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Gabriel Garcia Márquez Como contar um conto

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1997 3ª Edição

Casa Jorge Editorial Ltda. Rio de Janeiro-RJ

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ÍNDICE Prefácio Introdução O enigma do guarda-chuva Ladrão de Sábado

PRIMEIRA PARTE (1ª jornada de trabalho) A dupla, a trinca e a máscara Rumo a outras alternativas (2ª jornada de trabalho) À procura dos limites Sobre o mental e o visual (3ª jornada de trabalho) Em estado de loucura Quando não acontece nada (4ª jornada de trabalho) A morte em Samarra, II O triunfo da vida

SEGUNDA PARTE (5ª jornada de trabalho) História de uma paixão argentina O chamado da selva - O dia em que os argentinos invadiram o mundo - O último tango no Caribe - O inferno tão temido

TERCEIRA PARTE (6ª jornada de trabalho) Recapitulações, I O primeiro violino sempre chega tarde História de uma vingança (7ª jornada de trabalho)

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II Amores equivocados .Recapitulações.Travesti Love .Epílogo O Elogio da cordura 5 .Sidália e Belinda .

México. mas no sentido de que o cinema será sempre novo quando um jovem latino-americano disparar a câmara afirmando ou buscando sua identidade. Entre os colegas mais chegados ao Gabo (creio que aí ganhou o apelido) estavam os cubanos Tomás Gutiérrez Alea e Julio García Espinosa e o argentino Fernando Birri. nada a ver com continuismo ou dirigismo. fomento à produção (viabilizou. em oito anos de existência. Era a época mais brilhante do Centro Sperimentale. Os velhos amigos do Centro Sperimentale. apesar da dedicação compulsiva. inebriante e tirana de inventar romances e contos. Escreveu roteiros para filmes mexicanos e desejou que sua literatura fosse transcodificada à tela. Esta terceira linha de atividade é a Escuela 6 . caipira costa atlântica da Colômbia. não no sentido do iluminado movimento dos anos 60. Colômbia e Venezuela. a realização de trinta filmes. um projeto ousado e difícil: montar um espaço de formação de telecineastas que fosse também uma “central de energia criadora”. Gabriel García Márquez. os quatro se reuniram em Havana para discutir a criação de outra escola de cinema. Montou a Fundación del Nuevo Cine Latinoamericano. Durante este tempo García Márquez não havia conseguido nem querido afastar-se do cinema. como definiu Birri. García Márquez liderou o processo de implantação. Trinta anos depois (depois da Revolução Cubana. o mais importante movimento cinematográfico da América Latina. concordaram que aquele era o momento para materializar um sonho antigo. sua paixão de adolescente. para romper os atavismos que o amarravam a Aracataca e começar a aventura de andarilho que o levaria a palmilhar a Terra e outras dimensões da realidade. com sedes em Cuba. Foi a porta escolhida para entrar no mundo grande. Uma escola do Cinema Novo. que desempenhariam papéis fundamentais na eclosão do Nuevo Cine (Cinema Novo). de braços com outros “trabalhadores da luz” do continente (o Comitê de Cineastas Latino-americanos).PREFÁCIO Nos anos 50. de Perón e de Cem Anos de Solidão). foi estudar cinema em Roma. com Zavattini e Rossellini circulando pelas salas de aula e pelos corredores e o neo-realismo enchendo as telas com sua ternura e formatando cabeças jovens. no Centro Sperimentale di Cinematografia. telesséries e vídeos) e capacitação. e três linhas de atividade: pesquisa (levantamento de todas as informações referentes à expressão audiovisual do continente).

O menino é mesmo pai do homem. sua mulher. de instituições internacionais e pessoas. destinada a roteiristas e escritores de língua espanhola e portuguesa. Não por isto. A escola de San Antonio é sua casa. que sabe cuidar destas coisas e do futuro da família. a bem da verdade. doou seu prêmio Nobel para a nova escola. de empresas. o professor abre várias portas desenvolvimento dramático 7 . e recorrente. mas para peruar mesmo. com o apoio oficial de outros países. assessorando roteiros para os filmes de fim de curso. este inclusive. Professor dos alunos avançados do curso de formação. conferências. Ásia e América Latina/Caribe (de qualquer maneira.Internacional de Cine y Televisión de San Antonio de los Baños. Trabalhamos nas últimos anos na mesma área da escola (Dramaturgia e Roteiro) e por isso estive presente em muitas sessões destes workshops de idéias e articulação dramática de idéias. com a liberdade e o espírito aquariano que campeiam neste laboratório de criação audiovisual. noites de autógrafos e outras atividades). em seguida. Uma boa provocação seria dizer que de destinou tanto esforço e dinheiro não apenas para proporcionar saber e estímulo às novas gerações de telecineastas ou ter seu nome ligado ao que muitos consideram a melhor escola de cine/tv do mundo. onde se põe em prática a tênue e escorregadia ciência da narratividade. para sentir na pele. com quem mantém encontros ao longo do ano. também conhecida como Escola de Três Mundos porque seu curso mais importante é dedicado a jovens de África. são destinados à escola. mas principalmente para ser seu professor. neste cultivar de talentos e inquietações plantado às margens do rio Ariguanabo. García Márquez e seus amigos cineastas contaram com a decisiva contribuição do Estado cubano e. em Cuba. e da oficina anual Como se cuenta un cuento. O processo das oficinas é simples e instigante: os alunos sugerem idéias. A indiscrição familiar nos dá uma medida do envolvimento de García Márquez com esta instituição. bem como os ganhos auferidos em entrevistas. o homem meteria tudo o que ganha na escola de San Antonio. o calor que se desprende do ato de criação de García Márquez. Este livro é o resumo da gravação de uma destas oficinas. aí sua alma se alimenta do pólen da juventude e das interrogações e floresce com a alegria da eterna primavera. Não foi o bastante e aquele estudante colombiano de cinema em Roma. Dizem que se não fosse por Mercedes. na membrana dos neurônios. Para participar de momentos mágicos. Para materializar o sonho antigo. agora famoso e intenso. magrinho e vibrátil. os direitos autorais de alguns de seus livros.

movendo-se na superfície e nas profundezas de sua galáxia interior.destas idéias. e outras deixa apenas encostadas. atualmente diretor da Escola Brasileira de Cinema e Televisão de Campos. norteamentos. Orlando Senna * San Antonio de los Baños. lhes abençoe. fecha outras. pulsante. se forem aceitos. Neste redemoinho de possibilidades os autores das idéias encontram. 8 . que lhes levem a um drama. Universidade Estadual do Norte Fluminense. desencontram e tornam a encontrar articulações. Cuba. a uma emoção. Serpente Arco-íris. Este livro pode revelar um pouco deste desnudamento do filho/pai de Macondo. inscrevam-se para a próxima oficina e. deus da beleza e do cinema. Se não se sentirem saciados. García Márquez é uma bússola viva. de sua imaginação prodigiosa. que Oxumaré. pensante. setembro de 1994 * Ex-diretor geral da Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños.

acaba sendo a coisa mais humilhante do mundo: significa que você está se transformando em uma mercadoria. só uma pessoa escreve a história: ou a mesma que a pensou. Decidimos fazer a série com treze histórias de amor. O trabalho acabou sendo tão divertido. E. recebi um telefonema de um canal de televisão. dando crédito a cada autor mas encabeçando cada história com um letreiro dizendo: “A Oficina de García Márquez. e no futuro continuar com outras séries parecidas: uma cômica. Oferecemos as treze histórias a diversas emissoras. E pusemos mãos à obra.. 9 .. Acerta ou não acerta. de comum acordo. Foi uma coisa surpreendente.ou de uma só. ou seja. Isso. E sempre trabalhando em grupo.. Queriam me pedir treze histórias de amor passadas na América Latina. Mas. e de repente descobrimos uma coisa: as televisões pagam muito mal.. mesmo que seja de um só . Porque é claro que as linhas gerais da história podem ser elaboradas coletivamente. Saímos por aí oferecendo esse trabalho e nos disseram que comprariam. de meia hora cada uma”. Cheguei. o que fazer? Resolvemos. na televisão. mas na hora de escrever o roteiro. então.INTRODUÇÃO O enigma do guarda-chuva GARCÍA MÁRQUEZ . à conclusão de que meia hora era o formato ideal. porque havíamos tentado escrever histórias de uma hora de duração. ou outra pessoa da Oficina. só para começar. No fim. outra de mistério.. de treze em treze. Como eu tinha uma Oficina de Roteiros no México.Vou contar a vocês como é que tudo começou. que pode parecer muito agradável e lisonjeiro. realizar as treze histórias. Um belo dia. seja desenvolvida com a participação de todos. o papel vale quase nada.”. bem entendido: na verdade quase todos os nossos alunos são mulheres -. fui até lá e disse aos alunos: “Precisamos de treze histórias de amor. que agora estamos pensando em fazer mil meias-horas.. Percebemos que. Decidimos então criar uma empresa produtora. afinal. e não tinha saído nada. uma atrás da outra. que a idéia. desde que meu nome aparecesse nos créditos. outra de horror. me levaram catorze idéias. no dia seguinte. para poder vender o produto acabado. E feito uma flechada. na Oficina. a tarefa tem de ser de um só.

Ao fundo. coletivamente. Mas agora acho cada vez mais difícil que isso aconteça.a Escola Internacional de Cine e Televisão de San Antonio de los Baños o dinheiro que será arrecadado com a venda dos filmes. o momento exato em que uma história surge. Fiquei com essa idéia na cabeça. mas outra: uma história de meia hora. dando voltas. fora de foco. pensando bem. Principalmente.. Esta coisa de inventar histórias em grupo. encontrei uma fotografia enorme. não serve para nada? Algumas vezes acreditei . o mistério da criação.ou melhor. Que tipo de mistério é esse. Mas nesse meio tempo. Não consigo saber quando isso acontece.que ia descobrir de repente. Porque em uma Oficina como esta. aparecem os guardas com suas capas brancas. o seguinte: vamos fazer meias-horas e destinar a esta escola aqui . Dia desses. Desde que comecei a dirigir estas oficinas ouvi inúmeras gravações. o que estou propondo é. Nela. Quando acharmos que alguma coisa não estiver direita. que já esteja curada do medo. tornei-me um viciado no trabalho coletivo. com um véu negro e um guarda-chuva negro. e mais ao fundo ainda. solitária e muito magra.Portanto. em resumo.. a que a fotografia está contando. e no centro da foto. e ela continuou lá. Nada. das pessoas. e a agir como se estivéssemos fazendo terapia de grupo. 10 . e depois as continuaremos na Oficina do México. de gente que tenha passado por esta Oficina da Escola: gente que não se assuste com nada. aparece a nova imperatriz. a esposa de Akihito. Vi essa foto maravilhosa e a primeira coisa que me veio ao coração foi que ali havia uma história. virou um vício. e que um ser humano seja capaz de morrer por essa paixão. Iremos desenvolvendo as histórias na Oficina que dirijo todos os anos aqui na Escola. Está chovendo. A coisa mais importante deste mundo é o processo de criação. a multidão com guarda-chuvas. morrer de fome. totalmente vestida de negro. tive a ilusão de estar acreditando . de frio ou do que for desde que seja capaz de fazer uma coisa que não pode ser vista nem tocada. claro. jornais e pedaços de pano na cabeça. aparece a imperatriz. é preciso opinar com absoluta franqueza. É uma foto do enterro de Hiroíto. tentando ver se descubro o momento exato em que a idéia surge. que faz com que o simples desejo de contar histórias se transforme numa paixão. Já eliminei o fundo. li um sem-fim de conclusões. Uma história que. num segundo plano. e que afinal. folheando uma revista Life. me desfiz completamente dos guardas vestidos de branco. não é a da morte do imperador. vamos dizer: É preciso aprender a dizer a verdade cara a cara.

pois o marido . vamos acabar encontrando o tal guarda-chuva no caminho. Tenho a impressão de que. a casa fica afastada. a dona da casa. Ameaçada por uma pistola. Hugo. um ladrão que só rouba nos fins de semana. Agora se chama Ladrão de Sábado. O ladrão não pensa muito. Durante o jantar. Um momento: eu não tinha percebido que já tenho aqui uma meia-hora. Mas não pode fazer muita coisa. Mas nosso objetivo são os filmes de meia hora. calça os chinelos do dono da casa e pede a Ana que cozinhe alguma coisa. eu proporia a vocês que partíssemos desse guarda-chuva para tentarmos fazer um longa-metragem. e ele a conquista com alguns truques de mágico. Acho também que é mais fácil ler esse roteiro do que tentar contar essa mesma história com nossas próprias palavras.Por um momento. Ana. Se a nossa Oficina tivesse uma finalidade diferente da que tem. mas logo descartei também. a filha de três anos. a mulher entrega todas as jóias e coisas de valor. Estou pensando: se nós lermos essa história. uma mulher bela que tem trinta anos e também uma insônia sem remédio. entra numa casa. seu título definitivo. fica pensando. que tire vinho da adega e ponha alguma música para o jantar. Quando Consuelo apresentou essa história na Oficina. se aqui está tão bom?”. Acontece que a menina vê a ladrão.ele sabe porque vigiou antes – só volta da sua viagem de negócios na noite de domingo. Estou absolutamente convencido de que existe uma história nesse guarda-chuva. de um jeito ou de outro. Hugo pensa: “Por que ir embora correndo.. a única coisa que me ficou foi o guarda-chuva. vai ser mais fácil saber o que queremos fazer. chamava-se Ladrão de Noite. E então. É um roteiro de Consuelo Garrido. fiquei unicamente com a imagem da imperatriz debaixo da chuva. porque sem música não dá para viver. E quero deixar bem claro que não vou criar nenhuma armadilha para forçar esse encontro. é noite. enquanto prepara o jantar em um jeito de arrancar o sujeito da casa. preocupada com Pauli. o ladrão que durante a semana é vigia em um 11 . e pede ao ladrão que não se aproxime de Pauli. descobre Hugo em plena ação: flagrante total. Poderia ficar o fim de semana inteiro e aproveitar a situação. e ninguém vai passar por ali. Ana. Vamos lá: alguém aí é voluntário para ler este roteiro em voz alta? Ladrão de Sábado Na noite de um sábado. porque Hugo cortou os fios do telefone.. porque ela nunca mais seria a mesma.

sem falta. ela que adora dançar o danzón. e enquanto escutam Benny Moré cantando Cómo fue. depois de um bom café da manhã. Além disso. Ana se arrepende de ter posto Hugo fora do ar. dançando pelas ruas do bairro. o programa de música popular que escuta todas as noites. pois ele se comporta com tranqüilidade e não tem a menor intenção de feri-la ou violentála. completamente vestida e bem abrigada por um cobertor. O ladrão de sábado vai embora feliz. que no próximo fim de semana seu marido vai viajar de novo.banco. Nesse momento. dá alguns conselhos sobre como impedir que ladrões entrem na casa. Mas agora é tarde: o remédio para dormir já está no copo e o ladrão está bebendo. Exaustos. falam de música e de músicos. os três ficam juntos. Hugo e Pauli brincam. olhando fixo para os olhos dele. E. e assovia. feliz da vida. que cai num sono profundo. Agora. descobre que Ana é a apresentadora de seu programa de rádio favorito. e aplaude. e finalmente adormece. que quebrou na noite anterior. convidando-a para correr um pouco. adorou o jeito daquele ladrão preparar o café da manhã. Ana nota que ele dança muito bem. para desfrutar do domingo. e os dois se encaixam tão bem que ficam dançando até o meio da tarde. pensando bem. ela o chama. Na manhã seguinte. e se despede das duas com um bocado de tristeza. passa por ali uma amiga de Ana. ela diz. Hugo conserta as janelas e o telefone. mas Ana inventa que a menina está adoentada e rapidamente despede a amiga. Ana começa a sentir uma estranha felicidade. enquanto a noite cai. Quando Hugo está quase desaparecendo. Hugo acaba devolvendo a ela quase tudo que havia roubado. Ele a convida. o tal ladrão é bastante atraente. Assim. Ana o vê afastar-se. Só que houve um tremendo engano: quem toma o copo com o remédio para dormir é a própria Ana. Ana fica surpresa ao ver como os dois se dão bem. os dois acabam estendidos num sofá da sala. E quando Hugo regressa. Hugo fica nervoso. e nunca tem com quem. No jardim. aos gritos. 12 . é um Deus-nos-acuda: está na hora de o marido voltar: Embora Ana resista. um ritmo que a fascina. Hugo é seu admirador. Ana desperta em seu quarto. Pauli os observa.

PRIMEIRA PARTE

PRIMEIRA JORNARDA DE TRABALHO

A dupla, a trinca e a máscara GARCÍA MÁRQUEZ - Bem, vamos lá: está na hora de retalhar Ladrão de Sábado... MARCOS - Foi escrita por uma mulher. Deixa uma sensação, sem menor dúvida, de ser feminina. GARCÍA MÁRQUEZ- Você teria percebido isso se não soubesse antes? MARCOS - Teria. GARCÍA MÁRQUEZ - Pela impressão geral, ou por algum detalhe em particular? MARCOS - Desde o começo, senti uma espécie de angústia. Isso está nas sensações da mulher. GARCÍA MÁRQUEZ - Consuelo vai gostar de saber disso. Porque é verdade, a história é contada do ponto de vista de uma mulher. A protagonista é ela. Talvez não seja a melhor das histórias que foram apresentadas aqui, mas acho que é a mais exemplar: É mais ou menos, o que queremos fazer. Primeiro, é “comercial”. Dá para saber que a maioria dos espectadores vai gostar: Aliás, o empresário da Televisão decidiu comprar essa história. Vai agradar e terá qualidade, será bem filmada. Certa noite levamos um susto. Um dos alunos telefonou para a minha casa. “Ligue no canal 5” - disse ele. “Estão passando a história da Consuelo, inteirinha”. Ligo no canal 5 e vejo um sujeito tomando um banho de banheira, cheia de espuma... Era um filme de Hitchcock! Sábado, sete e meia da noite, e para mim, o mundo desmoronou. “Como é possível?”, eu me perguntava. “O que será que aconteceu com a Consuelo? Como é que fizeram essa história, igualzinha à dela?”. Mas era um alarme falso. Conforme o filme avançava, percebi que não tinha nada a ver com a outra história. Sempre que eu ligo a televisão para ver um filme, tenho a esperança de que seja um bom filme:. Mas, naquela noite, queria que o filme fosse ruim, que fosse a pior droga do mundo. Até que percebi que era outra coisa: não era um ladrão que entrava numa casa

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para roubar, e sim um fugitivo, um sujeito que tinha escapado da cadeia e que mantinha a protagonista debaixo de terror e no fim ela, tentando evitar que aquele homem a matasse, fingia obedecer... Quando afinal o sujeito sai da casa, a polícia está lá fora, esperando. Ele enfrenta a polícia e... ufa!, que alívio... que descanso!... Nada a ver: Mas tomamos certos cuidados. Logo de saída, cortamos a cena do banho. Morri de pena. É bonito alguém tomando banho. Poderíamos ter conservado aquela cena. Na verdade, é muito difícil encontrar uma história que não seja parecida, de uma forma ou de outra, há muitas histórias conhecidas. Acabamos eliminando a tal cena. A realidade, aliás, estendeu outra armadilha para mim, quando eu estava escrevendo O Outono do Patriarca. Eu havia imaginado um atentado que não parecia nenhum dos atentados habituais: colocavam uma carga de dinamite no porta-malas de um automóvel. A mulher do ditador apanhava o carro para ir fazer compras, e no caminho o automóvel explodia e ela ia parar no telhado do mercado. Fiquei tranqüilo com a imagem do carro voando pelos ares porque, francamente, achei que era muito original. Pois não é que, três ou quatro meses mais tarde, fazem um atentado exatamente igual, contra o almirante Carrero Blanco, na Espanha? Fiquei furioso. Todo mundo sabia que eu estava escrevendo a história em Barcelona, e naquela mesma época; ninguém iria acreditar que eu tinha tido a mesma idéia muito antes. O jeito foi inventar um atentado completamente diferente: levam ao mercado alguns cachorros sanguinários, especialmente. treinados, e quando a mulher do ditador chega, os cães se lançam em cima dela e a despedaçam. Depois, fiquei contente por terem estropiado o atentado do automóvel. Até hoje fico alegre com isso. O dos cães é mais original ainda, e está mais dentro do espírito do meu livro. Eu até acho que não devemos nos preocupar muito com isso: se uma cena não funciona ou cai, o que se há de fazer? Procurar outra. O curioso é que, na maior parte das vezes, a gente acaba encontrando outra melhor. Se tivéssemos ficado com a primeira, teríamos perdido. O problema é mais sério quando a gente encontra, logo de saída, a melhor. Aí sim, não tem jeito. Mas, como saber? É a mesma coisa que descobrir se a sopa ficou pronta. Ninguém pode saber, a não ser provando. Mas voltando às semelhanças, vemos deixar que elas nos assustem, desde que não se relacionem com aspectos essenciais da história. Porque a verdade é que existem histórias muito diferentes e que, no entanto, têm muitas coisas em comum.

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É preciso aprender a jogar fora. A gente conhece um bom escritor não tanto pelo que ele publica, mas pelo que joga no lixo. Os outros não ficam sabendo, mas o escritor sim: ele sabe o que joga fora, o que vai deixando de lado e o que vai aproveitando. Se o escritor se desfaz do que está escrevendo, está no bom caminho. Para escrever, o escritor tem de estar convencido de que é melhor que Cervantes; senão acaba sendo pior do que na verdade é. É preciso apontar para o alto e tentar chegar longe. E é preciso ter critério, e coragem, é claro, para riscar o que deve ser riscado e para ouvir opiniões e refletir seriamente sobre elas. Um passo a mais, e já estaremos em condição de pôr em dúvida e submeter à prova até mesmo aquelas coisas que nos parecem boas. E tem mais: mesmo que todo mundo ache que essas coisas são realmente boas, o escritor precisa ser capaz de colocá-las em dúvida. Não é fácil. A primeira reação que tenho, quando começo a suspeitar que devo rasgar uma página, é uma reação defensiva: “Como é que vou rasgar isso, se é o que mais gosto?”. Mas é preciso examinar bem e se a gente chegar à conclusão de que, realmente, não funcionava dentro da história, está desajustando a estrutura, contradizendo o caráter do personagem, indo por outro caminho... bem, aí não tem jeito, é preciso rasgar mesmo. Isso dói na alma da gente... no primeiro dia. No dia seguinte, dói menos; dois dias depois, um pouco menos; três dias, menos ainda; e no quarto dia, a gente nem se lembra mais... Só é preciso tomar cuidado com a tendência a guardar em vez de rasgar, porque existe o perigo, se o material rejeitado estiver à mão, de a gente tornar a pegá-lo para ver se “cabe” em algum outro momento. É difícil enfrentar essa encruzilhada sozinho. Aqui, na Oficina, é isso o que torna o trabalho do roteirista diferente. A história é elaborada entre todos nós, mas o roteirista está só e é ele, sozinho, que tem de escolher: O trabalho do roteirista não exige apenas esse nível de perspicácia. Exige também uma grande humildade. A gente, como roteirista, sabe que está numa posição subalterna em relação ao diretor. O roteirista é o amanuense do diretor, ou pelo menos, alguém que está ajudando o diretor a pensar: A história é do roterista, sim; mas o roteirista sabe que no fim, quando passar para a tela, ela será do diretor. Nunca vi, na tela, um único fotograma que eu possa dizer que seja meu. Não sei quantos roteiros fiz, uns bons, outros ruins, e no fim, o que vejo na tela nunca é o que eu tinha na cabeça. Sempre imaginava os enquadramentos completamente diferentes. As vezes, me esmerava indicando ao diretor, através de desenhos, a forma em que eu via o enquadramento ou a cena. “Olha aqui”dizia - “a câmera está aqui; este personagem está em primeiro plano, e este

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outro, está de costas; se a câmera se mover para cá, o outro personagem aparece ao fundo...”. Ia ver o filme e, na verdade, os enquadramentos eram completamente diferentes; o diretor havia criado a cena à sua maneira. Se alguém quiser ser roteirista e continuar sendo roteirista, tem de respeitar isso. Quase todos os roteiristas sonham ser diretores, e acho isso muito bom, porque todo diretor deveria ser capaz de escrever um roteiro. O ideal seria que a versão final um roteiro fosse escrita a quatro mãos, pelo diretor e pelo roteirista. E já que estamos falando de trabalho em dupla, falemos também do trabalho a três. Estou me referindo ao produtor: Insisti para que a Escola trate de incluir entre seus planos um curso de Produção Criativa. Todo mundo costuma achar que produtor é o sujeito que existe para evitar que o diretor gaste o dinheiro antes do tempo. É um tremendo erro. Muitas vezes, a gente percebe que determinado filme é ruim porque o trabalho de produção falhou. Faz pouco tempo, soube de um produtor que estava feliz da vida porque tinha obrigado o diretor a se submeter a um orçamento rígido... e quando assisti o filme, vi o que ele havia conseguido com isso. Em vez de dois atores de primeira, A e B, que tinham sido indicados, o diretor precisou usar C e D, dois atores mais baratos... em todos os sentidos. O resultado estava na cara. A falta de dinheiro aparecia por tudo que é canto e, de fato, acabou com o filme. O barato saiu caro, como costuma acontecer. O produtor deve saber que ele não é simplesmente um empresário, um financista; seu trabalho requer imaginação e iniciativa, numa dose de criatividade sem a qual um filme perde o pé. Quando alguém se empenha em escrever um roteiro, não deve desanimar diante dos obstáculos. E preciso colocar a honra do roteirista na frente do destino do roteirista. É preciso tentar escrever roteiros ótimos, mesmo que depois o diretor faça barbaridades com ele. E repito: para fazer um bom roteiro, o único remédio é apagar, riscar muitas linhas, e jogar muitos papéis fora. Isso é o que a gente chama de sentido crítico, aquilo que Hemingway chamava de shit-detector. O diretor com quem melhor trabalho é Ruy Guerra, porque não se sente constrangido comigo: me diz com toda franqueza o que tem a dizer, e ponto final. E eu também sou assim com Ruy. Tenho um enorme respeito por ele como diretor e criador, mas isso não me impede de falar francamente. O que não presta, não presta; e é preciso jogar fora, seja de quem for. O assunto se resume nisso: é preciso evitar que chegue à tela. Gosto de Ladrão de Sábado porque é um roteiro muito original, embora não pareça: não me lembro de ter lido essa história antes, nem de ter visto essa

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o tom de comédia. e depois.. capaz até de matar e que tudo mude quando a menina entrar e começar a relação dela com o ladrão. Pode acontecer com isso. vai: faz o que todos nós 17 . Está contado no tom que a história requer. GARCÍA MÁRQUEZ . que esta versão de Ladrão de Sábado é a versão definitiva.. Rumo a outras alternativas REYNALDO . e esse é um ponto no qual a gente se engana muito: temos a história e achamos que isso resolve tudo. Para o roteirista. REYNALDO . que a gente acabe num beco sem saída. Talvez na próxima vez não vá mais. ele poderia ir amaciando. ou o estilo.. lá dentro.. Dá para imaginar o que vai acontecer. seria lógico que ela notasse que é um objeto da casa. e isso é importante. A mistura pode vir. A mulher vê pelo espelho que o sujeito é um tremendo gato.A idéia original é um mágico. A gente não pode se enganar nunca ao insinuar o gênero. Consuelo quis estabelecer. E digo ainda bem porque há muitos métodos para escrever roteiros. em si. enfim. O espectador tem que saber logo de saída se o que está vendo é um drama ou uma comédia. Eu percebi isso na cena do espelho. GARCÍA MÁRQUEZ . só que quando o ladrão dá de presente a Pauli a pombinha de porcelana. Eu acho que uma das virtudes deste roteiro é a sutileza com que o gênero é estabelecido. Acho. Outra coisa: a dose é decidida pelo roteirista.. mas não importa.história. Acho mais atraente a gente pensar nele como um bichopapão. mas depois. o importante é conseguir descobrila. Essa idéia de Papai Noel é ótima. mas de repente começamos a escrever e erramos o tom. não há nada que proíba que esse tom seja ressaltado depois. um prestidigitador. Mas agora que você está dizendo. pronta para ser passada ao diretor. o sujeito vai embora. fica claro que ninguém quis esconder que se trata de uma comédia.Essa história tem muita coisa de comédia. que ele mesmo havia trazido.. sua própria técnica. porque está bem contado. O tom de comédia vai sendo imposto gradativamente. O ladrão está caracterizado de um jeito que faz com que eu seja partidário até mesmo de que ele use aquela pequena máscara que os ladrões das histórias em quadrinhos usavam. na primeira seqüência. desde o começo. uma espécie de pequeno argentino que vai nos dizendo o que temos de fazer.. mas na verdade nenhum deles serve: cada história traz.. Ainda bem que cada um de nós leva. Só que se desde o princípio ficar evidente que ele é bom. veríamos o personagem como uma fera. só que agora. Depois.A história admitiria esse tipo de recurso.O personagem se apresenta como bonzinho desde o primeiro momento. Ele tira um objeto que estava oculto. e que não tem nada a ver com a casa.

Eu consigo ver Ana. Acontece com os romacistas. deveria ter umas quatrocentas páginas. Ana. Depois.Eu também não. para que depois a gente percebesse que ela mentiu. GLÓRIA . e enquanto não houver inspiração.Não gosto do beijo. GARCÍA MÁRQUEZ . as mentiras da mulher: GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . Por que não mente? Deveria dar a informação ao contrário. para ser exato. confessa: “Não saímos quase nunca”. percebem que o material está se esgotando e não sabem o que fazer:. De vinte e sete minutos. pelas suas previsões. enquanto não houver um estilo homogêneo. por exemplo. o tom não serve para nada.. Desde o começo. e no segundo ou terceiro capítulo. Isso é gravíssimo. Estamos falando de meia hora na tela. mas uma coisa me preocupa: o tempo. ou de parecer. não há história que sirva. REYNALDO . só para ver-nos obrigados. Mas agora não gosto mais. A estrutura perde totalmente o equilíbrio (já encontraremos tempo para falar da estrutura). depois. os defeitos vão se tornando mais evidentes. gostava. a estrutura não serve para nada. e o homem contestaria: “Chega domingo”. Antes. às vezes. o seguinte: começam a contar uma história que. por sua conta.. dá para ver que é apenas um filhinho de papai.. ele teria todas as informações. ele diria: Juntos? Não saem quase nunca”.Eu sinto falta é da descrição de Ana. Podemos dizer a mesma coisa dos outros elementos.Isso até contribuiria para despertar a admimiração dela. SOCORRO .Volto ao tratamento dos personagens. Se vamos empacar na caracterização dos personagens. REYNALDO . Seria mais interessante que o espectador fosse descobrindo. REYNALDO . dividida em partes: 18 .supúnhamos que ia fazer. sua personalidade. referindo-se ao marido: “Ele chega amanhã”. Ela diria: “Saímos quase todos os dias”. É natural: na medida em que a história vai se ajustando.Tudo bem. Essa coisa de todos os personagens dizendo sempre a verdade: acho mentira. e desse jeito. diz que seu marido chegará no domingo à noite. Ele até gostaria de ser. a precipitar os acontecimentos.E que eu não sinto que ele seja um ladrão profissional. mas olhando bem. Ou seja. Uma história de trinta minutos tem suas próprias leis.E se ele já soubesse tudo? Ela diria. E um profissional. e é preciso saber obedecê-las. corremos o risco de começar como se estivéssemos fazendo um longa-metragem. GARCÍA MÁRQUEZ . Enquanto não houver o tom.

Mas. SOCORRO. por exemplo. e não de mudá-la.Quando a gente tem uma história nas mãos. É típico de uma classe social. A idéia de que ela seja uma locutora de rádio e que tenha um programa popular não me convence. nas comédias é preciso perdoar certos lugares-comuns.Há um ponto no roteiro em que se estabelece que o ladrão vê Ana “no batente da porta”. GARCÍA MÁRQUEZ . ou cedemos à tentação de convertê-las em histórias diferentes. Um roteirista tem de ser mais cuidadoso 19 .. já relaxou. GARCÍA MÁRQUEZ .. E ele.. VICTORIA.O problema é que uma menina maior teria mais consciência dos laços familiares.Nada disso: uma criança de três anos se comunica muito bem..Já está derrotada.. SOCORRO .. e seria muito difícil inventar um tio para ela. De noite. GARCÍA MÁRQUEZ...Confesso que não sei direito o que significa ter três anos.. antes de beber o copo de vinho. pegar uma faca.Gostei muito da cena da amiga. Ou defendemos as nossas histórias.Só tenho medo é de que essa idéia nos leve diretamente a um longa-metragem. quando a convida para correr. e depois. já preparou o café da manhã. Mas enfim. de gente de dinheiro.antes de dormir. Uma menina de três anos é difícil de ser dirigida em cena. E não há nada pior do que uma história curta que foi esticada.. Por isso a imaginei assim. GARCÍA MÁRQUEZ . VICTORIA ... não pode se deixar arrastar pelas idéias que façam com que ela seja contraditória. preocupada com esse tipo de coisa. porque as comédias não devem ser levadas muito a sério. É fácil de conduzir. principalmente numa situação como esta. A idade da menina. e me dá a impressão de que no ano que vem ele ainda não vai saber falar. mas acho que devemos tratar de melhorá-la. Isso não quer dizer que deva ficar do jeito que está.. Quero deixar claro que não estou defendendo esta história. por sua vez.. quando se levanta. GARCÍA MÁRQUEZ .Pois eu acho que deveria ter mais. E um recurso muito conhecido.A menina tem três anos. Eu não consigo mesmo é gostar da troca de cálices. no dia seguinte.Acho que Ana é casada com alguém de muito dinheiro. Tenho um neto que vai fazer dois. GARCÍA MÁRQUEZ . não pára de maquinar sua defesa: telefonar. SOCORRO.

e seria obrigada a voltar ao banheiro para apanhar outro remédio.E se ela. e o que tiver de fazer o break-dowv. Mas parece que não tem outro jeito. nada está consolidado. ou seja. o vão é o espaço que a porta fecha. SOCORRO. O batente é onde a porta está presa.. preferisse botar na garrafa? Faria isso confiando na própria resistência. Ela não beija o ladrão no batente: beija no vão da porta.. abre de novo. como quando estamos pintando uma parede e percebemos que falta alguma coisa para chegar á espessura adequada da tinta. jamais o tomaria com vinho. que ele dormiria primeiro. 20 . Ou pelo menos. GARCÍA MÁRQUEZ . O dintel é a parte de cima do batente... GLÓRIA . é a moldura da porta.E se for ele quem troca os copos? Ela perceberia e. na medida em que vamos incorporando elementos. abre o armário e quando vai fechar. É preciso dar outra demão. GARCÍA MÁRQUEZ . porque dá para sentir. Será mais arbitrário.. o batente é a estrutura onde a porta está montada. se é branca ou negra. Mas devemos insistir. e sabe que o remédio faz efeito.com a linguagem. Pois bem: tudo que sabemos dela é isso: está no vão da porta. quando fecha. E na realidade. e não sabemos como está vestida. Ou melhor. o mais provável é que ele ofereça seu próprio copo. O coitado do encarregado de arregimentar o elenco vai ficar louco. Então. e apanha o remédio. diante de uma situação dessas diria a ela: “Prefiro beber no mesmo copo que você”...Mas se ela fizer isso. Se ela está acostumada a tomar remédio para dormir. o umbral é a parte de baixo. vacila.. ela sim. MARCOS . Essa é uma falha técnica do roteiro. GARCÍA MÁRQUEZ . loura ou morena. Mas não sabemos qual a sua idade.. já está claro o seguinte: existem alternativas. se está de pijama ou de roupão. na certeza de que ele cairia no sono e ela. fingiria um ataque de histeria e jogaria o copo no chão. VICTORIA . A seqüência de ações poderia ser a seguinte: ela vai ao banheiro. não vai saber que vestuário irá precisar.Se ele fosse um verdadeiro profissional.. mas será também mais criativo. acontece o contrário: ele não dorme.Para mim.. ela teria que servir outro copo para o ladrão.. armar os detalhes da préprodução.Insisto: esse negócio da troca de cálices continua me incomodando. simpática ou chata. ao se ver forçada a tomar o vinho com o remédio.Ou ela procura um pretexto para não ter que beber.. não.O roteiro também deveria deixar claro que Ana tem a idéia de usar o remédio para dormir quando abre o armário do banheiro.. que tudo ainda está muito verde. em vez de botar o remédio no copo. REYNALDO .

nem isso? Sim. e colocou-os na mesa. animados. gentil. qual ator entra primeiro. eu sirvo”: tem de ceder.criativo. as que fazem a história avançar. E apanha a bandeja. Ele se levanta. Aliás. GARCÍA MÁRQUEZ . – que nos ajudam a dizer da melhor maneira possível o que queremos dizer.. ir ao seu encontro: “Com licença”. esta palavra .será muito ouvida aqui na Oficina. enquanto ela se limitaria a molhar os lábios.Acho que isso é importante: o espectador não sabe qual dos dois copos é o bom. criativa . O remédio ainda não fez efeito.. Ela não pode dizer “pode deixar. Nós também não sabemos qual dos dois tomou o copo com o remédio para dormir.Eu acho melhor ele trocar os copos de propósito. Não sabemos qual dos copos tem o remédio. esta proposta parece ser a melhor. com muito cuidado. REYNALDO .Achei! Ele já tomou o seu copo. O remédio está num deles. qual sai depois.. ela já não sabe ao certo qual dos copos é o dela.Ela poderia entrar com a bandeja e ele. Pertencem à técnica alguns recursos – onde colocar a câmera. Mas as idéias fundamentais.. Ela trouxe os copos já servidos. Não sente nenhum gosto estranho. Ele toma um gole... SOCORRO. 21 . Será que tem um erro nessa história? Por que será que nenhum dos dois boceja de leve. É a mais criativa. até que alguém desmorone no chão. Ela faz a mesma coisa. dormindo. O espectador sabe que um dos dois está a ponto de cair duro. GARCÍA MÁRQUEZ . Vamos esquecer o remédio para dormir. não sabemos em qual. Torna a beber: Chega o momento em que os dois esvaziaram seus copos.. ao campo da criação.E se ela souber que ele gosta de beber? Ele poderia liquidar seu vinho num vupt.. Não me perguntem como. apanha o copo dela. Mas os dois continuam conversando. e como a garrafa não está na mesa. Vamos reservá-la para as soluções que não sejam simplesmente técnicas.SOCORRO .

veja só. ouvem uma voz que vem lá do alto: “Estão aí?” “Sim. Vamos ter de esperar até amanhã. o rapaz e uma moça. Lá de cima.SEGUNDA JORNADA DE TRARALHO À procura dos limites GARCÍA MÁRQUEZ . Mas o tempo passa. uma voz: “Não se preocupem. Só ficam no elevador que tornou a se movimentar.. respondem: “Está vendo essa gradezinha da ventilação. e o rapaz comenta: “Pronto. Desistimos de chamar os bombeiros. porque eles arrebentariam tudo. não tem mais problema. o elevador dá um solavanco e pára entre dois andares. Fiquem serenos. pára de andar. mas não conseguimos achar os mecânicos. O elevador sobe. agora ouve-se uma campainha longa. chamamos os bombeiros. que sofro de claustrofobia. A história é muito simples. Até eu. mas agora sim. “A casa de máquinas está lá em cima. Com umas roldanas. Ouvem marteladas. tira 22 . está bem?”. O rapaz tenta tranqüilizá-la. porque quem mais medo sou eu. com um grupo de pessoas. “Devem estar subindo pelo outro elevador” . vamos colocar assim: quem tem menos medo? Não se preocupem. E então. é uma campainha que ninguém nunca ouve. “Não se preocupe. O rapaz grita: “Está começando a esfriar aqui”. O rapaz faz isso. Vamos lá. já aprendi a me dominar. já sabem que estamos aqui”. No edifício.Vamos ver se a experiência de Ladrão de Sábado nos ajuda a fazer a nossa primeira meia-hora. Existe uma história que quero fazer com o diretor colombiano Lisandro Duque. Ele se vira sorridente para a moça: “Viu só?”. eles conseguirão mover este nosso elevador”. E já que ninguém quer quebrar o gelo..”. Um rapaz entra num elevador. o grupo sai. De repente. começou o movimento. se vocês preferirem. Já voltamos”. torna-se a ouvir a voz lá do alto: “Desculpem. “Não se preocupem. Se não conseguirmos.comenta o rapaz. isso se resolve depressa. De repente. já vamos tirar vocês daí”. Vamos chamar os mecânicos. somos dois”. Alguém tem uma boa meia-hora para contar? Ou. De repente. A moça fica muito nervosa. aí no teto? Solte os parafusos”. Ele vai dirigir o filme. Como todo mundo sabe. Ele aperta o botão do alarme. eu mesmo me ofereço como voluntário. ruídos que descem pelo poço do elevador.

uma cestinha com água e sanduíches. e a moça está grávida outra vez. respondem lá do alto. e fica evidente que são os bombeiros. esses assaltos em plena luz do dia. Agora. e passam para recolher no dia seguinte.. As vezes. A gente aceita tudo. Falta escrever o processo inteiro. e nada. “Com toda essa poluição. Ele está terminando de ler um livro.. Na manhã seguinte. mas. gritam. para marcar a passagem do tempo. penso que daria até um longa-metragem.Isso está resolvido: saquinhos plásticos. Os dois já têm um bebezinho. Coloca o livro no cestinho e dá um puxão na corda. conseguem que o elevador dê um salto e se detenha no andar seguinte. Vocês não ouviram falar daquela história de cocô que também discutimos em outra Oficina? É muito bela. E realmente chega o gravador pelo buraco do teto. mas tornaram-se exigentes.. uma longa dissolução de imagens. Aquilo é um pequeno paraíso.. São contratos sérios.Você não deixou nenhum detalhe de fora. Num canto do elevador. Gritam: “Que diabos está acontecendo com o gravador? Continuamos sem música!”. então. um belo dia tornam a ouvir vozes e ruídos lá no alto. “Esperem. GARCÍA MÁRQUEZ . fica o buraco.. no outro.. E ponto final.. O cestinho perde-se lá no alto e demora a voltar com o pedido. Alguém. senhor”. MARCOS. E com uma corda mandam cobertores. no meio da rua?”. Claro que entre o rapaz e a moça começa a existir uma relação diferente. Você sabia que.. no Japão..Tem um problema de credibilidade.uma plaqueta de metal. e tem exatamente meia 23 . grita. O rapaz e a moça se negam a sair. abre a porta e.. Nas paredes há quadrinhos e vasos com flores. a moça aparece grávida. A história ainda não está desenvolvida. os dois são acordados por uma voz: “O técnico acaba de chegar: Preparem-se para sair”. e o banheiro? GARCÍA MÁRQUEZ . No final. “Nem pensem em voltar aqui!”. Mas o tempo passa. o necessário para passar a noite no elevador. ele compram merda como adubo? Distribuem uns saquinhos plásticos pelas casas. um fogareirinho. No teto. “Mande o volume dois!”. Finalmente. “Lá para fora?”. esses ruídos. lá de fora. Os dois parecem estar confortavelmente instalados no pequeno espaço.Que nada: ainda existem muitas pontas soltas. “estamos mandando agora mesmo”. Os dois se juntam num esforço e fecham a porta. vamos mandar algumas coisas”. Nova dissolução.. dizem. descobre o pequeno paraíso. Há. de mais familiaridade. MARCOS . mas elas irão se ajustando quando começarmos a pensar na história milimetricamente. “Sim. existe um colchãozinho..

Em todos. Acontece assim: muita gente quer emigrar para os Estados Unidos. A partir do momento em que essas regras são aceitas. Os dois fugiriam juntos.De meia hora? 24 . Sobre o mental e o visual CECÍLIA .hora de duração. Meia hora de amor impossível entre duas pessoas que não podem se encontrar porque vivem em épocas diferentes. em pleno século XIX. Um dia. todo mundo passa com êxito pela prova das fezes. São mais amplos do que a gente imagina. se a gente tentar trocá-las no meio do caminho. na verdade. quais os limites do verossímil. Vamos ver se vocês acreditam nela. Ela transcorre numa aldeia da Bolívia.quando reformaram todas as caixas da cidade. Abre e lê: é uma carta crucial. para ela. e consegue ir para os Estados Unidos. Outra meia-hora: a de uma mulher mais velha. sua própria merda. Se acreditarem na sua história. Ela olha o envelope.. E o dono desse cocô tem a idéia de vender merda. na própria história.. o sonho de sua vida. da moça que compra um espelho do século XIX. ela decide ir ao encontro impossível. Ele mora no espelho.. elas passam a ser invioláveis. A chave do enigma está na grande jogada. embora carregando suas amebas. e a vida dela mudou completamente. nunca deixou de amá-lo. Acontece uma série de coisas e no fim. realmente. o carteiro vai até a casa dela para entregar uma curiosidade: uma carta que foi encontrada no fundo de uma caixa de correio – dessas onde as pessoas colocam a correspondência . o outro jogador não aceitará. Como aquela outra. A caixa estava lá há 35 anos. na quarta-feira. É. mas para conseguir. Não tem jeito. em pleno século XX. Era outra vida. E lá está ele. Felizes da vida. Daria um exemplo perfeito de meia-hora. como tinha feito todas as quartas-feiras às cinco da tarde. é preciso passar por exames médicos. mas é preciso ser consciente desses limites. A gente estabelece com o espectador . Quem foi que disse que não existe amores eternos? Eu e interesso muito por esse tipo de história porque permite perceber até onde podemos forçar a realidade. Pendura o espelho no quarto e de repente descobre que dentro do espelho existe um sujeito. e ela mora fora. às cinco da tarde. o bispo dessa forma. 35 anos depois. você está salvo.Tenho uma história. É como jogar xadrez. GARCÍA MÁRQUEZ . embora bem conservada. Assim. Seu amado marca um encontro no café tal. com filhos e netos. Ela e o homem dos seus sonhos.ou com o leitor as regras são jogo: n peão é movido assim. a torre desse outro jeito. E ao examinar o cocô dessas pessoas. menos em um: existe um cocô sem amebas.. Mas um belo dia ele desapareceu. o único que amou. pode continuar jogando sem problemas. esperando por ela. encontram amebas em todas as amostras.

CECÍLIA . A secretária o faz notar que ele mesmo revisou e assinou o documento. Esta noite. O chefe está furioso. GARCÍA MÁRQUEZ . na verdade.CECÍLIA . “É que está faltando o primeiro ponto!” – grita ele .Quem obriga.. acha que é um capricho ou uma brincadeira. “Está vendo só?”. “Você tem que descansar. “O corpo não me responde”. vão dizer alguma coisa.. sacode os ombros e diz: “Tudo bem.. Mas admito que é uma 25 . quem faz? Ele ou as mãos? Porque você está guardando o mistério das mãos. E de repente. olhando para as próprias mãos. diz. sem nada. seria fazer o corpo inteiro ir se rebelando. vê o homem na cama e pergunta a ele porque ainda não levantou. Ele rejeita.Vocês irão decidir: E a história de um senhor que um belo dia acorda cedo. vemos como as mãos saem na direção do prato que ele acaba de recusar. e isso não dá certo: você tem que soltar esse mistério logo. como todos os dias.. Ela suspira. mas a mulher impõe silêncio com um gesto. sem família.. a secretária traz de volta um balancete que ele havia apresentado ao chefe da empresa no dia anterior. E não consegue. chega em casa mal-humorado. Tira da escrivaninha um caderno de anotações. Chama a secretária: será que não foi ela quem mudou o original? Ela nega com firmeza. E são números que ele mesmo anotou. mas está com o aparelho digestivo paralisado. se distrair”. O homem percebe que todos. No escritório. A mulher vem da cozinha. e descobre de repente que perdeu seus reflexos. diz. remédios. Os filhos trocam olhares entre si. vê que o homem já está vestido e pronto para ir trabalhar. com os filhos. Mas só desta vez”. O homem ficaria sem trabalho. O homem sai do escritório. diz o homem à mulher. É verdade.O corpo inteiro parece fazer coisas estranhas. O criadomudo está cheio de frascos. O homem é contador..“É natural que ninguém entenda mais nada!”.O truque. Diz que não entende nada. Eu vou levar as crianças para a escola. vemos como ele serve uma colherada e toma.O que aconteceu com a mão dele? CECÍLIA. talvez um xarope. O homem está sentado à mesa. O homem é bastante hipocondríaco. os números estão mudados. comprimidos. conversa com um amigo. O homem vai se levantar. e a mão não responde. Quer pegar um copo do criado-mudo. Quando regressa. Adoraria comer tudo. GARCÍA MÁRQUEZ ... compara os dados e exclama: “Como é que eu pude fazer isso?”. Na frente dele há um vidro de remédio. esperando que a mulher sirva o jantar: Ela põe na frente dele um prato delicioso. e o amigo o tranqüiliza: “São os nervos”. até que no final o homem estivesse totalmente dominado pelo corpo. diz ele. “Elas me obrigam a fazer coisas que não quero fazer”.

ele teria que resistir feito uma criança.O grande problema da história. costuma dizer o homem. Um dia. E o que realmente acontece. Acho que a transformaram em filme e foi resolvida. depois de um sono intranqüilo. GARCÍA MÁRQUEZ . primeiro. como é que vou conseguir?”. Não é só a mão: é uma rebelião paulatina do corpo inteiro.. A idéia é essa. Você teve de “explicála” para que pudéssemos entender o que acontece. e alguém diz: “E que você está ficando verde”. faz o que ela quer”. Gregorio Samsa viu-se convertido em um inseto monstruoso”. ou roxo. por ter contado mal a história. GARCÍA MÁRQUEZ. “Se eu tivesse outro corpo. você se propõe a dizer o quê. justamente.. Mas aqui. com um narrador. Verde. Ele se sente diferente do corpo que lhe coube na roleta da vida. de Kafka? “Certa manhã.Tive essa idéia ouvindo as pessoas dizendo: “Fulana? Ah. Aí essas sensações estranhas são contadas. grita.Pode ser que a culpa seja minha. nós o vemos. 26 . aqui a gente não sabe o que está acontecendo até que o próprio sujeito diz: “Esta mão safada não faz o que eu quero. ou vermelho. faria isso ou aquilo”. o que está acontecendo comigo?”.. porque a história não é muito visual. CECÍLIA . Dá para ver.Quando for comer. CECÍLIA. o caso é que o tipo fica colorido. a mulher está acostumada. conseguiu esse trabalho de modelo pela figura que tem. botar a cabeça para trás . Por isso fala-se tanto no filme. mas pouco a pouco acabam aceitando porque ele sempre foi meio hipocondríaco.Você lembra de A Metamorfose. claro. “Mas com essa pinta. e depois com ele mesmo contando suas experiências.história difícil. GARCÍA MÁRQUEZ . No começo acaba sendo inacreditável para quem rodeia o homem.Eu acho que é pouco visual. Não é que ele acha: não é um pesadelo ou uma alucinação.. é esse. essas sensações sobre as quais ele não tem nenhum controle. CECÍLIA .. com essa história? Quer contar o quê? CECÍLIA . paulatino. tanto faz. Tampouco é uma história muito visual. não. e que imediatamente isso fica demonstrado. ou melhor quando a mão levar comida à boca do homem. e não ele? ELID .. Com aquela altura.O que existe de tremendo em A Metamorfose é que Gregorio Samsa amanhece realmente transformado num enorme inseto. percebe: “Porra. ao despertar. Como diferenciar ele do corpo? O que fazer para deixar claro que quem está agindo são suas mãos. Apertar os lábios. por exemplo. Ele se vê. GARCÍA MÁRQUEZ .E que se trata de um processo lento. Não é como a história de um camarada que fica verde.

Eu acho que uma história não existe enquanto não puder ser contada em uma página. eu tenho um estômago que não presta para nada... será um prazer recebê‐lo em nosso grupo. claro. Dizem: “Você sim. é hipocondríaco . Você quer tentar? CECÍLIA.E talvez um pouquinho de dinheiro .. GARCÍA MÁRQUEZ . não é?”. Mas o problema é como concretizar isso visualmente. e além disso a inteligência que tenho. CECÍLIA.. “.. Estaria completo. Quando. só podia mesmo correr. tem muita gente que não está de acordo com o próprio corpo.. Existe aí um conflito. nada faz mal..E tem aquele que diz. fulano jogou bem.Isso ficou claro. qualquer um consegue”. além disso. GARCÍA MÁRQUEZ. Se quiser outros títulos nos procure http://groups. Enfim.1 1 Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar o acesso ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras.com/group/Viciados_em_Livros.google...”. 27 . Já eu . aquelas pernas. tem sorte! Pode comer de tudo. não é? Uma espécie de dissociação entre o que esse sujeito é e o que gostaria de ter ou de ser.. Mas com aquela corpulência. E tem ainda quem acrescente: “Se eu tivesse tudo aquilo.Até o infinito? GARCÍA MÁRQUEZ .. falando de um jogo de futebol: “Sim.. Minha digestão é muito lenta.aquele corpo. aquele cabelo .

Atrasado.. E disse a ele: “Trabalho com você. Olha só. Eu disse: Mercedes. “O Alejandro está precisando disso!”. Deixa um copo aqui. “Como?”. lá de Buenos Aires. Alejandro Doria me telefona. é um gênio. o marido é um sujeito insignificante. e nada. Uma semana mais tarde. Eu fiquei furioso: “Como é que você me pede isso. É verdade que. E ela ficou me olhando. rascunhos. e não tornei a pensar no assunto. tive a idéia. trabalhando em alguma coisa com Ruy Guerra. não sei.TERCEIRA JORNADA DE TRABALHO Em estado de loucura GARCÍA MÁRQUEZ . que você vai acabar me deixando louca”. e de que você o copiou”. Então. Os filhos moram com o casal. Acende o fogão. depois. naquela época. a panela está em cima de um 28 . “aqui está o quarto. embora eu tenha certeza de ter visto esse capítulo. não tem jeito. e depois porque não valia a pena. Ela ia fotocopiando. vamos ter de fotocopiá-lo de novo. “Não faz mal”. este que estou copiando agora é o quinto”.. a mulher começa a perceber que as coisas mudam de lugar. pedi a Mercedes que me ajudasse. Eu copiei. Mas profissionalmente. rasguei sem perceber”. Ela chegou inteirinha. Ele topou. e que sem querer tinha rasgado também a cópia do quarto capítulo. De repente. para uma mulher de quarenta anos”. em casa. e quando volta o copo não está mais lá. A idéia completa. Pessoalmente. Estava com uma atriz que já não é tão jovem. o quarto capítulo não está aqui”. de um longametragem. e quando volta. falei comigo mesmo. disse ela. Pus as cópias bem aqui. reparei que havia estado rasgando papéis. A coisa ficou nisso. falei para Mercedes. mas você me ajuda a terminar esta história”. Pode ser a eletrônica. Um belo dia. e eu ia pondo as folhas em ordem.Um dia. como se estivesse encomendando dez metros de pano?”. comecei a tirar fotocópias do livro que estava escrevendo. “Bom. Eu estava. e me disse: “Escuta. não gostei do final. E sobre uma mulher casada com um cientista. sai. do começo ao fim. não lembro qual. Continuam a procurando. põe uma panela no fogo. Primeiro. de Um Corpo que Cai. “Não pode ser. E bem nesse momento. “Por favor não faça uma coisa dessas comigo. o quarto capítulo sumiu. precisamos de uma história. porque vinha de Hitchcok. mas já são adultos. isso ainda não está muito definido.

