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Título: A Família Calder - volume I: Os Donos da Terra.

Autor: Janet Dailey.


Dados da Edição: Editora Record, 2ª edição, 1983.
Título original norte-americano: THIS CALDER SKY.
Género: romance.
Digitalização: Fátima Tomás.
Correcção: Dores Cunha.
Estado da Obra: Corrigida.
Numeração de Página: rodapé.
Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente à
leitura de pessoas portadoras de deficiência visual. Por força da lei
de direitos de autor, este ficheiro não pode ser distribuído para
outros fins, no todo ou em parte, ainda que gratuitamente.

Nota da correctora: Esta série é composta por quatro volumes:


I. Os Donos da Terra.
II. A Terra dos Calder.
III. A Luta pela Terra.
IV: O Amor Pela terra.

OBRAS DA AUTORA
A CARÍCIA DO VENTO
OS DONOS DA TERRA
AMOR PROIBIDO
AMANTE INDÓCIL

Janet Dailey
Tradução de ISABEL PAQUET DE ARARIPE
2ª EDIÇÃO
EDITORA. RECORD
Título original norte-americano THIS CALDER SKY
Copyright da tradução em português Copyright (c) 1983 by Distribuidora
Record
Edição original em língua inglesa Copyright (c) 1981 by Janet Dailey
Todos os direitos reservados inclusive o direito de reprodução total ou
parcial de qualquer forma.
Esta edição é publicada mediante acordo com o editor original, Pocket
Books, New York, N. Y., U.S.A.
Direitos de publicação exclusiva em língua portuguesa em todo o mundo
com exceção de Portugal adquiridos pela
DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA S.A. Rua Argentina 171 -
20921 Rio de Janeiro, RJ
Impresso no Brasil

Um céu de sol; Um céu de mudanças; Este céu que cobre A terra dos
Calders.

Capítulo I
Sob um céu límpido, as planícies de Montana se estendiam até o
horizonte longínquo num mar ondulante de relva. Este pasto grande e
esparramado era interrompido por morros isolados e ravinas ocasionais.
Era uma terra imensa, quase vazia, sempre desafiadora. Sua vastidão
fazia o homem pequeno menor e o homem grande rei.
Onde antigamente pastavam os búfalos felpudos, um rebanho de 600
animais de pêlo vermelho, gado Hereford, estava reunido num bolsão da
planície. Forçados a ficar ali por um grupo de cavaleiros que os
rodeavam, os animais mugiam o seu descontentamento. No meio de toda
essa confusão, vaqueiros trabalhando aos pares entravam a cavalo no
meio do rebanho para lenta e metodicamente separar o gado inferior...
as vacas estéreis, as vacas com crias de primavera fracas, e o
ocasional novilho castrado que escapara ao recolhimento de gado do
outono anterior.
Webb Calder apontava o focinho do seu garanhão amarelado para a vaca
que deveria ser separada do rebanho, depois sentava-se tranquilamente
na sela e deixava o cavalo fazer o serviço. O garanhão era da cor do
felino amarelo do qual tirara o nome, cougar. No instante em que a vaca
era isolada, o garanhão frustrava todas as suas tentativas de se reunir
ao rebanho abaixando-se, parando instantaneamente, e adiantando-se com
a velocidade de um gato.
Para o homem forte na sela, o garanhão de pernas longas era uma fonte
de orgulho. Escolhera o animal entre um grupo de potrinhos de um ano de
idade, e o destinara para o seu rebanho de montarias pessoal. Ele
próprio o domara e treinara, transformando-o no melhor cavalo-vaqueiro
da região. Webb Calder nunca se jactava disso, e qualquer elogio era
recebido com uma resposta tranquilamente indiferente:
O amarelado é bom.
Sua filosofia era que, se você era o melhor, não precisava contar a
ninguém... e se não era, que diabo, era melhor ficar de boca fechada.
Vivia de acordo com ela, e esperava que os outros à sua volta fizessem
o mesmo.
Quando ele e o cavalo amarelo acabavam de separar a vaca do rebanho, os
vaqueiros se adiantavam dos flancos para empurrar o animal por sobre a
beirada do bolsão, levando-o para onde estava sendo mantido o grupo de
animais feridos ou inferiores. Mais dois cavaleiros tomaram o seu lugar
para trabalhar com o rebanho.
Voltando para junto do gado, Webb foi acompanhado por Nate Moore, que
fizera a separação com ele. O cavaleiro magro e curtido fazia parte de
um pequeno grupo de vaqueiros que tinham suas raízes tão enterradas
nesta terra de Montana quanto Webb Calder. No entanto, alguma qualidade
invisível marcava Webb Calder como o dono do gado.
Pois esta era terra dos Calders até onde a vista podia alcançar, na
direção do sul, e além. Toda a criação, exceto os tresmalhados das
pequenas fazendas fronteiriças ao norte, trazia a marca Triplo C da
Calder Cattle Company. Era a herança deixada pelo primeiro Calder que
saiu do Texas e levou seu rebanho na direção norte em 1878, para buscar
pasto livre. Esse ancestral, Chase Benteen Calder, construíra um
império que se media por quilómetros quadrados, chegando a mais de mil.
Mantivera-o lutando contra bandos guerreiros de índios renegados,
colonos, e estancieiros vizinhos invejosos e ambiciosos. Pagara-o com
sangue dos Calders, nutrira-o com o seu suor e os ossos do gado
atingido pela seca, e enterrara os Calders mortos sob o pasto de
Montana.
Dos 20 vaqueiros que fizeram a viagem com Chase Benteen Calder, a
maioria se dispersara, mas alguns tinham ficado para construir uma vida
nova nessa terra bruta. Esses homens formaram o núcleo do grupo de
antepassados de Nate Moore, da mulher de Virg Haskell, Ruth, de Slim
Trumbo, de Ike Willis e de um punhado de outros nascidos e criados na
fazenda Calder, como Webb. A lealdade deles era uma coisa com raízes
profundas, entranhada nas suas almas como se elas levassem a marca da
Triplo C.
Essa linha de continuidade corria através de cada geração, unindo-as.
Os velhos acabavam por dar a vez ao sangue novo, trazendo mudança sem
jamais mudar.
Subindo ao alto da elevação da planície indomada, Webb freou seu
cavalo. A satisfação o percorreu ao observar a cena diante de si, o
trabalho de equipe de todos os cavaleiros cuidando do rebanho com uma
precisão eficiente e bem lubrificada. O que ele gostava mais era de se
meter no meio deles. Embora estivesse ali por necessidade, já que a
decisão dele determinava quais os animais inferiores a serem eliminados
do rebanho, o simples prazer do trabalho fazia com que tomasse parte na
separação do gado propriamente dita.
As pressões e responsabilidades eram enormes e intermináveis para o
homem que era dono de uma fazenda enorme como essa. Novos vendedores ou
compradores de gado com frequência comentavam o seu tamanho, e Webb
retrucava secamente:
É preciso um bom pedaço de terra para caber debaixo de um céu dos
Calders.
Não sabia como ela se comparava às outras grandes fazendas dos EUA, se
era a primeira, segunda, terceira, ou se estava bem mais abaixo, na
lista. Se alguém lhe perguntasse, não saberia responder, e nem se
interessava em verificar. Seu único interesse era fazê-la prosperar e
mantê-la intata para o filho.
As responsabilidades eram pesadas, mas o poder que tinha nas mãos era
imenso. Webb Calder acreditava ser um homem justo. Alguns diriam que
ele era exigente. Outros, que mandava com mão de ferro. O ressentimento
nascido da inveja e do ciúme fazia com que fosse o objeto de ódio por
parte de uns poucos silenciosos. No que lhe dizia respeito, Webb Calder
jamais erguera a mão contra um homem sem motivo. Quando agia, era
célere e propositadamente. A indecisão podia acabar em desastre para
uma fazenda do tamanho da Triplo C.
Era uma das coisas que tentara ensinar ao filho, Chase Calder, que
recebera o nome do ancestral texano. Dirigir uma fazenda não se
limitava a ter os livros em dia, criar gado e ir ao banco. Mas, como se
ensina um homem a ser um líder, a manejar os homens?
Antes de Chase ter dado o primeiro passo, Webb pusera o bebezinho numa
sela em cima de uma égua velha e enrolara os pequenos pulsos no arção
dianteiro para que desse seu primeiro passeio a cavalo. Quando Chase
fez dois anos, deram-lhe as rédeas. Aos cinco, participou do seu
primeiro recolhimento de gado, amarrado à sela para não cair, se
pegasse no sono.
Cavalos e gado eram parte do viver. Chase aprendera essas coisas por
osmose, absorvendo-as inconscientemente no seu organismo até que se
tornaram uma segunda natureza.
Mas o que Webb queria que ele aprendesse eram as sutilezas do comando.
Desde quando o garoto compreendera sua primeira sentença, Webb tentara
enfiar essas coisas em sua cabeça, formando e moldando Chase para algum
dia tomar conta da fazenda. Advertira Chase de que, como seu filho,
teria que trabalhar mais, ser mais esperto e lutar mais duro do que
qualquer outro por ali. Nenhum favor jamais lhe seria concedido por
Webb, nenhuma concessão jamais lhe seria feita porque Chase era um
Calder. Não haveria privilégios especiais porque ele era o filho do
estancieiro. Na verdade, seria o contrário. Na sua adolescência, teve
os serviços mais
duros, os cavalos mais tinhosos, e as horas mais longas de trabalho do
que qualquer outro homem no lugar. Os problemas que apareciam ele tinha
que resolver. Se havia encrenca, tinha que ser homem o bastante para
sair dela, com os punhos ou com a inteligência. Chase não podia ir
procurar o pai e esperar ajuda. Webb o forçava o máximo que ousava sem
quebrar o ânimo do rapaz.
Enquanto Webb Calder observava as duas dúzias de cavaleiros
trabalhando, inconsciente e instintivamente ficava de olho no filho.
Chase era mais alto do que a média dos vaqueiros, de ombros largos e
peito sólido, e no entanto juvenilmente esbelto e flexível, com um
jeito descontraído de cavaleiro. O sol queimara uma camada de bronzeado
sobre as feições duras e angulosas dos Calders. De olhos e cabelos
escuros, parecia ter mais de 22 anos... exceto quando sorria. Então
parecia descuidado e ingénuo. O filho ainda era algo desconhecido para
Webb. Talvez houvesse quem pensasse que exigia demais, porém ele estava
firmemente convencido de que eram as coisas duras que eram boas para um
homem.
O cavalo que estava atrás do garanhão amarelo soltou um bufido
descontraído, fazendo com que Webb transferisse o olhar para Nate
Moore. Este estava preparando um cigarro e lambia o papel com a língua
áspera. Sem erguer os olhos, falou:
É um bom rapaz.
Adivinhara o objeto dos pensamentos de Webb.
Lil teria orgulho dele.
Webb pronunciou o nome de sua falecida mulher e quebrou um silêncio que
durara mais de 20 anos desde a morte dela. O tempo apagara a dor da
perda. Agora, sua lembrança era outra tradição.
Era algo que gente de fora não podia compreender essa falta de
expressão que o verdadeiro homem do Oeste demonstrava quando perdia um
camarada ou um ente querido: a não revelação da dor profunda. O que um
homem sentia era guardado dentro dele. O rosto que os estranhos viam
parecia frio e sem emoção. No entanto, por detrás do exterior duro
desses homens havia toda a sensibilidade delicada de uma mulher, oculta
aos olhos alheios. Revelá-la demonstrava fraqueza. Essa era uma terra
onde só os fortes sobreviviam.
Teria, sim falou Nate, com o cigarro na boca, e apertou os olhos ante a
fumaça acre que saía dele. A expressão aprofundou as rugas que se
espalhavam dos cantos dos seus olhos. Sem virar a cabeça, a atenção
dele se transferiu para o jovem vaqueiro, Buck Haskell, que cavalgava
do mesmo lado do rebanho que Chase. Sem motivo aparente, Buck girara o
seu alazão de frente para a direção oposta, e o esporeara para uma
ligeira brecha entre os cavaleiros, atingindo um ponto invisível no
instante que uma vaca tentava desgarrar-se do rebanho. O respeito
brilhou nos olhos do vaqueiro
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mais idoso. Aquele Buckie entende mais de vacas do que muitos vaqueiros
com o triplo da idade dele declarou Nate. E como adora um potro
selvagem. Quanto mais tinhoso, mais ele gosta. A boca de Webb se
estreitou.
É, e sempre está com o laço à mão. Nunca o peguei com a boca na botija,
mas estou sabendo.
Que diabo! Nate soltou uma risadinha. Todo vaqueiro moço dá a sua
laçadinha, de vez em quando.
Webb o admitiu, erguendo as sobrancelhas espessas.
O Buck é um rapaz simpático, mas me preocupa aquele seu jeito meio
doidão.
De olhos azuis, cabelos louros e crespos e um sorriso perpétuo, Buck
era o filho de Virg e Ruth Haskell, nascido dois dias antes de Chase.
Quando a mulher de Webb, Lillian, não teve leite suficiente para dar de
mamar ao Chase, Ruth passou a ser sua ama-de-leite. Um ano e meio
depois, quando Lil morreu, Ruth passara a cozinhar e cuidar da casa
para Webb. Assim, Buck e Chase tinham sido criados praticamente como
irmãos. Era natural que Webb tivesse um interesse especial por Buck.
O cigarro feito à mão não saiu da boca de Nate, mas este conseguiu
repuxar-lhe os cantos num sorriso seco.
Está-se esquecendo, Webb. Nós éramos mais doidões quando tínhamos vinte
e dois anos.
O fazendeiro trocou um olhar irónico com o vaqueiro.
Pode ser.
Vindo da terra irregular do norte, um trio de cavaleiros se aproximou
do ponto de agrupamento do rebanho. Webb focalizou o olhar no cavaleiro
baixo, magro e musculoso que vinha meia passada à frente. O rosto dele
perdeu a expressão, tornando-se duro e inflexível.
Quem está com O'Rourke? perguntou Webb, sem tirar os olhos do dono da
pequena e ordinária fazenda que ficava numa faixa norte da fronteira
dos Calders.
Nate olhou, os olhos se estreitando menos pela fumaça e mais pelo
reconhecimento.
O garoto dele. A magricela deve ser a filha. Retirara o calor da voz,
tornando-a seca.
Ao correr os olhos pelo par que cavalgava com Angus O'Rourke, Webb
inspecionou primeiro o desajeitado rapaz de 18 anos, de cabelos negros
e lisos que saíam de sob o chapéu. O rapaz ficava olhando o tempo todo
para o pai, esperando alguma forma de orientação. A garota era um fiapo
de gente, parecendo mais um rapazinho do que uma garota. Ele podia ver
um pouco de cabelo preto e liso sob o chapéu, mas Webb não saberia
dizer se o cabelo era bem curto ou se estava preso sob a copa do chapéu.
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Tanto a camisa quanto a calça Levi's pareciam ser herdadas do irmão.
Eram grandes demais, fazendo com que ela ficasse ainda mais magra e sem
formas. Exceto pela franja espessa de cabelos nos olhos verdes, não
havia nada em suas feições que a distinguisse de um garoto imaturo.
Usava esporas nas botas gastas, um par de luvas de couro velhas e
rachadas e uma jaqueta que engolia seu corpinho. Vê-la deu dor no
coração de Webb.
Uma garota não devia estar fazendo trabalho de homem resmungou e virou
a cabeça para olhar duro para Nate. Desça e diga aos homens para terem
cuidado com o que falam. Se eu ouvir o menor palavrão na presença da
garota, vai haver o diabo quando ela for embora.
Nate tirou com a ponta dos dedos a parte acesa do seu cigarro, deixando
a brasa cair no punho da camisa de brim, onde foi esmagada e apagada. A
parte do cigarro que não fora fumada foi guardada no bolso, enquanto
ele guiava o seu cavalo para junto dos vaqueiros que cuidavam do
rebanho.
Webb ficou olhando enquanto ele se afastava. O mundo moderno podia ter
entrado na era espacial com computadores e alta tecnologia, mas havia
partes do Oeste em que o tempo mudara muito pouco. Tudo era mais
mecanizado, porém a maioria do serviço ainda era feita a cavalo.
Os velhos códigos ainda persistiam. As mulheres eram escassas e
tratadas com respeito até mostrarem que não o mereciam. Um homem
resolvia seus próprios problemas; não os levava para outra pessoa. Não
era difícil de entender, quando posto em perspectiva. No caso da Triplo
C, havia uma estrada para veículos de 55 quilómetros até se chegar à
varanda da casa grande. Uma cidade de tamanho respeitável, de uma
população de mais de 100 pessoas podia ficar a 160 quilómetros, ou mais.
A fazenda Calder ficava numa área de terra maior do que o Estado de
Rhode Island. Com o tipo de poder que isso dava a Webb Calder, ele era
virtualmente sua própria lei, e não respondia a quase ninguém exceto a
Deus Todo-Poderoso. Sabiamente, nunca tentou tripudiar sobre ninguém,
apenas deixando esporadicamente que sua autoridade fosse sentida.
Fingia que não via a miserável família Andersen tentando sobreviver num
pequeno pedaço de terra na sua fronteira leste. Webb sabia que eles
matavam um ou dois dos seus novilhos por ano, mas não podia ver
mulheres e crianças passando fome. Mas Deus se apiedasse do homem que
erguia a mão contra a Triplo C em proveito próprio.
Seu olhar se estreitou num exame silencioso de Angus O'Rourke, que
vinha em sua direção. O homem passava tempo demais sonhando e
encontrava desculpas demais para o fato de não obter êxito na vida.
O'Rourke era um homem fraco, sempre querendo o
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caminho mais fácil. Não havia lugar para gente assim nessa terra. Mais
cedo ou mais tarde era extirpada.
O olhar duro e fixo de Calder deixou Angus sem jeito. Como adoraria
aproximar-se dele e cuspir-lhe na cara. Lambeu os lábios secos
nervosamente, dizendo a si mesmo que chegaria o dia em que não
precisaria rastejar diante de tipos como Webb Calder. Mas essa
afirmação era antiga e soava falsa a seus ouvidos. Já fora um homem
moreno e bonitão, com um loquaz charme irlandês, mas os vincos da
dissipação estavam começando a acabar com sua boa aparência, e as
pessoas não mais acreditavam nos seus planos grandiosos para o futuro,
já tendo ouvido tantos que não deram em nada no passado.
Se ele nos perguntar alguma coisa, o que devemos dizer?
A pergunta sussurrada ansiosamente veio do filho.
Angus não virou a cabeça ou olhou a seu redor para responder,
Não diga nada. Deixe que eu falo.
Eu lhe falei que deveríamos ter trazido aquelas trinta cabeças para o
nosso lado da cerca na semana passada, papai declarou a garota,
calmamente.
E eu lhe disse que elas precisavam de mais alguns dias de pasto bom,
Maggie! Já tinham discutido a respeito várias vezes.
As vacas tresmalharam, foi só isso. E nós estamos aqui para separar as
nossas tresmalhadas, como sempre fazemos.
Diminuiu a andadura do cavalo e cruzou a passo os últimos metros que o
separavam de Webb Calder, parando em ângulo reto à sua frente. Lançando
ao homem um dos seus sorrisos patenteados,-levou um dedo
respeitosamente à aba pontuda do seu Stetson.
Bom dia, Sr. Calder - Angus O'Rourke soava deliberadamente alegre e
despreocupado.
Angus. O homem de cara impassível e olhar duro simplesmente balançou a
cabeça em resposta ao cumprimento.
A irritação percorreu Angus. Estava com raiva de si mesmo por não ter
chamado Calder pelo primeiro nome e tê-los posto em termos de
igualdade. O homem tinha um jeito de fazê-lo sentir-se inútil e
fracassado. Que diabo, ele também era estancieiro, igualzinho a
Calder... na sua cabeça. Angus, porém, escondeu bem seu amargor.
Que belo dia, não? comentou, fazendo um gesto amplo e abrangente para o
céu límpido. São as manhãs como esta que fazem a gente esquecer do
longo inverno que ficou para trás. As cotovias do prado cantando
adoidado. Flores silvestres nascendo por toda a parte, e os bezerrinhos
de cara branca novinhos e lustrosos.
Levou alguns segundos para se dar conta de que sua tagarelice não
estava causando nenhuma impressão em Webb Calder. Angus
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controlou o seu orgulho ferido, escondendo-o atrás de um sorriso.
Lembra do meu filho, Culley, e da minha filha, Maggie.
Webb Calder balançou a cabeça para acusar a presença do rapaz. O rapaz
de cabelos negros empalideceu ante o olhar e murmurou formalmente:
Bom-dia, senhor.
Então, Calder olhou para a garota.
Você não devia estar na escola, Maggie? perguntou com desaprovação.
Na realidade, o nome dela não era Maggie. Era Mary Frances Elizabeth
O'Rourke, o mesmo nome da mãe, que morrera fazia quatro anos. Porém,
ter duas mulheres na família com o mesmo nome tinha sido confuso
demais. Não se sabe quando, o pai começara a chamá-la de Maggie, e o
nome pegara.
Ela deu de ombros ante a pergunta.
Papai precisou de mim hoje explicou.
A verdade é que ela faltava ao colégio mais do que comparecia. Na
primavera e no outono, o pai alegava que precisava da ajuda dela na
fazenda. Maggie acabara percebendo que ele era preguiçoso demais para
trabalhar como tinha necessidade, sozinho. A fazenda deles era tão
pobre que não podiam contratar gente de fora para ajudar, assim o pai
se aproveitava do trabalho gratuito dela.
Durante o inverno, o trator vivia praticamente quebrado, o que
significava que não tinham uma lâmina para tirar a neve dos oito
quilómetros que iam da casa à estrada onde ela podia pegar o onibus
escolar. Quando a mãe era viva, selava os cavalos e ia com Culley e
Maggie até a estrada nessas ocasiões, e depois ia recebê-los com os
cavalos, quando o ônibus os trazia de volta à tarde Mas sempre era frio
demais e trabalho demais para o pai.
Maggie não sentia mais falta da escola. Já não cabia nas suas roupas, e
tinha pouca coisa para usar, exceto jeans e as camisas velhas de
Culley. Com 15, quase 16 anos, era muito cônscia de sua aparência.
Tentara alterar algumas roupas da mãe para caberem nela, mas os
resultados tinham sido, com boa vontade fracos. Nenhum dos seus colegas
de classe ridicularizara abertamente o modo como se vestia, mas Maggie
tinha visto os seus olhares de piedade. Com todo o seu orgulho, aquilo
fora o bastante para incitá-la a aceitar as desculpas que o pai
inventava para ela ficar em casa.
A mãe fora inflexível quanto à necessidade de os dois filhos estudarem.
Era algo que Maggie recordava vividamente, porque era uma das poucas
coisas de que a mulher, geralmente mansa, não abria mão. Nem a raiva do
marido, nem o seu charme faziam-na mudar de ideia. Assim, Maggie tinha
os seus livros escolares em casa e estudava sozinha, resolvida a não
falhar à mãe nesse aspecto, como o pai lhe falhara tantas vezes.
A desaprovação na fisionomia de Webb Calder simplesmente reforçou sua
resolução de continuar estudando. Maggie não arranjava desculpas para o
que o pai era... um homem sem força de vontade, cheio de promessas e
sonhos vazios. Todo o dinheiro do mundo não faria do pai um homem forte
como era Webb Calder. Era uma coisa dura e amarga de se reconhecer
sobre o próprio pai. E Maggie se ressentia com Webb Calder por
apresentar um exemplo tão contundente do que o seu pai jamais seria.
Percebendo que a conversa não ia dar em nada, Angus O Rourke virou o
olhar para o rebanho reunido na depressão da planície. O rosto dele
assumiu a expressão de quem está relutante em deixar uma boa companhia,
mas tem serviço a fazer.
Bem, estou vendo uma ou duas marcas de Shamrock no rebanho. Recuou com
o cavalo antes de dirigi-lo para o gado Vou isolar os meus poucos
tresmalhados e levá-los para o meu lado da cerca.
Vou mandar um dos meus rapazes ajudá-lo disse Webb e começou a erguer a
mão para chamar um dos homens.
Nós damos conta aparteou Maggie. Podiam ser pobres mas ela tinha o seu
orgulho. A mãe lhe ensinara a nunca aceitar favores a não ser que os
pudesse retribuir, algum dia, e era ridículo pensar que um Calder
jamais precisaria de um favor deles.
A mão de Webb Calder continuou parada no ar enquanto olhava calado para
o pai dela, esperando a confirmação de que não queriam ajuda.
Nós três damos conta declarou o pai, para apoiar a alegação dela,
embora viesse a aceitar prontamente a oferta se ela não tivesse aberto
a boca.
A mão baixou para pousar no arção dianteiro da sela.
Como quiser, Angus.
Enquanto virava o cavalo, Angus lançou a Maggie um olhar irado, e
cavalgou para junto do rebanho. Ela e Culley o seguiram. Sentindo os
cavaleiros da Triplo C olhando para eles, Maggie sentou-se mais ereta
na sela, cônscia da aparência geral maltrapilha deles, desde as roupas
até as mantas de sela esfarrapadas.
Do outro lado do rebanho, Chase ficou vendo o trio heterogéneo de
cavaleiros se aproximar. Nate Moore já comunicara as ordens do velho,
portanto sabia que um dos três era mulher. Buck deixou seu cavalo se
aproximar mais de Chase.
Como a gente vai saber qual deles é a garota? perguntou Buck, a voz
baixa pontilhada de zombaria mordaz.
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Deve ser o menor deles Chase permitiu-se um sorriso.
Dizem que é a mais moça.
É jovem, sem dúvida concordou Buck, secamente. Gosto das minhas
mulheres com um pouco mais de idade e mais carne nos ossos. Crenshaw
estava-me contando, hoje de manhã, que Jake Tomas está com uma nova
"sobrinha" loura trabalhando no bar dele.
Verdade? murmurou Chase, sabendo, como todo o mundo sabia, que as
"sobrinhas" de Jake eram prostitutas. Que família grande tem esse
homem, hem?
Buck abriu um sorriso.
Quando este recolhimento de gado tiver acabado, você e eu vamos ter que
dar uma espiada nela. Quem sabe a moça conhece alguns novos truques da
profissão.
Mais uma semana de olhar para esse gado e já me darei por satisfeito,
se só o que a nova garota souber forem os truques antigos replicou
Chase, girando o cavalo para cortar o caminho de uma vaca errante,
conseguindo mudar a ideia dela de abandonar o rebanho.
A essa altura, Buck já retomara sua posição, vários metros adiante de
Chase. E não havia motivo para tentar retomar aquela conversa
específica. A família O'Rourke circulava entre o rebanho para isolar os
seus tresmalhados, enquanto Chase e os outros cavaleiros mantinham o
gado frouxamente agrupado.
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Capítulo II
Durante o intervalo do meio-dia, os vaqueiros trocaram de cavalo,
pegando animais descansados da manada que estava num curral de cordas
junto ao acampamento. Chase jogou sua sela sobre um capão baio cor de
sangue com uma tira branca no focinho, e apertou bem a cilha. Enquanto
pisava no estribo e montava, Buck passou por ele num ruão de cara
malhada de branco.
Ande com isso, peregrino. Já é quase dia falou Buck, numa imitação
fajuta do sotaque arrastado de John Wayne.
Chase controlou um suspiro. Desde que se entendia por gente, Buck
passara cada hora do dia rindo, pilheriando, sorrindo. Parecia nunca
levar nada a sério. Girando seu cavalo, Chase emparelhou com ele.
Você é um caso perdido, Buck declarou, com uma ligeira sacudidela da
cabeça.
Eu sei, mas é tão divertido! Ele sorria amplamente com tanta frequência
que já havia vincos permanentes em suas faces, e ruguinhas de riso se
espalhavam dos cantos dos olhos. Andei pensando, Chase disse Buck, com
ar sóbrio e sério. Não seria direito eu e você irmos visitar a sobrinha
do Jake ao mesmo tempo.
E por que não? indagou Chase, lançando-lhe um olhar de banda, sabendo
que ele estava aprontando alguma.
Logo que a garotinha der uma olhada neste rosto e neste corpo, vai até
se esquecer que você está por perto. Isso não seria justo. Somos
praticamente irmãos.
Buck, você é sem dúvida o homem mais convencido que conheço. Chase
ergueu um dos cantos da boca, enviesando-a num ângulo zombeteiro.
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Buck estava adquirindo uma reputação de dom-joão, não totalmente
injustificada. Havia algo no seu sorriso cativante e na malícia risonha
dos seus olhos que atraía as mulheres. Por meio de histórias
fantasiosas, lisonja descarada e pura persistência, Buck acabava por
vencer a resistência de qualquer mulher. Não era o estilo de Chase,
embora ele também geralmente conseguisse o que queria.
O comentário provocou uma risada de Buck.
Já lhe disse antes, Chase, que na verdade eu sou você e você é eu. A
minha mãe trocou a gente quando éramos bebés para poder ficar com o
mais bonito para ela falou, repetindo sua costumeira teoria com um
brilho brejeiro nos olhos.
É mesmo? Chase zombou do amigo, com um desafio. Então, por que você tem
cabelos crespos e olhos azuis como a Dona Ruth, ao invés de olhos e
cabelos castanhos como eu e meu pai?
Porra, isso eu também ainda não descobri! O riso ecoou da garganta de
Buck, alto e forte.
O estrondo de cascos que corriam chamou a atenção deles para o rebanho
de que se acercavam. Uma vaca fora separada do resto, a marca Shamrock
na anca. Agora, tentava fugir para a liberdade, a cauda erguida bem
alto. Perseguindo-a vinha a jovem O'Rourke. Chase observou enquanto ela
forçava a vaca a se virar, depois forçava violentamente seu cavalo a
impedir que a vaca se mandasse de novo, batendo com uma corda enrolada
na coxa.
Aquela garotinha sabe montar de verdade comentou Buck. Está fazendo
aquele pangaré fazer coisas que ele nem sabia que podia fazer.
Falou cedo demais disse Chase, no momento em que a vaca fez nova
arremetida para a liberdade. Quando a garota freou o cavalo e tentou
forçá-lo a girar sobre si mesmo, o baio perdeu o controle das pernas e
o equilíbrio. A garota foi jogada da sela, quando o bicho caiu de
joelhos. Bateu no chão com força, e não se moveu imediatamente. Vou ver
se ela está bem falou Chase, esporeando o cavalo.
Meia dúzia de outros cavaleiros também haviam visto o tombo. Se o
cavaleiro caído fosse um homem ou um garoto, teriam esperado que ele se
levantasse por si mesmo. Mas o cavaleiro caído era uma garota, e isso
fazia toda a diferença.
Chase chegou junto da jovem em primeiro lugar, desmontando e caminhando
para onde ela se encontrava esparramada na grama, de cara para baixo.
Começava a se levantar tremulamente do chão. O chapéu estava de banda,
mas o laço enrolado ainda estava na sua mão.
Está ferida? indagou.
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Não.
Ele ouviu o som entrecortado da voz dela e percebeu que tinha perdido o
fôlego. Inclinando-se, Chase tomou-lhe o braço.
Deixe que eu a ajudo a se levantar.
Quando começou a erguê-la, estendeu a outra mão para segurá-la sob o
braço oposto e pô-la de pé. A jaqueta desabotoada estava bem aberta.
Quando enfiou a mão dentro dela, ela se fechou sobre um seio macio de
adolescente. Por um instante, ficou espantado com a forma arredondada
escondida sob as roupas muito grandes.
Antes que pudesse retirar a mão, ela se pusera de pé.
Tire as patas nojentas de cima de mim! Derrubou o braço dele com uma
pancada. A violência do gesto fez com que o chapéu dela caísse, e uma
cabeleira negra soltou-se em ondas negras quase até a cintura. O que
pensa que está fazendo?
Chase soltou-lhe o braço.
Desculpe, senhorita.
Enquanto pedia desculpas, seus olhos escuros notavam as mudanças na
aparência dela, a massa de cabelos negros, o rubor embaraçado nas
faces, as chamas ardentes nos zangados olhos verdes. Talvez o pedido de
desculpas tivesse sido aceito, se o olhar curioso não se tivesse
desviado para a jaqueta aberta, tentando ver a saliência arredondada
que a mão tocara.
O laço enrolado estava na mão direita dela. Ergueu-o para bater em
Chase, soltando uma torrente de imprecações. O rapaz levantou o braço
para impedir o golpe e recuou. Mas ela veio atrás dele, chicoteando-o
com a corda enrolada. Ele se protegeu com os braços erguidos, e
continuou a recuar.
Já lhe pedi desculpas lembrou ele, tensamente, contendo sua raiva,
enquanto se sentia um idiota, apanhando de uma garota diante de todos
aqueles homens.
Uau! Olhem só para aquela garotinha enchendo o Chase de porrada! A voz
de Buck debochou das proximidades, onde os outros cavaleiros estavam
rindo baixinho da situação difícil dele. Mande brasa, meu bem!
Foi a gota d'água. Da próxima vez que ela girou a corda, Chase se
desviou e agarrou-lhe o pulso, arrancando a corda dela com a outra mão.
Quando tentou bater nele com a mão livre, capturou-a também. Ela jogara
a cabeça para trás para olhar feio para ele, a respiração arquejante.
Sua estourada maluca, pare com isso! Chase deu-lhe uma sacudidela
forte. Se não começar a se comportar, vou usar esta corda no seu lombo.
Os olhos dela desafiavam-no a tentar.
19
Quero minha corda ordenou.
O calor da raiva... ou algo igualmente violento... corria nas veias
dele. Chase não perdeu tempo tentando descobrir o que era. Todos os
seus músculos estavam-se retesando, uma tensão crua crescendo dentro
dele e buscando um alívio.
Maggie! Angus O'Rourke apareceu, a passos largos, para tirar o assunto
das mãos de Chase. Mas o que estava fazendo, afinal, menina? Chase
entregou-a ao pai e afastou-se cautelosamente. Agora você vai pedir
desculpas ao Sr. Chase Calder por ter feito que parecesse um idiota na
frente de todos esses homens ordenou Angus.
Chase achou que a última frase fora desnecessária. Era o cutucão de um
homenzinho na humilhação pública do filho de um grande estancieiro. Ele
enrijeceu o maxilar ao ver os olhos da moça correrem pela plateia de
vaqueiros antes de voltarem para ele, com um brilho irónico. Um nervo
se crispou ao longo do seu osso malar, a única indicação visível dos
sentimentos íntimos dele.
Peça-lhe desculpas insistiu o pai.
Chase sabia que ela não estava nem um pouquinho arrependida, e que
O'Rourke também não tinha achado ruim. Não iria aceitar um pedido
forçado de desculpas da moça.
Deixe pra lá, O'Rourke resmungou, e se dirigiu para seu cavalo.
Buck estava no chão, segurando as rédeas da montaria de Chase, e da sua
própria. Entregou as primeiras para Chase, os olhos azuis brilhando de
malícia e maldade. Porém não disse nada, percebendo o controle tenso
que Chase estava exercendo sobre sua raiva.
Enquanto Chase montava, a garota dera-lhe as costas e estava enrolando
o cabelo negro num coque para caber dentro da copa alta do chapéu.
Tendo feito isso, montou e foi embora com o pai, sem olhar de novo na
direção de Chase.
Você cortou um dobrado com aquela gata selvagem comentou Buck, achando
que já se tinha passado um tempo razoável. O que deu nela, afinal de
contas?
Eu a incomodei replicou Chase, friamente.
Buck! Não havia como confundir a voz autoritária de Webb Calder. Entrou
com o seu cavalo no centro dos cavaleiros. Você ouviu minha ordem hoje
de manhã. Nada de palavreado na frente da garota. Está a pé durante o
resto do dia.
O castigo era severo para Buck, que curtia a emoção do cavalo e do laço.
Porra, escapuliu! protestou Buck.
Dois dias a pé. Escapuliu de novo.
20
O quê? Buck deu uma demonstração vívida de espanto incrédulo, os braços
erguidos ao lado do corpo, num gesto de inocência. Ela não me pode
ouvir, não de onde está!
Três dias. Isso é por ter discutido. Webb não cedia. Era mais severo
com aqueles de quem gostava. Erguendo as rédeas, começou a virar o
cavalo.
Buck levou as mãos aos quadris, enquanto sacudia a cabeça, enojado.
Mer...
A palavra não foi terminada, pois Webb Calder se virou.
Quer que sejam quatro dias, Buck?
Ele arrancou o Stetson preto empoeirado da cabeça e jogou-o ao chão.
Macacos me mordam! Buck expeliu as palavras de supetão.
Um sorriso rachou a severidade da expressão de Webb Calder.
Agora você me entendeu, Buck.
Encostando o calcanhar no flanco do cavalo, botou-o a caminho.
Três dias resmungou Buck.
Vou levar o seu cavalo para junto da manada. Nate Moore aproximou-se a
cavalo e abaixou-se para apanhar as rédeas penduradas.
Quando Chase começou a se afastar, Buck segurou-lhe a brida para detê-
lo.
Dê uma palavrinha com o seu velho. Não fiz nada para merecer três dias.
Fale com ele você mesmo.
Chase não era bobo de pedir ao pai um favor pessoal. Buck conhecia as
regras, mas sempre achava que havia um jeitinho de contorná-las.
Voltando para junto do rebanho, Chase tomou seu lugar enquanto O'Rourke
terminava de separar seu gado. Era um processo lento, devido à falta de
cavalos treinados do pequeno fazendeiro e ao número excessivo de
tresmalhados no rebanho. Qualquer um entre uma dúzia de vaqueiros da
Triplo C poderia tê-lo terminado num terço do tempo, e todos estavam
doidos para fazê-lo, inclusive Chase, mas, sem receber ordem do pai
dele, ficavam sentados nas selas, observando. O'Rourke e o filho
isolavam as reses, enquanto a garota guardava o seu gado a alguma
distância, para além das vistas de Chase, atrás de outra elevação baixa
nas planícies de aparência enganadoramente sem relevo. A imagem dela
ficava voltando à mente dele, sua tensão não tendo sido inteiramente
aliviada.
21
Os ferros de marcar estavam quentes quando Angus cavalgou por entre o
rebanho pela última vez e não achou mais nenhuma rês de Shamrock. Fez
um sinal para Nate Moore, muito ereto na sela, avisando que tinha
terminado, e saiu do meio do rebanho da Fazenda Triplo C. A expressão
impaciente dos cavaleiros indicava que sua inépcia havia causado uma
demora desnecessária. Mentalmente, ele já tinha uma desculpa pronta,
porque não podia dar-se ao luxo de ter os cavalos de alto preço
especializados que eles montavam. Nem uma só vez O'Rourke levou em
consideração as horas de treinamento gastas para se formar um animal
daqueles, horas que ele não queria passar tentando melhorar a
capacidade dos seus próprios animais.
Angus sabia que a demora lhe traria vantagens, portanto convenceu-se de
que a lentidão fora deliberada. Se os Calders estavam impacientes para
prosseguir o trabalho, ele seria ignorado como uma chateação irritante
de que finalmente se haviam livrado. Enquanto ele se cumprimentava
silenciosamente por ser tão inteligente, arquivou um lembrete mental
para explicar ao filho como havia planejado tudo tão astutamente.
O prazer de Angus foi fugaz, desaparecendo no instante em que viu Webb
Calder posicionado entre si e as reses que Culley e Maggie estavam
guardando. Sua garganta e boca ficaram secas, e podia sentir as palmas
suando. Não havia escolha exceto cavalgar até Calder. Silenciosamente,
Angus xingou o homem que não tinha o direito de ficar ali sentado como
um raio de um rei, esperando que todos tremessem diante dele.
Desculpe a demora, Sr. Calder. Pronto, repetira a dose, deu-se conta
Angus, frustrado... humilhara-se ante o homem. Já estamos de partida.
Webb Calder não fez nenhum comentário. Seu olhar se dirigiu ao gado de
Shamrock agrupado à sua esquerda, chamando deliberadamente atenção para
ele.
Estou contando trinta e sete cabeças, mais os bezerros. É um número bem
grande para tresmalhar para o pasto de Calder.
O suor nervoso estava formando gotas no lábio superior, mas Angus
forçou um sorriso e uma risada.
Sabe como é, Calder. Uma vaca vê capim do outro lado da cerca e
encontra um jeito de chegar até ela. Elas não respeitam fronteiras e
limites. O olhar dele se desviou da mirada dura para fitar a pastagem
densa sobre a qual estava. Ali havia pasto o bastante para alimentar
ainda mais metade do gado que Calder possuía. O homem devia partilhar
sua fartura com aqueles que tinham menos. As minhas poucas cabeças não
privaram o seu rebanho de pastagem acrescentou, com ressentimento.
22
Não deixo o meu gado acabar com o pasto até as raízes exclamou Calder,
bruscamente, e não disse mais nada, porém Angus entendeu as
implicações. Abespinhou-se ante a crítica subentendida de que estava
administrando mal sua terra, sem querer admitir que a observação era
justificada. Vou acreditar desta vez na sua história de que todo esse
gado tresrrudhou. Comece a vigiar sua cerca, O'Rourke... ou meus homens
o farão por você. Se não consegue manter seu gado do seu lado da cerca,
eu o manterei.
Angus empalideceu ante o tom ameaçador.
Culley e eu vamos apertar bem aquela cerca amanhã logo cedo, Sr.
Calder. Não precisa mais se preocupar com isso. Tem sido um inverno
duro, e sem ter direito quem me ajude, tive que descuidar de algumas
coisas para tratar de outras, mas pode ficar descansado, Sr. Calder,
que não vai ter problemas com a minha cerca.
Sei que não vou.
Webb desviou o cavalo e partiu a meio galope na direção do seu rebanho.
Angus girou o seu animal num quarto de círculo para ver Calder afastar-
se. A subserviência fora substituída pela raiva. Cuspiu no chão.
O filho da mãe ganancioso. Todo metido a poderoso. A boca se encrespou,
cheia de amargura. O meu dia chegará. Espere e verá.
Enfiou as esporas na montaria e puxou rudemente as rédeas, escancarando
a boca do cavalo para impedi-lo de desatar num galope na direção do
gado de Shamrock agrupado.
O que foi que o Sr. Calder lhe disse? indagou rapidamente Culley, no
instante em que Angus chegou junto deles.
Estava só botando banca. Mexeu-se na sela, evitando o olhar dos filhos.
Vamos levar essas reses para casa.
Maggie olhou do pai para o cavaleiro que desaparecia e tirou suas
próprias conclusões sobre a conversa. Batendo com o laço enrolado na
coxa, começou a levar para leste o seu lado do gado, enquanto o irmão
fazia o outro flanco mover-se. Mais tarde fariam com que as reses
virassem para o norte, quando chegassem ao cruzamento do rio.
Levar o gado para casa exigia pouca atenção consciente. Os gestos de
Maggie eram quase automáticos, deixando-lhe muito tempo livre para
matutar nos acontecimentos do dia. O incidente com Chase Calder se
destacava vivamente em sua cabeça, em parte porque se sentira tão
encabulada de levar um tombo na frente de tantos cavaleiros
competentes, e em parte porque eles tinham vindo em
23
seu auxílio, porque ela era uma garota, e portanto supostamente menos
capaz de cuidar de si mesma.
Mas principalmente era por causa daqueles instantes fugazes em que a
mão de Chase Calder tocara inadvertidamente no seu seio. A sensação
estranha a percorrera como um choque elétrico, excitante e assustadora,
como uma coisa geralmente proibida o é. A raiva inicial fora um
resultado direto daquela onda de pânico.
Então, quando ela olhara no rosto dele e vira que a estava reconhecendo
como mulher, ficara magoada porque não o fizera antes. Será que nunca a
notara? Já o tinha visto mais de meia dúzia de vezes nos dois últimos
anos, quando fora à cidade comprar suprimentos. Será que nunca havia
olhado para ela antes?
Não estaria sendo honesta consigo mesma se não admitisse que o havia
observado com uma certa dose de interesse. Afinal de contas, era rico,
jovem, filho de um fazendeiro, o objeto das fantasias de um bocado de
garotas. Mesmo descontando quem era, Chase era bonitão, à moda dos
Calder.
Seu olhar baixou para as Levi's largonas que estava usando. Não iria
sempre usar as roupas dos outros. Não viveria o tipo de vida que a mãe
tivera com o pai. Ia ser alguém a dama que a mãe sempre quisera que
fosse alguém importante. As pessoas iam-se adiantar para vir falar com
ela na rua, e não sacudir a cabeça, com pena, quando ela passasse.
A mãe. Fora uma mulher tão meiga, tão esguia e frágil, envelhecida
antes do tempo. Maggie estava com 12 anos, quando ela morreu. A causa
da morte fora oficialmente atribuída à pneumonia, mas Maggie sabia que
a mãe literalmente trabalhara até morrer. Podia lembrar-se dela
nitidamente sempre trabalhando, desde a madrugada até tarde da noite,
sempre lutando para manter um lar decente para sua família, sempre
defendendo os fracassos do marido, jamais se queixando. Maggie crescera
protegendo a mãe, defendendo-a prontamente quando o pai se queixava
porque o jantar não estava na mesa no minuto em que entrava em casa.
Não condenava a mãe por se auto-anular; considerava que a mãe estava
enganada. Quanto a Maggie, não era absolutamente de se autoanular.
A ambição ardia dentro dela. Não a do tipo sonhador que o pai tinha. A
dela era feroz e consumidora, impelindo-a a estudar mesmo sem ir à
escola com regularidade, e a entesourar as moedas que conseguia poupar
da quantia diminuta que o pai lhe dava para comprar a comida deles.
Algum dia teria o dinheiro poupado para partir, e ninguém iria detê-la.
Quem sabe voltaria algum dia, usando um daqueles vestidos elegantes
como os modelos nas revistas de moda. Adoraria ver a cara das pessoas.
Sorriu só de pensar.
O local onde vadeariam o rio ficava logo adiante, à esquerda. Maggie
recuou para a retaguarda do rebanho enquanto guinavam o gado para a
margem, agrupando-o ainda mais. O rio estava na sua profundidade
máxima. As neves derretidas do inverno e as chuvas da primavera faziam
com que chegasse até a altura do peito, exceto onde havia bolsões mais
fundos. No local da travessia o rio era largo e raso, chegando até o
tornozelo, na maior parte do ano, e até a coxa na primavera.
A visão limpa e clara do rio piscando para ela por entre os choupos das
margens fez Maggie se lembrar de como estava suja e suada. Há quase
duas semanas que estavam sem água corrente em casa, desde que a bomba
do poço se quebrara. O pai andara mexendo nela... sem êxito. Ela estava
carregando a água que precisavam do celeiro, que era servido por um
poço diferente. A ideia de carregar e aquecer água o bastante para um
banho não parecia atraente, em vista das tarefas a serem feitas e o
jantar ainda a ser preparado quando chegassem em casa.
A margem do rio inclinava-se suavemente para dentro d'água gasta pelos
anos de vadeação. Fizeram o gado descer a encosta, agrupando-o
compactamente. As reses da vanguarda recusaram-se a entrar na água.
Gritando e assobiando, eles empurraram para frente as da retaguarda,
forçando as primeiras para dentro d'água. A travessia foi feita
facilmente, pois a correnteza morosa não oferecia problemas.
Maggie ficou para trás para cavalgar ao lado do pai. Daqui em diante
era uma viagem fácil de quilómetro e meio até a cerca. O pai e Culley
juntos poderiam cuidar do gado sem dificuldade. Tendo acordado ao
alvorecer para ajudar com as tarefas da manhã, e não tendo parado um só
minuto desde então, Maggie se achava com direito à meia hora ou mais de
descanso e à chance de dar um mergulho, em vez de simplesmente tirar
com uma esponja a sujeira do dia.
Você e Culley podem prosseguir daqui disse Maggie.
Aonde pensa que vai? O pai lançou-lhe um olhar de desafio.
Nadar. Jogou a resposta por cima do ombro enquanto desviava seu cavalo
do dele e o encaminhava na direção do rio.
Há trabalho por fazer! berrou ele.
Estou certa de que estará esperando por mim, quando eu voltar para casa.
Não mandei que não fosse à escola hoje para ir nadar no rio gritou
Angus, para a figura que se afastava.
Enquanto ia embora, Maggie não olhou para trás nem deu sinal de tê-lo
ouvido. O pai sacudiu a cabeça, frustrado. Simplesmente não entendia
aquela garota... sempre respondendo, nunca
25
lhe mostrando nenhum respeito. Era a cara da sua querida e meiga Mary
Frances, mas não possuía a suavidade de espírito dela, nem a doçura.
Deus sabia que tentara o máximo para ser um bom pai para ela. Tinham um
lugar para dormir e comida na mesa. Prometera comprar-lhe todas as
roupas e coisas bonitas que uma mocinha devia ter. Nunca nada que fazia
era o bastante para essa garota. Era uma diabinha; nunca lhe dava um
minuto de paz.
Já o Culley era um bom rapaz. Sempre escutava e compreendia por que as
coisas eram como eram. Angus desejava que Maggie fosse mais como o
irmão. Mas Culley era rapaz. Era mais fácil relacionar-se com um filho.
Um pai tinha que escolher as palavras com cuidado, com uma filha. Se
Mary Frances fosse viva, explicaria as coisas para Maggie e faria com
que a garota compreendesse que não era culpa dele serem pobres. Eram as
pessoas como Webb Calder que não davam a um homem a chance de progredir
na vida.
26
Capítulo III
Com uma torção hábil do pulso, Chase deixou a corda voar e fez um
volteio ao redor do arção dianteiro da sela enquanto o laço pousava no
pescoço de um bezerro. No dia a dia de trabalho do vaqueiro, laçar
bezerros não incluía as freadas bruscas dos cavalos ou o bezerro sendo
lançado ao chão quando chegava ao fim da corda, como os rodeios
mostravam. Sem grandes extravagâncias, o bezerro era laçado e arrastado
a pé para as equipes que o vacinariam e marcariam.
No entanto, a cena era mais emocionante e confusa do que um rodeio,
nesta arena de pastos agrestes sob hectares de céu azul. Havia homens
andando apressados por toda a parte, a pé e a cavalo. Havia constantes
pilhérias e desafios, e o mugido dos bezerros e do gado, cavaleiros
desviando-se de grupos a pé que perseguiam um bezerro, homens
abaixando-se para não ser laçados. Cascos agitados haviam esmagado o
capim, deixando o solo exposto e levantando uma fina névoa de pó para
embotar os acontecimentos.
A cena atacava os sentidos, deixando tontos os olhos que tentassem
enxergar tudo o que se passava, confundindo os ouvidos que tentavam
separar a mixórdia de sons, e assaltando o nariz com os odores
combinados de suor, estrume e pêlo queimando.
Por entre o labirinto de homem e animal, Chase arrastava o bezerro que
protestava. Foi Buck quem se aproximou para flanquear o seu bezerro e
levá-lo ao chão. O suor havia feito listas de lama no rosto de Buck.
Enquanto ele espetava uma dose de vacina no bezerro caído, um segundo
vaqueiro apertava o ferro de marcar quente da Triplo C na anca do
bezerro. Em seguida, Buck estava afrouxando o laço e soltando-o para
deixar o bezerro chorão correr de volta para sua mamãe.
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Enquanto Chase começou a enrolar de novo seu laço, Buck parou para
tomar fôlego.
Não aguento três dias disso, Chase. Tudo por causa de uma simples
"porrada". Não é direito. Simplesmente não é direito insistiu.
O mundo é duro, Buck. A linha da sua boca se curvou, reduzindo um pouco
da sua severidade natural.
Que frase profunda, vinda do herdeiro de tudo isto debochou Buck, e deu
um passo cansado atrás de outro bezerro laçado.
O comentário não causou nenhuma impressão em Chase, enquanto dirigia
seu cavalo para o rebanho. Aceitava sem questionar que o império dos
Calders lhe pertenceria, algum dia. Crescera sabendo disso. Nunca houve
um momento em que tivesse pensado em outra possibilidade qualquer.
Alguém chamou seu nome, e ele parou. Olhando ao redor, viu o pai
fazendo-lhe sinal para que se unisse a ele, como espectador. Atravessou
a cavalo aquela confusão de marcar gado e veio postar-se ao lado do
garanhão do pai, empurrando o chapéu para o alto da cabeça.
O que é?
Quero que venha jantar comigo em casa, hoje. Ante a vaga surpresa
surgida nos olhos de Chase, o pai explicou: O Senador Bulfert deve
chegar de avião, por volta das cinco. Vai jantar conosco e passar a
noite lá em casa antes de seguir para Helena, pela manhã. Está na hora
de você ter experiências de primeira mão com a politicagem dos
bastidores.
Mais lições? O sorriso de Chase ficou um tanto estouvado, revelando
divertimento pelas lições intermináveis do pai.
Até agora, só o que você aprendeu foi o básico respondeu Webb com
seriedade total. Se espera dirigir bem esta fazenda algum dia, ainda
tem muito que aprender.
No tocante a este assunto, o pai não tinha senso de humor.
Endireitando-se na sela, Chase enterrou bem o chapéu na cabeça e apagou
o sorriso do rosto.
Sim, senhor.
Sei que você acha que esta fazenda praticamente se dirige sozinha. Webb
leu os pensamentos do filho. Mas, quando chegar a hora de você assumir
a direção, vai ficar assoberbado, porque eles vão tentar tirá-la de
você.
Você vive falando desses "eles", mas nunca me diz quem "eles são".
Chase não podia imaginar alguém ameaçando tirar-lhe a estância. Como
seria possível?
Isso vai ser problema seu, descobrir qual dos seus amigos ou vizinhos
está aprontando alguma coisa contra você. A fazenda parece segura, mas
é vulnerável porque é muito grande. Suas
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feições ficaram marcadas com uma tristeza sombria. Ninguém gosta
realmente de você quando se é grande, filho. Às vezes, esta é a coisa
mais difícil de se dar conta... e aceitar.
Parecia a Chase que o pai estava exagerando, mas ficou calado.
Aprendera há muito tempo que geralmente havia grande dose de verdade no
que o pai dizia, não importa com quanto ceticismo ele o encarasse na
hora.
Deixei a pick-up estacionada na porteira leste do pasto. Nate virá
conosco e trará os cavalos. Webb pegou as rédeas. Vamos. Não devemos
deixar o senador esperando.
Você está com o senador no bolso, e sabe disso comentou Chase,
secamente.
O pai apenas sorriu.
Se você está com um homem no bolso, ele geralmente está furtando.
Rindo baixinho do humor seco do pai, Chase o acompanhou para irem
encontrar-se com Nate Moore, do lado mais próximo do rebanho. Quando o
vaqueiro experiente notou Chase, voltou o olhar para Webb.
Não me disse que eu ia perder um homem. Qual é a ocasião importante?
indagou, emparelhando o cavalo com os deles.
O senador vem passar a noite aqui.
Um brilho malicioso surgiu nos olhos do vaqueiro mais velho, embora sua
expressão não tivesse mudado.
O velho Bullfart vem aí, hem? perguntou, adulterando grosseiramente o
nome do senador.
É, o Senador Bulfert vem aí. Webb enfatizou o nome certo do senador,
mas não havia censura no seu tom.
Imagino que seja uma boa ter amigos influentes admitiu Nate mesmo
quando eles fedem.
Faço o que posso para ficar contra o vento, para que o cheiro dele
nunca chegue até mim, replicou Webb e tocou seu cavalo a um meio galope
acentuado.
Nate e Chase rapidamente o imitaram para cavalgar a seu lado, mas nunca
à sua frente. Era uma das leis não escritas da terra... nunca cavalgue
à frente do patrão.
A oito quilómetros do rebanho, os choupos enfiavam as suas cabeças
verdes no horizonte, marcando o curso do rio. A rota deles era a mesma
que O'Rourke tomara com o seu gado. A passagem do pequeno fazendeiro
estava nitidamente marcada pela grama pisada, que se endireitava
devagar. Ao se aproximarem do lugar de vadeação do rio, Webb Calder
diminuiu a andadura para um meio galope, depois um simples caminhar,
com o olhar se dirigindo para a margem oposta.
29
Depois que tivermos acabado de marcar o gado, quero que deixe um homem
aqui para verificar a cerca de O'Rourke, Nate
ordenou Webb.
Já era minha ideia disse o capataz, balançando a cabeça.
Achei que tinham tresmalhado reses demais para ser um acidente.
O comentário tocou alguma coisa na memória de Chase, levando-o de volta
aos seus 12 ou 13 anos. Tinha acompanhado o pai num recolhimento de
gado de outono. Naquela ocasião, um estancieiro diferente tinha mais de
100 reses "tresmalhadas" no pasto dos Calders. Tinha havido uma
discussão acalorada e amarga entre o estancieiro e o pai, aquele
alegando que havia pasto mais do que suficiente para ambos, e que o pai
devia partilhá-lo. O pai mandara que o homem e seu gado se retirassem
da terra dos Calders, avisando que atiraria no próximo animal dele que
aparecesse por lá.
Na época, pareceu-lhe que o homem tinha um argumento válido. Havia o
bastante para todos. Mais tarde, quando interrogara o pai a respeito,
Webb explicara que, se deixasse um pequeno fazendeiro trazer seu gado
para o pasto dos Calders, abriria um precedente para admitir todos os
outros dentro das suas fronteiras. Então, a terra não seria mais sua.
Uma vez que se traça uma linha, nunca se deve recuar dela para traçar
uma nova linha. Um homem tem que manter firme sua posição, ou viver
recuando.
Passando o ponto onde os rastros do gado viravam para a encosta suave
que descia até o rio, continuaram numa linha reta até a porteira leste.
O rio fazia uma curva ampla, amoldando-se mais à trilha deles. Quando o
seu cavalo virou a cabeça para o rio, erguendo as orelhas, interessado,
Chase olhou na mesma direção para ver o que tinha atraído a atenção da
sua montaria.
Através de uma brecha entre as árvores, viu um cavalo amarrado a um
toro na margem oposta. Notando a marca de Shamrock na sua anca, Chase
freou rapidamente. Franziu a testa enquanto procurava os cavalos dos
outros dois cavaleiros e o motivo pelo qual o clã dos O'Rourkes tinha
parado ali. Em vez disso, seus olhos depararam com roupas penduradas
num galho seco do toro caído e, um segundo mais tarde, viu o clarão de
um corpo branco no rio. A figura veio à tona e Chase viu os longos
cabelos negros, molhados e lustrosos à luz do Sol. Um sorriso frio
tocou-lhe a boca, um brilho de vingança faiscando nos olhos escuros.
Nate Moore foi o primeiro a notar que Chase não estava atrás deles.
Diminuindo a andadura do cavalo, virou-se na sela para cruzar com o
olhar os vários metros que os separavam.
Rapaz, você não vem?
30
Vão indo na frente. Daqui a pouco pego vocês. Chase fez um gesto
distraído, mandando que seguissem, enquanto observava a moça nua no rio.
Aonde você vai? Webb parou o cavalo, quando Chase começou a voltar pelo
mesmo caminho.
O rapaz parou o tempo suficiente para responder:
Terminar uns negócios inacabados e empatar o jogo.
O débil sorriso transformou-se num sorriso amplo e estouvado, enquanto
terminava de virar o seu cavalo e o esporeava a um meio galope na
direção do ponto de vadeação do rio.
O olhar vivo de Nate já percebera o motivo.
A garota O'Rourke está nadando pelada no rio. Webb soltou um suspiro
levemente desgostoso.
Roubar as roupas de alguém é travessura de criança. Pensei que ele já
tinha superado essa fase.
Porém Nate era menos crítico.
A garota feriu seu orgulho, quando fez com que parecesse um bobo na
frente dos rapazes. Se eu fosse ele, poderia estar querendo ir à forra.
Com seu silêncio, Webb admitiu que havia alguma justificativa para a
atitude do filho. Guinou o cavalo novamente para a porteira leste e
deixou que andasse a passo, com firmeza.
Vadeando o rio, Chase virou o cavalo e seguiu o curso d'água por 400
metros até o local onde tinha visto a garota. Encontrou o corte na
margem que ela usara para chegar até o banco de areia e fez o seu
cavalo descê-lo, seguindo os rastros da montaria dela. O baio dela
rinchou indagadoramente, ante sua aproximação, mas a garota que
espadanava na água estava indiferente à sua presença. Chase cavalgou
até o toro e se inclinou de banda na sela para apanhar as roupas
penduradas no galho seco.
A água era fria e revigorante. Maggie descobrira que, se ficasse se
mexendo, a temperatura gelada era tolerável. Era um pequeno
desconforto, se comparado à agradável sensação de toda aquela água
clara e brilhante fluindo sobre sua pele. Ao longo deste trecho do rio,
a água batia pela altura do peito. Maggie deixou os pés baterem no
fundo e jogou o cabelo pesado e molhado para as costas, tirando a água
do rosto.
Ora, de quem serão essas roupas?
A pergunta irónica a percorreu como um choque elétrico. Deu meia-volta
dentro d'água, quase perdendo o equilíbrio, enquanto os olhos
arregalados buscavam o intruso. Chase Calder estava debruçado para
frente, na sela, um braço apoiado no arção dianteiro, segurando as
roupas dela na mão. O primeiro choque do embaraço cedeu lugar ao
ultraje.
31
Ponha isso onde o encontrou e saia daqui! Maggie o confrontou, os
braços boiando na água para manter o equilíbrio.
São suas? indagou ele, fingindo surpresa, o que a deixou com mais raiva
ainda.
Sabe que são.
Chase levantou-as para examiná-las.
Não podem ser. São roupas de homem, grandes demais para uma coisinha
como você zombou.
São minhas... e você sabe! A jovem tinha parado de se mexer e a água
gelada começou a deixar sua carne dormente. Tinha que fechar firme a
boca para impedir os dentes de baterem.
Mas eu não sei insistiu o rapaz.
Ponha-as de volta no galho, Chase Calder! A voz dela tremia, de raiva e
do frio que a invadia. Ponha-as de volta e se mande daqui!
Não posso fazer isso. Enrolando as roupas numa trouxa, Chase virou-se
parcialmente na sela e amarrou-as atrás da patilha.
Maggie o observava com pânico crescente.
O que está fazendo?
Levando-as comigo, é claro replicou, terminando de amarrá-las e se
endireitando para pegar as rédeas do cavalo. Tem algum pobre vaqueiro
andando por aí sem roupa. Isso não é possível. Estalou os dentes para
fazer o cavalo andar e afastou-o do rio.
O pânico a inundou, quando se deu conta de que ele estava realmente
indo embora com suas roupas.
Não! São minhas! Traga-as já para cá! A voz estava cheia de alarme,
transformando a raiva em medo.
Parando o cavalo, o rapaz deu um quarto de volta com ele, deixando-o
paralelo ao rio. Cascos de ferro bateram no solo arenoso enquanto o
cavalo se mexia impaciente, esperando que o cavaleiro se decidisse
aonde iriam.
O sol que batia na água clara como cristal do rio transformava sua
superfície em vidro. Do seu ponto privilegiado na sela, Chase viu a
forma nua e branca do corpo dela debaixo dágua, esbelta e de seios
altos. Ele tinha um apetite de rapaz, e o recolhimento de gado na
primavera significava um longo período de jejum, portanto a visão dela
o excitou facilmente.
No começo, Chase tinha pretendido apenas tirar as roupas dela e se
afastar um pouco, antes de deixá-las onde ela as pudesse encontrar.
Agora, estava mudando os planos inconscientemente, querendo vê-la sem
que a distorção da água interferisse com a visão.
Se as roupas são suas, por que não vem buscá-las? desafiou, com voz
macia.
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Maggie inspirou vivamente, pressentindo uma mudança no ar. Havia algo
novo e sutil presente, vagamente ameaçador. Afundou-se mais ainda na
água gelada, que lambia as concavidades de sua clavícula.
Não.
Se quer as roupas, terá que vir buscá-las.
Não. A recusa dela foi mais veemente, desta feita, mas os dentes já
tinham começado a bater com o frio entorpecedor. Mexeu os braços dentro
da água, tentando manter a circulação funcionando. Deixe as minhas
roupas onde as encontrou insistiu, com voz trémula.
Não posso fazer isso. Sacudiu a cabeça brevemente e mudou de posição na
sela, como que se ajeitando mais confortavelmente. Vou ter que esperar
até você sair da água e vir buscá-las.
Não vou sair enquanto você estiver aí retrucou Maggie.
Não vou embora enquanto você não sair. Chase podia ver que ela estava
tremendo, e adivinhou que a água estava gelada. Vai congelar nesse rio.
É melhor sair daí antes de ficar azul.
Prefiro morrer congelada do que botar os pés nessa margem com você aí!
Uma fúria impotente a percorria com violência.
Sua idiotazinha. Chase viu a expressão de pura teimosia no rosto dela,
e enrijeceu o maxilar. Assumira uma posição e não podia recuar. Aquilo
lhe deixava apenas um recurso... avançar. Nesse caso, terei que ir aí
buscá-la.
O olhar arregalado dela estava cheio de pânico.
Não teria coragem falou, mas havia dúvida na sua voz trémula de frio.
Não? Ele ergueu uma sobrancelha e estendeu a mão para a corda enrolada
amarrada abaixo do arção anterior da sela.
O cavalo ficou instantaneamente alerta. O laço representava o tipo de
trabalho que o animal entendia e curtia. Quando o cavaleiro guinou o
cavalo para a figura na água, este levantou as orelhas curiosamente
para a garota, depois mexeu-as para frente e para trás, em dúvida de
que o cavaleiro realmente pretendesse que o ser humano fosse o seu
objetivo.
Soltando o laço, Chase entrou com o cavalo dentro d'água, ignorando o
seu bufido ante essa história curiosa. O laço da corda estava seguro
baixo e livremente a seu lado direito, pronto para entrar em ação
quando chegasse a hora.
Durante vários e longos segundos, Maggie viu enquanto ele se
aproximava, parte dela se recusando a acreditar que ele ia fazer
aquilo. Depois, tentou nadar para longe do caminho dele. Chase esporeou
o animal, metendo-o água adentro para fazê-la voltar.
33
O rio ultrapassou o topo das suas botas, a sua temperatura mais fria do
que ele imaginara.
Enquanto ela tentava mudar de direção e se desviar dele de novo, o
único alvo certo que seu laço tinha era a cabeça dela. A essa
profundidade o laço ficaria na superfície, pegando-a pelo pescoço.
Precisava levá-la para o raso, onde a corda pousaria na sua cintura.
Tornou-se um jogo de gato-e-rato, com o resultado já previsto, porque o
gato era ligeiro demais e o rato moroso demais.
A temperatura gelada do rio enrijecera os músculos dela, tornando seus
reflexos lentos e os movimentos descoordenados. Maggie patinhou na água
funda, mergulhando uma vez antes que os seus dedos raspassem o fundo
para empurrá-la para a superfície. O frio esgotara suas forças. Fraca e
trémula, estava assustada pelo novo perigo de afogamento.
Quando parecia que Chase a havia seguido longe demais no canal do rio,
o seu cavalo bufando nervosamente ante a água que chegava a meio
caminho das suas cernelhas, Maggie se lançou desesperadamente na
direção da solidez da margem. Todo o seu esforço estava concentrado em
tentar correr, quando alcançou a água que lhe batia pela barriga.
Um sorriso complacente curvava a boca de Chase. O seu cavalo começara a
se dirigir para a terra um segundo após o início da fuga da garota.
Arremetia-se pela água atrás dela, enquanto Chase erguia a corda para
girá-la acima da cabeça. Enquanto fazia cálculos de distância e
velocidade, a outra parte da sua mente notava o perfil saliente dos
seios dela e as nádegas muito brancas enquanto a jovem corria para
longe dele.
Girou a corda duas vezes acima da cabeça antes de deixar o laço voar
para o alvo. Ele pousou sobre os ombros dela e Chase o apertou logo
acima dos cotovelos. O cavalo parou o mais rápido que pôde na água para
manter a corda esticada.
Maggie debatia-se loucamente, contorcendo-se e esforçando-se para
afrouxar o laço que a prendia, emitindo ruídos animais de desespero. A
despeito de todos os seus esforços, a tensão da corda não foi aliviada.
Lançou um olhar desesperado por cima do ombro, uma cortina de cabelos
negros e molhados a atrapalhá-la.
Com sua presa capturada, Chase instou o cavalo a se adiantar enquanto
seus olhos percebiam a beleza nua dela. O cavalo ficou momentaneamente
confuso com a ordem, treinado para manter a corda esticada até que o
cativo fosse libertado, porém, ante a insistência do cavaleiro,
obedeceu. Chase mantinha a corda esticada, passando o excesso para a
mão esquerda e enrolando-o.
Não fez nenhuma tentativa para deter o cavalo até que ele ficou junto
da garota que tropeçava, espadanava e ainda lutava. Vista de perto, a
perfeição imaculada da sua carne nua ainda era
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mais bonita. Chase puxou-a um passo para trás para emparelhá-la com sua
sela e se abaixou para pegá-la. O laço apertado prendialhe os braços
aos lados.
Quando a envolveu pela frente da cintura, era como segurar um pingente
de gelo. Mesmo através da sua jaqueta, podia sentir como a moça estava
fria. Os pensamentos libidinosos de que podia estar possuído foram
sobrepujados pela preocupação com uma pessoa exposta por tempo demais
às águas gélidas do rio. Ficou com raiva de si mesmo, enojado com sua
atitude. A garota estava quase congelada, e tudo porque o seu maldito
orgulho quisera vingança. Chase ergueu o corpo que chutava e se
retorcia para a sela à sua frente.
Largue-me!
O cabelo molhado cobria-lhe os seios como faixas de seda negra,
enquanto seus braços amarrados se cruzavam para tapar a faixa inferior
e triangular de cabelos negros.
Uma parte distante da mente dele notou a fúria da jovem; mesmo agora,
quando tinha que estar assustada com as intenções dele, não implorava
ou demonstrava medo. Registrou distraidamente um sentimento de respeito
pelo seu espírito indomável. Mas outras considerações dominavam seus
pensamentos, naquele momento.
Fique quieta e tiro a corda de você.
Chase deu a ordem enérgica, enquanto tentava segurar o corpo que Jutava
e se contorcia na sela, e o cavalo se mexia inquieto sob o fardo
indócil.
Ela ergueu os olhos para ele, cautelosa, sem confiar nele plenamente.
Estava tremendo violentamente demais para ficar imóvel, porém parou de
se debater. Quando Chase afrouxou a pressão nas rédeas para poder tirar
a corda, o cavalo começou a se dirigir para a margem. Ele o deixou ir e
tirou o laço pela cabeça dela, jogando a corda no cascalho.
Imediatamente, ela tentou pular do cavalo, mas Chase a deteve.
Vista a minha jaqueta ordenou, tirando-a e colocando-a sobre os ombros
dela. A jaqueta praticamente a engolia. Chase viu os cílios longos e
negros se juntarem numa apreciação muda pelo calor do corpo dele que o
casaco transmitia.
Segurando-a pela cintura, saltou da sela. Mesmo molhada de pingar,
pesava quase nada. Podia sentir os tremores violentos que lhe sacudiam
o corpo, mas ela não fazia um ruído, permanecendo rígida nos seus
braços, rejeitando sua assistência. Um galho quebrado da árvore seca
jazia no trecho ensolarado do banco de areia. Chase botou-a no chão ao
lado dele e começou a quebrar a madeira seca em pedaços.
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Daqui a dois minutos teremos uma fogueira falou, mas não recebeu
resposta.
A madeira seca pelo sol era como mecha, ardeu ao primeiro fósforo.
Chase abanou-a com o chapéu e deixou-a arder bem por um minuto, depois
armou uma estrutura cónica de peças maiores para manter a fogueira
acesa. A garota se aproximou mais do calor que ela transmitia, toda
encolhida dentro da jaqueta dele, que lhe chegava até as coxas. O olhar
dele percebeu as gotas de água na carne arrepiada das suas pernas nuas.
Quando ele começou a desabotoar a camisa, ela lhe lançou outro daqueles
olhares verdes enviesados e desconfiados.
Usando a camisa como toalha, começou a enxugar-lhe as pernas, começando
com os pés, passando pela barriga da perna e indo até acima dos
joelhos. Esfregava com força para estimular a circulação. Ela emitiu um
som de protesto mal abafado. Chase sabia que estava fazendo com que mil
extremidades nervosas tinissem dolorosamente.
Quando terminou, enfiou um galho comprido em pé no solo arenoso ao lado
do fogo, e pendurou nele a camisa úmida para secar. Foi só então que se
deu conta de que suas botas e meias também estavam todas molhadas.
Tirou-as e torceu as meias de lã, colocando-as próximo ao fogo para
secar ao calor.
O tempo todo, Maggie o observava calada. As sensações começaram a
voltar-lhe ao corpo, os tremores reduzidos a arrepios ocasionais,
graças ao calor do fogo e à grossa jaqueta.
Tanto o pai quanto o irmão, Culley, eram homens miúdos. Nenhum dos dois
tinha o peito e braços largos e musculosos que Chase Calder tinha, nem
aqueles tufos grossos de pêlos castanhos DO esterno. Ficou examinando
os movimentos daqueles músculos fortes enquanto ele trabalhava, todo
carne rija e osso. A seus olhos parecia uma montanha de homem. Um
vestígio de admiração veio à tona, e Maggie abafou-o da única maneira
que sabia.
Você está ridículo de chapéu e sem camisa e botas falou.
Estou, é? Tirando o chapéu, pousou-o no chão e correu os dedos pela
revolta cabeleira escura. A seguir, lançou-lhe um olhar malicioso. Você
também não está exatamente bem vestida, guria.
Isso é porque você tirou minhas roupas. Os cabelos longos e molhados de
encontro à sua pele estavam começando a ficar desconfortáveis. Maggie
tentou erguê-los para fora da gola, enquanto mantinha a jaqueta
firmemente à sua volta, e os braços dentro dela. E não sou uma guria
acrescentou em protesto, ainda lutando com o peso do cabelo.
Percebi murmurou ele, seco. Vividamente, lembrou-se de como ela era
embaixo daquela jaqueta e podia atestar que
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possuía um corpo de mulher. A lembrança da visão excitou-o, enquanto
via a dificuldade que ela estava tendo. Deixe que faço isso ofereceu-se
Chase e foi ficar atrás dela.
Começando à altura das maçãs do rosto, os dedos dele passaram para trás
das orelhas dela e se enrolaram naquela cabeleira pesada, retirando-a
de sob a jaqueta e espalhando-a pelas costas, do lado de fora. Havia
uma certa sensualidade em segurar todo aquele cabelo nas mãos.
Queimava-o como um fogo negro. Chase soltou-o e se afastou para pegar
um graveto, quebrando-o em dois num esforço para deter a excitação dos
seus sentidos incandescentes. Agachou-se ao lado dela para acrescentar
os pedaços quebrados de madeira ao fogo.
Quantos anos tem, Maggie? Usou o nome dela inconscientemente, fixando o
olhar nas chamas oscilantes.
Dezesseis. Mordeu o lábio, ante a mentira, e admitiu. Vou fazer em
agosto.
Chase virou a cabeça para olhar para ela, um sorriso enviesando-lhe a
boca.
Dezesseis primaveras e nunca foi beijada. O seu tom zombeteiro era
áspero e não combinava com o jeito com que a estava olhando.
As palavras dele fizeram com que Maggie se encolhesse mais ainda na
jaqueta, abraçando os joelhos para envolver mais as pernas na sua
imensidão.
Clyde Barnes me beijou uma vez, quando estávamos brincando no pátio da
escola.
E quantos anos você tinha?
Ela baixou mais o queixo e evitou o olhar dele para fitar os dedos dos
pés.
Treze. Havia uma brusquidão defensiva na resposta.
Ninguém pode dizer que você não tem experiência murmurou ele, com voz
arrastada e áspera.
Nunca falei que tinha experiência. Lançou-lhe um olhar de esguelha de
orgulho ferido. Clyde nem tinha treze anos. A intensidade do olhar dele
estava ficando insuportável. Sei que é diferente quando um homem beija
a gente.
Fez-se um segundo de silêncio; depois, a mão dele estava no pescoço
dela, virando-lhe a cabeça e erguendo o queixo dela na sua direção.
Como é que sabe?
A escuridão penetrante do olhar dele perturbava-a de uma maneira
excitantemente curiosa que parecia intensificar todos os seus sentidos.
Não conseguia dar-lhe resposta, capturada demais pela certeza louca de
que ele ia beijá-la e ela ia descobrir por si mesma se era verdade que
um beijo de homem era diferente.
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Capítulo IV
Inclinando vagarosamente a cabeça para ela, Chase exerceu uma leve
pressão no seu pescoço para puxá-la para frente. Ela não tentou recuar
ou resistir. Antes que a sua boca tocasse os lábios dela, Chase
aspirou-lhe o cheiro fresco e limpo... como o do ar depois de uma chuva
de verão. Sua terrenalidade simples o tocou. Quando sua boca pousou nos
lábios fechados da moça, eles permaneceram imóveis, em inocência. Ele a
esfregou sobre a maciez dos lábios dela, buscando uma resposta, e ficou
insatisfeito quando não a obteve. A incerteza da moça quanto ao que se
esperava dela conseguiu transmitir-se para ele.
Chase ergueu a cabeça dois centímetros dos lábios dela.
Não deixe a boca tão dura. Relaxe instou, num murmúrio tranquilizador.
Deixe os lábios se mexerem contra os meus.
Está bem. O hálito doce dela o bafejou, excitando-o. Desta feita,
Maggie ofereceu uma resposta tentativa para a
pressão da boca do rapaz. Gostou daquela sensação engraçada e enroscada
que criava dentro de si. Sob a orientação dele, sua confiança cresceu,
e foi recompensada com o prazer.
O polegar dele começou a traçar círculos indolentes na concavidade
sensível atrás da orelha dela, despertando mais sentidos. Havia tanto
calor tinindo por seu corpo que Maggie achava difícil acreditar que há
poucos minutos estivera tremendo de frio. Estava tremendo, mas por um
motivo inteiramente diverso.
Quando Chase terminou o segundo beijo, os lábios dela se grudaram aos
dele por um breve segundo. Ficou contente quando ele permaneceu junto
dela e não se afastou. Fitou a linha masculina da boca que havia
produzido aquelas maravilhosas sensações novas que a inundavam. O olhar
dela subiu para a largura
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distendida do nariz e para os pontos angulosos das maçãs do rosto antes
de ficar preso à intensidade dos olhos. Exceto pela vitalidade ardente
dos olhos, ele parecia entalhado em pedra. Maggie não percebia que os
desejos extremos dele o mantinham imóvel. Ficou levemente intrigada com
a maneira fantástica como se sentia, perguntando-se se seria normal.
A expiração longa e trémula que ela soltou era quase um suspiro.
A gente tem que ficar toda trémula por dentro quando um homem nos
beija? Era uma pergunta sem malícia, instigada por uma curiosidade que
não podia conter.
Não com todo homem... só um ou dois. A voz dele vibrava de algum lugar
dentro de si, bem profundo.
Aos pouquinhos, Maggie começou a mover os lábios mais para perto da
linha da boca do rapaz. A hesitação era causada por um sentido interno
que a advertia que esta era uma experiência que podia tornar-se
incontrolável, mas sua audácia natural levou-a além do ponto de
cautela. Chase não permitiu que ela fizesse tudo sozinha... foi
encontrá-la a meio caminho.
Desta vez, quando sua boca se fechou sobre a dela, Maggie sabia
exatamente o que fazer. A ansiedade do seu beijo de retribuição
provocou uma reação instantânea e exigente da parte dele. Ela sentiu
que estava sendo devorada, consumida inteira pela fome avassaladora
daquele beijo. A fraqueza subsequente fez com que ela oscilasse, porém
o braço livre dele se moveu, a mão segurando-lhe o ombro para firmá-la.
Mudou de posição para que ela não tivesse que se inclinar para alcançá-
lo. A maciez dela parecia infinita. Seus lábios cederam à intrusão da
língua dura dele, porém os dentes brancos provaram ser uma barreira
irritante. Ele recuou. Não havia necessidade de forçar quando a
experiência já demonstrara que ela era uma aluna aplicada, quando
devidamente instruída.
Abra a boca, Maggie murmurou ele de encontro ao canto dos lábios da
garota.
Desta feita, não houve resistência e sua língua penetrou nos recessos
escuros e secretos da boca da moça. A princípio, ela manteve a língua
bem apertada ao fundo da boca, evitando o contato com a dele. Aos
poucos foi relaxando, deixando a língua tocar a dele e enroscar-se nela
até que as duas estavam se acasalando doidamente, deixando Chase louco
com uma necessidade maior. O braço dele a envolvia, uma mão espalmada
entre as suas omoplatas, enquanto a outra permanecia na maciez do seu
pescoço.
A jaqueta volumosa impedia-o de chegar tão perto quanto queria, a
jaqueta e as mãos e os braços debaixo dela, segurando-a.
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Frustrado e incapaz de controlar os desejos poderosos e primitivos
sufocados há tempo demais, Chase soltou a boca da boca da moça e
buscou-lhe o lóbulo da orelha, tomando-o entre os dentes e mordiscando-
o, querendo comê-la toda e alimentar esse apetite insaciável que o
consumia. Deslizou a mão pela garganta dela, abrindo caminho para seus
beijos e afastando a gola empoeirada da jaqueta para expor-lhe a
concavidade do pescoço e ombro. Sentiu-a tremer e ouviu um leve gemido.
Ficou contente ao ver que a estava afetando com suas carícias, levando-
a consigo para os redemoinhos da paixão. No entanto, o abraço era
unilateral demais. Só ele estava tocando e acariciando. Seu corpo
ansiava pela sensação da carícia dela.
Dê-me sua mão mandou sua voz rouca, e Maggie enfiou a mão pelas fartas
dobras da jaqueta.
Ele a levou até a solidez do seu peito nu. Os dedos dela se espalharam
sobre o Calor da pele dele, e os músculos se contraíram trémulos sob
seu toque. Ela deu início a uma exploração tátil do tórax másculo, e
achou-o mais excitante de tocar do que de admirar à distância. Os pêlos
crespos do peito dele roçavam suavemente as suas palmas sensíveis; os
terminais nervosos tiniam numa reação encantada. Músculos ondulavam no
ombro e no braço dele, e Maggie curtiu a força contida sob seus dedos.
A boca de Chase voltou para tomar-lhe os lábios numa posse impetuosa. A
urgência crua do beijo empurrou-a para trás, e o braço dele baixou-a
devagarinho até o solo. A jaqueta protegia a pele nua dela do leito de
areia e cascalho. A mão dele traçou-lhe o contorno do braço e
aproveitou o expediente para insinuar-se dentro da jaqueta. Segurou-lhe
o seio na palma da mão com segurança e tranquilidade, fazendo o gesto
de intimidade parecer muito natural. Os dedos dela soltaram as abas da
jaqueta. Perdera o motivo para deixá-la fechada. O frescor do ar contra
sua pele só tornava mais agradável o calor do toque dele; e isso
deixava sua outra mão livre para dobrar a extensão de território que
podia explorar. Além disso, não ficava nada no caminho para detê-lo.
O seio firme e redondo foi a perdição dele. Se tivesse tido a força de
vontade para parar antes de irem longe demais, Chase perdeu-a naquele
momento. Tudo o que lhe restou foi o controle para ir com calma e
tornar a experiência tão gratificante para ela quanto ia ser para ele.
O polegar dele rodeou o pico rosado do seio, sentindo-o endurecer sob a
estimulação. Então sua boca começou uma expedição lenta até o seu alvo
irresistível, mas teve sua atenção desviada por outras atrações no meio
do caminho... a pulsação que saltava na garganta dela, a concavidade
tentadora na base do pescoço, a curva encantadora do osso do ombro.
Chegando finalmente a seu destino, a língua rodeou o botão duro do
seio, e ela inspirou vivamente, reagindo, e se afastou dele.
Chase beijou a curva arredondada.
Não tenha medo murmurou.
Medo. Será que era isso o que estava sentindo? Estava nervosa, mas não
havia medo no meio. Era uma aventura sensual, descobrir as profundezas
insondadas dos seus desejos. Cada novo toque apresentava-a a uma esfera
de sensações totalmente nova. Ela, que era tão prática, sensata e
realista estava sendo levada nas águas -da paixão. E o que era mais,
estava desfrutando cada segundo da viagem atordoante.
As mãos dela deslizaram pelos músculos salientes dos braços dele até a
parte de trás dos seus ombros, assegurando-lhe silenciosamente que não
estava com medo. Uma das mãos esguias curvou-se para os músculos fortes
do pescoço dele, os dedos enterrando-se, na cabeleira farta para
aplicar uma pressão para baixo quando a boca se abriu sobre seu seio e
engoliu o bico. O sugar erótico causou um retesamento peculiar nos
músculos inferiores do estômago dela, criando uma dor crua que pedia
para ser aliviada. Ela se contorceu ligeiramente numa tentativa de
diminuir a pressão crescente, fechando fortemente as coxas.
Tomando consciência do movimento sinalizador, Chase foi descendo com a
mão, enquanto a língua e os lábios continuavam dando atenção ao seio.
Na descida vagarosa, a mão acariciou a curva da cintura e segurou
brevemente o quadril, depois parou na parte inferior da barriga,
trémula e plana. Quando ela arqueou levemente os quadris ao peso da mão
dele, seus dedos deslizaram para o triângulo sedoso de cabelo e
esfregaram a área com firmeza suave.
Instintivamente, os quadris dela começaram a se mover em rotações
lentas e rítmicas. Desviando-lhe a atenção, ele arrancou a boca do pico
de um dos seios e deixou-a subir para a crista do outro. Enquanto
mordiscava o mamilo pontudo, seus dedos massageadores fizeram uma
revista mais íntima, até que pôde sentir como ela estava molhada.
Ruídos animais baixos de tormento e prazer saíam da garganta dela,
enquanto se contorcia e arqueava mais os quadris para facilitar-lhe a
entrada. Estava alucinada com a sensação.
Ante essa reação totalmente desinibida, uma onda de calor ardeu pelo
corpo de Chase. Com um gemido, arrancou a boca do seio dela para
esmagar-lhe os lábios, separando-os com a arremetida dura da língua. O
seu próprio latejar febril o impulsionava; a necessidade vibrava no seu
organismo. Enquanto uma das mãos continuava a massageá-la até que
estivesse solta e pronta, a
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outra desafivelava o cinto e desabotoava a Levi's. Ela gemeu, em
protesto, quando ele afastou a mão para tirar a calça.
Abrindo-lhe as pernas com o auxílio do joelho, deslizou para o meio
delas, excitando-a de novo manualmente antes de tentar a penetração.
Uma ansiedade quente fervia dentro dele, mas controlou-a entrando nela
bem aos pouquinhos. Quando alcançou a barreira fina do véu da
virgindade, sua primeira tentativa de penetrá-lo provocou um grito
abafado de dor. Ela girou o rosto para longe da boca de Chase,
empurrando-lhe o peito com as mãos enquanto apertava as pernas e os
quadris, numa tentativa de forçá-lo a sair. Chase ficou imóvel, com
esforço.
Não. Ela mantinha o rosto virado, os olhos muito apertados, enquanto os
quadris continuavam a se afastar dele. Não repetiu, com voz rouca,
perturbada, mas não súplice.
Ele acariciou-lhe os cabelos com mão trémula, roçando a boca no seu
maxilar e face.
É tarde demais, Maggie. Não posso parar agora murmurou, com voz rouca.
Não fuja de mim. Só vai piorar as coisas. Sempre dói da primeira vez,
mas não lute contra mim, meu bem. Juro que não vai doer por muito tempo.
Depois de um longo segundo, Chase pôde sentir que ela forçava o corpo a
relaxar, mas manteve o rosto virado para o outro lado. Ele começou a
beijar-lhe o pescoço enquanto descia as mãos para manter imóveis os
seus quadris. Chase estava sendo o mais gentil possível, mas sabia que
não era o bastante, pois as unhas dela enterraram-se nos seus ombros e
um ruído abafado de dor rasgou-lhe a garganta, quando ele a penetrou.
Com arremetidas lentas e firmes foi fazendo a abertura. A tensão
convulsa da quase satisfação aumentava dentro dele, porém sabia que era
muito cedo, e forçou-se a parar para contê-la.
Quando ele cessou os movimentos, ela virou devagarinho o rosto para
ele, que se concentrou na maciez de marfim de suas feições e no
contraste vívido dos seus cabelos negros. Ficou emocionado com a rara
combinação de orgulho, beleza e força.
Não sabia que era possível alguém ter uma pele tão branca e bonita e um
cabelo tão negro... mais negro do que um céu de meia-noite. O olhar
velado dele percorria lentamente o rosto e os cabelos dela, numa
aprovação carinhosa.
Acabou? Foi uma pergunta rápida e concisa, com a desilusão toldando os
olhos verdes dela.
Sua expressão fez-lhe lembrar uma criança a quem tivessem dado um
pirulito que prometia doçura e soubesse a giz. Um sorriso suavizou os
ângulos duros das feições dele.
A dor acabou, meu bem assegurou-lhe Chase, suavemente. Agora começa o
prazer.
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Encostou os lábios nos dela, beijando-os suavemente enquanto a mão
segurava e acariciava o seu seio. A estimulação firme, constante, de
todas as partes do seu corpo, logo persuadiram os quadris dela a se
moverem num ritmo instintivo com ele. Gotas de suor formaram-se no
lábio superior dele, enquanto Chase buscava as maneiras certas de
agradá-la e erguê-la ao clímax da satisfação, enquanto prendia o seu
próprio.
O sangue latejava nas veias dele, como lava quente. Começou a perder o
contato com a realidade. Não havia mais dois batimentos de coração...
apenas um. Não havia dois corpos, mas duas metades combinadas que se
acasalavam numa reunião frenética. Continuou assim por uma eternidade
de minutos até que o seu prazer um no outro culminou num clímax
convulso.
Abraçando-a bem junto de si, Chase ficou deitado de costas fitando o
céu azul brilhante. Ambos tremiam, numa espécie de choque posterior
atordoado. A mão dele estava enfiada nos cabelos levemente úmidos da
moça, enquanto ela pousava a face no duro travesseiro do seu peito.
Totalmente satisfeito, inclinou a cabeça para ver o modo como ela se
enroscava de encontro a ele.
Eu tinha razão, não tinha? Dei-lhe prazer. Queria ouvila falar que sim,
queria saber sem sombra de dúvida que fora uma experiência partilhada.
Ela inclinou a cabeça bem para trás para encontrar os olhos dele,
ousadamente orgulhosa, sem demonstrar nenhuma timidez.
Deu. A simples resposta afirmativa disse a ele tudo o que desejava
saber, e mais.
Chase inspirou fundo e esqueceu de soltar a respiração enquanto corria
os olhos por esta garota que era toda mulher. Nos seus 22 anos,
conhecera apenas dois tipos de mulher aquelas que se respeitava, e
aquelas que não se respeitava. Namorava as do primeiro tipo e ia para a
cama com as do segundo. No entanto, Maggie não se enquadrava em nenhuma
das duas categorias. Tinha de 15 para 16 anos. Era virgem quando ele a
possuíra, mas agora não havia lágrimas de recriminação nos seus olhos.
Embora parecesse uma loucura, tinha mais respeito por ela agora do que
pelas mulheres que a sociedade indicava que o mereciam. Chase se deu
conta de que não queria que fosse de outra maneira.
Apertou o braço ao redor da cintura dela para levá-la consigo quando se
sentou. Enfiou a mão sob seus joelhos para tomá-la no colo enquanto se
punha de pé. Automaticamente, ela curvou a mão no pescoço dele, para se
apoiar. O olhar dela era curioso, mas não fez perguntas.
Chase parou junto do pedaço de pau em que pendurara sua camisa.
Pegue minha camisa.
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Esperou até que ela a tivesse apanhado, depois carregou-a até o rio,
pondo-a de pé junto da água. Tomando a camisa das mãos dela, mergulhou-
a na água, depois virou-se para lavar suavemente a mancha escura da
virgindade perdida do meio das suas pernas. Quando acabou, ela estendeu
a mão para a camisa. Intrigado, Chase hesitou antes de entregá-la.
Ficou vendo enquanto ela a enxaguava, depois se endireitava para lavá-
lo. Ficou emocionado com o rosado das suas faces, sinal de que estava
ligeiramente embaraçada por sua ousadia.
Tirando a camisa dela e jogando-a para o lado, dobrou um dedo sob seu
queixo e ergueu-o. Ela fitou os seus olhos com uma franqueza natural, o
topo da sua cabeça mal lhe chegando ao ombro. O seu tamanho diminuto
fez Chase sentir-se enorme, o instinto protetor de macho vindo à tona
com força dentro dele.
Maggie. Todas as centenas de coisas que não sabia dizer estavam
contidas naquela única palavra. Suas mãos emolduraram-lhe o rosto
enquanto se inclinava para beijá-la com meiga ferocidade. As mãos
esguias da moça agarraram-lhe os pulsos, segurando-se nele. Com
relutância, Chase ergueu a cabeça, sem notar que a brisa havia jogado
sua camisa dentro do rio, onde a correnteza morosa foi levando-a rio
abaixo. Está ficando tarde. Um sorriso sombrio tocou-lhe a boca,
enquanto a soltava e caminhava para junto do fogo que se apagava.
Vestindo a calça, ele não puxou logo o zíper e abaixou-se para pegar as
meias quase secas, ficando num pé só para calçá-las. Estava calçando as
botas quando notou que Maggie o observava, agarrada à jaqueta para se
aquecer, mas ainda nua.
O que foi? perguntou Chase, endireitando-se, erguendo uma sobrancelha
intrigada.
Você não me devolveu minhas roupas lembrou ela.
O som da risada gostosa dele fê-la sorrir. O mundo jamais fora mais
perfeito do que era neste minuto. Maggie não tinha certeza do que
estava sentindo, exceto que era certo. Era por esse motivo que não se
aprofundava demais, pois a sua beleza podia desvanecer-se como um dos
sonhos fugidios do pai.
O cavalo de Chase se dirigira para debaixo dos choupos para pastar os
brotinhos de grama que cresciam na base dos troncos. As rédeas presas
impediam-no de ir muito longe. Ele recuou ante a aproximação de Chase.
Uma ordem dada em voz baixa fez com que ficasse parado enquanto Chase
desamarrava a trouxa atrás da sela. Voltando para o círculo da
fogueira, jogou as roupas para ela.
Enquanto ela se vestia, ele se dirigia para a beira do rio, em busca da
sua camisa, sem ficar observando-a, como ela o observara. Maggie
supunha que haveria pessoas que teriam considerado
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imprópria a maneira como ela fitara tão abertamente o físico dele.
Porém não entendia o que havia de errado em admirar um corpo de homem.
Os homens ficavam olhando para as mulheres o tempo todo. Estava
enfiando a camisa para dentro dos jeans quando Chase voltou, ainda sem
camisa, para apanhar sua jaqueta. Enquanto ele a vestia, Maggie
perguntou:
Cadê a sua camisa?
Deve ter sido levada pelo vento para o rio, e afundado. Não parecia
preocupado, mas ela imaginava que provavelmente tinha um armário cheio
de camisas. Sendo assim, o que significava a perda de uma? Ele chutou
cascalho para cima do fogo e dispersou as brasas. Está pronta para ir
embora?
Claro. Enrolou o cabelo sob o chapéu, enquanto se dirigia para o toro
onde deixara o seu cavalo amarrado.
Chase estava na sela, e esperando por ela quando a moça montou.
Vou com você parte do caminho falou.
Maggie foi na frente por entre as árvores, subindo a ravina rasa que
levava às planícies amplas e abertas. De frente para as colinas
irregulares do norte, tocou o seu cavalo a meio galope. Chase
emparelhou seu cavalo com o dela. Atravessaram a trilha pisada que o
gado de Shamrock havia deixado e entraram nela. Havia cerca de dois
quilómetros até a cerca limítrofe onde os fios de arame farpado os
forçaram a parar.
Desmontando, Maggie foi até um poste de madeira e chutou a pedra que o
calçava no buraco do poste. O arame frouxo permitiu que o poste
desabasse ao chão. Chase pisou nele, mantendo-o horizontal enquanto
Maggie cruzava o cavalo para o outro lado do arame farpado caído.
Juntos recolocaram o poste no lugar, Chase firmando-o em pé enquanto
Maggie encaixava o calço. Quando acabaram, ficaram dos lados opostos da
cerca, adiando a partida por mais um momento.
Até qualquer hora disse Chase, insatisfeito com a frase, mas sem
encontrar outra que estivesse disposto a dizer.
Cuide-se. Maggie deu uma resposta despreocupada. Na ponta dos pés,
Maggie tomou a iniciativa e se debruçou sobre o arame de cima, instando
Chase a beijá-la uma última vez.
Afastou-se da cerca antes que Chase o fizesse, pegando as rédeas do seu
cavalo e saltando para a sela. Enquanto guiava o animal na direção da
encosta que levava ao topo do morro, acenou para ele por cima do ombro,
e recebeu um aceno em resposta. Sentiu-se subitamente triste ao ouvir
os cascos que se afastavam a galope da cerca, enquanto começava a subir
a encosta com o seu baio.
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Perto da crista do morro, Angus O'Rourke sentava-se silenciosamente no
seu cavalo, na sombra de um grupo de pinheiros. Tinha vindo ver por que
Maggie estava demorando tanto, e se detivera ao vê-la se aproximando da
cerca, acompanhada por nada mais nada menos do que Chase Calder. Seu
primeiro pensamento fora que ela estava sendo posta para fora da terra
dos Calder. E tinha ficado com raiva... mas não com raiva o bastante
para descer e confrontar o sujeito. Suas imprecações resmungadas sobre
os modos arrogantes e superiores dos Calders tinham sido proferidas à
distância.
Porém Maggie o beijara... com a descontração de um par de namorados.
Aquela visão abalou-o até os ossos. Ela não passava de uma garotinha.
Amaldiçoou os Calders mil vezes por corromper crianças inocentes.
Estava na hora de ter uma conversa com ela, de lhe explicar os fatos da
vida. Ah, se Mary Frances estivesse aqui, pensou. Cuidaria de tudo
muito melhor de mulher para mulher. Era difícil para um homem botar
aquilo em termos delicados o bastante para os ouvidos de uma garota.
Ele a viu subir a encosta, vindo inconscientemente direto para ele. O
cavalo dele relinchou ao ver o companheiro de estábulo. O sorriso
sereno desapareceu da expressão dela ao vê-lo. Deu uma parada breve na
sua montaria, depois deixou que continuasse.
O olhar vivo que lhe lançou fez Angus explicar sua presença:
Vim procurá-la.
O terreno ficou rochoso, forçando-a a diminuir o ritmo do cavalo para
um simples andar, nos dois últimos metros.
Claro, papai.
Algo na atitude dela o irritou... um vago ar de convencimento, como se
soubesse um segredo glorioso que não ia compartilhar.
Como é que o tal do Calder estava com você? Onde se encontrou com ele?
No rio respondeu Maggie, sem tirar os olhos da frente. A resposta dela
não lhe disse nada, certamente não o que
mais o preocupava.
Ele a beijou.
Sim, beijou. A jovem virou a cabeça para lançar-lhe um olhar sereno.
A desconfiança entrou na mente dele. Os lábios dela tinham uma maciez
intumescida, havia uma aura sigilosa a seu redor.
O que mais ele fez?
Ela não o encarou mais, desviando a cabeça para olhar reto para a
frente, o queixo se empinando num ângulo desafiador.
Não creio que seja da sua conta.
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Ele estendeu a mão, agarrou as rédeas do cavalo dela para fazê-lo parar.
Sou seu pai, e isso faz com que seja da minha conta. Exijo saber o que
aconteceu.
Por quê? desafiou, enfrentando a raiva dele com uma sinceridade
inabalável, a cólera faiscando nos olhos verdes. Se aconteceu alguma
coisa, o que você faria, papai? Ia ao menos tentar tomar alguma
providência? Ou ia ficar andando por aí, fazendo ameaças vazias para o
ar?
Juro por Deus, se ele botou a mão em você, eu...
Sim? O que vai fazer? Debochava dele, abertamente.
Diga, papai.
Angus engoliu sua raiva, precisando saber primeiro se estava sendo
atiçado sem razão.
Quero saber se ele... fez alguma coisa com você. Tropeçava nas
palavras, a voz baixa e trémula.
Maggie ficou vendo o rubor vermelho ir e vir no rosto dele. Sua própria
raiva defensiva sumiu ante aquela tentativa constrangida de fazer uma
pergunta. Era provavelmente mais difícil para os pais aceitarem a
sexualidade das filhas, imaginava. Descobriu um pouco de piedade, uma
emoção que pensava que o pai já tinha esgotado, pela figura patética
tentando tão desesperadamente defendera honra dela, e sem garra para
levar tal propósito adiante.
Sim, papai, ele fez amor comigo suspirou, cansadamente. Nunca ocorrera
a Maggie mentir.
Houve um longo momento de silêncio, enquanto ele virava a cabeça para o
outro lado, piscando furiosamente.
Aqueles malditos Calders! xingou, numa voz vibrante.
Sempre têm que ter tudo.
Ora, papai, será que não dá nunca para você botar a culpa no culpado?
indagou, numa exasperação cansada. Se alguém tem culpa, sou eu. Era o
que eu queria. Podia ter impedido o Chase, porém não quis.
