MINISTÉRIO DA CULTURA

Fundação Biblioteca Nacional
Departamento nacional do Livro

DOM CASMURRO
Machado de Assis

Capítulo I

Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um
rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de
mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos
pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei
os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos
no bolso.
— Continue, disse eu acordando.
— Já acabei, murmurou ele.
— São muito bonitos.
Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava
amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom
Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à
alcunha, que afinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anedota aos amigos da cidade, e eles,
por graça, chamam-me assim, alguns em bilhetes: “Dom Casmurro, domingo vou jantar com você.”
— “Vou para Petrópolis, Dom Casmurro; a casa é a mesma da Renânia; vê se deixas essa caverna
do Engenho Novo, e vai lá passar uns quinze dias comigo.” — “Meu caro Dom Casmurro, não
cuide que o dispenso do teatro amanhã; venha e dormirá aqui na cidade; dou-lhe camarote, dou-lhe
chá, dou-lhe cama; só não lhe dou moça.”
Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe
pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de
fidalgo. Tudo por estar cochilando! Também não achei melhor título para a minha narração; se não
tiver outro daqui até o fim do livro, vai este mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não
lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há
livros que apenas terão isso dos seus autores; alguns nem tanto.

CAPÍTULO II
Do Livro

Agora que expliquei o título, passo a escrever o livro. Antes disso, porém, digamos os motivos
que me põem a pena na mão.
Vivo só, com um criado. A casa em que moro é própria; fi-la construir de propósito, levado de
um desejo tão particular que me vexa imprimi-lo, mas vá lá. Um dia, há bastantes anos, lembrou-me
reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de Matacavalos, dando-lhe o
mesmo aspecto e economia daquela outra, que desapareceu. Construtor e pintor entenderam bem as
indicações que lhes fiz: é o mesmo prédio assobradado, três janelas de frente, varanda ao fundo, as
mesmas alcovas e salas. Na principal destas, a pintura do teto e das paredes é mais ou menos igual,
umas grinaldas de flores miúdas e grandes pássaros que as tomam nos bicos, de espaço a espaço.
Nos quatro cantos do teto as figuras das estações, e ao centro das paredes os medalhões de César,
Augusto, Nero e Massinissa, com os nomes por baixo... Não alcanço a razão de tais personagens.
Quando fomos para a casa de Matacavalos, já ela estava assim decorada; vinha do decênio anterior.
Naturalmente era gosto do tempo meter sabor clássico e figuras antigas em pinturas americanas. O
mais é também análogo e parecido. Tenho chacarinha, flores, legume, uma casuarina, um poço e
lavadouro. Uso louça velha e mobília velha. Enfim, agora, como outrora, há aqui o mesmo contraste
da vida interior, que é pacata, com a exterior, que é ruidosa.
O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois,
senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é
diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que
perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo. O que aqui está é, mal comparando, semelhante à
pintura que se põe na barba e nos cabelos, e que apenas conserva o hábito externo, como se diz nas
autópsias; o interno não agüenta tinta. Uma certidão que me desse vinte anos de idade poderia
enganar os estranhos, como todos os documentos falsos, mas não a mim. Os amigos que me restam
são de data recente; todos os antigos foram estudar a geologia dos campos santos. Quanto às
amigas, algumas datam de quinze anos, outras de menos, e quase todas crêem na mocidade. Duas
ou três fariam crer nela aos outros, mas a língua que falam obriga muita vez a consultar os
dicionários, e tal freqüência é cansativa.
Entretanto, vida diferente não quer dizer vida pior; é outra coisa. A certos respeitos, aquela vida
antiga aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei; mas é também exato que perdeu muito
espinho que a fez molesta, e, de memória, conservo alguma recordação doce e feiticeira. Em
verdade, pouco apareço e menos falo. Distrações raras. O mais do tempo é gasto em hortar, jardinar
e ler; como bem e não durmo mal.
Ora, como tudo cansa, esta monotonia acabou por exaurir-me também. Quis variar, e lembroume escrever um livro. Jurisprudência, filosofia e política acudiram-me, mas não me acudiram as
forças necessárias. Depois, pensei em fazer uma História dos Subúrbios, menos seca que as
memórias do Padre Luís Gonçalves dos Santos, relativas à cidade; era obra modesta, mas exigia
documentos e datas, como preliminares, tudo árido e longo. Foi então que os bustos pintados nas

paredes entraram a falar-me e a dizer-me que, uma vez que eles não alcançavam reconstituir-me os
tempos idos, pegasse da pena e contasse alguns. Talvez a narração me desse a ilusão, e as sombras
viessem perpassar ligeiras, como ao poeta, não o do trem, mas o do Fausto: Aí vindes outra vez,
inquietas sombras...?
Fiquei tão alegre com esta idéia, que ainda agora me treme a pena na mão. Sim, Nero, Augusto,
Massinissa, e tu, grande César, que me incitas a fazer os meus comentários, agradeço-vos o
conselho, e vou deitar ao papel as reminiscências que me vierem vindo. Deste modo, viverei o que
vivi, e assentarei a mão para alguma obra de maior tomo. Eia, comecemos a evocação por uma
célebre tarde de novembro, que nunca me esqueceu. Tive outras muitas, melhores, e piores, mas
aquela nunca se me apagou do espírito. É o que vais entender, lendo.

CAPÍTULO III
A Denúncia

Ia a entrar na sala de visitas, quando ouvi proferir o meu nome e escondi-me atrás da porta. A
casa era a da Rua de Matacavalos, o mês de novembro, o ano é que é um tanto remoto, mas eu não
hei de trocar as datas à minha vida só para agradar às pessoas que não amam histórias velhas; o ano
era de 1857.
— D. Glória, a senhora persiste na idéia de meter o nosso Bentinho no seminário? É mais que
tempo, e já agora pode haver uma dificuldade.
— Que dificuldade?
— Uma grande dificuldade.
Minha mãe quis saber o que era. José Dias, depois de alguns instantes de concentração, veio
ver se havia alguém no corredor; não deu por mim, voltou e, abafando a voz, disse que a
dificuldade estava na casa ao pé, a gente do Pádua.
— A gente do Pádua?
— Há algum tempo estou para lhe dizer isto, mas não me atrevia. Não me parece bonito que o
nosso Bentinho ande metido nos cantos com a filha do Tartaruga, e esta é a dificuldade, porque se
eles pegam de namoro, a senhora terá muito que lutar para separá-los.
— Não acho. Metidos nos cantos?
— É um modo de falar. Em segredinhos, sempre juntos. Bentinho quase que não sai de lá. A
pequena é uma desmiolada; o pai faz que não vê; tomara ele que as coisas corressem de maneira
que... Compreendo o seu gesto; a senhora não crê em tais cálculos, parece-lhe que todos têm a alma
cândida...
— Mas, Sr. José Dias, tenho visto os pequenos brincando, e nunca vi nada que faça desconfiar.
Basta a idade; Bentinho mal tem quinze anos. Capitu fez quatorze à semana passada; são dois
criançolas. Não se esqueça que foram criados juntos, desde aquela grande enchente, há dez anos,

E depois a igreja brasileira tem altos destinos. Mas olhe cá. pela estima. Deus é que sabe de todos. realmente é melhor que não comece a dizer missa atrás das portas.. cedendo a antigos rancores políticos.. Bentinho há de satisfazer os desejos de sua mãe.. mas creia que não falei senão depois de muito examinar. Creio que..em que a família Pádua perdeu tanta coisa. — Perdão.. daí vieram as nossas relações.. mas. continuou tio Cosme. você que acha? Tio Cosme repondeu com um “Ora!” que.” CAPÍTULO IV Um Dever Amaríssimo! José Dias amava os superlativos. Pois eu hei de crer. uma promessa assim.. Cosi-me muito à parede. servia a prolongar as frases.. durante o qual estive a pique de entrar na sala. Levantou-se para ir buscar o gamão. os pequenos divertem-se. há de cumprir-se. um dever amaríssimo. Você que acha.. ande. que estava no interior da casa. — Você o que quer é um capote.? Mano Cosme. creio que o senhor está enganado. não sei. Era um modo de dar feição monumental às idéias. queria dizer: “São imaginações do José Dias.. e vi-o passar com as suas calças brancas engomadas. mas outra força maior. tem-se ganho o principal. não as havendo. Quanto ao pequeno. Oxalá tenham razão. Contudo. Não pude ouvir as palavras que tio Cosme entrou a dizer. que é isso. não teria falado. não estou defendendo ninguém. pelo afeto. Prima Justina creio que se levantou e foi ter com ela. onde está o gamão?” — Sim.... — Sei que você fez promessa. doutor.. mana Glória? Está chorando? Ora esta! Pois isto é coisa de lágrimas? Minha mãe assoou-se sem responder. mana Glória. outra emoção. uma promessa de tantos anos.. mas falei pela veneração. bem pensado. prima Justina? — Eu? — Verdade é que cada um sabe melhor de si. há mesmo necessidade de fazê-lo padre? — É promessa. Não esqueçamos que um bispo presidiu a Constituinte.. . vá buscar o gamão. presilhas. — Governou como a cara dele! atalhou tio Cosme. vai sendo tempo. uma vez que não perdeu a idéia de o fazer padre. interrompeu minha mãe. se tem de ser padre. e que o Padre Feijó governou o império.. Seguiu-se um alto silêncio. — Pode ser. Prima Justina exortava: “Prima Glória! prima Glória!” José Dias desculpava-se: “Se soubesse.. minha senhora. para cumprir um dever amargo. estou citando. Mas. O que eu quero é dizer que o clero ainda tem grande papel no Brasil. vou tratar de metê-lo no seminário quanto antes. eu divirto-me. — Em todo caso. — Bem.. traduzido em vulgar.

os dentes. mas fique morando conosco. a conseqüência antes da conclusão. A gravata de cetim preto. e não o fez sem estudar muito e muito. — Quem lhe impede que vá a outras partes? Vá aonde quiser. e talvez neste mundo. toda a cara. era então moda. e não quis receber nenhuma remuneração. mas comunicativo. veste caseira e leve. e teve o seu quarto ao fundo da chácara. dizendo que era justo levar a saúde à casa de sapé do pobre. Um dever amaríssimo! CAPÍTULO V O Agregado Nem sempre ia naquele passo vagaroso e rígido. a tal ponto as bochechas. chupado. mas a consciência não lhe permitia aceitar mais doentes. mas é tempo de restabelecer tudo. com um aro de aço por dentro. tão natural nesta como naquela maneira. era muita vez rápido e lépido nos movimentos. — Mas. Era magro. como pedia então. com um princípio de calva. mais acertado. Tomara este título para ajudar a propaganda da nova escola. — Creio que sim.. eles abaixo de Deus. um silogismo completo. Trazia as calças curtas para que lhe ficassem bem esticadas. e eu acabava de nascer. suspirou e acabou confessando que não era médico. Não negue. aceitou casa e comida sem outro estipêndio. reinando outra vez febres em Itaguaí. Um dia apareceu ali vendendo-se por médico homeopata. Nos lances graves. Foi dos últimos que usaram presilhas no Rio de Janeiro. Também se descompunha em acionados. a premissa antes da conseqüência. disse-lhe meu pai que fosse ver a nossa escravatura. Tinha o dom de se . ria largo. com pequeno ordenado. José Dias recusou. porém. O rodaque de chita.rodaque e gravata de mola. os motivos do meu procedimento podiam ser e eram dignos. Não foi despedido. meu pai ainda estava na antiga fazenda de Itaguaí. de um grande riso sem vontade. — Voltarei daqui a três meses. mas um vagar calculado e deduzido. José Dias curou o feitor e uma escrava. ele veio também. é dizer que foram os remédios indicados nos livros. Quando meu pai foi eleito deputado e veio para o Rio de Janeiro com a família. parecia nele uma casaca de cerimônia. Havia então um andaço de febres. sim. menti. a homeopatia é a verdade. Eu era um charlatão. Outrossim. não aquele vagar arrastado dos preguiçosos. você curou das outras vezes. para servir à verdade. todo o mundo pareciam rir nele. e. Então meu pai propôs-lhe ficar ali vivendo. Era nosso agregado desde muitos anos. teria os seus cinqüenta e cinco anos. José Dias deixou-se estar calado. meu pai já não podia dispensá-lo. Eles. se era preciso. imobilizava-lhe o pescoço. levava um Manual e uma botica. os olhos. gravíssimo. salvo o que quisessem dar por festas. toda a pessoa. Voltou dali a duas semanas. Levantou-se com o passo vagaroso do costume.. Um dia.

não direi ótimo. não me lembra. Depois. e sabia opinar obedecendo. a dor que o pungiu foi enorme. era amigo. ou explicar algum fenômeno. falar dos efeitos do calor e do frio. José Dias agradeceu de cabeça. abotoado. — Obedeço. como de pessoa da família. encaixilhou-as e pendurou-as no quarto. adquiriu certa autoridade na família. ele trazia o velho escovado e liso. gostou de ver que ele punha Deus no devido lugar. — Fique. Contava muita vez uma viagem que fizera à Europa. ao contrário das pessoas que enxovalham depressa o vestido novo. posto que de atropelo. Com o tempo. confiava-lhe a cópia de papéis de autos. Ao cabo. ao menos. dava um . Uma das minhas recordações mais antigas era vê-lo montar todas as manhãs a besta que minha mãe lhe deu e que o levava ao escritório. era a casa dos três viúvos. que era religiosa. mas nem tudo é ótimo neste mundo. — Abaixo. depois da missa. Já então era viúvo. Era lido. enquanto ele erguia o pé e pousava no estribo. uma apólice e quatro palavras de louvor. de uma elegância pobre e modesta. por cima da cama. mas a nossa família. que era advogado. “Esta é a melhor apólice”. Quando meu pai morreu. dizia ele muita vez. Trabalhava no Crime. dizia ele. não abusava. Tio Cosme. CAPÍTULO VI Tio Cosme Tio Cosme vivia com minha mãe. A fortuna troca muita vez as mãos à natureza. Copiou as palavras. tinha amigos em Lisboa. cerzido. que era no extinto Aljube. — Abaixo ou acima? perguntou-lhe tio Cosme um dia. já teria voltado para lá. tinha a respiração curta e os olhos dorminhocos. José Dias. dava-se por falta dele. perto do júri. Teve um pequeno legado no testamento. E não lhe suponhas alma subalterna. Tio Cosme. Minha mãe dava-lhe de quando em quando alguns cobres. sorria de persuasão. O preto que a tinha ido buscar à cocheira. era tudo. com muitos cumprimentos no fim. por mais modesto que quisesse ser. a isto seguia-se um minuto de descanso ou reflexão. o bastante para divertir ao serão e à sobremesa. Tinha o escritório na antiga Rua das Violas. ao sétimo dia. dos pólos e de Robespierre. disseram-me. segurava o freio. repetiu José Dias cheio de veneração. A roupa durava-lhe muito. tio Cosme não enriquecia no foro: ia comendo. e sorriu aprovando. e não consentiu que ele deixasse o quarto da chácara. abaixo de Deus. e confessava que a não sermos nós. minha senhora. como prima Justina. E minha mãe. José Dias não perdia as defesas orais de tio Cosme. Formado para as serenas funções do capitalismo. Era gordo e pesado. as cortesias que fizesse vinham antes do cálculo que da índole. referia os debates. desde que ela enviuvou. Minha mãe ficou-lhe muito grata.fazer aceito e necessário. Era quem lhe vestia e despia a toga. Em casa. ele foi despedir-se dela. certa audiência.

Pedro de Albuquerque Santiago. disseram quando eu comecei as lições. — Medo! Ora. e deixou-se estar na casa de Matacavalos. Não quis. uma dúzia de prédios. preferiu ficar perto da igreja em que meu pai fora sepultado. Ora. Também não me esqueceu o que ele me fez uma tarde. Maria da Glória Fernandes Santiago contava quarenta e dois anos de idade. aqui mesmo. CAPÍTULO VII D. comprou alguns que pôs ao ganho ou alugou. foi aceito de muitas damas. Tio Cosme enfeixava todas as forças físicas e morais. — Pois que se queixe. “Agora é que ele vai namorar deveras”. onde vivera os dois últimos anos de casada. se for vigário na roça. e não souber. apeou-me. há de queixar-se de você. e a gordura acabou com o resto de idéias públicas e específicas. mas não subia. tenho medo. eu não sabia montar. enquanto o irmão perguntava: — Mana Glória. o corpo ameaçava subir. certo número de apólices. segundo impulso. Tio Cosme acomodava as carnes. após alguns instantes largos. e desta vez caía em cima do selim. Raramente a besta deixava de mostrar por um gesto que acabava de receber o mundo. além de partidário exaltado. em rapaz. Nas horas de lazer vivia olhando ou jogava. Uma ou outra vez dizia pilhérias. e. ainda não sendo padre. cuidou que me estivessem matando. pois. dava o último surto da terra. o chão lá embaixo. Tio Cosme pegou em mim e escanchou-me em cima da besta. afagou-me. Padre que seja. Já não dava para namoros. Posto que nascido na roça (donde vim com dois anos) e apesar dos costumes do tempo. Nele era velho costume e necessidade. é preciso que monte a cavalo. Glória Minha mãe era boa criatura. Era ainda bonita e moça. o primeiro. Não se diria o mesmo de tio Cosme. a família Fernandes. mana Glória. sozinho e desamparado. mas os anos levaram-lhe o mais do ardor político e sexual. descendente de outra paulista. D. Contam que. Agora só cumpria as obrigações do ofício e um amor. pois um tamanhão destes tem medo de besta mansa? — Não está acostumado. Quando me vi no alto (tinha nove anos). igual efeito. Vivia metida em um . contava trinta e um anos de idade. e a besta partia a trote. medo! A verdade é que eu só vim a aprender equitação mais tarde. Vendeu a fazendola e os escravos. entrei a gritar desesperadamente: “Mamãe! mamãe!” Ela acudiu pálida e trêmula. e tinha medo ao cavalo. e podia voltar para Itaguaí. Enfim. Quando lhe morreu o marido. se quiser florear como os outros rapazes. menos por gosto que por vergonha de dizer que não sabia montar. mas teimava em esconder os saldos da juventude. naquele ano da graça de 1857.impulso. por mais que a natureza quisesse preservá-la da ação do tempo. — Deve acostumar-se. Era filha de uma senhora mineira.

. em alguma parte há de ela ficar. “A vida é uma ópera”. . como não sei se tiveram desgostos: era criança e comecei por não ser nascido. mas ainda dá idéia de ambos. Agora é que eu ia começar a minha ópera. CAPÍTULO VIII É Tempo Mas é tempo de tornar àquela tarde de novembro. sem adornos. O que se lê na cara de ambos é que. O pescoço sai de uma gravata preta de muitas voltas. tudo o que sucedera antes foi como o pintar e vestir das pessoas que tinham de entrar em cena. sossegada como a nossa casa e o trecho da rua em que morávamos. mas aqui estão os retratos de ambos. a um lado e outro. São retratos que valem por originais. Aqui os tenho aos dois bem casados de outrora. parece dizer: “Sou toda sua. Talvez valha a pena dá-la. e esqueço os bilhetes brancos e a boceta fatídica. O de minha mãe. tais quais na outra casa. olhando para a gente. faz este comentário: “Vejam como esta moça me quer. uma tarde clara e fresca. e tinha uma flor entre os dedos. por lhe ter ficado a esperança no fundo. o retrato mostra uns olhos redondos. com os seus sapatos de cordavão rasos e surdos. não sei. em bandós. a não ser vagamente que era alto e usava cabeleira grande.eterno vestido escuro. os bem-amados. eram apanhados sobre a nuca por um velho pente de tartaruga. que se foram desta para a outra vida. O de minha mãe mostra que era linda.. lembra-me que ela chorou muito. como ninguém tachou de má a boceta de Pandora.” Se padeceram moléstias. Concluo que não se devem abolir as loterias. a cara é toda rapada. o acender das luzes. No painel parece oferecer a flor ao marido. em tal maneira que me fez crer nela. dizia-me um velho tenor italiano que aqui viveu e morreu. alguma vez trazia touca branca de folhos. Lidava assim. desde manhã até a noite. A pintura escureceu muito. que me acompanham para todos os lados. E explicou-me um dia a definição. estendendo a flor ao marido. salvo um trechozinho pegado às orelhas.. Nenhum premiado as acusou ainda de imorais. a sinfonia. Tenho ali na parede o retrato dela. eles a tiraram no bilhete comprado de sociedade.. continuar um sonho provavelmente. ao lado do do marido. com um xale preto.. efeito da pintura que me assombrava em pequeno. meu guapo cavalheiro!” O de meu pai. se a felicidade conjugal pode ser comparada à sorte grande. dobrado em triângulo e abrochado ao peito por um camafeu. Depois da morte dele. Os cabelos. Não me lembra nada dele. sem que o encardido do tempo lhes tirasse a primeira expressão. é só um capítulo. Verdadeiramente foi o princípio da minha vida. o preparo das rabecas. ergo os olhos para eles. Contava então vinte anos. Quando a loteria e Pandora me aborrecem. vendo e guiando os serviços todos da casa inteira. São como fotografias instantâneas da felicidade. os bem-aventurados..

— Não. mas fora do céu. Sempre que uma companhia nova chegava da Europa. em presença do baixo e dos comprimários.. compôs a partitura. quando não são o soprano e o contralto que lutam pelo tenor. em presença do mesmo baixo e dos mesmos comprimários. repetiu-me a definição do costume.. retorquiu o Senhor. A música é de Satanás.. — Nada! nada! Satanás suplicou ainda. que aprendeu no conservatório do céu. e logo que a acabou foi levá-la ao Padre Eterno. Vinha aqui jantar comigo algumas vezes. Trazia ainda os bigodes dos seus papéis. Há coros numerosos.. não quero ouvir nada. até que Deus. vozes assim abafadas são sempre possíveis. algum trecho ainda mais idoso que ele ou tanto. muitos bailados.. Rafael e Gabriel. com todas as partes. cantarolava. Às vezes. coros e bailarinos. consentiu em que a ópera fosse executada. — Quê?. fazei-a executar. depois de beber um gole de licor. não desaprendi as lições recebidas. este planeta. primárias e comprimárias. Tudo se teria passado sem mais nada. estou pronto a dividir contigo os direitos de autor. — Ouvi agora alguns ensaios! — Não. “O desuso é que me faz mal”. com palavras que vou resumir. E. senhor. disse-lhe.. . admiti-me com ela a vossos pés. — Mas. não tolerava a precedência que eles tinham na distribuição dos prêmios. Quando andava. O tenor e o barítono lutam pelo soprano. emendai-a. meu caro Marcolini. Pode ser também que a música em demasia doce e mística daqueles outros condiscípulos fosse aborrecível ao seu gênio essencialmente trágico. Basta-me haver composto o libreto. pousou o cálix.CAPÍTULO IX A Ópera Já não tinha voz.. — Mas. não quero saber de ensaios. sem abrir a boca. cansado e cheio de misericórdia. depois de muito Chianti. e inventou uma companhia inteira. Rival de Miguel. se Deus não houvesse escrito um libreto de ópera. — Senhor. Aqui tendes a partitura. mas teimava em dizer que a tinha. abanou a cabeça e replicou: — A vida é uma ópera e uma grande ópera. e a orquestração é excelente. do qual abrira mão.. escutai-a. acrescentava. jovem maestro de muito futuro. por entender que tal gênero de recreio era impróprio da sua eternidade. Satanás levou o manuscrito consigo para o inferno. e ele expulso do conservatório. Tramou uma rebelião que foi descoberta a tempo. Criou um teatro especial.. e se a achardes digna das alturas. Uma noite. apesar de velho. e expôs-me a história da criação. Com o fim de mostrar que valia mais que os outros — e acaso para reconciliar-se com o céu —.. ia ao empresário e expunha-lhe toda as injustiças da terra e do céu. sem melhor fortuna. e ele saía a bradar contra a iniqüidade. o empresário cometia mais uma. parecia cortejar uma princesa de Babilônia. Deus é o poeta. e como eu lhe dissesse que a vida tanto podia ser uma ópera como uma viagem de mar ou uma batalha.

porque a regra da divisão é aquilo da Escritura: “Muitos são os chamados. Dizem eles que. As partes orquestrais são aliás tratadas com grande perícia. e talvez italiano. Os amigos do maestro querem que dificilmente se possa achar obra tão bem acabada.Foi talvez um mal esta recusa. há de haver alguém. eu não tenho graça. concluiu o velho tenor. que não são os mesmos. mas tudo cabe na mesma ópera. mas com o andar da ópera é provável que estas sejam preenchidas ou explicadas. Este ponto é contestado pelos satanistas com alguma aparência de razão. não há dúvida. dela resultaram alguns desconcertos que a audiência prévia e a colaboração amiga teriam evitado. não se negando o maestro a emendar a obra onde achar que não responde de todo ao pensamento sublime do poeta. não se podendo calcular em que tempo será ele demolido por utilidade astronômica. mas. quando todos os livros forem queimados por inúteis. que a partitura corrompeu o sentido da letra. e trabalhada com arte em outros. Tudo é música. CAPÍTULO X Aceito a Teoria Que é demasiada metafísica para um só tenor. evidentemente. O grotesco.. e aquelas desapareçam inteiramente. . Satanás em papel. Certos motivos cansam à força de repetição. posto seja bonita em alguns lugares. Juram que o libreto foi sacrificado. Também há obscuridades. que ensine esta verdade aos homens. encobrindo muita vez o sentido por um modo confuso. com tal arte e fidelidade. tenores desempregados. — Tem graça. e. Chegam a afirmar que o poeta inglês não teve outro gênio senão transcrever a letra da ópera.. ao tempo em que o jovem Satanás compôs a grande ópera. e o dó fez-se ré etc. é absolutamente diversa e até contrária ao drama. em resumo. durará enquanto durar o teatro. sem razão suficiente. mas a perda da voz explica tudo. Deus recebe em ouro. os coros da guilhotina e da escravidão. há lugares em que o verso vai para a direita e a música para a esquerda. pode ser que tenor. fugindo à monotonia. nem essa farsa nem Shakespeare eram nascidos. poucos os escolhidos”. e replicou: — Caro Santiago. é um plagiário. Um dia. Já não dizem o mesmo os amigos deste. Um ou outro admite certas rudezas e tais ou quais lacunas. e há filósofos que são. e assim explicam o terceto do Éden. Este cálix (e enchia-o novamente). eu tenho horror à graça. meu amigo. este cálix é um breve estribilho.. Não falta quem diga que nisso mesmo está a beleza da composição. é uma excrescência para imitar as Mulheres patuscas de Windsor. — Graça? bradou ele com fúria.. Isto que digo é a verdade pura e última. Não é raro que os mesmos lances se reproduzam. não está no texto do poeta. O êxito é crescente. a ária de Abel. Com efeito. o maestro abusa das massas corais. No princípio era o dó. — Esta peça. Tal é a opinião dos imparciais. Não se ouve? Também não se ouve o pau nem a pedra. mas aquietou-se logo. que parece ele próprio o autor da composição. por exemplo. Poeta e músico recebem pontualmente os seus direitos autorais.

nem depois de me dar à luz. . Capitu e eu. Prazos largos são fáceis de subscrever.. latim e doutrina. penso que só dizia uma. arranjávamos o altar. meu caro leitor. Viúva. foi dada principalmente a mim. ou pegava-me na mão. ia-me afeiçoando à idéia da Igreja. por ser já então história velha. minha mãe pegou-se com Deus para que o segundo vingasse. para apertá-la muito. depois um quatuor. mas era tão devota. engrolávamos o latim e precipitávamos as cerimônias. velho amigo do tio Cosme. não tínhamos o primeiro. aceito a teoria do meu velho Marcolini. mas porque a minha vida se casa bem à definição. — um tanto às escondidas. No tempo em que brincávamos assim. por aquele Padre Cabral. não tirasse os olhos do padre. sentiu o terror de separar-se de mim. Não bebíamos vinho nem água. Quando íamos à missa. pediam antes o seminário do mundo que o de S. e que reparasse no padre. Entretanto. Em casa. Unicamente. Tendo-lhe nascido morto o primeiro filho.. que eu devia dizer três vezes. e a segunda viria tirar-nos o gosto do sacrifício. tudo convergia para o altar. Isto. não havendo vocação. Ultimamente não me falavam já do seminário. e corri à varanda do fundo. para que nos separássemos o mais tarde possível. non sum dignus. e a ocasião destes é a que vou dizer. era muito comum ouvir à minha vizinha: “Hoje há missa?” Eu já sabia o que isto queria dizer. a imaginação os faz infinitos. contava fazê-lo quando eu entrasse para a escola. Cantei um duo terníssimo. leitor amigo.. e alterávamos o ritual. fez-me aprender em casa primeiras letras. nem antes. não só pela verossimilhança. que é muita vez toda a verdade. brincava de missa. que ia lá jogar às noites. A mim é que ele me denunciou. Não disse nada a meu pai. Minha mãe esperou que os anos viessem vindo. porque minha mãe dizia que missa não era coisa de brincadeira. A causa eram provavelmente os seus projetos eclesiásticos.. confiando a promessa a parentes e familiares. deixei o esconderijo. tal era a gulodice do padre e do sacristão. Mas não adiantemos. depois um trio. metê-lo na Igreja.Eu. a tal ponto que eu supunha ser negócio findo. Ela servia de sacristão. a hóstia era sempre um doce. Talvez esperasse uma menina. em que eu vim a saber que já cantava. como alma perdida. respondia afirmativamente. Voltava com ela. prometendo. que buscou testemunhas da obrigação. Dominus. José. Arranjávamos um altar. brincos de criança. no sentido de dividirmos a hóstia entre nós. se fosse varão. livros devotos. conversações de casa. porque a denúncia de José Dias. e ia pedir hóstia por outro nome. dizia-me sempre que era para aprender a ser padre. mas enviuvou antes disso. a pretexto de nada. tão temente a Deus. vamos à primeira parte. Os projetos vinham do tempo em que fui concebido. Quinze anos. CAPÍTULO XI A Promessa Tão depressa vi desaparecer o agregado no corredor. imagens de santo. datava de dezesseis anos. Minha mãe ficava muita vez a olhar para mim. Não quis saber de lágrimas nem da causa que as fazia verter a minha mãe.

vendo-me inquieto e adivinhando a causa. sorrindo.” Um coqueiro. mas esta voltou pouco a pouco. e no último ano era completa.. apenas reproduziam a nossa familiaridade. Não me atrevia a descer à chácara. Entretanto. um ar de riso de satisfação. colunas amareladas que me passastes à direita ou à esquerda. ouvia-lhe contar que sonhara comigo. ao contrário. que dançávamos na lua. Vozes confusas repetiam o discurso do José Dias: “Sempre juntos.. Capitu chamava-me às vezes bonito. que desmentia a abominação do meu pecado. a fim de os dar a outros anjos que acabavam de nascer. e andava outra vez e estacava. e eu cria nos coqueiros velhos. Às vezes dava por mim. algum gesto. nem os cantos outra utilidade. Capitu um dia notou a diferença. os adolescentes daquela idade não tinham outro ofício. Com que então eu amava Capitu. dizendo que os achava lindíssimos. uma flor. e me derramava não sei que bálsamo interior. estacando para amparar-me. a matéria das nossas conversações era a de sempre. Em todos esses sonhos andávamos unidinhos. Eu..” “Sempre juntos. Comecei a andar de um lado para outro.. mas eu retorquia chamando-lhe maluca. o coração parecendo querer sair-me pela boca fora.. que subíamos ao Corcovado pelo ar. e logo me dispersava. andava cosido às saias dela.” “Se eles pegam de namoro. é certo que não restabelecemos logo a antiga intimidade. Antes dela ir para o colégio. em vós me ficou a melhor parte da crise.” “Se eles pegam de namoro. Era um coqueiro velho. atordoado. mais ainda que nos velhos livros. e muita vez não passavam da simples repetição do dia. e eram aventuras extraordinárias. depois de certa . Quando me perguntava se sonhara com ela na véspera. e me trazia arrepios. sem fazer o mesmo aos dela.. tanto mais de espantar quanto que tinha os cabelos realmente admiráveis. as pernas bambas. a sensação de um gozo novo. eram tudo travessuras de criança. alguma frase. o prazer que sentia quando ela me passava a mão pelos cabelos. e passar ao quintal vizinho. que me envolvia em mim mesmo. segundo eu ia ou vinha. murmurou de cima de si que não era feio que os meninos de quinze anos andassem nos cantos com as meninas de quatorze. E as vozes repetiam-se confusas: “Em segredinhos. depois que saiu do colégio. ou então que os anjos vinham perguntar-nos pelos nomes..CAPÍTULO XII Na Varanda Parei na varanda. Pássaros...” “Em segredinhos. outras pegava-me nas mãos para contar-me os dedos. dizia que os dela eram muito mais lindos que os meus.. E comecei a recordar esses e outros gestos e palavras. mocetão. Então Capitu abanava a cabeça com uma grande expressão de desengano e melancolia.. Também eu os contava. toda a gente viva do ar era da mesma opinião. ia tonto. eu. borboletas.” Tijolos que pisei e repisei naquela tarde. dizendo que os dela eram mais bonitos que os meus. uma cigarra que ensaiava o estio. mas não me ocorria nada entre nós que fosse deveras secreto. e Capitu a mim? Realmente. e eu dizia que não.. Os que eu tinha com ela não eram assim.

Havia ali uma porta de comunicação mandada rasgar por minha mãe. e fechava-se ao peso de uma pedra pendente de uma corda. e valem de si mesmas. desandavam. o mal que fizera. a eterna Verdade não valeria mais que ele. quando éramos somente companheiros de travessuras. trêmulas e crentes de abarcar o mundo. Se se falava nela. abria-se empurrando de um lado ou puxando de outro. Naturalmente também por ser a primeira. disse-lhe que eram como a pessoa que sonhava. A porta não tinha chave nem taramela. Naquele instante. Os silêncios dos últimos dias. segundo era louvor ou crítica. que me não descobriam nada. e escutá-la de memória. e o que pudesse vir de um e de outro. prestava mais atenção que dantes. fazíamos visita batendo de um lado e sendo recebidos do outro com muitas mesuras. Entrava no quintal dela com um pau debaixo do . nem achei que lhe fosse comparável qualquer outra sensação da mesma espécie. e estremecer quando lhe ouvia os passos. Também adverti que era fenômeno recente acordar com o pensamento em Capitu. as respostas vagas. Quando as bonecas de Capitu adoeciam. mas a causa dela fugia-me. Naturalmente por ser minha. Eu amava Capitu! Capitu amava-me! E as minhas pernas andavam.hesitação. sem que eu a buscasse nem suspeitasse. As minhas chegaram ao pé do muro. Era costume delas. Esse primeiro palpitar da seiva. As pernas desceram-me os três degraus que davam para a chácara. CAPÍTULO XIII Capitu De repente. mas com exclusivismo também. Que as pernas também são pessoas. apenas inferiores aos braços. nunca mais me esqueceu. que me denunciara a mim mesmo. às tardes. Cheguei a pensar nela durante as missas daquele mês. Em crianças. os cuidados. e caminharam para o quintal vizinho. Tudo isto me era agora apresentado pela boca de José Dias.. e a quem eu perdoava tudo. essa revelação da consciência a si própria. o mal que dissera. assim me trazia gosto ou desgosto mais intensos que outrora. Fez-se cor de pitanga. A emoção era doce e nova. é verdade. só agora entendia a emoção que me davam essas e outras confidências. e assim as meias palavras. francamente. com intervalos. nem a eterna Bondade. agora os sentia como sinais de alguma coisa. e.. quando a cabeça não as rege por meio de idéias. em minha casa. nem as demais Virtudes eternas. quando Capitu e eu éramos pequenos. o médico era eu. e às manhãs também. Era quase que exclusivamente nossa. o gosto de recordar a infância. as perguntas curiosas. estacavam. ouvi bradar uma voz de dentro da casa ao pé: — Capitu! E no quintal: — Mamãe! E outra vez na casa: — Vem cá! Não me pude ter. Pois.

riscando com um prego.braço. A voz da mãe era agora mais perto.. vem cá. tinha a boca fina e o queixo largo. como se viesse já da porta dos fundos. naturalmente levava o gesto mudado. senti que não poderia falar claramente. forte e cheia. com as pontas atadas uma à outra. entrei.. — Mamãe! — Deixa de estar esburacando o muro. Nisto olhei para o muro. feitos em duas tranças. — Notícia de quê? Pensei em dizer-lhe que ia entrar para o seminário e espreitar a impressão que lhe faria. e acabava mandando aplicar-lhe umas sanguessugas ou dar-lhe um vomitório: era a terapêutica habitual do médico. mas as pernas. rasos e velhos. Quis insistir que nada. se não. ao dar comigo. E emendei logo: — É uma notícia. a despeito de alguns ofícios rudes. nariz reto e comprido. Não podia tirar os olhos daquela criatura de quatorze anos. como dissera a mãe. — Nada. olhos claros e grandes. — Capitu. eram curadas com amor. apertada em um vestido de chita. Se a consternasse é que realmente gostava de mim. não cheiravam a sabões finos nem águas de toucador. para imitar o bengalão do Dr. — Que é que você tem? repetiu. um coração que desta vez ia sair.. ou por temer que eu acabasse fugindo. — Não é nada.. e perguntou-me inquieta: — Que é que você tem? — Eu? Nada. e dei um passo. Capitu estava ao pé do muro fronteiro. escrevendo ou esburacando. encostou-se ao muro. João da Costa. Quis passar ao quintal. Mas todo esse cálculo foi obscuro e rápido. a que ela mesma dera alguns pontos. Todo eu era olhos e coração. alta. Capitu agarrou-me. pela boca fora. com certeza. Então quis vê-los de perto. Então eu coçava o queixo. como se quisesse esconder alguma coisa. como o doutor. Os cabelos grossos. você tem alguma coisa. As mãos. pareciam agora presas ao chão. voltada para ele. à moda do tempo. Afinal fiz um esforço. coitada!”. tinha agora a vista não sei como. Caminhei para ela. o lugar em que ela estivera riscando. mas com água do poço e sabão comum trazia-as sem mácula. não. há pouco tão andarilhas. exclamava Capitu. O rumor da porta fê-la olhar para trás. Morena. correu adiante e apagou o escrito. é que não gostava. meio desbotado. Vi uns riscos abertos. empurrei a porta. balbuciei finalmente. ou por negar de outra maneira. mas não achei língua. desciam-lhe pelas costas. . Calçava sapatos de duraque. e lembrou-me o gesto que ela fizera para cobri-los. e pedia-lhe que mostrasse a língua. “É surda. porque ela veio a mim. mas. — Então? — Você sabe. tomava o pulso à doente. Foi o mesmo que acender em mim o desejo de ler o que era.

Não soltamos as mãos. Os olhos continuaram a dizer coisas infinitas. Faltava dizer a missa nova. sem suspeitar as do amar. A boca podia ser o cálix. não falamos nada. a limpeza da intenção lava o que puder haver menos curial no estilo. e antes que ela raspasse o muro. estava assim diante dela como de um altar. abertos ao prego. Conhecia as regras do escrever.. O que se lhe seguiu foi ainda mais rápido. todas quatro. as mãos é que se estenderam pouco a pouco. devagar.. tinha orgias de latim e era virgem de mulheres. e assim dispostos: BENTO CAPITOLINA Voltei-me para ela. CAPÍTULO XV Outra Voz Repentina Outra voz repentina. Capitu tinha os olhos no chão. Devia tê-la marcado. pegando-se. Soltamos as mãos depressa. Padre futuro. tal era a diferença entre o estudante e o adolescente. apertando-se. Em verdade. li estes dois nomes. que estava à porta dos fundos. . as palavras de boca é que nem tentavam sair..CAPÍTULO XIV A Inscrição Tudo o que contei no fim do outro capítulo foi obra de um instante. Confissão de crianças. Ergueu-os logo. Capitu foi ao muro. Não marquei a hora exata daquele gesto. mas uma só criatura seráfica. tornavam ao coração caladas como vinham. e depois de vagarem ao perto. sinto a falta de uma nota escrita naquela mesma noite. ao pé da mulher. mas não traria nenhum. e ficamos atrapalhados. leitora minha devota. fundindo-se. o muro falou por nós. Estávamos ali com o céu em nós. mas quero ser poupado.. apagou os nossos nomes escritos. por um latim que ninguém aprende. tu valias bem duas ou três páginas. Não nos movemos. Dei um pulo.. os lábios a pátena. Não me tenhas por sacrílego. As mãos. Os olhos fitavam-se e desfitavam-se. tornavam a meter-se uns pelos outros. e ficamos a olhar um para o outro. nem elas se deixaram cair de cansadas ou de esquecidas. disfarçadamente. com o prego. e que eu poria aqui com os erros de ortografia que trouxesse. sendo uma das faces a Epístola e a outra o Evangelho. e é a língua católica dos homens. faziam das duas criaturas uma só. unindo os nervos. e.. mas desta vez uma voz de homem: — Vocês estão jogando o siso? Era o pai de Capitu.

a ver o que era. Olhei para um pé de sabugueiro que ficava perto. negócio de relatório. donde lhe veio a alcunha de Tartaruga. A área que havia no centro da casa era cercada de gaiolas de canários. Também. E nem assim ri. sim. apanhava alguns. se adoeciam. — Já tinha rido das outras vezes. dizia-me. — Estávamos. ele chegou sem cólera. fê-lo rir. no próprio quintal. não agüenta. e demais amava particularmente os passarinhos. Ia agora mesmo buscar a gaiola. Capitu. mas já a filha tinha começado outra coisa. mas o pai era o pai. tratava deles como se fossem gente. Era um homem baixo e grosso. comprava-os. olhando para ela e para mim. — Quando eu cheguei à porta. Você já viu o meu gaturamo? Está ali no fundo. todo meigo. ande ver. Que o meu desejo era nenhum. costas abauladas. Trocava pássaros com outros amadores. após duas voltas. Estou com vontade de dar um capote ao doutor. Pádua saiu ao quintal. pernas e braços curtos. era só o agregado. ando com trabalhos da repartição em casa. desviou o rosto. — Há muitos dias que não a vejo.— Capitu! — Papai! — Não me estragues o reboco do muro. — Está. cheio de ternura: — Quem dirá que esta pequena tem quatorze anos? Parece dezessete. e tanto podia ser dele como da mãe. cor e tamanho. que faziam cantando um barulho de todos os diabos. sem ser preciso jurar pelo céu nem pela terra. CAPÍTULO XVI . não pode. armando alçapões. era o essencial. Há coisas que só se aprendem tarde. crê-se facilmente. Papai quer ver? E séria. é mister nascer com elas para fazê-las cedo. E melhor é naturalmente cedo que artificialmente tarde. foi ter com a mãe. que continuava à porta da casa. senhor. e não fui capaz de rir. Meu desejo era ir atrás de Capitu e falar-lhe agora do mal que nos esperava. dizendo que eu não ria daquela vez por estar ao pé do pai. — Vocês estavam jogando o siso? perguntou. convidando-me ao jogo. Tinha-os de vária espécie. escrevo todas as noites que é um desespero. De resto. por mais que devesse fazê-lo. que disse ser o retrato dele. Mamãe está boa? continuou voltando-se inteiramente para mim. que José Dias lhe pôs. mas não tenho podido. mas Bentinho ri logo. cansada de esperar. O susto é naturalmente sério. apesar do gesto duvidoso ou menos que duvidoso em que nos apanhou. deixando-nos a mim e ao pai encantados dela. Ninguém lhe chamava assim lá em casa. não ria. Capitu respondeu por ambos. eu estava ainda sob a ação do que trouxe a entrada de Pádua. Esta. para legitimar a resposta de Capitu. um perfil. Capitu riscava sobre o riscado. fitou em mim os olhos. o pai. para apagar bem o escrito.

imitar a mulher e a filha. e intimou-lhe que vivesse. a casa em que morava. é obrigação sua. ou por ordem regulamentar. a anedota é curta. Seja homem. Não era o mesmo homem que estragava o chapéu em cortejar a vizinhança. era visto em teatros. mato-me! Não hei de confessar à minha gente esta miséria. continuou a entrar e sair de casa. você é criança? Mas. A primeira idéia do Pádua. Esta mudança de fortuna trouxe-lhe certa vertigem. — Não. senhor. mas a mulher gastava pouco. mudo. Fortunata ralhava: — Joãozinho. e que há de fazer? Pois um homem. e a vida era barata. atirou-se às despesas supérfluas. alta. etc. foi comprar um cavalo do Cabo. nos dias de festa matava um leitão. mas ele não atendia a coisa nenhuma. falando à filha. ande. — Pois seja obrigação. devia ser homem. Pádua hesitou muito.. dez contos de réis. era propriedade dele. a ferida foi sarando. Pádua começou a interessar-se . a quem D. um dia chegou a salvar a vida ao Pádua.. era antes dos dez contos. Não se contentou de reformar a roupa e a copa. pai de família. forte. afinal teve de ceder aos conselhos de minha mãe. posto que menor. porque chegara o efetivo naquela manhã.. Vieram as semanas. cheia. Nem foi só nessa ocasião que minha mãe lhes valeu. não. Pádua.O Administrador Interino Pádua era empregado em repartição dependente do Ministério da Guerra. ou por especial designação. não podia sofrer a desgraça. Não ganhava muito. Pediu à minha mãe que velasse pelas infelizes que deixava. e guardar o que sobrasse para acudir às moléstias grandes. ao pé do poço. e perder um emprego interino? Não. olhos no ar. como a filha. Demais.. uma sepultura perpétua de família. cara no chão.. Sr. cosido à parede. D.. chegou aos sapatos de verniz. fechado na alcova. não consentirei em tal vergonha! Fazer descer a família. em comissão. Pádua obedeceu. ia perder o lugar. em pé. tanto lhe ouviu falar em morte que teve medo. seja homem. Fortunata pediu auxílio. a mesma cabeça. Comprou-a com a sorte grande que lhe saiu num meio bilhete de loteria. matava-se. confessou que acharia forças para cumprir a vontade de minha mãe. por causa de uma gratificação menos. Que maluquice era aquela de parecer que ia ficar desgraçado. Fortunata que ali está à porta dos fundos da casa. tornar atrás. onde viveu prostrado alguns dias.. Já disse. a mulher é que lhe disse que o melhor era comprar a casa.. quando lhe saiu o prêmio. mandar vir da Europa alguns pássaros. ficou substituindo o administrador com os respectivos honorários. não desconheço que é assim mesmo. um adereço de brilhantes para a mulher. antes mesmo da administração interina. e um dia correu a pedir à minha mãe que lhe fizesse o favor de ver se lhe salvava o marido que se queria matar. O administrador da repartição em que Pádua trabalhava teve de ir ao Norte. Lembre-se que sua mulher não tem outra pessoa. assobradada como a nossa. Minha mãe falou-lhe com bondade. aflito e desvairado. mas a mulher. Pádua enxugou os olhos e foi para casa. — ou então no quintal. E os outros? Que dirão os vizinhos? E os amigos? E o público? — Que público. como se a idéia da morte teimasse nele. — Vontade minha. esta D. os mesmos olhos claros. risonho. Uma tarde entrou em nossa casa. minha senhora. Nos dias seguintes. Escutai. deu jóias à mulher.. Pádua? Deixe-se disso. Viveu assim vinte e dois meses na suposição de uma eterna interinidade. Minha mãe foi achá-lo à beira do poço.

. — Meu senhor. para achar a origem comum do oráculo pagão e do pensamento israelita.. respondeu-me um longo verme gordo. como se houvessem passado palavra. — No tempo em que eu era administrador. Com o tempo veio um fenômeno interessante.. tive tais ou quais veleidades de escrever uma dissertação a este propósito. Pádua começou a falar da administração interina. a compará-los. Ou então: — Ah! Sim. para que me dissessem o que havia nos textos roídos por eles. catando o texto e o sentido. José Dias bradava que era a vaidade sobrevivente.pelos negócios domésticos. não foi mais. Tal é o sabor póstumo das glórias interinas. que iam jogar o solo. a abri-los. nem amamos ou detestamos o que roemos. É isto. atrás dela veio a alegria. Não lhe arranquei mais nada. vim a saber que a lança de Aquiles também curou uma ferida que fez. nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos. um ou dois meses antes. Ora. A serenidade regressou. Catei os próprios vermes dos livros. a conversar e dar notícias da rua. espere. que levava tudo para a Escritura. donde ele contava para diante e para trás.. um domingo. tinha o ar do costume. mas até com desvanecimento e orgulho. não somente sem as saudades dos honorários. repetiam a mesma cantilena.” CAPÍTULO XVII Os Vermes “Ele fere e cura!” Quando. mas o Padre Cabral. Talvez esse discreto silêncio sobre os textos roídos fosse ainda um modo de roer o roído. nós roemos. A administração ficou sendo a héjira. a dormir tranqüilo as noites e as tardes. a minha administração começou. a cuidar dos passarinhos.. mais tarde. na figura de dois amigos. Ou ainda: — Justamente. nem o vexame da perda. . dizia que com o vizinho Pádua se dava a lição de Elifás a Jó: “Não desprezes a correção do Senhor: Ele fere e cura. livros mortos. Já ele ria. foi mês e meio antes.. Os outros todos. lembra-me. a ferida sarou de todo. foi antes da minha administração. nem escolhemos o que roemos.. livros enterrados. mês e meio antes. havia já seis meses que eu administrava. a tentos. Cheguei a pegar em livros velhos.. já brincava.

comecei a jurar que não seria padre. Naquele tempo jurava muito e rijo. não quero entrar em seminários. — Você verá se entra ou não. mas tinha a cara lívida. sem aflição. não entro. toda parada. — Não entro. pela vida e pela morte. Quis chamá-la. prometia ir naquela mesma noite declarar em casa que. não disse nada. Quando tornou a falar. e rompeu nestas palavras furiosas: — Beata! carola! papa-missas! Fiquei aturdido. Estava séria. a princípio. Eu. mas Capitu não me deixou. Com os olhos em mim. — Você? Você entra. mas os impropérios. e naturalmente mais. dançara. que pulara. parecia disposta a dizer tudo a todos. Cerrava os dentes. na sala de visitas. deixava-me agora com os braços atados e medrosos. meteu-os em si e deixou-se estar com as pupilas vagas e surdas. mas quase. creio até que dormira comigo. Também lhe dera um rosário. ou de outra maneira. repetia os juramentos.. eu contei-lhe toda. como entender que lhe chamasse nomes tão feios. a boca entreaberta.. É verdade que também gostava de mim. tinha mudado. não entro. Jurei pela hora da morte. que eram os seus? Que ela também ia à missa. tornou a si. para dar força às afirmações. menos a parte que lhe dizia respeito. Nunca a vi tão irritada como então. Quis saber a conversação da minha casa. Capitu gostava tanto de minha mãe. sacudi-la. não era ainda a Capitu do costume. Quando lhe disse o que era. continuou a chamar-lhe beata e carola. . Essa criatura que brincara comigo. não parecia sequer ouvir. falávamos do seminário.. entraria no seminário. é escusado teimarem comigo. por nada neste mundo. Capitu. que eu não podia entender tamanha explosão. e três ou quatro vezes minha mãe é que a levou. Então eu. uma cruz de ouro e um livro de Horas. acudi logo. fez-se cor de cera. Que a luz me faltasse na hora da morte se fosse para o seminário. mas faltou-me ânimo. Capitu queria saber que notícia era a que me afligia tanto. Capitu não parecia crer nem descrer. — Mas eu não quero. e principalmente para deprimir costumes religiosos. na nossa velha sege. ou melhor. Quis defendê-la. Enfim.. assustado. era uma figura de pau. coisa bastante a explicar o despeito que lhe trazia a ameaça da separação. e minha mãe dela.CAPÍTULO XVIII Um Plano Pai nem mãe foram ter conosco. Calou-se outra vez. em voz tão alta que tive medo fosse ouvida dos pais. quando Capitu e eu. abanava a cabeça. Recolheu os olhos. falava baixo. não sabia que fizesse.

Pediu-me algumas circunstâncias mais. Da toada não era. Mas. neste ponto.— E que interesse tem José Dias em lembrar isto? perguntou-me no fim. o pregão das velhas tardes. Comprei-as. um preto. e o tom delas. ridículas. deixei o canto e corri para a varanda. em meio da crise. Capitu refletia. — José Dias? — Não. rindo. destinada a picar a vaidade das crianças.. que ela. você fugia. Capitu recusou. Creio que a letra. e saiu. Ele chegou a mostrar-se arrependido. para não ser apanhado. — Vá-se embora. não quis saber de doce. — Cocadinha tá boa. Chora. porque não tem Vintém. não acabava de entendê-las. cresce na madureza e atinge o maior grau na velhice. não podia deixar de cumprir. Fiquei tão satisfeito de ver que assim espontaneamente reparava as injúrias que lhe saíram do peito. não lhe pude dar toda a significação. ora comprando um doce ausente. Ao relembrá-las. há até certa graça em ameaçar muito e não executar nada. pouco antes. rindo. mas. eu conservava um canto para as cocadas. eu então. é um dos seus privilégios. parou em frente e perguntou: — Sinhazinha. dá-lhe atenção demais. — Chorou por quê? — Não sei. apesar de equilibrada e lúcida. Tínhamos chegado à janela. confessou que certamente não era por mal que minha mãe me queria fazer padre. não me fica um instante. que não era coisa de choro. É um sujeito muito ruim. — Dê cá! disse eu descendo o braço para receber duas. que era ela mesma. a adolescência e a infância não são. Em meio disto. ela a sabia de cor e de longe. Mamãe é boa demais. ora vendendo. fiquemos em que a minha amiga. Quando eu for dono da casa. Vi que. e proferi outras ameaças. chora. tão sabido do bairro e da nossa infância: Chora. era a promessa antiga. saltando. foi que a enojou agora. A atenção de Capitu estava agora particularmente nas lágrimas de minha mãe. e conheciam-se as ocasiões pelo apertado dos olhos. mas tive de as comer sozinho. Como eu não queria dizer o ponto inicial da conversa. Aos quinze anos. menina. A reflexão não era coisa rara nela. foi só para fazer mal. Este mal ou este perigo começa na mocidade. que ele me paga! Disse isto fechando o punho. as próprias palavras de uns e de outros. que peguei da mão dela e apertei-a muito. o que tanto pode ser perfeição como imperfeição. mamãe. vinha apregoando cocadas. o pregão que o preto foi cantando. quem vai para a rua é ele. não me acho ridículo. — Acho que nenhum. mas o momento não é para definições tais. qué cocada hoje? — Não. que. usava repeti-la nos nossos jogos da puerícia. depois a conversa entrou a cochilar e dormir. Parece até que chorou. replicou ela sem rispidez. respondeu Capitu. porque logo depois me disse: — Se eu fosse rica. temente a Deus. . Ao contrário. trocando os papéis comigo. Capitu deixou-se ir. ouvi só dizer que ela não chorasse. e gostava muito de doce. a modo que lhe deixara uma impressão aborrecida.. metia-se no paquete e ia para a Europa. desde algum tempo. você verá. deixe estar. deixe estar que me há de pagar.

Suponde uma concepção grande executada por meios pequenos. combatendo os meus projetos de resistência franca. Capitu. e o melhor é outra coisa. para não sair do desejo vago e hipotético de me mandar para a Europa. se não aprovava a minha ordenação. Dê-lhe bem a entender que não é favor. continuou Capitu. se pudesse cumpri-lo. era um “boa-vida”. mas aos saltinhos. e inquiria-me depois sobre eles. — Mas que se perde em experimentar? Experimentemos. Conto estas minúcias para que melhor se entenda aquela manhã da minha amiga. mas seria aparecer francamente. sim. o sentimento era tão amigo que eu podia escusar o extraordinário da aventura. — Mas se foi ele mesmo que falou. Capitu repetiuos. Não lhe fale acanhado. mas ele queria ir. Prima Justina era melhor que ele. parecendo ir à fortaleza da Laje em ponte movediça. e alcançavam o fim proposto. Glória pode ser que mude de resolução. mas o padre não havia de trabalhar contra a Igreja. Tudo é que você não tenha medo. não. deixando minha mãe na praia. mas eram só atrevidas em si. Você não se lembra como é que foi ao teatro pela primeira vez. — Que tem José Dias? — Pode ser um bom empenho. da persuasão lenta e diuturna. não era capaz de dar um passo para suspendê-la. faça o que lhe digo. tanto falou que sua mãe acabou consentindo. só se eu lhe confessasse que não tinha vocação. Tal era a feição particular do caráter da minha amiga. Ele gosta muito de você. — Não importa. — Então vá para o seminário. — Isso não. falará com muito mais calor que outra pessoa. como principais. Rejeitou tio Cosme. Glória presta-lhe atenção. e melhor que os dois seria o Padre Cabral. Assim..Dito isto. tinha já idéias atrevidas. onde se fizeram sucessivamente sete. peça. como no Gênesis. diga-lhe que está pronto a ir estudar leis em São Paulo. muito menos que outras que lhe vieram depois. sinuosas. aos quatorze anos. e fez um discurso. pela autoridade. surdas. mas assim como quem pede um copo de água a pessoa que tem obrigação de o trazer.. acentuando alguns. Como vês. Capitu. pela ação do empenho. fosse antes pelos meios brandos. Olhe. se não trocara uns por outros. Não sei se me explico bem. mete-se então o Padre Cabral. é que ele.. mas o principal não é isso. e pagou a entrada aos dois. e da manhã e da tarde se fará o primeiro dia. e bastava isso para que José Dias não teimasse. na prática faziam-se hábeis.. D. Estremeci de prazer. — Posso confessar? — Pois.. estenderia uma fila de canoas daqui até lá. mostre que quer e que pode. e examinasse antes as pessoas com quem podíamos contar. lembra-se? — Lembra-me. Ande. se não mudar. mande. faz-se outra coisa. José Dias. D. Faça-lhe também elogios. Com efeito. dirá agora outra coisa. não admira que. Prometi falar a José Dias nos termos propostos. — Não acho. mostre que há de vir a ser dono da casa. destinado a ser arredado um dia. ele gosta muito de ser elogiado. disse que o teatro era uma escola de costumes. — Justo. não de salto. espreitou-me os olhos.. . por onde eu. da palavra. logo virá a tarde.. tendo de servir a você. pelo que.. à espera. Capitu. iria realmente até Bordéus. em vez da grossa parede espiritual e eterna. a ver se entendera bem. São Paulo era um frágil biombo. E insistia em que pedisse com boa cara. mas creio que eles não lhe disseram nada. ou só agradeceram a boa intenção. não me faria embarcar no paquete e fugir. Glória não queria. há dois meses? D.

mil. um meio-termo. e mais lentamente ainda as palavras sem falta. mediante orações que diria. e desfazer o plano de mamãe. se eles viessem. que não pensasse nos termos em que falaria ao agregado. A última foi de duzentos padre-nossos e duzentas ave-marias. saíram-me quase súplices. Repeti-as ainda. para ver se eram adequadas e se obedeciam às recomendações de Capitu: “Preciso falar-lhe.” CAPÍTULO XX Mil Padre-Nossos e Mil Ave-Marias Levantei os olhos ao céu. escolhendo as palavras que diria e o tom delas. .” Proferi-as lentamente. ao meu amigo. francamente. Bastava não carregar tanto. Formulei o pedido de cabeça. E então disse de mim para mim: — Prometo rezar mil padre-nossos e mil ave-marias. trinta. e à medida que se amontoavam iam sendo esquecidas. mas não foi para vê-lo coberto ou descoberto. tudo era dizê-las em tom que não ofendesse. Era um modo de peitar a vontade divina pela quantia das orações. escolha o lugar e diga-me. A razão é que eu andava carregado de promessas não cumpridas. eu adiava a paga. como para sublinhá-las. Afinal perdi-me nas contas. repeti comigo. repeti-as comigo. as outras foram adiadas. Desde pequenino acostumara-me a pedir ao céu os seus favores. “E Capitu tem razão. porém. repetindo-as novamente. Cuidei de escolher outras. a casa é minha. se José Dias arranjar que eu não vá para o seminário. cada promessa nova era feita e jurada no sentido de pagar a dívida antiga. não tanto. A soma era enorme. Não choveu. impróprias de um criançola para um homem maduro. cinqüenta. que começava a embruscar-se. Afinal disse comigo que as palavras podiam servir. Mas vão lá matar a preguiça de uma alma que a trazia do berço e não a sentia atenuada pela vida! O céu fazia-me o favor. — Mil. Na chácara. Entrei nas centenas e agora no milhar. amanhã. depois em voz alta. E a prova é que. Era ao outro céu que eu erguia a minha alma. Assim cheguei aos números vinte. e parei. pode muito bem trabalhar por mim. antes de entrar em casa. entre seco e benévolo. se não chovesse em certa tarde de passeio a Santa Teresa. e então achei-as secas demais. mas eu não rezei as orações. além disso. sem falta. ele é um simples agregado. Vim depressa. Jeitoso é.CAPÍTULO XIX Sem Falta Quando voltei a casa era noite. Disse as primeiras. era ao meu refúgio. pensei. nem adoçar muito. quase ríspidas. e.

alumiada por um lampião. mas ainda que não desejasse. — Quem é? — Ora. a matéria do benefício era agora imensa. irritado com os esquecimentos. Cogitei muito no modo de resgatar a dívida espiritual. devia feri-los por força. Respondi esquivo: — Vida de padre é muito bonita. explicou rindo. Homem grave. há cá em casa quem lhe meta isso na cabeça. é bonita. podiam empenhar-me outra vez a alma. — Sim. fechando a escrituração da minha consciência moral sem déficit. negar-se a ouvir-me sem muito dinheiro. Fortunata. mas o que pergunto é se você gostaria de ser padre.Realmente. e também por interesse. Passeamos alguns minutos na varanda. mas eu disse que você já tinha vindo. Não é que prima Justina fosse de biocos.. Deus podia muito bem. que não se importa com isso. — Prima Glória deseja muito que você se ordene. mil. Veio ao patamar e perguntou-me onde estivera. Quis saber se eu não esquecera os projetos eclesiásticos de minha mãe. ir à Terra Santa. CAPÍTULO XXI Prima Justina Na varanda achei prima Justina. inquiriu-me sobre o gosto que eu tinha à vida de padre. e distraí-me. mas confessar que mentira é que me pareceu novidade. e a Paulo o que pensava de Pedro.. e dizendo-lhe eu que não. não menos que a franqueza da notícia. Era muito duro subir uma ladeira de joelhos. Mandar dizer cem missas. passeando de um lado para outro. tudo o que as velhas escravas me contavam de promessas célebres. conversando com D. se é que não as achas ridículas. — Estive aqui ao pé. magra e pálida.. As missas eram numerosas. Era preciso uma soma que pagasse os atrasados todos. Sublimes não eram. dizia francamente a Pedro o mal que pensava de Paulo. tudo se cumprisse. eu também não. Vivia conosco por favor de minha mãe. mediante a intenção. quem! Quem é que há de ser? Primo Cosme não é. mil. — José Dias? concluí.. tudo me acudia sem se fixar de vez no espírito. e antes parenta que estranha. A Terra Santa ficava muito longe. boca fina e olhos curiosos. É tarde. minha mãe queria ter uma senhora íntima ao pé de si. não menos que a salvação ou o naufrágio da minha existência inteira. . A mentira espantou-me. ou subir de joelhos a Ladeira da Glória para ouvir uma. Não achava outra espécie em que. é possível que estas agitações de menino te enfadem. — Eu gosto do que mamãe quiser. Era quadragenária. não é? Mamãe perguntou por mim? — Perguntou. Mil.

. já ela contava isto a todas as pessoas da nossa amizade.. que eu não trabalho para a desgraça dos outros. Eu. prima Glória tem este negócio firme na cabeça. Agora. se o receio me não fizesse discreto. Não contou. e não era pouco... um bajulador. apesar da casca de polidez. prima Justina reteve-me alguns minutos. Suponha que eu não gostasse de ser padre. em passando os dias. vá esquecendo a promessa. — Prima Glória pode ser que. que já a achava lindíssima. bradaria que era a mais bela criatura do mundo. se ela me dissesse: “Prima Justina. Pois é verdade. só o tempo. Você ainda era pequenino. ir falar-lhe sem ser chamada.. mas também. dos meus velhos oratórios. Lá avivar-lhe a memória. — Mas falou à toa? perguntei. ainda hoje. os costumes. eu penso que. Quando não era com palavra.. Não adverti que . pedir outra coisa.— Naturalmente. e para o fim arrependi-me do pedido: devia ter seguido o conselho de Capitu. o melhor é ficar. Note que é só para fazer mal. atalhou prontamente. porque ele é tão religioso como este lampião. e certamente com a felicidade que devia iluminar-me a cara. Enruguei a testa interrogativamente.” É o que eu diria e direi se ela me consultar algum dia. e não há nada no mundo que a faça mudar de resolução. insinuou-me que podia vir a ser uma moça bonita. a senhora era capaz de uma coisa? — De quê? — Era capaz de. Se ela me consultasse. mas como há de esquecer se uma pessoa estiver sempre. não faço. — Isso não. zás que darás. se ele gosta de ser padre. e finalmente de Capitu. disse: — Prima Justina. um intrigante. os elogios da Igreja. pode ir. Novamente me recomendou que não me desse por achado. passados alguns instantes.. mas. se não gosta. Hoje de tarde falou como você não imagina. Não disse mal dela.. falando do seminário? E os discursos que ele faz. tudo isto me acendeu a ponto de elogiá-la também. a gravidade. falando do calor e da próxima festa da Conceição. e a vida de padre é isto e aquilo. Prima Justina completou a notícia dizendo que ainda naquela tarde José Dias lembrara a minha mãe a promessa antiga. nos ouvidos. Então. e. era com gesto de aprovação que dava a cada uma das asserções da outra. como eu quisesse ir para dentro. e recapitulou todo o mal que pensava de José Dias. como se não soubesse nada. ou só conhecidas. um especulador. o trabalho para os seus. você que acha?”. Você não se dê por achado.. a senhora podia pedir a mamãe. tudo com aquelas palavras que só ele conhece. não peço. ao contrário. e aquela afetação. a ver se ela contava a denúncia do meu namoro com a vizinha. o amor que tinha a minha mãe. Eu. não. a minha resposta era: “Prima Glória. Entretanto. um grosseirão. como prima Justina se metesse a elogiar-lhe os modos.. bem.. fez apenas um gesto como indicando que havia outra coisa que não podia dizer. CAPÍTULO XXII Sensações Alheias Não alcancei mais nada..

. Fez-se tudo o melhor possível. Creio antes. — Sim. gostar-me. Só então senti que os olhos de prima Justina. Nos diálogos.. afirmo desde já que é matéria grave e pura. e até lhe fez algumas críticas. Ciúmes não podiam ser.. não pedir. à tarde. na rua. quando íamos para o chá. Creio que prima Justina achou no espetáculo das sensações alheias uma ressurreição vaga das próprias. O tom não me saíra tão imperativo como eu receava. mas ainda assim. Só pensei nisso na cama. certamente lhe deu idéia de uma pessoa nova e de uma nova situação. sim. É certo que. alternava o som das vozes. escolha o lugar e diga-me. sim. e reproduziam com moderação a ternura e a cólera. disse-me ele: — Amanhã. entramos no ônibus. Lia cantado e compassado. Também se goza por influição dos lábios que narram. É dia de lição? — A lição foi hoje. como era próprio da criança e do meu estilo habitual. ouvir-me. ouvida por ela. creio isto.assim confirmava a denúncia de José Dias.. na varanda.. Houve só uma alteração: minha mãe achou o dia quente e não consentiu que eu fosse a pé. após algum tempo. à porta de casa. disse-me que era um pouco trêfega e olhava por baixo. não creio que fossem ciúmes. entre um pirralho da minha idade e uma viúva quarentona não havia lugar para ciúmes. não hesitar. Não lhe pergunto o que é. cheirar-me. — Não importa. podemos apear-nos à porta do Passeio Público. mas as palavras o eram. Os castelos e os parques saíam maiores da boca dele. conforme o sexo dos interlocutores. pareciam apalpar-me. os lagos tinham mais água e a “abóbada celeste” contava alguns milhares mais de estrelas centelhantes. e o não interrogar. sem falta. você pode ir comigo. Foi no corredor. Creio que José Dias achou desusado este meu falar. senhor. pedirei a mamãe. — Até amanhã. na sala de visitas. quando eu falava. Ao despedir-se de mim. que eram levemente grossas ou finas. modificou os elogios a Capitu. disse-me José Dias. Tenho umas compras que fazer. fazer o ofício de todos os sentidos. José Dias vinha andando cheio da leitura de Walter Scott que fizera a minha mãe e a prima Justina. — Perfeitamente. se é que também ela não desconfiava já. CAPÍTULO XXIII Prazo Dado — Preciso falar-lhe amanhã.

— Quando era mais jovem. já que falamos nisto. CAPÍTULO XXV No Passeio Público Entramos no Passeio Público.. Mais tarde. Andando. e as . dos meus sapatos. e.. — Ele pediu a sua mãe que o deixasse trazer consigo. Capitu. tem um bom emprego. para me dar ânimo. mas que eu excedia a todos esses. afinal. possuía já certo número de qualidades morais sólidas. apesar daqueles olhos que o diabo lhe deu. A primeira coisa que conseguiu logo que comecei a andar fora foi dispensar-me o pajem. falei do jardim: — Há muito tempo que não venho aqui. fez-se pajem. era natural. Seguimos para o terraço. dos meus livros. que é boa como a mãe de Deus. poderia passar. para a minha idade. ele a corrigia. Cuidava dos meus arranjos em casa. Fortunata merece estima. mas honestidade e estima não bastam. — Perdoe-me. D. perguntava ao padre: “Não é verdade que o nosso jovem amigo caminha depressa?” Chamava-me “um prodígio”. no fim. e ela. sem contar que. não é bonito que você ande com o Pádua na rua. ia comigo à rua. da minha higiene e da minha prosódia. posto não avaliasse todo o valor deste outro elogio.. outras doentes ou só vadias espalhavamse melancolicamente no caminho que vai da porta ao terraço. Glória. mas ouça-me. gostava do elogio. Aos oito anos os meus plurais careciam. ele assistia às lições. Mas você está ficando moço. meio risonho para obter o perdão da emenda. não há três meses que esteve aqui com o nosso vizinho Pádua. da desinência exata. Eu. — Mas eu andei algumas vezes.. atalhou ele. não se lembra? — É verdade. A gente Pádua não é de todo má.CAPÍTULO XXIV De Mãe e de Servo José Dias tratava-me com extremos de mãe e atenções de servo. Ajudava assim o mestre de primeiras letras.. Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada. dizia a minha mãe ter conhecido outrora meninos muito inteligentes. consentiu. não pode gostar disto. Pois. meio sério para dar autoridade à lição. possui a casa em que mora. era criança. e ele tomando confiança. se não fosse a vaidade e a adulação. ele podia passar por criado. apesar deles. Oh! a adulação! D. alguma vez. Algumas caras velhas. fazia reflexões eclesiásticas. e ele não nego que seja honesto. era um elogio.. doutrina e história sagrada. talvez um ano. mas foi tão de passagem. quando o Padre Cabral me ensinava latim.

mas fez um esforço grande e fechou outra vez o rosto. a matéria do discurso revelara em mim uma alma nova. até cocheiro de ônibus.. pelo contrário. — Perdão. O senhor sabe que. Os olhos do agregado escancararam-se. mastigado. sacudia-me com brandura. Não contava certamente com a resistência. interrompi suspendendo o passo. estou pronto a ser o que for do seu agrado. continuei eu. Outros. disse eu depois de alguns instantes. — Um favor? Mande. Quando os olhos tornaram às dimensões ordinárias: — Mas que posso eu fazer? perguntou. José Dias ficou aturdido. Mamãe pede muita vez os seus conselhos. mas o que ainda mais o assombrou foi esta conclusão: — Conto com o senhor para salvar-me. Todo esse discurso não me saiu assim.. e olhamos para o mar. não menos pasmado que ele. Pádua tem uma tendência para gente reles. — São bondades. em minha presença. de melhor sangue. subimos ao terraço. as sobrancelhas arquearam-se.. não há muito tempo. Estou por tudo o que ela quiser. mas aos pedaços. nem porque ele fale mal de mim e se ria. que merecem tudo. disse ele a um sujeito. — Não posso. José Dias tornou a perguntar o que era. por mais acanhada que fosse. retorquiu lisonjeado. Aí está! nunca ninguém me há de ouvir dizer nada de pessoas tais. Em lhe cheirando a homem chulo é com ele. há dias. enfiado naturalmente. José Dias sorriu deliciosamente. não tenho jeito. peço-lhe um favor. José Dias ouvira-o espantado. e o prazer que eu contava dar-lhe com a escolha da proteção não se mostrou em nenhum dos músculos. mamãe sabe que eu faço tudo o que ela manda. levantava-me o queixo e espetava os olhos em mim. — Pois que outra coisa.. mas eu não posso ser padre. eu próprio não me conhecia. por quê? porque são ilustres e virtuosas. não gosto da vida de padre. — Mamãe quê? Que é que tem mamãe? — Mamãe quer que eu seja padre. — Vejo que o senhor não quer senão o meu benefício. em nossa casa. em voz um pouco surda e tímida.. como se riu. que era pouco. O talento que seu tio acha em mim confesso que o tenho. seu tio é um cavalheiro perfeitíssimo. Tínhamos outra vez andado. peremptório. que é? — Mamãe. Sua mãe é uma santa. Realmente. E nada disso impede que ele seja o que lhe digo. como pode parecer do texto. depois replicou: — Não lhe agradeço nada. São favores de pessoas dignas. Não digo isto por ódio. ansioso também. Não obstante. e vinha de cor. Durante algum tempo não pude dizer o resto. nenhuma poderá vencer a sua em nobreza de sentimentos. — é o talento de saber o que é bom e digno de admiração . que o senhor era “um homem de capacidade e sabia falar como um deputado nas câmaras”.. Tenho conhecido famílias distintas. nunca ouvi que falasse mal do senhor. como a prima Justina na véspera. não posso ser padre. ordene. não é? Tio Cosme diz que o senhor é pessoa de talento. José Dias endireitou-se pasmado. Toda a cara dele era pouca para a estupefação.outras qualidades perdem muito de valor com as más companhias em que ele anda. me têm feito o favor de juízos altos. um dia. Padre. A carreira é bonita mas não é para mim. Mas a palavra final é que trouxe um vigor único. dos meus sapatos acalcanhados.. — Pode muito. disse finalmente. não. Bentinho? — Neste caso.. de vez. todos o apreciam. mas é só um.

. é provável que. Vá para as leis. ainda é tempo. trabalharei com alma. Pode ir a São Paulo. não quer ser padre? As leis são belas. o presente e o futuro. se ela quiser que eu estude leis. — Se eu quiser? Mas que outra coisa quero eu. Deus é dono de tudo. Glória. com a indignação que experimentei. Peça-lhe a sua felicidade. — Não blasfeme. Se eu fosse destemido. ou ainda mais longe. concluiu apontando para o céu. — Não é tarde. Vou falar a D. irei falar a sua mãe. Como insistisse: — É tarde.. a terra e o céu. — Hei de falar. mas então seria preciso confessarlhe que estivera à escuta. mas não conte só comigo. e desciam a roçar os pés na água. perto da praia. nem as danças fantásticas dos pássaros me desviavam o espírito do meu interlocutor. é tarde. Estou pronto para tudo. como merece? — Pois ainda é tempo. preciso meter Bentinho no seminário. rompesse a chamar-lhe mentiroso. que eu não faço outra coisa. se o senhor quiser... avoaçando ou pairando. que é melhor que tudo. atrás da porta. grandes pássaros negros faziam giros.” Timidez não é tão ruim moeda. — Em que lhe posso valer. Quando pudesse. — uma idéia que o alegrou extraordinariamente. CAPÍTULO XXVI As Leis São Belas Pela cara de José Dias passou algo parecido com o reflexo de uma idéia. ele é. vou para São Paulo. como eu. Por que não há de ir estudar leis fora daqui? Melhor é ir logo para . mas lutar. se tal é a sua vocação. além de promessa. se não que seja feliz. só por si. Uma vez que você não pode ser padre. Calou-se alguns instantes. Há boas universidades por esse mundo fora. e prefere as leis. a Pernambuco. Depois de lhe responder que sim. a ambição e o sonho de longos anos. Ainda ontem fezme o favor de dizer: “José Dias. anjo do céu? Não hei de dissuadir sua mãe de um projeto que é. — Pegue-se também com Deus. fale também a seu tio. — com Deus e a Virgem Santíssima.. Mas nem as sombras do céu. Não prometo vencer. meu querido. não é por vadiação. emendei-me: — Deus fará o que o senhor quiser. ele voltara os seus para o lado da barra. Deveras. mas. No ar.e de apreço. sem desfazer da teologia. — Há de ter também o de proteger os amigos. Contentei-me de responder que não era tarde.. para lhe provar que não há falta de vontade.. O céu estava meio enfarruscado. como parece. Olhe. e uma ação valia outra. como a vida eclesiástica é a mais santa. o passado. disse ele. e tornavam a erguer-se para descer novamente. se não servi-lo? Que desejo.. eu tinha os olhos nele.. As leis são belas..

acrescentei para esclarecê-lo. um mendigo estendeu-nos a mão. e cuidar de hospedarias. mas eu pensei em Capitu e no seminário. Anjo do meu coração. russo e até sueco. ainda que possa e vá.alguma universidade.. CAPÍTULO XXVIII Na Rua José Dias ia tão contente que trocou o homem dos momentos graves. pede a mamãe que me não meta no seminário? — Pedir. falava dela muitas vezes. o homem teso rendeu o flexível. recebeu aluguéis de casa. pagou contas. e passou a falar pausado. ouviremos inglês. Bentinho.. veremos as terras estrangeiras. italiano. Este beijou a moeda.. falava de tudo. viaja. e andar com você de um lado para outro. — Sim. por mais que louvasse os ares e as belezas. pelo homem dobradiço e inquieto. estamos aqui. como era na rua. tirei dois vinténs do bolso e dei-os ao mendigo.. estamos a bordo. Levantou a perna e fez uma pirueta. Contava-me o enredo de algumas peças. — Estamos a bordo. matrículas. . papéis. meu devoto! — Chamo-me Bento. Podemos ir juntos. mas pedir não é alcançar. Oh! as leis são belíssimas! — Está dito. Mexia-se todo.. e lá ficar durante a eternidade dos meus estudos. oh! a Europa. francês. D. espanhol. Não contava com esta possibilidade de ir comigo. José Dias passou adiante. Ah! você não imagina o que é a Europa. não quererá guiar os negócios. a fim de que eu pudesse satisfazer todos os meus desejos. recitava monólogos em verso. fazia-me parar a cada passo diante de um mostrador ou de um cartaz de teatro. estamos a bordo! CAPÍTULO XXVII Ao Portão Ao portão do Passeio. eu pedi-lhe que rogasse a Deus por mim. se vontade de servir é poder de mandar. sem acabar de tentar minha mãe nem tio Cosme. Uma das suas ambições era tornar à Europa. Glória provavelmente não poderá acompanhá-lo. peço. Afinal. para si comprou um vigésimo de loteria.. Fez os recados todos. e ao mesmo tempo que estuda.

. as janelas atopetadas. os sonhos são muita vez confusos. Grande alvoroço na vizinhança: “O Imperador entrou em casa de D. Sua Majestade manda. E logo me achei em casa. inclinavase e fazia um gesto de adeus. e entrei a tratá-lo com palavras e gestos carinhosos. com lágrimas. como todos os veículos. mande-o para a nossa Escola. até que ouvi os batedores e o piquete de cavalaria. Seu marido morreu. a nossa Escola. “Sua Majestade pedindo. Tudo isso vi e ouvi. o Imperador apeava-se e entrava. que podem ombrear com os melhores de outras terras. CAPÍTULO XXIX O Imperador Em caminho. e ele não tinha cuidado em si.. — pedia a minha mãe que me não fizesse padre. Faça isso por mim. até destruir-se o plano e voltar-me para as caras sem sonhos dos meus . Vi então o Imperador escutando-me. é uma bonita carreira. Não. encontramos o Imperador. que vinha da Escola de Medicina. meu filho. Glória! Que será? Que não será?” A nossa família saía a recebê-lo. a rua cheia de gente. vencê-las. trazia uma idéia fantástica. Quando tornei ao meu lugar. o coche parava à nossa porta. um silêncio de assombro. mas a doença era fatal. a imaginação de Ariosto não é mais fértil que a das crianças e dos namorados. que iria falar a minha mãe. dizendo ainda: “A medicina. acompanhado de todos nós. — e ela. — A medicina. Então o Imperador. contar-lhe tudo e pedir-lhe a intervenção. — não me lembra bem. combatê-las. Consolei-me por instantes.. a idéia de ir ter com o Imperador. minha mãe era a primeira que lhe beijava a mão. Não vi que a mudança era natural. o Imperador entrava no coche. prometia que não. e nós temos aqui bons professores. Então o Imperador dava outra vez a mão a beijar.. Nunca foi à nossa Escola? É uma bela Escola. A medicina é uma grande ciência.. os passageiros desceram à rua e tiraram o chapéu. conhecer as moléstias. Bentinho? — Mamãe querendo. Não confiaria esta idéia a Capitu. até que o coche imperial passasse. até entrarmos no ônibus. É uma bonita carreira. digamos minutos. — por que lhe não manda ensinar medicina? — Uma vez que é do agrado de Vossa Majestade. lisonjeada e obediente. refletindo e acabando por dizer que sim.. mamãe cede”. Já temos médicos de primeira ordem. e saía. é o Imperador! é o Imperador! Toda a gente chegava às janelas para vê-lo passar. todo risonho... O ônibus em que íamos parou. — Quero. sim? Você quer. mas não passava.com superlativos. — Mande ensinar-lhe medicina. nem a visão do impossível precisa mais que de um recanto de ônibus. sem entrar na sala ou entrando. à espera.” E o coche partia entre invejas e agradecimentos. basta só isto de dar a saúde aos outros. eu beijava-lhe a mão. pensei comigo. temi que houvesse mudado a resolução assentada. A senhora mesma há de ter visto milagres.

veio cumprimentar-nos. que me conhecia de me ver ali com minha mãe. olhando para o padre. José Dias pediu uma para si. fiquei zangado. e o homem desceu. cedo ao nosso Bentinho. apesar do aviso. lembrou-me que ele costumava acompanhar o . pedia-a para mim. O sacristão achou meio de conciliar a rivalidade. a quem esta distinção cabia mais diretamente. mas vai sê-lo. CAPÍTULO XXX O Santíssimo Terás entendido que aquela lembrança do Imperador acerca da medicina não era mais que a sugestão da minha pouca vontade de sair do Rio de Janeiro. tecem-se pelo desenho das nossas inclinações e das nossas recordações. mas logo depois satisfeito. mas José Dias transtornou ainda esta combinação. Pádua solicitava ao sacristão uma das varas do pálio. disse alguém no ônibus. entrou um sujeito esbaforido. Pádua. tudo isto em voz baixa e surda. Era pôr à prova o coração de um pai. “jovem seminarista”. o ônibus parou. pegou-me no braço e fez-me descer consigo. respondeu José Dias. Não. mas a Europa. era o meu vizinho Pádua. Assim fez. Deu conosco. Pádua ficou pálido. uma vez que tínhamos outra vara disponível. — Bem.companheiros. José Dias deu duas voltas rápidas à cabeça. apesar do medo que tinha ao outro. Ouço um sino. e apenas lhe respondeu com uma palavra seca. Pela minha parte. disse José Dias. José Dias fez um gesto de aborrecido. — Mas eu tinha pedido primeiro. baixinho. como Pádua falasse ao sacristão. Já havia algumas pessoas na sacristia.. Efetivamente. Era a primeira vez que me achava em momento tão grave. — Há só uma disponível. creio que é em Santo Antônio dos Pobres. eu já cá estava. Era muito longe. aventurou Pádua. que. que lavava as mãos. mas entrou tarde. como as tochas. tomando a si obter de um dos outros seguradores do pálio que cedesse a vara ao Pádua. como José Dias. obedeci. — Ainda não. conhecido na paróquia. — Pediu primeiro. Leve uma tocha. — Parece que vai sair o Santíssimo. aproximou-se dele. Os sonhos do acordado são como os outros sonhos. eu fiz a mesma coisa. menos pela caridade do serviço que por me dar um ofício de homem. Viva a medicina! Iria contar estas esperanças a Capitu. Iríamos também acompanhar o Santíssimo. Vá que fosse para São Paulo. perguntou de curioso se eu era deveras seminarista. Pare. muito mar e muito tempo. — Pois essa. senhor recebedor! O recebedor das passagens puxou a correia que ia ter ao braço do cocheiro. aos domingos. O sacristão. o sino chamava os fiéis àquele serviço da última hora. que também ia acompanhar o Santíssimo. disse o sacristão. a princípio constrangido.. piscando o olho esquerdo para mim. teimava em querer a vara. quis ceder-lhe a vara. Quando o sacristão começou a distribuir as opas. é. retorquiu José Dias. Depois. suspirou o pai de Capitu.

e ouvi alguém dizer-me: — Não chore assim! A imagem de Capitu ia comigo. Peguei da minha vara.. De resto. os cabelos caíam despenteados. e apenas mostravam a compostura do ato. e as lágrimas faziam-lhe encarquilhar os olhos.. de uma doçura que me embriagou. padre e cibório prontos. felizmente a casa era perto. a animação da rua.. que. Vim para perto de uma janela. A distinção especial do pálio vinha de cobrir o vigário e o sacramento. Pádua. E nada! E tornava à tocha comum. o agregado tolheu-me esse ato de generosidade. O vigário confessou a doente. era alguma coisa contrária à morte. os braços caíam-me. Esta nova sensação me dominou tanto que José Dias veio a mim. falar-me. talvez nem tivesse graça. A enferma era uma senhora viúva. mas também não iam tristes. há pouco. e a minha imaginação. Quis ceder-lhe a vara. O pranto da moça redobrou tanto que senti os meus olhos molhados e fugi. nem ao agregado. ao contrário. e. o que fazia a distância menor. Via-se que caminhavam com honra. e não vejo outra mais que bodas. paralelamente a mim. e me disse ao ouvido. assim lhe encheu a boca de riso agora. andar à volta. o total falava e cativava o coração. cheio de uma glória pia e risonha.. os rapazes da minha idade que me fitavam cheios de inveja. assim como lhe atribuía lágrimas. não acho outra forma mais viva de dizer a dor e a humilhação do meu vizinho. ia mais humilhado. com os braços no ar. as devotas que chegavam às janelas ou entravam nos corredores e se ajoelhavam à nossa passagem. tochas distribuídas e acesas. ouvi distintamente o meu nome. para tocha qualquer pessoa servia. que se ajoelhavam.Santíssimo Sacramento aos moribundos. em voz baixa: — Não ria assim! Fiquei sério depressa. complicada da lembrança de minha mãe. na Rua do Senado. Demais. Quando me vi com uma das varas. tísica. E contudo havia outros que também traziam tocha. e a voz dela. passando pelos fiéis. era a segunda vez do pálio. tanto que cuidou logo de ir pedi-lo. deu-lhe a comunhão e os santos óleos. tão lúgubres na ocasião. Assim fica entendido o alvoroço com que entrara na igreja. enfiei pelo corredor. da miserável tocha. Não obstante. não iam garridos. doeu-me mais. Que era lustre nupcial? Não sei. A moça não era formosa. não pude mirá-lo por muito tempo. e. As tochas acesas. Pádua roía a tocha amargamente. Foi ele mesmo que me contou e explicou isto. — o peso da vara era mui pequeno. Apesar de substituído por mim. fiquei comovido. senti-me cansado. como já conhecia a distância. rompendo a marcha do pálio. levando uma tocha. o sacristão de hissope e campainha nas mãos. Era o momento da saída. e pediu ao sacristão que nos pusesse. saiu o préstito à rua. via-a escrever no muro. quando enfim pensei em Capitu. . o administrador regressava ao antigo cargo. É uma metáfora. Pobre criatura! A dor era comunicativa em si mesma. que estava chorando à porta do quarto. a ele e a mim. com as duas varas da frente. o sol cá fora. outra vez a interinidade interrompida. tinham-me ares de um lustre nupcial. tinha uma filha de quinze ou dezesseis anos. Opas enfiadas. senti um ímpeto de soluçar também. Com pouco. erguia a cabeça com o ar de ser ele próprio o Deus dos exércitos. mas que a última vez conseguira uma vara do pálio. tudo me enchia a alma de lepidez nova. e agora voltávamos para a igreja. não acabava de se consolar da tocha.

mas a ótima delas é nenhuma. Ainda assim. se vingasse a idéia da Europa. gostava de saber tudo. Bentinho. — Anda apanhar um capotinho. Em vez de ficar abatida com a ameaça da larga separação. estou que aprenderia facilmente pintura. o nome. a história. depois de lho propor gracejando. Pedia o som das palavras. achei que era obra de muito merecimento. dizia-lhe ele. Quando é que ele disse que falaria a sua mãe? — Não marcou dia. rotulava e pregava na memória a minha exposição. isto é. à força de repetição. das campanhas. Já então namorava o piano da nossa casa. Também se pode dizer que conferia. acabou dizendo que latim não era língua de meninas. quis que prima Justina lho ensinasse. Era o de meu pai. querendo saber das ruínas. Capitu quis que lhe repetisse as respostas todas do agregado. Esta imagem é porventura melhor que a outra. replicou. Se ainda o não disse. a narração e o diálogo. Mas. copiado da tela que minha mãe tinha na sala e que ainda agora está comigo. mais mulher do que eu era homem. folheava os nossos livros de gravuras. que apenas lhe contara. assim úteis como inúteis. descontai-me a idade e a simpatia. prometeu que ia ver. não tendo ela rudimento algum da arte. francês. aí fica. Capitu era Capitu. e que me pegasse com Deus. Tio Cosme ensinoulhe gamão. mas não foi adiante. os olhos saíram esbugalhados. Em compensação. escrever e contar. não aprendeu. Era minuciosa e atenta. o lugar. mas as ações citadas por José Dias davam-lhe . A erudição deste não avultava muito mais que a sua homeopatia de Cantagalo. Há conceitos que se devem incutir na alma do leitor. Era também mais curiosa. Um dia. uma criatura mui particular. aprendera a ler. por exemplo. quis aprender inglês com um velho professor amigo do pai e parceiro deste ao solo. fica também. Um dia fui achá-la desenhando a lápis um retrato. tudo parecia remoer consigo. Capitu. No colégio. Brute? Capitu não achava bonito o perfil de César. por isso mesmo. deixemos o Imperador sossegado. fiquemos por ora com a promessa de José Dias. As curiosidades de Capitu dão para um capítulo. Se não estudou latim com o Padre Cabral foi porque o padre. com exclamações e latins: — César! Júlio César! Grande homem! Tu quoque. E quando eu lhe contei o meu sonho imperial: — Não. Capitu confessou-me um dia que esta razão acendeu nela o desejo de o saber. e havendo feito aquilo de memória em poucos minutos. com atenção. Lia os nossos romances. demorando-se um pouco mais em César. Se disse. e os cabelos eram pequenos círculos uns sobre outros. onde. explicáveis e inexplicáveis. das pessoas. ao contrário. Capitu quis saber o que eram as figuras da sala de visitas. dava os últimos rasgos. José Dias dava-lhe essas notícias com certo orgulho de erudito. doutrina e obras de agulha. não sei se diga com amor. as alterações do gesto e até a pirueta.CAPÍTULO XXXI Curiosidades de Capitu Capitu preferia tudo ao seminário. umas graves. como aprendeu música mais tarde. a fazer renda. apenas de estimação. mostrou-se satisfeita. Capitu obedecia e jogava com facilidade. Eram de vária espécie. e pediu-me que esperasse para ver se estava parecido. que falaria logo que pudesse. outras frívolas. Perfeição não era. velho traste inútil. O agregado disse-lho sumariamente. desde os sete anos.

referia-se ao que estava na sala. teimou um dia em saber o que fora este acontecimento. Queria a notícia das tribunas da Capela Imperial e dos salões dos bailes. — Está na sala. mas naturalmente tinha para si que eles pouco mais conheceriam do que o que se passou nas ruas. uma lembrança dali. Ficou muito tempo com a cara virada para ele. era um espelhinho de pataca (perdoai a barateza). apenas entrei na sala. respondi. Neste direi somente que. penteando o cabelo. nem esperou que eu lhe perguntasse pela filha. com o de meu pai.. — São jóias viúvas.gestos de admiração. e achou que o Imperador fizera muito bem em querer subir ao trono aos quinze anos. Foi nessa ocasião que ela perguntou a minha mãe por que é que já não usava as jóias do retrato. a verdade é que. e só lhe ouvi esta pergunta: — Há alguma coisa? — Não há nada. Se não foi ele. Fortunata. alfaias velhas. um diadema e brincos. disseram-lho. argolinha de latão. fui ver a minha amiga. pente. toda ela voou pelos ares. Nascera muito depois daquelas festas célebres. não tendo presente o valor do sestércio. Este pode ser que não fosse. que estava no quintal. disse-me.. moldura tosca. mobílias antigas. É o que contarei no outro capítulo. vim ver você antes que o Padre Cabral chegue para a lição. Capitu. como eu. cabelos. Como passou a noite? — Eu bem. Caso houve. foi o pé. um dito aqui. passados alguns dias do ajuste com o agregado. notícias de Itaguaí. José Dias ainda não falou? . Tudo era matéria às curiosidades de Capitu. a infância e a mocidade de minha mãe. costumes. Um ou outro. mas ou o pé ou o espelho traiu-me. Um homem que podia tudo! que fazia tudo! Um homem que dava a uma senhora uma pérola do valor de seis milhões de sestércios! — E quanto valia cada sestércio? José Dias. tinha um grande colar. entre as duas janelas. ou se fez ambas as coisas. porém. — Quando é que botou estas? — Foi pelas festas da Coroação. como eu. D. comprado a um mascate italiano. CAPÍTULO XXXII Olhos de Ressaca Tudo era matéria às curiosidades de Capitu. Ouvindo falar várias vezes da Maioridade. no qual não sei se aprendeu ou ensinou. vá devagarzinho para lhe pregar um susto. — Oh! conte-me as festas da Coroação! Sabia já o que os pais lhe haviam dito. um adágio dacolá. pendente da parede. eram dez horas da manhã. Fui devagar. respondeu entusiasmado: — É o maior homem da história! A pérola de César acendia os olhos de Capitu.

sem quebra da dignidade do estilo. mas dissimulada sabia. e de todo. constantes.. Quer primeiro ver se mamãe tem a resolução feita. — Se embaraçar.. se. enfiados neles. Retórica dos namorados. agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitu. — Você jura? — Juro! Deixe ver os olhos. como a vaga que se retira da praia. Olhos de ressaca? Vá.. aos braços. Eu não sabia o que era oblíqua. mas tão depressa buscava as pupilas. se quisesse. Depois. e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos. Eu já nem sei se José Dias poderá influir tanto. E se não fosse preciso alguém para vencer já. — Teimo. de ressaca. Capitu deixou-se fitar e examinar. às orelhas. e queria ver se se podiam chamar assim. hoje mesmo ele há de falar. interrompeu Capitu. agarrei-me às outras partes vizinhas. É um inferno isto! Você teime com ele. cava e escura.. Não me acode imagem capaz de dizer.— Parece que não. Capitu... Bentinho. se sentir que você realmente não quer ser padre. — Você? — Eu mesmo. mas eu não estou aqui para emendar poetas. a onda que saía delas vinha crescendo. porém. acho que fará tudo. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento. o que eles foram e me fizeram. — Que tem. Estou para contar que. — para dizer alguma coisa. — Mas então quando fala? — Disse-me que hoje ou amanhã pretende tocar no assunto. não se lhe falaria.. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. você desembaraça depois. A eternidade tem as suas pêndulas. se nunca os vira. uma força que arrastava para dentro. — que era capaz de os pentear. Ele é atendido. crescidos e sombrios. É o que me dá idéia daquela feição nova. Este outro suplício escapou ao divino Dante. entrará em matéria. Tinham-me lembrado a definição que José Dias dera deles. eu nada achei extraordinário. imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto.. aos cabelos espalhados pelos ombros. nos dias de ressaca. . Só me perguntava o que era. dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. assim também a quantidade das delícias que terão gozado no céu os seus desafetos aumentará as dores aos condenados do inferno. ameaçando envolver-me. — Vai embaraçar-me o cabelo todo. não vai logo de pancada. mas poderá alcançar?. “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. um toque. com os meus olhos longos. Para não ser arrastado. falará assim por alto e por longe. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico. mas então com as mãos. Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos. — Vamos ver. nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. e disse-lhe. com tal expressão que. tem. a cor e a doçura eram minhas conhecidas. ao cabo de um tempo não marcado. puxar-me e tragar-me. isso sim.

eu desci os meus. desejei penteá-los por todos os séculos dos séculos.. e dividi-os em duas porções iguais. Cheguei a dizer-lhe que estava feia. “Vamos ver o grande cabeleireiro”. Se isto vos parecer enfático. porque não conhecia ainda esta divindade que os velhos poetas me apresentaram depois. ainda que quisesse. Quando eles me clarearam. mas. Peguei-lhe dos cabelos. os cabelos iam acabando. devagarinho. Em vez de ir ao espelho. como podem supor os cabeleireiros de ofício. rápida. Mas. cheguei a escrever Tétis. tecer duas tranças que pudessem envolver o infinito por um número inominável de vezes. com muito cuidado. O trabalho era atrapalhado. é que nunca penteastes uma pequena. acabei as duas tranças. risquemos ninfa. faltava-me língua. digamos somente uma criatura amada. Pedi-lhe que levantasse a cabeça. — Senta aqui. de costas para mim. e. vi que Capitu tinha os seus no chão. outras de propósito para desfazer o feito e refazê-lo. às vezes por desazo. desde a testa até as últimas pontas. nunca pusestes as mãos adolescentes na jovem cabeça de uma ninfa. sem fala. Em pé não dava jeito: não esquecestes que ela era uma nadinha mais alta que eu. eu recuei até a parede com uma espécie de vertigem. Uma ninfa! Todo eu estou mitológico. achatando ali. é melhor. palavra que envolve todas as potências cristãs e pagãs.. atordoado. o espaldar da cadeira era baixo. e ficamos assim a olhar um para o outro. podia ficar tonta. nem assim depressa. rosto a rosto. por mais que eu os quisesse intermináveis. Capitu ergueu-se. mas ainda que fosse da mesma altura. Não pedi ao céu que eles fossem tão longos como os da Aurora. não levantou a cabeça. Capitu! Não quis. Continuei a alisar os cabelos. voltando-se para o espelhinho. falando dos seus olhos de ressaca. até que ela abrochou os lábios. até que exclamei: — Pronto! — Estará bom? — Veja no espelho. disse-me rindo. não achava gesto nem ímpeto que me descolasse da parede e me atirasse a ela com mil palavras . — Levanta. Preso. mas devagar. saboreando pelo tato aqueles fios grossos. que eram parte dela. desgraçado leitor. enfim. Juntei as pontas das tranças. Não as fiz logo. Grande foi a sensação do beijo. Ainda há pouco. Os dedos roçavam na nuca da pequena ou nas espáduas vestidas de chita.. os olhos de um na linha da boca do outro. e a sensação era um deleite. Enfim. que lhe desciam à cintura. para compor as duas tranças. Inclinei-me depois sobre ela. mas trocados. Pedi-lhe que se sentasse. Sentou-se. um triste pedaço de fita enxovalhada. uni-as por um laço. colhi-os todos e entrei a alisá-los com o pente. Onde estava a fita para atar-lhes as pontas? Em cima da mesa.. mas nem esta razão a moveu. retoquei a obra alargando aqui. a tal ponto que me foi preciso acudir com as mãos e ampará-la.CAPÍTULO XXXIII Penteado Capitu deu-me as costas. os olhos escuros. Capitu derreou a cabeça. Não me atrevi a dizer nada. machucar o pescoço. que pensais que fez Capitu? Não vos esqueçais que estava sentada. risquei Tétis.

Tinha estremeções. não era nada. o chão. Fortunata chamou-lhe tonta. Fortunata. olhe como este senhor cabeleireiro me penteou. mas de atropelo. o Padre Cabral estava à minha espera. enfiado. Andando. e encheram-me a boca sem poder sair nenhuma. transbordando de benevolência. embaixo dos meus. um simples artigo. Sentia-os estirados. recordando o penteado e o resto. éramos dois e contrários.. tão depressa que.cálidas e mimosas. sem pensar. Está muito bem. Como eu quisesse falar também para disfarçar o meu estado. D. maluquices da filha. O beijo de Capitu fechava-me os lábios. Corri ao meu quarto.. por mais que investissem com força. E tornava a mim. pediu-me para acabar o penteado. E todas as palavras recolheram-se ao coração. e disse-me que não fizesse caso. Olhava com ternura para mim e para ela. achou talvez que houvera entre nós algo mais que penteado.. e fez isto. para viver não sei onde nem como. cosido à parede. Com dezessete. não logravam romper de dentro. chamei algumas palavras cá de dentro. Des Grieux (e mais era Des Grieux) não pensava ainda na diferença dos sexos. um riso espontâneo e claro. Capitu compôs-se depressa. ouvia algum som de fora. próximo ou remoto.. D. Depois. e via a cama. as paredes. Ora. sentei-me na cama. — O que. nenhuma contração de acanhamento.. os livros. Era uma saída. Uma exclamação. era D. e unindo-se uns aos outros. ela encobrindo com a palavra o que eu publicava pelo silêncio. murmurando: “Eis aqui um que não fará grande carreira no mundo. ouvi que a mãe censurava as maneiras da filha. desfazendo as tranças. vago. e elas acudiram de pronto. mas não passei à sala da lição. Fortunata tirou-me daquela hesitação. sem querer. e sorriu por dissimulação. apanhados pela mãe. que ela explicou por estas palavras alegres: — Mamãe. De repente. quando a mãe apontou à porta. despedi-me e enfiei pelo corredor. ela abanava a cabeça e ria. mamãe? Isto? redargüiu Capitu. por menos que as emoções o dominem. Veja que tranças! — Que tem? acudiu a mãe.. CAPÍTULO XXXIV Sou Homem! Ouvimos passos no corredor. e logo perdia tudo para sentir somente os beiços de Capitu. tinha uns esquecimentos em que perdia a consciência de mim e das coisas que me rodeavam. pegou do pente e alisou os cabelos para renovar o penteado. Vendo-me calado. igualmente esticados para os dela. mas a filha não dizia nada. parece-me que desconfiou.” Assim. mamãe! E com um enfadamento gracioso e voluntário que às vezes tinha. Nenhum laivo amarelo.. saiu-me da boca esta palavra de orgulho: . leitor precoce. dizendo que minha mãe me mandara chamar para a lição de latim. ninguém dirá que é de pessoa que não sabe pentear.. peguei dos livros. Não mofes dos meus quinze anos.

acostumados a cônegos. outra promessa em aberto e outro favor pendente. Quando entrei na sala. Não havia ninguém fora. porém. tinha. como vistes. e repetia: . mas que era protonotário apostólico? O Padre Cabral explicou que não era propriamente o cargo da cúria. nada disso valeu a sensação do beijo. e corri à porta da alcova. As próprias mãos. Pensei em prometer algumas dezenas de padre-nossos. mas o susto que causaria a minha mãe fez-me rejeitá-la. de vária espécie. O gosto que isto me deu foi enorme. um mal abortado. eram os ossos da verdade. há em cada adolescente um mundo encoberto. a que inteiramente me revelou a mim mesmo. Colombo não o teve maior. a mais nova. era a primeira vez que ele soava aos nossos ouvidos. Esta distinção do Papa dera-lhe grande contentamento e a todos os nossos. mas as honras dele. como que fundidas. bispos. a lição do velho coqueiro também. mas como se pensa em perigo que passou. não podiam dizer tudo. a recordação era menor que esta. O sangue era da mesma opinião. doces também. Fiz outros achados mais tarde. Sendo verdade. a meio caminho parei. de todas as daquele tempo creio que a mais doce é esta. mas a saudade é isto mesmo. Tio Cosme viu exalçar-se no parceiro de voltareta. Ainda agora tenho o eco aos meus ouvidos. Outras tenho. Voltei para dentro e. Tio Cosme e prima Justina repetiam o título com admiração. apertadas. um pesadelo extinto.. descobrindo a América. conversavam ruidosamente. todos os meus nervos me disseram que homens não são padres. baixinho. Podiam ser mentira ou ilusão. Não corri precisamente. núncios. CAPÍTULO XXXV Protonotário Apostólico Enfim.. A denúncia de José Dias alvoroçara-me. e soube que. Tive idéia de mentir. Grande homem que fosse. com efeito. foi ter com ele. muitas intelectuais. fui andando. tocadas. a mais compreensiva. a vista dos nossos nomes abertos por ela no muro do quintal deu-me grande abalo. monsenhores. ouvi vozes alegres. igualmente intensas. — Sou homem! Quando repeti isto. advertindo que devia ser muito tarde. ninguém ralhou comigo. pensei no seminário. Outra vez senti os beiços de Capitu. vastas e numerosas. pela terceira vez. vamos ver. alegar uma vertigem que me houvesse deitado ao chão. Talvez abuso um pouco das reminiscências osculares. peguei dos livros e corri à lição. e internúncios. O Padre Cabral recebera na véspera um recado do internúncio. Ora. Não. repeti que era homem. nenhum me deslumbrou tanto. por decreto pontifício. não eram a carne e o sangue dela. porque a palavra saiu em voz alta. e perdoai a banalidade em favor do cabimento. acabava de ser nomeado protonotário apostólico.— Sou homem! Supus que me tivessem ouvido. é o passar e repassar das memórias antigas. um almirante e um sol de outubro. e podiam ler-me no semblante alguma coisa.

dotado de qualidades boas. — Protonotário Cabral. quando minha mãe lhe disse que viesse jantar. basta protonotário. Padre Cabral acudiu que não era preciso dizê-lo todo. que se deixou ficar quieta e muda. — Agora. Era muita felicidade para uma só hora. cartas de cerimônia. Se a intenção do meu mestre de latim era ir acostumando ao uso do título com o nome. os primeiros atos políticos de Pio IX. José Dias. — Não. aplaudiu a distinção. comia pouco. assentiram todos. e protonotário também. — Mas.— Protonotário apostólico! E voltando-se para mim: — Prepara-te. e a nossa cozinha. Alguns defeitos tinha. ainda que não venha a ser padre. não impede — disse Cabral. Eu. era demasiado comprido. que continuava a refletir. Um beijo e férias! Creio que o meu rosto disse isto mesmo. sereno. — isto o obriga a ir a Roma? — Não. tal como daí a pouco outras idéias. se empregue o título inteiro: protonotário apostólico. e este aplauso não lhe foi menos ao coração que os outros. e acabou dando-me férias.. tu podes vir a ser protonotário apostólico. Conheci aqui o meu homem. E para agradar a minha mãe. sacudindo a barriga. Cabral ouvia com gosto a repetição do título. etc. Era a primeira palavra. mas José Dias corrigiu a alegria: — Não tem que festejar a vadiação. dava alguns passos. — Justamente. não sei bem. Bateu-me na bochecha paternalmente. porque tio Cosme. a semente lançada à terra. bastava que lhe chamassem o Protonotário Cabral. observou minha mãe. como para acostumar os ouvidos da família. — Protonotário Santiago. ainda que sem grande interesse. assim de passagem. Minha mãe sorriu para mim. o mais excelso deles era ser guloso. o que sei é que quando ouvi o meu nome ligado a tal título. que entrou pouco depois de mim. No uso comum. cheia de amor e de tristeza. Ele buscava um assunto alheio para se mostrar esquecido da própria glória. mas era esta que o deslumbrava na ocasião. a propósito. acentuou Cabral. — Não se esqueça. Era um velho magro. sorria ou tamborilava na tampa da boceta. posto que. Estava em pé. D. senhor protonotário. mas respondeu logo: — Há de ser padre. — Sim. a fim de se lhe fazer uma saúde. mana Glória. e recordou. o principal da hora e do lugar era o meu velho mestre de latim. Rematemos este dizendo que o mestre de latim falou algum tempo da minha ordenação eclesiástica. para ligá-lo ao nome.. deu-me vontade de dizer um desaforo. são só as honras. atos públicos. Bentinho. Protonotário apostólico. grandes esperanças da Itália.. os olhos com que aceitou seriam de protonotário. voltando a mim do receio. — não impede que nos casos de maior formalidade. era menos pobre que a dele. Subentendia-se apostólico. não propriamente glutão. — acudiu prima Justina para se ir acostumando ao uso do título. e padre bonito. tem razão. Justina. novamente . Protonotário Cabral. mas não eram apostólicos. esta segunda reflexão foi tio Cosme que a fez. uma idéia sem língua. se era simples. mas estimava o fino e o raro. mas ninguém pegou do assunto. entendi que devia cumprimentá-lo também. O tamanho do título como que lhe dobrava a magnificência. Assim. Mas a vontade aqui foi antes uma idéia. chamou-me peralta. o latim sempre lhe há de ser preciso. Mas essas pedem um capítulo especial.

Eu.” E pelo que respeita aos braços. é provável que o espírito de Satanás me fizesse dar à língua mística do Cântico um sentido direto e natural.. e outra vez me fugiram as palavras que trazia. Não conhecia nada da Escritura. A boca com que respondeu era tal que cuido haver-me provocado um gesto de aproximação. na mesma sala. ergueu-se e esperou-me.. dei com ela na sala. Era só executá-la. cosendo em paz. e até com latim. bastaria cumprir o vers. desfazer-lhe as tranças. puxá-la. oblíqua e dissimulada. tudo marchetado do “Protonotário Santiago”. mas a furto e a medo. é isto. CAPÍTULO XXXVII . as atitudes de Capitu eram agora tão retraídas. Idéia só! idéia sem braços! Os meus ficaram caídos e mortos. Ao cabo de cinco minutos. Idéia só! idéia sem pernas! As outras pernas não queriam correr nem andar. e perguntei se a mãe havia dito alguma coisa. almofada no regaço.” Vedes aí a cronologia dos gestos. dando-me o ósculo da sua boca. Muito depois é que saíram vagarosamente e levaram-me à casa de Capitu. depois de encravada a agulha no pano. Não me olhou de rosto. ou. Certo é que Capitu recuou um pouco. do lado oposto da mesa. não sabia que fizesse.º do cap.. lembrou-me ir correndo à casa vizinha. refazê-las e concluí-las daquela maneira particular. Se conhecesse. se preferes a fraseologia do agregado. até que ela deixou inteiramente a costura. Era ocasião de pegá-la. As mãos pararam. entretanto. 6. respondeu-me que não. beijá-la. Fui ter com ela. descrevendo o meu futuro eclesiástico.pegou em mim. que não sei se não continuaria parado. sem latim. Quando ali cheguei. que tinha inertes. Assim gastamos alguns minutos compridos. no ano próximo. II: “A sua mão esquerda se pôs já debaixo da minha cabeça. mas ainda que eu conhecesse o texto. sentada na marquesa. É isto. e fui-me outra vez a pensar na aventura da manhã. boca sobre boca. agarrar Capitu. e a sua mão direita me abraçará depois. que me tirou daquela situação. e oferecia-se a falar ao “senhor bispo”. a pretexto de brincar. e queria saber se ia para o seminário agora. Então obedeceria ao primeiro versículo: “Aplique ele os lábios. CAPÍTULO XXXVI Idéia sem Pernas e Idéia sem Braços Deixei-os. Foi ela.. Era o que melhor podia fazer. vamos.

A Alma É Cheia de Mistérios

— Padre Cabral estava esperando há muito tempo?
— Hoje não dei lição; tive férias.
Expliquei-lhe o motivo das férias. Contei-lhe também que o Padre Cabral falara da minha
entrada no seminário, apoiando a resolução de minha mãe, e disse dele coisas feias e duras. Capitu
refletiu algum tempo, e acabou perguntando-me se podia ir cumprimentar o padre, à tarde, em
minha casa.
— Pode, mas para quê?
— Papai naturalmente há de querer ir também, mas é melhor que ele vá à casa do padre, é mais
bonito. Eu não, que já sou meia moça, concluiu rindo.
O riso animou-me. As palavras pareciam ser uma troça consigo mesma, uma vez que, desde
manhã, era mulher, como eu era homem. Achei-lhe graça e, para dizer tudo, quis provar-lhe que era
moça inteira. Peguei-lhe levemente na mão direita, depois na esquerda, e fiquei assim pasmado e
trêmulo. Era a idéia com mãos. Quis puxar as de Capitu, para obrigá-la a vir atrás delas, mas ainda
agora a ação não respondeu à intenção. Contudo, achei-me forte e atrevido. Não imitava ninguém;
não vivia com rapazes, que me ensinassem anedotas de amor. Não conhecia a violação de Lucrécia.
Dos romanos apenas sabia que falavam pela artinha do Padre Pereira e eram patrícios de Pôncio
Pilatos. Não nego que o final do penteado da manhã era um grande passo no caminho da
movimentação amorosa, mas o gesto de então foi justamente o contrário deste. De manhã, ela
derreou a cabeça, agora fugia-me; nem é só nisso que os lances diferiam; em outro ponto,
parecendo haver repetição, houve contraste.
Penso que ameacei puxá-la a mim. Não juro, começava a estar tão alvoroçado, que não pude ter
toda a consciência dos meus atos; mas concluo que sim, porque ela recuou e quis tirar as mãos das
minhas; depois, talvez por não poder recuar mais, colocou um dos pés adiante e o outro atrás, e
fugiu com o busto. Foi este gesto que me obrigou a reter-lhe as mãos com força. O busto afinal
cansou e cedeu, mas a cabeça não quis ceder também, e, caída para trás, inutilizava todos os meus
esforços, porque eu já fazia esforços, leitor amigo. Não conhecendo a lição do Cântico, não me
acudiu estender a mão esquerda por baixo da cabeça dela; demais, este gesto supõe um acordo de
vontades, e Capitu, que me resistia agora, aproveitaria o gesto para arrancar-se à outra mão e fugirme inteiramente. Ficamos naquela luta, sem estrépito, porque apesar do ataque e da defesa, não
perdíamos a cautela necessária para não sermos ouvidos lá de dentro; a alma é cheia de mistérios.
Agora sei que a puxava; a cabeça continuou a recuar, até que cansou; mas então foi a vez da boca.
A boca de Capitu iniciou um movimento inverso, relativamente à minha, indo para um lado, quando
eu a buscava do outro oposto. Naquele desencontro estivemos, sem que ousasse um pouco mais, e
bastaria um pouco mais...
Nisto ouvimos bater à porta e falar no corredor. Era o pai de Capitu, que voltava da repartição
um pouco mais cedo, como usava às vezes: “Abre, Nanata! Capitu, abre!” Aparentemente era o
mesmo lance da manhã, quando a mãe deu conosco, mas só aparentemente; em verdade, era outro.
Considerai que de manhã tudo estava acabado, e o passo de D. Fortunata foi um aviso para que nos
compuséssemos. Agora lutávamos com as mãos presas, e nada estava sequer começado.
Ouvimos o ferrolho da porta que dava para o corredor interno; era a mãe que abria. Eu, uma vez

que confesso tudo, digo aqui que não tive tempo de soltar as mãos da minha amiga; pensei nisso,
cheguei a tentá-lo, mas Capitu, antes que o pai acabasse de entrar, fez um gesto inesperado, pousou
a boca na minha boca, e deu de vontade o que estava a recusar à força. Repito, a alma é cheia de
mistérios.

CAPÍTULO XXXVIII
Que Susto, Meu Deus!

Quando Pádua, vindo pelo interior, entrou na sala de visitas, Capitu, em pé, de costas para mim,
inclinada sobre a costura, como a recolhê-la, perguntava em voz alta:
— Mas, Bentinho, que é protonotário apostólico?
— Ora, vivam! exclamou o pai.
— Que susto, meu Deus!
Agora é que o lance é o mesmo; mas se conto aqui, tais quais, os dois lances de há quarenta
anos, é para mostrar que Capitu não se dominava só em presença da mãe; o pai não lhe meteu mais
medo. No meio de uma situação que me atava a língua, usava da palavra com a maior ingenuidade
deste mundo. A minha persuasão é que o coração não lhe batia mais nem menos. Alegou susto, e
deu à cara um ar meio enfiado; mas eu, que sabia tudo, vi que era mentira e fiquei com inveja. Foi
logo falar ao pai, que apertou a minha mão, e quis saber por que a filha falava em protonotário
apostólico. Capitu repetiu-lhe o que ouvira de mim, e opinou logo que o pai devia ir cumprimentar o
padre em casa dele; ela iria à minha. E coligindo os petrechos da costura, enfiou pelo corredor,
bradando infantilmente:
— Mamãe, jantar, papai chegou!

CAPÍTULO XXXIX
A Vocação

Padre Cabral estava naquela primeira hora das honras em que as mínimas congratulações valem
por odes. Tempo chega em que os dignificados recebem os louvores como um tributo usual, cara
morta, sem agradecimentos. O alvoroço da primeira hora é melhor; esse estado de alma que vê na
inclinação do arbusto, tocado do vento, um parabém da flora universal, traz sensações mais íntimas

e finas que qualquer outro. Cabral ouviu as palavras de Capitu com infinito prazer.
— Obrigado, Capitu, muito obrigado; estimo que você goste também. Papai está bom? E
mamãe? A você não se pergunta; essa cara é mesmo de quem vende saúde. E como vamos de
rezas?
A todas as perguntas, Capitu ia respondendo prontamente e bem. Trazia um vestidinho melhor e
os sapatos de sair. Não entrou com a familiaridade do costume, deteve-se um instante à porta da
sala, antes de ir beijar a mão a minha mãe e ao padre. Como desse a este, duas vezes em cinco
minutos, o título de protonotário, José Dias, para se desforrar da concorrência, fez um pequeno
discurso em honra “ao coração paternal e augustíssimo de Pio IX”.
— Você é um grande prosa, disse tio Cosme, quando ele acabou.
José Dias sorriu sem vexame. Padre Cabral confirmou os louvores do agregado, sem os seus
superlativos; ao que este acrescentou que o Cardeal Mastai evidentemente fora talhado para a tiara
desde o princípio dos tempos. E, piscando-me o olho, concluiu:
— A vocação é tudo. O estado eclesiástico é perfeitíssimo, contanto que o sacerdote venha já
destinado do berço. Não havendo vocação, falo de vocação sincera e real, um jovem pode muito
bem estudar as letras humanas, que também são úteis e honradas.
Padre Cabral retorquia:
— A vocação é muito, mas o poder de Deus é soberano. Um homem pode não ter gosto à
Igreja e até persegui-la, e um dia a voz de Deus lhe fala, e ele sai apóstolo; veja São Paulo.
— Não contesto, mas o que eu digo é outra coisa. O que eu digo é que se pode muito bem
servir a Deus sem ser padre, cá fora; pode-se ou não se pode?
— Pode-se.
— Pois então! exclamou José Dias triunfalmente, olhando em volta de si. Sem vocação é que
não há bom padre, e em qualquer profissão liberal se serve a Deus, como todos devemos.
— Perfeitamente, mas vocação não é só do berço que se traz.
— Homem, é a melhor.
— Um moço sem gosto nenhum à vida eclesiástica pode acabar por ser muito bom padre; tudo
é que Deus o determine. Não me quero dar por modelo, mas aqui estou eu que nasci com a vocação
da medicina; meu padrinho, que era coadjutor de Santa Rita, teimou com meu pai para que eu me
metesse no seminário; meu pai cedeu. Pois, senhor, tomei tal gosto aos estudos e à companhia dos
padres, que acabei ordenando-me. Mas, suponha que não acontecia assim, e que eu não mudava de
vocação; o que é que acontecia? Tinha estudado no seminário. Algumas matérias que é bom saber, e
são sempre melhor ensinadas naquelas casas.
Prima Justina interveio:
— Como? Então pode-se entrar para o seminário e não sair padre?
Padre Cabral respondeu que sim, que se podia, e, voltando-se para mim, falou da minha
vocação, que era manifesta; os meus brinquedos foram sempre de igreja, e eu adorava os ofícios
divinos. A prova não provava; todas as crianças do meu tempo eram devotas. Cabral acrescentou
que o reitor de S. José, a quem contara ultimamente a promessa de minha mãe, tinha o meu
nascimento por milagre; ele era da mesma opinião. Capitu, cosida às saias de minha mãe, não
atendia aos olhos ansiosos que eu lhe mandava; também não parecia escutar a conversação sobre o
seminário e suas conseqüências, e, aliás, decorou o principal, como vim a saber depois. Duas vezes
fui à janela, esperando que ela fosse também, e ficássemos à vontade, sozinhos, até acabar o
mundo, se acabasse, mas Capitu não me apareceu. Não deixou minha mãe, senão para ir embora.

amanhã falaremos. D. viva. Capitu segredoume que a escrava desconfiara. que cuidei simulada. Não obedeci. cheguei-me a ela. descer à chácara. rápida. — Amanhã.. pensei. — Escuta! — Fica! Falava baixinho. disse-vos a desta casa do Engenho Novo. Uma preta. ao passo que me assustava. Bentinho. vou dizer a mamãe que não tenho vocação. o meu gosto. correndo. conto-lhe o que se passou outro dia. despediu-se. e confesso o nosso namoro. entrar no quintal. Neste particular. eu deixei-me estar parado. foi noutro autor antigo. mas. dar-lhe terceiro beijo. Conteivos a da visita imperial... não. refleti algum tempo.” . e despedir-me. Novamente me intimou que ficasse e retirou-se. se não foi nele. e ia talvez contar às outras. em tom que ouvíssemos.. pregado. “Sim. — Vai com ela. é claro que o meu dever.Eram ave-marias. reproduzindo a de Matacavalos. agarrado ao chão.. é isto. mas deixemos de metáforas atrevidas e impróprias dos meus quinze anos. e pôs o dedo na boca. alguma coisa que não entendi bem nem mal. Glória. — Mas eu queria dizer a você. alguma vez tímida e amiga de empacar. e tive uma fantasia. acudiu ela rindo. — Adeus. as mais delas capaz de engolir campanhas e campanhas.. se ela duvidar. Creio haver lido em Tácito que as éguas iberas concebiam pelo vento. A imaginação foi a companheira de toda a minha existência. inquieta. Capitu. Já conheceis as minhas fantasias. e. — Não precisa. a menor brisa lhe dava um potro. eu sei o caminho. disse minha mãe. A conversa sobre vocação tornava-me agora toda inteira. e enfiei pelo corredor. Capitu que ia depressa. o penteado e o resto. CAPÍTULO XL Uma Égua Ficando só. Adeus. vendo-nos naquela atitude quase às escuras. Não me importou a recusa. — Não venha. Digamos o caso simplesmente. senhor protonotário. seguir a vizinha corredor fora. não.. riu de simpatia e murmurou. a minha imaginação era uma grande égua ibera. pegou-me na mão. Tendo dado um passo no sentido de atravessar a sala. que entendeu guardar essa crendice nos seus livros. que saía logo cavalo de Alexandre. todos os impulsos da idade e da ocasião eram atravessá-la de todo.. que veio de dentro acender o lampião do corredor. estacou e fez-me sinal que voltasse. A fantasia daquela hora foi confessar a minha mãe os meus amores para lhe dizer que não tinha vocação eclesiástica. abria-me uma porta de saída.

Por outro lado. e acabaria gostando de viver com eles.. Enxuguei os olhos e o nariz. levou-me ao quarto dela. pegou em mim. Não houve cálculo nesta palavra. Nem por isso permitiu adiar a confidência. senhora. por fazer crer que ela era a minha única afeição. senhora. Disfarças para não tomar suadouro. — É. Minha mãe saiu da sala. — Agora só para o ano. olhe.. Quando te ordenares padre. se a cabeça. pensando. só os primeiros dias. — Não tenho nada.. quando havia chamado minha mãe justamente para confirmá-las. — Vou. Em pouco tempo eu me acostumaria aos companheiros e aos mestres. quando é que ia para o seminário. é melhor. se o estômago. perguntou se acompanhara Capitu. no corredor. para mostrar que não tinha nada. — Mas então que é? — É uma coisa. e apalpava-me a testa para ver se tinha febre. A verdade é que minha mãe era cândida como a primeira aurora. João da Costa. não é coisa de cuidado. dando comigo. Tentei rir. e. escute. logo. Ela afagou-me. muita vez. anterior ao primeiro pecado. eu queria dizer-lhe uma coisa. e ordenou-me que lhe dissesse tudo. Mas. — Eu só gosto de mamãe. ela foi só.. conhece-se pela voz. Quantas intenções viciosas há assim que embarcam. nota que eu queria desviar as suspeitas de cima de Capitu. e pareceu-me que tinha os olhos úmidos. mamãe.CAPÍTULO XLI A Audiência Secreta O resto fez-me ficar mais algum tempo. depois quis repreender-me. mas as contradições são deste mundo. senhora. a meio caminho. mas estimei dizê-la. acendeu vela.. mas tu estás constipado. quis saber o que é que me doía. numa frase inocente e pura! Chega a fazer suspeitar que a mentira é.. depois das férias. se o peito. mamãe assusta-se por tudo. leitor amigo. tão involuntária como a transpiração. isso é volta de constipação. — Não. mas creio que a voz lhe tremia. para principiar. Disse-lhe que também sentia a nossa separação. Então eu perguntei-lhe. vens morar comigo. — Que é? Toda assustada. Não é nada mau. — Não é moléstia? — Não. desviava as suspeitas de cima de Capitu. por causa dos estudos. era só alguma ausência. Negou que fosse separação. Vi entrar o Dr. E quase investindo para ela: — Mamãe. não. e preparou-se logo o voltarete do costume. para ficar? — Como ficar? — Não volto para casa? — Voltas aos sábados e pelas férias. nem por simples intuição era capaz de deduzir uma . é melhor depois do chá.

que me deixasse de moleza. irás para o seminário. e Deus que é grande e poderoso. o que me veio animando à resistência. à proporção que se aproximava o tempo. mas com alguma força. Depois. Bentinho. Bentinho? E como havia de saber que Deus me dispensava? — Talvez em sonho... e não seria capaz de fingir um sentimento que não tivesse. quando José Dias te chamava Reverendíssimo. Vi que a emoção dela era outra vez grande. E depois. com as suas batinas? Em casa. meu filho. vamos para a sala. e aventurei-me a perguntar-lhe: — E se mamãe pedisse a Deus que a dispensasse da promessa? — Não. continuou repetindo as reflexões que ouvira ao meu professor de latim.. mas velada e esganada. Ser padre é bom e santo. porque o Padre Cabral fala de ti com entusiasmo. Caminhou para a porta.. você conhece muitos. eu sei que seria castigada e bem castigada. e quase a vi saltar-me ao colo e dizer-me que não seria padre. — Também eu. depois replicou-me sem imposição nem autoridade. não peço.. e que eu confessei não sentir em mim. Quisera um modo de pagar a dívida contraída. eu sonho às vezes com anjos e santos. é bonito. coisas que só vim a saber mais tarde. não. Deixa de manha. e não achava nenhuma. voltou-se para mim. Como eu buscasse contestá-la. não. como o Padre Cabral. que a havia de cumprir. Antes de sair. que vive tão feliz com a irmã. Está entendido: no primeiro ou no segundo mês do ano que vem.. Não creio. Afirmou o principal. isto é. No seminário há interesse em conhecer-te. Estás tonto. tu rias com tanto gosto! Como é que agora?. não lhe hei de mentir nem faltar. — Mas tu gostavas tanto de ser padre. outra moeda. saímos ambos. mas não recuava dos seus propósitos. dizem. e escapou de ser bispo. nem a ocasião. não te lembras que até pedias para ir ver sair os seminaristas de S. isto é. não me deixaria assim. disse ela. Vamos. um tio meu também foi padre. e eu tornei ao filho submisso que era. não. que me fizesse homem e obedecesse ao que cumpria. ainda falou gravemente e longamente sobre a promessa que fizera. . Vocação? Mas a vocação vem com o costume. Moleza é o que queria dizer. em pagamento a Deus. que ela emendou logo a palavra. em benefício dela e para bem da minha alma. como para o Padre Cabral. Bentinho.coisa de outra. que valesse tanto ou mais. Bentinho. O que eu quero é que saibas bem os livros que estás estudando. manha. Bentinho. Creio que os olhos que lhe deitei foram tão queixosos. não só para ti. José. são coisas que não se fazem sem pecado. repreendeu-me sem aspereza. é tarde. não concluiria da minha repentina oposição que eu andasse em segredinhos com Capitu. mas é inútil. e a voz não lhe saía clara... salvando a tua existência. Daí o falar-lhe na vocação que se discutira naquela tarde. Todas essas coisas e outras foram ditas um pouco atropeladamente. Calou-se durante alguns instantes. nem os motivos dela. Este era já o seu desejo íntimo. como lhe dissera José Dias. — Nosso Senhor me acudiu. não podia ser manha. não me disse as circunstâncias. sabia muito bem que eu era amigo dela.

até muito depois da meia-noite. na sala e na cama. não quisera ter ouvido um desengano que eu reputava certo. Que faríamos agora? Capitu ouvia-me com atenção sôfrega. é certo que receava perder Capitu. Já estou boa. a verdade das verdades. a primeira filha de um médico. depois sombria. mas distraía-me da aflição. antes de qualquer trabalho efetivo por parte de José Dias. Também eu lhe contei o que se dera comigo. refletia. ainda que demorado. ela olhava para o chão. cuido que os enxugou somente. e por fim as últimas respostas decisivas: dentro de dois ou três meses iria para o seminário.. Mas eu creio que Capitu olhava para dentro de si mesma. para não amofiná-la. trazia um lenço atado na cabeça.. e fiquei com tal medo que a sacudi brandamente. antes e depois do chá. Fiz o mesmo. e com lamparina. quando acabei. — Se eu acendesse vela. enquanto que eu fitava deveras o chão. a entrevista com minha mãe. Agora. as lágrimas dela. Era pouco. logo que a vi assim. respirava a custo. Paula e Sancha. Quando tornei a olhar para Capitu. Não me chames dissimulado. Minto. chama-me compassivo. a verdade última. se lhe morressem as esperanças todas. ou se somente enxugou os olhos. e ficamos a olhar para o ar. Capitu despedia-se de duas amigas que tinham ido visitá-la. refletia. Vendo-lhe o gesto. Estava abatida. como prestes a estalar de cólera... mamãe zangava-se. peguei-lhe na mão para animá-la. Ficamos sós na sala. Caímos no canapé. Capitu confirmou a narração da mãe. as minhas súplicas. E como desatasse o lenço. aquela de quinze. estava boa. a mãe contou-me que fora excesso de leitura na véspera. mas também eu precisava ser animado. o roído das fendas. examinando bem. a segunda de um comerciante de objetos americanos. mas Capitu respondeu que não era preciso. esta de dezessete anos. Há tanto tempo que isto sucedeu que não posso dizer com segurança se chorou deveras.. Satisfi-la. Capitu tornou cá fora e pediu-me que outra vez lhe contasse o que se passara com minha mãe. Capitu refletia. companheiras de colégio. logo que pude. duas moscas andando e um pé de cadeira lascado. é que já me arrependia de haver falado a minha mãe. atenuando o texto desta vez.CAPÍTULO XLII Capitu Refletindo No dia seguinte fui à casa vizinha. mas conteve-se. acrescentando que passara mal por causa do que ouvira em minha casa. CAPÍTULO XLIII Você Tem Medo? .. vi que não se mexia. a mãe disse-lhe timidamente que era melhor atá-lo. mas doía-me vê-la padecer.

antes diminuir até as dimensões normais. tudo lhe servia de papel e lápis. de andar. e pedi-lhe a taquara. quero brincar. e atou o lenço outra vez na testa. por mais que eu. acompanhou-me ao quintal para se despedir de mim. Se ela tem dito simplesmente: “Vamos embora!” pode ser que eu obedecesse ou não. com um pedaço de taquara. Como me lembrassem. entenderia. e disse: — Medroso! — Eu? Mas. uma casa escura e infecta.. Não entendi. fitou em mim os olhos de ressaca.. nesta ocasião. entrei a cogitar donde me viriam pancadas. Valhame Deus! vi de imaginação o aljube. quis fazer o mesmo no chão. de ser preso. disse-me que estava brincando. e perguntou-me se tinha medo. em todo caso. receoso disso mesmo. Desde que se metera a desenhar. que eu hoje estou meia maluca. — Medo? — Sim. e. não entendo. Também vi a presiganga. como de um fato certo e definitivo. — Medo de quê? — Medo de apanhar. Capitu. de trabalhar. vou botar uma rodela de limão nas fontes. De apanhar? — Sim. Capitu tornou ao que era. Os olhos de ressaca não se mexiam e pareciam crescer. — Não.. não pude atinar o que era. riscava no chão. — Não é nada. Em seguida.. pergunto se você tem medo. Sem saber de mim.. até logo. quando não falava. vaga e solta. e também por que é que seria preso. Ventava. narizes e perfis. era uma das suas diversões. e dar-lhes o movimento do costume. os nossos nomes abertos por ela no muro.. e não querendo interrogá-la novamente. Capitu falou novamente da nossa separação. mas. — Tem razão. O erro de Capitu foi não deixá-los crescer infinitamente. e por que. com um gesto cheio de graça. não precisava afligir-me. Pois quem é que há de dar pancada ou prender você? Desculpe. Mas aquela pergunta assim. Fez o que disse. nenhum de nós tem vontade de brincar. você não está brincando. sem que os olhos de ressaca de Capitu deixassem de crescer para mim. Todas essas belas instituições sociais me envolviam no seu mistério. e. de brigar. Bentinho.De repente. CAPÍTULO XLIV . foi só maluquice. buscasse agora razões para animá-la. cessando a reflexão.. sentados sobre a borda do poço. Capitu. e quem é que me havia de prender. o quartel dos Barbonos e a Casa de Correção. Não me ouviu ou não me atendeu. o céu estava coberto. a tal ponto que as fizeram esquecer de todo. ainda aí nos detivemos por alguns minutos.. — Apanhar de quem? Quem é que me dá pancada? Capitu fez um gesto de impaciência. — Mas. bateu-me na cara. sorrindo. — Como até logo? — Está-me voltando a dor de cabeça.

e eu podia aceitá-la sem grande pena. Fortunata chegara uma vez à porta da casa. — Contra a ordem de sua mãe? — Contra a ordem de mamãe. sem levantar os olhos. afinal de contas... mas eu sentia a secreta esperança de vê-la atirar-se a mim lavada em lágrimas. inclinei-me e li: mentiroso. depois virão as roxas.. se você não vier logo. O que eu não quero perder é sua missa nova. na rua um tropel de bestas. a quem é que escolhia? — Eu? Fez-me sinal que sim. disse-lhe eu mordendo os beiços. do lado da casa o chilrear dos passarinhos do Pádua. Mas . era pueril. para me ver morrer? — Não fale em morrer. mas fale verdade.. não quero disfarce. um tanto sumida. Nada mais. Como desforço. é melhor cônego. vozes vagas e confusas. Capitu! Capitu teve um risinho descorado e incrédulo. O roxo é cor muito bonita. A solidão era completa. melhor que padre só cônego. ninguém mais. perguntou-me: — Diga-me uma coisa. há de responder com o coração na mão. deixa sua mãe. mas entrou logo depois. — Que é? Diga. por causa das meias roxas. saia-balão e babados grandes. Era tão estranho tudo aquilo. mas de um modo que me fez lembrar a definição de José Dias. como não atinava com a do falado. Capitu limitou-se a arregalar muito os olhos. oblíquo e dissimulado. e sua mãe não quiser que você venha. se éramos sós? D. e com a taquara escreveu uma palavra no chão. Se me acudisse ali uma injúria grande ou pequena. Capitu olhou para mim. — Mas não se pode ser cônego sem ser primeiramente padre. Tive então uma idéia ruim. não há dúvida. você vem? — Venho. diga-me. — Se você tivesse de escolher entre mim e sua mãe. Pensando bem. mas eu pergunto. que o nome escrito por ela não só me espiava do chão com gesto escarninho. e acabou por dizer: — Padre é bom. deixe escrever uma coisa. Ou que me mato de saudades. a vida de padre não era má. disse-lhe que.. é possível que a escrevesse também. que não achei resposta. — Você deixa seminário. — Bem. mas até me pareceu que repercutia no ar.. mas não me lembrava nada. Suponha você que está no seminário e recebe a notícia de que eu vou morrer. Lembra-me que umas andorinhas passaram por cima do quintal e foram para os lados do morro de Santa Teresa. Ao longe. comece pelas meias pretas.O Primeiro Filho — Dê cá. — Não diga isso! — . levantou o olhar. avise-me a tempo para fazer um vestido à moda. Ao mesmo tempo tomei-me de receio de que alguém nos pudesse ouvir ou ler. Tinha a cabeça vazia. com a mesma taquara.. ou somente este fenômeno curioso. — Pois sim. — Eu escolhia. Não atinava com a razão do escrito.. Quem. deixa tudo. mas para que escolher? Mamãe não é capaz de me perguntar isso. A voz.

. — A primeira está prometida... você não vai ser padre já amanhã. Palavra que me custou.. Hei de fazer um figurão. Capitu. — Não... mas com uma condição. com a capa de ouro por cima. não prometo. para eu lhe dar a penitência e a absolvição.. sim. por haver-me acudido outra idéia. mas. — A primeira é que só se há de confessar comigo. continuei eu. até ao meu golpe final que foi este: — Pois. A segunda é que. Promete-me que seja eu o padre que case você? — Que me case? disse ela um tanto comovida. não ouviria o que ouvi. — A segunda... CAPÍTULO XLV .. a graça de um e a prontidão de outro. — Não sabendo o que é. disse. disse ela vendo-me hesitar. você ouvirá a minha missa nova. Logo depois fez descair os lábios. — Promete uma coisa? — Que é? — Diga se promete. Ah! como eu sinto não ser poeta romântico para dizer que isto era um duelo de ironias! Contaria os meus botes e os dela.. e acrescentou que esperava a segunda. e o furor na alma.” — Que morou? Você vai mudar-se? — Quem sabe onde é que há de morar amanhã? disse ela com um tom leve de melancolia.. é que. tornando logo ao sarcasmo: E você no altar... — A falar verdade são duas coisas. e não escreveria aqui uma coisa que vai talvez achar incrédulos. e abanou a cabeça. sim. — Duas? Diga quais são. — Candelária também. Muita gente há de perguntar: “Quem é aquela moça faceira que ali está com um vestido tão bonito?” — “Aquela é D. — Ou Candelária. Ao que ela respondeu: — Vossa Reverendíssima pode falar. Bentinho. Olhe. Francisco.talvez nesse tempo a moda seja outra. e o sangue correndo. cantando.. Carmo ou S. leva muitos anos. Pater noster. prometo que há de batizar o meu primeiro filho. contanto que eu ouça a missa nova. Capitolina. uma moça que morou na Rua de Matacavalos.. seria esperar muito tempo. metido na alva. A igreja há de ser grande. Qualquer serve. e antes não me chegasse a sair da boca. prometo outra coisa.

como tais palavras e maneiras. o abatimento do espírito. Fosse o que fosse. sem crer por isso na veracidade do autor. a aniquilação. passei-lhe o braço pela cintura. sem devoção. fiquei estúpido.. Leitor Abane a cabeça. CAPÍTULO XLVI As Pazes As pazes fizeram-se como a guerra..Abane a Cabeça. leitor. ela pegou-me na ponta dos dedos. o meu braço continuou a apertar a cintura da filha. a dor de cabeça. portanto. se o não fez antes e só agora. ela abaixou também a cabeça. se nem me deixou tempo de puxar o braço. Outra vez D. Capitu sorria. foi ela que as iniciou. eu via o primeiro filho brincando no chão.. Fortunata apareceu à porta da casa. mas não. mas nem me levantei. desapareceu logo. com se fosse a primeira boneca. Capitu fitou-me uns olhos tão ternos. Percorreu-me um fluido. Alguns instantes depois. que se dizem de tropel. Aquela ameaça de um primeiro filho. não sei para que. depressa. Podia ser um simples descargo de consciência. Chegue a deitar fora este livro. se também foi grande. que não achei palavra nem gesto. Buscasse eu neste livro a minha glória. e diria que as negociações partiram de mim. Falou do primeiro filho. uma cerimônia. e a posição os fazia tão súplices. a separação absoluta. fio que torne a pegar do livro e que o abra na mesma página. tudo isso produzia um tal efeito. O bonito é que cada um de nós queria agora as culpas para si. como eu estivesse cabisbaixo. o casamento dela com outro. e. não há nada mais exato. veio de mistura com uma sensação esquisita. faça todos os gestos de incredulidade. depois quis levantar-me para ir embora. se o tédio já o não obrigou a isso antes. Capitu alegava a insônia. que me deixei ficar. a perda. Fiz-me de rogado. Mas. Foi assim mesmo que Capitu falou. e foi assim que nos pacificamos. nem sei se iria.. o primeiro filho de Capitu. Todavia. e pedíamos reciprocamente perdão. mas voltando os olhos para cima a fim de ver os meus. tudo é possível. e .. como as rezas de obrigação. a não ser que fosse para certificar aos próprios olhos a realidade que o coração lhe dizia.. Quanto ao meu espanto.

apetecível. ficou em casa.. era efeito dos padecimentos da amiguinha. o pecado em comum iguala por instantes a condição das pessoas. As andorinhas vinham agora em sentido contrário. Para que bulir nisso? — Diga sempre.. ouvi dizer que lá dão pancada. acabou. mas.. como penso. Dizem que não estamos em idade de casar. era a ternura da reconciliação. força é reconhecer que não podia dizê-la. achei a criada galante. e as costas com que elas descem. somando as nossas ilusões. quando a senhora não quer falar a ninguém. que era muito chorão por esse tempo. ou não seriam as mesmas. durante os quais refleti muito e acabei por uma idéia. explique-me só uma coisa. disse eu finalmente. cochilando o seu arrependimento. respondeu Capitu. A verdade não saiu. os nossos temores. Se. CAPÍTULO XLVII “A Senhora Saiu” — Está bom. E eu não desci triste nem zangado.. porém. continuei. Capitu não disse a verdade.. Eu. sentia os olhos molhados. Era amor puro.. foi tão alto que espantou a minha vizinha. o tom da exclamação. começamos já a somar as nossas saudades. e a mentira é dessas criadas que se dão pressa em responder às visitas que “a senhora saiu”. melhor que a ama. depois de alguma hesitação.. — Não quê? Tinha havido alguns minutos de silêncio. ali ficamos. não contando o prazer que dá a cara das visitas enganadas. não tinha outra. por que é que você me perguntou se eu tinha medo de apanhar? — Não foi por nada. Há nessa cumplicidade um gosto particular. — Não há de ser assim.finalmente “os seus calundus”. Nós é que éramos os mesmos. A explicação agradou-me. no coração de Capitu. CAPÍTULO XLVIII Juramento do Poço — Não! exclamei de repente. Não? Eu também não creio.. Foi por causa do seminário? — Foi. que somos .

plantei-lhe flores. Se fosse em arrabalde. em parte para compensar a batina que eu ia deitar às urtigas. era a afirmação do matrimônio. era mais que a eleição do cônjuge. Basta isto? — Devia bastar. eu não me atrevo a pedir mais. Demorei-me mais nisto que no resto. Capitu. Quem sou eu para você lembrar-se de mim nessa ocasião? — Mas eu também juro! Juro. — Que eu case com outra? — Tudo pode ser. Esta reflexão não foi minha. seria longe. alto. Juramos pela segunda fórmula.. de jacarandá. juro por Deus Nosso Senhor que só me casarei com você. Bentinho. em parte porque éramos religiosos. haja o que houver. escolhi móveis. CAPÍTULO XLIX Uma Vela aos Sábados Eis aqui como. Não afligíamos minha mãe. — Se teimarem muito. cumprirei o meu juramento. como o sol e a lua. e o tempo correria até o ponto em que o casamento pudesse fazer-se.. Bem. — já ouvi dizer criançolas. Estávamos contentes. na roça ou fora da cidade.. entramos a falar do futuro. não devia ser grande nem pequena. Esta fórmula era melhor. Éramos religiosos. não casando nunca. a fórmula anterior era limitada. mas ainda restava uma parte que atribuo ao intuito secreto e inconsciente de captar a proteção do céu. Eu prometia à minha esposa uma vida sossegada e bela. apaixonar-se por ela e casar. que era o melhor. Capitu temia a nossa separação. piloto de má morte. Sim. Viríamos aqui uma vez por ano. mas dela. irei. . Sim. Realmente. Você jura uma coisa? Jura que só há de casar comigo? Capitu não hesitou em jurar. criançolas. uma sege e um oratório. Não nos censures. qualquer resistência ao seminário confirmaria a denúncia de José Dias. onde ninguém nos fosse aborrecer. na minha opinião. mas dois ou três anos passam depressa. tocávamos o porto a que nos devíamos ter abrigado logo. A casa. com a imagem de Nossa Senhora da Conceição. e ficamos tão felizes que todo receio de perigo desapareceu. não tomo ordens. disse ela.. você jura. após tantas canseiras. sem mentir ao juramento do poço. tínhamos o céu por testemunha. Você pode achar outra moça que lhe queira. Jurou duas vezes e uma terceira: — Ainda que você case com outra. juremos que nos havemos de casar um com outro. Ao contrário. Havíamos de acender uma vela aos sábados. e até lhe vi as faces vermelhas de prazer.crianças. apenas exclusiva. Podíamos acabar solteirões. havíamos de ter um oratório bonito. não se navegam corações como os outros mares deste mundo. Compreendeis a diferença. um meio-termo. mas acabou aceitando este alvitre. Mas juremos por outro modo. A cabeça da minha amiga sabia pensar claro e depressa. e tinha a vantagem de me fortalecer o coração contra a investidura eclesiástica. Eu nem já temia o seminário. mas faço de conta que é um colégio qualquer.

fez-se mais assídua e terna. mas tinha uma miniatura. e um ano andava depressa.. Suponha que Nosso Senhor nega disposição a seu filho. meu amiguinho. não tendo alcançado ir comigo para a Europa. Os olhos dela brilharam. por um modo que pede capítulo especial. para compensar este escrúpulo de exatidão que me aflige. como a pequena lhe pedia. Realmente. não se descrevem. como diz o padre. Dava a minha mãe um perdão antecipado. uma ou outra vez. não fico longe da verdade. aos quinze anos. o Padre Cabral achara um meiotermo: experimentar-me a vocação. Não foi ainda a nossa despedida. somaria mais que todas as vertidas desde Adão e Eva. só lhe parecia que um ano era bastante. é que a vontade divina é outra. Há nisto alguma exageração. Entretanto. fazendo vir do credor a revelação da dívida. em particular: — Vá por um ano. e disse-lhe que já sabia disso por mim mesmo. e nesse caso. resolveu dar-lha. José Dias. esta fez-se na véspera. Não consentiu em fotografar-se. piscando-me o olho. com os olhos nela. deulhe um anel dos seus e algumas galanterias. não eram oblíquos. uma vocação que Nosso Senhor lhe recusou. ela ia prendendo minha mãe. antes de nascido. para lhe dar um retrato.. tanto se doía como se aprazia de qualquer coisa. se no fim de dois anos eu não revelasse vocação eclesiástica. Também. quando minha mãe lhe anunciou a minha ida definitiva para o seminário: — Minha filha. Há de dar um padre de mão-cheia. e apoiou o “alvitre do senhor protonotário”. demais. eram direitos. José. O que unicamente digo aqui é que. de dotes finos e raros. é que Deus não quer. claros.CAPÍTULO L Um Meio-Termo Meses depois fui para o seminário de S. vivia ao pé dela. tudo é infinito. E a mim. no fim de um ano as coisas estariam mudadas. Minha mãe também padeceu.. Fez-lhe tão bem este tratamento de filha (era a primeira vez que minha mãe lho dava) que nem teve tempo de ficar triste. que dentro de um ano a vocação eclesiástica do nosso Bentinho se manifesta clara e decisiva. um ano passa depressa. agarrou-se ao mais próximo. mas sofria com alma e coração. o melhor remédio é a Europa. Entrou a achar em Capitu uma porção de graças novas. mas é bom ser enfático. Os olhos de Capitu. beijou-lhe a mão. você vai perder o seu companheiro de criança. Tudo isto me lembra a nossa despedida. Se eu pudesse contar as lágrimas que chorei na véspera e na manhã. Capitu deu-me igual conselho. Minha mãe era de natural simpática. A senhora não podia pôr em seu filho. mas a boca disse que não. — Estou certo. quando recebeu o mimo. Em particular animou-me a suportar tudo com paciência. disse ele. Era uma concessão do padre. . Beijou o retrato com paixão.. se não vier em um ano. minha mãe fez-lhe a mesma coisa a ela. Se não sentir gosto nenhum. seguiria outra carreira. — As promessas devem ser cumpridas conforme Deus quer. e que o costume do seminário não lhe dá o gosto que me concedeu a mim. por mais preparado que estivesse. padeci muito. mais tarde. depois de algumas hesitações. feita aos vinte e cinco anos e.. ao passo que nos prendíamos um ao outro. e igualmente sensível. se eu me ativer só à lembrança da sensação.. nem de ressaca. lúcidos.

Deus. não desejo. eu sou de outra espécie. antes do acender das velas. creia. não acredite. Deus é grande e descobre a verdade. como merece. Naturalmente sabe que José Dias diz mal dele. Se algum dia perder sua mãe e seu tio. Oh! minha doce companheira da meninice. a nossa . ele abraçou-me com ternura. O que o mandamento divino quer é que não juremos em vão pelo santo nome de Deus. fica. Quanto ao selo. vindos de fora para desunião das famílias.. se algum dia perder os seus parentes. CAPÍTULO LII O Velho Pádua Já agora conto também os adeuses do velho Pádua. porque. — Seja feliz! disse-me. — Dá licença? perguntou metendo a cabeça pela porta. — Mas. Não é suficiente em importância. aduladores baixos. tudo há de ser breve como esse instante. certos parasitas. eu era puro. por esta luz que me alumia. São intrigas.. Eu não ia mentir ao seminário. Também eu. Juramos novamente que havíamos de casar um com o outro. são os mais felizes! — Por que falará assim? pensei. se até lá não pensar de outra maneira. Mas a vocação eras tu. Minha mãe disse-lhe que fosse falar-me ao quarto. Todos nós estimamos muito o senhor.. Fui apertar-lhe a mão.. na sala de visitas. a buscar de aparência a investidura sacerdotal. E desde já fica.. se pensar. foi a conjunção das nossas bocas amorosas. Se lhe disserem outra coisa. — coisa que eu. em verdade. fui vítima de intrigas. e antes dela a vocação. excelentes pessoas.CAPÍTULO LI Entre Luz e Fusco Entre luz e fusco. A mim e a toda a minha gente creia que ficam muitas saudades. foi o mais que pôde. a investidura eras tu. como fez as mãos limpas. Logo cedo veio à nossa casa. Padre que seja. não vivo papando os jantares nem morando em casa alheia.. como ia dizendo. Enfim.. e eu sou grato às finezas recebidas. Não. eu não sou como outros. Talvez risque isto na impressão. assim fez os lábios limpos. e não foi só o aperto de mão que selou o contrato. José. mas a afeição é imensa. uma vez que levava um contrato feito no próprio cartório do céu. quando me casei. em casa dela. Nem durou muito a nossa despedida. como no quintal. e puro entrei na aula de S. é a nossa defesa.. e a malícia está antes na tua cabeça perversa que na daquele casal de adolescentes. porque são boas pessoas. não. desfizeram-se. aí é que nos despedimos de uma vez. pode contar com a nossa companhia. e puro fiquei.

um caderno latino. apertou os beiços. Como eu achasse muito breve. não dizia nada a princípio. — Posso estudar medicina aqui mesmo. vou indagar. Tio Cosme. — Não duvidaria aprovar a idéia. Há pessoas a quem as lágrimas não acodem logo nem nunca. não esqueça o velho Pádua. guarde. rapaz. é . explicou-se. disse-me rindo: — Anda lá. volta-me papa! José Dias. se não for. disse ele. a filha saberia tomá-lo e guardá-lo. a podridão alopata. O valor é a lembrança. até que formalmente rejeitou o alvitre. exclusivamente. dando ordens. ou à pequena. Que lindos que são! Como é que se corta uma beleza destas? Dê cá um abraço! outro! mais outro! adeus! Tinha os olhos úmidos deveras. Prima Justina disfarçava naturalmente os seus padecimentos íntimos. cortados na véspera. para guardá-lo. tão grandes e tão bonitos. tínhamos falado na véspera. onde fui ver se era ainda possível evitar o seminário. Havia embrulhado em um papel um cacho dos meus cabelos. e vê sair branco o maldito número. iremos em março ou abril. levava a cara dos desenganados. emendando os descuidos de minha mãe. é o assassinato. e vai morrer. Oh! obrigado! obrigado por mim e pela minha gente! Vou dá-lo à velha. — Um cachinho dos seus cabelos! exclamou Pádua abrindo e fechando o embrulho. composto e grave. mas tive idéia de dá-lo ao pai. — Dizem que não é bom tempo de atravessar o Atlântico. A alopatia é o erro dos séculos. — um número tão bonito! CAPÍTULO LIII A Caminho! Fui para o seminário. coisa que já lhe não preste para nada. se tem algum trapinho que me deixe em lembrança. José Dias correu os dedos pelos suspensórios com um gesto de impaciência. Suspirou e continuou: — Não esqueça o seu velho Pádua. Minha mãe apertava-me ao peito. como quem empregou em um só bilhete todas as suas economias de esperanças. que é mais cuidadosa que a mãe. Prima Justina suspirava. um botão de colete. Quero só que me não esqueça. — Aqui está.. Antes de um ano estaríamos a bordo. mas deu-me esperanças e principalmente animou-me muito. se na Escola de Medicina não ensinassem. qualquer coisa. Talvez chorasse mal ou nada. Poupa-me as outras despedidas. quando eu lhe beijei a mão em despedida. ao sair. fazendo-me recomendações.casa está às suas ordens. Já não era. Peguei do embrulho e dei-lho. no quarto dele. Tive um sobressalto.. diz-se que padecem mais que as outras. A intenção era levá-los a Capitu. e.

de todo o resto. senhor meu amigo. estava bom. menos o Panegírico de Santa Mônica. Agora não dizia nada. até lá tudo estará arranjado. não despega mais..” Quando minha mãe deu o último beijo: “Quadro amantíssimo!” suspirou ele. . Deixara seminário. Não é preciso dizer o nome. Tudo isso é história velha. umas vinte e nove páginas. Ordenou-se. uma vigairaria mineira. patologia não são alopáticas nem homeopáticas. nhô Bentinho! não se esqueça de sua Joana! Sua Miquelina fica rezando por vosmecê!” Na rua... Se lhe disserem que pode aprender na Escola de Medicina aquela parte da ciência comum a todos os sistemas... a vida cara. — Que versos? perguntou meio espantado.. Alcançou licença de imprimi-lo. José Dias insistiu nas esperanças: — Agüente um ano. claro. nem me bastaria a isso um capítulo. coçouse. Fisiologia. a alopatia é erro na terapêutica. Na mocidade é possível curar-se um homem dela. passou. Sorriu. Os moleques cochichavam. à maneira dos de Junqueira Freire. em 1882. anos depois encontrei-o no coro de São Pedro e pedi-lhe que me mostrasse os versos novos. que veio distribuindo pela vida fora.. indo ver certo negócio em repartição da Marinha. Esta sarna de escrever. das pessoas que tratei. Não. elogiado por algumas pessoas e então lido entre os seminaristas. anatomia. é verdade. as escravas tomavam a bênção: “Benção. CAPÍTULO LIV Panegírico de Santa Mônica No seminário. baste o caso. — Os seus. é a ilusão. copioso. Tinha composto um Panegírico de Santa Mônica. Assim falara na véspera e no quarto.. Chamava-se. quando pega aos cinqüenta anos. Foram cócegas da mocidade.. certo. sim. casara e esquecera tudo. fui pedir-lhas. deixara letras. memórias pessoais. mas é melhor aprender logo tudo de uma vez. Ah! não vou contar o seminário. deu-me tudo. Era manhã de um lindo dia. um sermão do Padre X. e seria impossível achar melhor nem mais pronta vontade. cujo livro de frade-poeta era recente..a mentira. — Ah! sorriu ele. ali dei com este meu colega. Como eu precisasse de algumas informações. Contrário a isso foi um seminarista que não seguiu a carreira. feito chefe de uma seção administrativa. Naturalmente conversamos do passado. e dedicou-o a Santo Agostinho. o que é mais moço é que um dia.. e.. por livros e por língua de homens cultores da verdade. E falou-me em prosa de uma infinidade de coisas do dia.. ou proferia algum aforismo sobre a religião e a família. algum dia. aqui mesmo no seminário tive um companheiro que compôs versos. lembro-me deste: “Dividi-lo com Deus é ainda possuí-lo. é possível que componha um abreviado do que ali vi e vivi. Pois não se lembra que no seminário. sem ir mais longe. e continuando a procurar num livro aberto a hora em que tinha de cantar no dia seguinte. confessou-me que não fizera mais versos depois de ordenado. dos costumes.

— Bom tempo! suspirou ele. as viagens. E como me visse folhear o opúsculo: — Veja se lhe lembra algum pedaço. afinal. devia estar ouvindo. Os anos passam. perguntou-me: — Conservou o meu Panegírico? Não achei nada que dizer. um mote. Não me lembrou logo. e naturalmente ouvia. se alguma sombra contrária houve então. — Recorda-se bem? — Perfeitamente. lembra-se? o Padre Lopes. toda a velha palhada saiu cá fora. as lições. era quase caridade recordar alguma lauda. mas as mudanças. agora só me resta um. encardido. manchado do tempo. Concordou que fossem belas. uma vez ordenados. Ele. os nossos recreios. Ele con. quase todos. com os olhos no ar. mas era cortesia. Antes de vinte e quatro horas estava em minha casa. e vieram amizades novas. — Também eu. Vinte e seis anos de intervalo fazem morrer amizades mais estreitas e assíduas. mas sem lacuna. e os daqui tomaram vigairarias fora. mas só me disse uma palavra. Panegírico de Santa Mônica! Como isto me faz remontar os anos da minha mocidade! Nunca me esqueceu o seminário. um livro. meu caro colega. fitando em mim uns olhos murchos e teimosos. e as sensações também.. disse-me. após alguma reflexão. os acontecimentos vêm uns sobre outros. e depois de alguns instantes de pesquisa mental. Pois. que também se foram depois. creia. com o folheto. voltaram naturalmente às suas províncias. mas não tinha palavra. com uma dedicatória manuscrita e respeitosa. e apontou-as. e ainda assim depois de algum tempo de silêncio. os recreios. mas a explicação devia bastar. as recordações traziam tal poder de felicidade que. — Hei de levar-lhe um exemplar. um velho folheto de vinte e seis anos. um verbo.. e rimos juntos. mas preferia outras. oh! o Padre Lopes.. tentei mover os beiços. — É o penúltimo exemplar. E. os padres..casos de estudo.. acentuando certas frases para lhe dar a impressão de que achavam eco em minha memória. disse-me. como é lei da vida.. Ou porque eram dele. perguntei: — Panegírico? Que panegírico? — O meu Panegírico de Santa Mônica..fessou-me que perdera de vista todos os companheiros do seminário. não apareceu agora. que não posso dar a ninguém. e suspiramos de companhia. li uma delas. ou porque éramos então moços. incidentes de nada. Vivemos algum tempo do nosso velho seminário. recolhendo os olhos e um suspiro! — Tem agradado muito este meu Panegírico! CAPÍTULO LV .. respondi que por muito tempo o conservara. nada fez apagar aquele tempo da nossa convivência.

pensei em compor com ele alguma coisa. ao notar que tinha a medida de verso. Quanto à idéia. e deitado ora sobre o lado direito. achava-o bonito. é possível. na cama. despediuse e saiu. saiu assim. Ia ser poeta. e o primeiro verso é o que ides ler: Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura! Como e por que me saiu este verso da cabeça. não me deixou dormir uma hora ou duas. se perderia acaso a vida. depois de muito suar. Aguardei o resto. era um verso magnífico. aos lençóis. e o que as folhas dele me lembraram foi tal que merece um capítulo ou mais. saiu este: Perde-se a vida. e então na moda. com dificuldade traria a perfeição louvada. a poesia. mas podia ser a virtude. ora sobre o esquerdo. as cócegas pediam-me unhas. era uma exclamação. e tanto de rima como de verso solto. saindo cronologicamente dos treze anteriores. Que não fosse novidade. Antes. Pensei em forjar uma de tais chaves. o primeiro verso não era ainda uma idéia. E tinha um pensamento. A idéia agora. tratei de poetar. Fiquei só com o Panegírico. pouco antes revelado. e. seminarista. francamente. estando eu na cama. Não escolhi logo. contarei a história de um soneto que nunca fiz. ganha-se a batalha! Sem vaidade. e o primeiro filho. porém. e repetia-o em voz baixa. e eu coçava-me com alma. e porque também eu tive o meu Panegírico.Um Soneto Dita a palavra. diria em verso as minhas tristezas. como uma exclamação solta. considerando que o verso final. a princípio cuidei de outra forma. qualquer outro conceito a que coubesse a metáfora da flor. Assim foi que me determinei a compor o último verso do soneto e. pareceu-me melhor não ser Capitu. imaginei que tais chaves eram fundidas antes da fechadura. não sei. naturalmente. na pugna pela justiça. com os olhos no teto. . depois repeti os dois versos seguidamente. a religião. A insônia. Era no tempo do seminário. Então adverti que os sonetos mais gabados eram os que concluíam com chave de ouro. um desses versos capitais no sentido e na forma. Naquela ocasião achei-o sublime. à vista do último verso. musa de olhos arregalados. como ele dissera as suas no claustro. a vitória ganha à custa da própria vida. Era um poema breve e prestadio. o soneto. e ainda agora não explico por que via misteriosa entrou numa cabeça de tão poucos anos. a idéia viria depois. e flor do céu. Tinha o alvoroço da mãe que sente o filho. seria a justiça. recitando sempre o verso. mas também não era vulgar. eu. mas afinal ative-me ao soneto. Decorei bem o verso. isto é. pensamento alevantado e nobre. e dispus-me a ligá-los pelos doze centrais. logo. e falando como se fosse de outro. Sonoro. mas nem assim vinha mais nada. não há dúvida. Recitei uma e muitas vezes a chave de ouro. apertou-me as mãos com as forças todas de um vasto agradecimento. ia competir com aquele monge da Bahia. afinal deixei-me estar de costas. um soneto. e ainda agora não me parece mau: Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura! Quem era a flor? Capitu. Assim. envolvido no lençol. Era mais próprio dizer que.

como eu creio que os sonetos existem feitos. Neste caso. Tudo é dar-lhe uma idéia e encher o centro que falta. é possível que fosse pedir uma idéia à noite. mas afinal aceitei definitivamente uma idéia nova. mas. nem terceiro. o segundo não vinha..mas a batalha ficava ganha. perde-se a batalha! O sentido vinha a ser justamente o contrário. e mais de uma vez pensei em sair da cama e ir ver tinta e papel. porém. pode ser que. Também me ocorreu aceitar a batalha. dou esses dois versos ao primeiro desocupado que os quiser. Começar bem e acabar bem não era pouco. nesse caso a flor do céu seria a liberdade. não vieram os versos. com os seus consoantes e sentidos próprios? Trabalhei em vão. catei. os versos acudissem. Esta acepção. Ao domingo. escrevendo. Criei forças novas e esperei. e recitei os dois versos. se eles é que a suscitavam. e esta viva metáfora não me daria os versos esquivos. tão naturalmente. ou na roça. luzindo cá embaixo.. por uma razão de ordem metafísica. mas talvez isso mesmo trouxesse a inspiração. se tivesse. e gastei alguns minutos em escolher uma ou outra. nem quarto. lembrou-me alterar o sentido do último verso. esperei. e agora estou compondo esta narração. podia não caber tanto como a primeira. Então tornava ao meu soneto. Pelo tempo adiante escrevi algumas páginas em prosa. não seriam para mim como rimas das estrelas. a caridade. nada me consola daquele soneto que não fiz. Mas. E quem sabe se os vaga-lumes. pode tentar ver se o soneto sai. e fazer dela a luta pela pátria. mas perde-se a batalha do céu. senhores. Não tinha janela. bem ou mal. Para me dar um banho de inspiração. que se não acabava de crer se ela é que os fizera. assim: Ganha-se a vida. Tive alguns ímpetos de raiva. era uma ironia: não exercendo a caridade. e as demais obras de arte. CAPÍTULO LVI . não vinha nenhum. Pois. Achei melhor a justiça. como as odes e os dramas. com a idéia em si. e notei que os mais deles eram facílimos. e novamente repetia o primeiro verso e esperava o segundo. com a simples transposição de duas palavras. um languidamente: Oh! flor do céu! Oh! flor cândida e pura! e o outro com grande brio: Perde-se a vida. ganha-se a batalha! A sensação que tive é que ia sair um soneto perfeito. evoquei alguns sonetos célebres. ou se estiver chovendo. Cansado de esperar. cada um a seu modo. busquei. não achando maior dificuldade que escrever. pode-se ganhar a vida. no sentido natural. os versos saíam uns dos outros. sendo o poeta um seminarista. em qualquer ocasião de lazer. por exemplo.

dobrava a folha como se estivesse lendo de verdade. que era um anjo. filho de um advogado de Curitiba. mas também ria folgado e largo. Escobar contava-me histórias dela. não raro com janelas para todos os lados. Luís Borges. fez-se político. Quem não estivesse acostumado com ele podia acaso sentir-se mal. estive quase a contar-lhe logo. Eu não era ainda casmurro. creio que era quando os olhos me caíam na palavra do fim da página. Vi o Bastos. A alma da gente. a minha história. Eis aqui outro seminarista. por exemplo. como sabes. capelas e bazares. Aqueles modos fugitivos cessavam quando ele queria. Uma coisa não seria tão fugitiva como o resto. fazia o seu ofício. Morreu pouco depois.Um Seminarista Tudo me ia repetindo o diabo do opúsculo. com as suas letras velhas e citações latinas.. as mãos não apertavam as outras. e tinha memória para guardá-las todas. logo. sem janelas. não sabendo por onde lhe pegasse. e o meio e o tempo os fizeram mais pousados. Quantas outras caras me fitavam das páginas frias do Panegírico! Não. e acabou senador do império. A princípio fui tímido. quando a gente cuidava tê-los entre os seus. sendo delgados e curtos. Este era homem de fortes sentimentos católicos. íamos dar com ele. Outrossim. ou com poucas e gradeadas. ou então que recordava a lição da véspera.. olhos enfiados em si. muita luz e ar puro. Escobar tinha uma irmã. Quando ele entrou na minha intimidade pedia-me freqüentemente explicações e repetições miúdas. Não sei o que era a minha. é uma casa assim disposta. De fato. e . Era um encanto ir por ele. que tão depressa estavam aqui como lá. eram simples e afetuosas.. tais eram que me fariam capaz de acabar casando com ela. tão recente como no primeiro dia. O mesmo digo dos pés. um pouco fugitivos. Eu. o calor do passado. Chamava-se Ezequiel de Sousa Escobar. um dos quais é cônego na Bahia. enquanto o outro seguiu medicina e dizem haver descoberto um específico contra a febre amarela. desde a porta da rua até ao fundo do quintal. cheias de carícias e conselhos. um magricela. à semelhança de conventos e prisões.. Não fitava de rosto. se não fosse Capitu. que servia de correspondente ao pai. Respondia-nos sempre que meditava algum ponto espiritual. como tudo. não eram frias. até as palavras. o receio é que me tolhia a franqueza. traziam o calor da juventude nascente. interessantes. já não tinha nada. como a fala. o meu próprio calor. aparentado com um comerciante do Rio de Janeiro. nem se deixavam apertar delas. porque os dedos. e lograva entender algum texto. como as mãos. Escobar veio abrindo a alma toda. todas as quais vinham a dar na bondade e no espírito daquela criatura. Talvez esta faculdade prejudicasse alguma outra. simples alpendres ou paços suntuosos. nem Dom Casmurro. acostumada a ajudá-los. cogitando. não falava claro nem seguido. Era mais velho que eu três anos. Vi sair daquelas folhas muitos perfis de seminaristas: os irmãos Albuquerques. como os pés. que está de vigário em Meia-Ponte. Queria lê-las outra vez. mas também na bondade. apesar de padre. a reflexão. ainda que mais breve. olhos claros. hei de mostrar-lhe as cartas dela. Era um rapaz esbelto. — Não é só na beleza que é um anjo. dizia ele. mas ele fez-se entrado na minha confiança. muita vez. bastava empurrá-las. O sorriso era instantâneo. Não imagina que boa criatura que ela é. às vezes. e a mão. seduzido pelas palavras dele. se não morreu já. Esta dificuldade em pousar foi o maior obstáculo que achou para tomar os costumes do seminário. Também as há fechadas e escuras. Escreve-me muita vez. inconscientemente. mas como as portas não tinham chaves nem fechaduras.

Uma dessas. com seu vagar e paciência. que pede umas linhas de repouso e preparação. como diria o meu finado José Dias. é provável que o aches menos cru do que esperavas. CAPÍTULO LVIII O Tratado Foi o caso que.. até que. porquanto a senhora tinha as meias mui lavadas. E isto é muito. leitora castíssima. porquanto (e é isto que eu quisera dizer em latim).. e o mal é menor mal. ela ergueu-se muito vexada. As meias e as ligas da senhora branqueavam e enroscavam-se diante de mim. quando examina a possibilidade do que há de vir. Quando chegamos à esquina. Eu mal podia ouvi-lo. fica robusto e disposto. — Este gosto de imitar as francesas da Rua do Ouvidor.Escobar empurrou-as e entrou. o coração. voltando eu para o seminário. Já agora meto a história em outro capítulo. que é casta para os castos. Por mais composto que este me saia. e enfiou pela rua próxima. sem susto nem vexame. mas não tiveram tempo de a levantar. Cá o achei dentro. Sim. sem tirar espaço ao resto. leitor meu amigo. quisera contá-la aqui em latim. cá ficou.. e não este tique-tique afrancesado. As nossas moças devem andar como sempre andaram. E aqui verás tal ou qual esperteza minha. uma segunda-feira. ao ler o que vais ler. vi cair na rua uma senhora. há sempre no assunto alguma coisa menos austera. sacudiu-se. em tal caso. CAPÍTULO LVII De Preparação Ah! mas não eram só os seminaristas que me iam saindo daquelas folhas velhas do Panegírico.. tais e tantas que eu não poderia dizê-las todas. como pode ser torpe para os torpes. caíam. se não fica então. e das primeiras. e não as perdeu. erguiam-se e iam-se embora. Também. não fica nunca. e andavam. porquanto. levava ligas de seda. e não as sujou. não foi uma nem outra coisa. devia ser de pena ou de riso. podeis ler o capítulo até ao fim. é evidentemente um erro. O meu primeiro gesto. Sirva este de preparação. olhei para a . dizia-me José Dias andando e comentando a queda. Não é que a matéria não ache termos honestos em nossa língua. agradeceu. Elas me trouxeram também sensações passadas. as proporções dos acontecimentos e a cópia deles. Várias pessoas acudiram.

. a nossa desastrada. e vi. No seminário. Vou esgarçando isto com reticências. de cansadas. e não as rejeitava. CAPÍTULO LIX .. e lembravam-me a queda da senhora. Uma multidão de abomináveis criaturas veio andar à roda de mim.. E por alguns dias. tique-tique. sonhei com elas. disse eu. recorri a um tratado entre a minha consciência e a minha imaginação. que ia no mesmo passo.. se iam embora. busquei afugentá-las com esconjuros e outros métodos. com certeza não dou nada. mas fez-se. mas por um modo que o não perdesse de todo. Ou então. que eram assim difusas e confusas. até o seminário. Não podendo rejeitar de mim aqueles quadros. era eu mesmo que evocava as visões para fortalecer-me. De noite. — Tanto melhor para ela. mas é impossível que não tenha arranhado os joelhos. não vi mulher na rua. A cabeça ia-me quente.. o contrato fez-se tacitamente... Dali em diante. mas tão depressa dormi como tornaram.outra rua. para dar uma idéia das minhas idéias. com alguma repugnância.. adivinhai o que podia ser. tentei vencê-lo. e por isso mesmo contempláveis. Acordei.. como o melhor modo de temperar o caráter e aguerri-lo para os combates ásperos da vida. tique-tique. eu fiquei “nos joelhos arranhados”. As batinas traziam ar de saias. Não formulei isto por palavras. umas finas. Tal haveria que nem levasse meias.. a primeira hora foi insuportável. e. com as mãos presas em volta de mim⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪ ⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪ 穩慩渠摡ⱷ漠⁵牰景牥慩愠杬浵愠潦楲浳潳牢?敲 楧❜㍥?慦屭攧汤慩※敬扭潲洭?敤瑳㩥 尠摬汢畱瑯?楄楶楤氭潣 獵尠攧‹楡摮潰獳屵攧ⵯ潬尮摲汢畱瑯?儠慵摮業 攧攳搠略 漠尠昧污楴潭戠楥潪›?汜 煬潵整儠慵牤 湡屴攧獤楳潭尡摲汢畱瑯?猠獵楰潲 ⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪ ⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪??浵楶 慧物牡慩洠湩楥慲?൯尊慰?潃瑮屲攧爱潩愠椠獳潦?浵猠浥湩牡獩慴焠敵渠❜㍥敳畧畩愠挠 牡敲物?䌠慨慭慶猭??丠❜㍥❜㥥瀠敲楣潳搠穩牥漠渠浯㭥戠獡整漠挠獡?吠湩慨挠浯潰瑳浵 素屻屩て倠湡来❜摥楲潣搠?慓瑮屍昧尴渭捩絡屻てⱞⵯ攠潬楧摡潰?污畧ntiga. todas ágeis como o diabo. — Parece que não se machucou.. As visões feminis seriam de ora avante consideradas como simples encarnações dos vícios. tique-tique. Creio que foi “manha” que ele disse.. Sábios da Escritura.. a quem não desejasse uma queda. Eram belas. Vindo o mal pela manhã adiante. outras grossas. Foi isto. Também é possível. a distância. Já não era uma só que eu via cair. e o andar não era seguro.. a algumas adivinhei que traziam as meias esticadas e as ligas justas. aquela presteza é manha. Mas eu as via com elas. nem foi preciso. todas as que eu encontrara na rua mostravam-me agora de relance as ligas azuis.. senão quando elas mesmas. eram azuis..

as meias. todas me aparecem agora com as suas águas. sem guardar delas nem caras nem nomes. é comparável a alguém que tivesse vivido por hospedarias. há muita vez no casal de chinelas um como aroma e calor de dois pés. pessoas e afeições. mas ainda coisas que não eram dela. é cerrar os olhos e evocar todas as coisas que não achei nele. em chegando ao fim. O que faço. não. E se a comparação não vale. assim podes também preencher as minhas. e eu sou acaso um deles. porque as chinelas são ainda uma parte da pessoa e tiveram o contato dos pés. Ao contrário. Justamente. A quem passe a vida na mesma casa de família. explico-me. os seus altares. as ligas. ou as descalçava à noite. as igrejas que não vi nas folhas lidas. fiquei tão curtido de saudades que me lembrou . ao entrar nela. com os seus eternos móveis e costumes. e os clarins soltam as notas que dormiam no metal. como a pedra da rua. e tudo marcha com uma alma imprevista. ao erguer da cama. não deixam de lembrar que uma pessoa as calçava de manhã. Juro só que não eram amarelas porque execro essa cor. e somente raras circunstâncias. conquanto a prova de ter a memória fraca seja exatamente não me acudir agora o nome de tal antigo. não me aflijo nunca. quando leio algum desta outra casta. o seminarista Escobar e vários outros. um pregão de quitanda. Como eu invejo os que não esqueceram a cor das primeiras calças que vestiram! Eu não atino com a das que enfiei ontem. um assobio particular.Convivas de Boa Memória Há dessas reminiscências que não descansam antes que a pena ou a língua as publique. CAPÍTULO LX Querido Opúsculo Assim fiz eu ao Panegírico de Santa Mônica. e os generais sacam das espadas que tinham ficado na bainha. as suas árvores. leitor amigo. quando contei o pregão das cocadas. Assim preencho as lacunas alheias. aqui estão outras lembranças. Nada se emenda bem nos livros confusos. XVIII. Quantas idéias finas me acodem então! Que de reflexões profundas! Os rios. a porta da casa. É que tudo se acha fora de um livro falho. mas tudo se pode meter nos livros omissos. é que se lhe grava tudo pela continuidade e repetição. Viste o soneto. Vais agora ver o mais que naquele dia me foi saindo das páginas amarelas do opúsculo. como aquele das cocadas que contei no cap. Gastas e rotas. Não. tu não prestavas para nada. mas era um antigo. mas que mais presta um velho par de chinelas? Entretanto. A vida é cheia de tais convivas. e basta. Um antigo dizia arrenegar de conviva que tem boa memória. as montanhas. E antes seja olvido que confusão. Eu. mas isso mesmo pode ser olvido e confusão. e fiz mais: pus-lhe não só o que faltava da santa. Querido opúsculo. a minha memória não é boa.

é preciso que a gente os tenha conhecido e padecido no tempo. que falava de mim todos os dias. pessoas e sensações. Vês que não pus nada. e. e qual é ele? perguntou escrevendo a resposta nos olhos. e a minha saída daqui? — Isso é negócio meu. vá estudando. A viagem à Europa é o que é preciso. e logo pintou a tristeza de minha mãe. e acrescentasse alguma palavra relativamente aos dotes que Deus lhe dera. Tendo eu dito a Excelentíssima que Deus lhe dera. José Dias. encerrem casos. o doutor ficou tão comovido que não achou modo de vencer o choro senão fazendo-me um daqueles elogios de galhofa que só ele sabe. Tenha paciência. — Tão tarde! — Era melhor que fosse este mesmo ano. ainda não acabando padre. Mas. trazidas por José Dias ao seminário. Sr. não se perde nada em ir sabendo já daqui alguma coisa. mas demos tempo ao tempo. acudi eu. Neste ponto. mas a maior saudade está naturalmente no maior dos corações. e assim ficaram por alguns . — Ontem até se deu um caso interessante. mas um anjo do céu. demais. sem o que tudo é calado e incolor. mas pode fazer-se daqui a um ou dois anos. mestre de música.. e vale sempre entrar no mundo ungido com os santos óleos da teologia. duros e opacos. Para que não aconteça o mesmo aos outros profissionais que porventura me lerem. vamos ao mais que me foi saindo das páginas amarelas. As pálpebras caíram depois. não um filho.. e grudá-lo às pernas do capítulo. — Mamãe. CAPÍTULO LXI A Vaca de Homero O mais foi muito.. José Dias apertou-me as mãos com alvoroço.fazê-lo escrever por um amigo. Glória enxugou furtivamente uma lágrima. a quem mostrei. — lembra-me como se fosse hoje. me confessou ingenuamente não achar no trecho escrito nada que lhe acordasse saudades. e contava-me tudo isso cheio de uma admiração lacrimosa. a vida do seminário é útil. quase a todas as horas. Como a aprovasse sempre. Se depois jarretei o capítulo. Tio Cosme também se enternecia muito. disse-me este. Vi saírem os primeiros dias da separação. foi porque outro músico. sem embargo das palavras de conforto que me deram os padres e os seminaristas. Não é preciso dizer que D. em 1859 ou 1860. e as de minha mãe e tio Cosme. melhor é poupar ao editor do livro o trabalho e a despesa da gravura. como os opúsculos de seminário.. o desvanecimento de minha mãe nessas ocasiões era indescritível. nem ponho. Já agora creio que não basta que os pregões de rua. Ou ela não fosse mãe! Que coração amantíssimo! — Mas. — Todos estão saudosos. — os olhos de José Dias fulguraram tão intensamente que me encheram de espanto.

todo ele era atenção e interrogação. mas pode suceder que muito antes do que imaginamos. O mundo também é igreja para os bons. 1859 ou 1860 é muito tarde. Conto ouvir-lhe a missa nova... eu irei preparando a Excelentíssima. já por acanhamento. já. cortejou-os com as deferências devidas. — Não. e não haverá esforço que eu não empregue. não. acudiu José Dias. não pode ter melhores estudos que os que fizer aqui. — Duvido que mamãe embarque. ele agradeceu. estou certo que ela cederá e irá conosco. mas parece que dará conta da mão. mas. meu anjo. não escrevia nem orava. se não era em si mesmos. Pois continue. e os olhos fixaram-se na parede do pátio. que os conhecia. vinham caminhando na nossa direção. Glória. quando for preciso. como deve ser servida. — Será este ano. depois explicou-se: — Mostrar a verdade. Podia compará-lo aqui à vaca de Homero. explicando que eram idéias que lhe escapavam no correr da conversação. Eu é que não gostei nada.. quando muito. com ela ou sem ela. e pediu-lhes notícias minhas. o melhor modo de cumprir a vontade de Deus é dedicá-lo a outra coisa. até que novamente se ergueram. É combinar a ausência de vocação eclesiástica e a necessidade de mudar de ares. Mas não dei tempo à ternura materna. Não ouviu o elogio do lente? É que você se tem portado bem. ou já. . Bentinho. e algum fastio. não é? José Dias hesitou um pouco. irá ungido com os santos óleos da teologia. porque. andava e gemia em volta da cria que acabava de parir. e disse-lho. disse um deles. e penso já nas palavras com que hei de expôlo a D. Ao contrário. — Já. como se este “mundo também é igreja para os bons”. — É o que eu lhe dizia agora mesmo. concluiu demorando mais as palavras. Pareceu-me outra vez a vaca de Homero. desejo sair daqui o mais cedo que puder. o agregado. — Pois sim. — Daqui a três meses? — Ou seis. já porque dois lentes. uma tossezinha seca. depois despegaram-se da parede e entraram a vagar pelo pátio todo. francamente. três meses. Mãe é capaz de tudo. mas eu hei de avisar você para tossir. Uma vez que o filho não pode servir à Igreja..instantes. O lente de teologia gostou da metáfora. Ao passarem por nós. um sorriso claro e amigo lhe errava nos lábios. deixe estar. como que embebidos em alguma coisa. replicou José Dias. um deles de teologia. que me parece melhor que outro qualquer... Não lhe perguntei o que é que tinha. mas ainda que não chegue a ordenar-se. e repliquei: — Ah! entendo! mostrar que estou doente para embarcar. Paciência é que é preciso. e logo que os lentes se foram. Tenho agora um plano. tenho por certa a nossa ida. as pálpebras não lhe caíram nem as pupilas fizeram os movimentos anteriores. — Veremos. não pode ser. — Por ora nada se pode afiançar. Para a viagem da existência. — Mas. Oh! tudo isto é em benefício dela. fosse outro bezerro. Quem sabe se este mesmo ano de 58? Tenho um plano feito. eu há meses que desconfio do seu peito. E não faça nada que dê lugar a censuras ou queixas.. Você por que não tosse? — Por que não tusso? — Já. aos poucos. irmão dos “santos óleos da teologia”. muita docilidade e toda a aparente satisfação. sacudi a cabeça: — Não quero saber dos santos óleos da teologia.. Desta vez a fulguração dos olhos foi menor.

. o embarque é que pode ficar para o ano. saio primeiro.... Há alguma exageração nisto. dei uma volta rápida. que ainda agora cuido ouvi-lo. Compreendi isto depois que falei. é uma tontinha. grandes passeadores das tardes. Outra idéia. produziu-me aquele efeito. se entendermos que a audiência aqui não é das orelhas. e fazer crer improvável a viagem. nem ele me deu tempo.. — e tão senhor me sentia dela que era como se olhassem para mim. — Bem. leitor das minhas entranhas.. se vivia rindo. ajustando-se. daqui a dois meses. se aquela santa senhora não quiser ir conosco. — Tem andado alegre. — um sentimento cruel e desconhecido. que a intervenção de um peralta era como uma noção sem realidade. Não dizem que o melhor tempo é abril ou maio? Pois seja maio... depois cuidaremos do embarque. A minha memória ouve ainda agora as pancadas do coração naquele instante. Aquilo. Tal foi o que me mordeu. Se a tosse há de vir de verdade. eu aviso. mas nem soube como. Vivia tão nela. nunca pensara em tal desastre.. mas há dias em que está mais descorado. Em verdade. Deixe estar. que case com ela. Estive quase a perguntar a José Dias que me explicasse a alegria de Capitu. Não esqueças que era a emoção do primeiro amor. chegaremos à exata verdade. mas retive-me a tempo. Estou que empalideci. pelo menos. nunca me acudiu que havia peraltas na vizinhança. um composto de partes excessivas e partes diminutas.. enquanto não pegar algum peralta da vizinhança. ao repetir comigo as palavras de José Dias: “Algum peralta da vizinhança”. não. Não digo que já seja o mal. Equivalia a confessar que o motivo principal ou único da minha repulsa ao seminário era Capitu. — ou para que vá mais depressa.. quando eu chorava todas as noites. Agora lembrava-me que alguns olhavam para Capitu. na ocasião em que eu cuidava de transferir o embarque. um . Passou tudo. vária idade e feitio. dela e para ela.Você não anda bom do peito. senão da memória.. Em pequeno. mas em saindo daqui não há de ser para embarcar logo. quis emendar-me. que se compensam. Primeiro deixo o seminário. Por outro lado. tão violento. mas o mal pode vir depressa. melhor é apressá-la. acompanhado de um bater de coração. e perguntei-lhe à queima-roupa: — Capitu como vai? CAPÍTULO LXII Uma Ponta de Iago A pergunta era imprudente. mas o discurso humano é assim mesmo. o puro ciúme. o que é que ela fazia. teve umas febres e uma ronqueira.. como sempre.. Por isso. cantando ou pulando. Numa hora cai a casa. E porque a palavra me estivesse a pigarrear na garganta. senti correr um frio pelo corpo todo. A notícia de que ela vivia alegre. acho que uma boa tosse. e depois outra idéia.

Disse-me que esta simetria de algarismo era misteriosa e bela. e o mesmo fim era vago: “A conta que dará de si. cujo princípio não ouvi. todos os destinos estão neste século. Corri ao lugar. E a alegria de Capitu confirmava a suspeita. ainda acordado. ou uma encíclica. Separados um do outro pelo espaço e pelo destino. ele fugiu. Os mesmos sonhos que ora conto não tiveram. mas a vontade morreu ao nascer. se ela vivia alegre é que já namorava a outro. um turbilhão. falar-lhe-ia à janela. volta-me papa!” Ah! por que não cumpri esse desejo? Depois de Napoleão. se papa. quando ele de si mesmo a deu. que perturbava assim a adolescência de um pobre seminarista. tinha o pai ao pé de si. dona leitora. era . se eu fosse padre. Quanto ao sonho foi isto. a não ser que ambos formem duas metades de um só. quê? Sabes o que é que trocariam mais. — Sábado? Ah! sim! sim! Peça a mamãe que me mande buscar sábado! Sábado! Este sábado. E. agarrar Capitu e intimar-lhe que me confessasse quantos. uma confusão. às ave-marias. José Dias concluía uma frase. emendados e mal emendados. Limitei-me a inquirir do agregado quando é que iria a casa ver minha mãe. enxugando os olhos e mirando um triste bilhete de loteria. quantos já lhe dera o peralta da vizinhança. compreenderás que eu. depois de estremecer. trocariam flores e. correr. esta lógica de movimentos e pensamentos. tivesse um ímpeto de atirar-me pelo portão fora. como me recomendara tio Cosme: “Anda lá. Até lá os sonhos perseguiam-me.” Que conta e quem? Cuidei naturalmente que falava ainda de Capitu. não acharás mais nada. acompanhá-lo-ia com os olhos na rua. Um só ponho. Não fiz nada. escusado é ler o resto do capítulo e do livro. Posso ir já esta semana? — Vai sábado. avancei para Capitu.simples dever de admiração e de inveja. quantos. como o desenho truncado e torto. Como estivesse a espiar os peraltas da vizinhança. Não me parecendo isto claro. não? Que me mande buscar. meu rapaz. naqueles três ou quatro minutos. ia pedir a explicação. e este livro seria talvez uma simples prática paroquial. o mal aparecia-me agora. descer o resto da ladeira. Eram soltos. e provavelmente a roda andara mal. vi um destes que conversava com a minha amiga ao pé da janela. e quis perguntar-lho. mas certo. Não fosse ele. Mas se o achaste. porque um nasceu do outro. se o não achas por ti mesmo.. — Estou com saudades de mamãe. ou antes porei dois. chegar à casa do Pádua. ou uma pastoral. Tinha o número 4004. não só possível... como tantas outras gerações delas. tenente e imperador.. Tudo isto é obscuro. e no menor número de palavras. mas não estava só. sem falta. mas a culpa é do vosso sexo. e o bilhete saíra branco. ainda que eu o diga com todas as letras da etimologia. o peralta fora levar-lhe a lista dos prêmios da loteria. que me cegava e ensurdecia. CAPÍTULO LXIII Metades de um Sonho Fiquei ansioso pelo sábado. Quando tornei a mim. e não os digo aqui para não alongar esta parte do livro. se bispo.

Não peço agora os sonhos de Luciano. o meu fim em imitar a outra foi ligar as duas pontas da vida. fui à janela indagar da noite por que razão os sonhos hão de ser assim tão tênues que se esgarçam ao menor abrir de olhos ou voltar de corpo. Pois o mesmo sucedeu àquele sonho do seminário. consegui conciliá-lo. Estes. e ver se continua pela noite velha o sonho truncado na noite moça. resmunguei não sei que palavras. A maior destas devia ser dada com a boca. mas então nem peraltas. posto que daquela banalidade do sol e da lua. ainda que quisessem imitar os outros. estava deserta. Esse mesmo trabalho fez-me perder o sono até a madrugada. e ainda menos a política internacional. Tal é a idéia banal e nova que eu não quisera pôr aqui. nem bilhetes de loteria. e olhei para as paredes. E aqui entra a segunda parte do sonho. Capitu inclinouse para fora. O escrúpulo é justamente de escrever a idéia. eu relanceei os olhos pela rua. Como eu insistisse. Outrossim. Donde concluo que um dos ofícios do homem é fechar e apertar muito os olhos. Quando eles moravam na ilha que Luciano lhes deu. os morros palejavam de luar e o espaço morria de silêncio. e acordei sozinho no dormitório. por mais que tentasse dormir e dormisse. mas não dormia. Os sonhos antigos foram aposentados. acode-me uma idéia e um escrúpulo. Mas os tempos mudaram tudo. Peguei-lhe nas mãos. nem outros. irei . e não continuam mais. é reprodução da minha antiga casa de Matacavalos. — nada dos nadas veio ter comigo. como as suas esperanças do bilhete. a ilha dos sonhos. Sabes que esta casa do Engenho Novo. nas dimensões. O interesse do que acabas de ler não está na matéria do sonho. não poderiam fazê-lo. Sobre a madrugada. que o céu nos dá todos os dias e todos os meses. e dei mal as lições daquele dia. e donde os fazia sair com suas caras de vária feição. Enquanto ele falava. Nunca dos nuncas poderás saber a energia e obstinação que empreguei em fechar os olhos. Estava deliciosamente bela. mas nos esforços que fiz para ver se dormia novamente e pegava nele outra vez. CAPÍTULO LXIV Uma Idéia e um Escrúpulo Relendo o capítulo passado.impossível que não devesse ter a sorte grande. disposições e pinturas. são agora objeto da ambição e da rivalidade da Europa e dos Estados Unidos. e os modernos moram no cérebro da pessoa. Pois que não amo a política. apertá-los bem. como te disse no capítulo II. Era uma alusão às Filipinas. filhos da memória ou da digestão. e só provisoriamente a escrevo. declarou-me que os sonhos já não pertencem à sua jurisdição. Deixei o manuscrito. esquecer tudo para dormir. Capitu dava-me com os olhos todas as sortes grandes e pequenas. não a havendo mais banal na terra. nem sortes grandes ou pequenas. Antes de concluir este capítulo. basta-me um sono quieto e apagado. Não sonhei mais aquela noite. fechei a janela e vim acabar este capítulo para ir dormir. A noite não me respondeu logo. dar-me-ia explicações possíveis. onde ela tinha o seu palácio. o que aliás não alcancei. De manhã. como a dos amores. como todas as ilhas de todos os mares. com a fresca. Pádua desapareceu.

e este é tão bom que a omissão seria um crime. a alegria que ela mostrara desde a minha entrada no seminário. — você não acha que o nosso Bentinho dará um bom padre? — Acho que sim. para que não pareça que a denúncia de José Dias é verdadeira. Foi à minha terceira ou quarta vinda a casa. com ela. e eu não lhe dou licença de dizer nada a pessoa nenhuma. minha mãe. pela primeira vez. e. Para mim. ou todo. também tivera noites desconsoladas. — Sr. e talvez acabassem não me recebendo. interrompeu minha mãe voltando-se para a filha do Pádua que estava na sala. mas os exemplos não se fizeram senão para ser citados. Capitu fez-se muito séria. se puder. elas tratariam de separar-nos mais. dizendo tio Cosme que ainda queria ver com que mão havia eu de abençoar o povo à missa. Era isto mesmo. devíamos dissimular para matar qualquer suspeita.d⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪ ⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪usquei afugentá-las com esconjuros e outros métodos. Minha mãe... Em tudo isso mostrava a minha amiga tanta lucidez que eu bem podia deixar de citar um terceiro exemplo. basta o nosso juramento de que nos havemos de casar um com outro. ainda duvida que saia daqui um bom padre? — Excelentíssima. Mas o exemplo completa-se com o que ouvi no dia seguinte. e se me doía alguma coisa. eu espero que ele se ordene!” Tio Cosme riu da graça. dias antes. que havia olhado para todos. as relações. no quintal dela. É natural que D. respondeu Capitu cheia de convicção. podia indagá-lo do pai e da mãe. calei-me e obedeci. que eu lá vou logo. mas também meu. Era justo. senhora. em casa dela. José Dias. uma vez que suspeitavam de nós. concluiu voltando-se para José Dias. recordando as palavras da véspera. Glória e D. Não gostei da convicção. e. Justina mostro-me naturalmente alegre. quando eu vivia curtido de saudades. Glória queira estar com você muito tempo. — Hoje não fique aqui mais tempo. que não pensasse mais em mim. você não tem direito de contar um segredo que não é só seu. Outra coisa em que obedeci às suas reflexões foi logo no primeiro sábado. na manhã seguinte. foram tão tristes como os meus. após alguns minutos de conversa. Assim lho disse. os estudos. só prima Justina é que franziu a testa. — E você. estando a falar de moças que se casam cedo. e lançando-lhe em rosto. e os dias. tudo o que a ternura das mães inventa para cansar a paciência de um filho. — Com D. ao almoço. e olhou para mim interrogativamente. Eu. por palavras encobertas. depois que lhe respondi às mil perguntas que me fez sobre o tratamento que me davam. a disciplina. — Não importa. e ao mesmo tempo gozar toda a liberdade anterior. Capitu lhe dissera: “Pois a mim quem me há de casar há de ser o Padre Bentinho. e perguntou-me como é que queria que se portasse. vá para casa. me aconselhou a ir embora. José Dias não dessorriu. quando eu fui à casa dela. com as mãos presas em volta de mim⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪ ⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪?竆 ⠀˄??ୱ ෴ ??ᘠ ??Ṭℰ??⥼ⱞ 乙  㒌 㝐 㨔 㳘 㾜 䉠 䔤 䟨 䪬 䵰 倴 勸 喼 墀 孄 师 惌 掐 晔 椘 毜 溠 ____________________ၙ?竆⠀˄??ୱ෴??ᘠ??Ṭℰ??⥼ⱞ乙㒌㝐㨔㳘㾜䉠䔤䟨䪬䵰倴勸喼墀 孄师惌掐晔椘毜溠____________________?ãe. A mãe chegou a dizer-lhe. e construir tranqüilos o nosso futuro. contou que.. Capitu. mas tão depressa dormi como tornaram. Se parecesse. não pude . e se dormia bem..

Prima Justina. Era assaz sincera para dizer o mal que sentia de alguém. concluí eu. outro dia. e os últimos seis meses acabaram separados. não perdoou à minha amiga a intervenção. Um dia.resistir ao gesto da prima.” . multiplicam os cuidados. nas maneiras e na agudeza de espírito. Tanto melhor para a justiça dela. Compreende-se que. mas a sós com minha mãe achava alguma palavra ruim que dizer da menina. — Você tem razão. Como minha mãe adoecesse de uma febre. explica-se que não desestimasse a dona e calasse os seus ressentimentos. ou se algum mal pensou dela foi entre si e o travesseiro. prima Justina acabava sorrindo. fazem-se mais risonhas. Talvez do marido. que a pôs às portas da morte. a intimidade de Capitu fê-la mais aborrecível à minha parenta. mais assíduas. Capitu. Não penso que ela aspirasse a algum legado. posto que isto a aliviasse de cuidados penosos. e. o que tiver de ser seu às mãos lhe há de ir. corri a referir-lhe a conversa e a louvar-lhe a astúcia. vamos enganar toda esta gente. as pessoas assim dispostas excedem os serviços naturais. Tudo isso era contrário à natureza de prima Justina. perguntou-lhe se não tinha que fazer em casa. e tratei de comer. segundo tio Cosme. Viviam o mais do tempo juntas. logo que almocei. alguma vez ficava para jantar. rindo. desde que a não via. Prima Justina tolerava esses cuidados. Mas comi mal. feita de azedume e de implicância. a propósito do sol e da chuva. atenta. era póstuma. Prima Justina não acompanhava a parenta naquelas finezas. mas não tratava de todo mal a minha amiga. ou só dissesse mal dela a Deus e ao diabo. de aparência. não era uma razão mais para detestar Capitu. precedem os fâmulos. Capitu ia lá coser. em todo o caso. soltou-lhe este epigrama: “Não precisa correr tanto. com o tempo trocou de maneiras e acabou fugindolhe. falando de mim. Demais. Como vivesse de favor na casa. Capitu usava certa magia que cativa. e não sentia bem de pessoa alguma. Se a princípio não a tratava mal. Esta opinião. às manhãs. o louvor dos mortos é um modo de orar por eles. pois em vida andavam às brigas. no trabalho e na honestidade. não existira homem capaz de competir com ele na afeição. mas o marido era morto. estava tão contente com aquela grande dissimulação de Capitu que não vi mais nada. Também gostaria de minha mãe. quis que Capitu lhe servisse de enfermeira. — Não é? disse ela com ingenuidade. ainda que azedo. A vida é cheia de obrigações que a gente cumpre. Capitu sorriu de agradecida. Caso tivesse ressentimentos de minha mãe. indagava dela e ia procurá-la. ou de nada. nem ela precisava de razões suplementares. lhe desse a estima devida. Contudo. Capitu. por mais vontade que tenha de as infringir deslavadamente. CAPÍTULO LXVI Intimidade Capitu ia agora entrando na alma de minha mãe.

como uma necessidade da obra humana. a conseqüência antes da conclusão. e recebi licença para ir a casa. ele não alterando o passo do costume. já..” Leitor. com a perspectiva da liberdade certa. O anseio de escutar a verdade complicava-se em mim com o temor de a saber. mais me aterrava a idéia de chegar a casa. o silêncio. como negócio simples.. Era a primeira vez que a morte me aparecia assim perto. mais de uma vez cuidei cair. mas uma idéia que poderia ser traduzida por elas: “Mamãe defunta. o centésimo de um instante. e a escuridão fez-se mais cerrada. as pernas bambeavam-me. a febre passa.CAPÍTULO LXVII Um Pecado Já agora não tiro a doente da cama sem contar o que se deu comigo. entrei na Rua de Matacavalos. ainda assim o suficiente para complicar a minha aflição com um remorso. etc. Fui. A rua. por mais que José Dias andasse superlativamente devagar. José Dias foi incumbido do recado. foi um instante. A casa não era logo ali. — a premissa antes da conseqüência. e a minha alma não se salva. os suspiros podiam dizer alguma coisa mais. me encarava com os olhos furados e escuros. íamos calados. se Bentinho não estiver ao pé de mim. Na rua. que não podia ser pesar do meu pecado. — mas cabisbaixo e suspirando. mas.. Entrou tão atordoado que me assustou. Contou particularmente ao reitor o que havia. Uma vez olhou para mim tão cheio de pena que me pareceu haver-me adivinhado. menos que um instante. de entrar. José Dias suspirava. quisera interrogar o meu companheiro. as casas voavam de um e outro lado. me envolvia. mas o chamado. Cuidaram fosse delírio. Oh! eu não poderia nunca expor aqui tudo o que senti naqueles terríveis minutos. mas vão buscá-lo. de ouvir os prantos. Ao cabo de cinco dias. já. minha mãe amanheceu tão transtornada que ordenou me mandassem buscar ao seminário. já nem tinha tal desejo. A piedade filial desmaiou um instante. para combater o Terror. sem ousar abrir a boca. Só me falara na doença. O coração batiame com força. mas agora. e uma corneta que nessa ocasião tocava no quartel dos Municipais Permanentes ressoava aos meus ouvidos como a trombeta do juízo final. não estas palavras. e foi então que a Esperança. parecia fugir-me debaixo dos pés. mas muito além da dos Inválidos. você assusta-se sem motivo. aceitando o pior. como um gesto do destino. foi um relâmpago. pelo efeito do remorso que me ficou. eu temendo ler no rosto dele alguma notícia dura e definitiva. pois nada articulou parecido com palavras. acaba o seminário. como se esvaiu. Três ou quatro vezes. — Não! Não! mandem buscá-lo! Posso morrer. — Vamos assustá-lo. de ver um corpo defunto. pelo desaparecimento da dívida e do devedor.. Em vão tio Cosme: — Mana Glória. não se demorem. perto da do Senado.. — Pois não lhe digam nada. e eu quis pedir-lhe que não dissesse nada a ninguém. mas então era sempre a morte de . Ia só andando. Foi uma sugestão da luxúria e do egoísmo. cheguei aos Arcos. que eu ia castigar-me. não custando nada trazer-me. Tão depressa alumiou a noite.. Quanto mais andava aquela Rua dos Barbonos. me segredou ao coração. Mas a pena trazia tanto amor.

pensei em dizer tudo a minha mãe. nada há mais feio que dar pernas longuíssimas a idéias brevíssimas. os olhos ardiam nos meus. levado ao remorso. José Dias fez crescer a minha tristeza. Entrando no meu quarto. Ajoelhei-me ao pé do leito. e daí a pouco. usei ainda uma vez do meu velho meio das promessas espirituais. há só um modo de escrever a própria essência. toda ela parecia consumida por um vulcão interno. Se achares neste livro algum caso da mesma família.. subi trêmulo os seis degraus da escada. palavras e lágrimas. onde está o lenço? Enxuguei os olhos. mas esta idéia não me mordia. debruçado sobre a cama. logo que ela ficasse boa. As febres. e fui andando. Ora. valem a soma que dizem. — Que é. era uma veleidade pura. posto que de todas as palavras de José Dias uma só me ficasse no coração. não. Enxuguei os olhos. meu filho. c’est moi.. avisa-me. CAPÍTULO LXVIII Adiemos a Virtude Poucos teriam ânimo de confessar aquele meu pensamento da Rua de Matacavalos. fiquei longe das suas carícias: — Não. que estava na alcova. e eu lhe rezaria dois mil padre-nossos. foi aquele gravíssimo. por amor do período. c’est mon essence. Vi depois que ele só queria dizer grave. e pedi a Deus que me perdoasse e salvasse a vida de minha mãe. onde iam os antigos? Não paguei uns nem outros. mas não suspeitou naturalmente todas as causas da minha aflição. chamando-me seu filho. e não pude mais. é contá-la toda.. e Deus pode tudo.. Eu confessarei tudo o que importar à minha história. Enfim. levanta. Estava queimando. perdoa este recurso. assim como dão com força. explica tudo. não menos que o costume e a fé. Com os dedos.. entramos. o bem e o mal. mas como este era alto. gostou de ver a minha entrada. Senti uma angústia grande. Tal faço eu. segundo me disse depois.. e pedir perdão a minha mãe do ruim pensamento que tive. Então. A crise em que me achava. Montaigne escreveu de si: ce ne sont pas mes gestes que j’ecris. uma ação que eu não faria nunca. e. um nó na garganta. os meus gestos. por mais que o pecado me doesse. chegamos.minha mãe. ansioso agora por chegar a casa. uma febre. ouvia as palavras ternas de minha mãe que me apertava muito as mãos. chorei de uma vez. Enxugue os olhos.. assim também se vão embora.. repito. mas saindo de almas cândidas e verdadeiras tais promessas são como a moeda fiduciária — ainda que o devedor as não pague. levanta! Capitu. mas não é mal de morte. foi a última vez que o empreguei. que é feio um mocinho da sua idade andar chorando na rua. Bentinho? — Mamãe?. Eram mais dois mil. à medida que me vai lembrando e convindo à . — Não! não! Que idéia é essa? O estado dela é gravíssimo. Padre que me lês. leitor. Não há de ser nada. mas o uso do superlativo faz a boca longa. para que o emende na segunda edição.

fazê-lo renunciar ao pagamento da minha promessa. se me lembrasse. e naturalmente ainda os possuo. receei não achar palavra com . aliados por matrimônio para se compensarem na vida. e era reconciliar-me com Deus. acode-me agora que. No fim. ou por isso mesmo. Ora. Por exemplo. com vantagem do portador de ambos. aqui no Engenho Novo. Voilà mes gestes.construção ou reconstrução de mim mesmo. Ouvi missa. era também agradecer o restabelecimento de minha mãe. mas era tão lento nos suspensórios e nas presilhas. que não pude esperar por ele. Não só as belas ações são belas em qualquer ocasião. ele só guia o indivíduo. não menos simples que clara. visto que digo tudo.. depois pedi perdão do pecado e relevação da dívida. fica transferida a melhor oportunidade. e recebi a bênção final do oficiante como um ato solene de reconciliação. como são também possíveis e prováveis. Sentia necessidade de evitar qualquer conversação que me desviasse o pensamento do fim a que ia. perdoa as dívidas integralmente. por não haver praticado tal virtude ou cometido tal pecado. voilà mon essence. por ter ido dar a minha bengala a um cego que não trazia bordão. Já me sucedeu. Nem era só pedir-lhe perdão do pecado. Nem perderás em esperar. é certo que nasci com alguns daqueles casais. e na confissão o mais autêntico dos instrumentos para o ajuste de contas morais entre o homem e Deus. e. CAPÍTULO LXIX A Missa Um dos gestos que melhor exprimem a minha essência foi a devoção com que corri no domingo próximo a ouvir missa em S. e no dia seguinte perdi o trem da mesma estrada. sem que este. depois do que se passou no capítulo LXVII. falta-me tempo. e alguma vez com resplendor maior da terra e do céu. é um Rothschild muito mais humano. Demais. eu não queria outra coisa. diria com muito gosto alguma bela ação contemporânea. agradeci a vida e saúde de minha mãe. e principiou a vestir-se. posto que divino. mas a regra é dar-se à prática simultânea dos dois. O agregado quis ir comigo.. agora que contei um pecado. ao contrário. lembrou-me que a Igreja estabeleceu no confessionário um cartório seguro. desejar que o trem da Central estourasse longe dos meus ouvidos e interrompesse a linha por muitas horas. e pagaria logo as que fizesse. ainda que morresse alguém. mas não me lembra. por estar uma noite com muita dor de cabeça. uma vez que o devedor queira deveras emendar a vida e cortar nas despesas. Quando um de tais cônjuges é mais forte que o outro. e não faz moratórias. É pena que eu não possa fundamentar isto com um ou mais casos estranhos. meu amigo. ao levantar a Deus. se possa dizer isento de um ou de outro. Antônio dos Pobres. dali em diante não faria promessas que não pudesse pagar. Reduz-se a isto: que cada pessoa nasce com certo número deles e delas. Mas a minha incorrigível timidez me fechou essa porta certa. pela teoria que tenho dos pecados e das virtudes. Pelo que me toca. Jeová. eu queria estar só.

sedas e chitas. disse-me o número do armazém. Gurgel era homem de quarenta anos ou pouco mais. o pai estava à janela e fez-me um gesto largo de despedida. e provavelmente olhos feios e belos. e não pude sair logo. E chegaram-me estas palavras: — Mas que queres? — Queria saber dela. Quis saber a minha idade. Era sinhazinha Sancha. pergunte. mostrou-me a casa dele. — Venho outro dia. e dava-me conselhos para o caso de vir a ser padre. a filha deu-me recomendações para Capitu e para minha mãe. ouvia e esperava. Como o homem muda! Hoje chego a publicá-lo. disse-lhe que estava restabelecida. quis por força que eu fosse almoçar com ele. . Sinhazinha Sancha. mas a igreja também não é grande. com a onda. parei e olhei para todos. que também acabava grosso. Vestia simples. Gurgel era viúvo e morria pela filha. mamãe espera-me. A gente não era muita. papai. a companheira de colégio de Capitu. Depois saímos. quis que descansasse alguns minutos. Havia homens e mulheres. persignei-me. e a moça olhava para mim falando ao homem. despedi-me. com propensão a engrossar o ventre. CAPÍTULO LXX Depois da Missa Rezei ainda. — Manda-se lá um preto dizer que o senhor fica almoçando. mas devagar.que dizer ao confessor o meu segredo. que saíam da igreja e pararam. Da rua olhei para cima. — Obrigado. Enfim. Rua da Quitanda. só se lhe podia notar a semelhança do nariz. Como eu recusasse o almoço. veio ao patamar da escada. Não pude recusar e subi. como eu vinha na mesma direção. e. O pai veio a mim. os meus estudos. chegando à porta da casa. onde se fez claro. e irá mais tarde. voltada para o pai. velhos e moços. Ia na direção da porta. viemos juntos. logo. No adro. ouvindo a moça. a minha fé. que queria notícias de minha mãe. Não era feia. ouvindo as saudações e os cochichos. fechei o livro de missa e caminhei para a porta. mas há feições que tiram a graça de uns para dála a outros. era muito obsequioso. e o homem olhava para mim. Vi então uma moça e um homem. mas eu não vi uns nem outros.

. lembrando-me das palavras do Gurgel. no seminário.” Assim falava ela. três dias antes. Es cobar aceitou. e veio a perdê-lo. o agregado disse-lhe que vira uma vez o pai no Rio de Janeiro. Tinha o sestro de sacudir o ombro direito. vindo a risca do cabelo quase em cima da sobrancelha esquerda. interveio tio Cosme. conquanto falasse mais do que veio a falar depois. disse ele. tinham já mentido dizendo a minha mãe que eu voltara e estava mudando de roupa. desde que um de nós lho notou. como vieram a ser depois. Era o dia das boas sensações. Tio Cosme e José Dias gostaram do moço. sabendo a razão da minha saída. e. Bentinho devia estar de volta. nem diminuir a graça delas. mano Cosme?. Escobar foi visitar-me e saber da saúde de minha mãe. Escobar era muito polido. um dia.. mas. — Tanto incômodo! — Incômodo nenhum. — Tive receio. “A missa das oito já há de ter acabado. Mandem ver. e jantou. Nunca me visitara até ali. primeiro exemplo .. Teria acontecido alguma coisa. Tio Cosme quis que jantasse conosco... N otei que os movimentos rápidos que tinha e d⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪ ⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪畜㜲ㄶ 尲㌧屦㉵㌸〲❜昳❜〰❜〰❜〰❜〰❜〰❜〰❜〰❜〰❜〰❜〰❜〰❜〰❜〰?❜〰❜〰❜〰❜〰❜〰❜〰❜〰畜〲 㠴❜ ❜㍥??灜牡尠浥慤桳尠乾❜㍥浩潰 㭡瘠捯❜慥渠❜㍥整 敲瑩敤挠湯慴?浵猠来敲潤焠 敵 渠 ❜ ㍥ ❜ 㥥 猠 ❜ ㍦ 猠 略 慭 ? 慴 ❜ 㥥 敭 ⱷ 攠 攠 ⁵ 屮 攧 ⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪ ⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪潣獩ⱷ 攠猠?潤浲慩戠浥畴潤漠焠敵愠琠牥畮慲搠獡洠❜㍥獥椠癮湥慴瀠牡慣 牡愠 捡屩攧湡楣 敤甠楦桬?挠湯汣極⁵潶瑬湡潤猭?慰慲䨠獯❜㥥䐠慩??灜牡素灜牡?獜㘱煜屪楦㘳尰汳㠲尰汳 畭瑬尰潮楷捤汴慰屲楷捤汴慰?尊硴〷尸硴㐱㘱瑜㉸㈱尴硴㠲㈳瑜㏿㐵尰硴㈴㠴瑜㑸. respirou. e irá depois. era interessante de rosto. Realmente. o nariz curvo e delgado... ainda assim não era tanto como os rapazes da nossa idade. de quando em quando. — Os outros souberam? — Parece que sim: alguns souberam. A cara rapada mostrava uma pele alva e lisa. a boca fina e chocarreira. de minuto a minuto. mas tinha sempre a altura necessária para não afrontar as outras feições.. Quando lhe disse que não. Escobar refletiu um instante e acabou dizendo que o correspondente do pai esperava por ele. A testa é que era um pouco baixa. nem as nossas relações estavam já tão estreitas. naquele dia achei-o um pouco mais expansivo que de costume. mas eu entrei e comigo a tranqüilidade. aproveitou o domingo para ir ter comigo e perguntou se continuava o perigo ou não.CAPÍTULO LXXI Visita de Escobar Em casa. repeti-as: — Manda-se lá um preto dizer que o senhor janta aqui. Eu.

por dentro da veneziana. nem podia tê-la. Eu amei a piedade dela. e aparecera. Não é preciso dizer que era Capitu. nem qualquer outra pessoa desta história poderia responder mais. onde não achara restrição. Escobar despediu-se logo depois de jantar. Separamo-nos com muito afeto: ele. vendo que ela não acabava a frase. como ensaio. tão certo é que o destino. e o bom conselho do fino Iago: “Mete dinheiro na bolsa. ao longe. ainda me disse adeus. e quis saber quem era que me merecia tanto. Otelo mataria a si e a Desdêmona no primeiro ato. São coisas que se adivinham na vida. os três seguintes seriam dados à ação lenta e decrescente do ciúme. sejam romances. ficaram querendo bem a Escobar. por um lado. como nos livros.que vi de que um homem pode corrigir-se muito bem dos defeitos miúdos. porque os últimos atos explicariam o desfecho do primeiro. disse eu indo pôr-me embaixo da janela. Eles chegam a seu tempo.” Desta maneira... a mesma prima Justina achou que era um moço muito apreciável. . com a mão. Não teve resposta. o espectador. a olhar para cima. que as peças começassem pelo fim. como todos os dramaturgos. espécie de conceito. e. até que o pano cai. CAPÍTULO LXXII Uma Reforma Dramática Nem eu. onde esperamos a passagem de um ônibus. não anuncia as peripécias nem o desfecho. — Que amigo é esse tamanho? perguntou alguém de uma janela ao pé. Nunca deixei de sentir tal ou qual desvanecimento em que os meus amigos agradassem a todos. prima Justina provavelmente não viu defeito claro ou importante no nosso hóspede. Viu as nossas despedidas tão rasgadas e afetuosas. acharia no teatro a charada habitual que os periódicos lhe dão. e eu proporia. Apesar de quê? perguntou-lhe José Dias. as explicações de Otelo e Desdêmona. ainda olharia para trás. que nos espreitava desde algum tempo. que a levou a restringir. ia para a cama com uma boa impressão de ternura e de amor: Ela amou o que me afligira. por outro lado. o apesar era uma espécie de ressalva para algum que lhe viesse a descobrir um dia. — É o Escobar. nem ela. Disse-me que o armazém do correspondente era na Rua dos Pescadores. mas não olhou. de dentro do ônibus. nem tu. Era Capitu. apagam-se as luzes. e o último ficaria só com as cenas iniciais da ameaça dos turcos. Em casa. sejam histórias verdadeiras. Nesse gênero há porventura alguma coisa que reformar. a ver se. e ficava aberto até as nove horas: ele é que se não queria demorar fora. ou então foi obra de uso velho. e os espectadores vão dormir. apesar. fui levá-lo à porta. Conservei-me à porta. e agora abrira inteiramente a janela.

e. Tinham passado outros. Uma das suas poesias é destinada a contar (1851) que residia em Catumbi.. a direita à cinta. para advertir o contra-regra. uma trovoada. é o pistão do arcanjo!” Assim se explicam a minha estada debaixo da janela de Capitu e a passagem de um cavaleiro. e dizer em voz surda: “O pistão! o pistão! o pistão!” O público ouviu esta palavra e desatou a rir. um tiro. um gaiato da platéia corrigiu cá de baixo: “Não. designa a entrada dos personagens em cena. saí da rua à pressa. botas de verniz. um carro. e executa dentro os sinais correspondentes ao diálogo. rédea na mão esquerda. e depois. CAPÍTULO LXXIV . Montava um belo cavalo alazão. isto é. representou-se aí.. mas voltou a cabeça para o nosso lado. Ashaverus. Era uso do tempo namorar a cavalo. como era o meu! Nem disse nada a Capitu. mas efetivamente com o fim de falar ao bastidor.CAPÍTULO LXXIII O Contra-Regra O destino não é só dramaturgo. um cavalo e uma namorada. a cabeça do homem deixava-se ir voltando para trás. e olhou para Capitu. O cavaleiro não se contentou de ir andando. disfarçadamente trágico. até que. Quando eu era moço. alugara um cavalo por três mil-réis. um dândi.. e. mas ainda nada. um drama que acabava pelo juízo final.” Relê Álvares de Azevedo. que no último quadro concluía um monólogo por esta exclamação: “Ouço a trombeta do arcanjo!” Não se ouviu trombeta nenhuma. figura e postura esbeltas: a cara não me era desconhecida. quando dei por mim.. e Capitu para ele. senhor. O principal personagem era Ashaverus. todos iam às suas namoradas.. e Ashaverus bradou pela terceira vez que era a do arcanjo. o dândi do cavalo baio não passou como os outros. mas aquele sujeito costumava passar ali. Vão lá raciocinar com um coração de brasa.. repetiu a palavra. A rigor. assim faz o Destino. Tal foi o segundo dente de ciúme que me mordeu. dá-lhes as cartas e outros objetos. firme na sela. em não sei que teatro. envergonhado. o lado de Capitu. Relê Alencar: “Porque um estudante (dizia um dos seus personagens de teatro de 1858) não pode estar sem estas duas coisas. para ver a namorada no Catete. agora mais alto. era natural admirar as belas figuras. às tardes. estava na sala de visitas. e ainda outros viriam atrás. era a trombeta do juízo final e soou a tempo. morava no antigo Campo da Aclamação. que é o seu próprio contra-regra. enfiei pelo meu corredor. e depois. quando a trombeta soou deveras. como então dizíamos. o cavalo andava. é também o seu próprio contra-regra. Então caminhou para o fundo. Três mil-réis! tudo se perde na noite dos tempos! Ora.

e entrei atrás de mim. caindo. muito desprezo. Chamava-lhe perversa. como se a tivesse entre eles. respondi apontando com o dedo: — Olhe a presilha. imaginava que Capitu saísse da janela assustada e não tardasse a aparecer. não teria mais que desprezo. abotoe a presilha. outro andando e parando. enquanto não pegar algum peralta da vizinhança. Quis tapar-lhe a boca. Corri ao meu quarto. diante dela. e perguntou-me com interesse: — Que é. fiquei com medo de ouvi-lo. que case com ela. e naturalmente comigo. como se me avisasse.” Era certamente alusão ao cavaleiro. José Dias inclinou-se. até que tio Cosme ergueu-se para ir ver a doente. Os olhos. e. Duas vezes dei por mim mordendo os dentes. como das outras vezes. mas José Dias. que choraria de arrependimento e me pediria perdão.. falava alto. Da cama ouvi a voz dela. para indagar e explicar.. agora. Jurei não ir ver Capitu aquela tarde. tio Cosme e José Dias conversavam. que viera passar o resto da tarde com minha mãe. ao vão da outra janela. Bentinho? Para não fitá-lo. Tal recordação agravou a impressão que eu trazia da rua. como ele insistisse em saber o que é que eu tinha. levá-lo ao corredor e perguntar-lhe se falara de verdade ou por hipótese.. mas não escapei a mim mesmo. por maior que fosse o abalo que me deu. CAPÍTULO LXXV O Desespero Escapei ao agregado. José Dias viu no meu rosto algum sinal diferente da expressão habitual. eu atirava-me à cama. eu continuava surdo. Capitu ria alto. e fazer-me padre de uma vez. frio e sereno. A vista de José Dias lembrou-me o que ele me dissera no seminário: “Aquilo. escapei a minha mãe não indo ao quarto dela.A Presilha Na sala de visitas. voltava-lhe as costas. Há um instante tinha eu desejo de lhe perguntar o que havia entre Capitu e os peraltas do bairro. queria ir à casa ao pé. viram que uma das presilhas das calças do agregado estava desabotoada. E os dois falavam. que parara ao ver-me entrar. Eu falava-me. imaginando que vinha justamente dizer-mo.. nem nunca mais. a sós comigo e o meu . e abafava os soluços com a ponta do lençol. Via-me já ordenado. e chorava. inconscientemente guardada. e José Dias veio ter comigo. mas. e rolava comigo. deixei cair os olhos. Eu impaciente. mas não seria essa palavra. mas eu. um sentado. não me fez sair do quarto. eu saí correndo. continuou a andar e a falar. eu perseguia-me. que me dispôs a crer na malícia dos seus olhares? A vontade que tive foi pegar em José Dias pela gola.

não podia crer que depois da nossa troca de juramentos. Capitu ria agora menos e falava mais baixo.. a cavalo ou a pé. mas eu acudi de pronto. Esta razão quadrou-me mais que tudo. ouvi-la e julgá-la. Tinha ambas as coisas. Na manhã seguinte não estava melhor. A minha dor agora complicava-se do receio de haver ido além do que convinha.. tão leviana a julgasse que pudesse crer. era prova exatamente de não haver nada entre ambos. se ele vai casar? concluiu. Como me achasse estirado na cama. podia ser que tivesse defesa e explicação. Enxugou os olhos com os dedos. depois abanou a cabeça. com os olhos no teto. com uma moça da Rua dos Barbonos. enterrá-las bem. — E que poderia haver. mas abatido. Podia estar zangada comigo. até ver-lhe sair a vida com o sangue. Se olhara para ele. era natural dissimular. Confessou-me que não conhecia o rapaz. peguei-lhe das mãos e beijei-as com tanta alma e calor que as senti estremecer. lembrou-me a recomendação que minha mãe fazia de me não deitar depois do jantar para evitar alguma congestão. podia não querer-me agora e preferir o cavaleiro. Posto que a cabeça me doesse um pouco. CAPÍTULO LXXVI Explicação Ao fim de algum tempo. — Vai casar? Ia casar. e foi que à primeira suspeita da minha parte. depois suspirou. se houvesse. Quando soube a causa da minha reclusão da véspera. nem por isso deixou de dizer que. deixaria de ir mais à janela. mas nem isso me abalou. estava diferente. A vontade que me dava era cravar-lhe as unhas no pescoço. Ergui-me de golpe. disse-me que era grande injúria que lhe fazia. Não ceei e dormi mal. por eles e pelas lágrimas. E aqui romperam-lhe lágrimas. mas não saí do quarto. deixando de examinar o negócio. com o fim de não ir ao seminário e falar a Capitu. tudo estaria dissolvido entre nós. disse-me com quem. e fez um gesto de separação.. e jurei que nunca a haveria de cumprir: era a primeira suspeita e a última. estaria aflita com a minha reclusão. mas fez outra. e ela o sentiu no meu gesto.desprezo. — Não! não! não! não lhe peço isto! Consentiu em retirar a promessa. eu os beijei de novo. simulei maior incômodo.. Aceitei a ameaça. . estava sossegado. Quis resolver tudo. para evitar nova equivocação. senão como os outros que ali passavam às tardes.

— Sim. se estava bom de todo... achei-o inquieto.CAPÍTULO LXXVII Prazer das Dores Velhas Contando aquela crise do meu amor adolescente.. ninguém se distrai à toa. — Se eu disser a mesma coisa. sinto uma coisa que não sei se explico bem. você às vezes está que não ouve nada. parece que estou repetindo. Quando voltei ao seminário. Não referi tudo mas só uma parte. — Creio. retorquiu ele sorrindo. disfarce. mas nem tudo é claro na vida ou nos livros. olhando para ontem. mas buscava ficar atento. ele esperou.. A verdade é que sinto um gosto particular em referir tal aborrecimento. eu sou seu amigo também. e é que as dores daquela quadra. Ouvia. se eu me demorasse mais um dia em casa. — Estou. não tenho propriamente um amigo. mas eu não me importo com isso. você é meu amigo. Perguntava-me com interesse o que é que tivera. à sua parte. você é o primeiro e creio que já notaram. e foi Escobar que a recebeu. CAPÍTULO LXXVIII Segredo por Segredo De resto. a não ser a gente da família. disse-me que era sua intenção ir verme. Não é claro isto. — Tenho motivos. Mas a verdade é que não tenho aqui relações com ninguém.. tinha razões para andar distraído também. . naquele mesmo tempo senti tal ou qual necessidade de contar a alguém o que se passava entre mim e Capitu. — Que é? — Escobar. Santiago. era bom disfarçar o mais que pudesse. na quarta-feira. Hesitei. e lá fora. que chegam a diluir-se no prazer. perde a graça. Três dias depois disse que me estavam achando muito distraído. — Escobar.. — Então parece-lhe?. aqui no seminário você é a pessoa que mais me tem entrado no coração. espetando-me os olhos. Ele. a tal ponto se espiritualizaram com o tempo. quando é certo que ele me lembra outros que não quisera lembrar por nada.

Quando ela vier. Deume de conselho que não me fizesse padre. sei porém que disse “uma pessoa. apenas insinuei a conveniência de a conhecer de vista. e eu nem mais nem menos um mimoso do céu. Aquele coração moço que me ouvia e me dava razão. seria um mau padre. eis a minha sensação. a simpleza. Não podia levar para a Igreja um coração que não era do céu.. — Nem eu.. o amor do trabalho. mas eu não posso ser padre. Capitu vai passar uns dias com uma amiga da Rua dos Inválidos. eu louvava as qualidades morais de Capitu. mas pode ir antes. também eu tenho o propósito de não acabar o curso. absolutamente nada. os meus acreditam. — Se precisa de absolvição. Então contei-lhe por alto o que podia. Uma pessoa devia ser uma moça. não é preciso dizê-lo. disse-lhe na primeira semana. — Agora não é possível. tão escassa e surda.Comovido. matéria adequada à admiração de um seminarista. fica só entre nós. e esperam. Não calculas o prazer que me deu a confidência que lhe fiz. trazia a este mundo um aspecto extraordinário. eu não posso ser padre. por que não foi ontem jantar comigo? — Você não me convidou. mas demoradamente para ter o gosto de repisar o assunto. — Só isso? — Que mais há de ser? Dei duas voltas e sussurrei a primeira palavra da minha confidência. mas o contado era muito. nem seria padre. — Pois precisa convidar? Lá em casa todos ficaram gostando muito de você. — Desculpe.. a modéstia.. Escobar escutava com interesse. Era como que uma felicidade mais. E não é que eu não seja religioso. mas não diga nada. e faço de conta que me confesso a um padre. não lhe referi o capítulo do penteado. Ao contrário.” com reticência. Que voltamos ao assunto.. Era um grande e belo mundo. e nesse caso. achou até natural e espetou-me outra vez os olhos. pode ir sempre. aí me cumpria ficar. — Não é verdade? retorqui cheio de alvoroço. Nota que eu não lhe disse tudo. Não lhe tocava nas graças físicas nem ele me perguntava por elas. que não a ouvi eu mesmo. Deus protegia os sinceros. Eu sei que é moço sério. nem outros assim. uma vez que eu só podia servi-lo no mundo. sou religioso. você irá lá. senti que a voz se me precipitava da garganta. Não foi preciso mais para que ele entendesse.. por exemplo. meu desejo é o comércio. mas o comércio é a minha paixão. é um modo de falar. ao voltar de casa. Estou aqui. — Escobar. confesso-lhe que sua mãe é uma senhora adorável. Uma pessoa?. a vida uma carreira excelente. . está absolvido. — Nem você? — Segredo por segredo. Nem cuides que pasmou de me ver enamorado. nem o melhor. declarou-me que era segredo enterrado em cemitério. mas da terra. e os costumes religiosos. Voltamos uma e muitas vezes. — Escobar. Santiago. — Também eu fiquei gostando de todos. no fim da nossa conversação. você é capaz de guardar um segredo? — Você que pergunta é porque duvida. mas se é possível fazer distinção.

que esperei viesse depois. para quem tem de pagar na Páscoa. e ela ficou diante do contrato. uma vez que toquei no ponto.CAPÍTULO LXXIX Vamos ao Capítulo Com efeito. foi guardada por ela. depois de interromper esta linha para mirar-lhe o retrato que pende na parede. acho que trazia no rosto impressa aquela qualidade. Meu pai. e das suas práticas religiosas. e mais de um padre entre na luta dos partidos e no governo dos homens. e de fé pura que as animava. sem prejuízo (ao contrário!) da parte humana e terrestre que havia nela. se vivesse. delicado e sutil. . com alegria. não podia deixar de sentir que era adorável. aceita com misericórdia. Nem ignoras que a minha carreira eclesiástica era objeto de promessa feita quando fui concebido. É grave e complexo. tanto que já pesquisava em que altura lhe daria um capítulo. CAPÍTULO LXXX Venhamos ao Capítulo Venhamos ao capítulo. a Quaresma é curta. Ainda agora. comercialmente falando. para o fim de apertar o vínculo moral da obrigação. feita com fervor. e minha mãe. não cabia dizer agora o que só mais tarde presumi descobrir. Basta de prefácio ao capítulo. para que um e outro digam a verdade. melhor é acabar com ele. confiou os seus projetos e motivos a parentes e familiares. É o que se chama. gostei de ouvi-lo falar assim. Realmente. mas. Um dos aforismos de Franklin é que. Minha mãe era temente a Deus. só a verdade. Tudo está contado oportunamente. Penso que lhe senti o sabor da felicidade no leite que me deu a mamar. começou a adiar a minha entrada no seminário. vamos ao capítulo. como uma santa. é provável que me encaminhasse somente à política. E porventura era certo que me obrigava à carreira eclesiástica? Aqui chego a um ponto. sim. posto me mandasse ensinar latim e doutrina. mas toda a verdade. sabes que. no mais íntimo do coração. Nem de outro modo se explica a opinião de Escobar. como única devedora. embora os dois ofícios não fossem nem sejam inconciliáveis. Por mais que me estivesse então obrigando a uma carreira que eu não queria. A promessa. um destes em que o autor tem de atender ao filho. e. sabes disto. Mas meu pai morrera sem saber nada. Sabes a opinião que eu tinha de minha mãe. Outrossim. Uma só bastava a penetrar-lhe a essência íntima. como tinha vocação da política. sim. A nossa quaresma não foi mais longa que as outras. Cabe ainda notar que esse ponto é que torna justamente a santa mais adorável. é possível que alterasse os planos. que apenas trocara com ela quatro palavras. e o filho há de ouvir o autor. minha mãe era adorável.

é o que presumo. por lhe parecer uma deslealdade. Ela ficava comigo sem ato propriamente seu. porém. Minha mãe concordou e recolhi-me a S. falou da necessidade de entregar o preço ajustado. Então (é o final do ponto anunciá-lo). Minha mãe apalpava-lhe o coração. Um cochilo de fé teria resolvido a questão a meu favor. esta esperança íntima e secreta entrou a invadir o coração de minha mãe. o portador guardasse o dinheiro consigo e não levasse nada. mas a vantagem de contratar com o céu é que intenção vale dinheiro. o sol das manhãs. No momento de fazê-lo cair. Na vida comum. Assim a senti sempre na corrente da vida ordinária. e o meu nome era entre ambas como a senha da vida futura. eles são quase irmãos gêmeos. e eu fui para o seminário. A afeição crescente era manifestada por atos extraordinários. mas. O ra. Como Abraão. nes s e mes mo capítulo. falando e cantando. se és religioso. Era um raciocínio tardio. tudo se manteve. e mais a lenha para o holocausto. mas a fé velava com os seus grandes olhos ingênuos. ouve a voz do anjo que lhe ordena da parte do Senhor: “Não faças mal algum a teu filho. haverás buscado alguma vez conciliar o céu e a terra. dando parte dos seus anos para conservar-me consigo. como todos os dramaturgos. casado e pai. verteu ela umas lágrimas . pegou do cutelo e levantou-o ao alto. Eles chegam a seu tempo. fora do clero. sem sequer agravar a taxa do juro. revolvia-lhe os olhos. lá vivia horas e horas. José. assim como suponho que rejeitou tal idéia. o ato de terceiro não desobriga o contratante. um dos familiares que serviam de endossantes da letra. não dependia daquela quantia para comer. a lua das noites. a esperança de que o nosso amor. se pudesse. A verdade é que minha mãe não podia tê-la agora longe de si. era uma conclusão primeira.reformar uma letra. Sucedeu que a minha ausência foi logo temperada pela assiduidade de Capitu. Minha mãe faria. tendo confiado a alguém a importância de uma dívida para levá-la ao credor. me levasse a não ficar lá nem por Deus nem pelo diabo. Um dia. E atou Isaac em cima do feixe de lenha. Esta começou a fazer-se-lhe necessária. está num dos capítulos primeiros. que enxugou s em explicar⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪ ⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪ 屡攧尷昧攵?䔠捳扯牡映楯瘠獩瑩牡洭??慳敢? 猠屡昧摡?敤洠湩慨洠❜㍥?丠湵慣洠?楶 楳慴慲愠屴攧‹污ⱷ渠浥愠?潮獳獡爠汥屡攧尷昧攵?獥慴慶屪攧‱屴攧漳攠瑳敲瑩獡潣潭 瘠敩ⵯ慲 敳?敤潰獩※慭?猠扡湥潤愠爠穡❜㍥ 洠湩慨猠屡攧?搊ⱷ琠屲攧獡搠慩?湡整 ⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪ ⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪erto é que o destino. Capitu era naturalmente o anjo da Escritura. Em todo caso. uma troca de promessa. tendo o céu sido feito no segundo dia e a terra no terceiro. ouvindo. tornando-me absolutamente incompatível com o seminário. por modo idêntico ou análogo. não bastando concluir para destruir. minha mãe levou o filho ao monte da Visão. Pouco a pouco veio-lhe a persuasão de que a pequena me faria feliz. conheci que temes a Deus. O céu e a terra acabam conciliando-se. . sem necessidade de lha dedicar ab ovo. devia ter sido feito no dia em que fui gerado. e consentiu nas transferências de pagamento. o frescor das tardes. não anuncia as peripécias nem o desfecho. O credor era arquimilionário. e. Hás de ter tido conflitos parecidos com esse.” Tal seria a esperança secreta de minha mãe. o fogo e o cutelo. eu romperia o contrato sem que ela tivesse culpa. negando-lhe um segundo filho? A vontade divina podia ser a minha vida. até que o paor que é que Deus a puniria. Neste caso. Era como se. Capitu passou a ser a flor da casa.

mas tão depressa me viu. Capitu trazia sinais de fadiga e comoção. e anuncioume que se mataria também. ficou toda outra. caíra na véspera com uma febre. vindo dizer ao pai de Sancha que a filha o mandara chamar. quis que lhe falasse. Custou-lhe a crer que fosse eu. insinuou prima Justina. exerceriam vingança pronta. os mesmos olhos matadores seriam olhos piedosos. e voltando-se para mim: É a enfermeira de Sancha. senhor. pistola. para desnortear a justiça. — Não. a mocinha de sempre. nada entenderam. que se ia agravando. com este acréscimo que. O pai de Sancha recebeu-me em desalinho e triste. que não quer outra. eu já volto. nem elas nem os móveis. e as pernas como armas de fuga ou de defesa. — Fique aqui um bocadinho. suicídios e assassinatos. Um dos erros da Providência foi deixar ao homem unicamente os braços e os dentes. disse-lhe ele. — Está pior? perguntou Gurgel assustado. nem punhal. teriam suprido tudo. Eis aqui um capítulo fúnebre como um cemitério. corri à Rua dos Inválidos. Um mover deles faria parar ou cair um inimigo ou um rival. A filha estava enferma. fresca e lépida. mas os olhos que lhe deitei. às onze horas. como armas de ataque. CAPÍTULO LXXXII . Foi Capitu que os trouxe à porta da sala. quando eu cheguei a casa. com sinhazinha Gurgel: — Por que não vais vê-la? Não me disseste que o pai de Sancha te ofereceu a casa? — Ofereceu. e correriam a chorar a vítima. e soube que Capitu estava na Rua dos Inválidos. Não a matei por não ter à mão ferro nem corda. elas que têm ouvidos. no primeiro sábado. mas tão baixo e abafado que nem as paredes ouviram. que estavam tão tristes como o dono. Agora se entenderá que ela me dissesse. mortes. e efetivamente conversamos por alguns minutos. posso trasladar para aqui uma palavra de minha mãe. se pudessem matar. Falou-me. mas quer falar-lhe. Como ele queria muito à filha. certamente a amiga pediu-lhe que dormisse lá.CAPÍTULO LXXXI Uma Palavra Assim contado o que descobri mais tarde. eu é que não escapei ao efeito da insinuação. Os olhos bastavam ao primeiro efeito. Eu ansiava por um raio de luz clara e céu azul. — Talvez ficassem namorando. pensava já vê-la morta. Capitu devia ter voltado hoje para acabar um trabalho comigo. e no domingo. Prima Justina escapou aos meus. — Pois então? Mas é se queres. se elas ouviram algo. De resto. não menos que espantada.

CAPÍTULO LXXXIII O Retrato Gurgel tornou à sala e disse a Capitu que a filha chamava por ela. disse ele. Dois homens sentados nele podem debater o destino de um império. apertando os dela. Ao contrário. vagamente. O canapé. voltando-se para a parede da sala. com os simples dedos. Na verdade. um homem e uma mulher só por aberração das leis naturais dirão outra coisa que não seja de si mesmos. de cada vez que vinha a casa achava-a mais alta e mais cheia. onde pendia um retrato de moça. isto é. que brilhavam extraordinariamente: — Seremos felizes! Repeti estas palavras. e duas mulheres a graça de um vestido. Murmurei que sim. Esse arvorecer era mais apressado.. mas.. estendeu-me a mão e enfiou pelo corredor. Capitu ergueu-se naturalmente e perguntou-lhe se a febre aumentara. a febre parece que cede. Vagamente lembra-me que lhe perguntei se a demora ali seria grande. mulher por todos os lados. visto que nos ofereceu os serviços da sua palhinha. quer visse ou não. perguntou-me se Capitu . que lhe expliquei a minha visita à Rua dos Inválidos. Nem sobressalto nem nada. Também me lembra. nenhum ar de mistério da parte de Capitu. Data daí a opinião particular que tenho do canapé. Foi o que fizemos.. as formas arredondavam-se e avigoravam-se com grande intensidade. voltou-se para mim. mulher à direita e à esquerda. e desde os pés até a cabeça. Ele faz aliar a intimidade e o decoro. moralmente. Gurgel.. Eu levantei-me depressa e não achei compostura. com tal insistência que os aceitamos e nos sentamos. Todas as minhas invejas foram com ela. Era mulher por dentro e por fora. — Conselho dela? murmurou Capitu. a conselho de minha mãe. e disse-me que levasse lembranças a minha mãe e a prima Justina. — Não. continuou a prestar os seus serviços às nossas mãos presas e às nossas cabeças juntas ou quase juntas. Capitu ia crescendo às carreiras. Como era possível que Capitu se governasse tão facilmente e eu não? — Está uma moça. só o canapé pareceu haver compreendido a nossa situação moral. com a pura verdade.. e a boca outro império. mas. agora que eu a via de dias a dias. — Não sei.. a mesma coisa. E acrescentou com os olhos. e mostra a casa toda sem sair da sala.O Canapé Deles. Capitu e eu. metia os olhos pelas cadeiras. e que até breve. os olhos pareciam ter outra reflexão. observou Gurgel olhando também para ela.

As minhas idéias de ouro perderam todas a cor e o metal para se trocarem em cinza escura e feia. A simples notícia era já uma turvação grande.. Custa-me dizer isto.. Também achava que as feições eram semelhantes. Que vida que ele teve!. a tal ponto que não acudi logo a uma voz que me chamava: — Sr. sabe que meu filho Manduca morreu? — Morreu? — Morreu há meia hora. até a amizade que ela tem a Sanchinha. mas agora ia tão contente! Ver um defunto ao voltar de uma namorada. disse-me ele chorando. sem alma para entrar nem fugir. e perguntou se estava no seminário. Um dos costumes da minha vida foi sempre concordar com a opinião provável do meu interlocutor... para ele. mas antes peque por excessivo que por diminuto. A casa era uma loja de louça.. Quis responder que não.. — Sr.. Antes de examinar se efetivamente Capitu era parecida com o retrato. CAPÍTULO LXXXIV Chamado No saguão e na rua. a mãe não era mais amiga dela. porque ele. Bentinho! Só depois que a voz cresceu e o dono dela chegou à porta é que eu parei e vi o que era e onde estava. e eu. Quanto ao gênio.. Quer vê-lo? Entre. Não era medo. e foi bom que morresse. desde que a matéria não me agrava. coitado. mas achei que não e pus-me a andar. e a pessoa que me chamava era um pobre homem grisalho e mal vestido. abria-me espaço com o gesto. nem sequer humanas. ande vê-lo.. deixei ao corpo fazer o que pudesse. encostado ao portal. Ia satisfeito com a visita. escassa e pobre. a coisa mais importante do momento era o filho. Então ele disse que era o retrato da mulher dele. e não distingui mais nada. Estava já na Rua de Matacavalos. e o corpo acabou entrando. Mandei recado a sua mãe agora mesmo. Bentinho! Sr. aborrece ou impõe. enterra-se amanhã. com os louvores de Gurgel. mas apesar de tudo sempre dói. Um dia destes ainda se lembrou do senhor. examinei ainda comigo se efetivamente ele teria desconfiado alguma coisa.era parecida com o retrato. Penso que cheguei a dizer que tinha pressa. noutra ocasião pode ser até que entrasse com facilidade e curiosidade. era um. e que as pessoas que a conheceram diziam a mesma coisa. e fiz até um gesto para fugir. — Finalmente. Não culpo ao homem. tinha as portas meio cerradas. a testa principalmente e os olhos. fui respondendo que sim. pareciam irmãs. Mas também . que não queria ver o Manduca. mas provavelmente não falei por palavras claras.. Meu pobre filho! Tinha de morrer. com a alegria de Capitu. Na vida há dessas semelhanças assim esquisitas. Bentinho. Há coisas que se não ajustam nem combinam. e ela fezme a caridade de mandar algumas flores para botar no caixão.

já pelo defunto. fiquei apavorado e desviei os olhos. é outra coisa. a galinha que marisca no chão da rua. fumega e passa. a palmeira que investe para o céu.. Realmente. Vá.. à porta da alcova duas crianças olhavam espantadas para dentro. morre-se muito bem às seis ou sete horas da tarde. agora que as janelas da área estavam cerradas. Eu cuidei de sair. a cabra que rumina ao pé de uma carroça. apesar de não ter músculos nem folhagem. Tudo o que vejo lá fora respira vida. é morto. diga-se tudo. sim. Por que morrer exatamente há meia hora? Toda hora é apropriada ao óbito. e despedi-me. morto pareceu-me horrível. Um rapaz..não me culpem a mim. que não sabia. Manduca padecia de uma cruel enfermidade. Teria dezoito ou dezenove anos. olhei. ou se o Manduca esperasse algumas horas para morrer. o quadro era feio. Se eu passasse antes ou depois. a cama. Eis o mal todo. Verdade é que o outro Manduca era mais velho que este. Suspendamos a pena e vamos à janela espairecer a memória. Não sei que mão oculta me compeliu a olhar outra vez. até que recuei de todo e saí do quarto. ainda que de fugida. os seus parentes são mortos. a coisa mais importante era Capitu. pouco mais velho. com o dedo na boca. Vivo era feio. já pela morte. não morreu nem morre. CAPÍTULO LXXXV O Defunto Tal foi o sentimento confuso com que entrei na loja de louça. assobia. nenhuma nota aborrecida viria interromper as melodias da minha alma. — Padeceu muito! suspirou o pai. O cadáver jazia na cama.. e o interior da casa menos luz tinha. O mal foi que os dois casos se conjugassem na mesma tarde.. Quando eu vi. . nada menos que a lepra. A loja era escura. O pai perguntou-me se lhe faria o favor de ir ao enterro. posto também se chame Manduca. faria o que minha mãe quisesse. Diga-se tudo.. a cara não permitia trazer a idade à vista. o trem da Estrada Central que bufa. e saltei à rua. se existe algum não é em tal evidência que se vexe ou doa. e que a morte de um viesse meter o nariz na vida do outro. que ali no beco empina um papagaio de papel. o triste corpo daquele meu vizinho. atravessei a loja. e finalmente aquela torre de igreja. antes a escondia nas dobras da. E rápido saí. — Coitado de Manduca! soluçava a mãe. mas tanto lhe darias quinze como vinte e dois. cedi. Isto aqui. tornei a olhar. para mim. respondi com a verdade. A um canto da sala de jantar vi a mãe chorando. estendido na cama. disse que era esperado em casa. que era horrível.

trocam a morte pela vida. se chovia. quando era mais pequeno.. como se estivesse a esperar por mim. pálido e disforme. Era uma velha sege de meu pai. Amai. que ela conservou o mais que pôde. que era nosso escravo. Era uma velha sege obsoleta.. por onde eu gostava de espiar para fora.. que corriam para os lados quando era preciso entrar ou sair. tão velho como a sege. lembra-me que ia assim muita vez com minha mãe às visitas de amizade ou de cerimônia.. e mais na vida e na cara fresca e lépida de Capitu. elas dão remédio ao mal. Parei no degrau.. estreita e curta. pediria a minha mãe que me alugasse um carro. vai devagar. esperando minha mãe. por mais que tivesse o gosto da condução. porque ela não permitia ver as pessoas que iam dentro. mamãe! E em pé. e à missa. Refleti um instante. sim.. de duas rodas. aroma ao infecto. vestido.. quando me via à porta. O cocheiro. com duas cortinas de couro na frente. Bentinho! — Deixa espiar. Tudo arredei da vista. a tomar fôlego. — Nhá Glória não gosta. principalmente. dizia-me rindo: — Pai João vai levar nhonhô! E era raro que eu não lhe recomendasse: — João. podia ir ao enterro. metia a cara no vidro. bastoume pensar na outra casa. entre as grades da cancela. Parei no corredor. Amai. amai moças lindas e graciosas. e o mais que não disse para não dar a estas páginas um aspecto repugnante. Cada cortina tinha um óculo de vidro. que antes de três minutos me achei em casa. Não cuides que era o desejo de andar de carro. rapazes! e. — Mas demora! Fica entendido que era para saborear a sege.CAPÍTULO LXXXVI Amai. Em pequeno. rapazes! CAPÍTULO LXXXVII A Sege Chegara ao último degrau. não pela vaidade. Rapazes! Era tão perto. demora muito as bestas. e uma idéia me entrou no cérebro. e via o cocheiro com as suas grandes .. em poucos segundos. — Senta. Ouvi de memória as palavras do pai de Manduca pedindo-me que fosse ao enterro no dia seguinte. buscava esquecer o defunto. mas podes imaginá-lo.

as pessoas paradas na calçada ou à porta das casas. umas moedas de cobre datadas de 1824 e 1825. A razão de a guardar inútil foi exclusivamente sentimental. mas a principal e imediata foi aquela. o penteado. Minha mãe exprimia bem a fidelidade aos velhos hábitos. CAPÍTULO LXXXVIII Um Pretexto Honesto Não. um trecho de mantilha. olhavam para a sege e falavam entre si. na mão levava o chicote grosso e comprido. e segurando a rédea da outra. Tudo incômodo. ouvi agora a da mãe. e repeti a meia voz: — Coitado de Manduca! .. Quando havia impedimento de gente ou de animais. Afinal minha mãe consentiu em deixá-la. escanchado na mula da esquerda. as mãos presas. Mas o uso. velhas idéias. mas já deixei dito que. Tudo o que vinha de meu pai era conservado como um pedaço dele. que quando já não havia nenhuma outra.. A origem era outra: era porque. — Vou pedir a mamãe. a pretexto de saber de sinhazinha Gurgel. Eis aí o que era. Dos lados via passar as casas. velhas modas.. Capitu comigo no canapé. e podia fazer outra visita a Capitu. neste ponto. Bentinho. a mesma alma integral e pura. Quando fui crescendo em idade imaginei que adivinhavam e diziam: “É aquela senhora da Rua de Matacavalos. para que tudo fosse antigo. abertas ou fechadas. não iria ao seminário. Gurgel aflito. a sege parava. e na rua as pessoas que iam e vinham. ou atravessavam diante da sege. a idéia de ir ao enterro não vinha da lembrança do carro e suas doçuras. Tinha o seu museu de relíquias. um tanto mais demorada. mas ele gostava e eu também. Voltaria à Rua dos Inválidos. com gente ou sem ela. Contava que tudo me saísse como naquele dia. era a lembrança do marido. e era conhecida na rua e no bairro pela “sege antiga”. Antes de transpô-la. Abri a cancela. um resto da pessoa. assim como ouvira da memória a palavra do pai do morto. a si mesma se queria fazer velha. as botas.botas. não alcançava tudo o que queria.. o chicote e as mulas. velhas maneiras. A lembrança do carro podia vir acessoriamente depois. continuamos a andar nela. e. e então o espetáculo era particularmente interessante. pentes desusados. que tem um filho.” A sege ia tanto com a vida recôndita de minha mãe. naturalmente sobre quem iria dentro. com grandes pernadas ou passos miúdos. esse era filho também do carrancismo que ela confessava aos amigos. só abriu mão dela porque as despesas de cocheira a obrigaram a isso. sem a vender logo. acompanhando o enterro no dia seguinte. lojas ou não.

CAPÍTULO XC A Polêmica No dia seguinte. Não éramos amigos. o aspecto não atraía.CAPÍTULO LXXXIX A Recusa Minha mãe ficou perplexa quando lhe pedi para ir ao enterro. o que é impossível. devia ter sido feito no dia em que fui gerado. receando que me chamassem como na véspera. os dedos queriam apertar-se. ainda mais breve que este em que vo-lo digo.. não anuncia as peripécias nem o desfecho. este sorriu. se parei. pensando no motivo. foi só um instante. Era um raciocínio tardio. Em todo caso. Só se a justiça não vencer neste mundo. que intimidade podia haver entre a doenç⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪ ⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪ert o é que o destino. sem entrar nem parar. Tinha eu de treze para quatorze anos. a doença ia-lhe comendo parte das carnes. Quando referi o caso ao agregado. como todos os dramaturgos. e a . não me desagradou. andei até mais depressa. — ou. Fosse o que fosse. que então ardia e andava nos jornais. — Perder um dia de seminário. — Você acha que não deve ir? perguntou-lhe minha mãe. Uma vez que não ia ao enterro. fiquei amuado. maa vez. mais tarde acheilhe um sabor particular. como falássemos da guerra da Criméia. e depois era gente pobre. Fiz-lhe notar a amizade que o Manduca me tinha. Manduca disse que os aliados haviam de vencer. Tudo o que me lembrou dizer. e não fiquei pouco espantado. e eu respondi que não. nem nos conhecíamos de muito.. disse. Intimidade. até que o pa⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪ ⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪ar ab ovo. Eles chegam a seu tempo.. decerto. no dia seguinte. Que amizade é essa que eu nunca vi? Prima Justina venceu. Da segunda vez que o vi ali. — Acho que não. Se me não engano. antes longe que próximo. passei pela casa do defunto. — Pois veremos. tornou ele. era uma conclusão primeira. Prima Justina opinou pela negativa. e disse-me que o motivo escondido da prima era provavelmente não dar ao enterro “o lustre da minha pessoa”. Fui andando e pensando no pobre-diabo..

senhor. o calor é que crescia. não era exaltada. e o prazer com que lhe dei o papel foi sincero. Ou gosto da polêmica ou qualquer outra causa que não alcanço. pena e tinta ao pé da cama. à porta da rua. até que não dei mais nenhuma. Naturalmente a mim sobravam mil coisas que distraíam. antes de saber os meus argumentos. e o terceiro domingo em que entrei na loja tocamos outra vez no assunto. nem talvez interesse conhecê-los. Comecei a demorar as respostas. nem a moléstia os permitiria. que me chamava a outros exercícios. se porventura choravam antes. tinha só esta guerra. e na terça ou quarta-feira recebi duas folhas de papel contendo a exposição e defesa do direito dos aliados. a razão é dos russos. não me lembra se trazia coisas novas ou não. profunda. Fui eu mesmo levar-lhe o meu papel. por fadiga também ou por não aborrecer. afirmava a mesma predição eterna: “Os russos não hão de entrar em Constantinopla!” Não entraram. Fala e ri muito. — Não. ele ainda teimou duas ou três vezes depois do meu silêncio. os recreios. e da integridade da Turquia. Manduca era mais longo e pronto que eu.. e começa logo a escrever a resposta. Fui eu que cansei primeiro. dizia-me o dono da loja. Mas também. pela sua parte. — Não imagina como ele anda agora. concluindo por esta frase profética: “Os russos não hão de entrar em Constantinopla!” Li-a e meti-me a refutá-la. e se demorará muito. o estudo. assunto da cidade e do mundo. tanto que eu queria pedir-lhe uma coisa. Senti essa mudança dele nas próprias maneiras do pai e da mãe. As horas tristes e compridas eram agora breves e alegres. acabou de todo com as suas apologias. mas não recebendo contestação alguma.. Fizeram-me entrar na alcova. mas que ninguém ia tratar com ele. que tinha gosto à escrita. relê jornais e toma notas. Manduca fez o mesmo ao dos aliados. os olhos desaprenderam de chorar. não tinha gestos. o sorriso que a acendeu dissimulou o mal físico. Dias depois recebi a réplica. deitou-se ao debate. A convicção com que me recebeu o papel e disse que ia ler e responderia é que não tem palavras nossas nem alheias que a digam de todo e com verdade. transcrevendo os de fora. mal coberto por uma colcha de retalhos. Há ocasiões em que não come ou come mal. a família. e o final era o mesmo: “Os russos não hão de entrar em Constantinopla!” Trepliquei. e a própria saúde. A última. mas pode ser também que cada um de nós tivesse a opinião do seu temperamento. em que nenhum de nós cedia. como todas. depois que o senhor lhe escreve aqueles papéis. apenas recebe os seus papéis. salvo o palmo de rua ao domingo de tarde. ele. um gozo infinito de vitória. era simples. nem depois. mas a idéia que me ficou deles é que eram irrespondíveis. e que pergunte ao moleque. agora que o século está a expirar. efetivamente. grande. é que não os mande à hora do almoço ou do jantar. Logo que eu mando o caixeiro levar-lhe os papéis dele. O acaso dera-lhe em mim um adversário. íamos com o que nos diziam os jornais da cidade. Mas a predição será eterna? . Manduca. Fui sempre um tanto moscovita nas minhas idéias. nem então. Enquanto espera. Defendi o direito da Rússia. nem até agora. entra a indagar da resposta. não era ruidosa. Tinha já papel. atira-se a lê-los. Não me recorda um só dos argumentos que empreguei. e daí continuou por algum tempo uma polêmica ardente. por mais nojosa que tivesse então a cara. onde ele jazia estirado na cama. como a primeira. Naturalmente. como a um remédio novo e radical. quando passar. Manduca. uma vez. não me deixou sentir toda a repugnância que saía da cama e do doente. defendendo cada um os seus clientes com força e brio.justiça está com os aliados. Então Manduca propôs que trocássemos a argumentação por escrito.

se era.Não chegarão a entrar algum dia? Problema difícil. tão certo é que a natureza.. rota e infecta colcha de retalhos. porque a morte não poupa a ninguém. acho que não só servi de alívio. não creio que fosse pecado opinar contra a Rússia. Morreu afinal. mas. debaixo da triste. A muitos outros aconteceu a mesma coisa. pensando melhor.. mas este caso afligiu-me particularmente pela razão já dita. para entrar na sepultura. A vida dele resistiu como a Turquia. O próprio Manduca. sem opinar coisa nenhuma. CAPÍTULO XCII O Diabo não É tão Feio Como se Pinta Manduca enterrou-se sem mim. Quanto ao Manduca. fazendo-lhe esquecer o mal e o resto. o gosto com que ele recebia os meus papéis e se propunha a refutá-los. esta pagará um ou dois dos meus muitos pecados. E o achado consola-me. mas agora. como a história. se afinal cedeu foi porque lhe faltou uma aliança como a anglofrancesa. Hoje. sem que eu sentisse nada. como os Estados morrem. a questão é saber. a não ser esta: que servi de alívio um dia ao meu vizinho Manduca. não se faz brincando. a caminho do seminário. não se podendo considerar tal o simples acordo da medicina e da farmácia. ele estará purgando há quarenta anos a felicidade que alcançou em dois ou três meses — donde concluirá (já tarde) que era ainda melhor haver gemido somente. essa era a questão para o meu vizinho leproso. no nosso caso particular. gastou três anos de dissolução. É alguma coisa na liquidação da minha vida. mas até lhe dei felicidade. Então. Se há no outro mundo tal ou qual prêmio para as virtudes sem intenção. não fiz propriamente nenhuma. Também senti não sei que melancolia ao recordar a primeira polêmica da vida. Mas o tempo apagou depressa todas essas . CAPÍTULO XCI Achado que Consola É claro que as reflexões que aí deixo não foram feitas então. não contando o gosto do carro.. mas se os russos entrarão algum dia em Constantinopla. não se a Turquia morrerá.. no gabinete do Engenho Novo. já agora não esquecerei mais que dei dois ou três meses de felicidade a um pobre-diabo.

mas. — São os olhos dele. que o céu me deu.. foi que me estimava pelas minhas boas qualidades e aprimorada educação. cuja imagem dormiu comigo na mesma noite. mas a natureza é tão divina que se diverte com tais contrastes. dava à podridão das suas carnes um reflexo espiritual que as consolava. Escobar? — Vim para isto mesmo. Minha mãe agradeceu-lhe a amizade que me tinha. no seminário todos me queriam bem. isso parece. expliquei. A verdade é que uma coisa não impede outra. — São olhos refletidos. e outra que direi no capítulo que vem. Quero dizer. disse minha mãe. Justina tenha alguma razão. como se me não visse desde longos meses. Tudo isso com a voz engasgada e trêmula. mas o homem não é sempre o mesmo em todos os instantes. Insistia na educação... Já viste que não era assim. duas pessoas vieram ajudá-lo: Capitu. sim. ainda que um tanto atado. Eu estava tão contente como se Escobar fosse invenção minha. antes do meio-dia. em resumo. e a reflexão casa-se muito bem à curiosidade natural. o meu jardineiro afirma que as violetas. e prima Justina não achou tacha que lhe pôr. mas deve ser verdade. veio ela confessar-nos que o meu amigo Escobar era um tanto metediço e tinha uns olhos policiais a que não escapava nada. e ele respondeu com muita polidez. — A mim parece-me um mocinho muito sério. a palavra obedecialhe. veio ter a Matacavalos. se alguém tiver de ler o meu livro com alguma atenção mais da que lhe exigir o preço do exemplar..saudades e ressurreições. Não examinei. O que ele disse. CAPÍTULO XCIII Um Amigo por um Defunto Quanto à outra pessoa que teve a força obliterativa. E talvez saia assim a flor mais bela. e tal amigo que durante cerca de cinco minutos esteve com a minha mão entre as suas. “na doce e rara mãe”. não deixe de concluir que o diabo não é tão feio como se pinta. hão mister de estrume de porco. O resto deste capítulo é só para pedir que. depois. pode ser que a Sr. entretanto. José Dias desfechou-lhe dois superlativos. Quero dizer que o meu vizinho de Matacavalos.. — Seguramente. Um amigo supria assim um defunto. como se carecesse de palavra pronta. foi o meu colega Escobar que no domingo. decerto. acudiu José Dias. Parece curioso. Nem foi só ele. — Você janta comigo. nem podia deixar de ser assim. .ª D.. Todos ficaram gostando dele. nos bons exemplos. e uma das mais excelentes é não padecer esse nem outro mal algum. opinou tio Cosme. para terem um cheiro superior. — Nem eu digo que sejam de outro. no segundo ou terceiro domingo. Há consolações maiores. temperando o mal com a opinião anti-russa. e aos mais nojentos ou mais aflitos acena com uma flor. acrescentou. tio Cosme dois capotes.

ele riu também. aquele preto que ali vai passando. Agradeceu. sim. outros estão alugados. interrompeu Escobar. São assim as boas horas deste mundo. que a natureza parecia rir também conosco. ou de nação como Pedro Benguela. diz porém que há de morrer aqui. Olhe. E não contávamos voltar à roça? — Não. respondi eu vagamente por vaidade. contou-me duas ou três reminiscências dos seus três anos de idade. — Não é possível! exclamou Escobar. senhor. — E estão todos aqui em casa? perguntou ele. pedindo explicação das passagens omissas ou só escuras. — O que me admira é que D. com esses olhos que Deus lhe deu. onde tudo é apertado. e só então reparei nisto. “um anjo dobrado”.. aquele outro Damião. Com efeito... são exatamente os dela.. Caminhamos para o fundo. depois continuamos. alguns andam ganhando na rua. — Você ainda se lembra da roça. Glória se acostumasse logo a viver em casa da cidade. é bonita. Também a alguém há de você sair. e ainda outro. senhora grave. tão pequenino viera. disse eu para Escobar. aquele José. uma no Catete. muito moça. dizendo que eram bondades. — Conheço essa. agora não voltamos mais. Maria Gorda.. está muito moça e bonita.. Mamãe tem outras casas maiores que esta.. como João Fulo. mas parece. Algumas são bem grandes. Antônio Moçambique. Que idade teria? — Já fez quarenta. e o ar tão claro. ele parou um instante aí. naturalmente). — É casado. eram diferentes letras. este Pedro. Não era possível ter todos em casa. e o céu estava tão azul.. lembra-me só que as achei engenhosas. Passamos o lavadouro. Quando eu lhe disse que não me lembrava nada da roça. chegou-se a nós e esperou. alguns com os mesmos nomes. As outras estão alugadas. ainda agora frescas. mirando a pedra de bater roupa e fazendo reflexões a propósito do asseio. depois. na Cidade-Nova. como a da Rua da Quitanda. sim. a de lá é naturalmente grande. Nem são todos os da roça. vi que o prazer dele foi extraordinário.. e elogiou também minha mãe. — Não sei. a maior parte ficou lá. — Não lhe hão de faltar tetos. é de lá. Quarenta anos! Nem parece trinta. Tomás! — Nhonhô! Estávamos na horta de minha casa. e o preto andava em serviço. tornou a falar de minha mãe. a propósito da beleza moral que se ajusta à física.— Justamente! confirmou José Dias para não discordar dela. — Todas as letras do alfabeto. mais outro. Escobar confessou esse acordo do interno com o externo. Quando eu referi a Escobar aquela opinião de minha mãe (sem lhe contar as outras. Tomás? — Alembra. por palavras tão finas e altas que me comoveram. distinguindo-se por um apelido. vá-se embora.. concluiu ele sorrindo com simpatia. — Tem também no Rio Comprido. e ri. Escobar escutava atento. disse ele. — Bem. distinta e moça. — Não. Quais foram as reflexões não me lembra agora. Enviuvou há muitos anos? Contei-lhe o que sabia da vida dela e de meu pai. Maria onde está? — Está socando milho. apontei ainda outros escravos. ou da pessoa. Mostrei outro. . perguntando mais. A minha alegria acordava a dele. senhor.

ele erguia as pupilas. e na semana seguinte levei-lhe escritos em um papel os algarismos das casas e dos aluguéis. Era das cabeças aritméticas de Holmes (2 + 2 = 4). pois eu tanto aprovo com um p como com dois pp. que não pude deixar de abraçá- .. Fiquei tão entusiasmado com a facilidade mental do meu amigo. Assim que. Fiquei pasmado. e que os aluguéis variavam de uma para outra. multiplique por igual número. sabia também calcular depressa e bem. A arte é atrapalhada. Olhando-me triunfalmente. ao passo que ele podia somar. mas não ousava refutálo. vinte algarismos. Contudo. era aquilo mesmo. etc.. eram muito mais conceituosos que as vinte e cinco letras do alfabeto. voltados para cima. proferi algumas palavras de defesa. indo de 70$000 a 180$000. o mesmo do s. dê-me um caso. e 7 é 7. 4 é 4. nada. quaisquer quantias. coisa que não fazem as letras dobradas. — e havia de ser no papel. passou-os pelos olhos a fim de os decorar. dê-me o número das casas de sua mãe e os aluguéis de cada uma.. Assim. — Isto prova que as idéias aritméticas são mais simples. com a vantagem que eram mais fáceis de menear. enforque-me! Aceitei a aposta. em meio minuto bradava-me: — Dá tudo 1:070$000 mensais. que foi muito. treze. o que não vale nada faz valer muito. mas o ofício deste sinal negativo é justamente aumentar. Pois tudo isto em que eu gastaria três ou quatro minutos. um dia. do c e do z. ao que ele respondeu que era um preconceito. O mesmo digo do b e do p. — fê-lo Escobar de cor.. custava-me a ouvir tais blasfêmias. A vocação era tal que o fazia amar os próprios sinais das somas. só por lhe mostrar que sim. cerrava as pálpebras. ponha-lhe dois 00. é 500. dá 484. E admire a beleza com que um 4 e um 7 formam esta coisa que se exprime por 11. tirei do bolso o papelinho que levava com a soma total. e perguntava se não era exato. e sussurrava as denominações dos algarismos: estava pronto. olhe. Não se imagina a facilidade com que ele somava ou multiplicava de cor. dê-me uma porção de números que eu não saiba nem possa saber antes. que foi sempre uma das operações difíceis para mim. e acrescentou que as idéias aritméticas podiam ir ao infinito.. e mostrei-lho.. em um minuto. dizia ele. Um 5 sozinho é um 5. São trapalhices caligráficas. era para ele como nada: cerrava um pouco os olhos. Escobar pegou no papel. A divisão. O valor do zero é. e sussurrava. e enquanto eu fitava o relógio. Oh! o vento não é mais rápido! Foi dito e feito. Mas onde a perfeição é maior é no emprego do zero. o mesmo do k e do g. e se eu não disser a soma total em dois. Considera que eram não menos de nove casas. — Há letras inúteis e letras dispensáveis. sendo poucos. em três minutos. — Por exemplo. eu não era capaz de resolver de momento um problema filosófico ou lingüístico.CAPÍTULO XCIV Idéias Aritméticas Não digo o mais. Que serviço diverso prestam o d e o t? Têm quase o mesmo som. nem um erro: 1:070$000. Eu. Nem ele sabia só elogiar e pensar. em si mesmo. Isto com sete. Criado na ortografia de meus pais. e tinha esta opinião que os algarismos. brincando. Veja os algarismos: não há dois que façam o mesmo ofício. e assim por diante. A natureza é simples. Agora dobre 11 e terá 22. e portanto mais naturais.

um padre que estava com eles não gostou.. indo à missa. no quintal. Ao primeiro aspecto. decerto. não consente esses gestos excessivos... Assim que. Bentinho.. Bentinho. — Fiquemos ainda mais amigos que até aqui.. Trazia uma nota de grandeza e de espiritualidade que falava aos meus olhos de seminarista.. confesso que fiquei deslumbrado. mas entendia que o vínculo moral da promessa a prendia indissoluvelmente. podem estimar-se com moderação. respondi depois de alguns segundos de reflexão.. ele e eu iríamos a Roma pedir a absolvição do Papa. expondo-lhe tudo. Vou jogar com eles que me chamaram.lo. tanto pior para eles. Escobar apertou-me a mão às escondidas.. — Mas é coisa certa? — Certíssima! No dia seguinte revelou-me o mistério.. Que me parecia? — Parece-me bem. — Quebremos-lhe a castanha na boca! — Mas. Escobar observou-me que os outros e o padre falavam de inveja e propôs-me viver separados.. — Melhor é falar domingo que vem. Digo? Não se . e podemos partir daqui a dois meses. Suspendamos a pena por alguns instantes. É ilusão. disse-nos. com tal força que ainda me doem os dedos. Minha mãe. a de José Dias não lhe quis ficar atrás. outros seminaristas notaram a nossa efusão. CAPÍTULO XCV O Papa A amizade de Escobar fez-se grande e fecunda. lá no quarto. estava arrependida do que fizera. deixe-me pensar primeiro. Pensar em quê? Você o que quer. se não é efeito das longas horas que tenho estado a escrever sem parar. — Como? — Espere até amanhã. Pode ser um bom remédio. com o poder de desligar dado aos apóstolos. Interrompi-o dizendo que não. amanhã. conto-lhe o que há. Na primeira semana disse-me este em casa: — Agora é certo que você vai sair já do seminário. Cumpria rompêlo. — A modéstia. é o único! Vou já hoje conversar com D. e desejaria ver-me cá fora. A idéia é tão santa que não está mal no santuário. Amanhã. Glória. ou na rua. se era inveja. — Oh! Bentinho! interrompeu o agregado. e para tanto valia a Escritura. Era no pátio. ao parecer dele. — É o único.. ou antes. Era não menos que isto..

sejam satisfeitos. Tinha o seu museu de relíquias. mas eu neguei a pés juntos que quisesse consultar ninguém. esquece-me inteiramente. Vi a alma aliviada de minha mãe. vi a alma feliz de Capitu. nem reitor. Eis o ponto essencial. Bentinho. você pode muito bem gastar consigo. pentes desusados. E que pessoa. que me daria um bom conselho. no domingo daria a resposta. mas a distância que estaria da vontade de Capitu é que não. mas buscá-la. ouve. que vivia do ofício enquanto ia pregando a palavra divina. não. não preciso mais. não iria. inclina-se. tudo mediante uma pequena viagem a Roma... a Virgem recomenda ao Santíssimo Filho que todos os seus desejos. mas era preciso ouvi-la. Falou a todos os meus sentimentos de católico e de namorado. três camisas e o pão diário. e ele conosco. interroga. Os anjos o contemplam. não pregála. Não digo mais. Levaremos ⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪ ⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪maneiras . — Não? — Não. velhas modas. Ouviu-me atentamente. umas moedas de ⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪ ⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪˄?? ୱ ෴ ? ? ᘠ ? ?Ṭℰ ? ? ⥼ ⱞ 乙  㒌 㝐 㨔 㳘 㾜 䉠 䔤 䟨 䪬 䵰 倴 勸 喼 墀 孄 师 惌 掐 晔 椘 毜 溠 ____________________ၙ፼ᙤ_?竆⠀˄??ୱ෴??ᘠ??Ṭℰ??⥼ⱞ乙㒌㝐㨔㳘㾜䉠䔤䟨䪬䵰倴 勸喼墀孄师惌掐晔椘毜溠____________________idade. e boca no nosso caso é a moeda. — Não se vai a Roma brincando. disse ela. Capitu e Escobar. Serei como São Paulo.. e acabou triste. nem ninguém. Se Capitu achasse longe. e assim também a Escobar. Ora. espiritualmente. CAPÍTULO XCVI Um Substituto Expus a Capitu a idéia de José Dias. eram duas pessoas. Rigorosamente. com o sorriso evangélico. nem professor. Comigo. o reitor? Não era natural que lhe confiasse tal assunto. e eu com elas. um trecho de mantilha. Não. — Pois resolvamos hoje mesmo. e que o que você amar na terra seja igualmente amado no céu. — Quem tem boca vai a Roma. também. e ele não acabou o discurso. porque é preciso acabar o capítulo. um par de calças. — Nunca! . — Você indo. e desde já lhe dizia que a idéia não me parecia má. absolve e abençoa. ambas em casa.. velhas idéias.amofina com o seu velho? Você o que quer é consultar a uma pessoa. era só o tempo de refletir uma semana. Pois eu vou. que eu só geograficamente sabia onde ficava.

Ela pode muito bem tomar a si algum mocinho órfão. não se perdendo o padre. Os dele estavam assim. E não haverá outro meio? D. rindo e chamando-me disfarçado. porque o Santo Padre vale sempre mais que tudo. — Você também? — Também eu. a questão era fácil. — Não acha? continuou ele. Depois. — E se você mentir? Esta palavra doeu-me muito. pelo lado econômico. O próprio latim não é preciso. — Mas se o Papa não tiver ainda soltado a você? — Mando dizer isso mesmo. ou eu mesmo consulto. cada um com os seus olhos perdidos. — Não há outra coisa. é isto mesmo. para que.. que me ouviu com igual atenção e acabou com a mesma tristeza da outra. declarou crer que eu cumpriria o juramento. parece que é isso. Há melhor. Não é de lá que vêm as cantoras? Você esquece-me. Juro que no fim de seis meses estarei de volta. Capitu não achava outra idéia. De caminho. nem dou teologia. sem que você. no comércio? — In hoc signo vinces. Bentinho. refletindo: — Sim. parecendo gostar da resposta. — Por Deus? — Por Deus. quando tornei de longe. que não seja você. — não digo melhor. Eu. Os olhos. e não achei logo que lhe replicasse. De repente. Depois ficamos a cuidar de nós mesmos. A Europa dizem que é tão bonita. — Que é? — Sua mãe fez promessa a Deus de lhe dar um sacerdote. jurasse que no fim de seis meses estaria de volta.. vi-lhe no rosto um clarão. e um órfão não precisaria grandes comodidades. Glória está morta para que você saia do seminário. Capitu meteu o negócio à bulha. não é preciso isso.— Esquece. ia ver se não haveria outra coisa. entendo. realmente. disse eu. — Sim.. e a Itália principalmente. 1:070$000. mas ainda assim não consentiu logo. mas julga-se presa pela promessa. Escobar sorriu. Quando voltei ao seminário. não é? Pois bem. Oh! como a esperança alegra tudo. se quer. . — Juro. não podia havê-lo melhor. — mas há coisa que produz o mesmo efeito. e agradeci de novo o plano lembrado. está dado um padre ao altar. fala-se ao senhor bispo. um reflexo de idéia.. além dos escravos. por tudo. a promessa cumpre-se. Citou a soma dos aluguéis das casas. contei tudo ao meu amigo Escobar. nem acabava de adotar esta. se acaso fosse a Roma. minha mãe gastaria o mesmo que comigo. Vou melhorar o meu latim e saio. ele lhe dirá se não é a mesma coisa. — Entendo. e se ele hesitar. disse eu rindo. E ouvi-lhe dizer com volubilidade: — Não. — E saímos juntos. de costume fugidios. pediu-me que. fazê-lo ordenar à sua custa. quase me comeram de contemplação. Consulte sobre isto o protonotário. Escobar ouviu-me contentíssimo. Sentia-me pilhérico. dê-lhe um sacerdote. e eu que visse também por meu lado. Escobar observou que. provavelmente. Bentinho.

os sapatos rasos e surdos eram os mesmos de outrora. Saí do seminário no fim do ano. os vinte. a religião e a liberdade fazem boa companhia. sentia já debaixo do recolhimento casto uns assomos de petulância e de atrevimento. capítulo sobre capítulo.— Ainda uma vez. a análise das minhas emoções daquele tempo é que entrava no meu plano. Posto que filho do seminário e de minha mãe. Agora não há mais que levá-la a grandes pernadas. os dezenove. e chego quase ao fim do papel. fui-me aos estudos. tendo consultado o bispo. os vestidos. Achavam-me lindo. O que essa qualidade superlativa me rendeu não poderia nunca dizê-lo aqui.. os vinte e um. Minha mãe resolvera-se a envelhecer. tudo em resumo. Aqui devia ser o meio do livro. depois que o Padre Cabral. pouca reflexão. deves saber que é a idade em que a metade do homem e a metade do menino formam um só curioso. mas acabou cedendo. e a vaidade é um princípio de corrupção. eram do sangue. Minha mãe hesitou um pouco. outras valerão por anos. Se sim. aos poucos e espalhadamente. José Dias também. mas a inexperiência fezme ir atrás da pena. Um dos sacrifícios que faço a esta dura necessidade é a análise das minhas emoções dos dezessete anos. sem cair no erro que acabo de condenar. . ainda assim os cabelos brancos vinham de má vontade. algumas queriam mirar de mais perto a minha beleza. Já esta página vale por meses. Tinha então pouco mais de dezessete. com o melhor da narração por dizer. e assim chegaremos ao fim. voltou a dizer-lhe que sim. a touca. Passei os dezoito anos. aos vinte e dois era bacharel em Direito. CAPÍTULO XCVII A Saída Tudo se fez por esse teor. A prima Justina apenas estava mais idosa. diria o meu agregado José Dias. e diziammo. disse ele gravemente. Já não andaria tanto de um lado para outro. Tudo mudara em volta de mim. e não diria mal. mas eram também das moças que na rua ou da janela não me deixavam viver sossegado. pouca emenda. Não sei se alguma vez tiveste dezessete anos. Tio Cosme padecia do coração e ia descansar. que podia ser. Eu era um curiosíssimo.. CAPÍTULO XCVIII Cinco Anos Venceu a razão.

lembrando o evangelho de São João. quase irmã dela. eis aí a tua mãe! Minha mãe. veja se não é a figura do meu defunto. — Justamente! exclamou minha mãe. e fê-lo servir a ambos nós. minha mãe adiantou-lhe alguns dinheiros. — Como vai o meu substituto? — Vai indo.. Capitu entregou-lhe a primeira carta. Desde que a viu animou-me muito no nosso amor. A princípio. a disposição do rosto. CAPÍTULO XCIX O Filho É a Cara do Pai Minha mãe. que foi mãe e avó das outras. É bom que te sintas na alma do outro. A mãe de Capitu falecera. posto que vexada. a amiga de Capitu. Mas veja bem. escrevendo-me. como se o bacharel fosse ele. Escobar começava a negociar em café depois de haver trabalhado quatro anos em uma das primeiras casas do Rio de Janeiro. mas José Dias repugnava-me por um resto de respeito de criança. é a cara do pai. mana Glória. Nem depois de casado suspendeu ele o obséquio. custou-lhe a ela aceitá-lo. como se recebesses em ti mesmo a sagração. adivinha com quem. não foi melhor que ele não teimasse em ser padre? Veja se este peralta daria um padre capaz. entre lágrimas: — Mano Cosme. As relações que travou com o pai de Sancha estreitaram as que já trazia com Capitu. os olhos. concluiu por chalaça. descer comigo a serra. Glória é medrosa e não tem ambição. não é? — Sim. logo que pôde. Sempre achei que te parecias com ele. quando eu regressei bacharel quase estalou de felicidade. Ainda ouço a voz de José Dias. Era opinião de prima Justina que ele afagara a idéia de convidar minha mãe a segundas núpcias. Olha. É o pai. tem alguma coisa. se tal idéia houve. Assim se formam as afeições e os parentescos.. Que ele casou. eis aí o teu filho! Filho. E diga-me agora.não tanto que me não fizesse a fineza de ir assistir à minha graduação. Talvez ele não pensasse em mais que associá-la aos seus primeiros tentames comerciais. e de fato. o pai aposentara-se no mesmo cargo em que quis dar demissão da vida. preferia José Dias. chama a esta a “sua cunhadinha”. eu também se o meu senhor coração consentir. mano Cosme. não sem este remoque: “D. Ele foi o terceiro na troca das cartas entre mim e Capitu. cumpre não esquecer a grande diferença de idade. como amigo. um pouco mais moderno. lépido e viçoso. e dizendo ao ver-nos abraçados: — Mulher. a pedido meu. respondeu tio Cosme. Hás de ir ver a ordenação. agora é . olha bem para mim. mas.” A separação não nos esfriou. ordena-se para o ano. tanto que alguma vez. Venceu Escobar. Bentinho. as aventuras e os livros. que ele lhe restituiu. — casou com a boa Sancha.

os escravos.. endireitando o tronco e fitando-me. mana Glória. CAPÍTULO C “Tu Serás Feliz... é também outra coisa. tu vais ser feliz. desfazendo a mala e tirando a carta de bacharel de dentro da lata.. a felicidade não é só a glória.. enfim. os maiores elogios. — Mas que é? — Que há de ser? Quem é que não sabe tudo?.. velho também sabe amar. e trabalhador.. assim como mereceu esse diploma que ali está. espantado. em particular. Não lhe nego que é moço muito distinto. confundi os modos de criança com expressões de caráter. — Você ouviu? perguntei eu erguendo-me também.... e marido de truz. os Escobares. Bentinho!” No quarto. Via o casamento e a carreira ilustre. naturalmente as fadas. Macbeth!” — “Tu serás feliz.. ia pensando na felicidade e na glória. é um anjíssimo. mas é muito parecido. a prima.. muita vez a ouvi clara e distinta. desceu ali e me disse em voz igualmente macia e cálida: “Tu serás feliz. Tio Cosme. — Sim. A distinção que tirou em todas as matérias é prova disso. outrora. porque ela é um anjo. Bentinho. é caju chupado. José Dias também. chamava-me doutor...muito mais. por exemplo. Aquela intimidade de vizinhos tinha de acabar nisto. enquanto José Dias me ajudava. Há de ser prima das feiticeiras da Escócia: “Tu serás rei. — Ouviu o quê? — Ouviu uma voz que dizia que eu serei feliz? — É boa! Você mesmo é que está dizendo.” — E por que não seria feliz? perguntou José Dias. Bentinho. e não vi que essa menina travessa e já de olhos pensativos era a flor caprichosa de um fruto sadio e doce. Bentinho!” Ao cabo.. as visitas.. mas. Ainda agora sou capaz de jurar que a voz era da fada. Quando voltei do meu espanto. Perdoe a cincada. não vale nada.. e todos em casa. foi um modo de acentuar a perfeição daquela moça. O bigode é que desfaz um pouco. o bigode realmente. já lhe contei que ouvi da boca dos lentes. Uma fada invisível. Demais. para alegrá-la. Por que é que não me contou também o que outros sabem. ouvi o resto do discurso de José Dias: — . é a mesma predição. e ela mesma repetiam-me o título. como merece. que não é favor de ninguém. que é verdadeiramente uma bênção do céu.. agora são os novos. calado e zeloso. Pádua. expulsas dos contos e dos versos. pela mesma toada universal e eterna. a filha.. Esta. Ah! você não confiou tudo ao velho José Dias! O pobre José Dias está aí para um canto. meteram-se no coração da gente e falam de dentro para fora.Há de ser feliz.. E minha mãe beijava-me com uma ternura que não sei escrever. Cuidei o contrário. e cá em casa está mais que adivinhado e aprovado? — Mamãe aprova deveras? .

abriu-nos as portas dele. salva a redação própria de mãe: “Tu serás feliz. cuida de tudo. não. para as contas. melhor que ninguém. e uma dona de casa. — Você sabe que elas se dão muito. roupa. o protonotário é que me contou). meu filho!” CAPÍTULO CI No Céu Pois sejamos felizes de uma vez. discreta. mantimento. mas já então sem palavras: “Tu serás feliz. faz o rol das despesas.. pergunte-lhe. e logo sério: Digo isto por gracejo. além do consentimento. e depois de tocar-nos com o báculo.. conquanto ela sempre achasse que o doutor era um feixe de ossos. recitou alguns versículos da sua primeira epístola: “As mulheres sejam sujeitas a seus maridos. os quais ambos me confirmaram a notícia de José Dias pela sua própria impressão. Ouvia só a voz da minha fada interior. Quando chegamos ao alto da Tijuca.— Pois então? Temos falado sobre isto. por sinal chovia. casando-se. entre si. Pádua. Não ouvi o resto. falava de Capitu. Foi em 1865. tomou conta de tudo. algumas semanas depois. o céu recolheu a chuva e acendeu as estrelas. o Dr. D. e por isso é que sua prima anda cada vez mais amuada. Bentinho!” E a voz de Capitu me disse a mesma coisa. que me repetia. e dizem (não sei. dizem que os dois andam meio inclinados a acabar com a viuvez. na resposta. e vá espairecer a outra parte... deu-me igual profecia.. Glória não negou e até deu um ar de riso. . não só as já conhecidas. quando lhe fui pedir licença para casar. Há de ver que não há nada. — Prima Justina? — Não sabe? São contos.. casemo-nos. luz. — Mas. Pergunte-lhe o que é que eu lhe disse em termos claros e positivos.. eu é que. falei em nora. que não lhe digo nada. Enfim. mas ainda as que só serão descobertas daqui a muitos séculos. e assim também a de Escobar. Foi grande fineza e não foi única. você já a viu o ano passado.. mas não é fora de propósito. — Mamãe sempre que me escrevia. Depois da morte da mãe. amiga da gente. Só se ela é um cemitério. prendada.. não faz mais que receber o ordenado e entregá-lo à filha. boa. Talvez agora case mais depressa. com termos diversos. vós. fez-me o favor de perguntar se Capitu não daria uma boa esposa. mas enfim. minha mãe. mas o homem que está escondido no coração. agora que se aposentou. naturalmente. São Pedro.. Do mesmo modo. e ela fez-me o favor de pedir a minha opinião. feznos entrar. João da Costa enviuvou há poucos meses.. E quanto à formosura você sabe. onde era o nosso ninho de noivos. mamãe consultou o senhor sobre o nosso casamento? — Positivamente.. Não seja o adorno delas o enfeite dos cabelos riçados ou as rendas de ouro. que tem as chaves do céu. antes que o leitor peque em si. comentou rindo. morto de esperar. deveras. Disse-lhe que não podia desejar melhor nora para si. A filha é que distribui o dinheiro. uma tarde de março.

se a execução fosse na terra. achei que Capitu estava um tanto impaciente por descer. disse-me no dia seguinte que estava por tudo. Descansa que não farei descrição alguma. De quando em quando. — Pois vamos amanhã.” Quanto às de S. e nós esperávamos um dia encoberto. — Você há de ser sempre criança. como estas. coabitai com elas. mas as manhãs marcadas eram sempre de chuva ou de sol. Então eu esperei tantos anos para aborrecer-me em sete dias? Não. e ríamos de José Dias que conspirou a nossa desunião. e acabou festejando o nosso consórcio. Tal foi aquela semana da Tijuca. que não sabia Escritura nem latim. nada mais natural a um ex-seminarista que ouvir por toda a parte latim e Escritura. Bentinho. que eu era a única renda e o único enfeite que jamais poria em si.” Em seguida. fez sinal aos anjos. de maneira que não se vissem as horas escritas. nem a língua humana possui formas idôneas para tanto. como se houvessem nascido juntos. que teimava em não vir. e confesso. A música ia com o texto. tratando-as com honra. falávamos em descer. creio que eles podem estar desejosos de ver-nos e imaginar alguma doença. Assim vivemos novamente a nossa longa espera de namorados. disse ela fechando-me a cara entre as mãos e chegando muito os olhos aos meus. Uma ou outra vez. . Ao que eu repliquei que a minha esposa teria sempre as mais finas rendas deste mundo. disto e daquilo. tão concertadamente. Concordava em ficar. que queria ver papai. decorou algumas palavras. os anos de adolescência. mas nenhum sinal externo mostraria a marcha do tempo. Perguntei-lhe se já estava aborrecida de mim. mas isso mesmo era um modo de não sairmos de nós. à maneira de uma ópera de Wagner. tornávamos ao passado e divertíamo-nos em relembrar as nossas tristezas e calamidades. que desmentiram a hipótese do tenor italiano. por exemplo: “Sentei-me à sombra daquele que tanto havia desejado. e eles entoaram um trecho do Cântico. da falta de notícias nossas. É verdade que Capitu.. digo isto porque é realmente assim. a denúncia que está nos primeiros capítulos. a ponto que nos arrufamos um pouco. visitamos uma parte daquele lugar infinito. Pedro. — Eu? — Parece. sem mostrador. Não obstante. Ao cabo. como a vasos mais fracos. mas ia falando do pai e de minha mãe.. e herdeiras convosco da graça da vida. CAPÍTULO CII De Casada Imagina um relógio que só tivesse pêndulo. pode ser que tudo fosse um sonho. O pêndulo iria de um lado para outro.maridos. Depois. pela minha parte. mas era no céu.

Santiago. Foi a única pessoa cá de baixo que nos visitou na Tijuca.” E ambos os dois: “É uma mocetona!” CAPÍTULO CIII A Felicidade Tem Boa Alma Mocetona é vulgar. outros paravam. e descemos com sol. A alegria com que pôs o seu chapéu de casada. levando abraços dos nossos e palavras suas. há de ser com tempo encoberto. Inventava passeios para que me vissem. me confirmassem e me invejassem. Imagina o resto. muitos voltavam a cabeça curiosos. as famílias residem em Matacavalos. Capitolina. redargüiu rindo. mas foram deliciosas. E quando eu me vi embaixo.— Não. as aves emplumando as asas e subindo ao céu. moram na Glória. e o céu agora mais largo para poder contê-las também. também. senti a mesma coisa. alternando os jantares da Glória com os almoços de Matacavalos. precisava do resto do mundo. ambos escutávamos comovidos e convencidos. não as ponho aqui para ir poupando papel. e o ar de casada com que me deu a mão para entrar e sair do carro. Ao fim de dois anos de casado. depois de uma longa paixão de crianças. comparou-nos a aves criadas em dois vãos de telhado contíguos. Na rua. desde a tarde de 1858. José Dias achou melhor. esquecendo tudo. que casou há dias com aquela moça. alguns perguntavam: “Quem são?” e um sabido explicava: “Este é o Dr. A felicidade tem boa alma. Tudo corria bem.. Peguei-lhe no riso e na palavra. D. mas palavras que eram músicas verdadeiras. CAPÍTULO CIV As Pirâmides José Dias dividia-se agora entre mim e minha mãe. Nenhum de nós riu. salvo o desgosto grande d e n⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪ ⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪敵瘠 捯❜慥愠慭?慮琠牥慲猠橥杩慵浬湥整愠慭潤渠屣攧甹?൯尊慰?屎攧漳搠杩慭獩潰煲敵尠 . tudo me mostrou que a causa da impaciência de Capitu eram os sinais exteriores do novo estado. olhando. Um dia. Não lhe bastava ser casada entre quatro paredes e algumas árvores.. mas a impaciência continuou. falando. e o braço para andar na rua. parando. pisando as ruas com ela.

Já não era como em criança. quando íamos a passeios ou espetáculos. e se não der nenhum é que os quer para si. se for necessário. aonde queriam que fôssemos muitas vezes. — Uma criança. não queria que eu lhe comprasse muitas nem caras. deixe lá. . e melhor será que fiquem no céu. e um dia afligiu-se tanto que prometi não comprar mais nenhuma. Em tempo ouvi falar de uma aventura do marido. Agora que penso naqueles dias de Andaraí e da Glória. íamos lá jantar alguns domingos. Deus os dará quando quiser. eu mais de uma vez dava por mim a rezar e a pedilo. e. replicou-me: — Homem. Capitu gostava de rir e divertir-se. — Virá. negócio de teatro. Sancha era modesta. mas foi só por pouco tempo. nos primeiros tempos. como os aluguéis da casa. tinham uma filhinha. não sei que atriz ou bailarina. Íamos sempre muito cedo. sinto que a vida e o resto não sejam tão rijos como as Pirâmides. como as outras moças. mas se foi certo. e.攧‹牰捥獩捡扡牡漠挠灡❜摥畴潬?汥?屮攧漳愠慣潢⁵ 捳牵潳 湥浩瑮敳?略洠 ?潤潴 ⁵ 潬 攧 業?搠慤慩癩污 浬愠愠楖 潤慲潭慮?搠攠潣楬㍦❜瑡挠敤?潴 ⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪൯ 灭畣⁵⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ 瑵漠慩牥癡栠 ൯攧屮?猠牥瘠慩※潧潬⁵ 楴湥獮潣㍥❜ 渠浩獳愠慤湩愠獡洠?瑮敭慲番 楲楲 潩爱攧屮業敳 愠楥瑬潶 摮慵儠牡灜??摡氠略洠牯瀠洹攧屢浡琠敳獩瘠敵焠略?慳楯挠慲潣 瑮楥琠摵 洠略愠業潧䔠捳扯牡 ?敭漠癵畩挠浯椠畧污愠整屮攧尷攧漳攠愠慣casadas a amizade da escola. um filho é o complemento natural da vida. Embora gostasse de jóias. Não vinha. não podendo ser tantas como desejávamos. tudo corria bem. Escobar e a mulher viviam felizes. logo depois do almoço. para gozarmos o dia compridamente. Capitu pedia-o em suas orações. agora pagava antecipadamente. era como um pássaro que saísse da gaiola. Eles moravam em Andaraí. ou eles vinham fazê-lo conosco. e só nos separávamos às nove. Escobar e eu a do seminário. Como eu um dia dissesse a Escobar que lastimava não ter um filho. não deu escândalo. o marido trabalhador. Arranjava-se com graça e modéstia. CAPÍTULO CV Os Braços No mais. Jantar é pouco. dez e onze horas. quando não podia ser mais.

que eram então de menina. mas levou-os meio vestidos de escumilha ou não sei que. com outras velharias. dessas que se guardam por tradição. por mais que eles se entrelaçassem aos das casacas alheias. donde vieram. e enfeitava-se com amor quando ia a um baile. a ponto que me encheram de desvanecimento. passávamos as noites à nossa janela da Glória. Minha mãe. leitora. mas provavelmente estariam ainda no mármore. Não sabendo piano. a outros foi. Ao terceiro não fui. mirando o mar e o céu.. também cantava. mas pouco e raro. e depressa. aprendeu depois de casada. nesse. nem sempre tanto que não cochilasse um pouco. Os braços merecem um período. que tinha o mesmo gênio. e tirava-os de longe em longe da gaveta da cômoda. nem os seus. gostava de ouvir falar e fazer assim. Uns sapatos. e aqui tive o apoio de Escobar. por exemplo. e daí a pouco tocava nas casas de amizade. uns sapatinhos rasos de fitas pretas que se cruzavam no peito do pé e princípio da perna.. e não só de dinheiro mas também de coisas usadas. ou irá de mangas compridas. ou nas mãos do divino escultor. como o cendal de Camões. — Sanchinha também não vai. se eram nascidos. os últimos que usou antes de calçar botinas. os braços é que. De dançar gostava. Já não foi assim no segundo baile. Na Glória era uma das nossas recreações. e que roçavam por eles as mangas pretas. o contrário parece-me indecente. dizendo-me que eram pedaços de criança. e não foi ao baile. a sombra das montanhas e dos navios. — Não é? Mas não diga o motivo. quando vi que os homens não se fartavam de olhar para eles. concordou logo comigo. direi um caso. e na primeira noite que os levou nus a um baile. um dia chegou a entender que era melhor não cantar nada e cumpriu o alvitre. quase de os pedir. notícias de amador que ela escutava atenta e curiosa. eu contava a Capitu a história da cidade. e basta. por não ter voz. Capitu já me chamou assim. trouxe-os para casa. fiquei vexado e aborrecido. CAPÍTULO CVI Dez Libras Esterlinas Já disse que era poupada. Quanto às puras economias de dinheiro. ou a gente que passava na praia. não creio que houvesse iguais na cidade. mas cedeu depressa. por lembrança ou por saudade. Conversava mal com as outras pessoas. Quando não estávamos com a família ou com amigos. de os buscar. Às vezes. Foi justamente por ocasião de . ou fica dito agora. Ela sorriu e respondeu que os braços de Sanchinha eram malfeitos. ou se não íamos a algum espetáculo ou serão particular (e estes eram raros). a quem confiei candidamente os meus tédios. só para vê-los. hão de chamar-nos seminaristas. Eram os mais belos da noite. Nem por isso deixei de contar a Capitu a aprovação de Escobar. que nem cobria nem descobria inteiramente. Eram belos.A nossa vida era mais ou menos plácida. outras dava-lhe notícias de astronomia.

que me deu ciúmes. Sanchinha não é gastadeira. — São nossas. Tive vontade de gastar o dobro do ouro em algum presente comemorativo. e replicou que a culpa de romper o segredo era minha. — Qual Sírio. foi ao quarto e voltou com dez libras esterlinas. emendou. — Eu? Ouço perfeitamente. A cunhadinha (continuava a dar este nome a Capitu) tinha-lhe falado naquilo por ocasião de nossa última visita a Andaraí. — Quem foi o corretor? — O seu amigo Escobar. mas daí a pouco estava eu mesmo calculando também. mas é claro que só apanhara o som da palavra. Uma noite perdeu-se em fitar o mar. Ergueu-se. Capitu fitou-me rindo. Há vinte minutos que eu falei de Sírio. você falava de Sírio.. e ri-me do segredo de ambos. — Tudo isto? — Não é muito. depois de alguns instantes de reflexão: — Capitu é um anjo! Escobar concordou de cabeça. filha. é o que a avarenta de sua mulher pôde arranjar. mas só chega. o que lhe dou chega. já então com papel e lápis. e o ímpeto que me deu foi deixar a sala. Capitu. pegou-me na mão. sobre o joelho. consultou-me sobre o que havíamos de fazer daquelas libras. à praia da Glória. sei que arranjou dez libras. eu não disse para que você não desconfiasse. concluiu ele.” — Vê se ela aprende também. como quem sentia não poder dizer o . era de Marte. mas também não é poupada. — Mas que libras são essas? perguntei-lhe no fim. Tratava-se de uma conversão de papel em ouro. Ao contrário. — São suas. — Você não me ouve. confessou-me que estivera contando. ao percebê-lo. somando uns dinheiros para descobrir certa parcela que não achava. fui ter com Escobar ao armazém. concluiu fazendo tinir o ouro na mão. com tal força e concentração.. Escobar sorriu e disse-me que estava para ir ao meu escritório contar-me tudo. Fiquei sério. — O que é que eu dizia? — Você. — Falava de. mas sem entusiasmo. — Como é que ele não me disse nada? — Foi hoje mesmo. Realmente. Eu. na mão. ficou espantada: “Como é que Capitu pode economizar. Capitu. falava de Marte. isto é.. Sabes que alguma vez a fiz cochilar um pouco. eram as sobras do dinheiro que eu lhe dava mensalmente para as despesas.uma lição de astronomia. Capitu. No dia seguinte. — Ele esteve cá? — Pouco antes de você chegar. — Pois você guarde-as. respondi. dez libras só. e dava a diferença que ela buscava. fez-se a mais mimosa das criaturas. — Não creio.. agora que tudo está tão caro?” — “Não sei. não o sentido. — Quando contei isto a Sanchinha. emendou ela apressada. mas Capitu deteveme. A princípio supus que era um recurso para desenfadar-me. e disse-lhe a razão do segredo. em alguns meses.

Dez minutos depois. nem o sentimento de economia que revelavam e que eu conhecia. É sabido que as distrações de uma pessoa podem ser culpadas. simples palavra. Um anônimo ou anônima que passe na esquina da rua faz com que metamos Sírio dentro de Marte. não descobriria eu tão cedo as dez libras de Capitu. Venho explicar-te que tive tais ciúmes pelo que podia estar na cabeça de minha mulher. Tão pouco tempo? Sim. mas a astronomia tem dessas confusões. Deus sabe quando. ela ainda mais meiga. dez minutos. o ar mais brando. Não é mister pecado efetivo e mortal. continuando a lição interrompida: — Marte está a distância de. mas com o mesmo pouco ou menos reconstruiria o céu. e Deus mais Deus. CAPÍTULO CVIII . As nossas visitas foram-se tornando mais próximas. é para que não cuide que a vaidade de professor é que me fez padecer com a desatenção de Capitu e ter ciúmes do mar. Os meus ciúmes eram intensos. A recordação de uns simples olhos basta para fixar outros que os recordem e se deleitem com a imaginação deles. orgulho ou consolação. as noites mais claras. nem papel trocado.. A verdade é que fiquei mais amigo de Capitu. Não. dez minutos depois. não fora ou acima dela. e as nossas conversações mais íntimas. estaria eu outra vez na sala. CAPÍTULO CVII Ciúmes do Mar Se não fosse a astronomia. suspiro ou sinal ainda mais miúdo e leve. com pouco derrubaria tudo. um terço. mas as cautelas que Capitu empregou para o fim de descobrir-me um dia o cuidado de todos os dias.mesmo da mulher. Foi isto que me fez empalidecer. a terra e as estrelas. E não foram propriamente as dez libras esterlinas que fizeram isto. e tu sabes. tão pouco tempo. provavelmente. ao piano ou à janela. mas não é por isso que torno a ela. se era possível. Escobar também se me fez mais pegado ao coração. aceno.. leitor. pois que em matéria de culpa a graduação é infinita. tão certo é que as virtudes das pessoas próximas nos dão tal ou qual vaidade. meu amigo. calar e querer fugir da sala para voltar. Assim pensarias tu também. metade culpadas. um décimo de culpadas. um quinto. mas curtos. a diferença que há de um a outro na distância e no tamanho.

Um Filho

Pois nem tudo isso me matava a sede de um filho, um triste menino que fosse, amarelo e magro,
mas um filho, um filho próprio da minha pessoa. Quando íamos a Andaraí e víamos a filha de
Escobar e Sancha, familiarmente Capituzinha, por diferençá-la de minha mulher, visto que lhe
deram o mesmo nome à pia, ficávamos cheios de invejas. A pequena era graciosa e gorducha,
faladeira e curiosa. Os pais, como os outros pais, contavam as travessuras e agudezas da menina, e
nós, quando voltávamos à noite para a Glória, vínhamos suspirando as nossas invejas, e pedindo
mentalmente ao céu que no-las matassem...
...As invejas morreram, as esperanças nasceram, e não tardou que viesse ao mundo o fruto
delas. Não era escasso nem feio, como eu já pedia, mas um rapagão robusto e lindo.
A minha alegria quando ele nasceu, não sei dizê-la; nunca a tive igual, nem creio que a possa
haver idêntica, ou que de longe ou de perto se pareça com ela. Foi uma vertigem e uma loucura.
Não cantava na rua por natural vergonha, nem em casa para não afligir Capitu convalescente.
Também não caía, porque há um deus para os pais novos. Fora, vivia com o espírito no menino; em
casa, com os olhos, a observá-lo, a mirá-lo, a perguntar-lhe donde vinha, e por que é que eu estava
tão inteiramente nele, e várias outras tolices sem palavras, mas pensadas ou deliradas a cada
instante. Talvez perdi algumas causas no foro por descuido.
Capitu não era menos terna para ele e para mim. Dávamos as mãos um ao outro, e, quando não
olhávamos para o nosso filho, conversávamos de nós, do nosso passado e do nosso futuro. As
horas de maior encanto e mistério eram as de amamentação. Quando eu via o meu filho chupando o
leite da mãe, e toda aquela união da natureza para a nutrição e vida de um ser que não fora nada,
mas que o nosso destino afirmou que seria, e a nossa constância e o nosso amor fizeram que
chegasse a ser, ficava que não sei dizer nem digo; positivamente não me lembra, e receio que o que
dissesse me saísse escuro.
Escusai minúcias. Assim que, não é preciso contar a dedicação de minha mãe e de Sancha, que
também foi passar com Capitu os primeiros dias e noites. Quis rejeitar o obséquio de Sancha;
respondeu-me que eu não tinha nada com isso; também Capitu, em solteira, fora tratá-la à Rua dos
Inválidos.
— Não se lembra que o senhor foi lá vê-la?
— Lembra-me; mas Escobar...
— Eu virei jantar com vocês, e às noites sigo para Andaraí; oito dias, e está tudo passado. Bem
se vê que você é pai de primeira viagem.
— Também você; onde está a segunda?
Usávamos então estas graças em família. Hoje, que me recolhi à minha casmurrice, não sei se
ainda há tal linguagem, mas deve haver. Escobar cumpriu o que disse; jantava conosco, e ia-se à
noite. Sobretarde descíamos à praia ou íamos ao Passeio Público, fazendo ele os seus cálculos, eu
os meus sonhos. Eu via o meu filho médico, advogado, negociante, meti-o em várias universidades
e bancos, e até aceitei a hipótese de ser poeta. A possibilidade de político foi consultada, e cri que
me saísse orador, e grande orador.
— Pode ser, redargüia Escobar; ninguém diria o que veio a ser Demóstenes.
Escobar acompanhava muita vez as minhas criancices; também interrogava o futuro. Chegou a

falar da hipótese de casar o pequeno com a filha. A amizade existe; esteve toda nas mãos com que
apertei as de Escobar, ao ouvir-lhe isto, e na total ausência de palavras com que ali assinei o pacto;
estas vieram depois, de atropelo, afinadas pelo coração, que batia com grande força. Aceitei a
lembrança, e propus que os encaminhássemos a este fim, pela educação igual e comum, pela
infância unida e correta.
Era minha idéia que Escobar fosse padrinho do pequeno; a madrinha devia ser e seria minha
mãe. Mas a primeira parte se trocou por intervenção do tio Cosme, que, ao ver a criança, disse-lhe
entre outros carinhos.
— Anda, toma a bênção a teu padrinho, velhaco.
E, voltando-se para mim:
— Não desisto do favor; e há de ser depressa o batizado, antes que a minha doença me leve de
vez.
Contei discretamente a anedota a Escobar, para que ele me compreendesse e desculpasse; riu-se
e não se magoou. Fez mais, quis que o almoço do batizado fosse na chácara dele, e foi. Eu ainda
tentei espaçar a cerimônia a ver se tio Cosme sucumbia primeiro à doença, mas parece que esta era
mais de aborrecer que de matar. Não houve remédio senão levar o menino à pia, onde se lhe deu o
nome de Ezequiel; era o de Escobar, e eu quis suprir deste modo a falta de compadrio.

CAPÍTULO CIX
Um Filho Único

Ezequiel, quando começou o capítulo anterior, não era ainda gerado; quando acabou era cristão
e católico. Este outro é destinado a fazer chegar o meu Ezequiel aos cinco anos, um rapagão bonito,
com os seus olhos claros, já inquietos, como se quisessem namorar todas as moças da vizinhança,
ou quase todas.
Agora, se considerares que ele foi único, que nenhum outro veio, certo nem incerto, morto nem
vivo, um só e único, imaginarás os cuidados que nos deu, os sonos que nos tirou, e que sustos nos
meteram as crises dos dentes e outras, a menor febrícula, toda a existência comum das crianças. A
tudo acudíamos, segundo cumpria e urgia, coisa que não era necessário dizer, mas há leitores tão
obtusos, que nada entendem, se se lhes não relata tudo e o resto. Vamos ao resto.

CAPÍTULO CX

Rasgos da Infância

O resto come-me ainda muitos capítulos; há vidas que os têm menos, e fazem-se ainda assim
completas e acabadas.
Aos cinco e seis anos, Ezequiel não parecia desmentir os meus sonhos da praia da Glória; ao
contrário, adivinhavam-se nele todas as vocações possíveis, desde vadio até apóstolo. Vadio é aqui
posto no bom sentido, no sentido de homem que pensa e cala; metia-se às vezes consigo, e nisto
fazia lembrar a mãe, desde pequena. Assim também, agitava-se todo e instava por ir persuadir às
vizinhas que os doces que eu lhe trazia eram doces deveras; não o fazia antes de farto deles, mas
também os apóstolos não levam a boa doutrina senão depois de a terem toda no coração. Escobar,
bom negociante, opinava que a causa principal desta outra inclinação, talvez fosse convidar
implicitamente as vizinhas a igual apostolado, quando os pais lhe trouxessem doces; e ria-se da
própria graça, e anunciava-me que o faria seu sócio.
Gostava de música, não menos que de doce, e eu disse a Capitu que lhe tirasse ao piano o
pregão do preto das cocadas de Matacavalos...
— Não me lembra.
— Não diga isso; você não se lembra daquele preto que vendia doce, às tardes...
Lembro-me de um preto que vendia doce, mas não sei mais da toada.
— Nem das palavras?
— Nem das palavras.
— A leitora, que ainda se lembrará das palavras, dado que me tenha lido com atenção, ficará
espantada de tamanho esquecimento, tanto mais que lhe lembrarão ainda as vozes da sua infância e
adolescência; haverá olvidado algumas, mas nem tudo fica na cabeça. Assim me replicou Capitu, e
não achei tréplica. Fiz, porém, o que ela não esperava; corri aos meus papéis velhos. Em S. Paulo,
quando estudante, pedi a um professor de música que me transcrevesse a toada do pregão; ele o fez
com prazer (bastou-me repetir-lho de memória), e eu guardei o papelinho; fui procurá-lo. Daí a
pouco interrompi um romance que ela tocava, com o pedacinho de papel na mão. Expliquei-lho; ela
teclou as dezesseis notas.
Capitu achou à toada um sabor particular, quase delicioso; contou ao filho a história do pregão,
e assim o cantava e teclava. Ezequiel aproveitou a música para pedir-me que desmentisse o texto,
dando-lhe algum dinheiro.
Fazia de médico, de militar, de ator e bailarino. Nunca lhe dei oratórios; mas cavalos de pau e
espada à cinta eram com ele. Já não falo dos batalhões que passavam na rua, e que ele corria a ver;
todas as crianças o fazem. O que nem todos fazem é ter os olhos que esta tinha. Em nenhuma vi as
ânsias de gosto com que assistia à passagem da tropa e ouvia a marcha dos tambores.
— Olha, papai! olha!
— Estou vendo, meu filho!
— Olha o comandante! Olha o cavalo do comandante! Olha os soldados!
Um dia amanheceu tocando corneta com a mão; dei-lhe uma cornetinha de metal. Comprei-lhe
soldadinhos de chumbo, gravuras de batalhas que ele mirava por muito tempo, querendo que lhe
explicasse uma peça de artilharia, um soldado caído, outro de espada alçada, e todos os seus amores
iam para o de espada alçada. Um dia (ingênua idade!) perguntou-me impaciente:

logo que sentiu mais gente. Ia dizer religioso. era um gato e um rato. Os outros nem tiveram tempo de atalhar-me. Os dois riram-se. bati palmas para que o gato fugisse. esperneando. é porque é pintado. A única circunstância particular era estar o rato vivo. mas aqui a ponho outra vez. mas também porque havia naquela ação do gato e do rato alguma coisa que prendia com ritual. eu mesmo achei-lhe graça. os que amam a . sem interesse nem graça. fez-nos outro sinal de silêncio. e o gato fugiu. sem tirar-lhes os olhos de cima. — Ora. o instante foi curto. papai!! — Que foi? A esta hora o rato está comido.— Mas. mas o gravador. CAPÍTULO CXI Contado Depressa Achei-lhe graça. as pernas mal se lhe moviam e desordenadamente. o menino. Um tanto aborrecido. O único rumor eram os últimos guinchos do rato. e o silêncio não podia ser maior. risquei a palavra. Ezequiel ficou abatido. por que é que ele não deixa cair a espada de uma vez? — Meu filho. mas eu queria ver. dos sucessos ocorridos e da tal ou qual simpatia ao rato que acho em mim. dispôs-se a correr. e o meu pequeno enlevado. — Mas então por que é que ele se pintou? Ri-me do engano e expliquei que não era o soldado que se tinha pintado no papel. aliás frouxíssimos. não só por significar a totalidade do silêncio. e tive de explicar também o que era gravador e o que era gravura: as curiosidades de Capitu. e não lha nego ainda agora. O gato. papai. Não me pesa dizê-lo. Tais são os principais rasgos da infância: mais⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪ ⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪?竆 ⠀˄??ୱ ෴ ??ᘠ ??Ṭℰ??⥼ⱞ 乙  㒌 㝐 㨔 㳘 㾜 䉠 䔤 䟨 䪬 䵰 倴 勸 喼 墀 孄 师 惌 掐 晔 椘 毜 溠 ____________________ၙ?竆⠀˄??ୱ෴??ᘠ??Ṭℰ??⥼ⱞ乙㒌㝐㨔㳘㾜䉠䔤䟨䪬䵰倴勸喼墀 孄 师 惌 掐 晔 椘 毜 溠 _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ ? ⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪ ⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪‡汏慨 漠?潳摬摡獯൯浕搠慩愠慭桮捥略琠捯湡潤挠牯敮慴挠浯愠洠濣※敤?桬?浵潣湲瑥湩慨搠? 敭慴?䌠浯牰楥氭敨猠汯慤楤桮獯搠?档浵潢牧癡牵獡搠?慢慴桬獡焠敵攠敬洠物癡潰?畭瑩 整灭?焠敵敲摮 ?桬?硥汰捩獡敳甠慭瀠敤愠瑲汩慨楲ⱷ 潳摬摡慣 ?漠te. apesar do tempo passado. De resto. — Pois sim. lance banal. em suma. teve graça.

tocado de pena e guardei as bolas no bolso. assobiando e dando estalinhos com os dedos. não desamo o gato. e disse afinal que era preciso emendá-lo. era uma hora. ele veio a mim. nem a doente. Já pensei em os fazer viver juntos. como que esperando. O diabo ainda latiu. à pedrada. afastaram-se. disse-me ela um dia. Fui-me a ele. Como eu continuasse. e para que não fosse mais longe. Procurei o fiscal. que é o seu modo de rir deles. e três cães na rua latiam toda a noite. mas parecia-lhe que era só imitar por imitar. dois desceram para o lado da praia do Flamengo. os modos. já lhe achei até um jeito dos pés de Escobar e dos olhos. CAPÍTULO CXII As Imitações de Ezequiel Tal não faria Ezequiel. mas papai em moço era assim também. sem repúdio parcial nem exclusões injustas. com a bulha dos cães. se já perdoei a um cachorro que me levou o descanso em piores circunstâncias. Capitu morria por aquele batalhador futuro. e entregou-se-me. mas não é muito que eu lhes perdoe. suponho. E se tivesse um pau.. as atitudes. Não comporia bolas envenenadas. Sempre há tempo de corrigi-lo. Ao leitor pode parecer que foi o cheiro da carne que remeteu o cão ao silêncio. mandei fazer três bolas de carne. que só agora sabe disto. imita prima Justina. O que faria com certeza era ir atrás dos cães. não acham nela nada inferior. — Imitar como? — Imitar os gestos. saí. até onde lhe dessem as pernas. até que se calou de todo. confiança ou o que quer que seja. nem a enfermeira podiam dormir. — Sim. um ficou a curta distância. como sucede a muitas pessoas grandes. Capitu deixou-se estar pensando e olhando para mim. e ia deitar-lhe uma delas. fiquei assim não sei como. mamãe é que contava. Contarei o caso depressa. — Também não vamos mortificá-lo. e eu mesmo inseri nelas a droga. Então resolvi matá-los. Em verdade. gosta de imitar os outros. mas vi que são incompatíveis. me atou a vontade. Agora reparava que realmente era vezo do filho. quando aquele riso especial.. Não digo que não. imita José Dias. eu cuido que ele não me quis atribuir perfídia ao gesto. devagar. — Não sai a nós. comprei veneno. eu tinha já na mão as bolas envenenadas. eu só lhe descubro um defeitozino. Sancha vivia ao pé dela. repliquei.natureza como ela quer ser amada. carinho. foi-se calando.. Amo o rato. mas não as recusaria também. um rói-me os livros. não sairá maricas. mexendo a cauda.. mas fiado nos sinais de amizade. Quando eles me viram. iria a pau. que gostamos da paz. a mãe estava com febre. e foi como se procurasse o leitor. outro o queijo. De noite. que tomam as maneiras dos outros. A conclusão é que se livrou. Foi quando nasceu Ezequiel. .

e. depois estirou os braços e atirou-os sobre os ombros. e uma estréia de ópera. Expliquei que tinha saído para o teatro donde voltara receoso de Capitu. que ficara doente. e senti não haver ali um escultor que nos transferisse a atitude a um pedaço de mármore. Não importa. e não digo nada sobre eles. é certo.— Há. mas eram ainda vindouras. . a que ela não foi por ter adoecido. mas já agora falaria depois. só me lembra que fosse duas vezes sem ela. ninguém quer saber do modelo.. concordo.. não quis ir para casa sem dizer-me o que era. Naquele tempo. mas voltei no fim do primeiro ato. Outros olhos me procuravam também.. um par de valsa. ocorrera um incidente importante. moço ou maduro. vou ver. — Queixava-se da cabeça e do estômago. Sim. mas eu não gosto de imitações em casa. por mais mulheres bonitas que achasse. e apenas se pintarão. uma insistência qualquer. nós saberíamos que éramos nós. a mais ínfima palavra. CAPÍTULO CXIII Embargos de Terceiro Por falar nisto. A resposta de Capitu foi um riso doce de escárnio.. Só brilharia o artista. e a obra é que fica. — Doente de quê? perguntou Escobar. Era tarde para mandar o camarote a Escobar. não continuei a sê-lo apesar do filho e dos anos. quando se zangava com alguém. Um vizinho. me enchia de terror ou desconfiança. um benefício de ator. um dia) é ver também. Eu fiz o mesmo aos meus. Encontrei Escobar à porta do corredor. senhor. um desses risos que não se descrevem. Você também não era assim. é natural que me perguntes se. Cheguei a ter ciúmes de tudo e de todos. Quando uma pessoa ou um grupo saem bem. nenhuma receberia a mínima parte do amor que tinha a Capitu. e foi naturalmente por não achar da minha parte correspondência aos seus afetos que me explicou daquela maneira os seus olhos teimosos. Eram uns embargos de terceiros. mas quis por força que eu fosse.. e não há ver sem mostrar que se vê. não muitos. tendo aliás confessado a princípio as minhas aventuras vindouras. Ao teatro íamos juntos. Capitu era tudo e mais que tudo. — Então. não vivia nem trabalhava que não fosse pensando nela. muita vez só a indiferença bastava. A minha própria mãe não queria mais que metade. continuei. sendo antes tão cioso dela. — Sim. Vinha para aquele negócio dos embargos. Continuei a tal ponto que o menor gesto me afligia. mas da obra. disse-me ele. qualquer homem. tendo ele jantado na cidade. — Vinha falar-te. vingança de menino.. É certo que Capitu gostava de ser vista. — Quando me zangava. A senhora que me disse isto cuido que gostou de mim. saí. vou-me embora. e o meio mais próprio a tal fim (disse-me uma senhora. tão cheios de graça que pareciam (velha imagem!) um colar de flores. — E naquele tempo gostavas de mim? disse eu batendo-lhe na face.

qualquer esquece. expliquemos ainda um ponto que já ficou explicado. Não confundam purgatório com inferno. estava ainda no seminário. quando corri aos papéis velhos. Confessou-me que apenas tivera uma dor de cabeça de nada. uma vez ou outra. desces.— Não. e o tabelião divino sabe as coisas que se juram em tais momentos. querendo um dia relembrar a toada. Capitu e eu tínhamos jurado não esquecer mais aquele pregão. mas há matérias tais que trazem ensinamentos interessantes. Acabou com um pecado terrível. é profundamente moral. Aproveitei o gesto para beijar-lhe a mão. — Você jura? — Juro. Escobar sorriu e disse: — A cunhadinha está tão doente como você ou eu. disse ela estendendo tragicamente o braço. se não agradáveis. a juro alto e prazo curto. a matéria é chocha. Coisas futuras! Portanto. CX) a um professor de música de S. Expliquemos o explicado. Viste que eu pedi (cap. e não vale a pena de um capítulo. sobe. que é o eterno naufrágio. consegui recordá-la e corri ao professor. quanto mais dois. a nossa constituição política. Faltar ao compromisso é sempre infidelidade. CAPÍTULO CXIV Em que se Explica o Explicado Antes de ir aos embargos. Não falava alegre. o que me fez desconfiar que mentia. vi que a ia perdendo inteiramente. mas a alguém que tenha mais temor a Deus que aos homens não lhe importará mentir. ela pode estar melhor. e este é que foi o meu pecado. Quando fui para S. naquela noite da Glória. também me não lembrava já da toada nem do texto? Fiz-me de pontual ao juramento. Mas os prazos renovam-se. . Capitu estava melhor e até boa. falemos já. ele que as registra nos livros eternos. Paulo. Vamos aos embargos. ninguém sabe se há de manter ou não um juramento. foi em momento de grande ternura. Mas hás de crer que. mas agravara o padecimento para que eu fosse divertir-me. Se estiver pior. mas jurou que era a verdade pura. mas não bem explicado. esquecer. Em si. Foi para não faltar ao juramento que fiz isto. para me não meter medo. Ao certo. Purgatório é uma casa de penhores. que empresta sobre todas as virtudes. que me fez o obséquio de a escrever no pedacinho de papel. desde que não mete a alma no purgatório. até que um dia uma ou duas virtudes medianas pagam os pecados grandes e pequenos. Paulo que me escrevesse a toada daquele pregão de doces de Matacavalos. transferindo o juramento à afirmação simples.

e o rosto estivesse comparativamente fresco. Pois vamos. não me ia . Dali em diante foi cada vez mais doce comigo. posto que os seus cabelos brancos não o fossem todos nem totalmente. Disse-lhe que começava a achar minha mãe um tanto fria e arredia com ela. — Para reforçar as razões que já temos vale menos que o chá que você vai tomar comigo. Escobar olhava para mim desconfiado. como se cuidasse que recusava a circunstância nova por forrar-me a escrevê-la. Durante ele. Quando voltamos. a esta hora. — Tens razão. falando das minhas dúvidas. e ele que veio até aqui. uma graça toda sua.CAPÍTULO CXV Dúvidas sobre Dúvidas Vamos agora aos embargos. como verdadeiras rãs. coaxavam dentro de mim. lá vinha um dia e mudavam. ela torna a ser o que era.. é que está impressionado com a demanda.. da Europa e da homeopatia. Ao passo que me falava. Pois aqui mesmo valeu a arte fina de Capitu! — Já disse a você o que é. — Mas eu tenho notado que já é fria também com Ezequiel. Tomamos depressa. Capitu novamente me aconselhou que esperássemos.. — Tomaremos depressa. referi as minhas dúvidas a Capitu. capaz de dissipar as mesmas tristezas de Olímpio. E por que iremos aos embargos? Deus sabe o que custa escrevêlos. Já lhe podia chamar assim. ela as desfez com a arte fina que possuía. Mamãezinha tem ciúmes de você. viemos por ali a pé. Quando ele saiu. concluiu.. Palavra puxa palavra. quanto mais contá-los. falei outras dúvidas. — Quem sabe se não anda doente? — Vamos nós jantar com ela amanhã? — Vamos. Pouco entrou na conversação.. da política. Não. Sogras eram todas assim. recrudescia de ternura. prima Justina da vizinhança.. — Nada? — Quase nada. mas tal suspeita não ia com a nossa amizade. logo que eles passem e as saudades aumentem. mamãe não lhe faz as mesmas graças. à noite. ou de José Dias.. José Dias falou do casamento e suas belezas. — Seria o negócio dos embargos. isto é. Fomos jantar com a minha velha. à entrada e à saída. — É tarde para tomar chá. quando este saía da sala. Da circunstância nova que Escobar me trazia apenas digo o que lhe disse então. Eu era então um poço delas. Quando ele vai comigo. não quero falar dos olhos molhados... — Então vale alguma coisa. tio Cosme das suas moléstias. Em lhe faltando o neto. Também não era diferente da costumada. era uma espécie de mocidade qüinquagenária ou de ancianidade viçosa. à escolha. coisas de sogra. um jeito. Mas nada de melancolias. que não valia nada.. a ponto de me tirarem o sono algumas vezes.

Glória... a cara deliciosa da minha amiga e esposa.. mas tudo acabou em bem. — Pois eu não gosto deles. como é que eu ando? . Desta vez falou ao modo bíblico (estivera na véspera a folhear o livro de Ezequiel.. como soube depois) e perguntavalhe: “Como vai isso. mas não estendi tão longe a intimidade do agregado. meu anjo? Meu anjo. Este ano tem feito muito frio. mas a princípio ficava envergonhadíssimo.. quando os ouço. José Dias pediu para ver o nosso “profetazinho” (assim chamava o Ezequiel) e fez-lhe as festas do costume. filho do homem. quando ele copia os meus gestos. tantos eram os louvores incessantes que ele ouvia “à bela e virtuosa Capitu”. era duro confessar que ele foi uma verdadeira bênção do céu. como eu. Tu como vais. replicou ela com aspereza. Ezequiel às vezes estava com ela. ficou espantado. nós o havíamos acostumado a ver o ósculo da chegada e da saída. onde estão os teus brinquedos?” “Queres comer doce. — Perfeitamente! — Mas. Outro dia chegou a fazer um gesto de D... filho do homem?” “Dize-me. Quis observar-lhe que tal razão explicava a interrupção das visitas. entre as grades da cancela. risonha como toda a nossa infância. como é que eu ando na rua? — Não. nem podia haver coisa nenhuma. Para quem chegou. tão bem que ela lhe deu um beijo em paga. Eu falava assim para variar. Você não imagina como a Bíblia é cheia de expressões cruas e grosseiras. a mim.. e ele enchia-me a cara de beijos. e não a frieza quando íamos nós a Matacavalos. — Tem razão. mas quando eu subia.. atalhou Capitu. via no alto da escada.. enquanto não nos conhecíamos. Capitu. — Então mamãe?. Pois. que lá tem o seu mal. entro também no coro. agora é obrigada a estar quieta. já lhe vou tirando esse costume de imitar os outros. quando D.esperar à janela. parece-me que sou eu mesmo. Glória elogia a sua nora e comadre. — Agora. sim. Não havia nada. que andava o dia inteiro. senhor. CAPÍTULO CXVI Filho do Homem Apalpei José Dias sobre as maneiras novas de minha mãe. — São os modos de dizer da Bíblia. — Mas tem muita graça. Que digna senhora nos saiu a criança travessa de Matacavalos! O pai é que nos separou um pouco. Imagine a aflição dela. ao pé do irmão. por que é que não nos visita há tanto tempo? — Creio que tem andado mais achacada dos seus reumatismos. pequenino. para não espertar-me os ciúmes. Vamos. concordou o agregado. a arrenegar deste casamento. filho do homem?” — Que filho do homem é esse? perguntou Capitu agastada.

Não é que Escobar ainda lá more nem sequer viva. ele na minha. casa que ainda ali vi. eu mais que ninguém. por um modo que hei de contar. Provavelmente foi o mesmo escritor que a inventou para adornar o texto. e o de deixá-la cair. passei. não perto. A primeira pessoa que fechou a cara. ultimamente. como o das mãos e pés de Escobar.. e não é preciso dizer que no mau sentido. morreu pouco depois. não posso dizê-lo bem. esquecia o adágio: longe dos olhos. Eu mesmo achava feio tal sestro. desde Ulisses e antes. é bonita. Fazia-me pensar nas duas casas de Matacavalos. disse eu. porque os sonos quando são pesados. Mas o menino era travesso. Capitu ralhava. E o escritor esquecia (salvo se ainda não era do seu tempo).. uma rua antiga. Enfim. e não fez mal. quando falava. porque é bonita. dizia o rei que os bons amigos deviam ficar longe uns dos outros. Não digo que número é para não irem indagar e cavar a história. mas pode ser que fosse do mar. uma vez que estávamos tão próximos. acendi um charuto. longe do coração. saltou ao meio da sala. Alguns dos gestos já lhe iam ficando mais repetidos. realmente. confundem vivos e defuntos. Que a sombra do escritor me perdoe.— Não. dizendo a José Dias: — O senhor anda assim. nós passávamos as . e dei por mim no Catete. quando ria. tínhamos por assim dizer uma só casa. — Não quero isso. As nossas mulheres viviam na casa uma da outra. Um historiador da nossa língua. creio que João de Barros. e o pedaço de praia entre a Glória e o Flamengo era como um caminho de uso próprio e particular. Não sei até se ainda tem o mesmo número. Seguramente há inimigos contíguos. Agora que a comparação seja verdadeira é que não. meio agitado. Ezequiel. para se não zangarem como as águas do mar que batiam furiosas no rochedo que eles viam dali. quando os portugueses lhe propunham estabelecer ali ao pé uma fortaleza. mas também há amigos de perto e do peito. põe na boca de um rei bárbaro algumas palavras mansas. mamãe não quer. tinha subido pela Rua da Princesa. Ó ruas antigas! ó casas antigas! ó pernas antigas! Todos nós éramos antigos. com o seu muro de permeio. ouviu? CAPÍTULO CXVII Amigos Próximos Já então Escobar deixara Andaraí e comprara uma casa no Flamengo. no sentido de velho e acabado. que o repreendeu e chamou a si foi Capitu. como é seu costume. Enquanto viveu. se eu duvido que o rei dissesse tal palavra nem que ela seja verdadeira. Eu respirava um pouco. até apanhara o modo de voltar a cabeça deste. Nós não podíamos ter os corações agora mais perto. há dias. apenas começávamos a falar de outra coisa. mas não lhe alteraram nada. Velha é a casa. a não ser a respiração. Eu creio que o mar então batia na pedra. como o diabo. quando me deu na gana experimentar se as sensações antigas estavam mortas ou dormiam só. Não pudemos deixar de rir. eu vivia na dele.

não se me daria beijá-la na testa. mas não acabaram casados. diziam outra coisa. pareciam quentes e intimativos. ora no Flamengo. O certo é que eles se queriam muito. e não tardou que se . — Vamos todos? perguntei por fim. os olhos de Sancha não convidavam a expansões fraternais. Na véspera tínhamos passado a noite no Flamengo. O nosso castelo era sólido. acharam todos que sim. CAPÍTULO CXVIII A Mão de Sancha Tudo acaba. quase suspirando. leitor.. não só os dois casais inseparáveis. graças às relações dela e Capitu. e insinuou que alguma vez as crianças que se freqüentam muito acabam parecendo-se umas com as outras. Sancha ergueu a cabeça e olhou para mim com tanto prazer que eu. a idéia de que um castelo de vento dura mais que o mesmo vento de que é feito. a que se pode acrescentar que nem tudo o que dura dura muito tempo. e Sancha acrescentou que até já se iam parecendo. ora na Glória. Como eu observasse que podia acontecer com eles o que se dera entre mim e Capitu. para que se não perca o costume daquelas construções quase eternas. Foi então q u e Escob⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪ ⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪敤 愠牣獥散瑮牡焠敵渠浥琠摵 ?畤慲搠牵畭瑩整灭?䔠瑳敳畧摮慰 ?捡慨挠敲瑮獥映握 楥㭳愠潣瑮楲?愠椠慩搠? ?浵挠獡整潬搠?敶瑮畤慲洠楡? ?敭浳敶瑮敤焠敵映 ⃡ 慤挠扡ⱷ攠戠浯焠敵猠橥 獡楳? 潴 楦楣浬湥整猠?敤灳来牡 ⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪ ⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪ 牡 ? 慧潴映杵獩敳?慧潴映杵畩??摩瑡扡⁵潣楦敩畱敺䔠ⱷ洭牡桬慴愠敤灭整慲敶楴敮?潲瑵漠獏 慲佾尠桳慤浥尠牡灜慰慰Ⅹ൯尊慰?敜摭獡?繜畑?潦㽩䄠攠瑳 慲漠爠瑡獥屴攧‱潣業潤 ൯尊慰?敜摭獡?繜潐獩猠浩慭?略焠敵楲敶??灜牡传?潤獩 Europa dali a dois anos. Opinei de cabeça.noites cá ou lá conversando. e podiam acabar casados. havia ressaca. Os dois pequenos passavam dias. e é bom que seja assim. jogando ou mirando o mar. — Vamos. mas um domingo.. Eu expliquei: — Não. Entretanto. Escobar concordou comigo. como ainda o agregado e prima Justina. como me sucedia nas matérias que eu não sabia bem nem mal. ao contrário. Esta segunda parte não acha crentes fáceis. Tudo podia ser. é porque Ezequiel imita os gestos dos outros. Disse isto de costas para dentro. dificilmente se despegará da cabeça. é um velho truísmo. O mar batia com grande força na praia.

Ouvia-se o mar forte. A mão dela apertou muito a minha. como eu. A cautela desligou-nos. Custa-me esta confissão.. uns esperando que os outros passassem. Prima Justina dormiu em nossa casa. viamse crescer as ondas. Não só os apalpei com essa idéia. acresce que sabiam nadar. Apalpei-lhe os braços. Tal se dá na rua entre dois teimosos. cá fora o mar está zangado. e chamei-me desleal.Uma senhora deliciosíssima. apertando uns aos outros. e fomos conversando os quatro. — como já se ouvia de casa. O retrato de Escobar. quem me afirmava que houvesse alguma intenção daquela espécie no gesto da despedida e nos anteriores? Tudo podia ligar-se ao interesse da nossa viagem. eu tornei a voltar-me para fora. — Você entra no mar amanhã? — Tenho entrado com mares maiores. Os instantes do diabo intercalavam-se nos minutos de Deus. e ela me fugisse outrora irritada ou acanhada. ao pé do piano. disse-me a voz de Escobar. mas nenhuns passavam. apalpa. que eu visse naquele gesto de Sancha uma sanção ao projeto do marido e um agradecimento. Pararam os quatro e ficaram diante uns dos outros. É preciso nadar bem. agora aquilo. — O mar amanhã está de desafiar a gente. Assim devia ser. como se fosse os de Sancha. quando cheguei o relógio ao ouvido trabalhavam só os minutos da virtude e da razão. onde eu fiquei olhando para o mar. como se pensa na bela desconhecida que passa.. Dali mesmo busquei os olhos de Sancha. iria embora. e demorou-se mais que de costume. e fiquei incerto. Cá fora. escute. mas então dar-se-ia que ela adivinhando. encontrei-os em caminho. muito maiores. Quando saímos. José Dias despediu-se de nós à porta. emendando-me: Realmente. invencível. Demais. não. — . continuou o agregado. tornei a falar com os olhos à dona da casa. ao pé do de minha mãe. como agora. depois do almoço e da missa. Capitu e prima Justina. ao pé de mim. Combati sinceramente os impulsos que trazia do Flamengo. mas não posso suprimi-la. mas um fluido particular que me correu todo o corpo desviou de mim a conclusão que deixo escrita.afastassem da janela. detiveram-se numa das voltas da praia. e agora por um movimento invencível. concluiu José Dias um discurso que vinha fazendo. mas ainda senti outra coisa: achei-os mais grossos e fortes que os meus.. Tive uma certeza só. pensativo. que moderei logo. Agora achava-lhes isto. Você não imagina o que é um bom mar em hora bravia.. A modéstia pedia então. que eu tinha ali. esta palavra foi como uma bênção de padre à missa. era jarretar a verdade. falou-me como se fosse a própria pessoa. a distância. Quando . onde me demorei mais que de costume. E assim posto entrei a cavar na memória se alguma vez olhara para ela com a mesma expressão. Passou depressa no relógio do tempo. uma bela noite! — Como devem ser todas as daquela casa. rejeitei a figura da mulher do meu amigo. — Deliciosíssima! repeti com algum ardor.. Foi um instante de vertigem e de pecado. mas eu conversava mal.. A noite era clara. no dia seguinte. é que um dia pensei nela. e estes braços. que a gente recebe e repete em si mesma. que iam adiante. disse ele batendo no peito. — a ressaca era grande e. Senti ainda os dedos de Sancha entre os meus. Sancha e Capitu eram tão amigas que seria um prazer mais para elas irem juntas. Não havia meio de esquecer inteiramente a mão de Sancha nem os olhos que trocamos. e ter estes pulmões. e tive-lhes inveja. Talvez o simples pensamento me transluzisse cá fora. Eu recolhi-me ao meu gabinete. e o relógio foi assim marchando alternativamente a minha perdição e a minha salvação.

que eu sentia de memória dentro da minha mão. a melhor origem delas é o céu. genealogicamente. consultei Dalloz. que nos dá a compleição. a virtude. mas a princípio vaguei à toa. Pereira e Sousa. inteiramente nada. O retrato de Escobar pareceu falar-me. o mesmo sangue celestial. se pudesse. a timidez também. sobrecasaca abotoada. a direita metida ao peito. inadmissíveis. a mão esquerda no dorso de uma cadeira. A timidez pode ser que fosse outra causa daquela crise. percorri os jornais e fui estudar uns autos.. Tinha garbo e naturalidade. o olhar ao longe para a esquerda do espectador. mas o acaso é um mero acidente. A figura de Sancha desapareceu inteiramente no meio das alegações da parte adversa.. é. Capricho seria ou quê? Ao fim de vinte minutos era nada. quem me provaria que não era mais que uma sensação fulgurante. Agarrei-me a esta hipótese que se conciliava com a mão de Sancha. Entretanto. Era uma bela fotografia tirada um ano antes. apertada e apertando. A moldura que lhe mandei pôr não encobria a dedicatória. vi-lhe a atitude franca e simples. Querida! A leitora.. Assim refletiria. Paixão não era. CAPÍTULO CXIX Não Faça Isso. querida.houvesse alguma intenção sexual. eu mudo de rumo. Sinceramente. tomei café. sem apoio na lei nem nas praxes. sacudi a cabeça e fui deitar-me. filha dela. nem têm maior duração. não contando o acaso. Não faça isso.. que é minha amiga e abriu este livro com o fim de descansar a cavatina de ontem para a valsa de hoje. como a timidez vem do céu. Uma só vez olhei para o retrato de Escobar. que eu ia lendo nos autos. quer fechá-lo às pressas. não nas costas do cartão: “Ao meu querido . CAPÍTULO CXX Os Autos Na manhã seguinte acordei livre das abominações da véspera. eu achava-me mal entre um amigo e a atração. alegações falsas. escrita embaixo. chamei-lhes alucinações. Vi que era fácil ganhar a demanda. destinada a morrer com a noite e o sono? Há remorsos que não nascem de outro pecado. ao ver que beiramos um abismo. quente e demorada. nem inclinação. na Lapa. Capitu e prima Justina saíram para a missa das nove. Estava de pé. não é só o céu que dá as nossas virtudes.

a campainha soou. falando do desastre. as da outra gente. eu podia lê-las do lugar em que estava. acudiram todos. apesar do mar bravio. ruas. Assim fizemos. sinhô morrendo.” Estas palavras fortaleceram-me os pensamentos daquela manhã. as minhas. outra enfastiada apenas. foi enrolado e morreu. Naquele tempo a minha vista era boa. Vesti-me.. Quis que o enterro fosse pomposo. vozes. não podiam lá caber todos. Praça da Glória. uma com o parecer abatido e estúpido. Em caminho. ouvindo referir a chegada do morto. Escobar meteu-se a nadar. As canoas que acudiram mal puderam trazer-lhe o cadáver. ouvi passos precipitados na escada. tudo eram carros. Saí de lá cerca de onze horas. soaram palmas. 20-4-70. e espancaram de todo as recordações da véspera. ou eu não lhe ouvi o resto.. como usava fazer. apontando o lugar em que Escobar falecera. acudi eu mesmo. muitos estavam na praia. sinhô nadando. muitos deles particulares.. CAPÍTULO CXXII O Enterro A viúva. arriscouse um pouco mais fora que de costume. CAPÍTULO CXXI A Catástrofe No melhor deles. fui adivinhando a verdade. eu vou cuidar do enterro. A casa não sendo grande. Tornei aos autos.. Era um escravo da casa de Sancha que me chamava: — Para ir lá. José Dias ouviu também falar dos negócios . Poupo-vos as lágrimas da viúva.Bentinho o seu querido Escobar. — Vão fazer companhia à pobre Sanchinha. deixei recado a Capitu e corri ao Flamengo. Praia. golpes na cancela. e a afluência dos amigos foi numerosa. Não disse mais nada. Capitu e prima Justina esperavam-me.

Pediu-me o papel. mas grandes e abertos. as mulheres todas. Elogiavam as qualidades de Escobar. sem o pranto nem palavras desta.do finado. as relações de Escobar. que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas. O cocheiro aventurou duas ou três perguntas sobre a minha situação moral. como a vaga do mar lá fora.. parecia vencer-se a si mesma. Como eu houvesse resolvido falar no cemitério. deitei aquelas emoções ao papel. A confusão era geral. No meio dela. começada. mas havendo acordo em que o passivo devia ser pequeno. e o desespero daquele lance consternou a todos. até que um lance da fortuna fez separar para sempre duas criaturas que prometiam ficar por muito tempo unidas. no Flamengo espalhou a notícia. De quando em quando enxugava os olhos. CAPÍTULO CXXIII Olhos de Ressaca Enfim. não fizera mais que recordar o tempo do seminário. Sancha quis despedir-se do marido. tal seria o discurso. como se quisesse tragar também o nadador da manhã. escrevi algumas linhas e mostrei-as em casa a José Dias. vamos ouvi-lo? — Quatro palavras. No tílburi em que andei uma ou duas horas. estávamos em março de 1871. pesando as palavras. olhando a furto para a gente que estava na sala. Redobrou de carícias para a amiga. a nossa amizade. Alguns conhecidos vieram interrogar-me: — Então. Poucas mais seriam. Consolava a outra. continuada e nunca interrompida. Fiquei a ver as dela. Capitu enxugou-as depressa. e confirmou a primeira opinião. divergindo alguns na avaliação dos bens. continuou o seu ofício. Momento houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto.. . quais os da viúva. Muitos homens choravam também. chegou a hora da encomendação e da partida. Tinha-as escrito com receio de que a emoção me impedisse de improvisar. recitou lentamente o discurso. e quis levá-la. amparando a viúva. as nossas simpatias. queria arrancá-la dali. As minhas cessaram logo. Nunca me esqueceu o mês nem o ano. Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa. Um ou outro discutia o recente gabinete Rio Branco. Só Capitu. não me arrancando nada. Chegando a casa. mas o cadáver parece que a retinha também. tão apaixonadamente fixa. que as achou realmente dignas do morto e de mim.

José Dias. sabes disto. defunto. que me pareceu jornalista. e até mau verso. meti a mão no bolso. não obstante contá-lo em verso... e é um bom autor. as memórias do amigo. são horas. é a crise que me tomou quando vi todos os olhos em mim. forcejava por escondê-la bem. nem seguido. defunto e tudo. Compara tu a situação de Príamo com a minha. tudo isto que eu era obrigado a dizer e dizia mal. mas o gesto geral foi de compreensão e de aprovação. sinais. tudo gente e carros. Palavra que. Descido o cadáver à cova. fale. ou qualquer outro estranho. eu acabava de louvar as virtudes do homem que recebera.. mas há narrações exatas em verso. aqueles olhos. Maquinalmente. Não era só a emoção nova que me fazia assim. Só a minha grande turvação recusaria um obséquio tão simples. trouxeram a cal e a pá. alguns diziam: “Muito bonito! muito bem! magnífico!” José Dias achou que a eloqüência estivera na altura da piedade. não todo.. As mãos que me deram a apertar eram de solidariedade. No cemitério tive de repetir a cerimônia da casa. Homero é que relata isto. os louvores à pessoa e aos seus méritos. pediu-me licença para levar o manuscrito e imprimi-lo. e eu peguei numa das argolas. que me dizia ao ouvido: — Então. e. quando cheguei à porta. um sussurro vago. É impossível que algum . e ajudar a levar o féretro à cova. leitor. No carro disse a José Dias que se calasse. as saudades confessadas. saquei o papel e li-o aos trambolhões. as mãos tremiam-me. e alguém. algumas vozes interrogativas. por beijar a mão daquele que lhe matou o filho. temendo que me adivinhassem a verdade. os pés quietos. Queriam o discurso. CAPÍTULO CXXV Uma Comparação Príamo julga-se o mais infeliz dos homens. as orelhas atentas. Tinham jus ao discurso anunciado. a voz parecia-me entrar em vez de sair. Ao mesmo tempo. O que isto me custou imagina. nem claro. era o próprio texto. Era o discurso. mas o que não sabes nem pode saber nenhum dos teus amigos. desatar as correias. Um homem. Creio que poucos me ouviram. Era José Dias que me convidava a fechar o ataúde. terás ido a mais de um enterro.CAPÍTULO CXXIV O Discurso — Vamos. ao cabo de alguns instantes de total silêncio. tive um daqueles meus impulsos que nunca chegavam à execução: foi atirar à rua caixão. rompeu o alarido final. vi o sol claro. as cabeças descobertas. Fechamo-lo.

rasguei o discurso e deitei os pedaços pela portinhola fora. digno da esposa amantíssima que Deus lhe dera. Nem digas que nos faltam Homeros.. bom amigo. Fui andando e cismando. porém. e endireitei para a casa. José Dias demonstrou longamente o contrário. fica já destruído de uma vez. e como posso ter a tentação de dá-lo a imprimir. não vale nada.. O que cismei foi tão escuro e confuso que não me deixou tomar pé. estas iriam pausadas ou não. e por último fez o panegírico do morto.Homero não tirasse da minha situação muito melhor efeito. No Catete mandei parar o carro. espírito ativo. Agora. — Não presta para nada. eram inconciliáveis. se as têm. A razão disto era acabar de cismar. Assim se desvaneceu de todo a ilusão da minha vaidade. mas voltei para trás. Tinha já comparado o gesto de Sancha na véspera e o desespero daquele dia. a posição em que a vi.. — Vou fazer uma visita. Não presta. Não seria o mesmo caso de Capitu? Cuidei de recompor-lhe os olhos. faltam-nos. deixei-o falar sozinho e peguei a cismar comigo. disse a José Dias que fosse buscar as senhoras ao Flamengo e as levasse para casa. andei largo espaço. Concluí de mim para mim que era a antiga paixão que me ofuscava ainda e me fazia desvairar como sempre. uma grande alma. é certo. os discursos são antes de alegria que de melancolia. sem embargo dos esforços de José Dias para impedi-lo. O carro andaria mais depressa que as pernas. Neste ponto do discurso. e tudo passa como se Aquiles não matasse Heitor. para que as caras apareçam limpas e serenas. arrepiar caminho. mas é porque os Príamos procuram a sombra e o silêncio. As lágrimas. depois elogiou o enterro. e escolher uma resolução que fosse adequada ao momento. até que me senti sossegar. senhor. parar. — Mas. podiam afrouxar o passo.. coração reto. Batiam oito horas numa padaria. igual. Quando cheguei a esta conclusão final. o ajuntamento de pessoas que devia naturalmente impor-lhe a dissimulação. chegava também à porta de casa. pela causa apontada em Camões. são enxugadas atrás da porta. ou quando menos. graças aos solavancos do carro e às interrupções de José Dias. . raciocinava e evocava claro e bem. disse-lhe eu. eu iria a pé. e subi outra vez a Rua do Catete. Eram as dúvidas que me afligiam ou a necessidade de afligir Capitu com a minha grande demora? Ponhamos que eram as duas causas. e deixar que a cabeça cismasse à vontade. CAPÍTULO CXXVI Cismando Pouco depois de sair do cemitério. tinha sido antes uma barafunda de idéias e sensações. se houvesse algo que dissimular. não. amigo. A viúva era realmente amantíssima. O que aqui vai por ordem lógica e dedutiva.

CAPÍTULO CXXVII
O Barbeiro

Perto de casa, havia um barbeiro, que me conhecia de vista, amava a rabeca e não tocava
inteiramente mal. Na ocasião em que ia passando, executava não sei que peça. Parei na calçada a
ouvi-lo (tudo são pretextos a um coração agoniado), ele viu-me, e continuou a tocar. Não atendeu a
um freguês, e logo a outro, que ali foram a despeito da hora e de ser domingo, confiar-lhe as caras à
navalha. Perdeu-os sem perder uma nota; ia tocando para mim. Esta consideração fez-me chegar
francamente à porta da loja, voltado para ele. Ao fundo, levantando a cortina de chita que fechava o
interior da casa, vi apontar uma moça trigueira, vestido claro, flor no cabelo. Era a mulher dele;
creio que me descobriu de dentro, e veio agradecer-me com a presença o favor que eu fazia ao
marido. Se me não engano, chegou a dizê-lo com os olhos. Quanto ao marido, tocava agora com
mais calor; sem ver a mulher, sem ver fregueses, grudava a face ao instrumento, passava a alma ao
arco, e tocava, tocava...
Divina arte! Ia-se formando um grupo, deixei a porta da loja e vim andando para casa; enfiei
pelo corredor e subi as escadas sem estrépito. Nunca me esqueceu o caso deste barbeiro, ou por
estar ligado a um momento grave da minha vida, ou por esta máxima, que os compiladores podem
tirar daqui e inserir nos compêndios de escola. A máxima é que a gente esquece devagar as boas
ações que pratica, e verdadeiramente não as esquece nunca. Pobre barbeiro! Perdeu duas barbas
naquela noite, que eram o pão do dia seguinte, tudo para ser ouvido de um transeunte. Supõe agora
que este, em vez de ir-se embora, como eu fui, ficava à porta a ouvi-lo e a namorar-lhe a mulher;
então é que ele, todo arco, todo rabeca, tocaria desesperadamente. Divina arte!

CAPÍTULO CXXVIII
Punhado de Sucessos

Como ia dizendo, subi as escadas sem estrépito, empurrei a cancela, que estava apenas
encostada, e dei com prima Justina e José Dias jogando cartas na saleta próxima. Capitu levantou-se
do canapé e veio a mim. O rosto dela era agora sereno e puro. Os outros suspenderam o jogo, e
todos falamos do desastre e da viúva. Capitu censurou a imprudência de Escobar, e não dissimulou
a tristeza que lhe trazia a dor da amiga. Perguntei-lhe por que não ficara com Sancha aquela noite.
— Tem lá muita gente; ainda assim ofereci-me, mas não quis. Também lhe disse que era melhor
vir para cá, e passar aqui uns dias conosco.
— Também não quis?
— Também não.

— Entretanto, a vista do mar há de ser-lhe penosa, todas as manhãs, ponderou José Dias, e não
sei como poderá...
— Mas passa; o que é que não passa? atalhou prima Justina.
E como em torno desta idéia, começássemos uma troca de palavras, Capitu saiu para ver se o
filho dormia. Ao passar pelo espelho, concertou os cabelos tão demoradamente que pareceria
afetação, se não soubéssemos que ela era muito amiga de si. Quando tornou trazia os olhos
vermelhos; disse-nos que, ao mirar o filho dormindo, pensara na filhinha de Sancha, e na aflição da
viúva. E, sem se lhe dar das visitas, nem reparar se havia algum criado, abraçou-me e disse-me que,
s
e
quises⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪
⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪?
畯牴 物楲慴 漠⁵捡湡慨慤?条 潰?浵洠癯浩湥潴椠癮湥屣攧?瘊汥?瑳攠㭬敶摥❜ 据敶湩
慳獩洠づ❜ ?牤慰?搠漳攧尷攧屮慥❜ 戠慭甠潭潣?潦牶慬慰 ?敧瑮?敲散敢攠爠灥瑥?浥猠?敭
浳??灜牡尠浥慤桳尠佾洠牡愠慭桮❜㍥攠瑳❜ㅥ搠?敤慳楦牡愠朠湥整
⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪
⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪整敲獳?
渠 慳瘠慩敧?匠湡档?慃楰畴攠慲屴攧漳愠業慧? ?敳楲浵瀠慲敺?慭獩瀠牡汥獡椠敲番
瑮獡污畸敳㍥❜㝥❜湥瑮椠慭畧污?獳敶畯栠潤湡畑

浥洠?牰癯牡慩焠敵渠❜㍥牥慭獩焠敵甠

慭猠湥慳❜㝥❜㍥?畦杬牵湡整敤瑳湩摡潭牲牥挠浯愠渠楯nham ouvido no cemitério. Quanto a
recolher os pedacinhos de papel deitados à rua, era tarde; estariam já varridos.
Inventariei as lembranças de Escobar, livros, um tinteiro de bronze, uma bengala de marfim, um
pássaro, o álbum de Capitu, duas paisagens do Paraná e outras. Também ele as possuía de minha
mão. Vivemos assim a trocar memórias e regalos, ora em dia de anos, ora sem razão particular.
Tudo isso me empanava os olhos... Vieram os jornais do dia: davam notícia do desastre e da morte
de Escobar, os estudos e os negócios deste, as qualidades pessoais, a simpatia do comércio, e
também falavam dos bens deixados, da mulher e da filha. Tudo isso foi na segunda-feira. Na terçafeira foi aberto o testamento, que me nomeava segundo testamenteiro; o primeiro lugar cabia à
mulher. Não me deixava nada, mas as palavras que me escrevera em carta separada eram sublimes
de amizade e estima. Capitu desta vez chorou muito; mas compôs-se depressa.
Testamento, inventário, tudo andou quase tão depressa como aqui vai dito. Ao cabo de pouco
tempo, Sancha retirou-se para a casa dos parentes no Paraná.

CAPÍTULO CXXIX
A D. Sancha

D. Sancha, peço-lhe que não leia este livro; ou, se o houver lido até aqui, abandone o resto.
Basta fechá-lo; melhor será queimá-lo, para lhe não dar tentação e abri-lo outra vez. Se, apesar do

aviso, quiser ir até o fim, a culpa é sua; não respondo pelo mal que receber. O que já lhe tiver feito,
contando os gestos daquele sábado, esse acabou, uma vez que os acontecimentos, e eu com eles,
desmentimos a minha ilusão; mas o que agora a alcançar, esse é indelével. Não, amiga minha, não
leia mais. Vá envelhecendo, sem marido nem filha, que eu faço a mesma coisa, e é ainda o melhor
que se pode fazer depois da mocidade. Um dia, iremos daqui até a porta do céu, onde nos
encontraremos renovados, como as plantas novas, come piante novelle,
Rinovellate di novelle fronde.
O resto em Dante.

CAPÍTULO CXXX
Um Dia...

Porquanto um dia Capitu quis saber o que é que me fazia andar calado e aborrecido. E propôsme a Europa, Minas, Petrópolis, uma série de bailes, mil desses remédios aconselhados aos
melancólicos. Eu não sabia que lhe respondesse; recusei as diversões. Como insistisse, repliqueilhe que os meus negócios andavam mal. Capitu sorriu para animar-me. E que tinha que andassem
mal? Tornariam a andar bem, e até lá as jóias, os objetos de algum valor seriam vendidos, e iríamos
residir em algum beco. Viveríamos sossegados e esquecidos; depois tornaríamos à tona da água. A
ternura com que me disse isto era de comover as pedras. Pois nem assim. Respondi-lhe secamente
que não era preciso vender nada. Deixei-me estar calado e aborrecido. Ela propôs-me jogar cartas
ou damas, um passeio a pé, uma visita a Matacavalos; e, como eu não aceitasse nada, foi para a sala,
abriu o piano, e começou a tocar; eu aproveitei a ausência, peguei do chapéu e saí.
...Perdão, mas este capítulo devia ser precedido de outro, em que contasse um incidente,
ocorrido poucas semanas antes, dois meses depois da partida de Sancha. Vou escrevê-lo; podia
antepô-lo a este, antes de mandar o livro ao prelo, mas custa muito alterar o número das páginas; vai
assim mesmo, depois a narração seguirá até o fim. Demais, é curto.

CAPÍTULO CXXXI
Anterior ao Anterior

Foi o caso que a minha vida era outra vez doce e plácida, a banca do advogado rendia-me
bastante. Capitu estava mais bela, Ezequiel ia crescendo. Começava o ano de 1872.
— Você já reparou que Ezequiel tem nos olhos uma expressão esquisita? perguntou-me Capitu.

e a luz coada pelas persianas basta a distinguir as letras. assim. não à maneira de teatro. e afinal saltou-me ao colo: — Vamos passear.Só vi duas pessoas assim. a pessoa inteira. papai? — Logo. Aqui podia ser e era. CAPÍTULO CXXXII O Debuxo e o Colorido Nem só os olhos. Eram como um debuxo primitivo que o artista vai enchendo e colorindo aos poucos.. na beleza. sem abrir as janelas. Ezequiel não entendeu nada. mal a princípio e não toda. fechavame. Olha. dizendo-lhe eu que. assim. não precisa revirar os olhos. Era depois de jantar. metia o papel no bolso. um amigo de papai e o defunto Escobar. provavelmente porque não gostei tanto das outras. ou um com outro. em memória do que foi e já não pode ser. é certo. o corpo. Quando novamente abria os olhos e a carta. Assim fica explicado que eu corresse à minha esposa e amiga e lhe enchesse a cara de beijos. Capitu. mas. a cara. sorrir. primeiro que se possa ler uma carta. corria a casa. Li a carta. mas não me pareceram esquisitos por isso. queriam-se muito. chegava a fechar os olhos. olhou espantado para ela e para mim. mas as restantes feições. Capitu tinha meia dúzia de gestos únicos na terra. fez-se como a manhã que aponta vagarosa. e muitas semelhanças se dariam naturalmente. assim. olha firme. iam-se apurando com o tempo. a . no gabinete. Aquele entrou-me pela alma dentro. falar quase. depois fui lendo melhor. Aproximei-me de Ezequiel. depois lê-se a carta na rua. palpitar. Capitu sorriu. estávamos ainda à mesa. fiquemos nos olhos de Ezequiel. vira para o lado de papai. Fugia-lhe. em verdade. até que a família pendura o quadro na parede. abanando a cabeça com um ar que nunca achei em mulher alguma. Capitu brincava com o filho. fitava agora a outra borda da mesa. achei que Capitu tinha razão. As pessoas valem o que vale a afeição da gente. ou ele com ela. Ezequiel. mas este outro incidente não é radicalmente necessário à compreensão do capítulo passado e dos futuros. porque. os olhos de Ezequiel saíam aos da mãe. alheia a ambos. O costume valeu muito contra o efeito da mudança. mas é também certo que ele me queria ainda mais a mim. mas a mudança fez-se. eram os olhos de Escobar. Afinal não haveria mais que meia dúzia de expressões no mundo. meu filho. em casa. e é daí que mestre Povo tirou aquele adágio que quem o feio ama bonito lhe parece. não abria as vidraças.. e a figura entra a ver.

esperávamos outra bonança. Fui eu mesmo que o levei um dia de manhã. donde só viesse aos sábados. porém. receber-me na escada. dentro de pouco. cheiram ao mar e à maré que deram morte ao meu amigo e comborço Escobar. ficava desarmado e diferia o castigo de um dia para outro. próxima e firme. Quando. e sempre que Ezequiel vinha para nós não fazia mais que separar-nos. pela mão. como levara o ataúde do outro. mas a volta dele. porém. foi como se não fosse. E lá o levei e deixei. — Jura. Assim. Mas o principal irá. ou porque o tempo fosse andando e completando a semelhança. sentia agora uma aversão que mal podia disfarçar. e se eu iria vê-lo. para dividir pelo tempo da morte todos os minutos da vida embaraçada e agoniada. do seminário e do Flamengo para se sentar comigo à mesa. e toda a arte fina de Capitu para fazê-lo atenuar. Antes de descoberta aquela má terra da verdade.letra era clara e a notícia claríssima. Capitu propôs metê-lo em um colégio. por ser tão miúdo e repetido. para me não descobrir a mim mesmo e ao mundo. Todas essas ações eram repulsivas. que não era tardia nem dúbia.. Mas o que pudesse dissimular ao mundo. como um marujo contaria o seu naufrágio. — Pois juro. Eu. A ausência temporária não atalhou o mal.. quando que me achava entre jornais e autos. A mesma situação nova agravou a minha paixão. ora devagar. eu tolerava-as e praticava-as. expansivo. Ezequiel vivia agora mais fora da minha vista. custou muito ao menino aceitar esta situação. O que se passava entre mim e Capitu naqueles dias sombrios. se voltaria para casa. e nós. ao menos. Cheiram também aos olhos de ressaca de Capitu. — Papai não diz que jura. Aos sábados. Levei-o a pé. — Quero ir com papai! Papai há de ir comigo! bradava ele. e quando. E o principal é que os nossos temporais eram agora contínuos e terríveis. vibrante e decisiva. não se notará aqui. Escobar vinha assim surgindo da sepultura. e eu jurava matá-los a ambos. Ezequiel entrava turbulento. ora de golpe. não tardava que o céu se fizesse azul. tivemos outros de pouca dura. eu sentia-me cada vez pior. mas não escapava ao domingo. Quando nem mãe nem filho estavam comigo o meu desespero era grande. Era no antigo Largo da Lapa. Até a voz. tornava a casa e via no alto da escada a criaturinha que me queria e esperava. perto da nossa casa. O pequeno ia chorando e fazendo perguntas a cada passo. papai! — Pois sim. . uma segunda-feira. ao fim das semanas. posto sempre fosse homem de terra. Releva-me estas metáforas. a falar verdade. buscava não jantar em casa e só entrar quando ele estivesse dormindo. já me parecia a mesma. Já entre nós só faltava dizer a palavra última. antes total. nos olhos um do outro. nós a líamos. — Vou. conto aquela parte da minha vida. ou pedir-me à noite a bênção do costume. o sol claro e o mar chão. e já tão tarde que não se poderá dizê-lo sem falha nem canseira. que vivia mais perto de mim que ninguém. beijar-me no gabinete de manhã. não podia fazê-lo a mim. por onde abríamos novamente as velas que nos levavam às ilhas e costas mais belas do universo. ou pelo descostume em que eu ficava. porque o demo do pequeno cada vez morria mais por mim. postos à capa. no gabinete. cheio de riso e de amor. até que outro pé de vento desbaratava tudo. — Papai não vai! — Vou sim. era a volta de Escobar mais vivo e ruidoso.

e não pude dormir. vindas da roça e da antiga metrópole. ela veio comigo. comprei uma substância. as mesmas asas trépidas. supondo deixar a idéia em casa. — era uma sexta-feira. Ou de verdade ou por ilusão. minha mãe menos triste. que negrejava em mim. A vida é tão bela que a mesma idéia da morte precisa de vir primeiro a ela. Já me vais entendendo. é provável que a idéia não batesse as asas senão pela necessidade que sentia de vir ao ar e à vida. ora tinha trabalho que me obrigava a fechar o gabinete. Fui à casa de minha mãe. Não me lembra bem o resto do dia. lê agora outro capítulo. não havendo almanaques no cérebro. mas via-as através dela. é verdade. Não podendo encobrir inteiramente esta disposição moral. Saí. mas também pode ter sido propósito. ouvi cantar baladas em casa. Cá fora tinha a mesma cor escura. A farmácia faliu. quando cuidava não ser mais que uma ou duas horas. antes de se ver cumprida. por mais que a sacudisse de mim. — não pude mais. tio Cosme esquecido . Era noite. para não despertar o desejo de prová-la. ou só o menos que pudesse. como fazem as idéias que querem sair. e sem se demorarem nada. e o banco prospera. fui educado no terror daquele dia. CAPÍTULO CXXXIII Uma Idéia Um dia. que não digo. Quando me achei com a morte no bolso senti tamanha alegria como se acabasse de tirar a sorte grande. e posto avoasse com elas. porque o prêmio da loteria gasta-se. nas quais a sexta-feira era o dia de agouro. Certa idéia. não que me encobrisse as coisas externas. Entretanto.tanto a ela como aos outros. com a cor mais pálida que de costume. era como se fosse fixa. e a morte não se gasta. a título de visita. com o fim de despedir-me. cuidava de me não fazer encontradiço com ele. tudo ali me pareceu melhor nesse dia. Sei que escrevi algumas cartas. o dono fez-se banqueiro. Amanheceu. abriu as asas e entrou a batê-las de um lado para outro. CAPÍTULO CXXXIV O Dia de Sábado A idéia saiu finalmente do cérebro. ou ainda maior. O ser sextafeira creio que foi acaso. Também nenhuma noite me passou tão curta. ora saía ao domingo para ir passear pela cidade e arrabaldes o meu mal secreto. eu a levava na retina.

O segundo continha só o necessário. por causa de um lenço. um dia que vinha depois do outro e me veria ir para nunca mais voltar. subi pé ante pé. Nenhuma das outras era para ela. e valem só as camisas. Ceei. vi os derradeiros passeadores e os primeiros varredores. é verdade. as primeiras carroças. se ela deveras fosse culpada. como eterna extinção. — E era inocente. sabia apenas o assunto. à medida que o mouro rolava convulso. Escrevi dois textos. um quase nada. CAPÍTULO CXXXV Otelo Jantei fora. Cheguei a casa. mas era já numerosa e ia a algum trabalho. . como nos dias comuns da semana. Cheguei a abrir mão do projeto. alguma vez nem lençóis há. Representava-se justamente Otelo. A gente que passava não era tanta. que eu não vira nem lera nunca. enquanto os homens iam fumar. que repetiria depois. dirigida a Capitu. vinha eu dizendo rua abaixo: — que faria o público. e estimei a coincidência. senti necessidade de lhe dizer uma palavra em que lhe ficasse o remorso da minha morte. O primeiro queimei-o por ser longo e difuso. era preciso sangue e fogo. até que o pano subia e continuava a peça. pois não me pude furtar à observação de que um lenço bastou a acender os ciúmes de Otelo e compor a mais sublime tragédia deste mundo. Tirei o veneno do bolso. os primeiros ruídos. mas o bastante para ir até à manhã. Vaguei pelas ruas o resto da noite. tão culpada como Capitu? E que morte lhe daria o mouro? Um travesseiro não bastaria. os primeiros albores. hoje são precisos os próprios lençóis. — um simples lenço! — e aqui dou matéria à meditação dos psicólogos deste e de outros Continentes. e a morte que este lhe deu entre aplausos frenéticos do público. e o pó seria lançado ao vento. eu é que não repetiria mais nada. O último ato mostrou-me que não eu. Não lhe lembrava o nosso passado. da língua. Vi as últimas horas da noite e as primeiras do dia. nem a Fortaleza de Santa-Cruz e as outras. e a fúria do mouro. As ruas que eu andava como que me fugiam por si mesmas. Passei uma hora em paz. um fogo intenso e vasto. iam dar seis horas. abri a porta devagarinho.. Nos intervalos não me levantava da cadeira. e escrevi ainda uma carta. e meti-me no gabinete. e a reduzisse a pó. e vinham outras incoerências. Não tornaria a contemplar o mar da Glória. De noite fui ao teatro. As senhoras ficavam quase todas nos camarotes. a última.. fiquei em mangas de camisa. Então eu perguntava a mim mesmo se alguma daquelas não teria amado alguém que jazesse agora no cemitério.do coração.. Que era preciso para viver? Nunca mais deixar aquela casa. Tais eram as idéias que me iam passando pela cabeça. mas Capitu devia morrer. que a consumisse de todo. Vi as grandes raivas do mouro. prima Justina. as suas palavras amorosas e puras. Ouvi as súplicas de Desdêmona. e Iago destilava a sua calúnia. Os lenços perderam-se. nem a serra dos Órgãos. claro e breve. ou prender aquela hora a mim mesmo. não queria expor-me a encontrar algum conhecido.. vagas e turvas.

com mão nas costas da cadeira. mas um tomo truncado de Plutarco. bastou-me a ocupar aquele pouco tempo. e repetia. houve aqui um gesto que eu não descrevo por havê-lo inteiramente esquecido. leu e releu um livro de Platão. nem ser dada a notícia nas gazetas com a cor das calças que eu então vestia. a olhar ao longe. querendo fugir a qualquer suspeita de imitação. Mas a fotografia de Escobar deu-me o ânimo que me ia faltando. lembra-me bem que. e fui para a mesa onde ficara a xícara. assim como ele precisara dos sentimentos do filósofo para intrepidamente morrer. e. estirei-me no canapé. dissolver nele a droga e ingeri-la. nem alegria alguma. O copeiro trouxe o café. e comecei a mexer o café.. Ezequiel abraçou-me os joelhos. esticou-se na ponta dos pés. como querendo subir e dar-me o beijo do costume. falava-lhe só de Escobar e da necessidade de morrer. papai! Leitor. era melhor. mas estou que muita mais gente poria termo aos seus dias. cogitei se não seria melhor esperar que Capitu e o filho saíssem para a missa. em que era narrada a vida do célebre romano. mas crê que foi belo e trágico. beberia depois. Não tinha Platão comigo. Ainda assim tive ânimo de despejar a substância na xícara. Quando ia beber. Já a casa estava em rumores. CAPÍTULO CXXXVI A Xícara de Café O meu plano foi esperar o café. e nobremente expira. o espetáculo da véspera vinha intrometer-se na realidade da manhã. Há muita gente que se mata sem ele. Ouvi a voz de Ezequiel no corredor. — Acabemos com isto. puxando-me: — Papai! papai! . vi-o entrar e correr a mim bradando: — Papai. Nem era só imitá-lo nisso. Assim disposto. se pudesse achar essa espécie de cocaína moral dos bons livros. assenti de pô-lo novamente no seu lugar. pensei. era tempo de acabar comigo. Entretanto. Um dos males da ignorância é não ter este remédio à última hora. antes de beber o veneno. entrei a passear no gabinete. os olhos vagos.. tinha necessidade de incutir em mim a coragem dele. para em tudo imitá-lo. lembrou-me que Catão. Efetivamente.nem as lutas havidas. a figura do pequeno fez-me recuar até dar de costas na estante. Até lá. para não ser encontrado ao pé de mim o livro de Plutarco. antes de se matar. Ergui-me. lá estava ele. não tendo esquecido de todo a minha história romana. guardei o livro. a memória em Desdêmona inocente. A mão tremeu-me ao abrir o papel em que trazia a droga embrulhada.

o meu segundo impulso foi criminoso. Pus a xícara em cima da mesa. Cheguei-lhe a xícara. deu-me outro impulso que me custa dizer aqui. dei com a figura de Capitu diante de mim. porque o meu primeiro ímpeto foi correr ao café e bebê-lo. meia xícara só. eu não sou teu pai! CAPÍTULO CXXXVIII Capitu que Entra Quando levantei a cabeça. anda. Eis aí outro lance. — E papai? — Eu mando vir mais. é provável que não estivesse aqui escrevendo este livro. bebe! Ezequiel abriu a boca. Inclinei-me e perguntei a Ezequiel se já tomara café. ou a temperatura. mas disposto a fazê-la cair pela goela abaixo. — Não. como o gesto. diga-se tudo. — Toma outra xícara. Mas não sei que senti que me fez recuar. não serei eu que os desdiga ou contradiga. que p⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪ ⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪湡慤? 敢?攠愠屴攧‹屬攧‱獡樠❜㍦慩?漠? 敪潴?敤愠杬浵瘠污牯猠牥慩敶摮摩獯?物❜摥浡獯爠 獥摩物攠污畧敢潣 尠 獯 浡 摥 ❜ 牡 湲 潴 ?楯 灥 搠 㭳 潤 楣 敵 煳 攠 攠 獯 摡 来 獳 潳 ?潭 慤 攧 屲 敶 楖 獡?敶潭潣?搠慲攠潴獩?獳 ?洠敵焠浯挠慲畮牥琠䄠?畧?ㅥ❜ 慮潴‰攧 ⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪ 尸㠷㝸⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ . tão trêmulo que quase a entornei. Chamem-me embora assassino. caso o sabor lhe repugnasse. papai. e dei por mim a beijar doidamente a cabeça do menino. mas vá lá.. não. e a vista dele.CAPÍTULO CXXXVII Segundo Impulso Se eu não olhasse para Ezequiel. — Já. Cheguei a pegar na xícara. mas o pequeno beijava-me a mão.. — Papai! papai! exclamava Ezequiel. vou à missa com mamãe. como de costume. porque o café estava frio.

repeti-lhe as palavras do final do capítulo. tão naturais ambas que fariam duvidar as primeiras testemunhas de vista do nosso foro. posso ouvir o resto. depois. ou conte o resto. — Não. — Que não é meu filho. cada um iria com a sua ferida. — Que se não dizem só metade.. Sem lhe contar o episódio do café. Já ouvi que as há para vários casos. de um riso que eu sinto não poder transcrever aqui. Assim que. — Há coisas que se não dizem. Mas. ou peço-lhe desde já a nossa separação: não posso mais! — A separação é coisa decidida. Que é que lhe deu agora tal convicção? Ande. não pode ser muito. — Há tudo. questão de preço. para que eu me defenda. o porte não era de acusada. Eu creio que ouvira tudo claramente. Pedi-lhe ainda uma vez que não teimasse. Tinha-se sentado numa cadeira ao pé da mesa. apesar do seminário. e murmurou: — Sei a razão disto. Que houve entre vocês? — Não ouviu o que lhe disse? Capitu respondeu que ouvira choro e rumor de palavras. por isso negou a audiência e confirmou unicamente a vista. eu creio. haja ou não testemunhas alugadas. mas já que disse metade. Suspirou. aqui vai o que lhe posso dizer. não entendo as tuas lágrimas nem as de Ezequiel. a própria natureza jurava por si.. que a senhora insiste. mas confessá-lo seria perder a esperança do silêncio e da reconciliação.. não acredita em Deus. — O quê? perguntou ela como se ouvira mal. — diga tudo. porém. Não disse tudo.. A vontade de Deus explicará tudo. mal pude aludir aos amores de Escobar sem proferir-lhe o nome. a minha era verdadeira. tanto mais que a pessoa que me contou isso acabava de perder uma demanda. aos seus gestos. disse eu. é a casualidade da semelhança. Bentinho. Após alguns instantes. disse-me ela: — Só se pode explicar tal injúria pela convicção sincera. Capitu não pôde deixar de rir.瑜㠶㠴ㅸ瑜〶ㄴㅸ瑜㈵㐳ㅸ瑜㐴㜲ㅸ瑜㘳〲ㅸ瑜㠲㌱ㅸ瑜〲㘰ㅸ瑜㈱㤹硴尴〲㥸瑜㘹㐸硴 㠴㤱㉸瑜〴㈱㉸瑜㈳㔰㉸瑜㐲㠹ㅸ瑜㘱ㄹㅸ瑜㠰㐸ㅸ瑜〰㜷ㅸ瑜㈹㤶ㅸ瑜㐸㈶ㅸ瑜㘷㔵ㅸ 橤慜〲㌸㉸瑜㈱㘷㉸瑜㐰㤶㉸瑜㘹ㄶ㉸瑜㠸㐵㉸瑜〸㜴㉸瑜㈷〴㉸瑜㐶㌳㉸瑜?㘵㘲㉸瑜 . e eu não queria duvidar dela. Que é que lhe deu tal idéia? Diga. Era melhor que a fizéssemos por meias palavras ou em silêncio. sem atender à linguagem de Capitu. fale! fale! Despeça-me daqui. você que era tão cioso dos menores gestos. que não pedia outra coisa mais que a plena justificação dela. e é tudo. diga tudo. depois do que ouvi. Rise? É natural. — continuou vendo que eu não respondia nada.. à dor que a retorcia. Mas não falemos nisto. entretanto. Bentinho. Capitu olhou para mim com desdém. creio que suspirou. Grande foi a estupefação de Capitu. enquanto eu. redargüi. repeti as palavras ditas duas vezes com tal resolução que a fizeram afrouxar...essacilpxe ehl euq em獦尶ㅦ尠瑨杩牴獵 — Não há que explicar. a coisa nenhuma. disse-lhe não sei que palavras adequadas a este fim. eu não creio. e não menor a indignação que lhe sucedeu. pegando-lhe na proposta. em um tom juntamente irônico e melancólico: — Pois até os defuntos! Nem os mortos escapam aos seus ciúmes! Concertou a capinha e ergueu-se. Podia estar um tanto confusa. mas diga tudo primeiro. Uma vez. se você acha que tenho defesa. não .. nunca revelou a menor sombra de desconfiança.

ouvi dentro de mim que a nossa separação é indispensável. tinha perdido o gosto à morte. gritando: — “Mamãe! mamãe! é hora da missa!” restituiu-me à consciência da realidade. e estou às suas ordens. Este era aquele. A morte era uma solução. evocara as palavras do finado Gurgel. Respondi-lhe que ia pensar. porém. No intervalo. e faríamos o que eu pensasse. eu acabava de achar outra. não confessou nada. puxou do filho e saíram para a missa. e esperei o regresso de Capitu. tanto melhor quanto que não era definitiva. Não disse perdão. justiça. disse-me Capitu ao voltar da igreja. relê o capítulo. senhor. involuntariamente. — Confiei a Deus todas as minhas amarguras. mas não foi. Acaso haveria em mim um homem novo. Em verdade vos digo que tudo estava pensado e feito. se não. cujo número não . mas falhou tudo. olhamos para a fotografia de Escobar. era natural pegar do café e bebê-lo. se devesse havê-la. Pois. Qualquer que fosse a razão do ato.nos fica bem dizer mais nada. Capitu e eu. cheguei a temer que ela houvesse ido à casa de minha mãe. CAPÍTULO CXL Volta da Igreja Ficando só. Contava com a minha debilidade com a própria incerteza em que eu podia estar da paternidade do outro. Hás de lembrar-te delas. parecido com Capitu. não. quando me mostrou em casa dele o retrato da mulher. rejeitei a morte. havia por força alguma fotografia de Escobar pequeno que seria o nosso pequeno Ezequiel. repetiu as últimas palavras. e depois um para o outro. desde que impressões novas e fortes o descobriam? Nesse caso era um homem apenas encoberto. Desta vez a confusão dela fez-se confissão pura. um que aparecia agora. De boca. uma fantasmagoria de alucinado. isto é. Os olhos com que me disse isto eram embuçados. CAPÍTULO CXXXIX A Fotografia Palavra que estive a pique de crer que era vítima de uma grande ilusão. como espreitando um gesto de recusa ou de espera. e deixava a porta aberta à reparação. mas reparação. Este foi mais demorado que de costume. mas a entrada repentina de Ezequiel.

os olhos enfiados nos olhos. encontros e incidentes. Ao cabo de alguns meses. mas não fica longe. palavras. Contei-lhes o namoro das andorinhas de fora. pedia-me que a fosse ver. ensinando a língua materna a Ezequiel. e enganar a opinião. As dela eram submissas. novo nem velho. dizendo-me uma palavra amiga e alegre. em tal atropelo que me atordoaram. e a que faltou o meu velho ciúme. para ele. ou eu ia atentando mais nelas. uma palavra dela sonhando. foi a outros cuidados. Ezequiel ia ter comigo ao gabinete. e para o fim saudosas. queriam notícias. os que se lembravam dela. CAPÍTULO CXLI A Solução Aqui está o que fizemos. cozidas. e acharam-lhe graça. um segredo que me fez rir. E por que os não enganei um dia. a que respondi com brevidade e sequidão. todas essas reminiscências vieram vindo agora. as minhas outras andorinhas estavam trepadas no ar. e nos outros dias. e eu dava-lhas. mas devem ser bons.” E ficamos a tratar dos chins e dos clássicos que falaram deles. Escobar declarou que. Um dia. De envolta.. Uma professora do Rio Grande. estivessem à mesa do jantar. que aprenderia o resto nas escolas do país. finalmente. Assim regulada a vida. continuou. quando desviei os olhos da rua onde estavam duas andorinhas trepadas no fio telegráfico? Dentro. . sem ódio. enquanto Capitu. Agora lembrava-me tudo o que então me pareceu nada. e as feições do pequeno davam idéia clara das do outro. confessando que a aborrecíamos. nem ver nada. Pegamos em nós e fomos para a Europa. seria melhor se as andorinhas.. Reduzem-se a dizer que há tais semelhanças inexplicáveis. naturalmente as viagens eram feitas com o intuito de simular isto mesmo. Pelo dia adiante. que foi conosco. lembravam-me episódios vagos e remotos. ficou de companhia a Capitu.... Capitu começara a escrever-me cartas. “Nunca comi os ninhos delas. paramos na Suíça. tornei ao Brasil. mas tão cautelosos que se desenfiaram logo. e repeti a viagem com o mesmo resultado. Embarquei um ano depois. Na volta. por não me lembrar já qual seja. acaso afetuosas. Uma vez em que os fui achar sozinhos e calados.ponho aqui.. como se acabasse de viver com ela. tudo em que a minha cegueira não pôs malícia. se os chins os inventaram. mas não a procurei. não passear. em vez de trepadas no fio de arame.

. disse eu. se fosse vivo. creio que vou para a outra Europa. as datas. — Está com medo? — Não. não? — Justamente.. perdão. O Protonotário Cabral. — E possuía algumas prendas de sociedade.. Um dado de mestre! . A minha idéia é dar com tal palavra uma definição terrena de todas as virtudes que a finada possuiu na vida. que envelheceu depressa. confirmaria aqui o que lhe digo.CAPÍTULO CXLII Uma Santa Entenda-se que. os gestos de lenço. Fiz fazer essa inscrição com alguma dificuldade. Também ele estava velho. Tanto é assim que. os próprios olhos que enxugava eram tais que me comoviam também. — Venha. depois que eu acabar? — Quer dizer que era uma santa senhora. se nas viagens que fiz à Europa.. Não foi logo.. O escultor achou-a esquisita. pio e caridoso. a filiação. ficava de companhia a tio Cosme. Era um padre-modelo.. Ia a bordo despedir-se de mim.. José Dias não foi comigo. este ponderou-me que as santas estão no altar e no céu. a eterna. continuou o vigário. A última vez não foi a bordo. sendo a modéstia uma delas. Bentinho. nem nomes. não sei se me verá mais. adeus. Agora. lá em casa sempre ouvi que era insigne parceiro ao gamão. o nome.. com esta única indicação: Uma santa. bom latinista. — Bom canonista. filiação. É aí. — Quem se importará com datas. não posso. Procura no cemitério de S. — Todavia. — Tinha muito bom dado! suspirou lentamente o vigário. — Mas. eu não quero dizer que naquela sepultura está uma canonizada. hesito só na fórmula. não lhe escrevendo o nome. atalhei. — Nem eu contesto a verdade. Conheceu então o protonotário? — Conheci-o. posto que rijo. desejo conservá-la póstuma. minha mãe embarcou primeiro. João Batista uma sepultura sem nome. quase inválido. e as palavras que me dizia. — Não posso. o administrador do cemitério consultou o vigário da paróquia. e a minha mãe. não é que lhe faltasse vontade.

veio dizer-me que. admite-se. o ar pode fazer-lhe mal. deixou cair a cabeça. Morreu sereno. o que lhe fez da morte um pedaço de vida. até que ele não pediu mais nada. De mais. basta um alopata. murmurando: Lindíssimo! Foi a última palavra que proferiu neste mundo. estava um céu azul e claro. Pobre José Dias! Por que hei de negar que chorei por ele? . — Uma vez que não há outro sentido. Abrimos a janela. posto que minha mãe lhe deixasse uma pequena lembrança. — Que mal? Ar é vida. Pouco antes ouviu que o céu estava lindo. No fim. que o tempo levou. a quem pedia que lhe mandasse o retrato de Ezequiel. após alguns instantes. disse mal do padre. — Não a conheceram. sim.. o melhor deles. José Dias soergueu-se e olhou para fora. mas a morte veio antes de Ezequiel. parece-lhe?. Mandei chamar um médico homeopata. não se separaria de mim. e pediu que abríssemos a janela. Já então morava comigo. Realmente. até que veio o último. após uma agonia curta. disse ele. Talvez a esperança dele fosse enterrar-me. nem poderia havê-lo. o mais doce. Bentinho. Só lhe achava desculpa por não ter conhecido minha mãe..— Então. José Dias assistiu a estas diligências com grande melancolia. quando saímos. A alopatia é o catolicismo da medicina. chamou-lhe meticuloso. — Não.. se a conhecessem mandariam esculpir santíssima. pedi-lhe também que não deixasse de falar a Ezequiel no velho amigo do pai e do avô. Correspondia-se com Capitu.. “destinado pelo céu a amar o mesmo sangue”. CAPÍTULO CXLIII O Último Superlativo Não foi o último superlativo de José Dias. converto-me à fé de meus pais. A doença foi rápida.. com legado ou sem ele. a não ser o coração do jovem estudante. senhor. nem ele nem os outros homens do cemitério. — Não.. Outros teve que não vale a pena escrever aqui. mas Capitu ia adiando a remessa de correio a correio. foram idéias da mocidade. Era assim que ele preparava os cuidados da terceira geração. em todas as escolas se morre.

estando a vestir-me para almoçar. Quando saí do quarto. Estava. Deixei que demolissem a casa. Esta casa do Engenho Novo. e parece que era a cantiga das manhãs novas. e toda a casa me desconheceu. ouvi também o grunhir dos porcos. CAPÍTULO CXLV O Regresso Ora. tinha agora um ar de ponto de interrogação. No quintal a aroeira e a pitangueira. e. Ao pé dessa música sonora e jovial.CAPÍTULO CXLIV Uma Pergunta Tardia Assim chorem por mim todos os olhos de amigos e amigas que deixo neste mundo. logo que minha mãe morreu. mas não é provável. Já disse isto mesmo. mas o tronco. Só depois é que me lembrou que cumpria ter certo alvoroço e correr. em vez de reto. fi-lo esperar uns dez ou quinze minutos na sala. mais tarde. Ao contrário. DE SANTIAGO — A pessoa está aí? perguntei ao criado. — Sim. apenas me lembra aquela. metade Dom . logo. nada sabia de mim. A mãe. e mais por efeito de comparação e de reflexão que de sentimento. na mesma rua antiga. foi já nesta casa que um dia. buscando algum pensamento que ali deixasse. Acabei de vestir-me às pressas. espécie de troça concentrada e filosófica. recebi um cartão com este nome: EZEQUIEL A. — creio que ainda não disse que estava morta e enterrada. A razão é que. mas aqui vai a resposta. lembrou-me fazer esta reprodução por explicações que dei ao arquiteto. A pergunta devia ser feita a princípio. A casuarina era a mesma que eu deixara ao fundo. tomei ares de pai. falar-lhe na mãe. a ramagem começou a sussurrar alguma coisa que não entendi logo. abraçá-lo. um pai entre manso e crespo. Hão de perguntar-me por que razão. como outrora. quando vim para o Engenho Novo. tendo a própria casa velha. a caçamba velha e o lavadouro. segundo contei em tempo. fiz primeiro uma longa visita de inspeção por alguns dias. querendo ir para lá. não impedi que a demolissem e vim reproduzi-la nesta. ficou esperando. Tenho-me feito esquecer. Não fui logo. Moro longe e saio pouco. lá repousa na velha Suíça. naturalmente pasmava do intruso. e não achei nenhum. Corri os olhos pelo ar. conquanto reproduza a de Matacavalos. Tudo me era estranho e adverso. senhor. o poço. Não é que haja efetivamente ligado as duas pontas da vida.

aceito. se acudisse. o mais digno de ser querido. de costas. e papai não parava. e as maneiras eram diferentes. era nem mais nem menos o meu antigo e jovem companheiro do seminário de S. fechava os olhos para não ver gestos nem nada. e comecei um interrogatório para ter menos que falar e dominar assim a minha emoção. Prima Justina quis vê-lo. atalhei-o a tempo. dei com um rapaz. como o homem mais puro do mundo. Vestia de luto pela mãe. Ezequiel cria em mim. — Papai ainda se lembra quando me levou para o colégio? perguntou rindo.. com a cara metida no prato. o mesmo rosto do meu amigo. Ela descansa no Senhor ou como quer que seja. Às vezes. Não fomos. Conhecia aquela parenta.. o sotaque era afrancesado. Não me mexi. Escobar comia assim também. e o defunto falava e ria por ele. qualquer emoção pode trazer-lhe a morte. mas o diabrete falava e ria. tanto mais facilmente quanto que ele parecia haver-me deixado na véspera. posto que a idéia da paternidade do outro me estivesse já familiar. A mãe falava muito em mim. Mas isto mesmo dava animação à cara dele. A voz era a mesma de Escobar. tinha a cabeça aritmética do pai. a princípio doeu-me que Ezequiel não fosse realmente meu filho. bebeu um gole. menos cheio de corpo e. pintado na parede. Se pensas que o almoço foi amargo. não gostava da ressurreição. e voltou-se depressa. Se fosse vivo José Dias. eu também estava de preto. não me acudiu. mirando o busto de Massinissa. sem se perder nos algarismos. disse eu a Ezequiel que queria ir vê-la. que era a sua paixão. Conheceu-me pelos retratos e correu para mim. alguma . a ida para o colégio. iam-lhe lembrando uma porção de coisas. mas o aspecto geral reproduzia a pessoa morta. Creio que o desejo de ver Ezequiel era para o fim de verificar no moço o debuxo que porventura houvesse achado no menino. Não havendo remédio senão ficar com ele. nem podia. Sentamo-nos. eu ia desesperado. — Papai não faz diferença dos últimos retratos. um pouco mais baixo. Ei-lo aqui. e o meu colega do seminário ia ressurgindo cada vez mais do cemitério. — Pois não hei de lembrar-me? — Era na Lapa. A idéia de que pudesse ter visto alguma fotografia de Escobar.. que me não completasse e continuasse. senhor. enganas-te. com igual riso e maior respeito. Expliquei-lhe que realmente pouco diferia do que era. mas. — Morreu bonita. quando ficar melhor. louvando-me extraordinariamente. evocava a meninice. — Está muito mal. cenas e palavras. Seria um regalo último. Ao entrar na sala. Não obstante. Estendeu o copo ao vinho que eu lhe oferecia. Trajava à moderna. nem. dava-me cada puxão. particularmente os de arqueologia. que Capitu por descuido levasse consigo. total. estando enferma. os estudos. Falava da antigüidade com amor. Vim cauteloso. diante de mim. Sim. salvo as cores. Iremos vê-la. o mesmo obséquio e a mesma graça. pediu-me que o levasse lá. o exato. e continuou a comer. a morte levou-a dentro de poucos dias.Casmurro. Ezequiel viu-lhe a cara no caixão e não a conheceu. naturalmente. eu acabava crendo tudo. persistiria. e não fiz rumor. Eu. Ansiava por ver-me. — Vamos almoçar. Contou-me a vida na Europa. o verdadeiro Escobar. ouviu-me os passos. que eram vivas. Era o meu comborço. acharia nele a minha própria pessoa. fiz-me pai deveras. era o filho de seu pai. Se o rapaz tem saído à mãe. alguma rua.. concluiu. José. contava o Egito e os seus milhares de séculos. tão outra a fizeram os anos e a morte. No caminho para o cemitério. e eu com as perninhas. como na mãe. Teve seus minutos de aborrecimento. Era o próprio. é verdade. disse-me ele.

odnum etsed sotnat soa ratnuja arap oirétsim .odut ed rasepA . CAPÍTULO CXLVI Não Houve Lepra Não houve lepra. Admirava-se que muitas destas fossem as mesmas que ele deixara.ortaet oa iuf e meb ietnaj . Eram dois colegas da universidade. antes lhe pagasse a lepra.atagluV ahnim a ietluoc lat aroga ued ehl euq ietnugrep e ieraP “. viagem científica. contava-me as recordações que ia recebendo das ruas e das casas. um trecho de praia. senti-me tão cruel e perverso que peguei no rapaz.ivuo euq od sioped . mas recuei.. ao fim do dia. e quis apertá-lo ao coração. Quando esta idéia me atravessou o cérebro. mas há febres por todas⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪ ⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪൯ 尊慰?敜摭獡?繜屎攧漳栠❜ㅥ焠敵攠灸楬慣? 獩敳攠??灜牡尠浥慤桳尠䡾❜ㅥ琠摵㭯渠❜㍥ 湥整摮獡琠慵?屬攧朱楲慭?敮獡搠?穅煥極汥 屎繜?獡摭敜?慰尊൯ 獡攧屣潶?牴湥?癵 ?畑 潭 ? 档 物癵漠敵焠略摮潰獥爠畴楰慃?慰尊൯ 敳獩搠敨氠敵焠漠畩癵漠漳攧 ⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪ oãn ue ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ ⨪ é euQ . como se as casas morressem meninas. Ezequiel falou-me em uma viagem à Grécia.adan aidnopser mu adnia ahnit sam .oãçairc aut ad aid o edsed . — De que sexo? perguntei rindo.uednopser em méugniN “?leiuqezE ed oãçairc ad aid o aires odnauQ” :odalac .otium res edop oãn . e respondeu-me que as mulheres eram criaturas tão da moda e do dia que nunca haviam de entender uma ruína de trinta séculos.sohnimac suet son otiefrep sare uT” :otnemelpmoc mu siam ía siE .otaxe are euq iehca e .otser o rivuo ossop . Assim acontecia sempre que voltava para casa.. os olhos que ele me deitou foram ternos e agradecidos. como se faz a um filho de verdade. Ao cabo de seis meses. e era todo alegria.torre. Comigo disse que uma das conseqüências dos amores furtivos do pai era pagar eu as arqueologias do filho. Prometi-lhe recursos.odut agid — . e dei-lhe logo os primeiros dinheiros precisos. encarei-o depois. e à Palestina. promessa feita a alguns amigos. Sorriu vexado. ao Egito.

espiava. ia até a esquina. dava-lhe o braço. por mais lacerada que tenha sido. se aparecia outra visita. os quadros históricos ou de gênero. e as metia dentro. é verdade. entrávamos. um pastel. consultava o relógio. ou se fartam de vê-la. uma gouache. e o Resto? . esperando. não ficou aí para um canto como uma flor lívida e solitária. e. Vivi o melhor que pude sem me faltarem amigas que me consolassem da primeira. — Levas o catálogo? — Levo. e maiores recomendações. e ia embora com o catálogo na mão. CAPÍTULO CXLVIII E Bem.. se chovia. Não voltavam mais. com grandes despedidas. eu é que ia buscar um carro de praça. uma aquarela. Não lhe dei essa cor ou descor. Eu ficava à porta. e.. — Até amanhã. mostrava-lhe as paisagens. Uma só dessas visitas tinha carro à porta e cocheiro de libré. calcante pede. Elas é que me deixavam como pessoas que assistem a uma exposição retrospectiva. ou a luz da sala esmorece. e não via nada nem ninguém. Então.CAPÍTULO CXLVII A Exposição Retrospectiva Já sabes que a minha alma. Caprichos de pouca dura. até amanhã. As outras iam modestamente. e também esta cansava.

se soubesse dos meus primeiros ciúmes. ou se foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente.” Mas eu creio que não. se te lembras bem da Capitu menina. e é a suma das sumas. nem os de cigana oblíqua e dissimulada. hás de reconhecer que uma estava dentro da outra. uma coisa fica. que a minha primeira amiga e o meu maior amigo.Agora. quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me. Mas não é este propriamente o resto do livro. como no seu cap. filho de Sirach. Jesus. qualquer que seja a solução. tão extremosos ambos e tão queridos também. a saber. O resto é saber se a Capitu da praia da Glória já estava dentro da de Matacavalos... como a fruta dentro da casca. vers. e tu concordarás comigo. I: “Não tenhas ciúmes de tua mulher para que ela não se meta a enganar-te com a malícia que aprender de ti. por que é que nenhuma dessas caprichosas me fez esquecer a primeira amada do meu coração? Talvez porque nenhuma tinha os olhos de ressaca. ou o resto dos restos. dir-me-ia. E bem. IX. A terra lhes seja leve! Vamos à História dos Subúrbios. .

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful