1

Gabriel Garcia Márquez Como contar um conto

2

1997 3ª Edição

Casa Jorge Editorial Ltda. Rio de Janeiro-RJ

3

ÍNDICE Prefácio Introdução O enigma do guarda-chuva Ladrão de Sábado

PRIMEIRA PARTE (1ª jornada de trabalho) A dupla, a trinca e a máscara Rumo a outras alternativas (2ª jornada de trabalho) À procura dos limites Sobre o mental e o visual (3ª jornada de trabalho) Em estado de loucura Quando não acontece nada (4ª jornada de trabalho) A morte em Samarra, II O triunfo da vida

SEGUNDA PARTE (5ª jornada de trabalho) História de uma paixão argentina O chamado da selva - O dia em que os argentinos invadiram o mundo - O último tango no Caribe - O inferno tão temido

TERCEIRA PARTE (6ª jornada de trabalho) Recapitulações, I O primeiro violino sempre chega tarde História de uma vingança (7ª jornada de trabalho)

4

Sidália e Belinda .Epílogo O Elogio da cordura 5 .Recapitulações.Travesti Love . II Amores equivocados .

Gabriel García Márquez. para romper os atavismos que o amarravam a Aracataca e começar a aventura de andarilho que o levaria a palmilhar a Terra e outras dimensões da realidade. Os velhos amigos do Centro Sperimentale. caipira costa atlântica da Colômbia. e três linhas de atividade: pesquisa (levantamento de todas as informações referentes à expressão audiovisual do continente). fomento à produção (viabilizou. o mais importante movimento cinematográfico da América Latina. México. com Zavattini e Rossellini circulando pelas salas de aula e pelos corredores e o neo-realismo enchendo as telas com sua ternura e formatando cabeças jovens. García Márquez liderou o processo de implantação. inebriante e tirana de inventar romances e contos. Entre os colegas mais chegados ao Gabo (creio que aí ganhou o apelido) estavam os cubanos Tomás Gutiérrez Alea e Julio García Espinosa e o argentino Fernando Birri. telesséries e vídeos) e capacitação. Montou a Fundación del Nuevo Cine Latinoamericano. em oito anos de existência. Escreveu roteiros para filmes mexicanos e desejou que sua literatura fosse transcodificada à tela. com sedes em Cuba. sua paixão de adolescente. um projeto ousado e difícil: montar um espaço de formação de telecineastas que fosse também uma “central de energia criadora”. Durante este tempo García Márquez não havia conseguido nem querido afastar-se do cinema. Uma escola do Cinema Novo. Colômbia e Venezuela. Esta terceira linha de atividade é a Escuela 6 . concordaram que aquele era o momento para materializar um sonho antigo. Era a época mais brilhante do Centro Sperimentale. a realização de trinta filmes. mas no sentido de que o cinema será sempre novo quando um jovem latino-americano disparar a câmara afirmando ou buscando sua identidade. apesar da dedicação compulsiva. Foi a porta escolhida para entrar no mundo grande. Trinta anos depois (depois da Revolução Cubana. foi estudar cinema em Roma. os quatro se reuniram em Havana para discutir a criação de outra escola de cinema. como definiu Birri. de Perón e de Cem Anos de Solidão). que desempenhariam papéis fundamentais na eclosão do Nuevo Cine (Cinema Novo). nada a ver com continuismo ou dirigismo. no Centro Sperimentale di Cinematografia. de braços com outros “trabalhadores da luz” do continente (o Comitê de Cineastas Latino-americanos).PREFÁCIO Nos anos 50. não no sentido do iluminado movimento dos anos 60.

e da oficina anual Como se cuenta un cuento. doou seu prêmio Nobel para a nova escola.Internacional de Cine y Televisión de San Antonio de los Baños. e recorrente. são destinados à escola. aí sua alma se alimenta do pólen da juventude e das interrogações e floresce com a alegria da eterna primavera. Trabalhamos nas últimos anos na mesma área da escola (Dramaturgia e Roteiro) e por isso estive presente em muitas sessões destes workshops de idéias e articulação dramática de idéias. bem como os ganhos auferidos em entrevistas. O processo das oficinas é simples e instigante: os alunos sugerem idéias. O menino é mesmo pai do homem. a bem da verdade. A escola de San Antonio é sua casa. em Cuba. para sentir na pele. Dizem que se não fosse por Mercedes. Ásia e América Latina/Caribe (de qualquer maneira. Para participar de momentos mágicos. os direitos autorais de alguns de seus livros. com a liberdade e o espírito aquariano que campeiam neste laboratório de criação audiovisual. de instituições internacionais e pessoas. Não foi o bastante e aquele estudante colombiano de cinema em Roma. com o apoio oficial de outros países. o homem meteria tudo o que ganha na escola de San Antonio. agora famoso e intenso. mas para peruar mesmo. destinada a roteiristas e escritores de língua espanhola e portuguesa. García Márquez e seus amigos cineastas contaram com a decisiva contribuição do Estado cubano e. magrinho e vibrátil. Professor dos alunos avançados do curso de formação. de empresas. o professor abre várias portas desenvolvimento dramático 7 . Uma boa provocação seria dizer que de destinou tanto esforço e dinheiro não apenas para proporcionar saber e estímulo às novas gerações de telecineastas ou ter seu nome ligado ao que muitos consideram a melhor escola de cine/tv do mundo. este inclusive. noites de autógrafos e outras atividades). Para materializar o sonho antigo. que sabe cuidar destas coisas e do futuro da família. A indiscrição familiar nos dá uma medida do envolvimento de García Márquez com esta instituição. neste cultivar de talentos e inquietações plantado às margens do rio Ariguanabo. sua mulher. em seguida. onde se põe em prática a tênue e escorregadia ciência da narratividade. na membrana dos neurônios. o calor que se desprende do ato de criação de García Márquez. mas principalmente para ser seu professor. também conhecida como Escola de Três Mundos porque seu curso mais importante é dedicado a jovens de África. conferências. assessorando roteiros para os filmes de fim de curso. Não por isto. com quem mantém encontros ao longo do ano. Este livro é o resumo da gravação de uma destas oficinas.

que lhes levem a um drama. desencontram e tornam a encontrar articulações. pulsante. Universidade Estadual do Norte Fluminense. atualmente diretor da Escola Brasileira de Cinema e Televisão de Campos. norteamentos. lhes abençoe. pensante.destas idéias. Se não se sentirem saciados. a uma emoção. fecha outras. García Márquez é uma bússola viva. se forem aceitos. deus da beleza e do cinema. setembro de 1994 * Ex-diretor geral da Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños. e outras deixa apenas encostadas. que Oxumaré. Neste redemoinho de possibilidades os autores das idéias encontram. Este livro pode revelar um pouco deste desnudamento do filho/pai de Macondo. movendo-se na superfície e nas profundezas de sua galáxia interior. inscrevam-se para a próxima oficina e. Cuba. Orlando Senna * San Antonio de los Baños. de sua imaginação prodigiosa. Serpente Arco-íris. 8 .

outra de horror. o papel vale quase nada. ou outra pessoa da Oficina. afinal.. então. acaba sendo a coisa mais humilhante do mundo: significa que você está se transformando em uma mercadoria. Porque é claro que as linhas gerais da história podem ser elaboradas coletivamente. de meia hora cada uma”. porque havíamos tentado escrever histórias de uma hora de duração.. na Oficina. e não tinha saído nada. de treze em treze. Acerta ou não acerta. E pusemos mãos à obra. No fim. Isso. E. Queriam me pedir treze histórias de amor passadas na América Latina.ou de uma só.Vou contar a vocês como é que tudo começou. ou seja. bem entendido: na verdade quase todos os nossos alunos são mulheres -. uma atrás da outra.INTRODUÇÃO O enigma do guarda-chuva GARCÍA MÁRQUEZ . que a idéia. que pode parecer muito agradável e lisonjeiro. 9 . Decidimos fazer a série com treze histórias de amor. só uma pessoa escreve a história: ou a mesma que a pensou. me levaram catorze idéias. Decidimos então criar uma empresa produtora. o que fazer? Resolvemos. Percebemos que. fui até lá e disse aos alunos: “Precisamos de treze histórias de amor. seja desenvolvida com a participação de todos. Foi uma coisa surpreendente. recebi um telefonema de um canal de televisão.. dando crédito a cada autor mas encabeçando cada história com um letreiro dizendo: “A Oficina de García Márquez. outra de mistério. a tarefa tem de ser de um só. no dia seguinte. desde que meu nome aparecesse nos créditos.. só para começar. mesmo que seja de um só . Oferecemos as treze histórias a diversas emissoras. realizar as treze histórias.. e de repente descobrimos uma coisa: as televisões pagam muito mal.. E feito uma flechada. E sempre trabalhando em grupo. que agora estamos pensando em fazer mil meias-horas. Um belo dia. e no futuro continuar com outras séries parecidas: uma cômica. Cheguei.”. mas na hora de escrever o roteiro. à conclusão de que meia hora era o formato ideal. de comum acordo. Saímos por aí oferecendo esse trabalho e nos disseram que comprariam. Como eu tinha uma Oficina de Roteiros no México. para poder vender o produto acabado. O trabalho acabou sendo tão divertido. na televisão. Mas.

o que estou propondo é. é preciso opinar com absoluta franqueza. e a agir como se estivéssemos fazendo terapia de grupo. tive a ilusão de estar acreditando . Fiquei com essa idéia na cabeça. totalmente vestida de negro. que já esteja curada do medo. o mistério da criação. solitária e muito magra. Esta coisa de inventar histórias em grupo. Está chovendo. aparece a nova imperatriz. e ela continuou lá. o momento exato em que uma história surge. Quando acharmos que alguma coisa não estiver direita. em resumo. das pessoas. de frio ou do que for desde que seja capaz de fazer uma coisa que não pode ser vista nem tocada.ou melhor. folheando uma revista Life. aparecem os guardas com suas capas brancas. li um sem-fim de conclusões. tornei-me um viciado no trabalho coletivo. dando voltas.. claro. Mas nesse meio tempo. jornais e pedaços de pano na cabeça. Nela. Porque em uma Oficina como esta. Uma história que. mas outra: uma história de meia hora. Desde que comecei a dirigir estas oficinas ouvi inúmeras gravações. Iremos desenvolvendo as histórias na Oficina que dirijo todos os anos aqui na Escola. Mas agora acho cada vez mais difícil que isso aconteça. encontrei uma fotografia enorme. Já eliminei o fundo. e depois as continuaremos na Oficina do México. com um véu negro e um guarda-chuva negro. Que tipo de mistério é esse. Ao fundo. de gente que tenha passado por esta Oficina da Escola: gente que não se assuste com nada. e no centro da foto. fora de foco. a esposa de Akihito.a Escola Internacional de Cine e Televisão de San Antonio de los Baños o dinheiro que será arrecadado com a venda dos filmes. coletivamente. virou um vício. a multidão com guarda-chuvas. a que a fotografia está contando. e que um ser humano seja capaz de morrer por essa paixão.Portanto. Não consigo saber quando isso acontece. o seguinte: vamos fazer meias-horas e destinar a esta escola aqui . 10 . não serve para nada? Algumas vezes acreditei . A coisa mais importante deste mundo é o processo de criação. não é a da morte do imperador. me desfiz completamente dos guardas vestidos de branco. aparece a imperatriz. vamos dizer: É preciso aprender a dizer a verdade cara a cara. pensando bem.. morrer de fome. e mais ao fundo ainda. Vi essa foto maravilhosa e a primeira coisa que me veio ao coração foi que ali havia uma história. e que afinal. Principalmente. É uma foto do enterro de Hiroíto. num segundo plano. tentando ver se descubro o momento exato em que a idéia surge. Dia desses.que ia descobrir de repente. que faz com que o simples desejo de contar histórias se transforme numa paixão. Nada.

fica pensando. vamos acabar encontrando o tal guarda-chuva no caminho. Estou absolutamente convencido de que existe uma história nesse guarda-chuva. um ladrão que só rouba nos fins de semana. Se a nossa Oficina tivesse uma finalidade diferente da que tem. Mas não pode fazer muita coisa.Por um momento. entra numa casa. vai ser mais fácil saber o que queremos fazer. Vamos lá: alguém aí é voluntário para ler este roteiro em voz alta? Ladrão de Sábado Na noite de um sábado. seu título definitivo. Hugo. porque sem música não dá para viver. descobre Hugo em plena ação: flagrante total. mas logo descartei também. Durante o jantar. se aqui está tão bom?”. Quando Consuelo apresentou essa história na Oficina. Estou pensando: se nós lermos essa história. E então. Agora se chama Ladrão de Sábado. calça os chinelos do dono da casa e pede a Ana que cozinhe alguma coisa. Acho também que é mais fácil ler esse roteiro do que tentar contar essa mesma história com nossas próprias palavras. a única coisa que me ficou foi o guarda-chuva. e ele a conquista com alguns truques de mágico. uma mulher bela que tem trinta anos e também uma insônia sem remédio. porque Hugo cortou os fios do telefone. fiquei unicamente com a imagem da imperatriz debaixo da chuva. a filha de três anos. de um jeito ou de outro. Tenho a impressão de que. O ladrão não pensa muito. pois o marido . porque ela nunca mais seria a mesma. Ana. que tire vinho da adega e ponha alguma música para o jantar. preocupada com Pauli. eu proporia a vocês que partíssemos desse guarda-chuva para tentarmos fazer um longa-metragem. É um roteiro de Consuelo Garrido. Ana. a casa fica afastada.ele sabe porque vigiou antes – só volta da sua viagem de negócios na noite de domingo. a mulher entrega todas as jóias e coisas de valor. Hugo pensa: “Por que ir embora correndo. é noite. Ameaçada por uma pistola. a dona da casa.. Poderia ficar o fim de semana inteiro e aproveitar a situação. e pede ao ladrão que não se aproxime de Pauli.. e ninguém vai passar por ali. E quero deixar bem claro que não vou criar nenhuma armadilha para forçar esse encontro. Um momento: eu não tinha percebido que já tenho aqui uma meia-hora. Mas nosso objetivo são os filmes de meia hora. enquanto prepara o jantar em um jeito de arrancar o sujeito da casa. chamava-se Ladrão de Noite. o ladrão que durante a semana é vigia em um 11 . Acontece que a menina vê a ladrão.

pensando bem. Ana desperta em seu quarto. Agora. completamente vestida e bem abrigada por um cobertor. e finalmente adormece. passa por ali uma amiga de Ana. Exaustos. feliz da vida. Hugo fica nervoso. é um Deus-nos-acuda: está na hora de o marido voltar: Embora Ana resista. descobre que Ana é a apresentadora de seu programa de rádio favorito. ela que adora dançar o danzón. o tal ladrão é bastante atraente. ela diz. 12 .banco. e se despede das duas com um bocado de tristeza. e assovia. convidando-a para correr um pouco. Hugo e Pauli brincam. os três ficam juntos. Hugo é seu admirador. Mas agora é tarde: o remédio para dormir já está no copo e o ladrão está bebendo. para desfrutar do domingo. aos gritos. E. Ana o vê afastar-se. Assim. olhando fixo para os olhos dele. Na manhã seguinte. o programa de música popular que escuta todas as noites. depois de um bom café da manhã. Hugo acaba devolvendo a ela quase tudo que havia roubado. adorou o jeito daquele ladrão preparar o café da manhã. Só que houve um tremendo engano: quem toma o copo com o remédio para dormir é a própria Ana. Nesse momento. Hugo conserta as janelas e o telefone. dançando pelas ruas do bairro. que no próximo fim de semana seu marido vai viajar de novo. Ana fica surpresa ao ver como os dois se dão bem. Quando Hugo está quase desaparecendo. que quebrou na noite anterior. Ana se arrepende de ter posto Hugo fora do ar. pois ele se comporta com tranqüilidade e não tem a menor intenção de feri-la ou violentála. No jardim. e aplaude. dá alguns conselhos sobre como impedir que ladrões entrem na casa. Ana começa a sentir uma estranha felicidade. e enquanto escutam Benny Moré cantando Cómo fue. Além disso. Ele a convida. Ana nota que ele dança muito bem. e nunca tem com quem. que cai num sono profundo. sem falta. mas Ana inventa que a menina está adoentada e rapidamente despede a amiga. falam de música e de músicos. E quando Hugo regressa. ela o chama. Pauli os observa. e os dois se encaixam tão bem que ficam dançando até o meio da tarde. os dois acabam estendidos num sofá da sala. O ladrão de sábado vai embora feliz. enquanto a noite cai. um ritmo que a fascina.

PRIMEIRA PARTE

PRIMEIRA JORNARDA DE TRABALHO

A dupla, a trinca e a máscara GARCÍA MÁRQUEZ - Bem, vamos lá: está na hora de retalhar Ladrão de Sábado... MARCOS - Foi escrita por uma mulher. Deixa uma sensação, sem menor dúvida, de ser feminina. GARCÍA MÁRQUEZ- Você teria percebido isso se não soubesse antes? MARCOS - Teria. GARCÍA MÁRQUEZ - Pela impressão geral, ou por algum detalhe em particular? MARCOS - Desde o começo, senti uma espécie de angústia. Isso está nas sensações da mulher. GARCÍA MÁRQUEZ - Consuelo vai gostar de saber disso. Porque é verdade, a história é contada do ponto de vista de uma mulher. A protagonista é ela. Talvez não seja a melhor das histórias que foram apresentadas aqui, mas acho que é a mais exemplar: É mais ou menos, o que queremos fazer. Primeiro, é “comercial”. Dá para saber que a maioria dos espectadores vai gostar: Aliás, o empresário da Televisão decidiu comprar essa história. Vai agradar e terá qualidade, será bem filmada. Certa noite levamos um susto. Um dos alunos telefonou para a minha casa. “Ligue no canal 5” - disse ele. “Estão passando a história da Consuelo, inteirinha”. Ligo no canal 5 e vejo um sujeito tomando um banho de banheira, cheia de espuma... Era um filme de Hitchcock! Sábado, sete e meia da noite, e para mim, o mundo desmoronou. “Como é possível?”, eu me perguntava. “O que será que aconteceu com a Consuelo? Como é que fizeram essa história, igualzinha à dela?”. Mas era um alarme falso. Conforme o filme avançava, percebi que não tinha nada a ver com a outra história. Sempre que eu ligo a televisão para ver um filme, tenho a esperança de que seja um bom filme:. Mas, naquela noite, queria que o filme fosse ruim, que fosse a pior droga do mundo. Até que percebi que era outra coisa: não era um ladrão que entrava numa casa

13

para roubar, e sim um fugitivo, um sujeito que tinha escapado da cadeia e que mantinha a protagonista debaixo de terror e no fim ela, tentando evitar que aquele homem a matasse, fingia obedecer... Quando afinal o sujeito sai da casa, a polícia está lá fora, esperando. Ele enfrenta a polícia e... ufa!, que alívio... que descanso!... Nada a ver: Mas tomamos certos cuidados. Logo de saída, cortamos a cena do banho. Morri de pena. É bonito alguém tomando banho. Poderíamos ter conservado aquela cena. Na verdade, é muito difícil encontrar uma história que não seja parecida, de uma forma ou de outra, há muitas histórias conhecidas. Acabamos eliminando a tal cena. A realidade, aliás, estendeu outra armadilha para mim, quando eu estava escrevendo O Outono do Patriarca. Eu havia imaginado um atentado que não parecia nenhum dos atentados habituais: colocavam uma carga de dinamite no porta-malas de um automóvel. A mulher do ditador apanhava o carro para ir fazer compras, e no caminho o automóvel explodia e ela ia parar no telhado do mercado. Fiquei tranqüilo com a imagem do carro voando pelos ares porque, francamente, achei que era muito original. Pois não é que, três ou quatro meses mais tarde, fazem um atentado exatamente igual, contra o almirante Carrero Blanco, na Espanha? Fiquei furioso. Todo mundo sabia que eu estava escrevendo a história em Barcelona, e naquela mesma época; ninguém iria acreditar que eu tinha tido a mesma idéia muito antes. O jeito foi inventar um atentado completamente diferente: levam ao mercado alguns cachorros sanguinários, especialmente. treinados, e quando a mulher do ditador chega, os cães se lançam em cima dela e a despedaçam. Depois, fiquei contente por terem estropiado o atentado do automóvel. Até hoje fico alegre com isso. O dos cães é mais original ainda, e está mais dentro do espírito do meu livro. Eu até acho que não devemos nos preocupar muito com isso: se uma cena não funciona ou cai, o que se há de fazer? Procurar outra. O curioso é que, na maior parte das vezes, a gente acaba encontrando outra melhor. Se tivéssemos ficado com a primeira, teríamos perdido. O problema é mais sério quando a gente encontra, logo de saída, a melhor. Aí sim, não tem jeito. Mas, como saber? É a mesma coisa que descobrir se a sopa ficou pronta. Ninguém pode saber, a não ser provando. Mas voltando às semelhanças, vemos deixar que elas nos assustem, desde que não se relacionem com aspectos essenciais da história. Porque a verdade é que existem histórias muito diferentes e que, no entanto, têm muitas coisas em comum.

14

É preciso aprender a jogar fora. A gente conhece um bom escritor não tanto pelo que ele publica, mas pelo que joga no lixo. Os outros não ficam sabendo, mas o escritor sim: ele sabe o que joga fora, o que vai deixando de lado e o que vai aproveitando. Se o escritor se desfaz do que está escrevendo, está no bom caminho. Para escrever, o escritor tem de estar convencido de que é melhor que Cervantes; senão acaba sendo pior do que na verdade é. É preciso apontar para o alto e tentar chegar longe. E é preciso ter critério, e coragem, é claro, para riscar o que deve ser riscado e para ouvir opiniões e refletir seriamente sobre elas. Um passo a mais, e já estaremos em condição de pôr em dúvida e submeter à prova até mesmo aquelas coisas que nos parecem boas. E tem mais: mesmo que todo mundo ache que essas coisas são realmente boas, o escritor precisa ser capaz de colocá-las em dúvida. Não é fácil. A primeira reação que tenho, quando começo a suspeitar que devo rasgar uma página, é uma reação defensiva: “Como é que vou rasgar isso, se é o que mais gosto?”. Mas é preciso examinar bem e se a gente chegar à conclusão de que, realmente, não funcionava dentro da história, está desajustando a estrutura, contradizendo o caráter do personagem, indo por outro caminho... bem, aí não tem jeito, é preciso rasgar mesmo. Isso dói na alma da gente... no primeiro dia. No dia seguinte, dói menos; dois dias depois, um pouco menos; três dias, menos ainda; e no quarto dia, a gente nem se lembra mais... Só é preciso tomar cuidado com a tendência a guardar em vez de rasgar, porque existe o perigo, se o material rejeitado estiver à mão, de a gente tornar a pegá-lo para ver se “cabe” em algum outro momento. É difícil enfrentar essa encruzilhada sozinho. Aqui, na Oficina, é isso o que torna o trabalho do roteirista diferente. A história é elaborada entre todos nós, mas o roteirista está só e é ele, sozinho, que tem de escolher: O trabalho do roteirista não exige apenas esse nível de perspicácia. Exige também uma grande humildade. A gente, como roteirista, sabe que está numa posição subalterna em relação ao diretor. O roteirista é o amanuense do diretor, ou pelo menos, alguém que está ajudando o diretor a pensar: A história é do roterista, sim; mas o roteirista sabe que no fim, quando passar para a tela, ela será do diretor. Nunca vi, na tela, um único fotograma que eu possa dizer que seja meu. Não sei quantos roteiros fiz, uns bons, outros ruins, e no fim, o que vejo na tela nunca é o que eu tinha na cabeça. Sempre imaginava os enquadramentos completamente diferentes. As vezes, me esmerava indicando ao diretor, através de desenhos, a forma em que eu via o enquadramento ou a cena. “Olha aqui”dizia - “a câmera está aqui; este personagem está em primeiro plano, e este

15

outro, está de costas; se a câmera se mover para cá, o outro personagem aparece ao fundo...”. Ia ver o filme e, na verdade, os enquadramentos eram completamente diferentes; o diretor havia criado a cena à sua maneira. Se alguém quiser ser roteirista e continuar sendo roteirista, tem de respeitar isso. Quase todos os roteiristas sonham ser diretores, e acho isso muito bom, porque todo diretor deveria ser capaz de escrever um roteiro. O ideal seria que a versão final um roteiro fosse escrita a quatro mãos, pelo diretor e pelo roteirista. E já que estamos falando de trabalho em dupla, falemos também do trabalho a três. Estou me referindo ao produtor: Insisti para que a Escola trate de incluir entre seus planos um curso de Produção Criativa. Todo mundo costuma achar que produtor é o sujeito que existe para evitar que o diretor gaste o dinheiro antes do tempo. É um tremendo erro. Muitas vezes, a gente percebe que determinado filme é ruim porque o trabalho de produção falhou. Faz pouco tempo, soube de um produtor que estava feliz da vida porque tinha obrigado o diretor a se submeter a um orçamento rígido... e quando assisti o filme, vi o que ele havia conseguido com isso. Em vez de dois atores de primeira, A e B, que tinham sido indicados, o diretor precisou usar C e D, dois atores mais baratos... em todos os sentidos. O resultado estava na cara. A falta de dinheiro aparecia por tudo que é canto e, de fato, acabou com o filme. O barato saiu caro, como costuma acontecer. O produtor deve saber que ele não é simplesmente um empresário, um financista; seu trabalho requer imaginação e iniciativa, numa dose de criatividade sem a qual um filme perde o pé. Quando alguém se empenha em escrever um roteiro, não deve desanimar diante dos obstáculos. E preciso colocar a honra do roteirista na frente do destino do roteirista. É preciso tentar escrever roteiros ótimos, mesmo que depois o diretor faça barbaridades com ele. E repito: para fazer um bom roteiro, o único remédio é apagar, riscar muitas linhas, e jogar muitos papéis fora. Isso é o que a gente chama de sentido crítico, aquilo que Hemingway chamava de shit-detector. O diretor com quem melhor trabalho é Ruy Guerra, porque não se sente constrangido comigo: me diz com toda franqueza o que tem a dizer, e ponto final. E eu também sou assim com Ruy. Tenho um enorme respeito por ele como diretor e criador, mas isso não me impede de falar francamente. O que não presta, não presta; e é preciso jogar fora, seja de quem for. O assunto se resume nisso: é preciso evitar que chegue à tela. Gosto de Ladrão de Sábado porque é um roteiro muito original, embora não pareça: não me lembro de ter lido essa história antes, nem de ter visto essa

16

que ele mesmo havia trazido. que a gente acabe num beco sem saída.O personagem se apresenta como bonzinho desde o primeiro momento. Está contado no tom que a história requer. E digo ainda bem porque há muitos métodos para escrever roteiros. uma espécie de pequeno argentino que vai nos dizendo o que temos de fazer. pronta para ser passada ao diretor. ou o estilo. desde o começo. seria lógico que ela notasse que é um objeto da casa. A mistura pode vir.. lá dentro.. só que agora. sua própria técnica. o tom de comédia. Dá para imaginar o que vai acontecer. fica claro que ninguém quis esconder que se trata de uma comédia.. Essa idéia de Papai Noel é ótima. Ainda bem que cada um de nós leva. A mulher vê pelo espelho que o sujeito é um tremendo gato. capaz até de matar e que tudo mude quando a menina entrar e começar a relação dela com o ladrão.. Eu percebi isso na cena do espelho. mas de repente começamos a escrever e erramos o tom. o sujeito vai embora. e que não tem nada a ver com a casa. Só que se desde o princípio ficar evidente que ele é bom. que esta versão de Ladrão de Sábado é a versão definitiva. O espectador tem que saber logo de saída se o que está vendo é um drama ou uma comédia. e depois. mas depois.história. A gente não pode se enganar nunca ao insinuar o gênero. ele poderia ir amaciando.. mas na verdade nenhum deles serve: cada história traz. Eu acho que uma das virtudes deste roteiro é a sutileza com que o gênero é estabelecido. Consuelo quis estabelecer. O tom de comédia vai sendo imposto gradativamente. Acho mais atraente a gente pensar nele como um bichopapão. Mas agora que você está dizendo. Rumo a outras alternativas REYNALDO . Outra coisa: a dose é decidida pelo roteirista. GARCÍA MÁRQUEZ . não há nada que proíba que esse tom seja ressaltado depois. só que quando o ladrão dá de presente a Pauli a pombinha de porcelana. veríamos o personagem como uma fera. mas não importa.. em si... e isso é importante. Acho. GARCÍA MÁRQUEZ . Ele tira um objeto que estava oculto. o importante é conseguir descobrila. na primeira seqüência. um prestidigitador. O ladrão está caracterizado de um jeito que faz com que eu seja partidário até mesmo de que ele use aquela pequena máscara que os ladrões das histórias em quadrinhos usavam. Pode acontecer com isso. enfim. e esse é um ponto no qual a gente se engana muito: temos a história e achamos que isso resolve tudo.A idéia original é um mágico.A história admitiria esse tipo de recurso. Talvez na próxima vez não vá mais. Depois. porque está bem contado.Essa história tem muita coisa de comédia. Para o roteirista. REYNALDO . vai: faz o que todos nós 17 .

diz que seu marido chegará no domingo à noite. percebem que o material está se esgotando e não sabem o que fazer:. confessa: “Não saímos quase nunca”. ele diria: Juntos? Não saem quase nunca”. ou de parecer. deveria ter umas quatrocentas páginas. Uma história de trinta minutos tem suas próprias leis. por exemplo. dá para ver que é apenas um filhinho de papai. sua personalidade. mas uma coisa me preocupa: o tempo. Ele até gostaria de ser. pelas suas previsões.Eu consigo ver Ana. Estamos falando de meia hora na tela. não há história que sirva.E se ele já soubesse tudo? Ela diria.. e enquanto não houver inspiração. De vinte e sete minutos. Se vamos empacar na caracterização dos personagens. ele teria todas as informações. as mentiras da mulher: GARCÍA MÁRQUEZ .supúnhamos que ia fazer. gostava.Não gosto do beijo. Isso é gravíssimo. E um profissional. Antes. SOCORRO . REYNALDO . Seria mais interessante que o espectador fosse descobrindo. corremos o risco de começar como se estivéssemos fazendo um longa-metragem. Essa coisa de todos os personagens dizendo sempre a verdade: acho mentira. depois. Ou seja. e desse jeito. para que depois a gente percebesse que ela mentiu. referindo-se ao marido: “Ele chega amanhã”.Eu também não.Tudo bem.. a precipitar os acontecimentos.Eu sinto falta é da descrição de Ana.Volto ao tratamento dos personagens. para ser exato. e é preciso saber obedecê-las. A estrutura perde totalmente o equilíbrio (já encontraremos tempo para falar da estrutura). e no segundo ou terceiro capítulo. só para ver-nos obrigados.E que eu não sinto que ele seja um ladrão profissional. e o homem contestaria: “Chega domingo”. a estrutura não serve para nada.Isso até contribuiria para despertar a admimiração dela. o tom não serve para nada. REYNALDO . É natural: na medida em que a história vai se ajustando. às vezes. Enquanto não houver o tom. Podemos dizer a mesma coisa dos outros elementos. mas olhando bem.. os defeitos vão se tornando mais evidentes. Acontece com os romacistas. Desde o começo. GLÓRIA . REYNALDO . o seguinte: começam a contar uma história que. enquanto não houver um estilo homogêneo. dividida em partes: 18 . GARCÍA MÁRQUEZ . Por que não mente? Deveria dar a informação ao contrário. por sua conta. Ana. GARCÍA MÁRQUEZ . Mas agora não gosto mais. GARCÍA MÁRQUEZ . Depois. Ela diria: “Saímos quase todos os dias”.

Mas.. GARCÍA MÁRQUEZ . Eu não consigo mesmo é gostar da troca de cálices. e depois. A idéia de que ela seja uma locutora de rádio e que tenha um programa popular não me convence. quando a convida para correr. De noite. nas comédias é preciso perdoar certos lugares-comuns. É fácil de conduzir. não pára de maquinar sua defesa: telefonar. não pode se deixar arrastar pelas idéias que façam com que ela seja contraditória..antes de dormir. SOCORRO . de gente de dinheiro.. GARCÍA MÁRQUEZ .. E não há nada pior do que uma história curta que foi esticada.. quando se levanta. GARCÍA MÁRQUEZ. VICTORIA . e seria muito difícil inventar um tio para ela.. Por isso a imaginei assim. e não de mudá-la. A idade da menina.Há um ponto no roteiro em que se estabelece que o ladrão vê Ana “no batente da porta”.O problema é que uma menina maior teria mais consciência dos laços familiares. já preparou o café da manhã... porque as comédias não devem ser levadas muito a sério. É típico de uma classe social.Quando a gente tem uma história nas mãos.Confesso que não sei direito o que significa ter três anos. Um roteirista tem de ser mais cuidadoso 19 .. Isso não quer dizer que deva ficar do jeito que está..Pois eu acho que deveria ter mais. Uma menina de três anos é difícil de ser dirigida em cena. no dia seguinte. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ .. já relaxou.. Mas enfim. antes de beber o copo de vinho.A menina tem três anos. VICTORIA. SOCORRO. Tenho um neto que vai fazer dois.Só tenho medo é de que essa idéia nos leve diretamente a um longa-metragem. preocupada com esse tipo de coisa. Quero deixar claro que não estou defendendo esta história. E um recurso muito conhecido. E ele. por exemplo. SOCORRO.. mas acho que devemos tratar de melhorá-la. Ou defendemos as nossas histórias.Nada disso: uma criança de três anos se comunica muito bem. por sua vez.Gostei muito da cena da amiga. principalmente numa situação como esta. GARCÍA MÁRQUEZ . pegar uma faca. e me dá a impressão de que no ano que vem ele ainda não vai saber falar.Acho que Ana é casada com alguém de muito dinheiro. ou cedemos à tentação de convertê-las em histórias diferentes.Já está derrotada..

o batente é a estrutura onde a porta está montada. ao se ver forçada a tomar o vinho com o remédio. ou seja.Mas se ela fizer isso. MARCOS .. não. GLÓRIA . Mas não sabemos qual a sua idade. o vão é o espaço que a porta fecha. loura ou morena. abre de novo. 20 . SOCORRO. o umbral é a parte de baixo. e o que tiver de fazer o break-dowv. jamais o tomaria com vinho... Ou melhor. nada está consolidado. em vez de botar o remédio no copo.. e não sabemos como está vestida. o mais provável é que ele ofereça seu próprio copo.Para mim. Será mais arbitrário.. e seria obrigada a voltar ao banheiro para apanhar outro remédio. que tudo ainda está muito verde.E se for ele quem troca os copos? Ela perceberia e.. acontece o contrário: ele não dorme. preferisse botar na garrafa? Faria isso confiando na própria resistência. como quando estamos pintando uma parede e percebemos que falta alguma coisa para chegar á espessura adequada da tinta. não vai saber que vestuário irá precisar. Essa é uma falha técnica do roteiro. que ele dormiria primeiro. É preciso dar outra demão. mas será também mais criativo.com a linguagem. O coitado do encarregado de arregimentar o elenco vai ficar louco. fingiria um ataque de histeria e jogaria o copo no chão. Mas parece que não tem outro jeito. porque dá para sentir. diante de uma situação dessas diria a ela: “Prefiro beber no mesmo copo que você”. abre o armário e quando vai fechar. Ou pelo menos.. já está claro o seguinte: existem alternativas. ela sim. GARCÍA MÁRQUEZ . A seqüência de ações poderia ser a seguinte: ela vai ao banheiro. e sabe que o remédio faz efeito.Se ele fosse um verdadeiro profissional. Se ela está acostumada a tomar remédio para dormir.Ou ela procura um pretexto para não ter que beber.. na medida em que vamos incorporando elementos.. se está de pijama ou de roupão.O roteiro também deveria deixar claro que Ana tem a idéia de usar o remédio para dormir quando abre o armário do banheiro. é a moldura da porta. E na realidade.. na certeza de que ele cairia no sono e ela. O dintel é a parte de cima do batente. REYNALDO . armar os detalhes da préprodução..E se ela. Então.Insisto: esse negócio da troca de cálices continua me incomodando.. Ela não beija o ladrão no batente: beija no vão da porta. e apanha o remédio. GARCÍA MÁRQUEZ . ela teria que servir outro copo para o ladrão. simpática ou chata.. vacila. Pois bem: tudo que sabemos dela é isso: está no vão da porta. Mas devemos insistir.. VICTORIA . quando fecha. GARCÍA MÁRQUEZ . se é branca ou negra. O batente é onde a porta está presa.

É a mais criativa.Ela poderia entrar com a bandeja e ele.Eu acho melhor ele trocar os copos de propósito. ela já não sabe ao certo qual dos copos é o dela. Pertencem à técnica alguns recursos – onde colocar a câmera. Nós também não sabemos qual dos dois tomou o copo com o remédio para dormir. Vamos esquecer o remédio para dormir.será muito ouvida aqui na Oficina. – que nos ajudam a dizer da melhor maneira possível o que queremos dizer. qual ator entra primeiro. E apanha a bandeja. Será que tem um erro nessa história? Por que será que nenhum dos dois boceja de leve. GARCÍA MÁRQUEZ ... esta palavra . até que alguém desmorone no chão.E se ela souber que ele gosta de beber? Ele poderia liquidar seu vinho num vupt. Não sente nenhum gosto estranho.criativo. O remédio está num deles. Torna a beber: Chega o momento em que os dois esvaziaram seus copos. Ela não pode dizer “pode deixar. e colocou-os na mesa. eu sirvo”: tem de ceder.. enquanto ela se limitaria a molhar os lábios. não sabemos em qual. SOCORRO. com muito cuidado. REYNALDO .SOCORRO . as que fazem a história avançar.Achei! Ele já tomou o seu copo. GARCÍA MÁRQUEZ . animados..Acho que isso é importante: o espectador não sabe qual dos dois copos é o bom. Ele se levanta. Não sabemos qual dos copos tem o remédio... O espectador sabe que um dos dois está a ponto de cair duro. criativa . dormindo. Mas os dois continuam conversando.. Ela trouxe os copos já servidos. e como a garrafa não está na mesa. Vamos reservá-la para as soluções que não sejam simplesmente técnicas. Mas as idéias fundamentais. esta proposta parece ser a melhor. Ela faz a mesma coisa. Não me perguntem como. 21 . apanha o copo dela. qual sai depois. O remédio ainda não fez efeito.. gentil. Aliás. nem isso? Sim. Ele toma um gole. ir ao seu encontro: “Com licença”. ao campo da criação.

somos dois”. E já que ninguém quer quebrar o gelo. o rapaz e uma moça. porque quem mais medo sou eu. De repente. porque eles arrebentariam tudo. o elevador dá um solavanco e pára entre dois andares.Vamos ver se a experiência de Ladrão de Sábado nos ajuda a fazer a nossa primeira meia-hora. Ele se vira sorridente para a moça: “Viu só?”. mas não conseguimos achar os mecânicos. torna-se a ouvir a voz lá do alto: “Desculpem. tira 22 . Ouvem marteladas. “A casa de máquinas está lá em cima.”.. Até eu. O elevador sobe. Ele aperta o botão do alarme. “Devem estar subindo pelo outro elevador” . já sabem que estamos aqui”. não tem mais problema. se vocês preferirem.comenta o rapaz. Só ficam no elevador que tornou a se movimentar. que sofro de claustrofobia. No edifício. De repente. Existe uma história que quero fazer com o diretor colombiano Lisandro Duque. respondem: “Está vendo essa gradezinha da ventilação. O rapaz faz isso. veja só. Ele vai dirigir o filme. agora ouve-se uma campainha longa. mas agora sim. é uma campainha que ninguém nunca ouve. uma voz: “Não se preocupem. já aprendi a me dominar. Já voltamos”. Vamos ter de esperar até amanhã. A moça fica muito nervosa.. pára de andar. Alguém tem uma boa meia-hora para contar? Ou. Mas o tempo passa. ouvem uma voz que vem lá do alto: “Estão aí?” “Sim. já vamos tirar vocês daí”.SEGUNDA JORNADA DE TRARALHO À procura dos limites GARCÍA MÁRQUEZ . Com umas roldanas. Um rapaz entra num elevador. começou o movimento. Vamos chamar os mecânicos. eles conseguirão mover este nosso elevador”. De repente. eu mesmo me ofereço como voluntário. Desistimos de chamar os bombeiros. Fiquem serenos. está bem?”. Como todo mundo sabe. Lá de cima. e o rapaz comenta: “Pronto. chamamos os bombeiros. E então. isso se resolve depressa. O rapaz grita: “Está começando a esfriar aqui”. “Não se preocupe. Se não conseguirmos. ruídos que descem pelo poço do elevador. O rapaz tenta tranqüilizá-la. Vamos lá. o grupo sai. aí no teto? Solte os parafusos”. com um grupo de pessoas. A história é muito simples. “Não se preocupem. vamos colocar assim: quem tem menos medo? Não se preocupem.

Gritam: “Que diabos está acontecendo com o gravador? Continuamos sem música!”. de mais familiaridade. Falta escrever o processo inteiro. Na manhã seguinte.Tem um problema de credibilidade. Mas o tempo passa. esses ruídos. esses assaltos em plena luz do dia. no Japão. Finalmente. MARCOS. Os dois se juntam num esforço e fecham a porta. e o banheiro? GARCÍA MÁRQUEZ . e fica evidente que são os bombeiros. respondem lá do alto.. A história ainda não está desenvolvida. O cestinho perde-se lá no alto e demora a voltar com o pedido. “Esperem.. existe um colchãozinho. então. Nova dissolução. mas tornaram-se exigentes. Os dois parecem estar confortavelmente instalados no pequeno espaço. os dois são acordados por uma voz: “O técnico acaba de chegar: Preparem-se para sair”. Coloca o livro no cestinho e dá um puxão na corda. “estamos mandando agora mesmo”.... ele compram merda como adubo? Distribuem uns saquinhos plásticos pelas casas. No final. “Lá para fora?”. As vezes. fica o buraco. conseguem que o elevador dê um salto e se detenha no andar seguinte.. no outro. Agora. e passam para recolher no dia seguinte.. vamos mandar algumas coisas”. E ponto final. abre a porta e. Vocês não ouviram falar daquela história de cocô que também discutimos em outra Oficina? É muito bela.Você não deixou nenhum detalhe de fora. MARCOS . mas elas irão se ajustando quando começarmos a pensar na história milimetricamente. Num canto do elevador. Nas paredes há quadrinhos e vasos com flores. dizem. e nada. E realmente chega o gravador pelo buraco do teto. “Nem pensem em voltar aqui!”. no meio da rua?”. lá de fora. “Com toda essa poluição. grita.. A gente aceita tudo. uma longa dissolução de imagens. um fogareirinho.Isso está resolvido: saquinhos plásticos.uma plaqueta de metal. descobre o pequeno paraíso... mas. GARCÍA MÁRQUEZ . e tem exatamente meia 23 .Que nada: ainda existem muitas pontas soltas. e a moça está grávida outra vez. No teto. a moça aparece grávida. Você sabia que. Alguém... gritam. “Mande o volume dois!”. o necessário para passar a noite no elevador. “Sim. O rapaz e a moça se negam a sair. para marcar a passagem do tempo. Há. senhor”. Claro que entre o rapaz e a moça começa a existir uma relação diferente. E com uma corda mandam cobertores. penso que daria até um longa-metragem. uma cestinha com água e sanduíches. um belo dia tornam a ouvir vozes e ruídos lá no alto. Aquilo é um pequeno paraíso. Ele está terminando de ler um livro. Os dois já têm um bebezinho. São contratos sérios.

o carteiro vai até a casa dela para entregar uma curiosidade: uma carta que foi encontrada no fundo de uma caixa de correio – dessas onde as pessoas colocam a correspondência . Abre e lê: é uma carta crucial. GARCÍA MÁRQUEZ . Ela transcorre numa aldeia da Bolívia. na própria história. Os dois fugiriam juntos. em pleno século XIX. E o dono desse cocô tem a idéia de vender merda.. 35 anos depois. Se acreditarem na sua história. com filhos e netos.Tenho uma história. elas passam a ser invioláveis. o bispo dessa forma. mas é preciso ser consciente desses limites. encontram amebas em todas as amostras. o outro jogador não aceitará. e a vida dela mudou completamente. Ele mora no espelho. você está salvo. Pendura o espelho no quarto e de repente descobre que dentro do espelho existe um sujeito. Quem foi que disse que não existe amores eternos? Eu e interesso muito por esse tipo de história porque permite perceber até onde podemos forçar a realidade. Era outra vida. Mas um belo dia ele desapareceu. e ela mora fora. Assim.ou com o leitor as regras são jogo: n peão é movido assim. e consegue ir para os Estados Unidos.. Acontece uma série de coisas e no fim. E lá está ele. Ela olha o envelope. Felizes da vida. da moça que compra um espelho do século XIX.quando reformaram todas as caixas da cidade. ela decide ir ao encontro impossível. realmente. A chave do enigma está na grande jogada. é preciso passar por exames médicos. Acontece assim: muita gente quer emigrar para os Estados Unidos. Seu amado marca um encontro no café tal. A partir do momento em que essas regras são aceitas. É como jogar xadrez. pode continuar jogando sem problemas. a torre desse outro jeito.De meia hora? 24 . sua própria merda. Não tem jeito. nunca deixou de amá-lo. como tinha feito todas as quartas-feiras às cinco da tarde. Meia hora de amor impossível entre duas pessoas que não podem se encontrar porque vivem em épocas diferentes. Como aquela outra. todo mundo passa com êxito pela prova das fezes. mas para conseguir. A gente estabelece com o espectador . na verdade. se a gente tentar trocá-las no meio do caminho. às cinco da tarde. Em todos. Um dia. o sonho de sua vida.hora de duração. E ao examinar o cocô dessas pessoas. esperando por ela.. Vamos ver se vocês acreditam nela. Ela e o homem dos seus sonhos. embora carregando suas amebas. em pleno século XX. São mais amplos do que a gente imagina. o único que amou.. É. Sobre o mental e o visual CECÍLIA . quais os limites do verossímil. A caixa estava lá há 35 anos. para ela. embora bem conservada. na quarta-feira. Outra meia-hora: a de uma mulher mais velha. Daria um exemplo perfeito de meia-hora. menos em um: existe um cocô sem amebas.

E de repente. esperando que a mulher sirva o jantar: Ela põe na frente dele um prato delicioso. a secretária traz de volta um balancete que ele havia apresentado ao chefe da empresa no dia anterior.O truque.O que aconteceu com a mão dele? CECÍLIA.. se distrair”. O homem ficaria sem trabalho. “Está vendo só?”. até que no final o homem estivesse totalmente dominado pelo corpo. E são números que ele mesmo anotou. O chefe está furioso. “Elas me obrigam a fazer coisas que não quero fazer”. Quando regressa. os números estão mudados. diz o homem à mulher. diz. comprimidos. O homem sai do escritório..CECÍLIA . na verdade.“É natural que ninguém entenda mais nada!”. Mas admito que é uma 25 . O criadomudo está cheio de frascos. GARCÍA MÁRQUEZ . sem família. diz ele. chega em casa mal-humorado. sacode os ombros e diz: “Tudo bem.Vocês irão decidir: E a história de um senhor que um belo dia acorda cedo. Quer pegar um copo do criado-mudo.O corpo inteiro parece fazer coisas estranhas. e isso não dá certo: você tem que soltar esse mistério logo. CECÍLIA . “Você tem que descansar. “É que está faltando o primeiro ponto!” – grita ele . O homem é bastante hipocondríaco. vê o homem na cama e pergunta a ele porque ainda não levantou. seria fazer o corpo inteiro ir se rebelando. com os filhos. É verdade. talvez um xarope. Chama a secretária: será que não foi ela quem mudou o original? Ela nega com firmeza. vemos como ele serve uma colherada e toma. vê que o homem já está vestido e pronto para ir trabalhar. acha que é um capricho ou uma brincadeira. conversa com um amigo. Esta noite. compara os dados e exclama: “Como é que eu pude fazer isso?”. “O corpo não me responde”. Eu vou levar as crianças para a escola. Adoraria comer tudo.. Ela suspira. e o amigo o tranqüiliza: “São os nervos”. Os filhos trocam olhares entre si.. O homem é contador. olhando para as próprias mãos. quem faz? Ele ou as mãos? Porque você está guardando o mistério das mãos. Diz que não entende nada. Mas só desta vez”.. e descobre de repente que perdeu seus reflexos. Tira da escrivaninha um caderno de anotações.. mas está com o aparelho digestivo paralisado. A secretária o faz notar que ele mesmo revisou e assinou o documento. sem nada. No escritório.. mas a mulher impõe silêncio com um gesto. GARCÍA MÁRQUEZ . O homem está sentado à mesa. vão dizer alguma coisa. remédios. A mulher vem da cozinha. como todos os dias.Quem obriga.. Na frente dele há um vidro de remédio. vemos como as mãos saem na direção do prato que ele acaba de recusar. Ele rejeita. O homem percebe que todos. E não consegue. e a mão não responde. O homem vai se levantar. diz.

e não ele? ELID . Aí essas sensações estranhas são contadas. Tampouco é uma história muito visual.E que se trata de um processo lento. No começo acaba sendo inacreditável para quem rodeia o homem. é esse. não. com um narrador.Quando for comer. Não é só a mão: é uma rebelião paulatina do corpo inteiro. CECÍLIA. primeiro. você se propõe a dizer o quê. o caso é que o tipo fica colorido. ao despertar. justamente. o que está acontecendo comigo?”.história difícil. costuma dizer o homem. E o que realmente acontece. por exemplo. GARCÍA MÁRQUEZ . grita. Gregorio Samsa viu-se convertido em um inseto monstruoso”. Ele se vê. faz o que ela quer”. de Kafka? “Certa manhã. Acho que a transformaram em filme e foi resolvida. Por isso fala-se tanto no filme. conseguiu esse trabalho de modelo pela figura que tem.. ou melhor quando a mão levar comida à boca do homem. por ter contado mal a história. ele teria que resistir feito uma criança. Ele se sente diferente do corpo que lhe coube na roleta da vida. CECÍLIA . A idéia é essa. essas sensações sobre as quais ele não tem nenhum controle.. como é que vou conseguir?”. e que imediatamente isso fica demonstrado. Verde. Apertar os lábios. a mulher está acostumada.. e alguém diz: “E que você está ficando verde”. faria isso ou aquilo”. Como diferenciar ele do corpo? O que fazer para deixar claro que quem está agindo são suas mãos. GARCÍA MÁRQUEZ . botar a cabeça para trás . Um dia. GARCÍA MÁRQUEZ. nós o vemos. 26 .. ou vermelho. CECÍLIA . ou roxo. Não é como a história de um camarada que fica verde. porque a história não é muito visual.Eu acho que é pouco visual.O que existe de tremendo em A Metamorfose é que Gregorio Samsa amanhece realmente transformado num enorme inseto. paulatino. Dá para ver.. e depois com ele mesmo contando suas experiências. mas pouco a pouco acabam aceitando porque ele sempre foi meio hipocondríaco. percebe: “Porra.O grande problema da história.Você lembra de A Metamorfose.Tive essa idéia ouvindo as pessoas dizendo: “Fulana? Ah.Pode ser que a culpa seja minha. tanto faz. Com aquela altura. aqui a gente não sabe o que está acontecendo até que o próprio sujeito diz: “Esta mão safada não faz o que eu quero. Mas aqui. GARCÍA MÁRQUEZ .. Você teve de “explicála” para que pudéssemos entender o que acontece. com essa história? Quer contar o quê? CECÍLIA . “Mas com essa pinta. Não é que ele acha: não é um pesadelo ou uma alucinação. “Se eu tivesse outro corpo. claro. depois de um sono intranqüilo.

e além disso a inteligência que tenho. Mas com aquela corpulência.Eu acho que uma história não existe enquanto não puder ser contada em uma página. Enfim.aquele corpo.Isso ficou claro. será um prazer recebê‐lo em nosso grupo. aquelas pernas. Se quiser outros títulos nos procure http://groups. Existe aí um conflito. Mas o problema é como concretizar isso visualmente. Minha digestão é muito lenta. não é?”. Dizem: “Você sim.. CECÍLIA.. fulano jogou bem. além disso.com/group/Viciados_em_Livros. Já eu . Estaria completo. GARCÍA MÁRQUEZ . eu tenho um estômago que não presta para nada.Até o infinito? GARCÍA MÁRQUEZ .. falando de um jogo de futebol: “Sim... é hipocondríaco . aquele cabelo ..google. Você quer tentar? CECÍLIA..E tem aquele que diz.E talvez um pouquinho de dinheiro . nada faz mal.1 1 Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar o acesso ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras. tem sorte! Pode comer de tudo. GARCÍA MÁRQUEZ. não é? Uma espécie de dissociação entre o que esse sujeito é e o que gostaria de ter ou de ser. só podia mesmo correr.. Quando. tem muita gente que não está de acordo com o próprio corpo.”. claro... “... 27 . qualquer um consegue”. E tem ainda quem acrescente: “Se eu tivesse tudo aquilo.

precisamos de uma história. Acende o fogão. mas já são adultos. falei para Mercedes. Deixa um copo aqui. Pode ser a eletrônica. De repente. Eu fiquei furioso: “Como é que você me pede isso. como se estivesse encomendando dez metros de pano?”. disse ela. “Como?”. É verdade que. naquela época. o marido é um sujeito insignificante. pedi a Mercedes que me ajudasse. trabalhando em alguma coisa com Ruy Guerra. e eu ia pondo as folhas em ordem. “Não faz mal”. do começo ao fim. a panela está em cima de um 28 . rasguei sem perceber”. não tem jeito.. não sei. E disse a ele: “Trabalho com você. de Um Corpo que Cai. “Por favor não faça uma coisa dessas comigo. sai. este que estou copiando agora é o quinto”. embora eu tenha certeza de ter visto esse capítulo. em casa. não lembro qual. Uma semana mais tarde. Eu copiei. “aqui está o quarto. “Bom. e me disse: “Escuta. reparei que havia estado rasgando papéis. Pessoalmente. A idéia completa. Primeiro. Eu estava. falei comigo mesmo. vamos ter de fotocopiá-lo de novo. Então. para uma mulher de quarenta anos”.. E ela ficou me olhando. Os filhos moram com o casal. e quando volta. e quando volta o copo não está mais lá. o quarto capítulo sumiu. A coisa ficou nisso. mas você me ajuda a terminar esta história”. o quarto capítulo não está aqui”. E bem nesse momento. Continuam a procurando. Pus as cópias bem aqui. lá de Buenos Aires. põe uma panela no fogo.Um dia. depois. tive a idéia. Atrasado. Olha só. E sobre uma mulher casada com um cientista. porque vinha de Hitchcok. Ela ia fotocopiando. Um belo dia. Alejandro Doria me telefona. Eu disse: Mercedes. e que sem querer tinha rasgado também a cópia do quarto capítulo. e nada. rascunhos. Mas profissionalmente. a mulher começa a perceber que as coisas mudam de lugar. que você vai acabar me deixando louca”. Ela chegou inteirinha. e não tornei a pensar no assunto. de um longametragem. “O Alejandro está precisando disso!”. isso ainda não está muito definido.TERCEIRA JORNADA DE TRABALHO Em estado de loucura GARCÍA MÁRQUEZ . Ele topou. e de que você o copiou”. comecei a tirar fotocópias do livro que estava escrevendo. não gostei do final. e depois porque não valia a pena. é um gênio. “Não pode ser. Estava com uma atriz que já não é tão jovem.

que diz que aquilo tudo é muito normal. as duas serão interpretadas pela mesma atriz. Ela se tranqüiliza. Ela ficou sozinha em casa. mas ela consegue se superar. Ela não serve para nós. Então. Essa pessoa começou a pesquisar e chegou à conclusão de que os suicídios tinham três coisas em comum. não é mais amante. mas eu ainda não escrevi nada. Fica alerta. Tem uma carreira profissional bem feita. Tem mais: é ela própria. ele obtém facilmente o divórcio. a rua. Principalmente ela. Primeiro. aliás. mas conseguem. Será que tudo o que ela está vivendo não faz parte de um plano do marido para enlouquecêla? Começa a investigar e descobre que a amante é exatamente igual a ela.. parece uma cópia. e entrar num acordo com a amante para enlouquecer a sua mulher. muito séria. no filme. que não precisa mais competir com ninguém. A pesquisa foi realizada por uma pessoa que observou vários casos de mulheres. que alguém tinha feito um estudo que poderia se chamar As Esposas Felizes se Matam às Seis. A outra se comporia exatamente como ela.. algum tempo depois vi. ou seja: quando um marido começa a pensar que sua mulher está louca. os filhos foram estudar. o que a mulher ainda não sabe: o marido reproduziu sua própria casa na casa da outra. e era o que ele queria: um divórcio sem complicações. E sabemos agora. até o dia em que descobre. A única coisa que ele faz é tentar reviver com a amante os anos em que foi feliz com a mulher. Quase que podemos dizer vidas idênticas. Ninguém tem culpa de nada. É uma pessoa madura e uma de suas características é justamente a serenidade. que se matavam sem motivo aparente. principalmente em mulheres da sua idade e que tiveram uma vida muito ocupada. quando descobre que o marido tem outra mulher. todas as suicidas pareciam 29 .. E então percebemos que nesse caso aconteceu a mesma coisa de sempre. Até um outro dia. Assim. mas com uma diferença: para o marido.fogão apagado. A história acaba aí. na França. porque foi pensada para ser um longa-metragem de pelo menos noventa minutos. é porque ele enlouqueceu.. Agora ela virou esposa. de casamentos aparentemente bem sucedidos. que as coisas estão mudando de lugar. todo mundo saiu: o marido foi trabalhar. como espectadores. a última veio antes da primeira: a vida com a amante é anterior à vida com a mulher. As coisas escapam dela. Demora. seu ar grave. em sua casa. Aliás. Sente-se feliz.. A mulher começa a seguir a amante do marido em seus movimentos cotidianos: o mercado. Certo dia. Agora. Mas nota que está perdendo o sentido da realidade. Decide consultar uma amiga psiquiatra. temos mulheres idênticas e casas idênticas. aqui na Oficina. o casal está feliz.. A sensação de solidão produz na mulher uma espécie de choque. com o argumento da loucura.

mas cujo rosto não está coberto por nenhuma máscara. esconde-se num quartinho e. Soa um alarme. sobe uma escada. aparece na tela um rosto estranhíssimo . espia o berço do bebê – cuja cara.não parece humano . etc. X começa a se vestir e quando vai dar o nó na gravata diante do espelho. junto a uma tela de televisão. terceiro. nos deter nesse assunto. vê a rosto de outra pessoa. um desses gorros que cobrem o rosto inteiro e deixam os olhos à mostra. mas não se vê nenhuma imagem. Numa das paredes há. Mas a porta que se abre é a de seu verdadeiro quarto. pam!. não consegue ver o próprio rosto. Agora. e. entra a mulher. X joga o boneco nas costas e vai ao banheiro. X entra a sai do banheiro... encontra outras pessoas todas com o rosto descoberto . quase ocultos pela cortina.. todas tinham mais de quarenta e cinco anos.. que deixe de cobrir o rosto. X se levanta e tenta contar o sonho à mulher mas ela não dá a menor importância. nesse exato instante. o sujeito diz a X que tire a máscara de uma vez. X fica surpreso ao vê-lo. Dali sai um indivíduo que veste o mesmo macacão azul. Vamos chamá-lo de X. “O que é isso?”. esticado na cama. Uma pesquisa posterior permitiu descobrir a razão disso tudo.. mas não podemos. diz ela. E claro que a tevê está ligada. que chora no berço. percebe que a imagem está vestida com um macacão azul. e por ela. insiste. Veste um macacão azul e tem o rosto coberto por uma máscara. que se rebele. 30 . segundo. agora. acenda a luz. diz ela. Seu assombro aumenta quando o recém-chegado coloca. Ouve-se o choro de uma criança.que começa a dar ordens a X: levante-se. há escombros. aliás. vê os guardas se aproximando. é a primeira vez que ele. Sua mulher está chamando. A voz grita. X sai do banheiro e começa a correr. o que o devolve à fuga: mete-se em labirintos de escadarias. um sujeito dorme. “está ficando tarde”.Num quartinho onde mal cabe um catre. recorda a do boneco que vimos . pendurado. torna-se a ouvir a voz da tela. Na verdade. bufando. talvez? Quando não acontece nada ELID .felizes. E. edifícios em ruínas. ele tira a máscara mas como não existe espelho.e vai caindo numa espécie de torpor. Temos que passar a outra história. sai num telhado. se suicidavam sempre às seis da tarde. cai. na sua frente. tropeça. Abre os olhos. para que X contemple o próprio rosto. E mais: começa a insultar o ente misterioso da tela da tevê.e se oculta atrás de um muro. de repente. “Acorde”. os guardas arrombam a porta aos pontapés. chamando os guardas. no meio da sua fuga. Na banheira. O café da manhã está servido. um espelho. De repente. e agora nós o vemos em casa. A de ELID. Atravessa ruelas desertas.. “Você vai chegar atrasado no trabalho”. É seu filhinho. pegue o boneco. Lá. desta vez mandando X sair dali. um boneco.

