que dissemos até aqui não é outra coisa além de um prólogo para entrar no assunto. E não podemos continuar dando voltas: precisamos entrar no assunto. DENISE - Eu acho importante ressaltar o fator afinidade, porque sem ele, que outro elemento de atração existiria entre Henrique e Terê? Por que continuam se procurando? Porque naquela primeira noite, quando andaram de bar em bar, conversando, se conhecendo, descobriram que um gostava da companhia do outro.. E isso aconteceu principalmente com ela, que agora não quer saber de outra coisa a não ser ficar ao lado dele. REYNALDO - Se isso não for amor... GARCÍA MÁRQUEZ - Eu estava me perguntando: como poderemos

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se for feito com cuidado – pode acabar sendo comovedor: Trinta ou quarenta anos atrás teria sido um diálogo escandaloso. quer conhecê-lo. Henrique abre o coração para Terê. GARCÍA MÁRQUEZ . terá um ar cotidiano. no sentido bíblico da palavra.Esse diálogo dos dois . É quando a surpreendemos cortando os cabelos.seria uma espécie de anúncio do que vai acontecer na realidade . Agora. vamos dizer. ela quer chegar ao final. mas não como um drama. Quando Henrique abre o peito com Terê. suponho. Terê compreende isso. Poderia revelar coisas muito interessantes sobre o mundo dos homossexuais. mas no fundo não aceita uma situação que afasta Henrique dela definitivamente. DENISE . para estabelecer um vínculo muito forte entre os dois.da ficção teatral . Estilo garçom. “quero apresentar meu galã a você”. ou então. vestindo jeans.. E esse grau de sinceridade serviria. Reconhece seu desejo no desejo dela. etc. 155 . SOCORRO .Ele tem que dizer a Terê que chegou a esse extremo pela primeira vez.como agora acontece com Terê -. realmente. completamente. E é então quando decide se transformar.Eu gostaria que ele falasse do seu homossexualismo com toda a naturalidade.Ela mesma cortando os próprios cabelos. Não é que ele finja querer. como num espelho. com aplausos do público. mas também se realiza. ao mesmo tempo. Eles chegam e dizem. querido..Eu gostaria que Henrique tentasse.marcar a passagem do tempo? E percebo que é fácil: pelo teatro. GARCÍA MÁRQUEZ . Não podemos esquecer que através do homossexualismo Henrique não apenas se dilacera .. vou buscar meu companheiro”. E além disso. “agradá-la”.Henrique tem trinta e cinco anos e nunca sentiu nada parecido em relação a nenhuma outra mulher. quer prendê-la ao seu lado. E que tentasse mais de uma vez. como se dizia nos anos cinqüenta.Dos cinco pontos do meu esquema. E esse final da ficção . na maior tranqüilidade: “Tchau. mas agora. pelas sucessivas apresentações da cena de amor: A última corresponderia à estréia. É que ele quer. SOCORRO . DENISE .a realidade do filme. porque são coisas que vivemos no dia-a-dia com os amigos homossexuais. experimentando uma jaqueta unissex. é porque está se entregando a ela.. que a maioria das pessoas não conhece. o quarto é o que continua mais confuso: como ela descobre que Henrique é homossexual? Ou será que ele mesmo confessa? GARCÍA MÁRQUEZ .

que Henrique se envolva com outra mulher. para tentar prendê-lo. 156 . a transformação dela é brutal ou gradual? DENISE . REYNALDO . DENISE . no final. com seu penteado e sua roupa de homem. mas para ela só importava. mas como mulher. motocicleta. pode acontecer em dois segundos. DENISE . GARCÍA MÁRQUEZ .Pois eu acho que deve ser brutal.Continuo achando que a mudança deve ser gradual. atordoado.Calma. e a conseqüente perturbação de Henrique. SOCORRO . contempla por um segundo. REYNALDO . e assume esse recurso assim. por sua vez. Henrique fica olhando para ela e diz: “Você fica muito bem com esse penteado”. jaqueta de couro. Ainda é muito cedo para saber. GARCÍA MÁRQUEZ . DENISE . “Por que uma mulher tão inteligente como Terê”. É aí que está o conflito.Pensei até que Terê podia chegar a ser abjeta: conseguiria uns garotos para Henrique. por que Henrique não a aceita como a outra parte de um casal? GARCÍA MÁRQUEZ .A história ficaria muito comprida.o mesmo que ele admirou tantas vezes basta para esclarecer o equívoco. numa cena só.. Vamos ver. para o qual ela apela quando não encontra outra saída.Em compensação. de repente e em sua totalidade: cabelos. Bate na porta. por exemplo -. pensa ele. e então ela sorri para ele. e se já é um rapaz ou quase um rapaz. jeans.quando cortar o cabelo.Então. E a gente só tem meia hora.. de verdade. “faz uma palhaçada dessas?”.Esse é o paradoxo: Terê atraía Henrique. eu sugiro o seguinte: quando Terê começar a mudar . GARCÍA MÁRQUEZ . mas por outro lado faz com que ele se sinta incômodo. Parece descabelado.E preciso ver se a história nos leva para esse ponto. Aliás. ver Henrique feliz. Henrique abre.Uma boa pergunta: se Terê realmente muda identidade. saindo com outra mulher? Porque me faz pensar nas fábulas. Esse sorriso .ROBERTO .. a de Terê transformando-se em menino e Henrique. quer fazer uma surpresa para Henrique. a mudança repentina de Terê.Eu gostaria que fosse gradual.Quero fazer um comentário sobre o desenlace proposto por Denise: não acho que seja conveniente. É um recurso desesperado. REYNALDO . Eu os vejo assim: Terê..Sabem por que eu gosto desse final. contente com a própria travessura.

Juntos? Desde o começo? Eu achei que Henrique ia levar Terê à sua garçonnière. e quando vê. colares. 157 . Depois.e Henrique o apresenta a Terê. com a pitada de loucura que todas as nossas histórias têm. a mudança gradual passaria a ser total. REYNALDO .Não sei se estamos saindo do realismo para entrar em outro tipo de linguagem.o cabelo. Depois. falamos de repetir três vezes..Vai ver.Mas ele não deve encorajá-la. DENISE . enquanto estão conversando no bar chega um amigo de Henrique . finalmente.. outro dia elogia a calça de couro. não é? GARCÍA MÁRQUEZ . Henrique não sabe o que ela está planejando.Nesse processo ela vai se despojando. onde Terê e Henrique vão passando sucessivamente por três bares diferentes.Bem.Estamos tentando analisar a conduta dos personagens.Existe uma grande angústia no fundo dessa relação.o processo de transformação de Terê. CECÍLIA .. além disso.Não estou contando o filme: estou tentando imaginar como seriam as coisas na vida real. DENISE . GARCÍA MÁRQUEZ . Primeiro. enquanto conversam.. nem alto nem baixo”. a última coisa que ela faz é cortar o cabelo.Existe um monte de homossexuais que falam de seus gostos com as amigas: “Sabe.Eu sinto que a poética desta história está muito coerente. SOCORRO . E então. mais metafórico.. saem os três juntos do bar. de todos os seus adornos femininos . GARCÍA MÁRQUEZ . a cena de amor: E agora.um jovem muito bonito . de preferência num bar de homossexuais. ele leva a moça tomar alguma coisa.Henrique nunca diria uma coisa dessas. ou com um eufemismo.. um elogio. a moto . Depois. SOCORRO . poderíamos dar em três fases . porque estamos deixando as aparências nos dominarem. DENISE . GLÓRIA ..brincos. Primeiro. “eu gosto de um companheiro assim: moreno. a roupa. Mas um dia elogia o penteado. e tenho medo que ela escape de todos nós. DENISE . eu gosto de meninos assim”.É só um cumprimento. Henrique e Teresa se encontram no teatro.. maquiagem e adotando certos gestos masculinos. não vamos pensar agora na estrutura ou nos detalhes. E. mas na seqüência dos fatos.. no teatro. desenhamos aquela seqüência noturna.. GARCÍA MÁRQUEZ .DENISE .Isso tudo vem com um toque especial.

Vou retomar a primeira versão de DENISE. não se sente 158 . Está decidida a conquistá-lo. o rapaz irá atrás. DENISE . quando saem juntos do teatro. Deixa passar o fim de semana. GARCÍA MÁRQUEZ . Quando Terê e Henrique tornam a se encontrar no apartamento dele.E na vida real. quando o correto é que todos nós formamos parte desse ambiente.Eu vejo da seguinte maneira: quando Henrique confessa seu problema a Terê. e entendem que a coisa não avança.seria capaz de levá-la um bar de homossexuais? REYNALDO . É uma maneira muito gráfica de ver Terê posta de lado.Eu imaginava uma coisa mais poética: Terê visitando sozinha o bar e observando discretamente a atitude dos homossexuais. em que mundo ela vive? Acho que estamos vendo o homossexualismo como uma coisa distante e estranha.. GARCÍA MÁRQUEZ . Terê. uma excelente atriz.. Terê precisa ir no banco de trás. quando a vê. e ela irá ao lado do motorista. REYNALDO . senta-se na frente. GARCÍA MÁRQUEZ . como se estivesse se preparando para seu próximo papel. Algum dia. ela desiste de vêlo. Volta ao bar que Henrique freqüenta e ele. Porque o amigo de Henrique estaria lá. o amigo de Henrique está esperando por ele.Henrique. A partir do primeiro momento. “Ah. no dia seguinte. quando se encontrar em seu ambiente.Uma atriz como ela. Sonho com essa cena.Ao saírem do bar. tendo de ir a um bar 'observar' a conduta dos homossexuais. esse é o meu amigo Nélson”. diz Henrique.Por quê? REYNALDO . GARCÍA MÁRQUEZ . porque agora Terê sabe como é a pessoa que está no lugar que ela quer tomar: O rapaz serve de modelo. o amigo e Terê vão até o carro de Henrique. como quem vai ao zoológico observar a conduta dos macacos? Mas. DENISE . os três . DENISE . e na segunda-feira. e o rapaz. que bom que você veio!”. e iria se reunir com eles.Por tudo. E menos ainda da nossa sociedade. como se fosse uma coisa muito natural.que acaba de conhecer Terê e se sente deslumbrado por ela .Eu acho que não. Henrique . Os homossexuais não estão separados da sociedade. colocada de repente em segundo plano.Cruéis..Por que vocês só pensam em soluções cruéis? GARCÍA MÁRQUEZ .. mas úteis. não haveria nenhum engano.Pois eu acho que sim. ROBERTO . ela não se resigna.Nesse caso. Porque Henrique se delataria.GLÓRIA . ela perceberia que a relação amorosa é impossível. “Deixa eu apresentar Terê.

como podia ter dito ao tal Nélson. Ao contrário.Logo de saída.ou desse desencontro para poder calcular por 159 . diz. Por idealizar Henrique tanto. de alguma forma. satisfazê-lo. É preciso ver o que acontece depois desse encontro . Henrique chega. Trazem para o casal uma dessas bebidas borbulhantes. Vemos a moça chegando ao teatro de motocicleta. DENISE .Esta é uma história para meia hora. vestida de homem. Acho que o problema é de formato. olha pelo vidro da janela. Uma hora e meia seria muito. CECÍLIA .O filme poderia acabar assim: Terê entrando no apartamento de Henrique.Isso. quando Terê muda.Eu sugiro que depois apresentássemos a outra mulher. GARCÍA MÁRQUEZ . porque gostaria de ressaltar a moral da história: “Jamais se transforme em objeto de desejo do outro. É preciso tomar cuidado com esses cortes.Até mostrar que Terê perdeu sua identidade e está a ponto de ficar louca. Talvez fosse conveniente alongar a primeira parte . “Que bom que você veio!”. e depois? DENISE . “Senta aqui. Corte. parece que ela controlou a situação com bastante maturidade. Hummm. Gostaria que isso ficasse. até mostrar Henrique com outra mulher? DENISE . Ao contrário. ROBERTO .E o que aconteceria se. para que a coisa não acabe sendo grotesca. e eu não vi esse sofrimento em nenhum momento. Vemos Terê cortando o cabelo. Henrique não a reconhecesse? MARCOS . e os dois passam momentos ótimos conversando. vestida de homem pela primeira vez.. DENISE . uma coisa muito divertida..Não entendo como ela pode ser tão imatura. que jorram fumaça. Reconheceu-a ou não? GARCÍA MÁRQUEZ .Mas estamos na metade ou no fim do filme? GARCÍA MÁRQUEZ . Lá está ela. Corte.. quero oferecer a você uma coisa muito especial”.. GARCÍA MÁRQUEZ . REYNALDO . Mas . Corte. porque o desejo pode variar de objeto”.Para ficar louca ela teria de ter sofrido muito. mostra-se amável. dá meia-volta e vai embora. mas meia hora é pouco.a agonia desse amor impossível – e deixar a surpresa da transformação para o final. não. a gente não sabe ainda.Eu imagino esse lance assim: Henrique e Terê marcaram um encontro no bar no cantinho de sempre.Mas você levaria a história até aí. implícito.perseguido e nem recrimina nada. Por se negar a si mesma. só para agradá-lo.

também podia ser seu neto.. não tem jeito. ROBERTO . Num longa-metragem. E quando chega o momento da valsa.. porque se for passivo.Aos poucos é melhor.. ao longo de todo o filme. no final.ou melhor. ROBERTO . afinal como aconteceu? Progressiva ou repentina? GARCÍA MÁRQUEZ . Henrique possa não reconhecer Terê. podemos tentar. MARCOS .. MARCOS . dançando uma valsa com um jovem de vinte e dois anos que poderia ser o seu galã mas que. Isso. Para mim. GARCÍA MÁRQUEZ . mas desequilibra a estrutura. Repentina é pior. rejuvenescida.punha o exemplo do professor de judô. e essa idéia do desencontro por motivos externos.O que precisamos resolver . na verdade. esta é uma história de amor. Por outro. Para conseguir isso de forma verossímil não tivemos outra saída a não ser rejuvenescer a velha aos poucos..Temos três maneiras de resolver isso. imperceptivelmente. Mesmo que fosse de um jeito traumático.Eu me preocupo menos com isso e mais com a idéia de que. Aqui. psicologicamente. ROBERTO . não chegue a reconhecê-la . Mas para manejar essa situação discretamente dispúnhamos de quase duas horas.. por um lado.visual e dramaticamente é o golpe de efeito dessa cena em que Terê. GARCÍA MÁRQUEZ . Não há tempo para isso.para ver quem é. na história em que estou trabalhando agora... não podemos supor que o processo de transformação de Terê ocorra de modo tão gradual que acabe sendo imperceptível..nós até falávamos do inconfundível orriso de Terê . só temos trinta minutos.Eu gostaria que Terê conseguisse seduzir Henrique. vimos a conveniência de que a velha termine lá em cima.. Outro dia. João . GARCÍA MÁRQUEZ . Por exemplo. mas é só olhar bem .Mas seduzi-lo como mulher ou como homem?.Seria preciso perguntar também se Henrique é homossexual ativo ou passivo.A idéia de que Henrique não a reconheça . e metade desse tempo nós devemos dedicar a apresentar o problema.. mas resolve o problema do tempo. O que estou achando que ficou claro é que só pode ser repentina se nós deixarmos isso como imagem final.Não tão extremos: Terê se transforma por dentro também.onde começamos.não se sustenta. Poderá não reconhecê-la de repente. a diferença de idades entre a protagonista e o jovem já não é tão evidente.E a mudança dela. DENISE .a propósito do meu personagem. Reynaldo. já transformada em 160 ..

