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AGROECOLOGIA E ACESSO A MERCADOS

Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil

AGROECOLOGIA E ACESSO A MERCADOS
Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil

Didier Bloch Consultoria para a Oxfam/GB

Abril de 2008

Índice
Resumo Siglas Introdução
• O mercado, nova fronteira das ONGs rurais • Foco nos agricultores pobres, produzindo segundo o paradigma agroecológico • Comercialização da agricultura familiar, discussão de três experiências • Estrutura do texto

5 7 9
9 9 10 11

Primeira parte: produzir para comercializar
Contextualização
• O peso e a diversidade da agricultura familiar brasileira • De que agricultores familiares estamos falando aqui? • Alguns elementos da economia da agricultura familiar nordestina • Políticas públicas para a agricultura familiar • O contexto nacional e internacional: fatores favoráveis e desfavoráveis • As polarizações brasileiras

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14 14 16 19 20 23 25

Três projetos na Região Nordeste do Brasil: a produção agroecológica gerando renda
• O Programa Meio de Vida Sustentáveis da Oxfam • Avanços palpáveis: a produção agroecológica gerando renda • Um rápido balanço das três experiências

27 27 30 42

Agroecologia e acesso a mercados

enfrentar e desenvolver mercados • Evitar os mercados convencionais e os atravessadores • Procurar mercados diferenciados Foco em três mercados: Orgânico. Institucional e justo • O mercado local das feiras orgânicas • O mercado institucional • O comércio justo do algodão • Os vários mercados do babaçu Como vender sem se vende? as lições da prática • A dura realidade da economia de mercado • Equilíbrio e tensão entre o político. o econômico. o social e o ambiental • Desafios e nós organizacionais Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil .Produzir na perspectiva agroecológica • A produção agroecológica • Um ambiente favorável para a produção agroecológica • Avanços e dificuldades na produção agroecológica • Lições para a sustentabilidade 44 44 48 51 56 57 57 58 60 64 65 65 67 68 72 76 76 83 85 95 100 100 113 126 Agregar valor à produção: desafios tecnológicos e organizacionais • Beneficiamento e processamento da produção em unidades de médio porte • Um duplo desafio: agregar valor a agregar gente • Avanços e dificuldades na transformação da produção Segunda parte: vender sem se vender A procura de mercados diferenciados • Lidar com o mercado para incrementar o fator “renda” na economia familiar • Acessar.

Gênero e mercado • O reconhecimento ainda limitado das mulheres na agricultura familiar nordestina • Gênero na família. da agroecologia e da economia solidária • Agroecologia e economia solidária: objetivos comuns e estratégias complementares • SECAFES e SCJS: novas políticas públicas para a agricultura familiar e a economia solidária • Elementos adicionais de políticas de comercialização da agricultura familiar 155 155 162 166 172 178 183 189 Conclusão Notas de fim Referências bibliográficas Anexo Agroecologia e acesso a mercados . e não! 135 135 136 137 141 145 146 Terceira parte ...Além do local Ampliar o raio de ação entre a a família e a comunidade • Que futuro para os jovens? • Intensificação e expansão das iniciativas agroecológicas • Conquistas políticas 145 148 152 Novas políticas públicas na confluência da agricultura familiar. porém ganhos econômicos limitados para as mulheres • O mercado emancipa as mulheres? sim! . nos grupos produtivos e nas organizações de mulheres • Maior força política.

Resumo No Brasil. cuja história é vinculada à luta de milhares de quebradeiras de coco babaçu.Associação em Áreas de Assentamento no Estado do Maranhão. superar o tabu da parceria com o Estado. Diaconia e ASSEMA. as organizações de agricultores e as ONGs de assessoria a trabalhadores rurais avançaram bastante no campo das tecnologias apropriadas e da produção agroecológica. da AAOEV . O presente trabalho discute a viabilidade da agricultura familiar com base na experiência acumulada em três projetos de comercialização da produção agroecológica. Essas três iniciativas fornecem a base empírica para discutir três modos de comercialização da produção agroecológica: o mercado local (feiras). no sertão do Rio Grande do Norte. assessorada pelo ESPLAR. A terceira gira em torno da produção de óleo da palmeira babaçu pela COPPALJ . a bola da vez é o mercado. partindo dessa base mais firme. lida com o comércio justo de algodão orgânico. com assessoria da ASSEMA . no sertão cearense. o mercado institucional (a compra direta pelo governo) e o mercado justo internacional. A primeira experiência. apoiadas pelo Programa Meios de Vida Sustentáveis (PMVS) da OxfamGB. desenvolvidos pelas organizações ESPLAR. A Segunda. assessorada pela Diaconia. Souberam também consolidar o espaço da ação não governamental e. visa o abastecimento de feiras locais e mercados institucionais com hortaliças. da ADEC – Associação de Desenvolvimento Cultural. Hoje. de Tauá. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 05 . A comercialização da produção – in natura ou beneficiada – é certamente um dos maiores gargalos da agricultura familiar e representa um enorme desafio para os agricultores pobres da região Nordeste do Brasil.Cooperativa dos Pequenos Produtores Agroextrativistas de Lago do Junco. com ou sem certificação orgânica.Associação dos Agricultores Agroecológicos Oeste Verde.

as três iniciativas mostram que é possível falar em viabilidade da produção agroecológica e da sua comercialização. da agricultura familiar e da economia solidária. difusão da experiência – traz um volume importante de informações e reflexões.Este documento foi produzido. na dependência de políticas públicas ainda incipientes e que. transformação. permanecem minoritárias. Sua viabilidade em escala maior fica. Agroecologia e acesso a mercados 06 . efetuadas em setembro de 2007. levantando questões. O resultado é um amplo panorama. comercialização. e da leitura da documentação produzida no âmbito dessas experiências. Apesar desses empecilhos. a partir de visitas às três experiências de referência. Além disso. principalmente. apesar da presença de forças favoráveis à agroecologia em instâncias governamentais. onde a sistematização da prática em suas etapas sucessivas – produção. foram consultados estudos brasileiros recentes sobre a comercialização da produção agroecológica e diversas publicações relativas aos temas da agroecologia. no âmbito de experiências localizadas (grupos de produtores familiares ou de assentamentos). com o intuito de alimentar debates. porém. Trata-se também de um texto no qual o autor defende determinadas posições. por vezes polêmicas. Uma das principais constatações do estudo é de que em todas as etapas existem sérias dificuldades.

Pecuária e Abastecimento Ministério do Desenvolvimento Agrário Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 07 . Social e Ambiental (para assentamentos da reforma agrária) Bases de Serviço de Comercialização (no SECAFES) Comunidade Eclesial de Base Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural Companhia Nacional de Abastecimento Cooperativa dos Pequenos Produtores Agroextrativistas de Esperantinópolis (Maranhão) Cooperativa dos Pequenos Produtores Agroextrativistas de Lago do Junco (Maranhão) Empreendimento Econômico Solidário (no SECAFES) Empreendimento Familiar Rural (no SECAFES) Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (do Governo Federal) Grupo Agroecologia e Mercado (vários municípios do sertão cearense) Grupos de Consumidores Organizados (no SECAFES) Grupo de Interesse em Pesquisa para Agricultura Familiar Instituto Biodinâmico Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária Ministério da Agricultura.Siglas AAOEV ADEC AMTR AMTR ANA ASA ASSEMA ATES BSC CEB CMDR CONAB COOPAESP COPPALJ EES EFR EMATER GAM GCO GIPAF IBD IBGE INCRA MAPA MDA Associação dos Agricultores Agroecológicos Oeste Verde (no Rio Grande do Norte) Associação de Desenvolvimento Cultural (de Tauá) Associação das Mulheres Trabalhadoras Rurais de Lago do Junco e Lago do Rodrigues (MA) Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais (no Maranhão) Articulação Nacional de Agroecologia Articulação no Semi-Árido Associação em Áreas de Assentamento no Estado do Maranhão Assessoria Técnica.

00 U$ = R$ 1.MDA/SDT MIQCB MST NEAD ONG OXFAM GB P1MC PAA PMVS PNPB PNRA PNUD POM PRONAF SCJS SECAFES SENAES/MTE STR Secretaria de Desenvolvimento Territorial do MDA Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu Movimento dos Sem Terra Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural (do MDA) Organização Não Governamental Oxfam Grã-Bretanha Programa Um Milhão de Cisternas (da ASA) Programa de Aquisição Antecipada de Alimentos (do Governo Federal) Programa Meios de Vida Sustentáveis da Oxfam GB Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (do Governo Federal) Programa Nacional de Reforma Agrária Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Programa de Organização da Mulher Quebradeira (da Assema) Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar Sistema Nacional de Comércio Justo e Solidário Sistemas Estaduais de Apoio à Comercialização da Agricultura Familiar e Economia Solidária Secretaria Nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego Sindicato de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais TAXA MÉDIA DE CÂMBIO EM FEVEREIRO DE 2008: 1.75 Agroecologia e acesso a mercados 08 .

produzindo segundo o paradigma agroecológico. e até que ponto esse acesso é sustentável. Essa situação pode mudar rapidamente como atesta. Entre as várias categorias de agricultores familiares vamos tratar aqui do maior e mais pobre contingente. indagando sob que condições seu acesso ao mercado é possível. O que fala mais alto aqui é a força da necessidade: a comercialização é um assunto incontornável e muitas perguntas permanecem sem respostas satisfatórias. Ainda são poucas as ONGs que resolveram desbravar esse universo complexo e fazer da comercialização um eixo prioritário de seu trabalho. o número cada vez maior de discussões vinculando economia solidária com agricultura familiar e agroecologia.Introdução O mercado. por exemplo. Depois de desenvolver. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 09 . os movimentos sociais e os agricultores familiares caminharam muito nas duas últimas décadas.. nova fronteira das ONGs rurais As ONGs de assessoria a trabalhadores rurais. testar e difundir uma série de tecnologias apropriadas para a agricultura familiar. Onde vender os excedentes das culturas de subsistência? Como lidar com os “atravessadores”? De que maneira introduzir novas culturas de renda? Criar um mercado local diferenciado para a produção orgânica é sempre possível? Vale a pena procurar outros mercados mais distantes? O comércio justo é uma opção viável para todos? Até que ponto é possível atuar fora da economia capitalista? Foco nos agricultores pobres. depois de concretizar na prática o paradigma agroecológico. quais os avanços e os obstáculos para tanto.. depois de superar o tabu da colaboração com o Estado – herança dos anos de ditadura e de um modelo de desenvolvimento centralizador e verticalizado – chegou a hora de enfrentar o mercado e suas areias movediças habitadas por seres pouco freqüentáveis.

Pedimos também aos responsáveis pelas três iniciativas em foco uma revisão das informações que lhes dizem respeito. a fim de colher informações e de sistematizar três experiências de comercialização da agricultura familiar agroecológica. a pedido da OXFAM-GB. muitos poucos versam sobre a comercialização da produção agroecológica. que apoiou essas e outras iniciativas na região semi-árida do Nordeste do Brasil entre os anos 2000 e 2007. um volume de produção também reduzido. essas poucas referências1 examinam a questão sob ângulos variados (empreendorismo. sociais e políticos. do diálogo com os responsáveis pelo PMVS na Oxfam e de consultas da literatura. Dentre os trabalhos recentes sobre a comercialização da produção da agricultura familiar. Este não é um estudo teórico e. a visão de um jornalista que. muito mais exigente em termos ambientais. A produção agroecológica ainda conta com um número reduzido de praticantes e. trata-se. As três experiências visitadas fazem parte do Programa Meios de Vida Sustentáveis (PMVS) da OXFAM-GB no Brasil. porém. a agroecologia representa um verdadeiro projeto de transformação social. Comercialização da agricultura familiar: discussão de três experiências Não nos propomos fazer a síntese exaustiva do estado da arte ou das reflexões já produzidas sobre o tema da comercialização da produção da agricultura familiar. Mesmo assim. foi a campo em setembro de 2007. Essas experiências constituem o âmago deste trabalho.) e foram suficientes para as necessidades do presente estudo. sim. O texto é produto da sistematização dessas três experiências. logo. O tema aqui é a produção “agroecológica”.A produção de que vamos falar não é meramente “orgânica”. do único paradigma de desenvolvimento agrícola sustentável neste mundo em que importantes indicadores ambientais estão no vermelho. Além disso. Segundo seus defensores. que dedicou parte de seu Agroecologia e acesso a mercados 10 . Não se trata apenas de trocar um modo de produção por outro mais saudável. é preciso agradecer a Guillermo Gamarra.. Para os agricultores que a praticam e as ONGs que a promovem. economia solidária..

de inteira responsabilidade do autor. não reflete necessariamente as opiniões da Oxfam e. deve sempre levar em consideração as duras realidades econômicas e procurar equilibrá-las com aspectos políticos. na segunda parte. o texto final. transformação. Os boxes inseridos no texto principal fornecem informações complementares e sintetizam teorias suscetíveis de alimentar a reflexão. agroecologia e economia solidária. por vezes polêmicas. A prática da comercialização mostra que. menos ainda. difusão das experiências – e levanta questões. ultrapassando o estrito âmbito das três experiências. Mesmo assim. são também destacados dois grandes temas: os desafios organizacionais da comercialização e as relações entre gênero e mercado. a expansão das iniciativas agroecológicas e as conquistas políticas. nesta base. institucional e justo. quem ambiciona “vender sem se vender”. Em diversos momentos. inicia a discussão sobre a produção agroecológica e seu eventual beneficiamento ou processamento. a primeira parte apresenta rapidamente as três experiências sistematizadas e. o autor toma também deliberadamente partido. Nesta segunda parte. abordar efetivamente o acesso aos mercados. de quem aceitou generosamente fazer a leitura crítica. comercialização. O destaque é a atual tentativa de construção de políticas públicas na confluência da agricultura familiar. Estrutura do texto O estudo oferece um amplo panorama que sistematiza a prática em suas etapas sucessivas – produção.precioso tempo na revisão do documento. A terceira e última parte amplia a reflexão além do âmbito local e atual. Depois de tratar da agricultura familiar em geral. focando mais especificamente três dentre eles: orgânico. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 11 . sociais e ambientais. indagando sobre o futuro dos jovens agricultores. O caminho fica então aberto para. com o intuito de provocar debates sobre questões ainda insuficientemente discutidas.

Agroecologia e acesso a mercados 12 . Mas a viabilidade em escala maior fica na dependência de políticas públicas ainda incipientes e que. é. e consolida um contexto institucional no qual. O Brasil ainda não está se enxergando como o gigante ambiental que. apesar da presença de forças favoráveis à agroecologia em instâncias governamentais. a agroecologia pode sobreviver. Continua se pensando como gigante econômico. de fato. permanecem minoritárias. a curto prazo. porém. terá muita dificuldade para crescer.Concluímos que a produção agroecológica e a sua comercialização são viáveis no âmbito de experiências localizadas de grupos e assentamentos de produtores familiares. que estimula o desenvolvimento agrícola predatório.

PRIMEIRA PARTE: produzir para comercializar .

por 30.5” Agroecologia e acesso a mercados 14 . Ou seja. Por outro. No Brasil. a agricultura “patronal” ou “empresarial”. apesar de possuir apenas 30% das terras. o setor agropecuário desempenha um papel central na economia brasileira. o que equivale a R$157 bilhões em valores daquele ano. nesse ano. Feito esse recorte.6% do PIB. a agricultura familiar. É comum dividir a agricultura brasileira em dois segmentos opostos. em 2003. Sobretudo. e a agricultura ainda é a principal atividade nas regiões mais pobres. a gestão e a maior parte do trabalho vêm de pessoas que mantêm entre si vínculos de sangue ou de casamento”3. O mesmo estudo destaca também o fato de que a agricultura familiar representa “a base de importantes cadeias de produtos protéicos de origem animal”. Por um lado. fica evidente o peso da agricultura familiar na geração de riqueza do país”. É preciso ainda destacar que a agricultura familiar. onde houve entre os anos 50 e 80 importantes fluxos de migração interna rumo às cidades. sendo até majoritária no caso dos suínos (59% do PIB da cadeia). ocupa 75% da população agrícola ativa e produz 60% dos alimentos consumidos no país.1% do PIB brasileiro. é equivocada a imagem “de uma agricultura familiar descrita como um setor pouco produtivo. limitado ao abastecimento do mercado local. por 10. onde “a propriedade. do leite (56%) e das aves (51%). cerca de 20% da população vive hoje em áreas rurais. uma vez que representa 33% do PIB nacional e dois terços dos excedentes comerciais do país2. Tendo em vista que o conjunto do agronegócio nacional foi responsável.Contextualização O peso e a diversidade da agricultura familiar brasileira Metade da população do planeta é rural. um estudo da Universidade de São Paulo mostrou que: “o segmento familiar da agropecuária brasileira e as cadeias produtivas a ele interligadas responderam.

cereais. num contexto de abandono da educação rural e de falta de recursos da extensão rural. No outro extremo. à capacitação e à inovação. dos financiamentos públicos) e a flexibilidade de adaptação às demandas de mercados diversificados ou de proximidade”8. num extremo. Essa visão. mal produzindo o suficiente para a própria subsistência. 47% dos agricultores familiares do Sul utilizam assistência. tubérculos). a agricultura familiar tecnificada e integrada à agroindústria. Ignora a herança de vários sistemas camponeses locais que garantem ainda a reprodução das unidades familiares graças à autonomia (dos insumos externos. Esse retrato corresponde parcialmente à realidade. “os 2.14 milhões de estabelecimentos familiares brasileiros. Subestima a fragilidade e as flutuações rápidas e freqüentes do mercado capitalista das grandes cadeias (leite. quando se trata de agricultura familiar é preciso examinar os números com muito cuidado. teríaos também. “Apaga a diversidade das situações locais em termos de estruturas.7% no Nordeste”. Além do mais. moderna/tradicional. “de fato. enquanto a outra. A primeira. limitada ao mercado capitalista de grande Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 15 . Sul/Norte). ao crédito. de capacidades de acesso aos mercados. para Sabourin. os agricultores familiares do Sul concentram metade dos créditos destinados à agricultura familiar do país. Mais da metade dos 4. produzem apenas 7. por demais caricatural. a mercê das variações climáticas e econômicas. participando de “cadeias estratégicas para a consolidação do sistema agroalimentar urbano (lácteos. se encontraria em sua maioria no Sul e Sudeste do país.7% do valor bruto da produção agropecuária”7. esta tripla dicotomia (patronal/familiar.Dentro da própria agricultura familiar. do mercado capitalista. Além disso. para esse mesmo autor. seria típica das regiões Norte e Nordeste. mais tradicional. Mas. esconde uma realidade muito mais heterogênea.8 milhões correspondentes aos segmentos mais pobres. aves/suínos)” e das dinâmicas de exportação6. já que “as estatísticas oficiais e os estudos de cadeia não levam em conta o papel do autoconsumo e da redistribuição não monetária e não mercantil na consolidação da segurança alimentar”. encontraríamos a família camponesa pobre. mais “moderna” e dinâmica. e somente 2.

Em síntese. cooperativa de óleo de babaçu de Lago do Junco. mas algumas trabalham ou já trabalharam de forma integrada com a agroindústria (ver o caso do fumo no box abaixo). A terceira fica no Estado do Maranhão. extensa região semi-árida com mais de 20 milhões de habitantes. Agroecologia e acesso a mercados 16 . Assim. no Rio Grande do Norte. que representam 90% dos municípios brasileiros9. também “ignora os efeitos positivos dos circuitos curtos (venda direta. sem serem ricas. Nas três experiências. associação de comercialização do algodão orgânico de Tauá. dispõem de recursos suficientes para viver dignamente. enquanto outras. numa região de transição entre o Sertão e a Amazônia. aproveita e reformula uma tradição muito antiga na região. que é a feira local. é grande a heterogeneidade de situações. especialmente para o abastecimento das pequenas e médias cidades. são muito poucas as cooperativas rurais econômica e politicamente bem sucedidas na região Nordeste. A grande maioria produz de forma autônoma. porém. Ao contrário. seja em pequenas propriedades particulares. no Maranhão. mercados dos produtores e feiras agroecológicas)”.porte. Algumas famílias estão realmente em situação muito precária. a COPPALJ. A maioria também é dona de suas terras. no sertão do Ceará – duas das três experiências aqui focadas – podem ser consideradas como exceções na região Nordeste. a produção familiar pode ser comercializada in natura ou beneficiada e. e a ADEC. os tipos de mercados são também dos mais diversos. feiras locais. que. diferentemente do Sul do Brasil. seja em assentamentos da reforma agrária. De que agricultores familiares estamos falando aqui? O presente estudo trata de agricultores familiares que vivem em três áreas pobres do Nordeste do Brasil. É preciso ressaltar. Mas as quebradeiras maranhenses catam em terras alheias a maior parte do coco babaçu que vendem para a cooperativa. Duas delas ficam no Sertão. como veremos adiante. a terceira experiência. Em cada uma dessas três áreas a situação dos agricultores pode variar bastante. mesmo na pequena amostra aqui considerada.

cerca de cem famílias estão produzindo fumo para uma grande empresa. determinada pela própria Souza Cruz. Lázaro ganha mais plantando hortaliças e frutas. . diz que não compensa mais: “Antes um quilo de fumo pagava uma diária. a Souza Cruz.5 hectares de fumo irrigado durante oito anos.Agricultura familiar integrada com o agronegócio: cada vez menos renda de forma cada vez mais insustentável No Estado do Rio Grande do Norte. Hoje a diária custa 15 reais. Com um kit de irrigação mais simples. Lázaro. é preciso contratar muita mão-de-obra. e as bombas gastam muita energia elétrica. a quase totalidade do fumo é produzida pela agricultura familiar “integrada” à agroindústria. mais simples e mais rentável que o fumo. como em todo o Brasil. “muita gente está querendo sair do fumo e vem buscar nossa assistência técnica. os agricultores integrados encontram maiores facilidades de acesso a créditos bancários Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 17 . consegue receitas da ordem de mil reais mensais vendendo nas feiras. o preço do fumo depende da sua qualidade. na área de atuação da Diaconia. fornece as sementes e compra a totalidade da produção. mas é social. que já cultivou 2.” A razão é sanitária – pois muita gente ficou doente com as altas quantidades de veneno usadas no plantio – mas é também econômica. mão-de-obra exclusivamente familiar e custos muito mais baixos. Para Ricardo Abramovay. Por um lado. financia o sistema de irrigação. Por outro lado. respectivamente. a integração pode até ainda oferecer vantagens econômicas. Além disso. Ou seja. os insumos são caros. que exige contratos de três anos. ambiental e até eticamente pouco sustentável. numa área menor.” Graças à assistência técnica da Diaconia.“A integração agroindustrial oferece tanto à indústria como aos agricultores um horizonte de estabilidade. e o quilo de fumo nove reais. Mesmo assim. No Rio Umari. o novo negócio é mais saudável. segundo a equipe da Diaconia. de oferta e de renda. o fumo tem altos custos: o equipamento de irrigação custa 18 mil reais.

A integração vertical fornece um produto estandartizado. mas nem se discute um tema fundamental hoje na Europa que é o bem estar animal.. leite. suínos. pela qual o produtor tem de passar para mudar outras atividades. a re-localização espacial. No caso do fumo. os efeitos de escala e os novos standards de qualidade mínima têm fragilizado a participação da agricultura familiar em commodities chaves tanto para o mercado doméstico como de exportação – aves. uma espécie de acumulação primitiva. Agroecologia e acesso a mercados 18 . embora ainda relevante em muitos casos e até predominante em outros como o fumo. além dos problemas que se ligam à saúde pública. Mas existem aí sérios problemas. a participação da agricultura familiar tradicional como elo agrícola até privilegiado nas cadeias agroindustriais. alguns dos problemas ambientais mais graves começam a ser enfrentados no Brasil. Assim..exatamente por esta estabilidade. flores – os agronegócios estão sendo organizados mais em torno de assalariamento do que em relações contratuais com a agricultura familiar. massificado e é bem provável que – da mesma forma que nos países desenvolvidos – o consumo se dirija para gêneros de qualidade cujos atributos ambientais façam parte dos fatores que influem a decisão do consumidor”10. especialista em mercados agrícolas. Os dados da agenda 21 mostram que o uso de agrotóxicos na produção de fumo vem aumentando ano a ano. diminuiu em importância nas últimas duas décadas. com o aumento de importância de produtos não-tradicionais de exportação – carcinocultura. observa por sua vez que. A expansão da cana-de-açucar e a renovação da cadeia do café reforçam essa mesma tendência”11.. John Wilkinson. As mesmas tendências parecem prevalecer também no caso de produtos frescos vendidos diretamente às redes de varejo. Ao mesmo tempo. estão os problemas ambientais e as próprias condições de trabalho que fazem com que a fumicultura seja sempre encarada como um mal necessário. ela vai perdendo sua força. frutas e hortaliças. “. se a integração vertical da agricultura familiar com o “agronegócio” permanece crucial. Com relação a suínos e aves.

caprinos.Alguns elementos da economia da agricultura familiar nordestina Refinando um pouco mais o retrato da agricultura familiar nordestina. § O trabalho temporário em atividades agrícolas nas fazendas dos arredores. Nessas duas estações. como no Sertão. § migrações sazonais durante o verão seco. em direção às áreas urbanas (serviços As domésticos para as mulheres. Essa descrição vale também para a área do Maranhão onde a ASSEMA atua.) e numa cultura anual comercializável (algodão. coco babaçu. vários anos seguidos) em que as chuvas de inverno são insuficientes ou Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 19 .) § A criação de animais (bovinos. São anos (e. castanha de caju. milho.. mandioca.. etc. ovinos.. mamona..) para uso da família e As geração de renda. sem chuva durante mais da metade do ano. por exemplo). Outro elemento essencial na economia familiar nordestina são os “anos ruins” de seca no sertão. § atividades extrativistas (madeira. são duas estações: – o “verão” seco. e o “inverno” chuvoso. pedras. por vezes. existem cinco fontes de renda principais: § A agricultura centrada em culturas cruciais para a alimentação familiar e facilmente comercializáveis (feijão. aves de quintal) menos vulnerável às variações climáticas e que desempenha o papel de poupança para fazer face aos momentos de maior vulnerabilidade. serviços pouco qualificados para os homens) ou rurais (fruticultura irrigada. ali. Mesmo com taxas de precipitações bem mais altas. pegamos emprestado do Projeto Sertão12 a descrição do modo de produção dos estabelecimentos familiares no semi-árido brasileiro.

são incapazes de enfrentar um ano seco”13. rendeiros e parceiros produzem mas não conseguem acumular. que avança muito lentamente. Agroecologia e acesso a mercados 20 . o Programa Nacional de Reforma Agrária (PNRA). “na maioria das vezes. o problema da seca começa nos anos bons: “Nos anos de chuva regular. porém. Ele se dá através das feiras e pelo intermédio dos “atravessadores” que compram a produção a preço baixo diretamente nas comunidades. por aí. um programa de crédito cujos recursos aumentaram muito no Governo Lula. onde a produção pode ser trocada por mercadorias. o PRONAF e o PNRA. Descapitalizados ao final de cada ciclo produtivo. O maior problema. o acesso a ativos (terra. mais recentemente. O acesso ao mercado. Um dos problemas é que. é precário. porém dotado de verbas muito limitadas. Como diz a economista Tânia Bacelar. também procuram inserir os agricultores familiares pobres nos mercados. os pequenos produtores. mas conheceu melhorias qualitativas interessantes em termos de assistência técnica e de educação. desses agricultores mais vulneráveis. Outra prática comum é a venda em “cantinas” (ou “barracões”). e. muito controvertido. o Programa de Aquisição Antecipada de Alimentos (PAA). Os dois principais programas. o Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB). que visa “integrar agricultores familiares à oferta de biocombustíveis e. crédito e transferências diretas de renda) não consegue romper com as formas tradicionais de inserção nos mercados que caracteriza a pobreza”15. Políticas públicas para a agricultura familiar Os agricultores familiares são o alvo de diversos programas governamentais como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF).irregulares demais. não é o clima em si. É a fragilidade da estrutura econômica. contribuir ao fortalecimento de sua capacidade de geração de renda”14. sistema eficiente de compra direta da produção.

dos programas Luz para Todos (eletrificação rural). mas são lentas em estimular novas atividades produtivas. dinamizam o comércio local e as feiras. o “BolsaFamília”. Saúde da Família (com ações preventivas nas comunidades). e alguns programas de educação de jovens e adultos (em particular. É o caso. A escolha das famílias é bastante racional: por que trabalhar horas e dias a fio no sol escaldante do sertão. o Bolsa-Família tirou da miséria milhões de famílias urbanas e rurais em poucos anos. entre outros. menos ainda. representa uma fonte regular e importante de ingressos monetários). cuja parte mais visível. e é bastante exigente em termos de tempo. desestimular as atividades produtivas. a maconha.. políticas estruturais de grande alcance estão mudando aos poucos a realidade rural.). porém lentos e limitados. até. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 21 . atinge milhões de famílias através da transferência direta de renda. Sem negar a importância dessas políticas sociais e..” As análises que recolhemos nas três experiências visitadas indicam que as políticas compensatórias podem até.. esforços e cuidados.. configuram o que Maia Gomes chama de “uma economia sem produção”16. do princípio de redistribuição da riqueza pelo Estado. se o governo fornece mensalmente o suficiente para sobreviver? Quando isso ocorre. que seria muitas vezes superior à economia mais “moderna” nos sertões (somando a agricultura irrigada. e. Maia Gomes mostra também que “a capacidade multiplicadora das transferências públicas de renda é muito pequena: além de contribuir (de forma precária) à sobrevivência da população (. o programa Fome Zero. sem dúvida.). junto com os salários pagos pelas prefeituras do interior. a indústria de calçados e têxteis.Por outro lado. Mas a principal marca social do Governo Lula é. não podemos deixar de falar de seus efeitos colaterais. Somando-se à aposentadoria (que. conhecimentos. representam um obstáculo para as Ongs e associações que procuram incentivar a agroecologia – que oferece retornos bons. em alguns casos. nas famílias pobres. a soja. iniciativas inéditas em assentamentos da reforma agrária). As transferências de renda.

”18 Sabourin alerta. econômico e ambiental). se é verdade que essas políticas aquecem a demanda. reservando o apoio social aos segmentos menos ligados a esse tipo de mercado (parte da reforma agrária.. e de reservar um tratamento social (Bolsa-Família... em nome da luta contra a pobreza”17. aposentadoria rural. segundo Sabourin. ainda prevalece uma política de apoio produtivo a uma agricultura familiar de tipo europeu. “os 50 reais mensais distribuídos às famílias pobres (. para o perigo de uma visão dicotômica herdada das agências multilaterais. “A tendência é dar a prioridade dos apoios produtivos aos agricultores capazes de se integrar ao mercado capitalista. Por outro lado. mas na forma de um cartão magnético de uso limitado aos supermercados conectados às redes bancárias. contrária ao princípio tripartite do desenvolvimento sustentável (equilíbrio entre social. bolsafamília) reduzem o econômico ao princípio do acesso das populações rurais pobres ao mercado capitalista e mantêm sua dependência dos supermercados e das firmas agroalimentares. apesar dos avanços recentes com o PRONAF no Governo Lula. isto é. Esses enfoques (previdência. nem sempre beneficiam a produção local. no âmbito do Fome Zero. levando a “uma disjunção entre políticas sociais e políticas produtivas. Essa medida só fez aumentar a compra de alimentos e produtos manufaturados provenientes da agricultura empresarial e não da produção local. é que.) não viram em dinheiro.. bolsa alimentação.. Assim. da agricultura familiar diversificada ou camponesa).Uma das questões de fundo. ajuda alimentar) aos segmentos menos dependentes do mercado capitalista.” Agroecologia e acesso a mercados 22 . à empresa familiar integrada às cadeias do mercado capitalista. então.

uma polêmica quanto a saber se a produção de mamona (ou de pinhão ou de dendê) para biodiesel se dá ou não em detrimento da produção alimentar. já tem efeitos diretos sobre a agricultura familiar. na prática.O que fazer. o trigo ou a beterraba) e do biodiesel (obtido a partir de mamona. então. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 23 . Falaremos também. deplorando ao mesmo tempo que não tenha “a amplitude capaz de reverter esse quadro. pinhão manso e soja). até então desfavorável aos pequenos agricultores? Abramovay destaca “a importância crescente do trabalho das ONGs”. dendê. de novas políticas governamentais. associar a mamona com culturas de subsistência como o feijão ou milho. O contexto nacional e internacional: fatores favoráveis e desfavoráveis Para finalizar esta contextualização. seria preciso. é preciso ressaltar o crescimento extremamente rápido da agricultura empresarial no Brasil. que provavelmente tornar-se-á o primeiro exportador mundial de produtos agrícolas dentro de poucos anos. embora ofereça lições decisivas para as próprias políticas públicas. mesmo assim. a presença maciça de assistência especializada em sistemas integrados de produção de alimentos e energia19. por exemplo. É verdade também que o governo incentiva o agricultor a. Essa onda de crescimento. babaçu. se as políticas compensatórias têm efeitos perversos e se as políticas de incentivos à produção para os mais pobres não conseguem mudar o quadro da comercialização. destinadas a fomentar a comercialização da produção da agricultura familiar dentro da perspectiva da economia solidária e da agroecologia. na parte final. amendoim. É verdade que há uma real preocupação do governo em incluir a agricultura familiar no Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB). Para não prejudicar a diversidade e a sustentabilidade da agricultura familiar. Existe. o que é muito distante da realidade de assistência técnica e extensão rural no Brasil. girassol.” Esta é precisamente a idéia que motiva o presente estudo: tirar as lições da prática de três iniciativas de comercialização. alimentada em boa parte pelo mercado dos biocombustíveis (a cana-de-açúcar brasileira é econômica e ambientalmente bem superior a outras plantas como o milho.

Os que permanecem. ou ficaram animados com as ofertas dos empresários do sul do país e venderam suas terras..” O mesmo ocorreu com o algodão. ou foram expulsos. ocorre o mesmo com a expansão do eucalipto no Espírito Santo. Tem repercussão positiva. Essa nova onda da “Revolução Verde” é também acompanhada pela difusão dos transgênicos. a mídia tem divulgado de várias formas os benefícios dos alimentos Agroecologia e acesso a mercados 24 . de solos nus. Na região Nordeste. não apenas para quem consegue se organizar para exportar (caso do algodão e do óleo de babaçu nas organizações pesquisadas). social e ambientalmente insustentáveis. a opção é ir para a cidade. para a beira de estrada ou para lugares bem distantes. “em 2000.Por outro lado. onde. agricultores e grandes investidores brasileiros e estrangeiros estão comprando imensas extensões de terras para plantar soja. em pouco tempo. onde antes havia mata”20. Sem terra. o que. o cenário nacional e internacional apresenta também outra face. da soja no Piauí e do algodão na Bahia. algodão. expulsando famílias e criando “desertos verdes”..). o hectare de terra valia cerca de R$70.00. A ausência do Estado tornou a contaminação pelos transgênicos uma estratégia bastante eficaz.. Um dos casos mais gritantes ocorreu na Amazônia.) Muitos moradores. tanto no exterior como no Brasil é uma boa notícia. (. eucalipto ou cana-de-açúcar. estão cercados de uma paisagem bem diferente. Com efeito.000. com a expansão fulgurante da soja em Santarém. “A soja transgênica entrou ilegalmente no Brasil. pode criar sérios problemas de contaminação da produção nordestina. custa até R$2. Dito isso.. mastambém para quem vende verduras e frutas nas feiras de pequenos municípios nordestinos. trazida de contrabando da Argentina (. como veremos adiante. acabando com a possibilidade de certificação agroecológica. O crescimento vertiginoso do consumo de produtos orgânicos. bastante favorável para os agricultores familiares. hoje [2006].00 e.

Existem também dois ministérios da agricultura distintos: o Ministério da Agricultura. empresas de insumos orgânicos22 e. De modo mais amplo.). o Brasil é ao mesmo tempo um global player no mercado agrícola internacional e.. Sua política agrícola não deixa de ser esquizofrênica. vale notar que o Brasil conta com um bom número de iniciativas de cooperativas de produção21. quando a sociedade civil obteve do Governo Lula a criação da Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES). se bem que de forma mais tímida. um patronal e outro familiar. no Brasil. inclusive nos lugares mais remotos.orgânicos e. e a indicação do seu titular. está concentrada no Sul e no Sudeste do Brasil. ensino. Devido à enorme desigualdade que reina no país. por outro. os hábitos de consumo mudaram. Mesmo se os recursos destinados à agricultura familiar (sobretudo. Por outro lado. redes de consumo solidário23. o PRONAF) aumentaram bastante ao longo dos últimos anos. Por fim. o comércio justo e solidário está crescendo rapidamente no exterior e também. da fase de discussão e estruturação para a fase de implementação. As polarizações brasileiras Sintetizando. Pecuária e Abastecimento (MAPA) para a agricultura empresarial.. Ganhou muita força em 2002. a agricultura patronal é tratada com toda a consideração de carro-chefe da economia: ela dispõe de muito mais recursos que a agricultura familiar em todos os âmbitos (pesquisa. contudo. no Brasil. a economia solidária está passando. até. e o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) para a agricultura familiar. Além disso. podemos dizer que o contexto brasileiro exibe fortes polarizações Há muita miséria ao lado de uma das maiores produções agroalimentares do mundo. A maior parte dessas iniciativas. crédito. as realidades das zonas rurais do Sul e no Nordeste do Brasil são também muito diferentes. com dois ministérios. um país que ainda conta com mais de 50 milhões de desnutridos. em pouco tempo. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 25 .

Isso se deve. Agroecologia e acesso a mercados 26 .Finalmente. reconhecimento nacional e internacional. em boa parte. se a região Sul do Brasil é de fato mais avançada sob diversos aspectos. como a economia solidária e a agricultura orgânica. é importante lembrar que existe um grande número de experiências consolidadas de agroecologia na região Nordeste. muitas Ongs que trabalham no semi-árido gozam de força política. à sua capacidade de formar redes. e seu Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC) – também apoiado pela Oxfam24. que congrega cerca de 800 organizações da e na região semi-árida. unindo forças em prol de um objetivo comum. O exemplo mais famoso é a Articulação no Semi-Árido (ASA) e seu Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC). Em particular.

Ela parte do pressuposto de que o acesso ao mercado pode ser benéfico para os pequenos produtores que. com a comercialização de determinado tipo de produtos: § a ASSEMA no Maranhão (coco babaçu). no âmbito do seu Programa Meio de Vida Sustentável (PMVS). na sua versão brasileira. A abordagem do PMVS é baseada em direitos: direito de dispor de meios de vida sustentáveis (sustainable livelihoods). direito de ser escutado e direito à igualdade de gênero. § a DIACONIA no Rio Grande do Norte (hortaliças e frutas). que atua através de alianças com organizações parceiras nacionais e locais. na maioria dos casos. beneficia um conjunto de dez organizações e tem quatro linhas de ação: 1) Segurança Alimentar e Acesso a Mercados 2) Acesso à Água (P1MC . Entrelaçadas.GB (Grã Bretanha). essas quatro linhas procuram mostrar de que forma é possível assegurar meios de vida sustentáveis para a agricultura no semi-árido brasileiro. a proposta de que os pobres venham a ter mais “poder nos mercados”.Programa Um Milhão de Cisternas) 3) Políticas agrárias. § o ESPLAR no Ceará (algodão). Daí.Três projetos na Região Nordeste do Brasil: a produção agroecológica gerando renda O Programa Meios de Vida Sustentáveis da Oxfam Este estudo repousa sobre a experiência acumulada por três organizações não governamentais. são explorados pelo mercado. reorganizando a relação com os intermediários e contribuindo para que os pequenos produtores e Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 27 . O PMVS brasileiro é parte do PMVS global da OXFAM. O PMVS. agrícolas e comerciais e 4) Igualdade de gênero. As três iniciativas receberam o apoio da OXFAM. e.

quase um sexto da população do Brasil. por exemplo .86 milhões de estabelecimentos agropecuários brasileiros são familiares. Nessa perspectiva. Por que continuar investindo na zona rural? Por que não abandonar de vez a zona rural ao seu destino. organizados. pudemos observar Agroecologia e acesso a mercados 28 . No caso do PMVS brasileiro. conforme o censo agropecuário de 1995). de aumentar o poder de compra dos agricultores. Além disso. a OXFAM considera a agroecologia não apenas como um conjunto de ferramentas de ordem técnica. Durante a fase de campo do presente estudo. algumas delas surpreendentes. Trata-se. Nesse mesmo sentido. estamos muito longe da maximização dos lucros das abordagens empresariais. investindo apenas nas cidades para onde um grande número de agricultores. e sim. ainda vivem na zona rural. a agricultura familiar responde por boa parte da produção de alimentos e tem um papel crucial na economia das pequenas e médias cidades. O mundo rural conheceu diversas mudanças demográficas nos últimos anos.os assalariados rurais. Ou seja. como a existência em certas regiões de uma migração de retorno de quem foi trabalhar na metrópole e voltou. empoderando jovens e mulheres. o programa visa promover a segurança alimentar pela agroecologia e comercializar os excedentes da agricultura familiar no mercado local. sobretudo os mais jovens. fazendo com que as regras do jogo econômico lhes sejam mais favoráveis. está migrando? A primeira razão é que mais de 30 milhões de pessoas. o direito de se dispor de meios de vida sustentáveis se expressa através de um conjunto de estratégias complementares. como uma disciplina que busca mudar profundamente as práticas e os comportamentos. estabilizar sistemas agroecológicos é uma condição necessária da sustentabilidade. aí sim. Na OXFAM GB. possam ter mais “voz” nas decisões econômicas que os afetam. onde muita gente está envolvida na agricultura familiar (85% dos 4.