Ele sacudiu a cabeça, em negativa.
Um homem sempre consegue o que quer com uma mulher. Calder merece ser
chicoteado por ter forçado você.
Papai, você não está prestando atenção.
O protesto dela parecia inútil. Por que ele sempre tinha que torcer as
coisas para pôr a culpa nos outros? Num rasgo de sabedoria, Maggie se
deu conta de que o pai não podia aceitar a verdade de que ela fora uma
participante voluntária, porque, para ele, aquilo significaria que
falhara como pai, de alguma forma. O pai não conseguia aceitar o
fracasso pessoal. Ele sempre tinha que ser causado por alguém, maior,
mais forte ou mais poderoso. Os
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Calders eram um bode expiatório natural para todos os seus problemas.
Não se preocupe, menina. Ninguém vai arruinar minha filha e ficar
impune. Havia um brilho malévolo nos olhos dele. Eis mais outro motivo
para odiar os Calders... um motivo que qualquer homem, qualquer pai,
compreenderia.
Porém tudo o que Maggie via era o quanto ele adorava o papel de mártir.
Pois ela, não. Bateu no cavalo com as rédeas, e o animal saltou para
frente.
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Capítulo V
Deixando Maggie, Chase esporeou o baio cor de sangue e saiu disparado.
Ia comer o pão que o diabo amassou por ter deixado o pai esperando. O
fato de ter esquecido completamente daquilo até há alguns minutos
revelava bem sua total absorção com Maggie.
Cavalo e cavaleiro vadearam o rio a galope, depois subiram a encosta da
margem para o outro lado. Com uma virada larga, dirigiram-se para a
porteira leste. Um berro vindo às suas costas ressoou acima do estrondo
dos cascos céleres do cavalo. Chase olhou para trás e viu Nate Moore
acenando para ele. Com relutância, freou bruscamente o animal. O baio
cor de sanque dançava debaixo dele, soprando e bufando, enquanto Chase
esperava que o capataz o alcançasse.
Já virei meio rio atrás de você. Que diabo, onde andou metido? O
capataz exprimia claramente o seu desprazer por ter sido afastado do
rebanho por um motivo tão idiota.
Desculpe. Chase não ofereceu explicação alguma.
Seu pai não pôde esperar mais. Saiu há cerca de meia hora informou
Nate. Disse que, quando eu o achasse, para avisar que ele o esperava
para jantar em casa, logo mais. E estou-lhe dizendo que é melhor você
ter um motivo danado de bom para não ter vindo imediatamente.
Certo murmurou Chase, a boca retesada. Novamente as esporas enfiaram-se
no baio, impulsionando-o a uma corrida já na segunda passada.
Nate deixou os olhos acompanharem o cavaleiro por um minuto antes de
virar a montaria na direção do rebanho distante.
Ele tem uma cavalgada dura e desgastante à sua frente, cavalo. Era um
hábito que vinha dos seus dias de jovem patrulhando as cercas, quando o
cavalo de um vaqueiro às vezes era a única coisa viva por perto, para
escutar. O rabo dele vai perceber, quando chegar lá. Se a viagem não o
deixar doendo, o esporro que vai levar vai terminar o serviço.
Ao chegar à trilha que cruzava o ponto de vau do rio, alguma coisa no
curso d'água chamou a atenção do vaqueiro. Diminuiu a andadura do
cavalo, tentando identificar o objeto colorido. Àquela distância,
parecia algum tipo de fazenda presa numa pedra, uma camisa, quem sabe.
Uma forte curiosidade fez Nate virar o cavalo e ir investigar mais de
perto.
A peça de roupa estava no lado oposto do rio. Nate foi até lá e
desmontou para tirá-la da água. Era uma camisa. Em perfeito estado, a
seus olhos. As iniciais marcadas na etiqueta fizeram com que ele
parasse.
Agora que estou reparando murmurou de novo para o cavalo que Chase
estava com a jaqueta abotoada até em cima. O dia está frio, mas não tão
frio. Torceu a camisa e enfiou-a no bolso do seu alforge antes de
voltar para a sela. Ora, como será que foi que ele perdeu a camisa no
rio?
Aquilo o intrigava. E se havia uma coisa que deixava Nate doido era não
ter todas as peças de um quebra-cabeça. Aquilo lhe acontecera uma vez.
Ficara preso pela neve num acampamento durante um mês e meio, num
inverno, esperando um vento quente e seco soprar das Montanhas
Rochosas. Tinha um quebracabeças de um barco a vela de mil peças
consigo. Passara o tempo todo tentando armá-lo, até que finalmente
descobriu que faltavam
200 peças, quando as contou. Era um homem tenaz; uma vez que
encasquetava alguma coisa na cabeça, não desistia. Ainda tinha aquelas
800 peças do quebra-cabeça guardadas numa caixa, imaginando que um dia
acharia o resto delas e terminaria o trabalho.
Virou o cavalo rio acima. Anteriormente, quando estivera procurando
pelo Chase, dera uma paradinha para uma olhada superficial na curva do
rio onde a garota estivera nadando... e isso da margem oposta. Nate
concluiu que uma inspeção mais de perto poderia fornecer-lhe mais
algumas peças do quebra-cabeça.
Seguindo os rastros de dois cavalos ferrados, desceu o corte na margem
que levava ao banco de cascalho. No seu limiar, parou o cavalo para
examinar o chão. Havia excrementos de cavalo junto do toro caído, o que
significava que um dos cavalos provavelmente tinha estado amarrado ali.
Perto de uns dois choupos o capim fora comido, o que significava que um
segundo cavalo tivera tempo de pastar.
Levou o seu cavalo a meio caminho do círculo de fogo enegrecido, que
estava cercado por galhos espetados no chão. O único
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motivo para os galhos que surgiu na cabeça de Nate foi que eram para se
pendurar roupas para secar. Examinando as marcas feitas pelo homem no
chão ao lado do fogo, e o cascalho remexido, Nate leu a história
escrita ali. Tirou o chapéu e o recolocou num só gesto que indicava o
seu constrangimento ante a descoberta.
Às vezes fico curioso demais, cavalo, e descubro coisas que não são da
minha conta. Puxou a rédea esquerda ao longo do pescoço do cavalo para
virá-lo, depois parou a virada a meio caminho quando notou uma corda
parcialmente desenrolada quase escondida pelo cascalho chutado pelos
cascos de um cavalo.
Uma corda boa e flexível era um instrumento vital para um vaqueiro, não
devia ser largada ao acaso para ser enrijecida pelos elementos.
Saltando, Nate terminou de enrolá-la e amarrou-a à sela. Voltou a
montar rapidamente e se dirigiu para a ravina que levava para o alto da
margem, já tendo sido afastado tempo demais dos seus deveres por sua
curiosidade obsessiva.
A estrada da fazenda que saía da porteira leste era parte de uma rede
interligada de estradas que cruzavam toda a vasta extensão da Triplo C.
Algumas das estradas, como esta, pouco mais eram do que dois sulcos
paralelos feitos na terra por pneus de caminhão. As estradas com maior
movimento eram duras e lisas como cimento.
Evitando o terreno irregular da pista com sulcos, Chase corria com seu
cavalo no capim que a ladeava. Durante oito quilómetros, fez o baio cor
de sangue galopar, depois passou para um trote por três quilómetros,
para deixá-lo descansar um pouco, depois fê-lo correr desabaladamente
por mais oito. Depois de deixá-lo andar por um quilómetro e meio,
cobriu os nove quilómetros que levavam até a sede da fazenda num galope
puxado, o cavalo espumando e se esforçando, já no final.
A sede da Fazenda Triplo C parecia uma cidade em miniatura. O amontoado
de construções incluía os costumeiros celeiros e estábulos, barracões e
um alojamento para os homens, além de uma pequena loja provida de todo
o tipo de suprimentos essenciais, que iam de ferramentas e peças de
veículo até roupas básicas e alimentos. A loja também era o lugar onde
se coletava e distribuía a correspondência, e do lado de fora havia
bombas de gasolina para os veículos da fazenda. Um outro prédio era um
centro de primeiros-socorros e semidispensário, além de ser uma espécie
de hospital de animais. Uma outra loja servia para fazer soldas e
serviços de ferreiro. Além disso, havia meia dúzia de pequenas casas
onde moravam os empregados casados, aqueles que não eram homens de
acampamento morando em seções distantes.
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No lado nordeste da coleção de prédios, uma longa faixa de grama servia
como pista de pouso particular para os aviões da fazenda, guardados no
barracão de metal vizinho, e para os aviões de convidados.
A casa maciça de dois andares dominava o enclave da entrada: os
vaqueiros referiam-se a ela apropriadamente como "A Casa Grande". A
frente dela dava para o sul, uma varanda larga acompanhava toda a sua
extensão para dar uma boa vista dos outros prédios reunidos a seus pés.
Chaminés de pedra pontuavam o telhado inclinado, poucas delas usadas
desde que se instalara aquecimento central, há alguns anos.
Entrando no perímetro da fazenda, Chase diminuiu o ritmo do cavalo
espumante para um meio galope e levou-o direto para os estábulos anexos
aos celeiros. Antes de o baio ter parado completamente, o rapaz já
estava pulando da sela e jogando as rédeas por sobre a cabeça do animal
para levá-lo para dentro. Abe Garvey, um nativo da Triplo C relegado à
posição de cavalariço pela idade avançada, apareceu vindo das sombras
interiores. Chase identificou-o com um breve olhar ao levar o cavalo
para dentro de uma baia e prender um estribo no arção dianteiro da sela
para afrouxar a cilha.
O avião do senador já chegou? Com ambas as cilbas livres, tirou a sela
do lombo do cavalo e pendurou-a na grade da baia, por enquanto.
Faz uma meia hora, mais ou menos. O velho vaqueiro continuou tratando
da sua vida, enquanto Chase enxugava o suor do cavalo com a manta de
sela molhada.
O cavalo de laçar era um animal valioso demais para ser guardado ainda
quente, não importa há quanto tempo o pai de Chase estivesse esperando
por ele. Ninguém se ofereceu para fazer o cavalo andar por ele, e Chase
não pediu. Um homem era responsável pelo cuidado com sua própria
montaria. Até que seu pai lhe delegasse alguma autoridade, Chase não
era em nada diferente de qualquer outro vaqueiro na fazenda. Era assim
que o tratavam, especialmente os veteranos, porque sabiam que, à sua
moda, estavam treinando seu futuro líder. Chase tinha que estar à
altura dos padrões deles, tanto quanto os do pai, se queria ter o
respeito deles, além de mandar nas suas vidas.
Depois que o cavalo se refrescou, Chase deixou-o na baia e levou a sela
para a sala de equipamentos. Abe estava sentado num banco, consertando
uma alça de brida quebrada, as pernas doentes de artrite dobradas sob
ela.
Cuide para que meu cavalo tenha uma ração extra hoje, Abe pediu Chase,
e o velho simplesmente balançou a cabeça, pois não era de falar, a não
ser que fosse necessário.
52
Saindo do estábulo, Chase começou a longa caminhada pelo pátio da
fazenda até a Casa Grande. Enquanto pusera o cavalo para andar e se
refrescar, aliviara um pouco a rigidez do corpo, mas ainda estava
exausto da longa e desgastante viagem... os músculos doloridos exigindo
um descanso. Sempre havia atividade na sede empregados que iam e
vinham. Chase cumprimentou de cabeça aqueles com quem cruzava e acenou
para aqueles à distância, um gesto que era pouco mais do que um braço
levantado.
Sem se desviar, foi direto para a Casa Grande, onde se forçou a subir
os degraus, as esporas batendo em uníssono com o pisar forte das botas
nas tábuas da varanda. Quando cruzou a soleira da porta da frente,
ouvia a voz ribombante do senador vinda do escritório, à sua esquerda.
Chase parou no hall de entrada, que era uma extensão da ampla sala de
estar, separada pela disposição dos móveis. Desviou o olhar para o
corrimão de carvalho lustroso da escadaria que desembocava na sala, mas
resistiu a seu convite.
Sacudindo o grosso do pó das roupas, dirigiu-se para as portas abertas
do escritório, e tirou o chapéu enquanto entrava na sala. Além do
senador de rosto rosado, aparentemente jovial, e do pai, havia mais
três homens na sala. Dois deles Chase reconheceu de visitas anteriores
como assessores do senador, e o terceiro era um influente funcionário
do governo estadual, George Bidwell.
Sua chegada naturalmente transformou-o no centro das atenções, o seu
atraso merecendo-lhe um vivo olhar de reprovação por parte do pai. Um
sentido de protocolo dirigiu Chase para o convidado de honra.
Bem-vindo à Triplo C, Senador. Cumprimentou o político e submeteu-se ao
aperto de mão espalhafatoso do homem. Que bom tê-lo de volta. Desculpe
não estar lá para recebê-lo, quando o seu avião pousou.
Seu pai nos disse que você ficou retido. Ajudando no recolhimento do
gado, não é mesmo? falou na sua voz estentórea.
É, sim.
Uma época atarefada do ano. O senador falava em sentenças curtas e
incisivas. Deu uma palmada no ombro de Chase, num gesto de camaradagem.
Você me lembra mais o seu pai a cada dia que passa. Não é, George?
É, mesmo. Só que ele é mais bonitão. George Bidwell levantou-se da
poltrona de couro para cumprimentá-lo. Alo, Chase.
Depois de trocar um aperto de mão com o homem de cara de pardal, Chase
foi passando pela sala, renovando o conhecimento com os assistentes do
senador. Depois disso terminado, Chase viu-se parado ao lado do
senador, mais uma vez.
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Tome um charuto. A minha marca especial. O político colocou-o nas mãos
de Chase, sem se dar ao trabalho de ver se ele o queria, ou não. Wes,
prepare-me outro uísque. Dirigiu a ordem a um dos assessores, depois
ergueu uma sobrancelha indagadora para Chase. Toma um drinque conosco?
Prepare dois, Wes.
Se não se importa, Senador Chase ergueu a mão para vetar o pedido de
uísque gostaria de lavar essa poeira e o cheiro do gado antes de tomar
o drinque com vocês. Se me dão licença? A última frase foi um pedido
polido que abrangia todo o grupo.
Saindo do escritório, o rapaz começou a cruzar a sala até a escadaria,
as esporas tinindo a cada passada. Mal cruzara metade da sala, quando
uma voz de mulher o interrompeu.
Chase Calder, não ouse andar nesse lindo piso de carvalho com essas
esporas!
Uma mulher estava na outra extremidade da sala, onde um corredor dava
para a cozinha; o seu cabelo louro parecia mais claro com os acréscimos
acumulados de mechas grisalhas. A expressão severa no rosto de Ruth
Haskell fazia-o lembrar-se dos seus dias de criança, quando ela ralhava
com ele por fazer travessuras com a mesma presteza com que ralhava com
o filho, Buck. Chase nunca compreendera direito como é que ela sempre
sabia, quando ele estava fazendo alguma coisa que não devia.
Desculpe. Um sorriso estouvado proclamou sua culpa, quando Chase se
abaixou para soltar as esporas. Ela já se fora quando ele se
endireitou, tendo voltado para a cozinha para continuar o preparo do
jantar.
Com o chapéu e as esporas na mão, subiu as escadas, divididas no meio
por um patamar. O alto das escadas dava para o sul, e o quarto dele
ficava no canto noroeste, o único, além da suite principal, que tinha
banheiro particular. Todos os quartos de hóspedes partilhavam banheiros
adjacentes. Entrando no quarto, jogou o chapéu e as esporas sobre a
colcha da cama e começou a desabotoar a jaqueta.
No escritório, Webb escutara a reprimenda dada por Ruth Haskell e
esperara até ouvir os passos de Chase nas escadas antes de pedir
licença aos convidados, sob o pretexto de ir dar uma olhada no jantar.
Subiu as escadas atrás do filho e bateu à porta uma vez, antes de abri-
la sem esperar pela permissão para entrar.
De peito nu, Chase estava de pé no centro do quarto, acabando de tirar
o braço da manga da jaqueta. A incongruência de usar uma jaqueta sem
camisa registrou-se inconscientemente na cabeça de Webb, mas seus
pensamentos estavam concentrados alhures, no momento.
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Por que demorou? Webb não se deteve nas preliminares, foi direto ao
assunto.
Não tenho desculpas, senhor. Chase foi até o armário e pendurou o
casaco na maçaneta.
Que bom que concordamos neste ponto. Webb acompanhou-o com os olhos,
observando-o atentamente. Sabe quanto tempo eu o esperei junto à
porteira? Por que demorou tanto?
O rapaz ergueu os ombros nus expressivamente.
Perdi a noção da hora disse, cruzando na frente de Webb e parando
diante da cómoda.
Estava-se divertindo tanto que não prestou atenção que o tempo estava
passando concluiu Webb, com impaciência. Notou que a boca do filho
ficou com uma expressão sombria.
Qualquer coisa desse género murmurou Chase formalmente, e abriu uma
gaveta para pegar cuecas e meias limpas.
Os músculos se flexionaram ao longo dos seus ombros. O movimento chamou
a atenção de Webb para as pequenas marcas em meia-lua no ombro do
filho, uma fileira de quatro. Apertou os olhos, fitando-as com viva
curiosidade. A única coisa que conseguia visualizar deixando tais
marcas eram unhas. Sua mente registrou a lembrança de que Chase não
estivera usando camisa debaixo da jaqueta. Não havia indícios de que as
unhas tivessem tentado arranhá-lo. Era como se se houvessem enterrado
na pele de Chase para segurá-lo.
Então, Webb juntou os ingredientes da cena: uma adolescente nadando nua
num rio, e um jovem viril com quase três semanas anteriores de celibato
forçado, os dois sozinhos num trecho deserto do rio. Podia adivinhar o
resultado dessa situação. Fitou as marcas nos ombros de Chase, sem
querer tirar a conclusão óbvia.
Fechando a gaveta, Chase olhou para o pai para ver por que ficara tão
calado. O olhar concentrado com que fitava seu ombro fez Chase girar a
cabeça num esforço para enxergar o que o pai examinava tão atentamente.
Alguma coisa errada? perguntou, estendendo a mão para trás e rompendo a
concentração do pai.
Webb ergueu vivamente os olhos.
Estava tentando lembrar-me da idade da garota O'Rourke. O movimento
brusco da cabeça de Chase disse a Webb que
sua pergunta acertara em cheio, mas o filho se recuperou rapidamente.
Dezesseis. Chase caiu na mesma armadilha que Maggie, tentando
acrescentar aqueles poucos meses para fazê-la parecer mais velha do que
era. Por quê?
Sentia-se pouco à vontade com as sondagens do pai, mas não deixou
transparecer... pouco à vontade por causa de sua forte
55
necessidade de proteger Maggie, de escondê-la de olhares que poderiam
julgá-la pelos padrões aceitos... padrões errados.
Examinando a fisionomia fechada do filho, Webb guardou suas suspeitas
para si mesmo, por enquanto.
Por nada. Virou-se para sair. Ande depressa com o seu banho. Ruth vai
servir o jantar daqui a quarenta e cinco minutos.
Desço já prometeu Chase, mas só se mexeu depois que o pai se retirou.
Ao som dos passos que se afastavam da porta do quarto, Chase entrou no
banheiro e parou na frente do espelho. Virando-se para um lado,
conseguiu enxergar as marcas vermelhas no seu ombro, onde Maggie
enterrara as unhas. Era óbvio que o pai também as notara. Será que
adivinhara o que as causara? Chase soltou um suspiro pesado enquanto se
voltava para o chuveiro.
Durante o jantar, e o café e o conhaque servidos no escritório, depois,
Chase tentou parecer interessado nas várias discussões, mas a maior
parte do tempo o seu pensamento estava longe.
O senador distribuíra outros dos seus charutos. Desta feita, Chase
fumou o dele, a fumaça flagrante de tabaco erguendo-se como uma nuvem
acima de sua cabeça. Rolou a ponta entre os dentes e ficou vendo a
fumaça branca.
A brancura da fumaça fê-lo pensar na perfeição branca como a neve da
pele de Maggie. Tinha consciência do quanto ela despertara os seus
instintos protetores. Um súbito sorriso rasgou seu rosto ao se dar
conta de que queria proteger uma garota que lhe dera uma surra de corda
diante de uma dúzia de vaqueiros.
Olhem, o Chase gostou da minha piada, embora mais ninguém tenha gostado
declarou o Senador Bulfert. Ao ouvir seu nome, Chase foi trazido
bruscamente para o presente. Acompanhou as risadas dos outros homens e
torceu para que ninguém lhe perguntasse sobre a história que o senador
acabara de contar. Encontrou o olhar firme do pai, e soube que aquele
homem ele não tinha enganado.
Tirando a panela de água do fogão, Maggie enxaguou a espuma de sabão
dos pratos empilhados na pia. Tanto o pai quanto o irmão estavam
sentados à mesa da cozinha, cuja tinta esmaltada branca estava virando
amarela com o tempo. Não se deu ao trabalho de sugerir que, como havia
preparado a comida e lavado os pratos, um deles podia ajudá-la a secá-
los. Nenhum dos dois fazia trabalho de mulher. Pegou uma toalha de
pratos e começou ela mesma a secá-los.
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O ambiente estava pesado. Maggie podia senti-lo. O irmão não lhe
dissera nada, porém ela sabia que o pai lhe contara sua versão do que
acontecera entre ela e Chase Calder. Culley evitara o seu olhar a noite
toda, mas ficava lançando-lhe olhares de esguelha, quando achava que
ela não estava olhando.
Como sinto falta de sua mãe murmurou o pai, numa voz melancólica, e
tomou outro gole do seu copo de uísque. Um cavalheiro sempre tomava uma
dose de uísque depois da refeição, ou pelo menos era o que sempre dizia
para a mãe deles, defendendo a prática. Ainda me lembro do dia em que
meu navio atracou em.San Diego e eu tive um passe de três dias. Há
quase três meses que o nosso cruzador estava no mar. Debruçou-se sobre
a mesa, dirigindo as palavras para Culley. Eu e um colega fomos fazer
uma farra. Mas uma farra das boas. Fiquei de porre um dia inteiro, e
não me lembro de nada que fizemos. Finalmente, apaguei de vez, e meu
colega me deixou dormindo no carro, para curar o porre.
E quando acordou, você ouviu sinos de igreja tocando. Culley já ouvira
a história antes, o seu comentário era um incentivo para o pai
continuar.
Isso mesmo. O pai voltou a encher o copo de uísque sem deixar que
primeiro esvaziasse. Do jeito que eu me estava sentindo, sabia que
tinha cometido pecados que precisavam de perdão, assim segui o som
daqueles sinos por dois quarteirões antes de encontrar a igreja. Eu
estava de farda branca, assim me escovei bem antes de entrar. A missa
já ia começar quando entrei, portanto me sentei num dos bancos de trás.
Foi aí que você viu mamãe pela primeira vez. Também era uma velha
história para Maggie, mas esta era a parte de que gostava.
Olhando objetivamente para o pai, podia ver como ele tinha sido
extremamente bonito. Lembrava-se das fotos que tinha visto dele com a
farda da Marinha. Não era de admirar que tivesse deixado a mãe dela
fascinada.
Eu estava olhando para todos aqueles vitrais, quando notei sua mãe
sentada no banco seguinte, com os pais e a irmã, Cathleen. Sorri para
ela e ela retribuiu o sorriso. Com aquela mantilha branca na cabeça,
ela me fazia lembrar os quadros que tinha visto da Madona. Era tão
bonita que não consegui tirar os olhos dela. Um pouco do vívido charme
atrevido que possuíra no passado apareceu de novo no seu sorriso. Pode
apostar que, depois da missa, fiz questão fechada de conhecê-la.
E você a convidou para vir a seu navio e prometeu mostrar-lhe tudo,
pessoalmente disse Culley.
57
E ela veio, mas trouxe junto a irmã, Cathleen. Tive um trabalhão
convencendo Mary Frances de que eu não era como alguns dos outros
marujos no porto. Tive mais trabalho ainda convencendo os pais e a irmã
dela. Porém eu soube, no momento que a vi, que ela era a garota para
mim. Casamo-nos quatro semanas depois. E eu pensei que era o dono do
mundo suspirou.
O pai não deixava a história passar daí, mas a mãe contara o resto a
Maggie: como o pai não conseguira arranjar um emprego decente na
Califórnia, depois de ser dispensado da Marinha. Como sempre fora o
sonho dele ter uma fazenda de gado, usara o dinheiro que a mãe herdara
dos avós e comprara esta fazenda em Montana, sem sequer tê-la visto
primeiro. Maggie se lembrava de como a mãe costumava falar sobre os
seus planos para reformar a casa, planos que nunca se realizaram. Os
acréscimos foram anexados à construção principal atabalhoadamente.
Durante os dois últimos anos antes de a mãe morrer, ela raramente
mencionava os planos para reformar a casa, como se soubesse que era
outro dos sonhos do marido que nunca ce tornaria realidade.
Muito do que Maggie sabia dos primeiros anos, aprendera lendo nas
entrelinhas. Logo que o pai chegara, acreditara que o trabalho seria
uma sopa. Só o que um homem tinha que fazer (era o que ele pensava) era
soltar um bando de vacas no pasto com um touro e no ano seguinte vender
os bezerrinhos com grande lucro. Não se dava conta de quanto trabalho
aquilo significava, desde constantemente verificar e consertar cercas
até armazenar feno para a alimentação de inverno, sem falar em bancar a
babá de um bando de vacas e bezerros burros.
A terra na qual estava localizada a Fazenda Shamrock parecia ideal para
a criação de gado, mas o terreno árido não dava muito pasto. A cada ano
era preciso exterminar vacas com pernas quebradas. As cascavéis também
causavam baixas, assim como os coiotes que atacavam os bezerros ou as
vacas incapacitadas. E o suprimento de água era insuficiente. Nos anos
ruins, até o poço da casa secava. Mas a fazenda dos Calders se estendia
ao sul com sua abundância de pasto farta e de água.
O pai estava sempre sonhando com maneiras de ficar rico. Houve um ano
em que tentou garimpar ouro... certo de que ia achar uma mina
riquíssima. Mas o garimpo de ouro era um serviço duro, estafante,
exigindo horas de trabalho sem garantia de encontrar nada. Logo
desistiu, por falta de persistência. Noutro ano. tentou convencer
companhias de gás e petróleo a perfurarem sua terra, mas todas as suas
pesquisas foram negativas. Com visões de atingir um rico poço de
petróleo, ele mesmo tentou a perfuração, mas desistiu antes de chegarem
a uma profundidade de encontrar água. Era esforço demais. Ele sempre
tinha certeza de que havia um jeito fácil de enriquecer... como os
Calders.
Nem uma só vez, em todos aqueles anos que viveram, ali, sobrara um
dinheirinho para a mãe voltar para a Califórnia e visitar a família. Os
pais da mãe faleceram e não havia dinheiro para ela ir ao enterro.
Então, a mãe chorara. Ainda recebiam um cartão de Natal todos os anos
da irmã dela, Cathleen, uma viúva que morava em Los Angeles.
Angus deu um soco na mesa, acordando Maggie do seu devaneio com uma
demonstração explosiva do seu génio irlandês. Virou-se para olhar para
ele e viu a petulância sombria de sua expressão.
Calder não vai ficar impune!
Papai, não vá começar protestou Maggie, severamente. Mas ele tomou
outro gole de uísque e não prestou atenção a ela.
Para ele não teve importância o fato de que você era uma moça direita.
Teve algum respeito por isso? Não, ele é um Calder. Faz o que lhe dá na
telha e não se importa se algum inocente tem que sofrer.
Ela se deu conta de que ele se estava acumulando para essa explosão a
noite toda. Nada que ela dissesse ou fizesse calaria sua arenga, assim
cerrou firmemente a boca.
Calder não vai ficar de boca calada. Não, vai-se vangloriar, vai
espalhar histórias sujas sobre Maggie declarou.
Se ele abrir a boca, eu a fecho para ele ameaçou Culley.
Você não vai fazer coisa nenhuma. A despeito de sua resolução de não se
meter, a cólera dela irrompeu. Tudo isso não passa de papo-furado!
Isso é o que você pensa, garotinha. Angus O'Rourke se pôs de pé,
oscilando um pouco, o rosto branco debaixo do bronzeado. Vou ter uma
conversinha com o velho Calder. O homem pensa que ele e o filho podem
fazer qualquer coisa, mas eu vou lhe dizer que não podem. Não vão se
livrar impunemente do que aconteceu hoje. Espere e verá. Vou deixá-los
mortos de medo.
Papai, pare de falar coisas que não tem intenção de fazer. Maggie virou
o rosto para o outro lado. Estava cansada das palavras vazias dele.
Vou ver o Calder! declarou ele, enfaticamente.
Quando, papai? Olhou para ele com ceticismo zombeteiro. Quando o céu
ficar verde?
Não me provoque, menina! Apontou-lhe um dedo ameaçador, porém ela
demonstrou sua indiferença afastando-se.
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PARTE II
Um céu de justiça Um céu tão forte Este céu que paga Pelo erro de um
Calder.
Capítulo VI
O senador e seus acompanhantes partiram no meio da manhã do dia
seguinte. Chase e o pai foram com os visitantes até a pista de grama da
fazenda, para se despedir deles. Quando o avião decolou, balançou as
asas num aceno final de despedida, a luz do sol rebrilhando na
superfície lustrosa de metal.
Riscando um fósforo na coxa coberta de brim, Chase levou a chama
resultante ao charuto que o senador lhe dera antes de tomar o avião.
Tirou uma baforada, depois prendeu-o entre os dentes enquanto a fumaça
aromática subia-lhe pelo nariz. Ao se virar para voltar para o carro
com o pai, curvou o indicador ao redor do charuto para afastá-lo da
boca.
Pelo menos o senador conhece um bom charuto. E enviesou um olhar
irónico para o pai.
Sua mãe nunca suportou o cheiro dessas coisas. A expressão de Webb
Calder denotava uma lembrança carinhosa. A seguir, perpassou por ele um
divertimento seco. Nunca entendi por que tantas mulheres detestam
charutos.
Também não entendo concordou Chase, e abriu a porta de passageiros do
carro para enfiar lá dentro o corpo comprido. Pode me deixar no
Estábulo Número Dois para eu pegar minha sela. Pego uma carona com o
cozinheiro quando ele for levar o almoço para os vaqueiros.
Não há necessidade. Webb engrenou uma primeira e foi descendo a pista
lisa. Daqui a mais um dia terão acabado por lá. Quero que você faça
algumas coisas aqui.
Terei que ir até lá, de qualquer modo, para apanhar o meu equipamento.
Seu saco de dormir e tudo o mais ainda estavam no acampamento.
Não há problema disse o pai, serenamente. Avisarei a Nate que o traga,
quando vier.
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Chase perdeu o gosto pelo charuto e apagou-o com irritação no cinzeiro
do carro. O queixo duro estava empinado para frente, enquanto olhava
pela janela, um ar de severidade repuxando para baixo os cantos da boca.
Não está com uma cara muito boa. Alguma coisa o está preocupando, filho?
Não. A negativa foi brusca e rápida. Chase suavizou-a, virando para o
pai um rosto despido de emoção. O que poderia estar errado?
Achei que você poderia dizer-me.
A expressão astuta nos olhos do pai fez Chase se virar para a frente de
novo.
Não há nada a dizer falou, dando de ombros.
Nem mesmo sobre a garota O'Rourke... Maggie? Webb continuou, sem
permitir que fosse dada uma resposta ao desafio feito serenamente:
Quando um homem necessita da satisfação de ir para a cama com uma
mulher, subentende-se que fique longe das mocinhas e das moças de
família decente. Há prostitutas e mulheres experientes de sobra por aí
para satisfazer o apetite de um homem por sexo. Fez uma pausa e
percorreu Chase com um olhar. Aceite os conselhos do seu pai e pense no
assunto, filho.
Mas algo dizia a Webb que seu conselho chegara tarde demais.
Imediatamente, começou a considerar as opções se houvesse alguma reação
ao acontecido; enquanto isso, enumerava as tarefas que queria que Chase
fizesse naquele dia.
Naquela noite, Chase encontrou o saco de dormir e os alforges no
quarto. Entre as roupas estava a camisa que perdera. Fitou-a, sabendo
as perguntas que devia ter despertado, e sabendo que nenhuma delas
jamais seria formulada. Ficou deitado na cama à noite, olhando para o
teto durante horas, sabendo que o pai tinha razão. Maggie era uma
criança, não tinha nem 16 anos. Não tinha nada que ter-se metido com
ela.
Apoiado no balcão da seção de armazém do depósito, Webb correu os olhos
pela lista de suprimentos incluída no pedido de compras.
Está encomendando muito açúcar, Bill. Tem certeza de que não há ninguém
operando um alambique clandestino? Enquanto questionava a quantidade de
maneira jocosa, já ia assinando a autorização no final, sorrindo para o
homem na cadeira de rodas atrás do balcão.
Bill Vernon era da quarta geração na Fazenda Triplo C. Exceto pelos
cinco anos que passou treinando e trabalhando como programador de
computação, passara toda a sua vida ali. Voltara
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há sete anos, desencantado com a vida na cidade, a despeito dos maiores
salários, para ser vaqueiro de novo. Apenas três meses mais tarde, uma
queda de um cavalo o deixara paralítico.
A Triplo C cuidava de sua gente. Quando Bill se recuperou, Webb
colocou-o como encarregado do armazém, expandindo as responsabilidades
para incluir o estoque do depósito e fazendo Bill uma espécie de
guarda-livros. Ele, a mulher e dois filhos moravam numa casa cedida
pela fazenda.
Havia um sentido de família entre os descendentes daqueles que tinham
ficado com o primeiro Calder. Estavam todos presos à terra e presos uns
aos outros, não como o pessoal que trabalhava um mês ou um ano e seguia
o seu caminho. Formavam um bando de seguidores fiéis, cuja lealdade
primordial era para com a marca.
Tenho que admitir que parece um bocado de açúcar replicou Bill Vernon
com um sorriso fácil. Mas, com a chegada do verão as mulheres vão fazer
conservas, assim precisaremos ter mais do que o costume à mão... pelo
menos é o que a Marlyss me disse.
O sorriso dele tornou-se mais amplo. Marlyss era sua mulher, uma moça
sardenta e espevitada do norte de Montana, da terra do trigo. Tinham-se
conhecido e casado na escola de computadores. Ela o ajudava no armazém,
trabalhando atrás do balcão e arrumando as prateleiras, enquanto ele
cuidava da papelada.
Tenho certeza de que Marlyss sabe o que está falando. Era uma excelente
dona-de-casa, pelo que Webb soubera e vira.
A propósito, onde ela está? indagou, correndo os olhos pela pequena
loja.
Lá em casa, dando uma olhada no Timmy. Está com as amígdalas inflamadas
de novo.
Patrão! Um dos empregados chamou-o da soleira da porta iluminada pelo
sol, e Webb se virou. O'Rourke está aqui fora, pedindo para vê-lo.
Durante uma fração de segundo, Webb ficou imóvel. Nesses últimos quatro
dias andara esperando alguma coisa, sem ter certeza direito do que
seria. Agora, estava aí. Endireitou-se do balcão, acumulando os
pensamentos e formulando seus planos para enfrentar o problema.
Diga-lhe que já vou. Deu o recado ao vaqueiro e olhou para Bill. Na
superfície, mantinha uma expressão calma e natural.
Mais alguma coisa que tenhamos que ver juntos?
Não, acho que não. Bill Vernon sacudiu a cabeça e girou sua cadeira de
rodas num ângulo reto, pegando a ordem de compras que Webb assinara.
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Com um breve aceno de cabeça, Webb começou a retirar-se.
Cuide-se disse, virou-se e saiu pela porta do armazém para a luz clara
do sol.
Depois de quatro dias de esbravejar, principalmente consigo mesmo, e
instigado pela insistência irónica de Maggie de que não faria outra
coisa senão falar, Angus O'Rourke se pusera num estado febril de ódio
que finalmente o levara a enfrentar Webb Calder cara a cara. Ficara do
lado de fora da loja deliberadamente para fazer Webb Calder vir até
ele, como se esta pequena coisa lhe desse uma vantagem psicológica.
Se deu, ela lhe foi tirada quando Webb parou diante dele, alto e de
peito largo, forçando Angus, que era um palmo mais baixo, a inclinar a
cabeça para trás para olhar Webb na cara. Angus detestava que as
pessoas olhassem "de cima" para ele, especialmente Webb Calder. Sua
boca se retorceu num desprezo complacente ao pensar em como esse homem
poderoso ia rastejar diante dele, daqui a pouco.
Alo, O'Rourke. Queria me ver?
Angus ergueu o queixo dois centímetros beligerantemente mais alto.
É, quero falar com você.
Com um breve aceno de cabeça que indicava sua disposição para ouvir,
Webb Calder falou:
Eu estava indo lá para a casa. Por que não falamos lá? Angus já
inspirara fundo para soltar suas acusações. A oferta
de hospitalidade deixou-o completamente desconcertado. Nas raras vezes
em que estivera na sede da Triplo C, nunca fora convidado a entrar na
casa principal. Era uma construção imponente. Por um breve minuto,
sentiu-se constrangido à ideia de entrar lá. Depois, tranquilizou-se
com a certeza de estar finalmente sendo tratado como um igual, o que
achava que merecia, com toda a justiça.
Era impossível conversar enquanto cruzavam o pátio. As passadas longas
do homem forçavam Angus a andar mais depressa do que de costume. Estava
arfando ligeiramente quando chegaram à casa, e ficou irritado ao ver
que Calder não parecia sem fôlego.
Ao entrar na casa, Angus não pôde deixar de fitar a sala de visitas
imensa, com seus confortáveis móveis de primeira fortes e sólidos,
construídos para durar. Era uma casa masculina, não possuía nenhum dos
toques delicados de uma mulher. Sua própria casa parecia um barraco, em
comparação. Seu sonho de viver num lugar desses parecia mais distante,
agora que sabia o quanto lhe faltava. Aquilo o encheu de uma sensação
de louco desespero.
Calder estava abrindo um largo par de portas duplas à sua esquerda, e
Angus percebeu que a discussão deles não ia ser realizada na sala
espaçosa à sua frente. Virou-se para seguir Webb para
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a biblioteca. Havia uma enorme lareira com os chifres largos e
imponentes de um novilho longhom a encimá-la, e móveis forrados com
couro legítimo. Prateleiras exibiam livros encadernados com trabalhos
que iam desde os mestres até administração dos animais. Por trás de uma
imensa escrivaninha, um mapa emoldurado estava pendurado na parede,
amarelado com o tempo e mostrando os limites da Triplo C. Angus fitou-o
enquanto Calder ia para trás da escrivaninha sentar-se na poltrona
estofada.
É o primeiro mapa da fazenda explicou Calder, notando o interesse de
Angus nele. Tem quase um século de idade, agora.
Angus sentiu-se novamente sufocado pela sensação de que era errado para
uma pessoa possuir tanto. Aquilo supurava dentro dele, uma ferida
infeccionada que o envenenava. O mapa, a casa, o homem... tudo fazia
com que se sentisse pequeno.
Sobre o que queria falar comigo, Angus? indagou Calder, calma e
autoritariamente.
Minha filha, Maggie. Seu filho possuiu-a à força. Encontrou-a nadando
no rio e se aproveitou dela. Atropelou as palavras, a voz ficando mais
acalorada. É verdade. Ela mesma me contou, não adianta você negar.
Jamais me passaria pela cabeça chamar sua filha de mentirosa replicou
Calder, serenamente. Meu filho é um jovem saudável, e a sua Maggie está
virando mulher. Não negaria que é concebível que possa ter havido uma
ligação entre os dois.
Ele tinha esperado uma discussão, uma negativa seca de que um Calder
não faria uma coisa dessas. Sua raiva ficou temporariamente sem
direção, até perceber que na frase de Webb nada fora admitido e nenhuma
culpa assumida.
Seu filho não vai ficar impune por ter desgraçado minha filhinha. Estou
aqui para me certificar disso declarou. Não importa o quanto você
queira torcer as coisas. O que ele fez significa estupro. Ela tem
quinze anos, é menor de idade. Ele pode ir para a prisão por isso.
Houve uma pequena pausa, durante a qual Webb Calder fitou-o com olhar
firme.
Estou certo de que já pensou que, se formalizar a acusação, sua filha
terá que ir ao tribunal. O testemunho dela seria público. É uma pena,
mas infelizmente é verdade, nos casos de acusação de estupro é a moça
que perde sua reputação. Nenhum pai ia querer ver a filha publicamente
envergonhada.
A vergonha os tocaria a todos. Um julgamento assanharia toda esta parte
do Estado. Aonde quer que um deles fosse, as pessoas murmurariam às
suas costas, e apontariam. Era uma coisa em que Angus já pensara
inúmeras vezes. O rosto dele ficou vermelho de
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frustração porque Calder sabia que eles iriam sofrer mais do que ele e
o filho.
Seu filho pegou a minha garotinha e usou-a para o seu próprio prazer.
Não vou deixar que fique impune insistiu Angus, com voz tensa. Exijo
que ele faça o que é certo.
Uma sobrancelha se ergueu numa surpresa desafiadora, um gesto estudado
que parecia insinuar que Angus não era muito inteligente.
Espero que não esteja sugerindo casamento, Angus, porque isso seria um
erro maior do que o que eles cometeram. Sua filha é jovem demais para
ser a mulher de qualquer homem, e meu filho ainda não está pronto para
se acomodar à vida de casado. Sei que está tentando se assegurar de que
sua filha não sofra nenhuma perda de respeito, mas os pais forçarem os
filhos a casar por causa de um único passo em falso seria errado. Ela
seria infeliz com o meu filho, e sei que isso é algo que, como pai
dela, você desejaria evitar.
Angus odiava Webb por ser tão prático e sereno. Mudou de posição na
cadeira, sabendo que estava fazendo papel de idiota, mais impotente
para mudar a situação. Agarrou-se ao único pensamento que ardia
firmemente dentro dele.
Ele não vai-se livrar sem mais nem menos. Tem que pagar pelo que fez
repetia Angus, com firmeza e determinação.
Se eu tivesse uma filha Webb Calder debruçou-se para frente na cadeira
e apoiou os braços sobre a escrivaninha para examinar o outro - e se
acreditasse que algo desse género tinha acontecido com ela, estou certo
de que me estaria sentindo tão ultrajado quanto você. Também insistiria
numa forma de retribuição. Seria razoável esperar uma compensação... um
acordo por danos, se prefere.
Está dizendo que quer me comprar? disse Angus, estreitando os olhos, o
orgulho ferido pela oferta. Acha que o dinheiro pode apagar da
lembrança da minha filha o que aconteceu junto ao rio?
Um leve sorriso tocou a boca de Calder, com um toque de astúcia.
Estou certo de que não há quantia que seja uma compensação adequada. É
simplesmente um gesto de boa vontade. Você e eu somos homens razoáveis,
Angus. Não traria benefício a nenhum de nós dois se essa história se
espalhasse, criando mexericos e escândalo. A coisa sensata a fazer é
acertarmos o assunto da melhor maneira possível. Que outra alternativa
temos?
Olhou para o outro lado da mesa, esperando uma sugestão. Sem conseguir
enfrentar a franqueza daquele olhar, Angus vacilou. Nenhuma das suas
ameaças parecia ter tocado o homem. Todas
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tinham sido jogadas de lado. Não tivera nem mesmo a satisfação de ver o
homem rastejar. Antes que o silêncio ficasse constrangedor, Calder
passou a mão numa caneta.
Por que não lhe passo um recibo de venda de, digamos, vinte e cinco
cabeças do melhor gado... à sua escolha... declarando que o pagamento
foi integral? Estendeu a mão para um pedaço de papel.
Observando Calder, a cabeça de Angus estava a mil. Se deixasse esta
fazenda de mãos vazias, sem ao menos ter a satisfação de saber que
pusera Calder numa posição difícil, então, só o que teria conseguido
era ter feito papel de idiota. Não poderia nem ao menos se vangloriar
de ter encostado Calder à parede. Este percebera seu blefe. Algo tinha
que ser salvo disso tudo. Não cabia a Calder estar discutindo os termos
do acordo, cabia a ele. Calder já começara a escrever.
Quero cinquenta cabeças, à minha escolha exigiu Angus. Erguendo a
cabeça, Calder lançou-lhe um olhar gélido.
Então, são cinquenta cabeças concordou, e Angus ficou se perguntando se
devia ter exigido mais... 100, quem sabe. Amaldiçoou-se por ter feito
um acordo tão por baixo. Calder era dono de 200 vezes este número,
talvez mais. Porém algo naquele olhar duro e frio fez Angus resolver
não pedir mais. As palmas de suas mãos estavam pegajosas, enquanto
Calder voltava a atenção para o recibo que estava escrevendo, a caneta
cruzando o papel em traços largos.
Depois que escreveu, Calder ofereceu o recibo, forçando Angus a se
erguer da cadeira para pegá-lo. Olhando para o recibo, novamente
sentiu-se arder com a certeza de que vendera barato demais. Parecia
muito para ele, porque tinha tão pouco, mas nem sequer fizera uma mossa
no bolso de Calder. Não fizera Calder pagar... fora comprado. Sentiu-se
insignificante e doente por dentro.
Webb pegou o telefone na escrivaninha e discou um número. Olhou uma vez
para O'Rourke, observando o arrependimento amargo na expressão do
homem. Era sempre assim quando um comprador fechava o negócio; o
vendedor sempre ficava se perguntando se não poderia ter obtido mais.
O telefone foi atendido.
Aqui é Calder Webb identificou-se e não esperou uma resposta. Nate está
aí? Ante a resposta afirmativa, falou: Diga-lhe que quero vê-lo na Casa
Grande.
Desligando o aparelho, Webb empurrou a cadeira para longe da mesa e se
levantou. O'Rourke continuava fitando o recibo, sem notar imediatamente
que o outro tinha-se levantado, até que ele deu a volta à escrivaninha.
Então, pôs-se de pé rapidamente.
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Nate Moore é um dos meus capatazes. Webb dirigiu-se para o hall de
entrada. O'Rourke seguiu-o. Tem um olho excelente para o gado... um
homem muito experiente, bem qualificado. Estou certo de que ele lhe
será muito útil. Conhece-o, não é? Abriu a porta da frente e fez sinal
a O'Rourke para passar primeiro.
Falei com ele algumas vezes... na cidade. Foi uma resposta concisa, que
exagerava uma troca de cumprimentos e comentários sobre o tempo.
Naturalmente. Webb meneou a cabeça enquanto guiava o homem para o topo
dos degraus da varanda. A figura esguia de Nate vinha cruzando o pátio.
Aí vem ele.
Quando o capataz se aproximou dos degraus, lançou um olhar ao homem
mais baixo, depois focalizou vivamente o patrão, especulando em
silêncio. Porém, simplesmente fez um cumprimento de cabeça para os dois
homens.
Queria me ver? perguntou a Webb Calder.
Sim. Acabo de vender gado a O'Rourke... cinquenta cabeças, à escolha
dele. Pensei que seria melhor se você se encarregasse de mostrar-lhe as
reses e de marcar uma hora de entrega.
Podemos ver os animais amanhã de manhã, lá pelas nove horas, se está
bem para você? Nate virara-se para O'Rourke.
Nove... nove horas está ótimo respondeu, mexendo-se pouco à vontade.
Quanto à entrega, podemos levá-las de caminhão, ou você pode conduzi-
las até a sua casa... o que preferir disse o capataz, dando de ombros.
Eu lhe aviso pela manhã resmungou Angus, de mau humor, enquanto dobrava
o recibo de venda e o enfiava no bolso.
Encontro-o em frente aos celeiros às nove horas disse Nate, marcando o
local do encontro.
O'Rourke concordou com um gesto de cabeça e lançou um olhar feroz a
Calder antes de descer os degraus e se dirigir para a castigada pick-up
estacionada no pátio. Tanto Nate quanto Webb ficaram vendo Angus se
afastar.
Não parece muito satisfeito com o negócio observou Nate, numa voz
deliberadamente baixa.
Ninguém jamais fica replicou Webb, depois virou-se para entrar na casa,
dispensando o capataz com este gesto.
Nate demorou um pouco, depois andou de volta para os celeiros. De um
jeito ou de outro, as mulheres sempre estavam no centro dos problemas
de um homem. Todo homem bancava o idiota por causa de uma delas, pelo
menos uma vez na vida. Nate estava bem contente por nunca ter sido
idiota o bastante para se casar. Gostava
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de ser livre e de ir e vir como lhe desse na telha, sem ninguém a
chateá-lo, perguntando onde ia ou a que horas ia voltar. Triplo C lhe
dava toda a família de que necessitava.
Depois que o jantar acabou, Chase e Webb levaram o café para o
escritório, deixando a mesa para Ruth tirar. Chase dirigiu-se para o
bar de nogueira todo entalhado que ficava num canto do aposento e
desarrolhou uma garrafa de cristal de conhaque.
Quer um pouco no seu café? Virou-se parcialmente para olhar o pai.
Hoje, não recusou Webb, e examinou o filho alto e de ombros largos.
O'Rourke veio me ver hoje.
Chase começara a pousar a garrafa, mas a frase detivera o gesto no ar.
Depois de um instante de demora, completou-o.
Sobre o quê? Chase rompeu o silêncio que se seguiu, porém não se virou.
Intimamente, Webb admirou o modo como o filho se controlava. Não era
bom se alguém podia ler os pensamentos de uma pessoa por sua expressão.
Com o tempo aprenderia a controlar com mão de ferro o resto de suas
emoções. O rapaz ainda era jovem.
Ele alega que você forçou as suas atenções sobre a filha dele replicou
Webb. Você o nega?
Não. Continuava de frente para o bar, mexendo o café.
Webb gostou da dureza da resposta, da ausência de uma desculpa e da
falta de qualquer referência desrespeitosa à garota. Mostrava raça, e a
aceitação da responsabilidade total pelo que acontecera.
Fez alguma promessa que me deva contar? Novamente a resposta foi direta.
Não. A imobilidade foi quebrada por uma onda de energia que fez Chase
virar-se, com os lábios apertados de raiva. O'Rourke não tinha o
direito de metê-lo nisso. Devia ter falado comigo.
Está tudo acertado.
Acertado? Como? Chase disparou as perguntas em cima do pai, como que
exigindo as respostas.
Dei-lhe um recibo pela compra de cinquenta cabeças de gado.
Cinquenta cabeças. E ele aceitou?
Aceitou.
Chase desviou parcialmente a cabeça, com a boca encrespada de nojo.
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Teria tido mais respeito pelo sujeito, se ele me tivesse amarrado a um
poste e me dado uma surra. Por que não veio até aqui e me encheu de
porrada?
É o que eu teria feito, no lugar dele. Não tenho certeza se eu não
devia fazê-lo, de qualquer maneira declarou Webb, com ar severo. É
natural que um homem cometa as diabruras da mocidade, mas não deve
escolher para isso campos jovens e virgens.
Isso já me ocorreu mais do que uma vez nesses últimos dias concordou
Chase, zombando de si mesmo. Largou a xícara de café com o conhaque
sobre uma mesinha lateral, sem tê-la tocado. Vou dar uma volta e
respirar ar fresco.
Capítulo VII
A cidade que ficava mais perto da sede da Triplo C era um trecho largo
na estrada e se chamava Blue Moon. O pessoal da cidade comentava que
ali só acontecia alguma coisa excitante uma vez na vida e outra na
morte. O posto de gasolina era também o armazém e a agência dos
Correios. Havia um café ao lado do que já fora uma estalagem de beira
de estrada, com quartos para os viajantes, mas a estalagem agora era um
saloon-bar chamado Jake's Place, que tinha até uma sala de jogo
particular nos fundos. Era nos quartos do andar de cima que as
"sobrinhas" de Jake recebiam seus clientes. O café ao lado possuía boa
freguesia, especialmente porque o dono, Bob Tucker, tinha a fama de ser
o melhor cozinheiro do Estado de Montana.
Além desses estabelecimentos comerciais, havia uma loja de ferragens e
fazendas num prédio só, um elevador de cereais abandonado, e uma casa
que fora convertida em clínica, onde o Dr. Barlow aparecia duas vezes
por semana para ver seus doentes. Mais além, havia meia dúzia de casas
para os cerca de 30 residentes de Blue Moon.
Uma pick-up com a marca da Triplo C saiu da auto-estrada e foi
sacolejando pelo chão sulcado, levantando uma nuvem de poeira quando
freou na área de estacionamento entre o posto de gasolina-armazém e o
saloon. Buck Haskell saltou pelo lado do passageiro, as botas batendo
no chão antes mesmo de Chase abrir a porta do lado do motorista.
É melhor que Tucker tenha torta de amora sobrando! declarou Buck. Estou
com o gosto dela na boca nos últimos quinze quilómetros.
E também está-me dizendo isso há quinze quilómetros falou Chase, a
secura perpassando pela voz.
73
Ei, Chase, tem um cigarro? Buck bateu no bolso vazio da camisa. Os meus
acabaram.
Só o que tenho é um maço de cigarrilhas.
Espere por mim. Vou dar um pulinho na loja e comprar cigarros.
Buck começou a se dirigir para o armazém enquanto forçava a mão no
bolso da Levi's justa, para pegar o dinheiro.
Chase apoiou-se na traseira da pick-up para esperar por ele, inclinando
o chapéu para trás da cabeça, um leve sorriso lhe aparecendo na
expressão. A porta do armazém bateu duas vezes: uma vez quando Buck
entrou e, logo depois, quando alguém saiu. Chase olhou com interesse
superficial.
A visão de Maggie O'Rourke era como um vento selvagem e limpo que o
varresse. Nas duas últimas semanas conseguira afastá-la do pensamento,
mas vê-la de novo apagou as duas semanas de esquecimento. O cabelo
negro e farto estava preso na nuca com um lenço azul desbotado. Usava
blue jeans e botas e uma espécie de blusa branca que ele não podia
enxergar muito bem por causa dos dois grandes sacos de compras que ela
estava segurando. Uma ligeira ruga marcou sua testa lisa enquanto ela
olhava para o Sol. Chase percebeu que ainda não o havia notado.
Endireitou-se da traseira do veículo, ajeitando o chapéu para ficar
certo na cabeça, e se adiantou.
Alo, Maggie falou ele, suavemente.
Ela parou, o olhar correndo para ele. Alguma emoção faiscou nos seus
olhos, antes que o rosto ficasse inexpressivo.
Alo, Chase. Não gaguejou o nome dele ou pareceu constrangida ao vê-lo
de novo. Como tem passado? Era uma pergunta polida, e ele notou como os
lábios dela se juntavam, cheios no centro.
Ocupado. Arrancou o olhar da boca da moça. Deixe que eu carrego um
desses sacos para você.
Ela hesitou um instante antes de entregar-lhe um dos sacos. A blusa
branca que usava era pequena demais. Os jovens seios redondos faziam a
fazenda abrir-se, entre os botões. Ela mudou o saco para a frente do
corpo, para escondê-lo.
Nós também estivemos ocupados. Recomeçou a andar e Chase diminuiu as
suas passadas para acompanhá-la, carregando o saco na curva do braço.
Ficaria surpreso de ver como se tem trabalho extra, quando se adquire
mais cinquenta cabeças de gado. A voz era severamente orgulhosa, como o
porte.
E o que está querendo dizer com isso? perguntou Chase, com uma ligeira
irritação ante o tom de voz dela.
Ela lhe lançou um daqueles olhares enviesados que ele estava começando
a associar com ela.
74
Que não sou nenhuma vagabunda cujos favores podem ser comprados por
cinquenta cabeças de gado. Talvez o que eu tenha feito seja errado, mas
isso não quer dizer que eu não preste.
Maggie, você não esteve errada, eu estive. Assumiu a culpa. O presente
do gado foi um modo de dizer "sinto muito".
Bem, eu não sinto. Seus lábios estavam muito apertados. Não pensei que
papai fosse criar problemas para você. Quero dizer, ele falava muito,
mas nunca pensei que fosse realmente tentar. Quando penso nele indo
falar com o seu pai e contando o que fizemos, isso me faz sentir
como... estavam passando pela estalagem no momento em que ela fez uma
pausa e lançou um rápido olhar às janelas do andar de cima...uma das
"sobrinhas" de Jake.
Você não devia saber a respeito delas. A boca do rapaz se retorceu num
quase sorriso, divertido com a franqueza dela.
O que quer dizer é que não devo deixar que saibam que sei a respeito
delas. Todos sabem replicou, secamente e apenas fingem que não sabem.
Não deve sentir-se como uma delas insistiu ele. Sei que meu pai não
pensa assim de você.
Ela parou ao lado da porta de passageiros de uma pick-up castigada e
virou-se para olhar para ele.
E o que você pensa de mim, Chase?
Acho que você é uma moça notável e muito bonita. Fitando os sinceros
olhos verdes, sentiu a atração da sua presença. Desta vez, resistiu ao
impulso de tomá-la nos braços.
Bonita? Nisto? Olhou para as próprias roupas com um olhar cético e
irónico. Depois, ficou séria. Acho que está apenas tentando ser
educado, mas não é preciso. Sei o que o povo pensa do meu pai... e do
resto de nós, O'Rourkes. Papai sempre culpa os outros por seus
problemas. Mas não quero que pense que o culpo pelo que aconteceu. Eu
sabia o que estava fazendo. Sei que você falou "até qualquer hora", mas
depois da encrenca que papai causou, quero que saiba que não estou
esperando que apareça.
Por que não? Um ar suave tirou a rudeza das feições másculas de Chase.
Um vinco marcou brevemente a testa da jovem.
Porque...
Chase! chamou Buck e veio vindo da direção do armazém. O que está
fazendo? Bancando o entregador?
Encontre-me amanhã na cerca por volta das dez. Pode? murmurou Chase,
rapidamente. Ela fez que sim, insegura. Em voz mais alta, Chase
perguntou: Onde quer que coloque este saco? Na boleia ou na parte de
trás?
Atrás está ótimo.
75
Depois de colocar o saco na traseira da pick-up, tirou o que estava no
colo dela e botou-o junto ao outro. Levou a mão ao chapéu.
Até qualquer hora. Depois, Chase virou-se para ir encontrar o amigo.
Está pronto para aquela torta de amora?
Se estou.
Da última vez que Buck vira a garota O'Rourke tachara-a de gata
selvagem e de moleque. Agora, estava tendo uma impressão diferente.
Seus olhos azuis curiosos e brejeiros examinaram a diferença.
A ousadia da sua inspeção tornou Maggie mais constrangida. Enfiou as
pontas dos dedos nos bolsos da frente dos jeans, curvando os ombros
para diante a fim de aliviar a pressão nos botões da camisa. Inclinava
a cabeça num ângulo orgulhoso e desafiador, ante o olhar grosseiro, mas
Chase já se estava virando, fazendo com que Buck o seguisse um segundo
mais tarde. Buck alcançou-o numa passada, lançando um meio olhar em sua
direção.
Retiro o que disse dela no outro dia murmurou Buck, em voz baixa.
Porra, dá para ver direitinho que é mulher. Enquanto abria a porta do
café, olhou de novo para a garota. Quem sabe está na hora de eu começar
a visitar os vizinhos.
O brilho no olhar do amigo fez correr um arrepio inquieto pela espinha
de Chase. Buck inclinava-se a não ligar para os sentimentos das
garotas, não tendo consciência quando se tratava de conquistas sexuais.
Aquele instinto protetor assanhou-se dentro de Chase, e arrogantemente
cego à possibilidade de que não estava em posição de julgar.
Deixe-a em paz, Buck. Era uma resposta seca, o tom de voz quase
autoritário.
E por quê? desafiou Buck, com um sorriso de testa franzida, entrando
atrás dele no café.
Chase tentou suavizar sua irritação com o amigo, e conseguiu tornar a
voz despreocupada.
Digamos que a vi primeiro, e ponto final. Mas havia um ar de
advertência sombria no olhar.
Porra, mas você é egoísta, Chase implicou Buck. Sempre racho com você,
não é? Mamamos no mesmo peito, não foi? Eu até mesmo deixo você tomar o
lugar que é meu por direito como herdeiro dos Calders, e é assim que
você me paga. Fingiu um ar magoado e jogou a perna por cima das costas
de uma cadeira para se sentar a uma das mesas do café. Só por isso,
você pode comprar a minha torta. Ei, Tucker! gritou para o homem atrás
do balcão. Quero dois pedaços de sua torta de amora, e Chase é quem vai
pagar.
76
Chase notou Angus O'Rourke sentado num banquinho junto ao balcão, porém
deixou seu olhar passar por ele e se fixar no rotundo proprietário do
café.
Só café para mim, Tucker, já que vou ter que pagar a conta.
O ricaço está tentando fingir que está duro. Buck riu, um cigarro
apagado pendurado na boca, enquanto virava os bolsos atrás de um
fósforo. Tem fogo?
Tenho um amigo que é aproveitador. Chase jogou uma caixa de fósforos
sobre a mesa, diante de Buck. Você ganha mais do que eu. O que faz com
seu dinheiro?
Quando acabo de tomar um pouco de uísque, jogar um pouco de pôquer, e
fazer as damas felizes, ele parece desaparecer. Buck abriu um sorriso e
soltou baforadas do cigarro.
Tucker atravessou o pequeno café, carregando dois pratos de torta e
duas xícaras de café nas mãos gorduchas, a frente do avental branco
respingada de gordura e comida. Quase calvo, tinha a cabeça pequena
demais para o corpo solidamente redondo. Parou ao lado da cadeira de
Chase para deixar a comida.
Diga a Webb que o meu congelador está ficando com pouca carne, portanto
qualquer dia passo por lá para comprar gado Calder para abater. A voz
dele era uniforme, como se exigisse esforço demais alterar seu tom
monótono.
Pode deixar que eu digo prometeu Chase, e ficou vendo o homenzarrão
voltar para trás do balcão. Não se enganava com a lentidão do homem, ou
seu corpanzil. Aquela barrigona saliente era dura como ferro. Um ano
antes, Chase o tinha visto mover-se com uma rapidez incomum num homem
do seu tamanho e derrubar um freguês inconveniente com um golpe com as
costas da mão, quando o homem começara a soltar palavrões na frente de
algumas senhoras da cidade. E vira Bob Tucker levantar uma carcaça
inteira de boi como se fosse um saco de batatas. Não era um sujeito com
quem alguém se devesse meter a engraçado.
Todos os vaqueiros se comportavam direitinho no seu estabelecimento, ou
Tucker os jogava lá fora, pessoalmente. A comida dele era a mais
gostosa num raio de quilómetros, e no entanto havia algo nele em que
Chase não confiava, porém não sabia o que era.
No balcão, Angus O'Rourke escutara o recado que Tucker dera a Chase
para transmitir ao pai. Depois de duas semanas, Angus ainda estava
remoendo os resultados do seu confronto com Webb Calder, ficando mais
certo a cada dia que passava que fora roubado no que lhe era devido. A
visão de Chase Calder sentado no café, virtualmente impune pelo mal que
fizera a Maggie, despertou a hostilidade em Angus. Ao invés de dirigir
o calor de sua
77
raiva para aquele que a despertara, descontou em cima do dono do café.
Para que está fazendo negócio com Calder? perguntou Angus, mantendo a
voz baixa para que outros não o ouvissem. Ele já não é rico o bastante
sem você comprar carne dele? O que há de errado com os pequenos
fazendeiros da região? Você quer que sejamos seus fregueses, mas não
está interessado em comprar da gente.
Tucker parou diante de Angus, os olhos do tamanho de bolas de gude
fitando-o com indiferença.
Não é por vontade que negocio com Calder. Não gosto dele mais do que
você. Mas é que sirvo apenas carne de primeira qualidade. Todos os
outros fazendeiros têm carne dura e fibrosa, por isso tenho que comprar
dele para obter carne decente.
Mas Tucker ficava irritado porque sempre lhe parecia que Calder agia
como se lhe estivesse fazendo um favor em vender carne dos Calders.
Nada nunca foi dito ou sequer insinuado, mas Tucker sabia que outros
compradores de gado faziam compras por lote, não uma cabeça de cada
vez. Se ele não fosse habitante local, não valeria a pena uma fazenda
do tamanho da Triplo C ter o tempo e o trabalho de vender para ele.
Eles não se importavam com ele, como freguês. Para ele estaria ótimo ir
comprar noutro lugar, porém mais ninguém tinha a qualidade que exigia.
Se a única coisa que lhe serve é carne dos Calders, então compre de mim
desafiou Angus. Comprei cinquenta cabeças de gado dele faz duas semanas.
Cinquenta cabeças? Tucker fitou-o com ceticismo. Onde arranjou dinheiro
para comprar gado de primeira?
Isso não é da sua conta, porra. Angus sentou-se mais ereto no
banquinho, ofendido pela pergunta que insinuava que era pobre demais
para comprar gado da fazenda de Calder. Está interessado em comprar a
minha carne, ou não?
Você provavelmente comprou algum refugo dele, mas vou dar uma passada
lá na sua casa amanhã, e dar uma olhada. Tucker não acreditava muito na
alegação de O'Rourke de ser dono de carne de primeira da Triplo C.
Passo por lá na parte da manhã.
Não se esqueça de trazer o dinheiro ironizou Angus, e empurrou sua
xícara vazia para junto do homem corpulento. Sirva-me um pouco de café
enquanto está por aí, todo cheio de vento.
Se houver vento circulando por aqui, provavelmente está vindo de você.
Tucker pegou a xícara e girou o corpo maciço para colocá-la sob a bica
da máquina de café.
78
Espere até amanhã de manhã, e veremos quem está cheio de vento replicou
Angus, todo convencido.
Depois que Chase a deixou, Maggie ficou parada junto da pick-up,
sabendo que o pai estava lá dentro tomando café, enquanto ela e Culley
faziam as coisas que precisavam ser feitas. Entrar no café enquanto
Chase estava lá sem dúvida faria o pai começar outra das suas arengas
contra os Calders. Só o fato de ver Chase provavelmente o faria
iniciar. Maggie decidiu que a coisa sensata a fazer era achar o irmão e
ver se tinha completado suas tarefas. Ao se afastar do café, viu Culley
cruzando a auto-estrada vindo da loja de ferragens. Esperou junto ao
veículo que ele viesse ter com ela, notando sua cara fechada.
Vi você com Calder. O que ele queria? perguntou, parando diante dela.
Ele me ajudou a carregar os mantimentos. Havia um toque de desafio na
voz da moça, que questionava o direito dele de insistir numa resposta.
Conseguiu a peça para a bomba do poço?
Ainda não chegou. A resposta do irmão era cheia de impaciência. A
conversa que teve com ele... suponho que espera que eu acredite que
falaram de mantimentos.
Falamos de muitas coisas... que não são da sua conta retrucou Maggie.
A boca do rapaz estreitou-se numa linha zangada.
Suponho que ele a queira ver de novo.
E se quiser? desafiou Maggie.
Suponho que pediu para você se encontrar com ele, em algum lugar
adivinhou Culley. E ordenou: Fique longe dele, Maggie. Só quer entrar
nas suas calcinhas de novo. Não está vendo? Não aprendeu nada com a
última vez?
É tão impossível que ele possa gostar de mim?
Pode gostar de você, sem dúvida admitiu o irmão. Mas você não está
pensando por um minuto que ele vai levar a coisa a sério, está? Você
não passa da filha de um estancieirozinho qualquer, para ele. Jamais
vai pensar que você é boa o bastante para um Calder.
Quem disse que quero que ele leve a sério? explodiu ela. Uma garota
gosta quando um homem dá atenção, mas isso não significa
necessariamente que queira casar-se com ele! Você pode se contentar em
ser o filho de um pequeno estancieiro com sonhos que nunca se tornarão
realidade, mas eu não. Quero uma educação, porque não vou viver desse
jeito o resto da vida!
79
Você é minha irmã. Havia ocasiões em que o génio do irmão podia
igualar-se ao de Maggie. Esta era uma delas. Não quero vê-la magoada. E
é isso que vai acontecer, se você vir Chase Calder de novo. Um belo dia
vai acordar na maior encrenca, e ele vai esquecer seu nome.
Não vou ficar em encrenca nenhuma. Maggie negou isso primeiro. E Chase
tem sido simpático comigo.
Isso é porque ele ainda está querendo alguma coisa. Porém, logo que
terminar com você, vai tratá-la como lixo. Ele é um Calder. E se você
tiver um grama de juízo, não se esquecerá disso. Nunca será nada para
ele, exceto alguém com quem rolar na grama. Fique longe dele, Maggie.
Não prove que estou certo advertiu Culley, e passou por ela para entrar
no café, como se tivesse medo de que, se ficasse mais tempo, faria
alguma coisa violenta.
Maggie fitou as costas dele que se afastavam. Também tremia, com a
força da raiva dele. Escancarou a porta da pick-up e subiu na boleia.
Esperou num silêncio rígido que Culley fosse buscar o pai para poderem
voltar para a fazenda.
Mas as palavras do irmão não a largavam, nublando-lhe os pensamentos.
Chase já estava junto aos limites da cerca, quando ela finalmente
apareceu, na manhã seguinte. Debatera silenciosamente consigo mesma por
quase uma hora tentando decidir se iria encontrar-se com ele ou não. No
final, veio porque precisava saber se Culley tinha razão quanto a Chase.
Desmontando, Chase meteu-se pelo meio dos fios de arame farpado da
cerca para pegar as rédeas do cavalo dela, quando o animal parou. O
olhar dela correu desconfiado pelo sorriso indolente de boas-vindas que
ele lhe deu, sem conseguir fazer nenhum julgamento baseado nele.
Está atrasada. Moveu-se até a sela, estendendo as mãos para envolver-
lhe a cintura fina e botá-la no chão. Estava começando a pensar que
você não viria.
Eu estava tentando me decidir se devia vir ou não replicou Maggie,
honestamente.
Já estava com os pés no chão, mas ele continuava a deixar as mãos
pousadas na sua cintura. Sentiu como ela estava rígida, e ficou
impaciente. Subconscientemente estivera antecipando sua terna
suavidade. Inclinando a cabeça, Chase buscou estabelecer seu domínio
sobre os lábios dela. Houve uma pressão em resposta a seu beijo, mas
era fria. Ergueu a cabeça para olhar para ela, e deparou com seu olhar
firme a estudá-lo, avaliá-lo.
Que bom que você veio declarou ele.
Por quê?
Porque queria falar com você replicou Chase, tentando afastar com um
sorriso a seriedade dela.
As mãos dela empurraram-lhe os braços para retirá-los com naturalidade
da cintura e poder afastar-se dele.
Isso é o que você diz que quer. Sua voz parecia indicar que ele
pretendia algo diferente. Chase seguiu-a e ela se virou para confrontá-
lo com as suas suspeitas. Culley diz que o único motivo pelo qual você
me quer ver é para ter sexo.
Por um instante, Chase ficou espantado com a franqueza dela, antes de
se sentir divertido.
Você é sempre tão franca?
É verdade? insistiu. É por esse motivo que quer me ver?
A teimosia na expressão dizia a Chase que ela estava a fim de uma
resposta direta. Ele abriu a boca para assegurar-lhe que havia
concluído que ela era jovem e inexperiente demais e que a sedução da
última vez fora um erro que ele não pretendia repetir. Porém, olhando
nos seus olhos, Chase percebeu que estava apenas se enganando. Tendo
chance, iria fazer amor com ela de novo. Aquele limiar tinha sido
cruzado uma vez e seria cruzado de novo a qualquer hora que houvesse
oportunidade. Não havia como voltar a um relacionamento inocente, de
ficar de mãos dadas. Aquilo não o deixou satisfeito, e tentou evitar
admiti-lo.
Não sei com que frequência a Fazenda Triplo C ia poder custeá-lo,
pagando cinquenta cabeças de gado cada vez que eu o fizer pilheriou ele.
A raiva faiscou nos olhos dela, antes de se afastar.
Não tem graça.
Ele notou, enquanto ela se afastava um passo, e soltou um suspiro.
Não, não tem. Mas também não há uma resposta simples para sua pergunta.
Ela lhe lançou um olhar de banda, e ele não desviou os olhos. Estaria
mentindo se dissesse que jamais iria querer fazer amor com você de
novo, porque iria. Mas o sexo não é o único motivo. Se fosse apenas a
satisfação física que eu quisesse, poderia obtê-la das garotas do Jake.
Portanto, tem que significar que quero sua companhia, também. Acho que
a verdade é que estou um pouco fascinado por você.
Por quê? Mas a pergunta era menos incisiva. Chase sacudiu a cabeça,
porque não sabia.
Talvez porque você seja tão honesta e franca sobre o que pensa e quer.
A maioria das mulheres tenta fingir. Você ainda não aprendeu.
Isso é ruim? indagou, inclinando a cabeça para o lado.
81
Não. Chase sorriu, suavemente. Torna você especial.
Havia uma profunda verdade nesta frase, e Chase estava apenas começando
a percebê-la. Havia satisfação em possuir o corpo dela, porém ele
queria mais do que isso. Este encontro era um teste. Se tentasse fazer
amor com ela hoje, perdê-la-ia. Mas ele sabia, também, que se não a
possuísse desta vez, possuiria na próxima, e na próxima. E ela viria
para ele tão espontaneamente quanto o fizera da primeira vez. Sabendo
disso, Chase podia esperar.
Tanto seu pai quanto seu irmão devem tê-la alertado para não me ver
adivinhou Chase, e desafiou-a a deixar claros os seus motivos. Então,
por que veio se encontrar comigo?
Porque queria. O dar de ombros era uma declaração expressiva de sua
independência, mas ela deixou o olhar desviarse dele.
Por quê? Era a vez dele insistir.
Talvez voltou a olhar para ele, um brilho dançando nos olhos porque
você não seja nada do que eu esperava que um Calder fosse.
Como esperava que eu fosse?
Imagine que eu achava que fosse metido a besta e arrogante admitiu, um
pouco constrangida. Desalmado, também, acho. Mas... você é bonzinho.
Chase tentou conter um sorriso, os cantos da boca se aprofundando com o
esforço.
Muita gente espera que tenhamos chifres e rabo. Tendem a ficar
espantados quando descobrem que somos feitos de carne e osso, como todo
o mundo.
Maggie riu, um som puro e cristalino.
Como todo o mundo, não. Todo o mundo não tem tanta terra quanto
vocês... ou gado, ou cavalos, ou todo o resto.
Mas todos temos as mesmas necessidades insistiu Chase, estendendo-lhe a
mão mesmo que seja uma coisa tão simples quanto alguém com quem dar um
passeio.
Ela olhou para ele e sorriu, depois deu-lhe a mão. O sol estava forte e
o céu claro. No capim alto, uma cotovia do prado cantava.
As imensas proporções de Bob Tucker enchiam o assento da sela, não
deixando lugar entre o arção dianteiro e a patilha. O tamanho dele
parecia ananicar o pónei baio que cavalgava, uma imagem tornada ainda
mais incongruente pela aba larga do Stetson de feltro na sua cabeça
pequena, e contrastada pelo cavaleiro baixo e
82
esguio que o acompanhava. Tucker parou o cavalo perto do gado que
pastava e se mexeu nos estribos, a sela gemendo sob seu peso.
Retiro tudo o que disse, Angus. Examinou o rebanho cor de ferrugem de
cara branca. Esse gado não é refugo da Triplo C. É gado de primeira.
Como conseguiu persuadir Calder a se desfazer dele? Ou será que estou
olhando para gado roubado?
Um ar de indignação cruzou o rosto de O'Rourke. Antes que Angus pudesse
abrir a boca para negar a alegação, Tucker riu.
Acho que, se o tivesse roubado, não iria andar por aí contando que era
dono dele, não é?
Com toda a certeza retrucou Angus. O gado é meu e tenho o recibo para
provar.
Não estou duvidando de sua palavra. Tucker ainda sorria. A mim não me
interessa se você tem recibo ou não. Se não tivesse, não seria o
primeiro gado roubado que eu compraria.
O roubo de gado se tornara um grande negócio, hoje em dia. Tucker sabia
que um homem podia ganhar muito dinheiro com ele, se tivesse as
ligações certas. E não era homem de desprezar dinheiro. O fazendeiro é
o único que perde, numa transa dessas.
É, e o cara que é apanhado.
Sabe quais são as probabilidades contra isso? Tucker olhou para
O'Rourke e deu um sorriso afetado. Para provar qualquer coisa, teriam
que pegá-lo com a boca na botija, e as chances de isso acontecer são de
um milhão contra um. Mesmo que o fizessem, o homem provavelmente nunca
iria para a prisão. É um negócio lucrativo, com pouco risco envolvido.
Os dias em que um fazendeiro enforcava um ladrão de gado por mera
suspeita pertencem ao passado.
É verdade concordou Angus, e fitou o corpanzil do dono do café com
curiosidade. Não sabia que você tinha tanto furto no sangue, Tucker.
Vou ter que prestar atenção quando começarmos a negociar esse gado,
para você não me passar a perna.
Basicamente sou uma pessoa honesta, Angus. Nunca tento foder as pessoas
com quem faço negócios... só os terceiros explicou, com humor seco e
irónico. Mas estou tão interessado em ganhar dinheiro quanto outro
pobre-diabo qualquer. Se isso significar fazer algo meio escuso, então
um homem tem que pesar os lucros contra os riscos, e resolver se vale a
pena.
Suponho que sim falou O'Rourke, hesitante.
Tucker estava um pouco desdenhoso da cegueira do estancieiro para com
os fatos.
O crime compensa, nos dias de hoje. Não aceite só a minha palavra. Olhe
a seu redor e veja você mesmo. Aqui é uma grande extensão vazia de
Montana, e só o que temos em termos de policiamento são uns dois
policiais estaduais na auto-estrada,
83
e Potter e seus delegados fajutos no departamento do xerife do condado.
Se um ladrão quisesse roubar um pouco de gado da Triplo C, não haveria
ninguém para impedi-lo... ou apanhá-lo. Até mesmo Calder não pode
patrulhar cada centímetro do seu pasto.
Acho que tem razão. A despeito da afirmação, Angus continuou a soar
cético.
Tucker olhou em derredor, como que para se orientar, depois virou o
cavalo na direção de um morro.
Vou-lhe mostrar o que quero dizer. O gado se dispersou enquanto o par
cavalgava pelo meio dele para subir a colina irregular. Na crista,
Tucker freou seu cavalo. Para além dele estendia-se a terra dos Calder.
Está vendo aquela estrada secundária ali? Apontou para uma faixa
estreita de terra à distância. Só o que um ladrão tem que fazer é ter
um semi-reboque esperando ali, enquanto uns dois cavaleiros conduzem o
gado até a cerca e o enfiam lá dentro. £ uma operação facílima... é
entrar e sair em menos de uma hora. Não há ninguém para ver ou ouvir
você. Pode levar dias até que alguém saiba que está faltando gado.
Se é tão fácil, como ninguém ainda tentou? perguntou Angus.
É em geral uma operação de curtíssima duração. Eles entram numa área,
trabalham nela por um mês, roubam três ou quatro carregamentos, e
passam para outra área. A última vez que me lembro de terem roubado
gado por essas bandas foi há uns dez anos falou Tucker, e fitou
pensativo a vista ampla à sua frente. Quem quer que tenha sido, escapou
numa boa. Por aqui, no entanto, todo mundo conhece todo mundo, portanto
logo se nota um veículo ou uma cara estranha, e não se presta atenção a
um morador local... parou abruptamente, sem terminar a frase. Estivera
pensando em voz alta. Agora, queria guardar aquelas ideias para si
mesmo, numa chance arrojada de que aquilo desse em alguma coisa. Com
uma rápida olhada para O'Rourke, mudou de assunto: Você acabou não me
dando um preço para aquela carne.
Angus estava remoendo a sentença inacabada, terminando-a na sua cabeça.
Percebeu que era verdade; as idas e vindas de um morador local não
despertariam a curiosidade de ninguém... pelo menos não tão rapidamente
quanto um estranho. Custou a acompanhar a mudança na conversa.
Ainda não falou o que está disposto a pagar retrucou, finalmente.
Com uma torção do pulso gordo, Tucker começou a girar seu cavalo num
semicírculo. Seu olhar errante notou movimento na
84
cerca limítrofe entre a propriedade de O'Rourke e a Triplo C, e se
deteve. O interesse dele se aguçou, quando reconheceu o casal andando
de mãos dadas. Lançou a O'Rourke um olhar cheio de curiosa especulação.
Então Chase Calder está cortejando sua filha. Sabia que tinha que haver
alguma coisa por trás disso. Não posso imaginar Webb Calder vendendo
gado de tão alta qualidade para qualquer um.
Ante aquele comentário, a cabeça de O'Rourke girou bruscamente para ver
o par. A fúria perpassou por sua expressão, mas seu rosto estava
desviado, e Tucker não notou. Angus esporeou o cavalo para virá-lo para
o outro lado e começou a descer a encosta na frente do cavaleiro mais
gordo, levando-o para longe do casal.
Capítulo VIII
Angus remoeu aquela cena durante três dias. Não confrontou a filha com
seu conhecimento do encontro dela com Chase Calder; nem ela o mencionou
a ele. Os seus pensamentos sombrios perceberam que sua visita a Webb
Calder nada tinha conseguido e que levar-lhe um outro protesto seria
igualmente em vão. Não havia justiça no mundo, quando um homem podia
tirar a inocência de uma moça e não ser punido.
Antes de resolver pessoalmente o assunto, achou melhor dar a Calder
mais uma chance de ficar longe da filha. Se a deixasse em paz, Angus
esqueceria tudo. Se não, Angus faria com que ele pagasse. Tinha jurado
a si mesmo.
O vazio do seu estômago dizia-lhe que era quase meio-dia, assim deixou
de lado o motor da bomba do poço, semimontado, e foi-se dirigindo para
a casa. O barulho de um cavalo e cavaleiro que se aproximavam a meio-
galope fê-lo parar. Seu olhar se estreitou numa viva desconfiança
quando reconheceu Maggie cavalgando até o curral. Mudou de direção para
andar até o curral, onde ela estava desmontando para tirar a sela do
cavalo.
Desculpe o atraso, papai. Não vou demorar mais do que uns minutos para
preparar o almoço.
O rosto dela estava afogueado e seus olhos brilhavam, quando ele parou
junto à cerca de tábuas.
O olhar dele pousou na boca da filha e ele notou a curva macia e
intumescida dos lábios. Não precisava que lhe contassem o que a havia
causado.
Andou com o Chase Calder de novo acusou. Ela focalizou toda a sua
atenção em soltar a cilha.
Não sou mais uma garotinha, papai. Sua voz baixa era formal e defensiva.
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Uma raiva cega retesou o maxilar de O'Rourke, mas não era dirigida a
ela. Para ele, a filha era a vítima, uma mulher indefesa, assim incapaz
de saber o que queria. Ele só tinha como escolha cuidar do assunto
pessoalmente.
Não se incomode em preparar almoço para mim. Tenho que ir à cidade
buscar outra peça do motor da bomba mentiu. Era apenas uma mentira
parcial; ele ia à cidade, mas não atrás de uma peça de motor.
Maggie percebeu a nota de falsidade na voz dele.
Papai, você não vai...
Vou à cidade, já lhe falei! disse bruscamente, e deu meia-volta,
afastando-se do curral. Impulsionado por uma fúria malcontida, cruzou o
pátio em desordem até a pick-up.
Enquanto Maggie arrastava a sela e a manta até o estábulo, ouviu a
porta da boleia bater e o motor engasgar um pouco antes de pegar. A
pick-up sacolejava pela estradinha cheia de sulcos, quando ela saiu do
estábulo para se dirigir para a casa.
Ainda tinha que ver a comida do irmão, sendo assim Maggie foi até a pia
lavar as mãos antes de começar o almoço. Fitou seu reflexo no espelho,
sem conseguir compreender como o pai soubera que estivera com Chase
pela manhã, ou como adivinhara que haviam feito amor.
O acelerador da pick-up foi apertado até o fundo, durante toda a viagem
até a cidade, onde o veículo parou ruidosa e bruscamente diante do
pequeno café. Angus saltou violentamente da boleia, batendo a porta e
entrando com largas passadas no estabelecimento. Era a hora do almoço e
o local estava parcialmente cheio de fregueses. Correu o olhar pelos
ocupantes com irritação indisfarçável, enquanto cruzava a sala para se
sentar num banquinho no fim do balcão. O dono de cabeça redonda estava
de pé junto à grelha, atrás do balcão, com uma espátula de metal na mão
gorducha.
O que vai querer, Angus? Tucker não se moveu, exceto para virar a
cabeça e olhar para o seu mais recente freguês.
Café.
O dono-cozinheiro virou um par de hambúrgueres com a espátula e
achatou-os, depois andou com seu corpanzil os dois passos necessários
para atingir a máquina de café. Depois de encher uma xícara branca,
atravessou todo o balcão e veio colocá-la diante de Angus.
Mais alguma coisa? perguntou Tucker, parando para limpar as mãos na
frente manchada do avental branco.
Sim.
Aguente as pontas aconselhou Tucker. Daqui a meia hora o lugar vai
ficar vazio. Então a gente conversa. Um brilho
87
deixou mais vivos os olhinhos do dono do bar, quando ele acrescentou
baixinho: Sócio.
Duas semanas mais tarde uma lua cheia veio espiar de detrás de uma
nuvem, lançando sua luz sobre um par de cavaleiros andando a passo
através do capim alto da terra dos Calders. O ranger do couro da sela
soava alto no silêncio. Angus olhava para o filho, cuja cabeça parecia
estar num tonel, sempre olhando nervosamente a seu redor. Ele tinha a
mesma sensação angustiante na boca do estômago, e a boca seca. Porra,
mas como queria uma bebida. Olhou para frente novamente, tirando
coragem do seu ódio devorador.
Aquelas cabeças de gado que vimos devem estar do outro lado daquele
outeiro ali sussurrou para Culley, apontando.
Papai, o que acontecerá se a gente for apanhado?
Não vamos ser apanhados. Tucker e eu já bolamos tudo. Só o que temos a
fazer é conduzir o gado até a estrada onde o caminhão está esperando.
Vários segundos de silêncio se passaram, antes que Culley perguntasse:
Você está... nervoso, papai?
A escolha do adjetivo fora de um que Angus podia admitir estar sentindo.
Um pouco. Mas fico imaginando a cara do Calder quando descobrir que lhe
está faltando gado. O filho da mãe vai ficar furioso. Angus parou para
rejubilar-se silenciosamente com a ideia. Ninguém teve peito para
enfrentá-lo até que aparecemos. Nenhum Calder vai tripudiar sobre a
gente pobre e ficar impune de novo. Vou-me vingar daquele filho da puta
por toda a dor e sofrimento que ele causou, nem que seja a última coisa
que faça jurou Angus. Vamos roubar cada rês desta fazenda antes de
encerrarmos os nossos passeios da meia-noite. Vamos destruí-lo,
Culley... você e eu. Soltou uma risada baixa e maliciosa. Vamos ser
ricos, e ele pobre. Vai-se arrepender do dia em que deixou o filho
botar a mão na sua irmã. Vai-se arrepender amargamente.
E nós vamos cuidar para que isso aconteça murmurou Culley, num acordo
fervoroso.
Tirando o chapéu, Chase correu os dedos pelos cabelos castanhos
revoltos e colocou o Stetson de volta no lugar. O Sol estava
diretamente acima dele, queimando o metal da pick-up onde não estava
sob a proteção da sombra da árvore. Perscrutou os morros
88
na direção de onde Maggie viria. Já estava quase uma hora atrasada.
Geralmente conseguiam encontrar-se duas vezes por semana num local pré-
combinado. Não era a solução mais satisfatória, encontrarem-se durante
o dia com tempo limitado para estar juntos. Mesmo que ele ignorasse o
fato de que o pai jamais daria permissão a Maggie para sair com ele
abertamente, aonde levaria uma garota de 15 anos? O único local de
reunião social por perto era o Jake's, e não podia levá-la ali.
Sendo assim, tinham-se encontrado quando e onde puderam. Por duas vezes
o trabalho na fazenda impedira Chase de comparecer, mas esta era a
primeira vez que Maggie não vinha. Sentia-se em carne viva por dentro,
devorado por uma necessidade que não podia controlar.
Já esperara o máximo que podia. AbandonandO sua vigília, Chase se virou
e agarrou a camisa dobrada sobre a lateral da pick-up. Enquanto enfiava
os braços nas mangas, ia-se dirigindo para a boleia do veículo. Já
escancarara a porta do motorista, quando ouviu o ruído dos cascos de um
cavalo que se aproximava.
Parado junto à porta aberta, Chase se virou na direção do som. Um pouco
da sua tensão o deixou, ao ver o cavaleiro. Era Maggie, uma esbelta
extensão do animal que montava. Vinha a meio galope na sua direção,
costurando com o baio por entre as árvores para chegar até ele, O
prazer o inundou, suave como o calor de uma brisa de verão, quando ela
freou o cavalo junto à pick-up e chutou fora os estribos para deslizar
para o chão.
O sorriso dela tinha um certo ar astuto, uma consciência de que a forma
arredondada da parte superior do seu corpo mexia com ele, excitando seu
interesse masculino. Ela era a imagem do frescor rural, emoldurada
diante dos olhos famintos dele. A atração que sentia por ela era
urgente, mas Chase continuou junto à porta do veículo, fazendo com que
ela viesse até ele.
Desculpe o atraso, mas praticamente tive que arrancar papai e Culley da
cama, hoje de manhã explicou, atropeladamente e sem fôlego. Daí em
diante tudo foi ficando atrasado. Não tinha certeza se você ainda
estaria aqui.
Maggie parou a 30 centímetros de Chase e inclinou a cabeça para trás
para examinar-lhe o rosto ossudo e másculo. Intimamente, estirou-se na
sua direção, afirmando sua vontade sobre ele. Dava-lhe uma sensação de
poder ver o brilho do desejo aparecer-lhe nos olhos. Estava lá, agora,
mas ele resistia.
Já estava indo embora. Sentiu uma pontada de irritação por lhe estar
sendo negada a visão de toda aquela cabeleira negra enfiada sob o
chapéu dela. Tire o chapéu. Parece ter doze anos quando prende o cabelo
debaixo dele. Chase sofria
89
pequenos espasmos de culpa, quando algo lhe lembrava a juventude dela,
porém as pontadas de consciência nunca eram fortes o bastante para
fazer com que parasse de vê-la.
Com uma risada suave, Maggie tirou o chapéu da cabeça e soltou a
cabeleira. Fitou-o com um desafio inconscientemente provocante antes de
baixar o olhar para admirar ousadamente o tórax musculoso onde a frente
desabotoada da camisa se abrira.
Está gostando do que vê? Os olhos escuros dele estavam três quartos
fechados e o rapaz curvara preguiçosamente a boca.
Gosto... do pouco que posso ver.
Essa resposta audaciosa fez com que ele emitisse uma risadinha abafada.
Você está ficando uma assanhada de marca zombou Chase.
Já que você foi o meu professor, está-se vangloriando ou se queixando?
retrucou Maggie.
Vangloriando. Quando ela se virou para pegar as rédeas penduradas do
cavalo, ele franziu a testa e estendeu a mão para detê-la. Aonde pensa
que vai?
Ela não resistiu, quando ele a virou para olhá-lo novamente.
Você falou que já estava indo embora quando cheguei. Não queria
atrapalhar seu trabalho disse, e seus olhos verdes brilhavam de
inocência excessiva. Maggie gostava de exercer o poder que descobrira
ter sobre ele, a capacidade de fazer com que a desejasse a despeito de
outras coisas que exigiam sua atenção... até mesmo do pai dele.
Sua mentirosazinha. Chase sorriu e tirou as rédeas da mão dela,
deixando-as cair enquanto enganchava o chapéu dela no arção dianteiro
da sela. Depois, colocou as mãos nos ombros dela, massageando-lhe a
curva arredondada dos ossos e sentindo a carne macia da parte superior
dos seus braços. Sabe... que agora que está aqui... vou ficar. E para o
diabo o trabalho.
Não havia nada nas mãos dela, e nada para impedi-la de tocálo. Seus
dedos sentiram o achatamento do estômago dele e a contração
involuntária dos seus músculos. Vagarosamente, deixou os dedos subirem
pela caixa torácica até o peito cheio de pêlos, e ombros, ainda sob a
camisa. As mãos dele apertaram-se nos ombros dela para levantá-la nas
pontas dos pés a fim de encontrar-lhe a boca a meio caminho. O beijo
esfaimado fazia coisas quentes e deliciosas com ela. Às vezes, Maggie
sentia que havia uma exposição de fogos dentro dela, com estrelas
alegremente coloridas explodindo por toda a parte, espalhando sua luz e
calor a todos os cantos do seu corpo.
90
Apertou-se mais junto a ele, envolvendo-lhe o pescoço com os braços e
arqueando o corpo contra seu corpo duro e esguio, sem se dar por
satisfeita até que estivesse moldada intimamente a ele, e o calor de
sua carne tivesse deixado sua marca nela. O forte abraço que ele lhe
deu ecoava a fome de proximidade absoluta. Quando o rapaz começou a
mordiscar a curva do seu pescoço, Maggie não pôde conter o ruído baixo
e animal que lhe saiu da garganta, porém tentou negar que ele era
igualmente capaz de devastá-la.
Às vezes a voz dela era um sussurro rouco e perturbado: acho que você
só está interessado em sexo.
As mãos dele moveram-se para segurar-lhe o traseiro firme e ajustar os
seus quadris aos dele, para que soubesse que o estava deixando duro.
Você fez isso comigo deliberadamente. Agora, está dizendo que é minha
culpa. Parecia divertido, ao invés de zangado.
Maggie baixou a cabeça, imaginando se tal agressão por parte de uma
mulher era imprópria, no entanto incapaz de sentir vergonha, se o
fosse. Apertou os lábios contra o peito nu para sentir o gosto da pele
dele, gostando da textura macia e sabor salgado.
Acho que não há nada que eu possa fazer murmurou, e ouviu o profundo
gemido que ele soltou.
Maggie, você ainda não percebeu que não há nada que nenhum de nós dois
possa fazer? murmurou Chase roucamente, e tomou-a nos braços para levá-
la a um trecho de grama à sombra, onde a deitou.
Depois que as chamas primitivas arderam até se esgotar, houve tempo
para conversa. Chase curtia a companhia de Maggie tanto quanto curtia o
seu corpo. Ela era viva e inteligente, tinha uma conversa agradável. A
responsabilidade do serviço de casa e de uma família quando muito
jovem, amadurecera-a muito além de sua idade real. A despeito da crua
diferença entre o ambiente familiar dos dois - Maggie vinda de uma
família pobre e de um lar com pouquíssimo conforto, Chase nascido num
meio de fortuna e poder - ambos tinham sido criados em meio à dureza;
no caso dele, por imposição do pai, no dela, pela realidade. A vida
tinha poucas ilusões, para eles. Nada era grátis; tinha-se que pagar um
preço por tudo. No entanto, havia algo especial entre eles, dado
livremente e sem expectativas além daquilo que era recebido.
Com pesar, Chase fez sinal de que precisava partir. Tinha-se permitido
mais de uma hora para ficar com ela, mas gastara a maior parte
esperando que chegasse. O tempo que passaram juntos
91
deixara-o com mais de uma hora de atraso. Levou-a até o cavalo que
pastava e tomou-a nos braços para um último e demorado beijo. O barulho
de uma buzina encerrou-o antes que qualquer um dos dois estivesse
satisfeito.
Chase se endireitou e lançou um olhar impaciente por cima do ombro. Uma
pick-up da fazenda vinha sacolejando pelo terreno irregular na direção
deles, um trio de vaqueiros rindo e gritando da boleia. O que estava
com a cara sorridente metida para fora da janela era Buck. Um ar severo
cobria as feições de Chase, quando se virou para Maggie.
É melhor que vá disse, querendo protegê-la de qualquer comentário
grosseiro que pudesse ser feito.
Ajudou-a a montar e passou-lhe as rédeas, esperando até que ela tivesse
entrado com o baio no meio das árvores, antes de se virar para se
defrontar com o veículo que se aproximava. O carro diminuiu a
velocidade apenas o tempo suficiente para deixar Buck saltar, depois
fez um arco amplo para voltar por onde tinha vindo. A pick-up que Chase
viera dirigindo estava parada na terra aberta entre os dois. Chase
começou a se dirigir para ela, e Buck também.
Se é que esqueceu, devia ter-me apanhado há uma hora para carregarmos
aquele touro no pasto de Crosstree lembrou Buck com amplo sorriso, e se
aproximou de Chase com um andar afetado. Clay e Jerry vinham para esses
lados. Peguei uma carona com eles para ver se você havia enguiçado em
algum lugar.
Não esqueci replicou Chase, referindo-se apenas ao comentário inicial.
Acho que não preciso perguntar o que o deteve. O olhar dele buscou
cavalo e amazona que desapareciam do outro lado do morro, depois voltou
para percorrer Chase, um brilho maroto dançando nos olhos azuis de
Buck. Ou como arranjou essas manchas de grama nos joelhos. Aquela era a
garota O'Rourke, não era?
Chase fechou a cara de raiva, as feições másculas endurecendo enquanto
ignorava os comentários do amigo e passava por Buck diretamente para a
pick-up.
Vamos andando.
Buck subiu pela parte traseira aberta do veículo, ao invés de dar a
volta para chegar ao lugar do passageiro. Ambas as portas foram
fechadas em uníssono e Chase girou a chave na ignição.
Agora estou entendendo por que comprou aquelas camisinhas há duas
semanas. Buck ainda estava exibindo um largo sorriso, o chapéu
inclinado para trás da cabeça, um braço apoiado na moldura da janela
aberta. Adorava implicar, especialmente quando obtinha reação da
vítima. Não vai querer fazer neném numa coisinha jovem daquelas, mas
não sei se confiaria naquelas camisinhas, se fosse você. Não sabe há
quanto tempo estão ali na prateleira debaixo do balcão do Lew.
Provavelmente estão amarelas de velhice, a essa altura. São capazes de
rasgar justo na hora em que você mais precisar delas.
Pare com isso, Buck avisou Chase, e engrenou uma primeira. O veículo
saltou para frente, quando ele pisou fundo no acelerador, depois
aliviou a pressão, tentando controlar-se.
Como é que você nunca me contou que estava dando suas voltinhas por aí?
insistiu Buck, fingindo reclamar. Nunca tivemos segredos um com o
outro, antes. Somos praticamente irmãos. Sabe que eu jamais tentaria
invadir seu território, portanto como é que nunca mencionou esse caso
apaixonado que está tendo com a garota O'Rourke!
Era verdade. Raramente guardavam segredos um do outro, trocando
histórias e experiências, vangloriando-se das mulheres que tinham tido,
pilheriando.
Quem sabe simplesmente não estava com vontade de ouvir seus comentários
grosseiros. A expressão de Chase continuava severa, e não desviava o
olhar da trilha cheia de solavancos por entre a grama.
Qual é, Chase resmungou Buck. Cadê o seu senso de humor?
Vou achá-lo quando você mostrar um pouco de senso de decência.
Cara, você está parecendo um touro sendo aguilhoado. Buck escorregou no
assento, puxando o chapéu para frente e desabando-o sobre a testa, e
ficou olhando pela janela, emburrado. O que você precisa é de algumas
cervejas para relaxar falou, finalmente. É sexta-feira e vou até a
cidade. Por que não vem comigo?
Não, obrigado.
Vamos, Chase - insistiu Buck. Ainda não provou o novo entretenimento do
Jake. Precisa de uma noite bem doida de putaria e bebedeira para se
livrar desse grilo.
Não estou interessado o rapaz repetiu a recusa. Não estava interessado
em fazer sexo com uma prostituta, não quando acabara de ter a
satisfação de uma coisa para valer. Quanto à bebida, também não o
atraía.
Então, vou sozinho. Buck deu de ombros, fez uma pequena pausa, depois
lançou um olhar ao amigo. Empreste-me vinte dólares até o dia do
pagamento.
93
Vinte? Lançou um olhar impaciente para Buck. Já está-me devendo trinta.
Isso dá cinquenta que você está-me devendo este mês.
E daí? Pago a você quando receber.
É, e depois pede tudo emprestado de novo na semana seguinte.
Porra, não lhe vai fazer falta retrucou Buck. Não sou eu que vou herdar
tudo isso. Grande coisa, afinal! Só o que estou pedindo é um mísero
empréstimo de vinte dólares de um sujeito que diz ser meu melhor amigo.
Chase esticou a perna direita e se ergueu ligeiramente do assento para
enfiar a mão no bolso dos jeans, para pegar a grana. Só o que tinha
eram quatro notas de um dólar e uma de 20. Separou a de 20 das outras e
entregou-a a Buck.
Tome. Percebeu o ar enfarruscado no rosto geralmente risonho e um
sorriso aliviou a rigidez da própria boca. Quem está sendo o
suscetível, agora?
Buck enfrentou o olhar do amigo, depois riu devagarinho de si mesmo, e
pegou o dinheiro, metendo-o no bolso da camisa.
Obrigado, Chase. Vai recebê-lo de volta. Gostaria que mudasse de ideia
e viesse comigo. Poderíamos nos divertir às pampas, você e eu.