com um final aberto..Henrique ama Teresa pelo que ela é.. Eu não estou contra o final feliz da frustração. que supostamente deve acabar bem. Uma história não se frusta como drama porque os personagens se frustram.Mas como não há tempo para isso. Ou seja. se 'transformando' neles. Pense na cena do bar. E se pouco a pouco – mas ali mesmo. DENISE . claro. você precisa ter alternativas.Todos nós fazemos esse papel. apresenta-se a Henrique. e das maiores.. E deixa de amá-la quando Terê renuncia à sua identidade. Denise.ela fosse se transformando? Numa cena assim. Só quem está apresentado a sua própria história é que não faz. ROBERTO .e termina com uma visão objetiva: Terê transformada em efebo. por um ato de mimetismo..homem. Esse é o momento! DENISE . trata-se de um amor correspondido. Essa transformação psíquica concordo com a sua preocupação..Vou fazer o papel de advogado do diabo. plasticamente? Seria preciso perguntar ao maquiador. Você está fazendo o papel de papel de advogado de defesa de uma história alheia. Manolo poderá ser expressa visual. ROBERTO. uma história com moral no fim.A frustração também é uma situação dramática. SOCORRO .Esse plano começa com uma tomada subjetiva . ROBERTO . Então. já que Henrique também participa da mesma paixão.os homossexuais sendo observados avidamente por uma mulher . SOCORRO . À sua maneira.. ao encarregado do guarda-roupa.Assim não vale. quando Terê vai observar os homossexuais. GARCÍA MÁRQUEZ . Essa história que Denise quer contar. ou então Terê se transforma em homem e o filme acaba aí.Como fazer isso.E à própria atriz. em termos visuais? ROBERTO .. GARCÍA MÁRQUEZ . A transformação de Terê seria mais psicológica do que física. no que diz respeito à sua própria mudança. e muito menos no caso de uma história de amor. a luta de Terê não deveria levar ao fracasso: Henrique acaba possuindo-a. da qual você gosta tanto. Eu acho horrível que essa paixão se frustre. GARCÍA MÁRQUEZ . quando deixa de ser ela. GARCÍA MÁRQUEZ . O fato é que 161 .O olhar de Terê serviria de guia. o fluxo do tempo e o fluxo da consciência ocorreriam de uma vez só. MANOLO . sem se mexer de seu assento . ao mesmo tempo. Ela vai selecionando seus 'modelos' e.Estou convencida de que a mudança de Terê deve ser gradual..Terê entra numa luta feroz contra as circunstâncias que a impedem de realizar sua paixão.

Henrique conheceu dúzias de mulheres tão atraentes e inteligentes como ela. e nada... para ver se saímos desse atoleiro.Que antes de sua primeira tentativa.E nem o nosso.Terê tem que estar convencida de que Henrique se entregaria a ela por completo. SOCORRO . Não vai além desse ponto.. GARCÍA MÁRQUEZ . Então. Talvez por isso. E essa ambigüidade que mantém o conflito latente. alcança Terê na rua e a convida para beber alguma coisa. que por favor deixe de inibições e nos dê uma mão. sem meias palavras: “Nunca estive antes com uma mulher. Henrique é um ídolo. GARCÍA MÁRQUEZ . Ou reações químicas misteriosas. Pode ser que ele tenha sido até casado..É uma história muito delicada. Ela também não teria grandes esperanças. confessa que nunca esteve com uma mulher.. o lógico é que Teresa diga a ele: “Tudo bem. Para Teresa. É preciso ter cuidado para não nos enganarmos numa coisa tão polêmica. Mas sem muita esperança. DENISE . No dia seguinte. Vamos ver: vamos analisar a história de novo.estamos trabalhando sobre um tema que não conhecemos intimamente. é a primeira vez. 162 . E daí? Como é que ela ajuda? MANOLO . Muito bem. GARCÍA MÁRQUEZ .. A gente não se conhece tão bem como achaque se conhece. por seu lado..É isso o que eu gostaria de dizer: é absurdo querer se transformar em objeto do desejo de outro.. eu quero”. sente essa atração sexual pela moça. agora. Henrique diga a ela. É preciso dar a esse vínculo Terê-Henrique o nível de tensão necessário.Eu insisto na minha proposta. seus se que Henrique desce do seu pedestal. e tenta fazer amor.. SOCORRO . os amores à primeira vista não são reações que possam ser explicadas facilmente. São razões do coração. estejamos todos atolados. se pudesse. de repente. Manolo.. e ela. Henrique decide convidar Terê para ir ao seu apartamento. mas que agora. ele quer. porque a gente nunca sabe onde começa e onde termina o desejo do outro.. vou ajudar você”. mas isso é normal. com uma evolução de sentimentos que nós não conhecemos bem. Não continuo.. Não consegue. porque acabo de perceber uma coisa: diante dessa situação. Se algum de nós for um homossexual enrustido.É.Não é fácil explicar porque diabos Henrique. ROBERTO . não pode atribuir esse limite a outra coisa porque não sabe do segredo de Henrique. mas com mas com você.Em outras palavras: ele pede ajuda a ela? ROBERTO . Pode ser que a iniciação sexual de Henrique tenha sido heterossexual. DENISE .Ora.

para nós? SOCORRO .. DENISE . como é natural: são aliás. decidir: agora prefiro o amor heterossexual. da noite para o dia. Terê é quem toma a iniciativa. os nossos erros de apreciação. A história inteira está contada do ponto de vista de Teresa. GARCÍA MÁRQUEZ . está claro: se tratamos de assumir o ponto de vista dele.E o que isso adianta.A coisa ameaça complicar ainda mais. porque Henrique tem um amigo e não quer desistir dele por causa de Terê. DENISE .Quantas tentativas frustradas ela vai ter de suportar? REYNALDO .. GARCÍA MÁRQUEZ .Suprime um obstáculo.. faz tempo que estamos dando voltas ao redor de Henrique. mais interessante será a evolução de Terê. e não temos tempo.Eu acho que sei onde está a dificuldade dramática. “depois de ter vivido vinte desenganos. ROBERTO . ELID . Isso não é nenhuma novidade para ele. Não vamos nos preocupar com isso. com o efebo. Quanto mais forte for a frustração daquela primeira noite. numa circunstância como essa? Será que ele pode. Henrique poderia funcionar normalmente com Terê.Na primeira tentativa? Não. ELID . Precisamos nos manter firmes no ponto de vista dela.Você esta insinuando que Henrique é bissexual? ELID . Como se comportaria um homossexual do tipo de Henrique. em termos de tempo.Houve um trauma num determinado momento. Como diz o bolero.Continuamos empacados em nossa ignorância. Nós simplesmente mudamos de ponto de vista.O conflito viria depois.O número não interessa. qual a diferença de viver mais um?”. Se nos metermos 163 . para mim. e no entanto. estamos danados. Terê sente que está perdendo a batalha para o rival e apela para o disfarce. Isso complicaria as coisas. ou a pretensão de trabalhar com dois pontos de vista ao mesmo tempo. procurando parecer um pouco com ele.Não é preciso tocar nesse assunto. GARCÍA MÁRQUEZ .Na primeira noite. não convém. Henrique já teve relações heterossexuais normais. porque o objeto do meu desejo passou a ser uma mulher? REYNALDO .Eu me atenho à idéia da tentativa fracassada de Henrique. O que precisamos evitar a qualquer preço é a mudança de prespectiva. ELID . E. mas ele que não é nada irremediável. É tamanha a atração que sente por ela. Nesta história. Terê vai cometer erros de apreciação.

. uma moça muito moderna. a história passa a ser nutra. GARCÍA MÁRQUEZ . imagina as reações do outro .E se começássemos a história da transformação ao contrário. nunca mais vamos sair do buraco. SOCORRO .Pois eu me pergunto se será possível explorar essa linha sem nos desviarmos muito da idéia original. aí.. mas muda o sentido da história. ROBERTO .Você pode mostrar a transformação do jeito que bem entender. GARCÍA MÁRQUEZ . DENISE . e elucubrando meios DENISE . uma situação imaginária onde as fronteiras entre a verdade e a mentira acabam se apagando.Pense nesse papel que Terê acaba de conseguir. com Terê parecendo um menino desde o começo? Na realidade.Ah. Se Terê não se disfarçar de homem. estou tendo a seguinte idéia: o processo de transformação pode ocorrer através de detalhes. muito punk. fica sendo uma história barata. muito unissex. assim. por exemplo. Ela começa a estudar seu personagem. na cena de amor que acaba de interpretar com Henrique. sim. CECÍLIA . ela entra no quarto e vemos as fotos na parede.É um grande jogo de efeito. através de um espelho.Nós dissemos que Terê é uma boa atriz mas não exploramos a sua imaginação. DENISE . GARCÍA MÁRQUEZ .Agora..Existem muitos detalhes que poderiam nos servir para dar a evolução sentimental de Terê. GARCÍA MÁRQUEZ . mas o que precisa ficar bem claro é qual o momento em que Terê sente que está encurralada e decide continuar lutando até o fim.. GARCÍA MÁRQUEZ .Mas esse jeito não resolve a história.E quem disse que resolvia? Não. Seu quarto.e vai tecendo. dos personagens que ele interpretou no teatro.Essa proposta parece boa. Ela poderia estar imaginando um romance com Henrique. suas capacidades miméticas. CECÍLIA . não resolve! ROBERTO . e sairia muito melhor. mas não expressa nada. mas desacreditaria a Oficina. ou seja....nos dilemas de Henrique. por exemplo..que na sua fantasia são sempre as que Henrique teria .. pode estar coberto de fotos de Henrique. REYNALDO . Por esse caminho nós podemos terminar contando Hamlet. até se transformar num machão. 164 . quando Henrique deixa Terê em casa. Isso basta para deixar claro que Henrique já era seu ídolo há tempos. e os antecedentes..A maldição dos espelhos nos persegue.Naquela primeira noite.

O ciclo se fecha e torna a se abrir onde começou. ROBERTO .É que esta última imagem tem. Eu preferiria que Henrique chegasse ao bar. fazendo tudo para agradá-lo... Então. porque agora ela é um rapazinho. aborrecido: “Mas que bobagem é essa?”. e não a de Teresa.Assim que se aproximar e trocar duas palavras com ele.GARCÍA MÁRQUEZ . ficamos sem moral da história. Henrique é um sadomasoquista. de novo: Terê se transforma. Simula fazer esforços para consumar o amor. quando não encontra outra opção. podem acontecer duas coisas: ou ela conquista Henrique. Quer dizer que ele gostava dela como mulher. passasse na frente de Henrique. as atrizes que trabalham com ele. se transforma e nesse processo deixa de cumprir os requisitos que seu personagem no teatro exigiu. ou que não quer. nele. Insinua muito discretamente a idéia da transformação. uma carga semântica muito forte.A partir do momento em que Terê se disfarça. ao vê-la. DENISE . exclamasse. e que. A vítima. já travestida. GARCÍA MÁRQUEZ .. e por isso perde o emprego e é preciso substituí-la por outra atriz.Eu gostaria que Terê. Um jovem boa-pinta. mas é a história de Henrique.E se Henrique avançasse direto no rapaz? GLÓRIA . mas que não faz o gênero de Henrique.Ou então Henrique chega no bar. e que ele não a reconhecesse. mas é também a menos verossímil. ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . Henrique teria que ser muito superficial para que um simples corte de cabelo e 165 . Henrique recomeça a manobra com a outra. GARCÍA MÁRQUEZ .Isso deixaria uma pergunta latente: o que aconteceria se a reconhecesse? REYNALDO . atraente. sem perceber que é ela. GLÓRIA.De acordo. onde ela está esperando com seu novo look. quero dizer. ou perde. Isso quer dizer que ele já não gosta mais dela? De jeito nenhum. A primeira possibilidade é mais fácil de ser contada..Eu acho essa idéia o máximo.Se Henrique paquerar o suposto galã.. A gente sempre apela para um final de efeito. sabendo que não consegue. acha que ela ainda não não chegou e começa a olhar interessado para aquele garoto que está sentado ali perto. Henrique perceberá tudo.. como dizem os lingüistas.Tudo poderia ser um jogo sinistro que Henrique utiliza com suas vítimas.Vamos lá. GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO . vai ao bar e quando Henrique passa ao lado nem repara nela.

Não tenho mais nenhuma outra idéia. reconhece-a. Então Terê se levanta. esperando que ela chegue. que. Digamos que ela se mistura no ambiente sem muito esforço. agora. na ação? Pode ser que a chave do desenlace esteja em algum daqueles diálogos.Eu retorno ao encontro final. é preciso ter um caráter muito forte. e tudo isso a troco de quê? Eu suspeito que exista muita frustação na vida do homossexual.Não acho tão improvável. está sentada na frente de uma mesa. porque os homossexuais foram abrindo espaço na sociedade. eu vou até aqui. REYNALDO . GARCÍA MÁRQUEZ . São pessoas que desafiam preconceitos e códigos morais muito enraizados. ou melhor. Podemos dizer que esse tipo de pessoa seja superficial ou frívola? Para suportar tudo isso. Os homossexuais são muito frívolos... sei lá -. Terê. Quem vai a um bar de veado também é veado. em todo caso. GARCÍA MÁRQUEZ . Henrique olha para ela. Deixamos de lado a peça de teatro que Henrique e Terê estão ensaiando. GARCÍA MÁRQUEZ . como se fosse um efebo a mais. Senta numa mesa próxima. Por que não tentamos integrá-la. apóia as duas mãos na mesa. mas por acaso aceitava como mulher? MARCOS . 166 . Pode.. Pode até ser que hoje em dia menos..Um momento. Acabo de perceber uma coisa.. no bar: O lugar está cheio de clientes.. sorrindo: “Alô”. como mero pretexto para o encontro. pelo menos desse pobre diabo que passa de uma experiência a outra sem conhecer a verdadeira amizade. contra ventos e marés. Bom. SOCORRO .algum outro detalhe exterior o transformasse desse jeito. explode de raiva. jogue no chão e pisa em cima. como faria um jovem que estivesse disposto a uma conquista. agarra a moça pelo braço. não a reconhece. e diz. que enfrenta escárnio permanente.. até ser que arranque um dos elementos do disfarce da moça um cinturão. caminha decidida para ele. É preciso tomar cuidado para não confundir as coisas. afirmam seu direito a existir.. Mas. que não se definisse em termos dramáticos. Henrique não aceita fisicamente Terê transformada em efebo..Vamos detalhar um ponto. Henrique passa na sua frente e não a vê. fica estupefato.Poderia ser um desenlace visual.Eu não me atreveria a dizer isso. e não é verdade: ela se disfarça de homossexual ativo. Nós só utilizamos a peça no começo. uma correntinha. o verdadeiro companheirismo. Dissemos que Terê se disfarça de homem. arrasta-a para fora do bar e começa a insultá-la..