O homem.. e médico responde: “No Instituto”.. mas é o único elemento da história que pode fazer pensar no livro 1984. X. etc. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . 31 . GARCÍA MÁRQUEZ . mas sem saber direito o que acontece. Afinal. Abre a boca.Eu sinto que a ação é muito rica. “O senhor acha?”. Perto. a perseguição termina com os guardas descobrindo X atrás de uma pilha de escombros. É isso? ELID .. começa a desaparecer. de barbicha e avental de médico.Não acho necessário que ele saiba. o homem está se submetendo a uma experiência psiquiátrica. GARCÍA MÁRQUEZ . a que conta a história do filme.. Para abreviar.Sim. de costas. Está amarrado por umas correias. e esta é a realidade”. arfando. ELID. que está pronto para dar a injeção. sorri de maneira estranha.Mas é isso justamente o que me interessa: que X nunca saiba direito qual é o sonho e qual é a realidade.. claro: está num lugar.Não. X pergunta onde estão. Cada um pode ver a realidade do jeito que quiser. a cama de um hospital... vemos um homem. pergunta. existem muitas peripécias. E enquanto dá a injeção. e puf!.Supõe-se que seja.. “Fique tranqüilo”. você é a roteirista..esfriando.Não é só a tela. X fica boquiaberto. SOCORRO . o que é que acontece? De repente.. “Não lembra? O senhor se ofereceu como voluntário para esta experiência”. Pode inclusive perguntar a si mesmo qual o grau de realidade que existe em sua própria vida. desaparece. GARCÍA MÁRQUEZ .Bem. contempla.. É o Instituto de Pesquisas Psicológicas. ELID . é um truque cinematográfico. qual é a realidade que ele está vivendo. A mulher dá meia-volta e em vez de se afastar. diz. “Então. A necessidade de se rebelar contra a tela é muito similar. não. murmura X.Você leu Orwell? Esse tela não faz lembrar o Big Brother? ELID . acabamos de ver o filme. “está tudo bem”.. Um sujeito misterioso. de sua cama.. Você tem de saber o que está acontecendo. o céu estrelado. A imagem se congela. some.. Está preparando uma seringa para dar uma injeção em X. Disparam nele. com um olhar inexpressivo. nem paredes. Tudo vai se desvanecendo. “Ah!”. Já não existem teto. X deixa escapar um grito e o vemos tentando se erguer na sua cama. aquilo era um pesadelo.E o espectador também não? ELID . desaparece.

Assim. diz.. O amo dá a ele um cavalo e dinheiro. eu acho que o problema é esse. desenvolvimento e fim.. ROBERTO . Os sonhos parecem tão reais. Vocês se lembram de A Morte em Samarra? O criado chega aterrorizado a casa do amo.. mas não acontece nada. com princípio. Só no final é que descobrimos que X se apresentou para fazer parte de uma experiência. No começo daquela mesma tarde.O problema é que a gente se vê obrigado a segui-la sem contar com nenhum antecedente. meio e fim. sem nenhum antecedente.Acontece que. com princípio. ele vá seguir até o fim? Cada nova peripécia só faz aumentar o desconcerto do espectador. a ponto de supor que. E uma ambigüidade que quero manter.E... já começa a surgir sua confusão entre a realidade e os sonhos.. nessa história não acontece nada. pode começar a explorar outros caminhos. será que você não poderia tentar recordar um episódio da sua própria vida. ELID . “vi a Morte no mercado e ela me fez um sinal ameaçador”.mas falta um esquema que dê coerência a tudo isso. a realidade é esta aqui. um eixo ao redor do qual a história seja construída. diz. Pode-se chegar ao tipo de história como a que você contou depois de ter escrito muitas outras baseadas em experiências reais. quando a gente sentir que já esgotou a própria experiência vital como fonte de criação. Ele tem consciência disso. O criado foge. REYNALDO . “Esta manhã. “Não era uma ameaça”.. “Senhor”. GARCÍA MÁRQUEZ .. E até lá? Será que temos de confiar tanto na paciência do espectador.. olhando bem. “era um gesto de 32 . GARCÍA MÁRQUEZ .ELID. Mas temo que começar do jeito que você começou é percorrer o caminho ao contrário. o amo encontra a Morte no mercado. Como é que X se transforma em um rebelde? De que maneira seus conflitos internos são transmitidos a nós? E qual é o conflito central? Ou é que nessa história tudo é conflito?. que possa ser contado de maneira mais simples? E sempre bom começar por esse caminho. responde a Morte.. você fez ao meu criado um sinal ameaçador”.. Não é uma história orgânica. SOCORRO .. acontece um monte de coisas. Não me interessa dizer ao espectador: veja bem. Ou melhor. que ele já não consegue separá-los da realidade.Faltou que eu esclarecesse que quando X está fugindo e se encontra com os outros camaradas.Talvez seja uma história de quinze minutos que se estendeu demais. e diz: “Fuja para Samarra”. GARCÍA MÁRQUEZ .Existem histórias de quinze minutos que podem ser contadas mais rapidamente.

e eu já disse a vocês que para mim não existe nada pior que esticar arbitrariamente. Eu estou justamente tentando adaptar Maria. é um romance onde existem muitas coisas explícitas. e transformá-lo em cem episódios. e não o fizeram por uma razão muito simples: aí está o segredo inteiro do desastre que o país vive. onde tenho que pegá-lo hoje mesmo ainda esta tarde”. Dá para fazer um longa-metragem com isso? Dá. O livro que acabo de terminar. resumi-la numa página. uma história. Escrevi duzentas e oitenta páginas ao redor desta frase. morreu em Santa Marta abandonado por seus amigos”. então pode ter certeza que que nessa história falta alguma coisa. tão longe de Samarra.surpresa. Claro. ou sobra alguma coisa. Só que permaneço firme em uma convicção que já revelei aqui: se você não pode contar a história numa página. O General em seu Labirinto. 33 . livro de Jorge Isaacs. coisas que eu acho que valem a pena dizer sobre a história da Colômbia e a situação no vale do Cauca. sobre Simón Bolívar está tirado de uma frase: Após uma longa e penosa viagem pelo rio Magdalena. O que eu queria era completar um episódio que os historiadores colombianos não haviam desenvolvido nunca. Porque eu o estava vendo aqui. mas o preço é esticar demasiado.

E assim que os moradores do litoral da Colômbia chamam o pessoal de Bogotá. O homem desperta. G. vestem camisa esporte. GARCÍA MÁRQUEZ ..Tornamos a vê-lo no ônibus. Para onde ele vai. Pergunta aos moradores do lugarejo onde pode passar a noite. na hora da montagem do filme. entra no primeiro ônibus que passa. Desce correndo do ônibus.uma moça.ou acha que vê . está recordando. MANOLO ... M.Muito bem. entra num hospital público de Bogotá. deixar sua antiga vida para trás. GARCÍA MÁRQUEZ .. um ônibus que diz Cartagena ou Curumaní. A doutora diz que sua doença é incurável.A gente quase pode dizer que a doença o salvou. mas na verdade. Nada a ver com os outros passageiros. MANOLO . lá na moviola.. Um senhor cinqüentão. Ou será que nunca esteve ali? O homem vê que o ônibus vai partir. Vê a si mesmo saindo da sua casa para apanhar o resultado de um exame médico.. com um terno de veludo meio puído. sem mudar nem de repartição. É um cachaco.Porque decidiu fugir. para o Vale Dupar ou para a Venezuela? MANOLO . com gravata. Ele tem seis meses de vida. a moça sumiu. GARCÍA MÁRQUEZ . Ele passou vinte anos trabalhando como funcionário.Para o Vale Dupar. e deixa que vá.E por que ele faz isso? MANOLO . Faz calor. O ônibus chega a um povoado.. no hospital público. O homem sai. vinte anos de burocrata. Sonha com uma moça muito bonita.Ele é de Bogotá. a gente arma tudo isso conforme nos dê na veneta. E atendido por um médico que informa o seguinte: ele sofre de uma doença que não tem cura. Tem pouco tempo de vida. vestido com um terno negro de veludo.QUARTA JORNADA DE TRABALHO A morte em Samarra. chapéu e guardachuva. olha pela janela e vê . 34 . O camarada observa a paisagem pela janela..Por que você não conta para nós em linha reta? Depois. A paisagem é dos trópicos. Todos os passageiros parecem gente do litoral. Cochila. e pára. II MANOLO .. Entre eles vemos um homem cinqüentão.Um ônibus vai pela estrada.

da conduta do homem. o que foi fazer no povoado.Vamos ver.. GARCÍA MÁRQUEZ . uma série de coisas. e um belo dia.. É a sobrinha de dona Lina. CECÍLIA .. GARCÍA MÁRQUEZ . Então acontece o que MANOLO contou. Não sonhou nada.. Um senhor de uns cinqüenta anos.. ou seja. aliás. simplesmente. e aparece uma moça. Bate na porta. de uns sessenta anos. emoções e perigos. ela mesma propõe que fujam juntos do povoado. Conta o que imagina.O que pensei é que a moça marque um encontro com ele em um determinado lugar. Nem ao menos sabem que dentro da Colômbia existe outro país..O homem é um cachaco... onde a gente usa roupas diferentes. e bate na porta de uma casa. que se baseará numa grande mentira: o homem vai contando sua vida a ela. O homem vai ao encontro marcado. O fato concreto é que a moça se apaixona perdidamente por ele. o homem desce num povoado qualquer sem razão aparente. Vai começar assim um romance entre o homem e a moça. dona Lina aceita alojá-lo. GARCÍA MÁRQUEZ . e lá da cama submete o recém-chegado a um verdadeiro interrogatório: se é cachaco. bate na porta. fazer coisas diferentes. o lazarilho de sua tia. o homem usa roupas esquisitas. enfim. mas pintada e maquiada feito uma gueixa.Seu aspecto. é verdade.. Naquela mesma noite irá roubar o dinheiro. e depois de roubar o dinheiro da tia vá buscá-lo e não o encontre.. Ela. vamos começar a contar o filme de novo. recebe a notícia de que vai morrer em pouco tempo. O que não entendo é porque o homem não vai ao 35 . Toma então a decisão de viajar para mudar de ares. mas sua tia tem bastante e ela sabe onde está guardado. de vida chata e monótona. ela foi os olhos. Não teve coragem. Vão precisar de dinheiro. a vida inteira. mas enquanto isso o que que nós vemos é a realidade: a vida monótona e rotineira de um funcionário público..E quando é que a moça vai ficar sabendo que ele está desenganado pelos médicos? MANOLO . sem nem mesmo prestar atenção no rumo que está tomando. É um elemento que forma parte da situação. é uma senhora cega.. como se fosse a vida de um aventureiro. MANOLO . O homem responde a esmo. No fim. a tantas horas da noite. para ver se acontece alguma coisa estranha com ele. Eles se vestem desse jeito.Mas você deve saber. É importante que diga para nós. e quem vem abrir é a moça com a qual ele havia sonhado. é da serra colombiana. Enfim. Seria a primeira vez na vida que ela sairia dali. uma vida cheia de surpresas. Entra num ônibus. GARCÍA MÁRQUEZ .. pelo homem imaginário.Ele não disse nada. Chega.Indicam a ele a pousada da dona Lina..

com quem mantém uma relação mórbida.Mas ele deve entrar no ônibus sem nenhuma bagagem. Ou seja. o filme de Kurosawa? SOCORRO . teríamos a chance de vê-la uma vez. vamos ver: é melhor que o homem tenha ou não tenha família? SOCORRO.Não sendo viúvo. GARCÍA MÁRQUEZ . Um escrivão de caligrafia muito boa. Mas a história está pronta. mas não tem filhos. REYNALDO . Este dado não será necessário no filme.. Não morre de doença. 36 .Em meia hora.a empregada. talvez porque entre ambos tenha sido criada uma certa expectativa. É o que põe a história em marcha. a Morte em Samarra. Por exemplo: no momento em que ele chega para fazer a mala.Casado. ou a faxineira . a que lavou suas cuecas e tudo. esse plano de fuga se transforma na morte do homem. Não pode abandonar desse jeito a companheira da vida inteira. Digo. ele pode se mandar sem se despedir. os de antigamente. pelos sintomas de outros pacientes. em pessoa. percebe que tem um câncer.O homem é viúvo? MANOLO . sem querer.Ah!. porque os de agora são alegres e alguns até dançam melhor do que nós..Sem dar a notícia a ninguém? Essa notícia ele tem de dar. Era escrivão. Por que você não quer que ele seja viúvo. muito meticuloso.Se tiver. GARCÍA MÁRQUEZ . CECÍLIA . provavelmente. MANOLO .A idéia era justamente essa. Por algum motivo. ou num cartório. Esse poderia ser um final. na sala de espera.O personagem. GARCÍA MÁRQUEZ . Trabalha num tribunal. GARCÍA MÁRQUEZ . do litoral. Mas pode nos servir para explicar sua conduta a decisão que ele toma. como estava previsto.. Se fosse viúvo teria uma filha que não moraria com ele.. Ele vai buscá-la. então existe uma senhora .Eu prefiro que seja o médico quem diga. ROBERTO . mas no apartamento vizinho. o homem trabalhava num cartório ou num tribunal. Se for viúvo. mas porque a Morte vai buscá-lo. ou certos equívocos. Os chefes destinavam a ele trabalhos urgentes.encontro. Mas. E então vai embora.Tudo levava a crer que ele fosse viúvo.. Era um burocrata de burocratas. GARCÍA MÁRQUEZ . não pode abandonar sua mulher sem se despedir. Manolo? MARCOS .O que eu pensei é que a moça era a Morte. É que todos os cachacos parecem viúvos. Como é mesmo aquela história de viver. muito bom cumpridor de seus deveres. Não chega a entrar no consultório médico. A única coisa que falta é o final.

“O de Curumani”. é o momento em que o homem agarra o dono do bar e conta o que aconteceu. no primeiro que encontra. Esse pessoal que fica atrás de um balcão de bar. GARCÍA MÁRQUEZ . e olha só o que aconteceu comigo. “trinta anos enfiado num escritório para ter uma aposentadoria e garantir uma velhice tranqüila.. bem. É o lugar onde ele vai todos os dias tomar um café. O bêbado sempre se confessa ao cara do balcão. começa a ação propriamente dita.pergunta: “O senhor foi alcoólatra?”. Mas a médica balança a cabeça: não há mais nada a ser feito. Vai morrer mesmo. MARCOS . Chega o momento em que é preciso dizê-las. aqui.E verdade. Ela não sabe que ele foi ver o médico.. Para o inferno. conta isso. Há anos ele é conhecido ali. E para que você fique sabendo: não vou pagar essa coisa 37 .É neste momento em que começa a acontecer um monte de coisas. e a partir daí. que deixou de beber há tempos.. MANOLO .MIGUEL .O sujeito entra no bar. O personagem.ou a médica . E em seguida. Mas desta vez. “Vida de merda! O trabalho que tive para deixar de beber. e pensa: por que não? MARCOS . e no fim. “Traga alguma coisa forte”. E na mesma hora ele compra a passagem. telefona para a mulher dando a notícia. respondem. diz ele. REYNALDO . Por isso ele tem a idéia. sem nenhuma palavra.Manolo e eu tínhamos pensado que sua doença fosse cirrose. e de cirrose. O garçom olha sem entender nada. Ele sai do hospital público angustiado. E quando fica sabendo. fazendo em esforço enorme. E de repente. a primeira coisa que faz é entrar num bar e mandar ver. todos eles! Não volto para o escritório. mas vai logo dizendo: “Veja só o que aconteceu comigo. diz. “Veja só”.Primeiro. GARCÍA MÁRQUEZ . conta toda a sua tragédia... trazem o seu café. e depois vai para a rodoviária e pergunta: “Qual é o próximo ônibus?”. E esse. e ela não o deixa falar: começa a contar a história de não sei quem. Chega e senta no mesmo lugar de sempre. E tem mais: não volto nem para casa. eles são os confessores dos bêbados.. ele telefona para a mulher. não adiantou nada. e para quê?”. não conhece o cara do balcão. GARCÍA MÁRQUEZ .Não é um bar qualquer. Depois entra no bar.Exato: o espectador não tem de se dar ao trabalho de adivinhar essas coisas. ele recusa com um gesto.A rodoviária está bem na frente do bar.Quer dizer que o homem parou de beber. GARCÍA MÁRQUEZ . O médico . Vê as pessoas entrando e saindo.”. Ele conta ao cara do bar o que aconteceu.

Não sabemos se ele vai ou não vai telefonar. Poderíamos procurar outro confidente. que eu mesmo faço o roteiro. durmo profundamente. A única coisa que sabemos com certeza até agora. Só falta contar como as coisas acontecem. Quando você for um pouco mais velho irá perceber que as pessoas nem sempre entendem os argumentos. Eu entenderia suas objeções. que o leva diretamente para a morte. Depois acontece uma coisa estranha. mas a necessidade de se confessar. MARCOS . GARCÍA MÁRQUEZ . porque se enganou de vida. Eu.. quem é?”. O que vem depois. num instante. Esse é o filme. 38 . E ponto final.É porque você é um diretor muito jovem. Resisto um pouco a fazer um filme no qual as coisas sejam tão faladas. se a minha proposta for aceita. a associar a escuridão com o sono. agradeço essa deferência. eu tinha de dormir: Por isso hoje em dia. quando estou vendo televisão com a luz acesa e chega alguém e apaga. é uma reação natural. numa situação como essa. ROBERTO. durmo. No cinema. O cara precisa desabafar.. Sempre durmo quando estou vendo filmes. nós já sabemos. Quando apagavam a luz. por exemplo. é melhor contar diretamente. nesta situação. Para quem não sabe como contar uma história com imagens. Para mandar todo mundo à merda. GLÓRIA .O que eu não entendo é essa história de ele ir embora sem telefonar para a mulher. é a mesma coisa: assim que começa a sessão e a luz é apagada. Mas aqui. é o que contamos.Eu tenho minhas reservas. Falando sério. e bordar bem a história para que fique ajustada e não passe de meia hora.. de ele fazer a catarse na frente de um copo. Sai e entra no primeiro ônibus que passa. Fui condicionado. e ponto final. Um sujeito que está na situação dele tem essa reação: a primeira coisa é contar a história para alguém. pelo menos. se fosse um recurso arbitrário ou fácil. não é nem mesmo um recurso narrativo. Que desabafe com o dono do botequim é tão natural que chega a ser um lugarcomum. ROBERTO. As vezes acordo de repente e vejo um ator e pergunto: “E esse aí. desde pequenino. uma coisa que recorda os romances policiais ou os filmes de caubói. Inclusive isso.Eu gosto dessa idéia: ele se mete no primeiro bar que aparece. Vocês não gostam da minha proposta? Deixem comigo.que estou bebendo. GARCÍA MÁRQUEZ . Que vá tudo à merda! Ouviu bem?”. porque não parece forçado. a única saída é pôr um ator para contar tudo. Por isso. no qual as situações se resolvam verbalmente.

casas queimando. Anotem isso. diz a si mesma: “Puxa. para quê? Porra nenhuma de tratamento!”. ou qualquer coisa parecida. arma uma jogada inesperada.. É muito maltratada. soldados e cavalos com as tripas de fora. CECÍLIA . procura outra morte. REYNALDO . Ela tem que esfregar o chão. e acontece que o que ele encontra é a morte. Um belo dia.Isso dá para um longa-metragem... . estou pensando que podem em existir alternativas. Porque a gente imagina que ele vai encontrar a felicidade. se acontecesse alguma coisa diferente comigo! Se eu pudesse mudar de vida! Eu iria embora com o primeiro que batesse nessa porta e que me propusesse. Gosto dessa reação. sua morte antecipando-se à Morte. com sua reação.. A Morte preocupou seu caso de um modo muito normal. com colunas de fumaça no horizonte.Pede uma bebida e quando o cara do balcão serve. lavar a roupa.Eu pensava que ele tinha um câncer. pois daí nasce outro filme. Uma cidade em ruínas desolada. “Como é que é? Radioterapia..O que me preocupa é a coisa da cirrose. porque devem ter receitado algum tratamento.Podem ter receitado um tratamento.. de repente.Estou louco para chegar à porta.. mas no fundo. É uma empregada. Um filme que começaria com a moça levantando-se da cama e começando a cuidar das tarefas domésticas. GARCÍA MÁRQUEZ .Aí. Ou melhor. Agora. GARCÍA MÁRQUEZ . É formidável que ele deboche da Morte. REYNALDO . Você quer chegar à porta porque é aí que o filme começa de verdade. E se a moça que abre a porta estivesse esperando por ele? MANOLO ..E fica escutando sem se mexer. 39 . GARCÍA MÁRQUEZ . é verdade. mesmo que seja por um tempo breve. Muito colombiana. ele começa a contar a história. GARCÍA MÁRQUEZ . No meio de um montão de escombros.O dono do bar acha que é só mais um desses bêbados que contam sempre a mesma história. E. seria outro o filme.Pois é.. mas ele se nega a obedecer. quimioterapia. tudo muito burocraticamente. espalhados por aí. Mas antes. e ele. alguém bate na porta. GARCÍA MÁRQUEZ . MANOLO . faz cara de quem está prestando a maior atenção. o diabo? Para ficar careca? E no fim.. Eu tenho uma história de um minuto. não está ouvindo coisa nenhuma...Claro. Uma morte antecipada. temos que saber quem é o tipo que bate na porta.

Nunca soube o que era. depois por canaviais.. a aula acabou”.. GARCÍA MÁRQUEZ . havia muito pouca gente. chega de distração: vamos voltar aos nossos trinta minutos. O dono do bar que o conhece muito bem. outro. mas madura.. E sumiu. coberto de pó e de pedras.Pois o que eu imaginei era outro personagem. e diz: “Senhor ganhamos”. Ele está no bar. uma mulher.Eu fiquei me perguntando. Existe um enorme salão com vinte ou trinta moças belíssimas. ROBERTO ..alguma coisa se move. inteirinho. mas qual o quê. Em relação à moça. ferido. De repente. que se arrasta buscando alguma coisa. Ainda percebemos suas insígnias no uniforme. o trem é mais interessante. E ele responde: “Sei lá. Lembro também do trem da Bolívia. Como espaço e como imagem. mas nunca descobri como continua. disse ela. totalmente nuas.Eu imaginava uma sucessão de paisagens diferentes.. Sentei. É um oficial agonizante. Peru. “Venho buscar depois”. o trem saiu. O salão fica deserto. ROBERTO . meninas. Nunca pensei que pudesse caber tanta gente num trem. quando aumentasse o calor. que é chamado Trem da Morte. ROBERTO . e. porque achava que ele ia lotar.Sim. pergunta: “E para onde é que você vai?”. Sei que é o começo de um filme. com uma 40 . As moças correm para os vestiários. Vou à merda” Corte para o trem. As moças saem. SOCORRO . São todas freiras. O rapaz se inclina sobre ele. faz uma espécie de saudação. que o homem vai morrer tudo que acontecer ao seu lado fica tendo um valor excepcional. no lugar do ônibus? GARCÍA MÁRQUEZ .. entrando em terras quentes. de repente. Parecia carne. coloca um pacote no meu colo. É rapaz jovem. teríamos que sair do clichê: deveria ser uma mulher feita.. ouve um gemido.Podemos copiar isso. Eu ia pegálo e cheguei na estação muito cedo. E. GARCÍA MÁRQUEZ . fazendo ginástica rítmica. o tempo todo: não será melhor o homem pegar um trem. Pode até mesmo existir alguma armadilha por aí.Sabendo. É uma idéia que Buñuel teria adorado. ouvese um sino e uma voz: “Muito bem. como sabemos. o ônibus descendo da serra. “Segure isso”. vestidas. Mas. e não uma garota. de repente. Encontra um cadáver.Eu tenho outra.. Um personagem que iria sentar-se ao seu lado quando o ônibus chegasse às terras quentes. GARCÍA MÁRQUEZ . Poderia ir passando por cafezais. Uma mulher bela.Eu pensava nesses trens que a gente vê no Brasil. enfim. dormi e de madrugada acordo e me vejo rodeado por uma verdadeira multidão.. uma índia.

são os impulsos do personagem. que entra no ônibus levando uma placa de mármore. e bate na porta que quer. e ponto final.Eu não acho que a gente precise situar tudo numa corrente de causas e conseqüências. vai atrás dela: “Senhora seu pacote. isso sim. Ao se sentar. a graça está nos atos dele.E quem se importa com o que aconteça no trem? Não dissemos que o filme começa na porta? GARCÍA MÁRQUEZ .”. Aqui.Uma mulher negra..Mas.O ônibus pára. Mas agora. e tem 41 . Para ele.Uma lápide. SOCORRO: qual era o personagem que você pensou em pôr sentado ao lado do homem? SOCORRO . podemos perder o frescor da história.Isso. e o homem. nada nele mudou. a gente vê depois. Afinal. pensando bem. ROBERTO . Se formos procurar um jeito de uma coisa levar a outra. ele quer driblar a morte. os passageiros descem para comer. SOCORRO . que fica lá comendo.história atrás. É uma lápide. ROBERTO . até que não seria má idéia. GARCÍA MÁRQUEZ . Vamos guardar esse personagem para outro filme.Vamos. Acho bom a gente ir fazendo um arquivo com os personagens que forem sobrando. MANOLO . sem perceber. menos ele. Não tem a menor vontade de se apressar. podem acontecer mais coisas.Diga uma coisa. ele desce do ônibus.É preciso tomar cuidado para que a natureza das suas decisões fique clara. para mim. É o que aconteceu sempre.Ou melhor a mulher do pacote desce do trem sem nenhum aviso. Não pode ser um travesti. o homem. A única coisa definida. REYNALDO . Se o homem deixar as coisas acontecerem. tanto faz ficar ali. que parecem arbitrários. trasladou-os ao ossário. e porque está cheio de tudo. para a morte. Ela acaba de exumar os restos do marido. O importante. ao lado de um camarada que vai morrer? E alegórico demais. começa a limpar a lápide com um pano. no trem. é que tem de ser uma pessoa do sexo feminino. inevitavelmente. morto há quatro anos. tranqüilo. e agora leva a lápide para casa. ou em qualquer outra. o homem não queria novas experiências? Que se dane agora! REYNALDO . Mas. GARCÍA MÁRQUEZ . naquela cidadezinha. GARCÍA MÁRQUEZ .O ônibus é mais íntimo que o trem. ver o seguinte: deixaram com o homem um pacote de carne. como aconteceu com o Roberto. Todo mundo come com pressa.. Desce no povoado que quer. Gloria . então.

o espectador pode pensar que estamos escondendo alguma coisa. Ele nunca foi a lugar nenhum. “Então. para liberar os trilhos. Ele pensa: estou doente porque segui determinadas normas. sensações desconhecidas. O espectador ficará pensando que ele está falando de Veneza ou coisa parecida.. uma paisagem meio deserta. por uma rotina estrita. E ele responde: “Mas é aqui mesmo que eu quero descer. na verdade. Sobe uma colina. CECÍLIA . porque quis. raquítico.que viver de um modo mais intenso.Ou. 42 . “motorista. ouça bem o que estou dizendo: ou pára. meu senhor”. porra!”. MARCOS . GARCÍA MÁRQUEZ . Fica olhando a paisagem. Tem que acontecer algo muito forte para que ele fique onde está. ficando redondo? CECÍLIA . Algo assim como o litoral peruano. Fui a Sipaquirá em alguns domingos para comer batata salgada. para eliminar suspeitas de que ele estaria descendo em um lugar conhecido.. Agora. vai continuar a viagem. para encontrar isso. é preciso ir até Guajira. Tudo é pobre. GARCÍA MÁRQUEZ . me deixei dirigir sempre por um horário. onde já esteve antes.O que deve ser ressaltada é a sua atitude. o trem apita. e fique porque ficou. então. VICTORIA . e ponto. Esse foi sonho da minha vida”. “Meu senhor..Na Colômbia. então. Enquanto isso. eu não posso parar aqui”. entra em jogo um elemento de fascinação. Agora. Não: está pensando em um lugar qualquer. mas ele vai andando. GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO . e todo mundo desce para ver o que está acontecendo. É uma pedra enorme. SOCORRO .Talvez já tenha começado a perceber uma série de elementos novos dentro dele. pare aí um instante que eu vou fazer pipi”. diz alguém.Aí. vê uma cidadezinha perto. Ele. uma coisa carismática.O que MANOLO disse do almoço: “O ônibus está indo embora? Deixa ir. e isso foi tudo. ou faço pipi aqui mesmo”. Ou. por exemplo. e dá para sentir que ficou impressionado. fazer o que me der na veneta. fui um burocrata. Eu ainda não acabei de comer”. exigindo parar. vou viajar. o trem parou porque há um obstáculo nos trilhos.Em bogotá. Nada de grandes montanhas. não. Isso deve ficar claro.Se não fizermos desse jeito. quero viajar. ele disse ao homem do bar: “Nunca saí daqui. Ele tem que armar uma confusão no ônibus.. Todos tratam de tirar a tal pedra.Eu imagino. Vocês não acham que aos poucos o personagem vai sendo esculpido. “Mas aqui não é parada. e começa a andar naquela direção.

Ele espia pela janela do ônibus ou do trem. mais complexo. Esse negócio da emoção da paisagem. Pode ser meio achatada.Quem vai morrer não tem vontade de fazer coisas. ou da birra infantil. prefere se deixar levar: É preciso averiguar qual é seu próprio desejo. ROBERTO . são coisas que não podem sair dele. a que viveu. pode ver a moça.Ele desce num desses povoados porque vê que é dia de feira. onde está a história? Não precisa ser uma rebeldia violenta. 43 . mas é tarde demais. a de rebeldia. Um desses povoados solitários.Quer dizer: o homem se rebela pela primeira vez na vida. ele vai procurar um lugar onde se hospedar e quando abrem a porta.Se ele for comer. e vê isso. que está sofrendo um processo de transformação.Eu pensei que a gente estava de acordo nesse linha. encontra dentro de si coisas que até agora estavam ocultas. Existe alguma coisa nela que chama a atenção do homem. Temos que escolher.Contra a sua vida. Na América Latina. Depois.Uma coisa precisa ficar clara: esse camarada está se rebelando contra a sua vida. Sobe no carrossel. Porque. o burocrata. o que é e o que não é importante? ROBERTO .O personagem que a gente conhece não é do tipo capaz de se rebelar de repente. é ela. para quem vai morrer a qualquer momento. ou de um carro. há duas maneiras de caracterizar este homem: como quem se rebela e manda tudo à merda. DENISE . GLÓRIA .Não podemos dar ao homem emoções que ele não tem. ou contra a morte? MARCOS . REYNALDO . VICTORIA .Pelo visto. Coisas que ele não fazia desde menino.E por que não? Ele vê agora coisas que não via antes. Na verdade. O que ele está procurando não é o que os turistas procuram. SOCORRO . Porque se não for assim. VICTORIA . perdidos na planície. e como quem se apavora e mergulha ainda mais na passividade. ou de um trem. Sua frustração consiste em um ponto: vai fazer determinadas coisas. e passa a ser outro. ou na roda gigante.A paisagem não precisa ser grandiosa.É desse jeito que ele encontra a mulher. Ele deixa de ser um personagem plano.. E porque tem música. ROBERTO . a gente sempre vê alguma coisa quando espia pela janela de um ônibus. colocá-lo numa situação e ver como ele se deixa arrastar pelas circunstâncias.. pensando bem. SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ . porque não estão nele. que estaria falando com a dona do restaurante.

e chama a sua atenção de maneira especial.Sim. ROBERTO . mas preciso dar uma saída. a orla. O Triunfo da vida ROBERTO. Um deles é em preto e branco. Quando eu voltar. Ele chega na rodoviária e vê uma série de cartões postais. MANOLO .É o que eu estava perguntando: quando chegamos à porta? 44 . e já vemos o homem no trem.Eu gostaria de combinar o tema do mar com o do cartão postal. É a história de um homem que nunca saiu das montanhas. o mar batendo nas pedras. Dá voltas ao cartão.Em Bogotá. Na rodoviária. fica observando o cartão postal. Vai morrer.GARCÍA MÁRQUEZ .Vocês me perdoem. MARCOS . corte. SOCORRO . com paisagem de montanhas lá fora.. chapéu. aos sentimentos... É aí onde ele vai descer mais tarde.Pois é. MANOLO . estabelecer um paralelo? ROBERTO . gravata. ele vai descer num lugar que acha parecido ao do cartão postal. SOCORRO . apanha o cartão. MARCOS ..Eu insisto encontrar certas motivações. Porque eu defendo o trem.não é fácil de explicar que ele precisa fazer.. me contam o filme. vê de onde é.O mar pode exercer esse tipo de atração que eu andava procurando. e decide viajar porque vê que a empresa de ônibus se chama “Mar Azul”. MARCOS . e então. Eu não vejo é a moça. O camarada desce numa aldeia à beira-mar. o sujeito não tem que pegar um ônibus ao acaso. E. Seriam três cortes: interior do ônibus.E está de paletó. Em Bogotá. não: continuo pensando no ônibus. REYNALDO . Quando é que ela aparece. contavam a história de um camarada dos Andes no litoral: “Quem conhece o mar?”... de repente. Está muito ligado às emoções. SOCORRO . e existe uma coisa . vira. Tem uma fantasia sobre isso.Eu.É fácil. a gente vê o homem entrando num ônibus.E por que não? Esse lugar poderia ser o símbolo de uma libertação. e depois.. ele vê um cartão postal onde aparece o mar. no final. tira os sapatos e deixa as ondas lamberem seus pés. descida para as terras quentes e.Você quer criar uma metáfora.

terceiro. Outra. Precisa comer alguma coisa. MARCOS . É quem serve as mesas. ele compara a sua fantasia com a realidade. tira os sapatos. Está se afogando. e não é a mesma coisa. como fazer o homem entrar na aldeia. GLÓRIA ..E o conflito? Porque precisa existir um elemento de tensão nisso tudo. Por isso.É uma sereia.O cartão postal deve servir como elemento de contraste. SOCORRO .Pode ser que ele fique impressionado diante do espetáculo do mar: Mas. e se impressiona. Olha de novo o cartão postal. 45 . Uma.. joga fora o postal e começa a andas.O homem vai comer numa pensão.GLÓRIA . ROBERTO . sabemos que seu objetivo é o mar. Isso também é ação. e é quando começa a nascer uma coisa: ele não sabe o que é. Segundo.Encontra a mulher.. Primeiro.Estamos buscando duas idéias. O homem fica surpreso. joga os pratos no chão e se manda. observa o postal.Ele está com fome. mas percebe que alguma coisa está nascendo. mete os pés na água. por quanto tempo? Cedo ou tarde. Em termos visuais.Mas o mar não pode ser uma paisagem.A mulher está na água. olha o mar. ele se sente motivado pelo cartão postal. REYNALDO . seria assim: o homem chega. sente-se desiludido. SOCORRO . E. Já estou aqui. Contempla o entardecer com os pés na água.Vai a um restaurante desses de praia. e lá está ela. Tinha feito outra idéia do mar.O que eu não vejo nisso é ação.Ele não sabe nadar. VICTORIA . num restaurante. SOCORRO . ROBERTO . MARCOS . como relacionar a mulher com o mar. SOCORRO .. ROBERTO . ROBERTO . Tem que desempenhar outro papel. a mulher deve ter uma relação específica com o mar. joga na água e vai embora. e é aí que a mulher aparece. servindo as mesas. entra. É agora? Joga o postal fora. diante da reação dela. agora.Existe ação interna. ele tem de fazer a pergunta: e agora? Começa a andar. tira o postal do bolso. diz o homem a si mesmo. a partir do cartão postal.Ou é a filha de um pescador. Ele chega a litoral. e lá encontra a moça. MARCOS . boquiaberto. Ela tem uma briga com o patrão.Então: que o homem encontre a mulher no mar. REYNALDO . E a gente partiu do princípio de que iríamos fazer um filme “comercial”.

Se a mulher representa a Morte.E por que ele se lembra dela? ROBERTO . REYNALDO . Já haveria uma relação visual entre eles. Ela é impulsiva. Deve fazer alguma coisa a favor dela. vem andando em direção contrária. diz ela. Ela o atrai..Ele teria que fazer alguma coisa que o ligasse a ela. CECÍLIA . que é uma pescadora. GLÓRIA. MARCOS . nesta 46 . a Morte tem aparência de vida.. ela não tem razão para ser agressiva com o homem. deve se aproximar com uma amiga. VICTORIA . de que aquele encontro não é casual. nesse caso. o que ela vai fazer no final. E que não agüenta mais a vida que leva. esperando pelo homem. que estamos trabalhando com símbolo e tudo! MARCOS . pela sua sensualidade. e ela. quebra os pratos no chão.É uma moça. E ao vê-lo.Mas não no sentido sexual. SOCORRO . não pode deixar de rir: “O que fazendo aí. Vem com uma sombrinha e um vestido de flores. chama a atenção pela sua beleza. e o leva. ROBERTO . ROBERTO . como um sentimento. DENISE .Pensando bem. o espectador deve ter a sensação. ou ela para ele? ROBERTO .Uma atriz como Sônia Braga.Senhora? Não tínhamos dito que era uma moça? GLÓRIA . feito uma semente. ROBERTO ..É uma coisa que ficaria soterrada.Não vamos nos esquecer de que ela é a Morte.Ela repara nele. Aliás.Começa a conversar e depois pergunta onde ele está hospedado.GLÓRIA . e depois encontrá-la no restaurante. É uma bela senhora do litoral. com aquela roupa insólita.Isso quer dizer.. VICTORIA .Eu tinha proposto a briga no restaurante.Ele pergunta à moça: “Onde se pode passar a noite. Quem olha primeiro para quem: ele para ela. e ela vem no barquinho.Ela o seduz.Você mesma disse: ela é toda energia. desde o primeiro momento. GLÓRIA . MANOLO .Um barquinho chega ao cais. quando se encontram.O que ela fizer no momento do primeiro encontro deve conter.Ele sente atração porque. então. SOCORRO . com essa pinta toda?”. que ela estava sempre ali. Ele está caminhando pela praia.Ele poderia vê-la primeiro no mar. ROBERTO . para não criar logo de saída uma situação entre os dois.

se senta. deve haver mais uma mesa ocupada: uns caras barulhentos.Quando saem da sala principal do restaurante e chegam à parte dos fundos e ela começa a limpar a lapela do terno dele. Ela chega para servir a mesa. SOCORRO .No caminho. Vamos ficar sabendo no final. Morre antes. Certa noite.Por que estamos insistindo tanto nessa história de restaurante ou bar? O homem vem caminhando pela praia e encontra a moça. A segunda é a de Roberto: que o encontro seja na praia e que a relação aconteça em tom de deboche. venha por aqui”.cidade?” SOCORRO . bebendo cerveja e jogando baralho ou dominó. É um sujeito estranhíssimo. seduzindo-o. e pronto.Não deve haver mais ninguém no bar. acabamos perdendo a história do impacto. ela pode se afastar com o homem. a moça vê o homem se aproximando. ela o convida para ir à praia. Ou melhor. irá fazendo o homem mudar. VICTORIA .. em tom brincalhão: “E o que o senhor está fazendo por aqui vestido desse jeito?”. Com certeza vão fazer amor na areia. Por isso. ele fica na cidadezinha e ela.Pela janela do restaurante. é de Marcos: que ela seja a garçonete de um restaurante e veja o homem chegar de longe. por favor. e fica olhando fixo para ele. Não sei como. ROBERTO . Depois.Ele entra no restaurante para comer.. E. Não há nenhuma necessidade de criarmos outro espaço. sem querer: “Ai. Por que será que olha desse jeito? Por simples curiosidade? Ainda não sabemos. uma briga. Para marcar uma distância. e ela se aproxima da mesa e diz secamente: “Só temos peixe”. ela debochando dele. sem problemas. MARCOS . naquele ambiente. para dar ao encontro um toque de agressividade. me desculpe. comenta. indicando os fundos do restaurante.O que vocês acham de fazermos um balanço das propostas? A primeira proposta é a de GLÓRIA: que eles se encontrem num restaurante e que se estabeleça entre eles uma relação de contraste através de um escândalo. pouco a pouco. A situação poderia se enriquecer fazendo que ela derrame um pouco de qualquer coisa no terno do homem.. e se senta. ROBERTO . Mas ele não chega a ir. mas 47 .Ele chega. MARCOS . aquele momento do encontro no qual ele fica impressionado pela vitalidade da moça. se pergunta.. e fica olhando para ele: “De onde será que tirou essa roupa?”. REYNALDO . Deixe-me limpá-lo.Temos de tirar partido da forma de o homem se vestir. a terceira. GLÓRIA .

entrando pela porta dos fundos.Ela havia ido à praia pouco antes. Paga e vai embora. na frente de todo mundo. ROBERTO .E a porta? Ele não bate mais? MANOLO . para buscar peixe.Existem duas possibilidades: que o homem tenha esse cartão postal em seu escritório. É lindíssima. O homem vai caminhando pela praia. contem tudo para mim. Brinca: “Puxa. O que sabemos com certeza é que encontra a mulher lá.. Na realidade o que ele quer é conhecer o mar. vê isso pela janela.morre.. Ele decidiu visitar aquele lugar. para vermos o homem sentado. O homem chega ao restaurante e se senta.. Ela passa com uma cesta de peixes.Fizemos algumas mudanças.E aí. Depois voltou ao restaurante.Olha só quem chega: García Márquez.Aí estão as três seqüências.Coitado desse cara! A única vez na vida em que vai ficar com uma mulher bonita. sem querer. nem se ele vai de trem ou de ônibus.. ou outro parecido. com esse calor. VICTORIA . ou que o encontre na estação. e é ela quem abre.Ah. comendo no tal restaurante. Ela está fritando o peixe. MARCOS . O camarada toma um trem e sai de Bogotá porque quer ver o mar. mortinho! SOCORRO. GARCÍA MÁRQUEZ . Limpa o terno na mesa mesmo.Não.. Bate numa porta.Vamos fazer que seja na praia mesmo. Mas como é mesmo que acontece o encontro? VICTORIA . GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS. Ele fica impressionado pelo desembaraço da moça. e é aí que vê o homem se aproximando. corte.O que chama tanto a atenção dele é o fato de ela ser uma mulher praieira. MARCOS . por que o senhor não muda essa roupa?”.Bem. pela desenvoltura da moça.Inventamos um estímulo. Ele fica impressionado pela graça. SOCORRO . na beira do mar. Ainda não sabemos o que acontecerá no trajeto. Dá algumas voltas pela aldeia.. Agora. ele 48 . aí está um projeto de final de filme. virou outro filme. bom: então. procurando um lugar para passar a noite. MANOLO . Vai servir ao homem. MANOLO . MARCOS . estamos falando de outro filme. um cartão postal. Desde que o mar entrou. MANOLO . um tipo de beleza diferente do que ele conhece. cai duro.. acaba manchando o terno dele. Bem na hora! GARCÍA MÁRQUEZ ..E aí.Pois é. terminaram o filme? Vamos ver.

Ela tira o paletó dele. Vê a moça no mesmo nível da janela. ROBERTO. duas.Não.. não tem nada de biquíni. um pelo outro..Veja bem: tudo parece estar flutuando. Então o homem se levanta e sai do ônibus.aparece o marido dela e arma uma confusão. Fizeram um parquinho infantil num lugar horrível e há um momento em que o personagem se senta num balanço e começa a cantar uma canção. de repente.. aliás. ele continua vestido de cachaco. Ouvimos a música. Por quê? Porque ela. É uma aldeia de pescadores.caminha pela praia e ela vem andando com um cesto ou uma sacola de peixe . tem uma coisa: essa história não é mais a que eu apresentei. Ao despertar. o fato era totalmente insólito: você bate numa porta e encontra a Vida. ele vai comer num restaurante e lá acontece o primeiro contato. para limpá-lo. Até o homem sair de Bogotá procurando o mar. MARCOS. está numa cadeirinha da rodagigante. vê que ela está cuidando dele. Isso tem uma força especial. a caçoar dele. GARCÍA MÁRQUEZ . uma praia quase deserta. para identificá-lo melhor . ainda não sei como. tudo bem. discretamente. a força do absurdo. que se ele quiser ela pode levá-lo até lá. GARCÍA MÁRQUEZ . abre os alhos e quase que na sua frente. Mas o que vem depois. no meio dos biquínis. que o marido o mate.Isso que você chama de relevo deve surgir justamente da relação entre os dois. Como é que o camarada morre? Vejo duas possibilidades: uma. MANOLO . Passam. quando a roda-gigante gira de novo e as duas se perdem no alto. porque ela é garçonete e sem querer mancha o terno dele.. quando batia na porta. com uma amiga. onde há uma feira. que ela descubra o cartão postal e diga a ele que conhece aquele lugar. GARCÍA MÁRQUEZ . de sunga.. pela janela. Depois.. vê a moça. falta relevo. MANOLO . A moça e a amiga começam a rir.. Mas não faz mal.. e roda parou um instante e a cadeirinha e a janela ficaram quase que no mesmo nível.É que tudo ainda está muito vago. GARCÍA MÁRQUEZ . Antes.esta é a possibilidade . com a câmera fixa bem na sua 49 . que na verdade é a Morte.leva uma pancada e desmaia. decidi batizar de Natalio. que o ônibus no qual ele viaja poderia parar na estrada de um povoado. E é onde ele morre. Essa roda-gigante me lembra outra ver Viver. Nosso problema agora é a estrutura.Não podemos nos esquecer que ela é a Morte. Nosso homem que. de Kurosawa. Ele está cochilando e. uma quermesse. e então .Eu penso numa coisa que você falou. Agora. dos calções.Pelo que estou vendo.

Talvez depois a gente precise mais desse elemento e ele possa ser deixado de lado. porque é a canção da Morte. ela passa. temos que meter na cabeça que ela é a Morte. a moça. E aí começa processo de sedução por parte dela.. O que eu mais gostei é a idéia de que ele vá ao mar e dali.Vamos chegar lá. a morte.. É uma canção em japonês. nem aquele parque horrível. caminha pela praia deserta. o personagem vai crescer. com uma sensualidade que o impressiona. Aliás.A idéia do cartão postal e do mar tem força. o homem sufocou suas emoções. esse gabarito.A iniciativa é dela. e o desejo surge. e tem a visão do mar pela primeira vez. O destino. se acreditarmos nisso. seria mais um encontrão do que um encontro propriamente dito. visse a mulher. Com isso acaba morrendo do mesmo jeito que viveu: frustrado. não será justamente esse o problema. Na nossa história. de repente. Então.Na verdade. mas sem fazer nada. Seria a viagem que o levaria diretamente para a morte. GARCÍA MÁRQUEZ . É a Morte travestida de Vida. deveria fazer coisas insólitas. estamos caminhando.. rrruuurrrmm!. nem ao primeiro encontro dos dois. o destino bateu à porta. Quem viu esse filme não esquece nem essa canção. Na verdade.No fundo. encontra a morte. o lugar do cartão postal. ou sei lá o quê. nós não gostávamos da idéia de o homem bater na porta. sem trocar sua de cachaco. GARCÍA MÁRQUEZ . e agora. exatamente do mar.Está se movendo. O camarada olha o cartão. ROBERTO . Quase uma topada... GARCÍA MÁRQUEZ .Sim. agora.frente..Tudo bem. CECÍLIA . o fato de ela estar sempre caminhando? CECÍLIA. eu entendo. de viver em plenitude. mas não nos esquecemos dela jamais.. entendem? Aquelas coisas que no velho cinema eram 50 .. quando acha a possibilidade de expressá-los. Uma coisa assim meio. Se ela é a Morte. não de quem chega. seus sentimentos. É a história de uma pessoa para quem nunca acontece nada e sente que.. vê o mar. Nós não conseguimos dar ao personagem esse fôlego. ROBERTO .. GARCÍA MÁRQUEZ . MANOLO sugeriu que ela se oferecesse para leválo ao lugar exato que ele procura. sempre? ROBERTO . nós não demos relevância a ela. claro. Durante toda a sua vida. Isso é tudo que ele quer fazer antes de morrer: conhecer o mar: Desce do ônibus nessa aldeia de pescadores. O filme da horta é o filme de quem está dentro da casa.Existe um problema sério com o personagem da moça: ele não tem o vigor necessário para representar o que na verdade é.

nem se vêem. Se fosse de outro jeito.Eu gostaria de resumir o que fizemos. e entra na água. cortando cabeças de peixes. e tudo muda. Ela está observando. SOCORRO . Mesmo que ela não cante no filme.Por que não voltamos à idéia da comparação entre o mar do cartão postal e o da realidade? “Bem. limpando peixe. na verdade. O esquema poderia ser este: ele está numa situação que. Ela seria uma espécie de flautista de Hamelin.Pouco a pouco. vai determinar o curso de toda a ação. GARCÍA MÁRQUEZ . tem um momento de vacilação e regressa à praia. Tem a impressão de que o sujeito quer se matar: Ele avança. Não se encontram no ônibus. tarataram. no momento em que ele chega à praia. como a que estou tendo agora: a mulher viaja no mesmo ônibus que o homem. com uma aura mística. Todas as praias são iguais.Essa é uma aldeia de pescadores. REYNALDO . SOCORRO . de repente. E é quando vê a moça limpando os peixes.E se nós antecipássemos sua presença de outra maneira? Escutaríamos sua voz. tira os sapatos e as meias. para que nos juntarmos aqui? E não sairiam essas idéias loucas.É bom que a Morte o salve de uma morte que não é a dele. de longe.Mas é assim mesmo que a história acaba saindo. É por isso que a gente faz uma Oficina.. Ela tem que surgir diante dele como algo insólito. Ele sentiria o feitiço daquela voz e. nem eu saiba de onde vem ou para onde vai. Fica adormecido na areia. Uma negra corpulenta. ELID .A mulher deve ser negra. encontraria a mulher atrás de uma pedra. uma mulher enorme. GARCÍA MÁRQUEZ . e agora?”. que não chegou ainda..Pode até cantar: Uma mulher assim como Maria Bethânia. embora a gente não tenha tempo agora para analisála. se pergunta o homem. ROBERTO . dizendo que. GARCÍA MÁRQUEZ . aparentemente. orientando-se por ela.Ele chega à beira do mar vestido de terno.. 51 . instantâneo e definitivo. Já começo a ver essa negra. E isso produz uma espécie de susto. mais todos nós tínhamos uma posição diferente diante da história. não houve nenhum acordo.. providencial. inclinada sobre ele. uma coisa bem do cotidiano. ela entra. MARCOS . GARCÍA MÁRQUEZ . Houve propostas gerais. O que não consigo ver é a locação. GARCÍA MÁRQUEZ . nada de idealizado ou fantástico. seu canto.Sim.acompanhadas por golpes da orquestra: taran. acostumada a cantar. Quando desperta vê. a personagem vai-se desenhando. E. mas ela já veio com ele.

Eu estou achando que a praia ainda não é o lugar.Ele tem que começar a fazer coisas que nunca tinha feito.É um bom recurso visual.GARCÍA MÁRQUEZ . Antes saía buscando aventuras. Não faz nada.Concordo com isso: colocar o homem fazendo coisas loucas. RORERTO . nas aventuras de cavaleiros andantes. um pouco à deriva.. GARCÍA MÁRQUEZ . Quando ele seleciona o cartão postal.Vamos ficar com a idéia do cartão postal. tudo bem: ele vai para o mar. GARCÍA MÁRQUEZ . depois esperar que seque. Você é mediterrâneo. GARCÍA MÁRQUEZ .. estão uns sujeitos jogando dominó. sem destino.. não é porque queira ir a esse lugar específico. no bar... É isso o que quero dizer: Vocês estão muito sérios..Estou falando do final da viagem. saí para ver o que acontecia. Ele vê um monte de cartões. Confesso que isso me tirou do eixo. depois outra.É isso o que estamos tentando averiguar: o que ele faz depois? ELlD . ou na pensão ou restaurante onde a mulher trabalha. porque deixei aqui um sujeito sem destino exato.. ou “Onde é que fica o bordel daqui?” Pode ser que ele encontre uma bailarina no bordel. GARCÍA MÁRQUEZ .. das montanhas. ou então caminha pela praia. e. e assim por diante. ELID . uma.Não é preciso se impacientar: Lembrem-se das diferentes camadas de pintura: primeiro. de que ele deve ir ao mar para encontrá-la. onde é que a estrada ia dar.Está faltando loucura nessa história. Pois bem: que o homem se aproxime e pergunte: “Onde posso conseguir uma garrafa de rum?”. é pura questão de técnica. e quando volto encontro o mesmo camarada empenhado em chegar a um lugar.Ou de crianças. Mas.Como é? GARCÍA MÁRQUEZ . 52 .. a não ser entrar num ônibus. Porque acontece que o personagem vai em busca de aventuras. No ônibus ou no trem podem acontecer coisas. mas porque quer conhecer o mar.Mas a sua proposta de situar a moça no ônibus contradiz a idéia de que ela “vem” do mar. MANOLO . e escolhe do mar. Sem saber. Todos os brasileiros são mediterrâneos. Um cartão em preto e branco. REYNALDO ..Você é um romântico grego. ROBERTO . mas na verdade não faz nada.. escolheu o lugar da sua morte. Como nas novelas de cavalaria... Existem postais do mar da selva. Alguém dizia que. ELID . O camarada só fica ali na frente do mar. mas isso é fácil de resolver..

levantam. MARCOS.GARCÍA MÁRQUEZ ... “Vamos gozar esse aí”. Não muito pesadas: meio inocentes. Tem uma baía muito estreita.ensinam o gringo a tomar chimarrão. trazem. Há piadinhas. mas acabam fazendo. ao vê-lo vestido de terno. mas acaba se tornando um pesadelo..E por que levou? MARCOS . sem querer.e. Ninguém quer fazer mal ao homem. SOCORRO . colete e gravata. MANOLO .Essa imagem da mulher. SOCORRO . o camarada morre.Até as crianças da aldeia debocham.Tem uma história. GARCÍA MÁRQUEZ. por causa de uma piada! Ou seja.. GARCÍA MÁRQUEZ .. precisamos buscar imagens. Só ela tem consciência de ter levado o homem para a morte. o camarada chega à aldeia de pescadores com seu colete preto. DENISE . E acontece que por causa de uma dessas piadinhas ele acaba sendo morto. A viagem começa com uma simples brincadeira.... Ela. com a blusa ensangüentada.. o céu. Os pescadores se assustam: o que aconteceu? Só a moça sabe. limpando peixe. da moça. porque em nenhum momento a gente pensava que ele ia morrer.Isso dá muita vida ao filme.Ela e os pescadores se oferecem para levá-lo ao tal lugar que ele procurava. da piada. mais um bordel.. no final.É uma travessura.As crianças levam o homem. onde tudo acontece normalmente . GARCÍA MÁRQUEZ . cortando cabeças de peixe. não existe nada.Sacodem. E. ROBERTO . o mar.. Enquanto a gente não tiver construído o personagem.Seria bom resgatar a idéia da verdadeira. É uma boa imagem. Vocês lembram de O Soparso? É impressionante.. À medida em que avançam. a montar a cavalo ...Tenho a impressão que o cinema não agüenta outro outro prostíbulo. construir a relação a partir dessa idéia de coisa engraçada. Ou seja. no final..E o matam de brincadeira. Quando chegam. SOCORRO . a do gringo que chega ao pampa. GARCÍA MÁRQUEZ. GARCÍA MÁRQUEZ . rodeada de 53 .Sim. metem o homem na água. diz um dos pescadores quando vê o cachaco se aproximando.Só de maldade. As rochas. ROBERTO . matam o homem sem querer..Na costa atlântica da Colômbia existe uma aldeia de pescadores que se chama Tacanga. o caminho vai-se fazendo mais tortuoso. esquentam a bombinha do chimarrão.

Pois bem: podem levar Natalio a um desses ninhos de falcões.montanhas. e depois. diga logo! MANOLO . com sua inocência. onde os pescadores jogam suas redes. que se transforma em um crime coletivo. uns vigias que observam o mar dos rochedos.A água está tão quieta e transparente que a pesca é feita ali na margem. MANOLO .mas não faz mal.Ela estava observando os vigias.Ou aberto.As crianças. para ver o que é que ele faz. ROBERTO . de paletó. GARCÍA MÁRQUEZ .O cadáver entra na baía flutuando com colete e tudo. E no dia seguinte.. essas crianças vivem numa aldeia da costa. embora também ache que seria bom 54 . GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . só falta o recheio.Ela o salva das crianças. um dos vigias.. lá em cima. Além do mais. Depois seu cadáver é descoberto.Por que você não diz de uma vez que é a baía mais bonita do mundo? Ou não é? Vamos. MANOLO . Agora. MANOLO . Uma simples travessura.Deixam Natalio lá. desaparece. pode surgir a idéia de escalar a montanha. ROBERTO . ao ver entrar na baía um cardume de peixes.Uma brincadeira coletiva. flutuando na baía. e para eles um cachaco. seja homem. Quero dizer que tenho essa imagem num roteiro que nunca foi filmado . Acho bom. sozinha. flutuando sobre os peixes. avisam aos pescadores. GARCÍA MÁRQUEZ . existe também uma dose de crueldade.E ela? Na sedução. podem ser extremamente cruéis.a imagem de um vice-rei que se afoga num poço . e quando vêem entrar um cardume de peixes. GARCÍA MÁRQUEZ .E ele. só de brincadeira. E fica com ele. e deixá-lo lá. SOCORRO . quando caminha pela praia. quase inacessíveis. eu renuncio a ela. Já temos o final. para que eles fechem a rede. Por isso mesmo. como é que se arranja numa situação dessas. vê também o cachaco.Espanta as crianças como se fossem moscas. SOCORRO .Quando ele descobre o mar. lá do alto. será interrompido de maneira brutal por uma bola de areia que os meninos jogam nele. É aí que ela chega. deve ser uma coisa muito exótica.E com o guarda-chuva fechado sobre o peito. acaba criando para si um ambiente idílico.. vestido da cabeça aos pés. GARCÍA MÁRQUEZ . Há alguns homens. De repente. poético. Os vigias são chamados de falcões. E uma boa imagem: ele flutuando na água transparente.

não tente disfarçar.ele acaba sendo acusado de farsa. e quando está no apogeu. e um belo dia. sei perfeitamente quem é o senhor.. é confundido com alguém muito importante. O camarada chega a 55 .Alguém aí se lembra de Deus precisa dos homens. alguém que pode descobrir alguma coisa não muito limpa.... Mas como ele chega vestido de maneira tão solene chapéu. ou de Os pescadores da ilha de Siena? É um lugar que fica sem o padre.com a chegada do personagem verdadeiro. não lembro como é que tudo termina. um inspetor ou coisa parecida.. Não se assustem. “Ora. enfim.. tem capacidade para isso. afinal. e essa coisa envolve a aldeia inteira.Uma espécie de atentado. porque. Por isso matam o recém-chegado. O presidente da República. No nosso caso. só para levá-lo até a armadilha. ou fazemos direito. Agora. por exemplo . e as pessoas obrigam o sacristão a rezar missa. enfim. SOCORRO . GLÓRIA . Mas. GARCÍA MÁRQUEZ . de mentiroso. mas acaba entrando na dança.. importante.Dá tempo... Simulam aquela alegria toda.Pela primeira vez na vida.. mas como todo mundo detesta o outro. o sacristão fica sentindo-se padre e. esse homem vive um momento de triunfo. alguma coisa está acontecendo em sua vida. por exemplo. O homem começa dizendo não. por favor.. e ele cai. e depois a confessá-los. e tem até quem acha que o reconhece.Todo mundo na aldeia estava esperando a chegada de alguém odiado. coitado. temos tempo. MARCOS . mesmo que seja tudo por engano. GARCÍA MÁRQUEZ . Ele é simplesmente confundido com outro homem. guarda-chuva -.Não vejo nenhuma razão para o personagem verdadeiro chegar. ou não fazemos esse filme.tentarmos uma coisa mais louca: o homem.. A aldeia inteira obrigou-o a aceitar aquele papel. GLÓRIA .Mas a gente não precisa de muito tempo para desenvolver uma situação dessas? GARCÍA MÁRQUEZ . acabam matando o nosso personagem. estamos danados... Mas os verdugos não ficam sabendo jamais que a vítima não tem nada a ver com a pessoa que eles esperavam. aceitando a contragosto a homenagem e depois. colete. sem que ele queira.. quando a confusão é descoberta . ao chegar.. Olha só: acabamos de entrar num filme simbólico. Eu imagino essa armadilha onde ele cai. acaba assumindo o papel que quis interpretar a vida inteira. ou temido. E celebram a sua chegada com uma grande festança. e depois. mas a idéia é muito boa.. a vida arrasta o camarada e. estou brincando. aqui todo mundo conhece o senhor”. pensam que é um personagem oficial..