Em outras palavras. afirma Ricardo Abramovay26. são justamente aqueles que encontram mais dificuldades em integrar-se nos mercados de trabalho urbanos”. Por fim. que desenvolve várias proposições de criação de renda no meio rural na linha do empreendorismo (baixos investimentos de alta alavancagem. Nessas condições. participação dos agricultores familiares em mercados dinâmicos e inovadores. continua elevado e provoca ao mesmo tempo o envelhecimento e a masculinização da população rural. lazer e trabalho? Essencialmente porque os núcleos urbanos estão absorvendo os migrantes rurais de forma extremamente precária: “A maior parte de quem deixa o campo. mesmo com menos força do que no passado. etc.que programas federais. Entretanto. e não nas cidades de maior porte para onde os jovens estão migrando à procura de educação. por que continuar investindo nas pequenas cidades do interior. sobretudo os jovens. o mais importante talvez seja que o apoio à agricultura familiar “garante a existência de um tecido social que vai gerar diversas atividades além da própria agricultura”27. o êxodo rural. estão favorecendo a volta à zona rural de quem havia se mudado para a zona urbana do mesmo município. como o Luz para Todos (eletrificação rural) ou o bolsa-família. ele “atinge fundamentalmente os jovens e as meninas”25.). Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 29 .

chegaram várias levas de migrantes. Inhamuns Crateús (CE) 3. por vezes extrema.Avanços palpáveis: a produção agroecológica gerando renda São Luis 1 Fortaleza 2 MA CE 3 RN PB PE PE Natal PI Recife BRASIL BA AL SE Nas três experiências apoiadas pela OXFAM GB. a comparação entre a situação anterior ao trabalho de comercialização da produção e a situação atual não deixa dúvidas: houve uma nítida melhoria das condições de vida dos agricultores. para uma situação de vida digna. capital do Maranhão. A produção agroecológica e o acesso ao mercado permitiram passar de uma situação de pobreza. Não raro. a partir dos anos 40. Médio Mearim (MA) 2. Alto Oeste (RN) A Associação em Áreas de Assentamento no Estado do Maranhão (ASSEMA) foi criada em 1989. com a criação de assentamentos da reforma agrária. A situação só se abrandaria um pouco em meados dos anos 80. Sua sede fica em Pedreiras. os conflitos continuaram. em busca de melhores condições climáticas e de terras férteis. Nos anos 70. o Estado resolveu apoiar a chegada de grandes empresas pecuárias. Estes perderam o direito tradicional de livre acesso à terra. que grilaram terras públicas até então ocupadas pelos agricultores familiares. A ASSEMA: quebradeiras de “babaçu livre”. cerca de 300 quilômetros ao sul de São Luis. porém. Em diversos municípios do Médio Mearim. Iniciou-se um período de lutas violentas pela terra e pelos recursos naturais. No Médio Mearim. BRASIL NORDESTE 1. e os babaçuais dos quais tiravam a maior parte da sua renda foram substituídos por pastos. cooperativa de óleo e fábrica de sabonetes. os fazendeiros eram também os comerciantes que controlavam o mercado da amêndoa de babaçu Agroecologia e acesso a mercados 30 . com o objetivo de apoiar famílias extrativistas na região do Médio Mearim. fugindo das secas do Sertão.

e usavam esse poder para tentar subjugar o movimento dos agricultores e das quebradeiras de coco. a cooperativa de produção e comercialização do óleo de babaçu. É essa cooperativa que. forçando assim os atravessadores a fazer o mesmo. graças à COPPALJ. a ASSEMA. de óleo e de farinha) abriram uma fábrica de sabonetes em plena zona rural e uma loja na capital São Luis. a COPPALJ e o movimento das quebradeiras de coco babaçu passaram a figurar entre as principais forças econômicas e políticas da região. Era preciso vender dez quilos de babaçu para poder comprar um quilo de arroz. consórcios agroextrativistas e outras iniciativas agroecológicas. Hoje. principal produto de renda. conseguiu firmar-se. Hoje. o babaçu. já com o intuito de organizar a comercialização do babaçu. a proporção é de um quilo de amêndoa por um de arroz. era vendido por um preço irrisório e as famílias viviam em condições miseráveis. autorizam o livre acesso aos babaçuais nas grandes fazendas. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 31 . Além de duas cooperativas de processamento do babaçu (respectivamente. Os resultados impressionam. passou a comprar a amêndoa de babaçu por um valor bem acima do preço de mercado. Vinte anos atrás. através de sua própria rede de cantinas comunitárias. Conseguiram a votação de leis municipais inéditas que. superando o princípio sagrado da propriedade privada. após enfrentar todo tipo de adversidades desde a sua criação em 1991. estão exportando parte do óleo orgânico de babaçu para grandes empresas internacionais de cosméticos. que. Aos poucos. Foi nesse contexto que nasceu a ASSEMA. Iniciaram uma série de experimentos com roças orgânicas.

Na sua vertente política. Eu vi muita luta. Atrás do largo sorriso e da fala mansa.” Antônio Soares. E ganhamos o respeito. fomenta também discussões sobre cidadania. diretor da COOPALJ. encarada como “um desafio que consolida a luta”. até dos governantes. sobretudo entre 1986 e 1993. trabalhou e voltou a estudar para cursar o magistério. há uma “mulher de fibra” que colhe e quebra o babaçu desde a mais tenra infância. como esposa e mãe” . esse conjunto de atividades redunda numa tripla jornada “no trabalho. é sócio-fundador da cooperativa. mas meu filho assessora um grupo de produtores. trabalhamos duro para que nossos filhos tivessem educação. união e conseguimos meio de vida dentro da comunidade. apresenta-se como “quebradeira. Sócio da COPPALJ desde 1994. temos organização. lavradora e produtora”. já administrou uma cantina. A voz de Diocina faz-se mais dura quando evoca as lutas passadas e as humilhações pelas quais teve que passar. “Meu pai é um líder político e sindical histórico. os poderosos nos olhavam como se fossemos bichos. quebradeira e produtora de sabonetes Diocina Lopez dos Reis. 33 anos. quando aparece uma encomenda. Nos reunimos muito. as oficinas de papel reciclado e o laboratório de essências.” Toinho estudou até a oitava série. A AMTR deu origem à fábrica e outros núcleos produtivos como a farmácia viva. Para Diocina. “Antes. Não estudei. nas reuniões políticas e em casa. preservação ambiental e renda familiar. Diocina é sócia da AMTR. fabrica sabonetes. a Associação das Mulheres Trabalhadoras Rurais que reúne 120 mulheres de dois municípios. casou. foi vice-presidente da cooperativa Agroecologia e acesso a mercados 32 . só lembravam da gente na hora de votar.e Diocina. é da segunda geração. o Toinho. 55 anos. trabalha duro na roça e também.Retrato de Toinho. Após tanto massacre e sofrimento.

”. Junto com a diretoria formada por agricultores.e. Cerca de 35% desse óleo é exportado para empresas do comércio justo. Uma das mais antigas. São · A ASSEMA assessora e participa de diversas redes. em cartazes. foi eleito gerente. associações e grupos produtivos informais. Cuido da organização da casa. A envolvendo diretamente cerca de 300 famílias na fabricação de dez produtos diferentes. das contas. que usa o lindo sorriso de Diocina para divulgar a sua marca mundo afora. O trabalho da Assema em números · A ASSEMA. onde letras grandes dizem: “feito com paixão”. · ASSEMA apóia duas cooperativas. representa os interesses de cerca de 300 mil mulheres do Maranhão e dos estados vizinhos do Tocantins.. apoiando mais de 1500 famílias em 7 municípios da região do Médio Mearim. das vendas. Toinho supervisiona o trabalho dos dois funcionários da COPPALJ que operam as máquinas. “O gerente é o responsável comercial. cuida dos 156 sócios e dos 2. Mais precisamente. em 2006: Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 33 . o Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB). área 289 km2) A sede · 76 associados individuais e (sobretudo) coletivos. com a presidente-quebradeira e com a assistência técnica da ASSEMA. tem um quadro técnico formado 25 pessoas. no Estado do Maranhão. conselhos e articulações estaduais e nacionais. Associação em Áreas de Assentamento no Estado do Maranhão. Pará e Piauí.. recentemente.984 habitantes. · da ASSEMA fica em Pedreiras (37. e acompanha a transformação das 330 toneladas de amêndoas processadas anualmente em 170 toneladas de óleo orgânico.000 não sócios que entregam babaçu em 8 cantinas comunitárias. entre elas a inglesa Body Shop.

1 toneladas de torta. que prospera em solos profundos e férteis. · COOPAESP. que as destinaram às criancas das escolas municipais da região A Diaconia: pequena irrigação. tem sede em Recife e escritórios nos Estados de Pernambuco. Essa região semi-árida muito pobre apresenta uma grande diversidade de ambientes – caatinga. provocando ultimamente uma queda brutal da produção28.2 toneladas de flocos. seja ao longo do ano ou de um ano para outro. Cooperativa dos Pequenos Produtores Agroextrativistas de Na Esperantinópolis. Mas a cera da carnaúba. só se encontra nas áreas de brejo. endividaram-se para Agroecologia e acesso a mercados 34 .. como é comum no sertão.1 toneladas de óleo de babaçu e 98. O cajueiro. quintais produtivos e feiras agroecológicas.4 toneladas de mesocarpo para produzir 8. Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais conta com 146 famílias produzindo. A Diaconia. arenoso. brejo. O milho. – onde as condições de vida também variam. que redundou na ampla dispersão da mosca branca. Ceará e Rio Grande do Norte. Neste último.814 mil unidades. 53 famílias processaram 12. comercializadas em grande parte em programas governamentais. várzea. Cooperativa dos Pequenos Produtores Agroextrativistas de Lago do Junco. Quanto à cultura do fumo. chamada Médio Oeste Potiguar ou “tromba do elefante” devido à sua forma peculiar no mapa. seja de uma área para outra. a Diaconia está presente há mais de trinta anos na região de Umarizal. ela se dá na beira do rio Umari. o A AMTR. processou 331. 22 famílias produziram 43. vê a sua produtividade ameaçada devido a ausência de manejo dos solos e de conservação da biodiversidade.. serra. Na fábrica de sabonetes. ONG evangélica fundada em 1967. o feijão e os animais são onipresentes.5 toneladas de amêndoas para produzir 169. onde essa palmeira vem sendo fortemente dizimada. outrora uma boa fonte de renda para as famílias de agricultores. na parte mais ocidental do Estado. onde uma centena de agricultores familiares verticalmente integrados à empresa Souza Cruz.o A COPALJJ.

como em muitas outras regiões do semi-árido nordestino. porém. porém. como a criação animal ou. a Diaconia já construiu cisternas para captar a água da chuva em praticamente todas as comunidades da região. seguros e regulares. inclusive as mais pobres. também já foi iniciada. a retomada do cultivo do algodão. A Diaconia trabalha com todo tipo de famílias. o governo estadual. com o acesso ao mercado local na forma de barracas de produtos orgânicos na feira. enquanto Unidade Gestora Microrregional da Articulação no Semi-Árido (ASA). se deram graças à combinação de quintais produtivos irrigados por sistemas simples e baratos. mais recentemente. esses ingressos provocaram uma rápida mudança nas faixas de renda das famílias (Maiores detalhes abaixo no quadro “O trabalho da Diaconia em números”). aquelas que não possuem terra. e com associações comunitárias. entre elas a Associação de Agricultores e Agricultoras Agroecológicos Oeste Verde (AAOEV). a tônica do trabalho era a água. Por fim. A perenização do rio Umari por barragens sucessivas ao longo de 50 quilômetros. não pertencem a nenhuma associação e vendem a força de trabalho nas fazendas da região para sobreviver. canos e microaspersores para irrigar suas hortaliças e frutas. insumo fundamental no semi-árido Os territórios onde a Diaconia concentra a sua atuação contam agora com mais de cem barragens subterrâneas29 e cacimbões construídos em parceria com o governo federal. abriu também outras frentes. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 35 . Antes de se interessar pela comercialização. vendidas semanalmente nas quatro feiras municipais da região. As intervenções da Diaconia são múltiplas.comprar kits de irrigação. dezenas de famílias puderam adquirir motor. tem mudado a vida dessas famílias e incentivado a criação de associações. Além da água e do apoio à organização. atravessadores estão presentes em todas as comunidades. Mesmo modestos. A simples possibilidade de ter ingressos monetários modestos. Além do mais. Os avanços mais espetaculares. Através de doações ou de fundos rotativos solidários.

a sua força de trabalho. passou a participar de reuniões e resolveu arriscar-se. quando a inflação era alta. com a bicicleta supercarregada! Já que não há perspectiva da prefeitura providenciar transporte coletivo. junto com uma cisterna calçadão. A alimentação da família melhorou e a incerteza financeira praticamente acabou. macaxeira. goiaba e várias plantas medicinais.As trajetórias fulgurantes de Iranildo e Lázaro Iranildo e a esposa Lucivânia são jovens agricultores que concentraram toda a sua energia para sair da miséria. produz coentro. milho. mamão. batata doce.” Com o dinheiro da feira e da venda na comunidade (ao todo. maracujá. Na mesma comunidade. no quintal de 650 m2. o solo do meu quintal não prestava. Depois de um tempo. a 25 km da sede do município Caraúbas. Iranildo costumava trabalhar como diarista. alugando. cana. “Saía às 3 horas da manhã e voltava às 8 h da noite. “O fumo já foi um bom negócio. plantando hortaliças no quintal da casa. cerca de 500 reais por mês). alface. Também não tinha sistema de irrigação: molhava as plantas com o galão. de fazenda em fazenda. sentiu-se seguro e adquiriu um kit de irrigação. sem ter certeza de conseguir serviço no dia seguinte”. No início. guandu. só dava para pagar as despesas. “Peguei a minha chance. e o veneno estava acabando com a minha saúde”. Agroecologia e acesso a mercados 36 . tive que carregar toda a terra no carrinho de mão para dentro do quintal. Hoje. Moram na comunidade de Cacimba do Meio. Dois anos atrás. seu Lázaro plantava fumo até pouco tempo atrás. feijão. cebolinha. E conseguiram. O principal problema agora é o transporte. Ao trabalhar para um vizinho num cultivo de hortaliças conheceu a DIACONIA. Pagar o frete para vender na feira não compensa e Ivanildo percorre todo sábado 50 km – ida e volta – no sol escaldante do sertão. o sonho de Iranildo é adquirir uma moto e uma carrocinha.

as frutas e as hortaliças. seria criar ovelhas. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 37 . conta com 11 técnicos. com a assistência técnica da Diaconia.640 habitantes em 240 km2).418 habitantes em 31 km2) e Rafael Godeiro (3. para ele. mais de 3500 famílias já foram beneficiadas no Rio Grande do Norte. · O número de famílias cultivando e comercializando frutas e hortaliças passou de 11 em 1999 para 250 em 2007. O trabalho da Diaconia em números · A equipe da DIACONIA no Médio Oeste Potiguar. Rio Grande do Norte. raro e caro na região e.739 habitantes em 1. Lázaro trocou o fumo pelo feijão irrigado. O fator limitante. em Pernambuco.131 em 100 km2). barragens subterrâneas. Isso representaria um avanço na conversão agroecológica na medida em que subprodutos da criação de sequeiro seriam redistribuídos para a horticultura irrigada. a curto prazo. é o estrume. animais.095 km2).). em quatro municípios: Caraúbas (19. já eram 77 famílias comercializando em sete feiras agroecológicas. Ao todo. Umarizal (10. somando os dois territórios (Pajeú e Médio Oeste Potiguar).Ao ver a transformação rápida na família de Iranildo. em 2007. Em um ano. a saída. · Juntando todos os projetos da DIACONIA (algodão. · A DIACONIA desenvolve outro programa semelhante no Sertão do Pajeú.. Lucrécia (3. em 2002 começou com quatro famílias comercializando sua produção em duas feiras agroecológicas. que exige muita mãode-obra) e passou a ganhar mais do que antes (1000 a 1500 reais por mês). deixou de usar agrotóxicos.. conseguiu dar conta da terra sozinho (ao contrário do fumo.

· pesquisa mostrou que. Em 1993. 42. animais abatidos. reestrutura-se para implementar o Plano de Desenvolvimento Agroecológico e Participativo dos Pequenos Produtores de Tauá. mel. queijos. 49. a ADEC.. raízes.63% das famílias tinham renda inferior a um salário mínimo. Aos poucos. em 2004.300 pessoas tem acesso a uma alimentação mais saudável. mais tarde.81% ganhavam entre um e três salários mínimos e 17. Associação de Desenvolvimento Educacional e Cultural de Tauá. etc. Uma das atividades desse plano é o cultivo de algodão em consórcios. Em 1990.·produtos são cultivados: hortaliças. frutas. tubérculos. a ADEC vai adquirindo equipamentos e experiência até tornar-se o elemento central do beneficiamento do algodão orgânico na região. além das 500 famílias de agricultores que consomem a própria produção. · Através das feiras. bulbos. foi durante muito tempo chamado de “ouro branco do Agroecologia e acesso a mercados 38 . artesanato. Em 2007. mudas. 7. em parceria com o ESPLAR. o algodão “mocó” (arbustivo). doces. redefinese como entidade autônoma da sociedade civil e participa da criação da Rede PTA. 76 bolos. no município de Tauá. calcula-se que um total de 7. visando a implantação de consórcios agroecológicos31. No Estado do Ceará. Em 1984.84% tinham entre um e três salários mínimos. comparando com 2002) ganhavam mais de três salários mínimos. legumes. no Sertão Central. O ESPLAR: renascimento do algodão e comércio justo O ESPLAR foi fundado em 1974. em plena ditadura militar. Concentra-se inicialmente nas Comunidades Eclesiais de Base e.98% tinham mais de três salários mínimos. para prestar serviços às organizações de trabalhadores rurais no Estado do Ceará.17% das famílias tinham renda inferior a um salário Uma mínimo. pioneira em agroecologia. rapadura. ovos. organiza o primeiro “grupo de pesquisa do algodão” com 12 agricultores em 7 municípios cearenses. nos sindicatos e organizações ligadas à Igreja.55% (10% a mais. cereais. que até então abrigava grupos de produção artesanal. como em praticamente todo o interior do Nordeste. principal produto de renda. 41.. 40.

sertão”. que tinha na exploração do algodão arbustivo uma das suas principais fontes de renda e que. como orgânica. de 1979 a 1983. e a vender-lhe a outra metade. que fabrica tênis. dois terços do algodão cearense eram produzidos por agricultores familiares em regime de parceria. na época da redemocratização do país. onde o algodão (desta vez herbáceo) é o elemento central. o ESPLAR foi experimentando e divulgando no sertão cearense uma boa quantidade de consórcios agroecológicos. a. desapropriação de inúmeras grandes propriedades. a ADEC pode pagar aos agricultores duas vezes o preço de mercado. além de combater pragas.equipe do ESPLAR faz o seguinte diagnóstico: “O setor seguramente mais penalizado pela crise foi a agricultura familiar. Ao analisar esse período particularmente conturbado. Toda a pluma de algodão é vendida. que produz camisetas. principalmente para uma pequena empresa francesa do comércio justo. Ao longo de muitos anos de pesquisa. sendo ainda obrigados a entregar 50% da colheita ao proprietário a título de renda da terra. Além disso. Outra parte. tentativas. um besouro que acabou por inviabilizar o cultivo do algodão. a preço por ele definido!32 A desigualdade do sistema e sua ilegalidade (em relação ao Estatuto da Terra) começaram a gerar muitos conflitos no final dos anos 70 e início de 80. menor. os consórcios agroecológicos produzem alimentos para o consumo das famílias e uma renda adicional com o gergelim (que. Seguiu-se uma rápida seqüência de eventos muito intensos: quatro anos sucessivos de seca. ocorreu também a disseminação da praga do bicudo. Até meados dos anos 80. até agora. Tem à sua frente um futuro promissor na medida em que a demanda por algodão orgânico é muito superior à oferta. constitui o primeiro elo da cadeia produtiva solidária brasileira Justa Trama. erros e acertos. não encontrou outra alternativa econômica”33. que provocaram a migração de milhares de parceiros. Graças aos contratos com a Veja e com a Justa Trama. A produção é inteiramente beneficiada na ADEC. cercamento das propriedades e expropriação dos parceiros-moradores. a Veja. em Tauá. tem um bom valor de mercado) e o nim (um inseticida Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 39 . Nesse mesmo contexto. Os grandes proprietários cediam a terra nua e os “parceiros” arcavam com todo o trabalho. transformadas em assentamentos a partir da segunda metade dos anos 80.

a 17 km da sede do município de Choró.natural). onde a Diaconia acompanhou a primeira colheita em 2007. as famílias precisam deixar de usar veneno e de praticar a queimada. em particular no Rio Grande do Norte. plantava algodão. faltou chuva. O bom do consórcio é isso: sempre se colhe algo.” Influenciados por João Félix – e pelo bom preço do algodão – 11 das 63 famílias da comunidade também criaram consórcios e a associação local implantou um banco de sementes. para poder certificar o algodão como orgânico. Por fim.” Entre 2004 e 2007. Agroecologia e acesso a mercados 40 . Entendi o quanto eu estava errado e comecei também a plantar com curvas de nível. melhor preparados para conviver com as secas João Félix de Souza. gergelim. Antes. Vendi 23 arrobas (345 kg) de algodão por 17 reais a arroba. da comunidade do Riacho do Meio. guandu. mas perdia quase tudo e usava veneno no milho e no feijão. o ESPLAR foi procurado por outras ONGs nordestinas . milho. valas de retenção. Em 2004 tive uma safra boa de tudo. Além do mais. depois de uma visita de intercâmbio em outra comunidade. e Antônia Dantas de Souza.. 40 anos. Mas o algodão deu certo. fava. tudo isso em um hectare. feijão. implantaram o seu consórcio agroecológico em 2003. João Félix e Dona Antônia.e a experiência está se espalhando pelos sertões afora. cobertura morta.. “Vi algodão. 42 anos. perdi 70% da safra de milho e feijão. houve momentos difíceis: “Em 2007.

Quixadá (76. O trabalho do ESPLAR em números ·ESPLAR atua diretamente em municípios do semi-árido cearense. Realiza trabalhos de desenvolvimento de sistemas agroecológicos.João Félix e sua esposa Dona Francisca. processamento e comercialização da produção agrícola na perspectiva da sócioeconomia solidária. do semi-árido cearense: Tauá (54. Canindé (73. o algodão em rama rendeu 15 Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil Agroecologia e acesso a mercados 41 04 . provavelmente nunca serão ricos mas. à água e à biodiversidade.105 habitantes em 2. Choró (12.790 habitantes em 816 km2). além dos consórcios com o algodoeiro.218 km2)e Massapê (33. a partir do direito à terra. Na Sua área de desenvolvimento de sistemas agroecológicos. · 2007.273 habitantes em 4. capital do Ceará.020 km2). · O trabalho com consórcios e algodão orgânico se concentra mais especificamente em cinco municípios. justiça ambiental e qualidade de vida. o manejo e armazenamento da água (cisternas de placas) e o manejo e conservação de sementes crioulas.256 habitantes em 572 km2) . o ESPLAR acompanha cerca de 950 famílias em atividades como o manejo de caprinos e ovinos.878 habitantes em 3. já estão melhor preparados para conviver com o imprevisível clima do semi-árido. diferentemente de seus pais. com enfoque feminista. a criação de abelhas. de classe e de combate à discriminação de raça e etnia. Depois de processado na ADEC.6 toneladas de Em algodão em 256 hectares. 245 consórcios com cerca de um hectare cada produziram 42. promoção da igualdade de gênero. e sua equipe é formada por 22 funcionários.018 km2) onde também fica a ADEC que processa o algodão. desenvolvendo O atividades voltadas para a agroecologia a serviço da agricultura familiar. fortalecimento das organizações de trabalhadores rurais para incidência nas políticas públicas de interesse da agricultura familiar. · sede fica em Fortaleza.

das quais 13 foram vendidas para a Veja (tênis) e dois para Justa Trama (confecção). maior proteção dos solos. · 2005. associados ao beneficiamento e ao ingresso em um mercado mais justo e mais estável podem trazer melhorias na alimentação. renda. a produção total foi de 36 toneladas de algodão. saúde para a família e a comunidade. autonomia. 148 famílias cultivaram 180 hectares e venderam a sua produção por R$70 mil Em (U$40 mil). 30 Em toneladas de milho.5 toneladas de gergelim e 12 toneladas de melancia. Há. A renda bruta adicional foi cerca de R$500. e o meio ambiente saiu beneficiado de diversas maneiras: menos fogo. podemos desde já destacar a fragilidade das cadeias produtivas envolvidas e a escala reduzida Agroecologia e acesso a mercados 42 . organização.00) por família. pequenos subsídios). · 2006. As experiências mostram que pequenos investimentos na produção (assistência técnica. do algodão ou do babaçu está acima do valor de mercado. 19 toneladas de feijão.00 (U$285. porém. destacaremos na segunda parte deste documento três grandes tipos de mercados para a produção agroecológica: a feira local (Diaconia). As organizações existentes também saíram reforçadas. houve a criação de novas associações e cooperativas . Entre elas. Não menos importantes. mais água e mais vegetação. Um rápido balanço das três experiências Do conjunto dessas experiências. equipamentos simples. o comércio justo internacional (ESPLAR e ASSEMA) e a compra garantida pelo governo (Diaconia). diversas limitações. às vezes. trocas de experiências e. Esses três mercados têm algo em comum: o preço de compra das hortaliças. água. sobre as quais voltaremos na seqüência deste estudo. esses mercados também têm conseguido garantir a estabilidade do preço nesse patamar elevado.toneladas de pluma. 1. menos veneno.

mas sim da organização dos produtores apoiada de maneira decisiva pelos movimentos sociais e pelo poder público. para as atividades que apenas começam a se desenvolver – que se concentra o mais importante desafio do desenvolvimento rural. Em suma. mas não da venda. buscar novos mercados. inovar.das intervenções. em que nicho de mercado vão inserir seus produtos. Hoje. sobretudo. como. A idéia de que os agricultores produzem e os mecanismos da política agrícola garantem sua renda – tão arraigada até hoje na consciência das lideranças rurais brasileiras – está definitivamente ultrapassada. com freqüência. cujo teor permanece plenamente atual. como as cooperativas e as agências públicas às quais. aprender a conhecer os mercados e os clientes. com uma pergunta recorrente em mente: até que ponto o caminho da agroecologia e dos mercados diferenciados é viável para a agricultura familiar? O desafio do mercado Seguem-se trechos de um artigo escrito por Ricardo Abramovay em 199834. administrar cooperativas.” Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 43 . sua afirmação econômica não está mais apenas da porteira para dentro.” “Até recentemente. a que demanda da sociedade serão capazes de responder. de fato. Se o êxito dessas três ONGs e das organizações de produtores mostra que o mercado pode. entre outros. os agricultores e suas organizações. mas supõe um profundo conhecimento do mercado com o qual se relacionam. os agricultores eram profissionais da produção. Não basta produzir (ver box abaixo). o acesso a esse mercado permanece uma questão longe de ser resolvida. “É na construção de novos mercados – tanto para os produtos até aqui predominantes. é preciso beneficiar. cada vez mais precisam saber qual é o seu cliente. Esta construção não vai resultar da ação espontânea dos agentes privados. Estes são temas sobre os quais voltaremos adiante. ser visto como uma oportunidade para a agricultura familiar. da qual se encarregavam grandes organizações. vender. destinavam seus produtos. bem entendido. ao contrário. organizar-se em associações.

segurança alimentar. gergelim). mais importante do que a maximização do lucro é procurar a interação permanente dos três componentes constitutivos do que denomina o “tripé de sustentação” dos consórcios agroecológicos. Na perspectiva agroecológica não é o lucro a variável prioritária. já representa um belo desafio para os agricultores e as Ongs sob pelo menos dois aspectos: a prática experimental e sua difusão em maior escala. aqui. A segurança alimentar corresponde à necessidade de assegurar. é preciso produzir. milho. Agroecologia e acesso a mercados 44 . A geração de renda envolve um esforço importante e contínuo em direção ao mercado. o modelo agroecológico seria o único sustentável. vegetação). 2) a segurança alimentar (feijão. o comércio justo da pluma de algodão orgânico. nutrição e saúde às famílias produtoras. no pior dos casos. Para algunas até.Produzir na perspectiva agroecológica Para poder vender. recuperar-se rapidamente depois de atravessar secas prolongadas ou outros eventos climáticos extremos (resiliência). uma adequada alimentação. junto com um componente de biofertilização e defensivos naturais (nim. Esses três componentes são: 1) a estabilidade dinâmica do agroecossistema. a chamada “transição” ou “conversão” agroecológica não é óbvia. nem rápida. melancia) e 3) a geração de renda (algodão. uma vez que o paradigma da Revolução Verde está em crise. Entretanto. meio ambiente e mercado são indissociáveis. que inclui a conservação dos recursos naturais envolvidos na produção (água. É a estabilidade dinâmica desse “agroecossistema” que o torna capaz de conviver com as condições climáticas extremas do semi-árido (resistência) ou. a produção agroecológica propriamente dita. a partir das possibilidades oferecidas pelo agroecossistema. A produção agroecológica As várias dimensões da agroecologia Para o ESPLAR. Nessa ótica. principlamente. O primeiro elo da cadeia. solo. gergelim).

Orgânica ou agroecológica? Qual é o volume da produção brasileira? Falar em produção agroecológica não é o mesmo que falar em produção orgânica. vai muito além. aos poucos.550 famílias do programa de produção agroextrativista da ASSEMA. a agroecologia ainda tem um forte componente político e social: “Traz embutidos aspectos referentes à equidade social. Autores como Guzmán. porém. econômicas. ecológicas. produzem frutas e hortaliças. o que pode vir a ser um novo paradigma para a agricultura sustentável. visando “o estabelecimento de dinâmicas de transformação em direção a sociedades sustentáveis”. como visto acima. a prática da monocultura de. autonomia das comunidades locais. A rigor.Além dos aspectos técnico-produtivos. é o que buscam as 500 famílias cultivando algodão nos consórcios do Esplar. em todas elas. (Ver abaixo o box “A insustentabilidade da agricultura convencional”). as dimensões técnico-produtivas. com a ajuda da DIACONIA. verduras e plantas medicinais. importando esterco de uma fazenda distante e explorando trabalhadores sazonais na época da colheita poderia vender a sua produção como “orgânica”.35”.. podemos dizer que toda produção agroecológica é orgânica.. Todas também se contrapõem ao modelo da Revolução Verde e põem em prática. Numa primeira aproximação. solidariedade. e as 300 famílias que. goiabeiras. as 1. associativismo. substituindo agrotóxicos por insumos naturais. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 45 . digamos. As ambições do ESPLAR e das outras ONGs deste estudo são certamente mais modestas. valorização cultural. sendo que o inverso não é verdadeiro. A agroecologia como caminho para a sustentabilidade nas suas mais variadas dimensões. A produção estritamente orgânica preocupa-se com aspectos técnicos mais ligados às dimensões de ambiente e saúde. sociais e culturais estão presentes. como “alternativas à atual crise civilizatória”36 . A agroecologia. desde que não se use insumos químicos37. até consideram a agroecologia como uma “estratégia metodológica de transformação social”. políticas. econômicos e ambientais.

“A produção agroecológica é subestimada” respondeu um técnico do Ministério do Desenvolvimento Agrário (o MDA. em 2007.). No mercado mundial. Como se pode ver. segundo o ministério.3 milhões de hectares. látex e outros produtos da floresta.8 milhões de hectares. a fatia de mercado do Brasil ainda é pequena (U$ 250 milhões). mas o potencial de crescimento de anual seria de 25%. A maior certificadora orgânica brasileira. o outro ministério brasileiro da agricultura.. com 90 milhões de hectares prontos para o cultivo. os dados existentes dizem respeito à produção orgânica. uma pesquisa recente38 indicou que. o Instituto Biodinâmico (IBD). seguida pela Argentina com 3. Agroecologia e acesso a mercados 46 . se fosse pelo IBD?.” A polêmica estava lançada. Pecuária e Abastecimento (o MAPA. com 842 mil hectares (em 2000 eram apenas 100 mil hectares). que já movimenta cerca de U$ 30 bilhões. segundo o Instituto Biodinâmico39.. o país teria o maior potencial de produção do mundo. À sua frente. O Brasil tornou-se em poucos anos um dos maiores produtores e possui a oitava maior área. declarou que “seriam números sérios. deveria ser menor que a orgânica. Um artigo publicado em julho de 2005 pela revista Carta Capital40 começava. O primeiro produtor orgânico no mundo é a Austrália com 11. cerca de 31 milhões de hectares já estavam sob cultivo orgânico no mundo.Feita essa distinção. E a produção agroecológica brasileira? Logicamente. essencialmente para o Japão. EUA e Europa. se todas as áreas extrativistas fossem auditadas” (melhor ainda.1 milhões de hectares (sobretudo cereais e carne) e. voltado para o agronegócio de grande porte) que decidiu “incluir 5. a dar visibilidade para a agroecologia. porém. Isto ajudou.” Essa informação destoante com as estatísticas até então conhecidas. estimado a 30% por ano.5 milhões de hectares. em terceiro lugar. que tem no mercado externo o principal alvo. tinha como origem o Ministério da Agricultura. o Brasil exporta 60% da sua produção orgânica. e a área poderia atingir 3 milhões de hectares a curto prazo.7 milhões de hectares do extrativismo sustentável. mais preocupado com o componente familiar e com a reforma agrária). com a seguinte informação: “O Brasil é o vice-campeão mundial em área de produção orgânica. Atualmente. Haveria também um forte potencial de crescimento. com 6. a China com 2. ou seja. cada um tentando puxar a sardinha para a sua brasa. Além disso. só a Austrália. onde há açaí.

da USP de Piracicaba. a observação de 32 sistemas agrícolas. em geral nos cinturões verdes de metrópoles. O pesquisador comparou os produtores filiados a duas associações orgânicas.” No mesmo artigo. orgânicos ou não.” Por outro lado. diz ele. uma pesquisadora da Embrapa Ecologia (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) calcula que o tamanho médio das unidades de produção orgânica seria de 44 hectares (nas unidades convencionais é de 73 ha). todos os preços agrícolas caíram. Para grandes produtores.” Outro doutor citado pela revista.“A contabilidade oficial. Ponto a favor da agricultura familiar. sendo que os “carros-chefe dos orgânicos no Brasil (. a matéria traz interessantes informações oriundas de uma pesquisa de doutorado de Renato Linhares de Assis sobre agroecologia. A terra viciada com agroquímicos pode levar três anos para ser descontaminada. Em 40 anos.) são o açúcar. Mas os insumos agrícolas encareceram”. o processo de conversão é investimento de risco. Mas haveria um grande número. o café e a carne.. Manoel Baltasar Costa. todos da região Sul do Brasil. Também. mostrou que apenas Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 47 . com pequenos agricultores familiares não certificados. inclui apenas os projetos certificados. Constatou o seguinte: “A agroecologia tem práticas menos intensivas no uso de capital e mais intensivas no uso de mão-de-obra. avaliou quatro décadas de agricultura em 25 municípios da região metropolitana de Curitiba. E o custo da mão-de-obra pesa. apoiados pela ONG AS-PTA. a soja. de produtores não certificados que vendem a colheita localmente. que reúnem produtores individuais ou grupos.. Primeiro resultado: “O agricultor foi o mais prejudicado. ignorado pelas estatísticas.

Depois veio a “conversão” (com um quê de conotação religiosa?) à agroecologia e a preocupação com a comercialização da produção. Trata-se. criando laços de solidariedade. Este é o alicerce sobre a qual o trabalho produtivo repousou inicialmente. para o Médio Oeste Potiguar. sem dúvida. em que a única troca real foi de agroquímicos por insumos orgânicos. de uma conjuntura extremamente favorável para quem apostou no algodão orgânico ou no óleo de babaçu no início Agroecologia e acesso a mercados 48 . organizações da Igreja também deixaram a sua marca. Vale também para o Sertão Central cearense. O saldo negativo surgiu tanto na agricultura convencional como em parte dos sistemas orgânicos. onde o tecido associativo rural sempre foi robusto. os sindicatos rurais e a influência social das igrejas. A onda ambiental já atingiu o sertão O box acima mostrou o crescimento acelerado da produção orgânica no mundo. Nas três regiões pesquisadas. anterior ao apoio técnico e econômico das ONGs. respondendo a um crescimento muito rápido da demanda. Duros conflitos reforçaram a organização política. mas. ainda. Foram assim as lutas políticas que levaram à criação da ASSEMA no Maranhão. entidades pastorais ou organizações evangélicas como a Diaconia presente em Umarizal desde os anos 70.“30% das propriedades revelaram padrões aceitáveis de sustentabilidade. não basta”. Um ambiente favorável para a produção agroecológica O alicerce político-organizacional da produção Um dos elementos que encontramos nas três regiões visitadas é a presença de uma firme base política e organizacional. sejam elas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). onde os sindicatos de trabalhadores rurais representam uma força importante desde os anos 60 e.” Costa conclui que a agricultura orgânica “é menos impactante.

um número crescente de consumidores mais conscientes prefere comprar. que figuram entre os favoritos das famílias rurais. que foi buscá-lo numa fazenda irrigada da beira do rio. Rosset levanta vários indícios da crise do modelo convencional. por exemplo. que o comprou de um atacadista. do que um molho aparentemente idêntico. critica a mera substituição de insumos (o enfoque estritamente orgânico) e argumenta em favor do enfoque agroecológico. até nos municípios e comunidades mais distantes. O primeiro deles.dos anos 90. O consumo de produtos orgânicos não é reservado à classe média do hemisfério norte. A insustentabilidade socioeconômica e ambiental da agricultura convencional Numa demonstração de grande clareza41. Por isso. consumidores e produtores estão sensibilizando-se pouco a pouco aos benefícios ambientais e às melhorias na saúde ligadas à qualidade da produção agrícola. Se as feiras agroecológicas estão se espalhando muito rapidamente pelo interior do Nordeste é por que nelas se praticam preços acessíveis. vendido por um comerciante. A demanda atual por algodão orgânico é muito superior à oferta. envolvendo as dimensões econômica e social. um molho de coentro orgânico produzido e vendido diretamente por pequenos agricultores do município. tiveram uma aceitação muito boa. E os tênis “orgânicos” da Veja Fair Trade. distante em mais de 200 km de distância. Para começar. é a considerável redução do número de agricultores por motivos econômicos. a empresa francesa que compra o algodão da ADEC no Ceará. pelo mesmo preço e na mesma feira municipal. Mas é também por que a onda ambiental já atingiu o sertão através. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 49 . acima do previsto. de programas de televisão como o Globo Rural ou o Globo Ecologia. A partir daí. Ou seja. onde foi produzido com muito veneno. Peter Rosset diagnostica a dupla face – ecológica e socioeconômica – da crise da agricultura convencional. tomando como referência a agricultura norte-americana.

“nos fertilizantes químicos. ao máximo. doenças. salinização. Os problemas passaram então a formar círculos viciosos. a mecanização conduziu rapidamente à monocultura. “não conseguem cobrir os juros de suas dívidas. e assim por diante. que permitiram substituir as práticas mais trabalhosas”. Vários problemas surgiram: erosão do solo. devido a “uma constante degeneração da base produtiva da agricultura através de práticas insustentáveis”. enquanto os custos dos insumos industrializados têm se elevado consideravelmente”. isso levou ao uso de maiores quantidades de inseticidas sintéticos e despesas cada vez maiores: Agroecologia e acesso a mercados 50 . Por isso. a monocultura. e. a produtividade do fator que mais limitava o desenvolvimento da sua economia – a mão-de-obra”. redução da eficácia dos agrotóxicos. Os custos dos produtos químicos e de outros insumos aumentaram. do outro. Por exemplo. Por tabela. o principal indício é “a desaceleração dos rendimentos médios das lavouras”. As causas dessa dupla crise residem na lógica que orientou o nascimento e o desenvolvimento da agroindústria moderna: “Desde o princípio. os agricultores que se endividaram para comprar equipamentos pesados. Aqui.“Devido à superprodução e o monopólio da comercialização por empresas transnacionais. a monocultura em grandes propriedades provocou o surgimento de pragas. os preços dos alimentos mantêm-se estáveis por muito tempo. desertificação. favorecendo as propriedades de grande porte. a mecanização e a especialização da produção. Consequentemente. o que tem provocado falências. que foram controladas com inseticidas sintéticos. a ciência agrícola americana esteve orientada para aumentar.” A crise do modelo convencional tem também uma dimensão ecológica. “na definição de variedades e na densidade de plantio aplicadas à monocultura”. de um lado. e a ciência concentrou-se.

. o capital tem se 'apropriado' dos elementos do processo produtivo. a transição do sistema tradicional para o agroecológico parece vantajosa para o agricultor familiar. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 51 .. de fato.“. muitas não aceitam esse desafio e.. menos prejudiciais ao meio ambiente. é a agroecologia: “. segundo Rosset. sem questionar nem a estrutura dos monocultivos.. sociais e econômicas.) Qualquer modelo alternativo (. a fertilidade natural do solo pela aplicação de adubos químicos e assim sucessivamente. O resultado inevitável de tudo isso é o conflito de interesses.. que depende de fortes inversões de capital. nem a dependência de insumos externos (. Sob vários aspectos. Sem dúvida..” Avanços e dificuldades na transição agroecológica Muitos avanços. É. um indicador importante da crise da agricultura convencional é o grau de utilização de capital (.. Historicamente.. Contudo. o qual converte tanto os países como os agricultores em entidades dependentes de fornecedores. possível observar avanços importantes nas famílias que adotaram essa abordagem inovadora para o desenvolvimento dos seus sistemas.). de insumos e equipamentos... identificado pela grande quantidade de dinheiro entrando em jogo para manter uma agricultura industrializada.. substituindo os mecanismos naturais de controle de pragas pelo uso de agrotóxicos.a estratégia de substituição de insumos se baseia unicamente na busca de insumos agrícolas alternativos... a distância entre teoria e prática não se percorre tão fácil ou rapidamente.) deve considerar as questões ecológicas. muitos lucros deixariam de ser auferidos se houvesse uma mudança para caminhos alternativos e tradicionais. entre aquelas que o fazem.” A única alternativa..

dentre outros). Conseguiu-se plantar algodão sem veneno. Nas comunidades. resume Valdener. de forma um tanto surpreendente. aí. “Quem abraça a proposta agroecológica e respeita o calendário agrícola tem resultados. qualidade do solo. gastam menos. Mesmo nas propriedades que não aderiram à proposta agroecológica. mais pássaros. alimentos mais saudáveis. às vezes uma moto. mas contribui da mesma forma para o bem-estar da família. verduras. sobre e dentro da terra. palpáveis. em muitos casos. nos consórcios. A diversificação da produção (“sempre se colhe algo”) também contribui para a sustentabilidade da proposta e. Em termos ambientais. urina de vaca. houve o que os economistas chamam de “externalidades positivas”.. Nas propriedades também: mais água. Além disso. algodão. melhorias na saúde por deixar de usar agrotóxicos: estes são ganhos muitas vezes citados pelos próprios agricultores. os avanços são nítidos.” Outra contribuição importante é a diminuição da incerteza em relação ao futuro. estudos científicos mostraram que. Pelo menos. se a produtividade de cada tipo de cultivo é obviamente menor do que na monocultura.Os progressos trazidos pelo desenvolvimento dos “novos” agroecossistemas são. gergelim. alimentando assim pesquisas acadêmicas originais. a alimentação e a saúde melhoram e. geladeira. mais vegetação.) e os insumos necessários para produzi-los (sementes. trabalho familiar.. a eficiência energética – relação entre os produtos obtidos (cereais.. forragem. melhorias no solo. À pergunta “O que mais mudou?”. O aumento na renda é também visível: fogão novo. Produção de alimentos mais diversificada e mais contínua. mais vida acima. reservas de forragem para os animais. ajuda a melhorar a qualidade da alimentação: sempre se come algo diferente ao longo do ano. técnico da ASSEMA. o resultado não é tão visível. muita gente deixou de usar veneno e o uso do fogo diminuiu.. Em outros casos.) – é bem melhor. devido à maior estabilidade da produção e da renda. “o conhecimento das Agroecologia e acesso a mercados 52 . lideranças camponesas e responsáveis sindicais que circulam muito nas comunidades respondem. testando todo tipo de defensivos naturais (nim. devido à sazonalidade de diversos produtos.

constatou que “quem avança mais na questão política e fala mais em público. Ao lado. Também. por exemplo. no Ceará. os avanços se medem também pelo fato de que “é mais fácil convencer o agricultor hoje do que quatro anos atrás”. os bons resultados dos consórcios agroecológicos com algodoeiro serviram também de barreira concreta contra os argumentos da Secretaria Municipal de Agricultura. acha que o que mais mudou foi “a visão das pessoas”.” Do seu lado. o mais comum é a mudança parcial. Mas entender a proposta do consórcio agroecológico não depende de alfabetização: a técnica é clara. diz Ronaldo Carneiro. presidente do sindicato no município vizinho de Quixadá. recuperam o solo com leguminosas e não usam mais nem fogo. Coordenador técnico do programa de produção agroextrativista da ASSEMA. Por que algumas famílias apostam na transição agroecológica. Tanto é que a ASSEMA faz a diferença entre “transição” e “evolução” agroecológica. e outras não? Para a equipe técnica da DIACONIA. “Das 1500 famílias com as quais trabalhamos. era como se tivesse um pano preto. para elas e para os filhos”. entre as famílias dispostas a mudar de sistema.” Em Choró. do Banco e da EMATER. “vêem a possibilidade de permanecer no campo. mas quem visita as comunidades pode constatar que a transição para a agroecologia é longe de ser majoritária. nem trator em boa parte da sua terra. 110 estão em processo de transição. Não sabia. para quem o uso maciço de produtos químicos na agricultura é sinônimo de progresso. mas ainda queimam. tem aquelas que consideramos em processo de 'evolução” que. É verdade. Como conseqüência. Eliane Lobo Ramos. não usam mais veneno nem trator.pessoas”.” Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 53 . Eu usava veneno porque a EMATER indicava. é geralmente quem estudou mais e sabe ler e escrever. Por sua vez. Eronilton Buriti. presidente do sindicato de trabalhadores rurais de Choró. consorciam o babaçu com fruteiras. plantam hortaliças. O agricultor João Félix conta assim que “antes do ESPLAR. nem agrotóxicos. Estas famílias intensificam as práticas.

Mas até quem conhece e vê – Muita inclusive parentes próximos – pode não acreditar ou não querer acreditar. Até meu irmão e meu pai não acreditavam.” · gente ainda não conhece as experiências bem sucedidas. me chamavam de doido. depois de anos em escolas agrícolas onde a agroecologia não era valorizada.” · É preciso assistência técnica especializada e de qualidade e as capacidades das ONGs em termos de recursos humanos são limitadas. mesmo se o hábito permaneceu. “As outras famílias não acreditavam quando comecei. plantando milho e feijão. muitos cuidados e muito tempo. · A transição para a agroecologia é motivada por necessidades emergentes: “O uso do fogo era sustentável até os anos 60. e outras não? Abaixo. Tem pessoas que não querem vir para a discussão. vem a pergunta: por que algumas famílias operam a transição agroecológica. acham perda de tempo. Hoje. Diziam que eu ia matar a família de fome porque não pensavam que uma terra ruim feito essa ia dar. “É preciso trabalhar todos os dias e participar de muitas reuniões.” “Às vezes. criando gado.Aí. não é mais sustentável usar o fogo. Só sabe fazer dessa forma. Depois.” Agroecologia e acesso a mercados 54 . A sua formação se dá pela prática. com a pecuarização. O povo se criou trabalhando para o patrão. o tamanho das terras agricultáveis diminuiu e o tempo de pousio caiu para cinco anos. as respostas dos próprios agricultores e técnicos. os próprios técnicos demonstram resistência ou descrença em relação a novas técnicas. “ · A agroecologia pede muito trabalho. “O INCRA deixou o assentamento. que ficou muitos anos à toa.

Mas “Quem conseguiu o básico. Não precisa sair da comunidade para comprar insumos ou vender a produção”. muitas ficaram sem condição financeira para manter essa política e tiveram que suspendê-la. Pouca gente está disposta a fazer isso. “A bolsa-família ajuda a não produzir”. “Pessoas acham melhor plantar fumo porque a Souza Cruz financia tudo que precisa e compra todo o fumo. seja na forma de subsídios monetários ou e doação de material. · novidades comporta riscos. fiz muito esforço. acha que está bem assim.” · Políticas assistenciais desestimulam. Testar “Arrisquei. · simplesmente. as Ongs adotaram uma política de Para incentivos. fossem buscar doações ou financiamentos via políticas públicas. Contudo. mas dá resultados mais rápidos.” · A venda direta ao atravessador na comunidade. Mas não há políticas públicas Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 55 . há sempre quem se satisfaz com pouco. · compensar os riscos e estimular a transição. há certa acomodação”. a catação manual do bicudo é o principal fator limitante. ou a integração com a agroindústria têm suas vantagens. apostei. “Para o algodão. ao ver os benefícios dos kits de irrigação. O veneno tem custos.·manejo de pragas pode ser muito trabalhoso quando se trabalha na perspectiva O agroecológica. “A idéia inicial era de que as famílias.

como ocorreu no início dos anos 90. mas passou por mais de quarenta fogos. que raramente são os mais pobres. gastavam-se 3000 reais para a família irrigar. Antes. para enfrentar três anos sucessivos de seca. o solo era bom. Hoje gastam-se 300 e aproveita-se todo o potencial da família ..” · A força do hábito é grande “Mesmo com os insumos para sistemas agroecológicos. Há um fundo solidário para financiar esses equipamentos. de recuperar terras muito desgastadas: “Sete anos trabalhando a proposta agroecológica é pouco. técnico da Diaconia. Trata-se. ainda. o trabalho é lento. da ASSEMA.” Por isso. diz Élson. calcula Valdemar. de modo geral. Até livre para errar. e depois discutir o erro com ela.. Haverá com toda Agroecologia e acesso a mercados 56 . livre para escolher o que quer fazer. Precisa de tempo para se recuperar. pisoteio de gado. O agricultor decide se quer ou não um motor. ninguém está preparado. se a resistência e a resiliência estão de fato melhorando. Hoje não chegamos mais com o kit completo de irrigação..” Por outro lado. Aqui. plantio de capim.para os mais pobres e as próprias associações locais priorizam seus sócios. antigamente. até mesmo nas propriedades agroecologicamente mais avançadas. “É preciso deixar a pessoa à vontade. leva vários anos. o fator tempo e a escolha livre pelo agricultor são elementos fundamentais da sustentabilidade. também. Trata-se de mudanças de comportamento. ou um tanque. alguns reproduzem o sistema anterior” Lições para a sustentabilidade da produção com fins de comercialização Além da assistência técnica.

Essas são discussões que precisariam ser travadas urgentemente. reservas de água. com o desenvolvimento de opções técnicas para a conversão da produção”. silagem. é preciso hoje “fazer no âmbito da comercialização o esforço que dezenas de Ongs e grupos de agricultores organizados fizeram no passado. poderoso império econômico que lentamente estrangula o mercado da galinha caipira42. seguro público ou privado). tanto em Brasília. ainda. Logo. dinheiro vivo (poupança individual. fundo comunitário ou. porém. Mas um dos maiores desafios para as Ongs e as organizações de agricultores é o próprio mercado. Antes. é preciso se debruçar um tempo sobre a etapa intermediária de transformação que visa agregar valor à produção44. até ameaças mais surdas como a criação industrial de aves. A comercialização. As ameaças externas à transição agroecológica também são múltiplas: desde a adoção dos transgênicos. como nas comunidades. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 57 . muito precária. gera incertezas que representam uma das principais “barreiras à conversão”43. desde ameaças já bem conhecidas como o avanço rápido do eucalipto e da soja (chegando agora no sul do Maranhão).certeza outras secas prolongadas. de analisar a comercialização. as famílias deveriam capitalizar-se de diversas formas: bancos de proteínas para os animais. e também. com uma intensidade provavelmente ampliada em decorrência das mudanças climáticas globais. Sem dúvida. até incertezas em relação à implantação do biodiesel.

operar máquinas ou cuidar da parte administrativa. No máximo. são aplicados para transformar a goiaba em geléia ou o milho em canjica. A pluma é prensada antes de ser estocada e vendida para empresas do comércio justo. no Maranhão. armazenamento em tonéis selados). Em ambos os casos. o algodão “em rama” passa por uma descaroçadeira que separa a rama da pluma e da semente.Agregar valor à produção: Desafios tecnológicos e organizacionais Beneficiamento e processamento da produção em unidades de médio porte As hortaliças e frutas dos quintais produtivos são vendidas na feira. prensagem. Na COPPALJ . visando a agregar valor. O óleo assim produzido tem vários destinos: a maior parte vai para uma fábrica local de sabão comum. a amêndoa (semente) de babaçu também passa por processos sucessivos (aquecimento controlado. em Tauá. Agroecologia e acesso a mercados 58 . 30% é vendido como óleo orgânico certificado para empresas do comércio justo e uma pequena parte constitui a principal matéria prima da fábrica de sabonete “Babaçu Livre”. a agregação de valor – beneficiamento do algodão e processamento do babaçu45 – é mais complexa. processos caseiros simples. a capacidade operacional é incomparavelmente inferior à capacidade das grandes indústrias modernas.Cooperativa dos Pequenos Produtores Agroextrativistas der Lago do Junco. Mas não se trata tampouco de processos caseiros: os volumes de produção relativamente importantes para a escala da agricultura familiar e as tecnologias de médio porte necessitam uma sólida organização para coletar e transportar a matéria prima de vários produtores. Estes são novos desafios para a produção familiar. Na experiência do ESPLAR e da ASSEMA. porém. Na ADEC. dirigida e operada por quebradeiras de coco.

da ASSEMA. subproduto do processamento do babaçu. a COPPALJ comercializa também a torta. são transformados em produtos com potencial de mercado. O nim e o gergelim. da vegetação nativa. as tecnologias de produção agroecológica estão relativamente bem adiantadas: já foram testadas diversas opções para o manejo da água. Valdener. Além do mais. selecionar e armazenar sementes. com excelente aceitação46. Um duplo desafio: agregar valor e agregar gente À procura da tecnologia adaptada à escala de produção da agricultura familiar Tecnologias novas podem ser necessárias “para tornar economicamente viável a gestão de sistemas mais complexos como o exigem as regras da gestão ecológica”47. Pouquíssimas máquinas disponíveis no mercado estão adaptadas à escala familiar ou comunitária. plantar. para adubar. como os óleos. agricultores e pequenas oficinas mecânicas48. o mesocarpo. Da mesma forma. Como vimos anteriormente. uma das histórias de sucesso entre as mais conhecidas no semi-árido.Antes de analisá-los. O beneficiamento caseiro da castanha de caju da Serra do Mel (RN). para o beneficiamento e o processamento da produção familiar. aproveita a parte mais delicada do babaçu. foi fruto de longos esforços de adaptação por parte de ONGs. visitou usinas e procurou equipamentos no mercado. que também fazem parte dos consórcios agroecológicos. e a casca é usada ou vendida pelas famílias como matéria prima para fazer carvão. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 59 . condicionado e vendido em lojas de produtos orgânicos. O mesmo ocorreu na COPPALJ: quando surgiu a idéia de processar o óleo de babaçu. a Cooperativa dos Pequenos Produtores Agroextrativistas de Esperantinópolis (COOPAESP). não é o único. dos solos. transformado em farinha. a carência é enorme. também assessorada pela ASSEMA. Em comparação. vale lembrar que. explorados por alguns agricultores. se o algodão é o principal produto comercializado pela ADEC.

O problema é que nenhuma das soluções tecnológicas testadas até hoje para substituir o machado foram satisfatórias. com capacidade de 600 kg de sementes por hora – quatro vezes a nossa produção atual – iam ficar ociosas a maior parte do tempo”. O diretor da cooperativa precisa sempre colocar as coisas no seu divido lugar: “Quem vem. tanto em termos de produtividade. Conseguir uma tecnologia adaptada às necessidades é um fator determinante para o êxito da comercialização. O desafio de agregar gente: a carência de apoio especializado para organizar grupos de produção informais em cooperativas A COPPALJ recebe muitas visitas de Ongs e grupos de produtores rurais de outros estados. como de bem estar e segurança dos operadores.” Agroecologia e acesso a mercados 60 . vê a estrutura. Explicamos a história. Sem contar o perigo que representa o manejo do machado: mesmo com toda a habilidade adquirida desde criança. melhorando aos poucos o desempenho da máquina. Até hoje a COPPALJ continua ajustando a prensa feita sob medidas. toda a luta para constituir a cooperativa. que desejam transformar a sua produção. o mais importante é pensar no coletivo. A saída foi procurar os serviços de um torneiro em Bacabal. que não é o mais importante. As máquinas são de menos. as quebradeiras sempre acabam se cortando. as quebradeiras ainda usam um pau e um machado para extrair manualmente a semente de babaçu. Todos se empolgam frente à imponência do galpão e das máquinas da cooperativa. A ASSEMA não deseja perpetuar esse processo tradicional e defende o uso da tecnologia para aumentar a taxa de quebra do babaçu e diminuir o esforço físico das quebradeiras. Por exemplo. cidade situada a100 km de Lago do Junco.“As menores prensas.

agrônomo do ESPLAR. “È preciso fugir de um só produto e promover a diversidade de produtos para o mercado”. valha também para a comercialização. as ONGs. que beneficia algodão desde 1993. durante mais de 15 anos – comprando a amêndoa de babaçu das quebradeiras.Da mesma forma que a técnica. Sua transformação em óleo concentrado pode facilitar a Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 61 . nacional e internacional – por si só. devido à pouca tradição de cooperativismo no Nordeste. dimensão invisível da produção. Avanços e dificuldades na transformação da produção Diversificar os processos de agregação de valor A simples existência da COPPALJ. Pode-se falar o mesmo da ADEC. Em ambos os casos. insiste Pedro Jorge. Resta que o princípio de diversificação. Daí a importância do processamento do nim e do gergelim em óleo. Para o hardware (as máquinas) como para o software (a gestão e a organização da produção). dedicaremos um capítulo inteiro ao assunto mais adiante. a extensão e o ensino estão muito pouco voltados para as necessidades da agricultura familiar. na segunda parte do estudo. pioneiro no apoio à produção do algodão orgânico no Brasil. Com a ausência de apoio especializado49 como também de experiências vivas. a pesquisa. os sindicatos e os grupos de agricultores tiveram que improvisar também nessa dimensão organizacional. no Ceará. e hoje domina a operação a ponto de exportar os conhecimentos adquiridos para outros estados. para uso próprio e para a venda. O nim já é usado como inseticida natural nas plantações consorciadas e como vermífugo e carrapaticida na criação animal. que vale para a produção agrícola. já representa uma enorme conquista dos agricultores familiares e seus assessores. “na marra”. administrando uma rede de cantinas nas comunidades. sofre de uma enorme carência de apoio profissional. Devido à importância desses aspectos organizativos. processando 300 toneladas de babaçu por ano e equilibrando a sua gestão vendendo a torta e o óleo nos mercados local. a aprendizagem se dá pela prática. a organização.

Existe um mercado constituído. mesocarpo e endocarpo). Precisaria investir muito em pesquisa tecnológica. extensão e pesquisa50. Em ambos os casos.” Ou seja. ainda não existe mercado. e a COPPAESP. o valor que as quebradeiras recebem permanece baixo. Por enquanto. e Pedro Jorge faz uma importante ressalva relativa à adoção do óleo pelos agricultores: “Já houve duas capacitações sobre como fabricar e usar o óleo de nim. a extração da amêndoa pelas quebradeiras é feita manualmente. os aspectos técnicos e econômicos são indissociáveis de aspectos relacionais. idéias e crenças. O caso do óleo de gergelim é diferente. suscita questionamentos sobre as relações entre conhecimento tradicional. conhecimento científico e inovação. mesmo com preço alto no mercado. Talvez este não seja o bom modelo para eles. mas ninguém adotou. tanto por parte dos agricultores como dos técnicos das ONGs e dos organismos governamentais de ensino.” Agroecologia e acesso a mercados 62 . a questão da produtividade permanece como um dos principais gargalos da comercialização: “Com a extração manual. talvez a maioria só queira ser agricultor e vender apenas as sementes. Para os técnicos da ASSEMA. Não adianta o ESPLAR querer criar um mercado ainda inexistente se não for o que os agricultores desejam ou precisam.expansão do uso na vizinhança e além. sem sucesso. a COPPALJ aproveita apenas a amêndoa. Essa situação vivenciada pelo ESPLAR. respectivamente com um machado e com um facão amarrado a uma tábua. No entanto. Já foram feitas mais de cem tentativas de aproveitamento integral. culturais e organizacionais. Estão em jogo atitudes. mais uma vez. onde o alto preço (100 reais o litro) atraiu alguns produtores. justificando assim o investimento do ESPLAR em capacitação e equipamentos para o processamento caseiro. casca. À procura de uma máquina para o aproveitamento integral do babaçu A ASSEMA sonha no que chama de “aproveitamento integral do babaçu” (amêndoa. apenas o mesocarpo.

O método mais eficaz até agora contra o bicudo é a catação manual. Para o algodão. através do seu programa de Desenvolvimento Rural Sustentável. um inseto que ataca os botões florais. Como conseqüência. principal interlocutor da Fundação nesse âmbito. nem sempre óbvio quando a área cultivada é distante da moradia. discussão política que envolve as comunidades agroextrativistas da região. o gargalo tecnológico fica mais a montante. nem o nim. Ou seja. Sem processo agroecológico eficaz para controlar o bicudo. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 63 . nem os sofisticados feromônios – foram plenamente eficazes contra duas pragas que ameaçam a produção de algodão: o bicudo. considera que essa cadeia comporta a produção agroecológica. a produção não acompanha essa tendência e tende até a cair. e a lagarta rosa. Por razões ligadas à tecnologia e à produtividade. o mercado justo e a consolidação da legislação do acesso livre aos babaçuais. porque a extração manual do mesocarpo é muito trabalhosa e o valor da hora trabalhada não compensa o esforço. o beneficiamento integral. na fase de cultivo. já que a área produtiva do consórcio com algodoeiro fica restrita. a produção de algodão por unidade familiar vai ficar estagnada. Por outro. a produtividade permanece baixa. aos dois hectares em que uma família consegue catar o inseto manualmente. essa cooperativa está passando por um momento paradoxal. A ASSEMA.A Fundação Banco do Brasil que. no máximo. Nenhum dos biodefensivos até então testados – nem o gergelim. desde que feita logo no início da infestação – o que supõe um cuidadoso monitoramento. enquanto não houver uma solução agroecológica para melhor controlar o bicudo e a lagarta. O apoio da Fundação pode ser providencial para a COPPAESP. Este é o principal fator limitante. a produção e a produtividade do algodão ficam estagnadas. a demanda tende a crescer e o mercado oferece um preço de venda relativamente elevado. Por um lado. apóia diversas cadeias produtivas como a do mel ou da castanha de caju. que produz farinha de mesocarpo de babaçu. está agora investindo no babaçu.

graças ao diferencial no preço de venda do mercado orgânico. As Ongs e os produtores precisam. a parcerias pontuais com as universidades. Ou pelo menos. para melhorar a produtividade e a segurança (o machado é perigoso). a principal utilidade do babaçu é o óleo feito a partir da amêndoa extraída manualmente pelas quebradeiras. Está tentando promover tecnologias mais eficazes que o machado. a guerra. devido ao avanço das plantações de soja. mesmo com uma produção relativamente baixa. já que organizar uma cooperativa supõe qualificações específicas. a COPPALJ consegue concorrer. O mesmo vale para a superação dos gargalos organizacionais. recorrer a investimentos próprios muito limitados em volume. para os quais não existem políticas públicas que dessem conta de suas demandas muito peculiares. ainda não: em nível federal a lei da propriedade privada continua vigorando. neste caso também. Agroecologia e acesso a mercados 65 . dendê e eucalipto. A estratégia da ASSEMA consiste em procurar a votação de uma lei de preservação dos babaçuais enquanto áreas de preservação florestal. os empreendimentos agroecológicos estão dependendo de avanços tecnológicos favoráveis.Tecnologias permitindo o aproveitamento em grande escala podem representar ameaças Para o agronegócio. Nesse mercado. Em suma. Já conseguiu ganhar várias batalhas. milho. para as quais o suporte é. praticamente inexistente. de modo que as quebradeiras possam obter uma renda melhor. Mas se um dia surgir uma máquina eficaz de extração da amêndoa em grande escala. não existem políticas comparáveis com aquelas que beneficiam a agricultura e a indústria patronais. então. Outra ameaça é o risco de devastação do babaçual natural. e a uma série de bricolagens e testes que podem se alastrar por anos. na forma de leis municipais. porém. Essa é a razão pela qual a ASSEMA sempre associa à questão técnica a luta política e jurídica em prol do livre acesso aos babaçuais privados – de onde vêm 85% do babaçu da COPPALJ. os proprietários de grandes babaçuais (mil hectares ou mais) podem muito bem resolver quebrar o babaçu por conta própria.

SEGUNDA PARTE: vender sem se vender .

A menor dependência em relação a insumos externos.À procura de mercados diferenciados Lidar com o mercado para incrementar o fator “renda” na economia familiar Certa visão da agroecologia procura o máximo de autonomia em relação ao mercado capitalista51. O Estado poderia entrar com financiamentos. trouxe à tona uma diferença fundamental: sabem que. Não produziria “para o mercado”. mantendo os valores éticos. Nesta ótica. enfim. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 66 . A partir daí. queiram ou não. Primeiro. os mutirões. os consumidores se uniriam aos produtores para determinar os preços. sociais e ambientais. lidar com esse universo vasto e complexo. Os protagonistas nas três experiências sistematizadas inspiram-se em parte nessa visão. as trocas minimizariam a necessidade de recorrer ao mercado. políticos. sistemas de compra garantida. Sem excluir os outros grandes princípios de comportamento econômico (autoconsumo. enfrentar sem receios a (dura) realidade do mercado. A sua prática. isolando assim totalmente o circuito econômico da economia capitalista e sua lógica de concorrência. porém sem “se vender”. redistribuição e solidariedade). porém. não negam a força do mercado capitalista e procuram vender. a solidariedade entre famílias. apenas venderia eventuais excedentes. que são a razão de ser das Ongs e dos movimentos. desempenhando seu papel de redistribuição mais igualitária. a comercialização da produção agroecológica se dá no mercado capitalista (Ver abaixo o box”A monetarização crescente das relações econômicas”). que tem regras e exigências próprias para as quais as Ongs e organizações de agricultores não estão a priori bem preparadas. Em segundo lugar. Melhor ainda. incentivos. o desafio é duplo. a família deveria produzir prioritariamente para garantir uma alimentação de boa qualidade.

do ESPLAR. estamos aqui focando outros componentes da economia familiar: o agroextrativismo (melhorar a renda a partir do babaçu). Procuram também estabilizar a renda num nível capaz de tirar a família da descapitalização crônica. para vender) e a agricultura de renda (algodão em consórcios). que serão examinadas no final deste capítulo: a dimensão organizacional. com o desafio da criação de novas configurações (cooperativas. resistência e resiliência dos sistemas produtivos. já vimos que as experiências aqui examinadas buscam a estabilidade. com base na agroecologia.. menos dependente de insumos externos. Para Marcus Vinícius. lojas do comércio justo. mais respeitosa do meio ambiente e Agroecologia e acesso a mercados 67 . associações.Além das dimensões políticas. o comércio justo e o mercado institucional. mas também. sociais e ambientais. é preciso acrescentar mais duas. no semi-árido é essencial dispor de várias fontes de renda ao longo do ano: “Além de milho e feijão na estação chuvosa. Mais do que maximizar o lucro.) em consonância com os valores proclamados. a produção alimentar (produzir hortaliças e frutas. indissociáveis da dimensão econômica.. é preciso trabalhar com uma cultura de renda (algodão ou mamona.” Se a renda da criação animal é tradicionalmente a maior no interior do Nordeste. “Por certo. por exemplo) na época da estiagem. pode-se defender um projeto renovado de agricultura camponesa mais autônoma do mercado capitalista. no segundo semestre. A monetarização crescente das relações econômicas A visão de Sabourin52 sobre as práticas de economia solidária no meio rural brasileiro está em consonância com a vivência dos protagonistas nas três experiências que visitamos. e a dimensão de gênero. Veremos também neste capítulo que as três vias de comercialização mais promissoras nas experiências estudadas foram a feira local. não apenas para o consumo próprio. essencial para entender a relação da família camponesa com o mercado.

É o caso. Caillé53. É mais uma razão por se preocupar da questão da distribuição da produção e da sua valorização econômica nos mercados (e não no mercado). as várias estratégias que observamos podem ser divididas em três categorias. Para comercializar a produção agroecológica. na permanente queda de braço travada com poderosos atravessadores de amêndoa de babaçu. Não se pode ignorar esse problema e negar aos agricultores mais pobres o acesso a bens de consumo ou serviços entre os mais básicos e elementares. Agroecologia e acesso a mercados 68 . de famílias de Umarizal (RN) que vendem pequenas quantidades de frutas e verduras para um supermercado da cidade. Mas. O exemplo mais claro é o da COPPALJ. enfrentar e desenvolver mercados. o mercado institucional. Nesta mesma categoria. venda direta de produtos para programas governamentais. Essa postura politicamente correta e cada vez mais divulgada na onda do desenvolvimento sustentável termina sendo um pouco ideológica.dos recursos naturais. A estratégia da cooperativa agroextrativista sempre foi de forçar o preço da amêndoa para cima. quando vende a maior parte da produção de óleo de babaçu para uma usina de sabão na própria região. no sentido de aproveitar-se de estruturas existentes. também. além de exigir esforços desproporcionados dos menos dotados e capacitados. mesmo defendendo alternativas anti-utilitaristas. reconhece que a monetarização e a globalização das relações econômicas reduz a perspectiva única de autoprodução. A primeira é o “acesso a mercado” stricto sensu. É o caso da COPPALJ.” Acessar. ainda. obrigando esses atravessadores a fazer o mesmo. as dificuldades do crédito solidário como as da inserção dos agricultores familiares nos mercados têm a ver com a monetarização crescente das relações econômicas e sociais inclusive em meio camponês e com a diversificação das necessidades. Na segunda categoria. públicas ou privadas. a estratégia consiste mais em enfrentar do que propriamente acessar o mercado. entra.

com uma diferenciação. isto é. valorizando o produto (atribuindo um valor social e ambiental às hortaliças. do feijão. dos animais etc. – são também muito instáveis. do algodão. onde os produtores agroecológicos e as organizações que os apóiam não têm praticamente nenhum poder de determinação dos preços. Apesar dos esforços. Da mesma forma. seja ela palpável (barracas orgânicas na feira) ou não (certificação formal ou informal do algodão e do óleo de babaçu para o comércio justo.. observa Joseilton. o Programa de Apoio à Agricultura Familiar. o jogo consiste em criar um mercado diferenciado. A ADEC não teria como concorrer no mercado internacional do algodão..). É por isso que a COPPALJ procura ampliar a venda de óleo para empresas de cosméticos do mercado justo. evita-se lidar com os mercados convencionais. ao óleo de babaçu e ao algodão) e tentando estabilizar o valor num patamar elevado. ou existem de forma embrionária. coordenador do PAAF. mais ainda. Evitar os mercados convencionais e os atravessadores De modo geral. uma commodity cotada na bolsa de Chigago. um terço do valor oferecido no comércio justo. os mercados convencionais e os atravessadores continuam com peso muito forte nas cadeias produtivas trabalhadas pelas Ongs (algodão. mais estável e financeiramente mais interessante. Alguns produtos da agricultura familiar Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 69 .. tanto faz o óleo de babaçu da COPPALJ ser orgânico ou não. Trata-se. Os preços variam em função da época (safra/entressafra). das flutuações nos mercados nacional e internacional (commodities com cotações em bolsa). a estratégia consiste mais em desenvolver mercados que ainda não existem. “A melancia vai diretamente para o supermercado. Já que os mercados existentes não permitem obter uma renda boa. excesso de chuva). e boa parte do coco é comprada pelos atravessadores”. dos óleos vegetais. nas três experiências de comercialização. da Diaconia.No terceiro caso. então. Esses mercados – do milho. O preço pago à COPPALJ corresponde ao valor do óleo na bolsa de São Paulo no dia da transação.. fora delas. do clima (seca. onde o valor é muito inferior ao do algodão orgânico. babaçu) e. de desenvolver espaços econômicos até então inexistentes na região. das prioridades e políticas agrícolas do momento. nas três regiões aqui destacadas. para a fábrica de sabão comum de Pedreiras (MA).

há boas razões para o agricultor familiar continuar vendendo a esses intermediários que pagam mal. quando famílias venderam logo a sua colheita para atravessadores. O atravessador permanece um elo forte porque as pessoas se acostumaram a vender os produtos sem sair de casa. “Os armazéns esperam o agricultor chegar. mas os atravessadores vão até as comunidades. pagam no ato da venda. ao julgar pelos resultados.” O agricultor troca o preço baixo contra os esforços e as incertezas da comercialização. Agroecologia e acesso a mercados 70 . na esfera não-governamental. Mas. e o agricultor. A Diaconia. “Eliminar o atravessador”? O que o atravessador sabe. a confiança e a maior ou menor consciência política estão também em jogo (ver box a seguir). no primeiro ano de comercialização do algodão orgânico no Rio Grande do Norte. além do preço. outros. fatores como a necessidade imediata. os conhecimentos que ele tem e que fazem a sua força. inimigos absolutos que deveriam ser “eliminados” do mercado. Pelo contrário. não? É comum ouvir. porém. sem que o agricultor precise se deslocar para a cidade. uma retórica guerreira radical contra os atravessadores.abastecem os supermercados da região. mesmo prometendo um valor duas vezes maior. como a castanha de caju. entrincheirar-se na boa consciência e travar uma guerra de palavras não tem adiantado muito. Ou seja. É precisamente o que ocorreu em 2007. Seria um erro considerar a presença dos atravessadores como algo aberrante ou irracional. não tinha como pagar na hora da entrega. são vendidos para médias e grandes empresas de beneficiamento. Melhor seria começar por entender a função do atravessador. Os técnicos da equipe de campo da Diaconia em Umarizal sabem muito bem disso.

O autor parte do princípio de que. escrito na ocasião do I Encontro Nacional de Agroecologia55 ajuda a entender as razões da onipresença dos atravessadores e por que é tão difícil suplantá-los. pois ela pode estar simplesmente replicando as mesmas estruturas de relações que havia anteriormente”. Um excelente artigo de Ricardo Costa.. mesmo que essa relação seja desvantajosa para eles”. respectivamente às práticas necessárias para vender e às relações a serem estabelecidas entre associados.) já nas atividades econômicas os agricultores familiares tendem a agir individualmente. dos assentados da Zona da Mata na sua relação de dependência com os usineiros da cana. e que não temos?”. para os agricultores familiares desenvolverem a autonomia na comercialização da produção. É o caso. “as organizações de agricultores familiares têm larga experiência em lidar coletivamente com questões de ordem política. faz uma pergunta que nos interessa particularmente aqui: “Quais os conhecimentos que o atravessador tem. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 71 . não é suficiente. Ora. uma vez que “o associativismo por si só não é capaz de romper com as formas tradicionais de comercialização..” E isso vale “mesmo em regiões onde existem associações de produtores”. no seu estudo Mercados do Empreendorismo de Pequeno Porte no Brasil54. por exemplo. (. “um dos poucos caminhos é (.. Como resultado.. “na sua grande maioria.Ricardo Abramovay. embora seja uma ação necessária para melhorar a capacidade de inserção ao mercado. Em seguida. A seguir. ele levanta duas grandes questões relativas. os agricultores vendem seus produtos a intermediários e participam muito pouco da formação de seus preços. a síntese das respostas do autor. Isso porque a cooperação. dá uma primeira pista ao afirmar que as relações entre produtores e atravessadores são “mantidas como forma de reduzir o risco e a incerteza dos produtores.” A partir daí.) criar um processo de vendas em coletivo”.

. Do outro lado. mantém-se informado”. o quanto produz. (.. O atravessador sabe mais sobre as organizações do que elas próprias!” · O conhecimento dos preços e de seu comportamento.) Aqui reside o investimento a ser feito em coletivo: uns poucos produtores que façam viagens para conhecer onde estão os compradores retornarão com informações úteis para todos os demais. Só se aprende a vender vendendo. “O que primeiro circula são as informações... ele já sabe o preço que pode pagar aos produtores. enfim.. O produto só se desloca por último. frete.. busca informações sobre as safras.” Agroecologia e acesso a mercados 72 .. “Quando o atravessador sai para comprar sua mercadoria. (.. (. a qualidade de sua produção.) Ele está em constante contato com seus compradores. “Ele sabe quem são e onde estão seus compradores. “O atravessador conhece cada produtor. Não se mexe no produto antes de se ter as informações sobre preço. A pergunta que se põe é: como ele adquiriu esse conhecimento? A resposta é uma só: viajando. quantidade que cada produtor tem para vender e a quantidade que o comprador quer comprar etc.· O conhecimento da região.” · O conhecimento dos compradores.) É muito grande o número de associações/cooperativas que não têm esse conhecimento a respeito de seus próprios associados. faz telefonemas.” · A importância da informação. porque tem a informação do preço pelo qual vai conseguir vender. sabe onde mora. “muitos produtores não sabem o valor real de seus produtos. Só se pode conhecer o mercado saindo para procurá-lo.

) Só a partir da prática concreta do comércio é que os agricultores familiares vão descobrir uma série de direitos que têm.” · O mito do capital de giro.. ainda. Se a motivação é. entrega de pequenas quantidades de óleo de babaçu no comércio justo nacional). “O que é que motiva a associação quando se preocupa em aprimorar seus métodos de comercialização? Se o objetivo é meramente o de melhorar os preços de venda. porém.· O mito do caminhão. O ganho do atravessador não está no frete e sim na diferença entre os preços que paga e os que recebe. (. devem ser consideradas como tentativas malogradas sobre as quais ainda é preciso refletir (a loja da ASSEMA em São Luis). de superar a dependência.. o mercado internacional justo (ESPLAR e ASSEMA) e a compra garantida governamental (DIACONIA). aí o capital de giro passa a ter importância secundária.) trabalham com caminhões de terceiros..) Ele sabe que o caminhão parado dá prejuízo. representam a única alternativa no momento (a maior parte do óleo de babaçu é vendida na indústria local). o que se quer é apropriar-se dos conhecimentos necessários para conduzir autonomamente seus processos de comercialização. que tem custos fixos elevados e os riscos próprios a qualquer veículo.. Ou. As demais opções servem de complemento (venda de verduras na comunidade ou na cidade de porta em porta ou no supermercado local. então. “Existem muitos atravessadores que (.. Se for só isso a associação não será mais do que outro atravessador. como acidentes e quebras.. é preciso conseguir capital de giro para financiar as compras. (. Ou. então sim.” Procurar mercados diferenciados As três experiências tentam de fato evitar os mercados convencionais e focam seus esforços em três mercados diferenciados: a feira orgânica local (DIACONIA). Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 73 .

desta vez dos compradores. máquinas pesadas e mercado internacional. Agroecologia e acesso a mercados 74 . Esta é uma das regras básicas de sustentabilidade da comercialização. atraídos pelos preços e a facilidade de entrega ao programa governamental de compra direta. talvez seja a estabilidade desses novos mercados. Por exemplo. o preço do algodão é garantido por contratos com duração de três anos pelo principal comprador e. os produtores agroecológicos de Umarizal combinam entre si um valor único para as hortaliças orgânicas no início de cada feira. nem sempre respeitada. em termos de sustentabilidade. no Maranhão. os agricultores de Umarizal. a COPPALJ tenta aproveitar a sua posição de única produtora mundial de óleo orgânico de babaçu. Quando o futuro de médio e longo prazo passa a existir. é possível arriscarse mais. um novo horizonte econômico se abre e a existência fica menos incerta para as famílias e as comunidades. demora vários anos. além de valorizar seu produto. Por isso. faz sentido planejar a produção. no mercado justo e na compra garantida. Mas o principal fator. que chegou a enfraquecer perigosamente. Além disso. meses e anos seguintes por um preço razoável. é preciso buscar a diversificação. contratar um crédito.Por ora. deixaram por um tempo de priorizar a feira orgânica. procuraram também minimizar a concorrência. Por exemplo. aqui também. garantir e estabilizar o preço. os novos empreendimentos não devem repousar inteiramente sobre apoios públicos. do que lidar com consórcios. não se deve subestimar a dificuldade de criar uma “simples” feira. Contudo. por mais local que seja. é mais fácil para uma associação de agricultores incentivar o cultivo de hortaliças e criar uma feira orgânica. vamos concentrar a nossa atenção na feira orgânica. Um tempo geralmente maior que o ritmo eleitoral de quatro anos que pauta a maioria das políticas governamentais. A entrada nesses três mercados diferenciados fez com que agricultores familiares saíssem da pobreza e passassem a ganhar um pouco mais. Nesses três mercados os produtores. De modo geral. desenvolver um novo mercado. investir na propriedade e na casa. estaduais ou federal é importante. No Ceará. Com a quase certeza de poder vender o produto nos dias. mesmo se a implicação dos governos municipais. A principal diferença entre esses três mercados está no grau de complexidade.

agroindústria)”. e ressalta a importância de estimular a “organização dos agricultores e o aumento da escala de produção”. reflete uma possibilidade de inserção dos produtores pobres. supermercados.. Ricardo Abramovay faz um “Sumário da importância relativa dos vários mercados e pontos de venda (formal e informal) para produtores familiares (feiras..” · O comércio varejista no segmento de alimentos tem crescido no Brasil. o aumento do poder de barganha com a união dos produtores se alia à estratégia de fuga para mercados diferenciados. Por outro. o mercado capitalista tem regras das quais é difícil escapar. A concorrência é uma delas. dos agricultores mais pobres. Os vários mercados para a agricultura familiar o Brasil Prosseguindo no estudo para a CEPAL. · feiras representam modos de inserção ao mercado. Eis a sua síntese · experiências de intervenções de maior sucesso são as que têm o caráter sistêmico. Esse “comércio de proximidade. Falaremos nisso mais adiante. Integrados ao mercado por meio de cooperativas e agroindústrias e até então produzindo commodities.” Entre os exemplos citados figuram os agricultores de Capanema. no Estado do Paraná. já citado. “As adotam ações que buscam coordenar todo o sistema produtivo de dentro e fora da “porteira”. não se pode contar cegamente com o Estado.” Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 75 . Além disso. porém. por meio dos mercadinhos de bairro. isto é. fizeram a transição para lavouras orgânicas e o processamento dos produtos. e ela não pode ser abolida por decreto. A outra se refere a circuitos mais curtos em que o próprio agricultor comercializa pequenas quantidades de seus produtos.Por um lado. em geral em localidades maiores. de duas As formas: “um circuito mais longo inclui a figura do atacadista e do feirante. Abramovay cita também a experiência do ESPLAR com algodão.

que acabam excluindo os produtores [mais pobres] do tipo C e D. além da falta de organização e de capacitação. que também cresceram muito através de um movimento de Os fusões e aquisições.. têm muitos requisitos de “transporte próprio. a necessidade de informação das regras que regem diferentes mercados extrapola os limites das relações pessoais que ocorrem em boa parte das experiências já realizadas. Além de questões sanitárias. a integração facilita a comercialização. Se.” · inserção dos produtores ao mercado externo já pressupõe um grau maior de coordenação “A diante da burocracia necessária para exportação.) No caso de legumes e frutas. preço. (.. de outro gera uma série de conflitos com a grande especialização e redução de autonomia. principalmente “Uma no caso dos produtores de soja.” · grande parcela dos agricultores familiares é integrada à agroindústria. “a produção dos mais pobres é praticamente destinada aos mercados locais e Dessa centrais de abastecimento.· grandes supermercados.” Outro limitante é a exigência de nota fiscal. remuneração mais estável e ascensão a grupos de renda mais elevados.” Agroecologia e acesso a mercados 76 . · forma. Na agroindústria artesanal uma limitação importante é a falta de legislação sanitária adaptada à pequena escala de produção. qualidade. de um lado. a necessidade de volume de produção e a falta de organização limita muito a participação dos produtores mais pobres. suínos e fumo. Outros entraves são a exigência de regularidade de oferta. aves. pontualidade e acima de tudo.

Demoramos mais dois anos vendendo nas comunidades e na cidade. Foi daí que surgiram as primeiras discussões em 1999. de porta em porta. presidente da Associação dos Agricultores e Agricultoras do Oeste Verde (AAOEV) explica por que se passaram cinco anos entre as primeiras discussões sobre comercialização da produção e o estabelecimento da feira de Umarizal. é muito difícil produzir e abastecer uma feira sertaneja o ano todo. A pesquisa mostrou que a maioria das frutas e hortaliças Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 77 . Não se sabia como fazer para criar uma feira. a Diaconia vem investindo muito em tecnologias de acumulação de água... transporte. fazer a divulgação.. Tínhamos muitas dúvidas: se havia condição. a quase totalidade dos produtos comercializados vem de grandes pólos de agricultura irrigada. não é suficiente.” A Diaconia contando com apoio financeiro da Oxfam acompanhou todo o processo. em 2004. porém. devido ao clima. em tese. balança. como em muitas feiras do semi-árido. não agricultores. se a água é condição necessária.. “Os agricultores-experimentadores estavam produzindo cada vez mais. Na região de Umarizal. que incluiu uma pesquisa de mercado. em particular aqueles situados na beira do rio São Francisco. Os comerciantes que vendem na feira são meros intermediários. faixas. sacolas. se a produção era suficiente. construindo assim a base que permitiu o florescimento de várias feiras orgânicas nessa parte muito seca do estado do Rio Grande do Norte. Neto.Foco em três mercados: Orgânico. È verdade que. Institucional e justo O mercado local das feiras orgânicas Na feira livre de Umarizal. Contudo. para não vender para os atravessadores que compravam pela metade do preço. Tinha também que providenciar toda a infra-estrutura: barracas. A AAOEV foi criada em 2002 com o apoio da Diaconia e com o objetivo de comercializar a produção.

” Os agricultores agroecológicos se diferenciam dos outros comerciantes apenas pelo espaço separado ocupado dentro da feira e pelas faixas indicando o caráter orgânico da produção. todo mundo freqüenta a feira livre. coordenador do programa de agricultura familiar da Diaconia lembra que esses empreendimentos são “muito diferentes da feira agroecológica de uma capital como Recife. de modo que “a clientela não é da classe A ou B. A diferença é que. O fumo Agroecologia e acesso a mercados 78 . Rende bastante. no sertão riograndense. na beira do rio São Francisco. em 2004. “São mais ou menos cem produtores de fumo na beira do Rio Umari. no caso do produto orgânico. queijos e bolos. apenas com a feira. frutas. A renda média bruta por família é da ordem de 400 reais por mês.” Com efeito. Uma rápida pesquisa no início de cada feira indica o valor dos produtos naquele dia. Mas Joseílton. como em Recife. comparando com as feiras orgânicas das grandes cidades (ver box abaixo). uma vez fixado. Existem hoje dez feiras em todo o Estado. o preço das hortaliças orgânicas é sempre o mesmo que o preço das hortaliças comuns. Pode parecer pouco. das quais quatro são iniciativas dos agricultores apoiados pela Diaconia. ovos.comercializadas na região vinha de Petrolina. Dessa forma. Nas três principais. A pesquisa serviu também para dar alento e mobilizar um maior número de famílias de produtores. de modo que cada vez mais pessoas estão saindo do fumo. desde que o seu preço não fosse proibitivo. e apontou que produtos orgânicos cultivados localmente seriam muito bem aceitos. No interior. onde a feira tem espaço próprio e uma demanda por produtos agroecológicos muito maior do que num pequeno município do interior. mas tem custos muito elevados. a alface pode custar entre 30 e 65 centavos a depender da época do ano. Essa é uma monocultura que esgota os solos. usa muita água e muito veneno. Um dos aspectos ressaltados pela Diaconia é a maneira como usou a feira para atrair quem cultivava fumo na região. Agricultores agroecológicos que vendem nas feiras estão servindo de exemplo. as feiras orgânicas acontecem dentro das férias livres. de modo que a primeira feira acabou sendo criada em Umarizal. Por exemplo. 27 famílias oriundas de 17 comunidades vendem semanalmente hortaliças. o valor não varia entre o início e o final da feira.

Se a associação não interferir. vendem”. a experiência mostra que melhorias rápidas são possíveis para um conjunto de produtores agroecológicos. Há. que tendem a predominar em detrimento da diversidade dos produtos. Quem dispõe de uma maior infra-estrutura de irrigação e produz muito está vendendo alfaces a preço baixo para intermediários que as revendem na feira. não cria a dependência típica da relação de integração com uma grande empresa. Difícil mas indispensável. é mais saudável e. Neste último aspecto. é hoje mais vantajoso do que plantar e vender fumo para a Souza Cruz.” Vender hortaliças na feira.. com a consolidação da feira. É verdade que não é fácil reunir agricultores de três municípios. É menos trabalhoso. o regimento interno da associação. Mesmo que numa escala ainda pequena. em detrimento dos mais pobres. Ou seja. como o coentro e a alface. estão surgindo casos de concorrência desleal entre quem pode produzir em grande escala e produtores orgânicos que só dispõem do quintal da sua casa.dá um bom lucro no primeiro ano. Essas dificuldades têm a ver com o rápido crescimento do número de associados e a fragilidade da AAOEV. mas as coisas se complicam no segundo ano.. numa região onde o transporte público é praticamente inexistente. a renda passou a ser tão segura quanto a do fumo: ”Tudo o que os produtores levam para feira. Essa associação continua muito dependente da DIACONIA. contudo. a regulação será feita pelo mercado. espalhados em 17 comunidades rurais muito distantes. a associação dos produtores. por exemplo. em particular para a organização das reuniões e do transporte. falta estabelecer regras de modo a evitar a multiplicação de ocorrências pouco éticas entre os próprios associados. quando o produtor começa a reembolsar o material de irrigação. até nos locais mais remotos do sertão. o beneficiamento das frutas. pois há muito o que discutir: o planejamento da produção para diversificar a oferta. sinais de saturação dos produtos de ciclo mais rápido. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 79 . produzidas com custos relativamente baixos. o lucro é maior.

Recife. reflexão e organização As feiras do Rio Grande do Norte se inspiraram em boa parte em feiras mais antigas promovidas pelo Centro Sabiá56. como a fraqueza da divulgação. primeiro em Umari e Gravatá.” Ou seja. estado pioneiro que já contava. “No inicio. com a mudança na Agroecologia e acesso a mercados 80 .” Vários problemas foram logo identificados.) As pessoas da comunidade não entendiam a diferença entre os produtos daquele grupo e os outros da feira tradicional.. ou a produção ainda muito limitada. Além disso. (. As três primeiras feiras surgiram em 1997. em Pernambuco. Após uma avaliação das três feiras pernambucanas. aguardando os compradores. decidiu-se incorporar culturas de ciclo curto nas experiências agroflorestais. no início. o Espaço Agroecológico não tinha o apoio da Prefeitura. dez agricultores de Umari iniciaram a venda de produtos agroecológicos durante a semana. Pegando emprestado bancadas da feira dominical tradicional. Uma publicação do Sabiá conta a história e faz o balanço de dez anos de feiras em Pernambuco. no Agreste. mas já podia contar como o apoio dos fregueses. a assessoria passou a atuar mais fortemente no planejamento da produção.. Relações difíceis com a Prefeitura e mobilização dos consumidores. Constatou-se também que os sindicatos de trabalhadores rurais não tinham como assumir o papel de promotor da feira. favorecer intercâmbios entre experiências e criar uma organização específica para a comercialização. Em Recife. A partir de 2000. com 25 feiras ou “espaços agroecológicos”. levar em conta a lei municipal que proíbe a realização de feiras em praças públicas. desde o início. O fato mais interessante foi que “os consumidores se mobilizaram e impediram a ação policial. Demorou muito para que a comunidade entendesse. ficavam meio encabulados. a polícia foi acionada para impedir a comercialização. e logo depois na capital. do litoral até o sertão profundo. em 2006. foi preciso.A consolidação das feiras agroecológicas é fruto de anos de experimentação. a disparidade de preços entre feirantes. Na terceira feira. quando a autorização provisória venceu.

regimento interno e manual de certificação. já que a mudança de pessoas nos quadros das Secretarias Municipais gera sempre novos desafios. “as relações de solidariedade entre os consumidores e os agricultores permitiram que fosse desenvolvida a experiência do Crédito Solidário”. apenas “em momentos críticos. facilitando assim “a organização de um só documento que se transformou no Regimento Interno do Espaço Agroecológico. o pagamento antecipado dos produtos. até os agricultores assumirem plenamente a coordenação da feira.). além de outros encontros onde problemas eram discutidos. quando os consumidores foram entrevistados.. a política de preço e a criação de um fundo de feira alimentado por uma taxa de adesão e uma taxa semanal. entre outros.” Em 1999. vários agricultores puderam adquirir o material de comercialização (barracas. “houve um apoio efetivo da Prefeitura. o Sabiá participava muito das reuniões. organização do trânsito e divulgação da feira.” Graças a esse sistema. da sujeira na feira e do preço dos produtos. planejamento das Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 81 . isto é. Nos primeiros anos. houve treinamento para “tratar com o cliente.. Hoje. Cuidou-se mais do visual dos agricultores e da aparência das barracas. além de permitir pequenos empréstimos e ajudas emergenciais.administração municipal. A consolidação da feira: treinamento.” Porém.” Os resultados alcançados pelas feiras agroecológicas se deram em termos de segurança alimentar.” Esse regimento interno determina. o Sabiá adverte de que “é necessário um diálogo constante com a Prefeitura”. pagar o transporte. saber conversar e ter cuidado com a higiene”. Em 2000. O fundo é utilizado para investir na melhoria da feira. havia reuniões. especialmente nas questões de segurança. As decisões mais importantes foram registradas em atas. Depois da pesquisa. grades. as principais preocupações giravam em torno da qualidade irregular do atendimento. mudanças significativas na alimentação e na saúde dos agricultores. Sua participação foi diminuindo. Nesse mesmo espírito de organização uma comissão também elaborou um manual de certificação. que foram padronizadas. da pouca oferta de produtos. “gerando créditos que eram descontados à medida que as feiras iam acontecendo. a entidade é chamada a ter uma participação maior. Depois de cada feira.

75 em fevereiro de 2008) Receita bruta (2 meses) Transporte (2 meses) RECIFE Outras despesas (2 meses) Renda líquida mensal Família de maior renda Família de menor renda Média das famílias Família de maior renda Família de menor renda Média das famílias 2. e não mais apenas pelos homens. Mostra também uma considerável diferença de renda entre Serra Talhada.860 1.860 1. entrada semanal de dinheiro proporcionando também momentos de lazer para as famílias. profissionalização enquanto agricultores e comerciantes. a capital do estado de Pernambuco. mudanças nas relações de gênero devido às mudanças impulsionadas por mulheres nos sistemas de produção. O sucesso das feiras pioneiras e os conhecimentos acumulados provocaram também a multiplicação de iniciativas no Recife. cidade de médio porte do Sertão pernambucana e Recife.542 200 320 356 78 85 91 1291 312 825 Agroecologia e acesso a mercados 82 .030 2. A renda com a feira é muito diferente na capital e no interior. em outros municípios pernambucanos e outros Estados nordestinos.unidades familiares para estabelecer uma oferta mais constante. controle do dinheiro por mulheres e jovens. Está resumido na Tabela a seguir. Um levantamento realizado em agosto e setembro de 2003.030 200 320 78 85 1291 312 SERRA TALHADA 2. no Recife e em Serra Talhada. Tabela 1: Renda dos agricultores familiares nas feiras agroecológicas de Recife e Serra Talhada57 En R$ de 2003) (US$1=R1. índica qual é a renda das famílias que vendem seus produtos numa feira agroecológica semanal.

Em Umarizal.” O governo Lula criou o Programa de Aquisição Antecipada de Alimentos (PAA). mobiliário escolar). raízes.00 (U$2.00) por família de produtor. queijo.” A feição que o PAA tomou em Umarizal (RN) confirma em parte essa avaliação. bolos e. pode decidir comprar em prioridade bens ou serviços produzidos [pelos] empreendimentos [solidários]. cadastra os produtores e emite as notas Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 83 . na escala estadual (hospitais. No Rio Grande do Norte. para Sabourin “se tornou o melhor instrumento do Projeto Fome Zero a favor do apoio aos agricultores familiares mais pobres. principalmente. Tem a vantagem de existir em vários níveis do Estado e de poder ser administrado de maneira descentralizada: na escala municipal (merenda escolar. hortifrutigranjeiros – complementam a merenda escolar e as refeições de centros de idosos. mas mostra também os limites do PAA e os riscos de interferência desse programa governamental com as feiras agroecológicas.170. creches. creches e organizações beneficientes em geral. O valor total das mercadorias não pode ultrapassar R$3. eventualmente com preços mínimos garantidos. uma forma de mercado institucional que. O princípio do PAA é simples: as organizações previamente cadastradas vão buscar os produtos no mesmo ponto onde os produtores os entregam. onde o PAA chama-se “Compra Garantida”. mais da metade dos dez mil habitantes da cidade teriam sido beneficiados pelo programa. Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural cuida da logística. Este mecanismo protege os empreendimentos solidários da concorrência do mercado capitalista. A EMATER. colégios.O mercado institucional Sabourin58 define os mercados institucionais como: “instrumentos com os quais o estado. administração e empresais estaduais) e na escala federal (mercados da administração federal e da regulação de estoques).800. os produtos adquiridos pelo governo – mel. por meio da administração pública. carne. O Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural (CMDR) seleciona os beneficiários e é o responsável pelo controle social do processo no seu conjunto.

150 produtores se cadastraram. o quilo de mel. Por exemplo. “O PAA pega os produtos da época. e é menos exigente que os supermercados quanto à quantidade e freqüência de entrega da produção. De modo geral. em 2006. na sua modalidade estadual. incentivam o consumo e Agroecologia e acesso a mercados 84 . O valor total disponível para pagar os produtos era de R$180 mil. Faz circular dinheiro no município. atrasou a liberação de verbas para o PAA em 2007. Já vimos que as políticas assistenciais do programa federal Fome Zero como o Bolsa-Família têm efeitos tanto positivos (ao injetar dinheiro na economia local. estimulando a economia local. os R$180 mil inicialmente previstos para o ano 2006 foram insuficientes. o que representa um fator atrativo muito forte para o produtor. Entre outras ocorrências.85) na feira era comprado por R$9. é a associação de agricultores ou a cooperativa que cuida da logística de entrega nas entidades beneficiadas. dispensa os intermediários. nesse mesmo ano. E para a associação de produtores. em que a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB).00) O programa tem tudo para dar certo. “é bom ter mais uma forma de comercialização”. Neste caso. Existe outra versão do PAA. conselho teoricamente encarregado do cadastramento. Em Umarizal. vendido por R$5. Faz também tomada de preço no mercado para determinar o preço dos produtos. o que. uma vez que funciona com a lógica win-win.00 (U$5. (U$103.000.fiscais. por tabela. resume um técnico da Emater. que são pagas dois dias após a entrega. todos ganham. garante o pagamento e paga melhor”. Infelizmente. No final das contas. ou seja. famílias conseguiram cadastrar mais de uma pessoa e houve pressões políticas sobre a EMATER para incluir famílias que não respondiam aos critérios passando por cima do CMDR.15) pelo PAA. é sensível à má gestão e à politicagem. “a melhor política do Fome Zero”. o melhor preço serve de referência. A AAOEV da região de Umarizal poderia se candidatar mas seu presidente admite que “ainda não é organizada o suficiente para cuidar disso”.00 (U$2. alguns produtores foram pagos com vários meses de atraso. particularmente em ano eleitoral59.

como mostra claramente a história das feiras agroecológicas em Pernambuco (ver box anterior ). A OMC não permite políticas exclusivas que priorizam determinado setor. que serão cada vez mais exigidas em termos de planejamento da produção. colocaram em risco a sustentabilidade da feira. parece de fato ser mais sustentável. loja própria) que têm ritmos. quando bem administrada. Além do mais. profissionalização da comercialização e administração de negócios em geral. se a verba aumentar. se a palavra de ordem “diversificar os mercados” parece sensata. onde o PAA transcorreu sem maiores incidentes. Ao descuidar da diversidade. uma política como o PAA. qualidade e regularidade do abastecimento. o apelo do dinheiro foi mais forte e revelou potenciais efeitos perversos desse programa. lógicas e exigências diferentes? Quem deveria responder esta pergunta são as associações de produtores como a AAOEV. o episódio mostra também que. apesar das vantagens apresentadas. Em Umarizal. devido às pressões internacionais: “O PAA é fundamental. Como produzir coletivamente para vários mercados (PAA. é pouco provável que essa política cresça muito.Família é muitas vezes superior ao do PAA. porta a porta. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 85 . mas. Segundo Marcus Vinicius. É pelo menos o que mostram os processos de aquisição e redistribuição de alimentos em Caraúbas e Lucrécia. colocando assim em xeque o bom atendimento e a fidelização do consumidor na feira orgânica. a Organização Mundial do Comércio vai barrar. do ESPLAR. teríamos um forte embate com o agronégócio. ela traz também desafios organizacionais. municípios vizinhos de Umarizal. apesar das advertências da DIACONIA quanto à volatilidade dos programas governamentais.” Outra questão é de que o PAA é muito sensível às flutuações políticas (mudança de equipe governamental) e à conjuntura político-administrativa (funciona razoavelmente no Rio Grande do Norte e muito mal no Ceará).desaceleram o êxodo rural) como negativos (desestimulam a produção e favorecem a compra nos supermercados) sobre a comercialização. feira. Resta que o orçamento do Bolsa. Em comparação. supermercado. Várias famílias deixaram de abastecer a feira semanal para vender sua produção ao PAA. se o PAA fosse crescer. Até mesmo no âmbito nacional.

os consórcios agroecológicos do ESPLAR comportam de três a seis culturas diferentes agrupadas em três componentes: alimentar (milho. sobretudo em relação aos pequenos produtores dos países em desenvolvimento. poder dos intermediários. Mas foi preciso esperar quatorze anos para que o crescimento da produção encontrasse uma base segura. gergelim). Há fatores locais (pobreza e isolamento dos pequenos produtores. mas as duas empresas têm muito em comum. Lecomte. algodão). Os agricultores ainda lembram da forma didática e transparente com que Tristan Lecomte.O comércio justo do algodão Como vimos anteriormente. além de empresário. melancia. o algodão é a estrela do consórcio.. Lecomte define o comércio justo como uma prática que consiste em: “trabalhar prioritariamente com os produtores mais desfavorecidos. Foi a Veja que acabou fechando um contrato com a ADEC. incentivando seu desenvolvimento autônomo e sustentável através de condições comerciais vantajosas. apresentou a cadeia do algodão. Com base nessa análise. a Veja e a Alter Eco. graças ao ingresso no comércio justo em 2004.) e fatores internacionais ligados à organização do comércio mundial e às condições de troca desfavoráveis entre o Norte e o Sul (preços baixos. Desde os primeiros experimentos em 1990. monopólios... Agroecologia e acesso a mercados 86 . em Tauá. é também autor de um livro sobre comércio justo60 do qual extraímos boa parte da apresentação a seguir. mercados mal organizados. O comércio justo postula que o comércio convencional é injusto. ambiental (nim) e renda (gergelim. O que é o comércio justo? Os primeiros contatos do pessoal do Ceará com empresas do comércio justo ocorreram no próprio local de produção e beneficiamento do algodão. preços baixos..). feijão. fortes variações do valor das commodities e das taxas de câmbio. As causas dessa desigualdade são de dois tipos. da Alter Eco. com duas empresas francesas.

Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 87 . há duas grandes tendências do comércio justo. mais crítica para com o sistema capitalista. “reserva o comércio justo a um circuito alternativo especializado”. porém. Por fim. criticar seus fundamentos e “propõe a integração dos produtos do comércio justo nos circuitos de distribuição convencionais”61. rastreabilidade da cadeia produtiva) e cultural (valorização das culturas tradicionais). seja na sua dimensão econômica (valorizar os produtos.” Um dos principais pressupostos do comércio justo é de que a melhor maneira de ajudar famílias a viver com dignidade “passa pelo desenvolvimento econômico e a justa remuneração dos atores da cadeia. o pré-financiamento. Lecomte ressalta que o comércio justo inspirou-se em temáticas do desenvolvimento sustentável. o contrato de longo prazo. o desenvolvimento de normas e de uma certificação social internacional.. como social (remuneração suficiente para poder viver dignamente em termos de nutrição. intensificar e diversificar os cultivos). como também “a regulação dos mercados internacionais.” Na realidade. A segunda exige “ajustes no processo de criação de valor do sistema liberal” sem. ambiental (agricultura orgânica. A primeira. educação).como a garantia do preço de compra. a atribuição de um prêmio de desenvolvimento. saúde.” O seu objetivo seria então “o desenvolvimento local dos pequenos produtores”..

obrigatórios para todas as organizações do comércio 1) Solidário: trabalhar prioritariamente com os produtores menos favorecidos de forma solidária e sustentável. de modo a garantir o respeito de determinados critérios sociais e ambientais. diversificando as opções de comercialização. Os critérios de “exigência”. tolerado apenas como transitório ou acoplado à escolarização ou à formação profissional. 3) Garantir salários e condições de trabalho decentes para os assalariados. que define duas séries de critérios para suas afiliadas62. 2) Eliminar o trabalho infantil. 1) Favorecer organizações participativas. principal comprador de algodão orgânico da ADEC.Os critérios de “exigência” e “progresso” do comércio justo A Veja Fair Trade. Agroecologia e acesso a mercados 88 . que não discriminam e respeitam a liberdade de expressão. A) justo. 2) Direto: evitar os intermediários para maximizar o ganho do produtor. 5) Qualitativo: valorizar os saberes tradicionais e o uso de insumos naturais. em particular no mercado local. 4) Incentivar a autonomia dos produtores. 3) Justo: o preço de compra é calculado de modo que o produtor possa gozar de uma renda digna e. também. 5) Engajamento dos atores em relação ao seu ambiente econômico. social e ambiental. aplicados à medida que a atividade econômica vai se desenvolvendo. 4) Transparente: apresentar todas as informações sobre o produto e o circuito de comercialização. B) Os critérios de “progresso”. é membro da Plataforma Francesa do Comércio Justo (PFCE).

No mesmo período. O Banco do Nordeste do Brasil promete um crédito para o capital de giro. a Veja Fair Trade. formado por dois técnicos do ESPLAR e doze agricultores de sete municípios. para subir novamente para 119 em 2002. Em 2004. O número de interessados salta de sete em 1997 para 154 em 200063.Muitos avanços na região de Tauá após o ingresso no comércio justo A história do algodão orgânico no Ceará começa em 1990. o interesse dos agricultores pelo consórcio é extremamente irregular. cinco meses depois de ter apalaravado a compra da pluma. Durante os dez primeiros anos. o empreendimento está decolando para valer..6 toneladas de algodão orgânico para confeccionar as roupas de um badalado desfile de moda em São Paulo em 2002. a pluma de algodão é vendida para uma indústria de São Paulo que confecciona camisetas orgânicas para o Greenpeace. a ADEC. a associação dos produtores de Tauá. No ano 2000. adquire uma descaroçadeira e. a demanda vai passar a ser problemática. o algodão recebe a certificação orgânica. A situação só se estabilizaria com a chegada da empresa francesa de comércio justo. resolvendo metade do problema. faltando apenas capital de giro para pagar os produtores no ato da entrega. Quando a empresa brasileira Osklen adquire 3. Em 1993. com o “grupo de pesquisa do algodão”. durante três anos. a proposta parece consolidada. a Baobá Tecidos Artesanais (SP) e a Tribal Company (PR). a Veja compra as Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 89 . Graças ao apoio do ESPLAR a oferta volta a crescer. que fizeram as primeiras experimentações de cultivo consorciado. mas não cumpre o seu compromisso e o número de produtores de algodão cai para 17 em 2001. naquele momento. Mas eles vêem logo suas expectativas frustradas quando a mesma empresa desiste repentinamente de comprar a safra em 2003. destinados ao comércio justo europeu. quando o ESPLAR resolve emprestar capital de giro à ADEC e passa a oferecer subsídios a quem for plantar algodão nos moldes do consórcio agroecológico. os técnicos do ESPLAR e os agricultores da ADEC comemoram: desta vez. financiada por dois compradores. recém-criada. à procura de algodão orgânico para fabricar calçados esportivos no Brasil. depois de uma longa conversa com os agricultores em Tauá. Metade porque.

40) o quilo de pluma. o pessoal da Veja apresentou aos agricultores o circuito de fabricação e comercialização do tênis. encalhadas há um ano. No mesmo ano. A partir de então. forneceu um chão firme para ampliar a oferta.” As relações também mudam: “Logo na primeira visita em Tauá. engenheiro agrônomo do ESPLAR que incansavelmente procurou novos mercados para a ADEC. a Veja sempre cede uma parte da produção à Univens. A gente sempre conversa. o preço muda: “Antes o preço era ligado à bolsa de Nova York. ela fecha um contrato de três anos com a ADEC. é uma relação aberta e flexível. Em 2005. Quando entram a Veja e a Univens. A partir dessas informações discutimos o que seria um preço justo.três toneladas da safra de 2003. e a escassez de algodão orgânico no mercado. na época.00 (U$3. ao garantir a demanda. A proposta feita em 2004. a Univens. Quixadá e Massapê. por um preço superior em mais de duas vezes ao do mercado internacional. muita coisa muda. era. empresa brasileira de comércio justo.” O contrato de três anos. enfatiza a importância desse momento.5 vezes maior que a cotação na bolsa. Mesmo com o sucesso da venda dos tênis. hoje não. lembra Chagas Maia. marca da cadeia ecológica do algodão. 2. lança a Justa Trama. (Ver o box abaixo) Pedro Jorge. pôde estimular sua implantação em Canindé e em outros três municípios da Agroecologia e acesso a mercados 90 .”. R$6. havíamos encontrado alguns compradores decentes. da Justa Trama. verdadeiro ponto de inflexão na trajetória de comercialização do algodão orgânico: “Até então. graças ao comércio justo. não do comércio justo. gerente da ADEC. por solidariedade. O ESPLAR que já havia incentivado a criação de consórcios nos municípios vizinhos de Choró. porém eram empresas convencionais.

Com efeito. o esquema de venda de confecções da Justa Trama é bastante improvisado e não oferece as mesmas perspectivas. Depois de processada. a ADEC não teria como agüentar os atrasos de pagamento da Univens e todos os elos da Justa Trama. Juntos. Com a expansão da produção. resolvendo assim boa parte dos problemas da ADEC com capital de giro. espalhadas mundo afora. a venda de tênis para a juventude relativamente bem abastada (porém ambiental e socialmente consciente) do Norte. A diferença é fundamental e o último elo da cadeia (a comercialização) influi sobremaneira sobre o primeiro (a produção). O GAM participa das negociações com os compradores. Resultado: em 2007. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 91 . a produção rendeu 15 toneladas de pluma. o que praticamente garante um preço alto e estável para o algodão nos próximos anos. surgiu uma nova institucionalidade: o Grupo Agroecologia e Mercado (GAM). Por um lado. Forquilha e Santana do Acaraú. e os sindicatos recémchegados no mercado de algodão. a venda dos tênis da Veja em lojas especializadas. 245 agricultores produziram 42 toneladas de algodão em rama numa área de 256 hectares. do ESPLAR e dos sindicatos dos demais municípios produtores do algodão ecológico. vai crescendo muito rapidamente. o GAM. Sem o dinheiro adiantado pela Veja. Por outro lado. No final das contas. que adiantou 40% do valor da compra.região norte do estado: Sobral. responsáveis pela organização da produção nos seus respectivos municípios. discute problemas técnicos e comerciais. do primeiro ao último. infelizmente sem condição de fazer o mesmo. das quais 13 foram compradas pela Veja. experiente e dona das máquinas. a ADEC e o ESPLAR estão contribuindo para firmar o primeiro elo de duas cadeias bastante distintas. As outras duas toneladas foram adquiridas pela Univens. ficariam na dependência das receitas irregulares e imprevisíveis da venda das confecções em feiras e eventos da economia solidária. planeja a produção e tenta regular a tempestuosa relação entre a ADEC. é também o contrato com a Veja que viabiliza o primeiro elo da Justa Trama. composto por representantes da ADEC de Tauá. garante o preço justo pago aos agricultores familiares do sertão cearense e permite contornar os atravessadores graças ao adiantamento do capital de giro.

Holanda. e chegam aos consumidores por cerca de 80 euros o par. ao aceitar o desafio de produzir fios a partir de pequenos volumes de algodão (3 a 5 toneladas por ano). a cadeia produtiva da Justa Trama divide-se. Espanha.Os circuitos de comercialização da Veja e da Justa Trama64 Em 2004 a Univens. a Fio Nobre. Agroecologia e acesso a mercados 92 . cooperativa de costureira de Porto Alegre (RS). Com o fio grosso fabrica-se a lona do tênis da Veja. usa o fio de algodão e as sementes para confeccionar roupas. a CONES – Cooperativa Nova Esperança. grossos e finos. O primeiro elo da cadeia do tênis (Veja) e das confecções (Justa Trama) é o algodão orgânico cearense da ADEC. a Univens. Em seguida. também membro da Justa Trama. remove o principal obstáculo ao funcionamento das cadeias orgânicas do tênis e das confecções. em Americana (SP). uma indústria de Nova Hamburgo (RS) usa a lona orgânica e a borracha oriunda de uma reserva extrativista da Amazônia para montar os tênis. Essas roupas são vendidas em feiras de economia solidária ou deixadas em consignação em algumas lojas de Porto Alegre e São Paulo. Aí. confecciona roupas. uma cooperativa do Estado de Rondônia. a CONES. adornadas com sementes decorativas compradas na AÇAÍ´. Os fios mais finos viram malha e tecido em Sant André (SP). Uma dessas cooperativas. cooperativa de Itajaí (SC). Inglaterra. Itália. uma única empresa. uma cooperativa de costureiras de Porto Alegre (RS) articula uma rede de cooperativas e associações de trabalhadores de todos os elos da cadeia têxtil para fabricar confecções. de Nova Odessa (SP). que também integra a cadeia da Justa Trama. Estes são vendidos em torno de 30 euros para lojas de varejo da moda. pautando-se pelas normas do comércio justo e do mercado solidário. na França. fabrica os fios. Suécia e outros países. Vale notar que a produção orgânica da Univens representa apenas 10% da sua produção total (o resto não é orgânico) Por outro lado. Por um lado. Com esse algodão.

A pergunta.” A própria Veja sempre ressalta que não deseja ter a exclusividade da compra do algodão da ADEC. a forte demanda pelo algodão pode chegar a atropelar o consórcio no seu princípio mesmo. as planilhas de custos ainda não fazem parte da rotina. Ambas funcionam na base de momentos de capacitação. reformulada. nota Marcus Vinicius só. Na ADEC. O que significa mais assistência técnica e mais formação dos agricultores. A pergunta agora é: como administrar o crescimento? A ICCO. intercâmbios. o algodão orgânico está de vento em popa: no segundo semestre de 2007. trocas de conhecimentos entre pares – que são lentos por natureza. sociais e ambientais? “Vamos crescer de acordo com o tamanho do mercado justo”. apesar da insistência do ESPLAR. um grande número de novos compradores estava na fila de espera. Se houver desatenção. Mas não é tão fácil transformar agricultores em empreendedores. mas é importante que tenha a prioridade. Não é tão simples. A Fundação Banco do Brasil está querendo financiar um novo galpão e uma descaroçadeira a fundo perdido. quando definem um percentual da produção total da ADEC destindado à Veja. Felizmente. responde Pedro Jorge. uma importante agência de cooperação holandesa que apóia cadeias produtivas. do ESPLAR. enquanto a demanda está crescendo muito rapidamente. poderia ser: como resistir à tentação de aumentar a produção descuidando dos outros parâmetros – políticos. gerente da ADEC não gostaria de repetir o que ocorreu na safra Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 93 . mas é preciso ter cuidado: não podemos ficar dependendo de um só comprador. graças à ampla divulgação dos bons resultados na mídia. por exemplo. o único jeito de aumentar a produção é aumentar o número de produtores. Isto é. Os contratos ressaltam esse aspecto. Chagas Maia. está exigindo da ADEC a elaboração de um plano de negócio para os próximos anos. pois a produtividade do consórcio familiar é limitada. visitas de acompanhamento.Como administrar o crescimento? “A comercialização do algodão se estruturou quando o mercado ficou garantido. Essa não é apenas uma questão econômica ou administrativa.