MANOLO . Talvez seja um caminho que ninguém esperava..Estou com a intuição de que essa fórmula . percebemos que estão rompendo as convenções sociais.Na peça. para utilizá-lo depois.Quando eles começam a modificar os diálogos para ajustá-los à sua própria verdade. Henrique olha.e ela responderia com alguma coisa que a gente acha que conhece.... e assim sucessivamente.tem um potencial poético enorme. enquanto na vida real Henrique e Teresa.Precisamos imaginar essa cena e elaborar o diálogo com cuidado. em sucessivos ensaios. GARCÍA MÁRQUEZ . até a história tomar seu próprio caminho. esperando Terê. através do texto dramático? ELID .a que eles representaram no teatro aparece como o obstáculo que se interpunha entre os dois. Henrique diria uma frase que já conhecemos .a dos diálogos repetidos e modificados . 167 . diz alguma coisa .Com isso damos ao espectador a ilusão de que as coisas terminam bem para os dois.Quer dizer que os dois só conseguem se comunicar no plano artístico.ouvida duas ou três vezes .A peça teatral poderia se referir a delas pessoas que têm dificuldades em assumir sua verdadeira personalidade. na realidade.No começo tínhamos falado várias vezes em repetir a cena de amor.Vamos imaginar que Henrique esteja sentado no bar. GARCÍA MÁRQUEZ .ROBERTO . REYNALDO .E que tal se a gente inverter os termos? O amor no teatro se frustra. os protagonistas consumam sua amor. Entra no jogo. Assim começa. ROBERTO .Quer dizer que não é um amor frustrado? Que alívio! GARCÍA MÁRQUEZ .Eu pensei na possibilidade de uma cena de morte. um diálogo que revela o conflito dos dois. GARCÍA MÁRQUEZ . Ela chega. ROBERTO . mas não como estava previsto. reconhece. entre eles.. SOCORRO . senta-se ali perto. mas a gente sabe que. o conflito permanece. Existe algo mais profundo que une os dois. nem eles. mas que na realidade é uma coisa diferente. O filme pode terminar como um verdadeiro poema. O que até agora nós víamos como a verdade do amor .Amor que termina numa cena de morte? Não é.e ela responde. vestida de homem. mas à sua maneira. nem nós. Isso é Romeu e Julieta GARCÍA MÁRQUEZ .uma coisa que nós já ouvimos Henrique dizer na peça de teatro . e o deles se realiza? DENISE ..

senta e fica esperando Henrique. Uma mulher maravilhosa..E eu. em clima de comédia.o mais belo dos galãs convidando-a para dançar no grande salão de espelhos.. O que muda agora é a história inteira.Ô mulher! Só agora você diz isso? GLÓRIA . Henrique vestido de mulher.Para sermos coerentes. é claro. queria que Henrique acabasse com outra mulher. ora.. O encontro no bar. de repente. uma mulher belíssima.Não é preciso mudar mais nada. como uma comédia. um na frente do outro. podemos terminar do jeito que quisermos. Por que não a própria Terê. Eu não sinto que isso de 'poder' e 'não conseguir' seja. e paz na terra e GLÓRIA aos céus nas alturas. Até que a morte os separe. vai ao bar. que já estava achando ótima a idéia da tragédia. DENISE. se veste de rapaz. A proposta vem da própria Denise.. GARCÍA MÁRQUEZ .. Lembrem-se de Dustin Hoffman em Tootsie.A única coisa que precisamos mudar é o tom..VICTORIA . do começo ao fim. ainda sem se reconhecer. para ele. e o gesto de Teresa . GARCÍA MÁRQUEZ .E você. 168 . uma Terê que desiste de disfarce e se impõe por direito próprio? REYNALDO .Não é mais Terê quem muda. porque Henrique é um grande ator e pode fazer o que quiser com o seu próprio físico.Imaginem só a seguinte cena: a entrada de Henrique.Ora. E.... ELID . Terê corta o cabelo. qual é o problema? ROBERTO . mudou.Acho que seria interessante fazer assim. Eu vejo esse filme. DENISE . aqui estão Henrique e Teresa. Bem. Por exemplo: Terê vestida de homem.. REYNALDO .Bom.Pois eu confesso que para mim o problema principal está no seguinte ponto: nós não sabemos até que ponto esse drama é dramático para Henrique. e de repente mudamos de gênero? GARCÍA MÁRQUEZ.Quem podia mudar. se vai ser comédia. SOCORRO . DENISE . De repente. Se a história muda para melhor. poderíamos tornar a Terê lésbica.. GARCÍA MÁRQUEZ .Se impõe como mulher? E de que maneira? GARCÍA MÁRQUEZ ..Pode até ser engraçado. essa não.A revelação. ROBERTO . Nós não podíamos mudar nada essencialna história. Um final maravilhoso.... por exemplo. GARCÍA MÁRQUEZ .. cômico. um conflito profundo. ele aparece vestido de mulher.

e no final. GLÓRIA . Não é que ele se torne irreconhecível.. o jogo erótico.Já sei qual é a peça que estão montando: Sonho de uma Noite de verão.Não sei.Por quê? É um ator. São os andróginos. Basta vê-los dançar .GARCÍA MÁRQUEZ .. Não é preciso levar os dois até a cama. outra noite vai vestido de mosqueteiro. Uma coisa assim de atores. vai ao bar de homossexuais vestido de dama antiga. REYNALDO . GARCÍA MÁRQUEZ . agora Henrique não é só homossexual: é a própria bicha louca. Terê faz o papel de Titania. como lésbica. GARCÍA MÁRQUEZ . ELID . vai disfarçado.Parece que a varinha de condão fui a palavra comédia. E daí vinha a flecha do cupido. DENISE ... de Shakespeare.. é ver como damos as diferentes metamorfoses de Henrique. brincar com as aparências. quando ela faz o teste no teatro.. sei lá. de Maria Félix em Dona Bárbara. Por isso se buscavam.. Mas nossa tarefa. o do burro. agora. os dois têm um filho. ou de Gloria Swanson em Crepúsculo dos Deuses. e Henrique. Nesta noite em particular..o casal perfeito. essa atração recíproca que sentiram desde o começo. mas creio que a coisa pode funcionar por aí. Todos os elementos estão aí: a metamorfose. Esse movimento final. São exemplos. gosta de se disfarçar.. o do cara que se transforma em burro e tem um diálogo com ela.A barreira que os separa é a de seus respectivos sexos.Ora . Hoje usa óculos. a barreira cai. Certa noite.. o do baile.Terê. GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO . você agora quer estropiar o nosso filme. tem que ser um personagem diferente. quando encontra Terê. Agora. tem haver um toque de ironia.Que horror! REYNALDO .. depois da trabalheira danada que tivemos? ELID . claro.Brincadeiras à parte. Os dois estão sob o signo de Gêmeos. Cada vez que ele aparecer no bar. mas é sempre outro: hoje de bigode postiço e peruca.E o espectador. como é que vai entender tudo isso? GARCÍA MÁRQUEZ . que acabaram se encontrando. muito de carnaval. Parido por ela. amanhã estica os cabelos como Rodolfo Valentino.Na atuação de Terê. cada um é o outro. amanhã usa cavanhaque. Mas se buscavam por onde não era.para entender tudo. também freqüenta o bar sem que ele saiba.. mas com os papéis invertidos .. Henrique percebe isso. Quando os papéis se invertem.. pode ser maravilhoso.No bar Henrique poderia ir vestido da maneira com que Terê se 169 .

Talvez seja uma réplica do drama dos andróginos. em algum momento responde uma coisa que não sabemos se é um disparate ou uma genialidade. DENISE . GARCÍA MÁRQUEZ .Poderia ser A Cantora Careca.Eu acho que você não sacrifica nada essencial.Sidália e Belinda SOCORRO .A sensação que produz é sufocante. sem muitas complicações. na cena do bar: um diz maluquices ao outro. O teste é feito com uma obra romântica. mas não a que serve para testar as atrizes. Henrique e Teresa. Por exemplo. 170 . Uma história maluca que. comentam isso: como é estranho dizer coisas que eles mesmo não entendem. de Ionesco.E eles. e Terê. Aliás. feito um disco rachado.'Entendo' justamente porque não entende nada. E além do mais. GARCÍA MÁRQUEZ . REYNALDO . Denise? É pegar ou largar. eu gosto mais. E agora é uma comédia divertida.Essa poderia ser a obra que eles vão representar. DENISE . e vice-versa.A peça poderia ser contemporânea.eu acho . Henrique pergunta a ela: “O que isso quer dizer?”. mas não se entendem. tem a vantagem . ou falam muito pouco. É de época. O que você acha. ROBERTO . ROBERTO . e passada no campo. DENISE .Beckett. tem sentido. moralmente legítima e visualmente agradável. mas eles se entendem perfeitamente.Minha história é exatamente o oposto de Denise. sem nenhum tipo de amargura. Esse mesmo jogo é aplicado no final. satisfeito: “Entendo”. que peça é essa.Vou ter de pensar nos prós e nos contras. as duas metades que não param de buscar suas identidades.veste na peça que estão ensaiando. como atores.No teste fazem perguntas. O que mais a gente pode querer? . seja como for. ainda assim. ROBERTO . Lembro de um de seus personagens repetindo palavras. GARCÍA MÁRQUEZ . ou falam o necessário.Precisamos saber.. daí sai a cena de amor que nós conhecemos.. GARCÍA MÁRQUEZ . e ela responde: “Não sei”. uma obra de Beckett: os personagens falam mas não dizem nada.de ser dramaticamente válida. E ele. Eles se sentem como se fossem papagaios.

a mais moça.. e Belinda. mas virgem.1930. certo? Belinda não viveu essa tragédia: ainda era muito pequeno. Sidália sofreu na própria carne algumas das conseqüências. Porque Belinda não é normal: não fala.. Tudo bem. SOCORRO . Mas. Portanto. Sidália foi filha única. Sente uma profunda rejeição em relação à irmã. Belinda. talvez motivado pela morte dos pais.Isso talvez influa em sua atitude com Belinda. GARCÍA MÁRQUEZ .... ditada por normas religiosas e morais muito estritas.Ora. que a criou. até os quinze anos. desde o momento em que nasceu e as duas ficaram órfãs de mãe.. por exemplo..Entre elas sobrevive. Não é que seja nada: é que sofreu um trauma.GARCÍA MÁRQUEZ . que eu até me lembro. GARCÍA MÁRQUEZ . porque tinha o carinho dos pais e a memória do que havia vivido. Sidália considera a irmã culpada pela sua própria tragédia.De que época? SOCORRO . diga: quando é 171 .São filhas do mesmo pai.Sidália tinha. Sidália tem 52. Sidália.. um vestido de crinolina com uma sombrinha de lacinhos e sapatos de verniz... a primeira que levou à cidadezinha as modas européias.. Foi muito mimada quando criança. isso não é época! Isso é o ano passado. É tão próximo. SOCORRO . Ainda é lembrada com uma de suas roupas mais vistosas. é lógico. O mais correto talvez seja dizer que ela não fala porque não tem vontade de falar. há uma diferença de quinze anos. Ou seja. Sidália conserva esse vestido de sua mãe como se fosse uma relíquia.. Ao mesmo tempo. SOCORRO . Quando a família se arruinou.É a história de duas irmãs.. 18 anos. DENISE .Morreu alcoólatra. Entre as duas.Sidália não teve namorado? É como uma mãe solteira. a imagem da mãe. muito elegante. a mais velha. passou a ser a filha de Sidália. mas não se importava. Assim que Sidália fez 15 anos. GARCÍA MÁRQUEZ . como uma lenda. sente como uma obrigação moral cuidar dela pelo resto da vida. Chegou a conhecer o velho esplendor da família da aristocracia rural que naquela mesma época começou a cair em desgraça. Era uma mulher belíssima. três anos depois da morte da mulher. mas recebeu uma educação rígida. Mas agora descarrega sua frustração em Belinda. GARCÍA MÁRQUEZ . sua mãe morreu no parto de Belinda. para efeitos práticos.Não dá um pio. pela hostilidade do ambiente. de ponta arredondada. então. Ele ainda vive? SOCORRO . Belinda tem 37.

prepara a comida.Ela jamais saiu de casa. que eu também ia esquecendo: Belinda. o vestido tem um efeito estimulante. Mas Sidália nunca ouviu a irmã cantar.. E os vizinhos também.. E essas fantasias têm um eixo: o vestido da mãe.. que Sidália é professora e com seu salário mantém a casa. ao mesmo tempo. vive entre alucinações. em compensação. O que ela não pode perdoar em Belinda é outra coisa. surpreendeu-a masturbando-se enquanto usava o vestido. num mundo de fantasias. O único som que ouviu de Belinda são os murmúrios e os resmungos que a irmã faz quando dorme. muito bem dobrado numa arca. Sidália está muito preocupada.. Sidália ficou furiosa com a irmã: gritou com ela. que diz a ela que a única coisa que pode aconselhar é procurar o boticário e pedir um remédio que tenha 172 . Vai consultar o padre.. VICTORIA .-. fazendo charme na frente do espelho ou fazendo a sombrinha girar graciosamente enquanto passeava pelo quarto. É beata. Para ela. vai à missa. Nesses momentos. enfim. é só Berlinda vestir essa roupa. E. Por alguma razão ... tem contatos com o mundo exterior.O vestido está guardado no quarto de Sidália – com todos os acessórios -. ao mesmo tempo. Em alguns momentos Sidália se sente culpada e tenta ser solícita e carinhosa. E mais de uma vez Sidália surpreendeu Belinda usando o vestido. ou melhor. gosta de cantar. Belinda. que as duas irmãs continuam morando no velho casarão familiar. Por isso. guardou-o na arca e ameaçou castigá-la. cuida do jardim. Belinda tem uma estranha fixação por esse vestido.Está quase começando. para evitar as traças. Ah. se confessa. GLÓRIA . E na casa sempre fez o papel empregada: varre. Um dia. As duas são neuróticas. sentiu pena. arruma os quartos. sua irmã é um ser manhoso e egoísta.. SOCORRO . é um ser que dá pena. segundo. Mas. que começa a ter desejos de tocar. obrigou-a a tirar o vestido.. de acariciar o próprio corpo. GARCÍA MÁRQUEZ . vive num vazio total.que o filme começa? SOCORRO . Sidália é professora.Para Berlinda. sabemos que não é muda. com naftalina.Belinda também é solteirona frustrada? SOCORRO .Sidália sabe disso? SOCORRO . quando está sozinha.Uma relação de amor e ódio. GLÓRIA .Desperta a sua sexualidade. esqueci duas coisas: primeiro. Mas. Sidália ficou tão escandalizada que quase morreu um ataque cardíaco.Está no limite da esquizofrenia. com um decote grande. Há um detalhe importante.o fato de ser um vestido de luxo. SOCORRO . que só pensa em lhe dar desgostos e fazer o que quer..