Da próxima vez eu vou falou Chase, dando-se conta de que estivera
negligenciando o melhor amigo e sentindo-se obrigado, pela amizade, a
fazer qualquer coisa a respeito.
Apoiando o calcanhar no estribo da camioneta, Nate Moore tirou do bolso
da camisa o material para enrolar um cigarro, enquanto observava os
cavaleiros reunindo as reses num cercado. Webb Calder estava a seu
lado, o braço apoiado na boleia do veículo, a expressão sombria.
Passei por aqui há uns dez dias e notei que um novilho com a orelha
fendida não estava no cocho de sal. Ele sempre esteve lá de manhã. Eu
já o procurava automaticamente explicou Nate. A princípio pensei que
talvez tivesse quebrado a perna ou sido mordido por uma cascavel, então
falei para o Slim ficar atento a ele quando fosse verificar o rebanho,
na primeira parte da semana. Dois dias depois ele me falou que não vira
nem sinal do novilho. Isso me intrigou, e fui dar uma espiada eu mesmo.
Quantos acha que estão faltando? perguntou Webb, vendo os cavaleiros
trazerem o gado para o cercado em pequenos grupos.
94
Uma estimativa razoável seria de quarenta a cinquenta cabeças. Pode ser
mais. Devolveu os papéis de cigarro e bolsa de fumo ao bolso, um
cigarro enrolado pendendo dos lábios, e riscou um fósforo nos jeans
para acendê-lo.
Tem ideia de quando os ladrões agiram?
É difícil dizer. Há mais de dez dias. Apertou os olhos ante a fumaça.
Provavelmente encostaram um semi-reboque na porteira da cerca e os
carregaram. É assim que geralmente se faz.
Webb inspirou fundo e endireitou-se da sua posição apoiada à camioneta.
Certo. Era uma concordância sucinta. Nate saiu do caminho enquanto Webb
estendia a mão para a maçaneta. Avise-me qual a contagem final, logo
que a obtiverem.
Pois não.
Saindo do pasto, Webb pegou a estrada da fazenda que levava à sede e
parou a pick-up diante da Casa Grande. Chamou um dos empregados que ia
passando:
Encontre Virg Haskell e mande-o vir até a casa. Quero vê-lo.
O empregado ergueu a mão, acusando o recebimento da ordem, e Webb
continuou seu caminho para a casa.
Vinte minutos depois um homem esbelto e de cabelos castanhos entrou sem
se dar ao trabalho de bater. Nenhum dos empregados observava essa
formalidade. Um Calder estava sempre acessível para aqueles que
trabalhavam para ele. Virgil Haskel caminhou diretamente para o
escritório de Calder e tirou o chapéu quando entrou no aposento.
Bevins disse que queria me ver.
Sim. Webb recostou-se na cadeira para olhar para o homem. Haskell nunca
o impressionara, embora não pudesse achar defeitos na folha de trabalho
do sujeito. Virg fora a escolha de Ruth para marido, e Ruth era uma
amiga querida, muito ligada à família. No entanto, Webb sempre
suspeitara de que Haskell se aproveitava desse relacionamento para se
promover na fazenda. Nunca houve prova conclusiva disso, e Webb
aceitara que era um preconceito natural. Ninguém seria bom o bastante
para Ruth. Embora jamais o tivesse admitido, nem mesmo para si mesmo,
Webb estava um pouco apaixonado por ela. Depois que superara a morte da
mulher, provavelmente se teria casado com ela, se Ruth fosse livre. Mas
não era, e portanto ele canalizara seu afeto por ela numa preocupação
fraternal, a cabeça governando o coração, com típica disciplina Calder.
Andaram roubando nosso gado, cerca de cinquenta cabeças, do pasto norte
começou Webb.
95
Quando? perguntou Haskell, franzindo a testa, surpreso.
De dez dias a duas semanas atrás, ao que nos consta. A primeira coisa
que quero que faça é organizar uma contagem do resto dos nossos
rebanhos, começando com aqueles que estão nos pastos próximos às
estradas principais. Depois, quero que leve dois homens e interrogue
todo o mundo nas vizinhanças do pasto norte. Alguém pode ter notado um
semi-reboque, ou algo fora do comum. Venha contar-me qualquer coisa que
descubra, imediatamente.
Vou começar neste instante. O chapéu foi colocado na cabeleira
castanha, enquanto Virgil Haskell saía do gabinete para começar a
cumprir as instruções que recebera.
Já tendo dado início à sua própria investigação, Webb pegou o telefone
para avisar ao departamento do xerife. Foi estritamente uma reflexão
tardia o fato de observar a formalidade de deixar que as autoridades
soubessem do roubo.
96
Capítulo IX
Maggie deu uma olhada no relógio de parede para ver a hora. Eram quase
onze e meia. Se andasse depressa, conseguiria acabar de tirar o pó
antes da hora de começar o almoço. Erguendo um cinzeiro, correu o pano
com lustra-móveis sobre a parte de cima de um porta-revistas colocado
sobre a escrivaninha. Era uma coisa velha, muito arranhada e marcada. A
parte de cima estava atulhada de papéis, na sua maioria anúncios, que
Maggie empilhou direitinho. Enquanto erguia a caixa de charuto onde
eram guardadas as contas, bateu acidentalmente na caneca de barro de
cerveja que servia como enfeite. Ela balançou na beira da escrivaninha
e caiu no chão duro, a tentativa de salvá-la por parte da jovem tendo
falhado. A caneca se quebrou em três pedaços.
Merda! Amaldiçoou sua falta de jeito enquanto se ajoelhava para juntar
os pedaços.
Uma parte da alça estava quebrada, e a tampa com dobradiça tinha-se
soltado da caneca. Havia uma lasca em forma de v no corpo da caneca.
Enquanto Maggie pegava a parte principal para ver se podia colar a
lasca no lugar, notou alguma coisa lá dentro. Enfiou os dedos para
pegá-la, tomando cuidado com as lascas da borda, e tirou um rolo de
papel escuro.
Só que não era papel. Era dinheiro. Sentou-se nos calcanhares, num
espanto incrédulo. Nunca tinha visto tanto dinheiro na vida. Tocou as
notas, verdes e novas. Não pareciam ser falsas; o dinheiro parecia
real. Maggie começou a contá-lo com dedos trémulos e ansiosos.
Atordoada demais com a descoberta, não escutou os passos na varanda.
Não percebeu nada até ouvir a porta de tela bater. Então, ergueu os
olhos e viu que o pai e o irmão tinham entrado em casa.
97
Vejam o que achei! Maggie levantou a mão para mostrar-lhes o dinheiro,
risonha e excitada. Aqui há centenas, e mais!
O que está fazendo com isso? A interpelação irada do pai foi seguida
pela ação, quando se dirigiu para ela em largas passadas para tirar o
dinheiro de suas mãos.
Estava na caneca de cerveja. Quando caiu... Maggie parou, ao se dar
conta de que nenhum dos dois estava surpreso. Culley parecia pouco à
vontade... preocupado, quase. O brilho de excitação da descoberta sumiu
dos olhos verdes. Uma tensão aguda tomou conta dela, correndo por seus
terminais nervosos. Onde arranjou este dinheiro, papai?
Não é da sua conta. Evitou o olhar dela e enfiou o maço de dinheiro no
bolso.
Maggie se pôs de pé, um medo desconhecido roendo-lhe a boca do estômago.
É, sim. Quero saber como conseguiu tanto dinheiro.
O pai lançou um olhar para Culley, um brilho sigiloso dançando nos
olhos escuros.
Temos feito serviço extra falou, soando deliberadamente misterioso. Um
sorriso não chegou a aparecer no rosto do irmão, mas Maggie podia ver
que estavam partilhando de uma piada particular. Aquilo aumentou suas
suspeitas.
Está tentando dizer-me que ganhou todo esse dinheirão trabalhando para
outra pessoa? falou, sem acreditar neles. Quem? Quando? Vocês estiveram
aqui o tempo todo.
É trabalho noturno falou Culley, abrindo um amplo sorriso para o pai.
Trabalho noturno? Fazendo o quê? A inquietação dela crescia, enquanto
olhava de um para o outro.
E o que você acha que andamos fazendo, garotinha? desafiou o pai, com
um olhar atrevido.
Uma sensação horrível deixou-a gelada. O único pensamento que sua
cabeça estava evitando tornou-se o derradeiro. As pistas estavam todas
lá - trabalho noturno, uma grande quantia de dinheiro e o fato
amplamente conhecido de que alguém andava roubando o gado dos Calders.
Não se falava noutra coisa nas duas últimas semanas. E o pai sempre
dera um sorriso retorcido e satisfeito cada vez que o assunto era
discutido na sua frente.
Vocês... tiveram algo a ver com o gado que foi roubado? Maggie teve que
forçar a pergunta a sair, a voz seca e dura na acusação.
Uma expressão convencida tomou conta do rosto do pai.
Está olhando para o cérebro por trás de tudo.
98
Seus idiotas! Seus malucos idiotas! explodiu Maggie. Acham que vão sair
impunes?
Não nos pegaram nas três últimas vezes... e jamais nos vão pegar! O pai
esticou o corpo curto para chegar ao máximo de sua altura e empinou o
peito para frente.
Três? Maggie franziu o cenho. Mas só ouvi contar de...
É. Havia um sorriso malicioso no rosto do pai. Calder ainda não
descobriu o último. Este é o problema, quando se tem tanto. Leva tempo
para descobrir que há algo faltando.
Nós somos como dois mosquitos impertinentes aparteou Culley zumbindo e
mordendo-o onde ele não espera, dando mordidinhas aqui e mordidinhas
ali... até que não demora e ele está todo comido. Achou graça, e o pai
lhe fez companhia.
Maggie fitou-os, gelada até os ossos, e assustada, embora não deixasse
transparecer.
O que acontece quando ele fica com raiva, papai? O que acontece quando
você o morde tanto que ele sai atrás de você?
Como ele vai saber qual o mosquito que tem que acertar?
retrucou. Vai sair por aí, abanando a torto e a direito, mas nunca vai
poder provar nada.
Maggie sacudiu a cabeça devagar, sem acreditar.
Vocês tiveram foi sorte.
Sorte, uma ova! Fomos espertos! Tucker e eu bolamos a coisa e não há
margem de erro! vangloriou-se. Nem mesmo o cara para quem estamos
vendendo a carne sabe quem somos. Não podem chegar até nós. Até o
reboque troca de motorista, para que o sujeito que está fazendo a
entrega não saiba os nomes na outra extremidade.
Por que está agindo assim, papai? interpelou Maggie.
Por causa do Chase? Por causa do...
Calder teve tudo à sua moda nesta parte do país por tempo demais.
Chegou ao ponto em que acha que ele e os seus podem fazer de tudo sem
ser tocados... sem ter que pagar. Apertou a gente ao máximo, tomando a
melhor terra e a água, controlando o mercado para não obtermos preços
decentes para a nossa carne e mandando na gente como se fosse uma porra
de um rei! Angus curtia o seu papel de campeão dos oprimidos, David se
levantando para derrubar Golias. Vamo-nos vingar de Calder por todos! E
mal começamos!
Você tem que parar! insistiu Maggie, e vibrou com uma raiva que vinha
de um medo interior. Pare enquanto está ganhando, papai. Tem todo esse
dinheiro. É mais do que jamais tivemos. É o bastante. Já mostrou a
Calder... agora pare enquanto pode.
99
Não vamos parar. Vamos continuar tirando dos ricos e dando para os
pobres até que não sobre mais nada para tirar. Vamos arruinar Calder.
Não. Se não parar de roubar o gado, vou contar a Calder o que está
fazendo ameaçou Maggie.
Não, não vai. Sacudiu a cabeça, indiferente à ameaça. Não vai mandar
seu pai e seu irmão para a cadeia. No momento, está cega por Chase
Calder, mas vai chegar o dia em que verá como os Calders realmente são.
Acham que são tão grandes e poderosos que podem fazer o que quiser sem
que nada lhes aconteça. Mas não vão fazer... não enquanto houver um
O'Rourke por perto. Olhou para ela, depois meneou a cabeça
decisivamente. Fique de boca fechada sobre o que sabe.
O pai tinha razão. Fora uma ameaça vã. Não diria ao velho Calder ou a
Chase que o pai e o irmão tinham-se unido a Bob Tucker para roubar o
gado da Triplo C. Não podia denunciar a própria família.
É melhor ir botando o almoço na mesa avisou Angus, agora que silenciara
o argumento dela definitivamente. Trabalhamos a manhã inteira e temos
que ir encontrar Tucker na cidade para começar a estudar os detalhes de
onde vamos atacar na próxima vez.
Totalmente atordoada, Maggie preparou o almoço e botou-o na mesa para
eles. Não tinha apetite, somente beliscando a comida no prato. Enquanto
escutava as vozes confiantes do pai e do irmão, não havia dúvidas em
sua mente de que sua lealdade pertencia a eles, mas como poderia
encontrar Chase de novo, sabendo o que sabia? Se o visse e não
mencionasse nada, não se estaria tornando cúmplice do roubo? Porém, se
parasse de vê-lo, não ficaria desconfiado e se perguntaria o porquê?
Estava presa no meio, sem ter para onde escapar.
O roubo do gado significara muito trabalho extra na Fazenda Triplo C,
portanto fazia uma semana desde que o vira por dois minutos, o tempo
suficiente para Chase explicar por que não podia ficar. Quem sabe
também não ia aparecer amanhã à tarde, pensou Maggie, esperançosa.
Então quem sabe ela teria tempo para decidir qual o melhor meio de
lidar com a situação.
Mas ele estava lá esperando por ela, quando chegou no dia seguinte. O
cavalo dele pastava no prado pontilhado de flores silvestres, na parte
a que chamavam Broken Butte. Chase adiantou-se para encontrá-la, o
sorriso branco contrastando com o bronzeado das feições. Maggie parou o
cavalo um pouco afastada dele, e saltou da sela antes de dar-lhe uma
chance de ajudá-la a descer. Deixou as rédeas soltas no chão e deu uma
palmadinha no pescoço
100
do cavalo, sem olhar para Chase, quando veio a seu encontro, adiando o
momento em que teria que fitá-lo nos olhos.
Pensei que estaria ocupado demais para vir hoje. Deu-lhe uma abertura
imediata para dizer que tinha que ir embora.
Estamos ocupados, sim, mas não tão ocupados. Ele estava com uma das
mãos escondidas atrás das costas. Trouxe-a para frente, oferecendo-lhe
um buquê de flores silvestres. São para você, Maggie.
A garganta dela ficou apertada ao olhar para a coleção de cores vivas
seguras naquela mão grande e masculina. Estendeu a mão para elas,
hesitante, rodeando-lhes os caules com os dedos e levando-as ao rosto
para aspirar a fragrância silvestre.
Ninguém nunca me deu flores antes. Olhou para a intensidade escura dos
olhos dele, e sentiu uma dor por dentro.
A boca do rapaz estava levemente curvada.
Se algum dos rapazes me visse colhendo essas flores, cairiam todos no
meu pêlo.
Ela bem que podia imaginar o quanto o gozariam, se fosse visto fazendo
uma coisa tão abertamente romântica. Era difícil para ela imaginar esse
homem viril e forte colhendo flores. Tal sentimentalismo não parecia
combinar com a imagem de macheza.
Gosta delas? indagou Chase.
Gosto. Maggie acenou com a cabeça, incapaz de erguer o olhar do buquê,
as pontas dos dedos contornando de leve as pétalas acetinadas.
A ponta do dedo dele ergueu-lhe o queixo.
Então, que tal me agradecer? sugeriu.
O olhar da jovem não subiu além da boca do rapaz, as linhas firmes e
fortes vindo na sua direção. Sentiu-se tomada de uma necessidade
fervorosa de conhecer o esquecimento do seu abraço, a loucura
inebriante que seu beijo podia trazer. Não esperou que os lábios dele
completassem sua descida para buscar os dela. Em vez disso, jogou-se
nos braços dele, o buquê escorregando das mãos enquanto envolviam a
grossa coluna do pescoço dele. A boca moveu-se faminta,
desesperadamente, sobre a dele.
Estava buscando e exigindo, jogando-se contra ele com os lábios e o
corpo. Havia calor. Havia fogo. Havia aquele formigamento louco no
sexo. Mas não encontrou o alívio necessário para aquela sensação
persistente de duplicidade. A tira de aço dos braços e a pressão feroz
das mãos errantes dele tentaram absorvê-la no seu corpo, mas a
impossibilidade física de tal feito logo se fez sentir. Lentamente,
chorando por dentro, virou o rosto para longe dele e empurrou-lhe os
ombros.
101
As flores. Deixei cair as flores. Usou-as como desculpa para terminar
um abraço que preenchia todas as necessidades físicas e emocionais,
exceto uma.
Chase sentiu-se relutante em soltá-la porque pressentia que, de alguma
forma, falhara com ela. Beijou o local sensível na curva do seu
pescoço, sabendo como aquela carícia sempre a excitava, e sentiu os
arrepios subsequentes do estímulo, mas ela continuou a resistir.
Confuso com os sinais conflitantes, afrouxou o abraço e ela saiu
rapidamente dos seus braços, agachando-se para pegar as flores
dispersas. Quando se endireitou, estava de costas para ele, que começou
a massagear as pontas macias de seus ombros.
Senti falta de estar com você, Maggie. A voz era rouca e significativa.
Senti falta de você.
Eu sei. A cabeça dela estava inclinada, a expressão oculta aos olhos
dele. Também senti falta sua. Mas o tom da voz dela era deliberadamente
frívolo. No instante seguinte, estava-se afastando das mãos dele.
Obrigada pelas flores. São lindas.
Uma ruga abriu um sulco entre as sobrancelhas do rapaz, enquanto a
observava dirigir-se para um afloramento de rochas e sentar-se no chão
apoiada nele. Seguiu-a depois de alguns segundos, o olhar atento
examinando-lhe as feições lisas, sem expressão. Parou junto a seus pés,
agigantando-se a seu lado.
O que a está preocupando, Maggie?
Nada - insistiu, depois ergueu os olhos para ele. um tanto pensativa.
Quer fazer amor comigo, não quer?
Essa franqueza não era o que ele esperava, não que ela não fosse
geralmente objetiva em suas frases. Não podia negar a pergunta dela,
mas adivinhava que não era sexo que queria dele.
Sim, quero fazer amor com você. Sentou-se no chão ao lado dela. Mas não
se não for o que você quer que eu faça. Com as costas apoiadas na mesma
rocha, enlaçou-lhe a cintura com o braço e começou a puxá-la para si.
Venha cá.
Não, acho que não quero...
Sei que não quer. Chase adivinhou o que ela ia dizer. E não vou tentar
persuadi-la a mudar de ideia e deixar que a ame. Só o que quero é
abraçá-la. Pode ser?
Ela perscrutou o rosto dele por um instante, depois deixou que a
virasse de lado para deitar-se sobre seu peito. Chase tirou-lhe o
chapéu para que sua cabeça pudesse descansar no ombro dele, e alisou o
emaranhado de longos cachos negros. Ela estava com uma das mãos dobrada
junto à boca, enquanto a outra pousava de leve no peito dele. Podia
sentir a tensão no corpo da moça, e a segurava frouxamente, uma das
mãos apoiada no quadril e a outra na caixa torácica logo abaixo da
curva do seio.
102
Não tentou puxar conversa, simplesmente segurou-a nos braços. O sol
estava quente e uma brisa leve agitava o capim. Aos poucos, sentiu-a
relaxar de encontro a ele, como uma mola que se soltasse devagarinho.
Um contentamento tranquilo parecia tomar conta de ambos. Chase não
tinha ideia de quanto tempo ficou abraçado com ela daquele jeito; cinco
minutos ou 20. Os músculos dele estavam começando a ficar doloridos.
Logo estariam dormentes, se ele não se mexesse. Mudou ligeiramente de
posição, encostando o queixo no peito para olhar para ela. Maggie
estava de olhos fechados, os cílios longos e curvos unidos.
Está dormindo? murmurou.
Hmm-mm. Era um som de negativa. Pensando.
Em quê?
Uma mecha de cabelos pretos jazia sobre a face dela, e Chase empurrou-a
suavemente para junto das outras. Ela sorriu, quase com tristeza.
Não creio que você compreenderia.
Experimente.
Estava pensando - ela abriu os olhos devagar enquanto mudava de posição
nos seus braços, ficando com os dois ombros contra o peito dele e
fitando o céu aberto - que não vou ficar para sempre cozinhando e
arrumando e remendando roupas gastas para papai e meu irmão. Quando
acabar o colégio, vou embora da fazenda. Vou arranjar um emprego em
algum lugar e ter meu próprio canto... e roupas novas. As pessoas não
vão olhar para mim e estalar a língua dizendo: a pobrezinha não tem uma
coisa decente para usar. Imitou as palavras com um orgulho amargo. Vou
trabalhar e ser alguma coisa. E as minhas mãos não vão ter calosidades.
Vão ser macias, como as de uma dama. Parou para olhar para as mãos.
Suponho que isso pareça uma bobagem, para você.
Não, não parece bobagem. Chase sorriu de encontro ao cabelo dela,
aspirando o cheirinho de recém-lavado. É o tipo de sonho para o futuro
que quase todo o mundo tem. Ele não tinha, porque seu futuro fora
planejado para ele desde o dia do seu nascimento... tomar conta da
Fazenda Triplo C. Um homem não podia sonhar mais alto do que isso. Mas
raramente dá em alguma coisa. Você provavelmente se casará com um
vaqueiro e terá três filhos antes dos vinte anos.
As palavras o feriram como uma faca afiada ante a imagem de Maggie nos
braços de outro homem, a barriga inchada com o filho de outra pessoa. O
sentimento violento de ciúme pegou-o de surpresa. Desligou-se da
descoberta quando Maggie se retorceu iradamente e saiu dos seus braços,
pondo-se bruscamente de pé, os olhos verdes faiscando.
103
Não! Explodiu numa fúria desenfreada que fez Chase se levantar. Não
vou-me casar com um vaqueiro miserável e viver desse jeito o resto da
minha vida! Não vou ser como a minha mãe, existindo de sonhos e
promessas quebradas! Não vou! Está-me ouvindo?!! Os punhos cerrados
socaram-lhe o peito para enfatizar as palavras. Vou ser alguém! E
ninguém vai-me deter! Não vou permitir!
Ei, acredito em você. Chase segurou-lhe as mãos, espantado com sua
veemência. O sorriso dele era de admiração e respeito. Porém Maggie
percebeu a inflexão de riso na sua voz e olhou feio para ele,
desafiando-o a rir dela. Acredito em você, Maggie repetiu Chase, desta
vez sem a inflexão. Por falar nisso acrescentou com secura e ironia
sinto pena de qualquer um que tente interpor-se entre você e o que
deseja.
A raiva dela sumiu, mas a determinação permaneceu.
Não sou como meu pai, Chase. Não sou absolutamente como ele. E não sou
fraca e passiva como minha mãe.
Estou convencido de que não há ninguém como você declarou ele, e soltou
as mãos dela para enterrar os dedos nos seus cabelos. Inclinando a
cabeça, beijou-lhe a boca. Com pressão persuasiva, forçou-a a abrir-se,
enquanto segurava a ponta empinada do seio dela na palma da mão.
Depois disso, seguiu-se uma progressão natural de acontecimentos e logo
estavam no chão de novo, a barreira das roupas sendo derrubada com
facilidade consumada. Alisaram, acariciaram, exigiram e excitaram-se
mutuamente, depois fundiram-se numa união apaixonada que não deixou
sombras entre eles, mentais ou de outro tipo.
Desta vez foi mais difícil para Chase deixá-la, e não podia dizer por
quê. Insistiu em acompanhá-la até parte do caminho. Havia um local onde
poderia cortar caminho retomando sua rota original.
Ninguém vai perguntar aonde você foi? quis saber Maggie, enquanto ele
conduzia o cavalo dela pela grama, ao lado do dele.
Podem perguntar, mas Buck me dará cobertura tranquilizou-a Chase. Vamos
trazer um rebanho do pasto adjacente a este aqui para o Broken Butte.
Por quê? O comentário despertou uma curiosidade superficial. Nessa
época do ano, o pasto de verão era geralmente estabelecido para um
rebanho.
Para afastá-lo da estrada principal, onde seria fácil demais para os
ladrões de gado chegarem até ele replicou.
Ah. Olhava direto para frente, dando-se conta de que inadvertidamente
obtivera uma informação importante. Prendeu o
104
lábio entre os dentes, a boca seca. Tem alguma ideia de quem está
roubando seu gado?
Não. Se tivéssemos, nós os deteríamos. Mas eles vão descobrir que agora
a coisa não é mais tão fácil declarou Chase, confiante.
Porque estão mudando o gado de lugar concluiu Maggie. Um sentimento de
culpa fez com que tentasse fazer os O'Rourkes parecerem inocentes. Quem
sabe eu devia falar com papai para mudar o nosso rebanho de lugar, para
o caso de resolverem deixálos em paz e roubar a gente.
Pode ser uma boa ideia. Com ladrões agindo na área, vocês deveriam
tomar algumas precauções advertiu Chase.
Tem razão concordou, esperando que ele não notasse o tremor nervoso na
sua voz.
A maior parte das flores silvestres murchou durante a longa cavalgada
até em casa. Maggie colocou as frescas num vasinho e botou-as na mesa.
O pai as notou logo que se sentou para o jantar. Olhou-a com
curiosidade enquanto ela lhe passava a travessa de carne.
Qual é a ocasião especial?
Nenhuma respondeu numa voz calma e serena. Não estava disposta a
contar-lhe que eram as primeiras flores que um homem lhe dera, não
quando aquele homem era Chase Calder. Achei que ficaria bonito.
Esteve com ele hoje adivinhou o pai.
Maggie sabia que não havia deixado escapar nada, no entanto podia ver a
certeza nos olhos do pai todas as vezes que voltava de um encontro com
Chase. O que havia de diferente nela depois de estar com Chase?
Estive.
O que falou para ele? perguntou, passando a carne para Culley.
Nada.
A satisfação recurvou a boca do pai.
Ele falou alguma coisa sobre o gado que foi roubado?
Só que não sabem quem é o ladrão admitiu, servindo-se das batatas.
O'Rourke riu, com alegria exultante.
Não lhe disse!
Papai, não vai ser tão fácil daqui para frente protestou Maggie. Eles
estão mudando os rebanhos de lugar.
Ele ficou sério e lançou-lhe um olhar esperto.
Para onde?
105
Não sei. Chase só mencionou que iam mudar um dos rebanhos para o pasto
de Broken Butte, para longe das estradas principais informou-lhe, com
uma ruga de preocupação na testa. Vai ser arriscado demais você tentar
alguma coisa.
Mas ele não estava prestando atenção a ela. Estava concentrado em
Culley.
Quem sabe eu e você devamos ir à cidade tomar uns drinques, hoje à
noite. Tucker pode nos fazer companhia, depois que fechar o café.
Talvez devamos modificar um pouco os nossos planos. Parece que me estou
lembrando de uma estrada secundária que não é mais usada. Passa bem
junto de Broken Butte.
Os olhos do irmão brilharam, um verde endiabrado.
Seria ótimo se atacássemos um rebanho que eles pensavam estar seguro,
não é?
Só seria disse o pai, com amplo sorriso. Maggie fitou-os.
Vocês estão malucos! Todos os dois! Não sei por que me importaria se os
apanhassem ou não!
Contudo, ela se importava, porque eles eram a sua família. Os laços
sanguíneos não se partiam por causa de uma coisa certa ou errada.
Uma dúzia de homens estava reunida em volta da escrivaninha maciça do
escritório, a atenção fixa em Webb Calder, parado diante de um grande
mapa na parede. Chase estava sentado com um quadril no canto da mesa,
inclinando a cabeça para acender uma cigarrilha com a chama de um
fósforo.
A começar de hoje, vamos patrulhar todas as estradas da fazenda
anunciou Webb. Isso quer dizer cada estrada principal, estrada
secundária e estrada lateral. Dividimos a fazenda em oito setores e
bolamos um esquema que cobrirá todas as estradas. Destacou um setor
para cada homem e esboçou a rota individual para cada um. Quando ficou
satisfeito que as rotas tinham sido compreendidas, continuou com as
instruções gerais. Quero as pick-ups movendo-se constantemente, sem
parar para tirar um cochilo... só para abastecer. Quando falo em não
parar, é isso mesmo que estou dizendo. Se vocês acham que vão precisar
urinar, então levem uma lata com vocês. E variem o padrão... da
esquerda para a direita uma vez, da direita para a esquerda da outra.
Não quero que nenhum semi-reboque possa prever quando vão passar num
dado local e entre e saia enquanto estão longe. Compreenderam?
As cabeças balançaram, em silêncio. Alguém do fundo do circulo
perguntou:
106
E o que acontece quando a gente vir alguma coisa? O que devemos fazer?
Torço para que não vá lá dar um beijo neles declarou Webb, com um meio
sorriso que provocou risadas discretas.
Acho que o que quero saber é como vamos deixar os outros saberem?
esclareceu o homem.
Infelizmente não somos equipados com rádios, embora algum dia, quem
sabe... declarou Webb. Bill... Bill Vernon... identificou o gerente-
guarda-livros do depósito pelo nome todo já providenciou para que todos
os veículos tenham uma pistola sinalizadora. Se virem alguma coisa de
suspeito, disparem-na para o ar. O resto de nós virá.
E enquanto não chegam? perguntou um outro vaqueiro.
Enquanto não chegamos... todos vocês têm fuzis. Webb lançou um olhar
pelo semicírculo de homens. Passem no armazém antes de partir e Bill
Vernon lhes dará um suprimento de munição. Façam o que for necessário
para mantê-los ali até chegar auxílio.
Quer dizer, atirar nos pneus?
Se é só nisso que tem peito para atirar retrucou Webb, e fitou com um
olhar duro o sujeito que fizera a pergunta. A seguir, correu os olhos
pelo restante deles. Mais alguma pergunta?
Os homens se entreolharam, o silêncio aumentando. Chase examinou os
seus rostos. Todos estavam sérios, mas havia um certo brilho no olhar
deles. Ardia neles como uma febre contagiosa, porque ali estava uma
coisa fora da rotina normal do trabalho algo que continha um elemento
de perigo e excitação, algo que todo vaqueiro que se preza curte.
Muito bem. Todos os que receberam uma patrulha, podem se pôr a caminho
ordenou Webb. Os outros ficarão aqui com Nate, Virg e o resto de nós
disse, incluindo Chase com o olhar. Um sorriso irónico enviesou-lhe a
boca. Seremos a cavalaria, chegando justo em cima da hora.
Com um breve aceno de cabeça, dispensou-os. Chase ficou, enquanto os
outros saíam em grupo da sala, falando baixo entre si, mas sem sinal de
desaprovação ou desacordo nas vozes. Chase olhou para o pai, que se
sentara atrás da escrivaninha.
Acha que vai dar certo?
Webb ergueu uma sobrancelha e deu de ombros.
Juntando as patrulhas e a mudança do gado de lugar, deve dar. Os
ladrões são basicamente uns preguiçosos. Servem-se do que está à mão.
Se é arriscado ou difícil de obter, tendem a passar adiante para algo
que seja mais fácil. São alérgicos ao trabalho,
107
ou não estariam roubando. Meu palpite é que se mudarão para um clima
mais ameno para eles.
Espero que tenha razão disse Chase, endireitando o corpo.
Eu também. Não podemos continuar perdendo gado replicou o pai, com ar
sombrio.
108
Capítulo X
Depois disso, vai ser moleza insistia o pai enquanto Maggie continuava
a fitá-lo, assombrada, sem conseguir acreditar no que ele lhe estava
pedindo. Carregaremos os cavalos no reboque para cavalos e partiremos
numa direção. O semi-reboque partirá na outra com o gado.
Não pode esperar que eu concorde com isso, quando sabe como me sinto
protestou ela.
Broken Butte é uma terra irregular lembrou o pai. O gado estará
espalhado ao longo da base do morro. Vai levar tempo para reuni-lo, a
não ser que tenhamos um terceiro cavaleiro para ajudar. Se você vier
conosco, podemos entrar e sair rapidamente. Se não vier, Culley e eu
poderemos ficar ali tempo demais.
Então, não vá argumentou Maggie. Ou faça Tucker montar com vocês e
fazer jus à "parte que está recebendo.
Ele não pode. Tem que viajar junto com o motorista para mostrar-lhe
onde se encontrar conosco para pegar o gado explicou. Não é fácil achar
o caminho, quando se está guiando de farol apagado. Não, Tucker tem que
ir com o semi-reboque para ficarmos dentro do horário. Você vem, ou
não? O pai fez uma pausa, depois acrescentou: Se não vier, vamos correr
o risco sem você.
Ela podia ver a determinação implacável no rosto dele, e no de Culley
também. Deu-lhes as costas parcialmente, esfregando os braços de
agitação e incerteza.
Não há dificuldade alguma assegurou Culley. Você só agrupa um pouco de
gado e o conduz para dentro do caminhão. Eu também fiquei nervoso da
primeira vez, mas é fácil, Maggie. Juro.
Ela teve vontade de rir, mas não pôde.
109
Quando? perguntou, olhando para o pai.
Esta noite declarou, e Maggie ficou rígida, porque não lhe estavam
dando uma chance de pensar no assunto. Sairemos daqui por volta de duas
da madrugada, o que nos dá tempo para umas duas horas de sono antes de
termos que nos mandar.
Isso não é justo, papai. Estava zangada com ele. Você esperou
deliberadamente até o último minuto antes de me chamar para ir com
vocês.
Você é igual a qualquer mulher. Se eu lhe tivesse pedido mais cedo,
teria ficado remoendo o assunto e se preocupando. Sua imaginação teria
ido longe raciocinou.
Não irei! Não há nada que você possa dizer que me faça mudar de ideia!
Nunca! Saiu violentamente da sala, recusando-se a ser manobrada para
fazer uma coisa que sabia ser errada. Achava-se com raiva porque estava
com medo... medo pelo irmão. Por causa de Chase, não podia partilhar do
ódio irracional do pai pelos Calders, mas aquilo não diminuía o medo
pela segurança da sua família. Maggie correu para o quarto.
Bateram à porta do quarto, e Maggie virou-se de frente para ela. Ainda
fervendo, adivinhou que era o irmão. O pai não iria aparecer para
acalmá-la ou tentar consertar seu gesto, não quando ela se rebelara
contra sua autoridade.
Entre. A permissão foi abrupta e seca, e ela deu as costas para a
porta. Esta se abriu.
Sou eu... Culley. O rapaz entrou no quarto pequeno, de teto baixo, um
acréscimo feito de improviso no lado da casa.
Mal havia lugar para uma cama de solteiro e uma cómoda, e o espaço para
caminhar entre elas. Uma das paredes ainda era a parede exterior
original. Ele se aproximou dela e hesitou.
Não fique chateada sobre hoje à noite, Maggie. Não precisa ter medo por
nós. Nada vai acontecer.
Estou com raiva. Estou uma fera. Estou chateada. Mas também estou com
medo. O que vocês estão fazendo é uma burrice. Vão ser apanhados.
Não, não vamos. Já o fizemos antes e nada nos aconteceu. Vamos fazê-lo
de novo prometeu o rapaz.
Ah, Culley. Ele estava tentando tranquilizá-la, mas não da maneira que
ela precisava. Maggie virou a cabeça para o lado para trazê-lo para
dentro do seu raio de visão. É uma loucura. Você sabe.
Você só pensa assim porque Chase Calder virou sua cabeça. Você não está
enxergando direito, ou veria que estamos dando aos Calders o sofrimento
que merecem.
Você não conhece Chase. Não podia aceitar essa condenação global dos
Calders. Ele me trata bem, Culley. Colhe flores
110
para mim. Às vezes apenas conversamos sobre todo o tipo de coisas e ele
me abraça. Faz com que eu me sinta bem, Culley. Tentou fazer com que o
irmão compreendesse. Como se eu fosse alguém especial.
Isso não vai dar em nada, Maggie. Não está vendo? argumentou Culley.
Ele só a está usando agora... então claro que a trata bem. Mas, e
depois? O que vai acontecer se você ficar grávida?
Ele toma cuidado disse ela, desviando o olhar.
E se isso não bastar, quem vai passar a vergonha? Pode apostar que não
vai ser ele. Vai até alegar que não a conhece. Culley podia ver que ela
não estava ligando para os seus argumentos, e soltou um grande suspiro.
Escute, ele por acaso a leva a algum lugar? Já teve um encontro de
verdade com ele? Não! Ele próprio respondeu à pergunta. Porque não quer
ser visto com você. Então, combina encontrar-se com você, toma o que
deseja, e a manda para casa. Você diz que ele é bonzinho para você, mas
será esse o modo como trataria uma garota que ele acha que é
respeitável e decente?
As perguntas dele tocaram no nervo de emoções já sensíveis. Antes que
se desse conta do que estava fazendo, sua mão arqueou-se e esbofeteou-
lhe o rosto. O contato fê-lo girar a cabeça, e Culley voltou-a ao lugar
vagarosamente. Maggie fitou com pesar a marca branca na sua face, que
estava aos poucos ficando vermelha. Mordeu o lábio, incapaz de pedir
desculpas.
Então, Culley pediu.
Desculpe. Não foi minha intenção aborrecê-la. Olhou-a com tristes olhos
verdes. É melhor você ir dormir um pouco.
Os olhos dela arderam com lágrimas não vertidas, enquanto ele se virava
e saía do quarto. Com gestos zangados, enxugou os cílios e começou a
arrancar as roupas para ir para a cama. Sabia que a preocupação a
impediria de dormir. Não teria um minuto de descanso até que Culley e o
pai voltassem de sua aventura noturna... se é que voltariam.
Estava escuro como breu..As formas eram apenas distinguíveis pelos
graus variáveis de escuridão. Um céu coberto de nuvens ocultava as
estrelas. Se havia Lua, Culley não a tinha visto. Todos os seus
sentidos estavam aguçados ao máximo, amplificando o bater combinado dos
cascos dos cavalos que trotavam e do gado para um bater de tambor muito
alto. O tinir de freios e esporas e o gemer do couro de sela competia
com o respirar arquejante dos cavalos em movimento e os mugidos de
protesto do gado. Culley olhou para o lado, tentando identificar a
figura do pai
111
contra a paisagem escurecida pela noite. Era uma forma indistinta e
irregular, delineada brevemente, depois fundindo-se à paisagem.
A alguma distância deles, à frente, um motor diesel roncava impaciente
onde o semi-reboque esperava para carregar o gado que estavam
conduzindo. Ele o havia ouvido chegar e manobrar em posição não fazia
10 minutos, o seu ronco estilhaçando a quietude da noite. Culley tinha
certeza de que estavam fazendo barulho suficiente para acordar o Estado
inteiro.
Parecia que estavam ali há uma eternidade, mas Culley sabia que a
passagem aparentemente lenta do tempo era outro exagero dos seus
nervos. Quando chegaram, haviam-se espalhado em leque, rapidamente,
tocando o gado que encontravam para o centro até terem reunido esse
grupo. Era o nervoso da culpa que dera esse nó nauseante que sentia no
estômago. Não havia propriamente medo, embora pudesse ouvir o martelar
do coração bombeando adrenalina por todo o organismo.
Seu olhar constantemente em movimento viu a forma preta retangular do
semi-reboque delineada pela escuridão menos densa da estrada. Estavam
quase lá. O alívio inundou-o, na certeza de que sua provação já tinha
quase acabado. Baixou a guarda por um instante. O cavalo tropeçou,
jogando seu corpo relaxado contra o arção dianteiro antes que pudesse
endireitar-se. O coração subiulhe violentamente à garganta e ficou lá
mesmo depois do cavalo ter se recuperado.
Um par de luzes fortes apareceu na sua visão periférica. Um alarme
tocou na sua cabeça enquanto voltava bruscamente o olhar para
identificar a fonte das luzes. Um dedo gelado de medo correulhe pela
espinha.
Papai, vem vindo uma pick-up pela estrada! falou, com voz forte e clara.
Não havia tempo para entrar em pânico, só para reagir. Sua advertência
mal fora dada, quando um assobio e um berro vieram da direção onde
Culley imaginava que o pai estivesse. Aquilo fez o gado disparar, e o
cavalo dele começou a galopar para acompanhar-lhes a fuga. Estavam a
menos de 30 metros do semi-reboque quando foram descobertos, a operação
se transformando numa confusão dos diabos.
O solo vibrava com o estrondo dos cascos em disparada, e o ar estava
cheio de gritos e dos mugidos do gado assustado. Lá em cima, o céu
explodiu em luzes, e Culley viu a abertura preta do reboque escancarar-
se à sua frente. Então, seus ouvidos ficaram surdos com o disparo de um
tiro de fuzil. Chicoteou o cavalo com as pontas das rédeas, a mente
vazia de qualquer pensamento consciente, operando agora por puro
instinto. O céu artificialmente
112
iluminado permitiu que Culley visse o pai correndo com ele pelo longo
trecho de chão aberto.
Tirem o reboque para cavalos daqui! o pai berrou para Tucker e para o
motorista. Nós vamos viajar no caminhão de gado!
Culley se deu conta de que não havia tempo de carregar os cavalos se
estavam esperando fugir. Viu de relance a forma maciça de Tucker
correndo para a camioneta e o reboque para cavalos estacionados na
estrada, o semi-reboque dobrado em dois ocultando-os de vista.
Explosões vermelhas de luz pontuavam os tiros de fuzil sendo trocados
entre a pick-up e o semi-reboque. Um dos faróis da pick-up já estava
apagado, o outro facho de luz iluminando os lados do longo reboque para
animais, todos feitos de tabuinhas.
Algumas das reses desviaram-se da abertura negra do reboque e da porta
abaixada que fazia as vezes de rampa. O resto disparou para dentro
dela, os cascos batendo ruidosamente no piso do reboque. O cavalo do
pai subiu rampa acima, na frente de Culley. O pai fez um gesto ao rapaz
para segui-lo, mas o novilho que corria ao lado de Culley refugou ao
ver a rampa, e deu um encontrão no cavalo dele. A montaria bateu com o
flanco numa estaca da cerca, mas mesmo assim conseguiu manter o
equilíbrio. Culley ignorou o raspar da sela contra o poste da cerca,
enquanto instigava seu animal a seguir o do pai, entrando na negra
confusão que se processava dentro do reboque.
O gado estava tentando sair pela abertura, mugindo em pânico, o ruído
dos cascos misturando-se aos relinchos assustados dos cavalos. Os
animais tontos viraram o cavalo de Culley de lado, bloqueando
eficazmente o caminho e fazendo com que as vacas voltassem atrás. O
rapaz tinha consciência do zunir das balas e dos tiros de fuzil, mas
sua atenção estava concentrada em controlar sua montaria que pinoteava
e semi-empinava incansavelmente. Nalgum lugar da escuridão do reboque,
escutou o pai praguejando. Parte dele sabia que, se qualquer um dos
dois caísse, seria pisoteado até a morte.
Cubra-me! uma voz gritou ao lado da abertura que Culley bloqueava.
Olhou para baixo e viu um estranho que lhe jogava um fuzil, o cano de
metal brilhando brevemente à luz do farol. Com um reflexo relâmpago
conseguiu agarrar a arma com uma só mão. O homem deixou a proteção do
lado do reboque para levantar a parte traseira que tinham usado como
rampa, expondo-se desse modo ao fogo de fuzil da pick-up.
Chutando e puxando, Culley forçou seu cavalo a emparelhar com a parede
do reboque. Animais assustados batiam nas suas
113
pernas, e ele deu com o joelho dolorosamente contra o lado do reboque.
Espremido contra o lado pelas vacas. Culley enfiou a boca do fuzil por
uma das aberturas entre as tabuinhas e mirou o farol da pick-up. Depois
do primeiro coice da coronha do fuzil contra o ombro, ficou indiferente
à dor enquanto fazia chover balas no capo da camioneta. Podia estar
atirando num coiote, de tal maneira estava conscientemente desligado do
que fazia. A autopreservação ditava-lhe os gestos.
O aceleramento do motor a diesel foi seguido por uma mudança de marchas
que sacudiu o reboque. O cavalo dele se agachou e Culley teve que se
agarrar ao arção de sela enquanto o cavalo se mexia desesperadamente
debaixo dele para conseguir manter o equilíbrio no veículo em
movimento. Uma bala acertou uma tábua perto da sua cabeça,
estilhaçando-a. Outro tiro e algo desabou no piso do caminhão com um
baque surdo. O medo correu-lhe pelas veias. Podia ter sido seu pai quem
caíra.
Papai?
Estou bem. A resposta do pai continha apenas um débil eco de sua antiga
confiança. Derrubaram uma das vacas.
O semi-reboque descia rapidamente a estrada, e não havia mais sons de
disparos. Culley forçou os olhos, mas não podia ver nenhum veículo no
seu encalço. Iam conseguir escapar, afinal. Por um momento, lá atrás,
pensara que Maggie iria ter razão. Até este minuto, não estivera certo
de que teriam êxito na sua fuga. O mesmo pensamento pareceu ocorrer ao
pai, enquanto ria.
Conseguimos, Culley! declarou Angus, triunfante. Tentaram surpreender-
nos com aquela patrulha, mas passamos a perna neles e demos no pé
direitinho!
É. A princípio estava hesitante na sua concordância, depois adquiriu
confiança com uma crescente sensação de vitória. É, foi mesmo! E soltou
um grito que deixou o gado indócil de novo.
A euforia não demorou muito, pois a reação começou, e o rapaz se pôs a
tremer incontrolavelmente. Era uma combinação da proximidade do seu
encontro com o perigo e mais sua atuação que ajudara na fuga. E se
tivesse atingido alguém? Era verdade que não estivera apontando para um
alvo humano, mas uma bala poderia ter ricocheteado. Era uma
possibilidade muito real.
Ficou sentado no seu cavalo em estado de choque, malconsciente dos
ruídos característicos do caminhão enquanto diminuía a velocidade.
Finalmente parou, o motor a diesel ainda ligado, enquanto a porta da
boleia batia. Bateram na porta traseira.
Estão bem aí dentro? perguntou a voz de Tucker.
Estamos jóia! replicou o pai, mas Culley sentia-se muito abalado.
114
Aguentem firme. Vamos tirá-los daí.
O gado se mexeu enquanto o pai veio trazendo o seu cavalo com cuidado
até a traseira do caminhão. O cavalo de Culley levantou as orelhas e
soltou um bufido ante o barulho da porta sendo baixada. O corpanzil de
Bob Tucker estava na abertura para afastar as vacas. Enquanto o pai
descia, Culley esperava. Depois, instou seu cavalo a fazer o mesmo. Não
tinha consciência de que ainda estava firmemente agarrado ao fuzil, até
que o motorista do caminhão estendeu a mão para a arma.
Agora pode devolver-me o fuzil. Fez um bom trabalho em mantê-lo
imobilizado, garoto. O rosto do homem estava nas sombras, mas Culley
percebeu o lampejo dos dentes brancos, quando ele sorriu e tirou o
fuzil dos seus dedos duros.
Não acertei nele, não é? perguntou Culley, com voz rouca.
Não. O homem sacudiu a cabeça, com firmeza. Estava deitado na vala ao
lado da estrada, mas você desarranjou a pick-up dele.
Quanto ao semi-reboque, algum dano? indagou Tucker do motorista.
Fez um buraco em dois pneus, mas eu dou um jeito falou, e ajudou o
homenzarrão a prender a porta traseira.
Haviam parado numa bifurcação na estrada secundária, o semi-reboque de
gado apontado numa direção e a pick-up e o reboque para cavalos virado
para outra. Culley desmontou para ajudar o pai com os cavalos. Acabaram
enquanto o semi-reboque se afastava, descendo sua estrada com a viagem
de uma noite ainda por fazer. O trabalho deles tinha acabado, e pegaram
a outra estrada que ia dar em casa.
Sem conseguir dormir, Maggie finalmente desistiu de tentar. Levantou-se
e vestiu-se, foi para a cozinha fazer um bule de café, embora não
precisasse do estimulante para mantê-la acordada durante a longa
vigília.
O bule estava quase vazio quando ouviu o barulho da pick-up e do
reboque para cavalos entrando no pátio da fazenda. Um estremecimento de
alívio a percorreu ao ver que tinham voltado em segurança. Abriu a
porta da frente e foi lá para fora. Não viu o pai imediatamente na
escuridão do pátio, mas Culley estava tirando os cavalos do reboque.
Estão bem? perguntou.
Não graças a você. O pai apareceu vindo do outro lado do reboque, para
pegar as rédeas do cavalo. Por que não nos contou que Calder tinha
posto patrulhas?
115
Oh, não! Não era nenhum conforto ver que tinha motivos para se
preocupar. Eu não sabia. Chase não as tinha mencionado. Se tivesse, ela
se teria esforçado mais para impedi-los de ir. O que aconteceu?
Quase nos pegaram... foi isso o que aconteceu! retrucou o pai.
Viram vocês? Reconheceram vocês? As perguntas dela pareciam disparos de
fuzil, quando emparelhou com o pai e o irmão que iam tirar as selas dos
animais e soltá-los no curral. O olhar dela ficava se desviando para
Culley, que não havia feito um único comentário, mas não podia ler o
que havia na sua expressão nublada.
Não. Não chegaram perto da gente para poder dar uma boa espiada, não
com todo aquele tiroteio. Novamente, foi o pai que respondeu.
Tiroteio? Alguém se machucou? indagou, pensando imediatamente em Chase.
Não. Ninguém teve um arranhão jactou-se o pai. Tentaram nos
surpreender, mas não deu certo. Escapamos... e com o gado. Dois
minutos, se tivéssemos tido mais dois minutos poderíamos ter carregado
o semi-reboque e ido embora sem que eles sequer soubessem que tínhamos
estado lá. Poderíamos ter feito isso, se você tivesse vindo junto,
Maggie. Se alguma coisa nos tivesse acontecido hoje, teria sido culpa
sua por não ter vindo conosco e nos dar a vantagem de um terceiro
cavaleiro.
O'Rourke já tinha arranjado uma justificativa para o susto de hoje.
Estava pondo a culpa em Maggie. Ela resistiu à culpa que o pai tentava
botar nela, reconhecendo a tentativa pelo que era realmente outra das
suas desculpas pelo fracasso mas não era fácil.
Quando chegaram ao curral, Angus entregou a Maggie as rédeas do seu
cavalo.
Tire a sela dele para mim ordenou. Vou soltar o reboque.
Não discutiu. Enquanto o pai se afastava, lançou um olhar ao irmão, que
tirava, calado, a sela do seu cavalo.
E o que vai acontecer agora, Culley? Maggie deliberadamente evitara
fazer tal pergunta ao pai. Vindo dela, ele a teria considerado má-
criação. Ele finalmente vai dar a coisa por encerrada?
Vamos ficar na moita por uns tempos... até a coisa esfriar.
Tiveram sorte, hoje lembrou ela. Da próxima vez, poderão ser
reconhecidos.
Mas também pode ser que não. Culley deu de ombros e tirou a sela do seu
cavalo e pousou-a no chão.
116
Depois que os animais tinham sido largados no curral, eles levaram as
selas e o equipamento para o estábulo. Maggie estava ajustando a sela
do pai no descanso de madeira para selas, quando notou que Culley
fitava sua sela.
O que foi? Adiantou-se para ver o que ele estava olhando.
Está faltando uma roseta. Apontou para o pedaço redondo de couro novo
onde estivera preso o ornamento. Deve ter sido arrancada quando meu
cavalo raspou contra o poste da cerca. E se a encontrarem, Maggie?
Ela sabia o que ele estava pensando. Era prova de que tinha estado no
local.
Pode deixar que eu a apanho para você prometeu.
A estrada diante da porteira que dava para o Broken Butte estava cheia
de veículos estacionados, na manhã seguinte. Todos eles pertenciam à
Fazenda Triplo C, exceto o carro do xerife. No pasto cercado, os
cavaleiros estavam reunindo o restante do rebanho para fazer uma
contagem da perda. Noutra parte, uma corrente estava sendo amarrada à
camioneta atingida pra que pudesse ser rebocada para a garagem da
estância, onde seria consertada. O Xerife Potter, um homem com cara
aflita num uniforme muito bem engomado, estava a um canto conversando
com Slim Bevins, o homem que surpreendera os ladrões. O trio com ar
severo que estava à sombra de um dos reboques para cavalos era formado
por Webb Calder, Nate Moore e Virg Haskell.
Quase os pegamos resmungava Virg. Se Slim tivesse conseguido detê-los
mais uns quinze minutos, seu plano teria dado certo.
Quase não conta, Virg replicou Webb.
Sejam quem for esses ladrões, conhecem o local observou Nate. Ou
vasculharam o lugar bem à beça, ou são gente daqui. Esta estrada não
fica em nenhum mapa. E não parece mais do que um par de sulcos onde se
junta com a outra.
São espertos declarou Virg.
Não podem ser muito espertos negou Webb ou teriam imaginado que
estaríamos patrulhando as estradas e tínhamos alguém de vigia. Lançou
um olhar a Nate. Mas você está certo quanto a uma coisa, Nate. Somente
alguém que já esteve nessa estrada antes saberia que não é abandonada.
É inteiramente possível que haja algum morador local trabalhando com
esse bando. O problema é... quem?
Nenhum dos três quis dar palpites. A discussão não foi continuada
quando Webb notou que o Xerife Potter vinha cruzando a estrada na sua
direção. O homem baixo e de quadris largos andava com passos pequenos e
sacudidos, como se os pés lhe doessem. Não era homem de se esforçar
demais, acreditando firmemente que as coisas se acabavam resolvendo por
si mesmas, se não houvesse interferência. Não era nem incompetente nem
desonesto, mas tinha sua quedazinha para a preguiça.
Falei com o seu homem, Webb declarou, enquanto parava afetadamente para
completar o círculo formado parcialmente pelos três homens. Não há mais
nada para nos basearmos do que já havia antes. O solo está revolvido
demais para deixar marcas de pneus que sirvam para alguma coisa. As
balas que tiramos da camioneta não vão poder dizer-nos nada. São do
tipo comum, trinta-trinta. Todo homem no Estado de Montana tem um fuzil
de caça. Sem número da placa, sem uma descrição que sirva para alguma
coisa, eu diria que ainda estamos na estaca zero. Mas... o xerife se
animou, pelo menos até onde sua expressão cansada o permitiu acho que
você lhes deu um susto dos bons, surpreendendo-os daquele jeito. Estou
certo de que não voltarão.
Espero que tenha razão, Potter. Obrigado por ter vindo pessoalmente.
Webb apertou a mão frouxa do homem.
É o meu trabalho, Webb respondeu, dando de ombros e caminhando com
passos incertos para o carro.
E o que acontecerá, se voltarem? resmungou Nate, para as costas do
xerife.
Houve um lampejo de divertimento nos olhos escuros de Webb antes que se
voltassem para o rosto cansado e abatido de Slim Bevins, que ainda não
dormira nem um pouco. Depois que o xerife se foi, ele atravessou a
estrada para unir-se a eles. Sua expressão ainda era de quem pedia
desculpas, sem conseguir livrarse da sensação de que desapontara o
patrão.
Desculpe eu não poder ajudar mais desculpou-se ele com Webb, e não pela
primeira vez. Tudo aconteceu tão depressa que não pude dar uma boa
olhada em nada ou ninguém. Os cavaleiros estavam debruçados sobre as
selas de tal jeito que não pude ver se eram altos ou baixos, magros ou
gordos. Só o que vi ao certo é que eram dois, mais o motorista e outro
grandalhão. O reboque era um caminhão para gado comum, e não enxerguei
nada escrito na boleia. Se havia placa, estava toda coberta de lama
suspirou, e balançou a cabeça. Teve uma faora em que havia tanto chumbo
voando pelos ares que pensei que estava no meio de um tiroteio de filme
bangue-bangue.
Você fez o melhor que pôde, dadas as circunstâncias. Não peço a um
homem mais do que isso. Mas Webb estava consciente da frustração que
sentia ante a falta de informações que o homem oferecia.
118
Tem certeza de que não há nada, Slim? insistiu Virg Haskell. Nenhum
deles chamou o outro pelo nome?
Não. O homem se mexeu, inquieto e mordiscou a parte interna do lábio.
Havia algo de familiar na voz de um dos sujeitos.
Quer dizer que já a ouviu antes? indagou Webb, olhos fitos nele.
Bem, parecia um pouco com... Angus O'Rourke admitiu Slim, finalmente.
Tem certeza? Havia uma quietude de aço na voz de Webb.
O problema é esse suspirou o vaqueiro. Não tenho certeza. Foi por isso
que não falei nada antes. Que diabo, poderia ter sido a voz de qualquer
um.
Depois da negativa, Webb virou-se para o homem à sua direita.
Leve Slim de volta para a sede, para ele dormir um pouco. E Virg, avise
a Ruth que provavelmente não estarei em casa para o almoço antes da uma.
Direi a ela. Virg acenou com a cabeça e se dirigiu para uma das
camionetas estacionadas, com Slim Bevins vindo um passo atrás dele.
A mim está parecendo que você também podia dormir um pouco. Nate correu
um olhar crítico pelos vincos vívidos no rosto de Webb. Se é que já
esqueceu, você também passou toda a noite acordado.
Já fiquei sem dormir antes retrucou Webb.
É, mas não estava quase na casa dos cinquenta quando o fez ressaltou
Nate.
Qual é, Nate? Webb lançou um olhar seco e irónico na direção do
capataz. Quer que eu o mande de volta para o alojamento para dormir um
pouco? Você também passou a noite inteira acordado, e está bem junto de
mim, chegando ao meio século.
Mas Nate apenas abriu um sorriso.
Não sou eu quem tem um filho que você acha que não o pode deixar para
trás. Lançou um olhar para os vaqueiros com o rebanho onde Chase
estava. Parece que ele já esgotou um cavalo observou Nate, enquanto
tanto Chase quanto Buck deixaram o rebanho para dirigir seus cavalos
suados para a porteira, onde pegariam cavalos descansados que estavam
amarrados nas estacas. O fato de ver Chase fez Nate ficar pensando, e
pensou em voz alta: Será que era O'Rourke?
Webb lançou-lhe um olhar penetrante mas não respondeu, enquanto saía da
sombra do reboque para caminhar até a cerca.
Que tal está indo?
119
O rebanho não teve chance de se dispersar muito replicou Chase, já
tendo desmontado, e começando a soltar a cilha da sela. Devemos ter o
resultado da contagem lá pelo meio-dia.
Ainda tem café na garrafa térmica? perguntou Buck, enquanto amarrava as
rédeas do seu cavalo na cerca da porteira. Bem que eu gostaria de um
pouco.
Pode restar uma meia xícara no fundo. Está na boleia. Nate fez sinal
por sobre o ombro para o caminhão estacionado às suas costas.
Buck já ia abrir a porteira, quando algo no capim chamou sua atenção.
Debruçou-se para apanhá-lo.
Isso caiu da sua sela, Chase?
Chase olhou para ver o que era, depois sacudiu a cabeça. Não precisava
examinar sua sela para saber.
Não é minha. Os laços de couro da minha roseta são círculos simples.
Esses são recortados.
Nem minha. Buck voltou a olhar para ela. Quem sabe caiu da sela de Clay.
Ou pode ter caído da sela de um dos ladrões sugeriu Webb, adiantando-
se. Deixe-me ver.
Tal sugestão fez com que tanto o capataz quanto Chase se aproximassem
para olhar melhor. Era uma pista muito pequena, mas, a esta altura,
podia vir a ser a única importante que tinham. Nate foi o primeiro a
escutar o meio galope de um cavalo na estrada, e ergueu os olhos justo
quando o cavaleiro apareceu.
Vem vindo alguém disse para os outros, e eles voltaram sua atenção para
o cavaleiro.
Quando Chase reconheceu a amazona esguia e flexível, todo o seu cansaço
desapareceu. Maggie freara o seu cavalo ante a visão de todos aqueles
veículos e pessoas. Virando em ângulo reto em relação a eles, o cavalo
dela saltitou de banda por vários passos, antes que ela o fizesse
guinar e aproximar-se deles a trote. Uma única trança negra caía na
frente do seu ombro. Quando parou o cavalo perto da porteira, o rapaz
pôde ver a leve tensão nas feições da moça, o lampejo recalcado de
desafio nos olhos verdes. O pai dele tinha um jeito de intimidar as
pessoas; por causa do seu leve complexo de inferioridade, Maggie era
obviamente afetada por ele.
Alo. Era um cumprimento global, dado quando ela saltou da sela num
único movimento fluido. Ouvi contar que as coisas andaram quentes por
aqui, ontem.
E onde ouviu contar? A interpelação brusca do pai chamou a atenção de
Chase. Aquela aspereza não parecia necessária.
Porém Maggie apenas sorriu, o verde faiscando um pouco mais vivamente
nos seus olhos.
120
Tudo o que acontece a um Calder se espalha por essa área rapidamente.
Birdie Johnson me ligou hoje de manhã. Então, seu olhar pousou na
roseta de couro com as suas tiras gémeas de couro cru. Ei, isso aí é
meu. Onde a achou? Tirou a roseta das mãos de Webb antes que algum
deles pudesse reagir à sua espantosa declaração.
Buck encontrou-a no capim, junto à porteira respondeu Webb.
Notei que tinha sumido, no outro dia, mas não tinha ideia de onde a
perdera disse, relaxando a boca num ligeiro sorriso.
Pensamos que podia ter caído da sela de um dos ladrões falou Webb,
olhando para ela com atenção.
A risada que ela deu era ligeiramente forçada.
Asseguro-lhe que caiu da minha sela, e ontem à noite eu estava na cama
às nove e meia.
Webb deixou o olhar correr pela área circunvizinha antes de voltar para
ela com dureza.
Isso aqui fica muito longe da casa do seu pai. O que estava fazendo
aqui quando a perdeu?
Chase já ia manifestar-se, mas ficou calado quando viu o jeito ousado
com que ela desafiava o pai dele. Ele próprio já tinha recebido um
daqueles olhares arrogantes antes. Sentiu-se inundado por uma mistura
de orgulho e divertimento.
Tinha combinado encontrar-me com seu filho retrucou, com voz bem clara.
Ao lado dele, Buck se mexeu e pigarreou. Seus olhos azuis brilhantes
diziam que estava achando a situação muito divertida.
E encontrou-se com ele? indagou o pai.
Encontrou-se, sim respondeu Chase por ela, vindo em sua ajuda, mas o
olhar que ela lhe lançou não era de agradecimento.
Encontrei-me, sim confirmou Maggie, numa explosão de génio. E não gosto
quando as pessoas insinuam que estou mentindo, Sr. Calder. A ênfase era
arrogantemente sarcástica, enquanto ela dava meia-volta e ia montar seu
cavalo.
Chase começou a se adiantar para impedi-la de partir, mas o pai
colocou-lhe uma mão no braço, segurando-o, sem tirar os olhos da garota
que virava o cavalo num círculo. Quando Chase tentou livrar-se da mão
do pai, este apertou mais o braço do rapaz.
Deixe-a ir, filho foi só o que Webb disse. Temos trabalho a fazer.
O incidente deu a Webb motivos para pensar. Estava disposto a admitir
que a garota O'Rourke não fora um dos ladrões de gado, mas era
inteiramente possível que estivesse dando cobertura a um deles. Mesmo
que não estivesse, e a roseta tivesse caído da sua sela quando viera
encontrar-se aqui com Chase, isso tornava muito provável que soubesse
que o gado estava sendo mudado para este pasto, informação que os
ladrões tinham que ter obtido de alguma fonte. Havia várias
possibilidades definidas a ter-se em mente.
122
PARTE III
Um céu de desafio, Um céu de justiça, Este céu que ataca com O poderio
de um Calder.
Capítulo XI
A maioria das roupas na pequena loja de fazendas em Blue Moon era
roupas de trabalho, criadas para durabilidade e não para elegância. Dos
dois cabides de vestidos na seção feminina da loja, apenas metade de um
deles era reservado para vestidos melhores. O resto todo era ocupado
por vestidos de andar em casa. Sempre que Maggie tinha um tempo
sobrando, examinava os vestidos pendurados. Era melhor do que um
catálogo, porque ela podia tocar os vestidos, de verdade, e segurá-los
de encontro ao corpo enquanto se olhava no espelho de corpo inteiro.
Essa tarde tinha um tempo de sobra, porque o pai e o irmão estavam no
Jake's tomando uma cerveja. Entrou na loja e foi-se dirigindo
devagarinho para a seção feminina. Lew Michels, o proprietário, estava
medindo uma peça de cambraia para um freguês quando Maggie passou pela
seção de fazendas propriamente dita. Ele ergueu os olhos e sorriu,
reconhecendo-a.
Alo, Maggie. Dorie está lá atrás no depósito. Vá dar-lhe um alo. Isso
lhe dará uma desculpa para dar uma paradinha falou.
Doris Michels era a filha dele e colega de classe de Maggie, Nunca
tinham sido amigas, mas não porque Maggie não gostasse dela. Dorie era
boazinha, mas sua melhor amiga era Cindy Schaeffer, que também morava
na cidade. As duas eram inseparáveis, e nunca parecia haver lugar para
uma terceira pessoa participar de suas fofocas. Além disso, como os
pais eram donos da loja, Dorie sempre tinha roupas bonitas para usar, e
a mãe de Cindy podia costurar qualquer coisa que não ficava com jeito
de feita em casa.
Obrigada, Sr. Michels.
Contudo Maggie duvidava de que Dorie fosse ficar radiante ao vê-la.
Elas geralmente não tinham mais o que dizer uma para
125
a outra depois de alguns minutos. Foi até o fundo da loja e bateu à
porta do depósito. Houve uma barulheira de alguém tropeçando em caixas
antes que a porta se abrisse. Uma garota ligeiramente gorducha com
cabelos cor de areia piscou para ela, surpresa.
Oi, Maggie. Puxa, não a vejo desde que as férias de verão começaram.
Depois, achou graça. Também não a vi muito durante as aulas. Você quase
nunca ia.
Faltei muito à escola para ajudar meu pai admitiu Maggie. Seu pai falou
que você estava aqui. Já estava procurando alguma coisa para dizer.
É. Ele me botou para trabalhar à tarde agora que a escola fechou para o
verão, para eu poder ganhar algum dinheiro. Por aqui não há nenhum
lugar onde arranjar emprego explicou a garota.
É dureza concordou Maggie, e começou a recuar.
Por que não vem cá para os fundos? convidou Dorie. Eu lhe mostro os
novos vestidos que acabaram de chegar. Eu os estou desempacotando
agora. Isso nos dará uma chance de conversar um pouco. Maggie aceitou a
oportunidade de ver os vestidos antes de qualquer outra pessoa da
cidade, e acompanhar a coleguinha para o depósito. Soube que os pais de
Cindy Schaeffer talvez se mudem para Miles City?
Não, não sabia.
Pois é, talvez mudem. Não é horrível? Dorie fez uma careta só em
pensar. Olhe aqui os vestidos. Não são lindos? Apanhou um vestido de
malha de mangas compridas, num tom de verde escuro. Claro que são para
o inverno. Não é uma loucura receber vestidos de inverno no meio do
verão? Mas é assim que funciona o mundo da moda.
É bonito disse Maggie, tocando de leve o vestido e gostando da maciez
da fazenda pesada.
Dorie enfiou-o nas mãos dela e foi pegar outro.
Não se preocupe de amassá-lo. Tenho que passar todos a ferro depois de
desempacotá-los. Este aqui também é bonito. Ergueu um outro da pilha.
Mas tem babados demais e me faz ficar mais gorda do que sou. Mamãe diz
que é gordura infantil, mas não acho que vá desaparecer nunca. Ah! Este
aqui ficaria fabuloso em você, Maggie.
Era cor de ferrugem, do mesmo modelo e fazenda daquele que ela estava
segurando. Maggie dobrou o primeiro sobre uma caixa para pegar aquele
que Done lhe estendia.
Há um espelho logo atrás de você indicou Dorie, e Maggie se virou para
ver como ficava nela.
126
Gostou do contraste da cor vívida com os cabelos escuros e do estilo
sofisticado que a fazia parecer mais velha.
É lindo murmurou.
Por que não o experimenta? insistiu a coleguinha loura e gordinha. Ali
há um vestiário.
Maggie hesitou apenas ligeiramente antes de aceitar o convite. Não
podia resistir à chance de ver como ficava com o vestido. Usando o
vestiário que Dorie tinha indicado, tirou as roupas e botas e enfiou o
vestido pela cabeça, torcendo os braços para trás das costas para puxar
o zíper.
Ficou perfeito em você! declarou Dorie, no minuto em que Maggie saiu do
vestiário. Sabia que ficaria. Venha espiar no espelho comprido lá na
frente.
Quando Maggie viu seu reflexo, todas as suas expectativas foram
superadas. A transformação de moleque de jeans em senhorita era uma
mudança espantosa; o vestido realçava seu corpo de seios altos de uma
maneira que as roupas masculinas mal-enjambradas jamais poderiam. Nem
mesmo os pés descalços interferiam na feminilidade elegante da imagem
no espelho.
Não imagina como ficaria sofisticada com o cabelo preso para cima? A
sugestão de Dorie fez com que Maggie puxasse a cabeleira pesada para o
alto da cabeça. Um vislumbre de todas as possibilidades era só o que a
lourinha precisava. Espere aqui, Maggie. Vou ver se acho uns grampos lá
nos fundos.
Na seção masculina da loja, Chase esperava com paciência cada vez menor
enquanto Buck experimentava uma variedade de Stetsons de palha em
diferentes formatos e estilos. Quando haviam chegado a Blue Moon, há 20
minutos, Chase reconhecera a camioneta enferrujada e cheia de mossas
estacionada diante do Jake's como sendo de Angus O'Rourke. Usara a
desculpa de comprar charutos para parar no armazém e descobrir se
Maggie estava lá fazendo compras, parando lá o tempo suficiente para se
certificar de que não estava. Depois, deixara que Buck o arrastasse
para o outro lado da rua, para a combinação de loja de ferragens e de
fazendas. Já tinha corrido os olhos pela loja sem encontrar Maggie,
aqui também. Estava tentando apressar Buck a fazer sua escolha, quando
ouviu a voz de uma mocinha dizer o nome de Maggie.
Este não está mau. Buck se contorceu e posou para estudar o Stetson de
palha de todos os ângulos, depois deixou-o de lado. Viu aquela sela
feita à mão que Lew tem lá na frente? Devia comprá-la para mim, Chase.
É uma beleza.
Economize o seu dinheiro e compre-a você mesmo. Chase estava-se
afastando, atraído na direção da voz, como se fosse um sinalizador.
127
Porra, eu ia levar um ano para economizar o bastante bufou Buck, mas
Chase não estava lá para ouvir.
Atravessando a loja, parou a um metro e meio de uma moça de cabelos
escuros parada diante de um espelho de corpo inteiro, dando-lhe as
costas. Quando o seu olhar encontrou os olhos verdes no reflexo do
espelho, Maggie se virou, fazendo pose como modelo. O estilo do vestido
cor de ferrugem viva era velho demais para ela, mas permitia que Chase
tivesse uma noção da mulher que ela seria daqui a alguns anos. Muitas
reações ocorreram dentro dele; quente e perturbadora, a principal delas
todas era um desejo de posse única. Chase examinou-a serenamente, sem
demonstrar no rosto seus sentimentos; não se sentia à vontade com eles.
Que bom que você me viu vestida assim. A voz dela era baixa, mais baixa
do que um sussurro, porém firme e franca. Queria que visse que eu
poderia ser uma dama de verdade, algum dia.
A frase sacudiu-lhe a memória, fazendo com que se lembrasse da sua
declaração de que um dia iria embora para subir na vida e tornar-se uma
dama. Incomodava-o que ela falasse em partir. Sentiu um desejo cruel de
esmagar a pose dela, sua certeza tranquila. O olhar dele varreu a moça
e vestido.
Não vai conseguir falou, a secura farfalhando na voz. Ainda não vi uma
só dama que andasse por aí de pés descalços.
Uma fúria de olhos verdes destroçou a imagem de serenidade, quando
Maggie procurou à sua volta a primeira coisa em que pudesse deitar as
mãos. Foi uma combinação de algodão dobrada que saiu voando na direção
dele. Chase abaixou-se e se adiantou para segurar-lhe as mãos antes que
pudessem achar um míssil mais mortífero para arremessar em cima dele.
Maggie se debateu e ele riu baixinho, porque com esse tipo de dama
sabia lidar. Puxou-a para si e forçou as mãos dela a se espalmarem
contra seu peito.
Eu vou ser uma dama sibilou, e tentou libertar-se do seu aperto de aço.
Não importa. Indolente de satisfação, correu os olhos pelas feições
animadas dela. Qual o homem que quer uma dama mansa e chata quando pode
curtir a emoção de alguém que é toda mulher? Você não precisa mudar
para me satisfazer.
A necessidade de impor-lhe sua vontade percorreu-o. Seu arrebatamento
fê-lo tomá-la nos braços e puxá-la contra si. Silenciou o leve protesto
da moça com o domínio do seu beijo forte. Ele durou apenas segundos.
Interrompido por alguém que se aproximava, Chase soltou-a e se afastou,
tentando controlar a turbulência de suas emoções.
128
Alo, Chase. A voz ligeiramente tímida de uma mocinha anunciou a intrusa.
Um reconhecimento indiferente registrou-se no rosto de Chase.
Alo, Dorie.
Ignorou o olhar timidamente coquete que ela lhe lançou, mentalmente
considerando-a jovem demais para merecer outra coisa exceto uma atenção
educada.
Posso ajudá-lo em alguma coisa? ofereceu a garota.
Não, obrigado.
O olhar dele já voltara para Maggie, chocando-se com o dela, quando
subitamente se deu conta de que as duas garotas eram praticamente da
mesma idade. Sua boca se retorceu, zombando de si mesmo enquanto o
castanho duro dos seus olhos transformava-se em veludo num pedido mudo
de desculpas a Maggie por sua atitude Um pouco da rigidez dela se
suavizou numa aceitação igualmente muda do pedido de desculpas. Levou o
dedo rapidamente à aba pontuda do chapéu para despedir-se das garotas
antes de se virar para ir procurar Buck.
Puxa murmurou Dorie com inveja, enquanto o via afastar-se. Gostaria que
Chase Calder olhasse para mim como olhou para você. Com um suspiro,
voltou a olhar para Maggie e sorriu para mostrar que não havia
ressentimentos. Encontrei uns grampos. Quer que eu ajeite seu cabelo?
Não. Desta feita, quando Maggie olhou no espelho, viu o que Chase tinha
notado. Ela era moça demais para esse modelo de roupa e uma mudança no
penteado não alteraria esse fato. Sentiu-se como uma adolescente
apanhada usando batom e brincando de gente grande. Isso era o que o
espelho lhe mostrava, a despeito da maturidade que sentia dentro de si.
No entanto, o comentário de Chase não havia abalado a resolução de que
um dia usaria um vestido desses... com sapatos de salto alto, jóias, e
todos os acessórios que combinavam com ele. Ninguém ia dizer que não
podia ser uma dama, especialmente um Calder. Inconscientemente, Maggie
partilhava do ressentimento do pai quanto ao status, poder e prestígio
dos Calders.
Depois de uma última olhada em si mesma no espelho, Maggie afastou-se
dele.
É melhor eu ir vestir minhas roupas. Dirigiu-se para o vestiario nos
fundos, e a colega de turma acompanhou-a, fitando-a com novo interesse.
Contaram-me que você tem visto Chase Calder muito, ultimamente comentou
Dorie. É verdade?
Quem lhe contou?
129
Não me lembro. A garota deu de ombros, porque a fonte não parecia
importante. Sabe como é aqui na loja; metade do pessoal vem só para
fofocar. Tem-se encontrado com ele?
Algumas vezes admitiu Maggie, e sentiu-se elevada a uma nova posição de
importância, por associação.
Como é que é... quando... ele faz com você? A garota gaguejou
encabulada demais para falar às claras, mas bastante curiosa para ficar
calada.
E Maggie percebeu qual o tipo de fofoca que estava circulando. Fechou
os lábios numa linha reta, enquanto fitava a suposta amiga com uma
firmeza que Dorie não podia igualar.
Quando ele faz o quê? desafiou Maggie. Depois acrescentou, sem rodeios.
Quer dizer quando ele faz amor comigo?
Eu não estava tentando me meter, Maggie, juro.
O resultado final foi o mesmo, e magoou Maggie, fazendo-a perder a
paciência.
Por que não vai pedir a Chase para lhe mostrar? Aí não precisará me
perguntar como é. Pode descobrir por si mesma.
Eu não poderia! exclamou a outra, chocada.
Por que não? Ele é muito bom para deflorar virgens. Maggie fechou a
porta do vestiário e começou a tremer. As
lágrimas lhe ardiam nos olhos, mas ela piscou, resoluta, para afastá-
las e despiu o vestido. Dorie tinha sumido da área de depósito dos
fundos quando Maggie saiu, usando de novo sua blusa e jeans.
Webb chegou junto das bombas de gasolina e parou a camioneta Enquanto
saltava, um adolescente saía do prédio.
Quer que encha o tanque, Sr. Calder?
Quero, e verifique o óleo.
Automaticamente, lançou um olhar aos veículos estacionados por perto.
Ignorou a pick-up da fazenda, mas seu olhar se fixou na camioneta
pertencente a O'Rourke, Ao vê-la, sentiu despertarem as perguntas
desconfiadas que andava ruminando durante a última semana. Eram pouco
mais do que palpites, mas Webb com frequência confiava nos seus
instintos, que acabavam por ser corretos.
Caminhou até o veículo e rodeou, parando para cutucar a sujeira e o
cascalho grudados nas reentrâncias dos pneus e arrancar os longos fios
de grama presos nas rachaduras enferrujadas do pára-choque cromado. A
grama era de tipo comum, embora crescesse em abundância nas terras da
Fazenda Triplo C, especialmente por volta do Broken Butte. A estrada
principal que passava pela trilha pouco usada daquele setor fora
recentemente pavimentada com cascalho novo. Uma lasca de pedra
pontiaguda estava enterrada na reentrância do pneu. Nenhuma das duas
coisas era prova conclusiva de que O'Rourke estivera na vizinhança, no
entanto ambas demonstravam que poderia ter estado. Webb voltou,
pensativo, para seu carro, repassando essa informação na cabeça.
Às vezes eu me pergunto como é que Angus mantém aquela camioneta
funcionando comentou o rapaz do posto de gasolina, com uma sacudidela
da cabeça. O comentário revelava que tinha observado a inspeção
detalhada que Webb fizera da pick-up. O óleo estava baixo, botei uma
lata.
Ótimo. Meneou a cabeça, porém estava mais interessado no que mais o
adolescente podia ter percebido. As pick-ups se desgastam nessa região,
especialmente no tipo de terra que Angus tem.
- É, acho que sim. Ultimamente, a maioria da sua quilometragem tem sido
feita indo e vindo para a cidade. Aposto que tem passado tanto tempo
aqui quanto em casa. A mangueira da bomba desligou automaticamente e o
rapaz mudou-a para manual para encher o tanque de gasolina até a borda.
É? perguntou Webb, como quem queria saber mais.
Se não está no café, está no Jake's tomando uma cerveja com o Tucker
explicou o garoto. Não é de admirar que a fazenda dele esteja caindo
aos pedaços.
Tucker. Webb lançou um olhar ao café. Um cartaz de "Fechado" estava
pendurado na porta. Peneirou as informações que tinha do homem,
ignorando sua reputação como cozinheiro. Há alguns anos tinha havido um
envolvimento duvidoso na compra de artigos roubados, mas não houve
provas de que Tucker sabia o que estava comprando. O sujeito mantinha
as mãos limpas, porém Webb estava igualmente certo de que Tucker tinha
contatos com sujeira nas mãos. Tucker poderia facilmente estar agindo
como intermediário para O'Rourke, possivelmente até mesmo como sócio.
Duvidava de que o O'Rourke estivesse nisso sozinho... se é que era ele
que tinha roubado o gado.
Os coiotes eram ladrões covardes. Um coiote sozinho se esgueirava e ia
embora, ao invés de defrontar-se com um oponente de força igual ou
superior, mas com outros coiotes ganhava coragem e exibia uma astúcia
inigualada por qualquer outro predador mais direto. Webb classificava
Angus O'Rourke nessa categoria, um homem essencialmente fraco com
lampejos de genialidade.
Webb estava convencido de estar sendo afligido por coiotes que atacavam
à sombra da escuridão e depois sumiam na noite. Até mesmo dava um
palpite para a justificativa covarde para o ato ilegal o caso entre
Chase e a filha de O'Rourke. As 50 cabeças
131
de gado que dera a O'Rourke não haviam satisfeito o homem, apenas
aguçaram seu apetite. O gado roubado equivalia a pagamentos
involuntários de chantagem. A ideia queimou Webb como ferro em brasa.
Era uma posição intolerável, e ele reagiu adequadamente.
Com uma sacudidela da cabeça, dominou suas emoções. Até agora suas
suspeitas não tinham redundado em nada, exceto uma teoria exequível,
não importa o quanto seus instintos insistissem que era verdade.
Até mesmo ele não iria condenar um homem apenas por tal motivo. Se não
pudesse provar sem sombra de dúvida perante a lei, provaria sem sombra
de dúvida para si próprio. Nesses casos, havia meios de a justiça da
terra ser feita, enquanto o ramo legal do governo usava sua venda.
Webb assinou o nome na nota, para ser debitada na conta da fazenda.
Obrigado, Sr. Calder disse o rapaz.
Um sorriso distraído apareceu e desapareceu do rosto de Webb, enquanto
se afastava. Lembrou-se de que o garoto dissera que, se O'Rourke não
estava no café, geralmente estava no Jake's tomando uma cerveja.
Dirigiu-se para o bar. O interior tinha um sabor definido de um saloon
à antiga, incluindo o bar de mogno entalhado à mão e o descanso para
pés de latão. Atrás dele ficava o grande espelho em que se encostavam
prateleiras de mogno entalhadas para garrafas de bebida e copos. Havia
uma variedade de mesas redondas e cadeiras de espaldar reto
descombinadas. Escarradeiras sujas estavam estrategicamente colocadas
para aqueles que mascavam ou cheiravam rapé; uma abundância de serragem
estava espalhada no chão de tábuas, para aqueles que erravam. Ao lado
do bar havia uma escadaria que dava para os quartos do segundo andar,
os degraus gastos por milhares de pisadas. A escadaria ficava
convenientemente situada junto ao bar, para permitir que Jake visse
quem subia e descia com as suas "sobrinhas". Além da sala de pôquer
particular nos fundos, havia uma vitrola automática movida a moedas e
uma mesa de sinuca.
Ao contrário dos antigos saloons, não tinha portas de vaivém... havia
moscas demais no verão. As paredes eram pardacentas, a sua cor original
há muito sumida sob as camadas de nicotina, fumaça, bebidas derramadas
e sumo de tabaco, sem falar na boa e velha sujeira. Não havia papel de
parede de brocado vermelho ou lambris de madeira. Não havia lustres nem
apliques. As luzes eram poucas e esparsas, o que era bom, porque a
penumbra escondia a sujeira. A maioria dos quadros na parede era
constituída de gravuras baratas, não retratos de mulheres nuas e
voluptuosas deitadas em camas roxas. Em vez de um ventilador girando
devagarinho lá no teto, um ar-condicionado roncava no canto. Na
verdade, o Jake's era provavelmente uma representação mais exata do
verdadeiro saloon do Oeste do que aqueles que apareciam nos filmes de
Hollywood.
Servia o seu propósito como um local de reunião para trocar fofocas e
reclamar da vida, ou passar o tempo tomando umas e outras. Geralmente
havia pouca gente lá dentro, a não ser que um bando de vaqueiros
entrasse para fazer uma farra. Era então que Blue Moon ficava no auge
da sua animação.
Webb parou dentro da porta de tela enquanto seus olhos se adaptavam da
claridade da luz da tarde para a relativa penumbra do saloon. Sua
aparição provocou uma pausa em todas as conversas, exceto por uma troca
de sussurros rápidos à sua esquerda. Na sua visão lateral notou o trio
sentado à mesa, e identificou o homenzarrão que ananicava os outros
dois. Não havia outro homem na cidade tão grande ou tão sólido, ou que
possuísse uma cabeça tão pequena para o tamanho do corpo. Sem dúvida
que era Bob Tucker. Segundos depois que Webb entrou, Tucker levantou o
corpanzil da cadeira e falou numa voz deliberadamente alta.
É melhor eu ir abrir o café, antes que o pessoal que quer jantar
apareça. Até qualquer hora, Angus. Tudo muito despreocupado, muito
natural.
O comentário permitiu a Webb olhar para a mesa. Deu um passo para longe
da porta, mas continuou no caminho que levaria Tucker até ela. Trocaram
cumprimentos de cabeça, ao invés de verbais, e Webb parou, forçando
Tucker a fazer o mesmo.
Faz mais de um mês que você falou para o Chase que ia aparecer para
comprar gado para abater. Estivémo-nos perguntando o que lhe
acontecera. A leve curvatura da sua boca era desafiadora.
Angus me fez um bom preço no gado que comprou de você. Então ainda
estou vendendo carne dos Calders no meu estabelecimento, por tabela
replicou Tucker, sem sinal de constrangimento, depois deu de ombros.
Acho que devia tê-lo avisado, mas não sou o que chamaria de um dos seus
grandes compradores, portanto não achei que era importante.
Não é. A menção do nome de O'Rourke deu a Webb a abertura para desviar
sua atenção para o homem baixo ainda sentado à mesa com o filho. Como
vai indo aquele gado, Angus?
Bem, muito bem. A despeito do tom de voz despreocupado, O'Rourke o
observava atentamente, como que tentando perceber outro significado na
pergunta.
133
Tenho que ir andando. Tucker rodeou Webb. Venha tomar um café, qualquer
hora dessas.
Vou, sim, Tucker prometeu Webb, com um olhar fixo para o homenzarrão.
Percebeu que o olhar de Tucker dardejava para Angus.
Era uma coisa pequena, mas na cabeça de Webb formava uma ligação mais
forte entre os dois homens do que um simples batepapo enquanto tomavam
uma cerveja. O velho ditado "diz-me com quem andas que te direi quem
és" parecia aplicar-se bem ali. Os ladrões geralmente buscavam a
companhia um do outro para apoio moral. Não tentou ocultar a
especulação muda no seu olhar, quando voltou a fitar O'Rourke.
Porque não se senta, Webb? Deixe-me pagar-lhe uma bebida. Angus
transpirava uma confiança atrevida tanto no convite quanto no uso
familiar do primeiro nome de Calder, quando geralmente se dirigia a ele
com mais respeito. Webb dirigiu-se para a cadeira que Tucker deixara
vaga, numa aceitação muda da oferta. O que vai tomar? Uísque? Cerveja?
Cerveja está ótimo. Webb sentou-se e fez um cumprimento de cabeça para
o filho de O'Rourke.
Dolly? Angus fez um gesto para a loura que mascava chiclete
encarapitada num banquinho na extremidade do bar. Traga uma cerveja
para o Sr. Calder.
O nome Calder provocou uma resposta imediata da loura oxigenada.
Deslizando do banquinho, abaixou-se atrás do bar para servir chope do
barril. Enquanto o copo enchia, ela discretamente tirou o chiclete da
boca e afofou o cabelo já muito fofo. Ao atravessar a sala com a
cerveja, veio rebolando provocantemente, o que Webb observou com
interesse passageiro. Há muito tempo ele se comprometera consigo mesmo
a evitar as garotas do Jake e satisfazer suas necessidades ocasionais
durante visitas a Miles City ou Helena. Às vezes era inconveniente, mas
garantia que sua vida particular continuasse particular e não se
tornasse objeto das conversas locais.
Teve mais problemas com aqueles ladrões de gado? perguntou Angus. Webb
se perguntou se o homem era esperto ou simplesmente um tolo, por puxar
o assunto.
Não nos últimos dias admitiu. Depois que botei os homens para patrulhar
as estradas, parece que eles decidiram ficar na moita por alguns tempos.
Acha que ainda estão por aqui? Angus pareceu surpreso. O pessoal todo
da cidade anda dando palpite de que os ladrões se mandaram da região,
em busca de pasto mais verde e gado mais gordo.
134
Ainda estão por aqui. Webb sacudiu enfaticamente a cabeça e não
desfitou os olhos do outro. Estou apostando.
Por que diz isso? falou Angus, recostando-se na cadeira.
Porque eles foram espertos demais, mostrando que conheciam intimamente
essa região. Esses ladrões de gado não são de fora. São gente daqui.
Com o canto dos olhos, Webb notou que o garoto se mexia na cadeira, mas
Angus soltou uma risada incrédula.
Não está pensando mesmo que é alguém que todos conhecemos, não é?
ironizou.
Estou convencido de que é.
E de quem suspeita? Angus ainda fingia que era uma pilhéria.
Nem uma vez Webb livrou-o do seu olhar fixo e inflexível.
Podia ser qualquer um, entre muitos, mas você sabe quem eu creio que é.
A ênfase no pronome foi deliberada, para indicar O'Rourke sem lhe dar o
nome.
Houve uma pausa significativa antes que Angus replicasse com um desafio.
Se tem tanta certeza de que sabe quem é, por que não tomou nenhuma
providência? Está só arriscando um palpite. Não tem nenhuma prova. Se
tivesse, Potter já teria um mandado de prisão pronto.
A lei é muito lenta, e não muito confiável. Mesmo que Potter tivesse
provas o bastante para prender o sujeito, o ladrão pagaria fiança até o
julgamento, que pode levar meses. Não há garantia de que seria
condenado por um júri. E se fosse, é concebível que receberia
livramento condicional depois de cumprir apenas uma curta sentença. O
que o impediria de roubar mais gado enquanto está esperando o
julgamento, ou depois de ter saído da prisão? Webb fitou Angus
friamente. As coisas eram bem diferentes antigamente. Os ladrões eram
enforcados na hora, e um ferro de marcar era toda a prova de que um
fazendeiro precisava.
Achou um ferro de marcar? Por dentro, Angus estava-se contorcendo. O
desafio era pura bravata.
Não, mas Slinr Bevins reconheceu uma voz quando surpreendeu os ladrões
no Broken Butte. Webb viu Angus perder a cor e soube com certeza
absoluta que ele era o ladrão de gado.
E daí?
Daí... que quero advertir claramente a esse homem. Se mais uma cabeça
de gado dos Calders for roubada, irei atrás dele pessoalmente. Foi uma
declaração tranquila, mas ameaçadora no seu tom monótono.
135
Por que está-me dizendo iSsO? Angus sentou-se mais ereto na cadeira.
Você está só blefando, Calder.
Só o que o homem tem a fazer é pagar para ver. Webb afastou a cadeira
da mesa e se levantou, largando sobre
a mesa uma nota para pagar a cerveja na qual nem tocara.
136
Capítulo XII
Quando saiu do saloon de Jake, Webb voltou para o armazémposto de
gasolina. A camionete ainda estava estacionada junto das bombas de
gasolina, mas ele passou por ela e entrou na loja. Por trás do balcão
onde ficava a registradora havia uma janela lateral que lhe dava uma
vista tanto da frente do saloon quanto do café. Webb comprou um pacote
de chiclete e bateu papo com Helen Kirby, a mulher gorducha do dono,
enquanto disfarçadamente vigiava os dois prédios.
Viu Chase e Buck entrarem na pick-up e se afastar na direção da
fazenda, mas foi só cinco minutos mais tarde que Angus O'Rourke e o
filho saíram do saloon e se dirigiram diretamente para o café. Webb não
acreditou por um minuto que O'Rourke ia atrás de café ou comida, mas
sim da coragem da matilha. Tucker estava envolvido, sem dúvida.
Satisfeito com a confirmação que tivera, Webb saiu da loja. Na saída
encontrou a filha de O'Rourke que se vinha aproximando da porta. Notou
que ela ergueu a cabeça subitamente quando o viu, e um ar de desafio
cauteloso fez com que o fitasse nos olhos. Não era apenas uma garota
excepcionalmente atraente, era também cheia de garra e vivacidade.
Sentiu uma pontada de pena por ela ter um pai tão indigno. Era
desastroso que teria que sofrer por causa do pai.
Uma cortesia tradicional insistiu para que segurasse a porta para esse
jovem membro do sexo oposto, enquanto um sentimento de responsabilidade
masculina fez com que falasse.
Srta. O'Rourke. As circunstâncias faziam com que fosse formal.
Sim? Ela parou, rígida e na defensiva, mas não intimidada.
137
Diga a seu pai que nunca advirto um homem duas vezes falou. Quero que
ele compreenda isso... para o seu bem e o do seu irmão.
Houve um lampejo momentâneo de ansiedade nos olhos dela antes que o
ocultasse com um rápido fechar de pálpebras. Quando as abriu, estava
novamente fria e serena.
Direi a ele o que falou, embora esteja certa de que não vai fazer mais
sentido para ele do que faz para mim replicou, e Webb teve que admirar
sua calma, incomum numa pessoa tão jovem.
Estou certo de que ele entenderá. Levou os dedos ao chapéu, enquanto
ela passava tranquilamente por ele para entrar na loja. Webb fechou a
porta atrás da jovem e se dirigiu para a camionete.
Buck entrou na Casa Grande todo elegante numa camisa de cowboy branca
com botões de pérolas e gravata de laço. O novo Stetson de palha estava
encimando os cabelos crespos, e as faces lisas exalavam a fragrância
forte de uma loção pós-barba. Tinha um ar de impaciência ansiosa
enquanto olhava em derredor pela sala de visitas. As portas duplas da
sala de jantar estavam abertas. Quando escutou um som vindo de lá, Buck
moveu-se em passadas animadas naquela direção, e enfiou a cabeça pela
porta.
Webb estava sentado à cabeceira da grande mesa de nogueira, fumando um
charuto, uma xícara de café na sua frente. A mulher loura que tirava a
louça do jantar da mesa ergueu os olhos e parou quando viu o filho, um
sorriso vindo-lhe à boca. O olhar dele foi da mãe para Webb Calder e
voltou de novo para a mãe. Mais de uma vez suspeitava que entre eles
havia mais do que simples amizade. Se seu pai estivesse morto, Buck
suspeitava de que a mãe poderia casar-se com Webb Calder. Às vezes não
conseguia resistir e fantasiava sobre seu papel como enteado de Webb
Calder, e a importância aumentada do seu lugar na fazenda, uma parte da
hierarquia. Imaginava possuir tudo isso, algum dia.
Quer alguma coisa, Buck?
O rapaz sacudiu a cabeça, sorrindo rapidamente.
Só estou procurando pelo Chase.
Ele subiu para se arrumar replicou Ruth Haskell.
O sujeito é vagaroso queixou-se Buck, com um amplo sorriso. Vou fazer
com que se apresse. Não espere por mim, mamãe. Talvez a gente só volte
de manhã. A diabrura dançava nos seus olhos enquanto o rapaz saía da
porta da sala de jantar e
138
se dirigia para as escadas, conhecendo bem o caminho para o quarto de
Chase.
O olhar sorridente que Webb lançou a Ruth era inconscientemente suave.
Quantas noites esperamos acordados pelos nossos rapazes, hem, Ruth?
Bateu a cinza do charuto num cinzeiro de cristal.
Nem fale concordou ela, olhando para o vão da porta. Imagino que vamos
ficar acordados outras tantas noites, mesmo que digam que não devemos.
Deixe a louça por um minuto e venha tomar um café comigo sugeriu Webb,
impulsivamente.
Ela hesitou, depois sacudiu a cabeça, negativamente, sem olhar para ele.
Vig está esperando por mim em casa. Seu débil sorriso exibia um lampejo
de pesar. É melhor eu não ficar remanchando com a louça.
Não, claro que não. A aspereza da resposta de Webb continha compreensão
e uma vaga irritação consigo mesmo por ter feito a sugestão. Levantou-
se da cadeira. Vou terminar o meu café no escritório. Tenho uns papéis
para examinar.
Enquanto cruzava o saguão que separava a sala de jantar e o escritório,
Chase e Buck vinham descendo as escadas para a sala de visitas. Olhou
para o filho, ciente de que esta era a época da vida de Chase para ser
doidivanas e farrear com os rapazes. Muito em breve esses dias teriam
passado e ele estaria assumindo o papel de um homem na administração da
fazenda.
Comportem-se, rapazes advertiu Webb, usando o plural mas olhando para o
filho.
Sim, senhor. Buck fez-lhe uma continência simulada enquanto Chase
acenava com a cabeça. Não se preocupe com Chase. Cuidarei dele como se
fosse meu irmãozinho.
Se estiver cuidando de mim, quem estará evitando que se meta em
encrenca? zombou Chase.
Que diabo, eu sou a própria encrenca! vangloriou-se Buck com uma
risada, enquanto abria a porta da frente e fazia sinal a Chase para
dirigir-se antes dele para a pick-up estacionada na frente.
Quem vai dirigir? quis saber Chase.
Eu, já que talvez não esteja sóbrio o bastante para voltar dirigindo
declarou Buck, e saltou para trás do volante. Então, o problema passa a
ser seu. Eu levo a gente e você se encarrega de nos trazer para casa.
Tudo bem. Geralmente era assim mesmo.
139
Cara, que bom que não pegamos serviço de patrulha hoje.
Buck ligou o motor e acelerou-o ruidosamente antes de engrenar a
marcha, fazendo girar os pneus. Pensei que ia ser excitante patrulhar
armado aquelas estradas à noite, mas é chato como o diabo! Vou ficar
contente quando o Velho acabar com isso. Aqueles ladrões provavelmente
já estão no Estado vizinho, a esta altura.
Podem estar admitiu Chase.
Já havia uma dúzia de vaqueiros da Triplo C, assim como outros
fregueses locais, no Jake's, quando eles chegaram. Um jogo de pôquer
estava em andamento na sala dos fundos. Chase pegou uma cerveja e foi
espiar, e acabou participando de algumas rodadas, mas não conseguia
concentrar-se nas cartas, e a sorte estava contra ele, sendo assim
voltou de novo para o salão principal.
Em meio à névoa de fumaça existente enxergou Buck sentado a uma das
mesas com o braço envolvendo o pescoço de uma "sobrinha" sensual de
cabelos castanhos, chamada JoBeth. Buck sorria, cheirando-a e
sussurrando coisas no ouvido da mulher enquanto enfiava a mão pelo
decote fundo para acariciar um seio farto.
Ciente de que seu amigo não iria apreciar sua companhia a esta altura,
Chase foi espiar dois vaqueiros da Triplo C que jogavam sinuca. Colocou
algumas moedas na vitrola automática e apertou uma seleção de discos
que aumentaram ainda mais a baruIheira do recinto. Dolly veio passando
com uma bandeja de bebidas e Chase pagou mais uma.
Já tinha tomado a metade quando notou Buck andando para a extremidade
do bar mais próxima da escadaria, a garota morena apertando-se toda
contra ele, os lábios cor de escarlate virados para cima o tempo todo.
Buck gritou chamando Jake e bateu com a mão espalmada no balcão para
atrair a atenção do homem. Jake era um homem magro de ossos grandes com
cabelos ralos que formavam tufos dos lados.
Precisamos da chave do quarto de cima exigiu Buck. Houve uma troca de
uma nota dobrada pela chave.
Não demore demais. Estamos com muito movimento hoje.
Informou Jake à sua "sobrinha".
Buck riu e deu um apertão na garota.
O tempo que for preciso, Jake. Só o tempo que for preciso. E então os
dois estavam subindo as escadas que levavam ao
segundo andar.
Chase ficou observando enquanto eles subiam, e engoliu o resto da
cerveja. Correu o olhar devagar pelo bar sujo e enfumaçado, tomando
nota da risada e das vozes divertidas. Havia algo errado
140
com ele. Cá estava ele, no meio de um bar e de um bordel e estava
entediado.
A cerveja estava com gosto de choca, então ele foi até o bar para que
lhe servissem outra direto do barril. Clay Vargas, um vaqueiro que
viera do Colorado para trabalhar na Triplo C, estava parado no bar,
falando com dois outros empregados não nativos da fazenda. Deram lugar
a Chase para se juntar a eles. Era um convite mudo feito devido à sua
posição como herdeiro, um gesto de respeito que Chase aceitou pelo
mesmo motivo.
Enganchando o salto da bota no descanso para pés de latão, pediu uma
cerveja e ficou escutando o trio tentando suplantar um ao outro
contando histórias fantásticas de antigos empregos. Jake botou o copo
na frente de Chase e pegou seu dinheiro, tudo no mesmo movimento.
Embora Chase achasse graça nos momentos certos, seu humor não melhorou
nem com a cerveja nem com a companhia dos loroteiros.
Albert era o vaqueiro com dois dentes da frente quebrados, resultado do
coice de um cavalo na boca, há um ano. Baixou a cabeça e sussurrou para
Clay Vargas.
Está vendo como a Dolly está-me dando bola?
A você? Porra, está olhando é para o Chase! disse Clay, rindo.
Albert olhou de novo e admitiu que podia estar errado.
Quem dera ela me olhasse daquele jeito.
Chase olhou à sua volta enquanto a loura oxigenada o fitava devagar da
cabeça aos pés, e depois deu-lhe as costas, indiferente ao óbvio
convite.
Olhará... por um preço.
