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Gabriel Garcia Márquez Como contar um conto

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1997 3ª Edição

Casa Jorge Editorial Ltda. Rio de Janeiro-RJ

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ÍNDICE Prefácio Introdução O enigma do guarda-chuva Ladrão de Sábado

PRIMEIRA PARTE (1ª jornada de trabalho) A dupla, a trinca e a máscara Rumo a outras alternativas (2ª jornada de trabalho) À procura dos limites Sobre o mental e o visual (3ª jornada de trabalho) Em estado de loucura Quando não acontece nada (4ª jornada de trabalho) A morte em Samarra, II O triunfo da vida

SEGUNDA PARTE (5ª jornada de trabalho) História de uma paixão argentina O chamado da selva - O dia em que os argentinos invadiram o mundo - O último tango no Caribe - O inferno tão temido

TERCEIRA PARTE (6ª jornada de trabalho) Recapitulações, I O primeiro violino sempre chega tarde História de uma vingança (7ª jornada de trabalho)

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II Amores equivocados .Sidália e Belinda .Travesti Love .Recapitulações.Epílogo O Elogio da cordura 5 .

Durante este tempo García Márquez não havia conseguido nem querido afastar-se do cinema. como definiu Birri. no Centro Sperimentale di Cinematografia. de Perón e de Cem Anos de Solidão). caipira costa atlântica da Colômbia.PREFÁCIO Nos anos 50. concordaram que aquele era o momento para materializar um sonho antigo. os quatro se reuniram em Havana para discutir a criação de outra escola de cinema. telesséries e vídeos) e capacitação. um projeto ousado e difícil: montar um espaço de formação de telecineastas que fosse também uma “central de energia criadora”. com sedes em Cuba. o mais importante movimento cinematográfico da América Latina. a realização de trinta filmes. não no sentido do iluminado movimento dos anos 60. que desempenhariam papéis fundamentais na eclosão do Nuevo Cine (Cinema Novo). para romper os atavismos que o amarravam a Aracataca e começar a aventura de andarilho que o levaria a palmilhar a Terra e outras dimensões da realidade. de braços com outros “trabalhadores da luz” do continente (o Comitê de Cineastas Latino-americanos). sua paixão de adolescente. inebriante e tirana de inventar romances e contos. García Márquez liderou o processo de implantação. Os velhos amigos do Centro Sperimentale. e três linhas de atividade: pesquisa (levantamento de todas as informações referentes à expressão audiovisual do continente). México. nada a ver com continuismo ou dirigismo. apesar da dedicação compulsiva. com Zavattini e Rossellini circulando pelas salas de aula e pelos corredores e o neo-realismo enchendo as telas com sua ternura e formatando cabeças jovens. Escreveu roteiros para filmes mexicanos e desejou que sua literatura fosse transcodificada à tela. Gabriel García Márquez. Era a época mais brilhante do Centro Sperimentale. em oito anos de existência. Foi a porta escolhida para entrar no mundo grande. Colômbia e Venezuela. Esta terceira linha de atividade é a Escuela 6 . fomento à produção (viabilizou. Entre os colegas mais chegados ao Gabo (creio que aí ganhou o apelido) estavam os cubanos Tomás Gutiérrez Alea e Julio García Espinosa e o argentino Fernando Birri. Trinta anos depois (depois da Revolução Cubana. foi estudar cinema em Roma. Uma escola do Cinema Novo. mas no sentido de que o cinema será sempre novo quando um jovem latino-americano disparar a câmara afirmando ou buscando sua identidade. Montou a Fundación del Nuevo Cine Latinoamericano.

aí sua alma se alimenta do pólen da juventude e das interrogações e floresce com a alegria da eterna primavera. Ásia e América Latina/Caribe (de qualquer maneira. Professor dos alunos avançados do curso de formação. Para participar de momentos mágicos. e da oficina anual Como se cuenta un cuento. noites de autógrafos e outras atividades). também conhecida como Escola de Três Mundos porque seu curso mais importante é dedicado a jovens de África. assessorando roteiros para os filmes de fim de curso. agora famoso e intenso. Trabalhamos nas últimos anos na mesma área da escola (Dramaturgia e Roteiro) e por isso estive presente em muitas sessões destes workshops de idéias e articulação dramática de idéias. García Márquez e seus amigos cineastas contaram com a decisiva contribuição do Estado cubano e. com quem mantém encontros ao longo do ano. com a liberdade e o espírito aquariano que campeiam neste laboratório de criação audiovisual. o professor abre várias portas desenvolvimento dramático 7 . mas principalmente para ser seu professor. na membrana dos neurônios. e recorrente. os direitos autorais de alguns de seus livros. magrinho e vibrátil. Não foi o bastante e aquele estudante colombiano de cinema em Roma. o homem meteria tudo o que ganha na escola de San Antonio. para sentir na pele. mas para peruar mesmo. Uma boa provocação seria dizer que de destinou tanto esforço e dinheiro não apenas para proporcionar saber e estímulo às novas gerações de telecineastas ou ter seu nome ligado ao que muitos consideram a melhor escola de cine/tv do mundo. O menino é mesmo pai do homem. Este livro é o resumo da gravação de uma destas oficinas. em seguida. com o apoio oficial de outros países. este inclusive. bem como os ganhos auferidos em entrevistas. a bem da verdade. que sabe cuidar destas coisas e do futuro da família. A escola de San Antonio é sua casa. em Cuba. Dizem que se não fosse por Mercedes. destinada a roteiristas e escritores de língua espanhola e portuguesa. O processo das oficinas é simples e instigante: os alunos sugerem idéias. neste cultivar de talentos e inquietações plantado às margens do rio Ariguanabo. onde se põe em prática a tênue e escorregadia ciência da narratividade. A indiscrição familiar nos dá uma medida do envolvimento de García Márquez com esta instituição. o calor que se desprende do ato de criação de García Márquez.Internacional de Cine y Televisión de San Antonio de los Baños. Não por isto. Para materializar o sonho antigo. sua mulher. doou seu prêmio Nobel para a nova escola. de instituições internacionais e pessoas. conferências. são destinados à escola. de empresas.

lhes abençoe. de sua imaginação prodigiosa. norteamentos. desencontram e tornam a encontrar articulações. que Oxumaré. Serpente Arco-íris.destas idéias. Universidade Estadual do Norte Fluminense. Este livro pode revelar um pouco deste desnudamento do filho/pai de Macondo. deus da beleza e do cinema. setembro de 1994 * Ex-diretor geral da Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños. inscrevam-se para a próxima oficina e. fecha outras. 8 . e outras deixa apenas encostadas. Cuba. Se não se sentirem saciados. Neste redemoinho de possibilidades os autores das idéias encontram. pulsante. se forem aceitos. movendo-se na superfície e nas profundezas de sua galáxia interior. atualmente diretor da Escola Brasileira de Cinema e Televisão de Campos. pensante. a uma emoção. que lhes levem a um drama. Orlando Senna * San Antonio de los Baños. García Márquez é uma bússola viva.

Cheguei.”. mesmo que seja de um só . Saímos por aí oferecendo esse trabalho e nos disseram que comprariam.. me levaram catorze idéias. de meia hora cada uma”. só uma pessoa escreve a história: ou a mesma que a pensou. outra de mistério. Porque é claro que as linhas gerais da história podem ser elaboradas coletivamente. 9 . Percebemos que. de comum acordo.Vou contar a vocês como é que tudo começou. seja desenvolvida com a participação de todos. Mas. Decidimos então criar uma empresa produtora. Queriam me pedir treze histórias de amor passadas na América Latina. dando crédito a cada autor mas encabeçando cada história com um letreiro dizendo: “A Oficina de García Márquez.ou de uma só. só para começar. para poder vender o produto acabado. E. desde que meu nome aparecesse nos créditos. O trabalho acabou sendo tão divertido. E feito uma flechada. Foi uma coisa surpreendente. bem entendido: na verdade quase todos os nossos alunos são mulheres -. e de repente descobrimos uma coisa: as televisões pagam muito mal.. o papel vale quase nada. recebi um telefonema de um canal de televisão. E pusemos mãos à obra. ou seja.INTRODUÇÃO O enigma do guarda-chuva GARCÍA MÁRQUEZ . a tarefa tem de ser de um só. uma atrás da outra. porque havíamos tentado escrever histórias de uma hora de duração.. realizar as treze histórias. e no futuro continuar com outras séries parecidas: uma cômica. que agora estamos pensando em fazer mil meias-horas. Acerta ou não acerta.. que pode parecer muito agradável e lisonjeiro. fui até lá e disse aos alunos: “Precisamos de treze histórias de amor. Isso. que a idéia. Oferecemos as treze histórias a diversas emissoras. Decidimos fazer a série com treze histórias de amor. no dia seguinte. na Oficina. na televisão. Um belo dia. de treze em treze. No fim. outra de horror.. E sempre trabalhando em grupo. à conclusão de que meia hora era o formato ideal.. afinal. Como eu tinha uma Oficina de Roteiros no México. ou outra pessoa da Oficina. o que fazer? Resolvemos. então. e não tinha saído nada. mas na hora de escrever o roteiro. acaba sendo a coisa mais humilhante do mundo: significa que você está se transformando em uma mercadoria.

virou um vício.ou melhor. num segundo plano. Está chovendo. e que afinal. a multidão com guarda-chuvas. solitária e muito magra. não serve para nada? Algumas vezes acreditei .. das pessoas. Principalmente. Dia desses. totalmente vestida de negro. Mas nesse meio tempo. Não consigo saber quando isso acontece. me desfiz completamente dos guardas vestidos de branco. aparece a nova imperatriz. a esposa de Akihito. de gente que tenha passado por esta Oficina da Escola: gente que não se assuste com nada. não é a da morte do imperador. com um véu negro e um guarda-chuva negro. Ao fundo. dando voltas. Porque em uma Oficina como esta. mas outra: uma história de meia hora.que ia descobrir de repente. Uma história que. Já eliminei o fundo. Esta coisa de inventar histórias em grupo. Vi essa foto maravilhosa e a primeira coisa que me veio ao coração foi que ali havia uma história. Fiquei com essa idéia na cabeça. e que um ser humano seja capaz de morrer por essa paixão. que faz com que o simples desejo de contar histórias se transforme numa paixão. o seguinte: vamos fazer meias-horas e destinar a esta escola aqui . É uma foto do enterro de Hiroíto. morrer de fome. Mas agora acho cada vez mais difícil que isso aconteça. Iremos desenvolvendo as histórias na Oficina que dirijo todos os anos aqui na Escola. 10 . claro. tentando ver se descubro o momento exato em que a idéia surge.Portanto.a Escola Internacional de Cine e Televisão de San Antonio de los Baños o dinheiro que será arrecadado com a venda dos filmes. li um sem-fim de conclusões. Quando acharmos que alguma coisa não estiver direita. aparece a imperatriz. e depois as continuaremos na Oficina do México. Nela. e mais ao fundo ainda. o mistério da criação. pensando bem. que já esteja curada do medo. em resumo. é preciso opinar com absoluta franqueza. fora de foco. de frio ou do que for desde que seja capaz de fazer uma coisa que não pode ser vista nem tocada. A coisa mais importante deste mundo é o processo de criação. e a agir como se estivéssemos fazendo terapia de grupo. coletivamente. tornei-me um viciado no trabalho coletivo. folheando uma revista Life. jornais e pedaços de pano na cabeça. e no centro da foto. Desde que comecei a dirigir estas oficinas ouvi inúmeras gravações. o momento exato em que uma história surge. a que a fotografia está contando. aparecem os guardas com suas capas brancas.. e ela continuou lá. tive a ilusão de estar acreditando . vamos dizer: É preciso aprender a dizer a verdade cara a cara. o que estou propondo é. Nada. encontrei uma fotografia enorme. Que tipo de mistério é esse.

chamava-se Ladrão de Noite. de um jeito ou de outro.. a mulher entrega todas as jóias e coisas de valor.. um ladrão que só rouba nos fins de semana. mas logo descartei também. E então. Acho também que é mais fácil ler esse roteiro do que tentar contar essa mesma história com nossas próprias palavras. e ele a conquista com alguns truques de mágico. Mas não pode fazer muita coisa. porque sem música não dá para viver.Por um momento. Mas nosso objetivo são os filmes de meia hora. preocupada com Pauli. seu título definitivo. Ameaçada por uma pistola. Estou absolutamente convencido de que existe uma história nesse guarda-chuva. é noite. vamos acabar encontrando o tal guarda-chuva no caminho. Agora se chama Ladrão de Sábado. a dona da casa. uma mulher bela que tem trinta anos e também uma insônia sem remédio. que tire vinho da adega e ponha alguma música para o jantar. pois o marido . Poderia ficar o fim de semana inteiro e aproveitar a situação. vai ser mais fácil saber o que queremos fazer. porque Hugo cortou os fios do telefone. Se a nossa Oficina tivesse uma finalidade diferente da que tem. Estou pensando: se nós lermos essa história. enquanto prepara o jantar em um jeito de arrancar o sujeito da casa. Um momento: eu não tinha percebido que já tenho aqui uma meia-hora. É um roteiro de Consuelo Garrido. E quero deixar bem claro que não vou criar nenhuma armadilha para forçar esse encontro. Hugo. a filha de três anos. Vamos lá: alguém aí é voluntário para ler este roteiro em voz alta? Ladrão de Sábado Na noite de um sábado. O ladrão não pensa muito. Tenho a impressão de que. a única coisa que me ficou foi o guarda-chuva. Hugo pensa: “Por que ir embora correndo. Durante o jantar. Ana. o ladrão que durante a semana é vigia em um 11 . eu proporia a vocês que partíssemos desse guarda-chuva para tentarmos fazer um longa-metragem. descobre Hugo em plena ação: flagrante total. Ana. e pede ao ladrão que não se aproxime de Pauli. calça os chinelos do dono da casa e pede a Ana que cozinhe alguma coisa. porque ela nunca mais seria a mesma. se aqui está tão bom?”. entra numa casa. Quando Consuelo apresentou essa história na Oficina. a casa fica afastada. fiquei unicamente com a imagem da imperatriz debaixo da chuva. fica pensando. e ninguém vai passar por ali. Acontece que a menina vê a ladrão.ele sabe porque vigiou antes – só volta da sua viagem de negócios na noite de domingo.

os dois acabam estendidos num sofá da sala. e se despede das duas com um bocado de tristeza. descobre que Ana é a apresentadora de seu programa de rádio favorito. E quando Hugo regressa. Só que houve um tremendo engano: quem toma o copo com o remédio para dormir é a própria Ana. Ana o vê afastar-se. Hugo fica nervoso. Ana desperta em seu quarto. sem falta. para desfrutar do domingo. Pauli os observa. Hugo conserta as janelas e o telefone. Hugo é seu admirador. Nesse momento. mas Ana inventa que a menina está adoentada e rapidamente despede a amiga. dá alguns conselhos sobre como impedir que ladrões entrem na casa. e nunca tem com quem. Ana se arrepende de ter posto Hugo fora do ar. ela o chama. convidando-a para correr um pouco. Na manhã seguinte. falam de música e de músicos. Ana começa a sentir uma estranha felicidade. ela que adora dançar o danzón. e aplaude. feliz da vida. que no próximo fim de semana seu marido vai viajar de novo. é um Deus-nos-acuda: está na hora de o marido voltar: Embora Ana resista. aos gritos. Agora. O ladrão de sábado vai embora feliz. enquanto a noite cai. adorou o jeito daquele ladrão preparar o café da manhã. e assovia. os três ficam juntos. pensando bem. Mas agora é tarde: o remédio para dormir já está no copo e o ladrão está bebendo. Assim. Quando Hugo está quase desaparecendo. ela diz. Exaustos. que cai num sono profundo. e os dois se encaixam tão bem que ficam dançando até o meio da tarde. olhando fixo para os olhos dele. e finalmente adormece. Ele a convida. que quebrou na noite anterior. completamente vestida e bem abrigada por um cobertor. um ritmo que a fascina. Além disso. o tal ladrão é bastante atraente. o programa de música popular que escuta todas as noites. depois de um bom café da manhã. Hugo acaba devolvendo a ela quase tudo que havia roubado.banco. dançando pelas ruas do bairro. E. passa por ali uma amiga de Ana. Ana nota que ele dança muito bem. Ana fica surpresa ao ver como os dois se dão bem. pois ele se comporta com tranqüilidade e não tem a menor intenção de feri-la ou violentála. e enquanto escutam Benny Moré cantando Cómo fue. Hugo e Pauli brincam. No jardim. 12 .

PRIMEIRA PARTE

PRIMEIRA JORNARDA DE TRABALHO

A dupla, a trinca e a máscara GARCÍA MÁRQUEZ - Bem, vamos lá: está na hora de retalhar Ladrão de Sábado... MARCOS - Foi escrita por uma mulher. Deixa uma sensação, sem menor dúvida, de ser feminina. GARCÍA MÁRQUEZ- Você teria percebido isso se não soubesse antes? MARCOS - Teria. GARCÍA MÁRQUEZ - Pela impressão geral, ou por algum detalhe em particular? MARCOS - Desde o começo, senti uma espécie de angústia. Isso está nas sensações da mulher. GARCÍA MÁRQUEZ - Consuelo vai gostar de saber disso. Porque é verdade, a história é contada do ponto de vista de uma mulher. A protagonista é ela. Talvez não seja a melhor das histórias que foram apresentadas aqui, mas acho que é a mais exemplar: É mais ou menos, o que queremos fazer. Primeiro, é “comercial”. Dá para saber que a maioria dos espectadores vai gostar: Aliás, o empresário da Televisão decidiu comprar essa história. Vai agradar e terá qualidade, será bem filmada. Certa noite levamos um susto. Um dos alunos telefonou para a minha casa. “Ligue no canal 5” - disse ele. “Estão passando a história da Consuelo, inteirinha”. Ligo no canal 5 e vejo um sujeito tomando um banho de banheira, cheia de espuma... Era um filme de Hitchcock! Sábado, sete e meia da noite, e para mim, o mundo desmoronou. “Como é possível?”, eu me perguntava. “O que será que aconteceu com a Consuelo? Como é que fizeram essa história, igualzinha à dela?”. Mas era um alarme falso. Conforme o filme avançava, percebi que não tinha nada a ver com a outra história. Sempre que eu ligo a televisão para ver um filme, tenho a esperança de que seja um bom filme:. Mas, naquela noite, queria que o filme fosse ruim, que fosse a pior droga do mundo. Até que percebi que era outra coisa: não era um ladrão que entrava numa casa

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para roubar, e sim um fugitivo, um sujeito que tinha escapado da cadeia e que mantinha a protagonista debaixo de terror e no fim ela, tentando evitar que aquele homem a matasse, fingia obedecer... Quando afinal o sujeito sai da casa, a polícia está lá fora, esperando. Ele enfrenta a polícia e... ufa!, que alívio... que descanso!... Nada a ver: Mas tomamos certos cuidados. Logo de saída, cortamos a cena do banho. Morri de pena. É bonito alguém tomando banho. Poderíamos ter conservado aquela cena. Na verdade, é muito difícil encontrar uma história que não seja parecida, de uma forma ou de outra, há muitas histórias conhecidas. Acabamos eliminando a tal cena. A realidade, aliás, estendeu outra armadilha para mim, quando eu estava escrevendo O Outono do Patriarca. Eu havia imaginado um atentado que não parecia nenhum dos atentados habituais: colocavam uma carga de dinamite no porta-malas de um automóvel. A mulher do ditador apanhava o carro para ir fazer compras, e no caminho o automóvel explodia e ela ia parar no telhado do mercado. Fiquei tranqüilo com a imagem do carro voando pelos ares porque, francamente, achei que era muito original. Pois não é que, três ou quatro meses mais tarde, fazem um atentado exatamente igual, contra o almirante Carrero Blanco, na Espanha? Fiquei furioso. Todo mundo sabia que eu estava escrevendo a história em Barcelona, e naquela mesma época; ninguém iria acreditar que eu tinha tido a mesma idéia muito antes. O jeito foi inventar um atentado completamente diferente: levam ao mercado alguns cachorros sanguinários, especialmente. treinados, e quando a mulher do ditador chega, os cães se lançam em cima dela e a despedaçam. Depois, fiquei contente por terem estropiado o atentado do automóvel. Até hoje fico alegre com isso. O dos cães é mais original ainda, e está mais dentro do espírito do meu livro. Eu até acho que não devemos nos preocupar muito com isso: se uma cena não funciona ou cai, o que se há de fazer? Procurar outra. O curioso é que, na maior parte das vezes, a gente acaba encontrando outra melhor. Se tivéssemos ficado com a primeira, teríamos perdido. O problema é mais sério quando a gente encontra, logo de saída, a melhor. Aí sim, não tem jeito. Mas, como saber? É a mesma coisa que descobrir se a sopa ficou pronta. Ninguém pode saber, a não ser provando. Mas voltando às semelhanças, vemos deixar que elas nos assustem, desde que não se relacionem com aspectos essenciais da história. Porque a verdade é que existem histórias muito diferentes e que, no entanto, têm muitas coisas em comum.

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É preciso aprender a jogar fora. A gente conhece um bom escritor não tanto pelo que ele publica, mas pelo que joga no lixo. Os outros não ficam sabendo, mas o escritor sim: ele sabe o que joga fora, o que vai deixando de lado e o que vai aproveitando. Se o escritor se desfaz do que está escrevendo, está no bom caminho. Para escrever, o escritor tem de estar convencido de que é melhor que Cervantes; senão acaba sendo pior do que na verdade é. É preciso apontar para o alto e tentar chegar longe. E é preciso ter critério, e coragem, é claro, para riscar o que deve ser riscado e para ouvir opiniões e refletir seriamente sobre elas. Um passo a mais, e já estaremos em condição de pôr em dúvida e submeter à prova até mesmo aquelas coisas que nos parecem boas. E tem mais: mesmo que todo mundo ache que essas coisas são realmente boas, o escritor precisa ser capaz de colocá-las em dúvida. Não é fácil. A primeira reação que tenho, quando começo a suspeitar que devo rasgar uma página, é uma reação defensiva: “Como é que vou rasgar isso, se é o que mais gosto?”. Mas é preciso examinar bem e se a gente chegar à conclusão de que, realmente, não funcionava dentro da história, está desajustando a estrutura, contradizendo o caráter do personagem, indo por outro caminho... bem, aí não tem jeito, é preciso rasgar mesmo. Isso dói na alma da gente... no primeiro dia. No dia seguinte, dói menos; dois dias depois, um pouco menos; três dias, menos ainda; e no quarto dia, a gente nem se lembra mais... Só é preciso tomar cuidado com a tendência a guardar em vez de rasgar, porque existe o perigo, se o material rejeitado estiver à mão, de a gente tornar a pegá-lo para ver se “cabe” em algum outro momento. É difícil enfrentar essa encruzilhada sozinho. Aqui, na Oficina, é isso o que torna o trabalho do roteirista diferente. A história é elaborada entre todos nós, mas o roteirista está só e é ele, sozinho, que tem de escolher: O trabalho do roteirista não exige apenas esse nível de perspicácia. Exige também uma grande humildade. A gente, como roteirista, sabe que está numa posição subalterna em relação ao diretor. O roteirista é o amanuense do diretor, ou pelo menos, alguém que está ajudando o diretor a pensar: A história é do roterista, sim; mas o roteirista sabe que no fim, quando passar para a tela, ela será do diretor. Nunca vi, na tela, um único fotograma que eu possa dizer que seja meu. Não sei quantos roteiros fiz, uns bons, outros ruins, e no fim, o que vejo na tela nunca é o que eu tinha na cabeça. Sempre imaginava os enquadramentos completamente diferentes. As vezes, me esmerava indicando ao diretor, através de desenhos, a forma em que eu via o enquadramento ou a cena. “Olha aqui”dizia - “a câmera está aqui; este personagem está em primeiro plano, e este

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outro, está de costas; se a câmera se mover para cá, o outro personagem aparece ao fundo...”. Ia ver o filme e, na verdade, os enquadramentos eram completamente diferentes; o diretor havia criado a cena à sua maneira. Se alguém quiser ser roteirista e continuar sendo roteirista, tem de respeitar isso. Quase todos os roteiristas sonham ser diretores, e acho isso muito bom, porque todo diretor deveria ser capaz de escrever um roteiro. O ideal seria que a versão final um roteiro fosse escrita a quatro mãos, pelo diretor e pelo roteirista. E já que estamos falando de trabalho em dupla, falemos também do trabalho a três. Estou me referindo ao produtor: Insisti para que a Escola trate de incluir entre seus planos um curso de Produção Criativa. Todo mundo costuma achar que produtor é o sujeito que existe para evitar que o diretor gaste o dinheiro antes do tempo. É um tremendo erro. Muitas vezes, a gente percebe que determinado filme é ruim porque o trabalho de produção falhou. Faz pouco tempo, soube de um produtor que estava feliz da vida porque tinha obrigado o diretor a se submeter a um orçamento rígido... e quando assisti o filme, vi o que ele havia conseguido com isso. Em vez de dois atores de primeira, A e B, que tinham sido indicados, o diretor precisou usar C e D, dois atores mais baratos... em todos os sentidos. O resultado estava na cara. A falta de dinheiro aparecia por tudo que é canto e, de fato, acabou com o filme. O barato saiu caro, como costuma acontecer. O produtor deve saber que ele não é simplesmente um empresário, um financista; seu trabalho requer imaginação e iniciativa, numa dose de criatividade sem a qual um filme perde o pé. Quando alguém se empenha em escrever um roteiro, não deve desanimar diante dos obstáculos. E preciso colocar a honra do roteirista na frente do destino do roteirista. É preciso tentar escrever roteiros ótimos, mesmo que depois o diretor faça barbaridades com ele. E repito: para fazer um bom roteiro, o único remédio é apagar, riscar muitas linhas, e jogar muitos papéis fora. Isso é o que a gente chama de sentido crítico, aquilo que Hemingway chamava de shit-detector. O diretor com quem melhor trabalho é Ruy Guerra, porque não se sente constrangido comigo: me diz com toda franqueza o que tem a dizer, e ponto final. E eu também sou assim com Ruy. Tenho um enorme respeito por ele como diretor e criador, mas isso não me impede de falar francamente. O que não presta, não presta; e é preciso jogar fora, seja de quem for. O assunto se resume nisso: é preciso evitar que chegue à tela. Gosto de Ladrão de Sábado porque é um roteiro muito original, embora não pareça: não me lembro de ter lido essa história antes, nem de ter visto essa

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capaz até de matar e que tudo mude quando a menina entrar e começar a relação dela com o ladrão. vai: faz o que todos nós 17 . O espectador tem que saber logo de saída se o que está vendo é um drama ou uma comédia.O personagem se apresenta como bonzinho desde o primeiro momento. Para o roteirista. que a gente acabe num beco sem saída. E digo ainda bem porque há muitos métodos para escrever roteiros. em si. A gente não pode se enganar nunca ao insinuar o gênero. e esse é um ponto no qual a gente se engana muito: temos a história e achamos que isso resolve tudo. fica claro que ninguém quis esconder que se trata de uma comédia. Consuelo quis estabelecer. só que quando o ladrão dá de presente a Pauli a pombinha de porcelana. Essa idéia de Papai Noel é ótima. o tom de comédia. sua própria técnica. A mistura pode vir. um prestidigitador. A mulher vê pelo espelho que o sujeito é um tremendo gato. Acho.A idéia original é um mágico. Só que se desde o princípio ficar evidente que ele é bom. Ainda bem que cada um de nós leva. e que não tem nada a ver com a casa. O tom de comédia vai sendo imposto gradativamente. e isso é importante. Ele tira um objeto que estava oculto. veríamos o personagem como uma fera. não há nada que proíba que esse tom seja ressaltado depois. Dá para imaginar o que vai acontecer. Eu percebi isso na cena do espelho. e depois. porque está bem contado.. mas não importa.A história admitiria esse tipo de recurso. mas depois. uma espécie de pequeno argentino que vai nos dizendo o que temos de fazer. Outra coisa: a dose é decidida pelo roteirista. o importante é conseguir descobrila...história.. na primeira seqüência. Mas agora que você está dizendo. pronta para ser passada ao diretor. Está contado no tom que a história requer. ele poderia ir amaciando. REYNALDO . Depois. seria lógico que ela notasse que é um objeto da casa.. O ladrão está caracterizado de um jeito que faz com que eu seja partidário até mesmo de que ele use aquela pequena máscara que os ladrões das histórias em quadrinhos usavam. Pode acontecer com isso. enfim. GARCÍA MÁRQUEZ .. o sujeito vai embora. Rumo a outras alternativas REYNALDO . lá dentro... Acho mais atraente a gente pensar nele como um bichopapão. que esta versão de Ladrão de Sábado é a versão definitiva. desde o começo. GARCÍA MÁRQUEZ . Talvez na próxima vez não vá mais. que ele mesmo havia trazido. Eu acho que uma das virtudes deste roteiro é a sutileza com que o gênero é estabelecido. só que agora. mas de repente começamos a escrever e erramos o tom. mas na verdade nenhum deles serve: cada história traz.Essa história tem muita coisa de comédia. ou o estilo.

Essa coisa de todos os personagens dizendo sempre a verdade: acho mentira. Acontece com os romacistas. pelas suas previsões. o seguinte: começam a contar uma história que. Mas agora não gosto mais. ele teria todas as informações. A estrutura perde totalmente o equilíbrio (já encontraremos tempo para falar da estrutura). deveria ter umas quatrocentas páginas. ele diria: Juntos? Não saem quase nunca”.. REYNALDO . e no segundo ou terceiro capítulo. Podemos dizer a mesma coisa dos outros elementos. Estamos falando de meia hora na tela. gostava. Ana. não há história que sirva.E que eu não sinto que ele seja um ladrão profissional. a estrutura não serve para nada. para que depois a gente percebesse que ela mentiu. por sua conta. É natural: na medida em que a história vai se ajustando. por exemplo. ou de parecer. De vinte e sete minutos. os defeitos vão se tornando mais evidentes. REYNALDO .Isso até contribuiria para despertar a admimiração dela. sua personalidade. só para ver-nos obrigados. e o homem contestaria: “Chega domingo”. Antes. mas olhando bem. REYNALDO . o tom não serve para nada. Ela diria: “Saímos quase todos os dias”. dá para ver que é apenas um filhinho de papai. e é preciso saber obedecê-las. Seria mais interessante que o espectador fosse descobrindo. GLÓRIA .Não gosto do beijo. confessa: “Não saímos quase nunca”. Isso é gravíssimo. percebem que o material está se esgotando e não sabem o que fazer:. referindo-se ao marido: “Ele chega amanhã”. Enquanto não houver o tom. GARCÍA MÁRQUEZ . enquanto não houver um estilo homogêneo. corremos o risco de começar como se estivéssemos fazendo um longa-metragem.. Uma história de trinta minutos tem suas próprias leis. depois. Ele até gostaria de ser.Eu sinto falta é da descrição de Ana.supúnhamos que ia fazer.E se ele já soubesse tudo? Ela diria. e enquanto não houver inspiração.Eu também não. para ser exato. GARCÍA MÁRQUEZ .Eu consigo ver Ana.Tudo bem. a precipitar os acontecimentos. GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO . Por que não mente? Deveria dar a informação ao contrário. Se vamos empacar na caracterização dos personagens. diz que seu marido chegará no domingo à noite. dividida em partes: 18 . Depois.Volto ao tratamento dos personagens. mas uma coisa me preocupa: o tempo. E um profissional. e desse jeito.. às vezes. Ou seja. as mentiras da mulher: GARCÍA MÁRQUEZ . Desde o começo.

e me dá a impressão de que no ano que vem ele ainda não vai saber falar.. principalmente numa situação como esta. quando a convida para correr. Um roteirista tem de ser mais cuidadoso 19 . quando se levanta..Confesso que não sei direito o que significa ter três anos.. e não de mudá-la.Gostei muito da cena da amiga.. mas acho que devemos tratar de melhorá-la.Há um ponto no roteiro em que se estabelece que o ladrão vê Ana “no batente da porta”.Pois eu acho que deveria ter mais. GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO. E não há nada pior do que uma história curta que foi esticada.Acho que Ana é casada com alguém de muito dinheiro. É fácil de conduzir. É típico de uma classe social. nas comédias é preciso perdoar certos lugares-comuns. já relaxou. A idéia de que ela seja uma locutora de rádio e que tenha um programa popular não me convence. Ou defendemos as nossas histórias. no dia seguinte. Por isso a imaginei assim. Mas.. já preparou o café da manhã. GARCÍA MÁRQUEZ. Eu não consigo mesmo é gostar da troca de cálices. não pode se deixar arrastar pelas idéias que façam com que ela seja contraditória.. Uma menina de três anos é difícil de ser dirigida em cena. Mas enfim.. porque as comédias não devem ser levadas muito a sério. E um recurso muito conhecido. GARCÍA MÁRQUEZ . Tenho um neto que vai fazer dois.. ou cedemos à tentação de convertê-las em histórias diferentes. De noite.A menina tem três anos.. VICTORIA . não pára de maquinar sua defesa: telefonar.. e seria muito difícil inventar um tio para ela..O problema é que uma menina maior teria mais consciência dos laços familiares. pegar uma faca. Quero deixar claro que não estou defendendo esta história.Só tenho medo é de que essa idéia nos leve diretamente a um longa-metragem. por sua vez. GARCÍA MÁRQUEZ . VICTORIA. antes de beber o copo de vinho. por exemplo. GARCÍA MÁRQUEZ . Isso não quer dizer que deva ficar do jeito que está. SOCORRO .. E ele.antes de dormir. SOCORRO.Nada disso: uma criança de três anos se comunica muito bem. preocupada com esse tipo de coisa. e depois. A idade da menina.Já está derrotada.Quando a gente tem uma história nas mãos.. GARCÍA MÁRQUEZ . de gente de dinheiro..

que tudo ainda está muito verde. Ou melhor. porque dá para sentir. ela sim. SOCORRO. Então. GARCÍA MÁRQUEZ . não vai saber que vestuário irá precisar. 20 . simpática ou chata. diante de uma situação dessas diria a ela: “Prefiro beber no mesmo copo que você”. GARCÍA MÁRQUEZ .. e apanha o remédio. ela teria que servir outro copo para o ladrão. fingiria um ataque de histeria e jogaria o copo no chão.. abre de novo.. MARCOS . abre o armário e quando vai fechar. o vão é o espaço que a porta fecha. Será mais arbitrário. GLÓRIA . Mas devemos insistir... preferisse botar na garrafa? Faria isso confiando na própria resistência. Se ela está acostumada a tomar remédio para dormir. se está de pijama ou de roupão. não. VICTORIA .Ou ela procura um pretexto para não ter que beber.Mas se ela fizer isso.Se ele fosse um verdadeiro profissional.O roteiro também deveria deixar claro que Ana tem a idéia de usar o remédio para dormir quando abre o armário do banheiro. É preciso dar outra demão. o batente é a estrutura onde a porta está montada. e o que tiver de fazer o break-dowv. jamais o tomaria com vinho. ou seja.Para mim. como quando estamos pintando uma parede e percebemos que falta alguma coisa para chegar á espessura adequada da tinta. o umbral é a parte de baixo.com a linguagem. GARCÍA MÁRQUEZ .E se ela. O coitado do encarregado de arregimentar o elenco vai ficar louco. ao se ver forçada a tomar o vinho com o remédio. O batente é onde a porta está presa.Insisto: esse negócio da troca de cálices continua me incomodando. já está claro o seguinte: existem alternativas.. e não sabemos como está vestida. Mas não sabemos qual a sua idade.. acontece o contrário: ele não dorme.. loura ou morena. Ela não beija o ladrão no batente: beija no vão da porta.. E na realidade. Ou pelo menos. é a moldura da porta. quando fecha.. na medida em que vamos incorporando elementos. que ele dormiria primeiro. Essa é uma falha técnica do roteiro. na certeza de que ele cairia no sono e ela.. REYNALDO . o mais provável é que ele ofereça seu próprio copo. e seria obrigada a voltar ao banheiro para apanhar outro remédio.. vacila. Pois bem: tudo que sabemos dela é isso: está no vão da porta. nada está consolidado. se é branca ou negra. e sabe que o remédio faz efeito. em vez de botar o remédio no copo. armar os detalhes da préprodução. mas será também mais criativo. A seqüência de ações poderia ser a seguinte: ela vai ao banheiro.E se for ele quem troca os copos? Ela perceberia e.. O dintel é a parte de cima do batente.. Mas parece que não tem outro jeito.

Nós também não sabemos qual dos dois tomou o copo com o remédio para dormir. qual sai depois.Acho que isso é importante: o espectador não sabe qual dos dois copos é o bom. Ele se levanta. 21 . ao campo da criação.Achei! Ele já tomou o seu copo. enquanto ela se limitaria a molhar os lábios. as que fazem a história avançar. com muito cuidado. nem isso? Sim.. Não me perguntem como.. Torna a beber: Chega o momento em que os dois esvaziaram seus copos. eu sirvo”: tem de ceder. Mas os dois continuam conversando. qual ator entra primeiro. ela já não sabe ao certo qual dos copos é o dela. Aliás. REYNALDO . Ela trouxe os copos já servidos. Vamos esquecer o remédio para dormir. GARCÍA MÁRQUEZ . Ele toma um gole. SOCORRO. – que nos ajudam a dizer da melhor maneira possível o que queremos dizer.E se ela souber que ele gosta de beber? Ele poderia liquidar seu vinho num vupt.. É a mais criativa.será muito ouvida aqui na Oficina. O remédio está num deles. criativa .. Vamos reservá-la para as soluções que não sejam simplesmente técnicas.criativo. Será que tem um erro nessa história? Por que será que nenhum dos dois boceja de leve. dormindo.. esta proposta parece ser a melhor. esta palavra . O remédio ainda não fez efeito. animados.. O espectador sabe que um dos dois está a ponto de cair duro. Não sente nenhum gosto estranho.SOCORRO . Não sabemos qual dos copos tem o remédio. gentil.Ela poderia entrar com a bandeja e ele... Mas as idéias fundamentais. Ela não pode dizer “pode deixar. ir ao seu encontro: “Com licença”.Eu acho melhor ele trocar os copos de propósito. e colocou-os na mesa. E apanha a bandeja. não sabemos em qual. apanha o copo dela. Pertencem à técnica alguns recursos – onde colocar a câmera. Ela faz a mesma coisa. até que alguém desmorone no chão. e como a garrafa não está na mesa. GARCÍA MÁRQUEZ .

agora ouve-se uma campainha longa. mas agora sim. A história é muito simples. Desistimos de chamar os bombeiros. Já voltamos”. o rapaz e uma moça. é uma campainha que ninguém nunca ouve. Um rapaz entra num elevador. começou o movimento. Ele vai dirigir o filme. ruídos que descem pelo poço do elevador. Se não conseguirmos. “Devem estar subindo pelo outro elevador” .”. que sofro de claustrofobia. Vamos chamar os mecânicos. torna-se a ouvir a voz lá do alto: “Desculpem. mas não conseguimos achar os mecânicos. respondem: “Está vendo essa gradezinha da ventilação. Existe uma história que quero fazer com o diretor colombiano Lisandro Duque. “A casa de máquinas está lá em cima. Com umas roldanas. já vamos tirar vocês daí”.. Fiquem serenos. veja só. Mas o tempo passa. está bem?”. ouvem uma voz que vem lá do alto: “Estão aí?” “Sim. Ele se vira sorridente para a moça: “Viu só?”. O rapaz grita: “Está começando a esfriar aqui”. No edifício. “Não se preocupem.. E então. já sabem que estamos aqui”. isso se resolve depressa. De repente. chamamos os bombeiros. não tem mais problema. Até eu. porque quem mais medo sou eu. Lá de cima. vamos colocar assim: quem tem menos medo? Não se preocupem. pára de andar. com um grupo de pessoas. E já que ninguém quer quebrar o gelo.comenta o rapaz. porque eles arrebentariam tudo. De repente. A moça fica muito nervosa. Vamos lá. somos dois”. Só ficam no elevador que tornou a se movimentar. eles conseguirão mover este nosso elevador”. De repente. se vocês preferirem. Vamos ter de esperar até amanhã. o elevador dá um solavanco e pára entre dois andares. aí no teto? Solte os parafusos”. “Não se preocupe. O rapaz faz isso. já aprendi a me dominar. O rapaz tenta tranqüilizá-la. uma voz: “Não se preocupem.SEGUNDA JORNADA DE TRARALHO À procura dos limites GARCÍA MÁRQUEZ . tira 22 . Ouvem marteladas. eu mesmo me ofereço como voluntário. e o rapaz comenta: “Pronto. O elevador sobe.Vamos ver se a experiência de Ladrão de Sábado nos ajuda a fazer a nossa primeira meia-hora. Ele aperta o botão do alarme. o grupo sai. Como todo mundo sabe. Alguém tem uma boa meia-hora para contar? Ou.

O cestinho perde-se lá no alto e demora a voltar com o pedido. “Com toda essa poluição. Nas paredes há quadrinhos e vasos com flores. Gritam: “Que diabos está acontecendo com o gravador? Continuamos sem música!”. Os dois se juntam num esforço e fecham a porta. e passam para recolher no dia seguinte.. conseguem que o elevador dê um salto e se detenha no andar seguinte. Claro que entre o rapaz e a moça começa a existir uma relação diferente. respondem lá do alto. uma cestinha com água e sanduíches. um belo dia tornam a ouvir vozes e ruídos lá no alto. “Nem pensem em voltar aqui!”... a moça aparece grávida. senhor”. As vezes. descobre o pequeno paraíso.Isso está resolvido: saquinhos plásticos. “estamos mandando agora mesmo”. Na manhã seguinte. abre a porta e.. esses ruídos. lá de fora.. e a moça está grávida outra vez. penso que daria até um longa-metragem. Há. Mas o tempo passa. e tem exatamente meia 23 . Falta escrever o processo inteiro. “Esperem. no Japão. Agora. grita. E realmente chega o gravador pelo buraco do teto. “Lá para fora?”. E com uma corda mandam cobertores. gritam.. MARCOS . vamos mandar algumas coisas”. “Mande o volume dois!”.Você não deixou nenhum detalhe de fora. No final. existe um colchãozinho. O rapaz e a moça se negam a sair. Finalmente.. fica o buraco. esses assaltos em plena luz do dia. para marcar a passagem do tempo. A gente aceita tudo. mas. Ele está terminando de ler um livro. Alguém.. GARCÍA MÁRQUEZ .. de mais familiaridade. e nada. Vocês não ouviram falar daquela história de cocô que também discutimos em outra Oficina? É muito bela.uma plaqueta de metal.Que nada: ainda existem muitas pontas soltas. Aquilo é um pequeno paraíso. Você sabia que. e fica evidente que são os bombeiros. “Sim. e o banheiro? GARCÍA MÁRQUEZ . Nova dissolução. A história ainda não está desenvolvida. mas tornaram-se exigentes.Tem um problema de credibilidade.. E ponto final. os dois são acordados por uma voz: “O técnico acaba de chegar: Preparem-se para sair”. no outro. dizem. mas elas irão se ajustando quando começarmos a pensar na história milimetricamente. No teto.. então. São contratos sérios. uma longa dissolução de imagens. ele compram merda como adubo? Distribuem uns saquinhos plásticos pelas casas. Os dois parecem estar confortavelmente instalados no pequeno espaço. Os dois já têm um bebezinho. o necessário para passar a noite no elevador. Num canto do elevador. um fogareirinho. Coloca o livro no cestinho e dá um puxão na corda. MARCOS.. no meio da rua?”.

o sonho de sua vida. Vamos ver se vocês acreditam nela. menos em um: existe um cocô sem amebas. realmente. na quarta-feira. Os dois fugiriam juntos. Outra meia-hora: a de uma mulher mais velha.ou com o leitor as regras são jogo: n peão é movido assim. às cinco da tarde. Ela transcorre numa aldeia da Bolívia. elas passam a ser invioláveis. ela decide ir ao encontro impossível. Acontece uma série de coisas e no fim. embora bem conservada. Felizes da vida. o outro jogador não aceitará. 35 anos depois. é preciso passar por exames médicos. em pleno século XX. É como jogar xadrez. pode continuar jogando sem problemas. quais os limites do verossímil. como tinha feito todas as quartas-feiras às cinco da tarde. Quem foi que disse que não existe amores eternos? Eu e interesso muito por esse tipo de história porque permite perceber até onde podemos forçar a realidade. Daria um exemplo perfeito de meia-hora. o único que amou. com filhos e netos. Como aquela outra. Em todos.quando reformaram todas as caixas da cidade. Meia hora de amor impossível entre duas pessoas que não podem se encontrar porque vivem em épocas diferentes. Assim. São mais amplos do que a gente imagina. Mas um belo dia ele desapareceu. sua própria merda. você está salvo. na própria história.. mas para conseguir.hora de duração. Sobre o mental e o visual CECÍLIA . Se acreditarem na sua história. Ela olha o envelope. e a vida dela mudou completamente. todo mundo passa com êxito pela prova das fezes. o carteiro vai até a casa dela para entregar uma curiosidade: uma carta que foi encontrada no fundo de uma caixa de correio – dessas onde as pessoas colocam a correspondência . A chave do enigma está na grande jogada. E ao examinar o cocô dessas pessoas. a torre desse outro jeito. A partir do momento em que essas regras são aceitas. em pleno século XIX. e ela mora fora. mas é preciso ser consciente desses limites. para ela. encontram amebas em todas as amostras. E o dono desse cocô tem a idéia de vender merda. Não tem jeito.Tenho uma história. A caixa estava lá há 35 anos. na verdade.. Era outra vida. o bispo dessa forma. Pendura o espelho no quarto e de repente descobre que dentro do espelho existe um sujeito. Um dia. Abre e lê: é uma carta crucial. Ela e o homem dos seus sonhos. A gente estabelece com o espectador . Acontece assim: muita gente quer emigrar para os Estados Unidos. Seu amado marca um encontro no café tal. É.. nunca deixou de amá-lo.. Ele mora no espelho.De meia hora? 24 . esperando por ela. da moça que compra um espelho do século XIX. se a gente tentar trocá-las no meio do caminho. GARCÍA MÁRQUEZ . embora carregando suas amebas. E lá está ele. e consegue ir para os Estados Unidos.

diz ele.. conversa com um amigo. na verdade. se distrair”. “Você tem que descansar. compara os dados e exclama: “Como é que eu pude fazer isso?”.Quem obriga. O homem sai do escritório. GARCÍA MÁRQUEZ . CECÍLIA . mas está com o aparelho digestivo paralisado. “É que está faltando o primeiro ponto!” – grita ele . O homem é contador. Eu vou levar as crianças para a escola. seria fazer o corpo inteiro ir se rebelando. Chama a secretária: será que não foi ela quem mudou o original? Ela nega com firmeza. acha que é um capricho ou uma brincadeira. chega em casa mal-humorado. talvez um xarope. mas a mulher impõe silêncio com um gesto. E são números que ele mesmo anotou. Na frente dele há um vidro de remédio.. sem família. quem faz? Ele ou as mãos? Porque você está guardando o mistério das mãos. até que no final o homem estivesse totalmente dominado pelo corpo.Vocês irão decidir: E a história de um senhor que um belo dia acorda cedo. O chefe está furioso. É verdade. esperando que a mulher sirva o jantar: Ela põe na frente dele um prato delicioso. O homem está sentado à mesa. vê que o homem já está vestido e pronto para ir trabalhar. A mulher vem da cozinha. remédios. “O corpo não me responde”. e isso não dá certo: você tem que soltar esse mistério logo.“É natural que ninguém entenda mais nada!”. A secretária o faz notar que ele mesmo revisou e assinou o documento. “Está vendo só?”.. Diz que não entende nada. com os filhos.. Quando regressa. diz o homem à mulher. O homem vai se levantar.O que aconteceu com a mão dele? CECÍLIA. No escritório. Os filhos trocam olhares entre si. O homem percebe que todos. diz. como todos os dias. diz. Quer pegar um copo do criado-mudo. e o amigo o tranqüiliza: “São os nervos”. E não consegue. “Elas me obrigam a fazer coisas que não quero fazer”. Ela suspira... Mas só desta vez”. comprimidos. olhando para as próprias mãos. Tira da escrivaninha um caderno de anotações. sacode os ombros e diz: “Tudo bem. vemos como ele serve uma colherada e toma. sem nada. vê o homem na cama e pergunta a ele porque ainda não levantou.CECÍLIA . O homem é bastante hipocondríaco. Mas admito que é uma 25 . O homem ficaria sem trabalho.O truque. vão dizer alguma coisa. Ele rejeita. a secretária traz de volta um balancete que ele havia apresentado ao chefe da empresa no dia anterior.. GARCÍA MÁRQUEZ .O corpo inteiro parece fazer coisas estranhas. O criadomudo está cheio de frascos.. E de repente. os números estão mudados. vemos como as mãos saem na direção do prato que ele acaba de recusar. e a mão não responde. Esta noite. Adoraria comer tudo. e descobre de repente que perdeu seus reflexos.

CECÍLIA. por ter contado mal a história. conseguiu esse trabalho de modelo pela figura que tem.Tive essa idéia ouvindo as pessoas dizendo: “Fulana? Ah. e não ele? ELID .Você lembra de A Metamorfose. Verde. Não é que ele acha: não é um pesadelo ou uma alucinação. com essa história? Quer contar o quê? CECÍLIA . e alguém diz: “E que você está ficando verde”. Você teve de “explicála” para que pudéssemos entender o que acontece. porque a história não é muito visual.. Ele se vê. Por isso fala-se tanto no filme. paulatino..Quando for comer.Eu acho que é pouco visual. Como diferenciar ele do corpo? O que fazer para deixar claro que quem está agindo são suas mãos. Ele se sente diferente do corpo que lhe coube na roleta da vida. costuma dizer o homem. claro. Aí essas sensações estranhas são contadas. tanto faz. Mas aqui. Dá para ver. botar a cabeça para trás . e depois com ele mesmo contando suas experiências.história difícil. percebe: “Porra. de Kafka? “Certa manhã. Apertar os lábios. depois de um sono intranqüilo. aqui a gente não sabe o que está acontecendo até que o próprio sujeito diz: “Esta mão safada não faz o que eu quero. como é que vou conseguir?”. 26 . por exemplo. Acho que a transformaram em filme e foi resolvida. “Se eu tivesse outro corpo. primeiro. mas pouco a pouco acabam aceitando porque ele sempre foi meio hipocondríaco. ou vermelho. GARCÍA MÁRQUEZ . o caso é que o tipo fica colorido.O grande problema da história.. o que está acontecendo comigo?”. Tampouco é uma história muito visual. ele teria que resistir feito uma criança. a mulher está acostumada.E que se trata de um processo lento. Não é só a mão: é uma rebelião paulatina do corpo inteiro. ou melhor quando a mão levar comida à boca do homem.. Não é como a história de um camarada que fica verde. “Mas com essa pinta. faz o que ela quer”. faria isso ou aquilo”. Gregorio Samsa viu-se convertido em um inseto monstruoso”. GARCÍA MÁRQUEZ. E o que realmente acontece. não. ou roxo.Pode ser que a culpa seja minha. com um narrador. é esse.. GARCÍA MÁRQUEZ . essas sensações sobre as quais ele não tem nenhum controle. CECÍLIA . e que imediatamente isso fica demonstrado. No começo acaba sendo inacreditável para quem rodeia o homem. ao despertar.O que existe de tremendo em A Metamorfose é que Gregorio Samsa amanhece realmente transformado num enorme inseto. CECÍLIA . Com aquela altura. grita. você se propõe a dizer o quê. A idéia é essa. justamente.. nós o vemos. Um dia. GARCÍA MÁRQUEZ .

Se quiser outros títulos nos procure http://groups. tem muita gente que não está de acordo com o próprio corpo. CECÍLIA... não é? Uma espécie de dissociação entre o que esse sujeito é e o que gostaria de ter ou de ser. Dizem: “Você sim. Você quer tentar? CECÍLIA... Quando. Já eu . aquelas pernas. GARCÍA MÁRQUEZ . Enfim. tem sorte! Pode comer de tudo.Isso ficou claro. Mas com aquela corpulência. fulano jogou bem. Minha digestão é muito lenta. E tem ainda quem acrescente: “Se eu tivesse tudo aquilo...E talvez um pouquinho de dinheiro .Eu acho que uma história não existe enquanto não puder ser contada em uma página. falando de um jogo de futebol: “Sim.... aquele cabelo . só podia mesmo correr. não é?”. 27 .. Existe aí um conflito.Até o infinito? GARCÍA MÁRQUEZ . eu tenho um estômago que não presta para nada.”. Mas o problema é como concretizar isso visualmente. nada faz mal. e além disso a inteligência que tenho.E tem aquele que diz. além disso. Estaria completo.com/group/Viciados_em_Livros.google. qualquer um consegue”. é hipocondríaco . GARCÍA MÁRQUEZ. “.1 1 Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar o acesso ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras... claro. será um prazer recebê‐lo em nosso grupo.aquele corpo.

não tem jeito. “Não pode ser. vamos ter de fotocopiá-lo de novo. a mulher começa a perceber que as coisas mudam de lugar. E disse a ele: “Trabalho com você. o marido é um sujeito insignificante. Eu estava. é um gênio. e de que você o copiou”. Pus as cópias bem aqui. e quando volta. De repente. de um longametragem. mas você me ajuda a terminar esta história”. Acende o fogão. Estava com uma atriz que já não é tão jovem. trabalhando em alguma coisa com Ruy Guerra. em casa. o quarto capítulo sumiu. É verdade que. põe uma panela no fogo. Um belo dia. de Um Corpo que Cai. e me disse: “Escuta. Atrasado. o quarto capítulo não está aqui”. Primeiro. Eu copiei. falei comigo mesmo. “O Alejandro está precisando disso!”. “aqui está o quarto. não lembro qual. pedi a Mercedes que me ajudasse. este que estou copiando agora é o quinto”. E bem nesse momento. mas já são adultos. que você vai acabar me deixando louca”. e que sem querer tinha rasgado também a cópia do quarto capítulo. depois. Ele topou. rascunhos. embora eu tenha certeza de ter visto esse capítulo. lá de Buenos Aires. sai.Um dia. e quando volta o copo não está mais lá. tive a idéia. reparei que havia estado rasgando papéis. Eu disse: Mercedes. “Bom. A idéia completa. “Como?”. rasguei sem perceber”. Eu fiquei furioso: “Como é que você me pede isso. Pode ser a eletrônica. Continuam a procurando. e eu ia pondo as folhas em ordem. não gostei do final. disse ela. A coisa ficou nisso. Ela ia fotocopiando. como se estivesse encomendando dez metros de pano?”. porque vinha de Hitchcok. Mas profissionalmente. Ela chegou inteirinha. Então.TERCEIRA JORNADA DE TRABALHO Em estado de loucura GARCÍA MÁRQUEZ . do começo ao fim. Os filhos moram com o casal. naquela época. Deixa um copo aqui. “Por favor não faça uma coisa dessas comigo.. Uma semana mais tarde. E ela ficou me olhando. para uma mulher de quarenta anos”. isso ainda não está muito definido. Pessoalmente. e não tornei a pensar no assunto. precisamos de uma história. Olha só. Alejandro Doria me telefona. “Não faz mal”. a panela está em cima de um 28 . E sobre uma mulher casada com um cientista. não sei. comecei a tirar fotocópias do livro que estava escrevendo.. e depois porque não valia a pena. falei para Mercedes. e nada.

os filhos foram estudar. em sua casa. a rua. A única coisa que ele faz é tentar reviver com a amante os anos em que foi feliz com a mulher. Tem mais: é ela própria. parece uma cópia. o casal está feliz. Fica alerta. algum tempo depois vi. mas eu ainda não escrevi nada. todas as suicidas pareciam 29 . Ela se tranqüiliza. as duas serão interpretadas pela mesma atriz. Mas nota que está perdendo o sentido da realidade.. que se matavam sem motivo aparente. e entrar num acordo com a amante para enlouquecer a sua mulher. Essa pessoa começou a pesquisar e chegou à conclusão de que os suicídios tinham três coisas em comum. As coisas escapam dela. Demora. quando descobre que o marido tem outra mulher. Agora ela virou esposa. ou seja: quando um marido começa a pensar que sua mulher está louca. muito séria. que diz que aquilo tudo é muito normal. todo mundo saiu: o marido foi trabalhar. A pesquisa foi realizada por uma pessoa que observou vários casos de mulheres. Será que tudo o que ela está vivendo não faz parte de um plano do marido para enlouquecêla? Começa a investigar e descobre que a amante é exatamente igual a ela. Assim.. Aliás. até o dia em que descobre. Decide consultar uma amiga psiquiatra. ele obtém facilmente o divórcio. mas com uma diferença: para o marido. seu ar grave. no filme. com o argumento da loucura. Tem uma carreira profissional bem feita. mas ela consegue se superar. Primeiro. aqui na Oficina. o que a mulher ainda não sabe: o marido reproduziu sua própria casa na casa da outra. que não precisa mais competir com ninguém. é porque ele enlouqueceu. de casamentos aparentemente bem sucedidos. mas conseguem. Até um outro dia. porque foi pensada para ser um longa-metragem de pelo menos noventa minutos. E sabemos agora. A outra se comporia exatamente como ela. Então. Quase que podemos dizer vidas idênticas. que as coisas estão mudando de lugar. Principalmente ela. A mulher começa a seguir a amante do marido em seus movimentos cotidianos: o mercado. a última veio antes da primeira: a vida com a amante é anterior à vida com a mulher. e era o que ele queria: um divórcio sem complicações. A sensação de solidão produz na mulher uma espécie de choque. aliás. não é mais amante. como espectadores. Agora. que alguém tinha feito um estudo que poderia se chamar As Esposas Felizes se Matam às Seis. na França. Certo dia. É uma pessoa madura e uma de suas características é justamente a serenidade.. E então percebemos que nesse caso aconteceu a mesma coisa de sempre.. Ela não serve para nós... Sente-se feliz. principalmente em mulheres da sua idade e que tiveram uma vida muito ocupada. Ela ficou sozinha em casa. Ninguém tem culpa de nada. temos mulheres idênticas e casas idênticas.fogão apagado. A história acaba aí.

Na verdade.que começa a dar ordens a X: levante-se. Temos que passar a outra história. entra a mulher.. Abre os olhos. aliás. Numa das paredes há. sobe uma escada.. E claro que a tevê está ligada. De repente. “O que é isso?”. 30 . etc. junto a uma tela de televisão. que se rebele. O café da manhã está servido. nesse exato instante. pendurado. de repente. diz ela. X fica surpreso ao vê-lo. segundo. chamando os guardas. mas cujo rosto não está coberto por nenhuma máscara. “está ficando tarde”.e se oculta atrás de um muro.Num quartinho onde mal cabe um catre. “Você vai chegar atrasado no trabalho”. e por ela. edifícios em ruínas. sai num telhado. os guardas arrombam a porta aos pontapés. agora.não parece humano . Sua mulher está chamando. Uma pesquisa posterior permitiu descobrir a razão disso tudo. todas tinham mais de quarenta e cinco anos. tropeça. aparece na tela um rosto estranhíssimo . se suicidavam sempre às seis da tarde. não consegue ver o próprio rosto.e vai caindo numa espécie de torpor. cai.. Soa um alarme. mas não se vê nenhuma imagem. vê os guardas se aproximando. pegue o boneco. Agora. para que X contemple o próprio rosto. percebe que a imagem está vestida com um macacão azul. Lá. um desses gorros que cobrem o rosto inteiro e deixam os olhos à mostra.. espia o berço do bebê – cuja cara. A voz grita. terceiro. esticado na cama. recorda a do boneco que vimos . acenda a luz. que deixe de cobrir o rosto. X entra a sai do banheiro. há escombros. Atravessa ruelas desertas. X sai do banheiro e começa a correr. É seu filhinho. X começa a se vestir e quando vai dar o nó na gravata diante do espelho. ele tira a máscara mas como não existe espelho. encontra outras pessoas todas com o rosto descoberto . o que o devolve à fuga: mete-se em labirintos de escadarias. Seu assombro aumenta quando o recém-chegado coloca. quase ocultos pela cortina.. e agora nós o vemos em casa. desta vez mandando X sair dali. insiste. que chora no berço. diz ela. um sujeito dorme. Mas a porta que se abre é a de seu verdadeiro quarto. Veste um macacão azul e tem o rosto coberto por uma máscara. no meio da sua fuga.. X se levanta e tenta contar o sonho à mulher mas ela não dá a menor importância. E. é a primeira vez que ele. um espelho. A de ELID. Vamos chamá-lo de X. talvez? Quando não acontece nada ELID .felizes. X joga o boneco nas costas e vai ao banheiro. esconde-se num quartinho e. pam!. “Acorde”. o sujeito diz a X que tire a máscara de uma vez. nos deter nesse assunto. mas não podemos. e. E mais: começa a insultar o ente misterioso da tela da tevê. bufando. Ouve-se o choro de uma criança. vê a rosto de outra pessoa. um boneco. na sua frente. Dali sai um indivíduo que veste o mesmo macacão azul. torna-se a ouvir a voz da tela. Na banheira.