Como se fosse o desenho. mas quem é que ela está esperando? GARCÍA MÁRQUEZ . falta saber se o descobrem ou não. que as esperanças dos moradores se projetem nele.Mas esta história é um conto de fadas. Os pescadores têm um conflito com uma empacotadora. Glória.. Claro que o conhecemos: o senhor é o Fulano de Tal”. que afetam os interesses da embaladora de peixe..A moça é a primeira a reconhecê-lo. e o homem foi enviado pelo governo para servir de mediador. a propósito: já que este conto é tão artificial. Conquistado pela hospitalidade das pessoas da aldeia. ROBERTO . depois. GARCÍA MÁRQUEZ . conceder. o traço de um pintor primitivo. fazer uma obra que o imortalize.Ou o contrário: sente-se tão fascinado pelo poder. Tudo ali é tão artificial como essa história.fama. e todo mundo considera a sua chegada como uma coisa providencial. todas exatamente iguais. do outro. vamos fazê-lo mais artificial ainda. GARCÍA MÁRQUEZ . porque ele chega vestido de Poder e morre no apogeu do seu poder. e o feitiço se desfaz.Ele chega vestido de autoridade. ROBERTO .. é lógico que sua chegada desperte expectativas. se voltam contra ele. ROBERTO . a história do estranho.Vocês nem imaginam que lugar estranho é Tacanga. e ele sabe que tem um prazo para acabar: Vinte e quatro horas.Numa aldeola assim. me descobriram. mesmo que cada uma tenha uma cor diferente. CECÍLIA . quando perde o poder.E se o camarada decidisse construir uma pirâmide? MANOLO . toma decisões muito drásticas. E eles começam a pedir e ele.viver o grande momento da sua vida . com autoridade. para ele. poder .Enquanto tem poder. O que vejo é que sua saída de cena se articula com sua chegada. a carruagem torna a virar abóbora.Eles inventam o personagem que esperaram. O que querem de mim?”. Morrer. não importa mais. GARCÍA MÁRQUEZ . ora. porque necessitam uma pessoa assim. Sim. “Bem.. feito um bumerangue. E ele vai-se deixando convencer aos poucos.e já pode morrer tranqüilo. com suas casinhas de madeira. não disfarce: mas estávamos à sua espera. ele toma decisões que.Nós já sabemos que a aldeia o espera. Agora. O que isso me faz lembrar? Acho que a eterna história do forasteiro que chega ao povoado. ELID . o senhor. Aliás. “Seja bem-vindo. os pescadores recuperam algo que tinha sido tomado 56 . E graças a isso. para que dê certo. por desfrutar do poder que não quer morrer: E tem mais: quer perpetuar sua fama.

e fazem um grande enterro. com quem ele foi confundido? Com um senador? GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO .. Para eles. GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS . mas morre como se fosse um santo. Não pode existir nenhuma embaladora de peixe.Os pescadores se vingam nele de uma coisa que ele não fez.O cara é enterrado vivo.É um farsante.Que sacrifício? GARCÍA MÁRQUEZ. GARCÍA MÁRQUEZ . ele tem de fazer alguma coisa que o afirme como um deus... ROBERTO . que o situe além da morte. ele é morto por todo esse amor. Mas.Ah. Quer fazer alguma coisa grandiosa. GARCÍA MÁRQUEZ . não convém que os problemas sejam resolvidos. Não vamos deixá-lo morrer por causa desse sacrifício que estão pedindo a ele. Quando chega. 57 .. Ele morre afogado.Farsante de uma farsa que não quis protagonizar.No apogeu da GLÓRIA. as pessoas dizem: “Finalmente! Sabíamos que ele viria!”.. Estamos metidos até o pescoço no terreno do mito e agora não podemos voltar à realidade cotidiana.. entre radiações. Não precisamos de mais nada. MANOLO . nem grupos rivais. Da farsa que foi imposta a ele.Uma morte grandiosa. não seja cruel! Pelo menos. REYNALDO .Mas isso é um longa-metragem. e nós estamos elaborando um sonho.Ele é confundido com um benfeitor.Sei lá.Se conseguirmos descobrir o mecanismo que leva à morte. E são justamente esses personagens que matam o homem. ou se apoderam do que reclamavam como se fosse deles. Ele já se sente Deus. E quando descobrem que o homem não é o mediador se negam a devolver o que tomaram. GARCÍA MÁRQUEZ . Nunca descobrirão a verdade. conceda ao homem essa última alegria. o fato.Não. ELID . Porque ele sabe que a morte é inevitável. teremos o filme pronto.Como é que não consegue? Ora. ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . e a gerência da embaladora de peixe decide se vingar dele. GARCÍA MÁRQUEZ .deles.Todo mundo na aldeia fica alegre com a sua chegada.Mas ele não consegue. e quimioterapia. Os pescadores se vingam do que fizeram com o homem. bem diferente daquela outra que o esperava no hospital. Já estamos no terreno do mito. REYNALDO . mas também certos personagens que se sentem contrariados. O que mata o nosso homem é o mito.

Por alguma razão.Tudo bem. todo mundo se convence de que ele é o general. Ele se deixa crucificar Ele quer que todo mundo fique contente. para nosso espanto. SOCORRO . Várias vezes eu disse por aí que os três melhores filmes que já vi na vida foram O Encouraçado Potemkin. GARCÍA MÁRQUEZ . que é igualzinho ao santo.Você lembra do filme De Crápula a Herói. fica mais fácil de acreditar. sim. as pessoas veneram um santo que. Puro milagre. REYNALDO . o homem chegou a conclusão de que não pode frustrá-los. O nosso homem descobre que as pessoas precisam dele. e todos os outro presos o confundem com um líder.Crucificado. chega esse sujeito. com a ilusão de que ele era a pessoa esperada.. arrisca a própria vida. ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO . que deve fazer esse favor. E assim. e além disso. acaba sendo o General De la Rovere.É que com um italiano. E sobre um pobre coitado que é preso numa cadeia da Itália . Morre. porque sou um grande admirador desse filme. e de repente aparece esse sujeito que se faz passar por ele. tem um caso parecido. é igualzinho ao homem. Mas enfim. sem vacilar. Os presos acabam convencendo o homem de que ele é o outro. e esta é uma delas. mas consegue o seu objetivo. O verdadeiro general também está preso mas ocultou sua identidade para salvar a vida. Podemos fazer qualquer coisa..E ele chega mesmo a se achar o santo. vamos lá: nós já temos a história. as pessoas descobrem no nosso homem alguma coisa que todos necessitam.Em todas as casas da aldeia. de repente.GARCÍA MÁRQUEZ . de Kurosawa.Em Kagemusha. Com velas acesas. E acho bom.Isso mesmo. uma visão. E para demonstrar isso. só existem trinta e seis situações dramáticas. Estavam velando o santo e. Um santo. uma aparição. Mas morre crucificado? GARCÍA MÁRQUEZ . desiludi-los. GARCÍA MÁRQUEZ . Por que não? Afinal.. de Rossellini. claro.Acham que ele é um médico milagroso. Cidadão Kane e De Crápula a Herói. GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS . isso ficou bonito! 58 . protagonizado por Vittorio de Sica? Acabo de perceber que essa é a história que estamos tentando contar. até um drama grego na ilha de Creta.uma cadeia para presos políticos -. Vemos a imagem do recém-chegado nos altares de todas as casas. o General De la Rovere.Não. Puxa.Em que sentido ele se deixa crucificar? Ele se sacrifica para alcançar seu propósito.

. o homem vai morrer? GARCÍA MÁRQUEZ .O homem não precisa mais morrer.Vamos desenvolver cena por cena. Não acho que leve mais de meia hora para chegar ao primeiro milagre. imagino este fina. SOCORRO .Olha. a gente expulsa você. Tivemos um trabalho danado para chegar até aqui. desaparece..Ninguém sabe como nem por onde ele chegou. Na verdade. Melhor até do que imaginamos. você é amigo ou inimigo? ROBERTO . Vamos fazer primeiro o filme que nos convém.Se você derrotar o nosso filme. GARCÍA MÁRQUEZ . Que ele faça dois ou três milagres rápidos. GARCÍA MÁRQUEZ .. REYNALDO . Uma imagem muito bíblica. ROBERTO . O filme pode terminar com o primeiro milagre. MARCOS . saber como é que tudo isso termina. como se fosse caminhar pela superfície da água.Pois eu continuo achando que ele devia morrer.Aí. REYNALDO . lindo. sorri. e não o contrário. GARCÍA MÁRQUEZ . ele ia morrer porque a gente não sabia o que fazer com ele. virou longa-metragem de novo. Antes.. não é mesmo? E. é o homem que é igualzinho ao santo. ele entra no mar mesmo. de repente.Pois é: aí voltamos à longa-metragem. O importante é que nós já temos a história. e ponto. é justamente o dia do santo.As pessoas inventam.Não.O santo é o padroeiro dos pescadores.E ele chega a crer nos milagres. Acredita de verdade que é milagroso.CECÍLIA .: o cara olha para a câmera. é um filme muito bonito. GARCÍA MÁRQUEZ . MANOLO ..Ela entra na água e o homem vai atrás.Ele chega à aldeia sem que ninguém veja. GARCÍA MÁRQUEZ .A gente fica com vontade de saber o que vem depois. e faz o milagre. ROBERTO .. e depois o do santo. ROBERTO . Afinal.Está bem..Faz uma paralítica voltar a andar. REYNALDO .E aquele dia. O homem pode morrer ou continuar vivo. GARCÍA MÁRQUEZ .Afinal.. fez até milagres. O filme acaba assim. E é a seguinte: um 59 . GARCÍA MÁRQUEZ .Como eu nunca vi um santo sorridente. Olha. GARCÍA MÁRQUEZ . para ver onde a história nos leva. o dia da sua chegada à aldeia.Um santo que fez muito bem.. ROBERTO . inventam milagres e os atribuem a ele. O final não importa mais..

porque o povo já o canalizou. Os detalhes virão depois. GARCÍA MÁRQUEZ . esticar.. que tinha vivido uma vida tão chata. Na beira do mar. CECÍLIA . Agora.As circunstâncias se impõem sobre ele. GARCÍA MÁRQUEZ. Porque o filme não é sobre a criança doente. precisamos garantir que a história caiba em meia hora. mas acaba cedendo. quando vê a si próprio venerado em todas as casas . Quando ele vê os altares. É sobre ele e sua incrível santidade.A mulher estava esperando por ele na aldeia. Pode ser três meses ou três anos”.A mulher negra. O diálogo fica assim. milagre! O filme poderia até acabar com o rosto do homem.São coisas diferentes. REYNALDO . E o médico responde: “Depende. ela diz: 60 . e é tanta a insistência dos devotos que afinal põe a mão sobre uma criança doente ou moribunda que acabam de trazer e. como alguém disse aqui. com um médico que fazia milagres. ROBERTO .porque é parecido de verdade com o tal santo . No momento em que o homem decide que vai pôr a mão no doente. Se ela crescer muito. se ela ressuscita ou não.Esse aí seria o final. só que já não pode fazer mais nada. Esta é a história. REYNALDO .Não precisamos mais falar da cirrose. e começa a levar a cabo um velho sonho: conhecer o mar: Chega a uma aldeia de pescadores. mas a semelhança é tão grande. no princípio do filme. chega a viver a vida de um santo. meio vago. O que interessa agora é ver como esse sujeito.. é uma avalanche que a Igreja não consegue parar. e o milagre acontece. não consegue se decidir.Parece que a outra história.. tão menor. que ponha a mão em tal Lugar. pode desandar e se perder E tem uma coisa que me preocupa: a imagem dos altares não deve ser muito parecida à de São Gregório. CECÍLIA . ROBERTO . ele mesmo não se explica o que ocorreu. a do camarada condenado a morrer. deixou de nos interessar. É verdade que o Vaticano encrenca. decide mudar de vida radicalmente.Agora a morte é um simples pretexto para fazer o nosso homem viajar. e no começo ele vacila. danou-se. Alguém pede ao homem que cure um doente. A conversa começa com o sujeito perguntando ao médico: “E quanto tempo o senhor acha que eu ainda tenho de vida?”.acaba acreditando que é santo. onde o confundem com um santo. GARCÍA MÁRQUEZ . estão lembrando! Quando ele chega. desenganado pelos médicos.Eu já tinha me esquecido do mar.democrata de Bogotá.. perplexo: não sabe o que aconteceu. O homem andou se recusando. E os devotos não gostariam que a gente brincassem com o seu santo. Temos que trabalhar mais.

Ao contrário: manda tudo à merda. consegue a sua realização pessoal.Muito bem. traz para a gente ver. GARCÍA MÁRQUEZ .Então. e isso aí.. Vamos. com a informação que tem. não é a vida que ele teve. a primeira coisa que os jornalistas perguntam é: “O que o senhor está escrevendo agora?”.É o filme das casualidades. A do cachaco é um leão morto. MARCOS . Sem querer. desenvolve a história. MANOLO . por isso é preciso tomar cuidado. porque ainda não sabemos que ela é a Morte. seu porte. Não podemos nem piscar.Acho que não precisamos mais revirar essa história.. Ele quer se libertar. Essa é a história. A vida que ele teve é o que explica a sua decisão. “não me deixam nem descansar um pouco!” Vendo a cara de vocês. GARCÍA MÁRQUEZ . acho que é uma boa idéia. Porque se a gente piscar.Eu tenho outra história. a primeira versão. GARCÍA MÁRQUEZ . nos impressiona. eu respondo.É a melhor coisa que poderia ter acontecido com ele. então. ROBERTO . Por isso não se mete num hospital nem se tranca em casa para que cuidem dele. A figura da mulher.Não. e por acaso. e sim a vida que tem pela frente.. como é mesmo? E aquela outra coisa ali?”. E o jeito é manter a história tensa o tempo inteiro. agora. o que importa é a incerteza do homem: “Quanto tempo de vida eu tenho? Vou sofrer muito?”.O problema. Agora. GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO .Ele se realiza. GARCÍA MÁRQUEZ . Chega a ter tudo: o poder e a GLÓRIA. A tendência é ir além da meia hora. Ou preferem descansar? Cada vez que sai um livro meu. Hemingway dizia que um livro acabado era um leão morto. ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . Quando tiver terminado o primeiro tratamento do roteiro. ver a história de MARCOS.A mulher ficou flutuando por aí porque nesta nova versão ela já não importa tanto.“Estávamos a sua espera”. em seguida começarão as perguntas: “Êpa. “Porra”. Vamos parar quinze minutos? 61 . pronto: você mesmo.Melhor até do que ele poderia imaginar.

a orquestra de salsa. ao imaginar a história. vai visitar. tanto que chegou no hotel em seu próprio helicóptero. é claro.. as praias. Estão dando as boas vindas a um helicóptero. outra de mariachis -.E ela. Gostaria de poder filmar nesses lugares: os hotéis. porque alguém disse a 62 . uma pessoa que procura no Caribe o que não pôde encontrar em seu país.. um grande ruído no céu e centenas de mãos na varanda agitam bandeirinhas.. nunca teve um namorado. está no hotel há vinte e quatro horas e ainda não se animou a descer até a praia. De repente. por exemplo. tomando sol com dois algodõeziuhos tapando os olhos. Essa é a imagem. um cara famoso. GARCÍA MÁRQUEZ . que a psicóloga. A história é a seguinte: essa mulher é uma psicóloga argentina que deciciiu passar férias no Caribe. populares.tem uma aventura louca com esses dois personagens. Primeiro plano de uma mulher cinqüentona. O aparelho pousa suavemente no heliporto do hotel. Veio ao Caribe nnma excursão de quinze dias. E agora. Varanda de um hotel cinco estrelas.. e toca todas as maracas na orquestra de salsa do hotel. acompanhado de seus guarda-costas. Nunca teve um namorado. A psicóloga .O chamado da selva MARCOS .. O cara das maracas mora num bairro muito pitoresco. É meio frígida.Vou contar primeiro o começo do filme. palmeiras. Confesso que minha primeira motivação. ao mesmo tempo. quem é? Quais são os seus antecedentes? Como chegou ali? MARCOS . os ambientes. começa duas aventuras amorosas com dois sujeitos. foram as locações. O clássico estereótipo: céu azul.SEGUNDA PARTE QUINTA JORNADA DE TRABALHO História de uma paixão argentina . de repente. Um deles é negro.. não sabe dançar..que parece ser frígida . músico. o outro é branco. a paisagem. Queria brincar visualmente com certos estereótipos latino-americanos: os músicos .É. enquanto escuta música em um walkman. Assim o filme começa. parecido com o Hilton Palace de São Domingos.. numa praia do Caribe.

Então o divã é sopa no mel.. meio distraída. ROBERTO .Ela vai se entusiasmando. A paciente está deitada no divã. Viu só? A situação inteira pode acontecer através de perguntas e respostas. Quando a outra mulher sai. Por isso está ali.. Sabemos que a mulher é argentina... se enrosca com dois e vive um romance apaixonado com cada um.Porque a gente não começa numa sessão de psicoterapia? GARCÍA MÁRQUEZ .Sim. Você deve contrapor o mundo dela à realidade caribenha. diz a amiga. MARCOS . o entardecer. A psicóloga escuta. e começa a viver sua própria fantasia.. falando de sua viagem ao Caribe. A personalidade pode se manifestar através da atmosfera do consultório. mas vistas como estereótipos. frígida ou tímida. Como você vê a história Marcos: drama ou comédia? MARCOS. Mas o que você tem não é uma história: é uma idéia. A paciente responde: “Ah.”. tudo muito impessoal. uma profissional. Vamos ver se. Conte mais coisas. mais sensual..Muito bem. tomando sol no terreça do hotel.Através de uma amiga que acaba de voltar de uma viagem idêntica. de repente.A doutora aos poucos vai deixando de ser quem é. Como é que ela vai parar nessa excursão? MARCOS . corte: ela está no avião. muito ascético. o produto de uma psicanálise ao contrário: a paciente a psicanalisou. “A senhora bem que anda precisando de umas férias no Caribe: outros céu. se misturem algumas pautas culturais próprias da América Latina.Não é preciso nos determos para descrever sua personalidade.. A paciente está recordando o calor. ROBERTO .Eu acho interessante que. GARCÍA MÁRQUEZ .Você me tirou isso da boca. ela pensa: “Está resolvido: vou para o Caribe”. fazer amor numa rede... e de repente. quando levar o tocador 63 . ROBERTO . puxa. imagine só.. a vegetação. mais dinâmica. não vá ser roubada”.. a cor das paredes. “Acho a senhora meio cansada. GARCÍA MÁRQUEZ .. outras pessoas. GARCÍA MÁRQUEZ . Mora em Buenos Aires..... Agora é uma pessoa totalmente diferente. não existe nada parecido”.. trabalhando somos capazes de arrancar uma história daí. MARCOS.. no hotel. doutora.ela “cuidado. ROBERTO . MARCOS .Comédia. tudo ao mesmo tempo. lá tudo é diferente. e ela: “E as relações eiticas?”. sozinha. Um caso assim não deixa de ser atraente: uma mulher incapaz de tratar com um homem e que. claro.Ela vai descobrir isso na própria carne. doutora”. psicóloga ou psiquiatra.

A história pode ser resumida dessa maneira: enquanto se hospeda. para ver se funciona. a voz em off da paciente. Mas nada sai do mesmo jeito. Aí começa o jogo da comédia. Logo que chega ao hotel. ainda por cima.. “Amanhã estou indo para o Caribe”.Ela ouviu essa história da paciente.Funciona. Ouvimos as respostas sobre seu rosto. REYNALDO . No final. ou uma grande retrospectiva. O que vimos não é outra coisa além de uma antecipação.Noa só vai para a cama com ele. ouvimos a voz da paciente em off. GARCÍA MÁRQUEZ . embora não seja necessariamente pior. O questionário da psicóloga. quer contar a sua. GLÓRIA . Também convém que a gente saiba o que ela anda procurando. como turista. MARCOS . voltamos ao consultório de Buenos Aires. E o filme acaba aí. vão dar o suporte. Corte.Podemos apelar para um recurso técnico. as coisas acontecem ao contrário. ou uma caricatura. SOCORRO . como conta toda a sua vida. 64 .Sinto necessidade de resumir a história. Isso não é tão difícil assim. uma mulher madura que nunca viveu uma paixão amorosa tem. Não é que agora ela vá para a cama com dois ou três sujeitos. mas agora não há mais perguntas. e não dela. Agora.Isso é problema nosso. Até agora. e decide repeti-la. Começa o interrogatório pela psicóloga. GARCÍA MÁRQUEZ . vai levar esse homem para o quarto? GARCÍA MÁRQUEZ . com cinquenta anos. vemos que ela come o maleteiro com os olhos. tão rígida e. não tem uma coisa orgânica e articulada: você tem uma idéia. sai tudo ao contrário.. O filme continua. Tudo dá errado para a psicóloga. passar por uma experiência parecida. duas aventuras fenomenais. Tudo acontece ao contrário. Real ou imaginária? Não sabemos. Vemos que seus olhos começam a brilhar. Os olhos da psicóloga brilham mais do que nunca. Mas seria necessário manter esse elemento de contradição: para ela. MARCOS . A paciente está estendida no divã. O que vemos na tela não é o que a voz conta. Seu entusiasmo aumenta a cada resposta. Suas relações com o sujeito das maracas e com o magnata não são o que ela esperava. ela não tinha feito outra coisa além de ouvir histórias dos outros. pensa. de repente.Ela vai acabar fazendo amor com o homem que menos imaginava. num grande hotel do Caribe. o fio condutor que você precisa. O problema é que você ainda não tem a estrutura.de maracas para a cama. é que agora ela está alerta para outras alternativas.Mas como é que uma mulher tão seca. A paciente respondeu à última pergunta. e que de repente nem é do gosto dela? CECÍLIA . e sim o contrário.

Tudo bem.Tudo bem. ouvindo uma orquestra de uns quinze músicos interpretando velhos boleros. Tinha o olhar parado no vazio.o das maracas. MARCOS . e depois. O sujeito é uma espécie de gigolô.ao mesmo tempo.. O sujeito também mora em Buenos Aires.Ao chegar aos trópicos..Bom. o músico caribenho que toca maracas. e uma contrafigura. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . o sabor. entra num ônibus. aqui. Há duas maneiras de conceber um roteiro. a outra é contando passo a passo o que acontece: uma mulher se levanta.E o filme.E ela vai direto ao assunto.Seria formídável se a história com o tocador de maracas não desse certo e. Seja como for. Mas este outro tocador de maracas não tem tempo para se aborrecer. GARCÍA MÁRQUEZ . a situação não pode se prolongar: a excursão dura quinze dias. em vez disso. e assim que ela chega começa a procurá-lo. nesse tempo. insuportável. a psicóloga argentina.. GARCÍA MÁRQUEZ . mas em certo sentido. era um músico subordinado ao Ministério da Cultura. SOCORRO . rapidamente. A idéia me bateu una noite. Vai ver. A razão dessa popularidade nós sabemos através da paciente: “Doutora. a brisa. eles descobrem que moram no mesmo bairro.. a psicóloga sente o cheiro do mar. É relativamente jovem e muito popular entre as turistas. cujo desenvolvimento é desconhecido. em Havana. com calma.. e tocava suas maracas por pura inércia: chac-chac-chac. resumi-las em alguns parágrafos e analisá-las conforme formos escrevendo. no hotel xis tem um tocador de maracas que é um encanto. Estou querendo dizer que a até a sua pele desperta. sai. Mas. MARCOS . ganhando duzentos e cinqüenta pesos por mês.. Este homem. são quase vizinhos. A primeira é começando pela síntese: conta-se a medula de uma história que ainda não existe. Disseram que esse tocador de maracas era o tal.. Tem um instrumento deste tamanho!”. GARCÍA MÁRQUEZ . É magnífico.. E um dos músicos . claro . Viu só? Está saindo a história. no cabaré do hotel Capri. Na verdade. para começar. ela acabasse se enrolando com um argentino. MARCOS . Eu acho que o mais certo é ter as ações bem claras. o calor. E o filme 65 ..não fazia outra coisa a não ser sacudir as maracas. quantas psicanalistas argentinas caíram em suas mãos? Pelo menos cinqüenta. temos um personagem que é o protagonista. meia hora. toca maracas numa orquestra há vinte e cinco anos.Ela foi ao Caribe para isso: procurar o amor.O personagem não nasceu assim.. encontra uma amiga na esquina.

E a psicóloga. VICTORIA .. Então. mas tudo dá errado porque o tocador de maracas está em outra. REYNALDO . GARCÍA MÁRQUEZ . ela pensa: e por que não? O que me impede? GARCÍA MÁRQUEZ . Não está cheio de argentinos indo ao Brasil atrás de aventuras eróticas e de todos os tipos? GARCÍA MÁRQUEZ . e o outro é potência...O que temos aqui é um jogo entre a paixão e o poder. no divã. enquanto a outra conta suas férias no Caribe com todos os detalhes.Acho isso interessante. A paciente. metido com uma argentina?”.Mas se ela foi procurar outra coisa! Ela não agüentaria ficar falando com um argentino. em plenos trópicos. depois de ter ouvido tantas histórias e ter sido obrigada a vivê-las monasticamente.cada um à sua maneira -. ser. Ela já tem referências de confiança sobre os gostos dele.O cara não pode ser famoso.. CECÍLIA . capar de inventar mil aventuras para compensar suas frustrações. Agora não estamos mergulhados em um drama. No fim.E dificilmente morariam no mesmo bairro. Ela pode dizer a si mesma: “O que é isso? Viajar tanto para me enroscar com um argentino?”. vendeu um Caribe de fantasia para a psicóloga..Essa situação me faz lembrar de uma história que 66 .poderia acabar assim: os dois voltando juntos para a Argentina. Aqui já temos o núcleo de uma comédia de situações. Vamos deixá-la com quarenta e dois e sentindo-se frustada do mesmo jeito. e pouco a pouco a vida a empurra para o outro.Vamos tirar alguns aninhos dela? Não precisa ter cinquenta. SOCORRO . O tocador de maracas seria a paixão. porque o sujeito também deve pensar: “E que porra estou fazendo aqui.. É o que chega no helicóptero. GARCÍA MÁRQUEZ . Mas não consegue seduzir o tocador de maracas. MARCOS .Não é um argentino qualquer. acaba indo embora no helicóptero com ele.A única coisa que ela sabe é que o sujeito tem as medidas. morre de inveja ao ouvir.Uma comédia cheia de enredos. GLÓRIA .Não pode. e agora são felizes graças a esse encontro casual no hotel. apesar de ser muito profissional. Vai ver. senão ela o conheceria. e sim em dois. Mas viveram no mesmo bairro. feito padre. uma moça fantasiosa. VICTORIA . os dois se frustrando . os centímetros cúbicos necessários. MARCOS . GARCÍA MÁRQUEZ .Talvez a paciente seja isso. é até veado. Ela vai atrás do tocador.Um é poder.

. É o destino. e sabem quem eu vejo? Newton.”. Newton era um amigo meu.. embaixador no México. O bar está num porão. Olho. diante de uma mesa. ela responde: “Olha. se recusa: “Mas não tem sentido.Bem. ouvimos. No dia combinado eu fui. acaba caindo na rede. Um dia ele veio e me disse: “Quer dizer que você está indo para Amsterdam? Eu estou viajando para lá. é a mesma coisa: é a paciente que arma todo barulho no hotel e onde quer que chegue.Está bem. uma grande decepção. Estamos tentando construir uma história a partir de uma situação.. Newton ainda não havia chegado. tudo despertou. GARCÍA MÁRQUEZ . Ouço vozes. Não conhece ninguém ali. por isso convida a mulher para sair. Quando o pessoal o viu chegar. o tal sujeito.Ela experimenta as frutas. MARCOS . no filme. O que ele queria mesmo é uma mulata. ROBERTO .. um jogo de simetrias. “Olha só. Vem fugindo da Argentina e 67 . O bar é bonito. GARCÍA MÁRQUEZ . E ela. de noite.Ele insinua: “Por que não damos uma volta hoje à noite?”. Olhei à minha volta. os sucos. Bom. Era a lugar mais chato do mundo! E de repente.Para ela. mas alguma coisa tem de acontecer.Não. sem perder o bom humor. a voz da paciente: “Lá existem uns sucos de fruta que são a maravilha das maravilhas.. Por que a gente não se encontra na quinta-feira. como autômatos. e ele vinha descendo a escadinha. num barzinho que está na esquina da Rua Canal com a rua tal? Você nunca viu lugar mais alegre e divertido. em off. A psicóloga se instala no mesmo lugar e descobre que não acontece coisa alguma. brasileiro..E enquanto ela faz isso. imagine só!”. O camarada está em outra. E no entanto. dia 17. ela não rejeita de maneira dura. GARCÍA MÁRQUEZ .O que falta é a história. ROBERTO . e me sentei sozinho. que sabia direito o que queria.. bebendo em silêncio. ouço música. MARCOS . que nada vai ocorrer com ela. GARCÍA MÁRQUEZ .eu batizei de “O bar de Newton”..E por que não? Afinal.”. Era ele quem levava a alegria. Vir de tão longe para acabar na mesma coisa de sempre!”. e aquilo parecia um velório: as pessoas imóveis. GARCÍA MÁRQUEZ. e não gosta de nada. Isso iria parecer intencional demais. de um ambiente. ouço risos. Ou seja. abre uma certa intimidade. estamos no Caribe.O que você disse também é verdade: ela não interessava tanto ao sujeito.. Não deixe de ir”. ela se sente irritada quando encontra seu compatriota. uma farra que durou até o dia raiar. mas Newton não imaginaria como é chato quando ele não está. uma certa cordialidade. armou-se aquele barulho.Por enquanto.. MARCOS . VICTORIA .

Mas o personagem deve ser um personagem. faz o possível e o impossível para não o encontrar de novo. REYNALDO . E pode até ser que as duas 68 . Não há nada pior que uma comédia involuntária. GARCÍA MÁRQUEZ . Além disso.Não.O esclarecimento é oportuno. o rosto da doutura e. Obrigado. É uma funcionária pública. a voz em off estará justamente falando dele.encontra um galã argentino. e não uma caricatura. de jeito nenhum. Isto é uma comédia de enganos. agradeço este esclarecimento. Se é argentina. E quem fez com que ela sonhasse essa história foram suas pacientes.Não acho conveniente.Muito bem. como é que acredita que vai 'viver' a mesma experiência de suas pacientes? Pode sentir-se atraída por certos detalhes.O chamado da selva. encontrar o tocador de maracas.Podemos começar pelo questionário da psicóloga.Então. mas só. Obrigado.“Mas. DENISE . Ela evita. O que faz uma psicanalista? Ajuda o paciente a encontrar seu próprio caminho. Sendo uma profissional.E quando ela. que vive de um salário magro e fez um esforço enorme para economizar e realizar o seu sonho: passar uma semana num hotel de luxo no Caribe. de repente. Já sabemos uma coisa: o que vamos ver é um desadelo. Sinto que a história está crescendo. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ .. REYNALDO . como: Rivadavia. MARCOS . ela pode ser ao mesmo tempo uma excelente profissional e sentir atração pelo desconhecido. mas não acabam só se enrolando: descobrem que são vizinhos em Buenos Aires. O gênero é uma coisa que devemos definir desde o começo. pensando bem. GARCÍA MÁRQUEZ . o material que temos não dá para outra coisa. ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . a paciente estendida no divã. ROBERTO . corte para ela no avião e a voz em off. ela não deve ser psicanalista.Mas seria conveniente tirar esse caráter estereotipado de “psicanalista argentina”. tem de ser psicanalista..Ela irá viver a prefiguração de sua aventura. 46? Não pode ser! Eu moro no 48!”. essa coisa de todo mundo achar que está fazendo um drama e o que está saindo é uma comédia. GARCÍA MÁRQUEZ . É um lugar comum.Ora. na imagem.E se ela não fosse tão profissional? E se fosse uma psicóloga medíocre? VICTORIA .

que vá tudo à merda. sozinha por quê. CECÍLIA .Daí em diante ela foge sem parar. o vê a mulher chegando. O ar-condicionado estava com defeito”. ela encontra o argentino saindo da porta em frente. Acaba sempre encontrando o argentino. MARCOS .O hotel tem essa filosofia: ajudar cada hóspede solitário a encontrar o seu par. o tocador de maracas. Ele está preenchendo a ficha no balcão. E então ele. pergunta. “Mas. “Estava. Em vão.. GARCÍA MÁRQUEZ . diz. E ela leva um susto. “Poderia me colocar em outro andar.. só isso.No hotel há um animador ou um relações-públicas. o galã.visões não coincidam: o tocador de maracas descrito pela voz não é o mesmo que ela está vendo.. perguntam.Quando percebem que está sozinha e que é argentina. O Caribe. mas me mudaram de quarto. “Claro. A salsa que vá para o diabo. Tango! O relações públicas está disposto e decidido a promover o tango. todos se mobilizam.E o cara? GARCÍA MÁRQUEZ . o senhor não estava. as maracas.Mas é o mesmo. responde o recepcionista.”. GARCÍA MÁRQUEZ .O recepcionista dá o quarto 303 para o argentino. E no dia seguinte. O da paciente é de fantasia.A paciente. faz o possível para que se encontrem. SOCORRO . e não acaba frase. GARCÍA MÁRQUEZ . ELID . não é? Quem dizer: as visões não coincidem. Prometem contratar uma orquestra de tangos.. se o hotel está cheio de argentinos?”... e o 305 para a argentina. responde ele. senhorita”. seu par ideal. contou isso a ela: que muitíssima gente havia encontrado naquele hotel o par sonhado. no momento de preencher a ficha na recepção. CECÍLIA . e ao ver que os dois são argentinos e estão sozinhos. como.Que cara? O dia em que os argentinos invadiram o mundo GARCÍA MÁRQUEZ . ao sair do quarto. 69 . “A senhora chegou no vôo número tal?”. DENISE . Quer ser amável.O músico que a psicóloga encontra é o real. aliás.Ela encontra esse sujeito no hotel. por favor?”. Tará-tan-tan-tan. Ela percebe. se aproxima da mesa onde a mulher está. “Mas.

mas descobre que ele também convidou o argentino.”. Estamos..O negro não dá conta. GARCÍA MÁRQUEZ . e vão embora alegres e felizes... GARCÍA MÁRQUEZ . 70 .. Ela não tem outra saída. ROBERTO .. está lá longe: não têm nada para fazer aqui..Essa decisão é esquisita demais.. E a partir daí. mas não importa. ROBERTO . piantao”. é um tipo supersimpático. MARCOS . não é? REYNALDO . GARCÍA MÁRQUEZ .. só nos falta preencher o espaço vazio com algumas situações engenhosas.Não. no Caribe. como se estivessem obedecendo a uma maldição.Ela sai com o músico. uma noite. Quero dizer. vai ficando irritada: “O senhor me desculpe. a verdadeira vida deles.Os dois se despedem.. correndo um risco enorme. Perceberam que a vida.. tomamos rum.“Mi Buenos Aires querido. Começam a falar de maneira muito civilizada. é claro. Dançam resignados. REYNALDO . “Estão juntos”. Se aceitamos isso..Este é o final.Tanto desejou o tocador de maracas.e a convida para dançar. talvez ela se sinta mais à vontade em sua companhia.É que o tocador de maracas tem medo que a argentina se chateie sozinha com ele. GARCÍA MÁRQUEZ .Que tudo isso acabe virando uma piada de argentinos.Primeira situação: o restaurante do hotel está lotado..” MARCOS ... mas ela. que por acaso coincidiram na porta. Ontem à noite bebi com ele. GARCÍA MÁRQUEZ . aquela do Pizzolla. “Tenho uma surpresa para você: pedi a um amigo argentino que saísse com a gente.Ela não encontra jamais n tocador de maracas. tem compromissos demais. mas não estou disposta a passar as férias entre compatriotas. acabam sempre se encontrando de novo. MARCOS .“Eu vim para cá justamente para passar quinze dias sem ver nenhum argentino na minha frente. para no fim acabar com seu vizinho! SOCORRO . E pensa: como o outro sujeito é argentino. fugindo sempre um do outro.Qual risco? GARCÍA MÁRQUEZ . pergunta o maitre. são colocados em em uma mesma mesa. piantao. Os dois.”..“Ya sé que estoy piantao. SOCORRO .”.. pouco a pouco. Dançam de maneira absolutamente sensacional. a não ser concordar. O sujeito se apressa a esclarecer: “Não. se não tiver nenhum inconveniente”.

os jogadores de futebol”.. muda para outro. sei lá os dois começam a rir. ROBERTO . chegam os jogadores. e a função de anjo da guarda do relações-públicas. Só que acontece a mesma coisa com o sujeito. É o momento em que ele diz: “Por que não jantamos juntos no restaurante da praia ?”. DENISE . A delegação inteira. o destino. o time todo.e eles aproveitam e vão até o bar. não se contém: fica de pé e canta o hino. com muita gente daqui. Esse poderia ser o final. ROBERTO . para uma conversa tranqüila na frente de um cuba-libre. REYNALDO .Há uma cerimônia de boas-vindas em pleno campo.Que anjo da guarda? DENISE .Os dois. e todo mundo até o barman e vários argentinos .Ela.Ora.ROBERTO . Mas o jogo está passando na televisão. DENISE .acompanha as jogadas. a psicóloga e o cara. É uma reconciliação ou uma resignação? Não importa. E ela responde: “Não temos nada a perder”. E leva os dois para apresentar ao time. Quando se encontram de novo . um montão de turistas argentinos.. e pelo visto vou precisar de dúzias e dúzias de argentinos.Ah. está jantando no restaurante do hotel. não: tudo faz parte do mesmo jogo. não perde nenhum lance.parece que todos foram ao estádio . Mas não se preocupe: estamos tentando 71 . DENISE .Os dois vão juntos ver o jogo. MARCOS .E mais ainda. GARCÍA MÁRQUEZ . e também muda de hotel. MARCOS . no bar. GARCÍA MÁRQUEZ . a gente perderia a idéia dos “coitados dos argentinos sozinhos”.O hotel está vazio de argentinos .Eu queria fazer um filme aqui no Caribe. E ela.É que estamos fazendo uma comédia..Isso é uma piada. GARCÍA MÁRQUEZ. ROBERTO .Pode ser até que eles tenham de cantar o hino nacional. E atrás dos jogadores. Os jogadores ficam em posição de sentido e começam a cantar o hino.Esse pode ser o final da filme. O fulano diz: “Acabam de chegar uns compatriotas seus. ROBERTO . o tal que fica armando casais. você levanta uma pedra e encontra lá embaixo um argentino. o galã: não agüenta a invasão. A seleção argentina se hospeda no mesmo hotel. ao ver que o hotel se encheu de argentinos. vieram sozinhos. E então. Nesse hotel.Outra situação: vai ser disputada uma partida de futebol. cada por sua conta.a casualidade..Mas. então. desse jeito. REYNALDO .

a que não servir. quarto 203”. outros falam outra.Não. mas o fio condutor está aí. Uns falam uma coisa. todas as que dê para encontrar. com dez argentinos dentro. ROBERTO . No final. GARCÍA MÁRQUEZ . na paciente e nesta psicóloga que se deixou convencer de que a vida está no Caribe. por favor!” reclama a mulher. serve.E o helicóptero. Depois organizamos tudo. Não trocam nenhuma palavra. e a torcida arrasta os símbolos: bandeiras. um argentino. “Não tem outro mais lá no alto? Não gosto de andares baixos”.. muito longe da Argentina.encontrar situações. não a abandone nunca. Introduz um ruído no sistema. as lingüiças penduradas no teto. MARCOS? Você esqueceu? Quando você tiver uma idéia como essa. vê o argentino entrando no quarto da frente.Ou do caribenho típico? GARCÍA MÁRQUEZ .Maradona. é forte demais. camisetas.Tem uma coisa que me interessa pôr no filme: um desse restaurantes especializados em carne.google. Ela já começou a fugir do argentino. A que servir. Mas ela ouve o recepcionista dizendo: “Seja bemvindo. apenas se olham com o rabo do olho. de repente. MARCOS .. aquilo vira uma loucura. chega aquele aparelho. tudo idêntico. A chegada do time de futebol arrasta uma torcida. Os bifes.. 2 Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar o acesso ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras. GARCÍA MÁRQUEZ . senhor Ribarola. Quarto 205”. 72 . o recepcionista fala com ela: “Doutora Ricovix. Aqui está a sua chave.O elevador fica preso. “Não. seja bem-vinda. ao sair do quarto.. A psicóloga chega ao hotel e a primeira coisa que encontra.Acho que avançamos um pouco..com/group/Viciados_em_Livros.2 MARCOS . Começam a discutir a situação do país.. Mas no dia seguinte. Quem será? Quem é esse camarada tão importante que se dá ao luxo de chegar de helicóptero? ROBERTO ... não serve. Quando o cara vai embora atrás do maleteiro. não cabe mais nenhum. O que não dá para fazer agora é parar de procurar. Não temos ainda uma estrutura.Não vamos nos dispersar: O fato é o seguinte: a tela vai se enchendo de argentinos. Não é o retrato do argentino típico? REYNALDO . na hora de se registrar é um argentino.. será um prazer recebê‐lo em nosso grupo. Se quiser outros títulos nos procure http://groups.. fabricado em série. E tudo sendo filmado por Marcos. Quem será que está chegando? A mulher está tomando sol no terraço do hotel e.

que será comido naquela mesma noite. MARCOS.Um churrasco inteiro.Um Cristo..Mas você já tem esse personagem: o tocador de maracas. GARCÍA MÁRQUEZ . Podemos elaborá-la depois que tivermos terminado o conto. 73 . A melhor carne argentina. ROBERTO .E que eu estou vendo o Pedrito. e um de seus melhores números é justamente o de uma negra que canta um blue acompanhada por um trombone.Ela não consegue acreditar no que está vendo.Um touro argentino.Um touro caído do céu.Boa idéia. muito bem arrumado.Aliás. O grande churrasco dessa noite de festa. Um defeito no chuveiro ou no ar-condicionado. GARCÍA MÁRQUEZ . De repente. os Irakere.. Tem a ver. Como espetáculo é lindo. Tenho interesse num personagem como Pedrito.. Mas lá está o churrasco. ROBERTO . ainda cru. estamos desenvolvendo a história. impecável: bigodão.Nós perdemos a voz em off. ROBERTO .. Eles anunciam pelo hotel inteiro: “Não perca: este sábado.. GARCÍA MÁRQUEZ . e o trombone. um mulato de um metro e noventa.Todo amarrado por cordas. vocês se lembram de A Doce Vida? Começa com um helicóptero que transporta uma estátua.É um símbolo fálico. Os Van Van. ROBERTO .Espero que esteja lá a orquestra de salsa.Tiveram que mudá-lo. porque com aquele movimento. como instrumento.Não. MARCOS . por exemplo. tem mais vida que as maracas. não é? MARCOS .. o trombone de vara. REYNALDO . depois vamos acrescentar o relato da paciente.“A melhor carne do mundo”. GARCÍA MÁRQUEZ . Do pescoço do touro balança um cartaz: “Legítima carne argentina”. Vocês sabem quem é? GARCÍA MÁRQUEZ . Um touro vivo.Têm outra orquestra muito boa. chapéu branco de aba larga. dente de ouro. Grande Noite dos Pampas!”. MARCOS . GARCÍA MÁRQUEZ . E o contrário do que pensávamos: primeiro. ROBERTO . VICTORIA . a mulher abre os olhos e vê um touro voando. o cantor dos Van Van. O nosso helicóptero poderia carregar um touro amarrado.A Noite dos Pampas.

como num desfile de beleza. e o que aparece é uma orquestra de tango.. múúú!. e todo mundo comendo o touro. E lá está o touro.GARCÍA MÁRQUEZ . completamente esquartejado. evitá-los do jeito que for. temos a chegada dela. MARCOS . Uma imagem explosiva. E. do sujeito. damas empetecadas de jóias. o touro enfeitado. pouco depois. E no fim.”. dependurado em um gancho. GARCÍA MÁRQUEZ . Mas que seja um touro argentino.zás. zás. – de faca na mão. Vi fazerem isso no Brasil: um desfile de vacas num hotel de luxo. E ponto final. com as costelas sanguinolentas.Ela está tentando fugir dos argentinos.. O que sobra para que a gente veja? O tango. todos mastigando os bifes.. é proibido fazer alusões insolentes! MARCOS .Ao sair do restaurante. Agora. O que mais podemos pedir? Já temos situações suficientes para preencher trinta minutos.Que inclui o jogo de futebol. e de repente.. Estão felizes por ter-se encontrado. nos conformamos com o touro.Eu acho. GARCÍA MÁRQUEZ .. esquartejado. temos surpresas. Eu já me vejo filmando esse helicóptero com o touro balançando sobre a cidade.No nosso caso. há um desfile de várias vacas pela pista de dança. ROBERTO . as vacas.Os turistas estão esperando a banda de salsa. GARCÍA MÁRQUEZ ..Baixam o touro.. A psicóloga e o sujeito são dois dançarino sensacionais. A meia-hora se acabou.. Não acham que é um filme engraçado? MARCOS. vemos o touro aberto pelo meio. transformado em churrasco. E depois. esquartejando o animal. Depois. e ela o vê perder-se em um canto de jardim.Uma ilha do Caribe. ROBERTO . e encontra os açougueiros . por causa do futebol.E antes que a orquestra desande a tocar. como anúncio da Semana Argentina! Porque o que existe no hotel é exatamente isso: uma Semana Argentina. E.Poderia ser Acapulco.Olha aqui. depois. Desse jeito. mesas com toalhas de renda. GARCÍA MÁRQUEZ . Todo mundo muito elegante. O mestre de cerimônias anuncia: “Senhoras e senhores: nesta noite.. E de noite.. ela se engana cie porta e vai dar na cozinha. MANOLO . Nós o vemos atravessar o salão com uma grinalda de flores dependurada no pescoço. Teria que passar no México.O Caribe mexicano: Cancun. esquecemos o incidente. 74 . GARCÍA MÁRQUEZ . é preciso organizar tudo. do touro e do time de futebol.

por causa do rio da Prata. MARCOS .As damas que me perdoem: ele arrota sem querer.todos estão mortos . da Oficina.Poderiam ficar presos no elevador depois do jantar. GARCÍA MÁRQUEZ . O que você acha? É preciso ousar fazer umas coisas dessas. E a noite acaba assim. quase não consegue participar. mas fui obrigado.Quer saber o que você pode fazer? Pára o filme no meio. Se vamos fazer uma escaleta. MARCOS . Por que não voltamos à seqüência da chegada? O avião acaba de pousar. quem toma notas não tem tempo para mais nada.. GARCÍA MÁRQUEZ . é a hora do tango.e uma canção maravilhosa.. que é o verão daqui. como aconselha a etimologia. Ela que saia em julho. A pista de dança fica coberta de casais. Eu sei que é um sacrifício. ROBERTO . e você mesmo aparece na tela explicando: “Respeitável público: agora. DENISE . para nos acostumarmos ao ambiente. bem na nuca da mulher. vamos começar pelo verdadeiro começo: o consultório. a paciente. como bom argentino. GARCÍA MÁRQUEZ . e que a gente elabore uma história adequada para um argentino. sem argentinos? MARCOS . 75 . a orquestra toca um tango. Você não gostaria de um final desses.Você esqueceu o final de El resplandor? Termina com um velho retrato . vira o escrivão da Oficina.A única coisa que eu disse foi esta: chega de tango. a propósito: eu a faria sair da Argentina no inverno. com todo mundo cantando na frente da câmera o hino nacional argentino.. Ninguém está anotando.O inverno de lá. ou melhor. Aí.Eu. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ .. ela está passando pelo controle de passaportes.. aproveitamos para mostrar a cidade. ROBERTO . está tudo bem. Estão empanturrados de carne e de vinho. dominado pelo canto? Ou prefere deixar tudo para nós. Eu não queria fazer esta cena. de Prata. Peço desculpas”.Nove de julho. E os dois dançam tão bem que ganham o prêmio da noite: são coroados “Os Argentinos de Ouro”.Espera aí.... o divã. estou achando esse tango meio suspeito. mas alguém precisa fazer isso.Até o momento da chegada ao hotel. E.. dia da Pátria. a psicóloga.Ela tomou um táxi para o hotel.Acho que deveríamos retomar o fio da meada. ou seja.Depois do jantar. REYNALDO .. por cima.ROBERTO .

Portanto vamos voltar à recepção.imagens do lugar: Poderia acontecer a mesma coisa aqui: já antes de chegar. porque o ar-condicionado do outro estava com defeito. Pelo menos por enquanto. é verdade.Também pode ser o seguinte: ela chega na janela e vê a cidade. é claro.?”. REYNALDO . ao balcão hotel.GARCÍA MÁRQUEZ . Então eu queria um andar mais alto.A gente tinha voz em off. e um quarto com vista para o mar”. projetam numa tela . e então se apropria do método. Temos que estabelecer a ordem visual.No Rio. quando o avião está chegando a uma cidade turística. Outro corte. O avião aterrissa e passamos.não imagina como a paisagem é diferente. Os dois se olham. o estereótipo. Escuta o que o recepcionista diz quando dá a chave do homem. para o táxi. num corte.. não tornamos a ouvir a voz. GARCÍA MÁRQUEZ . na parte de trás. ela contempla o ambiente d cidade. as favelas. “Vai custar um pouco mais caro”. Quando dão a ela o quarto 305. só que a janela está nos fundos do hotel.. “Não. é evidente: só o óbvio. acabou. REYNALDO . ela teria visto algumas dessas imagens. sinto muito”. ela percebe o perigo e não vacila: “Tem vista para o mar”..Acho bom a gente começar a tomar decisões. Como vai? Veja só. do outro. Esta 76 . “Ah.O homem imediatamente muda de quarto. GARCÍA MÁRQUEZ .. é preferível definir uma linha de ação que seja muito clara. Do táxi. e quando sai na varanda do quarto.Ela sobe. “mas o senhor não estava. De um lado está o mar. E em determinado momento. GARCÍA MÁRQUEZ . Aí está a graça da Oficina: a gente vê como se desenvolve. não tinha? Agora. Chega no balcão e nota que o sujeito que está se registrando é argentino. “Muito bem.Vamos retomar a idéia do táxi. é claro . precisei mudar de quarto.dentro do avião. e pode fazer tudo sozinho. quando ela sai na varanda do quarto.pela frente. MARCOS .. a primeira versão. vê que ele está na varanda vizinha. Não parece muito com o que o vídeo de turismo exibido no avião mostrava. ROBERTO . perplexos “Desculpe”. aqui está: o 807”. Pergunta. Quando a gente chega nesses hotéis . A realidade está lá. ela está no hotel.Neste tipo de história. “Não faz mal”. SOCORRO . quando vista pelos fundos.No Brasil. o hotel Sheraton está na frente das favelas..Depois que ela retoma o protagonismo. e depois ir complicando durante o primeiro tratamento. Não imagens de cartão postal. diz ela apontando para baixo. encontra uma vista panorâmica da cidade. GARCÍA MÁRQUEZ .

quer merecer a gorjeta..As paredes do quarto estão cobertas de enormes fotografias de paisagens. querendo se livrar dele. Claro que o rapaz insiste: afinal. já teve tempo de mudar de quarto. peça outro quarto. ela ouve barulho do quarto vizinho. ela liga o rádio. chegue lá e. aqui. MARCOS. onde está ele? Mudando de quarto? GARCÍA MÁRQUEZ . tudo irritante. e que a mulher esteja sentada. obrigada”.Também pode ser que o boy tenha dado a ela a programação noturna do hotel.Ficamos no seguinte ponto: na recepção. GLÓRIA . Aquela música ambiental.Não. sai à varanda. desesperante.Não. CECÍLIA ..Eu me perdi. sim. não. GARCÍA MÁRQUEZ . torna a ver o sujeito. Aliás.E a gente precisa terminar nesta jornada. SOCORRO . Mas existe aí um vazio que precisamos preencher: E preciso dar tempo para que o homem descubra que seu ar-condicionado não funciona. MARCOS .Que horror! REYNALDO .. o pampa argentino. senhora. GARCÍA MÁRQUEZ . que apareça na varanda. olhando o folheto. nós dissemos que ela está vestindo roupas de inverno? CECÍLIA. experimenta dois maiôs antes de descer para a piscina. GARCÍA MÁRQUEZ .Antes.De repente.Praias..Ela se instala. somos criadores: é preciso dar à história o tempo que ela quiser. Alguns minutos mais tarde. veja. Enquanto isso. Nós não somos produtores. é o controle de luz.O boy ligou a televisão para ela. “Aqui. Ela responde: “Sim. o ar-condicionado. no fim. GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO . GLÓRIA .. MARCOS . água fria”. A cordilheira dos Andes. a psicóloga exige um outro quarto. palmeiras contra a luz. arruma as roupas no armário. água quente. GARCÍA MÁRQUEZ.Vamos deixar isso de lado. e lá está o galã argentino. O diretor que decida.Estamos pensando em uma montagem paralela? 77 .Quem faz isso é o boy que levou sua bagagem. quando se instala.Ele subiu primeiro. SOCORRO . SOCORRO .Machu Picchu. MARCOS .. O banheiro é logo ali.história tem a desgraça de estimular a imaginação: todo mundo tem alguma coisa para acrescentar.E.

e. nunca sabemos direito o que vai acontecer: Agora.. poderia parecer que o filme é isso. óculos escuros. GARCÍA MÁRQUEZ .. no final se resigna. Talvez ele seja um executivo que anda pelo Caribe vendendo aparelhos de ar-condicionado. faz um leve gesto de cumprimento e ela não consegue se conter: “Mas o senhor não estava em outro andar?”.Ela se resigna. desliga. acompanhado do mesmo boy com as malas... CECÍLIA . tenta escapar dele. quando sai do quarto.Entra no quarto. tentando repetir a rotina. GLÓRIA . Ele acha que a reconhece. por exemplo. estamos calculando tempo. faz um gesto de cumprimento. Esta história é muito difícil. não. Ele está na varanda vizinha. vai até o telefone disposta a pedir outro quarto. É preciso tentar armar a escaleta e medir o tempo. Não tem por quê ficar esticando cada piada.Não acho bom ela ver o homem na varanda. de repente.Não.A próxima seqüência seria a dela mudando de quarto. vê o homem. estamos na metade ou na terceira parte do filme? 78 .GARCÍA MÁRQUEZ .Nós já demos a esse camarada tempo suficiente. e então sai à varanda. ágeis. arrumando suas coisas já no outro quarto. mas está pensando em outra coisa. Porque senão. GARCÍA MÁRQUEZ . disca o número e.Não. de novo. Quando o boy sai e ela fica sozinha no quarto. porque. Não abandonamos a mulher em nenhum instante. se arruma e. se transforma. é melhor não mudar a mulher de quarto.. como é de um enredo atrás do outro.Ela fica lá mesmo. ROBERTO . Ela é que não disfarça sua rejeição.Não precisa explicar mais nada. o jogo de esconde-esconde. Ele a reconhece. Essa é a sua primeira capitulação. Isso abre espaço para situações mais engraçadas. Ela muda de roupa. ele também anda procurando um romance tropical. Desiste. ainda vestido de argentino. GARCÍA MÁRQUEZ .Mas isso não impede que ele seja gentil com a mulher. E o mesmo boy. REYNALDO . Mas nós já dissemos que o camarada não estava interessado na psicóloga. GLÓRIA . aspira profundamente a maresia do Caribe. MARCOS .. torna-se 'tropical' à maneira dos turistas: blusa colorida.Meu medo é que já temos dessas situações de sobra. sem esperar resposta. Ela fica: vai aceitando a fatalidade aos poucos.Eu prefiro assim: situações breves. que está entrando.. GLÓRIA . e. encontra o galã. GARCÍA MÁRQUEZ .. cada vez que a encontra. no quarto ao lado.

É uma forma de dizer: está vendo como conheço os hábitos do lugar? GARCÍA MÁRQUEZ .. A orquestra de salsa está tocando. Trinidad e Tobago. Primeiro. A voz em off é ouvida de novo. GARCÍA MÁRQUEZ . uma labareda tremenda .É preciso não deixar amontoar.Ou seja. REYNALDO .e os gringos.. uma bebida cubana com nome japonês.E cadê o time de futebol? GARCÍA MÁRQUEZ . Daí passamos.O seu 'destino sul-americano'.fuuuff. fica plantada na frente do barman e pede um mojito. Ela pede a bebida xis e o que levam é uma taça 'Carmem Miranda': um copo enorme. ao cabaré do hotel. corte a corte. Ela olha fixo para o tocador de maracas. Fui de ilha em ilha e descobri que as ilhas são um mundo e os hotéis das ilhas outro mundo muito diferente. Antigua. MARCOS . ELID . E a transfiguração turística da realidade exterior. Entra no elevador e vai direto para o bar. ela aceita a primeira fatalidade. Não pode mais escapar. cheios de felicidade por terem conhecido algo tão típico. folhas e flores.Ela já mudou de roupa.ROBERTO . se lá fora a carne é assada sobre brasas. e o do argentino. nenhum deles com menos de cinqüenta anos.Muito bem. como o chapéu da cantora. está caçando o músico.. que anuncia todas as desgraças posteriores. Bem. estão os dois “encontros” da mulher: o do Caribe.. esse 79 .E aí o que acontece. Barbados. não.Para a maioria dos turistas. Nos hotéis... coroado de frutas. MARCOS . Guadalupe. eles pegam um pedaço da realidade exterior e o transformam. GARCÍA MÁRQUEZ .Tanto assim.Como diria Cortázar. uma coisa dessas faz com que se sintam vivos. fazendo o retrato idealizado do personagem. Como já tem referências das coisas do Caribe através da paciente. com mais domínio da situação. no hotel o churrasco é servido por negros vestidos de pirata e que trazem uma frigideira enorme e...A gente não ia trocar as maracas por outro músico? REYNALDO . Na verdade. porque ela vem fugindo da Argentina e dos argentinos e a primeira coisa que encontra no hotel. ELID .E os rumbeiros por uma orquestra? ELID . ficam encantados. Temos de ir passo a passo. de repente. MARCOS? Qual é a idéia? MARCOS . Estamos entre cinco e sete minutos. Quando eu estava escrevendo O Outono do Patriarca percorri as Antilhas Menores: Martínica.Um encontro que é um desencontro. cinco minutos depois do começo do filme. Por exemplo. botam fogo .

GARCÍA MÁRQUEZ . de sua copa 'Carmem Miranda'. quem sabe. que se mete com todo mundo...Eles nunca se atreveriam a dizer coisas assim. Lá fora. GARCÍA MÁRQUEZ . mas enfim. ele diz: “Que coincidência. chega perto e gentilmente a convida para dançar. uma mangueira acolá.É preciso aproveitar a atmosfera. MANOLO .Eu não a imagino assim... que se apresentava como sendo o senhor Pereira. ele mesmo se convida para se sentar ao seu lado. ela vai diretamente aos camarins para tentar falar com o músico.Ela vai procurar o músico e o músico está conversando justamente com.. Ela já começou a mergulhar na vida artificial. é que nós temos trinta minutos e já gastamos dez. REYNALDO . Pepino que nasce torto cresce torto. e ir complicando as coisas aos poucos. São tímidos. MARCOS . E o que está acontecendo é que.Ela está sentada na frente da sua cascata tropical. e você acaba não vendo nada.. MARCOS ... CECÍLIA .Ela está na sua mesa e o argentino. seca: “Eu não atravessei o continente para me encontrar com meus vizinhos..Com o argentino.É preciso que aconteça alguma coisa que sirva de gancho para manter o interesse do espectador. REYNALDO .. nunca tanto como a realidade.sentido da 'reprodução comercial' da realidade exterior se presta a todo tipo de exageros... vemos uma bananeira aqui.. GARCÍA MÁRQUEZ .. ao vê-la... Ou vamos fazer um filme de surdos-mudos? Lá pelas tantas. em Argel. porque o cinema também gosta de exagerar.. ROBERTO .Já é hora de ela e o argentino conversarem. E ela. o ambiente. atravessa o salão. que faz piadas. GARCÍA MÁRQUEZ . Ou.”. e eles não são tímidos. Conheci um. e mal consegue ver o tocador de maracas: precisar afastar as folhas e as frutas para poder vê-lo. têm os seus caprichos.Eu conheço os argentinos muito bem. Por que não voltamos ao tocador de maracas? Um sujeito com carisma. nos encontrarmos aqui nos trópicos!”. Além do mais. Não conseguem entender o que está acontecendo. o argentino. GARCÍA MÁRQUEZ . Claro. Um encontro casual.. mas advertindo que o sobrenome 80 . é claro. tão agressiva. É preciso começar com uma linha de desenvolvimento muito simples..Quando o show termina. Como a noite acaba? DENISE . mas aqui dentro eles colocam tudo junto. e isso agora nos convém.Ela e o sujeito poderiam chegar ao hotel no meio de uma grande confusão.

Os dois se viram pela última vez na cena da varanda. mas encontra o argentino. Ele também anda caçando uma aventura: preferiria uma negra ou uma mulata. MARCOS . Ninguém dança a conga: encaixa. sente-se para escrever e desenvolva a seqüência inteira dessa noite.Muito bem.. tudo. mas não sou o Pedrito. ela não desiste 81 .Quero ficar um pouco mais nessa noite: quando o show acaba. na Venezuela”. GARCÍA MÁRQUEZ . desolada: ficou sem programa para esta noite. amiga de Fulana de Tal.. que manda lembranças. Não se esqueça que a seqüência seguinte é a da piscina. um atrás do outro. se conforma com a argentina. ela vai ver o músico das maracas. Ele agora se insinua e ela. REYNALDO .era com y: Pereyra. se aproxima. e vai embora sem falar com ela. A psicóloga mandou um recado ao músico: “Sou argentina. GLÓRIA .. mas se não aparecer nenhuma. é justamente atrás dela. GARCÍA MÁRQUEZ .. na verdade.. MARCOS: você acaba de encontrar uma maneira muito argentina para definir uma dança chamada conga. no final da noite..A situação dos dois tem que ficar definida nesta noite.Nesses cabarés é comum. O capricho deste aqui é dançar com a psicóloga. sou o substituto. GARCÍA MÁRQUEZ . vir até aqui para acaba dançando tango!”. imagine só. Corte para o dia seguinte: vemos a mulher tomando sol. “Eu sinto muito.E o lugar dele . Pedrito está numa turnê com a banda dele. o rejeita: “Ora. sem pensar duas vezes.. da cena de Romeu e Julieta. nervosa. Deixa claro que está procurando outra coisa. Corte para a cara da psicóloga.. o sabor das Antilhas. vê os dois conversando. na piscina. acha que são amigos. da mesa dela.. Posso encontrá-lo depois do show? “ SOCORRO . O músico sai do camarim. No fundo.Ela tem um pretexto: sua paciente. SOCORRO .O músico. O argentino chega perto. então.. não é?. MARCOS . Marcos.Não sou capaz de imaginar uma psicóloga de Buenos Aires indo pessoalmente buscar o músico. GARCÍA MÁRQUEZ . a viagem. um agarrando o outro pela cintura. o animador convocar todo mundo para dançar numa espécie de trenzinho. encaixa uma pessoa na outra. esperando o tocador de maracas acabar de trabalhar para abordá-lo! A galanteria de seu compatriota ameaça estropiar a noite. onde ela vê o helicóptero chegar.Manda o recado por um garçom.Esse trenzinho. E ela. é verdade. muito diferente.veja só que coincidência! .no cordão. animados.

Para chegar onde chegamos. Mas se ele tiver ido embora. não perdemos o nosso tocador de maracas? MARCOS . Um show forte .e ela sozinha na sua mesa. Mesmo que seja outro tocador de outras maracas. ainda contraída. etc.. ele mudou. cha-cha-cha . SOCORRO .Ele já deu um certo peso à história. vendo o helicóptero 82 . É a hora da velha conversa: “Imagine.. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . ELID . ela perde duas vezes: nem argentino. Ela aproveita uma pausa da orquestra para mandar o recado pelo garçom.. é o substituto.Acho que o dia da chegada está resolvido.da idéia do tocador de maracas.Olha. A coisa começa com a chegada do time de futebol..o mesmo argentino que nós não víamos desde a cena da varanda. O que importa agora é a relação dela com o argentino.Faz parte do clima criado ao redor da Semana Argentina.. REYNALDO . etc. sem tirar os olhos do tocador de maracas. GARCÍA MÁRQUEZ .Quero ressaltar uma coisa: quando o músico substituto diz a ela que Pedrito foi para Caracas. tão longe de casa”. mas agora virou fumaça. diz ele. o argentino chega . O músico chega até a mesa e diz o que combinamos: ele sente muito.E que a gente não pára de misturar as cenas. guarachas. nós aqui. MARCOS. Não desempenha nenhuma outra função no resto do filme. MANOLO .Você tem razão. “Sou seu vizinho”. e aparece a piscina. as bandeirinhas. “Posso?”. devo dizer que estou tentando tirar esse músico de circulação. e senta sem esperar a resposta. não é? A noite começa no cabaré. contraída.. passamos a outro da cara dela. nem músico..E se o argentino continuar ali. para ser bem sincero.. porque é justamente assim que o filme deve terminar: com os dois dançando tango. GARCÍA MÁRQUEZ . De repente. De agora em diante não precisamos mais do músico das maracas.Pelo que estou vendo. ela passa a ter essa opção.mambos. arrastando a torcida..De um plano da cara da mulher. e vamos acabar ficando sem entender nada. não tem mais nada a dizer. Ou melhor. MARCOS . O personagem foi uma isca para levar a psicóloga ao Caribe. ouvindo o tocador de maracas. Quantas vezes uma coisa parecida não aconteceu com a gente? Quantas vezes ao longo da vida. há um corte abrupto.Essa frase dela é fundamental. MANOLO . quanto tempo foi gasto? GARCÍA MÁRQUEZ .Eu calculo que uns sete minutos. vocês não desistem da cena do tango. mas não é o Pedrito.

você tem que ver outra vez A Doce Vida. para pegar alguns elementos. GLÓRIA . GLÓRIA .É feito um furacão.O que ela vê são os olhos do touro.. abatidas pelo vento. diga.Ela consegue se refazer da surpresa. olha por cima do muro e vê os jogadores chegando. passa a touro. De lá também se ouve o ruído da rua. GARCÍA MÁRQUEZ .Depois que acontece a história do touro.O pessoal do hotel não sabe lidar com esses bichos.Esses eventos são realizados sempre pelo país “homenageado”. Ela agarra uma toalha. deixando bem claro que se trata citações. MARCOS . E sobre as palmeiras. Mas uma cara sonolenta e depois atônita por causa da surpresa do vento e do ruído. sombrinhas. ao lado da piscina. GARCÍA MÁRQUEZ . Atrás deles.. poderia nos explicar como fazemos para tirar esse touro do jardim? GARCÍA MÁRQUEZ .Eu também me preocupo é com ela. E que tal fazer que o argentino seja o organizador disso tudo? Ora.E se ele escapar e espalhar pânico entre os hóspedes? GARCÍA MÁRQUEZ . parecem estar olhando diretamente para ela. . centenas de turistas argentinos agitando bandeirinhas argentinas. faz virar um turbante. sim.O corte é para a cara dela. Pode até colocar entre aspas. MARCOS . Bem: o que fazemos com o touro? SOCORRO . você leva o o filme lá para cima. Marcos. que é argentina.. o time de futebol invade o hotel..Ela está esticada placidamente na espreguiçadeira..Ou até mesmo antes: ao ouvir a mulher falar. Liga a 83 .MARCOS. sente um ruído que vem da rua.. você está salvo! Com esta cena. Como a tiramos dali? Arrancar uma pessoa que está tomando sol numa piscina não é nada fácil. e quando ela ainda está no terraço do hotel.Quando o helicóptero desce e deposita o touro no terraço. o vento leva o chapéu da psicóloga pelos ares. GARCÍA MÁRQUEZ .chegar. Poderíamos conseguir uma cena muito curiosa. se ela visse as bandeirinhas antes.. a senhora. e sobe para o quarto. E então percebe que o touro está dependurado no helicóptero. Se pelo menos tivéssemos um argentino à nossa disposição. ELID . CECÍLIA . nesse momento. o gerente exclama: “Ah. para que ninguém tenha dúvidas. minha senhora. balançando por cima do muro.. se dirige à recepção para apanhar a chave e. é claro! O argentino é o organizador Semana da Argentina! ROBERTO . como uma alucinação.A ventania do helicóptero faz voar mesas.

Vocês.. que ter que explicá-la.Ela não deve mudar de hotel. e eu espero que não sejam elementos da estrutura. Bonés. ROBERTO . está tudo lotado. a televisão está sobrando.. O que mais ela precisa? É sempre melhor inventar uma ação. o helicóptero e o touro. depois.. Nesse meio tempo.. ela vê a recepção do time pela televisão. eles acabam dançando um tango num hotel mequetrefe.Vamos ver a seqüência “os argentinos vêm aí”. E. Primeiro. vai até a varanda e torna a uma a multidão.. foram chegando os ônibus. Enquanto está no terraço.. apitos. O sujeito é o organizador do evento. ela entrando no hotel e subindo para o quarto. CECÍLIA . os turistas agitando a bandeirinhas. se ninguém impedir.Se ela for mudar de hotel. ela vai encontrar a República Argentina inteira. ou participar dele de algum jeito. para depois preenchê-la com calma..televisão e quem ela vê? O argentino. Pode ter alguma coisa a ver com o evento.. vê a chegada do 84 . senão. necessariamente. GARCÍA MÁRQUEZ . depois.Sim.. GARCÍA MÁRQUEZ . mas não encontra lugar..Quando sobe para o quarto. MARCOS . GARCÍA MÁRQUEZ .O hotel ameaça virar um lugar insuportável.Ela tenta de todas as maneiras. daria na mesma: a cidade inteira está do mesmo jeito.Se o sujeito for mesmo o organizador do evento..Ele não precisa.Mas isso não quer dizer que não tente mudar. Pode até ser o intermediário que vendeu o touro. Está dando uma entrevista. ela vê o alvoroço armado com a chegaria do time. Não existe mais nenhum lugar onde ela possa se meter. MANOLO . GARCÍA MÁRQUEZ . escuta os foguetes e os morteiros. ROBERTO .. REYNALDO . mas antes ela viu a chegada do time. GARCÍA MÁRQUEZ . Até agora andou vagabundeando por ali. De repente. aqui. O recepcionista explica.Não tem ninguém anotando? Assim perdemos coisas. a chegada do time de futebol. MARCOS . temos de ver para que tipo de hotel. porque o evento não tinha começado e o time não tinha chegado. SOCORRO . Precisamos armar uma boa estrutura. bandeirinhas. com muito tempo livre. cheios de torcedores. camisetas.E mesmo que ela mudasse de hotel. não vai ter nem cinco minutos de tempo livre. os torcedores.. ser o organizador. ela telefona para a recepção: “Será que alguém pode me explicar o que está acontecendo?”. ao mesmo tempo. Quando sobe para o quarto.Acho que. acabam entrevistando até o touro. É desse jeito que ela fica sabendo quem ele é.

não precisamos falar do cocô.. pede um táxi pelo telefone do quarto. GARCÍA MÁRQUEZ .MARCOS. 85 . GARCÍA MÁRQUEZ . a cerimônia toda. No fim. ela já está no quarto. chegam logo três caldeirões: vê o time pela televisão. Uma pasta verde cai em cima dela. então. e respondem que não existe nenhum táxi disponível. MARCOS . GLÓRIA .Quando telefona para a recepção para saber quê diabos está acontecendo. por causa da chegada do time. vão matar você em Buenos Aires! Se não fosse um filme sério. um telefone.Então.É a redundância absoluta. não ouvimos a resposta do recepcionista. enquanto isso. REYNALDO . fisicamente: não basta receber apenas o impacto visual. GARCÍA MÁRQUEZ . cadê o argentino? Onde é que ele se meteu? Temos de saber isso.Ela procura a guia telefônica. a psicóloga despertaria.. REYNALDO . os guarda-sóis. Ela. Ela recebe a mesma informação por três vias diferentes. e observa tudo pela janela. e sim sobre ela com os argentinos. tenta em vão mudar de hotel. saindo do chuveiro.E exigindo explicações por telefone. GARCÍA MÁRQUEZ . Aí. embora esteja claro para nós que o filme não é sobre ela e o argentino.Ou seja: para quem não queria sopa. que sente o cheiro e dispara atrás de um chuveiro para se lavar. vai até a varanda. MARCOS . ela já fez o que tinha para fazer. e sim a do apresentador de televisão. Todo mundo corre de um lado a outro. ouve a notícia pelo telefone. E. na piscina. REYNALDO .Temos a ventania: o vento arranca o seu chapéu de palha de abas enormes.time. claro. VICTORIA . leva sombrinhas pelos ares...É uma seqüência tumultuada'.Ela precisa sentir alguma coisa. que 'responde' à sua pergunta. porque sente que a confusão vem lá de baixo. Quando você der o corte. MARCOS.. no momento em que o touro larga um aguaceiro de cocô. a ordem da seqüência está clara. GARCÍA MÁRQUEZ .. Mas tudo isso poderia ser feito na mesma locação: o bar da piscina tem uma televisão e.Argentina contra a Seleção Mundial. Ninguém quer perder esse jogo: Argentina contra o resto do mundo. CECÍLIA . Com todos os argentinos.Bem.Quando ela perceber o que está acontecendo. liga para outro hotel e dizem que não há nenhum quarto vazio.

Nessa seqüência demos toda a informação necessária. não é? MARCOS . que começa com o helicóptero e termina com a tentativa de fuga. o direito de nos perguntarmos. GARCÍA MÁRQUEZ . para poder pensar no que está acontecendo. GARCÍA MÁRQUEZ . como um narrador de radionovelas: quanto tempo vai demorar até ele entrar definitivamente em sua vida? CECÍLIA . o camarada diz alguma coisa que chama a atenção da psicóloga. só dá para isso..Vou pensar nisso. poderia se chamar O dia em que os argentinos invadiram o mundo.pelo menos. a sua imagem . Quando começamos. o que me preocupa é aquilo que você perguntou antes: onde diabos foi parar o argentino? O último tango no Caribe CECÍLIA . MARCOS .Está parecendo que essa história vai durar um dia só. Aliás.Ele está sendo entrevistado pela televisão.Essa seqüência.Na entrevista. então. Mas agora.A informação que estava faltando é dada pelo recepcionista. “Pense bem.e temos. Está lendo a entrevista. MARCOS . ROBERTO . A cidade está invadida. Está rodeada.. agora.É para isso que temos cabeça.GARCÍA MÁRQUEZ . GLÓRIA . Precisa cuidar de seus assuntos.Pelo menos já sabemos quem é argentino. Ela pode começar a se sentir um tanto paranóica. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . REYNALDO .O que precisamos contar agora é justamente isso: o que aconteceu a essa pobre argentina quando os argentinos invadiram seu mundo. por telefone.Sentou-se para ver.Eu acho que agora ela precisa de um momento de repouso.E depois? Estamos construindo um roteiro sem saber o que vai acontecer no minuto seguinte. 86 . Ela nota que ele não é nenhum bobo. E já entrou no quarto dela .Ele. DENISE .Ela continua no quarto. o que podemos fazer? É o seu país contra o mundo inteiro!”. também não sabíamos.É o relações-públicas do time de futebol. não tem mais tempo para nada. GARCÍA MÁRQUEZ . senhorita.

ela. que foi levar um convite de festa para ela. de recepção. fez-se enfim um instante de silêncio. ela cede.É ele. senão o nosso filme estaria danado.A Argentina não pode perder. Ainda bem...E. na seqüência final do filme. alguém bate suavemente à sua porta.A frustação dela. Ainda bem que com o argentino não temos nenhum problema. o que você quer que ele faça? Aliás.. GARCÍA MÁRQUEZ . para depois.. ELID . Estamos nos inclinando na direção de um final feliz. como ele está no quarto vizinho. MARCOS . na grande festa final. A festa..Ela.GARCÍA MÁRQUEZ . é a de boas-vindas. ROBERTO . abatida. se resignou a não ver o músico.Não existe mais o tocador de maracas. GARCÍA MÁRQUEZ .Mas se ela está desconsolada e desgraçada. seja como for. está deprimida. acabamos de perder o nosso final. Vocês sabem quem é? GARCÍA MÁRQUEZ . o barulho da rua continua chegando pela janela. Aliás.. mas deprimida de verdade. precisamos filmar o jogo. GLÓRIA ..Que final? MARCOS .Nós nunca saberemos quem ganhou. tem de resignar a passar as férias no meio de 87 .Mas a argentina vai perder! GARCÍA MÁRQUEZ . agora.Faz um prognóstico sobre o resultado do jogo. está resignada ou fascinada? GARCÍA MÁRQUEZ .O que interessa é que ela aceita o convite. GARCÍA MÁRQUEZ . o que você faria no lugar dele? REYNALDO . O jogo vai ser no dia seguinte. ele insiste. Talvez dê a entender ao camarada que viu a entrevista pela televisão. não dá para ninguém sair nas ruas.Os trópicos se argentinizaram. reclama..Ela está no quarto.Filmar esse jogo não é fácil.E com isso. depois de sua tentativa inútil d emudar de hotel. MARCOS . os dois vão se encontrar. CECÍLIA . GARCÍA MÁRQUEZ . Ou estamos pensando em material de arquivo? REYNALDO . A psicóloga protesta. Desligou a televisão.Coitada! Primeiro. para mim.. de repente. que os trópicos foram para a cucuia.. GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS .E lá está o argentino para consolá-la.Ficou claro. ELID . porque o músico estava viajando: agora. celebrar a vitória. no fim.

chega à festa no momento em que o touro está no meio do salão. GARCÍA MÁRQUEZ . esse ruído fica menor: é a paciente.Um diálogo pelo avesso.se levanta. a festa já começou. havia notado que ela estava deprimida.Vendo a festa pela televisão. Sai da cama. O touro está desfilando. uma analogia com o divã do seu consultório.argentinos. CECÍLIA . Toma um comprimido para dormir... de antemão.. que traz um presente. Ela não quer saber de ninguém. o ruído continua. obrigada. como o argentino. REYNALDO . não se entregar tão facilmente. CECÍLIA . SOCORRO . No grande salão do hotel.. Corte.Poderíamos ainda dar uma outra volta a esse parafuso diálogo com a paciente: Batem na porta. Mas o ruído da festa entra pela varanda.Previsível demais. mas a voz em off acaba triunfando. DENISE . no meio da alegria geral. O que ela pretende fazer? Psicanalisar a psicóloga.Ela ainda não desceu do quarto. tira do armário um vestido de gala e.. um churrasco preparado para homenagear os argentinos. De repente.. CECÍLIA . E ela. É o boy. surge de maneira natural.Um prato especial.Não vamos nos enganar: o argentino é um sujeito verdadeiramente encantador. O cara não se dá por vencido. Lá fora. o que está fazendo? MARCOS .Há um aspecto aí que acho interessante: ela se estender rígida na cama. Um ramo de flores? GLÓRIA . E. no quarto.. GARCÍA MÁRQUEZ .. ele torna a insistir em seu convite. Só quer saber de dormir. não. vai buscá-la e a convida a juntar-se 88 . tenho outros compromissos”.Não. entrando numa festa. Estende-se na cama. GARCÍA MÁRQUEZ . então. rodeado de fotógrafos. e vemos a mulher vestida de gala. não quer saber de nada. num bilhetinho.Ela também pode apresentar alguma resistência. como uma coisa muito orgânica. REYNALDO .Ela diz ao homem. em sua visita. A psicóloga entrega os pontos. corn uma certa dose de arrogância: “Não. Vai persuadi-la a ir à festa.. Vamos vendo a mulher de corte em corte. Está com os nervos em frangalhos. ele . A psicóloga insiste. GARCÍA MÁRQUEZ . sempre contrapondo sua depressão ao barulho alegre da festa..que está numa mesa com vários amigos . Quando ela desce e entra na festa. resolveu mandar um presente. Fica estabelecida.E é verdade que o 'diálogo'.

e não para esculhambar os argentinos. Ela não pode deixar de se comover com o gesto. ROBERTO . CECÍLIA . GARCÍA MÁRQUEZ .Quando batem na porta e aparece o boy com o carrinho. ele pode ter reparado isso de algum outro jeito. não precisa ser nenhum mojito. sozinha?”. REYNALDO .Ela poderia manter seu diálogo imaginário com a paciente em algum canto solitário de bar.. para que suba de novo ao quarto. e fica pensativa.. e pronto.É melhor ela ficar em seu quarto. não pedi nada... e que o galã faça essas gentilezas: um prato especial.Um momento: o carrinho e o boy substituem a visita pessoal do argentino? Eu acho que essa visita é necessária. Disse a si mesma. o churrasco. ainda encontrou tempo para cuidar dela. Então. tira o vestido mais elegante.ao grupo. vê a si mesma no espelho. Com toda a confusão que o sujeito tem que resolver. senhorita.Se ele manda a comida. ela estranha: “Deve ser algum engano. é porque pensa que ela vai ficar no quarto.Cuidado: este é um filme para exaltar o patriotismo argentino.O carrinho e o diálogo são suficientes para decidir a rendição 89 . Assim que ela tira a tampa da bandeja.Ora. Tem argentino por tudo que é canto. Fica com medo de enlouquecer e corre para se trancar no quarto.. GARCÍA MÁRQUEZ . Ela tenta combater sua depressão indo ao bar e tomando alguns drinques. O filme é isso. Pode ser um daiquiri. e com razão: “Por que diabos vou comer aqui. e aí entra a voz em off. ELID .. vê o bife fumegante. DENISE . um objeto de artesanato do país. deixando rolar uma lágrima furtiva. a psicóloga deve reafirmar seu argentinismo. por exemplo. fazem um comentário banal. ELID . Não é nenhum engano. Ela torna a encontrar o camarada no bar.. Mas logo percebe que não tem onde se enfiar. é uma entrega a pedido do etc”.Mas. deprimida. GARCÍA MÁRQUEZ . GLÓRIA . SOCORRO . Não gosto que ela se tranque. Sentam-se juntos. desta vez. Ela recusou.Ele pode ter batido na porta e entregado o convite. sorriem.A bebida acaba dando coragem a ela. mude a roupa e se apresente na festa. SOCORRO .. que se mostre tão passiva.”.. para que ele veja com seus próprios olhos que ela está deprimida.Durante a conversa com a paciente. Ela vê a comida. caminha até o armário. chega o carrinho. desmorona na cama..

por algum problema de vocabulário: quando falamos que haverá uma comida. vê que se aproxima um gruoo de argentinos a tenta escapulir. Temos que terminar a estrutura. Afinal. 90 . não existe filme.Essa mulher não pode sair. GARCÍA MÁRQUEZ .de uma mulher como esta? GARCÍA MÁRQUEZ .Ela está sitiada. Até aqui. Toma consciência da bobagem que está fazendo. frustrada em sua fantasia tropical. Se ela não se render. ela decide sair do hotel. GLÓRIA . mas estou vendo que. depois de uma hora e meia. porque continuo com uma dúvida.Mas deve pelo menos tentar. mas que pode ser interessante. então. não é? Já tentou escapar e não conseguiu. Ele não volta mais ao próprio quarto. “Desculpe. Vai ver agora. ROBERTO .. GARCÍA MÁRQUEZ . Em que momento ele entrega o convite? Ao cair da tarde. Já está vestido a rigor. que a convida para a festa. O que mudaria é o caráter da sua decisão: agora. Ainda não viu a praia.. VICTORIA . REYNALDO . calcular quanto tempo ainda temos e preencher esse buraco até completarmos meia hcrra. o que ouve?”.Eu gostaria de retomar uma idéia que ficou perdida pelo caminho. a hostilidade do ambiente. não desce por causa dele: é por causa dela.Ela desce. então já é de noite? GARCÍA MÁRQUEZ . REYNALDO . MARCOS . ou então. se tranca no quarto. simplesmente ir caminhar pela praia.. Uma imagem atroz. Ele nota que a mulher andou chorando. Ou será que vai ficar fugindo até o fim? ELID .Bem.Tudo se arma nessa direção: o diálogo imaginário. A história da entrevista do camarada pela televisão permanece? Porque. Nesse momento. nesse caso. encontra o camarada no corredor. pela primeira vez. A mulher.A entrevista pode ter sido gravada.Talvez não tenha ficado claro..Não podemos perder a escaleta de vista. estão esquartejando o touro. não é? Quando vai sair do quarto. GARCÍA MÁRQUEZ . É.Volto atrás. Além disso. ele não pode estar ali convidando-a pessoalmente.Se ela não capitular depois de meia hora. GLÓRIA . ela tentou mudar de hotel. vai acabar se rendendo uma hora depois. estamos querendo dizer que é um jantar.. a gentileza do argentino. e por engano empurra uma porta que vai dar na cozinha. estamos mais ou menos dc acordo. Está sitiada. também veio ao Caribe para isso.Ah..

GARCÍA MÁRQUEZ . O touro foi adquirindo uma importância que não tinha. O tom. Agora. quero dizer.Os brasileiros não perdoariam isso. para ver se podemos contar com uma boa estrutura.Só o time brasileiro pode enfrentar o resto do mundo.O que vocês acham de metermos o Pelé no filme? GARCÍA MÁRQUEZ .. acho bom vocês guardarem a ironia e as piadinhas e todo o resto para o filme.. meio e fim. DENISE . não importa a duração. MANOLO .Quando estamos trabalhando na estrutura. Pelé faz o discurso de boas-vindas. MARCOS . GARCÍA MÁRQUEZ . Quando coincidimos na Espanha.Estamos preparando o passo seguinte. começa a festa.Estou tentanto chegar ao final. Com chances de vitória. você pode trabalhar nela 91 .Um toque de humor negro. GARCÍA MÁRQUEZ . MANOLO . GARCÍA MÁRQUEZ . Vamos pedir a ele que dê ênfase ao significado do jogo: Argentina contra o resto do mundo.Olha aqui. MARCOS . Quando a tentativa de fuga se frustrar. desfilando pelo salão com um colar de gardênias no pescoço.SOCORRO .Enquanto ela continua em seu quarto sem decidir se desce ou não. ela cairá na resignação total. não vou falar o que ia dizer: que a festa dessa noite seria mais espetacular que o carnaval do Rio. Quando tivermos uma boa estrutura. e com prazer: Conheço o Pelé. ROBERTO . podemos esquecer o gênero por um momento.Vamos ter problema com o tempo. Depois. MARCOS . com começo.Então. a gente vê o touro pendurado no helicóptero.. a gente ajusta depois. GARCÍA MÁRQUEZ . REYNALDO .A fuga da mulher não me convence.Se ele estiver passando por ali na hora da filmagem podem deixar comigo. finalmente. GARCÍA MÁRQUEZ ..Primeiro. Sabem o que posso propôr a ele? Que dê as boas-vindas ao time argentino. Senão perde o sentido. Tenho certeza de que aceitaria. jamais. esquartejado na cozinha.A história perdeu seu caráter de comédia.Essa festa é uma mina. Mas é verdade: o fracasso deve ter uma razão dramática sólida. somos sempre vizinhos de quarto no hotel Ritz de Madri.Isso depende do tom. ajustaremos os tempos. GARCÍA MÁRQUEZ . Uma vomitadinha no meio da comédia nunca pega mal. MARCOS . E.Essa cena da cozinha é horrível.

Se eu soubesse não proporia uma imagem. Marcos. REYNALDO . que estão de uniforme. A festa termina de madrugada. e cantam. toma outro elevador. que o touro está sendo esquartejado.. O ruído lá de baixo. ROBERTO . estão esquartejando o touro na cozinha. ali. Impossível. e cai na cozinha. vai dar numa espécie de porão.. balões de gás. tudo é proibido. e fazer o que bem entender: discurso. ela desce e tenta sair do hotel. vê um letreiro “Saída de emergência” -. satisfeito da vida. batem na porta.O que não está muito claro para mim é a ordem dos fatos. Eles se sentem inspirados.E por que não? O que estou propondo é que a festa comece com o hino nacional e termine com o tango.Mas é que eu acho muito duvidosa essa idéia de tocar o hino nacional às duas da manhã. vira-se para a câmera e canta o hino nacional.Mas esse esquartejamento deve acontecer na perspectiva dela. com um tango. GARCÍA MÁRQUEZ . volta tudo de novo. ficaríamos todos com a sensação de que está faltando dizer alguma coisa. depois.A única função do tango é conceder aos dois um momento de triunfo: são coroados como Os Argentinos de Prata. MARCOS . E não venha me dizer.. Se você termina com o tango. GARCÍA MÁRQUEZ . Todo mundo dançando tango e.É a apoteose do nacionalismo. Não é a mesma coisa terminar com o tango: o hino é melhor. com a mão no peito. enfim. apitos. MARCOS . na cozinha estão esquartejando o touro. CECÍLIA .. Não consegue passar por nenhum lado. E como por ali não pode sair do hotel. Portanto. regressa ao seu quarto e se joga na cama. bandeiras. Vê. que isso está errado porque a festa está acontecendo dez andares abaixo.A festa começa com o hino nacional.Todos os participantes da festa se levantam solenes. De repente.como se fosse uma filmagem separada. GARCÍA MÁRQUEZ .Ela está no quarto. da festa ou da celebração. Invente. É o carrinho com a comida que o argentino mandou.. Entra num elevador. proporia um 92 . E todos vestidos a rigor. E. GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS .E com isso estaremos dizendo o quê? ROBERTO . MARCOS . Então todo mundo. Ela não está no começo mas estará no final. não a deixa descansar.Por que não voltamos para a idéia da montagem paralela? Na festa estão cantando o hino nacional e. menos os membros do time. enquanto isso. desfile do touro. cantando o hino nacional.. O diretor faz o que quer com a trilha sonora. empurra outra porta.

O corte argentino é diferente de todos os outros. temos que armar a cerca. mas primeiro. E de repente.Vieram da Argentina especialmente para cortar a carne. São argentinos.. mas os símbolos da pátria a perseguem. GARCÍA MÁRQUEZ .. altera a proposta original e. muda o método de narração. onde todos estão de pé. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . pela quantidade de informação que recebeu pela televisão e pelo telefone.. como se fosse pouco. poderíamos ver os dois no avião de volta. começa a ouvir o hino. É como se tivesse visto Lady Di sendo esquartejada.Isso nem sempre é possível.Mas que conspira contra o gênero.Quando ela sai no porão e atravessa o último corredor. Ela foge e vai dar no salão. utilizando como pretexto aquela parte do hino que diz “Lá no céu uma águia guerreira. ELID . O impacto é tão grande que ela não suporta.Ela chega na cozinha. membros da delegação.Se você soubesse. 93 . porque introduz uma montagem paralela. para que o gado não fuja. A cara dela reflete o quê? Susto ou asco? Acho que aí pode existir uma metáfora sugestiva. MARCOS . para ver o que ela nos diz.O hino final é a apoteose.Os açougueiros estão morrendo de rir. pela multidão. E como se o país a perseguisse. não vamos perder a estrutura de vista. MARCOS .. GARCÍA MÁRQUEZ .O touro não é símbolo de nada. sai para um corredor vomita e volta para o quarto... ROBERTO .texto. diria. mas é uma imagem muito forte.Por favor. sem necessidade.Muito bem. ROBERTO . Depois virão todas as cenas que a gente quiser. com os açougueiros. GARCÍA MÁRQUEZ .Claro.. Descreva a imagem. Inclusive. Eu insisto que devemos contar a história sem rebuscar muito. Sente que está sitiada. Ela se sente acossada pelo ruído. cantando o hino.. Chega na cozinha e estão esquartejando o touro: dois ou três planos de violência. GARCÍA MÁRQUEZ . Quer fugir. vê como destripam o touro que pouco antes voava feito um anjinho e desfilava feito uma rainha de beleza. Seria como uma celebração do encontro definitivo do casal. para conseguirmos uma comédia clara. limpa.”. VICTORIA. Eles também estão bebendo e comemorando.

GARCÍA MÁRQUEZ . Os dois dançam tão bem que o pessoal vai abrindo uma roda e deixando-os sozinhos na pista. A capitulação que se produz como conseqüência desse diálogo também é ao contrário.Para mim. na festa. na metáfora. E acho que a falha está no primeiro encontro dos dois. e portanto não resta outro remédio a não ser encará-la. perseguindo uma quimera. a orquestra toca um tango e todo mundo começa a dançar. é a grande dama argentina. não sei que diabos estou fazendo aqui! SOCORRO . O sujeito vai embora. Não resolvemos esse problema. Estava ali. Destampa a caçarola e vemos um enorme pedaço de carne. inevitavelmente.Ela volta para o quarto. isso não está muito claro. Ela se levanta. GARCÍA MÁRQUEZ . e 'ouve' a própria voz. porque ela também fala.. a Mulher argentina por excelência. e um filme que dá para ser vendido.VICTORIA .Caímos.Isso ainda não sabemos. e agora está mergulhada numa realidade que parece mais fantástica ainda. embora com os papéis invertidos. mas agora ela só está buscando um flerte. Os refletores iluminam a dupla. Está reconstruindo mentalmente o diálogo da sessão de análise. então. lembre-se disso. E nesse momento que o argentino bate na porta. “Já que a montanha não vai a Maomé”. fica pensando. MARCOS . Ela está radiante.. Explode em coro o hino nacional e os dois somam suas vozes às outras. enojada. porque é uma capitulação no bom sentido. Se isso não for um filme. vemos a mulher chegar. Corte direto para o sujeito. com uma depressão gigantesca. ela assume sua realidade. mas suspeito que sim.Você não está pensando que ela desceu porque se apaixonou por ele. Ela olha com espanto.. a da sua própria vida. Ela. uma fantasia que a paciente enfiou na sua cabeça. A vida segue seu curso: é irremediável e fatal. Nesse momento. ovação.A voz em off seria mantida? GARCÍA MÁRQUEZ . A partir daí. O homem se levanta e oferece um lugar em sua mesa. Pode até ser que se apaixone depois que for dormir. Traz um carrinho de comida.Porque ela mesma se psicanalisa. que quando ela se olhe no espelho ouvirá em off. E ponto final..Por que ela decide descer para a festa? CECÍLIA . Ou as vozes. e do ponto de vista subjetivo dele. com bandeirinha e tudo. 94 . No final. Nós nem a vemos se vestir. O esquartejamento nos leva à ditadura militar: O sangue provoca tanto horror na mulher que ela foge para se trancar no quarto. ROBERTO . Nisso. desejando bom apetite. e repetindo o convite para a festa.

enfim. GARCÍA MÁRQUEZ . chega o carrinho com a comida. me refiro à cena em que Valentino dança assim. Agora poderia se chamar Libertad Lamarque. a câmera se aproxima e fica assim. GARCÍA MÁRQUEZ .A dança é uma citação de Rodolfo Valentino. por enquanto. com o enquadramento picado. se reúne com o sujeito e dança um tango com ele. O que você acha. ou melhor ainda. de perfil. se rende”. segundo.Anotação número catorze: “Vemos a mulher entrando. de repente. MarcosS? Tem alguma coisa nesta história que você não goste? 95 . que por isso mesmo não desenvolvemos o primeiro encontro dos dois. primeiro.. REYNALDO . que não conhecemos realmente o argentino. ROBERTO . e. mas do ponto de vista do argentino”.Eu anotei tudo.Não acho que seja preciso alguém ir para a cama.Todo mundo sai dançando. ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . vestida com uma roupa azul e branca. e.. O que acho é.Por que não deixamos as novas sugestões para depois que a estrutura estiver pronta? Do contrário. como a bandeira. Aqui. no argentino..Está radiante. ou. porque não saberíamos como resolvê-lo. GARCÍA MÁRQUEZ . Essa cena marcou época.Ela se encontrou. ela se olha no espelho e... CECÍLIA . o que aceitarmos como consenso agora será derrubado um minuto mais tarde. ou não neste filme.. e pecisamos impedir isso do jeito que for: Vocês estão agrupando as vacas antes de terem erguido a cerca.. REYNALDO . do mesmo jeito que o helicóptero era uma citação de A Doce Vida.Ela encontrou. CECÍLIA .ELID . está: “Ela está de volta ao seu quarto. Imperio Argentina.... seu tocador de maracas.Desce para afesta.E o filme deveria se chamar Último Tango no caribe. mas no final deixam os dois sozinhos. pelo menos. na anotação número treze...

pode até existir quem trabalhe o dia inteiro e não se canse. faço o café da manhã. “Será que isso encaixa aqui? Não. a história de Santo Antero. e aborrecido... Nada de exaustão mental. Tomo um banho de chuveiro. eu acordo.Soube que vocês varam noites discutindo os projetos... colocar ali.. mas como é confundido com o santo padroeiro da aldeia. a primeira coisa que faço é um esforço para saber quem sou. Para mim.A gente começa a falar de outras coisas. De manhã. Nesse instante. vou para o estúdio sento para trabalhar.. MANOLO . sem interrupções..Acabam de inventar um nome para esse tipo de gente: são os workaholics.É preciso aprender a se dominar. mas acabamos sempre na mesma.Eu não acredito que a gente chegue a ficar exausto com a nossa história.. tomo consciência de que sou imortal. até m dia seguinte. estarei cansado no dia seguinte. não tornem a pensar no trabalho até o dia seguinte. Pronto.O cachaco se chama Natalio... em inglês. Querem um conselho? Quando saírem da Oficina. O nome do filme é O Santo. MARCOS ..Quer dizer que o coitado do cachaco virou Santo Antero? MANOLO . Então. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . Se eu não fizer assim. não penso mais nisso. E uma espécie de vício. sim..”. se continuar remexendo nesse assunto. é melhor. Só que eu pergunto: e vale a pena? O resultado justifica que se fique o tempo inteiro trabalhando? ROBERTO . Isto basta para acabar de me acordar: Imediatamente começo a pensar como andava ontem o meu trabalho: “Ah. até as duas e meia ou três da tarde. Mas a partir do momento em que apago o computador e me levanto.Bem que a gente se esforça. MANOLO . esse é um leão morto. parei nesta parte”. e sentirei que a história empacou e não saberei como continuar.. I MÁRQUEZ . esqueçam de tudo. 96 .SEXTA JORNADA DE TRABALHO Recapitulações. vamos ver. mas não dá. Ora.

Santo Antero. Não convém. sim. Porque a aldeia já tinha a sua imagem. dizem ao pai: “O santo é você”.Voltando ao tema dos workaholics: MARCOS e eu continuamos discutindo o projeto dele.. dar o nome antes. o único a ficar surpreso. primeiro. por ser farsante .Era isso o que estava previsto? GARCÍA MÁRQUEZ . porque seu corpinho se mantém incorrupto. Por mais que a gente disfarce. Uma menina morre e o pai acha que ela é santa. Ia morrer de um jeito ou de outro.Pedem a ele que faça um milagre. MARCOS .ROBERTO diz que eu sou a psicóloga.Como disse Flauhert: “Emma Bovary c'est moi”. porque os bons títulos quem dá é a própria história.Eu fiquei com a idéia de que ele fazia um milagre. GARCÍA MÁRQUEZ . porque já fizeram um filme que acaba assim. é de pau. é uma morte que ele não esperava. virgem e mártir.Pensam que ele é uma aparição. e depois é de carne e osso. quase nunca. matam o homem a pedradas. mas de morte estúpida.É inevitável. REYNALDO .Que ia morrer.Trata-se do primeiro violino de uma orquestra? Esse é o título do filme? GARCÍA MÁRQUEZ . eu poderia ser acusado de impor a vocês o meu ponto de vista. E o que tenho para vocês pode se resumir numa frase: “O primeiro violino sempre chega atrasado”. O sujeito está feliz.Bem. certo? Por isso é que o 'reconhecem' quando ele chega.. todo personagem protagonista acaba sendo.Não sou galega. Mas no final. REYNALDO . o da psicóloga argentina... GLÓRIA . GARCÍA MÁRQUEZ . e com argumento de minha autoria. Um belo título. em maior ou menor medida nós mesmos. É Milagre em Roma. GARCÍA MÁRQUEZ . Na medida em que a história se desenvolve.É o título. GARCÍA MÁRQUEZ . se for assim. REYNALDO . ROBERTO . e que era o primeiro a se surpreender com isso. enquanto agora morre num clima de santidade. quando percebem que ele não consegue.Um santo que. um milagre. E que aí. Digo. 97 . REYNALDO .Estou achando a GLÓRIA impaciente. a história terminava. cresce a possibilidade de encontrar títulos melhores. MARCOS . Prestem muita atenção agora: vamos ver o que essa galega tem para nós.GARCÍA MÁRQUEZ .

nos bastidores de um teatro: “Não. Sexta-feira. Entram no quarto. metido em seu estojo. que era violinista. Colocam os estojos com os violinos em cima da cama. atravesssam a rua. cada um levando um violino metido em seu respectivo estojo. GARCÍA MÁRQUEZ ..Quando ela telefona para o teatro. É melhor pôr Albinoni. e porque ela.. o violinista e outro homem. são hóspedes do hotel. no telefone. e dois personagens se levantam da cama: marido e mulher.Nesse caso.A história começa assim: um rádio despertador começa a tocar uma música de Vivaldi. Evidentemente.. GARCÍA MÁRQUEZ ... discos. com cara de surpresa. gramofones. porque o violinista não teria tempo de chegar. A mesma portinha se abre e saem duas pessoas. GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS .. aproveitando a saída do marido. sem largar os violinos. GARCÍA MÁRQUEZ . Os dois acabam de tomar o café da manhã. Todos os seus movimentos são mecânicos... vai até uma loja de música.. Corte.... desde que o homem saiu? A gente fica com a impressão de que são atos consecutivos.. pedem a chave com naturalidade e entram no elevador. aparelhos estranhos. o primeiro violino sempre chega tarde”. Saem da loja. ela vai à cozinha. pensei que ia marcar um encontro com o amante. não chegou ainda. cumprimenta o empregado da loja. empurra uma portinha semi-oculta e. eu não sei. O homem entra. Estou sabendo agora porque você contou. Corte.Que suspicaz! GLÓRIA .. A mulher disca um número de telefone e alguém responde. Corte para ela. CECÍLIA .Vivaldi dá. E tem mais: quando ela telefonou.. caminham até a recepção.Espera aí. o telefonema nem se justificaria.O fato é que agora o carro do violinista está estacionado numa rua. vai até os fundos. 98 . entram no automóvel e se perdem ao longe. Corte. GLÓRIA . Ele apanha um violino. Chegam a um hotel.Porque ele saiu de casa com seu violino dentro de um estojo de violino. Corte. Ele vai até o banheiro. digamos. quanto tempo passou.O primeiro violino sempre chega tarde GLÓRIA . e dá adeus com a mão.E como sabemos que ele é um violinista? GLÓRIA ... má sorte. senhora. Corte. Ele sai. Vemos pianos.

vemos que o homem cai. É de noite.E algumas outras diferenças..e se junta ao ensaio.E um cenário.Dois rifles. Mas telefona para o teatro. Pela mira telescópica.. e dispara. do outro lado da rua. GARCÍA MÁRQUEZ. ela grita..Com enquadramentos diferentes. vê que o ato público já começou. Está na calçada.Um. Enquanto isso. e o que vemos pela mira telescópica. Mas o homem não dá a menor confiança. o outro mede o tempo com o seu relógio. como se fossem violinos. Corte. que nesse momento gesticula sobre o palanque. O violinista começa a armar o rifle. mas vazio. os dois personagens se levantam da cama e a mesma rotina se repete. Deixa o violino dentro do estojo.aquele normalmente reservado ao primeiro violino . CECÍLIA .. é um palanque. O violinista se junta a ele. entra apressado onde a orquestra já está ensaiando. GARCÍA MÁRQUEZ . sem dizer nada. Vemos a confusão que se arma no palanque.. GARCÍA MÁRQUEZ. enquanto o outro olha discretamente pela janela.”.Desta vez. atravessa a sala sem dizer nenhuma palavra e vai para o quarto.. Eles estão preparando um atentado. esperando. com o violino na mão. em tom de inquisição: “Onde é que você foi se meter? Telefonei para o. O violinista se senta num lugar de honra .abrem as tampas e vemos que lá dentro não há violinos: há um rifle com mira telescópia. a seqüência da rotina não corresponde ao outro dia. No hotel o violinista e seu acompanhante permanecem tranqüilos. sexta-feira o primeiro violino sempre chega tarde”. A mulher está sentada na sala. com bandeiras e cadeiras. aponta com a mira telescópica para o orador. Desarmado em várias peças que estão repartidas nos dois estojos. GLÓRIA . O violinista. em cima do sofá. Parecem satisfeitos. 99 . Assim que ele entra. e sim à semana seguinte.Mas é sexta ou sábado? GLÓRIA . GLÓRIA . Corte. GLÓRIA . ergue o rifle. Baixa o rifle e começa a desarmá-lo de novo.E agora.É evidente que haverá um ato público e alguém vai fazer um discurso daquele palanque. Corte.. O violinista está entrando em casa.. O maestro olha para ele com cara de poucos amigos. CECÍLIA . aponta. GLÓRIA . Soa o rádio despertador. O violinista afina a pontaria buscando com a mira ponto exato onde está o orador Dispara em seco. e a responder a mesma coisa: “Não senhora. Por exemplo: agora ela não sai para se despedir dele.É preciso deixar isso bem claro. se repete todo o processo até que o violinista aparece na janela. aquela pequena luneta.

ele nunca responde. desta vez. Só que. ela entra em outro. joga o suposto violino no chão. GARCÍA MÁRQUEZ . Avança até o palco. entre as poltronas da platéia. sem que ninguém os detenha nem pergunte nada a eles? GLÓRIA . Estão hospedados ali há vários dias. Falta pouco. a mulher. A mulher olha para ele. através de um corte. A orquestra inteira está em pé.vão ocupando seus assentos na orquestra. Ao ver que o marido não dá confiança. pelo corredor central aparece.e sem abrir o estojo. na loja de música.. do começo ao fim.. tranqüilamente.Desarmam o rifle.. com o estojo do violino nos braços.. certo? GLÓRIA .Não pensei nisso. consegue alcançá-lo o começa a discutir com o marido em plena rua. O homem abre um estojo de violino e o cúmplice coloca dentro. são conhecidos. A sala está lotada. que estacionou ali perto. e saem.. deixa a mulher falando sozinha. outra vez à rotina do dia: despertador. é lógico. Corte. como se fosse um violino. Chega. Assim que vê o homem sair de automóvel. São hóspedes.Você está contando a história mas não está propondo uma estrutura. uma bomba. a mulher fica furiosa. Na verdade. a seqüência termina com o atentado. vestidos de fraque. café da manhã.entre eles. guardam as peças em seus respectivos estojos. A explosão é brutal. Todos os músicos estão nos bastidores. se aproxima dele pelas costas. etc. Corte. o primeiro violino muito perto da beira palco. O maestro entra. entra no automóvel e vai embora. os estojos dos violinos deveriam chamar a atenção. não trocaram nenhuma palavra. A mulher. estaciona numa rua lateral e desce com dois violinos. saída do violinista. Os músicos . Ela corre atrás dele. O homem se dirige ao teatro. O homem sai com o estojo. GARCÍA MÁRQUEZ .Saem assim. o concerto está a ponto de começar. O fogo e a fumaça 100 . etc. Cada um em seu estojo.Numa situação dessas. O camarada outra vez.É que pensei nessa história assim mesmo: ela nasceu completa. Corte. Daí passo. ela não fica em casa: vai atrás dele. e grita alguma coisa pode ser algo assim como “este violino você não toca nunca mais” . com muito cuidado. De repente. e enfim entra no teatro. Para mim. O que está acontecendo? Por que tanto mistério? Por que toda sexta-feira você. Mas o homem continua caminhando. REYNALDO . arranca um dos violinos da sua mão e escapa. o violinista . com seu cúmplice. No filme inteiro.Sim.... vê o homem sair e continua a segui-lo. O homem fica perplexo em saber o que fazer. GLÓRIA . atravessa a rua. Uma função de gala. quase pode tocá-lo com as mãos.

. ele pede emprestado outro violino e esquece a mulher. E sendo assim.Mas você está deixando muitas coisas para o acaso. Ou seja. REYNALDO ..como acaba jogando -.sei lá.Mas não sabe que ela vai atirar o estojo no chão. como ele.Primeiro ele atira no orador. E um profissional do terrorismo. ele achava que ela tinha levado o violino.É um profissional. ROBERTO . Terá tempo para discutir isso com a mulher quando voltar para casa..Bem.. Não seria conveniente que a orquestra tocasse no ato onde o orador ia falar? O cara é. o estojo onde está a bomba.. fugir. teríamos de aplicar outro método de trabalho.É preciso definir melhor esse sujeito. gritar avisando todo mundo. Mas quando ele vê a mulher entrar no teatro e avançar pela platéia com o estojo na mão. Ainda não foi cometido o atentado. sei lá. que seja o violino ou a bomba. digamos.E se o homem chegar tarde ao ato. Precisa é de análise. como não teria se livrado da mulher. ou melhor. vai deixar que a mulher fique com a bomba? GLÓRIA . e alguém já tiver 101 . não haveria a possibilidade de a bomba não explodir? CECÍLIA ...ocupam toda a tela. e em seguida vai se livrar da mulher? MARCOS . o ato. – porque sabe que ela está com a bomba..Eu gostaria de manter a estrutura da história. E como hoje faltam alguns alunos. ROBERTO . Não é um violinista.E se a bomba fosse destinada justamente a acabar com a mulher? CECÍLIA . GARCÍA MÁRQUEZ . que o violino. um líder sindical.. dava no mesmo matá-la ou não. que a bomba exploda ou não.Eu queria brincar com a idéia de que ele não percebia.Bem. teremos de fazer um esforço adicional. Os dois estojos eram idênticos e pesavam quase a mesma coisa.O que eu vejo aí é um problema sério: como acreditar na história da bomba? Ela arranca o estojo das mãos do marido. GLÓRIA . E mesmo que ache que ela vai jogar .Volto atrás. Como é possível que ele fique assim tão tranqüilo? GLÓRIA . GARCÍA MÁRQUEZ. não é apenas um violinista: é também um terrorista. GLÓRIA .. A orquestra está lá para ajudar a animar o comício. É capaz de matar um ministro a sangue-frio. precisa fazer alguma coisa ... de quem já está farto? Para ele. SOCORRO . Esta história não precisa de continuidade. até chegar ao teatro e abrir o estojo que estava com ele.

com a orquestra inteira voando pelos ares.. do diretor da orquestra. GARCÍA MÁRQUEZ . dessas.O tiro foi disparado por um fuzil de mira telescópica. averiguações judiciais. O perigo vem é dela. O tiro saiu da janela daquele quarto. Viam o homem sair da loja de música. Vou fazer algumas perguntas elementares. e o quarto estava hospedando o senhor Fulano de Tal. você quer contar exatamente o quê? GLÓRIA . porque ele nem olha para ela. O quarto do hotel está em nome de quem? O dono do hotel também pertence à organização terrorista? GLÓRIA .. ela se sente muito infeliz.A história desse casal. REYNALDO . quem seguia o violinista não era a mulher.matado o orador? VICTORIA . porque o sujeito tem vida dupla e esconde a mais espetacular.. aos pedaços. porque a mulher continua apaixonada por ele. GARCÍA MÁRQUEZ . 102 . GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . REYNALDO . cheio de confiança.O quarto pode estar em nome da orquestra. GLÓRIA . que ninguém faz até fazer. porque a mulher não o interessa.Quarenta ou quarenta e cinco anos.Esse é o calcanhar-de-aquiles do homem: ele não cuida da relação com a mulher.Qual a idade do violinista? GLÓRIA .Eu o imagino bem conservado. de uma grande distância. GLÓRIA . ROBERTO . O homem. vai até a porta se despedir tem ciúmes? E claro.o homem.. meio de ópera. é tarde demais..Você não pode contar um filme onde matam um personagem importante sem saber o que acontece depois.. boa-pinta. num lugar tranqüilo.Pois eu acho que a falha está no aspecto policial da história. com um estojo de violino debaixo do braço. daquele hotel.E a mulher é a sua condenação. Com um exame balístico é possível determinar exatamente de onde o tiro veio.E quando ele repara. Vocês repararam que ela prepara o café da manhã. Um cadáver como esse não é enterrado e ponto final: há investigações. Estes dois homens são violinistas que vão ensaiar ali. sempre. E a mulher. Não é fácil saber.Eu não gosto é desse final da bomba.. e sim a polícia. VICTORIA . um casal no qual nenhuma das partes sabe absolutamente nada da outra. ROBERTO ..Numa primeira versão.Dá para saber.GLÓRIA. e quando o obrigavam a parar o carro para revistá-lo achando que só estava levando aquele estojo .

E isso não pode ficar assim.. O sujeito não é apenas um virtuoso do violino: é também um virtuoso do crime. GARCÍA MÁRQUEZ . E não porque esteja cansado dela. mas porque a mulher o descobriu. é outro filme. GLÓRIA . Ou seja. o assunto seria o seria o seguinte: um violinista. meticulosamente. foi preciso empurrá-lo. os músicos da orquestra estão justamente falando no assunto. para dominá-lo? GARCÍA MÁRQUEZ . com o quarto e. Está claro? GLÓRIA .Então. por último... que supostamente serviria de álibi para o homem. 103 .Primeiro.. REYNALDO . pense no rótulo. a polícia investiga.Mas primeiro você mata um presidente e depois quer que eu me interesse mais pela história do assassino e da mulher. você nos conta a história de um crime. de um atentado terrorista.. o da bomba. se enganava e abria. Será que não vai denunciá-lo'? Não. GARCÍA MÁRQUEZ . com fios soltos. GARCÍA MÁRQUEZ . E quando chega o momento. Talvez fosse esta a história que eu queria contar. Mas surge um fato com o qual ele não contava: sua mulher percebeu.Quem fornece o álibi é a mulher.É que o atentado. E isso abre muitas interrogações.. Descobriu tudo. o atentado já terá sido feito e a notícia correu a cidade. Além disso.Aí. dá com o hotel. SOCORRO . isso era o que ele achava. E sabe que ele também sabe.E ela o encobre. mas como os dois estojos eram idênticos. É uma arma que ela reserva para uma chantagem sentimental. é um crime político. quando ele chega no teatro.Não era um presidente. tem o álibi perfeito. O filme acabava assim. seria outro filme.. Não vai deixar nenhuma pista. percebeu que ele é o autor do atentado. se naquele dia ele também chega atrasado? GLÓRIA . sozinho. E o que é pior: sabe que ele sabe que ela sabe. que pertence a uma organização terrorista. Na verdade. Havíamos dito que era líder sindical.puxava outro estojo .Sabem o que eu acho? Que ele mata a mulher. Preparou esse atentado passo a passo. SOCORRO .. há mais coisas para serem amarradas.Seja como for.Sim. comete um atentado. GARCÍA MÁRQUEZ .Contada direito.. porque ela sabe que isso não é verdade. Naquele dia. É preciso amarrar tudo isso a uma investigação policial. Depois.. com o violinista.o verdadeiro . do ensaio. GARCÍA MÁRQUEZ .e mostrava. Para que serve o álibi do trabalho. Diz que naquele dia ele saiu tarde de casa porque o automóvel não funcionava.

Estamos mudando a história sem perguntar se não haveria outras alternativas. “Sim senhor. a mulher se torna cúmplice do marido... é autor de um atentado.. GLÓRIA. o mais provável é que ela não morra sozinha.Então. vamos eliminar a bomba. Eu acho que é preciso evitar todo o processo de investigação. fica evidente que a relação entre os dois está muito deteriorada.Se mantivermos a bomba em circulação. ROBERTO .. GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO . GLÓRIA . Ou seja.Não é fácil responder... de repente. deixei-o a tal hora na porta do teatro”. aos culpados. e se frustra justamente por causa dela. O que aconteceria se o atentado não ocorresse? O atentado é frustrado. Como o violinista não iria saber em que estojo está a bomba. um inocente violinista que toda sexta-feira chega atrasado ao trabalho. o hotel leva aos hóspedes com estojos de violino. por dedução simples. Se fosse boa. GARCÍA MÁRQUEZ . outros caminhos que não nos desviem do projeto original. E pode ser resumido assim: uma mulher descobre que seu marido. SOCORRO . sem aviso prévio.. E o marido percebe o que acontece: ela sabe.E você acha que a polícia não iria suspeitar? Não é tão fácil disfarçar um crime desses. Cúmplice posterior digamos. Deixa o marido ficar sabendo talvez com o objetivo de fazer chantagem .e ele. Nesta só morre ela? GLÓRIA . eu mesma levei meu marido 0de automóvel hoje de manhã. Ela imagina que o marido sempre chega tarde nas sextas-feiras porque vai encontrar outra mulher. outro galo cantaria quando ela descobre que o marido está preparando um atentado...Na sua versão. com um revólver. todos morriam.O dono do hotel não tem por quê dar pistas: ele também é cúmplice. para que não vire um filme policial. em nenhum desse. ao se ver descoberto.Isso se ajusta melhor ao formato de meia-hora. se andou carregando um violino a vida inteira e sabe exatamente quanto pesa? ROBERTO . Ela mata o marido de ciúmes. o seguinte: é isso que Glória quer contar? E se for como podemos ajudá-la para que conte à sua maneira? GLÓRIA ..Seja como for. GARCÍA MÁRQUEZ . dois casos.O problema da bomba é que ela traz problemas demais.Mas por que a polícia iria suspeitar dele? GARCÍA MÁRQUEZ . e os estojos. mata a mulher.O exame balístico leva ao hotel.declara à polícia o contrário. Agora. GARCÍA MÁRQUEZ . Ele não havia dito nada a 104 .

ele mata a mulher. Na manhã da sexta-feira... Vemos o automóvel se afastar e um instante depois. paga e sai. SOCORRO . comprova que o ato já começou. jamais levaria armas para casa.. vai até o caixa. dá a entender que. O atentado se frustrou. que já está ensaiando. Quando ela vê a notícia na televisão. Na noite de quinta-feira. Estamos criando no espectador uma expectativa que depois não será satisfeita. neste último caso. na maior tranqüilidade. sei lá. ela balbucia uma desculpa e se senta para ensaiar. ela troca o estojo por outro. Ninguém nunca descobre a história do supermercado. Muito bem. Talvez o personagem não devesse tocar violino. já examinou na noite anterior. se dirige ao seu lugar na orquestra.Mas agora.A mulher também poderia ser violinista.Um profissional do crime. O camarada chega ao hotel. em casa. quando ele vai ao banheiro. como ele. Só que a mulher descobre. Lá dentro. O sujeito não vai ficar examinando o estojo antes de sair. podem acontecer duas coisas: que a mulher decida ficar calada. Um homem desce. um mecânico.. olha pela janela. GLÓRIA . surpresa!. Não tem nenhuma razão para fazer isso. que suspeita do marido? Mas. mas agora que ela sabe... ao lado de uma estante. MARCOS .Vamos imaginar que levou. cria uma expectativa.E que tal se o filme começasse simplesmente assim? Um automóvel chega na frente de um supermercado. O camarada chega impassível ao teatro. o supermercado vai pelos ares.. levando na mão uma maleta. por quê? 105 . e sim ser técnico. deixa a maleta no chão. o comício. GLÓRIA . GLÓRIA .E. E. REYNALDO .Mesmo assim.. abre o estojo para apanhar o rifle e. o atentado não vai acontecer. REYNALDO . Ela descobre que seu marido está preparando um atentado quando decide estudar. a polícia não descobre jamais. quero dizer.. no estojo do violino só tem mesmo um violino. também podem acontecer duas coisas: que ele não desista. e apanha por engano o estojo do violino do marido. a mulher descobre o fuzil desarmado dentro do estojo.ela para que a mulher não se preocupasse..A idéia do atentado continua nos desviando da história.. ELID . neste último caso. o que existe é uma bomba.Tirar do homem a sua condição de primeiro violino? Nunca! MARCOS . e que ainda assim ela dê cobertura. apanha uma coisa qualquer. o maestro reclama do atraso. O homem entra no supermercado. GARCÍA MÁRQUEZ . ou que ele não desista e ela decida denunciá-lo. ou que decida fazê-lo mudar de idéia. para encobrir o marido.