Por enquanto. O tecido cede. DENISE . Mas. com a sombrinha esfarrapada. Quando Sidália percebe o que acaba de fazer com o vestido da mãe .Sim.. em algum momento. É o nascimento da louca da cidade. sempre vestida de preto GARCÍA MÁRQUEZ . Ela cai em estado catatônico. Não descarto a possibilidade de. Não é um trabalho fácil. Belinda acabar falando. comprimi-lo no espaço de meia hora.Nós temos aqui um argumento. Mas não vai ao enterro de Sidália.Belinda. come com faca e garfo? 173 . eu quero saber uma coisa: Sidália é frígida? SOCORRO . apanha a poção do boticário. Ela se lança sobre Belinda e começa a puxar o vestido. Depois vem a guerra contra as convenções e os códigos morais. GARCÍA MÁRQUEZ . Em relação à história. faz Sidália engolir o líquido achando que assim irá aliviar a irmã .E o resto de seus hábitos sociais? Ela toma banho todo dia. passa na televisão? GARCÍA MÁRQUEZ . Eu queria chegar a essa imagem. algumas gotas por dia. É Belinda...Por isso ela se recusou a continuar tomando o remédio. desenvolvido do começo ao fim. e rasga em várias partes. Ela é muito beata.a única lembrança pessoal que ela tem -. os vizinhos assistem a um estranho espetáculo. Na tarde do enterro. é muito vital. que abre as portas e as janelas da casa e sai à rua. com o vestido da mãe todo remendado. muito recatada. volta para a sala... Vai correndo até a cozinha.e com essa overdose acaba provocando em Sidália um dano irreparável. sofre um ataque no chão e começa a se contorcer em estranhas convulsões. Aliás. toda emperiquitada. GARCÍA MÁRQUEZ . Um dia. a cara coberta de maquiagem. enquanto trata de ajudar a irmã. O que Sidália mais temia acaba acontecendo. Belinda se assusta. nossa tarefa é adaptá-lo. a gente deve fazer o que acha que deve ser feito. é claro. Agora.. isso não é problema nosso.. Sidália busca um jeito para dar essas gotinhas à irmã. primeiro. e sapatos de salto alto e meias.propriedades calmantes. com muito cuidado. é um trabalhão. que logo passa a recusá-las porque cada vez que toma tais gotinhas se sente sonolenta. e morre dois dias depois. ao voltar da escola. torna a encontrar a irmã usando o vestido e se masturbando. como se fosse uma epilética. O roteirista tem que desenvolver seu trabalho da melhor maneira possível. Sidália se enfurece. SOCORRO . em compensação. como se quisesse arrancá-lo.A imagem de Belinda se masturbando. É a mesma coisa em relação à produção.. O boticário efetivamente prepara uma poção e recomenda que sejam administradas à paciente. Nem o remédio conseguiu derrubá-la.

SOCORRO . Em sua relação com ela.. está muito boa”. querida irmã”. e não há quem a faça parar.O final do filme é ótimo. se deduza a partir das relações cotidianas entre as irmãs. e acha que ninguém está ouvindo.. SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ . e ela mesma responde: “Com prazer. mas é só. Enquanto Sidália entra.A primeira cena é a de Belinda no quarto. A loucura faz com que diga tudo que não disse antes. e tira o vestido correndo. ela se penteia. SOCORRO . digamos. que vai surpreendê-la. usando o vestido da mãe. Sidália sempre tentou ensinar o ritual da mesa. Belinda tampouco tentou aprender a ler e escrever: Cada vez que a irmã tentava ensinar o alfabeto. foi vendendo os móveis. Nas paredes. que agarre o espectador e nos dê um respiro para podermos dizer ó. Sidália. Eu quero ver. “Você gostou da salada.Você nos danou.. Sidália diz: “Por favor.Sidália nunca consegue se comunicar normalmente com Belinda. REYNALDO .Eu quero que se veja tudo . atravessa a sala e aparece no quarto de Belinda. Belinda não intervém nunca.Nós precisamos de uma primeira seqüência espetacular. essa mulher de repente saindo na rua. já bancando a louca. A única coisa de que ela realmente gosta são as flores. 174 . GARCÍA MÁRQUEZ . Não é por acaso que só canta quando está no jardim. Belinda?”. com certeza. Quase tudo que move essa história está implícito ou está oculto.Na casa existe pouca mobília. GARCÍA MÁRQUEZ . Belinda fugia. fecha o portão.ou pelo menos.Come usando uma colher. e começa a falar e falar.Belinda não é lá muito asseada. Ouve-se um ruído lá fora. A relação se dá através de um monólogo sutilmente agressivo. ela teve tempo para guardar o vestido e fazer de conta que tudo está em ordem. arrumando o cabelo na frente do espelho. por exemplo. “Claro. Belinda sabe que é Sidália. ainda são visíveis as marcas dos quadros que foram vendidos. que agarra de um jeito estranho. a própria Sidália pergunta e responde. Quando põe o vestido da mãe. minha irmã.. GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO . passe o saleiro”. GARCÍA MÁRQUEZ . não consegue pensar em muita coisa. Um exemplo: na mesa. O salário de professora não dá para as duas....SOCORRO . Enquanto a gente não conseguir ver o personagem.A verdadeira louca é Sidália. Belinda. a maneira de usar os talheres.O aspecto físico do personagem é muito importante. mas não conseguiu.

Na vida real elas já viveram essa mesma situação outras vezes. Belinda está cantarolando. sem interlocutores e quase sem palavras. ROBERTO . entre essa primeira cena e o final.. mostrar a relação entre as irmãs. Entende? Isso é o que eu chamo de uma cena dura. dona fulana. vamos nessa.Então. e depois com o padre. GARCÍA MÁRQUEZ . Se você a trouxesse da escola.Quando você fala do vestido rasgado. com o fato de que. Mas enfim. ela se cala. Quem é ela? Não sabemos. Muito bem. e a recém-chegada fica tão enfurecida que insulta a outra. porque acontece que precisamos responder perguntas sem narrador.”.Tenho medo que isso seja um jeito de precipitar as coisas. Quando Sidália rasga o vestido sem querer.Como primeira? Haverá uma segunda? SOCORRO . está propondo que Belinda rasgue o vestido logo nessa primeira vez?. Está vendo por que eu digo que temos de ter uma seqüência inicial muito forte? É a nossa única maneira de tirar vantagem. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . podemos fazer uma montagem 175 . Durante um bom tempo a recémchegada não vai falar com ninguém. a única coisa que nós precisamos fazer é responder a essas perguntas da melhor maneira possível. Portanto... ou na argola de rede que está na parede.SOCORRO.Na frente do espelho. repito. Pode ter sido um descuido. capaz de criar intriga e suscitar uma série de perguntas.Você começa o filme com uma senhora entrando numa casa. E nós estamos danados. Sabemos que a casa é dela porque tira a chave da bolsa com toda naturalidade. mãos a obra..no filme.Claro. não é? Só ela mesma. vestida como você quiser. Agora a mulher entra num quarto. Em vinte e cinco minutos. mais jovem que ela. O vestido está rasgado. GARCÍA MÁRQUEZ . temos de explicar os antecedentes. ela se nega a falar..vamos em frente. prende as suas mãos com uma corda e amarra-a ao pé da cama. devemos ir direto ao assunto. A partir daí. definir as personalidades. quero dizer -. SOCORRO . Quando sente que lá fora alguém abriu o portão do jardim. bate nela. já a vê usando o vestido.Esse trabalhinho é fogo. e vê o quê? Outra mulher. olhando-se num espelho. a nosso favor.Nos créditos de abertura.. Esse é o nosso material.Eu acho essa imagem interessante: na primeira vez que Sidália vê Belinda .. obriga-a a trocar de roupa. SOCORRO . Contamos. SOCORRO . saberíamos de saída que é professora: “Até amanhã. O espectador fica sabendo: essa mulher não é muda. REYNALDO . mal nos sobra tempo para divagações..

GARCÍA MÁRQUEZ . Além disso. Se nesse primeiro momento ela não falasse.Mas nós a ouvimos cantarolar enquanto se vestia.Vou propor que a gente mude isso. se faz de muda.Se o espectador acreditasse que Belinda é muda... Sidália chega ao portão do jardim. ROBERTO .Sidália nunca conseguiu arrancar uma palavra da irmã.. no que se refere á sua mudez? Sidália sabe que a irmã não é muda. nenhuma sílaba. Aí já dá para estabelecer um contraste entre a delicadeza de Belinda . ROBERTO .vestido-se como uma noiva – e a dureza de Sidália. GLÓRIA . GARCÍA MÁRQUEZ .É bonita. Essa situação não é fácil de se resolver. chuta. não é? Não a trata como se também fosse surda. o fundamental é a questão do vestido e a relação entre as irmãs. É isso que precisamos explicar ou insinuar. SOCORRO . mas Belinda não solta nenhum ai. E em determinado momento.. não cantasse..O difícil é conseguir entender que Belinda se negue a falar com a irmã.Uma cena tão bonita? ROBERTO .. na frente do espelho. toca suavemente o teclado. GARCÍA MÁRQUEZ .Esse 'como se' é decisivo. Quanto tempo isso pode tomar? ROBERTO . MARCOS . Sidália bate nela. Não é muda.Tem um problema técnico aí. O espectador poderá pensar que ela é muda. Sidália a tratará como se fosse muda. ROBERTO .Por que a gente vai parar nesse ponto logo agora? Até aqui. a grande surpresa: Belinda desanda a cantar:. e quando Sidália chegar. Quando se enfurece. o espectador pensaria..paralela entre Sidália saindo da escola e Belinda pondo o vestido.. imagine só a beleza da cena seguinte: sozinha na casa. não emitisse nenhum som. No momento em que Belinda acaba de se vestir. Sidália fala com a irmã. em termos de atuação e encenação.. e começa a cantar feito um passarinho! Isso tem uma força dramática muitíssimo maior do que se soubéssemos logo de saída que ela não é muda. que me preocupa: como tornar verossímil a atitude de Belinda. mas não é forte. visível nas roupas e na forma de caminhar.Já eu quero propor que nessa cena inicial. Belinda se senta no piano. e que a irmã aceite essa situação. Não se pode contar o filme inteiro na primeira seqüência. resmunga. fique muda. No máximo.. GARCÍA MÁRQUEZ . 176 . como é natural: “Ela é muda”.Ela sabe que Belinda não é surda-muda. E só quando a irmã está por perto.. Belinda cante e fale sozinha.

cairia de repente o raio de Sidália.A propósito: para dissimular aquela questão da masturbação para a censura. chegando em casa..para ela e para nós . pensaríamos: “Está experimentando um vestido de festa. e não a audição. Belinda canta quando sai para arrumar o jardim.O vestido deve ser associado com a elegância. Ah!. a cintura.Mas com a imperatriz não era um guarda-chuva? GARCÍA MÁRQUEZ . com a sensualidade. como a imperatriz do Japão se protegia da chuva.As duas opções podem funcionar. SOCORRO .GLÓRIA . É como se recuperasse o desejo de viver. E canta. com ou sem o padre? Todo mundo sabe... mas perdemos impacto. Belinda se contempla com aquela roupa no espelho. ROBERTO . o silêncio me parece mais eloqüente que o canto. Se Belinda começasse a cantarolar enquanto se veste.. GARCÍA MÁRQUEZ . para que vocês vejam. Teríamos de imaginar as duas alternativas no contexto da montagem paralela..Aí ganhamos sutileza. Era uma sombrinha. VICTORIA .... acaricia os próprios braços.Eu insisto: aí. ou um enxoval de noiva”.. como é que a irmã não vai saber. VICTORIA .. A do silêncio tem uma desvantagem..Não. E nessa atmosfera idílica. os sentidos que passam a ser predominantes . Acontece que eu não vi a foto original. Já que vamos brigar com os censores. que pelo menos seja uma briga das boas... GARCÍA MÁRQUEZ . Os vizinhos dizem que volta e meia ouvem Belinda cantar...Os vizinhos sabem de tudo.Belinda..Mas eu gosto da idéia de associar o vestido ao canto. REYNALDO ... Parece que estou vendo avançar pela rua essa mulher vestida de preto.. Belisa.. Quando Belinda põe o vestido. sofre uma transformação profunda. GARCÍA MÁRQUEZ . com Sidália saindo da escola.são a vista e o tato. será que não tem a ver? Os 177 . vi uma reprodução em preto e branco.O único lugar da casa que está muito bem cuidado é o jardim. GARCÍA MÁRQUEZ . Quando Belinda põe o vestido.Se os vizinhos sabem. um tom mais lírico. Preciso conseguir aquela foto.Sidália poderia receber rumores através do padre. requer mais tempo de desenvolvimento: um ritmo mais lento. REYNALDO . podemos fazer que Sidália seja amante do padre. apareceu a imagem que eu estava procurando. e me confundi. ROBERTO . deduzimos que Belinda canta muito. Por isso. protegendo-se do sol com uma sombrinha.

Anote a. é tanto calor que quando chove. Corte.Não está parada: estão todos em movimento. GARCÍA MÁRQUEZ . Sidália entra no jardim. duas coisas: a distância que existe entre a escola e a casa. das pedras. ROBERTO .Parou de chover. Temos de ir construindo personagens.Na primeira vez que a vemos. quando cai um pé d'água. mas ela não se dá ao trabalho de fechar a sombrinha. mas que visualmente é belíssimo.. despedindo-se das alunas. dois: um da mãe e outro do pai. cobertas de cal.. chuva que cai. GLÓRIA . Uma mulher dessas não desvia por causa de uma pocinha de nada.. E na parede. ROBERTO . essa é uma história bem de Lorca: esse par de loucas trancadas num casarão. essa cidadezinha de ruas desertas. essa mulher vestida de negro.Mas está suja e despenteada.Novo corte: Belinda terminando de se vestir: Isso é o que vemos: uma mulher bastante bonita que está pondo uma roupa muito bonita.Vamos indicar isso para o assistente de produção: rua que reverbera debaixo do sol. Os dois estão juntos na parede da 178 ..Ou pisando nelas. SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ .. ROBERTO . Ou melhor. e a casa por fora. dona Sidália”. abrindo a sombrinha. Socorro: “Sidália via por uma rua ardente. Tem que ser um grande retrato pintado a óleo. vapor que sobe dos chacos.Belinda é bonita. que ninguém sabe explicar o que está fazendo aí. ela atrás. sai fumaça do chão. SOCORRO . Vapor aliás. SOCORRO ..Não deve ser um daguerreótipo. ela está parada na porta da escola. empedrada de paralelepípedos. casinhas de dois andares.. assim. como se fosse do inferno. porque na tela os daguerreótipos não aparecem. Em alguns povoados do Brasil..E a fumaça que sobe. “Até amanhã.Nós dissemos que ela é professora? Dá aulas num colégio de freiras. Percebemos isso? ROBERTO .Amores de Dom Perimplim com Belisa em seu Jardim é uma peça de García Lorca. Acaba de chover de terra úmida sobe um vapor denso”.. essas casas de muros brancos. em cima do baú. parecida com a mãe. GARCÍA MÁRQUEZ .Está arrumando o cabelo na frente do espelho.Sidália vai saltando as poças. A casa por dentro. está o retrato da mãe.. E.Vemos. GARCÍA MÁRQUEZ . Nos dois lados.. embora um tanto antiquada. As meninas saindo debaixo do sol.. REYNALDO . GARCÍA MÁRQUEZ . olhando bem.