” Duas grandes ameaças externas também preocupam. mas não vai acabar. com no máximo 60% de algodão. como o gergelim. vai chegar. que dura três anos. Como será que o algodão reagirá à forte seca que. E para dar sustentabilidade ao algodão. Terá que ter no mínimo três cultivos. se houver uma seca.” Outra grande preocupação é o algodão transgênico. como já chegou inúmeras vezes desde que o sertão é sertão? “Acho que. Precisamos persistir no plantio de algodão arbustivo. as feiras. que pode inviabilizar o cultivo orgânico.de 2007. irremediavelmente. sim. que rende mais mas é anual. A partir daí vamos retomar a capacitação. Agroecologia e acesso a mercados 94 . devemos também cuidar melhor da comercialização de outros produtos do consórcio. e não cair na armadilha de plantar apenas o herbáceo. continua Chagas Maia. como já ocorre em outras regiões como o Pantanal e a Amazônia”. mas sem esquecer o mercado convencional. a produção vai diminuir. O ESPLAR tampouco: “Estamos rediscutindo com os sindicatos e a ADEC o que é um consórcio agroecológico. por exemplo. quando algumas famílias plantaram até 90% de algodão nos seus “consórcios”. vamos cuidar da diversidade dos mercados: trabalhar o quanto for possível dentro do comércio justo. “Vamos exigir do governo federal que o sertão seja decretado zona de exclusão para os transgênicos. responde Chagas Maia.” Pedro Jorge concorda e vai mais longe: “Além da diversidade de produtos.

nem mesmo que seja esse o seu desejo. Sem negar as virtudes do comércio justo. o ESPLAR sempre defendeu que. Ong veterana criada em 1974. Mas este é um negócio totalmente diferente do algodão: são outros tipos de máquinas e os mercados do gergelim precisariam ser melhor conhecidos. de passagem. destoam em relação à forte empolgação em torno do consórcio agroecológico. a do mercado. ser qualificado de complemento de renda razoável. a solidariedade – para promover o desenvolvimento sustentável. O que pode. O ESPLAR. redistribuição pelo Estado e solidariedade – talvez seja uma via mais flexível e mais promissora66. “Na década de 80. são necessárias. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 95 . dotada de maiores virtudes que as outras . Autores como Lecomte insistem muito no fato de que “o comércio justo não é caridade” porque trata-se de “um novo modelo econômico eficaz”. o social e o ambiental se mesclam de forma estreita. Não temos certeza de que seja possível para a maioria. Não temos medo porque existe uma grande clareza. que. A onda do comércio justo levanta várias questões. A proposta consiste em introduzir os agricultores no mercado. até. no máximo.00) por ano65. e porque o agricultor se beneficia. Diferentemente de outras Ongs. porém os ganhos para o agricultor familiar não são tão grandes e. Hoje. não tem medo de lidar com o mercado. uma família apura um valor bruto da ordem de 800 a 950 reais (US$460. Com um hectare de consórcio. o político. evidentes na experiência do ESPLAR e da ASSEMA. do comércio justo e do mercado internacional orgânico.” É verdade. o autoconsumo.00 a US$540. já havia essa discussão. tanto a relação com o Estado como a relação com o mercado. organizados em cooperativas. lidar com o grande mercado passou a ser comum para nós. na defesa do bioma caatinga. O processamento do óleo de gergelim oferece certamente boas perspectivas para incrementar a renda oriunda dos consórcios.Vale notar. a “hibridação” de vários princípios econômicos – mercado. com o objetivo de que se tornem empreendedores autônomos.a redistribuição. É como se os adeptos do comércio justo quisessem universalizar uma única via. Talvez seja possível para alguns.

em Lago do Junco. ou por produtos básicos. através de uma rede de cantinas espalhadas nas comunidades. O principal empreendimento é a produção de óleo de babaçu pela COPPALJ. Mas o óleo é apenas um dos vários itens da linha “ Babaçu Livre”: o mesocarpo e os sabonetes são também produtos importantes e. há ainda artefatos de papel reciclado. é também vendido na Embaixada do Babaçu Livre. Agroecologia e acesso a mercados 96 . O óleo de babaçu é vendido no mercado justo internacional e nacional.. já entrou no mercado institucional. Nas cantinas. aqui também.. Logo. café. o PAA.. os sabonetes e o mesocarpo são também redistribuídos para outras lojas da capital e outras cidades. Junto com os sabonetes e o papel reciclado. Duas cooperativas sobreviveram. o produtor podia trocar a amêndoa e o carvão de babaçu por dinheiro. A partir da Embaixada. desde que se conseguisse sair das garras do atravessador. O mesocarpo. São Luis do Maranhão. dois técnicos trabalham exclusivamente no apoio à comercialização e lidam com diferentes tipos de mercado. arroz. A COPPALJ nasceu em 1991. remédios naturais à base de plantas. A torta de babaçu é comercializada apenas no mercado local. a quase totalidade do faturamento e das receitas vem da comercialização do óleo de babaçu e. Comprava acima do preço convencional o carvão da casca do babaçu e a amêndoa. Entretanto. e sobretudo no mercado local. em escala muito menor. deu-se conta de que havia um mercado interessante para o babaçu. o comércio justo tem sido fundamental. por sua vez. como sal. licores e doces. outras duas fecharam No início dos anos 90. sabão.Os vários mercados do babaçu Na ASSEMA. a ASSEMA já discutia a comercialização dos excedentes de arroz e farinha de mandioca. açúcar.. a loja de economia solidária que a ASSEMA abriu na capital do estado.

de Esperantinópolis. no final das contas. estudaram o mercado e partiram para a produção de mesocarpo em maior escala. Firmaram uma parceria com a EMBRAPA. por um preço três vezes superior ao do mercado convencional. vinte e dois centavos. A COOPAESP. No início. uma empresa inglesa de cosméticos. cometeu erros. a cooperativa pôde oferecer o dobro. Demoraria muitos anos até a COPPALJ tornar-se autosuficiente. Nos seus primeiros anos. com os quais as mulheres costumavam fazer mingau.Nessa época. um acidente destruiu o caminhão. e os assessores da ASSEMA voltaram-se para a extração do mesocarpo de babaçu. Ofereceram vinte e sete centavos o quilo. um ano após a criação da COPPALJ em Lago do Junco. comercializava apenas os excedentes da produção de arroz. analisaram o produto. quando a Bodyshop. Foi daí que surgiu em 1993 a idéia de fabricar o próprio óleo de babaçu. Graças ao capital de giro doado pela MISEREOR. acabou perdendo esse jogo de queda-debraço e quebrou. o atravessador comprava a amêndoa por onze centavos o quilo. a cooperativa passou por várias crises e por longos processos de avaliação para. sem fôlego. cinco centavos a mais que a COPPALJ. Conseguiram: a COPPALJ. As duas que comercializavam amêndoas de babaçu faliram. Então. O comércio justo foi fundamental na estabilização da COPPALJ A COPPALJ começou realmente a firmar-se a partir de 1995. Em 1992. sobreviveu e continua viva até hoje. Quer dizer. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 97 . rumo ao aproveitamento integral do babaçu. corrigiu o rumo. resolveu comprar 63 toneladas de óleo de babaçu por ano. vítimas de uma visão irrealista do mercado e da falta de compromisso dos seus membros. os atravessadores lançaram mão de uma prática chamada dumping. sofreu desvio de dinheiro. pagando na hora. três outras cooperativas nasceram em três municípios vizinhos. O arroz deu prejuízo. o número de cooperados caiu e depois subiu novamente. firmar-se como referência nacional e internacional do movimento agroextrativista. aceitaram perder dinheiro durante um tempo – até quebrar a COPPALJ .para logo depois voltarem a praticar preços baixos. contraiu dívidas.

ressalta João Valdeci. Pode chegar a mais de mil reais. Agroecologia e acesso a mercados 98 .” Depois de um tempo. Outra vantagem: o sócio que quita a sua cota-parte (200 quilos de amêndoa entregues ao longo de dois anos) pode comprar fiado na cantina. Os dois terços restantes vão para o mercado local. Depois. Hoje.” Hoje. foi possível superar um dos maiores gargalos das cooperativas populares: a falta de capital de giro. a maior multinacional mundial de cosméticos. agricultor. técnico da ASSEMA encarregado da comercialização. Manter o selo orgânico implica em cuidar cada vez mais do meio ambiente. O prêmio distribuído todo final de ano a cada um dos 158 sócios é proporcional à quantidade de amêndoa entregue e à quantidade de mercadoria comprada pelo sócio na cantina. fazendo a média entre o mercado justo e o mercado local convencional. valor médio da cotação internacional. que percorre toda a zona rural.00 e uma quebradeira produz até 12 quilos por dia). hoje secretário de agricultura de Lago do Junco. de cantina em cantina. que vêm somar-se ao valor recebido pela amêndoa durante o ano (as cantinas compram o quilo de amêndoa por R$1. Sem contar que toda a comunidade se beneficia com o transporte propiciado pelo caminhão da cooperativa. a Bodyshop cobrou a certificação orgânica de todo o processo de extração do óleo. a COPPALJ vende um terço da sua produção de 150 toneladas de óleo para outras empresas do comércio justo como a Natura. Graças ao comércio justo e à prática do pagamento adiantado.“Na época. foi baixando progressivamente para 2. dá para enfrentar o atravessador.7 dólares e exigiu da gente a procura de outros mercados. “No início a Bodyshop deu folga. para não criar dependência! Recentemente. recorda Valdener. “Passamos a distribuir prêmios no final de cada ano para os cooperados”. por cerca de 3 dólares o quilo. melhorou o preço de venda para o exterior. No início a Bodyshop pagava mais de três doláres por quilo de óleo orgânico. Com o selo internacional. a Bodyshop foi vendida para a L´Oréal. ex-diretor da COPPALJ. mas o departamento de comércio justo continuou com os mesmos técnicos. por um dólar o quilo. acabar com as queimadas e o uso de veneno nas lavouras. para ajudar na estruturação. isso era mais que um quarto da nossa produção.

O maior custo de produção são as essências (100 a 600 reais por quilo. está com grandes dificuldades pois não consegue gerar benefícios suficientes para remunerar corretamente o trabalho. Faturou cerca de R$50 mil em 2006. para atender uma encomenda de 9. Por isso. são fabricados por mulheres na comunidade do Ludovico. As seis pessoas que trabalharam durante duas semanas receberam R$120. vende parte de sua produção no mercado institucional e outra parte na loja da ASSEMA e em outras lojas. Essa ração de primeira qualidade. vendida prioritariamente aos cooperados. que exigiu reformas no prédio por um valor superior a R$100 mil! A fábrica teve que parar a produção até achar uma solução. as mulheres do Ludovico já estão se capacitando para produzir as essências localmente. Em 2007. a fábrica foi embargada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). mas a principal saída são as lojas da capital maranhense. Os sabonetes. subproduto da extração do óleo. que faturou mais de um milhão de reais em 2006. faturados um real cada. O faturamento foi da ordem de R$40 mil em 2006. foram necessárias 60 diárias de trabalho. O segundo mercado mais importante é o da torta de babaçu. quantidade necessária para fabricar pouco mais de 1000 sabonetes de 90g).00 por diária de trabalho e trabalham por encomendas. A título de ilustração.Outros mercados da ASSEMA Comparados com o mercado do óleo de babaçu da COPPALJ. Elas recebem um valor fixo de R$12. A COOPAESP. Tem capacidade suficiente para produzir até 40 mil sabonetes por mês. os demais mercados apoiados pela ASSEMA são muito pequenos. que transforma o mesocarpo. As quebradeiras que nela trabalham não são remuneradas pelo volume da produção. que têm no óleo de babaçu sua principal matéria prima. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 99 .00 cada.000 unidades. Algumas caixas já foram exportadas para os Estados Unidos. Apesar do forte aumento da demanda. rendeu quase R$100 mil em 2006.

E com o fim do apoio financeiro da OXFAM. as despesas dessa loja continuavam muitas vezes superiores aos benefícios. da ASSEMA. segundo Valdener. Por exemplo.” Apesar das dificuldades. Atendê-lo. um grupo de Botucatu (SP) pediu 180 quilos de óleo por mês durante quatro meses. mas permanece como uma empresa saudável. a questão da sua permanência estava em discussão. irregularidade da produção no caso do sabonete e limitações técnicas no caso do mesocarpo. e busca envolver os filhos dos agricultores nos seus esforços de profissionalização. do Sul do Brasil. sucessos de venda. quando chegamos lá. desde o Maranhão. e a própria rede de cantinas – funcionam bem. “O mercado justo nacional são pequenos grupos muito distantes. mercado local do sabão comum. Os mercados no qual a COPPALJ atua – comércio justo orgânico. a transportado ainda não está. é reconhecida no mercado pela sua seriedade. às vezes.Sustentabilidade do mercado justo orgânico e insustentabilidade da loja de economia solidária A COPPALJ. mas a encomenda significa muita logística para nos. No final de 2007. a ASSEMA avalia a sustentabilidade do mercado agroecológico como boa. Por contraste. O sabonete e o mesocarpo. Em quatro anos de existência a Embaixada do Babaçu nunca conseguiu decolar. está passando por um momento delicado devido à queda do dólar. não tem sido fácil. Perdemos um dia só para levar a mercadoria para São Luis. A quantidade é pequena. não têm sido sucessos de renda por motivos variados: problemas de gestão. já que “a COPPALJ tem o único óleo de babaçu certificado orgânico no mundo. O mercado justo nacional do óleo orgânico está crescendo. Aqui no Maranhão o transporte é um problema. experiência-farol da ASSEMA. os outros modos de comercialização são problemáticos.” Agroecologia e acesso a mercados 100 .

secretário executivo da ASSEMA. ou então compensar a perda em um item. construída dentro dos parâmetros do mercado justo”. Mas não é. Francinaldo diferencia claramente a venda na loja da “relação com a Body Shop. Parece óbvio. Na prática. de fato. Depois. Teremos. Uma delas é que ninguém sabe exatamente o valor dos custos de produção. “A loja está no mercado capitalista e deve seguir as regras desse mercado” reconhece Francinaldo. Outra tem a ver com a segmentação do circuito devido à distância geográfica e social entre quem produz e quem vende. daremos ênfase aos desafios de ordem organizacional e. Essa foi. por mais “solidário” que seja. Estamos conscientes da complexidade de cada um desses temas. a Embaixada do Babaçu Livre. refletiremos sobre a relação entre economia e gênero. provoca Armando de Melo Lisboa67. com o lucro em outro. uma idéia da maneira como as entidades envolvidas administram o equilíbrio entre o econômico. “A economia solidária se realiza no mercado. em seguida. partindo sempre das práticas nas três experiências sistematizadas. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 101 . Uma dessas regras elementares é vender acima do valor de custo. estas têm que confrontar-se com o mercado”. nem sempre ocorre.Como vender sem se vender? as lições da prática Falaremos primeiro de elementos incontornáveis e de regras inerentes ao universo da economia de mercado. e são submetidos às suas leis. onde a troca se dá “entre atores organizados”. com as subseqüentes dificuldades de comunicação. se dá dentro do mercado capitalista. a dura lição aprendida pela ASSEMA com sua loja em São Luis. Há de fato uma grande diferença entre o mercado justo. o político e o ambiental. e uma loja onde os “produtos oriundos da economia solidária constituem simples mercadorias destinadas ao mercado”68. tecnicamente falida. Mesmo quando se procura articular redes. A intenção aqui é apenas extrair elementos de discussão. A dura realidade da economia de mercado O comércio. por fim. pelas mais diversas razões. e das tensões entre essas dimensões.

” Sabemos também que. “O problema são todos os desdobramentos não planejados. A ASSEMA conversa então com a cooperativa. ele continua se dando na economia capitalista e não é isento de influências macroeconômicas. por outro. um dos seus papéis é buscar novos mercados. o mercado justo é complexo e bastante exigente. Ou seja. tenta se adaptar. a começar pela Body Shop. Mas essa situação. Desde então. em 1994. “A Natura quer fechar um contrato de mesocarpo conosco para fazer produtos cosméticos. se por um lado o comércio justo traz uma maior estabilidade dos preços em benefício dos produtores. de muitos testes do uso do mesocarpo de babaçu em produtos cosméticos. O mercado justo internacional é exigente e complexo A ASSEMA é uma ONG pioneira na relação entre pequenos produtores e grandes empresas internacionais do comércio justo. mas é mercado capitalista: ela já vem com um cronograma de lançamento do produto e quer tudo no curto prazo. o desmoronamento do dólar em 2007 provocou uma queda brutal do faturamento da COPPALJ com óleo de babaçu. é de difícil construção69. Assim. Por isso.Há de se reconhecer que “preços perfeitamente justos são possíveis apenas no caso de transações planificadas e coordenadas entre as empresas e os clubes de consumidores associados”. dedicamos os últimos seis meses para Agroecologia e acesso a mercados 102 . quando o elo final formado pelos consumidores entra também na discussão da distribuição dos custos. Depois de dois anos de discussão com a Natura. os circuitos do comércio justo não englobam os consumidores. a não ser como clientes “conscientes”. muito rara. se é relativamente fácil vender óleo de babaçu para a fábrica local de sabão em barra. No caso da ASSEMA e do ESPLAR. as regras e o ritmo do mercado capitalista acabam contaminando também esses circuitos. remunerações e preços em cada etapa do circuito. queixa-se Valdener. A Natura espera um pouco. Ora. da ASSEMA. mas é tudo muito devagar.

é vedade. porém apenas na sua área de influência. Aí. de última hora. Saber negociar. quando quebrou depois de meses de dumping por parte dos atravessadores. aprendeu Marcus Vinicius. tudo isso faz parte da longa lista de habilidades requeridas pelo mercado. desistiu da compra. debatendo-se com novos problemas à medida que eles se apresentavam. Descobrimos que. quando a empresa Osklen. ao longo dos anos de contato com empresas capitalistas. um economista para levantar a cadeia. O poder na cadeia de abastecimento é de quem faz o preço “O mercado tem dono: é quem faz o preço. pelos grandes compradores. a ASSEMA teve que contratar um advogado para cuidar das cláusulas da declaração. Depois desse episódio.fechar o contrato.” A COPPALJ também descobriu essa regra básica logo no início dos anos 90.” . comprar e vender.Essa foi uma das lições aprendidas pelo ESPLAR depois de ficar com a safra de 2003 encalhada.. e um antropólogo. Lidar com o mercado exige habilidades específicas “As forças do mercado apontam para uma necessidade de melhor capacitação das organizações para negociações. e o da castanha de caju. aprender a planejar a produção em função da conjuntura e de projeções de mercado. Tudo isso por um contrato de 30 mil reais por ano que. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 103 . Conseguiu essa façanha graças à transformação da amêndoa em óleo. pode abrir novas portas. que a ASSEMA foi acumulando conhecimentos sobre os meandros do mercado internacional. boa parte de seus esforços consistiram justamente em fazer o inverso: impor ao mercado local um preço alto para a amêndoa de babaçu..” Foi exatamente dessa maneira. é preciso uma declaração de patrimônio genético. circunscrita a seis ou sete municípios. O preço do algodão convencional é ditado pela bolsa de Chicago. por se tratar de produtos novos.

“Sem capital de giro. nem pensar: o peso da cooperativa no mercado internacional é praticamente nulo. já muito comentado. È simples: famílias pobres que entregam sua produção hoje não gostam e. agilidade. precisa vender o óleo acima de R$3. que compensa o preço alto da amêndoa na região de influência da ASSEMA. “Não pode demorar demais. a COPPALJ compensa eventuais perdas no mercado local de óleo com ganhos maiores no mercado justo. poder pagar à quebradeira um real por quilo de amêndoa. fuga de cooperados. Agroecologia e acesso a mercados 104 . senão acabam vendendo mais barato para atravessadores. A dificuldade para os administradores da cooperativa é de que o preço do óleo e o da amêndoa estão diretamente ligados: “Para a COPPALJ. da ADEC. muitas vezes. atendimento: “A economia solidária não é diferente da economia clássica: tem que atrair e satisfazer o cliente” provoca Marcus Vinicius. pagando preços mais baixos para as quebradeiras fora dessa região. conclui Chagas Maia. Capital de giro: o grande gargalo Não precisa insistir nesse tema. por isso precisa de capital de giro” constata Pedro Jorge. Para tanto. Venda prematura. O cliente é quem manda Qualidade. licores à espera de frascos: os exemplos não faltam. não têm condição de receber amanhã. regularidade.15/kg” calcula Valdener. Essa estratégia é semelhante à do atravessador.Quanto a determinar o preço do óleo. é impossível crescer e manter o quadro de sócios”.

ao mesmo tempo. de fazer regularmente pesquisas junto à clientela. É também distinto do consumo “crítico”.”. quando a COPPALJ quebrou e deixou de produzir óleo durante seis meses. no Rio Grande do Norte. em que o consumidor procura não ser “cúmplice de ações desumanas ou ecologicamente nefastas. Por outro lado. segundo Mance. em troca de dinheiro. “o bem-estar dos trabalhadores que produzem e distribuem os produtos ou serviços. uma sociedade justa e solidária70”. “o cliente de Fortaleza foi comprar de outros fornecedores. mas eventualmente continua comprando produtos de empresas capitalistas. também. Por um lado.” A concorrência faz parte do jogo. o equilíbrio dos ecossistemas.” Idem do lado do Maranhão: em 1995. telefono e chega no mesmo dia. Ednardo. poderia até comprar mais hortaliças e frutas produzidas na região. e de respostas rápidas: “Quando preciso de um produto. Várias categorias de consumidores Ainda há muito caminho para andar até chegar ao “consumo solidário” que. O consumo solidário diferencia-se do consumo “alienado” (influenciado pelas manipulações publicitárias). Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 105 . do consumo “obrigatório” (quando o consumidor dispõe de poucos recursos e procura os preços mais baixos) e do consumo “de bem-estar” (dos consumidores bem abastados que gostam de singularizar-se através do ato de consumo). querem achar na prateleira os produtos que procuram. Daí a necessidade de desenvolver métodos de capacitação dos produtores agroecológicos que têm contatos diretos com os consumidores na feira e. consumidores cada vez mais bem informados são potenciais clientes dos mercados orgânicos e justos.Em Umarizal. nunca deixam de ser consumidores que. visa “satisfazer as necessidades e desejos do consumidor” buscando. gostam de ser bem atendidos e exigem qualidade. mas precisa de abastecimento regular. dono de supermercado.

. até então centrados no algodão.Os riscos são inevitáveis. porém oferecendo aberturas para o comércio de gergelim e outros cultivos no futuro. “. uma vez que. locais e nacionais. empresa norte-americana do comércio justo. mostra-se necessário buscar um equilíbrio. como Abramovay adverte. com a finalidade de alcançar economias de escopo e de escala. Em relação aos demais mercados – Agroecologia e acesso a mercados 106 . Por isso. desistir da encomenda de 2. mas podem ser minimizados. mas é possível minimizá-los. aliás. mesmo contando com um setor totalmente dedicado à comercialização. faz parte do jogo econômico. Errar. tem dificuldades em lidar com muitos mercados diferentes. Ela domina bem o mercado do óleo e seus múltiplos desdobramentos internacionais. Este é. Diversificar os mercados pode ser uma falsa boa idéia A ASSEMA. Os sócios da ADEC se afastaram quando a associação não tinha mais dinheiro para comprar a sua produção.. Não se pode evitar os riscos. A COPPALJ não resistiu ao dumping dos atravessadores e quebrou. A ASSEMA teve que procurar rapidamente uma saída no mercado convencional depois da Mashai Company. um dos principais motivos da venda para os atravessadores.000 cestos de palha de babaçu. “populações vivendo em situação de pobreza dificilmente podem aventurar-se a participar de mercados de alto risco71”. sempre dinâmico. arriscar-se. e diversificação. que jovens filhos de agricultores haviam confeccionado. com a finalidade de reduzir riscos sistêmicos”. entre especialização. que é “uma forma de reduzir o risco”. É o que o ESPLAR busca através dos consórcios.

loja solidária. Logística e transporte são problemas em municípios extensos com péssima infra-estrutura Os municípios do interior do Nordeste têm uma grande extensão. Uma prefeitura municipal com um pouco de visão dinamizaria bastante a sua economia investindo. de carro. interessante. Os investimentos e as habilidades requeridas para esse novo modo de comercialização são muito diferentes de uma feira onde o produtor traz e vende a própria produção. a venda na comunidade. porém ocasional. como mesocarpo. que tem freguesia semanal. o isolamento. Só porque. A distância. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 107 . Em Umarizal. péssimas estradas e um sistema de transporte precário. . Na mesma região. sabonetes. seria prudente acompanhar de perto a experiência do Caatinga. o mercado institucional. Quem cuidará da loja? Essa pessoa será remunerada? Ou haverá um sistema de rodízio? Como garantir a regularidade do abastecimento? Como dividir o valor da venda dos produtos entre produtores? E também. E quem estaria. as famílias fazem o que podem para escoar seus produtos. de camionete ou de caminhão. o custo do frete dificultam sobremaneira a comercialização da produção rural. fretar um carro não compensaria. a ASSEMA nem sempre está à altura das necessidades dos produtores e das exigências desses mercados. devido à distância. e não existe o serviço elementar de transporte coletivo. em suas bicicletas abarrotadas com isopores e sacolas cheios das frutas e verduras do quintal.PAA. com essa diversidade toda? Diversificar os mercados pode ser uma falsa boa idéia se essa diversificação for excessiva ou descontrolada. mas toda cautela é pouco.e aos demais produtos. de burro. que abriu recentemente um armazém de venda de produtos da agricultura familiar. o mínimo que seja. por exemplo. remédios a base de plantas. venda na comunidade. tão diversos. colocou em risco a feira. de moto. de bicicleta. caixas de papel. A pé. no acesso às comunidades e no transporte coletivo. o mercado institucional e a loja? Antes de tudo. doces e compotas. uma ONG do sertão pernambucano. comércio convencional. Evitaria assim que os “Iranildos” da vida pedalassem todo sábado 50 quilômetros debaixo do sol sertanejo. onde a produção poderia ser entregue diariamente. A tentação é grande. como é que os agricultores distribuirão a sua produção entre a feira semanal. etc. a diretoria da associação dos produtores sonha em abrir um ponto de venda fixo com câmara fria.

não o exigiu. que a bancaram. que não vamos esgotar aqui. se houver qualquer contratempo. da ASSEMA. Apenas constatamos que. A própria Veja. indispensável para distribuir produtos em supermercados. sempre exige um selo internacional FLO72. também da ASSEMA. acabaram certificando a sua produção orgânica com selos convencionais. Foi exigência das empresas internacionais do comércio justo. a confiança que brota do contato direto não é mais suficiente.Certificações e registros trazem vantagens comerciais Este é um vasto tema. outra empresa francesa do comércio justo. É a sua imagem que está em jogo: imagem positiva de protetora do meio ambiente. o algodão da ADEC não precisou desse tipo de selo. Não há problemas. pois esse tipo de certificação é caro. essa mesma imagem pode se tornar negativa e este é exatamente o tipo de risco que uma multinacional exposta à mídia não quer correr – daí a obrigatoriedade do selo nesse tipo de mercado. que fabrica os tênis. gerente da ADEC. que durante quatorze anos. e a distribuição dos tênis se dá através de pequenas lojas de varejo.” Francinaldo. Mas. tanto o ESPLAR como a ASSEMA. selos oficiais. melhora o preço e obriga a trabalhar aspectos políticos e ambientais. solidária com os mais pobres. também enxerga nela várias vantagens: “Abre novos horizontes comerciais. Vale notar. As grandes redes de distribuição querem contratos. pois a sua relação com a ADEC está baseada na confiança. se tudo correr bem. contudo. Chagas Maia. garantias. Neste caso. Já a Alter Eco. emite críticas: “A certificação no Brasil é dominada pela grande distribuição e por grandes Agroecologia e acesso a mercados 108 . O selo do Instituto Biodinâmico exige que os trabalhadores tenham carteira assinada e que todas as crianças estejam na escola.” Já Valdener. aprecia essa obrigatoriedade da certificação: “Ela vai no sentido da agroecologia e impõe uma adaptação rápida.

O problema é que essas mudanças custam mais de 100 mil reais! Estamos tentando um financiamento a fundo perdido. dispensados de fato – no início da comercialização. Para ingressar nesse mercado.” Problemas. O alto custo da certificação elimina o pequeno produtor O movimento de economia solidária está propondo a certificação participativa. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 109 . tornam-se imprescindíveis para produzir e vender em grande escala. vamos precisar regularizar a situação junto à ANVISA.” Outra discussão a ser travada diz respeito aos registros e outras exigências legais. 1) 2) 3) Dificuldade de entrada nos mercados Falta de uma rede de distribuição ou de transporte própria ou solidária Falta de constância e planejamento na produção e entrega da produção. que fazem da certificação um mercado bastante lucrativo. quando o volume ainda é baixo. destaca cinco problemas da comercialização mais citados pelos entrevistados. “A rede nacional de supermercados Pão de Açúcar quer comprar dez mil unidades de nossos sabonetes por mês. que exige mudanças na fábrica. Dispensáveis – ou pelo menos. no “Levantamento inicial de entidades que trabalham com a comercialização ou consumo de produtos agroecológicos no Brasil”73.certificadoras. diz Valdener. pelo Projeto de Incentivo ao Desenvolvimento Local do governo do Maranhão. mas essa proposta ainda não foi discutida com a base. fatores de sucesso e fatores limitantes do acesso aos mercados Daniel Tygel.

intercâmbios. Precisaria levar em conta as doações. fala dos fatores de sucesso e fatores limitantes de diversas “experiências de integração dos pobres aos mercados74”.” Agroecologia e acesso a mercados 110 . Como nota Domingos Armani75 num livro que trata de mobilização de recursos: “É comum que custos com pesquisa. assistência técnica. não sejam adequadamente computados na formação de preço dos produtos. Os fatores de sucesso são ligados à educação. escoamento e pragas. por sua vez. pesquisas. etc. contratação de assessorias especializadas. pequena escala. intercâmbios. podemos calcular o valor da renda bruta média por família com aquele produto. processos organizativos. capital. Mas calcular os custos de produção e de comercialização para chegar à renda líquida é muito mais difícil. Os fatores limitantes têm a ver com organização. promoção da comercialização e valorização do produto orgânico. mudanças de governo. A partir desses dados. agregação de valor. 5) Falta de capital de giro. Ganhando ou perdendo dinheiro? Um balanço econômico difícil de fazer (e que poucos fazem) A contabilidade da COPPALJ e a da ADEC são rigorosas. organização.4) Baixa consciência dos consumidores quanto aos impactos sociais e ambientais relacionados ao ato da compra de produtos alimentícios. Em outros termos. podemos saber quanto as famílias ganham com a comercialização do babaçu ou do algodão. preservação ambiental. Balanços mensais e anuais das receitas e despesas permitem monitorar o desempenho da produção e da comercialização. infraestrutura. custos organizacionais. custos de certificação. Abramovay. horas de assessoria.

também.” Parece ser esse tipo de benchmarking – comparação com a concorrência. e fixam esse mesmo preço para a sua mercadoria. parecem saber se estão ou não perdendo dinheiro. transformação e comercialização do algodão ou do babaçu. com o valor do dia de serviço e com o valor de outros produtos como o fumo. A equipe da Diaconia notou. Quando fomos entrevistar o dono do mais próspero supermercado de Umarizal. Mesmo assim. em nível familiar. não orgânicas. São poucos os produtores que calculam custos e benefícios na ponta do lápis. Por outro lado.” Da mesma forma. Sei também que preciso ter oito produtos de base com preços melhores que a concorrência. respondem que preferem dar para os animais. mas é só agora que o contador está organizando as coisas. Sei o que ganho pelo que consigo comprar para mim. do ESPLAR. começam por se informar do valor dos produtos nas outras bancas. muito usada pelas grandes empresas – que permite a todos se situarem e que. Comparam com o preço na feira. notamos um fenômeno curioso. como os produtores. regula em parte o mercado. pois são eles que o consumidor olha mais.De fato. Mas quando o atravessador quer comprar o molho de coentro por 5 centavos. ninguém na Diaconia ou na AAOEV sabe dizer qual é o custo de produção das hortaliças. ele confessou que. E o mesmo vale também. Em nível individual. para eles. o tipo de carro. quando chegam na feira. Parece que. ele não faz uma contabilidade precisa: “Faz sete anos que estamos abertos. certos benefícios não são facilmente mensuráveis em dinheiro: “Quanto vale a massa orgânica que o solo ganha com a produção agroecológica?” pergunta Marcus Vinicius. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 111 . por exemplo. para os custos de produção. que “Os produtores não colocam um preço à altura do que vale realmente o produto agroecológico. por exemplo. em Umarizal. que dá mais trabalho e é mais saudável. o valor mínimo que compensa é 7 centavos.

terceiro.ONGs e agricultores precisam se qualificar melhor para o mercado A escassez de informações mais precisas também vem do fato de que. primeiro. Outro fator: poucas são as ONGs. segundo. De certa forma. mas com exigências próprias para as quais não estão bem preparados. de ordem quantitativa: o negócio é economicamente viável ou não? A sanção do mercado é objetiva – novidade um tanto assustadora num universo ainda fortemente marcado pelo político e que não incorporou indicadores de desempenho na sua rotina (e.. associações. – enquanto o dinheiro das Ongs sempre veio através de projetos e doações. aceita as condições salariais pouco atraentes das ONGs e. É preciso ainda ressaltar que as equipes técnicas das ONGs raramente têm a formação necessária para lidar com o mercado. conhece bem o mercado.. isto é. cheio de potencialidades. armazém. A entrada no mercado levanta uma nova pergunta. mesmo entre aquelas que obtêm bons resultados. não raro. para poder dar o apoio que as cooperativas.” Agroecologia e acesso a mercados 112 . Ao mesmo tempo. se pergunta Francinaldo. as ONGs estão ainda menos preparadas que os agricultores. “Talvez um vendedor puro não sirva para a gente. o ingresso para valer no mercado significa adentrar um universo inteiramente novo. que se preocupam em mensurar mais precisamente esses resultados. lojas e outras empresas “solidárias” precisam. a loja está no mercado capitalista. por fim. feira de animais. está disposto a viajar sertão adentro e possui as habilidades didáticas e relacionais que requer o diálogo com os agricultores? A ASSEMA não conseguiu achar a resposta: seis vendedores se revezaram na Embaixada do Babaçu em menos de quatro anos. recusase em fazê-lo). tem a alma militante e compartilha os valores políticos. Surge o dilema: onde achar aquele técnico ideal que. A ASSEMA não é uma empresa. para as ONGs e os agricultores. sociais e ambientais. cuja renda sempre dependeu do contato com o mercado – atravessador.

a reciprocidade (em que a dádiva representa o “fato social elementar” e “as transferências são indissociáveis das relações humanas”). processamento. Nem tudo é mercado: solidariedade e reciprocidade são também necessárias à produção A economia de uma família de agricultores ou de um assentamento da reforma agrária não depende apenas de transações no mercado capitalista: a produção para autoconsumo. Armando de Melo Lisboa lembra o seguinte: “Na origem. a redistribuição (por uma autoridade central) e o mercado propriamente dito (local de encontro da oferta e da demanda)76. existem assim outras economias. comércio”.: para o agricultor familiar e as organizações de assessoria. mercantil e monetária.” Análise de cadeia... qualidade. Além da feira. espaço público central nas cidades gregas. Ao lado da economia capitalista. Para nos ajudar a escapar de uma definição demasiadamente estreita da palavra “mercado”. É preciso lembrar que a agora. Nossa formação como técnicos não tratou disso. Os mercados de proximidade são tão antigos como a própria humanidade. logística da distribuição. há ainda muito que aprender. os programas governamentais e as trocas entre vizinhos desempenham também um papel importante. não mercantis ou não monetárias. Mesmo discurso do lado da Diaconia: “Ainda temos que aprender muito. onde Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 113 . o mercado é o lugar onde são comercializados artigos de primeira necessidade em pequenas quantidades e com preços fixos. qualidade. gestão comercial.O mercado também exige mais de toda a equipe da ASSEMA: “Precisamos nos profissionalizar mais em termos de gestão. estamos entrando agora no mercado do algodão. O sociólogo Jean-Louis Laville. retomando os trabalhos do famoso economista Polanyi. define quatro princípios de comportamento econômico: a administração doméstica (produzir para uso próprio). cálculos de custos e benefícios.

que aceita fazer a limpeza completa de suas máquinas para rodar. era a praça onde aconteciam ao mesmo tempo o comércio e as assembléias populares77”. filmam. todo o fio de algodão orgânico da ADEC. durante um dia apenas. O crédito solidário. Não “relevam o altruísmo ou qualquer tradição camponesa. faz questão de não comprar toda a produção da ADEC. mas também não dispensa boas capacidades operacionais e técnicas.) e para garantir a coesão da organização social a partir da produção de valores humanos ou éticos comuns”78 .nasce a idéia de democracia e de autogoverno. Agroecologia e acesso a mercados 114 . o lucro não é o que fala mais alto: a empresa do comércio justo Veja. Adverte. práticas econômicas gratuitas como essas não são ornamentais ou meramente complementares. depende de voluntariado e reciprocidade. No Rio Grande do Norte. Para Sabourin.. da Justa Trama. no Ceará. pensando que a solidariedade resolve tudo. discutem. trocam sementes e conhecimentos. No Maranhão. dão uma força na loja. entre outras práticas solidárias. incentivando assim a diversificação dos compradores. podemos citar.. apesar da alta demanda de algodão orgânico.. a COPPALJ criou um fundo de assistência social para outras entidades e a ASSEMA recebe o apoio de um grupo de dezenas de voluntários que escrevem livros. discutem. para não cair no extremo oposto. Existe todo um universo oculto de práticas de reciprocidade nas três experiências em foco. São necessárias ao processo de produção (. E nesses três estados como em todo o sertão. agricultores agroecológicos recebem visitas.. quase sempre ignoradas na medida em que vêm mescladas às práticas do mercado capitalista e de redistribuição pelo Estado.. Da mesma forma. O mesmo vale para a Cones. os fundos rotativos para kits de irrigação e as trocas de produtos entre agricultores no final de cada feira. contudo. por exemplo..

e espaço de sensibilização social e educação ambiental. o social e o ambiental Como bem diz Domingos Armani. produtos ecológicos com selo social”81. instável. é preciso um longo trabalho político e ambiental. vende também uma causa. o econômico. o social e o ambiental: o caso da ASSEMA Na ASSEMA. campanhas sucessivas. “por serem sociais. a economia solidária pode se perverter80”. para a COPPALJ poder manter as vantagens comerciais do selo orgânico. o político. A relação íntima entre o político. as lideranças camponesas e os técnicos não tiveram medo de enfrentar o “desafio do mercado” e não parece ter havido “perversão”. simultaneamente espaço econômico de venda e distribuição da produção. procuram mercados que “valorizam produtos que têm uma dimensão cultural. é de que “ao aceitar o desafio do mercado. Da mesma forma. na fórmula de Lisboa. muitas discussões. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 115 .Equilíbrio e tensão entre o político. a ASSEMA não vende apenas sabonetes. Nessa mesma linha. os negócios em ONGs têm a obrigação de produzir efeitos sociais e políticos. inclusive junto aos grandes fazendeiros (onde ficam os maiores babaçuais). Nas três experiências examinadas aqui. O perigo. espaço político de reuniões e discussões. da luta social por melhores condições de vida na região e da luta ambiental contra os agrotóxicos. além de gerar receitas79”. as queimadas e o uso do trator. as quebradeiras de babaçu da comunidade do Ludovico. a luta política pelo livre acesso ao babaçu não se dissocia da luta econômica para garantir a matéria prima para a fábrica de óleo. no seu esforço cotidiano para equilibrar as várias dimensões. esses “negócios” estão sempre em equilíbrio dinâmico. Ali. uma loja fora do comum. onde fica a fabriqueta de sabonetes. Alguns deles são retratados abaixo. As várias dimensões do desenvolvimento sustentável são inseparáveis na Embaixada do Babaçu Livre. Mesmo assim. o econômico e o ambiental –. onde alunos de escolas e estudantes universitários vêm conversar e buscar materiais de pesquisa. Atravessados por tensões entre as várias dimensões do desenvolvimento sustentável – o social. o econômico. estão vivenciando tensões e dilemas de todo tipo.

O futuro sócio precisa também corresponder a determinados critérios e provar. mas nosso objetivo é manter a base.” Para ser sócio. constata Valdener. “Os três melhores grupos em termos de organização política – a COPPALJ. a COOPAESP e a fábrica de sabonetes – são também os que andam melhor financeiramente”. não basta depositar os 200 quilos de babaçu da cota-parte. Para o gerente da COPPALJ. que está em sintonia com os princípios políticos da COPPALJ. Várias empresas já ficaram aborrecidas conosco por causa disso. que só se torna sócia após seis meses. o babaçual”. os efeitos são positivos: engajamento político e eficácia econômica parecem progredir juntos. várias pessoas desistem e quem ficou ainda precisa ser aprovado pela assembléia da cooperativa. Os sócios da cooperativa e os participantes dos programas da ASSEMA não são apenas “produtores”. Ao longo dos seis meses. apenas quatro ou cinco novos cooperados por ano. o objetivo também não é crescer. nunca foi o crescimento econômico: “Já recusamos muitas demandas de grandes volumes de óleo orgânico. que têm compromissos políticos e sociais (Ver box) Para Francinaldo. “A ASSEMA não flexibilizou seus princípios em função do mercado”. Toinho. “A comunidade indica a pessoa. com a condição de participar ativamente das reuniões. e sim “a qualidade de vida dos sócios”. afirma Francinaldo. explica Francinaldo. “o econômico têm que vir acompanhado pelo político. na prática. Agroecologia e acesso a mercados 116 . o quadro de sócios da cooperativa cresce muito lentamente. Isso porque seu objetivo sempre foi claro. São pessoas engajadas.Em mais de quinze anos dedicados ao apoio aos empreendimentos econômicos. A primeira vista.” Por isso.

possibilitando que mais pessoas sejam incorporadas ao empreendimento social Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 117 .” Mas a realidade. Não é um problema porque o negócio é nosso. políticas. vamos mostrar de que forma. Antes disso. Os princípios da Assema para a comercialização dos produtos No seu livro sobre mobilização de recursos. escrito a pedido da Oxfam. as quebradeiras da fábrica de sabonetes afirmam que “a política não prejudica a produção. como sempre. Domingos Armani resume os princípios da Assema para a comercialização de produtos em um quadro.Do seu lado. apresenta mais nuances. sociais e ambientais. com discussões políticas em Plano sua elaboração e adoção · Sistematização da tecnologia social desenvolvida. · Respeito ao modo de vida da população · do conhecimento tradicional Uso · Geração de renda a partir das potencialidades da comunidade · na melhoria da qualidade de vida das pessoas. é preciso constantemente administrar tensões entre as dimensões econômicas. nas três experiências. grupos de mulheres com muita força política nem sempre obtêm bons resultados no âmbito econômico. reproduzido abaixo. com capacitação destas para seu uso consciente · de Negócios como instrumento de transformação social. Como veremos adiante. na melhora da renda e na redução das Foco desigualdades · Criação de novos sistemas de produção e de novas relações de trabalho · Instrumentos de gestão dotados de significado para as pessoas das comunidades. porém.

No mesmo município. Foram poucos os sócios dispostos a agüentar tempos melhores em nome de ideais mais elevados. Um absurdo em Agroecologia e acesso a mercados 118 . o programa de compra garantida do governo federal atraiu agricultores familiares. alguns agricultores. em razão de dificuldades com o capital de giro. que passaram a descuidar da freguesia. esvaziando assim por um tempo a feira agroecológica semanal de Umarizal. não resistem à tentação de vender para atravessadores e comerciantes que fazem concorrência à feira. tendem a se pautar mais pelo ganho rápido do que pela ética. lamenta Francinaldo. Pior ainda: já houve casos de famílias vendendo galinha orgânica para comprar galinha “industrial”. Por falta de consciência coletiva e na ausência de uma boa coordenação pela associação. o mesocarpo de babaçu está em falta por razões semelhantes: “É trabalhoso e a renda não é tão atrativa: é mais fácil vender a amêndoa ou receber o bolsa-família”. inclusive entre aqueles que pertencem à associação. No Maranhão. houve um ano em que o número de sócios da ADEC despencou de 350 para 50 em poucos meses. No Ceará.· Qualidade do produto diretamente relacionada aos valores sociais e ambientais agregados · “Produto” como canal direto de comunicação com a sociedade e como ferramenta para sua sensibilização e mobilização · Empoderamento e emancipação da comunidade · Fortalecimento da luta pelo reconhecimento de direitos · Vínculo do empreendimento com a ação política · pela garantia do acesso à terra Luta · de fomento a modelo de desenvolvimento anti-hegemônico Visão A regulação dos comportamentos pelo mercado: a forte tentação do ganho econômico imediato Ao oferecer preços acima da média.

fazem parte do dia-a-dia das experiências. “Não querem trabalhar oito horas por dia na fábrica e virar operárias. criar galinhas e participar de reuniões políticas. continua Silvianete.termos agroecológicos. antes. gerar renda para suas famílias. Nos empreendimento agroecológicos. cooperativas e associações contam com a sua força política e organizacional. porque é o econômico que puxa. Como diz o Francinaldo. é claro. como atender o cliente em dia. as ONGs. da ASSEMA. porém não em termos econômicos: uma galinha orgânica vale duas industriais. estão lidando com a economia de mercado: ou têm poder de concorrência ou não geram renda suficiente. tem segurança alimentar. o econômico. um animal no terreiro para vender em caso de necessidade. Para contraporem-se à atração pelos benefícios individuais imediatos. Mas aí. muitas famílias dos assentamentos e comunidades do interior nordestino saíram da pobreza extrema. “Já trabalhei com família que. hoje. sem virar operária em tempo integral. conta a socióloga Silvianete.” Sair da pobreza sem virar operário Graças à comercialização da sua produção. por exemplo. A ASSEMA puxa para o lado político e a família puxa o outro lado. a regulação pelo mercado continua forte. Mas. na quantidade pedida?” Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 119 . hoje. “Trabalhamos a geração de renda com a família de modo que integre o lado político. casa. não tinham feijão o ano todo e que. as mulheres pretendem. mas querem também continuar a quebrar coco.” Na fábrica de sabonetes. Tensões existem.

Mas o ganho econômico não é tão significativo assim. Resultado: em 2007 houve “transições agroecológicas irregulares”.Esse é um dos dilemas que não tem solução concreta.. ainda bastante limitadas. o crescimento do número de consórcios foi tão rápido que a assistência técnica não teve pernas para acompanhar o movimento. Nessas condições. O ganho econômico é um bom ponto de entrada para a agroecologia? O exemplo do algodão O trabalho dos consórcios ficou muito mais fácil a partir de 2004. responde Pedro Jorge. As pessoas também tomam consciência dos benefícios da agroecologia a partir da experimentação concreta. os sindicatos fizeram muita sensibilização nas comunidades. Ao mesmo tempo. da ADEC. sim. onde a fama trouxe muita demanda.. que supõe tomar decisões de forma colegiada. priorizar o mercado justo. foi provavelmente o principal fator motivador para o crescimento do plantio de algodão em 2007. na medida das possibilidades. apenas idéias cuja sustentabilidade ainda precisaria ser testada: “Podemos fazer um rodízio: somos mais de 20 sócias. crescer de modo orgânico. “É uma construção progressiva”. quando o preço do algodão estabilizou-se num patamar atrativo. não explica tudo. será que o ganho econômico pode ser considerado um ponto de entrada interessante para a conversão agroecológica? “O bom preço ajudou. porém. Até 2006. o avanço se dava mais pelos intercâmbios ou entre vizinhos. implicando em meses de produção intensiva. vão criando uma nova identidade. com consórcios apresentando taxas de 90% de algodão. nem todas precisam trabalhar ao mesmo tempo”. resume Chagas Maia. Toda cautela é pouca para não atropelar um processo lento por natureza. a resposta é clara: atender. qual seria a decisão? Atender ou não? Na COPPALJ como na ADEC. Além disso. dizem as quebradeiras-operárias.” Agroecologia e acesso a mercados 120 . Aos poucos. E se vier um pedido maior. porém.

teriam que sair. presidente do STR de Choró também acha que o dinheiro não é o único motivo “porque o algodão dá trabalho e nem sempre produz”. O intercâmbio também continua fundamental. Chagas Maia.Eliane Lobo. Outro fator é o aspecto altamente simbólico do algodão. além do forte atrativo econômico. não apenas na área de um hectare do consórcio”.” Chagas Maia é a favor de certa flexibilidade no primeiro ano da transição agroecológica. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 121 . uma cultura mais que centenária no sertão e que tem a peculiaridade de agregar pessoas dos mais variados horizontes.” A certificação. compartilha esse anseio. das capacidades de assistência técnica e de capacitação dos agricultores. numa espécie de unanimidade em que todos desejariam vê-lo vicejar e tornar-se novamente o “ouro branco” de outrora. também ajuda a trabalhar a qualidade e o respeito ao meio ambiente: “O agricultor vai ter que se adaptar. trata-se de atrair novos adeptos a fim de aumentar a produção. atrair novos adeptos da agroecologia pelo dinheiro é uma boa estratégia? Pedro Jorge acha que sim.” Ou seja. “O problema é que o dinheiro que o cliente mandou foi para primeira qualidade e alguns sindicatos mandaram algodão de segunda. porém. “Mas se não fizerem o consórcio corretamente ou se continuarem queimando no segundo ano. nem da qualidade do produto. mas sem descuidar. sob certas condições: “Crescer de acordo com o tamanho do comércio justo. Então. nem do equilíbrio da formação dos consórcios. porque é do interesse de todos trabalhar a agroecologia em toda a unidade de produção. gerente da ADEC. para sensibilizar novos sócios. mas fica preocupado com o crescimento anárquico da produção em detrimento da qualidade do produto. Pedro Jorge reconhece.

negligenciou o aspecto político.” Ora. que atraem o agricultor familiar com argumentos meramente econômicos. são precisamente as dimensões políticas e ambientais que fazem a diferença. que o ESPLAR. organizacionais e econômicos. e pouco no político. o número de famílias praticando a agroecologia certamente seria menor. O ESPLAR se viu. pelo fato de pagar prêmios. a ADEC. que ficou muito no econômico e no organizacional.contudo. o ESPLAR ou a ADEC tornar-se-iam uns atravessadores a mais. o ESPLAR já pagou subsídios aos agricultores para incentivá-los a criar consórcios e compensar os riscos que comporta toda experimentação. numa estratégia pouco sustentável. “Os transgênicos são uma grande ameaça. ao concentrar-se nos aspectos técnicos. Mas são também criticáveis por representarem estímulos individuais e voláteis. Subsídios e prêmios individuais para atrair sócios ou capitalização coletiva do capital de giro? Na mesma linha. então. Mas sua chegada pode também ser vista como uma oportunidade para dar um salto qualitativo no trabalho do ESPLAR. que pode acabar com a nossa cadeia produtiva. Agroecologia e acesso a mercados 122 . Por exemplo. Sem eles. A ASSEMA lança mão de uma estratégia semelhante para incentivar a produção agroextrativista e a COPPALJ paga prêmios para seus sócios todo final de ano. compelido a emprestar esse capital para a ADEC. nunca conseguiu acumular reservas para formar seu capital de giro. que acabou junto com as reservas do ESPLAR. Subsídios e prêmios são importantes incentivos econômicos. Sem elas. distribuídos em detrimento de outras estratégias mais coletivas e sustentáveis.

tudo através de muita discussão. reconhece Francinaldo. tende a focalizar as atenções. Criou muita expectativa e tinha que funcionar” lembra Valdener. “Antes era a opressão os cooperados tinham princípios políticos. Do ponto de vista econômico.” Toinho. da ASSEMA.Capacitação política para combater a tendência à desmobilização “Antes. as pessoas estão desmobilizadas. Hoje ninguém mais faz isso. a COPPALJ não teria como se sustentar apenas com 156 sócios “conscientes”. “um esforço maior deve ser feito para aumentar o número de sócios conscientes. é o dinheiro? Quando a luta política arrefece. Os intercâmbios e a participação em eventos externos são também muito importantes. de quem compra amêndoas de babaçu. resta apenas a motivação pelo mercado? “Essa é uma das dificuldades que a ASSEMA enfrenta. não sabe bem o que motiva os sócios hoje em dia. Faziam dez quilômetros a pé para participar das reuniões sem receber um centavo. “Quando se criou a área de comercialização na ASSEMA.” Criar uma dinâmica de reequilíbrio permanente do econômico pelo político e pelo ético A dimensão econômica nova.”. a organização coletiva. Para Toinho. complexa e desafiadora. E hoje. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 123 . porém. ela precisa dos dois mil não sócios. a capacitação política ao associativismo. É nessa tensão permanente entre o político (a exigência de que os sócios sejam realmente comprometidos) e o econômico (o volume mínimo de amêndoa para que o negócio seja viável) que a COPPALJ vai crescendo lentamente. as pessoas falavam de uma só voz e pensavam mais no coletivo. só se falava da COPPALJ nas reuniões. gerente da COPPALJ. a incidência nas políticas públicas. na época das lutas.” Ao mesmo tempo. A nossa estratégia é a inserção consciente no projeto econômico.

A COPPALJ. “Andar juntos” significa criar uma dinâmica de reequilíbrio entre esses dois pólos. senão a cooperativa quebra... que não estão interessadas em saber se o óleo é orgânico ou não e. por vezes. A quebra da cooperativa seria pior e prejudicaria milhares de famílias agroextrativistas. econômicos e organizacionais. “Para a venda do óleo de babaçu não podemos escolher os clientes. para a COPPALJ. Vamos vender a quem for aparecer. do que politicos. Estamos agora com 30 toneladas armazenadas e sem capital de giro. a COPPALJ vende para fábricas de sabão comum.” No caso.Do lado da ADEC e do ESPLAR. Um deles é a inviabilização das conquistas econômicas. esse tipo de desequilíbrio representa um perigo: “É preciso o econômico e o político andar juntos. O mesmo aconteceu na Diaconia que. talvez. por razões éticas e políticas. Para Valdener. não comercializa o óleo de babaçu apenas no mercado justo e tem uma margem de manobra relativamente estreita em termos comerciais. Requer também certa habilidade e flexibilidade para não inviabilizar os negócios. Mas. Assim a ASSEMA já teve que “rever os ideais e discutir alguns posicionamentos: de quem aceitar recursos financeiros? A quem vender os produtos?” Depois de longas e. não sejam exatamente empresas amigas do meio ambiente. Agroecologia e acesso a mercados 124 . polêmicas discussões internas. O político pode travar o econômico A valorização da dimensão política tem limites. não quis receber o dinheiro da fundação de uma grande companhia de sementes e fertilizantes químicos. Discutir esse tipo de tensão até criar consenso na equipe leva tempo. diferentemente do ESPLAR. as discussões giram mais em torno de assuntos técnicos. no Ceará. a ASSEMA já recusou o dinheiro de grandes empresas. para apoiar as feiras no Rio Grande do Norte. no momento. é o possível. senão a cooperativa quebra”.

quer respostas rápidas – é preciso ter certo cuidado com o tempo que se leva em reuniões e discussões. Estas cantinas. ASSEMA ou Diaconia). ficou economicamente inviável.” Onde e para quem vender? Há controvérsias sobre onde e para quem vender a produção agroecológica.. não recebiam todas as mesmas quantidades de amêndoas das quebradeiras. do Projeto Um Milhão de Cisternas.A ASSEMA sabe muito bem o quanto a aplicação cega de princípios utópicos pode inviabilizar qualquer tipo de negócio. devido às dificuldades de comunicação dessas assessorias com as comunidades rurais e. por outro lado. da EMBRAPA. Em Choró. por um lado.. ideologicamente eqüitativo. não inviabilize a saída comercial em benefício dos agricultores. Mandava para todas a mesma quantidade de mercadoria a ser trocada por amêndoas. tratava todas as cantinas da mesma maneira. Na esfera não governamental. sobretudo. da EMATER. de resistir às pressões do mercado para preservar a democracia interna e a ética. dos consórcios do ESPLAR. o sistema. fazendo também com que isso. nem sempre de grande expressão e nem sempre bem administrados? Em supermercados. e estão tentando estabelecer uma imagem de empresa social e ambientalmente responsável? Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 125 . do Projeto Dom Helder. Em poucos meses. No início dos anos 90. a presidente do sindicato faz um retrato que dispensa comentários: “Em um só assentamento. Conviver com essa tensão é um dos papeis mais delicados das assessorias (ESPLAR. É uma reunião atrás da outra. que são freqüentados por todas as classes sociais. temos as reuniões do INCRA. às agendas superlotadas das lideranças. Nada fácil. quando se quer lidar com o mercado – que. muitas vezes. Em lojas mais sofisticadas ou circuitos especializados freqüentados por “consumidores conscientes” com melhores condições econômicas? Em espaços militantes. Trata-se. porém. para respeitar regras igualitárias.

que deixou de se beneficiar com o valor da consignação e com a diversificação dos produtos. porque é muito importante do ponto de vista político. mas podem sumir das prateleiras durante meses. tanto na experiência cearense como na maranhense.Os militantes da economia solidária têm nítida preferência pela economia local e pelos mercados não elitizados. organizações defendendo seus próprios interesses econômicos ou simplesmente desorganização. Por outro lado. Talvez não seja o ideal. são sucessos de venda. Radicalizar significaria ficar sem ter a quem vender. as lojas da economia solidária podem não ser tão solidárias assim. também não são acessíveis a todos. Mas os técnicos da ASSEMA e do ESPLAR sabem que a comercialização exige flexibilizar certos princípios em benefício dos agricultores familiares. Afinal. uma das poucas agências que trabalha com cadeias produtivas. Sobretudo. escolheu trabalhar Agroecologia e acesso a mercados 126 . a Embaixada do Babaçu Livre já deveria ter encerrado suas atividades há muito tempo. Por outro lado. que tem contribuído fortemente para viabilizar o trabalho agroecológico de base. sem serem da ASSEMA. retirou todos seus produtos da Embaixada do Babaçu. O ESPLAR é a exceção que confirma a regra. as lojas de economia solidária do Nordeste raramente conseguem sustentar-se com suas vendas. consumo de energia e salário da atendente. Uma pergunta paradoxal: quem vai bancar a comercialização? Pelos resultados econômicos e pelo desempenho organizacional da associação que a dirige. Estima-se sortudo porque o ICCO. é em razão de suas outras funções. é o comércio justo internacional. Há também o caso de produtos como a castanha de caju que. e não o mercado local. as Ongs falam bastante da dificuldade de achar quem financie projetos de comercialização. Além do mais. Ali também encontramos jogos de poder. E os tênis orgânicos da Veja. Se não fecha. mas é o que é possível hoje. sem serem artigos de luxo. sem que haja notícias dos produtores. as receitas da Embaixada estão muito longe de cobrir os custos de aluguel. No caso presente. Quando o Movimento dos Sem Terra (MST) abriu a própria loja.

Se levarmos em conta os custos da assessoria pelas Ongs. os resultados das Ongs ficaram muito aquém do esperado. pode ser qualificado de fracasso. não temos certeza de que as três experiências de comercialização aqui focadas sejam capazes de sustentar-se apenas através do mercado. também. ser consideradas nas suas dimensões políticas. salvo raras exceções. associações de consumidores. por exemplo. sociais e ambientais. “a parte menos resolvida”. com o risco não desprezível de perda de autonomia política. o ESPLAR está numa situação financeira delicada. sem interferir na sua autonomia? Em outros termos quem. lojas “solidárias”. Resta. onde a história do cooperativismo é problemática. uma pergunta fundamental em termos de sustentabilidade: quem se importa com o papel dessas experiências de comercialização da agroecologia em suas múltiplas dimensões. Apesar da insistência nessa tecla. Outra fonte de renda seria a mobilização de recursos nacionais junto a doadores privados. associações. individuais ou institucionais. que o obrigou a deixar de subsidiar os consórcios e de fornecer capital de giro para a ADEC. Devem. então. a julgar pelo volume de recurso arrecadado. O que é compreensível. Este é um enorme desafio na região Nordeste. vai bancar iniciativas de comercialização desse tipo? Desafios e nós organizacionais Para poder agir coletivamente no âmbito técnico e político. O programa de mobilização de recursos da ASSEMA. no futuro. Como última opção. Voltaremos a esse assunto na Terceira Parte. a ponto de bancá-las no longo prazo. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 127 .precisamente com a cadeia do algodão. pois não são apenas empreendimentos econômicos. nos dizeres de alguns técnicos. Talvez seja por isso que a dimensão organizativa permanece. muitas Ongs brasileiras estão agora se voltando para fontes governamentais. os agricultores familiares e suas assessorias criaram novas formas organizacionais – cooperativas. Mesmo assim.

No fundo. quando quase todos os sócios saíram. Em 2001. no Ceará. A ADEC. houve litígios entre o GAM e a ADEC em torno do peso e da qualidade do algodão. a ADEC. Não fosse a teimosia de algumas pessoas. a adesão à ADEC passaria a ser obrigatória. no auge da crise. para ter direito à assistência técnica. já teria fechado há tempo: em 2001. a ADEC. Em 2007. ou em 2003. foi criada uma nova organização. tratava-se provavelmente de conflitos de poder gerados pela reconfiguração organizacional entre. Foi na adversidade que ambas aprenderam e reforçaram a sua estrutura. hemorragia de sócios: a COPPALJ sobreviveu em mares muito revoltos antes de conhecer um período de (relativa) calmaria. Eram não sócios que se beneficiavam com os apoios e não avançavam na transição agroecológica. dona das máquinas e porta de entrada para o mercado e. Com o comércio justo a ADEC e a COPPALJ estabilizaram a gestão e expandiram os negócios. com representantes da ADEC e dos sindicatos de cada município. desvio de dinheiro. A partir de então. Entre outros. Mas nem tudo ficou resolvido e velhos problemas de democracia interna permaneceram. que controla boa parte da nova base de produção e detém assim a chave da expansão. e um valor menor se a família deixasse de aplicar uma ou outra das técnicas preconizadas. novos problemas. A expansão dos empreendimentos trouxe novidades organizacionais e. se deu conta de que que havia muitos “passageiros clandestinos”. por exemplo. quando ficou com muitos sócios mas sem compradores e com uma safra inteira de algodão encalhada. logo na primeira safra administrada em comum. por outro.Uma história conturbada: os altos e baixos das cooperativas e associações Queda de braço com atravessadores. Um subsídio gradual foi instaurado: 204 reais por hectare de consórcio para quem aplicasse o conjunto das técnicas agroecológicas. também conheceu altos e baixos extremos até recentemente. junto. Quando a produção de algodão se estendeu de Tauá para os municípios vizinhos. a ADEC ficou paralisada durante dois anos por um empate eleitoral na eleição da diretoria. falência. dívidas. o GAM. por um lado. Esse episódio também pode ser visto como uma espécie de advertência para os Agroecologia e acesso a mercados 128 . que até então trabalhava com sócios e não sócios. o Grupo Agroecologia e Mercado (GAM).

assessores do ESPLAR, que precisariam adquirir – ou procurar fora de seu quadro – maiores qualificações no âmbito organizacional e relacional, de modo a poder ajudar a ADEC e o GAM a viver da melhor forma possível os inevitáveis momentos de conflito.

A ASSEMA: um ente organizacional à parte
O que é a ASSEMA? “Essa é uma boa pergunta, responde Francinaldo, secretário executivo dessa organização à parte. Fazemos questão de não nos encaixarmos em uma definição única. A ASSEMA é, ao mesmo tempo, uma rede regional de organizações da agricultura familiar, uma ONG que tem uma equipe técnica e assessora outros grupos e cooperativas, e um movimento social com forte capacidade de mobilização. Além disso, é nordestina e amazonense, ou talvez seja nem uma nem outra, a depender do ponto de vista. O Maranhão faz oficialmente parte da região Nordeste, mas é também contemplado por diversos programas beneficiando a região amazônica, por ser um estado onde se opera a transição entre Nordeste e Amazônia.“ A ASSEMA é também uma entidade onde técnicos, agricultores, diretores de cooperativas e quebradeiras, a base e as “representações” trabalham juntos de forma muito estreita, unidos por um mesmo compromisso político: “a permanência das famílias em condições dignas”. Sua capacidade de resistir, renovar-se e evoluir deve muito a essa convivência muito próxima dos mais diversos setores. Será, porém, que essa configuração muito singular e politicamente muito exigente está hoje engessando a comercialização? Fica difícil responder. O certo é que um estudo organizacional da ASSEMA, que tem uma história extremamente rica – com momentos de avaliação lúcida, demissões em massa, mudanças estruturais profundas, formas inéditas de democracia interna, critérios de desempenho para acabar com o corporativismo, técnicos e administrativos trabalhando conjuntamente – mereceria um capítulo à parte.

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A “cadeia social”, peça central, porém, frágil, da sustentabilidade Nas experiências estudadas, à cadeia produtiva mercantil (vinculada ao mercado) está associada uma “cadeia social” não mercantil (porém monetária) que possui mais ou menos a seguinte estrutura: Financiadores ONG Agricultor familiar Cooperativa/Associação de produtores Sindicato

Agências internacionais como a Oxfam, ICCO e Action Aid são os principais financiadores de projetos de comercialização da produção apresentados pelas Ongs, que ficam encarregadas de implementar e monitorar esses projetos. Com o apoio dessas Ongs, cooperativas ou associações cuidam mais diretamente do beneficiamento e da comercialização. O papel dos sindicatos de trabalhadores rurais é mais de “difundir o novo modelo agroecológico, organizar e conscientizar os agricultores através de intercâmbios, planejamentos, campanhas de mobilização, muitas visitas e muito diálogo nas comunidades e assentamentos.”, como explica Eronilton Buriti, o jovem diretor do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Quixadá, no Ceará. Eventualmente, outros parceiros vêm completar essa cadeia social. São, entre outros, pesquisadores, consultores autônomos ou agentes governamentais.. Assim, o Projeto Dom Helder Câmara (PDHC) do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) é um parceiro importante para o desenvolvimento da agroecologia no sertão nordestino. Por outro lado, pesquisadores da Universidade Federal do Ceará estão com o ESPLAR desde a primeira hora, quando em 1990, um entomologista participou, ao lado das famílias de agricultores, do grupo de pesquisa do algodão. Foram assim produzidas dissertações e, até, fórmulas de produtos à base de nim, usados como inseticidas naturais. Atualmente, nessa cadeia social, o primeiro elo, o financiador, está dando sinais de enfraquecimento, como visto acima (“Quem vai financiar a comercialização?”). Conseqüentemente, sem recursos financeiros suficientes, a assistência técnica pelas Ongs,

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elemento essencial nas primeiras etapas de consolidação da cadeia produtiva mercantil, não tem como acompanhar todos os projetos e, menos ainda, a expansão produtiva e comercial. O ideal, em termos de sustentabilidade, seria que o apoio das ONGs se concentrasse no fortalecimento das organizações – inclusive no trabalho em rede – e fosse diminuindo gradualmente. Sabemos que este é um processo longo e difícil, que requer uma forte incorporação de qualificações dentro das próprias ONGs de apoio. Outros elos da cadeia social também apresentam fraquezas. Podemos citar, entre outros, a alta rotatividade dos técnicos nas Ongs (é difícil a atração e permanência de técnicos experientes em municípios perdidos no meio do sertão, onde as opções de estudo e lazer são muito reduzidas); a dificuldade de achar sindicatos determinados em apoiar novas formas de produção (a maioria prefere continuar cuidando de aposentadorias); o enorme desafio político da democracia que tenta fazer dialogar várias categorias de atores (Ongs, cooperativas, sindicatos, agricultores, governos) e a subseqüente morosidade dos processos decisórios. A dependência em relação a um punhado de pessoas comprometidas No ESPLAR como na ASSEMA, dos primórdios até hoje, existe uma figura proeminente. Sem a teimosia de um Pedro Jorge, no Ceará, e de um Valdener, no Maranhão, ninguém sabe o que seria da ADEC e da COPPALJ hoje. Articular, mediar conflitos, sistematizar informações, procurar financiadores, explorar novos mercados, cuidar de contatos internacionais, animar os sócios nos momentos em que tudo parece perdido...: ao longo de mais de quinze anos Pedro Jorge e Valdener tornaram-se figuras incontornáveis. Mas o que fez a sua força representa também uma fraqueza dessas organizações, que ficaram dependentes de um assessor externo ímpar, com experiência única e que, por isso mesmo, tornouse muito difícil de ser substituído. Hoje, sua saída provavelmente não acabaria com a ADEC ou a COPPALJ (como seria o caso alguns anos atrás), mas provocaria um enorme retrocesso em termos de visão estratégica.

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e sua reserva de fortes lideranças. irmão. A estratégia que Agroecologia e acesso a mercados 132 . parece menos frágil que a ADEC. ao longo de mais de 30 anos. porque não é apenas assistência técnica.. Na ADEC. Melhor mesmo que seja no plural. jovens e não tão jovens. muito forte. a ASSEMA vai continuar por um bom tempo ainda a participar de feiras internacionais de agricultura biológica e de articulações de economia solidária. homens e mulheres..”. com relação à produção da COPPALJ: “Nós produzimos 300 toneladas de óleo este ano”. Na prática. ela continua precisando da ajuda organizacional da DIACONIA para diversificar e planejar a produção. no plural. Seria muito difícil achar outro parceiro como este. ONG x Cooperativa/associação: simbiose natural ou eterna dependência? Além da dependência em relação a indivíduos com determinadas personalidades.. A COPPALJ. direitos. essa declaração na primeira pessoa do plural. com sua diretoria de produtores engajados. sob pena de ficar na dependência de uma única pessoa. O estatuto da associação foi recentemente alterado nesse sentido.. meio ambiente. tem compromisso e experiência. como se não houvesse diferença entre assessor e assessorado. Da mesma forma. “mas não podemos depender dele. é assessoria de gênero. É sintoma dessa simbiose.. logo depois.Cooperativas e associações dependem dramaticamente de boas lideranças. porém..” Acrescenta. o próprio gerente reconhece a dependência institucional: ”Se o ESPLAR fosse desaparecer seria uma perda enorme. onde a figura do atual gerente é onipresente. Está bem resumido um dilema que. existe nas três experiências a mesma simbiose. não tem solução em curto prazo. Precisa também da sua capacidade de articulação como do seu apoio financeiro. provavelmente. A Diaconia que ajudou a criar a AAOEV em 2002. O ESPLAR é companheiro. de um técnico da ASSEMA. entre a organização que comercializa e a Ong que assessora. porém. tem a intenção de que esta associação se torne autônoma.

E reconhecer também que a dependência não é de mão única: o bom desempenho e o financiamento da Ong também dependem por boa parte da cooperativa/associação. encontraram dificuldades. No Rio Grande do Norte. Do lado da ADEC. Nos três casos. O caso de maior sucesso. e por jogos de poder que requerem mediações. na região de Tauá. a cooperativa/associação de agricultores familiares e a Ong de assessoria estão numa relação de simbiose tão grande que uma separação visando a “autonomia” da primeira é muito pouco provável a curto prazo. Em todos. o gerente que tanto preza a autonomia. a associação de consumidores Amigos da Feira começou bem. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 133 . Peça central da expansão dos consórcios agroecológicos. reconhece que o ESPLAR foi “essencial para achar o caminho da comercialização” e “gerar confiança junto às entidades internacionais do comércio justo”. cujo desaparecimento seria catastrófico para a entidade de assessoria. contribui para a partilha de conhecimentos. é o GAM. A difícil experimentação de novos arranjos econômicos Além dessas três cooperativas ou associações com as quais estão em simbiose. as três Ongs tentaram criar outros arranjos ligados à comercialização da produção.consiste em juntar um técnico e um agricultor ou uma quebradeira em todos os espaços políticos e econômicos. Mas murchou rapidamente até ficar praticamente inexistente hoje. E. visitando produtores nas comunidades e sensibilizando outras pessoas. mesmo assim bastante problemático. Além da assessoria técnica. talvez seja até pouco desejável? Será que o apoio de longo prazo é a regra nesse tipo de empreendimento? Se for o caso. melhor resignar-se e aceitar esse casamento do que procurar saídas por enquanto impossíveis. o ESPLAR também tem garantido durante vários anos o capital de giro da ADEC e continua atuando como mediador com o mundo acadêmico. quem sabe. mas reforça mais ainda a simbiose institucional. está atravessado por tensões em torno da qualidade e do peso do algodão. de comunicação e comercialização.

a cadeia Justa Trama. em São Luis. Além de dificuldades na comercialização das pecas de confecção e da fragilidade dos elos intermediários. representando todos os empreendimentos comerciais apoiados pela ASSEMA. sempre esteve em crise. da ONG para a cooperativa/associação. a produção de algodão orgânico pela ADEC também apresenta fragilidades. tanto política como economicamente. Por isso. Ao abrir a loja Embaixada do Babaçu. por exemplo – toda a cadeia fica comprometida.No Maranhão. Agroecologia e acesso a mercados 134 . A cadeia Justa Trama é emblemática no universo da economia solidária. A equipe do ESPLAR a vê como uma organização importante. o objetivo dessa cooperativa era ganhar independência em relação à ASSEMA. de longo prazo. sem reuniões regulares. Se falhar – em razão de adversidades climáticas. por ter produzido as sacolas de algodão para o Fórum Social Mundial de Porto Alegre. Com efeito. Esses exemplos mostraram que as Ongs de assessoria estão ainda engatinhando nesse novo patamar. está em crise. agrupamento comunitário ou territorial. sem decisões nem avaliações. é um elemento essencial para a sustentabilidade da comercialização dos produtos da agroecologia. a expansão da produção de algodão para outros estados do Nordeste é vital para a Justa Trama. porém frágil. ultrapassar o nível de uma única organização comercial para chegar à cadeia. Ao mesmo tempo. parece ser uma etapa incontornável na busca do desenvolvimento sustentável. a mais nova cooperativa apoiada pela ASSEMA decolou efetivamente. rede. a ADEC é o único produtor. porém. Melhor dizendo. a Cooperativa Babaçu Livre – visa ultrapassar o nível da cooperativa de produção e criar novos arranjos econômicos para trabalhar na articulação de várias organizações. a cooperativa Babaçu Livre e seus 22 sócios. mas o futuro da cooperativa Babaçu Livre é muito mais incerto. capazes de debilitar o conjunto da cadeia. já vimos que o apoio continuado. Assessoria permanente para ultrapassar o nível organizacional A maioria das tentativas de apoio citadas acima – o GAM. Por outro lado. É provável que a loja sobreviva por ser uma importante vitrine política para a ASSEMA. Sem cotas-partes. Ao cabo de quatro anos de financiamento da loja pela OXFAM é preciso repensar a estratégia. “com problemas estruturais”.

coordenadora da Incubadora de Cooperativas Populares. e assim por diante. com a vida comunitária. da Universidade Federal Rural de Pernambuco. o processo é muito mais lento e resolvemos não desincubar mais. Trabalhamos o desenvolvimento local. a INCUBACOOP: “Mudamos totalmente a nossa abordagem. AAOEV ou COPPALJ) para o nível comunitário ou territorial supõe certamente esse mesmo tipo de apoio permanente. Antes. sem prazo para terminar.” Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 135 . havia um cronograma de préincubação. o trabalho de proximidade. Desse jeito. Pelo menos essa foi a conclusão a que chegou Ana Maria Dubeux. Com as primeiras experiências vimos que. incubação e desincubação dos grupos. ao longo de dois a cinco anos no máximo. era preciso trabalhar todas as outras – em particular. passa para outro patamar. além das dimensões organizacionais e econômicas.Passar do nível organizacional (ADEC. Quando um grupo ou uma cooperativa atinge certo patamar. A perspectiva agora é de articulação entre grupos: os mais avançados servem de multiplicadores para os outros.

“80% das mulheres trabalham no campo sem remuneração”83. No Brasil. Outro elemento característico dessa cultura tradicional é a nítida divisão sexual do trabalho. água. Mesmo assim. frutas. a mulher tinha “grande dificuldade em obter a titularidade da terra”. buscando melhores oportunidades de trabalho e estudo”.. Felipe Jalfim. do quintal (hortaliças. As mulheres têm pouca voz nas tomadas de decisão em geral.. quando foi criado um mecanismo facilitando a obtenção do título. ressalta a força da cultura patriarcal no semi-árido nordestino.. manejo dos pequenos animais) e da comercialização dos produtos na comunidade e na feira. os cultivos e seus respectivos processos de comercialização”. Por sua vez.). até pouco tempo atrás. plantas medicinais. em particular com respeito à comercialização da produção. da Universidade Federal Fluminense.Gênero e Mercado O reconhecimento ainda limitado das mulheres na agricultura familiar nordestina Um estudo de Hildete Pereira. crianças. revela a “invisibilidade do trabalho feminino no meio rural”.. Melhorou em 2003. Dados como estes ainda são raros. com as mulheres cuidando mais da casa (trabalhos domésticos. Os homens “ficam responsáveis pelos animais maiores. no seu estudo sobre a criação de galinhas pelas mulheres. conseqüência do “êxodo das mulheres para as cidades.) não apresenta a diferença entre as dinâmicas femininas e masculinas”. Agroecologia e acesso a mercados 136 . Outra constatação do estudo é a masculinização do meio rural. Também. uma vez que “falta um olhar feminista para desvelar o papel da mulher no meio rural” e “grande parte das estatísticas (.

presas na jaula da cultura patriarcal. Na Diaconia onde “o olhar de gênero é recente”. de modo mais amplo. dos grupos produtivos de mulheres e dos grupos de mulheres em geral. nos grupos produtivos e nas organizações de mulheres A grosso modo. então. não só a qualidade de vida da família está comprometida. as três Ongs aqui focadas abordam o gênero de três maneiras: através da família. sem relações mais equilibradas e mais justas. Gênero na família. não lhes cabendo. particularmente para certos trabalhos entre os mais penosos. sobretudo “no âmbito familiar” e versa sobre “os direitos da mulher. É feito “em conjunto.” Trata-se. do homem e dos filhos”. como também a produção e a comercialização. as relações de gênero continuam muito desequilibradas no meio rural brasileiro. diferentemente de certas vertentes do movimento feminista. que trabalham sem a presença dos homens. que a Oxfam sempre considerou central nos projetos de desenvolvimento. porém. correm o risco de estagnar.” Em síntese.” A Diaconia também atua junto a grupos de mulheres que produzem e comercializam hortaliças na feira. a decisão sobre o que. O que Jalfim conclui na sua análise da criação de galinhas vale certamente para outras atividades econômicas: “Os avanços nesse âmbito dependem de processos que contribuam à promoção de mudanças favoráveis do poder das mulheres. Ora. em particular no interior do Nordeste. de entender como as Ongs e outras organizações contribuem para o “empoderamento” das mulheres.“as mulheres contribuem com sua mão-de-obra em diversas fases do cultivo. o trabalho ocorre. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 137 . Ou. como e onde cultivar. de que forma elas trabalham a “questão de gênero”. como a colheita do feijão.

a farmácia viva. dessa forma. A segunda linha trata especificamente da geração de renda.. política e produção andam conjuntamente. preservação ambiental ou renda familiar.. com um trabalho de organização política. por sua vez. onde organização. faz a ponte entre política. com pequenos empréstimos (o “Banco da Mulher”) ou fundos rotativos onde.). O Programa de Organização da Mulher Quebradeira (POM) declina-se em três linhas. Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais. A primeira é o apoio à organização de grupos produtivos informais e à sua inserção em espaços políticos (associações. dando preferência ao empoderamento das mulheres. sindicatos. Agroecologia e acesso a mercados 138 .O ESPLAR.. Na terceira linha de trabalho. a produção de essências. Movimento Interestadual das Quebradeiras de Côco Babaçu. é a mulher que fica responsável pelo projeto de avicultura.). o chamado “grupo de estudo das quebradeiras”. horta. das quais 50 representam núcleos produtivos (a fábrica de sabonetes. com os homens. Formou-se.” Duas organizações de mulheres são particularmente importantes: o MIQCB. de modo a também favorecer a participação dos homens. composta por 120 mulheres de dois municípios84. majoritariamente composto por mulheres jovens que se reúnem regularmente em um fórum regional.” Assessora também grupos produtivos de mulheres que criam caprinos. com estratégias mais sofisticadas. cuidam de quintais produtivos ou participam de consórcios coletivos (e não familiares) de algodão. carpinocultura e outros empreendimentos O aspecto político é embutido nos critérios de seleção: para pedir um crédito é preciso participar ativamente de uma organização de mulheres. A ASSEMA tem um programa inteiramente dedicado ao gênero. agroecologia e gênero. Aqui também “o gênero é concebido através da família. mesmo que seja a família toda que se beneficie. A AMTR se reúne a cada dois meses para discutir cidadania.. e a AMTR. o foco é a capacitação: especialistas em saúde ou direitos da mulher vão debater nas comunidades. representação políticas das quebradeiras de vários estados.

talvez haja uma maior concentração ainda de lideranças femininas. das responsabilidades e das decisões pouco evoluiu. no Sertão. Dentro da família. no Ceará. também ajudou na Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 139 . as presidentes dos sindicatos de trabalhadores rurais coordenam o trabalho com os consórcios de algodão. de casos em que a mulher é chefe de família. como também a DIACONIA e o ESPLAR. adotaram um sistema de paridade entre homens e mulheres no seu quadro de pessoal. Nas áreas de atuação das três ONGs.” constata Valdener. no Maranhão. enfatiza Adriana. Em Canindé e Choró. está firmado como força política. os ganhos também têm sido lentos. e o comportamento dos homens não mudou muito. “O MIQCB85. Em Lucrécia. que passou pelos programas de formação da ASSEMA. a divisão do trabalho. as quebradeiras sempre tiveram papel de destaque. há muitos grupos de mulheres e elas têm forte presença nas associações. perto de Umarizal. que são regiões com tradição de mobilização política e social. responsável pelo tema de gênero no ESPLAR. não é mais uma raridade achar uma mulher presidente de associação ou de sindicato de trabalhador rural. A própria ASSEMA. Hoje. A ASSEMA atuou como uma espécie de incubadora de lideranças. No campo econômico. A cota de 30% de mulheres. Na região do Médio Mearim. tanto masculinas como femininas. porém ganhos econômicos limitados para as mulheres Um nítido empoderamento político Os avanços mais nítidos em termos de gênero se deram no campo político. surgiu de um grupo de estudo na ASSEMA. também é uma liderança política conhecida.Maior força política. no Rio Grande do Norte. adotada pelos sindicatos. atual presidente da COPPALJ. Hoje. “São duas lideranças que se destacam”. Ivete Ramos Silva. que cobre quatro estados. e de famílias onde a mulher comercializa os produtos na feira. apesar da presença cada vez maior de grupos de mulheres que se organizam para produzir e comercializar.

a quebradeira é reconhecida: “Hoje. Na relação com o mercado.” analisa Adriana. Nos consórcios coletivos. vários dias. na medida em que elas têm de se afastar de suas famílias por algumas horas ou. segundo Silvianete. ela consegue discutir em eventos públicos. mulheres estão à frente de muitos empreendimentos produtivos. diz que produz – não apenas que ajuda na produção –.). contudo. Progressos ainda tímidos na família e na produção Nos consórcios de algodão no Ceará e nos babaçuais maranhenses. e incluí-las em processos de capacitação. para participar de reuniões.” Por outro lado.. a desigualdade de gênero se perpetua. que coordena o trabalho de gênero no ESPLAR. por sua vez. A não ser quando a mulher é chefe de família (são muitas nesta situação) e também para os pequenos animais e a amêndoa de babaçu. responsável pelo programa de mulheres na ASSEMA. nas três regiões pesquisadas houve um claro empoderamento político das mulheres. cultura valorizada. ainda é feita pelos homens. No Maranhão.. Mas elas não estão diretamente envolvidas na comercialização da sua produção e – talvez por isso mesmo? – Agroecologia e acesso a mercados 140 . encontros e formações. deu mais mobilidade às mulheres. discorda. reconhece seu próprio trabalho produtivo. permanecem tímidos quando comparados aos avanços políticos.progressão da liderança política feminina. na comercialização houve poucos avanços. que valem menos dinheiro. porém. se coloca. com rebatimento em outras instâncias (conselhos municipais. articulações regionais. “O trabalho de gênero nos consórcios familiares ainda está engatinhando. como a fábrica de sabonetes e a de mesocarpo de babaçu. Essa progressão. O algodão. até. O que vale mais – o gado. Ainda precisa mapear e vizibilizar seu trabalho. o plantio e a colheita. em alguns municípios. As mulheres são mãode-obra para a limpeza. onde tomam todas as decisões produtivas. é sempre comercializado pelos homens. progressos econômicos e nas relações familiares foram registrados. as mulheres são referência. Resumindo.” Mesmo assim. a safra grande – continua na mão dos homens.

a diretoria da AAOEV.não conseguiram um retorno econômico à altura dos seus esforços. especialmente do lado dos homens: “Alguns poucos homens acham interessante a participação das mulheres no mercado. a família economiza três horas de trabalho por dia. nas regiões onde ONGs investem no assunto “gênero”. Apesar dessa dedicação. do homem também. mudanças mais marcadas podem ser observadas nas famílias rurais a partir da introdução de sistemas de captação de água. Talvez 30% aceitam. os progressos nas relações familiares e na comercialização da produção permanecem tímidos. Em média. porém. quem toma as decisões é um conselho composto por homens e mulheres.” A própria formulação “os homens não acham interessante a participação das mulheres” diz muito a respeito do longo caminho a ser trilhado ainda. os avanços políticos parecem ter sido maiores. Nos grandes negócios com o óleo de babaçu. há mulheres cultivando hortas.“Nos três municípios onde a Diaconia trabalhou apoiando a comercialização da produção. conta hoje com 30% de mulheres. da Diaconiaa relação com o mercado estaria contribuindo para empoderar as mulheres. Uma pesquisa da Articulação no Semi-Árido (ASA) mostrou que a proliferação de cisternas. Por outro lado. graças ao Programa Um Milhão de Cisternas.” Olhando agora do lado da região de Umarizal. A cooperativa já teve duas mulheres como presidentes. teve um grande impacto na liberação do tempo da mulher e. Embora sua palavra valha muito. Mas a maioria ainda acha que o homem deve fazer isso. segundo Silvianete:“As mulheres estão muito presentes na COPPALJ. na época da estiagem. Não é tão comum ainda ter mulheres comercializando. e indícios de que as mulheres estão começando a se sentir importantes” De fato. mulheres nas feiras. em menor grau. a associação responsável pela produção e a comercialização. que a ASA anima. Resta que os progressos são lentos. percebe-se que. no Rio Grande do Norte. segundo Edjane. Olhando para o conjunto. a situação é mais equilibrada. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 141 .

por outro. nossas interlocutoras foram unânimes em responder que. Junto com os novos programas de educação. O programa Saúde da Família também trouxe novos papeis para as mulheres.. de modo geral. programa que certamente contribuiu bastante para os avanços nas relações de gênero. entre os quais figuram os novos programas sociais do Governo Lula.. “sim. E o aumento da sindicalização (para conseguir a aposentadoria rural). o mercado emancipa”.” Agroecologia e acesso a mercados 142 . na Oxfam GB. coordenador do Programa Meios de Vida Sustentáveis. aumentou a freqüência nas escolas noturnas. as mulheres se sentem importantes quando contribuem para gerar renda. À pergunta “O mercado contribui para emancipar as mulheres?” Edjane. da Diaconia. junto com a as cotas de 30% de mulheres nos sindicatos. quando comercializam estão dialogando fora da família. Omar Rocha. todo ano. O mercado emancipa as mulheres? Sim!.. Também.” Omar lembra também que o movimento de mulheres trabalhadoras rurais é forte no sertão e que. “O Programa Luz para Todos expandiu o acesso à televisão na zona rural. colocaram tantas condições para essa emancipação ocorrer de fato que é permitido duvidar da primeira resposta afirmativa. houve avanços nas áreas de atuação das três Ongs.. responde sem hesitação: “Sem dúvida.As razões dos avanços Se. a Marcha das Margaridas leva centenas de produtoras sertanejas e suas reivindicações para Brasília. reconhece a existência de outros possíveis fatores. levaram muitas mulheres para o espaço público. Por um lado. e não! Saber se o mercado contribui ou não para a emancipação (maior grau de liberdade) das mulheres não é tão óbvio quanto parece (ver o box abaixo). talvez nem todos sejam imputáveis às iniciativas da assessoria.

Adriana. acha que “Não adianta fazer um plano de negócio com mulheres caprinocultoras se essa realidade não muda. “O mercado emancipa e provoca mudança na estrutura familiar. A grande questão é a divisão sexual do trabalho doméstico e produtivo. O que está em jogo aqui é a divisão do trabalho na família. as mulheres vão ter que sair. do ESPLAR.” Ora. o trabalho da mulher só faz aumentar. e dinheiro dá poder. Quando a família vê que pode melhorar de vida. nota Edjane. por tabela. em caso de ruptura da relação de casal. dá segurança para a mulher que. ela faz as tarefas de casa antes de sair para comercializar ou discutir política” diz Adriana. os grupos de produção femininos empoderam as mulheres. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 143 . trabalha na roça. que avanços maiores na produção e na comercialização da produção agroecológica podem também ser muito lentos. senão. acrescentando as novas funções políticas que exigem a participação em um grande número de reuniões. Para Silvianete. no sertão nordestino. tem como se manter. Por isso. A mudança nas relações passa a ser um elemento importante para melhorar a qualidade de vida. É preciso discutir isso. “É dona de casa. vê no mercado “um espaço público onde é importante que as mulheres estejam”. Relações de gênero são relações de poder. da ASSEMA. O principal deles é a “tripla jornada” da mulher. O que significa. “Para estar no mercado. há uma abertura. e alguém vai ter que fazer as atividades de casa. mudar a realidade da relação de gênero representa um longo trabalho. E ter acesso ao mercado e ao dinheiro é um fator importante para a emancipação da mulher. e agora vem a comercialização da produção”. em vez de libertá-la. do ESPLAR.” Mas existem vários “porém”. Na verdade dever-se-ia falar em quádrupla jornada.

Uma delas consiste em trabalhar o aspecto organizacional. seja com grupos produtivos de mulheres. seja com grupos produtivos mistos. primeiro.. por outro lado. Agroecologia e acesso a mercados 144 . com impacto na comercialização da produção. Guérin propõe. dessa forma.) e a autogestão coletiva de problemas particulares”. que ultrapassa o estrito âmbito familiar..”.. e também o mercado e a sociedade civil e.. vista como verdadeiro dever. as autoridades públicas. incentiva a criação de “espaços intermediários” (nem da família. nem do Estado) para a “expressão e reivindicação das necessidades (. Guérin propõe uma saída original. em particular os cuidados para com pessoas dependentes.. associações e cooperativas que desejam contribuir para mudar as relações de gênero.) Administrar este bem público supõe.” Para promover a maior igualdade ente homens e mulheres. Seu raciocínio é o seguinte: “Se reconhecemos que a liberdade feminina tem o mesmo valor que a liberdade masculina. por um lado. a liberdade individual das mulheres tem sido sacrificada em prol da eficácia coletiva. “reconhecer que ações não utilitaristas participam ao bem estar individual e social”. Isabelle Guérin fala dessas obrigações familiares e nota que “em nome dessa responsabilidade. Ao tratar de “Economia solidária e relações de gênero86”. onde a participação da mulher está atualmente inexistente ou fraca. é um bem público. (. uma divisão das responsabilidades intrafamiliares. então precisamos também reconhecer que parte das obrigações familiares. Em segundo lugar. nem o Estado estão dando conta) e. no sentido de que beneficia o conjunto dos contribuintes.São pelo menos duas grandes frentes de trabalho para as Ongs.. “revalorizar práticas de reciprocidade e de cuidado do outro” como formas genuínas de ação econômica (de que nem o mercado. uma divisão de responsabilidades entre a família. A outra frente ajudaria a desatar o grande nó da divisão desigual das obrigações familiares (tarefas domésticas e cuidados com crianças e idosos).

“uma das poucas vozes a se levantar contra a unanimidade que se tornou a história de sucesso (..” Na entrevista que concedeu à Revista do Terceiro Setor em 20 de setembro de 2007. por exemplo. como se esse acesso fosse modificar as relações intrafamiliares.. fazendo tudo colar por onde passa. basicamente com o mesmo fim? E elas terão de continuar fazendo o trabalho doméstico. ela vincula “a escolha das mulheres como principal clientela do microcrédito” (75% a 100% nas experiências ao redor do mundo) à “feminização da pobreza” (70% dos pobres são mulheres conforme dados do PNUD).. No lançamento do modelo de microcrédito. Hedwige Peemans-Poulet tem palavras muito duras para com iniciativas como o Grameen Bank de Muhamad Yunus. que não resulta nem em remuneração.. em mãos das mulheres numa sociedade dominada pelo patriarcalismo.) com minha visão de feminista. o discurso era de que o acesso ao recurso monetário faria com que essas mulheres se tornassem independentes do poder patriarcal. Mas por trás desse argumento há uma questão fundamental: como as mulheres vão articular essa mudança de uma renda ´in natura´(normalmente elas antes produziam os alimentos para auto-consumo da família) a uma renda monetária.) do Prêmio Nobel da Paz de 2006. “(.” “O empowerment é uma dessas palavras-chave que crescem como uma bola de neve de significados. além agora de se preocupar com uma produção para vender no mercado externo. nem em produtos que podem ser trocados. Muhamad Yunus. Abaixo.” Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 146 . uma falsa idéia. dois trechos desta entrevista bombástica. vejo que a idéia de um “empréstimo mínimo” só poderia ir a um “objetivo mínimo”. Evidentemente.“A modificação das relações familiares através do microcrédito é evidentemente uma falsa idéia” Vale a pena prestar atenção às provocações da feminista belga Hedwige Peemans-Poulet.

TERCEIRA PARTE: além do local .

Êxodo e envelhecimento da população rural. Quais são. Para tanto. internacional – de comercialização da produção agroecológica. é essencial para a qualidade de vida das famílias beneficiadas pelos projetos. No mundo rural. os filhos dos militantes históricos têm inserção política tímida. o acesso aos mercados – orgânico. nacional. e sua motivação é diferente daquela que levou seus pais a lutar. Esse é o quadro desenhado por Didi. Mas o impacto desses modos alternativos de comercialização permanece marginal na economia municipal. Tem também importantes repercussões nas comunidades onde moram essas famílias. responsável pelo Programa de Juventude Rural da ASSEMA. as vias possíveis para ampliar o raio de ação além da família e da comunidade? As três Ongs deste estudo já são referências regionais. institucional. criando assim uma massa crítica de vivências bem sucedidas capazes de interessar os jovens. “Os pais lutaram para mudar a realidade e garantir certo “modo de vida”. O tempo das grandes lutas já passou. Outras organizações públicas ou privadas conhecem suas atividades e algumas as replicaram ou adaptaram à sua realidade. justo. então. local. A realidade dos municípios interioranos mudou muito nos últimos trinta anos. nacionais e internacionais. as três Ongs lançaram mão de estratégias de multiplicação e difusão. Que futuro para os jovens? O trabalho em direção à juventude rural é ao mesmo tempo indispensável e extremamente desafiante. Hoje. provocar novos experimentos e influenciar políticas públicas. profundas mudanças políticas e culturais. e é insignificante no contexto da economia regional – sem nem falar do conjunto da economia brasileira. de um lado. do outro: o futuro dos pequenos municípios nordestinos não parece nada promissor.” Agroecologia e acesso a mercados 147 . isso já não é tão forte.Ampliar o raio de ação além da família e da comunidade Nas três experiências.

A TV veicula outras coisas. um modo de viver atrativo. chegando ás vezes a desestimular os colegas”. via parabólica. afirma que “os jovens querem permanecer no campo. mas existe um problema real: a identidade de agricultor não é vista pelos jovens como algo interessante. As roupas são as mesmas no Rio de Janeiro e em Tauá. Aproveitando-se de políticas federais inovadoras como o PRONERA . muitas vezes associado a uma imagem de “atraso”. fábrica de sabonetes. particularmente no âmbito da educação. porém. apóia a organização de grupos. a ASSEMA conseguiu operar programas experimetais em todos os níveis: pré-escola. atinge mais de 600 jovens. Chega. “O êxodo não é tão catastrófico como alguns previam. e financia pequenas iniciativas produtivas. e de financiamentos privados. A maioria não quer permanecer no campo. escola-família de ensino fundamental. A situação é preocupante.Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária. representante da Diaconia em Umarizal. da Assema. Alguns desses jovens pretendem se formar para dar continuidade ao trabalho nas organizações – COPPALJ. do ESPLAR. fomenta discussões sobre assuntos como drogas. ensino médio e ensino superior de Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 148 .. ASSEMA. Nesse aspecto. educação.O Programa de Juventude. desde que tenham boas condições de vida. o trabalho da Assema é emblemático. gênero ou doenças sexualmente transmissíveis. Perguntam: 'o que é que vou ganhar com isso'. lazer e renda. Leonardo. mesmo que irreal. organizações comunitárias.. os jovens vão buscar educação.” Por enquanto. As lanhouses também. a questão não fica circunscrita à agricultura. diagnostica Marcus Vinícius. Outros não se preocupam muito com o bem-estar coletivo: “Há jovens que não estão muito interessados pelo político. renda e lazer na cidade e raramente voltam para o seu lugar de origem. e algumas linhas de ação estão aparecendo.” Ou seja. A escassez de políticas públicas para a juventude rural e a apatia dos governos municipais não ajudam.

à organização do beneficiamento. numa espécie de “expansão para dentro” que tem a ver com a experimentação de novas alternativas nas mesmas áreas produtivas. expressa quando delegações de organizações populares desejosas de reproduzir a experiência da COPALJ se deslumbram frente ao galpão e às máquinas da cooperativa: “Para replicar a nossa experiência. invisível. Antes de ilustrar essas duas vertentes da expansão. a fábrica não é só o que parece: um galpão com máquinas. todos sabem que. com professores da Universidade Federal do Maranhão dialogando com assentados e quebradeiras. sem a inclusão dos jovens. às relações com o mercado ou. Esses saberes dizem respeito à mobilização dos agricultores.qualidade. as experiências de comercialização da produção agroecológica se expandem de duas maneiras. Quando a Diaconia traz o consórcio de algodão do Ceará para o Rio Grande do Norte. secretário executivo da ASSEMA. Além disso. por trás da fábrica de óleo de babaçu.. comerciantes. um trabalho ambiental e social. Seja como produtores.” Agroecologia e acesso a mercados 149 . não está apenas importando sementes ou máquinas debulhadoras. administradores. existe toda uma organização. não há como sustentar os avanços na agroecologia. É preciso relembrar aqui a dupla face da tecnologia social: a face visível. relacional (o software). A primeira consiste em intensificar ou refinar o trabalho existente. A segunda é a difusão ou expansão em novas áreas. ainda. a outra. processual. conceitual. ESPLAR e Diaconia– já estão pensando na integração dos jovens nos empreendimentos cooperativos e associativos. fora do que já é considerado como sendo um trabalho consolidado. ao longo de mais de quinze anos de experiência. aos contatos com financiadores. organizacional. É esse tipo de preocupação que Francinaldo. cabe uma indagação: “Expandir o que?”. Intensificação e expansão das iniciativas agroecológicas Para ganhar legitimidade. sólida (o hardware). as três Ongs – ASSEMA. pesquisadores ou multiplicadores. é preciso enxergar que. Está também levando em conta um conjunto de saberes adquiridos pelo ESPLAR e pela ADEC.

Nesse mesmo sentido. podemos voltar ao primeiro tipo de expansão da experiência. acrescentando uma nova forrageira. Poderia também aumentar a densidade dos cultivos nos consórcios. Um dos principais empecilhos para tanto é o fato de que a qualidade do trabalho das Ongs depende muito da qualidade da assistência técnica junto aos agricultores familiares. avançar na transformação e comercialização desses dois produtos. mas trabalhando cada vez mais com consumidores conscientes e buscando melhorar a renda dos produtores”. paralelamente. Há tímidos sinais de Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 150 . é o mesmo volume. sem sair dos atuais limites institucionais. terminando no final de 2007. intensificando o que já foi feito. o ESPLAR pretende intensificar o trabalho com o gergelim e o nim e. consorciando o babaçu com fruteiras. nem das áreas de consórcio já cultivadas. preenchendo espaços desocupados e. a fim de aumentar o percentual de vendas para o comércio justo: “Não é aumentar a produção. na ASSEMA. 13 dos 25 membros da equipe eram bancados pelos recursos federais do ATES. Em meados de 2007. por exemplo. sobretudo. A assistência técnica depende de financiamentos. precisa Valdener. e retraimento quando as verbas acabam. e um maior cuidado com a segurança alimentar através de hortas e quintais produtivos.Intensificar o trabalho Esclarecido esse ponto. está incentivando a diversificação da produção. Está também procurando novos mercados para a produção de óleo da COPPALJ. experimentando novas alternativas de produção agroecológica Por exemplo. a expansão para novas áreas sempre foi complicada: “A tendência é concentrar na mesma área ou aproveitar programas como o ATES87 para trabalhar em novas áreas. a ASSEMA. para dentro dos limites institucionais e geográficos existentes.” Resultado: expansão da equipe e do trabalho para novas áreas quando chegam novas verbas. Essa é a razão pela qual. Expandir além dos limites atuais O segundo tipo de expansão das experiências agroecológicas se dá para fora dos limites atuais.

Tanto para a produção como para a comercialização. as famílias individualmente) e estão começando a formar jovens como agentes multiplicadores de agroecologia. Temos uma parceria forte com eles para o algodão. “São pessoas que já trabalharam em Ongs e fizeram o concurso da EMATER. da Diaconia. “Nos anos 80. o órgão federal encarregado da extensão rural. os técnicos da Diaconia passaram a acompanhar. conta Joseilton. Hoje. notou que. métodos de expansão que já se tornaram clássicos continuam sendo usados. pois “há muita gente fechada ainda”. Pernas que o sucesso. Por isso. as visitas a agricultoresexperimentadores bem sucedidos ou. o número de famílias sensibilizadas e produzindo é muito grande. vai expandindo para outros elementos.” Várias estratégias de expansão em nível local Como fazer então? As famílias mais experientes estão se tornando multiplicadores para outras famílias menos experientes. Élson. grupos de famílias (e. Agroecologia e acesso a mercados 151 .. O intercâmbio entre comunidades.. espalhadas em diversas comunidades no território. torna cada vez mais curtas.” Depois. notou a entrada de pessoas novas nos últimos anos. técnico da Diaconia. a Diaconia começou a fazer algo em que ninguém acreditava – recuperar solos. a Diaconia conta. paradoxalmente. por exemplo. ainda.” Não dá. com suas próprias pernas para difundir a agroecologia na região. os fundos rotativos são elementos essenciais de uma estratégia de expansão a partir do que poderia ser chamado de “ilhas agroecológicas”.. diversificar a produção. mas “sempre começa com um elemento. cada vez mais. raramente uma família se sensibiliza por um sistema completo ou um conjunto de tecnologias. antes de tudo.. a Diaconia não dá mais conta do acompanhamento de todas. porém. Élson. uma barragem subterrânea. Também. cada vez menos.mudança na Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (EMATER). No Rio Grande do Norte. numa lógica de descentralização da assistência técnica. para se empolgar demais.

e fazer com que o poder público se sensibilize e passe a multiplicar o trabalho. como o intercâmbio e seu insubstituível cara-a. de modo a constituir uma referência mais “compacta” em um número limitado de comunidades. onde também entrou gente nova: “Na EMBRAPA. vale notar que as Ongs nordestinas já têm uma longa história de criação de redes regionais (água. vinte ou trinta técnicos que estão elaborando um marco referencial para a pesquisa em agroecologia. do ESPLAR destaca ainda novas possibilidades de parcerias com pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA). duas grandes opções estratégicas: atuar mais no sentido do desenvolvimento local. intensificando as atividades no mesmo território. o Caatinga (PE).. a Diaconia (RN e PE). uma reunião da Organic Exchange88 está prevista em Tauá. Para sustentar seu trabalho e ampliar seu raio de ação. A equipe da Diaconia também elabora um programa semanal difundido por uma emissora de rádio local que alcança mais de 50 municípios. Em outra frente. mel. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 152 .cara. as Ongs continuam contando com métodos artesanais. Ela vai poder se beneficiar das conexões internacionais do ESPLAR no âmbito do comércio justo. em pleno sertão cearense! Pedro Jorge. o que deve significar novos recursos orçamentários para o tema.Existem. uma nova articulação está nascendo entre o ESPLAR (CE). então. Por exemplo.) bem sucedidas. A mídia desempenha um papel importante. ir semeando experiências em um número cada vez maior de comunidades e municípios.” Todos os avanços citados acima são tímidos. ou. a AS-PTA e a Arribaçã (PB). No caso da comercialização do algodão.. ao mesmo tempo em que procuram atuar na arena política. sementes. As três experiências já foram assunto de programas de televisão e matérias de jornais. então.

Conquistas políticas
Como já visto anteriormente, as três experiências de comercialização da agricultura familiar aproveitaram-se de uma sólida base política pré-existente ao seu nascimento. Por outro lado, o viés político é inerente ao trabalho das Ongs, cooperativas e associações, que buscam cativar a atenção dos governantes, desenvolver parcerias com poderes públicos e influenciar políticas públicas através de redes, fóruns, articulações, grupos de reflexão e de pressão, em todos os níveis, do municipal ao internacional. O contexto desse trabalho político comporta fatores favoráveis e desfavoráveis. De um lado, a força da sociedade civil (tecido associativo, sindicatos, “capital social”...); do outro, a debilidade generalizada do poder municipal no interior nordestino. De um lado, políticas nacionais que favorecem a comercialização da produção agroecológica (o PAA, a compra direta); do outro, iniciativas federais como a política de incentivo à produção de biodiesel, muito controvertidas e que pessoas como Marcus Vinicius, do ESPLAR, enxergam como “desestruturadoras da agroecologia e da agrobiodiversidade”. Além do mais, contar com o Estado para apoiar e expandir iniciativas de comercialização é problemático por, pelo menos, duas razões. A primeira é de que os governos são voláteis e não oferecem garantia de continuidade administrativa. O outro desafio é fazer com que os governantes, naturalmente apressados e ávidos de resultados em grande escala, entendam que, para implantar novos esquemas de comercialização, é preciso começar numa pequena escala e ter paciência. Pedro Jorge lembra que “o ESPLAR e a ADEC quebraram a cabeça durante mais de dez anos até conseguir se estruturar e abrir mercados interessantes.” O nível municipal é certamente, ao mesmo tempo, o mais importante de todos e o menos receptivo à ação política das Ongs. Há, contudo, exceções. No Rio Grande do Norte, a retomada do plantio de algodão está gerando uma mobilização inédita: “Pela primeira vez, conseguimos o apoio concreto do poder local”, comemora Joseílton, da Diaconia. Fora esse caso excepcional, um dos maiores feitos até então foi emplacar, em troca de apoio eleitoral, secretários municipais de agricultura egressos, seja do sindicato (no Rio Grande do Norte), seja da cooperativa (no

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Maranhão). Outra façanha da ASSEMA foi conseguir a votação de leis municipais protegendo os babaçuais e dando acesso às propriedades privadas para as quebradeiras. Com o apoio de um deputado federal, a ASSEMA está agora constituindo um lobby para a votação de uma lei federal nesse mesmo sentido. A Diaconia tornou-se,também, uma força política na região de Umarizal. Nesse município, o Fórum de Políticas Públicas, coordenado pela sociedade civil, consegue elaborar projetos de boa qualidade e, dessa forma, captar financiamentos estaduais e federais vultuosos, que beneficiam toda a região. Em 2008, o Fórum vai priorizar os recursos hídricos. Quinze barragens sucessivas visando a perenização de cinqüenta quilômetros do Rio Umari estão previstas. Esse projeto tornou-se a menina dos olhos da Diaconia, que ajuda a costurar parcerias intermunicipais para a formação de um comitê de bacia – tarefa delicada que supõe, entre outras coisas, o diálogo com os plantadores de fumo do Rio Umari, financiados pela empresa Souza Cruz. A Diaconia pode também se valer de um bom relacionamento com o governo estadual, uma parceria que rendeu mais de cem barragens subterrâneas em todo o Rio grande do Norte, com o apoio técnico da EMATER. Outra interessante parceria da Diaconia é com o projeto federal Dom Helder Câmara, que reúne em seu Comitê Territorial atores importantes de diversos municípios, a fim de discutir e apoiar projetos de produção agroecológica e comercialização. A ASSEMA, por sua vez, tem sido uma verdadeira incubadora de lideranças, graças ao esforço de capacitação política embutida no projeto cooperativista. A formação ao associativismo, às políticas públicas, à ecologia e à organização coletiva, junto com a participação em muitos eventos externos, acabou gerando uma massa crítica de pessoas conscientes de seus direitos e preparadas para reivindicá-los. Resultado: a ASSEMA pôde criar um fórum regional que consegue ter peso nas decisões políticas numa área abrangendo sete municípios. Na hora de reivindicar a construção de uma estrada rural junto ao INCRA, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, ou de mobilizar recursos estaduais para a fábrica de sabonetes, não são a representação do assentamento ou a diretoria da fábrica que negociam e, sim, o fórum no seu conjunto. O mesmo princípio vale para o Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB).

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Por fim, vale lembrar que as três Ongs, bem como as associações e cooperativas que assessoram, são membros de inúmeras redes, fóruns e articulações. Não podemos citar aqui todas eles. Com o advento das redes virtuais, multiplicaram-se sobremaneira. Entre as mais importantes, duas são diretamente vinculadas à produção e comercialização agroecológicas: a ANA (Articulação Nacional de Agroecologia) e o FBES (Fórum Brasileiro de Economia Solidária). Mais até do que pensar na própria sobrevivência, as experiências e as organizações que as originaram deveriam procurar transcender a si próprias. O essencial é perpetuar e multiplicar as experiências no espaço – ampliar o raio de ação para outros grupos e organizações, alargar o círculo de influência além da escala familiar e comunitária – e no tempo – através da inclusão da juventude. Introduzir novas tecnologias sociais, experimentar, consolidar e difundi-las localmente, e influenciar políticas públicas são os papéis das Ongs. Salvo exceções89, quem pode e deve atuar em maior escala é o Estado. Para a comercialização da produção agroecológica, que está ainda engatinhando, novas políticas públicas, levando em conta a lógica territorial, estão nascendo no Brasil, num encontro inédito entre agricultura familiar, agroecologia e economia solidária.

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Novas políticas públicas na confluência da agricultura familiar, da agroecologia e da economia solidária.
Pelo quadro desenhado até agora, as experiências de comercialização da produção agroecológica no interior do Nordeste permanecem dispersas e carentes de maior apoio para sua consolidação e expansão. A recente aproximação entre agricultura familiar, agroecologia e economia solidária na forma de políticas públicas de comercialização, oferece pistas promissoras. Não podemos aferir a sua eficiência visto que sua implementação mal está engatinhando (na região Sul do Brasil). Estão aqui registradas como projetos inovadores, ao lado de outras sugestões de apoio à comercialização, colhidas nas entrevistas e na literatura.

Agroecologia e economia solidária: objetivos comuns e estratégias complementares
A proximidade da economia solidária e da agroecologia vista como projeto político Se quem pratica a agroecologia vê nela muito mais do que técnicas de manejo ecológico dos recursos naturais, alguns estudiosos vão muito mais longe e chegam a considerá-la como um projeto completo, político, econômico, social e cultural, de transformação da sociedade. Eros Marion Mussol considera assim que o futuro da agricultura familiar é “praticamente incompatível com o modelo de crescimento econômico atual”90 e “passa por uma revisão profunda do paradigma de desenvolvimento que, sem dúvidas, indica as dimensões da agroecologia e da sustentabilidade como fatores fundamentais de viabilização de um novo modelo agrário e de sociedade, ambientalmente são e com justiça social.” Da mesma forma, para o sociólogo espanhol Eduardo Sevilla Guzmán, a agroecologia visa “estabelecer formas de produção e consumo que contribuam para enfrentar a destruição ecológica e social atualmente gerada pelo neoliberalismo”91. A base para tanto seriam as sociedades rurais na sua dimensão local, pois

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“[é na dimensão local que] se encontram os sistemas de conhecimentos (local, camponês e indígena), portadores do potencial endógeno que permite potencializar a diversidade ecológica e sociocultural. Tal diversidade é o ponto de partida de suas agriculturas alternativas, a partir das quais pretende-se desenhar de forma participativa métodos endógenos de melhoria sócio-econômica para estabelecer dinâmicas de transformação rumo a sociedades sustentáveis.” Guzmán propõe uma verdadeira metodologia de transformação social a partir da base agroecológica camponesa. Essa transformação seria o “ponto culminante” de um processo gradual incluindo mudanças no âmbito produtivo (agricultura agroecológica), socioeconômico (controle da circulação de bens e dos setores não agrários em nível local) e político (mudanças nas estruturas de poder). Sua estratégia baseia-se na valorização dos conhecimentos locais, e no desenho conjunto agricultor-pesquisador de “ações produtivas e de mudança social”. Repousa, também, sobre redes de intercâmbio entre agricultores, bem como na criação de mercados alternativos e de novas estruturas organizativas, “numa dinâmica vinculada aos movimentos sociais rurais”. A dificuldade de controlar o conjunto da cadeia: radicalidade política e realidade econômica. Desenvolvimento local, luta contra o neoliberalismo, participação, mercados alternativos, intercâmbios, redes: o discurso da vertente mais política da agroecologia é acolhido de forma positiva pelos adeptos da economia solidária. Há, neste caso, muita proximidade entre a agroecologia e a economia solidária que, segundo Cassarino, têm “objetivos comuns”, “estratégias complementares”, e um grande desafio, que é “a articulação do público de agricultores ecologistas com as comunidades urbanas, de forma a conciliar a necessidade de comercialização dos agricultores com as iniciativas de consumo solidário dos trabalhadores urbanos”92. Vale parar um pouco neste ponto para tecer algumas reflexões críticas. A primeira é de que, até então, além das fragilidades em cada uma das duas pontas (urbana e rural), as iniciativas de comercialização no molde descrito por Cassarino permanecem extremamente

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raras. Esta é a constatação feita por Daniel Tygel, pesquisador e militante da economia solidária, ao concluir o seu estudo sobre comercialização da produção agroecológica no Brasil. (Ver o resumo do conjunto das conclusões no box abaixo) “Chama a atenção a pequena quantidade de iniciativas em que o consumidor tem papel ativo: a idéia do consumidor como “cliente” ainda é muito forte, o que traz uma assimetria que persiste mesmo em iniciativas de comércio direto”93. Tygel lamenta esta situação: “A questão da conscientização do consumidor aponta para a necessidade e importância de ações junto aos consumidores buscando ressaltar os valores éticos, sociais e ambientais ligados ao ato de comprar.” Significativamente, Tygel dedica seis das nove conclusões do seu estudo ao papel do consumidor em “sistemas solidários de comercialização” e “cadeias solidárias”, apelando para a diminuição da “assimetria entre quem consome e quem produz”. Reconhece, ao mesmo tempo, que realizações como as “redes de distribuição solidárias, exigiriam uma complexificação (bastante exigente) das entidades interessadas em buscar transformações sociais (isto envolve não só redes de comunicação, mas também de transporte – distribuição – e venda).” Acreditamos que a razão dessa insistência no estreitamento da relação com o consumidor seja a seguinte: sem esse fechamento da cadeia, que passaria a incluir um consumidor consciente e solidário, a economia solidária está fadada a permanecer encravada ou pelo menos fortemente vinculada ao mercado capitalista. Como bem explica Lisboa: “Preços perfeitamente justos só são possíveis para transações planificadas e coordenadas dentro de redes formadas entre empresas [ou produtores] e clubes de consumidores associados (...) Mas o intercâmbio entre atores organizados é muito diferente de uma situação onde os produtos oriundos da economia solidária se constituem em simples mercadorias destinadas ao mercado”94

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Mais ainda: um dos objetivos da ASSEMA é ampliar as vendas para o comércio justo internacional. exigência de que não tenham ambição de lucro. Por um bom tempo.Este último caso é o de todas as experiências aqui descritas. mas as regras do mercado capitalista permanecem vigentes. concorrer nos mercados) e “instituir outra economia” (criar redes autônomas de construção conjunta da oferta e da demanda). aumentar o valor agregado. A possibilidade de expansão em grande escala da segunda ainda está para ser demonstrada. por hora.” A rigor. alimentando uma elitização dos produtos agroecológicos e um acirramento da assimetria entre quem consome e quem produz. terá que fechar a cooperativa.) do que os consumidores. a primeira conclusão do estudo de Tygel deve permanecer vigente: “O foco das entidades de produtores ou de assessoria é garantir uma vida digna ao pequeno agricultor familiar. seja com feiras. não tendo a economia solidária necessariamente como fim. Há nelas certa proteção contra a concorrência. Para a ASSEMA. no Sul do Brasil. Isso não significa que a multiplicação de iniciativas como a sempre citada Rede Ecovida95. é a primeira opção que. Há de se saber. que saibam se organizar e trabalhar coletivamente. que é de difícil realização. Entre “disputar com o capital”96 (melhorar a qualidade. também. há o perigo de se trabalhar muito mais pressionando os produtores (selos verticalizados. etc. por exemplo. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 159 . Por um bom tempo ainda. a concepção mais radical da economia solidária vai permanecer como “apenas mais uma das vias possíveis”. porém.“ O pessoal da ASSEMA (que é membro do Fórum Brasileiro de Economia Solidária) sabe disso. a entrada no comércio justo internacional. ou seja. mas sabe também que. comércio justo ou mercado institucional. fez muita diferença. que é o perigo de repetir o ciclo de ver os consumidores como “clientes”. mesmo com “selos verticalizados” e fortes “assimetrias” entre produtores e consumidores. não deveria ser tentada. aquela expressa em outra conclusão do estudo de Tygel: “É preciso fazer um alerta com relação às iniciativas que visam o estabelecimento de um comércio justo e solidário. se for exigente demais ao escolher os clientes. predomina amplamente. as iniciativas aqui descritas não caberiam dentro de concepções mais restritivas da economia solidária.

precisa agora confrontar-se com suas práticas econômicas concretas. a economia solidária.. dois programas governamentais tratando diretamente de comercialização dos produtos da agricultura familiar e elaborados conjuntamente com o movimento de economia solidária.) Sem empreendimentos fortes economicamente. na economia solidária. não apenas como sujeitos políticos. mas. Por isso mesmo. Um respeitado professor universitário insistiu nesta mesma tecla: “. há de se reconhecer que as realizações econômicas nem sempre estão à altura do discurso militante. Agroecologia e acesso a mercados 160 . que teve no Brasil uma rápida e impressionante trajetória política99.. como agentes econômicos – produzindo ou consumindo. membro de uma cooperativa. (.Neste ponto da discussão.. Para tanto. a troca de idéia que ocorreu em meados de 2007.. representam uma oportunidade ímpar de amadurecimento pela prática..). Falta-nos verificar a eficácia das nossas muitas discussões e continuar pensando teoricamente para adiante”97. mais ainda.. analisar e debatê-las abertamente.. Um dos intervenientes. sem deixar-se cegar pelo próprio discurso político. foi muito feliz.. não teremos movimento social e político forte. os SECAFES – Sistemas Estaduais de Apoio à Comercialização da Agricultura Familiar e Economia Solidária. sobretudo. Jamais consolidaremos a economia solidária apenas a partir da política..98” Ou seja. Nesse sentido.. e o SCJS – Sistema Nacional de Comércio Justo e Solidário. o debate interno. (.) Precisamos enxergar os agentes que fazem a economia solidária. na agroecologia e. um projeto político (. na rede eletrônica da economia solidária no Brasil. entre praticantes e militantes da economia solidária. frisou que “do ponto de vista da construção teórica já avançamos bastante. mesmo sendo a economia solidária um projeto de sociedade. precisamos dar maior atenção à sua dimensão (ou porção) econômica. é algo extremamente saudável.

passo extremamente complexo e. Pode ser superado pela articulação de coletivos de produtores visando o fornecimento coletivo da produção. há uma busca de conseguir comercializar os produtos. portanto. mas também para os agentes intermediários) 4) A questão da conscientização do consumidor aponta para a necessidade e importância de ações junto aos consumidores buscando ressaltar os valores éticos. que estes coletivos têm tido muitas dificuldades junto aos esquemas convencionais de comercialização). 1) Para coletivos de produtores. o que mostra o caráter ainda incipiente da economia solidária. sociais e ambientais ligados ao ato de comprar. alguns caminhos que claramente vão no sentido de uma comercialização com características de economia solidária. 3) O problema da falta de constância e planejamento na produção e na entrega da produção agroecológica familiar parece estar relacionado à fragilidade de sistemas solidários de comercialização. exigente (não só para os coletivos de produtores. sob a ótica da economia solidária.Um olhar da economia solidária sobre a comercialização de produtos agroecológicos Um estudo de Daniel Tygel realizado em 2003 faz a leitura. Resumimos abaixo suas principais conclusões. de um conjunto de iniciativas de comercialização de produtos agroecológicos no Brasil. com a importante ressalva de que a grande maioria das iniciativas nas quais o autor fundamenta suas conclusões está concentrada nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. não tendo a economia solidária necessariamente como fim (vemos também. 2) Ao mesmo tempo. entretanto. e a perspectiva da economia solidária é apenas mais uma das vias possíveis: o foco das entidades de produtores ou de assessoria é garantir uma vida digna ao pequeno agricultor familiar. não são tão comuns enquanto alternativas de comercialização. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 161 . Esta questão também indica a vital necessidade de políticas públicas que poderiam popularizar estes produtos e abrir portas para o consumo institucional.

a existência de iniciativas quantitativamente pouco significativas. Agroecologia e acesso a mercados 162 . mas que qualitativamente trazem elementos propositivos de alternativas. percebe-se no estudo que entidades de mobilização popular e assessoria técnica têm. Várias destas entidades já lidam com muitos agrupamentos de produtores. 6) É preciso fazer um alerta com relação às iniciativas que visam o estabelecimento de um comércio justo e solidário. um papel importante na luta pelo estabelecimento de redes de comercialização/consumo solidários. ou seja. Além disso. há o perigo de se trabalhar muito mais pressionando os produtores (selos verticalizados. que é o perigo de repetir o ciclo de ver os consumidores como “clientes”. mas também de transporte – distribuição – e venda). 9) Por fim. além das entidades de conscientização e de animação de coletivos de consumidores. As “cadeias éticas” apontam para a idéia de fortalecimento de “redes de distribuição solidárias”. Outras perspectivas de relações só podem nascer se houver compromisso mútuo na comercialização. etc. 7) Podemos perceber. que saibam se organizar e trabalhar coletivamente.) do que os consumidores. alimentando uma elitização dos produtos agroecológicos e um acirramento da assimetria entre quem consome e quem produz. e a relações de comercialização por meio de cadeias éticas e que envolvem vínculos mútuos. o que traz uma assimetria que persiste mesmo em iniciativas de comércio direto. exigência de que não tenham ambição de lucro.5) Chama à atenção a pequena quantidade de iniciativas em que o consumidor tem papel ativo: a idéia do consumidor como “cliente” ainda é muito forte. Refiro-me particularmente às entidades que envolvem os consumidores como agentes ativos (coletivos de consumidores e coletivos mistos). que exigiriam uma complexificação (bastante exigente) das entidades interessadas em buscar transformações sociais (isto envolve não só redes de comunicação. no estudo. 8) Um outro universo particularmente interessante e bastante inexplorado está contido nos caminhos do mercado institucional e das “cadeias éticas”. pode ficar a idéia de que “consumir produtos saudáveis” é mais um dos inúmeros privilégios de quem é mais rico.

” O SECAFES é o resultado de uma aproximação em torno do tema da comercialização. entre a Secretaria de Desenvolvimento Territorial do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA/SDT). “balizadores da busca pela melhoria da qualidade de vida dos produtores familiares (. Mais concretamente. por exemplo. responsável pela produção familiar. tal como foi implantado a título experimental no estado de Santa Catarina.) fundamentam a proposta como elemento não excludente”. e outros meios facilitadores da comercialização de produtos com origem nos empreendimentos solidários dos meios urbano e rural. ao mesmo tempo em que destaca a agroecologia. o projeto-piloto pretende. cooperativas.. e a Secretaria Nacional de Economia Solidária no Ministério do Trabalho e Emprego (MTE/SENAES). buscar espaços para feiras livres e estabelecimentos comerciais interessados em adquirir produtos ecológicos. assistência técnica. visa “articular as (sub)regiões em torno da complementaridade de produtos. Trata-se dos SECAFES – Sistemas Estaduais de Apoio à Comercialização da Agricultura Familiar e Economia Solidária e do SCJS – Sistema Nacional de Comércio Justo e Solidário. cujos princípios. O SECAFES. O documento de apresentação conceitual dos SECAFES102 refere-se explicitamente às sinergias entre agricultura familiar e economia solidária. políticas de fomento à agricultura familiar no âmbito da economia solidária começaram a sair do papel no final de 2007100.SECAFES e SCJS: novas políticas públicas para a agricultura familiar e a economia solidária No Brasil. “sensibilizar consumidores através de oficinas temáticas. estruturar rotas de produtos e dinamizar a logística de acesso aos produtos e alimentos. no sul do Brasil. grupos e agroindústrias de base familiar”101. serviços de gestão. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 163 .. Reproduzimos abaixo trechos dos primeiros documentos apresentando essas propostas..

Independente das funções que venham a Agroecologia e acesso a mercados 164 . incluindo-se neste também os Grupos de Consumidores Organizados (GCO). pesquisas e sistemas de informação. Elas poderão atuar como organizações (com ou sem fins lucrativos) de prestação de serviço – como o desenho de um rótulo ou de uma nova embalagem – como unidades agroindustriais. são definidas estruturas locais. organização/planejamento da produção. como empreendimentos comercializadores com as mais diversas formas e outras consideradas adequadas. Uma premissa dessa proposta é que as BSCs não podem funcionar no médio prazo somente com a injeção de recursos governamentais. organização do consumo/centrais de compra.SECAFES no nível estadual e Bases de Serviço de Comercialização no nível local As categorias usadas na proposta são o Empreendimento Familiar Rural (EFR). Por isso podem se especializar em funções como logística. com foco no ambiente local ou território. existentes ou a serem constituídas. que serão estruturadas de forma a suprir limitações dos EFR. chamadas Bases de Serviço de Comercialização (BSC). EES e dos GCO nas áreas de comercialização. comunicação e promoção. e estruturas estaduais. o Empreendimento Econômico Solidário (EES). e a organização de Sistemas Estaduais de Apoio à Comercialização da Agricultura Familiar e Economia Solidária (SECAFES) para atuar na coordenação das ações em nível das unidades federativas”104. Em nível local. ou atuar em diversas funções simultaneamente. temos as Bases de Serviço de Comercialização (BSCs): “Os BSCs são organizações. A partir daí. centrais de venda ou pontos de venda. chamadas SECAFES: “Os dois principais instrumentos apresentados para a melhoria da comercialização são: a estruturação de Bases de Serviço de Comercialização (BSC). processamento e outras.

. além de arquiteturas mais complexas que combinem diferentes formas”104. e mesmo o mercado internacional. com a contribuição das BSC. a nação. empresas públicas e privadas. infra-estruturas de agregação de valor e venda. redes solidárias e outros pertinentes. Os SECAFES são desenhados para facilitar as trocas entre os excedentes produzidos nos ambientes locais e a demanda identificada em outros ambientes ao longo da cadeia de valor como o estadual.cumprir deve conseguir gerar sua sustentabilidade econômica a partir da remuneração dos seus serviços pelos empreendimentos ou grupos de consumidores que delas se utilizem. assessorias. Na escala estadual. pela formação de parcerias que assegurem esses serviços ou outras formas. cooperativas. o documento ressalta o papel indutor – e não executor – do Estado: “O apoio à estruturação dos sistemas estaduais (assim como das bases de serviço) deve buscar incentivar manifestações endógenas visando que a ação do Estado seja apenas indutora/catalizadora e que todos os aspectos operacionais de execução sejam realizados com elevado grau de autogestão dos EFR. bases de serviço. O objetivo dos SECAFES é apoiar a coordenação dos fluxos comerciais provenientes dos EFR e dos EES para os mais distintos mercados e daqueles para os grupos de consumidores organizados em âmbito dos estados..) Essas organizações poderão assumir diversas formas como associações. articulados para o provimento de apoio e serviços de comercialização para os EFR. EES e GCO. órgãos governamentais.” Por fim. (. redes solidárias e outros elementos do aparato organizacional e institucional.” Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 165 . consórcios. EES e GCO. temos o SECAFES propriamente dito: “Um Sistema Estadual de Apoio à Comercialização da Produção Familiar e Solidária é composto de unidades de produção.

de promoção de ações de melhoria às condições de comercialização dos Empreendimentos Econômicos Solidários. Subsidiar os Empreendimentos Econômicos Solidários e demais participantes com uma base nacional.O Sistema Nacional de Comércio Justo e Solidário (SCJS) é: “um sistema ordenado de parâmetros para promover relações comerciais de base justa e solidária. estão interligados. comercializa e consome os produtos e serviços. 5. Suas sete diretrizes são resumidas a seguir: 1. serviços e organizações. Reconhecer diferentes mecanismos de garantia de credibilidade. está sob a responsabilidade da Secretaria de Economia Solidária (SENAES). cuja implementação está prevista para o ano de 2008. Contribuir nos esforços públicos e privados. Divulgar produtos. por meio de Bases de Serviço de Comercialização. 7. Este sistema. 2. Agroecologia e acesso a mercados 166 . Favorecer a prática do preço justo para quem produz. processos. Difundir o comércio justo e solidário como um fluxo comercial diferenciado. 6. 3. Como se vê nesta última diretriz. articulando e integrando os Empreendimentos Econômicos Solidários em todo o território brasileiro”105. Promover o estabelecimento de uma identidade nacional para o conceito e as práticas. SECAFES e SCJS. estadual e territorial de informações em economia solidária e em temas afins à comercialização. os dois sistemas. 4.

vamos apresentar algumas propostas de Eric Sabourin e Ricardo Abramovay. o reconhecimento pelas políticas públicas de situações e de sistemas de produção diferenciados. etc. que constitui também uma modalidade de redução da Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 167 .. feiras. menos dependentes do mercado capitalista e de insumos externos. de proximidade.” Por outro lado. Sabourin106 faz três grandes propostas.... nacionais. não esgotam as possibilidades de políticas públicas de apoio à comercialização da agricultura familiar. e. melhor adaptados a certas situações econômicas ou geográficas.Elementos adicionais de políticas de comercialização da agricultura familiar As propostas do SECAFES e do SCJS. A primeira visa fomentar uma maior autonomia para a agricultura familiar e pede “. dias de festa por produto típico.. Neste sentido. venda às cooperativas de consumo.. locais.) Trata-se de apoiar sistemas de produção mais autônomos. sistemas mais rústicos para garantir a reprodução de unidades familiares viáveis. que ainda precisam sair do papel. Outra linha de diferenciação dos produtos é “a qualificação em função da origem. (. o autor afirma: “A verdadeira diversificação passa pela identificação e pela promoção da diversidade dos mercados potenciais. regionais. portanto. venda na roça. das quais duas nos interessam mais especificamente. e. do processo ou de especificidades locais”.” A segunda diz respeito à comercialização e qualificação dos produtos. sobretudo pela diversidade das modalidades de acesso aos consumidores. fala-se de construção social desses mercados: venda direta. “nada impede o Estado de criar mercados internos politicamente protegidos” como o PAA. A título de complemento. Após a constatação de que “o potencial de conquista sustentável de nichos de mercados especializados pelos agricultores familiares foi amplamente exagerado”.

3) “É preciso que a relação entre as forças vivas localizadas. Ricardo Abramovay. sem que adquiram a coerência de um verdadeiro projeto... (. de forma a estimular a revelação de suas capacidades produtivas e a manifestação destas capacidades em mercados promissores?” Responde com quatro propostas de mudança: 1) “É preciso que o Governo Federal possa estabelecer relações com grupos de municípios e não só com cada município. 4) “É preciso que os projetos sejam aprovados por seu mérito e não pela condição de precariedade em que se encontra a população que justificou sua elaboração. e quem financia seu projeto de desenvolvimento seja objeto de contratos cuja avaliação vá além do puro cumprimento burocrático de seus itens componentes. Projetos de desenvolvimento não se confundem com a experiência piloto que se faz junto a uma certa comunidade.concorrência e de criação de mercados territorializados. territorializadas. conclui seu estudo dos “mercados do empreendorismo de pequeno porte no Brasil”108 com a seguinte pergunta: “De que maneira transferir recursos para regiões e famílias pobres.) pois. (. sobretudo para os mais pobres. uma estrada ou um conjunto de poços.. (. por sua vez. isoladamente.) [Mesmo os melhores dentre os projetos existentes] quase nunca vão além da tentativa de suprir carências imensas. nem com a transferência de recursos para construir um hospital. hoje quase nunca existentes. 2) “É preciso que os projetos envolvam diferentes segmentos sociais..) o pressuposto aí é a formação de capacidades localizadas de planejamento. Ele envolve um horizonte para a melhor inserção em mercados. profissionais e políticos. um município de 10 mil habitantes não pode ser considerado uma unidade apta a planejar o processo de desenvolvimento.” Agroecologia e acesso a mercados 168 .. Envolve a formação de vínculos localizados de conhecimento e confiança que estão na base dos próprios processos de inovação. associando relações de troca e de reciprocidade107. (a esse respeito ver também o box abaixo)..

) Formar técnicos e capacidades voltadas à elaboração de projetos que possam ser caracterizados. Abaixo..Em direção às agências internacionais. de fato. que termina com a observação de que as políticas públicas “mais bem sucedidas são aquelas que reconhecem e apóiam os dispositivos coletivos e Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 169 . o seu casamento econômico poderia se dar na articulação entre troca capitalista e reciprocidade. como as que financiam as ONG's — precisam repensar o formato de suas políticas de ajuda e os mecanismos de incentivo em que se apóiam. não se tem notícia de projetos cuja premissa seja a junção das forças vivas — convém repetir: dos empresários. Abramovay manda também o seguinte recado: "Até aqui. As organizações internacionais de desenvolvimento — tanto as agências multilaterais. talvez seja esta a mais importante contribuição das organizações internacionais de desenvolvimento. Numa abordagem original que articula reciprocidade e intercâmbio capitalista. Sabourin convida a modificar a nossa visão das práticas camponesas109. a confiança ou a eqüidade estejam ausentes das iniciativas em curso. Constatar que a comercialização da produção agroecológica da agricultura familiar está inserida no mercado capitalista não significa que valores como a solidariedade.” Articular reciprocidade e intercâmbio capitalista: o casamento econômico da economia solidária e da agricultura familiar Se os SECAFES e o SCJS representam tentativas de casamento político da economia solidária com a agricultura familiar. como de desenvolvimento.. (. uma síntese de seu artigo. e dos eleitos locais — em torno de projetos sobre cuja base se estabeleça um contrato a ser avaliado (e eventualmente renovado) a partir de seus resultados. do setor associativo.

nem sempre conseguiram ser reproduzidos. As relações diretas entre produtor e consumidor nas feiras estabelecem “laços de sociabilidade”. o método de leitura consiste em “considerar qual é o princípio dominante.. “O comércio justo propõe na base de valores humanos de eqüidade e de justiça. uma remuneração privilegiada. muitas vezes. “a dádiva não é desinteressada. mas motivada pelo interesse pelo outro ou pelas necessidades da coletividade”. Frente a essa realidade múltipla. a procura da eficiência leva. Sabourin faz uma leitura diferente das “prestações econômicas e sociais no mundo rural”. com a criação da União das Cooperativas da Agricultura Familiar e de Economia Solidária (UNICAFES) em 2005. Partindo desse princípio de solidariedade. contudo. Para definir a reciprocidade. Sabourin cita Godbout: “Podemos definir a reciprocidade de maneira simples: quando alguém recebe algo na forma de uma dádiva.” Cita também Temple: “A operação de intercâmbio corresponde a uma permutação de objetos. São também “valores humanos”. Sabourin aborda o tema da comercialização para constatar que. o manejo compartilhado de recursos comuns ou. “apesar dos processos de mercantilização capitalistas. sem negar a existência de “relações de intercâmbio mediante o mercado capitalista”. que deram origem ao comércio justo onde. Porém. o autor analisa práticas como o mutirão. ao uso dos mesmos sistemas e redes de intermediação àqueles das commodities do livre-câmbio.” Agroecologia e acesso a mercados 170 . a renovação do cooperativismo no campo. como as feiras locais. na falta de uma relação humana direta entre produtores e consumidores. existem ainda mercados socialmente controlados”.. ainda. Depois de dedicar um capítulo ao crédito solidário e seus limites.institucionais dos atores rurais”. Assim curiosamente. qual é o projeto da sociedade ou do grupo quanto aos valores que pretende privilegiar. enquanto a estrutura de reciprocidade constitui uma relação reversível entre sujeitos”. ele tem tendência em dar por sua vez. o que reduz ou compromete a possibilidade de estabelecer relações de reciprocidade capazes de produzir valores humanos.” Para ilustrar essa abordagem.

Este último ponto, a produção de valores humanos éticos e afetivos, faz toda a diferença. Como “o capitalismo não se determina em função de valores humanos”, são necessárias “interfaces entre sistemas regulados pelo princípio de reciprocidade e sistemas governados pelo princípio de livre-câmbio.” A título de ilustração, Sabourin analisa três “instrumentos públicos de desenvolvimento rural que permitem discutir essa interface”: a qualificação dos produtos (garantia da origem, do processo, da qualidade de um produto); os mercados institucionais (como o Programa de Aquisição Antecipada de Alimentos – PAA) e os dispositivos coletivos dos próprios agricultores: manejo de recursos comuns (como os bancos de sementes, fundos de pasto, reservas de água, reservas extrativistas, babaçuais); produção de informações (como os grupos de agricultores experimentadores, casas ou escolas familiares agrícolas, fundos rotativos de construção de cisternas). No caso dos dispositivos coletivos, diferentemente do que ocorreu na Europa, onde o reconhecimento da multifuncionalidade dos espaços rurais se deu através de compensações monetárias, outra política seria possível no Brasil. “Em vez de monetarizar e mercantilizar serviços já realizados pelo agricultor para dar lugar a uma remuneração individual, o apoio público (financeiro ou não), seria outorgado ao dispositivo institucional que mantém a estrutura de reciprocidade.” Sabourin nota ainda, que nem tudo é cor-de-rosa nas prestações reguladas pela dádiva e a reciprocidade, uma vez que “existem formas de alienação específicas aos sistemas de reciprocidade que precisam ser criticadas e analisadas”. Da conclusão do artigo, podemos destacar dois elementos. Em primeiro lugar: “Na proposta de economia solidária existe uma contradição entre reciprocidade (interna, na unidade de produção) e intercâmbio mercantil (fora da unidade) que precisa ser reconhecida, para poder colocar a questão das articulações ou interfaces entre os dois sistemas.”

Agroecologia e acesso a mercados

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Em segundo lugar, “na realidade, a prática antecipou a teoria. Já existem certas interfaces de sistema funcionando no Brasil rural, ao nível dos agricultores ou dos instrumentos públicos.(...), as políticas públicas de economia solidária e de apoio à agricultura camponesa ou familiar mais bem sucedidas e pertinentes são precisamente aquelas que reconhecem e apóiam os dispositivos coletivos e institucionais dos atores rurais. Mediante reconhecimento público, jurídico, institucional ou através de apoio técnico, pedagógico ou financeiro, tais instrumentos permitem manter ou desenvolver também as estruturas de reciprocidade associadas a esses dispositivos, assegurando ao lado da sua produção material, os valores de uso, mas também os valores humanos éticos que elas geram.”

Conclusão: O futuro da agroecologia no Brasil
Sérias dificuldades de viabilização da comercialização estão presentes desde a etapa da produção agroecológica e em todas as etapas subseqüentes. Apesar disso, as três iniciativas em foco mostram que é possível falar em viabilidade da produção agroecológica e da sua comercialização no âmbito de experiências localizadas – grupos de produtores familiares ou de assentamentos – que se beneficiam do forte suporte de uma ONG.. Viabilizar a produção e comercialização em escala maior está na dependência de políticas públicas, que mal começam a ser esboçadas. Na atual conjuntura, apesar de um forte aumento do apoio governamental à agricultura familiar, e da presença de forças favoráveis à agroecologia no governo federal, as orientações predominantes no Brasil favorecem nitidamente o desenvolvimento econômico stricto sensu, desconsiderando, na maioria das vezes, os aspectos ambientais e sociais. No que diz respeito à comercialização da produção agroecológica, as ONGs e as organizações de agricultores estão cumprindo com seu papel inovador. As três iniciativas aqui destacadas e várias outras no interior no Nordeste estão explorando novos caminhos que, a princípio, têm tudo para se tornarem vias maiores. Como prova disso, basta observar a rápida expansão das feiras agorecológicas no Nordeste; o crescimento das vendas no comércio justo internacional, e o grande potencial do Programa de Aquisição Antecipada de Alimentos. Em cada um desses mercados os volumes ainda são pequenos e há muita margem para crescer. Além disso, outros modos de comercialização podem ser explorados: mercados municipais, lojas de produtos agrícolas, balcões de produtos na Internet, venda direta do produtor para o consumidor, entre outros. São muitas as potencialidades de comercialização da produção agroecológica. O presente estudo apontou fatores que limitam, e outros que reforçam a sustentabilidade da cadeia de produção/processamento/comercialização de produtos agroecológicos. Do ponto de

Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil

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o que estas e outras experiências deixam claro é a possibilidade para a maioria das famílias que apostam na “transição agroecológica”. os avanços na produção familiar e na sua transformação e comercialização permanecerão limitados... a proeminência da abordagem agroecológica em relação a outras linhas de ação (inclusive à agricultura biológica) parece pouco discutível. como também as externalidades positivas (benefícios para o solo. pelo enfoque de gênero. talvez seja o maior desafio de todos.. a fauna.. No âmbito social e cultural. inclusive as ocultas (assessoria técnica. constituído pelas comunidades beneficiadas..) – se é que faz realmente sentido contabilizar elementos naturais a priori incomensuráveis. manter e desenvolver associações e cooperativas. associações e grupos de pressão). também pudemos verificar avanços pontuais em escala municipal (leis beneficiando a agricultura familiar. o equilíbrio dinâmico entre as exigências implacáveis do mercado capitalista e os valores políticos.. a análise. na prática. secretarias de agricultura ocupadas por representantes do movimento social) ou microrregional (novos fóruns. parecem ser de ordem organizacional. conselhos. As três experiências demonstram claramente que é preciso muita perseverança para criar. de rapidamente aumentar a sua segurança alimentar e sair da pobreza.vista ambiental. pesquisa. a saúde da família e da comunidade. e. sobretudo. o ar. a água. tende a mostrar que. cultural e política. éticos e ambientais próprios à abordagem agroecológica. levando em conta todas as despesas. Conseguir. As maiores dificuldades para consolidar e generalizar os avanços. Do ponto de vista econômico. Do ponto de vista político houve progressos nas áreas de atuação direta dos três projetos.). sem uma melhor divisão das tarefas domésticas. Para além do raio da ação imediata. Agroecologia e acesso a mercados 173 . Ainda falta efetuar balanços econômicos mais precisos para o conjunto dos elos da cadeia. sem o reconhecimento do trabalho “invisível” da mulher e sem a discussão do lugar que ela ocupa no sistema produtivo.

fora e dentro do âmbito universitário. entre a associação/cooperativa e a ONG que a apóia. Mas é também plausível que as ONGs tenham se fechado. a experiência de Pernambuco demonstra a possibilidade de autonomização progressiva das associações de produtores (depois de vários anos de assessoria muito próxima).Dito isso. Nos casos mais complexos de transformação da produção (aqui. atribuindose capacidades que as tornam “insubstituíveis”. Há. pelo menos não atrapalham como antes”!). serviços de pesquisa e extensão rural) não funcionam a contento para a faixa mais pobre da população nordestina. por exemplo. mais qualificados que elas próprias – em matéria de comercialização. as instituições e serviços públicos mais próximos do mundo rural (agências locais de bancos públicos. Esse conjunto de fatores talvez explique a simbiose existente nas três experiências. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 174 . poderiam investir em relações mais abertas e considerar com maior freqüência a colaboração com outros atores. organizações educacionais. De modo geral. administrações municipais. de algodão e de babaçu) em unidades de médio porte e sua comercialização no mercado nacional e internacional. como um entrave ao desenvolvimento sustentável. Do mesmo modo. Ou seja. Pior: sua ação é vista. As conseqüências para as Ongs e as organizações de produtores são dramáticas: não podem contar com apoio público em áreas-chave. a pesquisa. a ponto dos agricultores verem na sua inércia uma benção! (“Melhor que não façam nada mesmo. entre o empreendimento econômico e a assessoria técnica que cumpre – improvisando. por vezes. por exemplo. o tema da comercialização não deixa de revelar de forma gritante a extrema desigualdade que reina no Brasil rural. no intuito de garantir a sua reprodução social. No caso das feiras locais. uma carência enorme de apoio ao cooperativismo e ao associativismo. permanecem muito distantes da realidade da agricultura familiar. errando e aprendendo – todos os papeis imagináveis: desde a concepção de máquinas inéditas e a provisão de capital de giro até a abertura de contatos internacionais. Essas carências podem ter levado as Ongs a assumir um leque cada vez maior de tarefas pelas quais estavam a priori muito pouco preparadas – como é o caso da assessoria à comercialização para a agricultura familiar. o ensino e a extensão.

mas as dinâmicas econômicas nessa escala ainda são por demais incipientes para tirar delas qualquer conclusão. parcerias em que as ONGs têm um papel determinante. têm destaque os projetos da Secretaria de Desenvolvimento Territorial (SDT) do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). a possibilidade e a viabilidade da agroecologia. na medida do possível. seja entre ministérios. a priori indeterminado. favoráveis à agroecologia. Nesse nível territorial. permanece o desafio da sua expansão via políticas públicas. A atual simbiose cria uma dependência que configura uma fragilididade organizacional. com base em experiências familiares. E a transição agroecológica aparece como mais importante ainda nas terras do semi-árido. porém ainda não saíram do papel nos territórios do semi-árido nordestino. comunitárias e microrregionais. permitiu até agora viabilizar a transformação e a comercialização da produção agroecológica. isso não significa necessariamente que essa parceria deva se perpetuar para sempre daquela forma exclusiva. As ações de incentivo à agroecologia no semi-árido do PDHC repousam sobre parcerias com atores locais. estão nascendo na confluência da agroecologia e da economia solidária. Em nível territorial. O seu alcance depende do resultado de embates políticos entre tendências opostas na sociedade. Políticas públicas como esta. a necessidade. as experiências são muito recentes e localizadas. ultrapassado. Agroecologia e acesso a mercados 175 . que abrange vários municípios vizinhos. Uma vez aferidas. Nessas condições e com essas ressalvas. e deveria ser vista como algo conjuntural a ser discutido e. no interior do Nordeste. O ESPLAR/ADEC e a ASSEMA/COPPALJ já atuam além do nível municipal.a dupla ONG—Associação/Cooperativa aparece como sendo quase que indissolúvel. ainda são frágeis. em particular o Projeto Dom Helder Câmara (PDHC). seja entre secretarias no mesmo ministério. como os SECAFES e o Sistema Nacional de Comércio Justo. É. com reflexos dentro do próprio governo brasileiro. Se a assessoria por um tempo longo. onde a degradação devido às práticas inadequadas de cultivo traz sérias ameaças de desertificação. a agroecologia surge como um dos caminhos – talvez não o único – viável para a agricultura familiar. Outras políticas públicas.

e no tempo (o seu financiamento vai até 2009). foi claramente seduzido pelo mercado. e que houve enchentes devastadoras em 2004. maior projeto governamental de apoio à agroecologia no Nordeste. limitado geograficamente (oito territórios espalhados em seis estados). a busca imediata de lucro a curto prazo com enormes custos ambientais e sociais. sem dúvida. numa aposta que funciona bem dentro dos prazos eleitorais. Por isso. Infelizmente. o MDA e o MAPA. quem dá as cartas mais importantes não é mais o mercado: a própria natureza entra no jogo e responde às agressões. outra. o Brasil. continua a anos-luz do tratamento preferencial da agricultura patronal (apoiada pelo MAPA). também. apesar de ter-se beneficiado de orçamentos cada vez maiores nos últimos anos. cada uma liderada por uma tendência política distinta em disputa com as demais. É com parte dos ganhos auferidos com essa política que o governo brasileiro financia suas políticas sociais compensatórias. maior ainda. a compartimentação estanque entre as diversas secretarias do MDA. isto é. é preciso se preparar para conviver com secas e enchentes mais fortes ainda do que no passado – lembrando que as grandes secas mais recentes ocorreram em 1990-93 e em 1998. O jogo das forças políticas será determinante para o futuro da agroecologia no Nordeste. pode ser-lhe nefasta a curto prazo (a expansão rápida de cultivos transgênicos. essa é uma luta muito desequilibrada: a agricultura familiar (apoiada pelo MDA). mas pode vir a ser catastrófica além. dificilmente cumprirá a sua função de projeto demonstrativo. No semi-árido brasileiro. Significativa. que são todas parte da estrutura desse mesmo ministério Outro embate. seja apenas demonstrativo. a principal razão pela qual. Por enquanto. o PDHC. gigante agrícola. Em tempos de aquecimento global. é aquele já amplamente comentado entre os dois ministérios brasileiros da agricultura. os defensores da agroecologia formam uma tendência muito minoritária. por exempo). que o PDHC. que seria de influenciar as políticas de assessoria técnica (da EMATER). na sua versão mais primitiva. Em tempos de globalização econômica. nessa área do tamanho da Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 176 . de reforma agrária (do INCRA) e de crédito para agricultura familiar (PRONAF). Essa é.por exemplo. Essa esquizofrenia política se traduz no campo por situações em que uma política pública (como o PDHC) pode favorecer a abordagem agroecológica e. do mesmo governo. significativo.

Um lugar que só ocupará quando o Brasil passar a se enxergar. muitas delas pobres e dependendo da produção rural. onde vivem cerca de 20 milhões de pessoas. a agroecologia deveria logicamente ocupar um lugar preponderante.França e da Alemanha reunidas. Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 177 . é. mas também como o gigante ambiental que. não apenas como gigante econômico. de fato.

parceiro(a) ou assentados(as) do Programa Nacional de Reforma Agrária e Programa Nacional de Crédito Fundiário.000 dos 5. 2004) 8 (SABOURIN. 2007c).572/ acessado em 22 de novembro de 2007. 2 (INSEE. 2007b) 9 Mais de 4. 2007b) 6 (WILKINSON. CEPAL. E.000 possuem menos de 50 mil habitantes (ano 2000). cujo tamanho varia conforme a região. GT 09 “Asociación productiva.doc_download/gid.br/component/option. FICKERT. Entre os documentos e autores mais citados neste estudo podemos destacar: ABRAMOVAY. VII Congresso Latinoamericano de Sociologia Rural (Alasru). 2007) 3 Esta é a definição muito simples citada por (ABRAMOVAY. Disponível em http://www. 20-24 de novembro de 2006. posseiro(a). 2007) 7 (FICKERT. ano 2000. 2004. Fortaleza.. 4 (AZZONI. Ter parte da renda gerada na propriedade familiar (de 30% até 80% a depender do tipo de crédito). no caso de atividade pecuária). J.com_docman/task. agroecologia e mercado no Norte e Nordeste do Brasil.mda. economía solidaria y cooperativas”. U. Agricultura familiar. Março de 2003. Levantamento inicial de entidades que trabalham com a comercialização ou consumo de produtos agroecológicos no Brasil (em busca de iniciativas dentro da perspectiva da economia solidária). 1998) 1 Agroecologia e acesso a mercados 178 . Residir na propriedade ou em local próximo e ter no trabalho familiar a base da produção. arrendatário(a). Caldas-MG.. Quito. (Org).doc. Possuir no máximo 4 módulos fiscais (ou 6 módulos.br/saf/arquivos/1137912740.org. Fonte: http://www. D. 10 (ABRAMOVAY. na condição de proprietário(a). TYGEL. Ter renda bruta anual compatível com aquela exigida para cada grupo do PRONAF (conforme tabela do MDA). Fonte: IBGE. MARTÍ. 2007) 12 (PDHC. F. Mercados do empreendorismo de pequeno porte no Brasil. KÜSTER. 2007c) 11 (WILKINSON.Notas de fim.. novembro 2003.gov..fbes. R. acessado em 23/11/2007. 2004) 13 (BLOCH. DED. A definição de “agricultura familiar” usada pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) para ter acesso ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF) é a seguinte: Produzir na terra. SABOURIN.561 municípios brasileiros têm menos de 20 mil habitantes e mais de 5. 2006) 5 (SABOURIN. Economia solidária no meio rural brasileiro: uma análise a partir da noção de reciprocidade.

2007b) 28 (GAMARRA-ROJAS.br/. 2007) 29 A barragem subterrânea é. são mais de 100 feiras livres ecológicas e outras formas de comercialização. os agricultores empregam técnicas de conservação do solo. 2004) 36 (GUZMÁN. abrangendo em torno de 170 municípios. em Porto Alegre . Seu trabalho congrega.” (www. 2007A) 20 (ANA. Além de promover essa diversificaçào. adubação orgânica e manejo ecológico de pragas. citado por (ABRAMOVAY. 23 A Rede Ecovida. 32 (Ver ESPLAR) 33 (ESPLAR) 34 (ABRAMOVAY. 2003) 16 MAIA GOMES.asabrasil. aproximadamente.org. no Rio Grande do Sul. “conta com 21 núcleos regionais. promove a certificação e a compra da produção para mais de 1.br) 24 Maiores detalhes em http://www. 2004). 2007b) 26 (ABRAMOVAY. (aqui.ecovida. que se caracterizam sobretudo pela diversificação das culturas. “uma tecnologia de baixo custo que permite guardar água de riachos temporários na terra ao longo do ano. 200 grupos de agricultores. empresa do Paraná. segundo a definição da própria Diaconia. Em toda a área de atuação da Ecovida. 1998) 35 (CASSARINO. (Cf FICKERT. 2006) 21 A Coolmeia. 1998) 27 (ABRAMOVAY. o milho. o nim.000 agricultores orgânicos. 22 A Terra Preservada. 2007b) 18 Idem 19 (ABRAMOVAY. 2007A) (ABRAMOVAY. tem mais de 20 anos de existência e conta com 800 sócios. o algodão. e algumas outras espécies arbóreas). favorecendo a produção de alimentos e forragens.(ABRAMOVAY. entre agricultores e consumidores. a melancia. 31 Esses consórcios agroecológicos são pequenas áreas. fornece insumos. plantadas de forma intercalada. presta assistência técnica. o gergelim.” 30 O salário mínimo valia 380 reais (cerca de U$210) em setembro de 2007. 2003) 17 ( SABOURIN. 25 (ABRAMOVAY. 2006) 15 14 Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 179 .org. o feijão. 20 ONGs e 10 cooperativas de consumidores. e o abastecimento da casa.

sujeito a muitas limitações de dinheiro. porém. Ver (MOLLISON.ibd. 2007) 44 (CASSARINO.br. 2006) 37 Agroecologia e acesso a mercados 180 .net/social. o beneficiamento. por outro lado. acessado em 20/09/2007 40 (CZAPSKI.Teria. 2005) 54 (ABRAMOVAY. 46 Ver no Anexo 1 os fluxogramas de aproveitamento do babaçu e do algodão. 2004) 45 De modo geral. 2007) 48 (BLOCH. 2005) 41 (ROSSET. a existência de barreiras vegetais quando há vizinhos que praticam agricultura convencional. por exemplo.cabianca. 2003) 55 (COSTA. 1990) 52 (Sabourin. o processamento. 2006) 53 (CAILLÉ. por um lado.. o descaroçamento do algodão ou descascamento do arroz) e. 2006) 57 Tabela elaborada com base em (SABIA. contudo. 2007) 39 www. Temos. 1998). pois as certificadoras orgânicas passaram a incluir critérios sociais e ambientais mais rigorosos. 2007) 43 (ROMEIRO. 51 É por exemplo o caso da permacultura. A Incubacoop. só tem condição de incubar dois ou três grupos de produtores rurais. 2006) 42 Ver a esse respeito (JALFIM. que é a seqüência de operações requeridas para que um produto primário possa ser consumido (por exemplo. o cumprimento das legislações sanitária. ver por exemplo (RÖLING. 2004) 56 (SABIÁ. as condições de trabalho e de vida dos trabalhadores. ambiental e trabalhista. várias universidades oferecem apoio na forma de um programa de extensão chamado Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares (ITCP). 50 Para aprofundar esse importante tema. 47 (ROMEIRO.” (www. por exemplo. dificuldades em conseguir uma certificação. 1999) 49 A situação está evoluindo lentamente. e apenas em municípios muito próximos da capital Recife. Hoje. recursos humanos e logística.com. distinguem-se duas maneiras de agregar valor. por exemplo. Esse apoio permanece. a correta disposição do lixo e o bem estar dos animais. aspectos como a não utilização de adubos solúveis e agrotóxicos nos últimos dois a três anos. acessado em 27/11/2007) 38 (YUSSEFI. O Instituto Biodinâmico (IBD) “considera. voltado para a obtenção de um subproduto (como no caso da extração do azeite de babaçu ou do óleo de gergelim). na Universidade Federal Rural de Pernambuco. a qualidade da água utilizada na irrigação e na lavagem dos produtos.

2008) 76 (LAVILLE. fevereiro de 2008.00/saco. 2006) 71 (ABRAMOVAY. 2004) 61 A Oxfam. 2003) 75 (ARMANI. 2004). 2007a) 79 (ARMANI. 2003) 74 (ABRAMOVAY.00.commercequitable.. 2008) 80 (LISBOA. 2007) 77 (LISBOA. Maiores informações no site http://www. 2006) 81 (LISBOA. devido à sua rede de 750 lojas na Grã-Bretanha. 70 (MANCE.fr e http://blog.oxfam. 62 (LECOMTE. 2003) 72 FLO: Fair Trade Labelling Organizations Internacional 73 (TYGEL. onde vende roupas. www. mas no âmbito economia solidária. U$1. 2006) 83 (NEAD. não exatamente do comércio justo. 2004. no comércio justo do café. Atua também. 2006) 69 Um dos exemplos brasileiros mais citados é a rede Ecovida.75) 66 Ver (LAVILLE.00/kg + 2 sacos de feijão x R$60. móveis e discos.(SABOURIN. Ver CASSARINO.veja.br.com. 2007) 84 Lago do Junco e Lago do Rodrigues. 2006) 78 (SABOURIN.00 = R$1.uk.00/saco + 1 saco de milho x R$30. Por outro lado. com sua grande campanha “Make Trade Fair' está mais próxima da primeira tendência. O milho e o feijão.veja.justatrama. todos doados. 2006) Eleições estaduais e federal ocorreram em 2006. mais especificamente.66/kg + 50 kg de gergelim x R$13. 2007) 67 (LISBOA.fr/fr/ 65 160 kg de algodão x R$1. quando não são vendidos. 60 (LECOMTE. é um importante ator. deixam de ser comprados.org 63 Ver (ESPLAR) 64 Maiores informações em www. 2006) 68 (LISBOA. (Na época do cálculo. o restolho das culturas serve de forragem para os animais. Além disso. com valor estimado em cerca de R$100. 85 MIQCB: Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu 59 58 Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 181 . quando pressiona organizações multilaterais como a OMC. Maiores informações em www.org. livros.

ecovida. é uma exceção notável. técnicos e consumidores reunidos em associações. 2006) 92 (CASSARINO.ecovida.br/?sc=SA011&sa=SA000&codPublicacao=NOT00002&codIdioma=1 102 (MDA. 90 (MUSSOI) 91 (GUZMÁN. Maiores informações em http://www. 2006) 95 A Rede Ecovida se apresenta da seguinte forma: “Somos agricultores familiares. 2007b) 107 Para maiores detalhes sobre a certificação. 2003) 109 (SABOURIN. em especial a certificação de grupo ou participativa.org. cuja missão é “catalizar as forças de mercado a fim de produzir benefícios sociais. Social e Ambiental para assentamentos da reforma agrária. 2007b) 104 (MDA.organicexchange. 88 A Organic Exchange é uma associação norte-americana. 2007a) 103 (MDA. 2007) 106 (SABOURIN. Mensagem 6900. 2007) ATES: Programa federal de Assessoria Técnica. cooperativas e grupos informais que.org. nos organizamos em torno da Rede Ecovida” (Maiores detalhes em www. Mensagem 6897.br/?sc=SA011&sa=SA000&codPublicacao=NOT00002&codIdioma=1 101 http://www. 2007a) 105 (SENAES. econômicos e ecológicos através da expansão da agricultura de fibras orgânicas”. juntamente com pequenas agroindústrias.ecovida.br) 96 (CARVALHO. 2004) 93 (TYGEL. 89 A Articulação no Semi-Árido (ASA). que já construiu mais de 200 mil cisternas no semi-árido brasileiro. 2003) 94 (LISBOA. ver (Sabourin. 2006c) 97 Rede eletrônica e_solidaria “Sobre comercialização entre empreendimentos na América Latina”. 2006) 87 86 Agroecologia e acesso a mercados 182 . 2007c) 108 (ABRAMOVAY. julho de 2007 99 Ver por exemplo (CARVALHO.org. 2006a) 100 Começaram a ser testadas na região Sul em setembro de 2007.(GUÉRIN. julho de 2007 98 Rede eletrônica e_solidaria “Sobre comercialização: 3 questões e duas sugestões”.org. Ver por exemplo http://www. comerciantes ecológicos e pessoas comprometidas com o desenvolvimento da agroecologia.

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Anexo: fluxogramas de aproveitamento do babaçu e do algodão Etanol Fertilizante Farelo Fibras Epicarpo Combustível Carvão ativado Coque Carvão Gases combustíveis Amido Mesocarpo Coco Babaçu Endocarpo Gases combustíveis Ácido acético Acetona Piche Fenol Acetatos Gases condensáveis Metanol Alcatrão Creosol Farelo Amêndoas Torta Óleo refinado Sabão Glicerina Benzol Margarina Óleo bruto Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 189 .

FIOS (85%) PLUMA (35%) CONFECÇÃO ARTESANAL PERDAS (15%) ÓLEO (35 a 40%) TORTA (60 a 65%) MERCADO CAROÇO (38%) ALGODÃO EM RAMA SEMENTES (25%) SEMENTES (2%) RAÇÃO Três experiências na agricultura familiar da região Nordeste do Brasil 190 .

Design: Lusimar Lima .

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