É, mas você está ganhando o olhar de graça protestou o rapaz. Não vai
topar?
Não estou interessado. Ergueu o copo para tomar um gole da cerveja.
Chase tem a sua Lolita que lhe dá o quanto ele pode aguentar falou Clay
Vargas, com voz arrastada. Hoje deve ser a noite de descanso dele. O
que aconteceu, Chase? Papai não a deixou sair esta noite? disse Clay,
dando-lhe uma palmada no ombro e rindo.
Num único movimento, Chase pousou o copo no balcão, virou-se para
derrubar a mão do homem do seu ombro e enfiou o punho cerrado na
barriga relaxada do sujeito. O ar foi expelido bruscamente dos pulmões
de Vargas, dobrando-o em dois e dando à sua fisionomia um ar de choque
espantado. O sangue cantava nas suas veias. O contato impetuoso e
violento era justo o que Chase estava precisando. Sentiu-se bem pela
primeira vez em toda a noite. Quando já ia acabar com Vargas com um
direto no queixo, o vaqueiro do outro lado agarrou-lhe o cotovelo.
Ei! Que diabo está fazendo?!!
Chase não tentou livrar-se do contato. Em vez disso, enfiou o cotovelo
para trás no estômago do sujeito, depois girou para plantar os pés no
chão e socar o próximo companheiro de Vargas que vinha em seu auxílio.
Seu primeiro soco foi bloqueado; depois, alguém agarrou-lhe os braços.
Um punho cerrado explodiu de encontro à sua boca antes que Chase
pudesse afastar o homem que o segurava. Sentiu o gosto de sangue na
boca e sacudiu a cabeça para parar com o zunido nos ouvidos, virando-se
bem a tempo de ver Vargas vindo para cima dele.
Desviou-se do primeiro soco, mas o segundo pegou-lhe no ombro. E então
os dois estavam engalfinhados, arfando e retorcendo-se, grunhindo como
dois animais enquanto se esmurravam e tentavam enfiar o dedo no olho um
do outro, antes de se separar. Vargas atingiu-o acima do olho com um
golpe desajeitado, mas Chase acertou três socos fortes e rápidos no
corpo do adversário e atingiu-lhe a ponta do queixo com um direto.
Vargas veio para cima dele dando socos a torto e a direito, um deles
passando de raspão no malar de Chase, mas este se aproximou, ao invés
de fugir do ataque, e enterrou um forte direito na barriga do homem. Um
esquerdo, ligeiro, seguido de uma finta com a esquerda que fez Vargas
levantar o braço para bloqueá-la, e Chase entrou por baixo com um forte
murro de esquerda no peito. Vargas acertoulhe um golpe desordenado, mas
Chase atingiu-o com outro esquerdo e derrubou-o ao chão com um belo
direito.
O instinto assassino era forte. Chase agarrou Vargas pelo colarinho
para levantá-lo do chão, mas um par de braços o rodeou para arrancá-lo
dali. Chase deu meia-volta e entrou em cima do novo atacante, erguendo
os braços bem alto para soltar-se e socando o sujeito para trás, antes
mesmo de ver quem era. Os dois lutadores estavam rodeados por um
círculo de vaqueiros, um deles segurando um Buck desequilibrado.
Que merda, Chase! xingou ele. Por que me acertou, porra? Esfregou o
maxilar, mexendo-o para ver se funcionava. Quase que me quebra o
queixo! Chase voltou a olhar para o sujeito no chão. Vargas está
apagadão. Estava tentando impedi-lo de massacrá-lo.
Desculpe. A respiração de Chase estava entrecortada, pesada e dolorosa.
Oscilou de leve, o corpo entorpecido pela luta, começando a sentir os
golpes que recebera. Virou-se para os dois vaqueiros amigos de Vargas.
Digam a ele... quando voltar a
142
si... para tomar cuidado com os comentários que faz sobre as pessoas.
Moveu-se para o bar, aos solavancos. Alguma coisa escorreu para dentro
do seu olho. Enxugou-a, pensando que era suor, mas viu sangue na mão,
do corte acima do olho. O lábio também estava aberto. Ardeu quando
tomou um gole do uísque que Jake enfiou na sua mão. Fez uma careta e
apertou o corte com as costas da mão.
É melhor lavar esses cortes. Dolly estava a seu lado, apertando uma
toalha contra o corte acima do olho. Não quer deixar que eu faça isso?
Chase submeteu-se aos cuidados da mulher sem protestar, porém
totalmente indiferente. Era estranho como a dor física o fazia sentir-
se bem. A tensão que o acometia há dias tinha sumido.
Olhando no espelho atrás do bar, viu seu próprio reflexo machucado e
Buck ajudando os dois outros vaqueiros da Triplo C a botar Vargas de
pé, arrastando-o até uma mesa de canto. Depois, Dolly virou sua cabeça
para enxugar-lhe a boca com a toalha, e alguém apareceu para devolver-
lhe o chapéu.
Quem começou a briga? perguntou Buck, enquanto jogava um braço frouxo
de Clay sobre o ombro, e Albert fazia o mesmo com o outro braço.
Juntos, eles o carregaram para a cadeira junto à mesa vazia.
Num minuto nós estávamos falando da Dolly. Então, Clay falou qualquer
coisa sobre Chase ter uma namorada chamada Lolita. No minuto seguinte,
começou a pancadaria disse Albert, ajudando a firmar o homem
inconsciente na cadeira.
Algo caiu ao chão, e Buck se agachou para apanhar.
O chapéu do Clay está lá no chão. Não quer pegá-lo antes que alguém
pise nele, Albert? sugeriu.
O terceiro vaqueiro já tinha ido molhar uma toalha para lavar o rosto
ensanguentado. Não havia ninguém por perto para ver a carteira de couro
ou as notas que tinham caído de dentro dela. Buck hesitou, depois
apanhou as duas coisas, enfiando o dinheiro no próprio bolso e a
carteira no bolso da calça de Clay.
Não é direito tentar um homem carregando o pagamento de um mês na
carteira, Clay Buck ralhou com o homem inconsciente, num murmúrio muito
baixo.
Albert voltou com o chapéu e olhou ansioso para o amigo.
Acha que ele está tão ferido que precise de um médico?
Sei lá. Buck esbofeteou as faces do sujeito umas duas vezes e Vargas se
mexeu, levantando as mãos pesadamente. Buck se afastou. Ele vai ficar
bom. Provavelmente até vai parecer humano, depois que vocês limparem
todo esse sangue.
143
Saindo do caminho para que o vaqueiro que voltava pudesse fazer
exatamente isso, Buck demorou-se mais um minuto, depois se dirigiu para
o bar, onde Chase estava encostado. As notas formavam um bolo duro no
seu bolso, mas racionalizou que Vargas era um sujeito sem eira nem
beira, não era sua gente, criada na fazenda dos Calders. Além disso,
era um fato comprovado que um tolo e o seu dinheiro logo se separavam.
Vargas era obviamente um tolo, caso contrário não teria enfrentado um
Calder. O Velho ensinara tanto a Buck quanto a Chase todo truque sujo
que podia haver numa briga. Buck chegou por trás de Chase e enterrou os
dedos no músculo do ombro do amigo.
Que diabo de ideia foi essa de começar uma briga enquanto estou ocupado
com outra coisa? acusou. Assim um cara perde o melhor da festa.
Chase tirou a toalha da mão da loura, fazendo sinal de que não
precisava mais da ajuda dela.
Vou tentar me lembrar, da próxima vez. A boca ferida mexia-se com
dificuldade, enquanto falava.
O que aconteceu? Buck olhou para o amigo, já sabendo a resposta.
Chase deu de ombros, com displicência.
Sabe como é. Alguém diz alguma coisa que por acaso o incomoda... e
pronto.
Às vezes é só uma palavra concordou Buck, e fez uma pausa deliberada.
Como Lolita. Chase lançou-lhe um olhar duro. Buck abriu um sorriso. Não
vai demorar e o pessoal vai perceber como você é sensível a respeito
dela. Alguém pode usar isso contra você, se não tiver cuidado.
Chase inspirou funda e lentamente e se deu conta de que Buck tinha
razão. Precisava aprender a controlar isso. Olhando no espelho, Chase
viu Vargas apoiando-se na mesa e segurando a testa.
Jake. Afastou-se do apoio do balcão. Dê-me uma garrafa de bom uísque e
dois copos.
No instante em que começou a se dirigir para a mesa onde Clay Vargas
estava sentado, fez-se um súbito silêncio na sala. Albert cutucou
Vargas nas costelas para avisá-lo da chegada de Chase. O vaqueiro
ergueu os olhos, machucado e desconfiado. Chase parou diante da mesa e
botou os copos vazios no tampo.
Gostaria de lhe oferecer um drinque, Clay falou, e desarrolhou a
garrafa de uísque, esperando uma resposta.
Você me bateu. Porra! Você me espancou retrucou o vaqueiro, mas o
ressentimento deu lugar a uma derrota honesta. Acho que talvez eu
merecesse, por causa da piadinha que fiz sobre sua garota.
144
Sem ressentimentos assegurou Chase, e encheu os copos com uísque,
empurrando o primeiro na direção do outro homem. Tomaram mais outro
drinque e conversaram antes de Chase voltar para o bar.
Só dali a mais uma hora é que Chase e Buck deixaram o saloon para
voltar para a fazenda. Passava bastante da meia-noite. Buck foi
dirigindo.
Pensei que você não ia estar sóbrio o bastante para ir guiando para
casa lembrou Chase.
Mudei de ideia. Buck deu de ombros e mudou de assunto. Da próxima vez
que viermos, você precisa reservar um tempinho com a JoBeth. Ela é a
coisinha mais sexy... e doidona! Uau! A sacaninha encheu a minha cueca
de batom escarlate antes que eu pudesse tirá-la. Já pensou na cara da
mamãe quando achá-la na cesta de roupa suja? Riu e sacudiu a cabeça.
Estou-lhe dizendo, Chase, aquela JoBeth é um barato!
Chase emitiu um murmúrio de concordância e fitou pela janela o céu
negro da meia-noite. Era uma morena diferente que lhe ocupava os
pensamentos.
A louça do jantar estava lavada, enxugada e guardada no armário, mas
Maggie ainda estava na cozinha, só, fitando o calendário junto da porta
dos fundos. Contou e contou de novo, sem conseguir acreditar que estava
atrasada. Não podia estar grávida. Simplesmente não podia estar.
O que iria fazer? Deu as costas ao calendário, lutando contra as ondas
de pânico que a assaltavam. Forçando-se a pensar calma e racionalmente,
disse a si mesmo que o fato de estar três semanas atrasada não
significava necessariamente que estivesse grávida. Havia outros fatores
que podiam ter afetado seu ciclo.
Iria ver o Dr. Barlow na quinta-feira, para descobrir ao certo. Até lá,
era ridículo preocupar-se e ficar nervosa. Afinal de contas, Chase lhe
assegurara que tomava cuidado. Mas, e se estivesse grávida, uma parte
assustada da sua mente lhe perguntava. E então? O que faria? O que
Chase diria, quando ela lhe contasse?
Uma porta bateu; Maggie deu meia-volta. Havia três pares de passos
diferentes se aproximando da cozinha. Dois eram obviamente do pai e do
irmão, e ela se deu conta de que o terceiro era de Bob Tucker, quando o
ouviu falar.
aconteceu faz três noites, na sexta-feira.
Como começou? perguntou o pai.
Jake escutou que falavam sobre a Dolly, então, de repente, estavam
brigando. Os três entraram na cozinha, quando Tucker
145
terminou sua resposta. Ele tirou o chapéu quando viu Maggie, sorrindo
com sua boca pequena. Alo, Maggie. Como está passando?
Tucker era sempre educado para com ela, respeitoso e carinhoso. Nunca
havia piedade nos seus olhos, apenas uma aprovação muda. Embora sua
forma desproporcionada fosse um tanto grotesca, o corpo grande e a
cabeça pequena, ela gostava dele assim mesmo. Quando dizia alguma
coisa, Maggie sentia que podia acreditar nele.
Estou bem. Não esperava vê-lo por aqui durante um bom tempo. Pensara
que eles tinham resolvido ficar longe um do outro depois que Calder os
vira juntos. Iam deixar as coisas esfriarem um pouco, pelo menos fora o
que o pai dissera. Lançou um olhar ao pai. Calder já está desconfiado
de você lembrou a garota, e notou a maneira como o pai evitou o olhar
dela.
Faça um pouco de café, Maggie disse O'Rourke, ao invés de responder a
seu comentário. Tucker e eu temos umas coisas a discutir.
Mas ela não estava disposta a ser enganada.
Que coisas? perguntou, com um arrepio correndo pela espinha.
Calder está absolutamente certo de que nos assustou com suas patrulhas.
Achamos que está na hora de atacar de novo admitiu o pai, andando com
ar atrevido até a mesa. Ele pode estar desconfiado até dizer chega, mas
não pode provar nada. Se pudesse, já teria dado em cima da gente.
Tucker e eu resolvemos pagar para ver.
Mas as patrulhas! Maggie tentou pensar em alguma coisa para fazê-los
mudar de ideia.
Depois de todo esse tempo, não estarão tão alertas quanto estavam no
começo assegurou Tucker. Já estarão chateadas com a rotina. Não se
preocupe.
Quando?
É o que vamos resolver agora. Ande, menina, vá fazer o café como mandei
falou o pai.
Duas noites mais tarde, Webb Calder estava dormindo na sua cama de
madeira pesada quando o alarme contra incêndios soou lá fora. O sinal
deixou-o inteiramente desperto, instantaneamente. Afastando as
cobertas, enfiou a calça enquanto se levantava da cama. Pela janela,
pôde ver o débil brilho alaranjado de um foguete sinalizador.
146
Fitou-o por um longo minuto, de pé, com a calça vestida, mas ainda por
abotoar. Sacudiu a cabeça com pesar, mas sem incerteza. Havia assumido
sua posição, feito sua declaração; agora, tinha que ir até o fim.
Maldito seja, Angus falou, soltando um fundo suspiro, depois estendeu a
mão para a camisa.
O Sol lá em cima estava muito quente. Webb enxugou o suor do lábio
superior com um lenço, depois esfregou o pano pelo pescoço.
Quantos, Nate? A voz era dura, tão inflexível quanto os olhos de
granito.
O avião está dando uma última volta para ver se deixamos escapar algum.
No momento, parece que foram vinte e oito.
É o Angus O'Rourke afirmou Webb, e seu capataz não pareceu surpreso.
O que vamos fazer? Nate tomava por certo que iam fazer alguma coisa.
Estava apenas esperando as ordens para cumpri-las.
Avisei-lhe que iria atrás dele, pessoalmente, se houvesse mais algum
gado roubado. Até esta altura, Webb não tinha tirado os olhos do
rebanho que estava sendo contado. Quero que você, Chase e mais três
outros homens me encontrem no prado norte às dez horas da manhã de
amanhã. De lá, iremos para a fazenda de O'Rourke. Agora, voltou a olhar
para fitar fixamente o rosto do capataz. Vamos levar uma corda,
portanto leve isso em consideração quando escolher os três homens.
Estaremos lá às dez. Nate esmagou um cigarro sob a bota, com
naturalidade, e depois se afastou lentamente.
Parte das instruções tinha sido entendida sem ter sido explícita. Os
três homens seriam gente de Calder, nascidos na fazenda, em vez de
homens de passagem que seguiriam o seu caminho depois, e falariam.
Receberiam as suas ordens em particular... ordens que jamais seriam
mencionadas de novo, nem mesmo nos seus quartos de dormir. Todos
sairiam dos seus respectivos locais na fazenda separadamente, sem dizer
a ninguém aonde iam. Tudo isso por conta da natureza da missão.
147
Capítulo XIII
Os seis homens se encontraram em silêncio e cavalgaram em silêncio, os
rostos sombrios e resolutos. Na cerca limítrofe com a Fazenda
Sharmrock, Chase tirou a pedra que calçava o poste no lugar, derrubando
a cerca para os cavaleiros. A explicação particular que o pai lhe dera
para a missão fora breve... uma simples declaração de que O'Rourke era
o ladrão de gado e que lhe iam fazer uma visita.
Chase se perguntava por que não ficara mais surpreso com a afirmação da
culpa de O'Rourke. Talvez porque o homem sempre fora um fraco, um
preguiçoso. Embora O'Rourke fosse o pai de Maggie, ele não os ligava,
na sua cabeça. Eram duas pessoas separadas, inteiramente diferentes
tanto em caráter quanto em valores.
Dera uma olhada nos cavaleiros escolhidos a dedo e adivinhara que o seu
papel era o de observar e aprender. O pai não confiara nele nem o
consultara com relação à sua decisão e seus planos. Isso viria mais
tarde... depois do fato consumado, com uma análise passo a passo de
tudo que acontecera.
Havia certas coisas que a sua experiência limitada podia concluir dessa
demonstração de força. Eram todos homens caladões, leais à marca. Nada
do que acontecesse hoje passaria dessas seis pessoas. Era igualmente
óbvio que Angus O'Rourke ia receber uma lição da qual não se esqueceria
tão cedo. Chase não sabia qual seria, mas ocorreu-lhe que havia um
motivo que seu pai não lhe havia contado.
Subiram a encosta acima da cerca a meio galope, passando para um trote
entre as árvores dispersas onde o terreno era irregular. Chase
cavalgava ao lado direito do pai; ali era o seu lugar. A rota deles era
uma linha direta para a casa da Fazenda Sharmrock.
148
Maggie inclinou rapidamente a cabeça para desviar-se de um galho baixo,
enquanto cavalgava com o irmão por entre as árvores. Estavam-se
dirigindo para casa a fim de almoçar, com um desvio para verificar um
bloco de sal. À frente dela, Culley freou abruptamente o cavalo.
O que f...
Ele calou a pergunta da irmã com um dedo à boca e a cara fechada. Então
ela ouviu o ranger de couro de sela e o ruído abafado dos cascos de
vários cavalos. Olhou para além dele, sua visão parcialmente
obscurecida pelo bosque em que estavam. Teve uma visão rápida do grande
cavalo amarelo que Webb Calder sempre cavalgava. Um medo frio e agudo
fez seu coração disparar violentamente. Lançou um olhar ao Culley, que
mal movera um músculo desde aquele primeiro sinal pedindo silêncio. Os
cavalos estavam a mais de 100 metros de distância, dirigindo-se para a
casa, mas Culley esperou até que tivessem sumido de vista.
Temos que avisar papai sussurrou Maggie. Ele está lá sozinho.
Eu sei falou Culley, com impaciência, e esporeou seu cavalo para longe
da proteção das árvores. Siga-me.
Metendo com força as esporas, puseram os cavalos a galope. Cavalgaram
num amplo círculo para evitar que os Calders os vissem e para chegar
perto da casa da fazenda pelo lado do celeiro, onde havia mais
proteção. Mas o caminho também era mais longo, e perderam um tempo
precioso. Os Calders estavam entrando no pátio da fazenda, quando
Maggie e Culley chegaram à cerca que ficava atrás do curral.
Chegamos tarde demais percebeu Maggie, quando viu os cavaleiros se
espalhando em leque para bloquear o caminho do pai até a casa
prendendo-o na área descampada na frente do celeiro em ruína. Seus
olhos arregalados notaram os fuzis sobre as selas. Olhou para Culley. O
que vão fazer com ele?
Não sei. O rapaz desmontou e amarrou as rédeas do seu cavalo à grade do
curral. Maggie fez o mesmo, seguindo-o enquanto Culley se agachava para
chegar mais perto.
Eu lhe avisei, Angus. Webb montava seu cavalo no meio dos cavaleiros
que se abriam em leque de cada lado dele. Devia ter-me acreditado.
Avisou-me do quê? Do gado que lhe roubaram? falou O'Rourke, com
bazófia, mas seu rosto estava branco. Não tem nenhuma prova de que tive
alguma coisa a ver com isso.
149
Já lhe disse antes, Angus, que não me importo com o tipo de prova de
que você está falando. Sabe que andou roubando meu gado. E eu também
sei. A um sinal de Webb um cavaleiro de bigode desmontou e se dirigiu
para O'Rourke com um pedaço de fio na mão. Devia ter parado quando lhe
dei a chance, Angus.
Que chance? O'Rourke lançou um olhar ansioso ao homem que se aproximava
dele, mas não correu. Os pés estavam como que presos ao chão. Qual a
chance que um cara como eu tem contra uma fazenda grande como a sua?
Você compra suprimentos mais barato do que eu posso comprar. Não há
mercado para o meu gado, porque está entupido com o seu. Fica com o
melhor pasto e a melhor água e fica olhando o resto de nós tentar
sobreviver a duras penas com o que sobrou.
Seus braços foram puxados para trás e O'Rourke cambaleou um passo, mas
não resistiu. Com duas voltas do fio seus pulsos foram unidos e
amarrados, e o vaqueiro deu um passo atrás para se postar às suas
costas. Nate tirou seu cavalo do semicírculo e se dirigiu para as
portas abertas do misto de celeiro e estábulo.
Você pensa que é uma porra de um rei por aqui. O ódio dava a O'Rourke a
força para desafiar Calder, embora estivesse tremendo de medo por
dentro. Acha que pode cavalgar pela região e nós camponeses temos que
nos curvar e humilhar e fazer tudo para agradá-lo, mesmo que isso
signifique que você ou os seus queiram foder as nossas filhas. O olhar
dele se dirigiu para Chase com veneno puro. Devemos aceitar isso e
ficar agradecidos pelas gorjetas que nos dá.
O garanhão amarelado moveu-se inquieto sob Webb e escarvou o chão
impacientemente, sensível à atmosfera explosiva, mas Webb sentava-se
calmamente na sela, escutando o discurso vingativo. Um homem tinha o
direito de falar o que queria, antes de morrer.
Roubei seu gado, Calder, e estou contente de tê-lo feito! O'Rourke
jogou a cabeça para trás e enfrentou Webb com a verdade. Estava na hora
de alguém começar a tirar de você, como você tem tirado de nós todos
esses anos. Está entalado na sua garganta, não está? Então o homem
grande e corajoso vem aqui com cinco dos seus empregados para ensinar
uma lição ao homenzinho. O que vai fazer comigo? interpelou-o. Mandar
que eles me dêem uma surra? Que me espanquem? Isso não vai-me deter.
Vou tirar cada cabeça de gado que você tem e destruí-lo. Você vai ser
um nada, como o resto de nós, antes que eu termine.
Você acaba de enfiar o pescoço num laço, Angus declarou Webb.
Junto do celeiro, Nate desmontou, carregando uma corda enrolada na mão.
O'Rourke só prestava atenção a Webb, mas Chase
viu o capataz entrar no celeiro. As portas largas das duas extremidades
estavam abertas, deixando apenas o meio do corredor do celeiro nas
sombras. Nate parou no meio e jogou uma extremidade da corda sobre uma
viga grossa. Um nó corrediço branco ficou pendurado no ar, amarrado de
forma a fazer um laço de carrasco. Chase lançou ao pai um olhar
indagador, enquanto seu cavalo se movia debaixo dele, reagindo à
pressão que aplicara inconscientemente no freio. Não havia nada no
rosto de Webb Calder para revelar suas intenções. Apenas uma dureza
ininterrupta que cobria olhos, boca e maxilar.
Sem se dar conta de que o comentário de Calder era mais do que uma
simples força de expressão, O'Rourke reagiu a ele.
Por quê? Essa confissão não lhe vai adiantar de nada. Simplesmente
negarei que a fiz, e será sua palavra contra a minha. Não importa
quantas testemunhas tenha. Todos sabem que são seus homens e dirão o
que você mandar que digam. Roubei seu gado, mas você jamais o provará.
Já lhe disse antes, Angus, tinha toda a prova de que precisava. Fez um
gesto de cabeça para o homem atrás de O'Rourke.
O vaqueiro de bigode se adiantou para segurar O'Rourke pelos ombros e
voltá-lo na direção do celeiro. O'Rourke demonstrou resistência e
desprezo, retorcendo os ombros e se soltando enquanto se virava. O
vaqueiro agarrou-lhe firmemente as mãos amarradas e fez com que andasse.
Quando Angus viu o laço à sua espera, tropeçou e lançou um olhar de
pânico por cima do ombro. O medo saía dele como se fosse uma coisa
viva, mas aquilo não causou impressão em Webb Calder. O vaqueiro
continuou a empurrá-lo para adiante e Angus olhou de novo para a
frente, hipnotizado pelo laço que oscilava ao sabor da brisa leve. Nate
tinha pegado um caixote de madeira e o colocara de pé diretamente sob a
corda. Os cavaleiros seguiram o exemplo de Webb e se agruparam junto à
porta do celeiro.
Agachados no meio de um grupo de amieiros novos que crescia ao longo do
açude do curral, Maggie e Culley tinham uma visão clara de tudo o que
estava acontecendo através da extremidade oposta do celeiro. Era uma
cena de pesadelo que se desenrolava diante dos seus olhos, enquanto
cada um esperava que o outro acordasse. A realidade daquilo tudo
finalmente tirou Maggie do seu transe incrédulo, e ela começou a se
mover para ir em ajuda do pai, mas Culley agarrou-a e puxou-a de novo
para a proteção das árvores novas.
Temos que ajudá-lo. Debateu-se sem ruído nos braços do irmão.
151
Não. Não sei o que podem fazer conosco, e preciso pensar em você,
Maggie insistiu ele, apertando-a ainda mais, mesmo depois que ela
parara de tentar se soltar dos seus braços.
O olhar dela voltou para o celeiro.
Eles não vão enforcá-lo. Era uma esperança desesperada porque Chase
estava lá, montado num cavalo castanho-avermelhado, à direita do pai.
Chase não ia deixar que enforcassem seu pai... não o Chase, que a
possuíra tão gentilmente da primeira vez, depois lavara as manchas de
sangue das suas pernas; não o Chase, que colhera para ela um buquê de
flores silvestres. Os olhos dela grudavam-se nele, mas não se parecia
em nada com aquele homem meigo. Não era o Chase. Era um Calder, e uma
tira de aço gelada fechou-se ao redor do coração dela.
Um dos vaqueiros entrou com o cavalo no celeiro enquanto o outro
ajudava O'Rourke a subir no caixote. Chase lançou novo olhar para o
pai, inseguro de até onde essa cena seria representada. Sua garganta
estava ficando contraída, à medida que a tensão aumentava.
Você não vai-me enforcar, Calder. A voz de O'Rourke tremia, sem
confiança, enquanto o cavaleiro parava sua montaria ao lado de O'Rourke
e jogava o laço no seu pescoço, ajustando-o bem. Nate pegou a outra
ponta, e prendeu a corda num suporte. Branco como mármore, O'Rourke se
mantinha rígido, com medo de se debater e tirar o caixote de debaixo de
si. Olhava para frente, os olhos alucinados e totalmente abertos. Não
vai fazer isso impunemente, Calder advertiu, com voz rouca.
Você se enforcou, Angus. É o que todo mundo vai pensar, exceto os seus
sócios na empreitada. A notícia vai-se espalhar, e vai demorar muito
antes que alguém se apodere novamente do gado da Triplo C.
Webb Calder não prolongou sadicamente o momento e esperou até que
O'Rourke se dissolvesse numa massa gaguejante de medo, implorando
misericórdia. Deu o sinal enquanto o homem estava ereto, com um
vestígio de débil desafio. E o sinal não foi um aceno óbvio de cabeça,
apenas um piscar de olhos.
Quando o caixote foi chutado de sob O'Rourke, Chase ficou atónito.
Ouviu o ranger estranho da corda, esticada ao máximo pelo súbito peso,
e a exclamação abafada e surpresa de O'Rourke. As pernas curtas
chutaram o ar numa tentativa de encontrar algo sólido debaixo delas, um
gesto que durou apenas segundos mas tornou-se indelevelmente marcado na
sua mente. O rosto de O'Rourke estava ficando cinza, os olhos e a
língua saltados. Os rins e os intestinos haviam-se soltado, aumentando
o fedor da morte.
152
Chase sentiu o estômago virar violentamente. Nunca tinha visto um homem
morrer antes. Nunca tinha visto um homem ser enforcado. Aquilo o deixou
nauseado. Chase encolheu os ombros e começou a baixar a cabeça mas o
garanhão amarelado encostou-se no seu cavalo, sacudindo-o.
A voz do pai chegou até ele, baixa e cheia de nojo.
Se botar as tripas para fora na frente desses homens, juro que...
Cerrou os dentes e não terminou a ameaça, mas o desprezo na voz dele
fez Chase enrijecer, endireitando-lhe os ombros e erguendo-lhe o
queixo. Fitou o corpo flácido que pendia da corda, sem mais ver um ser
humano, porém uma coisa. A corda fazia um som rascante enquanto se
esfregava na viga sob o peso oscilante do seu fardo.
Está morto. A voz era de um dos três homens dentro do celeiro; Chase
não sabia qual.
Desamarre as mãos dele ordenou Webb, e o homem a cavalo foi até lá e
desatou o fio.
A mão de Culley ainda tapava a boca de Maggie, onde ele a colocara
quando o caixote fora chutado de sob o pai deles para abafar o grito
dela. Seu braço a esmagava, apertando-a firmemente contra seu corpo.
Tentara virar-lhe a cabeça para que ela não visse o enforcamento,
contudo ela se recusara a desviar os olhos de todo aquele horror.
Quando todos os cavaleiros estavam montados, deixaram o pátio da
estância num trote sem pressa, voltando por onde tinham vindo, com
Calder e o filho na vanguarda. Logo que tinham sumido de vista, Culley
afrouxou seu aperto e Maggie livrou-se dele para correr para o celeiro,
sem parar até chegar à corda amarrada ao suporte do telhado. Seus dedos
tentavam desesperadamente soltar o nó, muito apertado, enquanto emitia
pequenos sons animais de frustração. Seus esforços alucinados quebraram
e rasgaram as suas unhas até o sabugo, fios de sangue dos cortes
manchando a corda branca. Ficou indiferente à dor, só parando quando
conseguiu desatar o nó. Enquanto tentava descer o pai devagar até o
chão do celeiro, o peso morto dele puxava a corda por entre as mãos
dela, queimando-lhe as palmas. Mordeu o lábio e aguentou firme,
abaixando-o gradativamente.
Antes que as botas do morto tocassem o chão, Culley já estava segurando
o corpo, e Maggie soltou a corda. Ela deslizou pela viga como uma cobra
branca e traiçoeira, acompanhando o corpo que Culley deitava
gentilmente no chão. Quando Maggie chegou junto deles, o irmão já
jogara uma manta de sela sobre a cabeça e os ombros do cadáver. Ela
caiu de joelhos ao lado
153
dele e estendeu a mão para agarrar a manta. Culley puxou-a para trás.
Não olhe para ele, Maggie. A voz do rapaz era um som áspero e
angustiado.
Quero olhar para ele! Virou-se para o irmão, o rosto mortalmente
pálido, mas uma luz ardendo ferozmente nos olhos. Quero me lembrar de
como os Calders assassinaram meu pai!
As mãos de Culley emolduraram o rosto da irmã e apertaram-no com
firmeza. As lágrimas escorriam pelo rosto dele e sua boca estava
retorcida num ricto para controlá-las.
Não olhe, Maggie. Você se lembrará de como eles o mataram igualzinho a
mim. Não precisa vê-lo para se lembrar.
E então ela foi envolvida no aperto violento dos braços dele. Maggie
agarrou-se ao irmão, partilhando da dor intensa que fazia seu corpo
estremecer, mas não havia lágrimas para trazer-lhe alívio. Invejava o
irmão porque conseguia chorar. A garganta queimava e doía, os olhos
ardiam, mas ela não vertia nenhuma lágrima.
Finalmente, encontraram forças para se separar, irmão e irmã,
partilhando da mesma expressão cheia de dor. Culley sempre fora mais
chegado ao pai do que Maggie, fora mais compreensivo com suas
fraquezas, enquanto ela as condenava. Agora, lamentava não ter sido
mais condescendente com as falhas do pai. Ele fora um homem fraco, não
um mau homem.
Teremos que chamar o xerife disse Maggie, sem tentar voltar para junto
do corpo do pai, respeitando os desejos do irmão.
Sim concordou Culley, e pousou de leve a mão no braço dela para afastá-
la dali. Eu chamo. Começaram a caminhar, lentamente, trocando a sombra
da morte do celeiro pela luz forte do sol. Maggie, preste atenção.
Quando eu falar com o xerife, vou contar-lhe que chegamos e o
encontramos...
Não vai contar que... interrompeu numa explosão de raiva, porém Culley
cortou seu protesto pelo meio.
Não. Ele parou. Suas faces ainda estavam molhadas de lágrimas, mas o
rosto não mais pertencia a um rapaz de 18 anos. Era o rosto de um
homem, amargurado e duro. Quem vai acreditar na gente, Maggie? desafiou
Culley. Calder tem todo o mundo aqui no bolso. Que provas temos, exceto
a nossa palavra? Ninguém vai aceitá-la, contra a de um Calder.
Ela sabia que o irmão tinha razão, e ficou olhando para o sul, cheia de
ódio.
Não podemos deixar que isso fique assim!
Não deixarei. Chegará o dia em que pagarão por isso prometeu Culley. Eu
juro.
154
Quando se afastaram do pátio da fazenda, não havia dúvidas na mente de
Webb Calder de que tinha feito a coisa certa. Havia sopesado as outras
alternativas e escolhido sua solução. Não fingia que outro homem talvez
não tivesse agido daquela maneira, mas também não ficou remoendo o
assunto. Fora um negócio desagradável, sem satisfação no término da
tarefa.
Sentia-se com 1.000 anos de idade, enquanto voltavam para o ponto de
encontro deles no pasto norte. Fizera o que aquela terra exigia dele,
pela maneira como fora criado, nem mais nem menos. A pena que havia no
seu coração era reservada para o filho e a filha de O'Rourke.
Com os cavalos carregados no reboque, Webb subiu ao volante do caminhão
-e lançou um olhar ao filho. Não haviam trocado uma só palavra desde
que o havia xingado no pátio da estância, mas aquilo fora para o bem do
rapaz. Notou a pele retesada sobre o malar e o maxilar. Chase se
comportara bem, sem demonstrar fraqueza ou debilidade. Webb lhe dera
tempo para pensar por si mesmo durante a viagem de volta. Agora chegara
a vez de falar, não para defender seu gesto, porque Webb nunca defendia
uma decisão. Não, queria falar para descobrir o que havia no coração do
filho.
Existem muitas decisões difíceis que um homem tem que ter estômago para
tomar, algumas mais desagradáveis do que as outras. Angus foi advertido
e teve a chance de poder deixar a Triplo C em paz, porém voltou para
roubar mais gado. Se você deixa um homem pisar em você, então dois
pisarão, depois três, depois quatro... tantos que você não conseguirá
detê-los. Terá que deter o primeiro, ou os outros acabarão por vir.
Angus deixou bem claro que queria deixar a Triplo C de joelhos.
Tudo começou porque eu possuí a filha dele falou Chase numa voz
monótona, despida de emoção.
Não. Isso Webb não aceitava. O lavrador Anderson tem um filho mais ou
menos da sua idade. Se a filha de O'Rourke tivesse começado a dar suas
fugidas para ir encontrar-se com ele, Angus fingiria não ver e
encararia tudo como parte de ser jovem e impetuoso. Mas você é um
Calder, e Angus usou-o como desculpa. Você se tornou a justificativa
dele para roubar o gado da Fazenda Triplo C. Se não tivesse sido você,
ele teria achado outra coisa qualquer. E teria continuado a roubar
porque aquilo o fazia sentir-se grande. Angus odiava ser pequeno.
Chase inspirou e soltou a respiração, olhando desolado pela janela.
Não houve nada de bom no que aconteceu hoje. Webb sentia-se mais
tranquilo. Um homem tinha que enfrentar as coisas sem gostar delas, e
era o que seu filho estava fazendo. Não
155
se pode passar pelo mundo sem ganhar cicatrizes. Faz parte da vida. Não
se vive num paraíso. Sempre existe trabalho sujo para ser feito, mas
jamais mande outra pessoa fazê-lo em seu lugar.
Webb ficou satisfeito com a atitude do filho e ficou em silêncio para
deixar que Chase pensasse no que ele dissera. Até agora a estrada para
a vida adulta fora relativamente suave para o filho, mas ia ficar mais
dura e mais solitária. Webb já passara por ela, portanto sabia para o
que devia preparar o filho.
Pouco antes do jantar o telefone tocou. Webb fez sinal a Chase para não
sair da cadeira.
Deixe que eu atendo. Foi até a extensão que havia na sua escrivaninha
no escritório e levantou o fone. Triplo C.
Webb? Aqui fala o Xerife Potter disse a voz arrastada na outra
extremidade da linha.
Sim, Xerife. Em que posso servi-lo? Webb pousou seu drinque na
escrivaninha e passou para trás dela para se sentar na cadeira
giratória, recostando-se para olhar fixamente para o teto do escritório.
Pensei que gostaria de saber que Angus O'Rourke foi encontrado morto
hoje, no seu celeiro. Enforcado falou, com voz muito arrastada.
Cometeu suicídio, foi?
Fez-se uma longa pausa antes que o xerife respondesse.
É o que me parece.
Que pena.
É, sim confirmou o xerife, com um suspiro. Bem, achei que você gostaria
de saber.
Agradeço por ter-me telefonado.
Mais algum problema com aqueles ladrões?
Não. Acho que vão-nos deixar em paz.
ótimo. Cuide-se, Webb.
Você também. Desligou o aparelho com um olhar pensativo, lançando um
olhar a Chase, mas não fez comentários.
156
Capítulo XIV
A tesoura estava a seu lado na mesa, mas Maggie cortou a linha escura
com os dentes e deixou o retrós de lado. Umedecendo a extremidade da
linha para formar uma ponta, enfiou-a certeiramente pelo buraco da
agulha; depois, seus dedos rolaram a extremidade da linha e formaram um
nó. O botão não combinava exatamente com os outros no paletó do terno,
mas era o mais parecido que conseguira encontrar na cesta de costura da
mãe. Sua mente estava vazia, abençoadamente vazia, enquanto segurava o
botão no lugar com o polegar e o indicador e enfiava a agulha no pano,
a ponta prateada aparecendo no buraco do botão. Prender um botão que
faltava era uma tarefa simples que exigia pouca concentração, algo que
podia ser feito automaticamente, mas era infinitamente melhor estar
ocupada. Podia vagar, sem sentir dor, sofrimento, amargura ou ódio,
apenas entorpecimento, enquanto a agulha prateada entrava e saía do
botão.
Uma pick-up entrou no pátio, rompendo o silêncio. O olhar dela ergueu-
se do paletó para a janela da frente. Provavelmente era Culley vindo da
cidade, pensou distraidamente. Mas era um homem alto, de passadas
largas que se vinha aproximando dos degraus da varanda. Os dedos dela
perderam seu ritmo com a agulha e a ponta aguda espetou um dedo
sensível. Todo o emaranhado de emoções quentes voltou para queimar sua
consciência enquanto chupava o ponto vermelho de sangue no dedo. Quando
Chase Calder bateu à porta de tela, esta chocalhou contra a moldura.
Maggie nem se mexeu de sua cadeira nem ergueu os olhos.
Entre. Na sua voz não havia vestígio do que lhe fervilhava por dentro.
A porta foi aberta, este som sendo seguido pelo de passos que entravam.
Hesitaram, depois cruzaram o resto da sala e vieram parar
157
junto à cadeira dela. Ela podia ver as pontas marrons das botas dele
enquanto dava o nó na linha e pegava a tesoura para cortá-la em dois.
Alo, Maggie. A voz dele era suave.
Estava faltando um botão neste terno. Enfiou a agulha e linha no porta-
alfinete cor de morango e dobrou o paletó sobre o braço da cadeira.
Tive que prendê-lo porque meu pai vai ser enterrado com ele. É o único
terno que possuía. Maggie se levantou, os dedos ainda agarrando com
força o cabo da tesoura.
Chase tinha tirado o chapéu e segurava-o à sua frente. Seu peito largo
se ergueu quando ele inspirou fundo e levantou os olhos para fitar os
olhos verdes dela.
Sinto muito o que houve com seu pai, Maggie falou, com ar sombrio. Se
houver algo que eu possa fazer...
A hipocrisia dele fez com que o sangue corresse violentamente pelas
veias dela.
Agora, não há nada que você possa fazer! Se queria fazer algo para
ajudá-lo, por que não os impediu de o enforcarem?!!! explodiu. O choque
tremulou nas feições duras dele. Aquilo fez com que ela o provocasse
com o que sabia. Vi você com seu pai e os outros. Não pensaram que
havia alguém vendo vocês o enforcarem, não é? Mas nós vimos tudo!!
O rapaz virou a cabeça para o lado, deixando ver o perfil aquilino. Um
músculo se mexia ao longo do seu maxilar enquanto parecia lutar para
controlar alguma emoção. Depois voltou a olhar para ela, sem que nada
transparecesse na sua expressão, nem pesar nem tristeza.
Gostaria que não tivessem visto. Não havia alteração na voz dele, todo
o sentimento reprimido. Ela o fitou, olhando para um estranho, não para
um homem em cujos braços tinha-se deitado tantas vezes. Por dentro, a
jovem estava-se enroscando como uma cascavel que prepara o bote. Os
olhos dele se estreitaram, sondando-a na sua intensidade. Você ouviu
seu pai admitir que era quem estava roubando nosso gado.
Não roubou sozinho! explodiu Maggie. E quanto aos outros? Também vão
enforcá-los? Sou parte da coisa. Sabia das incursões deles. Até mesmo
dei-lhes cobertura. Também vão-me enforcar?
A admissão pegou Chase de surpresa. Até aquele momento acreditara que
ela nada soubesse do envolvimento do pai no roubo do gado dos Calders.
Uma sensação fria de traição percorreu-o.
Por que não me contou antes? interpelou-a.
158
O que você teria feito? Você me entregaria a seu pai?
Ela tremia com a raiva que fervia dentro de si. Ela martelava de
encontro a seu controle, buscando uma saída, uma fuga. O que
acha que ele teria feito comigo? Ia pendurar-me ao lado de papai?
Chase abespinhou-se.
Meu pai não teria levantado uma mão contra você. Não feriria uma mulher
intencionalmente.
Foi aí que cometeu seu erro! Sacudia-se de fúria, a mão crispando a
tesoura. Deviam ter-se livrado de todos nós! Todos nós! Está ouvindo?!!
Algo o avisou no último segundo. Talvez fossem as lâminas de aço da
tesoura falseando ao sol ou o ligeiro movimento da cabeça dela que
assinalou o bote. Mas, quando a mão dela se dirigia para a barriga
dele, Chase se encolheu e jogou o braço para frente para desviar a
tesoura do alvo. As pontas da lâmina rasgaram sua camisa e abriram um
corte diagonal em toda extensão do seu antebraço. Parecia que um ferro
quente tinha sido encostado na sua pele, mas não havia tempo de pensar
no ferimento.
Agarrou o pulso da mão que segurava a tesoura e torceu-o para trás até
escutar a exclamação abafada de dor misturada a sons animais de raiva
encurralada, e depois os dedos dela soltaram involuntariamente seu
aperto. Uma faixa larga de sangue já manchava de vermelho a camisa e
escorria pelas costas da mão dele, quando Chase tirou a tesoura dela e
empurrou-a para trás, para longe de si.
Com um arremesso violento jogou a tesoura para o lado oposto da sala. O
gesto fez com que uma pontada de dor percorresse seu braço inteiro. A
dor lhe provocou uma careta involuntária, enquanto ele segurava com a
outra mão a ferida latejante e sentia o sangue pulsar dela e escorrer
por entre os dedos, quente e pegajoso.
Sua tonta, sua maluca! Fitou Maggie, furioso, segurando o braço
ensanguentado. No estado em que ela estava, não havia esperanças de
argumentar com ela, mas não podia culpá-la pelo ódio amargo que sentia
pelo que haviam feito. Apanhou o chapéu do chão e enfiou-o na cabeça,
enquanto se virava e saía, o sangue pingando das extremidades dos dedos.
Na boleia da pick-up, Chase tirou o lenço do bolso de trás da calça e
enrolou no braço, logo abaixo do cotovelo. Segurando uma das pontas nos
dentes, amarrou o nó bem forte num esforço para aplicar pressão à
ferida e deter o fluxo do sangue. Todo o seu braço parecia que estava
pegando fogo.
159
Quando finalmente chegou à Triplo C, estava cerrando os dentes para
suportar a dor. Dirigiu-se diretamente ao dispensário de primeiros-
socorros e estacionou em frente ao prédio. O sangramento tinha
praticamente parado, mas a metade inferior da manga estava saturada de
sangue que já começara a secar na sua mão e nos dedos. Saiu da
camioneta, segurando com cuidado o braço.
Ei, Chase! Buck apareceu vindo rapidamente na sua direção. Webb está
procurando por você. Por onde andou? Então, notou o braço do amigo, e o
sorriso indagador sumiu-lhe do rosto. Puta merda! O que foi que fez
isso em seu braço?
Chase ignorou as perguntas e continuou o seu caminho para o gabinete de
primeiros-socorros.
Entre e venha me ajudar a dar um jeito nisso. Buck apressou-se a abrir
a porta e Chase caminhou diretamente para a pia, tentando soltar o nó
do lenço. Quando o conseguiu, virou-se para Buck. Rasgue a manga na
altura do cotovelo. A camisa está perdida, de qualquer maneira. A
frente dela estava toda manchada de sangue.
A fazenda rasgou com facilidade ao puxão de Buck e caiu ao redor do
pulso. Chase desabotoou o punho e jogou a manga ensopada de sangue na
cesta de lixo. Abrindo a bica, manteve o braço debaixo d'água para
lavar o grosso do sangue. A força da água batendo contra a ferida
irregular reacendeu a dor violenta. Chase estava branco em volta da
boca quando terminou, e com os joelhos trémulos.
Agarrando uma cadeira, puxou-a para junto da pia e se sentou, apoiando
o braço no balcão.
Termine você disse para Buck, tirando o chapéu e pendurando-o nas
costas de outra cadeira. O sangue começava a escorrer devagarinho do
corte.
Buck olhou para o amigo e sacudiu a cabeça.
O que foi que você fez? Meteu-se numa briga de faca com alguém? disse,
enquanto limpava com cuidado a feia ferida.
Quer calar a boca e cuidar da ferida? exigiu Chase, lutando contra as
ondas de fraqueza que o acometiam.
Está parecendo funda, Chase. Havia um ar de concentração preocupada no
rosto do amigo. Talvez eu deva levá-lo ao médico para dar uns pontos.
Chase flexionou os dedos da mão e cerrou o punho. Doía como o diabo,
mas ele não podia sentir nenhum dano para os músculos ou os nervos.
Se precisar ser costurado, você mesmo pode fazê-lo. Já costurou um
bocado de animais; sabe como se faz.
160
Buck hesitou, incerto.
Você pode precisar de uma injeção antitetânica.
Não, a tesoura estava limpa. Além do mais, ele sangrara o suficiente
para eliminar qualquer risco de infecção.
Tesoura? Buck olhou para ele, de sobrancelhas erguidas. Foi uma mulher
que fez isso?
Quer tirar o raio das suturas da gaveta e costurar isso! E pare de
fazer perguntas! explodiu Chase.
Está bem! Não precisa me arrancar a cabeça. Buck recuou com exagero
simulado e se dirigiu para o armário onde eram guardadas as agulhas
esterilizadas e a linha de sutura. Antes de começar a costurar a
ferida, lançou um olhar para Chase. Isso vai doer. Sabia? Ante o feio
olhar que recebeu em resposta, Buck deu de ombros para indicar que ele
fora avisado e enfiou a agulha na carne para dar o primeiro ponto.
A testa de Chase ficou molhada de suor enquanto ele cerrava os dentes
com força contra as ondas de dor. O braço dele tremia com o esforço de
tentar manter-se imóvel, ajudado pela mão de ferro de Buck. Cada
respiração era quase um gemido.
Ouviu contar que Angus O'Rourke se enforcou ontem?
perguntou Buck, para puxar conversa.
É, ouvi. Chase gostaria que ele tivesse escolhido um assunto diferente.
Que merda, como eu gostaria de uma bebida.
Deviam guardar um pouco de uísque aqui refletiu Buck, depois sorriu por
um segundo. É claro que esses vaqueiros viriam correndo para cá cada
vez que machucassem um dedo.
Ainda não acabou? perguntou Chase, por entre os dentes, e deu uma
olhada para ver Buck terminar o último ponto e dar um passo atrás para
apreciar seu trabalho.
Aposto que daria um bom cirurgião declarou, enquanto começava a fazer o
curativo com habilidade no ferimento.
Não com o seu jeito de tratar o doente retrucou Chase. Você curte
demais a dor das outras pessoas.
A porta se abriu quando Buck estava colocando o último pedaço de
esparadrapo para segurar a gaze no lugar. Chase olhou por cima do
ombro, depois desviou o olhar sem encontrar o do pai.
Vi a pick-up lá fora. Webb Calder franziu a testa ao ver o curativo que
cobria toda a extensão do antebraço de Chase.
O que aconteceu?
Eu me cortei. Buck exagerou no curativo. Chase tentou fazer com que
parecesse uma ferida sem importância, mas
161
custou a ficar de pé, inseguro quanto à sua estabilidade. Acho que ele
está praticando para se tornar médico.
Buck entendeu a indireta e discretamente juntou os instrumentos
cirúrgicos antes que Webb os notasse, escondendo-os na dobra de uma
toalha. Levou-a para o outro lado da sala para deixá-los ali,
momentaneamente. Ouviu Webb perguntar a Chase onde tinha estado e
esforçou-se para escutar a resposta dada em voz baixa.
Fui ver Maggie. Chase pegou o seu chapéu e ficou examinando a carneira
interna. Ela estava lá... tanto ela quanto Culley. Eles nos viram... a
todos nós.
Webb inspirou fundo e soltou um suspiro perturbado.
Não sabia.
Não. Chase colocou o chapéu, apoiando-o primeiro na testa, depois
enterrando-o na parte de trás da cabeça. Vou ficar fora por uma semana
ou duas.
O pai deixou a frase pender no ar durante um ou dois minutos, depois
perguntou simplesmente: Onde?
Pensei em levar uma besta de carga e subir as montanhas, quem sabe
verificar algumas cercas. Chase examinou o padrão do chão de ladrilhos.
Acho que não ia dar mesmo em nada. Talvez eu já tivesse sabido, desde o
começo.
Buck levou um minuto para se dar conta de que Chase estava-se referindo
a Maggie O'Rourke. Soltou um assobio mudo enquanto adivinhava quem era
a mulher com a tesoura. A outra parte sobre ela os tendo visto, ainda
não conseguira destrinçar. A princípio pensara que Chase queria dizer
que a garota vira o pai se enforcar, mas quando ele acrescentara que
ela os tinha visto, deixava de fazer sentido. O que Webb e Chase
estariam fazendo lá? Porém ele dissera "todos nós". Webb e Chase tinham
ido a algum lugar ontem de manhã. Ele os vira carregarem os cavalos e
sair juntos. Nate também se mandara... e Stumpy. Buck concluiu que
seria interessante descobrir quem mais desaparecera à mesma hora.
Se você acha que é necessário partir, não tentarei detê-lo.
Mas Webb não parecia satisfeito.
Preciso de tempo para pensar numas coisas. Chase não recuou.
Quando parte?
Agora... hoje à tarde, logo que arrume algumas coisas.
Segurando o braço ferido de encontro à cintura, Chase passou pelo pai e
saiu pela porta do dispensário.
Às quatro da tarde, ele saía do pátio da fazenda montado num cavalo
castanho-avermelhado, um saco de dormir amarrado
162
atrás da sela e suprimentos colocados sobre a besta de carga malhada
que puxava. Dirigia-se para a pequena cordilheira que se intrometia no
limiar Oeste da Fazenda Triplo C.
O dia seguinte era quinta-feira, o dia em que o Dr. Barlow abria
regularmente sua clínica. Quando Maggie saiu da sala de exames ninguém
achou estranho que parecesse tão branca e tensa, ou que não falasse com
ninguém. A pobre criança ia enterrar o pai no dia seguinte. Que coisa
terrível Angus ter cometido suicídio, deixando dois adolescentes
órfãos. Todos comentavam, cheios de piedade.
Culley estava esperando por ela no café do Tucker. Este era o único que
realmente sabia a verdade sobre o modo como o pai deles morrera. Culley
o havia informado no dia em que acontecera. Tucker ficara branco como
um lençol e os interrogara para descobrir se Calder sabia que ele
estava envolvido. Culley negara iradamente a insinuação de que o pai
dera algum nome para Calder. Mas Tucker ficara igualmente preocupado
com o que Calder pudesse fazer com eles, e concordara que ninguém iria
acreditar na história deles.
Quando Maggie entrou no reservado em que Culley estava sentado, ele
perguntou:
O doutor lhe deu uns comprimidos para ajudá-la a dormir?
Aquela tinha sido a sua desculpa para ir consultar o médico. Ainda não
se achava pronta para contar ao irmão que estava grávida, portanto
deixou que ele acreditasse no outro motivo por mais algum tempo.
Deu.
Tucker trouxe-lhe uma fatia de torta de maçã e um copo de leite, sem se
dar ao trabalho de perguntar se ela queria alguma coisa.
Como está-se sentindo? Assumira o papel de parente distante, uma
espécie de tio postiço do casal.
Bem respondeu, a jovem, lançando um olhar inseguro para a torta.
É por conta da casa tranquilizou Tucker, e depois se afastou com a
chegada de outro freguês.
Tucker e eu estivemos conversando começou Culley, inclinando-se para
frente, um tanto ansioso. E andei pensando um bocado sobre o que vamos
fazer, agora que papai se foi. Achei
163
o telefone da Tia Cathleen num antigo caderno de endereços da mamãe.
Liguei para ela há pouco para falar da morte do papai... e para
indagar-lhe se você podia ir morar com ela.
Como? exclamou Maggie, sem ter certeza se havia entendido direito.
Você vai embora daqui e vai morar na Califórnia com Tia Cathleen.
Amanhã depois do enterro, vou botá-la num ônibus. Parou de olhar para
ela e começou a mexer num guardanapo de papel. Você sempre teve vontade
de sair daqui e ser alguém na vida. Vai ter sua chance, agora.
Esse sempre fora o sonho dela, no entanto as circunstâncias atuais
estavam todas erradas.
Mas, e você, o que vai fazer?
Vou ficar aqui e tentar manter a fazenda funcionando.
Não vai conseguir sozinho. O pai falhara com eles dois a ajudá-lo.
Não vai ser fácil admitiu, com um dar de ombros defensivo. Posso usar
um pouco do dinheiro do papai para contratar um empregado regular, e
Tucker falou que me ajudaria. Mas quero que leve a maior parte do
dinheiro com você. Quando viu o protesto se formando, aparteou
rapidamente. Se alguém lhe perguntar onde o conseguiu, diga que papai
tinha algum seguro de vida.
Não posso ir morar com Tia Cathleen declarou Maggie, com firmeza.
Por que não? Não quero que fique aqui declarou Culley, com uma ponta de
raiva.
Ela estreitou a boca, numa resignação sombria.
Culley, fui ver o Dr. Barlow porque estou grávida. Vou ter um filho de
Chase Calder disse, a voz tremendo de amargura ao pronunciar seu nome.
Culley fixou-a com olhar desolado antes de finalmente encostar a testa
nas mãos, segurando a cabeça enquanto a sacudia de um lado para o outro.
Eu sabia. Sabia que aquele demónio filho da mãe plantaria sua semente
em você. Passou-se um longo momento antes que ele erguesse a cabeça e
soltasse um suspiro. Mais um motivo para você não ficar aqui, Maggie.
Contou ao Dr. Barlow quem é o pai?
Não. Ele me perguntou se era Chase. Já tinha ouvido comentários de que
eu estava saindo com ele. A moça enterrou
164
os dedos nas palmas das mãos, fervendo com a lembrança do embaraço. Fiz
com que ele jurasse que não falaria.
Todos estão comentando porque todos sabem... e vão adivinhar. Não está
vendo, Maggie? falou Culley, ansioso. Vai piorar se você ficar aqui.
Além disso, Tia Cathleen quer que você vá.
Mas vai querer, quando descobrir que estou grávida? indagou Maggie.
Uma vez que esteja lá, como poderá mandá-la embora? argumentou ele. E
se mandar, você pode tomar outro ônibus e voltar para cá. Mas ela se
mostrou um amor ao telefone, Maggie. Muito parecida com mamãe. Olhou
para ela com olhos atormentados e tristes, queimados com um ódio amargo
que jamais iria embora. Estou tentando fazer o que acho que é melhor.
Não sei se estou certo, mas ficar aqui não vai ser bom para você. Vá
embora amanhã, Maggie. Vá embora antes que os Calders a magoem de novo.
Eu vou, mas não estou fugindo deles insistiu a moça.
Em dois dias, Chase chegou às montanhas. Durante uma semana cavalgou
pelos montes rochosos e encostas pontilhadas de pinheiros, olhando para
o vasto céu azul, sempre em mutação, sempre constante, e pensando... às
vezes em nada mais significativo do que o modo como o Sol que se
filtrava por entre as árvores iluminava o solo.
Acampado sob as estrelas com os cavalos amarrados numa clareira
gramada, Chase fumava um charuto fino, esticado no chão e com a sela
lhe servindo de travesseiro. Numa colina distante um coiote uivava, o
seu uivo o som mais triste e solitário do mundo. A fogueira do
acampamento tinha-se apagado, deixando apenas o coração vermelho
ardendo. Uma estrela cadente passou, a luz dos seus milhões de anos
deixando um arranhão branco no céu negro que logo desapareceu, como se
não tivesse existido.
A vida nem sempre é aquilo que uma pessoa deseja, ou mesmo aquilo que
ela tenta fazer com que seja. Ele pegara uma garota e a transformara em
mulher antes do tempo. Ignorara sua juventude, o seu ambiente familiar,
o ressentimento do pai dela contra os Calders, certo de que esses
fatores jamais poderiam tocá-los, que poderiam ficar isolados do que
havia de desagradável no mundo. Chase se deu conta de que o
relacionamento deles fora
165
sem profundidade porque negava o que cada um deles era. Uma coisa
perdura quando há compromisso, e desaba quando não há nenhum.
Chase flexionou o braço. Agora podia movê-lo com mais liberdade; já não
o incomodava tanto. Com o tempo, ficaria completamente bom, mas a
cicatriz permaneceria.
Depois de duas semanas nas montanhas, Chase se pôs a caminho. Fez um
desvio para o pasto Norte, um passeio de despedida aos dias simples que
jamais voltariam. Finalmente aceitara isso, e virou seu cavalo na
direção da Casa Grande, sem olhar para trás.
Logo que o cavaleiro e a besta de carga foram avistados aproximando-se
da sede da Triplo C, um empregado da fazenda foi despachado para a Casa
Grande a fim de avisar que Chase vinha chegando. Todos evitaram
cuidadosamente notar a presença de Webb Calder, enquanto ele se dirigia
calmamente para os celeirosestábulos. Não havia ninguém num raio de 20
metros de pai e filho que se encontravam depois de uma separação de
duas semanas.
Estou vendo que finalmente voltou comentou Webb com um ar fingido de
leve interesse. Mas seus olhos estudavam atentamente o cavaleiro, com
uma espessa barba sombreando as feições severas.
A boca de Chase se abriu num sorriso, mostrando os dentes brancos
contra a barba escura, e havia um brilho cintilante nos olhos castanhos.
Os meus charutos acabaram respondeu, e fez sinal
para o cavalo andar, passando com ele pelo pai para entrar no celeiro,
puxando a besta de carga.
Havia orgulho na postura da cabeça de Webb Calder. O filho estava de
volta, e se achava inteiro. Nate Moore veio saindo do celeiro e parou
ligeiramente ao lado de Webb. Olhou para trás, para a abertura pela
qual Chase tinha desaparecido.
Não tem a sensação de que ele partiu um rapaz e voltou um homem?
perguntou Nate, seguindo seu caminho sem esperar resposta.
Só dali a vários segundos foi que Webb entrou atrás do filho e caminhou
até a baia onde Chase tirava a sela do cavalo.
Maggie O'Rourke foi embora. Foi para a Califórnia morar com uma parente
da mãe... uma irmã, parece.
O ritmo das mãos que afrouxavam a cilha da sela não se alterou.
166
Fico contente por ela afirmou Chase, e tirou a sela do lombo do cavalo.
Dando meia-volta, jogou-a no topo da parede divisória da baia e
enfrentou serenamente o olhar do pai, por cima da sela. É o que ela
sempre desejou... uma chance de ir embora daqui e ser alguém na vida. É
o melhor.
Sim concordou Webb.
167
PARTE IV
Um céu de separação, Um céu em dois, Este céu Que ampara um Calder.
Capítulo XV
Havia muita coisa na tia que fazia Maggie lembrar-se da mãe. O colorido
era o mesmo, exceto que fios grisalhos já tinham começado a pratear os
cabelos negros da tia, e seus olhos eram de um tom mais escuro de
verde. Cathleen era mais alta do que fora a mãe, e mais gordinha, porém
durante os últimos anos de sua vida a mãe trabalhara tanto que ficara
magra. O mais importante é que a tia tinha o mesmo temperamento meigo e
carinhoso. Recebera Maggie na sua casa de braços abertos.
Maggie fitou as mãos que envolviam com tanto carinho os seus dedos
muito apertados. Não tinha sido fácil informar à tia que ia ter um
bebé. A despeito deste gesto de afeto e compreensão, Maggie se preparou
para as palavras de reprimenda.
Mas elas não vieram.
É possível que isso possa até ser uma bênção disfarçada sugeriu
Cathleen Hogan.
Maggie levantou a cabeça, desconfiada e cética.
Como assim?
Contara por alto as circunstâncias do seu relacionamento com Chase
Calder, assim como fora pouco comunicativa quanto à morte do pai,
contando apenas que seu pescoço fora quebrado e ele morrera
instantaneamente, deixando que a tia imaginasse que tinha sido um
acidente. Aproveitou-se do fato de que Cathleen esperava que ela
estivesse nervosa demais para discutir o assunto.
Fico preocupada em deixar Mamãe e Papai Hogan sozinhos o dia inteiro,
enquanto estou trabalhando explicou Cathleen, referindo-se aos pais do
seu falecido marido, que atualmente também moravam com ela. Há dias em
que Mamãe Hogan fica tão atacada de artrite que nem pode se mexer. Com
Papai Hogan ficando mais surdo a cada dia que passa, fico preocupada
que, caso ela caia, o velho possa deixar de ouvir seu pedido de
socorro. Minha vizinha, a Sra. Houston, dá uma espiada neles uma ou
duas vezes por dia, mas não posso pagar alguém para ficar com eles o
tempo todo. Com você aqui, Mary Frances... Usou o nome de batismo de
Maggie, e fez uma pausa.
Cuidarei deles e prepararei suas refeições ofereceu Maggie, aliviada
por poder ajudar a tia, e não ser um peso. Era mais do que o seu traço
férreo de independência poderia tolerar... estar grávida e dependente
de uma pessoa relativamente estranha.
Para mim seria um alívio, se você fizesse isso. Cathleen sorriu,
calorosamente. Estava com medo de ter que largar meu emprego e os
Gordons têm sido muito bons e compreensivos. Apertou as mãos de Maggie
de maneira confortadora. Terei que pedir ao Dr. Gordon para recomendar
um obstetra para você. Quero que você e o bebé fiquem saudáveis.
Desde que chegara na área de Chatsworth, do Vale de San Fernando, na
Califórnia, há três dias, Maggie soubera que a tia trabalhava para uma
família chamada Gordon. Tinha sido contratada como governanta para o
casal de irmão e irmã, mas seus deveres gradativamente tinham evoluído
e agora também tomava conta pessoalmente da irmã, Pamela Gordon, que
ficara parcialmente paralisada após uma queda de cavalo. Naturalmente,
era Pamela que a tia mencionava com mais frequência. Pouco sabia do
irmão.
Que espécie de médico é o seu patrão? perguntou Maggie, a curiosidade
despertada pelo comentário.
É um cirurgião plástico, muitíssimo conhecido. Cathleen parecia
pessoalmente orgulhosa disso. As pessoas desfiguradas em incêndios ou
acidentes estão sendo sempre recomendadas para procurá-lo. Ele tem
consultório e clínica em Los Angeles, que fica a uns quarenta e cinco
minutos de carro de sua casa, portanto vai e volta diariamente.
Maggie não lhe invejava a viagem diária de ida e volta. As ruas e auto-
estradas estavam entupidas de veículos. Tinha ouvido falar no tráfego
de Los Angeles, mas vê-lo era uma outra história.
Que bom que você está aqui comigo, Mary Frances. A tia preencheu o
breve silêncio que se seguiu a seu comentário. Sei que é o que a sua
mãe teria querido.
O que fez Maggie dizer:
Mamãe sempre esteve decidida a que Culley e eu tivéssemos instrução.
Apesar de estar esperando bebé, ainda vou me formar.
172
Isso não será problema. As escolas aqui têm cursos noturnos três vezes
por semana. Além disso, há cursos por correspondência disponíveis que
permitem que você aprenda em casa replicou a tia. Vamos verificar as
duas coisas para ver qual será a melhor para você. Tudo vai dar certo.
Você vai ver.
Quando a tia saiu do quartinho que era de Maggie para voltar para a
sala onde os sogros assistiam à televisão, Maggie sentiu-se mais
otimista em relação ao futuro do que se sentia há muitos dias. Pelo
menos agora ela tinha algo de definitivo para escrever e contar a
Culley.
Quase um mês se passou antes que recebesse uma resposta do irmão. Nesse
meio tempo, começara a fazer cursos por correspondência e sua vida se
acomodara numa rotina tranquila de cuidar da casa e da Vovó e do Vovô
Hogan, como começara a chamá-los. A carta de Culley chegou quando ela
estava botando o almoço na mesa. Deixou seu prato de sopa esfriar
enquanto a lia.
28 de setembro Querida Maggie,
Como vai? Eu vou bem. Está começando a esfriar por aqui. Que tal está o
tempo na Califórnia? Que bom você gostar daí.
O café de Tucker se incendiou na semana passada. Jake viu o fogo da sua
janela quando estava fechando, e deu o alarme. O prédio inteiro estava
em chamas quando o carro de bombeiros do condado chegou. Deixaram o
café arder e jogaram toda a água no estabelecimento de Jake para
impedir que o fogo se espalhasse para o prédio dele. Só sobrou do café
de Tucker o esqueleto incendiado. Ele perdeu tudo, até mesmo o dinheiro
que guardava numa caixa de metal no quarto dos fundos. O fogo estava
tão quente que acho que transformou as notas em cinzas. E ele não tinha
seguro.
Dizem que o fogo começou na cozinha. Alegaram que foi causado pela
gordura. Mas aposto que foi Calder quem o começou. Tucker também acha a
mesma coisa, mas não pode dizer nada, como nós não pudemos.
Tinha contratado um homem para me ajudar na fazenda, mas ele se
despediu ontem. Ninguém vai-me convencer de que o Calder não teve nada
a ver com a saída dele. Ele jamais me forçará a sair daqui. Eu me
vingarei dele pelo que fizeram. Pode levar algum tempo, mas eu o farei.
Não há mais novidades, portanto vou ficando por aqui. Cuide-se.
Seu irmão, Culley
173
Maggie releu a carta toda, depois dobrou-a devagar e enfiou-a de novo
no envelope. Ficou melancólica, as lembranças doloridas revividas.
De quem é a carta, Mary Frances? indagou Vovô Hogan, numa voz alta,
para poder ouvir a si próprio. Sempre usava o nome de batismo de
Maggie, como Cathleen.
De Culley. A voz dela era monótona, sem vida.
Quem? Ele franziu a testa e levou a mão ao ouvido.
Meu irmão! Desta feita, Maggie respondeu alto o bastante para o velho
ouvir.
No domingo seguinte, Cathleen preparou uma cesta de pique nique e
surpreendeu Maggie com um passeio até a praia, depois da missa. Era a
primeira vez que a jovem via o oceano. No minuto em que Cathleen
assegurou-lhe de que ela e Mamãe Hogan podiam dar conta de arrumar as
coisas do lanche sozinhas, Maggie tirou as sandálias e caminhou
descalça pelas areias aquecidas pelo sol até a água.
Parando pouco antes das ondas que lambiam a praia, ela fitou a vasta
extensão de vagas do oceano, verdes-escuras abaixo de um envolvente céu
azul. Por um instante, sentiu-se transportada numa lembrança de
Montana, um mar de pasto sob um imenso céu.
Um dedinho de água salgada enroscou-se nos seus dedos, trazendo-a de
volta ao presente. Estava fresquinha, depois do calor do sol. Entrando
um pouquinho na água, virou-se e andou paralelamente às marcas da maré
enquanto as ondas quebravam suavemente nos seus tornozelos. O ar tinha
um travo. Subitamente curiosa, Maggie se abaixou e pegou um pouco de
água na concha da mão. Tocou a umidade com a ponta da língua e torceu o
nariz ante o gosto salgado, de peixe, sacudindo as gotas da mão.
A praia começou a encher com o pessoal de roupa de banho, tornando
Maggie cônscia de que estava deslocada no seu vestidinho de verão. Era
um vestido velho da tia, reformado para servir no corpo em
transformação de Maggie... não que já estivesse aparecendo muito. Só
quando olhava de lado no espelho é que notava a saliência do estômago.
Partilhar a praia e o oceano com os outros não diminuía sua satisfação
na experiência, mas mesmo assim Maggie voltou para se reunir à tia e ao
casal idoso. Cathleen sorriu quando viu Maggie aproximar-se.
O que você acha do Pacífico?
É uma maravilha admitiu Maggie, caindo de joelhos na manta que a tia
abrira no chão. Preciso escrever a Culley hoje à noite e dizer-lhe que
o oceano é realmente salgado.
174
Está com fome? Temos frios, salada de abacate, queijo frutas. Cathleen
passou-lhe um prato.
Está tudo com ótima cara. Começou a encher o prato, servindo-se de um
pouco de cada coisa.
O que gostaria de beber, Mamãe Hogan? perguntou Cathleen à sogra. Tenho
água gelada e limonada.
Limonada. Virou-se para o marido. O que você
quer beber, John?
Art ainda não voltou com a cerveja? perguntou ele, referindo-se ao
falecido marido de Cathleen, seu filho.
John, você está ficando velho reclamou vivamente a mulher. Está
caducando. Há doze anos que nosso filho morreu. Lançou um olhar triste,
de quem pedia desculpas, para Cathleen.
Não se preocupe, Mamãe Hogan. Está tudo bem disse a nora, com um
sorriso.
Maggie adivinhava que estava mais a par do que a tia da frequência com
que esses lapsos de memória do sogro de Cathleen aconteciam. Eram
costumeiros durante a semana. Por mais que se tivesse afeiçoado ao
casal idoso, aquilo tornava difícil a manutenção de uma conversa. Não
falou nada para a tia, mas contou a Culley numa carta.
Alguns dias após o Dia de Ação de Graças, chegou uma carta dele.
30 de novembro Querida Maggie,
Desculpe não ter tido tempo de escrever para você, mas tenho andado
muito ocupado.
O que fez no Dia de Ação de Graças? Tucker veio até aqui. Trouxe comida
e preparou o jantar. Está trabalhando agora para Calder como
cozinheiro. Mal pude acreditar quando me contaram, na cidade. Falou que
foi o único lugar em que arranjou emprego. Disse a ele que poderia ter
ficado aqui, mas ele falou que era cozinheiro, não vaqueiro. Porém ele
ainda odeia Calder do mesmo jeito que a gente.
Houve uma briga e tanto no Jake's, no fim de semana passado. Um cara
novo por aqui acusou Buck Haskell de roubar-lhe o dinheiro da carteira.
Eles discutiram e a coisa pegou fogo, com Chase Calder e a Triplo C
contra os outros. O xerife teve que vir acabar com a briga. Eu sempre
soube que eles eram um bando de ladrões, lá na Triplo C.
175
Está começando a nevar. Tenho que ir ver o gado.
Seu irmão, Culley
Duas semanas antes do Natal, Maggie estava sentada no chão, de pernas
dobradas, no meio da sala de visitas, embrulhando as camisas que
comprara para Culley para poder mandá-las para ele. Uma árvore de Natal
artificial estava diante da janela panorâmica, tendo um presépio aos
pés da base enrolada em algodão. Do lado de fora a grama e as árvores
ainda estavam verdes, o ar quente.
É difícil acreditar que já é quase Natal declarou Maggie, lançando um
olhar à tia, que estava atarefada escrevendo seus cartões de Natal.
Aposto que Culley não pode nem sair, por causa da neve.
Cathleen parou o que fazia.
Sente muita falta dele, não é?
Sinto. Era uma simples admissão, e Maggie não tentou dar maiores
explicações.
Por que não escreve e pede a ele que venha passar os feriados aqui?
sugeriu a tia.
Maggie sacudiu a cabeça com tristeza, sabendo que não era possível.
Nessa época do ano o tempo é muito imprevisível, nevascas e tempestades
de gelo. Ele não pode se arriscar a deixar a fazenda.
Sua resposta foi lógica e sensata, mas isso não impedia que ela
desejasse poder vê-lo. Precisava de alguém com quem pudesse falar,
alguém que conhecesse os fatos que cercavam a morte do pai, alguém que
compreendesse sua angústia interior. Embora Cathleen tivesse sido boa e
maravilhosa para ela, Maggie não lhe podia confiar esses segredos.
Estavam todos guardados dentro dela, silenciados pelo orgulho.
Como que pressentindo que era melhor mudar de assunto, a tia perguntou:
Já escolheu algum nome para o bebé?
Já. Maggie ouviu o barulho de uma bengala no corredor e se levantou
automaticamente para ajudar Mamãe Hogan, muito atacada de artrite, a
entrar na sala, sentando-a numa poltrona. Se for menino, vou chamá-lo
de Tyrone disse à tia. Se for menina, gostaria de chamá-la Cathleen, em
sua homenagem.
Desde o minuto em que tomara consciência da vida que crescia dentro de
si, Maggie começara a bloquear a parte que Chase desempenhara na
concepção do bebé. Considerava o bebé exclusivamente seu.
Mas que ideia gentil, Mary Frances! exclamou a tia, genuinamente
emocionada pelas palavras dela. Obrigada.
176
Quando Maggie se sentou para terminar de embrulhar o pacote de Culley,
parou para puxar a camiseta cinzenta até os quadris. A camiseta se
esticou sobre sua barriga.
Vai ser menino declarou Mamãe Hogan. Veja como o bebé está baixo.
Isso é conversa de comadres. Cathleen sorriu e fez pouco caso do
comentário. Não tem nada a ver com o sexo do bebé.
Até aquele momento, Maggie não tinha considerado se preferiria ter um
menino ou uma menina. Os meninos sem dúvida tinham uma vida mais fácil
nesse mundo do que as meninas.
Imagino que o Dr. Gordon lhe tenha dito isso replicou Mamãe Hogan, num
tom de quem duvidava do seu conhecimento.
Ele tem filhos? perguntou Maggie. A irmã, Pamela, ao que se recordava,
nunca tinha-se casado, mas não se lembrava de a tia ter dito nada sobre
o irmão.
Não, ele e sua falecida mulher não tiveram filhos respondeu Cathleen.
A mulher dele morreu? Maggie apertou o último pedaço de fita adesiva no
embrulho de Culley.
Morreu, há alguns anos, num acidente de automóvel. A tia fez uma pausa,
e um súbito sorriso lhe iluminou a expressão. Gostaria que você pudesse
ver como a casa está decorada para as festas, Mary Frances. Juro,
Pamela convenceu o doutor a pendurar enfeites em cada aposento da casa.
Você nunca viu na vida um irmão e uma irmã tão devotados um ao outro.
Maggie ficou pensando nisso, enquanto escrevia o nome de Culley no
pacote. Talvez estivessem separados por milhares de quilómetros; talvez
nem sempre tivessem concordado em tudo; apesar disso, eram ligados um
ao outro.
Mas o Natal veio e passou, e Maggie não recebeu uma só palavra de
Culley. Ela se preocupava, calada, enquanto escutavam os boletins
metereológicos que falavam da nevasca que desabara sobre o Estado de
Montana. Foi depois do Ano Novo que a moça recebeu o cartão de Natal do
irmão com uma nota de 10 dólares enfiada dentro, e um bilhete escrito
às pressas.
3 de janeiro Querida Maggie,
Desculpe o atraso, mas não pude sair para botar o cartão no Correio.
Até agora o inverno tem sido ruim. Um dos cavalos escorregou no gelo
junto do bebedouro e quebrou a perna. Tive que atirar nele.
177
Desculpe não poder escrever uma carta maior, mas estou com uma dúzia de
cabeças de gado desaparecidas. Posso ouvir o avião de Calder
sobrevoando a fazenda. Está jogando feno para o gado dele. Duvido que
tenha perdido uma única vaca. Tem a sorte do demónio.
Obrigado pelo cartão de Natal e as camisas. São bonitas. Tenho que ir
agora.
Seu irmão, Culley
Ela estremeceu, lembrando-se daqueles invernos de Montana - o ar
frígido apertando uma faixa gelada invisível na testa e congelando a
umidade no nariz; a neve soprada pelo vento grudando-se às sobrancelhas
e cílios; e o frio que entorpecia as pernas até que o cavaleiro não
conseguia sentir o cavalo debaixo de si.
O bebé chutou dentro dela, e Maggie esfregou a mão pela barriga
intumescida, como que a confortá-lo. As paredes da casa pareciam
fechar-se sobre ela, confinando-a. Queria sair ir para algum lugar,
qualquer lugar mas não podia. Estava quase na hora do almoço e ela
ainda tinha uma lição de História Americana para estudar, sem falar nos
dois membros mais velhos da casa, que não podiam ficar sozinhos. Lutou
contra a melancolia inquietante e caminhou pesadamente para a cozinha.
No último fim de semana de março, Maggie entrou em trabalho de parto.
Sete horas depois, deu à luz um bebezão de 3,850kg. Permitiram que ela
segurasse o menino chorão, com sua cara vermelha de ameixa seca e a
massa de cabelos negros e molhados. Nada daquilo pareceu muito real até
mais tarde, depois que foi levada para o quarto para descansar.
Foi só no dia seguinte, quando a enfermeira o trouxe para mamar, que
Maggie examinou os dedinhos minúsculos dos pés e das mãos,
perfeitamente formados, e riu da boquinha que buscava ansiosa o bico da
mamadeira. Foi então que veio a onda de amor materno. Era um brilho
cálido que vinha de dentro e se irradiava das suas feições, quando ela
lançou um olhar para a tia, do outro lado do quarto. Cathleen chegara
há poucos minutos.
O Ty não é o bebé mais bonito que já viu? insistiu Maggie.
O comentário era um convite indireto para fazer parte da cena, e
Cathleen se aproximou, parando ao lado da cama. Seus
178
dedos roçaram carinhosamente a cabeleira espessa e macia do bebé.
Sem dúvida concordou Cathleen, rindo baixinho. Sinto-me como uma avó,
em vez de uma tia-avó. Parou para admirar de novo o sobrinho. Ele tem
muito cabelo. Acho que os seus olhos vão ser castanhos.
Meu pai tinha olhos castanhos. Maggie recusava-se a lembrar que os
olhos de Chase eram castanhos. A mamadeira ficou vazia. Ela a deixou de
lado e levou o pequeno Tyrone O'Rourke ao ombro, batendo nas suas
costas para que arrotasse.
Mamãe Hogan mandou um presente para o bebé disse Cathleen, entregando a
Maggie uma caixa embrulhada para presente.
Ela conseguiu equilibrar o bebé contra o ombro e tirar a fita para
abrir a tampa da caixa. Dentro dela havia um casaquinho azul e um
bonezinho de tricô combinando, com um biquinho redondo.
Vou vesti-lo com essa roupa no dia em que ele for para casa resolveu
Maggie. Quando ergueu os olhos, viu a Bíblia encadernada que Cathleen
segurava, de extremidades gastas.
Isso é para você. A tia correu a mão com carinho pela superfície do
livro antes de oferecê-lo a Maggie. É a Bíblia da família Malloy, meus
pais e de sua mãe. Já que você, o pequeno Tyrone e seu irmão
representam os últimos descendentes que restam, quero que fique com
ela. Minha mãe me deu, mas não tenho filhos. É justo que fique com você.
Maggie fitou-a, sem saber direito o que dizer.
Obrigada murmurou finalmente, um leve aperto na garganta.
A enfermeira entrou no quarto, alegre e animada, como pareciam ser
todas as enfermeiras da maternidade.
Tyrone já tomou a mamadeira?
Até o finzinho confirmou Maggie.
Puxa, que garotinho esfomeado, hem? declarou a enfermeira, com um amplo
sorriso de aprovação, o olhar meigo enquanto fitava a cabecinha
adormecida pousada no ombro de Maggie. Vai crescer e ser grande e forte
e tomar conta da mamãe. Lançou um olhar de desculpas para Maggie. Está
na hora de levá-lo de volta para o berçário.
Está bem. Entregou, relutante, o filho à enfermeira.
Parece que Tyrone recebeu um presente hoje. A enfermeira parou ao lado
da cama com o bebé nos braços para admirar o casaquinho. Quando notou a
Bíblia no colo de Maggie, sua expressão ficou curiosa. O que é isso?
179
A Bíblia da família. Abriu o Livro Sagrado na página que registrava os
nascimentos, mortes e casamentos da família Mailoy e seus filhos.
Puxa, que bacana! declarou a enfermeira, e se aproximou mais para
enxergar melhor. Ali é o lugar onde você vai escrever as informações
sobre o nascimento de Tyrone, dizendo a data, hora e local, o seu nome
e o do pai, se você souber.
Foi um comentário inocente, sem nenhuma intenção de desdouro para o
caráter de Maggie. No entanto, esta enrijeceu ante a insinuação de que
não sabia o nome do pai de Ty. Para ela, este era um pecado pior do que
dar à luz um bebé sem ser casada.
Quer me emprestar sua caneta, Tia Cathleen? pediu. Quero anotar o
nascimento de Ty na Bíblia.
A enfermeira saiu do quarto antes de ver a caligrafia claramente
legível escrever o nome de Chase Calder. A tia não pôde demorar-se
muito porque os sogros estavam em casa sozinhos. Quando ela se foi,
Maggie escreveu a Culley para informá-lo do nascimento do sobrinho.
2 de abril Querida Maggie
Que bom que você e o bebé estão bem.
Espero que não tenha ficado preocupada por não ter tido notícias minhas
durante tanto tempo. Foi um inverno duro, mas até que sobrevivi
direitinho. As vacas estão dando cria, portanto ando muito ocupado.
Emagreci um pouco. Acho que sinto falta da sua comida. Do jeito que a
casa anda, sente falta sua também.
Buck Haskell foi acusado de roubo, assalto e agressão. Neil Anderson se
embebedou no Jake's na outra noite. Buck seguiu-o até o caminhão e deu-
lhe uma pancada na cabeça e roubou-o. Uma das garotas do Jake viu tudo
de uma das janelas do andar de cima. Quer apostar que Calder vai livrar
a cara dele?
Cuide-se.
Seu irmão, Culley.
180
Capítulo XVI
Buck deu meia-volta, agitado, depois tornou a se virar para Webb
Calder, à escrivaninha, as feições juvenis retorcidas de fúria.
Vai aceitar a palavra de uma puta contra a minha? Já falei que nem
cheguei perto do Anderson! Nem vi quando ele saiu! Aquela piranha está
mentindo descaradamente!
Webb olhou para Ruth, que estava parada a um canto. Ela mordia o lábio,
piscando os olhos como se estivesse contendo as lágrimas.
Cuidado com o palavreado, Buck advertiu. Não era a favor de dizer
palavrões diante de mulheres. Demonstrava falta de respeito. E
especialmente não gostava da ideia de Buck dizer palavrões diante da
mãe.
Não posso fazer nada! O punho cerrado dele cortou os ares, num golpe
para baixo. Nunca esperei que você fosse duvidar...
Não é uma questão de dúvida, ou do que acredito interrompeu Webb,
vivamente. São acusações sérias, as que foram levantadas contra você.
Não as estou tratando com superficialidade, nem você devia fazê-lo.
Sempre estive ao lado dos meus homens, quando estavam em dificuldades.
Ficarei a seu lado. Agora, a moça alega que o viu dar uma pancada na
cabeça de Anderson e roubálo. Temos que estabelecer onde você estava e
o que fazia, naquela hora.
Quem presta atenção na hora, quando está bebendo? argumentou Buck. Eu
não sabia que ia precisar de um álibi. Joguei um pouco de pôquer,
bebi... Fez uma pausa, lutando para achar algo mais específico. Então
seu olhar pousou em Chase, de pé junto à lareira, o braço apoiado na
cornija. Estive com o Chase a maior parte do tempo. Pergunte a ele.
181
É verdade. Chase balançou a cabeça, com a mesma expressão sombria que
estava no rosto de todos no escritório... o do pai, e os dos pais de
Buck, Ruth e Virgil Haskell. Só que no de Buck, ela apresentava uma
qualidade de desespero. Buck e eu estivemos juntos quase que toda a
noite inteira, porém, como ele, também não prestei atenção na hora.
Eu podia estar no banheiro quando Anderson levou a pancada na cabeça.
Buck ergueu as mãos, num gesto de súplica.
Aquela... moça alega que me viu, mas quem sabe falou isso porque foi
ela mesma que o agrediu. Cadê o álibi dela? Quem estava lá em cima com
ela, quando supostamente me viu? Ela bem que podia ser a pessoa que
derrubou Anderson e o roubou. Aposto que foi isso que realmente
aconteceu. Anderson nem viu quem o atingiu. Ele mesmo disse. Por que
não podia ter sido uma mulher?
Admito que é possível falou Webb.
Por que outro motivo ela teria esperado até o dia seguinte para contar
ao xerife? Por que não se apresentou naquela noite, quando o
encontraram? Isso não me está cheirando bem insistiu Buck. Espere aí!
Virou-se de novo para Chase, tendo-se lembrado de uma coisa. Eu lhe
pedi cinco dólares emprestado, ontem... antes de eles terem achado o
Anderson lá fora. Será que eu estaria pedindo dinheiro emprestado, se
tivesse acabado de roubar alguém?
Não, isso não faria sentido concordou Chase.
Pronto! Está vendo! Isso prova o que digo! declarou Buck, com um aceno
decisivo de cabeça.
Webb passou a mão pela boca de uma maneira pensativa, depois bateu-a no
tampo da escrivaninha.
Vou ver o que posso fazer para acertar tudo isso. Nesse meio tempo,
Buck, aconselho-o a ficar afastado do Jake's, até que tudo se esclareça.
Pode deixar por minha conta afirmou Virg. Vamos, rapaz. Fez sinal ao
filho para vir com ele, depois lançou um olhar ao homem que se erguia
da cadeira atrás da escrivaninha.
Obrigada, Webb, por apoiar o rapaz.
Buck é da família. A frase explicava tudo. Virg virou-se para a mulher.
Você não vem, Ruth?
O olhar dela dardejou de Webb para o marido.
Num minuto, Virg. A expressão de Virgil Haskell endureceu ligeiramente,
quando lançou um olhar agudo para Webb, depois virou-se para acompanhar
o filho para fora da sala. Depois que os dois tinham saído, Ruth deu um
passo hesitante na direção de Webb. Estava com as mãos fortemente
entrelaçadas, formando
182
uma bola. O seu sorriso forçado revelava a extensão da sua preocupação.
Só queria agradecer-lhe... por ajudar o Buck. A voz era muito baixa,
mas estava firme.
Sabe que farei tudo o que puder, Ruth. Sentiu um forte impulso de tomá-
la nos braços, segurá-la e confortá-la, mas não lhe cabia oferecer tal
tipo de conforto.
Buck é doidivanas, às vezes, mas não é mau insistiu Ruth.
Eu sei. Webb tomou-lhe as mãos crispadas e alisou-as entre as suas
palmas ásperas. Não se preocupe. Está bem?
Está. Ruth sorriu, mas havia um brilho de lágrimas nos seus olhos
azuis. Obrigada. Era um sussurro, dado enquanto apertava as mãos dele e
logo retirava as suas, para sair atrás do marido e do filho.
Webb ficou parado por muito tempo depois que a porta da frente se
fechara, fitando a direção que lhe dera o último vislumbre de Ruth.
Detestava admiti-lo até para si próprio, mas estava preocupado com
Buck. O rapaz era inteligente, talvez metido a esperto demais para o
seu próprio bem. Havia um conflito acontecendo dentro de Buck, parte da
transformação em adulto, quando os impulsos para o bem e o mal
permanecem equilibrados ou se inclinam para um lado ou para o outro. O
furto existia na alma de todo homem; era apenas uma questão de grau.
Inspirou fundo e se virou para olhar o filho. Webb também estava
preocupado com a lealdade cega de quase-fraternidade que ligava Chase a
Buck. Havia falhas que se deviam ignorar nos amigos, mas primeiro era
preciso que fossem vistas e reconhecidas, antes que pudessem ser
ignoradas. Caso contrário, haveria uma dura estrada de desilusão à
frente. Se Chase tinha um ponto fraco, era o Buck. Webb queria abrir os
olhos do filho.
O que você acha? Foi o Buck? O desafio penetrante dentro da pergunta
estava oculto pela maneira tranquila e natural com que foi feita.
Buck? Chase ergueu a cabeça e franziu a testa, olhando para o pai.
Claro que não. Um dólar não fica no bolso dele por mais de dez minutos,
mas ele não o rouba de outra pessoa. Afastou-se da lareira, uma certa
agitação no gesto, que revelava que se ressentia da pergunta ter sido
feita. Além disso, ele estava comigo, quando a coisa aconteceu.
Pensei que você não tinha certeza lembrou Webb.
Mas tenho. Jurarei, se for preciso afirmou Chase.
Se você lhe fornecer um álibi, as acusações serão arquivadas. Webb
estava tentando deixar bem claro o poder que tinha a palavra de um
Calder, um poder de que não se devia abusar.
183
As acusações devem ser arquivadas, porque sei que não foi ele. A tal
garota não pode ter certeza absoluta de que foi o Buck que viu da
janela. Estava escuro demais lá fora, sombras demais. Cometeu um erro.
Contanto também que você não esteja cometendo um erro murmurou Webb,
dirigindo-se para a escrivaninha.
184
Capítulo XVII
Um mês após Maggie ter voltado do hospital com Ty, Papai Hogan sofreu
um derrame que o deixou paralisado. Cathleen foi forçada a interná-lo
numa casa de saúde, onde havia as condições adequadas para cuidar dele.
A rotina doméstica, que já fora alterada uma vez para acomodar o
acréscimo de um bebé, foi mudada de novo para incluir duas visitas
diárias à casa de saúde pela artrítica Mamãe Hogan.
Cathleen a levava para fazer uma visita de uma hora todas as noites,
enquanto Maggie acompanhava a senhora idosa à casa de saúde todas as
manhãs, depois que Ty tomava o seu banho diário. A situação era difícil
para todos, mas era especialmente dura para Mamãe Hogan. O casal jamais
dormira separado durante toda a sua vida de casados. Durante horas a
mulher ficava sentada na sala da frente fitando o espaço, perdida sem a
companhia do marido de 50 e tantos anos.
Voltando de uma visita matinal, Maggie soltou um suspiro desanimado e
ajeitou Ty na curva de um dos braços para poder destrancar a porta.
Jamais trancavam a porta de casa em Montana, mas ela logo aprendera que
era quase uma regra fundamental na cidade. Escancarou a porta e se
virou para ajudar a mulher idosa a subir os degraus da frente e entrar
em casa, depois voltou lá para fora para apanhar a correspondência
diária na caixa.
Chegou o novo número de Seleções, Vovó Hogan. Notara a revista entre os
poucos envelopes enquanto voltava a entrar na casa, fechando e
trancando a porta. Quer dar uma espiada?
Não houve resposta, nem sinal de que a mulher a escutara, enquanto
usava a bengala para se apoiar e tomar assento na poltrona da sala da
frente. Maggie não insistiu numa resposta. Ty começava a dar sinais de
estar com fome, sendo assim ela o levou para a cozinha para esquentar a
mamadeira e um pouco de comida para bebés. Felizmente ele era um bebé
bom, um bebé sadio, que quase não chorava e dormia a noite toda.
Depois de alimentar Ty e colocá-lo no seu cesto para dormir, foi
aquecer um pouco de sopa para si e para Mamãe Hogan, depois deu uma
olhada no resto da correspondência. Um dos envelopes tinha o carimbo
postal de Montana. Maggie abriu e leu:
20 de maio
Querida Maggie,
Lamentei saber sobre o sogro de Tia Cathleen. Espero que ele esteja
melhor.
Eu tinha razão. As acusações de roubo contra Buck Haskell foram
arquivadas. Chase Calder alegou que Buck estava com ele quando Anderson
foi roubado. Os idiotas acreditaram na palavra do criminoso. E o xerife
obrigou a garota do lake aquela que viu Buck Haskell a deixar a cidade.
Aquele pessoal do Calder acha que pode safar-se de qualquer coisa. Mas
não pode. Mais cedo ou mais tarde eu acharei um jeito de detê-los.
Eu estou bem. Vou ficando por aqui.
Seu irmão, Culley
Maggie dobrou a carta e voltou a colocá-la no envelope. Podia sentir a
necessidade de vingança do irmão correndo nas próprias veias. Era um
veneno penetrante que invadia seu organismo, endurecendo-a para que
jamais pudesse perdoar.
Aquilo a afetou, assim como a tensão das últimas semanas e a depressão
natural que sucede ao parto. Tanto ela quanto Mamãe Hogan mal tocaram
no almoço que preparou. Logo que a mesa da cozinha ficou limpa, Maggie
pegou nas suas lições. Durante todo aquele tempo, não se descuidara dos
estudos, mas hoje não conseguia concentrar-se. Estava inquieta demais,
confinada demais. Finalmente, desistiu de tentar e escreveu uma carta
para Culley, ao invés disso.
Quando Ty acordou da sua soneca da tarde, ela usou a carta terminada
como desculpa para sair de casa. Pediu à vizinha para dar uma espiada
na velha Sra. Hogan enquanto ela levava o bebé para dar uma volta e
punha a carta do irmão no Correio.
186
Logo que a carta de Culley foi colocada numa caixa de coleta de
esquina, Maggie continuou seu passeio. Era uma distância considerável
até a casa onde a tia trabalhava para a família Gordon, mas ela sabia
que podia voltar de carro com Cathleen, portanto não se apressou. Essas
saídas eram raras demais para ela fazer tudo às carreiras. Carregando o
bebé de olhos e cabelos escuros nos braços, foi caminhando ao longo da
borda gramada da auto-estrada que serpenteava por aquela extremidade
superior do Vale de San Fernando.
Ficar sozinha sem amigos não era novidade para ela. Tampouco o era a
responsabilidade de cuidar de uma casa e de outras pessoas, embora só
fosse fazer 17 anos no verão. Mas ficar confinada por longos períodos
era incomum. Maggie se adaptara ao clima mais quente, à grande
população da área, até mesmo a cuidar de uma criança, mas o fato de
ficar confinada à casa e ao pequeno quintal a estava sufocando.
A ambição de toda uma vida de deixar Montana não saíra de acordo com
suas expectativas, e ela culpava os Calders por isso. Porque eles
tinham matado seu pai, ela fora forçada a deixar a casa antes de estar
pronta. Embora amasse Ty e nem sequer cogitasse de dá-lo para adoção,
tinha consciência de que ele era um fardo para uma garota de 16 anos.
Aquilo era culpa de Chase Calder, porque ele a enganara fazendo-a
acreditar que não ia deixá-la grávida. Todos os problemas dela
remontavam aos Calders.
Não havia como apagar as lembranças do passado. Estava ligada a elas
pelas cartas do irmão e pelas suas referências amargas aos Calders. À
noite, tinha sonhos eróticos de Chase fazendo amor com ela... sonhos
que sempre acabavam em pesadelos, com o enforcamento do pai. E o
passado vivia nesse filho homem que ela estava carregando, um menino
que já mostrava a estrutura óssea grande dos Calders, ao invés da
ossatura estreita dos O'Rourkes. Maggie não podia esquecer, portanto
aquilo ardia dentro dela, tornando-a resolvida a ter êxito, a despeito
de todos os obstáculos.
Andando ainda mais devagar, fitou as propriedades por que passava,
casas tão belas quanto a Casa Grande, exceto que estavam situadas em
pedaços bem menores de terra... de 20 a 50 hectares, em comparação com
centenas de milhares. Grades brancas de cercados brilhavam ao sol da
Califórnia, enquanto mansões brancas sombreadas por árvores marcavam o
final da alameda. Dentro dos cercados, havia cavalos pastando, o pêlo
liso escovado e lustroso.
No passado, Maggie encarara os cavalos como um meio de transporte
necessário e associara o cavalgar com longas e cansativas horas numa
sela. Agora, não conseguia imaginar nada de mais prazeroso do que ter
um cavalo sob si e o espaço para montá-lo...
187
sentir o estrondo dos seus cascos no solo. Sentia falta do cheiro de
suor de cavalo e couro de sela, todas as coisas familiares, o mugido do
gado e o gosto de um café feito na fogueira de um acampamento. Sentiu
uma dor dentro de si e cerrou os dentes porque dera as costas a tal
tipo de vida. Sua pele jamais sentiria de novo flanelas e brins. Seriam
sedas e rendas e perfumes.
Mudando Ty para uma posição mais confortável nos braços, Maggie dobrou
na alameda particular que levava à casa dos Gordons, uma mansão
colonial de dois andares com uma frente em colunata, e a amplidão verde
de um gramado com arbustos e árvores frondosas. O carro da tia ficava
sempre estacionado junto à garagem nos fundos da casa, local onde
Maggie sempre esperara nas poucas vezes em que viera encontrar a tia
aqui. Seu destino era o mesmo, hoje, até que teve sua atenção
despertada por uma comoção nos estábulos.
Um cavalo castanho lustroso tinha fugido do cavalariço e estava solto
fora do estábulo e dos cercados. Três homens estavam tentando apanhá-
lo, aprisionando-o num canto formado por uma parede externa do estábulo
e as grades brancas de uma cerca. Tinham conseguido confiná-lo naquela
área geral e fazê-lo recuar cada vez que o cavalo tentava correr para a
liberdade do terreno sem cercas, mas o castanho se esquivava de toda a
tentativa de agarrar seu cabresto, escoiceando com as patas dianteiras.
Toda a gritaria e agitação estavam deixando mais excitado o animal já
muito nervoso, que girava os olhos escuros de pânico, deixando o branco
à mostra, e cujo pescoço escurecia de suor nervoso.
Um homem dobrou o canto dos estábulos com uma corda enrolada nas mãos.
Quando ele apareceu, um homem alto, magro e grisalho se destacou dos
demais para dirigir a captura. Maggie lançou-lhe um olhar de inspeção,
notando a camisa de malha branca de gola roulée e os culotes pretos
enfiados nas botas de couro até os joelhos. Suas vestes já o destacavam
dos demais homens, que usavam camisas e jeans, assim como sua
autoridade tranquila.
O movimento chamou a atenção dela para o homem com a corda. Com a
primeira laçada débil que deu, tornou-se aparente para Maggie que ele
jamais laçara outra coisa senão um poste, em toda a sua vida. Cada
tentativa era mais patética do que a anterior. O bater da corda no
flanco ou na perna do cavalo assustava-o ainda mais e o deixava num
estado pior de agitação. O capão castanho estava desesperadamente
assustado em relação a qualquer coisa que se mexesse. Maggie se deu
conta de que, a qualquer minuto, o pânico puro do animal faria com que
se machucasse. A inépcia dos seus pseudocaptores era mais do que 188
a moça podia suportar. Aborrecida e impaciente com o que estava vendo,
adiantou-se para o homem alto e grisalho. Ele baixou os olhos,
surpreso, quando ela lhe enfiou o bebé nos braços.
Segure Ty para mim ordenou, sucintamente, e não esperou a resposta
dele, parcialmente cônscia de que o havia deixado mudo e confuso. Sem
Ty a atrapalhá-la, correu para o homem com a corda e estendeu a mão
para tirá-la dele. Dê-me essa corda.
Ei! O homem fechou a cara, surpreso, ante a garota de ar severo com os
cabelos pretos presos num rabo-de-cavalo, e tentou arrancar a corda das
suas mãos. O que você está fazendo? Saia daqui antes que se machuque.
O único que vai acabar se machucando é o cavalo. Agora, passe a corda.
É óbvio que você não sabe usá-la. Maggie plantou os pés firmemente no
solo e usou cada centímetro do seu corpinho de 1,60m como alavanca para
arrancar a corda dos dedos dele. Sem estar preparado para a força e
determinação dela, o homem soltou a corda e Maggie acabou com ela nas
mãos, recuando rapidamente para longe do homem. Emitiu uma ordem brusca
para os outros. Todo o mundo cale a boca e fique parado. Toda essa
agitação só está assustando o cavalo.
O choque e a visão de uma garota miúda assumindo o controle fizeram com
que todos obedecessem, e Maggie se adiantou devagar para o cavalo,
enquanto seus dedos distraidamente sentiam a corda e formavam o laço. O
cavalo fitou-a por um segundo desconfiado, depois correu para uma
brecha entre dois homens. Os reflexos de Maggie eram igualmente
rápidos, o padrão de ação firmemente entranhado em sua mente, embora há
meses não fosse preciso ultilizá-lo. Girando o braço uma vez acima da
cabeça, jogou o laço, antecipando para que lado o cavalo se moveria, e
o conduzindo. O cavalo se desviou e enfiou a cabeça no laço.
Não havia nada em que amarrar o cavalo, e Maggie escorou a extremidade
da corda com o quadril, usando todo o peso do corpo para segurar o
animal, em vez de confiar na força dúbia dos braços. Preparou-se para o
instante em que o castanho atingiria o final da corda e deixou o ímpeto
do animal carregá-la num caminhar deslizante. Logo que o laço se
apertou no pescoço do animal, ele deixou de resistir à pressão, embora
continuasse a semi-empinar e a saracotear ansiosamente. Dois dos
cavalariços vieram correndo para agarrar-lhe o cabresto, enquanto o
terceiro homem, o tal que trouxera a corda, adiantou-se para ajudar
Maggie. Havia admiração a contragosto no seu olhar, além de uma
sensação de ressentimento por aquele fiapo de gente ter tido êxito tão
facilmente onde ele falhara.
189
Eu fico com ele agora insistiu o homem. Maggie entregou-lhe a corda sem
protesto. A euforia do sucesso estava nos olhos da garota.
Um choramingo queixoso de Ty fez Maggie se dar conta de que deixara seu
bebé com um total estranho. Tyrone estava-se contorcendo nos braços do
homem, socando o ar com o punho como se, também ele, estivesse
percebendo que não conhecia o homem que o segurava. Ela correu para
pegá-lo antes que começasse um protesto maior.
Obrigada por segurá-lo. Mal fitou os olhos cálidos e cinzas do homem,
enquanto estendia as mãos para Ty, que estava fazendo bico para chorar,
quando ela o tomou nos braços. O bebé levou um segundo para perceber
que estava em território familiar, antes de relaxar.
Eu é que devia estar-lhe agradecendo declarou o homem, e inclinou a
cabeça para o lado, examinando-a com interesse. Onde aprendeu a laçar
desse jeito?
Fui criada numa fazenda. Aprendi a laçar quase que ao mesmo tempo que
aprendi a montar.
Maggie deu uma palmadinha nas costas de Ty de uma maneira que
confortava e tranquilizava. Depois da sua experiência com Chase, criara
uma desconfiança dos homens, portanto, quando ergueu os olhos para o
homem não confiou totalmente na simpatia do seu rosto bonito e
sorridente. Seu cabelo era um pouco grisalho, mas a vitalidade
bronzeada de suas feições fazia com que parecesse maduro e distinto, em
vez de velho.
Folgo com isso. Se Copper's Chance tivesse fugido de nós e chegado à
rua... com todo aquele tráfego, nem gosto de pensar no que lhe poderia
ter acontecido. Não paguei vinte e cinco mil dólares por esse cavalo
para que ele seja atingido por um carro, portanto sou-lhe eternamente
grato por ter aparecido no momento certo.
Maggie fitou-o incrédula por um momento, depois deu uma breve risada.
Acho que não entende muito de cavalos. Passaram-lhe a perna. Esse
cavalo é capado.
A cabeça dele se moveu para trás, e ele soltou uma risada gostosa para
o alto.
Estou perfeitamente ciente de que Copper's Chance é um capão. Não o
comprei para reprodutor, mas para exibição, Srta...?
Maggie. Maggie O'Rourke. Ela deu o seu nome distraidamente, ainda
tentando compreender a explicação dele. Quer dizer que esse cavalo vale
mesmo tanto dinheiro?
Vale. É um saltador de primeira.
Maggie sabia que havia cavalos que saltavam, mas não imaginara que
pudessem ser tão valiosos. Um garanhão de qualquer raça podia,
concebivelmente, valer tanto, mas um capão sem capacidade
reprodutora... aquilo lhe dava o que pensar.
O que o assustou? perguntou ela.
Não sei admitiu o homem. Ele chegou da Virgínia de avião hoje de manhã.
Nós o tiramos do reboque faz vinte minutos. Pode ser que tenha ficado
nervoso com tanta viagem. Sacudiu a cabeça como que a demonstrar que
apenas podia imaginar a causa.
A última frase mal acabara de ser pronunciada, quando Maggie sentiu uma
estranha vibração. Parecia que o solo estava-se movendo debaixo dela.
Arregalou os olhos de alarme quando a sensação aumentou.
O que está acontecendo? Apertou Ty mais junto ao corpo e olhou em
derredor, vendo os galhos das árvores se mexendo, muito embora não
houvesse brisa.
Vamos. O braço do homem estava a seu redor, empurrando-a e dirigindo-a
para uma área mais aberta. Estendeu a mão para incluir protetoramente o
bebé e mantê-lo em segurança nos braços dela. Quando tinham dado meia
dúzia de passos, a curiosa vibração cessou.
O olhar arregalado de Maggie se ergueu para o homem, buscando uma
explicação.
Era... um terremoto? Ouvira falar deles, mas não estava inteiramente
certa de que fora o que experimentara.
Era. Deve ser isso que assustou o cavalo. Dizem que os animais podem
pressentir a chegada de um terremoto. Sorriu para ela, soltando os
braços dos seus ombros para deixá-la livre. Seu primeiro? adivinhou o
homem.
É respondeu Maggie, os joelhos ainda trémulos.
De onde você é?
Montana. Quando Ty gorgolejou de encontro ao ombro dela, Maggie olhou
rapidamente para ele para ver se estava assustado, mas ele estava com
um daqueles sorrisos desdentados de bebé na cara que indicava alegria,
ao invés de medo. Tudo bem, Ty confortou-o, para tranquilizar-se, já
que ele não estava precisando.
Que menino saudável observou o homem. É o bebé dos Van Dorens?
191
Não, Ty é meu afirmou Maggie, com um olhar rápido e orgulhoso que
também era defensivo. Viu a surpresa e as perguntas que apareceram nos
olhos cinzentos. Respondeu-as sem esperar para ver se a boa educação o
impediria de fazê-las. Tenho dezesseis anos e não sou casada. Estava
preparada para o aparecimento de uma expressão de desdém no rosto dele,
mas ela não veio, embora a examinasse mais atentamente.
Ty. Um sorriso de aprovação começou a despontar enquanto ele dizia o
nome do filho dela. É um bonito nome.
Maggie baixou os olhos para o bebé, sem ter certeza se a reação do
homem era sincera.
Obrigada.
Houve uma pausa antes de o homem sugerir.
Posso oferecer-lhe uma carona para algum lugar? É o mínimo que posso
fazer depois que salvou meu cavalo explicou, como que adivinhando que
ela se ressentiria de qualquer coisa que se assemelhasse a caridade ou
pena.
Não, obrigada. Maggie ficou feliz por poder recusar. Vou-me encontrar
com minha tia. Vou de carro com ela para casa. Ela trabalha para o Dr.
Gordon e a irmã.
A Sra. Hogan... Cathleen Hogan é sua tia? A testa franzida denotava
curiosidade e surpresa agradável.
Sim.
Perdoe-me por não ter-me apresentado. Sou o Dr. Phillip Gordon.
Estendeu a mão para ela. Notou que seus dedos eram longos e quase
femininamente esguios. Lembro-me agora de que Cathleen mencionou que
tinha uma sobrinha morando com ela. Não liguei as coisas e não pensei
que poderia ser você.
Também não sei quem pensei que o senhor poderia ser. Maggie apertou a
mão dele, sentindo a forma dos seus dedos
enquanto tentava lembrar-se de tudo o que Cathleen lhe contara sobre
seus patrões. Ele acabara de fazer 40 anos, lembrava-se Maggie. Tia
Cathleen só falara coisas boas dele. Maggie estava mais propensa a
confiar no julgamento da tia do que no próprio. Relaxou ligeiramente
suas defesas.
Por que não vem até lá em casa? convidou ele. Sei que minha irmã,
Pamela, gostaria de conhecer você e o bebé.
Maggie hesitou apenas um instante antes de aceitar.
Está bem, assim posso avisar a Tia Cathleen que estou aqui.
A casa era tão imponente por dentro quanto por fora. Espaçosa e
arejada, decorada em vivas cores da Califórnia, tinha pisos frescos de
azulejos e mobiliário luxuoso com antiguidades espalhadas por toda
parte. Havia uma certa fragilidade na decoração que refletia uma
influência feminina.
Maggie perdeu a respiração quando o Dr. Gordon lhe apresentou a irmã. A
despeito de estar confinada a uma cadeira de rodas, Pamela Gordon
personificava tudo o que Maggie esperava alcançar, um dia. Tinha os
olhos da mesma cor cálida de cinza do irmão, mas com cílios espessos e
um traço de sombra cor de lavanda nas pálpebras. As feições eram
esguias, como as dele, mas lindamente femininas. Em vez de cabelos
grisalhos, os dela eram de um louro-prateado e elegantemente penteados.
Usava um robe oriental sem mangas com uma gola de mandarim, as pernas
sem vida escondidas sob a veste comprida. Tudo nela parecia a epitome
da beleza e da graça. Se isso não fosse o bastante para merecer a
admiração de Maggie, ela foi selada pelo fascínio da mulher loura pelo
Ty.
Posso segurá-lo? perguntou Pamela Gordon, numa voz suavemente modulada.
Maggie entregou Ty em seus braços. O bebé imediatamente agarrou um
punhado dos cabelos louros-prateados. Maggie, que sempre se
surpreendera com a força da mão de um bebé, rapidamente foi salvar a
mecha de cabelo, libertando-a dos dedos dele antes que lhe desse um
puxão.
Quem sabe é melhor que eu o segure disse Maggie, em tom de desculpas.
Oh, não, por favor protestou Pamela, e abraçou-o ainda mais, segurando
a mãozinha antes que ela pudesse agarrar outro punhado de cabelo. Ele
pode puxar o meu cabelo na hora que quiser. Apertou uma face perfumada
contra a do bebé. É uma fofura.
Essa é uma coisa que nos faltou na vida, tanto a Pamela quanto a mim
Phillip explicou discretamente para Maggie, vendo a irmã brincar com o
garotinho. A alegria de ter crianças à nossa volta.
Quando a tia Maggie apareceu dali a alguns minutos para dizer que
estava pronta para partir, Pamela pediu-lhes para ficar.
Só mais um pouquinho... o tempo de tomar um refresco insistiu.
Não podemos recusou Maggie, gentil mas firmemente. Vovó Hogan nos está
esperando. Prometi que iríamos direto para casa para ela poder ir cedo
para a casa de saúde ver Vovô Hogan.
Houve um momento de resistência quando ela começou a tirar Ty dos
braços de Pamela, antes que a mulher o soltasse, com relutância.
193
Você volta de novo? Pamela virou os olhos cinzentos ansiosos para
Maggie, tão meigos e brilhantes, como um veludo. E traz o Ty?
Sim prometeu Maggie.
No dia seguinte ela escreveu outra carta para Culley, enquanto Ty
tirava a sua soneca. Descreveu seu primeiro terremoto, como laçara
aquele cavalo custoso, e como Phillip e Pamela Gordon tinham sido
simpáticos com ela. Era a primeira coisa especial que lhe tinha
acontecido desde que chegara à Califórnia, exceto dar à luz o Ty, é
claro.
194
Capítulo XVIIi
A campainha da porta tocou. Maggie alisou a saia preta do vestido. Era
a segunda vez que estava tendo que usar preto, nas duas últimas
semanas. A primeira fora em junho, para comparecer ao enterro de Papai
Hogan. A segunda era para comparecer ao enterro de Mamãe Hogan, que se
deixara morrer uma semana depois do marido.
Maggie não tinha chorado quando o pai morrera, e não derramara lágrimas
com o falecimento do casal idoso. Perguntou-se intimamente se havia
algo de errado com ela... se Chase havia tirado sua capacidade de
sentir as coisas. A tensão de manter aquilo tudo preso dentro de si
aparecia no retesamento de suas feições, tornadas ainda mais brancas
pelo vestido preto que usava e a cor negra retinta do cabelo.
Quando ela entrou na sala de visitas da casa da tia, Cathleen já tinha
atendido à porta. Maggie observou, externamente impassível, enquanto a
tia se submetia ao abraço compassivo e reconfortante de Phillip Gordon,
depois tocava os olhos vermelhos de lágrimas com um lencinho de renda.
Pamela o acompanhava, na sua cadeira de rodas, e abraçou Cathleen
quando a mulher mais velha se abaixou para cumprimentá-la.
Phillip atravessou a sala, resplendente num terno cinza. Sorriu para
Maggie com aquele seu jeito tranquilo, e segurou as mãos que ela
inconscientemente agitara em frente de si.
Como vai, Maggie? perguntou, e examinou a imobilidade das suas feições.
Ele enxergava a perfeição, quando a via; os contornos equilibrados da
estrutura óssea, tudo na proporção adequada. Não havia meio de sua
perícia cirúrgica melhorar o dom da beleza natural.
195
Estou bem, obrigada replicou ela, numa voz sem emoção.
Ele correu os olhos pela expressão propositalmente inexpressiva. Já
tinha visto essa parede levantada nas poucas vezes em que ela visitara
a casa dele. Geralmente, acontecia quando lhe faziam uma pergunta
inocente sobre os pais, sua infância, ou o pai do seu filho ilegítimo.
O último tópico ele podia entender que ela se sentisse relutante em
discutir. No entanto, não queria falar nos pais, especialmente no pai,
ou no que fora sua vida antes de se mudar para a Califórnia.
Isso deve ser difícil para você. É muita coisa para enfrentar, na sua
idade condoeu-se Phillip.
Maggie retirou as mãos, recusando o conforto que ele oferecia.
A morte só é difícil para os que estão vivos. Sua sabedoria e
experiência estavam além de sua idade.
Pamela e eu viemos oferecer os nossos pêsames e ver se havia alguma
coisa que pudéssemos fazer para ajudar. Teve consciência da rejeição
dela. Phillip não se lembrava de ter conhecido alguém tão jovem e que
tivesse tanto orgulho e independência. Já disse a Cathleen que ela pode
sentir-se à vontade para consultar meu advogado, se houver alguma
questão legal referente à herança dos seus falecidos sogros. Quanto a
contas de médico ou...
Maggie o interrompeu antes que pudesse oferecer qualquer assistência
financeira.
Creio que havia seguro de vida suficiente para pagar as contas e o
enterro. Não tinham bens, exceto os seus pertences pessoais.
Tardiamente, deu-se conta de que tinha sido fria ao negar o
oferecimento de ajuda. Mas é gentileza sua oferecer, de qualquer forma.
Sorriu, um tanto formalmente.
Não é questão de gentileza, mas de querer bem insistiu ele. Ao longo
dos anos, a Sra. Hogan... sua tia... tornou-se mais do que uma
empregada para Pamela e eu. Este é um período difícil para ela... e
para você. Gostaríamos de torná-lo o mais fácil possível.
Naturalmente.
Ela não podia pensar em mais nada para dizer.
O que vai fazer agora, Maggie? Não gostava do nome. Não parecia
combinar com a moça confiante parada diante dele.
Vou continuar meu curso por correspondência para obter meu diploma
replicou, sem hesitação. Nesse meio tempo, vou procurar um emprego e
uma boa creche onde deixar Ty enquanto eu estiver trabalhando.
196
Não é fácil arranjar emprego murmurou Phillip.
Eu vou arranjar um afirmou ela. Logo que obtiver meu diploma da escola
secundária, vou fazer faculdade.
A admiração brilhou nos olhos dele ante a determinação inflexível dela.
Ela ia arranjar emprego e ela ia para a faculdade, Não era "eu quero",
porém "eu vou". Era uma moça notável, linda e resoluta.
Ela virou-se parcialmente para incluir Pamela.
Querem um pouco de café ou chá?
O consenso foi pelo chá. Cathleen soltou a mão de Pamela para se
levantar.
Deixe que eu preparo, Mary Frances.
Fique aqui e faça sala para os Gordons insistiu Maggie. Eu me ajeito.
Enquanto saía da sala, ouviu Cathleen dizer:
Deus me enviou essa menina porque sabia que precisaria dela para
suportar essas semanas.
O comentário fez Maggie se sentir feliz porque sua presença tinha um
propósito e não era um fardo para a tia. Fez o chá direitinho, como a
tia lhe ensinara, deixando o bule esquentar enquanto a água estava no
fogo. Encheu o bule com a água quente, mas não fervente, e acrescentou
as folhas de chá soltas. Deixando o chá de lado em infusão, arrumou a
bandeja com a mesma precisão que vira na casa de Pamela Gordon,
incluindo as frágeis xícaras de porcelana, creme e açúcar e fatias de
limão.
Quando levava a bandeja para sala, ouviu Pamela Gordon insistindo:
O que você realmente precisa, Cathleen, é de uma mudança de ambiente.
Phillip e eu sempre quisemos que você morasse conosco. Nunca insistimos
porque sabíamos que precisava cuidar dos pais do seu marido. Venha
morar conosco, agora.
Ela era tão linda, tão persuasiva, que Maggie se perguntou como é que
alguém poderia resistir, mas a tia lançou um olhar para Maggie.
Não poderia deixar Maggie e o bebé sozinhos. Cathleen sacudiu a cabeça
com tristeza, relutando em recusar qualquer coisa à patroa.
Phillip estivera observando Maggie desde que ela voltara para a sala
com a bandeja de chá. Era como um imã, atraindo o olhar dele sempre que
estava por perto. A simplicidade severa do vestido preto revelava
claramente ter sido feito em casa, porém dava a seu corpo uma
sexualidade atenuada. Os seios maduros e empinados enchiam o corpinho
simples antes de a fazenda ser ajustada à cintura fina. Quando ela se
debruçou para pousar a bandeja na mesa, a saia foi repuxada sobre as
nádegas arredondadas. O desejo mexeu dentro dele, mas Phillip
controlou-o raivosamente. Meu Deus, tinha idade para ser pai dela,
lembrou a si mesmo. Seu interesse nela era estritamente paternal. Esse
raciocínio permitiu que sugerisse:
Maggie e o bebé também serão bem-vindos. O apartamento em cima da
garagem não é usado há anos, mas acho que podemos transformá-lo em
alojamentos confortáveis. Forçando-se a desviar o olhar da expressão
desconfiada de Maggie, dirigiu-se para a tia dela. Do jeito que os
valores imobiliários continuam subindo, eu não sugeriria que você
vendesse esta casa. Alugue-a e conserve-a como investimento. Assim, se
algum dia quiser voltar, poderá fazê-lo.
Suponho que sim disse Cathleen Hogan, ainda hesitante.
Maggie ficou fora da discussão que se seguiu. Sentada na beira da
cadeira, serviu as xícaras de chá e tentou fazê-lo tão graciosamente
quanto vira Pamela fazer. A perspectiva de morar na propriedade dos
Gordons, onde poderia observar Pamela e aprender mais sobre como se
tornar uma dama, era como um sonho feito realidade, mesmo que isso
significasse morar em cima da garagem. Eram as desilusões anteriores
que a mantinham calada. Mas Phillip e Pamela convenceram a tia a se
mudar.
Você não deu sua opinião sobre o assunto, Maggie instou Phillip. Tem
alguma objeção ao plano?
Não, mas logo que eu arranjar emprego vou começar a lhe pagar um
aluguel por mês declarou.
Phillip sabia que não devia discutir.
Você disse antes que ia procurar trabalho e eu fiquei pensando no
assunto. Não precisa mais procurar emprego. Preciso de alguém para
exercitar os meus cavalos e ajudar com os serviços ligeiros no
estábulo. Estou convencido de que você tem a experiência com cavalos
necessária para dar conta. E isso significará que terá mais tempo para
o Ty.
Ah, sim! Pamela apoiou entusiasticamente a proposta. Eu adoraria tomar
conta dele para você, Maggie. Não haveria necessidade de você contratar
uma babá. Bastaria levá-lo lá para casa. Como que percebendo que era o
tópico da conversa, Ty começou a chorar no seu berço, espremido no
quartinho de Maggie. Pamela riu, encantada. Eu sabia que, se nos
demorássemos bastante, Ty acordaria de sua sesta.
198
A mudança foi feita muito mais depressa do que Maggie imaginara ser
possível, o seu estilo de vida se alterando tão celeremente que ela
ficou um pouco atordoada. Era como se tivesse saído das sombras
atormentadas do passado e entrado na luz forte do sol de uma nova vida.
As cartas que escrevia para Culley estavam cheias do entusiasmo pela
nova casa e o novo emprego. Quando Phillip falara num apartamento em
cima da garagem, ela imaginara algo totalmente diverso dos imensos
aposentos com paredes recém-pintadas e carpete novo no chão.
Havia um quartinho para Ty e espaço bastante no quarto de Maggie para
permitir que tivesse não apenas uma cama, penteadeira e cómoda, mas
também uma cadeira e escrivaninha para que pudesse estudar suas lições.
Pamela lhes dera alguns móveis da casa principal, insistindo que os
daria para alguma instituição de caridade, se elas não o aceitassem.
Seu novo emprego incluía acordar cedo todas as manhãs para cuidar dos
cavalos de exibição de Phillip, e exercitá-los. A coisa era diferente
do que ela esperava, já que nunca montara antes com sela inglesa.
Sentiu-se muito desajeitada, a princípio. Phillip insistia que ela
possuía mãos naturais, e um assento natural. Quando primeiro lhe
sugeriu que podia ensinar-lhe a arte de saltar para exibição, à noite,
ela se mostrara relutante, mas quando ele mencionou que a maioria das
amazonas de exibição eram senhoritas de famílias de sociedade, Maggie
aceitou sua oferta. Se montar à moda inglesa, ao invés de à moda do
Oeste fazia dela uma dama, então era o que faria.
O mês de agosto veio e se foi, e seu 17º aniversário com ele. Depois
que a louça da noite fora lavada, Maggie beijou Ty e deixou-o aos
cuidados da tia para poder encontrar-se com Phillip no estábulo, para
sua aula de montaria. Ele esperava por ela na sala de equipamentos
quando ela chegou.
Chamar aquilo de sala de equipamentos era quase uma designação
incorreta, embora fosse onde se guardasse todo o equipamento de
montaria. Era uma combinação de escritório e sala de estar, incluindo
banheiro, para que Phillip pudesse lavar-se antes de voltar para casa.
Trofeus e fitas ornavam as paredes, misturados a fotografias dos seus
cavalos. Ao lado de uma escrivaninha antiga de mogno, havia um divã e
cadeiras de couro num tom de marrom claro da Califórnia para
complementar as paredes em lambri.
Esperou muito tempo?
199
Ela desejava que não, mas ele tinha o ar acomodado de quem estava
sentado na cadeira giratória atrás da escrivaninha por muito tempo.
Horas pilheriou Phillip, secamente.
No seu novo meio ambiente, Maggie achava mais fácil corresponder ao
senso de humor cálido dele. Começara a gostar dele... do seu jeito
meigo, da sua maturidade confortável e autoridade tranquila.
Não está esperando há tanto tempo. Lançou-lhe um olhar reprovador que a
um só tempo zombava dele e ria com ele. Quando começou a atravessar a
sala para pegar o seu equipamento de montaria, ele a chamou de volta.
Há um presente em cima do divã para você. Ele acenou com a mão na
direção do estofado de couro.
Um presente?
É um presente de aniversário atrasado... de Pamela e meu.
Em dúvida se seria apropriado aceitar o presente, Maggie dirigiu-se
devagar para o divã. Arrumadinhos sobre as almofadas estavam um par de
culotes marrom claro, uma jaqueta de caça preta e uma blusa branca. Um
par de botas de montaria de cano alto estava pousado no chão, na frente
do divã. Maravilhada com a generosidade dele, pôde apenas fitá-lo.
Gostou? Ele puxou uma resposta dela, os olhos cinzentos sorrindo.
Gostei. Mas ela meneava a cabeça.
Decidimos que uma dama devia ter o traje de montaria adequado.
Já fizeram tanto.
Maggie... Ele se interrompeu, retorcendo a boca. Esse nome não combina
nada com você.
É o apelido que meu pai me deu. Ficou quase contente com a mudança de
assunto. Aquilo lhe dava tempo para pensar. Tia Cathleen me chama de
Mary Frances.
Com o devido respeito à religião da sua tia, o nome parece pertencer a
uma freira... Irmã Mary Frances.
É mesmo admitiu Maggie, com um sorriso alegre.
Esse é o seu nome completo? Mary Frances O'Rourke? perguntou Phillip.
Mary Frances Elizabeth O'Rourke corrigiu ela. Um nome e tanto, hem?
Elizabeth. Ele saboreou o nome com satisfação. Você se parece com uma
Elizabeth. É um nome de rainha. Importar-se-ia se eu a chamasse assim?
200
Ela mordeu o lábio inferior para impedir a permissão de sair aos
borbotões. Ele a fazia sentir-se tão importante que ela esperou até que
a bolha de prazer tivesse estourado.
Tudo bem. Hoje em dia respondo a praticamente qualquer nome falou, com
um leve dar de ombros que disfarçava seu prazer.
Pois bem, Elizabeth. Vista sua roupa nova de montaria enquanto selo seu
cavalo.
Parou apenas para pegar a sela e a brida no descanso, depois saiu. Foi
só um segundo inteiro depois que a porta se fechou que Maggie se deu
conta de que não lhe dissera que não podia aceitar o presente. Olhou de
novo para as roupas e reconsiderou. Quem sabe não fazia mal aceitar,
por esta vez.
Durante o mês seguinte ela descobriu como era difícil resistir aos
Gordons a ambos. Ante a insistência de Phillip, a imensa biblioteca da
casa principal foi posta à sua disposição. E Pamela, que adorava
qualquer motivo para tomar conta do Ty, mostrou-lhe como usar maquiagem
e levou Maggie às compras para dar-lhe conselhos sobre roupas.
Quando recebeu uma carta de Culley, sentiu uma pontada de culpa. Sua
vida se tornara tão mais fácil, tão rica e plena, enquanto ele
continuava a lutar para sobreviver... contra o tempo, contra a terra e
contra os Calders.
23 de setembro Querida Maggie,
Folgo em saber que tudo está saindo tão bem para você. Os Gordons
parecem ser uma gente muito boa.
O recolhimento de gado se encerrou por mais um ano. Duas das minhas
vacas tresmalharam para o pasto dos Calders, e eu tive que ir até lá e
isolá-las do rebanho deles. Calder estava lá, sentado no seu cavalo
amarelo, todo imponente, como se fosse o dono do mundo. Tucker também
estava lá. Ofereceu-me uma xícara de café, mas eu falei a ele que
preferia tomar veneno do que café feito num bule da Triplo C. Ele pode
ter-se vendido, mas eu jamais o farei.
Aquela turma provavelmente estará no Jake's hoje à noite, farreando
depois de três semanas de recolhimento do gado. Eu não vou mais ao
Jake's. Ele e Tucker podem não se importar de se misturar à escória,
mas eu me importo.
Estou cansado e tenho que cortar feno amanhã para o inverno.
Simplesmente não consigo achar ninguém para trabalhar para mim.
201
Que bom que tudo está saindo bem para você, Maggie. Cuide-se.
Seu irmão, Culley
Por um instante fugaz, teve vontade de que Culley vendesse a fazenda e
viesse para a Califórnia, mas sabia que ele não viria. Até mesmo achava
que não queria que ele viesse, porque, bem lá no fundo, queria que o
irmão se vingasse dos Calders, algum dia. Não sabia como, e não se
importava. Só queria saber que algum dia eles teriam que se ajoelhar.
202
Capítulo XIX
O saloon do Jake estava uma baderna. A Triplo C estava curtindo sua
primeira saída de verdade desde o recolhimento do gado de outono. Mas
não eram somente os vaqueiros da Triplo C que estavam comemorando,
embora superassem em número os outros pequenos fazendeiros e moradores
da cidade. Parecia que todos tinham escolhido essa noite de sábado para
se divertir antes da chegada do comprido inverno. Ela forneceria
material para conversas durante as frias noites que viriam.
Enquanto Chase se dirigia para o bar, para se servir de mais bebida,
uma mão bateu-lhe nas costas.
Ei, Patrão! Buck debochava de sua nova posição na Triplo C. Chase não
era mais apenas um vaqueiro. Fora promovido a capataz. Já não fica mais
bem para você ficar de porre avisou Buck. Precisa cuidar do resto de
nós e impedir que nos metamos em encrenca, Patrão.
Buck estava encarnando nele desde o dia em que Webb Calder fizera a
mudança. Chase achava que a implicância constante estava começando a
perder a graça, mas ignorou o comentário de Buck, como ignorara todos
os outros.
Pensei que você estava na sala dos fundos jogando póquer comentou.
Resolvi parar enquanto estava ganhando.
Quer uma bebida? ofereceu Chase.
Não. Buck sacudiu a cabeça e piscou o olho. Vou esfregar a barriga na
da Connie Sue, enquanto estão tocando alguma coisa que eu sei dançar,
com toda a minha falta de jeito.
Com essas palavras, Buck se dirigiu para o pequeno espaço junto da
vitrola automática que era usada como pista de dança.
203
Connie Sue Bingham era uma garota local, que se divorciara
recentemente. Viera com alguém, naquela noite, mas Chase a tinha visto
com tantos vaqueiros que tinha desistido de tentar concluir quem era.
Viu Buck pedir licença e tirá-la do parceiro anterior, e sorriu
enquanto continuava o seu caminho até o bar. Havia vezes em que Buck
parecia totalmente irresponsável, mas era um vaqueiro danado de bom.
Abriu caminho até o bar e fez sinal a Jake para voltar a encher seu
copo. Vários vaqueiros no bar estavam entretidos numa discussão sobre a
previsão meteorológica a longo prazo para o inverno que se aproximava.
Chase prestou atenção, querendo, como qualquer fazendeiro, um jeito de
passar a perna no clima. Alguém enfiou o ombro no pequeno espaço a seu
lado, e Chase se mexeu para dar-lhe lugar, virando-se para ver quem era.
Alo, Fred. Chase cumprimentou o homem, um cavaleiro que montava touros
no circuito de rodeios, dono de alguns hectares fora da cidade, onde
passava os invernos. Que tal se deu este ano?
Nada mal, nada mal falou o vaqueiro, com voz arrastada. Quebrei duas
costelas em Wolf Point, desloquei o ombro em Miles City, e rachei o
pulso em Butte. Levando tudo em consideração, foi um bom ano. Nem me
machuquei tanto que não pudesse montar.
Não foi mal concordou Chase.
Fred abriu a tampa de uma lata de cerveja e tomou um gole.
É melhor ensinar a seu amigo a jogar pôquer. Perdeu praticamente tudo,
exceto a camisa.
Está-se referindo a Buck Haskell? Chase franziu a testa. Tinha tido a
impressão de que Buck estivera ganhando na mesa de pôquer, para variar.
Sim. Acho que não gastou uma só mão, hoje, mas jgou até ficar duro. Ou
é teimoso ou é burro. O vaqueiro se afastou do bar com a cerveja na
mão. Acho melhor ir-me embora enquanto ainda possa andar. Ergueu a
cerveja numa saudação de despedida. Até qualquer hora, Chase.
Cuide-se, Fred.
Apoiando um cotovelo no balcão cheio de marcas de copos, Chase virou-se
em ângulo reto e ficou vendo o vaqueiro de rodeio abrir caminho até a
porta da frente naquele andar peculiar que acompanhava as pernas
encurvadas. Seu olhar se dirigiu para Buck, na pista de dança com
Connie Sue. Não entendia essa coisa do Buck com dinheiro. Jamais
conhecia alguém tão ansioso para arranjá-lo e tão ligeiro em se livrar
dele.
204
Com uma sacudidela irónica de cabeça, voltou a ficar de frente para o
bar e apoiou os dois cotovelos no balcão. À sua volta ainda se discutia
o clima, principalmente numa narração individual de invernos difíceis
anteriores, e no debate de qual fora o pior.
Enquanto erguia o copo para tomar um gole, seu olhar se desviou
automaticamente para o espelho comprido atrás do bar. De onde estava, o
espelho refletia uma visão da porta da frente. Buck estava parado ao
lado dela, olhando à sua volta de um jeito estranho, como que vendo se
alguém o observava. Chase franziu a testa e estreitou os olhos enquanto
via o amigo se esgueirar lá para fora. Baixou o copo, a ruga na testa
se aprofundando enquanto girava os cubos que se derretiam no líquido
cor de âmbar. Quem sabe Buck ia-se encontrar disfarçadamente com Connie
Sue lá fora, pensou Chase e tentou ignorar o incidente, com um dar de
ombros. Buscou a moça distraidamente pelo espelho até encontrá-la.
Estava sentada com outra pessoa, e não dava sinais de ter um encontro
marcado.
Cheio de curiosidade quanto ao paradeiro do amigo e seus motivos, Chase
se afastou do bar. Um impulso que nem entendeu direito levou-o à porta
dos fundos do saloon, em vez da entrada principal. Ela era usada
principalmente como acesso de fundos ao segundo andar, permitindo aos
fregueses ir e vir sem ser necessariamente vistos pelas pessoas no bar,
se assim o desejassem.
Antes que chegasse à porta ela se abriu e Buck entrou, esfregando as
mãos e soprando-as numa tentativa de aquecê-las depois de terem estado
expostas à friagem da noite de novembro. Teve um sobressalto de culpa
logo que viu Chase, mas se recuperou rapidamente e sorriu.
O que está fazendo, Chase? Esgueirando-se pela escada dos fundos?
Por onde andou? Um meio sorriso suavizava o desafio, mas Chase não
conseguia deter a suspeita que o invadia pelo comportamento estranho de
Buck.
Saí "para tomar um pouco de ar". Buck deu de ombros e continuou a
sorrir. A fumaça aqui está tão densa que arde nos olhos.
É por esse motivo que você saiu pela porta da frente e voltou pelos
fundos? perguntou Chase e viu o ar desconcertado nos olhos de Buck.
Do que você está falando? disse Buck, rindo. Escutou-se um grito vindo
do bar.
Ei! Alguém ajude! Fred Dickens está lá fora com a cabeça esmagada!
Temos que levá-lo a um hospital!
205
Chase lançou um olhar a Buck, os olhos apertados numa acusação
incrédula. O amigo também estava com uma expressão de surpresa no
rosto. Chase não sabia dizer se era fingida ou real. Buck começou a
passar por ele.
Vamos ver o que está havendo instou, mas Chase segurou-lhe o braço para
detê-lo.
Com quanto dinheiro você está? interpelou Chase. Buck recuou, parecendo
confundido pela pergunta.
O quê? Alguns dólares. O que isso tem a ver? Vamos. Quero ver o que
está acontecendo.
Mas Chase não o deixou passar.
Pensei que tinha tido sorte na mesa de pôquer.
Tá legal. Então pode ser que eu esteja com uns duzentos dólares no
bolso. O génio de Buck tinha pavio curto. Estava pronto a estourar,
enquanto ele ficava zangado e desafiador.
Fred me contou que você ficou a zero no jogo, hoje.
Tive uma maré de azar admitiu Buck.
Então onde conseguiu o dinheiro que está no seu bolso? Chase jogou o
comentário anterior na cara de Buck.
Eu falei que "podia ser" que estivesse. Não falei que estava!
Chase agarrou-o pela frente da camisa e bateu com as costas dele contra
a parede, sacudindo a poeira do madeiramento.
Que merda! Não minta para mim! Segurou com mais força a fazenda da
camisa e levou o punho cerrado até a garganta de Buck. Vi você se
esgueirar pela porta da frente dois segundos depois que Fred saiu.
Agora, ele está lá fora com a cabeça esmagada. Aposto que foi roubado
como os outros, também! E estou querendo saber o que você teve a ver
com isso!
Chase! Você está maluco! falou Buck, sua raiva focalizada estritamente
na sua defesa. Não tive nada a ver com isso!
Com esforço, Chase soltou a camisa do outro e deu um passo atrás.
Prove desafiou. Esvazie os bolsos.
Buck lambeu os lábios e afastou os olhos da mirada inflexível de Chase.
Não aconteceu do jeito que você está pensando murmurou, e Chase se
pegou desejando não ter forçado a barra. Uma desilusão amarga subia por
sua garganta, sufocando-o com o gosto de bile. Eu só queria o meu
dinheiro de volta insistiu Buck, mas sua voz estava ficando
choramingueira. O jogo era desonesto. Fred estava dando as cartas de
baixo do baralho. Eu não podia deixar que ele saísse numa boa, não é?
Quero dizer, precisava ensinar-lhe uma lição. Só o que fiz foi dar-lhe
uma pancadinha na cabeça.
E quanto a Anderson? E Jeffers? Chase deu o nome
das duas outras vítimas e sentiu a mão fria da traição tocando-o.
Deixou-o duro como o gelo. Nas duas vezes você me usou. Forneci o álibi
porque você era meu amigo e eu acreditava em você.
Virou-se e se afastou, com medo do que poderia fazer àquele
homem, que tinha sido como um irmão, se ficasse.
Buck foi atrás dele, entrando no aposento principal do saloon,
murmurando com insistência:
Chase, não vai acontecer de novo... juro! Deixe explicar como foi, para
você entender. Havia raiva e impaciência contidas na voz dele, enquanto
exortava Chase a escutar.
O saloon estava quase vazio. Os poucos fregueses que tinham permanecido
estavam agrupados conversando sobre esta última agressão e roubo. Antes
que Chase chegasse ao bar, a porta da frente se abriu para deixar
entrar o Xerife Potter. Seus olhos cansados vasculharam o grupo
remanescente, provocando um silêncio imediato. Sua busca cessou quando
viu Buck e Chase.
Buck. Adiantou-se, arrastando as botas no piso de madeira, como se
fosse muito esforço levantá-las. Vai ter que dar um passeio comigo.
Não tem motivo para me prender negou Buck, aproximando-se mais de
Chase. Se alguém falou que me viu lá fora, está mentindo.
Desta vez é diferente, Buck falou o xerife. Fred Dickens recobrou a
consciência antes de os rapazes o levarem para o hospital. Citou seu
nome. Reconheceu-o pouco antes de você acertar-lhe a cabeça.
Ele cometeu um engano! Eu estava com Chase. Pergunte a ele!
O xerife repuxou a boca enquanto olhava relutante para Chase.
Ele estava com você?
Chase não precisou pensar na sua resposta, nem olhar para Buck.
Não. A resposta foi seca e definitiva.
O que está fazendo comigo, Chase? protestou Buck, tentando impedi-lo de
se dirigir para o bar, colocando-se na sua frente, mas Chase fez de
conta que não o estava enxergando. Você não é o meu melhor amigo?
Crescemos juntos. Minha mãe nos criou aos dois. Diga ao xerife que eu
estava com você.
Chase não deu resposta e passou por Buck como se ele não estivesse ali.
Buck mentira para ele e o enganara. Em nome da amizade que tinham
partilhado, Chase não iria acrescentar sua voz à
207
condenação. E tampouco diria qualquer coisa em sua defesa, porque o que
ele fora não era aquilo em que se tornara. Portanto, qualquer coisa boa
que pudesse dizer não tinha nada a ver.
É melhor vir comigo, Buck disse o xerife de novo, pegando-o pelo braço.
Não! Buck livrou bruscamente o braço e explodiu sua fúria nas costas de
Chase. Que tipo de amigo você é? Era para você ser o meu amigão, meu
chapa! Acha que é todo cheio de coisa só porque é um Calder! Pois bem,
podia ter sido eu ao invés de você! Espetou o próprio peito com o dedo,
para enfatizar seu ponto. Podia ter sido eu, seu filho da mãe!
Chase olhou para o bar onde se encontrava Jake.
Quero um uísque puro pediu.
Buck, você vem comigo. Desta feita a voz do xerife estava mais
decisiva. Não me faça acrescentar resistência à prisão às outras
acusações.
Buck continuou a gritar e xingar Chase até que o xerife o levou para
fora do saloon. A área do bar à volta de Chase ficou desimpedida. Nem
mesmo o pessoal da Triplo C se aproximou dele. Deixaram-no sozinho para
chorar em particular a perda do amigo.
208
Capítulo XX
Os presentes estavam empilhados sob a árvore de Natal. Era o primeiro
Natal de Ty e a maior parte dos embrulhos era para ele, principalmente
da parte de Pamela. Ela teria comprado para ele tudo o que via, se
Maggie finalmente não a tivesse ameaçado de não deixá-la mais tomar
conta dele.
Maggie sorria enquanto via Ty bater com um chocalho no chão, e
distraidamente abria o cartão de Natal de Culley. No interior, havia
uma carta.
13 de dezembro
Querida Maggie,
Lembra que lhe contei que Fred Dickens, o cara do rodeio, entrou em
coma e morreu? Bem, Buck Haskell foi condenado por homicídio não
premeditado. Alegou que estava bêbado e não sabia o que estava fazendo.
Ouvi contar que Chase Calder nem mesmo testemunhou em favor de Buck,
defendendo seu caráter. Nisso eu posso acreditar. Um dos ladrões deles
foi preso, e eles lavaram as mãos, ignorando-o. Eu lhe disse que eles
eram assim... basta você se meter em dificuldades, que eles nem mais o
conhecem.
Quando o Juiz sentenciou Buck à prisão, parece que ele começou a berrar
e fazer todo o tipo de ameaças de ajustar as contas com Chase. Ouvi
contar que foi preciso três homens para arrastá-lo para fora do
tribunal.
Está nevando.
Feliz Natal, Culley
209
Ela sentiu pena de Buck Haskell... pena porque fora traído pelos
Calders, especificamente pelo Chase, que fora seu amigo. Traído como
ela fora traída. Seu olhar se ergueu para a estrela no topo da árvore;
esperava que os Calders jamais conhecessem a paz que ela simbolizava.
O potrinho do começo da primavera oscilava incerto nas pernas
arqueadas, a cauda espetada girando loucamente, buscando equilíbrio.
Com as pernas compridas demais, a cabeça e os olhos grandes demais, ele
piscava para o mundo vivo e estranho em que estivera tão ansioso e
insistente para entrar, há poucos minutos. Ele rinchava, um som que
necessitava um pouco de prática antes de se parecer com um relincho de
cavalo. Para um potro recémnascido, era de bom tamanho, e obviamente
sadio. Devia ser o centro das atenções, com a mancha branca como a neve
descendo pelo centro da testa côncava.
Mas os olhos de todos estavam fitos na velha égua deitada na palha.
Cada respiração que dava era sofrida. Os dedos de Maggie se enterravam
na grade lateral da baia; estava instando mentalmente a égua a se
mexer. Morning Mist era uma égua de caça, uma favorita sentimental do
Dr. Phillip. Depois que sua carreira no picadeiro finalmente terminara,
ele a conservara como sua única reprodutora. Aos 21 anos, aquilo
estava-se tornando demais para ela. Desta feita tinha sido um parto
longo e difícil. As poucas forças que tinha, o potro as levara, e agora
a égua parecia não ter mais nenhuma.
Quando o potro rinchou confusamente de novo, a égua soltou um débil
bufido e tentou levantar a cabeça, mas não conseguiu tirá-la da palha.
Enquanto Maggie olhava, os olhos da égua se fecharam, pois o esforço
lhe tirara o último grama de energia. Com as mangas da camisa
enroladas, o Dr. Phillip estava parado num canto da baia, perto do
cavalariço. Uma expressão sombria de preocupação estava estampada no
seu rosto bonito e bronzeado.
Vamos tentar ajudá-la a se levantar sugeriu. Enquanto Maggie observava,
os dois homens se ajoelharam
junto da égua e tentaram erguê-la e empurrá-la numa posição em que
ficasse com as pernas debaixo do corpo, mas a égua não tinha forças
para cooperar. Depois de muita luta, Ralph, o cavalariço, pousou
suavemente a cabeça da égua no solo coberto de palha.
Não adianta disse Ralph, ofegando pesadamente com o esforço.
210
Preparei um pouco de mingau quente para ela. Maggie destrancou a porta
da baia e entrou. Quem sabe se conseguirmos que coma alguma coisa
recuperará as forças.
Tente conseguir isso, Elizabeth. Phillip concordou com a sugestão, mas
não confiou exclusivamente nela, virando-se para o cavalariço. Arranje
umas cordas e vamos fazer uma tipóia. Se pudermos botá-la de pé e fazer
com que fique de pé, o potrinho poderá mamar, e Misty também terá uma
chance melhor.
Ajoelhando-se ao lado da égua, Maggie colocou o balde com mingau no
chão e tirou um trapo limpo do bolso do quadril. Mergulhou-o no mingau
e espremeu-o dentro da boca da égua. A maior parte escorreu para fora.
Ela alisou o pescoço do animal para ajudálo a engolir o que podia,
depois repetiu o processo.
Ralph voltou.
Já trouxe as cordas, Dr. Phillip. Como quer que eu faça?
Vamos usar esta viga. Deve ser forte o bastante para aguentá-la.
Concentrada na sua tarefa, Maggie estava apenas parcialmente consciente
do que os dois homens estavam fazendo. Um baque suave foi seguido por
uma coisa branca deslizando na sua linha lateral de visão. Maggie
ergueu os olhos e viu a corda branca pendendo da viga. Sua mente
visualizou uma outra imagem do celeiro da fazenda e da corda que
pendera da viga central.
Um aperto terrível sufocou-lhe a garganta e Maggie se levantou. Viu
novamente a corda simples sobre a viga do estábulo. Então outra imagem
tomou-lhe o lugar. Era o celeiro de novo e havia um laço oscilando na
ponta da corda. Ela recuou para fugir ao quadro assustador e teve um
momento de alívio quando a realidade se sobrepôs e colocou o estábulo
em foco. Mas sua mente não acabava com as lembranças horrendas. A cor
fugiu do seu rosto enquanto a última imagem vinha à sua mente e ali
permanecia... o corpo do pai pendendo do laço.
Aquilo não ia embora. Ergueu as mãos espalmadas perto do rosto. Maggie
fechou com força os olhos, tentando bloquear a imagem mental. Mas todas
as sensações, todo o horror e angústia voltaram de roldão para tornar a
coisa tão real como se estivesse acontecendo agora. De muito, muito
longe, ouviu alguém gritando, incessante e interminavelmente.
Precisava descê-lo! Precisava soltar a corda! Correu para baixá-la,
unhando as mãos que a seguravam. Mesmo quando percebeu de novo que era
uma corda sem laço, continuou imperativo que a baixasse.
217
Quando ela recuara de perto da égua, atraíra o olhar de Phillip. Ele
franziu a testa ante o ar de terror no rosto branco da moça, confuso
com sua fixação pela corda. Já ia perguntar-lhe o que estava errado
quando ela começou a gritar. O cavalariço ficara imóvel, num choque
atordoado, quando ela o atacara para arrancar-lhe a corda das mãos e
tirá-la da viga da baia. Phillip correu e a agarrou pelos ombros,
tirando-a de cima do homem indefeso.
Tem alguma coisa a ver com a corda. Desça-a daí ordenou por cima do
ombro, instigando o cavalariço a se mexer e arrancar a corda da viga.
Elizabeth, a corda sumiu! Olhe! Não está mais lá! Sua voz era firme e
autoritária, forçando-a a obedecer. Abra os olhos e veja. Sumiu. Não
existe.
Ela parou de se debater para se soltar e virou a cabeça para olhar.
Durante um instante, ficou imóvel. A corda estava enrolada num monte
indefeso, no chão. Estremeceu violentamente. Soluços secos e sentidos
começaram a sacudir-lhe os ombros, enquanto Phillip a abraçava.
Vamos. Vou tirá-la daqui murmurou ele.
O que eu faço com a égua e o potro? perguntou Ralph, com ar de
impotência.
Phillip conduziu Maggie para fora da baia e parou para lançar-lhe um
olhar impaciente.
Tente encontrar alguém para vir até aqui e dar-lhe uma mão. Chame
Simmons na Fazenda Van Doren.
Ela tropeçou, mas o braço forte dele amparou-a e guiou-a até a
privacidade da sala de equipamentos. Maggie sufocava com os soluços que
tentava engolir e enxugava desajeitadamente as poucas lágrimas que lhe
escorriam dos cílios. Phillip levou-a até o divã e sentou-a nas
almofadas.
Desculpe. Ela estava tentando controlar-se. Phillip sentava-se no divã
a seu lado, inclinando-se para ela com os cotovelos apoiados nos
joelhos e as mãos entrelaçadas à frente. Os olhos cinzentos e pacientes
fitavam-na atentamente.
Não precisa desculpar-se tranquilizou-a. A corda acionou alguma
lembrança traumática que sua mente não pôde suportar, e você ficou
desnorteada. O leve sorriso dele parecia dizer que tudo era
perfeitamente normal. Aquela compreensão tranquila era demais para ela.
Inspirou vivamente, com vontade de chorar. Quer falar comigo a respeito
disso, Elizabeth? sugeriu Phillip. Às vezes ajuda.
As lágrimas começaram a correr pelas faces da moça.
Queria que meu irmão estivesse aqui. Maggie virou a cabeça para o lado.
Poderia falar com Culley. Uma lágrima desceu-lhe pela boca, e ela a
enxugou com mão trémula. Não chorei quando enterraram meu pai. Nem
mesmo chorei quando aquilo aconteceu.
Você estava presente quando houve o acidente que matou seu pai? O
médico estudava cada nuança da expressão da jovem, adivinhando que
estava perto da verdade. De algum modo aquilo estava ligado à morte do
pai dela.
Não foi um acidente. Embora ela soubesse que a tia, e todos aqui,
tinham sido levados a acreditar que fora. Ele foi assassinado.
Antes que pudesse deter-se ou pensar no que dizia, Maggie estava
botando para fora toda a história... os Calders, seu caso com Chase, o
roubo do gado e o enforcamento do pai. Durante toda a narrativa, ela
chorou como não conseguira chorar antes. Chegou uma hora em que Phillip
se sentou na beira do divã e tomou-a nos braços enquanto ela contava
sua história, aos soluços.
Era uma narrativa bizarra, imaginosa e difícil de acreditar, no entanto
a dor e a angústia dela eram bem reais e genuínas. Mesmo que houvesse
um exagero da verdade, suas perguntas com relação à reticência dela de
falar no passado tinham sido respondidas. Metade do que tinha suportado
teria derrotado uma moça de resistência normal.
Alisou-lhe os cabelos negros, enquanto apoiava a cabeça da moça no
ombro.
Vocês deviam ter ido à polícia e contado tudo afirmou Phillip, com ar
sombrio.
Não teriam acreditado na gente. Maggie soltou uma risada amarga que
mais parecia um soluço. Provavelmente teriam achado que estávamos
malucos. Além disso, de qualquer forma, eles recebem ordens de Calder.
Não tínhamos provas, exceto a nossa palavra. E eles teriam perguntado
qual fora o motivo de Calder. O que nos teria acontecido se disséssemos
que o pai estava roubando gado, e da nossa parte do roubo? Culley podia
ter ido para a cadeia, e eu para um reformatório.
Phillip podia entender que tinham sido forçados a ficar em silêncio
para se proteger. A única coisa que ele achava muito difícil de aceitar
era a existência continuada de uma justiça do tipo de vigilantes. Mais
objetivo do que ela podia ser, ele reconhecia que tanto o pai dela
quanto Calder tinham alguma justificativa para as suas ações, embora
erróneas. Naturalmente, por causa do seu interesse nela, sua simpatia
jazia com a moça, mas aquilo não o cegava para o outro lado.
213
Disseram que a morte dele foi suicídio. A voz dela continuava a tremer
com o fluxo de lágrimas. Foi por isso que deixei tia Cathleen pensar
que fora um acidente. Não podia dizer nada para ela... é católica
devota. De qualquer forma, não foi suicídio, embora às vezes eu creia
que ele tinha subconscientemente um desejo de morrer. Começou a tremer
violentamente, vibrando nos braços dele. Eu os odeio. Odeio os Calders
pelo que fizeram. Espero que alguém os destrua, algum dia.
A profundidade do seu ódio apaixonado abalou Phillip.
Não os odeie, Elizabeth. O ódio invariavelmente destrói aquele que
odeia. Deixe tudo isso para trás instou. Não se esqueça de que o pai do
seu filho é um Calder.
Ty jamais saberá disso declarou, enfaticamente.
Algum dia ele lhe fará perguntas sobre o pai. Phillip tentava
raciocinar com ela.
Nunca lhe contarei quem é. Inventarei alguma história jurou e começou a
chorar de novo.
Phillip a apertou mais forte e encostou os lábios contra a sua têmpora
numa tentativa de confortá-la, como um pai beijaria um filho para fazer
a dor passar. Foi assim que começou... com Phillip dando-lhe beijos
leves na testa e nas faces e murmurando palavras de alívio para sua
alma torturada. Ela virou o rosto para ele, inclinando a cabeça para
trás para que ele pudesse continuar a acalmar sua dor e sofrimento.
Quando sua boca roçou os lábios dela e ele os sentiu se entregando
suavemente, tudo mudou. Os sentidos dele tiveram consciência dos seios
firmes apertados contra o seu peito e dos contornos macios do corpo
esguio moldado ao seu. Era totalmente desejável e estava nos seus
braços. Sua boca voltou para buscar o gosto doce dos lábios dela sob a
cobertura salgada das lágrimas. O calor do corpo dela acendeu o desejo
que fervia lentamente sob a superfície sempre que ele estava por perto
dela. No meio do caminho, perdera a capacidade de controlá-lo. A paixão
ardeu no beijo dele, e ela correspondeu, os lábios movendo-se contra os
dele na mesma reação espontânea. Ele aprofundou o beijo, esfaimado, e
sentiu-a entregar-se a ele.
Subitamente, as mãos dela empurravam-lhe o peito e ela se livrava
alucinadamente do beijo dele, fitando-o com aqueles olhos verdes que
pareciam ver um estranho. Ele começou a estender as mãos para ela, mas
ela recuou.
Não me toque advertiu, e conseguiu se pôr de pé, afastando-se dele.
214
Elizabeth, eu... buscou as palavras para desculpar se
por seu comportamento por ter-se aproveitado dela, quando
estava num estado tão vulnerável.
Ela correu para a porta aberta, parando apenas o suficiente para se
orientar antes de correr pelo pátio para o apartamento sobre a garagem.
Phillip fitava-a, de junto das portas do estábulo.
215
Capítulo XXI
Alguém vinha subindo as escadas do lado de fora da garagem. Maggie
podia ouvir os passos, mas fingiu que não ouvia, e continuou a
alimentar Ty na sua cadeirinha alta. Ty tentou agarrar a colher, então
ela prendeu a mão dele e segurou a colher junto da sua boquinha
fechada. Ele a fitou por vários segundos com os olhos castanhos firmes,
depois sacudiu a cabeça.
Vamos, Ty. Só mais um pouquinho insistiu Maggie, no mesmo instante em
que bateram à porta do apartamento. Lançou um olhar à tia, que estava
raspando os pratos do jantar antes de lavá-los.
Deixe que eu atendo. A tia sorriu para a jovem mãe e o filho.
Enquanto a atenção de Maggie estava distraída, Ty agarrou a colher com
a mão livre. Papa de abricó esguichou por entre seus dedinhos e pingou
no tampo da cadeirinha alta. Soltando um suspiro exasperado, Maggie
pegou o pano de prato úmido que ficava à mão para tais emergências.
Depois de soltar a colher do aperto de mão firme do menino, limpou-lhe
as mãos e a boca, depois as suas próprias, e o tampo da cadeira. Tinha
sido a última colherada de papa de abricó do vidro, portanto ela
desamarrou o babadouro que protegia a camiseta dele. Ty balançou as
perninhas enquanto arrulhava, todo contente.
Quer descer e ir brincar, não é? implicou Maggie com ele, enquanto
parte dela escutava Phillip cumprimentando a tia. Imaginara que ele
viria vê-la depois do que acontecera naquela tarde. Tinha vontade de
entrar em pânico, mas aquilo era contra sua natureza.
Posso falar a sós com Elizabeth? ouviu Phillip perguntar.
216
Houve uma fração de segundo de hesitação antes que a tia concordasse
com o pedido.
Claro. Eu já ia levar o lixo lá para fora, de qualquer forma.
Maggie nunca vira a tia fazer perguntas pessoais, e ela não as fizera
essa tarde, quando Maggie entrara correndo no apartamento delas, em
cima da garagem. Cathleen nem mesmo se aprofundara no motivo pelo qual
Maggie desmaiara, exceto para perguntar se ela se sentia melhor. Essa
consideração oferecia a Maggie a privacidade de que precisava.
Elizabeth, o Dr. Phillip veio vê-la. A influência dos Gordons fizera
com que a tia parasse de chamá-la pelo nome de Mary Frances. Maggie
estava começando a acreditar que este era o nome de outra pessoa.
Ergueu os olhos e deparou com a mirada firme nos olhos cinzentos dele.
E então a tia estava pegando o saco de lixo para levá-lo lá para baixo
e deixá-los a sós.
Ty estava ficando impaciente com Maggie por demorar tanto a soltar o
tampo da cadeirinha alta e libertá-lo. Quando ela o tirou da cadeira,
não o colocou no chão, como ele queria. Segurá-lo no colo fornecia-lhe
uma distração conveniente, uma desculpa para evitar os olhos de Phillip.
Elizabeth, vim pedir-lhe desculpas por minhas atitudes de hoje à tarde
falou Phillip.
Não é necessário negou ela, formalmente, enquanto Ty se contorcia nos
seus braços.
Temo que seja muito necessário insistiu ele. Não posso achar desculpas
para o que fiz. A única explicação é que descobri uma bela mulher nos
braços e fiz o que qualquer homem normal faria no meu lugar... beijei-
a. Não era minha intenção assustá-la.
A última frase fez com que ela erguesse os olhos. Finalmente olhou para
ele e viu todas as coisas que estivera tentando não notar nesses
últimos sete meses. Ele era bonito e esbelto, bronzeado e vigoroso.
Seus cabelos tinham a cor do aço, porém os olhos eram de um cálido
veludo cinzento. Enquanto Chase Calder era composto de bordas ásperas e
inacabadas, e era agressivamente másculo, Phillip Gordon era o produto
final e bem-acabado da virilidade, suave e encantador, sempre
imaculadamente vestido. Um verdadeiro cavalheiro.
Não me assustou. Quando Ty começou a gritar de raiva, ela o botou no
chão. Ele foi engatinhando apressadamente para junto dos seus
brinquedos, no meio da sala. Maggie virou-se para ele para terminar de
explicar a sua resposta. Fui eu. Parou
217
de tentar ocultar os seus sentimentos. Sabe, queria que você me
beijasse. Queria que me tocasse. Mais do que isso. Ficou mais ousada
com a confiança que voltava. Queria que fizesse amor comigo. Não pensei
que um homem poderia me fazer sentir desse jeito de novo. Não pensei
que seria assim outra vez.
Elizabeth. Ele deu um passo involuntário na direção dela, o desejo
brilhando-lhe nos olhos. Ficou ali por um instante fugaz; logo
desapareceu, quando ele se conteve e sacudiu a cabeça.
Não sabe o que está dizendo.
Sei, sim, Phillip. Por conta própria ela deixou de lado o título
profissional que geralmente precedia-lhe o nome quando se dirigia a ele.
Você tem dezessete anos e eu acabei de fazer quarenta e um.
Tenho idade bastante para ser seu pai explicou ele, suavemente.
Não estou fingindo que seja certo desejar que você faça amor comigo,
mas não posso negar que é o que sinto declarou, jogando a lógica dele
pela janela com sua afirmação da verdade.
Isso é apenas porque eu sou o homem mais à mão, e você é uma garota
naturalmente carinhosa. Não vou permitir que se envolva comigo. Você
tem demais pela frente, Elizabeth. Roçou-lhe a face com o dedo, numa
carícia relutante. É inteligente, determinada e ambiciosa. A última
coisa de que precisa é um caso com um velho.
Você não é velho, Phillip.
Suponho que esteja achando que todo esse cabelo grisalho é apenas uma
forma de camuflagem ironizou ele.
Faz com que pareça muito distinto insistiu ela.
O que é apenas uma outra forma de dizer "velho". Sacudiu a cabeça, e
sorriu. No outono, quando começar a faculdade, estará cercada de um
bando de moços bonitões. Será mais feliz com alguém com idade
semelhante à sua.
Como Chase Calder! Maggie cuspiu o nome, o seu génio vindo à tona. Não
me lembro dessa experiência ter sido feliz.
Chase Calder foi apenas um homem. Não pode julgar todos os outros
homens por sua experiência com ele. Pode apenas aprender com ela.
Chase estava sempre me ensinando alguma coisa lembrou-se ela, com
amargura. Infelizmente era sobre sexo, em vez de amor.
Você tem muito que aprender sobre muitas coisas.
E vou aprender sobre tudo o que puder. Pelo que aprendera até então,
Maggie soubera que era preciso muito mais
218
coisa para se fazer uma dama do que simplesmente belas roupas e belas
casas. Havia todo o mundo cultural para ser absorvido. Quero conhecer a
arte e a música, o teatro e os clássicos. Quero falar outras línguas
fluentemente... Parou porque a sua lista ficava interminável, quanto
mais ela se expunha a coisas diferentes. Ergueu os olhos e deparou com
um brilho malicioso e benevolente nos olhos de Phillip.
E quer viajar e ver os lugares por si mesma acrescentou ele com
percepção outro item da longa lista de Maggie. Não há lugar para um
velho na sua vida jovem. Você ainda tem muito que crescer.
Phillip tentou ela protestar. Mas ele a interrompeu.
Sinto-me lisonjeado que você me ache atraente, Elizabeth. Estou numa
idade em que gostaria de chutar tudo para o alto e recapturar minha
juventude perdida com alguém como você. Por favor, não me tente.
Gostaria que me fosse poupada a indignidade de bancar o idiota por sua
causa.
Jamais o faria de idiota. Sei o quanto isso dói. Ele segurou-lhe a face
na palma da mão.
Vamos fazer um pacto. Quando você terminar a faculdade, veremos se
ainda sente o mesmo a meu respeito, ou se tomou gosto pelo tipo jovem e
aventureiro.
Ela virou o rosto na palma dele, fechando os olhos e curtindo
silenciosamente o toque da mão macia contra a pele. Com uma certeza
consciente, enfrentou o olhar dele.
Veremos o que acontece quando eu terminar a faculdade concordou, porque
pressentia a sabedoria da sugestão dele, e porque tinha certeza de que
seus sentimentos não mudariam. Eles haviam crescido lentamente, e não
explodido de sopetão.
Nesse meio tempo, verei o que posso fazer para expandir os seus
horizontes culturais. Esta simples frase indicava as coisas que estavam
por vir.
Num fim de tarde no princípio de junho, Maggie subia as escadas que
levavam ao apartamento em cima da garagem. Estivera com Pamela Gordon
numa exposição de arte itinerante numa galeria local. Cada mês
visitavam uma galeria de arte diferente na área de Los Angeles como
cumprimento da promessa de Phillip de educála nas artes. Além disso,
Pamela e Phillip, sempre os dois juntos, tinham levado Maggie para
assistir a diversas sinfonias, a um bale e à ópera.
Quando entrou no apartamento, Maggie chamou alegremente:
219
Alo! Tem alguém em casa? Um gritinho feliz veio da direção da cozinha,
seguido pelo som de pezinhos correndo. Ty cruzou a sala para recebê-la
com o máximo de rapidez que lhe permitiam as perninhas gordas. Tinha
quase um ano e meio... e era um garotão. Rindo, ela o tomou nos braços.
Você agora não anda mais, Ty. Sempre corre. Abraçou-o enquanto ele dava
uma resposta qualquer, atropeladamente. Está crescendo muito depressa
suspirou Maggie, e recuou a cabeça para olhar para ele. Foi um bom
menino, Ty? Ele a fitou silenciosamente com os olhos que eram
decididamente castanhos.
Claro que foi. Cathleen deu a resposta, entrando na sala. Que tal a
exposição?
Carregando Ty nos braços, Maggie foi até o sofá azul e se sentou.
Faiscante. Fez cócegas no garotinho no colo e ficou vendo-o rir
enquanto continuava a conversar com a tia. Mesmo quando não entendo
alguns dos quadros, é fascinante. Riu, lançando à tia um olhar
desanimado. As sinfonias, a ópera, o balê, os museus de arte... todos
se confundem na minha cabeça, às vezes. Os termos são tão novos que
misturo surrealistas, impressionistas e cubistas com contraponto,
fugas, e árias. Tenho muito o que aprender.
Aprenderá assegurou Cathleen. Depois, falou: Chegou uma carta para
você, hoje.
De Culley? perguntou Maggie, esperançosa. Ele não escreve desde o
Natal. Sei que tem andado ocupado, mas estou começando a me preocupar
com ele.
Não é do seu irmão.
O envelope estava sobre uma mesinha lateral. Cathleen trouxe-o para
ela, uma expressão satisfeita na fisionomia.
Quando Maggie viu o endereço do remetente carimbado no envelope, botou
Ty no chão e rasgou a borda ansiosamente.
É o meu diploma do curso secundário! Exibiu-o orgulhosamente para
Cathleen enquanto continuava também a fitá-lo. Agora vou poder ir para
a faculdade no outono. Já lhe contei? Phillip acha que pode conseguir-
me uma bolsa. Claro que isso significará fazer mais provas para
demonstrar minha capacidade, mas não me importo. Mesmo que a
universidade não me aceite, posso me matricular numa das faculdades
comunitárias.
Maggie ganhou a bolsa e se matriculou na universidade. Recebeu uma
breve carta do Culley naquele verão, mas as cartas dele foram-se
tornando menos frequentes. Em geral, consistiam de bilhetes
220
rabiscados num cartão de Natal ou no cartão de aniversário que enviava
todo mês de agosto, com uma carta ocasional de meia página entre um
cartão e outro. Todos continham alguma referência venenosa aos Calders,
e uma jura de vingança. Elas nunca permitiam que Maggie expulsasse o
passado totalmente da cabeça.
A moça também estava muito atarefada. Além das aulas na faculdade,
tinha que cuidar de um menino arteiro, exercitar e exibir os cavalos de
Phillip, e ainda usufruir de todo o entretenimento cultural que Los
Angeles tinha para oferecer. Às vezes era acompanhada por Phillip e
Pamela, nunca por Phillip sozinho. Com frequência tinha por companhia
um colega de turma. Essas eram as ocasiões em que saía com rapazes, e
não eram tantas assim. Tentou seguir os conselhos de Phillip e sair com
homens mais ou menos da sua idade. Poucos a haviam impressionado, mas
um ou dois tinham sido bem divertidos. Descobrira que a paixão podia
ser uma emoção fabricada.
Era apenas com Phillip que se sentia segura e à vontade. O médico
exercia uma boa influência sobre ela, conseguindo fazê-la controlar seu
génio e fazê-la rir. Geralmente cavalgavam juntos de manhã cedo,
treinando e exercitando os cavalos de exibição. Às vezes, ele falava do
seu trabalho e das recompensas existentes em se pegar uma coisa
quebrada e deformada e consertá-la. Parecia que era o que estava
fazendo com ela. Como cirurgião plástico, sua perícia era renomada nos
círculos médicos. Maggie o admirava, respeitava e confiava nele, e a
atração física ainda perdurava.
Para ele era a mesma coisa. Ela sabia disso porque tinha observado com
frequência o modo como ele a olhava quando pensava que ela não estava
vendo. Ao se encontrarem no meio da multidão, num intervalo de teatro,
sempre havia algo de possessivo no jeito como ele a tocava e a mantinha
a seu lado. Muitas vezes Maggie se sentiu tentada a usar os artifícios
femininos que aprendera e acender o desejo que ardia sob a superfície
controlada dele. Não o fez porque se lembrava do tipo de conversas que
circulara sobre ela e Chase. Phillip se grilava tanto com a diferença
de idade entre eles que ela sabia que seria a primeira coisa com que os
fofoqueiros implicariam. Gostava demais dele para querer que as pessoas
fizessem comentários mordazes por suas costas. Sendo assim, deu tempo
ao tempo.
As lágrimas brilhavam nos seus olhos verdes enquanto agarrava o diploma
da faculdade numa das mãos e abraçava o menino moreno de cinco anos que
lhe enlaçara o pescoço e lhe dera um beijo molhado na face.
221
Congratulações, mamãe. Ty pronunciou a palavra corretamente. Era grande
para a idade, com uma ossatura larga que indicava que ainda cresceria
muito mais. Tinha os cabelos castanhos, não negros, parcialmente
descorados pelo sol da Califórnia, e seus olhos eram castanhos, mas
Maggie se negava a ver a semelhança da criança com Chase Calder. Ty era
filho dela.
Obrigada. Beijou o ar perto da bochecha do menino porque ele detestava
quando o seu batom deixava marca vermelha nele. Ainda se inclinando até
a altura dele, recuou para olhá-lo e sorriu. Quem lhe disse para falar
isso?
Pip. Nunca conseguira pronunciar Phillip direito quando estava
aprendendo a falar. Há muito tempo que virara Pip.
Ela ergueu os olhos para deparar com o orgulho carinhoso na expressão
dele, mas quando soltou os braços do filho do pescoço e se endireitou,
foi a tia que abraçou. Esta mulher bondosa e meiga a escolhera, sem
fazer perguntas, sem jamais fazer recriminações quanto à ilegitimidade
do nascimento de Ty, e sempre tratara Maggie como se fosse sua própria
filha, uma mulher que não se queixava, tão parecida com a irmã... a mãe
de Maggie, que desejara acima de tudo que Maggie tivesse instrução.
Agora, aquilo se tornara realidade.
Sei que sua mãe sente muito orgulho de você, Elizabeth. Cathleen
chorava suavemente... como fazia todas as outras coisas.
Os pensamentos dela também tinham tomado a mesma direção que os de
Maggie. Esta sentiu um bolo na garganta que não lhe permitiu mais do
que um enfático:
Obrigada, Cathleen.
A tia abraçou-a forte, mais uma vez, depois recuou.
Só queria que seu irmão estivesse aqui para vê-la. Acha que ele não
recebeu a passagem de avião que você lhe mandou?
Culley... provavelmente estava ocupado demais. Há muito trabalho para
ser feito numa fazenda nessa época do ano.
Ela deu as desculpas por ele. Desejava que Culley pudesse estar ali
para partilhar este momento com ela, mas também se dava conta de que
ele se sentiria constrangido nesse ambiente, pouco à vontade. Talvez
ele soubesse disso. Ou quem sabe estava realmente ocupado.
Provavelmente este era o motivo real, mas não pôde deixar de desejar
que o rapaz estivesse ali. Virando-se, debruçou-se para apertar a face
contra a de Pamela. A bela loura estava estupenda, como sempre,
vestindo um longo cor-de-rosa que descia suavemente pela frente da
cadeira de rodas. Maggie perdera algumas das suas ilusões sobre Pamela.
A mulher fora prestativa e educativa, mas Maggie era aceita pela irmã
de Phillip por causa
222
do Ty. Ela adorava o filho de Maggie. Ty até mesmo a chamava de "Tia"
Pam.
Parabéns, Elizabeth. O sorriso dela era encantador, porém não mais do
que agradável.
Obrigada, Pamela.
O coração dela batia com força enquanto olhava para Phillip, parado ao
lado da cadeira de rodas da irmã. Os cabelos cor de aço tinham ficado
prateados nas têmporas, mas parecia vigorosamente bonitão, tão alto e
esbelto e queimado de sol.
Você está muito distingué, Phillip. disse Maggie, treinando um pouco do
francês que agora falava fluentemente. Parece que guardei o melhor para
o fim. Estendeu-lhe a mão esquerda, que ele usou para puxá-la para
frente. Obrigada, por tudo.
Este é um dia glorioso... para todos nós. Parecia que tinha
acrescentado o restante da frase para disfarçar a intensidade do seu
olhar.
Ela ficou parada diante dele, deixando que a percorresse com os olhos
enquanto irradiava uma sensação de confiança serena. Usava os cabelos
negros até os ombros, num corte destinado a realçar a tendência para
ondular. A maquiagem hábil e sutilmente aplicada enfatizava todos os
seus melhores pontos... suavizava as maçãs do rosto fortes e realçava o
verde brilhante dos olhos com os cílios negros e espessos. O batom
vermelho vivo delineava os contornos suaves dos seus lábios. Maggie
sabia que estava com jeito chique de adulta, e se portava com um ar de
maturidade.
Quando ele inclinou a cabeça para ela, Maggie ficou desapontada quando
apenas roçou a boca de encontro à sua face.
Será que não mereço mais do que um beijinho na face? admoestou-o e se
levantou para levar os lábios para junto dos dele.
Ele levou as mãos aos ombros dela para manter sua posição, enquanto um
fogo agradável aquecia-lhe o sangue. Os lábios deles se tocaram por
apenas alguns segundos, mas o beijo cobriu o espaço de quatro anos de
expectativa e tornou válida a longa espera. Um brilho suave estava na
fisionomia dela, quando se afastou.
Pip está com o batom da mamãe na boca disse Ty, rindo e apontando.
Tem um gosto bom assegurou Phillip enquanto tirava o lenço de linho do
bolso do terno para limpar o vermelho da boca. Fê-lo com uma certa
ostentação que indicava orgulho no seu gesto, como se tivesse esperado
por um motivo para limpar o batom dela.
A referência ao gosto fez Ty se lembrar de outra coisa.
223
Podemos ir, mamãe? Tia Cathleen fez bolo e doces e tudo. Eles podem
estragar, se não formos para casa.
Podem mesmo disse ela rindo e concordando.
Esperem aqui falou Phillip, e acrescentou com um erguer meio irónico da
sobrancelha: Vou ver se encontro o carro.
Além do bolo e chá (leite para o Ty) havia presentes à espera dela na
casa dos Gordons. Antes que Maggie tivesse uma chance de abri-los,
chegou um telegrama entrega-rápida da parte do irmão. Ela assinou o
recibo e rasgou o envelope.
Dizia:
MAGGIE PARABÉNS. DESCULPE EU NÃO TER
PODIDO IR. SEMPRE SOUBE QUE VOCÊ ERA CAPAZ. AINDA VAMOS MOSTRAR ÀQUELES
CALDERS.
CULLEY
O nome dos Calders invadia até mesmo aquele dia especial.
Mais tarde, depois que Maggie tinha posto Ty para dormir, disse à tia
que ia dar uma volta, explicando que o dia fora excitante demais e que
não conseguiria dormir. Cathleen concordou que um passeio lhe faria bem.
Uma luz ardia na janela da sala de equipamentos no estábulo. Maggie
meio adivinhava e meio esperava que fosse Phillip. Quando ela entrou, a
mistura aromática de fumo de cachimbo e sabão de sela chegou-lhe em
primeiro lugar. Phillip fitava uma foto na parede, de Maggie montando o
cavalo saltador preto dele, Sable. Estava vestido de cinza, uma cor que
lhe ficava tão bem, uma camisa cor de pérola e calça cinza escura ao
estilo continental justo. Virou-se para ela, quando a moça se aproximou.
Lembra-se do pacto que fizemos há quatro anos? disse parando diante
dele.
Lembro-me muito bem, Elizabeth. A voz dele estava rouca, mas ainda
usava a máscara que ocultava seus pensamentos sempre que ela estava por
perto.
Nada aconteceu para modificar o jeito como me sinto. Antes que ele
pudesse dizê-lo, Maggie o fez. E não me diga que tem idade para ser meu
pai porque não faz nenhuma diferença. Então o que vamos fazer a
respeito?
A sombra de um sorriso espalhou-se lentamente na fisionomia dele.
224
Acho que um homem tem o direito de bancar o idiota por causa de uma
mulher pelo menos uma vez na vida. Porque não vem beijar este velho
idiota?
Com uma risada suave e exultante, ela deslizou para os braços abertos
dele e ergueu a boca para encontrar os lábios que desciam. O beijo era
firme na sua posse, tomando o que era dele havia muito tempo. Se lhe
faltava o fogo espontâneo, sua experiência em despertar uma resposta
compensava-o amplamente. Além disso, Maggie se queimara com o seu caso
com Chase, um caso que se iniciara com substâncias químicas
combustíveis. Não estava buscando essa volatilidade sexual com um
homem. Queria uma coisa segura e sólida, um relacionamento que fosse a
antítese completa daquele que conhecera com Chase. O jeito de fazer
amor de Phillip oferecia-lhe isso, o seu beijo excitando-a sem fazer
com que perdesse a cabeça.
Quando Phillip começou a chover beijos deliciosos sobre o seu rosto,
ela fechou os olhos de puro contentamento. Apoiava as mãos serenamente
na parede magra do peito dele, sentindo o bater errático do seu
coração. Seus braços lhe ofereciam um abrigo seguro. Prometiam
segurança, conforto, devoção... todas as coisas que ela estava
buscando. Ele era o pai que nunca tivera; o amigo que jamais conhecera.
Eu o amo, Phillip. As palavras vieram-lhe facilmente aos lábios.
A boca exploradora do homem parou junto ao canto da dela, e um
estremecimento o percorreu.
Esperei tanto para ouvi-la dizer isso, minha querida, tanto. Beijou-a
confiante e seguramente.
Ela não desejava fogo ou chamas, só uma incandescência intoxicante. As
mãos dela não acariciavam músculos possantes, apenas carne esbelta,
esguia. Preferia a perícia à paixão crua. Não queria nenhum homem nos
seus braços que a recordasse Chase Calder... nenhum fantasma do passado
para confundi-la com relação à pessoa com quem estava no presente,
portanto não ficou desapontada. Ficou radiante por ter encontrado
exatamente a pessoa que buscava, alguém a quem podia ligar-se
emocionalmente, e que atenderia às suas necessidades sexuais.
225
Capítulo XXII
A espreguiçadeira dela estava colocada à sombra de uma árvore para que
Maggie pudesse fugir ao calor do sol de julho e ainda ver Ty brincando
de bandido e mocinho sobre a grama. Lançou um breve olhar à carta no
seu colo, mas sua atenção ficou presa ao pesado anel de diamantes no
seu dedo, o anel de noivado que Phillip lhe dera.
O casamento iria realizar-se em setembro. Antes disso Phillip não
conseguiria livrar-se dos seus compromissos profissionais para poderem
ter uma lua-de-mel apropriada. Maggie tinha sugerido que se casassem
agora e saíssem posteriormente para a lua-de-mel, porém ele tinha
rejeitado o plano, insistindo que queria fazê-lo à moda antiga... o
casamento, seguido imediatamente pela lua-de-mel. Maggie tinha certeza
de que suas suspeitas eram corretas: o verdadeiro motivo disso era dar-
lhe esses meses de verão para pensar bem, mas ela não tinha
absolutamente dúvida alguma de que queria casar-se com ele.
Ninguém tentara convencê-la a não se casar com Phillip. A tia hesitara
apenas um instante até que observara como Maggie parecia feliz e
satisfeita, e imediatamente dera-lhe sua bênção. Pamela era a única que
tinha suas dúvidas quanto ao casamento deles, mas por um motivo
inteiramente diverso do de Phillip, que era a diferença de idades. Como
Maggie aprendera a descobrir, Pamela era essencialmente egocêntrica,
acostumada a um irmão devotado. Ao mesmo tempo que estava radiante com
a perspectiva de Ty morar na mesma casa que ela, Pamela não gostava da
ideia de ter que competir com outra mulher pela atenção do irmão.
Exigira um pouco de tato por parte de Maggie convencê-la de que não
havia motivo para preocupação. Agora era a futura cunhada quem
225
estava organizando todos os detalhes para a cerimónia, que ia ser
simples, nada ostensivo ou elaborado.
Naturalmente, Maggie informara Culley do seu próximo casamento, e lhe
escrevera sobre o noivo. Havia algumas coisas que não lhe dissera,
coisas que ele não compreenderia. Grande parte da atração que sentia
por Phillip provinha da imagem paterna positiva que ele representava.
Maggie não podia explicar isso ao irmão. O pai deles não tinha sido uma
pessoa a quem pudesse admirar ou respeitar. Angus O'Rourke jamais
assumira a responsabilidade de tomar conta da filha. Na verdade, fora o
contrário. Ela sabia que Phillip sempre cuidaria dela e se preocuparia
com os seus interesses, além dos dele próprio. Estaria presente quando
ela precisasse do apoio de alguém, porém, ao mesmo tempo, Phillip
deixaria que fosse independente, dona do seu nariz, como um pai devia
fazer.
Era um relacionamento de muitas facetas. Maggie escrevera para Culley
apenas aquela parte que ele compreenderia. Releu mais uma vez a
resposta do irmão.
12 de julho Querida Maggie,
Parabéns por seu noivado. Espero que Phillip a faça muito feliz. Pelas
coisas que você disse dele na sua carta, parece que fará. Gostaria de
poder conhecê-lo, mas não estou vendo jeito de poder comparecer ao
casamento.
As coisas por aqui não vão indo muito bem. Não chove desde abril. O
solo está todo rachado e duro. O único riacho já secou e o capim está
pegando fogo. Se não chover logo, vou ter que dar o feno do inverno
para o gado, para ele ter alguma coisa para comer. Praticamente todo o
mundo está carregando água... exceto os Calders, é claro. Eles têm
muita água. Estão distribuindo-a para o resto de nós como se fosse
balas, dando-nos apenas o bastante para não deixar que morramos, mas
não o bastante para satisfazer nossa sede.
Que bom que você saiu daqui, Maggie. Por aqui não há médicos ricos para
marido, só um bocado de poeira e calor. Não posso estar presente, mas
desejo-lhe todas as felicidades.
Seu irmão, Culley
Ela deixou o papel pousar no colo mais uma vez e lembrou-se de como o
Sol podia ressecar o céu de Montana. Ouviu passos na
227
grama que se aproximavam da espreguiçadeira. Maggie ergueu os olhos e
deu um sorriso de boas-vindas, quando viu Phillip caminhando em sua
direção.
Alo. Ele parou ao lado da cadeira e debruçou-se para beijar-lhe de leve
a boca. Seu olhar pousou na carta no colo da moça. O que é isso? Uma
carta de amor? Implicou com ela com um sorriso, enquanto puxava outra
espreguiçadeira e se sentava mais perto dela.
É do meu irmão. Dobrou a carta pelos vincos e devolveu-a ao envelope.
Ele não vai poder vir ao casamento. Setembro é um mês muito atarefado
na fazenda.
Esta não era a primeira vez que Phillip observava como ela ficava
quieta e introspectiva depois de receber uma carta do irmão. Ele
adivinhava que elas abriam velhas feridas. Percebeu um vestígio de
desapontamento na expressão da noiva.
Sei o quanto você estava contando com a presença do seu irmão. Quem
sabe se adiássemos o casamento para outubro ou novembro... Phillip nem
pôde completar sua proposta.
Não. A recusa dela foi firme. Tudo já está resolvido. Vamo-nos casar em
setembro.
O médico não tentou discutir com ela, ficando mais alegre, sorrindo e
dizendo:
Ótimo. Enfiou a mão no bolso do paletó do terno de verão e tirou de lá
meia dúzia de folhetos de viagem. Porque acabo de chegar do meu agente
de viagens. Que tal lhe parece uma lua-de-mel em setembro em Paris?
Passou-lhe os folhetos e as reservas. Achei que gostaria de treinar o
seu francês.
Paris?! Phillip, é maravilhoso! Inclinou-se para beijálo, depois
começou a examinar ansiosamente os folhetos. Sempre sonhei em ir lá.
Então, estou duplamente feliz porque escolhi essa cidade.
Eu também. Estendeu a mão para ele e ficaram de mãos dadas. Com um olho
atento de mãe, notou Ty tocaiando um inimigo imaginário perto dos
canteiros. Ty, não se meta no meio das rosas! avisou. O garotinho
parou, depois começou a escapulir noutra direção. Ele está chegando
numa idade onde eu nunca sei o que vai fazer a seguir. A qualquer
minuto espero que se pendure numa árvore e banque o Tarzan murmurou,
com um leve aceno de cabeça.
Ando querendo conversar com você sobre Ty disse Phillip.
O que ele fez, desta vez? perguntou ela, sorrindo.
228
Não é nada que ele tenha feito, Elizabeth assegurou Phillip. É o que eu
quero fazer. Gostaria de adotá-lo. Sempre quis ter um filho.
A voz dela estava rouca, quando replicou:
Ty não poderia escolher um homem melhor para ser o seu pai.
Ligarei amanhã para os meus advogados para começar o processo de
adoção. Se Deus quiser até setembro nós três seremos legalmente uma
família.
Gostaria muito disso falou, apertando mais a mão dele. Ty berrou um
cumprimento para alguém e Phillip olhou e
viu Cathleen empurrando a cadeira de rodas da irmã pelo relvado, vindo
na direção deles.
Vocês dois estão parecendo um velho casal casado, sentado aí de mãos
dadas observou Pamela. Espero que não se importem se eu lhes fizer
companhia.
Claro que não. Maggie apressou-se diplomaticamente em dar-lhe as boas-
vindas.
Foi uma cerimónia muito simples. Um dos colegas de Phillip, amigo dele,
foi o padrinho, e Pamela foi a madrinha de Maggie. Como Culley não
estava presente para levá-la ao altar, ela e Phillip caminharam juntos
até ele para receber o sacramento do matrimónio, enquanto Cathleen e Ty
a tudo assistiam.
A recepção foi realizada ao ar livre no gramado da casa dos Gordons,
com cerca de 50 amigos presentes. Pamela contratara um bufê com garçons
uniformizados. Havia champanha, uma variedade de horsd'oeuvres,
inclusive caviar, e o bolo de noiva tradicional. Tudo foi feito em
escala pequena mas suntuosa, incluindo um fotógrafo para documentar o
acontecimento.
Durante um raro momento em que estavam sós, um pouco afastados do grupo
de convidados, Phillip sorveu sua taça de champanha e examinou
serenamente a jovem noiva.
Está feliz, Elizabeth?
Estou. A resposta foi meiga e positiva, reafirmando o que os olhos dele
viam. Somente uma coisa poderia tornar-me mais feliz do que estou neste
minuto. Gostaria que Culley estivesse aqui. Teria sido ótimo se ele
pudesse tê-lo conhecido.
Posso alterar as nossas reservas para incluir uma parada em Montana.
Não seria difícil de arranjar isso.
Não. Era uma resposta definitiva. Enfiou a mão na curva do braço dele.
Esta é uma época feliz para nós. Não quero nada atrapalhando ou
modificando isso.
229
Ele sorriu, aceitando a decisão dela, e se perguntou se jamais
conheceria toda a verdade sobre o seu passado. Passara por tanta coisa,
na sua jovem vida. Tudo acontecera lá em Montana. Ele estava começando
a se dar conta de que ela precisava da estabilidade que ele podia
oferecer. Precisava dele tão desesperadamente quanto ele a amava e
necessitava.
230
PARTE V
Um céu de crescimento, Um céu de dor, Este céu que vê Um novo Calder
reinar.
Capítulo XXIII
O capim farfalhava como palha seca sob os cascos do seu cavalo. A terra
parecia cozida e ressequida pelo sol fortíssimo e a falta de chuva.
Chase apertou os olhos contra a luz enviesada do sol da tarde. Acima
dele não havia nada exceto um céu de azul vivo. Estreitou os lábios ao
ver uma vaca pastando, ao invés de estar deitada à sombra, ruminando.
Não gostava de ver isso a esta hora do dia, porque significava que não
havia pastagem suficiente.
Os suprimentos de água das fazendas das colinas em volta da Triplo C já
tinham secado e sua grama queimado. A Triplo C partilhara o máximo de
água que pudera com seus vizinhos. Ainda tinha água, mas o viçoso pasto
dos Calders estava chegando a um ponto crítico. Iam ter que recolher os
novilhos de um ano cedo, naquele outono, antes que começassem a perder
peso. Era isso o que as pequenas fazendas vizinhas deviam ter feito
mais cedo para poupar seu pasto e água, mas ficaram se segurando,
certos de que acabaria por chover. Mas não chovera. E os outros
fazendeiros não tinham os recursos para se aguentar por tanto tempo
quanto a Triplo C.
Uma buzina fez com que Chase freasse o cavalo e se virasse na sela.
Parecia que alguém tinha esquecido a mão na buzina. Uma pick-up
apareceu, sacolejando, correndo desesperadamente pelo terreno
irregular. Chase reconheceu Stumpy ao volante. Acenava para ele feito
louco. Girando o cavalo, Chase saiu a trote para interceptar o veículo.
O que foi? O cavalo girou o traseiro quando a pick-up freou, guinchando.
Entre - Stumpy estendeu o braço e abriu a porta do lado do passageiro.
O patrão está ferido.
233
Chase enrolou as rédeas no arção dianteiro enquanto pulava da sela e
soltava a montaria. Não fez nenhuma pergunta até estar dentro da
boleia. Stumpy arrancou antes que ele tivesse acabado de fechar a porta.
O que aconteceu? Se o pai de Chase estava ferido, isso queria dizer
muito ferido, e a mente dele repassava todas as possibilidades.
A pick-up capotou. Ele foi jogado para fora, mas ela caiu em cima dele.
Stumpy Niles pisava no acelerador até o fundo e segurava o volante com
as duas mãos para impedir que fosse arrancado dele pelos solavancos,
enquanto o veículo corria sobre o terreno irregular.
Chase fitou rapidamente o motorista, abalado com o choque.
Ele está muito ferido?
O peito dele foi esmagado. Stumpy não tirava os olhos do terreno à
frente, mas seu perfil demonstrava uma expressão sombria. Estava
chamando você. Houve uma pausa enquanto ele diminuía a marcha da pick-
up para parar diante da porteira.
Saltando da boleia, Chase saiu correndo para abrir a porteira para
Stumpy poder passar. Soltava palavrões baixinho, e distraidamente se
perguntou por que o homem sempre usava palavras de baixo calão nas
situações em que se sentia impotente. Logo que a traseira da pick-up
ultrapassou a porteira, Chase fechou-a e correu para se juntar a Stumpy
na boleia.
Quando chegaram ao local, uns bons 20 minutos mais tarde, uma meia
dúzia de cavaleiros tinha tirado a pick-up de cima do pai dele, com a
ajuda de um punhado de homens a pé. Estavam enrolando as cordas de
nylon brancas que tinham sido amarradas à pick-up. Chase viu Nate
ajoelhado junto à figura do pai, deitado na margem inclinada de uma
vala.
O silêncio entre os homens era impressionante, enquanto Chase saltava
do veículo. Nate se endireitou e recuou, quando ele apareceu, deixando
Chase ver pela primeira vez o rosto sem cor do pai e seu peito
esmagado. O rapaz caiu de joelhos ao lado dele, estendendo parcialmente
os braços, querendo fazer alguma coisa para aliviar a dor que o pai
tinha que estar sentindo. Os olhos do homem se abriram, da mesma cor
castanha que os seus, mas a luz que havia neles estava sumindo.
Eles o encontraram, filho. Graças a Deus. A voz rascante foi
interrompida por uma tosse que fez sair sangue pelo canto da boca e
tirou ainda mais um pouco de cor do rosto.
Chase trincou os dentes para impedir o gemido angustiado de sair.
Tirando o chapéu, ergueu com carinho e cuidado a cabeça do
234
pai e fez o chapéu de travesseiro. Depois, enxugou o sangue com
o lenço.
Não tente falar, papai. A voz dele era tensa, espremida para manter-se
firme. Ergueu os olhos para Nate. Vamos improvisar uma padiola para ele
na traseira da pick-up do Stumpy. Certifique-se de que o avião esteja
pronto para decolar na pista.
Nate apenas olhou para ele com tristeza por um longo segundo, depois
virou-se para ir juntar-se ao resto dos homens, reunidos a alguns
metros de distância.
Não adianta, filho. Mas a força na mão que segurava o
braço de Chase parecia refutar a afirmação. Nenhum homem forte assim
podia morrer. Posso ouvir as minhas costelas raspando umas nas outras,
parecendo um monte de louça quebrada. Eu vou me afogar no meu próprio
sangue antes que vocês consigam levarme a um médico insistiu o pai.
Havia um chocalhar terrível a cada respiração curta e dolorosa que ele
dava.
Aguente firme, papai instou Chase, recusando-se a desistir.
Os olhos castanhos fecharam-se, numa negativa, depois se abriram para
fitar Chase carinhosamente.
Agora é tudo seu. Webb perscrutou o rosto do filho com profunda
tristeza. Você é jovem demais, apenas vinte e sete anos. Precisava de
mais alguns anos de amadurecimento. Apertou os dedos no braço do filho.
Eles vão ver isso e virão atrás de você. Sabe disso?
Sei, papai.
Lá estava aquele misterioso "eles" de novo. O braço dele estava sendo
apertado com tanta força que a circulação quase se interrompera. Era
impossível acreditar que qualquer coisa pudesse matar este homem. O pai
sempre parecera indestrutível.
Terá que lutar para manter a Triplo C intacta. Terá que estar pronto. A
voz fraca e rascante tinha uma nota de desespero, enquanto um outro
espasmo de tosse o atacava.
Você não vai morrer insistiu Chase, enquanto enxugava o sangue que
escorria da boca do pai.
Pareceu passar-se muito tempo até que a tosse cessou e o sangue ficou
reduzido a um filete que escorria do canto da boca. Webb descansou por
um momento, tentando conservar as forças que lhe restavam, mas havia
tanta coisa que precisava dizer a Chase.
Um homem tem que viver de modo a não ter medo de morrer. Não estou com
medo, mas não quero ir. Não quero deixá-lo ainda. A dor contorceu-lhe o
rosto. Dói... parece que meu peito está em fogo... me incendiando.
235
Chase virou parcialmente a cabeça para dar uma ordem ao grupo de
vaqueiros parados silenciosamente a um canto.
Alguém me traga um pouco d'água.
Não notou quem trouxe o cantil. Simplesmente o desarrolhou e deixou um
pouco de água cair na boca do pai. A dor nas suas feições foi-se
suavizando. A boca relaxou ligeiramente, quase formando um sorriso.
Está melhor suspirou Webb e ergueu os olhos para o céu que encimava a
Triplo C. As nuvens estão-se formando. murmurou. Que bom. Precisamos da
chuva.
Um arrepio gelado correu pela espinha de Chase. O céu estava de um azul
sólido. Não havia uma só nuvem à vista. Os músculos da sua garganta
crisparam-se ferozmente para controlar o soluço de protesto que vinha
subindo. Os olhos dele ardiam.
Quem me dera poder ficar. A voz do pai era pouco mais do que um
sussurro, o chocalhar ficando mais alto. Diga a Ruth... Parou para
inspirar, mas não chegou a fazê-lo.
Chase esperava, fitando-o numa descrença entorpecida, a mente se
recusando a aceitar que o pai tinha morrido. Não o seu pai. Não Webb
Calder, o patriarca do império Calder. Mas a cabeça grisalha tinha
caído para o lado, e Chase desviou o olhar enquanto fechava os olhos
castanhos que nada enxergavam.
Sentiu uma mão no ombro. Chase ergueu os olhos e viu Nate parado a seu
lado. Não havia expressão no rosto do homem. Chase apagou qualquer uma
do seu, enquanto se levantava e corria os olhos pelos outros empregados
da fazenda. Alguns desviavam os olhos; outros o encaravam; mas ninguém
falou. Tantos dos filhos nativos da fazenda estavam ali - Stumpy, Nate,
Slim Trumbo, Ike Willis. Todos tinham o chapéu nas mãos.
Ninguém apareceu na Casa Grande naquela noite, mantendo-se todos
distantes como ditava seu código, para dar a Chase tempo de
reconciliar-se com a perda do pai e para chorar sua dor em particular.
Não foi a Ruth, mas outra das mulheres dos vaqueiros quem preparou sua
refeição naquela noite, colocou-a na mesa de jantar, e se retirou
silenciosamente.
A mesa parecia imensa. Chase ficou ao lado dela e fitou a cadeira vazia
à cabeceira, onde o pai sempre se sentava, e onde o prato de comida
esperava por ele. Virou-se e saiu da sala. Entrando no escritório,
fechou a porta atrás de si e se dirigiu até o bar. Serviu-se de uma
dose dupla de uísque, engoliu-a, e voltou a encher o copo.
236
O silêncio da casa o sufocava enquanto caminhava até a enorme lareira
de pedra e apoiava o pé na parte inferior alta. Ergueu os olhos da boca
negra e escancarada para o par de chifres que encimava a cornija de
pedra. A história lhe era familiar, uma história de sua infância,
muitas vezes narrada. Cada rebanho em viagem tinha um novilho na
liderança. Captain era o longhorn malhado que liderara o rebanho do seu
xará, Chase Benteen Calder, na viagem longa e árdua do Texas até
Montana. O animal vivera até uma idade provecta nos ricos pastos de
Montana. Quando morreu, seus chifres majestosos foram armados e
pendurados acima da lareira para que as gerações futuras apontassem e
contassem aos filhos a história da perigosa viagem conduzindo o gado;
os homens perdidos nas travessias de rios, o jovem vaqueiro morto num
estouro da boiada... o preço pago para se chegar até o ponto livre e se
forjar um novo começo no que era então o Território de Montana.
Chase virou a cabeça para olhar para o mapa amarelecido na parede atrás
da escrivaninha. Um músculo se crispou no seu maxilar, quando recuou
intimamente ante o tamanho da fazenda. Toda a vida fora criado na
certeza de que um dia tudo aquilo seria seu. Nada mais lhe passara pela
cabeça. Subitamente perguntou-se se era aquilo o que queria. Seus
ombros se curvaram sob o peso da responsabilidade que aquilo
acarretava... não apenas administrá-lo com êxito, mas todas as pessoas
cujas vidas agora dependiam de suas decisões. Era assustador. Sentiu-se
abalado por uma incerteza de que seria capaz.
"É tudo seu agora, filho." A voz rascante do pai falava com ele de
novo. "Mantenha-o intacto."
Seus dedos se apertaram no copo de uísque, os nós ficando brancos.
Jamais se sentira tão só na vida. Tinha vontade de gritar chamando
alguém para aliviar essa dor aguda. Mas não havia ninguém. A mãe há
muito morreu, nem mesmo uma lembrança dela sobrara em sua mente. Buck,
seu melhor amigo, o traíra. Agora o pai também se fora, a única força
inabalável da sua vida arrancada de si.
Pegou-se desejando a maciez de uma mulher. Maggie. Foi a imagem dela
que lhe veio à mente. Nos seus braços sempre se sentira muito vivo.
Santo Deus, como precisava dela hoje. Mas ela estava em algum lugar da
Califórnia... muito longe do seu alcance. Parte dele sabia que, se ela
estivesse na sala ao lado, ele não teria ido procurá-la. Eles não
tinham compartilhado outra coisa que não sexo, e sexo não era do que
estava precisando esta noite. Precisava do apoio e conforto de alguém
que gostasse dele, alguém que ficasse a seu lado em silêncio.
237
Não havia ninguém. Estava só. Amanhã todos buscariam orientação com
ele... para continuar a tradição dos Calders. Com passos pesados,
atravessou a sala até a escrivaninha. Será que conseguiria seguir as
passadas do pai? Não, não era assim que devia ser feito. Um líder tinha
que abrir a fogo seu próprio caminho.
Sentando-se à cadeira atrás da escrivaninha, Chase começou a folhear a
correspondência sobre o tampo. Uma carta com aparência oficial deu a
Chase o primeiro indício dos problemas que o pai avisara que esperasse.
Num terno marrom escuro de estilo do Oeste, Chase estava de pé ao lado
do pastor junto ao túmulo, segurando o Stetson de cor creme à sua
frente. Um vento seco arrepiava seu cabelo castanho e levantava a
poeira do chão. Indiferente às palavras de oração que o pastor dizia,
Chase examinava o grande grupo de pranteadores que comparecera à
cerimónia. Seu olhar pousou primeiro na delegação da fazenda. Todas as
cabeças estavam inclinadas, exceto a de Tucker. Chase ainda não
entendia por que o cozinheiro ainda trabalhava para a Triplo C, por que
não se mandara depois de guardar algum dinheiro. Tucker enfrentou o seu
olhar sem vacilar. Chase arquivou mentalmente a advertência de que
Tucker lhe causaria problemas.
Desviou o olhar para Ruth e Virgil Haskell. O homem abraçava a mulher,
que chorava silenciosamente. Chase jamais contara a Ruth que o seu nome
fora a última palavra que o pai pronunciara. Não havia outro recado a
dar, exceto este e, olhando para Virg, concluiu que estivera certo em
não falar. Não se conseguiria nada com isso, salvo talvez mais
sofrimento.
Quando se fixou no pessoal da cidade e nos estancieiros vizinhos que se
haviam reunido para prestar as últimas homenagens ao pai, sentiu um
leve choque percorrê-lo. Lembrou-se de que certa vez, há muito tempo, o
pai lhe dissera que ninguém gosta de alguém que seja mais forte, mais
rico ou mais poderoso do que ele. Estavam todos sempre procurando um
jeito de derrubá-lo. Agora, Chase podia ver isso por si mesmo. Estava
nos olhos deles que esperavam que ele quebrasse a cara e arrastasse
consigo a Triplo C.
Por último o seu olhar pousou no Senador Franklin T. Bulfert, que viera
de avião para assistir ao enterro e ia partir logo em seguida. Ficou
pensando nas coisas que sabia sobre o político, e que o povo não sabia.
Aquela seria sua munição... o seu conhecimento e a sua disposição em
utilizá-lo.
O "Amém" do pastor teve eco no murmúrio suave da multidão. A cerimónia
acabara. Chase lançou um olhar ao caixão e meteu o
238
chapéu na cabeça. Sabia que o pai o perdoaria por não se demorar junto
ao túmulo, quando havia negócios importantes da Triplo C a tratar.
Parando para apertar a mão do pastor, murmurou uma resposta sem sentido
para as condolências oferecidas, depois dirigiu-se para junto do
senador.
É um dia sombrio, Chase, um dia sombrio declarou o
político solenemente. Gostaria de poder expressar o que a perda de um
bom amigo como Webb Calder significa para mim. Lamento precisar ir
embora...
Sei que seu tempo é curto interrompeu Chase. Levá-lo-ei até o avião.
Isso nos dará uma chance de conversarmos em particular.
A desconfiança tremeluziu nos olhos do homem.
É muito gentil da sua parte, mas sei que há outros aqui que querem
expressar sua tristeza. Não quero atrapalhar.
Mas aqui não há ninguém tão importante quanto o senhor, senador.
Chase retorceu a boca num sorriso um tanto cínico, enquanto dava a
desculpa. Acompanhou pessoalmente o senador até a limusine preta que
esperava, com o motorista, agradecendo polidamente a todos que se
acercavam dele para oferecer-lhe condolências. Depois que tinham
entrado no espaçoso banco de trás da limusine, Chase fechou a divisória
de vidro para que o motorista não escutasse a conversa deles. O senador
lhe ofereceu um grande charuto. Chase recusou.
Não, obrigado, tenho os meus. Tirou do bolso de dentro do paletó uma
cigarrilha fina e dobrou um fósforo de papelão, riscando-o com um
trejeito do polegar. Soltou uma baforada, depois examinou a ponta
incandescente, o brilho vermelho sob a cinza branca. Dentro dos limites
oficiais da Triplo C existe um trecho de dois mil e quinhentos hectares
que é pasto federal arrendado. O contrato vence no ano que vem e fui
informado de que o governo não quer fazer novo arrendamento a longo
prazo. Prefere fazê-lo numa base anual.
Isso é uma pena murmurou o senador, rolando o charuto entre os lábios.
realmente é uma pena, mas parece ser esta a tendência que o governo
está seguindo em tais assuntos.
Também não estou interessado num arrendamento a longo prazo declarou
Chase, e sentiu o olhar agudo do senador sobre si- Quero negociar a
compra desse trecho. Já está cercado por terra da Fazenda Calder
passada por escritura. Como o governo já é dono de uns trinta por cento
do Estado de Montana, não vai sentir falta de dois mil e quinhentos
hectares.
O senador deu uma risadinha abafada.
239
O mesmo podia se dizer da Triplo C. O que são dois mil e quinhentos
hectares comparados com o que vocês já têm?
A diferença, senador Chase virou o olhar apertado para o homem é que o
senhor está falando de terra Calder. Vou corrigir o erro que meus
antecessores cometeram e comprar aquele pedaço de terra. Não vou-me
sujeitar aos caprichos do Tio Sam.
Não creio que você entenda o que está pedindo disse o homem, sacudindo
a cabeça com ceticismo.
Estou-lhe pedindo que consiga a venda da terra para mim.
Está pedindo demais. Não sei se poderei conseguir desconversou o
político, sem querer comprometer-se.
Chase deixou que se passasse um intervalo de silêncio.
O senhor é candidato à reeleição agora em novembro. Soube que seu
adversário está-se emparelhando com o senhor, e que o páreo é duro.
Dizem até que ele poderia derrotá-lo, com fundos suficientes para a
campanha. Pergunto-me o que aconteceria se a Triplo C resolvesse apoiá-
lo.
O homem não poderia ajudá-lo em nada. Não tem as ligações que tenho
protestou o senador. Além disso, seria preciso mais do que dinheiro
para ele me vencer.
O que seria preciso? Quem sabe se alguém deixasse "vazar" para a
imprensa sobre o seu apartamento num bairro da periferia de Washington
onde vivem uma loura e um garotinho chamado Frank Júnior, isso seria o
bastante? sugeriu Chase.
Isso é chantagem. O senador olhou para ele, furioso. Fiz muitos favores
para seu pai, no passado. Não posso deixar de pensar que ele não
aprovaria as ameaças que está fazendo a um amigo leal.
Só o mencionei, senador, para deixar claro que precisamos um do outro.
Chase bateu a cinza da cigarrilha no cinzeiro de metal localizado no
descanso estofado para braços do carro. O senhor precisa do meu apoio
para assegurar sua reeleição. E eu preciso de suas ligações para
comprar aquela terra do governo. Se quiser interpretá-lo como ameaça de
chantagem, é problema seu. A limusine parou junto da pista. Seu avião
está esperando, senador. Espero ouvir notícias suas no final da semana.
Havia uma expressão de admiração relutante no rosto do senador,
enquanto apertava a mão de Chase.
Acho que nos entendemos, Chase.
Estou certo que sim concordou o fazendeiro, secamente.
Da pista de pouso, Chase voltou diretamente para a Casa Grande e entrou
no escritório. Passou uma hora estudando o mapa na parede antes de
mandar um recado a Nate, dizendo que queria que ele e os outros
capatazes o encontrassem no gabinete após o jantar.
Estava sentado atrás da escrivaninha quando eles entraram. Notou o
lampejo de surpresa nos seus olhos quando o viram; estavam acostumados
demais com o pai dele ocupando aquela cadeira. Era algo a que ele
próprio também não se adaptara inteiramente, portanto compreendeu o
breve choque e não o interpretou como desdouro à sua liderança.
Quando o último homem chegou, Chase fez a todos uma pergunta.
Onde ficam o melhor pasto e a melhor água da Triplo C?
Ao norte replicou Virgil Haskell, e franziu o cenho. Nós os estamos
poupando para servir de pastagem durante o inverno.
Eu sei. Chase se levantou e se dirigiu para o mapa. Nos limites do
pasto norte temos a Fazenda Shamrock, a Circle Six e a estância de Bill
MacGruder. Todos estão na pior. Tenho o palpite de que vão decidir
invadir com o seu gado o pasto norte... individualmente, ou em grupo.
Imagino que para eles seja uma tortura ver o seu gado morrendo de fome
com todo aquele pasto e água do outro lado da cerca comentou Stumpy,
com um aceno de concordância.
Exatamente o que pensei. Chase observou os olhares afirmativos dos
demais.
O que quer que a gente faça a respeito? perguntou Ike Willis,
observando Chase atentamente, como todos os outros. Detesto ver gado
morrendo de fome.
Todos os vaqueiros, detestam, mas eles deviam ter feito algo a respeito
antes... vendido e reduzido os seus rebanhos a um tamanho que os seus
pastos pudessem alimentar numa seca. Poupamos o pasto norte para o
nosso gado e vamos precisar de cada centímetro dele se não quisermos
acabar como os outros. Quando eles agirem, nós estaremos esperando por
eles para conduzir seus rebanhos para o seu lado da cerca.
Ao alvorecer da manhã seguinte, três grupos de vaqueiros se separaram
para patrulhar a longa cerca divisória da fronteira norte da fazenda.
Chase ia com o grupo de Nate. Todos os homens tinham um fuzil carregado
na bainha, com ordens para usá-lo se precisassem.
Chase se perguntava se tinha adivinhado errado. Talvez houvesse outros
fazendeiros na fronteira oeste, ou sul, que estavam numa ainda pior.
Mas os pastos da Triplo C naquelas áreas foram
241
praticamente todos utilizados, e a água era escassa. A totalidade de
seus instintos insistia em que, se ia ter encrencas com os vizinhos,
seria aqui no pasto norte, onde havia muita grama e água. Era daqui que
a encrenca viria... se viesse, e ele esperava em Deus que não. Queria
estar errado.
Foi lá pelo meio da manhã que ouviram o mugido distante do gado e se
dirigiram para onde vinha o som. Quando depararam com os rebanhos
conjuntos que cruzavam o buraco na cerca onde os arames tinham sido
cortados, Chase freou o cavalo. Este dançou impaciente sob ele,
sacudindo a cabeça e forçando o freio.
Chase abaixou-se e tirou o fuzil da bainha, e com seu gesto deu um
sinal para que os demais fizessem o mesmo.
Os cavaleiros espalharam-se em leque atrás dele, com Nate vindo para o
seu lado direito. Chase esporeou seu cavalo a trote, enquanto os outros
o seguiram. Seu olhar percorreu o gado esquelético, notando as marcas
misturadas. Depois percebeu os respectivos donos das fazendas
agrupando-se num trio para enfrentálo: MacGruder, Hensen, da Circle
Six, e Culley O'Rourke. Não pôde deixar de notar como Culley estava
magro e de olhos fundos, mas o brilho do ódio achava-se nos seus olhos
verdes... uma expressão que lhe fazia lembrar Maggie. Mas não podia
permitir que essa lembrança o amolecesse, portanto bloqueou-a.
Ele e seus vaqueiros pararam suas montarias na frente do gado,
diminuindo o fluxo que entrava pela cerca e dispersando as vacas. Os
animais imediatamente começaram a atacar a grama, esfaimados.
Estão invadindo propriedade particular declarou Chase. Voltem com o seu
gado para seu lado da cerca.
Você tem pasto de sobra aqui. Foi Culley quem o desafiou. E água
também. Nosso gado está morrendo de fome. Precisamos deste pasto, e
você não.
Não havia como tentar argumentar com um fazendeiro que via o seu
rebanho ficar mais fraco a cada dia. Ele não ia querer ouvir sobre a
necessidade que dentro em breve a Triplo C teria deste pasto. Não se
importava com a Triplo C... apenas com salvar as próprias vacas.
Dou-lhes um minuto para darem meia-volta com o rebanho avisou Chase.
Ou você fará o quê debochou Culley, olhando para os fuzis nas mãos
deles. Começará a atirar na gente?
Não. Chase sentiu o olhar curioso que Nate lhe dardejou. Não preciso
atirar em vocês. Trouxeram seu gado para cá para salvá-lo. Se querem
que continue vivo, vocês o retirarão da terra da Triplo C.
242
Está ameaçando atirar no nosso gado? perguntou Bill MacGruder,
endireitando-se na sela e franzindo o cenho, incrédulo.
Se não começarem a levá-los em... trinta segundos, é o que farei
declarou, e viu os três fazendeiros olharem entre si.
Você está blefando zombou Culley.
Chase não disse mais nada, movendo-se com seu cavalo que se desviava de
uma mosca que o mordia. Mentalmente, foi contando os segundos enquanto
observava a incerteza nos rostos dos três homens. Finalmente, ergueu o
fuzil e mirou uma vaca de cara branca. Apertou o gatilho e não esperou
para vê-la cair enquanto enfiava outra bala na câmara e derrubava um
segundo animal. As outras vacas que estavam perto do par abatido se
dispersaram num breve pânico ante a explosão dos tiros.
Seu filho da mãe assassino!
Com o canto dos olhos, Chase viu o cavalo e o cavaleiro que partiam
para cima dele e girou sua montaria bruscamente para desviar-se deles.
Notou o ódio na expressão de Culley O'Rourke quando ele tentou agarrar
o fuzil. Chase mudou a direção do cano e acertou seu atacante no queixo
com a coronha da arma. O golpe fez Culley cair da sela. Às suas costas
ouviu fuzis serem engatilhados enquanto seus homens viravam as bocas
das armas ameaçadoramente para os dois fazendeiros restantes, cujas
mãos tinham descido em busca dos fuzis que carregavam nas suas bainhas.
Vão levar embora os rebanhos? desafiou Chase, ciente de que Culley
estava-se pondo de pé, tropegamente.
Que merda, Chase! Esses animais estão morrendo de fome! MacGruder fez
um apelo.
Nate, quero mais dez cabeças para fazer companhia àquelas duas no chão
ordenou Chase, sem olhar para o capataz. E dez mais para cada minuto
que eles esperarem.
Uma mistura de choque e ultraje penetrou na fisionomia dos dois
fazendeiros quando se ouviu o estalido imediato de um fuzil, seguido
pelo gemido do animal que caía. Chase contou mentalmente os tiros
enquanto os estancieiros atordoados viam suas vacas caírem de uma em
uma. Até mesmo Culley olhava com choque e sofrimento.
Não pode fazer isso! protestou Hensen, quando o silêncio finalmente se
seguiu ao décimo tiro.
Faça-os voltarem.
Os loucos continuaram a hesitar até ouvir o estalido de uma bala de
fuzil sendo colocada na câmara.
Está bem!! Bill MacGruder gritou, e ergueu a mão para que não atirassem
mais. Nós os levaremos de volta. Pelo amor de Deus, não atirem em mais
nenhum animal!
243
Culley olhou para Chase com ódio, enquanto segurava as rédeas caídas do
seu cavalo e montava para se unir aos colegas. Moveram-se rapidamente
para agrupar o rebanho e empurrá-lo de volta pelo buraco na cerca,
enquanto Chase e seus homens observavam.
Nate fitou o homem sentado tão ereto na sela, inflexível, à moda dos
Calders, e murmurou numa voz que apenas ele ouviu: O rei está morto.
Viva o rei.
244
Capítulo XXIV
Chase subiu os degraus da varanda da Casa Grande e parou para olhar por
cima do ombro. Sentiu um orgulho inconsciente quando seus olhos
correram pela sede da Triplo C. Dirigir a fazenda tornara-se uma
segunda natureza para ele desde a morte do pai, há cinco anos. Durante
os primeiros meses fora testado a cada momento. Ocultando qualquer
incerteza que pudesse sentir, enfrentara cada desafio e a Triplo C
estava intacta, funcionando tranquila e eficientemente. Este era o
serviço para o qual nascera e fora criado, e fazia-o bem. Se havia quem
considerasse seu orgulho como arrogância, então era uma arrogância
merecida.
Virou-se para a frente e dirigiu-se para a porta de entrada, os passos
cadenciados soando alto no piso de madeira da varanda. Fechando a porta
depois de ter cruzado a soleira, dirigiu-se imediatamente para o
escritório.
Chase? A voz hesitante de Ruth Haskell fez com que parasse e se virasse
para olhar para a sala de jantar. Depois da morte do pai dele, ela
começara a aparentar a idade que tinha. Parecia sempre haver uma
tristeza atormentada nas sombras dos seus olhos azuis.
Mas não foi em Ruth que seu olhar pousou. Houve um momento em que Chase
pensou estar vendo um fantasma, fitando o homem pálido parado a seu
lado. Segurava o chapéu de cowboy nervosamente diante de si, deixando à
mostra os cabelos encaracolados e louros escuros. Quase não havia luz
nos olhos azuis, pelo menos não o brilho alegre de que Chase se
recordava.
Alo, Chase. A voz era submissa e hesitante, como se não soubesse se ia
ser bem recebido.
245
Mas era a voz de Buck. Por um momento fugaz, Chase sentiu ímpetos de
cruzar o espaço que os separava e apertar a mão do amigo de tantos
anos. Depois, lembrou-se das circunstâncias em que Buck deixara a
fazenda e permanecera onde estava.
Alo, Buck. Não sabia que tinha saído.
Sua voz era tão inexpressiva quanto o rosto. Desviou o olhar para Ruth,
notando como ela mordia o lábio. A mulher sabia, ele se deu conta, e
simplesmente deixou de contar-lhe.
Soltaram-me ontem, reduziram minha sentença por "bom comportamento",
imagine só! A risada dele era oca, e Buck baixou a cabeça, mexendo
nervosamente no chapéu. Sei que dizer "sinto muito" provavelmente não
vai significar nada, Chase, mas quero que saiba que sinto.
Chase apertou os lábios, estreitando a linha da boca. Não gostava de
ver Buck se humilhando, e ficou contente quando Ruth saiu da sala,
deixando-os a sós. Como não sabia o que dizer, ficou calado enquanto
Buck entrava desajeitadamente no vestíbulo.
Não há nada que eu possa dizer que possa desculpar o modo pelo qual me
portei com você - continuou Buck - ou que vá fazer com que você esqueça
as coisas que eu disse. Quando me dei conta de que ia para a cadeia
pelo que tinha feito, entrei em pânico. Já teve medo, Chase... quero
dizer medo de verdade, até a ponta dos dedos dos pés? Eu era como um
animal preso numa armadilha e que começa a morder a si mesmo. Fez uma
pausa e soltou um pesado suspiro, finalmente erguendo os olhos para
encontrar o olhar firme de Chase. Tive um bocado de tempo para pensar
nisso tudo na prisão. Só queria que você soubesse como me sinto. E
lamentei muito saber sobre seu pai. Sei que deve ter sido dureza para
você. Os dois eram muito chegados. Bem - mexeu no chapéu de novo e deu
um sorriso formal - não vou prendê-lo mais. Sei que está ocupado,
portanto... vou andando.
Havia um conflito dentro de Chase, enquanto via Buck começar a se
afastar. Metade dele dizia que o deixasse ir, mas o lado mais forte
ficava lembrando-se dos bons tempos.
Que tal uma bebida? perguntou, e sorriu pela primeira vez ao ver a
velha vivacidade voltar aos olhos de Buck.
Adoraria declarou Buck. Não provo um bom uísque há quase dez anos.
Vamos corrigir isso. Apoiou com naturalidade a mão no ombro do velho
amigo, enquanto entravam juntos no escritório.
Nada mudou muito. Buck correu os olhos pelo aposento enquanto Chase se
dirigia para o bar a fim de servir-lhes uma bebida. Tudo está do jeito
que eu me lembrava.
246
O que pretende fazer agora? indagou Chase, entregando-lhe um copo.
Arrumar emprego. Por acaso conhece alguém que esteja
disposto a contratar um vaqueiro enferrujado que passou alguns anos
fora de circulação? zombou, com um pouco da antiga vivacidade.
Chase fitou o seu copo por um minuto, o conflito vindo à tona
de novo.
Quem sabe.
Ei! Eu não lhe estava pedindo emprego insistiu Buck,
rapidamente. Quero dizer...
Chase lançou-lhe um olhar de banda, avaliando-o.
Quer dizer que não quer trabalhar de novo para a Triplo C?
Estaria mentindo se dissesse que não. Havia ansiedade na sua resposta
suspirosa. Buck girou o líquido no copo e ficou vendo os tons de âmbar
em mutação. Só com o que sonhei durante dez anos foi voltar para casa.
Sacudiu a cabeça, num pesar mudo. Mas não é direito para mim esperar
que você me dê uma segunda chance.
Isso quem decide sou eu, Buck. E se descobrir que você não a merece,
boto-o daqui para fora a pontapés, pessoalmente.
Ei, eu pinto os alpendres, limpo os estábulos, conserto os moinhos... o
que você mandar prometeu Buck. Não precisa botar-me em cima de um
cavalo até que eu prove o meu valor de novo.
Desculpe. Chase sacudiu a cabeça. Só estou interessado em contratar
Buck Haskell, o vaqueiro.
Darei mais duro do que qualquer pessoa que você já viu. Prometo-lhe,
Chase.
No final do segundo mês, Chase acreditou nele. Buck era o primeiro a
sair para o trabalho de manhã e o último a voltar à noite. Havia vezes
em que fazia o trabalho de dois homens. Não ia até o Jake's e raramente
bebia, exceto uma cerveja gelada ou um copo de uísque com Chase, se por
acaso aparecia na Casa Grande à noite, o que era raro. Pelo que Chase
pudera perceber, não estava esbanjando o seu dinheiro, mas guardava um
pouco de cada cheque de pagamento. E também não tentara recomeçar a
amizade de onde ela parara, como se soubesse que tinha que merecer a
confiança de Chase antes que os velhos elos pudessem ser restabelecidos.
247
Elizabeth brincava com a entrada, toranja grelhada com uma mistura de
açúcar e licor Galliano, geralmente um prato que apreciava muito.
Phillip a examinava discretamente da outra cabeceira da mesa, e
reconheceu o humor introspectivo, adivinhando-lhe a causa.
Teve notícias do seu irmão, hoje.
Ela ergueu os olhos, numa confusão espantada.
Como é que soube?
Eu sei murmurou ele, largando a colher serrilhada de comer toranja. O
que foi que ele contou?
As coisas de sempre. Maggie deu de ombros e não explicou mais nada.
Phillip já lera muitas cartas de Culley e sabia que ele ficava
esbravejando sobre Chase Calder. Ela ficava preocupada, às vezes, com a
obsessão em que o ódio do irmão se transformara. O seu próprio se
suavizara com o passar do tempo e com a influência carinhosa de
Phillip, que havia curado grande parte de sua dor.
Eu conheço o meu tio? perguntou Ty, com uma ruga profunda na testa.
Com 10, quase 11 anos, ele ficava cada vez mais parecido com Chase.
Maggie tinha mais consciência disso em certas horas, como agora, quando
a carta de Culley tinha refrescado todas as suas lembranças do homem.
Não, não conhece. Mudou rapidamente de assunto. Aonde você e Jeff vão
hoje à noite?
Jeff Broadstreet era amigo de Ty. Os dois meninos estudavam no mesmo
colégio particular. Os pais de Jeff iam levar os dois para sair naquela
noite.
Ao cinema, ver um bangue-bangue. Jeff falou que o trailer parecia ótimo
- falou, entusiasmado. Tio Culley tem uma fazenda, não é?
Tem, sim respondeu Phillip, quando Maggie não respondeu à pergunta.
Por que nunca vamos visitá-lo? Seria legal ficar numa fazenda de
verdade. Não podemos ir, um dia, mamãe?
Vamos ver disse, vivamente. Sabia que nunca iriam, mas não contou a Ty,
porque isso exigiria uma explicação.
Que tal neste verão? sugeriu o garoto.
Vamos para Londres no verão lembrou-lhe a mãe.
Londres não passa de um amontoado de prédios velhos e museus bolorentos
queixou-se Ty. Prefiro ir para a fazenda.
Vamos para Londres declarou Maggie. Todas as nossas reservas já estão
feitas e é tarde demais para cancelá-las. Notou como sua voz ficara
cortante, e suavizou-a. Londres é
248
uma cidade fascinante. Você vai gostar. Seu pai e eu nos divertimos
muito lá, na nossa lua-de-mel.
Pensei que tinham passado a lua-de-mel em Paris.
E passamos, mas também estivemos alguns dias em Londres
explicou ela.
Ainda prefiro ir para a fazenda do meu tio em Montana - resmungou Ty.
Chega de discussão agora, Ty advertiu Phillip, e mudou de assunto,
conversando sobre algo menos doloroso para a mulher. Mas aquilo
precisava ser ventilado. Phillip esperou até o jantar ter terminado e
Ty ter pedido licença para sair da mesa, antes de abordá-lo de novo. Ty
devia conhecer seu irmão, Elizabeth. Afinal de contas, Culley é o único
tio que ele tem.
Vou convidar Culley para vir à Califórnia.
Ele não virá. Não veio à sua formatura, nem ao nosso casamento. Está
sempre ocupado demais lembrou Phillip. Além disso, é a fazenda que Ty
realmente deseja conhecer.
É só uma fase que ele está atravessando. Vai superá-la disse a moça.
Tenho minhas dúvidas, Elizabeth. Ty é um cavaleiro natural. Isso é algo
que não vai superar raciocinou.
Não me importa. Ele não vai para Montana... nem agora, nem nunca.
Aborreceu-se por ver que Phillip estava tomando o partido de Ty.
E o que vai acontecer quando for mais velho? Quando você não puder mais
dizer-lhe o que pode e o que não pode fazer? Examinou a fisionomia
fechada dela e soltou um suspiro. Elizabeth, Ty tem o direito de saber
que é adotado. Já falei isso antes. Esse era um dos poucos pontos na
vida deles em que discordava da mulher.
O que isso mudaria? O que conseguiria, exceto confundi-lo? Ty acredita
que você é o seu pai. Você é o seu pai insistiu ela.
E se algum dia ele descobrir?
Não vai. Não vai descobrir nunca.
Com um suspiro pesado, Phillip deixou o assunto morrer. Maggie
simplesmente se recusava a ver os problemas que viviam. Aquilo o
preocupava, mas, como em todas as coisas, cedeu aos desejos dela, e
ficou calado.
249
PARTE VI
Um céu de união,
Um céu completo,
Este céu que contempla
O encontro de dois Calders.
Capítulo XXV
Ela acariciou com as pontas dos dedos a foto do homem, esbelto e
grisalho enquanto seus olhos se nublavam de lágrimas.
Meu querido Phillip - sussurrou Maggie - tivemos dez anos maravilhosos
de casados. Sempre os guardarei na lembrança.
Ainda era tão difícil acreditar que ele tinha morrido, roubado dela tão
rapidamente, sem aviso, vítima de um enfarte violento, há dois meses.
Correu os olhos pelo quarto que haviam compartilhado, cheio de caixotes
com roupas a serem dadas para uma instituição de caridade local. Adiara
essa tarefa por muito tempo, sabendo como o quarto ficaria vazio sem as
coisas dele. Seu olhar pousou na Bíblia de família sobre a mesinha-de-
cabeceira. Estivera enfiada numa prateleira do armário. Tudo agora
parecia tão definitivo, depois que registrara nela a data da morte de
Phillip.
Um carro subiu roncando a estrada particular, o motor aberto
estilhaçando a quietude da noite. No cercado, um cavalo relinchou,
alarmado. Maggie olhou para o mostrador luminoso do relógio da mesinha.
Ty devia estar em casa há mais de uma hora. A combinação do seu 15º
aniversário com a morte do pai convencera-o de que, como o homem da
casa, podia descumprir as regras. Para piorar as coisas, Jeff acabara
de fazer 16 anos e tirara carteira de motorista, portanto sempre havia
transporte disponível para Ty.
Pegando o robe de cetim que jazia ao pé da cama, Maggie vestiu-o
enquanto saía do quarto principal, onde agora dormia sozinha. Já tinha
descido metade da escadaria branca, quando ouviu a porta bater e o
carro acelerando o motor enquanto dava marcha à ré para sair. Uma luz
já estava acesa na sala de visitas. O motivo
253
para ela tornou-se aparente quando Pamela entrou com a sua cadeira de
rodas no saguão.
Alo, Ty. Divertiu-se, hoje?
A pergunta irritou Maggie. Pamela virtualmente encorajava Ty, com sua
atitude, de que qualquer coisa que ele fizesse estava perfeitamente
certa. Aquilo estava minando a autoridade que Maggie exercia sobre o
filho.
Devia ter vindo com a gente, Pamela! Foi um espetáculo! Aos 15 anos, a
voz dele estava mudando, indo de uma oitava baixa até um guincho alto.
Já esteve num rodeio? Cara, é um barato!
Ty, está sabendo que horas são? Maggie desceu o resto das escadas, mais
perturbada do que poderia estar, graças a Pamela.
Desculpe, mamãe. Não estava tendo muito êxito em parecer contrito. Com
1,80m, estava começando a tomar corpo nos ombros e no peito. Sua altura
e feições de ossos largos faziam com que parecesse mais velho. Tinha no
rosto uma penugem forte o bastante para precisar barbear-se, o que
ainda fazia com que se sentisse mais homem. Respeitara naturalmente a
autoridade de Phillip porque este era um homem, mas encarava as ordens
de Maggie com uma espécie de indulgência, como se tivesse de agradá-la
porque era mulher. Mas a última parte era, manter os touros. Jeff e eu
não queríamos perdê-la.
Será que devo ignorar o fato de que está mais de uma hora atrasado para
chegar em casa?
Ora, Elizabeth Pamela repreendeu-lhe a severidade. Não é como se o Ty
tivesse ido a uma bacanal e tivesse vindo para casa bêbado. Foi tudo
muito inocente.
Se não se importa, Pamela, eu cuido disso retrucou, cheia das
constantes interferências da mulher. Era difícil acreditar que alguma
vez a considerara um modelo do que desejava ser. Tinha sido apenas
superficial. Frequentemente sentia pena de Pamela por causa do vazio de
sua vida, mas ela era vazia porque Pamela era essencialmente vazia. Era
algo que Maggie levara tempo a descobrir. Foi só depois que Maggie
entrara para a equipe executiva de uma organização internacional de
caridade, onde sua facilidade com idiomas era útil, e tentara
interessar Pamela em algum trabalho voluntário, que se dera conta de
que a irmã de Phillip era uma pessoa muito superficial, incapaz de se
ajudar ou ajudar a mais alguém. Era mais do que seu corpo que era
aleijado.
Você é severa demais com ele, Elizabeth criticou Pamela. Controlando-se
com esforço, Maggie virou-se calmamente para
o filho.
254
Ty, quer fazer o favor de subir e esperar por mim no meu quarto?
Aguardou calada enquanto o rapaz subia as escadas e ela ouviu a porta
do quarto principal se fechar. Depois, virou-se para a cunhada. Não me
interrompa novamente quando eu estiver repreendendo meu filho, Pamela.
Não tolerarei mais isso.
O que foi que eu fiz? exclamou, com ar adequadamente atónito.
Você encoraja Ty a não ligar para o que eu digo. Não tolerarei mais
interferências suas em assuntos que são estritamente entre meu filho e
eu.
Não admito que me diga como devo conduzir-me na minha própria casa!
explodiu Pamela. Para o caso de ter-se esquecido, esta é a minha casa!
Você não passa de uma hóspede.
Sim, esta é a sua casa. Phillip deixou-a para você, e folgo com isso.
Mas, para o caso de ter-se esquecido, Ty é meu filho. Se eu me for, ele
vai comigo. Ficou pensando na ideia por um momento. Talvez seja mesmo o
melhor, porque está evidente que eu e você não vamos conseguir nos
entender.
Não pode estar falando sério! A possibilidade assustava Pamela.
Se você e eu não pudermos chegar a um acordo sobre Ty, não vejo
alternativa.
Maggie girou sobre si mesma, com um rodopio do robe de cetim, e subiu
as escadas até o segundo andar. Não tinha vontade de deixar esta casa,
onde ela e Phillip tinham sido tão felizes. Estava cheia de tantas
lembranças felizes. Talvez a ameaça de partir fosse o suficiente.
Quando entrou no seu quarto, olhou automaticamente ao redor para
localizar o filho. Estava sentado no lado da grande cama, de costas
para ela, os ombros largos ligeiramente curvados. Tinha um jeito
atordoado, confuso que fez Maggie franzir o cenho.
Quem é Chase Calder? perguntou ele, com voz rouca. O choque tirou a
ruga da testa de Maggie e a cor das faces.
Onde ouviu esse nome? acusou ela, num sussurro.
Eu o li. Aqui. Endireitou-se da cama e virou-se para mostrar-lhe o
livro na mão.
Maggie reconheceu a Bíblia da família Malloy.
Não. Era pouco mais do que um arquejo.
Aqui diz que ele é meu pai. Isso é verdade? Estava torturado pela
confusão. Quem foi o papai? Você sempre me disse que ele era o meu pai,
que vocês dois apenas esperaram até você ficar mais velha para casar.
Phillip... foi seu pai de todo o jeito que importa.
255
Mas quem é Chase Calder? insistiu Ty, a voz fraquejando. E por que aqui
diz que ele é meu pai?
Porque... Maggie se deu conta de que era inútil tentar continuar a
mentira; lamentou profundamente o impulso que havia feito com que
escrevesse o nome de Chase na Bíblia... ele é o seu pai biológico. Mas
Phillip foi quem criou você, quem o amou como só um pai pode amar o seu
filho.
O que você está dizendo é que ele me adotou e que Chase Calder é o meu
pai de verdade.
Chase foi o seu pai natural, mas Phillip foi o seu pai de verdade
argumentou ela. Fez todas as coisas com você que um pai de verdade faz.
O garoto fitou a Bíblia, aberta nas mãos.
Lembro de quando estávamos estudando genética na aula de biologia e eu
lhe perguntei por que eu tinha olhos castanhos quando os seus eram
verdes e os do papai cinzas, você falou que eu tinha puxado a meu avô.
Mas foi a meu pai, não é?
É.
Ele se virou, fechando abruptamente as páginas.
Não posso acreditar!
Ty, não faz nenhuma diferença.
Maggie atravessou o quarto, tentando confortá-lo e aliviar-lhe a
confusão e dor, mas ele virou-se contra ela quando se aproximou, o
olhar duro penetrando-a de um modo que lhe lembrava vivamente o de
Chase.
Quero saber a respeito dele.
Não. Ela recuou.
Ele é meu pai! insistiu.
Ele era apenas alguém que morava na fazenda vizinha à nossa. Como
minimizava a verdade! Ele não nos queria, Ty. Phillip quis.
Eu nasci na Califórnia. Ele nem sequer me conhece. Como sabe que não me
quer?
Ty, pare com isso. Pare de imaginar coisas. Pare de criar um mundo de
ideias românticas na cabeça argumentou Maggie, com medo.
Mas eu tenho um pai por aí que nem sequer conheço. Ele está vivo, não
está? Embora fosse em forma de pergunta, era uma afirmação convicta.
Maggie hesitou uma fração de segundo, depois mentiu:
Não sei.
Está afirmou Ty. É por isso que você nunca quis ir visitar o seu
irmão... porque não quer vê-lo de novo.
Não é verdade. Mas era.
256
O garoto passou a mão pelo rosto, como se o gesto fosse apagar a
confusão e permitir que entendesse o que estava ocorrendo.
Por que não me falou dele antes? Por que deixou que eu
viesse a descobrir desse jeito?
Ty, sinto muito. Sentia que ele tivesse descoberto, isso
sim! - Sei que é difícil para você, mas de que adiantaria se eu lhe
tivesse contado a respeito dele?
Você não entende! Ele é meu pai gemeu, e passou por
ela, mas não antes que ela tivesse visto o brilho das lágrimas nos seus
olhos. Passadas longas levaram-no para fora do quarto antes que fizesse
algo pouco másculo, como chorar diante dela. Sentiu a dor dele, mas
duvidava que ele conhecesse a dela. Ele estava naquela idade difícil em
que estava convencido de que ninguém podia compreender.
Durante os dias que se seguiram, ele ficou silencioso e sorumbático,
isolando-se no seu quarto ou saindo sozinho sem dizer aonde ia ou
quando voltaria. Maggie deu-se conta de que estava sendo castigada, no
entanto agarrava-se à esperança de que mais cedo ou mais tarde ele a
escutaria e esqueceria do homem que o tinha gerado.
O barulho do despertador acordou-a e ela rolou para o lado a fim de
desligá-lo. Roçou a mão num pedaço de papel, derrubando-o ao chão.
Estendeu a mão pelo lado da cama, para apanhá-lo. A letra familiar que
ocupava o papel afugentou o sono dos seus olhos enquanto ela se sentava
na cama para ler o bilhete.
Querida mamãe,
Desculpe não ter-me despedido pessoalmente, mas sabia que iria tentar
impedir-me. Não se preocupe comigo. Sei cuidar de mim. Por favor tente
compreender. Precisava fazer isso.
Eu a amo, Ty
Jogou longe as cobertas e correu para o quarto dele, descendo o
corredor, mas não estava lá. O aparelho de barbear, escova de dentes e
pente tinham sumido do banheiro. Revistou o armário e as gavetas dele,
tentando determinar quais as roupas que levara, mas estava nervosa
demais para lembrar-se exatamente de quais ele possuía. O filho tinha
fugido. Começou a imaginar todo o tipo de coisas terríveis, desde Ty
sendo atingido por um carro enquanto pedia carona na estrada até um
motorista tarado assassinando-o.
257
Quando ligou para a polícia, explicaram que ele tinha que estar
desaparecido há um mínimo de 24 horas antes de poderem registrar o
caso. Embora Maggie pudesse apenas adivinhar que ele se fora durante a
noite, vestiu-se, ligou para o escritório avisando que ia faltar e saiu
ela mesma à procura, correndo de carro cada rua, rodovia e auto-estrada
em busca do garoto.
258
Capítulo XXVI
Chase envolveu com ambas as mãos a caneca quente de café, para aquecê-
las. Era um dia frio de primavera que transformava sua respiração em
vapor branco. A gola da jaqueta de pêlo de carneiro estava levantada
para protegê-lo do frio, e o Stetson achava-se enterrado na cabeça para
mantê-la aquecida. Ficou vendo o rebanho de cavalos subir a colina, um
mar de castanhos, baios, amarelados e alazões, os pêlos felpudos de
inverno escondendo as linhas macias e musculosas dos seus corpos. O
solo vibrava com o trovão dos seus cascos galopantes, e Chase sentiu
surgir aquela velha excitação.
Era sempre assim quando os cavalos eram reunidos e trazidos do pasto de
inverno. Sua chegada assinalava o começo de outra estação; o
recolhimento do gado da primavera não estava longe. Uma temporada
turbulenta esperava os vaqueiros que escolhiam suas montarias e jogavam
selas no lombo de cavalos que tinham vivido à solta durante o longo
inverno. Ali havia alguns que corcoveariam feito animal de rodeio, mas
seus cavaleiros não teriam muito tempo para a tarefa. Não, teriam que
montar os animais até que eles se cansassem de dar corcovas e
amansassem totalmente. Ia haver emoção de sobra por aqui durante alguns
dias até que as equipes fossem escolhidas e enviadas para o
recolhimento da primavera.
O oceano de cavalos cruzou as porteiras abertas de um grande cercado.
Apesar de todos os bufidos e pinotes, eles sabiam que os prédios da
fazenda significavam feno e cereais, portanto não precisaram de muita
insistência para entrar no cercado. Quando a porteira se fechou atrás
do último cavalo, um cavaleiro se separou dos demais e trotou com o seu
cavalo para junto de Chase.
Parecem gordos e bem-dispostos. Buck abriu um sorriso e saltou da sela.
Farejou o café, apreciativamente. Puxa, mas que cheiro bom.
259
Chase tomou um gole do líquido escaldante e depois passou a caneca para
Buck. Não havia mais traços da palidez do presídio, e o sorriso estava
de volta, mas ele sofrera mudanças... para melhor, na opinião de Chase.
Buck era competente, trabalhador, confiável, jamais se esquivava de
tarefas ou responsabilidades, Buck se transformara num dos principais
capatazes da Triplo C. Ele e Chase agora eram a combinação de trabalho
que Chase sempre imaginara que seriam. Era uma boa sensação ter o amigo
de volta.
Enfiando as mãos nos bolsos forrados da jaqueta onde estavam as luvas,
Chase caminhou até a cerca para dar uma olhada mais de perto nos
cavalos. Buck o acompanhava, puxando seu cavalo. Concordou com a
avaliação anterior de Buck.
Passaram bem o inverno.
Hã-hã. Buck fez um som afirmativo enquanto tomava um bocado do café
quente e dobrava o cotovelo no pau superior da cerca. Quando estive na
cidade, no outro dia, andei conversando com Lew.
Conversando ou fofocando? zombou Chase.
Com ele, é tudo uma coisa só. Abriu um sorriso. De qualquer maneira,
ele estava-me contando que o velho Anderson não tinha testamento,
quando morreu naquele acidente na fazenda, no outono passado. Parece
que tinha sido casado antes e tinha dois filhos da primeira mulher.
Eles contrataram uns advogados e reclamaram uma parte da herança.
Parece que a viúva do Anderson vai ter que vender a fazenda para que os
dois primeiros filhos possam ganhar a parte que lhes cabe.
Não sabia disso. É dureza comentou Chase, correndo um olhar avaliador
pelos cavalos que se dispersavam para pastar.
Isso me fez pensar no que aconteceria à Triplo C, se alguma coisa lhe
acontecesse. Você tem um testamento, não tem? indagou Buck, franzindo o
cenho.
A pergunta fez Chase fazer uma pausa, encurvando os ombros ligeiramente.
Não. Nunca me dei ao trabalho de fazê-lo.
Tem algum parente? Primos ou coisa parecida.
Não que eu saiba. Por quê?
Buck mexeu a cabeça, num gesto de banda.
Detesto a ideia de ver esta fazenda dividida e vendida e todo o
dinheiro indo para os cofres do Estado. Não seria direito. Nate eu, meu
pessoal, todo o resto de nós... ficaríamos a ver navios. Se você não
tem ninguém para quem deixá-la, quem sabe podia pensar em deixar as
ações da companhia para todos nós para podermos manter a Triplo C
operando intacta sugeriu.
260
Não é uma má ideia. Parecia a um só tempo lógica e justa.
Fale com um advogado. Ele provavelmente terá algumas ideias. Buck
ofereceu-se para devolver a caneca para Chase, cheia até a metade de
café. Quer o resto? A mudança de assunto indicava que tinha dito o que
o preocupava; o resto dependia de Chase.
Não. Termine você. Apertou os olhos, fitando o rebanho de cavalos, mas
seu pensamento estava perdido em outro assunto.
Imagino que eu devia estar pensando em casar e formar uma família.
Mostre-me alguém que sirva para a gente casar nas vizinhanças, e depois
saia do meu caminho avisou Buck, com um meneio irónico da cabeça. Não
sou mais moço, e quero um bando de filhotinhos antes de morrer. O
problema é encontrar uma mulher que não esteja querendo morar na
cidade. Tomou um gole do café e lançou um olhar a Chase por sobre a
beira da caneca.
E quanto a Sally Brogan?
Chase baixou os olhos para o chão e ficou pensando na viúva ruiva com
quem vinha-se encontrando regularmente há algum tempo. Pouco depois que
Buck voltara, ela e o marido, um antigo vaqueiro de rodeio, tinham
aparecido na fazenda guiando uma velha pick-up com reboque. Embora na
época estivesse com falta de homens, Chase sentira-se relutante em
contratá-lo porque parecia o tipo de homem mais interessado em bebida e
farras do que em trabalho, mas não fora capaz de ignorar o olhar
cúmplice da ruiva. Contrariando o que lhe dizia o bom senso, contratara
o marido dela. Um mês e meio mais tarde o marido tivera morte
instantânea, quando enfiara o carro num pilar de ponte às duas da manhã.
Mais ou menos na mesma época, Jake fechara as portas do seu saloon. Um
outro bar abrira na cidade. Como não havia freguesia para os dois, Jake
resolvera que estava na hora de ir mais para o sul. Sally comprara o
estabelecimento dele com o dinheiro do seguro de vida do marido. Chase
achara que ela estava maluca, mas ela calmamente lhe explicara que
estava cansada de mudanças. Queria acordar de manhã, olhar pela janela
e ver a mesma coisa todos os dias, pelo resto da vida. Depois de muito
esfregar, limpar e reformar, ela transformara o saloon num restaurante
e morava nos quartos do andar de cima.
No começo, Chase aparecia por lá para ver se ela estava-se saindo
direitinho sozinha. Depois, seu motivo ficou sendo que ela era uma
excelente cozinheira. Finalmente, certa noite, ela pediu-lhe que
ficasse enquanto terminava de fechar e verificar os recibos. Quando deu
conta de si, estava beijando-a e levando-a escadas acima...
261
apenas para vê-la descer correndo e trancar a porta da frente. Sorriu à
lembrança.
Há quantos anos você se encontra com ela regularmente... uns três anos?
Buck arqueou uma sobrancelha indagadora e tomou novo gole de café.
Sabe como é, Buck. Havia um vestígio de auto-escárneo no modo como
Chase retorcia a boca. Um homem não quer entrar de ponta-cabeça nessas
coisas.
Buck deu uma risada e sacudiu a cabeça.
Sally é uma mulher simpática e meiga. Deve ter uns trinta e cinco anos.
Não tem mais muitos anos férteis. Por que não se casou com ela?
O próprio Chase não sabia a resposta para isso. Eles se davam bem
juntos. Tinham um relacionamento gostoso e tranquilo. Ela daria uma boa
mulher e mãe. Franziu a testa quando se deu conta de que sempre fugira
do assunto casamento, em se tratando de Sally. Jamais se considerara um
solteirão convicto. Queria um filho e herdeiro.
Deu de ombros e levou a pergunta na brincadeira.
Quem sabe eu esteja esperando que os sinos toquem?
Escute, cara, se eles não tocaram em três anos, não vão tocar declarou
Buck. Depois de tomar a última gota do café, entregou a caneca vazia
para Chase e pegou as rédeas do seu cavalo para montar. Tenho que
voltar para o trabalho. Passando as rédeas pela cabeça do cavalo,
enfiou a ponta do pé no estribo e continuou o movimento, subindo na
sela. Até mais. Fez um aceno com a cabeça e partiu.
Chase se deu conta de que tinha ficado com diversos assuntos nos quais
pensar, mas todos tinham um tema central... o futuro da Fazenda Triplo
C.
Antes do término da semana, Chase fez um testamento preliminar com a
assistência de sua firma de advogados. Naturalmente, era difícil,
porque a estrutura da Calder Cattle Company era complicada para obter o
tratamento fiscal mais favorável. Essencialmente, continha provisões
para que, se ele morresse sem um herdeiro ou cônjuge vivo, as ações
seriam distribuídas por aquele grupo leal de filhos e filhas nativos da
Triplo C. Eram necessárias algumas revisões de pouca monta, mas depois
de uma longa tarde de reunião com os advogados, Chase ficou satisfeito
ao verificar que estavam no caminho certo.
Como Ruth não o estava esperando para jantar naquela noite, ele parou
para comer no restaurante de Sally e passar o resto da
262
noite com ela. Por causa do compromisso de negócios na cidade, Chase
abandonara suas vestes de fazenda de brim. e cambraia de lã, e usava
calças marrom social, mas no estilo do Oeste, camisa creme e paletó de
camurça. Enquanto saltava do carro, colocou seu Stetson social de
camurça natural com a fita de chapéu prendendo uma pena marrom, e
depois andou até a escada de entrada do saloon transformado em
restaurante. O prédio de madeira tinha sido todo pintado de branco,
orlado de azul, um pequeno indício das mudanças havidas lá dentro.
Enquanto subia os degraus, em algum lugar por perto ouviu o som
rascante de uma corda sendo puxada por sobre a madeira. O seu andar
cadenciado perdeu o ritmo ao ouvir o som que lhe causou um arrepio nas
costas, um som que jamais conseguira esquecer. Lançou um olhar ao
balanço de madeira, suspenso do telhado da varanda por cordas de nylon,
e entrou no prédio.
Todas as paredes de lambri achavam-se pintadas de branco e o chão era
de ladrilhos brancos e brilhantes. As mesas e cadeiras eram pintadas de
branco com uma variedade de toalhas de mesa coloridas de tecido
riscadinho cobrindo-as. Cortinas de babados enfeitavam as janelas, as
vidraças agora sem aquele véu espesso de nicotina. Onde antes ficava o
bar, agora havia um balcão com banquinhos e caixas de tortas e
geladeiras encostadas à parede.
A hora atarefada do jantar estava começando a passar. Uma meia dúzia de
mesas e três banquinhos no balcão estavam ocupados. Sally estava
servindo mais café numa das mesas quando Chase entrou. Lançou-lhe um
dos seus sorrisos tranquilos que era mais uma expressão com os olhos e
um leve erguer dos cantos da boca. Seu cabelo era da cor de um penny de
cobre brilhante, enroscando-se em ondas soltas abaixo das orelhas. A
despeito de toda a cabeleira vermelha, era calma e tranquila, com
serenos olhos azuis.
Chase tomou assento numa mesa que dava as costas para o balcão, mas que
lhe permitia ver a porta da frente e a porta de vaivém que dava para a
cozinha, nos fundos. DeeDee Rains, uma índia blackfoot, ajudava Sally
com a comida e a lavagem de louça, para que ela ficasse livre para
atender às mesas, à registradora, tirar as mesas e também cozinhar.
Chase alegava que ela trabalhava demais, porém Sally insistia em que
gostava de ser independente... e o trabalho era bom para a alma.
O que vai comer hoje, Chase? Ela veio até a mesa e encheu o copo cor de
âmbar com água gelada.
Olhando para ela, deu-se conta de que era muito franca e direta e que
ele nunca lhe respondia de modo sugestivo. Ficou-se perguntando por quê.
Filé com fritas pediu. Depois, café.
263
O sibilar dos freios a ar coincidiu com a mudança de marcha, quando o
caminhão parou no acostamento da auto-estrada. A camiseta branca do
motorista estava cheia de manchas marrons de café derramado. Virou o
rosto por barbear para o passageiro e nem se deu ao trabalho de tirar o
cigarro que pendia dos seus lábios.
Chegamos, garoto anunciou.
Ty fitou a coleção esparsa de prédios. O céu estava ficando escuro, ao
crepúsculo, lançando sombras sobre a cidade, dando a impressão de que
alguém a colocara ali, depois a esquecera. Ficava a quilómetros de
qualquer lugar, no entanto tudo parecia ficar a quilómetros de qualquer
lugar. Nunca vira tanto vazio na vida. Continuou a fitar, achando
difícil acreditar que aqueles poucos prédios formassem uma cidade.
Você falou que queria saltar em Blue Moon, não foi garoto? perguntou o
motorista, franzindo a testa, impaciente.
Foi. Ty notou o cartaz pintado no prédio que tinha as bombas de
gasolina na frente, identificando o lugar como Blue Moon, e dando o
código postal. Era mesmo aqui. Agarrou a mochila que estava no assento
a seu lado e abriu a porta, agradecendo ao motorista enquanto saltava
da boleia. Obrigado.
O acelerador do motor a diesel encheu de fumaça azul a noite que
escurecia. Ty teve que fechar os olhos para protegê-los da poeira
levantada pelas 18 rodas enquanto elas rolavam o imenso caminhão para a
estrada novamente. Quando a poeira se acomodou, ele piscou os olhos,
limpou as partículas com a mão e olhou de novo à sua volta.
Havia pick-ups estacionadas diante do prédio ao lado. As luzes lá
dentro estavam acesas e havia um cartaz no telhado da varanda que dizia
RESTAURANTE DA SALLY. Limpou a poeira dos jeans novos e meteu a mão no
bolso para verificar quanto dinheiro lhe sobrara. Não sonhara que ia
levar quase uma semana para chegar lá, pegando carona. Na Califórnia
fora fácil, mas depois ele pegara aqueles trechos vazios em Nevada e
Utah. Então, caminhara quase tanto quanto andara de carona. No começo
não prestara atenção ao quanto estava gastando, comendo três grandes
refeições por dia e fazendo boquinhas nos intervalos, até que agora
estava praticamente duro.
Um sentimento de insegurança tomou conta dele. E se sua mãe tivesse
razão? E se tivesse vindo até aqui e o pai não quisesse vê-lo? Sacudiu
a cabeça, afastando o pensamento. Depois de vir até aqui, não podia
desistir. Tinha dinheiro bastante para comer um hambúrguer. Se ninguém
soubesse onde morava Chase Calder, ele podia encontrar o tio. Copiara o
endereço dele do caderninho da mãe.
264
Se todo o resto falhasse, podia ligar para a mãe a cobrar e pedir-lhe
que lhe enviasse algum dinheiro para poder voltar para casa.
Inspirando fundo, jogou a mochila sobre um dos ombros, colocou-a em
posição, depois começou a andar na direção do restaurante. Dois
vaqueiros vinham saindo, portanto ele se afastou para um lado até que
tivessem passado pela porta, depois entrou. Seu estômago roncou ao
sentir o cheiro da comida. Havia um cartaz perto da escadaria que dizia
BANHEIROS e foi para lá que Ty se dirigiu.
Chase tinha pendurado o chapéu nas costas torneadas de uma cadeira e
estava fumando uma cigarrilha enquanto esperava por seu pedido. Reparou
quando o jovem entrou - o cabelo castanho espesso chegando quase até a
gola, a jaqueta amarela, a mochila, os ténis de corrida, os blue jeans
duros e novos que faziam barulho quando ele andava. Mentalmente,
classificou-o como um desses hippies ou fosse lá qual fosse a última
terminologia para eles.
Lew, da loja de fazendas do outro lado da rua, saiu do balcão e trouxe
sua xícara de café para vir fazer companhia a Chase. A mulher estava
visitando a filha deles, e Lew estava bancando o solteiro por alguns
dias. Quando o garoto saiu do banheiro e se sentou a uma mesa perto de
Chase, este mal deu atenção.
Com a mochila enfiada sob a mesa, Ty aboletou-se na cadeira. Uma mulher
ruiva de vestido azul e avental branco parou para encher seu copo com
água. Tinha um rosto agradável que lhe fazia lembrar uma das suas
professoras do primário.
Quer um menu?
Sim, por favor. Desta feita, a voz dele não mudou.
O menu que ela trouxe era um desses de vinil preto com a palavra MENU
na frente e bolsos de plástico transparentes para que os restaurantes
pudessem colocar seu cardápio datilografado. O jovem começou a correr
os olhos pela lista, quando se deu conta de que esta era sua chance de
perguntar se ela conhecia Chase Calder. Por que esperar?
Moça? Chamou-a de volta para a mesa e olhou rapidamente para o preço de
um hambúrguer para ver se podia pagá-lo. Quero um hambúrguer com tudo a
que tiver direito e um copo de leite. Esperou até que ela tivesse
tomado nota, depois lambeu nervosamente os lábios. Moça, por acaso
conhece um homem chamado Chase Calder?
Notou o lampejo de surpresa nos olhos dela; depois, os cantos de sua
boca se ergueram num débil sorriso.
265
Conheço.
A primeira pessoa a quem perguntava! Nem podia acreditar na sua sorte.
Sabe onde posso encontrá-lo?
Ela o examinou atentamente por um segundo, depois replicou:
Está sentado na mesa ao lado... é o que está de paletó de camurça. Fez
um gesto de cabeça para indicar qual a mesa.
Ty olhou por cima do ombro, um arrepio de apreensão correndo-lhe pela
espinha. Ficou repentina e inesperadamente nervoso e assustado. Podia
sentir as palmas das mãos começarem a suar.
Obrigado acrescentou rapidamente para a garçonete, e ficou fitando o
homem muito tempo depois de ela ter ido embora.
Aquele era o pai dele, o homem que viera procurar, aquele com as
feições másculas e marcadas, que o sol bronzeara deixando-as da cor do
couro. Tinha ombros largos e olhos e cabelos castanhos. Ty tentara
visualizá-lo antes, mas lá estava ele em carne e osso!
A garçonete trouxe um prato com um enorme filé e uma porção de batatas
fritas para a mesa onde o pai estava sentado.
Um filé torrado e fritas anunciou, colocando-os diante dele
Está com boa cara. Sally.
Ty escutou o timbre sonoro da voz de Chase e viu o sorriso que lançou à
ruiva. Ficara mudado. Não parecia tão duro e distante; poderia ser
divertido. Depois a garçonete ergueu os olhos, mirando-o com
curiosidade antes de voltar para a cozinha.
O que estava esperando?, perguntou-se Ty. Viajara tanto apenas para
olhar para ele? Por que não ia lá conhecê-lo?
Seus joelhos estavam trémulos quando afastou a cadeira da mesa e o
coração estava disparado quando se pôs de pé, porém conseguiu dar os
poucos passos que o separavam da mesa. O pai estava cortando o bife e
não o notou parado ali. Ty pigarreou nervosamente, e ele ergueu os
olhos.
Com licença. Subitamente, Ty não conseguia lembrar-se do que queria
dizer. Ensaiara tudo tão cuidadosamente, e agora não conseguia lembrar
das palavras. Viu o pai descansar a faca e o garfo no prato e fitá-lo
com frios olhos castanhos.
Queria alguma coisa? perguntou.
Sou Ty Gordon. O nome não iria significar nada para ele, mas quem sabe
notaria uma semelhança. Ty podia vê-lo. Oh, não era assim tão evidente,
mas... o colorido era o mesmo, e ambos eram altos.
Sim? A expressão de Chase não se alterou.
Queria falar com o senhor gaguejou Ty, porque não sabia como devia
chamá-lo.
266
- Sobre o quê?
O rapaz lançou um olhar nervoso ao homem mais velho sentado à mesa com
o pai, e aos outros fregueses no restaurante. É um negócio pessoal,
senhor.
Nesse caso correu um olhar preguiçoso e avaliador pelo
rapaz por que não deixamos para discutir isso mais tarde? Não
gostaria de estragar o meu apetite por este filé com conversas de
negócios. Creio que você também tem comida à sua espera falou, fazendo
um gesto com a ponta da faca.
Ty olhou para trás e viu a garçonete botando o hambúrguer e o leite na
mesa.
Conversaremos depois de termos comido confirmou o rapaz, e Chase acenou
com a cabeça.
Apertou os olhos, pensativo, enquanto via o rapaz alto voltar para sua
mesa. Bem-educado, roupas boas, relativamente sereno, embora estivesse
nervoso quanto à alguma coisa. Chase recomeçou a cortar seu bife.
Que negócio "pessoal" você acha que seja? perguntou Lew, em voz baixa.
Chase deixou seu olhar se desviar do filé para o garoto.
Provavelmente está querendo emprego. Veio de carona até aqui para
aprender a ser cowboy. Parecia evidente. Há sempre um garoto novinho
nos pedindo emprego. Geralmente, nunca viu um cavalo na vida.
Enfiando um pedaço de filé na boca, começou a mastigar a carne saborosa
e bem passada. Um fazendeiro simplesmente não tinha tempo para treinar
cada novato ansioso que dava as caras por lá. Levava tempo, energia e
paciência demais.
267
Capítulo XXVII
Chase terminou sua refeição, fumou outra cigarrilha com o café e mirou
distraidamente o garoto. Ele estava sentado de ombros encurvados, um
pouco deprimido, e recusou a sobremesa. Chase viu enquanto ele contava
cuidadosamente o dinheiro para pagar a refeição, e notou que apenas uns
trocadinhos voltaram a seu bolso. Já identificara o garoto como
fugitivo de casa, moço demais para estar por aí por sua conta, e agora
obviamente sem dinheiro. Gostava da paciência do garoto; não tentou
recomeçar a "discussão" deles até Chase indicar que estava pronto. A
melhor coisa que podia fazer pelo guri era mandá-lo de volta para casa.
Terá que me dar licença, Lew. Chase empurrou a cadeira para trás e se
pôs de pé. Tenho que cuidar de uns negócios. Pegou o chapéu e colocou-o
na cabeça. Passou pela mesa do garoto enquanto se dirigia para a
registradora. Às suas costas escutou o raspar apressado da perna de uma
cadeira no chão. Um instante mais tarde o rapaz estava a seu lado,
quase tão alto quanto ele. Quando Sally lhe deu seu troco, ele
perguntou: Sally, será que podemos usar o seu escritório para uma
conversa particular?
Claro. Não está trancado. Seu olhar correu curiosamente de um para o
outro, mas não fez perguntas.
O escritório dela era o antigo salão de pôquer. Chase conduziu o garoto
pela porta marcada PARTICULAR e foi até a escrivaninha bem-arrumada,
apoiando o quadril nela e enganchando um joelho no canto. O garoto
olhava-o com tanta intensidade que Chase ficou-se perguntando se estava
com migalhas no rosto.
Que assunto pessoal é esse?
Ty engoliu com força, todo o nervosismo que voltava. Não havia nenhum
jeito fácil de falar, portanto simplesmente botou para fora:
268
Sou seu filho. Esperou que a expressão mudasse para surpresa, confusão,
ou negativa irada, mas ela nada mostrou.
Acho que cometeu um erro disse Chase, calmamente. Não tenho filho.
Você não sabia que tinha um filho corrigiu Ty. Minha
mãe nunca lhe contou a meu respeito.
Como se chama sua mãe?
Elizabeth.
Não conheço nenhuma mulher com esse nome. Meteu a mão no bolso e tirou
de lá um charuto fino, acendendo-o. Se é uma espécie de piada, não
estou achando graça. Ou é uma nova maneira de arrancar dinheiro de
estranhos, chegando até eles e dizendo que é seu filho?
Não. Ty sentiu-se enrubescer. É a verdade. Sou seu filho. Minha mãe me
contou.
Então ela me confundiu com outra pessoa.
Não. Ela me contou que meu pai verdadeiro era Chase Calder. Eu também
não sabia, até algumas semanas atrás. Não sabia que papai... Phillip...
tinha-me adotado. Pensei que ele era o meu pai de verdade, até ver o
seu nome inscrito na Bíblia da família.
A voz urgente insistia para que Chase acreditasse nele.
Ela cometeu um erro. Não conheço nenhuma mulher chamada Elizabeth
repetiu.
O nome todo dela é Mary Frances Elizabeth.
Ty esperou por um sinal de que aquele nome significasse alguma coisa.
Chase sacudiu a cabeça.
Não a conheço.
Mas eu viajei até aqui para encontrá-lo! Ele estava doendo por dentro,
zangado e magoado por estar sendo negado.
Vim lá da Califórnia! Você é meu pai!
Lamento você ter perdido seu tempo. Não sou seu pai. Chase viu as
lágrimas de frustração começando a aparecer nos
olhos do rapaz. Ia ser embaraçoso para ambos, se ele começasse a
chorar. Fingiu não notar enquanto se endireitava da mesa e apagava o
charuto no cinzeiro.
Minha mãe não me mentiria sobre isso! Não mentiria!
Não estou dizendo que sua mãe mentiu. Quem sabe algum homem contou a
ela que era eu e ela acreditou nele. Lamento, garoto, mas não conheço
sua mãe. Nem sequer ouvi falar nela.
Chase foi até a porta e abriu-a.
Bem, mas ela conhecia você! esbravejou o garoto. Ela morava aqui! Foi
por isso que eu soube como encontrá-lo!
269
Chase parou, segurando a porta com uma das mãos enquanto se virava, e
franzindo o cenho para o rapaz.
Onde ela morava?
Os dentes do garoto estavam cerrados para conter os soluços.
Bem que ela disse que você não ia me querer, mas não acreditei nela.
Por que não diz logo a verdade em vez de fingir que nunca ouviu falar
nela? desafiou, com voz rouca. Imagino que também nunca tenha ouvido
falar na Fazenda Shamrock! Ou no meu Tio Culley O'Rourke!
O choque percorreu o corpo de Chase como a lâmina gelada de uma faca.
Estava atónito demais para reagir, quando o garoto passou por ele para
sair porta afora. Mas era a sacudidela de que estava precisando. Em
duas passadas ele o alcançou, agarrando-o pelo braço e virando-o
bruscamente. Chase estava zangado, porque se aquilo era uma piada, era
uma piada cruel.
Maggie é a sua mãe? Chase exigia uma resposta. Maggie O'Rourke é sua
mãe?
A raiva do garoto se equivalia à dele, a despeito da lágrima que lhe
escorria pela face.
Já lhe disse! O nome dela é Mary Frances Elizabeth O'Rourke Gordon!
Ninguém a chama de Maggie!
Meu Deus. Era um som sussurrado, como se uma dor lhe contorcesse o
cenho. Quantos anos você tem? Ty... não é?
Sim. Ty fitou-o, desconfiado. Tenho quinze anos. Um olhar sombrio e
distante apareceu nos olhos de Chase.
Já faz tanto tempo assim? comentou.
Você conheceu minha mãe. Ty se deu conta de que Chase o estava
admitindo.
Sim, eu conheci Maggie O'Rourke. Chase relaxou o aperto de ferro no
braço do garoto e inspirou fundo. É tarde. É melhor você vir para casa
comigo.
A lua estava no céu, juntamente com imensos amontoados de estrelas, um
dossel de luzes sobre o carro que corria. Durante os primeiros 50
quilómetros, viajaram em silêncio. Chase fitava a estrada, guiando como
se não houvesse mais ninguém no carro, além dele mesmo. O ar da noite
entrava pelas janelas abertas. Chase apoiava o cotovelo esquerdo na
janela e esfregava a boca com a mão, distraidamente.
Sua mãe sabe que você está aqui?
A pergunta surgiu tão repentinamente do silêncio que Ty quase deu um
salto.
Não. Mas acho que provavelmente adivinhou.
Você fugiu?
Fugi.
270
Você mencionou que tinha sido adotado. Suponho que sua mãe agora esteja
casada.
Estava. Meu... Phillip teve um ataque do coração há seis meses e
morreu. Não estava nem um pouco doente. Foi um choque... para todos.
Ainda se sentia doente e vazio por dentro quando pensava no assunto.
O que ele fazia?
Era médico, cirurgião plástico, bom de verdade, não um charlatão.
Estou certo de que era um excelente médico. Onde vocês moram?
Em Malibu. Temos cerca de quarenta hectares. Temos cavalos para
exibição. Ty olhou pela janela. Não havia nada num raio de
quilómetros... nenhuma luz, nenhum sinal de vida. Para onde estamos
indo?
Para a Fazenda Triplo C. Houve uma breve hesitação. Isso quer dizer
Calder Cattle Company. Chase olhou pela janela, para se orientar.
Cruzamos a fronteira leste mais ou menos uns dezesseis quilómetros
atrás.
Quanto ainda falta?
Uns quarenta ou cinquenta quilómetros. Escutou o assobio baixo do
garoto ante a implicação do tamanho da fazenda, algo que obviamente
desconhecia. O que sua mãe lhe contou a meu respeito?
Nada, exceto que morava na fazenda vizinha.
À luz fraca do painel, Chase deixou o olhar correr para o rapaz que era
seu filho. O choque da descoberta se desvanecera, e agora chegara a
aceitação. Ty era um garoto bonitão, obviamente corajoso; caso
contrário não teria vindo até aqui sozinho, defrontar-se com um pai que
jamais tinha visto. Havia um grande potencial nele. Chase sentiu uma
onda forte de orgulho. Tinha um filho. Um garoto sangue do seu sangue,
carne da sua carne. Tinha vontade de gritar este fato. Não pôde deixar
de se perguntar se todos os pais sentiam esse mesmo orgulho atordoado.
Eu não o conheço e você não me conhece. Acho que estamos começando em
bases iguais, filho. O simples fato de dizer a palavra trouxe-lhe um
sorriso à boca.
Ty sentia uma sensação engraçada e sufocante na garganta, e a ardência
das lágrimas subindo-lhe aos olhos. Não entendia o que causara essa
onda de emoção. Lutou contra ela porque não queria que o pai pensasse
que era um bebê-chorão.
Quero aprender a conhecê-lo. A voz dele era rouca mas firme. Foi por
isso que vim até aqui. Gostaria de ficar por algum
271
tempo? A inflexão da última palavra transformava a frase em pergunta.
Talvez fosse constrangedor para o pai tê-lo por perto.
Quero que fique. Foi uma resposta muito definitiva que não deixou
margem para dúvidas sobre se Ty era desejado ou não.
É casado? Tem outros filhos? perguntou Ty.
Se você me tivesse perguntado quando entrei no restaurante hoje à noite
eu teria dito que não tinha filhos. Agora, respeitosamente nego-me a
responder à pergunta. Um divertimento seco e irónico faiscou no breve
olhar que lançou ao filho. Quanto à sua primeira pergunta... não,
jamais me casei.
Ainda sente amor por minha mãe? Parecia uma pergunta lógica para Ty.
Chase inspirou, prendeu a respiração, depois soltou-a.
Não creio que seja justo usar a palavra "amor" para descrever o que
houve entre Maggie e eu. Ambos nos sentíamos solitários. Ambos tínhamos
uma necessidade física... um desejo por alguma coisa que pudéssemos
desfrutar e que, para variar, não exigisse nada de nós. Se algum
sentimento tinha começado a crescer, foi arrancado pela raiz por
circunstâncias que nenhum de nós podia controlar. Olhou para Ty. Duvido
que isso esteja fazendo sentido para você.
É, não está muito, não falou Ty, franzindo o cenho.
Foi o que pensei. Crispou a boca, com dureza. Fale-me da escola pediu,
mudando de assunto, e escutou calado enquanto Ty falava da escola, dos
amigos, da sua vida em geral.
À distância, viram um leve brilho no céu que ficava cada vez mais forte
à medida que se aproximavam... a sede bem iluminada da Triplo C. Quando
os prédios principais apareceram, iluminados pelas luzes do pátio, com
outras luzes menores brilhando nas janelas das casas, Ty ficou olhando,
vagamente confuso.
Aqui é uma cidade?
Quase. Chase deu um leve sorriso e fez uma volta ampla com o carro para
parar diante dos degraus da varanda da Casa Grande. Esta é a sede da
Triplo C falou, desligando o motor e abrindo a porta.
Enquanto Ty tirava a mochila do banco de trás, Chase deu a volta no
carro, dirigindo-se para a escada da varanda. Ty demorou-se um pouco
fitando o grupo de construções esparramadas. Chase esperou por ele no
topo da escada. Quando Ty o percebeu, correu com ar de culpa para se
unir a ele. Logo que o rapaz o alcançou, Chase mudou o olhar para os
prédios que formavam a sede da Triplo C, ciente de que Ty também os
fitava.
Dê uma boa olhada, filho avisou Chase. Tudo isso vai ser seu, um dia.
Quando sentiu a olhadela rápida, virou a
272
cabeça para enfrentar o olhar, o orgulho suavizando-lhe os olhos
castanhos. A boca se retorceu num leve sorriso enquanto segurava com
força o ombro do rapaz. Claro que você tem um bocado que aprender entre
agora e então... mas um bocado, mesmo.
Aplicando pressão ao ombro de Ty, Chase virou-o na direção da porta da
frente e fê-lo entrar na casa. As luzes estavam acesas na sala e no
vestíbulo, mas Chase teria achado o caminho se estivesse escuro como
breu. Nem uma peça de mobiliário tinha sido trocada de lugar desde a
sua infância; alguma coisa tinha sido reestofada, mas eram móveis
antigos e sólidos que durariam séculos, com o cuidado adequado. Notou o
modo como Ty olhava à sua volta, observando tudo. Lembrando-se do
hambúrguer simples que Ty comera, Chase se deu conta de que
provavelmente não satisfizera o apetite de um rapaz em crescimento.
Quando estava com a idade de Ty, a comida nunca era suficiente.
Está com fome? perguntou.
Um pouquinho admitiu Ty, um tanto constrangido.
Vou ver se descubro alguma coisa para se comer na cozinha. Pode ficar à
vontade.
Deixou o garoto livre para explorar a casa por sua conta.
Havia rosbife frio na geladeira. Chase cortou-o em fatias e fez um
grande prato de sanduíches. Sobrara também metade de um bolo de
chocolate em camadas, e ele a colocou na bandeja junto com dois copos e
uma jarra de leite. Quando voltou para a sala de visitas, Ty estava
começando a entrar no escritório. Já ia recuar, mas Chase fez sinal
para que continuasse.
Vamos comer aí. Levou a bandeja para o escritório e colocou-a sobre a
mesinha-de-centro.
Aqueles chifres são de verdade? perguntou Ty, examinando o par colocado
acima da cornija da lareira.
Com uma estranha sensação de déjá vu, Chase contou-lhe a história de
Captain, o novilho malhado, e da longa viagem trazendo o gado que o
primeiro Calder fizera até esta terra. Escutando embevecido, Ty
conseguiu devorar o prato de sanduíches e os três copos de leite,
enquanto Chase tomou apenas um. Quando Chase se levantou para mostrar-
lhe o velho mapa na parede, Ty serviu-se de uma fatia de bolo.
Onde minha mãe morava? Ty mantinha uma das mãos sob o bolo, para aparar
as migalhas.
Chase apontou a localização da Fazenda Shamrock no mapa, em relação à
sede da Triplo C.
Fica aqui.
É bem menor do que a Triplo C, não é?
273
É. Chase estava relutante em discutir os O'Rourkers, e essa impressão
foi transmitida a Ty pela brevidade de sua resposta.
Existe... animosidade entre você e mamãe?
Duvido que ela goste muito de mim admitiu Chase.
E você, como se sente? Ty franziu a testa, ansioso, preso a meio
caminho.
Eu... Chase se afastou para voltar para a poltrona de couro... não
tenho nada contra ela. Distraidamente, esfregou o antebraço esquerdo
onde a manga da camisa cobria a longa cicatriz em diagonal.
Ty pressentia que havia mais.
O que aconteceu para você e mamãe romperem? Lembrou-se de que o pai
dissera anteriormente que fora algo
que fugira ao controle deles. A fisionomia fechada do pai deixava-o
inquieto... assim como o olhar longo e avaliador que estava merecendo.
Essa... um véu ocioso parecia ter caído sobre as feições do pai, mas
essa impressão se dissipou quando ele se levantou da poltrona.... é uma
outra longa história, e está ficando tarde. Vou-lhe mostrar qual vai
ser o seu quarto. Deve estar cansado.
Sim admitiu Ty. Há dois dias que não durmo numa cama. Dormia
sacolejando numa boleia de caminhão.
Então hoje você vai dormir.
Chase parou na sala de visitas enquanto Ty pegava sua mochila, depois
levou-o escada acima para o quarto que pertencera a seu pai. Todos os
quartos estavam sempre prontos para receber hóspedes, portanto havia
bastantes toalhas no banheiro e lençóis limpos na cama. Quando
verificou que Ty estava acomodado, Chase tirou um bloquinho e um lápis
do bolso do paletó e entregou-os ao menino.
Escreva aí o número do telefone de sua mãe mandou.
Não vai ligar para ela? protestou Ty, franzindo a testa, ansioso. Pelo
menos não durante alguns dias?
Sabe que ela está preocupada com você. A frase continha uma crítica
sutil.
Sim, mas... Apertou os lábios, com ar sombrio. Ela vai querer que eu vá
para casa. E eu não quero ir para casa.
Eu cuido disso afirmou Chase. Basta me dar o número do telefone, e eu
falo com ela.
Está legal. Ty anotou o número e devolveu o bloquinho e o lápis para
Chase. Não se esqueça de dizer a ela que estou bem.
Pode deixar. Chase foi até a porta, abriu-a e fez uma pausa. Ouça uns
conselhos para ficar matutando. A vida na
274
cidade gera a fraqueza num homem. Aqui não temos sinais de trânsito
dizendo quando andar ou quando parar, quando esperar ou seguir em
frente. Não há ruas com setas dizendo que a mão a se seguir é aquela.
Na cidade, tudo é arrumadinho... suave... governado por uma ideia
feminina de como devem ser as coisas. Aqui, ainda é terra de homem,
onde se espera que você cumpra sua palavra e não peça nunca favores.
Vai ser duro para você, e não apenas porque desconhece o nosso jeito.
As pessoas vão esperar mais de você porque é meu filho, portanto...
Chase sorriu de leve, porque as palavras seguintes lhe eram tão
familiares... você vai ter que dar mais duro, ser mais esperto e brigar
melhor do que qualquer homem no Estado. Se não for capaz disso, então
será melhor para você voltar para a Califórnia e ficar com sua mãe,
caso contrário esta terra o destruirá. Pense nisso nos próximos dias.
Sim, senhor. Era um som sóbrio, com apenas um leve toque de ceticismo.
Chase sorriu, divertido, porque também ele sempre acreditara que o pai
exagerara muito.
Boa noite, Ty.
Boa noite.
Voltando ao escritório, Chase sentou-se na cadeira atrás da
escrivaninha e apanhou o telefone, discando o número que Ty lhe dera.
Atenderam ao terceiro toque.
Residência dos Gordons. Era uma voz de mulher, altiva e formal, não a
de Maggie.
Quero falar com Elizabeth Gordon pediu Chase.
Creio que ela já se recolheu. Aqui fala a cunhada dela, Pamela Gordon.
O que deseja?
Quer verificar se se recolheu mesmo? Diga-lhe que estou ligando com
relação ao filho dela.
Ty? Encontrou-o? Ele está bem? A mulher lançou-lhe uma enxurrada de
perguntas ansiosas.
Diga a Sra. Gordon que quero falar com ela. Enfatizou a última palavra
para deixar bem claro que não falaria com mais ninguém.
Um momento. Ouviu o barulho do fone sendo largado. Ao fundo, podia
ouvir a mulher chamando "Elizabeth". Chase esperou, brincando com a
tira de papel com o número escrito.
O comprimido para dormir que Maggie tomara para ver se conseguia
descansar um pouco, depois de tantas noites insones preocupando-se com
Ty, a deixara descoordenada. Sentia-se grogue quando veio ao telefone,
e apertou a mão contra a testa para eliminar o atordoamento.
275
A voz dela mudara ligeiramente, uma variação do sotaque, mas tocou-lhe
a memória. Por um instante, os anos recuaram, e ele pôde ver-lhe os
olhos verdes, verdes como a grama luxuriante da Triplo C, e os cabelos
negros como a meia-noite. Apertou a mão no fone, como que para trazê-la
mais para perto.
Alo, Maggie.
Ninguém mais a chamava assim, exceto Culley. Não parecia a voz dele, no
entanto os telefones às vezes distorciam as vozes das pessoas. Maggie
agarrou o fone com ambas as mãos.
Culley? Graças a Deus você telefonou. Tentei ligar para você, mas a
telefonista falou que seu telefone tinha sido desligado, e eu... Ty
fugiu. Acho que ele...
Maggie, é Chase interrompeu ele. Ty está aqui comigo. Ele queria que
você soubesse que está bem.
Ela reconheceu a voz no minuto em que ele recomeçou a falar. O chão
pareceu balançar sob os pés dela. Havia aquela mesma qualidade
persuasiva e meiga na voz dele. Sentiu-se totalmente confusa, e o
efeito do comprimido para dormir não a ajudava a clarear rapidamente as
ideias.
Quero-o aqui em casa... comigo. Quanto a isso, Maggie não estava
confusa. Ponha Ty no próximo avião de volta para casa. Eu pago a
passagem.
Não.
Chase, eu quero meu filho. A voz dela tremia numa nota de advertência.
Se o quer, terá que vir buscá-lo.
Não. Não voltaria para lá. Ty é menor... um fugitivo. Se não o mandar
de volta, comunicarei às autoridades e elas irão buscá-lo e trazê-lo de
volta para mim.
Você está longe daqui há muito tempo, Maggie. Acho que se esqueceu do
quanto território este céu dos Calders abrange. Eu sou a autoridade
aqui. Se o quer, terá que vir pessoalmente. Sabe onde nos encontrar.
Chase botou o fone no gancho, plenamente consciente de que agira de
acordo com a má imagem que a mulher tinha dele, mas isso tinha que ser
resolvido. E ele preferia que fosse feito cara a cara. Recostou-se
pesadamente na cadeira e fitou o telefone, perguntando-se o quanto ela
se modificara nos últimos 15 anos. Será que ainda era tão linda como
quando mocinha? Ainda tinha aquele corpo? Ou o estragara na gravidez do
filho deles? Cansadamente, esfregou os olhos.
276
Quando alvoreceu, no dia seguinte, Chase já tinha tomado banho, feito a
barba e se vestido. Antes de descer, parou no quarto de Ty e abriu a
porta. O garoto estava esparramado na cama, deitado de bruços, de boca
aberta. A novidade de saber que tinha um filho continuava a espantá-lo
e encantá-lo. Bateu com força na porta aberta.
Hora de levantar, Ty!
Chase ficou vendo o adolescente apoiar-se atordoadamente nos cotovelos,
e franziu a testa enquanto olhava à sua volta, tentando lembrar-se de
onde estava.
Que horas são? Ty passou uma mão sonolenta pelos cabelos, tentando
forçar-se a acordar.
Cinco horas.
Da manhã! Com um gemido, desabou de cara em cima da cama.
Levantamo-nos cedo, por aqui.
Chase saiu do vão da porta e foi para as escadas. Aqui também não havia
luzes para fazer um garoto saltar da cama. Ele tinha que aprender a
fazê-lo por si mesmo.
Ruth acabara de colocar o seu prato de filé, ovos e ensopado na mesa da
sala de jantar quando um Ty de olhar sonolento entrou tropegamente na
sala. Chase os apresentou. Ruth derreteu-se toda, de modo embaraçoso,
os olhos marejados de lágrimas quando murmurou que gostaria que Webb
tivesse vivido para ver o neto. Depois, saiu às pressas para a cozinha,
enxugando os olhos com o canto do avental.
O que foi que mamãe falou quando você ligou para ela, ontem à noite?
perguntou, quando estavam a sós.
Chase evitou habilmente dar uma resposta direta.
Ela vem para cá hoje ou amanhã. Vai depender de quando conseguir lugar
no avião.
Ela vai querer que eu volte com ela disse Ty, emburrado.
Eu cuido disso. Chase repetiu a calma resposta que dera na véspera.
Quando Ruth trouxe para Ty o seu prato de filé, ovos e ensopado, ele
olhou-o fixamente.
Não sei se vou conseguir comer tudo isso a esta hora da manhã.
Chase ergueu os ombros expressivamente, como quem dizia que isso era
com ele, mas acrescentou:
Vai demorar um bocado até o almoço.
Ty já tinha comido uma bela quantidade, quando Buck apareceu. Chase
tinha terminado, e estava recostado na cadeira saboreando sua terceira
xícara de café. Viu o olhar intrigado que Buck lançou ao rapaz.
277
Ty, quero que conheça Buck Haskell, um dos meus principais capatazes e
um bom amigo. Apresentou Buck e viu Ty largar os talheres, levantar-se
e apertar a mão do homem, educadamente. Buck, este é meu filho.
Seu... o quê? Buck lançou-lhe um olhar vivamente incrédulo. Mas onde...
quem...
Maggie é a mãe dele.
Maggie O'Rourke? Ante o aceno afirmativo de Chase, Buck inspirou fundo
e expirou. Ora, mas se não é o fim da picada! O rosto dele estava
estranhamente inexpressivo, um toque de exasperação na voz. Logo a
seguir estava olhando para Chase e abrindo um amplo sorriso. Parece
meio esquisito dar os parabéns a esta altura dos acontecimentos.
Capítulo XXVIH
Maggie chegou quase ao meio-dia do dia seguinte, guiando um carro
alugado. Como mais ninguém batia à porta antes de entrar na Casa
Grande, Chase soube que era ela antes de abrir a porta. Fitou-lhe os
olhos verdes e frios, depois correu os olhos pelo corpo esbelto,
vestindo um elegante costume preto debruado de branco. Certas coisas
que recordava a seu respeito, como o orgulho e a vontade forte, estavam
evidentes no seu porte rígido.
Chase olhou para além dela, fitando um empregado da fazenda que ia
passando pela casa.
Charley, traga a bagagem da Sra. Gordon do carro.
Não há necessidade. Ela se virou para contradizer a ordem. Eu não vou
ficar.
Pode trazê-la, Charley repetiu Chase, firmemente. Ela o enfrentou de
novo, com fria serenidade.
Vou ficar aqui apenas o tempo bastante para apanhar o Ty. Depois, vou-
me embora.
Ótimo. Inclinou a cabeça numa aceitação implícita e deu um passo para o
lado, convidando-a a entrar. Deixando a porta aberta para o empregado,
Chase moveu-se na direção do escritório, escutando o tinir dos saltos
altos de Maggie no chão de azulejos, enquanto ela o seguia. Deixou que
passasse por ele e entrasse no escritório, fechando as portas duplas
para assegurar-lhes a privacidade. Há café quente na baixela sobre a
mesa-de-centro.
Depois que correra o olhar pela sala sem encontrar Ty, Maggie se virou
para confrontar Chase.
Onde meu filho está?
Foi com Nate hoje de manhã dar uma primeira espiada num recolhimento de
gado de verdade. Chase serviu duas xícaras de café da baixela de prata.
Creme ou açúcar?
279
Você sabia que eu vinha buscá-lo. A irritação emanava dela como um
campo de força elétrico, deixando o ar carregado. Chase sentiu-o sem
ter que olhar para ela.
Mas não sabia quando lembrou-lhe.
Ela girou parcialmente, mostrando-lhe o seu perfil. O corpo dela estava
cheio e completo, de um modo que mexia com ele e atiçava seus desejos
masculinos. Ela devia saber que era uma pintura para o olhar faminto
dele, despertando lembranças de quando vira mais daquelas pernas bem
torneadas do que a saia negra fendida no joelho agora revelava. Ele se
recostou na poltrona, segurando a xícara.
Quando é que Ty volta?
Hoje à noite. Sorveu o café e evitou os olhos acusadores dela.
Você fez isso deliberadamente. Por quê?
Olhou para ele, percebendo a vitalidade dura que marcava as suas
feições. Transformara-se numa figura poderosa de homem, com as rugas de
expressão dando-lhe mais charme à aparência, ao invés de enfeá-lo. Sua
boca se retorceu naquele jeito duro e familiar que ela recordava.
Para nos dar tempo de conversar em particular. Por que outro motivo?
Não temos nada para discutir insistiu ela, friamente.
Por que não me contou que ia ter o meu filho? Chase finalmente tocou no
assunto que ambos estavam evitando.
Ty é meu filho. Sua parte na concepção dele foi puramente incidental.
Ela mantinha o olhar desviado, a voz formal e a cabeça bem erguida.
Você ainda me odeia, Maggie? Viu o olhar dela se dirigir para ele.
Ódio é uma palavra apaixonada. Desprezo ou abominação seriam mais
adequadas. Esta era uma coisa que o casamento com Phillip tinha feito
por ela. Retirara a semente venenosa do ódio que poderia tê-la
deformado. Meu marido era um homem amoroso e compassivo. Ensinou-me a
esquecer o que eu não podia perdoar.
Naquele dia em que fui procurá-la... a última vez que a vi, foi para
dizer-lhe que lamentava de verdade sobre seu pai. Na época, eu não
tinha ciência de que você conhecia toda a história. Podia ver que ela
estava fechando a mente para ele, sem querer lembrar-se de nada. Sei
que não quer falar nisso, mas tem que ser dito.
Por quê? Meu pai está morto e enterrado.
E nós temos um filho, portanto você vai escutar, quer queira, quer não
replicou Chase, sem alterar a voz. Compreendo quais foram as razões do
meu pai para o seu gesto, mas não tinha ideia de suas intenções, quando
entramos no pátio da fazenda, naquele dia. Até o minuto em que
colocaram a corda no pescoço de Angus, eu estava pensando que ele
planejava apenas assustá-lo. Quando eles... fechou a boca por um
momento, antes de continuar. Eu não poderia tê-lo salvado, Maggie. O
seu pescoço já estava quebrado. Fez nova pausa. Mesmo depois de todo
esse tempo, não posso dizer que meu pai estava errado. O ódio do seu
pai pela gente era uma obsessão. Você sabe disso, Maggie, provavelmente
melhor do que eu. Num certo sentido foi uma morte misericordiosa,
porque seu pai acabaria por destruir não apenas a si próprio, mas a
você e Culley, também.
Acabou? perguntou, olhando para ele, e Chase não soube dizer se ela
compreendera qualquer coisa que ele dissera.
Com esse assunto, sim. Olhou para o relógio. Ruth vai servir o almoço.
Não estou com fome.
Largando a xícara, ele se pôs de pé e caminhou para junto dela,
segurando-lhe o braço com firmeza.
Faça um esforço disse, secamente. Podia sentir a alta tensão que fluía
dela, mas Maggie não resistiu à pressão da mão dele, conduzindo-a.
Ele não tentou puxar conversa durante o almoço, mas deixou um silêncio
pender sobre a mesa. A princípio, Maggie beliscou a comida no prato,
até que a atmosfera tranquila abriu-lhe o apetite, lembrando-lhe que
não comia há 24 horas. Relaxada e satisfeita com a refeição, recostou-
se na cadeira e sorveu seu café.
Importa-se se eu fumar? Chase levava um charuto fino a meio caminho da
boca.
Não, de modo algum. Gosto do cheiro de um bom charuto replicou Maggie,
com indiferença.
É uma raça rara de mulher, a que gosta do cheiro de charutos. Levou o
fósforo à ponta e soltou uma baforada.
Phillip geralmente fumava um charuto depois do jantar.
Inconscientemente, a voz dela se suavizou, com carinho, portanto não
compreendeu por que a boca do homem se estreitou subitamente.
Você está sabendo que Ty quer ficar aqui.
Maggie estava desprevenida, despreparada para tal frase, portanto
reagiu vivamente:
Não importa o que ele quer. Vai voltar para casa comigo.
281
Havia algo de ocioso e perigoso no modo como ele olhou para ela.
Acha mesmo que vou deixar que o leve?
Maggie largou com força a xícara de café na mesa, enquanto se
levantava. Era exatamente disso que tinha medo... de que, se Chase
algum dia soubesse que tinha um filho, tentasse tomá-lo dela. Cruzou os
braços, esfregando-os como se estivesse com frio.
Vou lutar contra você antes de deixar que o tome de mim, Chase Calder
advertiu. Não sou mais Maggie O'Rourke, uma maria-ninguém. Sou
Elizabeth Gordon, uma viúva rica cujo marido tinha muitos amigos
influentes. Agora estamos em condições iguais, você não pode
simplesmente me empurrar para o lado.
É isso o que você quer, Maggie? Uma feia batalha pela custódia dele?
desafiou numa voz que continha a aspereza irregular da raiva. Vamos
brigar para ver qual dos dois seria o melhor dos pais? Qual tem mais a
oferecer-lhe? Quer jogar um cabo-de-guerra cruel com ele?
Não, não é, mas tenho muito pouca escolha no assunto, se você quer
chegar às últimas consequências.
Não sou eu quem está chegando às últimas consequências, é você,
insistindo para que volte para casa com você replicou Chase, novamente
sob controle.
Não acha que vou deixá-lo ficar, não é?
Ele vai fugir de novo, se você o levar de volta avisou, calmamente.
Você acabará por perdê-lo. Daqui a mais três anos ele terá dezoito
anos... e será livre para morar onde bem quiser.
Não está mesmo pensando que vou desistir dele, não é? Simplesmente ir-
me embora e deixar que fique com ele?
Não.
Então, o que está querendo de mim?
Case-se comigo.
Maggie fitou-o, boquiaberta do choque.
Não pode estar falando sério! E finalmente conseguiu rir da ideia.
Mas estou. Não se preocupe. Retorceu a boca, secamente.
Não estou alimentando nenhuma grande paixão por você. Meu interesse em
casar com você é baseado exclusivamente em Ty. Primeiro, legitimará o
nascimento dele. Não quero nenhum filho meu sendo chamado de bastardo.
É um pouco tarde para isso sugeriu Maggie, sarcasticamente.
Como não fui informado de sua existência... ou mesmo da sua esperada
existência... a hora é a mais apropriada para mim
retrucou Chase. Em segundo lugar, quero assegurar-me de
282
que Ty seja reconhecido legalmente como meu herdeiro. A Fazenda Triplo
C é herança dele e pretendo tomar todas as providências necessárias
para que ele a receba.
Não me deu um único motivo pelo qual eu deva concordar com esse
casamento absurdo. Ela estava imóvel e tensa, ainda escutando a voz
dele, com seus sentimentos reprimidos.
Você quer o seu filho, não quer? Se brigarmos por ele, Maggie, ambos
perderemos. E Ty será o maior perdedor de todos, porque estará confuso,
dividido entre nós dois. Casando-se comigo, você manterá o seu papel de
mãe, viverá aqui nesta casa com ele, e será uma parte integral da vida
dele. Além disso, será a dona desta casa e terá toda a importância
decorrente do nome Calder.
Não estou interessada no seu nome, ou na sua cama. Não discutiu a parte
tocante ao Ty.
Pouco se me dá se você partilhe a minha cama. Isso fica exclusivamente
a seu critério. Eu lhe sugeriria que morasse aqui sem casamento, não
fosse pelos dois motivos que lhe dei e... pelos comentários que isso
criaria. E você sabe que as pessoas falariam, se você voltasse a viver
nessa área, que dirá aqui na casa. Não importaria se as histórias
fossem verdadeiras ou não; elas chegariam aos ouvidos do Ty. Não creio
que isso lhe agradasse. O casamento é uma formalidade. Logo que ele
tenha conseguido o seu objetivo de estabelecer Ty como meu herdeiro
legítimo, você pode pedir divórcio. Imponho apenas uma condição... Ty
fica comigo.
Isso não é justo falou ela, secamente.
Mais cedo ou mais tarde você terá que soltá-lo... quando ele se casar,
ou partir para ver o mundo. Você pode ficar aqui o tempo que desejar...
até que ele tenha dezoito ou vinte e um anos... ou pode dividir o seu
tempo entre aqui e a Califórnia. Ou ficar na Califórnia e vir para cá
de visita. Para mim é indiferente. Se tiver uma solução melhor, eu a
ouvirei com prazer.
A frase dele zombou dela. Não havia outra solução que fosse de encontro
às condições dele. E se isto não acontecesse, ele a levaria aos
tribunais para obter a custódia de Ty. Não importaria que ela acabasse
por ganhar a batalha. Ele deixara isso bem claro. Podia bem imaginar a
reação de Ty a esta fazenda. Pareceria a realização do sonho romântico
de qualquer garoto sobre o Oeste, incluindo uma figura de herói como
pai. Jamais poderia ganhar contra os sonhos de um garoto, embora
ganhasse a custódia legal.
Ty tem uma afinidade natural pela terra, um sentimento por esta região
continuou Chase, quando ela não preencheu o silêncio. Você não pôde
reprimi-los, embora tenha tentado. É algo que ele herdou de nós dois,
Maggie. Estou apelando para o seu instinto maternal. Estamos ambos
interessados na mesma coisa: Ty.
283
Pelo menos o nosso casamento pode começar com isso como base comum.
Ficou olhando para ela, serenamente. Não espero que você me dê uma
resposta agora. Vai querer falar com o Ty. Amanhã será uma boa hora.
Amanhã? Ficou irritada. Quanta generosidade sua dar-me tanto tempo!
Já se perdeu tempo demais. Saiu da sua poltrona. Vou levar sua bagagem
para seu quarto.
Eu não disse que ia ficar lembrou Maggie.
Ele olhou para ela, correndo um olhar seco por seu rosto.
Vai ficar.
Não. Não ia dobrar-se à vontade dele. Se tiver que passar a noite aqui,
prefiro fazê-lo na casa do meu irmão.
Ele franziu o cenho.
Ao que me consta, um rato não dormiria lá. O lugar deteriorou
muitíssimo desde que você partiu. E seu irmão também.
Maggie saiu da sala de jantar e dirigiu-se diretamente para a porta da
frente, os passos apressados. Chase não tentou detê-la enquanto ela
saía da casa e descia os degraus até o carro de aluguel. A moça fez a
longa viagem até a casa do irmão num estado de entorpecimento, sem ter
certeza do que encontraria ao chegar lá.
Porém a descrição de Chase não a havia preparado para a visão dos
prédios delapidados que pareciam prestes a desabar com o primeiro vento
forte. Parecia que há anos não se fazia uma tentativa de consertar
coisa alguma. A casa, o lar de sua infância, parecia abandonada.
Nunca fora grande coisa, para começo de conversa, mas agora as janelas
estavam quebradas, metade dos degraus tinha sumido e o chão da varanda
estava podre e parcialmente afundado. Maggie caminhou com cuidado até a
porta da frente, que estava aberta. O cheiro que veio às suas narinas
era nauseantemente podre. Cobrindo a boca, deu um passo cauteloso para
dentro. Estava escuro e sujo. Estendeu a mão para o interruptor perto
da porta, mas nada aconteceu. Cautelosamente, moveu-se para o lado,
tateando até encontrar um abajur. Puxou a correntinha, mas nada
aconteceu. Não havia eletricidade na casa. Algo passou correndo nas
sombras e Maggie recuou ante o som. Isto não era uma casa; era uma
pocilga. Estremeceu e voltou para junto da porta, enojada porque o
irmão morava naquilo.
Do lado de fora, inspirou o abençoado frescor do ar e olhou em
derredor. Os saltos altos que usava tornavam impraticável uma
investigação dos outros prédios, a não ser que desejasse arriscar
torcer um tornozelo no terreno irregular. Chamou o nome do irmão, mas
não esperava uma resposta. Esperou no carro durante
284
mais de uma hora, antes de finalmente desistir. Não queria estar ali
quando escurecesse.
Enquanto se afastava, de carro, Maggie sentia-se abismada com o estado
da casa. Primeiro a mãe, depois ela, tinham-se matado de trabalho para
torná-la habitável, embora nem o pai nem o irmão parecessem dar valor
ao esforço. Havia algumas verdades dolorosas que era preciso enfrentar,
com relação à sua família, mas ela ainda não estava preparada para
enfrentá-las frontalmente.
Pelo canto dos olhos, percebeu o cemitério, e parou o carro para dar
marcha à ré e entrar nele. Saltando do carro, Maggie subiu o outeirinho
gramado e parou ao lado do túmulo da mãe. Nenhum pensamento consciente
cruzava sua cabeça. Um vento frio finalmente fê-la perceber a sombra
comprida lançada pela pedra tumular. Estava ficando tarde, e Ty logo
iria voltar.
Movendo-se rigidamente, começou a descer a trilha estreita entre as
tumbas. O solo era razoavelmente liso, mas ela olhava onde pisava, até
que um sexto sentido alertou-a de que estava sendo observada. Maggie
parou, erguendo os olhos.
Uma pick-up estava estacionada ao lado do carro. Chase se apoiava
contra a lateral do veículo, fumando uma cigarrilha. Algo disse a ela
que esperava ali há muito tempo. Afastando-se da pick-up, esmagou a
cigarrilha sob o calcanhar e adiantou-se para ir a seu encontro. Sem
dizer palavra, virou-se para caminhar a seu lado, curvando a mão grande
sob o cotovelo dela, para sustentá-la e guiá-la. Entorpecida, quase
anestesiada, Maggie deixou que ele a acompanhasse até a pick-up.
O toque da mão no seu quadril quando a ajudou a entrar na boleia
afastou a apatia da moça. Virou a cabeça para olhar para ele. Estava
parado à porta, uma das mãos segurando a moldura da porta, a outra a
porta propriamente dita. O olhar dele era calmamente avaliador e astuto.
Não foi uma volta ao lar das melhores para você, não é? murmurou.
Fitando aquele rosto duro e viril, Maggie sentiu-se transportada na
lembrança dos seus dias de alegre abandono. Queria estender a mão e
agarrar um pedaço daquela alegria descuidada que conhecera, recapturar
a luz brilhante do sol que havia iluminado o seu mundo. Algo faiscou
nos olhos dele, como se pudesse ler os pensamentos na sua expressão.
Aquilo a trouxe de volta à realidade.
Deixe-me em paz. A voz dela era parada, morta.
Com um dar de ombros indiferente, ele fechou a porta do passageiro e
deu a volta para subir atrás do volante. Quando deu partida no motor e
começou a entrar na auto-estrada, Maggie notou o carro de aluguel
estacionado ao lado deles.
285
Mandarei um dos rapazes vir buscá-lo.
Enquanto passavam pela cidade, Maggie notou o cartaz do restaurante no
antigo Jake's Place.
Quando foi que Jake abriu um restaurante?
Jake vendeu o estabelecimento há quatro anos. A nova proprietária
remodelou tudo e abriu um restaurante.
Quem é a proprietária?
Quando ele não deu uma resposta imediata à pergunta dela, lançou-lhe um
olhar, perguntando-se se haveria algum significado para sua hesitação.
Uma mulher chamada Sally Brogan replicou ele, parecendo preocupado com
outros assuntos.
Maggie deixou o silêncio continuar por alguns quilómetros.
O que estava fazendo no cemitério, esperando por mim?
Vi seu carro estacionado ali, portanto parei. Estava indo para a casa
do seu irmão, apanhá-la. Passou-me pela cabeça que podia ser teimosa o
bastante para querer ficar ali, e não é um lugar adequado para uma
dama. Deixou o olhar se desviar da estrada para pousar nela brevemente,
percorrendo-a. É, você conseguiu sua ambição de se tornar uma dama.
Elegante, sofisticada, reservada, nem um fio de cabelo fora do lugar.
Você não parece impressionado. O tom de voz dele fora quase insultuoso.
Quem sabe eu esteja imaginando se sobrou alguma coisa da garota que
conheci, ou se ela foi tão polida que deixou de existir. Fitou a
estrada, a cabeça inclinada para o lado. Lembro-me de uma vez em que
perdi o controle quando estava fazendo amor com você e fui um pouco
rude. Você começou a me morder... com força. Quando me queixei, você me
disse que, se eu quisesse bancar o grosso, você faria o mesmo. O
cinismo enroscou-lhe os cantos da boca. O que será que faria hoje.
Bocejaria?
Maggie deu-lhe as costas. Pelo resto da viagem ficou olhando pela
janela de passageiros, o cotovelo apoiado na vidraça aberta e o punho
cerrado apertado contra a boca.
Naquela noite, à mesa do jantar, Maggie fitava Chase de uma cabeceira
da mesa para a outra, enquanto Ty se sentava, simbolicamente, a meio
caminho dos dois, do lado direito. No momento estava usando uma camisa
branca limpa e calça social escura, e parecia-se com o seu filho. Mas
quando entrara porta adentro no começo da noite, parecera quase um
estranho, vestindo empoeiradas roupas do Oeste. Inicialmente, Ty ficara
constrangido diante dela,
286
ciente de que a magoara quando fugira, mas quando ela não tocou no
assunto, ele começou a relatar excitadamente suas aventuras dos dois
últimos dias. Chase sentava-se, complacente, à cabeceira da mesa,
enquanto Ty provava todos os pontos que ele havia mencionado, e
deixando o entusiasmo do rapaz envolvê-la.
Aos poucos, Maggie foi puxando a conversa para a casa deles na
Califórnia, mencionando os amigos de Ty e os cavalos de provas de
equitação que ele exibia. As respostas dele foram ficando mais breves,
e logo não estava falando mais nada. Então, ela começou a perguntar-lhe
diretamente se estava preparado a desistir dos amigos, da casa, da sua
vida na Califórnia.
Vou sentir falta disso tudo por algum tempo admitiu Ty, e se mexeu
constrangido na cadeira antes de continuar: Mamãe, não quero magoá-la.
Sei que você quer que eu volte, mas... eu quero ficar aqui.
Você não quer me magoar, mas magoaria, não é? deu-se conta Maggie. Se
eu insistisse para que você...
Não faça isso, mamãe! pediu Ty, com a voz alterada pela tensão.
Se sua batalha tivesse sido apenas com Chase, teria lutado com unhas e
dentes pelo filho, mas não podia também lutar contra o Ty. Sabia quando
estava derrotada. Começou a empurrar as ervilhas de um lado para o
outro do prato, com o garfo.
Ty, o que você diria se eu lhe dissesse que Chase e eu estivemos
falando em casamento? perguntou, erguendo os olhos ao sentir a
arremetida penetrante do olhar de Chase.
É mesmo? perguntou Ty, cautelosamente, não querendo comprometer-se até
saber se era verdade.
É - admitiu, e enfrentou o olhar firme do homem à cabeceira, um Chase
Calder maduro, lacónico e difícil de decifrar.
Quer dizer que moraríamos aqui? Nós dois?
É - disse, meneando a cabeça, e continuando a encarar os firmes olhos
castanhos.
Esta é a sua resposta, Maggie? perguntou Chase, serenamente.
Se é o que meu filho deseja replicou sim, é a minha resposta.
Vou tirar a licença de casamento e mandar buscar o pastor. Nós nos
casaremos aqui na casa... sem estardalhaço falou Chase.
287
Capítulo XXIX
A decisão de ficar e casar-se com Chase deixou uma infinidade de
assuntos pendentes na Califórnia. Tinha que pedir demissão do seu posto
como executiva da organização de caridade. Precisava tomar providências
para vender os cavalos de exibição. Naturalmente, havia todas as roupas
dela, e as do Ty, que tinham que ser empacotadas e enviadas para a
Triplo C. Essa parte foi resolvida com um telefonema para Tia Cathleen.
Esta era uma romântica incurável, portanto ficou radiante pelo fato de
Maggie estar finalmente se casando com o pai do seu filho.
Já Pamela, foi outra história. Primeiro, ficou raivosamente incrédula
quando Maggie contou sua decisão. Depois, chorou e suplicou a Maggie
que pensasse melhor e trouxesse Ty de volta. Maggie não estava disposta
a fazer confidências à cunhada e explicar por que não tinha escolha.
Antes de a conversa ter acabado, Pamela estava lívida, acusando Maggie
de estar sendo infiel à memória de Phillip, de nunca tê-lo amado, de
ter-se casado com ele apenas pelo dinheiro, e ameaçando ir aos
tribunais para contestar o testamento dele, retirando tanto Maggie
quanto Ty da lista dos beneficiários. A índole vingativa da cunhada foi
o suficiente para convencê-la de que jamais queria voltar.
Depois da conversa com Pamela, Maggie fora dar uma volta para esfriar a
raiva. Chase não estava por perto, mas raramente estava. Com o
recolhimento do gado da primavera em pleno andamento, geralmente ficava
fora de casa do alvorecer até o crepúsculo. Ela já passara dos celeiros
e estábulos e estava a meio caminho do alojamento dos homens, quando
finalmente diminuiu o passo e olhou em derredor.
Teve a atenção despertada por um veículo esquisito estacionado na
frente de um dos prédios logo adiante. Levou um minuto para
288
reconhecer que era um carro para transportar provisões e utensílios de
cozinha para os vaqueiros. Chegou mais perto para olhar para dentro da
cozinha móvel, que tinha um fogão a gás butano, geladeira e
reservatório de água. Ele tinha voltado para a sede da fazenda para se
reabastecer de suprimentos e combustível.
Quando uma figura imensa saiu de dentro de um prédio, uma cabeça
redonda estava quase escondida atrás do saco de batatas de
20 quilos que levava ao ombro. Maggie piscou incrédula, fitando o
homem, enquanto um sorriso rasgou-lhe o rosto.
Tucker! exclamou, encantada. O cozinheiro girou o tórax para ver quem
tinha chamado seu nome. Fitou-a vagamente e ela riu. Sou eu! Maggie!
Ele jogou o saco ao chão como se fosse uma pena.
Tinha ouvido contar que estava de volta, mas não a teria reconhecido.
Olhou para ela com orgulho, fitando o corte de cabelo elegante, a blusa
assinada cinza clara, a calça justa e preta. Bem-vinda ao lar, Maggie.
Ela sentiu um bolo estranho na garganta enquanto ria de novo, desta vez
mansamente.
Sabe que é a primeira pessoa que me disse isso?
Que bom. Pensei em você, e em como se estava saindo disse. Vi o seu
garoto. É filho do Chase?
É respondeu, observando a reação dele, lembrando-se do respeito que
sempre demonstrara por ela, e perguntando-se se isso modificaria alguma
coisa.
Os rapazes estão falando que você vai-se casar com ele.
Vou. Ele não parecia estar julgando o comportamento dela de anos atrás.
No entanto, sentia-se obrigada a explicar a este homem os seus motivos
para se casar com Chase, depois do que os Calders tinham feito a seu
pai. Não tenho escolha. Ty está fascinado por ele. Se não quiser perder
meu filho, terei que me casar com ele, para poder ficar perto do Ty.
Inspirou tremulamente e olhou para longe. Tem visto Culley ultimamente?
Já fui à fazenda umas duas vezes, mas ele não está lá e eu... Não pôde
terminar a frase, incapaz de expressar suas reações às mudanças
ocorridas ali.
Eu sei. O comentário de Tucker dizia que ela não precisava dizer-lhe
nada. Culley não fica muito lá. Aquilo é uma obsessão para ele. Devia
ter ido embora com você e não ter tentado manter o lugar. Era demais
para um homem, que dirá um menino. Tentei falar com ele, mas não quis
escutar... disse que os Calders tinham conseguido pegar-me.
Ele me escreveu contando que você estava aqui, mas pensei que a esta
altura já tinha ido embora. Olhou para ele, tentando
289
compreender por que tinha ficado. Incendiaram o seu café. Eu imaginava
que você se iria daqui o mais depressa que pudesse.
Eu achava que Calder o incendiou. Mas pode ser que o fogo tenha sido
causado pela gordura, como disseram. Deu de ombros.
Tenho sido tratado com justiça, aqui. E sou dono do meu nariz. Acho que
Webb Calder me apavorou de verdade. E Chase ainda me olha com certa
desconfiança.
Então você perdoou a ambos pelo que fizeram a meu pai?
Parecia outra traição.
Você, não? retrucou Tucker, com um olhar enviesado dos seus olhinhos.
Não.
Acredita que um filho tem que pagar pelos pecados do pai?
Quando ela ia começar a responder, ele interrompeu. Cuidado com o que
vai dizer, porque se vai fazer Chase pagar pelo que o pai dele fez, não
se esqueça de que o pai do seu filho é Chase Calder.
Uma minúscula onda de choque a percorreu, as palavras dele ecoando em
sua cabeça... pagar pelos pecados do pai. Tremia por dentro, sem ter
certeza do por quê. Havia uma súbita confusão na sua cabeça, que não
estava conseguindo dominar. Seus pensamentos rodopiavam depressa demais.
Bem... Tucker levou o saco de batatas ao ombro. Tenho que ir trabalhar.
Daqui a pouco os rapazes vão ficar com fome. A seguir, fez uma pausa.
Mandarei avisar a Culley que você quer vê-lo.
Obrigada, Tucker. Foi uma resposta quase distraída, enquanto ela se
virava para andar devagarinho na direção da Casa Grande.
A cerimónia de casamento foi rápida e indolor, realizada à noite para
não interferir com o esquema de trabalho de Chase. Ruth e Virgil
Haskell foram as testemunhas. Ty foi a única outra pessoa a comparecer.
Houve apenas um momento constrangedor, quando chegou a hora de trocar
as alianças simples de ouro. Maggie tinha-se esquecido de tirar o jogo
entrelaçado de aliança e solitário que Phillip lhe dera. Em
retrospectiva, ela não saberia dizer ao certo se fora esquecimento ou
um gesto subconsciente. De qualquer modo, quando Chase viu o jogo, sua
boca se apertou enquanto habilmente o retirava do dedo dela e o enfiava
no bolso. Depois da cerimónia devolvera-lhe a aliança e o anel. Mais
tarde, seu beijo fora frio e impessoal, praticamente não fora um beijo.
290
Enquanto a certidão era assinada e testemunhada, Chase preparara
bebidas no escritório. O pastor fizera um brinde à futura felicidade
deles, antes de se retirar. Os Haskells não se demoraram, e até Ty fora
embora discretamente para deixá-los a sós. Chase imediatamente se
desculpara e fora cuidar de uns papéis, deixando Maggie com a sensação
de que tudo fora uma farsa.
O que tinha esperado? Deitada na cama do quarto principal, fitou os
desenhos que a lua fazia no teto. O seu ego estava sofrendo. Queria ser
ela a esnobar e ignorar. Ficou enojada com sua reação infantil. O que
importava qual deles estabelecesse o padrão de discreta civilidade?
Escutou os passos dele que subiam as escadas até o topo, e o andar sem
pressa que o fez passar pela porta dela, sem nenhuma hesitação. O
quarto de dormir dele estava localizado no canto noroeste do segundo
andar. Indicara-o para ela, secamente, quando lhe dera a suite
principal, naquela primeira noite. A porta do quarto dele abriu e
fechou. A seguir, fez-se silêncio.
Ela rolou para o lado, enfiando as mãos sob o travesseiro debaixo da
cabeça. A larga aliança de ouro parecia estranhamente pesada no dedo.
Não estava acostumada com ela, e sim com a coroa de diamantes da
aliança de Phillip. Mal havia fechado os olhos quando a maior
barulheira e estardalhaço chegou-lhe aos ouvidos. A algazarra
ensurdecedora fez Maggie saltar da cama. Agarrou o robe que fazia jogo
com sua camisola de cetim e se mandou para o corredor, quase
atropelando Chase.
O que é isso? A barulheira não arrefecia.
Não sei. A camisa dele estava desabotoada e para fora da calça. Ele
estava começando a enfiá-la para dentro da cintura, quando parou e
inspirou vivamente, em reconhecimento. Ah, não! Era um suspiro
exasperado.
O que foi? perguntou, olhando para ele, intrigada e vagamente alarmada.
Ele lhe lançou um olhar enviesado, seco e irónico a um só tempo.
Estão-nos dando uma festa. Aposto que foi ideia do Buck. Uma risada
irrompeu da garganta dela, curta e aliviada, logo
interrompida pela porta da frente sendo aberta e pela invasão de botas
pisando forte e pelo bater de panelas umas nas outras.
Queremos os noivos! gritou um coro de vozes turbulentas.
Maggie começou a dar um nó na faixa do seu robe. Chase varreu-a com um
olhar que notava especialmente como o tecido de cetim se amoldava aos
seios e quadris dela, deixando muito pouco à imaginação.
291
Não pode ir lá para baixo usando isso falou bruscamente, em voz baixa.
Por um segundo atónita, pôde apenas olhar para ele.
Tenho meia dúzia de vestidos de noite mais reveladores do que este!
retrucou. Phillip jamais achou que eu estivesse vestida de modo
indecente.
Bem, não sou Phillip e não estamos na Califórnia. As nossas mulheres
não andam por aí mostrando o corpo na frente dos outros homens.
A voz dele era um lembrete agudo que pertencia a uma raça de homens que
julgava as mulheres por padrões diferentes daqueles do mundo exterior.
A rebelião percorreu-lhe as veias, ou atiçada pela reprimenda dele ou
pelo tom de posse de sua voz, quando a grupara na categoria de "nossas
mulheres".
Ei! Vocês vão descer ou vamos ter que subir? desafiou uma voz, do pé da
escada.
Dêen-Mios dois minutos para botarmos uma roupa decente! Chase ergueu a
voz para replicar, depois tomou Maggie pelos ombros e levou-a até a
suite principal, em meio aos gritos e assobios vindos lá de baixo.
Se não fosse pela possibilidade bem real de que Ty fizesse parte do
grupo lá embaixo, e Maggie não querer embaraçá-lo, ter-se-ia recusado a
trocar de roupa. Chase já tinha acendido a luz e estava examinando seu
guarda-roupa escasso, já que o resto de suas roupas não tinha chegado.
Maggie ficou ainda mais irritada pela insinuação de que não confiava
nela para escolher algo adequado. Raivosamente, tirou o robe e jogou-o
sobre as cobertas revoltas.
Acabara de arrancar a camisola pela cabeça e estava apanhando as roupas
íntimas, quando ouviu Chase dizer:
Tome. Use isto.
O quê? Quando se virou para ver o que ele havia escolhido, ficou
imobilizada pela expressão dos seus olhos.
Eles percorriam sua nudez, demorando-se nos bicos dos seios, na planura
do estômago, no triângulo preto de pêlos crespos. Depois percorreram
vagarosamente a mesma rota, ao contrário. Maggie ficou abalada pela
sensação de que ele estava fazendo amor com ela com os olhos, e sentiu
o calor inundar-lhe o corpo, o calor do desejo. Tinha que defender-se
contra esta invasão tão íntima.
Pare de me olhar com essa cara de bobo, feito um vaqueiro, Chase. Falou
secamente porque estava tremendo por dentro. Já me viu nua antes.
A ironia quebrou o encanto, e Maggie adiantou-se rapidamente para
vestir o sutiã e a calcinha. Chase escolhera um vestido sem mangas
azul-pálido, feito de uma fazenda atoalhada lustrosa. Quando
292
ela foi pegá-lo das mãos dele, o homem segurou-o por um instante,
forçando-a a fitá-lo nos olhos, que brilhavam como pedras polidas.
Mas quando eu a vi nua antes, Maggie, eu sempre olhei ele lembrou
simplesmente, e soltou o vestido e se afastou.
Uma cantoria começou lá embaixo.
Queremos os noivos! Queremos os noivos!
Chase esperava à porta com impaciência mal disfarçada enquanto Maggie
abotoava a frente do vestido e enfiava os pés sem meias em sandálias
tipo chinelo. O olhar dele inspecionou-a rapidamente, quando ela se
reuniu a ele. Ela ferveu por dentro, sentindo-se exposta, como se o
muro que erigia tão cuidadosamente para deixar de fora as sensações
indesejadas estivesse sendo corroído, e ela precisava da proteção
contra a atração animal vibrante dele.
Ficou rígida sob a mão que a conduzia escada abaixo, onde foram
imediatamente engolidos pela maré ruidosa dos trabalhadores da fazenda
e suas famílias, rindo, turbulentos, gozadores na sua alegria. Podia
ter sido negado a eles um casamentão, mas não lhes ia ser negada a
oportunidade de comemorar o casamento do patrão. No meio da multidão
que os cumprimentava, Chase curvou um braço possessiva e protetoramente
na cintura de Maggie, moldando-a firmemente a seu lado esquerdo, para
não serem separados. O corpo musculoso dele era como uma rocha viva,
gemendo um calor que queimava a pele da moça. Estava consciente de sua
virilidade rude que não se apoiava em charme sexual. Era uma coisa mais
simples e básica do que isso, algo terreno inserido nele pela região.
Ela resistiu-lhe, concentrando a atenção no fluxo de vaqueiros.
Foram presos e envolvidos na corrente de corpos que os levou para fora
de casa, onde uma multidão maior os esperava. Uma parelha de cavalos,
agitada com todo o barulho, estava atrelada a uma velha carruagem. Ela
e Chase foram colocados no assento enquanto um par de cavaleiros
ladeava a parelha agitada e desfilava a carruagem e seus ocupantes pelo
pátio da fazenda para alegria da multidão. Maggie conseguiu igualar a
aceitação calma e sorridente de Chase de tudo aquilo.
Finalmente, os cavaleiros devolveram o casal às escadas de entrada da
Casa Grande. Enquanto Chase tirava Maggie da carruagem, Ruth Haskell
apareceu para murmurar-lhes:
Tenho comida e bebida para todo o mundo lá dentro. Estava mantendo o
costume de alimentar os farristas.
Chase e Maggie ficaram parados à porta, cumprimentando os indivíduos à
medida que iam entrando, e aceitando os seus parabéns. Alguns deles
Maggie conhecia, outros lhe pareciam familiares. Chase apresentou a
todos, sem gaguejar num só nome. Lá de vez em quando um vaqueiro
servia-se do direito de beijar a noiva, mas
293
era sempre um gesto muito respeitoso e reservado. Ninguém se aproveitou
do privilégio, não com o Chase parado ao lado dela.
Enquanto um vaqueiro se adiantava para apertar a mão do noivo, Maggie
se virou para a próxima pessoa na fila. Havia um ar de quietude na
mulher ruiva que vinha a seguir, uma qualidade que se destacava no meio
de toda a barulheira. Maggie sentiu Chase enrijecer e olhou rapidamente
para ele para determinar a causa, no entanto nada havia na expressão do
marido para indicar que havia algo errado. Ele fez as apresentações,
como havia feito a noite toda.
Esta é Sally Brogan, uma amiga minha. É dona do restaurante na cidade.
Parabéns, Sra. Calder. Enquanto a mulher discretamente apertava a mão
de Maggie, esta notou a leve tensão nas suas feições. Havia dor por
trás daqueles plácidos olhos azuis. É uma mulher de muita sorte.
Sorte? Maggie supunha que havia muitas mulheres que trocariam de bom
grado de lugar com ela. A certeza veio instantaneamente que esta mulher
era uma delas. Teve a consciência súbita de uma certa quietude à volta
delas, como se os outros estivessem observando o diálogo. Quando a
ruiva seguiu seu caminho para cumprimentar Chase, alguém se adiantou
imediatamente para reclamar a atenção de Maggie.
Era Buck Haskell, rindo e falando bem alto.
Você é uma bela noiva, mas, afinal, sempre foi uma beldade. Ela mal
escutou uma das palavras que ele dissera. Bem a seu
lado, estava consciente da mulher murmurando para Chase.
Desejo a ambos todas as felicidades.
E esticou-se para beijá-lo. Ficou evidente para Maggie que tinha havido
mais do que amizade entre eles. Ficou ainda mais convencida disso
quando ouviu Buck dizer, numa voz que não era para ela ouvir:
Desculpe, Chase, mas a Sally pediu para vir, para você saber que ela
não ficou zangada nem chateada.
Houve mais rostos e mais apresentações até que Maggie e Chase se
pudessem reunir aos que estavam dentro da casa, provando as guloseimas
que Ruth preparara. Ainda se passou uma hora até que os empregados da
fazenda e suas famílias começassem a ir embora da casa, bem mais
serenamente do que tinham entrado.
Enquanto Chase começava a apagar as luzes lá embaixo, Maggie ia subindo
as escadas. Parou no patamar onde as escadas faziam uma virada abrupta
à esquerda.
Cadê o Ty?
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Depois de apagar a luz do corredor que dava para a cozinha, Chase parou
para responder-lhe, erguendo secamente o canto da boca.
Pareceu achar necessário dormir nos alojamentos hoje, para podermos ter
a casa toda para nós, na nossa noite de núpcias.
Os dedos dela se curvaram no corrimão liso da escada. A menção da noite
de núpcias e das intimidades que a acompanhavam tinha causado uma
estranha sensação de enroscamento no seu estômago.
A mulher ruiva, Sally Brogan? começou Maggie, sem ter certeza por que
estava trazendo o assunto à baila, exceto que queria ver a reação do
Chase.
Ele parou naturalmente junto a uma lâmpada acesa, e virou a cabeça.
O que tem ela? O desafio era suavíssimo.
Estava-se encontrando com ela, não é?
Não houve negativa. Nem Chase pareceu pouco à vontade porque ela tinha
adivinhado.
Nunca fiz a ela nenhuma promessa foi só o que disse. A resposta dele
reabriu uma velha ferida, porque ele também
não tinha feito a ela nenhuma promessa, há 16 anos. Simplesmente
curtira os prazeres que Maggie tinha a oferecer, tomando o que aparecia
no seu caminho.
Nunca fez promessas, não é?
Sua memória é curta. Subitamente, houve um ar de aspereza nas suas
feições. Ainda hoje, mais cedo, creio que prometi "honrá-la e mantê-la
até que a morte nos separe". Moveu-se na direção da luz que brilhava na
sala de jantar.
Maggie sentiu-se abalada pela convicção na voz dele, enquanto
permanecia no patamar da escada. Nesta região, um homem cumpria sua
palavra, ou não era um homem. Uma promessa não era uma coisa que se
fizesse despreocupadamente. As juras que fizera hoje tinham sido
palavras sem sentido, para ela, um expediente para conservar Ty.
Independente do quanto ela as considerasse superficiais, o código de
Chase não permitia que ele as ignorasse. Estava preso pelas promessas
feitas, quer ela própria acreditasse que estava, ou não.
Sentiu-se vagamente envergonhada. Aos olhos de Deus e dos homens, ele
era o seu marido. Será que estava certa em ser menos do que uma esposa
para ele? No entanto, fora coagida a fazer esse casamento. Que tipo de
homem ameaçaria tirar um filho da sua mãe? Porém outra voz, mais
serena, perguntava: que tipo de mulher negava a um pai o direito de
conhecer o seu filho? Subitamente sentiu-se assaltada por uma
tempestade de dúvidas.
295
Quando ouviu os passos dele se aproximando da sala de visitas,
recomeçou a subir. Toda ess aconfusão tinha-lhe dado dor de cabeça. Não
prestou atenção ao ruído de pneus no cascalho lá fora, imaginando que
fosse um membro da festa que ia para casa atrasado. Chase também não
ligou para o ruído. Estava quase no topo das escadas quando um tiro de
fuzil explodiu na quietude da noite, arrancando-lhe um grito da
garganta.
A reverberação mal tinha terminado quando uma voz lá de fora gritou:
Calder! Quero minha irmã!
Culley! Reconheceu a voz do irmão e desceu correndo as escadas. Na
semi-escuridão da sala de visitas, colidiu com Chase. Quando tentou
passar por ele, sentiu-se envolvida por braços de ferro. Empurrou-lhe o
peito, inclinando a cabeça para fitá-lo, irada.
Quero ver meu irmão.
Ainda não. A voz dele era dura e inflexível como o seu aperto.
O tiro seguinte destroçou uma janela da sala de jantar, e Maggie foi
puxada de encontro ao peito dele, esmagada contra o seu corpo, enquanto
os ombros largos se encurvavam protetoramente para adiante, como que
para formar um escudo para ela. Espantada com esse gesto altruísta, ela
parou de se debater. Sob a cabeça, podia ouvir as fortes batidas do
coração dele. Quando não houve mais outro tiro, ele se moveu,
empurrando-a na direção da escada.
Calder! Está-me ouvindo? berrou Culley.
Estou! respondeu. E falou para Maggie numa voz baixa.
Fique aqui, e abaixada.
Ele só quer me ver argumentou ela.
Então não devia ter vindo com um fuzil replicou ele, bruscamente.
Calder! Sei que Maggie está aí! Deixe-a sair ou eu atiro em cada
vidraça da casa! ameaçou o irmão.
Chase afastou-se suavemente de Maggie e entrou nas sombras da sala de
visitas às escuras. Só respondeu depois que estava do outro lado do
aposento.
Se sabe que ela está aqui, largue o fuzil antes de feri-la.
Só o que você tem a fazer é deixá-la sair e ela não vai ficar ferida...
porque eu não vou deixá-lo feri-la desta vez! Culley ergueu a face do
fuzil para responder, enquanto se agachava atrás do capô de sua pick-up.
Houve um leve arrastar no cascalho às costas dele, um sussurro de
advertência. Ele deu meia-volta vivamente, girando com o fuzil para
responder à ameaça que vinha de sua retaguarda desprotegida. Um braço
bateu no cano, levantando-o, e a bala foi disparada inofensivamente
para o ar, enquanto três homens o atacavam. Tentou lutar contra eles,
mas eram em número maior, e mais deles vinham vindo. Algo enfiou-se na
sua barriga, dobrando-o em dois de dor, e um punho cerrado abriu o seu
lábio e jogou-o sobre a pick-up. Completamente grogue, tentou afastar a
escuridão dos olhos, mas eles o agarraram, batendo com os seus ombros e
costas contra o lado da pick-up. Sentiu um estalido de dor ao longo do
maxilar. Logo a seguir estava afundando num mar de escuridão, e nem
escutou a ordem dada:
Agora chega.
Quando Maggie escutou os ruídos de uma briga lá fora, ignorou a ordem
de Chase para ficar dentro de casa e saiu atrás dele. Culley estava
inconsciente, no chão, largado de encontro à pick-up, quando ela chegou
ao local. Nem prestou atenção aos homens que o rodeavam, enquanto
corria para junto do irmão.
O que quer que a gente faça com ele, patrão? perguntou um deles.
Chase nem teve chance de responder, enquanto Maggie dava uma olhada no
rosto machucado e no lábio ferido.
Tragam-no para dentro de casa ordenou a moça. Ninguém se mexeu para
obedecer, e ela olhou para Chase por cima do ombro, com um olhar
gélido. É meu irmão e está ferido.
A pausa não durou mais do que um batimento de coração.
Ouviram minha mulher falou Chase. Buck, você e Dave carreguem-no para
dentro de casa. Logo a seguir adiantou-se e puxou Maggie para longe do
irmão. Murmurou junto à orelha dela, a raiva vibrando no tom baixo de
voz. O que acha que eu ia mandar que fizessem com ele? Largá-lo numa
vala?
Como é que eu podia saber? sibilou ela, igualmente baixo. Deixou que o
espancassem.
Ele tinha um fuzil que estava usando. O que esperava que eles
fizessem... que lhe dessem uma batidinha amistosa no ombro e pedissem
que largasse a arma? resmungou, bem baixo, sem olhar para ela, enquanto
sua mão de aço a empurrava atrás dos dois homens que levavam Culley
para dentro da casa.
297
Capítulo XXX
À luz acesa da sala de visitas, os cortes e ferimentos não pareciam de
grande monta. Foi o estado físico geral do irmão que deixou Maggie
alarmada. Seu cabelo negro achava-se longo e sem vida, e estava magro
como um esqueleto. Havia profundas olheiras escuras no seu rosto, como
se os olhos tivessem afundado nas órbitas. Seu comportamento parecia
compreensível. Era uma mola muito bem enrolada que se soltara e ficara
errática.
Chase entregou-lhe uma dose de uísque para reviver Culley, e fez sinal
a Ty para levar embora o equipamento de primeiros-socorros. Segurando a
nuca do irmão, Maggie derramou um pouco de uísque em sua boca. Ele se
engasgou e começou a tossir, as pálpebras esforçando-se por se abrir
enquanto tentava afastá-la. Com o canto dos olhos, ela percebeu que
Chase tinha dado um passo na sua direção, pronto a interferir, se
Culley se tornasse violento.
Culley, é Maggie disse rapidamente, para acalmá-lo. Não deixou de
perceber, indiferentemente, que depois de 16 anos sendo Elizabeth, era
Maggie de novo.
Viu que Culley a focalizava, e franzia o cenho, os olhos ásperos e
vermelhos, demonstrando a tensão do trabalho demais e descanso de menos
que marcava o resto de sua pessoa.
Maggie?
Sim. Ela sorriu. Como está-se sentindo?
As mãos dele agarraram-lhe os braços, os dedos enterrando-se na sua
carne como garras de aço, revelando uma necessidade de se certificar de
que ela era real, e não uma miragem.
É mesmo você. Sorriu, e o gesto repuxou o lábio rachado e provocou uma
careta imediata de dor. Esmagou-a contra o peito, abraçou-a com toda a
força. Enterrando o rosto nos cabelos perfumados dela, fechou os olhos
para esconder as lágrimas, porque um
298
homem não deve chorar. Senti saudades falou, com voz baixa e abafada.
Também senti saudades suas, Culley.
A emoção engasgava sua voz e ela piscou para conter as próprias
lágrimas. Viu que Chase os observava com ar sombrio e lábios cerrados,
e soltou-se devagar do abraço apertado de Culley.
Você conseguiu. Culley corria os dedos maravilhados pelo rosto dela,
tocando-a numa espécie de adoração espantada. É uma bela dama. Ela
tomou a mão magra e beijou-a, piedade e culpa misturando-se nela pelo
sofrimento que ele conhecera enquanto ela vivera cercada por tudo o que
uma mulher pode desejar. Recebi o recado de Tucker de que você estava
aqui e que Calder a estava obrigando a ficar. Ergueu os olhos, tomado
de alucinação quando viu Calder e, a um canto, Buck Haskell e dois
outros vaqueiros posicionados dentro da sala, para o caso de haver
encrencas. Vamos. Vou levá-la comigo, Maggie, e eles não vão poder
deter-me.
Culley, não. A resistência dela intrigou-o, o que era aparente. Por
favor, escute-me. Preciso explicar-lhe uma coisa. Já estava procurando
as palavras para fazê-lo compreender, sabendo que não havia nenhuma.
O quê? indagou, fitando-a com olhos estreitados.
É aqui que eu moro, agora. Nós nos casamos. Falou calma e concisamente,
tentando não deixar que as palavras causassem muito impacto, mas viu o
choque e a raiva registrarem-se nas feições dele. Chase é meu marido.
Havia uma luz alucinada e instável nos olhos dele.
Esqueceu o que ele fez?
Ela deitou os dedos sobre a boca do irmão, para silenciá-lo, os olhos
suplicando para que não dissesse mais nada.
Há alguém que quero que conheça. Tentou distraí-lo, e virou-se para
chamar Ty. Levantando-se do seu assento bem na beirada do sofá, foi
pegar a mão do filho para puxá-lo mais para perto. O garoto estava com
a testa franzida, confuso e desconfiado, constrangido com a atitude e
comportamento estranhos do homem que era seu tio. Culley se pôs de pé,
inseguro, olhando com suspeita para o menino com a irmã. Este é meu
filho, Ty. Apresentou o filho e sorriu. Este é o seu Tio Culley.
Como está, senhor? Ty estendeu a mão formalmente, mas Culley nem a
notou enquanto o examinava com um olhar penetrante que aumentava o
desconforto do filho... e de Maggie.
Culley? Instou-o nervosamente a dizer qualquer coisa, um pouco
assustada pelo longo silêncio.
299
Saia de perto dele, Maggie ordenou Culley, e estendeu a mão para pegar
a dela, sem deixar de fitar o garoto alto. Ela hesitou, depois colocou
a mão na dele, deixando que a puxasse. Olhe para ele insistiu o irmão,
com olhos ardentes. Não está vendo? É um Calder!
Ela sentiu o rápido bater de sua pulsação e tentou desviar Culley
daquela condenação com o tom calmo e razoável da voz.
Ele é meu filho.
Culley puxou-a para si, segurando-a pelos ombros para mantê-la imóvel.
É o filho dele, Não está vendo? As palavras se atropelavam. Por que o
trouxe de volta? Por que não se livrou dele? Não está vendo, Maggie?
Agora são dois deles! São tão fortes quanto eram antes! Tem que vir
embora comigo esta noite, Maggie! Tem que me ajudar a me vingar deles
pelo que fizeram! Você finalmente voltou para me ajudar, não foi? Temos
que nos vingar deles pelo que fizeram!
Os olhos dela ardiam com lágrimas não derramadas ao ver como o ódio
tinha destruído o irmão, cegando-o a tudo exceto à sua obsessão em se
vingar dos Calders. Ele se alimentava do ódio, ao invés de comida,
dormia com ele, ao invés de descansar, respirava-o como um ar
envenenado. Jamais tinha deixado a ferida sarar, e ela tinha
infeccionado sua alma.
Oh, Culley sussurrou, debilmente. Por que não veio para a Califórnia
comigo?
Maggie não notara que, às suas costas, Chase fizera sinal para um dos
homens, indicando que queria que Ty fosse levado da casa antes que sua
presença precipitasse um incidente violento. Ela fitou o brilho de suor
na testa de Culley, um indício do inferno que vivia dentro dele.
Eu tinha de ficar! A voz dele ergueu-se a um tom alto e dissonante, em
resposta à pergunta dela. Você tem que vir comigo, Maggie! Preciso de
ajuda!
Ela gemeu, porque ele precisava. As mãos dele apertaram-lhe os ombros.
A dor que aquilo lhe causou deu-lhe uma indicação das forças que o
apertavam e pressionavam. Enfiou os dentes no lábio inferior para não
gritar um protesto pelo modo como ele a estava machucando. Mas logo não
precisou mais fazê-lo, pois Buck e o outro vaqueiro chegaram por trás
dele, tomando-o firmemente pelos braços e forçando-o a soltá-la. Culley
levou um segundo para se dar conta do que estava acontecendo e começar
a se debater para se soltar. Ela deu um passo instintivo na direção do
irmão, querendo ajudá-lo de alguma forma, mas um par de mãos fechou-se
nos pontos encurvados dos seus ombros. Chase estava atrás dela.
300
Quando a imagem dele apareceu para ficar ao lado de Maggie, Culley
começou a gritar:
Largue-a! Não vai mantê-la aqui! Vou tirá-la de você e mandá-la para
bem longe daqui, como já fiz uma vez! Não pode ficar com ela! Está-me
ouvindo, Calder?!!
Não. Ouça-me você, Culley. A voz dura dele era nítida
e forte. Não posso impedir Maggie de visitar o irmão dela, mas
você jamais ponha os pés em terra Calder de novo. Havia um tom
agourento na fria advertência. A seguir, Chase estava-se dirigindo a
seu amigo e capataz. Buck, acompanhe-o para fora da propriedade, e não
o deixe até que esteja fora da Triplo C.
Torcendo os braços bem no alto de suas costas, os dois homens foram
quase carregando Culley para fora da casa, até a pick-up.
Vou com O'Rourke para me certificar de que não vai inventar nenhuma
gracinha daqui até a porteira principal falou Buck. Você segue a gente,
Dave.
Certo.
Maggie não resistiu à pressão das mãos que a afastaram da porta da
frente. Ergueu os olhos para a fisionomia máscula e severa.
Estou falando sério. Não quero vê-lo nunca mais em terra Calder repetiu
Chase.
Ele é meu irmão.
Foi por isso que saiu daqui andando. As mãos dele a apertaram, como se
quisesse sacudi-la para a percepção do quanto ele se contivera. Voltou
a se controlar, contraindo um músculo ao longo do maxilar. Não posso
impedi-la de vê-lo do lado de fora desta fazenda. Creio que jamais a
magoará, mas vi o jeito como olhou para o Ty.
O medo a sufocou por um instante, porque ela também o vira, e aquilo a
assustara.
Ele precisa de ajuda.
O apelo mudo nos olhos verdes tocou Chase.
Eu sei. Tomou-a meigamente nos braços, deixando a cabeça dela pousar no
seu peito. O queixo roçava os cachos lustrosos do lado da cabeleira da
moça. Mas não há nada que você possa fazer por ele, Maggie. O que ele
precisa é de ajuda profissional. Esfregou as mãos nas costas dela. Sua
intenção era confortá-la e tranquilizá-la, mas também estava sentindo
os contornos femininos do corpo esbelto. Aquilo mexeu nos desejos que
dormiam dentro dele. Como se pressentisse a mudança, ela saiu dos seus
braços, e Chase a soltou. Vou ver o Dr. Barlow amanhã
301
e pedir-lhe para dar uma passadinha na casa do Culley uma noite dessas,
para falar com ele. Quem sabe seu irmão o escutará sugeriu, notando que
ela estava evitando os seus olhos.
É. Era uma concordância simples, sem sentimento ou especulação. Foi-se
dirigindo para as escadas. Boa noite. Também a despedida era morta,
despida de emoção.
Maggie? A urgência baixa da voz dele fê-la levantar a cabeça,
vivamente. Parecia frágil e quebradiça. Você está bem?
Ela tremulou, depois acenou com a cabeça, friamente.
Estou.
Depois que desapareceu escada acima, Chase saiu silenciosamente da casa
e ficou parado na varanda, onde a friagem do ar o inundou.
A manhã já ia pelo meio, quando Chase conseguiu arranjar algum tempo
livre no seu horário. A buzina de um veículo fê-lo parar perto do
armazém. Virou-se, impaciente com o atraso, e viu Nate ao volante de
uma pick-up, a cabeça enfiada para fora da janela.
O garoto está limpando o estábulo dos garanhões, hoje! gritou-lhe.
Um sorriso enviesou-lhe a boca, enquanto fazia um esboço de saudação ao
velho capataz. Aquele velho sabia ler os seus pensamentos. Alterou o
seu rumo e dirigiu-se para o estábulo isolado onde os garanhões da
estância eram mantidos separados dos demais cavalos. Ty se encostava
numa cerca resistente, uma bota apoiada no pau inferior e os braços
cruzados sobre o pau superior da cerca. Um carrinho de mão cheio de
estrume e palha estava a seu lado. Chase diminuiu o passo para examinar
o perfil confuso e levemente deprimido do filho. Quando se aproximou do
garoto, fitou deliberadamente o cavalo amarelado dentro do curral, como
se ele fosse realmente o objeto dos pensamentos de Ty.
O garanhão é um animal e tanto, não é? comentou Chase, consciente do
sobressalto de culpa de Ty por ter sido apanhado vadiando no serviço.
É, sim, senhor.
Cougar era a montaria pessoal do meu pai, e é provavelmente o melhor
cavalo para isolar vacas que temos na fazenda. Ele passa para sua
descendência esse jeito com as vacas. Isso é que o torna um reprodutor
tão bom.
Examinou o focinho pesado do garanhão, que ia embranquecendo.
Ninguém mais o monta? perguntou Ty, com interesse apenas superficial.
302
Não. Aposentei-o e deixei-o como reprodutor, quando meu pai morreu e
deixou a fazenda para mim. Chase fez uma pausa, depois continuou no
mesmo tom de conversa: É natural que esteja confuso e perturbado com o
que aconteceu ontem à noite, Ty.
O garoto pareceu surpreso, depois enfiou a ponta da bota na
terra.
Por que ele me odeia?
Ele não o conhece, portanto não é a você que odeia... é o que você
representa. Fora difícil para ele aceitar quando era jovem. Não seria
mais fácil para o filho. Você é um Calder.
Por que ele devia odiar um Calder? A resposta não fazia sentido para
ele. A ruga da sua testa ficou mais profunda, quando viu o pai abaixar-
se e apanhar um punhado de cascalho, penetrando-o entre os dedos.
Se um homem está andando e cai, automaticamente olha para ver o que
provocou sua queda. Chase se abaixou de novo e apanhou um pedaço grande
de cascalho. Ele vai culpar esta pedra grande... ou esta pedrinha?
Mostrou ao filho as duas pedras de tamanho diferente na palma da mão
coberta de couro.
A pedra grande. Era óbvio.
Porque é a maior. Portanto, sempre leva a culpa. Mas quem pode dizer
que esta pedrinha não estava embaixo da rocha, e quando se mexeu forçou
a rocha a se mexer?
Acho que podia ser admitiu Ty.
Quando as coisas dão errado para alguns homens nessa área do Estado,
eles procuram alguém em quem botar a culpa. E lá estão todos esses
quilómetros quadrados da Triplo C, tão maiores do que qualquer coisa à
sua volta. Botam a culpa na gente. Por exemplo, o preço do gado cai.
Todos os outros pequenos fazendeiros apontam o dedo para nós porque
alegam que saturamos o mercado.
Observou a ruga da testa do filho transformar-se num ar pensativo.
Quando se é grande e próspero, sempre há gente querendo derrubar-nos.
Eles se mexem... e a rocha se mexe. Às vezes, a rocha cai em cima da
pedrinha. É aí que o ressentimento pode transformar-se em ódio.
O que aconteceu para fazer com que meu tio nos odiasse?
Ty ergueu os olhos das pedras que Chase segurava e perscrutou seu rosto.
Um conjunto de coisas, Ty. Algumas delas remontam ao tempo do pai dele
e do meu, e à sua mãe. Depois que assumi o controle da fazenda, Culley
e eu tivemos um desentendimento. É uma história muito longa, mas ele
acredita que tem um bom motivo para odiar os Calders. E há quem
concorde com ele acrescentou
303
Chase, com um leve dar de ombros. O que você precisa lembrar, Ty, é
que, quando alguém odeia, não deve encorajar isso como coisa pessoal.
Não é uma condenação de você como indivíduo, portanto não fique
pensando que existe algo errado com você. Continue fazendo o que acha
que é direito e justo, e deixe os outros pensarem o que quiserem.
É suspirou o jovem, uma resignação sombria instalando-se na sua
expressão. Chase fechou a mão enluvada em volta das duas pedras, depois
largou-as ao solo.
Não acha melhor ir trabalhar? sugeriu.
Certo. Ty forçou um sorriso e se virou para o carrinho de mão. Chase
observou-o por um segundo, antes de ir cuidar das próprias tarefas.
Maggie ficou surpresa ao ver com que rapidez se acomodou de novo à
rotina da vida na fazenda. Dentro de duas curtas semanas, era como se
tivesse estado fora apenas alguns meses, ao invés de 16 anos.
Levantava-se com o Sol e já estava com o café na mesa, quando Ty e
Chase desciam. Ruth deixara de bom grado as tarefas da cozinha para
Maggie, embora ainda ajudasse na limpeza da casa.
Mas era mais do que simplesmente preparar refeições e cuidar da casa, o
que fora responsabilidade de Pamela supervisionar quando Maggie
estivera casada com Phillip. A terminologia da fazenda e o jargão do
Oeste voltaram à sua cabeça, ínserindo-se naturalmente na sua conversa.
Depois de duas tardes montando a cavalo, adaptara-se, do modo de
cavalgar inglês, ao estilo do Oeste, menos estruturado. Havia breves
momentos, quando estava cavalgando, em que chegava a se esquecer que
não tinha vivido sempre nesses vastos espaços abertos. Durante os seus
passeios, aos poucos começou a notar menos a beleza natural e a prestar
mais atenção a assuntos terra-a-terra como a condição do pasto ou das
cercas, e a quantidade de água existente. Essas observações ela
transmitia distraidamente a Chase durante a refeição, em conversa.
Por três vezes tinha ido até a casa do irmão, sem encontrá-lo. -Essas
visitas ela não mencionou a Chase. Era difícil descrever seu
relacionamento com Chase. Raramente o via, exceto às refeições. Ele
passava as noites no escritório com um sem-fim de papéis que não podiam
ficar entregues a seus contadores, já que exigiam sua atenção pessoal.
No todo, eram mutuamente civilizados, com breves momentos em que
chegavam a relaxar na companhia um do outro, e outros momentos em que
sua conversa era afetada e forçada. Os últimos ocorriam quando Maggie
não podia fingir que ele não existia e que ela não estava usando sua
aliança. Invariavelmente, coincidiam com as épocas em que ansiava ser
abraçada e tocada... e os desejos naturais e biológicos do seu corpo
não estavam sendo satisfeitos. Não era fácil olhar para ele, então, e
não se lembrar de outros dias em que ele cuidara tão completamente
dessas necessidades. Para piorar as coisas, Chase era tão danado de
atraente naquele jeito rude e curtido de um Calder.
Vendo-o diariamente e observando-o com Ty, estava ficando cada vez mais
difícil convocar sua velha antipatia e fazer com que ela viesse com a
mesma intensidade feroz de antigamente. Nas noites em que não conseguia
dormir, ficava deitada na cama e deliberadamente comparava Chase com
Phillip: Phillip com as suas belas maneiras, vestimentas impecáveis e
charme distinto, versus Chase, com sua autoridade rude, roupas
grosseiras e mundanidade crua. Com Phillip, estivera emocionalmente
segura. Com Chase, não estava.
As longas cavalgadas à tarde funcionavam para encher o tempo e para se
afastar da influência dos Calders na casa. Jamais admitiu que o que
buscava era exercício para ficar bem cansada à noite e pegar no sono.
Vestir-se especialmente para o jantar era uma tentativa de manter vivo
o elo com o antigo casamento, quando aquilo era o costume, e não um
desejo de impressionar o Chase.
Ameaçara chuva o dia inteiro, portanto ela ficara dentro de casa. Sendo
assim, Maggie concentrou seus esforços em preparar um jantar especial
para aquela noite. Fora procurar Tucker no barracão da cozinha e
pedira-lhe que cortasse fatias de costela de primeira de uma das
carcaças mantidas no congelador grande para o consumo na fazenda. Todos
os pratos que escolheu para acompanhamento eram os favoritos de
Phillip: desde a entrada de toranja grelhada até os petit-pois e as
cebolinhas num molho leve de creme. Até mesmo o vestido que usava era
um que lhe agradava particularmente, um vestido de seda de azul-pavão
com desenhos em tom de verde.
No final de um dia de trabalho, Chase sempre tomava banho antes de
sentar-se para jantar. Como concessão ao hábito dela de se vestir com
elegância para o jantar, ele geralmente punha uma camisa branca, mas
aberta no pescoço e com os punhos enrolados para deixar à mostra os
pulsos chatos e largos e os antebraços peludos. Ty o copiava.
Foi a mesma coisa naquela noite, quando os dois entraram na sala de
jantar. Chase mal olhou para ela, enquanto prestava atenção na mesa,
posta com a louça especial, taças de vinho, e os castiçais de prata
pesados. Dirigiu-se para a cabeceira, erguendo uma sobrancelha
indagadora na sua direção.
305
Qual é a ocasião especial? perguntou.
Nenhuma insistiu serenamente, depois foi para a cozinha buscar a
entrada de toranja.
Maggie tinha plena ciência de que, conquanto Ruth Haskell fosse uma
excelente cozinheira, não tinha imaginação. Suas refeições sempre eram
variações do mesmo tema: sopa, carne, batatas, legumes e sobremesa.
Assim, quando Maggie colocou a meia toranja grelhada diante de Chase,
observou o leve alçar surpreso de sua sobrancelha, mas ele não fez
comentário sobre a mudança do cardápio. Nem mesmo disse se tinha
gostado ou não, o que a deixou vagamente irritada. Nem fez comentários
sobre a salada, feita com espinafre fresco que ela colhera da horta de
Ruth. O molho era feito de uma receita que Maggie copiara da cozinheira
de Phillip. Nenhuma apreciação foi expressa pela variedade que
conseguira injetar na dieta deles, ou por suas habilidades culinárias.
A costela tinha saído perfeita: suculenta, malpassada e tenra. Quando
serviu a Chase o prato principal, ele o fitou.
Esta carne não está cozida.
Claro que está. As costelas de primeira são para serem servidas
malpassadas. Olhou para o filho. Quer passar o molho de rábano
silvestre?
Quando Ty começou a estender a mão para a molheira de prata, Chase
declarou:
Prefiro a minha carne bem passada. Quer levá-la para a cozinha e
terminar de cozinhá-la? A pergunta era uma ordem.
De jeito nenhum! Maggie recusou vivamente, porque tinha-se dado a tanto
trabalho para tudo sair perfeito, inclusive a costela.
Dobrando o guardanapo ao lado do prato, Chase afastou a cadeira da
mesa, e se levantou. Maggie fitou-o, franzindo a testa. O que está
fazendo?
Se você não quer cozinhá-la, cozinho eu replicou, e foi indo para a
cozinha, levando seu prato.
Ela ficou olhando para ele, por um instante espantada. Logo a seguir
estava de pé, seguindo-o zangada. Entrou na cozinha quando ele estava
espetando a costela com um garfo e colocando-a na assadeira para ir ao
forno.
Não percebe a trabalheira que tive hoje? A voz dela tremia com o
esforço para controlar a cólera. Esforcei-me tanto para que tudo saísse
perfeito, e você está estragando tudo!
Devia ter-se lembrado de que gosto da minha carne bem passada.
306
Gosta? Você não tem absolutamente gosto nenhum! Os seus maxilares
estavam cerrados. Ficaria contente com filé e batatas.
Ele apoiava as mãos nos quadris, enquanto a fitava.
Estava com um palpite que tudo isto ia dar em alguma coisa. Se não, por
que toda essa exibição de habilidades de gourmet!
Como se você já tivesse provado outra coisa que não bifes estorricados
ironizou ela.
Ele estreitou os olhos.
Fique sabendo que já comi toranja grelhada mais gostosa em Dallas, e o
molho da salada tinha vinagre demais. A crítica dele fê-la parar de
chofre. Não faço objeções à variedade. E não faço objeções ao incomum.
Mas, na próxima vez em que quiser exibir-se, não o faça com o nariz no
ar, pensando que é a única que conhece o que é bom. E não se esqueça...
gosto da minha carne bem passada!
Ela rodopiou para longe dele, sentindo a dor dos comentários, porque
eram verdadeiros. Tinha querido provar que ele não entendia nada da boa
cozinha. Tinha querido a chance de ser condescendente, dona da verdade.
Tinha querido ser melhor do que ele, para que fosse menos digno do
interesse dela. Tinha querido que ele fosse o roceiro, enquanto ela era
a dama. Mas agora ela era que saía ferida do entrechoque.
Enquanto entrava na sala de jantar, deparou com Ty que saía, carregando
o prato com a carne na mão.
Aonde está indo com isso?
O rapaz deu de ombros, pouco à vontade.
Nunca comi costela de primeira bem passada; achei que devia
experimentar.
Mas você sempre gostou dela malpassada protestou. Esta parecia a
deserção definitiva.
Nunca a comi de outro jeito, portanto como é que vou saber que é o
único jeito de que gosto? argumentou ele.
E Maggie sentiu-se impotente para discutir contra isso. Comeu sua carne
malpassada sozinha, enquanto o marido e o filho esperavam na cozinha
que a sua carne ficasse bem cozida.
307
Capítulo XXXI
O capão baio forçava o freio, dançando de banda na sua ansiedade de
chegar aos estábulos, mas Maggie manteve o passo num caminhar rápido
enquanto entravam no pátio da fazenda. Viu Tucker acenar para ela da
porta dos fundos da cozinha e fazer sinal de que queria falar com ela.
Foi levando o cavalo que protestava na direção dele, o baio relutante
em ser desviado dos estábulos e do cereal que o esperava.
Alo! Freou o cavalo e saltou da sela quando chegou junto de Tucker. Uma
cavalgada animada trouxera cor às suas faces e despenteara os cabelos
pretos que apareciam por debaixo do chapéu.
Culley mandou recado que queria vê-la às quatro horas junto à porteira
leste do pasto norte. Tucker não perdeu tempo dando o recado. Tome as
chaves da minha camionete. É a verde. Você está em cima da hora. Pode
deixar que cuido do seu cavalo.
Uma rápida olhadela no seu relógio confirmou o que ele dizia, e ela
passou-lhe as rédeas do cavalo e pegou as chaves que ele oferecia. O
impacto total do recado só a atingiu depois que virara na estrada da
fazenda que dava para o norte. Culley tinha pedido para se encontrarem
no pasto norte... onde ela e Chase costumavam encontrar-se. Propriedade
dos Calders. E Chase o advertira de que não botasse os pés em sua terra.
O pé dela apertou o acelerador e a agulha do velocímetro subiu para 90.
Ficou subitamente amedrontada com o risco que o irmão estava correndo,
deliberadamente desafiando Chase... como seu pai havia desafiado a
advertência do pai dele. Uma nuvem de pó seguia o veículo que corria
pela estrada.
Quando se acercou do pasto norte, diminuiu a velocidade ao ver um
cavalo e cavaleiro a meio galope por um trecho aberto.
308
Por um instante, Maggie pensou que o cavaleiro era o irmão, e teve
outro momento de medo por vê-lo cavalgando tão abertamente pela terra
dos Calders. Então, reconheceu Buck Haskell. Felizmente, ele estava
indo na direção oposta à porteira leste. Ela soltou um suspiro de
alívio.
Não havia sinal de Culley quando ela chegou ao local combinado para o
encontro. Saltou da camioneta e olhou para o relógio. Estava cinco
minutos atrasada. Será que ele tinha ido embora, quando ela não
aparecera na hora? Esperava que sim.
Postes altos ladeavam as duas extremidades da porteira para marcarem
onde ela estava localizada, para que um cavaleiro pudesse enxergar de
longe o lugar para onde se dirigir. Maggie subiu até o segundo pau mais
alto da cerca para ver se ainda enxergava Culley, e usou o poste alto
na extremidade como ponto de apoio.
Um assobio agudo veio do meio das árvores junto ao rio sinuoso. Maggie
olhou à sua direita e viu o cavalo e o cavaleiro nas sombras. Culley
acenou para ela com o chapéu. Ela jogou uma perna por cima do pau
superior da cerca, firmando o pé no mesmo pau do lado oposto.
Rapidamente passou também a outra perna e saltou para o chão. Apressou-
se a cruzar o espaço aberto e entrar no meio das árvores.
O que está fazendo aqui, Culley? Vi Buck Haskell indo daqui para o sul.
Se ele o encontra...
Não se preocupe com ele. Ignorou a preocupação dela. Já se foi há muito
tempo, para a fazenda. Ele estava com ar de imprudência, podia ver nos
olhos dele. Sabia que você viria.
Você mandou chamar-me. Claro que vim. Tentou acalmar os seus próprios
nervos antes de tentar raciocinar com ele e convencê-lo a ir embora
antes que fossem descobertos.
Você pode estar casada com Calder, mas sua família ainda é importante
para você. Falou as palavras com ferocidade, como se precisasse da
reafirmação da lealdade dela.
Você é importante para mim. Exceto pelo Ty, é a única família que tenho.
Agarrou-a pelos ombros de novo, como o havia feito naquela noite na
casa, e olhou fundo nos seus olhos.
Por que fica aqui? Por que não vem para casa, que é o seu lugar?
Não posso deixar meu filho. Ty tem apenas quinze anos. Culley, ele
precisa de mim.
Mas ele não presta. É um Calder. Deixe-o, Maggie. Deixe-o antes que
seja tarde demais. Você tem que sair daqui. Não a quero metida nisso.
309
Metida no quê? Do que está falando? Maggie franziu o cenho, preocupada
com a intensidade da voz do irmão.
Ele sacudiu a cabeça com impaciência, ante a interrupção das perguntas
dela.
Você tem que confiar em mim, Maggie. Não fiz a coisa certa quando a
mandei para longe daqui antes?
Sim, mas...
Então confie em mim agora insistiu. Sei que Calder se casou com você,
mas não se importa com você. Só o fez porque queria o filho. Já tem uma
amante na cidade, então o que quer com você? Tentei dizer a Sally que
ele a magoaria, mas ela não quis me escutar... como você não quis me
escutar há muito tempo. Mas eu tinha razão. Tem que me escutar agora,
Maggie. Ele vai magoá-la. Quando tudo isso começar, vai-se virar contra
você.
Tudo no irmão era rápido e inquieto, o seu humor mudando de exigências
iradas a súplicas mansas num espaço de segundos. Essa flutuação louca
alarmou Maggie, embora tentasse não demonstrar.
Estou escutando assegurou-lhe. Mas por que não confia em mim, Culley?
Fica me dizendo que vou ficar magoada quando tudo isso começar, mas não
quer me contar o que vai acontecer. Por que não confia em mim?
Não lhe posso dizer, não está vendo? Uma veia saltava nitidamente na
sua testa enquanto continuava, com insistência: Até você estar
definitivamente fora da fazenda dele, não posso arriscar-me a que
Calder ache um jeito de fazê-la falar. Você amoleceu vivendo na cidade,
Maggie. Está acostumada a ser enrolada em algodão e tratada como uma
dama. Esqueceu como se é uma mulher, por essas bandas.
Posso ter-me esquecido de algumas coisas como a promessa de compromisso
inerente na palavra de um homem, ou como são fortes as necessidades
básicas entre um homem e uma mulher mas não amoleci, Culley.
As linhas duras à volta da boca do homem afrouxaram-se, permitindo um
sorriso fugaz.
Talvez não. Mas tem que ir embora desse lugar. Vamos finalmente nos
vingar dos Calders por terem enforcado papai. Nós temos um plano.
Nós? Tucker também está metido nisso? Havia surpresa na voz dela,
porque acreditava que Tucker tinha deixado tudo isso para trás.
Ele lançou-lhe um olhar vivo, astuto.
Não há como chegar aos Calders pelo lado de fora. Mas, pelo lado de
dentro sua barriga está exposta. Desta vez, nós o pegaremos. Mas você
tem que ir embora antes que tudo comece a acontecer. Não há muito tempo.
Quando vai começar? perguntou.
Logo - era só o que ele dizia. Você tem que ir embora, Maggie. Quero-a
longe, onde esteja segura. Você acha que, porque ele se casou com você
tudo vai ficar bem, mas não vai. Nunca ficará até que Calder esteja na
sepultura.
Culley... De repente sentiu muito medo... medo por ele e medo por
Chase. Contudo, no fundo do seu coração, não podia acreditar que o
irmão pretendesse matar Chase. Falara apenas figuradamente. Nem mesmo
no seu momento mais alucinado seria capaz de um ato de tal violência.
Culley começou de novo, numa voz mais controlada, desviando-se do
assunto. vi o Dr. Barlow na cidade, no outro dia. Mentia, porque fora
Chase quem falara com ele. Mencionou que estava planejando fazer-lhe
uma visita. Apareceu por lá?
Apareceu. Soltou-a. Os ombros de Maggie ardiam onde ele os agarrara com
tanta força. Passou por lá na semana passada, disse que eu parecia
cansado e com excesso de trabalho, e queria que eu fosse ao consultório
para me examinar. Falou que podia me dar uns comprimidos que me fariam
descansar melhor à noite.
Pois é insistiu Maggie.
Pensei que você compreenderia. Olhou para ela, com ar sombrio. Não
quero descansar até ter acertado as contas com Calder. Caminhou até o
cavalo e montou. Não fique lá, Maggie. Não posso tomar conta de você
como devia quando você está lá. Girou o cavalo e entrou no meio das
árvores, desviando-se de um galho baixo.
Naquela tarde, ela mal teria tempo de se trocar para o jantar antes de
Chase chegar em casa. Falaria muito pouco durante a refeição, e comeria
menos ainda. Sentia grande vontade de contar a Chase o seu encontro com
Culley, de avisá-lo, mas precisava pensar no irmão. Talvez não tivesse
falado a sério. Talvez estivesse apenas falando por falar.
Externamente, parecia muito calma e quieta, mas por dentro era uma
massa de incerteza. Como poderia deter o irmão, quando não sabia o que
ele ia fazer, ou até mesmo se ia fazer alguma coisa?
Chase andou até a varanda, sacudindo a poeira da roupa com o chapéu.
Uma série de pequenas irritações naquele dia o deixara de péssimo
humor. Não que estivesse no melhor dos humores,
311
nesta última semana. Maggie andava silenciosa demais, mal falava com
ele.
Dentro da casa ele parou, prestando atenção, mas nenhum som o recebeu.
Era cedo. Maggie provavelmente ainda estava andando a cavalo. Gostaria
de saber aonde ia nos seus passeios... e quem encontrava... se era o
irmão, ou outra pessoa. Parara de mencionar as condições na parte do
pasto em que tinha cavalgado, o que o fazia suspeitar de que tinha o
pensamento noutra coisa, enquanto estava lá.
As perguntas sem resposta, as suspeitas semiformadas estavam na sua
cabeça, martelando-o, até que de dois pensamentos seus, um era sobre
ela. Ele lhe dissera desde o começo que era livre, que podia ir e vir
como lhe desse na telha. O casamento era uma mera formalidade para
assegurar sua posse do Ty, portanto ele não tinha base para exigir uma
prestação de contas das atividades dela, quando estava longe dele. A
possibilidade de que se estivesse encontrando com outro homem que não o
irmão despertava-lhe sentimentos semelhantes ao ciúme.
Tendo alguns telefonemas a dar, entrou no escritório, mas se dirigiu
para o bar, ao invés da escrivaninha, e se serviu de uma dose de uísque
puro. Engoliu metade de uma vez, dando início a um fogo de encontro que
ele esperava que apagasse as brasas ardentes do seu ciúme. Esparramou-
se numa poltrona de couro, recostando a cabeça para fitar a lareira de
pedra. Acendeu uma cigarrilha comprida e manteve-a entre os lábios.
Será que algum dos seus ancestrais suportara casamentos com quartos
separados? Se um homem não conseguia conservar a mulher em casa, não
era grande coisa como homem. Contudo, ele dera a sua permissão.
Tanta energia tensa jazia dentro dele, sem o alívio, toda a frustração
do desejo sem o direito de possuir, porque abrira mão dele. Engoliu o
resto da bebida e se pôs de pé com uma tensão animal. Depois de dar um
passo na direção do bar, Chase parou. Embebedar-se não era a resposta.
Jogou o copo sobre uma mesa e deu meia-volta. Trabalhar. Encher a
cabeça com outros pensamentos. Deixar o corpo tão exausto que só
tomasse consciência da necessidade física do sono.
Caminhou até a escrivaninha para dar os tais telefonemas e parou de
chofre com as mãos nas costas da cadeira giratória. Toda a cor lhe
fugira do rosto. Bem no meio do tampo da escrivaninha havia um laço de
forca feito de barbante branco. Era uma réplica exata, descendo aos
mínimos detalhes das nove voltas que formavam o nó do carrasco. Como
chegara ali? Quem o pusera ali? Quem conheceria o significado? Apenas
um punhado, e a maioria deles Chase podia
312
deixar de lado. Isso deixava apenas três: Maggie, Culley e Tucker.
Maggie era sua mulher, mas não podia ser eliminada da lista. Uma raiva
fria tomou conta dele. No passado acreditara que ela era inocente do
roubo do gado, mas ela sabia de tudo... até tomara parte numa das
incursões.
A porta da frente se fechou, e ele virou a cabeça na direção do som.
Ouviu os passos... leves, espaçados. Era Maggie. Escutara o caminhar
dela vezes sem conta durante as noites em que ficava trabalhando no
escritório. Caminhou até as portas duplas, para abri-las.
Maggie? Seu tom de voz peremptório deteve-a a meio caminho da sala de
visitas, balançando o Stetson na mão. Parecia cansada e ruborizada pelo
passeio. Quando se virou, ele notou o modo como os seios altos
empinavam a frente da blusa de algodão. Quer entrar aqui um minuto?
Quero falar com você.
Ela concordou naquela maneira quieta e concisa que o provocava com sua
indiferença.
Claro. Dirigiu-se para ele, passando os dedos pela cabeleira que se
encrespava quase até os ombros.
Ele esperou até que ela chegasse à porta antes de virar-se para
acompanhá-la até a escrivaninha. Com o canto dos olhos viu o primeiro
tremor do choque, e virou-se para observar a reação dela. A moça tinha
parado, os olhos arregalados fixos na forca em miniatura, enquanto seu
rosto ficava mortalmente pálido. Aquela era uma reação que nenhuma
atriz poderia fingir. Ela não tinha ideia de que aquilo estava ali,
deu-se conta ele, ou estaria melhor preparada. A raiva que restava
dentro dele foi dirigida a si mesmo por ter feito isso com ela.
Maggie falou bruscamente, para quebrar o encanto mórbido do laço de
forca.
O olhar dela desviou-se para ele, as lágrimas subindo-lhe aos olhos.
Essa é a sua ideia de uma brincadeira cruel? perguntou ela engasgando-
se nas palavras amargas.
Precisava saber se você sabia respondeu, dirigindo-se ao bar para
servir-lhe um drinque. Ela o seguiu parte do caminho.
Se eu sabia? Apertava os dedos contra o peito, enfatizando as palavras
enquanto exigia uma explicação.
É. Aquilo foi deixado sobre a mesa para que eu o encontrasse... não
você.
Estendeu para ela o copo com uma dose de uísque. Ela o afastou para o
lado com um gesto impaciente.
Não quero. Quer dizer que alguém... Franziu o cenho e não completou a
frase.
313
Sim.
Mas quem poderia... Interrompeu-se de novo.
A lista de possibilidades é muito curta. Chase ficou olhando para o
copo ainda na sua mão, depois ergueu os olhos para encontrar os dela.
Tem visto seu irmão ultimamente?
Ela se dirigiu para uma janela, ficou olhando para fora e crispando as
mãos diante de si.
Tenho, sim.
Lembra-se de alguma coisa que ele tenha dito?
Disse um monte de coisas alucinadas, mas sempre falou em se vingar.
Mesmo nas suas cartas, estava sempre falando nisso. Mas nunca fez
nada... durante todo esse tempo.
O laço do carrasco é mais do que simples conversa fiada.
Eu sei. Baixou os olhos para as mãos. Ele é meu irmão, Chase. Estou
preocupada com ele.
As suas táticas de fazer medo... ou seja lá que nome dê a elas... não
vão funcionar. Pode dizer-lhe isso por mim falou, sombriamente.
Ela virou a cabeça para olhar para ele, um certo desespero na sua
expressão aparentemente calma.
Não quero que nada aconteça a ele.
As narinas dele se dilataram de raiva contida.
Não liga porra nenhuma para o que me aconteça!
Claro que ligo! As chamas ardentes nos seus olhos o queimaram. Por um
minuto, Chase pensou que tinha tocado a antiga Maggie. Porém elas logo
foram contidas com um frio controle.
Ligo para qualquer ser humano.
É mesmo? zombou ele, enquanto ela olhava de novo pela janela. Às vezes
eu duvido. Percebeu os movimentos das suas mãos e baixou os olhos para
vê-la girando a aliança para lá e para cá no dedo. A aliança está
frouxa demais? O seu pensamento simbólico era fazê-la mais justa e
cortar toda a circulação.
Não. Ela olhou para baixo, como se não tivesse percebido anteriormente
o que estava fazendo. Só que estou acostumada com a aliança do meu
marido.
Eu sou o seu marido. A boca do homem era uma linha branca e estreita.
Ela ficou imóvel.
É. Era uma afirmação serena. Logo a seguir ergueu a cabeça, tão
tranquila e controlada que ele teve vontade de sacudi-la.
Com licença. Preciso tomar banho e trocar de roupa antes de preparar o
seu jantar. Afastou-se sem olhar para ele e deixou a sala.
314
Chase escutou os passos que a levavam para longe dele. Enquanto Maggie
subia as escadas, ele engoliu a dose de uísque que tinha servido para
ela e agarrou com força o copo vazio. Num assomo de raiva, arremessou-o
contra a lareira, onde o objeto se espatifou e caiu no chão enegrecido.
Na manhã seguinte, Maggie estava tirando o pó dos móveis da sala
enquanto Ruth passava a vassoura com um pano no chão de azulejos. Ouviu
Chase entrando mas não olhou em sua direção, presumindo que ele iria
para o escritório. Levou vários segundos para sentir o toque do seu
olhar sobre si e dar-se conta de que a estava observando. Virou-se
repentinamente, pegando-o de surpresa e enxergando o ar esfaimado nos
seus olhos, antes que ele pudesse apagá-lo. Ela sentiu o pulso se
acelerar fortemente perturbada por aquela visão das necessidades dele.
Não vou ficar na fazenda hoje, portanto não venho almoçar falou. Pode
ser que chegue em casa tarde. Se eu não chegar até às sete, não me
esperem para jantar.
Está bem. Maggie manteve a voz serena. Ao invés das roupas habituais
da fazenda, ele estava vestindo um terno estilo do Oeste e camisa
branca, ajustados ao corpo largo e musculoso. O efeito era de poder e
autoridade... e de facilidade em lidar com eles.
Parecia prestes a dizer outra coisa, depois mudou de ideia quando olhou
para Ruth. Pondo na cabeça um Stetson de cor creme, virou-se e caminhou
até a porta. Quando ela se fechou às suas costas, Maggie soltou a
respiração que estivera prendendo inconscientemente, e se inclinou para
terminar de tirar o pó de uma mesa de lado.
Vocês brigaram? A pergunta de Ruth fez Maggie enrijecer.
Não, claro que não negou ela, deliberadamente natural. O pequeno
silêncio que se seguiu revelou que Ruth Haskell
não acreditava totalmente que o casamento fosse sem problemas.
Tente ser compreensiva, Maggie falou, finalmente. Dirigir a Triplo C é
uma tarefa solitária, com uma quantidade enorme de pressões e
responsabilidades. Lembro-me de que Lillie, a mulher de Webb, costumava
dizer-me que isso exigia de Webb que fosse mais do que um homem. E a
única hora em que podia ser "simplesmente um homem" era quando fechavam
a porta do quarto" à noite.
As intimidades, as confidências que marido e mulher partilhavam, era
algo que deixava Maggie pouco à vontade. Chase era seu
375
marido. Apesar do lapso que cometera ontem, era assim que pensava nele.
Era isso que aumentava o seu medo quanto ao que Culley poderia estar
planejando.
Chase é o coração da Triplo C. Bombeia a vida para os locais mais
extremos da fazenda, mantém tudo junto e saudável continuou Ruth,
suavemente. O coração tem que ser forte e bom. Um Calder é uma raça
especial de homem, Maggie. E é preciso uma raça especial de mulher para
ficar a seu lado. Eu não tinha certeza, a princípio, mas você é deste
tipo. Sua boca curvou-se suavemente. Sei que você sabe de Sally Brogan.
Uma mulher sempre sabe de outra mulher na vida do seu marido. Ela é uma
pessoa meiga e amorosa que serviu uma necessidade na vida dele... deu-
lhe um lugar aonde ir e uma afeição que nada exigia. Mas ela é como eu,
uma sombra destinada a permanecer ao fundo. Você é como Chase, capaz de
ficar exposta ao sol, deixando que ele brilhe sobre suas falhas e
valorize seus pontos fortes. Seu lugar é nesta casa, como o de Lillie
foi. Deu-se conta subitamente do quanto havia falado enquanto Maggie
permanecia calada. Sua expressão ficou pesarosa, parecendo pedir
desculpas. Sinto muito. Provavelmente não devia estar falando desse
jeito, mas Chase é como se fosse meu filho. Eu o criei e... quero que
seja feliz. Sei que você tem o que é preciso para fazê-lo muito feliz.
Maggie murmurou uma resposta adequada e tentou não pensar no que a
mulher dissera, mas as palavras permaneciam em sua mente, enquanto
continuava a cuidar da casa, instilando nela um orgulho de posse
inconsciente que não havia existido antes. Pegou-se mudando os móveis
de lugar, deixando sua personalidade afirmar sua existência sobre a
casa. Não lhe ocorreu que, na realidade, estava permitindo que seu
papel de dona-de-casa assumisse uma certa permanência. Uma parte grande
demais dos seus pensamentos conscientes dedicava-se a se preocupar com
o laço em miniatura e o tipo de ameaça que podia representar. Naquela
tarde cavalgou até a Fazenda Shamrock em busca do irmão, mas não teve
êxito, e assim ficaram frustradas as suas esperanças de dissuadi-lo a
levar adiante seus planos desconhecidos.
Chase ainda não tinha chegado em casa às sete da noite. Quando Ty
desceu depois de tomar banho e trocar de roupa, notou que a mesa estava
posta apenas para duas pessoas, e que o lugar à cabeceira da mesa
estava vazio.
Cadê papai?
Ele disse para não... Maggie hesitou, notando o modo automático como Ty
se referia a Chase como seu pai, e o modo automático como ela soubera a
quem se estava referindo. Ele
316
disse para não esperar por ele para jantar. Falou que tinha negócios
fora da fazenda, hoje, e que poderia chegar tarde.
Provavelmente vai comer no restaurante da Sally concluiu Ty, e puxou a
cadeira para se sentar.
A menção da outra mulher tocou num nervo exposto de Maggie.
Subitamente, ela se lembrou do desejo nos olhos de Chase pela manhã,
quando saíra de casa. Tinha necessidades que ela, como sua mulher, não
preenchera. Subitamente viu-se atormentada por imagens de Chase nos
braços da viúva de cabelos ruivos. Era uma loucura, mas não deixava de
ser verdade. Estava com ciúmes.
Capítulo XXXII
Eram quase 10 da noite quando Maggie subiu para o quarto. Não estava
cansada, mas Chase ainda não voltara e não queria dar a impressão de
que ficara esperando por ele. E assim ficou se virando insone na cama,
vendo os ponteiros luminosos do relógio na mesa-de-cabeceira marcando
os minutos.
Um pouco antes das 11, Maggie ouviu o carro entrando no pátio da
estância. Sabia que era Chase... como sabia onde estivera esse tempo
todo, e com quem. A mágoa que aquilo lhe causava era disfarçada como a
raiva da repugnância.
Cansado da longa sessão com os advogados e a longa viagem, Chase ficou
irritado ao ver a casa às escuras; nem uma só luz brilhava. Maggie
podia ter deixado pelo menos uma luz acesa para ele. Sentiu-se
desalentado enquanto subia os degraus da varanda e se dirigia para a
porta. Não tinha comido, mas a perspectiva de atacar a geladeira e
comer sozinho na cozinha não o atraía.
Entrou na casa e não se deu ao trabalho de acender uma luz. Conhecia o
caminho até as escadas no escuro. Depois de dar dois passos para dentro
da sala de visitas, bateu numa mesa, estalando a rótula numa quina e
derrubando a mesa. O que estava sobre a mesa caiu ruidosamente ao chão.
Agarrando o joelho e praguejando, Chase pulou para o lado e esbarrou
numa cadeira que também não tinha nada que estar onde estava.
A barulheira vinda lá de baixo fez Maggie pular da cama. Parecia que
alguém estava lá derrubando as coisas. Agarrando o robe, alarmada, saiu
correndo do quarto e parou no topo da escada para ligar o interruptor
que acendia a luz acima da escadaria. Ouviu
318
os palavrões abafados, mas só viu Chase agachado nas sombras da sala de
visitas depois que chegou ao patamar. Seu pensamento inicial foi que
ele estava bêbado. Então ele ergueu os olhos e a viu, parada no patamar.
O que está havendo aí? interpelou-o, com uma raiva gélida, vendo a mesa
e o vaso quebrados diante dele.
Esbarrei naquela maldita mesa! Ele soltou o joelho apenas o tempo
suficiente para indicar a mesa caída.
Por que não acendeu uma luz para ver aonde estava andando, em vez de
ficar esbarrando nas coisas e acordando a casa inteira? disse ela,
bruscamente.
Não pensei que precisasse de uma luz! A voz dele era igualmente tensa e
irada. Que diabo aquela mesa estava fazendo no meio da sala?
Mudei os móveis de lugar... é isso que ela está fazendo ali! retrucou
Maggie.
Não havia nada de errado no modo como os móveis estavam dispostos!
Aquela mesa e cadeira estavam colocadas naquele canto há mais de trinta
anos!
Ela levou a mão ao quadril, num desafio.
Então estava mais do que na hora de mudar! O robe dela rodopiou ao
redor dos seus tornozelos enquanto dava meiavolta para subir os degraus.
Volte aqui! ordenou, porém Maggie apenas subiu as escadas com mais
rapidez. Não vá embora assim deste jeito!
Saiu atrás dela, tropeçando na perna da mesa e praguejando furiosamente.
Maggie jamais o vira com tanta raiva antes. Ficou subitamente alarmada
com o que ele poderia fazer, se a alcançasse. Ouviu os passos dele
vindo atrás de si e correu os últimos passos até a porta do quarto,
entrando rapidamente e trancando a porta. Depois, afastou-se da porta e
prendeu a respiração. Não o queria perto de si. Não queria sentir o
cheiro do perfume de outra mulher na sua pele ou saber que as suas mãos
tinham tocado outra pessoa, no começo da noite. Cada parte dela se
rebelava ante essa ideia.
Na cabeça dele não havia outro pensamento além de alcançá-la e acabar
com essa insurreição em sua casa. Agarrou a maçaneta, mas ela não cedeu
à pressão dos seus dedos. A conscientização de que ela havia trancado a
porta percorreu-o como uma faca incandescente. Já havia barreiras
suficientes entre eles sem que se acrescentasse uma porta trancada.
Socou a porta, e rugiu a ordem:
Maggie! Abra esta porta!. Vá embora!
319
Destranque esta porta ou juro que vou arrombá-la! advertiu, girando de
novo a maçaneta.
Desta feita não houve resposta, apenas silêncio lá dentro. Ele apoiou o
ombro contra a porta e empurrou-a, mas nada aconteceu, e amaldiçoou a
solidez da porta. Já que tinha deixado clara sua intenção, não podia
recuar. Dando um passo atrás, chutou o centro da porta perto da
fechadura. Ela sacudiu, mas aguentou firme. Com o segundo chute, Chase
ouviu o leve lascar da madeira. Colocando toda a sua força no golpe,
chutou a porta de novo e sentiu a madeira ceder. Quando sua bota
atingiu de novo a mesma área enfraquecida, houve um ruído dilacerante
quando a fechadura de metal foi arrancada da moldura, e a porta
escancarada.
Respirando fortemente com o esforço, viu Maggie de pé bem longe da
porta, segurando-se ao pau da cama que ficava às suas costas. Todo seu
corpo irradiava cautela. A camisola de cetim amoldava-se a ela,
delineando os mamilos retesados, o buraquinho do umbigo e o v excitante
formado pela junção de suas pernas. Ela era sua mulher. A consciência
disso erguia-se ardente dentro dele, excitando-o além do ponto de se
lembrar de qualquer promessa.
Maggie enxergou tudo isso nos olhos dele, mas, conquanto aquele olhar
despertasse nela a mesma paixão arrebatadora, seu orgulho não permitia
que o aceitasse quando acabava de vir dos braços de outra mulher.
Não chegue perto de mim avisou. Este é o meu quarto, e você não tem o
direito de estar nele, a não ser que eu o convide. E não quero que me
toque!
A rejeição gelada da moça foi uma bofetada na sua virilidade. Chase
revidou à altura, encrespando os lábios de desdém.
O que a faz pensar que eu estaria interessado? Teve a satisfação de vê-
la crispar-se ante a resposta desdenhosa. Aquilo aliviou o seu ego
ferido. Não se esqueça de que nesta casa não existem portas trancadas.
A advertência tinha um sentido figurado, além do literal. Maggie
poderia isolá-lo da vida dela, mas ele jamais permitiria que ela o
"trancasse" do lado de fora.
Girando nos calcanhares, começou a se dirigir para o próprio quarto, e
parou quando viu Ty fitando-o do fim do corredor. O ar confuso e
alarmado no rosto do filho fez desvanecer sua raiva. Chase estremeceu
intimamente, quando se deu conta de quão perto estivera de violentar
Maggie... sem se dar conta de que Ty estava presente. O cansaço o
invadiu fazendo desabar-lhe os ombros.
Vá para a cama, filho disse, numa voz exausta de pesar pela apreensão
que causara. Está tudo acabado. Viu Ty lançar um olhar ansioso para a
porta aberta de Maggie, agora impossível de fechar. Não vou machucá-la
acrescentou Chase. Não vou chegar perto dela hoje, pode ficar
descansado.
Houve um brilho de incerteza no olhar de Ty, como se tivesse percebido
o que Chase não percebera... ele dissera que não chegaria perto dela
"hoje". Porém Ty aceitou a palavra do pai e voltou para seu quarto.
Chase continuou vagarosamente o caminho para o seu próprio.
A aurora chegou em lençóis mutantes de cor. Enquanto o Sol espiava por
cima do morro para o dia, Chase se barbeou e se vestiu. Ty estava
descendo o corredor quando ele saiu do quarto. Deram-se bom dia e
continuaram na direção das escadas. Quando passaram pelo quarto de
Maggie, onde a porta quebrada pendia da moldura, Ty olhou para dentro e
parou.
Mamãe não se levantou. Lançou um olhar indagador a Cháse.
Este não alterou o passo, lançando um breve olhar pela porta e
enxergando uma cabeleira negra de encontro ao travesseiro branco.
Deixe-a dormir. Nós mesmos faremos nosso café.
Depois da refeição, Ty saiu de casa para cuidar de suas tarefas
matinais, e Chase foi até o escritório da fazenda para examinar os
relatórios do dia anterior e fazer alguma alteração de última hora no
programa do dia para as equipes. Uma hora depois, voltou para a Casa
Grande. Estava em silêncio, nada e ninguém se mexia. Subiu as escadas
até o quarto de Maggie.
Cruzando a soleira que não cruzara na véspera, foi até a cama para
acordá-la. Ela jazia de bruços, descoberta, o rosto virado para o
centro da cama. Chase olhou para a figura adormecida, os ombros
esbeltos e brancos nus, exceto pelas alças finas da camisola. Seu olhar
acompanhou a linha suave da espinha da moça, a fazenda de cetim
seguindo-lhe a trilha, passando pela cintura fina até o ponto
culminante. Aí, concentrou-se na rotundidade em forma de coração do
traseiro dela, tão excitantemente definido pela fazenda justa.
Sabia que ou batia nele ou o beijava. Deu uma palmada forte numa das
nádegas macias. Ela acordou com um grito arfante de choque e rolou de
lado, fitando-o e protegendo o traseiro vulnerável com a mão. Confusão,
choque, raiva e sono estavam todos misturados na expressão dela
enquanto afastava o peso do cabelo revolto no rosto.
Está na hora de levantar disse ele, o olhar se desviando para a frente
da camisola que se abria revelando a curva de um seio.
321
A mulher virou a cabeça e viu o sol da manhã brilhando na janela. A
irritação vincou-lhe as feições, enquanto jogava os pés apressadamente
para fora da cama.
Por que não me acordou mais cedo?
Não há pressa. Ty e eu já tomamos café. Nós mesmos o preparamos.
Por que esperou até agora? Podia ter-me acordado antes. Ela ficou
parada ao lado da cama, ainda levemente desorientada. Chase ficou
totalmente perturbado pela cena... Maggie parada
ali, macia e descabelada de sono, as cobertas desfeitas na cama atrás
dela, o vazio da casa. Começou a sair do quarto enquanto ainda tinha a
força de vontade para resistir.
Achei que você estava precisando do descanso falou, enquanto suas
passadas o levavam para o corredor. Teria deixado que dormisse ainda
mais um pouco, exceto que um dos meus homens vai chegar logo para
consertar sua porta e achei que não gostaria de estar na cama, quando
ele chegasse.
O quê? Os pés descalços dela quase não fizeram barulho enquanto o
seguia até o corredor, esforçando-se para não ficar para trás, uma
expressão incrédula no rosto. O que foi que você falou? interpelou-o.
Chase parou apenas um segundo no topo da escada para olhar por sobre o
ombro.
George é carpinteiro. Vai consertar a porta. Já estava no meio do
primeiro lance de escadas, quando a cólera dela explodiu sobre ele.
Quando ele chegar, pode mandá-lo ir fazer outro serviço qualquer!
esbravejou Maggie.
Ele parou e ergueu os olhos. Ela estava no corredor acima dele, as mãos
agarrando a grade protetora da escadaria.
A porta tem que ser consertada.
Você a quebrou. Você que a conserte retrucou.
Tenho coisas mais importantes a fazer. E recomeçou a descer as escadas.
Que merda, Chase Calder! Desceu correndo as escadas atrás dele. Contou
ao homem como a porta foi quebrada?
Não disse ele, dobrando o patamar.
Sabe o que ele vai pensar quando a vir, não sabe? perguntou, cheia de
raiva.
Quando ele chegou na base da escada parou para confrontá-la, e Maggie
se deteve no patamar.
Vai adivinhar que você trancou a porta e que eu a arrombei. Foi isso
que aconteceu, Maggie. Olhou-a com frieza e desafio. E foi só o que
aconteceu.
322
Mas a imaginação dele não vai parar por aí! Ela tremia, prestes a
perder o controle.
Não tenho controle sobre o que mais ele possa pensar replicou Chase.
Não percebe o quanto é embaraçoso... o quanto é humilhante... para mim
ter um vaqueiro qualquer pensando que você arrombou minha porta para
entrar no meu quarto ontem à noite?! esbravejou, depois desceu mais
dois degraus até ficar ao nível do topo da cabeça dele.
Nunca lhe ocorreu ontem à noite que eu pudesse achar humilhante ter o
quarto da minha mulher trancado para mim lembrou-lhe Chase, com
aspereza. Não é tão divertido quando a coisa é ao contrário, não é? Uma
pena que você não pensou nas possíveis consequências quando trancou a
porta, ontem à noite.
Ela ficou uma fera, e esbofeteou-lhe o rosto bronzeado, o contato com a
carne dura causando um impacto no seu braço. Teve pouco tempo para
curtir a satisfação de bater nele, antes que seu pulso fosse agarrado e
ela se desequilibrasse, tropeçando até o degrau inferior, onde a parede
sólida do corpo dele amparou-lhe a queda. Uma mão grande segurou-a pela
cintura, sustentando-a. O choque de sentir-se em contato com o corpo
musculoso dele, tão abrupta e firmemente, atordoou-a por um instante. A
risada áspera que ele emitiu fê-la levantar a cabeça vivamente,
deparando com o olhar dele, cheio de uma satisfação ardente, que era a
um só tempo preguiçosa e dura.
A garota de temperamento fogoso ainda vive por trás de toda essa
sofisticação polida, hem?
Falou a frase com voz semi-arrastada. Ela começou a se debater, mas ele
a segurou com facilidade, espalmando as mãos na sua espinha para
apertá-la mais. Maggie parou de tentar se livrar dos braços dele,
porque quando se movia de encontro a ele, daquele jeito, aquilo a
deixava vivamente cônscia do corpo másculo dele e incitava todos os
seus instintos de acasalamento. Fitou a costura do ombro da camisa dele
e tentou bloquear da mente todas as sensações perturbadoras que
teimavam em aparecer. Sentiu o hálito dele nos seus cabelos e a palma
da mão dele esfregou a parte de trás do seu ombro, enquanto ela deixava
as próprias mãos imóveis sobre o peito dele.
Tinha-me esquecido de como você é pequenina comentou ele. Estranho.
Havia um traço de ironia na voz dele. Lembro de tantas coisas, no
entanto me esqueci desta.
A boca de Chase moveu-se contra os cabelos dela, descendo na direção da
orelha. Maggie ergueu o ombro, encostando nele o lado do rosto, para
impedi-lo de conseguir seu objetivo. Os lábios
323
quentes e másculos roçaram a testa dela, enquanto as mãos percorriam
lentamente suas costas e quadris, experimentando a sensação de tê-la
nos braços. A fazenda de cetim da camisola não era nenhuma barreira que
fosse capaz de proteger os terminais nervosos sensíveis da moça da
força das mãos carinhosas. Era uma segunda pele contra o seu corpo,
deixando-a sentir cada toque dos dedos dele.
Chase, não, por favor. Mas ela sabia que ele não ligaria para o seu
protesto sussurrado. Era apenas o seu orgulho que queria que ele
parasse. Todo o resto dela queria que continuasse.
Nós éramos tão moços, Maggie. Enquanto falava, roçava com os lábios o
osso da face da mulher. Tão moços e tolos. Não sabíamos nada da vida.
Era tudo sol e pasto verde, para nós... tudo sorrisos e beijos, sem
lágrimas ou dor. Ela se mantinha de olhos fechados, enquanto ele cobriu
os seus lábios num beijo experimental, depois se afastou, deixando-a um
pouco sem fôlego.
Não podemos voltar, Chase. Não podemos encontrar o que perdemos
murmurou.
Não quero o que tivemos no passado. Esfregava a boca contra os lábios
dela enquanto falava, estimulando-a com seu calor e umidade. Quero
construir sobre o que temos hoje, para que haja um amanhã. Estamos
casados; temos um filho; e eu a quero, Maggie. A voz dele estava áspera
de desejo. Outros começaram uma vida juntos com bem menos.
Há tanta coisa contra nós lembrou, com voz rouca, ao mesmo tempo que
movia os lábios contra os dele num convite.
Seja minha mulher, Maggie. Deixe-me tocá-la, abraçá-la, dormir com você
insistiu, e deixou a boca fechar-se lenta e firmemente sobre os lábios
dela.
Beijou-a com experiência, mas não confiou na técnica para excitá-la.
Havia um elemento no beijo que se dirigia para um instinto muito mais
básico... aquele âmago primitivo que existe em todos os seres humanos,
a necessidade de ter um companheiro, uma necessidade que é a um só
tempo física e emocional, uma necessidade que Maggie nunca tivera
preenchida. As mãos dela envolveram a coluna musculosa do pescoço dele,
apertando-se contra ele, tentando absorver e ser absorvida, por sua vez.
Chase afastou a boca da boca de Maggie, relutante, com a respiração
pesada e as pálpebras caídas com paixão sobre os olhos castanhos.
É melhor que isso queira dizer "sim", Maggie advertiu ele. Não posso
ficar arrombando portas trancadas. Você tem que abrir uma para mim.
324
Sim. Não podia mais lutar contra os seus sentimentos instintivos por
ele. Certo ou errado, uma parte dela sempre lhe pertencera, portanto
por que conter o resto, agora?
Ele a beijou longa e duramente, tomando o que ela lhe estava dando e
esmagando-a nos braços. Quando finalmente moveu a boca para acarinhar
rudemente o pescoço dela, Maggie estava atordoada e sem fôlego,
tremendo com a força poderosa dos próprios sentimentos. Uma parte
distante da sua mente registrou o ruído da porta da frente sendo
aberta, mas o seu significado só a alcançou quando ouviu a voz de Buck
Haskell.
Chase... ha... com licença interrompeu com insistência zombeteira. Já
está pronto para ir?
Chase quase se virou para olhar para ele, porém logo que levantou a
cabeça pareceu incapaz de desviar o olhar do rosto dela. Maggie sentia
um fascínio semelhante pelo rosto dele, a expressão tão incrivelmente
carinhosa, feições suaves que geralmente eram só ossos e carne duros, e
a luz nos olhos escuros que tanto brilhava.
Hoje eu não vou, Buck falou. Diga a George que não vou precisar dele.
Um meio sorriso ergueu os cantos dos seus lábios quando sentiu as
pontas dos dedos roçarem a linha forte do seu maxilar. E pode avisar
que o Sr. e a Sra. Calder hoje estão indispostos... e não querem ser
perturbados.
Houve uma ligeira pausa antes que Buck respondesse de modo levemente
formal:
Sim, senhor.
Com o estalido da porta que se fechava, Chase se mexeu, dobrando-se
ligeiramente para enfiar o braço por trás dos joelhos dela e tomá-la no
colo. Ela cruzou as mãos atrás do pescoço dele e começou a mordiscá-lo,
sentindo o gosto da sua pele e da loção picante que Chase usava,
enquanto ele começava a subir as escadas.
Tem ideia do número de vezes em que tive vontade de carregá-la escada
acima nessas últimas semanas? perguntou ele, suavemente. Ou de como tem
sido duro passar pela sua porta todas as noites?
Ela fez um ruído de concordância enquanto roçava com os lábios a concha
da orelha dele, mordiscando de leve o lóbulo. Flutuava numa sensação
emocional nova, que era langorosa e duradoura. Quando seus olhos
semicerrados notaram que estavam entrando no seu quarto, recuou de leve
para examinar preguiçosamente o perfil atraente dele.
Não podemos fechar a porta lembrou.
Eu sei. Parou, olhando para ela possessivamente. Já estou farto de
portas fechadas. Além disso, dei-lhe a minha palavra
325
que não esperava que você compartilhasse da minha cama... portanto,
achei melhor que compartilhássemos da sua.
Ela riu baixinho, porque ele estava mantendo literalmente sua palavra.
Esticando a mão, tirou o chapéu dele e jogou-o longe. Caiu sobre uma
cadeira.
Esteja à vontade murmurou, e curvou a mão ao longo do maxilar dele para
virar-lhe a cabeça e puxar-lhe a boca para si.
O beijo foi meigo e profundo, mais arrebatador e sedutor do que
loucamente apaixonado. Era uma chama de combustão lenta que os fundia
num só, enquanto Chase deixava que os pés da moça deslizassem para o
chão e a virava de encontro a seu corpo. Levou as mãos às alças da
camisola para descê-las por seus ombros e braços. Logo a seguir estavam
tocando-lhe a pele, empurrando a fazenda justa para baixo, passando
pela cintura e pelos quadris. Ela deu um pequeno volteio com os quadris
para ajudar a tirar a roupa, e ouviu o gemido semi-abafado que ele
soltou, ante o movimento. Enquanto as mãos dele percorriam-lhe as
curvas nuas numa redescoberta sensual, os dedos dela começaram a
soltar-lhe os botões da camisa e a tirá-la para fora da calça. Ela o
ajudou a livrar-se da camisa e deixar o peito nu a seu toque. A carne
dele era dura e vital sob suas mãos, enquanto ela sentia a energia pura
ondulando pelos músculos. Abandonando-lhe os lábios, a boca de Chase
viajou vagarosamente até a curva do pescoço dela, investigando-lhe a
concavidade do ombro. Maggie se arqueou mais para perto dele, os tufos
escuros dos pêlos do peito dele roçando os montes empinados dos seus
seios. A fivela do cinto de Chase arranhou sua pele tenra, fazendo com
que ela se crispasse brevemente antes de levar as mãos ao cinto para
livrar-se dele.
Quando ela soltou a cintura da calça Levi's dele, Chase murmurou de
encontro a seu pescoço:
Fica mais fácil se tirarmos as botas primeiro. Onde está a calçadeira?
Não tenho. O tremor febril da voz dela baixou-lhe a boca sobre os
lábios dela num beijo esfaimado, antes de erguer vagarosamente a
cabeça. Serei sua calçadeira.
Ela espalmou as mãos no peito dele para empurrá-lo para trás, sentá-lo
na beirada da cama. A curta distância e nova perspectiva deram-lhe uma
visão global do seu corpo nu, visão esta que ele admirou abertamente.
Sob o estímulo do olhar dele os seios dela pareceram crescer, os
mamilos ficando rijos de desejo. Ela quase se esqueceu do propósito da
separação.
Dê-me seu pé falou, e Chase apoiou-se nas mãos, levantando uma perna.
326
Ela segurou o calcanhar de couro na mão e se virou, montando na perna
dele e apresentando-lhe uma visão encantadora do seu traseiro. Agarrou
a parte de trás da bota com as duas mãos, pronta para puxar quando ele
empurrasse... só que ele não empurrou. Olhou por cima do ombro e pegou-
o fitando o seu traseiro.
Pronto? perguntou, enrubescendo um pouco de prazer e embaraço.
A boca do homem retorceu-se ligeiramente, quando percebeu que fora
pegado olhando. Ergueu o outro pé com relutância exagerada e colocou-o
suave e cuidadosamente numa das nádegas.
Parece quase um crime colocar uma bota em cima de algo tão redondo e
bem-feitinho, mas se um homem tivesse uma descalçadeira como esta, ele
ia passar o dia inteiro calçando e descalçando as botas, só para ter a
chance de apreciar a paisagem.
Ela sentiu a pressão forte da bota dele na sua carne macia, enquanto
ele empurrava e ela puxava a bota na sua mão, descalçando-a. A seguir,
repetiu o procedimento com a outra bota, desta feita com um pé calçado
com meia contra o traseiro. Quando Maggie se debruçou para colocar a
bota ao lado da primeira, um par de mãos pegou-a pelos quadris e puxou-
a para trás. O grito dela ofegante de surpresa era uma mistura de
alarme e riso, enquanto Chase plantava um beijo em cada nádega
arredondada, antes que a deixasse virar-se para olhar para ele.
Por que será que nunca notei antes que belo traseiro você tem?
perguntou, com aspereza simulada e inclinou a cabeça para trás para
fitá-la nos olhos. Será que é porque estava ocupado demais olhando para
o seu belo rosto?
Possivelmente admitiu, com um brilho malicioso nos olhos. Eu notei que
você tinha um traseiro bonito, naquela primeira vez, no rio.
Era uma loucura como se estava sentindo descuidada e despreocupada. A
intimidade era natural, animada. Maggie não se sentia obrigada a
flertar ou excitar ou ser sexualmente provocante, como acontecia no
tempo de Phillip, em que tudo isso era necessário para fabricar a
paixão através da perícia e da técnica.
Notou meu traseiro, foi? debochou Chase, e começou a puxá-la para si,
mas ela se soltou dos seus braços com uma torção dos quadris e se
ajoelhou para tirar-lhe as meias.
Quando ela se afastou para enfiá-las dentro das botas, Chase tirou a
calça e a cueca e virou-se parcialmente na cama para colocar os jeans
com cuidado no outro extremo, para que nada caísse dos bolsos. Quando
ela veio voltando para junto da cama, ele estendeu a mão para segurar a
dela. Maggie enlaçou a palma grande com os dedos e deixou que ele a
puxasse para frente, a fim de ficar
327
de pé entre as pernas dele. Havia tanta coisa escrita nos seus olhos
que ela ficou tonta lendo as mensagens sensuais, e oscilou na sua
direção.
Uma mão queimada de sol subiu para segurar o peso de um seio branco e
levá-lo à boca, onde a língua e os dentes lamberam e brincaram com o
mamilo rosado. Maggie ficou fraca e trémula. Enroscou os dedos nos
cabelos espessos dele, segurando-lhe a nuca e apertando-o com mais
força junto ao seio. Então ele estava-se mexendo, a boca úmida buscando
o outro seio. As pernas dela estavam enfraquecendo, forçando Maggie a
apoiar os joelhos contra a cama enquanto jogava mais do seu peso sobre
Chase. Até isso só adiantou durante um curto período; logo a seguir ela
começou a afundar.
Os braços dele a seguraram, girando-a e puxando-a para cima da cama.
Enquanto ela jazia de costas, ele mudava de posição para trazer o rosto
ao mesmo nível do dela. Deitado de lado, apoiou-se sobre o cotovelo e
olhou para ela, enquanto sua mão a acariciava. Ela espalmou os dedos
nos pêlos ásperos do peito dele.
No outro dia Culley me disse que eu tinha esquecido de como ser mulher
falou suavemente, e lançou-lhe um olhar enviesado. Você foi o primeiro
a me ensinar a ser mulher, Chase. Quer me ensinar de novo?
Ele baixou a boca sobre a dela e beijou-a com insistência narcotizante.
Puxou-a mais para perto e ficou por cima dela. Maggie sentiu o músculo
rijo que se erguia entre as pernas dele, duro e viril. Teve um segundo
para se admirar das diferenças físicas entre um homem e uma mulher,
enquanto ele deslizava as mãos sob seus quadris para erguê-los... e
como Deus os havia feito para se encaixarem, e o prazer assombroso que
tiravam um do outro, um prazer mais lindo e natural porque nascia da
dedicação emocional ao outro.
Fundiram-se numa onda avassaladora de sensação que os engoliu a ambos.
A onda os uniu com uma urgência maravilhosa, uma luminosidade sexual
que se irradiava entre eles. No passado distante, tinham tido uma visão
desta intimidade, desta exigência forte, desta insistência, sem saber
que podia ser sempre assim. Que podia nunca haver um fim, porque iriam
querer sempre mais. Mesmo agora, só o que sabiam é que queriam mais e
mais um do outro.
328
Capítulo XXXIII
Aninhada contra o peito dele, Maggie deixou as pontas dos dedos roçarem
pela barriga plana de Chase. O cheiro quente e terrenal dele a cercava
por inteiro, e ela sentia uma satisfação total.
Está dormindo? murmurou ela. A mão na sua cintura tinha parado de se
mexer fazia uns dois minutos. O peito dele subia e descia ritmadamente.
O polegar e o indicador beliscaram-lhe a pele das costelas. Ela soltou
um gritinho, enquanto escapava da dor fugaz.
Está parecendo que estou dormindo? A voz dele era baixa e profunda,
ressoando por seu corpo embaixo do ouvido dela.
Não admitiu Maggie.
A mão direita dele moveu-se para acariciar-lhe a nuca, os dedos
enterrando-se nos cachos escuros para agarrar um punhado e puxar de
leve para forçar-lhe a cabeça para trás. Olhou para o rosto dela,
examinando-lhe as feições como que para memorizá-las. Com a mão
esquerda, traçava pensativo o contorno do seu queixo.
Acredita em mim se eu disser que senti algo que jamais senti com outra
mulher, quando fiz amor com você agora?
Sim. Foi diferente... especial corrigiu ela, e baixou a cabeça quando
Chase aliviou a pressão no seu cabelo. Para mim, também. Nunca senti
isso com Phillip.
Ele soltou um bufido de desdém.
O Phillip tinha idade para ser seu pai.
Como revide pelo comentário, Maggie puxou os pêlos no peito dele, que
inspirou vivamente e agarrou-lhe a mão.
Cuidado quando insinuar que Phillip era velho demais para ser um bom
amante. Quando me casei com ele, era apenas um pouco mais velho do que
você é agora.
329
As mãos dele agarraram-na pelos ombros e cintura para erguê-la de modo
a deitar-lhe a cabeça no travesseiro a seu lado. A crueza da posse
ardia-lhe na expressão.
Prefiro esquecer que você teve outro amante, além de mim.
Pode ser que prefira, mas tive. Não iria deixar que ele tentasse apagar
Phillip da sua lembrança. Ele foi bom para mim, Chase, quando eu
precisava desesperadamente de alguém. Phillip foi um bom marido e um
bom pai para o Ty.
É. Relutante, ele sorriu com resignação sombria. Encontrando a mão
esquerda dela entre eles, ergueu-a e beijou a aliança de ouro. Sou o
seu marido agora, e Ty é nosso filho. Os papéis estão prontos na semana
que vem para pedir ao tribunal para mudar o nome dele legalmente para
Calder... com sua permissão, é claro.
Quando foi que você soube disso? perguntou, enquanto ele continuava a
manter a mão na sua.
Ontem... no advogado.
Foi lá que esteve? Pelo menos durante parte do tempo, pensou Maggie
examinando a mão calosa dele.
Sim. Esfregou o polegar nos dedos dela. Parece que passo mais tempo em
escritórios e atrás de uma escrivaninha do que em cima de um cavalo,
hoje em dia, mas acho que isso faz parte do ofício. Depois de passar
todas aquelas horas engaiolado com os advogados, não estava de muito
bom humor, quando cheguei em casa ontem à noite. Quando descobri que
você não tinha esperado por mim, e nem sequer deixara uma luz acesa,
aquilo não melhorou meu humor. E não tinha comido nada desde o almoço,
portanto...
Ela ergueu os olhos, surpresa. O rosto dele estava tão perto do dela
que era quase um borrão.
Você não jantou ontem?
Não.
Mas eu pensei... até mesmo o Ty falou que você provavelmente pararia...
Maggie não continuou porque não queria que ele soubesse que estivera
sequer levemente ciumenta. Tinha comida na geladeira. Devia ter
preparado alguma coisa para comer. Voltou a fixar os olhos na mão dele.
Onde foi que você... e Ty... pensaram que eu tinha jantado? Já estava
adivinhando a resposta. No restaurante da Sally.
Era o local lógico admitiu, aparentando indiferença. Ouvi contar que
ela é uma boa cozinheira.
A risadinha abafada dele continha um toque de satisfação.
Não gostou da ideia, não é? Então mudou os móveis de lugar para
preparar uma armadilha para mim.
330
Não - negou Maggie. Só achei que ficaria melhor, se algumas coisas
trocassem de lugar.
Mas você ficou um pouquinho chateada com a ideia de que eu pudesse ter
estado com Sally ontem à noite... falou, num tom zombeteiro que
insistia para que ela o admitisse.
É possível. Lançou-lhe um olhar que o desafiava a negá-lo. Afinal de
contas, faz muito tempo que você não tem relações sexuais com ninguém.
Quero dizer, você passou todas as noites aqui.
Então você achou que fui procurá-la, porque não estava tendo o que
precisava em casa. As faces magras dele ostentavam vincos, enquanto ele
sorria para ela. Admito que estava frustrado como o diabo, Maggie.
Quando lhe disse que não me importava se você partilhasse ou não minha
cama depois de nos casarmos, falava sério. Eu queria Ty e teria me
casado com a filha do demónio para ficar com ele. Mas, o fato de vê-la
todos os dias, a mãe do meu filho, começou a me deixar com desejo.
Parece que tenho uma coceira que só você sabe coçar. Era assim há
dezesseis anos. e é assim agora.
Quando ele se moveu, foi para puxá-la para baixo de si. Pesava sobre
ela, o calor do corpo dele queimando-lhe a pele.
Quero que você me coce, Maggie. Foi um semi-rugido de encontro aos
lábios dela. antes que sua boca os esmagasse. Os braços da mulher
envolveram-lhe as costas largas e musculosas, quando as cobertas foram
chutadas para o lado.
Era quase meio-dia quando eles se sentiram inclinados a sair da cama.
Chase foi o primeiro a se levantar. Maggie continuou debaixo do lençol
admirando os seus flancos magros e rijos, enquanto ele vestia a calça.
Chase lançou um olhar sobre o ombro.
Com fome?
Um pouco. Saltou da cama pelo lado oposto e foi até o armário. E você?
Estou.
Foi o que pensei. Lançou-lhe um olhar provocante por sobre o ombro. Os
seus olhos estão bem famintos.
Um sorriso malicioso tocou-lhe os lábios ante o duplo sentido, uma luz
escura dançando nos olhos dele.
Então me prepare um pouco de comida primeiro, mulher.
Houve uma intimidade tranquila entre eles o dia todo, apimentada por um
toque de excitação latente. Depois do almoço, Chase ajudou-a a lavar a
louça, advertindo-a para prestar muita atenção
331
no seu gesto, porque poderia nunca mais vê-lo com um pano de pratos na
mão de novo. Enquanto Maggie transferia as roupas dele para o quarto
dela, Chase começou a consertar a porta quebrada, assobiando enquanto
trabalhava.
Quando o serviço terminou e após a limpeza do corredor, Chase tomou uma
chuveirada para se refrescar. Enquanto o marido estava no banheiro,
Maggie trocou os lençóis e arrumou a cama.
Ela ouviu o chuveiro parar, e falou:
Quer encher a banheira para mim, Chase? Quero tomar um banho.
A resposta abafada foi afirmativa, e segundos mais tarde ela ouviu a
água correndo na banheira. Arrumou uma muda de roupa para cada um sobre
a cama e despiu o vestido de andar em casa curto, de algodão. Quando
entrou no banheiro, a banheira estava cheia de espuma perfumada e Chase
achava-se parado diante da pia ensaboando o rosto com creme de barbear,
uma toalha enrolada na cintura. O olhar dele encontrou-se com o dela,
no espelho.
Importa-se se eu fizer a barba, enquanto você toma banho?
Claro que não. Ela amarrou a massa de cachos negros no alto da cabeça
com um fio de lã vermelha. Gosto de companhia. Desligando as torneiras,
entrou na banheira, cheia de espuma e água quente e perfumada. E
obrigada por preparar o meu banho... inclusive com a espuma perfumada.
Chase parou com a navalha na mão e examinou o reflexo que ela lançava
no espelho, enquanto se reclinava na banheira.
Lembro quando a vi tomando banho no rio. Não sei qual dos jeitos é mais
excitante... banhar-se em alto estilo, ou banhar-se ao natural.
Maggie relaxou na banheira, deixando as mãos brincarem preguiçosamente
com os montes de espuma, enquanto olhava Chase se barbeando. Ou era um
processo muito lento, ou ele estava andando devagar deliberadamente.
Ficou estudando os músculos lisos das costas e ombros dele, e os
músculos saltados da parte superior dos braços. Seus cabelos estavam
úmidos, quase negros. Ele enxaguou a navalha na água que escorria da
bica da pia e desceu a lâmina pelo rosto, deixando à mostra a pele
fortemente bronzeada sob a espuma.
Um barbeador elétrico é bem mais rápido disse ela, puxando conversa.
Pode ser, mas prefiro a navalha.
Ela deixou sua expressão implicar com ele.
Suponho que um barbeador elétrico não seja "machão" o bastante para
você.
332
Cuidado! avisou ele, divertido, e ela riu. Uma lâmina escanhoa melhor.
Achei que podia precisar de um rosto macio hoje à noite.
E pode. Ela estava levemente ruborizada, enquanto mergulhava a bucha de
banho na água. Quer lavar as minhas costas, quando terminar?
Havia vestígios de espuma de barbear no rosto dele, quando se dirigiu
para a banheira. Ajoelhando-se ao lado dela, tirou a esponja das mãos
de Maggie e esfregou-lhe as costas. Maggie fechou os olhos, relaxando
sob a ação massageadora.
Pode ficar fazendo isso o dia todo murmurou ela.
Se já não tivesse tomado banho, ia entrar aí com você. Parou e jogou a
bucha na água de espuma diante dela. Quando ele começou a se pôr de pé,
o olhar dela caiu sobre o
seu braço esquerdo. Ficou gelada ao ver a cicatriz branca que cortava
irregularmente o antebraço, lembrando-se que fora feita quando ela o
atacara com a tesoura. Estendeu a mão para cobrir a marca e bloquear a
lembrança desagradável.
O que vai acontecer com a gente, Chase? A voz era baixa e
inexpressivamente indagadora.
Ele sabia exatamente o que ela estava pensando. Tomou-lhe a mão,
agarrando-a com força.
Aqui não é o paraíso. Todos nós temos cicatrizes e falhas. Deus sabe
que vamos ter nossa parcela de problemas, portanto não saia procurando
por ela, Maggie. Só o que podemos fazer é agarrar firme o que temos...
e rezar para Deus esperando que seja o bastante. Temos que agarrar
firme repetiu, a voz dura de convicção e aceitar o que vier.
Ergueu o olhar, encontrando o dele com uma certeza serena. O calafrio
continuava, mas ela podia enfrentá-lo.
Sim.
A boca de Chase curvou-se, em sinal de aprovação, e pousou um beijo nos
lábios dela.
Ande logo e saia dessa banheira. Ty já deve estar chegando, e espera
que o jantar esteja na mesa.
Ty notou a mudança quase imediatamente. Uma das primeiras coisasque
disse foi:
Está linda hoje, mamãe.
Chase percebeu o olhar dela, e sorriu.
Nosso filho entende de beleza.
O olhar de Ty foi de um para o outro, pressentindo a intimidade e o
calor... os olhares secretos que o deixavam de fora.
333
Notara a tensão anterior entre eles e ficava torcendo para que os dois
começassem a se dar bem um com o outro. Agora que isso acontecera, não
estava propriamente à vontade com a mudança.
Naquela noite, Maggie estava deitada na cama quando Chase saiu do
banheiro e apagou a luz. Ela virou as cobertas para permitir que
entrasse na cama a seu lado e se aninhou sob o braço que ele colocou à
sua volta.
Ty não lhe pareceu quieto hoje? perguntou ela.
É. A mão dele esfregava-lhe o braço, numa carícia meio distraída.
Infelizmente nosso filho está com um pouco de ciúme, e um pouco
constrangido conosco.
Mas, por quê? indagou, virando a cabeça e tentando vê-lo no escuro.
As crianças... os adolescentes... têm dificuldades em aceitar o fato de
que os pais... especialmente as mães... têm desejos sexuais. É como se,
uma vez que eles já foram concebidos, os pais não devem fazer aquilo de
novo. Não se preocupe murmurou, roçando a boca sobre a face dela. Ele
vai superar isso. No momento, está apenas pouco à vontade com as
próprias necessidades sexuais.
Espero que sim. Esfregou a face contra a boca de Chase, as mãos
procurando a rigidez do seu corpo sob as cobertas.
Se ele não endireitar logo, arranjo-lhe uma garota. Isso fará com que
deixe de pensar em nós. Tinha chegado ao canto dos lábios dela.
Porém Maggie recuou, ante a sugestão.
Chase, o que é isso! Ele tem só quinze anos.
E daí? Que me lembre, você tinha quinze anos. Estendeu a mão e puxou-a
de volta, enfiando os dedos nos seus cabelos para manter-lhe a cabeça
imóvel. Sabe que nunca fiz amor com você à noite? Será que vou acertar?
Sua boca cobriu a dela, e Maggie esqueceu Ty completamente.
O mundo parecia mais alegre para Chase. O pasto era mais verde, o céu
mais azul, o Sol mais brilhante. Nesses últimos dias caminhava com nova
força, nova determinação. Até mesmo o peso de dirigir a Triplo C
parecia mais leve sobre seus ombros.
Enquanto entrava na sede, viu Nate saindo do escritório onde eram
guardados todos os registros para a reprodução do gado. O velho
vaqueiro não revelava a idade, mas Chase imaginava que estava na casa
dos 60. A idade finalmente estava pesando para Nate.
334
Não podia mais passar longas horas na sela sem ficar de língua de fora.
Mas o olho para o gado continuava infalível, portanto Chase o colocara
à frente do programa de reprodução para melhorar continuamente o gado
da fazenda. Chase tocou a buzina para chamar a atenção de Nate, depois
virou a pick-up para estacioná-la à sombra de um prédio. O vaqueiro já
se vinha desviando na sua direção quando Chase saltou da boleia.
Acabo de vir do setor sul para ver como estava-se saindo. Chase
explicou onde estivera. Vi alguns dos bezerros gerados por seu touro
novo. Devem pesar uns dez quilos mais do que os outros.
Quando descobrirmos o tipo de mãe que aquelas novilhas serão, aí sim
saberemos se temos alguma coisa. Nate reservou o julgamento sobre o
valor do novo touro que aconselhara Chase a comprar, mas ficou com o
porte mais ereto ante o elogio implícito.
Para onde está indo?
O Ownie ia montar aquele potro novo hoje pela primeira vez. É uma das
crias de quatro anos de Cougar. Ando de olho naquele cavalo desde que
tinha dois anos. Aquele cavalo cor de rato tem jeito para vaqueiro.
Enxergo isso cada vez que olho para ele. Não há nada que um vaqueiro
aprecie mais do que um bom pônei-vaqueiro. Queria ver como ele age com
um cavaleiro em cima. Aposto que vai fazer o diabo.
Vamos dar uma espiada. Chase caminhou com seu velho professor e capataz
para os currais onde ficavam os cavalos novos.
Todas as primaveras os cavalos novos eram trazidos dos pastos para
levarem cabrestos e se acostumarem ao contato com os homens, as selas e
os freios. Nenhum cavaleiro os montava até fazerem quatro anos de
idade. Chegaram ao curral na hora de ver o peão levar um tombo e cair
no pó, e Chase deu sua primeira olhada no cavalo que chamara a atenção
do velho vaqueiro. O cavalo cinza-escuro era um animal musculoso, mas
com um corpo esguio e comprido, como o pai. As pernas, cauda e crina
eram negras, com uma mancha branca na cara. Chase percebeu tudo isso
enquanto o animal sem cavaleiro circulava correndo o curral e o peão se
levantava do chão. Um ajudante cavalgava ao lado do potro e abaixou-se
para segurar a rédea que se arrastava no chão. Um pouco mais abaixo,
Chase viu Ty sentado na cerca do curral. Sua boca se estreitou numa
linha sombria de desprazer.
Pensei que ele tinha que estar limpando os estábulos. Lançou um olhar a
Nate para confirmar que Ty recebera aquela tarefa. Desde que chegara à
fazenda seus trabalhos tinham sido todos feitos no chão, desde a
limpeza dos celeiros e estábulos e
335
moinhos até a pintura, sempre que se precisava do trabalho não
qualificado. A única vez que montara num cavalo fora quando Chase o
enviara para ver o recolhimento de gado, no dia da chegada de Maggie.
Já terminou tudo o que tinha que fazer. Nate olhou na direção dele com
um meio sorriso no rosto curtido. Aquele garoto trabalha como se alguém
lhe tivesse posto fogo no rabo para poder acabar cedo e vir aqui
assistir ao amansamento dos cavalos xucros. Não é nenhum vadio. Termina
todo o seu trabalho antes de vir sentar-se na cerca.
Tranquilizado quanto ao fato de Ty não estar vadiando, Chase dirigiu-se
para o local da cerca de onde o filho estava olhando os cavalos.
Que belo animal de quatro anos comentou.
É, é cria do Cougar replicou Ty, automaticamente. Então, percebeu que
era o pai e apressou-se a explicar: Já terminei minhas tarefas por hoje.
Eu sei disse Chase, num tom de quem sabia tudo. Ty voltou a olhar para
o curral, a expressão ansiosa.
Tinha tanta vontade de montar aquele cavalo. Sabe que sou um bom
cavaleiro, papai. E ajudei a amansar cavalos xucros quando morávamos na
Califórnia.
Quer que eu peça a Ownie para deixá-lo montar o animal? Tudo no olhar
ansioso de Ty dizia "sim", mas suspirou um
"não" desalentado.
Chase virou-se e chamou o peão que se dirigia para o centro do curral,
para onde o cavalo tinha sido levado.
Ei, Ownie! Tem um garoto aqui que acha que pode montar esse cavalo.
Quer dar-lhe uma chance?
O homem baixo e musculoso olhou para Ty, que tinha sido um espectador
assíduo nos últimos dias. Sabia que Chase estava deixando a decisão nas
suas mãos, baseado no cavalo e na inexperiência de Ty.
Claro. Por que não? falou, dando de ombros, e Ty saltou da cerca.
Chase logo notou que Nate entrara no curral. Era o velho vaqueiro quem
estava junto à cabeça do capão para segurá-lo, enquanto Ty montava na
sela. O outro homem, Ownie, dirigiu-se para o local da cerca onde Chase
estava e ficou vendo Ty acomodar-se bem na sela e agarrar firme as
rédeas.
Mouse é um cavalo bom e honesto, corcoveia direito, sem maldade
explicou ele a Chase. Mas é jovem e forte, e tem um jeito de se torcer
e saltar de baixo da gente, de banda.
336
Bem, vamos ver o que ele pode fazer disse Chase, e
ambos sabiam que ele não estava falando do cavalo.
A um sinal de Ty, Nate soltou a cabeça do cavalo e se afastou. O potro
subiu e desceu direto com um impacto, depois saiu se sacudindo pelo
curral virando a barriga para os céus. Quando o cavalo deu uma estocada
de banda, Ty perdeu um estribo e cavalo e cavaleiro se separaram no
salto seguinte. Chase ficou vendo Ty cair ao chão e rolar
automaticamente, depois desviou os olhos.
Abalado e doído, mas não ferido, Ty ficou deitado no chão por um
minuto, sacudindo a cabeça e esperando que alguém lhe perguntasse se
estava passando bem, mas, quando olhou à sua volta, ninguém lhe estava
prestando atenção, nem mesmo o pai. Levantou-se, limpando a poeira do
corpo, e deparou com Nate trazendo o cavalo de volta para ele. Nada foi
dito. Presumia-se que voltaria a montar, e assim o fez. Na segunda vez
em que foi derrubado, foi mais difícil voltar a montar. Na terceira
vez, achou que não conseguiria. Muito machucado, o joelho latejando, Ty
lançou um olhar ao pai, porém Buck Haskell acabara de aparecer, e o pai
estava conversando com ele. Cerrando os dentes, Ty foi manquejando até
o cavalo que Nate estava alisando e acalmando. Esperou até que Nate
tivesse segurado uma orelha, depois subiu com esforço na sela, cada
músculo do corpo protestando. Percebeu um brilho de admiração nos olhos
do velho cowboy. De repente, toda a dor pareceu valer a pena. E então,
o pau estava comendo de novo, quando Nate soltou o bicho.
Nate saiu do caminho e se dirigiu para a cerca de onde Chase tudo
observava.
O garoto é esforçado. Era o melhor elogio que podia ser dado.
Chase sorriu.
Quem sabe podemos botá-lo em cima de um cavalo pelo resto do ano, e
ensinar-lhe sobre vacas. Lançou um olhar para Buck, que estava
encurvado confortavelmente sobre o arção dianteiro da sela, o chapéu
jogado para trás na cabeça loura encacheada. Tem alguém na sua equipe
que possa ficar de olho nele e ensinar-lhe os macetes? O tempo todo em
que falava não tirava o olho de Ty. Desta feita ele parecia estar
grudado na sela, pronto para cada um dos truques do potro.
Dave tem jeito com garotos. Também posso ficar de olho nele prometeu
Buck.
Vamos começar com ele na semana que vem. Chase percebeu que o cavalo
cor de rato apenas dava pequenos saltos, agora. Como vão indo as
coisas? Era uma pergunta geral, dirigida a Buck.
337
Bem. Tivemos um acidente esquisito no outro dia. Perdemos um bezerro
perto daquele morro isolado no pasto. Ficou preso no arame farpado.
Buck endireitou-se na sela, ajeitando o chapéu sobre a testa. O garoto
tem um bom assento. Até logo mais, Chase.
Até.
Ouvi falar do tal bezerro disse Nate para Chase, depois que Buck tinha
ido embora. Burt achou-o faz quatro dias. O bezerro ainda nem tinha
ficado duro.
É? Vinha mais coisa por aí; Chase podia percebê-lo pelo tom de voz do
homem. Lembrou-se que tinha planejado visitar aquele local com Buck, há
quatro dias.
É. Foi uma coisa muito estranha disse Nate. O fio de arame farpado
estava enrolado no pescoço do bezerro. A teoria é que ele ficou preso
nele, e quando tentou se soltar, só conseguiu apertar mais o arame.
É mesmo? Mas as palavras causaram um arrepio em Chase, a despeito de
toda sua calma aparente. Estava quase preparado para a frase seguinte
de Nate.
É um pouco difícil imaginar como o bezerro ficou preso, para começo de
conversa, e porque não havia muito sinal de luta no capim. E é mesmo
uma estranha coincidência que a ponta do fio tenha sido enrolada nove
vezes.
O nó do carrasco. Outro recado que tinha endereço para ele, porém Chase
não tinha ido buscá-lo. O laço sobre a escrivaninha fora o primeiro
aviso. O bezerro estrangulado era o segundo. O sangue dele gelou,
enquanto uma nuvem solitária passava diante do Sol. Esses avisos tinham
que ser o produto de uma mente deformada. Não havia meios de adivinhar
antecipadamente o que Culley O'Rourke poderia fazer a seguir. Mesmo que
pudesse, como poderia Ir contra o irmão de Maggie? De um jeito ou de
outro, estava enrascado. Aquilo se resumia a qual risco estava disposto
a correr: a chance de que na próxima vez Culley pudesse usar outra
coisa além de um animal irracional na sua tentativa de aterrorizar
Chase, ou a chance de perder Maggie. Ela jamais o perdoaria se causasse
algo de ruim ao irmão. Até onde Culley iria? Estava apenas tentando
assustá-lo, ou havia uma vingança de verdade planejada? Ou... seria
esta uma trama inteligente para causar problemas entre ele e Maggie,
para que ela o deixasse e fosse morar com Culley?
Mas só o que disse a Nate foi:
É uma coincidência e tanto. Se um homem tivesse a consciência culpada,
podia até ficar nervoso.
Podia concordou Nate e se afastou da cerca com aquele andar de pernas
curvas, dirigindo-se para o cavalo cor de rato que
338
estava parado passivamente no meio do curral, enquanto Ty desmontava.
Naquela noite Ty já estava sentado à mesa quando Maggie o viu pela
primeira vez desde a manhã. Foi só depois que o jantar acabara e ele
pedira licença para deixar a mesa que ela notou como ele se estava
movendo dura e desajeitadamente, mancando da perna direita.
Ty, está machucado?
Não. Deu de ombros, como se não ligasse para as dores, mas não era
muito convincente. Bati um pouco com o joelho. Nate me deu um remédio,
logo vai ficar bom.
Ela ficou observando o filho sair mancando da sala, depois começou a
tirar os pratos do jantar da mesa, enquanto Chase terminava o seu café.
Quando voltou da cozinha, Chase estava fitando o fundo da xícara com a
testa franzida. Ela se deu conta subitamente de como ele estivera
quieto durante todo o jantar, os pensamentos aparentemente em outra
parte.
Está com algum problema? perguntou, parando ao lado da cadeira dele.
Ele ergueu os olhos, parecendo voltar ao presente com esforço. Sorriu,
mas a expressão não estava completamente desanuviada.
Estou. Você. Segurou-lhe a mão, e puxou-a para o colo. Deu-lhe um beijo
estalado, depois ergueu a cabeça, os olhos preguiçosos fitando-a
possessivamente. Era isso que eu queria de sobremesa. A mão dele
acariciou-lhe a coxa e o quadril.
No que estava pensando antes de eu chegar? insistiu Maggie, acariciando
os planos angulosos do rosto dele.
Você teria tido orgulho do nosso filho, hoje. Montou um dos cavalos de
quatro anos que estamos amansando. O animal o derrubou quatro vezes,
mas voltou a montar depois de cada vez e dobrou o cavalo direitinho.
Chase, ele podia ter ficado ferido protestou Maggie, franzindo a testa.
Ele não sabe coisa alguma sobre montar um cavalo xucro. Já montou
alguns cavalos novos e não treinados, mas nunca um recém-saído do pasto.
Ele tem que começar a aprender como se faz.
Mas...
Colou a boca à da mulher para silenciar o seu argumento. Quando ela fez
uma débil tentativa para esquivar-se do beijo, tomou-lhe o lábio entre
os dentes e mordiscou-o suavemente. Ela enterrou as mãos nos seus
cabelos para forçar sua boca a dar-lhe um beijo completo.
339
Chase não lhe contou do bezerro estrangulado e deixado com o recado do
carrasco ao redor do pescoço. Sabia melhor do que ela como eram frágeis
os sentimentos que nutria por ele. Pressões externas em demasia
poderiam rompê-los antes que tivessem uma chance de se fortalecer. Cada
minuto, cada hora, cada dia que pudesse ganhar davam-lhe mais um
pouquinho de vantagem.
Ele já sabia que ela era sua. Jamais poderia perdê-la de novo.
340
Capítulo XXXIV
Maggie freou o cavalo e manobrou-o para abrir a porteira do pasto de
Broken Butte. Devia encontrar-se com Chase por ali. Pela manhã ele
sugerira que ela viesse para esses lados no seu passeio da tarde.
Nesses quilómetros de terra agreste, só havia três lugares onde
estariam trabalhando com um rebanho. Ela cruzou a porteira a cavalo,
depois fechou-a atrás de si, tentando decidir a qual dos três ir
primeiro. Foi então que viu um cavaleiro descendo a encosta a meio
galope, vindo na sua direção.
Alo, Maggie. Buck Haskell tocou na ponta enrolada do chapéu e puxou as
rédeas do seu cavalo, emparelhando-o com o dela. Chase me pediu para
vir encontrá-la e levá-la comigo.
Eu estava imaginando aonde iria encontrá-lo admitiu, dando um breve
sorriso para o vaqueiro gregário que Chase considerava seu amigo.
Partiram a trote.
Está linda, hoje, Maggie. Acho que o casamento lhe faz bem.
E faz. Chase a advertira de que Buck gostava de fazer elogios. Tinha
mesmo um encanto juvenil que era irresistível, o seu sorriso largo e
apreciativo fazendo com que o sorriso dela fosse mais natural e menos
polido.
Tenho que lhe dizer que quando Chase me contou que vocês dois iam-se
casar, pensei que vocês não tinham nem sombra de chance depois do que
houve com o seu pai. Sacudiu a cabeça, ironicamente. Mas eu devia ter
sabido que Chase sempre consegue o que deseja.
A brisa pareceu esfriar ante a referência do pai dela. Era melhor que
ela não deixasse os pensamentos se voltarem muito para
341
o passado, abrindo velhas feridas. Quase podia ouvir Chase dizendo
"Agarre firme o que temos, Maggie." Não, não iria olhar para trás, não
tão para trás.
Neste caso, é o que ambos desejamos falou.
Estou vendo. Buck abriu um sorriso para ela. Chase acha que o Sol nasce
e se põe por causa daquele filho de vocês. Quer falar de um papai
orgulhoso, está falando do Chase. Aquele garoto é tudo para ele. Claro,
é natural que um pai se sinta assim a respeito do filho.
É. Maggie escutava os elogios, e sentia-se inquieta.
Acho que não existe nada que Chase não faça por ele disse Buck,
pensativo. Quando se apega a uma ideia, não a larga de jeito nenhum.
Era só uma questão de tempo até que a fizesse pensar do seu modo. Chase
sabia o que era crescer sem mãe, e não queria o mesmo para o garoto.
Minha mãe foi uma espécie de segunda mãe para ele, mas não é a mesma
coisa que ter a mãe da gente de verdade. Acho que você pensou a mesma
coisa... quis que o garoto tivesse o pai de verdade.
É. Maggie não o dissuadiu dessa maneira de pensar. Não havia motivo
para contar-lhe que Chase inicialmente fizera chantagem com ela,
fazendo-a casar-se com ele por causa das ameaças de tomar-lhe Ty.
Chase e eu fomos criados praticamente como irmãos. Tenho sentimentos
muito fortes em relação a ele. Acho que você sabe da história. Não há
muita gente que queira dar uma segunda chance a um ex-presidiário.
Devo-lhe um bocado, mas acho que não preciso convencê-la do tipo de
homem que ele é. Soltou uma breve risada. Cá estou eu, cavalgando ao
lado de uma bela mulher, e o que estou fazendo? Elogiando-lhe o marido!
Estou mesmo fraquejando. É melhor entregá-la a Chase antes de perder
minha reputação.
Esporeou o cavalo a meio galope, e Maggie fez o mesmo.
O mugir do gado veio a seu encontro, quando chegaram ao topo de uma
elevação e viram o prado a seus pés. Os cercados estavam bem no centro
dele. Maggie identificou Chase facilmente entre os cavaleiros. Montado
num capão baio cor de sangue, estava posicionado junto da porteira
principal dos cercados, assistindo a tudo. Buck permaneceu ao lado
dela, só a deixando quando estava entregue a Chase.
Aqui está ela, sã e salva falou, com um amplo sorriso.
Obrigado, Buck. Chase estava ocupado demais olhando para ela para notar
que Buck inclinou o chapéu respeitosamente para Maggie antes de se
afastar. Parece uma garotinha de novo, com o cabelo preso debaixo do
chapéu, desse jeito.
342
Mas, ele já conhecia a maturidade das curvas sob a blusa assinada de
mangas compridas de camurça amarela, e agora o seu olhar se demorava na
boca da moça. Ela enfiou um cachinho que escapara para baixo do chapéu,
curtindo a perturbação gostosa que o olhar dele causara.
Está ficando comprido demais disse, para explicar por que estava usando
o cabelo do jeito antigo, depois rompeu o contato com os olhos dele
para correr os olhos à sua volta. Cadê Ty?
Está terminando o recolhimento com Dave. Devemos começar a mover o
rebanho daqui a uma hora. Tinha havido uma demora em conduzir esse
rebanho para a pastagem de verão devido à quebra de uma bomba de
moinho, e de um riacho que secara inesperadamente, tornando o
suprimento d'água do pasto temporariamente insuficiente. Agora a bomba
fora consertada e uma represa de castor riacho acima fora destruída
para permitir que a água fluísse de novo no leito do riacho. Ele
desafiou Maggie, com um olhar brilhante. Quer bancar o vaqueiro?
Claro. Fazia muito tempo que ela não trabalhava numa fazenda. Parecia
divertido.
Quando os últimos desgarrados foram trazidos e a contagem confirmada,
as porteiras dos cercados foram abertas e o rebanho conduzido para
fora. Enquanto Maggie cavalgava no flanco esquerdo ao lado de Chase e
dois outros cavaleiros, Ty ficava na retaguarda. Sem querer ser chamado
de "filhinho de mamãe", mal a cumprimentara quando chegara com seu
professor-colega, Dave. Divertida, porém compreensiva, Maggie tomara
cuidado para não vigiar o filho atentamente demais.
Uma vaca e um bezerro desgarraram-se do rebanho diretamente na frente
de Chase e Maggie. O capão baio cor de sangue deu uma arremetida na
direção deles, porém Chase freou-o e fez sinal para Maggie.
São seus.
Maggie relaxou a pressão no freio e, ligeiro feito um gato, seu capão
baio disparou atrás do par fugitivo. A velha euforia da perseguição
voltou. A vaca foi virada e voltou trotando para o rebanho, com o
bezerro ao lado. Naquele momento louco, correndo pelo terreno
irregular, ficou bem nítido o quanto sentira falta desse tipo de vida.
Fora por esse motivo que se adaptara tão rápida e facilmente. Sentiu um
lampejo de culpa que sua instrução e todas as coisas que Phillip lhe
ensinara fossem ser desperdiçadas aqui. Isso quebrou a sua
concentração. Não estava preparada para a súbita guinada do seu cavalo,
quando impediu outra débil tentativa da vaca para alcançar a liberdade.
O capão saltou debaixo dela e Maggie caiu ao chão, rolando e parando,
sentando-se, incólume. Por um
343
instante só o que pôde fazer foi ficar sentada ali, surpresa, atónita.
Quando viu as pernas pretas do cavalo baio vermelho de Chase a seu
lado, ergueu os olhos. Ele podia ver que ela não estava ferida, e seus
olhos brilhavam, divertidos. Subitamente, ela abriu um sorriso, e riu
de si mesma.
Não estava sentada com muita firmeza. Acho que estou um pouco
enferrujada. Pôs-se de pé, limpando o assento da calça, e apanhou o
chapéu do chão.
Terá oportunidade de sobra para treinar. Inclinando-se, agarrou-lhe o
antebraço e puxou-a para a sela atrás de si. Ela abraçou-o pela
cintura, apertando mais forte do que era necessário, enquanto Chase
virava o cavalo na direção do rebanho.
Um dos cavaleiros tinha ido apanhar o seu cavalo solto e estava
esperando a meio caminho do rebanho. Quando chegaram perto dele, Maggie
preparou-se para saltar, mas a sela rangeu quando Chase virou-se
parcialmente para enlaçá-la pela cintura. Em vez de baixá-la até o
chão, curvou-a contra o seu corpo, apertando os seus quadris contra a
coxa. Ela viu as chamas escuras no seu olhar e sentiu a pulsação
acelerada corresponder quando sua mirada demorou nos lábios dela.
Eles podem nos ver. Ela lembrou-lhe a plateia de vaqueiros.
Olharão para o outro lado assegurou Chase, e inclinou a cabeça para
cobrir-lhe a boca num beijo duro e faminto. Depois, baixou-a até o
chão, com relutância. A pulsação dela tinha um ritmo perturbado
enquanto subia para a sela da sua própria montaria. A alegria tomou
conta dela enquanto emparelhava o cavalo com o dele, as suas pernas
roçando, uma alegria que era a um só tempo feroz e frágil. Seguiram
adiante a trote, sem grande pressa de alcançar o rebanho que tinha
passado por eles.
Ty fora designado para a posição de fechar a retaguarda com um vaqueiro
veterano. Esta posição era a menos desejável, já que o cavaleiro ficava
sujeito ao fedor, calor e poeira do rebanho. Era frustrante merecer
sempre as tarefas mais baixas. Quando montara o cavalo xucro e o
domara, pensara que tinha provado seu valor, mas logo descobrira que
não. É verdade que estava no pasto trabalhando com o gado, mas os
cavalos que lhe davam para montar eram os piores da fazenda, aqueles
com maus hábitos, ou simplesmente tendências más. Os outros vaqueiros
faziam as mais diversas brincadeiras com ele, e a sua ignorância do
trabalho da fazenda e do gado fazia com que acreditasse em quase toda a
lorota que um vaqueiro lhe resolvesse contar. Havia horas em que Ty
estava convencido de que todos o odiavam, e outras em que estava certo
de que jamais seria aceito por eles. Vacilava entre uma determinação
344
sombria de provar seu valor e um desejo amargo de mandá-los todos para
o inferno.
O que era pior, não tinha ninguém com quem desabafar as suas
frustrações. O pai deixara claro desde o início que não viesse queixar-
se com ele, e que tinha que resolver as próprias dificuldades. E a
mãe... Em primeiro lugar, pelo jeito que agia quando o pai estava por
perto, Ty sabia que tomaria o partido de Chase. Além do mais, ele
estivera tão resolvido a viver aqui, que o que seria do seu orgulho se
fosse até ela e lhe dissesse que não estava aguentando? E se ela
tentasse intervir a seu favor, então os vaqueiros provavelmente
começariam a chamá-lo de "filhinho da mamãe".
Um riacho raso atravessava o caminho do rebanho. As primeiras vacas
foram empurradas para dentro dele, e o resto foi atrás. Ty começou a
seguir os desgarrados pelo riacho, mas o seu cavalo levantou a cabeça
nervosamente ao ver o brilho do Sol na superfície da água e começou a
fazer corpo mole ao longo da margem de cascalho. A água mal chegava aos
tornozelos, e Ty ficou impaciente com sua montaria e cutucou-lhe a
barriga com as esporas para forçá-lo a entrar na água rasa. O cavalo
pulou de banda, desviando-se da água brilhante e quase o derrubando.
Com a mão direita livre, agarrou o arção dianteiro da sela para voltar
a sentar-se direito. Mal recolocara o pé no estribo, quando o seu
companheiro de retaguarda emparelhou com ele e deu uma pancada forte
com a ponta da sua corda de nylon na mão que agarrava o arção da sela.
Mesmo através do couro rijo da luva, Ty sentiu a ardência da pancada
com a corda. Ainda tentando controlar o cavalo irrequieto, lançou um
olhar furioso ao vaqueiro.
Ei, pare com isso! gritou. Está tentando me derrubar? O vaqueiro de
faces bronzeadas apenas sorriu e bateu com a
corda de novo. Da segunda vez foi com mais força, e a dor fez com que
Ty soltasse o arção da sela. Ty estava uma fera. mas estava
ocupadíssimo tentando controlar o animal que começara a corcovear.
Embora estivesse resolvido a não cair do cavalo, ainda não recobrara
totalmente o equilíbrio, portanto tinha que ficar se agarrando ao arção
para não cair. Cada vez que o fazia, a corda batia na mão infratora.
Maggie vira o cavalo de Ty refugar na travessia do riacho. A princípio
pensara que o outro cavaleiro estava perto dele para ajudá-lo. Foi só
depois da terceira ou quarta vez que percebeu que o homem estava
batendo na mão de Ty para afastá-la do arção da sela. Todos os seus
instintos maternais vieram à tona, enquanto chamava a atenção de Chase
para o que estava acontecendo.
Está vendo o que ele está fazendo com Ty?
345
Chase mal olhou na direção de toda aquela comoção, exibindo pouco
interesse na situação do filho.
Está só judiando um pouco dele, Maggie. Não ligou para a coisa e guinou
o cavalo para outro setor do riacho.
Não vai deixar que façam isso, vai? É o seu filho!
Ignore a coisa. A ordem era firme e definitiva.
Você pode ignorar, mas eu não vou disse, bruscamente, e começou a levar
o cavalo para longe dele, mas Chase agarrou as rédeas, detendo o cavalo
dela.
Os olhos castanhos eram duros e penetrantes.
Fique fora disso, Maggie. Estou falando sério. Se você interferir, Ty
vai parecer um idiota na frente dos homens.
Então faça você alguma coisa.
Pode parecer-lhe cruel. Você é mulher. Mas os rapazes e os trotes deles
lhe estão ensinando algumas lições que precisa aprender.
Não precisam ser ensinadas desse jeito. Rejeitava o código de que se
esquecera durante os anos em que estivera fora. Não via mais valor
nele, especialmente quando o objeto das judiações era seu filho.
Se ele não aguenta os trotes, então não vai servir para dirigir esta
fazenda. Tem que ter o respeito dos homens. Sem isso, vai falhar. Isso
não é nada comparado a algumas coisas que terá que enfrentar quando for
mais velho. Acredite, Maggie, sei do que estou falando. Já passei por
tudo isso.
A discussão cessou quando Ty recuperou o controle do cavalo, fazendo
com que parasse de corcovear e cruzasse o riacho. Seu êxito fez com que
os trotes acabassem, mas o incidente estremecera um pouco as relações
entre Chase e Maggie.
Naquela noite, Maggie viu os vergões vermelhos na mão direita de Ty e
ficou furiosa de novo com Chase por ter permitido que ele fosse tratado
desse jeito. Quando ela terminou a louça do jantar e voltou para a
sala, Chase estava no escritório e Ty estava subindo as escadas para ir
se recolher cedo. Maggie encurralou o filho no patamar, resolvida a
descobrir quais os seus sentimentos.
O que é, mamãe? perguntou ele, cheio de impaciência. - Estou cansado de
verdade. Não dá para esperar?
Eu... Examinou o ar desanimado e exausto dele, a esbeltez do peito e
dos ombros que o trabalho físico transformara em músculos duros. Só
queria saber se você está feliz, aqui. Oferecia-lhe a chance de fazer-
lhe confidências.
A indecisão e a incerteza passaram por sua expressão, enquanto devolvia
o olhar perscrutador dela. Subitamente o seu filho viril de 14 anos
ficou parecendo não ter mais de oito, confuso pelo
346
mundo adulto. Com a mesma rapidez que veio a impressão se foi, e suas
feições endureceram de uma maneira que lhe lembrou Chase.
Estou, sim. E se virou para subir as escadas.
Aquela visão de outro sentimento contraditório fez com que ela
insistisse.
Então quer ficar?
Mais do que nunca declarou Ty, subindo os degraus.
Boa noite, mamãe.
Boa noite ecoou, Maggie, ciente de que Ty renunciara à necessidade do
apoio moral dela, pretendendo lutar sozinho sua batalha. Estava
crescendo depressa, como ela mesma aos 15 anos. Não era o que desejara
para ele.
Quando Chase terminou seu trabalho de escrita, um pouco depois das 10
horas, toda a parte de baixo da casa estava às escuras. Apenas a luz da
escada tinha sido deixada acesa. Ele hesitou, depois começou a subir.
Sentada à penteadeira, Maggie ouviu-o subir as escadas e pegou a escova
de cabelo para começar a escovar de novo os cabelos escuros. Não ergueu
os olhos, quando ele entrou no quarto. O cabelo dela crepitava com a
eletricidade estática. Escutou os sons de Chase se despindo e ouviu as
molas da cama rangerem sob o peso do marido.
Não vem para a cama?
A pergunta rompeu o silêncio dela.
Os homens sempre pensam que isso resolve tudo retrucou Maggie, e passou
a escova mais vivamente pelos cabelos.
E o que você vai resolver sentada aí escovando o cabelo?
retrucou ele.
A mão dela devolveu a escova ruidosamente ao tampo da penteadeira,
enquanto Maggie se levantava e abraçava o peito. Cruzou o quarto
evitando a cama onde ele estava sentado, de cuecas.
Não vai dar certo anunciou Maggie, depois deu-se conta de que era uma
frase que exigia explicações, e continuou, atropeladamente: Para você,
tudo gira em torno desta fazenda. Não está ligando que um mundo inteiro
exista do lado de fora dela. Não é a mesma coisa para mim... ou para
Ty. Já me acostumei a uma vida diferente... indo ao teatro, a uma
sinfonia, ao museu. Ainda não senti falta dessas coisas, mas vou sentir.
Quando sentir, iremos para Nova York ou Dallas ou Denver passar um fim
de semana. Chase a observava, sabendo que se estava desviando do
verdadeiro tópico: Ty e o incidente de hoje à tarde. Esta fazenda não é
uma prisão, Maggie. Geralmente faço várias viagens durante o ano.
Admito que viajo por causa dos negócios da fazenda, mas podemos
combinar negócios com prazer.
347
Você está pegando um novilho e tentando transformá-lo num touro. Não há
validade nesse argumento, portanto é melhor dizer logo o que está na
sua cabeça.
Ela se virou para enfrentar o olhar calmo e desafiador.
Muito bem. Enfrentou-o sem recuar. Quando Ty terminar a escola, quero
que vá para a faculdade.
A boca do homem se estreitou.
Esta fazenda lhe dará uma educação melhor do que qualquer
universidade... vai diplomar-se em administração animal, agricultura,
contabilidade, administração da terra e psicologia humana. Quatro anos
na Triplo C o deixarão mais bem equipado para o futuro do que qualquer
formando de faculdade.
Quero que ele tenha um diploma universitário declarou ela, sem se tocar
com o argumento. Não quero que seja como você, quando crescer...
insensível, ligando mais para esta fazenda do que qualquer outra coisa.
Chase sentiu-se magoado que ela pudesse realmente pensar que isso era
verdade. No entanto, não era esse o ponto a ser debatido.
Sabe que isso apenas tornará as coisas mais difíceis para ele, não
sabe? Mas estava vendo que ela não sabia. Suspirou pesadamente. Tudo
bem, vamos chegar a um acordo. Se Ty quiser ir para a faculdade, não
tentarei impedi-lo ou fazer com que mude de ideia. Quando viu a
hesitação dela, Chase acrescentou: Você não espera que concorde quando
creio que a faculdade não seja uma boa coisa para ele. Mas prometo que
não interferirei e deixarei que a decisão seja dele. Vamos dar um
jeito, você e eu.
Ela sabia que ele se estava referindo ao casamento deles em geral, e
sentiu a súbita atração do amor dele, amolecendo-a.
Às vezes acredito mesmo que sim murmurou.
Como é, agora vem para a cama? O olhar dele percorreu o corpo vestido
de camisola, cônscio das formas maduras que revelava, porém mais
interessado naquilo que escondia.
Havia jovialidade na sua resposta desafiadora:
E o que você acha que isso vai resolver?
Venha aqui e eu lhe mostro.
Chase estendeu a mão e puxou-a para a cama. Antes de rolarem juntos no
colchão, a camisola foi tirada, assim como as cuecas dele. Enquanto as
mãos errantes dele despertavam a carne da mulher, sua boca faminta
buscava-lhe os lábios.
A luz disse ela, lembrando-lhe que ainda estava acesa.
É para poder enxergá-la melhor, meu amor insistiu, recuando para
admirar a nudez dela, ansioso para descobrir-lhe todos os mistérios.
Você tem um corpo que faria qualquer homem desejar fazer amor, mas o
meu prazer fica dobrado olhando para ele.
É. Ela compreendeu a sensação adicional, enquanto observava o jogo dos
seus músculos ao longo do ombro e do braço, quando a mão dele segurou-
lhe um dos seios. Chase, me ame pediu, abalada pelo tamanho de sua
necessidade.
Sempre.
E então o beijo dele estava preenchendo-lhe a boca, enquanto o peso
pousava firmemente sobre o corpo esguio dela.
Duas manhãs mais tarde, Chase e Ty tinham acabado de se sentar para
tomar o café da manhã que Maggie preparara, quando a refeição foi
interrompida por Nate. Ele parou no vão da porta da sala de jantar e
tirou o chapéu. Lá fora, o alvorecer estava pintando o céu de laranja e
rosa.
Sente-se e tome um pouco de café, Nate convidou Chase, mas com uma
sensação desconfortável ante a expressão imóvel do vaqueiro. A sensação
penetrou em locais onde os instintos primitivos residiam. Ele
pressentia encrencas, do jeito que um cachorro se eriça ante uma sombra
silenciosa.
É, sente-se, Nate. Maggie confirmou o convite. Vou trazer-lhe uma
xícara.
Já ia-se levantando da cadeira, quando o capataz recusou com um único
meneio de cabeça.
Não, obrigado, senhora. Não entrou na sala, mas continuou parado à
porta. Posso lhe falar em particular, Chase?
O fazendeiro afastou a cadeira da mesa e se moveu com a rapidez de um
homem acostumado à ação, enquanto se reunia ao vaqueiro no saguão.
Maggie sabia que havia algo errado, mas não compreendia o quê. Podia
ouvir o murmúrio baixo das vozes, a conversa muito breve. Depois que
ouviu a porta da frente abrir e fechar, levou um segundo inteiro para
se dar conta de que dois pares de passos haviam deixado a casa. Correu
para a porta, escancarando-a e deparando com Chase afastando-se da
varanda em largas passadas, acompanhado de Nate.
Chase, aonde vai? Nem tomou café. Seu pedido de explicação estava
disfarçado por uma desculpa doméstica.
Quando ele se virou, o rosto nada lhe dizia, os pensamentos ocultos por
detrás da máscara que os homens do Oeste usam.
Como qualquer coisa lá na cozinha.
Aconteceu alguma coisa? Ela começou a cruzar a varanda para ir atrás
dele.
349
Nada em que eu não possa dar um jeito. Fique dentro de casa. Era uma
ordem enfática.
Maggie abriu a boca para protestar, mas Chase já estava se afastando,
tomando por certa sua obediência. A ordem deixou-a mais intranquila
ainda, enquanto o observava cruzando o pátio da fazenda, até que
finalmente fez com que deixasse a varanda e o seguisse. Não sabia o que
estava tentando esconder dela, mas pretendia descobrir.
Quando ele desapareceu dentro do estábulo dos garanhões, ela estugou o
passo. Notou que havia outros correndo para o mesmo lugar, no entanto
lá de dentro não vinham os ruídos que indicariam uma luta entre
garanhões. Maggie parou ao cruzar a porta aberta do estábulo para
deixar os olhos se acostumarem à escuridão interior. Chase estava
parado junto a uma baia aberta, uma tensão de aço a envolvê-lo. Ela se
adiantou para olhar lá para dentro, imaginando a visão de um garanhão
doente.
A luz do sol da manhã se filtrava por uma das janelas da baia, fazendo
brilhar o pêlo amarelado do garanhão Cougar. Os olhos dela se
arregalaram quando se deu conta de que o animal silencioso estava
parado numa postura empinada. Como? Então, viu como e sua exclamação
abafada de horror foi audível, a despeito da mão que colocou às pressas
sobre a boca. Uma corda cheia de nós envolvia-lhe o pescoço, amarrada a
uma viga do teto. O cavalo fora enforcado.
Sua visão foi bloqueada por um par de ombros largos. Um par de mãos
agarrou a carne macia dos seus braços enquanto ela oscilava, numa
revulsão chocada. O olhar apavorado encontrou o de Chase. Ele rangia os
dentes visivelmente, ante o rosto branco e aturdido de Maggie.
Disse para você ficar em casa. lembrou, lamentando que a mulher não
tivesse obedecido.
Foi o Culley... Um soluço embargou-lhe a voz, interrompendo a pergunta.
E então Chase estava-se afastando, entregando-a aos cuidados de outra
pessoa.
Leve Maggie para casa, Buck, e cuide para que fique lá. Ty vá buscar
Ruth. Não quero que sua mãe fique sozinha.
Maggie percebeu de relance a presença do filho junto à porta aberta,
enquanto Buck a levava para fora. A mente dela fervilhava com temores e
lembranças demais revividos e mal ouviu as palavras murmuradas que Buck
lhe dirigia. Não estava interessada em falar com ele sobre o garanhão
enforcado. Não queria falar com ninguém a respeito, nem fazer
especulações em voz alta até ter falado sozinha com Chase.
350
Ela o viu na hora do almoço, mas a presença de Ty não lhe deu chance de
falar livremente. Na frente do filho, fingiram ignorância de qualquer
motivo que levaria alguém a enforcar o garanhão. A cena da manhã no
estábulo ficou-lhe na cabeça o dia todo.
No meio da tarde, Chase entrou na cozinha da fazenda. O corpanzil de
Tucker estava apoiado num balcão, o cotovelo encostado no tampo. Usava
um avental em volta do barrigão. Não pareceu surpreso ao ver Chase
entrar nos seus domínios.
Tem café no bule. Sempre tinha, mas Tucker fez um gesto na direção da
máquina de café, por via das dúvidas. Eu o estava esperando.
Chase serviu-se de uma xícara, usando uma das canecas na prateleira.
Suponho que tenha ouvido contar do garanhão amarelado do meu pai.
Soube que foi enforcado. Tucker acenou com a cabeça assentindo, os
olhinhos observando Chase enquanto este acendia um charuto longo e
fino. Soube do bezerro, também. Imaginei que mais cedo ou mais tarde
você apareceria para falar comigo. Estoulhe dizendo claramente que não
tive nada a ver com isso, e não sei de nada a respeito.
Se soubesse, não me diria adivinhou Chase, lançando ao homem um olhar
através da trilha de fumaça do seu charuto.
Não, suponho que não admitiu o cozinheiro. Depois, perguntou: Como está
Maggie? Ouvi falar que ela viu tudo.
Mas sua pergunta foi ignorada.
Quando foi a última vez que viu Culley?
Faz tempo. Os olhos se estreitaram, parecendo ainda menores.
Chase sorvia o café quente, preto e forte. Deixou-lhe um gosto amargo
na boca.
Você e os O'Roukers eram unha e carne.
Sim concordou o outro. Pode pensar o que quiser a meu respeito, Calder,
e o tipo de homem que sou, mas eu jamais faria algo que pudesse causar
sofrimento a Maggie. O que ela viu não foi bonito. Sabendo o que você
está pensando, ela tem que estar doendo por dentro.
Se você sabe alguma coisa a respeito disso, Tucker, e eu descobrir, é o
fim da linha para você advertiu Chase, mas quase acreditava no que o
homem dizia. Os sujeitos mais duros geralmente eram uns molengas quando
se tratava de mulheres, capazes de esmagar a cabeça de um homem sem
piscar o olho, mas indefesos como um gatinho recém-nascido quando
confrontado com as lágrimas de uma mulher.
351
Já lhe disse o que sei.
Chase tomou outro gole de café e esvaziou a caneca na pia, batendo a
cinza do charuto pelo ralo.
Obrigado pelo café.
Trate direitinho da Maggie, caso contrário da próxima vez sua xícara
vai estar temperada com arsénico. Sempre tenho um pouco à mão para o
caso de um rato aparecer.
Não vou-me esquecer.
Chase meio que sorria consigo mesmo, quando saiu da cozinha. Parecia
que não faltavam a Maggie cavaleiros andantes ansiosos para salvá-la
dele. Será que nenhum deles se dava conta do quanto ele amava aquela
mulher?
O fato de pensar nela dirigiu seus passos para a Casa Grande. A mansão
estava silenciosa quando ele entrou, exceto pelo ruído da batedeira
elétrica funcionando na cozinha. Foi até lá, esperando encontrar Maggie
ocupada com os preparativos para o jantar, mas Ruth achava-se sozinha.
Cadê Maggie?
Está lá em cima, deitada. Está com dor de cabeça. Chase não esperou
para ouvir mais, deixando a cozinha e
cruzando a sala para subir os degraus de dois em dois. Ao primeiro
olhar, o quarto parecia vazio; então ele a viu de pé junto à janela.
Tinha-se virado à entrada dele, e a tensão dos acontecimentos do dia
lhe aparecia nos olhos verdes.
Ruth falou que você estava deitada. Parou por um momento a fim de
fechar a porta antes de se dirigir para junto dela.
Disse-lhe que estava com dor de cabeça. Queria ficar um pouco sozinha
para poder pensar. O olhar dela se voltou para a janela, depois correu
de novo para ele. Acredita que foi Culley, não é?
Ele parou, perscrutando-lhe os olhos.
E você?
A mulher deu-lhe as costas para olhar pela janela e esfregar os
cotovelos nas palmas das mãos.
Não consigo imaginar meu irmão fazendo aquilo. Não posso acreditar que
meu irmão enforcaria... qualquer coisa. Culley não é assim.
Talvez não fosse assim. Postou-se atrás dela, acariciando-lhe as pontas
macias dos ombros. Você esteve fora muito tempo, Maggie. Não sabe o
tipo de homem em que ele se transformou.
Ainda é meu irmão. Um arrepio correu-lhe pela espinha. Chase, o que
você vai fazer?
352
Ele fê-la virar-se, escorregando as mãos por suas costas para tomá-la
nos braços.
Vou-me agarrar a você, Maggie. Vou agarrar firme o que
nós temos.
Não era a isso que ela se referia, mas já não importava mais. Enquanto
os seus braços a envolvessem e sua boca cobrisse a dela, podia esquecer
o resto, por enquanto.
353
Capítulo XXXV
Durante o sono, Maggie buscou Chase, mas sua mão encontrou o espaço
vazio onde ele devia ter estado. Acordou instantaneamente, os olhos
revistando a cama escura. Estava vazia. Então, sentiu o aroma forte da
fumaça de charuto. Virou a cabeça no travesseiro.
A poltrona cor de canela tinha sido virada de frente para a janela.
Chase estava sentado ali, os pés descalços apoiados no peitoril da
janela. Estava parcialmente nas sombras, mas o brilho do charuto
lançava uma luz amarela escura sobre o rosto do marido. À luz débil, as
faces estavam planas e marcadas sob a cobertura da pele bronzeada.
Ela contentou-se em apenas olhar para ele. Nunca se sentira tão chegada
a ele, tão parte dele como nessa noite. Ao invés de solapar o amor
deles, o incidente com o garanhão os aproximara ainda mais. É, os seus
corpos haviam-se unido para fazer amor, mas tinha sido mais do que
isso, os silêncios se unindo, cada uma das suas vozes falando os
pensamentos do outro.
Contudo, ele não dormira. Ela pressentia que estava fugindo dela. A
cabeça do marido estava repassando os problemas deles sozinho, sem ela.
Estava deixando-a de fora, sem permitir que ela fosse parte da coisa.
Isso ela não podia permitir.
Chase, no que está pensando?
Em nada de importante replicou. Vá dormir. Daqui a pouquinho eu vou
para a cama.
Ao invés disso, Maggie afastou as cobertas e saltou da cama. O luar
lançava um brilho acetinado sobre a brancura da sua pele nua, enquanto
se dirigia para a poltrona.
Está pensando no garanhão.
354
A boca de Chase ostentava uma curva indulgente, enquanto espalmava a
mão no osso do quadril dela, forçando-a a sentar-se no braço da
poltrona.
Não obedece às ordens direito ironizou, apagando o charuto. Mandei que
fosse dormir.
Por que não queria que eu soubesse que o garanhão tinha sido enforcado?
Você não ia me contar acusou Maggie. Foi por isso que mandou que eu
ficasse dentro de casa, hoje de manhã.
É errado tentar poupar-lhe aquela cena tão desagradável? O braço dele
curvou-se num gancho para puxá-la para o colo.
A carne dura do seu corpo era quente de encontro à pele nua da mulher.
As mãos dele percorreram-lhe as curvas macias, tentando deliberadamente
distraí-la.
Você não queria me poupar... pelo menos não tanto quanto queria impedir
que eu soubesse adivinhou ela, e sentiu a hesitação dele. Aquilo
aumentou-lhe as desconfianças. Do que mais você tentou me poupar,
Chase? Já sei da réplica do laço, agora do garanhão. Houve mais alguma
coisa, não foi? E você não me contou.
O dedo dele traçou distraidamente um círculo na garganta dela, enquanto
o olhar ficava mais escuro. Por um momento, ela pensou que ele ia
continuar a negar.
Encontraram um bezerro estrangulado há quase duas semanas admitiu. Como
é, está contente por ter-lhe contado?
Ela desejara estar errada... torcera para que não tivesse havido nenhum
outro incidente como o daquela manhã.
Não. Tinha a voz rouca de pesar. O que você vai fazer?
Tenho que detê-lo. Havia uma impaciência sombria nas suas palavras, uma
relutância em dar a resposta.
Está-se referindo ao meu irmão disse, empertigada.
Sim, estou-me referindo a seu irmão. Chase não titubeou. O tom de voz
era firme e decisivo. Até agora as vítimas dele têm sido animais, mas
ele está doente. Não vou esperar para ver qual será sua próxima jogada.
Não vou arriscar.
Não discutiu em relação a isso, pois compreendia o potencial para o
perigo, mas aquilo não era a fonte de sua incerteza. Ergueu os olhos
para perscrutar os dele.
Como pretende detê-lo, Chase? Sabia o poder que ele manejava. Tomara o
lugar do pai.
Sopesou as palavras dela, sem baixar o olhar.
Vou cuidar disso à minha moda, Maggie. A ligeira ênfase a excluía de
sua decisão. Inclinando a cabeça, focinhou o lóbulo da orelha dela.
Terá que confiar em mim.
355
Mas ela não estava a fim de ser distraída, e segurou-lhe o rosto nas
mãos para mantê-lo longe dela.
Não, Chase, isto não basta. Não sou nenhuma mulherzinha do Oeste
obediente que se contenta em deixar essas coisas para os homens. Não
sou do tipo de ficar remexendo na cozinha, enquanto você decide as
coisas importantes sem me consultar. Se era isso o que queria, não
devia ter-se casado comigo. Este problema me diz respeito. Sou sua
mulher e irmã dele. Isso me dá o direito de conhecer os seus planos.
Não me deixe de fora.
Não é minha intenção deixá-la de fora. Pegou a mão que segurava sua
face e beijou-lhe a palma. Ela correu os dedos de leve pelos lábios
dele, traçando o contorno masculino.
Ele é meu irmão, Chase. Sei que alguma coisa precisa ser feita, mas não
o quero ferido. A dor da frustração veio à tona. Culley não quer ouvir
a voz da razão. Eu sei. Já tentei.
Viu a lembrança que havia nos olhos dela, a justiça rural que o pai
havia imposto para dar um fim ao roubo do gado. Beijou a aliança de
ouro no dedo dela.
Jamais faria coisa alguma que pudesse virá-la contra mim. Tem a minha
palavra, Maggie. Mas não ia envolvê-la nos seus planos em relação a
Culley. Chase a conhecia o suficiente para saber que insistiria em
acompanhá-lo e ele não podia ter certeza, se sua presença não teria um
efeito inibidor. Os homens tendem a ser mais reservados, contidos,
quando há uma mulher presente, expressando-se menos livremente.
Um sorriso lento espalhou-se pelo rosto dela.
Agora que já a deixei tranquila a esse respeito, vamos voltar a atenção
para outra coisa. Porque está ficando muito difícil concentrar-me com
uma mulher nua no colo. Inclinou a cabeça para lamber um biquinho
rosado, e sentiu-o endurecer.
Mas você não me contou o que pretende fazer disse, num vago protesto,
sentindo o corpo corresponder à carícia do marido.
Pretendo enfiou a mão no meio de suas coxas fazer amor com você pelo
resto da vida. E então sua boca cobriu a dela, abafando-lhe o gemido de
prazer.
Na manhã seguinte, Chase fechou a porta do escritório, enquanto dava
alguns telefonemas, depois saiu da Casa Grande atrás de Nate Moore.
Encontrou-o no armazém, abastecendo sua pick-up. Quero que você, Ike e
Slim me encontrem na porteira norte às duas da tarde. A escolha dos
homens fora deliberada. Todos tinham acompanhado o pai dele quando
fizera aquela visita à fazenda dos O'Rourkes.
356
O que há? O par astuto de olhos azuis demonstrava que já tinha
adivinhado.
Vamos devolver aquela corda à pessoa que a deixou em volta do pescoço
do cavalo amarelado declarou Chase. Não quero que Maggie saiba onde vou
logo mais à tarde, portanto não espalhem.
A incerteza brilhou fugazmente na expressão do velho vaqueiro.
Chase, apoiei seu pai, mas...
Não havia calor no sorriso que lhe curvou a boca. Era gelado e sombrio.
Sei o que estou fazendo, Nate. Você vem comigo?
Que diabo, fui sua ama-seca desde que você tinha idade para laçar o seu
primeiro bezerro. Claro que vou com você. Nate estava ofendido com a
sugestão de Chase de que não o apoiaria. Só queria saber o que estava
pretendendo.
Vai descobrir. Só não fique surpreso com coisa alguma que eu disser.
Pode contar comigo... com todos nós prometeu Nate.
Eu sei. Chase apertou o ombro do homem e depois se afastou.
Na hora do almoço, Chase indagou displicentemente sobre os planos de
Maggie para a parte da tarde, e sugeriu que ela talvez gostasse de
explorar a cavalo a extremidade sul da fazenda, manobrando a mulher
para longe do lado norte, onde iria encontrar-se com os homens. Parte
dele sabia que não era justo mantê-la na ignorância dos seus planos,
mas era contra sua natureza envolvêla nisso. Chase via aquilo como seu
problema e sua responsabilidade; sendo assim, cabia-lhe resolvê-lo. Não
permitiria que outra pessoa o fizesse por ele, que dirá uma mulher,
mesmo que fosse a sua mulher.
Quando deslizou para trás do volante de uma das pick-ups da fazenda
para ir encontrar-se com Nate e os outros, viu Buck entrar no pátio da
fazenda, puxando um reboque para cavalos. Ele parou diante do
dispensário de primeiros-socorros e gabinete de veterinária e
suprimentos. Provavelmente não lhe teria prestado muita atenção, se não
tivesse notado que Ty era passageiro da pick-up. Foi até lá para ver
qual era o problema. Quando os chamou, Buck alterou seu curso na
direção da porta do dispensário e veio para junto da pick-up com seu
andar gingado.
Com um olhar para Ty, que continuava junto à camioneta estacionada,
Chase perguntou:
Algum problema? Ele está ferido?
357
O garoto? Não. Buck sacudiu a cabeça e puxou o chapéu para cima da
testa. Só viemos buscar um pouco de remédio. Tem uma vaca doente no
pasto norte que está precisando de cuidados. Pensei que devia mostrar
ao garoto como é que se faz. Aquela terra é dura, irregular, portanto
decidi que seria bom para ele conhecer a posição do terreno. Não está
familiarizado com o setor norte. Seria terrível se o filho do patrão se
perdesse disse Buck, com um amplo sorriso.
É verdade concordou Chase, com um sorriso seco e irónico. Tome cuidado
para que ele não cruze nenhuma cerca limítrofe. Mantenha-o em terra
Calder. Especialmente hoje, pensou, mas ficou calado.
Tudo bem concordou Buck.
Despedindo-se do amigo com uma saudação de um dedo só, Chase engrenou
uma primeira e saiu do pátio da fazenda.
Quando os prédios estropiados da Shamrock apareceram, Chase os
examinou. Tinha ouvido contar que o lugar estava caindo aos pedaços,
mas não esperava que estivesse tão destruído e deserto, um local para
os fantasmas viverem. Nate chegou seu cavalo mais para junto do de
Chase, indicando com um gesto de cabeça o veículo estacionado no pátio
cheio de ervas daninhas.
O'Rourke está com visitas.
Parecia esperar que Chase fosse parar, e estava quase parando o próprio
cavalo.
É o que parece. Não diminuiu a andadura do seu cavalo, e o trio de
cavaleiros da Triplo C seguiu, inseguro, sem saber que tudo estava
saindo de acordo com o plano.
Quando entraram no pátio, Culley apareceu desafiadoramente para recebê-
los. Estava pateticamente magro, as roupas pendendo frouxas no corpo
esquelético. Os olhos verdes brilhavam nas órbitas fundas e escuras,
cheios de ódio, e da loucura que o acompanhava. Chase fitou seu
oponente e soube que não podia permitir que este homem deformado e
malévolo continuasse solto por mais um dia.
Está invadindo propriedade particular, Calder! rosnou Culley. Tenho
testemunhas. Indicou dois homens que se achavam nas sombras com um
gesto lateral de cabeça, enquanto o olhar não se desviava de Chase.
Vire-se e saia.
Chase olhou para os dois homens.
Xerife. Dr. Barlow. Cumprimentou os dois homens nominalmente, sem
deixar transparecer que esperara encontrá-los ali. Seu olhar de pedra
voltou-se para Culley. Abaixando-se, soltou a corda enrolada com o laço
do carrasco e segurou-a frouxamente por um instante. Só vim devolver
uma coisa que lhe pertence. Jogou a corda para Culley com uma torção do
pulso. Caiu na
358
poeira aos pés do cunhado. Você a deixou ao redor do pescoço do
garanhão. Foi um descuido de sua parte, Culley. Devia tomar mais
cuidado com sua propriedade.
O que o faz pensar que esta corda é minha? ironizou Culley. Nunca
deixei nada na sua casa. A única coisa que você tem e que me pertence é
minha irmã. E não sei nada de garanhão nenhum.
Mentiroso.
A provocação macia, de uma só palavra, fez Culley abespinhar-se. Por um
segundo, Chase.pensou que aquele espantalho ia saltar sobre ele e
rasgá-lo com as mãos nuas. Mas todo o seu humor se modificou num piscar
de olhos. Culley riu silenciosamente dele com um amplo sorriso.
Não, Calder, não vai-me pegar como pegaram meu pai. Não vai-me provocar
para admitir nada debochou, suavemente. Esta corda não é minha... e
você não pode provar o contrário.
É aí que você se engana, Culley. O couro de sela gemeu quando Chase
mudou de posição, debruçando-se para frente a fim de cruzar os braços
no arção de sela. Não apenas posso provar, como já provei. Comparamos
aquela corda de nylon que achamos no pescoço do garanhão que você
enforcou com a corda de uma peça na cidade... corda da mesma peça de
que Michels vendeu um pedaço para você no mês passado. Não é verdade,
Nate? Dirigiu a pergunta ao capataz idoso, posicionado à retaguarda, na
esquerda.
É verdade concordou Nate, como se soubesse do que Chase estava falando.
O olhar de Culley dardejava desesperadamente de Chase para o vaqueiro.
É mentira!
Quem está mentindo? desafiou Chase. Você não devia ter deixado a prova
para trás. Não teve estômago para esperar que o cavalo acabasse de
morrer para pegar sua corda?
Estou-lhe dizendo que não é a minha corda! insistiu, alucinado. Eu a
tirei da sala de equipamentos! Não acha que sou tão burro que fosse
usar a minha própria corda para enforcar aquele garanhão, acha?
Admito que você mostrou muito mais inteligência quando enrolou o arame
farpado no pescoço daquele bezerro. Pareceria um acidente para quem não
estivesse por dentro falou Chase.
Culley soltou um riso mudo de alegria maliciosa.
Sabia que você ia perceber meu recado... nove torcidifihas do arame.
559
O maxilar de Chase estava cerrado numa linha dura como pedra.
Um homem tem que estar doente para sair por aí enforcando animais. Os
dois homens a pé tinham-se movido silenciosamente para junto do homem
magro de cabelos negros, enquanto Chase falava. Não concorda, doutor?
A súbita inclusão dos dois espectadores na conversa pegou Culley de
surpresa. No seu ódio por Chase, esquecera-se de que também eles
estavam escutando o que era dito. Depois do primeiro olhar ao par que o
ladeava, uma raiva violenta subiu pelo pescoço de Culley, deixando-lhe
o rosto vermelho.
Você me preparou uma armadilha, seu filho da mãe! A denúncia raivosa
chegou no instante em que Culley percebeu que tinha sido arrancada uma
confissão de sua boca. Você sempre acha que é danado de esperto.
Não, você é que acha. Esse foi o seu erro, Culley replicou Chase.
Vai-se arrepender disto. O ódio, tão consistente e inabalável, começou
a sacudi-lo ao mesmo tempo em que um ar complacente tomava conta de sua
fisionomia. Por que fundamento vão deter-me? Destruição da propriedade
dos Calders? debochou. Bem, então pode ser que eu tenha que pagar uma
multa e passar alguns dias na cadeia. E daí?
Daí que... enquanto você estiver passando esses dias na cadeia, o
xerife vai providenciar para que você seja submetido a um exame
psiquiátrico. Você é perigoso demais para andar livre por aí. Vou
certificar-me de que você seja trancafiado, Culley falou Chase antes
que essa sua mente deformada fira alguém.
Não sou maluco. Não podem me prender.
Podem, e vão. Olhou naqueles olhos verdes insanos. Pessoalmente, tanto
se me dá que joguem a chave fora e você apodreça no inferno. Portanto,
fique muito feliz por ser irmão de Maggie.
O xerife se adiantou para tomar o braço de Culley e levá-lo embora.
Vamos indo, Culley.
O homem fez uma breve tentativa para afastar a mão no seu braço, mas o
Dr. Barlow se aproximou, sua influência benigna acalmando a rebelião.
Você precisa de ajuda e de algum tempo para descansar disse o médico.
Vamos providenciar para que receba isso.
Culley ficou firme por um minuto, sem resistir, mas sem se deixar
levar. Sua risada semidemente subiu a escala, enquanto fitava Chase.
360
Deixei você morrendo de medo, não foi? Agora pensa que, livrando-se de
mim, tudo vai acabar. A risada de novo.
Aposto com você que antes do fim dessa semana o seu filho estará morto.
Quem sabe está morrendo justo agora, enquanto você está aqui. Eu
gostaria muito disso.
Um fogo gélido ardeu dentro de Chase, enquanto toda a misericórdia o
abandonava, apagando a imagem conciliadora de Maggie de sua mente. Com
fria determinação, levou o seu cavalo para junto do homem, virando o
seu focinho até ficar olhando direto para o rosto do seu atormentador.
Quem está metido nisso com você? O brilho áspero do olhar era
implacável, e a pergunta suave o bastante para ser perigosa. Uma ameaça
fora feita contra a vida do seu filho. Não ficaria sem resposta.
Você não gostaria de saber? Culley replicou, com um ar complacente e
debochado. Não gostaria de saber quem colocou aquele laço do carrasco
em sua escrivaninha? Acho que ele o odeia quase tanto quanto eu.
É o Tucker? Quem? O cavalo dele se aproximou mais, sacudindo a cabeça
ante a tensão do cavaleiro.
Aquele traidor cagão? Continue adivinhando. Culley estava curtindo o
medo raivoso que seu comentário despertara.
Quem sabe eu confirme quando você acertar.
Os lábios desapareceram na linha apertada da boca.
Por Deus, você vai-me dizer o nome nem que eu tenha que enfiar a mão
por sua garganta e arrancá-lo! Um brilho de satisfação apareceu nos
olhos de Culley, e Chase percebeu que não ia obter a resposta usando a
força. Com esforço, controlou a cólera e recuou, mudando de tática. É
tudo mentira, não é? Você não tem um parceiro nessa história. Ninguém
seria idiota o bastante para se unir a um homem mentalmente
desequilibrado. Não sei por que estou perdendo tempo ouvindo um
lunático furioso como você.
Enquanto fechava a porteira leste para o pasto norte, Maggie olhou de
novo para a pick-up e o reboque para cavalos vazio estacionados ao
longo da estrada da fazenda. Virando-se na sela, examinou o terreno
ondulante em busca de um sinal dos ocupantes da pick-up. A essa
distância da Casa Grande, a presença dela despertaria perguntas se
fosse vista por algum cavaleiro da Triplo C. Preferia que Chase não
descobrisse que ela ia fazer um último apelo a Culley para acabar com
essa tentativa de aterrorizá-los.
O céu interminável se estendia sobre as planícies agrestes, onde não se
via outro cavaleiro, além dela mesma. Esporeara o cavalo a um meio
galope, virando para o norte na direção da fronteira da Shamrock.
Sentava-se na sela com uma segurança nata, uma extensão esguia do
cavalo. Seus lábios ostentavam uma linha firme, havia autoconfiança no
modo como erguia a cabeça, uma retidão na atitude.
Durante tanto tempo vivera com a incerteza, cheia de perguntas sobre o
que o amanhã traria, amparando-se na força de Chase. Aquilo era contra
sua natureza. Com a decisão matinal de enfrentar o irmão e ir contra
ele, toda a sua antiga autoconfiança retornara. Era um alívio não ter
que fugir das sombras imponentes da realidade. Ela e Chase
sobreviveriam a isso... ou não, mas sua resolução de trazer a situação
a um clímax não estava vacilante. Era serena e forte; a terra
entranhara nela essas qualidades, como as entranhara em Chase. Havia
problemas à frente e ela tinha que enfrentá-los cara a cara, sem se
apoiar no marido.
A porteira para o pasto cercado já não estava mais à vista. À sua
esquerda, uma vaca mugiu enquanto Maggie marginava o topo de uma
colina. Lançou um olhar na direção do som, diminuindo automaticamente a
andadura do cavalo para um trote. Um movimento chamou sua atenção,
quando uma vaca saiu do meio de um bosque de salgueiros e correu pelo
prado relvado com um bezerro ao lado. O olhar dela buscou a causa da
fuga apressada da vaca, e Maggie notou os dois cavalos selados parados
à sombra das árvores. Levou mais um segundo para ver dois cavaleiros a
pé e reconhecer Ty como um deles. Por conta própria, o cavalo dela
passou a andar a passo, enquanto ela via o filho guardar alguma coisa
num dos alforges. O segundo cavaleiro veio por trás dele e levantou o
braço, baixando-o repentinamente. No que parecia ser câmara lenta, Ty
caiu para frente de encontro a seu cavalo; depois as pernas cederam e
ele desabou ao chão. Aos poucos ela se deu conta de que ele fora
atingido na cabeça, e estava inconsciente.
A reação de Maggie foi instantânea. Esporeou o cavalo e mudou o seu
rumo para o pequeno bosque. Sua cólera estava a todo o vapor. O
ribombar dos cascos do cavalo fez a cabeça do vaqueiro se virar na sua
direção. Ele tinha agarrado os pés de Ty e começara a arrastá-lo.
Então, viu-a e parou, ficando ereto. Adiantou-se para segurar a brida
do cavalo, quando ele freou e Maggie saltou da sela.
Chegou bem no momento exato, Maggie. Ty caiu e bateu com a cabeça
explicou Buck Haskell, com um ar ansioso de preocupação. Eu estava
tentando colocá-lo na sela. Você pode me dar uma mão.
Ele não caiu! Você bateu na cabeça dele! acusou ela, numa explosão de
raiva. Eu vi! Começou a passar por ele
362
para ir cuidar do filho, mas ele prendeu-lhe os braços para detêla. Os
olhos verdes dela lançaram-lhe um olhar mortífero. Tire as mãos de cima
de mim! Essa estupidez já foi longe demais! E não estou ligando a
mínima para os motivos dela!
Tentou livrar-se do aperto dele com uma torção irada dos ombros, mas
ele a segurou com mais força. A expressão despreocupada que geralmente
mascarava o rosto de Buck o abandonou. No seu lugar, Maggie viu uma
astúcia mortal nos olhos azuis. Os instintos primitivos dela
reconheceram a presença do perigo.
Quer dizer que você me viu bater nele. O sorriso frio dele deixou-a
gelada, e ela parou de se debater. Nesse caso, vou ter que apressar o
meu cronograma e me livrar dos dois ao mesmo tempo.
Do que está falando? Até aquele momento, estava pronta a considerar o
incidente como outro trote imbecil. Um arrepio gelado dançou-lhe pelo
sangue, quando percebeu que era diferente.
Bem, eu ia esperar umas duas semanas antes de providenciar o seu
desaparecimento. Você ia ficar tão abalada com a morte do seu filho que
ia sumir no mundo, sem deixar rastro. O sorriso dele ficou ameaçador,
frio e calculista.
O olhar dela se dirigiu para o filho inconsciente.
Ty começou, depois sentiu um tremor de alívio ao perceber o arfar do
peito do rapaz. Ele estava vivo.
Não, ele ainda não está morto. Buck acompanhou os seus pensamentos. O
moleque da cidade vai ficar com o pé preso no estribo, quando o seu
cavalo se assustar com uma cascavel. Eu vou fazer o impossível para
ajudá-lo, mas ele vai ser arrastado até a morte antes que eu consiga
alcançar o seu cavalo. Adotou um ar simulado de pesar e angústia. Direi
a Chase que foi tudo minha culpa, e me lamentarei por não ter podido
salvá-lo. Chorarei e implorarei o seu perdão, direi como me sinto
péssimo.
Maggie sentiu o medo enroscar-lhe o estômago. Quase podia ver a cena
que ele estava descrevendo. Não importa quão grande fosse sua dor,
Chase jamais culparia Buck... jamais adivinharia.
Agora não vai conseguir. Eu estou sabendo, portanto não vai dar certo.
Vai dar certo insistiu, cheio de confiança. Admito que pode ficar um
tanto suspeito você desaparecer no mesmo dia em que seu filho é morto
num acidente na fazenda. Porém, mesmo se suspeitarem de algo podre,
Chase vai pôr a culpa no maluco do seu irmão. Você nunca devia ter
voltado, Maggie.
363
Por quê? Por que quer nos matar? Lutou contra o aperto das mãos dele,
tentando recuar, enquanto buscava um motivo no rosto dele.
Porque a Triplo C ia ser minha. Se você não tivesse voltado, Chase me
teria feito o seu herdeiro, deixando para mim o controle da fazenda...
como devia ter sido desde o início. Eu já o tinha convencido disso,
quando você apareceu com esse bastardo.
O lábio superior do homem tremia, e ele quase rosnava de ódio. Com um
empurrão brutal, levou-a para junto do seu cavalo amarrado. Havia uma
corda enrolada presa no arção dianteiro da sela. Antes que Maggie
pudesse recuperar completamente o equilíbrio e fugir dele, já tinha
agarrado a corda e passado o laço nos pulsos dela, apertando-o bem e
amarrando-lhe as mãos. O impulso de lutar contra ele veio à tona, mas
foi imediatamente abafado pela visão de Ty mexendo-se atrás dele. Sua
prioridade se modificou e ela se submeteu sem luta a fim de manter Buck
distraído, enquanto Ty recobrava a consciência.
Você é o responsável pela morte do garanhão e do bezerro, não é?
acusou, para mantê-lo falando e cobrir qualquer som que Ty pudesse
fazer enquanto recobrava a consciência.
Não. Sorriu para ela, puxando bem a corda até que lhe penetrou na
carne. A visita do seu irmão na noite do seu casamento provou ser
oportuna. Descobrimos que ambos queríamos a mesma coisa, enquanto eu o
"acompanhava" para fora da fazenda.
Isso é mentira negou ela. Culley não está interessado em ser dono da
Triplo C.
Digamos que ambos queremos ver Chase morto e enterrado. Apenas temos
motivos diferentes para desejar a mesma coisa. Seu irmão quer ver todos
os Calders eliminados da face da terra, e eu quero a fazenda. Primeiro,
queríamos nos divertir um pouco com ele, fazê-lo sofrer debochou. Chase
ficou um bocado abalado, quando viu aquele garanhão do pai dele
enforcado na viga do estábulo. Seu irmão mal pode esperar pelo dia em
que possa enforcar Chase e dizer que foi suicídio. Culley me contou
sobre seu pai, e como ele morreu. É justiça poética que Chase morra do
mesmo jeito.
Não acredito. Viu o braço de Ty mover-se aos arrancos, subindo na
direção da cabeça, enquanto o rapaz começava a voltar a si. Falou mais
alto, tentando dar um aviso ao filho. Você planeja matar Ty e me matar.
E espera que eu acredite que meu irmão aprova isso?
Seu irmão não sabe dos meus planos a seu respeito. Vai pensar que você
desapareceu, como todo o mundo. Ou então vai
364
imaginar que Chase a matou. Ninguém vai descobrir o seu corpo. Você vai
simplesmente sumir sem deixar vestígios. Para Culley não importa que o
guri seja seu sobrinho. É um Calder, em primeiro lugar.
Não ousava olhar para Ty e possivelmente chamar a atenção de Buck para
ele. Com o canto dos olhos, notou que o rapaz estava-se pondo de pé,
cuidadosamente, fazendo o mínimo de barulho possível. A pulsação dela
estava disparada. Temia que ele fosse fazer alguma bobagem, como tentar
dominar Buck e libertá-la. Fez uma tentativa de enviar sutilmente um
recado para Ty.
Não vai conseguir, Buck. Chase vai descobrir, de alguma forma. Alguém
lhe irá contar, irá avisá-lo, de alguma maneira
insistiu, e Ty hesitou, parado junto ao cavalo selado.
Buck franziu o cenho.
E quem lhe contaria? Ninguém sabe. Você é tão biruta quanto seu irmão.
Você é que é o maluco, se acha que não vai ser apanhado.
Quando Ty colocou seu peso no estribo, o couro da sela rangeu.
Instantaneamente alerta, Buck virou-se na direção do som. Por um
segundo de indecisão, Ty ficou imóvel na sela. Maggie jogou-se em cima
de Buck, embolando as pernas com as dele para levar a ambos ao chão.
Vá, Ty! Vá buscar ajuda! berrou, e teve uma visão dele esporeando o
cavalo para longe deles antes que Buck a chutasse para afastá-la de si.
Com um gemido de dor, saiu rolando de cima do homem, enquanto ele se
punha de pé. Buck deu um passo na direção do cavalo e cavaleiro
fugitivos, que já iam em disparada, aumentando cada vez mais a
distância que os separava, depois correu para sua sela para tirar o
fuzil da bainha de couro. Buck olhou para seu alvo, mas não se deu ao
trabalho de levar o fuzil ao ombro.
Lançou a Maggie um olhar sombrio e zombeteiro, enquanto ela se punha de
pé, com dificuldade, devido aos pulsos amarrados.
Foi uma bela tentativa, Maggie, mas você apenas adiou o inevitável. O
garoto não vai achar nenhuma ajuda debochou não naquela direção. Com o
coração pesado, Maggie percebeu que cavalo e cavaleiro estavam
disparando para o norte. Daqui a dez minutos estará perdido. Não terei
trabalho em encontrá-lo. Isso apenas modifica a ordem das coisas. A
pessoa tem que ser flexível. Vou fazer o contrário... primeiro me livro
de você, depois saio no encalço do garoto. O resultado é o mesmo.
365
Capítulo XXXVI
A menos de cinco quilómetros da cena, a visão de uma barreira de
choupos-do-canadá e salgueiros forçou Ty a frear seu arquejante cavalo.
Por entre os galhos cheios de folhas, percebeu o brilho do Sol
refletido na superfície lisa da água e deu-se conta de que estava
perdido. Não tinham cruzado nenhum rio.
Eram três horas, e sua sombra jazia sobre a grama à sua direita. A
descoberta de que cavalgara incorretamente para o norte trouxe-lhe um
gemido de desespero à garganta. A pick-up estava a leste... a pick-up
com seu rádio faixa-cídadão e o fuzil no suporte da janela de trás.
Girou o cavalo para a direita para colocar o Sol às suas costas e
esporeou-o para um galope relutante.
Ouviu o barulho da água espadanando, seguido pelo grunhido dos cavalos
que escalavam a margem, o gemido do couro de sela e o tinir das
correntes da brida. Ty quase soltou um grito de alívio em voz alta,
quando viu o quarteto de cavaleiros aparecer galopando, com o pai na
vanguarda. Seu grito rouco fê-los parar, os cavalos pinoteando
excitados quando o rapaz se aproximou.
Onde está Buck? A pergunta do pai era urgente e ansiosa.
Ty fez um gesto na direção do sul.
Ele está com mamãe. Vai matá-la, acho.
E explicou apressadamente o pouco que escutara e notou como o pai
parecia branco por baixo das camadas de bronzeado. No entanto, não
pareceu ficar surpreso com as informações.
Mostre-nos onde os deixou ordenou Chase. Soltou a aba da bainha de
couro e tirou de lá seu fuzil. O trio de cavaleiros o imitou.
366
O coração de Maggie batia com força dentro do peito, mas estava
pensando com clareza. Quanto mais tempo desse a Ty para fugir, mais
demoraria para Buck achá-lo, o que aumentava as chances de que alguém
da fazenda aparecesse por acaso. Já não se ouviam mais os cascos
galopantes do cavalo de Ty, quando ela ergueu o olhar da boca do fuzil
nas mãos de Buck. Tinha que mantê-lo falando.
Não vai dar certo. Você vai cometer um erro, em algum lugar. Veja só
quanta coisa já deu errado. Nada está-se passando como planejou. Tentou
abalar a confiança dele, fazê-lo hesitar.
Já fui longe demais para recuar agora. Deu de ombros e o cano do fuzil
desviou-se dela. Sei como cobrir meus rastros.
Quando Chase descobrir que sumi, vai virar esse lugar de pernas para o
ar à minha procura. Como pode ter certeza de que não haverá por aqui
alguma coisa de meu que seria uma prova incriminadora? O chapéu dela
estava no chão, derrubado quando caíra ao chão carregando Buck. Tem
certeza absoluta de que pode apagar todos os vestígios?
Com o fuzil apoiado na curva do braço, a boca apontando para o chão,
Buck apanhou o chapéu do solo e foi até ela, colocando-o na sua cabeça.
Seria como tentar encontrar uma agulha num palheiro.
Como vai-se livrar do meu cadáver para que ninguém o encontre? Falava
com naturalidade, sem deixar que a imaginação se apegasse ao fato. O
seu tempo está-se esgotando, Buck. Se abrir uma cova rasa, corre o
risco de que algum coiote a descubra. Meus ossos serão encontrados,
mais cedo ou mais tarde, e as pessoas vão começar a somar dois mais
dois, e o resultado será o seu nome.
Mas ele apenas sorriu.
Não vou cavar nenhuma sepultura para você. Simplesmente vou jogar seu
corpo no rio. Inclinou a cabeça para o lado, a atitude complacente e
zombeteira. O gás faz o corpo boiar. Sabia? As entranhas ficam todas
intumescidas, fazendo com que ele flutue. Quando estive na prisão, meu
companheiro de cela era um mestiço Arapaho. Foi ele que me contou isso,
e falou que a gente podia evitar que um morto boiasse, se lhe retirasse
as entranhas e enchesse o corpo de pedras. Parou, depois comentou: Está
um tanto pálida, Maggie. Admito que seja uma ideia terrível, mas é
eficaz, muito eficaz.
Você está maluco. Ela deu um passo atrás, recuando num gesto cauteloso
e lutando contra os tremores que a acometiam.
A expressão dele ficou assustadora.
367
Pode pensar que estou maluco, mas não vão-me tomar esta fazenda. Devia
ter sido minha desde o começo. Sou melhor vaqueiro, melhor cavaleiro e
laçador. Sou melhor do que Chase em qualquer aspecto. Minha mãe, meus
avós... meus antepassados, foi o suor e o sangue deles que construiu
esta fazenda. Eu mereço estar à frente dela. E meu direito, mais do que
de qualquer outro! Foi pegar as rédeas soltas do cavalo de Maggie, que
pastava. Fez um gesto impaciente na direção dela. Monte no cavalo.
Não. Ela recuou mais um passo. Não irei com você por bem. E se me matar
aqui terá que me carregar até o rio. Como irá explicar o sangue na sela?
Escute aqui, sua vaca... Buck deu um passo na sua direção no exato
momento em que o cavalo dela erguia a cabeça e soltava um relincho para
a direita.
Chase! gritou Maggie. Ela o viu aparecer no topo irregular de uma
colina e descer a encosta à frente de um bando de cavaleiros. A moça
começou a correr, desajeitadamente, a coordenação atrapalhada pelas
mãos amarradas à frente.
Mal correra um metro, quando foi agarrada pelos cabelos e forçada a
parar. Um braço se enganchou no pescoço dela, semiengasgando-a, as
pontas das botas mal tocando o solo. Seu corpo fazia as vezes de escudo
para Buck, o cano do fuzil deitado diagonalmente na frente, a boca
apontada para sua cabeça.
Pode ir parando, Chase! Buck berrou a ordem. Aí está bom!
Chase freou bruscamente o cavalo, os outros cavaleiros espalhando-se às
suas costas.
Solte-a, Buck. Você não tem chance, contra todos nós. Os dedos dela
enterravam-se no braço de Buck, lutando para
aliviar a pressão estranguladora na garganta. Eles eram muitos. Era
impossível para Buck aproveitar qualquer parte do seu plano agora.
Podia sentir seu desespero transformando-se em pânico.
Jogue fora o fuzil! gritou Buck. O baio cor de sangue mexia-se
nervosamente sob Chase, enquanto este apertava mais o fuzil, com uma só
mão, e calculava suas chances, mas o risco era grande demais para
Maggie. Jogou-o na grama alta. Diga a Nate e aos outros para largarem
os deles.
Façam o que ele diz resmungou Chase, em voz baixa, e saltou da sela
pelo lado direito, pisando no chão sem desfitar Buck um só minuto. Às
suas costas, ouviu o barulho dos fuzis caindo ao chão. É a mim que você
quer, Buck, portanto, solte-a.
Se eu a soltar, é o meu fim. Nós dois sabemos disso. Ela é o meu salvo-
conduto, agora.
Chase caminhou firmemente na direção deles, cada passada longa
diminuindo a distância. No azul da sua camisa de cambraia
368
de algodão apareciam manchas de suor. Os cantos da boca estavam virados
para dentro. Havia um ar de quietude nele, de contenção, de fúria
gelada mantida sob controle.
O que você quer, Buck? interpelou Chase, num tom de voz sem emoção. Eu?
Dinheiro? Um salvo-conduto para fora daqui? Diga qual o seu preço para
a libertação de Maggie.
Pare aí! Foi como um latido nervoso, que fez Chase parar a três metros
de distância. Não sou nenhum idiota, Chase. Você não cumpriria promessa
alguma, depois que eu soltasse Maggie.
Dou-lhe minha palavra de que aceitarei os seus termos. E então a voz
dele ressoou de algum lugar lá dentro, profundo e escuro. Mas, juro por
Deus que, se a machucar, não conseguirá fugir para onde eu não o
alcance. E também lhe dou a minha palavra quanto a isso.
O braço relaxou de encontro à garganta, e os pés dela pousaram
completamente no chão de novo. Buck estava ofegando, um animal
encurralado sem ter onde se esconder. Com o canto dos olhos Maggie viu
que ele lambia os lábios, nervosamente, pensando... o tempo todo,
pensando.
E se eu dissesse que você podia ter Maggie se passasse a Triplo C para
meu nome? Ela vale tanto para você? Buck quis saber. Você me daria a
fazenda em troca dela?
Sim. Chase estava completamente imóvel, os músculos preparados para uma
abertura... qualquer abertura.
Buck soltou o braço do pescoço dela e Maggie tentou dar um passo para
longe dele, pretendendo deixar de servir-lhe como escudo. A mão de Buck
fechou-se sobre o braço dela, mantendo-a a seu lado.
Vai ficar aqui mesmo, comigo ordenou. Depois acrescentou, em tom
ameaçador: Faça um só movimento para fugir e eu atiro nele. Se fosse
você não faria nada para me deixar nervoso, porque não me custa nada
matá-lo.
Acreditou nele. A esta altura, não tinha nada a perder. Mataria a todos
se achasse que poderia safar-se. Ficou parada rigidamente ao lado dele,
o coração pendendo para Chase, tão perto, e no entanto tão longe.
Passarei a fazenda para o seu nome, no minuto em que você soltar
Maggie, Buck repetiu Chase.
Você a quer mesmo de verdade, hem? zombou Buck. Acha mesmo que ela vale
tanto, ou só está-me gozando?
Dou-lhe a minha palavra. A promessa saiu entredentes.
Não confio em você, Chase. Buck recuou das condições que estipulara,
duvidando que fossem ser cumpridas. Havia falhas demais, repercussões
demais. Chase jamais deixaria que ele fosse
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em frente com o que estava tentando. Mas não pôde deixar de imaginar
até onde Chase iria, até onde poderia forçá-lo a ir. Se quiser Maggie,
terá que me implorar. Fique de joelhos, Chase. Os lábios de Maggie se
entreabriram num grito silencioso, ante a exigência. Buck queria que
Chase rastejasse a seus pés, queria despi-lo do seu orgulho, fazê-lo
humilhar-se diante da mulher, do filho e dos veteranos da Triplo C. Ela
olhou para Chase, sua mente dardejando para uma época em que desejara
vê-lo de joelhos implorando misericórdia.
Uma raiva violenta varreu o rosto de Chase e vibrou por seu corpo. Uma
ardência crua queimava suas entranhas, arranhando-lhe a garganta. Um
estrondo alto ecoava-lhe nos ouvidos. Delineado contra o azul vivo do
céu, ele era o poder nesse torrão, mas estava totalmente indefeso.
De joelhos, Calder! Buck enunciava cada palavra claramente e com
precisão zombeteira. Se quer Maggie, então implore!
A angústia estava estampada nos olhos castanhos. Chase oscilou e
colocou um joelho no chão, os dentes expostos pelo esforço. Naquele
instante de choque, Maggie soube que não suportaria se Chase largasse
tudo por ela. Este abandono de poder e força viveria para sempre na
lembrança deles. Não importa o quanto a amasse, Chase se odiaria pelo
resto da vida pela rendição do seu amor-próprio. Era um sacrifício feio
que acabaria por separá-los de vez.
Chase! Não! Não faça isso! gritou o protesto para impedi-lo de pousar
os dois joelhos no chão diante de Buck.
Instintivamente, ela debruçou-se para frente. Buck puxou-a de volta,
com brutalidade, xingando-a, enquanto a esbofeteava na boca com as
costas da mão. O golpe lançou-a cambaleante para trás, e a mulher caiu
pesadamente ao solo. Ouviu-se o som de um rugido como o de um touro
atacando, seguido pelo grito espantado de Buck. Quando Maggie olhou
para trás, Chase estava partindo para cima de Buck. A explosão do tiro
de fuzil ensurdeceu-a, e ela soltou um grito ao ver Chase se crispar.
Porém ele continuava vindo, direto em cima do fuzil, derrubando a arma
e socando Buck. Enquanto ela lutava para se levantar, viu Buck cair. E
então Chase estava lá, pondo-a de pé, meio que carregando e meio que
protegendo-a enquanto a empurrava para a segurança em meio a uma chuva
de balas que levantavam nuvens de pó. Atordoada pela confusão de gritos
abafados e disparos, ela levou um segundo para se dar conta de que os
homens tinham recuperado os seus fuzis e estavam enchendo o terreno com
balas para cobrir a fuga deles.
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Encontraram abrigo num aluvião vazio, formado pela erosão da terra ao
longo de séculos de chuva. Entraram nele, meio que escorregando e meio
que caindo na ravina rasa, e pararam para descansar contra a proteção
da margem. Ante o grunhido abafado de dor de Chase, Maggie virou o
rosto para olhar para ele. Tinha as feições contorcidas numa careta
enquanto embolava o lenço vermelho que tirara do bolso e o apertava de
encontro à crescente mancha vermelha do seu lado direito.
Está ferido! Ela se adiantou para investigar a gravidade do ferimento.
Tudo bem insistiu ele, com voz tensa. A bala resvalou nas costelas,
provavelmente quebrou uma ou duas. Ele não teve tempo de mirar, mas
seria preciso mais do que uma bala para me impedir de chegar até você.
Chase fez uma careta enquanto ela aplicava pressão à ferida para
estancar o fluxo de sangue.
Buck, ele está... Os disparos de fuzil continuavam a pontuar o ar da
tarde.
Conseguiu chegar até as árvores. Eu vi. Os rapazes cuidarão dele. Chase
olhou em derredor, procurando orientar-se. Agora, o que estou querendo
é tirá-la do meio do perigo. Esta ravina contorna a colina. Iremos dar
em algum lugar por trás dos rapazes.
Ty... lembrou ela.
Não se preocupe. Nate cuidará dele.
Como foi que ele o encontrou? O coração dela estava começando a bater
mais normalmente. Tirou a blusa para fora da cintura do jeans e rasgou
uma tira da fralda para fazer uma atadura, em substituição ao lenço
dele na ferida.
Seu irmão acabara de nos contar que Buck estava metido nisso com ele.
Estávamos voltando da casa dele. Leu a pergunta ansiosa no olhar dela e
deu um débil sorriso. O Dr. Barlow vai levar Culley para um hospital
particular de doenças mentais, onde poderá ser tratado.
Obrigada murmurou, e baixou os olhos, sem conseguir expressar sua
gratidão por ele ter não apenas poupado o irmão, mas também
providenciado ajuda médica para ele.
Maggie. A insistência suave da voz de Chase deteve a mão dela que
levava o pedaço de fazenda dobrado até o ferimento do marido. A mão
esquerda dele segurou-lhe o rosto, fazendo-a olhar para cima. A
gratidão profunda nos olhos dele era inexprimível e ela compreendeu-lhe
a causa.
Jamais poderia olhá-lo novamente, Chase, se você tivesse ficado de
joelhos por minha causa. Isso nos teria destruído. Você não devia ter
deixado que ele...
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Foi só num joelho, Maggie lembrou-lhe, sem desviar os olhos dos dela;
uma fome por todas as coisas inexprimíveis que a vida tinha a lhes
oferecer achava-se nos olhos dele. Ela deu-lhe um beijo ardente na
boca, acalmando essa necessidade momentaneamente. Endireitou o corpo e
tirou a mão ensanguentada dele do ferimento, colocando sobre ele a
atadura da mão dela e se pôs de pé, com dificuldade. Vamos indo.
Com Maggie na frente, ambos acompanharam o curso sinuoso e cheio de
cascalho da ravina, indo bem abaixados para tirar toda a vantagem
daquela proteção. Ocasionalmente ouviam sons que indicavam que os
cavaleiros ainda caçavam sua presa. O terreno acima do aluvião ficou
mais irregular, um emaranhado de rochas e vegetação.
Um farfalhar do capim na margem acima deles foi o único aviso
antecipado que tiveram. Ambos se viraram quando Buck saltou para o
leito da ravina. O olhar espantado dele revelou que não tinha
conhecimento de que o casal estava ali. Tentou girar o cano do fuzil,
porém Chase reagiu com mais rapidez. Com um golpe do braço tirou a arma
da mão de Buck e atingiu-o no peito com o ombro, levando-o ao chão com
o peso do corpo. Buck recobrou-se instantaneamente, levantando os
joelhos e enfiando-os nas costelas de Chase. A dor explodiu, fazendo
Chase rolar para o lado, enquanto Maggie corria para pegar o fuzil.
Alcançando-o, a mulher imediatamente colocou uma bala na câmara e
levou-o ao ombro. Enquanto mirava seu alvo, enxergava o rosto imóvel e
chocado de Buck, imobilizado por esta visão da morte, o eterno coiote
esgueirando-se pelas sombras escuras da vida.
Uma mão ergueu o cano do fuzil para o alto e tirou-o das mãos dela.
Não, Maggie. Chase estava parado diante dela. Antes que Buck pudesse
tentar fugir, dois cavaleiros pararam suas montarias na orla da ravina,
cobrindo-o com suas armas. Ela olhou para Chase, meio intrigada pelo
fato de ele a ter detido. Dentro da severidade de sua expressão, havia
a dor da tristeza. Ele é o mais perto que cheguei de ter um irmão
explicou Chase suavemente.
Havia poupado o irmão dela, a quem ela amava a despeito de tudo, e
estava pedindo o mesmo para si. Com um grito abafado, jogou-se nos
braços dele, envolvendo-lhe os ombros com os seus braços e apertando o
corpo junto ao dele. O rosto dela estava enterrado na sua camisa,
enquanto ele movia a mão mais uma vez para fazer pressão na ferida.
Maggie sentiu o roçar dos lábios
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dele contra os seus cabelos e estremeceu de alívio. Ouviu Ty
perguntando:
Mamãe está bem?
Está. Estamos ambos bem respondeu Chase.
Um céu de promessa, Um céu tão imponente,
Este céu que leva A marca dos Calders.
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IMPRESSO POR TAVARES & TRISTãO GRÁFICA E EDITORA DE LIVROS LTDA. À RUA
20 DE ABRIL, 28, SALA 1.108, RIO DE JANEIRO. R.J.

Fim