Por isso Sidália fica tão furiosa e diz a ela: “Chega!”.. pela sombra que se projeta no chão. Muito bem: isso resolve o problema. na penumbra se detém sobre a moça adormecida. GARCÍA MÁRQUEZ . 179 .Essa decisão ainda está pendente: nesta primeira seqüência.Se for assim..Mas eu não desisto da idéia de que o vestido produza o mesmo efeito das flores. VICTORIA . e é uma pessoa tão metódica. A câmera passa por ali. REYNALDO . GARCÍA MÁRQUEZ .Sidália botou um cadeado na arca. Fica claro que não é a primeira vez. e do pai mesmo que é bom. GLÓRIA .Nessas cidadezinhas ninguém precisa de cronômetro ou de relógio.Ali. GARCÍA MÁRQUEZ . Belinda arrebentou o cadeado. por que não trancou o vestido à chave e guardou a chave no decote? SOCORRO . Belinda é reincidente. Belinda canta ou não canta? ROBERTO . Ele está vestindo seu uniforme de general. ROBERTO . GLÓRIA . mas não adiantou.São os dois únicos quadros que sobraram na casa.... GARCÍA MÁRQUEZ .Não é..No meu filme. uma sensação de euforia que a leva a cantar. mas em off: não sabemos quem canta. com seu uniforme e suas condecorações de coronel da artilharia”. não cantaria.E se essa for a primeira vez que Belinda põe o vestido? CECÍLIA .Belinda põe o vestido para o pai. Só falta uma coroa para que ela pareça uma rainha. Há roteiristas que escrevem: “Em cima do criado-mudo vemos um retrato do pai. já que Sidália tomou providências para evitar que sua irmã tornasse a tirar o vestido da arca. morto heroicamente em batalha. GARCÍA MÁRQUEZ .É importante que isso seja notado.No momento em que Sidália entra em casa.... MARCOS .Teríamos de filmar as duas propostas e ver no que dá. Por isso Sidália está tão furiosa: não só pelo vestido. SOCORRO . mas também por causa do cadeado. como é que Belinda se deixa surpreender? ROBERTO . pela brisa que entra pela janela.sala. não vemos nada.Porque uma pessoa como Belinda não anda com um cronômetro. a mãe está usando o famoso vestido.Se Sidália sempre sai da escola à mesma hora..No retrato. Belinda está cantando. A gente sabe as horas pelos ruídos que chegam da rua. medindo os minutos. GARCÍA MÁRQUEZ .

aquele cabelo. mas muito complicado mesmo. porque Belinda se parece com a mãe.Então. ROBERTO . CECÍLIA . que as duas mulheres são irmãs. quando Sidália vai se confessar...Sidália ama também o pai. De Sidália. O que ainda não sabemos é que são irmãs..Ela não recorda do pai .conhece-o pelo retrato e pelo que Sidália contou -.É disso que tenho medo.Não é que Sidália odeie a mãe. GARCÍA MÁRQUEZ .A mãe. Seria funesto que o espectador acreditasse que esta senhora está furiosa porque a empregada experimenta. A relação entre as duas se define assim.É aí que mora o drama. Belinda matou a mãe. Ama e se oferece a ele num ritual. Agora. poderia ir até o retrato da mãe e pedir desculpas. 180 .. SOCORRO .Um solilóquio. É que odeia sua irmã. embora um tanto vaga. na figura da mãe. GARCÍA MÁRQUEZ . . seus trapos.Ou com tanto ódio.Um diálogo? Entre quem e quem? REYNALDO . ao surpreender Belinda com o vestido. feito Belinda. Esse vestido oculta um drama muito. Esta poderia ser uma das suas fantasias.Por que não voltamos à seqüência inicial? Dissemos que Sidália. podemos pensar que se trata da relação entre uma senhora déspota e sua criada. aquela pele. GARCÍA MÁRQUEZ . e também por causa do cadeado.Sim. REYNALDO .Essa informação pode ser deixada para depois... bate nela.É preciso elaborar um diálogo muito sutil para insinuar sem dizer. aos olhos de Sidália.Belinda tinha três anos quando o pai morreu. ROBERTO . Sidália fala sozinha. SOCORRO .Um monólogo. Depois.Bate por causa do vestido.. Pediria desculpas por causa do vestido.Pedir a quem? SOCORRO . SOCORRO .E se Sidália odiasse a mãe em segredo? GLÓRIA .SOCORRO . REYNALDO . GARCÍA MÁRQUEZ ..E com a agravante de que. escondida. No parto. MARCOS .mas acontece que quem herdou a beleza da mãe foi a irmã louca. MARCOS .. GARCÍA MÁRQUEZ . mas o ama. Pode conservar alguma lembrança dele. Sidália quer ser como a mãe . por que guardaria o vestido com tanto amor? GARCÍA MÁRQUEZ ..

Sidália explode. ficamos sabendo que Sidália também sabe. pelo que dizia. têm de ser atrozes. Os americanos. GARCÍA MÁRQUEZ .E além disso. e o guarda para vesti-lo em algum momento muito especial da sua vida. “Não diga nada. a beleza que ela não tem.GARCÍA MÁRQUEZ .Belinda também vestiu umas luvas de renda. É uma situação muito tensa. Assim matamos dois pássaros com uma só estilingada: revelamos o caráter de Sidália e damos informação sobre as relações familiares. Belinda olha com ódio. e o pai via a filha menor como órfã. SOCORRO . mas sem dizer nada. ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . quando vê a irmã com o vestido da mãe.E não tira as luvas. GARCÍA MÁRQUEZ . os insultos de Sidália.Sidália não odiava a mãe: invejava.O quadro das motivações está completo.E por que não deixamos as luvas de rendas para a segunda cena de violência. depois. GLÓRIA . quando rasgam o vestido? Só as luvas sobrariam intactas. sabem fazer isso. Ela mesma tira o vestido.O pai também preferia Belinda. Representa a vitalidade. E nesse momento. mas com as luvas. tinha pena dela.. ROBERTO. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . sim. Sidália vai gritando todas as ofensas que passam pela sua cabeça. Que imagem! E enquanto Sidália a amarra e insulta. porque.Primeiro Sidália fica plantada na frente de Belinda.Essas cenas de violência são uma dor de cabeça para os diretores. E. começa a insultá-la.. Enquanto amarra a irmã. Sidália sempre quis ter um vestido como esse. Belinda não é assim. seminua. Agora. era a filha da velhice. que chego a pensar: e agora? Como manter esse nível? Como continuar? REYNALDO . e dá uma ordem duríssima: “Tire esse vestido imediatamente!”. Sidália fez com que ficasse assim. O vestido é uma espécie de símbolo dessa inveja.É isso que diziam dos romances de trinta anos 181 . quando parece que tudo já está em ordem. Mas esse momento não chega jamais.Isso resolve o problema de despir Belinda. Uma situação como essa não se dá facilmente entre pessoas normais.. Não são fáceis. Nós já sabemos que não é muda. Sidália a amarra assim. Portanto. desgra‡ada! Engole essa língua.Essa primeira seqüência deve terminar com Belinda amarrada na cama. REYNALDO .. ela era “o retrato vivo da mãe”. mas ouve bem o que eu vou dizer!”. Tão tensa.

pela bestialidade da sua conduta. A outra é um animalzinho....O que me preocupava era o depois. GARCÍA MÁRQUEZ .É que amarrar implica um elemento de loucura que opera nas duas direções: na de Sidália. Acha que está tomada pelo demônio. enquanto 182 . e que Sidália acha a irmã louca. sempre disse que você e sua irmãzinha. é para explicar que Belinda é sua irmã. pois Sidália é das que se castigam com cilícios... sempre no papel de vítima.O grande problema desta história é que ela pode fazer a gente perder o sentido das medidas. fica claro que só uma ataca. GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO . ela está pior que nunca. GARCÍA MÁRQUEZ . E para ela. sim. dizia.. MARCOS .Aqui. não ponha Sidália no confessionário! Que seja uma seqüência em movimento. Sidália terá que desamarrá-la.. Até onde chegamos. SOCORRO . às lágrimas ou ao cilício? SOCORRO .A cena seguinte é muito plácida: Sidália na igreja. a de se entregar à bebida . não se defende..E Sidália. que conheceu os pais das duas: “Vossa santa mãe. depois de levar uma surra.. GARCÍA MÁRQUEZ .. e na de Belinda..Sidália está louca mas não perdeu o contato com o mundo exterior.Por favor.e que Deus o perdoe -.. Ela se sente culpada. o senhor acha que podemos exorcizá-la?”. porque nos permite sair da casa e arejar visualmente o filme.Nós ainda não sabemos como o filme continua.O que eu quero dizer é que fica difícil resolver na tela uma briga entre duas mulheres. Isso nos convém.”. O ideal seria que tanto ela como o padre estivessem montados em cavalinhos de carrossel..atrás: “Os americanos. E fala disso com o padre: “Padre. E o padre. ROBERTO . ROBERTO . rezando ou se confessando.. Por quê? Quando? GARCÍA MÁRQUEZ . “E vosso finado pai. nesse ponto ele solta o rolo familiar inteiro.Aí Sidália solta tudo. isso é uma coisa muito séria. “Padre. MARCOS . Imagine que ela rompeu o cadeado da arca e tornou a pôr o vestido”. GARCÍA MÁRQUEZ . Enfim. sabem escrever livros”. GARCÍA MÁRQUEZ . que descansa em paz e na Glória.Por que amarrar Belinda? A moça pode ficar jogada num canto. porque se associa à camisa de força.Se a confissão de Sidália nos serve para alguma coisa.Sidália não acha que a irmã está louca.

. podemos recorrer a uma elipse: passaram-se vários dias. SOCORRO . que todo mundo est maluco.. O que eu me pergunto é outra coisa: por que não damos mais importância ao boticário? E inclusive.E o padre desamarra Belinda como se ela fosse um avestruz. SOCORRO . se você quiser. 183 . SOCORRO ..Sidália mandou um recado. Sidália se levanta.Não é um corte limpo. ajoelhada na frente de um grande crucifixo. aqui. Corte.Pode haver um trânsito violento. Depois. Agora os dois estão caminhando na direção da casa.. talvez com soluços afogados. para facilitar as coisas? GARCÍA MÁRQUEZ . padre.Eu vejo a cena assim: Sidália está rezando. alcança o padre e diz que precisa falar com ele. E assim Sidália abre o jogo no trajeto entre a sacristia e o átrio. Sidália abre a porta: “Que bom que o senhor chegou. começa a abençoá-la e rezar e enquanto isso.E quem chamou o padre? MARCOS .. Pode haver passado o tempo que você quiser entre o momento que Sidália amarra Belinda e o momento que está na igreja rezando. o padre contempla Belinda. SOCORRO . que é como uma mãe para você? O que você ganha fazendo-a sofrer?”.Mas o padre. apressado. é um elemento-chave... GARCÍA MÁRQUEZ . pode criar um tempo morto com imagens de ambiente.. Sidália amarra a irmã.Sidália.Não. nós teríamos de eliminar o padre. “Rápido. O padre passa perto. padre! Ela está pior do nunca''.. Impossível: ele não pode atendê-la nesse momento. Chegam. padre.conversam.ficaria claro.Se Sidália for diretamente procurar o boticário para buscar o sedativo. padre”. por que não metemos na casa alguma empregada velha. O que ela quer realmente é que o padre exorcize a irmã. Um diálogo cortado. “Por que você se porta assim com a sua irmã. O padre bate na porta da casa. GARCÍA MÁRQUEZ .... SOCORRO . Tem um problema de continuidade. para Sidália na igreja. percebe? O corte limpo só pode ser de Belinda.. GARCÍA MÁRQUEZ . Sidália pede ao padre que vá ver a irmã.Para deixar Belinda em liberdade. tudo voltou ao ritmo normal. assim. Arrebentou o cadeado e tornou a pôr o vestido”. que fale com ela: “Ao senhor ela acata. ela está fora de si”. e o padre principalmente. esperou que o padre terminasse de resolver seus assuntos.. murmurando: “Fez de novo. ROBERTO . a desamarra.. Corte. amarrada. ofegante. no átrio da igreja. mas cheio de informação.

GARCÍA MÁRQUEZ . veríamos Sidália indo para a farmácia.Não. E quando Belinda se vê livre.Cuidado: guarde essas imagens para o final..GARCÍA MÁRQUEZ . Dentro de pouco.Sidália sai da farmácia com um vidrinho. porque não encontrava a chave do cadeado.Com a sombrinha. agora Belinda levanta. Belinda se rendeu. começa a cantar. na porta do quarto.O padre entra sozinho. não dá.. Belinda tira a chave do seu esconderijo e entrega. GARCÍA MÁRQUEZ . Está como reencontrando a si mesma. ou numa cadeira. Sidália trancou o vestido à chave. e fica ali.Ela se levanta. vai dando conselhos a ela..O padre chega na casa e..Sim.Não pode ser.. E de repente. Voltou ao seu estado normal. ordena a Sidália: “Fique aqui fora. como gorjeios. SOCORRO . dobra o vestido cuidadosamente e guarda-o na arca. e lá está Belinda no jardim. MARCOS . Pelo menos.Corte.. a informação sobre o passado.. trancando com o cadeado. com calma total. Por isso. Já est calma. voltará a sentir a urgência de pôr o vestido... GLÓRIA . Deixou em cima da arca. totalmente calma. Agora temos que ver como a crise volta a se incubar: Eu vejo Belinda caminhando sozinha pela casa e articulando sons estranhos.. cantando. momentaneamente. SOCORRO ... conhece a moça desde que que ela nasceu. dura como uma estátua. Sua irmã vai surpreendê-la de novo? SOCORRO . Registrem: eu falei sombrinha.. e não guarda-chuva. Deixe-me resolver esse assunto”. O padre estende a mão pedindo a chave. cantarolando..Quando entregou a chave ao padre.Terminamos de resolver o pedaço mais difícil. É preciso ver Belinda enlouquecer aos poucos. e torna a apanhar o vestido! REYNALDO . Já podemos cortar para ela no jardim. e enquanto desamarra Belinda. Ela sentiu várias vezes a tentação de falar com o padre. SOCORRO .Belinda pôs flores nos cabelos. 184 .Ou se levanta. MARCOS . GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . sai correndo e se esconde em algum lugar. A chave está com Belinda. ROBERTO . é capaz de compreender os seus traumas.O padre é meigo com Belinda. Agora. GARCÍA MÁRQUEZ .. mas é preciso ver que tipo de cura Sidália quer para a irmã: uma cura espiritual ou uma cura corporal? As duas..