A outra se comporia exatamente como ela.fogão apagado.. que diz que aquilo tudo é muito normal. é porque ele enlouqueceu. É uma pessoa madura e uma de suas características é justamente a serenidade. mas com uma diferença: para o marido. porque foi pensada para ser um longa-metragem de pelo menos noventa minutos. parece uma cópia. aqui na Oficina. Demora. mas eu ainda não escrevi nada. A mulher começa a seguir a amante do marido em seus movimentos cotidianos: o mercado. todas as suicidas pareciam 29 . Principalmente ela. A pesquisa foi realizada por uma pessoa que observou vários casos de mulheres. que se matavam sem motivo aparente. a rua. ele obtém facilmente o divórcio. a última veio antes da primeira: a vida com a amante é anterior à vida com a mulher. que não precisa mais competir com ninguém. Será que tudo o que ela está vivendo não faz parte de um plano do marido para enlouquecêla? Começa a investigar e descobre que a amante é exatamente igual a ela. todo mundo saiu: o marido foi trabalhar. o casal está feliz. A sensação de solidão produz na mulher uma espécie de choque. Ela ficou sozinha em casa.. principalmente em mulheres da sua idade e que tiveram uma vida muito ocupada. Mas nota que está perdendo o sentido da realidade. as duas serão interpretadas pela mesma atriz. e era o que ele queria: um divórcio sem complicações. temos mulheres idênticas e casas idênticas. algum tempo depois vi. na França.. A única coisa que ele faz é tentar reviver com a amante os anos em que foi feliz com a mulher.. e entrar num acordo com a amante para enlouquecer a sua mulher. Tem uma carreira profissional bem feita. aliás. Aliás. como espectadores. que as coisas estão mudando de lugar. Agora ela virou esposa. Até um outro dia. não é mais amante. Então. no filme. com o argumento da loucura. Fica alerta. Decide consultar uma amiga psiquiatra. Quase que podemos dizer vidas idênticas. de casamentos aparentemente bem sucedidos. Essa pessoa começou a pesquisar e chegou à conclusão de que os suicídios tinham três coisas em comum. que alguém tinha feito um estudo que poderia se chamar As Esposas Felizes se Matam às Seis. A história acaba aí. As coisas escapam dela. Ninguém tem culpa de nada. Assim. seu ar grave. os filhos foram estudar. Tem mais: é ela própria. o que a mulher ainda não sabe: o marido reproduziu sua própria casa na casa da outra.. quando descobre que o marido tem outra mulher. até o dia em que descobre. Ela se tranqüiliza. em sua casa. E então percebemos que nesse caso aconteceu a mesma coisa de sempre. mas conseguem. Ela não serve para nós. Agora. Primeiro. muito séria.. Certo dia. ou seja: quando um marido começa a pensar que sua mulher está louca. mas ela consegue se superar. E sabemos agora. Sente-se feliz.

os guardas arrombam a porta aos pontapés. Seu assombro aumenta quando o recém-chegado coloca. vê a rosto de outra pessoa. Sua mulher está chamando.. diz ela. mas não podemos.. Veste um macacão azul e tem o rosto coberto por uma máscara. A voz grita. torna-se a ouvir a voz da tela. que chora no berço. É seu filhinho. vê os guardas se aproximando. Numa das paredes há. aparece na tela um rosto estranhíssimo . um desses gorros que cobrem o rosto inteiro e deixam os olhos à mostra. um boneco. o que o devolve à fuga: mete-se em labirintos de escadarias. insiste. Soa um alarme. quase ocultos pela cortina. esconde-se num quartinho e. E claro que a tevê está ligada. Lá. para que X contemple o próprio rosto. todas tinham mais de quarenta e cinco anos.Num quartinho onde mal cabe um catre.e se oculta atrás de um muro. espia o berço do bebê – cuja cara. nesse exato instante. e. Temos que passar a outra história. na sua frente. um espelho.. tropeça. X começa a se vestir e quando vai dar o nó na gravata diante do espelho. há escombros. mas cujo rosto não está coberto por nenhuma máscara. A de ELID. X sai do banheiro e começa a correr. recorda a do boneco que vimos . etc. “Acorde”. nos deter nesse assunto. ele tira a máscara mas como não existe espelho. é a primeira vez que ele. edifícios em ruínas. “Você vai chegar atrasado no trabalho”. encontra outras pessoas todas com o rosto descoberto . percebe que a imagem está vestida com um macacão azul. e por ela. cai. Atravessa ruelas desertas. X se levanta e tenta contar o sonho à mulher mas ela não dá a menor importância. sobe uma escada. Abre os olhos. junto a uma tela de televisão. Vamos chamá-lo de X. se suicidavam sempre às seis da tarde. terceiro.felizes. Ouve-se o choro de uma criança. de repente. talvez? Quando não acontece nada ELID . acenda a luz. X entra a sai do banheiro. um sujeito dorme. diz ela. e agora nós o vemos em casa.que começa a dar ordens a X: levante-se. “O que é isso?”. esticado na cama. segundo. que se rebele. Agora. De repente. entra a mulher.. X fica surpreso ao vê-lo. Uma pesquisa posterior permitiu descobrir a razão disso tudo. pam!. Na banheira. 30 .e vai caindo numa espécie de torpor. mas não se vê nenhuma imagem.. Dali sai um indivíduo que veste o mesmo macacão azul. o sujeito diz a X que tire a máscara de uma vez. agora. que deixe de cobrir o rosto. sai num telhado. bufando. pegue o boneco. Mas a porta que se abre é a de seu verdadeiro quarto. X joga o boneco nas costas e vai ao banheiro. no meio da sua fuga. Na verdade. desta vez mandando X sair dali. “está ficando tarde”.. E mais: começa a insultar o ente misterioso da tela da tevê. O café da manhã está servido. não consegue ver o próprio rosto. pendurado. chamando os guardas. E. aliás.não parece humano .

o céu estrelado.Você leu Orwell? Esse tela não faz lembrar o Big Brother? ELID . nem paredes. de costas.Bem. desaparece. você é a roteirista. GARCÍA MÁRQUEZ .Não... Pode inclusive perguntar a si mesmo qual o grau de realidade que existe em sua própria vida. E enquanto dá a injeção. “Não lembra? O senhor se ofereceu como voluntário para esta experiência”. etc.. qual é a realidade que ele está vivendo. e médico responde: “No Instituto”.. arfando. “Ah!”. Disparam nele. ELID . X. pergunta. GARCÍA MÁRQUEZ .Eu sinto que a ação é muito rica. Você tem de saber o que está acontecendo.. o que é que acontece? De repente. mas sem saber direito o que acontece.. some. Cada um pode ver a realidade do jeito que quiser. acabamos de ver o filme. que está pronto para dar a injeção. de barbicha e avental de médico.Não é só a tela. não. A mulher dá meia-volta e em vez de se afastar. aquilo era um pesadelo. a perseguição termina com os guardas descobrindo X atrás de uma pilha de escombros.. GARCÍA MÁRQUEZ . de sua cama. Para abreviar.Supõe-se que seja. A imagem se congela.E o espectador também não? ELID . SOCORRO . Está preparando uma seringa para dar uma injeção em X. ELID. Um sujeito misterioso. Tudo vai se desvanecendo. “Então. Já não existem teto. Está amarrado por umas correias. Afinal. murmura X. O homem. existem muitas peripécias.esfriando. GARCÍA MÁRQUEZ . Perto. desaparece... a cama de um hospital. e esta é a realidade”... e puf!. “O senhor acha?”. X deixa escapar um grito e o vemos tentando se erguer na sua cama. claro: está num lugar. X pergunta onde estão. 31 . com um olhar inexpressivo. Abre a boca. “Fique tranqüilo”..Sim. começa a desaparecer. mas é o único elemento da história que pode fazer pensar no livro 1984.. “está tudo bem”. É o Instituto de Pesquisas Psicológicas. diz. a que conta a história do filme. é um truque cinematográfico.. o homem está se submetendo a uma experiência psiquiátrica. X fica boquiaberto. A necessidade de se rebelar contra a tela é muito similar. GARCÍA MÁRQUEZ . contempla.Mas é isso justamente o que me interessa: que X nunca saiba direito qual é o sonho e qual é a realidade. vemos um homem. É isso? ELID .Não acho necessário que ele saiba. sorri de maneira estranha.

olhando bem. o amo encontra a Morte no mercado.. já começa a surgir sua confusão entre a realidade e os sonhos. com princípio. E até lá? Será que temos de confiar tanto na paciência do espectador. GARCÍA MÁRQUEZ . Assim. ROBERTO . SOCORRO .. Ou melhor. responde a Morte. “era um gesto de 32 .E. eu acho que o problema é esse. ELID . sem nenhum antecedente. “Esta manhã. que possa ser contado de maneira mais simples? E sempre bom começar por esse caminho. “vi a Morte no mercado e ela me fez um sinal ameaçador”.Acontece que.ELID.. REYNALDO .. Mas temo que começar do jeito que você começou é percorrer o caminho ao contrário.O problema é que a gente se vê obrigado a segui-la sem contar com nenhum antecedente. a realidade é esta aqui. será que você não poderia tentar recordar um episódio da sua própria vida. e diz: “Fuja para Samarra”. que ele já não consegue separá-los da realidade. E uma ambigüidade que quero manter. Só no final é que descobrimos que X se apresentou para fazer parte de uma experiência. a ponto de supor que. pode começar a explorar outros caminhos. com princípio. GARCÍA MÁRQUEZ . quando a gente sentir que já esgotou a própria experiência vital como fonte de criação. diz. Como é que X se transforma em um rebelde? De que maneira seus conflitos internos são transmitidos a nós? E qual é o conflito central? Ou é que nessa história tudo é conflito?.. No começo daquela mesma tarde. mas não acontece nada. O amo dá a ele um cavalo e dinheiro. um eixo ao redor do qual a história seja construída. “Não era uma ameaça”.. O criado foge..Faltou que eu esclarecesse que quando X está fugindo e se encontra com os outros camaradas.Existem histórias de quinze minutos que podem ser contadas mais rapidamente. diz. Ele tem consciência disso. ele vá seguir até o fim? Cada nova peripécia só faz aumentar o desconcerto do espectador. GARCÍA MÁRQUEZ . nessa história não acontece nada. Vocês se lembram de A Morte em Samarra? O criado chega aterrorizado a casa do amo. Não me interessa dizer ao espectador: veja bem. acontece um monte de coisas.. desenvolvimento e fim.mas falta um esquema que dê coerência a tudo isso. Os sonhos parecem tão reais. você fez ao meu criado um sinal ameaçador”.Talvez seja uma história de quinze minutos que se estendeu demais. meio e fim. Pode-se chegar ao tipo de história como a que você contou depois de ter escrito muitas outras baseadas em experiências reais.... Não é uma história orgânica.. “Senhor”.

O que eu queria era completar um episódio que os historiadores colombianos não haviam desenvolvido nunca. Eu estou justamente tentando adaptar Maria. 33 . e transformá-lo em cem episódios. Dá para fazer um longa-metragem com isso? Dá. Porque eu o estava vendo aqui. é um romance onde existem muitas coisas explícitas. onde tenho que pegá-lo hoje mesmo ainda esta tarde”. O livro que acabo de terminar. mas o preço é esticar demasiado. coisas que eu acho que valem a pena dizer sobre a história da Colômbia e a situação no vale do Cauca.surpresa. Claro. livro de Jorge Isaacs. ou sobra alguma coisa. morreu em Santa Marta abandonado por seus amigos”. uma história. e não o fizeram por uma razão muito simples: aí está o segredo inteiro do desastre que o país vive. tão longe de Samarra. resumi-la numa página. e eu já disse a vocês que para mim não existe nada pior que esticar arbitrariamente. Escrevi duzentas e oitenta páginas ao redor desta frase. então pode ter certeza que que nessa história falta alguma coisa. Só que permaneço firme em uma convicção que já revelei aqui: se você não pode contar a história numa página. sobre Simón Bolívar está tirado de uma frase: Após uma longa e penosa viagem pelo rio Magdalena. O General em seu Labirinto.

Ele passou vinte anos trabalhando como funcionário.. GARCÍA MÁRQUEZ .. na hora da montagem do filme. entra num hospital público de Bogotá. O homem sai. Sonha com uma moça muito bonita. a moça sumiu. E assim que os moradores do litoral da Colômbia chamam o pessoal de Bogotá. vinte anos de burocrata. Cochila. MANOLO . II MANOLO . Um senhor cinqüentão.QUARTA JORNADA DE TRABALHO A morte em Samarra. É um cachaco. M. Nada a ver com os outros passageiros.uma moça.Ele é de Bogotá. entra no primeiro ônibus que passa. G.. olha pela janela e vê . A doutora diz que sua doença é incurável. Ou será que nunca esteve ali? O homem vê que o ônibus vai partir.. Vê a si mesmo saindo da sua casa para apanhar o resultado de um exame médico. O homem desperta.. 34 .A gente quase pode dizer que a doença o salvou. Pergunta aos moradores do lugarejo onde pode passar a noite... E atendido por um médico que informa o seguinte: ele sofre de uma doença que não tem cura.E por que ele faz isso? MANOLO . chapéu e guardachuva. para o Vale Dupar ou para a Venezuela? MANOLO .Porque decidiu fugir. Desce correndo do ônibus.Um ônibus vai pela estrada. mas na verdade. com gravata. O ônibus chega a um povoado. com um terno de veludo meio puído.. deixar sua antiga vida para trás. vestem camisa esporte. e deixa que vá. GARCÍA MÁRQUEZ . MANOLO . A paisagem é dos trópicos.ou acha que vê . vestido com um terno negro de veludo.Muito bem. a gente arma tudo isso conforme nos dê na veneta. Faz calor. lá na moviola. GARCÍA MÁRQUEZ . Todos os passageiros parecem gente do litoral.Por que você não conta para nós em linha reta? Depois. um ônibus que diz Cartagena ou Curumaní. Entre eles vemos um homem cinqüentão. Ele tem seis meses de vida. e pára..Tornamos a vê-lo no ônibus. Para onde ele vai. Tem pouco tempo de vida. sem mudar nem de repartição. O camarada observa a paisagem pela janela.Para o Vale Dupar. no hospital público. está recordando.

mas sua tia tem bastante e ela sabe onde está guardado.. o homem desce num povoado qualquer sem razão aparente. é verdade. Chega... ela foi os olhos. Eles se vestem desse jeito. ela mesma propõe que fujam juntos do povoado.. Conta o que imagina. O que não entendo é porque o homem não vai ao 35 . Então acontece o que MANOLO contou. Naquela mesma noite irá roubar o dinheiro.. mas pintada e maquiada feito uma gueixa. recebe a notícia de que vai morrer em pouco tempo. e lá da cama submete o recém-chegado a um verdadeiro interrogatório: se é cachaco. Enfim. É importante que diga para nós.E quando é que a moça vai ficar sabendo que ele está desenganado pelos médicos? MANOLO . Bate na porta. O homem responde a esmo.O que pensei é que a moça marque um encontro com ele em um determinado lugar. e depois de roubar o dinheiro da tia vá buscá-lo e não o encontre. CECÍLIA . como se fosse a vida de um aventureiro. Entra num ônibus. a vida inteira. da conduta do homem. Um senhor de uns cinqüenta anos. MANOLO . e um belo dia. ou seja.Mas você deve saber.O homem é um cachaco. que se baseará numa grande mentira: o homem vai contando sua vida a ela. e bate na porta de uma casa. de uns sessenta anos. GARCÍA MÁRQUEZ . é uma senhora cega. GARCÍA MÁRQUEZ . aliás. é da serra colombiana.. bate na porta.Indicam a ele a pousada da dona Lina.. No fim.Vamos ver. emoções e perigos. Vão precisar de dinheiro. Não sonhou nada. Seria a primeira vez na vida que ela sairia dali. a tantas horas da noite.. Vai começar assim um romance entre o homem e a moça. fazer coisas diferentes.. pelo homem imaginário. uma série de coisas. É a sobrinha de dona Lina.Seu aspecto. enfim... uma vida cheia de surpresas. onde a gente usa roupas diferentes.. o homem usa roupas esquisitas. GARCÍA MÁRQUEZ . Nem ao menos sabem que dentro da Colômbia existe outro país. mas enquanto isso o que que nós vemos é a realidade: a vida monótona e rotineira de um funcionário público. dona Lina aceita alojá-lo.. sem nem mesmo prestar atenção no rumo que está tomando. Não teve coragem. e aparece uma moça. O fato concreto é que a moça se apaixona perdidamente por ele. e quem vem abrir é a moça com a qual ele havia sonhado. Ela.Ele não disse nada. O homem vai ao encontro marcado. simplesmente. É um elemento que forma parte da situação. vamos começar a contar o filme de novo. GARCÍA MÁRQUEZ . o que foi fazer no povoado. para ver se acontece alguma coisa estranha com ele. de vida chata e monótona. o lazarilho de sua tia.. Toma então a decisão de viajar para mudar de ares.

Ou seja. os de antigamente. GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO . Não morre de doença. o filme de Kurosawa? SOCORRO . Trabalha num tribunal.O homem é viúvo? MANOLO . sem querer. Os chefes destinavam a ele trabalhos urgentes. E então vai embora. MANOLO . Não pode abandonar desse jeito a companheira da vida inteira.Eu prefiro que seja o médico quem diga. ou num cartório. não pode abandonar sua mulher sem se despedir. Mas a história está pronta.A idéia era justamente essa.Casado. mas porque a Morte vai buscá-lo.Não sendo viúvo. muito meticuloso.. A única coisa que falta é o final. Como é mesmo aquela história de viver. Manolo? MARCOS .encontro. Não chega a entrar no consultório médico. vamos ver: é melhor que o homem tenha ou não tenha família? SOCORRO. percebe que tem um câncer. pelos sintomas de outros pacientes. o homem trabalhava num cartório ou num tribunal. É o que põe a história em marcha. ele pode se mandar sem se despedir. Mas.Se tiver.Sem dar a notícia a ninguém? Essa notícia ele tem de dar. Se for viúvo.Tudo levava a crer que ele fosse viúvo. esse plano de fuga se transforma na morte do homem. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . Este dado não será necessário no filme. GARCÍA MÁRQUEZ .O personagem.com quem mantém uma relação mórbida. Era um burocrata de burocratas.. muito bom cumpridor de seus deveres. Por algum motivo. Era escrivão. talvez porque entre ambos tenha sido criada uma certa expectativa. porque os de agora são alegres e alguns até dançam melhor do que nós. 36 . então existe uma senhora .. mas não tem filhos. É que todos os cachacos parecem viúvos.Em meia hora. na sala de espera. Se fosse viúvo teria uma filha que não moraria com ele.Ah!. CECÍLIA ... provavelmente.a empregada.Mas ele deve entrar no ônibus sem nenhuma bagagem. Por que você não quer que ele seja viúvo. a Morte em Samarra. REYNALDO .O que eu pensei é que a moça era a Morte. ou certos equívocos. Digo. Por exemplo: no momento em que ele chega para fazer a mala. teríamos a chance de vê-la uma vez. como estava previsto. ou a faxineira . do litoral. GARCÍA MÁRQUEZ . em pessoa. Esse poderia ser um final. Ele vai buscá-la. a que lavou suas cuecas e tudo. Um escrivão de caligrafia muito boa. mas no apartamento vizinho. Mas pode nos servir para explicar sua conduta a decisão que ele toma.

E quando fica sabendo. O garçom olha sem entender nada. Mas a médica balança a cabeça: não há mais nada a ser feito. Ela não sabe que ele foi ver o médico. MANOLO .”. não conhece o cara do balcão. e para quê?”.. eles são os confessores dos bêbados. O médico . diz. GARCÍA MÁRQUEZ . Mas desta vez. que deixou de beber há tempos. MARCOS . “trinta anos enfiado num escritório para ter uma aposentadoria e garantir uma velhice tranqüila. Para o inferno. “Vida de merda! O trabalho que tive para deixar de beber.Quer dizer que o homem parou de beber. E esse. respondem. e a partir daí. E tem mais: não volto nem para casa. Chega o momento em que é preciso dizê-las. e depois vai para a rodoviária e pergunta: “Qual é o próximo ônibus?”. E para que você fique sabendo: não vou pagar essa coisa 37 . ele telefona para a mulher. Vê as pessoas entrando e saindo. conta isso.pergunta: “O senhor foi alcoólatra?”. a primeira coisa que faz é entrar num bar e mandar ver.Manolo e eu tínhamos pensado que sua doença fosse cirrose. Chega e senta no mesmo lugar de sempre.E verdade. GARCÍA MÁRQUEZ . telefona para a mulher dando a notícia. fazendo em esforço enorme. no primeiro que encontra. GARCÍA MÁRQUEZ .. mas vai logo dizendo: “Veja só o que aconteceu comigo. começa a ação propriamente dita.. “Traga alguma coisa forte”. “Veja só”. O personagem..É neste momento em que começa a acontecer um monte de coisas. sem nenhuma palavra. Ele sai do hospital público angustiado. Por isso ele tem a idéia. Vai morrer mesmo. É o lugar onde ele vai todos os dias tomar um café. todos eles! Não volto para o escritório. Esse pessoal que fica atrás de um balcão de bar.ou a médica . e ela não o deixa falar: começa a contar a história de não sei quem.O sujeito entra no bar. E em seguida.Exato: o espectador não tem de se dar ao trabalho de adivinhar essas coisas. “O de Curumani”. bem.Não é um bar qualquer. E de repente. aqui. Depois entra no bar.. não adiantou nada. e pensa: por que não? MARCOS . O bêbado sempre se confessa ao cara do balcão.. e olha só o que aconteceu comigo.Primeiro. e de cirrose. Ele conta ao cara do bar o que aconteceu.A rodoviária está bem na frente do bar. é o momento em que o homem agarra o dono do bar e conta o que aconteceu. diz ele. trazem o seu café. ele recusa com um gesto.MIGUEL . Há anos ele é conhecido ali. E na mesma hora ele compra a passagem. GARCÍA MÁRQUEZ . e no fim. REYNALDO . conta toda a sua tragédia.

pelo menos. quem é?”. que o leva diretamente para a morte. Que desabafe com o dono do botequim é tão natural que chega a ser um lugarcomum.que estou bebendo. 38 . e bordar bem a história para que fique ajustada e não passe de meia hora. Inclusive isso. ROBERTO.É porque você é um diretor muito jovem.. Eu entenderia suas objeções.O que eu não entendo é essa história de ele ir embora sem telefonar para a mulher. não é nem mesmo um recurso narrativo. Vocês não gostam da minha proposta? Deixem comigo. ROBERTO. agradeço essa deferência. Esse é o filme. As vezes acordo de repente e vejo um ator e pergunto: “E esse aí. se fosse um recurso arbitrário ou fácil. Eu. Falando sério. O que vem depois. Para quem não sabe como contar uma história com imagens. Resisto um pouco a fazer um filme no qual as coisas sejam tão faladas. é o que contamos.. e ponto final. a única saída é pôr um ator para contar tudo. no qual as situações se resolvam verbalmente.. é melhor contar diretamente. uma coisa que recorda os romances policiais ou os filmes de caubói. Depois acontece uma coisa estranha. é a mesma coisa: assim que começa a sessão e a luz é apagada. nesta situação. de ele fazer a catarse na frente de um copo. mas a necessidade de se confessar. Poderíamos procurar outro confidente. Sempre durmo quando estou vendo filmes. nós já sabemos. Que vá tudo à merda! Ouviu bem?”. que eu mesmo faço o roteiro. Para mandar todo mundo à merda. Sai e entra no primeiro ônibus que passa. porque não parece forçado.Eu gosto dessa idéia: ele se mete no primeiro bar que aparece. Mas aqui. é uma reação natural. durmo. Um sujeito que está na situação dele tem essa reação: a primeira coisa é contar a história para alguém. numa situação como essa. Fui condicionado. Quando apagavam a luz.Não sabemos se ele vai ou não vai telefonar. GLÓRIA . No cinema. Só falta contar como as coisas acontecem. E ponto final. O cara precisa desabafar. Por isso. GARCÍA MÁRQUEZ . A única coisa que sabemos com certeza até agora. num instante. por exemplo. se a minha proposta for aceita.Eu tenho minhas reservas. Quando você for um pouco mais velho irá perceber que as pessoas nem sempre entendem os argumentos. a associar a escuridão com o sono. GARCÍA MÁRQUEZ . quando estou vendo televisão com a luz acesa e chega alguém e apaga. porque se enganou de vida. eu tinha de dormir: Por isso hoje em dia. durmo profundamente. MARCOS . desde pequenino.

Porque a gente imagina que ele vai encontrar a felicidade. Uma cidade em ruínas desolada. Uma morte antecipada.O dono do bar acha que é só mais um desses bêbados que contam sempre a mesma história. para quê? Porra nenhuma de tratamento!”. mas ele se nega a obedecer. arma uma jogada inesperada.. GARCÍA MÁRQUEZ . soldados e cavalos com as tripas de fora. REYNALDO . É uma empregada. GARCÍA MÁRQUEZ ... Anotem isso. CECÍLIA . “Como é que é? Radioterapia.. Você quer chegar à porta porque é aí que o filme começa de verdade. alguém bate na porta.O que me preocupa é a coisa da cirrose.. mesmo que seja por um tempo breve. o diabo? Para ficar careca? E no fim. é verdade. diz a si mesma: “Puxa. procura outra morte. tudo muito burocraticamente.. A Morte preocupou seu caso de um modo muito normal. casas queimando. Ela tem que esfregar o chão. REYNALDO . e acontece que o que ele encontra é a morte. GARCÍA MÁRQUEZ . Um belo dia. temos que saber quem é o tipo que bate na porta. se acontecesse alguma coisa diferente comigo! Se eu pudesse mudar de vida! Eu iria embora com o primeiro que batesse nessa porta e que me propusesse. É muito maltratada. e ele. espalhados por aí. com sua reação. porque devem ter receitado algum tratamento. É formidável que ele deboche da Morte. faz cara de quem está prestando a maior atenção. ele começa a contar a história.Estou louco para chegar à porta... GARCÍA MÁRQUEZ .Eu pensava que ele tinha um câncer.Pede uma bebida e quando o cara do balcão serve. Mas antes. lavar a roupa. Gosto dessa reação. . pois daí nasce outro filme. Ou melhor. Agora. MANOLO .. ou qualquer coisa parecida.. E. E se a moça que abre a porta estivesse esperando por ele? MANOLO . Um filme que começaria com a moça levantando-se da cama e começando a cuidar das tarefas domésticas. quimioterapia.E fica escutando sem se mexer. Eu tenho uma história de um minuto. não está ouvindo coisa nenhuma.. sua morte antecipando-se à Morte.. com colunas de fumaça no horizonte. No meio de um montão de escombros.Isso dá para um longa-metragem. GARCÍA MÁRQUEZ . 39 . de repente. Muito colombiana. seria outro o filme.Aí. estou pensando que podem em existir alternativas.Pois é. mas no fundo.Podem ter receitado um tratamento.Claro.

Sim.. mas qual o quê. quando aumentasse o calor. Ele está no bar.. Encontra um cadáver. Existe um enorme salão com vinte ou trinta moças belíssimas. “Venho buscar depois”.. O rapaz se inclina sobre ele. Pode até mesmo existir alguma armadilha por aí. mas madura.Eu pensava nesses trens que a gente vê no Brasil.Sabendo. ferido. SOCORRO . a aula acabou”. meninas. porque achava que ele ia lotar. É uma idéia que Buñuel teria adorado. Mas. outro. De repente. As moças saem. ouve um gemido. o trem é mais interessante. totalmente nuas. Uma mulher bela. uma índia. dormi e de madrugada acordo e me vejo rodeado por uma verdadeira multidão. ouvese um sino e uma voz: “Muito bem. e não uma garota.Eu tenho outra. que é chamado Trem da Morte. o ônibus descendo da serra. Poderia ir passando por cafezais. E sumiu. É um oficial agonizante. São todas freiras. O dono do bar que o conhece muito bem. no lugar do ônibus? GARCÍA MÁRQUEZ . Peru.. disse ela.Pois o que eu imaginei era outro personagem. inteirinho. como sabemos. mas nunca descobri como continua. As moças correm para os vestiários. ROBERTO ..Eu imaginava uma sucessão de paisagens diferentes. E ele responde: “Sei lá. teríamos que sair do clichê: deveria ser uma mulher feita. E. GARCÍA MÁRQUEZ . de repente. Nunca pensei que pudesse caber tanta gente num trem. Sentei. Eu ia pegálo e cheguei na estação muito cedo. o tempo todo: não será melhor o homem pegar um trem. fazendo ginástica rítmica. Lembro também do trem da Bolívia. e. coberto de pó e de pedras. entrando em terras quentes.. O salão fica deserto. e diz: “Senhor ganhamos”. pergunta: “E para onde é que você vai?”. enfim. vestidas. Vou à merda” Corte para o trem. Como espaço e como imagem.Podemos copiar isso. Parecia carne. coloca um pacote no meu colo. chega de distração: vamos voltar aos nossos trinta minutos.. ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . que o homem vai morrer tudo que acontecer ao seu lado fica tendo um valor excepcional.alguma coisa se move. Sei que é o começo de um filme. uma mulher. É rapaz jovem. com uma 40 . “Segure isso”. ROBERTO . havia muito pouca gente. de repente.. Nunca soube o que era.Eu fiquei me perguntando. o trem saiu.. Um personagem que iria sentar-se ao seu lado quando o ônibus chegasse às terras quentes. GARCÍA MÁRQUEZ . faz uma espécie de saudação. Ainda percebemos suas insígnias no uniforme. depois por canaviais. que se arrasta buscando alguma coisa. Em relação à moça.

o homem. então. Se formos procurar um jeito de uma coisa levar a outra.Eu não acho que a gente precise situar tudo numa corrente de causas e conseqüências.Vamos. SOCORRO: qual era o personagem que você pensou em pôr sentado ao lado do homem? SOCORRO . ele desce do ônibus. menos ele. vai atrás dela: “Senhora seu pacote.. ao lado de um camarada que vai morrer? E alegórico demais. e agora leva a lápide para casa. Aqui. e tem 41 . como aconteceu com o Roberto. ele quer driblar a morte.O ônibus pára. Afinal. e ponto final. O importante. GARCÍA MÁRQUEZ . pensando bem. trasladou-os ao ossário. morto há quatro anos.Ou melhor a mulher do pacote desce do trem sem nenhum aviso.Uma mulher negra. podem acontecer mais coisas. inevitavelmente. podemos perder o frescor da história.Isso. é que tem de ser uma pessoa do sexo feminino. GARCÍA MÁRQUEZ . Para ele. e porque está cheio de tudo.Uma lápide.É preciso tomar cuidado para que a natureza das suas decisões fique clara. É uma lápide. ver o seguinte: deixaram com o homem um pacote de carne. ou em qualquer outra. no trem. isso sim.O ônibus é mais íntimo que o trem. para mim. para a morte. Não pode ser um travesti. e bate na porta que quer. A única coisa definida. ROBERTO . REYNALDO . Desce no povoado que quer. SOCORRO . começa a limpar a lápide com um pano. que entra no ônibus levando uma placa de mármore. Não tem a menor vontade de se apressar. os passageiros descem para comer. MANOLO . Ela acaba de exumar os restos do marido. É o que aconteceu sempre. Vamos guardar esse personagem para outro filme. Mas. são os impulsos do personagem. Ao se sentar. tanto faz ficar ali.Mas.E quem se importa com o que aconteça no trem? Não dissemos que o filme começa na porta? GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO .. GARCÍA MÁRQUEZ . naquela cidadezinha. nada nele mudou. o homem não queria novas experiências? Que se dane agora! REYNALDO . Todo mundo come com pressa. Mas agora. que parecem arbitrários. e o homem. até que não seria má idéia. a graça está nos atos dele. Gloria . a gente vê depois. tranqüilo. que fica lá comendo.história atrás.Diga uma coisa. sem perceber. Acho bom a gente ir fazendo um arquivo com os personagens que forem sobrando. Se o homem deixar as coisas acontecerem.”.

é preciso ir até Guajira. Isso deve ficar claro. ROBERTO .Eu imagino. na verdade.. O espectador ficará pensando que ele está falando de Veneza ou coisa parecida. e fique porque ficou. Vocês não acham que aos poucos o personagem vai sendo esculpido.Aí. vai continuar a viagem.Em bogotá. para encontrar isso. CECÍLIA . Algo assim como o litoral peruano. Não: está pensando em um lugar qualquer. Ou.Talvez já tenha começado a perceber uma série de elementos novos dentro dele.O que deve ser ressaltada é a sua atitude. Todos tratam de tirar a tal pedra. porra!”. Ele. Agora. “motorista. vou viajar. e ponto. ficando redondo? CECÍLIA . mas ele vai andando. Ele nunca foi a lugar nenhum.. “Meu senhor. raquítico. o espectador pode pensar que estamos escondendo alguma coisa. Enquanto isso. Tudo é pobre. entra em jogo um elemento de fascinação. 42 . me deixei dirigir sempre por um horário.. porque quis. Tem que acontecer algo muito forte para que ele fique onde está. por exemplo. VICTORIA . GARCÍA MÁRQUEZ . “Mas aqui não é parada. exigindo parar. É uma pedra enorme. Nada de grandes montanhas. Ele tem que armar uma confusão no ônibus. fui um burocrata. para eliminar suspeitas de que ele estaria descendo em um lugar conhecido. E ele responde: “Mas é aqui mesmo que eu quero descer. onde já esteve antes. o trem parou porque há um obstáculo nos trilhos. não. Esse foi sonho da minha vida”. e isso foi tudo. fazer o que me der na veneta. Ele pensa: estou doente porque segui determinadas normas. por uma rotina estrita. vê uma cidadezinha perto.Se não fizermos desse jeito.Ou.O que MANOLO disse do almoço: “O ônibus está indo embora? Deixa ir. Sobe uma colina. GARCÍA MÁRQUEZ . “Então. Fica olhando a paisagem. ouça bem o que estou dizendo: ou pára. diz alguém. meu senhor”.Na Colômbia. eu não posso parar aqui”.que viver de um modo mais intenso. quero viajar. então. ele disse ao homem do bar: “Nunca saí daqui. uma paisagem meio deserta. e começa a andar naquela direção. então. pare aí um instante que eu vou fazer pipi”. ou faço pipi aqui mesmo”. Eu ainda não acabei de comer”. sensações desconhecidas. Agora. SOCORRO . e dá para sentir que ficou impressionado. e todo mundo desce para ver o que está acontecendo. uma coisa carismática. Fui a Sipaquirá em alguns domingos para comer batata salgada.. o trem apita. MARCOS . para liberar os trilhos. GARCÍA MÁRQUEZ .

SOCORRO . Existe alguma coisa nela que chama a atenção do homem. ele vai procurar um lugar onde se hospedar e quando abrem a porta. Temos que escolher. ou de um carro. Depois. Coisas que ele não fazia desde menino. Ele deixa de ser um personagem plano.Pelo visto. Esse negócio da emoção da paisagem. o burocrata.É desse jeito que ele encontra a mulher.Uma coisa precisa ficar clara: esse camarada está se rebelando contra a sua vida. encontra dentro de si coisas que até agora estavam ocultas. ROBERTO . E porque tem música.E por que não? Ele vê agora coisas que não via antes.Eu pensei que a gente estava de acordo nesse linha. SOCORRO . que estaria falando com a dona do restaurante. são coisas que não podem sair dele.Não podemos dar ao homem emoções que ele não tem. 43 . GARCÍA MÁRQUEZ . Ele espia pela janela do ônibus ou do trem. perdidos na planície. Pode ser meio achatada. pensando bem. Sua frustração consiste em um ponto: vai fazer determinadas coisas. REYNALDO . e como quem se apavora e mergulha ainda mais na passividade.. o que é e o que não é importante? ROBERTO . a gente sempre vê alguma coisa quando espia pela janela de um ônibus.O personagem que a gente conhece não é do tipo capaz de se rebelar de repente. O que ele está procurando não é o que os turistas procuram. Sobe no carrossel. para quem vai morrer a qualquer momento. e vê isso. pode ver a moça. a de rebeldia.Contra a sua vida. Na verdade. Na América Latina.Quem vai morrer não tem vontade de fazer coisas. há duas maneiras de caracterizar este homem: como quem se rebela e manda tudo à merda. que está sofrendo um processo de transformação.Quer dizer: o homem se rebela pela primeira vez na vida. mais complexo. porque não estão nele. prefere se deixar levar: É preciso averiguar qual é seu próprio desejo. onde está a história? Não precisa ser uma rebeldia violenta. ou contra a morte? MARCOS . Porque se não for assim. Um desses povoados solitários. ou da birra infantil. é ela. mas é tarde demais. a que viveu. e passa a ser outro.. DENISE . ou de um trem. colocá-lo numa situação e ver como ele se deixa arrastar pelas circunstâncias.A paisagem não precisa ser grandiosa. VICTORIA . VICTORIA . ou na roda gigante. GLÓRIA .Se ele for comer. ROBERTO .Ele desce num desses povoados porque vê que é dia de feira. Porque.

Eu. e já vemos o homem no trem. vira.O mar pode exercer esse tipo de atração que eu andava procurando.. Porque eu defendo o trem. SOCORRO .Em Bogotá. Tem uma fantasia sobre isso. o mar batendo nas pedras.É o que eu estava perguntando: quando chegamos à porta? 44 . O Triunfo da vida ROBERTO. Eu não vejo é a moça. descida para as terras quentes e.. MARCOS .. ROBERTO .Sim. REYNALDO . E. no final. vê de onde é. Um deles é em preto e branco. É a história de um homem que nunca saiu das montanhas. fica observando o cartão postal.Pois é. a gente vê o homem entrando num ônibus. Ele chega na rodoviária e vê uma série de cartões postais.É fácil.. a orla.não é fácil de explicar que ele precisa fazer.GARCÍA MÁRQUEZ . ele vê um cartão postal onde aparece o mar. Vai morrer. Quando eu voltar. É aí onde ele vai descer mais tarde. com paisagem de montanhas lá fora.E está de paletó... e então. e existe uma coisa . SOCORRO . MANOLO . MARCOS . MANOLO .Você quer criar uma metáfora.E por que não? Esse lugar poderia ser o símbolo de uma libertação. corte. e decide viajar porque vê que a empresa de ônibus se chama “Mar Azul”. contavam a história de um camarada dos Andes no litoral: “Quem conhece o mar?”. O camarada desce numa aldeia à beira-mar. não: continuo pensando no ônibus. mas preciso dar uma saída. apanha o cartão. de repente. e chama a sua atenção de maneira especial. aos sentimentos. chapéu.Eu insisto encontrar certas motivações. o sujeito não tem que pegar um ônibus ao acaso. e depois. tira os sapatos e deixa as ondas lamberem seus pés.Eu gostaria de combinar o tema do mar com o do cartão postal. Seriam três cortes: interior do ônibus. Dá voltas ao cartão. Na rodoviária. MARCOS . gravata.Vocês me perdoem. Está muito ligado às emoções. me contam o filme. estabelecer um paralelo? ROBERTO . SOCORRO . Quando é que ela aparece. ele vai descer num lugar que acha parecido ao do cartão postal... Em Bogotá.

como fazer o homem entrar na aldeia. Tem que desempenhar outro papel. olha o mar. e lá encontra a moça. ele se sente motivado pelo cartão postal. seria assim: o homem chega. Ele chega a litoral. diz o homem a si mesmo. e se impressiona. ROBERTO .Então: que o homem encontre a mulher no mar. a partir do cartão postal. num restaurante. VICTORIA . ele tem de fazer a pergunta: e agora? Começa a andar. O homem fica surpreso. Está se afogando. SOCORRO .Ele está com fome. e é quando começa a nascer uma coisa: ele não sabe o que é. Isso também é ação. MARCOS . joga na água e vai embora. É agora? Joga o postal fora.. agora. Ela tem uma briga com o patrão. É quem serve as mesas. E. E a gente partiu do princípio de que iríamos fazer um filme “comercial”. mas percebe que alguma coisa está nascendo. Olha de novo o cartão postal. REYNALDO .Ou é a filha de um pescador. MARCOS .O cartão postal deve servir como elemento de contraste. Segundo. Já estou aqui.GLÓRIA . joga os pratos no chão e se manda. GLÓRIA . ROBERTO . Uma.. SOCORRO . observa o postal.Ele não sabe nadar. ele compara a sua fantasia com a realidade. SOCORRO .O homem vai comer numa pensão.O que eu não vejo nisso é ação. MARCOS . tira o postal do bolso. Precisa comer alguma coisa. e é aí que a mulher aparece. boquiaberto. mete os pés na água. 45 . ROBERTO . Contempla o entardecer com os pés na água.Vai a um restaurante desses de praia.Pode ser que ele fique impressionado diante do espetáculo do mar: Mas. REYNALDO . tira os sapatos. Tinha feito outra idéia do mar. por quanto tempo? Cedo ou tarde.E o conflito? Porque precisa existir um elemento de tensão nisso tudo. e não é a mesma coisa. Por isso. a mulher deve ter uma relação específica com o mar. terceiro. Em termos visuais. sabemos que seu objetivo é o mar. Primeiro. entra. diante da reação dela.. SOCORRO .Estamos buscando duas idéias. sente-se desiludido. servindo as mesas.Existe ação interna.A mulher está na água. e lá está ela. como relacionar a mulher com o mar.. ROBERTO .Mas o mar não pode ser uma paisagem.Encontra a mulher. joga fora o postal e começa a andas. Outra.É uma sereia.

Não vamos nos esquecer de que ela é a Morte. não pode deixar de rir: “O que fazendo aí.. e ela vem no barquinho.Eu tinha proposto a briga no restaurante. SOCORRO . vem andando em direção contrária.Senhora? Não tínhamos dito que era uma moça? GLÓRIA . É uma bela senhora do litoral. Deve fazer alguma coisa a favor dela. diz ela. feito uma semente. nesta 46 .Isso quer dizer. que é uma pescadora. DENISE . quebra os pratos no chão. Ele está caminhando pela praia. que estamos trabalhando com símbolo e tudo! MARCOS .Pensando bem.É uma coisa que ficaria soterrada.Um barquinho chega ao cais. com aquela roupa insólita. ROBERTO . Ela é impulsiva.Ele teria que fazer alguma coisa que o ligasse a ela. chama a atenção pela sua beleza.. REYNALDO . o que ela vai fazer no final. o espectador deve ter a sensação.Começa a conversar e depois pergunta onde ele está hospedado.Você mesma disse: ela é toda energia.E por que ele se lembra dela? ROBERTO . GLÓRIA. MARCOS .GLÓRIA . Aliás. VICTORIA . e ela. e o leva.Ele sente atração porque.É uma moça.Mas não no sentido sexual. Quem olha primeiro para quem: ele para ela. Ela o atrai. CECÍLIA .Ela repara nele. ela não tem razão para ser agressiva com o homem. esperando pelo homem.O que ela fizer no momento do primeiro encontro deve conter. nesse caso. quando se encontram. ROBERTO . E ao vê-lo. E que não agüenta mais a vida que leva.Ela o seduz. de que aquele encontro não é casual. então.Ele pergunta à moça: “Onde se pode passar a noite. deve se aproximar com uma amiga. a Morte tem aparência de vida. Se a mulher representa a Morte. como um sentimento. SOCORRO .Ele poderia vê-la primeiro no mar. pela sua sensualidade. ou ela para ele? ROBERTO . Vem com uma sombrinha e um vestido de flores. com essa pinta toda?”. e depois encontrá-la no restaurante. desde o primeiro momento. ROBERTO .. VICTORIA . GLÓRIA . que ela estava sempre ali. MANOLO .. para não criar logo de saída uma situação entre os dois. Já haveria uma relação visual entre eles. ROBERTO .Uma atriz como Sônia Braga.

cidade?” SOCORRO . seduzindo-o. sem querer: “Ai. Não há nenhuma necessidade de criarmos outro espaço.Ele entra no restaurante para comer. e fica olhando para ele: “De onde será que tirou essa roupa?”. A segunda é a de Roberto: que o encontro seja na praia e que a relação aconteça em tom de deboche. Ou melhor. Por isso. Não sei como. uma briga. VICTORIA . mas 47 .. aquele momento do encontro no qual ele fica impressionado pela vitalidade da moça.Ele chega. para dar ao encontro um toque de agressividade. SOCORRO . Deixe-me limpá-lo.. e se senta. ela o convida para ir à praia. GLÓRIA .No caminho. A situação poderia se enriquecer fazendo que ela derrame um pouco de qualquer coisa no terno do homem. acabamos perdendo a história do impacto.Pela janela do restaurante. ele fica na cidadezinha e ela. comenta. ela debochando dele. Depois. ROBERTO . Certa noite. é de Marcos: que ela seja a garçonete de um restaurante e veja o homem chegar de longe. Com certeza vão fazer amor na areia. bebendo cerveja e jogando baralho ou dominó. sem problemas. Por que será que olha desse jeito? Por simples curiosidade? Ainda não sabemos.Temos de tirar partido da forma de o homem se vestir. irá fazendo o homem mudar. Mas ele não chega a ir.. Vamos ficar sabendo no final. e pronto. REYNALDO . ROBERTO ..Quando saem da sala principal do restaurante e chegam à parte dos fundos e ela começa a limpar a lapela do terno dele. se senta. MARCOS . e ela se aproxima da mesa e diz secamente: “Só temos peixe”. Para marcar uma distância. me desculpe.O que vocês acham de fazermos um balanço das propostas? A primeira proposta é a de GLÓRIA: que eles se encontrem num restaurante e que se estabeleça entre eles uma relação de contraste através de um escândalo. em tom brincalhão: “E o que o senhor está fazendo por aqui vestido desse jeito?”. venha por aqui”. e fica olhando fixo para ele. naquele ambiente. a terceira. se pergunta. deve haver mais uma mesa ocupada: uns caras barulhentos. É um sujeito estranhíssimo. ela pode se afastar com o homem.Por que estamos insistindo tanto nessa história de restaurante ou bar? O homem vem caminhando pela praia e encontra a moça. por favor. MARCOS . E. indicando os fundos do restaurante. Morre antes. pouco a pouco.Não deve haver mais ninguém no bar. Ela chega para servir a mesa. a moça vê o homem se aproximando.

..Olha só quem chega: García Márquez. para buscar peixe. O homem chega ao restaurante e se senta. Bem na hora! GARCÍA MÁRQUEZ . Ele fica impressionado pelo desembaraço da moça.E a porta? Ele não bate mais? MANOLO . O homem vai caminhando pela praia. O que sabemos com certeza é que encontra a mulher lá. Depois voltou ao restaurante. Mas como é mesmo que acontece o encontro? VICTORIA .. MARCOS .Ah. acaba manchando o terno dele. GARCÍA MÁRQUEZ . Limpa o terno na mesa mesmo. Desde que o mar entrou. MARCOS .Coitado desse cara! A única vez na vida em que vai ficar com uma mulher bonita. cai duro. e é ela quem abre. estamos falando de outro filme. um cartão postal..Bem. na beira do mar. MARCOS .Existem duas possibilidades: que o homem tenha esse cartão postal em seu escritório. por que o senhor não muda essa roupa?”. Ele decidiu visitar aquele lugar.morre.. aí está um projeto de final de filme. ele 48 . Ele fica impressionado pela graça. MARCOS. Na realidade o que ele quer é conhecer o mar. pela desenvoltura da moça. e é aí que vê o homem se aproximando.. sem querer. comendo no tal restaurante. MANOLO . Dá algumas voltas pela aldeia. procurando um lugar para passar a noite.Pois é. bom: então.Não. terminaram o filme? Vamos ver.. mortinho! SOCORRO. entrando pela porta dos fundos. na frente de todo mundo. corte. VICTORIA . vê isso pela janela. Vai servir ao homem. Bate numa porta. virou outro filme. um tipo de beleza diferente do que ele conhece. ou que o encontre na estação. para vermos o homem sentado. Paga e vai embora. SOCORRO .E aí. MANOLO . Ela passa com uma cesta de peixes. contem tudo para mim. ROBERTO .. com esse calor. O camarada toma um trem e sai de Bogotá porque quer ver o mar.E aí.Fizemos algumas mudanças. Ainda não sabemos o que acontecerá no trajeto. GARCÍA MÁRQUEZ .Inventamos um estímulo. ou outro parecido.O que chama tanto a atenção dele é o fato de ela ser uma mulher praieira.Ela havia ido à praia pouco antes. Agora.Aí estão as três seqüências. nem se ele vai de trem ou de ônibus.Vamos fazer que seja na praia mesmo. MANOLO . Brinca: “Puxa. É lindíssima. Ela está fritando o peixe.

Vê a moça no mesmo nível da janela. falta relevo.Isso que você chama de relevo deve surgir justamente da relação entre os dois. decidi batizar de Natalio.. de repente. pela janela..Eu penso numa coisa que você falou. Nosso problema agora é a estrutura. de Kurosawa.leva uma pancada e desmaia. Essa roda-gigante me lembra outra ver Viver. Antes. um pelo outro. Por quê? Porque ela. Como é que o camarada morre? Vejo duas possibilidades: uma. Nosso homem que. Ele está cochilando e. Então o homem se levanta e sai do ônibus. o fato era totalmente insólito: você bate numa porta e encontra a Vida. para identificá-lo melhor . Ouvimos a música. Até o homem sair de Bogotá procurando o mar.. Fizeram um parquinho infantil num lugar horrível e há um momento em que o personagem se senta num balanço e começa a cantar uma canção. dos calções. abre os alhos e quase que na sua frente. Mas não faz mal. de sunga. Ao despertar.. GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO.. ele vai comer num restaurante e lá acontece o primeiro contato. uma praia quase deserta.Ela tira o paletó dele. com a câmera fixa bem na sua 49 . onde há uma feira. que se ele quiser ela pode levá-lo até lá. a caçoar dele.caminha pela praia e ela vem andando com um cesto ou uma sacola de peixe . Isso tem uma força especial. e roda parou um instante e a cadeirinha e a janela ficaram quase que no mesmo nível. tudo bem. GARCÍA MÁRQUEZ . A moça e a amiga começam a rir.esta é a possibilidade . E é onde ele morre. com uma amiga. está numa cadeirinha da rodagigante. duas. É uma aldeia de pescadores. que ela descubra o cartão postal e diga a ele que conhece aquele lugar.Não.Não podemos nos esquecer que ela é a Morte. não tem nada de biquíni.Pelo que estou vendo. e então .. MANOLO .Veja bem: tudo parece estar flutuando. no meio dos biquínis. vê a moça. Agora.É que tudo ainda está muito vago.. uma quermesse. quando a roda-gigante gira de novo e as duas se perdem no alto. GARCÍA MÁRQUEZ . vê que ela está cuidando dele.. Passam. Mas o que vem depois. ele continua vestido de cachaco. Depois. discretamente. MANOLO . MARCOS. que o ônibus no qual ele viaja poderia parar na estrada de um povoado. porque ela é garçonete e sem querer mancha o terno dele. ainda não sei como. tem uma coisa: essa história não é mais a que eu apresentei. quando batia na porta. GARCÍA MÁRQUEZ . que na verdade é a Morte. aliás. para limpá-lo. a força do absurdo. que o marido o mate.aparece o marido dela e arma uma confusão.

seus sentimentos. ROBERTO . sem trocar sua de cachaco. mas não nos esquecemos dela jamais..frente. GARCÍA MÁRQUEZ .Existe um problema sério com o personagem da moça: ele não tem o vigor necessário para representar o que na verdade é. se acreditarmos nisso. e tem a visão do mar pela primeira vez. sempre? ROBERTO . o destino bateu à porta. de repente. ROBERTO . O destino. Na verdade. GARCÍA MÁRQUEZ . com uma sensualidade que o impressiona.Sim.Está se movendo. e o desejo surge. MANOLO sugeriu que ela se oferecesse para leválo ao lugar exato que ele procura. entendem? Aquelas coisas que no velho cinema eram 50 .. Seria a viagem que o levaria diretamente para a morte. Talvez depois a gente precise mais desse elemento e ele possa ser deixado de lado. a morte. claro. estamos caminhando. CECÍLIA . E aí começa processo de sedução por parte dela. encontra a morte... ela passa. GARCÍA MÁRQUEZ . o lugar do cartão postal.Tudo bem. O camarada olha o cartão. não será justamente esse o problema. de viver em plenitude. seria mais um encontrão do que um encontro propriamente dito. temos que meter na cabeça que ela é a Morte. Na nossa história. eu entendo. É uma canção em japonês. É a história de uma pessoa para quem nunca acontece nada e sente que. nem ao primeiro encontro dos dois.A iniciativa é dela. agora.Na verdade. Uma coisa assim meio.No fundo. o fato de ela estar sempre caminhando? CECÍLIA. e agora. O que eu mais gostei é a idéia de que ele vá ao mar e dali.. GARCÍA MÁRQUEZ . Quem viu esse filme não esquece nem essa canção.. rrruuurrrmm!. deveria fazer coisas insólitas. nós não demos relevância a ela. Nós não conseguimos dar ao personagem esse fôlego. Se ela é a Morte. Quase uma topada. o homem sufocou suas emoções. mas sem fazer nada. não de quem chega. nós não gostávamos da idéia de o homem bater na porta. caminha pela praia deserta. visse a mulher. ou sei lá o quê. Durante toda a sua vida.. vê o mar.Vamos chegar lá. É a Morte travestida de Vida.A idéia do cartão postal e do mar tem força. a moça. esse gabarito.. Aliás. Isso é tudo que ele quer fazer antes de morrer: conhecer o mar: Desce do ônibus nessa aldeia de pescadores. porque é a canção da Morte. exatamente do mar. Então. O filme da horta é o filme de quem está dentro da casa. quando acha a possibilidade de expressá-los. Com isso acaba morrendo do mesmo jeito que viveu: frustrado. o personagem vai crescer.. nem aquele parque horrível..

Houve propostas gerais. cortando cabeças de peixes. limpando peixe. E é quando vê a moça limpando os peixes. Todas as praias são iguais. de repente. É por isso que a gente faz uma Oficina. nem se vêem. de longe. tarataram. e entra na água. vai determinar o curso de toda a ação. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . tira os sapatos e as meias. GARCÍA MÁRQUEZ .Eu gostaria de resumir o que fizemos. e tudo muda.Pode até cantar: Uma mulher assim como Maria Bethânia.E se nós antecipássemos sua presença de outra maneira? Escutaríamos sua voz.. Ela tem que surgir diante dele como algo insólito. acostumada a cantar. MARCOS . GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ . instantâneo e definitivo. Fica adormecido na areia. Já começo a ver essa negra. que não chegou ainda. Uma negra corpulenta. Ele sentiria o feitiço daquela voz e. ela entra..Por que não voltamos à idéia da comparação entre o mar do cartão postal e o da realidade? “Bem.A mulher deve ser negra. SOCORRO . Mesmo que ela não cante no filme.Ele chega à beira do mar vestido de terno.Sim. encontraria a mulher atrás de uma pedra. uma mulher enorme. E. no momento em que ele chega à praia. nada de idealizado ou fantástico. providencial. tem um momento de vacilação e regressa à praia.Pouco a pouco.acompanhadas por golpes da orquestra: taran. aparentemente.É bom que a Morte o salve de uma morte que não é a dele. a personagem vai-se desenhando. não houve nenhum acordo. orientando-se por ela. 51 . na verdade. Quando desperta vê. mas ela já veio com ele. nem eu saiba de onde vem ou para onde vai. embora a gente não tenha tempo agora para analisála.Mas é assim mesmo que a história acaba saindo. dizendo que. O esquema poderia ser este: ele está numa situação que. E isso produz uma espécie de susto. ROBERTO . Tem a impressão de que o sujeito quer se matar: Ele avança. como a que estou tendo agora: a mulher viaja no mesmo ônibus que o homem. para que nos juntarmos aqui? E não sairiam essas idéias loucas. seu canto. Não se encontram no ônibus. se pergunta o homem. uma coisa bem do cotidiano.Essa é uma aldeia de pescadores. Se fosse de outro jeito. inclinada sobre ele. Ela está observando. mais todos nós tínhamos uma posição diferente diante da história. ELID .. REYNALDO . O que não consigo ver é a locação. com uma aura mística.. Ela seria uma espécie de flautista de Hamelin. e agora?”.

ou “Onde é que fica o bordel daqui?” Pode ser que ele encontre uma bailarina no bordel. mas na verdade não faz nada. Mas. depois outra.. e quando volto encontro o mesmo camarada empenhado em chegar a um lugar. de que ele deve ir ao mar para encontrá-la. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . nas aventuras de cavaleiros andantes. Ele vê um monte de cartões.. RORERTO .. saí para ver o que acontecia. mas porque quer conhecer o mar. Não faz nada.. É isso o que quero dizer: Vocês estão muito sérios. escolheu o lugar da sua morte. Quando ele seleciona o cartão postal.Está faltando loucura nessa história.Mas a sua proposta de situar a moça no ônibus contradiz a idéia de que ela “vem” do mar. estão uns sujeitos jogando dominó.. 52 . Porque acontece que o personagem vai em busca de aventuras.Ou de crianças.É um bom recurso visual. Um cartão em preto e branco. Antes saía buscando aventuras.. ou na pensão ou restaurante onde a mulher trabalha.GARCÍA MÁRQUEZ .. REYNALDO . mas isso é fácil de resolver. sem destino... e assim por diante. no bar.É isso o que estamos tentando averiguar: o que ele faz depois? ELlD . Alguém dizia que. e. depois esperar que seque. GARCÍA MÁRQUEZ ... e escolhe do mar. ELID . porque deixei aqui um sujeito sem destino exato. MANOLO . um pouco à deriva.Estou falando do final da viagem. onde é que a estrada ia dar. Sem saber. Existem postais do mar da selva. a não ser entrar num ônibus..Ele tem que começar a fazer coisas que nunca tinha feito. Você é mediterrâneo. Confesso que isso me tirou do eixo. é pura questão de técnica.Eu estou achando que a praia ainda não é o lugar. ELID . Todos os brasileiros são mediterrâneos. das montanhas. tudo bem: ele vai para o mar. GARCÍA MÁRQUEZ . uma. O camarada só fica ali na frente do mar.. não é porque queira ir a esse lugar específico. ou então caminha pela praia.Concordo com isso: colocar o homem fazendo coisas loucas.Vamos ficar com a idéia do cartão postal. Como nas novelas de cavalaria..Como é? GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO .Você é um romântico grego. No ônibus ou no trem podem acontecer coisas.Não é preciso se impacientar: Lembrem-se das diferentes camadas de pintura: primeiro. Pois bem: que o homem se aproxime e pergunte: “Onde posso conseguir uma garrafa de rum?”.

da piada.Essa imagem da mulher. ROBERTO . matam o homem sem querer. Ninguém quer fazer mal ao homem. ao vê-lo vestido de terno.Sim. com a blusa ensangüentada. Tem uma baía muito estreita.. no final. Ou seja. mas acaba se tornando um pesadelo. construir a relação a partir dessa idéia de coisa engraçada. A viagem começa com uma simples brincadeira. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . “Vamos gozar esse aí”.Tenho a impressão que o cinema não agüenta outro outro prostíbulo.. a montar a cavalo . trazem. MARCOS. cortando cabeças de peixe..e. colete e gravata. no final. sem querer.Sacodem. o céu. rodeada de 53 ..Tem uma história.ensinam o gringo a tomar chimarrão. o caminho vai-se fazendo mais tortuoso. Ela.. GARCÍA MÁRQUEZ. a do gringo que chega ao pampa. GARCÍA MÁRQUEZ. Quando chegam. É uma boa imagem.Ela e os pescadores se oferecem para levá-lo ao tal lugar que ele procurava. o camarada morre. E acontece que por causa de uma dessas piadinhas ele acaba sendo morto. Vocês lembram de O Soparso? É impressionante.GARCÍA MÁRQUEZ . Enquanto a gente não tiver construído o personagem. levantam. As rochas. o camarada chega à aldeia de pescadores com seu colete preto. mais um bordel.... diz um dos pescadores quando vê o cachaco se aproximando. o mar. porque em nenhum momento a gente pensava que ele ia morrer.É uma travessura.Isso dá muita vida ao filme..As crianças levam o homem. ROBERTO .. metem o homem na água.. MANOLO . Não muito pesadas: meio inocentes.E por que levou? MARCOS . Só ela tem consciência de ter levado o homem para a morte.E o matam de brincadeira. precisamos buscar imagens. da moça.Só de maldade. mas acabam fazendo. não existe nada. SOCORRO ...Até as crianças da aldeia debocham. SOCORRO . esquentam a bombinha do chimarrão. E. SOCORRO . Há piadinhas. onde tudo acontece normalmente . por causa de uma piada! Ou seja.. À medida em que avançam. GARCÍA MÁRQUEZ ..Na costa atlântica da Colômbia existe uma aldeia de pescadores que se chama Tacanga. Os pescadores se assustam: o que aconteceu? Só a moça sabe..Seria bom resgatar a idéia da verdadeira. DENISE . limpando peixe.