. existem muitas peripécias. X deixa escapar um grito e o vemos tentando se erguer na sua cama. etc. GARCÍA MÁRQUEZ . “está tudo bem”.Não é só a tela. GARCÍA MÁRQUEZ . E enquanto dá a injeção. desaparece. a que conta a história do filme. Para abreviar. você é a roteirista. A mulher dá meia-volta e em vez de se afastar. X pergunta onde estão. SOCORRO .. vemos um homem.. a cama de um hospital. Cada um pode ver a realidade do jeito que quiser. de sua cama. É o Instituto de Pesquisas Psicológicas. mas é o único elemento da história que pode fazer pensar no livro 1984. “Fique tranqüilo”. “Ah!”... Já não existem teto. a perseguição termina com os guardas descobrindo X atrás de uma pilha de escombros. claro: está num lugar.. desaparece. que está pronto para dar a injeção. ELID... sorri de maneira estranha.E o espectador também não? ELID . X. e puf!. Perto. o homem está se submetendo a uma experiência psiquiátrica. “Não lembra? O senhor se ofereceu como voluntário para esta experiência”. Tudo vai se desvanecendo.Mas é isso justamente o que me interessa: que X nunca saiba direito qual é o sonho e qual é a realidade..Sim. qual é a realidade que ele está vivendo. acabamos de ver o filme. Abre a boca. nem paredes. é um truque cinematográfico. não.. ELID . pergunta. Está preparando uma seringa para dar uma injeção em X. Você tem de saber o que está acontecendo. GARCÍA MÁRQUEZ . A necessidade de se rebelar contra a tela é muito similar. O homem. Pode inclusive perguntar a si mesmo qual o grau de realidade que existe em sua própria vida. murmura X.Bem.Eu sinto que a ação é muito rica.. de barbicha e avental de médico. o que é que acontece? De repente. o céu estrelado.Não acho necessário que ele saiba. É isso? ELID . some. com um olhar inexpressivo.. GARCÍA MÁRQUEZ . Disparam nele. e esta é a realidade”.Não. “O senhor acha?”. “Então. X fica boquiaberto.esfriando..Supõe-se que seja. diz. Afinal. GARCÍA MÁRQUEZ . Um sujeito misterioso. Está amarrado por umas correias. 31 . de costas.Você leu Orwell? Esse tela não faz lembrar o Big Brother? ELID . mas sem saber direito o que acontece. aquilo era um pesadelo.. A imagem se congela. arfando. contempla. e médico responde: “No Instituto”. começa a desaparecer.

. O amo dá a ele um cavalo e dinheiro. Mas temo que começar do jeito que você começou é percorrer o caminho ao contrário.O problema é que a gente se vê obrigado a segui-la sem contar com nenhum antecedente. “Senhor”.. com princípio.ELID.. mas não acontece nada.. Não é uma história orgânica. Assim. nessa história não acontece nada.Talvez seja uma história de quinze minutos que se estendeu demais.. “vi a Morte no mercado e ela me fez um sinal ameaçador”. desenvolvimento e fim. Os sonhos parecem tão reais. um eixo ao redor do qual a história seja construída. acontece um monte de coisas. pode começar a explorar outros caminhos. a realidade é esta aqui. e diz: “Fuja para Samarra”. GARCÍA MÁRQUEZ . Só no final é que descobrimos que X se apresentou para fazer parte de uma experiência. olhando bem. REYNALDO .Faltou que eu esclarecesse que quando X está fugindo e se encontra com os outros camaradas. GARCÍA MÁRQUEZ .. já começa a surgir sua confusão entre a realidade e os sonhos. Como é que X se transforma em um rebelde? De que maneira seus conflitos internos são transmitidos a nós? E qual é o conflito central? Ou é que nessa história tudo é conflito?. diz. E até lá? Será que temos de confiar tanto na paciência do espectador. diz. GARCÍA MÁRQUEZ . Ou melhor.. Não me interessa dizer ao espectador: veja bem. meio e fim..Acontece que. quando a gente sentir que já esgotou a própria experiência vital como fonte de criação..mas falta um esquema que dê coerência a tudo isso. ele vá seguir até o fim? Cada nova peripécia só faz aumentar o desconcerto do espectador. Pode-se chegar ao tipo de história como a que você contou depois de ter escrito muitas outras baseadas em experiências reais. a ponto de supor que. ROBERTO . “Não era uma ameaça”. o amo encontra a Morte no mercado. SOCORRO . com princípio. que ele já não consegue separá-los da realidade. será que você não poderia tentar recordar um episódio da sua própria vida. sem nenhum antecedente. E uma ambigüidade que quero manter. ELID . Vocês se lembram de A Morte em Samarra? O criado chega aterrorizado a casa do amo. “Esta manhã.. responde a Morte. você fez ao meu criado um sinal ameaçador”.E. Ele tem consciência disso. eu acho que o problema é esse.Existem histórias de quinze minutos que podem ser contadas mais rapidamente.. que possa ser contado de maneira mais simples? E sempre bom começar por esse caminho. No começo daquela mesma tarde.. “era um gesto de 32 . O criado foge.

O livro que acabo de terminar. tão longe de Samarra. Claro. e transformá-lo em cem episódios.surpresa. 33 . Só que permaneço firme em uma convicção que já revelei aqui: se você não pode contar a história numa página. e não o fizeram por uma razão muito simples: aí está o segredo inteiro do desastre que o país vive. ou sobra alguma coisa. mas o preço é esticar demasiado. onde tenho que pegá-lo hoje mesmo ainda esta tarde”. uma história. O General em seu Labirinto. resumi-la numa página. Dá para fazer um longa-metragem com isso? Dá. morreu em Santa Marta abandonado por seus amigos”. e eu já disse a vocês que para mim não existe nada pior que esticar arbitrariamente. Porque eu o estava vendo aqui. livro de Jorge Isaacs. sobre Simón Bolívar está tirado de uma frase: Após uma longa e penosa viagem pelo rio Magdalena. coisas que eu acho que valem a pena dizer sobre a história da Colômbia e a situação no vale do Cauca. então pode ter certeza que que nessa história falta alguma coisa. Eu estou justamente tentando adaptar Maria. O que eu queria era completar um episódio que os historiadores colombianos não haviam desenvolvido nunca. Escrevi duzentas e oitenta páginas ao redor desta frase. é um romance onde existem muitas coisas explícitas.

deixar sua antiga vida para trás.. Vê a si mesmo saindo da sua casa para apanhar o resultado de um exame médico.E por que ele faz isso? MANOLO . Ele tem seis meses de vida. E assim que os moradores do litoral da Colômbia chamam o pessoal de Bogotá.. GARCÍA MÁRQUEZ . O homem desperta. G. está recordando. mas na verdade. Pergunta aos moradores do lugarejo onde pode passar a noite. O ônibus chega a um povoado. MANOLO .. Ele passou vinte anos trabalhando como funcionário. no hospital público. Tem pouco tempo de vida. 34 . Faz calor. Desce correndo do ônibus.Tornamos a vê-lo no ônibus. GARCÍA MÁRQUEZ .Para o Vale Dupar. O homem sai. Entre eles vemos um homem cinqüentão. A paisagem é dos trópicos.ou acha que vê . com um terno de veludo meio puído. Cochila.Por que você não conta para nós em linha reta? Depois.uma moça.. chapéu e guardachuva. um ônibus que diz Cartagena ou Curumaní. M.. vestem camisa esporte.. Para onde ele vai. A doutora diz que sua doença é incurável. É um cachaco. Sonha com uma moça muito bonita. para o Vale Dupar ou para a Venezuela? MANOLO . a moça sumiu.Porque decidiu fugir. com gravata.. Todos os passageiros parecem gente do litoral. na hora da montagem do filme. O camarada observa a paisagem pela janela. entra no primeiro ônibus que passa. Nada a ver com os outros passageiros. Ou será que nunca esteve ali? O homem vê que o ônibus vai partir. GARCÍA MÁRQUEZ . e deixa que vá. vestido com um terno negro de veludo. a gente arma tudo isso conforme nos dê na veneta.. lá na moviola.Muito bem. e pára. Um senhor cinqüentão. E atendido por um médico que informa o seguinte: ele sofre de uma doença que não tem cura..A gente quase pode dizer que a doença o salvou.Ele é de Bogotá. MANOLO .Um ônibus vai pela estrada. olha pela janela e vê . entra num hospital público de Bogotá. sem mudar nem de repartição. vinte anos de burocrata. II MANOLO .QUARTA JORNADA DE TRABALHO A morte em Samarra.

é verdade. Enfim. GARCÍA MÁRQUEZ . É a sobrinha de dona Lina. Naquela mesma noite irá roubar o dinheiro. de uns sessenta anos. aliás.Seu aspecto. o lazarilho de sua tia. a vida inteira. enfim. Conta o que imagina.Mas você deve saber. o homem usa roupas esquisitas.. fazer coisas diferentes. vamos começar a contar o filme de novo. O que não entendo é porque o homem não vai ao 35 .Indicam a ele a pousada da dona Lina. Nem ao menos sabem que dentro da Colômbia existe outro país. como se fosse a vida de um aventureiro. e quem vem abrir é a moça com a qual ele havia sonhado... Entra num ônibus. No fim.E quando é que a moça vai ficar sabendo que ele está desenganado pelos médicos? MANOLO . dona Lina aceita alojá-lo..Ele não disse nada. pelo homem imaginário.. GARCÍA MÁRQUEZ . sem nem mesmo prestar atenção no rumo que está tomando.Vamos ver. mas pintada e maquiada feito uma gueixa.O que pensei é que a moça marque um encontro com ele em um determinado lugar. Bate na porta. Seria a primeira vez na vida que ela sairia dali. É importante que diga para nós.. O homem vai ao encontro marcado. onde a gente usa roupas diferentes. Não sonhou nada. O fato concreto é que a moça se apaixona perdidamente por ele. e depois de roubar o dinheiro da tia vá buscá-lo e não o encontre. Chega.. é uma senhora cega. Ela. GARCÍA MÁRQUEZ . Não teve coragem. da conduta do homem. que se baseará numa grande mentira: o homem vai contando sua vida a ela. É um elemento que forma parte da situação. MANOLO . e lá da cama submete o recém-chegado a um verdadeiro interrogatório: se é cachaco. uma série de coisas.. uma vida cheia de surpresas. de vida chata e monótona... e aparece uma moça. para ver se acontece alguma coisa estranha com ele. Eles se vestem desse jeito. Então acontece o que MANOLO contou.O homem é um cachaco. O homem responde a esmo. a tantas horas da noite. mas enquanto isso o que que nós vemos é a realidade: a vida monótona e rotineira de um funcionário público. mas sua tia tem bastante e ela sabe onde está guardado. o que foi fazer no povoado. e bate na porta de uma casa. Vão precisar de dinheiro. é da serra colombiana. GARCÍA MÁRQUEZ . recebe a notícia de que vai morrer em pouco tempo.. e um belo dia. bate na porta. o homem desce num povoado qualquer sem razão aparente.. CECÍLIA . ela foi os olhos. emoções e perigos. Um senhor de uns cinqüenta anos. Toma então a decisão de viajar para mudar de ares. Vai começar assim um romance entre o homem e a moça... simplesmente. ela mesma propõe que fujam juntos do povoado. ou seja.

Não chega a entrar no consultório médico. provavelmente.Sem dar a notícia a ninguém? Essa notícia ele tem de dar.Casado. REYNALDO . ou a faxineira . GARCÍA MÁRQUEZ . É que todos os cachacos parecem viúvos. Ou seja. ROBERTO . Manolo? MARCOS . a Morte em Samarra. Mas a história está pronta.. Se fosse viúvo teria uma filha que não moraria com ele. porque os de agora são alegres e alguns até dançam melhor do que nós. ou num cartório.encontro. MANOLO .Não sendo viúvo. mas porque a Morte vai buscá-lo. Ele vai buscá-la. então existe uma senhora . vamos ver: é melhor que o homem tenha ou não tenha família? SOCORRO.Se tiver.. Um escrivão de caligrafia muito boa. pelos sintomas de outros pacientes. ou certos equívocos. em pessoa. Era escrivão. teríamos a chance de vê-la uma vez. Digo. a que lavou suas cuecas e tudo.Eu prefiro que seja o médico quem diga. Mas. Trabalha num tribunal. E então vai embora. na sala de espera. Esse poderia ser um final. Não pode abandonar desse jeito a companheira da vida inteira. não pode abandonar sua mulher sem se despedir. como estava previsto. mas não tem filhos.com quem mantém uma relação mórbida. Mas pode nos servir para explicar sua conduta a decisão que ele toma. percebe que tem um câncer. É o que põe a história em marcha. muito meticuloso. sem querer. Se for viúvo. ele pode se mandar sem se despedir.. Por algum motivo. talvez porque entre ambos tenha sido criada uma certa expectativa.Mas ele deve entrar no ônibus sem nenhuma bagagem.a empregada.O homem é viúvo? MANOLO .Em meia hora. esse plano de fuga se transforma na morte do homem. mas no apartamento vizinho. Os chefes destinavam a ele trabalhos urgentes. CECÍLIA . os de antigamente. Por exemplo: no momento em que ele chega para fazer a mala. A única coisa que falta é o final.. muito bom cumpridor de seus deveres. Não morre de doença.A idéia era justamente essa. Era um burocrata de burocratas.Tudo levava a crer que ele fosse viúvo. GARCÍA MÁRQUEZ . do litoral.O personagem. 36 .Ah!. GARCÍA MÁRQUEZ .. Por que você não quer que ele seja viúvo. o filme de Kurosawa? SOCORRO .O que eu pensei é que a moça era a Morte. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . o homem trabalhava num cartório ou num tribunal. Este dado não será necessário no filme. Como é mesmo aquela história de viver.

“Vida de merda! O trabalho que tive para deixar de beber. O bêbado sempre se confessa ao cara do balcão.MIGUEL . é o momento em que o homem agarra o dono do bar e conta o que aconteceu. É o lugar onde ele vai todos os dias tomar um café.. e de cirrose. GARCÍA MÁRQUEZ .Exato: o espectador não tem de se dar ao trabalho de adivinhar essas coisas. conta toda a sua tragédia. E quando fica sabendo. O personagem.. respondem. O garçom olha sem entender nada. e a partir daí. diz. Esse pessoal que fica atrás de um balcão de bar.. fazendo em esforço enorme.É neste momento em que começa a acontecer um monte de coisas. e ela não o deixa falar: começa a contar a história de não sei quem. E tem mais: não volto nem para casa. todos eles! Não volto para o escritório.A rodoviária está bem na frente do bar. ele recusa com um gesto. que deixou de beber há tempos. trazem o seu café.. Mas desta vez. “trinta anos enfiado num escritório para ter uma aposentadoria e garantir uma velhice tranqüila. telefona para a mulher dando a notícia.. Depois entra no bar. Há anos ele é conhecido ali. mas vai logo dizendo: “Veja só o que aconteceu comigo. aqui. Por isso ele tem a idéia. não conhece o cara do balcão. Ele sai do hospital público angustiado. “O de Curumani”. Ele conta ao cara do bar o que aconteceu. e no fim. e olha só o que aconteceu comigo. Vai morrer mesmo. e para quê?”. MANOLO . Chega e senta no mesmo lugar de sempre. não adiantou nada. GARCÍA MÁRQUEZ . REYNALDO . eles são os confessores dos bêbados.Primeiro. “Veja só”. O médico . GARCÍA MÁRQUEZ . Ela não sabe que ele foi ver o médico. MARCOS . E de repente. “Traga alguma coisa forte”.E verdade. começa a ação propriamente dita. no primeiro que encontra. e pensa: por que não? MARCOS . E esse. conta isso. sem nenhuma palavra. E na mesma hora ele compra a passagem.O sujeito entra no bar. GARCÍA MÁRQUEZ .”. e depois vai para a rodoviária e pergunta: “Qual é o próximo ônibus?”.Não é um bar qualquer. Vê as pessoas entrando e saindo. Mas a médica balança a cabeça: não há mais nada a ser feito.ou a médica .Manolo e eu tínhamos pensado que sua doença fosse cirrose.Quer dizer que o homem parou de beber. Chega o momento em que é preciso dizê-las.. E em seguida. E para que você fique sabendo: não vou pagar essa coisa 37 . diz ele. Para o inferno. a primeira coisa que faz é entrar num bar e mandar ver.pergunta: “O senhor foi alcoólatra?”. ele telefona para a mulher. bem.

eu tinha de dormir: Por isso hoje em dia. não é nem mesmo um recurso narrativo. Poderíamos procurar outro confidente. a única saída é pôr um ator para contar tudo. Vocês não gostam da minha proposta? Deixem comigo. é o que contamos. Mas aqui. Que vá tudo à merda! Ouviu bem?”. ROBERTO. durmo. nós já sabemos.. Eu entenderia suas objeções. E ponto final. O cara precisa desabafar. por exemplo. 38 . é a mesma coisa: assim que começa a sessão e a luz é apagada. que eu mesmo faço o roteiro.O que eu não entendo é essa história de ele ir embora sem telefonar para a mulher. As vezes acordo de repente e vejo um ator e pergunto: “E esse aí. e bordar bem a história para que fique ajustada e não passe de meia hora. No cinema. que o leva diretamente para a morte. desde pequenino. Falando sério. Esse é o filme. porque não parece forçado. num instante. se fosse um recurso arbitrário ou fácil. MARCOS . Depois acontece uma coisa estranha. nesta situação. Eu. é uma reação natural. A única coisa que sabemos com certeza até agora. Para quem não sabe como contar uma história com imagens.Não sabemos se ele vai ou não vai telefonar. porque se enganou de vida. GLÓRIA . pelo menos.É porque você é um diretor muito jovem. uma coisa que recorda os romances policiais ou os filmes de caubói. GARCÍA MÁRQUEZ . Só falta contar como as coisas acontecem. no qual as situações se resolvam verbalmente.. Para mandar todo mundo à merda. numa situação como essa. mas a necessidade de se confessar. Um sujeito que está na situação dele tem essa reação: a primeira coisa é contar a história para alguém. se a minha proposta for aceita. Sempre durmo quando estou vendo filmes. Fui condicionado. e ponto final. ROBERTO. GARCÍA MÁRQUEZ .Eu gosto dessa idéia: ele se mete no primeiro bar que aparece. é melhor contar diretamente. quem é?”.. durmo profundamente. Sai e entra no primeiro ônibus que passa.Eu tenho minhas reservas. Inclusive isso. Quando você for um pouco mais velho irá perceber que as pessoas nem sempre entendem os argumentos. quando estou vendo televisão com a luz acesa e chega alguém e apaga. Resisto um pouco a fazer um filme no qual as coisas sejam tão faladas. Quando apagavam a luz. a associar a escuridão com o sono.que estou bebendo. Por isso. O que vem depois. Que desabafe com o dono do botequim é tão natural que chega a ser um lugarcomum. agradeço essa deferência. de ele fazer a catarse na frente de um copo.

REYNALDO .. Ela tem que esfregar o chão. E se a moça que abre a porta estivesse esperando por ele? MANOLO . Porque a gente imagina que ele vai encontrar a felicidade. procura outra morte. REYNALDO . 39 . Mas antes.Pois é.Estou louco para chegar à porta. seria outro o filme. Você quer chegar à porta porque é aí que o filme começa de verdade.. tudo muito burocraticamente.. Um filme que começaria com a moça levantando-se da cama e começando a cuidar das tarefas domésticas. CECÍLIA . é verdade. alguém bate na porta.. Um belo dia. GARCÍA MÁRQUEZ . estou pensando que podem em existir alternativas. soldados e cavalos com as tripas de fora. Uma cidade em ruínas desolada.. não está ouvindo coisa nenhuma. lavar a roupa.. Gosto dessa reação. Agora. temos que saber quem é o tipo que bate na porta.Pede uma bebida e quando o cara do balcão serve. É uma empregada. No meio de um montão de escombros. A Morte preocupou seu caso de um modo muito normal. Muito colombiana.. mesmo que seja por um tempo breve.Aí. faz cara de quem está prestando a maior atenção.. se acontecesse alguma coisa diferente comigo! Se eu pudesse mudar de vida! Eu iria embora com o primeiro que batesse nessa porta e que me propusesse.O dono do bar acha que é só mais um desses bêbados que contam sempre a mesma história. com colunas de fumaça no horizonte. porque devem ter receitado algum tratamento.Eu pensava que ele tinha um câncer.Podem ter receitado um tratamento.. Uma morte antecipada. casas queimando. mas ele se nega a obedecer..Claro.Isso dá para um longa-metragem. espalhados por aí. “Como é que é? Radioterapia. É muito maltratada. GARCÍA MÁRQUEZ . ou qualquer coisa parecida. Eu tenho uma história de um minuto.. quimioterapia. Anotem isso. Ou melhor. GARCÍA MÁRQUEZ . MANOLO . GARCÍA MÁRQUEZ .E fica escutando sem se mexer. É formidável que ele deboche da Morte. diz a si mesma: “Puxa. para quê? Porra nenhuma de tratamento!”. GARCÍA MÁRQUEZ . ele começa a contar a história.O que me preocupa é a coisa da cirrose.. pois daí nasce outro filme. . de repente. e ele. mas no fundo. E. o diabo? Para ficar careca? E no fim. e acontece que o que ele encontra é a morte. com sua reação. arma uma jogada inesperada. sua morte antecipando-se à Morte.

Sei que é o começo de um filme. a aula acabou”. Nunca pensei que pudesse caber tanta gente num trem. coberto de pó e de pedras. depois por canaviais. e.Eu imaginava uma sucessão de paisagens diferentes. É uma idéia que Buñuel teria adorado.Sabendo.. no lugar do ônibus? GARCÍA MÁRQUEZ . faz uma espécie de saudação. como sabemos. inteirinho. E ele responde: “Sei lá. GARCÍA MÁRQUEZ . enfim. Uma mulher bela. Ele está no bar. que o homem vai morrer tudo que acontecer ao seu lado fica tendo um valor excepcional. Sentei. e diz: “Senhor ganhamos”. É rapaz jovem. O salão fica deserto. que é chamado Trem da Morte. quando aumentasse o calor. de repente. porque achava que ele ia lotar. o tempo todo: não será melhor o homem pegar um trem. coloca um pacote no meu colo. O rapaz se inclina sobre ele. teríamos que sair do clichê: deveria ser uma mulher feita. meninas. havia muito pouca gente. ROBERTO . Ainda percebemos suas insígnias no uniforme. O dono do bar que o conhece muito bem. E sumiu. entrando em terras quentes. De repente. uma índia. “Venho buscar depois”. outro. com uma 40 . Eu ia pegálo e cheguei na estação muito cedo. As moças correm para os vestiários. Em relação à moça.. E.Eu pensava nesses trens que a gente vê no Brasil.. Pode até mesmo existir alguma armadilha por aí. ROBERTO . pergunta: “E para onde é que você vai?”. Peru. Vou à merda” Corte para o trem. Existe um enorme salão com vinte ou trinta moças belíssimas. ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . o trem saiu. mas nunca descobri como continua. ferido. As moças saem. Mas. disse ela. totalmente nuas.alguma coisa se move.. fazendo ginástica rítmica.. mas madura. de repente. Poderia ir passando por cafezais. GARCÍA MÁRQUEZ . e não uma garota. mas qual o quê. Nunca soube o que era. uma mulher.Pois o que eu imaginei era outro personagem.. Um personagem que iria sentar-se ao seu lado quando o ônibus chegasse às terras quentes.. ouvese um sino e uma voz: “Muito bem.Sim. Lembro também do trem da Bolívia. vestidas..Eu fiquei me perguntando. São todas freiras. o ônibus descendo da serra. ouve um gemido. SOCORRO . que se arrasta buscando alguma coisa. Como espaço e como imagem. chega de distração: vamos voltar aos nossos trinta minutos. dormi e de madrugada acordo e me vejo rodeado por uma verdadeira multidão.Podemos copiar isso. “Segure isso”. É um oficial agonizante.Eu tenho outra. Parecia carne. o trem é mais interessante.. Encontra um cadáver.

Diga uma coisa.Uma mulher negra. Acho bom a gente ir fazendo um arquivo com os personagens que forem sobrando. Todo mundo come com pressa.Uma lápide. Afinal. ver o seguinte: deixaram com o homem um pacote de carne.E quem se importa com o que aconteça no trem? Não dissemos que o filme começa na porta? GARCÍA MÁRQUEZ . começa a limpar a lápide com um pano. ROBERTO . sem perceber. ou em qualquer outra. ele desce do ônibus. GARCÍA MÁRQUEZ .O ônibus pára. os passageiros descem para comer. Para ele. É o que aconteceu sempre. SOCORRO . inevitavelmente. e o homem. e tem 41 . a gente vê depois. ele quer driblar a morte. isso sim. Mas agora. e ponto final. são os impulsos do personagem. para a morte. REYNALDO . até que não seria má idéia. É uma lápide. que fica lá comendo. GARCÍA MÁRQUEZ .O ônibus é mais íntimo que o trem.Vamos.Ou melhor a mulher do pacote desce do trem sem nenhum aviso.história atrás. GARCÍA MÁRQUEZ . no trem. vai atrás dela: “Senhora seu pacote. tanto faz ficar ali. nada nele mudou. a graça está nos atos dele.”. podemos perder o frescor da história. menos ele.É preciso tomar cuidado para que a natureza das suas decisões fique clara. e porque está cheio de tudo. pensando bem. Não tem a menor vontade de se apressar. então. SOCORRO: qual era o personagem que você pensou em pôr sentado ao lado do homem? SOCORRO . que parecem arbitrários. ao lado de um camarada que vai morrer? E alegórico demais. Vamos guardar esse personagem para outro filme. O importante. Gloria . Aqui. naquela cidadezinha. para mim. Se o homem deixar as coisas acontecerem. Se formos procurar um jeito de uma coisa levar a outra. A única coisa definida. o homem não queria novas experiências? Que se dane agora! REYNALDO . podem acontecer mais coisas.Eu não acho que a gente precise situar tudo numa corrente de causas e conseqüências. e bate na porta que quer. trasladou-os ao ossário. Não pode ser um travesti. e agora leva a lápide para casa. como aconteceu com o Roberto. tranqüilo. ROBERTO . Ao se sentar.. o homem.. MANOLO . que entra no ônibus levando uma placa de mármore. Mas.Isso.Mas. Ela acaba de exumar os restos do marido. é que tem de ser uma pessoa do sexo feminino. morto há quatro anos. Desce no povoado que quer.

Não: está pensando em um lugar qualquer. e ponto. “Mas aqui não é parada. ou faço pipi aqui mesmo”..Talvez já tenha começado a perceber uma série de elementos novos dentro dele. Tudo é pobre. vai continuar a viagem. e dá para sentir que ficou impressionado. Eu ainda não acabei de comer”. GARCÍA MÁRQUEZ . Agora. diz alguém. e fique porque ficou. ouça bem o que estou dizendo: ou pára. CECÍLIA . Ele tem que armar uma confusão no ônibus. Ou. “motorista. ROBERTO . Agora. e todo mundo desce para ver o que está acontecendo. porque quis. Tem que acontecer algo muito forte para que ele fique onde está. fazer o que me der na veneta. porra!”. Esse foi sonho da minha vida”. não. quero viajar. E ele responde: “Mas é aqui mesmo que eu quero descer.Na Colômbia.Ou. Enquanto isso..Aí. me deixei dirigir sempre por um horário. eu não posso parar aqui”. Todos tratam de tirar a tal pedra. onde já esteve antes. Fui a Sipaquirá em alguns domingos para comer batata salgada.O que MANOLO disse do almoço: “O ônibus está indo embora? Deixa ir. e começa a andar naquela direção. Fica olhando a paisagem. mas ele vai andando. O espectador ficará pensando que ele está falando de Veneza ou coisa parecida. sensações desconhecidas. GARCÍA MÁRQUEZ . “Meu senhor. o trem apita. Ele pensa: estou doente porque segui determinadas normas. meu senhor”. Ele. entra em jogo um elemento de fascinação. na verdade. para liberar os trilhos. Isso deve ficar claro. vou viajar. SOCORRO . por exemplo.Em bogotá. e isso foi tudo. pare aí um instante que eu vou fazer pipi”. É uma pedra enorme. Vocês não acham que aos poucos o personagem vai sendo esculpido. Ele nunca foi a lugar nenhum. então. MARCOS . ficando redondo? CECÍLIA . o trem parou porque há um obstáculo nos trilhos. GARCÍA MÁRQUEZ . uma coisa carismática. fui um burocrata. ele disse ao homem do bar: “Nunca saí daqui.O que deve ser ressaltada é a sua atitude. Algo assim como o litoral peruano. então. exigindo parar. para encontrar isso. raquítico... vê uma cidadezinha perto. Nada de grandes montanhas. é preciso ir até Guajira. para eliminar suspeitas de que ele estaria descendo em um lugar conhecido. “Então. VICTORIA . o espectador pode pensar que estamos escondendo alguma coisa.Se não fizermos desse jeito. 42 . uma paisagem meio deserta. Sobe uma colina.Eu imagino.que viver de um modo mais intenso. por uma rotina estrita.

Existe alguma coisa nela que chama a atenção do homem.Ele desce num desses povoados porque vê que é dia de feira. o burocrata. ROBERTO . mas é tarde demais. porque não estão nele.Quer dizer: o homem se rebela pela primeira vez na vida. ou contra a morte? MARCOS . ele vai procurar um lugar onde se hospedar e quando abrem a porta.Quem vai morrer não tem vontade de fazer coisas. perdidos na planície. e passa a ser outro.. O que ele está procurando não é o que os turistas procuram. 43 . Depois.O personagem que a gente conhece não é do tipo capaz de se rebelar de repente.A paisagem não precisa ser grandiosa. e como quem se apavora e mergulha ainda mais na passividade.Contra a sua vida. que estaria falando com a dona do restaurante. REYNALDO . para quem vai morrer a qualquer momento. e vê isso. são coisas que não podem sair dele.. SOCORRO .É desse jeito que ele encontra a mulher. VICTORIA . o que é e o que não é importante? ROBERTO . Ele deixa de ser um personagem plano. ou da birra infantil. há duas maneiras de caracterizar este homem: como quem se rebela e manda tudo à merda. DENISE .E por que não? Ele vê agora coisas que não via antes. Coisas que ele não fazia desde menino. onde está a história? Não precisa ser uma rebeldia violenta. Pode ser meio achatada. Porque se não for assim. GLÓRIA . prefere se deixar levar: É preciso averiguar qual é seu próprio desejo. ou na roda gigante. é ela. ou de um trem. Temos que escolher. Sobe no carrossel.Se ele for comer. que está sofrendo um processo de transformação. SOCORRO . mais complexo. Um desses povoados solitários. ROBERTO .Não podemos dar ao homem emoções que ele não tem. Porque. ou de um carro.Pelo visto. Ele espia pela janela do ônibus ou do trem. pensando bem. a que viveu. GARCÍA MÁRQUEZ . Na América Latina. colocá-lo numa situação e ver como ele se deixa arrastar pelas circunstâncias. E porque tem música. encontra dentro de si coisas que até agora estavam ocultas. a gente sempre vê alguma coisa quando espia pela janela de um ônibus. Esse negócio da emoção da paisagem. pode ver a moça. a de rebeldia. Sua frustração consiste em um ponto: vai fazer determinadas coisas.Uma coisa precisa ficar clara: esse camarada está se rebelando contra a sua vida. VICTORIA . Na verdade.Eu pensei que a gente estava de acordo nesse linha.

. MANOLO ..não é fácil de explicar que ele precisa fazer.Sim. vê de onde é. me contam o filme. MANOLO .E por que não? Esse lugar poderia ser o símbolo de uma libertação. Na rodoviária. O camarada desce numa aldeia à beira-mar. apanha o cartão.Você quer criar uma metáfora.. a gente vê o homem entrando num ônibus. não: continuo pensando no ônibus. É aí onde ele vai descer mais tarde. fica observando o cartão postal. descida para as terras quentes e. Está muito ligado às emoções.Eu insisto encontrar certas motivações. SOCORRO .GARCÍA MÁRQUEZ . Seriam três cortes: interior do ônibus. contavam a história de um camarada dos Andes no litoral: “Quem conhece o mar?”. O Triunfo da vida ROBERTO.. chapéu. Vai morrer.. Porque eu defendo o trem. Um deles é em preto e branco.É o que eu estava perguntando: quando chegamos à porta? 44 . Ele chega na rodoviária e vê uma série de cartões postais. SOCORRO . REYNALDO . e depois. Dá voltas ao cartão. e decide viajar porque vê que a empresa de ônibus se chama “Mar Azul”.. E. ROBERTO . Quando eu voltar. MARCOS .Em Bogotá. ele vê um cartão postal onde aparece o mar. tira os sapatos e deixa as ondas lamberem seus pés. com paisagem de montanhas lá fora. e chama a sua atenção de maneira especial. o sujeito não tem que pegar um ônibus ao acaso. SOCORRO .Pois é.O mar pode exercer esse tipo de atração que eu andava procurando. o mar batendo nas pedras. a orla. Tem uma fantasia sobre isso.E está de paletó. É a história de um homem que nunca saiu das montanhas. Em Bogotá.É fácil. e existe uma coisa .Vocês me perdoem. MARCOS . estabelecer um paralelo? ROBERTO . corte. mas preciso dar uma saída. vira. Quando é que ela aparece.. Eu não vejo é a moça.Eu gostaria de combinar o tema do mar com o do cartão postal. e então.. gravata. e já vemos o homem no trem. ele vai descer num lugar que acha parecido ao do cartão postal. MARCOS .Eu. no final. de repente. aos sentimentos.

Existe ação interna. como relacionar a mulher com o mar. agora. ele se sente motivado pelo cartão postal.. diante da reação dela. tira os sapatos. observa o postal. joga os pratos no chão e se manda. ROBERTO .Vai a um restaurante desses de praia. e se impressiona. ele compara a sua fantasia com a realidade. a partir do cartão postal. É quem serve as mesas..Ele está com fome. como fazer o homem entrar na aldeia.É uma sereia. seria assim: o homem chega. É agora? Joga o postal fora. VICTORIA . joga fora o postal e começa a andas. MARCOS . SOCORRO .Mas o mar não pode ser uma paisagem. Ele chega a litoral. boquiaberto. joga na água e vai embora. entra.O cartão postal deve servir como elemento de contraste. num restaurante.Pode ser que ele fique impressionado diante do espetáculo do mar: Mas. e é quando começa a nascer uma coisa: ele não sabe o que é. SOCORRO . SOCORRO . terceiro. e lá encontra a moça. REYNALDO . ROBERTO .O que eu não vejo nisso é ação.Então: que o homem encontre a mulher no mar.O homem vai comer numa pensão. 45 . E.Estamos buscando duas idéias. e não é a mesma coisa. REYNALDO . a mulher deve ter uma relação específica com o mar.Ele não sabe nadar. Está se afogando. Já estou aqui. Tinha feito outra idéia do mar.Encontra a mulher. Por isso.E o conflito? Porque precisa existir um elemento de tensão nisso tudo. Tem que desempenhar outro papel. Olha de novo o cartão postal. Ela tem uma briga com o patrão.Ou é a filha de um pescador. ROBERTO . Primeiro. olha o mar.GLÓRIA . por quanto tempo? Cedo ou tarde. sabemos que seu objetivo é o mar. ele tem de fazer a pergunta: e agora? Começa a andar. ROBERTO . Uma. e é aí que a mulher aparece. mas percebe que alguma coisa está nascendo.A mulher está na água.. SOCORRO . E a gente partiu do princípio de que iríamos fazer um filme “comercial”. sente-se desiludido. servindo as mesas. Precisa comer alguma coisa. e lá está ela. tira o postal do bolso. Segundo. MARCOS . O homem fica surpreso. Isso também é ação. diz o homem a si mesmo. Contempla o entardecer com os pés na água. Outra. Em termos visuais. GLÓRIA . mete os pés na água. MARCOS ..

VICTORIA . diz ela.Um barquinho chega ao cais.. que ela estava sempre ali.GLÓRIA .Ele pergunta à moça: “Onde se pode passar a noite.Eu tinha proposto a briga no restaurante. a Morte tem aparência de vida.Ele poderia vê-la primeiro no mar. ou ela para ele? ROBERTO . o espectador deve ter a sensação. Vem com uma sombrinha e um vestido de flores.O que ela fizer no momento do primeiro encontro deve conter. REYNALDO .Ele teria que fazer alguma coisa que o ligasse a ela. pela sua sensualidade.É uma coisa que ficaria soterrada. É uma bela senhora do litoral.Uma atriz como Sônia Braga. VICTORIA . quebra os pratos no chão. chama a atenção pela sua beleza. de que aquele encontro não é casual.. e ela. deve se aproximar com uma amiga.E por que ele se lembra dela? ROBERTO .. Ela é impulsiva. SOCORRO . E que não agüenta mais a vida que leva. quando se encontram. SOCORRO . desde o primeiro momento. ROBERTO . esperando pelo homem. Ele está caminhando pela praia. Ela o atrai. Já haveria uma relação visual entre eles. vem andando em direção contrária.Você mesma disse: ela é toda energia. Quem olha primeiro para quem: ele para ela. e ela vem no barquinho. para não criar logo de saída uma situação entre os dois.Ele sente atração porque. nesse caso.Começa a conversar e depois pergunta onde ele está hospedado. com aquela roupa insólita. então.Ela repara nele. e depois encontrá-la no restaurante.Pensando bem. ROBERTO . como um sentimento. Aliás. ROBERTO . não pode deixar de rir: “O que fazendo aí. GLÓRIA . ela não tem razão para ser agressiva com o homem.Mas não no sentido sexual.É uma moça. nesta 46 . GLÓRIA.Ela o seduz. ROBERTO .Não vamos nos esquecer de que ela é a Morte. feito uma semente. DENISE .Senhora? Não tínhamos dito que era uma moça? GLÓRIA . o que ela vai fazer no final. que é uma pescadora. MARCOS . com essa pinta toda?”. e o leva. CECÍLIA . Deve fazer alguma coisa a favor dela.Isso quer dizer. que estamos trabalhando com símbolo e tudo! MARCOS . E ao vê-lo.. Se a mulher representa a Morte. MANOLO .

e pronto. se senta. uma briga. Depois. deve haver mais uma mesa ocupada: uns caras barulhentos... sem querer: “Ai.Pela janela do restaurante. me desculpe. venha por aqui”. Não há nenhuma necessidade de criarmos outro espaço. sem problemas. para dar ao encontro um toque de agressividade. Para marcar uma distância. Por que será que olha desse jeito? Por simples curiosidade? Ainda não sabemos. Certa noite. MARCOS . Ou melhor. ela o convida para ir à praia. Morre antes. em tom brincalhão: “E o que o senhor está fazendo por aqui vestido desse jeito?”. Por isso. a terceira.Não deve haver mais ninguém no bar. Ela chega para servir a mesa. irá fazendo o homem mudar.Quando saem da sala principal do restaurante e chegam à parte dos fundos e ela começa a limpar a lapela do terno dele. REYNALDO .Por que estamos insistindo tanto nessa história de restaurante ou bar? O homem vem caminhando pela praia e encontra a moça. naquele ambiente. Com certeza vão fazer amor na areia. indicando os fundos do restaurante. Vamos ficar sabendo no final. A situação poderia se enriquecer fazendo que ela derrame um pouco de qualquer coisa no terno do homem..Ele entra no restaurante para comer. É um sujeito estranhíssimo. e fica olhando fixo para ele. ela debochando dele. E. VICTORIA . comenta. Não sei como. SOCORRO . bebendo cerveja e jogando baralho ou dominó. é de Marcos: que ela seja a garçonete de um restaurante e veja o homem chegar de longe. pouco a pouco. seduzindo-o. A segunda é a de Roberto: que o encontro seja na praia e que a relação aconteça em tom de deboche.Temos de tirar partido da forma de o homem se vestir. Mas ele não chega a ir.. GLÓRIA .O que vocês acham de fazermos um balanço das propostas? A primeira proposta é a de GLÓRIA: que eles se encontrem num restaurante e que se estabeleça entre eles uma relação de contraste através de um escândalo.cidade?” SOCORRO .Ele chega. ele fica na cidadezinha e ela. aquele momento do encontro no qual ele fica impressionado pela vitalidade da moça. a moça vê o homem se aproximando. ROBERTO . mas 47 . Deixe-me limpá-lo. MARCOS .No caminho. e ela se aproxima da mesa e diz secamente: “Só temos peixe”. e se senta. ela pode se afastar com o homem. acabamos perdendo a história do impacto. se pergunta. por favor. e fica olhando para ele: “De onde será que tirou essa roupa?”. ROBERTO .

SOCORRO . O homem vai caminhando pela praia. GARCÍA MÁRQUEZ . comendo no tal restaurante. Bate numa porta.Inventamos um estímulo. aí está um projeto de final de filme. procurando um lugar para passar a noite. É lindíssima. MARCOS .Ah. pela desenvoltura da moça. vê isso pela janela.Vamos fazer que seja na praia mesmo.. MANOLO . mortinho! SOCORRO. MARCOS .Bem. GARCÍA MÁRQUEZ .Existem duas possibilidades: que o homem tenha esse cartão postal em seu escritório.. Dá algumas voltas pela aldeia.. MARCOS . O camarada toma um trem e sai de Bogotá porque quer ver o mar. Ele fica impressionado pelo desembaraço da moça. acaba manchando o terno dele. Paga e vai embora.Pois é.Não. ou outro parecido. sem querer. MANOLO .Ela havia ido à praia pouco antes.Coitado desse cara! A única vez na vida em que vai ficar com uma mulher bonita. bom: então.E aí. e é aí que vê o homem se aproximando. ROBERTO . cai duro.Fizemos algumas mudanças. Mas como é mesmo que acontece o encontro? VICTORIA . terminaram o filme? Vamos ver. Limpa o terno na mesa mesmo. Agora. Bem na hora! GARCÍA MÁRQUEZ . MANOLO . Brinca: “Puxa.morre. um tipo de beleza diferente do que ele conhece.. por que o senhor não muda essa roupa?”.Olha só quem chega: García Márquez. Ela está fritando o peixe. estamos falando de outro filme. Ele fica impressionado pela graça. entrando pela porta dos fundos. ou que o encontre na estação.. Na realidade o que ele quer é conhecer o mar. na beira do mar.E a porta? Ele não bate mais? MANOLO . Vai servir ao homem. O homem chega ao restaurante e se senta..O que chama tanto a atenção dele é o fato de ela ser uma mulher praieira. ele 48 . Depois voltou ao restaurante. Ele decidiu visitar aquele lugar.. O que sabemos com certeza é que encontra a mulher lá.E aí. Ela passa com uma cesta de peixes. contem tudo para mim. para buscar peixe. Ainda não sabemos o que acontecerá no trajeto.. um cartão postal. nem se ele vai de trem ou de ônibus. na frente de todo mundo. virou outro filme. e é ela quem abre. com esse calor. VICTORIA . Desde que o mar entrou. para vermos o homem sentado. corte. MARCOS.Aí estão as três seqüências.

onde há uma feira.leva uma pancada e desmaia. uma quermesse. Agora. e roda parou um instante e a cadeirinha e a janela ficaram quase que no mesmo nível.. GARCÍA MÁRQUEZ . Ele está cochilando e. discretamente. ele vai comer num restaurante e lá acontece o primeiro contato. que ela descubra o cartão postal e diga a ele que conhece aquele lugar. ROBERTO. de repente. Ao despertar. não tem nada de biquíni... de sunga.. Fizeram um parquinho infantil num lugar horrível e há um momento em que o personagem se senta num balanço e começa a cantar uma canção. com a câmera fixa bem na sua 49 . abre os alhos e quase que na sua frente.. tem uma coisa: essa história não é mais a que eu apresentei. Nosso problema agora é a estrutura. porque ela é garçonete e sem querer mancha o terno dele. MARCOS.. que o marido o mate.. está numa cadeirinha da rodagigante. Até o homem sair de Bogotá procurando o mar.caminha pela praia e ela vem andando com um cesto ou uma sacola de peixe .aparece o marido dela e arma uma confusão. MANOLO . que se ele quiser ela pode levá-lo até lá. Então o homem se levanta e sai do ônibus. de Kurosawa. pela janela. E é onde ele morre. Vê a moça no mesmo nível da janela. Passam. ainda não sei como. Nosso homem que. dos calções.Não. uma praia quase deserta. GARCÍA MÁRQUEZ .Ela tira o paletó dele. GARCÍA MÁRQUEZ . com uma amiga.Isso que você chama de relevo deve surgir justamente da relação entre os dois. Por quê? Porque ela. É uma aldeia de pescadores. para identificá-lo melhor . decidi batizar de Natalio. vê que ela está cuidando dele. para limpá-lo. A moça e a amiga começam a rir. quando a roda-gigante gira de novo e as duas se perdem no alto.. Essa roda-gigante me lembra outra ver Viver. duas. que na verdade é a Morte. no meio dos biquínis. MANOLO .É que tudo ainda está muito vago. a força do absurdo. ele continua vestido de cachaco. Ouvimos a música. Mas não faz mal.Eu penso numa coisa que você falou. GARCÍA MÁRQUEZ .Pelo que estou vendo. um pelo outro. Isso tem uma força especial. tudo bem. falta relevo. aliás. vê a moça. o fato era totalmente insólito: você bate numa porta e encontra a Vida. Depois. que o ônibus no qual ele viaja poderia parar na estrada de um povoado. quando batia na porta.Não podemos nos esquecer que ela é a Morte. Como é que o camarada morre? Vejo duas possibilidades: uma. Antes.esta é a possibilidade .Veja bem: tudo parece estar flutuando. Mas o que vem depois. e então . a caçoar dele.

se acreditarmos nisso. entendem? Aquelas coisas que no velho cinema eram 50 . esse gabarito. Isso é tudo que ele quer fazer antes de morrer: conhecer o mar: Desce do ônibus nessa aldeia de pescadores. ela passa.. e tem a visão do mar pela primeira vez. ROBERTO .. Na verdade. temos que meter na cabeça que ela é a Morte. caminha pela praia deserta. seus sentimentos.Na verdade. Se ela é a Morte. É a história de uma pessoa para quem nunca acontece nada e sente que.Sim. e agora. O destino. a moça. Aliás. MANOLO sugeriu que ela se oferecesse para leválo ao lugar exato que ele procura. Quase uma topada. ROBERTO . o homem sufocou suas emoções. nem aquele parque horrível.frente. rrruuurrrmm!..Tudo bem. GARCÍA MÁRQUEZ . encontra a morte. GARCÍA MÁRQUEZ . a morte. de repente. vê o mar. sem trocar sua de cachaco. visse a mulher. Quem viu esse filme não esquece nem essa canção. com uma sensualidade que o impressiona.Vamos chegar lá.A idéia do cartão postal e do mar tem força. o destino bateu à porta. ou sei lá o quê. não será justamente esse o problema.. o personagem vai crescer. claro. Talvez depois a gente precise mais desse elemento e ele possa ser deixado de lado. não de quem chega. GARCÍA MÁRQUEZ . deveria fazer coisas insólitas.No fundo. O filme da horta é o filme de quem está dentro da casa. nem ao primeiro encontro dos dois. O camarada olha o cartão.Está se movendo. mas não nos esquecemos dela jamais. O que eu mais gostei é a idéia de que ele vá ao mar e dali. Nós não conseguimos dar ao personagem esse fôlego. Seria a viagem que o levaria diretamente para a morte. sempre? ROBERTO . seria mais um encontrão do que um encontro propriamente dito. de viver em plenitude. nós não gostávamos da idéia de o homem bater na porta. Uma coisa assim meio. estamos caminhando. Na nossa história.. É a Morte travestida de Vida.. GARCÍA MÁRQUEZ .A iniciativa é dela.. porque é a canção da Morte. CECÍLIA . E aí começa processo de sedução por parte dela. nós não demos relevância a ela. o fato de ela estar sempre caminhando? CECÍLIA. Então.. exatamente do mar. agora.. eu entendo. Com isso acaba morrendo do mesmo jeito que viveu: frustrado. É uma canção em japonês. e o desejo surge. o lugar do cartão postal. quando acha a possibilidade de expressá-los. mas sem fazer nada.Existe um problema sério com o personagem da moça: ele não tem o vigor necessário para representar o que na verdade é. Durante toda a sua vida..

É bom que a Morte o salve de uma morte que não é a dele. instantâneo e definitivo. limpando peixe. ROBERTO . encontraria a mulher atrás de uma pedra.. que não chegou ainda. GARCÍA MÁRQUEZ . e tudo muda. uma mulher enorme. como a que estou tendo agora: a mulher viaja no mesmo ônibus que o homem. SOCORRO . Ela tem que surgir diante dele como algo insólito. de longe. na verdade.acompanhadas por golpes da orquestra: taran. nem se vêem. É por isso que a gente faz uma Oficina. aparentemente.Ele chega à beira do mar vestido de terno.Por que não voltamos à idéia da comparação entre o mar do cartão postal e o da realidade? “Bem. e agora?”. GARCÍA MÁRQUEZ . de repente. inclinada sobre ele. e entra na água. GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS . E é quando vê a moça limpando os peixes. GARCÍA MÁRQUEZ . tira os sapatos e as meias. Uma negra corpulenta. O esquema poderia ser este: ele está numa situação que... providencial. nem eu saiba de onde vem ou para onde vai. Já começo a ver essa negra. tarataram. orientando-se por ela. no momento em que ele chega à praia. mas ela já veio com ele. nada de idealizado ou fantástico. uma coisa bem do cotidiano. E isso produz uma espécie de susto. vai determinar o curso de toda a ação. Quando desperta vê. GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO . tem um momento de vacilação e regressa à praia. O que não consigo ver é a locação. Não se encontram no ônibus. 51 . Ela está observando. mais todos nós tínhamos uma posição diferente diante da história. Fica adormecido na areia. REYNALDO . Ele sentiria o feitiço daquela voz e. Tem a impressão de que o sujeito quer se matar: Ele avança.Essa é uma aldeia de pescadores. E. se pergunta o homem.A mulher deve ser negra. Mesmo que ela não cante no filme.Sim. Houve propostas gerais. embora a gente não tenha tempo agora para analisála.Eu gostaria de resumir o que fizemos. Se fosse de outro jeito.Mas é assim mesmo que a história acaba saindo. dizendo que. Todas as praias são iguais.Pouco a pouco. seu canto. não houve nenhum acordo. cortando cabeças de peixes.Pode até cantar: Uma mulher assim como Maria Bethânia.E se nós antecipássemos sua presença de outra maneira? Escutaríamos sua voz. com uma aura mística.. Ela seria uma espécie de flautista de Hamelin. a personagem vai-se desenhando. ELID . acostumada a cantar. ela entra. para que nos juntarmos aqui? E não sairiam essas idéias loucas.

e assim por diante. tudo bem: ele vai para o mar... e quando volto encontro o mesmo camarada empenhado em chegar a um lugar. O camarada só fica ali na frente do mar.. ou na pensão ou restaurante onde a mulher trabalha. mas porque quer conhecer o mar. GARCÍA MÁRQUEZ . 52 .Ele tem que começar a fazer coisas que nunca tinha feito.É isso o que estamos tentando averiguar: o que ele faz depois? ELlD . GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . porque deixei aqui um sujeito sem destino exato.Ou de crianças.Como é? GARCÍA MÁRQUEZ .Concordo com isso: colocar o homem fazendo coisas loucas.. no bar. No ônibus ou no trem podem acontecer coisas. Existem postais do mar da selva. das montanhas. ROBERTO . ELID . escolheu o lugar da sua morte. não é porque queira ir a esse lugar específico. Como nas novelas de cavalaria. é pura questão de técnica. Sem saber. ELID .Eu estou achando que a praia ainda não é o lugar... e. ou “Onde é que fica o bordel daqui?” Pode ser que ele encontre uma bailarina no bordel. Um cartão em preto e branco. uma. Alguém dizia que. Confesso que isso me tirou do eixo. de que ele deve ir ao mar para encontrá-la.Você é um romântico grego. e escolhe do mar.GARCÍA MÁRQUEZ .. Antes saía buscando aventuras. depois outra. estão uns sujeitos jogando dominó.É um bom recurso visual. mas isso é fácil de resolver. a não ser entrar num ônibus. saí para ver o que acontecia.. depois esperar que seque. Quando ele seleciona o cartão postal. onde é que a estrada ia dar. mas na verdade não faz nada. REYNALDO . Pois bem: que o homem se aproxime e pergunte: “Onde posso conseguir uma garrafa de rum?”.Está faltando loucura nessa história..Vamos ficar com a idéia do cartão postal.. sem destino. RORERTO . Porque acontece que o personagem vai em busca de aventuras... Mas.Mas a sua proposta de situar a moça no ônibus contradiz a idéia de que ela “vem” do mar... ou então caminha pela praia. Não faz nada. um pouco à deriva. Todos os brasileiros são mediterrâneos. Você é mediterrâneo.Estou falando do final da viagem.Não é preciso se impacientar: Lembrem-se das diferentes camadas de pintura: primeiro. Ele vê um monte de cartões. É isso o que quero dizer: Vocês estão muito sérios. MANOLO . GARCÍA MÁRQUEZ . nas aventuras de cavaleiros andantes.

Ela e os pescadores se oferecem para levá-lo ao tal lugar que ele procurava.GARCÍA MÁRQUEZ .ensinam o gringo a tomar chimarrão. “Vamos gozar esse aí”.Até as crianças da aldeia debocham. mas acaba se tornando um pesadelo. esquentam a bombinha do chimarrão. mas acabam fazendo.Na costa atlântica da Colômbia existe uma aldeia de pescadores que se chama Tacanga.Isso dá muita vida ao filme.Só de maldade. limpando peixe. Há piadinhas. A viagem começa com uma simples brincadeira.E o matam de brincadeira. ROBERTO . Enquanto a gente não tiver construído o personagem. Ou seja. cortando cabeças de peixe. Tem uma baía muito estreita. À medida em que avançam.Tenho a impressão que o cinema não agüenta outro outro prostíbulo. no final. diz um dos pescadores quando vê o cachaco se aproximando.Tem uma história.. no final. E. com a blusa ensangüentada.Sim.... a do gringo que chega ao pampa. sem querer. MARCOS.e. mais um bordel. colete e gravata. levantam.É uma travessura. por causa de uma piada! Ou seja. Ela.Essa imagem da mulher. ao vê-lo vestido de terno. onde tudo acontece normalmente . MANOLO .E por que levou? MARCOS . da piada.. rodeada de 53 .. da moça. Vocês lembram de O Soparso? É impressionante. SOCORRO . É uma boa imagem.. o camarada morre. GARCÍA MÁRQUEZ. ROBERTO . metem o homem na água. Quando chegam.Seria bom resgatar a idéia da verdadeira. Não muito pesadas: meio inocentes. SOCORRO . o mar. Só ela tem consciência de ter levado o homem para a morte. o caminho vai-se fazendo mais tortuoso. o camarada chega à aldeia de pescadores com seu colete preto.Sacodem. Os pescadores se assustam: o que aconteceu? Só a moça sabe. construir a relação a partir dessa idéia de coisa engraçada. DENISE . Ninguém quer fazer mal ao homem.. E acontece que por causa de uma dessas piadinhas ele acaba sendo morto. GARCÍA MÁRQUEZ .. matam o homem sem querer. a montar a cavalo . GARCÍA MÁRQUEZ. GARCÍA MÁRQUEZ . porque em nenhum momento a gente pensava que ele ia morrer...As crianças levam o homem... precisamos buscar imagens.. SOCORRO . o céu. não existe nada... trazem. GARCÍA MÁRQUEZ . As rochas.

seja homem. onde os pescadores jogam suas redes. acaba criando para si um ambiente idílico. diga logo! MANOLO . Uma simples travessura. ROBERTO . flutuando sobre os peixes. e quando vêem entrar um cardume de peixes. Além do mais..Deixam Natalio lá. será interrompido de maneira brutal por uma bola de areia que os meninos jogam nele. uns vigias que observam o mar dos rochedos. vê também o cachaco. GARCÍA MÁRQUEZ . que se transforma em um crime coletivo. Quero dizer que tenho essa imagem num roteiro que nunca foi filmado .Ou aberto. vestido da cabeça aos pés. SOCORRO .O cadáver entra na baía flutuando com colete e tudo. ao ver entrar na baía um cardume de peixes. lá em cima. existe também uma dose de crueldade. embora também ache que seria bom 54 . como é que se arranja numa situação dessas.a imagem de um vice-rei que se afoga num poço . para ver o que é que ele faz.montanhas.Ela o salva das crianças. Depois seu cadáver é descoberto.Quando ele descobre o mar. sozinha. E uma boa imagem: ele flutuando na água transparente. Acho bom. lá do alto. ROBERTO . flutuando na baía. de paletó. desaparece. MANOLO . Já temos o final. com sua inocência. deve ser uma coisa muito exótica. um dos vigias. E no dia seguinte. Agora. GARCÍA MÁRQUEZ . MANOLO . pode surgir a idéia de escalar a montanha. eu renuncio a ela. Os vigias são chamados de falcões. Pois bem: podem levar Natalio a um desses ninhos de falcões. MANOLO . Há alguns homens. E fica com ele. só falta o recheio. GARCÍA MÁRQUEZ . poético.E ele.Ela estava observando os vigias. É aí que ela chega.mas não faz mal.Espanta as crianças como se fossem moscas. e depois.As crianças. GARCÍA MÁRQUEZ . quase inacessíveis. GARCÍA MÁRQUEZ .E com o guarda-chuva fechado sobre o peito. SOCORRO . para que eles fechem a rede.E ela? Na sedução.A água está tão quieta e transparente que a pesca é feita ali na margem. quando caminha pela praia.. Por isso mesmo. essas crianças vivem numa aldeia da costa. podem ser extremamente cruéis. só de brincadeira. GARCÍA MÁRQUEZ .Por que você não diz de uma vez que é a baía mais bonita do mundo? Ou não é? Vamos.Uma brincadeira coletiva. e para eles um cachaco. e deixá-lo lá.. avisam aos pescadores. De repente.

“Ora. por favor. e um belo dia. coitado. O camarada chega a 55 . quando a confusão é descoberta . por exemplo . enfim.. estou brincando. aqui todo mundo conhece o senhor”. O homem começa dizendo não. ou fazemos direito. acabam matando o nosso personagem. aceitando a contragosto a homenagem e depois. enfim. pensam que é um personagem oficial. porque. ou temido... No nosso caso..Pela primeira vez na vida. MARCOS . Não se assustem. a vida arrasta o camarada e. ou de Os pescadores da ilha de Siena? É um lugar que fica sem o padre.. GARCÍA MÁRQUEZ . e depois. não lembro como é que tudo termina..Dá tempo. um inspetor ou coisa parecida. Olha só: acabamos de entrar num filme simbólico. ou não fazemos esse filme... importante. Ele é simplesmente confundido com outro homem.. e essa coisa envolve a aldeia inteira. esse homem vive um momento de triunfo.. e depois a confessá-los...Todo mundo na aldeia estava esperando a chegada de alguém odiado. O presidente da República. e tem até quem acha que o reconhece. E celebram a sua chegada com uma grande festança. por exemplo. temos tempo. mesmo que seja tudo por engano. só para levá-lo até a armadilha. sem que ele queira. estamos danados. e quando está no apogeu. tem capacidade para isso. Eu imagino essa armadilha onde ele cai. Mas os verdugos não ficam sabendo jamais que a vítima não tem nada a ver com a pessoa que eles esperavam.Uma espécie de atentado. GLÓRIA . A aldeia inteira obrigou-o a aceitar aquele papel. alguém que pode descobrir alguma coisa não muito limpa. alguma coisa está acontecendo em sua vida.. Agora. acaba assumindo o papel que quis interpretar a vida inteira. sei perfeitamente quem é o senhor.. Mas como ele chega vestido de maneira tão solene chapéu. afinal. não tente disfarçar.tentarmos uma coisa mais louca: o homem. mas como todo mundo detesta o outro.Alguém aí se lembra de Deus precisa dos homens. e ele cai. colete. de mentiroso. guarda-chuva -. e as pessoas obrigam o sacristão a rezar missa. mas acaba entrando na dança. o sacristão fica sentindo-se padre e.. SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ . ao chegar.Não vejo nenhuma razão para o personagem verdadeiro chegar...com a chegada do personagem verdadeiro. Mas.ele acaba sendo acusado de farsa. mas a idéia é muito boa.Mas a gente não precisa de muito tempo para desenvolver uma situação dessas? GARCÍA MÁRQUEZ .. Simulam aquela alegria toda. é confundido com alguém muito importante. Por isso matam o recém-chegado. GLÓRIA .

falta saber se o descobrem ou não. os pescadores recuperam algo que tinha sido tomado 56 . todas exatamente iguais. Os pescadores têm um conflito com uma empacotadora. o senhor. Conquistado pela hospitalidade das pessoas da aldeia. poder .Vocês nem imaginam que lugar estranho é Tacanga. O que vejo é que sua saída de cena se articula com sua chegada. ROBERTO . ele toma decisões que. a história do estranho.fama. O que isso me faz lembrar? Acho que a eterna história do forasteiro que chega ao povoado.Ele chega vestido de autoridade. não importa mais.e já pode morrer tranqüilo. CECÍLIA .Nós já sabemos que a aldeia o espera. não disfarce: mas estávamos à sua espera. com autoridade. porque ele chega vestido de Poder e morre no apogeu do seu poder. GARCÍA MÁRQUEZ . para que dê certo. Agora. E ele vai-se deixando convencer aos poucos. o traço de um pintor primitivo. a carruagem torna a virar abóbora. ELID .Enquanto tem poder. mas quem é que ela está esperando? GARCÍA MÁRQUEZ . porque necessitam uma pessoa assim. fazer uma obra que o imortalize. e o homem foi enviado pelo governo para servir de mediador. Sim. “Seja bem-vindo. que as esperanças dos moradores se projetem nele.viver o grande momento da sua vida .Eles inventam o personagem que esperaram. GARCÍA MÁRQUEZ . que afetam os interesses da embaladora de peixe. E graças a isso. mesmo que cada uma tenha uma cor diferente. Morrer. quando perde o poder.E se o camarada decidisse construir uma pirâmide? MANOLO . Glória. E eles começam a pedir e ele. ora. Tudo ali é tão artificial como essa história. Aliás. e ele sabe que tem um prazo para acabar: Vinte e quatro horas. “Bem. Como se fosse o desenho. Claro que o conhecemos: o senhor é o Fulano de Tal”. O que querem de mim?”. vamos fazê-lo mais artificial ainda. GARCÍA MÁRQUEZ .Mas esta história é um conto de fadas. ROBERTO . me descobriram. para ele. por desfrutar do poder que não quer morrer: E tem mais: quer perpetuar sua fama. e o feitiço se desfaz.Numa aldeola assim. é lógico que sua chegada desperte expectativas.. e todo mundo considera a sua chegada como uma coisa providencial... depois. a propósito: já que este conto é tão artificial. ROBERTO . conceder..A moça é a primeira a reconhecê-lo. toma decisões muito drásticas. com suas casinhas de madeira.Ou o contrário: sente-se tão fascinado pelo poder. feito um bumerangue. do outro. se voltam contra ele.

Uma morte grandiosa. REYNALDO . e fazem um grande enterro. e a gerência da embaladora de peixe decide se vingar dele. nem grupos rivais. E quando descobrem que o homem não é o mediador se negam a devolver o que tomaram. Da farsa que foi imposta a ele.Farsante de uma farsa que não quis protagonizar. ELID .Se conseguirmos descobrir o mecanismo que leva à morte. com quem ele foi confundido? Com um senador? GARCÍA MÁRQUEZ . MANOLO .O cara é enterrado vivo. Para eles. GARCÍA MÁRQUEZ .Ah. Ele já se sente Deus.. não convém que os problemas sejam resolvidos. ROBERTO .. ROBERTO .Mas isso é um longa-metragem. GARCÍA MÁRQUEZ . Mas. ele tem de fazer alguma coisa que o afirme como um deus. Não vamos deixá-lo morrer por causa desse sacrifício que estão pedindo a ele. Quando chega. Ele morre afogado. teremos o filme pronto. Não pode existir nenhuma embaladora de peixe. ele é morto por todo esse amor. e nós estamos elaborando um sonho.É um farsante. Já estamos no terreno do mito. conceda ao homem essa última alegria.No apogeu da GLÓRIA. mas morre como se fosse um santo. não seja cruel! Pelo menos.Não.. REYNALDO . Nunca descobrirão a verdade. Quer fazer alguma coisa grandiosa. Não precisamos de mais nada.. e quimioterapia. as pessoas dizem: “Finalmente! Sabíamos que ele viria!”.Todo mundo na aldeia fica alegre com a sua chegada. Porque ele sabe que a morte é inevitável. entre radiações. GARCÍA MÁRQUEZ . mas também certos personagens que se sentem contrariados.. ROBERTO . bem diferente daquela outra que o esperava no hospital.Mas ele não consegue.deles.Sei lá. E são justamente esses personagens que matam o homem. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ .. o fato. O que mata o nosso homem é o mito. ou se apoderam do que reclamavam como se fosse deles.Como é que não consegue? Ora.Que sacrifício? GARCÍA MÁRQUEZ.Os pescadores se vingam nele de uma coisa que ele não fez.Ele é confundido com um benfeitor. Estamos metidos até o pescoço no terreno do mito e agora não podemos voltar à realidade cotidiana. Os pescadores se vingam do que fizeram com o homem. que o situe além da morte. MARCOS . 57 .

fica mais fácil de acreditar. que deve fazer esse favor. SOCORRO . tem um caso parecido. Por alguma razão. só existem trinta e seis situações dramáticas. ROBERTO . sim. O verdadeiro general também está preso mas ocultou sua identidade para salvar a vida. de Rossellini. GARCÍA MÁRQUEZ . para nosso espanto. Por que não? Afinal. e todos os outro presos o confundem com um líder. REYNALDO . Mas morre crucificado? GARCÍA MÁRQUEZ . protagonizado por Vittorio de Sica? Acabo de perceber que essa é a história que estamos tentando contar. Um santo. porque sou um grande admirador desse filme. Vemos a imagem do recém-chegado nos altares de todas as casas. desiludi-los. Podemos fazer qualquer coisa. uma aparição. de Kurosawa. GARCÍA MÁRQUEZ . de repente. que é igualzinho ao santo. mas consegue o seu objetivo.. Puxa. isso ficou bonito! 58 .Crucificado. E sobre um pobre coitado que é preso numa cadeia da Itália . arrisca a própria vida. todo mundo se convence de que ele é o general.. MARCOS . sem vacilar. Ele se deixa crucificar Ele quer que todo mundo fique contente. Morre. Puro milagre.E ele chega mesmo a se achar o santo. Com velas acesas. e esta é uma delas. até um drama grego na ilha de Creta.Isso mesmo. é igualzinho ao homem.Em que sentido ele se deixa crucificar? Ele se sacrifica para alcançar seu propósito. claro. Os presos acabam convencendo o homem de que ele é o outro. E para demonstrar isso. vamos lá: nós já temos a história.uma cadeia para presos políticos -. E assim. o General De la Rovere. Estavam velando o santo e. GARCÍA MÁRQUEZ . o homem chegou a conclusão de que não pode frustrá-los. ROBERTO . as pessoas veneram um santo que.Tudo bem. acaba sendo o General De la Rovere.É que com um italiano. e além disso.Você lembra do filme De Crápula a Herói.Não. uma visão.. com a ilusão de que ele era a pessoa esperada.Em Kagemusha. O nosso homem descobre que as pessoas precisam dele. chega esse sujeito.Acham que ele é um médico milagroso.Em todas as casas da aldeia. Mas enfim.GARCÍA MÁRQUEZ . Várias vezes eu disse por aí que os três melhores filmes que já vi na vida foram O Encouraçado Potemkin. E acho bom. e de repente aparece esse sujeito que se faz passar por ele. GARCÍA MÁRQUEZ . Cidadão Kane e De Crápula a Herói. as pessoas descobrem no nosso homem alguma coisa que todos necessitam.

Olha. sorri. O homem pode morrer ou continuar vivo.Ele chega à aldeia sem que ninguém veja.As pessoas inventam. Que ele faça dois ou três milagres rápidos. o dia da sua chegada à aldeia. desaparece. não é mesmo? E. O importante é que nós já temos a história.A gente fica com vontade de saber o que vem depois. O filme acaba assim. fez até milagres.O santo é o padroeiro dos pescadores. GARCÍA MÁRQUEZ . E é a seguinte: um 59 . ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ .Pois eu continuo achando que ele devia morrer. ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ .. ROBERTO ..Um santo que fez muito bem.. GARCÍA MÁRQUEZ . Vamos fazer primeiro o filme que nos convém. lindo.Ela entra na água e o homem vai atrás.: o cara olha para a câmera.. o homem vai morrer? GARCÍA MÁRQUEZ .E ele chega a crer nos milagres.CECÍLIA . e não o contrário. ROBERTO . e depois o do santo.Pois é: aí voltamos à longa-metragem. O final não importa mais..Como eu nunca vi um santo sorridente. a gente expulsa você. imagino este fina.Ninguém sabe como nem por onde ele chegou.Faz uma paralítica voltar a andar. GARCÍA MÁRQUEZ .Afinal. e faz o milagre. você é amigo ou inimigo? ROBERTO .Vamos desenvolver cena por cena. GARCÍA MÁRQUEZ .O homem não precisa mais morrer. Melhor até do que imaginamos. Acredita de verdade que é milagroso.Não.E aquele dia. MANOLO .Se você derrotar o nosso filme. é o homem que é igualzinho ao santo. Uma imagem muito bíblica. como se fosse caminhar pela superfície da água. ele entra no mar mesmo. Afinal. inventam milagres e os atribuem a ele. é justamente o dia do santo. saber como é que tudo isso termina. é um filme muito bonito. Antes. virou longa-metragem de novo. REYNALDO .Está bem. Não acho que leve mais de meia hora para chegar ao primeiro milagre. Olha.. de repente. REYNALDO . ele ia morrer porque a gente não sabia o que fazer com ele.... Na verdade.. e ponto. para ver onde a história nos leva. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ .Aí. Tivemos um trabalho danado para chegar até aqui. SOCORRO . REYNALDO . O filme pode terminar com o primeiro milagre. MARCOS .

porque é parecido de verdade com o tal santo . tão menor. mas acaba cedendo. E o médico responde: “Depende.A mulher negra. como alguém disse aqui. com um médico que fazia milagres. desenganado pelos médicos. O homem andou se recusando. porque o povo já o canalizou.democrata de Bogotá. esticar. No momento em que o homem decide que vai pôr a mão no doente. Temos que trabalhar mais. no princípio do filme. ROBERTO . ela diz: 60 . se ela ressuscita ou não. e o milagre acontece. decide mudar de vida radicalmente. CECÍLIA . precisamos garantir que a história caiba em meia hora. E os devotos não gostariam que a gente brincassem com o seu santo. Pode ser três meses ou três anos”.Agora a morte é um simples pretexto para fazer o nosso homem viajar. É sobre ele e sua incrível santidade.Eu já tinha me esquecido do mar.acaba acreditando que é santo. perplexo: não sabe o que aconteceu. chega a viver a vida de um santo. pode desandar e se perder E tem uma coisa que me preocupa: a imagem dos altares não deve ser muito parecida à de São Gregório.Esse aí seria o final. GARCÍA MÁRQUEZ . só que já não pode fazer mais nada. a do camarada condenado a morrer. danou-se. onde o confundem com um santo..As circunstâncias se impõem sobre ele. REYNALDO . Alguém pede ao homem que cure um doente. e começa a levar a cabo um velho sonho: conhecer o mar: Chega a uma aldeia de pescadores. Esta é a história. GARCÍA MÁRQUEZ . Na beira do mar. que ponha a mão em tal Lugar..Parece que a outra história. GARCÍA MÁRQUEZ. mas a semelhança é tão grande. A conversa começa com o sujeito perguntando ao médico: “E quanto tempo o senhor acha que eu ainda tenho de vida?”. Porque o filme não é sobre a criança doente. é uma avalanche que a Igreja não consegue parar. ROBERTO .. deixou de nos interessar.Não precisamos mais falar da cirrose. e é tanta a insistência dos devotos que afinal põe a mão sobre uma criança doente ou moribunda que acabam de trazer e. meio vago. Se ela crescer muito. Quando ele vê os altares. O diálogo fica assim.A mulher estava esperando por ele na aldeia. É verdade que o Vaticano encrenca. Agora. não consegue se decidir. milagre! O filme poderia até acabar com o rosto do homem. ele mesmo não se explica o que ocorreu. Os detalhes virão depois.São coisas diferentes. REYNALDO . que tinha vivido uma vida tão chata. CECÍLIA . estão lembrando! Quando ele chega. O que interessa agora é ver como esse sujeito. quando vê a si próprio venerado em todas as casas .. e no começo ele vacila.

Quando tiver terminado o primeiro tratamento do roteiro.É a melhor coisa que poderia ter acontecido com ele. desenvolve a história. agora. com a informação que tem. em seguida começarão as perguntas: “Êpa. então. Vamos parar quinze minutos? 61 . Hemingway dizia que um livro acabado era um leão morto. a primeira coisa que os jornalistas perguntam é: “O que o senhor está escrevendo agora?”. A vida que ele teve é o que explica a sua decisão. “não me deixam nem descansar um pouco!” Vendo a cara de vocês. GARCÍA MÁRQUEZ .Ele se realiza. o que importa é a incerteza do homem: “Quanto tempo de vida eu tenho? Vou sofrer muito?”.Não. e isso aí.“Estávamos a sua espera”. Ao contrário: manda tudo à merda. consegue a sua realização pessoal.É o filme das casualidades. Por isso não se mete num hospital nem se tranca em casa para que cuidem dele. GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS . acho que é uma boa idéia.. eu respondo. ROBERTO . ver a história de MARCOS. porque ainda não sabemos que ela é a Morte. Ele quer se libertar.. Não podemos nem piscar. por isso é preciso tomar cuidado. não é a vida que ele teve. SOCORRO . MANOLO . seu porte. Ou preferem descansar? Cada vez que sai um livro meu. E o jeito é manter a história tensa o tempo inteiro. como é mesmo? E aquela outra coisa ali?”. Chega a ter tudo: o poder e a GLÓRIA.Eu tenho outra história.Acho que não precisamos mais revirar essa história. Agora.A mulher ficou flutuando por aí porque nesta nova versão ela já não importa tanto.O problema. Essa é a história. “Porra”. GARCÍA MÁRQUEZ .Muito bem. A figura da mulher. GARCÍA MÁRQUEZ . nos impressiona. Vamos..Melhor até do que ele poderia imaginar. ROBERTO . pronto: você mesmo. e por acaso. Sem querer. Porque se a gente piscar. a primeira versão. e sim a vida que tem pela frente. traz para a gente ver. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ .Então. A do cachaco é um leão morto. A tendência é ir além da meia hora.

.. GARCÍA MÁRQUEZ . não sabe dançar. É meio frígida. acompanhado de seus guarda-costas. começa duas aventuras amorosas com dois sujeitos.que parece ser frígida . O aparelho pousa suavemente no heliporto do hotel. nunca teve um namorado.. Veio ao Caribe nnma excursão de quinze dias. Confesso que minha primeira motivação. ao mesmo tempo.O chamado da selva MARCOS . vai visitar. A psicóloga . por exemplo.. a paisagem. Estão dando as boas vindas a um helicóptero. numa praia do Caribe. De repente. tomando sol com dois algodõeziuhos tapando os olhos..SEGUNDA PARTE QUINTA JORNADA DE TRABALHO História de uma paixão argentina .É. Essa é a imagem. um cara famoso. Queria brincar visualmente com certos estereótipos latino-americanos: os músicos . músico.Vou contar primeiro o começo do filme. está no hotel há vinte e quatro horas e ainda não se animou a descer até a praia. parecido com o Hilton Palace de São Domingos.. Assim o filme começa. O cara das maracas mora num bairro muito pitoresco. outra de mariachis -. Um deles é negro. as praias. ao imaginar a história. um grande ruído no céu e centenas de mãos na varanda agitam bandeirinhas. que a psicóloga. de repente. Gostaria de poder filmar nesses lugares: os hotéis. é claro. A história é a seguinte: essa mulher é uma psicóloga argentina que deciciiu passar férias no Caribe. palmeiras. e toca todas as maracas na orquestra de salsa do hotel. uma pessoa que procura no Caribe o que não pôde encontrar em seu país. Primeiro plano de uma mulher cinqüentona. o outro é branco. Varanda de um hotel cinco estrelas.a orquestra de salsa. foram as locações. os ambientes.. tanto que chegou no hotel em seu próprio helicóptero. porque alguém disse a 62 .tem uma aventura louca com esses dois personagens.. populares. Nunca teve um namorado. E agora. enquanto escuta música em um walkman.E ela. quem é? Quais são os seus antecedentes? Como chegou ali? MARCOS . O clássico estereótipo: céu azul.

MARCOS . se misturem algumas pautas culturais próprias da América Latina... tudo muito impessoal. ROBERTO . mas vistas como estereótipos. Quando a outra mulher sai.. e de repente. GARCÍA MÁRQUEZ . e começa a viver sua própria fantasia. corte: ela está no avião. o produto de uma psicanálise ao contrário: a paciente a psicanalisou. sozinha. A paciente está deitada no divã. Como você vê a história Marcos: drama ou comédia? MARCOS.Você me tirou isso da boca. psicóloga ou psiquiatra. Agora é uma pessoa totalmente diferente. “A senhora bem que anda precisando de umas férias no Caribe: outros céu. outras pessoas. mais sensual. meio distraída. o entardecer. tomando sol no terreça do hotel. trabalhando somos capazes de arrancar uma história daí.. ROBERTO . ela pensa: “Está resolvido: vou para o Caribe”.Muito bem.. de repente. MARCOS.. lá tudo é diferente. frígida ou tímida.. Mas o que você tem não é uma história: é uma idéia. Você deve contrapor o mundo dela à realidade caribenha. a vegetação. GARCÍA MÁRQUEZ . tudo ao mesmo tempo. a cor das paredes.Então o divã é sopa no mel.A doutora aos poucos vai deixando de ser quem é..Sim. A paciente responde: “Ah.Porque a gente não começa numa sessão de psicoterapia? GARCÍA MÁRQUEZ .. uma profissional.ela “cuidado. muito ascético.Não é preciso nos determos para descrever sua personalidade. “Acho a senhora meio cansada.. Conte mais coisas. e ela: “E as relações eiticas?”. A personalidade pode se manifestar através da atmosfera do consultório. MARCOS ... doutora. claro. Vamos ver se. imagine só. falando de sua viagem ao Caribe.Através de uma amiga que acaba de voltar de uma viagem idêntica. Um caso assim não deixa de ser atraente: uma mulher incapaz de tratar com um homem e que. quando levar o tocador 63 . puxa. GARCÍA MÁRQUEZ .. Sabemos que a mulher é argentina.Comédia.. Por isso está ali. A psicóloga escuta. Viu só? A situação inteira pode acontecer através de perguntas e respostas..”. mais dinâmica. não vá ser roubada”. A paciente está recordando o calor. Mora em Buenos Aires. não existe nada parecido”.. ROBERTO ..Ela vai descobrir isso na própria carne. diz a amiga. doutora”. ROBERTO ..Ela vai se entusiasmando. Como é que ela vai parar nessa excursão? MARCOS . fazer amor numa rede. se enrosca com dois e vive um romance apaixonado com cada um.Eu acho interessante que. no hotel.

ela não tinha feito outra coisa além de ouvir histórias dos outros. Logo que chega ao hotel. é que agora ela está alerta para outras alternativas.. MARCOS . Isso não é tão difícil assim. Agora. sai tudo ao contrário. ou uma grande retrospectiva. MARCOS . Os olhos da psicóloga brilham mais do que nunca.A história pode ser resumida dessa maneira: enquanto se hospeda. não tem uma coisa orgânica e articulada: você tem uma idéia. Real ou imaginária? Não sabemos. Também convém que a gente saiba o que ela anda procurando. num grande hotel do Caribe.Funciona. “Amanhã estou indo para o Caribe”.Isso é problema nosso. duas aventuras fenomenais.Ela ouviu essa história da paciente. e sim o contrário. e não dela. O questionário da psicóloga.Ela vai acabar fazendo amor com o homem que menos imaginava. o fio condutor que você precisa. vai levar esse homem para o quarto? GARCÍA MÁRQUEZ . e decide repeti-la. GARCÍA MÁRQUEZ . para ver se funciona. como conta toda a sua vida. O filme continua. O que vemos na tela não é o que a voz conta. a voz em off da paciente. O problema é que você ainda não tem a estrutura. as coisas acontecem ao contrário. passar por uma experiência parecida. ouvimos a voz da paciente em off. SOCORRO . No final. quer contar a sua. com cinquenta anos. 64 . GARCÍA MÁRQUEZ . ou uma caricatura. pensa.Podemos apelar para um recurso técnico. mas agora não há mais perguntas.Sinto necessidade de resumir a história. Ouvimos as respostas sobre seu rosto. GLÓRIA . como turista. A paciente está estendida no divã. vão dar o suporte. embora não seja necessariamente pior.. Seu entusiasmo aumenta a cada resposta. Mas seria necessário manter esse elemento de contradição: para ela. de repente. vemos que ela come o maleteiro com os olhos. Até agora.Noa só vai para a cama com ele. REYNALDO . Mas nada sai do mesmo jeito. voltamos ao consultório de Buenos Aires. Corte.de maracas para a cama. Vemos que seus olhos começam a brilhar. e que de repente nem é do gosto dela? CECÍLIA . Começa o interrogatório pela psicóloga. Suas relações com o sujeito das maracas e com o magnata não são o que ela esperava. A paciente respondeu à última pergunta. ainda por cima. Não é que agora ela vá para a cama com dois ou três sujeitos. O que vimos não é outra coisa além de uma antecipação. Tudo dá errado para a psicóloga. Aí começa o jogo da comédia.Mas como é que uma mulher tão seca. tão rígida e. Tudo acontece ao contrário. E o filme acaba aí. uma mulher madura que nunca viveu uma paixão amorosa tem.

A razão dessa popularidade nós sabemos através da paciente: “Doutora.. quantas psicanalistas argentinas caíram em suas mãos? Pelo menos cinqüenta. a brisa. ela acabasse se enrolando com um argentino. MARCOS . Eu acho que o mais certo é ter as ações bem claras. Mas.O personagem não nasceu assim. e uma contrafigura. a outra é contando passo a passo o que acontece: uma mulher se levanta. eles descobrem que moram no mesmo bairro. SOCORRO ..Tudo bem. E o filme 65 . GARCÍA MÁRQUEZ . cujo desenvolvimento é desconhecido.o das maracas. Viu só? Está saindo a história. GARCÍA MÁRQUEZ .Ao chegar aos trópicos. insuportável.não fazia outra coisa a não ser sacudir as maracas. É relativamente jovem e muito popular entre as turistas. MARCOS . Este homem. nesse tempo. era um músico subordinado ao Ministério da Cultura. o músico caribenho que toca maracas. ouvindo uma orquestra de uns quinze músicos interpretando velhos boleros. mas em certo sentido.. GARCÍA MÁRQUEZ . Disseram que esse tocador de maracas era o tal. e tocava suas maracas por pura inércia: chac-chac-chac. no hotel xis tem um tocador de maracas que é um encanto. O sujeito também mora em Buenos Aires. GARCÍA MÁRQUEZ . e assim que ela chega começa a procurá-lo.Tudo bem. Seja como for. a psicóloga argentina. Vai ver. toca maracas numa orquestra há vinte e cinco anos.ao mesmo tempo.E o filme. É magnífico. sai. encontra uma amiga na esquina. o sabor. Tinha o olhar parado no vazio.. e depois. em Havana. entra num ônibus. o calor. para começar. GARCÍA MÁRQUEZ . com calma. em vez disso. Mas este outro tocador de maracas não tem tempo para se aborrecer. Na verdade. meia hora. Há duas maneiras de conceber um roteiro. MARCOS ... são quase vizinhos. a psicóloga sente o cheiro do mar. aqui.. A primeira é começando pela síntese: conta-se a medula de uma história que ainda não existe. A idéia me bateu una noite. no cabaré do hotel Capri. Estou querendo dizer que a até a sua pele desperta. claro . Tem um instrumento deste tamanho!”. E um dos músicos . a situação não pode se prolongar: a excursão dura quinze dias. rapidamente.Ela foi ao Caribe para isso: procurar o amor...Seria formídável se a história com o tocador de maracas não desse certo e.E ela vai direto ao assunto. ganhando duzentos e cinqüenta pesos por mês.Bom.. O sujeito é uma espécie de gigolô. resumi-las em alguns parágrafos e analisá-las conforme formos escrevendo. temos um personagem que é o protagonista.

no divã. Aqui já temos o núcleo de uma comédia de situações. Não está cheio de argentinos indo ao Brasil atrás de aventuras eróticas e de todos os tipos? GARCÍA MÁRQUEZ . apesar de ser muito profissional. GARCÍA MÁRQUEZ . Vamos deixá-la com quarenta e dois e sentindo-se frustada do mesmo jeito.Mas se ela foi procurar outra coisa! Ela não agüentaria ficar falando com um argentino. porque o sujeito também deve pensar: “E que porra estou fazendo aqui.. Ela já tem referências de confiança sobre os gostos dele. É o que chega no helicóptero.. feito padre. E a psicóloga... GLÓRIA .O cara não pode ser famoso. ser. Ela vai atrás do tocador. morre de inveja ao ouvir.O que temos aqui é um jogo entre a paixão e o poder. REYNALDO . em plenos trópicos. capar de inventar mil aventuras para compensar suas frustrações. No fim. GARCÍA MÁRQUEZ .E dificilmente morariam no mesmo bairro. depois de ter ouvido tantas histórias e ter sido obrigada a vivê-las monasticamente.Não é um argentino qualquer. metido com uma argentina?”. mas tudo dá errado porque o tocador de maracas está em outra.poderia acabar assim: os dois voltando juntos para a Argentina. Vai ver. O tocador de maracas seria a paixão. SOCORRO . MARCOS . os dois se frustrando . A paciente.Uma comédia cheia de enredos. VICTORIA . Ela pode dizer a si mesma: “O que é isso? Viajar tanto para me enroscar com um argentino?”.Não pode. e sim em dois.Vamos tirar alguns aninhos dela? Não precisa ter cinquenta. vendeu um Caribe de fantasia para a psicóloga. VICTORIA . Agora não estamos mergulhados em um drama.A única coisa que ela sabe é que o sujeito tem as medidas.Acho isso interessante. enquanto a outra conta suas férias no Caribe com todos os detalhes.. e o outro é potência. uma moça fantasiosa. Mas viveram no mesmo bairro. e pouco a pouco a vida a empurra para o outro.Talvez a paciente seja isso. GARCÍA MÁRQUEZ . é até veado. MARCOS . ela pensa: e por que não? O que me impede? GARCÍA MÁRQUEZ . senão ela o conheceria.Um é poder. Então. Mas não consegue seduzir o tocador de maracas.cada um à sua maneira -. CECÍLIA . e agora são felizes graças a esse encontro casual no hotel.. os centímetros cúbicos necessários. acaba indo embora no helicóptero com ele.Essa situação me faz lembrar de uma história que 66 .

os sucos. VICTORIA . O camarada está em outra. dia 17. No dia combinado eu fui. ouço música. Vir de tão longe para acabar na mesma coisa de sempre!”. A psicóloga se instala no mesmo lugar e descobre que não acontece coisa alguma. E ela.Bem. estamos no Caribe. ROBERTO .. no filme. Quando o pessoal o viu chegar. O que ele queria mesmo é uma mulata.. mas Newton não imaginaria como é chato quando ele não está. GARCÍA MÁRQUEZ . abre uma certa intimidade. tudo despertou. o tal sujeito. a voz da paciente: “Lá existem uns sucos de fruta que são a maravilha das maravilhas.. Vem fugindo da Argentina e 67 . mas alguma coisa tem de acontecer. Um dia ele veio e me disse: “Quer dizer que você está indo para Amsterdam? Eu estou viajando para lá. Ouço vozes.Não. Não conhece ninguém ali..O que você disse também é verdade: ela não interessava tanto ao sujeito.. em off.O que falta é a história. ROBERTO . Newton ainda não havia chegado. como autômatos.Ele insinua: “Por que não damos uma volta hoje à noite?”.Para ela. e me sentei sozinho.eu batizei de “O bar de Newton”. e ele vinha descendo a escadinha. uma certa cordialidade. num barzinho que está na esquina da Rua Canal com a rua tal? Você nunca viu lugar mais alegre e divertido. É o destino.. brasileiro.. Ou seja. Era ele quem levava a alegria.. por isso convida a mulher para sair. e sabem quem eu vejo? Newton. sem perder o bom humor. de noite. ela não rejeita de maneira dura. que sabia direito o que queria.”. ouvimos. acaba caindo na rede. um jogo de simetrias.. bebendo em silêncio. se recusa: “Mas não tem sentido. Por que a gente não se encontra na quinta-feira.Por enquanto.E enquanto ela faz isso. MARCOS . Olhei à minha volta. GARCÍA MÁRQUEZ. GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS . ela se sente irritada quando encontra seu compatriota. diante de uma mesa. ouço risos. imagine só!”. armou-se aquele barulho. Newton era um amigo meu. uma farra que durou até o dia raiar. ela responde: “Olha. Olho.Está bem. de um ambiente.E por que não? Afinal. MARCOS . que nada vai ocorrer com ela. embaixador no México. O bar é bonito. GARCÍA MÁRQUEZ .. Estamos tentando construir uma história a partir de uma situação. é a mesma coisa: é a paciente que arma todo barulho no hotel e onde quer que chegue. GARCÍA MÁRQUEZ . Bom. Isso iria parecer intencional demais. e aquilo parecia um velório: as pessoas imóveis. uma grande decepção.Ela experimenta as frutas. E no entanto. Era a lugar mais chato do mundo! E de repente. e não gosta de nada. O bar está num porão. Não deixe de ir”. “Olha só.”.

corte para ela no avião e a voz em off. Mas o personagem deve ser um personagem.Ora. REYNALDO .Então. GARCÍA MÁRQUEZ .O chamado da selva.. GARCÍA MÁRQUEZ . DENISE . Isto é uma comédia de enganos. de jeito nenhum. E pode até ser que as duas 68 . faz o possível e o impossível para não o encontrar de novo.Muito bem. ela não deve ser psicanalista. agradeço este esclarecimento. de repente. Obrigado. Obrigado. como é que acredita que vai 'viver' a mesma experiência de suas pacientes? Pode sentir-se atraída por certos detalhes. ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ .. mas só. mas não acabam só se enrolando: descobrem que são vizinhos em Buenos Aires. que vive de um salário magro e fez um esforço enorme para economizar e realizar o seu sonho: passar uma semana num hotel de luxo no Caribe. Se é argentina. E quem fez com que ela sonhasse essa história foram suas pacientes. É uma funcionária pública. Além disso. a voz em off estará justamente falando dele. 46? Não pode ser! Eu moro no 48!”. ela pode ser ao mesmo tempo uma excelente profissional e sentir atração pelo desconhecido. como: Rivadavia. Ela evita. e não uma caricatura. o rosto da doutura e.E quando ela. GARCÍA MÁRQUEZ .O esclarecimento é oportuno.Ela irá viver a prefiguração de sua aventura. O gênero é uma coisa que devemos definir desde o começo.E se ela não fosse tão profissional? E se fosse uma psicóloga medíocre? VICTORIA .Mas seria conveniente tirar esse caráter estereotipado de “psicanalista argentina”. na imagem. O que faz uma psicanalista? Ajuda o paciente a encontrar seu próprio caminho. GARCÍA MÁRQUEZ .Não. encontrar o tocador de maracas. o material que temos não dá para outra coisa.Podemos começar pelo questionário da psicóloga. a paciente estendida no divã.encontra um galã argentino. ROBERTO . tem de ser psicanalista.Não acho conveniente. essa coisa de todo mundo achar que está fazendo um drama e o que está saindo é uma comédia. MARCOS . Não há nada pior que uma comédia involuntária. GARCÍA MÁRQUEZ . Já sabemos uma coisa: o que vamos ver é um desadelo. Sinto que a história está crescendo. REYNALDO . É um lugar comum. Sendo uma profissional.“Mas. pensando bem.

Tará-tan-tan-tan. Ele está preenchendo a ficha no balcão.Que cara? O dia em que os argentinos invadiram o mundo GARCÍA MÁRQUEZ . sozinha por quê. aliás. o tocador de maracas.. O Caribe. E ela leva um susto.O hotel tem essa filosofia: ajudar cada hóspede solitário a encontrar o seu par..Quando percebem que está sozinha e que é argentina.visões não coincidam: o tocador de maracas descrito pela voz não é o mesmo que ela está vendo. e não acaba frase. GARCÍA MÁRQUEZ . E então ele.O músico que a psicóloga encontra é o real. Quer ser amável. “Claro. Tango! O relações públicas está disposto e decidido a promover o tango. Ela percebe. pergunta. diz. como. “Poderia me colocar em outro andar. o senhor não estava. responde ele.O recepcionista dá o quarto 303 para o argentino. ela encontra o argentino saindo da porta em frente. contou isso a ela: que muitíssima gente havia encontrado naquele hotel o par sonhado. Prometem contratar uma orquestra de tangos. não é? Quem dizer: as visões não coincidem.. só isso. se o hotel está cheio de argentinos?”. se aproxima da mesa onde a mulher está.Daí em diante ela foge sem parar. por favor?”. “Mas. perguntam.Ela encontra esse sujeito no hotel. GARCÍA MÁRQUEZ . e o 305 para a argentina. “Estava. O da paciente é de fantasia. as maracas. Acaba sempre encontrando o argentino. DENISE . CECÍLIA . no momento de preencher a ficha na recepção. A salsa que vá para o diabo. o galã. responde o recepcionista..”. CECÍLIA .. o vê a mulher chegando. Em vão. que vá tudo à merda. ELID . e ao ver que os dois são argentinos e estão sozinhos.Mas é o mesmo. ao sair do quarto.E o cara? GARCÍA MÁRQUEZ . seu par ideal. senhorita”. mas me mudaram de quarto. O ar-condicionado estava com defeito”. GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO . MARCOS .No hotel há um animador ou um relações-públicas. faz o possível para que se encontrem. E no dia seguinte. todos se mobilizam. 69 . “Mas.A paciente.. “A senhora chegou no vôo número tal?”.

uma noite. ROBERTO .”. fugindo sempre um do outro. GARCÍA MÁRQUEZ .. mas não estou disposta a passar as férias entre compatriotas. mas ela..É que o tocador de maracas tem medo que a argentina se chateie sozinha com ele. pergunta o maitre. Ontem à noite bebi com ele. que por acaso coincidiram na porta.. Quero dizer. E a partir daí.O negro não dá conta.. Se aceitamos isso.. vai ficando irritada: “O senhor me desculpe.Este é o final... Começam a falar de maneira muito civilizada. GARCÍA MÁRQUEZ ..Tanto desejou o tocador de maracas. a verdadeira vida deles. piantao.”. tem compromissos demais. MARCOS . Perceberam que a vida. não é? REYNALDO .. correndo um risco enorme..Os dois se despedem. só nos falta preencher o espaço vazio com algumas situações engenhosas.. REYNALDO . no Caribe. ROBERTO . pouco a pouco. é um tipo supersimpático. acabam sempre se encontrando de novo. se não tiver nenhum inconveniente”.Ela sai com o músico.“Mi Buenos Aires querido. Estamos. mas não importa.Não. E pensa: como o outro sujeito é argentino. e vão embora alegres e felizes. SOCORRO .. talvez ela se sinta mais à vontade em sua companhia. é claro.Essa decisão é esquisita demais. mas descobre que ele também convidou o argentino. Ela não tem outra saída. 70 .Qual risco? GARCÍA MÁRQUEZ . O sujeito se apressa a esclarecer: “Não. GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS .Ela não encontra jamais n tocador de maracas. Os dois. está lá longe: não têm nada para fazer aqui. para no fim acabar com seu vizinho! SOCORRO .... Dançam resignados.e a convida para dançar. aquela do Pizzolla.. GARCÍA MÁRQUEZ . Dançam de maneira absolutamente sensacional. GARCÍA MÁRQUEZ . tomamos rum.“Eu vim para cá justamente para passar quinze dias sem ver nenhum argentino na minha frente. como se estivessem obedecendo a uma maldição. “Tenho uma surpresa para você: pedi a um amigo argentino que saísse com a gente. piantao”. são colocados em em uma mesma mesa. “Estão juntos”.“Ya sé que estoy piantao. a não ser concordar.Primeira situação: o restaurante do hotel está lotado.” MARCOS .”.Que tudo isso acabe virando uma piada de argentinos.

Mas.Há uma cerimônia de boas-vindas em pleno campo. os jogadores de futebol”. você levanta uma pedra e encontra lá embaixo um argentino. para uma conversa tranqüila na frente de um cuba-libre. um montão de turistas argentinos.Outra situação: vai ser disputada uma partida de futebol.Isso é uma piada.ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ. É uma reconciliação ou uma resignação? Não importa.. o time todo. e pelo visto vou precisar de dúzias e dúzias de argentinos. e também muda de hotel. o galã: não agüenta a invasão. e todo mundo até o barman e vários argentinos . MARCOS . Nesse hotel.e eles aproveitam e vão até o bar. cada por sua conta. a gente perderia a idéia dos “coitados dos argentinos sozinhos”.Ela. ROBERTO . a psicóloga e o cara. não se contém: fica de pé e canta o hino.Eu queria fazer um filme aqui no Caribe. ROBERTO .E mais ainda. Os jogadores ficam em posição de sentido e começam a cantar o hino. E ela responde: “Não temos nada a perder”.. ROBERTO . E ela.. não perde nenhum lance.Ora. REYNALDO . GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS . É o momento em que ele diz: “Por que não jantamos juntos no restaurante da praia ?”. desse jeito.Esse pode ser o final da filme. no bar. não: tudo faz parte do mesmo jogo.a casualidade. A delegação inteira. com muita gente daqui.Os dois vão juntos ver o jogo. A seleção argentina se hospeda no mesmo hotel.Que anjo da guarda? DENISE . ROBERTO .Os dois. E leva os dois para apresentar ao time. ao ver que o hotel se encheu de argentinos.Pode ser até que eles tenham de cantar o hino nacional. o tal que fica armando casais. Só que acontece a mesma coisa com o sujeito.Ah.É que estamos fazendo uma comédia. O fulano diz: “Acabam de chegar uns compatriotas seus.O hotel está vazio de argentinos .acompanha as jogadas. E atrás dos jogadores. então. Mas não se preocupe: estamos tentando 71 . Mas o jogo está passando na televisão. muda para outro. Quando se encontram de novo .. e a função de anjo da guarda do relações-públicas. o destino. GARCÍA MÁRQUEZ . chegam os jogadores. E então. DENISE . REYNALDO . DENISE . DENISE .parece que todos foram ao estádio . sei lá os dois começam a rir. Esse poderia ser o final. está jantando no restaurante do hotel. vieram sozinhos.

com/group/Viciados_em_Livros. fabricado em série. Mas no dia seguinte. aquilo vira uma loucura.google. a que não servir. Quarto 205”. será um prazer recebê‐lo em nosso grupo. Aqui está a sua chave. 2 Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar o acesso ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras. “Não tem outro mais lá no alto? Não gosto de andares baixos”.. o recepcionista fala com ela: “Doutora Ricovix. na paciente e nesta psicóloga que se deixou convencer de que a vida está no Caribe. A chegada do time de futebol arrasta uma torcida. Uns falam uma coisa.Não. muito longe da Argentina. No final. ao sair do quarto. “Não.. Não trocam nenhuma palavra. GARCÍA MÁRQUEZ .Não vamos nos dispersar: O fato é o seguinte: a tela vai se enchendo de argentinos. Quem será? Quem é esse camarada tão importante que se dá ao luxo de chegar de helicóptero? ROBERTO .. de repente..Acho que avançamos um pouco. A psicóloga chega ao hotel e a primeira coisa que encontra. Se quiser outros títulos nos procure http://groups.. é forte demais. e a torcida arrasta os símbolos: bandeiras. tudo idêntico. camisetas... E tudo sendo filmado por Marcos. ROBERTO . serve.. todas as que dê para encontrar. Quem será que está chegando? A mulher está tomando sol no terraço do hotel e.. Os bifes.E o helicóptero. O que não dá para fazer agora é parar de procurar. não serve. quarto 203”. Mas ela ouve o recepcionista dizendo: “Seja bemvindo. 72 . na hora de se registrar é um argentino. Ela já começou a fugir do argentino.Maradona. outros falam outra. Começam a discutir a situação do país. seja bem-vinda. Depois organizamos tudo. não cabe mais nenhum. com dez argentinos dentro. Introduz um ruído no sistema. MARCOS .Tem uma coisa que me interessa pôr no filme: um desse restaurantes especializados em carne. A que servir. GARCÍA MÁRQUEZ . Não temos ainda uma estrutura. chega aquele aparelho. um argentino.O elevador fica preso. as lingüiças penduradas no teto. por favor!” reclama a mulher.. mas o fio condutor está aí. Não é o retrato do argentino típico? REYNALDO .Ou do caribenho típico? GARCÍA MÁRQUEZ . Quando o cara vai embora atrás do maleteiro. não a abandone nunca. vê o argentino entrando no quarto da frente. apenas se olham com o rabo do olho. MARCOS? Você esqueceu? Quando você tiver uma idéia como essa.2 MARCOS .encontrar situações. senhor Ribarola.

Um defeito no chuveiro ou no ar-condicionado. impecável: bigodão.. por exemplo. ROBERTO . MARCOS . Grande Noite dos Pampas!”. o cantor dos Van Van. Do pescoço do touro balança um cartaz: “Legítima carne argentina”.“A melhor carne do mundo”. tem mais vida que as maracas. GARCÍA MÁRQUEZ .Nós perdemos a voz em off.Um Cristo. Um touro vivo.Mas você já tem esse personagem: o tocador de maracas. Tenho interesse num personagem como Pedrito. e um de seus melhores números é justamente o de uma negra que canta um blue acompanhada por um trombone. 73 . ROBERTO . ainda cru..Um touro argentino.A Noite dos Pampas. Mas lá está o churrasco. vocês se lembram de A Doce Vida? Começa com um helicóptero que transporta uma estátua. dente de ouro. o trombone de vara. depois vamos acrescentar o relato da paciente.Não. De repente.Todo amarrado por cordas. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . Podemos elaborá-la depois que tivermos terminado o conto. que será comido naquela mesma noite. e o trombone.E que eu estou vendo o Pedrito. ROBERTO . um mulato de um metro e noventa. Vocês sabem quem é? GARCÍA MÁRQUEZ . não é? MARCOS . porque com aquele movimento.Ela não consegue acreditar no que está vendo.. Tem a ver. os Irakere.Um churrasco inteiro. ROBERTO .Têm outra orquestra muito boa. Eles anunciam pelo hotel inteiro: “Não perca: este sábado..É um símbolo fálico. chapéu branco de aba larga. a mulher abre os olhos e vê um touro voando. muito bem arrumado... GARCÍA MÁRQUEZ . estamos desenvolvendo a história. VICTORIA . O nosso helicóptero poderia carregar um touro amarrado. GARCÍA MÁRQUEZ .Boa idéia. MARCOS . REYNALDO . A melhor carne argentina. ROBERTO . O grande churrasco dessa noite de festa.Tiveram que mudá-lo.Aliás. E o contrário do que pensávamos: primeiro. como instrumento. Os Van Van. MARCOS.Espero que esteja lá a orquestra de salsa. Como espetáculo é lindo.Um touro caído do céu.

GARCÍA MÁRQUEZ .Olha aqui. com as costelas sanguinolentas. E no fim. depois. Todo mundo muito elegante.zás. Depois. o touro enfeitado. Estão felizes por ter-se encontrado. A psicóloga e o sujeito são dois dançarino sensacionais. completamente esquartejado. Vi fazerem isso no Brasil: um desfile de vacas num hotel de luxo. A meia-hora se acabou. Teria que passar no México.Ela está tentando fugir dos argentinos. múúú!. do sujeito. e encontra os açougueiros . evitá-los do jeito que for.Que inclui o jogo de futebol.. damas empetecadas de jóias. temos surpresas. Eu já me vejo filmando esse helicóptero com o touro balançando sobre a cidade. E de noite.. Agora. as vacas.. nos conformamos com o touro. há um desfile de várias vacas pela pista de dança.Poderia ser Acapulco. transformado em churrasco.. ROBERTO . é proibido fazer alusões insolentes! MARCOS . – de faca na mão. Uma imagem explosiva. O que mais podemos pedir? Já temos situações suficientes para preencher trinta minutos.Os turistas estão esperando a banda de salsa. dependurado em um gancho. ROBERTO .Eu acho. é preciso organizar tudo. 74 . Mas que seja um touro argentino. GARCÍA MÁRQUEZ . e todo mundo comendo o touro. O que sobra para que a gente veja? O tango. O mestre de cerimônias anuncia: “Senhoras e senhores: nesta noite. Desse jeito.. e de repente. MANOLO . E depois.Baixam o touro. E. do touro e do time de futebol.E antes que a orquestra desande a tocar. E ponto final. todos mastigando os bifes. Não acham que é um filme engraçado? MARCOS. por causa do futebol. zás.”.Ao sair do restaurante. E lá está o touro. e o que aparece é uma orquestra de tango. vemos o touro aberto pelo meio.O Caribe mexicano: Cancun. GARCÍA MÁRQUEZ . como anúncio da Semana Argentina! Porque o que existe no hotel é exatamente isso: uma Semana Argentina. GARCÍA MÁRQUEZ ... mesas com toalhas de renda. como num desfile de beleza..Uma ilha do Caribe.No nosso caso. Nós o vemos atravessar o salão com uma grinalda de flores dependurada no pescoço. e ela o vê perder-se em um canto de jardim. GARCÍA MÁRQUEZ .GARCÍA MÁRQUEZ . ela se engana cie porta e vai dar na cozinha. E.. temos a chegada dela. MARCOS . esquartejando o animal. esquecemos o incidente.. esquartejado. pouco depois.

como bom argentino. ela está passando pelo controle de passaportes. REYNALDO . Você não gostaria de um final desses. ROBERTO . Ninguém está anotando. GARCÍA MÁRQUEZ . Ela que saia em julho. DENISE .Poderiam ficar presos no elevador depois do jantar. mas fui obrigado. O que você acha? É preciso ousar fazer umas coisas dessas. Eu não queria fazer esta cena.As damas que me perdoem: ele arrota sem querer.e uma canção maravilhosa.ROBERTO . está tudo bem. por causa do rio da Prata.Depois do jantar.Ela tomou um táxi para o hotel..Eu. vira o escrivão da Oficina. Se vamos fazer uma escaleta.todos estão mortos . ROBERTO .. com todo mundo cantando na frente da câmera o hino nacional argentino.Você esqueceu o final de El resplandor? Termina com um velho retrato . bem na nuca da mulher.. como aconselha a etimologia. dominado pelo canto? Ou prefere deixar tudo para nós. mas alguém precisa fazer isso.Até o momento da chegada ao hotel. e que a gente elabore uma história adequada para um argentino. da Oficina. e você mesmo aparece na tela explicando: “Respeitável público: agora.. vamos começar pelo verdadeiro começo: o consultório. ou seja. a psicóloga. para nos acostumarmos ao ambiente. Eu sei que é um sacrifício.Quer saber o que você pode fazer? Pára o filme no meio. sem argentinos? MARCOS . E... aproveitamos para mostrar a cidade. quase não consegue participar. de Prata. o divã. 75 . por cima. GARCÍA MÁRQUEZ . Aí. a propósito: eu a faria sair da Argentina no inverno. que é o verão daqui.Nove de julho.A única coisa que eu disse foi esta: chega de tango. Estão empanturrados de carne e de vinho.O inverno de lá.Acho que deveríamos retomar o fio da meada. quem toma notas não tem tempo para mais nada. a orquestra toca um tango.. A pista de dança fica coberta de casais. GARCÍA MÁRQUEZ . é a hora do tango. Por que não voltamos à seqüência da chegada? O avião acaba de pousar. E a noite acaba assim. a paciente. Peço desculpas”.Espera aí. estou achando esse tango meio suspeito. GARCÍA MÁRQUEZ . E os dois dançam tão bem que ganham o prêmio da noite: são coroados “Os Argentinos de Ouro”. GARCÍA MÁRQUEZ ... MARCOS . dia da Pátria. MARCOS . ou melhor..

Não parece muito com o que o vídeo de turismo exibido no avião mostrava. precisei mudar de quarto. quando vista pelos fundos. o hotel Sheraton está na frente das favelas. num corte.?”. quando ela sai na varanda do quarto. Escuta o que o recepcionista diz quando dá a chave do homem. para o táxi. MARCOS . Pelo menos por enquanto.Depois que ela retoma o protagonismo.. acabou. só que a janela está nos fundos do hotel. REYNALDO . A realidade está lá. é evidente: só o óbvio. ela está no hotel. REYNALDO . sinto muito”. ela teria visto algumas dessas imagens.A gente tinha voz em off. é claro . De um lado está o mar. quando o avião está chegando a uma cidade turística. Outro corte. “mas o senhor não estava. a primeira versão.O homem imediatamente muda de quarto.. GARCÍA MÁRQUEZ .GARCÍA MÁRQUEZ ..No Rio. Não imagens de cartão postal.Vamos retomar a idéia do táxi.No Brasil. Chega no balcão e nota que o sujeito que está se registrando é argentino. e então se apropria do método. “Não. Quando a gente chega nesses hotéis . não tornamos a ouvir a voz. SOCORRO . porque o ar-condicionado do outro estava com defeito. encontra uma vista panorâmica da cidade. ao balcão hotel. Aí está a graça da Oficina: a gente vê como se desenvolve. as favelas. não tinha? Agora.dentro do avião. projetam numa tela . do outro. diz ela apontando para baixo. Então eu queria um andar mais alto..pela frente. O avião aterrissa e passamos.Também pode ser o seguinte: ela chega na janela e vê a cidade. “Ah. o estereótipo. ela percebe o perigo e não vacila: “Tem vista para o mar”. e depois ir complicando durante o primeiro tratamento. perplexos “Desculpe”. vê que ele está na varanda vizinha. E em determinado momento. Temos que estabelecer a ordem visual. GARCÍA MÁRQUEZ . Esta 76 ..Acho bom a gente começar a tomar decisões. GARCÍA MÁRQUEZ .. “Não faz mal”. é claro. é preferível definir uma linha de ação que seja muito clara. ela contempla o ambiente d cidade.Ela sobe. GARCÍA MÁRQUEZ . Portanto vamos voltar à recepção. Como vai? Veja só. e um quarto com vista para o mar”. na parte de trás. Quando dão a ela o quarto 305. e quando sai na varanda do quarto. Do táxi.não imagina como a paisagem é diferente. Os dois se olham. “Muito bem. Pergunta. aqui está: o 807”. é verdade. “Vai custar um pouco mais caro”. ROBERTO .imagens do lugar: Poderia acontecer a mesma coisa aqui: já antes de chegar. e pode fazer tudo sozinho.Neste tipo de história.

SOCORRO . Alguns minutos mais tarde. GLÓRIA . Enquanto isso.O boy ligou a televisão para ela. arruma as roupas no armário. GARCÍA MÁRQUEZ . Aliás. tudo irritante. Nós não somos produtores. já teve tempo de mudar de quarto.. sim.Também pode ser que o boy tenha dado a ela a programação noturna do hotel. SOCORRO . a psicóloga exige um outro quarto. olhando o folheto. água quente.E a gente precisa terminar nesta jornada. MARCOS . chegue lá e. SOCORRO . SOCORRO .Eu me perdi.As paredes do quarto estão cobertas de enormes fotografias de paisagens. MARCOS.. água fria”.Estamos pensando em uma montagem paralela? 77 . Ela responde: “Sim. obrigada”. GARCÍA MÁRQUEZ. CECÍLIA .história tem a desgraça de estimular a imaginação: todo mundo tem alguma coisa para acrescentar. e que a mulher esteja sentada. experimenta dois maiôs antes de descer para a piscina. é o controle de luz. GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS .Quem faz isso é o boy que levou sua bagagem. o pampa argentino. quer merecer a gorjeta.Não.De repente.Ele subiu primeiro. no fim.Que horror! REYNALDO .Machu Picchu. nós dissemos que ela está vestindo roupas de inverno? CECÍLIA.Vamos deixar isso de lado. ela liga o rádio. GARCÍA MÁRQUEZ .Praias.. ela ouve barulho do quarto vizinho. Aquela música ambiental. A cordilheira dos Andes. senhora. querendo se livrar dele. peça outro quarto. desesperante. MARCOS . sai à varanda.Antes. aqui. O banheiro é logo ali.. não.Ela se instala. Claro que o rapaz insiste: afinal. GARCÍA MÁRQUEZ ..E. somos criadores: é preciso dar à história o tempo que ela quiser. que apareça na varanda.. veja. e lá está o galã argentino.Ficamos no seguinte ponto: na recepção. quando se instala. palmeiras contra a luz. O diretor que decida. onde está ele? Mudando de quarto? GARCÍA MÁRQUEZ . Mas existe aí um vazio que precisamos preencher: E preciso dar tempo para que o homem descubra que seu ar-condicionado não funciona. o ar-condicionado.Não. torna a ver o sujeito. GLÓRIA . “Aqui.

poderia parecer que o filme é isso. Quando o boy sai e ela fica sozinha no quarto. estamos na metade ou na terceira parte do filme? 78 .Não acho bom ela ver o homem na varanda. e.Ela fica lá mesmo. quando sai do quarto. que está entrando.Não.A próxima seqüência seria a dela mudando de quarto. desliga. e então sai à varanda. o jogo de esconde-esconde.. disca o número e. estamos calculando tempo. ROBERTO . Ele acha que a reconhece. Porque senão. porque. Ele a reconhece. Ela fica: vai aceitando a fatalidade aos poucos.Eu prefiro assim: situações breves. REYNALDO . é melhor não mudar a mulher de quarto. GARCÍA MÁRQUEZ . GLÓRIA . arrumando suas coisas já no outro quarto. ágeis. CECÍLIA .. mas está pensando em outra coisa. como é de um enredo atrás do outro. faz um gesto de cumprimento.Entra no quarto. Esta história é muito difícil. no quarto ao lado. vai até o telefone disposta a pedir outro quarto.Meu medo é que já temos dessas situações de sobra. nunca sabemos direito o que vai acontecer: Agora. Mas nós já dissemos que o camarada não estava interessado na psicóloga. GARCÍA MÁRQUEZ . vê o homem.Ela se resigna.. de repente. Talvez ele seja um executivo que anda pelo Caribe vendendo aparelhos de ar-condicionado. MARCOS .. torna-se 'tropical' à maneira dos turistas: blusa colorida. Não tem por quê ficar esticando cada piada. GLÓRIA . no final se resigna. encontra o galã. tenta escapar dele. sem esperar resposta. Ele está na varanda vizinha. de novo. Essa é a sua primeira capitulação. óculos escuros. acompanhado do mesmo boy com as malas.Não precisa explicar mais nada. cada vez que a encontra. ele também anda procurando um romance tropical. não.... GLÓRIA .Nós já demos a esse camarada tempo suficiente. Ela é que não disfarça sua rejeição.. É preciso tentar armar a escaleta e medir o tempo. se arruma e. aspira profundamente a maresia do Caribe. e. ainda vestido de argentino. E o mesmo boy. Não abandonamos a mulher em nenhum instante. tentando repetir a rotina. Isso abre espaço para situações mais engraçadas. GARCÍA MÁRQUEZ . por exemplo. Desiste. GARCÍA MÁRQUEZ . Ela muda de roupa. faz um leve gesto de cumprimento e ela não consegue se conter: “Mas o senhor não estava em outro andar?”.Mas isso não impede que ele seja gentil com a mulher. se transforma.Não.GARCÍA MÁRQUEZ .

estão os dois “encontros” da mulher: o do Caribe. folhas e flores. não. REYNALDO .. como o chapéu da cantora. fazendo o retrato idealizado do personagem.. de repente. cheios de felicidade por terem conhecido algo tão típico.E aí o que acontece. ela aceita a primeira fatalidade. no hotel o churrasco é servido por negros vestidos de pirata e que trazem uma frigideira enorme e.O seu 'destino sul-americano'.Ela já mudou de roupa. Antigua.. MARCOS .Muito bem. Guadalupe. A orquestra de salsa está tocando. ELID . Ela pede a bebida xis e o que levam é uma taça 'Carmem Miranda': um copo enorme.Para a maioria dos turistas. ao cabaré do hotel. corte a corte. A voz em off é ouvida de novo. Na verdade.E os rumbeiros por uma orquestra? ELID . É uma forma de dizer: está vendo como conheço os hábitos do lugar? GARCÍA MÁRQUEZ . porque ela vem fugindo da Argentina e dos argentinos e a primeira coisa que encontra no hotel. que anuncia todas as desgraças posteriores. Barbados. com mais domínio da situação.e os gringos.Tanto assim. E a transfiguração turística da realidade exterior. cinco minutos depois do começo do filme. uma labareda tremenda . e o do argentino. Quando eu estava escrevendo O Outono do Patriarca percorri as Antilhas Menores: Martínica.É preciso não deixar amontoar.E cadê o time de futebol? GARCÍA MÁRQUEZ . esse 79 .Ou seja. ELID . fica plantada na frente do barman e pede um mojito. Daí passamos.A gente não ia trocar as maracas por outro músico? REYNALDO . GARCÍA MÁRQUEZ . Estamos entre cinco e sete minutos. nenhum deles com menos de cinqüenta anos. ficam encantados.Como diria Cortázar.. Trinidad e Tobago. está caçando o músico. uma coisa dessas faz com que se sintam vivos. Como já tem referências das coisas do Caribe através da paciente. Bem. Ela olha fixo para o tocador de maracas. botam fogo . Nos hotéis. uma bebida cubana com nome japonês.fuuuff. coroado de frutas.Um encontro que é um desencontro. Temos de ir passo a passo. eles pegam um pedaço da realidade exterior e o transformam. Não pode mais escapar... GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS . Entra no elevador e vai direto para o bar. Primeiro. MARCOS? Qual é a idéia? MARCOS .ROBERTO . se lá fora a carne é assada sobre brasas.. Fui de ilha em ilha e descobri que as ilhas são um mundo e os hotéis das ilhas outro mundo muito diferente.. Por exemplo.

GARCÍA MÁRQUEZ . e mal consegue ver o tocador de maracas: precisar afastar as folhas e as frutas para poder vê-lo. chega perto e gentilmente a convida para dançar. GARCÍA MÁRQUEZ .Eu conheço os argentinos muito bem.. ao vê-la. Ou vamos fazer um filme de surdos-mudos? Lá pelas tantas. nos encontrarmos aqui nos trópicos!”. que se apresentava como sendo o senhor Pereira. Ela já começou a mergulhar na vida artificial. e eles não são tímidos..Ela vai procurar o músico e o músico está conversando justamente com. atravessa o salão.”. quem sabe.Eles nunca se atreveriam a dizer coisas assim.É preciso aproveitar a atmosfera. REYNALDO . E o que está acontecendo é que.. Um encontro casual.Ela está na sua mesa e o argentino.Ela está sentada na frente da sua cascata tropical.Eu não a imagino assim.. ela vai diretamente aos camarins para tentar falar com o músico. uma mangueira acolá. em Argel. ele mesmo se convida para se sentar ao seu lado. Por que não voltamos ao tocador de maracas? Um sujeito com carisma. Como a noite acaba? DENISE . e isso agora nos convém. São tímidos. nunca tanto como a realidade.Ela e o sujeito poderiam chegar ao hotel no meio de uma grande confusão..Com o argentino.. E ela. Pepino que nasce torto cresce torto. que se mete com todo mundo.. Lá fora. mas advertindo que o sobrenome 80 . MARCOS .. é claro. GARCÍA MÁRQUEZ . e você acaba não vendo nada. o argentino.. o ambiente. ele diz: “Que coincidência. tão agressiva. MANOLO . Claro... É preciso começar com uma linha de desenvolvimento muito simples.. que faz piadas. REYNALDO . Além do mais. é que nós temos trinta minutos e já gastamos dez... GARCÍA MÁRQUEZ . seca: “Eu não atravessei o continente para me encontrar com meus vizinhos. porque o cinema também gosta de exagerar. têm os seus caprichos. vemos uma bananeira aqui. mas aqui dentro eles colocam tudo junto. CECÍLIA .. MARCOS .É preciso que aconteça alguma coisa que sirva de gancho para manter o interesse do espectador. GARCÍA MÁRQUEZ .. e ir complicando as coisas aos poucos.Já é hora de ela e o argentino conversarem. Ou. Não conseguem entender o que está acontecendo.sentido da 'reprodução comercial' da realidade exterior se presta a todo tipo de exageros. mas enfim. de sua copa 'Carmem Miranda'. Conheci um..Quando o show termina... ROBERTO .

. o animador convocar todo mundo para dançar numa espécie de trenzinho. tudo. encaixa uma pessoa na outra.era com y: Pereyra. sou o substituto. se aproxima. a viagem..Ela tem um pretexto: sua paciente. nervosa. sente-se para escrever e desenvolva a seqüência inteira dessa noite. Deixa claro que está procurando outra coisa. mas encontra o argentino. acha que são amigos. um agarrando o outro pela cintura. muito diferente. SOCORRO . amiga de Fulana de Tal. um atrás do outro. mas não sou o Pedrito. GARCÍA MÁRQUEZ . no final da noite. animados. A psicóloga mandou um recado ao músico: “Sou argentina. GARCÍA MÁRQUEZ . que manda lembranças.Manda o recado por um garçom.Quero ficar um pouco mais nessa noite: quando o show acaba. “Eu sinto muito. é verdade. mas se não aparecer nenhuma. E ela. MARCOS: você acaba de encontrar uma maneira muito argentina para definir uma dança chamada conga. Pedrito está numa turnê com a banda dele. vê os dois conversando. O capricho deste aqui é dançar com a psicóloga. REYNALDO . da cena de Romeu e Julieta.Não sou capaz de imaginar uma psicóloga de Buenos Aires indo pessoalmente buscar o músico.E o lugar dele ... MARCOS . não é?.. vir até aqui para acaba dançando tango!”. na piscina.. GARCÍA MÁRQUEZ . o sabor das Antilhas.A situação dos dois tem que ficar definida nesta noite. Ninguém dança a conga: encaixa.. e vai embora sem falar com ela. Ele agora se insinua e ela. Corte para a cara da psicóloga..Nesses cabarés é comum. No fundo. GLÓRIA . é justamente atrás dela.O músico. Os dois se viram pela última vez na cena da varanda. na Venezuela”. se conforma com a argentina. ela não desiste 81 . então.veja só que coincidência! . o rejeita: “Ora.no cordão. desolada: ficou sem programa para esta noite. ela vai ver o músico das maracas. na verdade. imagine só. O argentino chega perto. da mesa dela. Corte para o dia seguinte: vemos a mulher tomando sol.. MARCOS . esperando o tocador de maracas acabar de trabalhar para abordá-lo! A galanteria de seu compatriota ameaça estropiar a noite. O músico sai do camarim. Posso encontrá-lo depois do show? “ SOCORRO . Não se esqueça que a seqüência seguinte é a da piscina. Ele também anda caçando uma aventura: preferiria uma negra ou uma mulata. GARCÍA MÁRQUEZ .Muito bem. onde ela vê o helicóptero chegar. sem pensar duas vezes. Marcos..Esse trenzinho.

o mesmo argentino que nós não víamos desde a cena da varanda. ELID . porque é justamente assim que o filme deve terminar: com os dois dançando tango. ouvindo o tocador de maracas. O que importa agora é a relação dela com o argentino. ainda contraída. SOCORRO .Olha.Acho que o dia da chegada está resolvido. não é? A noite começa no cabaré. “Sou seu vizinho”. Não desempenha nenhuma outra função no resto do filme.. há um corte abrupto. vocês não desistem da cena do tango.Eu calculo que uns sete minutos.. não perdemos o nosso tocador de maracas? MARCOS . Quantas vezes uma coisa parecida não aconteceu com a gente? Quantas vezes ao longo da vida. mas não é o Pedrito. quanto tempo foi gasto? GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . vendo o helicóptero 82 . e aparece a piscina.mambos...Essa frase dela é fundamental. ela passa a ter essa opção. GARCÍA MÁRQUEZ .e ela sozinha na sua mesa. o argentino chega . ela perde duas vezes: nem argentino. Ou melhor.da idéia do tocador de maracas.Pelo que estou vendo. não tem mais nada a dizer. Mesmo que seja outro tocador de outras maracas. cha-cha-cha . “Posso?”. e senta sem esperar a resposta.E que a gente não pára de misturar as cenas. O músico chega até a mesa e diz o que combinamos: ele sente muito.Você tem razão. Um show forte . as bandeirinhas. é o substituto. nós aqui. para ser bem sincero. REYNALDO .Para chegar onde chegamos. guarachas..Ele já deu um certo peso à história. Ela aproveita uma pausa da orquestra para mandar o recado pelo garçom. GARCÍA MÁRQUEZ . MANOLO .E se o argentino continuar ali.Faz parte do clima criado ao redor da Semana Argentina. De repente.. O personagem foi uma isca para levar a psicóloga ao Caribe. É a hora da velha conversa: “Imagine.De um plano da cara da mulher. A coisa começa com a chegada do time de futebol. e vamos acabar ficando sem entender nada. mas agora virou fumaça. GARCÍA MÁRQUEZ . contraída. etc. ele mudou. arrastando a torcida. Mas se ele tiver ido embora.. nem músico. De agora em diante não precisamos mais do músico das maracas. devo dizer que estou tentando tirar esse músico de circulação. etc... MANOLO . MARCOS . passamos a outro da cara dela. diz ele.Quero ressaltar uma coisa: quando o músico substituto diz a ela que Pedrito foi para Caracas. MARCOS. sem tirar os olhos do tocador de maracas. tão longe de casa”.

E que tal fazer que o argentino seja o organizador disso tudo? Ora. ELID .O que ela vê são os olhos do touro. o vento leva o chapéu da psicóloga pelos ares. GARCÍA MÁRQUEZ . Marcos. E sobre as palmeiras. GLÓRIA . Mas uma cara sonolenta e depois atônita por causa da surpresa do vento e do ruído. a senhora.chegar.Ou até mesmo antes: ao ouvir a mulher falar.Ela está esticada placidamente na espreguiçadeira. . o time de futebol invade o hotel. Pode até colocar entre aspas. MARCOS . De lá também se ouve o ruído da rua. sim. GLÓRIA ..O pessoal do hotel não sabe lidar com esses bichos. Liga a 83 . diga. olha por cima do muro e vê os jogadores chegando.. E então percebe que o touro está dependurado no helicóptero. centenas de turistas argentinos agitando bandeirinhas argentinas.O corte é para a cara dela. e sobe para o quarto. para pegar alguns elementos. abatidas pelo vento. GARCÍA MÁRQUEZ . se dirige à recepção para apanhar a chave e. Se pelo menos tivéssemos um argentino à nossa disposição.. faz virar um turbante. o gerente exclama: “Ah. MARCOS . Atrás deles. balançando por cima do muro. e quando ela ainda está no terraço do hotel.Esses eventos são realizados sempre pelo país “homenageado”.. para que ninguém tenha dúvidas.Ela consegue se refazer da surpresa..MARCOS. Bem: o que fazemos com o touro? SOCORRO . parecem estar olhando diretamente para ela. Ela agarra uma toalha..A ventania do helicóptero faz voar mesas. sombrinhas. poderia nos explicar como fazemos para tirar esse touro do jardim? GARCÍA MÁRQUEZ . Poderíamos conseguir uma cena muito curiosa. Como a tiramos dali? Arrancar uma pessoa que está tomando sol numa piscina não é nada fácil. você leva o o filme lá para cima. nesse momento. que é argentina.E se ele escapar e espalhar pânico entre os hóspedes? GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . é claro! O argentino é o organizador Semana da Argentina! ROBERTO . você tem que ver outra vez A Doce Vida. como uma alucinação.. passa a touro. CECÍLIA . você está salvo! Com esta cena.É feito um furacão. deixando bem claro que se trata citações. minha senhora. sente um ruído que vem da rua.Eu também me preocupo é com ela. ao lado da piscina.Depois que acontece a história do touro. se ela visse as bandeirinhas antes..Quando o helicóptero desce e deposita o touro no terraço.

Bonés... aqui. De repente. GARCÍA MÁRQUEZ . Até agora andou vagabundeando por ali. que ter que explicá-la. a chegada do time de futebol. a televisão está sobrando. Quando sobe para o quarto. Pode ter alguma coisa a ver com o evento. Vocês. está tudo lotado. ser o organizador. GARCÍA MÁRQUEZ . temos de ver para que tipo de hotel.Ela não deve mudar de hotel..Mas isso não quer dizer que não tente mudar. cheios de torcedores. O sujeito é o organizador do evento.Se o sujeito for mesmo o organizador do evento. Primeiro. escuta os foguetes e os morteiros. ela entrando no hotel e subindo para o quarto. apitos. não vai ter nem cinco minutos de tempo livre.. GARCÍA MÁRQUEZ . se ninguém impedir. Está dando uma entrevista. CECÍLIA . depois.Vamos ver a seqüência “os argentinos vêm aí”. GARCÍA MÁRQUEZ . necessariamente.. MARCOS . Nesse meio tempo. porque o evento não tinha começado e o time não tinha chegado. foram chegando os ônibus. ela vê a recepção do time pela televisão. mas antes ela viu a chegada do time. ela telefona para a recepção: “Será que alguém pode me explicar o que está acontecendo?”.Se ela for mudar de hotel. GARCÍA MÁRQUEZ .Não tem ninguém anotando? Assim perdemos coisas..Acho que.. para depois preenchê-la com calma. ROBERTO . Precisamos armar uma boa estrutura.televisão e quem ela vê? O argentino.. ao mesmo tempo. camisetas. MARCOS . ou participar dele de algum jeito. Enquanto está no terraço. os torcedores.. vai até a varanda e torna a uma a multidão. o helicóptero e o touro. bandeirinhas.Sim. ela vê o alvoroço armado com a chegaria do time. e eu espero que não sejam elementos da estrutura. Pode até ser o intermediário que vendeu o touro. depois. E. acabam entrevistando até o touro..E mesmo que ela mudasse de hotel.. ela vai encontrar a República Argentina inteira.Ele não precisa. ROBERTO .Ela tenta de todas as maneiras.. O que mais ela precisa? É sempre melhor inventar uma ação. daria na mesma: a cidade inteira está do mesmo jeito. É desse jeito que ela fica sabendo quem ele é. mas não encontra lugar. os turistas agitando a bandeirinhas. senão. REYNALDO .Quando sobe para o quarto. vê a chegada do 84 .. eles acabam dançando um tango num hotel mequetrefe.O hotel ameaça virar um lugar insuportável. Não existe mais nenhum lugar onde ela possa se meter. MANOLO . SOCORRO . O recepcionista explica. com muito tempo livre.

e observa tudo pela janela. VICTORIA . Todo mundo corre de um lado a outro. MARCOS .Quando ela perceber o que está acontecendo. e sim sobre ela com os argentinos. Uma pasta verde cai em cima dela.. os guarda-sóis. vão matar você em Buenos Aires! Se não fosse um filme sério..Ela procura a guia telefônica. leva sombrinhas pelos ares.Temos a ventania: o vento arranca o seu chapéu de palha de abas enormes. e respondem que não existe nenhum táxi disponível. no momento em que o touro larga um aguaceiro de cocô.É uma seqüência tumultuada'. pede um táxi pelo telefone do quarto. ela já fez o que tinha para fazer... fisicamente: não basta receber apenas o impacto visual. MARCOS. REYNALDO . GLÓRIA . e sim a do apresentador de televisão. na piscina. GARCÍA MÁRQUEZ . então. Aí.MARCOS. que sente o cheiro e dispara atrás de um chuveiro para se lavar. não ouvimos a resposta do recepcionista. REYNALDO .É a redundância absoluta.Bem. 85 . não precisamos falar do cocô. saindo do chuveiro. GARCÍA MÁRQUEZ . Com todos os argentinos. E. GARCÍA MÁRQUEZ .time.Ou seja: para quem não queria sopa. GARCÍA MÁRQUEZ . CECÍLIA . cadê o argentino? Onde é que ele se meteu? Temos de saber isso. Ela. embora esteja claro para nós que o filme não é sobre ela e o argentino. Quando você der o corte. Mas tudo isso poderia ser feito na mesma locação: o bar da piscina tem uma televisão e.Ela precisa sentir alguma coisa. claro. MARCOS . um telefone. No fim. por causa da chegada do time. Ela recebe a mesma informação por três vias diferentes..Quando telefona para a recepção para saber quê diabos está acontecendo. enquanto isso. vai até a varanda. a cerimônia toda. tenta em vão mudar de hotel. chegam logo três caldeirões: vê o time pela televisão. que 'responde' à sua pergunta.. REYNALDO . GARCÍA MÁRQUEZ . Ninguém quer perder esse jogo: Argentina contra o resto do mundo.Argentina contra a Seleção Mundial. a psicóloga despertaria. ouve a notícia pelo telefone. a ordem da seqüência está clara.Então. ela já está no quarto. porque sente que a confusão vem lá de baixo.E exigindo explicações por telefone. liga para outro hotel e dizem que não há nenhum quarto vazio.

Está parecendo que essa história vai durar um dia só. GARCÍA MÁRQUEZ . Nessa seqüência demos toda a informação necessária. o que podemos fazer? É o seu país contra o mundo inteiro!”. Aliás. o que me preocupa é aquilo que você perguntou antes: onde diabos foi parar o argentino? O último tango no Caribe CECÍLIA .O que precisamos contar agora é justamente isso: o que aconteceu a essa pobre argentina quando os argentinos invadiram seu mundo. Ela pode começar a se sentir um tanto paranóica. que começa com o helicóptero e termina com a tentativa de fuga.pelo menos. Está lendo a entrevista.É o relações-públicas do time de futebol. também não sabíamos. Quando começamos. ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ .Essa seqüência.GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS . E já entrou no quarto dela .Ela continua no quarto.É para isso que temos cabeça. MARCOS ..E depois? Estamos construindo um roteiro sem saber o que vai acontecer no minuto seguinte.Ele. como um narrador de radionovelas: quanto tempo vai demorar até ele entrar definitivamente em sua vida? CECÍLIA . o direito de nos perguntarmos. A cidade está invadida. senhorita. GLÓRIA . Mas agora. a sua imagem . só dá para isso. GARCÍA MÁRQUEZ .Ele está sendo entrevistado pela televisão. Está rodeada. DENISE .Na entrevista. não tem mais tempo para nada.e temos. GARCÍA MÁRQUEZ .Pelo menos já sabemos quem é argentino. então.Eu acho que agora ela precisa de um momento de repouso.. poderia se chamar O dia em que os argentinos invadiram o mundo. 86 . para poder pensar no que está acontecendo. não é? MARCOS . por telefone.A informação que estava faltando é dada pelo recepcionista. GARCÍA MÁRQUEZ . Ela nota que ele não é nenhum bobo.Vou pensar nisso. Precisa cuidar de seus assuntos. “Pense bem. o camarada diz alguma coisa que chama a atenção da psicóloga. REYNALDO .Sentou-se para ver. agora.

o que você quer que ele faça? Aliás. está resignada ou fascinada? GARCÍA MÁRQUEZ . reclama. se resignou a não ver o músico. ROBERTO .E. MARCOS . Ainda bem.A Argentina não pode perder.. Talvez dê a entender ao camarada que viu a entrevista pela televisão. não dá para ninguém sair nas ruas.Ela.. para depois.O que interessa é que ela aceita o convite. GARCÍA MÁRQUEZ . GLÓRIA . ELID . para mim. GARCÍA MÁRQUEZ . A psicóloga protesta. tem de resignar a passar as férias no meio de 87 .Faz um prognóstico sobre o resultado do jogo. o barulho da rua continua chegando pela janela. os dois vão se encontrar.A frustação dela. acabamos de perder o nosso final. fez-se enfim um instante de silêncio. Vocês sabem quem é? GARCÍA MÁRQUEZ . ELID . que foi levar um convite de festa para ela. celebrar a vitória. GARCÍA MÁRQUEZ .É ele. precisamos filmar o jogo.GARCÍA MÁRQUEZ . como ele está no quarto vizinho.E lá está o argentino para consolá-la. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ .E com isso. alguém bate suavemente à sua porta. O jogo vai ser no dia seguinte. Aliás. porque o músico estava viajando: agora.. ele insiste. na seqüência final do filme. mas deprimida de verdade. é a de boas-vindas. Estamos nos inclinando na direção de um final feliz.. Desligou a televisão.Nós nunca saberemos quem ganhou... na grande festa final.. MARCOS . seja como for.Os trópicos se argentinizaram. A festa.Coitada! Primeiro. ela cede. CECÍLIA .Filmar esse jogo não é fácil. abatida.. de recepção. que os trópicos foram para a cucuia.Que final? MARCOS . o que você faria no lugar dele? REYNALDO .Mas se ela está desconsolada e desgraçada.. está deprimida.Ela está no quarto. de repente. senão o nosso filme estaria danado.ela. MARCOS . Ou estamos pensando em material de arquivo? REYNALDO . no fim.Ficou claro.Não existe mais o tocador de maracas.Mas a argentina vai perder! GARCÍA MÁRQUEZ .. agora. Ainda bem que com o argentino não temos nenhum problema. depois de sua tentativa inútil d emudar de hotel.

Lá fora. Vamos vendo a mulher de corte em corte. O que ela pretende fazer? Psicanalisar a psicóloga. E. sempre contrapondo sua depressão ao barulho alegre da festa.E é verdade que o 'diálogo'.argentinos. Um ramo de flores? GLÓRIA .Não vamos nos enganar: o argentino é um sujeito verdadeiramente encantador.. no meio da alegria geral. De repente. como uma coisa muito orgânica. então. Quando ela desce e entra na festa. obrigada. Está com os nervos em frangalhos.que está numa mesa com vários amigos . um churrasco preparado para homenagear os argentinos. A psicóloga insiste. de antemão.Ela diz ao homem. uma analogia com o divã do seu consultório. SOCORRO . É o boy. CECÍLIA . E ela. resolveu mandar um presente. No grande salão do hotel.Um prato especial. Corte.. ele .Vendo a festa pela televisão. O touro está desfilando. CECÍLIA .. a festa já começou. A psicóloga entrega os pontos. DENISE . Estende-se na cama. não quer saber de nada. Toma um comprimido para dormir.. tira do armário um vestido de gala e. em sua visita. Vai persuadi-la a ir à festa. GARCÍA MÁRQUEZ . o que está fazendo? MARCOS . no quarto. GARCÍA MÁRQUEZ . Sai da cama.Previsível demais. o ruído continua..Poderíamos ainda dar uma outra volta a esse parafuso diálogo com a paciente: Batem na porta.Ela ainda não desceu do quarto.Não. CECÍLIA .Há um aspecto aí que acho interessante: ela se estender rígida na cama. surge de maneira natural. rodeado de fotógrafos. GARCÍA MÁRQUEZ . e vemos a mulher vestida de gala. entrando numa festa. esse ruído fica menor: é a paciente. como o argentino. chega à festa no momento em que o touro está no meio do salão. mas a voz em off acaba triunfando..se levanta. não. num bilhetinho.. Só quer saber de dormir.. tenho outros compromissos”. que traz um presente. Fica estabelecida. vai buscá-la e a convida a juntar-se 88 ..Ela também pode apresentar alguma resistência. não se entregar tão facilmente. corn uma certa dose de arrogância: “Não. O cara não se dá por vencido. Mas o ruído da festa entra pela varanda. ele torna a insistir em seu convite. REYNALDO . Ela não quer saber de ninguém.Um diálogo pelo avesso. REYNALDO . havia notado que ela estava deprimida.. GARCÍA MÁRQUEZ .

por exemplo.A bebida acaba dando coragem a ela.É melhor ela ficar em seu quarto. um objeto de artesanato do país. deprimida. é uma entrega a pedido do etc”. ela estranha: “Deve ser algum engano. SOCORRO . vê a si mesma no espelho.Durante a conversa com a paciente. e com razão: “Por que diabos vou comer aqui. o churrasco.. é porque pensa que ela vai ficar no quarto. e fica pensativa. para que ele veja com seus próprios olhos que ela está deprimida. vê o bife fumegante.. e não para esculhambar os argentinos. sozinha?”. GARCÍA MÁRQUEZ . desta vez. ELID . não pedi nada. não precisa ser nenhum mojito. ainda encontrou tempo para cuidar dela.Ele pode ter batido na porta e entregado o convite. Tem argentino por tudo que é canto. Ela torna a encontrar o camarada no bar.. e que o galã faça essas gentilezas: um prato especial. ELID . para que suba de novo ao quarto..ao grupo. a psicóloga deve reafirmar seu argentinismo. CECÍLIA . Pode ser um daiquiri. Não é nenhum engano. sorriem. Com toda a confusão que o sujeito tem que resolver. desmorona na cama.Cuidado: este é um filme para exaltar o patriotismo argentino. Fica com medo de enlouquecer e corre para se trancar no quarto. Então. O filme é isso. senhorita. que se mostre tão passiva.Ora. GARCÍA MÁRQUEZ . fazem um comentário banal. DENISE . e aí entra a voz em off.Quando batem na porta e aparece o boy com o carrinho. Ela tenta combater sua depressão indo ao bar e tomando alguns drinques. Ela vê a comida.Ela poderia manter seu diálogo imaginário com a paciente em algum canto solitário de bar.Um momento: o carrinho e o boy substituem a visita pessoal do argentino? Eu acho que essa visita é necessária. ele pode ter reparado isso de algum outro jeito. Sentam-se juntos.. GARCÍA MÁRQUEZ . Disse a si mesma. tira o vestido mais elegante..Mas.”.O carrinho e o diálogo são suficientes para decidir a rendição 89 . GLÓRIA .. e pronto. Mas logo percebe que não tem onde se enfiar. ROBERTO . chega o carrinho. Ela não pode deixar de se comover com o gesto. SOCORRO . REYNALDO . mude a roupa e se apresente na festa.Se ele manda a comida.. deixando rolar uma lágrima furtiva.. caminha até o armário.. Não gosto que ela se tranque. Ela recusou. Assim que ela tira a tampa da bandeja.

mas estou vendo que. Vai ver agora.de uma mulher como esta? GARCÍA MÁRQUEZ . É. GARCÍA MÁRQUEZ . não é? Já tentou escapar e não conseguiu. vê que se aproxima um gruoo de argentinos a tenta escapulir. VICTORIA ..Bem. vai acabar se rendendo uma hora depois. não existe filme. Ele nota que a mulher andou chorando. porque continuo com uma dúvida. frustrada em sua fantasia tropical. ou então. também veio ao Caribe para isso.. nesse caso.Essa mulher não pode sair.. Ele não volta mais ao próprio quarto. MARCOS . a gentileza do argentino. Está sitiada. Se ela não se render. então já é de noite? GARCÍA MÁRQUEZ . encontra o camarada no corredor. Nesse momento.. simplesmente ir caminhar pela praia.A entrevista pode ter sido gravada.Ela desce. Ou será que vai ficar fugindo até o fim? ELID .Mas deve pelo menos tentar. Afinal. REYNALDO .Se ela não capitular depois de meia hora. que a convida para a festa.Talvez não tenha ficado claro. GARCÍA MÁRQUEZ . A história da entrevista do camarada pela televisão permanece? Porque. Em que momento ele entrega o convite? Ao cair da tarde. GLÓRIA . GLÓRIA . A mulher. estão esquartejando o touro. “Desculpe. calcular quanto tempo ainda temos e preencher esse buraco até completarmos meia hcrra. não é? Quando vai sair do quarto.Volto atrás.. o que ouve?”.Ah. estamos mais ou menos dc acordo. Além disso. Toma consciência da bobagem que está fazendo. ela decide sair do hotel. REYNALDO . ROBERTO .. não desce por causa dele: é por causa dela. ele não pode estar ali convidando-a pessoalmente. estamos querendo dizer que é um jantar. O que mudaria é o caráter da sua decisão: agora. a hostilidade do ambiente. por algum problema de vocabulário: quando falamos que haverá uma comida. depois de uma hora e meia.Tudo se arma nessa direção: o diálogo imaginário.Eu gostaria de retomar uma idéia que ficou perdida pelo caminho. mas que pode ser interessante. Uma imagem atroz.Ela está sitiada. Temos que terminar a estrutura.Não podemos perder a escaleta de vista. então. pela primeira vez. se tranca no quarto. Ainda não viu a praia. Até aqui. GARCÍA MÁRQUEZ . e por engano empurra uma porta que vai dar na cozinha. ela tentou mudar de hotel. Já está vestido a rigor. 90 .

MARCOS . não vou falar o que ia dizer: que a festa dessa noite seria mais espetacular que o carnaval do Rio. Depois. Com chances de vitória. para ver se podemos contar com uma boa estrutura.. e com prazer: Conheço o Pelé.Estamos preparando o passo seguinte. MARCOS .SOCORRO . O touro foi adquirindo uma importância que não tinha. Quando tivermos uma boa estrutura.O que vocês acham de metermos o Pelé no filme? GARCÍA MÁRQUEZ .Estou tentanto chegar ao final.A fuga da mulher não me convence. Quando a tentativa de fuga se frustrar.Então. Pelé faz o discurso de boas-vindas.Quando estamos trabalhando na estrutura. podemos esquecer o gênero por um momento. GARCÍA MÁRQUEZ . Vamos pedir a ele que dê ênfase ao significado do jogo: Argentina contra o resto do mundo.Um toque de humor negro. Quando coincidimos na Espanha. quero dizer. jamais. Senão perde o sentido. MANOLO .. MARCOS . ela cairá na resignação total. Agora..Olha aqui. DENISE . GARCÍA MÁRQUEZ . Uma vomitadinha no meio da comédia nunca pega mal. não importa a duração. com começo. O tom. E. Mas é verdade: o fracasso deve ter uma razão dramática sólida.Isso depende do tom.Se ele estiver passando por ali na hora da filmagem podem deixar comigo. começa a festa. GARCÍA MÁRQUEZ . finalmente. a gente ajusta depois. somos sempre vizinhos de quarto no hotel Ritz de Madri.A história perdeu seu caráter de comédia.Primeiro. MANOLO . meio e fim.Essa festa é uma mina..Vamos ter problema com o tempo. desfilando pelo salão com um colar de gardênias no pescoço. a gente vê o touro pendurado no helicóptero. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . esquartejado na cozinha. Sabem o que posso propôr a ele? Que dê as boas-vindas ao time argentino. GARCÍA MÁRQUEZ . você pode trabalhar nela 91 . acho bom vocês guardarem a ironia e as piadinhas e todo o resto para o filme. REYNALDO .Só o time brasileiro pode enfrentar o resto do mundo. MARCOS . ROBERTO .Os brasileiros não perdoariam isso.Essa cena da cozinha é horrível. GARCÍA MÁRQUEZ . ajustaremos os tempos.Enquanto ela continua em seu quarto sem decidir se desce ou não. Tenho certeza de que aceitaria.

toma outro elevador. e fazer o que bem entender: discurso. GARCÍA MÁRQUEZ . É o carrinho com a comida que o argentino mandou. GARCÍA MÁRQUEZ . não a deixa descansar.E com isso estaremos dizendo o quê? ROBERTO . que isso está errado porque a festa está acontecendo dez andares abaixo. satisfeito da vida. batem na porta. REYNALDO . GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS . estão esquartejando o touro na cozinha. Entra num elevador. que o touro está sendo esquartejado. GARCÍA MÁRQUEZ . vê um letreiro “Saída de emergência” -.como se fosse uma filmagem separada. volta tudo de novo.Mas é que eu acho muito duvidosa essa idéia de tocar o hino nacional às duas da manhã. bandeiras. Todo mundo dançando tango e. Não é a mesma coisa terminar com o tango: o hino é melhor.A única função do tango é conceder aos dois um momento de triunfo: são coroados como Os Argentinos de Prata. E não venha me dizer.E por que não? O que estou propondo é que a festa comece com o hino nacional e termine com o tango. enfim.O que não está muito claro para mim é a ordem dos fatos.É a apoteose do nacionalismo..Se eu soubesse não proporia uma imagem. vira-se para a câmera e canta o hino nacional.. com um tango. ela desce e tenta sair do hotel. na cozinha estão esquartejando o touro. Não consegue passar por nenhum lado. A festa termina de madrugada.. tudo é proibido. desfile do touro. vai dar numa espécie de porão. empurra outra porta. Se você termina com o tango. De repente.. proporia um 92 . cantando o hino nacional. E como por ali não pode sair do hotel. com a mão no peito. Ela não está no começo mas estará no final. E. Vê.Mas esse esquartejamento deve acontecer na perspectiva dela. e cai na cozinha.Ela está no quarto.Por que não voltamos para a idéia da montagem paralela? Na festa estão cantando o hino nacional e. apitos. que estão de uniforme. MARCOS . Marcos. MARCOS . depois. da festa ou da celebração. Impossível. E todos vestidos a rigor...Todos os participantes da festa se levantam solenes. enquanto isso.A festa começa com o hino nacional. regressa ao seu quarto e se joga na cama. ficaríamos todos com a sensação de que está faltando dizer alguma coisa. e cantam. Portanto. Invente. ROBERTO . Então todo mundo. balões de gás. MARCOS . ali. O diretor faz o que quer com a trilha sonora. O ruído lá de baixo. menos os membros do time. Eles se sentem inspirados. CECÍLIA .

limpa. diria. pela multidão.. ELID .texto. com os açougueiros. MARCOS . Seria como uma celebração do encontro definitivo do casal. cantando o hino. começa a ouvir o hino. GARCÍA MÁRQUEZ ..O hino final é a apoteose.Quando ela sai no porão e atravessa o último corredor. porque introduz uma montagem paralela. GARCÍA MÁRQUEZ . A cara dela reflete o quê? Susto ou asco? Acho que aí pode existir uma metáfora sugestiva. E como se o país a perseguisse. GARCÍA MÁRQUEZ . mas é uma imagem muito forte. poderíamos ver os dois no avião de volta. sai para um corredor vomita e volta para o quarto... Quer fugir. mas primeiro. para que o gado não fuja. como se fosse pouco. muda o método de narração. 93 .. O corte argentino é diferente de todos os outros.Claro. Chega na cozinha e estão esquartejando o touro: dois ou três planos de violência. utilizando como pretexto aquela parte do hino que diz “Lá no céu uma águia guerreira.. E de repente. Eu insisto que devemos contar a história sem rebuscar muito. ROBERTO . O impacto é tão grande que ela não suporta. membros da delegação.Se você soubesse. São argentinos.Ela chega na cozinha. MARCOS . É como se tivesse visto Lady Di sendo esquartejada. não vamos perder a estrutura de vista. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . mas os símbolos da pátria a perseguem. GARCÍA MÁRQUEZ . Ela se sente acossada pelo ruído. Descreva a imagem. onde todos estão de pé. Ela foge e vai dar no salão. Depois virão todas as cenas que a gente quiser. para conseguirmos uma comédia clara.Vieram da Argentina especialmente para cortar a carne.Isso nem sempre é possível. ROBERTO ..O touro não é símbolo de nada. Sente que está sitiada. vê como destripam o touro que pouco antes voava feito um anjinho e desfilava feito uma rainha de beleza.Muito bem. Eles também estão bebendo e comemorando.Mas que conspira contra o gênero.Por favor.”. temos que armar a cerca. Inclusive.Os açougueiros estão morrendo de rir. para ver o que ela nos diz. pela quantidade de informação que recebeu pela televisão e pelo telefone. VICTORIA. altera a proposta original e.. sem necessidade.

Você não está pensando que ela desceu porque se apaixonou por ele. “Já que a montanha não vai a Maomé”. a orquestra toca um tango e todo mundo começa a dançar. não sei que diabos estou fazendo aqui! SOCORRO . E nesse momento que o argentino bate na porta. Nesse momento. e um filme que dá para ser vendido.Caímos. inevitavelmente. Traz um carrinho de comida. uma fantasia que a paciente enfiou na sua cabeça. a da sua própria vida. desejando bom apetite. perseguindo uma quimera. Ela se levanta. na metáfora.Para mim. Se isso não for um filme. Ela está radiante.. Não resolvemos esse problema. Os dois dançam tão bem que o pessoal vai abrindo uma roda e deixando-os sozinhos na pista. é a grande dama argentina.A voz em off seria mantida? GARCÍA MÁRQUEZ . E ponto final. com uma depressão gigantesca. a Mulher argentina por excelência. e repetindo o convite para a festa. O esquartejamento nos leva à ditadura militar: O sangue provoca tanto horror na mulher que ela foge para se trancar no quarto. com bandeirinha e tudo. e portanto não resta outro remédio a não ser encará-la. Destampa a caçarola e vemos um enorme pedaço de carne. porque ela também fala. Nisso. ROBERTO . Ou as vozes. A partir daí. então. ela assume sua realidade.. No final. embora com os papéis invertidos. Estava ali.. ovação. E acho que a falha está no primeiro encontro dos dois.VICTORIA . e 'ouve' a própria voz. mas agora ela só está buscando um flerte. Pode até ser que se apaixone depois que for dormir. 94 . MARCOS .Isso ainda não sabemos. O homem se levanta e oferece um lugar em sua mesa. lembre-se disso. Ela olha com espanto. mas suspeito que sim. que quando ela se olhe no espelho ouvirá em off. isso não está muito claro. enojada.Ela volta para o quarto. Corte direto para o sujeito. GARCÍA MÁRQUEZ . O sujeito vai embora. na festa. A capitulação que se produz como conseqüência desse diálogo também é ao contrário. Está reconstruindo mentalmente o diálogo da sessão de análise. fica pensando. vemos a mulher chegar. Explode em coro o hino nacional e os dois somam suas vozes às outras. GARCÍA MÁRQUEZ . Ela. porque é uma capitulação no bom sentido.Por que ela decide descer para a festa? CECÍLIA . Nós nem a vemos se vestir.Porque ela mesma se psicanalisa. Os refletores iluminam a dupla. A vida segue seu curso: é irremediável e fatal. e agora está mergulhada numa realidade que parece mais fantástica ainda. e do ponto de vista subjetivo dele..

primeiro... de repente. com o enquadramento picado. Imperio Argentina. Agora poderia se chamar Libertad Lamarque. pelo menos..Está radiante.Ela se encontrou. vestida com uma roupa azul e branca. a câmera se aproxima e fica assim. segundo. enfim. que por isso mesmo não desenvolvemos o primeiro encontro dos dois.. ROBERTO . e. se rende”. Aqui..Todo mundo sai dançando.Desce para afesta.. o que aceitarmos como consenso agora será derrubado um minuto mais tarde. e. porque não saberíamos como resolvê-lo. ou melhor ainda. REYNALDO . no argentino. GARCÍA MÁRQUEZ . ela se olha no espelho e. O que você acha. como a bandeira... que não conhecemos realmente o argentino.Ela encontrou.. ou.Anotação número catorze: “Vemos a mulher entrando. está: “Ela está de volta ao seu quarto. ROBERTO .. MarcosS? Tem alguma coisa nesta história que você não goste? 95 . ou não neste filme.E o filme deveria se chamar Último Tango no caribe. de perfil. seu tocador de maracas.Eu anotei tudo. me refiro à cena em que Valentino dança assim. REYNALDO . O que acho é. do mesmo jeito que o helicóptero era uma citação de A Doce Vida. GARCÍA MÁRQUEZ .. e pecisamos impedir isso do jeito que for: Vocês estão agrupando as vacas antes de terem erguido a cerca. por enquanto. CECÍLIA . na anotação número treze. mas no final deixam os dois sozinhos.ELID . CECÍLIA . GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ .Não acho que seja preciso alguém ir para a cama. se reúne com o sujeito e dança um tango com ele..Por que não deixamos as novas sugestões para depois que a estrutura estiver pronta? Do contrário. chega o carrinho com a comida.A dança é uma citação de Rodolfo Valentino. mas do ponto de vista do argentino”. Essa cena marcou época.

não tornem a pensar no trabalho até o dia seguinte. Para mim. MARCOS . MANOLO . e sentirei que a história empacou e não saberei como continuar. De manhã. Isto basta para acabar de me acordar: Imediatamente começo a pensar como andava ontem o meu trabalho: “Ah.Soube que vocês varam noites discutindo os projetos.Eu não acredito que a gente chegue a ficar exausto com a nossa história.. até as duas e meia ou três da tarde. Nesse instante. se continuar remexendo nesse assunto.. faço o café da manhã. 96 .A gente começa a falar de outras coisas..”. Se eu não fizer assim. Querem um conselho? Quando saírem da Oficina. até m dia seguinte. não penso mais nisso.. GARCÍA MÁRQUEZ . colocar ali. O nome do filme é O Santo.. Só que eu pergunto: e vale a pena? O resultado justifica que se fique o tempo inteiro trabalhando? ROBERTO . vamos ver. mas acabamos sempre na mesma. é melhor.É preciso aprender a se dominar. Mas a partir do momento em que apago o computador e me levanto.. mas como é confundido com o santo padroeiro da aldeia. estarei cansado no dia seguinte.O cachaco se chama Natalio.. I MÁRQUEZ . a história de Santo Antero. E uma espécie de vício. mas não dá... esqueçam de tudo.Bem que a gente se esforça.SEXTA JORNADA DE TRABALHO Recapitulações.. esse é um leão morto. Nada de exaustão mental. sem interrupções. Tomo um banho de chuveiro.Quer dizer que o coitado do cachaco virou Santo Antero? MANOLO . e aborrecido. Ora. vou para o estúdio sento para trabalhar. em inglês. eu acordo. Então. sim. GARCÍA MÁRQUEZ . parei nesta parte”.Acabam de inventar um nome para esse tipo de gente: são os workaholics. MANOLO .. tomo consciência de que sou imortal. pode até existir quem trabalhe o dia inteiro e não se canse. a primeira coisa que faço é um esforço para saber quem sou. “Será que isso encaixa aqui? Não. Pronto...

é de pau. 97 . é uma morte que ele não esperava.Que ia morrer. primeiro.Trata-se do primeiro violino de uma orquestra? Esse é o título do filme? GARCÍA MÁRQUEZ . GLÓRIA . GARCÍA MÁRQUEZ . por ser farsante . O sujeito está feliz. Digo. dizem ao pai: “O santo é você”. virgem e mártir. um milagre. Por mais que a gente disfarce.Eu fiquei com a idéia de que ele fazia um milagre. dar o nome antes.Pedem a ele que faça um milagre. porque já fizeram um filme que acaba assim. Um belo título. É Milagre em Roma. Prestem muita atenção agora: vamos ver o que essa galega tem para nós. Uma menina morre e o pai acha que ela é santa.Um santo que. REYNALDO . REYNALDO . Santo Antero. enquanto agora morre num clima de santidade..Não sou galega. certo? Por isso é que o 'reconhecem' quando ele chega. quando percebem que ele não consegue. Na medida em que a história se desenvolve. Mas no final. porque os bons títulos quem dá é a própria história. E que aí. GARCÍA MÁRQUEZ . E o que tenho para vocês pode se resumir numa frase: “O primeiro violino sempre chega atrasado”. cresce a possibilidade de encontrar títulos melhores. e depois é de carne e osso. porque seu corpinho se mantém incorrupto. matam o homem a pedradas.Estou achando a GLÓRIA impaciente. Porque a aldeia já tinha a sua imagem. GARCÍA MÁRQUEZ .Era isso o que estava previsto? GARCÍA MÁRQUEZ . a história terminava..ROBERTO diz que eu sou a psicóloga.É o título.É inevitável. e com argumento de minha autoria.. MARCOS .Voltando ao tema dos workaholics: MARCOS e eu continuamos discutindo o projeto dele. sim. e que era o primeiro a se surpreender com isso. se for assim. em maior ou menor medida nós mesmos. o único a ficar surpreso. quase nunca. todo personagem protagonista acaba sendo. MARCOS .Pensam que ele é uma aparição.GARCÍA MÁRQUEZ . Ia morrer de um jeito ou de outro. mas de morte estúpida. REYNALDO . eu poderia ser acusado de impor a vocês o meu ponto de vista.. Não convém. REYNALDO . ROBERTO .Bem.Como disse Flauhert: “Emma Bovary c'est moi”. GARCÍA MÁRQUEZ . o da psicóloga argentina.

vai até uma loja de música.. digamos. senhora. O homem entra. Ele vai até o banheiro.. no telefone. porque o violinista não teria tempo de chegar. quanto tempo passou. eu não sei. Corte para ela.. vai até os fundos.. aproveitando a saída do marido. que era violinista. Os dois acabam de tomar o café da manhã. o violinista e outro homem. Ele sai. pensei que ia marcar um encontro com o amante. o telefonema nem se justificaria. A mulher disca um número de telefone e alguém responde. É melhor pôr Albinoni... e dois personagens se levantam da cama: marido e mulher. metido em seu estojo. são hóspedes do hotel. GARCÍA MÁRQUEZ .E como sabemos que ele é um violinista? GLÓRIA . Saem da loja. GARCÍA MÁRQUEZ ... MARCOS . GARCÍA MÁRQUEZ . discos. Colocam os estojos com os violinos em cima da cama.O fato é que agora o carro do violinista está estacionado numa rua. Estou sabendo agora porque você contou. A mesma portinha se abre e saem duas pessoas.A história começa assim: um rádio despertador começa a tocar uma música de Vivaldi...Espera aí.Porque ele saiu de casa com seu violino dentro de um estojo de violino. Corte. má sorte.. atravesssam a rua. Vemos pianos. Corte. GARCÍA MÁRQUEZ . caminham até a recepção. Sexta-feira. E tem mais: quando ela telefonou. Ele apanha um violino. aparelhos estranhos. cumprimenta o empregado da loja. Evidentemente. não chegou ainda. Entram no quarto.Vivaldi dá.Nesse caso.Quando ela telefona para o teatro. ela vai à cozinha. empurra uma portinha semi-oculta e.Que suspicaz! GLÓRIA . sem largar os violinos. cada um levando um violino metido em seu respectivo estojo. gramofones. Corte.. 98 . Chegam a um hotel. desde que o homem saiu? A gente fica com a impressão de que são atos consecutivos. e dá adeus com a mão.. GLÓRIA . pedem a chave com naturalidade e entram no elevador. com cara de surpresa. CECÍLIA . entram no automóvel e se perdem ao longe. Corte.. e porque ela. nos bastidores de um teatro: “Não... Corte.O primeiro violino sempre chega tarde GLÓRIA . o primeiro violino sempre chega tarde”.. Todos os seus movimentos são mecânicos.

O violinista se senta num lugar de honra .E agora. os dois personagens se levantam da cama e a mesma rotina se repete. GLÓRIA . O violinista começa a armar o rifle.. entra apressado onde a orquestra já está ensaiando. aponta com a mira telescópica para o orador. com bandeiras e cadeiras. O violinista afina a pontaria buscando com a mira ponto exato onde está o orador Dispara em seco.É preciso deixar isso bem claro. mas vazio. GLÓRIA . Deixa o violino dentro do estojo.. e o que vemos pela mira telescópica. e sim à semana seguinte. ela grita. Corte..E um cenário. do outro lado da rua.Com enquadramentos diferentes. Enquanto isso. Mas telefona para o teatro.”. com o violino na mão. ergue o rifle. 99 . É de noite. GLÓRIA . Parecem satisfeitos. GARCÍA MÁRQUEZ.abrem as tampas e vemos que lá dentro não há violinos: há um rifle com mira telescópia. e a responder a mesma coisa: “Não senhora. Assim que ele entra. e dispara. se repete todo o processo até que o violinista aparece na janela. GARCÍA MÁRQUEZ. vê que o ato público já começou. CECÍLIA . Está na calçada.Dois rifles. O maestro olha para ele com cara de poucos amigos. Soa o rádio despertador. enquanto o outro olha discretamente pela janela. o outro mede o tempo com o seu relógio.. vemos que o homem cai. Desarmado em várias peças que estão repartidas nos dois estojos.É evidente que haverá um ato público e alguém vai fazer um discurso daquele palanque. Por exemplo: agora ela não sai para se despedir dele. No hotel o violinista e seu acompanhante permanecem tranqüilos. O violinista.aquele normalmente reservado ao primeiro violino . CECÍLIA . em cima do sofá.. Pela mira telescópica.. em tom de inquisição: “Onde é que você foi se meter? Telefonei para o. aponta.Mas é sexta ou sábado? GLÓRIA . O violinista se junta a ele. O violinista está entrando em casa. que nesse momento gesticula sobre o palanque.. sem dizer nada. a seqüência da rotina não corresponde ao outro dia. Eles estão preparando um atentado. Baixa o rifle e começa a desarmá-lo de novo. é um palanque. esperando. GLÓRIA . Mas o homem não dá a menor confiança. Vemos a confusão que se arma no palanque.e se junta ao ensaio.Desta vez. aquela pequena luneta. A mulher está sentada na sala. atravessa a sala sem dizer nenhuma palavra e vai para o quarto. GARCÍA MÁRQUEZ . Corte. como se fossem violinos.. Corte.Um. sexta-feira o primeiro violino sempre chega tarde”.E algumas outras diferenças.

com muito cuidado. na loja de música. A explosão é brutal. estaciona numa rua lateral e desce com dois violinos. a seqüência termina com o atentado. Os músicos . GLÓRIA . Corte. O fogo e a fumaça 100 . GARCÍA MÁRQUEZ . ele nunca responde. a mulher.É que pensei nessa história assim mesmo: ela nasceu completa. O maestro entra. Chega. uma bomba. Na verdade. A orquestra inteira está em pé.. quase pode tocá-lo com as mãos. vê o homem sair e continua a segui-lo. Assim que vê o homem sair de automóvel. Mas o homem continua caminhando. pelo corredor central aparece. etc. No filme inteiro. Só que. os estojos dos violinos deveriam chamar a atenção. tranqüilamente. café da manhã. e saem.Sim.Saem assim. vestidos de fraque. é lógico.Não pensei nisso. saída do violinista. Ela corre atrás dele. Uma função de gala. O homem fica perplexo em saber o que fazer.Numa situação dessas. Todos os músicos estão nos bastidores.entre eles. Daí passo.. O homem sai com o estojo.vão ocupando seus assentos na orquestra. joga o suposto violino no chão. não trocaram nenhuma palavra. arranca um dos violinos da sua mão e escapa. Ao ver que o marido não dá confiança. O camarada outra vez.Desarmam o rifle. ela não fica em casa: vai atrás dele.. etc. De repente. A mulher olha para ele. Corte.. o primeiro violino muito perto da beira palco. do começo ao fim. Avança até o palco. Falta pouco. ela entra em outro. guardam as peças em seus respectivos estojos. deixa a mulher falando sozinha.Você está contando a história mas não está propondo uma estrutura. certo? GLÓRIA . outra vez à rotina do dia: despertador. com seu cúmplice. que estacionou ali perto. REYNALDO . atravessa a rua. como se fosse um violino. Cada um em seu estojo. O homem abre um estojo de violino e o cúmplice coloca dentro. A sala está lotada.e sem abrir o estojo. através de um corte. entre as poltronas da platéia. GARCÍA MÁRQUEZ .. o concerto está a ponto de começar. o violinista . a mulher fica furiosa. entra no automóvel e vai embora. com o estojo do violino nos braços.. Corte. Estão hospedados ali há vários dias. O que está acontecendo? Por que tanto mistério? Por que toda sexta-feira você. são conhecidos. São hóspedes.. e grita alguma coisa pode ser algo assim como “este violino você não toca nunca mais” .. e enfim entra no teatro. A mulher. sem que ninguém os detenha nem pergunte nada a eles? GLÓRIA . se aproxima dele pelas costas. Para mim. consegue alcançá-lo o começa a discutir com o marido em plena rua. O homem se dirige ao teatro. desta vez.

Bem. de quem já está farto? Para ele. E como hoje faltam alguns alunos. que a bomba exploda ou não.É preciso definir melhor esse sujeito.. Ou seja. dava no mesmo matá-la ou não. e em seguida vai se livrar da mulher? MARCOS . GARCÍA MÁRQUEZ. gritar avisando todo mundo. Não é um violinista.Mas você está deixando muitas coisas para o acaso.Primeiro ele atira no orador.Bem. digamos. ROBERTO . Mas quando ele vê a mulher entrar no teatro e avançar pela platéia com o estojo na mão. – porque sabe que ela está com a bomba. Esta história não precisa de continuidade. não haveria a possibilidade de a bomba não explodir? CECÍLIA .. Terá tempo para discutir isso com a mulher quando voltar para casa... e alguém já tiver 101 . que seja o violino ou a bomba. Ainda não foi cometido o atentado.. Como é possível que ele fique assim tão tranqüilo? GLÓRIA . REYNALDO . E mesmo que ache que ela vai jogar . ou melhor. um líder sindical. E um profissional do terrorismo. A orquestra está lá para ajudar a animar o comício. ROBERTO . como ele... fugir.É um profissional. Não seria conveniente que a orquestra tocasse no ato onde o orador ia falar? O cara é. como não teria se livrado da mulher. SOCORRO .Eu gostaria de manter a estrutura da história.E se o homem chegar tarde ao ato.Mas não sabe que ela vai atirar o estojo no chão. Os dois estojos eram idênticos e pesavam quase a mesma coisa. vai deixar que a mulher fique com a bomba? GLÓRIA . o ato.E se a bomba fosse destinada justamente a acabar com a mulher? CECÍLIA . ele pede emprestado outro violino e esquece a mulher. sei lá.. precisa fazer alguma coisa . teremos de fazer um esforço adicional. E sendo assim.ocupam toda a tela. GLÓRIA . ele achava que ela tinha levado o violino.. o estojo onde está a bomba.Volto atrás.O que eu vejo aí é um problema sério: como acreditar na história da bomba? Ela arranca o estojo das mãos do marido.sei lá. GLÓRIA . GARCÍA MÁRQUEZ .. Precisa é de análise. teríamos de aplicar outro método de trabalho. até chegar ao teatro e abrir o estojo que estava com ele. que o violino.. não é apenas um violinista: é também um terrorista. É capaz de matar um ministro a sangue-frio.como acaba jogando -..Eu queria brincar com a idéia de que ele não percebia.

O tiro saiu da janela daquele quarto. averiguações judiciais. é tarde demais.Esse é o calcanhar-de-aquiles do homem: ele não cuida da relação com a mulher.Pois eu acho que a falha está no aspecto policial da história.Quarenta ou quarenta e cinco anos. quem seguia o violinista não era a mulher.Você não pode contar um filme onde matam um personagem importante sem saber o que acontece depois. e o quarto estava hospedando o senhor Fulano de Tal. que ninguém faz até fazer..Eu não gosto é desse final da bomba. Vocês repararam que ela prepara o café da manhã. e sim a polícia. GARCÍA MÁRQUEZ . ela se sente muito infeliz. Não é fácil saber.A história desse casal. Estes dois homens são violinistas que vão ensaiar ali. Um cadáver como esse não é enterrado e ponto final: há investigações.o homem..Qual a idade do violinista? GLÓRIA . REYNALDO ..Eu o imagino bem conservado. e quando o obrigavam a parar o carro para revistá-lo achando que só estava levando aquele estojo . Viam o homem sair da loja de música. cheio de confiança.E quando ele repara.E a mulher é a sua condenação. O homem. com um estojo de violino debaixo do braço. num lugar tranqüilo. meio de ópera.matado o orador? VICTORIA . GLÓRIA . do diretor da orquestra. daquele hotel. ROBERTO . ROBERTO .GLÓRIA. GLÓRIA . O perigo vem é dela.O quarto pode estar em nome da orquestra. Vou fazer algumas perguntas elementares. porque o sujeito tem vida dupla e esconde a mais espetacular. dessas. REYNALDO .. aos pedaços. um casal no qual nenhuma das partes sabe absolutamente nada da outra..Dá para saber. porque a mulher não o interessa. você quer contar exatamente o quê? GLÓRIA . porque ele nem olha para ela. sempre. GARCÍA MÁRQUEZ . VICTORIA . E a mulher. GARCÍA MÁRQUEZ .O tiro foi disparado por um fuzil de mira telescópica. GARCÍA MÁRQUEZ .Numa primeira versão. com a orquestra inteira voando pelos ares. porque a mulher continua apaixonada por ele.. boa-pinta.. Com um exame balístico é possível determinar exatamente de onde o tiro veio.. 102 . vai até a porta se despedir tem ciúmes? E claro. O quarto do hotel está em nome de quem? O dono do hotel também pertence à organização terrorista? GLÓRIA . de uma grande distância.

REYNALDO . do ensaio. Preparou esse atentado passo a passo. foi preciso empurrá-lo.Então.Seja como for.Contada direito. Na verdade. sozinho. O filme acabava assim. que supostamente serviria de álibi para o homem.. Descobriu tudo..Não era um presidente.Mas primeiro você mata um presidente e depois quer que eu me interesse mais pela história do assassino e da mulher. SOCORRO . É preciso amarrar tudo isso a uma investigação policial.. percebeu que ele é o autor do atentado. de um atentado terrorista. comete um atentado. E isso abre muitas interrogações.. GLÓRIA . GARCÍA MÁRQUEZ . E isso não pode ficar assim. O sujeito não é apenas um virtuoso do violino: é também um virtuoso do crime. isso era o que ele achava. meticulosamente.Sabem o que eu acho? Que ele mata a mulher. os músicos da orquestra estão justamente falando no assunto.o verdadeiro . Será que não vai denunciá-lo'? Não. dá com o hotel.Primeiro. com o quarto e. Havíamos dito que era líder sindical. Para que serve o álibi do trabalho.Aí. pense no rótulo. Talvez fosse esta a história que eu queria contar. a polícia investiga. porque ela sabe que isso não é verdade. com o violinista. o atentado já terá sido feito e a notícia correu a cidade. mas como os dois estojos eram idênticos. para dominá-lo? GARCÍA MÁRQUEZ . Não vai deixar nenhuma pista.. Depois. E o que é pior: sabe que ele sabe que ela sabe. é outro filme. Naquele dia..e mostrava. você nos conta a história de um crime. É uma arma que ela reserva para uma chantagem sentimental.Quem fornece o álibi é a mulher.E ela o encobre. E sabe que ele também sabe...Sim. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . E quando chega o momento. há mais coisas para serem amarradas. com fios soltos.puxava outro estojo . mas porque a mulher o descobriu. se enganava e abria. que pertence a uma organização terrorista. por último. tem o álibi perfeito. o da bomba. GARCÍA MÁRQUEZ . E não porque esteja cansado dela. Está claro? GLÓRIA . o assunto seria o seria o seguinte: um violinista.. SOCORRO . é um crime político. GARCÍA MÁRQUEZ . quando ele chega no teatro. Mas surge um fato com o qual ele não contava: sua mulher percebeu.É que o atentado. Ou seja. Diz que naquele dia ele saiu tarde de casa porque o automóvel não funcionava.. se naquele dia ele também chega atrasado? GLÓRIA . seria outro filme. Além disso. 103 .

O dono do hotel não tem por quê dar pistas: ele também é cúmplice.Então. Ou seja.Mas por que a polícia iria suspeitar dele? GARCÍA MÁRQUEZ . o seguinte: é isso que Glória quer contar? E se for como podemos ajudá-la para que conte à sua maneira? GLÓRIA . um inocente violinista que toda sexta-feira chega atrasado ao trabalho.Na sua versão. Eu acho que é preciso evitar todo o processo de investigação. em nenhum desse. por dedução simples.Não é fácil responder. Nesta só morre ela? GLÓRIA . SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ . “Sim senhor. GLÓRIA . ROBERTO .declara à polícia o contrário. todos morriam. Se fosse boa.e ele.. mata a mulher..O exame balístico leva ao hotel. Ela mata o marido de ciúmes. ROBERTO ... para que não vire um filme policial. Como o violinista não iria saber em que estojo está a bomba. outros caminhos que não nos desviem do projeto original.. fica evidente que a relação entre os dois está muito deteriorada.O problema da bomba é que ela traz problemas demais. Deixa o marido ficar sabendo talvez com o objetivo de fazer chantagem .Isso se ajusta melhor ao formato de meia-hora. dois casos. sem aviso prévio. é autor de um atentado. a mulher se torna cúmplice do marido.. E o marido percebe o que acontece: ela sabe. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . Cúmplice posterior digamos. vamos eliminar a bomba. deixei-o a tal hora na porta do teatro”. eu mesma levei meu marido 0de automóvel hoje de manhã. e se frustra justamente por causa dela.E você acha que a polícia não iria suspeitar? Não é tão fácil disfarçar um crime desses. Agora. Ele não havia dito nada a 104 . se andou carregando um violino a vida inteira e sabe exatamente quanto pesa? ROBERTO . e os estojos. GLÓRIA. GARCÍA MÁRQUEZ . Ela imagina que o marido sempre chega tarde nas sextas-feiras porque vai encontrar outra mulher. outro galo cantaria quando ela descobre que o marido está preparando um atentado. o mais provável é que ela não morra sozinha.Seja como for. de repente..Se mantivermos a bomba em circulação. ao se ver descoberto.. E pode ser resumido assim: uma mulher descobre que seu marido.Estamos mudando a história sem perguntar se não haveria outras alternativas... com um revólver. aos culpados. o hotel leva aos hóspedes com estojos de violino. O que aconteceria se o atentado não ocorresse? O atentado é frustrado.

mas agora que ela sabe.A idéia do atentado continua nos desviando da história. REYNALDO . O sujeito não vai ficar examinando o estojo antes de sair. apanha uma coisa qualquer.Tirar do homem a sua condição de primeiro violino? Nunca! MARCOS . Lá dentro. levando na mão uma maleta. ELID . Vemos o automóvel se afastar e um instante depois. E. sei lá.. Não tem nenhuma razão para fazer isso. MARCOS . a mulher descobre o fuzil desarmado dentro do estojo. e que ainda assim ela dê cobertura. a polícia não descobre jamais. ela troca o estojo por outro.A mulher também poderia ser violinista. Só que a mulher descobre.. abre o estojo para apanhar o rifle e. Na manhã da sexta-feira. olha pela janela. Um homem desce. o que existe é uma bomba. ou que ele não desista e ela decida denunciá-lo.Mesmo assim. no estojo do violino só tem mesmo um violino. Na noite de quinta-feira.. Muito bem. Ninguém nunca descobre a história do supermercado. por quê? 105 . se dirige ao seu lugar na orquestra. ele mata a mulher. Talvez o personagem não devesse tocar violino.. O atentado se frustrou.. Ela descobre que seu marido está preparando um atentado quando decide estudar. ou que decida fazê-lo mudar de idéia.. quando ele vai ao banheiro.Mas agora. O camarada chega ao hotel.ela para que a mulher não se preocupasse. em casa. GLÓRIA . que já está ensaiando. podem acontecer duas coisas: que a mulher decida ficar calada. comprova que o ato já começou. GARCÍA MÁRQUEZ .. como ele. e sim ser técnico. e apanha por engano o estojo do violino do marido. quero dizer.. o atentado não vai acontecer. GLÓRIA . neste último caso.E que tal se o filme começasse simplesmente assim? Um automóvel chega na frente de um supermercado. já examinou na noite anterior. Quando ela vê a notícia na televisão. que suspeita do marido? Mas. vai até o caixa. dá a entender que. cria uma expectativa.Um profissional do crime. Estamos criando no espectador uma expectativa que depois não será satisfeita. deixa a maleta no chão. para encobrir o marido. o maestro reclama do atraso. SOCORRO . também podem acontecer duas coisas: que ele não desista... neste último caso.E. GLÓRIA . jamais levaria armas para casa. ao lado de uma estante. um mecânico. O homem entra no supermercado. o comício.. surpresa!.Vamos imaginar que levou. O camarada chega impassível ao teatro. paga e sai. na maior tranqüilidade. ela balbucia uma desculpa e se senta para ensaiar. REYNALDO . o supermercado vai pelos ares.

vira-se tranqüilamente para ele e diz: “Quem cometeu esse atentado foi você”. que alguma coisa esquisita estava acontecendo. Estão vendo? Nada de investigação policial.Até o último momento. mas só como um meio para se desfazer dela. prepara uma armadilha mortal.E isso que nós temos de descobrir. nem nada parecido. ROBERTO . não está claro. supostamente. sim.em montagem paralela está telefonando para o teatro.GARCÍA MÁRQUEZ . GLÓRIA .Existem duas opções: que o marido mate a mulher. CECÍLIA . de uma operação da 106 . “O primeiro violino? Não. Ele a preparou de tal forma que inevitavelmente vai explodir nas mãos da mulher: Trata-se. como bom conspirador. ao mesmo tempo sem que ela perceba. GLÓRIA . sextafeira o primeiro violino sempre chega tarde”. por certos detalhes. tenta ajudá-lo. por amor: Por amor. Até aquele momento. quando está com o marido vendo a notícia na televisão. Enquanto o camarada está entrando no supermercado. da noite para o dia. com premeditação e aleivosia.Para se desfazer dela impunemente. para que ela escolha. SOCORRO . eram só ciúmes. ROBERTO . e portanto pode denunciá-lo à polícia. naquela noite. Diante desse impasse. A bomba está no pacote. GARCÍA MÁRQUEZ ... como dizem os advogados.Confesso que não vejo essa situação muito clara. Como? Fazendo com que a mulher vire cúmplice do projeto terrorista. O sujeito percebe que na atitude da mulher há uma dose de chantagem e. Mas que ele mate a mulher. Nem ela nem o espectador suspeitam disso.Para mim. Mas. Ela havia começado a remexer a casa inteira e tinha percebido. mas também porque sente que desta forma pode dominá-lo ou. a mulher . ou viceversa.O camarada pede à mulher um grande favor.Mas eu não imagino como é possível convencer uma mulher assim a virar terrorista. O que é que realmente estamos querendo fazer? GARCÍA MÁRQUEZ . O favor é o seguinte: levar um pacote e deixá-lo em determinado lugar. percebe também o perigo latente: ela sabe. retê-lo. se quiser.Ela não vira terrorista. Eu prefiro a primeira. e ela concorda.É precisa armar essa história completa.Ele concebe um atentado no qual ela será a bomba. minha senhora. Tudo acontece exclusivamente através da relação do casal. Quando descobre que o marido leva uma vida dupla. GARCÍA MÁRQUEZ .Dar opções a GLÓRIA. ROBERTO . ela não nota nada. SOCORRO . ele faz com que ela acredite que vai normalizar sua vida e. pelo menos.

. A bomba explode. porque de costas qualquer um reconhece qualquer pessoa. O camarada é impiedoso.. GLÓRIA . não é? Antes de deixar a maleta no chão. A fita é salva e mostrada pela televisão. REYNALDO . quero dizer. Achava tudo muito confuso. o que dá a pista.Eu volto. é a sacola do supermercado. O que a mulher encontra na sacola.qual ele também participa.um tique. GARCÍA MÁRQUEZ . ela tem um palpite: é ele. Como resolver os problemas que um atentado representa? Como tornar verossímil a conduta da mulher e do marido. arranca o estojo das mãos dele? Como interpretar a atitude do homem. 107 . que a gente acaba resolvendo. mas tem alguma coisa naquele homem . Ele se disfarça. ao supermercado. quando ela o descobre. aparentemente para dar cobertura à mulher: Ela desce do carro e caminha apressada para o lugar combinado. Aqui a mulher o reconhece . Bem. sempre. GLÓRIA . Uma pessoa pode se disfarçar tão bem que nem sua própria mãe é capaz de reconhecê-lo. óculos. De frente. GARCÍA MÁRQUEZ . mas não me convence. por causa do disfarce.. É um problema técnico. GLÓRIA . é verdade. fica no automóvel. A sacola tem o nome e o endereço do supermercado em letras enormes.O supermercado tinha um sistema de vigilância eletrônica. uma câmera de vídeo gravava tudo o que acontecia lá dentro. Todo mundo vê o suspeito.que o deleta. são as peças desse disfarce: uma peruca..ou pelo menos suspeita . achei que seria absolutamente impossível encaminhar a história por onde você queria. um bigode falso. vigiando. não tem nenhum escrúpulo.mas não diz nada. Está irreconhecível. o jeito de mover a cabeça . Ele fez algumas compras. o que a mulher encontra na casa. A forma pela qual ele vai matar a mulher não me preocupa. guarda essa impressão e começa a investigar. acelera e se afasta. tenho a impressão de que encontramos o caminho. O importante é esse passo prévio. GLÓRIA.Depende. na frente do teatro.Agora sim.Vou confessar uma coisa: no começo.Mas a partir do momento em que vê o suspeito na televisão. no dia seguinte. e a forma como ele irá tecendo a teia de aranha para que a mulher caia na armadilha sem perceber. GARCÍA MÁRQUEZ . Mas o suspeito está irreconhecível. vendo a mulher se aproximar do palco levando a bomba? Mas agora estamos esboçando uma história possível. quando ela. Ele tira a peruca tranqüilamente.a proposta parece boa. E isso não deixa de ser uma vantagem: vai nos permitir armar a história em meia hora. só por um instante.

é que a polícia está procurando aquele homem. ROBERTO .GLÓRIA . GLÓRIA .E o que ele diz é que todas as pessoas que aparecem no vídeo já se apresentaram.. com a ajuda da mulher -. Poderia estar relacionado com o violino. naturalmente.E por que não? Vamos fazer um filme mudo.Por que não desenvolver as duas linhas de tensão ao mesmo tempo? GARCÍA MÁRQUEZ . no noticiário da televisão.. menos esse homem aí. a polícia identifica o cadáver e. Tem dúvidas. sim: o da mulher falando por telefone com o sujeito do teatro: “Não.Não vá complicar demais a vida. voluntariamente.Ela morre. não deve ter certeza de que é o seu marido.”. mas há alguma coisa estranha.Você tem razão: fazer um filme totalmente mudo é uma exibição técnica desnecessária. GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO .Um detalhe qualquer o delata. Nesse momento a polícia ainda não suspeita dele. havia diálogos.Exceto a televisão. GLÓRIA . ROBERTO . O que se informa. aumenta o nível de intriga do filme. 108 .Nós vemos o marido preparando o atentado seguinte desta vez. todas.o espectador acabará tendo a impressão de que é um filme mudo. GARCÍA MÁRQUEZ . GLÓRIA . GLÓRIA . Eu havia concebido uma história sem diálogos. sexta-feira o primeiro violino..Porque é mais complicado. justamente o que ela reconhece.. REYNALDO . agora eu lembro que na sua versão. cuja imagem vemos em câmera lenta.Quando ela vê a imagem do suspeito na televisão. será que não sabe? GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO .Essa ia ser a única frase no filme inteiro.A única coisa que lamento é que se perca o caráter não verbal da história. e se intensifica quando o espectador intui que o marido está preparando uma armadilha para a mulher. ROBERTO . E o homem é. Com isso. vai informar ao marido o que aconteceu..GLÓRIA. à polícia. senhora. O locutor do noticiário pode falar.Se você usar poucos diálogos no filme . Assim estará sendo criada uma tensão: será que ela sabe..Seja como for. mas ainda não suspeitamos que a vítima será ela.diálogos curtos e contundentes . a original. e não justifica o esforço. ou então estão sendo localizadas. basta.A tensão surge quando ela começa a remexer a casa. GARCÍA MÁRQUEZ .

a peruca ou uma caixa de maquiagem entre as coisas dele? De noite. REYNALDO . A figura misteriosa do supermercado serve para que a gente ponha a mulher em movimento. GLÓRIA . quando os dois assistem ao jornal na televisão. procurando um sinal de culpa? Encontra.GARCÍA MÁRQUEZ .. um pouco cruel e disparatada.Tem uma investigação .no nosso caso. o motivo principal poderia ser ciúme.. na sexta seguinte liquida uma figura pública. com a mulher como centro da operação.São idéias.Tudo isso é muito abstrato. mas que nos obriga a mostrar o processo de investigação policial.No começo. Tem que pedir alguma coisa importante. É um delito . ela fica olhando fixo para o suspeito. ciúme.Ela suspeita que o marido tem uma amante. e faz isso da mesma forma que os músicos . Estou pensando no líder sindical: por que ele não pede a ela que ajude nesse atentado? REYNALDO .. mas intui .e horroroso -. O que está. GLÓRIA . ROBERTO . senhora. do “terrorismo cotidiano”. Achei que havia consensoem relação a um ponto: a filme começaria no supermercado. 109 .que é o marido. Até aí. GLÓRIA .Eu gosto da idéia de que ela descubra que o marido é o terrorista. SOCORRO .Ela telefonou para o teatro no momento em que ele entrou no supermercado.” etc. Uma sexta-feira o camarada manda um supermercado pelos ares. sexta-feira. O que me interessa é ressaltar o nexo que existe entre rotina e amoralidade.Nós não podemos retroceder. Ai está o motivo. e não um DomJuan.tocam hoje Schubert e.O que o filme conta é a preparação de um crime perfeito. Não diz nada. motivando a mulher? Ciúme ou a suspeita de que o marido é o homem do supermercado? REYNALDO . “Não. o violinista . descobre que ele é um terrorista.Quero saber em que ponta estamos. sabe .é preciso ter -. Beethoven: por hábito. E tentando confirmar isso. GLÓRIA . Ela começa imediatamente a revistar a casa. para que ela se sinta motivada.Eu gostaria que a gente explorasse a idéia. por exemplo. mas movida pelo ciúme. mas ela não aparece no filme. Claro que o marido não pode pedir a ela: “Por favor leva essa roupa na lavanderia para mim”. por acaso. GARCÍA MÁRQUEZ . mas eu prefiro que não exista nenhuma investigação. Mas o que parece estar contando é a preparação de um atentado.ou melhor.. GARCÍA MÁRQUEZ .Pois é... amanhã.

abre. Levanta. GARCÍA MÁRQUEZ . É um pouco grotesca. e por isso.Estou pensando o seguinte: o camarada do supermercado está de chapéu.Eu consideraria.. VICTORIA . com o episódio da televisão. o que significa começar com o verdadeiro drama.GARCÍA MÁRQUEZ . ao ver que suas suspeitas eram injustas. ele vai fingir que a ama como 110 .Os ciúmes aguçaram os seus sentidos. de qualquer modo. ao mesmo tempo.. quando o violinista e a mulher estão vendo o noticiário na televisão. A questão do ciúme é um conflito falso. mas diz muito sobre o caráter frio e desumano do terrorismo. Nós precisamos agarrar a alternativa que mais nos atraia. GARCÍA MÁRQUEZ .Vamos tentar manter a idéia do atentado semanal. VICTORIA . ela encontra uma coisa estranha. CECÍLIA . que já vamos ver quais são.Esse é um motivo que a gente não consegue manter por muito tempo..faz isso toda sexta-feira de manhã -.. quando na noite dessa sexta-feira ela vê o sujeito com chapéu na televisão.Os ciúmes a levaram a revistar a casa inteira. . REYNALDO . a não ser que faça outro filme. Da amante quero dizer. mas se desvanece em seguida. vai até o armário.Pode ser até que ela se alegre e peça perdão ao marido. reconheço.Vamos deixar para estudar isso mais adiante. buscando as provas do delito ..e nessa busca. É preciso contar isso em menos de trinta minutos. que ele sente que a mulher está dizendo: “Não adianta mentir. E faz a pergunta de tal maneira. pergunta. a que mais convenha ao desenvolvimento da história. a possibilidade de de começar com o supermercado.. ROBERTO . O resto do filme seria dedicado a contar como ele se arranja para se livrar dela.Isso nos dá outra opção: assim. vê que está vazia.Ao ver que foi descoberto. um simulacro. Pode estar latente alguns minutos. Nesta noite. MARCOS . ela não precisa investigar nada. um fio de cabelo louro na lapela do terno. tira uma caixa de chapéu. Esse é o detonador: o marido foi descoberto pela mulher. eu sei que foi você....O ideal é que fosse algum objeto tipicamente feminino... mas que para ele pudesse. que não sabe como explicar. “Onde está o seu chapéu de inverno?”. ela vê a imagem do suspeito de costas. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . Já sabe que o marido esconde alguma coisa . servir para outras coisas. aquele que conduz ao desenlace.um lenço manchado de batom.

. GARCÍA MÁRQUEZ .. acreditar que acima de tudo existe a sua causa. e tudo isso será apenas um engano premeditado. GLÓRIA . amanhã finge que ama. ele a redescobrisse como camarada. o sujeito é exatamente assim. que pode ser contada de maneira clara e simples.E que nesse caso. ao somá-la aos seus planos terroristas.o simulacro duplo -. a do dever profissional..É que ele não precisa fazer isso para matá-la. Isso torna tudo mais dramático.O que me preocupa é a idéia de que o crime político possa ser confundido com um crime passional. Mas sente que precisar eliminar a mulher é um sacrifício. O violinista precisa matar a mulher. o que precisa é ser fanático.. SOCORRO . mas de repente tem uma crise emocional. deve evitar a tentação de complicá-la. os dois elementos se misturam. e veremos que problemas cada uma traz.Ele pensa. para dar a bomba a ela. ROBERTO . ele a ama. SOCORRO . Tem que passar por cima de qualquer tipo de considerações . Vão viver uma segunda lua-de-mel. é que ele vai matá-la. como todo bom terrorista. por que não? As duas coisas são possíveis.Isso é verdade no ponto de vista dele. REYNALDO . Ele mata a mulher porque não tem outra alternativa. ROBERTO .Por que não desenvolvemos as duas opções separadas? Uma seguiria as duas linhas . E vai fazer isso contando com um álibi perfeito.para cumprir as normas de segurança. que o fim justifica os meios. mesmo que seja passageira..Quando a gente tem uma boa história.O fato concreto. no fundo.Para mim. mas o elemento do ciúme e do falso romance enriquecem o personagem dela..nunca. Não precisa fingir que a ama. a outra. GARCÍA MÁRQUEZ . como você o descreve: frio. capaz de qualquer coisa. certo.Para falar claro: um tremendo filho da puta.e talvez até mais – se simular um entusiasmo súbito pela mulher? GARCÍA MÁRQUEZ . os momentos mais felizes da sua vida. GARCÍA MÁRQUEZ .E também não seria isso . Vamos desenvolver as duas opções. e até mesmo com mulher. mesmo que a ame.. O homem é um tipo frio implacável.inclusive as sentimentais . É como se agora.. GARCÍA MÁRQUEZ . Eu gosto da idéia de que passe por 111 . GARCÍA MÁRQUEZ . E tudo isso também pode enriquecer o personagens da mulher. uma linha só.E por que não podemos brincar com um conflito de sentimentos? Hoje ele a ama. GARCÍA MÁRQUEZ .Porque.

ROBERTO . VICTORIA .“Ou você mata”. a vertigem da vida urbana.Agora? Setenta e cinco anos. GLÓRIA . setenta. 112 . distraído.O sujeito se reúne com os membros da sua organização e conta a novidade: “Minha mulher sabe”. “Então você tem de matá-la”. É a história de um preso recém-saído da cadeia. dizem a ele.E se a bomba. melhor.O que a gente ganha com isso? SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ . por que não foge com ela? GARCÍA MÁRQUEZ .e entra suspirando. feito um autômato. porque quanto mais implacável ele for. o trânsito infernal. GARCÍA MÁRQUEZ . Ficou preso quarenta e cinco anos. Caminha assustado por um bairro periférico da cidade.Gostei: que seja a organização terrorista que decida que é preciso liquidar a mulher: Assim.. que poderia ser São Paulo. GLÓRIA .cima de tudo. e vê seus cabelos brancos. Está na rua há algumas horas. Senta e pede uma bebida. Vou trabalhar.Se ele a ama tanto como vocês dizem. VICTORIA . E ponto final.Ainda não.Confirmar a idéia de que o crime não compensa. Vê um bar – um velho botequim cheio de espelhos. João não agüenta o barulho.Porque este é um filme selvagem. explodisse nele? REYNALDO . seu rosto sulcado pelas rugas. Não tem para onde ir.Qual a idade do homem? ROBERTO . inclusive do amor. com mesinhas de mármore e cadeiras de madeira . por algum erro de cálculo. E ele sabe muito bem o que isso quer dizer.Tenho um montão de anotações. como se enfim tivesse encontrado o refúgio que procurava. História de uma vingança ROBERTO . e murmura: “Eu daria qualquer coisa para poder voltar atrás e começar de novo”. e mais brutal for a morte da mulher.Acho bom avisar que trouxe uma história complicada. tudo fica mais frio. Está velho.. Olha para o espelho.. Acaba de cumprir sua pena. GLÓRIA ..Deus te perdoe! ROBERTO . REYNALDO .Ou que a justiça divina existe. Podemos chama-lo de João. mais impessoal: ele só cumpre ordens.Tem título? ROBERTO . “ou nós matamos”. uma cidade grande.

Sua voz soa no fundo do espelho, como um eco, como a voz da Morte. E João ouve que a mesma voz diz: “Eu concedo a você esse desejo, mas com uma condição: que esqueça o passado. No passado estão as sombras. GARCÍA MÁRQUEZ - Isso ainda não sabemos, mas suspeito que sim, que quando ela se olhe no espelho ouvirá em off. Ou as vozes, porque ela também fala, lembre-se disso, e 'ouve' a própria voz. Está reconstruindo mentalmente o diálogo da sessão de análise, embora com os papéis invertidos. A capitulação que se produz como conseqüência desse diálogo também é ao contrário, porque é uma capitulação no bom sentido. A partir daí, ela assume sua realidade, a da sua própria vida. MARCOS - Por que ela decide descer para a festa? CECÍLIA - Porque ela mesma se psicanalisa. ROBERTO - Para mim, isso não está muito claro. E acho que a falha está no primeiro encontro dos dois. Não resolvemos esse problema. GARCÍA MÁRQUEZ - Você não está pensando que ela desceu porque se apaixonou por ele... Pode até ser que se apaixone depois que for dormir, mas agora ela só está buscando um flerte. ELID - Ela encontrou, no argentino, seu tocador de maracas... ROBERTO - Não acho que seja preciso alguém ir para a cama, ou, pelo menos, por enquanto, ou não neste filme. O que acho é, primeiro, que não conhecemos realmente o argentino, e, segundo, que por isso mesmo não desenvolvemos o primeiro encontro dos dois, porque não saberíamos como resolvê-lo. GARCÍA MÁRQUEZ - Por que não deixamos as novas sugestões para depois que a estrutura estiver pronta? Do contrário, o que aceitarmos como consenso agora será derrubado um minuto mais tarde, e pecisamos impedir isso do jeito que for: Vocês estão agrupando as vacas antes de terem erguido a cerca. CECÍLIA - Eu anotei tudo. Aqui, na anotação número treze, está: “Ela está de volta ao seu quarto, chega o carrinho com a comida, ela se olha no espelho e, enfim, se rende”... GARCÍA MÁRQUEZ - Desce para afesta, se reúne com o sujeito e dança um tango com ele... ROBERTO - Está radiante, vestida com uma roupa azul e branca, como a bandeira. CECÍLIA - Anotação número catorze: “Vemos a mulher entrando, mas do ponto de vista do argentino”.

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REYNALDO - Ela se encontrou. Agora poderia se chamar Libertad Lamarque, ou melhor ainda, Imperio Argentina. GARCÍA MÁRQUEZ - E o filme deveria se chamar Último Tango no caribe. REYNALDO - A dança é uma citação de Rodolfo Valentino, do mesmo jeito que o helicóptero era uma citação de A Doce Vida... me refiro à cena em que Valentino dança assim, de perfil, com o enquadramento picado, e, de repente, a câmera se aproxima e fica assim... Essa cena marcou época. GARCÍA MÁRQUEZ - Todo mundo sai dançando, mas no final deixam os dois sozinhos... O que você acha, MARCOS? Tem alguma coisa nesta história que você não goste?

O Inferno tão temido MARCOS - A única coisa da qual eu não gosto é a maneira como vemos a transformação dela, sua decisão de ir à festa. Acho precipitada. A ordem é esta: ela vê o touro esquartejado e sente náusea; volta ao quarto passando mal; deixa entrar o carrinho com o prato de churrasco; olha a carne e vomita; deita na cama para chorar, sentindo-se a mulher mais infeliz do mundo... É então que começa o diálogo na frente do espelho? Para que uma pessoa que se encontre nessa situação consiga reagir e decida se vestir, se arrumar, apresentar-se sorridente numa festa... bem é preciso mais do que uma sessão de psicanálise. REYNALDO - Mas aí há uma falha na sucessão dos fatos. A verdadeira crise acontece diante do touro esquartejado, e não na frente do prato de carne. Ela vomita lá embaixo, ao sair da cozinha. É essa, falando de maneira literal, a sua catarse. CECÍLIA - Cuidado com o tom. A comédia está ficando séria demais. GARCÍA MÁRQUEZ - Essa seqüência da qual você está falando, Marcos, tem realmente um começo, um meio e um fim? ELID - O elo quebrado, nessa corrente, é o do espelho. Não sentíamos que fosse uma motivação suficiente. GARCÍA MÁRQUEZ - Mas, será que ela sentia? Como psicóloga, tem uma capacidade de introspecção muito maior que a nossa. Se não é capaz de fazer uma reflexão profunda num momento de crise como este, então nós nos enganamos de personagem...

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MANOLO - O carrinho com o churrasco no quarto é um pequeno Cavalo de Tróia... É aí que ela sente que violam a sua privacidade, que invadem seu reduto... VICTORIA - A República Argentina empurra e humilha a pobre psicóloga argentina. GLÓRIA - Enquanto ela sai da cozinha, volta ao quarto e enfrenta a crise, lá embaixo estão assando o boi e ela tem tempo para serenar e iniciar seu diálogo imaginário com a paciente. GARCÍA MÁRQUEZ - Não trabalhamos esse diálogo ainda, não sabemos como ele é. SOCORRO - Ele acontece antes ou depois da chegada do carrinho? REYNALDO - Depois. A chegada do carrinho marca, para ela, o momento da sua aproximação emocional com o sujeito, ou seja, sua relação com os argentinos em geral e com esse cara em particular... Esse gesto a reconcilia com o seu mundo. E, por isso, ela agora tira a tampa da bandeja do churrasco, olha a carne e acha que é apetitosa. Pode ser até que prove um pedaço. A reflexão começa aí. SOCORRO - Ela prova a mesma carne que há alguns minutos a fez vomitar? REYNALDO - Aquela carne era crua, sanguinolenta. Esta carne é um delicioso bife argentino. MARCOS - Talvez aconteça, aqui, um problema de tempo. É preciso dar a ela uma verdadeira oportunidade para pensar. Ela poderia sair horrorizada da cozinha e do hotel, e começar a caminhar sozinha pela praia. Aí, nós voltaríamos aos estereótípos visuais o crepúsculo, as palmeiras, as silhuetas a contraluz... como se ela estivesse recuperando seu projeto original. E, de repente, a voz da paciente. REYNALDO - Acho que tirar a mulher do hotel seria um erro. GARCÍA MÁRQUEZ - É verdade. Se ela sair do hotel, sai do problema. MARCOS - Mas o desafio que faz com que ela ceda continua sendo fraco para mim. Não me convence. GARCÍA MÁRQUEZ - Se eu tivesse uma proposta melhor, faria, Marcos mas acontece que não tenho. Não me ocorre nenhuma outra idéia. Estaremos buscando caminhos diferentes, sem perceber? Não será que vocé está querendo achar uma solução muito dramática, e nós continuamos no plano da comédia? ROBERTO - O que precisamos encontrar é um bom elemento de humor negro.

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GARCÍA MÁRQUEZ - Lá estão os açougueiros argentinos, felizes da vida. Fazendo piadinhas e dizendo coisas engraçadíssimas enquanto esquartejam o touro. SOCORRO - Aliás, quero dizer que essa idéia do vômito não me agrada nem um pouco. GARCÍA MÁRQUEZ - Já sei que, na hora da verdade, o vômito não vai ser filmado. Os diretores se atrevem a mostrar náusea, por exemplo, mas não chegam no vômito nunca. E, se filmam, depois cortam fora. MARCOS - Esse é um detalhe que não me preocupa. GARCÍA MÁRQUEZ - Já sei. Você está preocupado com a força dos fatores que levam a mulher a tomar a decisão de ir à festa. MARCOS - Exatamente. Quando chegamos a esse momento e dizemos “pronto”, eu, simplesmente, não sinto isso, não acredito nisso. ELID -É Verdade que ela está acostumada à introspecção, mas quando decide viajar ao Caribe já não é uma psicóloga, é uma pobre mulher que quer viver uma aventura. O que prevalece agora não é o racional é o emocional. E quando seu projeto fracassa e ela percebe que não pode fugir, recupera sua personalidade anterior. VICTORIA - Como um mecanismo defensivo. REYNALDO - Como Dom Quixote em seu leito de morte. O próprio ato de reflexão a devolve ao consultório, ao ponto de partida. ROBERTO - Poderíamos fazer com que a paciente, no consultório, tenha feito a psicóloga dizer alguma coisa que agora repete, algo assim como “nós não escolhemos o lugar onde nascemos”, ou “ninguém escolheu o país em que nasceu”. GARCÍA MÁRQUEZ - É melhor que seja o contrário. É ela quem diz isso à sua paciente. E, agora, lembra. Há uma linda frase de Che Guevara, que diz: “A saudade começa com a comida”. É verdade. A gente sente a mordida da saudade quando estamos longe do nosso país e temos, de repente, vontade de comer coisas que comíamos quando éramos criança. MARCOS - Ela tem de perguntar a si mesma: “Que diabos de profissional eu sou, dizendo coisas que não sou capaz de assumir?”. DENISE - É a fórmula clássica da moral dupla: “Faz o que eu digo, e não o que eu faço”. GARCÍA MÁRQUEZ - Ela não terá outro remédio além de chegar a esta conclusão: “Quem está mal sou eu, e não o meu país”. É ela quem tem que mudar. Ao assumir isso, ela se abre tanto às misérias quanto às grandezas de

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Senhoras e senhores... disse: “Já sei. Para a outra..E veja só onde é que viemos parar! É preciso ter fé em qualquer imagem original. quem sente saudades sou eu. MARCOS . saber como era. na festa.Sou solidário com você na sua dor. no carrinho. Há anos eu queria escrever sobre uma viagem pelo rio Magdalena. como se estivesse longe há muito tempo. É a história de uma relação difícil. Acabo de lembrar que. E comecei a estudar Bolívar. E quando enfim me sentei para escrever sobre a viagem..seu país.O helicóptero sozinho. quase sempre. apertem os cintos: o tocador de maracas voltou de Caracas! E ela imediatamente nota que o fulano não vale nem dez réis de mel coado. com a Academia nacional.De repente.Vocês perdoem a minha insistência. GARCÍA MÁRQUEZ . um cartão. É o gesto dele que a obriga a pensar. MARCOS . Era uma ilusão à toa da paciente. não. Por isso eu confio no meu guardachuva... um belo dia. Uma viagenzinha simples pelo Magdalena acabou virando uma confusão sem fim. um montão de anos depois. MARCOS .. queria fazer um filme sobre as maracas. ELID . e me perguntava como conseguir. e o que está escrito nesse cartão a comove. Marcos. GARCÍA MÁRQUEZ . a da psicóloga consigo mesma e com seu país. e. pode valer. na verdade.. O touro chegou depois. sem ele. para ela. O sujeito passou a ser um elemento a mais. do resto do mundo. mas continuo achando que o personagem do argentino não tem força suficiente.Repito: eu nâo consigo ver esse gesto como um detonador 117 . ROBERTO . Vou pôr o Bolívar nessa”. aconteceu a mesma coisa com a imagem do helicóptero e do touro. um simples elo de ligação da 'conexâo argentina'.O argentino mandou. de três a zero. uma confusão com a Academia de História. porque tem algo dentro. GARCÍA MÁRQUEZ .Só que agora ficou claro que esta não é a história de uma donzela.. lembram? ROBERTO . que jeito tinha. se diz alguma coisa. e o que saiu foi a vida de Simón Bolívar.Agora. GARCÍA MÁRQUEZ . Com você. não teríamos filme. é. Desde que eu era menino sonhava com essa viagem.E se empolga com a possibilidade de que o seu time ganhe. que nos diga alguma coisa.Mas. o que saiu foi a última viagem de Bolivar. ela começa a pedir notícias da Argentina aos seus compatriotas. GLÓRIA . que foi o seu ponto de partida. SOCORRO .. aquele guarda-chuva do qual falei no primeiro dia.

existe aqui uma série de situações e sensações que obrigam a psicóloga a pensar. então. Eu adoro literatura. GARCÍA MÁRQUEZ . REYNALDO .A idéia.E qualquer um pode dançar o tango com ela.Talvez não aconteça nada.Ora. GLÓRIA . GLÓRIA . e descobrir que ela vivia no paraíso. ou se você preferir. um elemento secundário no filme. como Glória dizia muito bem. não está nunca em outro lugar. nem um filme sobre o sul da América do Sul. MARCOS . e não ela.O primeiro que pedir. para amar-te” . GARCÍA MÁRQUEZ .. ROBERTO .convincente. A verdade do paraíso e do inferno sempre está em cada um. GARCÍA MÁRQUEZ .E se a gente cortasse fora o argentino. meu Deus. por que esse desprezo? ROBERTO .Ai. Nossa tarefa 118 . VICTORIA . O sujeito não é imprescindível.Um momento: então. GARCÍA MÁRQUEZ . nada. GARCÍA MÁRQUEZ .Nada.Acho que fizemos um bom trabalho.. Além das palavras. O verdadeiro detonador é o diálogo dela com a paciente.É simplesmente a história de uma mulher que foi para os trópicos achando que ia encontrar o paraíso.. GARCÍA MÁRQUEZ . no inferno. ROBERTO . mas o inferno acaba alcançando-a. mas de repente tive a seguinte idéia: poderia ser O Inferno tão Temido.O gesto não é o detonador: é o fator detonante. Nem sei mais quantos títulos a gente deu a este filme.Então. MARCOS .. GARCÍA MÁRQUEZ .Porque estamos fazendo cinema. poderia ser resumida assim: uma mulher foge do inferno. o que iria acontecer? MARCOS .O diálogo dos dois não pode ser considerado 'literatura' e nada mais..Que curioso: uma nova versão de A Morte em Samarra..O chefe de relações públicas do hotel.Estamos fazendo roteiros..Isso aí é literatura. quem vai fazer o convite? Quem vai mandar o carrinho com a comida? GARCÍA MÁRQUEZ . meu Deus! Não é mais um filme sobre os trópicos. Ele já é. CECÍLIA . por causa daquela frase de “Não se move.Quem tem de pensar é o espectador. Nós pusemos esse sujeito aí só para que ela tivesse um interlocutor.. e o que você tem contra a literatura? ROBERTO . a refletir.

Mas se a idéia não convence você. em seu nível. Mas queria deixar claro. ajustar. o hotel.E agora você a sente sua.Não: esta história já está madura: tem o helicóptero. um peso-leve tem que estar na melhor forma possível. aceito como presente. mas sermos capazes de examinar o processo através do qual uma história é feita. Mas há coisas. MARCOS . É procurando a história que encontramos o método. Portanto. não deveríamos começar por questionarmos se uma psicóloga é o tipo de personagem adequado para uma comédia de televisão? GARCÍA MÁRQUEZ .Bem. que precisam ser desenvolvidas. É uma premissa do trabalho criador.Eu estou de acordo com o peso que ela tem. o touro. e vale tanto se você quer vender uma comédia para a televisão quanto filmar Cidadão Kane. MARCOS . o que precisamos estudar é o mecanismo da busca. tem uma coisa: nós temos de trabalhar sempre nossos projetos como se fossem pesos-pesados.O questionamento é inevitável.Sim. como a festa. Tem mais: se vocês não quiserem essa história.não é tanto armar uma história . o produto tem que ter sua dignidade. E isso é o que importa. Se você quiser fazer o seu Xogum. Mas ainda é preciso definir. MARCOS . eu posso dizer: estruturalmente. fazemos. GARCÍA MÁRQUEZ . afinal.Tem tudo. Marcos? Já acredita nela? GARCÍA MÁRQUEZ . o hino. não tem grandes fissuras. Uma coisa. se for assim. como se todos tivessem que ter a a mesma pegada de um peso-pesado. mas no final a gente consegue. O que sempre serve é a procura. um dinheiro que não é nem para o nosso bolso. pode ou não servir -.. VICTORIA . ponha mãos à obra que você acaba alcançando com com ela. se você não acha que pode fazer com ela o filme da 119 . como no boxe. GLÓRIA . algo digno de Cidadão Kane. Eu acho que tem. Se para você uma idéia como a de Cídadão Kane é realmente mente atraente. GARCÍA MÁRQUEZ .Eu me preocupo com o seguinte: que você encontre falhas na história. Dentro do relato é preciso estabelecer categorias. Eu sei o que posso fazer com ela. no nosso caso. Forma parte da busca. Marcos. E verdade que não estamos elaborando o roteiro de Xogum. que eu disse que esta história não sirva.. do mesmo jeito que um pesopesado. polir. GARCÍA MÁRQUEZ . Agora. Vai ser um pouquinho mais difícil. Para sair lutando com dignidade. o time de futehol.Ou seja.que. tudo bem.Estamos fazendo uma diversão para televisão para ganhar dinheiro. e consiga identificá-las..

claro. de Orson Welles. porque se empacamos aqui. Se bem que poderia ser de uma hora. MARCOS. em compensação. Você vai para o seu quarto. e que de repente aqui.Pois eu.. me salvei. O personagem feminino é da Jeanne Moreau. e não conseguia parar de repetir: “Eu me danei.Eu garanto que sim. Senti que o meu mundo caía. você pode se dar por satisfeito. descansa. ouve um pouco de música.. Eu me sinto profundamente satisfeito com o nosso trabalho. numa ilha do Caribe”. meu problema já não é com a história: agora..Tudo bem. desses que costumam ser muito críticos.”. GARCÍA MÁRQUEZ .Só que eu acho que estou vendo na sua cara uma sombra de dúvida.. Tomara que não seja a chave deste filme. e eles me disseram: “Parabéns.. ROBERTO .. no Caribe.. não é um grande livro”. meu primeiro romance. Pensava: “Agora sim me danei. primeiro romance é um grande romance”. É verdade que a aventura com o argentino não é essencial.Uma espécie de Rosebud? GARCÍA MÁRQUEZ . me danei. dei os originais a vários amigos. MARCOS . porque se apressaram a acrescentar: “Nenhum. Sofri uma desilusão tremenda. falta alguma coisa no ponto número catorze. GARCÍA MÁRQUEZ . GLÓRIA . Isso faz que esta estrutura seja muito vulnerável. em se tratando do seu primeiro filme.. 120 .. é boa. A seqüência está aqui mas incompleta. ao mesmo tempo. VICTORIA . no filme da minha vida.Eu acho que para os efeitos do roteiro não devemos esquecer ou desprezar a proposta original: “Uma psicóloga que nunca teve um caso de amor de repente acaba tendo dois. nesta escaleta. que nesta história há muitos elementos que eu incluiria. MARCOS .sua vida. sem dúvida. mas não deixa de ser interessante o fato de que ela nunca encontrasse em seu país o príncipe encantado. Vamos dar um tempo.. mas. Veja bem. pensa no assunto e depois a gente conversa. é com você. GARCÍA MÁRQUEZ . Devem ter notado alguma coisa no meu rosto.Entâo.. como A História Imortal..O filme da sua vida não vai ser de meia hora. Sou incapaz de escrever alguma coisa melhor do que esse livro”. viva sua aventura com esse sujeito e. nunca saberíamos a razão de. Quando eu terminei O Veneno da Madrugada.Estou vendo que aqui. MARCOS . Vocês viram esse filme? Um filme tremendo! É a história de um marinheiro que volta para casa.Não há quem consiga tirar da minha cabeça que alguma coisa muito importante escapou da nossa análise.

Dentro dessa estrutura..Se conseguirmos encontrar uma boa estrutura.. era sua própria màe... “a peste acabará”. mas o encarregado de cumprir a ordem ficou com pena e desobedeceu. a cavalo dado. mas enfim. com quem havia se casado. num mundo tão diferente do seu. como a Tebas. Aliás. Vocês lembram da história de Édipo Rei? Édipo é um pobre coitado que vai por uma estrada.se reconcilie com seu país. filho do rei. No final. Édipo começa a investigar e acaba notando várias coisas: que ele era o herdeiro natural do trono de Tebas.No Caribe.Por que não recapitulamns sobre nossa proposta de estrutura? 121 . que perdera o marido. teu antecessor”. MARCOS . meu caro. acabaria matando o pai e casando com a mãe. e veja onde já estamos: num legítimo tango. Para impedir que a profecia fosse cumprida. a gente pode colocar o que quiser. DENISE .Vou estudar cuidadosamente a estrutura. daqui em diante. podemos discuti-la depois.. ela encontra o amor. Na verdade. De verdade! SOCORRO . que um dos supostos ladrões que ele matou era. para ela. Um homem é nomeado prefeito de uma cidadezinha. será como o tango: “Não haverá mais penas nem esquecimentos”. sem nenhuma trinca. Segundo essa previsão. e que a rainha. é exatamente o que pretendo fazer no roteiro de um filme que irá se chamar Édipo Prefeito. suas contradições sejam resolvidas: não deixa de ser uma metáfora atraente. MARCOS .Pode até ser que a gente não tenha acrescentado grande coisa.. que existia desde a época em que Edipo nasceu. Édipo vira rei. vaticina a pitonisa. Uma peste desaba sobre Tebas. e Édipo vai consultar a pitonisa. na verdade.. o homem descobre que ele mesmo é a causa da violência que tenta combater. Que aqui. é isso que vem sendo feito há quatrocentos e cinquênta anos.Mas eu não estou me queixando.No Caribe. mas também do lado de casa.. na Colômbia. Quando chega a Tebas.. O que vocês acham disso? É uma estrutura perfeita. aquele menino. seu pai. sem altos e baixos.Vamos supor que. O que mais você quer.. “Quando se descobrir quem matou o rei. GLÓRIA . Marcos? Veja só: você chegou aqui com uma mulher que vê um helicóptero descendo enquanto toma sol numa piscina. seu próprio pai havia mandado matá-lo. GARCÍA MÁRQUEZ . é premiado: se casa com a rainha. MARCOS . Se eu encontrar alguma falha. Uns ladrões o assaltam. na pessoa do seu vizinho. Édipo mata os ladrões. para que tente acabar com a violência. o resto a gente resolve fácil. GARCÍA MÁRQUEZ . Desta forma ele cumpria um agouro da pitonisa.

Mas há coisas que despertaram rejeição e outras que despertaram consenso.e que nós chamamos aqui de sua capitulação. ela estava indo para a matinée. e vemos chegar o carrinho com o churrasco. isso não se discute.. porque faz parte do nosso jogo. por telefone.Continuamos com medo de que existam fios soltos. e uma noite de gala.Seja como for. iria parar na cozinha. Temos aqui uma estrutura. uma idéia. mudar de hotel e. SOCORRO . REYNALDO .. DENISE .Isso nos obrigaria a refazer a escaleta inteira. É verdade que a estrutura não é a história. 122 .O grande problema parece estar entre os pontos treze e catorze: a decisão de ela ir à festa . O que não ficou claro para mim foi a proposta da montagem paralela. Podemos até fazer uma tentativa. ela. Por exemplo. e o esquartejamento. O convite que levou era para a noite de gala.A festa poderia ter duas 'etapas' . É uma operação de brain-storming aplicada a uma história.Ou seja.Sobre isso. tentanto fugir.Depois. o diálogo na frente do espelho. CECÍLIA . Marcos: agora. MANOLO . ELID . saímos ao corredor. e a de abrir mão do argentino. por outro.Muito bem. do argentino. e de noite seria papado no jantar. onde toma um comprimido para dormir. O touro desfilaria na matinée. em seu quarto. com o diálogo dela com a paciente.. no momento em que ela estava querendo descer para tentar escapar. por um lado. sua desistência. está tentando. as ações e os tempos. CECÍLIA . e fica adormecida ou semi-adormecida. a idéia de tirá-la do hotel. é preciso ver como se cruzam. REYNALDO . Se trocarmos agora essa estrutura.Ele mesmo levou o convite ao quarto da mulher. não sobraria pedra sobre pedra. aí..Naquele momento. você tem de começar a trabalhar. A Oficina é um jogo no qual estudamos a dinâmica de grupo aplicada à produção artística. mas é o que impede que a história se esparrame ou perca o rumo. o touro estaria desfilando enquanto ela. com tudo que acontece depois. não houve nem deixou de haver consenso.uma matinée.Havia um convite anterior.. onde já começaram a esquartejar o touro. GARCÍA MÁRQUEZ . DENISE . REYNALDO ... para facilitar a elipse.. vendo pela televisão a entrevista do argentino.e a chegada a festa. CECÍLIA .. ROBERTO . além disso. Ela sobe ao quarto.E em seguida acontece a reflexão. sua rendição .

qualquer coisa que possa chegar a se converter num filme. o cinema . que não pode ser feito por um romancista. se dissermos a nós mesmos: “É perfeita. O que o cinema atual necessita é encontrar esse pobre coitado que um dia começa a imaginar uma mulher frustrada que está tomando sol ao lado da piscina e de repente vê aparecer um helicóptero. Olha seus documentos e. e a habilidade de cada um. João mal crê no que vê. é agora um homem de vinte e cinco anos. E então vemos como. superestimar o tralho do roterista. vê um jovem. não basta. em todo mundo. Naquele momento o garçom traz a bebida. João bebe..Ele mesmo. Quantos terão imaginado essa cena. a cultura. câmera na mão. a experiência. Isso é o que costuma ser chamado de trabalho em equipe. realmente. como era quarenta anos antes. para começar a 'escrever' seu filme ali. mas com quarenta anos a menos. No dia em que as sombras alcançarem você. e a faísca. um trabalho técnico. com a idade que tinha quando entrou na cadeia. talvez. só com isso. Nada disso: é ele mesmo. Um trabalho. Oficinas como esta são feitas para quem não pensa assim. completamente diferente? ROBERTO ..nem mesmo na técnica do roteiro. A gente se sente tentado a dizer que sem roteiristas não há cinema . todos esses elementos vão se encaixando e se completando mutuamente. cinema argumental -. pensativo. Aqui nos conhecemos mutuamente. não vou discuti-la com ninguém”. 123 . não está na técnica . E hoje a grande falha no cinema. não haverá filmes. Será que alguma vez haverá um diretor que vá para a rua.repito. achando que havia algum jovem atrás dele. em que aspectos o talento se manifesta melhor. na frente dos atores? Seria um grande dia para o cinema.ou pelo menos o cinema de ficção estará submetido à literatura. João fica atônito. não sabe o que dizer. volto para buscá-lo”. qual a corda de cada um que vibra. em boa medida. e sim na falta de idéias originais. que é. Claro que. Agora. sabemos como pensa cada um de nós. Não é qualquer um que tem uma idéia dessas.. aliás. Sem essa base literária mais estreita que ela seja. porque o trabalho de escrever romances é absolutamente pessoal. Mas enquanto for preciso escrever um roteiro para rodar um filme.Ele mesmo. não tem mais do que vinte e cinco anos. e murmura: “Aceito”. surpreso. ou outra pessoa.uma imagem. pela data de nascimento e pela fotografia. Quando torna a se olhar no espelho. mas isso seria. através do debate. como num quebra-cabeças. e ficaram nisso? A idéia morre ao nascer. não vou mostrá-la a ninguém.. que poderíamos dizer que é uma técnica criadora -. com helicóptero e até touro. Gira a cabeça. VICTORIA .

VICTORIA . porque é raro que um grande empresário mande chamar um operário. ao ver o nome de João na lista nome e sobrenome .. que vai garantir a João um emprego estável na sua empresa. Estão despedindo muitos operários.uns setenta anos mas para João seus traços são inconfundíveis. ainda mais um recém-contratado. consulta velhos jornais locais. porque João inclusive se parece muito com o seu amigo.Uma fábrica de quê? ROBERTO . “São lembranças da minha juventude em xis”. do assalto a um banco. VICTORIA . se hospeda numa pensão humilde.ou da empresa que é dona da fábrica . o reconhece imediatamente. E um belo dia.decidiu falar com ele. ao ver o empresário. ROBERTO . explica que mandou chamá-lo porque João tem o mesmo nome e o mesmo sobrenome de um velho amigo seu. O homem tem mais ou menos a mesma idade verdadeira do João . e foi preciso reforçar a linha de montagem.Mas reconheceu o velho. E a idade do velho corresponde aos cálculos de João.Mas se estão mandando gente embora...manda chamá-lo.. Controla seus nervos.Passam-se os dias e João não consegue se conter: Aproveita e vai a Bonaire. Aquilo tudo acaba virando um capricho do velho ou uma história curiosa. talvez porque tenha pensado nele . sua cidade natal.. João se despede sem revelar a verdadeira identidade. que ele não vê desde que era muito jovem. Num deles há a notícia de um roubo. SOCORRO . sorridente. em homenagem ao seu falecido amigo .De relógios. o dono da fábrica . Lá.uma figura destacada na cidade . e de que um juiz . O empresário quer que o jovem saiba. feito por três indivíduos. A fábrica havia recebido um pedido urgente de relógios. e o empresário.Era um contrato de trabalhador temporário.João sai do bar. a duras penas. porque o desemprego é grande. e podemos até chamar a cidade de Bonaire. O empresário.tinha sido 124 ..ele acha que o amigo morreu -. dentro de si. Diz que acha curioso. João trata de se dominar: Ouve. a voz cavernosa da Morte: “Esqueça o passado”. quando tinha a sua idade. então ficaria assim: “São lembranças da minha juventude em Bonaire”. e começa a buscar trabalho nas vizinhanças. “de uma época na qual você ainda não havia nascido. A verdade é que o jovem João. como foi que contrataram o João? ROBERTO . Todo mundo estranha. diz o velho.”. mas finalmente começa a trabalhar como operário numa fábrica.ou no jovem que aquele homem tinha sido durante anos e anos. diz ele. Tem que fazer filas enormes durante muitos dias. na biblioteca.

Eu imagino esta seqüência como um pesadelo: o bar está cheio de gente. Agora.Não obedece à Morte. Deixa que o outro beba e fale pelos cotovelos.Ele acabou sendo o único culpado. vai sendo promovido na fábrica ou na empresa. Pedem uma garrafa e o empresário começa a beber sem moderação.Por que João tem de ir a Bonaire para conseguir essa informação. João mal prova a bebida.morto no assalto. sem família. Quer descobrir o que aconteceu com seus dois cúmplices e. uma atrás da outra. sobretudo.Não é que ele perdeu a memória. João. com a simpatia do empresário. SOCORRO .Mas o espelho não tinha dito para ele esquecer o passado? ROBERTO .não podia garantir qual dos dois. VICTORIA .Foi preso e não soube o destino dos seus cúmplices.. ao ouvir o homem perguntar o que um homem que teria traído um amigo. diz. durante o assalto.. o mesmo onde sua metamorfose ocorreu. que lembra tanto seu companheiro de juventude. ROBERTO . que o empresário se dirige justamente ao bar dos espelhos. e nada mais. A culpa dessa morte caiu em cima dele. tem muita experiência embora ninguém pudesse imaginar . com surpresa. e convida João a sair com ele. ele não soube mais absolutamente nada do que tinha acontecido. Só sabe que não foi ele quem atirou. Ninguém mandou notícias para a cadeia. além disso.João é um bom trabalhador. “ Vamos tomar alguma coisa”. o empresário bebendo e falando. as imagens duplicando-se nos espelhos. E de repente João. Assim. mas não consegue esquecer. Gloria . VICTORIA . Um belo dia o empresário manda chamá-lo. é que ele não sabe mesmo. Na realidade. GARCÍA MÁRQUEZ . Na verdade.A partir do momento em que foi preso. do crime que o condenou injustamente. mostrando-se muito interessado. incita o outro a falar. João e ele saem e nosso percebe. informa que está satisfeito com seu trabalho. destruído a 125 . Os cúmplices desapareceram sem deixar pistas. E isso é grave. GARCÍA MÁRQUEZ . Os outros dois fugiram e nunca mais se soube deles. Era um homem sozinho. ROBERTO . embora ele soubesse muito bem que o tiro tinha sido dado por um dos cúmplices .e agora conta.não consegue viver com seu remorso e quer se redimir através daquele jovem. quer saber. até chegar a ter um posto importante. o empresário .Aí é que está o problema: ele quer. é quem atirou no juiz . um ruído infernal.vocês já devem ter adivinhado que é o verdadeiro culpado. o que se falou da morte do juiz.

apavorado. e em seguida. O empresário se apoia numa cadeira. João rompeu o pacto.Eu não acredito. poderia fazer para se redimir .é um filme de vingança. mas porque nesta história tem tudo a ver com o Tempo. E quando o empresário entra. e a primeira coisa que faz é romper o pacto.Aí existe uma contradição insolúvel: João pede à Morte outra oportunidade. alguns dias mais tarde. mortalmente ferido. ROBERTO .O problema é contar isso tudo em meia hora. GARCÍA MÁRQUEZ . que encontrou em Bonaire – e começa a olhar para elas. acho que já expliquei: o empresário. Assim.Morre? Por quê? ROBERTO. o rosto do seu amigo. o velho amigo que ele achava que tinha morrido na cadeia? No momento em que empresário morre.. João já tirou um revólver e começou a disparar. porque o que fez é imperdoável”. e João se senta na frente dele e olha sem dizer nada.A maneira como João consegue trabalhar e vai sendo promovido é curiosa.Porque a Morte veio buscá-lo.Bem. que esse filme possa ter só meia hora. Pode ser que tenha trabalhado na cadeia consertando relógios. Não seria assim. na atualidade. tem. Dá na mesma.É um filme estranho. porque tem a 126 .vida do amigo para sempre. diz João. vamos ver.Ele é um operário qualificado. embora não entenda nada. e quero dizer que não escolhi uma fábrica de relógios ao acaso.. porque tem uma coisa muito importante para mostrar.dos jornais velhos. a cara de João começa a se cobrir de rugas e seus cabelos vão embranquecendo.. as fotocópias. “Nada”.João suspeitava. e percebe tudo. SOCORRO .. começa a trabalhar. ROBERTO . De repente.João tenta esquecer tudo. ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . mas precisava ter certeza. SOCORRO. VICTORIA . quando fica sozinho em seu escritório. João morre junto. algemado.Eu acho que pode. GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO . João liga para o empresário pedindo que por favor dê uma passada na sua sala. sendo levado para a cadeia.. Mas o destino o coloca de novo cara a cara com seu passado.. ROBERTO . O empresário olha aquele rosto. vê a parede empapelada pelos recortes. tira da gaveta da escrivaninha umas cópias .Agora. uma por uma. GLÓRIA . fala de outra. ROBERTO . ROBERTO. O filme começa falando de uma coisa. Há uma fotocópia onde o próprio João aparece. E em relação à promoção. “Não pode fazer nada.

REYNALDO .. Num minuto ele percorre todo o trajeto. de um modo muito simples como se dá o processo de aprendizagem: através da postura do menino.Os filmes para televisão têm que ser muito movidos. tem um jeito meio insólito. e entre elas estão os recortes. claro. jogá-los no lixo. ele já tem os recortes de jornal em seu poder.Eu admito que o filme.. depois que tivermos uma estrutura que nos permita contar a história em meia hora. depois com mais soltura. como o próprio mestre.Então.Por que não começamos por limpar o caminho? Podemos suprimir a peripécia da viagem a Bonaire. É preciso encontrar o tom adequado.A culpa clássica.consciência culpada. Carrega um embrulho com suas poucas coisas. da maneira como se senta. Quando se hospeda na pensão . que a gente use um narrador em off. Um erro grave. Eles são o seu passado. ROBERTO . REYNALDO . Eu creio que para resolver esse processo não é preciso recorrer a nenhum narrador. sua vida mudou radicalmente . depois com elegância. quando João vai consultar os jornais locais. GARCÍA MÁRQUEZ . que se comprometeu a apagar da memória.já é jovem. os espectadores fazem zapping: mudam de canal. Podemos resolvê-lo visualmente... REYNALDO . Portanto. o filme só teria cinco minutos. VICTORIA . Começa a subir na escala social. E aí vemos. João podia morrer por lá.Mas a vida costuma debochar das nossas previsões: o jovem João acaba sendo um cara de sorte. do fundo até o alto... ROBERTO . Lembro de um menino que queria aprender judô e se aproxima. decide rasgá-los. favorece João.Vai ser difícil contar em meia hora a história dessa ascensão meteórica.. depois com arrogância e finalmente com uma grande dignidade.Mas é assim que João começa a romper seu pacto com a Morte. com muita rigidez.. A menos. O mestre concorda em aceitá-lo como discípulo. Acho que só vamos saber exatamente o que acontece. No começo. e é então que vê aqueles papéis amarelados. ou pode acontecer. dobra tudo com cuidado e guarda numa gaveta. com muito empenho.Deveríamos tentar elaborar uma estrutura.João pode sair da cadeia com os recortes.tira suas coisas do pacote. Podemos estabelecer isso como um fato consumado. porque se não forem assim. do velho mestre. para colocá-las no armário. mas vacila. GLÓRIA . Devo 127 . Sua viagem é uma viagem ao passado. uma coisa que João precisa esquecer. ROBERTO .. através de uma simples sucessão de imagens. GARCÍA MÁRQUEZ .. o erro fatal de todas as tragédias. ou seja.

.João está começando a trabalhar nessa fábrica de relógios. mas isso é um disfarce: sua memória e seu caráter continuam intactos. não deixar que as sombras o alcancem. é a idade do personagem. ROBERTO . de haver perdido a vida na cadeia. GARCÍA MÁRQUEZ .. em compensação. alguma coisa acontece.. ROBERTO . Poderíamos facilitar muito se João tivesse ruminado sua vingança na cadeia.. ROBERTO . 128 .Ou é a Morte que põe a armadilha para ele. esquecer o passado. O tempo passou.Nem pensava nisso. O que atormenta João é o fato de ser um velho. por um amigo. esperando. um tempo real. o que tinha acontecido com seus cúmplices? Não podia ficar sabendo pelos jornais? ROBERTO . só dispomos de meia hora para contar essa vida.. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . Ele faria qualquer coisa para recuperar esses anos. porque ninguém pode fugir das próprias sombras... Mas elas o alcançam.. Põe uma armadilha para a Morte.Eu posso trazer outra história. inclusive para ele. acontecem coisas tremendas.João tenta mudar. ROBERTO .Então. João está vivendo.Seu objetivo não é a vingança. durante esses anos todos. Por isso quer voltar no tempo. o verdadeiro culpado. não é assim. na cadeia. Ele volta a ter o aspecto de um jovem.. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . mas em espaços de tempo longos demais. Ou melhor. com quarenta anos a menos. GLÓRIA.Mas aqui não é o tempo que reverte.. Por isso continuamos ali.. Minha única preocupação é que. GARCÍA MÁRQUEZ . GLÓRIA . ROBERTO .Na história do preso. que já passou para todo mundo..Nos filmes americanos está sempre acontecendo alguma coisa. Nós não vamos desistir desta assim tão fácil: é um desafio que temos de enfrentar.A técnica da telenovela.Ele não cumpre a sua parte no acordo.reconhecer que me dá um trabalho enorme imaginar o movimento contínuo. Em cada seqüência.Não.E durante quarenta anos João nunca tentou saber.E o que o jornais sabiam? O único culpado foi ele. é diferente: não acontece nada. será que ele suspeitava que a fábrica é do seu antigo cúmplice? ROBERTO . quer viver outra vida. e ao sair fosse diretamente buscar seu cúmplice. ter outra oportunidade. mas a gente sempre acaba com a impressão de que alguma coisa está quase acontecendo. exceto no que diz respeito ao seu aspecto físico.

Isso não está bem resolvido.e se impõe. nem nada. É como no jogo de xadrez. uma história que precisa ser contada num longa-metragem. ROBERTO . eu me sinto livre para fazer o que bem entender. GARCÍA MÁRQUEZ . O que interessa é nós acreditarmos nela. GARCÍA MÁRQUEZ .. Cuahtémoc Ortodoxus.E deixaram João apodrecendo na cadeia. Você pode fazer o que quiser. SOCORRO .é a maneira pela qual o empresário fica sabendo que o tal João trabalha para ele.Você está inquieto por causa do primeiro encontro de João com o empresário. GARCÍA MÁRQUEZ .Eles sumiram.. a peça não pode mais se mover de outro modo. e eu pego. Tudo acontece como num sonho. por um crime que não cometeu. E eu não consigo acreditar no que ROBERTO conta.admito .. Talvez eu esteja tentando contar.Uma condenação dessas. ou Pirilampo 129 . A única coisa em que acredito é o mais inacreditável de tudo. SOCORRO . Porque o assalto ao banco não poderia justificar uma condenação desse tamanho.Que amigos? Fora os cúmplices. e pede para conhecêlo. E nesse processo devem ter saído nomes. A partir daí. João não tinha amigos. quando faz que as coisas aconteçam assim com facilidade. misturados com outros cinqüenta numa listas de demissões.João não abriu a boca. que é quase de prisão perpétua.E a polícia nunca chegou a eles? ROBERTO . É pegar ou largar. sei lá. Por que o bispo se move de lado? Porque foi combinado e aceito assim.Pois a partir daí. nem parentes. o trabalhador teria de se chamar. ou seja. a transformação de João num jovem de vinte e cinco anos. sem oposição nem resistência será que é isso mesmo. ROBERTO .O que acho uma falha . ROBERTO .Não. A terra engoliu. pistas.. antes mesmo de começarmos a jogar. em meia hora.. SOCORRO..ROBERTO. Ele se negou a delatar os cúmplices. mas dentro da lógica que você mesmo impõe . tem que ter sido resultado de um longo processo judicial.Não. um sonho? ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . Para que o dono da fábrica ou o gerente de uma grande empresa reconheça o nome de um de seus trabalhadores.Não interessa se a história é ou não é inacreditável.Eu acho que você está se mostrando indulgente demais com você mesmo. E com toda razão.

A iniciativa deve ser do empresário. isso mesmo”.Ele só percebe no fim.João gosto de João matar o empresário. ROBERTO . nesses casos? A criação é assim. ROBERTO . nem acontecer por causa de uma decisão de João. ele vem. Como este mundo é pequeno!. ROBERTO .João não pode deixar que o culpado morra: precisa matá-lo. são os nomes do meu avô. GARCÍA MÁRQUEZ .O seu coração explode. como podemos ver.Porque então vê o verdadeiro rosto de João. sinto muito”.O empresário nunca suspeita quem João é de verdade? ROBERTO . quando morre. E diz: “E o que foi feito do avô?”. Se você apela para um recurso tão extraordinário como a mudança de idade.Mas não é o que todo mundo faz..Eu acho que os detalhes dessa história são convincentes. e. Eu me chamo como ele”. ou a implicação dos escritórios da empresa. sem vacilar: “Ah!. primeiro. GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO . O empresário fica parado de susto. Como em O Retrato de Dorian Gray. “Morreu na cadeia”.não em primeiro lugar -. REYNALDO .. ROBERTO ..Mas precisa ser convincente. Uma redenção impossível. GARCÍA MÁRQUEZ . ao ver o verdadeiro rosto de Dorian Gray.Mas para consumar sua vingança.Mas o encontro deles não deve ser casual. de seus fantasmas . responde João. 130 . e sim a história de uma redenção. segundo – uma conclusão derivada disso -. que João não consegue fugir de seu passado.. que quando era jovem morava em Bonaire?”.Mas você está fazendo isso de um modo muito peculiar: manobrando para que tudo se adapte aos seus propósitos. por que não o utiliza depois em algo que valha pena? ROBERTO . O empresário deve morrer de susto. pensa. não precisa ser um jovem. senhor. “Sim. GARCÍA MÁRQUEZ .. SOCORRO . na presença do empresário. Eu não queria contar a história de uma vingança . E pode dizer ao empresário: “Sim. SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ .Quando o empresário manda buscar o João.. ao perceber o que aconteceu. O empresário insiste: “Você é neto de João Cabral. senhor. que ninguém pode fugir de suas próprias sombras. e os trabalhadores forem convidados para um brinde.Se for inaugurada uma nova seção da fábrica.Praxedes. embora queira.Eu o utilizo para demonstrar.

Podiam ter mandado algum recado.. É a história de Edmundo Dantés.”.E ajuda mesmo.diz o empresário...“Sou Edmundo Dantés”. REYNALDO . quer dizer que o roubo aconteceu? Nesse caso é preciso haver em João algum desejo de vingança. Os outros dois fugiram com o dinheiro roubado e ficaram com a parte de João. O culpado não poderia ter sido o outro. indo visitá-lo? ROBERTO . SOCORRO .E que.Durante quarenta anos. o terceiro? ROBERTO . dentro da empresa. existe o fator dinheiro. mas por ter deixado que seu amigo apodrecesse na cadeia.Existe a possibilidade de que o empresário se sinta culpado. Mas o que João descobre agora é.. Se três camaradas cometem um delito e um deles é preso e se nega a delatar os outros. Teve tempo para pensar nisso. E fica sabendo porque o próprio empresário confessa. Quer se vingar.. ROBERTO . como é que eles vão se delatar. como em O Conde de Montecristo. GLÓRIA . nós fomos grandes amigos . e ajuda tanto que João se transforma. GARCÍA MÁRQUEZ .Então. eu vou ajudar você. REYNALDO . Ele não encontra o empresário por acaso: levou quarenta anos acariciando a idéia desse encontro. em um personagem. não por ter matado o juiz e deixado que seu amigo fosse condenado. 131 . SOCORRO . que foi o empresário quem atirou. GARCÍA MÁRQUEZ .Poderia.Mas os assaltantes eram três. Isso é algo que não se diz: se deixa subentendido. SOCORRO . justamente.Estou preocupado com uma coisa: a culpa do empresário é ter matado o juiz? Ele também não é culpado por ter abandonado seu amigo na cadeia? ROBERTO . Eu sou João Cabral”.Sua culpa é ter deixado que botassem em João a culpa da morte do juiz. E é então que chama o seu benfeitor e diz a verdade: “Eu não sou neto de João Cabral.. e que ele fosse condenado por esse crime. REYNALDO . Além disso.O outro cúmplice desapareceu. por outro lado. REYNALDO .Dá a entender. Nunca mais se soube dele. tudo isso é lógico. João? Em nome da amizade que me unia ao seu avô.E aí mesmo o empresário poderia acrescentar: “ Quer saber de uma coisa. sem nem ir visitá-lo. “Antes que esse incidente lamentável acontecesse.

e vou defender esta história até o fim. depois que acontece o que supostamente tinha de acontecer.. melhor para o nosso trabalho. ou melhor.Estou dizendo isso porque sou cabeça-dura. ele escolheu justamente essa..Eu proponho que a fábrica tenha o nome do empresário: 'Juan 132 . ou não vai sair daqui à uma e dez da tarde..Não escolheu: a Morte o empurrou para lá. E tem mais: repito que ele não sabe qual dos dois cúmplices matou o juiz. estão lembrando? Se a profecia não estiver cifrada.Quanto mais cabeça-dura você for. Como no caso de Édipo. portanto. a gente acaba decifrando de um jeito que não havia pensado.. Não podem ocorrer o risco de se derrotar a si mesmo.Ora. é claro. martelada a martelada.ROBERTO . Prego a prego. e a profecia. REYNALDO .É como esses enigmas que a gente acha que pode decifrar de uma forma.. veja só.. Se você acredita nas profecias e elas vaticinam que quando sair daqui. GARCÍA MÁRQUEZ . quando estiver saindo da igreja”. Faz muito tempo que penso nela. GARCÍA MÁRQUEZ . E pela Morte. um tijolo vai acertar a sua cabeça.. ROBERTO. viemos ver como se constrói uma história imaginária. fica sem comer.Mas as profecias estão cifradas para se protegerem contra o fracasso. viemos aprender a carpintaria do ofício. lendo um livro com toda tranqüilidade. ROBERTO . Mas vamos começar lixando a madeira. GARCÍA MÁRQUEZ . e na verdade são diferentes. quanto ela pode durar? Vem o próprio Nostradamus e anuncia: “No dia 27 de março você vai ser comido por um tigre. e o tigre se dana. Já que estou preso demais ao meu projeto e não conseguimos avançar. e que coincidência! No meio de todas as fábricas de São Paulo. você. não se cumprirá jamais.João não foi procurar o homem: não tem idéia de onde ele pode estar. Quem dá o primeiro passo? MARCOS . só para colocálo à prova. acho que é melhor eu trazer outra idéia. nós não viemos fazer obras-primas. A gente só 'decifra' com exatidão as profecias depois que elas se cumprem. Aqui. REYNALDO . Você não pode nos privar do prazer de armar este móvel.. de que tipo de pessoa ele pode ser a essa altura da vida. ROBERTO .Não. à uma e dez de tarde. No dia 27 de março você fica na cama. não virá aqui hoje.Essa é a história que quero contar: a de um homem que é submetido a uma prova dura. GARCÍA MÁRQUEZ .Tenho uma proposta. para tirar os nós e as farpas.

como consegue além disso.Se vocês levarem isso em consideração. Não nego isso.. da sua raiva. Quando a Morte diz a ele “você precisa esquecer o passado”. de onde não se pode fugir porque está numa ilhota. Um ricaço pretende a moça e confabula com outros dois sujeitos para levantar uma calúnia política contra Dantés: acusam-no de bonapartista. a certa distância da costa.. consegue um disfarce tão bom quanto o de João. REYNALDO . E João inventa a armadilha. E a Morte sabia disso: é a Morte que engana João. Como Dumas realiza essa façanha? 133 . Assim. ROBERTO . uma das mais lindas do filme? GARCÍA MÁRQUEZ .O que João pede à Morte é tempo para poder consumar sua vingança. embora com um pouco mais de esforço. essa história de João pretender enganar a Morte. sim. João pode violar o pacto.Mas isso. que deverão ser passados num castelo. Voltar a viver. como Fausto. É então que o autor. e ele responde: “Viver. tirá-lo da cadeia de maneira espetacular.Ah. Alexandre Dumas. João ao sair da cadeia. Vocês conhecem o romance. uma antiga fortaleza transformada em prisão. vai direto procurar trabalho lá. mas da boca para fora.. faz uma das coisas mais extraordinárias da história da literatura. ele concorda.Uma coisa é violar o pacto. O pobre marinheiro é julgado e condenado a muitos anos de cadeia. Sem forçar nenhum elemento da realidade. não é? Dantés é um jovem marinheiro que tem uma namorada em Marselha. sem encomendar-se a Deus nem a Diabo. mas depois.Edmundo Dantés. Mas não consegue. GARCÍA MÁRQUEZ . A Morte pergunta: “O que você quer na realidade: viver ou se vingar?”.João vendeu a alma ao Diabo.. Arma o truque. mas Roberto não pode violar as regras.Você está propondo que a gente elimine a seqüência do bar. GARCÍA MÁRQUEZ . outra é violar as regras do jogo..Tem uma coisa que a gente precisa saber: Você admite. VICTORIA . a Morte não vai conceder. por exemplo. Nesse momento o espectador não notaria nada. não só consegue transformar esse pobre marinheiro num homem sábio e fabulosamente rico. que vai se livrar da sua frustração. que nisso tudo é preciso que um sentimento de vingança esteja em jogo..Perez Sociedade Anônima'. ficarei agradecido: João é sincero quando promete esquecer tudo..Não deixa de ser interessante. mesmo de maneira inconsciente? ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO . Ele acha sinceramente que vai começar uma vida nova. Roberto. ROBERTO ..

. com uma pena de cinqüenta anos nas costas. Um marinheiro sabe nadar e fazer e desfazer nós. forja sua nova identidade. tentam.. os carcereiros metem o cadáver num saco e jogam no mar. Você sabe que aqui. é mais difícil fazer tudo isso que convencer a Morte a rebaixar a idade de alguém. levando uma faca. e não saiu. E como conde. E quando sentir que caiu na água. Suponho que era para deixar estabelecida sua familiaridade com o mar. faltam dois. segue suas instruções ao pé da letra. Quando eu morrer esconde meu corpo no túnel e entra no saco. do outro lado da parede. GARCÍA MÁRQUEZ . a qualquer preço. O que me resta de vida não seria suficiente para você é jovem e forte. Um dia Dantés sente.. que alguém. é impossível começar de novo. da torre do castelo. é o Conde de Montecristo... quando alguém morre. E nenhum dos culpados o reconhece: qual deles. vou dar o mapa de um tesouro que está enterrado na ilha de Montecristo. Vai até a ilha de Montecristo. Começa a fazer a mesma coisa e pouco depois. O resto do romance é isso: ele se vinga do primeiro. Dantés se encontra com o abade Faria. Agora. anos atrás. “Fiz um cálculo equivocado”. está cavando. Na minha idade. Conhece o segredo de um grande tesouro e está armando a própria fuga.. e quando o velho morre. rico e sábio”. E se Dumas conseguiu fazer. o abade Faria.Muito simples: cria outro personagem. Dantés aprende tudo o abade ensina durante aqueles anos... e não se afoga. se transformar em seus amigos. E isso é o que torna a fuga de Dantés acreditável. e o mete na prisão. no mais absoluto segredo. Ele é jogado ao mar. Ou seja. poderoso. magnatas habituados ao poder vai se lembrar daquele pobre marinheiro que.Podemos averiguar. falta um. e vou ensinar a você que eu sei. através do túnel que os dois fizeram.. Eu sempre me perguntei por que Dumas havia dado ao seu personagem o ofício de marinheiro. Que maravilha! O conde de Montecristo sai do anonimato para se vingar dos três que armaram contra ele. na sua cela. “Achei que o túnel ia sair em tal lugar.. O que vocês acham disso? Do ponto de vista da condição dramática. Dumas mete na cadeia um marinheiro pobre e semi-analfabeto. O 134 . e pouco depois o tira de lá transformado em homem rico. se vinga do segundo. abre o saco usando a faca. numa cela separada. O abade Faria é um ancião conspirador e um sábio. desenterra o tesouro e. diz o velho. fizeram prender? Quando ficam sabendo da existência do Conde do Montecristo.. enfiado num saco. por que a gente não conseguiria? REYNALDO . sábio. põe em ação o mecanismo da vingança.. Além disso. orientar-se pela água. nada até a costa e escapa. Assim voc6e poderá desfrutar da sua nova condição de homem livre.Seria bom saber em que consiste o segredo.

não caberia em meia hora. E.É a lei do crime. mas com o propósito secreto de enganar a Morte. se identifica.Não podemos alterar a natureza da história. Além do mais. porque o culpado é amigo e cúmplice do acusado. Dos dois dramas. em outra situação. que ele aceite e esqueça realmente o passado. ROBERTO .Se mudarmos o nome. VICTORIA . mas que ao encontrar o culpado. que aceite de coração. Os sujeitos caem de costas.Ao sair da cadeia. o material que temos. não possa se conter e rompa a promessa. está livre porque seu amigo não delatou à polícia .Coisa. João. Mas na história de João a coisa muda. o culpado. GARCÍA MÁRQUEZ . Mas eu digo que. ROBERTO .. o empresário não teria esquecido de João nem por um minuto. Principalmente. porque mudou de idade. Não me interessa o drama do empresário. três. SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ . de Edmundo para João. e aí não temos vingança nem filme. Ninguém reconhece Dantés porque ele mudou de personalidade. Para eles.Essa última é justamente a minha idéia.Em termos de construção dramática. sabe que ele. O que eu quero ressaltar é o seguinte: se você admite. ROBERTO .. GARCÍA MÁRQUEZ . Aliás. Os duros não delatam seus cúmplices..Isso é muito bom. decidisse persegui-lo? O jovem sentiria a iminência do perigo.Bem. não pode tirar o personagem da cadeia para deixá-lo flutuando. existe uma grande diferença entre a história de Edmundo Dantés e a de João Cabral.. Quer saber o que aconteceu. o pobre marinheiro é um ser insignificante e inofensivo: não há por que se preocupar com ele. mas tem um defeito: é outro filme. não há nenhuma razão para pararmos no 135 .recém-chegado está na moda na alta sociedade. A graça é poder organizar bem. Os três que caluniaram Dantés não tornam a se lembrar dele depois que o meteram preso. é difícil aceitar esse gesto de lealdade a um filho da puta do calibre do empresário.. e cada vez que o Conde arruina um deles. sabe que seu companheiro levou uma cadeia perpétua por um crime que não cometeu. GARCÍA MÁRQUEZ .São atitudes parecidas. sem mudanças substanciais. sabendo que João vai sair da cadeia. Ele tem que sair decidido a se vingar. Roberto. o do empresário é mais complexo. Duas: que faça de conta que aceita. podem acontecer duas coisas: uma. até o final. que seu filme também conta uma história de vingança. ROBERTO . “Sou Edmundo Dantés”.. GARCÍA MÁRQUEZ .. Quando a Morte põe como condição o que nós contamos . aliás. só isso. que agora é muito conveniente. João não quer vingança.que João esqueça o passado -... mas não saberia de onde ele vinha ..E se o empresário.

só você precisa saber disso. E o pacto com a Morte ficará verossímil na medida em que a gente entender que. Ali mesmo se danam todos os seus bons propósitos. para João.Perdemos aí o efeito visual dos recortes de jornal.processo que vai da saída de João da cadeia a seu encontro com o empresário. quase poderíamos apostar que João aceita o acordo só para ganhar tempo. João sabe quem é o empresário. Sua palavra de honra vai para o diabo. recuperando o tempo que perdeu. vê entrar um homem que ele reconhece como sendo seu cúmplice e suposto culpado do assassinato. O que temos que detalhar é o eixo da situação. Mas enfim.A Morte estende uma tremenda armadilha para ele. ao se comparar a ele. ROBERTO . se vê arrastado a executar a sua vingança. mas com uma condição: esquecer o passado”. ROBERTO . Seria preciso dar todos os antecedentes do caso. teria renovadas energias para cumprir seu plano.Por enquanto. não vamos ter medo das coisas. bem. Mas a Morte não faz pactos de graça.Assim. E no final.“ou começa uma vida nova. poderoso. Um belo dia. VICTORIA . “Agora você cumpre seus loucos desejos de vingança” diz a Morte .Se João saísse da prisão decidido a se vingar. admirado e homenageado por todos. vai procurar o fulano: “Eu sou João Cabral”. apesar de querer cumprir seu pacto com a Morte. a injustiça cometida fica muito mais insuportável.João não vai à fábrica do sujeito. do jeito que você diz. E um dia. ela mesma atravessa o empresário no caminho de João: é um homem rico. É contratado em outra fábrica. e a Morte diz a ele que existem dois caminhos: o esquecimento ou a vingança. Começa a pensar em como driblar a Morte. apesar de todos os seus esforços para esquecer o passado.Ele não precisa desses recortes. GARCÍA MÁRQUEZ . o espectador teria que saber a razão. GARCÍA MÁRQUEZ . voltar a ter vinte e cinco anos é a melhor das vinganças. GARCÍA MÁRQUEZ . Conhecendo como conhecemos a alma humana. além disso. só porque elas sejam mais complicadas. decide procurar trabalho na fábrica do sujeito. se encontra com a Morte. João o reconhece e. E aí se dana inteiro. porque viola o pacto. João sai da cadeia. é mais complicado. enquanto está com uma moça num restaurante. GARCÍA MÁRQUEZ . Com vinte e cinco anos. Por isso mesmo. Deixe-me fazer uma pergunta estúpida: por que a Morte concede 136 .Por isso retardei esse reconhecimento e deixei quase que para o final o momento em que João descobre a traição. O que vamos ver é como João. Depois veríamos como esses fatos podem acontecer. Agora. a pergunta seria a seguinte: a Morte deixará João seguir até o fim? ROBERTO .

injustamente. GARCÍA MÁRQUEZ . a de devolver a juventude? CECÍLIA . mas com uma condição: esqueça esse tempo”. CECÍLIA .essa graça a João. ROBERTO . ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . você quer inventar uma fábrica que responda 137 . Mas não é isso o que acontece.Eu vejo tudo isso como falhas dramatúrgicas.. ROBERTO . Tinham privado João da sua juventude. GARCÍA MÁRQUEZ . dar mais riqueza visual ao seu trabalho.se prolonga demais. porque é um universo fechado.. GARCÍA MÁRQUEZ . A partir daquele momento. por exemplo.Ah!. A Morte é justa.. se transportássemos a história ao ambiente rural. a corrente de promoções. a lista de nomes. sou um cara essencialmente urbano.Vocês acham que isso tudo é arbitrário? GARCÍA MÁRQUEZ .Para mim. ROBERTO .Eu gosto da fábrica. Vá até a fábrica tal que você vai encontrar um emprego”. O culpado seria o latifundiário.Tudo isso se simplificaria. João é um peão. reforçar o impacto da história. É um ato de justiça.Até aí.Não se deve escrever sobre o que não se conhece.Mas então. MARCOS . você é livre para escolher e é nesse jogo que você perde. mas não dá nada a troco de nada: “Eu devolvo a você o tempo perdido. a uma fazenda do nordeste. também.. ou não se sente como se fosse uma coisa pessoal.Vem a coincidência da fábrica..Eu só consigo ver é a Morte no fundo do espelho. não tem problema.João é relojoeiro. Mas. aqui. a Morte seria uma puta. não é uma fábrica estritamente realista. não sei fazer histórias rurais. ainda assim. GARCÍA MÁRQUEZ .. mais importante: como é que a vingança chega? Como..Deve ser porque tinham roubado uma parte da vida dele. ROBERTO . Poderiam parecer arbitrárias e. A pergunta não era tão estúpida como pensei.Ah. eu acho. operário qualificado na fábrica. a partir daí. a Morte concede essa graça por um sentido de justiça. ROBERTO . o que ela faz com João. A Morte faz um acordo com João respeitando sua vontade.No bar a Morte poderia dizer a João: “Eu ajudarei você a começar uma vida nova. uma condição básica nos pactos com o Diabo. Não. VICTORIA . o mecanismo da vingança funciona? Porque eu continuo pensando que a carreira de João na fábrica – ou na empresa . Além disso.Há uma pergunta que continua sem resposta: como é que João chega à fábrica? E outra.. Temos de imaginar esse ambiente.

à lógica do espelho... ROBERTO - E uma estética que responda a essa idéia. Não é uma estética fantasiosa, mas tampouco é naturalista. GLÓRIA - E para isso, uma fábrica de espelhos até que seria bom. GARCÍA MÁRQUEZ - Para que todos ficassem loucos. ROBERTO- Eu acho que o cinema não agüenta outro espelho... GARCÍA MÁRQUEZ - Seja como for, está claro que João fica preso num labirinto, numa situação que o conduz, inexoravelmente, ao empresário. ROBERTO - Ao contrário: permite ao empresário atenuar seus remorsos com João. A outra coisa seria que João se empenhasse em fugir, em se afastar o máximo possível da fábrica, e que no fim terminasse matando o empresário. GARCÍA MÁRQUEZ - Uma vez mais, a Morte em Samarra, a história de uma fatalidade. SOCORRO - E se João soubesse, desde o princípio, não só quem é o empresário, mas também que ele matou o juiz... ROBERTO - Bem, aí o filme - ou pelo menos, o filme que eu vejo - não teria sentido. CECÍLIA - Seria O Conde de Montecristo de novo. GARCÍA MÁRQUEZ - O empresário acha que a história que João conta, dizendo ser neto de seu amigo, é verdade. Tem que ser um momento impressionante, porque o empresário está vendo com seus próprios olhos, naquele jovem de vinte e cinco anos, a imagem viva de seu amigo, tal como era quando foi traído pelo próprio empresário. Para ele, o jovem João é uma aparição. Olhando bem, é como se a Morte também aparecesse para o empresário. Nesse momento, quantas perguntas não passarão pela sua cabeça? DENISE - E se João matasse o empresário sem querer, como Édipo matou o pai? SOCORRO - Consumaria a vingança sem querer - só à última hora perceberia -, e voltaria para a cadeia. A morte teria dado a ele, nesse caso, o contrário do que prometeu: um breve prazo para que pudesse se vingar. GARCÍA MÁRQUEZ - É preciso tomar cuidado, para que o essencial da historia não seja alterado. Nossa função é acrescentar idéias para que a história acabe sendo o mais coerente e atrativa possível. DENISE - Tudo parece indicar que ninguém gosta da forma em que o encontro na fábrica acontece. SOCORRO - A fábrica está bem. O que está mal é que o ex-amigo de João, seu cúmplice, o culpado pelo seu destino, seja o gerente ou o dono.

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GARCÍA MÁRQUEZ - Roberto acaba de dar uma informação nova: a fábrica foi concebida com uma ótica, como direi?, um pouquinho biruta, situada um milímetro além da realidade. Essa fábrica pode se prestar para um tratamento visual estupendo. Visual e também dramático. Nessa atmosfera, o encontro de João com o culpado deve permanecer puramente casual. Vai ver, o cara é um cliente que chega para fazer um pedido de compra, é levado para conhecer a oficina, e mostram a ele o trabalho dos operários qualificados. Nós sabíamos desde o princípio que nesse encontro não há nada de casual, e que a Morte se encarregou de organizar tudo. A Morte é melhor narradora do que a gente pensa. Não vai cometer o erro de levar João até essa fábrica, quando João sai da cadeia. Ao contrário, a Morte deixa João à vontade, solto. E João vai parar lá, do jeito que ela tinha previsto, por sua própria conta. REYNALDO - A encenação poderia ser esta: na fábrica, João sente um murmúrio às suas costas. Olha e vê a Morte, que por sua vez o está observando. A Morte, então, olha para a porta principal. Seguimos seus olhos e vemos o cliente entrando, acompanhado pelo capataz. João, claro, o vê também, e tem um palpite. “É ele”, pensa. GLÓRIA - Aí fica em evidência o papel insidioso da Morte. Ela está preparando uma armadilha para João. MANOLO - Está, simplesmente, fazendo João passar por uma prova. GARCÍA MÁRQUEZ - E o cliente, pelo menos aos olhos de João, tem um ar misterioso, alguma coisa que provoca receio. Ainda não sabemos nada do passado de João, mas de algum modo estranho associamos o recém-chegado com ele. Recordo a história do camarada que vai vai entrar num ônibus, e o chofer diz a ele: “Só tem lugar para um”. Bem, ele é um, mas o chofer falou com uma cara, e num tom, que fez com que o sujeito automaticamente desistisse de subir. O ônibus continua seu caminho e, ao dobrar uma esquina, bum!: explode. O que havia na cara do chofer; o que ele viu nela, que produziu essa recusa por parte do homem que ia entrar no ônibus? ROBERTO - Esse é o tom que eu quero dar ao filme, como se fosse de máscaras, uma brincadeira de disfarces. GARCÍA MÁRQUEZ - Se na primeira vez que João encontra o sujeito visse o camarada por um espelho... Não. Não serve. É um recurso técnico e estamos buscando outra coisa, e em outra direção. O que devemos ter em conta é que os distintos níveis da história - dramatúrgicos, técnicos, estilísticos, de tom... - têm que ser coerentes entre si. ROBERTO - Quando João, no bar, vê a Morte pela primeira vez, falando

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com ele do fundo do espelho, o espectador não deve saber se se trata de uma alucinação ou de algo real. Essa imagem é impactante, e acho que devemos mostrá-la mais uma vez. GARCÍA MÁRQUEZ - Sua identidade deve ficar bem estabelecida. Que todo mundo saiba que é a Morte. Se você pudesse apresentá-la na forma do esqueleto com sua foice na mão, melhor. ROBERTO - A imagem da Morte é uma leve deformação da do próprio João. REYNALDO - “Somos nós mesmos a nossa própria morte”... Quevedo. ROBERTO - Quando é feito o acordo, cortamos, e vemos João saindo do bar com quarenta anos a menos. Não acho que seja necessário mostrar o processo de transformação. Além disso, não gostaria que fosse como no caso do lobisomem do cinema americano, aquela coisa de começar a surgir pêlos e a crescer unha e tudo isso... GARCÍA MÁRQUEZ - O Médico e o Monstro... O Lobisomem Americano em Londres. ROBERTO - João sai do bar transformado em jovem. É estrangeiro na cidade. Em quarenta anos, muitas coisas mudaram: os automóveis são diferentes, as pessoas se vestem de outra maneira... Para o jovem João, tudo é insólito, inquietante... MANOLO - Não viu televisão durante esses anos. Ou o filme acontece antes dos anos cinqüenta... GARCÍA MÁRQUEZ - Essa sensação de estranheza nós poderíamos compartilhar, mais ou menos, com João - pela expressão de seu rosto, por seus gestos... -, mas não chegaremos a conhecer sua verdadeira dimensão. Isso, só ele sabe, em seu coração. DENISE - Por que sabemos que João faz um pacto com a Morte e não com o Diabo? ROBERTO - Pelas condições do acordo. E pela graça que é concedida a ele. GARCÍA MÁRQUEZ - Bem, o Diabo poderia fazer exatamente a mesma coisa... GLÓRIA - Este interlocutor tem poderes benéficos. Poderia também ser Deus... GARCÍA MÁRQUEZ - Bem: seja Deus, o Diabo ou a Terra do sol, a verdade é é que isso por enquanto, não é problema nosso. O nó desta história continua onde estava: no momento do encontro. Porque é aí onde temos que ficar sabendo desse passado que João se comprometeu a esquecer.

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ROBERTO - O empresário pode dizer a João que conheceu o seu avô, etc., mas não vai entrar em detalhes. Por isso, pensei nos recortes de jornal. Ali estaria tudo que precisamos saber: o assalto, a morte do juiz, a captura de João, a fuga de seus cúmplices, a quantidade de dinheiro roubado... SOCORRO - Ah, eu tinha esquecido: claro que chegaram a roubar o dinheiro... E, claro, não deram a João a parte que correspondia. MARCOS - E você queria o quê? Que ele levasse o dinheiro para a cadeia? GARCÍA MÁRQUEZ - Isso não muda o essencial. Nosso problema agora é ver como damos a informação necessária. E, por favor, vamos tentar não recorrer ao flashblack. SOCORRO - No bar, antes que a Morte apareça, João está confuso, e recorda o momento do assalto, quando foi preso. Ou talvez escute em off a voz do promotor durante o julgamento... DENISE - Suas recordações atravessam o espelho... GARCÍA MÁRQUEZ - Não vamos deixar os espelhos se transformarem em telas ou em projetores do passado. GLÓRIA - Quando vemos João saindo da cadeia, como sabemos quanto tempo durou a sua pena? Quem se encarrega de nos informar? GARCÍA MÁRQUEZ - Acho que, para dar a informação de modo verossímil, é é preciso aproveitar a conjuntura do encontro. Claro que com um flashback tudo seria facílimo, mas eu gostaria que pudéssemos evitar esse recurso. Não apenas por ser tão desgastado, mas porque não corresponde a este tipo de dramaturgia. REYNALDO - É uma questão de pureza de estilo? GARCÍA MÁRQUEZ - Não. É que se utilizarmos a flashback, o espectador inteligente, perceberá, em seguida, que não conseguimos pensar em nada melhor. Nos últimos meses, andei trabalhando num roteiro que se refere muito ao passado e, mesmo assim, não há nem um único flashback. É a história atual de uma relíquia de outros tempos, uma prostituta aposentada que teve seu momento de Glória em uma cidade que não existe mais: a Barcelona da época dos anarquistas. Sua zona de operações era o Paralelo. Como ver essa vida e essa época sem utilizar pelo menos dez retrospectivas? Acho que foi Lichi quem teve essa idéia. seduzem a velha para que ela se apresente num programa popular de televisão, um programa de entrevistas que é transmitido ao vivo. E aí começam a perguntar à velha: “Como a senhora chegou aqui?” E a velha com toda ingenuidade: “Bem, eu era uma menininha de doze anos em Pernambuco, e um marinheiro turco me comprou e me trouxe até aqui e me deixou no

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come o fácil. em direção ao porto. “E como era a cidade. condenamos o acusado. durante o assalto ao banco tal.Não vejo porque temos que começar com a saída da prisão. muito maquiada. que tem sua dignidade. SOCORRO . pelo assassinato do juiz Fulano de Tal. manda tudo à merda. Primeiro. muito assim tipo grande dama. e depois uma terceira. João. e eles precisam cortar o programa e enfiar os anúncios num intervalo inesperado.. ao vivo. membro do Supremo Tribunal. Vemos João.Eu não acho que para dar um veredicto a gente precise ler a sentença inteira. É pura preguiça..Paralelo. ainda jovem. e que esse homem que estamos vendo . Sem recorrer ao flashback.”. Bastam dois momentos. em termos dramáticos. vão fazendo a ela uma série de perguntas impertinentes tentando remexer sua vida privada. 142 . e é suficiente para dizer tudo.era um dos seus cúmplices e ao que tudo indica. três minutos. acaba se sentindo no direito de fazer uma segunda. é se contentar com o banal. está de pé entre dois guardas esperando a sentença. Confesso que me senti muito satisfeito. e pronto. porque acho que apelar para o flashback é entregar os pontos da imaginação.. Barcelona era uma beleza! Quando você descia pela Rambla.ou seja. O personagem da velha é estupendo: se apresenta. podemos começar com o veredito nos tribunais. Mas quando disse o que tinha a dizer . Em resumo.Para que vamos desperdiçar os dois ou três minutos dessa primeira seqüência? João pode exclamar de repente: “Agüentei quarenta anos de cadeia!”. mostrando seu protesto: “Juro por Deus que sou inocente!”. naquela época?”. gerente. Quando a gente faz isso pela primeira vez. à prisão perpétua. e a velha. Corte. dizendo porque João está sendo condenado. etc. no máximo. E João quer se vingar dele. com uma frase.”. cliente ou empresário . realizado no dia tal do mês tal deste ano”. ofendida. E a velha começa a lembrar e a contar. no programa. a história -. João Cabral. já transformado num ancião. A entrevista dura. com umas poucas frases.. mas os entrevistadores. O que o espectador precisa saber é João foi acusado por um crime que não cometeu. para dar ao programa uma certa tensão dramática.dono. termina mandando todos eles à merda. aquele rolo jurídico enorme. O secretário do tribunal lê: “. está resolvido o problema. então fazemos com que os entrevistadores comecem a se meter na vida pessoal da velha e ela. o que a gente precisava para justificar. Depois... não há nenhum flashback em todo o filme. quarenta cinco anos depois... falando com muita autoridade sobre a belle époque. o assassino. SOCORRO ... saindo da cadeia. GARCÍA MÁRQUEZ . “Ah..

mas precisamos saber: Ou será que. aqui. Podemos dizer que provocou a própria morte. decidimos chamar de Bonaire. o empresário já não tem nada a pagar.. ROBERTO .Eu tinha a impressão que sobre isso já havíamos falado tudo que era para ser dito. cai nas mãos da polícia.. a gente diga tudo que nos passa pela cabeça.Isso me faz lembrar daquela inesquecível observação de Bertold Brecht: “Qual a diferença entre assaltar um banco e fundar um banco?”.Do ponto de vista jurídico. GARCÍA MÁRQUEZ . Não vamos usar isso.. João. A história foi assim: eles entraram no banco..... os rostos cobertos por um lenço ou uma máscara. porque às vezes é delas que sai a luz. GARCÍA MÁRQUEZ . São três sujeitos que assaltam um banco. GLÓRIA . Existe até um gênero de cinema só para eles. uma pessoa muito conhecida e respeitada na cidade. Convém que. mas o terceiro. DENISE . portanto.Tribunal e veredicto são dois recursos mais que manjados. se não me engano. O delito prescreveu depois de sei lá quantos anos. Não devemos nos inibir.. Foi morto pelo nervosismo dos assaltantes. Dois dos assaltantes conseguem fugir. e. ROBERTO .ROBERTO . é de ordem moral. Escandalizado pela tentativa de roubo. tentou sair. Maior bobagem que o ovo de Colombo.. mas também porque alguém pagou por ele. em uma pequena cidade do interior que. GARCÍA MÁRQUEZ . para mim. teremos de esperar pela estréia do filme? ROBERTO .O delito prescreveu não apenas pelo tempo que passou.. GARCÍA MÁRQUEZ . para saber isso. GARCÍA MÁRQUEZ .Não. qualquer coisa. tentou fazer alguma coisa: protestou.Um problema de consciência.Mas a sugestão é válida. não ficou clara: as pessoas 143 . por medo de dizer bobagens.Porque não era um trio de profissionais. Aquele era o primeiro assalto que faziam. no entanto.. não eram delinqüentes comuns. MANOLO . é absolutamente necessário saber o que aconteceu quarenta e cinco anos atrás. MARCOS .O juiz que foi morto no assalto era um cliente do banco.E é assim que deve ser: Até as bobagens devem ser ditas.ROBERTO. A polícia não tinha nem ficha deles.Já estamos acostumados a pensar em voz alta. O único problema que resta. ROBERTO . conseguiram se apoderar de um saco de dinheiro e justo naquele momento o juiz faz um escândalo e espalha o pânico.Tem uma coisa aí que..

embora tenha sido cúmplice. Tudo dá certo até que no último momento.São elementos soltos. VICTORIA . como Glória propôs. ele toca uma campainha de alarme e a polícia aparece. e não o preso? GLÓRIA . e João e seu amigo executam a ação.Outra possibilidade: o futuro empresário. não poderão descobrir o desfalque.Como ele consegue fazer isso? Onde esconde a sacola? Como tira o dinheiro? Se ele trabalha ali. As coisas ainda não tinham se estropiado. e no final fica sozinho com o dinheiro. Não prestaram nenhuma declaração a respeito? Não disseram que o que havia atirado era outro.. O sujeito seria o cúmplice de João. trabalhador do banco. que podem ser incorporados ou dispensados. Quando estão saindo com o dinheiro.o camarada esconde a sacola. E o sujeito. MANOLO . ROBERTO . dois entraram no banco e um ficou fora. mas os outros dois conseguem fugir..que estavam no banco na hora do assalto viram um dos assaltantes atirar no juiz.E se a gente nunca soubesse quem é o culpado? O filme seria a história de uma dúvida. O cara trabalhava no banco. e como nunca se saberá quanto dinheiro foi levado. em cima do balcão. na hora da verdade. não pode sair do banco. um fica esperando no carro. esperando para a fuga.o atual empresário . Proponho que o traidor . a do sujeito que já estava no banco. quem mata o juiz? GARCÍA MÁRQUEZ . Precisa fazer isso. MANOLO .Se eram três cúmplices. para que quando o submetam à prova da parafina..João também atira quando vê a polícia chegando. o resultado seja positivo. Ferem e prendem João.Dos três assaltantes. trairia João. A operação é realizada e. O outro assaltante não saberia de nada. a polícia chega. quarenta e cinco anos antes seria. mas quando o sujeito já está com o dinheiro dentro da sacola. SOCORRO . Dá aos parceiros a informação necessária para assegurar o êxito da operação. Mas a idéia é boa. GARCÍA MÁRQUEZ .Não seriam membros de algum grupo político? Vamos ver. no carro. Seus amigos dizem a ele que não se preocupe: eles assaltarão o banco. Na confusão enquanto João cai ferido e o outro foge . porque trabalhava lá.. E é aí que despejam nele a culpa pela morte do juiz. As coisas se estropiaram depois. Não. João sabe que foi o outro. começo dos anos quarenta.. Um dos dois mata o juiz. de algum modo. DENISE . cometeu desfalque. o 144 . e depois viram que um deles era preso.Eu também vou sair um pouco do esquema.não seja um dos assaltantes..E além disso. VICTORIA .

camarada trai João. nós somos da pesada. se for comparada a outras que tivemos. Fulano”. O que importa é a morte do juiz.Mas isso não pode acontecer no encontro. a estrutura de um média-metragem. naquele assalto lamentável”. quarenta e cinco anos depois do assalto. Uma Oficina para todos os gostos. SOCORRO .A idéia original da Oficina é partir de um argumento para armar com ele. Caramba! 145 . que João ignora. olhando-o nos olhos: “Não foi ele quem disparou. E até em mim . Não dá para resolver tudo ao mesmo tempo.. custou anos de cadeia para ele. João descobre..Lamento ter trazido uma história tão fechada. tinha um jeito tão impulsivo. pode ser que não seja o melhor método. “Azar. Enfim. que falta um elo fundamental do processo dramático. no entanto. foi menos produtiva. GARCÍA MÁRQUEZ . mais é mais divertido.O importante é saber isso. responde João. é o momento-chave.admito – faltou flexibilidade... em toda essa história. “Foram as más companhias. também filmamos.. O que acontece é que os alunos nem sempre trazem um argumento.Tem alguma coisa. não”. “O coitado do seu avô teve azar”. Uma coisa que ele não sabe o que é e que. Isso empobrece a dinâmica do trabalho.Estamos tentando esclarecer algumas coisas. ROBERTO . O que será? GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . Foi você. meu grande amigo. Foi uma bobagem atirar no juiz. E se nos pressionarem.. GARCÍA MÁRQUEZ . o empresário ou o cliente diz ao jovem João: “Coitado do seu avô. GARCÍA MÁRQUEZ .E agora. ROBERTO .. Às vezes trazem uma história já estruturada.Para mim. É um desafio do tipo criativo. Os dois caras falando e olhando-se nos olhos. Isso deve se reservado para o final. porque nesse assunto. porque você o traiu.. REYNALDO . canalha!”. diz o magnata. ROBERTO .. E de repente. não é? Portanto. onde fazemos tudo que nos for pedido: adaptações-escaletas.. ao longo do debate.vou pensar muito bem a cena do encontro. argumentos a partir de imagens. tenho certeza de que vamos achar a solução. A própria discussão.O roubo pode ou não ser consumado. outras vezes trazem a imagem de uma mulher na praia vendo chegar um helicóptero. E João. sério. porque falta flexibilidade na minha proposta.

E o professor. lembram?. o marido.Ah.No fim. eu sabia que essa galega era perigosa! Mudou a história sem pedir licença. que um homem.GLÓRIA tem uma surpresa para nós... GARCÍA MÁRQUEZ . Mas.Eu comentei as mudanças com o resto do grupo. ela é a violinista.Mudei a história do violinista. GLÓRIA . quem vai garantir para a gente que amanhã você não muda de idéia outra vez? GLÓRIA .. Glória. mas acontece que agora é ela quem faz tudo: toca o violino.. GLÓRIA .Igual. Ah!.Mudou? De que jeito? GLÓRIA . GARCÍA MÁRQUEZ . é agora o dirigente dessa organização.SÉTIMA JORNADA DE TRABALHO Recapitulações.Você me convenceu: uma mulher é muito mais capaz de fazer tudo isso. GARCÍA MÁRQUEZ . GLÓRIA . E o líder sindical. Os personagens saem de seus respectivos filmes e se encontram de noite. cadê? Não vale.. GARCÍA MÁRQUEZ . É isso? Ah.Agora.A primeiro violino sempre chega tarde.. eu mato você. mata.O que muda é a ocupação dos personagens. poderíamos fazer uma história de histórias. é membro de uma organização pacífica.. GARCÍA MÁRQUEZ .. Todo mundo gostou.Ele.Nenhuma mudança a mais. GARCÍA MÁRQUEZ . e começam a trocar impressões: “Quer dizer que você agora é santo? Que 146 . GLÓRIA . com todos os personagens reunidos. e era mentira! Agora ela mata o marido. em algum lugar afastado. GARCÍA MÁRQUEZ . Agora. a sangue-frio. ela é a terrorista. você nos enganou! Você nos fez acreditar que confiava nos homens. Ele vai ser sacrificado.Todo o resto fica igualzinho. A história fica assim. coloca uma bomba no estojo. pede ao pobre coitado que leve o violino ao teatro. GLÓRIA . claro.. mente. e vai fechar um importante evento pacifista.. II SOCORRO . Ele trabalha num escritório.

desistimos: “Ex aequo”. tranqüila. Fitzcarraldo. tivemos que nos dar por vencidos. A seis da manhã do último dia. para ver se em vez de ser psicóloga posso ser locutora de televisão”. nem sempre é fácil escolher. O prêmio ex aequo sempre foi. com matizes. já imaginou? MARCOS .Travesti love 147 . chegou a hora de decidir. “Pois eu quero ir lá na Oficina. mas nem sempre dá. tocando violino”.. é uma situação: o conflito de uma moça que sofre do mal de amor..maravilha! Eu. Quando a gente tem várias opções pela frente e fica sozinho no quarto começa a pensar. dando a cada personagem o papel que ele gostaria de interpretar. em Cannes.. é verdade.Estou louco para ver esse filme! MANOLO ...Para a gente. GARCÍA MÁRQUEZ . Eu tinha aceito o convite justamente quando soube quais os filmes que iam competir: E pensei: “Vai ser ótimo”. Mas. Tão diferentes.. GARCÍA MÁRQUEZ . portanto.Amores tempestuosos? DENISE . uma debilidade do júri.. Um filme com dez... amores equivocados. para mim. era muito difícil dizer porque um filme era melhor que o outro. na verdade. Mas o problema consistiu. que naquele ano houve filmes excelentes: A Noite de São Lourenço. Precisamos fazer um filme assim.Eu diria. DENISE: o que você tem aí? DENISE . “Vocês acham justo? Minha mulher me mata com uma bomba e fica lá. deveria ser fácil escolher. Vamos ver. E um belo dia.. virei puta”. voltando ao assunto. sempre existe um elemento que determina a preferência de cada um. Os filmes já não são em preto e branco. e. Lembro de quando fui presidente do júri no Festival de Cannes. na natureza dos dois grandes finalistas: eram filmes totalmente diferentes. principalmente. doze ou treze protagonistas. em qualquer filme. Amores equivocados . em compensação. O que tinha acontecido? Primeiro.Melhor ainda.Eu compreendo a GLÓRIA.Mais que uma história. Agora são a cores. Às seis da manhã do último dia. Achava que em qualquer obra. que não encontrávamos pontos de comparação. e o júri se dividiu: os dois grandes finalistas eram Yol e Desaparecido. GARCÍA MÁRQUEZ . em 1982: eu achava detestável esse negócio de dividir um prêmio.

puro Cupido. até descobrir que Henrique é homossexual. Terê acha que Henrique é tímido e que precisa de tempo para se lançar. No ensaio. não é? DENISE . num teste de atuação: o diretor está testando candidatos para um dos papéis femininos da próxima peça. Não sei direito o que acontece depois. adota atitudes masculinas. se pergunta se não será por culpa dela. foi perdendo sua identidade e acredita que é um rapaz: ficou louca.E você diz que isso é uma situação? A história está aí.Tem de ser. Tem vinte e cinco anos. O aspecto exterior de Terê mudou tanto. mas quem começa? Quem quebra o gelo? DENISE . mas sei qual é o desenlace: Henrique começa de repente a sair com uma mulher lindíssima. Mas a situação do primeiro dia se repete nos dias seguintes. Não fazem amor. É uma boa atriz. sem querer. tem trinta e cinco ou quarenta. Os protagonistas são gente de teatro: Henrique Duarte.. Ele mesmo confessa. é inteligente. Henrique leva Terê ao seu apartamento de solteiro? 148 . logo de saída.. conversam. E pouco a pouco. mas pelo simples desejo inconsciente de agradá-lo. atraente. embora não tenha experiência. Terê desesperada. enquanto isso. Nesse primeiro dia. Henrique e Terê se encontram pela primeira vez num ensaio. GARCÍA MÁRQUEZ . linda. descobrem quanta afinidade existe entre eles. Quando saem do teatro.Interessante. tomam drinques.É melhor trinta e cinco. Henrique convida Terê para ir até a casa dele. mas isso é tudo. inteirinha! Diga uma coisa: o amor à primeira vista é recíproco. e além disso.. que um dia Henrique a viu e não a reconheceu. GARCÍA MÁRQUEZ ..DENISE . Na verdade. Ouvem música. Agora teme ficar louca. Ela aceita sem titubear. Terê se aproxima tímida de Henrique. muito feminina.. nem mesmo se beijam. mas sua atitude com ele não mudou por causa disso: estava realmente apaixonada.A história está aí. ou seja. começa a se transformar num menino: corta os cabelos. mas porque é seu ídolo. de “'Terê”. E o que acontece nesse primeiro encontro é um amor à primeira vista. uma principiante que passa a ser chamada por Henrique. GARCÍA MÁRQUEZ .. Está impressionado com ela.Isso não é tudo. É dez anos mais velho que ela. um ator famoso. Terê dá algumas opiniões e ele se pergunta: “Quem será essa menina?”. Terê começa a freqüentar os lugares onde Henrique costuma ir à procura de aventuras homossexuais. Terê. Terê chegou a suspeitar.A ação se desenvolve no Rio de Janeiro. não apenas porque ele é uma estrela. Ele é dez ou quinze anos mais velho.Henrique. e Teresa de Carvalho.. GARCÍA MÁRQUEZ .. DENISE .

nas poltronas. causa uma reação negativa em Henrique. ou pareça falso. contemplando Henrique durante os ensaios. Cheguei inclusive a pensar que Terê desiste de trabalhar na peça só para ficar ali. conversar um pouco. REYNALDO . Talvez o tom de voz da moça seja muito declamatório.Terê está sendo testada para o papel. Henrique dá um ósculo. Terê é a protagonista.Que beijo? GARCÍA MÁRQUEZ .A peça de teatro. REYNALDO .Se for assim. a partir do momento em que pronuncia as primeiras palavras. A primeira candidata é uma moça que.Suponho que a peça de teatro que estão ensaiando terá alguma relação com o conflito que os dois irão viver.O importante é que a gente veja o beijo. ou se porque Henrique quis que o papel fosse dela. Ela abre a boca e sorri. GARCÍA MÁRQUEZ .. e recomeçar.Não sei ainda..Será do jeito que a gente quiser. uma peça de teatro. um beijo 149 . não é? São várias candidatas.Na sua história não é a aproximação que importa.O conflito da peça deve ser análogo ao que Terê e Henrique vão viver: Além disso. mas antes os dois vão a um bar para beber alguma coisa.O filme tem de começar com uma grande cena de amor entre Henrique e Teresa.DENISE . Claro que Terê consegue o papel. A cena parece real. visualmente. Eu me pergunto: depois de uma cena dessas. é a separação. A questão é que ela não serve.A cena de amor não termina com um beijo? Na outra moça.Leva. DENISE . essa cena de amor com ele.. se conhecer . noite após noite. DENISE . poder inventar a vida! REYNALDO . Terê não desistiria de trabalhar na peça. DENISE . Então. Aquilo é uma declaração de amor autêntica. é a vez de Teresa.. o que ocorre no teatro não precisa necessariamente ser um teste: pode ser um ensaio. na primeira candidata ao papel. e Henrique fica olhando para ela.. Que coisa maravilhosa. GARCÍA MÁRQUEZ . DENISE .. mas nunca saberemos se conseguiu porque era a melhor. O teste é interpretar essa cena com Henrique. a aproximação dos dois? GARCÍA MÁRQUEZ . Eles já estão ensaiando. um certo desgosto. não será difícil resolver. seria clássica ou contemporânea? GARCÍA MÁRQUEZ ... mas não demora para a gente descobrir que é uma representação. enfeitiçado. GARCÍA MÁRQUEZ .A cena de amor poderia ser uma fantasia erótica da moça.

que está metida até o pescoço nesse mundo. vai ser um homossexual encoberto? É difícil. nem ignora. O pobre do Redford.. E convida a moça para celebrar o triunfo. Terê não desconfiaria que ele é homossexual? GLÓRIA .. E agora podemos insinuar que ele não costuma levar mulheres à sua casa. Aliás. Nunca imaginou que uma moça como ela provocasse essa impressão no grande Henrique Duarte. como se. assisti a uma cena como essa acontecer com Robert Redford. Porque é evidente que ela conquistou o papel.. GARCÍA MÁRQUEZ .Não sabe. e o diretor tem que bater palmas duas vezes e gritar: “Obrigado. Henrique. Ela aceita.Não é paixão demais para um homossexual? CECÍLIA . Ninguém ficou sabendo a verdade. parecia machão nas telas. deixamos claro que ele é um ator muito conhecido. que é muito tímido. dos jovens motoqueiros com suas jaquetas de 150 ..ele ia dirigindo -. muito cordial. GARCÍA MÁRQUEZ . DENISE .Certo..Vou avançar nessa idéia..Talvez por isso Henrique propõe a Teresa que é melhor tomar alguma coisa na casa dele. O cara gosta de motos. Um belo dia estávamos andando de automóvel .E o grande Henrique Duarte também sai. DENISE . Mas na hora da Teresa. por favor”. e ponto. que tem a ver com a transformação de Terê. e uma jovenzinha se aproxima dele para pedir um autógrafo. e chegam a um bar onde se arma um grande alvoroço quando Henrique entra. Ele. Com isso. SOCORRO . não saberia? DENISE . Ouvem-se murmúrios.. É uma coisa que a gente vai adiar.E um homossexual atípico.Terê não sabe que Henrique é.Nesse caso. obrigado. ROBERTO . quase morreu asfixiado.. sendo Homossexual. Terê sai do teatro como se flutuasse nas nuvens.. A próxima. atriz. senhorita. DENISE . quando tive a idéia de comprar lembro o quê.. e se ele assumisse isso cem por cento. MARCOS . e alcança Teresa de Carvalho e diz 'parabéns'.No final. Uma mulher como ela. Coitado! Vocês não imaginam o que aconteceu quando entramos no tal lugar.falso. para poderem conversar tranqüilos.Mas se ela soubesse que Henrique homossexual. Está abrindo uma exceção. disse: “Vou com você”. explicaria o amor à primeira vista? Ou terá sido uma simples reação química? GARCÍA MÁRQUEZ . Não pode saber. até que ele mesmo declarou que estava com Aids. GARCÍA MÁRQUEZ . com tanta gente correndo atrás.Rock Hudson.Um ator famoso.

couro. GARCÍA MÁRQUEZ - E quando chegar o momento, Terê vai comprar uma moto. Através de sua relação de amizade com Henrique, ela vai conhecendo os gostos dele, o tipo de efebos que o interessam. Henrique é seletivo. Terê vai se esmerar para encarnar o ideal masculino de Henrique. SOCORRO - Parece conveniente que, na primeira vez que os dois se encontrarem no apartamento dele, Henrique tente uma relação sexual com ela. DENISE - É obrigatório que ele tente. Ela tem certeza que os dois vão acabar na cama, e não disfarça. SOCORRO - Quando Henrique não consegue, ela acha que é por causa da tensão, do nervosismo da primeira vez. ROBERTO - E na segunda vez? Ou não vão acontecer novas tentativas? GARCÍA MÁRQUEZ - Não vamos nos precipitar. A coisa mais difícil era dar a informação prévia: que Henrique é um ator famoso, que Teresa é uma atriz bela e talentosa, mas sem experiência, e que entre os dois estalou um amor à primeira vista. Isso já está colocado. Em menos de dois minutos conseguimos dizer quem são os personagens e em que situação eles estão. A única coisa que ainda não sabemos é que Henrique é homossexual. Não é preciso dizer, nem deixar de dizer; vamos deixar as coisas fluírem, e esperar momento da revelação quando Terê percebe qual o tipo de rapaz que interessa a Henrique, e ela mesma começa a se transformar. O filme é esse, e não outro. DENISE- O que eu tenho até agora é: primeiro, Henrique e Teresa se encontram e surge um amor à primeira vista; segundo, eles percebem que têm uma grande afinidade e muitos interesses em comum; terceiro, não conseguem fazer amor de maneira satisfatória, embora ele tente; quarto, ela descobre que ele é homossexual, ou o próprio Henrique conta; e quinto, ela decide se transformar para conquistá-lo. GARCÍA MÁRQUEZ - Na terceira vez que Henrique a procura e torna a tentar em vão, Terê tem que chegar à seguinte conclusão: ou ele é impotente, ou então, é homossexual. Eu acho que o próprio Henrique confessa. Além do mais, nesta época, e nesse meio... Por que nos negamos a ver Henrique do jeito que ele é, maduro? Estamos tratando Henrique como se ele fosse um jovem meio sem jeito, inexperiente... SOCORRO - Ele é homossexual mas está apaixonado por Terê... Além disso tem um amante, um rapaz. Esse é o conflito de Henrique. GARCÍA MÁRQUEZ- Na primeira noite, quando saem do bar, Henrique não leva Terê ao seu apartamento: eles vão para a casa dela. Terê não tem

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automóvel, Henrique oferece uma carona: “Posso levar você?” Diga uma coisa, DENISE: Henrique tem um motorista, ou ele mesmo dirige um carro esporte? DENISE - Um carro esporte... E ao chegar ao prédio de Terê, ela diz: “Vamos subir?”. GARCÍA MÁRQUEZ - Ao sair do bar entram no Porsche de Henrique, e ele pergunta a Terê: “Levo você até a sua casa?”, e ela responde: “Como você quiser”. Ele pergunta: “Onde você mora?”, e Terê percebe, na mesma hora, que o assunto terminou aí. Pelo menos, por essa noite. ROBERTO - Nesse momento, Terê leva um banho de água fria... GARCÍA MÁRQUEZ - O diálogo deles poderia se desenvolver em ambientes diferentes, durante o curso da noite... Henrique pergunta uma coisa em um bar, e Terê responde já em outro. O diálogo é contínuo, mas os cenários mudam. ROBERTO - É preciso mostrar esse processo até o fim. Se cortarmos para o dia seguinte, o espectador pode pensar que eles dormiram juntos. GARCÍA MÁRQUEZ - O diálogo não pode deixar nenhuma dúvida, é como quando a gente convida uma moça para ir ao cinema e ela responde: “Hoje não, porque estou menstruada”. Tem de ser assim, brutal. “Onde você mora?”. “Em tal rua”. Ele pára na frente do edifício. “Até amanhã”, “até amanhã”. Estamos contando o filme do ponto de vista de Terê. MARCOS - A noite acaba aí, mas no dia seguinte, Henrique diz a ela que gostaria de apresentá-la à mãe. Vão até a casa da mãe dele, almoçam, e a velha está contente, porque é a primeira namorada do filho que ela conhece. GARCÍA MÁRQUEZ - E se a mãe soubesse que o filho é homossexual e sem querer, no meio da alegria, desse uma pista a Terê? CECÍLIA - As ruas ficam sozinhas, e a mãe aproveita para dizer a Teresa: “É a primeira vez que Henrique traz uma namorada em casa. Você não sabe como eu estou contente. MARCOS - As mães nunca sabem. Ou são as últimas a saber. GARCÍA MÁRQUEZ - Quem disse isso? As mães sabem, sim, e além disso, ajudam. É um modo de manter os filhos amarrados. MARCOS - A família de Terê preferiria que ela não fosse atriz. É uma família mais ou menos burguesa... DENISE - Faz tempo que Terê não mora mais com a família. Ela divide o apartamento com uma amiga. GARCÍA MÁRQUEZ - Tome cuidado para que não pensem que ela é lésbica. Em meia hora é tão difícil dar todas as explicações, que a gente não

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pode se dar ao luxo de cometer nenhum erro. DENISE - A casa de Terê fica no caminho entre a de Henrique e o teatro. Por isso, naquela mesma noite, ele pode dizer a ela: “Quer que eu pegue você amanhã, quando passar por aqui?”. GARCÍA MÁRQUEZ - E no teatro repetem a mesma cena de amor, de novo m um ao outro, imaginariamente... O ensaio acaba e Henrique diz a ela: “Quer uma carona?”. ROBERTO - A cena de amor poderia ser mostrada várias vezes, e a última, ter um toque diferente. Alguma coisa passou nesse meio tempo, alguma coisa se rompeu entre eles... GARCÍA MÁRQUEZ - Sempre a mesma cena, o mesmo beijo. A cada dez minutos, de novo: três vezes a mesma cena no filme... CECÍLIA - A história parece feita de repetições, porque a frustração do primeiro dia também vai se repetir: Henrique deixa Terê na casa dela, ou leva Terê até o seu apartamento de solteiro e tenta fazer amor, sem resultado. GARCÍA MÁRQUEZ - E por que não a leva antes a um bar de homossexuais? DENISE - Depressa assim? Isso é sadismo! ROBERTO - Terê entende que as coisas não podem continuar do jeito que estão, e diz a ele: “Essa relação me faz mal, Henrique. Não quero ver você mais”. E um dia, ao sair do teatro, percebe que há um rapazinho esperando por ele. Talvez tenha esperado em outras ocasiões, mas agora está claro que Henrique vai ao seu encontro. CECÍLIA - Mas eles dois - Terê e Henrique - têm que continuar se encontrando nos ensaios... GLÓRIA - Terê precisa saber desde o começo. É uma coisa que pode ser insinuada desde a primeira conversa, quando juntos percorrem os bares. Porque se ela não soubesse e de repente encontrasse esse rapazinho tão bonito esperando Henrique na saída do teatro... SOCORRO - Pode ser que Terê só queira ter um affaire com Henrique... DENISE - Nada disso. É grande amor mesmo. Uma paixão. Tem que ser assim, para que ela decida se transformar. GARCÍA MÁRQUEZ - Não vamos nos precipitar. Temos que ter tempo para pensar. Um dia, vamos dedicar quatorze horas seguidas ao debate, para liberar energias acumuladas. GLÓRIA - Mesmo que Teresa fique sabendo da história de Henrique, ela não desanima.

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GARCÍA MÁRQUEZ - Em que consiste o drama dela? Consiste em querer conquistá-lo ao preço que for. Quando vê que não consegue como mulher decide agir como homem. É simples assim, do jeito que falei. ROBERTO - Por isso é importante a gente saber antes que tipo de rapazes o atraem. Terê necessita de um modelo. GARCÍA MÁRQUEZ - Tenho uma dúvida aí: quando ela se transformar, como vai poder representar seu papel? DENISE - Isso não é um problema grave. Se ela cortou o cabelo, põe uma peruca na hora de representar e pronto. GARCÍA MÁRQUEZ - E outra dúvida: se o homossexualismo de Henrique fosse público e notório, será que a atitude dela seria a mesma, desde o primeiro dia? DENISE - Eu acho que sim. GLÓRIA - Eu acho que não. ELID - Ela se apaixonou por ele de verdade. GARCÍA MÁRQUEZ - Ela pode saber que Henrique é homossexual e ainda assim alentar a esperança de ter uma relação intensa com ele. O problema é quando descobre que Henrique, apesar dos seus esforços não consegue. DENISE - Henrique não é nenhuma bicha louca. Ao contrário: tem um aspecto muito viril. Suas atitudes são muito masculinas. GARCÍA MÁRQUEZ - Mas deve ficar bem claro que não é bissexual. Ele se apaixonou por ela, à sua maneira, mas não consegue consumar a relação no campo erótico. Isso é que o filme vai contar: como ela decide se transformar para agradá-lo. DENISE - Não se esqueçam de que nem tudo se reduz ao aspecto sexual. Há grandes afinidades espirituais entre os dois. GARCÍA MÁRQUEZ - Tudo isso que dissemos até aqui não é outra coisa além de um prólogo para entrar no assunto. E não podemos continuar dando voltas: precisamos entrar no assunto. DENISE - Eu acho importante ressaltar o fator afinidade, porque sem ele, que outro elemento de atração existiria entre Henrique e Terê? Por que continuam se procurando? Porque naquela primeira noite, quando andaram de bar em bar, conversando, se conhecendo, descobriram que um gostava da companhia do outro.. E isso aconteceu principalmente com ela, que agora não quer saber de outra coisa a não ser ficar ao lado dele. REYNALDO - Se isso não for amor... GARCÍA MÁRQUEZ - Eu estava me perguntando: como poderemos

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E esse final da ficção .Henrique tem trinta e cinco anos e nunca sentiu nada parecido em relação a nenhuma outra mulher. Reconhece seu desejo no desejo dela.. terá um ar cotidiano. como num espelho. E além disso. E é então quando decide se transformar. mas no fundo não aceita uma situação que afasta Henrique dela definitivamente. 155 .Ela mesma cortando os próprios cabelos.Eu gostaria que ele falasse do seu homossexualismo com toda a naturalidade.se for feito com cuidado – pode acabar sendo comovedor: Trinta ou quarenta anos atrás teria sido um diálogo escandaloso. Henrique abre o coração para Terê.Esse diálogo dos dois . vou buscar meu companheiro”. o quarto é o que continua mais confuso: como ela descobre que Henrique é homossexual? Ou será que ele mesmo confessa? GARCÍA MÁRQUEZ . Estilo garçom. quer prendê-la ao seu lado. pelas sucessivas apresentações da cena de amor: A última corresponderia à estréia. como se dizia nos anos cinqüenta. na maior tranqüilidade: “Tchau..Dos cinco pontos do meu esquema. realmente.Ele tem que dizer a Terê que chegou a esse extremo pela primeira vez. mas também se realiza. quer conhecê-lo. querido. ao mesmo tempo. Agora.da ficção teatral . ou então. vamos dizer. etc. experimentando uma jaqueta unissex. Quando Henrique abre o peito com Terê. que a maioria das pessoas não conhece.seria uma espécie de anúncio do que vai acontecer na realidade .. no sentido bíblico da palavra. ela quer chegar ao final. Terê compreende isso. completamente. para estabelecer um vínculo muito forte entre os dois. com aplausos do público.. E que tentasse mais de uma vez. Não podemos esquecer que através do homossexualismo Henrique não apenas se dilacera .a realidade do filme. Poderia revelar coisas muito interessantes sobre o mundo dos homossexuais.Eu gostaria que Henrique tentasse. “quero apresentar meu galã a você”. mas não como um drama. “agradá-la”. porque são coisas que vivemos no dia-a-dia com os amigos homossexuais. SOCORRO . vestindo jeans. Eles chegam e dizem. Não é que ele finja querer. GARCÍA MÁRQUEZ . é porque está se entregando a ela. GARCÍA MÁRQUEZ . É que ele quer. E esse grau de sinceridade serviria.como agora acontece com Terê -. mas agora. SOCORRO . suponho. DENISE . DENISE .marcar a passagem do tempo? E percebo que é fácil: pelo teatro. É quando a surpreendemos cortando os cabelos.

DENISE . mas por outro lado faz com que ele se sinta incômodo. Bate na porta. 156 . de verdade.Calma.Eu gostaria que fosse gradual. contente com a própria travessura. DENISE . “Por que uma mulher tão inteligente como Terê”. e se já é um rapaz ou quase um rapaz. Henrique fica olhando para ela e diz: “Você fica muito bem com esse penteado”. que Henrique se envolva com outra mulher. ver Henrique feliz. REYNALDO . SOCORRO . É aí que está o conflito. jaqueta de couro. e assume esse recurso assim.Em compensação. E a gente só tem meia hora.. quer fazer uma surpresa para Henrique.o mesmo que ele admirou tantas vezes basta para esclarecer o equívoco. a mudança repentina de Terê. REYNALDO . É um recurso desesperado. numa cena só. saindo com outra mulher? Porque me faz pensar nas fábulas.Esse é o paradoxo: Terê atraía Henrique. para tentar prendê-lo.Pensei até que Terê podia chegar a ser abjeta: conseguiria uns garotos para Henrique. eu sugiro o seguinte: quando Terê começar a mudar .A história ficaria muito comprida.Uma boa pergunta: se Terê realmente muda identidade. pensa ele. de repente e em sua totalidade: cabelos. motocicleta. Eu os vejo assim: Terê. atordoado. GARCÍA MÁRQUEZ . mas para ela só importava. para o qual ela apela quando não encontra outra saída.E preciso ver se a história nos leva para esse ponto...quando cortar o cabelo. pode acontecer em dois segundos. por exemplo -. GARCÍA MÁRQUEZ . contempla por um segundo. jeans. Aliás. GARCÍA MÁRQUEZ .Então. Esse sorriso . e a conseqüente perturbação de Henrique.Continuo achando que a mudança deve ser gradual. Vamos ver. a de Terê transformando-se em menino e Henrique.ROBERTO .Pois eu acho que deve ser brutal. por que Henrique não a aceita como a outra parte de um casal? GARCÍA MÁRQUEZ . Parece descabelado. mas como mulher. a transformação dela é brutal ou gradual? DENISE .. DENISE .Sabem por que eu gosto desse final. REYNALDO . Henrique abre. e então ela sorri para ele. com seu penteado e sua roupa de homem. no final. por sua vez. “faz uma palhaçada dessas?”. Ainda é muito cedo para saber.Quero fazer um comentário sobre o desenlace proposto por Denise: não acho que seja conveniente.

Nesse processo ela vai se despojando. além disso. SOCORRO .Isso tudo vem com um toque especial. “eu gosto de um companheiro assim: moreno. com a pitada de loucura que todas as nossas histórias têm. outro dia elogia a calça de couro. mais metafórico. Primeiro. maquiagem e adotando certos gestos masculinos. não é? GARCÍA MÁRQUEZ .Existe uma grande angústia no fundo dessa relação. onde Terê e Henrique vão passando sucessivamente por três bares diferentes. Depois. e quando vê. colares. Depois. Mas um dia elogia o penteado. mas na seqüência dos fatos. ele leva a moça tomar alguma coisa.DENISE . GARCÍA MÁRQUEZ . falamos de repetir três vezes. eu gosto de meninos assim”. Primeiro.. um elogio.Bem.Vai ver. SOCORRO .Estamos tentando analisar a conduta dos personagens. E então. DENISE .É só um cumprimento. GARCÍA MÁRQUEZ .o cabelo. GARCÍA MÁRQUEZ .Não sei se estamos saindo do realismo para entrar em outro tipo de linguagem. 157 . poderíamos dar em três fases .. a cena de amor: E agora. enquanto conversam. no teatro.Henrique nunca diria uma coisa dessas. a moto . porque estamos deixando as aparências nos dominarem.brincos.. CECÍLIA . e tenho medo que ela escape de todos nós. DENISE .Não estou contando o filme: estou tentando imaginar como seriam as coisas na vida real.e Henrique o apresenta a Terê.Existe um monte de homossexuais que falam de seus gostos com as amigas: “Sabe. Henrique não sabe o que ela está planejando...Mas ele não deve encorajá-la.. GLÓRIA . REYNALDO .Juntos? Desde o começo? Eu achei que Henrique ia levar Terê à sua garçonnière. DENISE . finalmente. a mudança gradual passaria a ser total. saem os três juntos do bar.. ou com um eufemismo. a última coisa que ela faz é cortar o cabelo. não vamos pensar agora na estrutura ou nos detalhes.o processo de transformação de Terê. E.... de preferência num bar de homossexuais. de todos os seus adornos femininos .um jovem muito bonito . desenhamos aquela seqüência noturna. nem alto nem baixo”. Henrique e Teresa se encontram no teatro. enquanto estão conversando no bar chega um amigo de Henrique . Depois. a roupa.Eu sinto que a poética desta história está muito coerente. DENISE .

DENISE . porque agora Terê sabe como é a pessoa que está no lugar que ela quer tomar: O rapaz serve de modelo. GARCÍA MÁRQUEZ . colocada de repente em segundo plano. A partir do primeiro momento. como quem vai ao zoológico observar a conduta dos macacos? Mas. e iria se reunir com eles.Cruéis. Porque Henrique se delataria.Pois eu acho que sim. “Deixa eu apresentar Terê.Nesse caso. Volta ao bar que Henrique freqüenta e ele. esse é o meu amigo Nélson”. e entendem que a coisa não avança. E menos ainda da nossa sociedade.GLÓRIA .. Deixa passar o fim de semana.Uma atriz como ela. e ela irá ao lado do motorista. os três . o amigo de Henrique está esperando por ele.E na vida real. e na segunda-feira. diz Henrique. quando a vê.Eu vejo da seguinte maneira: quando Henrique confessa seu problema a Terê. tendo de ir a um bar 'observar' a conduta dos homossexuais. no dia seguinte..Eu imaginava uma coisa mais poética: Terê visitando sozinha o bar e observando discretamente a atitude dos homossexuais. Quando Terê e Henrique tornam a se encontrar no apartamento dele. em que mundo ela vive? Acho que estamos vendo o homossexualismo como uma coisa distante e estranha. como se fosse uma coisa muito natural.Por quê? REYNALDO . Terê. não haveria nenhum engano. Porque o amigo de Henrique estaria lá. o amigo e Terê vão até o carro de Henrique. não se sente 158 . Terê precisa ir no banco de trás. Está decidida a conquistá-lo. uma excelente atriz. GARCÍA MÁRQUEZ . É uma maneira muito gráfica de ver Terê posta de lado. mas úteis. DENISE .Eu acho que não.Por tudo.que acaba de conhecer Terê e se sente deslumbrado por ela . quando saem juntos do teatro. que bom que você veio!”. Henrique . Os homossexuais não estão separados da sociedade. “Ah. e o rapaz.Vou retomar a primeira versão de DENISE.Henrique. quando o correto é que todos nós formamos parte desse ambiente. REYNALDO . ela não se resigna. GARCÍA MÁRQUEZ . DENISE . Sonho com essa cena. quando se encontrar em seu ambiente. GARCÍA MÁRQUEZ ..seria capaz de levá-la um bar de homossexuais? REYNALDO . ROBERTO . senta-se na frente..Ao saírem do bar. ela desiste de vêlo. ela perceberia que a relação amorosa é impossível. como se estivesse se preparando para seu próximo papel. o rapaz irá atrás. Algum dia.Por que vocês só pensam em soluções cruéis? GARCÍA MÁRQUEZ .

DENISE . GARCÍA MÁRQUEZ .. Hummm. Uma hora e meia seria muito. só para agradá-lo. não.. “Que bom que você veio!”. de alguma forma.E o que aconteceria se. e eu não vi esse sofrimento em nenhum momento.Não entendo como ela pode ser tão imatura.. CECÍLIA .Isso. mas meia hora é pouco. vestida de homem. Ao contrário. Acho que o problema é de formato. Corte.ou desse desencontro para poder calcular por 159 .Logo de saída. Gostaria que isso ficasse. Corte. quero oferecer a você uma coisa muito especial”. parece que ela controlou a situação com bastante maturidade.perseguido e nem recrimina nada.Esta é uma história para meia hora. Vemos Terê cortando o cabelo. Mas .Até mostrar que Terê perdeu sua identidade e está a ponto de ficar louca. Henrique não a reconhecesse? MARCOS .Mas você levaria a história até aí. Vemos a moça chegando ao teatro de motocicleta.Eu imagino esse lance assim: Henrique e Terê marcaram um encontro no bar no cantinho de sempre. e depois? DENISE ..O filme poderia acabar assim: Terê entrando no apartamento de Henrique. REYNALDO .Mas estamos na metade ou no fim do filme? GARCÍA MÁRQUEZ . vestida de homem pela primeira vez. até mostrar Henrique com outra mulher? DENISE . É preciso tomar cuidado com esses cortes. Por idealizar Henrique tanto. dá meia-volta e vai embora. para que a coisa não acabe sendo grotesca.a agonia desse amor impossível – e deixar a surpresa da transformação para o final. “Senta aqui. satisfazê-lo. Trazem para o casal uma dessas bebidas borbulhantes. implícito. Reconheceu-a ou não? GARCÍA MÁRQUEZ . olha pelo vidro da janela. DENISE .Eu sugiro que depois apresentássemos a outra mulher. porque o desejo pode variar de objeto”. a gente não sabe ainda. que jorram fumaça. Lá está ela. É preciso ver o que acontece depois desse encontro . porque gostaria de ressaltar a moral da história: “Jamais se transforme em objeto de desejo do outro. quando Terê muda. ROBERTO . Por se negar a si mesma.Para ficar louca ela teria de ter sofrido muito. Ao contrário. diz. uma coisa muito divertida. mostra-se amável. como podia ter dito ao tal Nélson. GARCÍA MÁRQUEZ . e os dois passam momentos ótimos conversando. Corte. Talvez fosse conveniente alongar a primeira parte . Henrique chega.

. na história em que estou trabalhando agora. não podemos supor que o processo de transformação de Terê ocorra de modo tão gradual que acabe sendo imperceptível. também podia ser seu neto.a propósito do meu personagem. Reynaldo. ROBERTO . porque se for passivo. no final.O que precisamos resolver .. afinal como aconteceu? Progressiva ou repentina? GARCÍA MÁRQUEZ . imperceptivelmente.A idéia de que Henrique não a reconheça . Para mim.. dançando uma valsa com um jovem de vinte e dois anos que poderia ser o seu galã mas que.ou melhor.Eu me preocupo menos com isso e mais com a idéia de que. Aqui. GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS . na verdade. DENISE . não tem jeito.para ver quem é. mas desequilibra a estrutura. por um lado. ao longo de todo o filme. Mesmo que fosse de um jeito traumático... rejuvenescida. e metade desse tempo nós devemos dedicar a apresentar o problema. só temos trinta minutos.onde começamos. vimos a conveniência de que a velha termine lá em cima.Seria preciso perguntar também se Henrique é homossexual ativo ou passivo. já transformada em 160 . ROBERTO . Para conseguir isso de forma verossímil não tivemos outra saída a não ser rejuvenescer a velha aos poucos.. não chegue a reconhecê-la . Outro dia. Num longa-metragem.. psicologicamente.visual e dramaticamente é o golpe de efeito dessa cena em que Terê. João . ROBERTO .E a mudança dela.. GARCÍA MÁRQUEZ . podemos tentar.nós até falávamos do inconfundível orriso de Terê .punha o exemplo do professor de judô..Aos poucos é melhor. Isso. e essa idéia do desencontro por motivos externos. Mas para manejar essa situação discretamente dispúnhamos de quase duas horas.Não tão extremos: Terê se transforma por dentro também.Eu gostaria que Terê conseguisse seduzir Henrique. GARCÍA MÁRQUEZ . Por outro.. MARCOS . Henrique possa não reconhecer Terê. Repentina é pior.Mas seduzi-lo como mulher ou como homem?. esta é uma história de amor. Não há tempo para isso.Temos três maneiras de resolver isso.. a diferença de idades entre a protagonista e o jovem já não é tão evidente. Poderá não reconhecê-la de repente. mas é só olhar bem . Por exemplo.não se sustenta. O que estou achando que ficou claro é que só pode ser repentina se nós deixarmos isso como imagem final. E quando chega o momento da valsa.. mas resolve o problema do tempo.

. você precisa ter alternativas. Pense na cena do bar. Ela vai selecionando seus 'modelos' e. Denise. plasticamente? Seria preciso perguntar ao maquiador.. GARCÍA MÁRQUEZ . a luta de Terê não deveria levar ao fracasso: Henrique acaba possuindo-a. apresenta-se a Henrique. da qual você gosta tanto.Vou fazer o papel de advogado do diabo. À sua maneira.O olhar de Terê serviria de guia.e termina com uma visão objetiva: Terê transformada em efebo. e das maiores.A frustração também é uma situação dramática. E deixa de amá-la quando Terê renuncia à sua identidade. uma história com moral no fim. por um ato de mimetismo.. Então. SOCORRO . no que diz respeito à sua própria mudança. GARCÍA MÁRQUEZ .Mas como não há tempo para isso. Ou seja. Manolo poderá ser expressa visual. ROBERTO .Henrique ama Teresa pelo que ela é. claro. quando deixa de ser ela. MANOLO . Esse é o momento! DENISE . ao mesmo tempo..Como fazer isso. ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . DENISE . sem se mexer de seu assento . Essa transformação psíquica concordo com a sua preocupação.Todos nós fazemos esse papel. Eu acho horrível que essa paixão se frustre. já que Henrique também participa da mesma paixão.. se 'transformando' neles. Uma história não se frusta como drama porque os personagens se frustram. e muito menos no caso de uma história de amor.. ou então Terê se transforma em homem e o filme acaba aí. Eu não estou contra o final feliz da frustração.E à própria atriz. GARCÍA MÁRQUEZ . A transformação de Terê seria mais psicológica do que física. Essa história que Denise quer contar. ROBERTO. Você está fazendo o papel de papel de advogado de defesa de uma história alheia.. O fato é que 161 .os homossexuais sendo observados avidamente por uma mulher .homem. com um final aberto.Assim não vale. E se pouco a pouco – mas ali mesmo. quando Terê vai observar os homossexuais. o fluxo do tempo e o fluxo da consciência ocorreriam de uma vez só.Terê entra numa luta feroz contra as circunstâncias que a impedem de realizar sua paixão..ela fosse se transformando? Numa cena assim.Estou convencida de que a mudança de Terê deve ser gradual. trata-se de um amor correspondido. Só quem está apresentado a sua própria história é que não faz. em termos visuais? ROBERTO . SOCORRO . que supostamente deve acabar bem.Esse plano começa com uma tomada subjetiva . ao encarregado do guarda-roupa.

Ora. Manolo. e ela. Henrique diga a ela. E daí? Como é que ela ajuda? MANOLO . GARCÍA MÁRQUEZ .. A gente não se conhece tão bem como achaque se conhece. GARCÍA MÁRQUEZ . Então.É uma história muito delicada. confessa que nunca esteve com uma mulher. mas com mas com você. Muito bem. 162 . É preciso ter cuidado para não nos enganarmos numa coisa tão polêmica. Não vai além desse ponto.Eu insisto na minha proposta. e tenta fazer amor.Terê tem que estar convencida de que Henrique se entregaria a ela por completo. ele quer. Não continuo. os amores à primeira vista não são reações que possam ser explicadas facilmente.Em outras palavras: ele pede ajuda a ela? ROBERTO . o lógico é que Teresa diga a ele: “Tudo bem. de repente. São razões do coração.. seus se que Henrique desce do seu pedestal. SOCORRO . estejamos todos atolados. sem meias palavras: “Nunca estive antes com uma mulher. Pode ser que ele tenha sido até casado. Ou reações químicas misteriosas.. sente essa atração sexual pela moça. que por favor deixe de inibições e nos dê uma mão.E nem o nosso. Para Teresa.. Henrique decide convidar Terê para ir ao seu apartamento. É preciso dar a esse vínculo Terê-Henrique o nível de tensão necessário. porque acabo de perceber uma coisa: diante dessa situação. Se algum de nós for um homossexual enrustido.Que antes de sua primeira tentativa.estamos trabalhando sobre um tema que não conhecemos intimamente. porque a gente nunca sabe onde começa e onde termina o desejo do outro. E essa ambigüidade que mantém o conflito latente.. com uma evolução de sentimentos que nós não conhecemos bem. por seu lado.É. não pode atribuir esse limite a outra coisa porque não sabe do segredo de Henrique. DENISE . para ver se saímos desse atoleiro..... Henrique é um ídolo. Não consegue. No dia seguinte... Pode ser que a iniciação sexual de Henrique tenha sido heterossexual. se pudesse. Henrique conheceu dúzias de mulheres tão atraentes e inteligentes como ela. mas que agora. SOCORRO . mas isso é normal. alcança Terê na rua e a convida para beber alguma coisa. Talvez por isso. Mas sem muita esperança. Vamos ver: vamos analisar a história de novo. DENISE . é a primeira vez. eu quero”. e nada. Ela também não teria grandes esperanças. agora..Não é fácil explicar porque diabos Henrique.É isso o que eu gostaria de dizer: é absurdo querer se transformar em objeto do desejo de outro. ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ . vou ajudar você”.

GARCÍA MÁRQUEZ . decidir: agora prefiro o amor heterossexual. GARCÍA MÁRQUEZ . Se nos metermos 163 . procurando parecer um pouco com ele. Terê é quem toma a iniciativa. como é natural: são aliás. com o efebo.Na primeira noite.A coisa ameaça complicar ainda mais. DENISE . Como se comportaria um homossexual do tipo de Henrique.Eu acho que sei onde está a dificuldade dramática. e não temos tempo.. E. ELID . DENISE . porque o objeto do meu desejo passou a ser uma mulher? REYNALDO .Não é preciso tocar nesse assunto. Nesta história.O conflito viria depois. da noite para o dia. Nós simplesmente mudamos de ponto de vista. para mim. estamos danados.O número não interessa.E o que isso adianta.Continuamos empacados em nossa ignorância.Você esta insinuando que Henrique é bissexual? ELID . está claro: se tratamos de assumir o ponto de vista dele. mas ele que não é nada irremediável. Henrique já teve relações heterossexuais normais.. ou a pretensão de trabalhar com dois pontos de vista ao mesmo tempo. “depois de ter vivido vinte desenganos.Suprime um obstáculo.Houve um trauma num determinado momento.Na primeira tentativa? Não. Isso não é nenhuma novidade para ele. porque Henrique tem um amigo e não quer desistir dele por causa de Terê. não convém. Terê vai cometer erros de apreciação.. mais interessante será a evolução de Terê. qual a diferença de viver mais um?”. A história inteira está contada do ponto de vista de Teresa. para nós? SOCORRO . É tamanha a atração que sente por ela.Quantas tentativas frustradas ela vai ter de suportar? REYNALDO . ELID . numa circunstância como essa? Será que ele pode. Precisamos nos manter firmes no ponto de vista dela. ROBERTO . Quanto mais forte for a frustração daquela primeira noite. Terê sente que está perdendo a batalha para o rival e apela para o disfarce. os nossos erros de apreciação. GARCÍA MÁRQUEZ . faz tempo que estamos dando voltas ao redor de Henrique. em termos de tempo. e no entanto. ELID . Isso complicaria as coisas. Henrique poderia funcionar normalmente com Terê. O que precisamos evitar a qualquer preço é a mudança de prespectiva. Como diz o bolero.Eu me atenho à idéia da tentativa fracassada de Henrique. Não vamos nos preocupar com isso.

mas desacreditaria a Oficina. pode estar coberto de fotos de Henrique. ROBERTO .. sim..Existem muitos detalhes que poderiam nos servir para dar a evolução sentimental de Terê. GARCÍA MÁRQUEZ . e os antecedentes.Pense nesse papel que Terê acaba de conseguir. por exemplo. GARCÍA MÁRQUEZ . Ela poderia estar imaginando um romance com Henrique.Pois eu me pergunto se será possível explorar essa linha sem nos desviarmos muito da idéia original. CECÍLIA . ou seja. DENISE . na cena de amor que acaba de interpretar com Henrique.. Seu quarto. uma moça muito moderna. imagina as reações do outro .que na sua fantasia são sempre as que Henrique teria . GARCÍA MÁRQUEZ . CECÍLIA . estou tendo a seguinte idéia: o processo de transformação pode ocorrer através de detalhes.e vai tecendo. fica sendo uma história barata..Nós dissemos que Terê é uma boa atriz mas não exploramos a sua imaginação. mas não expressa nada. Por esse caminho nós podemos terminar contando Hamlet.. Isso basta para deixar claro que Henrique já era seu ídolo há tempos. GARCÍA MÁRQUEZ .Agora.A maldição dos espelhos nos persegue.E quem disse que resolvia? Não. muito unissex.. ela entra no quarto e vemos as fotos na parede. e sairia muito melhor. nunca mais vamos sair do buraco. até se transformar num machão.Ah.Essa proposta parece boa.E se começássemos a história da transformação ao contrário. com Terê parecendo um menino desde o começo? Na realidade.. mas o que precisa ficar bem claro é qual o momento em que Terê sente que está encurralada e decide continuar lutando até o fim. REYNALDO . mas muda o sentido da história. suas capacidades miméticas. SOCORRO . quando Henrique deixa Terê em casa. através de um espelho. por exemplo.É um grande jogo de efeito. muito punk. Ela começa a estudar seu personagem.Mas esse jeito não resolve a história. 164 .Você pode mostrar a transformação do jeito que bem entender. aí.nos dilemas de Henrique. GARCÍA MÁRQUEZ .Naquela primeira noite. Se Terê não se disfarçar de homem.. e elucubrando meios DENISE .. a história passa a ser nutra. assim. uma situação imaginária onde as fronteiras entre a verdade e a mentira acabam se apagando.. dos personagens que ele interpretou no teatro. DENISE . não resolve! ROBERTO .

Se Henrique paquerar o suposto galã. A vítima. uma carga semântica muito forte. já travestida.Eu gostaria que Terê. acha que ela ainda não não chegou e começa a olhar interessado para aquele garoto que está sentado ali perto. sem perceber que é ela. ficamos sem moral da história. Insinua muito discretamente a idéia da transformação. onde ela está esperando com seu novo look. Isso quer dizer que ele já não gosta mais dela? De jeito nenhum. Simula fazer esforços para consumar o amor. Henrique recomeça a manobra com a outra. DENISE . Então. ou que não quer. exclamasse. GARCÍA MÁRQUEZ . nele. podem acontecer duas coisas: ou ela conquista Henrique.. GARCÍA MÁRQUEZ . quero dizer. ROBERTO . as atrizes que trabalham com ele. GARCÍA MÁRQUEZ . aborrecido: “Mas que bobagem é essa?”. Um jovem boa-pinta.E se Henrique avançasse direto no rapaz? GLÓRIA ... porque agora ela é um rapazinho. Henrique perceberá tudo.De acordo.Tudo poderia ser um jogo sinistro que Henrique utiliza com suas vítimas. quando não encontra outra opção. e não a de Teresa. ao vê-la.GARCÍA MÁRQUEZ . GLÓRIA. A primeira possibilidade é mais fácil de ser contada. sabendo que não consegue. mas é a história de Henrique.. de novo: Terê se transforma...Assim que se aproximar e trocar duas palavras com ele.Ou então Henrique chega no bar.A partir do momento em que Terê se disfarça. Quer dizer que ele gostava dela como mulher. fazendo tudo para agradá-lo. passasse na frente de Henrique. mas é também a menos verossímil.Isso deixaria uma pergunta latente: o que aconteceria se a reconhecesse? REYNALDO . ou perde. Henrique teria que ser muito superficial para que um simples corte de cabelo e 165 .Vamos lá. Henrique é um sadomasoquista. GARCÍA MÁRQUEZ . e que.Eu acho essa idéia o máximo. mas que não faz o gênero de Henrique. e que ele não a reconhecesse. e por isso perde o emprego e é preciso substituí-la por outra atriz. vai ao bar e quando Henrique passa ao lado nem repara nela.É que esta última imagem tem. Eu preferiria que Henrique chegasse ao bar. O ciclo se fecha e torna a se abrir onde começou. como dizem os lingüistas. SOCORRO . atraente. ROBERTO . se transforma e nesse processo deixa de cumprir os requisitos que seu personagem no teatro exigiu. A gente sempre apela para um final de efeito.

eu vou até aqui.. SOCORRO . Deixamos de lado a peça de teatro que Henrique e Terê estão ensaiando. como faria um jovem que estivesse disposto a uma conquista..Um momento. agarra a moça pelo braço. Não tenho mais nenhuma outra idéia. fica estupefato. no bar: O lugar está cheio de clientes. que. está sentada na frente de uma mesa. Pode. reconhece-a. GARCÍA MÁRQUEZ . jogue no chão e pisa em cima. Então Terê se levanta. que enfrenta escárnio permanente. porque os homossexuais foram abrindo espaço na sociedade.. Podemos dizer que esse tipo de pessoa seja superficial ou frívola? Para suportar tudo isso. como se fosse um efebo a mais. explode de raiva.algum outro detalhe exterior o transformasse desse jeito. Digamos que ela se mistura no ambiente sem muito esforço. Os homossexuais são muito frívolos. apóia as duas mãos na mesa. na ação? Pode ser que a chave do desenlace esteja em algum daqueles diálogos. sei lá -. agora. REYNALDO . Nós só utilizamos a peça no começo. arrasta-a para fora do bar e começa a insultá-la. Quem vai a um bar de veado também é veado. ou melhor. e tudo isso a troco de quê? Eu suspeito que exista muita frustação na vida do homossexual. que não se definisse em termos dramáticos. como mero pretexto para o encontro. Dissemos que Terê se disfarça de homem.Poderia ser um desenlace visual. sorrindo: “Alô”.Vamos detalhar um ponto. pelo menos desse pobre diabo que passa de uma experiência a outra sem conhecer a verdadeira amizade.. afirmam seu direito a existir. e não é verdade: ela se disfarça de homossexual ativo. o verdadeiro companheirismo. 166 . Henrique olha para ela. É preciso tomar cuidado para não confundir as coisas. Bom. Mas. GARCÍA MÁRQUEZ .Não acho tão improvável. GARCÍA MÁRQUEZ . esperando que ela chegue. não a reconhece. São pessoas que desafiam preconceitos e códigos morais muito enraizados.. e diz.Eu não me atreveria a dizer isso. é preciso ter um caráter muito forte.Eu retorno ao encontro final... Henrique não aceita fisicamente Terê transformada em efebo. mas por acaso aceitava como mulher? MARCOS . uma correntinha.. Pode até ser que hoje em dia menos. Henrique passa na sua frente e não a vê. até ser que arranque um dos elementos do disfarce da moça um cinturão.. em todo caso. caminha decidida para ele. Acabo de perceber uma coisa. contra ventos e marés.. Terê. Senta numa mesa próxima. Por que não tentamos integrá-la.

nem eles. Talvez seja um caminho que ninguém esperava. MANOLO .Quer dizer que não é um amor frustrado? Que alívio! GARCÍA MÁRQUEZ .Estou com a intuição de que essa fórmula .Na peça. Ela chega.Quando eles começam a modificar os diálogos para ajustá-los à sua própria verdade. esperando Terê. diz alguma coisa . senta-se ali perto. percebemos que estão rompendo as convenções sociais. REYNALDO . enquanto na vida real Henrique e Teresa. e o deles se realiza? DENISE . GARCÍA MÁRQUEZ . O filme pode terminar como um verdadeiro poema. ROBERTO .tem um potencial poético enorme.No começo tínhamos falado várias vezes em repetir a cena de amor.Com isso damos ao espectador a ilusão de que as coisas terminam bem para os dois. para utilizá-lo depois. através do texto dramático? ELID .e ela responderia com alguma coisa que a gente acha que conhece. mas a gente sabe que.uma coisa que nós já ouvimos Henrique dizer na peça de teatro .A peça teatral poderia se referir a delas pessoas que têm dificuldades em assumir sua verdadeira personalidade.. Henrique diria uma frase que já conhecemos .e ela responde. mas à sua maneira.ouvida duas ou três vezes . vestida de homem. e assim sucessivamente.Eu pensei na possibilidade de uma cena de morte. até a história tomar seu próprio caminho.ROBERTO . o conflito permanece. na realidade. ROBERTO . 167 .a que eles representaram no teatro aparece como o obstáculo que se interpunha entre os dois. O que até agora nós víamos como a verdade do amor .Amor que termina numa cena de morte? Não é.a dos diálogos repetidos e modificados .... nem nós. Isso é Romeu e Julieta GARCÍA MÁRQUEZ .. Existe algo mais profundo que une os dois. GARCÍA MÁRQUEZ . entre eles.E que tal se a gente inverter os termos? O amor no teatro se frustra.Vamos imaginar que Henrique esteja sentado no bar.Precisamos imaginar essa cena e elaborar o diálogo com cuidado. SOCORRO . um diálogo que revela o conflito dos dois. GARCÍA MÁRQUEZ . Henrique olha. Assim começa. Entra no jogo. os protagonistas consumam sua amor.Quer dizer que os dois só conseguem se comunicar no plano artístico. mas não como estava previsto. em sucessivos ensaios. mas que na realidade é uma coisa diferente. reconhece..

vai ao bar.. podemos terminar do jeito que quisermos. Se a história muda para melhor. é claro. GARCÍA MÁRQUEZ .A única coisa que precisamos mudar é o tom.. REYNALDO ... Por exemplo: Terê vestida de homem.. Henrique vestido de mulher. 168 .Pode até ser engraçado.Acho que seria interessante fazer assim. cômico. Um final maravilhoso. uma mulher belíssima.. Uma mulher maravilhosa. DENISE. essa não. Eu vejo esse filme.. se veste de rapaz. Terê corta o cabelo. como uma comédia. SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ .. ainda sem se reconhecer. senta e fica esperando Henrique.Não é preciso mudar mais nada..E eu. E.. GARCÍA MÁRQUEZ . poderíamos tornar a Terê lésbica. um na frente do outro. mudou. ELID . Até que a morte os separe.. e o gesto de Teresa ...Ora. porque Henrique é um grande ator e pode fazer o que quiser com o seu próprio físico.Pois eu confesso que para mim o problema principal está no seguinte ponto: nós não sabemos até que ponto esse drama é dramático para Henrique. por exemplo. Bem. DENISE .Se impõe como mulher? E de que maneira? GARCÍA MÁRQUEZ . DENISE .A revelação.Quem podia mudar.Não é mais Terê quem muda. GARCÍA MÁRQUEZ .E você. ele aparece vestido de mulher. Eu não sinto que isso de 'poder' e 'não conseguir' seja. em clima de comédia. Por que não a própria Terê. qual é o problema? ROBERTO . se vai ser comédia..o mais belo dos galãs convidando-a para dançar no grande salão de espelhos. uma Terê que desiste de disfarce e se impõe por direito próprio? REYNALDO . para ele. De repente.Imaginem só a seguinte cena: a entrada de Henrique. ROBERTO . de repente. O encontro no bar.Bom. que já estava achando ótima a idéia da tragédia.VICTORIA . um conflito profundo.Ô mulher! Só agora você diz isso? GLÓRIA . do começo ao fim. O que muda agora é a história inteira. e de repente mudamos de gênero? GARCÍA MÁRQUEZ.Para sermos coerentes. queria que Henrique acabasse com outra mulher. Nós não podíamos mudar nada essencialna história. e paz na terra e GLÓRIA aos céus nas alturas. A proposta vem da própria Denise. ora.. aqui estão Henrique e Teresa.. Lembrem-se de Dustin Hoffman em Tootsie.

. você agora quer estropiar o nosso filme. agora Henrique não é só homossexual: é a própria bicha louca. gosta de se disfarçar. Henrique percebe isso. São exemplos. agora. GLÓRIA . Parido por ela. quando encontra Terê..Já sei qual é a peça que estão montando: Sonho de uma Noite de verão.. o do baile. Cada vez que ele aparecer no bar. os dois têm um filho. cada um é o outro.Brincadeiras à parte. claro. ou de Gloria Swanson em Crepúsculo dos Deuses. quando ela faz o teste no teatro. brincar com as aparências. de Shakespeare. Nesta noite em particular. Uma coisa assim de atores. vai disfarçado. mas é sempre outro: hoje de bigode postiço e peruca. Hoje usa óculos. amanhã usa cavanhaque. São os andróginos. ELID . tem que ser um personagem diferente.A barreira que os separa é a de seus respectivos sexos. GARCÍA MÁRQUEZ . Não é que ele se torne irreconhecível. que acabaram se encontrando. Basta vê-los dançar . é ver como damos as diferentes metamorfoses de Henrique. o jogo erótico. DENISE .. GARCÍA MÁRQUEZ .E o espectador.Na atuação de Terê. o do burro. mas creio que a coisa pode funcionar por aí.Que horror! REYNALDO . muito de carnaval..o casal perfeito. REYNALDO . depois da trabalheira danada que tivemos? ELID . outra noite vai vestido de mosqueteiro.para entender tudo. amanhã estica os cabelos como Rodolfo Valentino. tem haver um toque de ironia.Por quê? É um ator. a barreira cai. GARCÍA MÁRQUEZ . e no final.Terê. Mas nossa tarefa. Esse movimento final.. vai ao bar de homossexuais vestido de dama antiga. de Maria Félix em Dona Bárbara.. Não é preciso levar os dois até a cama.Não sei.. Os dois estão sob o signo de Gêmeos.Parece que a varinha de condão fui a palavra comédia... E daí vinha a flecha do cupido. Terê faz o papel de Titania. como é que vai entender tudo isso? GARCÍA MÁRQUEZ .GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO . como lésbica. Todos os elementos estão aí: a metamorfose.. Por isso se buscavam.. Mas se buscavam por onde não era. o do cara que se transforma em burro e tem um diálogo com ela. essa atração recíproca que sentiram desde o começo. Agora. também freqüenta o bar sem que ele saiba..No bar Henrique poderia ir vestido da maneira com que Terê se 169 .. pode ser maravilhoso.Ora . Quando os papéis se invertem. mas com os papéis invertidos . e Henrique. sei lá. Certa noite.

as duas metades que não param de buscar suas identidades. ROBERTO . 170 . sem muitas complicações. ainda assim. uma obra de Beckett: os personagens falam mas não dizem nada. moralmente legítima e visualmente agradável.Minha história é exatamente o oposto de Denise. O teste é feito com uma obra romântica. e ela responde: “Não sei”. ou falam o necessário.E eles.. Aliás.. GARCÍA MÁRQUEZ .No teste fazem perguntas. ROBERTO . mas não se entendem.'Entendo' justamente porque não entende nada. satisfeito: “Entendo”.de ser dramaticamente válida. E ele. tem sentido. E além do mais. O que mais a gente pode querer? . e passada no campo. Lembro de um de seus personagens repetindo palavras. eu gosto mais. ROBERTO . na cena do bar: um diz maluquices ao outro. comentam isso: como é estranho dizer coisas que eles mesmo não entendem. de Ionesco. mas não a que serve para testar as atrizes. DENISE . Talvez seja uma réplica do drama dos andróginos. Por exemplo.A sensação que produz é sufocante. seja como for.Beckett. E agora é uma comédia divertida. Uma história maluca que. GARCÍA MÁRQUEZ .eu acho . feito um disco rachado. GARCÍA MÁRQUEZ .Sidália e Belinda SOCORRO . tem a vantagem . REYNALDO . DENISE . Denise? É pegar ou largar. GARCÍA MÁRQUEZ .Poderia ser A Cantora Careca.veste na peça que estão ensaiando. Eles se sentem como se fossem papagaios. ou falam muito pouco.A peça poderia ser contemporânea. DENISE .Precisamos saber.Eu acho que você não sacrifica nada essencial. e vice-versa. e Terê.Vou ter de pensar nos prós e nos contras. Henrique pergunta a ela: “O que isso quer dizer?”. sem nenhum tipo de amargura. O que você acha.Essa poderia ser a obra que eles vão representar. Esse mesmo jogo é aplicado no final. em algum momento responde uma coisa que não sabemos se é um disparate ou uma genialidade. que peça é essa. Henrique e Teresa. mas eles se entendem perfeitamente. É de época. como atores. daí sai a cena de amor que nós conhecemos.

Era uma mulher belíssima. Quando a família se arruinou. a mais velha. diga: quando é 171 . sente como uma obrigação moral cuidar dela pelo resto da vida. Sidália sofreu na própria carne algumas das conseqüências.. até os quinze anos. como uma lenda. 18 anos. porque tinha o carinho dos pais e a memória do que havia vivido. Sidália considera a irmã culpada pela sua própria tragédia. mas recebeu uma educação rígida. que a criou. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ .. Mas agora descarrega sua frustração em Belinda. GARCÍA MÁRQUEZ .GARCÍA MÁRQUEZ .. mas virgem.Isso talvez influa em sua atitude com Belinda. Tudo bem. É tão próximo. Sidália conserva esse vestido de sua mãe como se fosse uma relíquia. pela hostilidade do ambiente. um vestido de crinolina com uma sombrinha de lacinhos e sapatos de verniz. O mais correto talvez seja dizer que ela não fala porque não tem vontade de falar. SOCORRO .. Porque Belinda não é normal: não fala.1930. Assim que Sidália fez 15 anos. Portanto. SOCORRO . Chegou a conhecer o velho esplendor da família da aristocracia rural que naquela mesma época começou a cair em desgraça.De que época? SOCORRO . Ainda é lembrada com uma de suas roupas mais vistosas. para efeitos práticos.Morreu alcoólatra.. GARCÍA MÁRQUEZ .. Ao mesmo tempo. certo? Belinda não viveu essa tragédia: ainda era muito pequeno. talvez motivado pela morte dos pais.. a primeira que levou à cidadezinha as modas européias. Sidália..Sidália não teve namorado? É como uma mãe solteira. por exemplo.Entre elas sobrevive. de ponta arredondada. Ele ainda vive? SOCORRO . há uma diferença de quinze anos. Sidália foi filha única..É a história de duas irmãs. Belinda tem 37. três anos depois da morte da mulher.Não dá um pio. passou a ser a filha de Sidália.São filhas do mesmo pai.Sidália tinha.. DENISE . muito elegante. Foi muito mimada quando criança. que eu até me lembro. Sente uma profunda rejeição em relação à irmã. então. Ou seja.. ditada por normas religiosas e morais muito estritas. desde o momento em que nasceu e as duas ficaram órfãs de mãe.Ora.. SOCORRO . a imagem da mãe.. Mas. mas não se importava. Sidália tem 52. Não é que seja nada: é que sofreu um trauma. a mais moça. e Belinda. Entre as duas. isso não é época! Isso é o ano passado. sua mãe morreu no parto de Belinda. é lógico. Belinda.

muito bem dobrado numa arca. guardou-o na arca e ameaçou castigá-la. gosta de cantar.Desperta a sua sexualidade. Em alguns momentos Sidália se sente culpada e tenta ser solícita e carinhosa. em compensação. Mas. fazendo charme na frente do espelho ou fazendo a sombrinha girar graciosamente enquanto passeava pelo quarto. quando está sozinha. obrigou-a a tirar o vestido. E mais de uma vez Sidália surpreendeu Belinda usando o vestido. com naftalina. vive entre alucinações. enfim. que só pensa em lhe dar desgostos e fazer o que quer. prepara a comida. SOCORRO . Belinda. Por isso.Está no limite da esquizofrenia. que começa a ter desejos de tocar. Ah. para evitar as traças.-. Por alguma razão . Há um detalhe importante. E. E essas fantasias têm um eixo: o vestido da mãe. vai à missa. que Sidália é professora e com seu salário mantém a casa..O vestido está guardado no quarto de Sidália – com todos os acessórios -. Sidália ficou furiosa com a irmã: gritou com ela. tem contatos com o mundo exterior.. sua irmã é um ser manhoso e egoísta. Para ela. VICTORIA .Uma relação de amor e ódio. com um decote grande.Sidália sabe disso? SOCORRO .que o filme começa? SOCORRO . ou melhor. Nesses momentos. de acariciar o próprio corpo. que eu também ia esquecendo: Belinda. se confessa. Vai consultar o padre. num mundo de fantasias.Está quase começando. é só Berlinda vestir essa roupa.Ela jamais saiu de casa.Belinda também é solteirona frustrada? SOCORRO . o vestido tem um efeito estimulante.. que as duas irmãs continuam morando no velho casarão familiar. As duas são neuróticas. É beata. ao mesmo tempo. Mas Sidália nunca ouviu a irmã cantar.Para Berlinda. SOCORRO . Belinda tem uma estranha fixação por esse vestido... surpreendeu-a masturbando-se enquanto usava o vestido.. E na casa sempre fez o papel empregada: varre. cuida do jardim. GARCÍA MÁRQUEZ . sabemos que não é muda. Sidália ficou tão escandalizada que quase morreu um ataque cardíaco.. GLÓRIA .. que diz a ela que a única coisa que pode aconselhar é procurar o boticário e pedir um remédio que tenha 172 . O único som que ouviu de Belinda são os murmúrios e os resmungos que a irmã faz quando dorme. sentiu pena. Um dia. arruma os quartos. Sidália é professora. vive num vazio total. Sidália está muito preocupada. esqueci duas coisas: primeiro. é um ser que dá pena. GLÓRIA .o fato de ser um vestido de luxo. O que ela não pode perdoar em Belinda é outra coisa.. E os vizinhos também. segundo. Mas. ao mesmo tempo..

em algum momento. com o vestido da mãe todo remendado. torna a encontrar a irmã usando o vestido e se masturbando. comprimi-lo no espaço de meia hora.e com essa overdose acaba provocando em Sidália um dano irreparável. Ela se lança sobre Belinda e começa a puxar o vestido. desenvolvido do começo ao fim. Belinda se assusta.Nós temos aqui um argumento. O que Sidália mais temia acaba acontecendo. Depois vem a guerra contra as convenções e os códigos morais.. em compensação. muito recatada.Por isso ela se recusou a continuar tomando o remédio. Ela cai em estado catatônico. nossa tarefa é adaptá-lo. apanha a poção do boticário. O boticário efetivamente prepara uma poção e recomenda que sejam administradas à paciente.. Em relação à história. come com faca e garfo? 173 . Quando Sidália percebe o que acaba de fazer com o vestido da mãe . que logo passa a recusá-las porque cada vez que toma tais gotinhas se sente sonolenta.. é um trabalhão. DENISE . que abre as portas e as janelas da casa e sai à rua. Aliás. é claro. Sidália busca um jeito para dar essas gotinhas à irmã. Mas. É Belinda.Por enquanto.Sim.Belinda.A imagem de Belinda se masturbando. e rasga em várias partes. GARCÍA MÁRQUEZ . isso não é problema nosso. como se quisesse arrancá-lo. Nem o remédio conseguiu derrubá-la. algumas gotas por dia. O tecido cede. ao voltar da escola. com muito cuidado. Vai correndo até a cozinha. Não é um trabalho fácil.. a cara coberta de maquiagem.E o resto de seus hábitos sociais? Ela toma banho todo dia. Agora. Belinda acabar falando. a gente deve fazer o que acha que deve ser feito. É a mesma coisa em relação à produção. Ela é muito beata. passa na televisão? GARCÍA MÁRQUEZ . Eu queria chegar a essa imagem.propriedades calmantes.. É o nascimento da louca da cidade. como se fosse uma epilética. sempre vestida de preto GARCÍA MÁRQUEZ . eu quero saber uma coisa: Sidália é frígida? SOCORRO . enquanto trata de ajudar a irmã. Um dia. é muito vital..a única lembrança pessoal que ela tem -. GARCÍA MÁRQUEZ . e sapatos de salto alto e meias. Sidália se enfurece. Na tarde do enterro. Não descarto a possibilidade de. O roteirista tem que desenvolver seu trabalho da melhor maneira possível. e morre dois dias depois.. primeiro.. volta para a sala. Mas não vai ao enterro de Sidália. SOCORRO . os vizinhos assistem a um estranho espetáculo. toda emperiquitada. com a sombrinha esfarrapada. faz Sidália engolir o líquido achando que assim irá aliviar a irmã . sofre um ataque no chão e começa a se contorcer em estranhas convulsões.

SOCORRO . minha irmã. foi vendendo os móveis. essa mulher de repente saindo na rua. já bancando a louca. Belinda sabe que é Sidália.. Enquanto a gente não conseguir ver o personagem. não consegue pensar em muita coisa. Nas paredes. Ouve-se um ruído lá fora. Em sua relação com ela. ela se penteia. GARCÍA MÁRQUEZ . atravessa a sala e aparece no quarto de Belinda.SOCORRO . e não há quem a faça parar. e tira o vestido correndo.. Belinda fugia. querida irmã”. SOCORRO . mas não conseguiu. Belinda.. SOCORRO . Belinda tampouco tentou aprender a ler e escrever: Cada vez que a irmã tentava ensinar o alfabeto. “Você gostou da salada. 174 . fecha o portão. GARCÍA MÁRQUEZ . O salário de professora não dá para as duas. Sidália. Sidália sempre tentou ensinar o ritual da mesa..Na casa existe pouca mobília. e acha que ninguém está ouvindo. que vai surpreendê-la. Quase tudo que move essa história está implícito ou está oculto. SOCORRO . arrumando o cabelo na frente do espelho. que agarre o espectador e nos dê um respiro para podermos dizer ó.Belinda não é lá muito asseada. GARCÍA MÁRQUEZ .Você nos danou.. Não é por acaso que só canta quando está no jardim. “Claro. ela teve tempo para guardar o vestido e fazer de conta que tudo está em ordem. se deduza a partir das relações cotidianas entre as irmãs. que agarra de um jeito estranho.A primeira cena é a de Belinda no quarto.O final do filme é ótimo. GARCÍA MÁRQUEZ .Come usando uma colher. por exemplo. e ela mesma responde: “Com prazer. Belinda não intervém nunca. Um exemplo: na mesa. com certeza. mas é só. usando o vestido da mãe. Enquanto Sidália entra..O aspecto físico do personagem é muito importante.ou pelo menos.Eu quero que se veja tudo . GARCÍA MÁRQUEZ . a própria Sidália pergunta e responde. Quando põe o vestido da mãe. A loucura faz com que diga tudo que não disse antes. e começa a falar e falar. A relação se dá através de um monólogo sutilmente agressivo.A verdadeira louca é Sidália.Sidália nunca consegue se comunicar normalmente com Belinda. Eu quero ver.Nós precisamos de uma primeira seqüência espetacular. A única coisa de que ela realmente gosta são as flores. a maneira de usar os talheres. Sidália diz: “Por favor. REYNALDO . está muito boa”. ainda são visíveis as marcas dos quadros que foram vendidos. digamos. Belinda?”. passe o saleiro”..

”. olhando-se num espelho. quero dizer -.Claro. capaz de criar intriga e suscitar uma série de perguntas. a única coisa que nós precisamos fazer é responder a essas perguntas da melhor maneira possível. mal nos sobra tempo para divagações. bate nela. mais jovem que ela... e vê o quê? Outra mulher.. Belinda está cantarolando. Entende? Isso é o que eu chamo de uma cena dura. prende as suas mãos com uma corda e amarra-a ao pé da cama. Quando Sidália rasga o vestido sem querer. temos de explicar os antecedentes. Agora a mulher entra num quarto. Contamos. O vestido está rasgado. e depois com o padre. Em vinte e cinco minutos..Nos créditos de abertura. sem interlocutores e quase sem palavras. SOCORRO . repito.Eu acho essa imagem interessante: na primeira vez que Sidália vê Belinda .Tenho medo que isso seja um jeito de precipitar as coisas. Portanto.vamos em frente. Quem é ela? Não sabemos. porque acontece que precisamos responder perguntas sem narrador. podemos fazer uma montagem 175 . e a recém-chegada fica tão enfurecida que insulta a outra. GARCÍA MÁRQUEZ . ou na argola de rede que está na parede.Na frente do espelho. Pode ter sido um descuido. com o fato de que. GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO . Está vendo por que eu digo que temos de ter uma seqüência inicial muito forte? É a nossa única maneira de tirar vantagem. Mas enfim. dona fulana. REYNALDO .SOCORRO.Como primeira? Haverá uma segunda? SOCORRO . a nosso favor. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . Durante um bom tempo a recémchegada não vai falar com ninguém. E nós estamos danados. ela se cala.Então. SOCORRO . devemos ir direto ao assunto. ROBERTO . vamos nessa. saberíamos de saída que é professora: “Até amanhã. ela se nega a falar..Quando você fala do vestido rasgado..Você começa o filme com uma senhora entrando numa casa.no filme. Quando sente que lá fora alguém abriu o portão do jardim. mãos a obra. Se você a trouxesse da escola.. Sabemos que a casa é dela porque tira a chave da bolsa com toda naturalidade. entre essa primeira cena e o final. não é? Só ela mesma. está propondo que Belinda rasgue o vestido logo nessa primeira vez?. vestida como você quiser. mostrar a relação entre as irmãs. A partir daí. obriga-a a trocar de roupa. Esse é o nosso material.Na vida real elas já viveram essa mesma situação outras vezes. já a vê usando o vestido.Esse trabalhinho é fogo.. definir as personalidades. O espectador fica sabendo: essa mulher não é muda. Muito bem.

imagine só a beleza da cena seguinte: sozinha na casa. Sidália fala com a irmã.. não cantasse.Tem um problema técnico aí.Ela sabe que Belinda não é surda-muda... a grande surpresa: Belinda desanda a cantar:. e que a irmã aceite essa situação.É bonita. fique muda. chuta. GARCÍA MÁRQUEZ .. E em determinado momento. MARCOS . Além disso. não emitisse nenhum som. nenhuma sílaba. em termos de atuação e encenação. Aí já dá para estabelecer um contraste entre a delicadeza de Belinda . ROBERTO .Esse 'como se' é decisivo..O difícil é conseguir entender que Belinda se negue a falar com a irmã. O espectador poderá pensar que ela é muda. se faz de muda. mas Belinda não solta nenhum ai.Uma cena tão bonita? ROBERTO .. No máximo. GARCÍA MÁRQUEZ . o fundamental é a questão do vestido e a relação entre as irmãs.Já eu quero propor que nessa cena inicial. no que se refere á sua mudez? Sidália sabe que a irmã não é muda.Vou propor que a gente mude isso. e quando Sidália chegar.paralela entre Sidália saindo da escola e Belinda pondo o vestido. É isso que precisamos explicar ou insinuar. ROBERTO . 176 .Se o espectador acreditasse que Belinda é muda. e começa a cantar feito um passarinho! Isso tem uma força dramática muitíssimo maior do que se soubéssemos logo de saída que ela não é muda. resmunga. Essa situação não é fácil de se resolver. Não se pode contar o filme inteiro na primeira seqüência. ROBERTO . que me preocupa: como tornar verossímil a atitude de Belinda. não é? Não a trata como se também fosse surda.Sidália nunca conseguiu arrancar uma palavra da irmã.vestido-se como uma noiva – e a dureza de Sidália. Não é muda..Por que a gente vai parar nesse ponto logo agora? Até aqui. GARCÍA MÁRQUEZ . E só quando a irmã está por perto. Sidália chega ao portão do jardim. na frente do espelho. No momento em que Belinda acaba de se vestir.. Sidália a tratará como se fosse muda. Belinda cante e fale sozinha. Quando se enfurece.. Quanto tempo isso pode tomar? ROBERTO .. visível nas roupas e na forma de caminhar. como é natural: “Ela é muda”. Belinda se senta no piano. GARCÍA MÁRQUEZ .. SOCORRO .Mas nós a ouvimos cantarolar enquanto se vestia. o espectador pensaria. mas não é forte. GLÓRIA . toca suavemente o teclado. Sidália bate nela. Se nesse primeiro momento ela não falasse.

Não.As duas opções podem funcionar. GARCÍA MÁRQUEZ . Ah!..Aí ganhamos sutileza. Teríamos de imaginar as duas alternativas no contexto da montagem paralela. GARCÍA MÁRQUEZ .Mas eu gosto da idéia de associar o vestido ao canto. Por isso.Se os vizinhos sabem. vi uma reprodução em preto e branco. A do silêncio tem uma desvantagem.GLÓRIA .. acaricia os próprios braços. cairia de repente o raio de Sidália. requer mais tempo de desenvolvimento: um ritmo mais lento. protegendo-se do sol com uma sombrinha. com a sensualidade. Belinda se contempla com aquela roupa no espelho. Os vizinhos dizem que volta e meia ouvem Belinda cantar. Se Belinda começasse a cantarolar enquanto se veste. será que não tem a ver? Os 177 ..para ela e para nós . um tom mais lírico. com Sidália saindo da escola.. Preciso conseguir aquela foto. Belisa..O único lugar da casa que está muito bem cuidado é o jardim.Eu insisto: aí. deduzimos que Belinda canta muito.. como a imperatriz do Japão se protegia da chuva.. ROBERTO .. REYNALDO . GARCÍA MÁRQUEZ . É como se recuperasse o desejo de viver. Belinda canta quando sai para arrumar o jardim... para que vocês vejam.. Quando Belinda põe o vestido..Sidália poderia receber rumores através do padre. que pelo menos seja uma briga das boas... podemos fazer que Sidália seja amante do padre. a cintura. SOCORRO . como é que a irmã não vai saber. E nessa atmosfera idílica. Acontece que eu não vi a foto original. Era uma sombrinha.. REYNALDO .. mas perdemos impacto.Belinda.O vestido deve ser associado com a elegância. apareceu a imagem que eu estava procurando. Quando Belinda põe o vestido. o silêncio me parece mais eloqüente que o canto. ROBERTO .. Parece que estou vendo avançar pela rua essa mulher vestida de preto. com ou sem o padre? Todo mundo sabe.Os vizinhos sabem de tudo.. ou um enxoval de noiva”.Mas com a imperatriz não era um guarda-chuva? GARCÍA MÁRQUEZ . Já que vamos brigar com os censores. os sentidos que passam a ser predominantes .são a vista e o tato. e não a audição. pensaríamos: “Está experimentando um vestido de festa. chegando em casa. GARCÍA MÁRQUEZ .A propósito: para dissimular aquela questão da masturbação para a censura. e me confundi.. sofre uma transformação profunda. E canta. VICTORIA .. VICTORIA .

Percebemos isso? ROBERTO .Não deve ser um daguerreótipo.. das pedras. GARCÍA MÁRQUEZ . Em alguns povoados do Brasil.. Acaba de chover de terra úmida sobe um vapor denso”. como se fosse do inferno. Temos de ir construindo personagens.. ROBERTO .Novo corte: Belinda terminando de se vestir: Isso é o que vemos: uma mulher bastante bonita que está pondo uma roupa muito bonita.. ela atrás. ROBERTO .Mas está suja e despenteada.Sidália vai saltando as poças. mas ela não se dá ao trabalho de fechar a sombrinha. SOCORRO . chuva que cai. é tanto calor que quando chove. empedrada de paralelepípedos.. GARCÍA MÁRQUEZ . essa é uma história bem de Lorca: esse par de loucas trancadas num casarão. GARCÍA MÁRQUEZ . duas coisas: a distância que existe entre a escola e a casa.Está arrumando o cabelo na frente do espelho. mas que visualmente é belíssimo. Uma mulher dessas não desvia por causa de uma pocinha de nada. porque na tela os daguerreótipos não aparecem. Ou melhor. SOCORRO . ROBERTO . em cima do baú. essas casas de muros brancos.Vamos indicar isso para o assistente de produção: rua que reverbera debaixo do sol.Nós dissemos que ela é professora? Dá aulas num colégio de freiras. GARCÍA MÁRQUEZ . E na parede. Tem que ser um grande retrato pintado a óleo. GARCÍA MÁRQUEZ . que ninguém sabe explicar o que está fazendo aí.Na primeira vez que a vemos. parecida com a mãe..Amores de Dom Perimplim com Belisa em seu Jardim é uma peça de García Lorca. vapor que sobe dos chacos. ela está parada na porta da escola.E a fumaça que sobe.. Nos dois lados. está o retrato da mãe. sai fumaça do chão. essa mulher vestida de negro. GLÓRIA .. dois: um da mãe e outro do pai. cobertas de cal. quando cai um pé d'água. Os dois estão juntos na parede da 178 . As meninas saindo debaixo do sol. Corte.Ou pisando nelas. “Até amanhã. casinhas de dois andares.. A casa por dentro. e a casa por fora. Anote a. Sidália entra no jardim. E.Vemos.Não está parada: estão todos em movimento. olhando bem. SOCORRO . assim. abrindo a sombrinha..Belinda é bonita. embora um tanto antiquada.. Socorro: “Sidália via por uma rua ardente..Parou de chover. despedindo-se das alunas. REYNALDO . essa cidadezinha de ruas desertas. dona Sidália”. Vapor aliás.

No retrato. e é uma pessoa tão metódica. A câmera passa por ali. por que não trancou o vestido à chave e guardou a chave no decote? SOCORRO .Essa decisão ainda está pendente: nesta primeira seqüência. GARCÍA MÁRQUEZ . mas não adiantou. Ele está vestindo seu uniforme de general..Não é. Muito bem: isso resolve o problema. mas também por causa do cadeado.Belinda põe o vestido para o pai. e do pai mesmo que é bom.Ali.É importante que isso seja notado. Belinda canta ou não canta? ROBERTO .Mas eu não desisto da idéia de que o vestido produza o mesmo efeito das flores. REYNALDO .. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ .Sidália botou um cadeado na arca. SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ .. A gente sabe as horas pelos ruídos que chegam da rua. mas em off: não sabemos quem canta. Belinda arrebentou o cadeado. com seu uniforme e suas condecorações de coronel da artilharia”.No meu filme. MARCOS . pela sombra que se projeta no chão. pela brisa que entra pela janela. Por isso Sidália está tão furiosa: não só pelo vestido.São os dois únicos quadros que sobraram na casa.sala. não cantaria. uma sensação de euforia que a leva a cantar. Há roteiristas que escrevem: “Em cima do criado-mudo vemos um retrato do pai.Se for assim. GARCÍA MÁRQUEZ .No momento em que Sidália entra em casa. 179 . a mãe está usando o famoso vestido. como é que Belinda se deixa surpreender? ROBERTO . já que Sidália tomou providências para evitar que sua irmã tornasse a tirar o vestido da arca. GLÓRIA . Só falta uma coroa para que ela pareça uma rainha. medindo os minutos. ROBERTO . Belinda está cantando.Porque uma pessoa como Belinda não anda com um cronômetro... na penumbra se detém sobre a moça adormecida. Por isso Sidália fica tão furiosa e diz a ela: “Chega!”. Belinda é reincidente. não vemos nada.. Fica claro que não é a primeira vez.Teríamos de filmar as duas propostas e ver no que dá... morto heroicamente em batalha. VICTORIA ..Nessas cidadezinhas ninguém precisa de cronômetro ou de relógio.Se Sidália sempre sai da escola à mesma hora. GLÓRIA . GARCÍA MÁRQUEZ .E se essa for a primeira vez que Belinda põe o vestido? CECÍLIA ..

Sidália ama também o pai. No parto. na figura da mãe. SOCORRO . feito Belinda. Esse vestido oculta um drama muito. SOCORRO .Por que não voltamos à seqüência inicial? Dissemos que Sidália.Um monólogo. SOCORRO .Então.. GARCÍA MÁRQUEZ .É disso que tenho medo.. ao surpreender Belinda com o vestido.Essa informação pode ser deixada para depois. bate nela. aos olhos de Sidália. por que guardaria o vestido com tanto amor? GARCÍA MÁRQUEZ . 180 . Sidália quer ser como a mãe . . O que ainda não sabemos é que são irmãs. Esta poderia ser uma das suas fantasias. GARCÍA MÁRQUEZ . CECÍLIA . Ama e se oferece a ele num ritual. REYNALDO .Não é que Sidália odeie a mãe. De Sidália. GARCÍA MÁRQUEZ . porque Belinda se parece com a mãe.conhece-o pelo retrato e pelo que Sidália contou -.. ROBERTO .Bate por causa do vestido. embora um tanto vaga. escondida. Pediria desculpas por causa do vestido.Ou com tanto ódio... que as duas mulheres são irmãs. A relação entre as duas se define assim. mas muito complicado mesmo.. e também por causa do cadeado.Um solilóquio.. Seria funesto que o espectador acreditasse que esta senhora está furiosa porque a empregada experimenta.. GARCÍA MÁRQUEZ . Pode conservar alguma lembrança dele.E com a agravante de que.mas acontece que quem herdou a beleza da mãe foi a irmã louca.E se Sidália odiasse a mãe em segredo? GLÓRIA . Belinda matou a mãe. Sidália fala sozinha.A mãe. Depois. ROBERTO .Sim. MARCOS .Um diálogo? Entre quem e quem? REYNALDO .SOCORRO .É preciso elaborar um diálogo muito sutil para insinuar sem dizer.Belinda tinha três anos quando o pai morreu. É que odeia sua irmã. quando Sidália vai se confessar..Ela não recorda do pai . GARCÍA MÁRQUEZ .aquele cabelo.Pedir a quem? SOCORRO . REYNALDO .. mas o ama. MARCOS . seus trapos. poderia ir até o retrato da mãe e pedir desculpas. Agora. podemos pensar que se trata da relação entre uma senhora déspota e sua criada. aquela pele.É aí que mora o drama.

depois. ROBERTO. mas sem dizer nada. “Não diga nada. pelo que dizia.O pai também preferia Belinda.O quadro das motivações está completo. e o pai via a filha menor como órfã. tinha pena dela. e o guarda para vesti-lo em algum momento muito especial da sua vida. Sidália a amarra assim. desgra‡ada! Engole essa língua.É isso que diziam dos romances de trinta anos 181 . REYNALDO . Assim matamos dois pássaros com uma só estilingada: revelamos o caráter de Sidália e damos informação sobre as relações familiares. Agora. têm de ser atrozes.Essa primeira seqüência deve terminar com Belinda amarrada na cama. ROBERTO .. E. a beleza que ela não tem. porque. Tão tensa.E além disso.GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . Sidália vai gritando todas as ofensas que passam pela sua cabeça. É uma situação muito tensa. Belinda não é assim.Sidália não odiava a mãe: invejava. mas ouve bem o que eu vou dizer!”. Belinda olha com ódio. O vestido é uma espécie de símbolo dessa inveja. Ela mesma tira o vestido. Enquanto amarra a irmã. GARCÍA MÁRQUEZ .Isso resolve o problema de despir Belinda.Belinda também vestiu umas luvas de renda. Não são fáceis. Sidália fez com que ficasse assim. SOCORRO . E nesse momento. ela era “o retrato vivo da mãe”. quando vê a irmã com o vestido da mãe. ficamos sabendo que Sidália também sabe. quando rasgam o vestido? Só as luvas sobrariam intactas.Essas cenas de violência são uma dor de cabeça para os diretores. Que imagem! E enquanto Sidália a amarra e insulta. Sidália sempre quis ter um vestido como esse. Nós já sabemos que não é muda. era a filha da velhice. e dá uma ordem duríssima: “Tire esse vestido imediatamente!”.. Sidália explode. Mas esse momento não chega jamais.E por que não deixamos as luvas de rendas para a segunda cena de violência. começa a insultá-la. seminua. GARCÍA MÁRQUEZ . mas com as luvas. sim. Uma situação como essa não se dá facilmente entre pessoas normais. quando parece que tudo já está em ordem. sabem fazer isso. Os americanos. os insultos de Sidália. Portanto. GARCÍA MÁRQUEZ ..E não tira as luvas.. GLÓRIA .Primeiro Sidália fica plantada na frente de Belinda. Representa a vitalidade. GARCÍA MÁRQUEZ . que chego a pensar: e agora? Como manter esse nível? Como continuar? REYNALDO .

nesse ponto ele solta o rolo familiar inteiro. que conheceu os pais das duas: “Vossa santa mãe... não ponha Sidália no confessionário! Que seja uma seqüência em movimento. sempre disse que você e sua irmãzinha. ROBERTO .. pela bestialidade da sua conduta. E para ela. MARCOS . é para explicar que Belinda é sua irmã.O grande problema desta história é que ela pode fazer a gente perder o sentido das medidas. Imagine que ela rompeu o cadeado da arca e tornou a pôr o vestido”. o senhor acha que podemos exorcizá-la?”..Sidália está louca mas não perdeu o contato com o mundo exterior. Isso nos convém. Ela se sente culpada. ela está pior que nunca. porque se associa à camisa de força. a de se entregar à bebida . SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ .Sidália não acha que a irmã está louca.O que eu quero dizer é que fica difícil resolver na tela uma briga entre duas mulheres. enquanto 182 . não se defende. Enfim.. E o padre.. Acha que está tomada pelo demônio. e na de Belinda. E fala disso com o padre: “Padre.É que amarrar implica um elemento de loucura que opera nas duas direções: na de Sidália. rezando ou se confessando. dizia. sempre no papel de vítima. às lágrimas ou ao cilício? SOCORRO ..E Sidália. e que Sidália acha a irmã louca. fica claro que só uma ataca. Sidália terá que desamarrá-la. “E vosso finado pai. GARCÍA MÁRQUEZ . sim.. que descansa em paz e na Glória. GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO . “Padre.Aqui.atrás: “Os americanos. GARCÍA MÁRQUEZ .. Até onde chegamos. GARCÍA MÁRQUEZ .O que me preocupava era o depois. O ideal seria que tanto ela como o padre estivessem montados em cavalinhos de carrossel.e que Deus o perdoe -.. isso é uma coisa muito séria... ROBERTO .Aí Sidália solta tudo.Se a confissão de Sidália nos serve para alguma coisa. porque nos permite sair da casa e arejar visualmente o filme.. A outra é um animalzinho.Por que amarrar Belinda? A moça pode ficar jogada num canto.A cena seguinte é muito plácida: Sidália na igreja. MARCOS . GARCÍA MÁRQUEZ .. depois de levar uma surra.Nós ainda não sabemos como o filme continua. sabem escrever livros”. Por quê? Quando? GARCÍA MÁRQUEZ .”. pois Sidália é das que se castigam com cilícios.Por favor.

Um diálogo cortado. GARCÍA MÁRQUEZ . O padre bate na porta da casa.. pode criar um tempo morto com imagens de ambiente. ofegante. que todo mundo est maluco.Não é um corte limpo. “Por que você se porta assim com a sua irmã. apressado. padre! Ela está pior do nunca''. Impossível: ele não pode atendê-la nesse momento. no átrio da igreja.. mas cheio de informação.. SOCORRO . tudo voltou ao ritmo normal. padre”. alcança o padre e diz que precisa falar com ele... ela está fora de si”.Eu vejo a cena assim: Sidália está rezando... por que não metemos na casa alguma empregada velha. assim. Chegam. aqui. nós teríamos de eliminar o padre..Se Sidália for diretamente procurar o boticário para buscar o sedativo. O padre passa perto. e o padre principalmente.Pode haver um trânsito violento. padre. percebe? O corte limpo só pode ser de Belinda.. podemos recorrer a uma elipse: passaram-se vários dias.. murmurando: “Fez de novo. a desamarra. é um elemento-chave. Sidália se levanta. talvez com soluços afogados. E assim Sidália abre o jogo no trajeto entre a sacristia e o átrio.. que é como uma mãe para você? O que você ganha fazendo-a sofrer?”... Sidália amarra a irmã.. SOCORRO . 183 . que fale com ela: “Ao senhor ela acata. amarrada. SOCORRO .E quem chamou o padre? MARCOS . Tem um problema de continuidade. ajoelhada na frente de um grande crucifixo.Sidália. ROBERTO .E o padre desamarra Belinda como se ela fosse um avestruz. “Rápido. para Sidália na igreja. GARCÍA MÁRQUEZ . padre.conversam. começa a abençoá-la e rezar e enquanto isso. O que eu me pergunto é outra coisa: por que não damos mais importância ao boticário? E inclusive. se você quiser. esperou que o padre terminasse de resolver seus assuntos.ficaria claro. Depois. o padre contempla Belinda.Não.Mas o padre. Agora os dois estão caminhando na direção da casa.. SOCORRO . SOCORRO . Sidália pede ao padre que vá ver a irmã. Pode haver passado o tempo que você quiser entre o momento que Sidália amarra Belinda e o momento que está na igreja rezando. GARCÍA MÁRQUEZ . Sidália abre a porta: “Que bom que o senhor chegou. Corte. O que ela quer realmente é que o padre exorcize a irmã.Para deixar Belinda em liberdade. Corte.Sidália mandou um recado. para facilitar as coisas? GARCÍA MÁRQUEZ . Arrebentou o cadeado e tornou a pôr o vestido”.

Ela sentiu várias vezes a tentação de falar com o padre. voltará a sentir a urgência de pôr o vestido..Sim. Dentro de pouco...O padre entra sozinho.Belinda pôs flores nos cabelos.Ela se levanta. E de repente.Não pode ser.Não.Ou se levanta.Quando entregou a chave ao padre. não dá. Já est calma. Deixou em cima da arca.. GARCÍA MÁRQUEZ .. momentaneamente. com calma total.. GARCÍA MÁRQUEZ ..GARCÍA MÁRQUEZ . é capaz de compreender os seus traumas. O padre estende a mão pedindo a chave. a informação sobre o passado. agora Belinda levanta.O padre chega na casa e. cantando. Registrem: eu falei sombrinha. ROBERTO .. SOCORRO . porque não encontrava a chave do cadeado. GARCÍA MÁRQUEZ . conhece a moça desde que que ela nasceu. Voltou ao seu estado normal. e lá está Belinda no jardim.Com a sombrinha. GARCÍA MÁRQUEZ ..Sidália sai da farmácia com um vidrinho. SOCORRO . na porta do quarto. trancando com o cadeado. MARCOS . Está como reencontrando a si mesma..Cuidado: guarde essas imagens para o final.Terminamos de resolver o pedaço mais difícil. Por isso. Sua irmã vai surpreendê-la de novo? SOCORRO .. Pelo menos. dura como uma estátua. como gorjeios. SOCORRO . cantarolando. vai dando conselhos a ela. 184 . ou numa cadeira. Deixe-me resolver esse assunto”.. totalmente calma. mas é preciso ver que tipo de cura Sidália quer para a irmã: uma cura espiritual ou uma cura corporal? As duas. dobra o vestido cuidadosamente e guarda-o na arca. É preciso ver Belinda enlouquecer aos poucos.Corte. e não guarda-chuva. e torna a apanhar o vestido! REYNALDO . ordena a Sidália: “Fique aqui fora. A chave está com Belinda. Já podemos cortar para ela no jardim. GARCÍA MÁRQUEZ . MARCOS . Agora temos que ver como a crise volta a se incubar: Eu vejo Belinda caminhando sozinha pela casa e articulando sons estranhos. Belinda tira a chave do seu esconderijo e entrega. sai correndo e se esconde em algum lugar. e enquanto desamarra Belinda... GLÓRIA .. começa a cantar. e fica ali.. veríamos Sidália indo para a farmácia.O padre é meigo com Belinda. Belinda se rendeu. Agora. E quando Belinda se vê livre. Sidália trancou o vestido à chave.

nem nada. Sidália está dando a Belinda as instruções do dia. sua desgraçada!”. REYNALDO . arrumando um vaso de flores que acaba de trazer do jardim.. E lembre-se de passar o espanador pelas prateleiras do quarto”.Não. Não tem eletricidade. SOCORRO . os espectadores .Perderíamos o impacto da cena final. limpe bem o armário do banheiro. Tomam banho de balde.. lava. DENISE .Mesmo com um toque de loucura. Só emite sons.Bom. Vê a irmã se contorcer. você está perdida..Belinda não tem intenção de matar Sidália. SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ .Belinda costuma se acariciar enquanto dorme.Vamos voltar à rotina da casa. As duas irmãs estão tomando o café da manhã. REYNALDO . Diz: “Belinda... As duas irmãs dormem no mesmo quarto. GARCÍA MÁRQUEZ .Todo mundo sabe que Belinda fala. quando Sidália a surpreende e rasga o vestido. DENISE . SOCORRO ....Elas não têm água encanada? SOCORRO .. em 1930. tira água do poço.Estamos num povoado rural...Precisamos de uma trégua.Mas uma onanista não se masturba apenas nos “momentos de clímax”.. uma pequena dose de vida cotidiana.Belinda se masturba no banho? SOCORRO .Belinda fica sozinha o dia inteiro. Ela só se masturba no momento clímax.. e faz um sinal da cruz encandalizada. Sidália vê como Belinda se toca. então ela não fala.Exato. até o momento em que agarra uma faca e avança sobre a irmã. Eu vejo Belinda na casa. Fala com as flores numa linguagem codificada.Poderíamos tentar até mesmo uma cena mais mórbida: 185 . SOCORRO . mas ninguém – nem mesmo nós. suspirar. Por isso o vestido tem que ficar trancado a cadeado.. GARCÍA MÁRQUEZ .. nem água corrente. gritando do: “Agora sim. SOCORRO . ELID ...E que momento é este? GLÓRIA .É estranho que ela não tenha tido a idéia de amarrar guizos nos pulsos de Belinda. GARCÍA MÁRQUEZ ..Belinda cozinha. quando ela sai na rua falando pelos cotovelos.GARCÍA MÁRQUEZ .. GARCÍA MÁRQUEZ ...Para a sua empregada. SOCORRO . e falando com elas.ouve Belinda falar.

.Elas podem estar escutando música. O que viria depois? 186 . GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ .A loucura mística foi mais vista no cinema que a loucura simples. excitada.Elas não têm rádio. SOCORRO . Afinal. SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ ..Quem anda precisando de marido é Belinda. deixando-se ser amada. deixa que suas lembranças fluam: “Você tem o mesmo cabelo de minha mãe”. E gostava que eu escovasse o seu cabelo”.“Mamãe lavava a cabeça todos os dias. uma espécie de servidão que não sabemos exatamente em que consiste. enquanto a penteia. SOCORRO . CECÍLIA .. nunca conheceu um homem.Mas Sidália está sexualmente frustrada.E Belinda está muito tranqüila. MARCOS ... SOCORRO . O rádio ainda não chegou ao povoado. mas cujo fundo secreto é a loucura.. penteando. GARCÍA MÁRQUEZ ..Para todos os efeitos..Essa relação é muito boa.. Pode ser discretamente insinuada.Na Colômbia... SOCORRO . mas enquanto isso a acaricia.. Por exemplo: Belinda acaba de tomar banho e Sidália. tem ataques histéricos. carícias.. necessariamente. GARCÍA MÁRQUEZ . Além disso.Ou podemos abordar a questão de outro ângulo.. MARCOS .. sabe? Com gema de ovo.e armou-se um escândalo que chegou até o Congresso. CECÍLIA . Sidália criou a irmã. porradas. ou de mamãe.. como se fosse uma menina.Sidália conta à irmã como eram as festas que davam na casa. Agora está arrumando seus cabelos.. Uma cena de lesbianismo incestuoso. desfazendo nós. E enquanto isso.. entrou na menopausa sem nem mesmo ter tido um namorado.Eu acho que com o café da manhã e o penteado resolvemos as cenas de transição. nesta relação das duas.. quando Belinda ainda não tinha nascido. Não é uma relação lésbica.Belinda adormecida.. com um vestido novo.as duas nuas . ou da sua: da minha. e Sidália tocando os seus seios. SOCORRO . é a sua mãe. Primeiro. trata a irmã com muita ternura. enquanto isso.Não da nossa. Não é possível que não tenha nem uma gota de sexualidade.Descreve a mãe numa dessas festas. GARCÍA MÁRQUEZ .Não se pode esquecer que Sidália é uma beata. Há. Depois. fizeram uma cena de lésbicas na televisão .Esta não precisa ser escandalosa. os fragmentos da vida cotidiana. Sidália não tem nada a ver com o divino. REYNALDO .

ao boticário.Já estamos na metade do filme. arrumada...Belinda não deve sair de casa. GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO .Eu acho essa cena muito reveladora.. E menos ainda com a aprovação de Sidália.E passa talquinho.. GARCÍA MÁRQUEZ .. Antes só penteava.”.E Sidália vai de novo ao padre.. REYNALDO .. As boas meninas não mexem aí”.Só podemos tirar Belinda de casa quando ela puser o vestido .... GARCÍA MÁRQUEZ .Se Sidália é tão católica. como a minha menina ficou bonitinha! Vamos ver.. Agora dá banho. GARCÍA MÁRQUEZ . CECÍLIA .Sidália não deixou nunca. SOCORRO. saberá que é pecado não levar a irmã à missa dos domingos.e sair às ruas para se diplomar de maluca. Belinda se veste e senta na sala com a esperança de que sua irmã a leve à missa. servindo o jantar a Sidália. os seios... SOCORRO .. Belinda se acariciando no sono... CECÍLIA . penteia... esfregando. penteada.Enquanto está dando banho em Belinda. Sidália. mas com um avental. vai até o piano e toca. não responde.E quando termina de servir a irmã. e desde que amanhece. SOCORRO .. REYNALDO .Mas esse dia é domingo. Não podemos continuar dando nós.. quando deixam. e põe perfume? Estou vendo as duas: “Ah. Que momento! Diga a verdade: tem alguma coisa mais sugestiva? A irmã cinqüentona dando banho na irmãzinha de trinta.. mas não consegue se banhar.O que você acha deste: Sidália dá banho em Belinda. REYNALDO .. cozinhar arrumar a casa.Mas Sidália vai ficar falando sem parar? GARCÍA MÁRQUEZ .seu uniforme de louca . MARCOS . veste. porque Belinda pode limpar..CECÍLIA .E continua ensaboando. só isso já dava um filme! Belinda é como uma boneca.. as orelhinhas. ou a dependência mútua? GARCÍA MÁRQUEZ . 187 . Temos que começar a desfazê-los. E a cena termina assim: Belinda banhada. Sidália bate palmas. vê que a irmã acaricia o próprio sexo. Sidália ouvindo seus suspiros.E se encontrássemos outra cena sugestiva para deixar bem clara a relação de amor-ódio.. Sidália briga com ela porque a irmã não quer falar. vestida... Por quê? A única resposta possível é a seguinte: porque Sidália não deixa.E por que não? E o que todos nós fazemos. recrimina: “Isso é feio..A cena noturna.

vou ler aqui: “como se Belinda fosse um avestruz”.. e termina com Sidália surpreendendo Belinda e amarrando-a na cama.De acordo com as minhas anotações. nem passa pela cabeça de Sidália ralhar com Belinda. não diz nada. é que ponha o vestido da mãe. 188 . As duas irmãs estão dormindo.. E então começa a chorar. Eu acho que agora seria bom dar algum antecedente do erotismo reprimido de Belinda. Não pode haver tanto onanismo num filme tão curto. SOCORRO . está prestando atenção a um barulhinho que chega da outra cama: é um ofegar que vai se acelerando e termina num suspiro de êxtase.É verdade.Sidália percebeu que a irmã está se masturbando. a que começa com Sidália saindo da escola enquanto Belinda põe o vestido.REYNALDO . e vemos que Sidália.Seria bom esclarecer o que elaboramos até agora. GARCÍA MÁRQUEZ . Depois a que começa com a conversa entre Sidália e o padre.Não. Os detalhes podem variar.Pois vamos ver. ela não canta: ela toca. E finalmente.Acho que me perdi. Está literalmente banhada em lágrimas. Nem bater nela: é como se reconhecesse que a irmã tem direito a esse mínimo de privacidade. SOCORRO . ELID . Morde os lábios.. GARCÍA MÁRQUEZ .. DENISE . aos borbotões. Chora no mais absoluto silêncio. a dos chamados momentos da vida cotidiana.. Isso nós ainda não vimos. É de noite. eu já falei: essas coisas..Já vimos uma boa mostra do erotismo mórbido de Sidália.Nesse momento.E aí: como a história continua? SOCORRO . que filme até o fim. são três grandes seqüências iniciais. prefiro sugerir. SOCORRO . Quando é que Sidália vai à farmácia? VICTORIA ... GARCÍA MÁRQUEZ . ou parecem estar. mas chora muito.“Me ame muito. Se você decidiu filmar.A única coisa que deixa Sidália furiosa com a irmã. e termina com o padre desamarrando Belinda. a ponto de não conseguir mais suportar. Primeiro.Não. Além disso.Não. que começa com Sidália banhando e penteando Belinda e termina com Belinda servindo o jantar e tocando piano para Sidália.Esse é o eixo narrativo. meu doce amor”. SOCORRO .. com os olhos muito abertos.Que bom final para essa seqüência! A única coisa que falta é Sidália ir até o banheiro se masturbar. Seja como for.. essas cenas serão cortadas depois. DENISE . SOCORRO . ROBERTO . GARCÍA MÁRQUEZ .

que seja um obra-prima. pleno processo de decadência. saia à rua e se assuma como louca. o vestido não está rasgado. Sidália costurando e ao mesmo tempo.Sidália dorme na cama de casal.. durante a primeira disputa. GARCÍA MÁRQUEZ . não têm por que dormir em camas separadas. Belinda abria a arca e punha novamente o vestido. SOCORRO . mas está remendado. porque senão. que caiba nesses dez minutos finais. mais ou menos. nem vale a pena tentar. SOCORRO . porque desta vez Belinda não apanha quieta. Sidália torna a encontrar Belinda com o vestido – a idéia original era que.. clímax e desenlance. quase ao seu lado.. Agora.. ELID .. E além disso. com introdução.. e em determinado momento.Se elas dormem no mesmo quarto. SOCORRO . quem rasgaria o vestido? GARCÍA MÁRQUEZ . Já podemos começar a última parte. não precisamos mais de antecedentes. No que diz respeito a nós. Na verdade. Do ponto de vista da progressão dramática.Bem. embora depois tenham se complicado bastante .Rasgar? Ninguém. ela é mais forte que Sidália. Temos ainda dez minutos. Ela mesma havia rasgado. além disso.Ela disse a Belinda: “Tira essa roupa”. enquanto puxava o vestido pelos ombros. Belinda tocando piano.Assim poderia começar a parte final: do pranto silencioso de Sidália. SOCORRO . quando via a irmã morta. precisamos um filminho completo.. GARCÍA MÁRQUEZ .. quando vê que sua irmã morreu.Em algum momento. e a confusão é enorme. Belinda. Eu acho que não devemos continuar adiando o clímax. à atitude concentrada de Sidália remendando o vestido no dia seguinte.num daqueles momentos de trânsito que chamamos de vida cotidiana. Belinda acha que ela desmaiou. você terá que analisar esta história a partir de seu contexto. só agora. é muito melhor que Belinda se vista. SOCORRO.na qual Sidália esteja remendando o vestido. Empurra a irmã mais velha.ROBERTO . numa cama menor. GARCÍA MÁRQUEZ . mas na verdade.Mas aí.Pois é.Morreu? Está morta? Eu pensava que só aí. ela estivesse se masturbando -. Pode haver uma cena anterior . uma classe arruinada. Sidália cai e bate a cabeça no pé do piano e fica imóvel. durante a cena da masturbação. bate nela. 189 . Você precisaria imaginá-la num ambiente da velha aristocracia rural.

MARCOS . você sabe. SOCORRO . Assim. e Belinda. as duas se sentam na sala: Sidália. envolvidas na atmosfera sentimental de um melodrama.Mas isso foi há duas. a partir do qual é impossível continuar subindo.Elas podem estar ouvindo radionovela. A idéia da radionovela é boa: as irmãs costurando e bordando. a cena perde força dramática.Mas já vimos essa estrutura: Sidália comendo.SOCORRO . mas de outra perspectiva? Sidália chorou um oceano.. Se vemos Sidália recuperada. ELID . Socorro. precisamos de uma pausa... ROBERTO . percorrer outra vez o trajeto inteiro. tira o vestido da arca e começa a costurá-lo. GARCÍA MÁRQUEZ . e vimos quando ela chorou. Se a gente passar de uma cena noturna a outra.... Já sabemos que esta paz vai terminar num desastre. lá de baixo.. SOCORRO .Depois de um momento desses. conforme for mais conveniente. o espectador logo acha que se trata da mesma noite.Você pode situar a história um pouco antes ou um pouco depois.Pode ser a manhã do dia seguinte.Eu preferiria adiantar a cena do remendo.Tanta placidez acaba sendo suspeita. Sidália se levanta. Não estou falando de leis dramatúrgicas. a melhor coisa que se pode fazer é começar de novo. para tricotar. é preciso um corte. Aí consegue-se um momento muito tenso. Agora.. Se reconhecemos a necessidade de rasgar e remendar o vestido.Nesse caso. se quisermos nos manter fiéis aos nossos princípios anarquistas. SOCORRO . não consegue dormir: Belinda dorme profundamente.. É domingo. SOCORRO . ROBERTO .Poderia haver um corte para a madrugada desse dia – ou do dia seguinte .me refiro à primeira versão -. não: ela. para remendar o vestido.para que Sidália costurasse o vestido nessas horas. GARCÍA MÁRQUEZ . Quando Sidália termina de comer. e agora está sem nenhum sono. e Belinda de tocar piano . GARCÍA MÁRQUEZ . Nós. GARCÍA MÁRQUEZ . é porque precisamos de um vestido remendado 190 . Belinda tocando. acende uma lamparina..Um momento. estaríamos nos referindo às suas insônias constantes.As cenas noturnas não admitem graduações. três seqüências. uma cena de passagem.Em 1930? GARCÍA MÁRQUEZ . Parecia que Sidália era incapaz de chorar. você tiraria força do choro.E se voltarmos para a noite da masturbação.. Tem que ser assim.. mas de truques narrativos: quando se chega a um ponto muito alto.

escolhemos este porque é agora que tudo será decidido. tocando. Agora entendemos que isso vem se repetindo há quinze.Agora. um elemento de reconciliação que não estava previsto.. A imagem. para existir.Sidália quer o vestido para conservá-lo. e Belinda está sentada ao piano.A música do piano pode entrar por fusão no plano anterior e alcançar o volume pleno no primeiro fotograma desta cena. Muito bem. Isso.. meio de viés.Por isso fazemos o filme agora.Belinda toca piano e olha o vestido. Por isso. a trilha sonora. GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO . porém. não saberíamos o que fazer com o bendito vestido. É uma manhã esplêndida. Belinda. bem. a luz do sol se filtra pela janela.Poderíamos passar a esse plano através de uma fusão? GARCÍA MÁRQUEZ .Você precisa prestar atenção na continuidade: de onde vem e para onde vai essa cena? A anterior é a do pranto de Sidália Portanto. SOCORRO .Sidália é quem rasga o vestido. SOCORRO . Agora. GARCÍA MÁRQUEZ . reina a paz entre as irmãs. O ciclo que vai das lutas à reconciliação e às novas brigas não acaba nunca. para que exista. E nada mais.Mas esta é a primeira vez que o vestido rasga. Nesse mundo de violência soterrada. se não soubéssemos isso.. Quando a câmera se move.. com a imagem é preciso tomar cuidado. para que não se gaste. vinte anos. SOCORRO . começa com Belinda. a reinar.para a cena final. Mas agora acontece que sai daí – dessa cena do remendo . ROBERTO . as primeiras notas do piano poderiam entrar sobre esse pranto silencioso.um significado adicional. mas num ato de fúria cega... GARCÍA MÁRQUEZ . Belinda toca piano... sou partidário de que 191 . Muito bem. como se as duas sofressem um ataque de amnésia. quando Belinda saí à rua dando gritos.. Já estamos remendando. E ela acha que isso também aconteceu por culpa de Belinda. Que interessante.É curioso. Agora. discretamente. como se esse vestido e esses rasgos no tecido não as fizessem recordar nada. de repente. Sidália costura o vestido na frente de Belinda. Reforçariam o dramatismo da situação e não demoraríamos a perceber que não se trata de um simples “comentário com Sidália. e Belinda quer para gastá-lo. enquanto Sidália costura o vestido. para sentir-se viva. De todos os ciclos idênticos. descobrimos Sidália costurando. porque os recursos técnicos têm sua gramática própria.. mas as irmãs disputam o vestido por razões diferentes.. GARCÍA MÁRQUEZ ... a harmonia passa. Sidália quer o vestido como um relíquia..

GARCÍA MÁRQUEZ . Eu fiz isso.. Quando o padre chega..Quem pode suspeitar que uns poucos minutos depois dessa cena.Ou o padre. DENISE ..Como o espectador fica sabendo que é láudano? GARCÍA MÁRQUEZ . no final daquela primeira seqüência.. SOCORRO .. mas porque tem um belo nome: láudano.Mas não mata a irmã de forma violenta. As pessoas falam muito de arsênico. faz com que ela engula um pouquinho de láudano. Pode botar um pouco de veneno na sopa. acho que o boticário não faz falta. porque é uma substância muito amarga.Não precisa saber. com muito cuidado: uma. façam exercícios práticos de montagem. eu queria que Sidália contasse ao padre o problema de excitação de Belinda. e como Belinda dá o remédio a Sidália? GARCÍA MÁRQUEZ . O arsênico é um veneno 192 .No começo. Podemos falar disso mais tarde..Sidália não dá diretamente uma colherada a Belinda: derrama algumas gotas na colherinha.E agora Belinda. vai até a cozinha.. três...Uma overdose de láudano.Quem cozinha na casa é Belinda.. SOCORRO . duas. GARCÍA MÁRQUEZ. Com o remédio de Belinda. o dineiro do boticário. e que o padre a mandasse ao boticário. Isso provoca em Sidália uma reação. GARCÍA MÁRQUEZ. onde tudo é harmonia. Quando Sidália amarra Belinda. O próprio padre pode ir até o armário da sacristia e dar o frasco do remédio a Sidália? GARCÍA MÁRQUEZ . SOCORRO .Sidália poderia morrer envenenada. Belinda já está sob os efeitos do calmante.os roteiristas se sentem na frente da moviola para editar os filmes.Como chegou. DENISE . .. Mas como esse remédio foi parar lá? MANOLO .. Mas agora. se vocês quiserem. Eu. mas sua ação não é fulminante. é cumulativa. para o produtor.E a dose? Porque é preciso saber que uma overdose pode ser fatal. quando quero envenenar um personagem. o remédio já está na casa. uso sempre láudano. ao ver que Sidália sofreu um ataque. Podemos economizar.Ou então. SOCORRO . pergunta a Sidália: “Você deu o remédio a ela? Quantas gotas?”. quando estudava o cinema. Não porque seja mais letal que outro venenos. ao chegar e ver Belinda atordoada. Belinda vai matar a irmã? GARCÍA MÁRQUEZ . Assim o espectador fica sabendo onde está o frasco. pega o frasco na despensa e obriga Belinda a engolir uma colherada.

com seus alunos.para longa-metragens. GARCÍA MÁRQUEZ . e a própria Belinda tirava sozinha. É como um castigo. Dramaticamente. Um mundo completamente diferente. Sidália manda Belinda tirar o vestido. Belinda está sozinha em casa. É isso que causa o desmaio e dá a Belinda a idéia de reanimá-la com o remédio fatal. rasga um pouco a parte do decote. Sidália deitada. ou vice-versa. na classe.E a cena da costura seria antecipada. ou uma tarefa de escola: a professora vigia. Danou-se. aprova. indo para casa. revisa.É. SOCORRO .Entregue ao ritual. É o mesmo filme. Sidália na escola dando aula. SOCORRO . vemos Sidália lá dentro. GARCÍA MÁRQUEZ .O vestido pode ter rasgos e remendos anteriores.Ou seja. na 193 .Desta vez. GARCÍA MÁRQUEZ . Agora. Sidália. poderia haver uma dissolução de imagem.Se for assim. a obriga a abrir a boca e faz com que ela engula meio frasco de laúdano. Outro remendo para a pobre roupa.Sidália costuma tomar chá de erva-cidreira todos os dias a mesma hora. a transição teria que ser diferente: de Sidália chorando a Sidália na escola.Agora sim. SOCORRO .Seja como for não teria tempo de verificar.Na primeira seqüência.Não sei se ficou claro que Sidália desmaia ao ver que rasgou o vestido. GARCÍA MÁRQUEZ . Socorro. REYNALDO . e pronto. Fecharíamos a seqüência do banho com essa cena. Revela muito melhor a relação entre as duas. tem propriedades purgantes. Não há nenhuma razão para abrir mão dessa cena. é melhor. REYNALDO . É uma infusão que. porque de repente Belinda fica impaciente e ao ver que a irmã cospe...Eu gostava da idéia de associar o vestido à masturbação. GARCÍA MÁRQUEZ . chorando. e pode achar que o que Belinda está dando a ela é o seu chá. debaixo do olhar vigilante de Sidália. o que havia na colherinha. com uma mudança de enquadramento. então. SOCORRO .. instintivamente. ROBERTO .. em termos de montagem. víamos Sidália saindo. GARCÍA MÁRQUEZ . Sidália ainda está meio atordoada. REYNALDO .. A reconciliação aconteceu antes. sem querer.. E acho que a gente iria conseguir isso fazendo que Sidália costurasse o vestido rasgado depois daquela noite. não veríamos Sidália saindo da escola mas em plena rua. Fade out. no dia seguinte. Belinda costuraria.Antes. o vestido não rasga na primeira briga. para ela. Para dizer ao espectador que agora.

Vemos a mesma Sidália dirigindo o coro na escola. Com um corte.. Eu preferiria ligar Sidália à música. ROBERTO .É uma ansiedade de tipo sexual.. procurando alguma coisa para arrombar o cadeado. CECÍLIA .. 194 . Agora a história torna a se repetir exatamente igual: Sidália na escola.É o que fazem num colégio de freiras. Não precisamos mais ver Sidália na rua. também aqui. Belinda se vestindo.Mas agora Belinda arrebenta o cadeado. SOCORRO .. GLÓRIA .. nem que pode ser morto. GARCÍA MÁRQUEZ . porque agora trancou-o com um cadeado e não deixa mais a chave em casa: carrega sempre com ela. a campanhia acaba de tocar.Está louca para pôr o vestido.isso é um ritual -..No decote. com os alunos internos.Agora. GARCÍA MÁRQUEZ .Por isso eu tive essa idéia. Corte.O que eu disse: a possibilidade de criar um contraste.Por que não fazemos. Pelo menos. É uma música angelical. Corte. ROBERTO . Dando aula de piano. mas não importa. Enquanto Sidália ensina como se usam os talheres . ninguém pensa nas conseqüências:nem que pode ser surpreendido.Na escola. por dissolução.seqüência que Roberto destacou agora... as vozes de um coro de meninos. REYNALDO .Sabe o quanto está se arriscando.Não conseguiu agüentar a vontade..Está muito rebuscado.. SOCORRO .Já sei: sobre o rosto de Sidália. pondo o vestido. de solfejo..E o que a gente iria ganhar com essa história dos talheres? ROBERTO . Belinda não encontra com quê abrir o cadeado e vai à cozinha e revolve os talheres e apanha uma faca. MARCOS . Por exemplo: Sidália está ensinando aos alunos como se deve usar os talheres numa mesa. Eu aprendi a amarrar os sapatos num colégio de padres. No espelho da tela. Belinda arrebentando o cadeado.. por sua vez. REYNALDO .. GARCÍA MÁRQUEZ .. mas quando se carrega a bateria. Sidália terminando a aula. MARCOS .. que ficam para as refeições. a levamos para a entrado do jardim... Depois virão os prantos e o arrependimento. entram. REYNALDO . não tem medo que Belinda tire o vestido da arca. Belinda em casa. uma montagem paralela? Sidália dando aula. zona pecaminosa.Sidália. o que importa é criar um contraste.. quando Sidália banha e penteia Belinda.. MARCOS .. dois filmes simétricos. banhado em lágrimas refiro-me à cena anterior -. Belinda desesperada.

Não quer fazer nenhum mal à irmã. ELID .Que maravilha. para costurar o vestido.O de Sidália. cadê Sidália? Está dormindo. REYNALDO . GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . Não consegue suportar a idéia de ela mesmo ter rasgado o vestido. SOCORRO . REYNALDO .Belinda deu a ela as gotas como se fossem remédio. quer reanimá-la. Precisamos ver o que fizemos no começo.Isso. no quarto.O que eu mais gosto desta encenação é o candor com que contamos a história. mostrar todo este ritual. Para dizer que Sidália não estava em casa. talvez não valesse a pena fazê-la.É o que Melville disse quando terminou Moby Dick: “Escrevi um livro malvado e me sinto tão imaculado como um cordeiro”. Lá na escola.Depois de dar o remédio à irmã. para decidir o que fazer agora. REYNALDO . ELID . Tem vantagem de revelar até que ponto Sidália está emocionantemente ligada ao vestido. Por isso tem um ataque histérico. a agressão ao vestido tem todas as características de uma auto-agressão. GARCÍA MÁRQUEZ . a história mais torta que alguém poderia imaginar.Nós não vimos isso na primeira vez.foi assim que Socorro propôs? Não importa. não precisaríamos ir parar aí.Não dá tempo. SOCORRO . e desmaia.Belinda vai pondo o vestido no mais absoluto silêncio. O que eu acho importante é ver Belinda se vestindo. não se ouve um mosquito.E enquanto Belinda costura. atordoada. acompanhado o coro infantil.É preciso que ela faça isso. Belinda se tranca em outro quarto. SOCORRO . está num estado de êxtase. morta? GARCÍA MÁRQUEZ .. Este é o final. esse coro de criancinhas vestidas de branco.A história ficou simétrica. cantam os anjinhos. é um choque.SOCORRO . SOCORRO . Não se perdoa. GARCÍA MÁRQUEZ . para ela.Sidália. diante do piano. quando sem querer rasga o vestido? GARCÍA MÁRQUEZ . flutuando como anjinhos contra um fundo azul! GARCÍA MÁRQUEZ .. e merece o mesmo tempo que o da primeira seqüência.Para ela. Aqui. Ao contrário.O que não me convence é a idéia do desmaio.Se a cena da escola não proporcionasse esse lucro visual. Está fazendo com Sidália o que Sidália faz com ela: papel de enfermeira. Vimos que 195 . ROBERTO .

na montagem paralela: Sidália saindo da escola. as rasgar o vestido. Eu gosto mais assim. E se acabou Sidália. e quando Sidália entra no quarto. como se ela fosse criança. Podemos dizer que na primeira vez contamos a seqüência do ponto de vista de Sidália. São coisas 196 . nesta segunda vez. GARCÍA MÁRQUEZ . ELID . SOCORRO .se continuarmos pensando no láudano . quando Belinda começa a se vestir. Sidália agredia Belinda. luvas. invertemos os termos: vemos todo o começo ou todo o final da cerimônia. ele perderia importância para nós. GARCÍA MÁRQUEZ . vai buscar o remédio para sedá-la. Conta as gotas com muito cuidado. cospe.. tranqüilamente.Tem alguma coisa de brutal ou de grotesco.quando termina de costurar o vestido. quando a irmã chegava.. ou se tranca num desvão.Tem uma coisa que precisamos ressaltar muito bem logo na primeira vez: o fator remédio.. e não mostrado inteiro. GARCÍA MÁRQUEZ .Acho que a gente viu. Belinda já está vestida. Belinda começa a tirar coisas do baú. Agora. Belinda agarra o frasco. quando Belinda vê Sidália desmaiada. sei lá. SOCORRO .Eu prefiro deixar essa cerimônia para o final.. mete na boca da irmã e obriga Sidália a tomar um gole. Um pouco além da conta. Não tem que ser o frasco inteiro. cortamos para Sidália. SOCORRO . volta a si.Belinda já estava com o vestido. Quando Sidália amarra Belinda. que a gente veja ela se vestindo desde o começo. sem nenhum corte. Sidália se auto-agride. e na segunda. cinco gotinhas numa colher. faz a mesma coisa: pões duas. ROBERTO . Eu acho que é uma questão de montagem. nessa ação de obrigar uma pessoa desmaiada a engolir um xarope. Mas ao ver que Sidália ainda semiconsciente as recusa. não seja malvada. como diz Reynaldo. ou seja. Sidália.Mas no começo já dá ao vestido seu verdadeiro significado.e Sidália reage. diz para Belinda.. Agora. Na primeira vez. Então Belinda vai para a sala. dos armários: chapéus. DENISE . porque está muito ligada ao clímax. E aqui. e começa a costurar o vestido. com os mesmos argumentos que ouviu tantas vezes Sidália ..“Vamos. três. tome seu remedinho!” . sim. e pronto: adeus.O ritual pode ser sugerido.Sim.. Belinda se vestindo. Fazemos o mesmo corte de ida e volta. “tome essas gotinhas”.O sabor das primeiras gotas é muito forte .Lá. do de Belinda. ROBERTO . véus. Se só víssemos o vestido já em Belinda.dá a overdose. Então Belinda.. e dá uma colherinha para a irmã beber. “Vamos ver”. ou em outro quarto.

. SOCORRO . Agora você só pode medir essa versão pelas batidas do seu coração. de atmosferas. GARCÍA MÁRQUEZ . E então. que estão vindo pela estrada. precisamos verificar. do começo ao fim.. mas também e talvez por isso mesmo . MARCOS .. não precisa. embora não sejam exatamente as mesmas coisas. é inenarrável. É muito parecida. Aquela que Sidália dizia que a mão cantava.Belinda não se 'compara' ao retrato da mãe... GARCÍA MÁRQUEZ . ROBERTO .. afinal? SOCORRO . Quando vai sair à rua. o general. e ela se coloca numa posição na frente do espelho.Um filme de ambientes..Isso é o que eu mais ou menos entendo por poema: um texto que se mantém erguido só pelo prestígio das palavras. ROBERTO . de perfil.O discurso de Belinda na rua deve ser incoerente. começa a soltar um discurso patriótico. Mas tente resgatar as flores. GARCÍA MÁRQUEZ .E as flores? Perdemos as flores no caminho. Sorri satisfeita..que vontade de exclamar: “Pobre fotógrafo!”.que está possuída pelo espírito do pai. Alem disso.Não faz mal. ROBERTO .E Sidália? Morreu. GLÓRIA . É preciso ver esse filme... à cena obrigatória.Sim: Belinda sente que está encarnando a mãe. Qualquer coisa. um puro jogo de palavras.Nós também não ouvimos Belinda cantar no jardim. e de tal forma que..Ou um poema.Uma canção. podemos passar ao final.Dizendo o que lhe vier à cabeça.que aparecem no retrato da mãe. 197 ..Acho que ficou curta. Eu gostaria de terminar com uma cena dessas. O retrato se reflete no espelho... desde o princípio.O que está faltando para nós? Deixar claro.Nossa versão dá mais ou menos de meia hora? GARCÍA MÁRQUEZ . quando já está vestida: ela toma o retrato como modelo.É um filme lento. GARCÍA MÁRQUEZ . Belinda passa pela frente do quadro e se compara: de frente.. MARCOS . é um filme de atrizes. GARCÍA MÁRQUEZ . a que todo mundo está esperando: Belinda sai à rua vestida de louca e começa a dar gritos.. Você conta as batidas do coração enquanto repassa as cenas.. e o tempo que der é o aproximado. do láudano. Na realidade.. GARCÍA MÁRQUEZ . Assim. um duelo de atrizes. a convocar o povo à luta contra os inimigos. ROBERTO . SOCORRO . a história do conta-gotas. mesmo que seja em silêncio..

as situações dramáticas se esgotam rapidamente: não há trinta e seis. o que eu disse? Elogio da gordura GARCÍA MÁRQUEZ .Quem foi que chamou a imaginação de “a louca da casa? Seja quem for sabia muito bem o que estava dizendo.. SOCORRO . mas sem deixar que se excedesse. sobretudo quando tem visita. Merecemos um aplauso. toda família que se dê ao respeito tem seu maluco. no caso dos roteiristas. aprender a mexer na moviola.. Aqui. A cadeira 'Roteiro' era. na especialidade de 198 . Permitimos a essa senhora andar por onde quis. segundo contam – é um lugar cheio de loucos. A imaginação trabalha sobre esses dados e a realidade não tem limites.. Lá.Ah.. há umas três situações dramáticas grandes: a Vida. que me atrevo a classificar de suntuosa . Bonito final. Todas as outras cabem aí. e com todas as características do velho melodrama. e o amarra numa árvore do quintal.SOCORRO . GARCÍA MÁRQUEZ . em Roma. aprendemos a lidar com essa. falando sem parar.Você falou e disse. Conseguimos comprimir em meia hora .Você disse que os roteiristas deviam fazer exercícios práticos de montagem.Esse final da louca saindo pela rua.Incluindo até pedaços do passado. Em compensação. com três ruas que correm paralelas ao rio.. E sem um único flashback. GARCÍA MÁRQUEZ .Eu? MARCOS .Você ia nos falar das relações entre a teoria e a prática. E um vilarejo tipicamente colonial. para aprender o ofício de roteirista. A história que Socorro vai filmar poderia voltar às origens de um povoado colombiano chamado Momposo. e todo mundo rodeando a mulher no meio da rua. senhora muito melhor que Sidália lidava com Belinda. E eu encontrei o seguinte quadro: não havia curso de roteiro.. onde a pessoa deita sozinha e amanhecem doze. sim! Essa convicção vem dos tempos em que eu era estudante. aliás. por termos metido em meia hora o argumento que Socorro trouxe para nós. uma a mais.meia hora.terra de Deus. Estão rindo do quê? Não é verdade.um tijolaço de quatro horas. o Amor e a Morte. GARCÍA MÁRQUEZ . GARCÍA MÁRQUEZ . Momposo .Pela primeira vez na vida. Fui ao Centro Experimental de Cinematografia. MARCOS . E os vizinhos aparecendo nas janelas.

Direção. Passava as tardes inteiras na Cinemateca junto à professora de montagem. ou a Teoria da Linguagem Fílmica.os Sábios Doutores da Lei – que viviam convencidos de que não havia nada mais importante neste mundo. graças à qual pude ver os clássicos do cinema. para na revisores.. que é um idioma belíssimo.que era como conhecer a gramática do cinema . permanecíamos imóveis ou cabeceando no sono. de montagem prática . mas que era uma fera na moviola. entendi que naquelas aulas não havia muito para aprender. Havia no porão uma cinemateca excelente. Assim. esse aí: puseram a 199 . uma senhora a quem nenhum dos meus colegas dava a menor importância . Minha mulher não gosta de ir ao cinema comigo. porque fico o tempo inteiro dizendo: “Este corte da janela para o automóvel fui um pouco brusco”. aqueles discursos não foram totalmente inúteis: me serviram para aprender italiano. e a possibilidade de freqüentar a Cinemateca. Ou para dizer como a minha querida professora diria: “Primeiro... Quando conheci essa senhora. E isso chega a se converter numa deformação profissional como é. Em compensação. ou. ou a História Sócio-Econômica do Cinema.ou seja. Eu fiz um ano inteiro de exercícios na moviola.porque achavam que sua matéria não tinha nada a ver com Roteiro -.os roteiristas não conseguiriam escrever direito nem uma única seqüência. Já falei várias vezes disso aqui na Escola de San Antonio de los Baños. Devo admitir que para mim. E você tinha que ver como eram dadas essas aulas. Eu me limitava a estudar como funcionava a continuidade num relato cinematográfico. sem jamais tocar a moviola.para os futuros roteiristas. a “arte de construir uma boa frase de montagem”. agarrar erros e distrações -.algo que parece tão simples . os alunos. Falta um curso de moviola .. ou “Belo corte.acaba sendo muito difícil para quem não saiba ver essa operação como um problema dramático e visual. Além disso. Ficava com ela estudando o fenômeno da continuidade. porque dizia que sem conhecer as leis da montagem . nem era nada. é preciso aprender a gramática”. para um futuro Roteirista. tudo isso com maiúsculas. Creio que é uma experiência fundamental para os aspirantes a roteiristas. Aquilo não era Roteiro. enquanto nós. oferecidas por uns senhores . que nunca tinha visto nem teria chance de ver na Colômbia. além disso. como diria Kulechov. porque a gente perde a ingenuidade. que a Estética do Cinema. o plano de estudos incluía um cursinho prático de moviola. Tratava-se de aulas puramente teóricas. Estava muito orgulhosa. deixei de ir às aulas. os sábios Doutores passavam horas e horas falando e ouvindo para eles mesmos. o frescor do olhar e acaba vendo o invisível: os cortes e os deslocamentos da câmera. Aprender a passar de uma cena a outra .

não havia jeito de fazer um corte limpo. para poder fazer esse corte 200 . imediatamente comenta: “Claro. e por isso conseguiu esses contrastes. numa outra. e que estão lá para facilitar e enriquecer o trabalho da equipe.câmera de lado. A pergunta é a seguinte: o que ele conseguiu fazer pelos quatro? A mesma coisa. quando vem o produtor e diz: “Estou furioso.. para que víssemos o cachorro passar”. que era editora. em outro mais modesto: continuidade. faltavam vinte dólares. . O cinema sem continuidade .ao lado do diretor. ou desse curso. quando você vê o resultado na tela. diz que quando a personagem da mulher cai morta na chão.. É a prática da montagem o que nos permite dizer “corta um segundo antes..como um romance. A mulher dele. A primeira função dessa oficina. cento e cinqüenta. um orçamento muito mais reduzido do que o que seria evidentemente necessário. teríamos que procurar a equipe que fosse perfeita. falando de Psicose. e não aí!”. a aliança de todos os fatores que contribuam para que um filme seja feito. DENISE . não vai resolver problemas: vai criar problemas. como a vida sem continuidade..não tem sentido. Se o roteirista não consegue visualizar o que escreve como um fluxo continuo.Hitchcok. E quando vi o filme. é o trabalho da moviola. uns duzentos. e não para impedir que o diretor gaste ou torre um dinheiro que não é dele. para que saísse melhor.. porque na cena da ruptura Fulano foi tantos dólares além do previsto”. Os produtores costumam se sentir felizes quando podem dizer: “Isso ia sair por sete. etc. o dobro ou a metade? Não seria melhor poder dizer: “Isso ia sair por sete e resolvi dar nove. mas podemos sintetizá-las em um: criatividade. Por isso. e não de uma fábrica de salsichas. ou “Deveriam ter cortado na saída do túnel. disse: “Você devia ter filmado de maneira que desse para fazer um corte aqui. tudo seria melhor: E seria possível manter sempre a coerência do relato. Creio que já falei disso para vocês. assim que abrir a porta”. E como foi dito tantas vezes. acho também que deveriam criar aqui uma Oficina de Produção Criativa.”. seria fazer os futuros produtores compreenderem que eles formam parte de uma equipe de criação. E o que dá o sentido da continuidade. Assim.. Enfim. vi de onde tiraram cada centavo: numa cena. e ele tornou a filmar a cena inteira. essa ambientação”. situado sempre entre um antes e um depois. é trabalho coletivo. se a gente pudesse acabar de escrever o roteiro na frente da moviola . E.. porque a cena tinha sido mal filmada.. eu já disse.. São várias.. em outra. é claro -. e conseguimos”? Conheço um produtor que estava eufórico porque tinha forçado um diretor a se adaptar estritamente no orçamento.. Pelo contrário. notei de onde saiu a economia. consegui fazer por quatro”.. para voltar ao assunto. para que desse para ver o olho.

Isto não é um problema teórico. porque dá a impressão de que passou um ano entre a pergunta e a resposta. três. para deslocar para a frente . se a um ponto forem acrescentados dois ou três espaços em branco . como já veremos. passou mais tempo. mas eu noto em seguida.uma ou duas linhas. ou de um milhão. pode pôr a perder o melhor filme do mundo. no fim de um capítulo . o significado muda. Por isso.ou seja. Nesse caso. Sempre. eles fazem o possível e o impossível. menos da metade de uma linha. E é horroroso. só com o ponto. ou melhor pedaços de uma linha. Pode ocorrer também o contrário.Uma edição ruim. na página anterior sobra um espaço em branco. mais tempo. no relato. Pode ocorrer que exista uma página – por exemplo.o que é pior transformar um ponto e parágrafo numa frase contínua. mas numa de trezentos mil. fica subentendido que. para que o livro tenha uma página a menos. é preciso reduzir algumas entrelinhas ou .Vocês podem até não acreditar. o diagramador tenta engolir essa “viúva” ou até uma linha inteira. a gente sente esses vazios. ponto e parágrafo. o espaço equivalente às linhas deslocadas. conforme eu dizia: para economizar uma página. ponto. Os diagramadores de livros descendentes dos tipógrafos das velhas imprensas .. Porque ao deslocar essas linhas... Chamam esses rabichos da “viúvas”. menos o autor. porque para mim os espaços correspondem a um código secreto que tem a ver com o tempo narrativo. fica espantoso.ou um espaço maior que o que corresponde – quanto tempo terá transcorrido? E se esse espaço adicional aparece no meio de uma resposta. e o diagramador para que ninguém note esse vazio. E com essa companhia a “viúva” deixa de ser “viúva”.. Vocês acham que o editor não economiza nada com isso? Numa tiragem de três mil exemplares a economia é pequena.mínimo. mas acontece exatamente a mesma coisa com o texto impresso. GARCÍA MÁRQUEZ . para trazer da página anterior . e todo mundo fica em paz. ou quase.. incorporar tudo na página anterior. Para isso. Tanto o ritmo quanto a duração têm conotações dramáticas. uma montagem deficiente.ficam horrorizados diante da possibilidade de que em uma página sobrem algumas linhas soltas. Eu não sei se o leitor percebe ou não.. ROBERTO . às vezes. Se o espaço tipográfico é maior. por razões econômicas. para economizar 201 . “distribui” o espaço entre um parágrafo e outro. O leitor sente. esse lapso é controlado através do ponto: menos tempo. Se a cena não for cortada no momento exato. 'Todo mundo. essa página eqüivale a toneladas de papel.cujo único texto seja uma “viúva”. E o editor.

. Eu não sou muito bunuelista.. quer dizer que vai ganhar uma quantidade tão fabulosa de dinheiro que o mínimo que pode fazer é respeitar as pulsações internas do texto. que para o autor é uma verdadeira catástrofe. E tem mais: sem falsa modéstia. críticos e leitores. sem uma cota de incertezas. favorece essa manipulação. Os erros de um escritor são mais baratos e mais fáceis de serem corrigidos. ROBERTO . onde é preciso estar dizendo o tempo inteiro: “Vamos ver... e que o livro.. do que editar na moviola. gritava “corta!” no momento exato e voilá. Depois. Vigiava o desenvolvimento da cena. diretores como Buñuel.Ninguém nunca está completamente seguro do que quer fazer. que é dado pelo que costumamos chamar de nível profissional.. até ver montado. em compensação.. é uma merda. que além de participar do processo inteiro do roteiro. traga aquele pedaço ali... “até ali”. no entanto.. dá medo descobrir que estão todos enganados. por não ter consciência suficiente dos problemas da montagem. Eu nunca autorizo isso. Eu nunca torno a ler meus livros depois de editados. Ele mesmo dizia que facilitava muito as coisas. Se o editor vai vender um milhão de exemplares. Não há verdadeira criação sem riscos..e para que a edição custe menos. Há. GARCÍA MÁRQUEZ .. enquanto filmam. Eu me surpreendo que existam roteiristas com uma vocação esmagadora. ou então “procure aí aquele plano da porta e coloque atrás do da janela”. porque é sempre melhor editar no papel . que são super-conhecidos no mundo do cinema e que.Um escritor tem mais possibilidades de controlar esses detalhes que um cineasta.. até fazer. na sala de edição.. cometem erros de continuidade absolutamente incríveis. Cortava durante a filmagem.Isso é parte inseparável do processo de criação. na verdade.. questão apenas de afinar detalhes. E o velho sempre ali. vamos colálo aqui”. em termos de visão do mundo. são bons editores. grudado na moviola: “Até aqui”.. E nunca está seguro do que faz.Mas qualquer ofício tem um mínimo de exigências. o plano acabava ali. REYNALDO. quando fiquei sabendo que tinham me 202 .prevendo os cortes antecipadamente e depois filmar só o que se quer filmar. GARCÍA MÁRQUEZ . Bunuel fazia poucos cortes na moviola. mas admiro esse lado profissional de Bunuel. e portanto. Quando vejo a quantidade de exemplares vendidos e as maravilhas que os críticos dizem. com medo do encontrar defeitos que tenham passado despercebidos. tão bons que se permitem ao luxo de editar com a câmera.. o trabalho era simplíssimo.

Essa dose de insegurança é terrível. que sabem tudo. que nunca têm dúvidas.. porra! Caíram na minha lorota?”. FIM 203 . Os arrogantes. para fazer algo que valha a pena..dado o Nobel. mas ao mesmo tempo necessária. minha primeira reação foi pensar: “Eles acreditaram. acabam dando tanta cabeçada que morrem disso.

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