Ela havia começado a remexer a casa inteira e tinha percebido. GLÓRIA . Como? Fazendo com que a mulher vire cúmplice do projeto terrorista. GLÓRIA . não está claro.. como dizem os advogados. se quiser. GARCÍA MÁRQUEZ . Enquanto o camarada está entrando no supermercado. ele faz com que ela acredite que vai normalizar sua vida e. O favor é o seguinte: levar um pacote e deixá-lo em determinado lugar. O sujeito percebe que na atitude da mulher há uma dose de chantagem e. ao mesmo tempo sem que ela perceba.E isso que nós temos de descobrir. e portanto pode denunciá-lo à polícia. SOCORRO . a mulher . retê-lo. eram só ciúmes.Para mim. e ela concorda.GARCÍA MÁRQUEZ . minha senhora. pelo menos. Tudo acontece exclusivamente através da relação do casal. Estão vendo? Nada de investigação policial. Mas. por amor: Por amor. de uma operação da 106 .Confesso que não vejo essa situação muito clara.. por certos detalhes.Para se desfazer dela impunemente. ou viceversa. mas só como um meio para se desfazer dela. A bomba está no pacote. Ele a preparou de tal forma que inevitavelmente vai explodir nas mãos da mulher: Trata-se. Mas que ele mate a mulher.Existem duas opções: que o marido mate a mulher. O que é que realmente estamos querendo fazer? GARCÍA MÁRQUEZ . CECÍLIA . Nem ela nem o espectador suspeitam disso. “O primeiro violino? Não. ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . que alguma coisa esquisita estava acontecendo. sextafeira o primeiro violino sempre chega tarde”. quando está com o marido vendo a notícia na televisão.Até o último momento.O camarada pede à mulher um grande favor. supostamente.Ele concebe um atentado no qual ela será a bomba. com premeditação e aleivosia. Quando descobre que o marido leva uma vida dupla. Diante desse impasse. sim. vira-se tranqüilamente para ele e diz: “Quem cometeu esse atentado foi você”.Mas eu não imagino como é possível convencer uma mulher assim a virar terrorista.Dar opções a GLÓRIA. naquela noite. nem nada parecido. SOCORRO . mas também porque sente que desta forma pode dominá-lo ou.em montagem paralela está telefonando para o teatro. Eu prefiro a primeira. percebe também o perigo latente: ela sabe. ROBERTO . tenta ajudá-lo.Ela não vira terrorista. como bom conspirador. prepara uma armadilha mortal. Até aquele momento. ela não nota nada.É precisa armar essa história completa. para que ela escolha. da noite para o dia. ROBERTO .

A bomba explode. 107 .. aparentemente para dar cobertura à mulher: Ela desce do carro e caminha apressada para o lugar combinado. GLÓRIA . GARCÍA MÁRQUEZ . e a forma como ele irá tecendo a teia de aranha para que a mulher caia na armadilha sem perceber. só por um instante.mas não diz nada. E isso não deixa de ser uma vantagem: vai nos permitir armar a história em meia hora. porque de costas qualquer um reconhece qualquer pessoa.. não é? Antes de deixar a maleta no chão. fica no automóvel. A sacola tem o nome e o endereço do supermercado em letras enormes. quero dizer. É um problema técnico. tenho a impressão de que encontramos o caminho. A forma pela qual ele vai matar a mulher não me preocupa. Como resolver os problemas que um atentado representa? Como tornar verossímil a conduta da mulher e do marido. GARCÍA MÁRQUEZ . Todo mundo vê o suspeito. quando ela.Agora sim. GLÓRIA.que o deleta. Ele fez algumas compras. Achava tudo muito confuso. GARCÍA MÁRQUEZ .O supermercado tinha um sistema de vigilância eletrônica. sempre. ao supermercado. O camarada é impiedoso. Ele tira a peruca tranqüilamente.um tique.ou pelo menos suspeita . quando ela o descobre. Uma pessoa pode se disfarçar tão bem que nem sua própria mãe é capaz de reconhecê-lo. Bem. é verdade.Eu volto. uma câmera de vídeo gravava tudo o que acontecia lá dentro. achei que seria absolutamente impossível encaminhar a história por onde você queria. o que a mulher encontra na casa. Mas o suspeito está irreconhecível. GLÓRIA . vigiando. GLÓRIA .. Está irreconhecível. é a sacola do supermercado. são as peças desse disfarce: uma peruca. o jeito de mover a cabeça .Depende. acelera e se afasta.qual ele também participa. De frente.a proposta parece boa.Mas a partir do momento em que vê o suspeito na televisão. por causa do disfarce. A fita é salva e mostrada pela televisão. um bigode falso. no dia seguinte. REYNALDO .Vou confessar uma coisa: no começo. ela tem um palpite: é ele. o que dá a pista.. guarda essa impressão e começa a investigar. Aqui a mulher o reconhece . O importante é esse passo prévio. O que a mulher encontra na sacola. mas não me convence. na frente do teatro. óculos. Ele se disfarça. arranca o estojo das mãos dele? Como interpretar a atitude do homem. que a gente acaba resolvendo. não tem nenhum escrúpulo. mas tem alguma coisa naquele homem . vendo a mulher se aproximar do palco levando a bomba? Mas agora estamos esboçando uma história possível.

Por que não desenvolver as duas linhas de tensão ao mesmo tempo? GARCÍA MÁRQUEZ . sexta-feira o primeiro violino.A única coisa que lamento é que se perca o caráter não verbal da história. GARCÍA MÁRQUEZ . Tem dúvidas. à polícia.Você tem razão: fazer um filme totalmente mudo é uma exibição técnica desnecessária. mas ainda não suspeitamos que a vítima será ela. senhora. ou então estão sendo localizadas.GLÓRIA. GARCÍA MÁRQUEZ .o espectador acabará tendo a impressão de que é um filme mudo. havia diálogos.Seja como for. sim: o da mulher falando por telefone com o sujeito do teatro: “Não.Porque é mais complicado.Essa ia ser a única frase no filme inteiro. menos esse homem aí. ROBERTO . Com isso. a polícia identifica o cadáver e.. cuja imagem vemos em câmera lenta. GLÓRIA .Ela morre. GLÓRIA . ROBERTO .. O locutor do noticiário pode falar. é que a polícia está procurando aquele homem.E por que não? Vamos fazer um filme mudo...GLÓRIA . justamente o que ela reconhece. Assim estará sendo criada uma tensão: será que ela sabe.E o que ele diz é que todas as pessoas que aparecem no vídeo já se apresentaram. será que não sabe? GARCÍA MÁRQUEZ . GLÓRIA . mas há alguma coisa estranha. ROBERTO .Um detalhe qualquer o delata. O que se informa. com a ajuda da mulher -. Eu havia concebido uma história sem diálogos. Nesse momento a polícia ainda não suspeita dele. E o homem é. não deve ter certeza de que é o seu marido. REYNALDO . no noticiário da televisão.A tensão surge quando ela começa a remexer a casa. 108 .Se você usar poucos diálogos no filme . ROBERTO . vai informar ao marido o que aconteceu. GLÓRIA .Quando ela vê a imagem do suspeito na televisão. a original. ROBERTO . agora eu lembro que na sua versão. voluntariamente.. aumenta o nível de intriga do filme.diálogos curtos e contundentes . GARCÍA MÁRQUEZ .”. todas. e não justifica o esforço. e se intensifica quando o espectador intui que o marido está preparando uma armadilha para a mulher.Exceto a televisão. basta. naturalmente.. GARCÍA MÁRQUEZ .Nós vemos o marido preparando o atentado seguinte desta vez. Poderia estar relacionado com o violino.Não vá complicar demais a vida.

que é o marido. com a mulher como centro da operação.tocam hoje Schubert e.é preciso ter -. ciúme.. procurando um sinal de culpa? Encontra. GLÓRIA .GARCÍA MÁRQUEZ . mas eu prefiro que não exista nenhuma investigação. Uma sexta-feira o camarada manda um supermercado pelos ares.Eu gostaria que a gente explorasse a idéia.Tudo isso é muito abstrato.no nosso caso. ela fica olhando fixo para o suspeito. Ela começa imediatamente a revistar a casa.O que o filme conta é a preparação de um crime perfeito. GARCÍA MÁRQUEZ . na sexta seguinte liquida uma figura pública. SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ . Claro que o marido não pode pedir a ela: “Por favor leva essa roupa na lavanderia para mim”. amanhã. por exemplo. quando os dois assistem ao jornal na televisão. REYNALDO . o violinista . descobre que ele é um terrorista.Eu gosto da idéia de que ela descubra que o marido é o terrorista. senhora. um pouco cruel e disparatada. O que me interessa é ressaltar o nexo que existe entre rotina e amoralidade.. mas movida pelo ciúme. GLÓRIA . Ai está o motivo.. Beethoven: por hábito. sabe . do “terrorismo cotidiano”.ou melhor. Estou pensando no líder sindical: por que ele não pede a ela que ajude nesse atentado? REYNALDO .São idéias.e horroroso -. O que está. a peruca ou uma caixa de maquiagem entre as coisas dele? De noite. mas intui . GLÓRIA . Achei que havia consensoem relação a um ponto: a filme começaria no supermercado. GLÓRIA .Tem uma investigação .No começo. mas que nos obriga a mostrar o processo de investigação policial. A figura misteriosa do supermercado serve para que a gente ponha a mulher em movimento. “Não. o motivo principal poderia ser ciúme. ROBERTO . e faz isso da mesma forma que os músicos .. sexta-feira. para que ela se sinta motivada.Ela telefonou para o teatro no momento em que ele entrou no supermercado.Quero saber em que ponta estamos..Nós não podemos retroceder. E tentando confirmar isso..Pois é. Não diz nada. Até aí. mas ela não aparece no filme. motivando a mulher? Ciúme ou a suspeita de que o marido é o homem do supermercado? REYNALDO . Tem que pedir alguma coisa importante. É um delito .” etc. e não um DomJuan. por acaso. Mas o que parece estar contando é a preparação de um atentado. 109 .Ela suspeita que o marido tem uma amante.

. Já sabe que o marido esconde alguma coisa . ela encontra uma coisa estranha.Eu consideraria. GARCÍA MÁRQUEZ . CECÍLIA .Vamos tentar manter a idéia do atentado semanal. E faz a pergunta de tal maneira. ROBERTO . eu sei que foi você. REYNALDO . O resto do filme seria dedicado a contar como ele se arranja para se livrar dela. VICTORIA . É um pouco grotesca.Vamos deixar para estudar isso mais adiante. a que mais convenha ao desenvolvimento da história. a possibilidade de de começar com o supermercado.. ela não precisa investigar nada. e por isso. Esse é o detonador: o marido foi descoberto pela mulher. “Onde está o seu chapéu de inverno?”. É preciso contar isso em menos de trinta minutos. ele vai fingir que a ama como 110 .Os ciúmes aguçaram os seus sentidos. a não ser que faça outro filme.Ao ver que foi descoberto. A questão do ciúme é um conflito falso.. que ele sente que a mulher está dizendo: “Não adianta mentir.um lenço manchado de batom. MARCOS . buscando as provas do delito .Estou pensando o seguinte: o camarada do supermercado está de chapéu.Os ciúmes a levaram a revistar a casa inteira. aquele que conduz ao desenlace.. vê que está vazia.. Nesta noite.e nessa busca.faz isso toda sexta-feira de manhã -.. que não sabe como explicar. mas que para ele pudesse. ao mesmo tempo.. abre.Pode ser até que ela se alegre e peça perdão ao marido. o que significa começar com o verdadeiro drama. tira uma caixa de chapéu. quando o violinista e a mulher estão vendo o noticiário na televisão. GARCÍA MÁRQUEZ . VICTORIA . de qualquer modo. quando na noite dessa sexta-feira ela vê o sujeito com chapéu na televisão. que já vamos ver quais são. reconheço. . mas diz muito sobre o caráter frio e desumano do terrorismo.Esse é um motivo que a gente não consegue manter por muito tempo.GARCÍA MÁRQUEZ . Nós precisamos agarrar a alternativa que mais nos atraia..O ideal é que fosse algum objeto tipicamente feminino. Levanta. Da amante quero dizer. ela vê a imagem do suspeito de costas.. servir para outras coisas. com o episódio da televisão. um fio de cabelo louro na lapela do terno. um simulacro. ao ver que suas suspeitas eram injustas. mas se desvanece em seguida. vai até o armário. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . pergunta. Pode estar latente alguns minutos..Isso nos dá outra opção: assim..

Para falar claro: um tremendo filho da puta. GARCÍA MÁRQUEZ .. O homem é um tipo frio implacável.inclusive as sentimentais .. o sujeito é exatamente assim.. É como se agora. GARCÍA MÁRQUEZ . GLÓRIA . Eu gosto da idéia de que passe por 111 .E também não seria isso . ROBERTO . Vão viver uma segunda lua-de-mel. E vai fazer isso contando com um álibi perfeito. por que não? As duas coisas são possíveis. que o fim justifica os meios.o simulacro duplo -. e até mesmo com mulher. SOCORRO . mas o elemento do ciúme e do falso romance enriquecem o personagem dela.para cumprir as normas de segurança. Ele mata a mulher porque não tem outra alternativa. Mas sente que precisar eliminar a mulher é um sacrifício. para dar a bomba a ela. Tem que passar por cima de qualquer tipo de considerações . como todo bom terrorista. SOCORRO . O violinista precisa matar a mulher. acreditar que acima de tudo existe a sua causa. e veremos que problemas cada uma traz.O fato concreto. e tudo isso será apenas um engano premeditado. GARCÍA MÁRQUEZ .E por que não podemos brincar com um conflito de sentimentos? Hoje ele a ama. E tudo isso também pode enriquecer o personagens da mulher. GARCÍA MÁRQUEZ .Por que não desenvolvemos as duas opções separadas? Uma seguiria as duas linhas . que pode ser contada de maneira clara e simples. Isso torna tudo mais dramático. deve evitar a tentação de complicá-la. GARCÍA MÁRQUEZ .. no fundo... os momentos mais felizes da sua vida.É que ele não precisa fazer isso para matá-la. Não precisa fingir que a ama.Quando a gente tem uma boa história. como você o descreve: frio.nunca. a do dever profissional.Para mim.O que me preocupa é a idéia de que o crime político possa ser confundido com um crime passional. Vamos desenvolver as duas opções. mas de repente tem uma crise emocional. ele a ama. mesmo que a ame. amanhã finge que ama.. o que precisa é ser fanático. mesmo que seja passageira. REYNALDO . capaz de qualquer coisa. GARCÍA MÁRQUEZ . os dois elementos se misturam.Porque.E que nesse caso. ele a redescobrisse como camarada. certo.Isso é verdade no ponto de vista dele. ROBERTO . uma linha só. a outra.e talvez até mais – se simular um entusiasmo súbito pela mulher? GARCÍA MÁRQUEZ .Ele pensa. é que ele vai matá-la. ao somá-la aos seus planos terroristas..

GLÓRIA .E se a bomba..Tenho um montão de anotações. melhor. Senta e pede uma bebida. mais impessoal: ele só cumpre ordens.Acho bom avisar que trouxe uma história complicada.Porque este é um filme selvagem.e entra suspirando.Gostei: que seja a organização terrorista que decida que é preciso liquidar a mulher: Assim. Olha para o espelho. Podemos chama-lo de João. ROBERTO . GLÓRIA . 112 . como se enfim tivesse encontrado o refúgio que procurava.Se ele a ama tanto como vocês dizem. explodisse nele? REYNALDO .“Ou você mata”. dizem a ele. por que não foge com ela? GARCÍA MÁRQUEZ .Confirmar a idéia de que o crime não compensa. GLÓRIA . E ponto final. e mais brutal for a morte da mulher.Qual a idade do homem? ROBERTO . VICTORIA .Ainda não.Tem título? ROBERTO .O que a gente ganha com isso? SOCORRO . com mesinhas de mármore e cadeiras de madeira .. Caminha assustado por um bairro periférico da cidade. “ou nós matamos”. Não tem para onde ir. e vê seus cabelos brancos. feito um autômato. João não agüenta o barulho. distraído. tudo fica mais frio. o trânsito infernal. inclusive do amor.Agora? Setenta e cinco anos. Vê um bar – um velho botequim cheio de espelhos. que poderia ser São Paulo. a vertigem da vida urbana. GARCÍA MÁRQUEZ . Está na rua há algumas horas. setenta. História de uma vingança ROBERTO . por algum erro de cálculo. uma cidade grande. VICTORIA . Vou trabalhar. É a história de um preso recém-saído da cadeia. e murmura: “Eu daria qualquer coisa para poder voltar atrás e começar de novo”.Deus te perdoe! ROBERTO . Está velho. Acaba de cumprir sua pena.. Ficou preso quarenta e cinco anos. porque quanto mais implacável ele for. E ele sabe muito bem o que isso quer dizer. seu rosto sulcado pelas rugas.cima de tudo..O sujeito se reúne com os membros da sua organização e conta a novidade: “Minha mulher sabe”.Ou que a justiça divina existe. REYNALDO . “Então você tem de matá-la”. GARCÍA MÁRQUEZ .

Sua voz soa no fundo do espelho, como um eco, como a voz da Morte. E João ouve que a mesma voz diz: “Eu concedo a você esse desejo, mas com uma condição: que esqueça o passado. No passado estão as sombras. GARCÍA MÁRQUEZ - Isso ainda não sabemos, mas suspeito que sim, que quando ela se olhe no espelho ouvirá em off. Ou as vozes, porque ela também fala, lembre-se disso, e 'ouve' a própria voz. Está reconstruindo mentalmente o diálogo da sessão de análise, embora com os papéis invertidos. A capitulação que se produz como conseqüência desse diálogo também é ao contrário, porque é uma capitulação no bom sentido. A partir daí, ela assume sua realidade, a da sua própria vida. MARCOS - Por que ela decide descer para a festa? CECÍLIA - Porque ela mesma se psicanalisa. ROBERTO - Para mim, isso não está muito claro. E acho que a falha está no primeiro encontro dos dois. Não resolvemos esse problema. GARCÍA MÁRQUEZ - Você não está pensando que ela desceu porque se apaixonou por ele... Pode até ser que se apaixone depois que for dormir, mas agora ela só está buscando um flerte. ELID - Ela encontrou, no argentino, seu tocador de maracas... ROBERTO - Não acho que seja preciso alguém ir para a cama, ou, pelo menos, por enquanto, ou não neste filme. O que acho é, primeiro, que não conhecemos realmente o argentino, e, segundo, que por isso mesmo não desenvolvemos o primeiro encontro dos dois, porque não saberíamos como resolvê-lo. GARCÍA MÁRQUEZ - Por que não deixamos as novas sugestões para depois que a estrutura estiver pronta? Do contrário, o que aceitarmos como consenso agora será derrubado um minuto mais tarde, e pecisamos impedir isso do jeito que for: Vocês estão agrupando as vacas antes de terem erguido a cerca. CECÍLIA - Eu anotei tudo. Aqui, na anotação número treze, está: “Ela está de volta ao seu quarto, chega o carrinho com a comida, ela se olha no espelho e, enfim, se rende”... GARCÍA MÁRQUEZ - Desce para afesta, se reúne com o sujeito e dança um tango com ele... ROBERTO - Está radiante, vestida com uma roupa azul e branca, como a bandeira. CECÍLIA - Anotação número catorze: “Vemos a mulher entrando, mas do ponto de vista do argentino”.

113

REYNALDO - Ela se encontrou. Agora poderia se chamar Libertad Lamarque, ou melhor ainda, Imperio Argentina. GARCÍA MÁRQUEZ - E o filme deveria se chamar Último Tango no caribe. REYNALDO - A dança é uma citação de Rodolfo Valentino, do mesmo jeito que o helicóptero era uma citação de A Doce Vida... me refiro à cena em que Valentino dança assim, de perfil, com o enquadramento picado, e, de repente, a câmera se aproxima e fica assim... Essa cena marcou época. GARCÍA MÁRQUEZ - Todo mundo sai dançando, mas no final deixam os dois sozinhos... O que você acha, MARCOS? Tem alguma coisa nesta história que você não goste?

O Inferno tão temido MARCOS - A única coisa da qual eu não gosto é a maneira como vemos a transformação dela, sua decisão de ir à festa. Acho precipitada. A ordem é esta: ela vê o touro esquartejado e sente náusea; volta ao quarto passando mal; deixa entrar o carrinho com o prato de churrasco; olha a carne e vomita; deita na cama para chorar, sentindo-se a mulher mais infeliz do mundo... É então que começa o diálogo na frente do espelho? Para que uma pessoa que se encontre nessa situação consiga reagir e decida se vestir, se arrumar, apresentar-se sorridente numa festa... bem é preciso mais do que uma sessão de psicanálise. REYNALDO - Mas aí há uma falha na sucessão dos fatos. A verdadeira crise acontece diante do touro esquartejado, e não na frente do prato de carne. Ela vomita lá embaixo, ao sair da cozinha. É essa, falando de maneira literal, a sua catarse. CECÍLIA - Cuidado com o tom. A comédia está ficando séria demais. GARCÍA MÁRQUEZ - Essa seqüência da qual você está falando, Marcos, tem realmente um começo, um meio e um fim? ELID - O elo quebrado, nessa corrente, é o do espelho. Não sentíamos que fosse uma motivação suficiente. GARCÍA MÁRQUEZ - Mas, será que ela sentia? Como psicóloga, tem uma capacidade de introspecção muito maior que a nossa. Se não é capaz de fazer uma reflexão profunda num momento de crise como este, então nós nos enganamos de personagem...

114

MANOLO - O carrinho com o churrasco no quarto é um pequeno Cavalo de Tróia... É aí que ela sente que violam a sua privacidade, que invadem seu reduto... VICTORIA - A República Argentina empurra e humilha a pobre psicóloga argentina. GLÓRIA - Enquanto ela sai da cozinha, volta ao quarto e enfrenta a crise, lá embaixo estão assando o boi e ela tem tempo para serenar e iniciar seu diálogo imaginário com a paciente. GARCÍA MÁRQUEZ - Não trabalhamos esse diálogo ainda, não sabemos como ele é. SOCORRO - Ele acontece antes ou depois da chegada do carrinho? REYNALDO - Depois. A chegada do carrinho marca, para ela, o momento da sua aproximação emocional com o sujeito, ou seja, sua relação com os argentinos em geral e com esse cara em particular... Esse gesto a reconcilia com o seu mundo. E, por isso, ela agora tira a tampa da bandeja do churrasco, olha a carne e acha que é apetitosa. Pode ser até que prove um pedaço. A reflexão começa aí. SOCORRO - Ela prova a mesma carne que há alguns minutos a fez vomitar? REYNALDO - Aquela carne era crua, sanguinolenta. Esta carne é um delicioso bife argentino. MARCOS - Talvez aconteça, aqui, um problema de tempo. É preciso dar a ela uma verdadeira oportunidade para pensar. Ela poderia sair horrorizada da cozinha e do hotel, e começar a caminhar sozinha pela praia. Aí, nós voltaríamos aos estereótípos visuais o crepúsculo, as palmeiras, as silhuetas a contraluz... como se ela estivesse recuperando seu projeto original. E, de repente, a voz da paciente. REYNALDO - Acho que tirar a mulher do hotel seria um erro. GARCÍA MÁRQUEZ - É verdade. Se ela sair do hotel, sai do problema. MARCOS - Mas o desafio que faz com que ela ceda continua sendo fraco para mim. Não me convence. GARCÍA MÁRQUEZ - Se eu tivesse uma proposta melhor, faria, Marcos mas acontece que não tenho. Não me ocorre nenhuma outra idéia. Estaremos buscando caminhos diferentes, sem perceber? Não será que vocé está querendo achar uma solução muito dramática, e nós continuamos no plano da comédia? ROBERTO - O que precisamos encontrar é um bom elemento de humor negro.

115

GARCÍA MÁRQUEZ - Lá estão os açougueiros argentinos, felizes da vida. Fazendo piadinhas e dizendo coisas engraçadíssimas enquanto esquartejam o touro. SOCORRO - Aliás, quero dizer que essa idéia do vômito não me agrada nem um pouco. GARCÍA MÁRQUEZ - Já sei que, na hora da verdade, o vômito não vai ser filmado. Os diretores se atrevem a mostrar náusea, por exemplo, mas não chegam no vômito nunca. E, se filmam, depois cortam fora. MARCOS - Esse é um detalhe que não me preocupa. GARCÍA MÁRQUEZ - Já sei. Você está preocupado com a força dos fatores que levam a mulher a tomar a decisão de ir à festa. MARCOS - Exatamente. Quando chegamos a esse momento e dizemos “pronto”, eu, simplesmente, não sinto isso, não acredito nisso. ELID -É Verdade que ela está acostumada à introspecção, mas quando decide viajar ao Caribe já não é uma psicóloga, é uma pobre mulher que quer viver uma aventura. O que prevalece agora não é o racional é o emocional. E quando seu projeto fracassa e ela percebe que não pode fugir, recupera sua personalidade anterior. VICTORIA - Como um mecanismo defensivo. REYNALDO - Como Dom Quixote em seu leito de morte. O próprio ato de reflexão a devolve ao consultório, ao ponto de partida. ROBERTO - Poderíamos fazer com que a paciente, no consultório, tenha feito a psicóloga dizer alguma coisa que agora repete, algo assim como “nós não escolhemos o lugar onde nascemos”, ou “ninguém escolheu o país em que nasceu”. GARCÍA MÁRQUEZ - É melhor que seja o contrário. É ela quem diz isso à sua paciente. E, agora, lembra. Há uma linda frase de Che Guevara, que diz: “A saudade começa com a comida”. É verdade. A gente sente a mordida da saudade quando estamos longe do nosso país e temos, de repente, vontade de comer coisas que comíamos quando éramos criança. MARCOS - Ela tem de perguntar a si mesma: “Que diabos de profissional eu sou, dizendo coisas que não sou capaz de assumir?”. DENISE - É a fórmula clássica da moral dupla: “Faz o que eu digo, e não o que eu faço”. GARCÍA MÁRQUEZ - Ela não terá outro remédio além de chegar a esta conclusão: “Quem está mal sou eu, e não o meu país”. É ela quem tem que mudar. Ao assumir isso, ela se abre tanto às misérias quanto às grandezas de

116

o que saiu foi a última viagem de Bolivar.. lembram? ROBERTO . do resto do mundo... Uma viagenzinha simples pelo Magdalena acabou virando uma confusão sem fim. a da psicóloga consigo mesma e com seu país.Mas. aquele guarda-chuva do qual falei no primeiro dia. MARCOS . Vou pôr o Bolívar nessa”. como se estivesse longe há muito tempo.Senhoras e senhores.Sou solidário com você na sua dor.. SOCORRO . é. É a história de uma relação difícil... que nos diga alguma coisa. Marcos. GARCÍA MÁRQUEZ . que jeito tinha. Desde que eu era menino sonhava com essa viagem.De repente. ELID . não. ela começa a pedir notícias da Argentina aos seus compatriotas..E se empolga com a possibilidade de que o seu time ganhe. GARCÍA MÁRQUEZ . que foi o seu ponto de partida.Só que agora ficou claro que esta não é a história de uma donzela. GARCÍA MÁRQUEZ . na verdade. queria fazer um filme sobre as maracas. E quando enfim me sentei para escrever sobre a viagem. uma confusão com a Academia de História.. saber como era.Vocês perdoem a minha insistência. Era uma ilusão à toa da paciente. mas continuo achando que o personagem do argentino não tem força suficiente. disse: “Já sei. Para a outra. no carrinho. ROBERTO . não teríamos filme. apertem os cintos: o tocador de maracas voltou de Caracas! E ela imediatamente nota que o fulano não vale nem dez réis de mel coado. MARCOS . MARCOS . e o que saiu foi a vida de Simón Bolívar. um cartão. quase sempre. O touro chegou depois. um belo dia. Com você. e. e me perguntava como conseguir. para ela.O helicóptero sozinho. na festa. E comecei a estudar Bolívar. quem sente saudades sou eu. É o gesto dele que a obriga a pensar.. Por isso eu confio no meu guardachuva. porque tem algo dentro. um simples elo de ligação da 'conexâo argentina'. pode valer. GLÓRIA . de três a zero. se diz alguma coisa. Acabo de lembrar que.E veja só onde é que viemos parar! É preciso ter fé em qualquer imagem original. e o que está escrito nesse cartão a comove. aconteceu a mesma coisa com a imagem do helicóptero e do touro. um montão de anos depois.. com a Academia nacional. sem ele.Agora.seu país. O sujeito passou a ser um elemento a mais.O argentino mandou.Repito: eu nâo consigo ver esse gesto como um detonador 117 . GARCÍA MÁRQUEZ . Há anos eu queria escrever sobre uma viagem pelo rio Magdalena.

Nós pusemos esse sujeito aí só para que ela tivesse um interlocutor.E se a gente cortasse fora o argentino.. a refletir. então. Eu adoro literatura..Nada. e não ela. e o que você tem contra a literatura? ROBERTO . como Glória dizia muito bem. VICTORIA . poderia ser resumida assim: uma mulher foge do inferno.Acho que fizemos um bom trabalho.Isso aí é literatura.O chefe de relações públicas do hotel. no inferno. GARCÍA MÁRQUEZ .. Nossa tarefa 118 .O diálogo dos dois não pode ser considerado 'literatura' e nada mais. GARCÍA MÁRQUEZ . um elemento secundário no filme. MARCOS . GARCÍA MÁRQUEZ .Quem tem de pensar é o espectador. para amar-te” . mas o inferno acaba alcançando-a. Ele já é.Ora.É simplesmente a história de uma mulher que foi para os trópicos achando que ia encontrar o paraíso.convincente. por que esse desprezo? ROBERTO . Além das palavras. meu Deus. mas de repente tive a seguinte idéia: poderia ser O Inferno tão Temido. GLÓRIA .Porque estamos fazendo cinema.E qualquer um pode dançar o tango com ela. ROBERTO ..Ai.O gesto não é o detonador: é o fator detonante. A verdade do paraíso e do inferno sempre está em cada um. não está nunca em outro lugar. GLÓRIA . existe aqui uma série de situações e sensações que obrigam a psicóloga a pensar. ou se você preferir. REYNALDO . nem um filme sobre o sul da América do Sul.. ROBERTO . nada. GARCÍA MÁRQUEZ . O sujeito não é imprescindível. GARCÍA MÁRQUEZ .O primeiro que pedir. meu Deus! Não é mais um filme sobre os trópicos...Um momento: então. quem vai fazer o convite? Quem vai mandar o carrinho com a comida? GARCÍA MÁRQUEZ .Que curioso: uma nova versão de A Morte em Samarra. e descobrir que ela vivia no paraíso..A idéia.Então. GARCÍA MÁRQUEZ . o que iria acontecer? MARCOS .Estamos fazendo roteiros. MARCOS . O verdadeiro detonador é o diálogo dela com a paciente. por causa daquela frase de “Não se move. Nem sei mais quantos títulos a gente deu a este filme. CECÍLIA . GARCÍA MÁRQUEZ .Talvez não aconteça nada.

Agora. mas sermos capazes de examinar o processo através do qual uma história é feita.O questionamento é inevitável.. Mas se a idéia não convence você.Estamos fazendo uma diversão para televisão para ganhar dinheiro. se você não acha que pode fazer com ela o filme da 119 .E agora você a sente sua.Eu me preocupo com o seguinte: que você encontre falhas na história. e consiga identificá-las. VICTORIA .que. Mas ainda é preciso definir. MARCOS . Tem mais: se vocês não quiserem essa história.. que precisam ser desenvolvidas. afinal. eu posso dizer: estruturalmente. GLÓRIA . Se você quiser fazer o seu Xogum. Uma coisa. GARCÍA MÁRQUEZ . do mesmo jeito que um pesopesado. MARCOS .Bem. polir. ajustar. E verdade que não estamos elaborando o roteiro de Xogum. o produto tem que ter sua dignidade.não é tanto armar uma história . não deveríamos começar por questionarmos se uma psicóloga é o tipo de personagem adequado para uma comédia de televisão? GARCÍA MÁRQUEZ . algo digno de Cidadão Kane. O que sempre serve é a procura. GARCÍA MÁRQUEZ . Marcos. Eu acho que tem. que eu disse que esta história não sirva. Marcos? Já acredita nela? GARCÍA MÁRQUEZ . É uma premissa do trabalho criador. MARCOS . no nosso caso. Portanto. mas no final a gente consegue. Vai ser um pouquinho mais difícil. um dinheiro que não é nem para o nosso bolso. aceito como presente. E isso é o que importa. pode ou não servir -.Ou seja. Mas queria deixar claro. como a festa. fazemos.Tem tudo. o hino. Eu sei o que posso fazer com ela. Dentro do relato é preciso estabelecer categorias. o hotel. e vale tanto se você quer vender uma comédia para a televisão quanto filmar Cidadão Kane. como no boxe. ponha mãos à obra que você acaba alcançando com com ela. não tem grandes fissuras. o time de futehol. Mas há coisas. em seu nível.. o que precisamos estudar é o mecanismo da busca. Se para você uma idéia como a de Cídadão Kane é realmente mente atraente. um peso-leve tem que estar na melhor forma possível. tem uma coisa: nós temos de trabalhar sempre nossos projetos como se fossem pesos-pesados. Forma parte da busca.Eu estou de acordo com o peso que ela tem. GARCÍA MÁRQUEZ . É procurando a história que encontramos o método. como se todos tivessem que ter a a mesma pegada de um peso-pesado.Não: esta história já está madura: tem o helicóptero.Sim. tudo bem. se for assim. Para sair lutando com dignidade. o touro.

Sofri uma desilusão tremenda. primeiro romance é um grande romance”. Sou incapaz de escrever alguma coisa melhor do que esse livro”.O filme da sua vida não vai ser de meia hora.”. você pode se dar por satisfeito. Isso faz que esta estrutura seja muito vulnerável. GLÓRIA .Eu garanto que sim. É verdade que a aventura com o argentino não é essencial. MARCOS .. claro. de Orson Welles. em se tratando do seu primeiro filme. Você vai para o seu quarto.Tudo bem. no Caribe.Não há quem consiga tirar da minha cabeça que alguma coisa muito importante escapou da nossa análise.Pois eu. Tomara que não seja a chave deste filme. desses que costumam ser muito críticos.. e que de repente aqui. Eu me sinto profundamente satisfeito com o nosso trabalho. pensa no assunto e depois a gente conversa. dei os originais a vários amigos. porque se empacamos aqui. VICTORIA .. GARCÍA MÁRQUEZ .Só que eu acho que estou vendo na sua cara uma sombra de dúvida. Vocês viram esse filme? Um filme tremendo! É a história de um marinheiro que volta para casa. numa ilha do Caribe”. O personagem feminino é da Jeanne Moreau... descansa.. ROBERTO ..Entâo..Uma espécie de Rosebud? GARCÍA MÁRQUEZ . Se bem que poderia ser de uma hora. MARCOS . não é um grande livro”.sua vida.. MARCOS. A seqüência está aqui mas incompleta. no filme da minha vida. que nesta história há muitos elementos que eu incluiria.. falta alguma coisa no ponto número catorze. mas não deixa de ser interessante o fato de que ela nunca encontrasse em seu país o príncipe encantado. Devem ter notado alguma coisa no meu rosto. porque se apressaram a acrescentar: “Nenhum. me danei. GARCÍA MÁRQUEZ .Eu acho que para os efeitos do roteiro não devemos esquecer ou desprezar a proposta original: “Uma psicóloga que nunca teve um caso de amor de repente acaba tendo dois. como A História Imortal. Senti que o meu mundo caía. MARCOS . ao mesmo tempo. e eles me disseram: “Parabéns. mas.. e não conseguia parar de repetir: “Eu me danei. GARCÍA MÁRQUEZ . ouve um pouco de música.. nunca saberíamos a razão de. em compensação. é boa. Quando eu terminei O Veneno da Madrugada. é com você. meu problema já não é com a história: agora. Vamos dar um tempo. Veja bem. 120 . viva sua aventura com esse sujeito e. sem dúvida. nesta escaleta. Pensava: “Agora sim me danei. meu primeiro romance. me salvei.Estou vendo que aqui.

Segundo essa previsão. Desta forma ele cumpria um agouro da pitonisa. Édipo vira rei. Que aqui. o resto a gente resolve fácil. teu antecessor”. a gente pode colocar o que quiser. Para impedir que a profecia fosse cumprida.Pode até ser que a gente não tenha acrescentado grande coisa. daqui em diante. No final.. O que vocês acham disso? É uma estrutura perfeita. sem nenhuma trinca. Uns ladrões o assaltam.. vaticina a pitonisa.No Caribe. que um dos supostos ladrões que ele matou era. Se eu encontrar alguma falha. Édipo mata os ladrões. mas também do lado de casa. e Édipo vai consultar a pitonisa. aquele menino. Um homem é nomeado prefeito de uma cidadezinha. é premiado: se casa com a rainha. Aliás. Dentro dessa estrutura.Vou estudar cuidadosamente a estrutura. ela encontra o amor.Por que não recapitulamns sobre nossa proposta de estrutura? 121 . num mundo tão diferente do seu.Vamos supor que. meu caro. como a Tebas.. Vocês lembram da história de Édipo Rei? Édipo é um pobre coitado que vai por uma estrada. era sua própria màe.. DENISE . mas enfim. é exatamente o que pretendo fazer no roteiro de um filme que irá se chamar Édipo Prefeito. com quem havia se casado. mas o encarregado de cumprir a ordem ficou com pena e desobedeceu. seu pai. filho do rei.No Caribe. na Colômbia. e que a rainha.se reconcilie com seu país. e veja onde já estamos: num legítimo tango. De verdade! SOCORRO . será como o tango: “Não haverá mais penas nem esquecimentos”. a cavalo dado. MARCOS .. para que tente acabar com a violência. MARCOS . suas contradições sejam resolvidas: não deixa de ser uma metáfora atraente. Na verdade. é isso que vem sendo feito há quatrocentos e cinquênta anos.. o homem descobre que ele mesmo é a causa da violência que tenta combater. GARCÍA MÁRQUEZ . Quando chega a Tebas. Uma peste desaba sobre Tebas. seu próprio pai havia mandado matá-lo. na verdade. acabaria matando o pai e casando com a mãe. sem altos e baixos. GARCÍA MÁRQUEZ . O que mais você quer. MARCOS ..Se conseguirmos encontrar uma boa estrutura.Mas eu não estou me queixando. na pessoa do seu vizinho.. “Quando se descobrir quem matou o rei. que perdera o marido. para ela.. podemos discuti-la depois.. Édipo começa a investigar e acaba notando várias coisas: que ele era o herdeiro natural do trono de Tebas. Marcos? Veja só: você chegou aqui com uma mulher que vê um helicóptero descendo enquanto toma sol numa piscina. “a peste acabará”. GLÓRIA . que existia desde a época em que Edipo nasceu.

isso não se discute. Por exemplo. é preciso ver como se cruzam. SOCORRO . tentanto fugir. sua rendição . aí.e que nós chamamos aqui de sua capitulação. REYNALDO . É verdade que a estrutura não é a história. e de noite seria papado no jantar. ela estava indo para a matinée.Ele mesmo levou o convite ao quarto da mulher.Naquele momento. saímos ao corredor. MANOLO . em seu quarto..uma matinée. por outro. Podemos até fazer uma tentativa. REYNALDO . e a de abrir mão do argentino. REYNALDO ... você tem de começar a trabalhar. a idéia de tirá-la do hotel. CECÍLIA . não houve nem deixou de haver consenso.. GARCÍA MÁRQUEZ . mudar de hotel e. as ações e os tempos. Se trocarmos agora essa estrutura. A Oficina é um jogo no qual estudamos a dinâmica de grupo aplicada à produção artística. Ela sobe ao quarto. e o esquartejamento.Sobre isso. o diálogo na frente do espelho..Mas há coisas que despertaram rejeição e outras que despertaram consenso. com tudo que acontece depois.e a chegada a festa. ela. DENISE . com o diálogo dela com a paciente. Marcos: agora. por um lado. DENISE .Isso nos obrigaria a refazer a escaleta inteira.Depois. por telefone. onde toma um comprimido para dormir. É uma operação de brain-storming aplicada a uma história. O touro desfilaria na matinée. ROBERTO . além disso. uma idéia. ELID . o touro estaria desfilando enquanto ela. iria parar na cozinha. vendo pela televisão a entrevista do argentino. e vemos chegar o carrinho com o churrasco. para facilitar a elipse. no momento em que ela estava querendo descer para tentar escapar. e uma noite de gala. porque faz parte do nosso jogo. onde já começaram a esquartejar o touro.Havia um convite anterior.. 122 ...Continuamos com medo de que existam fios soltos. e fica adormecida ou semi-adormecida. sua desistência.Muito bem.Ou seja. não sobraria pedra sobre pedra.A festa poderia ter duas 'etapas' . está tentando. CECÍLIA .O grande problema parece estar entre os pontos treze e catorze: a decisão de ela ir à festa . O convite que levou era para a noite de gala.Seja como for. mas é o que impede que a história se esparrame ou perca o rumo. CECÍLIA . do argentino.E em seguida acontece a reflexão.. Temos aqui uma estrutura. O que não ficou claro para mim foi a proposta da montagem paralela.

pela data de nascimento e pela fotografia. com helicóptero e até touro. volto para buscá-lo”. mas com quarenta anos a menos. se dissermos a nós mesmos: “É perfeita. mas isso seria. Quando torna a se olhar no espelho. Nada disso: é ele mesmo.. em que aspectos o talento se manifesta melhor. na frente dos atores? Seria um grande dia para o cinema. Quantos terão imaginado essa cena. através do debate. Isso é o que costuma ser chamado de trabalho em equipe. que é. Mas enquanto for preciso escrever um roteiro para rodar um filme.. não sabe o que dizer. VICTORIA . completamente diferente? ROBERTO . com a idade que tinha quando entrou na cadeia. Não é qualquer um que tem uma idéia dessas. só com isso. Gira a cabeça. João mal crê no que vê.nem mesmo na técnica do roteiro. como era quarenta anos antes. em todo mundo. não tem mais do que vinte e cinco anos. talvez. não basta. surpreso. e a faísca. e ficaram nisso? A idéia morre ao nascer. Será que alguma vez haverá um diretor que vá para a rua. não haverá filmes. não vou discuti-la com ninguém”. aliás. achando que havia algum jovem atrás dele.ou pelo menos o cinema de ficção estará submetido à literatura. qualquer coisa que possa chegar a se converter num filme. em boa medida. 123 .uma imagem. vê um jovem. que não pode ser feito por um romancista. Olha seus documentos e.. é agora um homem de vinte e cinco anos. Aqui nos conhecemos mutuamente.. não vou mostrá-la a ninguém. ou outra pessoa. Naquele momento o garçom traz a bebida. e murmura: “Aceito”.Ele mesmo. para começar a 'escrever' seu filme ali. A gente se sente tentado a dizer que sem roteiristas não há cinema .repito. cinema argumental -. No dia em que as sombras alcançarem você. sabemos como pensa cada um de nós. a experiência. e sim na falta de idéias originais. pensativo. a cultura. câmera na mão. E então vemos como. O que o cinema atual necessita é encontrar esse pobre coitado que um dia começa a imaginar uma mulher frustrada que está tomando sol ao lado da piscina e de repente vê aparecer um helicóptero. não está na técnica . Sem essa base literária mais estreita que ela seja. um trabalho técnico. e a habilidade de cada um. João bebe. Agora. todos esses elementos vão se encaixando e se completando mutuamente. Um trabalho. qual a corda de cada um que vibra. E hoje a grande falha no cinema. Claro que. João fica atônito. superestimar o tralho do roterista. como num quebra-cabeças. porque o trabalho de escrever romances é absolutamente pessoal. que poderíamos dizer que é uma técnica criadora -. realmente.Ele mesmo. Oficinas como esta são feitas para quem não pensa assim. o cinema .

sorridente. O empresário quer que o jovem saiba. ainda mais um recém-contratado. Aquilo tudo acaba virando um capricho do velho ou uma história curiosa.ou da empresa que é dona da fábrica . quando tinha a sua idade.De relógios. O homem tem mais ou menos a mesma idade verdadeira do João . sua cidade natal.. Tem que fazer filas enormes durante muitos dias.uns setenta anos mas para João seus traços são inconfundíveis.Mas reconheceu o velho. Controla seus nervos.ele acha que o amigo morreu -. porque João inclusive se parece muito com o seu amigo.Era um contrato de trabalhador temporário. na biblioteca. que ele não vê desde que era muito jovem. explica que mandou chamá-lo porque João tem o mesmo nome e o mesmo sobrenome de um velho amigo seu.decidiu falar com ele. João trata de se dominar: Ouve. como foi que contrataram o João? ROBERTO . porque é raro que um grande empresário mande chamar um operário. do assalto a um banco. dentro de si. e começa a buscar trabalho nas vizinhanças. João se despede sem revelar a verdadeira identidade. o dono da fábrica .tinha sido 124 . E um belo dia. e foi preciso reforçar a linha de montagem. Estão despedindo muitos operários.. diz ele. E a idade do velho corresponde aos cálculos de João. então ficaria assim: “São lembranças da minha juventude em Bonaire”. porque o desemprego é grande.manda chamá-lo. “de uma época na qual você ainda não havia nascido..Uma fábrica de quê? ROBERTO . e de que um juiz . Diz que acha curioso.Mas se estão mandando gente embora. e o empresário. VICTORIA .uma figura destacada na cidade . ao ver o empresário.. SOCORRO .Passam-se os dias e João não consegue se conter: Aproveita e vai a Bonaire. A verdade é que o jovem João. diz o velho. ao ver o nome de João na lista nome e sobrenome . “São lembranças da minha juventude em xis”. a duras penas. consulta velhos jornais locais. o reconhece imediatamente. Lá. mas finalmente começa a trabalhar como operário numa fábrica. Num deles há a notícia de um roubo. Todo mundo estranha. talvez porque tenha pensado nele .João sai do bar.ou no jovem que aquele homem tinha sido durante anos e anos. feito por três indivíduos. a voz cavernosa da Morte: “Esqueça o passado”. A fábrica havia recebido um pedido urgente de relógios. se hospeda numa pensão humilde.”. VICTORIA .. em homenagem ao seu falecido amigo . O empresário.. e podemos até chamar a cidade de Bonaire. que vai garantir a João um emprego estável na sua empresa. ROBERTO .

Deixa que o outro beba e fale pelos cotovelos.João é um bom trabalhador. Gloria . João. durante o assalto. Na verdade. as imagens duplicando-se nos espelhos. além disso. que o empresário se dirige justamente ao bar dos espelhos. Eu imagino esta seqüência como um pesadelo: o bar está cheio de gente. João mal prova a bebida. diz.Por que João tem de ir a Bonaire para conseguir essa informação. do crime que o condenou injustamente.e agora conta. VICTORIA . com a simpatia do empresário..não podia garantir qual dos dois. o empresário . “ Vamos tomar alguma coisa”. Agora. Na realidade. ROBERTO . e nada mais. embora ele soubesse muito bem que o tiro tinha sido dado por um dos cúmplices . GARCÍA MÁRQUEZ . tem muita experiência embora ninguém pudesse imaginar . o que se falou da morte do juiz. Era um homem sozinho. Um belo dia o empresário manda chamá-lo. quer saber. vai sendo promovido na fábrica ou na empresa. Assim. A culpa dessa morte caiu em cima dele. sobretudo. Quer descobrir o que aconteceu com seus dois cúmplices e. ROBERTO . SOCORRO .A partir do momento em que foi preso. que lembra tanto seu companheiro de juventude. destruído a 125 . é quem atirou no juiz . VICTORIA . o mesmo onde sua metamorfose ocorreu. ao ouvir o homem perguntar o que um homem que teria traído um amigo..Ele acabou sendo o único culpado. informa que está satisfeito com seu trabalho. e convida João a sair com ele. sem família. uma atrás da outra.Aí é que está o problema: ele quer.Foi preso e não soube o destino dos seus cúmplices.morto no assalto. Os cúmplices desapareceram sem deixar pistas.Não é que ele perdeu a memória. E isso é grave. mostrando-se muito interessado. ele não soube mais absolutamente nada do que tinha acontecido. o empresário bebendo e falando. é que ele não sabe mesmo. um ruído infernal. GARCÍA MÁRQUEZ .Não obedece à Morte. mas não consegue esquecer. João e ele saem e nosso percebe. Só sabe que não foi ele quem atirou. até chegar a ter um posto importante.vocês já devem ter adivinhado que é o verdadeiro culpado.Mas o espelho não tinha dito para ele esquecer o passado? ROBERTO . Os outros dois fugiram e nunca mais se soube deles. incita o outro a falar. Ninguém mandou notícias para a cadeia. com surpresa. E de repente João. Pedem uma garrafa e o empresário começa a beber sem moderação.não consegue viver com seu remorso e quer se redimir através daquele jovem.

vida do amigo para sempre.. porque o que fez é imperdoável”. vê a parede empapelada pelos recortes. na atualidade. vamos ver. poderia fazer para se redimir . De repente. porque tem a 126 . e quero dizer que não escolhi uma fábrica de relógios ao acaso. ROBERTO .O problema é contar isso tudo em meia hora. João rompeu o pacto. acho que já expliquei: o empresário.Agora. João já tirou um revólver e começou a disparar. sendo levado para a cadeia. SOCORRO . e em seguida. VICTORIA . ROBERTO . Pode ser que tenha trabalhado na cadeia consertando relógios. que esse filme possa ter só meia hora. João liga para o empresário pedindo que por favor dê uma passada na sua sala. fala de outra. João morre junto. o velho amigo que ele achava que tinha morrido na cadeia? No momento em que empresário morre. as fotocópias.. E em relação à promoção.Porque a Morte veio buscá-lo. GARCÍA MÁRQUEZ .Eu acho que pode.é um filme de vingança..João tenta esquecer tudo.Eu não acredito. “Nada”. GLÓRIA .A maneira como João consegue trabalhar e vai sendo promovido é curiosa. e João se senta na frente dele e olha sem dizer nada. ROBERTO.Aí existe uma contradição insolúvel: João pede à Morte outra oportunidade. porque tem uma coisa muito importante para mostrar. SOCORRO .dos jornais velhos. tira da gaveta da escrivaninha umas cópias .. Há uma fotocópia onde o próprio João aparece. O empresário olha aquele rosto. mas porque nesta história tem tudo a ver com o Tempo. começa a trabalhar. embora não entenda nada.Ele é um operário qualificado. uma por uma. algemado. ROBERTO . O filme começa falando de uma coisa. GARCÍA MÁRQUEZ . apavorado. diz João. E quando o empresário entra. a cara de João começa a se cobrir de rugas e seus cabelos vão embranquecendo. que encontrou em Bonaire – e começa a olhar para elas. quando fica sozinho em seu escritório.Morre? Por quê? ROBERTO. Assim. o rosto do seu amigo. SOCORRO. “Não pode fazer nada.Bem.. O empresário se apoia numa cadeira. Mas o destino o coloca de novo cara a cara com seu passado. Dá na mesma. ROBERTO . ROBERTO . tem. e a primeira coisa que faz é romper o pacto. GARCÍA MÁRQUEZ . Não seria assim.João suspeitava. mas precisava ter certeza. mortalmente ferido.. e percebe tudo. alguns dias mais tarde.É um filme estranho.

Quando se hospeda na pensão .João pode sair da cadeia com os recortes.Mas a vida costuma debochar das nossas previsões: o jovem João acaba sendo um cara de sorte.. depois com arrogância e finalmente com uma grande dignidade.Os filmes para televisão têm que ser muito movidos. Portanto.consciência culpada..Então. Podemos estabelecer isso como um fato consumado. Sua viagem é uma viagem ao passado. depois com elegância. sua vida mudou radicalmente .A culpa clássica. Devo 127 .. uma coisa que João precisa esquecer. REYNALDO . Lembro de um menino que queria aprender judô e se aproxima. O mestre concorda em aceitá-lo como discípulo. Começa a subir na escala social. e entre elas estão os recortes. de um modo muito simples como se dá o processo de aprendizagem: através da postura do menino. Podemos resolvê-lo visualmente. que se comprometeu a apagar da memória. REYNALDO . No começo. Num minuto ele percorre todo o trajeto. E aí vemos. É preciso encontrar o tom adequado.Vai ser difícil contar em meia hora a história dessa ascensão meteórica. com muito empenho. GARCÍA MÁRQUEZ . REYNALDO . ele já tem os recortes de jornal em seu poder. ROBERTO .. Um erro grave.tira suas coisas do pacote. João podia morrer por lá.. Carrega um embrulho com suas poucas coisas. GLÓRIA . com muita rigidez. depois com mais soltura.já é jovem. do velho mestre. ou seja. como o próprio mestre. VICTORIA .Por que não começamos por limpar o caminho? Podemos suprimir a peripécia da viagem a Bonaire. o filme só teria cinco minutos. quando João vai consultar os jornais locais.. e é então que vê aqueles papéis amarelados. através de uma simples sucessão de imagens. favorece João.Eu admito que o filme. tem um jeito meio insólito. da maneira como se senta. mas vacila. o erro fatal de todas as tragédias..Deveríamos tentar elaborar uma estrutura. do fundo até o alto. A menos.. dobra tudo com cuidado e guarda numa gaveta.. decide rasgá-los. Acho que só vamos saber exatamente o que acontece. ROBERTO . ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . jogá-los no lixo. Eles são o seu passado. claro.. depois que tivermos uma estrutura que nos permita contar a história em meia hora. que a gente use um narrador em off. porque se não forem assim. os espectadores fazem zapping: mudam de canal.Mas é assim que João começa a romper seu pacto com a Morte. ou pode acontecer. Eu creio que para resolver esse processo não é preciso recorrer a nenhum narrador. para colocá-las no armário.

ROBERTO .. acontecem coisas tremendas. mas isso é um disfarce: sua memória e seu caráter continuam intactos. exceto no que diz respeito ao seu aspecto físico. esperando. ter outra oportunidade. que já passou para todo mundo. é diferente: não acontece nada. será que ele suspeitava que a fábrica é do seu antigo cúmplice? ROBERTO . só dispomos de meia hora para contar essa vida. Em cada seqüência. quer viver outra vida.E o que o jornais sabiam? O único culpado foi ele. GARCÍA MÁRQUEZ .. na cadeia.E durante quarenta anos João nunca tentou saber. ROBERTO . Ele volta a ter o aspecto de um jovem..Na história do preso. esquecer o passado. durante esses anos todos. Nós não vamos desistir desta assim tão fácil: é um desafio que temos de enfrentar. Mas elas o alcançam. Por isso continuamos ali. Põe uma armadilha para a Morte. é a idade do personagem. Minha única preocupação é que. GLÓRIA . não deixar que as sombras o alcancem.Eu posso trazer outra história. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ .Ou é a Morte que põe a armadilha para ele.Não. ROBERTO .. GARCÍA MÁRQUEZ . porque ninguém pode fugir das próprias sombras.. GARCÍA MÁRQUEZ .. não é assim. O que atormenta João é o fato de ser um velho.Ele não cumpre a sua parte no acordo. e ao sair fosse diretamente buscar seu cúmplice. GLÓRIA. de haver perdido a vida na cadeia.João está começando a trabalhar nessa fábrica de relógios. inclusive para ele. em compensação. o que tinha acontecido com seus cúmplices? Não podia ficar sabendo pelos jornais? ROBERTO .. Ou melhor. O tempo passou. Por isso quer voltar no tempo. alguma coisa acontece..Então. João está vivendo.A técnica da telenovela. mas a gente sempre acaba com a impressão de que alguma coisa está quase acontecendo.Nem pensava nisso...João tenta mudar.Mas aqui não é o tempo que reverte.. Ele faria qualquer coisa para recuperar esses anos. ROBERTO .Seu objetivo não é a vingança. Poderíamos facilitar muito se João tivesse ruminado sua vingança na cadeia. 128 . GARCÍA MÁRQUEZ . o verdadeiro culpado. mas em espaços de tempo longos demais. por um amigo.. um tempo real.reconhecer que me dá um trabalho enorme imaginar o movimento contínuo.Nos filmes americanos está sempre acontecendo alguma coisa. com quarenta anos a menos. ROBERTO .

Eu acho que você está se mostrando indulgente demais com você mesmo. GARCÍA MÁRQUEZ . É pegar ou largar.João não abriu a boca. ROBERTO . quando faz que as coisas aconteçam assim com facilidade. que é quase de prisão perpétua. ROBERTO . Tudo acontece como num sonho. eu me sinto livre para fazer o que bem entender.e se impõe. ROBERTO . nem parentes. e eu pego. mas dentro da lógica que você mesmo impõe . João não tinha amigos. em meia hora.admito . E com toda razão. uma história que precisa ser contada num longa-metragem.. Por que o bispo se move de lado? Porque foi combinado e aceito assim. a peça não pode mais se mover de outro modo.E deixaram João apodrecendo na cadeia. Você pode fazer o que quiser.Que amigos? Fora os cúmplices. sei lá..Pois a partir daí.Não. sem oposição nem resistência será que é isso mesmo.. e pede para conhecêlo.E a polícia nunca chegou a eles? ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . a transformação de João num jovem de vinte e cinco anos. A partir daí. ou seja. SOCORRO ...Você está inquieto por causa do primeiro encontro de João com o empresário. o trabalhador teria de se chamar.Não interessa se a história é ou não é inacreditável. SOCORRO. um sonho? ROBERTO .Uma condenação dessas. GARCÍA MÁRQUEZ . tem que ter sido resultado de um longo processo judicial.ROBERTO. Para que o dono da fábrica ou o gerente de uma grande empresa reconheça o nome de um de seus trabalhadores.é a maneira pela qual o empresário fica sabendo que o tal João trabalha para ele.. E eu não consigo acreditar no que ROBERTO conta. Cuahtémoc Ortodoxus. Isso não está bem resolvido. O que interessa é nós acreditarmos nela. misturados com outros cinqüenta numa listas de demissões.O que acho uma falha . SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ .Não. Ele se negou a delatar os cúmplices. A terra engoliu. antes mesmo de começarmos a jogar. por um crime que não cometeu. É como no jogo de xadrez. ou Pirilampo 129 . A única coisa em que acredito é o mais inacreditável de tudo. Talvez eu esteja tentando contar. nem nada. Porque o assalto ao banco não poderia justificar uma condenação desse tamanho. pistas. E nesse processo devem ter saído nomes.Eles sumiram.

GARCÍA MÁRQUEZ . isso mesmo”. SOCORRO .Eu acho que os detalhes dessa história são convincentes.O empresário nunca suspeita quem João é de verdade? ROBERTO . Como em O Retrato de Dorian Gray. Eu me chamo como ele”. SOCORRO . Se você apela para um recurso tão extraordinário como a mudança de idade. REYNALDO . Como este mundo é pequeno!. ou a implicação dos escritórios da empresa.Mas precisa ser convincente. quando morre... ao ver o verdadeiro rosto de Dorian Gray. E diz: “E o que foi feito do avô?”. senhor. GARCÍA MÁRQUEZ . e.. GARCÍA MÁRQUEZ . ao perceber o que aconteceu. ele vem. de seus fantasmas . Eu não queria contar a história de uma vingança .Eu o utilizo para demonstrar. GARCÍA MÁRQUEZ .não em primeiro lugar -. ROBERTO . “Morreu na cadeia”.Mas o encontro deles não deve ser casual. senhor. na presença do empresário. pensa. ROBERTO ... ROBERTO .Porque então vê o verdadeiro rosto de João. como podemos ver. 130 . E pode dizer ao empresário: “Sim.O seu coração explode.Quando o empresário manda buscar o João. O empresário deve morrer de susto. são os nomes do meu avô. SOCORRO . O empresário insiste: “Você é neto de João Cabral. A iniciativa deve ser do empresário. embora queira. “Sim. sem vacilar: “Ah!. GARCÍA MÁRQUEZ .Ele só percebe no fim.Praxedes. e os trabalhadores forem convidados para um brinde. nem acontecer por causa de uma decisão de João. ROBERTO .Se for inaugurada uma nova seção da fábrica. que João não consegue fugir de seu passado. Uma redenção impossível. não precisa ser um jovem.João não pode deixar que o culpado morra: precisa matá-lo. que quando era jovem morava em Bonaire?”.Mas para consumar sua vingança. O empresário fica parado de susto. segundo – uma conclusão derivada disso -.João gosto de João matar o empresário.. primeiro. que ninguém pode fugir de suas próprias sombras. nesses casos? A criação é assim. e sim a história de uma redenção.Mas você está fazendo isso de um modo muito peculiar: manobrando para que tudo se adapte aos seus propósitos.Mas não é o que todo mundo faz. responde João. por que não o utiliza depois em algo que valha pena? ROBERTO . sinto muito”.

REYNALDO . GARCÍA MÁRQUEZ . Além disso.Poderia.Dá a entender. SOCORRO . nós fomos grandes amigos .O outro cúmplice desapareceu. O culpado não poderia ter sido o outro.. E fica sabendo porque o próprio empresário confessa.Existe a possibilidade de que o empresário se sinta culpado.E aí mesmo o empresário poderia acrescentar: “ Quer saber de uma coisa. o terceiro? ROBERTO .”. mas por ter deixado que seu amigo apodrecesse na cadeia. que foi o empresário quem atirou. e ajuda tanto que João se transforma. por outro lado. Isso é algo que não se diz: se deixa subentendido.Mas os assaltantes eram três. “Antes que esse incidente lamentável acontecesse. João? Em nome da amizade que me unia ao seu avô..Sua culpa é ter deixado que botassem em João a culpa da morte do juiz.Estou preocupado com uma coisa: a culpa do empresário é ter matado o juiz? Ele também não é culpado por ter abandonado seu amigo na cadeia? ROBERTO .“Sou Edmundo Dantés”. E é então que chama o seu benfeitor e diz a verdade: “Eu não sou neto de João Cabral. eu vou ajudar você. em um personagem. indo visitá-lo? ROBERTO .Durante quarenta anos.. dentro da empresa.. É a história de Edmundo Dantés.E ajuda mesmo. Eu sou João Cabral”. justamente. REYNALDO .diz o empresário. SOCORRO .Então. GLÓRIA . Os outros dois fugiram com o dinheiro roubado e ficaram com a parte de João.Podiam ter mandado algum recado. GARCÍA MÁRQUEZ . não por ter matado o juiz e deixado que seu amigo fosse condenado. Ele não encontra o empresário por acaso: levou quarenta anos acariciando a idéia desse encontro. Mas o que João descobre agora é. como em O Conde de Montecristo. tudo isso é lógico. ROBERTO .E que. e que ele fosse condenado por esse crime. existe o fator dinheiro. Quer se vingar. REYNALDO . sem nem ir visitá-lo. como é que eles vão se delatar. quer dizer que o roubo aconteceu? Nesse caso é preciso haver em João algum desejo de vingança. SOCORRO . REYNALDO . Teve tempo para pensar nisso. Se três camaradas cometem um delito e um deles é preso e se nega a delatar os outros.. 131 .. Nunca mais se soube dele.

. e na verdade são diferentes. de que tipo de pessoa ele pode ser a essa altura da vida.Estou dizendo isso porque sou cabeça-dura. viemos ver como se constrói uma história imaginária. Você não pode nos privar do prazer de armar este móvel. acho que é melhor eu trazer outra idéia. e o tigre se dana. Faz muito tempo que penso nela. a gente acaba decifrando de um jeito que não havia pensado.Eu proponho que a fábrica tenha o nome do empresário: 'Juan 132 . só para colocálo à prova. Se você acredita nas profecias e elas vaticinam que quando sair daqui. quanto ela pode durar? Vem o próprio Nostradamus e anuncia: “No dia 27 de março você vai ser comido por um tigre. Não podem ocorrer o risco de se derrotar a si mesmo..Não.É como esses enigmas que a gente acha que pode decifrar de uma forma. GARCÍA MÁRQUEZ . E pela Morte. portanto.ROBERTO .Tenho uma proposta. ROBERTO .Ora.Essa é a história que quero contar: a de um homem que é submetido a uma prova dura. viemos aprender a carpintaria do ofício. e vou defender esta história até o fim. Mas vamos começar lixando a madeira. veja só. é claro. nós não viemos fazer obras-primas. No dia 27 de março você fica na cama.Quanto mais cabeça-dura você for. martelada a martelada. ou não vai sair daqui à uma e dez da tarde.. à uma e dez de tarde. Quem dá o primeiro passo? MARCOS . quando estiver saindo da igreja”.. Prego a prego. Aqui. melhor para o nosso trabalho. estão lembrando? Se a profecia não estiver cifrada. GARCÍA MÁRQUEZ . REYNALDO . e a profecia. lendo um livro com toda tranqüilidade. para tirar os nós e as farpas. um tijolo vai acertar a sua cabeça.. E tem mais: repito que ele não sabe qual dos dois cúmplices matou o juiz. não se cumprirá jamais. GARCÍA MÁRQUEZ . Como no caso de Édipo.João não foi procurar o homem: não tem idéia de onde ele pode estar. REYNALDO .Mas as profecias estão cifradas para se protegerem contra o fracasso.. A gente só 'decifra' com exatidão as profecias depois que elas se cumprem. não virá aqui hoje. depois que acontece o que supostamente tinha de acontecer.. ROBERTO . ROBERTO. fica sem comer. GARCÍA MÁRQUEZ .Não escolheu: a Morte o empurrou para lá. Já que estou preso demais ao meu projeto e não conseguimos avançar. e que coincidência! No meio de todas as fábricas de São Paulo. você. ou melhor.. ele escolheu justamente essa.

João vendeu a alma ao Diabo.O que João pede à Morte é tempo para poder consumar sua vingança. faz uma das coisas mais extraordinárias da história da literatura. ROBERTO . Quando a Morte diz a ele “você precisa esquecer o passado”. Voltar a viver. João ao sair da cadeia. ROBERTO . outra é violar as regras do jogo.. uma antiga fortaleza transformada em prisão. consegue um disfarce tão bom quanto o de João. que deverão ser passados num castelo. Alexandre Dumas... João pode violar o pacto. Ele acha sinceramente que vai começar uma vida nova. como Fausto. tirá-lo da cadeia de maneira espetacular. mesmo de maneira inconsciente? ROBERTO . por exemplo. Um ricaço pretende a moça e confabula com outros dois sujeitos para levantar uma calúnia política contra Dantés: acusam-no de bonapartista.Tem uma coisa que a gente precisa saber: Você admite. ROBERTO ... VICTORIA . que vai se livrar da sua frustração. como consegue além disso.. Arma o truque.Ah. REYNALDO . a Morte não vai conceder. a certa distância da costa.Uma coisa é violar o pacto. não é? Dantés é um jovem marinheiro que tem uma namorada em Marselha. embora com um pouco mais de esforço. É então que o autor. vai direto procurar trabalho lá. Sem forçar nenhum elemento da realidade.Mas isso. Não nego isso. sem encomendar-se a Deus nem a Diabo. Nesse momento o espectador não notaria nada. E a Morte sabia disso: é a Morte que engana João..Edmundo Dantés. mas depois. GARCÍA MÁRQUEZ . mas da boca para fora. da sua raiva. e ele responde: “Viver.. essa história de João pretender enganar a Morte. uma das mais lindas do filme? GARCÍA MÁRQUEZ .Se vocês levarem isso em consideração. ele concorda. E João inventa a armadilha. que nisso tudo é preciso que um sentimento de vingança esteja em jogo. ficarei agradecido: João é sincero quando promete esquecer tudo.Não deixa de ser interessante. Como Dumas realiza essa façanha? 133 .Perez Sociedade Anônima'. GARCÍA MÁRQUEZ . mas Roberto não pode violar as regras. O pobre marinheiro é julgado e condenado a muitos anos de cadeia. A Morte pergunta: “O que você quer na realidade: viver ou se vingar?”.Você está propondo que a gente elimine a seqüência do bar. de onde não se pode fugir porque está numa ilhota. não só consegue transformar esse pobre marinheiro num homem sábio e fabulosamente rico. Mas não consegue. sim. Vocês conhecem o romance. Assim. GARCÍA MÁRQUEZ . Roberto.

O que vocês acham disso? Do ponto de vista da condição dramática. está cavando. fizeram prender? Quando ficam sabendo da existência do Conde do Montecristo. na sua cela. E nenhum dos culpados o reconhece: qual deles. Um dia Dantés sente. Assim voc6e poderá desfrutar da sua nova condição de homem livre. Dantés aprende tudo o abade ensina durante aqueles anos. poderoso. e o mete na prisão. Um marinheiro sabe nadar e fazer e desfazer nós. se transformar em seus amigos. e pouco depois o tira de lá transformado em homem rico. é o Conde de Montecristo.Muito simples: cria outro personagem. com uma pena de cinqüenta anos nas costas. diz o velho. que alguém. Vai até a ilha de Montecristo. e não se afoga. E isso é o que torna a fuga de Dantés acreditável. tentam. da torre do castelo. quando alguém morre. GARCÍA MÁRQUEZ . E quando sentir que caiu na água. rico e sábio”. os carcereiros metem o cadáver num saco e jogam no mar.. se vinga do segundo. e não saiu. Agora. Eu sempre me perguntei por que Dumas havia dado ao seu personagem o ofício de marinheiro. no mais absoluto segredo.. “Achei que o túnel ia sair em tal lugar.. E como conde.Seria bom saber em que consiste o segredo. Dantés se encontra com o abade Faria. faltam dois. é impossível começar de novo. O abade Faria é um ancião conspirador e um sábio. levando uma faca. é mais difícil fazer tudo isso que convencer a Morte a rebaixar a idade de alguém.. vou dar o mapa de um tesouro que está enterrado na ilha de Montecristo. numa cela separada. do outro lado da parede. e quando o velho morre. E se Dumas conseguiu fazer. Quando eu morrer esconde meu corpo no túnel e entra no saco. Além disso.Podemos averiguar. Que maravilha! O conde de Montecristo sai do anonimato para se vingar dos três que armaram contra ele. segue suas instruções ao pé da letra. o abade Faria. nada até a costa e escapa. O 134 . abre o saco usando a faca. por que a gente não conseguiria? REYNALDO . “Fiz um cálculo equivocado”. anos atrás.. desenterra o tesouro e.. Conhece o segredo de um grande tesouro e está armando a própria fuga. O que me resta de vida não seria suficiente para você é jovem e forte. Suponho que era para deixar estabelecida sua familiaridade com o mar. põe em ação o mecanismo da vingança. orientar-se pela água. Começa a fazer a mesma coisa e pouco depois. Na minha idade... magnatas habituados ao poder vai se lembrar daquele pobre marinheiro que. enfiado num saco.. através do túnel que os dois fizeram.. Ou seja. O resto do romance é isso: ele se vinga do primeiro. forja sua nova identidade. falta um. a qualquer preço. e vou ensinar a você que eu sei. Você sabe que aqui.. Ele é jogado ao mar. Dumas mete na cadeia um marinheiro pobre e semi-analfabeto.. sábio.

É a lei do crime. três. ROBERTO . O que eu quero ressaltar é o seguinte: se você admite. Os duros não delatam seus cúmplices.Isso é muito bom. GARCÍA MÁRQUEZ . mas não saberia de onde ele vinha . decidisse persegui-lo? O jovem sentiria a iminência do perigo.Bem.Em termos de construção dramática.. sabendo que João vai sair da cadeia. de Edmundo para João. o empresário não teria esquecido de João nem por um minuto. Ninguém reconhece Dantés porque ele mudou de personalidade. sabe que seu companheiro levou uma cadeia perpétua por um crime que não cometeu. mas tem um defeito: é outro filme. só isso. Para eles. e aí não temos vingança nem filme.São atitudes parecidas.E se o empresário. o pobre marinheiro é um ser insignificante e inofensivo: não há por que se preocupar com ele. até o final. Os sujeitos caem de costas. Ele tem que sair decidido a se vingar. Além do mais. GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO .recém-chegado está na moda na alta sociedade. João não quer vingança. Os três que caluniaram Dantés não tornam a se lembrar dele depois que o meteram preso. está livre porque seu amigo não delatou à polícia . A graça é poder organizar bem. Duas: que faça de conta que aceita. porque mudou de idade. E.. ROBERTO ... sem mudanças substanciais.Não podemos alterar a natureza da história. o do empresário é mais complexo. sabe que ele.. o material que temos. não caberia em meia hora.Se mudarmos o nome. ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . existe uma grande diferença entre a história de Edmundo Dantés e a de João Cabral. Principalmente.. em outra situação. “Sou Edmundo Dantés”. que aceite de coração. não possa se conter e rompa a promessa.Coisa. Dos dois dramas. porque o culpado é amigo e cúmplice do acusado. aliás. Mas eu digo que. que agora é muito conveniente. Quando a Morte põe como condição o que nós contamos .Ao sair da cadeia. GARCÍA MÁRQUEZ . João. GARCÍA MÁRQUEZ .. que ele aceite e esqueça realmente o passado. Aliás... Mas na história de João a coisa muda. Quer saber o que aconteceu. o culpado.que João esqueça o passado -. Não me interessa o drama do empresário. e cada vez que o Conde arruina um deles. podem acontecer duas coisas: uma. é difícil aceitar esse gesto de lealdade a um filho da puta do calibre do empresário. mas que ao encontrar o culpado.Essa última é justamente a minha idéia. Roberto. VICTORIA . não pode tirar o personagem da cadeia para deixá-lo flutuando. não há nenhuma razão para pararmos no 135 .. SOCORRO . se identifica. que seu filme também conta uma história de vingança. mas com o propósito secreto de enganar a Morte.

O que temos que detalhar é o eixo da situação. só porque elas sejam mais complicadas. apesar de todos os seus esforços para esquecer o passado. GARCÍA MÁRQUEZ . porque viola o pacto. O que vamos ver é como João. recuperando o tempo que perdeu. Por isso mesmo. ao se comparar a ele. ela mesma atravessa o empresário no caminho de João: é um homem rico. VICTORIA . GARCÍA MÁRQUEZ . não vamos ter medo das coisas. se encontra com a Morte. E no final. mas com uma condição: esquecer o passado”. Começa a pensar em como driblar a Morte. do jeito que você diz. é mais complicado.Assim. a injustiça cometida fica muito mais insuportável. admirado e homenageado por todos.Por isso retardei esse reconhecimento e deixei quase que para o final o momento em que João descobre a traição.“ou começa uma vida nova.Perdemos aí o efeito visual dos recortes de jornal. ROBERTO . além disso. “Agora você cumpre seus loucos desejos de vingança” diz a Morte .João não vai à fábrica do sujeito. voltar a ter vinte e cinco anos é a melhor das vinganças. GARCÍA MÁRQUEZ . se vê arrastado a executar a sua vingança. vê entrar um homem que ele reconhece como sendo seu cúmplice e suposto culpado do assassinato.A Morte estende uma tremenda armadilha para ele.Por enquanto. Sua palavra de honra vai para o diabo. E aí se dana inteiro. e a Morte diz a ele que existem dois caminhos: o esquecimento ou a vingança.Se João saísse da prisão decidido a se vingar. Seria preciso dar todos os antecedentes do caso. GARCÍA MÁRQUEZ . para João. Depois veríamos como esses fatos podem acontecer. o espectador teria que saber a razão. teria renovadas energias para cumprir seu plano. a pergunta seria a seguinte: a Morte deixará João seguir até o fim? ROBERTO . Conhecendo como conhecemos a alma humana. E o pacto com a Morte ficará verossímil na medida em que a gente entender que. Agora. João sai da cadeia. João o reconhece e. enquanto está com uma moça num restaurante. João sabe quem é o empresário. É contratado em outra fábrica. decide procurar trabalho na fábrica do sujeito. poderoso. Deixe-me fazer uma pergunta estúpida: por que a Morte concede 136 . vai procurar o fulano: “Eu sou João Cabral”. ROBERTO . só você precisa saber disso. E um dia. bem. apesar de querer cumprir seu pacto com a Morte.Ele não precisa desses recortes.processo que vai da saída de João da cadeia a seu encontro com o empresário. Mas a Morte não faz pactos de graça. Um belo dia. Ali mesmo se danam todos os seus bons propósitos. Com vinte e cinco anos. Mas enfim. quase poderíamos apostar que João aceita o acordo só para ganhar tempo.

ROBERTO . a corrente de promoções. você é livre para escolher e é nesse jogo que você perde.Vem a coincidência da fábrica.Ah. Vá até a fábrica tal que você vai encontrar um emprego”. MARCOS .Eu só consigo ver é a Morte no fundo do espelho.João é relojoeiro. porque é um universo fechado.. operário qualificado na fábrica. A Morte faz um acordo com João respeitando sua vontade. É um ato de justiça. ROBERTO . não é uma fábrica estritamente realista. dar mais riqueza visual ao seu trabalho. reforçar o impacto da história. Tinham privado João da sua juventude. você quer inventar uma fábrica que responda 137 .. a partir daí. a lista de nomes. ROBERTO . se transportássemos a história ao ambiente rural. mas com uma condição: esqueça esse tempo”. não sei fazer histórias rurais. não tem problema..Para mim. GARCÍA MÁRQUEZ .Não se deve escrever sobre o que não se conhece. mas não dá nada a troco de nada: “Eu devolvo a você o tempo perdido..essa graça a João. CECÍLIA . mais importante: como é que a vingança chega? Como. a uma fazenda do nordeste. uma condição básica nos pactos com o Diabo.Eu gosto da fábrica. ainda assim.No bar a Morte poderia dizer a João: “Eu ajudarei você a começar uma vida nova.. A pergunta não era tão estúpida como pensei.Deve ser porque tinham roubado uma parte da vida dele. O culpado seria o latifundiário.Há uma pergunta que continua sem resposta: como é que João chega à fábrica? E outra. GARCÍA MÁRQUEZ . sou um cara essencialmente urbano. João é um peão. ou não se sente como se fosse uma coisa pessoal.. A Morte é justa. aqui.Mas então. Mas não é isso o que acontece. também. ROBERTO . Mas. ROBERTO .Tudo isso se simplificaria. Poderiam parecer arbitrárias e.. VICTORIA . o mecanismo da vingança funciona? Porque eu continuo pensando que a carreira de João na fábrica – ou na empresa .. Além disso. injustamente. ROBERTO . por exemplo.Vocês acham que isso tudo é arbitrário? GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ .Eu vejo tudo isso como falhas dramatúrgicas. Não. o que ela faz com João. Temos de imaginar esse ambiente. GARCÍA MÁRQUEZ . eu acho. A partir daquele momento. a Morte seria uma puta.Até aí. GARCÍA MÁRQUEZ .Ah!.se prolonga demais. a Morte concede essa graça por um sentido de justiça. a de devolver a juventude? CECÍLIA .

à lógica do espelho... ROBERTO - E uma estética que responda a essa idéia. Não é uma estética fantasiosa, mas tampouco é naturalista. GLÓRIA - E para isso, uma fábrica de espelhos até que seria bom. GARCÍA MÁRQUEZ - Para que todos ficassem loucos. ROBERTO- Eu acho que o cinema não agüenta outro espelho... GARCÍA MÁRQUEZ - Seja como for, está claro que João fica preso num labirinto, numa situação que o conduz, inexoravelmente, ao empresário. ROBERTO - Ao contrário: permite ao empresário atenuar seus remorsos com João. A outra coisa seria que João se empenhasse em fugir, em se afastar o máximo possível da fábrica, e que no fim terminasse matando o empresário. GARCÍA MÁRQUEZ - Uma vez mais, a Morte em Samarra, a história de uma fatalidade. SOCORRO - E se João soubesse, desde o princípio, não só quem é o empresário, mas também que ele matou o juiz... ROBERTO - Bem, aí o filme - ou pelo menos, o filme que eu vejo - não teria sentido. CECÍLIA - Seria O Conde de Montecristo de novo. GARCÍA MÁRQUEZ - O empresário acha que a história que João conta, dizendo ser neto de seu amigo, é verdade. Tem que ser um momento impressionante, porque o empresário está vendo com seus próprios olhos, naquele jovem de vinte e cinco anos, a imagem viva de seu amigo, tal como era quando foi traído pelo próprio empresário. Para ele, o jovem João é uma aparição. Olhando bem, é como se a Morte também aparecesse para o empresário. Nesse momento, quantas perguntas não passarão pela sua cabeça? DENISE - E se João matasse o empresário sem querer, como Édipo matou o pai? SOCORRO - Consumaria a vingança sem querer - só à última hora perceberia -, e voltaria para a cadeia. A morte teria dado a ele, nesse caso, o contrário do que prometeu: um breve prazo para que pudesse se vingar. GARCÍA MÁRQUEZ - É preciso tomar cuidado, para que o essencial da historia não seja alterado. Nossa função é acrescentar idéias para que a história acabe sendo o mais coerente e atrativa possível. DENISE - Tudo parece indicar que ninguém gosta da forma em que o encontro na fábrica acontece. SOCORRO - A fábrica está bem. O que está mal é que o ex-amigo de João, seu cúmplice, o culpado pelo seu destino, seja o gerente ou o dono.

138

GARCÍA MÁRQUEZ - Roberto acaba de dar uma informação nova: a fábrica foi concebida com uma ótica, como direi?, um pouquinho biruta, situada um milímetro além da realidade. Essa fábrica pode se prestar para um tratamento visual estupendo. Visual e também dramático. Nessa atmosfera, o encontro de João com o culpado deve permanecer puramente casual. Vai ver, o cara é um cliente que chega para fazer um pedido de compra, é levado para conhecer a oficina, e mostram a ele o trabalho dos operários qualificados. Nós sabíamos desde o princípio que nesse encontro não há nada de casual, e que a Morte se encarregou de organizar tudo. A Morte é melhor narradora do que a gente pensa. Não vai cometer o erro de levar João até essa fábrica, quando João sai da cadeia. Ao contrário, a Morte deixa João à vontade, solto. E João vai parar lá, do jeito que ela tinha previsto, por sua própria conta. REYNALDO - A encenação poderia ser esta: na fábrica, João sente um murmúrio às suas costas. Olha e vê a Morte, que por sua vez o está observando. A Morte, então, olha para a porta principal. Seguimos seus olhos e vemos o cliente entrando, acompanhado pelo capataz. João, claro, o vê também, e tem um palpite. “É ele”, pensa. GLÓRIA - Aí fica em evidência o papel insidioso da Morte. Ela está preparando uma armadilha para João. MANOLO - Está, simplesmente, fazendo João passar por uma prova. GARCÍA MÁRQUEZ - E o cliente, pelo menos aos olhos de João, tem um ar misterioso, alguma coisa que provoca receio. Ainda não sabemos nada do passado de João, mas de algum modo estranho associamos o recém-chegado com ele. Recordo a história do camarada que vai vai entrar num ônibus, e o chofer diz a ele: “Só tem lugar para um”. Bem, ele é um, mas o chofer falou com uma cara, e num tom, que fez com que o sujeito automaticamente desistisse de subir. O ônibus continua seu caminho e, ao dobrar uma esquina, bum!: explode. O que havia na cara do chofer; o que ele viu nela, que produziu essa recusa por parte do homem que ia entrar no ônibus? ROBERTO - Esse é o tom que eu quero dar ao filme, como se fosse de máscaras, uma brincadeira de disfarces. GARCÍA MÁRQUEZ - Se na primeira vez que João encontra o sujeito visse o camarada por um espelho... Não. Não serve. É um recurso técnico e estamos buscando outra coisa, e em outra direção. O que devemos ter em conta é que os distintos níveis da história - dramatúrgicos, técnicos, estilísticos, de tom... - têm que ser coerentes entre si. ROBERTO - Quando João, no bar, vê a Morte pela primeira vez, falando

139

com ele do fundo do espelho, o espectador não deve saber se se trata de uma alucinação ou de algo real. Essa imagem é impactante, e acho que devemos mostrá-la mais uma vez. GARCÍA MÁRQUEZ - Sua identidade deve ficar bem estabelecida. Que todo mundo saiba que é a Morte. Se você pudesse apresentá-la na forma do esqueleto com sua foice na mão, melhor. ROBERTO - A imagem da Morte é uma leve deformação da do próprio João. REYNALDO - “Somos nós mesmos a nossa própria morte”... Quevedo. ROBERTO - Quando é feito o acordo, cortamos, e vemos João saindo do bar com quarenta anos a menos. Não acho que seja necessário mostrar o processo de transformação. Além disso, não gostaria que fosse como no caso do lobisomem do cinema americano, aquela coisa de começar a surgir pêlos e a crescer unha e tudo isso... GARCÍA MÁRQUEZ - O Médico e o Monstro... O Lobisomem Americano em Londres. ROBERTO - João sai do bar transformado em jovem. É estrangeiro na cidade. Em quarenta anos, muitas coisas mudaram: os automóveis são diferentes, as pessoas se vestem de outra maneira... Para o jovem João, tudo é insólito, inquietante... MANOLO - Não viu televisão durante esses anos. Ou o filme acontece antes dos anos cinqüenta... GARCÍA MÁRQUEZ - Essa sensação de estranheza nós poderíamos compartilhar, mais ou menos, com João - pela expressão de seu rosto, por seus gestos... -, mas não chegaremos a conhecer sua verdadeira dimensão. Isso, só ele sabe, em seu coração. DENISE - Por que sabemos que João faz um pacto com a Morte e não com o Diabo? ROBERTO - Pelas condições do acordo. E pela graça que é concedida a ele. GARCÍA MÁRQUEZ - Bem, o Diabo poderia fazer exatamente a mesma coisa... GLÓRIA - Este interlocutor tem poderes benéficos. Poderia também ser Deus... GARCÍA MÁRQUEZ - Bem: seja Deus, o Diabo ou a Terra do sol, a verdade é é que isso por enquanto, não é problema nosso. O nó desta história continua onde estava: no momento do encontro. Porque é aí onde temos que ficar sabendo desse passado que João se comprometeu a esquecer.

140

ROBERTO - O empresário pode dizer a João que conheceu o seu avô, etc., mas não vai entrar em detalhes. Por isso, pensei nos recortes de jornal. Ali estaria tudo que precisamos saber: o assalto, a morte do juiz, a captura de João, a fuga de seus cúmplices, a quantidade de dinheiro roubado... SOCORRO - Ah, eu tinha esquecido: claro que chegaram a roubar o dinheiro... E, claro, não deram a João a parte que correspondia. MARCOS - E você queria o quê? Que ele levasse o dinheiro para a cadeia? GARCÍA MÁRQUEZ - Isso não muda o essencial. Nosso problema agora é ver como damos a informação necessária. E, por favor, vamos tentar não recorrer ao flashblack. SOCORRO - No bar, antes que a Morte apareça, João está confuso, e recorda o momento do assalto, quando foi preso. Ou talvez escute em off a voz do promotor durante o julgamento... DENISE - Suas recordações atravessam o espelho... GARCÍA MÁRQUEZ - Não vamos deixar os espelhos se transformarem em telas ou em projetores do passado. GLÓRIA - Quando vemos João saindo da cadeia, como sabemos quanto tempo durou a sua pena? Quem se encarrega de nos informar? GARCÍA MÁRQUEZ - Acho que, para dar a informação de modo verossímil, é é preciso aproveitar a conjuntura do encontro. Claro que com um flashback tudo seria facílimo, mas eu gostaria que pudéssemos evitar esse recurso. Não apenas por ser tão desgastado, mas porque não corresponde a este tipo de dramaturgia. REYNALDO - É uma questão de pureza de estilo? GARCÍA MÁRQUEZ - Não. É que se utilizarmos a flashback, o espectador inteligente, perceberá, em seguida, que não conseguimos pensar em nada melhor. Nos últimos meses, andei trabalhando num roteiro que se refere muito ao passado e, mesmo assim, não há nem um único flashback. É a história atual de uma relíquia de outros tempos, uma prostituta aposentada que teve seu momento de Glória em uma cidade que não existe mais: a Barcelona da época dos anarquistas. Sua zona de operações era o Paralelo. Como ver essa vida e essa época sem utilizar pelo menos dez retrospectivas? Acho que foi Lichi quem teve essa idéia. seduzem a velha para que ela se apresente num programa popular de televisão, um programa de entrevistas que é transmitido ao vivo. E aí começam a perguntar à velha: “Como a senhora chegou aqui?” E a velha com toda ingenuidade: “Bem, eu era uma menininha de doze anos em Pernambuco, e um marinheiro turco me comprou e me trouxe até aqui e me deixou no

141

Quando a gente faz isso pela primeira vez.. SOCORRO . Confesso que me senti muito satisfeito. três minutos. o que a gente precisava para justificar. à prisão perpétua. “Ah.. Barcelona era uma beleza! Quando você descia pela Rambla. É pura preguiça. está resolvido o problema. Sem recorrer ao flashback.. Vemos João. etc.Paralelo. acaba se sentindo no direito de fazer uma segunda. E João quer se vingar dele. em direção ao porto. que tem sua dignidade. já transformado num ancião. Primeiro. cliente ou empresário .ou seja. está de pé entre dois guardas esperando a sentença. realizado no dia tal do mês tal deste ano”. E a velha começa a lembrar e a contar.. João.”..era um dos seus cúmplices e ao que tudo indica.Para que vamos desperdiçar os dois ou três minutos dessa primeira seqüência? João pode exclamar de repente: “Agüentei quarenta anos de cadeia!”. para dar ao programa uma certa tensão dramática. muito maquiada. no máximo. ao vivo. manda tudo à merda. O que o espectador precisa saber é João foi acusado por um crime que não cometeu. naquela época?”. e eles precisam cortar o programa e enfiar os anúncios num intervalo inesperado. o assassino. é se contentar com o banal. dizendo porque João está sendo condenado. GARCÍA MÁRQUEZ . e é suficiente para dizer tudo. com umas poucas frases. no programa. “E como era a cidade. SOCORRO . e que esse homem que estamos vendo .. membro do Supremo Tribunal. ainda jovem. Corte. falando com muita autoridade sobre a belle époque.dono. Depois.. e pronto. muito assim tipo grande dama. então fazemos com que os entrevistadores comecem a se meter na vida pessoal da velha e ela. não há nenhum flashback em todo o filme. A entrevista dura. podemos começar com o veredito nos tribunais. condenamos o acusado. quarenta cinco anos depois. Em resumo. João Cabral.Não vejo porque temos que começar com a saída da prisão. aquele rolo jurídico enorme.. a história -. pelo assassinato do juiz Fulano de Tal.. come o fácil. 142 . O personagem da velha é estupendo: se apresenta.”. Mas quando disse o que tinha a dizer . e depois uma terceira.Eu não acho que para dar um veredicto a gente precise ler a sentença inteira. Bastam dois momentos. e a velha. saindo da cadeia.. mas os entrevistadores. mostrando seu protesto: “Juro por Deus que sou inocente!”. termina mandando todos eles à merda. porque acho que apelar para o flashback é entregar os pontos da imaginação. O secretário do tribunal lê: “. durante o assalto ao banco tal. vão fazendo a ela uma série de perguntas impertinentes tentando remexer sua vida privada.. em termos dramáticos. gerente. ofendida. com uma frase.

teremos de esperar pela estréia do filme? ROBERTO . Não devemos nos inibir. não ficou clara: as pessoas 143 . GARCÍA MÁRQUEZ .Tribunal e veredicto são dois recursos mais que manjados. tentou fazer alguma coisa: protestou. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . Aquele era o primeiro assalto que faziam.O juiz que foi morto no assalto era um cliente do banco. Existe até um gênero de cinema só para eles.. para mim. João. Não vamos usar isso. Dois dos assaltantes conseguem fugir. Foi morto pelo nervosismo dos assaltantes. conseguiram se apoderar de um saco de dinheiro e justo naquele momento o juiz faz um escândalo e espalha o pânico. ROBERTO . Convém que. GARCÍA MÁRQUEZ .. ROBERTO . Escandalizado pela tentativa de roubo. os rostos cobertos por um lenço ou uma máscara.. Maior bobagem que o ovo de Colombo. para saber isso... tentou sair..Mas a sugestão é válida. DENISE .O delito prescreveu não apenas pelo tempo que passou. São três sujeitos que assaltam um banco. GARCÍA MÁRQUEZ . em uma pequena cidade do interior que.. A polícia não tinha nem ficha deles. cai nas mãos da polícia. ROBERTO .. por medo de dizer bobagens. o empresário já não tem nada a pagar.Do ponto de vista jurídico.Já estamos acostumados a pensar em voz alta. a gente diga tudo que nos passa pela cabeça. aqui. mas o terceiro. A história foi assim: eles entraram no banco. portanto. é de ordem moral. e.. GLÓRIA . no entanto.. uma pessoa muito conhecida e respeitada na cidade. é absolutamente necessário saber o que aconteceu quarenta e cinco anos atrás.ROBERTO .Porque não era um trio de profissionais. porque às vezes é delas que sai a luz. decidimos chamar de Bonaire.Eu tinha a impressão que sobre isso já havíamos falado tudo que era para ser dito..ROBERTO. mas precisamos saber: Ou será que. não eram delinqüentes comuns. mas também porque alguém pagou por ele. O único problema que resta.. MANOLO . Podemos dizer que provocou a própria morte.Isso me faz lembrar daquela inesquecível observação de Bertold Brecht: “Qual a diferença entre assaltar um banco e fundar um banco?”. se não me engano.E é assim que deve ser: Até as bobagens devem ser ditas. O delito prescreveu depois de sei lá quantos anos.Um problema de consciência. qualquer coisa.Tem uma coisa aí que. MARCOS .Não.

SOCORRO . Quando estão saindo com o dinheiro.Não seriam membros de algum grupo político? Vamos ver. A operação é realizada e. GARCÍA MÁRQUEZ . o 144 . que podem ser incorporados ou dispensados. O outro assaltante não saberia de nada.Eu também vou sair um pouco do esquema. e não o preso? GLÓRIA .o camarada esconde a sacola. mas quando o sujeito já está com o dinheiro dentro da sacola. em cima do balcão. esperando para a fuga. na hora da verdade.E além disso. ele toca uma campainha de alarme e a polícia aparece.E se a gente nunca soubesse quem é o culpado? O filme seria a história de uma dúvida.Outra possibilidade: o futuro empresário.. O sujeito seria o cúmplice de João.. embora tenha sido cúmplice. porque trabalhava lá. Ferem e prendem João.São elementos soltos.. Proponho que o traidor . e como nunca se saberá quanto dinheiro foi levado. a do sujeito que já estava no banco. VICTORIA .João também atira quando vê a polícia chegando. de algum modo. trabalhador do banco. As coisas se estropiaram depois. Precisa fazer isso.Se eram três cúmplices. Dá aos parceiros a informação necessária para assegurar o êxito da operação. e depois viram que um deles era preso.. dois entraram no banco e um ficou fora. DENISE .que estavam no banco na hora do assalto viram um dos assaltantes atirar no juiz. para que quando o submetam à prova da parafina. mas os outros dois conseguem fugir. e no final fica sozinho com o dinheiro. não pode sair do banco.. um fica esperando no carro. VICTORIA . no carro. Tudo dá certo até que no último momento. O cara trabalhava no banco. MANOLO . Seus amigos dizem a ele que não se preocupe: eles assaltarão o banco. e João e seu amigo executam a ação. como Glória propôs. ROBERTO ..Dos três assaltantes. Mas a idéia é boa.o atual empresário . o resultado seja positivo. E é aí que despejam nele a culpa pela morte do juiz.não seja um dos assaltantes.Como ele consegue fazer isso? Onde esconde a sacola? Como tira o dinheiro? Se ele trabalha ali. não poderão descobrir o desfalque. trairia João. MANOLO . E o sujeito. quem mata o juiz? GARCÍA MÁRQUEZ . cometeu desfalque. quarenta e cinco anos antes seria. Não prestaram nenhuma declaração a respeito? Não disseram que o que havia atirado era outro. Não. Na confusão enquanto João cai ferido e o outro foge . começo dos anos quarenta. As coisas ainda não tinham se estropiado. Um dos dois mata o juiz. João sabe que foi o outro. a polícia chega.

mais é mais divertido. O que importa é a morte do juiz. Isso deve se reservado para o final.. E João. a estrutura de um média-metragem. Uma Oficina para todos os gostos. não é? Portanto.admito – faltou flexibilidade.O importante é saber isso. E de repente. responde João. porque falta flexibilidade na minha proposta.Estamos tentando esclarecer algumas coisas. Não dá para resolver tudo ao mesmo tempo. Foi uma bobagem atirar no juiz. GARCÍA MÁRQUEZ . olhando-o nos olhos: “Não foi ele quem disparou. se for comparada a outras que tivemos. E até em mim .. SOCORRO . ao longo do debate. argumentos a partir de imagens.. ROBERTO . custou anos de cadeia para ele. Caramba! 145 . E se nos pressionarem. que falta um elo fundamental do processo dramático. Foi você. em toda essa história. não”. também filmamos.. “Azar. Isso empobrece a dinâmica do trabalho. “Foram as más companhias. tenho certeza de que vamos achar a solução. nós somos da pesada. GARCÍA MÁRQUEZ . quarenta e cinco anos depois do assalto.. foi menos produtiva.Para mim. porque nesse assunto. meu grande amigo.Tem alguma coisa. O que será? GARCÍA MÁRQUEZ .A idéia original da Oficina é partir de um argumento para armar com ele. Fulano”. pode ser que não seja o melhor método.Lamento ter trazido uma história tão fechada. naquele assalto lamentável”. Uma coisa que ele não sabe o que é e que. Às vezes trazem uma história já estruturada.E agora.vou pensar muito bem a cena do encontro. o empresário ou o cliente diz ao jovem João: “Coitado do seu avô.camarada trai João. onde fazemos tudo que nos for pedido: adaptações-escaletas. REYNALDO . porque você o traiu. tinha um jeito tão impulsivo. ROBERTO . Os dois caras falando e olhando-se nos olhos. canalha!”.. Enfim.O roubo pode ou não ser consumado. diz o magnata. A própria discussão. GARCÍA MÁRQUEZ . É um desafio do tipo criativo. João descobre. O que acontece é que os alunos nem sempre trazem um argumento.. sério.. é o momento-chave. que João ignora.. no entanto. outras vezes trazem a imagem de uma mulher na praia vendo chegar um helicóptero. “O coitado do seu avô teve azar”.Mas isso não pode acontecer no encontro. ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ ..

Os personagens saem de seus respectivos filmes e se encontram de noite. GLÓRIA . pede ao pobre coitado que leve o violino ao teatro. GARCÍA MÁRQUEZ . o marido.Nenhuma mudança a mais. com todos os personagens reunidos. Ah!. GARCÍA MÁRQUEZ . Glória.. GLÓRIA . mente. GARCÍA MÁRQUEZ . Agora. poderíamos fazer uma história de histórias. claro. GLÓRIA .Igual. A história fica assim. ela é a terrorista.SÉTIMA JORNADA DE TRABALHO Recapitulações. GLÓRIA . e começam a trocar impressões: “Quer dizer que você agora é santo? Que 146 . a sangue-frio. GARCÍA MÁRQUEZ .E o professor. Ele trabalha num escritório.Ah. E o líder sindical. é membro de uma organização pacífica. É isso? Ah.GLÓRIA tem uma surpresa para nós.Mudou? De que jeito? GLÓRIA ... GLÓRIA . e era mentira! Agora ela mata o marido. cadê? Não vale. Todo mundo gostou..Você me convenceu: uma mulher é muito mais capaz de fazer tudo isso.Ele. e vai fechar um importante evento pacifista.A primeiro violino sempre chega tarde.Agora. Ele vai ser sacrificado. lembram?.Eu comentei as mudanças com o resto do grupo. em algum lugar afastado. GARCÍA MÁRQUEZ . Mas. II SOCORRO . que um homem.Todo o resto fica igualzinho. eu sabia que essa galega era perigosa! Mudou a história sem pedir licença.No fim.Mudei a história do violinista.. quem vai garantir para a gente que amanhã você não muda de idéia outra vez? GLÓRIA . ela é a violinista.. GARCÍA MÁRQUEZ . eu mato você.. mata. mas acontece que agora é ela quem faz tudo: toca o violino.O que muda é a ocupação dos personagens. GARCÍA MÁRQUEZ . coloca uma bomba no estojo.. você nos enganou! Você nos fez acreditar que confiava nos homens.. é agora o dirigente dessa organização..

em Cannes.Para a gente.. A seis da manhã do último dia. Às seis da manhã do último dia. é verdade. voltando ao assunto. desistimos: “Ex aequo”. E um belo dia. é uma situação: o conflito de uma moça que sofre do mal de amor.Eu diria.Eu compreendo a GLÓRIA. GARCÍA MÁRQUEZ . deveria ser fácil escolher. que não encontrávamos pontos de comparação. Mas..Melhor ainda.Mais que uma história. Vamos ver.. Tão diferentes. DENISE: o que você tem aí? DENISE . virei puta”.maravilha! Eu. chegou a hora de decidir. principalmente.. Fitzcarraldo.Amores tempestuosos? DENISE . uma debilidade do júri. amores equivocados. tivemos que nos dar por vencidos. Lembro de quando fui presidente do júri no Festival de Cannes. GARCÍA MÁRQUEZ .. já imaginou? MARCOS . com matizes. para mim. Precisamos fazer um filme assim. era muito difícil dizer porque um filme era melhor que o outro. que naquele ano houve filmes excelentes: A Noite de São Lourenço. “Pois eu quero ir lá na Oficina. tocando violino”. em qualquer filme. Agora são a cores. Um filme com dez. e. sempre existe um elemento que determina a preferência de cada um.. portanto. O prêmio ex aequo sempre foi. em compensação.. GARCÍA MÁRQUEZ . tranqüila. Achava que em qualquer obra. Os filmes já não são em preto e branco. na natureza dos dois grandes finalistas: eram filmes totalmente diferentes. Amores equivocados . na verdade. Eu tinha aceito o convite justamente quando soube quais os filmes que iam competir: E pensei: “Vai ser ótimo”. em 1982: eu achava detestável esse negócio de dividir um prêmio.Estou louco para ver esse filme! MANOLO ..Travesti love 147 . nem sempre é fácil escolher. dando a cada personagem o papel que ele gostaria de interpretar. Quando a gente tem várias opções pela frente e fica sozinho no quarto começa a pensar.. Mas o problema consistiu. mas nem sempre dá. O que tinha acontecido? Primeiro.. “Vocês acham justo? Minha mulher me mata com uma bomba e fica lá. e o júri se dividiu: os dois grandes finalistas eram Yol e Desaparecido. para ver se em vez de ser psicóloga posso ser locutora de televisão”. doze ou treze protagonistas.

mas sua atitude com ele não mudou por causa disso: estava realmente apaixonada.. começa a se transformar num menino: corta os cabelos. E pouco a pouco. mas sei qual é o desenlace: Henrique começa de repente a sair com uma mulher lindíssima. E o que acontece nesse primeiro encontro é um amor à primeira vista. inteirinha! Diga uma coisa: o amor à primeira vista é recíproco. uma principiante que passa a ser chamada por Henrique. mas isso é tudo. conversam.É melhor trinta e cinco. Quando saem do teatro. Nesse primeiro dia. mas porque é seu ídolo. e além disso. Ela aceita sem titubear. Na verdade. tomam drinques.. tem trinta e cinco ou quarenta. adota atitudes masculinas.. linda.Isso não é tudo. Terê se aproxima tímida de Henrique.E você diz que isso é uma situação? A história está aí. Agora teme ficar louca. é inteligente. Henrique convida Terê para ir até a casa dele. Terê acha que Henrique é tímido e que precisa de tempo para se lançar. Está impressionado com ela.. nem mesmo se beijam. No ensaio. ou seja..DENISE . Terê desesperada. GARCÍA MÁRQUEZ . descobrem quanta afinidade existe entre eles. Não sei direito o que acontece depois. GARCÍA MÁRQUEZ .Interessante. muito feminina. É uma boa atriz.A ação se desenvolve no Rio de Janeiro.Tem de ser. GARCÍA MÁRQUEZ . de “'Terê”. até descobrir que Henrique é homossexual. Não fazem amor. GARCÍA MÁRQUEZ . DENISE . O aspecto exterior de Terê mudou tanto.. Ouvem música. Henrique leva Terê ao seu apartamento de solteiro? 148 . Terê. Henrique e Terê se encontram pela primeira vez num ensaio. Ele é dez ou quinze anos mais velho. puro Cupido. embora não tenha experiência. Ele mesmo confessa. num teste de atuação: o diretor está testando candidatos para um dos papéis femininos da próxima peça. foi perdendo sua identidade e acredita que é um rapaz: ficou louca. Terê chegou a suspeitar. não é? DENISE .. É dez anos mais velho que ela. enquanto isso. sem querer.A história está aí. não apenas porque ele é uma estrela.. Os protagonistas são gente de teatro: Henrique Duarte. Tem vinte e cinco anos. que um dia Henrique a viu e não a reconheceu. Terê começa a freqüentar os lugares onde Henrique costuma ir à procura de aventuras homossexuais. e Teresa de Carvalho. atraente. se pergunta se não será por culpa dela. logo de saída. mas quem começa? Quem quebra o gelo? DENISE . um ator famoso.Henrique. Mas a situação do primeiro dia se repete nos dias seguintes. mas pelo simples desejo inconsciente de agradá-lo. Terê dá algumas opiniões e ele se pergunta: “Quem será essa menina?”.

A primeira candidata é uma moça que. REYNALDO . não será difícil resolver. mas antes os dois vão a um bar para beber alguma coisa. e recomeçar. Cheguei inclusive a pensar que Terê desiste de trabalhar na peça só para ficar ali.O importante é que a gente veja o beijo. visualmente. GARCÍA MÁRQUEZ . é a separação. O teste é interpretar essa cena com Henrique. conversar um pouco.Não sei ainda. A cena parece real. um certo desgosto. GARCÍA MÁRQUEZ . seria clássica ou contemporânea? GARCÍA MÁRQUEZ .Leva. A questão é que ela não serve. poder inventar a vida! REYNALDO .. contemplando Henrique durante os ensaios. e Henrique fica olhando para ela. se conhecer . noite após noite. nas poltronas. Então. é a vez de Teresa. Terê é a protagonista.A cena de amor não termina com um beijo? Na outra moça...Na sua história não é a aproximação que importa.A cena de amor poderia ser uma fantasia erótica da moça. um beijo 149 . DENISE . REYNALDO .Será do jeito que a gente quiser.. enfeitiçado. Terê não desistiria de trabalhar na peça. causa uma reação negativa em Henrique. ou pareça falso.O filme tem de começar com uma grande cena de amor entre Henrique e Teresa. mas não demora para a gente descobrir que é uma representação. Claro que Terê consegue o papel... DENISE . Eu me pergunto: depois de uma cena dessas. na primeira candidata ao papel.Que beijo? GARCÍA MÁRQUEZ . a aproximação dos dois? GARCÍA MÁRQUEZ . o que ocorre no teatro não precisa necessariamente ser um teste: pode ser um ensaio. Henrique dá um ósculo. não é? São várias candidatas. essa cena de amor com ele.Terê está sendo testada para o papel. mas nunca saberemos se conseguiu porque era a melhor. Ela abre a boca e sorri. DENISE . GARCÍA MÁRQUEZ . DENISE . Talvez o tom de voz da moça seja muito declamatório. Aquilo é uma declaração de amor autêntica.Suponho que a peça de teatro que estão ensaiando terá alguma relação com o conflito que os dois irão viver. Que coisa maravilhosa. a partir do momento em que pronuncia as primeiras palavras. ou se porque Henrique quis que o papel fosse dela.Se for assim. uma peça de teatro..A peça de teatro.. Eles já estão ensaiando.O conflito da peça deve ser análogo ao que Terê e Henrique vão viver: Além disso.DENISE .

MARCOS . por favor”. Coitado! Vocês não imaginam o que aconteceu quando entramos no tal lugar. quase morreu asfixiado.Certo. Com isso. que está metida até o pescoço nesse mundo. E agora podemos insinuar que ele não costuma levar mulheres à sua casa. dos jovens motoqueiros com suas jaquetas de 150 . até que ele mesmo declarou que estava com Aids. Um belo dia estávamos andando de automóvel . que é muito tímido. GARCÍA MÁRQUEZ .Rock Hudson. DENISE .Vou avançar nessa idéia.. Henrique. deixamos claro que ele é um ator muito conhecido. como se.No final.ele ia dirigindo -. obrigado.. e uma jovenzinha se aproxima dele para pedir um autógrafo. e ponto. Ninguém ficou sabendo a verdade. GARCÍA MÁRQUEZ . Terê sai do teatro como se flutuasse nas nuvens.. Aliás. GARCÍA MÁRQUEZ ... ROBERTO .. explicaria o amor à primeira vista? Ou terá sido uma simples reação química? GARCÍA MÁRQUEZ . O cara gosta de motos. com tanta gente correndo atrás.. Não pode saber. Ele. disse: “Vou com você”. quando tive a idéia de comprar lembro o quê. muito cordial. não saberia? DENISE .Mas se ela soubesse que Henrique homossexual. E convida a moça para celebrar o triunfo. e se ele assumisse isso cem por cento. O pobre do Redford. SOCORRO . É uma coisa que a gente vai adiar. assisti a uma cena como essa acontecer com Robert Redford.Não sabe.falso..Não é paixão demais para um homossexual? CECÍLIA . Porque é evidente que ela conquistou o papel.E o grande Henrique Duarte também sai. senhorita. Ouvem-se murmúrios.. e chegam a um bar onde se arma um grande alvoroço quando Henrique entra. Terê não desconfiaria que ele é homossexual? GLÓRIA . parecia machão nas telas. atriz. DENISE . DENISE . Ela aceita. nem ignora..Terê não sabe que Henrique é. Mas na hora da Teresa. Uma mulher como ela. para poderem conversar tranqüilos. e alcança Teresa de Carvalho e diz 'parabéns'.Um ator famoso. vai ser um homossexual encoberto? É difícil.Nesse caso. e o diretor tem que bater palmas duas vezes e gritar: “Obrigado.E um homossexual atípico. Está abrindo uma exceção. A próxima. sendo Homossexual. Nunca imaginou que uma moça como ela provocasse essa impressão no grande Henrique Duarte. que tem a ver com a transformação de Terê.Talvez por isso Henrique propõe a Teresa que é melhor tomar alguma coisa na casa dele.

couro. GARCÍA MÁRQUEZ - E quando chegar o momento, Terê vai comprar uma moto. Através de sua relação de amizade com Henrique, ela vai conhecendo os gostos dele, o tipo de efebos que o interessam. Henrique é seletivo. Terê vai se esmerar para encarnar o ideal masculino de Henrique. SOCORRO - Parece conveniente que, na primeira vez que os dois se encontrarem no apartamento dele, Henrique tente uma relação sexual com ela. DENISE - É obrigatório que ele tente. Ela tem certeza que os dois vão acabar na cama, e não disfarça. SOCORRO - Quando Henrique não consegue, ela acha que é por causa da tensão, do nervosismo da primeira vez. ROBERTO - E na segunda vez? Ou não vão acontecer novas tentativas? GARCÍA MÁRQUEZ - Não vamos nos precipitar. A coisa mais difícil era dar a informação prévia: que Henrique é um ator famoso, que Teresa é uma atriz bela e talentosa, mas sem experiência, e que entre os dois estalou um amor à primeira vista. Isso já está colocado. Em menos de dois minutos conseguimos dizer quem são os personagens e em que situação eles estão. A única coisa que ainda não sabemos é que Henrique é homossexual. Não é preciso dizer, nem deixar de dizer; vamos deixar as coisas fluírem, e esperar momento da revelação quando Terê percebe qual o tipo de rapaz que interessa a Henrique, e ela mesma começa a se transformar. O filme é esse, e não outro. DENISE- O que eu tenho até agora é: primeiro, Henrique e Teresa se encontram e surge um amor à primeira vista; segundo, eles percebem que têm uma grande afinidade e muitos interesses em comum; terceiro, não conseguem fazer amor de maneira satisfatória, embora ele tente; quarto, ela descobre que ele é homossexual, ou o próprio Henrique conta; e quinto, ela decide se transformar para conquistá-lo. GARCÍA MÁRQUEZ - Na terceira vez que Henrique a procura e torna a tentar em vão, Terê tem que chegar à seguinte conclusão: ou ele é impotente, ou então, é homossexual. Eu acho que o próprio Henrique confessa. Além do mais, nesta época, e nesse meio... Por que nos negamos a ver Henrique do jeito que ele é, maduro? Estamos tratando Henrique como se ele fosse um jovem meio sem jeito, inexperiente... SOCORRO - Ele é homossexual mas está apaixonado por Terê... Além disso tem um amante, um rapaz. Esse é o conflito de Henrique. GARCÍA MÁRQUEZ- Na primeira noite, quando saem do bar, Henrique não leva Terê ao seu apartamento: eles vão para a casa dela. Terê não tem

151

automóvel, Henrique oferece uma carona: “Posso levar você?” Diga uma coisa, DENISE: Henrique tem um motorista, ou ele mesmo dirige um carro esporte? DENISE - Um carro esporte... E ao chegar ao prédio de Terê, ela diz: “Vamos subir?”. GARCÍA MÁRQUEZ - Ao sair do bar entram no Porsche de Henrique, e ele pergunta a Terê: “Levo você até a sua casa?”, e ela responde: “Como você quiser”. Ele pergunta: “Onde você mora?”, e Terê percebe, na mesma hora, que o assunto terminou aí. Pelo menos, por essa noite. ROBERTO - Nesse momento, Terê leva um banho de água fria... GARCÍA MÁRQUEZ - O diálogo deles poderia se desenvolver em ambientes diferentes, durante o curso da noite... Henrique pergunta uma coisa em um bar, e Terê responde já em outro. O diálogo é contínuo, mas os cenários mudam. ROBERTO - É preciso mostrar esse processo até o fim. Se cortarmos para o dia seguinte, o espectador pode pensar que eles dormiram juntos. GARCÍA MÁRQUEZ - O diálogo não pode deixar nenhuma dúvida, é como quando a gente convida uma moça para ir ao cinema e ela responde: “Hoje não, porque estou menstruada”. Tem de ser assim, brutal. “Onde você mora?”. “Em tal rua”. Ele pára na frente do edifício. “Até amanhã”, “até amanhã”. Estamos contando o filme do ponto de vista de Terê. MARCOS - A noite acaba aí, mas no dia seguinte, Henrique diz a ela que gostaria de apresentá-la à mãe. Vão até a casa da mãe dele, almoçam, e a velha está contente, porque é a primeira namorada do filho que ela conhece. GARCÍA MÁRQUEZ - E se a mãe soubesse que o filho é homossexual e sem querer, no meio da alegria, desse uma pista a Terê? CECÍLIA - As ruas ficam sozinhas, e a mãe aproveita para dizer a Teresa: “É a primeira vez que Henrique traz uma namorada em casa. Você não sabe como eu estou contente. MARCOS - As mães nunca sabem. Ou são as últimas a saber. GARCÍA MÁRQUEZ - Quem disse isso? As mães sabem, sim, e além disso, ajudam. É um modo de manter os filhos amarrados. MARCOS - A família de Terê preferiria que ela não fosse atriz. É uma família mais ou menos burguesa... DENISE - Faz tempo que Terê não mora mais com a família. Ela divide o apartamento com uma amiga. GARCÍA MÁRQUEZ - Tome cuidado para que não pensem que ela é lésbica. Em meia hora é tão difícil dar todas as explicações, que a gente não

152

pode se dar ao luxo de cometer nenhum erro. DENISE - A casa de Terê fica no caminho entre a de Henrique e o teatro. Por isso, naquela mesma noite, ele pode dizer a ela: “Quer que eu pegue você amanhã, quando passar por aqui?”. GARCÍA MÁRQUEZ - E no teatro repetem a mesma cena de amor, de novo m um ao outro, imaginariamente... O ensaio acaba e Henrique diz a ela: “Quer uma carona?”. ROBERTO - A cena de amor poderia ser mostrada várias vezes, e a última, ter um toque diferente. Alguma coisa passou nesse meio tempo, alguma coisa se rompeu entre eles... GARCÍA MÁRQUEZ - Sempre a mesma cena, o mesmo beijo. A cada dez minutos, de novo: três vezes a mesma cena no filme... CECÍLIA - A história parece feita de repetições, porque a frustração do primeiro dia também vai se repetir: Henrique deixa Terê na casa dela, ou leva Terê até o seu apartamento de solteiro e tenta fazer amor, sem resultado. GARCÍA MÁRQUEZ - E por que não a leva antes a um bar de homossexuais? DENISE - Depressa assim? Isso é sadismo! ROBERTO - Terê entende que as coisas não podem continuar do jeito que estão, e diz a ele: “Essa relação me faz mal, Henrique. Não quero ver você mais”. E um dia, ao sair do teatro, percebe que há um rapazinho esperando por ele. Talvez tenha esperado em outras ocasiões, mas agora está claro que Henrique vai ao seu encontro. CECÍLIA - Mas eles dois - Terê e Henrique - têm que continuar se encontrando nos ensaios... GLÓRIA - Terê precisa saber desde o começo. É uma coisa que pode ser insinuada desde a primeira conversa, quando juntos percorrem os bares. Porque se ela não soubesse e de repente encontrasse esse rapazinho tão bonito esperando Henrique na saída do teatro... SOCORRO - Pode ser que Terê só queira ter um affaire com Henrique... DENISE - Nada disso. É grande amor mesmo. Uma paixão. Tem que ser assim, para que ela decida se transformar. GARCÍA MÁRQUEZ - Não vamos nos precipitar. Temos que ter tempo para pensar. Um dia, vamos dedicar quatorze horas seguidas ao debate, para liberar energias acumuladas. GLÓRIA - Mesmo que Teresa fique sabendo da história de Henrique, ela não desanima.