O cadáver entra na baía flutuando com colete e tudo. GARCÍA MÁRQUEZ .montanhas. GARCÍA MÁRQUEZ . desaparece. ROBERTO . SOCORRO . como é que se arranja numa situação dessas. GARCÍA MÁRQUEZ . e para eles um cachaco. um dos vigias.Ela o salva das crianças.Uma brincadeira coletiva. ROBERTO . flutuando na baía.. Uma simples travessura. E fica com ele.. embora também ache que seria bom 54 . Pois bem: podem levar Natalio a um desses ninhos de falcões. E uma boa imagem: ele flutuando na água transparente. existe também uma dose de crueldade. MANOLO . De repente.Espanta as crianças como se fossem moscas.E ela? Na sedução. Os vigias são chamados de falcões. lá do alto. ao ver entrar na baía um cardume de peixes. vê também o cachaco. para ver o que é que ele faz. É aí que ela chega.As crianças.. com sua inocência. sozinha. MANOLO . Há alguns homens. quase inacessíveis. Por isso mesmo. Depois seu cadáver é descoberto. e quando vêem entrar um cardume de peixes. SOCORRO . essas crianças vivem numa aldeia da costa.Por que você não diz de uma vez que é a baía mais bonita do mundo? Ou não é? Vamos. Além do mais. deve ser uma coisa muito exótica.A água está tão quieta e transparente que a pesca é feita ali na margem. vestido da cabeça aos pés. podem ser extremamente cruéis. Acho bom. flutuando sobre os peixes. eu renuncio a ela. pode surgir a idéia de escalar a montanha. Já temos o final.Ela estava observando os vigias. E no dia seguinte.Deixam Natalio lá. acaba criando para si um ambiente idílico. uns vigias que observam o mar dos rochedos.mas não faz mal. que se transforma em um crime coletivo. GARCÍA MÁRQUEZ . MANOLO .a imagem de um vice-rei que se afoga num poço . e depois. só de brincadeira. onde os pescadores jogam suas redes. para que eles fechem a rede.E com o guarda-chuva fechado sobre o peito. GARCÍA MÁRQUEZ .Ou aberto. avisam aos pescadores. e deixá-lo lá. de paletó. diga logo! MANOLO . Quero dizer que tenho essa imagem num roteiro que nunca foi filmado . só falta o recheio. Agora.Quando ele descobre o mar. quando caminha pela praia. lá em cima. GARCÍA MÁRQUEZ . seja homem. poético. será interrompido de maneira brutal por uma bola de areia que os meninos jogam nele.E ele.

aceitando a contragosto a homenagem e depois. Simulam aquela alegria toda. ao chegar. importante.. pensam que é um personagem oficial. mas a idéia é muito boa.. um inspetor ou coisa parecida. é confundido com alguém muito importante.Dá tempo...com a chegada do personagem verdadeiro.Pela primeira vez na vida. e ele cai. Mas os verdugos não ficam sabendo jamais que a vítima não tem nada a ver com a pessoa que eles esperavam. Mas como ele chega vestido de maneira tão solene chapéu.Todo mundo na aldeia estava esperando a chegada de alguém odiado.. tem capacidade para isso. porque.. por exemplo. o sacristão fica sentindo-se padre e. GARCÍA MÁRQUEZ . enfim.. esse homem vive um momento de triunfo. e depois a confessá-los.. Não se assustem. E celebram a sua chegada com uma grande festança. mesmo que seja tudo por engano. No nosso caso. Olha só: acabamos de entrar num filme simbólico. e depois. mas como todo mundo detesta o outro. O camarada chega a 55 . a vida arrasta o camarada e. enfim. guarda-chuva -. O presidente da República. Ele é simplesmente confundido com outro homem. O homem começa dizendo não. GLÓRIA . acabam matando o nosso personagem. alguém que pode descobrir alguma coisa não muito limpa. Eu imagino essa armadilha onde ele cai. e um belo dia. A aldeia inteira obrigou-o a aceitar aquele papel.tentarmos uma coisa mais louca: o homem. GARCÍA MÁRQUEZ .ele acaba sendo acusado de farsa. não lembro como é que tudo termina. não tente disfarçar. e tem até quem acha que o reconhece. e as pessoas obrigam o sacristão a rezar missa. sei perfeitamente quem é o senhor.. alguma coisa está acontecendo em sua vida. e essa coisa envolve a aldeia inteira. temos tempo... por favor. MARCOS . ou de Os pescadores da ilha de Siena? É um lugar que fica sem o padre. aqui todo mundo conhece o senhor”. estou brincando. só para levá-lo até a armadilha. Agora. mas acaba entrando na dança. afinal. Por isso matam o recém-chegado..Uma espécie de atentado. GLÓRIA . SOCORRO .Alguém aí se lembra de Deus precisa dos homens.Não vejo nenhuma razão para o personagem verdadeiro chegar.. por exemplo . acaba assumindo o papel que quis interpretar a vida inteira. Mas. ou não fazemos esse filme. quando a confusão é descoberta .. “Ora. ou fazemos direito. ou temido. sem que ele queira.Mas a gente não precisa de muito tempo para desenvolver uma situação dessas? GARCÍA MÁRQUEZ .. estamos danados... colete.. e quando está no apogeu. coitado. de mentiroso.

fama. Agora. toma decisões muito drásticas.Eles inventam o personagem que esperaram. para que dê certo. todas exatamente iguais. “Bem. e ele sabe que tem um prazo para acabar: Vinte e quatro horas.. depois. O que vejo é que sua saída de cena se articula com sua chegada. Tudo ali é tão artificial como essa história. não importa mais.Nós já sabemos que a aldeia o espera. é lógico que sua chegada desperte expectativas. que afetam os interesses da embaladora de peixe. Sim. Aliás.Mas esta história é um conto de fadas. e o homem foi enviado pelo governo para servir de mediador. porque necessitam uma pessoa assim. ele toma decisões que. ELID . CECÍLIA . fazer uma obra que o imortalize. conceder. por desfrutar do poder que não quer morrer: E tem mais: quer perpetuar sua fama. ROBERTO . e o feitiço se desfaz. a carruagem torna a virar abóbora.Numa aldeola assim.. GARCÍA MÁRQUEZ . mas quem é que ela está esperando? GARCÍA MÁRQUEZ .Ele chega vestido de autoridade. ROBERTO . Os pescadores têm um conflito com uma empacotadora. O que isso me faz lembrar? Acho que a eterna história do forasteiro que chega ao povoado. vamos fazê-lo mais artificial ainda. Glória. ROBERTO .E se o camarada decidisse construir uma pirâmide? MANOLO .A moça é a primeira a reconhecê-lo.e já pode morrer tranqüilo. que as esperanças dos moradores se projetem nele. a história do estranho. com autoridade. o senhor. Morrer. GARCÍA MÁRQUEZ . falta saber se o descobrem ou não. para ele. Conquistado pela hospitalidade das pessoas da aldeia. a propósito: já que este conto é tão artificial. GARCÍA MÁRQUEZ . Como se fosse o desenho. ora.Ou o contrário: sente-se tão fascinado pelo poder. poder . E ele vai-se deixando convencer aos poucos. os pescadores recuperam algo que tinha sido tomado 56 . “Seja bem-vindo. se voltam contra ele. do outro. quando perde o poder. o traço de um pintor primitivo. mesmo que cada uma tenha uma cor diferente.. E graças a isso. com suas casinhas de madeira. O que querem de mim?”. Claro que o conhecemos: o senhor é o Fulano de Tal”. não disfarce: mas estávamos à sua espera. E eles começam a pedir e ele.Enquanto tem poder. me descobriram. feito um bumerangue..Vocês nem imaginam que lugar estranho é Tacanga.viver o grande momento da sua vida . porque ele chega vestido de Poder e morre no apogeu do seu poder. e todo mundo considera a sua chegada como uma coisa providencial.

Não vamos deixá-lo morrer por causa desse sacrifício que estão pedindo a ele.deles. que o situe além da morte. GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO . teremos o filme pronto. e a gerência da embaladora de peixe decide se vingar dele. ROBERTO . Da farsa que foi imposta a ele. GARCÍA MÁRQUEZ ... 57 . MANOLO . entre radiações.Ah. as pessoas dizem: “Finalmente! Sabíamos que ele viria!”.. Ele morre afogado.Uma morte grandiosa.No apogeu da GLÓRIA. MARCOS . mas morre como se fosse um santo. ele é morto por todo esse amor..Não. o fato. GARCÍA MÁRQUEZ . e fazem um grande enterro.Mas ele não consegue.Farsante de uma farsa que não quis protagonizar. ou se apoderam do que reclamavam como se fosse deles. Mas. Para eles. Não precisamos de mais nada. Os pescadores se vingam do que fizeram com o homem. Quando chega.Os pescadores se vingam nele de uma coisa que ele não fez. GARCÍA MÁRQUEZ .O cara é enterrado vivo. ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ .Todo mundo na aldeia fica alegre com a sua chegada. ele tem de fazer alguma coisa que o afirme como um deus. GARCÍA MÁRQUEZ . Já estamos no terreno do mito.Que sacrifício? GARCÍA MÁRQUEZ.Sei lá. com quem ele foi confundido? Com um senador? GARCÍA MÁRQUEZ . E quando descobrem que o homem não é o mediador se negam a devolver o que tomaram. REYNALDO . Nunca descobrirão a verdade. bem diferente daquela outra que o esperava no hospital. Porque ele sabe que a morte é inevitável.Mas isso é um longa-metragem. ELID . Ele já se sente Deus. não convém que os problemas sejam resolvidos. mas também certos personagens que se sentem contrariados.É um farsante. Estamos metidos até o pescoço no terreno do mito e agora não podemos voltar à realidade cotidiana.Como é que não consegue? Ora.Se conseguirmos descobrir o mecanismo que leva à morte. Quer fazer alguma coisa grandiosa. Não pode existir nenhuma embaladora de peixe. nem grupos rivais. O que mata o nosso homem é o mito. e nós estamos elaborando um sonho.. conceda ao homem essa última alegria.. E são justamente esses personagens que matam o homem. não seja cruel! Pelo menos.Ele é confundido com um benfeitor. REYNALDO . e quimioterapia.

todo mundo se convence de que ele é o general.Em que sentido ele se deixa crucificar? Ele se sacrifica para alcançar seu propósito. é igualzinho ao homem. até um drama grego na ilha de Creta.Em todas as casas da aldeia. Por que não? Afinal. E sobre um pobre coitado que é preso numa cadeia da Itália .Em Kagemusha. só existem trinta e seis situações dramáticas. Vemos a imagem do recém-chegado nos altares de todas as casas. Um santo. o homem chegou a conclusão de que não pode frustrá-los. Estavam velando o santo e. uma aparição. de repente. fica mais fácil de acreditar. acaba sendo o General De la Rovere. as pessoas veneram um santo que.Não. de Kurosawa. E assim.Crucificado. Puro milagre. e esta é uma delas. sem vacilar. GARCÍA MÁRQUEZ . e de repente aparece esse sujeito que se faz passar por ele. Morre. Puxa.GARCÍA MÁRQUEZ . Com velas acesas. tem um caso parecido. Mas morre crucificado? GARCÍA MÁRQUEZ . Os presos acabam convencendo o homem de que ele é o outro. sim.uma cadeia para presos políticos -.Você lembra do filme De Crápula a Herói. e todos os outro presos o confundem com um líder. de Rossellini. com a ilusão de que ele era a pessoa esperada. Podemos fazer qualquer coisa.. arrisca a própria vida. SOCORRO . Várias vezes eu disse por aí que os três melhores filmes que já vi na vida foram O Encouraçado Potemkin. para nosso espanto.Tudo bem.É que com um italiano. GARCÍA MÁRQUEZ .. O verdadeiro general também está preso mas ocultou sua identidade para salvar a vida. REYNALDO . Ele se deixa crucificar Ele quer que todo mundo fique contente. uma visão. O nosso homem descobre que as pessoas precisam dele. mas consegue o seu objetivo.Isso mesmo.Acham que ele é um médico milagroso. Cidadão Kane e De Crápula a Herói. protagonizado por Vittorio de Sica? Acabo de perceber que essa é a história que estamos tentando contar. ROBERTO . MARCOS . vamos lá: nós já temos a história.. claro. chega esse sujeito. Por alguma razão. as pessoas descobrem no nosso homem alguma coisa que todos necessitam. GARCÍA MÁRQUEZ . isso ficou bonito! 58 . Mas enfim. GARCÍA MÁRQUEZ . desiludi-los. que deve fazer esse favor. que é igualzinho ao santo. ROBERTO . e além disso.E ele chega mesmo a se achar o santo. porque sou um grande admirador desse filme. E para demonstrar isso. E acho bom. o General De la Rovere.

imagino este fina. GARCÍA MÁRQUEZ .Ninguém sabe como nem por onde ele chegou. Uma imagem muito bíblica.Olha. ROBERTO . Que ele faça dois ou três milagres rápidos.A gente fica com vontade de saber o que vem depois.Vamos desenvolver cena por cena. e depois o do santo. Tivemos um trabalho danado para chegar até aqui. Antes. GARCÍA MÁRQUEZ .: o cara olha para a câmera.O homem não precisa mais morrer.Pois eu continuo achando que ele devia morrer. ROBERTO .Ela entra na água e o homem vai atrás. ele entra no mar mesmo.Aí.Faz uma paralítica voltar a andar. inventam milagres e os atribuem a ele. e não o contrário. Melhor até do que imaginamos. como se fosse caminhar pela superfície da água.. SOCORRO .. fez até milagres.Ele chega à aldeia sem que ninguém veja. Olha. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ .CECÍLIA . REYNALDO . MARCOS . REYNALDO . é um filme muito bonito.Está bem. o dia da sua chegada à aldeia. a gente expulsa você.Se você derrotar o nosso filme. e ponto. Não acho que leve mais de meia hora para chegar ao primeiro milagre. sorri.Pois é: aí voltamos à longa-metragem. de repente.Não. desaparece. Acredita de verdade que é milagroso. ele ia morrer porque a gente não sabia o que fazer com ele. para ver onde a história nos leva.. saber como é que tudo isso termina. lindo.. O final não importa mais.As pessoas inventam. virou longa-metragem de novo. é justamente o dia do santo. você é amigo ou inimigo? ROBERTO .. Afinal..E aquele dia.Um santo que fez muito bem. GARCÍA MÁRQUEZ . o homem vai morrer? GARCÍA MÁRQUEZ .. E é a seguinte: um 59 . O filme pode terminar com o primeiro milagre. é o homem que é igualzinho ao santo.O santo é o padroeiro dos pescadores. REYNALDO . e faz o milagre.Como eu nunca vi um santo sorridente. Vamos fazer primeiro o filme que nos convém. não é mesmo? E.E ele chega a crer nos milagres. ROBERTO . ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . Na verdade. O homem pode morrer ou continuar vivo. O importante é que nós já temos a história.Afinal... MANOLO .. GARCÍA MÁRQUEZ . O filme acaba assim. GARCÍA MÁRQUEZ .

desenganado pelos médicos. Os detalhes virão depois. mas a semelhança é tão grande. onde o confundem com um santo.As circunstâncias se impõem sobre ele. milagre! O filme poderia até acabar com o rosto do homem.Agora a morte é um simples pretexto para fazer o nosso homem viajar. tão menor.São coisas diferentes.. meio vago. REYNALDO .A mulher estava esperando por ele na aldeia. Pode ser três meses ou três anos”. CECÍLIA .Parece que a outra história. O diálogo fica assim. Quando ele vê os altares. e o milagre acontece. Temos que trabalhar mais.acaba acreditando que é santo. danou-se. só que já não pode fazer mais nada. e é tanta a insistência dos devotos que afinal põe a mão sobre uma criança doente ou moribunda que acabam de trazer e.A mulher negra.porque é parecido de verdade com o tal santo . deixou de nos interessar. que tinha vivido uma vida tão chata. GARCÍA MÁRQUEZ. estão lembrando! Quando ele chega.. Alguém pede ao homem que cure um doente. Na beira do mar. A conversa começa com o sujeito perguntando ao médico: “E quanto tempo o senhor acha que eu ainda tenho de vida?”. e no começo ele vacila. Se ela crescer muito. ROBERTO . mas acaba cedendo. se ela ressuscita ou não. ela diz: 60 . é uma avalanche que a Igreja não consegue parar. CECÍLIA . E os devotos não gostariam que a gente brincassem com o seu santo. Agora. a do camarada condenado a morrer. porque o povo já o canalizou. E o médico responde: “Depende. que ponha a mão em tal Lugar.Esse aí seria o final. como alguém disse aqui.. decide mudar de vida radicalmente. esticar. precisamos garantir que a história caiba em meia hora. GARCÍA MÁRQUEZ . pode desandar e se perder E tem uma coisa que me preocupa: a imagem dos altares não deve ser muito parecida à de São Gregório. GARCÍA MÁRQUEZ .Não precisamos mais falar da cirrose.Eu já tinha me esquecido do mar. no princípio do filme. O que interessa agora é ver como esse sujeito. ele mesmo não se explica o que ocorreu. quando vê a si próprio venerado em todas as casas .. não consegue se decidir.democrata de Bogotá. O homem andou se recusando. Porque o filme não é sobre a criança doente. É verdade que o Vaticano encrenca. REYNALDO . com um médico que fazia milagres. Esta é a história. e começa a levar a cabo um velho sonho: conhecer o mar: Chega a uma aldeia de pescadores. chega a viver a vida de um santo. ROBERTO . No momento em que o homem decide que vai pôr a mão no doente. perplexo: não sabe o que aconteceu. É sobre ele e sua incrível santidade.

Porque se a gente piscar.Não. então. GARCÍA MÁRQUEZ ..É o filme das casualidades. Hemingway dizia que um livro acabado era um leão morto. seu porte.Muito bem. ver a história de MARCOS.Melhor até do que ele poderia imaginar.É a melhor coisa que poderia ter acontecido com ele.O problema.“Estávamos a sua espera”. Vamos parar quinze minutos? 61 . e sim a vida que tem pela frente. Sem querer. a primeira versão. o que importa é a incerteza do homem: “Quanto tempo de vida eu tenho? Vou sofrer muito?”. pronto: você mesmo. em seguida começarão as perguntas: “Êpa.A mulher ficou flutuando por aí porque nesta nova versão ela já não importa tanto. Por isso não se mete num hospital nem se tranca em casa para que cuidem dele. a primeira coisa que os jornalistas perguntam é: “O que o senhor está escrevendo agora?”. acho que é uma boa idéia. porque ainda não sabemos que ela é a Morte. Agora. com a informação que tem. “Porra”. MANOLO . nos impressiona. A tendência é ir além da meia hora. Ao contrário: manda tudo à merda. Ele quer se libertar.. ROBERTO .. não é a vida que ele teve. “não me deixam nem descansar um pouco!” Vendo a cara de vocês. Vamos. Essa é a história. e isso aí. consegue a sua realização pessoal. traz para a gente ver. Chega a ter tudo: o poder e a GLÓRIA. por isso é preciso tomar cuidado. SOCORRO . MARCOS . ROBERTO .Eu tenho outra história. e por acaso. Quando tiver terminado o primeiro tratamento do roteiro. agora. Não podemos nem piscar. GARCÍA MÁRQUEZ . Ou preferem descansar? Cada vez que sai um livro meu.Ele se realiza. GARCÍA MÁRQUEZ .Então. como é mesmo? E aquela outra coisa ali?”.Acho que não precisamos mais revirar essa história. A vida que ele teve é o que explica a sua decisão. GARCÍA MÁRQUEZ . A do cachaco é um leão morto. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . E o jeito é manter a história tensa o tempo inteiro. desenvolve a história. eu respondo. A figura da mulher.

populares. não sabe dançar. quem é? Quais são os seus antecedentes? Como chegou ali? MARCOS .. GARCÍA MÁRQUEZ . os ambientes. O cara das maracas mora num bairro muito pitoresco. Queria brincar visualmente com certos estereótipos latino-americanos: os músicos .que parece ser frígida . acompanhado de seus guarda-costas. Essa é a imagem. Veio ao Caribe nnma excursão de quinze dias. A psicóloga . ao mesmo tempo. tomando sol com dois algodõeziuhos tapando os olhos. foram as locações. de repente. Um deles é negro. está no hotel há vinte e quatro horas e ainda não se animou a descer até a praia. um grande ruído no céu e centenas de mãos na varanda agitam bandeirinhas.tem uma aventura louca com esses dois personagens. a paisagem. vai visitar.. por exemplo. E agora.. outra de mariachis -. Varanda de um hotel cinco estrelas. Assim o filme começa. Nunca teve um namorado. que a psicóloga. começa duas aventuras amorosas com dois sujeitos. O aparelho pousa suavemente no heliporto do hotel. palmeiras. tanto que chegou no hotel em seu próprio helicóptero. o outro é branco. É meio frígida.Vou contar primeiro o começo do filme.E ela. nunca teve um namorado.. ao imaginar a história.a orquestra de salsa. uma pessoa que procura no Caribe o que não pôde encontrar em seu país. Primeiro plano de uma mulher cinqüentona. enquanto escuta música em um walkman.É.. porque alguém disse a 62 . Gostaria de poder filmar nesses lugares: os hotéis.. De repente. O clássico estereótipo: céu azul. parecido com o Hilton Palace de São Domingos. e toca todas as maracas na orquestra de salsa do hotel.. A história é a seguinte: essa mulher é uma psicóloga argentina que deciciiu passar férias no Caribe. Estão dando as boas vindas a um helicóptero. numa praia do Caribe.SEGUNDA PARTE QUINTA JORNADA DE TRABALHO História de uma paixão argentina . um cara famoso..O chamado da selva MARCOS . é claro. músico. as praias. Confesso que minha primeira motivação.

Ela vai descobrir isso na própria carne. ROBERTO .. a vegetação. Sabemos que a mulher é argentina. se misturem algumas pautas culturais próprias da América Latina. Mora em Buenos Aires. “A senhora bem que anda precisando de umas férias no Caribe: outros céu... tomando sol no terreça do hotel. A paciente está recordando o calor.Através de uma amiga que acaba de voltar de uma viagem idêntica.. ROBERTO .. doutora”. MARCOS .. a cor das paredes. no hotel. quando levar o tocador 63 . imagine só. Mas o que você tem não é uma história: é uma idéia. puxa. Quando a outra mulher sai. tudo ao mesmo tempo.Então o divã é sopa no mel. ROBERTO . uma profissional. mais sensual... Como você vê a história Marcos: drama ou comédia? MARCOS. mais dinâmica.Comédia. ROBERTO ... A paciente responde: “Ah. diz a amiga. psicóloga ou psiquiatra. ela pensa: “Está resolvido: vou para o Caribe”. fazer amor numa rede.. falando de sua viagem ao Caribe. o produto de uma psicanálise ao contrário: a paciente a psicanalisou. Vamos ver se. claro. Por isso está ali. Um caso assim não deixa de ser atraente: uma mulher incapaz de tratar com um homem e que...A doutora aos poucos vai deixando de ser quem é. corte: ela está no avião. outras pessoas.. MARCOS.Porque a gente não começa numa sessão de psicoterapia? GARCÍA MÁRQUEZ . Agora é uma pessoa totalmente diferente. sozinha. e de repente.Não é preciso nos determos para descrever sua personalidade. MARCOS . frígida ou tímida. “Acho a senhora meio cansada. e começa a viver sua própria fantasia. não existe nada parecido”.Eu acho interessante que. se enrosca com dois e vive um romance apaixonado com cada um. meio distraída. muito ascético.. A psicóloga escuta. tudo muito impessoal. Como é que ela vai parar nessa excursão? MARCOS . A personalidade pode se manifestar através da atmosfera do consultório. Conte mais coisas.. mas vistas como estereótipos. Viu só? A situação inteira pode acontecer através de perguntas e respostas. lá tudo é diferente.ela “cuidado.Você me tirou isso da boca..Muito bem. A paciente está deitada no divã. GARCÍA MÁRQUEZ ..Ela vai se entusiasmando.Sim. doutora. não vá ser roubada”. de repente. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . Você deve contrapor o mundo dela à realidade caribenha. o entardecer.”. trabalhando somos capazes de arrancar uma história daí. e ela: “E as relações eiticas?”.

ela não tinha feito outra coisa além de ouvir histórias dos outros. No final. ouvimos a voz da paciente em off. não tem uma coisa orgânica e articulada: você tem uma idéia. Isso não é tão difícil assim. ou uma grande retrospectiva. Logo que chega ao hotel. E o filme acaba aí. tão rígida e. Tudo dá errado para a psicóloga. Até agora. a voz em off da paciente. Tudo acontece ao contrário.A história pode ser resumida dessa maneira: enquanto se hospeda. MARCOS . pensa.Funciona. vão dar o suporte. Mas nada sai do mesmo jeito. A paciente respondeu à última pergunta. A paciente está estendida no divã. com cinquenta anos. Começa o interrogatório pela psicóloga. GARCÍA MÁRQUEZ . O questionário da psicóloga.Mas como é que uma mulher tão seca. uma mulher madura que nunca viveu uma paixão amorosa tem. O filme continua.Sinto necessidade de resumir a história.Ela ouviu essa história da paciente.Noa só vai para a cama com ele. Suas relações com o sujeito das maracas e com o magnata não são o que ela esperava. Aí começa o jogo da comédia. e não dela. Ouvimos as respostas sobre seu rosto. O que vemos na tela não é o que a voz conta. Corte. Vemos que seus olhos começam a brilhar. vemos que ela come o maleteiro com os olhos. e sim o contrário. O que vimos não é outra coisa além de uma antecipação. mas agora não há mais perguntas. O problema é que você ainda não tem a estrutura. Também convém que a gente saiba o que ela anda procurando. Seu entusiasmo aumenta a cada resposta. é que agora ela está alerta para outras alternativas. REYNALDO . Real ou imaginária? Não sabemos. embora não seja necessariamente pior. o fio condutor que você precisa. num grande hotel do Caribe.Isso é problema nosso. como conta toda a sua vida.Podemos apelar para um recurso técnico. sai tudo ao contrário. como turista. 64 . MARCOS . e decide repeti-la.. voltamos ao consultório de Buenos Aires. Não é que agora ela vá para a cama com dois ou três sujeitos. vai levar esse homem para o quarto? GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . Mas seria necessário manter esse elemento de contradição: para ela. as coisas acontecem ao contrário. quer contar a sua. duas aventuras fenomenais. ainda por cima. ou uma caricatura. e que de repente nem é do gosto dela? CECÍLIA . “Amanhã estou indo para o Caribe”.de maracas para a cama. Agora. Os olhos da psicóloga brilham mais do que nunca. passar por uma experiência parecida. de repente. para ver se funciona. SOCORRO .Ela vai acabar fazendo amor com o homem que menos imaginava.. GLÓRIA .

E ela vai direto ao assunto. era um músico subordinado ao Ministério da Cultura. GARCÍA MÁRQUEZ . o calor. a outra é contando passo a passo o que acontece: uma mulher se levanta. a brisa. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ ..não fazia outra coisa a não ser sacudir as maracas. E o filme 65 . são quase vizinhos. Estou querendo dizer que a até a sua pele desperta.Ao chegar aos trópicos. mas em certo sentido. O sujeito é uma espécie de gigolô. ganhando duzentos e cinqüenta pesos por mês.. a psicóloga argentina. E um dos músicos . temos um personagem que é o protagonista. Tinha o olhar parado no vazio... aqui. encontra uma amiga na esquina. sai. MARCOS . no hotel xis tem um tocador de maracas que é um encanto. rapidamente. e uma contrafigura. eles descobrem que moram no mesmo bairro. GARCÍA MÁRQUEZ . toca maracas numa orquestra há vinte e cinco anos.. Eu acho que o mais certo é ter as ações bem claras.Seria formídável se a história com o tocador de maracas não desse certo e. entra num ônibus. A razão dessa popularidade nós sabemos através da paciente: “Doutora. O sujeito também mora em Buenos Aires. GARCÍA MÁRQUEZ . insuportável. claro . quantas psicanalistas argentinas caíram em suas mãos? Pelo menos cinqüenta. SOCORRO .Ela foi ao Caribe para isso: procurar o amor. Mas. cujo desenvolvimento é desconhecido. em Havana. Seja como for. a psicóloga sente o cheiro do mar.ao mesmo tempo.. com calma. e depois. Disseram que esse tocador de maracas era o tal.. MARCOS . Este homem. resumi-las em alguns parágrafos e analisá-las conforme formos escrevendo. ela acabasse se enrolando com um argentino.O personagem não nasceu assim. e assim que ela chega começa a procurá-lo. Vai ver. em vez disso. no cabaré do hotel Capri. e tocava suas maracas por pura inércia: chac-chac-chac.Tudo bem. para começar. o músico caribenho que toca maracas. Na verdade. meia hora.E o filme. nesse tempo. ouvindo uma orquestra de uns quinze músicos interpretando velhos boleros. É magnífico.. Tem um instrumento deste tamanho!”. Viu só? Está saindo a história. o sabor. MARCOS .Bom.o das maracas. É relativamente jovem e muito popular entre as turistas. A primeira é começando pela síntese: conta-se a medula de uma história que ainda não existe..Tudo bem. A idéia me bateu una noite. Mas este outro tocador de maracas não tem tempo para se aborrecer.. Há duas maneiras de conceber um roteiro. a situação não pode se prolongar: a excursão dura quinze dias.

e o outro é potência. SOCORRO . Não está cheio de argentinos indo ao Brasil atrás de aventuras eróticas e de todos os tipos? GARCÍA MÁRQUEZ .Talvez a paciente seja isso. metido com uma argentina?”. enquanto a outra conta suas férias no Caribe com todos os detalhes.Não pode. MARCOS . Aqui já temos o núcleo de uma comédia de situações. Vamos deixá-la com quarenta e dois e sentindo-se frustada do mesmo jeito. Ela vai atrás do tocador. é até veado..O que temos aqui é um jogo entre a paixão e o poder. e pouco a pouco a vida a empurra para o outro. A paciente.O cara não pode ser famoso. Então.Acho isso interessante. depois de ter ouvido tantas histórias e ter sido obrigada a vivê-las monasticamente. morre de inveja ao ouvir. VICTORIA . ela pensa: e por que não? O que me impede? GARCÍA MÁRQUEZ . Mas viveram no mesmo bairro..Uma comédia cheia de enredos. Ela já tem referências de confiança sobre os gostos dele. os dois se frustrando . apesar de ser muito profissional.. senão ela o conheceria. ser. Agora não estamos mergulhados em um drama.. porque o sujeito também deve pensar: “E que porra estou fazendo aqui.Um é poder. Vai ver. em plenos trópicos.Essa situação me faz lembrar de uma história que 66 .A única coisa que ela sabe é que o sujeito tem as medidas. acaba indo embora no helicóptero com ele. MARCOS . Mas não consegue seduzir o tocador de maracas.cada um à sua maneira -. feito padre. E a psicóloga. Ela pode dizer a si mesma: “O que é isso? Viajar tanto para me enroscar com um argentino?”. É o que chega no helicóptero. uma moça fantasiosa. GARCÍA MÁRQUEZ . capar de inventar mil aventuras para compensar suas frustrações. CECÍLIA .Não é um argentino qualquer. os centímetros cúbicos necessários.poderia acabar assim: os dois voltando juntos para a Argentina. vendeu um Caribe de fantasia para a psicóloga.. O tocador de maracas seria a paixão. GARCÍA MÁRQUEZ . REYNALDO . No fim.Vamos tirar alguns aninhos dela? Não precisa ter cinquenta. mas tudo dá errado porque o tocador de maracas está em outra.Mas se ela foi procurar outra coisa! Ela não agüentaria ficar falando com um argentino. e agora são felizes graças a esse encontro casual no hotel.E dificilmente morariam no mesmo bairro. no divã.. GARCÍA MÁRQUEZ . GLÓRIA . VICTORIA . e sim em dois.

sem perder o bom humor. Ou seja. no filme. ROBERTO . o tal sujeito.. diante de uma mesa. mas alguma coisa tem de acontecer. ROBERTO .. estamos no Caribe. Era a lugar mais chato do mundo! E de repente. Isso iria parecer intencional demais. E no entanto. A psicóloga se instala no mesmo lugar e descobre que não acontece coisa alguma.O que falta é a história.. Vir de tão longe para acabar na mesma coisa de sempre!”. e não gosta de nada. uma grande decepção.. abre uma certa intimidade.E por que não? Afinal. O que ele queria mesmo é uma mulata. GARCÍA MÁRQUEZ .O que você disse também é verdade: ela não interessava tanto ao sujeito. Newton era um amigo meu. O camarada está em outra. Um dia ele veio e me disse: “Quer dizer que você está indo para Amsterdam? Eu estou viajando para lá. e me sentei sozinho. é a mesma coisa: é a paciente que arma todo barulho no hotel e onde quer que chegue.. VICTORIA .E enquanto ela faz isso. se recusa: “Mas não tem sentido. Olhei à minha volta. Estamos tentando construir uma história a partir de uma situação. GARCÍA MÁRQUEZ . Bom. e ele vinha descendo a escadinha. de um ambiente.”. a voz da paciente: “Lá existem uns sucos de fruta que são a maravilha das maravilhas.Não. O bar é bonito. como autômatos. MARCOS . ouço risos. ela responde: “Olha. É o destino. acaba caindo na rede. num barzinho que está na esquina da Rua Canal com a rua tal? Você nunca viu lugar mais alegre e divertido. em off.Ele insinua: “Por que não damos uma volta hoje à noite?”. um jogo de simetrias. Vem fugindo da Argentina e 67 . Era ele quem levava a alegria. que nada vai ocorrer com ela.Por enquanto. MARCOS . que sabia direito o que queria.Bem. GARCÍA MÁRQUEZ .. GARCÍA MÁRQUEZ. No dia combinado eu fui. brasileiro. por isso convida a mulher para sair. e sabem quem eu vejo? Newton. ouço música. uma farra que durou até o dia raiar. imagine só!”. Não conhece ninguém ali. ela se sente irritada quando encontra seu compatriota. Quando o pessoal o viu chegar.Para ela.Ela experimenta as frutas.. E ela. bebendo em silêncio. Por que a gente não se encontra na quinta-feira. armou-se aquele barulho. dia 17. mas Newton não imaginaria como é chato quando ele não está. os sucos.Está bem. Não deixe de ir”.. de noite. Olho. “Olha só. MARCOS . embaixador no México.”. tudo despertou. O bar está num porão. GARCÍA MÁRQUEZ . e aquilo parecia um velório: as pessoas imóveis.. uma certa cordialidade.eu batizei de “O bar de Newton”. ela não rejeita de maneira dura.. ouvimos. Newton ainda não havia chegado. Ouço vozes.

Mas seria conveniente tirar esse caráter estereotipado de “psicanalista argentina”. Já sabemos uma coisa: o que vamos ver é um desadelo. e não uma caricatura. ela pode ser ao mesmo tempo uma excelente profissional e sentir atração pelo desconhecido. GARCÍA MÁRQUEZ . 46? Não pode ser! Eu moro no 48!”. REYNALDO .Podemos começar pelo questionário da psicóloga. agradeço este esclarecimento. GARCÍA MÁRQUEZ . ela não deve ser psicanalista. que vive de um salário magro e fez um esforço enorme para economizar e realizar o seu sonho: passar uma semana num hotel de luxo no Caribe. E pode até ser que as duas 68 . mas só.O chamado da selva.Não acho conveniente.Não. REYNALDO . na imagem. encontrar o tocador de maracas. GARCÍA MÁRQUEZ . É uma funcionária pública. mas não acabam só se enrolando: descobrem que são vizinhos em Buenos Aires. Além disso. Isto é uma comédia de enganos. essa coisa de todo mundo achar que está fazendo um drama e o que está saindo é uma comédia..Muito bem. Sendo uma profissional. E quem fez com que ela sonhasse essa história foram suas pacientes. MARCOS .Ela irá viver a prefiguração de sua aventura. o rosto da doutura e.E quando ela. O gênero é uma coisa que devemos definir desde o começo. GARCÍA MÁRQUEZ . DENISE . a voz em off estará justamente falando dele. Mas o personagem deve ser um personagem. de repente. Obrigado. ROBERTO .encontra um galã argentino. É um lugar comum. ROBERTO . como é que acredita que vai 'viver' a mesma experiência de suas pacientes? Pode sentir-se atraída por certos detalhes.“Mas.Então.O esclarecimento é oportuno. O que faz uma psicanalista? Ajuda o paciente a encontrar seu próprio caminho. corte para ela no avião e a voz em off. como: Rivadavia.. de jeito nenhum.Ora. o material que temos não dá para outra coisa. tem de ser psicanalista. Não há nada pior que uma comédia involuntária. Obrigado. GARCÍA MÁRQUEZ . Se é argentina.E se ela não fosse tão profissional? E se fosse uma psicóloga medíocre? VICTORIA . a paciente estendida no divã. GARCÍA MÁRQUEZ . pensando bem. Sinto que a história está crescendo. Ela evita. faz o possível e o impossível para não o encontrar de novo.

senhorita”.Que cara? O dia em que os argentinos invadiram o mundo GARCÍA MÁRQUEZ . todos se mobilizam. as maracas. “Claro. responde ele. Acaba sempre encontrando o argentino. “Mas. não é? Quem dizer: as visões não coincidem. E no dia seguinte. só isso. SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ .A paciente. Tará-tan-tan-tan. Quer ser amável.. como.. CECÍLIA . e não acaba frase.Mas é o mesmo. Ela percebe. GARCÍA MÁRQUEZ .Daí em diante ela foge sem parar. E então ele. “Poderia me colocar em outro andar.”. e ao ver que os dois são argentinos e estão sozinhos.No hotel há um animador ou um relações-públicas. diz. “Estava.O músico que a psicóloga encontra é o real. perguntam. se o hotel está cheio de argentinos?”.Ela encontra esse sujeito no hotel. o senhor não estava. MARCOS . DENISE . o vê a mulher chegando.. Tango! O relações públicas está disposto e decidido a promover o tango.. E ela leva um susto. faz o possível para que se encontrem.Quando percebem que está sozinha e que é argentina. ao sair do quarto.E o cara? GARCÍA MÁRQUEZ . o tocador de maracas. aliás. se aproxima da mesa onde a mulher está. O ar-condicionado estava com defeito”. O Caribe. ELID .O recepcionista dá o quarto 303 para o argentino. mas me mudaram de quarto. A salsa que vá para o diabo. “Mas. por favor?”. Prometem contratar uma orquestra de tangos. seu par ideal.. GARCÍA MÁRQUEZ . no momento de preencher a ficha na recepção. ela encontra o argentino saindo da porta em frente. pergunta. CECÍLIA . contou isso a ela: que muitíssima gente havia encontrado naquele hotel o par sonhado.. “A senhora chegou no vôo número tal?”. O da paciente é de fantasia. sozinha por quê. que vá tudo à merda.visões não coincidam: o tocador de maracas descrito pela voz não é o mesmo que ela está vendo. Ele está preenchendo a ficha no balcão. o galã. e o 305 para a argentina. Em vão. responde o recepcionista. 69 .O hotel tem essa filosofia: ajudar cada hóspede solitário a encontrar o seu par.

. Se aceitamos isso.. a verdadeira vida deles.O negro não dá conta.Os dois se despedem. aquela do Pizzolla.Que tudo isso acabe virando uma piada de argentinos.Primeira situação: o restaurante do hotel está lotado.. Estamos. no Caribe. mas não estou disposta a passar as férias entre compatriotas. 70 .Ela sai com o músico.. E pensa: como o outro sujeito é argentino.”. Os dois. é um tipo supersimpático.. vai ficando irritada: “O senhor me desculpe. ROBERTO . O sujeito se apressa a esclarecer: “Não. mas descobre que ele também convidou o argentino. GARCÍA MÁRQUEZ . Ontem à noite bebi com ele.Tanto desejou o tocador de maracas. correndo um risco enorme.Não. a não ser concordar.Qual risco? GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . fugindo sempre um do outro.. se não tiver nenhum inconveniente”. GARCÍA MÁRQUEZ .Ela não encontra jamais n tocador de maracas. não é? REYNALDO .É que o tocador de maracas tem medo que a argentina se chateie sozinha com ele. E a partir daí. que por acaso coincidiram na porta.. pouco a pouco. tomamos rum.. piantao”. “Estão juntos”.“Eu vim para cá justamente para passar quinze dias sem ver nenhum argentino na minha frente. tem compromissos demais. Dançam de maneira absolutamente sensacional.“Ya sé que estoy piantao. “Tenho uma surpresa para você: pedi a um amigo argentino que saísse com a gente.“Mi Buenos Aires querido.Este é o final. Ela não tem outra saída. como se estivessem obedecendo a uma maldição. MARCOS .. Perceberam que a vida. mas não importa. GARCÍA MÁRQUEZ .”.Essa decisão é esquisita demais. e vão embora alegres e felizes.e a convida para dançar. MARCOS . mas ela... está lá longe: não têm nada para fazer aqui. acabam sempre se encontrando de novo. ROBERTO ... para no fim acabar com seu vizinho! SOCORRO . piantao. é claro. Começam a falar de maneira muito civilizada. Dançam resignados. Quero dizer.. GARCÍA MÁRQUEZ .. são colocados em em uma mesma mesa. SOCORRO . pergunta o maitre.”. talvez ela se sinta mais à vontade em sua companhia. REYNALDO . uma noite. só nos falta preencher o espaço vazio com algumas situações engenhosas..” MARCOS .

no bar.Que anjo da guarda? DENISE .e eles aproveitam e vão até o bar.Ela. Só que acontece a mesma coisa com o sujeito. GARCÍA MÁRQUEZ. REYNALDO . ROBERTO . não perde nenhum lance. o tal que fica armando casais. a psicóloga e o cara. cada por sua conta. MARCOS .. E atrás dos jogadores. a gente perderia a idéia dos “coitados dos argentinos sozinhos”. É uma reconciliação ou uma resignação? Não importa. vieram sozinhos. chegam os jogadores. o destino. É o momento em que ele diz: “Por que não jantamos juntos no restaurante da praia ?”.Outra situação: vai ser disputada uma partida de futebol. muda para outro.. Mas o jogo está passando na televisão. O fulano diz: “Acabam de chegar uns compatriotas seus.acompanha as jogadas.É que estamos fazendo uma comédia. Esse poderia ser o final. não: tudo faz parte do mesmo jogo.Esse pode ser o final da filme. ROBERTO . DENISE . está jantando no restaurante do hotel. GARCÍA MÁRQUEZ . não se contém: fica de pé e canta o hino. DENISE . E ela. e pelo visto vou precisar de dúzias e dúzias de argentinos.ROBERTO ..Isso é uma piada. A seleção argentina se hospeda no mesmo hotel. então. desse jeito. ao ver que o hotel se encheu de argentinos.Eu queria fazer um filme aqui no Caribe. E ela responde: “Não temos nada a perder”.a casualidade.O hotel está vazio de argentinos . o galã: não agüenta a invasão. para uma conversa tranqüila na frente de um cuba-libre.Ora. E então.E mais ainda. A delegação inteira.Mas. Mas não se preocupe: estamos tentando 71 . Os jogadores ficam em posição de sentido e começam a cantar o hino.parece que todos foram ao estádio . e todo mundo até o barman e vários argentinos . Nesse hotel. os jogadores de futebol”. um montão de turistas argentinos.Ah. ROBERTO . o time todo. MARCOS . com muita gente daqui. e também muda de hotel.. DENISE . você levanta uma pedra e encontra lá embaixo um argentino. E leva os dois para apresentar ao time. REYNALDO .Os dois.Há uma cerimônia de boas-vindas em pleno campo. ROBERTO .Pode ser até que eles tenham de cantar o hino nacional. GARCÍA MÁRQUEZ .Os dois vão juntos ver o jogo. Quando se encontram de novo . sei lá os dois começam a rir. e a função de anjo da guarda do relações-públicas.

fabricado em série. ROBERTO . o recepcionista fala com ela: “Doutora Ricovix. “Não tem outro mais lá no alto? Não gosto de andares baixos”. muito longe da Argentina.. A psicóloga chega ao hotel e a primeira coisa que encontra. apenas se olham com o rabo do olho. de repente. Os bifes. MARCOS? Você esqueceu? Quando você tiver uma idéia como essa. não cabe mais nenhum. tudo idêntico. “Não. 72 . 2 Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar o acesso ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras. aquilo vira uma loucura. por favor!” reclama a mulher.google. Mas no dia seguinte.Não vamos nos dispersar: O fato é o seguinte: a tela vai se enchendo de argentinos. vê o argentino entrando no quarto da frente. Depois organizamos tudo.Não.Ou do caribenho típico? GARCÍA MÁRQUEZ .encontrar situações. um argentino. ao sair do quarto. GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS . não serve. Mas ela ouve o recepcionista dizendo: “Seja bemvindo. GARCÍA MÁRQUEZ . No final. mas o fio condutor está aí.. não a abandone nunca. seja bem-vinda. senhor Ribarola.. e a torcida arrasta os símbolos: bandeiras. A que servir. Quando o cara vai embora atrás do maleteiro. Se quiser outros títulos nos procure http://groups.. na hora de se registrar é um argentino. E tudo sendo filmado por Marcos. Aqui está a sua chave. Quem será que está chegando? A mulher está tomando sol no terraço do hotel e. quarto 203”. Introduz um ruído no sistema. será um prazer recebê‐lo em nosso grupo. Quarto 205”. com dez argentinos dentro. Não temos ainda uma estrutura. Não é o retrato do argentino típico? REYNALDO ..2 MARCOS . na paciente e nesta psicóloga que se deixou convencer de que a vida está no Caribe. O que não dá para fazer agora é parar de procurar. serve.. A chegada do time de futebol arrasta uma torcida. é forte demais. a que não servir. Ela já começou a fugir do argentino.Acho que avançamos um pouco.. Uns falam uma coisa. chega aquele aparelho. Não trocam nenhuma palavra. Começam a discutir a situação do país.O elevador fica preso..Tem uma coisa que me interessa pôr no filme: um desse restaurantes especializados em carne. camisetas. as lingüiças penduradas no teto. todas as que dê para encontrar.. outros falam outra. Quem será? Quem é esse camarada tão importante que se dá ao luxo de chegar de helicóptero? ROBERTO ..com/group/Viciados_em_Livros.Maradona.E o helicóptero.

chapéu branco de aba larga. Mas lá está o churrasco.Mas você já tem esse personagem: o tocador de maracas. A melhor carne argentina. ROBERTO . a mulher abre os olhos e vê um touro voando. O grande churrasco dessa noite de festa. VICTORIA . os Irakere. que será comido naquela mesma noite. não é? MARCOS .Ela não consegue acreditar no que está vendo. muito bem arrumado.Um Cristo.Boa idéia. GARCÍA MÁRQUEZ ... Do pescoço do touro balança um cartaz: “Legítima carne argentina”. GARCÍA MÁRQUEZ . tem mais vida que as maracas. Um defeito no chuveiro ou no ar-condicionado.“A melhor carne do mundo”.Aliás. porque com aquele movimento. ROBERTO .Todo amarrado por cordas.A Noite dos Pampas. estamos desenvolvendo a história. Como espetáculo é lindo.Não. e um de seus melhores números é justamente o de uma negra que canta um blue acompanhada por um trombone.Um touro argentino. Grande Noite dos Pampas!”.Nós perdemos a voz em off.É um símbolo fálico. 73 . GARCÍA MÁRQUEZ . E o contrário do que pensávamos: primeiro.. Vocês sabem quem é? GARCÍA MÁRQUEZ .Um touro caído do céu. o cantor dos Van Van. O nosso helicóptero poderia carregar um touro amarrado. Um touro vivo. Podemos elaborá-la depois que tivermos terminado o conto. Eles anunciam pelo hotel inteiro: “Não perca: este sábado. ROBERTO . Tem a ver. GARCÍA MÁRQUEZ . vocês se lembram de A Doce Vida? Começa com um helicóptero que transporta uma estátua.Um churrasco inteiro.. dente de ouro. um mulato de um metro e noventa.Tiveram que mudá-lo. o trombone de vara. ROBERTO . depois vamos acrescentar o relato da paciente. REYNALDO . Tenho interesse num personagem como Pedrito. ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS .E que eu estou vendo o Pedrito.. impecável: bigodão. e o trombone. como instrumento. Os Van Van. ainda cru. por exemplo.Espero que esteja lá a orquestra de salsa. MARCOS .Têm outra orquestra muito boa. De repente.. MARCOS.

GARCÍA MÁRQUEZ . A psicóloga e o sujeito são dois dançarino sensacionais.. mesas com toalhas de renda. pouco depois. ROBERTO . Vi fazerem isso no Brasil: um desfile de vacas num hotel de luxo. depois. esquartejado. o touro enfeitado. nos conformamos com o touro. e encontra os açougueiros . vemos o touro aberto pelo meio. ela se engana cie porta e vai dar na cozinha. Uma imagem explosiva. Teria que passar no México. como anúncio da Semana Argentina! Porque o que existe no hotel é exatamente isso: uma Semana Argentina. completamente esquartejado.. 74 . temos a chegada dela.. E ponto final. Desse jeito. temos surpresas. zás.No nosso caso. damas empetecadas de jóias. e o que aparece é uma orquestra de tango.zás. esquecemos o incidente. do touro e do time de futebol. as vacas. múúú!.. como num desfile de beleza. E de noite. GARCÍA MÁRQUEZ . MANOLO . esquartejando o animal.Ela está tentando fugir dos argentinos. GARCÍA MÁRQUEZ .. evitá-los do jeito que for. é proibido fazer alusões insolentes! MARCOS . – de faca na mão. GARCÍA MÁRQUEZ . O que sobra para que a gente veja? O tango.Poderia ser Acapulco.O Caribe mexicano: Cancun.GARCÍA MÁRQUEZ . Estão felizes por ter-se encontrado. E lá está o touro. MARCOS . Agora. Nós o vemos atravessar o salão com uma grinalda de flores dependurada no pescoço. e de repente. por causa do futebol.Uma ilha do Caribe.”. há um desfile de várias vacas pela pista de dança.. E. Mas que seja um touro argentino.E antes que a orquestra desande a tocar. E. Não acham que é um filme engraçado? MARCOS.Que inclui o jogo de futebol. e ela o vê perder-se em um canto de jardim. dependurado em um gancho. A meia-hora se acabou. ROBERTO . Todo mundo muito elegante.Eu acho. do sujeito.Ao sair do restaurante.. E no fim.Olha aqui. O mestre de cerimônias anuncia: “Senhoras e senhores: nesta noite. e todo mundo comendo o touro. O que mais podemos pedir? Já temos situações suficientes para preencher trinta minutos..Os turistas estão esperando a banda de salsa. é preciso organizar tudo. E depois. transformado em churrasco. Depois.Baixam o touro. com as costelas sanguinolentas. todos mastigando os bifes. Eu já me vejo filmando esse helicóptero com o touro balançando sobre a cidade.. GARCÍA MÁRQUEZ ..

Ela tomou um táxi para o hotel. estou achando esse tango meio suspeito. como aconselha a etimologia.O inverno de lá. Eu não queria fazer esta cena. Eu sei que é um sacrifício. REYNALDO . com todo mundo cantando na frente da câmera o hino nacional argentino.A única coisa que eu disse foi esta: chega de tango. ela está passando pelo controle de passaportes.Eu.. Você não gostaria de um final desses. ROBERTO . a psicóloga. a orquestra toca um tango...Depois do jantar. GARCÍA MÁRQUEZ . Se vamos fazer uma escaleta. ou melhor. o divã. ou seja.todos estão mortos . da Oficina.Você esqueceu o final de El resplandor? Termina com um velho retrato . sem argentinos? MARCOS . O que você acha? É preciso ousar fazer umas coisas dessas. Ela que saia em julho.ROBERTO . e que a gente elabore uma história adequada para um argentino. para nos acostumarmos ao ambiente. A pista de dança fica coberta de casais. como bom argentino. mas alguém precisa fazer isso. 75 .Quer saber o que você pode fazer? Pára o filme no meio. é a hora do tango.Até o momento da chegada ao hotel.e uma canção maravilhosa.. bem na nuca da mulher. vamos começar pelo verdadeiro começo: o consultório. GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS . vira o escrivão da Oficina.As damas que me perdoem: ele arrota sem querer. DENISE . mas fui obrigado. E. a propósito: eu a faria sair da Argentina no inverno. MARCOS . GARCÍA MÁRQUEZ . quem toma notas não tem tempo para mais nada. Por que não voltamos à seqüência da chegada? O avião acaba de pousar. Aí. dominado pelo canto? Ou prefere deixar tudo para nós. dia da Pátria. Peço desculpas”.. aproveitamos para mostrar a cidade. por causa do rio da Prata.Espera aí. quase não consegue participar.. Ninguém está anotando.Nove de julho.Poderiam ficar presos no elevador depois do jantar. E os dois dançam tão bem que ganham o prêmio da noite: são coroados “Os Argentinos de Ouro”.. por cima. ROBERTO . Estão empanturrados de carne e de vinho. está tudo bem. E a noite acaba assim. GARCÍA MÁRQUEZ .. que é o verão daqui. e você mesmo aparece na tela explicando: “Respeitável público: agora.. a paciente.Acho que deveríamos retomar o fio da meada. de Prata. GARCÍA MÁRQUEZ ..

ao balcão hotel. Do táxi..Vamos retomar a idéia do táxi. a primeira versão. SOCORRO . Quando a gente chega nesses hotéis . é evidente: só o óbvio. as favelas. “Ah.Depois que ela retoma o protagonismo.A gente tinha voz em off. e então se apropria do método. do outro.dentro do avião. “Vai custar um pouco mais caro”. Escuta o que o recepcionista diz quando dá a chave do homem. é verdade. Quando dão a ela o quarto 305. A realidade está lá. “Não faz mal”. GARCÍA MÁRQUEZ . ela percebe o perigo e não vacila: “Tem vista para o mar”. Como vai? Veja só. Temos que estabelecer a ordem visual. O avião aterrissa e passamos.No Rio. ela contempla o ambiente d cidade. Chega no balcão e nota que o sujeito que está se registrando é argentino. sinto muito”. projetam numa tela . Portanto vamos voltar à recepção. Não parece muito com o que o vídeo de turismo exibido no avião mostrava. na parte de trás. ela teria visto algumas dessas imagens. ela está no hotel. precisei mudar de quarto.O homem imediatamente muda de quarto. vê que ele está na varanda vizinha.GARCÍA MÁRQUEZ . é claro ..pela frente. E em determinado momento.No Brasil. GARCÍA MÁRQUEZ . “Não. o estereótipo. e um quarto com vista para o mar”. só que a janela está nos fundos do hotel. e depois ir complicando durante o primeiro tratamento. “mas o senhor não estava. Esta 76 . ROBERTO . para o táxi. Pergunta. MARCOS . e quando sai na varanda do quarto.Neste tipo de história.Ela sobe. quando vista pelos fundos. não tornamos a ouvir a voz.Também pode ser o seguinte: ela chega na janela e vê a cidade. “Muito bem.não imagina como a paisagem é diferente. perplexos “Desculpe”.. Pelo menos por enquanto. Então eu queria um andar mais alto. GARCÍA MÁRQUEZ . Aí está a graça da Oficina: a gente vê como se desenvolve. REYNALDO .imagens do lugar: Poderia acontecer a mesma coisa aqui: já antes de chegar. REYNALDO . é claro. o hotel Sheraton está na frente das favelas. quando ela sai na varanda do quarto. De um lado está o mar. e pode fazer tudo sozinho. acabou. num corte. GARCÍA MÁRQUEZ .?”. quando o avião está chegando a uma cidade turística. porque o ar-condicionado do outro estava com defeito. diz ela apontando para baixo.. não tinha? Agora. Outro corte..Acho bom a gente começar a tomar decisões. aqui está: o 807”.. Não imagens de cartão postal. é preferível definir uma linha de ação que seja muito clara. Os dois se olham. encontra uma vista panorâmica da cidade.

Que horror! REYNALDO .. já teve tempo de mudar de quarto. Claro que o rapaz insiste: afinal. GLÓRIA . MARCOS . e lá está o galã argentino. onde está ele? Mudando de quarto? GARCÍA MÁRQUEZ . quer merecer a gorjeta.Quem faz isso é o boy que levou sua bagagem.Ele subiu primeiro. ela ouve barulho do quarto vizinho. Aliás. MARCOS . tudo irritante.Ficamos no seguinte ponto: na recepção. querendo se livrar dele. SOCORRO . SOCORRO . O diretor que decida. olhando o folheto. é o controle de luz.De repente.Não.Vamos deixar isso de lado. SOCORRO . peça outro quarto. Aquela música ambiental. desesperante. e que a mulher esteja sentada. aqui. O banheiro é logo ali..Também pode ser que o boy tenha dado a ela a programação noturna do hotel. Mas existe aí um vazio que precisamos preencher: E preciso dar tempo para que o homem descubra que seu ar-condicionado não funciona. chegue lá e.E a gente precisa terminar nesta jornada.E.Antes. obrigada”. sim. água fria”. Nós não somos produtores. experimenta dois maiôs antes de descer para a piscina. palmeiras contra a luz.. MARCOS ..Estamos pensando em uma montagem paralela? 77 . somos criadores: é preciso dar à história o tempo que ela quiser. SOCORRO . quando se instala. não. veja. nós dissemos que ela está vestindo roupas de inverno? CECÍLIA.Eu me perdi. sai à varanda. no fim.. GLÓRIA . o ar-condicionado.Ela se instala.As paredes do quarto estão cobertas de enormes fotografias de paisagens. Enquanto isso. GARCÍA MÁRQUEZ. água quente.Não. “Aqui. CECÍLIA .. GARCÍA MÁRQUEZ .Praias. que apareça na varanda. ela liga o rádio. o pampa argentino.história tem a desgraça de estimular a imaginação: todo mundo tem alguma coisa para acrescentar. Ela responde: “Sim.Machu Picchu. GARCÍA MÁRQUEZ . Alguns minutos mais tarde. torna a ver o sujeito. MARCOS. a psicóloga exige um outro quarto. GARCÍA MÁRQUEZ . A cordilheira dos Andes. arruma as roupas no armário.O boy ligou a televisão para ela. GARCÍA MÁRQUEZ . senhora.

Nós já demos a esse camarada tempo suficiente. por exemplo. sem esperar resposta. aspira profundamente a maresia do Caribe. E o mesmo boy. porque. tentando repetir a rotina. como é de um enredo atrás do outro. ainda vestido de argentino. o jogo de esconde-esconde. se arruma e.. Não tem por quê ficar esticando cada piada. Ele a reconhece. não. ágeis. cada vez que a encontra.Mas isso não impede que ele seja gentil com a mulher. Mas nós já dissemos que o camarada não estava interessado na psicóloga. Porque senão. estamos calculando tempo. faz um leve gesto de cumprimento e ela não consegue se conter: “Mas o senhor não estava em outro andar?”.Ela se resigna. quando sai do quarto.Ela fica lá mesmo. Ela muda de roupa.Meu medo é que já temos dessas situações de sobra. Essa é a sua primeira capitulação. desliga. ROBERTO . tenta escapar dele.A próxima seqüência seria a dela mudando de quarto.Não precisa explicar mais nada. torna-se 'tropical' à maneira dos turistas: blusa colorida. é melhor não mudar a mulher de quarto. Ela fica: vai aceitando a fatalidade aos poucos. vê o homem.. óculos escuros.Eu prefiro assim: situações breves. GARCÍA MÁRQUEZ . CECÍLIA .Não acho bom ela ver o homem na varanda. GARCÍA MÁRQUEZ . GLÓRIA . faz um gesto de cumprimento. no final se resigna. MARCOS .Não. que está entrando. se transforma. e. GLÓRIA . Ele acha que a reconhece.. poderia parecer que o filme é isso. arrumando suas coisas já no outro quarto. Não abandonamos a mulher em nenhum instante. Ela é que não disfarça sua rejeição. encontra o galã...Entra no quarto. de novo. É preciso tentar armar a escaleta e medir o tempo. vai até o telefone disposta a pedir outro quarto. nunca sabemos direito o que vai acontecer: Agora.GARCÍA MÁRQUEZ .Não. Esta história é muito difícil.. GARCÍA MÁRQUEZ . REYNALDO . Isso abre espaço para situações mais engraçadas.. e. no quarto ao lado. acompanhado do mesmo boy com as malas. e então sai à varanda. estamos na metade ou na terceira parte do filme? 78 . Ele está na varanda vizinha.. disca o número e. mas está pensando em outra coisa. ele também anda procurando um romance tropical. Desiste. GLÓRIA . Talvez ele seja um executivo que anda pelo Caribe vendendo aparelhos de ar-condicionado. GARCÍA MÁRQUEZ . Quando o boy sai e ela fica sozinha no quarto. de repente.

.E aí o que acontece.Para a maioria dos turistas. Bem. Não pode mais escapar.ROBERTO . botam fogo . GARCÍA MÁRQUEZ . Como já tem referências das coisas do Caribe através da paciente.Ou seja. A orquestra de salsa está tocando.Como diria Cortázar.A gente não ia trocar as maracas por outro músico? REYNALDO . nenhum deles com menos de cinqüenta anos.O seu 'destino sul-americano'. coroado de frutas. uma coisa dessas faz com que se sintam vivos. Fui de ilha em ilha e descobri que as ilhas são um mundo e os hotéis das ilhas outro mundo muito diferente. A voz em off é ouvida de novo. ao cabaré do hotel. se lá fora a carne é assada sobre brasas.fuuuff. Trinidad e Tobago...É preciso não deixar amontoar.E os rumbeiros por uma orquestra? ELID . MARCOS . corte a corte. uma bebida cubana com nome japonês.. como o chapéu da cantora.Tanto assim. fica plantada na frente do barman e pede um mojito..Muito bem. porque ela vem fugindo da Argentina e dos argentinos e a primeira coisa que encontra no hotel. E a transfiguração turística da realidade exterior. no hotel o churrasco é servido por negros vestidos de pirata e que trazem uma frigideira enorme e. que anuncia todas as desgraças posteriores. ELID .. Guadalupe.e os gringos. e o do argentino. Quando eu estava escrevendo O Outono do Patriarca percorri as Antilhas Menores: Martínica. É uma forma de dizer: está vendo como conheço os hábitos do lugar? GARCÍA MÁRQUEZ . ela aceita a primeira fatalidade.Ela já mudou de roupa. Ela pede a bebida xis e o que levam é uma taça 'Carmem Miranda': um copo enorme. cinco minutos depois do começo do filme. de repente. Nos hotéis. uma labareda tremenda . está caçando o músico. com mais domínio da situação. fazendo o retrato idealizado do personagem. eles pegam um pedaço da realidade exterior e o transformam. MARCOS? Qual é a idéia? MARCOS . Primeiro. Ela olha fixo para o tocador de maracas. Barbados. esse 79 . Na verdade. GARCÍA MÁRQUEZ . cheios de felicidade por terem conhecido algo tão típico. folhas e flores. não. ficam encantados. ELID .Um encontro que é um desencontro. Temos de ir passo a passo. Entra no elevador e vai direto para o bar. Antigua. Por exemplo..E cadê o time de futebol? GARCÍA MÁRQUEZ .. estão os dois “encontros” da mulher: o do Caribe. Estamos entre cinco e sete minutos. MARCOS . REYNALDO . Daí passamos.

. nunca tanto como a realidade. e isso agora nos convém. e mal consegue ver o tocador de maracas: precisar afastar as folhas e as frutas para poder vê-lo. porque o cinema também gosta de exagerar.Ela e o sujeito poderiam chegar ao hotel no meio de uma grande confusão.”. REYNALDO .Já é hora de ela e o argentino conversarem...Ela vai procurar o músico e o músico está conversando justamente com. Ou. GARCÍA MÁRQUEZ .Ela está na sua mesa e o argentino. Ela já começou a mergulhar na vida artificial. ao vê-la. seca: “Eu não atravessei o continente para me encontrar com meus vizinhos.Quando o show termina.. GARCÍA MÁRQUEZ . mas advertindo que o sobrenome 80 ... São tímidos.. mas aqui dentro eles colocam tudo junto. atravessa o salão. Conheci um.. Como a noite acaba? DENISE ..Ela está sentada na frente da sua cascata tropical. é que nós temos trinta minutos e já gastamos dez. E o que está acontecendo é que. mas enfim. MARCOS .Eu não a imagino assim.Com o argentino... nos encontrarmos aqui nos trópicos!”. Claro.Eu conheço os argentinos muito bem. o ambiente. Ou vamos fazer um filme de surdos-mudos? Lá pelas tantas. É preciso começar com uma linha de desenvolvimento muito simples... Um encontro casual. chega perto e gentilmente a convida para dançar. que se apresentava como sendo o senhor Pereira. ela vai diretamente aos camarins para tentar falar com o músico. que faz piadas.. tão agressiva. MARCOS . Não conseguem entender o que está acontecendo. em Argel. e eles não são tímidos.... GARCÍA MÁRQUEZ . e ir complicando as coisas aos poucos..Eles nunca se atreveriam a dizer coisas assim. vemos uma bananeira aqui. o argentino. quem sabe. REYNALDO . MANOLO . é claro. E ela. e você acaba não vendo nada. CECÍLIA . Por que não voltamos ao tocador de maracas? Um sujeito com carisma. têm os seus caprichos.sentido da 'reprodução comercial' da realidade exterior se presta a todo tipo de exageros. uma mangueira acolá. Lá fora. Além do mais.É preciso que aconteça alguma coisa que sirva de gancho para manter o interesse do espectador. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . de sua copa 'Carmem Miranda'. ele mesmo se convida para se sentar ao seu lado.É preciso aproveitar a atmosfera.. ROBERTO . que se mete com todo mundo. ele diz: “Que coincidência. Pepino que nasce torto cresce torto.

. da mesa dela. MARCOS .Ela tem um pretexto: sua paciente. Os dois se viram pela última vez na cena da varanda.. MARCOS . muito diferente. a viagem. na piscina.era com y: Pereyra. Corte para a cara da psicóloga.no cordão. A psicóloga mandou um recado ao músico: “Sou argentina. vir até aqui para acaba dançando tango!”... Marcos.Quero ficar um pouco mais nessa noite: quando o show acaba. um agarrando o outro pela cintura. Ninguém dança a conga: encaixa. então. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ .E o lugar dele . O capricho deste aqui é dançar com a psicóloga. esperando o tocador de maracas acabar de trabalhar para abordá-lo! A galanteria de seu compatriota ameaça estropiar a noite.. GLÓRIA . O músico sai do camarim. Pedrito está numa turnê com a banda dele. Ele também anda caçando uma aventura: preferiria uma negra ou uma mulata.A situação dos dois tem que ficar definida nesta noite.Muito bem. sente-se para escrever e desenvolva a seqüência inteira dessa noite. Ele agora se insinua e ela. SOCORRO . se aproxima. GARCÍA MÁRQUEZ . Deixa claro que está procurando outra coisa. mas não sou o Pedrito. MARCOS: você acaba de encontrar uma maneira muito argentina para definir uma dança chamada conga. na Venezuela”.veja só que coincidência! . sem pensar duas vezes. No fundo.Nesses cabarés é comum. O argentino chega perto. mas encontra o argentino. vê os dois conversando. o rejeita: “Ora. o animador convocar todo mundo para dançar numa espécie de trenzinho..Manda o recado por um garçom. sou o substituto. no final da noite.... da cena de Romeu e Julieta. e vai embora sem falar com ela. nervosa. animados. se conforma com a argentina. ela não desiste 81 .Esse trenzinho.O músico. imagine só. E ela. um atrás do outro. tudo. encaixa uma pessoa na outra. amiga de Fulana de Tal. acha que são amigos. que manda lembranças. “Eu sinto muito. onde ela vê o helicóptero chegar. Corte para o dia seguinte: vemos a mulher tomando sol. ela vai ver o músico das maracas. Não se esqueça que a seqüência seguinte é a da piscina. REYNALDO . GARCÍA MÁRQUEZ . mas se não aparecer nenhuma.Não sou capaz de imaginar uma psicóloga de Buenos Aires indo pessoalmente buscar o músico. é verdade. o sabor das Antilhas.. desolada: ficou sem programa para esta noite. é justamente atrás dela. na verdade. Posso encontrá-lo depois do show? “ SOCORRO . não é?.

De agora em diante não precisamos mais do músico das maracas.. A coisa começa com a chegada do time de futebol. porque é justamente assim que o filme deve terminar: com os dois dançando tango.o mesmo argentino que nós não víamos desde a cena da varanda. Mas se ele tiver ido embora. Um show forte .Você tem razão. ele mudou. GARCÍA MÁRQUEZ . etc. há um corte abrupto.E que a gente não pára de misturar as cenas. ouvindo o tocador de maracas.Essa frase dela é fundamental. as bandeirinhas.. De repente. não é? A noite começa no cabaré.. MARCOS . tão longe de casa”. não tem mais nada a dizer. O que importa agora é a relação dela com o argentino. Não desempenha nenhuma outra função no resto do filme. cha-cha-cha .. Mesmo que seja outro tocador de outras maracas.Acho que o dia da chegada está resolvido. “Posso?”.. mas não é o Pedrito. etc. vocês não desistem da cena do tango. Ou melhor. e vamos acabar ficando sem entender nada. O personagem foi uma isca para levar a psicóloga ao Caribe. ela passa a ter essa opção.Faz parte do clima criado ao redor da Semana Argentina. vendo o helicóptero 82 . Ela aproveita uma pausa da orquestra para mandar o recado pelo garçom. MANOLO . ainda contraída.da idéia do tocador de maracas. Quantas vezes uma coisa parecida não aconteceu com a gente? Quantas vezes ao longo da vida. nem músico. GARCÍA MÁRQUEZ . É a hora da velha conversa: “Imagine.. não perdemos o nosso tocador de maracas? MARCOS .Quero ressaltar uma coisa: quando o músico substituto diz a ela que Pedrito foi para Caracas..Olha. é o substituto. GARCÍA MÁRQUEZ .Para chegar onde chegamos. ELID . GARCÍA MÁRQUEZ .. contraída. MANOLO . O músico chega até a mesa e diz o que combinamos: ele sente muito. devo dizer que estou tentando tirar esse músico de circulação. nós aqui.Pelo que estou vendo. ela perde duas vezes: nem argentino.Ele já deu um certo peso à história. sem tirar os olhos do tocador de maracas. diz ele. guarachas.E se o argentino continuar ali.De um plano da cara da mulher. SOCORRO .mambos. MARCOS. “Sou seu vizinho”. quanto tempo foi gasto? GARCÍA MÁRQUEZ .Eu calculo que uns sete minutos. arrastando a torcida. e aparece a piscina. o argentino chega . passamos a outro da cara dela. para ser bem sincero. mas agora virou fumaça..e ela sozinha na sua mesa. e senta sem esperar a resposta. REYNALDO .

Depois que acontece a história do touro. passa a touro. Liga a 83 . sente um ruído que vem da rua.O pessoal do hotel não sabe lidar com esses bichos. para pegar alguns elementos. sombrinhas. e quando ela ainda está no terraço do hotel. você tem que ver outra vez A Doce Vida. para que ninguém tenha dúvidas. E então percebe que o touro está dependurado no helicóptero. se dirige à recepção para apanhar a chave e. faz virar um turbante.Quando o helicóptero desce e deposita o touro no terraço. Pode até colocar entre aspas. Se pelo menos tivéssemos um argentino à nossa disposição. como uma alucinação. se ela visse as bandeirinhas antes. MARCOS . minha senhora. Mas uma cara sonolenta e depois atônita por causa da surpresa do vento e do ruído.. deixando bem claro que se trata citações. você está salvo! Com esta cena. CECÍLIA ..O que ela vê são os olhos do touro. olha por cima do muro e vê os jogadores chegando. Poderíamos conseguir uma cena muito curiosa. . Atrás deles. centenas de turistas argentinos agitando bandeirinhas argentinas. E sobre as palmeiras. o time de futebol invade o hotel. e sobe para o quarto. diga.chegar. parecem estar olhando diretamente para ela. GLÓRIA .... a senhora. De lá também se ouve o ruído da rua. o gerente exclama: “Ah. poderia nos explicar como fazemos para tirar esse touro do jardim? GARCÍA MÁRQUEZ . que é argentina.Ela está esticada placidamente na espreguiçadeira.Esses eventos são realizados sempre pelo país “homenageado”. abatidas pelo vento.Ela consegue se refazer da surpresa. Bem: o que fazemos com o touro? SOCORRO . MARCOS ..É feito um furacão. o vento leva o chapéu da psicóloga pelos ares. sim.A ventania do helicóptero faz voar mesas. GARCÍA MÁRQUEZ .. Marcos.MARCOS.. GARCÍA MÁRQUEZ .O corte é para a cara dela.E se ele escapar e espalhar pânico entre os hóspedes? GARCÍA MÁRQUEZ . você leva o o filme lá para cima. nesse momento. GARCÍA MÁRQUEZ . GLÓRIA . ao lado da piscina. é claro! O argentino é o organizador Semana da Argentina! ROBERTO . Ela agarra uma toalha. ELID . Como a tiramos dali? Arrancar uma pessoa que está tomando sol numa piscina não é nada fácil. E que tal fazer que o argentino seja o organizador disso tudo? Ora.Eu também me preocupo é com ela.Ou até mesmo antes: ao ouvir a mulher falar. balançando por cima do muro.

MARCOS . vê a chegada do 84 . GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . está tudo lotado. mas não encontra lugar. se ninguém impedir. ser o organizador.. necessariamente. apitos. O que mais ela precisa? É sempre melhor inventar uma ação.Vamos ver a seqüência “os argentinos vêm aí”. ela vai encontrar a República Argentina inteira. Não existe mais nenhum lugar onde ela possa se meter. GARCÍA MÁRQUEZ . ou participar dele de algum jeito.Ela tenta de todas as maneiras. vai até a varanda e torna a uma a multidão..E mesmo que ela mudasse de hotel. Pode ter alguma coisa a ver com o evento.Mas isso não quer dizer que não tente mudar. Está dando uma entrevista.Ele não precisa. Vocês. acabam entrevistando até o touro. aqui. eles acabam dançando um tango num hotel mequetrefe. escuta os foguetes e os morteiros. ela vê o alvoroço armado com a chegaria do time. camisetas. temos de ver para que tipo de hotel. E. O recepcionista explica. o helicóptero e o touro.Ela não deve mudar de hotel.Se ela for mudar de hotel. daria na mesma: a cidade inteira está do mesmo jeito.. Precisamos armar uma boa estrutura. cheios de torcedores.Não tem ninguém anotando? Assim perdemos coisas.. Enquanto está no terraço..Sim. que ter que explicá-la. e eu espero que não sejam elementos da estrutura. senão.Acho que. ROBERTO . ao mesmo tempo. É desse jeito que ela fica sabendo quem ele é. porque o evento não tinha começado e o time não tinha chegado. Quando sobe para o quarto. ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . os torcedores. Até agora andou vagabundeando por ali. para depois preenchê-la com calma. ela entrando no hotel e subindo para o quarto..televisão e quem ela vê? O argentino. depois. ela vê a recepção do time pela televisão. foram chegando os ônibus. MANOLO . os turistas agitando a bandeirinhas. Nesse meio tempo.Quando sobe para o quarto. GARCÍA MÁRQUEZ . a televisão está sobrando. CECÍLIA .O hotel ameaça virar um lugar insuportável.Se o sujeito for mesmo o organizador do evento. depois. com muito tempo livre. De repente. a chegada do time de futebol.. mas antes ela viu a chegada do time..... SOCORRO . O sujeito é o organizador do evento. bandeirinhas. REYNALDO ... Primeiro. MARCOS . não vai ter nem cinco minutos de tempo livre. Bonés. Pode até ser o intermediário que vendeu o touro. ela telefona para a recepção: “Será que alguém pode me explicar o que está acontecendo?”.

Aí. que sente o cheiro e dispara atrás de um chuveiro para se lavar. a ordem da seqüência está clara. Com todos os argentinos. ela já está no quarto. claro..MARCOS. E. e sim sobre ela com os argentinos. Ninguém quer perder esse jogo: Argentina contra o resto do mundo.. não precisamos falar do cocô. liga para outro hotel e dizem que não há nenhum quarto vazio.Temos a ventania: o vento arranca o seu chapéu de palha de abas enormes.É a redundância absoluta.. vão matar você em Buenos Aires! Se não fosse um filme sério. Uma pasta verde cai em cima dela. não ouvimos a resposta do recepcionista. e observa tudo pela janela. embora esteja claro para nós que o filme não é sobre ela e o argentino. chegam logo três caldeirões: vê o time pela televisão. leva sombrinhas pelos ares. GLÓRIA . REYNALDO . saindo do chuveiro.Quando telefona para a recepção para saber quê diabos está acontecendo.Argentina contra a Seleção Mundial. um telefone.Ou seja: para quem não queria sopa.Então. na piscina. CECÍLIA .Ela precisa sentir alguma coisa. então.Bem. VICTORIA . GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS.. REYNALDO . GARCÍA MÁRQUEZ . Todo mundo corre de um lado a outro.Quando ela perceber o que está acontecendo. cadê o argentino? Onde é que ele se meteu? Temos de saber isso. pede um táxi pelo telefone do quarto.É uma seqüência tumultuada'. enquanto isso. que 'responde' à sua pergunta. no momento em que o touro larga um aguaceiro de cocô.E exigindo explicações por telefone. ouve a notícia pelo telefone. REYNALDO . por causa da chegada do time. Quando você der o corte. os guarda-sóis. GARCÍA MÁRQUEZ . a psicóloga despertaria. ela já fez o que tinha para fazer. fisicamente: não basta receber apenas o impacto visual. a cerimônia toda.Ela procura a guia telefônica.. 85 . porque sente que a confusão vem lá de baixo. MARCOS . Ela.time. vai até a varanda. GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS . Mas tudo isso poderia ser feito na mesma locação: o bar da piscina tem uma televisão e. e sim a do apresentador de televisão. GARCÍA MÁRQUEZ . tenta em vão mudar de hotel. e respondem que não existe nenhum táxi disponível. No fim.. Ela recebe a mesma informação por três vias diferentes.

DENISE . “Pense bem. para poder pensar no que está acontecendo. MARCOS . o que me preocupa é aquilo que você perguntou antes: onde diabos foi parar o argentino? O último tango no Caribe CECÍLIA . o camarada diz alguma coisa que chama a atenção da psicóloga. A cidade está invadida. por telefone.e temos. Mas agora. GARCÍA MÁRQUEZ .A informação que estava faltando é dada pelo recepcionista. GARCÍA MÁRQUEZ .Eu acho que agora ela precisa de um momento de repouso. Está lendo a entrevista. Nessa seqüência demos toda a informação necessária.. poderia se chamar O dia em que os argentinos invadiram o mundo. então. ROBERTO . Ela nota que ele não é nenhum bobo. agora. o que podemos fazer? É o seu país contra o mundo inteiro!”. E já entrou no quarto dela .Ela continua no quarto. GARCÍA MÁRQUEZ . o direito de nos perguntarmos.Sentou-se para ver.Vou pensar nisso. não tem mais tempo para nada.GARCÍA MÁRQUEZ . Aliás. GARCÍA MÁRQUEZ .Ele está sendo entrevistado pela televisão. Está rodeada. REYNALDO . GARCÍA MÁRQUEZ . Ela pode começar a se sentir um tanto paranóica. MARCOS .pelo menos.É para isso que temos cabeça. como um narrador de radionovelas: quanto tempo vai demorar até ele entrar definitivamente em sua vida? CECÍLIA . a sua imagem . que começa com o helicóptero e termina com a tentativa de fuga.É o relações-públicas do time de futebol.Essa seqüência.O que precisamos contar agora é justamente isso: o que aconteceu a essa pobre argentina quando os argentinos invadiram seu mundo. 86 ..Na entrevista.Ele. Quando começamos. também não sabíamos.Está parecendo que essa história vai durar um dia só. senhorita. não é? MARCOS .E depois? Estamos construindo um roteiro sem saber o que vai acontecer no minuto seguinte. GLÓRIA . só dá para isso.Pelo menos já sabemos quem é argentino. Precisa cuidar de seus assuntos.

acabamos de perder o nosso final. fez-se enfim um instante de silêncio. porque o músico estava viajando: agora. precisamos filmar o jogo.Ela.. A festa. não dá para ninguém sair nas ruas. é a de boas-vindas. GARCÍA MÁRQUEZ .. se resignou a não ver o músico.Os trópicos se argentinizaram.A frustação dela. no fim. Vocês sabem quem é? GARCÍA MÁRQUEZ . o que você faria no lugar dele? REYNALDO ..Mas se ela está desconsolada e desgraçada.. MARCOS .GARCÍA MÁRQUEZ .É ele. O jogo vai ser no dia seguinte.Não existe mais o tocador de maracas.A Argentina não pode perder. Ainda bem.Nós nunca saberemos quem ganhou. GARCÍA MÁRQUEZ . na seqüência final do filme. ROBERTO . mas deprimida de verdade. Talvez dê a entender ao camarada que viu a entrevista pela televisão. que foi levar um convite de festa para ela.ela. GARCÍA MÁRQUEZ .Que final? MARCOS . CECÍLIA .. alguém bate suavemente à sua porta. na grande festa final. seja como for. ele insiste. para mim. os dois vão se encontrar. A psicóloga protesta.Filmar esse jogo não é fácil.. Ainda bem que com o argentino não temos nenhum problema. ELID .O que interessa é que ela aceita o convite..E com isso. ELID . o barulho da rua continua chegando pela janela.Faz um prognóstico sobre o resultado do jogo. MARCOS . o que você quer que ele faça? Aliás. Ou estamos pensando em material de arquivo? REYNALDO .Mas a argentina vai perder! GARCÍA MÁRQUEZ .E lá está o argentino para consolá-la. GLÓRIA . Desligou a televisão. GARCÍA MÁRQUEZ . de recepção.. tem de resignar a passar as férias no meio de 87 . está deprimida. MARCOS . agora.Ela está no quarto. reclama. que os trópicos foram para a cucuia. GARCÍA MÁRQUEZ . Estamos nos inclinando na direção de um final feliz.Ficou claro.. abatida.E. está resignada ou fascinada? GARCÍA MÁRQUEZ . para depois. senão o nosso filme estaria danado. celebrar a vitória. como ele está no quarto vizinho. de repente.Coitada! Primeiro. ela cede.. Aliás. depois de sua tentativa inútil d emudar de hotel.

CECÍLIA . A psicóloga insiste. Vamos vendo a mulher de corte em corte.Ela ainda não desceu do quarto.. GARCÍA MÁRQUEZ .Não vamos nos enganar: o argentino é um sujeito verdadeiramente encantador. GARCÍA MÁRQUEZ . Um ramo de flores? GLÓRIA . Fica estabelecida. vai buscá-la e a convida a juntar-se 88 .. não se entregar tão facilmente. O touro está desfilando.que está numa mesa com vários amigos . ele torna a insistir em seu convite.Um prato especial. num bilhetinho.Poderíamos ainda dar uma outra volta a esse parafuso diálogo com a paciente: Batem na porta. CECÍLIA . Toma um comprimido para dormir. REYNALDO . como o argentino.. no meio da alegria geral.argentinos. corn uma certa dose de arrogância: “Não. Está com os nervos em frangalhos. a festa já começou. mas a voz em off acaba triunfando. Corte. GARCÍA MÁRQUEZ . No grande salão do hotel. no quarto. tenho outros compromissos”. E ela. então. uma analogia com o divã do seu consultório. havia notado que ela estava deprimida. Vai persuadi-la a ir à festa. sempre contrapondo sua depressão ao barulho alegre da festa. GARCÍA MÁRQUEZ . Lá fora. Sai da cama.. ele . SOCORRO ..Ela diz ao homem. de antemão. É o boy. surge de maneira natural. Só quer saber de dormir. A psicóloga entrega os pontos. um churrasco preparado para homenagear os argentinos.Um diálogo pelo avesso. como uma coisa muito orgânica. Estende-se na cama. não quer saber de nada. chega à festa no momento em que o touro está no meio do salão. não.Não.. obrigada.. CECÍLIA . tira do armário um vestido de gala e. De repente. Mas o ruído da festa entra pela varanda. Ela não quer saber de ninguém. DENISE . E.. que traz um presente. o que está fazendo? MARCOS . O que ela pretende fazer? Psicanalisar a psicóloga.Previsível demais. O cara não se dá por vencido. REYNALDO . o ruído continua.Há um aspecto aí que acho interessante: ela se estender rígida na cama.Ela também pode apresentar alguma resistência.. rodeado de fotógrafos.se levanta.. entrando numa festa. e vemos a mulher vestida de gala. em sua visita. resolveu mandar um presente.E é verdade que o 'diálogo'. esse ruído fica menor: é a paciente. Quando ela desce e entra na festa.Vendo a festa pela televisão.

ela estranha: “Deve ser algum engano. Disse a si mesma. chega o carrinho.. Pode ser um daiquiri. Ela tenta combater sua depressão indo ao bar e tomando alguns drinques.Ele pode ter batido na porta e entregado o convite. REYNALDO . ROBERTO . para que ele veja com seus próprios olhos que ela está deprimida. Ela torna a encontrar o camarada no bar.Quando batem na porta e aparece o boy com o carrinho. Ela recusou.. e aí entra a voz em off.É melhor ela ficar em seu quarto. e com razão: “Por que diabos vou comer aqui.ao grupo.Um momento: o carrinho e o boy substituem a visita pessoal do argentino? Eu acho que essa visita é necessária. senhorita. SOCORRO . a psicóloga deve reafirmar seu argentinismo.Ora. um objeto de artesanato do país. e fica pensativa. o churrasco.Cuidado: este é um filme para exaltar o patriotismo argentino. Sentam-se juntos. Então. vê o bife fumegante. e que o galã faça essas gentilezas: um prato especial. GARCÍA MÁRQUEZ .. Mas logo percebe que não tem onde se enfiar. para que suba de novo ao quarto.Durante a conversa com a paciente. sorriem.. e não para esculhambar os argentinos. caminha até o armário.. ELID . é uma entrega a pedido do etc”.O carrinho e o diálogo são suficientes para decidir a rendição 89 . não pedi nada. Ela não pode deixar de se comover com o gesto.”. Assim que ela tira a tampa da bandeja. mude a roupa e se apresente na festa.. O filme é isso.Mas. desmorona na cama. vê a si mesma no espelho. GARCÍA MÁRQUEZ . tira o vestido mais elegante. que se mostre tão passiva. não precisa ser nenhum mojito. CECÍLIA . Não é nenhum engano..Ela poderia manter seu diálogo imaginário com a paciente em algum canto solitário de bar. DENISE . Com toda a confusão que o sujeito tem que resolver. ELID . Ela vê a comida. GARCÍA MÁRQUEZ .. e pronto. Fica com medo de enlouquecer e corre para se trancar no quarto. é porque pensa que ela vai ficar no quarto. ele pode ter reparado isso de algum outro jeito.. SOCORRO . por exemplo.A bebida acaba dando coragem a ela. sozinha?”. desta vez. fazem um comentário banal.Se ele manda a comida. deprimida. deixando rolar uma lágrima furtiva. GLÓRIA .. Tem argentino por tudo que é canto. Não gosto que ela se tranque. ainda encontrou tempo para cuidar dela.

A história da entrevista do camarada pela televisão permanece? Porque. não é? Já tentou escapar e não conseguiu.Eu gostaria de retomar uma idéia que ficou perdida pelo caminho. Além disso. não é? Quando vai sair do quarto. É. mas estou vendo que. Já está vestido a rigor. GARCÍA MÁRQUEZ .Ela está sitiada. VICTORIA . depois de uma hora e meia. ou então. GLÓRIA .Ela desce. a gentileza do argentino. Ele nota que a mulher andou chorando. porque continuo com uma dúvida. Ele não volta mais ao próprio quarto. simplesmente ir caminhar pela praia. ele não pode estar ali convidando-a pessoalmente. encontra o camarada no corredor. não desce por causa dele: é por causa dela.. MARCOS .Bem. ela tentou mudar de hotel. GARCÍA MÁRQUEZ . frustrada em sua fantasia tropical. o que ouve?”. por algum problema de vocabulário: quando falamos que haverá uma comida. Nesse momento... Toma consciência da bobagem que está fazendo. REYNALDO .Talvez não tenha ficado claro.. calcular quanto tempo ainda temos e preencher esse buraco até completarmos meia hcrra. não existe filme.Essa mulher não pode sair. vê que se aproxima um gruoo de argentinos a tenta escapulir. Em que momento ele entrega o convite? Ao cair da tarde. então. mas que pode ser interessante. estamos mais ou menos dc acordo.. e por engano empurra uma porta que vai dar na cozinha. Vai ver agora. que a convida para a festa.Ah. Uma imagem atroz. a hostilidade do ambiente. O que mudaria é o caráter da sua decisão: agora. Está sitiada. nesse caso.Se ela não capitular depois de meia hora.Volto atrás. A mulher. se tranca no quarto.Mas deve pelo menos tentar.de uma mulher como esta? GARCÍA MÁRQUEZ . vai acabar se rendendo uma hora depois. Até aqui. também veio ao Caribe para isso. estamos querendo dizer que é um jantar. ela decide sair do hotel. ROBERTO . Afinal. estão esquartejando o touro. Ou será que vai ficar fugindo até o fim? ELID . pela primeira vez. REYNALDO . GLÓRIA .. então já é de noite? GARCÍA MÁRQUEZ . 90 .A entrevista pode ter sido gravada. Ainda não viu a praia. GARCÍA MÁRQUEZ . Temos que terminar a estrutura. “Desculpe.Tudo se arma nessa direção: o diálogo imaginário. Se ela não se render.Não podemos perder a escaleta de vista.

ajustaremos os tempos. GARCÍA MÁRQUEZ . não vou falar o que ia dizer: que a festa dessa noite seria mais espetacular que o carnaval do Rio. Senão perde o sentido.Estamos preparando o passo seguinte. MANOLO . MARCOS .Estou tentanto chegar ao final. Pelé faz o discurso de boas-vindas. Tenho certeza de que aceitaria. Quando a tentativa de fuga se frustrar.. Vamos pedir a ele que dê ênfase ao significado do jogo: Argentina contra o resto do mundo.SOCORRO .O que vocês acham de metermos o Pelé no filme? GARCÍA MÁRQUEZ .Se ele estiver passando por ali na hora da filmagem podem deixar comigo. a gente vê o touro pendurado no helicóptero.. O tom. GARCÍA MÁRQUEZ . REYNALDO . esquartejado na cozinha.Os brasileiros não perdoariam isso..A história perdeu seu caráter de comédia.Então. Mas é verdade: o fracasso deve ter uma razão dramática sólida.Vamos ter problema com o tempo. podemos esquecer o gênero por um momento.Essa cena da cozinha é horrível.Enquanto ela continua em seu quarto sem decidir se desce ou não. MARCOS . você pode trabalhar nela 91 . jamais. MARCOS . Quando coincidimos na Espanha. começa a festa.Primeiro. quero dizer. O touro foi adquirindo uma importância que não tinha. com começo. MARCOS . somos sempre vizinhos de quarto no hotel Ritz de Madri. E. Com chances de vitória. e com prazer: Conheço o Pelé.A fuga da mulher não me convence. Agora. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . Depois. Uma vomitadinha no meio da comédia nunca pega mal. DENISE . a gente ajusta depois. para ver se podemos contar com uma boa estrutura.Um toque de humor negro. ela cairá na resignação total. Quando tivermos uma boa estrutura. GARCÍA MÁRQUEZ .Isso depende do tom. ROBERTO . finalmente. Sabem o que posso propôr a ele? Que dê as boas-vindas ao time argentino. MANOLO . GARCÍA MÁRQUEZ . não importa a duração. meio e fim..Olha aqui.Só o time brasileiro pode enfrentar o resto do mundo.Quando estamos trabalhando na estrutura. acho bom vocês guardarem a ironia e as piadinhas e todo o resto para o filme.Essa festa é uma mina. desfilando pelo salão com um colar de gardênias no pescoço. GARCÍA MÁRQUEZ .

ficaríamos todos com a sensação de que está faltando dizer alguma coisa. CECÍLIA . com um tango. E todos vestidos a rigor. vê um letreiro “Saída de emergência” -. O diretor faz o que quer com a trilha sonora. Então todo mundo..como se fosse uma filmagem separada. desfile do touro.Mas é que eu acho muito duvidosa essa idéia de tocar o hino nacional às duas da manhã. enfim.Ela está no quarto. não a deixa descansar. Todo mundo dançando tango e.O que não está muito claro para mim é a ordem dos fatos.Por que não voltamos para a idéia da montagem paralela? Na festa estão cantando o hino nacional e. Invente.A única função do tango é conceder aos dois um momento de triunfo: são coroados como Os Argentinos de Prata. proporia um 92 . que o touro está sendo esquartejado. volta tudo de novo. e cantam.. regressa ao seu quarto e se joga na cama. GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS .Mas esse esquartejamento deve acontecer na perspectiva dela. ali. estão esquartejando o touro na cozinha. Impossível. É o carrinho com a comida que o argentino mandou.Todos os participantes da festa se levantam solenes. REYNALDO . apitos. E como por ali não pode sair do hotel. vai dar numa espécie de porão. empurra outra porta. e fazer o que bem entender: discurso. A festa termina de madrugada. batem na porta. ROBERTO . Portanto. que estão de uniforme. depois. MARCOS ..E por que não? O que estou propondo é que a festa comece com o hino nacional e termine com o tango. GARCÍA MÁRQUEZ .A festa começa com o hino nacional. tudo é proibido.E com isso estaremos dizendo o quê? ROBERTO .Se eu soubesse não proporia uma imagem. ela desce e tenta sair do hotel. GARCÍA MÁRQUEZ . Entra num elevador. satisfeito da vida. MARCOS . cantando o hino nacional.. com a mão no peito. e cai na cozinha. na cozinha estão esquartejando o touro. Vê. MARCOS . Eles se sentem inspirados. que isso está errado porque a festa está acontecendo dez andares abaixo.. da festa ou da celebração. bandeiras.. enquanto isso. Marcos. O ruído lá de baixo. De repente. menos os membros do time. Não é a mesma coisa terminar com o tango: o hino é melhor. Ela não está no começo mas estará no final. GARCÍA MÁRQUEZ . vira-se para a câmera e canta o hino nacional. E.É a apoteose do nacionalismo. Não consegue passar por nenhum lado. toma outro elevador. E não venha me dizer. Se você termina com o tango. balões de gás.

MARCOS .Quando ela sai no porão e atravessa o último corredor. Inclusive. Ela se sente acossada pelo ruído.texto.Mas que conspira contra o gênero. GARCÍA MÁRQUEZ . ELID .Vieram da Argentina especialmente para cortar a carne..Muito bem. Eu insisto que devemos contar a história sem rebuscar muito. para conseguirmos uma comédia clara. GARCÍA MÁRQUEZ .Claro.Se você soubesse.O hino final é a apoteose.. Quer fugir. MARCOS . como se fosse pouco. pela multidão. Sente que está sitiada. começa a ouvir o hino. para ver o que ela nos diz. com os açougueiros. onde todos estão de pé. Seria como uma celebração do encontro definitivo do casal. Descreva a imagem. altera a proposta original e. mas é uma imagem muito forte.Ela chega na cozinha. mas os símbolos da pátria a perseguem. porque introduz uma montagem paralela. limpa.. sai para um corredor vomita e volta para o quarto..Os açougueiros estão morrendo de rir. não vamos perder a estrutura de vista. vê como destripam o touro que pouco antes voava feito um anjinho e desfilava feito uma rainha de beleza.Isso nem sempre é possível. Ela foge e vai dar no salão. São argentinos. diria. para que o gado não fuja.. GARCÍA MÁRQUEZ . cantando o hino. ROBERTO ... GARCÍA MÁRQUEZ . utilizando como pretexto aquela parte do hino que diz “Lá no céu uma águia guerreira. O impacto é tão grande que ela não suporta. O corte argentino é diferente de todos os outros. GARCÍA MÁRQUEZ . poderíamos ver os dois no avião de volta. E como se o país a perseguisse. Chega na cozinha e estão esquartejando o touro: dois ou três planos de violência. pela quantidade de informação que recebeu pela televisão e pelo telefone.Por favor. muda o método de narração. 93 . VICTORIA.. GARCÍA MÁRQUEZ . temos que armar a cerca. Depois virão todas as cenas que a gente quiser. ROBERTO . E de repente. A cara dela reflete o quê? Susto ou asco? Acho que aí pode existir uma metáfora sugestiva. Eles também estão bebendo e comemorando. membros da delegação.”. sem necessidade. mas primeiro. É como se tivesse visto Lady Di sendo esquartejada.O touro não é símbolo de nada.

“Já que a montanha não vai a Maomé”. Estava ali.Por que ela decide descer para a festa? CECÍLIA . Ela. na metáfora. Pode até ser que se apaixone depois que for dormir. e agora está mergulhada numa realidade que parece mais fantástica ainda. na festa. Traz um carrinho de comida. Ela olha com espanto.Você não está pensando que ela desceu porque se apaixonou por ele. desejando bom apetite.. No final. inevitavelmente. vemos a mulher chegar. a da sua própria vida.Para mim. porque é uma capitulação no bom sentido. a orquestra toca um tango e todo mundo começa a dançar.Caímos. Nesse momento. Explode em coro o hino nacional e os dois somam suas vozes às outras. ovação. ela assume sua realidade.. porque ela também fala.Isso ainda não sabemos. mas suspeito que sim.. 94 . Ela se levanta. é a grande dama argentina.Ela volta para o quarto. A vida segue seu curso: é irremediável e fatal.VICTORIA . GARCÍA MÁRQUEZ . O homem se levanta e oferece um lugar em sua mesa. embora com os papéis invertidos. com uma depressão gigantesca. e portanto não resta outro remédio a não ser encará-la. E acho que a falha está no primeiro encontro dos dois. Está reconstruindo mentalmente o diálogo da sessão de análise. que quando ela se olhe no espelho ouvirá em off. perseguindo uma quimera. uma fantasia que a paciente enfiou na sua cabeça. Corte direto para o sujeito.Porque ela mesma se psicanalisa. O esquartejamento nos leva à ditadura militar: O sangue provoca tanto horror na mulher que ela foge para se trancar no quarto. não sei que diabos estou fazendo aqui! SOCORRO . O sujeito vai embora. A capitulação que se produz como conseqüência desse diálogo também é ao contrário. fica pensando. E nesse momento que o argentino bate na porta. Nós nem a vemos se vestir. Se isso não for um filme. Ela está radiante. mas agora ela só está buscando um flerte. e 'ouve' a própria voz. A partir daí. e um filme que dá para ser vendido.. Nisso. lembre-se disso. a Mulher argentina por excelência. Os refletores iluminam a dupla. E ponto final.A voz em off seria mantida? GARCÍA MÁRQUEZ . e repetindo o convite para a festa. isso não está muito claro. Destampa a caçarola e vemos um enorme pedaço de carne. enojada. Ou as vozes. com bandeirinha e tudo. Não resolvemos esse problema. e do ponto de vista subjetivo dele. GARCÍA MÁRQUEZ . então. ROBERTO . MARCOS . Os dois dançam tão bem que o pessoal vai abrindo uma roda e deixando-os sozinhos na pista.

de repente.Anotação número catorze: “Vemos a mulher entrando. ou.. O que acho é. que não conhecemos realmente o argentino. primeiro. se reúne com o sujeito e dança um tango com ele. e.Todo mundo sai dançando. MarcosS? Tem alguma coisa nesta história que você não goste? 95 .E o filme deveria se chamar Último Tango no caribe. CECÍLIA . REYNALDO . e. do mesmo jeito que o helicóptero era uma citação de A Doce Vida.. ela se olha no espelho e. com o enquadramento picado. se rende”. Essa cena marcou época.. porque não saberíamos como resolvê-lo. ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . REYNALDO . como a bandeira.. GARCÍA MÁRQUEZ . na anotação número treze.A dança é uma citação de Rodolfo Valentino.Não acho que seja preciso alguém ir para a cama. O que você acha. GARCÍA MÁRQUEZ . ou não neste filme.. o que aceitarmos como consenso agora será derrubado um minuto mais tarde.Ela encontrou. vestida com uma roupa azul e branca.. pelo menos. por enquanto. enfim. Agora poderia se chamar Libertad Lamarque. de perfil.Por que não deixamos as novas sugestões para depois que a estrutura estiver pronta? Do contrário.. segundo. chega o carrinho com a comida.ELID .. mas do ponto de vista do argentino”. está: “Ela está de volta ao seu quarto.. ou melhor ainda. e pecisamos impedir isso do jeito que for: Vocês estão agrupando as vacas antes de terem erguido a cerca.Ela se encontrou. CECÍLIA . Aqui. seu tocador de maracas. me refiro à cena em que Valentino dança assim. Imperio Argentina..Desce para afesta.Está radiante. que por isso mesmo não desenvolvemos o primeiro encontro dos dois.. GARCÍA MÁRQUEZ . mas no final deixam os dois sozinhos. ROBERTO .Eu anotei tudo. no argentino. a câmera se aproxima e fica assim..

Quer dizer que o coitado do cachaco virou Santo Antero? MANOLO . em inglês. parei nesta parte”. MANOLO .”. MANOLO . eu acordo. GARCÍA MÁRQUEZ . Nada de exaustão mental.Bem que a gente se esforça.. Pronto.A gente começa a falar de outras coisas.. até m dia seguinte. Tomo um banho de chuveiro. sim.. esqueçam de tudo. I MÁRQUEZ . Só que eu pergunto: e vale a pena? O resultado justifica que se fique o tempo inteiro trabalhando? ROBERTO .. De manhã. GARCÍA MÁRQUEZ . mas como é confundido com o santo padroeiro da aldeia. estarei cansado no dia seguinte.. 96 . “Será que isso encaixa aqui? Não. colocar ali. Mas a partir do momento em que apago o computador e me levanto. a história de Santo Antero.. O nome do filme é O Santo. Se eu não fizer assim. vou para o estúdio sento para trabalhar. não tornem a pensar no trabalho até o dia seguinte.É preciso aprender a se dominar.. tomo consciência de que sou imortal. E uma espécie de vício. Então. pode até existir quem trabalhe o dia inteiro e não se canse.. a primeira coisa que faço é um esforço para saber quem sou. MARCOS .. mas acabamos sempre na mesma. não penso mais nisso..Soube que vocês varam noites discutindo os projetos..SEXTA JORNADA DE TRABALHO Recapitulações. Para mim. faço o café da manhã. Isto basta para acabar de me acordar: Imediatamente começo a pensar como andava ontem o meu trabalho: “Ah.. esse é um leão morto..O cachaco se chama Natalio. Nesse instante. e aborrecido. e sentirei que a história empacou e não saberei como continuar. se continuar remexendo nesse assunto. é melhor. mas não dá.Acabam de inventar um nome para esse tipo de gente: são os workaholics. sem interrupções.Eu não acredito que a gente chegue a ficar exausto com a nossa história. vamos ver. Ora. até as duas e meia ou três da tarde. Querem um conselho? Quando saírem da Oficina.

é uma morte que ele não esperava. GARCÍA MÁRQUEZ .Pensam que ele é uma aparição.Eu fiquei com a idéia de que ele fazia um milagre. quase nunca. REYNALDO . todo personagem protagonista acaba sendo. Santo Antero. eu poderia ser acusado de impor a vocês o meu ponto de vista. Ia morrer de um jeito ou de outro.É o título. a história terminava.. porque já fizeram um filme que acaba assim. Uma menina morre e o pai acha que ela é santa. ROBERTO . primeiro. GARCÍA MÁRQUEZ . porque os bons títulos quem dá é a própria história. é de pau.Como disse Flauhert: “Emma Bovary c'est moi”. o único a ficar surpreso. e com argumento de minha autoria. enquanto agora morre num clima de santidade. cresce a possibilidade de encontrar títulos melhores. Porque a aldeia já tinha a sua imagem. MARCOS .É inevitável. o da psicóloga argentina. O sujeito está feliz. matam o homem a pedradas. Um belo título.Trata-se do primeiro violino de uma orquestra? Esse é o título do filme? GARCÍA MÁRQUEZ . 97 . virgem e mártir.Estou achando a GLÓRIA impaciente. em maior ou menor medida nós mesmos.Não sou galega.. Prestem muita atenção agora: vamos ver o que essa galega tem para nós. quando percebem que ele não consegue.Bem. REYNALDO .Era isso o que estava previsto? GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . certo? Por isso é que o 'reconhecem' quando ele chega. dar o nome antes. e que era o primeiro a se surpreender com isso.Voltando ao tema dos workaholics: MARCOS e eu continuamos discutindo o projeto dele. se for assim. mas de morte estúpida. sim. Mas no final. Não convém. dizem ao pai: “O santo é você”. Digo.Que ia morrer. É Milagre em Roma. por ser farsante . E o que tenho para vocês pode se resumir numa frase: “O primeiro violino sempre chega atrasado”. um milagre.GARCÍA MÁRQUEZ .Um santo que. e depois é de carne e osso. GARCÍA MÁRQUEZ . E que aí. REYNALDO .Pedem a ele que faça um milagre. porque seu corpinho se mantém incorrupto. Por mais que a gente disfarce. MARCOS . GLÓRIA .. Na medida em que a história se desenvolve..ROBERTO diz que eu sou a psicóloga. REYNALDO .

Porque ele saiu de casa com seu violino dentro de um estojo de violino. Ele apanha um violino. aparelhos estranhos.. não chegou ainda. E tem mais: quando ela telefonou. vai até os fundos. que era violinista...E como sabemos que ele é um violinista? GLÓRIA . A mesma portinha se abre e saem duas pessoas. metido em seu estojo. MARCOS .. pensei que ia marcar um encontro com o amante.. gramofones. CECÍLIA . caminham até a recepção.. má sorte. Ele vai até o banheiro.. desde que o homem saiu? A gente fica com a impressão de que são atos consecutivos.Nesse caso. Sexta-feira. Ele sai.O primeiro violino sempre chega tarde GLÓRIA .. o primeiro violino sempre chega tarde”.. Os dois acabam de tomar o café da manhã. Saem da loja. GARCÍA MÁRQUEZ . entram no automóvel e se perdem ao longe.. Colocam os estojos com os violinos em cima da cama. Corte. A mulher disca um número de telefone e alguém responde. Evidentemente. Corte. o violinista e outro homem. GARCÍA MÁRQUEZ . cada um levando um violino metido em seu respectivo estojo.Quando ela telefona para o teatro. Corte. Vemos pianos... nos bastidores de um teatro: “Não. Todos os seus movimentos são mecânicos. são hóspedes do hotel. 98 . no telefone. e porque ela. Estou sabendo agora porque você contou. sem largar os violinos. pedem a chave com naturalidade e entram no elevador.Vivaldi dá. Chegam a um hotel. senhora. O homem entra.A história começa assim: um rádio despertador começa a tocar uma música de Vivaldi.Que suspicaz! GLÓRIA . digamos.Espera aí. Corte para ela.. Corte. quanto tempo passou. com cara de surpresa.. porque o violinista não teria tempo de chegar. o telefonema nem se justificaria. empurra uma portinha semi-oculta e. Entram no quarto. Corte. e dá adeus com a mão.O fato é que agora o carro do violinista está estacionado numa rua. vai até uma loja de música. GLÓRIA . aproveitando a saída do marido. atravesssam a rua. GARCÍA MÁRQUEZ . ela vai à cozinha... cumprimenta o empregado da loja. e dois personagens se levantam da cama: marido e mulher. É melhor pôr Albinoni. GARCÍA MÁRQUEZ .. discos. eu não sei.

é um palanque. a seqüência da rotina não corresponde ao outro dia. Corte. e dispara.Dois rifles. GLÓRIA . e sim à semana seguinte. mas vazio. em cima do sofá.. esperando. GLÓRIA . Assim que ele entra. GARCÍA MÁRQUEZ.E algumas outras diferenças.. O violinista começa a armar o rifle. Corte.. do outro lado da rua. 99 . se repete todo o processo até que o violinista aparece na janela. Está na calçada. Desarmado em várias peças que estão repartidas nos dois estojos. Eles estão preparando um atentado.. A mulher está sentada na sala. Pela mira telescópica. como se fossem violinos. atravessa a sala sem dizer nenhuma palavra e vai para o quarto. O maestro olha para ele com cara de poucos amigos.É evidente que haverá um ato público e alguém vai fazer um discurso daquele palanque. os dois personagens se levantam da cama e a mesma rotina se repete. Corte. aponta com a mira telescópica para o orador. entra apressado onde a orquestra já está ensaiando. CECÍLIA . com o violino na mão. sem dizer nada. o outro mede o tempo com o seu relógio. enquanto o outro olha discretamente pela janela.E agora. Deixa o violino dentro do estojo. GLÓRIA . vê que o ato público já começou.abrem as tampas e vemos que lá dentro não há violinos: há um rifle com mira telescópia.. Soa o rádio despertador. Mas o homem não dá a menor confiança. No hotel o violinista e seu acompanhante permanecem tranqüilos. aquela pequena luneta. É de noite.aquele normalmente reservado ao primeiro violino .Com enquadramentos diferentes.. GLÓRIA . Vemos a confusão que se arma no palanque.. O violinista está entrando em casa. O violinista se senta num lugar de honra . GARCÍA MÁRQUEZ . CECÍLIA . Enquanto isso. ergue o rifle. Por exemplo: agora ela não sai para se despedir dele. Mas telefona para o teatro. com bandeiras e cadeiras. O violinista se junta a ele. Baixa o rifle e começa a desarmá-lo de novo. e o que vemos pela mira telescópica.E um cenário.”. que nesse momento gesticula sobre o palanque. em tom de inquisição: “Onde é que você foi se meter? Telefonei para o. GARCÍA MÁRQUEZ. O violinista. vemos que o homem cai. aponta. sexta-feira o primeiro violino sempre chega tarde”..É preciso deixar isso bem claro. O violinista afina a pontaria buscando com a mira ponto exato onde está o orador Dispara em seco.Um. Parecem satisfeitos.Desta vez.Mas é sexta ou sábado? GLÓRIA . e a responder a mesma coisa: “Não senhora. ela grita.e se junta ao ensaio.

O que está acontecendo? Por que tanto mistério? Por que toda sexta-feira você. etc. e saem. certo? GLÓRIA .vão ocupando seus assentos na orquestra. Corte. e grita alguma coisa pode ser algo assim como “este violino você não toca nunca mais” .entre eles. do começo ao fim. a seqüência termina com o atentado.. GARCÍA MÁRQUEZ .. é lógico. na loja de música. consegue alcançá-lo o começa a discutir com o marido em plena rua. A explosão é brutal. Estão hospedados ali há vários dias. desta vez. não trocaram nenhuma palavra. estaciona numa rua lateral e desce com dois violinos. GARCÍA MÁRQUEZ .É que pensei nessa história assim mesmo: ela nasceu completa. se aproxima dele pelas costas. Ela corre atrás dele.. Avança até o palco.. o concerto está a ponto de começar. Os músicos . com o estojo do violino nos braços. O homem abre um estojo de violino e o cúmplice coloca dentro. os estojos dos violinos deveriam chamar a atenção. REYNALDO .. vestidos de fraque. joga o suposto violino no chão. deixa a mulher falando sozinha. e enfim entra no teatro. são conhecidos. outra vez à rotina do dia: despertador. O homem se dirige ao teatro. sem que ninguém os detenha nem pergunte nada a eles? GLÓRIA . a mulher.. A mulher. pelo corredor central aparece. através de um corte. São hóspedes.. saída do violinista.Numa situação dessas. café da manhã. entra no automóvel e vai embora. vê o homem sair e continua a segui-lo. Daí passo. A mulher olha para ele.e sem abrir o estojo. Cada um em seu estojo. guardam as peças em seus respectivos estojos. uma bomba.Sim. ela entra em outro. etc. arranca um dos violinos da sua mão e escapa. como se fosse um violino. De repente.. Todos os músicos estão nos bastidores. Corte. O homem fica perplexo em saber o que fazer.Você está contando a história mas não está propondo uma estrutura. GLÓRIA . a mulher fica furiosa. com seu cúmplice. No filme inteiro. Assim que vê o homem sair de automóvel. O homem sai com o estojo.Desarmam o rifle. entre as poltronas da platéia. o violinista . atravessa a rua. Uma função de gala. Falta pouco. Só que. Mas o homem continua caminhando. O maestro entra. Na verdade. o primeiro violino muito perto da beira palco. Chega. Ao ver que o marido não dá confiança.Não pensei nisso. com muito cuidado. ela não fica em casa: vai atrás dele. O camarada outra vez. ele nunca responde. Corte.Saem assim. Para mim. A orquestra inteira está em pé. O fogo e a fumaça 100 . quase pode tocá-lo com as mãos. tranqüilamente. A sala está lotada. que estacionou ali perto.

Como é possível que ele fique assim tão tranqüilo? GLÓRIA . ele pede emprestado outro violino e esquece a mulher.E se o homem chegar tarde ao ato. Terá tempo para discutir isso com a mulher quando voltar para casa. ROBERTO . sei lá. GARCÍA MÁRQUEZ . ele achava que ela tinha levado o violino. dava no mesmo matá-la ou não. SOCORRO .como acaba jogando -. GLÓRIA .Primeiro ele atira no orador... Não seria conveniente que a orquestra tocasse no ato onde o orador ia falar? O cara é. e em seguida vai se livrar da mulher? MARCOS . gritar avisando todo mundo. Precisa é de análise. o ato. vai deixar que a mulher fique com a bomba? GLÓRIA . Não é um violinista. como ele.Bem. – porque sabe que ela está com a bomba. e alguém já tiver 101 . que seja o violino ou a bomba. E um profissional do terrorismo. teremos de fazer um esforço adicional. E sendo assim. Mas quando ele vê a mulher entrar no teatro e avançar pela platéia com o estojo na mão.É um profissional. Ou seja.Mas você está deixando muitas coisas para o acaso...O que eu vejo aí é um problema sério: como acreditar na história da bomba? Ela arranca o estojo das mãos do marido.Volto atrás..E se a bomba fosse destinada justamente a acabar com a mulher? CECÍLIA .. Esta história não precisa de continuidade.Mas não sabe que ela vai atirar o estojo no chão. E como hoje faltam alguns alunos. Os dois estojos eram idênticos e pesavam quase a mesma coisa.Bem. A orquestra está lá para ajudar a animar o comício.É preciso definir melhor esse sujeito. que a bomba exploda ou não.Eu gostaria de manter a estrutura da história. GARCÍA MÁRQUEZ..ocupam toda a tela. não é apenas um violinista: é também um terrorista. É capaz de matar um ministro a sangue-frio.. um líder sindical.. não haveria a possibilidade de a bomba não explodir? CECÍLIA . GLÓRIA . como não teria se livrado da mulher. ou melhor. que o violino. precisa fazer alguma coisa .sei lá. fugir.. REYNALDO .Eu queria brincar com a idéia de que ele não percebia. até chegar ao teatro e abrir o estojo que estava com ele. Ainda não foi cometido o atentado.. digamos. teríamos de aplicar outro método de trabalho. o estojo onde está a bomba. E mesmo que ache que ela vai jogar .. de quem já está farto? Para ele. ROBERTO .

Um cadáver como esse não é enterrado e ponto final: há investigações..Pois eu acho que a falha está no aspecto policial da história. REYNALDO . meio de ópera... é tarde demais. porque o sujeito tem vida dupla e esconde a mais espetacular.Quarenta ou quarenta e cinco anos. cheio de confiança. REYNALDO . do diretor da orquestra.Você não pode contar um filme onde matam um personagem importante sem saber o que acontece depois. e o quarto estava hospedando o senhor Fulano de Tal.. Não é fácil saber. Com um exame balístico é possível determinar exatamente de onde o tiro veio.O quarto pode estar em nome da orquestra. que ninguém faz até fazer. ela se sente muito infeliz.Esse é o calcanhar-de-aquiles do homem: ele não cuida da relação com a mulher. você quer contar exatamente o quê? GLÓRIA .Numa primeira versão.E a mulher é a sua condenação.Eu o imagino bem conservado. Vou fazer algumas perguntas elementares.A história desse casal. dessas. boa-pinta. O perigo vem é dela.. GARCÍA MÁRQUEZ .o homem. GARCÍA MÁRQUEZ . O quarto do hotel está em nome de quem? O dono do hotel também pertence à organização terrorista? GLÓRIA .E quando ele repara.. E a mulher. porque a mulher continua apaixonada por ele. sempre. vai até a porta se despedir tem ciúmes? E claro.matado o orador? VICTORIA . de uma grande distância. Estes dois homens são violinistas que vão ensaiar ali. quem seguia o violinista não era a mulher. daquele hotel. O tiro saiu da janela daquele quarto. Vocês repararam que ela prepara o café da manhã.O tiro foi disparado por um fuzil de mira telescópica. Viam o homem sair da loja de música. num lugar tranqüilo.Eu não gosto é desse final da bomba. GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO . averiguações judiciais. e sim a polícia. VICTORIA .GLÓRIA.Dá para saber. porque ele nem olha para ela. GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO . com a orquestra inteira voando pelos ares. aos pedaços. GLÓRIA . e quando o obrigavam a parar o carro para revistá-lo achando que só estava levando aquele estojo .. 102 .. GLÓRIA . porque a mulher não o interessa. um casal no qual nenhuma das partes sabe absolutamente nada da outra. com um estojo de violino debaixo do braço. O homem.Qual a idade do violinista? GLÓRIA .

E quando chega o momento. de um atentado terrorista. Está claro? GLÓRIA . você nos conta a história de um crime. E isso abre muitas interrogações. O sujeito não é apenas um virtuoso do violino: é também um virtuoso do crime.puxava outro estojo . SOCORRO . com o violinista. por último. que pertence a uma organização terrorista.Mas primeiro você mata um presidente e depois quer que eu me interesse mais pela história do assassino e da mulher. Preparou esse atentado passo a passo.E ela o encobre. que supostamente serviria de álibi para o homem. GARCÍA MÁRQUEZ . o assunto seria o seria o seguinte: um violinista. GLÓRIA . isso era o que ele achava..e mostrava.o verdadeiro . E o que é pior: sabe que ele sabe que ela sabe. há mais coisas para serem amarradas. sozinho. Havíamos dito que era líder sindical. Será que não vai denunciá-lo'? Não. mas como os dois estojos eram idênticos.Seja como for.Quem fornece o álibi é a mulher. É uma arma que ela reserva para uma chantagem sentimental.. SOCORRO . Para que serve o álibi do trabalho. GARCÍA MÁRQUEZ .. Depois. seria outro filme.. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . mas porque a mulher o descobriu. E isso não pode ficar assim. foi preciso empurrá-lo. E não porque esteja cansado dela.. O filme acabava assim.Não era um presidente. Além disso. o atentado já terá sido feito e a notícia correu a cidade. quando ele chega no teatro. para dominá-lo? GARCÍA MÁRQUEZ . Ou seja.Aí. Mas surge um fato com o qual ele não contava: sua mulher percebeu. 103 . REYNALDO .Sim. se enganava e abria. comete um atentado. percebeu que ele é o autor do atentado. Não vai deixar nenhuma pista. com fios soltos. pense no rótulo.Contada direito. Na verdade.. a polícia investiga..É que o atentado. se naquele dia ele também chega atrasado? GLÓRIA .Primeiro.Então.Sabem o que eu acho? Que ele mata a mulher. dá com o hotel.. Descobriu tudo. Talvez fosse esta a história que eu queria contar. com o quarto e. Naquele dia. os músicos da orquestra estão justamente falando no assunto. do ensaio. tem o álibi perfeito. o da bomba. Diz que naquele dia ele saiu tarde de casa porque o automóvel não funcionava. porque ela sabe que isso não é verdade. E sabe que ele também sabe. É preciso amarrar tudo isso a uma investigação policial... GARCÍA MÁRQUEZ . meticulosamente. é outro filme. é um crime político.

Deixa o marido ficar sabendo talvez com o objetivo de fazer chantagem . O que aconteceria se o atentado não ocorresse? O atentado é frustrado. E o marido percebe o que acontece: ela sabe. aos culpados. e se frustra justamente por causa dela.. outros caminhos que não nos desviem do projeto original.Isso se ajusta melhor ao formato de meia-hora. o seguinte: é isso que Glória quer contar? E se for como podemos ajudá-la para que conte à sua maneira? GLÓRIA . Ou seja. SOCORRO . para que não vire um filme policial.O exame balístico leva ao hotel.e ele. fica evidente que a relação entre os dois está muito deteriorada. com um revólver. Se fosse boa. GARCÍA MÁRQUEZ . sem aviso prévio. “Sim senhor. GLÓRIA.Estamos mudando a história sem perguntar se não haveria outras alternativas.Mas por que a polícia iria suspeitar dele? GARCÍA MÁRQUEZ . Eu acho que é preciso evitar todo o processo de investigação. outro galo cantaria quando ela descobre que o marido está preparando um atentado.O dono do hotel não tem por quê dar pistas: ele também é cúmplice. ROBERTO . e os estojos.Não é fácil responder.. o mais provável é que ela não morra sozinha.. se andou carregando um violino a vida inteira e sabe exatamente quanto pesa? ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ .Seja como for. deixei-o a tal hora na porta do teatro”. mata a mulher.Na sua versão.declara à polícia o contrário. Ela mata o marido de ciúmes. Nesta só morre ela? GLÓRIA . o hotel leva aos hóspedes com estojos de violino.Se mantivermos a bomba em circulação. GLÓRIA .. é autor de um atentado. dois casos.. E pode ser resumido assim: uma mulher descobre que seu marido.O problema da bomba é que ela traz problemas demais. Ela imagina que o marido sempre chega tarde nas sextas-feiras porque vai encontrar outra mulher. GARCÍA MÁRQUEZ .. ao se ver descoberto. vamos eliminar a bomba. por dedução simples. Cúmplice posterior digamos. eu mesma levei meu marido 0de automóvel hoje de manhã.. um inocente violinista que toda sexta-feira chega atrasado ao trabalho. a mulher se torna cúmplice do marido. de repente. Agora. todos morriam. Ele não havia dito nada a 104 . ROBERTO .E você acha que a polícia não iria suspeitar? Não é tão fácil disfarçar um crime desses. em nenhum desse. Como o violinista não iria saber em que estojo está a bomba..Então...

em casa. se dirige ao seu lugar na orquestra. dá a entender que. Não tem nenhuma razão para fazer isso. Um homem desce. surpresa!. ela troca o estojo por outro.Um profissional do crime.Mesmo assim.. ele mata a mulher. REYNALDO . apanha uma coisa qualquer. MARCOS ... Muito bem. que já está ensaiando. como ele. também podem acontecer duas coisas: que ele não desista. comprova que o ato já começou.Tirar do homem a sua condição de primeiro violino? Nunca! MARCOS . ELID .A mulher também poderia ser violinista. podem acontecer duas coisas: que a mulher decida ficar calada. vai até o caixa. por quê? 105 . e apanha por engano o estojo do violino do marido. no estojo do violino só tem mesmo um violino. REYNALDO . SOCORRO . olha pela janela. Talvez o personagem não devesse tocar violino. o comício. sei lá. jamais levaria armas para casa. o atentado não vai acontecer.. Estamos criando no espectador uma expectativa que depois não será satisfeita. quero dizer.. levando na mão uma maleta. Vemos o automóvel se afastar e um instante depois. paga e sai. Na noite de quinta-feira.. o maestro reclama do atraso. para encobrir o marido. na maior tranqüilidade. Ninguém nunca descobre a história do supermercado.E que tal se o filme começasse simplesmente assim? Um automóvel chega na frente de um supermercado. O camarada chega ao hotel. Só que a mulher descobre. ela balbucia uma desculpa e se senta para ensaiar. O homem entra no supermercado.. e que ainda assim ela dê cobertura. Lá dentro. um mecânico. cria uma expectativa. GLÓRIA . O atentado se frustrou. mas agora que ela sabe.. quando ele vai ao banheiro. GLÓRIA . deixa a maleta no chão. E. neste último caso. neste último caso.Vamos imaginar que levou. a mulher descobre o fuzil desarmado dentro do estojo. abre o estojo para apanhar o rifle e.. GARCÍA MÁRQUEZ . o supermercado vai pelos ares. GLÓRIA . já examinou na noite anterior. que suspeita do marido? Mas. o que existe é uma bomba. Na manhã da sexta-feira.Mas agora.A idéia do atentado continua nos desviando da história.. ou que decida fazê-lo mudar de idéia. ou que ele não desista e ela decida denunciá-lo. ao lado de uma estante. Ela descobre que seu marido está preparando um atentado quando decide estudar. O camarada chega impassível ao teatro.ela para que a mulher não se preocupasse. e sim ser técnico. Quando ela vê a notícia na televisão. a polícia não descobre jamais.E.. O sujeito não vai ficar examinando o estojo antes de sair.

Ela havia começado a remexer a casa inteira e tinha percebido. e portanto pode denunciá-lo à polícia. com premeditação e aleivosia.Para se desfazer dela impunemente. Como? Fazendo com que a mulher vire cúmplice do projeto terrorista. por certos detalhes. O favor é o seguinte: levar um pacote e deixá-lo em determinado lugar. Mas que ele mate a mulher.GARCÍA MÁRQUEZ . ou viceversa.Ela não vira terrorista.. nem nada parecido. mas só como um meio para se desfazer dela. não está claro. ROBERTO . Mas. como bom conspirador. Ele a preparou de tal forma que inevitavelmente vai explodir nas mãos da mulher: Trata-se. tenta ajudá-lo. para que ela escolha.Dar opções a GLÓRIA. da noite para o dia. se quiser. de uma operação da 106 .Ele concebe um atentado no qual ela será a bomba.Para mim. mas também porque sente que desta forma pode dominá-lo ou. A bomba está no pacote. naquela noite. ela não nota nada.Existem duas opções: que o marido mate a mulher. sim. GARCÍA MÁRQUEZ .em montagem paralela está telefonando para o teatro.Até o último momento.. prepara uma armadilha mortal. percebe também o perigo latente: ela sabe. minha senhora. retê-lo. como dizem os advogados. pelo menos. a mulher . GARCÍA MÁRQUEZ . Tudo acontece exclusivamente através da relação do casal. supostamente. Estão vendo? Nada de investigação policial. GLÓRIA . ROBERTO .E isso que nós temos de descobrir. CECÍLIA . O que é que realmente estamos querendo fazer? GARCÍA MÁRQUEZ . e ela concorda. sextafeira o primeiro violino sempre chega tarde”. “O primeiro violino? Não. Nem ela nem o espectador suspeitam disso. SOCORRO . O sujeito percebe que na atitude da mulher há uma dose de chantagem e. Quando descobre que o marido leva uma vida dupla. Eu prefiro a primeira. vira-se tranqüilamente para ele e diz: “Quem cometeu esse atentado foi você”. Até aquele momento. ele faz com que ela acredite que vai normalizar sua vida e. por amor: Por amor. que alguma coisa esquisita estava acontecendo. ao mesmo tempo sem que ela perceba.É precisa armar essa história completa. quando está com o marido vendo a notícia na televisão.O camarada pede à mulher um grande favor. Enquanto o camarada está entrando no supermercado. SOCORRO .Mas eu não imagino como é possível convencer uma mulher assim a virar terrorista.Confesso que não vejo essa situação muito clara. eram só ciúmes. GLÓRIA . Diante desse impasse. ROBERTO .

não é? Antes de deixar a maleta no chão. REYNALDO . 107 . ao supermercado.Mas a partir do momento em que vê o suspeito na televisão. acelera e se afasta. GLÓRIA .mas não diz nada. sempre.um tique. Está irreconhecível. A sacola tem o nome e o endereço do supermercado em letras enormes. A bomba explode. uma câmera de vídeo gravava tudo o que acontecia lá dentro. quando ela o descobre. O que a mulher encontra na sacola. que a gente acaba resolvendo. o que a mulher encontra na casa.qual ele também participa.Eu volto. A forma pela qual ele vai matar a mulher não me preocupa. Mas o suspeito está irreconhecível. A fita é salva e mostrada pela televisão. Todo mundo vê o suspeito. E isso não deixa de ser uma vantagem: vai nos permitir armar a história em meia hora. um bigode falso. De frente. vigiando. GLÓRIA . óculos. fica no automóvel. e a forma como ele irá tecendo a teia de aranha para que a mulher caia na armadilha sem perceber. Achava tudo muito confuso. quando ela. Aqui a mulher o reconhece . GARCÍA MÁRQUEZ .. GLÓRIA.que o deleta.Vou confessar uma coisa: no começo.O supermercado tinha um sistema de vigilância eletrônica. guarda essa impressão e começa a investigar. Ele tira a peruca tranqüilamente. o jeito de mover a cabeça . GARCÍA MÁRQUEZ .. Como resolver os problemas que um atentado representa? Como tornar verossímil a conduta da mulher e do marido. quero dizer. mas não me convence.Depende.Agora sim. Ele se disfarça. mas tem alguma coisa naquele homem . Ele fez algumas compras. GARCÍA MÁRQUEZ . O importante é esse passo prévio. porque de costas qualquer um reconhece qualquer pessoa. Uma pessoa pode se disfarçar tão bem que nem sua própria mãe é capaz de reconhecê-lo. aparentemente para dar cobertura à mulher: Ela desce do carro e caminha apressada para o lugar combinado. não tem nenhum escrúpulo. arranca o estojo das mãos dele? Como interpretar a atitude do homem. ela tem um palpite: é ele.ou pelo menos suspeita . vendo a mulher se aproximar do palco levando a bomba? Mas agora estamos esboçando uma história possível. por causa do disfarce. são as peças desse disfarce: uma peruca. no dia seguinte. É um problema técnico. na frente do teatro. O camarada é impiedoso. GLÓRIA .. é a sacola do supermercado.a proposta parece boa. Bem.. o que dá a pista. tenho a impressão de que encontramos o caminho. só por um instante. achei que seria absolutamente impossível encaminhar a história por onde você queria. é verdade.

no noticiário da televisão. naturalmente. GLÓRIA . justamente o que ela reconhece. REYNALDO ..Por que não desenvolver as duas linhas de tensão ao mesmo tempo? GARCÍA MÁRQUEZ .Ela morre..GLÓRIA . Assim estará sendo criada uma tensão: será que ela sabe. todas. ROBERTO . ou então estão sendo localizadas. Tem dúvidas. sim: o da mulher falando por telefone com o sujeito do teatro: “Não. O que se informa. mas há alguma coisa estranha.. vai informar ao marido o que aconteceu.Porque é mais complicado.Quando ela vê a imagem do suspeito na televisão. senhora. não deve ter certeza de que é o seu marido.Nós vemos o marido preparando o atentado seguinte desta vez. cuja imagem vemos em câmera lenta. à polícia.. ROBERTO . e não justifica o esforço. é que a polícia está procurando aquele homem. a original. GARCÍA MÁRQUEZ . agora eu lembro que na sua versão. ROBERTO .diálogos curtos e contundentes .Se você usar poucos diálogos no filme . GARCÍA MÁRQUEZ .. GARCÍA MÁRQUEZ .A única coisa que lamento é que se perca o caráter não verbal da história. basta.Seja como for. O locutor do noticiário pode falar. Com isso.A tensão surge quando ela começa a remexer a casa. e se intensifica quando o espectador intui que o marido está preparando uma armadilha para a mulher. E o homem é. Poderia estar relacionado com o violino.Não vá complicar demais a vida. GARCÍA MÁRQUEZ . havia diálogos. ROBERTO .. mas ainda não suspeitamos que a vítima será ela.Você tem razão: fazer um filme totalmente mudo é uma exibição técnica desnecessária. será que não sabe? GARCÍA MÁRQUEZ . GLÓRIA .E o que ele diz é que todas as pessoas que aparecem no vídeo já se apresentaram.Exceto a televisão. a polícia identifica o cadáver e.”. voluntariamente. ROBERTO . aumenta o nível de intriga do filme. sexta-feira o primeiro violino. menos esse homem aí.Essa ia ser a única frase no filme inteiro.o espectador acabará tendo a impressão de que é um filme mudo. GLÓRIA .Um detalhe qualquer o delata. com a ajuda da mulher -. Nesse momento a polícia ainda não suspeita dele. GLÓRIA . 108 . Eu havia concebido uma história sem diálogos.E por que não? Vamos fazer um filme mudo.GLÓRIA.

“Não. A figura misteriosa do supermercado serve para que a gente ponha a mulher em movimento.. Até aí.Eu gosto da idéia de que ela descubra que o marido é o terrorista.São idéias. Tem que pedir alguma coisa importante. O que está. Achei que havia consensoem relação a um ponto: a filme começaria no supermercado.que é o marido. mas intui . senhora. ela fica olhando fixo para o suspeito. um pouco cruel e disparatada.tocam hoje Schubert e.. sexta-feira. REYNALDO .Ela suspeita que o marido tem uma amante. quando os dois assistem ao jornal na televisão.. na sexta seguinte liquida uma figura pública. por acaso. O que me interessa é ressaltar o nexo que existe entre rotina e amoralidade.Ela telefonou para o teatro no momento em que ele entrou no supermercado. e não um DomJuan. 109 . mas que nos obriga a mostrar o processo de investigação policial. GARCÍA MÁRQUEZ . GLÓRIA . amanhã.No começo. E tentando confirmar isso. mas movida pelo ciúme. procurando um sinal de culpa? Encontra. sabe . descobre que ele é um terrorista. mas ela não aparece no filme.Tem uma investigação .Eu gostaria que a gente explorasse a idéia. ROBERTO .Nós não podemos retroceder. o motivo principal poderia ser ciúme. para que ela se sinta motivada. do “terrorismo cotidiano”. GLÓRIA . Estou pensando no líder sindical: por que ele não pede a ela que ajude nesse atentado? REYNALDO . Mas o que parece estar contando é a preparação de um atentado. Não diz nada. por exemplo.no nosso caso. Uma sexta-feira o camarada manda um supermercado pelos ares. ciúme.” etc. Claro que o marido não pode pedir a ela: “Por favor leva essa roupa na lavanderia para mim”. Beethoven: por hábito. com a mulher como centro da operação. Ela começa imediatamente a revistar a casa.Quero saber em que ponta estamos. motivando a mulher? Ciúme ou a suspeita de que o marido é o homem do supermercado? REYNALDO .ou melhor. o violinista ...GARCÍA MÁRQUEZ .Tudo isso é muito abstrato. GLÓRIA . Ai está o motivo. SOCORRO .Pois é. GLÓRIA .O que o filme conta é a preparação de um crime perfeito.e horroroso -. GARCÍA MÁRQUEZ .. É um delito . mas eu prefiro que não exista nenhuma investigação.é preciso ter -. a peruca ou uma caixa de maquiagem entre as coisas dele? De noite. e faz isso da mesma forma que os músicos .

Ao ver que foi descoberto. É um pouco grotesca. Da amante quero dizer. vai até o armário.Pode ser até que ela se alegre e peça perdão ao marido. mas diz muito sobre o caráter frio e desumano do terrorismo.. buscando as provas do delito . GARCÍA MÁRQUEZ . pergunta. um fio de cabelo louro na lapela do terno. O resto do filme seria dedicado a contar como ele se arranja para se livrar dela. com o episódio da televisão. VICTORIA . GARCÍA MÁRQUEZ . ele vai fingir que a ama como 110 .Vamos tentar manter a idéia do atentado semanal. mas que para ele pudesse. um simulacro. É preciso contar isso em menos de trinta minutos. ela vê a imagem do suspeito de costas.Estou pensando o seguinte: o camarada do supermercado está de chapéu. tira uma caixa de chapéu.Eu consideraria. eu sei que foi você.. Nesta noite.. Pode estar latente alguns minutos.um lenço manchado de batom.. vê que está vazia. Levanta. que já vamos ver quais são. servir para outras coisas. a possibilidade de de começar com o supermercado. Esse é o detonador: o marido foi descoberto pela mulher. que não sabe como explicar.GARCÍA MÁRQUEZ . a que mais convenha ao desenvolvimento da história.. ela encontra uma coisa estranha. . ROBERTO . REYNALDO . ao ver que suas suspeitas eram injustas. ao mesmo tempo. GARCÍA MÁRQUEZ .Os ciúmes a levaram a revistar a casa inteira. “Onde está o seu chapéu de inverno?”.faz isso toda sexta-feira de manhã -. o que significa começar com o verdadeiro drama. ela não precisa investigar nada. e por isso. a não ser que faça outro filme. abre..Esse é um motivo que a gente não consegue manter por muito tempo. que ele sente que a mulher está dizendo: “Não adianta mentir... reconheço. de qualquer modo..Os ciúmes aguçaram os seus sentidos. quando o violinista e a mulher estão vendo o noticiário na televisão. GARCÍA MÁRQUEZ ..Isso nos dá outra opção: assim. mas se desvanece em seguida. MARCOS . quando na noite dessa sexta-feira ela vê o sujeito com chapéu na televisão.Vamos deixar para estudar isso mais adiante.e nessa busca. Já sabe que o marido esconde alguma coisa . CECÍLIA . A questão do ciúme é um conflito falso. aquele que conduz ao desenlace. Nós precisamos agarrar a alternativa que mais nos atraia. E faz a pergunta de tal maneira.O ideal é que fosse algum objeto tipicamente feminino.. VICTORIA .

É como se agora.. os dois elementos se misturam.Quando a gente tem uma boa história.E que nesse caso. a outra. GARCÍA MÁRQUEZ . que o fim justifica os meios. ROBERTO .O fato concreto. no fundo. O violinista precisa matar a mulher.Porque.É que ele não precisa fazer isso para matá-la.E por que não podemos brincar com um conflito de sentimentos? Hoje ele a ama. deve evitar a tentação de complicá-la. que pode ser contada de maneira clara e simples. ao somá-la aos seus planos terroristas.Para falar claro: um tremendo filho da puta. GARCÍA MÁRQUEZ . a do dever profissional. como você o descreve: frio.E também não seria isso . mesmo que a ame.. o que precisa é ser fanático. GARCÍA MÁRQUEZ . Mas sente que precisar eliminar a mulher é um sacrifício.Por que não desenvolvemos as duas opções separadas? Uma seguiria as duas linhas . amanhã finge que ama. mas o elemento do ciúme e do falso romance enriquecem o personagem dela. Não precisa fingir que a ama. Tem que passar por cima de qualquer tipo de considerações .. por que não? As duas coisas são possíveis. e tudo isso será apenas um engano premeditado. E tudo isso também pode enriquecer o personagens da mulher. os momentos mais felizes da sua vida. E vai fazer isso contando com um álibi perfeito. SOCORRO . REYNALDO ... GARCÍA MÁRQUEZ .o simulacro duplo -.e talvez até mais – se simular um entusiasmo súbito pela mulher? GARCÍA MÁRQUEZ . capaz de qualquer coisa. uma linha só. SOCORRO . certo. ROBERTO . Vão viver uma segunda lua-de-mel. para dar a bomba a ela.para cumprir as normas de segurança.. Ele mata a mulher porque não tem outra alternativa.Para mim..Isso é verdade no ponto de vista dele. Vamos desenvolver as duas opções.. Isso torna tudo mais dramático. e até mesmo com mulher. ele a redescobrisse como camarada. e veremos que problemas cada uma traz.Ele pensa.O que me preocupa é a idéia de que o crime político possa ser confundido com um crime passional. GARCÍA MÁRQUEZ . é que ele vai matá-la.inclusive as sentimentais . como todo bom terrorista. GLÓRIA . GARCÍA MÁRQUEZ . O homem é um tipo frio implacável.nunca. o sujeito é exatamente assim. ele a ama. mesmo que seja passageira. Eu gosto da idéia de que passe por 111 . mas de repente tem uma crise emocional. acreditar que acima de tudo existe a sua causa.

112 .Deus te perdoe! ROBERTO . Ficou preso quarenta e cinco anos. GLÓRIA . GARCÍA MÁRQUEZ .. explodisse nele? REYNALDO . que poderia ser São Paulo. Não tem para onde ir. Está velho. por que não foge com ela? GARCÍA MÁRQUEZ . e murmura: “Eu daria qualquer coisa para poder voltar atrás e começar de novo”. Vou trabalhar.. e mais brutal for a morte da mulher. com mesinhas de mármore e cadeiras de madeira . GLÓRIA . Podemos chama-lo de João. mais impessoal: ele só cumpre ordens. É a história de um preso recém-saído da cadeia.E se a bomba. seu rosto sulcado pelas rugas. VICTORIA .O que a gente ganha com isso? SOCORRO . inclusive do amor.Porque este é um filme selvagem.Ainda não. e vê seus cabelos brancos. Olha para o espelho.O sujeito se reúne com os membros da sua organização e conta a novidade: “Minha mulher sabe”. E ele sabe muito bem o que isso quer dizer. Acaba de cumprir sua pena. GARCÍA MÁRQUEZ . o trânsito infernal.Qual a idade do homem? ROBERTO . setenta.Se ele a ama tanto como vocês dizem. REYNALDO . GLÓRIA . feito um autômato.Acho bom avisar que trouxe uma história complicada.Gostei: que seja a organização terrorista que decida que é preciso liquidar a mulher: Assim. por algum erro de cálculo. “Então você tem de matá-la”. João não agüenta o barulho. Caminha assustado por um bairro periférico da cidade. Vê um bar – um velho botequim cheio de espelhos. distraído.e entra suspirando. como se enfim tivesse encontrado o refúgio que procurava. tudo fica mais frio. melhor. E ponto final. dizem a ele.“Ou você mata”.Ou que a justiça divina existe.Confirmar a idéia de que o crime não compensa. Está na rua há algumas horas.. ROBERTO . VICTORIA . porque quanto mais implacável ele for.. “ou nós matamos”.Tem título? ROBERTO . História de uma vingança ROBERTO .Tenho um montão de anotações. Senta e pede uma bebida. uma cidade grande.Agora? Setenta e cinco anos. a vertigem da vida urbana.cima de tudo.

Sua voz soa no fundo do espelho, como um eco, como a voz da Morte. E João ouve que a mesma voz diz: “Eu concedo a você esse desejo, mas com uma condição: que esqueça o passado. No passado estão as sombras. GARCÍA MÁRQUEZ - Isso ainda não sabemos, mas suspeito que sim, que quando ela se olhe no espelho ouvirá em off. Ou as vozes, porque ela também fala, lembre-se disso, e 'ouve' a própria voz. Está reconstruindo mentalmente o diálogo da sessão de análise, embora com os papéis invertidos. A capitulação que se produz como conseqüência desse diálogo também é ao contrário, porque é uma capitulação no bom sentido. A partir daí, ela assume sua realidade, a da sua própria vida. MARCOS - Por que ela decide descer para a festa? CECÍLIA - Porque ela mesma se psicanalisa. ROBERTO - Para mim, isso não está muito claro. E acho que a falha está no primeiro encontro dos dois. Não resolvemos esse problema. GARCÍA MÁRQUEZ - Você não está pensando que ela desceu porque se apaixonou por ele... Pode até ser que se apaixone depois que for dormir, mas agora ela só está buscando um flerte. ELID - Ela encontrou, no argentino, seu tocador de maracas... ROBERTO - Não acho que seja preciso alguém ir para a cama, ou, pelo menos, por enquanto, ou não neste filme. O que acho é, primeiro, que não conhecemos realmente o argentino, e, segundo, que por isso mesmo não desenvolvemos o primeiro encontro dos dois, porque não saberíamos como resolvê-lo. GARCÍA MÁRQUEZ - Por que não deixamos as novas sugestões para depois que a estrutura estiver pronta? Do contrário, o que aceitarmos como consenso agora será derrubado um minuto mais tarde, e pecisamos impedir isso do jeito que for: Vocês estão agrupando as vacas antes de terem erguido a cerca. CECÍLIA - Eu anotei tudo. Aqui, na anotação número treze, está: “Ela está de volta ao seu quarto, chega o carrinho com a comida, ela se olha no espelho e, enfim, se rende”... GARCÍA MÁRQUEZ - Desce para afesta, se reúne com o sujeito e dança um tango com ele... ROBERTO - Está radiante, vestida com uma roupa azul e branca, como a bandeira. CECÍLIA - Anotação número catorze: “Vemos a mulher entrando, mas do ponto de vista do argentino”.

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REYNALDO - Ela se encontrou. Agora poderia se chamar Libertad Lamarque, ou melhor ainda, Imperio Argentina. GARCÍA MÁRQUEZ - E o filme deveria se chamar Último Tango no caribe. REYNALDO - A dança é uma citação de Rodolfo Valentino, do mesmo jeito que o helicóptero era uma citação de A Doce Vida... me refiro à cena em que Valentino dança assim, de perfil, com o enquadramento picado, e, de repente, a câmera se aproxima e fica assim... Essa cena marcou época. GARCÍA MÁRQUEZ - Todo mundo sai dançando, mas no final deixam os dois sozinhos... O que você acha, MARCOS? Tem alguma coisa nesta história que você não goste?

O Inferno tão temido MARCOS - A única coisa da qual eu não gosto é a maneira como vemos a transformação dela, sua decisão de ir à festa. Acho precipitada. A ordem é esta: ela vê o touro esquartejado e sente náusea; volta ao quarto passando mal; deixa entrar o carrinho com o prato de churrasco; olha a carne e vomita; deita na cama para chorar, sentindo-se a mulher mais infeliz do mundo... É então que começa o diálogo na frente do espelho? Para que uma pessoa que se encontre nessa situação consiga reagir e decida se vestir, se arrumar, apresentar-se sorridente numa festa... bem é preciso mais do que uma sessão de psicanálise. REYNALDO - Mas aí há uma falha na sucessão dos fatos. A verdadeira crise acontece diante do touro esquartejado, e não na frente do prato de carne. Ela vomita lá embaixo, ao sair da cozinha. É essa, falando de maneira literal, a sua catarse. CECÍLIA - Cuidado com o tom. A comédia está ficando séria demais. GARCÍA MÁRQUEZ - Essa seqüência da qual você está falando, Marcos, tem realmente um começo, um meio e um fim? ELID - O elo quebrado, nessa corrente, é o do espelho. Não sentíamos que fosse uma motivação suficiente. GARCÍA MÁRQUEZ - Mas, será que ela sentia? Como psicóloga, tem uma capacidade de introspecção muito maior que a nossa. Se não é capaz de fazer uma reflexão profunda num momento de crise como este, então nós nos enganamos de personagem...

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MANOLO - O carrinho com o churrasco no quarto é um pequeno Cavalo de Tróia... É aí que ela sente que violam a sua privacidade, que invadem seu reduto... VICTORIA - A República Argentina empurra e humilha a pobre psicóloga argentina. GLÓRIA - Enquanto ela sai da cozinha, volta ao quarto e enfrenta a crise, lá embaixo estão assando o boi e ela tem tempo para serenar e iniciar seu diálogo imaginário com a paciente. GARCÍA MÁRQUEZ - Não trabalhamos esse diálogo ainda, não sabemos como ele é. SOCORRO - Ele acontece antes ou depois da chegada do carrinho? REYNALDO - Depois. A chegada do carrinho marca, para ela, o momento da sua aproximação emocional com o sujeito, ou seja, sua relação com os argentinos em geral e com esse cara em particular... Esse gesto a reconcilia com o seu mundo. E, por isso, ela agora tira a tampa da bandeja do churrasco, olha a carne e acha que é apetitosa. Pode ser até que prove um pedaço. A reflexão começa aí. SOCORRO - Ela prova a mesma carne que há alguns minutos a fez vomitar? REYNALDO - Aquela carne era crua, sanguinolenta. Esta carne é um delicioso bife argentino. MARCOS - Talvez aconteça, aqui, um problema de tempo. É preciso dar a ela uma verdadeira oportunidade para pensar. Ela poderia sair horrorizada da cozinha e do hotel, e começar a caminhar sozinha pela praia. Aí, nós voltaríamos aos estereótípos visuais o crepúsculo, as palmeiras, as silhuetas a contraluz... como se ela estivesse recuperando seu projeto original. E, de repente, a voz da paciente. REYNALDO - Acho que tirar a mulher do hotel seria um erro. GARCÍA MÁRQUEZ - É verdade. Se ela sair do hotel, sai do problema. MARCOS - Mas o desafio que faz com que ela ceda continua sendo fraco para mim. Não me convence. GARCÍA MÁRQUEZ - Se eu tivesse uma proposta melhor, faria, Marcos mas acontece que não tenho. Não me ocorre nenhuma outra idéia. Estaremos buscando caminhos diferentes, sem perceber? Não será que vocé está querendo achar uma solução muito dramática, e nós continuamos no plano da comédia? ROBERTO - O que precisamos encontrar é um bom elemento de humor negro.

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GARCÍA MÁRQUEZ - Lá estão os açougueiros argentinos, felizes da vida. Fazendo piadinhas e dizendo coisas engraçadíssimas enquanto esquartejam o touro. SOCORRO - Aliás, quero dizer que essa idéia do vômito não me agrada nem um pouco. GARCÍA MÁRQUEZ - Já sei que, na hora da verdade, o vômito não vai ser filmado. Os diretores se atrevem a mostrar náusea, por exemplo, mas não chegam no vômito nunca. E, se filmam, depois cortam fora. MARCOS - Esse é um detalhe que não me preocupa. GARCÍA MÁRQUEZ - Já sei. Você está preocupado com a força dos fatores que levam a mulher a tomar a decisão de ir à festa. MARCOS - Exatamente. Quando chegamos a esse momento e dizemos “pronto”, eu, simplesmente, não sinto isso, não acredito nisso. ELID -É Verdade que ela está acostumada à introspecção, mas quando decide viajar ao Caribe já não é uma psicóloga, é uma pobre mulher que quer viver uma aventura. O que prevalece agora não é o racional é o emocional. E quando seu projeto fracassa e ela percebe que não pode fugir, recupera sua personalidade anterior. VICTORIA - Como um mecanismo defensivo. REYNALDO - Como Dom Quixote em seu leito de morte. O próprio ato de reflexão a devolve ao consultório, ao ponto de partida. ROBERTO - Poderíamos fazer com que a paciente, no consultório, tenha feito a psicóloga dizer alguma coisa que agora repete, algo assim como “nós não escolhemos o lugar onde nascemos”, ou “ninguém escolheu o país em que nasceu”. GARCÍA MÁRQUEZ - É melhor que seja o contrário. É ela quem diz isso à sua paciente. E, agora, lembra. Há uma linda frase de Che Guevara, que diz: “A saudade começa com a comida”. É verdade. A gente sente a mordida da saudade quando estamos longe do nosso país e temos, de repente, vontade de comer coisas que comíamos quando éramos criança. MARCOS - Ela tem de perguntar a si mesma: “Que diabos de profissional eu sou, dizendo coisas que não sou capaz de assumir?”. DENISE - É a fórmula clássica da moral dupla: “Faz o que eu digo, e não o que eu faço”. GARCÍA MÁRQUEZ - Ela não terá outro remédio além de chegar a esta conclusão: “Quem está mal sou eu, e não o meu país”. É ela quem tem que mudar. Ao assumir isso, ela se abre tanto às misérias quanto às grandezas de

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disse: “Já sei.O argentino mandou. ela começa a pedir notícias da Argentina aos seus compatriotas. ELID .Senhoras e senhores.De repente. uma confusão com a Academia de História.Vocês perdoem a minha insistência. Uma viagenzinha simples pelo Magdalena acabou virando uma confusão sem fim. SOCORRO . um belo dia. um simples elo de ligação da 'conexâo argentina'. saber como era. é. É o gesto dele que a obriga a pensar. GARCÍA MÁRQUEZ . e o que saiu foi a vida de Simón Bolívar.. Há anos eu queria escrever sobre uma viagem pelo rio Magdalena.. Marcos. não..E veja só onde é que viemos parar! É preciso ter fé em qualquer imagem original. do resto do mundo. mas continuo achando que o personagem do argentino não tem força suficiente. que nos diga alguma coisa. não teríamos filme. MARCOS . na festa. na verdade. Desde que eu era menino sonhava com essa viagem. no carrinho. Era uma ilusão à toa da paciente.O helicóptero sozinho.seu país..E se empolga com a possibilidade de que o seu time ganhe. Para a outra. pode valer. GLÓRIA .. queria fazer um filme sobre as maracas. Por isso eu confio no meu guardachuva. que foi o seu ponto de partida. GARCÍA MÁRQUEZ . que jeito tinha. sem ele. apertem os cintos: o tocador de maracas voltou de Caracas! E ela imediatamente nota que o fulano não vale nem dez réis de mel coado. um montão de anos depois.. com a Academia nacional. e o que está escrito nesse cartão a comove.Só que agora ficou claro que esta não é a história de uma donzela.Sou solidário com você na sua dor. ROBERTO . MARCOS . aconteceu a mesma coisa com a imagem do helicóptero e do touro. lembram? ROBERTO . Vou pôr o Bolívar nessa”. e.Mas.Repito: eu nâo consigo ver esse gesto como um detonador 117 . se diz alguma coisa..Agora. quem sente saudades sou eu. Acabo de lembrar que. GARCÍA MÁRQUEZ .. É a história de uma relação difícil.. de três a zero. para ela. O touro chegou depois. a da psicóloga consigo mesma e com seu país. MARCOS . O sujeito passou a ser um elemento a mais. quase sempre.. o que saiu foi a última viagem de Bolivar. porque tem algo dentro. um cartão. Com você. e me perguntava como conseguir. como se estivesse longe há muito tempo. E quando enfim me sentei para escrever sobre a viagem. GARCÍA MÁRQUEZ . E comecei a estudar Bolívar. aquele guarda-chuva do qual falei no primeiro dia.

. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ .O chefe de relações públicas do hotel. Ele já é.. A verdade do paraíso e do inferno sempre está em cada um. Nossa tarefa 118 ..Ai. Nem sei mais quantos títulos a gente deu a este filme. O sujeito não é imprescindível. Eu adoro literatura..Um momento: então. por causa daquela frase de “Não se move.Isso aí é literatura. um elemento secundário no filme.A idéia. O verdadeiro detonador é o diálogo dela com a paciente.O diálogo dos dois não pode ser considerado 'literatura' e nada mais.É simplesmente a história de uma mulher que foi para os trópicos achando que ia encontrar o paraíso. meu Deus.Estamos fazendo roteiros.O gesto não é o detonador: é o fator detonante.Nada. e não ela.Acho que fizemos um bom trabalho.Ora. por que esse desprezo? ROBERTO . GLÓRIA . então.. e descobrir que ela vivia no paraíso.Talvez não aconteça nada.. Além das palavras. meu Deus! Não é mais um filme sobre os trópicos. nada. REYNALDO . ou se você preferir. o que iria acontecer? MARCOS . mas de repente tive a seguinte idéia: poderia ser O Inferno tão Temido. como Glória dizia muito bem. para amar-te” . VICTORIA . ROBERTO .. ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ .O primeiro que pedir.E se a gente cortasse fora o argentino.Porque estamos fazendo cinema. CECÍLIA . MARCOS . GLÓRIA . poderia ser resumida assim: uma mulher foge do inferno. GARCÍA MÁRQUEZ .E qualquer um pode dançar o tango com ela. nem um filme sobre o sul da América do Sul. existe aqui uma série de situações e sensações que obrigam a psicóloga a pensar. no inferno. a refletir.Quem tem de pensar é o espectador. não está nunca em outro lugar.Que curioso: uma nova versão de A Morte em Samarra. Nós pusemos esse sujeito aí só para que ela tivesse um interlocutor. e o que você tem contra a literatura? ROBERTO . mas o inferno acaba alcançando-a.Então.convincente. MARCOS . GARCÍA MÁRQUEZ .. quem vai fazer o convite? Quem vai mandar o carrinho com a comida? GARCÍA MÁRQUEZ .

Mas queria deixar claro. como no boxe. Dentro do relato é preciso estabelecer categorias. mas sermos capazes de examinar o processo através do qual uma história é feita. tem uma coisa: nós temos de trabalhar sempre nossos projetos como se fossem pesos-pesados. o time de futehol. É uma premissa do trabalho criador.não é tanto armar uma história . GARCÍA MÁRQUEZ . não tem grandes fissuras. Se para você uma idéia como a de Cídadão Kane é realmente mente atraente. MARCOS . não deveríamos começar por questionarmos se uma psicóloga é o tipo de personagem adequado para uma comédia de televisão? GARCÍA MÁRQUEZ . como se todos tivessem que ter a a mesma pegada de um peso-pesado. GLÓRIA . o touro.Eu me preocupo com o seguinte: que você encontre falhas na história. fazemos. Mas ainda é preciso definir. ponha mãos à obra que você acaba alcançando com com ela. e vale tanto se você quer vender uma comédia para a televisão quanto filmar Cidadão Kane. Vai ser um pouquinho mais difícil. eu posso dizer: estruturalmente. O que sempre serve é a procura.Ou seja. o que precisamos estudar é o mecanismo da busca. Tem mais: se vocês não quiserem essa história. VICTORIA .Bem. como a festa. Marcos. um dinheiro que não é nem para o nosso bolso. Mas há coisas. Eu acho que tem.Tem tudo. o hino.Não: esta história já está madura: tem o helicóptero. É procurando a história que encontramos o método.. e consiga identificá-las. se for assim. Se você quiser fazer o seu Xogum. Eu sei o que posso fazer com ela. tudo bem. se você não acha que pode fazer com ela o filme da 119 . polir.. um peso-leve tem que estar na melhor forma possível. Portanto.E agora você a sente sua.O questionamento é inevitável. Mas se a idéia não convence você. Agora. E isso é o que importa. que precisam ser desenvolvidas. do mesmo jeito que um pesopesado.Sim. E verdade que não estamos elaborando o roteiro de Xogum. MARCOS . em seu nível. GARCÍA MÁRQUEZ . Forma parte da busca. o produto tem que ter sua dignidade. pode ou não servir -. o hotel. Marcos? Já acredita nela? GARCÍA MÁRQUEZ . Para sair lutando com dignidade.. GARCÍA MÁRQUEZ . aceito como presente. MARCOS .Estamos fazendo uma diversão para televisão para ganhar dinheiro. que eu disse que esta história não sirva. Uma coisa. afinal. mas no final a gente consegue. algo digno de Cidadão Kane.que.Eu estou de acordo com o peso que ela tem. ajustar. no nosso caso.

falta alguma coisa no ponto número catorze. GARCÍA MÁRQUEZ . Você vai para o seu quarto.. é com você. como A História Imortal.. viva sua aventura com esse sujeito e.Eu acho que para os efeitos do roteiro não devemos esquecer ou desprezar a proposta original: “Uma psicóloga que nunca teve um caso de amor de repente acaba tendo dois. GARCÍA MÁRQUEZ . dei os originais a vários amigos.Uma espécie de Rosebud? GARCÍA MÁRQUEZ . de Orson Welles.. Sofri uma desilusão tremenda. Quando eu terminei O Veneno da Madrugada. Eu me sinto profundamente satisfeito com o nosso trabalho... no Caribe. descansa.. O personagem feminino é da Jeanne Moreau. MARCOS . me salvei. desses que costumam ser muito críticos.O filme da sua vida não vai ser de meia hora. que nesta história há muitos elementos que eu incluiria. GLÓRIA . é boa. Vamos dar um tempo..”.. MARCOS . em se tratando do seu primeiro filme. você pode se dar por satisfeito.. porque se empacamos aqui. Isso faz que esta estrutura seja muito vulnerável. Pensava: “Agora sim me danei.. em compensação.Não há quem consiga tirar da minha cabeça que alguma coisa muito importante escapou da nossa análise. Senti que o meu mundo caía. meu primeiro romance. ROBERTO . pensa no assunto e depois a gente conversa.Tudo bem.Eu garanto que sim. ouve um pouco de música. nesta escaleta. primeiro romance é um grande romance”. claro. É verdade que a aventura com o argentino não é essencial. no filme da minha vida. nunca saberíamos a razão de. MARCOS . mas não deixa de ser interessante o fato de que ela nunca encontrasse em seu país o príncipe encantado. mas.Entâo.Pois eu. Veja bem. e não conseguia parar de repetir: “Eu me danei.sua vida. sem dúvida. VICTORIA . não é um grande livro”. meu problema já não é com a história: agora. e que de repente aqui. e eles me disseram: “Parabéns. Devem ter notado alguma coisa no meu rosto. Se bem que poderia ser de uma hora..Estou vendo que aqui. A seqüência está aqui mas incompleta.Só que eu acho que estou vendo na sua cara uma sombra de dúvida. 120 . porque se apressaram a acrescentar: “Nenhum. Vocês viram esse filme? Um filme tremendo! É a história de um marinheiro que volta para casa. MARCOS. GARCÍA MÁRQUEZ . me danei. ao mesmo tempo. numa ilha do Caribe”. Tomara que não seja a chave deste filme. Sou incapaz de escrever alguma coisa melhor do que esse livro”..

De verdade! SOCORRO . acabaria matando o pai e casando com a mãe. Vocês lembram da história de Édipo Rei? Édipo é um pobre coitado que vai por uma estrada. com quem havia se casado.. No final. Que aqui. seu próprio pai havia mandado matá-lo. mas o encarregado de cumprir a ordem ficou com pena e desobedeceu. Segundo essa previsão.Mas eu não estou me queixando... Édipo começa a investigar e acaba notando várias coisas: que ele era o herdeiro natural do trono de Tebas. na verdade. mas enfim. ela encontra o amor. daqui em diante.se reconcilie com seu país. para ela. era sua própria màe.. Se eu encontrar alguma falha.Vou estudar cuidadosamente a estrutura. como a Tebas. Desta forma ele cumpria um agouro da pitonisa. O que vocês acham disso? É uma estrutura perfeita. é exatamente o que pretendo fazer no roteiro de um filme que irá se chamar Édipo Prefeito. é isso que vem sendo feito há quatrocentos e cinquênta anos.. Para impedir que a profecia fosse cumprida. aquele menino. e veja onde já estamos: num legítimo tango. meu caro. “Quando se descobrir quem matou o rei. e Édipo vai consultar a pitonisa. Uns ladrões o assaltam. sem altos e baixos.Por que não recapitulamns sobre nossa proposta de estrutura? 121 . Um homem é nomeado prefeito de uma cidadezinha. suas contradições sejam resolvidas: não deixa de ser uma metáfora atraente. Aliás. será como o tango: “Não haverá mais penas nem esquecimentos”. e que a rainha. mas também do lado de casa. Marcos? Veja só: você chegou aqui com uma mulher que vê um helicóptero descendo enquanto toma sol numa piscina. Édipo vira rei. vaticina a pitonisa.Pode até ser que a gente não tenha acrescentado grande coisa. o resto a gente resolve fácil. na Colômbia. que existia desde a época em que Edipo nasceu. que perdera o marido. que um dos supostos ladrões que ele matou era.Vamos supor que. “a peste acabará”. GARCÍA MÁRQUEZ . na pessoa do seu vizinho..No Caribe. Uma peste desaba sobre Tebas. num mundo tão diferente do seu. é premiado: se casa com a rainha. a cavalo dado. podemos discuti-la depois. Dentro dessa estrutura.Se conseguirmos encontrar uma boa estrutura. MARCOS . seu pai.. MARCOS . sem nenhuma trinca. GARCÍA MÁRQUEZ . Quando chega a Tebas.. o homem descobre que ele mesmo é a causa da violência que tenta combater. filho do rei. teu antecessor”. MARCOS . a gente pode colocar o que quiser. GLÓRIA . Édipo mata os ladrões..No Caribe. O que mais você quer. para que tente acabar com a violência.. DENISE . Na verdade.

E em seguida acontece a reflexão. e de noite seria papado no jantar. para facilitar a elipse.uma matinée.O grande problema parece estar entre os pontos treze e catorze: a decisão de ela ir à festa . e uma noite de gala... mas é o que impede que a história se esparrame ou perca o rumo. sua rendição . aí.Isso nos obrigaria a refazer a escaleta inteira. Ela sobe ao quarto. uma idéia.Sobre isso. tentanto fugir.Mas há coisas que despertaram rejeição e outras que despertaram consenso.. DENISE . o touro estaria desfilando enquanto ela.. A Oficina é um jogo no qual estudamos a dinâmica de grupo aplicada à produção artística..Muito bem. DENISE . por telefone.Ele mesmo levou o convite ao quarto da mulher. o diálogo na frente do espelho. Marcos: agora. É verdade que a estrutura não é a história. isso não se discute. está tentando. e o esquartejamento.. CECÍLIA . REYNALDO . 122 . O que não ficou claro para mim foi a proposta da montagem paralela. saímos ao corredor. É uma operação de brain-storming aplicada a uma história.Havia um convite anterior. MANOLO . onde já começaram a esquartejar o touro.Seja como for. e a de abrir mão do argentino. e fica adormecida ou semi-adormecida. ela. CECÍLIA .Continuamos com medo de que existam fios soltos. as ações e os tempos. ELID . SOCORRO .Naquele momento.A festa poderia ter duas 'etapas' . você tem de começar a trabalhar. sua desistência.Depois.. em seu quarto. é preciso ver como se cruzam. onde toma um comprimido para dormir. GARCÍA MÁRQUEZ . no momento em que ela estava querendo descer para tentar escapar. ROBERTO .e que nós chamamos aqui de sua capitulação. O touro desfilaria na matinée.Ou seja. mudar de hotel e. Podemos até fazer uma tentativa. vendo pela televisão a entrevista do argentino. além disso. com o diálogo dela com a paciente.. não houve nem deixou de haver consenso. CECÍLIA . porque faz parte do nosso jogo. por um lado. O convite que levou era para a noite de gala. iria parar na cozinha. ela estava indo para a matinée. não sobraria pedra sobre pedra. Por exemplo. REYNALDO . Temos aqui uma estrutura.. do argentino. por outro. Se trocarmos agora essa estrutura. REYNALDO .e a chegada a festa. a idéia de tirá-la do hotel. com tudo que acontece depois. e vemos chegar o carrinho com o churrasco.

não vou discuti-la com ninguém”. o cinema . Olha seus documentos e. Agora. Gira a cabeça. realmente. câmera na mão. ou outra pessoa. Não é qualquer um que tem uma idéia dessas. Quantos terão imaginado essa cena. Aqui nos conhecemos mutuamente. se dissermos a nós mesmos: “É perfeita. a cultura. não está na técnica . e a faísca. Quando torna a se olhar no espelho. não vou mostrá-la a ninguém. João fica atônito. não sabe o que dizer. qual a corda de cada um que vibra. através do debate. Isso é o que costuma ser chamado de trabalho em equipe. e a habilidade de cada um.. Claro que.. porque o trabalho de escrever romances é absolutamente pessoal. João mal crê no que vê. pensativo. a experiência. em todo mundo. e ficaram nisso? A idéia morre ao nascer. Oficinas como esta são feitas para quem não pensa assim. para começar a 'escrever' seu filme ali.uma imagem. e murmura: “Aceito”. não tem mais do que vinte e cinco anos. não basta. achando que havia algum jovem atrás dele. todos esses elementos vão se encaixando e se completando mutuamente.nem mesmo na técnica do roteiro. talvez.Ele mesmo. E então vemos como.ou pelo menos o cinema de ficção estará submetido à literatura. em que aspectos o talento se manifesta melhor... com a idade que tinha quando entrou na cadeia. superestimar o tralho do roterista. só com isso. Naquele momento o garçom traz a bebida. E hoje a grande falha no cinema. que é. vê um jovem. qualquer coisa que possa chegar a se converter num filme. um trabalho técnico.repito.Ele mesmo. A gente se sente tentado a dizer que sem roteiristas não há cinema . volto para buscá-lo”. como num quebra-cabeças. e sim na falta de idéias originais. João bebe. No dia em que as sombras alcançarem você. Mas enquanto for preciso escrever um roteiro para rodar um filme. não haverá filmes. Nada disso: é ele mesmo. mas isso seria. completamente diferente? ROBERTO . que poderíamos dizer que é uma técnica criadora -. na frente dos atores? Seria um grande dia para o cinema. pela data de nascimento e pela fotografia. 123 . é agora um homem de vinte e cinco anos. Sem essa base literária mais estreita que ela seja. aliás. que não pode ser feito por um romancista. VICTORIA . cinema argumental -. com helicóptero e até touro. mas com quarenta anos a menos. sabemos como pensa cada um de nós. em boa medida. surpreso. Um trabalho. como era quarenta anos antes. O que o cinema atual necessita é encontrar esse pobre coitado que um dia começa a imaginar uma mulher frustrada que está tomando sol ao lado da piscina e de repente vê aparecer um helicóptero. Será que alguma vez haverá um diretor que vá para a rua.

João sai do bar. O homem tem mais ou menos a mesma idade verdadeira do João . E um belo dia.ou no jovem que aquele homem tinha sido durante anos e anos. e foi preciso reforçar a linha de montagem. Todo mundo estranha.. João trata de se dominar: Ouve. sorridente. dentro de si. Estão despedindo muitos operários. talvez porque tenha pensado nele .Mas se estão mandando gente embora. em homenagem ao seu falecido amigo .manda chamá-lo. mas finalmente começa a trabalhar como operário numa fábrica.. a duras penas. VICTORIA . Tem que fazer filas enormes durante muitos dias.ou da empresa que é dona da fábrica . João se despede sem revelar a verdadeira identidade. Diz que acha curioso. então ficaria assim: “São lembranças da minha juventude em Bonaire”. o dono da fábrica . e de que um juiz .tinha sido 124 . como foi que contrataram o João? ROBERTO .uma figura destacada na cidade . diz o velho. porque o desemprego é grande. do assalto a um banco. que vai garantir a João um emprego estável na sua empresa.Era um contrato de trabalhador temporário. e podemos até chamar a cidade de Bonaire. Lá.. o reconhece imediatamente. e começa a buscar trabalho nas vizinhanças. quando tinha a sua idade. Controla seus nervos. VICTORIA . feito por três indivíduos... “São lembranças da minha juventude em xis”. ao ver o empresário. A verdade é que o jovem João. ainda mais um recém-contratado. que ele não vê desde que era muito jovem.Uma fábrica de quê? ROBERTO . porque João inclusive se parece muito com o seu amigo. se hospeda numa pensão humilde. diz ele. ROBERTO .uns setenta anos mas para João seus traços são inconfundíveis. consulta velhos jornais locais. A fábrica havia recebido um pedido urgente de relógios. O empresário quer que o jovem saiba.De relógios. Aquilo tudo acaba virando um capricho do velho ou uma história curiosa. na biblioteca. O empresário. porque é raro que um grande empresário mande chamar um operário. Num deles há a notícia de um roubo.. a voz cavernosa da Morte: “Esqueça o passado”. sua cidade natal. explica que mandou chamá-lo porque João tem o mesmo nome e o mesmo sobrenome de um velho amigo seu.decidiu falar com ele.ele acha que o amigo morreu -.”. “de uma época na qual você ainda não havia nascido.Passam-se os dias e João não consegue se conter: Aproveita e vai a Bonaire. e o empresário. SOCORRO . ao ver o nome de João na lista nome e sobrenome .Mas reconheceu o velho. E a idade do velho corresponde aos cálculos de João.

“ Vamos tomar alguma coisa”. João mal prova a bebida. que o empresário se dirige justamente ao bar dos espelhos. Agora. é quem atirou no juiz . Eu imagino esta seqüência como um pesadelo: o bar está cheio de gente.vocês já devem ter adivinhado que é o verdadeiro culpado. Ninguém mandou notícias para a cadeia. ele não soube mais absolutamente nada do que tinha acontecido. ROBERTO . SOCORRO .. Quer descobrir o que aconteceu com seus dois cúmplices e. o mesmo onde sua metamorfose ocorreu. incita o outro a falar. vai sendo promovido na fábrica ou na empresa. Gloria .Por que João tem de ir a Bonaire para conseguir essa informação.não consegue viver com seu remorso e quer se redimir através daquele jovem. e nada mais.A partir do momento em que foi preso. e convida João a sair com ele. João e ele saem e nosso percebe. mostrando-se muito interessado.não podia garantir qual dos dois. as imagens duplicando-se nos espelhos.Não obedece à Morte. uma atrás da outra. Assim.Não é que ele perdeu a memória. com a simpatia do empresário. GARCÍA MÁRQUEZ . que lembra tanto seu companheiro de juventude. VICTORIA . com surpresa. destruído a 125 . Pedem uma garrafa e o empresário começa a beber sem moderação.morto no assalto. além disso. informa que está satisfeito com seu trabalho. ao ouvir o homem perguntar o que um homem que teria traído um amigo. é que ele não sabe mesmo. ROBERTO .João é um bom trabalhador. o empresário . o empresário bebendo e falando. João. E de repente João. até chegar a ter um posto importante. VICTORIA . sobretudo. Os cúmplices desapareceram sem deixar pistas.Ele acabou sendo o único culpado. Na realidade. tem muita experiência embora ninguém pudesse imaginar . Só sabe que não foi ele quem atirou. Era um homem sozinho. GARCÍA MÁRQUEZ . o que se falou da morte do juiz. sem família. Na verdade. diz. mas não consegue esquecer. E isso é grave. durante o assalto.Mas o espelho não tinha dito para ele esquecer o passado? ROBERTO . A culpa dessa morte caiu em cima dele. Um belo dia o empresário manda chamá-lo. Os outros dois fugiram e nunca mais se soube deles.Aí é que está o problema: ele quer. Deixa que o outro beba e fale pelos cotovelos. um ruído infernal.e agora conta.Foi preso e não soube o destino dos seus cúmplices. do crime que o condenou injustamente. quer saber.. embora ele soubesse muito bem que o tiro tinha sido dado por um dos cúmplices .

e em seguida.João tenta esquecer tudo. quando fica sozinho em seu escritório. tem. uma por uma. Dá na mesma. Pode ser que tenha trabalhado na cadeia consertando relógios. O filme começa falando de uma coisa. algemado.É um filme estranho. ROBERTO . João morre junto.Porque a Morte veio buscá-lo. mas porque nesta história tem tudo a ver com o Tempo. SOCORRO . De repente. o rosto do seu amigo.Eu não acredito. ROBERTO . Não seria assim.. VICTORIA .é um filme de vingança. fala de outra. o velho amigo que ele achava que tinha morrido na cadeia? No momento em que empresário morre. vê a parede empapelada pelos recortes.dos jornais velhos. “Nada”. vamos ver. que encontrou em Bonaire – e começa a olhar para elas. Assim. E em relação à promoção. e João se senta na frente dele e olha sem dizer nada. que esse filme possa ter só meia hora.. poderia fazer para se redimir . João liga para o empresário pedindo que por favor dê uma passada na sua sala. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . E quando o empresário entra. porque o que fez é imperdoável”. SOCORRO. tira da gaveta da escrivaninha umas cópias .. “Não pode fazer nada. a cara de João começa a se cobrir de rugas e seus cabelos vão embranquecendo. mas precisava ter certeza..Morre? Por quê? ROBERTO. acho que já expliquei: o empresário. ROBERTO .O problema é contar isso tudo em meia hora.João suspeitava. e a primeira coisa que faz é romper o pacto. e percebe tudo. alguns dias mais tarde. apavorado.Aí existe uma contradição insolúvel: João pede à Morte outra oportunidade. porque tem uma coisa muito importante para mostrar.. GLÓRIA . mortalmente ferido.Agora. ROBERTO . na atualidade. O empresário se apoia numa cadeira. embora não entenda nada.Ele é um operário qualificado. porque tem a 126 . começa a trabalhar. ROBERTO .Eu acho que pode. diz João. sendo levado para a cadeia. O empresário olha aquele rosto.A maneira como João consegue trabalhar e vai sendo promovido é curiosa. João já tirou um revólver e começou a disparar. as fotocópias..vida do amigo para sempre. SOCORRO .Bem. Há uma fotocópia onde o próprio João aparece. GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO. João rompeu o pacto. Mas o destino o coloca de novo cara a cara com seu passado. e quero dizer que não escolhi uma fábrica de relógios ao acaso.

ROBERTO .. Quando se hospeda na pensão . claro.Mas a vida costuma debochar das nossas previsões: o jovem João acaba sendo um cara de sorte. ROBERTO ...A culpa clássica. Num minuto ele percorre todo o trajeto.Eu admito que o filme. Lembro de um menino que queria aprender judô e se aproxima. O mestre concorda em aceitá-lo como discípulo.. É preciso encontrar o tom adequado. REYNALDO .Deveríamos tentar elaborar uma estrutura... decide rasgá-los. depois com arrogância e finalmente com uma grande dignidade.já é jovem. jogá-los no lixo. ROBERTO . Portanto.Então. para colocá-las no armário. e é então que vê aqueles papéis amarelados. João podia morrer por lá. Podemos resolvê-lo visualmente.consciência culpada. REYNALDO . E aí vemos. ele já tem os recortes de jornal em seu poder.. quando João vai consultar os jornais locais. com muito empenho. Começa a subir na escala social. depois que tivermos uma estrutura que nos permita contar a história em meia hora. da maneira como se senta. depois com elegância. Carrega um embrulho com suas poucas coisas. tem um jeito meio insólito. Sua viagem é uma viagem ao passado.Os filmes para televisão têm que ser muito movidos. Devo 127 . através de uma simples sucessão de imagens. No começo. e entre elas estão os recortes. como o próprio mestre. favorece João. o erro fatal de todas as tragédias. que a gente use um narrador em off. com muita rigidez.. ou seja. uma coisa que João precisa esquecer. GARCÍA MÁRQUEZ . dobra tudo com cuidado e guarda numa gaveta. de um modo muito simples como se dá o processo de aprendizagem: através da postura do menino. do fundo até o alto. Podemos estabelecer isso como um fato consumado. GLÓRIA .Vai ser difícil contar em meia hora a história dessa ascensão meteórica. A menos. REYNALDO . Eu creio que para resolver esse processo não é preciso recorrer a nenhum narrador.João pode sair da cadeia com os recortes. Eles são o seu passado. VICTORIA . Acho que só vamos saber exatamente o que acontece. depois com mais soltura. os espectadores fazem zapping: mudam de canal. que se comprometeu a apagar da memória. ou pode acontecer.tira suas coisas do pacote... mas vacila. GARCÍA MÁRQUEZ .Mas é assim que João começa a romper seu pacto com a Morte. do velho mestre. o filme só teria cinco minutos. sua vida mudou radicalmente . Um erro grave. porque se não forem assim.Por que não começamos por limpar o caminho? Podemos suprimir a peripécia da viagem a Bonaire.

E o que o jornais sabiam? O único culpado foi ele. ROBERTO . durante esses anos todos.A técnica da telenovela.. não deixar que as sombras o alcancem.Nos filmes americanos está sempre acontecendo alguma coisa.Nem pensava nisso.João está começando a trabalhar nessa fábrica de relógios. inclusive para ele.Então. será que ele suspeitava que a fábrica é do seu antigo cúmplice? ROBERTO .. Por isso quer voltar no tempo. ter outra oportunidade.Na história do preso. em compensação. o que tinha acontecido com seus cúmplices? Não podia ficar sabendo pelos jornais? ROBERTO . mas a gente sempre acaba com a impressão de que alguma coisa está quase acontecendo. é diferente: não acontece nada. ROBERTO . ROBERTO . ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . Poderíamos facilitar muito se João tivesse ruminado sua vingança na cadeia. porque ninguém pode fugir das próprias sombras. de haver perdido a vida na cadeia. Ele faria qualquer coisa para recuperar esses anos. GLÓRIA . GLÓRIA. e ao sair fosse diretamente buscar seu cúmplice. Minha única preocupação é que.reconhecer que me dá um trabalho enorme imaginar o movimento contínuo. que já passou para todo mundo. Por isso continuamos ali. mas isso é um disfarce: sua memória e seu caráter continuam intactos... GARCÍA MÁRQUEZ . Põe uma armadilha para a Morte..... exceto no que diz respeito ao seu aspecto físico. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . só dispomos de meia hora para contar essa vida. Ou melhor. é a idade do personagem. acontecem coisas tremendas. um tempo real. mas em espaços de tempo longos demais. GARCÍA MÁRQUEZ . por um amigo. 128 . ROBERTO . esquecer o passado. O que atormenta João é o fato de ser um velho.Seu objetivo não é a vingança. Mas elas o alcançam. o verdadeiro culpado. Nós não vamos desistir desta assim tão fácil: é um desafio que temos de enfrentar..Eu posso trazer outra história. O tempo passou..Ele não cumpre a sua parte no acordo. Ele volta a ter o aspecto de um jovem.Mas aqui não é o tempo que reverte. com quarenta anos a menos.Ou é a Morte que põe a armadilha para ele. Em cada seqüência..João tenta mudar. GARCÍA MÁRQUEZ . alguma coisa acontece.Não. na cadeia.. esperando. não é assim. quer viver outra vida. João está vivendo.E durante quarenta anos João nunca tentou saber.

Pois a partir daí. GARCÍA MÁRQUEZ . tem que ter sido resultado de um longo processo judicial. a peça não pode mais se mover de outro modo. sem oposição nem resistência será que é isso mesmo. É pegar ou largar. João não tinha amigos. quando faz que as coisas aconteçam assim com facilidade. E nesse processo devem ter saído nomes. Cuahtémoc Ortodoxus. Para que o dono da fábrica ou o gerente de uma grande empresa reconheça o nome de um de seus trabalhadores. É como no jogo de xadrez.ROBERTO.. Tudo acontece como num sonho. ou seja.Não.Eu acho que você está se mostrando indulgente demais com você mesmo..E deixaram João apodrecendo na cadeia. nem parentes. SOCORRO. pistas. O que interessa é nós acreditarmos nela. em meia hora. que é quase de prisão perpétua.João não abriu a boca. e pede para conhecêlo. o trabalhador teria de se chamar. GARCÍA MÁRQUEZ .Que amigos? Fora os cúmplices. A terra engoliu. E com toda razão. misturados com outros cinqüenta numa listas de demissões. um sonho? ROBERTO .. A partir daí. mas dentro da lógica que você mesmo impõe . SOCORRO .Não.admito . por um crime que não cometeu. ROBERTO .. eu me sinto livre para fazer o que bem entender. Talvez eu esteja tentando contar. antes mesmo de começarmos a jogar. SOCORRO . E eu não consigo acreditar no que ROBERTO conta. e eu pego. Ele se negou a delatar os cúmplices.Eles sumiram.E a polícia nunca chegou a eles? ROBERTO . Isso não está bem resolvido.. Por que o bispo se move de lado? Porque foi combinado e aceito assim. GARCÍA MÁRQUEZ .e se impõe. ROBERTO .O que acho uma falha . Você pode fazer o que quiser.Não interessa se a história é ou não é inacreditável.é a maneira pela qual o empresário fica sabendo que o tal João trabalha para ele. ou Pirilampo 129 . a transformação de João num jovem de vinte e cinco anos. nem nada.Você está inquieto por causa do primeiro encontro de João com o empresário. uma história que precisa ser contada num longa-metragem. sei lá. A única coisa em que acredito é o mais inacreditável de tudo. GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO . Porque o assalto ao banco não poderia justificar uma condenação desse tamanho.Uma condenação dessas..

Mas precisa ser convincente. O empresário insiste: “Você é neto de João Cabral. 130 .não em primeiro lugar -.Praxedes. ou a implicação dos escritórios da empresa.Eu acho que os detalhes dessa história são convincentes.Mas você está fazendo isso de um modo muito peculiar: manobrando para que tudo se adapte aos seus propósitos. Se você apela para um recurso tão extraordinário como a mudança de idade. ao perceber o que aconteceu. “Sim.Mas não é o que todo mundo faz.Mas o encontro deles não deve ser casual. como podemos ver. GARCÍA MÁRQUEZ . sinto muito”. ROBERTO . REYNALDO . E diz: “E o que foi feito do avô?”..O empresário nunca suspeita quem João é de verdade? ROBERTO .Quando o empresário manda buscar o João. e os trabalhadores forem convidados para um brinde. SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ .Se for inaugurada uma nova seção da fábrica. Uma redenção impossível. de seus fantasmas . O empresário fica parado de susto.. quando morre. ao ver o verdadeiro rosto de Dorian Gray. Como em O Retrato de Dorian Gray. primeiro. isso mesmo”.O seu coração explode. A iniciativa deve ser do empresário. E pode dizer ao empresário: “Sim. que ninguém pode fugir de suas próprias sombras. responde João. GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO .Ele só percebe no fim. embora queira. ele vem. que João não consegue fugir de seu passado.. que quando era jovem morava em Bonaire?”.João gosto de João matar o empresário. senhor. Eu me chamo como ele”. Eu não queria contar a história de uma vingança . segundo – uma conclusão derivada disso -. “Morreu na cadeia”. O empresário deve morrer de susto. e sim a história de uma redenção.João não pode deixar que o culpado morra: precisa matá-lo. nesses casos? A criação é assim. na presença do empresário. GARCÍA MÁRQUEZ . por que não o utiliza depois em algo que valha pena? ROBERTO .. não precisa ser um jovem.. senhor. e. ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ .Porque então vê o verdadeiro rosto de João.Eu o utilizo para demonstrar. SOCORRO . nem acontecer por causa de uma decisão de João. Como este mundo é pequeno!. são os nomes do meu avô.Mas para consumar sua vingança. ROBERTO . ROBERTO .. pensa. sem vacilar: “Ah!.

SOCORRO .. e que ele fosse condenado por esse crime.E que. existe o fator dinheiro. Ele não encontra o empresário por acaso: levou quarenta anos acariciando a idéia desse encontro.Então. Além disso. Quer se vingar. como em O Conde de Montecristo.”. sem nem ir visitá-lo.. como é que eles vão se delatar. não por ter matado o juiz e deixado que seu amigo fosse condenado. eu vou ajudar você.diz o empresário.Estou preocupado com uma coisa: a culpa do empresário é ter matado o juiz? Ele também não é culpado por ter abandonado seu amigo na cadeia? ROBERTO . Os outros dois fugiram com o dinheiro roubado e ficaram com a parte de João. que foi o empresário quem atirou.Podiam ter mandado algum recado.Existe a possibilidade de que o empresário se sinta culpado. Se três camaradas cometem um delito e um deles é preso e se nega a delatar os outros.Dá a entender. justamente. e ajuda tanto que João se transforma..Poderia. João? Em nome da amizade que me unia ao seu avô.O outro cúmplice desapareceu. nós fomos grandes amigos . por outro lado. E fica sabendo porque o próprio empresário confessa. indo visitá-lo? ROBERTO . o terceiro? ROBERTO . dentro da empresa. GARCÍA MÁRQUEZ . Eu sou João Cabral”. Isso é algo que não se diz: se deixa subentendido.. Mas o que João descobre agora é. Nunca mais se soube dele. O culpado não poderia ter sido o outro. mas por ter deixado que seu amigo apodrecesse na cadeia. REYNALDO . SOCORRO .. E é então que chama o seu benfeitor e diz a verdade: “Eu não sou neto de João Cabral. REYNALDO . em um personagem. REYNALDO .“Sou Edmundo Dantés”. ROBERTO .Mas os assaltantes eram três. SOCORRO . REYNALDO . Teve tempo para pensar nisso. quer dizer que o roubo aconteceu? Nesse caso é preciso haver em João algum desejo de vingança. tudo isso é lógico. GLÓRIA .Durante quarenta anos.Sua culpa é ter deixado que botassem em João a culpa da morte do juiz.E ajuda mesmo. É a história de Edmundo Dantés.. 131 . GARCÍA MÁRQUEZ . “Antes que esse incidente lamentável acontecesse.E aí mesmo o empresário poderia acrescentar: “ Quer saber de uma coisa.

veja só. ou melhor... E tem mais: repito que ele não sabe qual dos dois cúmplices matou o juiz. REYNALDO . viemos aprender a carpintaria do ofício.Tenho uma proposta. E pela Morte. não se cumprirá jamais. e o tigre se dana. melhor para o nosso trabalho. GARCÍA MÁRQUEZ . No dia 27 de março você fica na cama. e que coincidência! No meio de todas as fábricas de São Paulo. e na verdade são diferentes. quando estiver saindo da igreja”. martelada a martelada.Ora. Quem dá o primeiro passo? MARCOS .. ROBERTO . A gente só 'decifra' com exatidão as profecias depois que elas se cumprem.Essa é a história que quero contar: a de um homem que é submetido a uma prova dura. GARCÍA MÁRQUEZ .Não escolheu: a Morte o empurrou para lá. ele escolheu justamente essa..Quanto mais cabeça-dura você for. não virá aqui hoje. depois que acontece o que supostamente tinha de acontecer.Mas as profecias estão cifradas para se protegerem contra o fracasso. a gente acaba decifrando de um jeito que não havia pensado. quanto ela pode durar? Vem o próprio Nostradamus e anuncia: “No dia 27 de março você vai ser comido por um tigre. Não podem ocorrer o risco de se derrotar a si mesmo. Como no caso de Édipo. Você não pode nos privar do prazer de armar este móvel. fica sem comer. Faz muito tempo que penso nela. só para colocálo à prova.Estou dizendo isso porque sou cabeça-dura.. Prego a prego. lendo um livro com toda tranqüilidade. GARCÍA MÁRQUEZ . Mas vamos começar lixando a madeira. REYNALDO .Eu proponho que a fábrica tenha o nome do empresário: 'Juan 132 . Já que estou preso demais ao meu projeto e não conseguimos avançar. Aqui.João não foi procurar o homem: não tem idéia de onde ele pode estar. ROBERTO. portanto. acho que é melhor eu trazer outra idéia. para tirar os nós e as farpas. é claro. um tijolo vai acertar a sua cabeça. nós não viemos fazer obras-primas. e a profecia. ROBERTO .. ou não vai sair daqui à uma e dez da tarde. viemos ver como se constrói uma história imaginária.Não. Se você acredita nas profecias e elas vaticinam que quando sair daqui. de que tipo de pessoa ele pode ser a essa altura da vida.ROBERTO . e vou defender esta história até o fim. à uma e dez de tarde.É como esses enigmas que a gente acha que pode decifrar de uma forma. estão lembrando? Se a profecia não estiver cifrada. você... GARCÍA MÁRQUEZ .

Sem forçar nenhum elemento da realidade. Nesse momento o espectador não notaria nada. vai direto procurar trabalho lá. GARCÍA MÁRQUEZ . O pobre marinheiro é julgado e condenado a muitos anos de cadeia. e ele responde: “Viver. GARCÍA MÁRQUEZ . sem encomendar-se a Deus nem a Diabo. REYNALDO .. por exemplo. Alexandre Dumas. Arma o truque. tirá-lo da cadeia de maneira espetacular. VICTORIA . mas depois. É então que o autor. não só consegue transformar esse pobre marinheiro num homem sábio e fabulosamente rico. que nisso tudo é preciso que um sentimento de vingança esteja em jogo.O que João pede à Morte é tempo para poder consumar sua vingança. de onde não se pode fugir porque está numa ilhota.Mas isso... Vocês conhecem o romance. uma antiga fortaleza transformada em prisão. consegue um disfarce tão bom quanto o de João.. que vai se livrar da sua frustração.Não deixa de ser interessante.. ele concorda.. como Fausto. essa história de João pretender enganar a Morte.Você está propondo que a gente elimine a seqüência do bar. Como Dumas realiza essa façanha? 133 . ROBERTO .Perez Sociedade Anônima'. Assim. a Morte não vai conceder.Uma coisa é violar o pacto. sim.Tem uma coisa que a gente precisa saber: Você admite. ROBERTO . João ao sair da cadeia. mesmo de maneira inconsciente? ROBERTO . João pode violar o pacto. Não nego isso. ficarei agradecido: João é sincero quando promete esquecer tudo. GARCÍA MÁRQUEZ . Roberto..Edmundo Dantés. que deverão ser passados num castelo. não é? Dantés é um jovem marinheiro que tem uma namorada em Marselha. da sua raiva. E João inventa a armadilha. faz uma das coisas mais extraordinárias da história da literatura.João vendeu a alma ao Diabo. a certa distância da costa.Se vocês levarem isso em consideração. Ele acha sinceramente que vai começar uma vida nova. outra é violar as regras do jogo. uma das mais lindas do filme? GARCÍA MÁRQUEZ . como consegue além disso. A Morte pergunta: “O que você quer na realidade: viver ou se vingar?”. Voltar a viver. mas Roberto não pode violar as regras. Um ricaço pretende a moça e confabula com outros dois sujeitos para levantar uma calúnia política contra Dantés: acusam-no de bonapartista. Mas não consegue. embora com um pouco mais de esforço.. ROBERTO . Quando a Morte diz a ele “você precisa esquecer o passado”. E a Morte sabia disso: é a Morte que engana João. mas da boca para fora.Ah.

orientar-se pela água.. é o Conde de Montecristo. Um dia Dantés sente. Eu sempre me perguntei por que Dumas havia dado ao seu personagem o ofício de marinheiro. Ele é jogado ao mar. Conhece o segredo de um grande tesouro e está armando a própria fuga. é impossível começar de novo.. Dantés aprende tudo o abade ensina durante aqueles anos. E quando sentir que caiu na água. e pouco depois o tira de lá transformado em homem rico. o abade Faria. e o mete na prisão. faltam dois. O resto do romance é isso: ele se vinga do primeiro. do outro lado da parede. O abade Faria é um ancião conspirador e um sábio. O 134 . Um marinheiro sabe nadar e fazer e desfazer nós. Na minha idade. e não se afoga. O que me resta de vida não seria suficiente para você é jovem e forte. fizeram prender? Quando ficam sabendo da existência do Conde do Montecristo.Seria bom saber em que consiste o segredo. põe em ação o mecanismo da vingança. segue suas instruções ao pé da letra. que alguém. e quando o velho morre. numa cela separada. Agora... “Achei que o túnel ia sair em tal lugar. anos atrás. se transformar em seus amigos. Suponho que era para deixar estabelecida sua familiaridade com o mar. E isso é o que torna a fuga de Dantés acreditável. os carcereiros metem o cadáver num saco e jogam no mar... e não saiu. da torre do castelo.. e vou ensinar a você que eu sei. “Fiz um cálculo equivocado”. Assim voc6e poderá desfrutar da sua nova condição de homem livre. através do túnel que os dois fizeram. na sua cela. desenterra o tesouro e. GARCÍA MÁRQUEZ . abre o saco usando a faca. Dumas mete na cadeia um marinheiro pobre e semi-analfabeto. E se Dumas conseguiu fazer. Dantés se encontra com o abade Faria. forja sua nova identidade. Começa a fazer a mesma coisa e pouco depois. Quando eu morrer esconde meu corpo no túnel e entra no saco. é mais difícil fazer tudo isso que convencer a Morte a rebaixar a idade de alguém. quando alguém morre. enfiado num saco... no mais absoluto segredo. Vai até a ilha de Montecristo.. E como conde.. nada até a costa e escapa. rico e sábio”. está cavando.Muito simples: cria outro personagem. se vinga do segundo. a qualquer preço.. levando uma faca. E nenhum dos culpados o reconhece: qual deles. vou dar o mapa de um tesouro que está enterrado na ilha de Montecristo. com uma pena de cinqüenta anos nas costas. Que maravilha! O conde de Montecristo sai do anonimato para se vingar dos três que armaram contra ele. Ou seja. por que a gente não conseguiria? REYNALDO . poderoso. Você sabe que aqui. sábio. magnatas habituados ao poder vai se lembrar daquele pobre marinheiro que. tentam. falta um. Além disso. O que vocês acham disso? Do ponto de vista da condição dramática.Podemos averiguar. diz o velho.

. ROBERTO . mas com o propósito secreto de enganar a Morte. aliás. Ele tem que sair decidido a se vingar. E.Essa última é justamente a minha idéia. Quando a Morte põe como condição o que nós contamos .Bem. A graça é poder organizar bem. só isso. o culpado. três.. Principalmente.Não podemos alterar a natureza da história. porque o culpado é amigo e cúmplice do acusado.recém-chegado está na moda na alta sociedade.Isso é muito bom. Quer saber o que aconteceu. e cada vez que o Conde arruina um deles. podem acontecer duas coisas: uma. Ninguém reconhece Dantés porque ele mudou de personalidade.Se mudarmos o nome. sabendo que João vai sair da cadeia. Aliás. Além do mais. O que eu quero ressaltar é o seguinte: se você admite. João não quer vingança. SOCORRO .Ao sair da cadeia. o empresário não teria esquecido de João nem por um minuto. decidisse persegui-lo? O jovem sentiria a iminência do perigo.que João esqueça o passado -. se identifica. Duas: que faça de conta que aceita. mas que ao encontrar o culpado. Mas na história de João a coisa muda. sabe que seu companheiro levou uma cadeia perpétua por um crime que não cometeu. Mas eu digo que. existe uma grande diferença entre a história de Edmundo Dantés e a de João Cabral.. Os duros não delatam seus cúmplices. Dos dois dramas.. que seu filme também conta uma história de vingança. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . que ele aceite e esqueça realmente o passado. VICTORIA . não caberia em meia hora. Para eles.. está livre porque seu amigo não delatou à polícia . ROBERTO .. “Sou Edmundo Dantés”. o material que temos. não pode tirar o personagem da cadeia para deixá-lo flutuando.Em termos de construção dramática. é difícil aceitar esse gesto de lealdade a um filho da puta do calibre do empresário.Coisa.. não há nenhuma razão para pararmos no 135 . sabe que ele. João. Não me interessa o drama do empresário. ROBERTO . Os três que caluniaram Dantés não tornam a se lembrar dele depois que o meteram preso. mas tem um defeito: é outro filme. em outra situação. sem mudanças substanciais. Os sujeitos caem de costas.São atitudes parecidas.. até o final. ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . porque mudou de idade. GARCÍA MÁRQUEZ . não possa se conter e rompa a promessa... GARCÍA MÁRQUEZ .É a lei do crime. o do empresário é mais complexo. que aceite de coração. que agora é muito conveniente. de Edmundo para João.E se o empresário. e aí não temos vingança nem filme. mas não saberia de onde ele vinha . o pobre marinheiro é um ser insignificante e inofensivo: não há por que se preocupar com ele. Roberto.

João sai da cadeia. GARCÍA MÁRQUEZ . recuperando o tempo que perdeu. E o pacto com a Morte ficará verossímil na medida em que a gente entender que. ROBERTO . porque viola o pacto.Por isso retardei esse reconhecimento e deixei quase que para o final o momento em que João descobre a traição. João sabe quem é o empresário. Um belo dia.Por enquanto. vê entrar um homem que ele reconhece como sendo seu cúmplice e suposto culpado do assassinato. vai procurar o fulano: “Eu sou João Cabral”. para João. o espectador teria que saber a razão. bem. E aí se dana inteiro. voltar a ter vinte e cinco anos é a melhor das vinganças. Depois veríamos como esses fatos podem acontecer.processo que vai da saída de João da cadeia a seu encontro com o empresário. decide procurar trabalho na fábrica do sujeito. não vamos ter medo das coisas. ROBERTO . a pergunta seria a seguinte: a Morte deixará João seguir até o fim? ROBERTO .João não vai à fábrica do sujeito. Mas enfim. a injustiça cometida fica muito mais insuportável. do jeito que você diz. GARCÍA MÁRQUEZ . poderoso.Perdemos aí o efeito visual dos recortes de jornal. Ali mesmo se danam todos os seus bons propósitos. João o reconhece e. Com vinte e cinco anos. E no final. Seria preciso dar todos os antecedentes do caso.Ele não precisa desses recortes. além disso. GARCÍA MÁRQUEZ . O que vamos ver é como João. é mais complicado. Começa a pensar em como driblar a Morte.“ou começa uma vida nova. admirado e homenageado por todos. É contratado em outra fábrica. E um dia.Se João saísse da prisão decidido a se vingar.A Morte estende uma tremenda armadilha para ele. GARCÍA MÁRQUEZ . mas com uma condição: esquecer o passado”. apesar de todos os seus esforços para esquecer o passado. “Agora você cumpre seus loucos desejos de vingança” diz a Morte . Conhecendo como conhecemos a alma humana. e a Morte diz a ele que existem dois caminhos: o esquecimento ou a vingança. Sua palavra de honra vai para o diabo. teria renovadas energias para cumprir seu plano. enquanto está com uma moça num restaurante. Agora. ao se comparar a ele. Mas a Morte não faz pactos de graça. Deixe-me fazer uma pergunta estúpida: por que a Morte concede 136 . se encontra com a Morte. Por isso mesmo. só você precisa saber disso. quase poderíamos apostar que João aceita o acordo só para ganhar tempo.Assim. O que temos que detalhar é o eixo da situação. apesar de querer cumprir seu pacto com a Morte. se vê arrastado a executar a sua vingança. ela mesma atravessa o empresário no caminho de João: é um homem rico. VICTORIA . só porque elas sejam mais complicadas.

sou um cara essencialmente urbano. porque é um universo fechado. mais importante: como é que a vingança chega? Como. operário qualificado na fábrica.Eu vejo tudo isso como falhas dramatúrgicas.. Vá até a fábrica tal que você vai encontrar um emprego”.essa graça a João.Não se deve escrever sobre o que não se conhece. A Morte faz um acordo com João respeitando sua vontade. Não.. CECÍLIA .. mas não dá nada a troco de nada: “Eu devolvo a você o tempo perdido. VICTORIA . eu acho. o que ela faz com João. ROBERTO .Ah!. GARCÍA MÁRQUEZ . ainda assim... É um ato de justiça. o mecanismo da vingança funciona? Porque eu continuo pensando que a carreira de João na fábrica – ou na empresa . A pergunta não era tão estúpida como pensei. GARCÍA MÁRQUEZ . a de devolver a juventude? CECÍLIA . a uma fazenda do nordeste. a lista de nomes. ROBERTO . Mas não é isso o que acontece. ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ .Mas então. a partir daí.. reforçar o impacto da história. Poderiam parecer arbitrárias e.se prolonga demais.Vem a coincidência da fábrica. ROBERTO .Eu só consigo ver é a Morte no fundo do espelho. A partir daquele momento. MARCOS . ROBERTO .Ah. Tinham privado João da sua juventude. não tem problema.Vocês acham que isso tudo é arbitrário? GARCÍA MÁRQUEZ .Tudo isso se simplificaria.Eu gosto da fábrica. aqui. GARCÍA MÁRQUEZ . não é uma fábrica estritamente realista. dar mais riqueza visual ao seu trabalho. também. Além disso. a Morte seria uma puta. uma condição básica nos pactos com o Diabo.Até aí.No bar a Morte poderia dizer a João: “Eu ajudarei você a começar uma vida nova.Há uma pergunta que continua sem resposta: como é que João chega à fábrica? E outra. ROBERTO . injustamente. não sei fazer histórias rurais.. por exemplo. a corrente de promoções. GARCÍA MÁRQUEZ . a Morte concede essa graça por um sentido de justiça.. se transportássemos a história ao ambiente rural. A Morte é justa. Mas. você é livre para escolher e é nesse jogo que você perde. você quer inventar uma fábrica que responda 137 . mas com uma condição: esqueça esse tempo”.Para mim.Deve ser porque tinham roubado uma parte da vida dele.João é relojoeiro. João é um peão. ou não se sente como se fosse uma coisa pessoal. O culpado seria o latifundiário. Temos de imaginar esse ambiente.

à lógica do espelho... ROBERTO - E uma estética que responda a essa idéia. Não é uma estética fantasiosa, mas tampouco é naturalista. GLÓRIA - E para isso, uma fábrica de espelhos até que seria bom. GARCÍA MÁRQUEZ - Para que todos ficassem loucos. ROBERTO- Eu acho que o cinema não agüenta outro espelho... GARCÍA MÁRQUEZ - Seja como for, está claro que João fica preso num labirinto, numa situação que o conduz, inexoravelmente, ao empresário. ROBERTO - Ao contrário: permite ao empresário atenuar seus remorsos com João. A outra coisa seria que João se empenhasse em fugir, em se afastar o máximo possível da fábrica, e que no fim terminasse matando o empresário. GARCÍA MÁRQUEZ - Uma vez mais, a Morte em Samarra, a história de uma fatalidade. SOCORRO - E se João soubesse, desde o princípio, não só quem é o empresário, mas também que ele matou o juiz... ROBERTO - Bem, aí o filme - ou pelo menos, o filme que eu vejo - não teria sentido. CECÍLIA - Seria O Conde de Montecristo de novo. GARCÍA MÁRQUEZ - O empresário acha que a história que João conta, dizendo ser neto de seu amigo, é verdade. Tem que ser um momento impressionante, porque o empresário está vendo com seus próprios olhos, naquele jovem de vinte e cinco anos, a imagem viva de seu amigo, tal como era quando foi traído pelo próprio empresário. Para ele, o jovem João é uma aparição. Olhando bem, é como se a Morte também aparecesse para o empresário. Nesse momento, quantas perguntas não passarão pela sua cabeça? DENISE - E se João matasse o empresário sem querer, como Édipo matou o pai? SOCORRO - Consumaria a vingança sem querer - só à última hora perceberia -, e voltaria para a cadeia. A morte teria dado a ele, nesse caso, o contrário do que prometeu: um breve prazo para que pudesse se vingar. GARCÍA MÁRQUEZ - É preciso tomar cuidado, para que o essencial da historia não seja alterado. Nossa função é acrescentar idéias para que a história acabe sendo o mais coerente e atrativa possível. DENISE - Tudo parece indicar que ninguém gosta da forma em que o encontro na fábrica acontece. SOCORRO - A fábrica está bem. O que está mal é que o ex-amigo de João, seu cúmplice, o culpado pelo seu destino, seja o gerente ou o dono.

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GARCÍA MÁRQUEZ - Roberto acaba de dar uma informação nova: a fábrica foi concebida com uma ótica, como direi?, um pouquinho biruta, situada um milímetro além da realidade. Essa fábrica pode se prestar para um tratamento visual estupendo. Visual e também dramático. Nessa atmosfera, o encontro de João com o culpado deve permanecer puramente casual. Vai ver, o cara é um cliente que chega para fazer um pedido de compra, é levado para conhecer a oficina, e mostram a ele o trabalho dos operários qualificados. Nós sabíamos desde o princípio que nesse encontro não há nada de casual, e que a Morte se encarregou de organizar tudo. A Morte é melhor narradora do que a gente pensa. Não vai cometer o erro de levar João até essa fábrica, quando João sai da cadeia. Ao contrário, a Morte deixa João à vontade, solto. E João vai parar lá, do jeito que ela tinha previsto, por sua própria conta. REYNALDO - A encenação poderia ser esta: na fábrica, João sente um murmúrio às suas costas. Olha e vê a Morte, que por sua vez o está observando. A Morte, então, olha para a porta principal. Seguimos seus olhos e vemos o cliente entrando, acompanhado pelo capataz. João, claro, o vê também, e tem um palpite. “É ele”, pensa. GLÓRIA - Aí fica em evidência o papel insidioso da Morte. Ela está preparando uma armadilha para João. MANOLO - Está, simplesmente, fazendo João passar por uma prova. GARCÍA MÁRQUEZ - E o cliente, pelo menos aos olhos de João, tem um ar misterioso, alguma coisa que provoca receio. Ainda não sabemos nada do passado de João, mas de algum modo estranho associamos o recém-chegado com ele. Recordo a história do camarada que vai vai entrar num ônibus, e o chofer diz a ele: “Só tem lugar para um”. Bem, ele é um, mas o chofer falou com uma cara, e num tom, que fez com que o sujeito automaticamente desistisse de subir. O ônibus continua seu caminho e, ao dobrar uma esquina, bum!: explode. O que havia na cara do chofer; o que ele viu nela, que produziu essa recusa por parte do homem que ia entrar no ônibus? ROBERTO - Esse é o tom que eu quero dar ao filme, como se fosse de máscaras, uma brincadeira de disfarces. GARCÍA MÁRQUEZ - Se na primeira vez que João encontra o sujeito visse o camarada por um espelho... Não. Não serve. É um recurso técnico e estamos buscando outra coisa, e em outra direção. O que devemos ter em conta é que os distintos níveis da história - dramatúrgicos, técnicos, estilísticos, de tom... - têm que ser coerentes entre si. ROBERTO - Quando João, no bar, vê a Morte pela primeira vez, falando

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com ele do fundo do espelho, o espectador não deve saber se se trata de uma alucinação ou de algo real. Essa imagem é impactante, e acho que devemos mostrá-la mais uma vez. GARCÍA MÁRQUEZ - Sua identidade deve ficar bem estabelecida. Que todo mundo saiba que é a Morte. Se você pudesse apresentá-la na forma do esqueleto com sua foice na mão, melhor. ROBERTO - A imagem da Morte é uma leve deformação da do próprio João. REYNALDO - “Somos nós mesmos a nossa própria morte”... Quevedo. ROBERTO - Quando é feito o acordo, cortamos, e vemos João saindo do bar com quarenta anos a menos. Não acho que seja necessário mostrar o processo de transformação. Além disso, não gostaria que fosse como no caso do lobisomem do cinema americano, aquela coisa de começar a surgir pêlos e a crescer unha e tudo isso... GARCÍA MÁRQUEZ - O Médico e o Monstro... O Lobisomem Americano em Londres. ROBERTO - João sai do bar transformado em jovem. É estrangeiro na cidade. Em quarenta anos, muitas coisas mudaram: os automóveis são diferentes, as pessoas se vestem de outra maneira... Para o jovem João, tudo é insólito, inquietante... MANOLO - Não viu televisão durante esses anos. Ou o filme acontece antes dos anos cinqüenta... GARCÍA MÁRQUEZ - Essa sensação de estranheza nós poderíamos compartilhar, mais ou menos, com João - pela expressão de seu rosto, por seus gestos... -, mas não chegaremos a conhecer sua verdadeira dimensão. Isso, só ele sabe, em seu coração. DENISE - Por que sabemos que João faz um pacto com a Morte e não com o Diabo? ROBERTO - Pelas condições do acordo. E pela graça que é concedida a ele. GARCÍA MÁRQUEZ - Bem, o Diabo poderia fazer exatamente a mesma coisa... GLÓRIA - Este interlocutor tem poderes benéficos. Poderia também ser Deus... GARCÍA MÁRQUEZ - Bem: seja Deus, o Diabo ou a Terra do sol, a verdade é é que isso por enquanto, não é problema nosso. O nó desta história continua onde estava: no momento do encontro. Porque é aí onde temos que ficar sabendo desse passado que João se comprometeu a esquecer.

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ROBERTO - O empresário pode dizer a João que conheceu o seu avô, etc., mas não vai entrar em detalhes. Por isso, pensei nos recortes de jornal. Ali estaria tudo que precisamos saber: o assalto, a morte do juiz, a captura de João, a fuga de seus cúmplices, a quantidade de dinheiro roubado... SOCORRO - Ah, eu tinha esquecido: claro que chegaram a roubar o dinheiro... E, claro, não deram a João a parte que correspondia. MARCOS - E você queria o quê? Que ele levasse o dinheiro para a cadeia? GARCÍA MÁRQUEZ - Isso não muda o essencial. Nosso problema agora é ver como damos a informação necessária. E, por favor, vamos tentar não recorrer ao flashblack. SOCORRO - No bar, antes que a Morte apareça, João está confuso, e recorda o momento do assalto, quando foi preso. Ou talvez escute em off a voz do promotor durante o julgamento... DENISE - Suas recordações atravessam o espelho... GARCÍA MÁRQUEZ - Não vamos deixar os espelhos se transformarem em telas ou em projetores do passado. GLÓRIA - Quando vemos João saindo da cadeia, como sabemos quanto tempo durou a sua pena? Quem se encarrega de nos informar? GARCÍA MÁRQUEZ - Acho que, para dar a informação de modo verossímil, é é preciso aproveitar a conjuntura do encontro. Claro que com um flashback tudo seria facílimo, mas eu gostaria que pudéssemos evitar esse recurso. Não apenas por ser tão desgastado, mas porque não corresponde a este tipo de dramaturgia. REYNALDO - É uma questão de pureza de estilo? GARCÍA MÁRQUEZ - Não. É que se utilizarmos a flashback, o espectador inteligente, perceberá, em seguida, que não conseguimos pensar em nada melhor. Nos últimos meses, andei trabalhando num roteiro que se refere muito ao passado e, mesmo assim, não há nem um único flashback. É a história atual de uma relíquia de outros tempos, uma prostituta aposentada que teve seu momento de Glória em uma cidade que não existe mais: a Barcelona da época dos anarquistas. Sua zona de operações era o Paralelo. Como ver essa vida e essa época sem utilizar pelo menos dez retrospectivas? Acho que foi Lichi quem teve essa idéia. seduzem a velha para que ela se apresente num programa popular de televisão, um programa de entrevistas que é transmitido ao vivo. E aí começam a perguntar à velha: “Como a senhora chegou aqui?” E a velha com toda ingenuidade: “Bem, eu era uma menininha de doze anos em Pernambuco, e um marinheiro turco me comprou e me trouxe até aqui e me deixou no

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realizado no dia tal do mês tal deste ano”. Quando a gente faz isso pela primeira vez.. Corte. E a velha começa a lembrar e a contar. com uma frase. Bastam dois momentos.. Mas quando disse o que tinha a dizer .”. condenamos o acusado. está de pé entre dois guardas esperando a sentença. manda tudo à merda. O personagem da velha é estupendo: se apresenta. A entrevista dura. gerente.. Depois. etc. cliente ou empresário . “E como era a cidade. ofendida.Para que vamos desperdiçar os dois ou três minutos dessa primeira seqüência? João pode exclamar de repente: “Agüentei quarenta anos de cadeia!”.. O secretário do tribunal lê: “. em direção ao porto. e é suficiente para dizer tudo.ou seja. acaba se sentindo no direito de fazer uma segunda. Barcelona era uma beleza! Quando você descia pela Rambla. muito maquiada. podemos começar com o veredito nos tribunais. come o fácil. saindo da cadeia. 142 . falando com muita autoridade sobre a belle époque. ao vivo.. termina mandando todos eles à merda. e pronto. Confesso que me senti muito satisfeito. e que esse homem que estamos vendo .era um dos seus cúmplices e ao que tudo indica. naquela época?”.. Sem recorrer ao flashback. três minutos. membro do Supremo Tribunal. no máximo. dizendo porque João está sendo condenado. “Ah. João. João Cabral. já transformado num ancião. O que o espectador precisa saber é João foi acusado por um crime que não cometeu.. o assassino. e eles precisam cortar o programa e enfiar os anúncios num intervalo inesperado. aquele rolo jurídico enorme.. quarenta cinco anos depois.Não vejo porque temos que começar com a saída da prisão. é se contentar com o banal. É pura preguiça.. Vemos João. Primeiro. durante o assalto ao banco tal.dono. SOCORRO . muito assim tipo grande dama. que tem sua dignidade. Em resumo. o que a gente precisava para justificar. então fazemos com que os entrevistadores comecem a se meter na vida pessoal da velha e ela. a história -.Paralelo.Eu não acho que para dar um veredicto a gente precise ler a sentença inteira.. pelo assassinato do juiz Fulano de Tal. E João quer se vingar dele. em termos dramáticos. está resolvido o problema. ainda jovem. e depois uma terceira. GARCÍA MÁRQUEZ . não há nenhum flashback em todo o filme. vão fazendo a ela uma série de perguntas impertinentes tentando remexer sua vida privada.. no programa. à prisão perpétua. SOCORRO . porque acho que apelar para o flashback é entregar os pontos da imaginação. com umas poucas frases. mostrando seu protesto: “Juro por Deus que sou inocente!”. e a velha. para dar ao programa uma certa tensão dramática.”. mas os entrevistadores.

Dois dos assaltantes conseguem fugir. os rostos cobertos por um lenço ou uma máscara. Escandalizado pela tentativa de roubo. O delito prescreveu depois de sei lá quantos anos.Tribunal e veredicto são dois recursos mais que manjados.E é assim que deve ser: Até as bobagens devem ser ditas.ROBERTO . no entanto. A polícia não tinha nem ficha deles.Porque não era um trio de profissionais. O único problema que resta... é absolutamente necessário saber o que aconteceu quarenta e cinco anos atrás.ROBERTO. Foi morto pelo nervosismo dos assaltantes. teremos de esperar pela estréia do filme? ROBERTO . decidimos chamar de Bonaire. GARCÍA MÁRQUEZ .. mas precisamos saber: Ou será que. ROBERTO . não eram delinqüentes comuns. o empresário já não tem nada a pagar. GARCÍA MÁRQUEZ . aqui.Eu tinha a impressão que sobre isso já havíamos falado tudo que era para ser dito. Não devemos nos inibir..Do ponto de vista jurídico. tentou fazer alguma coisa: protestou.Isso me faz lembrar daquela inesquecível observação de Bertold Brecht: “Qual a diferença entre assaltar um banco e fundar um banco?”. para saber isso. para mim. uma pessoa muito conhecida e respeitada na cidade.O delito prescreveu não apenas pelo tempo que passou. A história foi assim: eles entraram no banco. mas também porque alguém pagou por ele. qualquer coisa.Mas a sugestão é válida.. cai nas mãos da polícia. por medo de dizer bobagens. Não vamos usar isso.Tem uma coisa aí que.Um problema de consciência. Aquele era o primeiro assalto que faziam.. se não me engano. e. a gente diga tudo que nos passa pela cabeça. GLÓRIA .Não. é de ordem moral. mas o terceiro. em uma pequena cidade do interior que. tentou sair. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ .O juiz que foi morto no assalto era um cliente do banco. João. MARCOS ... não ficou clara: as pessoas 143 . DENISE . ROBERTO . Podemos dizer que provocou a própria morte.Já estamos acostumados a pensar em voz alta. porque às vezes é delas que sai a luz... São três sujeitos que assaltam um banco. Convém que. Existe até um gênero de cinema só para eles. Maior bobagem que o ovo de Colombo. MANOLO .. conseguiram se apoderar de um saco de dinheiro e justo naquele momento o juiz faz um escândalo e espalha o pânico. GARCÍA MÁRQUEZ . portanto. ROBERTO ..

E além disso.. MANOLO . cometeu desfalque. Dá aos parceiros a informação necessária para assegurar o êxito da operação.Outra possibilidade: o futuro empresário. na hora da verdade. Mas a idéia é boa. E é aí que despejam nele a culpa pela morte do juiz. esperando para a fuga. As coisas se estropiaram depois. DENISE .que estavam no banco na hora do assalto viram um dos assaltantes atirar no juiz.Como ele consegue fazer isso? Onde esconde a sacola? Como tira o dinheiro? Se ele trabalha ali.Dos três assaltantes. Proponho que o traidor . VICTORIA . em cima do balcão. a polícia chega.. trairia João. Quando estão saindo com o dinheiro.Eu também vou sair um pouco do esquema.. Na confusão enquanto João cai ferido e o outro foge . O cara trabalhava no banco. MANOLO .. embora tenha sido cúmplice.. ele toca uma campainha de alarme e a polícia aparece. Não. Não prestaram nenhuma declaração a respeito? Não disseram que o que havia atirado era outro. Seus amigos dizem a ele que não se preocupe: eles assaltarão o banco. As coisas ainda não tinham se estropiado. trabalhador do banco. começo dos anos quarenta. SOCORRO . e não o preso? GLÓRIA . ROBERTO .Não seriam membros de algum grupo político? Vamos ver. como Glória propôs. um fica esperando no carro.não seja um dos assaltantes. não pode sair do banco.o camarada esconde a sacola. e como nunca se saberá quanto dinheiro foi levado. o resultado seja positivo.Se eram três cúmplices. O sujeito seria o cúmplice de João. Ferem e prendem João. e depois viram que um deles era preso. Tudo dá certo até que no último momento. que podem ser incorporados ou dispensados. mas os outros dois conseguem fugir. de algum modo. quem mata o juiz? GARCÍA MÁRQUEZ .São elementos soltos. GARCÍA MÁRQUEZ . não poderão descobrir o desfalque. quarenta e cinco anos antes seria. e no final fica sozinho com o dinheiro. no carro. mas quando o sujeito já está com o dinheiro dentro da sacola. A operação é realizada e. João sabe que foi o outro. E o sujeito.E se a gente nunca soubesse quem é o culpado? O filme seria a história de uma dúvida. dois entraram no banco e um ficou fora. a do sujeito que já estava no banco.o atual empresário . VICTORIA . Um dos dois mata o juiz. e João e seu amigo executam a ação.João também atira quando vê a polícia chegando. Precisa fazer isso.. porque trabalhava lá. para que quando o submetam à prova da parafina. o 144 . O outro assaltante não saberia de nada.

onde fazemos tudo que nos for pedido: adaptações-escaletas. E de repente.Tem alguma coisa. custou anos de cadeia para ele. Uma coisa que ele não sabe o que é e que. responde João. quarenta e cinco anos depois do assalto. outras vezes trazem a imagem de uma mulher na praia vendo chegar um helicóptero. é o momento-chave. meu grande amigo. E até em mim . Fulano”. em toda essa história. SOCORRO . É um desafio do tipo criativo.. ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . tinha um jeito tão impulsivo.Para mim. E se nos pressionarem. GARCÍA MÁRQUEZ .. porque nesse assunto.vou pensar muito bem a cena do encontro.Lamento ter trazido uma história tão fechada.admito – faltou flexibilidade.. Não dá para resolver tudo ao mesmo tempo.. argumentos a partir de imagens.. Os dois caras falando e olhando-se nos olhos..Mas isso não pode acontecer no encontro. Isso deve se reservado para o final.A idéia original da Oficina é partir de um argumento para armar com ele. A própria discussão. Enfim.Estamos tentando esclarecer algumas coisas. que falta um elo fundamental do processo dramático. porque você o traiu. Foi você. Uma Oficina para todos os gostos. tenho certeza de que vamos achar a solução. não é? Portanto. Isso empobrece a dinâmica do trabalho. O que será? GARCÍA MÁRQUEZ . pode ser que não seja o melhor método. sério. E João. Às vezes trazem uma história já estruturada. Foi uma bobagem atirar no juiz. canalha!”. O que acontece é que os alunos nem sempre trazem um argumento. O que importa é a morte do juiz.. GARCÍA MÁRQUEZ .O importante é saber isso.. no entanto.O roubo pode ou não ser consumado. o empresário ou o cliente diz ao jovem João: “Coitado do seu avô. porque falta flexibilidade na minha proposta. REYNALDO . que João ignora. “O coitado do seu avô teve azar”. ROBERTO .E agora. diz o magnata. também filmamos. ao longo do debate. naquele assalto lamentável”. se for comparada a outras que tivemos. não”. “Foram as más companhias. olhando-o nos olhos: “Não foi ele quem disparou. a estrutura de um média-metragem. ROBERTO .. foi menos produtiva. “Azar. mais é mais divertido. João descobre.. Caramba! 145 . GARCÍA MÁRQUEZ . nós somos da pesada.camarada trai João.

Ah. E o líder sindical.Eu comentei as mudanças com o resto do grupo. GARCÍA MÁRQUEZ . Mas..Nenhuma mudança a mais.. GARCÍA MÁRQUEZ . lembram?. o marido.GLÓRIA tem uma surpresa para nós.Você me convenceu: uma mulher é muito mais capaz de fazer tudo isso.O que muda é a ocupação dos personagens.Igual..Todo o resto fica igualzinho. A história fica assim. Todo mundo gostou.. quem vai garantir para a gente que amanhã você não muda de idéia outra vez? GLÓRIA . você nos enganou! Você nos fez acreditar que confiava nos homens. GARCÍA MÁRQUEZ . Os personagens saem de seus respectivos filmes e se encontram de noite.E o professor. É isso? Ah. GLÓRIA . em algum lugar afastado. a sangue-frio. ela é a terrorista.No fim. GARCÍA MÁRQUEZ . coloca uma bomba no estojo. Ele vai ser sacrificado. pede ao pobre coitado que leve o violino ao teatro. com todos os personagens reunidos. é agora o dirigente dessa organização.Mudei a história do violinista. mente..Mudou? De que jeito? GLÓRIA . Glória. e vai fechar um importante evento pacifista. que um homem. é membro de uma organização pacífica. ela é a violinista. mas acontece que agora é ela quem faz tudo: toca o violino. II SOCORRO .SÉTIMA JORNADA DE TRABALHO Recapitulações..Ele. GARCÍA MÁRQUEZ . GLÓRIA . cadê? Não vale. mata. GLÓRIA . claro.Agora.A primeiro violino sempre chega tarde. poderíamos fazer uma história de histórias. GLÓRIA . GLÓRIA ... Ele trabalha num escritório. Agora.. e começam a trocar impressões: “Quer dizer que você agora é santo? Que 146 .. e era mentira! Agora ela mata o marido. GARCÍA MÁRQUEZ . Ah!. GARCÍA MÁRQUEZ . eu mato você. eu sabia que essa galega era perigosa! Mudou a história sem pedir licença.

desistimos: “Ex aequo”. “Vocês acham justo? Minha mulher me mata com uma bomba e fica lá. E um belo dia. doze ou treze protagonistas.. Achava que em qualquer obra. Fitzcarraldo. O que tinha acontecido? Primeiro.Estou louco para ver esse filme! MANOLO .Travesti love 147 . era muito difícil dizer porque um filme era melhor que o outro. para mim. voltando ao assunto.Para a gente..Mais que uma história. Tão diferentes. Mas o problema consistiu. em Cannes. já imaginou? MARCOS . e o júri se dividiu: os dois grandes finalistas eram Yol e Desaparecido. em qualquer filme. chegou a hora de decidir. tocando violino”. Precisamos fazer um filme assim. GARCÍA MÁRQUEZ . uma debilidade do júri. nem sempre é fácil escolher. Amores equivocados ..Amores tempestuosos? DENISE . A seis da manhã do último dia. dando a cada personagem o papel que ele gostaria de interpretar.. Às seis da manhã do último dia. principalmente.. GARCÍA MÁRQUEZ . tivemos que nos dar por vencidos. “Pois eu quero ir lá na Oficina. que naquele ano houve filmes excelentes: A Noite de São Lourenço. virei puta”.. DENISE: o que você tem aí? DENISE . Vamos ver. Os filmes já não são em preto e branco. Um filme com dez. e. em compensação.maravilha! Eu. GARCÍA MÁRQUEZ . em 1982: eu achava detestável esse negócio de dividir um prêmio.. é uma situação: o conflito de uma moça que sofre do mal de amor. tranqüila.Eu diria. Agora são a cores. sempre existe um elemento que determina a preferência de cada um.. é verdade. Eu tinha aceito o convite justamente quando soube quais os filmes que iam competir: E pensei: “Vai ser ótimo”. amores equivocados. portanto. com matizes.Melhor ainda. que não encontrávamos pontos de comparação. para ver se em vez de ser psicóloga posso ser locutora de televisão”. Quando a gente tem várias opções pela frente e fica sozinho no quarto começa a pensar. na verdade.Eu compreendo a GLÓRIA. Lembro de quando fui presidente do júri no Festival de Cannes. mas nem sempre dá. O prêmio ex aequo sempre foi. na natureza dos dois grandes finalistas: eram filmes totalmente diferentes.. Mas.. deveria ser fácil escolher.

Ele é dez ou quinze anos mais velho. não é? DENISE . tomam drinques. foi perdendo sua identidade e acredita que é um rapaz: ficou louca.A ação se desenvolve no Rio de Janeiro. Terê chegou a suspeitar. Agora teme ficar louca. mas pelo simples desejo inconsciente de agradá-lo. Ouvem música.. que um dia Henrique a viu e não a reconheceu. atraente.. não apenas porque ele é uma estrela..É melhor trinta e cinco. linda. se pergunta se não será por culpa dela.DENISE . E pouco a pouco.Tem de ser. muito feminina.. adota atitudes masculinas. GARCÍA MÁRQUEZ . Quando saem do teatro. Ela aceita sem titubear. inteirinha! Diga uma coisa: o amor à primeira vista é recíproco. e Teresa de Carvalho. É uma boa atriz. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . logo de saída.. descobrem quanta afinidade existe entre eles. GARCÍA MÁRQUEZ . até descobrir que Henrique é homossexual. Henrique e Terê se encontram pela primeira vez num ensaio..Isso não é tudo. Terê dá algumas opiniões e ele se pergunta: “Quem será essa menina?”. mas quem começa? Quem quebra o gelo? DENISE . tem trinta e cinco ou quarenta. sem querer. E o que acontece nesse primeiro encontro é um amor à primeira vista. No ensaio. mas sua atitude com ele não mudou por causa disso: estava realmente apaixonada. começa a se transformar num menino: corta os cabelos. O aspecto exterior de Terê mudou tanto. Terê. puro Cupido. Henrique convida Terê para ir até a casa dele.. Terê desesperada. Terê se aproxima tímida de Henrique. ou seja. num teste de atuação: o diretor está testando candidatos para um dos papéis femininos da próxima peça.Interessante.E você diz que isso é uma situação? A história está aí..Henrique. mas isso é tudo. Tem vinte e cinco anos. Ele mesmo confessa. DENISE .A história está aí. Não fazem amor. é inteligente. mas porque é seu ídolo. e além disso. conversam. enquanto isso. Os protagonistas são gente de teatro: Henrique Duarte. de “'Terê”. uma principiante que passa a ser chamada por Henrique. Terê acha que Henrique é tímido e que precisa de tempo para se lançar. um ator famoso. nem mesmo se beijam. mas sei qual é o desenlace: Henrique começa de repente a sair com uma mulher lindíssima. Na verdade. Não sei direito o que acontece depois. Nesse primeiro dia. Henrique leva Terê ao seu apartamento de solteiro? 148 . embora não tenha experiência. É dez anos mais velho que ela. Terê começa a freqüentar os lugares onde Henrique costuma ir à procura de aventuras homossexuais. Está impressionado com ela. Mas a situação do primeiro dia se repete nos dias seguintes.

a partir do momento em que pronuncia as primeiras palavras. A cena parece real.A peça de teatro..Que beijo? GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . noite após noite. Terê não desistiria de trabalhar na peça. Que coisa maravilhosa. nas poltronas. A questão é que ela não serve.Será do jeito que a gente quiser. ou se porque Henrique quis que o papel fosse dela. ou pareça falso. contemplando Henrique durante os ensaios. Eu me pergunto: depois de uma cena dessas. não será difícil resolver. DENISE . REYNALDO . é a separação..Terê está sendo testada para o papel. um certo desgosto. um beijo 149 . mas antes os dois vão a um bar para beber alguma coisa.O importante é que a gente veja o beijo. Cheguei inclusive a pensar que Terê desiste de trabalhar na peça só para ficar ali. é a vez de Teresa. DENISE . causa uma reação negativa em Henrique. o que ocorre no teatro não precisa necessariamente ser um teste: pode ser um ensaio. visualmente. Terê é a protagonista. Talvez o tom de voz da moça seja muito declamatório.. não é? São várias candidatas. mas não demora para a gente descobrir que é uma representação. Então...Leva. na primeira candidata ao papel.O filme tem de começar com uma grande cena de amor entre Henrique e Teresa. a aproximação dos dois? GARCÍA MÁRQUEZ . DENISE ..Na sua história não é a aproximação que importa. GARCÍA MÁRQUEZ . Aquilo é uma declaração de amor autêntica.Suponho que a peça de teatro que estão ensaiando terá alguma relação com o conflito que os dois irão viver. GARCÍA MÁRQUEZ . seria clássica ou contemporânea? GARCÍA MÁRQUEZ .. Claro que Terê consegue o papel. conversar um pouco.. O teste é interpretar essa cena com Henrique. A primeira candidata é uma moça que. enfeitiçado. se conhecer . mas nunca saberemos se conseguiu porque era a melhor. DENISE . Henrique dá um ósculo. Eles já estão ensaiando.Se for assim.A cena de amor não termina com um beijo? Na outra moça. e recomeçar.A cena de amor poderia ser uma fantasia erótica da moça. e Henrique fica olhando para ela. poder inventar a vida! REYNALDO .DENISE . uma peça de teatro. Ela abre a boca e sorri. essa cena de amor com ele.O conflito da peça deve ser análogo ao que Terê e Henrique vão viver: Além disso.Não sei ainda. REYNALDO .

GARCÍA MÁRQUEZ . Uma mulher como ela. DENISE . que é muito tímido.. senhorita. Terê não desconfiaria que ele é homossexual? GLÓRIA . não saberia? DENISE . com tanta gente correndo atrás. Está abrindo uma exceção. Aliás.. O pobre do Redford. Mas na hora da Teresa. DENISE . e o diretor tem que bater palmas duas vezes e gritar: “Obrigado. ROBERTO . nem ignora. Nunca imaginou que uma moça como ela provocasse essa impressão no grande Henrique Duarte. obrigado. Coitado! Vocês não imaginam o que aconteceu quando entramos no tal lugar. E convida a moça para celebrar o triunfo.Rock Hudson. assisti a uma cena como essa acontecer com Robert Redford. e chegam a um bar onde se arma um grande alvoroço quando Henrique entra. parecia machão nas telas. Ele..E o grande Henrique Duarte também sai. quando tive a idéia de comprar lembro o quê. sendo Homossexual.Nesse caso. Com isso. Terê sai do teatro como se flutuasse nas nuvens.Não é paixão demais para um homossexual? CECÍLIA .. atriz. GARCÍA MÁRQUEZ .Certo.. e se ele assumisse isso cem por cento. Ninguém ficou sabendo a verdade.Mas se ela soubesse que Henrique homossexual. Não pode saber. vai ser um homossexual encoberto? É difícil. quase morreu asfixiado. para poderem conversar tranqüilos. Ouvem-se murmúrios. por favor”. como se. E agora podemos insinuar que ele não costuma levar mulheres à sua casa. A próxima. Ela aceita. e uma jovenzinha se aproxima dele para pedir um autógrafo. disse: “Vou com você”.Não sabe. Um belo dia estávamos andando de automóvel .Terê não sabe que Henrique é. explicaria o amor à primeira vista? Ou terá sido uma simples reação química? GARCÍA MÁRQUEZ . e alcança Teresa de Carvalho e diz 'parabéns'. muito cordial. até que ele mesmo declarou que estava com Aids.Vou avançar nessa idéia.. SOCORRO .Um ator famoso. MARCOS . Henrique. O cara gosta de motos.No final.falso.. que tem a ver com a transformação de Terê. GARCÍA MÁRQUEZ .Talvez por isso Henrique propõe a Teresa que é melhor tomar alguma coisa na casa dele. DENISE . Porque é evidente que ela conquistou o papel. e ponto. que está metida até o pescoço nesse mundo. deixamos claro que ele é um ator muito conhecido...E um homossexual atípico. dos jovens motoqueiros com suas jaquetas de 150 .ele ia dirigindo -.. É uma coisa que a gente vai adiar.

couro. GARCÍA MÁRQUEZ - E quando chegar o momento, Terê vai comprar uma moto. Através de sua relação de amizade com Henrique, ela vai conhecendo os gostos dele, o tipo de efebos que o interessam. Henrique é seletivo. Terê vai se esmerar para encarnar o ideal masculino de Henrique. SOCORRO - Parece conveniente que, na primeira vez que os dois se encontrarem no apartamento dele, Henrique tente uma relação sexual com ela. DENISE - É obrigatório que ele tente. Ela tem certeza que os dois vão acabar na cama, e não disfarça. SOCORRO - Quando Henrique não consegue, ela acha que é por causa da tensão, do nervosismo da primeira vez. ROBERTO - E na segunda vez? Ou não vão acontecer novas tentativas? GARCÍA MÁRQUEZ - Não vamos nos precipitar. A coisa mais difícil era dar a informação prévia: que Henrique é um ator famoso, que Teresa é uma atriz bela e talentosa, mas sem experiência, e que entre os dois estalou um amor à primeira vista. Isso já está colocado. Em menos de dois minutos conseguimos dizer quem são os personagens e em que situação eles estão. A única coisa que ainda não sabemos é que Henrique é homossexual. Não é preciso dizer, nem deixar de dizer; vamos deixar as coisas fluírem, e esperar momento da revelação quando Terê percebe qual o tipo de rapaz que interessa a Henrique, e ela mesma começa a se transformar. O filme é esse, e não outro. DENISE- O que eu tenho até agora é: primeiro, Henrique e Teresa se encontram e surge um amor à primeira vista; segundo, eles percebem que têm uma grande afinidade e muitos interesses em comum; terceiro, não conseguem fazer amor de maneira satisfatória, embora ele tente; quarto, ela descobre que ele é homossexual, ou o próprio Henrique conta; e quinto, ela decide se transformar para conquistá-lo. GARCÍA MÁRQUEZ - Na terceira vez que Henrique a procura e torna a tentar em vão, Terê tem que chegar à seguinte conclusão: ou ele é impotente, ou então, é homossexual. Eu acho que o próprio Henrique confessa. Além do mais, nesta época, e nesse meio... Por que nos negamos a ver Henrique do jeito que ele é, maduro? Estamos tratando Henrique como se ele fosse um jovem meio sem jeito, inexperiente... SOCORRO - Ele é homossexual mas está apaixonado por Terê... Além disso tem um amante, um rapaz. Esse é o conflito de Henrique. GARCÍA MÁRQUEZ- Na primeira noite, quando saem do bar, Henrique não leva Terê ao seu apartamento: eles vão para a casa dela. Terê não tem

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automóvel, Henrique oferece uma carona: “Posso levar você?” Diga uma coisa, DENISE: Henrique tem um motorista, ou ele mesmo dirige um carro esporte? DENISE - Um carro esporte... E ao chegar ao prédio de Terê, ela diz: “Vamos subir?”. GARCÍA MÁRQUEZ - Ao sair do bar entram no Porsche de Henrique, e ele pergunta a Terê: “Levo você até a sua casa?”, e ela responde: “Como você quiser”. Ele pergunta: “Onde você mora?”, e Terê percebe, na mesma hora, que o assunto terminou aí. Pelo menos, por essa noite. ROBERTO - Nesse momento, Terê leva um banho de água fria... GARCÍA MÁRQUEZ - O diálogo deles poderia se desenvolver em ambientes diferentes, durante o curso da noite... Henrique pergunta uma coisa em um bar, e Terê responde já em outro. O diálogo é contínuo, mas os cenários mudam. ROBERTO - É preciso mostrar esse processo até o fim. Se cortarmos para o dia seguinte, o espectador pode pensar que eles dormiram juntos. GARCÍA MÁRQUEZ - O diálogo não pode deixar nenhuma dúvida, é como quando a gente convida uma moça para ir ao cinema e ela responde: “Hoje não, porque estou menstruada”. Tem de ser assim, brutal. “Onde você mora?”. “Em tal rua”. Ele pára na frente do edifício. “Até amanhã”, “até amanhã”. Estamos contando o filme do ponto de vista de Terê. MARCOS - A noite acaba aí, mas no dia seguinte, Henrique diz a ela que gostaria de apresentá-la à mãe. Vão até a casa da mãe dele, almoçam, e a velha está contente, porque é a primeira namorada do filho que ela conhece. GARCÍA MÁRQUEZ - E se a mãe soubesse que o filho é homossexual e sem querer, no meio da alegria, desse uma pista a Terê? CECÍLIA - As ruas ficam sozinhas, e a mãe aproveita para dizer a Teresa: “É a primeira vez que Henrique traz uma namorada em casa. Você não sabe como eu estou contente. MARCOS - As mães nunca sabem. Ou são as últimas a saber. GARCÍA MÁRQUEZ - Quem disse isso? As mães sabem, sim, e além disso, ajudam. É um modo de manter os filhos amarrados. MARCOS - A família de Terê preferiria que ela não fosse atriz. É uma família mais ou menos burguesa... DENISE - Faz tempo que Terê não mora mais com a família. Ela divide o apartamento com uma amiga. GARCÍA MÁRQUEZ - Tome cuidado para que não pensem que ela é lésbica. Em meia hora é tão difícil dar todas as explicações, que a gente não

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pode se dar ao luxo de cometer nenhum erro. DENISE - A casa de Terê fica no caminho entre a de Henrique e o teatro. Por isso, naquela mesma noite, ele pode dizer a ela: “Quer que eu pegue você amanhã, quando passar por aqui?”. GARCÍA MÁRQUEZ - E no teatro repetem a mesma cena de amor, de novo m um ao outro, imaginariamente... O ensaio acaba e Henrique diz a ela: “Quer uma carona?”. ROBERTO - A cena de amor poderia ser mostrada várias vezes, e a última, ter um toque diferente. Alguma coisa passou nesse meio tempo, alguma coisa se rompeu entre eles... GARCÍA MÁRQUEZ - Sempre a mesma cena, o mesmo beijo. A cada dez minutos, de novo: três vezes a mesma cena no filme... CECÍLIA - A história parece feita de repetições, porque a frustração do primeiro dia também vai se repetir: Henrique deixa Terê na casa dela, ou leva Terê até o seu apartamento de solteiro e tenta fazer amor, sem resultado. GARCÍA MÁRQUEZ - E por que não a leva antes a um bar de homossexuais? DENISE - Depressa assim? Isso é sadismo! ROBERTO - Terê entende que as coisas não podem continuar do jeito que estão, e diz a ele: “Essa relação me faz mal, Henrique. Não quero ver você mais”. E um dia, ao sair do teatro, percebe que há um rapazinho esperando por ele. Talvez tenha esperado em outras ocasiões, mas agora está claro que Henrique vai ao seu encontro. CECÍLIA - Mas eles dois - Terê e Henrique - têm que continuar se encontrando nos ensaios... GLÓRIA - Terê precisa saber desde o começo. É uma coisa que pode ser insinuada desde a primeira conversa, quando juntos percorrem os bares. Porque se ela não soubesse e de repente encontrasse esse rapazinho tão bonito esperando Henrique na saída do teatro... SOCORRO - Pode ser que Terê só queira ter um affaire com Henrique... DENISE - Nada disso. É grande amor mesmo. Uma paixão. Tem que ser assim, para que ela decida se transformar. GARCÍA MÁRQUEZ - Não vamos nos precipitar. Temos que ter tempo para pensar. Um dia, vamos dedicar quatorze horas seguidas ao debate, para liberar energias acumuladas. GLÓRIA - Mesmo que Teresa fique sabendo da história de Henrique, ela não desanima.

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GARCÍA MÁRQUEZ - Em que consiste o drama dela? Consiste em querer conquistá-lo ao preço que for. Quando vê que não consegue como mulher decide agir como homem. É simples assim, do jeito que falei. ROBERTO - Por isso é importante a gente saber antes que tipo de rapazes o atraem. Terê necessita de um modelo. GARCÍA MÁRQUEZ - Tenho uma dúvida aí: quando ela se transformar, como vai poder representar seu papel? DENISE - Isso não é um problema grave. Se ela cortou o cabelo, põe uma peruca na hora de representar e pronto. GARCÍA MÁRQUEZ - E outra dúvida: se o homossexualismo de Henrique fosse público e notório, será que a atitude dela seria a mesma, desde o primeiro dia? DENISE - Eu acho que sim. GLÓRIA - Eu acho que não. ELID - Ela se apaixonou por ele de verdade. GARCÍA MÁRQUEZ - Ela pode saber que Henrique é homossexual e ainda assim alentar a esperança de ter uma relação intensa com ele. O problema é quando descobre que Henrique, apesar dos seus esforços não consegue. DENISE - Henrique não é nenhuma bicha louca. Ao contrário: tem um aspecto muito viril. Suas atitudes são muito masculinas. GARCÍA MÁRQUEZ - Mas deve ficar bem claro que não é bissexual. Ele se apaixonou por ela, à sua maneira, mas não consegue consumar a relação no campo erótico. Isso é que o filme vai contar: como ela decide se transformar para agradá-lo. DENISE - Não se esqueçam de que nem tudo se reduz ao aspecto sexual. Há grandes afinidades espirituais entre os dois. GARCÍA MÁRQUEZ - Tudo isso que dissemos até aqui não é outra coisa além de um prólogo para entrar no assunto. E não podemos continuar dando voltas: precisamos entrar no assunto. DENISE - Eu acho importante ressaltar o fator afinidade, porque sem ele, que outro elemento de atração existiria entre Henrique e Terê? Por que continuam se procurando? Porque naquela primeira noite, quando andaram de bar em bar, conversando, se conhecendo, descobriram que um gostava da companhia do outro.. E isso aconteceu principalmente com ela, que agora não quer saber de outra coisa a não ser ficar ao lado dele. REYNALDO - Se isso não for amor... GARCÍA MÁRQUEZ - Eu estava me perguntando: como poderemos

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realmente. E esse final da ficção . mas não como um drama. vou buscar meu companheiro”.se for feito com cuidado – pode acabar sendo comovedor: Trinta ou quarenta anos atrás teria sido um diálogo escandaloso.. para estabelecer um vínculo muito forte entre os dois. Agora. terá um ar cotidiano. Henrique abre o coração para Terê. que a maioria das pessoas não conhece. DENISE . porque são coisas que vivemos no dia-a-dia com os amigos homossexuais...Dos cinco pontos do meu esquema. Estilo garçom. mas agora. Quando Henrique abre o peito com Terê. com aplausos do público.Eu gostaria que ele falasse do seu homossexualismo com toda a naturalidade. experimentando uma jaqueta unissex. Não é que ele finja querer. na maior tranqüilidade: “Tchau.marcar a passagem do tempo? E percebo que é fácil: pelo teatro. DENISE .da ficção teatral . pelas sucessivas apresentações da cena de amor: A última corresponderia à estréia. como se dizia nos anos cinqüenta. E esse grau de sinceridade serviria. quer prendê-la ao seu lado. o quarto é o que continua mais confuso: como ela descobre que Henrique é homossexual? Ou será que ele mesmo confessa? GARCÍA MÁRQUEZ . “agradá-la”. suponho. mas no fundo não aceita uma situação que afasta Henrique dela definitivamente. Poderia revelar coisas muito interessantes sobre o mundo dos homossexuais.seria uma espécie de anúncio do que vai acontecer na realidade . Eles chegam e dizem. Terê compreende isso. vestindo jeans. ou então. É que ele quer. etc.. 155 . completamente. E além disso. Reconhece seu desejo no desejo dela. E é então quando decide se transformar. GARCÍA MÁRQUEZ .Ele tem que dizer a Terê que chegou a esse extremo pela primeira vez.como agora acontece com Terê -. SOCORRO . Não podemos esquecer que através do homossexualismo Henrique não apenas se dilacera . ela quer chegar ao final.Esse diálogo dos dois . mas também se realiza. vamos dizer. quer conhecê-lo. querido.a realidade do filme. SOCORRO . ao mesmo tempo. é porque está se entregando a ela. É quando a surpreendemos cortando os cabelos.Eu gostaria que Henrique tentasse. como num espelho.Henrique tem trinta e cinco anos e nunca sentiu nada parecido em relação a nenhuma outra mulher. no sentido bíblico da palavra. GARCÍA MÁRQUEZ . “quero apresentar meu galã a você”. E que tentasse mais de uma vez.Ela mesma cortando os próprios cabelos.

Henrique abre. saindo com outra mulher? Porque me faz pensar nas fábulas. mas para ela só importava. pode acontecer em dois segundos. eu sugiro o seguinte: quando Terê começar a mudar . quer fazer uma surpresa para Henrique. no final. DENISE .Pois eu acho que deve ser brutal. a mudança repentina de Terê. Aliás.quando cortar o cabelo. Parece descabelado. GARCÍA MÁRQUEZ .Calma.E preciso ver se a história nos leva para esse ponto. ver Henrique feliz. Ainda é muito cedo para saber. e a conseqüente perturbação de Henrique. para tentar prendê-lo. e então ela sorri para ele. que Henrique se envolva com outra mulher.Continuo achando que a mudança deve ser gradual.Em compensação.Sabem por que eu gosto desse final. para o qual ela apela quando não encontra outra saída. Eu os vejo assim: Terê. DENISE . É aí que está o conflito.ROBERTO . Bate na porta. e se já é um rapaz ou quase um rapaz. mas por outro lado faz com que ele se sinta incômodo. REYNALDO .. de verdade.Eu gostaria que fosse gradual. “Por que uma mulher tão inteligente como Terê”.A história ficaria muito comprida.Quero fazer um comentário sobre o desenlace proposto por Denise: não acho que seja conveniente. Vamos ver. pensa ele. REYNALDO . “faz uma palhaçada dessas?”.Pensei até que Terê podia chegar a ser abjeta: conseguiria uns garotos para Henrique. contente com a própria travessura. GARCÍA MÁRQUEZ . por sua vez. 156 . por exemplo -. contempla por um segundo. É um recurso desesperado. Henrique fica olhando para ela e diz: “Você fica muito bem com esse penteado”. com seu penteado e sua roupa de homem. DENISE . por que Henrique não a aceita como a outra parte de um casal? GARCÍA MÁRQUEZ .. Esse sorriso .o mesmo que ele admirou tantas vezes basta para esclarecer o equívoco. SOCORRO .. de repente e em sua totalidade: cabelos.Uma boa pergunta: se Terê realmente muda identidade. atordoado. jaqueta de couro. mas como mulher. E a gente só tem meia hora. a transformação dela é brutal ou gradual? DENISE . jeans. motocicleta. REYNALDO . e assume esse recurso assim.Então. a de Terê transformando-se em menino e Henrique. numa cena só. GARCÍA MÁRQUEZ .Esse é o paradoxo: Terê atraía Henrique..

Depois. GLÓRIA .Estamos tentando analisar a conduta dos personagens..o cabelo.Eu sinto que a poética desta história está muito coerente.Existe um monte de homossexuais que falam de seus gostos com as amigas: “Sabe. saem os três juntos do bar. DENISE . maquiagem e adotando certos gestos masculinos.Isso tudo vem com um toque especial. e quando vê. Depois. REYNALDO . um elogio. a roupa. onde Terê e Henrique vão passando sucessivamente por três bares diferentes. desenhamos aquela seqüência noturna. mais metafórico.É só um cumprimento. no teatro.Vai ver..e Henrique o apresenta a Terê. poderíamos dar em três fases . GARCÍA MÁRQUEZ .Mas ele não deve encorajá-la. a cena de amor: E agora.Bem. enquanto conversam.. ele leva a moça tomar alguma coisa.Henrique nunca diria uma coisa dessas. Primeiro. a mudança gradual passaria a ser total.. outro dia elogia a calça de couro. E. SOCORRO ... Henrique e Teresa se encontram no teatro. a última coisa que ela faz é cortar o cabelo.Juntos? Desde o começo? Eu achei que Henrique ia levar Terê à sua garçonnière. e tenho medo que ela escape de todos nós. porque estamos deixando as aparências nos dominarem. DENISE . mas na seqüência dos fatos.Existe uma grande angústia no fundo dessa relação.um jovem muito bonito . 157 . não vamos pensar agora na estrutura ou nos detalhes. enquanto estão conversando no bar chega um amigo de Henrique . SOCORRO . ou com um eufemismo.Não sei se estamos saindo do realismo para entrar em outro tipo de linguagem. colares. falamos de repetir três vezes. não é? GARCÍA MÁRQUEZ .. Depois.Não estou contando o filme: estou tentando imaginar como seriam as coisas na vida real. GARCÍA MÁRQUEZ .brincos. DENISE . de todos os seus adornos femininos .DENISE . DENISE . a moto . Mas um dia elogia o penteado. GARCÍA MÁRQUEZ ..Nesse processo ela vai se despojando. CECÍLIA . Henrique não sabe o que ela está planejando.. com a pitada de loucura que todas as nossas histórias têm. finalmente. “eu gosto de um companheiro assim: moreno. além disso.o processo de transformação de Terê. nem alto nem baixo”. eu gosto de meninos assim”. de preferência num bar de homossexuais. Primeiro.. E então.

DENISE . como se estivesse se preparando para seu próximo papel. diz Henrique.. que bom que você veio!”. Deixa passar o fim de semana. e na segunda-feira.Eu imaginava uma coisa mais poética: Terê visitando sozinha o bar e observando discretamente a atitude dos homossexuais..Pois eu acho que sim. o rapaz irá atrás. e o rapaz.Uma atriz como ela.Cruéis. “Deixa eu apresentar Terê. Henrique . esse é o meu amigo Nélson”.Vou retomar a primeira versão de DENISE. DENISE . ela perceberia que a relação amorosa é impossível.Por quê? REYNALDO . Algum dia. Terê. Os homossexuais não estão separados da sociedade. Quando Terê e Henrique tornam a se encontrar no apartamento dele. GARCÍA MÁRQUEZ . em que mundo ela vive? Acho que estamos vendo o homossexualismo como uma coisa distante e estranha. porque agora Terê sabe como é a pessoa que está no lugar que ela quer tomar: O rapaz serve de modelo. Porque o amigo de Henrique estaria lá. DENISE . Sonho com essa cena.Henrique.Eu vejo da seguinte maneira: quando Henrique confessa seu problema a Terê. não haveria nenhum engano. ROBERTO . o amigo e Terê vão até o carro de Henrique. ela não se resigna.Por que vocês só pensam em soluções cruéis? GARCÍA MÁRQUEZ . o amigo de Henrique está esperando por ele. E menos ainda da nossa sociedade. no dia seguinte.Nesse caso. colocada de repente em segundo plano.Eu acho que não.E na vida real. e ela irá ao lado do motorista. não se sente 158 . como se fosse uma coisa muito natural. Terê precisa ir no banco de trás. quando saem juntos do teatro. GARCÍA MÁRQUEZ . senta-se na frente. tendo de ir a um bar 'observar' a conduta dos homossexuais. “Ah.. É uma maneira muito gráfica de ver Terê posta de lado. REYNALDO .que acaba de conhecer Terê e se sente deslumbrado por ela . e entendem que a coisa não avança.. e iria se reunir com eles.GLÓRIA . Volta ao bar que Henrique freqüenta e ele.seria capaz de levá-la um bar de homossexuais? REYNALDO . A partir do primeiro momento. como quem vai ao zoológico observar a conduta dos macacos? Mas. GARCÍA MÁRQUEZ . mas úteis.Por tudo. ela desiste de vêlo. uma excelente atriz. os três . Porque Henrique se delataria.Ao saírem do bar. quando o correto é que todos nós formamos parte desse ambiente. GARCÍA MÁRQUEZ . quando se encontrar em seu ambiente. Está decidida a conquistá-lo. quando a vê.

Corte. DENISE .ou desse desencontro para poder calcular por 159 . mostra-se amável. Henrique não a reconhecesse? MARCOS . e depois? DENISE . como podia ter dito ao tal Nélson. a gente não sabe ainda.. Trazem para o casal uma dessas bebidas borbulhantes. que jorram fumaça. vestida de homem.Para ficar louca ela teria de ter sofrido muito.a agonia desse amor impossível – e deixar a surpresa da transformação para o final. GARCÍA MÁRQUEZ . não. “Senta aqui.E o que aconteceria se. Hummm. para que a coisa não acabe sendo grotesca.Logo de saída. Ao contrário.Isso. Corte. Lá está ela. de alguma forma. É preciso tomar cuidado com esses cortes. até mostrar Henrique com outra mulher? DENISE . Vemos Terê cortando o cabelo. uma coisa muito divertida.Mas você levaria a história até aí. só para agradá-lo. vestida de homem pela primeira vez. Por se negar a si mesma. Reconheceu-a ou não? GARCÍA MÁRQUEZ .Eu sugiro que depois apresentássemos a outra mulher. Ao contrário. porque o desejo pode variar de objeto”. parece que ela controlou a situação com bastante maturidade. CECÍLIA . Henrique chega.perseguido e nem recrimina nada. GARCÍA MÁRQUEZ . quando Terê muda. porque gostaria de ressaltar a moral da história: “Jamais se transforme em objeto de desejo do outro. Gostaria que isso ficasse. ROBERTO . Uma hora e meia seria muito. quero oferecer a você uma coisa muito especial”. REYNALDO . Talvez fosse conveniente alongar a primeira parte . olha pelo vidro da janela. Mas . implícito.Mas estamos na metade ou no fim do filme? GARCÍA MÁRQUEZ .Não entendo como ela pode ser tão imatura. “Que bom que você veio!”. satisfazê-lo. É preciso ver o que acontece depois desse encontro .Eu imagino esse lance assim: Henrique e Terê marcaram um encontro no bar no cantinho de sempre.. dá meia-volta e vai embora. diz. Por idealizar Henrique tanto.. e os dois passam momentos ótimos conversando. DENISE .Esta é uma história para meia hora.Até mostrar que Terê perdeu sua identidade e está a ponto de ficar louca.O filme poderia acabar assim: Terê entrando no apartamento de Henrique.. e eu não vi esse sofrimento em nenhum momento. Acho que o problema é de formato. mas meia hora é pouco. Corte. Vemos a moça chegando ao teatro de motocicleta.

também podia ser seu neto. a diferença de idades entre a protagonista e o jovem já não é tão evidente. GARCÍA MÁRQUEZ .A idéia de que Henrique não a reconheça . Repentina é pior... ROBERTO . por um lado. mas resolve o problema do tempo. Num longa-metragem.. MARCOS . no final.E a mudança dela. Aqui. Mesmo que fosse de um jeito traumático. não podemos supor que o processo de transformação de Terê ocorra de modo tão gradual que acabe sendo imperceptível. O que estou achando que ficou claro é que só pode ser repentina se nós deixarmos isso como imagem final. já transformada em 160 . Outro dia. podemos tentar. DENISE .ou melhor. não tem jeito. Henrique possa não reconhecer Terê... e metade desse tempo nós devemos dedicar a apresentar o problema.. E quando chega o momento da valsa. Por outro. Reynaldo. ROBERTO . Não há tempo para isso. afinal como aconteceu? Progressiva ou repentina? GARCÍA MÁRQUEZ . esta é uma história de amor.Mas seduzi-lo como mulher ou como homem?.onde começamos. Para mim. ao longo de todo o filme..visual e dramaticamente é o golpe de efeito dessa cena em que Terê. GARCÍA MÁRQUEZ . Para conseguir isso de forma verossímil não tivemos outra saída a não ser rejuvenescer a velha aos poucos. Isso. não chegue a reconhecê-la .Eu me preocupo menos com isso e mais com a idéia de que. dançando uma valsa com um jovem de vinte e dois anos que poderia ser o seu galã mas que. e essa idéia do desencontro por motivos externos. MARCOS .nós até falávamos do inconfundível orriso de Terê . imperceptivelmente. Poderá não reconhecê-la de repente. Mas para manejar essa situação discretamente dispúnhamos de quase duas horas.Não tão extremos: Terê se transforma por dentro também.. na história em que estou trabalhando agora. mas é só olhar bem . João .para ver quem é.Temos três maneiras de resolver isso. vimos a conveniência de que a velha termine lá em cima.Seria preciso perguntar também se Henrique é homossexual ativo ou passivo.Aos poucos é melhor.Eu gostaria que Terê conseguisse seduzir Henrique.não se sustenta...punha o exemplo do professor de judô. porque se for passivo.a propósito do meu personagem. Por exemplo. psicologicamente. ROBERTO . rejuvenescida.. mas desequilibra a estrutura. na verdade. GARCÍA MÁRQUEZ .O que precisamos resolver .. só temos trinta minutos.

. no que diz respeito à sua própria mudança.. quando deixa de ser ela. você precisa ter alternativas. claro.Mas como não há tempo para isso. Essa transformação psíquica concordo com a sua preocupação.E à própria atriz.Como fazer isso. Esse é o momento! DENISE . GARCÍA MÁRQUEZ . apresenta-se a Henrique. SOCORRO . Ela vai selecionando seus 'modelos' e.O olhar de Terê serviria de guia.e termina com uma visão objetiva: Terê transformada em efebo. ao mesmo tempo. sem se mexer de seu assento . Então. Só quem está apresentado a sua própria história é que não faz.A frustração também é uma situação dramática.os homossexuais sendo observados avidamente por uma mulher . e muito menos no caso de uma história de amor. a luta de Terê não deveria levar ao fracasso: Henrique acaba possuindo-a.. Ou seja. GARCÍA MÁRQUEZ . À sua maneira.Todos nós fazemos esse papel. GARCÍA MÁRQUEZ . DENISE . ROBERTO. SOCORRO . Denise. Você está fazendo o papel de papel de advogado de defesa de uma história alheia.Terê entra numa luta feroz contra as circunstâncias que a impedem de realizar sua paixão. já que Henrique também participa da mesma paixão.ela fosse se transformando? Numa cena assim. Uma história não se frusta como drama porque os personagens se frustram. Pense na cena do bar.Esse plano começa com uma tomada subjetiva . MANOLO .homem.. ROBERTO . por um ato de mimetismo.Assim não vale. Essa história que Denise quer contar. GARCÍA MÁRQUEZ . ao encarregado do guarda-roupa. em termos visuais? ROBERTO . A transformação de Terê seria mais psicológica do que física. da qual você gosta tanto.. se 'transformando' neles. plasticamente? Seria preciso perguntar ao maquiador. o fluxo do tempo e o fluxo da consciência ocorreriam de uma vez só. E deixa de amá-la quando Terê renuncia à sua identidade. quando Terê vai observar os homossexuais. Eu não estou contra o final feliz da frustração. ou então Terê se transforma em homem e o filme acaba aí. e das maiores. Eu acho horrível que essa paixão se frustre. E se pouco a pouco – mas ali mesmo.. que supostamente deve acabar bem.. O fato é que 161 . trata-se de um amor correspondido.Vou fazer o papel de advogado do diabo. com um final aberto.. Manolo poderá ser expressa visual.Estou convencida de que a mudança de Terê deve ser gradual.Henrique ama Teresa pelo que ela é. ROBERTO . uma história com moral no fim.

Para Teresa. É preciso ter cuidado para não nos enganarmos numa coisa tão polêmica. que por favor deixe de inibições e nos dê uma mão. Mas sem muita esperança. Não continuo... alcança Terê na rua e a convida para beber alguma coisa. mas que agora. e tenta fazer amor. E essa ambigüidade que mantém o conflito latente.Que antes de sua primeira tentativa. mas com mas com você. GARCÍA MÁRQUEZ . sente essa atração sexual pela moça. Não consegue. confessa que nunca esteve com uma mulher. Se algum de nós for um homossexual enrustido. Então. E daí? Como é que ela ajuda? MANOLO .É isso o que eu gostaria de dizer: é absurdo querer se transformar em objeto do desejo de outro.. os amores à primeira vista não são reações que possam ser explicadas facilmente.. São razões do coração. É preciso dar a esse vínculo Terê-Henrique o nível de tensão necessário. No dia seguinte.. porque a gente nunca sabe onde começa e onde termina o desejo do outro.Em outras palavras: ele pede ajuda a ela? ROBERTO .. e ela.. Henrique é um ídolo. de repente. o lógico é que Teresa diga a ele: “Tudo bem. Talvez por isso. GARCÍA MÁRQUEZ . ele quer. SOCORRO . 162 .Ora. e nada. Ou reações químicas misteriosas. Henrique diga a ela. Muito bem.. Não vai além desse ponto. com uma evolução de sentimentos que nós não conhecemos bem. porque acabo de perceber uma coisa: diante dessa situação. sem meias palavras: “Nunca estive antes com uma mulher. Henrique decide convidar Terê para ir ao seu apartamento.É uma história muito delicada. ROBERTO .Terê tem que estar convencida de que Henrique se entregaria a ela por completo. seus se que Henrique desce do seu pedestal.estamos trabalhando sobre um tema que não conhecemos intimamente. DENISE .E nem o nosso. DENISE .Eu insisto na minha proposta. Pode ser que a iniciação sexual de Henrique tenha sido heterossexual. GARCÍA MÁRQUEZ .. A gente não se conhece tão bem como achaque se conhece. eu quero”. Ela também não teria grandes esperanças. Henrique conheceu dúzias de mulheres tão atraentes e inteligentes como ela. se pudesse. Vamos ver: vamos analisar a história de novo. estejamos todos atolados.Não é fácil explicar porque diabos Henrique. Manolo. é a primeira vez. não pode atribuir esse limite a outra coisa porque não sabe do segredo de Henrique..É. agora.. Pode ser que ele tenha sido até casado. mas isso é normal. SOCORRO . para ver se saímos desse atoleiro. vou ajudar você”.. por seu lado.

estamos danados. ou a pretensão de trabalhar com dois pontos de vista ao mesmo tempo.Quantas tentativas frustradas ela vai ter de suportar? REYNALDO .Houve um trauma num determinado momento.O conflito viria depois. Como se comportaria um homossexual do tipo de Henrique.Na primeira noite. É tamanha a atração que sente por ela. porque o objeto do meu desejo passou a ser uma mulher? REYNALDO . A história inteira está contada do ponto de vista de Teresa.O número não interessa. DENISE . E. com o efebo. Isso não é nenhuma novidade para ele. mais interessante será a evolução de Terê. Nesta história. e não temos tempo. Como diz o bolero.Na primeira tentativa? Não.. decidir: agora prefiro o amor heterossexual.E o que isso adianta. Se nos metermos 163 .Continuamos empacados em nossa ignorância. Terê sente que está perdendo a batalha para o rival e apela para o disfarce. Precisamos nos manter firmes no ponto de vista dela. “depois de ter vivido vinte desenganos. como é natural: são aliás. para nós? SOCORRO . para mim. faz tempo que estamos dando voltas ao redor de Henrique. O que precisamos evitar a qualquer preço é a mudança de prespectiva. Nós simplesmente mudamos de ponto de vista. Henrique já teve relações heterossexuais normais. procurando parecer um pouco com ele. GARCÍA MÁRQUEZ . mas ele que não é nada irremediável. está claro: se tratamos de assumir o ponto de vista dele.A coisa ameaça complicar ainda mais. e no entanto.Eu acho que sei onde está a dificuldade dramática. Terê é quem toma a iniciativa. Terê vai cometer erros de apreciação. ELID .Eu me atenho à idéia da tentativa fracassada de Henrique. os nossos erros de apreciação. porque Henrique tem um amigo e não quer desistir dele por causa de Terê. GARCÍA MÁRQUEZ . da noite para o dia.Não é preciso tocar nesse assunto. não convém. DENISE . Henrique poderia funcionar normalmente com Terê.Suprime um obstáculo. Isso complicaria as coisas. ELID .Você esta insinuando que Henrique é bissexual? ELID . ROBERTO . qual a diferença de viver mais um?”. GARCÍA MÁRQUEZ .. numa circunstância como essa? Será que ele pode. ELID . em termos de tempo. Não vamos nos preocupar com isso.. Quanto mais forte for a frustração daquela primeira noite.

sim. estou tendo a seguinte idéia: o processo de transformação pode ocorrer através de detalhes. Se Terê não se disfarçar de homem. mas desacreditaria a Oficina. com Terê parecendo um menino desde o começo? Na realidade. imagina as reações do outro . DENISE . SOCORRO . suas capacidades miméticas. GARCÍA MÁRQUEZ . mas o que precisa ficar bem claro é qual o momento em que Terê sente que está encurralada e decide continuar lutando até o fim. mas muda o sentido da história. CECÍLIA ..Existem muitos detalhes que poderiam nos servir para dar a evolução sentimental de Terê. quando Henrique deixa Terê em casa. GARCÍA MÁRQUEZ . Ela começa a estudar seu personagem. CECÍLIA .. através de um espelho. 164 .Agora. assim. GARCÍA MÁRQUEZ . ela entra no quarto e vemos as fotos na parede. não resolve! ROBERTO .e vai tecendo.nos dilemas de Henrique. mas não expressa nada. dos personagens que ele interpretou no teatro.. e elucubrando meios DENISE .Pois eu me pergunto se será possível explorar essa linha sem nos desviarmos muito da idéia original.E quem disse que resolvia? Não.. fica sendo uma história barata.Ah. Por esse caminho nós podemos terminar contando Hamlet.. por exemplo.Mas esse jeito não resolve a história. DENISE . por exemplo.Nós dissemos que Terê é uma boa atriz mas não exploramos a sua imaginação. uma moça muito moderna. Seu quarto. ou seja. muito unissex. muito punk.A maldição dos espelhos nos persegue.E se começássemos a história da transformação ao contrário.Pense nesse papel que Terê acaba de conseguir. aí.É um grande jogo de efeito.. GARCÍA MÁRQUEZ . e os antecedentes.. Ela poderia estar imaginando um romance com Henrique.. e sairia muito melhor. até se transformar num machão.que na sua fantasia são sempre as que Henrique teria .Naquela primeira noite. GARCÍA MÁRQUEZ . REYNALDO . na cena de amor que acaba de interpretar com Henrique. ROBERTO . pode estar coberto de fotos de Henrique.Você pode mostrar a transformação do jeito que bem entender. uma situação imaginária onde as fronteiras entre a verdade e a mentira acabam se apagando. a história passa a ser nutra... Isso basta para deixar claro que Henrique já era seu ídolo há tempos. nunca mais vamos sair do buraco.Essa proposta parece boa.

e por isso perde o emprego e é preciso substituí-la por outra atriz. ROBERTO . Então. como dizem os lingüistas.Vamos lá. se transforma e nesse processo deixa de cumprir os requisitos que seu personagem no teatro exigiu. as atrizes que trabalham com ele. mas que não faz o gênero de Henrique.Tudo poderia ser um jogo sinistro que Henrique utiliza com suas vítimas. e que.. Henrique perceberá tudo.De acordo.A partir do momento em que Terê se disfarça. GARCÍA MÁRQUEZ .. Henrique teria que ser muito superficial para que um simples corte de cabelo e 165 . Quer dizer que ele gostava dela como mulher. porque agora ela é um rapazinho. Isso quer dizer que ele já não gosta mais dela? De jeito nenhum. Henrique é um sadomasoquista. quando não encontra outra opção. GARCÍA MÁRQUEZ . uma carga semântica muito forte. e não a de Teresa. A gente sempre apela para um final de efeito. GARCÍA MÁRQUEZ . Henrique recomeça a manobra com a outra.Se Henrique paquerar o suposto galã. quero dizer. onde ela está esperando com seu novo look.E se Henrique avançasse direto no rapaz? GLÓRIA . SOCORRO . A primeira possibilidade é mais fácil de ser contada. A vítima. Simula fazer esforços para consumar o amor. exclamasse. ou perde.Eu acho essa idéia o máximo..GARCÍA MÁRQUEZ . ou que não quer. podem acontecer duas coisas: ou ela conquista Henrique. ao vê-la. DENISE . mas é a história de Henrique.Isso deixaria uma pergunta latente: o que aconteceria se a reconhecesse? REYNALDO . ROBERTO . Um jovem boa-pinta.Eu gostaria que Terê.. vai ao bar e quando Henrique passa ao lado nem repara nela.. atraente. passasse na frente de Henrique.. O ciclo se fecha e torna a se abrir onde começou. ficamos sem moral da história. sabendo que não consegue. aborrecido: “Mas que bobagem é essa?”. Insinua muito discretamente a idéia da transformação. e que ele não a reconhecesse. Eu preferiria que Henrique chegasse ao bar. mas é também a menos verossímil.Assim que se aproximar e trocar duas palavras com ele. de novo: Terê se transforma.Ou então Henrique chega no bar. fazendo tudo para agradá-lo. sem perceber que é ela. acha que ela ainda não não chegou e começa a olhar interessado para aquele garoto que está sentado ali perto. nele. já travestida. GARCÍA MÁRQUEZ . GLÓRIA.É que esta última imagem tem.

pelo menos desse pobre diabo que passa de uma experiência a outra sem conhecer a verdadeira amizade.algum outro detalhe exterior o transformasse desse jeito. Acabo de perceber uma coisa. Henrique passa na sua frente e não a vê. esperando que ela chegue. REYNALDO . fica estupefato.. GARCÍA MÁRQUEZ . Quem vai a um bar de veado também é veado. até ser que arranque um dos elementos do disfarce da moça um cinturão.. Bom. Não tenho mais nenhuma outra idéia. ou melhor. Mas. Terê. que enfrenta escárnio permanente. agora. Senta numa mesa próxima. Podemos dizer que esse tipo de pessoa seja superficial ou frívola? Para suportar tudo isso... Deixamos de lado a peça de teatro que Henrique e Terê estão ensaiando.Poderia ser um desenlace visual.. Os homossexuais são muito frívolos.. é preciso ter um caráter muito forte. mas por acaso aceitava como mulher? MARCOS . Henrique não aceita fisicamente Terê transformada em efebo. sorrindo: “Alô”. o verdadeiro companheirismo. e diz. reconhece-a. na ação? Pode ser que a chave do desenlace esteja em algum daqueles diálogos. e tudo isso a troco de quê? Eu suspeito que exista muita frustação na vida do homossexual. Nós só utilizamos a peça no começo. É preciso tomar cuidado para não confundir as coisas. Digamos que ela se mistura no ambiente sem muito esforço. agarra a moça pelo braço. Dissemos que Terê se disfarça de homem. Pode até ser que hoje em dia menos. como mero pretexto para o encontro.Não acho tão improvável. uma correntinha. apóia as duas mãos na mesa.. não a reconhece. São pessoas que desafiam preconceitos e códigos morais muito enraizados.Vamos detalhar um ponto.. explode de raiva.Eu não me atreveria a dizer isso. como faria um jovem que estivesse disposto a uma conquista. afirmam seu direito a existir.. Então Terê se levanta. como se fosse um efebo a mais. GARCÍA MÁRQUEZ .. SOCORRO . 166 .Eu retorno ao encontro final. que não se definisse em termos dramáticos. contra ventos e marés. jogue no chão e pisa em cima. no bar: O lugar está cheio de clientes. sei lá -. caminha decidida para ele. Henrique olha para ela. e não é verdade: ela se disfarça de homossexual ativo. Por que não tentamos integrá-la.Um momento. eu vou até aqui. porque os homossexuais foram abrindo espaço na sociedade. em todo caso. arrasta-a para fora do bar e começa a insultá-la. está sentada na frente de uma mesa. GARCÍA MÁRQUEZ . Pode. que.

A peça teatral poderia se referir a delas pessoas que têm dificuldades em assumir sua verdadeira personalidade. até a história tomar seu próprio caminho. ROBERTO . reconhece. SOCORRO .uma coisa que nós já ouvimos Henrique dizer na peça de teatro .Eu pensei na possibilidade de uma cena de morte.e ela responde..a que eles representaram no teatro aparece como o obstáculo que se interpunha entre os dois.Estou com a intuição de que essa fórmula .. diz alguma coisa .ouvida duas ou três vezes . entre eles. os protagonistas consumam sua amor. Henrique olha..Com isso damos ao espectador a ilusão de que as coisas terminam bem para os dois. 167 .E que tal se a gente inverter os termos? O amor no teatro se frustra. o conflito permanece. nem nós. um diálogo que revela o conflito dos dois.Precisamos imaginar essa cena e elaborar o diálogo com cuidado. enquanto na vida real Henrique e Teresa.ROBERTO .Na peça. e assim sucessivamente.tem um potencial poético enorme. na realidade. mas a gente sabe que.e ela responderia com alguma coisa que a gente acha que conhece. e o deles se realiza? DENISE . mas à sua maneira. para utilizá-lo depois.. senta-se ali perto. através do texto dramático? ELID . Ela chega. O que até agora nós víamos como a verdade do amor . ROBERTO . Isso é Romeu e Julieta GARCÍA MÁRQUEZ . Talvez seja um caminho que ninguém esperava. mas não como estava previsto. esperando Terê. Assim começa. em sucessivos ensaios.a dos diálogos repetidos e modificados . GARCÍA MÁRQUEZ . percebemos que estão rompendo as convenções sociais. nem eles. REYNALDO .. mas que na realidade é uma coisa diferente.Quando eles começam a modificar os diálogos para ajustá-los à sua própria verdade. Entra no jogo. MANOLO .Vamos imaginar que Henrique esteja sentado no bar. vestida de homem. O filme pode terminar como um verdadeiro poema.Quer dizer que não é um amor frustrado? Que alívio! GARCÍA MÁRQUEZ .. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . Henrique diria uma frase que já conhecemos .Amor que termina numa cena de morte? Não é.No começo tínhamos falado várias vezes em repetir a cena de amor. Existe algo mais profundo que une os dois.Quer dizer que os dois só conseguem se comunicar no plano artístico.

A revelação.. Nós não podíamos mudar nada essencialna história.Ô mulher! Só agora você diz isso? GLÓRIA . O encontro no bar.. e o gesto de Teresa . A proposta vem da própria Denise.Acho que seria interessante fazer assim. Lembrem-se de Dustin Hoffman em Tootsie.VICTORIA .. REYNALDO . um conflito profundo. SOCORRO . como uma comédia. O que muda agora é a história inteira. uma Terê que desiste de disfarce e se impõe por direito próprio? REYNALDO . Bem.. Eu vejo esse filme. Terê corta o cabelo. uma mulher belíssima. vai ao bar. é claro. podemos terminar do jeito que quisermos.. ele aparece vestido de mulher. e de repente mudamos de gênero? GARCÍA MÁRQUEZ. Por que não a própria Terê.E eu. DENISE . porque Henrique é um grande ator e pode fazer o que quiser com o seu próprio físico. GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO . mudou. cômico. Eu não sinto que isso de 'poder' e 'não conseguir' seja. ora. ainda sem se reconhecer. e paz na terra e GLÓRIA aos céus nas alturas. Um final maravilhoso.Não é mais Terê quem muda.A única coisa que precisamos mudar é o tom. 168 .Pois eu confesso que para mim o problema principal está no seguinte ponto: nós não sabemos até que ponto esse drama é dramático para Henrique.Se impõe como mulher? E de que maneira? GARCÍA MÁRQUEZ .. para ele. um na frente do outro.. em clima de comédia. aqui estão Henrique e Teresa...Pode até ser engraçado. do começo ao fim. De repente. por exemplo. qual é o problema? ROBERTO .Bom. Uma mulher maravilhosa. que já estava achando ótima a idéia da tragédia. E. Até que a morte os separe. DENISE.Quem podia mudar. Henrique vestido de mulher. se veste de rapaz. essa não. senta e fica esperando Henrique. queria que Henrique acabasse com outra mulher.. ELID . Por exemplo: Terê vestida de homem. DENISE . se vai ser comédia... GARCÍA MÁRQUEZ .Ora.. GARCÍA MÁRQUEZ .Para sermos coerentes.Não é preciso mudar mais nada. poderíamos tornar a Terê lésbica.Imaginem só a seguinte cena: a entrada de Henrique.o mais belo dos galãs convidando-a para dançar no grande salão de espelhos.E você. Se a história muda para melhor.. de repente.. GARCÍA MÁRQUEZ ..

GARCÍA MÁRQUEZ . tem haver um toque de ironia. quando ela faz o teste no teatro. E daí vinha a flecha do cupido. de Maria Félix em Dona Bárbara. Cada vez que ele aparecer no bar. o jogo erótico.. de Shakespeare. Quando os papéis se invertem. REYNALDO . mas é sempre outro: hoje de bigode postiço e peruca. Os dois estão sob o signo de Gêmeos. Mas se buscavam por onde não era. gosta de se disfarçar.o casal perfeito. Mas nossa tarefa. você agora quer estropiar o nosso filme. Não é preciso levar os dois até a cama. Por isso se buscavam. GARCÍA MÁRQUEZ . quando encontra Terê. Henrique percebe isso.Que horror! REYNALDO . os dois têm um filho. Agora. Uma coisa assim de atores. como é que vai entender tudo isso? GARCÍA MÁRQUEZ .Não sei... mas com os papéis invertidos . a barreira cai. Todos os elementos estão aí: a metamorfose. pode ser maravilhoso. ou de Gloria Swanson em Crepúsculo dos Deuses.. SOCORRO .Ora . amanhã estica os cabelos como Rodolfo Valentino.Já sei qual é a peça que estão montando: Sonho de uma Noite de verão...No bar Henrique poderia ir vestido da maneira com que Terê se 169 . brincar com as aparências. e Henrique.. o do cara que se transforma em burro e tem um diálogo com ela. Terê faz o papel de Titania.. GLÓRIA .Terê. agora Henrique não é só homossexual: é a própria bicha louca. Certa noite.. GARCÍA MÁRQUEZ . outra noite vai vestido de mosqueteiro. GARCÍA MÁRQUEZ . depois da trabalheira danada que tivemos? ELID . é ver como damos as diferentes metamorfoses de Henrique. tem que ser um personagem diferente. muito de carnaval. agora. vai ao bar de homossexuais vestido de dama antiga.. cada um é o outro. também freqüenta o bar sem que ele saiba. Não é que ele se torne irreconhecível.. São exemplos. DENISE . Hoje usa óculos.A barreira que os separa é a de seus respectivos sexos.para entender tudo. mas creio que a coisa pode funcionar por aí. o do baile.. Basta vê-los dançar . essa atração recíproca que sentiram desde o começo.. o do burro. e no final. vai disfarçado. amanhã usa cavanhaque. Esse movimento final. claro.E o espectador. sei lá.Por quê? É um ator.Parece que a varinha de condão fui a palavra comédia.. que acabaram se encontrando. ELID .Na atuação de Terê. como lésbica. Nesta noite em particular. Parido por ela.Brincadeiras à parte. São os andróginos.

A sensação que produz é sufocante. ainda assim. ou falam o necessário.veste na peça que estão ensaiando. tem sentido. Eles se sentem como se fossem papagaios. ou falam muito pouco. satisfeito: “Entendo”.Minha história é exatamente o oposto de Denise.de ser dramaticamente válida. ROBERTO . DENISE .Sidália e Belinda SOCORRO . DENISE . e passada no campo. comentam isso: como é estranho dizer coisas que eles mesmo não entendem. Por exemplo.'Entendo' justamente porque não entende nada. daí sai a cena de amor que nós conhecemos. GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO . na cena do bar: um diz maluquices ao outro. Esse mesmo jogo é aplicado no final.E eles. Henrique e Teresa. REYNALDO . GARCÍA MÁRQUEZ . E além do mais. GARCÍA MÁRQUEZ .Vou ter de pensar nos prós e nos contras. moralmente legítima e visualmente agradável. Uma história maluca que. sem nenhum tipo de amargura. mas não se entendem. seja como for. DENISE . as duas metades que não param de buscar suas identidades.No teste fazem perguntas. O que você acha. tem a vantagem . de Ionesco. eu gosto mais.Eu acho que você não sacrifica nada essencial. e ela responde: “Não sei”.Poderia ser A Cantora Careca. 170 .Beckett. Denise? É pegar ou largar. Henrique pergunta a ela: “O que isso quer dizer?”. sem muitas complicações. O que mais a gente pode querer? . GARCÍA MÁRQUEZ . como atores. em algum momento responde uma coisa que não sabemos se é um disparate ou uma genialidade. e Terê.. feito um disco rachado.Precisamos saber. ROBERTO . mas eles se entendem perfeitamente. que peça é essa. E agora é uma comédia divertida. Aliás. Lembro de um de seus personagens repetindo palavras. e vice-versa. mas não a que serve para testar as atrizes. É de época.. E ele.A peça poderia ser contemporânea.eu acho . Talvez seja uma réplica do drama dos andróginos. uma obra de Beckett: os personagens falam mas não dizem nada.Essa poderia ser a obra que eles vão representar. O teste é feito com uma obra romântica.

Mas agora descarrega sua frustração em Belinda. SOCORRO . Sidália considera a irmã culpada pela sua própria tragédia. há uma diferença de quinze anos. Sidália foi filha única. Era uma mulher belíssima. muito elegante. certo? Belinda não viveu essa tragédia: ainda era muito pequeno.. Portanto. então. Mas.Sidália não teve namorado? É como uma mãe solteira. isso não é época! Isso é o ano passado. porque tinha o carinho dos pais e a memória do que havia vivido.1930. Belinda tem 37. como uma lenda. pela hostilidade do ambiente. Sidália... ditada por normas religiosas e morais muito estritas. três anos depois da morte da mulher. de ponta arredondada. DENISE .. SOCORRO .. a primeira que levou à cidadezinha as modas européias.. um vestido de crinolina com uma sombrinha de lacinhos e sapatos de verniz. a mais moça. SOCORRO . Assim que Sidália fez 15 anos. até os quinze anos.É a história de duas irmãs. É tão próximo. por exemplo. diga: quando é 171 . Porque Belinda não é normal: não fala. 18 anos. Sente uma profunda rejeição em relação à irmã. talvez motivado pela morte dos pais. Belinda. Sidália conserva esse vestido de sua mãe como se fosse uma relíquia.De que época? SOCORRO .. Entre as duas. Tudo bem. GARCÍA MÁRQUEZ . sente como uma obrigação moral cuidar dela pelo resto da vida. O mais correto talvez seja dizer que ela não fala porque não tem vontade de falar.Isso talvez influa em sua atitude com Belinda.. Não é que seja nada: é que sofreu um trauma. e Belinda. sua mãe morreu no parto de Belinda.. mas não se importava. GARCÍA MÁRQUEZ .Entre elas sobrevive. a imagem da mãe. Chegou a conhecer o velho esplendor da família da aristocracia rural que naquela mesma época começou a cair em desgraça. é lógico. desde o momento em que nasceu e as duas ficaram órfãs de mãe. passou a ser a filha de Sidália. Ainda é lembrada com uma de suas roupas mais vistosas..São filhas do mesmo pai. Ao mesmo tempo. Foi muito mimada quando criança. que eu até me lembro. GARCÍA MÁRQUEZ . que a criou. Ou seja.Não dá um pio. Ele ainda vive? SOCORRO . mas recebeu uma educação rígida..Sidália tinha.. Sidália sofreu na própria carne algumas das conseqüências. Sidália tem 52..Ora. para efeitos práticos. mas virgem.GARCÍA MÁRQUEZ . Quando a família se arruinou. GARCÍA MÁRQUEZ . a mais velha.Morreu alcoólatra.

Nesses momentos. VICTORIA .o fato de ser um vestido de luxo. que eu também ia esquecendo: Belinda. vive num vazio total. Para ela. O único som que ouviu de Belinda são os murmúrios e os resmungos que a irmã faz quando dorme.. Belinda tem uma estranha fixação por esse vestido.Uma relação de amor e ódio. Por isso. que diz a ela que a única coisa que pode aconselhar é procurar o boticário e pedir um remédio que tenha 172 .Sidália sabe disso? SOCORRO . arruma os quartos. vive entre alucinações. para evitar as traças. E.. GARCÍA MÁRQUEZ . o vestido tem um efeito estimulante. ao mesmo tempo. cuida do jardim.. Ah. que só pensa em lhe dar desgostos e fazer o que quer. E na casa sempre fez o papel empregada: varre. SOCORRO . Por alguma razão . que Sidália é professora e com seu salário mantém a casa. ou melhor. quando está sozinha. SOCORRO . E os vizinhos também. sentiu pena.Está quase começando. É beata. com um decote grande. Sidália está muito preocupada. ao mesmo tempo. E essas fantasias têm um eixo: o vestido da mãe. Mas Sidália nunca ouviu a irmã cantar.. E mais de uma vez Sidália surpreendeu Belinda usando o vestido. Belinda.-. guardou-o na arca e ameaçou castigá-la. GLÓRIA . muito bem dobrado numa arca.. que começa a ter desejos de tocar. As duas são neuróticas. Um dia. num mundo de fantasias.que o filme começa? SOCORRO . gosta de cantar. Sidália ficou tão escandalizada que quase morreu um ataque cardíaco. obrigou-a a tirar o vestido.Para Berlinda.. Em alguns momentos Sidália se sente culpada e tenta ser solícita e carinhosa. Sidália ficou furiosa com a irmã: gritou com ela. fazendo charme na frente do espelho ou fazendo a sombrinha girar graciosamente enquanto passeava pelo quarto. Vai consultar o padre.. enfim. que as duas irmãs continuam morando no velho casarão familiar. surpreendeu-a masturbando-se enquanto usava o vestido. com naftalina.Está no limite da esquizofrenia.Belinda também é solteirona frustrada? SOCORRO . sabemos que não é muda. segundo. em compensação. é só Berlinda vestir essa roupa.Desperta a sua sexualidade. vai à missa. é um ser que dá pena... tem contatos com o mundo exterior. Sidália é professora. O que ela não pode perdoar em Belinda é outra coisa. Há um detalhe importante. GLÓRIA . de acariciar o próprio corpo. Mas.. sua irmã é um ser manhoso e egoísta. esqueci duas coisas: primeiro.O vestido está guardado no quarto de Sidália – com todos os acessórios -. Mas. prepara a comida.Ela jamais saiu de casa. se confessa.

O roteirista tem que desenvolver seu trabalho da melhor maneira possível. sofre um ataque no chão e começa a se contorcer em estranhas convulsões. Belinda se assusta. primeiro. Não é um trabalho fácil.propriedades calmantes. É a mesma coisa em relação à produção. Sidália busca um jeito para dar essas gotinhas à irmã. É Belinda. Ela cai em estado catatônico. Eu queria chegar a essa imagem. Sidália se enfurece. GARCÍA MÁRQUEZ . comprimi-lo no espaço de meia hora. eu quero saber uma coisa: Sidália é frígida? SOCORRO . em compensação. os vizinhos assistem a um estranho espetáculo. Um dia. GARCÍA MÁRQUEZ . e sapatos de salto alto e meias. faz Sidália engolir o líquido achando que assim irá aliviar a irmã . como se fosse uma epilética..Nós temos aqui um argumento.Belinda. passa na televisão? GARCÍA MÁRQUEZ .A imagem de Belinda se masturbando. come com faca e garfo? 173 . toda emperiquitada. Ela se lança sobre Belinda e começa a puxar o vestido. Belinda acabar falando. nossa tarefa é adaptá-lo.Por isso ela se recusou a continuar tomando o remédio. em algum momento. isso não é problema nosso. algumas gotas por dia. torna a encontrar a irmã usando o vestido e se masturbando. Agora.. e rasga em várias partes. a cara coberta de maquiagem. Quando Sidália percebe o que acaba de fazer com o vestido da mãe .. a gente deve fazer o que acha que deve ser feito. volta para a sala. Vai correndo até a cozinha. com o vestido da mãe todo remendado. Na tarde do enterro. Mas. SOCORRO . como se quisesse arrancá-lo. sempre vestida de preto GARCÍA MÁRQUEZ .. é muito vital. que abre as portas e as janelas da casa e sai à rua.. é claro. ao voltar da escola. apanha a poção do boticário. enquanto trata de ajudar a irmã. DENISE . desenvolvido do começo ao fim. e morre dois dias depois. Mas não vai ao enterro de Sidália. Não descarto a possibilidade de.e com essa overdose acaba provocando em Sidália um dano irreparável. é um trabalhão. que logo passa a recusá-las porque cada vez que toma tais gotinhas se sente sonolenta. Depois vem a guerra contra as convenções e os códigos morais. Nem o remédio conseguiu derrubá-la. Em relação à história. O tecido cede. com muito cuidado. com a sombrinha esfarrapada..Por enquanto..E o resto de seus hábitos sociais? Ela toma banho todo dia.a única lembrança pessoal que ela tem -. Aliás. É o nascimento da louca da cidade. muito recatada.. O que Sidália mais temia acaba acontecendo. O boticário efetivamente prepara uma poção e recomenda que sejam administradas à paciente. Ela é muito beata.Sim.

ela se penteia. 174 . ela teve tempo para guardar o vestido e fazer de conta que tudo está em ordem. Sidália sempre tentou ensinar o ritual da mesa. mas não conseguiu. Sidália. e tira o vestido correndo. por exemplo. Ouve-se um ruído lá fora.. Belinda?”. mas é só. Belinda.. Enquanto Sidália entra.O final do filme é ótimo. foi vendendo os móveis.SOCORRO . SOCORRO .ou pelo menos. “Você gostou da salada. e ela mesma responde: “Com prazer. passe o saleiro”. Em sua relação com ela. usando o vestido da mãe. Quase tudo que move essa história está implícito ou está oculto.. GARCÍA MÁRQUEZ ..Belinda não é lá muito asseada.Come usando uma colher.Nós precisamos de uma primeira seqüência espetacular. Belinda sabe que é Sidália. GARCÍA MÁRQUEZ . já bancando a louca. Não é por acaso que só canta quando está no jardim. SOCORRO . arrumando o cabelo na frente do espelho. querida irmã”.O aspecto físico do personagem é muito importante. A relação se dá através de um monólogo sutilmente agressivo. ainda são visíveis as marcas dos quadros que foram vendidos.A primeira cena é a de Belinda no quarto. GARCÍA MÁRQUEZ . Sidália diz: “Por favor. Um exemplo: na mesa. Belinda fugia. GARCÍA MÁRQUEZ . Eu quero ver. está muito boa”. GARCÍA MÁRQUEZ .Na casa existe pouca mobília. SOCORRO . Enquanto a gente não conseguir ver o personagem. fecha o portão.. Belinda tampouco tentou aprender a ler e escrever: Cada vez que a irmã tentava ensinar o alfabeto. que agarre o espectador e nos dê um respiro para podermos dizer ó. REYNALDO . a própria Sidália pergunta e responde. Nas paredes. SOCORRO . a maneira de usar os talheres. e não há quem a faça parar. se deduza a partir das relações cotidianas entre as irmãs. e começa a falar e falar. “Claro. com certeza. essa mulher de repente saindo na rua. digamos. O salário de professora não dá para as duas. atravessa a sala e aparece no quarto de Belinda. A loucura faz com que diga tudo que não disse antes. que agarra de um jeito estranho.. minha irmã.A verdadeira louca é Sidália.. Quando põe o vestido da mãe. e acha que ninguém está ouvindo.Sidália nunca consegue se comunicar normalmente com Belinda. que vai surpreendê-la.Eu quero que se veja tudo . Belinda não intervém nunca.Você nos danou. não consegue pensar em muita coisa. A única coisa de que ela realmente gosta são as flores.

. Belinda está cantarolando.Claro. porque acontece que precisamos responder perguntas sem narrador. Portanto. E nós estamos danados. saberíamos de saída que é professora: “Até amanhã.”. Quando sente que lá fora alguém abriu o portão do jardim. temos de explicar os antecedentes.Tenho medo que isso seja um jeito de precipitar as coisas. Pode ter sido um descuido. e vê o quê? Outra mulher.. SOCORRO . Entende? Isso é o que eu chamo de uma cena dura. não é? Só ela mesma. Agora a mulher entra num quarto.. definir as personalidades. ela se nega a falar. Quem é ela? Não sabemos. e a recém-chegada fica tão enfurecida que insulta a outra. está propondo que Belinda rasgue o vestido logo nessa primeira vez?. Durante um bom tempo a recémchegada não vai falar com ninguém. entre essa primeira cena e o final. olhando-se num espelho.Quando você fala do vestido rasgado. ou na argola de rede que está na parede. mãos a obra. O vestido está rasgado. SOCORRO . ela se cala. e depois com o padre. Esse é o nosso material. vamos nessa.Na frente do espelho. repito. Se você a trouxesse da escola. sem interlocutores e quase sem palavras. O espectador fica sabendo: essa mulher não é muda. Contamos. Muito bem.. GARCÍA MÁRQUEZ .Na vida real elas já viveram essa mesma situação outras vezes. a única coisa que nós precisamos fazer é responder a essas perguntas da melhor maneira possível. quero dizer -. dona fulana. GARCÍA MÁRQUEZ . prende as suas mãos com uma corda e amarra-a ao pé da cama.vamos em frente.Esse trabalhinho é fogo.no filme.Nos créditos de abertura..Você começa o filme com uma senhora entrando numa casa. Está vendo por que eu digo que temos de ter uma seqüência inicial muito forte? É a nossa única maneira de tirar vantagem. SOCORRO .. A partir daí. capaz de criar intriga e suscitar uma série de perguntas. bate nela. Quando Sidália rasga o vestido sem querer. Em vinte e cinco minutos. mal nos sobra tempo para divagações.Eu acho essa imagem interessante: na primeira vez que Sidália vê Belinda . devemos ir direto ao assunto.Então. GARCÍA MÁRQUEZ .. mais jovem que ela.SOCORRO. REYNALDO . Sabemos que a casa é dela porque tira a chave da bolsa com toda naturalidade. obriga-a a trocar de roupa. vestida como você quiser. podemos fazer uma montagem 175 .Como primeira? Haverá uma segunda? SOCORRO . com o fato de que.. mostrar a relação entre as irmãs. Mas enfim. já a vê usando o vestido. GARCÍA MÁRQUEZ . a nosso favor. ROBERTO .

Não é muda.Mas nós a ouvimos cantarolar enquanto se vestia.Uma cena tão bonita? ROBERTO . É isso que precisamos explicar ou insinuar. Não se pode contar o filme inteiro na primeira seqüência. Se nesse primeiro momento ela não falasse. resmunga. E em determinado momento. ROBERTO . Belinda se senta no piano. e que a irmã aceite essa situação.. Sidália chega ao portão do jardim.Vou propor que a gente mude isso... como é natural: “Ela é muda”. o espectador pensaria. Belinda cante e fale sozinha.É bonita. toca suavemente o teclado. o fundamental é a questão do vestido e a relação entre as irmãs. ROBERTO .Se o espectador acreditasse que Belinda é muda. nenhuma sílaba. não é? Não a trata como se também fosse surda. não emitisse nenhum som.. MARCOS .Já eu quero propor que nessa cena inicial.Esse 'como se' é decisivo. e começa a cantar feito um passarinho! Isso tem uma força dramática muitíssimo maior do que se soubéssemos logo de saída que ela não é muda.. GARCÍA MÁRQUEZ . 176 . No momento em que Belinda acaba de se vestir.vestido-se como uma noiva – e a dureza de Sidália. SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ . não cantasse. Quando se enfurece. Quanto tempo isso pode tomar? ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . na frente do espelho. Essa situação não é fácil de se resolver.. Sidália fala com a irmã. no que se refere á sua mudez? Sidália sabe que a irmã não é muda. que me preocupa: como tornar verossímil a atitude de Belinda.. e quando Sidália chegar. imagine só a beleza da cena seguinte: sozinha na casa.Ela sabe que Belinda não é surda-muda. mas não é forte. a grande surpresa: Belinda desanda a cantar:. GARCÍA MÁRQUEZ .. se faz de muda. visível nas roupas e na forma de caminhar. mas Belinda não solta nenhum ai.. em termos de atuação e encenação. Sidália a tratará como se fosse muda. Sidália bate nela. ROBERTO . No máximo.Tem um problema técnico aí.Por que a gente vai parar nesse ponto logo agora? Até aqui. O espectador poderá pensar que ela é muda. chuta.O difícil é conseguir entender que Belinda se negue a falar com a irmã. GLÓRIA . Aí já dá para estabelecer um contraste entre a delicadeza de Belinda ... fique muda. E só quando a irmã está por perto.paralela entre Sidália saindo da escola e Belinda pondo o vestido. Além disso.Sidália nunca conseguiu arrancar uma palavra da irmã.

Se os vizinhos sabem. ROBERTO . pensaríamos: “Está experimentando um vestido de festa. vi uma reprodução em preto e branco. a cintura. GARCÍA MÁRQUEZ .O vestido deve ser associado com a elegância. com a sensualidade. Preciso conseguir aquela foto. um tom mais lírico. para que vocês vejam. REYNALDO . E nessa atmosfera idílica.O único lugar da casa que está muito bem cuidado é o jardim.A propósito: para dissimular aquela questão da masturbação para a censura. os sentidos que passam a ser predominantes . GARCÍA MÁRQUEZ . ou um enxoval de noiva”. cairia de repente o raio de Sidália.Mas eu gosto da idéia de associar o vestido ao canto. com ou sem o padre? Todo mundo sabe. com Sidália saindo da escola. Se Belinda começasse a cantarolar enquanto se veste..para ela e para nós . como é que a irmã não vai saber. VICTORIA ..Não.. como a imperatriz do Japão se protegia da chuva. Teríamos de imaginar as duas alternativas no contexto da montagem paralela.Aí ganhamos sutileza.. SOCORRO . Os vizinhos dizem que volta e meia ouvem Belinda cantar... será que não tem a ver? Os 177 . A do silêncio tem uma desvantagem. Parece que estou vendo avançar pela rua essa mulher vestida de preto..Os vizinhos sabem de tudo.. Quando Belinda põe o vestido. REYNALDO .Eu insisto: aí. GARCÍA MÁRQUEZ . Já que vamos brigar com os censores. Belinda se contempla com aquela roupa no espelho. deduzimos que Belinda canta muito.Sidália poderia receber rumores através do padre.. protegendo-se do sol com uma sombrinha...são a vista e o tato. o silêncio me parece mais eloqüente que o canto. acaricia os próprios braços.. podemos fazer que Sidália seja amante do padre. GARCÍA MÁRQUEZ ...GLÓRIA .. Ah!. Acontece que eu não vi a foto original. mas perdemos impacto.. sofre uma transformação profunda. Por isso. VICTORIA . Era uma sombrinha. É como se recuperasse o desejo de viver. apareceu a imagem que eu estava procurando. e não a audição. requer mais tempo de desenvolvimento: um ritmo mais lento. Belisa. que pelo menos seja uma briga das boas. Quando Belinda põe o vestido.. e me confundi. Belinda canta quando sai para arrumar o jardim. chegando em casa...Mas com a imperatriz não era um guarda-chuva? GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO ..Belinda.As duas opções podem funcionar. E canta.

Novo corte: Belinda terminando de se vestir: Isso é o que vemos: uma mulher bastante bonita que está pondo uma roupa muito bonita.. SOCORRO . assim..Parou de chover. em cima do baú... GLÓRIA . Anote a.. ROBERTO . E. ela está parada na porta da escola. é tanto calor que quando chove. parecida com a mãe. olhando bem. abrindo a sombrinha. GARCÍA MÁRQUEZ . Sidália entra no jardim.Está arrumando o cabelo na frente do espelho. Acaba de chover de terra úmida sobe um vapor denso”.Vemos.Nós dissemos que ela é professora? Dá aulas num colégio de freiras. E na parede. dois: um da mãe e outro do pai. embora um tanto antiquada.Belinda é bonita. mas ela não se dá ao trabalho de fechar a sombrinha. As meninas saindo debaixo do sol. ela atrás. Vapor aliás. quando cai um pé d'água. porque na tela os daguerreótipos não aparecem. ROBERTO .Vamos indicar isso para o assistente de produção: rua que reverbera debaixo do sol. Em alguns povoados do Brasil. está o retrato da mãe.E a fumaça que sobe.Ou pisando nelas. Percebemos isso? ROBERTO . Temos de ir construindo personagens.. Socorro: “Sidália via por uma rua ardente. que ninguém sabe explicar o que está fazendo aí. Os dois estão juntos na parede da 178 . essas casas de muros brancos. Uma mulher dessas não desvia por causa de uma pocinha de nada.. essa é uma história bem de Lorca: esse par de loucas trancadas num casarão. como se fosse do inferno. Ou melhor. A casa por dentro. GARCÍA MÁRQUEZ .Não está parada: estão todos em movimento. REYNALDO . duas coisas: a distância que existe entre a escola e a casa.Mas está suja e despenteada. despedindo-se das alunas. “Até amanhã. das pedras. Nos dois lados. vapor que sobe dos chacos. chuva que cai. essa cidadezinha de ruas desertas. SOCORRO . cobertas de cal. Tem que ser um grande retrato pintado a óleo. e a casa por fora. empedrada de paralelepípedos. essa mulher vestida de negro..Não deve ser um daguerreótipo. GARCÍA MÁRQUEZ .Amores de Dom Perimplim com Belisa em seu Jardim é uma peça de García Lorca. dona Sidália”.. mas que visualmente é belíssimo.. casinhas de dois andares. GARCÍA MÁRQUEZ .Na primeira vez que a vemos.Sidália vai saltando as poças. Corte. sai fumaça do chão... ROBERTO . SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ .

. Belinda canta ou não canta? ROBERTO . A gente sabe as horas pelos ruídos que chegam da rua. Por isso Sidália fica tão furiosa e diz a ela: “Chega!”. Belinda é reincidente.No meu filme.É importante que isso seja notado.Porque uma pessoa como Belinda não anda com um cronômetro..No retrato.. e do pai mesmo que é bom.sala. como é que Belinda se deixa surpreender? ROBERTO . morto heroicamente em batalha. a mãe está usando o famoso vestido. não cantaria.Não é. Por isso Sidália está tão furiosa: não só pelo vestido. GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO . uma sensação de euforia que a leva a cantar. com seu uniforme e suas condecorações de coronel da artilharia”.. mas não adiantou. mas também por causa do cadeado. não vemos nada.Ali. VICTORIA . pela brisa que entra pela janela.Se Sidália sempre sai da escola à mesma hora. por que não trancou o vestido à chave e guardou a chave no decote? SOCORRO .. GARCÍA MÁRQUEZ .São os dois únicos quadros que sobraram na casa. MARCOS . A câmera passa por ali.. GLÓRIA . Há roteiristas que escrevem: “Em cima do criado-mudo vemos um retrato do pai. SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ . Fica claro que não é a primeira vez. Ele está vestindo seu uniforme de general.No momento em que Sidália entra em casa. Belinda está cantando. 179 . medindo os minutos. na penumbra se detém sobre a moça adormecida. pela sombra que se projeta no chão..Sidália botou um cadeado na arca. Só falta uma coroa para que ela pareça uma rainha. Muito bem: isso resolve o problema.Teríamos de filmar as duas propostas e ver no que dá.Nessas cidadezinhas ninguém precisa de cronômetro ou de relógio. REYNALDO . GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . GLÓRIA . mas em off: não sabemos quem canta.. Belinda arrebentou o cadeado.Essa decisão ainda está pendente: nesta primeira seqüência.Belinda põe o vestido para o pai.Se for assim. e é uma pessoa tão metódica.Mas eu não desisto da idéia de que o vestido produza o mesmo efeito das flores. já que Sidália tomou providências para evitar que sua irmã tornasse a tirar o vestido da arca.E se essa for a primeira vez que Belinda põe o vestido? CECÍLIA . GARCÍA MÁRQUEZ ...

GARCÍA MÁRQUEZ . porque Belinda se parece com a mãe.Belinda tinha três anos quando o pai morreu. ROBERTO .Ela não recorda do pai .mas acontece que quem herdou a beleza da mãe foi a irmã louca..Pedir a quem? SOCORRO . e também por causa do cadeado.aquele cabelo.Não é que Sidália odeie a mãe.SOCORRO .. Esse vestido oculta um drama muito..E se Sidália odiasse a mãe em segredo? GLÓRIA . embora um tanto vaga. GARCÍA MÁRQUEZ . mas o ama. Pode conservar alguma lembrança dele. REYNALDO .Sidália ama também o pai. Pediria desculpas por causa do vestido. Esta poderia ser uma das suas fantasias. 180 . bate nela.. MARCOS .A mãe.Bate por causa do vestido.E com a agravante de que.. Agora. . Sidália fala sozinha.É disso que tenho medo.. De Sidália. mas muito complicado mesmo. Seria funesto que o espectador acreditasse que esta senhora está furiosa porque a empregada experimenta.É aí que mora o drama. escondida..Um diálogo? Entre quem e quem? REYNALDO . GARCÍA MÁRQUEZ .Um solilóquio. GARCÍA MÁRQUEZ . na figura da mãe. feito Belinda.Essa informação pode ser deixada para depois. SOCORRO . podemos pensar que se trata da relação entre uma senhora déspota e sua criada. Belinda matou a mãe.Sim.Um monólogo. SOCORRO . Depois. ROBERTO . quando Sidália vai se confessar. Sidália quer ser como a mãe .Ou com tanto ódio. REYNALDO .. No parto. aos olhos de Sidália. A relação entre as duas se define assim. É que odeia sua irmã. MARCOS . aquela pele. por que guardaria o vestido com tanto amor? GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO .Então.conhece-o pelo retrato e pelo que Sidália contou -. CECÍLIA ..É preciso elaborar um diálogo muito sutil para insinuar sem dizer. poderia ir até o retrato da mãe e pedir desculpas. O que ainda não sabemos é que são irmãs. Ama e se oferece a ele num ritual.Por que não voltamos à seqüência inicial? Dissemos que Sidália. GARCÍA MÁRQUEZ .. que as duas mulheres são irmãs. ao surpreender Belinda com o vestido. seus trapos.

desgra‡ada! Engole essa língua. Belinda não é assim.Essas cenas de violência são uma dor de cabeça para os diretores. Uma situação como essa não se dá facilmente entre pessoas normais. era a filha da velhice. sim.Essa primeira seqüência deve terminar com Belinda amarrada na cama. tinha pena dela. têm de ser atrozes. Nós já sabemos que não é muda.O quadro das motivações está completo. “Não diga nada. Agora. Ela mesma tira o vestido. Enquanto amarra a irmã..Primeiro Sidália fica plantada na frente de Belinda. Sidália vai gritando todas as ofensas que passam pela sua cabeça. GARCÍA MÁRQUEZ . Representa a vitalidade. ela era “o retrato vivo da mãe”.. depois. começa a insultá-la.E por que não deixamos as luvas de rendas para a segunda cena de violência. pelo que dizia. os insultos de Sidália. Sidália sempre quis ter um vestido como esse. GARCÍA MÁRQUEZ .GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . Sidália a amarra assim.Isso resolve o problema de despir Belinda. sabem fazer isso. ficamos sabendo que Sidália também sabe. a beleza que ela não tem. porque. mas ouve bem o que eu vou dizer!”. E. Sidália explode. Sidália fez com que ficasse assim. GLÓRIA . ROBERTO . e o guarda para vesti-lo em algum momento muito especial da sua vida. quando rasgam o vestido? Só as luvas sobrariam intactas. seminua. GARCÍA MÁRQUEZ . mas com as luvas.E não tira as luvas. É uma situação muito tensa. Belinda olha com ódio.E além disso.O pai também preferia Belinda.. que chego a pensar: e agora? Como manter esse nível? Como continuar? REYNALDO . quando vê a irmã com o vestido da mãe. Portanto. REYNALDO . E nesse momento. ROBERTO. SOCORRO .Belinda também vestiu umas luvas de renda. e o pai via a filha menor como órfã. Tão tensa.Sidália não odiava a mãe: invejava. Que imagem! E enquanto Sidália a amarra e insulta. Assim matamos dois pássaros com uma só estilingada: revelamos o caráter de Sidália e damos informação sobre as relações familiares. Mas esse momento não chega jamais.. Os americanos. quando parece que tudo já está em ordem.É isso que diziam dos romances de trinta anos 181 . e dá uma ordem duríssima: “Tire esse vestido imediatamente!”. O vestido é uma espécie de símbolo dessa inveja. mas sem dizer nada. Não são fáceis. GARCÍA MÁRQUEZ .

sempre disse que você e sua irmãzinha.Por que amarrar Belinda? A moça pode ficar jogada num canto. pois Sidália é das que se castigam com cilícios. Por quê? Quando? GARCÍA MÁRQUEZ . O ideal seria que tanto ela como o padre estivessem montados em cavalinhos de carrossel. enquanto 182 . SOCORRO . “E vosso finado pai.. sabem escrever livros”. Imagine que ela rompeu o cadeado da arca e tornou a pôr o vestido”.Nós ainda não sabemos como o filme continua.Aí Sidália solta tudo. GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS . E o padre.. é para explicar que Belinda é sua irmã. não se defende.Sidália não acha que a irmã está louca.. que descansa em paz e na Glória. rezando ou se confessando. Até onde chegamos. “Padre..É que amarrar implica um elemento de loucura que opera nas duas direções: na de Sidália.Sidália está louca mas não perdeu o contato com o mundo exterior.Por favor. GARCÍA MÁRQUEZ .. a de se entregar à bebida . nesse ponto ele solta o rolo familiar inteiro. E fala disso com o padre: “Padre. e que Sidália acha a irmã louca..atrás: “Os americanos. porque nos permite sair da casa e arejar visualmente o filme. às lágrimas ou ao cilício? SOCORRO .. E para ela. sim.O que me preocupava era o depois. GARCÍA MÁRQUEZ .. GARCÍA MÁRQUEZ . porque se associa à camisa de força.. sempre no papel de vítima. ROBERTO . Sidália terá que desamarrá-la. fica claro que só uma ataca. GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS .Se a confissão de Sidália nos serve para alguma coisa. o senhor acha que podemos exorcizá-la?”. Isso nos convém.Aqui... isso é uma coisa muito séria. A outra é um animalzinho.e que Deus o perdoe -. Enfim. dizia. Acha que está tomada pelo demônio. ROBERTO . e na de Belinda. pela bestialidade da sua conduta.. Ela se sente culpada. GARCÍA MÁRQUEZ .E Sidália. que conheceu os pais das duas: “Vossa santa mãe. SOCORRO .O grande problema desta história é que ela pode fazer a gente perder o sentido das medidas.. não ponha Sidália no confessionário! Que seja uma seqüência em movimento.. depois de levar uma surra.O que eu quero dizer é que fica difícil resolver na tela uma briga entre duas mulheres. ela está pior que nunca.A cena seguinte é muito plácida: Sidália na igreja.”.

a desamarra. aqui. por que não metemos na casa alguma empregada velha... o padre contempla Belinda. Corte. começa a abençoá-la e rezar e enquanto isso. Corte.Pode haver um trânsito violento. Sidália se levanta. mas cheio de informação.. SOCORRO .E quem chamou o padre? MARCOS . SOCORRO . ROBERTO . Arrebentou o cadeado e tornou a pôr o vestido”. O padre passa perto. esperou que o padre terminasse de resolver seus assuntos. percebe? O corte limpo só pode ser de Belinda. tudo voltou ao ritmo normal. nós teríamos de eliminar o padre.. e o padre principalmente.E o padre desamarra Belinda como se ela fosse um avestruz. podemos recorrer a uma elipse: passaram-se vários dias. Pode haver passado o tempo que você quiser entre o momento que Sidália amarra Belinda e o momento que está na igreja rezando. O padre bate na porta da casa. Chegam. Tem um problema de continuidade. alcança o padre e diz que precisa falar com ele. apressado.. se você quiser. pode criar um tempo morto com imagens de ambiente. murmurando: “Fez de novo.Para deixar Belinda em liberdade. Sidália abre a porta: “Que bom que o senhor chegou. que fale com ela: “Ao senhor ela acata.Não é um corte limpo.. que todo mundo est maluco... O que eu me pergunto é outra coisa: por que não damos mais importância ao boticário? E inclusive. Um diálogo cortado. Impossível: ele não pode atendê-la nesse momento. GARCÍA MÁRQUEZ . padre...Se Sidália for diretamente procurar o boticário para buscar o sedativo.. GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO . assim.. O que ela quer realmente é que o padre exorcize a irmã. “Rápido. 183 . para Sidália na igreja. E assim Sidália abre o jogo no trajeto entre a sacristia e o átrio.. ajoelhada na frente de um grande crucifixo. Sidália amarra a irmã. padre. no átrio da igreja.. ela está fora de si”. amarrada.Não.. que é como uma mãe para você? O que você ganha fazendo-a sofrer?”. SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO . “Por que você se porta assim com a sua irmã.ficaria claro. talvez com soluços afogados.Eu vejo a cena assim: Sidália está rezando. para facilitar as coisas? GARCÍA MÁRQUEZ . padre”. ofegante. Depois.Sidália mandou um recado.Mas o padre.conversam. Sidália pede ao padre que vá ver a irmã.Sidália. Agora os dois estão caminhando na direção da casa. é um elemento-chave. padre! Ela está pior do nunca''.

Está como reencontrando a si mesma. Agora temos que ver como a crise volta a se incubar: Eu vejo Belinda caminhando sozinha pela casa e articulando sons estranhos.... ou numa cadeira.. SOCORRO . ROBERTO . Deixou em cima da arca. ordena a Sidália: “Fique aqui fora. voltará a sentir a urgência de pôr o vestido. totalmente calma.. trancando com o cadeado. mas é preciso ver que tipo de cura Sidália quer para a irmã: uma cura espiritual ou uma cura corporal? As duas.. Sua irmã vai surpreendê-la de novo? SOCORRO . com calma total. GARCÍA MÁRQUEZ .Não pode ser. cantarolando..Sim.Ela se levanta.Belinda pôs flores nos cabelos. Voltou ao seu estado normal.Não.Cuidado: guarde essas imagens para o final.O padre entra sozinho. Dentro de pouco. momentaneamente. começa a cantar. Pelo menos.O padre chega na casa e. GARCÍA MÁRQUEZ . Agora. e torna a apanhar o vestido! REYNALDO . vai dando conselhos a ela.Corte. Já est calma. GARCÍA MÁRQUEZ .. sai correndo e se esconde em algum lugar. Por isso. Belinda tira a chave do seu esconderijo e entrega. veríamos Sidália indo para a farmácia. e não guarda-chuva. E quando Belinda se vê livre.Ou se levanta. e fica ali.. Já podemos cortar para ela no jardim. E de repente.Terminamos de resolver o pedaço mais difícil.Com a sombrinha. É preciso ver Belinda enlouquecer aos poucos. GLÓRIA . Sidália trancou o vestido à chave.GARCÍA MÁRQUEZ . e enquanto desamarra Belinda. na porta do quarto. SOCORRO . MARCOS . e lá está Belinda no jardim. como gorjeios. SOCORRO . Ela sentiu várias vezes a tentação de falar com o padre. dura como uma estátua. GARCÍA MÁRQUEZ . Belinda se rendeu. porque não encontrava a chave do cadeado. 184 ... não dá. Registrem: eu falei sombrinha..Sidália sai da farmácia com um vidrinho. MARCOS .. a informação sobre o passado.. A chave está com Belinda. Deixe-me resolver esse assunto”. dobra o vestido cuidadosamente e guarda-o na arca..O padre é meigo com Belinda. é capaz de compreender os seus traumas. GARCÍA MÁRQUEZ .Quando entregou a chave ao padre.. conhece a moça desde que que ela nasceu. O padre estende a mão pedindo a chave. cantando. agora Belinda levanta.

ouve Belinda falar... GARCÍA MÁRQUEZ . os espectadores .Precisamos de uma trégua. mas ninguém – nem mesmo nós... gritando do: “Agora sim. ELID . REYNALDO . Não tem eletricidade. SOCORRO . então ela não fala. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . você está perdida. SOCORRO . Fala com as flores numa linguagem codificada.. SOCORRO . suspirar. tira água do poço.Mas uma onanista não se masturba apenas nos “momentos de clímax”. Eu vejo Belinda na casa..Belinda se masturba no banho? SOCORRO . limpe bem o armário do banheiro.. GARCÍA MÁRQUEZ ..Vamos voltar à rotina da casa.. As duas irmãs dormem no mesmo quarto.GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO . e faz um sinal da cruz encandalizada.Mesmo com um toque de loucura.Para a sua empregada.Bom. REYNALDO . DENISE .... E lembre-se de passar o espanador pelas prateleiras do quarto”.. Tomam banho de balde.. Só emite sons.Não..Perderíamos o impacto da cena final.Estamos num povoado rural. GARCÍA MÁRQUEZ . Sidália está dando a Belinda as instruções do dia. sua desgraçada!”. Ela só se masturba no momento clímax.Belinda costuma se acariciar enquanto dorme.É estranho que ela não tenha tido a idéia de amarrar guizos nos pulsos de Belinda... DENISE . arrumando um vaso de flores que acaba de trazer do jardim. até o momento em que agarra uma faca e avança sobre a irmã.. lava. nem água corrente. em 1930..Belinda não tem intenção de matar Sidália.Belinda fica sozinha o dia inteiro. uma pequena dose de vida cotidiana. quando Sidália a surpreende e rasga o vestido. Por isso o vestido tem que ficar trancado a cadeado. Diz: “Belinda.Exato.Belinda cozinha. SOCORRO . Sidália vê como Belinda se toca. As duas irmãs estão tomando o café da manhã. e falando com elas..Todo mundo sabe que Belinda fala.. nem nada.Elas não têm água encanada? SOCORRO .Poderíamos tentar até mesmo uma cena mais mórbida: 185 . Vê a irmã se contorcer. quando ela sai na rua falando pelos cotovelos. SOCORRO .E que momento é este? GLÓRIA .

sabe? Com gema de ovo. porradas. penteando.. O rádio ainda não chegou ao povoado. excitada..Não da nossa. E gostava que eu escovasse o seu cabelo”. GARCÍA MÁRQUEZ . necessariamente.. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ .. REYNALDO . SOCORRO .Sidália conta à irmã como eram as festas que davam na casa.“Mamãe lavava a cabeça todos os dias... entrou na menopausa sem nem mesmo ter tido um namorado. Além disso. Depois. SOCORRO . e Sidália tocando os seus seios. O que viria depois? 186 .. Uma cena de lesbianismo incestuoso. Agora está arrumando seus cabelos.. deixando-se ser amada. CECÍLIA . desfazendo nós. com um vestido novo..Esta não precisa ser escandalosa.Mas Sidália está sexualmente frustrada.Elas podem estar escutando música. nunca conheceu um homem...Essa relação é muito boa. carícias. MARCOS .. SOCORRO . ou da sua: da minha. enquanto isso.as duas nuas .. enquanto a penteia. SOCORRO . como se fosse uma menina. mas cujo fundo secreto é a loucura.e armou-se um escândalo que chegou até o Congresso. CECÍLIA . trata a irmã com muita ternura.Para todos os efeitos. uma espécie de servidão que não sabemos exatamente em que consiste. Pode ser discretamente insinuada. Há...Belinda adormecida. tem ataques histéricos..Eu acho que com o café da manhã e o penteado resolvemos as cenas de transição. fizeram uma cena de lésbicas na televisão . Primeiro. é a sua mãe. GARCÍA MÁRQUEZ .Descreve a mãe numa dessas festas. E enquanto isso. quando Belinda ainda não tinha nascido.A loucura mística foi mais vista no cinema que a loucura simples.. GARCÍA MÁRQUEZ . Afinal. GARCÍA MÁRQUEZ . Não é possível que não tenha nem uma gota de sexualidade.Quem anda precisando de marido é Belinda. nesta relação das duas. SOCORRO . os fragmentos da vida cotidiana.Na Colômbia. ou de mamãe.. mas enquanto isso a acaricia.Ou podemos abordar a questão de outro ângulo. Sidália criou a irmã. deixa que suas lembranças fluam: “Você tem o mesmo cabelo de minha mãe”..Não se pode esquecer que Sidália é uma beata. MARCOS .. Sidália não tem nada a ver com o divino.E Belinda está muito tranqüila. Por exemplo: Belinda acaba de tomar banho e Sidália. SOCORRO . Não é uma relação lésbica.Elas não têm rádio.

Agora dá banho. CECÍLIA .E quando termina de servir a irmã... vê que a irmã acaricia o próprio sexo. SOCORRO . Temos que começar a desfazê-los...Belinda não deve sair de casa. MARCOS ... Sidália briga com ela porque a irmã não quer falar.. Sidália ouvindo seus suspiros.Sidália não deixou nunca. Sidália.. 187 .E por que não? E o que todos nós fazemos... arrumada. E a cena termina assim: Belinda banhada. como a minha menina ficou bonitinha! Vamos ver. SOCORRO . REYNALDO .. GARCÍA MÁRQUEZ . ou a dependência mútua? GARCÍA MÁRQUEZ .e sair às ruas para se diplomar de maluca.Já estamos na metade do filme. GARCÍA MÁRQUEZ . ao boticário. penteada. as orelhinhas.Eu acho essa cena muito reveladora. SOCORRO . porque Belinda pode limpar. E menos ainda com a aprovação de Sidália. e põe perfume? Estou vendo as duas: “Ah. SOCORRO. Antes só penteava. veste. As boas meninas não mexem aí”..E continua ensaboando.CECÍLIA .A cena noturna. CECÍLIA ..E Sidália vai de novo ao padre.seu uniforme de louca .. servindo o jantar a Sidália.. não responde... Belinda se acariciando no sono. mas não consegue se banhar.Se Sidália é tão católica. GARCÍA MÁRQUEZ ..Mas Sidália vai ficar falando sem parar? GARCÍA MÁRQUEZ . Que momento! Diga a verdade: tem alguma coisa mais sugestiva? A irmã cinqüentona dando banho na irmãzinha de trinta.. recrimina: “Isso é feio.Mas esse dia é domingo. quando deixam. saberá que é pecado não levar a irmã à missa dos domingos. vestida. Por quê? A única resposta possível é a seguinte: porque Sidália não deixa. Belinda se veste e senta na sala com a esperança de que sua irmã a leve à missa.. vai até o piano e toca.. só isso já dava um filme! Belinda é como uma boneca.E se encontrássemos outra cena sugestiva para deixar bem clara a relação de amor-ódio. Sidália bate palmas. Não podemos continuar dando nós. esfregando. mas com um avental.O que você acha deste: Sidália dá banho em Belinda..E passa talquinho.Só podemos tirar Belinda de casa quando ela puser o vestido . REYNALDO ... REYNALDO . GARCÍA MÁRQUEZ . os seios.”.. penteia.. cozinhar arrumar a casa.Enquanto está dando banho em Belinda.. e desde que amanhece..

Eu acho que agora seria bom dar algum antecedente do erotismo reprimido de Belinda.Não. SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ .“Me ame muito. SOCORRO . a ponto de não conseguir mais suportar.Pois vamos ver. está prestando atenção a um barulhinho que chega da outra cama: é um ofegar que vai se acelerando e termina num suspiro de êxtase. Primeiro. GARCÍA MÁRQUEZ .Acho que me perdi. a dos chamados momentos da vida cotidiana. aos borbotões. ou parecem estar. SOCORRO ..Sidália percebeu que a irmã está se masturbando. SOCORRO .. Depois a que começa com a conversa entre Sidália e o padre.. E então começa a chorar. e termina com Sidália surpreendendo Belinda e amarrando-a na cama.Não. GARCÍA MÁRQUEZ .REYNALDO . são três grandes seqüências iniciais. Chora no mais absoluto silêncio. com os olhos muito abertos.Esse é o eixo narrativo. ROBERTO . Além disso. ELID .Já vimos uma boa mostra do erotismo mórbido de Sidália.. E finalmente. Morde os lábios.É verdade. não diz nada.. mas chora muito.Não. que filme até o fim. Nem bater nela: é como se reconhecesse que a irmã tem direito a esse mínimo de privacidade.De acordo com as minhas anotações. Isso nós ainda não vimos.. e termina com o padre desamarrando Belinda. prefiro sugerir. a que começa com Sidália saindo da escola enquanto Belinda põe o vestido. DENISE .Seria bom esclarecer o que elaboramos até agora. meu doce amor”.E aí: como a história continua? SOCORRO . Não pode haver tanto onanismo num filme tão curto. eu já falei: essas coisas.A única coisa que deixa Sidália furiosa com a irmã. essas cenas serão cortadas depois. GARCÍA MÁRQUEZ .Nesse momento.. 188 . Seja como for. SOCORRO . vou ler aqui: “como se Belinda fosse um avestruz”. Quando é que Sidália vai à farmácia? VICTORIA . que começa com Sidália banhando e penteando Belinda e termina com Belinda servindo o jantar e tocando piano para Sidália. é que ponha o vestido da mãe. As duas irmãs estão dormindo.. e vemos que Sidália. Está literalmente banhada em lágrimas.Que bom final para essa seqüência! A única coisa que falta é Sidália ir até o banheiro se masturbar. Se você decidiu filmar.. Os detalhes podem variar. É de noite.. nem passa pela cabeça de Sidália ralhar com Belinda. ela não canta: ela toca. DENISE .

GARCÍA MÁRQUEZ . Temos ainda dez minutos.Morreu? Está morta? Eu pensava que só aí. Sidália costurando e ao mesmo tempo. uma classe arruinada. Sidália cai e bate a cabeça no pé do piano e fica imóvel.. Belinda acha que ela desmaiou. Belinda. além disso. quase ao seu lado. SOCORRO . e em determinado momento. porque desta vez Belinda não apanha quieta. embora depois tenham se complicado bastante . ela é mais forte que Sidália.Em algum momento. Belinda tocando piano.. que seja um obra-prima. ELID . à atitude concentrada de Sidália remendando o vestido no dia seguinte. E além disso. durante a cena da masturbação. quando vê que sua irmã morreu. quem rasgaria o vestido? GARCÍA MÁRQUEZ . e a confusão é enorme.Assim poderia começar a parte final: do pranto silencioso de Sidália. com introdução.. Ela mesma havia rasgado. Do ponto de vista da progressão dramática. SOCORRO. mas na verdade. o vestido não está rasgado. Empurra a irmã mais velha. Na verdade.Se elas dormem no mesmo quarto. numa cama menor.. SOCORRO . porque senão.. GARCÍA MÁRQUEZ .Sidália dorme na cama de casal. SOCORRO .Pois é.. nem vale a pena tentar. 189 .. não têm por que dormir em camas separadas.Ela disse a Belinda: “Tira essa roupa”. pleno processo de decadência. Eu acho que não devemos continuar adiando o clímax. Pode haver uma cena anterior . que caiba nesses dez minutos finais. Belinda abria a arca e punha novamente o vestido. durante a primeira disputa. No que diz respeito a nós. enquanto puxava o vestido pelos ombros. não precisamos mais de antecedentes. Sidália torna a encontrar Belinda com o vestido – a idéia original era que. saia à rua e se assuma como louca. GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO .. é muito melhor que Belinda se vista. Agora. clímax e desenlance. mas está remendado. quando via a irmã morta. precisamos um filminho completo.na qual Sidália esteja remendando o vestido. mais ou menos.num daqueles momentos de trânsito que chamamos de vida cotidiana. só agora. ela estivesse se masturbando -.Bem.ROBERTO . você terá que analisar esta história a partir de seu contexto. Você precisaria imaginá-la num ambiente da velha aristocracia rural. Já podemos começar a última parte.Rasgar? Ninguém. bate nela.Mas aí.

para tricotar. Parecia que Sidália era incapaz de chorar.Em 1930? GARCÍA MÁRQUEZ . não: ela. Nós. se quisermos nos manter fiéis aos nossos princípios anarquistas. SOCORRO . tira o vestido da arca e começa a costurá-lo.Tanta placidez acaba sendo suspeita.. três seqüências. envolvidas na atmosfera sentimental de um melodrama.Elas podem estar ouvindo radionovela. SOCORRO . lá de baixo. SOCORRO . a cena perde força dramática. a partir do qual é impossível continuar subindo. ROBERTO .Depois de um momento desses. acende uma lamparina. Assim. a melhor coisa que se pode fazer é começar de novo. conforme for mais conveniente.. e agora está sem nenhum sono.Eu preferiria adiantar a cena do remendo.. Aí consegue-se um momento muito tenso. percorrer outra vez o trajeto inteiro. SOCORRO . mas de outra perspectiva? Sidália chorou um oceano.. Tem que ser assim.. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . e Belinda de tocar piano . precisamos de uma pausa. GARCÍA MÁRQUEZ . Agora.Mas já vimos essa estrutura: Sidália comendo. uma cena de passagem. você tiraria força do choro. e vimos quando ela chorou. GARCÍA MÁRQUEZ .Pode ser a manhã do dia seguinte. é porque precisamos de um vestido remendado 190 .. É domingo. e Belinda. Belinda tocando. MARCOS . Sidália se levanta.As cenas noturnas não admitem graduações.. Já sabemos que esta paz vai terminar num desastre.. A idéia da radionovela é boa: as irmãs costurando e bordando. ELID . mas de truques narrativos: quando se chega a um ponto muito alto.para que Sidália costurasse o vestido nessas horas. não consegue dormir: Belinda dorme profundamente. Quando Sidália termina de comer.. as duas se sentam na sala: Sidália. é preciso um corte. o espectador logo acha que se trata da mesma noite..Poderia haver um corte para a madrugada desse dia – ou do dia seguinte .E se voltarmos para a noite da masturbação. estaríamos nos referindo às suas insônias constantes.Um momento. Se vemos Sidália recuperada. você sabe..SOCORRO .Você pode situar a história um pouco antes ou um pouco depois. Socorro..Mas isso foi há duas. ROBERTO .me refiro à primeira versão -. para remendar o vestido.Nesse caso. Se reconhecemos a necessidade de rasgar e remendar o vestido. Não estou falando de leis dramatúrgicas. Se a gente passar de uma cena noturna a outra.

e Belinda quer para gastá-lo. De todos os ciclos idênticos. GARCÍA MÁRQUEZ . mas as irmãs disputam o vestido por razões diferentes.Sidália quer o vestido para conservá-lo.Agora.. bem. Já estamos remendando.Sidália é quem rasga o vestido. meio de viés. Belinda toca piano. as primeiras notas do piano poderiam entrar sobre esse pranto silencioso. começa com Belinda. Nesse mundo de violência soterrada. e Belinda está sentada ao piano. como se esse vestido e esses rasgos no tecido não as fizessem recordar nada. Agora. Muito bem.. Por isso.. como se as duas sofressem um ataque de amnésia.. GARCÍA MÁRQUEZ . tocando. Belinda. vinte anos. Muito bem. descobrimos Sidália costurando. sou partidário de que 191 . Isso.É curioso. GARCÍA MÁRQUEZ .Por isso fazemos o filme agora. Agora entendemos que isso vem se repetindo há quinze. Quando a câmera se move.. SOCORRO .. a luz do sol se filtra pela janela. mas num ato de fúria cega.. porque os recursos técnicos têm sua gramática própria.. para que não se gaste. Reforçariam o dramatismo da situação e não demoraríamos a perceber que não se trata de um simples “comentário com Sidália. Mas agora acontece que sai daí – dessa cena do remendo . Agora. O ciclo que vai das lutas à reconciliação e às novas brigas não acaba nunca..A música do piano pode entrar por fusão no plano anterior e alcançar o volume pleno no primeiro fotograma desta cena. quando Belinda saí à rua dando gritos. GARCÍA MÁRQUEZ . A imagem..Você precisa prestar atenção na continuidade: de onde vem e para onde vai essa cena? A anterior é a do pranto de Sidália Portanto. reina a paz entre as irmãs. para existir. ROBERTO .um significado adicional. SOCORRO . Sidália quer o vestido como um relíquia. Sidália costura o vestido na frente de Belinda.. É uma manhã esplêndida. Que interessante. a reinar. enquanto Sidália costura o vestido. E ela acha que isso também aconteceu por culpa de Belinda.Mas esta é a primeira vez que o vestido rasga. um elemento de reconciliação que não estava previsto. não saberíamos o que fazer com o bendito vestido. para sentir-se viva... se não soubéssemos isso.para a cena final. a trilha sonora. de repente.. SOCORRO . SOCORRO . escolhemos este porque é agora que tudo será decidido. a harmonia passa.Belinda toca piano e olha o vestido. discretamente. com a imagem é preciso tomar cuidado. E nada mais.Poderíamos passar a esse plano através de uma fusão? GARCÍA MÁRQUEZ . para que exista. porém.

três. no final daquela primeira seqüência. .Mas não mata a irmã de forma violenta.Quem pode suspeitar que uns poucos minutos depois dessa cena. vai até a cozinha.. SOCORRO ..Ou o padre.Sidália não dá diretamente uma colherada a Belinda: derrama algumas gotas na colherinha. DENISE . para o produtor.E agora Belinda. mas sua ação não é fulminante. Com o remédio de Belinda.Sidália poderia morrer envenenada.. GARCÍA MÁRQUEZ. O arsênico é um veneno 192 .. Isso provoca em Sidália uma reação.. GARCÍA MÁRQUEZ.. Pode botar um pouco de veneno na sopa. quando quero envenenar um personagem. pega o frasco na despensa e obriga Belinda a engolir uma colherada. o dineiro do boticário. Podemos economizar. Quando o padre chega. ao chegar e ver Belinda atordoada.Quem cozinha na casa é Belinda.Como chegou. mas porque tem um belo nome: láudano. O próprio padre pode ir até o armário da sacristia e dar o frasco do remédio a Sidália? GARCÍA MÁRQUEZ . quando estudava o cinema.. se vocês quiserem.Não precisa saber.Ou então. Eu.os roteiristas se sentem na frente da moviola para editar os filmes. o remédio já está na casa. e que o padre a mandasse ao boticário. Belinda já está sob os efeitos do calmante.. Assim o espectador fica sabendo onde está o frasco. com muito cuidado: uma. façam exercícios práticos de montagem. Mas como esse remédio foi parar lá? MANOLO . onde tudo é harmonia. acho que o boticário não faz falta.Como o espectador fica sabendo que é láudano? GARCÍA MÁRQUEZ . uso sempre láudano. Belinda vai matar a irmã? GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO . pergunta a Sidália: “Você deu o remédio a ela? Quantas gotas?”. e como Belinda dá o remédio a Sidália? GARCÍA MÁRQUEZ . faz com que ela engula um pouquinho de láudano. As pessoas falam muito de arsênico..Uma overdose de láudano. porque é uma substância muito amarga. Mas agora.No começo. DENISE . Não porque seja mais letal que outro venenos... GARCÍA MÁRQUEZ . duas. Quando Sidália amarra Belinda. Eu fiz isso. SOCORRO . ao ver que Sidália sofreu um ataque. é cumulativa.. SOCORRO .E a dose? Porque é preciso saber que uma overdose pode ser fatal. Podemos falar disso mais tarde. eu queria que Sidália contasse ao padre o problema de excitação de Belinda.

com seus alunos. ou uma tarefa de escola: a professora vigia.para longa-metragens. e pronto. no dia seguinte. poderia haver uma dissolução de imagem. SOCORRO .Na primeira seqüência. E acho que a gente iria conseguir isso fazendo que Sidália costurasse o vestido rasgado depois daquela noite. Fade out. GARCÍA MÁRQUEZ . É isso que causa o desmaio e dá a Belinda a idéia de reanimá-la com o remédio fatal. É como um castigo. Dramaticamente. na 193 . Sidália na escola dando aula. A reconciliação aconteceu antes. Revela muito melhor a relação entre as duas. Outro remendo para a pobre roupa.. GARCÍA MÁRQUEZ . indo para casa.O vestido pode ter rasgos e remendos anteriores. SOCORRO . a transição teria que ser diferente: de Sidália chorando a Sidália na escola. então. revisa. Sidália manda Belinda tirar o vestido. REYNALDO . GARCÍA MÁRQUEZ .Ou seja. GARCÍA MÁRQUEZ ..Agora sim. Um mundo completamente diferente.Se for assim.E a cena da costura seria antecipada. o vestido não rasga na primeira briga.Antes.. rasga um pouco a parte do decote. instintivamente. debaixo do olhar vigilante de Sidália. em termos de montagem.Entregue ao ritual. É uma infusão que. vemos Sidália lá dentro. e pode achar que o que Belinda está dando a ela é o seu chá. É o mesmo filme. víamos Sidália saindo. o que havia na colherinha.Sidália costuma tomar chá de erva-cidreira todos os dias a mesma hora. não veríamos Sidália saindo da escola mas em plena rua. Para dizer ao espectador que agora. ou vice-versa. é melhor. porque de repente Belinda fica impaciente e ao ver que a irmã cospe. chorando. Agora. a obriga a abrir a boca e faz com que ela engula meio frasco de laúdano.Eu gostava da idéia de associar o vestido à masturbação. na classe. para ela. Danou-se. GARCÍA MÁRQUEZ . Socorro.. REYNALDO . Não há nenhuma razão para abrir mão dessa cena.Não sei se ficou claro que Sidália desmaia ao ver que rasgou o vestido. ROBERTO .. Sidália. tem propriedades purgantes. SOCORRO . Belinda costuraria. REYNALDO .É. sem querer. Sidália deitada. com uma mudança de enquadramento. Fecharíamos a seqüência do banho com essa cena.. GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO . Sidália ainda está meio atordoada. Belinda está sozinha em casa. e a própria Belinda tirava sozinha.Desta vez.Seja como for não teria tempo de verificar. aprova.

. mas não importa. Agora a história torna a se repetir exatamente igual: Sidália na escola.. também aqui. Belinda em casa. com os alunos internos. a levamos para a entrado do jardim. banhado em lágrimas refiro-me à cena anterior -. GLÓRIA . Pelo menos.Sabe o quanto está se arriscando. MARCOS . por sua vez.. o que importa é criar um contraste. mas quando se carrega a bateria. por dissolução. GARCÍA MÁRQUEZ . Corte.Mas agora Belinda arrebenta o cadeado. zona pecaminosa. nem que pode ser morto..Agora. ninguém pensa nas conseqüências:nem que pode ser surpreendido. ROBERTO ..isso é um ritual -. Vemos a mesma Sidália dirigindo o coro na escola. REYNALDO . Não precisamos mais ver Sidália na rua.... GARCÍA MÁRQUEZ . Com um corte. Eu preferiria ligar Sidália à música. de solfejo. SOCORRO . REYNALDO . Belinda se vestindo. REYNALDO .. GARCÍA MÁRQUEZ .. Depois virão os prantos e o arrependimento.. uma montagem paralela? Sidália dando aula. as vozes de um coro de meninos. Enquanto Sidália ensina como se usam os talheres . Corte.. ROBERTO . Belinda desesperada.. Belinda arrebentando o cadeado. É uma música angelical. entram..Na escola.Por isso eu tive essa idéia. pondo o vestido. que ficam para as refeições.Está muito rebuscado. Dando aula de piano. CECÍLIA . a campanhia acaba de tocar. MARCOS . Sidália terminando a aula. procurando alguma coisa para arrombar o cadeado.Não conseguiu agüentar a vontade. SOCORRO .No decote. Eu aprendi a amarrar os sapatos num colégio de padres. MARCOS . Belinda não encontra com quê abrir o cadeado e vai à cozinha e revolve os talheres e apanha uma faca.. No espelho da tela. não tem medo que Belinda tire o vestido da arca.Por que não fazemos. dois filmes simétricos.O que eu disse: a possibilidade de criar um contraste. quando Sidália banha e penteia Belinda.Está louca para pôr o vestido.É uma ansiedade de tipo sexual. Por exemplo: Sidália está ensinando aos alunos como se deve usar os talheres numa mesa.Já sei: sobre o rosto de Sidália.E o que a gente iria ganhar com essa história dos talheres? ROBERTO .Sidália.seqüência que Roberto destacou agora. 194 ..É o que fazem num colégio de freiras... porque agora trancou-o com um cadeado e não deixa mais a chave em casa: carrega sempre com ela...

SOCORRO . para ela.É preciso que ela faça isso. a história mais torta que alguém poderia imaginar. Não quer fazer nenhum mal à irmã.foi assim que Socorro propôs? Não importa. flutuando como anjinhos contra um fundo azul! GARCÍA MÁRQUEZ .Nós não vimos isso na primeira vez. cadê Sidália? Está dormindo.. Não consegue suportar a idéia de ela mesmo ter rasgado o vestido. Belinda se tranca em outro quarto. a agressão ao vestido tem todas as características de uma auto-agressão. Aqui. ELID .. Precisamos ver o que fizemos no começo.Se a cena da escola não proporcionasse esse lucro visual. e desmaia. Vimos que 195 . ELID . Para dizer que Sidália não estava em casa. talvez não valesse a pena fazê-la. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ .Para ela. SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ .O que eu mais gosto desta encenação é o candor com que contamos a história. SOCORRO . Este é o final. não precisaríamos ir parar aí. O que eu acho importante é ver Belinda se vestindo. esse coro de criancinhas vestidas de branco. e merece o mesmo tempo que o da primeira seqüência.Belinda vai pondo o vestido no mais absoluto silêncio. diante do piano. mostrar todo este ritual.SOCORRO . cantam os anjinhos. SOCORRO .Sidália.O de Sidália.Isso. Ao contrário. está num estado de êxtase. Não se perdoa.Belinda deu a ela as gotas como se fossem remédio. atordoada. Por isso tem um ataque histérico. morta? GARCÍA MÁRQUEZ .O que não me convence é a idéia do desmaio. para costurar o vestido.E enquanto Belinda costura. REYNALDO . não se ouve um mosquito. REYNALDO . quer reanimá-la. Lá na escola.A história ficou simétrica.É o que Melville disse quando terminou Moby Dick: “Escrevi um livro malvado e me sinto tão imaculado como um cordeiro”. Está fazendo com Sidália o que Sidália faz com ela: papel de enfermeira. Tem vantagem de revelar até que ponto Sidália está emocionantemente ligada ao vestido.Que maravilha. REYNALDO .Depois de dar o remédio à irmã. para decidir o que fazer agora.Não dá tempo. GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO . no quarto. quando sem querer rasga o vestido? GARCÍA MÁRQUEZ . acompanhado o coro infantil. é um choque.

e começa a costurar o vestido. ELID . Se só víssemos o vestido já em Belinda. como diz Reynaldo.. invertemos os termos: vemos todo o começo ou todo o final da cerimônia. tome seu remedinho!” . sei lá. que a gente veja ela se vestindo desde o começo. E se acabou Sidália.se continuarmos pensando no láudano . ou em outro quarto. SOCORRO . véus. sem nenhum corte. volta a si. Belinda já está vestida. GARCÍA MÁRQUEZ . Um pouco além da conta. Conta as gotas com muito cuidado. porque está muito ligada ao clímax. Fazemos o mesmo corte de ida e volta. tranqüilamente. Belinda se vestindo. e não mostrado inteiro. DENISE . E aqui. ou seja.O sabor das primeiras gotas é muito forte . cortamos para Sidália.quando termina de costurar o vestido.Sim.e Sidália reage. diz para Belinda. e pronto: adeus. Então Belinda. “Vamos ver”. quando Belinda começa a se vestir. quando a irmã chegava. e quando Sidália entra no quarto.. Podemos dizer que na primeira vez contamos a seqüência do ponto de vista de Sidália. ROBERTO . Belinda começa a tirar coisas do baú. e dá uma colherinha para a irmã beber. SOCORRO . Agora.dá a overdose. não seja malvada. “tome essas gotinhas”. cinco gotinhas numa colher. faz a mesma coisa: pões duas. cospe. nessa ação de obrigar uma pessoa desmaiada a engolir um xarope. Quando Sidália amarra Belinda. Na primeira vez. vai buscar o remédio para sedá-la.“Vamos. quando Belinda vê Sidália desmaiada. e na segunda. na montagem paralela: Sidália saindo da escola. GARCÍA MÁRQUEZ .Tem alguma coisa de brutal ou de grotesco. São coisas 196 . mete na boca da irmã e obriga Sidália a tomar um gole. GARCÍA MÁRQUEZ .. como se ela fosse criança. Sidália agredia Belinda. Agora. SOCORRO . Eu gosto mais assim. as rasgar o vestido.Tem uma coisa que precisamos ressaltar muito bem logo na primeira vez: o fator remédio.O ritual pode ser sugerido.. dos armários: chapéus.Acho que a gente viu.. Mas ao ver que Sidália ainda semiconsciente as recusa. nesta segunda vez. ROBERTO . Sidália.Mas no começo já dá ao vestido seu verdadeiro significado. Belinda agarra o frasco. Não tem que ser o frasco inteiro. luvas. ou se tranca num desvão. com os mesmos argumentos que ouviu tantas vezes Sidália . Então Belinda vai para a sala..Lá. Eu acho que é uma questão de montagem. ele perderia importância para nós. sim.. do de Belinda. três.Eu prefiro deixar essa cerimônia para o final. Sidália se auto-agride..Belinda já estava com o vestido.

SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ . um puro jogo de palavras. Na realidade. é inenarrável..Ou um poema.. É preciso ver esse filme.Nós também não ouvimos Belinda cantar no jardim. desde o princípio. Alem disso. 197 .O discurso de Belinda na rua deve ser incoerente. e de tal forma que. GARCÍA MÁRQUEZ .. mas também e talvez por isso mesmo . a convocar o povo à luta contra os inimigos. ROBERTO .E Sidália? Morreu.que aparecem no retrato da mãe. GARCÍA MÁRQUEZ . que estão vindo pela estrada. o general.É um filme lento. podemos passar ao final. não precisa.. é um filme de atrizes. E então. GARCÍA MÁRQUEZ . Aquela que Sidália dizia que a mão cantava. Belinda passa pela frente do quadro e se compara: de frente.. GARCÍA MÁRQUEZ . Você conta as batidas do coração enquanto repassa as cenas..Dizendo o que lhe vier à cabeça... É muito parecida.Nossa versão dá mais ou menos de meia hora? GARCÍA MÁRQUEZ . Qualquer coisa. a que todo mundo está esperando: Belinda sai à rua vestida de louca e começa a dar gritos. quando já está vestida: ela toma o retrato como modelo. Quando vai sair à rua..que está possuída pelo espírito do pai. precisamos verificar.Belinda não se 'compara' ao retrato da mãe.Isso é o que eu mais ou menos entendo por poema: um texto que se mantém erguido só pelo prestígio das palavras. SOCORRO . Mas tente resgatar as flores. mesmo que seja em silêncio.. Agora você só pode medir essa versão pelas batidas do seu coração. GLÓRIA . Eu gostaria de terminar com uma cena dessas. começa a soltar um discurso patriótico. ROBERTO .. e ela se coloca numa posição na frente do espelho. MARCOS .Acho que ficou curta. MARCOS . Sorri satisfeita.Não faz mal.Uma canção.Sim: Belinda sente que está encarnando a mãe. Assim. afinal? SOCORRO ..... do láudano. de atmosferas.E as flores? Perdemos as flores no caminho... de perfil..Um filme de ambientes. um duelo de atrizes. ROBERTO . à cena obrigatória.O que está faltando para nós? Deixar claro. do começo ao fim. GARCÍA MÁRQUEZ .que vontade de exclamar: “Pobre fotógrafo!”. ROBERTO . a história do conta-gotas. e o tempo que der é o aproximado. embora não sejam exatamente as mesmas coisas.. O retrato se reflete no espelho.

E sem um único flashback. uma a mais. E eu encontrei o seguinte quadro: não havia curso de roteiro. Aqui. GARCÍA MÁRQUEZ .Você disse que os roteiristas deviam fazer exercícios práticos de montagem. Todas as outras cabem aí. aprender a mexer na moviola. E um vilarejo tipicamente colonial.. que me atrevo a classificar de suntuosa .Esse final da louca saindo pela rua. com três ruas que correm paralelas ao rio.. o que eu disse? Elogio da gordura GARCÍA MÁRQUEZ . e com todas as características do velho melodrama.Incluindo até pedaços do passado. Estão rindo do quê? Não é verdade. segundo contam – é um lugar cheio de loucos. Merecemos um aplauso. A história que Socorro vai filmar poderia voltar às origens de um povoado colombiano chamado Momposo. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ .. aprendemos a lidar com essa.Eu? MARCOS .terra de Deus. no caso dos roteiristas. A imaginação trabalha sobre esses dados e a realidade não tem limites. falando sem parar.SOCORRO . senhora muito melhor que Sidália lidava com Belinda. Lá. sobretudo quando tem visita.Você ia nos falar das relações entre a teoria e a prática. SOCORRO . A cadeira 'Roteiro' era. Permitimos a essa senhora andar por onde quis.Você falou e disse. aliás. e todo mundo rodeando a mulher no meio da rua. há umas três situações dramáticas grandes: a Vida. MARCOS . E os vizinhos aparecendo nas janelas. toda família que se dê ao respeito tem seu maluco. as situações dramáticas se esgotam rapidamente: não há trinta e seis.Pela primeira vez na vida. Momposo .um tijolaço de quatro horas. para aprender o ofício de roteirista. GARCÍA MÁRQUEZ .. por termos metido em meia hora o argumento que Socorro trouxe para nós. mas sem deixar que se excedesse..Ah.meia hora. em Roma. Bonito final. Em compensação. Conseguimos comprimir em meia hora .Quem foi que chamou a imaginação de “a louca da casa? Seja quem for sabia muito bem o que estava dizendo. Fui ao Centro Experimental de Cinematografia. onde a pessoa deita sozinha e amanhecem doze. sim! Essa convicção vem dos tempos em que eu era estudante.. o Amor e a Morte. e o amarra numa árvore do quintal. na especialidade de 198 .

o plano de estudos incluía um cursinho prático de moviola. entendi que naquelas aulas não havia muito para aprender. E você tinha que ver como eram dadas essas aulas. ou “Belo corte. tudo isso com maiúsculas. Devo admitir que para mim. Assim. para um futuro Roteirista. deixei de ir às aulas. Aprender a passar de uma cena a outra .. ou a História Sócio-Econômica do Cinema.porque achavam que sua matéria não tinha nada a ver com Roteiro -. é preciso aprender a gramática”. esse aí: puseram a 199 . Eu me limitava a estudar como funcionava a continuidade num relato cinematográfico. Ficava com ela estudando o fenômeno da continuidade. Aquilo não era Roteiro.. E isso chega a se converter numa deformação profissional como é.os Sábios Doutores da Lei – que viviam convencidos de que não havia nada mais importante neste mundo. sem jamais tocar a moviola. Passava as tardes inteiras na Cinemateca junto à professora de montagem. ou. Tratava-se de aulas puramente teóricas.os roteiristas não conseguiriam escrever direito nem uma única seqüência. para na revisores. Falta um curso de moviola . o frescor do olhar e acaba vendo o invisível: os cortes e os deslocamentos da câmera.. Eu fiz um ano inteiro de exercícios na moviola. porque a gente perde a ingenuidade. uma senhora a quem nenhum dos meus colegas dava a menor importância . os sábios Doutores passavam horas e horas falando e ouvindo para eles mesmos. graças à qual pude ver os clássicos do cinema. aqueles discursos não foram totalmente inúteis: me serviram para aprender italiano. Havia no porão uma cinemateca excelente. ou a Teoria da Linguagem Fílmica. porque dizia que sem conhecer as leis da montagem . Em compensação. mas que era uma fera na moviola.Direção. de montagem prática . porque fico o tempo inteiro dizendo: “Este corte da janela para o automóvel fui um pouco brusco”. como diria Kulechov. agarrar erros e distrações -. Quando conheci essa senhora. nem era nada. enquanto nós. oferecidas por uns senhores . Creio que é uma experiência fundamental para os aspirantes a roteiristas.algo que parece tão simples . e a possibilidade de freqüentar a Cinemateca. Já falei várias vezes disso aqui na Escola de San Antonio de los Baños. além disso.que era como conhecer a gramática do cinema . Minha mulher não gosta de ir ao cinema comigo. Estava muito orgulhosa. Ou para dizer como a minha querida professora diria: “Primeiro. Além disso..ou seja. que é um idioma belíssimo. os alunos. que a Estética do Cinema.para os futuros roteiristas. que nunca tinha visto nem teria chance de ver na Colômbia. a “arte de construir uma boa frase de montagem”.acaba sendo muito difícil para quem não saiba ver essa operação como um problema dramático e visual. permanecíamos imóveis ou cabeceando no sono.

vi de onde tiraram cada centavo: numa cena. teríamos que procurar a equipe que fosse perfeita. E quando vi o filme. A mulher dele. acho também que deveriam criar aqui uma Oficina de Produção Criativa. disse: “Você devia ter filmado de maneira que desse para fazer um corte aqui.Hitchcok. DENISE . E o que dá o sentido da continuidade. para que víssemos o cachorro passar”.. ou “Deveriam ter cortado na saída do túnel. para poder fazer esse corte 200 . é trabalho coletivo. e que estão lá para facilitar e enriquecer o trabalho da equipe. se a gente pudesse acabar de escrever o roteiro na frente da moviola . seria fazer os futuros produtores compreenderem que eles formam parte de uma equipe de criação. para voltar ao assunto. que era editora. O cinema sem continuidade . Os produtores costumam se sentir felizes quando podem dizer: “Isso ia sair por sete. essa ambientação”. mas podemos sintetizá-las em um: criatividade. assim que abrir a porta”. ou desse curso. não havia jeito de fazer um corte limpo. e não de uma fábrica de salsichas. e conseguimos”? Conheço um produtor que estava eufórico porque tinha forçado um diretor a se adaptar estritamente no orçamento. A pergunta é a seguinte: o que ele conseguiu fazer pelos quatro? A mesma coisa. a aliança de todos os fatores que contribuam para que um filme seja feito. e por isso conseguiu esses contrastes. notei de onde saiu a economia. um orçamento muito mais reduzido do que o que seria evidentemente necessário. Assim. uns duzentos. A primeira função dessa oficina. Por isso. para que saísse melhor. em outro mais modesto: continuidade.. situado sempre entre um antes e um depois. numa outra. quando você vê o resultado na tela. tudo seria melhor: E seria possível manter sempre a coerência do relato. porque na cena da ruptura Fulano foi tantos dólares além do previsto”. É a prática da montagem o que nos permite dizer “corta um segundo antes. Se o roteirista não consegue visualizar o que escreve como um fluxo continuo. São várias. não vai resolver problemas: vai criar problemas. Pelo contrário.. porque a cena tinha sido mal filmada... o dobro ou a metade? Não seria melhor poder dizer: “Isso ia sair por sete e resolvi dar nove. é o trabalho da moviola. é claro -. e ele tornou a filmar a cena inteira. como a vida sem continuidade. eu já disse. Enfim. consegui fazer por quatro”. E como foi dito tantas vezes... imediatamente comenta: “Claro.como um romance.. quando vem o produtor e diz: “Estou furioso. e não para impedir que o diretor gaste ou torre um dinheiro que não é dele. em outra.ao lado do diretor. cento e cinqüenta. para que desse para ver o olho.”. e não aí!”. faltavam vinte dólares.câmera de lado. Creio que já falei disso para vocês... . diz que quando a personagem da mulher cai morta na chão. falando de Psicose.não tem sentido. etc.. E..

.. mas eu noto em seguida. o significado muda.ficam horrorizados diante da possibilidade de que em uma página sobrem algumas linhas soltas. Os diagramadores de livros descendentes dos tipógrafos das velhas imprensas . Porque ao deslocar essas linhas. Pode ocorrer também o contrário. ROBERTO .cujo único texto seja uma “viúva”. e todo mundo fica em paz. e o diagramador para que ninguém note esse vazio. às vezes. é preciso reduzir algumas entrelinhas ou .Uma edição ruim. mas acontece exatamente a mesma coisa com o texto impresso. “distribui” o espaço entre um parágrafo e outro. eles fazem o possível e o impossível. no relato. esse lapso é controlado através do ponto: menos tempo. fica espantoso. Se a cena não for cortada no momento exato. Nesse caso. Para isso. essa página eqüivale a toneladas de papel. Tanto o ritmo quanto a duração têm conotações dramáticas. três. Eu não sei se o leitor percebe ou não. Isto não é um problema teórico. passou mais tempo. uma montagem deficiente. ou melhor pedaços de uma linha. se a um ponto forem acrescentados dois ou três espaços em branco . Por isso. no fim de um capítulo . menos o autor. como já veremos. E é horroroso. para trazer da página anterior . só com o ponto. incorporar tudo na página anterior. ou quase.. Pode ocorrer que exista uma página – por exemplo. para que o livro tenha uma página a menos. E o editor. Sempre. o diagramador tenta engolir essa “viúva” ou até uma linha inteira.uma ou duas linhas. na página anterior sobra um espaço em branco. menos da metade de uma linha.ou seja. o espaço equivalente às linhas deslocadas. ponto. a gente sente esses vazios.ou um espaço maior que o que corresponde – quanto tempo terá transcorrido? E se esse espaço adicional aparece no meio de uma resposta. porque dá a impressão de que passou um ano entre a pergunta e a resposta. mais tempo. Se o espaço tipográfico é maior.mínimo. Vocês acham que o editor não economiza nada com isso? Numa tiragem de três mil exemplares a economia é pequena.. para deslocar para a frente .Vocês podem até não acreditar. 'Todo mundo. ponto e parágrafo. porque para mim os espaços correspondem a um código secreto que tem a ver com o tempo narrativo. E com essa companhia a “viúva” deixa de ser “viúva”. GARCÍA MÁRQUEZ .. conforme eu dizia: para economizar uma página. ou de um milhão. O leitor sente. fica subentendido que.. mas numa de trezentos mil.o que é pior transformar um ponto e parágrafo numa frase contínua. Chamam esses rabichos da “viúvas”. por razões econômicas. para economizar 201 . pode pôr a perder o melhor filme do mundo.

GARCÍA MÁRQUEZ .. quer dizer que vai ganhar uma quantidade tão fabulosa de dinheiro que o mínimo que pode fazer é respeitar as pulsações internas do texto. tão bons que se permitem ao luxo de editar com a câmera.. diretores como Buñuel. é uma merda.e para que a edição custe menos. mas admiro esse lado profissional de Bunuel. Cortava durante a filmagem. no entanto. que além de participar do processo inteiro do roteiro. são bons editores.Isso é parte inseparável do processo de criação.. até ver montado. onde é preciso estar dizendo o tempo inteiro: “Vamos ver. GARCÍA MÁRQUEZ .. E tem mais: sem falsa modéstia.. Eu não sou muito bunuelista. na sala de edição.prevendo os cortes antecipadamente e depois filmar só o que se quer filmar. Se o editor vai vender um milhão de exemplares. Eu me surpreendo que existam roteiristas com uma vocação esmagadora. E o velho sempre ali. Bunuel fazia poucos cortes na moviola. cometem erros de continuidade absolutamente incríveis. o trabalho era simplíssimo. ROBERTO .Ninguém nunca está completamente seguro do que quer fazer. sem uma cota de incertezas. Os erros de um escritor são mais baratos e mais fáceis de serem corrigidos. porque é sempre melhor editar no papel .. enquanto filmam. com medo do encontrar defeitos que tenham passado despercebidos. REYNALDO.. questão apenas de afinar detalhes. traga aquele pedaço ali.. do que editar na moviola. em termos de visão do mundo. Eu nunca torno a ler meus livros depois de editados. Não há verdadeira criação sem riscos. na verdade.Mas qualquer ofício tem um mínimo de exigências.. em compensação. grudado na moviola: “Até aqui”. e portanto... críticos e leitores. Quando vejo a quantidade de exemplares vendidos e as maravilhas que os críticos dizem. quando fiquei sabendo que tinham me 202 . Há. favorece essa manipulação.. até fazer. vamos colálo aqui”. ou então “procure aí aquele plano da porta e coloque atrás do da janela”. Eu nunca autorizo isso. que são super-conhecidos no mundo do cinema e que. que é dado pelo que costumamos chamar de nível profissional.. o plano acabava ali. que para o autor é uma verdadeira catástrofe. e que o livro. gritava “corta!” no momento exato e voilá. dá medo descobrir que estão todos enganados.. “até ali”. Vigiava o desenvolvimento da cena. Depois.... Ele mesmo dizia que facilitava muito as coisas. por não ter consciência suficiente dos problemas da montagem.Um escritor tem mais possibilidades de controlar esses detalhes que um cineasta. E nunca está seguro do que faz.

Essa dose de insegurança é terrível.. minha primeira reação foi pensar: “Eles acreditaram. que nunca têm dúvidas. porra! Caíram na minha lorota?”. FIM 203 . mas ao mesmo tempo necessária. acabam dando tanta cabeçada que morrem disso. Os arrogantes. que sabem tudo..dado o Nobel. para fazer algo que valha a pena.

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