.Belinda costuma se acariciar enquanto dorme. REYNALDO .ouve Belinda falar.Elas não têm água encanada? SOCORRO .Belinda se masturba no banho? SOCORRO .. GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO ... DENISE . quando ela sai na rua falando pelos cotovelos. SOCORRO .Todo mundo sabe que Belinda fala.Para a sua empregada. Eu vejo Belinda na casa.Não. E lembre-se de passar o espanador pelas prateleiras do quarto”. As duas irmãs dormem no mesmo quarto. Não tem eletricidade.. SOCORRO .É estranho que ela não tenha tido a idéia de amarrar guizos nos pulsos de Belinda. gritando do: “Agora sim.. GARCÍA MÁRQUEZ .Poderíamos tentar até mesmo uma cena mais mórbida: 185 .. lava... REYNALDO . Fala com as flores numa linguagem codificada. Tomam banho de balde. GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO .E que momento é este? GLÓRIA . em 1930..Vamos voltar à rotina da casa. arrumando um vaso de flores que acaba de trazer do jardim. uma pequena dose de vida cotidiana. GARCÍA MÁRQUEZ .Belinda cozinha. SOCORRO . e falando com elas.Mas uma onanista não se masturba apenas nos “momentos de clímax”.Bom.... sua desgraçada!”. As duas irmãs estão tomando o café da manhã. limpe bem o armário do banheiro. nem nada.. Por isso o vestido tem que ficar trancado a cadeado..Precisamos de uma trégua. Diz: “Belinda. então ela não fala. Só emite sons. quando Sidália a surpreende e rasga o vestido. os espectadores .. DENISE .Exato.Perderíamos o impacto da cena final. Sidália está dando a Belinda as instruções do dia. mas ninguém – nem mesmo nós. você está perdida.. e faz um sinal da cruz encandalizada.Mesmo com um toque de loucura. suspirar.Estamos num povoado rural.Belinda não tem intenção de matar Sidália. tira água do poço..GARCÍA MÁRQUEZ .. Sidália vê como Belinda se toca.Belinda fica sozinha o dia inteiro.. nem água corrente. Vê a irmã se contorcer. até o momento em que agarra uma faca e avança sobre a irmã. SOCORRO .. GARCÍA MÁRQUEZ . ELID . Ela só se masturba no momento clímax.

uma espécie de servidão que não sabemos exatamente em que consiste.A loucura mística foi mais vista no cinema que a loucura simples. Uma cena de lesbianismo incestuoso. Pode ser discretamente insinuada. porradas. GARCÍA MÁRQUEZ .. SOCORRO . Depois..Eu acho que com o café da manhã e o penteado resolvemos as cenas de transição.Elas não têm rádio. é a sua mãe.. O rádio ainda não chegou ao povoado. SOCORRO .as duas nuas . penteando... Além disso. SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ .Esta não precisa ser escandalosa. enquanto a penteia. SOCORRO . entrou na menopausa sem nem mesmo ter tido um namorado..Quem anda precisando de marido é Belinda. MARCOS .Na Colômbia.Essa relação é muito boa. CECÍLIA . fizeram uma cena de lésbicas na televisão . Afinal. GARCÍA MÁRQUEZ .e armou-se um escândalo que chegou até o Congresso. CECÍLIA . SOCORRO .Belinda adormecida.Elas podem estar escutando música.. O que viria depois? 186 . trata a irmã com muita ternura. GARCÍA MÁRQUEZ . mas enquanto isso a acaricia. tem ataques histéricos.. sabe? Com gema de ovo.Para todos os efeitos. nesta relação das duas. ou da sua: da minha.. GARCÍA MÁRQUEZ .. Não é uma relação lésbica. Primeiro. REYNALDO .Mas Sidália está sexualmente frustrada. Sidália não tem nada a ver com o divino. e Sidália tocando os seus seios.. mas cujo fundo secreto é a loucura. desfazendo nós.Não se pode esquecer que Sidália é uma beata.. os fragmentos da vida cotidiana.. E enquanto isso. deixando-se ser amada. Não é possível que não tenha nem uma gota de sexualidade.Ou podemos abordar a questão de outro ângulo. quando Belinda ainda não tinha nascido.. com um vestido novo. Agora está arrumando seus cabelos. enquanto isso.“Mamãe lavava a cabeça todos os dias... MARCOS . deixa que suas lembranças fluam: “Você tem o mesmo cabelo de minha mãe”.. como se fosse uma menina. Sidália criou a irmã. Por exemplo: Belinda acaba de tomar banho e Sidália. E gostava que eu escovasse o seu cabelo”.Não da nossa.Descreve a mãe numa dessas festas. nunca conheceu um homem. Há.Sidália conta à irmã como eram as festas que davam na casa. ou de mamãe..E Belinda está muito tranqüila. necessariamente.. excitada.. carícias. GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO .

Que momento! Diga a verdade: tem alguma coisa mais sugestiva? A irmã cinqüentona dando banho na irmãzinha de trinta.. E menos ainda com a aprovação de Sidália.. esfregando. Por quê? A única resposta possível é a seguinte: porque Sidália não deixa. recrimina: “Isso é feio. Belinda se veste e senta na sala com a esperança de que sua irmã a leve à missa.. os seios. mas não consegue se banhar.E passa talquinho.. arrumada. REYNALDO ... GARCÍA MÁRQUEZ . e põe perfume? Estou vendo as duas: “Ah. as orelhinhas. vestida. SOCORRO . Não podemos continuar dando nós.E continua ensaboando. e desde que amanhece. As boas meninas não mexem aí”..E Sidália vai de novo ao padre. CECÍLIA . mas com um avental. Antes só penteava. Sidália briga com ela porque a irmã não quer falar. porque Belinda pode limpar. CECÍLIA ... penteada... não responde. saberá que é pecado não levar a irmã à missa dos domingos..e sair às ruas para se diplomar de maluca..Já estamos na metade do filme.E se encontrássemos outra cena sugestiva para deixar bem clara a relação de amor-ódio. vê que a irmã acaricia o próprio sexo... servindo o jantar a Sidália. SOCORRO ..Só podemos tirar Belinda de casa quando ela puser o vestido . GARCÍA MÁRQUEZ . quando deixam.Se Sidália é tão católica.A cena noturna... REYNALDO .. cozinhar arrumar a casa.E por que não? E o que todos nós fazemos. veste. ao boticário. SOCORRO ..Eu acho essa cena muito reveladora.Mas Sidália vai ficar falando sem parar? GARCÍA MÁRQUEZ . vai até o piano e toca.E quando termina de servir a irmã.. Sidália bate palmas. MARCOS . como a minha menina ficou bonitinha! Vamos ver. Sidália ouvindo seus suspiros. só isso já dava um filme! Belinda é como uma boneca.Enquanto está dando banho em Belinda... REYNALDO . ou a dependência mútua? GARCÍA MÁRQUEZ .CECÍLIA . Temos que começar a desfazê-los. penteia..Belinda não deve sair de casa. E a cena termina assim: Belinda banhada. Sidália... Belinda se acariciando no sono.. SOCORRO. Agora dá banho. 187 . GARCÍA MÁRQUEZ .Sidália não deixou nunca.O que você acha deste: Sidália dá banho em Belinda.”.Mas esse dia é domingo. GARCÍA MÁRQUEZ ..seu uniforme de louca .

E aí: como a história continua? SOCORRO ..Não. Está literalmente banhada em lágrimas. eu já falei: essas coisas.. SOCORRO .. que filme até o fim. Se você decidiu filmar. com os olhos muito abertos.Que bom final para essa seqüência! A única coisa que falta é Sidália ir até o banheiro se masturbar. E então começa a chorar. Primeiro. vou ler aqui: “como se Belinda fosse um avestruz”. DENISE . meu doce amor”.Não.. SOCORRO . Além disso. que começa com Sidália banhando e penteando Belinda e termina com Belinda servindo o jantar e tocando piano para Sidália.Pois vamos ver. SOCORRO . ROBERTO . e vemos que Sidália.De acordo com as minhas anotações. GARCÍA MÁRQUEZ .Não. e termina com Sidália surpreendendo Belinda e amarrando-a na cama. é que ponha o vestido da mãe..Sidália percebeu que a irmã está se masturbando. Não pode haver tanto onanismo num filme tão curto. Eu acho que agora seria bom dar algum antecedente do erotismo reprimido de Belinda. Morde os lábios. está prestando atenção a um barulhinho que chega da outra cama: é um ofegar que vai se acelerando e termina num suspiro de êxtase. Quando é que Sidália vai à farmácia? VICTORIA . e termina com o padre desamarrando Belinda. SOCORRO . essas cenas serão cortadas depois. ela não canta: ela toca.É verdade.Esse é o eixo narrativo. Os detalhes podem variar...Seria bom esclarecer o que elaboramos até agora. nem passa pela cabeça de Sidália ralhar com Belinda. não diz nada. Depois a que começa com a conversa entre Sidália e o padre.“Me ame muito. são três grandes seqüências iniciais. Seja como for. a ponto de não conseguir mais suportar. E finalmente. GARCÍA MÁRQUEZ . É de noite. mas chora muito. GARCÍA MÁRQUEZ .Nesse momento...REYNALDO . aos borbotões. As duas irmãs estão dormindo. a dos chamados momentos da vida cotidiana. Chora no mais absoluto silêncio.Já vimos uma boa mostra do erotismo mórbido de Sidália. a que começa com Sidália saindo da escola enquanto Belinda põe o vestido. Isso nós ainda não vimos. Nem bater nela: é como se reconhecesse que a irmã tem direito a esse mínimo de privacidade. 188 .Acho que me perdi.A única coisa que deixa Sidália furiosa com a irmã. GARCÍA MÁRQUEZ . DENISE . ou parecem estar. prefiro sugerir. ELID .. SOCORRO .

Já podemos começar a última parte.Sidália dorme na cama de casal.Rasgar? Ninguém. nem vale a pena tentar.. Agora.. Belinda acha que ela desmaiou.. Na verdade. quando vê que sua irmã morreu. Belinda abria a arca e punha novamente o vestido. saia à rua e se assuma como louca. bate nela. pleno processo de decadência.Se elas dormem no mesmo quarto. Eu acho que não devemos continuar adiando o clímax. uma classe arruinada. precisamos um filminho completo. enquanto puxava o vestido pelos ombros. Temos ainda dez minutos.na qual Sidália esteja remendando o vestido. SOCORRO . você terá que analisar esta história a partir de seu contexto. Sidália torna a encontrar Belinda com o vestido – a idéia original era que.Ela disse a Belinda: “Tira essa roupa”. Do ponto de vista da progressão dramática.. mas na verdade. porque senão. SOCORRO . e a confusão é enorme.. GARCÍA MÁRQUEZ . porque desta vez Belinda não apanha quieta. além disso.num daqueles momentos de trânsito que chamamos de vida cotidiana. GARCÍA MÁRQUEZ . Belinda. ela estivesse se masturbando -. só agora.Morreu? Está morta? Eu pensava que só aí. com introdução.Assim poderia começar a parte final: do pranto silencioso de Sidália. quase ao seu lado.Mas aí. ELID . SOCORRO. que seja um obra-prima. mas está remendado.. não precisamos mais de antecedentes. SOCORRO . numa cama menor. Empurra a irmã mais velha. Você precisaria imaginá-la num ambiente da velha aristocracia rural. E além disso. embora depois tenham se complicado bastante . o vestido não está rasgado. ela é mais forte que Sidália. e em determinado momento. GARCÍA MÁRQUEZ . durante a primeira disputa. SOCORRO .Pois é. durante a cena da masturbação. mais ou menos. não têm por que dormir em camas separadas. Sidália costurando e ao mesmo tempo. que caiba nesses dez minutos finais. Ela mesma havia rasgado. Belinda tocando piano. quem rasgaria o vestido? GARCÍA MÁRQUEZ . é muito melhor que Belinda se vista. 189 .Bem.Em algum momento. clímax e desenlance. à atitude concentrada de Sidália remendando o vestido no dia seguinte.ROBERTO . Pode haver uma cena anterior . Sidália cai e bate a cabeça no pé do piano e fica imóvel... No que diz respeito a nós. quando via a irmã morta.

a partir do qual é impossível continuar subindo.me refiro à primeira versão -. você sabe.Pode ser a manhã do dia seguinte. Já sabemos que esta paz vai terminar num desastre. não consegue dormir: Belinda dorme profundamente. GARCÍA MÁRQUEZ . três seqüências. percorrer outra vez o trajeto inteiro. uma cena de passagem..As cenas noturnas não admitem graduações. Se vemos Sidália recuperada. Se a gente passar de uma cena noturna a outra. SOCORRO .. acende uma lamparina. GARCÍA MÁRQUEZ .Elas podem estar ouvindo radionovela. Assim.Eu preferiria adiantar a cena do remendo.Você pode situar a história um pouco antes ou um pouco depois. É domingo.Mas já vimos essa estrutura: Sidália comendo. GARCÍA MÁRQUEZ .Poderia haver um corte para a madrugada desse dia – ou do dia seguinte . A idéia da radionovela é boa: as irmãs costurando e bordando. e Belinda de tocar piano . e agora está sem nenhum sono.. ROBERTO . SOCORRO . Quando Sidália termina de comer. Sidália se levanta. você tiraria força do choro. lá de baixo. GARCÍA MÁRQUEZ . é preciso um corte. Agora. a cena perde força dramática. conforme for mais conveniente. o espectador logo acha que se trata da mesma noite.Mas isso foi há duas. Belinda tocando..Depois de um momento desses.. Tem que ser assim.... SOCORRO . Nós. MARCOS . não: ela. envolvidas na atmosfera sentimental de um melodrama. Parecia que Sidália era incapaz de chorar. e vimos quando ela chorou. mas de truques narrativos: quando se chega a um ponto muito alto. ELID ..Em 1930? GARCÍA MÁRQUEZ . Socorro. a melhor coisa que se pode fazer é começar de novo. se quisermos nos manter fiéis aos nossos princípios anarquistas. estaríamos nos referindo às suas insônias constantes.. para tricotar.Nesse caso. as duas se sentam na sala: Sidália. Aí consegue-se um momento muito tenso. é porque precisamos de um vestido remendado 190 . tira o vestido da arca e começa a costurá-lo. Se reconhecemos a necessidade de rasgar e remendar o vestido.SOCORRO . precisamos de uma pausa..Tanta placidez acaba sendo suspeita.Um momento. ROBERTO . e Belinda. SOCORRO .. Não estou falando de leis dramatúrgicas. mas de outra perspectiva? Sidália chorou um oceano.para que Sidália costurasse o vestido nessas horas. para remendar o vestido.E se voltarmos para a noite da masturbação.

É uma manhã esplêndida. GARCÍA MÁRQUEZ . não saberíamos o que fazer com o bendito vestido. Mas agora acontece que sai daí – dessa cena do remendo ... ROBERTO . um elemento de reconciliação que não estava previsto. De todos os ciclos idênticos. Por isso. para sentir-se viva. e Belinda quer para gastá-lo.Poderíamos passar a esse plano através de uma fusão? GARCÍA MÁRQUEZ . mas as irmãs disputam o vestido por razões diferentes.. tocando. discretamente.. começa com Belinda. a reinar.Mas esta é a primeira vez que o vestido rasga. de repente. Agora entendemos que isso vem se repetindo há quinze. Sidália costura o vestido na frente de Belinda. meio de viés... A imagem. GARCÍA MÁRQUEZ . Sidália quer o vestido como um relíquia. como se esse vestido e esses rasgos no tecido não as fizessem recordar nada... vinte anos. GARCÍA MÁRQUEZ . Agora.. Muito bem. SOCORRO .um significado adicional. Belinda. quando Belinda saí à rua dando gritos. Belinda toca piano. Nesse mundo de violência soterrada. bem. sou partidário de que 191 . escolhemos este porque é agora que tudo será decidido. mas num ato de fúria cega. a harmonia passa.. para que exista. para existir. Já estamos remendando. Isso. reina a paz entre as irmãs. com a imagem é preciso tomar cuidado. descobrimos Sidália costurando.Belinda toca piano e olha o vestido. Agora.Por isso fazemos o filme agora. Que interessante. SOCORRO .. Quando a câmera se move. as primeiras notas do piano poderiam entrar sobre esse pranto silencioso..para a cena final.É curioso.Sidália é quem rasga o vestido. porém. E ela acha que isso também aconteceu por culpa de Belinda.Sidália quer o vestido para conservá-lo. porque os recursos técnicos têm sua gramática própria. enquanto Sidália costura o vestido. GARCÍA MÁRQUEZ . E nada mais. para que não se gaste. a trilha sonora.A música do piano pode entrar por fusão no plano anterior e alcançar o volume pleno no primeiro fotograma desta cena. Reforçariam o dramatismo da situação e não demoraríamos a perceber que não se trata de um simples “comentário com Sidália. se não soubéssemos isso. O ciclo que vai das lutas à reconciliação e às novas brigas não acaba nunca. SOCORRO .. a luz do sol se filtra pela janela.Você precisa prestar atenção na continuidade: de onde vem e para onde vai essa cena? A anterior é a do pranto de Sidália Portanto. SOCORRO .Agora. Muito bem. como se as duas sofressem um ataque de amnésia. e Belinda está sentada ao piano..

uso sempre láudano. façam exercícios práticos de montagem.Como o espectador fica sabendo que é láudano? GARCÍA MÁRQUEZ . e que o padre a mandasse ao boticário. com muito cuidado: uma. Não porque seja mais letal que outro venenos. Mas como esse remédio foi parar lá? MANOLO .. Belinda já está sob os efeitos do calmante.Não precisa saber. faz com que ela engula um pouquinho de láudano. Eu..No começo.. Podemos economizar. acho que o boticário não faz falta. eu queria que Sidália contasse ao padre o problema de excitação de Belinda. duas. é cumulativa. SOCORRO . mas sua ação não é fulminante.. SOCORRO . quando quero envenenar um personagem. quando estudava o cinema. e como Belinda dá o remédio a Sidália? GARCÍA MÁRQUEZ . onde tudo é harmonia. O próprio padre pode ir até o armário da sacristia e dar o frasco do remédio a Sidália? GARCÍA MÁRQUEZ . porque é uma substância muito amarga. se vocês quiserem. Com o remédio de Belinda. Quando o padre chega. ao chegar e ver Belinda atordoada. ao ver que Sidália sofreu um ataque.Sidália não dá diretamente uma colherada a Belinda: derrama algumas gotas na colherinha.Quem cozinha na casa é Belinda. .Como chegou. Podemos falar disso mais tarde. GARCÍA MÁRQUEZ .. Belinda vai matar a irmã? GARCÍA MÁRQUEZ .Sidália poderia morrer envenenada... Quando Sidália amarra Belinda. GARCÍA MÁRQUEZ..Uma overdose de láudano. três.E a dose? Porque é preciso saber que uma overdose pode ser fatal.. SOCORRO .Quem pode suspeitar que uns poucos minutos depois dessa cena.E agora Belinda..Mas não mata a irmã de forma violenta. GARCÍA MÁRQUEZ. Assim o espectador fica sabendo onde está o frasco.os roteiristas se sentem na frente da moviola para editar os filmes. DENISE . Pode botar um pouco de veneno na sopa.Ou o padre. Eu fiz isso. o remédio já está na casa. no final daquela primeira seqüência. Isso provoca em Sidália uma reação.. pergunta a Sidália: “Você deu o remédio a ela? Quantas gotas?”. Mas agora. O arsênico é um veneno 192 . mas porque tem um belo nome: láudano. pega o frasco na despensa e obriga Belinda a engolir uma colherada. As pessoas falam muito de arsênico.. DENISE . vai até a cozinha. para o produtor. SOCORRO . o dineiro do boticário.Ou então.

revisa.. na 193 . É o mesmo filme. GARCÍA MÁRQUEZ . Danou-se. SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ .Ou seja. Sidália. indo para casa. a transição teria que ser diferente: de Sidália chorando a Sidália na escola. É uma infusão que. para ela.Sidália costuma tomar chá de erva-cidreira todos os dias a mesma hora.Desta vez. então. instintivamente. REYNALDO . Dramaticamente. GARCÍA MÁRQUEZ . Um mundo completamente diferente. Não há nenhuma razão para abrir mão dessa cena.. com seus alunos. Belinda está sozinha em casa. Sidália deitada. poderia haver uma dissolução de imagem. ou uma tarefa de escola: a professora vigia. aprova. e pode achar que o que Belinda está dando a ela é o seu chá.É. REYNALDO . Socorro. em termos de montagem. vemos Sidália lá dentro. víamos Sidália saindo. SOCORRO . SOCORRO . SOCORRO . chorando. A reconciliação aconteceu antes.Antes.O vestido pode ter rasgos e remendos anteriores. Fade out. E acho que a gente iria conseguir isso fazendo que Sidália costurasse o vestido rasgado depois daquela noite. Sidália ainda está meio atordoada. no dia seguinte. Sidália na escola dando aula.. tem propriedades purgantes.Não sei se ficou claro que Sidália desmaia ao ver que rasgou o vestido. o vestido não rasga na primeira briga. REYNALDO .Entregue ao ritual. debaixo do olhar vigilante de Sidália. e pronto. ou vice-versa. Agora. na classe. o que havia na colherinha. a obriga a abrir a boca e faz com que ela engula meio frasco de laúdano. rasga um pouco a parte do decote. sem querer.Agora sim.Seja como for não teria tempo de verificar.para longa-metragens. É isso que causa o desmaio e dá a Belinda a idéia de reanimá-la com o remédio fatal.Na primeira seqüência. Sidália manda Belinda tirar o vestido. com uma mudança de enquadramento. É como um castigo.. GARCÍA MÁRQUEZ .E a cena da costura seria antecipada. não veríamos Sidália saindo da escola mas em plena rua.Eu gostava da idéia de associar o vestido à masturbação. é melhor. Fecharíamos a seqüência do banho com essa cena.Se for assim. Para dizer ao espectador que agora. GARCÍA MÁRQUEZ ... Outro remendo para a pobre roupa. Revela muito melhor a relação entre as duas. Belinda costuraria. GARCÍA MÁRQUEZ . porque de repente Belinda fica impaciente e ao ver que a irmã cospe. ROBERTO . e a própria Belinda tirava sozinha.

ROBERTO . Enquanto Sidália ensina como se usam os talheres . ninguém pensa nas conseqüências:nem que pode ser surpreendido. dois filmes simétricos.seqüência que Roberto destacou agora. GARCÍA MÁRQUEZ ..isso é um ritual -. Belinda se vestindo.Sidália. mas quando se carrega a bateria. procurando alguma coisa para arrombar o cadeado. Corte. GLÓRIA . Belinda em casa. Por exemplo: Sidália está ensinando aos alunos como se deve usar os talheres numa mesa. que ficam para as refeições. Corte.Mas agora Belinda arrebenta o cadeado. também aqui. pondo o vestido... banhado em lágrimas refiro-me à cena anterior -. MARCOS . porque agora trancou-o com um cadeado e não deixa mais a chave em casa: carrega sempre com ela. com os alunos internos. mas não importa. uma montagem paralela? Sidália dando aula. 194 . não tem medo que Belinda tire o vestido da arca. REYNALDO .E o que a gente iria ganhar com essa história dos talheres? ROBERTO .O que eu disse: a possibilidade de criar um contraste. por sua vez.. ROBERTO . quando Sidália banha e penteia Belinda... Eu aprendi a amarrar os sapatos num colégio de padres. nem que pode ser morto. de solfejo. Depois virão os prantos e o arrependimento.Agora... Pelo menos. Vemos a mesma Sidália dirigindo o coro na escola.. SOCORRO .. o que importa é criar um contraste. Dando aula de piano... Eu preferiria ligar Sidália à música. CECÍLIA . Belinda arrebentando o cadeado.. REYNALDO .Está louca para pôr o vestido. a campanhia acaba de tocar. as vozes de um coro de meninos.. No espelho da tela. GARCÍA MÁRQUEZ . Agora a história torna a se repetir exatamente igual: Sidália na escola. MARCOS . GARCÍA MÁRQUEZ . Não precisamos mais ver Sidália na rua.. Belinda não encontra com quê abrir o cadeado e vai à cozinha e revolve os talheres e apanha uma faca. É uma música angelical.Por isso eu tive essa idéia.. a levamos para a entrado do jardim. MARCOS .Já sei: sobre o rosto de Sidália. entram.Por que não fazemos. Com um corte. SOCORRO .É uma ansiedade de tipo sexual. Belinda desesperada. zona pecaminosa. REYNALDO ..Não conseguiu agüentar a vontade. Sidália terminando a aula.Sabe o quanto está se arriscando.Na escola.É o que fazem num colégio de freiras...Está muito rebuscado.. por dissolução.No decote.

Não dá tempo.. Por isso tem um ataque histérico.O de Sidália. Vimos que 195 . flutuando como anjinhos contra um fundo azul! GARCÍA MÁRQUEZ .Belinda deu a ela as gotas como se fossem remédio.A história ficou simétrica. e desmaia. Não se perdoa. para decidir o que fazer agora. não precisaríamos ir parar aí. SOCORRO . Lá na escola. REYNALDO . mostrar todo este ritual. Precisamos ver o que fizemos no começo. a história mais torta que alguém poderia imaginar. Belinda se tranca em outro quarto. REYNALDO . para costurar o vestido.Belinda vai pondo o vestido no mais absoluto silêncio. ELID . GARCÍA MÁRQUEZ . e merece o mesmo tempo que o da primeira seqüência. quer reanimá-la.Para ela. SOCORRO .É o que Melville disse quando terminou Moby Dick: “Escrevi um livro malvado e me sinto tão imaculado como um cordeiro”. quando sem querer rasga o vestido? GARCÍA MÁRQUEZ . para ela. a agressão ao vestido tem todas as características de uma auto-agressão. Está fazendo com Sidália o que Sidália faz com ela: papel de enfermeira. Aqui.O que não me convence é a idéia do desmaio. esse coro de criancinhas vestidas de branco. GARCÍA MÁRQUEZ . Este é o final.Depois de dar o remédio à irmã. acompanhado o coro infantil. está num estado de êxtase. cantam os anjinhos.É preciso que ela faça isso. SOCORRO . Ao contrário. no quarto. Tem vantagem de revelar até que ponto Sidália está emocionantemente ligada ao vestido. Não quer fazer nenhum mal à irmã.SOCORRO .Que maravilha. atordoada. não se ouve um mosquito. Para dizer que Sidália não estava em casa. ELID . diante do piano. talvez não valesse a pena fazê-la. GARCÍA MÁRQUEZ .E enquanto Belinda costura.Se a cena da escola não proporcionasse esse lucro visual. Não consegue suportar a idéia de ela mesmo ter rasgado o vestido. REYNALDO . cadê Sidália? Está dormindo. O que eu acho importante é ver Belinda se vestindo..O que eu mais gosto desta encenação é o candor com que contamos a história.Sidália. ROBERTO . é um choque.foi assim que Socorro propôs? Não importa. GARCÍA MÁRQUEZ .Nós não vimos isso na primeira vez.Isso. morta? GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO .

dá a overdose. Belinda começa a tirar coisas do baú.Mas no começo já dá ao vestido seu verdadeiro significado. “tome essas gotinhas”. mete na boca da irmã e obriga Sidália a tomar um gole. Quando Sidália amarra Belinda. E se acabou Sidália. Então Belinda. dos armários: chapéus.. cortamos para Sidália. cospe. que a gente veja ela se vestindo desde o começo. volta a si.O ritual pode ser sugerido. e não mostrado inteiro. como se ela fosse criança.. Agora.. Então Belinda vai para a sala. com os mesmos argumentos que ouviu tantas vezes Sidália . luvas. GARCÍA MÁRQUEZ .. e começa a costurar o vestido..Belinda já estava com o vestido.O sabor das primeiras gotas é muito forte . véus.Tem uma coisa que precisamos ressaltar muito bem logo na primeira vez: o fator remédio. ou se tranca num desvão. Se só víssemos o vestido já em Belinda. GARCÍA MÁRQUEZ . não seja malvada. Podemos dizer que na primeira vez contamos a seqüência do ponto de vista de Sidália.e Sidália reage.. GARCÍA MÁRQUEZ . e quando Sidália entra no quarto. nesta segunda vez. Belinda já está vestida. as rasgar o vestido. invertemos os termos: vemos todo o começo ou todo o final da cerimônia.Tem alguma coisa de brutal ou de grotesco. quando a irmã chegava. São coisas 196 . na montagem paralela: Sidália saindo da escola. Sidália se auto-agride. Fazemos o mesmo corte de ida e volta. cinco gotinhas numa colher.. SOCORRO . como diz Reynaldo. do de Belinda. Belinda se vestindo. Eu acho que é uma questão de montagem. ELID . Sidália agredia Belinda. sei lá.Lá. tome seu remedinho!” . nessa ação de obrigar uma pessoa desmaiada a engolir um xarope. vai buscar o remédio para sedá-la. SOCORRO . E aqui.. DENISE . SOCORRO . Conta as gotas com muito cuidado. faz a mesma coisa: pões duas.se continuarmos pensando no láudano . Na primeira vez.Acho que a gente viu. diz para Belinda. e dá uma colherinha para a irmã beber. sim. “Vamos ver”. ou seja. e pronto: adeus.Sim. porque está muito ligada ao clímax. tranqüilamente. Belinda agarra o frasco. e na segunda. ROBERTO . ou em outro quarto. Agora.quando termina de costurar o vestido.Eu prefiro deixar essa cerimônia para o final. ROBERTO . Mas ao ver que Sidália ainda semiconsciente as recusa. Não tem que ser o frasco inteiro. ele perderia importância para nós. quando Belinda começa a se vestir. sem nenhum corte. três.“Vamos. Um pouco além da conta. Eu gosto mais assim. Sidália. quando Belinda vê Sidália desmaiada.

Acho que ficou curta.Isso é o que eu mais ou menos entendo por poema: um texto que se mantém erguido só pelo prestígio das palavras. SOCORRO . e ela se coloca numa posição na frente do espelho. a que todo mundo está esperando: Belinda sai à rua vestida de louca e começa a dar gritos. afinal? SOCORRO .. não precisa....que vontade de exclamar: “Pobre fotógrafo!”. E então. ROBERTO .. É preciso ver esse filme.Nossa versão dá mais ou menos de meia hora? GARCÍA MÁRQUEZ . à cena obrigatória. um puro jogo de palavras.. Agora você só pode medir essa versão pelas batidas do seu coração.. GARCÍA MÁRQUEZ . e de tal forma que. Você conta as batidas do coração enquanto repassa as cenas. É muito parecida.E as flores? Perdemos as flores no caminho..Sim: Belinda sente que está encarnando a mãe.que está possuída pelo espírito do pai.Um filme de ambientes.. o general. Na realidade. podemos passar ao final.O discurso de Belinda na rua deve ser incoerente. é um filme de atrizes. Qualquer coisa... GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO .Belinda não se 'compara' ao retrato da mãe. é inenarrável.. mas também e talvez por isso mesmo . ROBERTO .. de perfil.Dizendo o que lhe vier à cabeça. GARCÍA MÁRQUEZ . Mas tente resgatar as flores. GLÓRIA . quando já está vestida: ela toma o retrato como modelo. e o tempo que der é o aproximado.que aparecem no retrato da mãe.. Assim. do láudano. GARCÍA MÁRQUEZ . Eu gostaria de terminar com uma cena dessas. a convocar o povo à luta contra os inimigos.. GARCÍA MÁRQUEZ . Belinda passa pela frente do quadro e se compara: de frente. Quando vai sair à rua.. precisamos verificar. Alem disso. MARCOS .É um filme lento. Aquela que Sidália dizia que a mão cantava. de atmosferas. GARCÍA MÁRQUEZ .Nós também não ouvimos Belinda cantar no jardim.Ou um poema. começa a soltar um discurso patriótico.Não faz mal. 197 .. embora não sejam exatamente as mesmas coisas.. ROBERTO . desde o princípio.. que estão vindo pela estrada. SOCORRO . O retrato se reflete no espelho. Sorri satisfeita.Uma canção. do começo ao fim.E Sidália? Morreu. a história do conta-gotas. MARCOS . um duelo de atrizes.O que está faltando para nós? Deixar claro. mesmo que seja em silêncio.

E um vilarejo tipicamente colonial. toda família que se dê ao respeito tem seu maluco. em Roma.Eu? MARCOS . no caso dos roteiristas. há umas três situações dramáticas grandes: a Vida. aliás. uma a mais. E eu encontrei o seguinte quadro: não havia curso de roteiro.. Estão rindo do quê? Não é verdade.Ah. Momposo .Pela primeira vez na vida. senhora muito melhor que Sidália lidava com Belinda.meia hora. falando sem parar. e com todas as características do velho melodrama. SOCORRO . o que eu disse? Elogio da gordura GARCÍA MÁRQUEZ . e todo mundo rodeando a mulher no meio da rua.Você ia nos falar das relações entre a teoria e a prática. sobretudo quando tem visita. GARCÍA MÁRQUEZ . Todas as outras cabem aí. por termos metido em meia hora o argumento que Socorro trouxe para nós.Você falou e disse.terra de Deus. Lá. aprendemos a lidar com essa. segundo contam – é um lugar cheio de loucos. A história que Socorro vai filmar poderia voltar às origens de um povoado colombiano chamado Momposo. e o amarra numa árvore do quintal. sim! Essa convicção vem dos tempos em que eu era estudante.. Conseguimos comprimir em meia hora . mas sem deixar que se excedesse. Merecemos um aplauso. GARCÍA MÁRQUEZ .. E sem um único flashback. o Amor e a Morte.Incluindo até pedaços do passado. Em compensação.Quem foi que chamou a imaginação de “a louca da casa? Seja quem for sabia muito bem o que estava dizendo. GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS . Fui ao Centro Experimental de Cinematografia.. na especialidade de 198 .Esse final da louca saindo pela rua. GARCÍA MÁRQUEZ . A cadeira 'Roteiro' era. Bonito final. A imaginação trabalha sobre esses dados e a realidade não tem limites. Aqui. para aprender o ofício de roteirista.. com três ruas que correm paralelas ao rio.Você disse que os roteiristas deviam fazer exercícios práticos de montagem.. as situações dramáticas se esgotam rapidamente: não há trinta e seis.um tijolaço de quatro horas. aprender a mexer na moviola. onde a pessoa deita sozinha e amanhecem doze. Permitimos a essa senhora andar por onde quis. que me atrevo a classificar de suntuosa . E os vizinhos aparecendo nas janelas.SOCORRO .

Em compensação. E você tinha que ver como eram dadas essas aulas. a “arte de construir uma boa frase de montagem”. o plano de estudos incluía um cursinho prático de moviola. ou a História Sócio-Econômica do Cinema.para os futuros roteiristas. enquanto nós.os roteiristas não conseguiriam escrever direito nem uma única seqüência. Já falei várias vezes disso aqui na Escola de San Antonio de los Baños. ou “Belo corte.que era como conhecer a gramática do cinema . permanecíamos imóveis ou cabeceando no sono.. porque fico o tempo inteiro dizendo: “Este corte da janela para o automóvel fui um pouco brusco”. ou a Teoria da Linguagem Fílmica. Eu fiz um ano inteiro de exercícios na moviola. Ou para dizer como a minha querida professora diria: “Primeiro. uma senhora a quem nenhum dos meus colegas dava a menor importância . sem jamais tocar a moviola. Creio que é uma experiência fundamental para os aspirantes a roteiristas.porque achavam que sua matéria não tinha nada a ver com Roteiro -. deixei de ir às aulas. oferecidas por uns senhores . Tratava-se de aulas puramente teóricas. os alunos. tudo isso com maiúsculas.acaba sendo muito difícil para quem não saiba ver essa operação como um problema dramático e visual. além disso. graças à qual pude ver os clássicos do cinema. Falta um curso de moviola . Além disso. Passava as tardes inteiras na Cinemateca junto à professora de montagem. Aquilo não era Roteiro.. entendi que naquelas aulas não havia muito para aprender. nem era nada.Direção. de montagem prática . os sábios Doutores passavam horas e horas falando e ouvindo para eles mesmos. Ficava com ela estudando o fenômeno da continuidade. Eu me limitava a estudar como funcionava a continuidade num relato cinematográfico. esse aí: puseram a 199 .ou seja.os Sábios Doutores da Lei – que viviam convencidos de que não havia nada mais importante neste mundo. Aprender a passar de uma cena a outra . é preciso aprender a gramática”. Estava muito orgulhosa. porque a gente perde a ingenuidade. agarrar erros e distrações -. o frescor do olhar e acaba vendo o invisível: os cortes e os deslocamentos da câmera. que é um idioma belíssimo. para na revisores. que nunca tinha visto nem teria chance de ver na Colômbia. ou. e a possibilidade de freqüentar a Cinemateca. porque dizia que sem conhecer as leis da montagem .. mas que era uma fera na moviola.algo que parece tão simples . E isso chega a se converter numa deformação profissional como é. aqueles discursos não foram totalmente inúteis: me serviram para aprender italiano. Minha mulher não gosta de ir ao cinema comigo. Quando conheci essa senhora. como diria Kulechov. para um futuro Roteirista. que a Estética do Cinema. Assim.. Havia no porão uma cinemateca excelente. Devo admitir que para mim.

. que era editora. não vai resolver problemas: vai criar problemas. E quando vi o filme.. e conseguimos”? Conheço um produtor que estava eufórico porque tinha forçado um diretor a se adaptar estritamente no orçamento. e que estão lá para facilitar e enriquecer o trabalho da equipe. diz que quando a personagem da mulher cai morta na chão. Creio que já falei disso para vocês. para que víssemos o cachorro passar”. eu já disse. uns duzentos. Por isso. porque na cena da ruptura Fulano foi tantos dólares além do previsto”. notei de onde saiu a economia. ou desse curso. É a prática da montagem o que nos permite dizer “corta um segundo antes. em outro mais modesto: continuidade. falando de Psicose. A pergunta é a seguinte: o que ele conseguiu fazer pelos quatro? A mesma coisa. a aliança de todos os fatores que contribuam para que um filme seja feito. para voltar ao assunto. cento e cinqüenta.não tem sentido. é claro -. São várias. consegui fazer por quatro”. quando você vê o resultado na tela. e por isso conseguiu esses contrastes.. teríamos que procurar a equipe que fosse perfeita. como a vida sem continuidade. Se o roteirista não consegue visualizar o que escreve como um fluxo continuo. situado sempre entre um antes e um depois. Pelo contrário. A primeira função dessa oficina. é o trabalho da moviola. em outra. assim que abrir a porta”.. numa outra. não havia jeito de fazer um corte limpo. Enfim. seria fazer os futuros produtores compreenderem que eles formam parte de uma equipe de criação. o dobro ou a metade? Não seria melhor poder dizer: “Isso ia sair por sete e resolvi dar nove. para poder fazer esse corte 200 . ... para que saísse melhor. faltavam vinte dólares.Hitchcok. E o que dá o sentido da continuidade..como um romance. para que desse para ver o olho. porque a cena tinha sido mal filmada. mas podemos sintetizá-las em um: criatividade.. Assim. imediatamente comenta: “Claro.”... E.câmera de lado.. O cinema sem continuidade . Os produtores costumam se sentir felizes quando podem dizer: “Isso ia sair por sete. e não aí!”. DENISE .ao lado do diretor. etc. essa ambientação”. um orçamento muito mais reduzido do que o que seria evidentemente necessário. tudo seria melhor: E seria possível manter sempre a coerência do relato. vi de onde tiraram cada centavo: numa cena. E como foi dito tantas vezes. se a gente pudesse acabar de escrever o roteiro na frente da moviola .. e não para impedir que o diretor gaste ou torre um dinheiro que não é dele. quando vem o produtor e diz: “Estou furioso. disse: “Você devia ter filmado de maneira que desse para fazer um corte aqui. acho também que deveriam criar aqui uma Oficina de Produção Criativa. A mulher dele. é trabalho coletivo. e ele tornou a filmar a cena inteira. e não de uma fábrica de salsichas. ou “Deveriam ter cortado na saída do túnel.

“distribui” o espaço entre um parágrafo e outro. o espaço equivalente às linhas deslocadas. menos o autor. ponto. Pode ocorrer que exista uma página – por exemplo. o diagramador tenta engolir essa “viúva” ou até uma linha inteira. se a um ponto forem acrescentados dois ou três espaços em branco . porque para mim os espaços correspondem a um código secreto que tem a ver com o tempo narrativo. Pode ocorrer também o contrário.o que é pior transformar um ponto e parágrafo numa frase contínua. e o diagramador para que ninguém note esse vazio. uma montagem deficiente. Chamam esses rabichos da “viúvas”. Nesse caso. Para isso. esse lapso é controlado através do ponto: menos tempo. para trazer da página anterior . mas numa de trezentos mil. para deslocar para a frente . no relato.ficam horrorizados diante da possibilidade de que em uma página sobrem algumas linhas soltas.. Vocês acham que o editor não economiza nada com isso? Numa tiragem de três mil exemplares a economia é pequena. O leitor sente. GARCÍA MÁRQUEZ .mínimo.. fica espantoso. ROBERTO . Porque ao deslocar essas linhas. ou quase..uma ou duas linhas. mais tempo.. ou melhor pedaços de uma linha. E com essa companhia a “viúva” deixa de ser “viúva”. para economizar 201 . ou de um milhão.cujo único texto seja uma “viúva”. passou mais tempo. 'Todo mundo. para que o livro tenha uma página a menos. eles fazem o possível e o impossível. como já veremos. Tanto o ritmo quanto a duração têm conotações dramáticas. E o editor.. três. Sempre. Se a cena não for cortada no momento exato. Se o espaço tipográfico é maior. e todo mundo fica em paz. Os diagramadores de livros descendentes dos tipógrafos das velhas imprensas . por razões econômicas. essa página eqüivale a toneladas de papel. no fim de um capítulo . conforme eu dizia: para economizar uma página. incorporar tudo na página anterior. pode pôr a perder o melhor filme do mundo. a gente sente esses vazios.Vocês podem até não acreditar.ou um espaço maior que o que corresponde – quanto tempo terá transcorrido? E se esse espaço adicional aparece no meio de uma resposta. Isto não é um problema teórico. fica subentendido que. Por isso. ponto e parágrafo. o significado muda. mas acontece exatamente a mesma coisa com o texto impresso.ou seja. mas eu noto em seguida. é preciso reduzir algumas entrelinhas ou .. só com o ponto.Uma edição ruim. na página anterior sobra um espaço em branco. Eu não sei se o leitor percebe ou não. porque dá a impressão de que passou um ano entre a pergunta e a resposta. às vezes. E é horroroso. menos da metade de uma linha.

que para o autor é uma verdadeira catástrofe. diretores como Buñuel. quando fiquei sabendo que tinham me 202 . Eu nunca autorizo isso. com medo do encontrar defeitos que tenham passado despercebidos. E tem mais: sem falsa modéstia. que é dado pelo que costumamos chamar de nível profissional. Se o editor vai vender um milhão de exemplares. o trabalho era simplíssimo.. Eu não sou muito bunuelista. até fazer. cometem erros de continuidade absolutamente incríveis. Cortava durante a filmagem. ou então “procure aí aquele plano da porta e coloque atrás do da janela”. Não há verdadeira criação sem riscos.Ninguém nunca está completamente seguro do que quer fazer.e para que a edição custe menos. Depois..prevendo os cortes antecipadamente e depois filmar só o que se quer filmar.. por não ter consciência suficiente dos problemas da montagem. “até ali”.. Quando vejo a quantidade de exemplares vendidos e as maravilhas que os críticos dizem. GARCÍA MÁRQUEZ . em compensação. Há.. são bons editores. GARCÍA MÁRQUEZ . Ele mesmo dizia que facilitava muito as coisas.. Eu me surpreendo que existam roteiristas com uma vocação esmagadora. dá medo descobrir que estão todos enganados.. no entanto... porque é sempre melhor editar no papel . favorece essa manipulação.. é uma merda. até ver montado.. Bunuel fazia poucos cortes na moviola. do que editar na moviola. Os erros de um escritor são mais baratos e mais fáceis de serem corrigidos.. e portanto. E o velho sempre ali.. Eu nunca torno a ler meus livros depois de editados. sem uma cota de incertezas.Mas qualquer ofício tem um mínimo de exigências. ROBERTO . vamos colálo aqui”. questão apenas de afinar detalhes. quer dizer que vai ganhar uma quantidade tão fabulosa de dinheiro que o mínimo que pode fazer é respeitar as pulsações internas do texto. gritava “corta!” no momento exato e voilá. que além de participar do processo inteiro do roteiro.. E nunca está seguro do que faz.. REYNALDO. onde é preciso estar dizendo o tempo inteiro: “Vamos ver. em termos de visão do mundo.. críticos e leitores. enquanto filmam.. traga aquele pedaço ali. Vigiava o desenvolvimento da cena. na sala de edição. na verdade. que são super-conhecidos no mundo do cinema e que. o plano acabava ali.Um escritor tem mais possibilidades de controlar esses detalhes que um cineasta. grudado na moviola: “Até aqui”. mas admiro esse lado profissional de Bunuel. e que o livro.Isso é parte inseparável do processo de criação. tão bons que se permitem ao luxo de editar com a câmera.

que sabem tudo. minha primeira reação foi pensar: “Eles acreditaram.. Essa dose de insegurança é terrível. FIM 203 . para fazer algo que valha a pena. acabam dando tanta cabeçada que morrem disso. mas ao mesmo tempo necessária.. porra! Caíram na minha lorota?”.dado o Nobel. que nunca têm dúvidas. Os arrogantes.

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