153

GARCÍA MÁRQUEZ - Em que consiste o drama dela? Consiste em querer conquistá-lo ao preço que for. Quando vê que não consegue como mulher decide agir como homem. É simples assim, do jeito que falei. ROBERTO - Por isso é importante a gente saber antes que tipo de rapazes o atraem. Terê necessita de um modelo. GARCÍA MÁRQUEZ - Tenho uma dúvida aí: quando ela se transformar, como vai poder representar seu papel? DENISE - Isso não é um problema grave. Se ela cortou o cabelo, põe uma peruca na hora de representar e pronto. GARCÍA MÁRQUEZ - E outra dúvida: se o homossexualismo de Henrique fosse público e notório, será que a atitude dela seria a mesma, desde o primeiro dia? DENISE - Eu acho que sim. GLÓRIA - Eu acho que não. ELID - Ela se apaixonou por ele de verdade. GARCÍA MÁRQUEZ - Ela pode saber que Henrique é homossexual e ainda assim alentar a esperança de ter uma relação intensa com ele. O problema é quando descobre que Henrique, apesar dos seus esforços não consegue. DENISE - Henrique não é nenhuma bicha louca. Ao contrário: tem um aspecto muito viril. Suas atitudes são muito masculinas. GARCÍA MÁRQUEZ - Mas deve ficar bem claro que não é bissexual. Ele se apaixonou por ela, à sua maneira, mas não consegue consumar a relação no campo erótico. Isso é que o filme vai contar: como ela decide se transformar para agradá-lo. DENISE - Não se esqueçam de que nem tudo se reduz ao aspecto sexual. Há grandes afinidades espirituais entre os dois. GARCÍA MÁRQUEZ - Tudo isso que dissemos até aqui não é outra coisa além de um prólogo para entrar no assunto. E não podemos continuar dando voltas: precisamos entrar no assunto. DENISE - Eu acho importante ressaltar o fator afinidade, porque sem ele, que outro elemento de atração existiria entre Henrique e Terê? Por que continuam se procurando? Porque naquela primeira noite, quando andaram de bar em bar, conversando, se conhecendo, descobriram que um gostava da companhia do outro.. E isso aconteceu principalmente com ela, que agora não quer saber de outra coisa a não ser ficar ao lado dele. REYNALDO - Se isso não for amor... GARCÍA MÁRQUEZ - Eu estava me perguntando: como poderemos

154

Estilo garçom. Reconhece seu desejo no desejo dela... que a maioria das pessoas não conhece. É que ele quer. DENISE . vou buscar meu companheiro”. vamos dizer.Henrique tem trinta e cinco anos e nunca sentiu nada parecido em relação a nenhuma outra mulher. ao mesmo tempo. etc. porque são coisas que vivemos no dia-a-dia com os amigos homossexuais. Não podemos esquecer que através do homossexualismo Henrique não apenas se dilacera . GARCÍA MÁRQUEZ .seria uma espécie de anúncio do que vai acontecer na realidade . no sentido bíblico da palavra.da ficção teatral . E esse final da ficção . querido.Ele tem que dizer a Terê que chegou a esse extremo pela primeira vez. E além disso. E é então quando decide se transformar. Quando Henrique abre o peito com Terê.. experimentando uma jaqueta unissex. pelas sucessivas apresentações da cena de amor: A última corresponderia à estréia. para estabelecer um vínculo muito forte entre os dois. terá um ar cotidiano.Eu gostaria que Henrique tentasse. 155 . E que tentasse mais de uma vez. vestindo jeans. Eles chegam e dizem. “quero apresentar meu galã a você”. GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO .. Henrique abre o coração para Terê. quer prendê-la ao seu lado. ou então. ela quer chegar ao final. SOCORRO . Não é que ele finja querer.Esse diálogo dos dois . mas no fundo não aceita uma situação que afasta Henrique dela definitivamente. como se dizia nos anos cinqüenta.marcar a passagem do tempo? E percebo que é fácil: pelo teatro.Dos cinco pontos do meu esquema. Terê compreende isso.Eu gostaria que ele falasse do seu homossexualismo com toda a naturalidade. mas também se realiza. é porque está se entregando a ela. mas não como um drama. Agora.como agora acontece com Terê -. quer conhecê-lo.se for feito com cuidado – pode acabar sendo comovedor: Trinta ou quarenta anos atrás teria sido um diálogo escandaloso. completamente. com aplausos do público. Poderia revelar coisas muito interessantes sobre o mundo dos homossexuais. “agradá-la”. na maior tranqüilidade: “Tchau. como num espelho. DENISE .Ela mesma cortando os próprios cabelos. o quarto é o que continua mais confuso: como ela descobre que Henrique é homossexual? Ou será que ele mesmo confessa? GARCÍA MÁRQUEZ . mas agora. É quando a surpreendemos cortando os cabelos. suponho.a realidade do filme. E esse grau de sinceridade serviria. realmente.

por que Henrique não a aceita como a outra parte de um casal? GARCÍA MÁRQUEZ . a mudança repentina de Terê. Eu os vejo assim: Terê. quer fazer uma surpresa para Henrique. Aliás. pode acontecer em dois segundos.Calma. Henrique fica olhando para ela e diz: “Você fica muito bem com esse penteado”.. pensa ele. por sua vez. REYNALDO . a de Terê transformando-se em menino e Henrique. de repente e em sua totalidade: cabelos. por exemplo -. REYNALDO . É um recurso desesperado.E preciso ver se a história nos leva para esse ponto.Continuo achando que a mudança deve ser gradual. mas para ela só importava.Pensei até que Terê podia chegar a ser abjeta: conseguiria uns garotos para Henrique. e então ela sorri para ele. e se já é um rapaz ou quase um rapaz. para tentar prendê-lo.Em compensação. e assume esse recurso assim. que Henrique se envolva com outra mulher.Uma boa pergunta: se Terê realmente muda identidade. Henrique abre. mas como mulher. GARCÍA MÁRQUEZ . É aí que está o conflito. com seu penteado e sua roupa de homem.Esse é o paradoxo: Terê atraía Henrique. para o qual ela apela quando não encontra outra saída.Eu gostaria que fosse gradual. SOCORRO . jaqueta de couro.. Parece descabelado. GARCÍA MÁRQUEZ . motocicleta. “faz uma palhaçada dessas?”. Vamos ver. atordoado. DENISE . no final. jeans.Pois eu acho que deve ser brutal. mas por outro lado faz com que ele se sinta incômodo.o mesmo que ele admirou tantas vezes basta para esclarecer o equívoco. contempla por um segundo..Quero fazer um comentário sobre o desenlace proposto por Denise: não acho que seja conveniente. numa cena só. DENISE . contente com a própria travessura.Sabem por que eu gosto desse final. Esse sorriso . Bate na porta. a transformação dela é brutal ou gradual? DENISE . GARCÍA MÁRQUEZ .A história ficaria muito comprida. 156 . “Por que uma mulher tão inteligente como Terê”. e a conseqüente perturbação de Henrique.. REYNALDO . saindo com outra mulher? Porque me faz pensar nas fábulas. de verdade. ver Henrique feliz.quando cortar o cabelo.ROBERTO . E a gente só tem meia hora. eu sugiro o seguinte: quando Terê começar a mudar . DENISE .Então. Ainda é muito cedo para saber.

E então.. onde Terê e Henrique vão passando sucessivamente por três bares diferentes. Mas um dia elogia o penteado. de todos os seus adornos femininos . SOCORRO .Estamos tentando analisar a conduta dos personagens. Primeiro. no teatro. DENISE .Bem. ou com um eufemismo. e quando vê.Isso tudo vem com um toque especial. com a pitada de loucura que todas as nossas histórias têm. DENISE . saem os três juntos do bar. de preferência num bar de homossexuais. E. Primeiro..um jovem muito bonito ..o cabelo. Henrique e Teresa se encontram no teatro. não é? GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . Henrique não sabe o que ela está planejando. e tenho medo que ela escape de todos nós. REYNALDO .Eu sinto que a poética desta história está muito coerente. desenhamos aquela seqüência noturna. 157 . GARCÍA MÁRQUEZ . “eu gosto de um companheiro assim: moreno. CECÍLIA .Mas ele não deve encorajá-la.DENISE . não vamos pensar agora na estrutura ou nos detalhes. a última coisa que ela faz é cortar o cabelo..Juntos? Desde o começo? Eu achei que Henrique ia levar Terê à sua garçonnière. Depois. maquiagem e adotando certos gestos masculinos.o processo de transformação de Terê. além disso. nem alto nem baixo”.Existe uma grande angústia no fundo dessa relação.Nesse processo ela vai se despojando.. enquanto conversam. um elogio. DENISE .. colares. Depois. mas na seqüência dos fatos. a roupa. DENISE .É só um cumprimento.Existe um monte de homossexuais que falam de seus gostos com as amigas: “Sabe. porque estamos deixando as aparências nos dominarem. SOCORRO .Não sei se estamos saindo do realismo para entrar em outro tipo de linguagem.e Henrique o apresenta a Terê. Depois.Não estou contando o filme: estou tentando imaginar como seriam as coisas na vida real. falamos de repetir três vezes. eu gosto de meninos assim”. GARCÍA MÁRQUEZ . outro dia elogia a calça de couro. finalmente.. a mudança gradual passaria a ser total. ele leva a moça tomar alguma coisa. mais metafórico. a cena de amor: E agora.Vai ver. enquanto estão conversando no bar chega um amigo de Henrique . GLÓRIA . a moto .Henrique nunca diria uma coisa dessas. poderíamos dar em três fases ....brincos.

não haveria nenhum engano. Terê precisa ir no banco de trás. esse é o meu amigo Nélson”.seria capaz de levá-la um bar de homossexuais? REYNALDO . ROBERTO . DENISE .que acaba de conhecer Terê e se sente deslumbrado por ela . os três . colocada de repente em segundo plano. Deixa passar o fim de semana. mas úteis. Volta ao bar que Henrique freqüenta e ele. Porque o amigo de Henrique estaria lá. REYNALDO .E na vida real. quando a vê. diz Henrique. ela não se resigna.Cruéis. GARCÍA MÁRQUEZ .. quando se encontrar em seu ambiente..Eu imaginava uma coisa mais poética: Terê visitando sozinha o bar e observando discretamente a atitude dos homossexuais. como se fosse uma coisa muito natural.Vou retomar a primeira versão de DENISE. Algum dia. E menos ainda da nossa sociedade. o amigo e Terê vão até o carro de Henrique.Henrique. senta-se na frente.Por quê? REYNALDO . no dia seguinte. não se sente 158 . quando o correto é que todos nós formamos parte desse ambiente. GARCÍA MÁRQUEZ . A partir do primeiro momento. quando saem juntos do teatro. uma excelente atriz. “Ah. GARCÍA MÁRQUEZ . e o rapaz. DENISE .Uma atriz como ela.Por tudo. o rapaz irá atrás. “Deixa eu apresentar Terê. como quem vai ao zoológico observar a conduta dos macacos? Mas. Quando Terê e Henrique tornam a se encontrar no apartamento dele. Sonho com essa cena.Eu acho que não..Por que vocês só pensam em soluções cruéis? GARCÍA MÁRQUEZ . e iria se reunir com eles. como se estivesse se preparando para seu próximo papel.Eu vejo da seguinte maneira: quando Henrique confessa seu problema a Terê. É uma maneira muito gráfica de ver Terê posta de lado. GARCÍA MÁRQUEZ . porque agora Terê sabe como é a pessoa que está no lugar que ela quer tomar: O rapaz serve de modelo. o amigo de Henrique está esperando por ele. e ela irá ao lado do motorista. em que mundo ela vive? Acho que estamos vendo o homossexualismo como uma coisa distante e estranha. Está decidida a conquistá-lo. e na segunda-feira. e entendem que a coisa não avança. ela perceberia que a relação amorosa é impossível. ela desiste de vêlo.. que bom que você veio!”. Os homossexuais não estão separados da sociedade.Ao saírem do bar. Porque Henrique se delataria. DENISE . Terê. tendo de ir a um bar 'observar' a conduta dos homossexuais. Henrique .Pois eu acho que sim.GLÓRIA .Nesse caso.

O filme poderia acabar assim: Terê entrando no apartamento de Henrique. Corte..Isso. mostra-se amável. não. Acho que o problema é de formato. Corte. diz.perseguido e nem recrimina nada. mas meia hora é pouco. DENISE .Mas você levaria a história até aí. e eu não vi esse sofrimento em nenhum momento. que jorram fumaça.. Henrique não a reconhecesse? MARCOS . quando Terê muda.Eu imagino esse lance assim: Henrique e Terê marcaram um encontro no bar no cantinho de sempre. É preciso ver o que acontece depois desse encontro . e depois? DENISE . de alguma forma. Hummm. Ao contrário. uma coisa muito divertida.ou desse desencontro para poder calcular por 159 .Eu sugiro que depois apresentássemos a outra mulher. Por se negar a si mesma. Gostaria que isso ficasse. satisfazê-lo. Reconheceu-a ou não? GARCÍA MÁRQUEZ . Ao contrário. a gente não sabe ainda.Não entendo como ela pode ser tão imatura. vestida de homem. Lá está ela. GARCÍA MÁRQUEZ ..Para ficar louca ela teria de ter sofrido muito. Uma hora e meia seria muito.Esta é uma história para meia hora. como podia ter dito ao tal Nélson. DENISE . Trazem para o casal uma dessas bebidas borbulhantes. Mas . ROBERTO . Corte. GARCÍA MÁRQUEZ . olha pelo vidro da janela. Por idealizar Henrique tanto. parece que ela controlou a situação com bastante maturidade. Talvez fosse conveniente alongar a primeira parte . só para agradá-lo.Mas estamos na metade ou no fim do filme? GARCÍA MÁRQUEZ .E o que aconteceria se. Vemos Terê cortando o cabelo.a agonia desse amor impossível – e deixar a surpresa da transformação para o final. até mostrar Henrique com outra mulher? DENISE . quero oferecer a você uma coisa muito especial”. Henrique chega. dá meia-volta e vai embora. para que a coisa não acabe sendo grotesca. REYNALDO .Até mostrar que Terê perdeu sua identidade e está a ponto de ficar louca. e os dois passam momentos ótimos conversando. porque gostaria de ressaltar a moral da história: “Jamais se transforme em objeto de desejo do outro. “Senta aqui. “Que bom que você veio!”. implícito.Logo de saída.. porque o desejo pode variar de objeto”. Vemos a moça chegando ao teatro de motocicleta. vestida de homem pela primeira vez. É preciso tomar cuidado com esses cortes. CECÍLIA .

porque se for passivo.não se sustenta. Não há tempo para isso.O que precisamos resolver .. na verdade.. e metade desse tempo nós devemos dedicar a apresentar o problema..Mas seduzi-lo como mulher ou como homem?.nós até falávamos do inconfundível orriso de Terê . GARCÍA MÁRQUEZ . Por exemplo.visual e dramaticamente é o golpe de efeito dessa cena em que Terê. Para conseguir isso de forma verossímil não tivemos outra saída a não ser rejuvenescer a velha aos poucos..Temos três maneiras de resolver isso.a propósito do meu personagem. por um lado. MARCOS .. MARCOS . O que estou achando que ficou claro é que só pode ser repentina se nós deixarmos isso como imagem final. E quando chega o momento da valsa. Isso. mas desequilibra a estrutura..E a mudança dela. DENISE . Outro dia.Aos poucos é melhor.onde começamos. mas é só olhar bem . afinal como aconteceu? Progressiva ou repentina? GARCÍA MÁRQUEZ .. ROBERTO . e essa idéia do desencontro por motivos externos. Reynaldo. podemos tentar.punha o exemplo do professor de judô. GARCÍA MÁRQUEZ . Mas para manejar essa situação discretamente dispúnhamos de quase duas horas.Eu me preocupo menos com isso e mais com a idéia de que. rejuvenescida..Eu gostaria que Terê conseguisse seduzir Henrique. no final. não podemos supor que o processo de transformação de Terê ocorra de modo tão gradual que acabe sendo imperceptível. Poderá não reconhecê-la de repente.. já transformada em 160 .Não tão extremos: Terê se transforma por dentro também. Repentina é pior.Seria preciso perguntar também se Henrique é homossexual ativo ou passivo. a diferença de idades entre a protagonista e o jovem já não é tão evidente. ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . não chegue a reconhecê-la . Por outro.. vimos a conveniência de que a velha termine lá em cima.. ao longo de todo o filme. psicologicamente. imperceptivelmente. também podia ser seu neto. João . Aqui. não tem jeito.para ver quem é. dançando uma valsa com um jovem de vinte e dois anos que poderia ser o seu galã mas que. Para mim.. mas resolve o problema do tempo. ROBERTO . na história em que estou trabalhando agora. esta é uma história de amor.A idéia de que Henrique não a reconheça . só temos trinta minutos. Henrique possa não reconhecer Terê. Num longa-metragem.ou melhor. Mesmo que fosse de um jeito traumático.

Como fazer isso. ao mesmo tempo. DENISE . a luta de Terê não deveria levar ao fracasso: Henrique acaba possuindo-a. que supostamente deve acabar bem. O fato é que 161 . Pense na cena do bar. você precisa ter alternativas. Eu não estou contra o final feliz da frustração.. SOCORRO ..Estou convencida de que a mudança de Terê deve ser gradual. plasticamente? Seria preciso perguntar ao maquiador. e muito menos no caso de uma história de amor.e termina com uma visão objetiva: Terê transformada em efebo. se 'transformando' neles.Mas como não há tempo para isso.Henrique ama Teresa pelo que ela é. GARCÍA MÁRQUEZ . por um ato de mimetismo.ela fosse se transformando? Numa cena assim. ao encarregado do guarda-roupa. já que Henrique também participa da mesma paixão. Denise. GARCÍA MÁRQUEZ . MANOLO .Assim não vale. Ou seja. sem se mexer de seu assento . E se pouco a pouco – mas ali mesmo. ROBERTO. Só quem está apresentado a sua própria história é que não faz. Eu acho horrível que essa paixão se frustre.Esse plano começa com uma tomada subjetiva . ROBERTO . e das maiores. em termos visuais? ROBERTO .Vou fazer o papel de advogado do diabo.O olhar de Terê serviria de guia. ROBERTO .A frustração também é uma situação dramática. E deixa de amá-la quando Terê renuncia à sua identidade.E à própria atriz. da qual você gosta tanto. Essa história que Denise quer contar. quando Terê vai observar os homossexuais. com um final aberto. À sua maneira.Terê entra numa luta feroz contra as circunstâncias que a impedem de realizar sua paixão. SOCORRO .homem. no que diz respeito à sua própria mudança. Esse é o momento! DENISE . A transformação de Terê seria mais psicológica do que física..Todos nós fazemos esse papel.. Ela vai selecionando seus 'modelos' e. GARCÍA MÁRQUEZ . uma história com moral no fim.. Manolo poderá ser expressa visual.. GARCÍA MÁRQUEZ . trata-se de um amor correspondido. ou então Terê se transforma em homem e o filme acaba aí. quando deixa de ser ela. Uma história não se frusta como drama porque os personagens se frustram..os homossexuais sendo observados avidamente por uma mulher . Então.. claro. Essa transformação psíquica concordo com a sua preocupação. o fluxo do tempo e o fluxo da consciência ocorreriam de uma vez só. apresenta-se a Henrique. Você está fazendo o papel de papel de advogado de defesa de uma história alheia.

Manolo. ROBERTO .. Então.. A gente não se conhece tão bem como achaque se conhece.Ora. por seu lado. vou ajudar você”. Henrique é um ídolo.. seus se que Henrique desce do seu pedestal.Que antes de sua primeira tentativa.. Talvez por isso. para ver se saímos desse atoleiro... eu quero”. se pudesse. sem meias palavras: “Nunca estive antes com uma mulher. e ela. os amores à primeira vista não são reações que possam ser explicadas facilmente. ele quer.. Não continuo. DENISE . porque a gente nunca sabe onde começa e onde termina o desejo do outro. agora.É uma história muito delicada. e nada.estamos trabalhando sobre um tema que não conhecemos intimamente. SOCORRO .. o lógico é que Teresa diga a ele: “Tudo bem.. 162 .Terê tem que estar convencida de que Henrique se entregaria a ela por completo. confessa que nunca esteve com uma mulher. GARCÍA MÁRQUEZ . Se algum de nós for um homossexual enrustido. estejamos todos atolados.É. mas com mas com você. Não consegue.Não é fácil explicar porque diabos Henrique. Henrique diga a ela. Pode ser que a iniciação sexual de Henrique tenha sido heterossexual. Vamos ver: vamos analisar a história de novo. E daí? Como é que ela ajuda? MANOLO .É isso o que eu gostaria de dizer: é absurdo querer se transformar em objeto do desejo de outro. Pode ser que ele tenha sido até casado. Henrique conheceu dúzias de mulheres tão atraentes e inteligentes como ela. GARCÍA MÁRQUEZ . porque acabo de perceber uma coisa: diante dessa situação. e tenta fazer amor. É preciso dar a esse vínculo Terê-Henrique o nível de tensão necessário. Ou reações químicas misteriosas. sente essa atração sexual pela moça. não pode atribuir esse limite a outra coisa porque não sabe do segredo de Henrique. GARCÍA MÁRQUEZ . alcança Terê na rua e a convida para beber alguma coisa. Não vai além desse ponto. com uma evolução de sentimentos que nós não conhecemos bem. Muito bem. DENISE . Mas sem muita esperança. mas que agora. SOCORRO .Em outras palavras: ele pede ajuda a ela? ROBERTO . São razões do coração. Henrique decide convidar Terê para ir ao seu apartamento. Para Teresa.. mas isso é normal.Eu insisto na minha proposta. Ela também não teria grandes esperanças. No dia seguinte. E essa ambigüidade que mantém o conflito latente. que por favor deixe de inibições e nos dê uma mão. É preciso ter cuidado para não nos enganarmos numa coisa tão polêmica. de repente. é a primeira vez...E nem o nosso.

para mim. Terê vai cometer erros de apreciação. Nesta história. numa circunstância como essa? Será que ele pode. mais interessante será a evolução de Terê.Suprime um obstáculo. não convém. e não temos tempo. GARCÍA MÁRQUEZ . Precisamos nos manter firmes no ponto de vista dela. porque Henrique tem um amigo e não quer desistir dele por causa de Terê.Quantas tentativas frustradas ela vai ter de suportar? REYNALDO .E o que isso adianta. qual a diferença de viver mais um?”. está claro: se tratamos de assumir o ponto de vista dele. mas ele que não é nada irremediável. decidir: agora prefiro o amor heterossexual. O que precisamos evitar a qualquer preço é a mudança de prespectiva.. Isso não é nenhuma novidade para ele. ELID . da noite para o dia. Não vamos nos preocupar com isso. DENISE . os nossos erros de apreciação. GARCÍA MÁRQUEZ . É tamanha a atração que sente por ela.. A história inteira está contada do ponto de vista de Teresa.O conflito viria depois. ROBERTO .Eu me atenho à idéia da tentativa fracassada de Henrique.A coisa ameaça complicar ainda mais.Na primeira noite. Nós simplesmente mudamos de ponto de vista. Como se comportaria um homossexual do tipo de Henrique. E. ELID . Henrique poderia funcionar normalmente com Terê. e no entanto. em termos de tempo. “depois de ter vivido vinte desenganos. Quanto mais forte for a frustração daquela primeira noite. para nós? SOCORRO . Se nos metermos 163 . estamos danados. Henrique já teve relações heterossexuais normais.Houve um trauma num determinado momento.Na primeira tentativa? Não.Não é preciso tocar nesse assunto. Como diz o bolero. DENISE . ELID .O número não interessa. Terê sente que está perdendo a batalha para o rival e apela para o disfarce.Continuamos empacados em nossa ignorância. GARCÍA MÁRQUEZ .Você esta insinuando que Henrique é bissexual? ELID . com o efebo. procurando parecer um pouco com ele. porque o objeto do meu desejo passou a ser uma mulher? REYNALDO . faz tempo que estamos dando voltas ao redor de Henrique. ou a pretensão de trabalhar com dois pontos de vista ao mesmo tempo.Eu acho que sei onde está a dificuldade dramática. Terê é quem toma a iniciativa.. Isso complicaria as coisas. como é natural: são aliás.

muito unissex.Pois eu me pergunto se será possível explorar essa linha sem nos desviarmos muito da idéia original. mas não expressa nada. Seu quarto.Agora.. fica sendo uma história barata. suas capacidades miméticas. GARCÍA MÁRQUEZ .Nós dissemos que Terê é uma boa atriz mas não exploramos a sua imaginação. Ela começa a estudar seu personagem. e elucubrando meios DENISE .Ah. uma situação imaginária onde as fronteiras entre a verdade e a mentira acabam se apagando. assim. 164 ..que na sua fantasia são sempre as que Henrique teria . mas desacreditaria a Oficina. e sairia muito melhor. GARCÍA MÁRQUEZ .E quem disse que resolvia? Não. a história passa a ser nutra.. por exemplo. não resolve! ROBERTO . DENISE . GARCÍA MÁRQUEZ . Ela poderia estar imaginando um romance com Henrique. REYNALDO . uma moça muito moderna. ela entra no quarto e vemos as fotos na parede. estou tendo a seguinte idéia: o processo de transformação pode ocorrer através de detalhes. GARCÍA MÁRQUEZ .É um grande jogo de efeito.. mas muda o sentido da história. dos personagens que ele interpretou no teatro.Existem muitos detalhes que poderiam nos servir para dar a evolução sentimental de Terê. pode estar coberto de fotos de Henrique.e vai tecendo.. SOCORRO . sim.nos dilemas de Henrique. com Terê parecendo um menino desde o começo? Na realidade.. ou seja. nunca mais vamos sair do buraco. muito punk. ROBERTO ..Naquela primeira noite. na cena de amor que acaba de interpretar com Henrique. quando Henrique deixa Terê em casa. através de um espelho. GARCÍA MÁRQUEZ . CECÍLIA ..Essa proposta parece boa. DENISE . Isso basta para deixar claro que Henrique já era seu ídolo há tempos. imagina as reações do outro . CECÍLIA .Pense nesse papel que Terê acaba de conseguir. Por esse caminho nós podemos terminar contando Hamlet.Mas esse jeito não resolve a história. e os antecedentes.E se começássemos a história da transformação ao contrário. mas o que precisa ficar bem claro é qual o momento em que Terê sente que está encurralada e decide continuar lutando até o fim.Você pode mostrar a transformação do jeito que bem entender.. por exemplo.A maldição dos espelhos nos persegue. aí. Se Terê não se disfarçar de homem.. até se transformar num machão.

se transforma e nesse processo deixa de cumprir os requisitos que seu personagem no teatro exigiu. ROBERTO . DENISE . Insinua muito discretamente a idéia da transformação.Eu acho essa idéia o máximo.. de novo: Terê se transforma. sem perceber que é ela. ROBERTO . GLÓRIA. já travestida. acha que ela ainda não não chegou e começa a olhar interessado para aquele garoto que está sentado ali perto.E se Henrique avançasse direto no rapaz? GLÓRIA . exclamasse.A partir do momento em que Terê se disfarça. vai ao bar e quando Henrique passa ao lado nem repara nela. A primeira possibilidade é mais fácil de ser contada. Henrique perceberá tudo. GARCÍA MÁRQUEZ . atraente. e não a de Teresa. ficamos sem moral da história. Um jovem boa-pinta... Simula fazer esforços para consumar o amor. sabendo que não consegue.GARCÍA MÁRQUEZ . ou que não quer. SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ . A gente sempre apela para um final de efeito. passasse na frente de Henrique. e que ele não a reconhecesse. onde ela está esperando com seu novo look. ou perde.Tudo poderia ser um jogo sinistro que Henrique utiliza com suas vítimas. O ciclo se fecha e torna a se abrir onde começou. Henrique recomeça a manobra com a outra. quando não encontra outra opção. as atrizes que trabalham com ele. quero dizer. porque agora ela é um rapazinho. GARCÍA MÁRQUEZ .Isso deixaria uma pergunta latente: o que aconteceria se a reconhecesse? REYNALDO . como dizem os lingüistas. Eu preferiria que Henrique chegasse ao bar.Se Henrique paquerar o suposto galã.Eu gostaria que Terê.É que esta última imagem tem. mas que não faz o gênero de Henrique. mas é também a menos verossímil. mas é a história de Henrique. aborrecido: “Mas que bobagem é essa?”. GARCÍA MÁRQUEZ .Assim que se aproximar e trocar duas palavras com ele. e que. Quer dizer que ele gostava dela como mulher... Então. uma carga semântica muito forte..Vamos lá. e por isso perde o emprego e é preciso substituí-la por outra atriz.De acordo. podem acontecer duas coisas: ou ela conquista Henrique. ao vê-la. Henrique teria que ser muito superficial para que um simples corte de cabelo e 165 . Henrique é um sadomasoquista. Isso quer dizer que ele já não gosta mais dela? De jeito nenhum. A vítima. fazendo tudo para agradá-lo.Ou então Henrique chega no bar. nele.

. Henrique passa na sua frente e não a vê. GARCÍA MÁRQUEZ . Quem vai a um bar de veado também é veado.. que.Poderia ser um desenlace visual. GARCÍA MÁRQUEZ .Eu retorno ao encontro final. Não tenho mais nenhuma outra idéia.. contra ventos e marés. Os homossexuais são muito frívolos. Senta numa mesa próxima. Acabo de perceber uma coisa.. mas por acaso aceitava como mulher? MARCOS . pelo menos desse pobre diabo que passa de uma experiência a outra sem conhecer a verdadeira amizade. REYNALDO . explode de raiva. é preciso ter um caráter muito forte. Henrique não aceita fisicamente Terê transformada em efebo. no bar: O lugar está cheio de clientes. Pode até ser que hoje em dia menos.Vamos detalhar um ponto. sei lá -. afirmam seu direito a existir. 166 . reconhece-a. É preciso tomar cuidado para não confundir as coisas. Digamos que ela se mistura no ambiente sem muito esforço. jogue no chão e pisa em cima..Um momento. como mero pretexto para o encontro. Dissemos que Terê se disfarça de homem. que não se definisse em termos dramáticos. que enfrenta escárnio permanente. e tudo isso a troco de quê? Eu suspeito que exista muita frustação na vida do homossexual. fica estupefato.Eu não me atreveria a dizer isso. SOCORRO . São pessoas que desafiam preconceitos e códigos morais muito enraizados. ou melhor. Por que não tentamos integrá-la.. esperando que ela chegue. eu vou até aqui.. Podemos dizer que esse tipo de pessoa seja superficial ou frívola? Para suportar tudo isso. GARCÍA MÁRQUEZ . não a reconhece. como faria um jovem que estivesse disposto a uma conquista. e diz. como se fosse um efebo a mais. arrasta-a para fora do bar e começa a insultá-la. na ação? Pode ser que a chave do desenlace esteja em algum daqueles diálogos. e não é verdade: ela se disfarça de homossexual ativo. sorrindo: “Alô”.. agora. o verdadeiro companheirismo. em todo caso.Não acho tão improvável. Henrique olha para ela. Mas. Pode.algum outro detalhe exterior o transformasse desse jeito. apóia as duas mãos na mesa. até ser que arranque um dos elementos do disfarce da moça um cinturão.. agarra a moça pelo braço. Então Terê se levanta. porque os homossexuais foram abrindo espaço na sociedade. está sentada na frente de uma mesa. Terê.. caminha decidida para ele. Nós só utilizamos a peça no começo. uma correntinha. Bom. Deixamos de lado a peça de teatro que Henrique e Terê estão ensaiando.

vestida de homem. Talvez seja um caminho que ninguém esperava. Isso é Romeu e Julieta GARCÍA MÁRQUEZ .Vamos imaginar que Henrique esteja sentado no bar. SOCORRO .tem um potencial poético enorme.E que tal se a gente inverter os termos? O amor no teatro se frustra. Henrique olha. 167 . entre eles. reconhece. um diálogo que revela o conflito dos dois. percebemos que estão rompendo as convenções sociais.e ela responde. e assim sucessivamente.. MANOLO .Na peça. mas a gente sabe que.No começo tínhamos falado várias vezes em repetir a cena de amor. Ela chega. Entra no jogo.Quer dizer que os dois só conseguem se comunicar no plano artístico. Assim começa.Amor que termina numa cena de morte? Não é.Eu pensei na possibilidade de uma cena de morte. mas não como estava previsto. esperando Terê. ROBERTO . nem nós. ROBERTO . e o deles se realiza? DENISE . GARCÍA MÁRQUEZ .ouvida duas ou três vezes . em sucessivos ensaios.Precisamos imaginar essa cena e elaborar o diálogo com cuidado. o conflito permanece.. Existe algo mais profundo que une os dois.a dos diálogos repetidos e modificados . mas que na realidade é uma coisa diferente.Estou com a intuição de que essa fórmula . diz alguma coisa .ROBERTO . enquanto na vida real Henrique e Teresa... REYNALDO . através do texto dramático? ELID . O que até agora nós víamos como a verdade do amor .. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . nem eles.Com isso damos ao espectador a ilusão de que as coisas terminam bem para os dois. Henrique diria uma frase que já conhecemos . para utilizá-lo depois. mas à sua maneira.Quando eles começam a modificar os diálogos para ajustá-los à sua própria verdade. senta-se ali perto.. até a história tomar seu próprio caminho. O filme pode terminar como um verdadeiro poema.e ela responderia com alguma coisa que a gente acha que conhece. na realidade.Quer dizer que não é um amor frustrado? Que alívio! GARCÍA MÁRQUEZ .a que eles representaram no teatro aparece como o obstáculo que se interpunha entre os dois.A peça teatral poderia se referir a delas pessoas que têm dificuldades em assumir sua verdadeira personalidade.uma coisa que nós já ouvimos Henrique dizer na peça de teatro . os protagonistas consumam sua amor.

Ora.Não é mais Terê quem muda.Para sermos coerentes. 168 ... DENISE. GARCÍA MÁRQUEZ . em clima de comédia.. um conflito profundo. mudou.Pode até ser engraçado. DENISE . ELID .Acho que seria interessante fazer assim. aqui estão Henrique e Teresa.. De repente. Henrique vestido de mulher. ele aparece vestido de mulher. do começo ao fim.Pois eu confesso que para mim o problema principal está no seguinte ponto: nós não sabemos até que ponto esse drama é dramático para Henrique. porque Henrique é um grande ator e pode fazer o que quiser com o seu próprio físico.o mais belo dos galãs convidando-a para dançar no grande salão de espelhos..A única coisa que precisamos mudar é o tom. ROBERTO . ainda sem se reconhecer. se veste de rapaz. Um final maravilhoso. e paz na terra e GLÓRIA aos céus nas alturas. GARCÍA MÁRQUEZ . Nós não podíamos mudar nada essencialna história.. vai ao bar. de repente. DENISE . A proposta vem da própria Denise. SOCORRO .Não é preciso mudar mais nada. ora. qual é o problema? ROBERTO . como uma comédia. se vai ser comédia. poderíamos tornar a Terê lésbica. REYNALDO . e o gesto de Teresa . é claro. queria que Henrique acabasse com outra mulher. E... por exemplo. Até que a morte os separe..Ô mulher! Só agora você diz isso? GLÓRIA ..E você. uma Terê que desiste de disfarce e se impõe por direito próprio? REYNALDO ..Se impõe como mulher? E de que maneira? GARCÍA MÁRQUEZ .A revelação. senta e fica esperando Henrique. para ele.Quem podia mudar. e de repente mudamos de gênero? GARCÍA MÁRQUEZ.. que já estava achando ótima a idéia da tragédia. Terê corta o cabelo. um na frente do outro. O encontro no bar. podemos terminar do jeito que quisermos.. Uma mulher maravilhosa. Por que não a própria Terê.. GARCÍA MÁRQUEZ . Por exemplo: Terê vestida de homem.Bom. cômico. Se a história muda para melhor. essa não. O que muda agora é a história inteira.VICTORIA . GARCÍA MÁRQUEZ . Eu vejo esse filme. Eu não sinto que isso de 'poder' e 'não conseguir' seja. Bem.. Lembrem-se de Dustin Hoffman em Tootsie..Imaginem só a seguinte cena: a entrada de Henrique. uma mulher belíssima.E eu.

mas com os papéis invertidos .Terê. quando encontra Terê. Não é preciso levar os dois até a cama.. a barreira cai. Os dois estão sob o signo de Gêmeos. Quando os papéis se invertem. ELID . Cada vez que ele aparecer no bar. Uma coisa assim de atores.. Por isso se buscavam.para entender tudo. Mas nossa tarefa. muito de carnaval. amanhã estica os cabelos como Rodolfo Valentino. gosta de se disfarçar. Terê faz o papel de Titania. Não é que ele se torne irreconhecível.. você agora quer estropiar o nosso filme.Não sei. Agora. sei lá.Parece que a varinha de condão fui a palavra comédia.No bar Henrique poderia ir vestido da maneira com que Terê se 169 . vai disfarçado.Ora .. agora. brincar com as aparências. São exemplos. de Shakespeare.o casal perfeito. ou de Gloria Swanson em Crepúsculo dos Deuses. como é que vai entender tudo isso? GARCÍA MÁRQUEZ .GARCÍA MÁRQUEZ .Já sei qual é a peça que estão montando: Sonho de uma Noite de verão. mas creio que a coisa pode funcionar por aí.. Certa noite. depois da trabalheira danada que tivemos? ELID . Esse movimento final. cada um é o outro. o do cara que se transforma em burro e tem um diálogo com ela. Basta vê-los dançar . São os andróginos. Henrique percebe isso. essa atração recíproca que sentiram desde o começo.Na atuação de Terê... também freqüenta o bar sem que ele saiba.A barreira que os separa é a de seus respectivos sexos.. GARCÍA MÁRQUEZ . Parido por ela. GARCÍA MÁRQUEZ . o jogo erótico.Por quê? É um ator.. como lésbica. amanhã usa cavanhaque.Brincadeiras à parte. Hoje usa óculos. quando ela faz o teste no teatro.. Todos os elementos estão aí: a metamorfose. de Maria Félix em Dona Bárbara.. Nesta noite em particular. vai ao bar de homossexuais vestido de dama antiga. o do baile. tem haver um toque de ironia. Mas se buscavam por onde não era. GLÓRIA . REYNALDO . outra noite vai vestido de mosqueteiro. claro.. mas é sempre outro: hoje de bigode postiço e peruca. tem que ser um personagem diferente. E daí vinha a flecha do cupido. DENISE . é ver como damos as diferentes metamorfoses de Henrique. o do burro. agora Henrique não é só homossexual: é a própria bicha louca. que acabaram se encontrando.. e Henrique. SOCORRO . e no final. pode ser maravilhoso.E o espectador. GARCÍA MÁRQUEZ ..Que horror! REYNALDO . os dois têm um filho.

GARCÍA MÁRQUEZ . e vice-versa. REYNALDO ..Minha história é exatamente o oposto de Denise.Precisamos saber.. sem muitas complicações. moralmente legítima e visualmente agradável.Beckett.A sensação que produz é sufocante. Esse mesmo jogo é aplicado no final. e passada no campo.Essa poderia ser a obra que eles vão representar.veste na peça que estão ensaiando. DENISE . E agora é uma comédia divertida. ROBERTO . eu gosto mais. de Ionesco.Sidália e Belinda SOCORRO . E além do mais. Uma história maluca que. seja como for. na cena do bar: um diz maluquices ao outro. mas não a que serve para testar as atrizes. ROBERTO .Poderia ser A Cantora Careca. ROBERTO . tem a vantagem . O que mais a gente pode querer? . ou falam o necessário. GARCÍA MÁRQUEZ . mas eles se entendem perfeitamente. as duas metades que não param de buscar suas identidades. que peça é essa.E eles. GARCÍA MÁRQUEZ .No teste fazem perguntas. como atores. sem nenhum tipo de amargura. Denise? É pegar ou largar. em algum momento responde uma coisa que não sabemos se é um disparate ou uma genialidade. É de época.Eu acho que você não sacrifica nada essencial. uma obra de Beckett: os personagens falam mas não dizem nada.'Entendo' justamente porque não entende nada. Henrique e Teresa. tem sentido.eu acho . ou falam muito pouco. Aliás. feito um disco rachado. 170 . Lembro de um de seus personagens repetindo palavras. E ele. Henrique pergunta a ela: “O que isso quer dizer?”. Eles se sentem como se fossem papagaios. e Terê.Vou ter de pensar nos prós e nos contras. satisfeito: “Entendo”. comentam isso: como é estranho dizer coisas que eles mesmo não entendem. GARCÍA MÁRQUEZ . DENISE .A peça poderia ser contemporânea. O teste é feito com uma obra romântica. O que você acha.de ser dramaticamente válida. mas não se entendem. Por exemplo. e ela responde: “Não sei”. daí sai a cena de amor que nós conhecemos. Talvez seja uma réplica do drama dos andróginos. ainda assim. DENISE .

até os quinze anos. mas recebeu uma educação rígida.Entre elas sobrevive. mas virgem. Assim que Sidália fez 15 anos. O mais correto talvez seja dizer que ela não fala porque não tem vontade de falar.1930.. Era uma mulher belíssima.São filhas do mesmo pai. DENISE ..Morreu alcoólatra. Ainda é lembrada com uma de suas roupas mais vistosas. É tão próximo. Belinda tem 37. Sidália. um vestido de crinolina com uma sombrinha de lacinhos e sapatos de verniz. passou a ser a filha de Sidália. de ponta arredondada.. a mais velha. isso não é época! Isso é o ano passado.Isso talvez influa em sua atitude com Belinda.. Mas agora descarrega sua frustração em Belinda.Não dá um pio. Ou seja. Belinda. Porque Belinda não é normal: não fala. Sidália tem 52. GARCÍA MÁRQUEZ .. diga: quando é 171 .. Sente uma profunda rejeição em relação à irmã. SOCORRO . Quando a família se arruinou. a imagem da mãe. que a criou. a mais moça. Mas. certo? Belinda não viveu essa tragédia: ainda era muito pequeno. há uma diferença de quinze anos. é lógico. pela hostilidade do ambiente. por exemplo. porque tinha o carinho dos pais e a memória do que havia vivido.Ora. Tudo bem.É a história de duas irmãs.. ditada por normas religiosas e morais muito estritas. Entre as duas.Sidália tinha.... e Belinda. sente como uma obrigação moral cuidar dela pelo resto da vida. então. a primeira que levou à cidadezinha as modas européias. Não é que seja nada: é que sofreu um trauma.. Ele ainda vive? SOCORRO . Ao mesmo tempo. Sidália considera a irmã culpada pela sua própria tragédia.. 18 anos.Sidália não teve namorado? É como uma mãe solteira. que eu até me lembro. Sidália sofreu na própria carne algumas das conseqüências.GARCÍA MÁRQUEZ . Sidália conserva esse vestido de sua mãe como se fosse uma relíquia. como uma lenda. SOCORRO . SOCORRO . muito elegante. Sidália foi filha única. Foi muito mimada quando criança. para efeitos práticos.De que época? SOCORRO .. GARCÍA MÁRQUEZ . desde o momento em que nasceu e as duas ficaram órfãs de mãe. GARCÍA MÁRQUEZ . três anos depois da morte da mulher. talvez motivado pela morte dos pais. Chegou a conhecer o velho esplendor da família da aristocracia rural que naquela mesma época começou a cair em desgraça. sua mãe morreu no parto de Belinda. mas não se importava. GARCÍA MÁRQUEZ . Portanto.

Sidália é professora. Sidália ficou furiosa com a irmã: gritou com ela. Belinda tem uma estranha fixação por esse vestido. vive entre alucinações. gosta de cantar. para evitar as traças. quando está sozinha. Ah. Belinda.Belinda também é solteirona frustrada? SOCORRO . E na casa sempre fez o papel empregada: varre. Em alguns momentos Sidália se sente culpada e tenta ser solícita e carinhosa. surpreendeu-a masturbando-se enquanto usava o vestido. Mas Sidália nunca ouviu a irmã cantar.Está quase começando. num mundo de fantasias. SOCORRO . tem contatos com o mundo exterior.. obrigou-a a tirar o vestido. é só Berlinda vestir essa roupa. é um ser que dá pena. E mais de uma vez Sidália surpreendeu Belinda usando o vestido. SOCORRO .Para Berlinda.. sua irmã é um ser manhoso e egoísta.O vestido está guardado no quarto de Sidália – com todos os acessórios -. que as duas irmãs continuam morando no velho casarão familiar.-.. E. ou melhor. que Sidália é professora e com seu salário mantém a casa. E essas fantasias têm um eixo: o vestido da mãe. prepara a comida. Um dia. enfim. Para ela.. Há um detalhe importante. GLÓRIA . guardou-o na arca e ameaçou castigá-la. Vai consultar o padre. ao mesmo tempo. em compensação. As duas são neuróticas. Mas. Nesses momentos. O único som que ouviu de Belinda são os murmúrios e os resmungos que a irmã faz quando dorme.o fato de ser um vestido de luxo. ao mesmo tempo.. vai à missa. sabemos que não é muda.Está no limite da esquizofrenia. que diz a ela que a única coisa que pode aconselhar é procurar o boticário e pedir um remédio que tenha 172 . de acariciar o próprio corpo. com naftalina.que o filme começa? SOCORRO .. que começa a ter desejos de tocar. segundo. O que ela não pode perdoar em Belinda é outra coisa. com um decote grande. Por alguma razão . fazendo charme na frente do espelho ou fazendo a sombrinha girar graciosamente enquanto passeava pelo quarto. arruma os quartos. muito bem dobrado numa arca. É beata. VICTORIA .. se confessa. cuida do jardim. que só pensa em lhe dar desgostos e fazer o que quer. E os vizinhos também. Sidália ficou tão escandalizada que quase morreu um ataque cardíaco. o vestido tem um efeito estimulante....Sidália sabe disso? SOCORRO . GLÓRIA . GARCÍA MÁRQUEZ . sentiu pena.Uma relação de amor e ódio. vive num vazio total.Desperta a sua sexualidade. Sidália está muito preocupada. Por isso. Mas. que eu também ia esquecendo: Belinda.Ela jamais saiu de casa. esqueci duas coisas: primeiro.

DENISE . enquanto trata de ajudar a irmã. os vizinhos assistem a um estranho espetáculo. Na tarde do enterro.Belinda.. nossa tarefa é adaptá-lo.. em algum momento. SOCORRO .. é um trabalhão. e sapatos de salto alto e meias. é claro. Mas. Ela se lança sobre Belinda e começa a puxar o vestido. Belinda se assusta.A imagem de Belinda se masturbando.Sim. toda emperiquitada.propriedades calmantes. Em relação à história.. Eu queria chegar a essa imagem. Aliás. Ela cai em estado catatônico. Um dia. com muito cuidado. apanha a poção do boticário. O roteirista tem que desenvolver seu trabalho da melhor maneira possível.. Agora. sofre um ataque no chão e começa a se contorcer em estranhas convulsões. Depois vem a guerra contra as convenções e os códigos morais. ao voltar da escola. em compensação. Não descarto a possibilidade de. sempre vestida de preto GARCÍA MÁRQUEZ . Sidália busca um jeito para dar essas gotinhas à irmã.. É o nascimento da louca da cidade. isso não é problema nosso.Nós temos aqui um argumento.Por enquanto. a gente deve fazer o que acha que deve ser feito. como se fosse uma epilética. O boticário efetivamente prepara uma poção e recomenda que sejam administradas à paciente. Mas não vai ao enterro de Sidália. que logo passa a recusá-las porque cada vez que toma tais gotinhas se sente sonolenta. a cara coberta de maquiagem. passa na televisão? GARCÍA MÁRQUEZ .. GARCÍA MÁRQUEZ .e com essa overdose acaba provocando em Sidália um dano irreparável. que abre as portas e as janelas da casa e sai à rua. torna a encontrar a irmã usando o vestido e se masturbando. comprimi-lo no espaço de meia hora. como se quisesse arrancá-lo. Ela é muito beata. come com faca e garfo? 173 . algumas gotas por dia.a única lembrança pessoal que ela tem -. O tecido cede. O que Sidália mais temia acaba acontecendo. GARCÍA MÁRQUEZ . muito recatada. é muito vital. com o vestido da mãe todo remendado. desenvolvido do começo ao fim. Vai correndo até a cozinha. Belinda acabar falando. volta para a sala. eu quero saber uma coisa: Sidália é frígida? SOCORRO . É a mesma coisa em relação à produção. primeiro. faz Sidália engolir o líquido achando que assim irá aliviar a irmã .E o resto de seus hábitos sociais? Ela toma banho todo dia.Por isso ela se recusou a continuar tomando o remédio. Nem o remédio conseguiu derrubá-la. Não é um trabalho fácil. com a sombrinha esfarrapada.. Quando Sidália percebe o que acaba de fazer com o vestido da mãe . É Belinda. e rasga em várias partes. Sidália se enfurece. e morre dois dias depois.

que vai surpreendê-la. está muito boa”. que agarra de um jeito estranho. SOCORRO . já bancando a louca. Sidália diz: “Por favor. ela teve tempo para guardar o vestido e fazer de conta que tudo está em ordem. mas é só.ou pelo menos.Belinda não é lá muito asseada. Quando põe o vestido da mãe. Ouve-se um ruído lá fora. a maneira de usar os talheres. SOCORRO .Come usando uma colher.. Quase tudo que move essa história está implícito ou está oculto. e acha que ninguém está ouvindo. por exemplo. com certeza. essa mulher de repente saindo na rua. querida irmã”. Enquanto a gente não conseguir ver o personagem. e ela mesma responde: “Com prazer. e não há quem a faça parar. SOCORRO . foi vendendo os móveis. A loucura faz com que diga tudo que não disse antes. digamos. Belinda tampouco tentou aprender a ler e escrever: Cada vez que a irmã tentava ensinar o alfabeto.O aspecto físico do personagem é muito importante.Eu quero que se veja tudo . usando o vestido da mãe. a própria Sidália pergunta e responde. que agarre o espectador e nos dê um respiro para podermos dizer ó. Enquanto Sidália entra. Belinda não intervém nunca... GARCÍA MÁRQUEZ . se deduza a partir das relações cotidianas entre as irmãs. e começa a falar e falar. Belinda.Nós precisamos de uma primeira seqüência espetacular.SOCORRO . SOCORRO .Você nos danou.. Em sua relação com ela. fecha o portão. A única coisa de que ela realmente gosta são as flores... GARCÍA MÁRQUEZ . Sidália sempre tentou ensinar o ritual da mesa. O salário de professora não dá para as duas. e tira o vestido correndo.A verdadeira louca é Sidália.A primeira cena é a de Belinda no quarto. minha irmã. “Claro. GARCÍA MÁRQUEZ .O final do filme é ótimo. “Você gostou da salada. Sidália. GARCÍA MÁRQUEZ . Belinda fugia. Belinda sabe que é Sidália. mas não conseguiu. ainda são visíveis as marcas dos quadros que foram vendidos. REYNALDO . Belinda?”. Eu quero ver.Sidália nunca consegue se comunicar normalmente com Belinda. arrumando o cabelo na frente do espelho. Nas paredes. passe o saleiro”. atravessa a sala e aparece no quarto de Belinda. GARCÍA MÁRQUEZ . Não é por acaso que só canta quando está no jardim. Um exemplo: na mesa.. 174 . não consegue pensar em muita coisa. ela se penteia.Na casa existe pouca mobília. A relação se dá através de um monólogo sutilmente agressivo.

”. repito. porque acontece que precisamos responder perguntas sem narrador. Pode ter sido um descuido. devemos ir direto ao assunto. ela se nega a falar.Esse trabalhinho é fogo.Tenho medo que isso seja um jeito de precipitar as coisas. mal nos sobra tempo para divagações. e vê o quê? Outra mulher..Como primeira? Haverá uma segunda? SOCORRO .Eu acho essa imagem interessante: na primeira vez que Sidália vê Belinda . não é? Só ela mesma.vamos em frente.Na frente do espelho. obriga-a a trocar de roupa.Então. mostrar a relação entre as irmãs.. GARCÍA MÁRQUEZ . e depois com o padre.Nos créditos de abertura. mãos a obra. Está vendo por que eu digo que temos de ter uma seqüência inicial muito forte? É a nossa única maneira de tirar vantagem... Se você a trouxesse da escola. A partir daí.. GARCÍA MÁRQUEZ . prende as suas mãos com uma corda e amarra-a ao pé da cama. SOCORRO .. e a recém-chegada fica tão enfurecida que insulta a outra. SOCORRO . bate nela. sem interlocutores e quase sem palavras. vamos nessa. Quem é ela? Não sabemos. definir as personalidades. ela se cala. O vestido está rasgado. já a vê usando o vestido. E nós estamos danados.no filme. saberíamos de saída que é professora: “Até amanhã.Você começa o filme com uma senhora entrando numa casa. entre essa primeira cena e o final. está propondo que Belinda rasgue o vestido logo nessa primeira vez?. Quando Sidália rasga o vestido sem querer. vestida como você quiser. Belinda está cantarolando. Contamos. Entende? Isso é o que eu chamo de uma cena dura. dona fulana. ou na argola de rede que está na parede. Sabemos que a casa é dela porque tira a chave da bolsa com toda naturalidade. SOCORRO . ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . Quando sente que lá fora alguém abriu o portão do jardim.. Esse é o nosso material. O espectador fica sabendo: essa mulher não é muda.Claro. Portanto. a única coisa que nós precisamos fazer é responder a essas perguntas da melhor maneira possível. com o fato de que. quero dizer -. podemos fazer uma montagem 175 . Em vinte e cinco minutos.SOCORRO. REYNALDO . mais jovem que ela. a nosso favor. Muito bem. olhando-se num espelho.Quando você fala do vestido rasgado. Mas enfim..Na vida real elas já viveram essa mesma situação outras vezes. GARCÍA MÁRQUEZ . Durante um bom tempo a recémchegada não vai falar com ninguém. capaz de criar intriga e suscitar uma série de perguntas. temos de explicar os antecedentes. Agora a mulher entra num quarto.

. GLÓRIA .Ela sabe que Belinda não é surda-muda. ROBERTO . não cantasse.O difícil é conseguir entender que Belinda se negue a falar com a irmã. Sidália fala com a irmã. em termos de atuação e encenação. resmunga. Além disso. fique muda.Se o espectador acreditasse que Belinda é muda. visível nas roupas e na forma de caminhar..Sidália nunca conseguiu arrancar uma palavra da irmã.Mas nós a ouvimos cantarolar enquanto se vestia. Se nesse primeiro momento ela não falasse. que me preocupa: como tornar verossímil a atitude de Belinda. na frente do espelho.Tem um problema técnico aí. o fundamental é a questão do vestido e a relação entre as irmãs. ROBERTO . Sidália chega ao portão do jardim.Já eu quero propor que nessa cena inicial. Belinda se senta no piano. SOCORRO . No momento em que Belinda acaba de se vestir.. MARCOS . como é natural: “Ela é muda”. É isso que precisamos explicar ou insinuar. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ ... E só quando a irmã está por perto. ROBERTO . 176 .Uma cena tão bonita? ROBERTO . no que se refere á sua mudez? Sidália sabe que a irmã não é muda. a grande surpresa: Belinda desanda a cantar:. nenhuma sílaba. Sidália a tratará como se fosse muda. o espectador pensaria. GARCÍA MÁRQUEZ . Não se pode contar o filme inteiro na primeira seqüência.vestido-se como uma noiva – e a dureza de Sidália.Esse 'como se' é decisivo. se faz de muda. Belinda cante e fale sozinha.. GARCÍA MÁRQUEZ . Quanto tempo isso pode tomar? ROBERTO . Não é muda. Quando se enfurece.. Aí já dá para estabelecer um contraste entre a delicadeza de Belinda .paralela entre Sidália saindo da escola e Belinda pondo o vestido.Vou propor que a gente mude isso.. não é? Não a trata como se também fosse surda. No máximo. não emitisse nenhum som. chuta. imagine só a beleza da cena seguinte: sozinha na casa. Essa situação não é fácil de se resolver. E em determinado momento. e quando Sidália chegar.Por que a gente vai parar nesse ponto logo agora? Até aqui. e que a irmã aceite essa situação. mas não é forte. toca suavemente o teclado.É bonita. e começa a cantar feito um passarinho! Isso tem uma força dramática muitíssimo maior do que se soubéssemos logo de saída que ela não é muda. Sidália bate nela. mas Belinda não solta nenhum ai.... O espectador poderá pensar que ela é muda.

ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . será que não tem a ver? Os 177 . GARCÍA MÁRQUEZ . Acontece que eu não vi a foto original... Era uma sombrinha.. E nessa atmosfera idílica. como é que a irmã não vai saber. deduzimos que Belinda canta muito. como a imperatriz do Japão se protegia da chuva. A do silêncio tem uma desvantagem. chegando em casa. acaricia os próprios braços. Ah!. VICTORIA . para que vocês vejam..Eu insisto: aí. Por isso. um tom mais lírico. É como se recuperasse o desejo de viver..Não. com ou sem o padre? Todo mundo sabe.. Belisa.O único lugar da casa que está muito bem cuidado é o jardim..Mas com a imperatriz não era um guarda-chuva? GARCÍA MÁRQUEZ . a cintura.. VICTORIA . com Sidália saindo da escola.. podemos fazer que Sidália seja amante do padre..GLÓRIA . com a sensualidade. o silêncio me parece mais eloqüente que o canto. e não a audição. sofre uma transformação profunda. REYNALDO . vi uma reprodução em preto e branco.As duas opções podem funcionar. Quando Belinda põe o vestido. Quando Belinda põe o vestido. Belinda canta quando sai para arrumar o jardim. que pelo menos seja uma briga das boas. apareceu a imagem que eu estava procurando. Já que vamos brigar com os censores..Aí ganhamos sutileza. protegendo-se do sol com uma sombrinha. GARCÍA MÁRQUEZ .para ela e para nós . ou um enxoval de noiva”.. Teríamos de imaginar as duas alternativas no contexto da montagem paralela.. Parece que estou vendo avançar pela rua essa mulher vestida de preto. E canta. os sentidos que passam a ser predominantes . mas perdemos impacto. REYNALDO . Belinda se contempla com aquela roupa no espelho.são a vista e o tato. pensaríamos: “Está experimentando um vestido de festa. SOCORRO ..Se os vizinhos sabem..Belinda. requer mais tempo de desenvolvimento: um ritmo mais lento.. Se Belinda começasse a cantarolar enquanto se veste.Sidália poderia receber rumores através do padre.Os vizinhos sabem de tudo.Mas eu gosto da idéia de associar o vestido ao canto.. cairia de repente o raio de Sidália.O vestido deve ser associado com a elegância. Os vizinhos dizem que volta e meia ouvem Belinda cantar. Preciso conseguir aquela foto. ROBERTO .A propósito: para dissimular aquela questão da masturbação para a censura.. e me confundi... GARCÍA MÁRQUEZ .

. GARCÍA MÁRQUEZ . empedrada de paralelepípedos. As meninas saindo debaixo do sol. ela está parada na porta da escola.. ROBERTO . ela atrás. E.Na primeira vez que a vemos. Sidália entra no jardim.. E na parede.Está arrumando o cabelo na frente do espelho. essa é uma história bem de Lorca: esse par de loucas trancadas num casarão.Vemos.. abrindo a sombrinha. quando cai um pé d'água. está o retrato da mãe. duas coisas: a distância que existe entre a escola e a casa. é tanto calor que quando chove..Nós dissemos que ela é professora? Dá aulas num colégio de freiras. Percebemos isso? ROBERTO . vapor que sobe dos chacos. Os dois estão juntos na parede da 178 . como se fosse do inferno. A casa por dentro. REYNALDO . casinhas de dois andares. despedindo-se das alunas. mas que visualmente é belíssimo. embora um tanto antiquada. ROBERTO .Amores de Dom Perimplim com Belisa em seu Jardim é uma peça de García Lorca. GLÓRIA . Em alguns povoados do Brasil.Novo corte: Belinda terminando de se vestir: Isso é o que vemos: uma mulher bastante bonita que está pondo uma roupa muito bonita. Acaba de chover de terra úmida sobe um vapor denso”. cobertas de cal. Vapor aliás. e a casa por fora. parecida com a mãe. em cima do baú. que ninguém sabe explicar o que está fazendo aí. Uma mulher dessas não desvia por causa de uma pocinha de nada. chuva que cai. das pedras. GARCÍA MÁRQUEZ . “Até amanhã.. SOCORRO . sai fumaça do chão. mas ela não se dá ao trabalho de fechar a sombrinha. olhando bem.E a fumaça que sobe... essa mulher vestida de negro. Corte. ROBERTO . Nos dois lados. Temos de ir construindo personagens. dois: um da mãe e outro do pai.Sidália vai saltando as poças.Belinda é bonita.Ou pisando nelas. Ou melhor. Socorro: “Sidália via por uma rua ardente.Não deve ser um daguerreótipo. essa cidadezinha de ruas desertas. Tem que ser um grande retrato pintado a óleo. GARCÍA MÁRQUEZ .. Anote a. assim.. dona Sidália”.Vamos indicar isso para o assistente de produção: rua que reverbera debaixo do sol. essas casas de muros brancos.Mas está suja e despenteada.Parou de chover. SOCORRO ..Não está parada: estão todos em movimento. porque na tela os daguerreótipos não aparecem. GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO .. GARCÍA MÁRQUEZ .

. mas também por causa do cadeado. VICTORIA . por que não trancou o vestido à chave e guardou a chave no decote? SOCORRO .São os dois únicos quadros que sobraram na casa. já que Sidália tomou providências para evitar que sua irmã tornasse a tirar o vestido da arca.Mas eu não desisto da idéia de que o vestido produza o mesmo efeito das flores.. Fica claro que não é a primeira vez.Porque uma pessoa como Belinda não anda com um cronômetro. não cantaria.Sidália botou um cadeado na arca. GARCÍA MÁRQUEZ .. pela brisa que entra pela janela. Belinda canta ou não canta? ROBERTO .. Belinda arrebentou o cadeado. com seu uniforme e suas condecorações de coronel da artilharia”.No retrato... MARCOS . GARCÍA MÁRQUEZ . Belinda é reincidente. Só falta uma coroa para que ela pareça uma rainha. mas em off: não sabemos quem canta.Teríamos de filmar as duas propostas e ver no que dá. na penumbra se detém sobre a moça adormecida. mas não adiantou. 179 .Não é.Se for assim. a mãe está usando o famoso vestido. ROBERTO . REYNALDO ... como é que Belinda se deixa surpreender? ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ .Ali.Se Sidália sempre sai da escola à mesma hora.É importante que isso seja notado. SOCORRO . Por isso Sidália está tão furiosa: não só pelo vestido. GARCÍA MÁRQUEZ . não vemos nada. Belinda está cantando. uma sensação de euforia que a leva a cantar.Essa decisão ainda está pendente: nesta primeira seqüência.E se essa for a primeira vez que Belinda põe o vestido? CECÍLIA . GARCÍA MÁRQUEZ .No meu filme.Belinda põe o vestido para o pai. GLÓRIA . Muito bem: isso resolve o problema. Há roteiristas que escrevem: “Em cima do criado-mudo vemos um retrato do pai. GLÓRIA . GARCÍA MÁRQUEZ . A câmera passa por ali.. morto heroicamente em batalha. Por isso Sidália fica tão furiosa e diz a ela: “Chega!”.sala. A gente sabe as horas pelos ruídos que chegam da rua..No momento em que Sidália entra em casa. pela sombra que se projeta no chão. medindo os minutos.Nessas cidadezinhas ninguém precisa de cronômetro ou de relógio. e do pai mesmo que é bom. e é uma pessoa tão metódica. Ele está vestindo seu uniforme de general.

Então. SOCORRO .Ela não recorda do pai ..Pedir a quem? SOCORRO . mas muito complicado mesmo. quando Sidália vai se confessar.Essa informação pode ser deixada para depois. porque Belinda se parece com a mãe. 180 . GARCÍA MÁRQUEZ .aquele cabelo. ROBERTO .Belinda tinha três anos quando o pai morreu.E se Sidália odiasse a mãe em segredo? GLÓRIA .. Pode conservar alguma lembrança dele.Por que não voltamos à seqüência inicial? Dissemos que Sidália. aquela pele. na figura da mãe. REYNALDO .Sidália ama também o pai.É aí que mora o drama. MARCOS . Seria funesto que o espectador acreditasse que esta senhora está furiosa porque a empregada experimenta. REYNALDO . Esta poderia ser uma das suas fantasias. SOCORRO .. ao surpreender Belinda com o vestido. poderia ir até o retrato da mãe e pedir desculpas. ROBERTO .SOCORRO . MARCOS . Agora. que as duas mulheres são irmãs.conhece-o pelo retrato e pelo que Sidália contou -. É que odeia sua irmã. Ama e se oferece a ele num ritual. GARCÍA MÁRQUEZ . por que guardaria o vestido com tanto amor? GARCÍA MÁRQUEZ . O que ainda não sabemos é que são irmãs. GARCÍA MÁRQUEZ . No parto. embora um tanto vaga. seus trapos.É disso que tenho medo.Um diálogo? Entre quem e quem? REYNALDO . mas o ama. aos olhos de Sidália... Sidália quer ser como a mãe .Um solilóquio.. bate nela.A mãe.Não é que Sidália odeie a mãe..Um monólogo.mas acontece que quem herdou a beleza da mãe foi a irmã louca.. . CECÍLIA . SOCORRO . Belinda matou a mãe.É preciso elaborar um diálogo muito sutil para insinuar sem dizer.Bate por causa do vestido. Pediria desculpas por causa do vestido. Esse vestido oculta um drama muito... A relação entre as duas se define assim. GARCÍA MÁRQUEZ . Depois. Sidália fala sozinha. GARCÍA MÁRQUEZ . e também por causa do cadeado.Sim. feito Belinda. De Sidália. podemos pensar que se trata da relação entre uma senhora déspota e sua criada. escondida.Ou com tanto ódio.E com a agravante de que.

. ela era “o retrato vivo da mãe”.. e dá uma ordem duríssima: “Tire esse vestido imediatamente!”.Sidália não odiava a mãe: invejava. Tão tensa. ROBERTO .E além disso. mas ouve bem o que eu vou dizer!”.Belinda também vestiu umas luvas de renda. mas com as luvas. seminua. têm de ser atrozes. quando vê a irmã com o vestido da mãe. a beleza que ela não tem. Belinda olha com ódio.E por que não deixamos as luvas de rendas para a segunda cena de violência. É uma situação muito tensa. “Não diga nada. GARCÍA MÁRQUEZ . que chego a pensar: e agora? Como manter esse nível? Como continuar? REYNALDO . GARCÍA MÁRQUEZ . Assim matamos dois pássaros com uma só estilingada: revelamos o caráter de Sidália e damos informação sobre as relações familiares. REYNALDO . Sidália explode... Nós já sabemos que não é muda. Não são fáceis. Sidália a amarra assim. Sidália sempre quis ter um vestido como esse. Ela mesma tira o vestido. desgra‡ada! Engole essa língua.Primeiro Sidália fica plantada na frente de Belinda.O pai também preferia Belinda. Sidália fez com que ficasse assim. pelo que dizia. ROBERTO.Essas cenas de violência são uma dor de cabeça para os diretores. GARCÍA MÁRQUEZ . era a filha da velhice. GLÓRIA . SOCORRO .É isso que diziam dos romances de trinta anos 181 . Agora. Representa a vitalidade. sabem fazer isso. Portanto. sim.Essa primeira seqüência deve terminar com Belinda amarrada na cama. E nesse momento. depois. os insultos de Sidália. GARCÍA MÁRQUEZ . tinha pena dela. Uma situação como essa não se dá facilmente entre pessoas normais. mas sem dizer nada. Mas esse momento não chega jamais. Enquanto amarra a irmã. E.E não tira as luvas. e o guarda para vesti-lo em algum momento muito especial da sua vida.GARCÍA MÁRQUEZ . quando rasgam o vestido? Só as luvas sobrariam intactas. Sidália vai gritando todas as ofensas que passam pela sua cabeça. GARCÍA MÁRQUEZ . quando parece que tudo já está em ordem. Os americanos. começa a insultá-la. porque. Que imagem! E enquanto Sidália a amarra e insulta. ficamos sabendo que Sidália também sabe.Isso resolve o problema de despir Belinda. e o pai via a filha menor como órfã. O vestido é uma espécie de símbolo dessa inveja.O quadro das motivações está completo. Belinda não é assim.

ROBERTO ..Se a confissão de Sidália nos serve para alguma coisa.. GARCÍA MÁRQUEZ . Sidália terá que desamarrá-la. que descansa em paz e na Glória. ROBERTO . e que Sidália acha a irmã louca. Imagine que ela rompeu o cadeado da arca e tornou a pôr o vestido”. Acha que está tomada pelo demônio... GARCÍA MÁRQUEZ . sabem escrever livros”. que conheceu os pais das duas: “Vossa santa mãe. SOCORRO . pois Sidália é das que se castigam com cilícios. Isso nos convém. rezando ou se confessando.Nós ainda não sabemos como o filme continua. GARCÍA MÁRQUEZ .O grande problema desta história é que ela pode fazer a gente perder o sentido das medidas. sim. e na de Belinda. não se defende. Enfim.O que me preocupava era o depois. O ideal seria que tanto ela como o padre estivessem montados em cavalinhos de carrossel. é para explicar que Belinda é sua irmã. isso é uma coisa muito séria. depois de levar uma surra. Até onde chegamos.. “E vosso finado pai. GARCÍA MÁRQUEZ .”. Ela se sente culpada.Aí Sidália solta tudo.É que amarrar implica um elemento de loucura que opera nas duas direções: na de Sidália. porque se associa à camisa de força. sempre disse que você e sua irmãzinha. E fala disso com o padre: “Padre. MARCOS . enquanto 182 . o senhor acha que podemos exorcizá-la?”. Por quê? Quando? GARCÍA MÁRQUEZ .. a de se entregar à bebida ..A cena seguinte é muito plácida: Sidália na igreja. SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ .. GARCÍA MÁRQUEZ . nesse ponto ele solta o rolo familiar inteiro.e que Deus o perdoe -.. sempre no papel de vítima. ela está pior que nunca.. “Padre. dizia. E o padre.. pela bestialidade da sua conduta.E Sidália. às lágrimas ou ao cilício? SOCORRO .Aqui.Por favor.O que eu quero dizer é que fica difícil resolver na tela uma briga entre duas mulheres.. MARCOS . fica claro que só uma ataca..Sidália não acha que a irmã está louca. porque nos permite sair da casa e arejar visualmente o filme..Por que amarrar Belinda? A moça pode ficar jogada num canto. E para ela.atrás: “Os americanos. A outra é um animalzinho.Sidália está louca mas não perdeu o contato com o mundo exterior. não ponha Sidália no confessionário! Que seja uma seqüência em movimento.

ROBERTO . no átrio da igreja. Sidália se levanta. mas cheio de informação.Pode haver um trânsito violento. ofegante.. 183 . padre! Ela está pior do nunca''. se você quiser. Tem um problema de continuidade.E o padre desamarra Belinda como se ela fosse um avestruz.. Corte.Não.ficaria claro. esperou que o padre terminasse de resolver seus assuntos. padre. GARCÍA MÁRQUEZ . é um elemento-chave. Sidália amarra a irmã. e o padre principalmente. para Sidália na igreja. SOCORRO . talvez com soluços afogados. padre”. Um diálogo cortado. apressado. tudo voltou ao ritmo normal. “Rápido. murmurando: “Fez de novo. SOCORRO . que fale com ela: “Ao senhor ela acata. Depois.. para facilitar as coisas? GARCÍA MÁRQUEZ . ajoelhada na frente de um grande crucifixo. o padre contempla Belinda. Sidália pede ao padre que vá ver a irmã. por que não metemos na casa alguma empregada velha..Para deixar Belinda em liberdade. O padre passa perto. SOCORRO . O que eu me pergunto é outra coisa: por que não damos mais importância ao boticário? E inclusive. O padre bate na porta da casa.. SOCORRO . podemos recorrer a uma elipse: passaram-se vários dias.Se Sidália for diretamente procurar o boticário para buscar o sedativo..Não é um corte limpo.. alcança o padre e diz que precisa falar com ele. assim. que é como uma mãe para você? O que você ganha fazendo-a sofrer?”. padre. O que ela quer realmente é que o padre exorcize a irmã. E assim Sidália abre o jogo no trajeto entre a sacristia e o átrio.. Agora os dois estão caminhando na direção da casa. amarrada.Sidália mandou um recado.Sidália. GARCÍA MÁRQUEZ . pode criar um tempo morto com imagens de ambiente. Sidália abre a porta: “Que bom que o senhor chegou.. Impossível: ele não pode atendê-la nesse momento. nós teríamos de eliminar o padre. Chegam.Mas o padre. ela está fora de si”.conversam. Pode haver passado o tempo que você quiser entre o momento que Sidália amarra Belinda e o momento que está na igreja rezando. Arrebentou o cadeado e tornou a pôr o vestido”.Eu vejo a cena assim: Sidália está rezando. a desamarra.. Corte... aqui.. GARCÍA MÁRQUEZ .. começa a abençoá-la e rezar e enquanto isso. “Por que você se porta assim com a sua irmã.E quem chamou o padre? MARCOS . que todo mundo est maluco.. SOCORRO . percebe? O corte limpo só pode ser de Belinda.

.Belinda pôs flores nos cabelos. voltará a sentir a urgência de pôr o vestido. cantarolando.. SOCORRO .. É preciso ver Belinda enlouquecer aos poucos. Belinda tira a chave do seu esconderijo e entrega. Já est calma. GARCÍA MÁRQUEZ . e enquanto desamarra Belinda. veríamos Sidália indo para a farmácia.Terminamos de resolver o pedaço mais difícil. porque não encontrava a chave do cadeado.GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . Registrem: eu falei sombrinha. GARCÍA MÁRQUEZ .. ordena a Sidália: “Fique aqui fora. SOCORRO .Ou se levanta. MARCOS . agora Belinda levanta. totalmente calma.Com a sombrinha.... sai correndo e se esconde em algum lugar. MARCOS .Corte.Quando entregou a chave ao padre. a informação sobre o passado. Por isso.Não pode ser.Sim. e fica ali.. Ela sentiu várias vezes a tentação de falar com o padre. ROBERTO . com calma total.O padre entra sozinho... Belinda se rendeu. GARCÍA MÁRQUEZ . Está como reencontrando a si mesma. Voltou ao seu estado normal. trancando com o cadeado. Pelo menos. e lá está Belinda no jardim. E quando Belinda se vê livre. Dentro de pouco. vai dando conselhos a ela. é capaz de compreender os seus traumas.O padre é meigo com Belinda. não dá. dobra o vestido cuidadosamente e guarda-o na arca. SOCORRO . mas é preciso ver que tipo de cura Sidália quer para a irmã: uma cura espiritual ou uma cura corporal? As duas. momentaneamente... E de repente. como gorjeios.Não....Sidália sai da farmácia com um vidrinho. e torna a apanhar o vestido! REYNALDO . conhece a moça desde que que ela nasceu.Cuidado: guarde essas imagens para o final. 184 .Ela se levanta. Já podemos cortar para ela no jardim. O padre estende a mão pedindo a chave. Sua irmã vai surpreendê-la de novo? SOCORRO . e não guarda-chuva. dura como uma estátua. Deixe-me resolver esse assunto”.O padre chega na casa e. Sidália trancou o vestido à chave. na porta do quarto. GARCÍA MÁRQUEZ . começa a cantar.. ou numa cadeira. cantando. Agora. A chave está com Belinda. Deixou em cima da arca. GLÓRIA . Agora temos que ver como a crise volta a se incubar: Eu vejo Belinda caminhando sozinha pela casa e articulando sons estranhos.

SOCORRO . E lembre-se de passar o espanador pelas prateleiras do quarto”. GARCÍA MÁRQUEZ .. tira água do poço. SOCORRO . quando Sidália a surpreende e rasga o vestido. em 1930.Perderíamos o impacto da cena final. REYNALDO ..Não.. As duas irmãs dormem no mesmo quarto.Bom. GARCÍA MÁRQUEZ .Belinda se masturba no banho? SOCORRO .ouve Belinda falar. Tomam banho de balde. até o momento em que agarra uma faca e avança sobre a irmã. nem nada.. SOCORRO . limpe bem o armário do banheiro. Ela só se masturba no momento clímax. Não tem eletricidade.. GARCÍA MÁRQUEZ . Sidália está dando a Belinda as instruções do dia. suspirar. arrumando um vaso de flores que acaba de trazer do jardim.Vamos voltar à rotina da casa. Sidália vê como Belinda se toca.. e falando com elas. SOCORRO . os espectadores ...É estranho que ela não tenha tido a idéia de amarrar guizos nos pulsos de Belinda. SOCORRO .. Diz: “Belinda. Por isso o vestido tem que ficar trancado a cadeado.Para a sua empregada.Todo mundo sabe que Belinda fala. GARCÍA MÁRQUEZ .E que momento é este? GLÓRIA . REYNALDO .Elas não têm água encanada? SOCORRO .. DENISE .Belinda não tem intenção de matar Sidália.. gritando do: “Agora sim.Belinda cozinha. sua desgraçada!”. lava..Mesmo com um toque de loucura. As duas irmãs estão tomando o café da manhã.GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO .Estamos num povoado rural.Exato. Fala com as flores numa linguagem codificada... Só emite sons..Poderíamos tentar até mesmo uma cena mais mórbida: 185 ...Belinda fica sozinha o dia inteiro.. quando ela sai na rua falando pelos cotovelos.. nem água corrente. Eu vejo Belinda na casa.. ELID . uma pequena dose de vida cotidiana. você está perdida. e faz um sinal da cruz encandalizada. mas ninguém – nem mesmo nós. GARCÍA MÁRQUEZ .Precisamos de uma trégua. então ela não fala.Belinda costuma se acariciar enquanto dorme. DENISE . Vê a irmã se contorcer..Mas uma onanista não se masturba apenas nos “momentos de clímax”.

uma espécie de servidão que não sabemos exatamente em que consiste. Sidália não tem nada a ver com o divino. CECÍLIA .. SOCORRO . nesta relação das duas... deixa que suas lembranças fluam: “Você tem o mesmo cabelo de minha mãe”...Essa relação é muito boa. quando Belinda ainda não tinha nascido.Mas Sidália está sexualmente frustrada. GARCÍA MÁRQUEZ . deixando-se ser amada. O rádio ainda não chegou ao povoado. GARCÍA MÁRQUEZ . enquanto isso. excitada.e armou-se um escândalo que chegou até o Congresso.Para todos os efeitos.Quem anda precisando de marido é Belinda.Belinda adormecida.. como se fosse uma menina. ou de mamãe. sabe? Com gema de ovo. tem ataques histéricos. Há. carícias.“Mamãe lavava a cabeça todos os dias.. CECÍLIA . GARCÍA MÁRQUEZ . E enquanto isso.. com um vestido novo. Além disso. SOCORRO .. SOCORRO .. porradas... SOCORRO .Eu acho que com o café da manhã e o penteado resolvemos as cenas de transição. Pode ser discretamente insinuada..Ou podemos abordar a questão de outro ângulo.. Não é uma relação lésbica. Uma cena de lesbianismo incestuoso. GARCÍA MÁRQUEZ . O que viria depois? 186 . Afinal. entrou na menopausa sem nem mesmo ter tido um namorado.Não da nossa. GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO . Depois... MARCOS . enquanto a penteia. Sidália criou a irmã. ou da sua: da minha. mas cujo fundo secreto é a loucura.Esta não precisa ser escandalosa. Não é possível que não tenha nem uma gota de sexualidade. trata a irmã com muita ternura. Primeiro.E Belinda está muito tranqüila.. necessariamente. SOCORRO . MARCOS .Elas podem estar escutando música. nunca conheceu um homem. Por exemplo: Belinda acaba de tomar banho e Sidália. penteando.Sidália conta à irmã como eram as festas que davam na casa.. e Sidália tocando os seus seios. mas enquanto isso a acaricia.A loucura mística foi mais vista no cinema que a loucura simples. fizeram uma cena de lésbicas na televisão . REYNALDO .Elas não têm rádio.Descreve a mãe numa dessas festas..Não se pode esquecer que Sidália é uma beata. desfazendo nós. é a sua mãe. E gostava que eu escovasse o seu cabelo”..as duas nuas .Na Colômbia. Agora está arrumando seus cabelos. os fragmentos da vida cotidiana. GARCÍA MÁRQUEZ .

ou a dependência mútua? GARCÍA MÁRQUEZ . E a cena termina assim: Belinda banhada. e desde que amanhece. GARCÍA MÁRQUEZ . REYNALDO .. recrimina: “Isso é feio... cozinhar arrumar a casa... esfregando.Se Sidália é tão católica. Belinda se acariciando no sono.Sidália não deixou nunca.. vê que a irmã acaricia o próprio sexo. 187 ... servindo o jantar a Sidália.E se encontrássemos outra cena sugestiva para deixar bem clara a relação de amor-ódio.. SOCORRO . Antes só penteava.CECÍLIA . Temos que começar a desfazê-los.E continua ensaboando. saberá que é pecado não levar a irmã à missa dos domingos... Que momento! Diga a verdade: tem alguma coisa mais sugestiva? A irmã cinqüentona dando banho na irmãzinha de trinta. mas com um avental.. SOCORRO . não responde. como a minha menina ficou bonitinha! Vamos ver. vestida..Eu acho essa cena muito reveladora. GARCÍA MÁRQUEZ . Sidália. Agora dá banho..O que você acha deste: Sidália dá banho em Belinda. As boas meninas não mexem aí”.E Sidália vai de novo ao padre.E passa talquinho..”. vai até o piano e toca. MARCOS . porque Belinda pode limpar.. REYNALDO . mas não consegue se banhar. Não podemos continuar dando nós... GARCÍA MÁRQUEZ .. só isso já dava um filme! Belinda é como uma boneca. os seios.Mas Sidália vai ficar falando sem parar? GARCÍA MÁRQUEZ .Belinda não deve sair de casa. penteia.E por que não? E o que todos nós fazemos. Por quê? A única resposta possível é a seguinte: porque Sidália não deixa.Só podemos tirar Belinda de casa quando ela puser o vestido .. Sidália briga com ela porque a irmã não quer falar. Sidália ouvindo seus suspiros. as orelhinhas..A cena noturna. e põe perfume? Estou vendo as duas: “Ah. Sidália bate palmas.Enquanto está dando banho em Belinda. arrumada... E menos ainda com a aprovação de Sidália.Mas esse dia é domingo.Já estamos na metade do filme. REYNALDO .seu uniforme de louca . veste. CECÍLIA . GARCÍA MÁRQUEZ . penteada.e sair às ruas para se diplomar de maluca.... quando deixam. SOCORRO. Belinda se veste e senta na sala com a esperança de que sua irmã a leve à missa..E quando termina de servir a irmã. CECÍLIA . SOCORRO .. ao boticário.

GARCÍA MÁRQUEZ .Não. prefiro sugerir.Já vimos uma boa mostra do erotismo mórbido de Sidália..Pois vamos ver.E aí: como a história continua? SOCORRO . As duas irmãs estão dormindo. aos borbotões. Morde os lábios. Além disso.. a que começa com Sidália saindo da escola enquanto Belinda põe o vestido. ROBERTO . Primeiro.Nesse momento. Depois a que começa com a conversa entre Sidália e o padre... GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO . não diz nada. e termina com Sidália surpreendendo Belinda e amarrando-a na cama.Esse é o eixo narrativo. SOCORRO .. com os olhos muito abertos. ELID . Os detalhes podem variar. mas chora muito. Isso nós ainda não vimos.Acho que me perdi. a ponto de não conseguir mais suportar. a dos chamados momentos da vida cotidiana. ou parecem estar.. essas cenas serão cortadas depois.A única coisa que deixa Sidália furiosa com a irmã. Eu acho que agora seria bom dar algum antecedente do erotismo reprimido de Belinda.De acordo com as minhas anotações.Que bom final para essa seqüência! A única coisa que falta é Sidália ir até o banheiro se masturbar.REYNALDO . Seja como for. vou ler aqui: “como se Belinda fosse um avestruz”. Chora no mais absoluto silêncio.. DENISE .“Me ame muito. nem passa pela cabeça de Sidália ralhar com Belinda. GARCÍA MÁRQUEZ . DENISE . Quando é que Sidália vai à farmácia? VICTORIA .. Está literalmente banhada em lágrimas. é que ponha o vestido da mãe.Sidália percebeu que a irmã está se masturbando. Se você decidiu filmar. É de noite. SOCORRO . Nem bater nela: é como se reconhecesse que a irmã tem direito a esse mínimo de privacidade. está prestando atenção a um barulhinho que chega da outra cama: é um ofegar que vai se acelerando e termina num suspiro de êxtase. 188 . SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ . e vemos que Sidália. E finalmente.Seria bom esclarecer o que elaboramos até agora. e termina com o padre desamarrando Belinda. meu doce amor”. Não pode haver tanto onanismo num filme tão curto.Não. SOCORRO . E então começa a chorar. que filme até o fim.É verdade. eu já falei: essas coisas... são três grandes seqüências iniciais. ela não canta: ela toca. que começa com Sidália banhando e penteando Belinda e termina com Belinda servindo o jantar e tocando piano para Sidália.Não.

Mas aí. Sidália cai e bate a cabeça no pé do piano e fica imóvel. SOCORRO . quando vê que sua irmã morreu. uma classe arruinada. Na verdade. embora depois tenham se complicado bastante .na qual Sidália esteja remendando o vestido.Assim poderia começar a parte final: do pranto silencioso de Sidália. além disso. GARCÍA MÁRQUEZ . só agora. Pode haver uma cena anterior .. Você precisaria imaginá-la num ambiente da velha aristocracia rural. Temos ainda dez minutos. Belinda abria a arca e punha novamente o vestido.Se elas dormem no mesmo quarto.. quem rasgaria o vestido? GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . mas está remendado. Do ponto de vista da progressão dramática. Sidália costurando e ao mesmo tempo. quando via a irmã morta.Pois é. pleno processo de decadência.Em algum momento. ELID . é muito melhor que Belinda se vista.num daqueles momentos de trânsito que chamamos de vida cotidiana.. Belinda. enquanto puxava o vestido pelos ombros. ela estivesse se masturbando -. saia à rua e se assuma como louca. SOCORRO .Sidália dorme na cama de casal. GARCÍA MÁRQUEZ . Belinda tocando piano. que caiba nesses dez minutos finais. à atitude concentrada de Sidália remendando o vestido no dia seguinte.. SOCORRO . clímax e desenlance.Ela disse a Belinda: “Tira essa roupa”. e em determinado momento. precisamos um filminho completo. o vestido não está rasgado.. 189 . Ela mesma havia rasgado. não precisamos mais de antecedentes. SOCORRO. não têm por que dormir em camas separadas. Belinda acha que ela desmaiou. que seja um obra-prima. quase ao seu lado. durante a primeira disputa.Rasgar? Ninguém.. Sidália torna a encontrar Belinda com o vestido – a idéia original era que. e a confusão é enorme. ela é mais forte que Sidália.. mais ou menos. Empurra a irmã mais velha. SOCORRO . porque senão. você terá que analisar esta história a partir de seu contexto. nem vale a pena tentar. durante a cena da masturbação. com introdução. Eu acho que não devemos continuar adiando o clímax. No que diz respeito a nós.ROBERTO .Bem. E além disso.. numa cama menor. Já podemos começar a última parte.Morreu? Está morta? Eu pensava que só aí. bate nela. mas na verdade. porque desta vez Belinda não apanha quieta. Agora.

.. Se a gente passar de uma cena noturna a outra. Tem que ser assim. Se reconhecemos a necessidade de rasgar e remendar o vestido. é preciso um corte. GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO . e vimos quando ela chorou.. Nós. precisamos de uma pausa. o espectador logo acha que se trata da mesma noite.E se voltarmos para a noite da masturbação..Depois de um momento desses. para remendar o vestido. SOCORRO . SOCORRO .para que Sidália costurasse o vestido nessas horas. se quisermos nos manter fiéis aos nossos princípios anarquistas. você sabe.. GARCÍA MÁRQUEZ . a partir do qual é impossível continuar subindo. SOCORRO . ROBERTO .. estaríamos nos referindo às suas insônias constantes.. Agora. Já sabemos que esta paz vai terminar num desastre. lá de baixo. mas de outra perspectiva? Sidália chorou um oceano. Assim. Aí consegue-se um momento muito tenso. GARCÍA MÁRQUEZ . conforme for mais conveniente. é porque precisamos de um vestido remendado 190 . Belinda tocando.Pode ser a manhã do dia seguinte. Se vemos Sidália recuperada. uma cena de passagem. três seqüências. e Belinda de tocar piano . MARCOS . Sidália se levanta. acende uma lamparina. não consegue dormir: Belinda dorme profundamente.Um momento..Em 1930? GARCÍA MÁRQUEZ .. Socorro. você tiraria força do choro.Mas já vimos essa estrutura: Sidália comendo.Mas isso foi há duas. a melhor coisa que se pode fazer é começar de novo. Quando Sidália termina de comer.Nesse caso. para tricotar. e Belinda.Eu preferiria adiantar a cena do remendo. A idéia da radionovela é boa: as irmãs costurando e bordando.As cenas noturnas não admitem graduações.Tanta placidez acaba sendo suspeita.. percorrer outra vez o trajeto inteiro. a cena perde força dramática.me refiro à primeira versão -. Parecia que Sidália era incapaz de chorar. não: ela. ELID .Poderia haver um corte para a madrugada desse dia – ou do dia seguinte . É domingo. Não estou falando de leis dramatúrgicas. SOCORRO .SOCORRO . envolvidas na atmosfera sentimental de um melodrama.Elas podem estar ouvindo radionovela. GARCÍA MÁRQUEZ . tira o vestido da arca e começa a costurá-lo. as duas se sentam na sala: Sidália. e agora está sem nenhum sono. mas de truques narrativos: quando se chega a um ponto muito alto...Você pode situar a história um pouco antes ou um pouco depois.

. Muito bem. descobrimos Sidália costurando.. como se esse vestido e esses rasgos no tecido não as fizessem recordar nada. a harmonia passa. enquanto Sidália costura o vestido... O ciclo que vai das lutas à reconciliação e às novas brigas não acaba nunca. com a imagem é preciso tomar cuidado. a reinar.Sidália quer o vestido para conservá-lo.Poderíamos passar a esse plano através de uma fusão? GARCÍA MÁRQUEZ . E nada mais.... tocando. mas num ato de fúria cega. Sidália costura o vestido na frente de Belinda. Sidália quer o vestido como um relíquia.Sidália é quem rasga o vestido. um elemento de reconciliação que não estava previsto.A música do piano pode entrar por fusão no plano anterior e alcançar o volume pleno no primeiro fotograma desta cena. Já estamos remendando. bem. É uma manhã esplêndida. não saberíamos o que fazer com o bendito vestido. porém.. reina a paz entre as irmãs. quando Belinda saí à rua dando gritos. Por isso. escolhemos este porque é agora que tudo será decidido. as primeiras notas do piano poderiam entrar sobre esse pranto silencioso. sou partidário de que 191 . Que interessante.um significado adicional.. Belinda. SOCORRO . a trilha sonora. discretamente. Nesse mundo de violência soterrada. GARCÍA MÁRQUEZ . a luz do sol se filtra pela janela. GARCÍA MÁRQUEZ .. SOCORRO . Belinda toca piano.. vinte anos. Quando a câmera se move. Mas agora acontece que sai daí – dessa cena do remendo .Por isso fazemos o filme agora.para a cena final. Agora. para que não se gaste. como se as duas sofressem um ataque de amnésia. para sentir-se viva. meio de viés.. e Belinda está sentada ao piano.Belinda toca piano e olha o vestido.. SOCORRO . Reforçariam o dramatismo da situação e não demoraríamos a perceber que não se trata de um simples “comentário com Sidália. começa com Belinda.É curioso. se não soubéssemos isso. E ela acha que isso também aconteceu por culpa de Belinda. para existir.Você precisa prestar atenção na continuidade: de onde vem e para onde vai essa cena? A anterior é a do pranto de Sidália Portanto. De todos os ciclos idênticos. SOCORRO . e Belinda quer para gastá-lo. A imagem.Agora. porque os recursos técnicos têm sua gramática própria. GARCÍA MÁRQUEZ .Mas esta é a primeira vez que o vestido rasga. GARCÍA MÁRQUEZ . de repente. Agora entendemos que isso vem se repetindo há quinze. Isso. Muito bem. ROBERTO .. para que exista. Agora. mas as irmãs disputam o vestido por razões diferentes.

DENISE . vai até a cozinha..Como o espectador fica sabendo que é láudano? GARCÍA MÁRQUEZ . o dineiro do boticário.E agora Belinda. Isso provoca em Sidália uma reação.Quem cozinha na casa é Belinda.. se vocês quiserem.. GARCÍA MÁRQUEZ. é cumulativa.. façam exercícios práticos de montagem.E a dose? Porque é preciso saber que uma overdose pode ser fatal. SOCORRO . onde tudo é harmonia. eu queria que Sidália contasse ao padre o problema de excitação de Belinda. porque é uma substância muito amarga. ao ver que Sidália sofreu um ataque. mas porque tem um belo nome: láudano. com muito cuidado: uma.. Mas como esse remédio foi parar lá? MANOLO . três. Não porque seja mais letal que outro venenos.Mas não mata a irmã de forma violenta. mas sua ação não é fulminante. SOCORRO .. Pode botar um pouco de veneno na sopa. e como Belinda dá o remédio a Sidália? GARCÍA MÁRQUEZ .Sidália não dá diretamente uma colherada a Belinda: derrama algumas gotas na colherinha.os roteiristas se sentem na frente da moviola para editar os filmes. faz com que ela engula um pouquinho de láudano.Como chegou. SOCORRO . Assim o espectador fica sabendo onde está o frasco. O arsênico é um veneno 192 . duas...Quem pode suspeitar que uns poucos minutos depois dessa cena. Com o remédio de Belinda. uso sempre láudano. Podemos falar disso mais tarde. quando quero envenenar um personagem. o remédio já está na casa. GARCÍA MÁRQUEZ . . SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ.. Mas agora.Não precisa saber. DENISE . para o produtor. Belinda vai matar a irmã? GARCÍA MÁRQUEZ . Podemos economizar.Uma overdose de láudano.. e que o padre a mandasse ao boticário. pergunta a Sidália: “Você deu o remédio a ela? Quantas gotas?”. ao chegar e ver Belinda atordoada. Eu. Quando o padre chega. As pessoas falam muito de arsênico. Eu fiz isso.Ou o padre. quando estudava o cinema.Ou então..No começo. O próprio padre pode ir até o armário da sacristia e dar o frasco do remédio a Sidália? GARCÍA MÁRQUEZ . Quando Sidália amarra Belinda. acho que o boticário não faz falta.. Belinda já está sob os efeitos do calmante. pega o frasco na despensa e obriga Belinda a engolir uma colherada.Sidália poderia morrer envenenada. no final daquela primeira seqüência.

para longa-metragens. aprova. no dia seguinte. REYNALDO . sem querer. instintivamente.Eu gostava da idéia de associar o vestido à masturbação. Sidália manda Belinda tirar o vestido. Sidália na escola dando aula. e pronto. ou uma tarefa de escola: a professora vigia.Na primeira seqüência. REYNALDO . rasga um pouco a parte do decote. ou vice-versa. É isso que causa o desmaio e dá a Belinda a idéia de reanimá-la com o remédio fatal. o vestido não rasga na primeira briga. REYNALDO . Danou-se.Antes. Sidália ainda está meio atordoada. SOCORRO . Fade out.Não sei se ficou claro que Sidália desmaia ao ver que rasgou o vestido. porque de repente Belinda fica impaciente e ao ver que a irmã cospe. com seus alunos.O vestido pode ter rasgos e remendos anteriores.Se for assim..Agora sim. debaixo do olhar vigilante de Sidália..Ou seja. SOCORRO . Sidália deitada. a transição teria que ser diferente: de Sidália chorando a Sidália na escola. SOCORRO . com uma mudança de enquadramento. GARCÍA MÁRQUEZ . Dramaticamente. o que havia na colherinha. A reconciliação aconteceu antes. GARCÍA MÁRQUEZ . Belinda está sozinha em casa. a obriga a abrir a boca e faz com que ela engula meio frasco de laúdano.Sidália costuma tomar chá de erva-cidreira todos os dias a mesma hora. ROBERTO . Fecharíamos a seqüência do banho com essa cena. vemos Sidália lá dentro. Sidália. Não há nenhuma razão para abrir mão dessa cena. GARCÍA MÁRQUEZ .Entregue ao ritual. SOCORRO . não veríamos Sidália saindo da escola mas em plena rua.Desta vez.Seja como for não teria tempo de verificar. GARCÍA MÁRQUEZ . é melhor. então. Belinda costuraria. poderia haver uma dissolução de imagem. É como um castigo. GARCÍA MÁRQUEZ . e a própria Belinda tirava sozinha.É.E a cena da costura seria antecipada... Outro remendo para a pobre roupa. É uma infusão que. víamos Sidália saindo. e pode achar que o que Belinda está dando a ela é o seu chá. Um mundo completamente diferente. Socorro. na classe. para ela.. É o mesmo filme. revisa. Agora. tem propriedades purgantes. indo para casa.. Para dizer ao espectador que agora. chorando. em termos de montagem. E acho que a gente iria conseguir isso fazendo que Sidália costurasse o vestido rasgado depois daquela noite. GARCÍA MÁRQUEZ . na 193 . Revela muito melhor a relação entre as duas.

GLÓRIA ..No decote. Corte..E o que a gente iria ganhar com essa história dos talheres? ROBERTO .. Belinda não encontra com quê abrir o cadeado e vai à cozinha e revolve os talheres e apanha uma faca. GARCÍA MÁRQUEZ . mas quando se carrega a bateria. Belinda se vestindo. mas não importa..Sabe o quanto está se arriscando. a campanhia acaba de tocar. por dissolução.. Sidália terminando a aula.. porque agora trancou-o com um cadeado e não deixa mais a chave em casa: carrega sempre com ela. Enquanto Sidália ensina como se usam os talheres .Agora. Pelo menos.Sidália. entram...Está muito rebuscado. quando Sidália banha e penteia Belinda.É o que fazem num colégio de freiras. Não precisamos mais ver Sidália na rua. ROBERTO . Corte. MARCOS . ROBERTO . MARCOS . Agora a história torna a se repetir exatamente igual: Sidália na escola.O que eu disse: a possibilidade de criar um contraste. SOCORRO .. nem que pode ser morto.. REYNALDO . também aqui. Eu preferiria ligar Sidália à música. zona pecaminosa.isso é um ritual -...É uma ansiedade de tipo sexual.. GARCÍA MÁRQUEZ .Não conseguiu agüentar a vontade. banhado em lágrimas refiro-me à cena anterior -. pondo o vestido. SOCORRO . procurando alguma coisa para arrombar o cadeado. não tem medo que Belinda tire o vestido da arca. Belinda em casa. 194 .Já sei: sobre o rosto de Sidália. as vozes de um coro de meninos. MARCOS . Por exemplo: Sidália está ensinando aos alunos como se deve usar os talheres numa mesa.Na escola. de solfejo. Belinda desesperada. o que importa é criar um contraste. GARCÍA MÁRQUEZ . que ficam para as refeições.. uma montagem paralela? Sidália dando aula.Por que não fazemos. Vemos a mesma Sidália dirigindo o coro na escola. a levamos para a entrado do jardim.. Com um corte.. Eu aprendi a amarrar os sapatos num colégio de padres. REYNALDO . Belinda arrebentando o cadeado. por sua vez.Está louca para pôr o vestido.. No espelho da tela. com os alunos internos. Depois virão os prantos e o arrependimento. REYNALDO .Mas agora Belinda arrebenta o cadeado. Dando aula de piano.. É uma música angelical. CECÍLIA . ninguém pensa nas conseqüências:nem que pode ser surpreendido.. dois filmes simétricos.Por isso eu tive essa idéia.seqüência que Roberto destacou agora..

É preciso que ela faça isso. para decidir o que fazer agora. e desmaia.E enquanto Belinda costura. O que eu acho importante é ver Belinda se vestindo.O que não me convence é a idéia do desmaio. Não se perdoa.SOCORRO . para costurar o vestido. para ela.Belinda vai pondo o vestido no mais absoluto silêncio. Ao contrário. morta? GARCÍA MÁRQUEZ . ELID . não se ouve um mosquito. quando sem querer rasga o vestido? GARCÍA MÁRQUEZ .Depois de dar o remédio à irmã.Nós não vimos isso na primeira vez.Sidália. mostrar todo este ritual.A história ficou simétrica. Lá na escola. no quarto. SOCORRO .Não dá tempo. SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ .É o que Melville disse quando terminou Moby Dick: “Escrevi um livro malvado e me sinto tão imaculado como um cordeiro”. Não consegue suportar a idéia de ela mesmo ter rasgado o vestido. quer reanimá-la. ELID . atordoada. não precisaríamos ir parar aí. SOCORRO . a história mais torta que alguém poderia imaginar. cadê Sidália? Está dormindo. REYNALDO .foi assim que Socorro propôs? Não importa.. acompanhado o coro infantil. Belinda se tranca em outro quarto.Belinda deu a ela as gotas como se fossem remédio. Tem vantagem de revelar até que ponto Sidália está emocionantemente ligada ao vestido. ROBERTO . Vimos que 195 .. está num estado de êxtase. Aqui. talvez não valesse a pena fazê-la. GARCÍA MÁRQUEZ . esse coro de criancinhas vestidas de branco. Está fazendo com Sidália o que Sidália faz com ela: papel de enfermeira.O de Sidália. a agressão ao vestido tem todas as características de uma auto-agressão. Por isso tem um ataque histérico. flutuando como anjinhos contra um fundo azul! GARCÍA MÁRQUEZ . é um choque. Para dizer que Sidália não estava em casa.Se a cena da escola não proporcionasse esse lucro visual. Precisamos ver o que fizemos no começo. REYNALDO . GARCÍA MÁRQUEZ . cantam os anjinhos. Não quer fazer nenhum mal à irmã.Para ela. REYNALDO .Isso. SOCORRO . e merece o mesmo tempo que o da primeira seqüência. diante do piano.Que maravilha.O que eu mais gosto desta encenação é o candor com que contamos a história. Este é o final. GARCÍA MÁRQUEZ .

invertemos os termos: vemos todo o começo ou todo o final da cerimônia. São coisas 196 . cospe. sei lá. ou seja.. vai buscar o remédio para sedá-la. não seja malvada.Lá.Tem alguma coisa de brutal ou de grotesco. três. como diz Reynaldo. Não tem que ser o frasco inteiro. Eu gosto mais assim.dá a overdose.se continuarmos pensando no láudano . DENISE . Belinda agarra o frasco. SOCORRO . e quando Sidália entra no quarto. nessa ação de obrigar uma pessoa desmaiada a engolir um xarope. Na primeira vez. as rasgar o vestido.Belinda já estava com o vestido. quando a irmã chegava. com os mesmos argumentos que ouviu tantas vezes Sidália . ELID . tome seu remedinho!” . Sidália se auto-agride. GARCÍA MÁRQUEZ .Sim. Eu acho que é uma questão de montagem. GARCÍA MÁRQUEZ . véus. Sidália... Belinda já está vestida.. Então Belinda. “Vamos ver”. que a gente veja ela se vestindo desde o começo. sim. quando Belinda começa a se vestir. e não mostrado inteiro. ou se tranca num desvão... Sidália agredia Belinda. Fazemos o mesmo corte de ida e volta. tranqüilamente. Agora. Agora. ou em outro quarto. diz para Belinda. faz a mesma coisa: pões duas.Tem uma coisa que precisamos ressaltar muito bem logo na primeira vez: o fator remédio. ele perderia importância para nós.Eu prefiro deixar essa cerimônia para o final.O sabor das primeiras gotas é muito forte . nesta segunda vez. E se acabou Sidália. como se ela fosse criança. Quando Sidália amarra Belinda. e dá uma colherinha para a irmã beber. Belinda começa a tirar coisas do baú. ROBERTO . luvas. Conta as gotas com muito cuidado. do de Belinda. Belinda se vestindo. sem nenhum corte.O ritual pode ser sugerido. e na segunda.e Sidália reage. volta a si.Mas no começo já dá ao vestido seu verdadeiro significado. e pronto: adeus. na montagem paralela: Sidália saindo da escola. dos armários: chapéus. cinco gotinhas numa colher. porque está muito ligada ao clímax. GARCÍA MÁRQUEZ . Então Belinda vai para a sala. SOCORRO .“Vamos.Acho que a gente viu.. “tome essas gotinhas”. E aqui.. quando Belinda vê Sidália desmaiada. Podemos dizer que na primeira vez contamos a seqüência do ponto de vista de Sidália. Mas ao ver que Sidália ainda semiconsciente as recusa. e começa a costurar o vestido. ROBERTO . Um pouco além da conta. Se só víssemos o vestido já em Belinda. SOCORRO .quando termina de costurar o vestido. cortamos para Sidália. mete na boca da irmã e obriga Sidália a tomar um gole.

Isso é o que eu mais ou menos entendo por poema: um texto que se mantém erguido só pelo prestígio das palavras. começa a soltar um discurso patriótico. GARCÍA MÁRQUEZ .. É preciso ver esse filme.Não faz mal. Assim. Qualquer coisa.. afinal? SOCORRO . mesmo que seja em silêncio. e de tal forma que. embora não sejam exatamente as mesmas coisas... Agora você só pode medir essa versão pelas batidas do seu coração. é inenarrável.Acho que ficou curta. do começo ao fim.. é um filme de atrizes. podemos passar ao final.Um filme de ambientes. Mas tente resgatar as flores. ROBERTO . Belinda passa pela frente do quadro e se compara: de frente. mas também e talvez por isso mesmo . SOCORRO .Uma canção.. ROBERTO .Sim: Belinda sente que está encarnando a mãe.Ou um poema. GARCÍA MÁRQUEZ . É muito parecida. e o tempo que der é o aproximado. Você conta as batidas do coração enquanto repassa as cenas. GARCÍA MÁRQUEZ . Aquela que Sidália dizia que a mão cantava.. de atmosferas. 197 . MARCOS .. de perfil.E as flores? Perdemos as flores no caminho.. precisamos verificar. GLÓRIA . MARCOS .. ROBERTO . o general. desde o princípio. e ela se coloca numa posição na frente do espelho. O retrato se reflete no espelho..Belinda não se 'compara' ao retrato da mãe.Dizendo o que lhe vier à cabeça. à cena obrigatória. GARCÍA MÁRQUEZ . Sorri satisfeita. Na realidade. E então. um duelo de atrizes. um puro jogo de palavras.O discurso de Belinda na rua deve ser incoerente. Quando vai sair à rua.É um filme lento. quando já está vestida: ela toma o retrato como modelo. a história do conta-gotas. SOCORRO . que estão vindo pela estrada.Nossa versão dá mais ou menos de meia hora? GARCÍA MÁRQUEZ . a que todo mundo está esperando: Belinda sai à rua vestida de louca e começa a dar gritos.. ROBERTO .que vontade de exclamar: “Pobre fotógrafo!”.que está possuída pelo espírito do pai.... não precisa. do láudano. Alem disso.que aparecem no retrato da mãe.. Eu gostaria de terminar com uma cena dessas. a convocar o povo à luta contra os inimigos.E Sidália? Morreu.. GARCÍA MÁRQUEZ ...O que está faltando para nós? Deixar claro. GARCÍA MÁRQUEZ .Nós também não ouvimos Belinda cantar no jardim.

Você ia nos falar das relações entre a teoria e a prática. segundo contam – é um lugar cheio de loucos. sim! Essa convicção vem dos tempos em que eu era estudante. E sem um único flashback. o Amor e a Morte. senhora muito melhor que Sidália lidava com Belinda. há umas três situações dramáticas grandes: a Vida. o que eu disse? Elogio da gordura GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . Momposo ..um tijolaço de quatro horas.Eu? MARCOS . Todas as outras cabem aí. GARCÍA MÁRQUEZ . e com todas as características do velho melodrama. e o amarra numa árvore do quintal.Esse final da louca saindo pela rua.Você falou e disse. Fui ao Centro Experimental de Cinematografia. A imaginação trabalha sobre esses dados e a realidade não tem limites. E os vizinhos aparecendo nas janelas. Estão rindo do quê? Não é verdade.Ah.. Aqui. MARCOS .. SOCORRO .SOCORRO . E eu encontrei o seguinte quadro: não havia curso de roteiro.Quem foi que chamou a imaginação de “a louca da casa? Seja quem for sabia muito bem o que estava dizendo. Conseguimos comprimir em meia hora . sobretudo quando tem visita. Permitimos a essa senhora andar por onde quis. com três ruas que correm paralelas ao rio.meia hora. GARCÍA MÁRQUEZ .Você disse que os roteiristas deviam fazer exercícios práticos de montagem. uma a mais. por termos metido em meia hora o argumento que Socorro trouxe para nós. Lá. mas sem deixar que se excedesse. as situações dramáticas se esgotam rapidamente: não há trinta e seis. E um vilarejo tipicamente colonial. e todo mundo rodeando a mulher no meio da rua. Merecemos um aplauso.. toda família que se dê ao respeito tem seu maluco. aprender a mexer na moviola.Incluindo até pedaços do passado. A cadeira 'Roteiro' era..terra de Deus. Em compensação. A história que Socorro vai filmar poderia voltar às origens de um povoado colombiano chamado Momposo. GARCÍA MÁRQUEZ . aliás.. para aprender o ofício de roteirista. na especialidade de 198 . no caso dos roteiristas. aprendemos a lidar com essa. em Roma. falando sem parar.Pela primeira vez na vida. onde a pessoa deita sozinha e amanhecem doze. Bonito final. que me atrevo a classificar de suntuosa .

deixei de ir às aulas. esse aí: puseram a 199 . ou a História Sócio-Econômica do Cinema.que era como conhecer a gramática do cinema . nem era nada. E você tinha que ver como eram dadas essas aulas. Já falei várias vezes disso aqui na Escola de San Antonio de los Baños. porque fico o tempo inteiro dizendo: “Este corte da janela para o automóvel fui um pouco brusco”. porque a gente perde a ingenuidade. tudo isso com maiúsculas.os Sábios Doutores da Lei – que viviam convencidos de que não havia nada mais importante neste mundo. ou “Belo corte. o plano de estudos incluía um cursinho prático de moviola.os roteiristas não conseguiriam escrever direito nem uma única seqüência. graças à qual pude ver os clássicos do cinema. e a possibilidade de freqüentar a Cinemateca. Havia no porão uma cinemateca excelente. Eu fiz um ano inteiro de exercícios na moviola. Em compensação. para um futuro Roteirista.. mas que era uma fera na moviola. Minha mulher não gosta de ir ao cinema comigo. agarrar erros e distrações -. entendi que naquelas aulas não havia muito para aprender. Ou para dizer como a minha querida professora diria: “Primeiro. Creio que é uma experiência fundamental para os aspirantes a roteiristas. permanecíamos imóveis ou cabeceando no sono. os sábios Doutores passavam horas e horas falando e ouvindo para eles mesmos. que a Estética do Cinema. E isso chega a se converter numa deformação profissional como é. porque dizia que sem conhecer as leis da montagem . os alunos. Ficava com ela estudando o fenômeno da continuidade. o frescor do olhar e acaba vendo o invisível: os cortes e os deslocamentos da câmera. oferecidas por uns senhores .Direção...ou seja. ou. Além disso. Eu me limitava a estudar como funcionava a continuidade num relato cinematográfico. Passava as tardes inteiras na Cinemateca junto à professora de montagem. é preciso aprender a gramática”. Falta um curso de moviola . ou a Teoria da Linguagem Fílmica. que nunca tinha visto nem teria chance de ver na Colômbia. como diria Kulechov.algo que parece tão simples . que é um idioma belíssimo.porque achavam que sua matéria não tinha nada a ver com Roteiro -. de montagem prática . a “arte de construir uma boa frase de montagem”. aqueles discursos não foram totalmente inúteis: me serviram para aprender italiano. Aquilo não era Roteiro. sem jamais tocar a moviola..para os futuros roteiristas. além disso. Quando conheci essa senhora. Aprender a passar de uma cena a outra . Assim. Tratava-se de aulas puramente teóricas. Estava muito orgulhosa. enquanto nós. Devo admitir que para mim.acaba sendo muito difícil para quem não saiba ver essa operação como um problema dramático e visual. uma senhora a quem nenhum dos meus colegas dava a menor importância . para na revisores.

porque a cena tinha sido mal filmada. e ele tornou a filmar a cena inteira. É a prática da montagem o que nos permite dizer “corta um segundo antes. Assim.câmera de lado. a aliança de todos os fatores que contribuam para que um filme seja feito.. o dobro ou a metade? Não seria melhor poder dizer: “Isso ia sair por sete e resolvi dar nove. disse: “Você devia ter filmado de maneira que desse para fazer um corte aqui. A primeira função dessa oficina. para poder fazer esse corte 200 . E o que dá o sentido da continuidade. e não aí!”. O cinema sem continuidade . numa outra. para voltar ao assunto. DENISE . E quando vi o filme..ao lado do diretor. mas podemos sintetizá-las em um: criatividade. eu já disse.... é trabalho coletivo. se a gente pudesse acabar de escrever o roteiro na frente da moviola . ou “Deveriam ter cortado na saída do túnel. Pelo contrário... falando de Psicose. e por isso conseguiu esses contrastes. acho também que deveriam criar aqui uma Oficina de Produção Criativa. Por isso. uns duzentos. Se o roteirista não consegue visualizar o que escreve como um fluxo continuo. não vai resolver problemas: vai criar problemas.como um romance. E como foi dito tantas vezes. que era editora. imediatamente comenta: “Claro. porque na cena da ruptura Fulano foi tantos dólares além do previsto”. etc. um orçamento muito mais reduzido do que o que seria evidentemente necessário. seria fazer os futuros produtores compreenderem que eles formam parte de uma equipe de criação.. A pergunta é a seguinte: o que ele conseguiu fazer pelos quatro? A mesma coisa.. E. ou desse curso. e conseguimos”? Conheço um produtor que estava eufórico porque tinha forçado um diretor a se adaptar estritamente no orçamento. e não para impedir que o diretor gaste ou torre um dinheiro que não é dele.. quando você vê o resultado na tela. Enfim. consegui fazer por quatro”. é claro -. A mulher dele. situado sempre entre um antes e um depois. São várias. quando vem o produtor e diz: “Estou furioso. é o trabalho da moviola. cento e cinqüenta. diz que quando a personagem da mulher cai morta na chão. Creio que já falei disso para vocês. não havia jeito de fazer um corte limpo. em outra. assim que abrir a porta”. como a vida sem continuidade. notei de onde saiu a economia. .não tem sentido. Os produtores costumam se sentir felizes quando podem dizer: “Isso ia sair por sete..”. teríamos que procurar a equipe que fosse perfeita. tudo seria melhor: E seria possível manter sempre a coerência do relato. faltavam vinte dólares. vi de onde tiraram cada centavo: numa cena. em outro mais modesto: continuidade.Hitchcok. e não de uma fábrica de salsichas. para que desse para ver o olho. essa ambientação”. e que estão lá para facilitar e enriquecer o trabalho da equipe. para que saísse melhor. para que víssemos o cachorro passar”..

ROBERTO . fica subentendido que.Uma edição ruim. 'Todo mundo. só com o ponto.o que é pior transformar um ponto e parágrafo numa frase contínua. Chamam esses rabichos da “viúvas”. porque para mim os espaços correspondem a um código secreto que tem a ver com o tempo narrativo. Sempre. Nesse caso. Isto não é um problema teórico. menos da metade de uma linha. E é horroroso..cujo único texto seja uma “viúva”. no fim de um capítulo .uma ou duas linhas. e todo mundo fica em paz.. Porque ao deslocar essas linhas. essa página eqüivale a toneladas de papel. às vezes. conforme eu dizia: para economizar uma página. por razões econômicas.. ponto e parágrafo. eles fazem o possível e o impossível. O leitor sente. uma montagem deficiente. passou mais tempo. ou quase. GARCÍA MÁRQUEZ . mais tempo. o significado muda. Tanto o ritmo quanto a duração têm conotações dramáticas. para trazer da página anterior . a gente sente esses vazios. E com essa companhia a “viúva” deixa de ser “viúva”. o diagramador tenta engolir essa “viúva” ou até uma linha inteira. ou melhor pedaços de uma linha. para economizar 201 . porque dá a impressão de que passou um ano entre a pergunta e a resposta. pode pôr a perder o melhor filme do mundo. mas eu noto em seguida. Se a cena não for cortada no momento exato. Por isso. Pode ocorrer também o contrário.ou um espaço maior que o que corresponde – quanto tempo terá transcorrido? E se esse espaço adicional aparece no meio de uma resposta. fica espantoso. E o editor. Os diagramadores de livros descendentes dos tipógrafos das velhas imprensas . no relato. Para isso. Vocês acham que o editor não economiza nada com isso? Numa tiragem de três mil exemplares a economia é pequena. se a um ponto forem acrescentados dois ou três espaços em branco . “distribui” o espaço entre um parágrafo e outro.mínimo.. na página anterior sobra um espaço em branco. Se o espaço tipográfico é maior. e o diagramador para que ninguém note esse vazio. incorporar tudo na página anterior. mas numa de trezentos mil.Vocês podem até não acreditar.ou seja. menos o autor. três. ponto. como já veremos. o espaço equivalente às linhas deslocadas. para que o livro tenha uma página a menos.ficam horrorizados diante da possibilidade de que em uma página sobrem algumas linhas soltas.. ou de um milhão. para deslocar para a frente . mas acontece exatamente a mesma coisa com o texto impresso. esse lapso é controlado através do ponto: menos tempo.. é preciso reduzir algumas entrelinhas ou . Eu não sei se o leitor percebe ou não. Pode ocorrer que exista uma página – por exemplo.

por não ter consciência suficiente dos problemas da montagem.prevendo os cortes antecipadamente e depois filmar só o que se quer filmar. que é dado pelo que costumamos chamar de nível profissional.. GARCÍA MÁRQUEZ ..Ninguém nunca está completamente seguro do que quer fazer.Mas qualquer ofício tem um mínimo de exigências. é uma merda. o plano acabava ali. dá medo descobrir que estão todos enganados.. em compensação.. GARCÍA MÁRQUEZ . no entanto.. Os erros de um escritor são mais baratos e mais fáceis de serem corrigidos.. Quando vejo a quantidade de exemplares vendidos e as maravilhas que os críticos dizem. cometem erros de continuidade absolutamente incríveis. tão bons que se permitem ao luxo de editar com a câmera.. Se o editor vai vender um milhão de exemplares. até fazer. REYNALDO. Ele mesmo dizia que facilitava muito as coisas. e que o livro. enquanto filmam.Isso é parte inseparável do processo de criação... vamos colálo aqui”... Bunuel fazia poucos cortes na moviola. que são super-conhecidos no mundo do cinema e que. ou então “procure aí aquele plano da porta e coloque atrás do da janela”. do que editar na moviola. na sala de edição.. Eu nunca torno a ler meus livros depois de editados. ROBERTO . que além de participar do processo inteiro do roteiro. gritava “corta!” no momento exato e voilá. com medo do encontrar defeitos que tenham passado despercebidos.e para que a edição custe menos. em termos de visão do mundo. Há. questão apenas de afinar detalhes. na verdade. E o velho sempre ali.. Eu nunca autorizo isso. que para o autor é uma verdadeira catástrofe. mas admiro esse lado profissional de Bunuel. E nunca está seguro do que faz. Cortava durante a filmagem.. E tem mais: sem falsa modéstia. são bons editores.Um escritor tem mais possibilidades de controlar esses detalhes que um cineasta. quer dizer que vai ganhar uma quantidade tão fabulosa de dinheiro que o mínimo que pode fazer é respeitar as pulsações internas do texto. Eu me surpreendo que existam roteiristas com uma vocação esmagadora. porque é sempre melhor editar no papel . favorece essa manipulação. grudado na moviola: “Até aqui”.. onde é preciso estar dizendo o tempo inteiro: “Vamos ver. diretores como Buñuel. críticos e leitores... até ver montado. Não há verdadeira criação sem riscos. Vigiava o desenvolvimento da cena. “até ali”. Eu não sou muito bunuelista. quando fiquei sabendo que tinham me 202 . sem uma cota de incertezas. o trabalho era simplíssimo. e portanto. traga aquele pedaço ali. Depois.

acabam dando tanta cabeçada que morrem disso.. mas ao mesmo tempo necessária. que nunca têm dúvidas. minha primeira reação foi pensar: “Eles acreditaram. para fazer algo que valha a pena. Essa dose de insegurança é terrível. Os arrogantes..dado o Nobel. porra! Caíram na minha lorota?”. FIM 203 . que sabem tudo.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful