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Ministério da Educação

Universidade Tecnológica Federal do Paraná


Gerência de Ensino e Pesquisa
UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA FEDERAL DO PARANÁ
Departamento Acadêmico de Comunicação e Expressão

Literatura
BrasiLeira

2010
Índice

O QUE É LITERATURA............................................................................................. 5
GÊNEROS LITERÁRIOS ......................................................................................... 7
ESTILO DE ÉPOCA .................................................................................................. 35
QUINHENTISMO ...................................................................................................... 37
BARROCO ................................................................................................................ 41
ARCADISMO ............................................................................................................ 51
ROMANTISMO ......................................................................................................... 65
REALISMO - NATURALISMO ................................................................................... 109
PARNASIANISMO .................................................................................................... 127
SIMBOLISMO ........................................................................................................... 139
O PRÉ-MODERNISMO NO BRASIL ........................................................................ 157
MODERNISMO ......................................................................................................... 179
LITERATURA PÓS 1964 .......................................................................................... 251
O que é
literatura

O objetivo deste estudo é fazer o aluno compreender melhor o que lê e, em compreendendo, desfrutar
os prazeres estéticos da literatura.
Primeiramente, é importante que se questione e se pense sobre o que vem a ser uma obra literária.
Muito se tem discutido sobre esse assunto, mas não há um consenso em torno de uma definição única sobre
o que é literatura. Na bibliografia especializada em teoria da literatura, encontramos inúmeros conceitos sobre
a arte literária. Essa pluralidade de definições e visões sobre o objeto estético-literário demonstra que o homem
pensa e interpreta a literatura de modos diferentes, dependendo da corrente filosófica (Marxismo,
Estruturalismo, Formalismo, Psicologismo, etc.) a que esteja ligado, bem como do contexto sócio-histórico em
que esteja inserido (Renascimento, Romantismo, Contemporaneidade, etc.). A seguir, arrolamos algumas
colocações sobre o fazer literário a partir da opinião de alguns teóricos e escritores.

“Um homem tem o ímpeto de se tornar artista porque ele necessita encontrar a si mesmo.
Todo escritor tenta encontrar a si mesmo através de suas personagens em todos os seus escritos.
Sei que existem homens que possuem mais ou menos os mesmos problemas que eu, com maior
ou menor intensidade, e que ficarão felizes em ler o livro e encontrar a resposta se é que ela pode
ser encontrada.”
(George Simenom, escritor francês)

“Um escritor precisa de três coisas: experiência, observação e imaginação. Comigo uma
história, geralmente começa com uma ideia ou memória ou imagem mental. Escrever uma história
é apenas uma questão de ir construindo esse momento, de explicar o que aconteceu ou o que
provocou a seguir. Um escritor está sempre tentando criar pessoas verossímeis em situações
comoventes e críveis da maneira mais comovente possível.”
(William Faulkner, escritor norte-americano)

“Literatura e sociedade não podem se ignorar, já que a própria literatura é um fenômeno


social. Em primeiro lugar, porque o artista - por mais originária que seja sua experiência vital - é
um ser social; em segundo, porque sua obra - por mais profunda que seja a marca nela deixada
pela experiência originária de seu criador, por singular e irrepetível que seja sua plasmação, sua
objetivação nela - é sempre um traço de união, uma ponte entre o criador e outros membros da
sociedade; terceiro, dado que a obra afeta aos demais, contribui para elevar ou desvalorizar neles
certas finalidades, ideias ou valores, ou seja, é uma força social que, com sua carga emocional ou
ideológica, sacode ou comove aos demais. Ninguém continua a ser exatamente como era, depois
de ter sido abalado por uma verdadeira obra literária.”
(Adolfo Sanchez Vásques, teórico espanhol)

“A literatura é um fenômeno estético. É uma arte da palavra. Não visa a informar, ensinar,
doutrinar, pregar, documentar. Acidentalmente, secundariamente, ela pode fazer isso, pode conter
história, filosofia, ciência, religião. O literário e o estético inclui precisamente o social, o histórico,
o religioso, etc., porém transformando esse material em estético”.
(Afrânio Coutinho, crítico literário brasileiro)

Notamos que há pontos comuns sobre o que é o literário nas opiniões citadas acima. Percebemos que
a ligação entre literatura e realidade social se apresenta de modo orgânico e vital, visto que o escritor, produtor
literário, enquanto ser histórico, não se desvincula de seu tempo e de seus semelhantes, escrevendo sobre a

Literatura Brasileira * 5
realidade da qual faz parte. O escritor recorta do real determinados acontecimentos e situações, plasmando-
os a partir da forma literária (romance, conto, novela, poema, drama, tragédia, comédia). Ocorre, portanto,
uma ficcionalização da realidade, visto que esta adentra o universo das palavras, da literatura. Essa
transferência da realidade para a ficção ocorre segundo a visão de mundo do escritor, ou seja, ele poderá
representar a realidade sócio-histórica de diferentes maneiras. Operará uma transfiguração do real segundo
sua visão da existência, que poderá se efetivar como trágica, cômica, cética, otimista, mística, realista,
romântica, entre outras possibilidades.
A questão da literatura enquanto conhecimento sobre o humano também é colocada, demonstrando
que a obra literária é uma meditação sobre a existência, à medida que representa no plano da ficção, da
literatura, o homem estabelecendo relações de ordem objetiva, social, política com o outro.
A obra literária, portanto, pode ser entendida como um produto socioestético à proporção que é
articulada por um ser social, o escritor, que escreve sobre determinada realidade a partir de uma ótica e uma
escrita pessoais. Autor, obra e público formam um conjunto imprescindível para que a obra se configure
enquanto produto social capaz de interferir na realidade. A obra literária tem o poder de modificar a realidade
porque leva a pensar e a questionar sobre a condição social do ser humano e este, em pensando, pode ativar
determinadas mudanças no comportamento e nas práticas sociais.
Após essa breve dissertação sobre o fazer literário, passaremos a apresentar os gêneros literários.

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Gêneros
literários

1. ConCeituação ausência de certas formas artísticas no universo


cultural.
Gêneros literários são as diversas
modalidades de expressão literária, agrupadas em
função das diferentes maneiras de o escritor ver e 2. os gêneros literários na
sentir o mundo. A escolha de dado gênero literário história
permite ao escritor passar uma certa visão de mundo
(trágica, cômica, exaltativa, sentimental, satírica) a A linguagem, a ciência, a política e as artes,
partir de uma forma específica (tragédia, comédia, ou seja, o universo das representações, são meios
epopeia, poema, paródia, etc.). Há escritores que que permitem ao homem interpretar e explicar o
somente se comunicam pela forma contística, outros mundo em que está inserido e nele interferir. As
pela tragédia e ainda outros pelo poema, visto que manifestações culturais e, entre estas, as artísticas
os gêneros literários se constituem, essencialmente, remontam há séculos na história do homem. Dentro
em formas fundamentais de o escritor se colocar do vasto campo de produção artística elaborado pelo
diante da vida. Dalton Trevisan se expressa através homem, a Literatura e sua formalização através dos
do conto; Nelson Rodrigues prefere o drama; João gêneros literários será nosso objeto de estudo. Para
Cabral de Melo Neto, o poema e Guimarães Rosa, a tal estudo, teremos que retroceder no tempo,
narrativa longa. Além da preferência pessoal dos reportando-nos à Antiguidade Greco-latina, período
escritores, não podemos esquecer que cada época em que ocorre significativa teorização sobre os
histórica, de acordo com uma dada infraestrutura gêneros literários, pertinente, sob muitos aspectos,
mental predominante (religiosa, científica, impe- até o presente momento.
rialista, pacífica, etc.), representa e interpreta o Platão (428-347 a.C), no livro III da República
mundo de modo diferente. Assim sendo, para cada deixou-nos a primeira referência, no pensamento
época há um modo de representação artística ocidental, aos gêneros literários. Para Platão, toda
específica, ocorrendo, às vezes, a hegemonia de manifestação artística é mimética, ou seja, imita a
certo gênero literário. Por exemplo, no período realidade. Porém, essa imitação é de terceiro grau,
clássico houve predomínio do poema épico e da visto que o filósofo, embasado em uma orientação
tragédia, visto que nesses gêneros os heróis, espiritualista, crê que a verdadeira essência das
oriundos de classe social elevada, representavam no coisas, seres e fatos existe num primeiro plano mais
plano artístico a aristocracia detentora do poder elevado moralmente, que seria o mundo ideal. Num
naquele momento. No século XIX, com a ascensão segundo plano, ocorreria o mundo dos homens
socioeconômica da burguesia, ocorre a hegemonia (sócio-histórico), que apenas imitaria o primeiro
do romance, à medida que este representa o plano. E, por último, o plano artístico, mais afastado,
universo burguês. Além disso, ocorre a criação do imitaria o segundo plano, constituindo-se, assim, na
drama burguês, fundindo a tragédia e a comédia. No imitação da imitação, reproduzindo somente o que
período em que vigora o Simbolismo, embasado por há de superficial no mundo dos homens. A
uma visão mística e transcendental da existência, classificação dos gêneros em Platão é triádica e se
observa-se a prevalência da poesia, meio mais realiza sobre o modo enunciativo, ou seja, pauta-se
próprio para expressar tal concepção da existência. sobre quem apresenta o universo narrado. Assim
Observamos, então, que há uma explicação sendo, na poesia ditirâmbica impera a voz do poeta;
histórico-social para o surgimento, predomínio e na tragédia e comédia predomina a voz das

Literatura Brasileira * 7
personagens, ocultando-se a voz do autor e na mudança, nasceram outras formas do artístico que
epopeia ocorre um misto, englobando as vozes do precisavam de uma nova interpretação.
poeta e das suas criações. Somente a partir do século XVI é que o gênero
Para Aristóteles (384-322 a.C), a base de lírico (poesia) passa a receber uma teorização
todos os gêneros, também, fundamenta-se na específica e aí se retoma a classificação platônica
imitação. As manifestações artísticas imitam as do ato enunciativo. Na representação dramática não
ações, os caracteres e as paixões dos homens. ocorre a intervenção do autor; na lírica, as reflexões
Porém, diferentemente de Platão, Aristóteles não do poeta se apresentam diretamente por ele mesmo
desvaloriza a arte como imitação de terceira ordem, e, na épica, ocorre um misto, ora falando o autor, ora
mas a vê como algo que apreende o geral e o as personagens introduzidas por ele.
universal presente nos seres e nos eventos Em meados do século XVIII, com o início do
particulares, contribuindo para a edificação moral do Romantismo alemão, a teorização prescritiva e
homem. O filósofo grego classifica os gêneros de normativa passa a ser questionada em prol da
acordo com os fatores formais e conteudísticos liberdade de criação e da hibridação dos gêneros. O
específicos de cada um. A tragédia e a epopeia movimento romântico, triunfante no século XIX,
imitam os homens melhores do que realmente são valoriza a criatividade individual, a genialidade do
(de mais elevada psique) a partir de uma linguagem artista e o transbordar da expressão interior,
nobre, formal, erudita. Já a comédia, utilizando-se de incompatíveis com a rigidez clássica (horaciana) que
uma linguagem licenciosa, imita o homem inferior e vê na imitação dos clássicos o único caminho
o risível da condição humana. Notamos que em possível para a arte. Friedrich Schlegel, romântico
Aristóteles não ocorre uma divisão triádica dos alemão, distingue a lírica como uma produção em
gêneros literários. que predomina o caráter subjetivo (a vida interior do
Horácio (65 a.C - 8 d.C), teorizador latino, poeta), a épica como voltada para o mundo objetivo,
recupera, sobretudo com sua Ars Poética, o o exterior, e o drama seria um misto entre
pensamento de Aristóteles, influenciando a objetividade e subjetividade.
concepção de gênero imperante na Idade Média, no No Romantismo, condena-se a imutabilidade
Renascimento e no período Neoclássico. A sua dos gêneros literários, que passam a ser vistos como
teoria sobre os gêneros é normativa, entendendo-os produções socioculturais modificáveis em decor-
como entidades autônomas e imutáveis. As obras rência das mudanças históricas que ocorrem na
clássicas da cultura grego-Iatina (tragédias, realidade social. Além dessas mudanças, há também
comédias, epopeias) passam a se constituir em a vontade do artista, que determina de modo
paradigmas a serem imitados pelos autores. Para substantivo a mudança nos gêneros literários.
Horácio, segundo a tradição aristotélica, há uma Dentro dessa visão histórica da arte, alguns teóricos
hierarquia entre os gêneros. Os gêneros maiores românticos classificam a lírica como uma forma que
(epopeia, tragédia) representam um universo em que representa o tempo presente; a épica, o passado e
transitam personagens de mais elevado estrato no drama ocorreria uma orientação para o futuro.
social e os gêneros menores (comédia, farsa) Victor Hugo, escritor francês romântico, faz a
veiculam personagens e situações oriundas de apologia da simbiose dos gêneros em seu famoso
estratos sociais mais baixos. Para Horácio, a arte prefácio à peça teatral Cromwell (1827). Nesse
devia unir o útil ao agradável, objetivando ensinar, prefácio, o poeta observa que a beleza decorre da
deleitando. síntese dos contrários, ou seja, do cômico e do
Em 1690 houve a famosa querela entre os trágico juntos na mesma manifestação artística,
antigos e os novos, pois muitos teóricos e escritores surgindo, então, o drama romântico. Essa orientação
não aceitavam mais as artes poéticas baseadas em do Romantismo pela mistura e hibridismo dos
Horácio, visto que havia toda uma produção artística gêneros é concebida por uma visão de mundo
(o romance, a tragicomédia, a pastoral dramática) libertária que vê o poeta, o ficcionista, o dramaturgo
que não se encaixava na teorização tradicional, como criadores e não como imitadores. Essa
respaldada em Aristóteles. Sentiu-se naquele concepção da simbiose dos gêneros será
momento que o homem havia mudado e, com essa largamente retomada no século XX, sendo ampliada.

8 * Literatura Brasileira
O século XIX, além do apogeu do concepção formalista, o escritor é um operador à
Romantismo, também viu nascer e firmarem-se as proporção em que capta e seleciona alguns
teorias materialistas (Marxismo, Positivismo, aspectos formais do sistema literário que existe
Evolucionismo, Determinismo). Dentro de uma antes dele para confeccionar o seu texto. Esse é o
orientação cientificista, alguns teóricos do fenômeno resultado de combinações de formas já existentes.
literário passam a explicar os fatos artísticos como Para Roman Jakobson, teórico russo, os
se eles fossem fatos naturais. Brunetire (1849-1906) gêneros estão associados às funções da linguagem.
explica os gêneros literários a partir de uma ótica Para ele, o ato comunicativo (oral ou escrito) se
biologizante e evolucionista. Dentro de uma constitui a partir de uma inter-relação entre emissor
concepção de seleção natural dos mais fortes, e destinatário. Dependendo do objetivo da
haverá gêneros fortes e gêneros fracos. Estes comunicação, predominará uma dada função. As
últimos seriam suplantados por aqueles, como, por funções da linguagem, segundo Jakobson, são seis.
exemplo, a tragédia clássica substituída pelo drama Função Referencial é aquela em que prevalece o
e a epopeia, pelo romance. Brunetire explica a referencial, ou seja, o extra-artístico (o mundo e seus
decadência e o surgimento de certos gêneros a partir momentos). O emissor do texto enfoca de modo
da Biologia, interpretando-os como organismos vivos
mais objetivo aspectos do mundo real. A Função
cujas mutações independem da vontade dos artistas
Apelativa ocorre quando o falante, o emissor, centra
ou das condições sociais em que estes últimos estão
o texto no receptor da mensagem. A Função
inseridos. Despreza, assim, os fatores históricos
Expressiva demonstra as impressões bastante
(ascensão de uma nova classe ao poder, novas
subjetivas do emissor. Ocorre a Função
necessidades do espectador e do leitor, mudanças
Metalinguística quando o emissor fala sobre a
ideológicas) que são causas exógenas ao sistema
própria linguagem. A Função Fática visa a testar se
literário, mas que determinam sobremaneira as
a comunicação entre emissor e receptor está se
mudanças dentro do universo das produções
efetuando. E a Função Poética é aquela em que o
literárias.
emissor se utiliza dos aspectos sonoros, visuais e
formais das palavras para maximizar a comunicação.
Essa função predomina nos textos literários em que
os aspectos estruturais da linguagem são muito
3. algumas teorias sobre os
relevantes. Obviamente, diz o teórico, que num ato
gêneros no séCulo xx
comunicativo podem estar presentes simulta-
neamente todas as funções, mas, geralmente,
No século XX surgem várias teorias sobre os
dependendo das intenções do emissor, há o
gêneros literários. Algumas retomam conceitos
predomínio de uma delas. Exemplos de excertos e
anteriores, adaptando-os ao novo momento
suas respectivas funções de linguagem predomi-
histórico.
nantes:
As correntes mais formalistas entendem que
todo texto literário (conto, crônica, poema, romance)
Função Referencial:
articula determinados elementos formais que o
inserem em um determinado gênero. Assim, os “Eis São Paulo às sete da noite. O trânsito caminha
gêneros são macroestruturas e os textos realizam lento e nervoso. Nas ruas, pedestres apressados se
alguns elementos dessas estruturas. O autor, na atropelam.”
realidade, não cria algo inteiramente novo, mas
combina determinadas funções, elementos,
organizando-os formalmente num texto que, Função Apelativa:
dependendo de suas características, pertence a um “Chora de manso e no íntimo... Procura
gênero específico. Nessa linha, os gêneros são Curtir sem queixa o mal que te crucia:
vistos mais como uma realidade formal que uma O mundo é sem piedade e até riria
forma de um conteúdo, visto que nesta o criador de Da tua inconsolável amargura.”
um texto produz algo original e singular. Na (Manuel Bandeira)

Literatura Brasileira * 9
Função Expressiva/Emotiva: dramático, ocorre a ocultação do poeta e na ficção
“É noite. Sinto que é noite (romance) a audiência é inespecífica. Dentro dessa
não porque a sombra descesse linha interpretativa, temos também Mikhail Bakhtin,
(bem me importa a face negra) teórico russo deste século que distingue o lírico do
mas porque dentro de mim, romanesco, colocando aquele como um discurso
no fundo de mim, o grito direto em que o poeta é quem fala, ou seja, a poesia
se calou, fez-se desânimo” é uma fala unilinguística e o romance é classificado
(Carlos Drummond de Andrade) como um discurso indireto em que as falas das
personagens são apresentadas indiretamente pelo
Função Metalinguística: narrador. No discurso romanesco, há uma
pluralidade de vozes (várias personagens
“Eu faço versos como quem chora
posicionam-se sobre um dado assunto). Já, na
De desalento... de desencanto...
poesia, apenas a voz do poeta coloca-se em relação
Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
à determinada problemática. Outro é o caso do
Tristeza esparsa... remorso vão...
drama, visto que aí se estabelece o discurso direto
Dói-me nas veias. Amargo e quente
de várias personagens sem a interferência do
Cai, gota a gota, do coração.”
narrador.
(Manuel Bandeira)
Para Bakhtin, o romance se distinguiria da
epopeia à proporção que esta serve para exaltar o
Função Fática:
passado lendário e místico de um povo, uma
“O senhor não acha? Me declare franco, peço. comunidade. Aqui, o narrador, separado temporal-
Ah, lhe agradeço. Se vê que o Senhor sabe muito, em mente dos fatos, valoriza-os e enaltece-os. No
ideia firme, além de ter carta de doutor.” romance, o narrador, tendo ou não ligação direta
(Guimarães Rosa) com os fatos narrados, apresenta-os a seu modo,
podendo denegri-los, exaltá-los ou simplesmente
Função Poética: expô-Ios de modo mais ou menos isento de juízo de
“Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada valor.
E triste, e triste e fatigado eu vinha. Modernamente, alguns teóricos têm explicado
Tinhas a alma de sonhos povoada, a questão dos gêneros de maneira a distinguir o
E a alma de sonhos povoada eu tinha.” modo literário do gênero literário. O modo literário
(Olavo Bilac) seria uma categoria atemporal e imutável. Haveria o
modo satírico, o modo trágico, o modo elegíaco, que
Para Jakobson, em todas as manifestações podem estar presentes nas diversas manifestações
artístico-literárias, independentemente do gênero ao literárias (poesia, tragédia, romance, crônica, conto,
qual pertença, ocorre o predomínio da função etc.), independentemente da forma que toma cada
poética, visto que a literatura não se importa texto escrito. Já os gêneros literários seriam
somente em formalizar um conteúdo, mas sim em categorias históricas e mutáveis que, dependentes
“como” esse conteúdo é veiculado, ou seja, a forma da visão de mundo do autor, da época em que ele
do conteúdo é imprescindível à medida que a vive e das expectativas da audiência social,
literatura é a arte de organizar bem as palavras. sofreriam mutações e transformações. Nesse
Outro teórico de renome que se posiciona posicionamento, ocorre dicotomia entre o conteúdo e
sobre os gêneros é Northrop Frye. Em seu livro a forma, visto que aquele se constitui como algo
Anatomy of Criticism (1957), explica os gêneros a universal, ou seja, o trágico, o elegíaco, o satírico
partir das relações que o autor estabelece com o estabelecem-se independentemente do espaço e do
público. No épico, haveria uma relação direta, pois a tempo. Já a forma que veicula o conteúdo é histórica.
audiência é viva, concreta. Aqui a narrativa seria oral, Assim, temos que o espírito trágico que está
com presença do público. No lírico, o público exterior presente na tragédia grega seria o mesmo que
não interfere, mas, sim, o poeta fala consigo mesmo, ocorreria nas obras modernas cuja visão de mundo
com uma musa, com Deus, com a natureza, etc. No é trágica. Para exemplificar e confirmar de certa

10 * Literatura Brasileira
forma essa interpretação, podemos pensar na apresentam, até porque isso constitui um problema
tragédia grega Medeia e na peça Gota d’Água de ainda em discussão, uma vez que é bastante atual e
Chico Buarque. Ambas apresentam uma visão a distinção e a análise das formas em prosa
trágica do mundo e dos homens, mas a partir de constituem questões relevantes da teoria e da
formas do texto bastante diferenciadas. filosofia literária. Na verdade, antes do século XVIII,
Após essa visão histórica e teórica, quase tão somente a poesia interessava aos teóricos
percebemos que é difícil chegar a uma conclusão e pensadores da Literatura (era a poesia dividida em
fechada e única sobre os gêneros literários. Com lírica, épica e dramática).
esse cabedal de informação que documentamos, Entre as técnicas, estilos, maneiras narrativas
devemos pensar tal problemática de forma aberta, ou formas narrativas - aquelas em que os literatos
tentando não classificar um texto rigidamente num (escritores) utilizam o método indireto de interpretar
determinado gênero, mas antes apreender o texto a realidade (utilizam-se de uma história que encorpe
como um conteúdo (o mundo, o homem repre- a realidade) -, a ficção é, contemporaneamente, a
sentados) que passa uma dada visão de mundo do que tem as preferências do grande público, quando
autor. Este, sem dúvida, deve ser contextualizado se trata da arte de contar histórias.
dentro de sua época histórica que vê as coisas, os Entendamos por Literatura de Ficção aquela
homens, a natureza de um modo específico. Este que contenha uma história inventada ou fingida,
último mais a concepção de vida do autor vão imaginada, resultado de uma invenção imaginativa,
determinar a forma do texto que pode se conformar com ou sem intenção de iludir.
rigidamente a determinados cânones (época grega, Portanto, na ficção e na epopeia (texto em
classicismo, neoclassicismo) ou fazer a opção pela verso, que narrava atos heroicos, o nacionalismo, o
liberdade de expressão, hibridismo, fusão de heroísmo, o maravilhoso dos feitos dos heróis
gêneros (barroco, romantismo, modernidade). nacionais), o autor, através da palavra, interpreta a
vida e a expressa por uma história.
Assim, a essência da ficção é também a
4. DesCrição Dos gêneros narrativa, porque reacende o velho instinto humano
de contar e ouvir histórias. Mas só terão valor literário
as histórias que mostrarem uma técnica de arranjo e
4.1 GÊNERO ÉPICO OU NARRATIVO apresentação que comunicará à narrativa estrutura,
beleza de forma e unidade de efeito. Para isso, os
A produção literária, durante muitos séculos, episódios da narrativa tornam o enredo complexo o
foi predominantemente realizada em versos. O ato suficiente para quase terem vida própria.
de contar uma história era levado a efeito pelo Assim é que a ficção é um produto da
poema épico ou epopeia. Mas, com o advento do imaginação criadora, pois, embora tenha as suas
Romantismo e a consequente criação do romance, raízes mergulhadas na experiência humana, ela não
no sentido moderno do termo, a tarefa de contar uma pretende fornecer um simples retrato da realidade,
história passou a ser desempenhada por essa nova mas recriar uma imagem da realidade, uma
espécie, bem como por outras espécies, como o reinterpretação, pois ela é o espetáculo da vida
conto e a novela. Diante disso, alguns teóricos através do olhar interpretativo do artista-autor; então,
entenderam que a nomenclatura gênero épico era é a interpretação artística da realidade.
insuficiente para dar conta de toda uma produção A ficção pode ficar próxima ou distante do
romanesca que pouco tinha em comum com o reino da experiência humana real. Quando ela se
poema épico. Eis por que a denominação do gênero deixa dominar pelo real, temos a ficção realista;
que estamos estudando apresenta alternativas: quando ela foge ao real, surge a ficção romântica ou
épico (para respeitar a origem histórica) ou narrativo fantasista.
(para acompanhar a evolução da criação literária). É preciso traçar uma linha de distinção entre
O Gênero Épico ou Narrativo (geralmente em ficção, história e biografia, porque estas são
prosa) oferece grande dificuldade quando se tenta narrativas comprometidas com os fatos
diferenciar as diversas formas de prosa que se absolutamente reais e a ficção não; mesmo quando

Literatura Brasileira * 11
se recebe influência dos fatos reais, ela (a ficção é um comportamento convencionalizado e estere-
livre para não copiá-Ios ou reproduzi-Ios fielmente). otipado. Identifica-se pela recorrência do mesmo
Então, vale dizer que ela seleciona, omite, arruma elemento e não através da acumulação de
os dados da experiência de tal forma que faz surgir elementos diversificados. Por exemplo: uma
um plano novo, de acordo com a interpretação que o personagem que usa sempre o mesmo tipo de
autor faz da realidade. roupa, anda invariavelmente nos mesmos lugares e
Cabe agora teorizar acerca dos elementos com as mesmas companhias, procurando os
estruturais que compõem um texto narrativo-ficcional mesmos divertimentos, e cuja vida interior não é
(romance, conto, novela, crônica): personagem, preocupação da narrativa é, sem dúvida, uma
ponto de vista, linguagem, tempo, ação e espaço, ou personagem plana.
seja, acerca dos elementos da obra de ficção. Carolina, personagem principal do romance A
Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo;
Leonardo Pataca, em Memórias de um Sargento de
4.1.1 ELEMENTOS DA OBRA DE FICÇÃO Milícias, de Manuel Antonio de Almeida, e Sinhá
Vitória, em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, são
A) A PERSONAGEM DE FICÇÃO: alguns exemplos.

A personagem é um ser fictício, criada pelo PERSONAGENS REDONDAS OU


autor para povoar a sua história, veicular ESFÉRICAS
determinadas ideias e vivenciar certas situações.
Este ser fictício é fruto da imaginação e da As personagens redondas ou esféricas, ao
observação da realidade, realizando-se ora como ser contrário, oferecem uma complexidade muito
inventado, construído de palavras, ora enquanto acentuada, apresentando multiplicidade de
cópia dos seres humanos à proporção que passam características, pois são densas, enigmáticas,
por conflitos e enfrentam situações-limite em que se
contraditórias e, por vezes, rebeldes. São
revelam aspectos essenciais da vida humana:
personalidades complexas cujo procedimento é uma
aspectos trágicos, sublimes, demoníacos, grotescos
interrogação; ninguém sabe ao certo como pensam
ou luminosos. Através do contato entre personagens
e agem. A densidade e a riqueza dessas
e leitor, este pode viver e contemplar outras
personagens, porém, não as transformam em casos
vivências, passando a ter um entendimento e uma
de absoluta atipicidade. O leitor, através das paixões
visão mais profunda de si mesmo e de seus
vivenciadas por elas e de suas qualidades e defeitos,
semelhantes.
percebe-as enquanto seres humanos possíveis de
A diversidade das personagens que habitam
as narrativas ficcionais levou alguns teóricos da se encontrar na realidade social. Geralmente, as
literatura a estabelecer uma certa tipologia que personagens centrais de uma narrativa são
intenta classificá-Ias. Dentro de uma certa linha redondas. Na Literatura Brasileira, podemos citar
classificatória, teremos personagens ditas planas, inúmeras personagens que geram surpresa,
redondas ou esféricas, tipos e caricaturas, que leva espanto, comoção porque complexas, misteriosas e,
em consideração a postura, o comportamento de tais principalmente, “humanas”. Por exemplo, Capitu do
personagens. Quanto à posição ocupada por elas na romance D. Casmurro, de Machado de Assis e Paulo
narrativa, podem ser definidas como protagonistas, Honório, do romance São Bernardo, de Graciliano
antagonistas, principais, secun-dárias. Ramos.

PERSONAGENS PLANAS PERSONAGEM TIPO

Em geral, a personagem plana não altera o A personagem tipo é, geralmente, a


seu comportamento no decurso da narrativa e, por representante de um grupo nacional, regional, social,
isso, nenhum ato ou nenhuma reação de sua parte ideológico, etc. O tipo não se transforma, não evolui,
podem surpreender o leitor. É, portanto, desprovida desconhecendo as mudanças íntimas (afetivas,
de profundidade psicológica e dramática, exibindo psicológicas, ideológicas) que fariam dele uma

12 * Literatura Brasileira
personagem redonda e individualizada. Como B) PONTO DE VISTA OU FOCO NARRATIVO:
exemplo, temos Rodrigo Cambará, em Um Certo
Capitão Rodrigo, de Érico Veríssimo, porque essa Histórias são contadas desde sempre e, quem
personagem se caracteriza pelas vestes, gestos, fala as conta, narra o que viu, o que viveu, o que
e atos como um típico gaúcho. Nos romances de testemunhou mas também o que imaginou, o que
Jorge Amado, os coronéis, as prostitutas e as beatas sonhou e o que desejou. Entre as histórias e o
são tipos, uma vez que encarnam comportamentos público, sempre se interpõe a figura do narrador.
padronizados e estandardizados socialmente. Este é uma das criações do ficcionista, ou seja, uma
personagem. O narrador não representa o verda-
deiro autor porque este é uma pessoa de carne e
PERSONAGEM CARICATURA osso e aquele, um ser fictício, construído de
palavras. Autor e narrador, embora seres distintos,
A personagem considerada caricatura é podem comungar de determinadas ideias. A seguir
aquela cujas qualificações ou traços são transcrevemos um trecho retirado do romance Bufo
apresentados de modo exagerado. Exemplo: & Spallanzani de Rubem Fonseca, em que se coloca
Odorico Paraguassu, da novela O Bem Amado de a questão do narrador / autor:
Dias Gomes e o personagem Pedro, de A
“Vou-lhe dizer uma coisa: o ponto de vista, a
Polaquinha, de Dalton Trevisan. Este personagem
opinião, as crenças, as presunções, os valores, as
(Pedro) é um motorista de ônibus cujas taras
inclinações etcetera dos personagens, mesmo os
sexuais, grosseria e ignorância são exageradamente
principais, não são necessariamente os mesmos do
ampliadas.
autor. Muitas vezes o autor pensa exatamente o
oposto do seu personagem”.
Além da classificação vista, há outra, que
decorre da importância que a personagem desfruta Há dois modos básicos de narrar uma história:
dentro da história, qual seja: protagonista ou em primeira pessoa (eu) no qual o narrador participa
principal para as mais importantes, visto que a da história e em terceira pessoa (ele) em que não
narrativa se desenvolve sobre e a partir delas mais ocorre parcitipação direta do narrador da história.
concretamente; e as secundárias, menos rele-
vantes, às vezes episódicas e acessórias. Há, NARRAÇÃO EM TERCEIRA PESSOA
também, a antagonista, que se contrapõe à
personagem principal. a) O narrador conhece tudo sobre as demais
De modo geral, a personagem central é uma personagens (sentimentos, pensamentos e
pessoa de quem o ficcionista narra as aventuras e segredos) e os fatos. Comenta, analisa e se introduz
desventuras. Porém, há romances em que animais, em tudo. Configura-se como um “deus” que possui
cidades, cortiços, guetos, famílias, grupos sociais plena consciência sobre o que se passa no universo
funcionam como personagens. Por exemplo, em ficcional. É chamado de narrador onisciente.
Vidas Secas, de Graciliano Ramos, a cachorra Exemplo:
Baleia é humanizada, ascendendo a “status” de
“A meia rua, acudiu à memória de Rubião a
personagem; em O Cortiço, de Aluísio Azevedo, o
farmácia: voltou para trás, subindo contra o vento,
próprio cortiço miserável, promíscuo e turbulento se
que lhe dava de cara, mas ao fim de vinte passos,
transforma em personagem; em Germinal, de Zola,
varreu-lhe a ideia da cabeça, adeus farmácia
as minas de carvão funcionam como personagem;
adeus, pouso!”
em As vinhas da Ira, de John Steinbeck, a
(Quincas Borba, Machado de Assis)
personagem fundamental é a legião de homens das
regiões secas e pobres do sul dos Estados Unidos b) O narrador, embora domine todos os fatos,
que emigram em busca de terra fértil e, em Capitães não invade o interior das personagens. Esta posição
da Areia, de Jorge Amado, o grupo de menores cria um efeito de objetividade maior porque o
marginais se configura como personagens do narrador prefere se manter do lado de fora das
romance. personagens, comentando-Ihes as ações e

Literatura Brasileira * 13
comportamentos visíveis em vez de entrar-Ihes na C) LINGUAGEM
mente. Evitando comentar sobre o que pensam as
personagens, estas tornam-se mais enigmáticas Pensando-se em literatura, temos neces-
para o leitor. É chamado de narrador observador. sariamente que falar sobre a linguagem porque é
Exemplo: somente por seu intermédio que o escritor pode
“O rosto de Spade estava calmo. Quando seu realizar a sua obra. O mundo ficcional é apresentado
olhar encontrou o dela, seus olhos, amarelo- ao leitor através de determinados recursos de
pardos, brilharam por um instante com malícia, e linguagem dos quais estudaremos alguns:
depois tornaram-se novamente inexpressivos. Ela a) DISCURSO DIRETO: Nesse discurso, o
saiu e quando voltou, olhou de novo para Spade narrador deixa as personagens falarem diretamente,
que não respondeu aos apelos dos olhos da introduzindo-Ihes a fala por verbos denominados
moça. Encostado no batente, olhava a rua com ar “verbo de dizer” (dizer, responder, retrucar, afirmar,
desprendido.” falar, etc.). Tudo se passa como se o leitor estivesse
(Falcão Maltês, Dashiel Hammet) ouvindo literalmente a fala das personagens. Este
recurso diferencia, com bastante nitidez, a fala do
narrador da fala das personagens. Exemplo:
NARRAÇÃO EM PRIMEIRA PESSOA “Eugênio escutava a conversa dos pais que era
entrecortada de silêncios longos, de suspiros e
a) O narrador pode ser uma personagem gemidos abafados. Houve um momento em que
secundária que participa da história, vivenciando os o pai disse:
fatos juntamente com os outros personagens, mas - Queira Deus que essa guerra não venha até cá.
não possui onisciência, ou seja, não pode penetrar - Deus sabe o que faz - retrucou a mulher.”
no pensamento do outro. Pode ser chamado de (Olhai os Lírios do Campo, Érico Veríssimo)
narrador testemunha.
O narrador de Memorial de Aires, de Machado b) DISCURSO INDIRETO: Nesse discurso, o
de Assis, por exemplo, participa da narrativa, narrador introduz a fala das personagens por meio
envolvendo-se com os fatos e personagens, sem, dos “verbos de dizer” e geralmente pela conjunção
contudo, imiscuir-se na intimidade destes. Apenas “que”. O leitor tem acesso à fala das personagens
observa de modo não parcial. por via indireta, visto que o narrador enquadra o
discurso do outro dentro do seu discurso narrativo.
b) O narrador em primeira pessoa pode ser o Há um discurso citante (o do narrador) e um discurso
narrador protagonista, ou seja, faz parte da história citado (o da personagem). A fala da personagem
como elemento fulcral. Esta personagem também perde autonomia e subjetividade à medida em que é
não possui onisciência sobre os demais. Exemplo: transmitida pelo contexto do narrador. Exemplo:
“Muita religião, seu moço! Eu cá não perco ocasião
de religião. Aproveito de todas. Uma só, para mim, “O homem chega bêbado em casa e, tirando a
é pouca, talvez não me chegue! Rezo cristão, camisa azul, manda que a dona lave para o dia
católico, embrenho a certo”. seguinte - sem ela perde o lugar de vigia”.
(Pão e Sangue, Dalton Trevisan)
(Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa)

A narração em primeira pessoa cria um efeito c) DISCURSO INDIRETO LIVRE: Nesse discurso
de subjetividade visto que o narrador como caem os “verbos de dizer” e a conjunção “que”. As
protagonista ou testemunha participa dos fatos e, por falas do narrador e da personagem se intercalam,
isso, possui uma visão mais relativa e parcial da formando um híbrido em que a diferenciação se
história. Já o modo de narrar em terceira pessoa torna difícil. Do ponto de vista gramatical, o
produz um efeito de objetividade à medida que o enunciado é do narrador (continua em terceira
narrador, não se achando envolvido com os fatos pessoa) e do ponto de vista do significado, é da
ocorridos e vendo-os a distância, pode analisá-Ios e personagem. Ocorre objetividade visto que há o
apresentá-Ios de maneira mais imparcial e neutra. discurso mais analítico do narrador que transmite a

14 * Literatura Brasileira
fala da personagem e há subjetividade à medida que Nesse romance, o narrador-protagonista se
afloram os estados íntimos da personagem através utiliza do monólogo interior por aproximadamente
de mecanismos de linguagem tais como: inter- dez páginas que finalizam a narrativa.
jeições, exclamações, interrogações, etc. Exemplo:
• Fluxo de Consciência
“Baixou as mãos até o regaço. Ali estavam os
objetos de toalete: a escova, o pente, o pote de
“Eu estava ali deitado olhando através da vidraça as
creme de barbear, o talco, a loção - tudo limpo e
roseiras no jardim fustigadas pelo vento que zunia
meticulosamente arrumado. Nem naquela manhã
lá fora e nas venezianas do meu quarto e de
ele deixara de ir ao treino diário... Seria mesmo
repente recomeçava e as roseiras frágeis e
uma pena envolvê-lo. Mas por que envolvê-lo?
assustadas irrompiam a vidraça e eu estava ali o
Os outros então não sabiam perfeitamente que ele
tempo todo olhando estava em minha cama com
não podia ser o motivo? Mas ele próprio talvez se
minha blusa de lã as mãos enfiadas nos bolsos os
sentisse responsável e era uma verdadeira pena
braços colados no corpo as pernas juntas estava
toldar com algum remorso aquela transparência”.
de sapato mamãe não gostava que eu deitasse de
(Ciranda de Pedra, Lygia F. Telles)
sapatos deixe de preguiça menino!”
(Eu estava ali deitado, Luís Vilela)
d) MONÓLOGO INTERIOR E FLUXO DE CONSCIÊNCIA:
O monólogo interior como forma de apresentação
O conto acima citado é inteiramente escrito a
dos pensamentos íntimos da personagem é um
partir do uso do fluxo de consciência.
recurso linguístico bastante antigo, remontando às
epopeias greco-Iatinas. Já o fluxo de consciência é
e) MODO DRAMÁTICO: Nesse tipo de discurso
uma variante moderna do monólogo interior. Neste,
ocorre quase a eliminação da figura do narrador,
a pontuação e a sequência lógica das ideias são
aparentando-se a uma cena teatral em que
preservadas e naquela, ocorre uma linguagem
predomina o discurso direto entre as personagens.
desarticulada, presentificando o desenrolar caótico
Dalton Trevisan, escritor paranaense, utiliza-se
e ininterrupto do pensamento. Nessas duas
largamente desse recurso. Exemplo:
modalidades de citação do discurso da personagem,
o leitor tem acesso direto ao interior, à psique da
“- Monstro. Igual ao pai. Coragem de me bater.
personagem que, por intermédio da linguagem,
- Por que provocou?
opera uma autoanálise, visando ao auto-
- Motivo tão fútil.
conhecimento ou esclarecimento dos fatos. Portanto,
Nenhum motivo é fútil. Todo grande crime é por
com relação ao aspecto gramatical, ambos
motivo fútil.”
formalizam-se como discurso direto. Exemplo:
(A Trombeta do Anjo Vingador, Dalton Trevisan)

• Monólogo Interior
f) NARRAÇÃO: O texto narrativo relata as
“Se algum desses papéis tivesse caído na estrada?
mudanças progressivas de estado (físicas,
Perdido, trinta anos de cadeia, a imundície, o
ideológicas, afetivas) que vão ocorrendo com as
trabalho dos encarcerados: fabricação de pentes,
personagens no decorrer da ação. A visão de mundo
esteiras, objetos miúdos de tartaruga. Faria um livro
do autor é veiculada por meio das ações que são
na prisão. Amarelo, papudo faria um livro, que seria
atribuídas às personagens. Na narração, há relação
traduzido e circularia em muitos países. Escrevê-
de anterioridade e posterioridade entre os
lo-ia a lápis, em papel de embrulho, nas margens
enunciados porque estes devem ser dispostos de
de jornais velhos. O carcereiro me pediria umas
maneira a presentificar para o leitor a sequência
explicações. Eu responderia: - Isto é assim e
lógica dos fatos que ocorreram com as personagens.
assado. Teria consideração, deixar-me-iam escre-
Exemplo:
ver o livro. Dormiria na rede e viveria afastado dos
outros presos. A garganta doía-me, os beiços “A negra, imóvel, cercada de escamas e tripas de
colavam-me”. peixe, com uma das mãos espalmada no chão e
(Angústia, Graciliano Ramos) com a outra segurando a faca de cozinha, olhou

Literatura Brasileira * 15
aterrada para eles, sem pestanejar. “Estou mesmo a crer que o domingo foi o
Os policiais, vendo que ela não se despachava, primeiro dia da eternidade e que a primeira
desembainharam os sabres. Bertoleza então, coisa a ser gerada foi o amor, o amor é
erguendo-se com ímpeto de anta bravia, recuou atração e harmonia - e, sem atração e
de um salto e antes que alguém conseguisse harmonia, o cosmos jamais poderia manter-se
alcançá-Ia. Já de um golpe certeiro e fundo rasgava em seu perpétuo equilíbrio através dos
o ventre de um lado a lado”. tempos que nunca se esgotassem e dos
(O Cortiço, Aluísio Azevedo) imensos espaços que nunca têm limite”.

Nesse fragmento, notamos que o texto relata Sintetizando os três últimos recursos literário-
as mudanças de estado da personagem (vida-morte) linguísticos, podemos dizer que a dissertação
e há relação de anterioridade e posterioridade entre trabalha com conceitos, organizando-se a partir de
os episódios relatados (personagem despreo- raciocínios; a narração se formaliza mediante
cupada, trabalhando - chegada dos policiais para ordenação das ações e transformações de estados
prendê-Ia, suicídio como libertação). das personagens e a descrição se realiza a partir da
concatenação de imagens.
Observar, na oportunidade das leituras de
g) DESCRIÇÃO: No texto descritivo, todos os obras ficcionais, que os vários expedientes
enunciados relatam ocorrências simultâneas e, por linguísticos arrolados, apesar de distintos uns dos
isso, não existe um enunciado que possa ser outros, andam juntos para atender às necessidades
considerado cronologicamente anterior ou posterior da expressão.
ao outro. O autor, pelos aspectos que seleciona e
pelos adjetivos escolhidos, vai construindo uma
visão negativa ou positiva daquilo que descreve. D) O TEMPO NA FICÇÃO
Pelo caráter estático da descrição em que se
enfocam detalhes e características de personagens, O TEMPO NA ESCRITURA E O TEMPO NA
coisas e cenários podemos compará-Ia a uma NARRATIVA
fotografia. Exemplo:

“Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio O tempo da escritura se refere a quando o
rosto era mediano, nem bonito, nem feio. Era o narrador escreve sobre a história e o tempo da
que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia narrativa a quando os fatos narrados ocorreram.
mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; Pode haver tanto distância quanto aproximação
pode ser até que não soubesse amar”. entre essas duas modalidades temporais. Há ruptura
(Missa do Galo, Machado de Assis) entre os tempos quando, por exemplo, um narrador
contemporâneo conta uma lenda ocorrida há mais
Notamos que nesse fragmento, diferente- de mil anos. Os tempos podem se aproximar se o
mente da narração, não ocorre o relato de mudanças narrador escreve à noite sobre o que se passou
de estados acontecidos com a personagem e os durante o dia. A distância pode se reduzir a zero se
enunciados descritivos podem ser alterados em sua o relato é um monólogo “estenografado” do herói e
sequência no parágrafo, sem prejuízo em relação à se este morre, a narrativa é interrompida. Este último
plasmação do retrato. procedimento cria uma ilusão de presente para o
leitor à medida que este tem a sensação de estar
h) DISSERTAÇÃO: No texto dissertativo, ocorre a vendo os acontecimentos que envolvem persona-
interpretação e análise dos fatos, acontecimentos e gens no seu suceder imediato.
ações das personagens. O autor pode interromper a O envolvimento e a identificação do leitor com
ação e expor suas ideias a respeito de determinados os fatos narrados se intensificam, visto que o relato
temas (o amor, o ódio, a educação, a arte, etc.). aparenta-se a uma cena teatral em desenvolvimento.
Exemplo: Exemplos:

16 * Literatura Brasileira
a) TEMPO DA ESCRITURA DIFERENTE DO ditas intimistas, em que se reduz a importância do
TEMPO DA NARRATIVA enredo e há pouca ação, o tempo se torna complexo
e psicológico. Nestas, dá-se mais importância àquilo
“Ora, como tudo cansa, esta monotonia acabou que pensam as personagens e a como pensam e
por exaurir-me também. Quis variar, e lembrou-me cada vez menos àquilo que fazem. O tempo
escrever um livro. Jurisprudência, filosofia e política psicológico pode acelerar ou retardar a ação
acudiram-me, mas não me acudiram as forças dependendo de como ele é sentido: o tempo
necessárias (...) Foi então que os bustos pintados decorrido numa situação positiva (festa, viagem,
nas paredes entraram a falar-me e a dizer-me que, passeio) dá a sensação de passar mais rápido do
uma vez que eles não alcançavam reconstituir-me que o decorrido numa situação negativa (velório,
os tempos idos, pegasse da pena e contasse espera em filas). Exemplos:
alguns. Desse modo, viverei o que vivi e assentarei
a mão para alguma obra de maior tomo”.
(D. Casmurro, Machado de Assis) a) TEMPO PSICOLÓGICO

b) TEMPO DE NARRAÇÃO COINCIDINDO “Silêncio. Por que será que esta gente não fala e o
COM O TEMPO DA ESCRITURA relógio se aquietou? Uma ideia acabrunha-me. Se
o relógio parou, com certeza o homem dos
“O aviso não me interessa mais. Tenho que esparadrapos morreu. Isto é insuportável. Por que
transformar de novo o resto não me interessa mais. fui abrir os olhos diante da amaldiçoada porta? (...)
Se essa é a minha paix... * Dois passos aquém, dois passos além - e eu estaria
*Nota de Lygia Bojunga Nunes: livre da obsessão.
“A escritora morreu sem acabar a frase. Deram O relógio bate de novo. Tento contar as horas, mas
com ela debruçada na mesa, a ponta do lápis isto é impossível. Parece que ele tenciona encher
fincada na paixão”. a noite com sua gemedeira irritante.
(Tchau, Lygia Bojunga Nunes) Procuro dormir, esquecer tudo, mas o relógio
continua a martelar-me a cabeça dolorida. Espero
em vão o fonfonar de um automóvel, a cantiga de
Aqui notamos uma aproximação total entre o um bêbado, as vozes de comando, o rumor dos
tempo da escritura e tempo da narração. A ferros no autoclave. Tenho a impressão de que o
narradora-protagonista escreve sobre o que vive no pêndulo caduco oscila dentro de mim, ronceiro e
momento da escrita e, morrendo, a escritura é desaprumado”.
interrompida. A verdadeira autora, Lygia B. Nunes, (Angústia, Graciliano Ramos)

apresenta uma nota explicativa sobre a morte de sua


personagem, a narradora-protagonista.
b) TEMPO CRONOLÓGICO
TEMPO CRONOLÓGICO E
TEMPO PSICOLÓGICO “Amanhã faz um mês que a senhora está longe de
casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti
O primeiro é também chamado de físico e é falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa da
medido pelo relógio, sendo o mesmo para todos; o esquina”.
segundo é medido por um relógio particular, (Apelo, Dalton Trevisan)
configurando-se pelas nossas vivências subjetivas
tais como sensações, intuições, emoções e valores. E) AÇÃO OU ENREDO
O tempo físico está ligado à vida social do homem,
enquanto o psicológico, a sua individualidade. A sequência de atos praticados pelos
Nas narrativas de ação e de enredo, personagens da narrativa constitui a ação; é a soma
prevalece o tempo cronológico. Já nas narrativas de gestos e atos que compõem o enredo.

Literatura Brasileira * 17
De acordo com o assunto básico (o núcleo viagem, o deslocamento de uma sala para outra, o
temático, em torno do qual se movem as apanhar de um objeto para a defesa contra um
personagens em diferentes situações) pode-se dizer agressor, e assim por diante. Este tipo de desenrolar
que o enredo de qualquer narrativa ficcional narrativo é próprio da ficção linear (José de Alencar,
constitui-se a partir de variados temas: o amor, Aluísio Azevedo, Lins do Rego, Jorge Amado, entre
viagens, aventuras, ficção científica, angústias outros); já a ação interna passa-se na consciência
existenciais, entre outros. ou/e na subconsciência da personagem, como na
Conforme ainda a ordenação dos fatos e ficção introspectiva de Machado de Assis,
situações narradas, o enredo pode apresentar uma Guimarães Rosa, Clarice Lispector. É importante
organização linear, mais próxima da ordem da assinalar que, em uma obra de ficção, coexistem as
narrativa oral, da narrativa tradicional (mitos, lendas, duas formas de ação, ambas estabelecem relação
casos, contos populares) em que se respeita a de vasos comunicantes, em que uma pode
cronologia, obedece-se à ordem (começo, meio, prevalecer sobre a outra, sem, entretanto, anularem-
fim), ao princípio da causalidade, isto é, os fatos são se.
ligados pela relação de causa e efeito e respeita-se Para entender a organização do enredo, não
a logicidade dos fatos. basta perceber começo, meio e fim da matéria
Embora tal modelo tradicional (característico narrada; é preciso perceber o elemento estruturador:
do século XIX) persista, já é possível perceber, o conflito, que é responsável pela expectativa que os
paralelamente, um outro modelo em que tais fatos podem gerar. O conflito é qualquer componente
aspectos podem sofrer alterações mais ou menos da história (personagem, fatos, ambiente, ideias,
profundas, o que caracteriza a narrativa contemporâ- emoções) que se opõe a outro, criando uma tensão
nea moderna, que subverte a forma de narrar que organiza os fatos da história e prende a atenção
tradicional, podendo levar até mesmo à pulverização do leitor. Além dos conflitos entre personagens e
dos elementos da narrativa. Conforme diz o escritor entre estes e o ambiente, existem os conflitos
francês Jean Ricardou: “O romance tradicional é a religiosos, morais, econômicos e psicológicos
escritura de uma aventura; o romance moderno é a (conflito interior de um personagem que vive um
aventura de uma escritura”. drama existencial).
A narrativa linear apresenta um ritmo mais Nas narrativas tradicionais, o conflito
rápido porque a cronologia é respeitada. Ao determina as partes do enredo:
contrário, nas narrativas não-lineares em que há idas • exposição ou apresentação: parte inicial que
e vindas no tempo/espaço, retrospectivas, situa o leitor diante da história que irá ler;
antecipações, mistura de planos temporais, o ritmo • complicação: é a parte em que se
se retarda. Em função da narrativa se voltar mais desenvolve o conflito (ou conflitos);
para os acontecimentos exteriores, privilegiando o • clímax: o momento culminante, de maior
tempo cronológico, ou para os estados interiores das tensão; é o ponto de referência para as
personagens ou do narrador, com o predomínio do outras partes do enredo que existem em
tempo psicológico, o ritmo será afetado, ou seja, função dele;
nesta será arrastado, lento e subjetivo e naquela, • desfecho ou desenlace: é a solução dos
agilizado, objetivo, acompanhando o circunstancial. conflitos.
A ação se desenvolverá à medida que as Modernamente, um romance pode ser uma
situações vão se modificando. Pode fluir, sem narrativa sem começo, meio e fim. Pode ser uma
interrupções ou pode ser retardada por descrições narrativa circular, como o Finnegans Wake de James
de objetos, quadros ou paisagens, detalhes, gestos, Joyce que termina sem ponto e começa com uma
traços físicos ou morais da personagem, etc. A letra minúscula, demonstrando que as coisas estão
digressão, ou desvio da sequência narrativa pelo sempre num eterno retorno.
discurso, que pode apresentar reflexões, diálogos Julio Cortázar, em O Jogo da Amarelinha,
com o leitor, opiniões, considerações filosóficas, indica na introdução que o livro pode ser lido de
pode também retardar o desenrolar da história. várias maneiras. Por outro lado, Clarice Lispector,
A ação pode ser externa, por exemplo, uma em Água Viva, escreve um romance em que se

18 * Literatura Brasileira
percebe a ausência de personagens; a linguagem é maneira como se daria na vida real, segundo a
o grande tema e a grande personagem. Oswald de coerência que preside a vida real. Portanto,
Andrade, em Serafim Ponte Grande, expulsa um verossimilhança interna à própria obra, não
personagem do livro por achá-Io inconveniente. enquanto relação com o mundo real.
Nas narrativas psicológicas, os fatos nem Se, na narrativa, aparece a figura de um
sempre são evidentes porque não equivalem a animal que “fala” ou “pensa” (como em Quincas
ações concretas das personagens, mas a Borba) será verossímil que ele proceda dessa forma
movimentos interiores, fatos emocionais. até o fim da narrativa.
Duas questões são fundamentais a serem “Machucado, separado do amigo, Quincas Borba
observadas na ação: vai então deitar-se a um canto, e fica ali muito
a) sua natureza ficcional - verossimilhança; tempo, calado; agita-se um pouco até que acha
b) sua estrutura - partes que a compõem. posição definitiva, e cerra os olhos. Não dorme,
recolhe as ideias, combina, relembra; a figura vaga
do finado amigo passa-lhe acaso ao longo, muito
ao longe, aos pedaços, depois mistura-se à do
Interna amigo atual, e parecem ambas uma só pessoa;
Verossimilhança depois outras ideias”.
Externa (Quincas Borba, M. de Assis)

Entretanto, se tratar de uma situação em que


o animal está reduzido a sua própria condição, será
É a lógica interna do enredo, a essência do inconcebível que tenha atitudes diferentes das
texto de ficção. esperadas de um animal. Entretanto, se tudo na
Os fatos de uma história não precisam ser narrativa seguir as trilhas do absurdo ou da
verdadeiros, no sentido de corresponderem inverossimilhança, a obra será perfeitamente
exatamente a fatos ocorridos no universo exterior ao verossímil.
texto, mas devem ser verossímeis; isto quer dizer É o caso de Macunaíma, por exemplo, em que
que, mesmo sendo inventados, o leitor deve o “herói sem caráter” protagoniza “inverossímeis” e
acreditar no que lê. Esta credibilidade advém da mágicas façanhas, como soltar um berreiro “tão
organização lógica dos fatos no enredo. Cada fato imenso que encurtou o tamanhão da noite e muitos
da história tem uma motivação (causa), nunca é pássaros caíram de susto no chão e se
gratuito e sua ocorrência desencadeia novos fatos transformaram em pedra” ou metamorfosear-se em
(consequência). saúva, pingo d’ água ou peixe; viajar pelo Brasil de
Qualquer narrativa de ficção formula as ponta a ponta, sem obediência a qualquer noção de
próprias leis sob as quais se desenvolve, leis essas espaço ou tempo. Tais recursos caracterizam a
que cumpre ao leitor conhecer e aceitar. Isto quer prosa surrealista, kafkiana em que se busca a fusão
dizer que, ao iniciar o contato com qualquer obra de do mundo real e do irreal, do mundo onírico e do
ficção, o leitor deve aceitar as normas estabelecidas factual.
pelo ficcionista. Este inventa um mundo com base
na observação, na memória e na imaginação que o F) ESPAÇO
leitor deve entender como tal. Caso recuse o
universo fictício ou procure nele o relato de fatos Espaço é o lugar onde se passa a ação numa
verídicos, ao leitor resta fechar o romance e abrir um narrativa. Se a ação for concentrada, isto é, se
jornal. houver poucos fatos ou se o enredo for psicológico,
Uma das condições básicas para que o leitor o espaço terá menos variedade do que em narrativas
se mantenha atento ao que lê, é que a ação cheias de aventuras e acontecimentos, em que se
contenha verossimilhança, não no sentido de verificará maior afluência de espaços.
reproduzir literalmente ocorrências da vida real, pois A função principal do espaço é situar as ações
aí não seria ficção, mas que a ação se organize da dos personagens e estabelecer com eles uma

Literatura Brasileira * 19
interação, influenciando suas atitudes, pensamentos que ignoro por que, eu achara abertas. Tomei o
ou emoções ou se modificando, segundo cadáver nos meus braços para fora do caixão.
determinam os personagens. Pesava como chumbo (...)”
Pode ser caracterizado mais detalhadamente
em trechos descritivos, ou ter as referências diluídas
na narração. A frequência e a intensidade com que o 3. Estar em conflito com os personagens, em
lugar geográfico se impõe no conjunto de uma obra narrativas em que se opõe aos perso-
ficcional está em função de suas outras nagens, como em Capitães da Areia, de
características. Se se trata de uma história urbana, o Jorge Amado, no qual o ambiente burguês
cenário será predominantemente o construído pelo e preconceituoso se choca com os heróis
homem: o interior de uma casa, ou as ruas; se da história.
regional ou sertaneja, o cenário será a própria
natureza. A relevância do lugar, na ficção citadina, “Os guardas vêm em seus calcanhares. Sem-Pernas
variará de acordo com a espécie literária (conto, sabe que eles gostarão de o pegar, que a captura
novela, romance) e a tendência estética ou ficcional de um dos Capitães da Areia é uma bela façanha
(a ficção romântica, realista, o romance introspectivo para um guarda. Essa será a sua vingança. Não
ou existencialista, etc.). deixará que o peguem, não tocarão a mão em seu
O termo espaço só se refere ao lugar físico corpo. Sem-Pernas os odeia como odeia a todo
onde ocorrem os fatos da história. O espaço mundo, porque nunca pode ter um carinho. E no
carregado de características socioeconômicas, dia que o teve foi obrigado a abandoná-lo porque
morais, psicológicas, em que vivem os personagens a vida já o tinha marcado demais. Nunca tivera uma
é denominado de ambiente. Neste sentido, ambiente alegria de criança. Se fizera homem antes dos dez
é um conceito que aproxima tempo e espaço, pois é anos para lutar pela mais miserável das vidas: a vida
a confluência destes dois referenciais, acrescido de de criança abandonada. Nunca conseguira amar a
um clima (conjunto de determinantes sociais, ninguém, a não ser a esse cachorro que o segue.
econômicos, morais, religiosos, etc. que cercam os Quando os corações das demais crianças ainda
personagens). estão puros de sentimentos, o de Sem-Pernas já
estava cheio de ódio (...) Apanhara na polícia, um
FUNÇÕES DO AMBIENTE homem ria quando o surravam. Para ele é esse
homem que corre em sua perseguição na figura
1. Situar os personagens no tempo, no dos guardas. Se o levarem, o homem rirá de novo
espaço, no grupo social, enfim, nas (...) Sobe para o pequeno muro, volve o rosto
condições em que vivem. para os guardas que ainda correm, ri com toda
2. Ser a projeção dos conflitos vividos pelas força do seu ódio, cospe na cara de um que se
personagens. Por exemplo, nas narrativas aproxima estendendo os braços, se atira de costas
de Noite na Taverna (Álvares de Azevedo), no espaço, como se fosse um trapezista de circo”.
o ambiente macabro reflete a mente
mórbida e alucinada dos personagens. 4. Fornecer índices para o andamento do
enredo. É muito comum, nos romances
“(...) Quando dei acordo de mim estava num lugar policiais ou nas narrativas de suspense ou
escuro: as estrelas passavam pelos raios brancos terror, certos aspectos do ambiente
entre as vidraças de um templo. As luzes de constituírem pistas para o desfecho que o
quatro círios batiam num caixão entreaberto. leitor pode identificar numa leitura mais
Abri-o: era de uma moça. Aquele branco da atenta. No conto “Venha ver o pôr do sol”,
mortalha, as grinaldas da morte na fronte dela, de Lygia F. Telles, nas descrições do
naquela tez lívida e embaçada, o vidrento dos ambiente percebemos índices de um
olhos mal apertados... Era uma defunta!... e aqueles desfecho macabro, por exemplo, no trecho
traços todos me lembravam uma ideia perdida... em que se insinua um jogo entre a vida e a
Era o anjo do cemitério? Cerrei as portas da igreja, morte, que é o que de fato ocorre com os

20 * Literatura Brasileira
personagens Raquel e Ricardo. vez que após o Renascimento não mais apareceram
epopeias.
“O mato rasteiro dominava tudo. E não satisfeito
de ter-se alastrado furioso pelos canteiros, subira Poema Narrativo:
pelas sepulturas, infiltrara-se ávido pelos rachões Caso complexo é o do poema narrativo.
dos mármores, invadira as alamedas de Embora tenha traços semelhantes à epopeia, dela
pedregulhos enegrecidos, como se quisesse com distancia-se em função da maior liberdade de forma
sua violenta força de vida cobrir para sempre os e/ou do tema. Diante disso, aproxima-se do gênero
últimos vestígios da morte”. lírico, tornando difícil sua classificação e con-
ceituação. Alguns exemplos de poema narrativo,
dados pelos teóricos, são: O Uraguai, de Basílio da
CARACTERIZAÇÃO DO AMBIENTE Gama; Caramuru, de Santa Rita Durão; I Juca
Pirama, de Gonçalves Dias; O Caçador de
Para se caracterizar o ambiente, levam-se em Esmeraldas, de Olavo Bilac; O Romanceiro da
consideração os seguintes aspectos: Inconfidência, de Cecília Meireles; Juca Mulato, de
• época em que se passa a história; Menotti del Picchia.
• características físicas (do espaço); Abordando espécies do gênero narrativo em
• aspectos socioeconômicos; prosa, temos:
• aspectos psicológicos, morais, religiosos.
Novela:
Das espécies mais usuais do gênero
4.1.2 ESPÉCIES DO GÊNERO NARRATIVO narrativo- romance, conto e novela -, esta última é a
que menos tem representatividade no contexto da
Em literatura, ficção é um tipo de Gênero Literatura Brasileira. Estabelecendo uma tradição de
Narrativo e é um termo empregado para designar o conto e romance, tanto a crítica como o escritor
romance, a novela, o conto, embora outras formas deixaram a novela de lado. E esclarecemos, desde
possuam qualidades de ficção: fábula, lenda e até logo, que a novela de que estamos tratando não é a
mesmo o drama. Porém, inicialmente cabe retomar telenovela.
as origens do gênero, isto é, o épico, fazendo-se Embora haja controvérsias quanto à con-
referência à epopeia ou poema épico. ceituação, a teoria literária caracteriza a novela como
uma narrativa em que há sucessividade de conflitos,
Epopeia ou poema épico: isto é, cada episódio praticamente se constitui numa
A epopeia é uma longa narrativa de caráter narrativa autônoma em relação aos que lhe seguem.
heroico, grandioso e de interesse nacional e social. É o caso, por exemplo, de O Grande Mentecapto, de
Ela apresenta uma atmosfera maravilhosa que, em Fernando Sabino, em que cada uma das aventuras
torno de acontecimentos históricos passados, reúne de Geraldo Viramundo é um episódio que poderia
mitos, heróis e deuses. É escrita em versos. A ser destacado do livro, sem prejuízo para o
estrutura clássica da epopeia é a seguinte: entendimento da narrativa.
1. proposição;
2. invocação; Conto:
3. dedicatória; A primeira lembrança que nos vem à memória
4. narração; quando falamos em conto é o contar histórias. Os
5. epílogo. contos dos mágicos (ou contos egípcios) são os
As epopeias mais conhecidas são: llíada e mais antigos e devem ter aparecido por volta de
Odisséia, ambas de autoria do grego Homero; 4.OOO a.C. e passam por toda a história, até porque
Eneida, do romano Virgílio. Em língua portuguesa, detectam os momentos da escrita que representam
há Os Lusíadas, de Camões. a nossa cultura. A mais clara definição de
Na Literatura Brasileira, não existe uma envolvimento, entretenimento, se poderia exem-
epopeia nos moldes rigorosamente clássicos, uma plificar com os contos das Mil e Uma Noites que

Literatura Brasileira * 21
circulam da Pérsia (séc. XI) para o Egito (séc. XII) e de mistério e misticismo, próprios da alma eslava).
para toda a Europa (séc. XVIII). Durante a Alta Idade É também nessa época que surgem contistas de
Média (séc. XII a XIV), o conto conhece uma época superior gabarito em Língua Portuguesa: Machado
áurea, graças à prosificação dos gestos de Assis (“O Alienista”, “A Cartomante”, “Missa do
cavalheirescos e, no final dessa quadra histórica, ao Galo”), Fialho de Almeida, Eça de Queirós, Aluísio
aparecimento de alguns contistas, como Bocaccio Azevedo, Júlia Lopes de Almeida e outros.
(Il Decamerone) e Chaucer (Canterbury Tales). Na verdade, é muito difícil definir, caracterizar
Quando Bocaccio publicou seus contos o conto. Segundo Júlio Casares, a partir do estudo
eróticos (Il Decamerone), ao conto acrescentou-se desenvolvido por Cortázar das obras de Edgar Allan
um novo prisma, além do didático, porque o contador Poe, há três acepções para a palavra conto:
procura a elaboração artística sem perder, contudo, 1) relato de um acontecimento;
o tom da narrativa oral, pois não perde o recurso das 2) narração oral ou escrita de um aconte-
estórias de moldura (aquelas que são criadas para cimento falso;
serem contadas por alguém a alguém). 3) fábula que se conta às crianças para
Na Espanha, graças a Cervantes (Novelas diverti-Ias.
Ejemplares) e Quevedo (La Hora de Todos), o conto Segundo esse estudo, há uma característica
alcança a preferência dos autores e dos leitores. Na comum em todas elas: são modos de se contar
França, também surgem muitos contistas, como La alguma coisa a alguém e isso nos remete a uma
Fontaine (Contes). Porém, também nesse período, narrativa e ela apresenta uma sucessão de aconte-
a poesia e a prosa doutrinária (reflexo do ambiente cimentos, porque:
revolucionador e reformador) receberam grande • há sempre algo a narrar;
aplauso e culto, por isso, a ficção em prosa manteve- • esse algo desperta, revela, identifica o
se arredia. Todavia, na França, Voltaire faz escola interesse humano;
com algumas de suas narrativas de cunho filosófico • em relação a isso, surge um projeto em que
e satírico. os acontecimentos tomam significação e se
O primeiro contista em Língua Portuguesa é organizam em uma série temporal estru-
Gonçalo Fernandes Trancoso, autor de Contos e turada;
Histórias de Proveito e Exemplo, publicados em • porém, tudo acontece observando a
1575. unidade de ação.
É no século XIX que o conto conhece sua A voz do contador, seja oral ou escrita, sempre
época de maior esplendor porque, além de se tornar pode interferir no discurso. Há todo um repertório no
forma “nobre”, passa a ser larga e seriamente modo de contar e nos detalhes do modo como se
cultivado. É aí que abandona seu estágio empírico, conta - entonação de voz, gestos ou mesmo algu-
indeciso, para ingressar numa fase em que se torna mas palavras ou sugestões - que podem ser criados
produto tipicamente literário e ganha estrutura e pelo contador, porque o intuito de conquistar e
andamento característicos. manter o interesse do ouvinte é de fundamental
O conto se desenvolve estimulado pelo apego importância.
à cultura medieval, pela pesquisa do popular e do Assim é que todo contador de histórias é um
folclórico, pela acentuada expansão da imprensa contista e o verdadeiro contista é aquele que se
(que permite a publicação dos contos nas inúmeras confunde com a voz do narrador (narrador é a
revistas e jornais). Esse é o momento da criação do criação de uma pessoa).
conto moderno, quando, ao lado de um Grimm, que O conto tradicional é uma narrativa que gravita
registra contos e inicia o estudo comparativo deles, em torno de um só conflito, um só drama, uma só
um Edgar Allan Poe se afirma enquanto contista e ação. Tomemos como exemplo “Missa do Galo”, de
teórico do assunto. Outros contistas expressivos Machado de Assis, conto formado por um único
são: Balzac (Contes Dr. Latiques), Flaubert (Trois episódio: o diálogo cheio de implicações sensuais
Contes), Maupassant (que consegue dar a seus entre o narrador (um jovem de dezessete anos) e a
escritos qualidades individuais e inovadoras), Nicolai sua hospedeira, D. Conceição, casada e com trinta
Gogol e Anton Tchekov (que conferiu ao conto notas anos. O drama apresenta começo, meio e fim, pois

22 * Literatura Brasileira
apresenta o fim em si próprio. No conto, o tempo curto período de tempo.
existencial que precede o momento do conflito • Unidade de espaço: o lugar por onde
funciona como germe ou preparativo do instante circulam as personagens é de âmbito
decisivo e o tempo que se seguirá ao conflito adquire restrito.
coloração equivalente, pois o futuro se torna • Presença de poucas personagens.
previsível ou conhecido. • Quanto à linguagem, há o predomínio da
O histórico do conto inclui as narrativas orais narração. O discurso das personagens
(“contar um conto”) e o início do registro escrito (discurso direto, indireto e indireto livre)
dessas narrativas, traçando uma evolução que muitas vezes assume relevância. A
culminou na forma literária (estética) que nos descrição e a dissertação tendem a anular-
interessa estudar. Os primeiros registros de contos se.
em língua escrita mantinham estrutura semelhante
às dos contos orais, identificando-se, no texto, um Romance:
ou mais contadores e um ou mais ouvintes (para São espécies antecessoras do romance as
quem se estaria narrando). novelas de cavalaria, da Idade Média, o romance
Exemplificando: Todos os contos reunidos sob histórico e o romance picaresco, ambos do
o título As Mil e Uma Noites (Pérsia e Arábia, séc. X) Renascimento. D. Quixote (início do século XVII), de
teriam sido contados por Scheherazade (narradora) Cervantes, por seus recursos formais e pela visão
para distrair o rei (ouvinte) que ameaçava matá-la. de mundo apresentada, ultrapassa os limites da
Outro resquício da tradição oral nos contos é novela de cavalaria, que tomou como molde e
a presença de intenção moralizante, cada vez inaugura a narrativa moderna. Porém, o romance,
menos presente na atual forma. como o entendemos atualmente, só viria a surgir em
Afastando-se pouco a pouco da tradição oral, meados do século XVIII.
o conto foi obtendo autonomia em relação a outras Para diversos estudiosos da literatura, o
formas literárias, inclusive à novela e, principal- romance seria resultado da evolução da epopeia,
mente, o romance que, tendo surgido depois, que desapareceu com o advento da era industrial. O
assumira enorme importância no século XIX. Nesse principal ponto em comum entre epopeia e romance
século, o conto adquiriu a estrutura que hoje o é a visão globalizante, capaz de abranger largas
caracteriza: a de uma narrativa curta que condensa faixas da realidade. Diferencia-os, além de tantas
e potencia todas as possibilidades da ficção. características formais, o fato de que, ao contrário
É possível definir o conto como a narrativa das epopeias (voltadas para o destino de uma
que objetiva a solução de um conflito tomado perto coletividade), o romance volta-se para o homem
de seu desfecho. Em geral, as personagens são como indivíduo.
apresentadas brevemente, vivendo situações A burguesia, classe social mais beneficiada
decisivas. Segundo Edgar Allan Poe, haveria uma pela Revolução Industrial, tornou-se o público
relação direta entre a extensão do conto (breve) e o destinatário, por excelência, dos primeiros roman-
efeito que ele causa no leitor. Em virtude da ces. Tendo sido a Inglaterra o primeiro país em que
economia dos meios narrativos, o contista obtém, a Revolução Industrial ocorreu e gerou seus efeitos,
com o mínimo de recursos, o máximo de efeitos: “Se ali escreveram os primeiros romancistas, impulsiona-
sua primeira frase não tende à concretização deste dos pelo notável alargamento do público leitor e pela
efeito, então ele falhou em seu primeiro passo. Em consequente popularização da indústria gráfica e da
toda a composição não deve haver nenhuma palavra imprensa. Sobretudo no século XIX, o jornal serviu
escrita cuja tendência, direta ou indireta, não esteja de veículo para uma forma de romance que é hoje
a serviço deste desígnio preestabelecido”. considerada a origem da “literatura de massas”: o
São características do conto: romance-folhetim, produto próprio do jogo de
• Unidade de ação: uma só situação mercado, que se volta principalmente para o
importante centraliza a narrativa e envolve entretenimento.
as personagens. Na verdade, boa parte da produção de
• Unidade de tempo: a história se passa em romances da época romântica (e não apenas o

Literatura Brasileira * 23
romance-folhetim) caracteriza-se pelo anseio de intuito de defender ideias e expressar
deleitar o público, ávido por ver suas ambições e (demoradamente) determinada visão de
desejos transformados em literatura. São autores do mundo.
período: Samuel Richardson, Henry Fielding, Victor Os teóricos atribuíram nomes a determi-
Hugo, José de Alencar. nadas espécies de romances. Alguns desses nomes
Ainda no século XIX, o romance torna-se mais devem ser conhecidos.
complexo, a partir das obras de autores que, embora No início da produção de romances, o escritor
influenciados em algum grau pela estética romântica, estava voltado a retratar particularmente a burguesia
encaminharam seus romances para um intuito que urbana e seus costumes, dando origem ao chamado
sempre fora característico do romance: recriar o romance urbano ou romance de costumes. Ex.: em
mundo de modo crítico criando personagens A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, são
próximas o mais possível das pessoas. A estética mostrados os hábitos e comportamentos da
realista, o aprofundamento psicológico e o domínio burguesia fluminense do século XIX. Os escritores
de elaboradas técnicas narrativas (sobretudo no românticos buscavam em épocas passadas fontes
tocante ao tempo) colaboraram para tornar o de inspiração para seus enredos. Isso originou o
romance a mais complexa forma narrativa, que romance histórico. Ex.: Walter Scott, em Ivanhoé,
tende a absorver quase todos os outros gêneros e retrata a época medieval. A preocupação cientificista
formas literárias. São autores do período: Balzac, do Realismo deu ensejo ao surgimento do romance
Stendhal, Flaubert, Zola, Charles Dickens, de tese, utilizado pelo escritor para defender um
Dostoievski, Machado de Assis. Os autores no início ponto de vista sobre determinado assunto. Ex.: Eça
do século XX, tais como Proust, Kafka e James de Queiroz tem a opinião de que, reunidas certas
Joyce intensificaram o experimentalismo no manejo condições, a prática do adultério feminino é
das técnicas narrativas, confirmando a prevalência inevitável. No romance O Primo Basílio, por meio do
do romance sobre as demais formas literárias. enredo, ele demonstra esse ponto de vista. A partir
Romance é a narrativa que pretende dar uma do século XIX, os escritores passaram a se debruçar
visão de mundo mediante o conflito de personagens. mais intensamente na caracterização do interior das
O conflito, comumente, é tomado no ponto mais personagens, expondo densas reflexões, visando a
distante (diferentemente do conto). O romance exige uma análise dos aspectos psicológicos do ser
um enredo complexo, um tratamento cuidadoso do humano. Surgiu, então, o romance psicológico. Ex.:
tempo e uma elaborada construção das Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de
personagens. Assis, e A Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres,
São características do romance: de Clarice Lispector.
• pluralidade de núcleos de ação: várias Mais especificamente no Brasil, desde o
situações importantes se desenrolam, Romantismo, existe um tipo de romance bastante
estando elas unidas por algum núcleo de sintonizado com uma característica peculiar do
ação central, que envolve os protagonistas. nosso país: a diversidade regional. Ao romance que
• pluralidade de tempo: a história se passa em retrata as paisagens e costumes de alguma das
um largo período temporal. regiões brasileiras, deu-se o nome de romance
• pluralidade de espaço: não há limites para a regionalista. Ex.: José Lins do Rego, em quase todos
movimentação das personagens. Cada os romances (Menino de Engenho, por exemplo),
núcleo de ação pode se desenvolver em trata da região Nordeste; Jorge Amado se fixa
diferentes lugares. particularmente no retrato da Bahia (Ex.: Gabriela,
• presença de algumas personagens, sendo Cravo e Canela).
algumas delas caracterizadas deta- Há tipos de romances cuja origem não está
lhadamente. propriamente ligada a um estilo de época ou a uma
• quanto à linguagem, há o predomínio da peculiaridade de determinado país. Trata-se do
narração, mas todas as formas de discurso romance de aventuras, que narra fatos extraor-
podem ocorrer. A descrição tem muita dinários, peripécias e façanhas num cenário fabuloso
importância. A dissertação é utilizada com o (Ex.: os chamados “romances de capa e espada”,

24 * Literatura Brasileira
dos quais se destaca Os Três Mosqueteiros, de ser lida. Houve momentos estéticos - tais como o
Alexandre Dumas), e do romance policial, cujo Trovadorismo, na Idade Média, e o Simbolismo, no
enredo apresenta um crime ou um caso intricado e século XIX - em que a poesia voltou a se aproximar
sua respectiva elucidação (Ex.: os romances de bastante da música. Mesmo quando essa
Agatha Christie). aproximação não é tão evidente, a poesia lírica
costuma guardar relações com essa outra arte, pois
Crônica: privilegia a sonoridade e o ritmo.
As características peculiares da crônica O poeta lírico se ocupa do próprio “eu”.
derivam do fato de que é escrita para ser publicada Interessa-lhe a expressão de sua subjetividade, do
em jornais e revistas. Nesse contexto, diz Jorge de que lhe vai no íntimo: sentimentos, força interior,
Sá, a crônica também assume essa transitoriedade, angústias, paixões, reflexões. O lirismo é,
dirigindo-se inicialmente a leitores apressados. Sua essencialmente, a expressão de vivências intensas
colaboração também se prende a essa urgência, de um Eu no encontro com o mundo, não incluindo
pois o cronista também dispõe de pouco tempo para o desenvolvimento de ações no tempo. Por isso, o
escrever o seu texto. texto é subjetivo.
Consequentemente, do ponto de vista formal, Mesmo a poesia moderna, que reflete a
a sintaxe da crônica é mais solta, havendo, inclusive, ausência de crença na possibilidade de uma relação
certa moralidade, sem, contudo, perder a elaboração plena de sentido entre o eu do poeta e a realidade,
necessária a um texto literário. Em outras palavras, mantém a essência do lirismo, pois nela prevalece
a linguagem da crônica é dinâmica, em tom de um questionamento do sujeito sobre os modos
reportagem. possíveis de se relacionar com o mundo.
Ainda quanto à forma, as características da A poesia lírica se caracteriza pela
crônica são semelhantes às do conto, com a manifestação imediata de uma emoção, de um
diferença de que o contista desenvolve a construção sentimento ou de uma reflexão. Disso decorre a
da personagem, do tempo e do espaço com maior brevidade do poema lírico. Sendo expressão de um
preocupação formal. Outra distinção importante estado de espírito e não a narração de um
entre a crônica e o conto diz respeito ao narrador. O acontecimento, o poema lírico não apresenta
narrador-repórter se identifica mais com o próprio personagens e enredo, pois, para caracterizar uma
autor que, via de regra, emite comentários pessoais personagem e identificar suas ações, é necessário
sobre o assunto tratado. Portanto, há, na crônica, a recorrer à descrição e à narração, que não
presença da dissertação. correspondem à essência do lirismo.
Quanto ao conteúdo, a crônica se distingue do O poema lírico não admite narrador, pois o
conto porque, em geral, o cronista extrai do cotidiano sujeito lírico pretende, antes de tudo, expressar a si
a matéria para seus textos, em função do caráter mesmo. Todavia, do mesmo modo que o narrador
circunstancial da crônica. Entretanto, o cronista não deve ser confundido com a pessoa concreta do
transforma o pequeno acontecimento do dia a dia em ficcionista, a voz que fala no poema lírico não deve
motivo de reflexão. ser confundida com a pessoa física do poeta
Tais elementos dão alto poder de comu- (embora se reconheça que, dado o caráter subjetivo
nicação à crônica, dotando-lhe de grande capaci- da poesia lírica, essa proximidade se faça sentir).
dade de adaptação ao ritmo da vida contemporânea. Para operar essa distinção, os teóricos criaram o
Alguns cronistas brasileiros: Rubem Braga, termo eu lírico que se refere ao sujeito que fala no
Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes poema.
Campos e Fernando Sabino. Outra distinção terminológica importante é a
4.2 GÊNERO LÍRICO que define poesia e poema. Poema é o conjunto de
versos dispostos no papel, isto é, o aspecto concreto
A palavra lírica deriva de lira, instrumento do texto. Poesia é o “efeito” resultante da utilização
musical com o qual os poetas gregos de recursos que conferem ao texto determinado teor
acompanhavam seus poemas, ao recitá-Ios ou estilístico. Por isso, muitos poemas podem não
cantá-Ios. Posteriormente, a poesia lírica passou a conter poesia enquanto textos narrativos podem ser

Literatura Brasileira * 25
altamente poéticos. final de versos diferentes, no interior do mesmo
Embora os textos narrativos possam ter verso ou em qualquer outra posição.
poesia, o gênero lírico toma, na maioria das vezes, Denominam-se versos brancos aqueles que
como forma o verso. Cabe apresentar, então, os obedecem às regras da métrica, mas não apresen-
elementos do poema. tam rimas.
Conhecidos os elementos básicos do poema,
cabe verificar os estratos nele contidos. Essa divisão
4.2.1. ELEMENTOS DO POEMA é de caráter didático e visa a fornecer dados para
análise e interpretação do poema.
• Verso: cada uma das linhas do poema. • ESTRATO VISUAL: corresponde ao modo como
• Estrofe: cada um dos conjuntos de versos o poema é apresentado na folha de papel. Em outras
em que se divide o poema. É precedida e palavras, é a “mancha” que o poema ocupa no
seguida por linhas em branco. Alguns tipos espaço em branco. De alcance restrito nos poemas
de estrofe cuja denominação interessa tradicionais, o estrato visual é fundamental para a
conhecer: de três versos (terceto), de quatro análise dos poemas concretos.
versos (quarteto ou quadra) e de oito versos • ESTRATO FôNICO: corresponde aos recursos
(oitava). de ordem sonora utilizados no poema. Trata-se de
• Ritmo: sucessão alternada de sons tônicos estrato importante, pois uma das características
e átonos; distribuição dos acentos (sílabas básicas do poema é a sonoridade, a musicalidade,
fortes e fracas) nos versos. obtidas por meio do ritmo e das repetições dos sons.
• Metro: o metro de um verso é definido pelo Assim, deve se investigar se há um ritmo cadenciado
número de sílabas poéticas que o compõe. ou irregular e qual a distribuição das rimas (quando
A métrica, ao contrário do ritmo, é exterior existirem). Também deve ser feito um levantamento
ao poema. O poeta opta por obedecer ou das aliterações (repetições de consoantes),
não às leis métricas. Seguindo as leis, assonâncias (repetições de vogais), repetições de
escreverá versos regulares; não as palavras e presença de onomatopeias (figura em
seguindo, comporá versos livres. Para saber que os sons lembram o som do objeto nomeado).
se os versos são regulares ou livres, é • ESTRATO MORFOLEXICAL: antes de se verificar
necessário fazer a escansão de cada verso, o sentido específico das palavras no poema, é
ou seja, dividi-Io em sílabas métricas e preciso observar as palavras em si, unidades
contá-Ias. Ao se escandir um verso, deve- mínimas de sentido do poema. O vocabulário do
se parar a contagem na última sílaba tônica. texto revela se o poeta emprega linguagem culta ou
coloquial. Em seguida, devem ser verificadas as
Ex.: Bri/lha a/lu/a/no/céu,/bri/lham/es/tre/las categorias gramaticais. A preferência do poeta pela
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
adjetivação, por exemplo, pode indicar um estilo
grandiloquente. O tempo verbal pode apontar
As sílabas em negrito são as sílabas fortes ou proximidade (presente) ou distanciamento (pas-
acentuadas. sado). O mesmo procedimento se aplica às outras
Observe que, na segunda sílaba, ocorreu a classes gramaticais.
elisão de um som. Nem sempre as sílabas poéticas • ESTRATO SINTÁTICO: embora não esteja restrito
correspondem às sílabas gramaticais. Isso ocorre às regras gramaticais, o poema pode conservar,
porque a escansão obedece à melodia do verso, aproximadamente, a estrutura sintática usada em
sendo necessário juntar ou separar sílabas quando prosa. Em primeiro lugar, pois, cabe verificar a maior
houver encontro de vogais. ou menor ruptura do poema com a sintaxe
Alguns tipos de versos possuem denominação tradicional. Também cabe levantar a existência, ou
especial: redondilha menor (verso de cinco sílabas), não, de inversões sintáticas. A pontuação também
redondilha maior (de sete sílabas) e alexandrino (de carrega significados, assim como a presença de
doze sílabas). períodos mais curtos ou mais extensos. Quando
• Rima: repetição de sons semelhantes no ocorrer o paralelismo (constru-ções sintáticas

26 * Literatura Brasileira
semelhantes, em mais de um verso), deve-se podem adquirir conotações bem diferentes conforme
verificar quais as palavras repetidas e quais palavras o tom empregado pelo poeta. Exemplos de tom:
foram substituídas. irônico, trágico, triste, alegre, humorístico, sarcástico,
• ESTRATO SEMâNTICO: nesse passo, o sublime.
intérprete deve verificar em que sentido as palavras Metalinguagem: o poeta reflete sobre o
foram empregadas, compreendendo as metáforas e próprio poema, sobre o fazer poético ou sobre a
demais figuras de sentido, no contexto do poema. A poesia em geral. Trata-se de tendência bastante
linguagem conotativa, característica da ficção e da acentuada na lírica contemporânea.
poesia, aparece mais intensamente nesta última. Examinados os aspectos de conteúdo e de
A palavra, em poesia, assume uma impor- forma acima relacionados, resta ainda efetuar a
tância suprema. Se já na prosa o artista manipula a contextualização do poema no momento histórico
palavra com intuito estético, na poesia, em que o em que foi escrito e, principalmente, no estilo de
texto não é construído de forma tão objetiva, a época de que mais se aproxima (Classicismo,
palavra é, praticamente, o único instrumento de que Romantismo, Modernismo, etc.).
o artista dispõe para expressar sua arte. Por isso,
Finalmente, o poema deve ser contextua-
além da importância sonora da palavra (estrato
lizado também na obra global do poeta.
fônico) - que norteia as escolhas do poeta - o
aspecto semântico é relevante, porque o poeta
procurará obter a maior plenitude de significado
possível de cada palavra. Para Ezra Pound,
4.2.2 ESPÉCIES E FORMAS DO
“literatura é linguagem carregada de significado” e “a
GÊNERO LÍRICO
poesia é a mais condensada forma de expressão
verbal”.
Há uma série de denominações atribuídas a
Efetuado o levantamento dos dados, parte-se
composições líricas em função do conteúdo que
para a conjugação desses elementos, a fim de se
apresentam. Atualmente, quase não se fazem essas
promover uma interpretação homogênea; afinal, os
composições, pois a poesia, desde o Modernismo, é
estratos não existem isoladamente.
extremamente variada, tendo caído em desuso o
Há outros conceitos importantes para a
compreensão de poemas: assunto, tema, motivo, emprego de tais denominações para os poemas

tom e metalinguagem. modernos.


Para se saber qual o assunto de determinado Por essa razão, apenas fazemos referência ao
poema, responde-se à pergunta: “de que fala o nome de algumas dessas espécies do gênero lírico:
poema?”. Para se identificar o tema, responde-se à ode, hino, canção, elegia, epitáfio e acalanto.
pergunta: “o poema trata de um assunto para refletir São muitas também as formas do gênero
acerca de quê?”. O assunto é mais objetivo, lírico, valendo citar três delas: soneto e trova (formas
enquanto o tema tende a maior grau de abstração e fixas mais frequentes) e o haicai (forma secular
generalidade. Exemplos de assunto: a partida da japonesa que vem sendo retomada na atualidade).
mulher amada, a saudade da infância na fazenda. Soneto: composição de forma fixa, clássica
Exemplos de tema: o amor, a solidão. por excelência, utilizada largamente por poetas de
Motivo: a frequência de um determinado todos os tempos (no Brasil, do Barroco ao Moder-
vocábulo ou grupo de vocábulos, quando adquire nismo). Compõe-se de duas quadras e de dois
especial relevância para o significado geral do tercetos. Em geral, predominam versos de dez ou
poema ou da obra de um autor, merece estudo doze sílabas. Exemplo:
detalhado. Por exemplo, a morte tem presença fre-
quente na obra de João Cabral de Melo Neto e, além “De repente do riso fez-se o pranto
disso, é apresentada sob enfoques diferentes, de Silencioso e branco como a bruma
poema para poema e de livro para livro. Assim, a E das bocas unidas fez-se a espuma
morte é um motivo na obra poética de João Cabral. E das mãos espalmadas fez-se o espanto
Tom: um mesmo assunto e um mesmo tema

Literatura Brasileira * 27
De repente da calma fez-se o vento Assim, cabe definir esses dois momentos. Ao
Que dos olhos desfez a última chama âmbito da literatura, que estuda textos elaborados
E da paixão fez-se pressentimento com preocupação estética, pertence, obviamente, o
E do momento imóvel fez-se o drama. texto em si, independente da representação. Um
texto dramático pode nunca vir a ser encenado e isso
De repente, não mais que de repente não lhe retira a qualidade de dramático, pois foi
Fez-se de triste o que se fez amante concebido visando à representação. A área da
E de sozinho o que se fez contente literatura que estuda o texto dramático é chamada
dramaturgia.
Fez-se do amigo próximo o distante A representação ou espetáculo, além do texto,
Fez-se da vida uma aventura errante possui outros elementos, como a atuação (trabalho
De repente, não mais que de repente.” dos atores), a coreografia, o cenário, a sonoplastia,
(Vinícius de Moraes) a iluminação, o figurino, etc. A esse conjunto dá-se
o nome de teatro, denominação idêntica ao local (ex:
Trova: Composição de uma única estrofe de Teatro Guaíra) onde ocorre a representação.
quatro versos (quadra). Forma muito popular, pode Essa transposição do texto dramático para o
ser escrita em versos de qualquer número de teatro, muitas vezes, não é feita pelo próprio autor
sílabas. A redondilha, sobretudo a redondilha maior, do texto (o dramaturgo), mas pelo diretor da peça
é o verso mais frequente. Exemplo: (hoje denominado encenador). Esse encenador
“Atirei um limão verde apresentará a sua interpretação do texto dramático.
Na janela do meu bem Isso se constitui em mais um elemento de
Quando as mulheres não amam diferenciação entre o texto e o espetáculo.
Que sono as mulheres têm!”
(Manuel Bandeira) Características do texto dramático
O texto dramático tradicional apresenta
Haicai: composição poética de origem enredo, o que o aproxima do texto narrativo.
japonesa, com estrofe de três versos, sendo o Entretanto, o texto dramático, repita-se, é escrito
primeiro e o terceiro versos com cinco sílabas e o com o objetivo de servir a uma representação em
segundo com sete. Exemplo: palco. Consequentemente, a figura do narrador,
fundamental em textos do gênero narrativo, é
“Arco íris no céu praticamente eliminada do texto dramático. Quando
Está sorrindo o menino existe narrador no texto dramático, sua
Que há pouco chorou.” caracterização é bastante diferente da do narrador
(Helena Kolody) de contos e romances e sua participação, muito
reduzida.
Limitado ou excluído o narrador, as
4.3 GÊNERO DRAMÁTICO personagens se apresentam por si mesmas e
desencadeiam a ação. Assim, o texto dramático terá,
A característica essencial do gênero dramático como elementos essenciais, personagem e ação.
é a tendência à representação. Ocorre a Além disso, o dramaturgo tem a preocupação
presentificação dos acontecimentos aos olhos do de escrever um texto que prenda, com muita
receptor. Assim, segundo alguns teóricos, o texto eficácia, a atenção do espectador. Afinal,
dramático reúne características dos demais gêneros, diferentemente do leitor, o espectador está “preso” a
conciliando a objetividade do narrativo e a subjetivi- uma cadeira enquanto durar a peça. Isso gera a
dade do lírico, unidas sob a forma de representação necessidade de o dramaturgo preservar a tensão
de ações, tudo tendendo ao desfecho, à resolução dramática, ao construir a ação. Para tanto, ele
de um conflito. Por envolver dois momentos, o do utilizará, com maior intensidade do que o autor de
texto em si e o da representação, o gênero dramático textos narrativos, recursos como o suspense, a
se distingue dos demais. surpresa, etc.

28 * Literatura Brasileira
Quanto aos demais elementos, a linguagem nos primeiros anos de existência da televisão no
aparece, obviamente, sempre sob a forma de Brasil, as telenovelas eram denominadas teleteatro.
discurso direto. Todavia, dada a multiplicidade de recursos
Os recursos referentes ao tempo têm sido existentes no cinema e na televisão, as diferenças,
cada vez mais explorados pelos dramaturgos. Por em relação ao teatro, tornaram-se muito grandes.
exemplo, em A moratória, Jorge Andrade propôs a
divisão do palco em dois planos, para apresentar Evolução do Gênero Dramático
épocas diferentes. Nelson Rodrigues utilizou com
frequência o flashback em seus textos. O gênero dramático, no mundo ocidental,
Embora alguns encenadores realizem ganhou relevo na Grécia Antiga. Pautando-se por
proezas, o espaço se vê limitado pelas dimensões regras objetivas, os dramaturgos gregos escreviam
do palco. Pode, todavia, haver referência, na fala das tragédias e comédias. A tragédia tem por finalidade
personagens, a outros espaços e ambientes não comover ou purgar os espectadores, inspirando-Ihes
presentificados. Todavia, isso deve ser feito com terror e compaixão e promovendo a catarse. A
moderação, para não reduzir a tensão dramática. comédia tem por objetivo valer-se do riso para
Na confecção de um texto dramático, o corrigir os costumes.
dramaturgo assinala a fala de cada uma das Na Idade Média, surgiram o auto, peça de
personagens e, via de regra, apresenta rápidas cunho religioso, e a farsa, espécie de comédia.
descrições de espaço e ambiente, bem como Com o advento do Romantismo, houve uma
introduz, também sucintamente, outras informações flexibilização das regras ditadas pelo teatro clássico.
(sobre o tempo, por exemplo). Esses dados vêm, em Um dos principais responsáveis por essas mudanças
geral, no início dos atos. foi Victor Hugo. Nessa mesma época, criou-se o
As maiores unidades de ação são denomi- drama romântico, que mescla elementos da tragédia
nadas atos, que se subdividem em cenas e estas, e da comédia.
em quadros. Há muitas espécies do gênero dramático, va-
Ao longo do texto, o dramaturgo pode colocar lendo citar: commedia del arte, melodrama, vaudeville.
observações sobre o estado de ânimo das No século XX, as mudanças foram mais radi-
personagens, sobre a marcação (posicionamento cais, tendo surgido dramaturgos, teóricos e encena-
dos atores no palco), etc. Todas essas informações dores que multiplicaram as experiências criadoras.
que não fazem parte da fala das personagens têm a Destacam-se: Brecht, Artaud, Stanislowski, Beckett,
denominação de rubricas. lonesco (teatro do absurdo), Bob Wilson. No Brasil,
Para concluir a caracterização do gênero, a dramaturgia ganhou grande impulso com Nelson
apresentamos algumas observações, em forma de Rodrigues. Outros dramaturgos brasileiros: Guar-
perguntas e respostas: nieri, Augusto Boal, Dias Gomes, Oduvaldo Vianna
- Uma representação sem texto pode ser Filho, Maria Adelaide Amaral. Como, atualmente, é
considerada teatro? cada vez maior a importância atribuída ao diretor (ou
Essa questão é bastante atual, dada a encenador), cabe fazer referência a alguns dos
tendência de redução do texto na representação. principais nomes dessa área na atualidade: Antunes
Para os teóricos, representação sem texto não é Filho, Cacá Rosset, Gabriel Vilela, Bia Lessa, Gerald
teatro. Pode ser happening, performance, mímica, Thomas, Ulisses Cruz.
pantomima. Para ser denominada como teatro,
ainda, para a maioria dos teóricos (não todos), a
obra deve ter texto.
- Qual é a diferença entre um texto para
cinema ou novela e um texto para ser representado
em palco para um público presente?
Os textos destinados a filmes ou telenovelas,
denominados roteiros, são semelhantes aos
destinados à representação em palco. Tanto que,

Literatura Brasileira * 29
EXERCÍCIOS Mas não haviam matado o seu pai? A vida não passava de uma luta de
vida ou morte entre as pessoas. Entre os animais. Entre os povos. Entre
as forças da natureza”.
(A Grande Arte, Rubem Fonseca)
Leia os fragmentos e, a seguir, responda ao que se pede:

“Em agonia, suspirando e gemendo, afasta a mão pesada da velha: a) Que tipos de discurso aparecem nos fragmentos?
- Deixe para me agradar depois de morto.
- Com essa megera não é que eu casei. _________________________________________________
- ... _________________________________________________
- Me distraí um instante, a mulher foi trocada.
- ... _________________________________________________
- Em vez da noivinha dos meus sonhos, essa quem é, roncando ao
meu lado, o bigodinho de meu sogro no nariz torto de minha _________________________________________________
sogra.”
(Pão e Sangue, Dalton Trevisan)
b) Transcreva passagens que comprovem a resposta anterior.

a) Que tipo de discurso predomina no texto? _________________________________________________

_________________________________________________ _________________________________________________

_________________________________________________ _________________________________________________

_________________________________________________ _________________________________________________

_________________________________________________
c) A aproximação da fala do narrador e da fala da personagem
faz com que as visões de mundo de ambos se aproximem.
b) Que tipo de narrador ocorre no texto? Por que o autor se utiliza Que comunhão de visão de existênda há em ambos?
dele?
_________________________________________________
_________________________________________________
_________________________________________________
_________________________________________________
_________________________________________________
_________________________________________________
_________________________________________________
_________________________________________________

_________________________________________________
Leia o conto de Dalton Trevisan, transcrito abaixo e, a
seguir, faça o que se pede:
c) Explique o uso das reticências.

_________________________________________________ À MARGEM DO RIO


_________________________________________________
“Numa tarde de sábado, Abílio estacou a carroça à
_________________________________________________ margem do rio. A balsa estava do outro lado; ele saltou do banco,
onde ficaram os dois filhos menores, e encostou-se a uma das
_________________________________________________ rodas, enrolando a palha do cigarro. De longe reconheceu na
_________________________________________________ barca o seu amigo Nicolau:
- Como vai, compadre?
_________________________________________________ O Nicolau respondeu que ia bem e ao descer em terra,
de cara fechada, pediu o acerto de uma conta.
Abílio ofereceu uma cédula de cem cruzeiros. O outro
d) Por que o autor lança mão do modo dramático? recusou, lembrando que lhe eram devidos três dias de serviço.
_________________________________________________ - Eu nunca faltei com a obrigação e sempre andei direito.
- Mas desta vez falhou.
_________________________________________________ Recolhendo as moedas dos bolsos e estendendo a mão,
Abílio retrucou que lhe entregava todo o dinheiro. O compadre
_________________________________________________ não aceitou, protestando que era pouco:
_________________________________________________ - Você é polaco! bradou o primeiro, pálido de fúria.
Nicolau, o mais forte, agarrou-o pela camisa, levou-o de
_________________________________________________ encontro à carroça e estava-o esganando. Com a gritaria dos
filhos, Abílio puxou a faca da cinta e encostou-a ao peito do
agressor:
e) Que visão das relações humanas é veiculada pelo autor? - Conhece que está morto!
Nicolau queria fugir, mas não pôde escapar,
_________________________________________________ ensanguentado e fraco. Corria aos tropeções e sem destino,
_________________________________________________ perseguido pelo compadre que o alcançou e desferiu novo golpe,
desta vez no braço, mas continuou cambaleante, recebendo a
_________________________________________________ facada seguinte defronte à casa do balseiro. A mulher surgiu à
janela e gritou:
“(...) Fuentes fez um balanço de sua vida. Vivia num país que odiava, no - José, estão esfaqueando um homem!
meio de pessoas que desprezava e que eram inimigas. Por quê? Devia Com as mãos agarradas à cerca, Nicolau pediu com voz
haver alguma razão. Não era apenas porque tinha um emprego de que queixosa:
gostava, principalmente quando eram brasileiros os que tinha que matar. - Ai, Abílio, só não me mate.
(Talvez eu esteja sendo injusto com ele, na verdade as motivações de A quarta punhalada atingiu-o nas costas. Mantendo-se em
Fuentes eram mais complexas do que eu supus no princípio, quando pé contra a cerca, ele arrastou-se até o portão. Sem forças para
comecei a tentar compreendê-lo). Sabia que matar era uma coisa torpe. subir os degraus da porta, caiu numa poça de sangue.

30 * Literatura Brasileira
Abílio esfregou a faca na ripa antes de guardá-Ia, andou b) que apresente discurso direto.
até a margem e saltou no bote. Atravessando o rio, parou um
instante de remar e, as mãos em concha, gritou ao balseiro que _________________________________________________
conduzisse para casa os filhos e a carroça”. _________________________________________________

_________________________________________________
1. Qual o ponto de vista utilizado no texto? Comprove.
_________________________________________________
_________________________________________________
_________________________________________________
_________________________________________________

_________________________________________________
8. Transforme o exemplo de discurso direto da questão anterior
_________________________________________________ em discurso indireto:
_________________________________________________ _________________________________________________

_________________________________________________
2. Quanto ao tempo, é cronológico ou psicológico? Comprove. _________________________________________________
_________________________________________________ _________________________________________________
_________________________________________________ _________________________________________________
_________________________________________________

_________________________________________________ 9. Escreva C (certo) ou E (errado):

_________________________________________________ ( ) A narrativa apresenta passagens dissertativas.


( ) O narrador também participa da história na qualidade de
personagem.
3. Em que espaço ocorre a narrativa? ( ) O espaço é único.
_________________________________________________ ( ) O cenário é importante na estruturação do enredo.
( ) O autor utiliza monólogo interior.
_________________________________________________ ( ) O espaço em que ocorre a história dificulta a ação das
personagens.
_________________________________________________

_________________________________________________ 10. Reescreva o 4º parágrafo em discurso indireto.

_________________________________________________ _________________________________________________

_________________________________________________
4. Analisando a linguagem, que tipo de discurso se encontra?
_________________________________________________
_________________________________________________
_________________________________________________
_________________________________________________
_________________________________________________
_________________________________________________

_________________________________________________ 11. Observe no 9º parágrafo, a rápida descrição de Nicolau. Com


base no texto, aprofunde a caracterização do personagem.
_________________________________________________
_________________________________________________

5. Escreva V (verdadeiro) ou F (falso), de acordo com o texto lido: _________________________________________________


( ) É objetivo, devido ao uso do diálogo. _________________________________________________
( ) É simples, devido ao tempo que é cronológico.
( ) Não apresenta conclusão. _________________________________________________
( ) É linear e sintético.
_________________________________________________
( ) É acelerado pelo tempo psicológico.
( ) Está estruturado sem começo, meio e fim.
12. Nicolau poderia se chamar Sebastião?

6. Numere a 2ª coluna de acordo com a primeira: _________________________________________________

( 1 ) Abílio ( ) protagonista _________________________________________________


( 2 ) Nicolau ( ) caricatura
( 3 ) Mulher do balseiro ( ) antagonista _________________________________________________
( 4 ) Filhos menores ( ) personagem plano _________________________________________________
( ) tipo
( ) personagem redondo _________________________________________________
( ) personagem secundário
13. Quanto ao cenário, assinale o que for certo:
7. Transcreva do texto um fragmento: ( ) A descrição é pobre e irrelevante.
( ) A história poderia se passar em outro lugar, sem prejudicar
a) dissertativo o enredo.
( ) Se não fosse à margem do rio, haveria a possibilidade da
_________________________________________________ fuga de Abílio.
_________________________________________________ ( ) O cenário provocou o encontro dos personagens.
( ) Balsa e rio formam um cenário condizente com a vida na
_________________________________________________ roça.

Literatura Brasileira * 31
Os exercícios a seguir têm por base a obra Olhai os lírios (1) Descrição ( ) imagens
do campo, de Érico Veríssimo. (2) Dissertação ( ) ações
1. A narrativa inicia com o final da história e, em sua estruturação, (3) Narração ( ) raciocínios
sofre “cortes”, quando o autor intercala as cartas de Olívia e as
reflexões de Eugênio, personagens centrais, através das quais 6. Identifique o tipo de discurso que ocorre nos fragmentos
ficamos conhecendo novos dados sobre a vida passada dos abaixo:
personagens. Sabedores disso, podemos afirmar que a ação a) “Os últimos dias haviam passado num atordoamento. Ele
de tal obra se desenvolve linearmente? Explique.
não conseguia ver claro. Tinha de libertar-se. Mas como?
_________________________________________________ Quando? Por onde? Não podia fugir como um criminoso,
precisava dar uma explicação, uma justificativa.”
_________________________________________________
______________________________________________
_________________________________________________
b) “Uma noite me disseste que Deus não existia porque em
_________________________________________________
mais de vinte anos de vida não o pudeste encontrar.”

2. Baseando-nos nas afirmações acima, podemos caracterizar o ______________________________________________


tempo como:
( ) acelerado; c) “- Escutai aqui, Olívia, por que é que estais hoje tão irônica?
( ) retardado; - Não será uma forma da gente se mostrar comovida?”
( ) recuado.
______________________________________________
3. Coloque, nos parênteses, C (para tempo cronológico) ou P
(para tempo psicológico): 7. Caracterize os personagens tomando por base as informações
( ) “E ali na sua cama, deitado de costas, (...) procurava dadas a seguir:
vencer a escuridão, a névoa, a angústia. Quanto tempo
dormira? Horas ou minutos? Lembrava-se vagamente de a) Eunice é esposa de Eugênio. Culta, fútil, leva a vida igual
uma conversa que tivera ... antes de deitar”. às mulheres de sua classe, sem muitas surpresas. Assim,
( ) “Era setembro. Naquela manhã de domingo, sentado na poderemos considerá-Ia como personagem:
soleira do portão do internato, Eugênio sentia como nunca ______________________________________________
as mudanças (...) no seu corpo e na sua vida (...)“.
( ) “Era noite de 31 de dezembro. Hans Falk olhava com b) Acélio representa o estudante muito lido, teórico e meio
ansiedade para o relógio de cuco. Faltavam dez minutos estranho. Por isso, poderemos chamá-Io de:
para a meia-noite. ___________________________________________
( ) “Os sinos começaram a tocar. (Eugênio) Lembrava-se de
outros sinos, de outras igrejas, em outros tempos. Viu e
c) Eugênio é o personagem central da obra Olhai os lírios do
ouviu mentalmente a sineta do seu primeiro colégio. (...)
Os sinos lhe traziam tantas recordações...”. campo de Érico Veríssimo, portanto ele é:
______________________________________________
4. Identifique o foco narrativo dos textos abaixo:
a) “Eugênio aperta mais a filha contra o peito e no seu corpo e) Eugênio muda de comportamento, deixando de ser uma
sente o calor do corpo dela. Aconteça o que acontecer - pessoa atingida e guiada por um terrível complexo de
promete a si mesmo - nada conseguirá separá-Io da inferioridade, passando a ser um médico humano, seguro e
criança. Por amor dela há de achar coragem para vencer mais realizado. Por isso, poderemos dizer que ele é
todos os obstáculos (...)” ________________________ personagem:
b) “Ouço agora um ruído. Deve ser a ambulância que vem me
______________________________________________
buscar. Senti um calafrio e parece que minha coragem teve
um pequeno desfalecimento (...) É que sou humana,
Genoca, profundamente humana (...)” _______________
As questões a seguir tomam por base a obra A hora da
5. Classifique os fragmentos dados a seguir em: narrativos, estrela de Clarice Lispector.
descritivos ou dissertativos.
a) “Estive pensando muito na fúria cega com que os homens
se atiram à caça do dinheiro. É essa a causa principal dos 1. Classifique os textos em narrativos, descritivos ou
dramas, das injustiças, da incompreensão da nossa época. dissertativos:
Eles esquecem o que têm de mais humano e sacrificam o
a) “Macabéa sentou-se um pouco assustada porque faltavam-
que a vida Ihes oferece de melhor: as relações de criatura
para criatura. De que serve construir arranha-céus se não lhe antecedentes de tanto carinho. E bebeu, com cuidado,
há mais almas humanas para morar neles?” pela própria frágil vida, o café frio e quase sem açúcar.
______________________________________________ . Enquanto isso, olhava com admiração e respeito a sala
onde estava”.
b ) “A manhã estava fresca e tocada pela luz dum doce sol cor ______________________________________________
de ouro velho. Pairava no ar uma fina neblina que amaciava
todas as formas, dando à paisagem um suave tom violeta.
b) “Pois que a vida é assim: aperta-se o botão e a vida acende.
Envolta nessa névoa trespassada de sol, a cidade parecia
um brinquedo colorido embrulhado em papel celofane”. Só que ela não sabia qual era o botão de acender. Nem se
______________________________________________ . dava conta de que vivia numa sociedade técnica onde ela
era um parafuso dispensável”.
c) (Eugênio) “Caminhou para Simão com ar agressivo. O ______________________________________________
outro ficou imóvel (...) Eugênio estacou. Sentiu que alguma
coisa (...) o retinha. Soltou um fundo suspiro (...). Passou a
c) “Madama Carlota enxundiosa, pintava a boquinha
mão pelos cabelos e foi de novo sentar-se à mesa”.
rechonchuda com vermelho vivo e punha nas faces oleosas
______________________________________________
duas rodelas de ruge brilhoso. Parecia um bonecão de
d) Baseando-se na questão anterior, relacione adequada- louça meio quebrado”.
mente as colunas: ______________________________________________

32 * Literatura Brasileira
2. Identifique o tipo de discurso nos trechos abaixo: ______________________________________________

______________________________________________
a) “(...) mas era-lhe mais cômodo insistir em dizer que não
fizesse dieta de emagrecimento (...). Foi o que disse
enquanto receitava um tônico (...)” 6. Se a ação do romance é complexa e o autor entrecruza as
______________________________________________ poucas aventuras da protagonista (Macabéa) com a vida do
narrador (que se dá a conhecer por meio de comentários que
b) “Por isso não sei se minha história vai ser - ser o quê? Não faz) e ainda os questionamentos sobre os valores da
sei de nada, ainda não me animei a escrevê-Ia. Terá sociedade moderna e a própria existência humana, podemos
acontecimentos? Terá. Mas quais? Também não sei (...) É dizer que o tempo que prevalece é:
que realmente não sei o que me espera”. _________________________________________________
______________________________________________
7. Conhecendo o enredo (ainda que superficialmente) e acres-
c) “Ele: - Pois é. centando-se que Macabéa acabou vencida, pois não se ajus-
Ela: - Pois é o quê? tava no emprego nem no amor nem na vida e finalizou morta
Ele: - Eu só disse pois é! (atropelada), você poderia opinar se o espaço onde os fatos
Ela: - Mas “pois é” o quê? acontecem (Rio de Janeiro) tornou a história mais verossímil?
Ele: - Melhor mudar de conversa porque você não me Explique:
entende”. _________________________________________________
______________________________________________ _________________________________________________

_________________________________________________
3. Identifique o foco narrativo:
_________________________________________________
“E eis que fiquei agora receoso quando pus palavras _________________________________________________
sobre a nordestina. E a pergunta é: como escrevo? Verifico que
escrevo de ouvido, como aprendi inglês e francês de ouvido (...).
E só minto na hora exata da mentira (...). Não tenho classe social,
marginalizado que sou”.

______________________________________________

4. Altere para outro foco possível o texto da questão anterior.

_________________________________________________

_________________________________________________

_________________________________________________

_________________________________________________

_________________________________________________

5. Assinale as respostas que julgar corretas:


a) A autora Clarice Lispector inicia seu livro A hora da estrela
divagando sobre o ato de escrever, sobre a veracidade da
história, a construção da obra, retratando a vida de uma
moça, nordestina (Macabéa). Continua falando sobre a arte
de usar a palavra e vai entremeando isso tudo com seus
monólogos e detalhes da figura e da vida da protagonista,
ora moça, ora criança. Baseando-nos nessas informações,
podemos afirmar que a ação, quanto à sua estrutura é:
( ) linear;
( ) acelerada;
( ) do tipo vai-e-vem;
( ) complexa.

b) Macabéa (personagem central) é uma moça nordestina,


despreparada para a vida, que passa a viver sozinha e
desajustada no Rio de Janeiro, como a maioria dos
migrantes, que trocam sua terra pelo sonho da cidade
grande. Sendo assim, podemos considerá-Ia como:
( ) personagem plana;
( ) personagem tipo;
( ) personagem esférica.

Justifique:

______________________________________________

______________________________________________

______________________________________________

______________________________________________

Literatura Brasileira * 33
estilos de
época

O mundo real, que serve de ponto de partida histórico tem por base os acontecimentos políticos e
para a literatura, é dinâmico, não para. A concepção sociais mais marcantes. O literário tem por base o
de mundo é, também, dinâmica, variando de acordo surgimento de uma obra literária que reflete uma
com a época. Por isso, há mudanças na maneira de mudança significativa em relação ao estilo de época
expressar a realidade. anterior. Dois ou mais estilos podem coexistir numa
Cada época tem seu estilo. O estilo é um mesma época. O que determina a denominação da
conjunto de características específicas e cada período é o predomínio e não a exclusividade
semelhantes que se refletem na arte, na ciência, na de determinadas formas de expressão literária.
religião, nos costumes em geral.
Essa semelhança na maneira de conceber e
expressar a realidade chama-se estilo de época.
Os estilos de época, que marcam a história
literária de Portugal e do Brasil, aparecem
sintetizados no quadro seguinte:

ESTILOS DE ÉPOCA

Portugal
1189/1198

1418

1527

1580

1756

1825

1865

1890

1915
Trovadorismo

Romantismo

Modernismo
Humanismo

Classicismo

Naturalismo

Simbolismo
Arcadismo

Realismo,
Barroco

Brasil
1500

1601

1768

1836

1881

1893

1902

1922

.........
Pré-Modernismo
Parnasianismo
Quinhentismo

Romantismo

Modernismo
Naturalismo

Simbolismo
Arcadismo

Realismo,
Barroco

Essas datas são convencionais, uma vez que


é difícil dizer com exatidão quando começa e quando
termina uma época literária. A escolha das datas
obedece a dois critérios: o histórico e o literário. O

Literatura Brasileira * 35
Quinhentismo

LITERATURA JESUÍTlCA E limitou-se:


INFORMATIVA a) à literatura jesuítico-religiosa;
b) à literatura informativa.
Logo que o Brasil foi descoberto, no século Características da literatura brasileira do
XVI, o tipo de colonização a que Portugal submeteu século XVI
a Colônia tornou difícil nosso desenvolvimento 1. A literatura jesuítica, representada princi-
literário imediato pelas seguintes razões: palmente pelas obras de José de Anchieta
1. Devido à inexistência de cidades e como a e Manuel da Nóbrega, é religiosa: era um
população, constituída de senhores e escravos, dos instrumentos de que os jesuítas
estava voltada apenas para a exploração agrícola da dispunham para a conversão dos índios.
Colônia, não havia público interessado em 2. Já a literatura informativa apresenta valor
manifestações artísticas, muito menos em literatura. documental, uma vez que fornecia à
2. Quando o Brasil foi dividido em capitanias, metrópole dados sobre a nossa terra.
a longa distância entre elas acentuava ainda mais o 3. No levantamento de tais dados, os autores,
isolamento cultural a que o regime de monopólio da muitas vezes, entusiasmavam-se com os
Coroa Portuguesa submetia o Brasil. aspectos pitorescos de nossa natureza,
3. Os nativos que viviam no Brasil, quando os exaltando, por exemplo, o abacaxi, fruta
portugueses aqui chegaram não tinham tradição desconhecida na Europa, naquela época.
literária; assim, nesse sentido, o único meio foi o Esse entusiasmo de nossos primeiros
transplante para o Brasil, da literatura que se fazia escritores, ao falarem engrandecendo nos-
em Portugal, na época do nosso descobrimento. sa terra, denomina-se de ufanismo.
Por isso, quando falamos nas primeiras
manifestações literárias brasileiras, o material a que AS PRINCIPAIS OBRAS INFORMATIVAS,
nos referimos tem muito pouco a ver com o que hoje ESCRITAS NO SÉCULO XVI SÃO:
chamamos literatura. O século XVI, no Brasil, não
assistiu ao surgimento de poemas e romances: • A Carta de Pero Vaz de Caminha;
assistiu, na realidade, ao aparecimento de obras • História da Província de Santa Cruz, a que
produzidas pelos jesuítas, cujo interesse pela vulgarmente chamamos Brasil - Pero de
catequese dos índios se manifestava em sua Magalhães Gândavo;
religiosidade e didatismo. • Tratado da Terra do Brasil - Pero de
Mas, ao lado desta literatura jesuítica, um Magalhães Gândavo;
outro tipo de produção literária começou a surgir: • Tratados da Terra e da Gente do Brasil -
como o Brasil era uma terra-nova, recém- Fernão Cardim;
descoberta, inúmeros viajantes para cá se dirigiam, • Tratado Descritivo do Brasil - Gabriel Soares
onde, a propósito das coisas vistas em viagem, de Souza.
escreviam livros sobre paisagens, plantas, animais
ou índios. A estas obras chamamos literatura Como podemos ver, as atividades literárias do
informativa, pois sua finalidade era apenas informar Brasil, no século XVI, estão bem longe daquilo que
Portugal sobre a nova Terra. consideramos literatura. Com exceção de alguns
Assim, podemos resumir o que dissemos, poemas religiosos de José de Anchieta, até hoje
afirmando que, no século XVI, a literatura brasileira apreciados, todas as outras obras são ou

Literatura Brasileira * 37
documentos informativos sobre o Brasil, ou a) sim.
instrumentos jesuíticos para a conversão do gentio. b) não.
Foi só no século seguinte que nossa literatura
se enriqueceu, produzindo prosadores do porte de 3. Pero Vaz de Caminha e Pero de Magalhães
Antônio Vieira e poetas do gabarito de Gregório de Gândavo são representantes da literatura:
Matos. a) informativa.
Vamos agora fixar bem as características da b) jesuítica.
literatura brasileira do século XVI, através do estudo
de um texto extraído do livro Presença da Literatura 4. Gabriel Soares de Souza escreveu uma obra que
Brasileira, de A. Cândido e A. Castello. se encaixa na literatura jesuítica no Brasil do
“A crônica histórica e informativa que se século XVI?
intensifica em Portugal no momento das grandes a) sim.
navegações, conquistas e descobertas ultramarinas b) não.
testemunhando a aventura geográfica dos portu-
gueses, os seus ideais de expansão da cristandade, 5. As obras produzidas no Brasil do século XVI
assume um sentido épico e humanístico que se apresentam características literárias semelhantes
estende ao Brasil e logo adquire entre nós algumas às encontradas na literatura contemporânea?
características peculiares; à curiosidade geográfica e a) sim.
humana e ao desejo de conquista e domínio b) não.
correspondem, inicialmente, o deslumbramento pe-
rante a paisagem exótica e exuberante, testemu- 6. O “deslumbramento diante da paisagem exótica e
nhado pelos cronistas portugueses que escreveram exuberante” de que fala o texto proposto tem
sobre o Brasil - Pero Vaz de Caminha, Pero de relação:
Magalhães Gândavo, Gabriel Soares de Souza -, a) com a literatura jesuítica.
assim, como os ideais de catequese atestados pela b) com o ufanismo.
literatura informativa e pedagógica dos jesuítas, c) com as poesias do padre José de Anchieta.
como o padre Manuel da Nóbrega e sobretudo o
padre José de Anchieta, caso à parte, singular no 7. A “literatura pedagógica” de que fala o texto tem
nosso século XVI”. relação com:
a) a literatura jesuítica.
b) a crônica portuguesa das grandes navega-
Depois de ler atentamente o texto proposto e ções.
refletir sobre ele, relacionando as informações que c) o ufanismo.
encerra com o que já vimos inicialmente, procure
responder às questões que se seguem:

RESUMA O ASSUNTO
1. A literatura informativa que apareceu no Brasil do
século XVI já havia aparecido em ____________
_______________________________________ I - Literatura Brasileira do século XVI:

___________________ temunhando as grandes


a) Literatura Jesuítica
_______________________________________
função:
e os __________________________________ .
_________________________________________________

_________________________________________________

2. A expansão geográfica de Portugal no século XVI _________________________________________________

estava desvinculada da expansão do cristia- _________________________________________________

nismo? _________________________________________________

38 * Literatura Brasileira
representantes:
_________________________________________________
_________________________________________________
_________________________________________________
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b) Literatura Informativa
função:
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obras/autores:

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Literatura Brasileira * 39
Barroco

1. Contexto históriCo - implicaria a perda da humanidade soberana


Pensamento FilosóFiCo conquistada pelo homem renascentista. Confrontam-
se, por isso, duas formas opostas: antropocentrismo
O Renascimento (século XVI) valoriza o e teocentrismo.
homem. Tentando atingir a síntese, o homem da época
Impregnado de ideias novas, adquiridas pelo procura conciliar esses dois elementos.
conhecimento dos textos gregos e latinos, o homem
renascentista encara a vida de forma diferente da até
então pensada. Teocentrismo
Um cem-número de acontecimentos, tanto x Tensão
políticos como sociais: a descoberta da pólvora, a Antropocentrismo
invenção da imprensa, que coloca o livro na mão de
muitos (o que não ocorria antes), veio dar ao homem
uma nova perspectiva da vida, que se torna
confiante, passando a perguntar, a pensar, a Dessa tentativa, resulta a tensão que marca a
responder. maneira de pensar, as concepções sociais, políticas
Essa nova mentalidade, valorizadora do e artísticas da época.
homem, do intelecto, contrapõe-se à visão do mundo Ao novo estilo de época que reflete essa
predominante na Idade Média em que imperava uma tensão dá-se o nome de Barroco ou Seiscentismo.
concepção teocêntrica e espiritualista. Na Idade Interiormente, o homem barroco percebe os
Média, o homem subordina-se a Deus; já no desejos e atitudes contraditórias que se debatem
Renascimento, torna-se quase pagão. dentro dele. Alertado pela Contrarreforma, sente,
Reagindo contra esse paganismo e contra o mais do que nunca, o drama de possuir um corpo
classicismo renascentista que se funda na crença de mortal. Tal estado de espírito, por sua vez, gera
que não há conflito entre a ordem divina e a ordem manifestações de tensões, angústias e incertezas,
humana, entre a alma e o corpo, entre a razão e a manifestações que vão caracterizar um compor-
natureza, entre a fé e a razão; surgem o Calvinismo, tamento melancólico, instável.
o Luteranismo, a Contrarreforma que corroem os Literariamente toda essa gama de situações
fundamentos dessa crença, apresentando o homem provindas das dúvidas, angústias e incertezas,
como ser miserável, corrupto, redimível através de caracteriza o Barroco.
um ato da graça de Deus; defendendo a existência
de uma dupla moral; opondo o corpo ao espírito,
acentuando a efemeridade da vida, descobrindo no 2. literatura
homem e no universo, a incoerência, o conflito, a
contradição. CARACTERÍSTICAS:
Essa reação antirrenascentista fará com que o
homem se veja colocado entre dois polos: de um a) Contraste: contraposição de temas, de as-
lado os valores do humanismo, que a custo suntos, de motivos e de elementos
conseguirá alcançar; de outro, o espiritualismo expressivos, tais como a oposição
medieval. entre a vida terrena e a vida eterna,
O retorno à visão medieval de mundo espiritualidade e materialidade, etc.

Literatura Brasileira * 41
b) O culto da solidão: o poeta é um ser especial, e) Verbalismo: Uso exagerado de imagens, de
que se isola num mundo figuras de sintaxe, de metáforas e
particular. floreios literários.

“(...)
- METÁFORA: é empregada como recurso que
o lugar de glória, adonde estou penando; procura concretizar, através dos sentimentos, a
casa da Morte, adonde estou vivendo!” emoção, a sensação, a percepção da realidade.
(Gregório de Matos)
“Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trata a toda ligeireza
O Barroco literário apresenta dois estilos: o
E imprime em toda a flor sua pisada.”
Cultismo (ou Gongorismo) e o Conceptismo (ou
(Gregório de Matos)
Conceitismo).

- ANTÍTESE: reflete a contradição do homem


c) Cultismo: É o jogo de palavras, o uso abusivo
barroco, seu dualismo. A unidade aparente do
de metáforas e hipérboles. Cor-
mundo esconde outra face: as coisas que têm
responde ao excesso de detalhes das
aparência da essência.
artes plásticas. Manifesta-se sobre-
tudo na poesia. “Ardor em firme coração nascido!
Pranto por belos olhos derramado!
SONETO Incêndio em mares de água disfarçado!
Rio de neve em fogo convertido.”
“O todo sem a parte não é todo; (Gregório de Matos)
A parte sem o todo não é parte;
Mas se a parte o faz todo, sendo parte, - GRADAÇÃO:
Não se diga que é parte, sendo o todo.
“Oh não aguardes que a madura idade
Em todo o Sacramento está Deus todo, Te converta essa flor, essa beleza,
E todo assiste inteiro em qualquer parte, Em terra, em cinzas, em pó, em sombra, em nada.”
E feito em partes todo em toda a parte, (Gregório de Matos)
Em qualquer parte sempre fica todo.

O braço de Jesus não seja parte, - HIPÉRBOLE: que traduz ideia de gran-
Pois que feito Jesus em partes todo, diosidade, de pompa.
Assiste cada parte em sua parte. “Mil anos há que busco a minha estrela
Não se sabendo parte deste todo, E os Fados dizem que ma têm guardada.”
Um braço que lhe acharam, sendo parte, (Francisco Rodrigues Lobo)

Nos disse as partes todas deste todo.”


- PROSOPOPEIA: personificação de seres
(Gregório de Matos)
inanimados, para dinamizar a realidade.

“Agora que se cala o surdo vento


d) Conceptismo: É o jogo de ideias. Manifesta-se E o rio enternecido com meu pranto
sobretudo na prosa. Detém seu vagaroso movimento.”
(Francisco Rodrigues Lobo)

“Para um homem se ver a si mesmo, são


- INVERSÃO:
necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem
espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se “Se apartada do corpo a doce vida,
tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por Domina em seu lugar a dura morte,
falta de luz. Logo, há mister luz, há mister espelho e há De que nasce tardar-me a morte
mister olhos”. Se ausente d’alma estou, que me dá a vida?”
(Padre Vieira) (Violante do Céu)

42 * Literatura Brasileira
f) Religiosidade: repetida frequência de assuntos Arrependido estou de coração,
envolvendo toda uma proble- de coração vos busco, dai-me os braços,
mática religiosa da época; Abraços, que me rendem vossa luz.

“Pequei, Senhor: mas não porque hei pecado, Luz, que claro me mostra a salvação,
Da vossa alta Piedade me despido, A salvação pretendo em tais abraços,
Porque quanto mais tenho delinquido, Misericórdia, amor, Jesus, Jesus!”
Vos tenho a perdoar mais empenhado.” (Gregório de Matos)
(Gregório de Matos)

i) A estética do feio: o artista barroco em vez de,


g) Sensualismo: contraposição à característica como o renascentista, formalizar o belo,
anterior; ênfase dada aos as- o equilibrado, o ideal, retrata através da
pectos táteis, visuais, sensitivos, sátira e da caricatura o lado feio,
tanto em relação à natureza macabro, grotesco dos fatos e dos
como ao corpo humano; seres. Os defeitos físicos, as situações
indecorosas e sórdidas, os vícios
repulsivos constituem temas frequentes
“Discreta e formosíssima Maria,
da poesia barroca de caráter realista e
Enquanto estamos vendo a qualquer hora,
satírico. Como exemplo do barroco de
Em tuas faces a rosada Aurora,
veio satírico, no Brasil, temos Gregório
Em teus olhos, e boca, o Sol, e o dia:
de Matos. Exemplo de fragmento
Enquanto, com gentil descortesia, poético:
O ar, que fresco Adônis te namora,
Te espalha a rica trança voadora, “E nos frades há manqueiras?... Freiras
Quando vem passear-te pela fria: Em que ocupam os Serões?... Sermões
Goza, goza da flor da mocidade, Não se ocupam de disputas?.. Putas.
Que o tempo trota, e a toda ligeireza, Com palavras dissolutas
E imprime em toda a flor sua pisada. me concluo na verdade,
Oh não aguardes que a madura idade Que as lidas todas de um frade
Te converta em flor, essa beleza, São freiras, sermões e putas.”
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.”
(Gregório de Matos)
Os principais temas da literatura barroca
giram em torno da ideia de:
h) Pessimismo: nascido da oposição frontal feita a) sobrenatural;
entre o corpo e a alma, entre o eu b) morte;
e o mundo, entre o Catolicismo e c) fugacidade da vida e ilusão;
a Reforma; d) castigo;
e) heroísmo;
SONETO f) misticismo;
g) erotismo;
“Ofendi-vos, meu Deus, é bem verdade,
h) cenas trágicas;
É verdade, meu Deus, que hei delinquido,
i) apelo à religião, ao céu;
Delinquido vos tenho, e ofendido,
j) arrependimento;
Ofendido vos tem minha maldade.
I) sedução do mundo.
Maldade, que encaminha à vaidade,
Vaidade, que todo me há vencido,
Vencido quero ver-me e arrependido,
Arrependido a tanta enormidade,

Literatura Brasileira * 43
O BARROCO NO BRASIL Poema Sacro

A JESUS CRISTO NOSSO SENHOR


Barroco ou Seiscentismo são as duas
“Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
denominações do período literário que caracterizou
Da vossa alta Piedade me despido;
as obras produzidas no Brasil entre 1601 (quando
Porque quanto mais tenho delinquido,
Bento Teixeira publicou Prosopopeia) e 1768
Vos tenho a perdoar mais empenhado.
(quando Cláudio Manuel da Costa publicou seus
Se basta a vos irar tanto pecado,
poemas sob o título de Obras Poéticas).
A abrandar-vos sobeja um só gemido;
Que a mesma culpa que vos há ofendido,
PRINCIPAIS AUTORES
Vos tem para o perdão lisonjeado.

GREGÓRIO DE MATOS (1636 - 1695) Se uma Ovelha perdida já cobrada,


Nasceu na Bahia, em 1636 e pertenceu a uma Glória tal e prazer tão repentino
família abonada. Cursou Direito em Coimbra e viveu Vos deu, como afirmais na Sacra História,

em Portugal de 1653 a 1681, quando regressou ao Eu sou, Senhor, a Ovelha desgarrada;


Brasil, levando vida boêmia e desregrada. Começou Cobrai-a; e não queirais, Pastor Divino,
a compor versos e sátiras, caçoando de todos, Perder na vossa Ovelha, a vossa glória.”
merecendo o apelido de “boca do inferno”. Foi
exilado para Angola, de onde voltou em 1695, Esse texto representa muito bem a poesia
fixando-se em Recife, onde morreu no ano seguinte. sacra de Gregório de Matos: a menção de Cristo,
Sua produção poética se constitui de poemas desde o título do poema, indica a religiosidade,
sacros, líricos e satíricos. É mais conhecido como reforçada pela forma respeitosa de tratamento (2ª
pessoa do plural) e pelo vocativo “Senhor” no pri-
poeta satírico, mas é na coletânea lírica que estão
meiro verso. A espiritualidade do poema é ainda
as melhores poesias. Revela acentuada influência
testada pela menção à parábola bíblica do pastor
dos poetas espanhóis Quevedo e Gôngora.
que mais se alegra com a recuperação de uma
Os poemas sacros apresentam o pecado
ovelha perdida do que com as 99 que estão seguras
como vício inerente ao homem. Os pecadores estão
no redil. Entretanto, se tais elementos emprestam
sempre à procura da salvação da alma, através do
religiosidade ao poema, é preciso lembrar que o
perdão de Deus.
Barroco é um período dual: ao lado do espiritualismo
As sátiras constituem uma crítica à sociedade
religioso surge sempre o humanismo terreno. Esta
da época. Revestem-se de tom agressivo e última linha, no poema em questão, é responsável
contundente. A injúria fere as autoridades da colônia pela presença quase acintosa do ser humano (o
e a indiferença atinge a classe inferior. Sua poeta) que, por assim dizer, “Exige” que Cristo o
linguagem é livre, espontânea, chegando, às vezes, salve. Esta inversão de posições - ora Deus, ora o
ao baixo calão. Da crítica ferina, não escapa homem, ocupa o centro de preocupações do poeta -
ninguém: corte, clero, povo, brasileiro ou português, se revela na antítese entre a atitude de arrependi-
o intelectual “branco” ou as mulatas da terra. mento contrito, evidenciado no “pequei” do primeiro
A obra lírica apresenta duas vertentes: a verso, e o emprego do imperativo “Cobrai-a” do
amorosa e a filosófica. penúltimo verso.
A vertente lírico-amorosa é fortemente mar-
Poema Lírico-amoroso
cada pelo dualismo amoroso carne/espírito, que leva
normalmente a um sentimento de culpa no plano OS AFETOS E LÁGRIMAS DERRAMADAS NA
espiritual. A mulher, muitas vezes, é a personificação AUSÊNCIA DA DAMA A QUEM QUERIA BEM
do próprio pecado, da perdição espiritual. “Ardor em firme coração nascido!
Na vertente lírico-filosófica, destacam-se Pranto por belos olhos derramado!
textos que se referem ao desconcerto do mundo e Incêndio em mares d’água disfarçado!
às funções humanas. Rio de Neve em fogo convertido!

44 * Literatura Brasileira
Tu, que um peito abrasas escondido; Mas no Sol, e na luz, falta a firmeza,
Tu, que em um rosto corres desatado; Na formosura, não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.
Quando fogo em cristais aprisionado;
Quando cristal em chamas derretido. Começa o mundo enfim pela ignorância,
Pois tem qualquer dos bens por natureza
Se és fogo, como passas brandamente? A firmeza somente na inconstância.”
Se és neve, como queimas com porfia?
Observe que nesse texto predomina a
Mas ai, que andou Amor em ti prudente.
consciência da transitoriedade da vida e do tempo.
Pois para temperar a tirania,
Como quis, que aqui fosse a neve ardente, Poema Satírico
Permitiu parecesse a chama fria.”
“A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar cabana, e vinha;
Fala do sentimento do poeta que confessa os
Não sabem governar sua cozinha,
aspectos contraditórios do amor que o domina. Mais
E podem governar o mundo inteiro.
uma vez encontramos a mesma fusão entre
elementos de caráter contraditório: buscando definir Em cada porta um frequentado olheiro,
o amor que sente, o poeta compara-o a elementos Que a vida do vizinho, e da vizinha
opostos, pois, ao mesmo tempo em que o amor é Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha,
“incêndio”, é, também, “rio de neve”. O gosto pela Para a levar à Praça e ao Terreiro.
aproximação dos contrários é levado ao extremo no Muitos Mulatos desavergonhados,
momento em que imagens, fisicamente ina- Trazidos pelos pés os homens nobres,
proximáveis, fundem os dois conceitos: enquanto Posta nas palmas toda a picardia.
“incêndio”, o amor é disfarçado em “mares” d’água, Estupendas usuras nos mercados,
enquanto “rio de neve” o amor se converte em “fogo”. Todos, os que não furtam, muito pobres,
E estas duas metáforas - a do fogo e da água - E eis aqui a cidade da Bahia.”
continuam a alicerçar todo o soneto: na segunda
estrofe, a ideia de “fogo” reaparece em “abrasas”, Esse texto faz uma crítica aos governantes, às
“fogo” e “chama”, as de “água” em “correr” e “cristal”. pessoas que se preocupam com a vida alheia e aos
Já aqui percebemos que, além da oposição térmica mulatos da cidade da Bahia naquele tempo.
- quente-frio - as metáforas de Gregório de Matos
apresentam também oposição no sentido: enquanto PADRE ANTôNIO VIEIRA (1608 -1697)
o cristal é duro e estático, o fogo é dinâmico, Vieira nasceu em Lisboa, em 1608 e morreu
movimentado. E assim o poema prossegue até seu na Bahia em 1697. Veio para o Brasil em 1615,
final, quando, no último terceto, a oposição entre os entrou na Companhia de Jesus e cedo começou a
elementos é total, na medida em que se manifesta destacar-se como orador. Em 1641, um ano depois
numa estrutura de substantivo-adjetivo: neve ardente de Portugal libertar-se do jugo espanhol, foi para
e chama fria. O estilo é cultista. O virtuosismo de seu Lisboa, encarregado de saudar o rei Dom João IV.
talento desdobra infinitas variações para a antítese Saiu-se tão bem da missão, que foi nomeado pelo
básica fogo/água. rei orador da Corte. Impressionado com os dotes de
oratória do Jesuíta e sua habilidade política, Dom
Poema Lírico-filosófico
João IV encarregou-o de várias missões diplomá-
À INSTABILIDADE DAS COUSAS DO MUNDO ticas no exterior. Regressando a Lisboa, Vieira
“Nasce o Sol, e não dura mais que um dia, entregou-se à defesa dos cristãos novos (judeus
Depois da luz, se segue a noite escura, convertidos ao Cristianismo). Em virtude disso,
Em tristes sombras morre a formosura,
passou a ser perseguido pela Inquisição até que, em
Em contínuas tristezas, a alegria.
1652, voltou para o Brasil, fixou-se no Maranhão e
Porém, se acaba o Sol, por que nascia?
dedicou-se à catequese; mas, em 1661, foi expulso
Se formosa a luz, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura? daqui, por lutar contra a escravização dos índios.
Como o gosto da pena assim se fia? Regressou a Portugal, mas foi novamente perse-

Literatura Brasileira * 45
guido: às acusações anteriores soma-se agora a de que façam na terra, o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a
sebastianista (pregador da crença na volta de D. corrupção, mas quando se vê a terra tão corrupta como está a
Sebastião, rei português desaparecido na batalha de nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou
Alcácer-Quibir, em 1578). Vieira viaja então para qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não
Roma, alcançando o perdão do Papa. Regressa salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina, ou
depois ao Brasil, onde morre em 1697. porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, sendo
verdadeira a doutrina, que Ihes dão, a não querem receber; ou
Sua produção em prosa constitui-se de:
é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma coisa, e
Sermões, Cartas e Obras proféticas, em que Vieira
fazem outra, ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes
defende o sebastianismo.
querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que eles
Embora a atividade epistolar (escrita de
dizem; ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam
cartas) tenha sido considerável, a parte mais
a si, e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os
importante da sua obra é sem dúvida Os Sermões.
ouvintes em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não
Grande número de sermões escritos por ele tratam
é tudo isso verdade? Ainda mal”.
de temas importantes para a sociedade brasileira e
portuguesa. Vieira foi aquilo que, modernamente,
O texto acima foi extraído do “Sermão de
chamamos um homem “engajado”, ou seja, seus
Santo Antônio”, pronunciado pelo Padre Vieira em
escritos sempre tomaram partido a propósito das
São Luís do Maranhão, em 1564, em pleno
várias questões que, durante sua vida, agitaram
florescimento do período barroco.
Portugal ou o Brasil. Como exemplo destas
1. A própria natureza do texto - é um sermão - já
campanhas, podemos citar a defesa dos índios
nos anuncia a religiosidade que, como já vimos,
contra a escravização, a defesa dos judeus
caracteriza o barroco ibérico e brasileiro.
convertidos, perseguidos pela Inquisição, o incentivo
à luta contra os holandeses. São bastante 2. A religiosidade, portanto, emana deste texto de
característicos, nos sermões do Padre Vieira, os Vieira como a de G. de Matos que já vimos.
recursos de comunicação com o auditório que o Entretanto, embora unidos pela religiosidade,
estava ouvindo. Vieira adequava-se aos mais esta se manifesta diferente em cada um deles.
diferentes tipos de público - desde colonos semi- No soneto há um caráter sensorial e emotivo da
analfabetos até eruditos pregadores - usando religiosidade ali evidenciada. No sermão, a
sempre a técnica de diálogo com seus ouvintes: religiosidade não é emotiva, não é despertada
descrevia as cenas de modo bem real, concretizava, com o concurso de elementos sensoriais: o
frequentemente, a alusão a temas abstratos e sentimento religioso se manifesta através de um

metafísicos, recorria a citações bíblicas. Um dos raciocínio constante, através do qual Vieira

recursos de que se valia Vieira para assegurar a pretende convencer os ouvintes (e os leitores) de

comunicabilidade com seu auditório era a subdivisão sua verdade religiosa.

dos assuntos em itens. Cada um desses era objeto 3. Este caráter racional do texto de Vieira fica bem
de meticulosa comprovação por parte do orador. Isto, claro se observarmos que ele começa com uma
sem dúvida, dava a seus sermões uma aparência de citação de Cristo, gastando todo o resto do
irrefutável lógica, uma vez que, na discussão dos parágrafo na explicação desta citação. E, no
pormenores e subdivisões do tema, o ouvinte perdia intuito de explicar, surgem inúmeros “porquês”
a noção do conjunto. (orações subordinadas adverbiais causais) que
Seguidor dos clássicos, o Padre Vieira se bem demonstram o esforço do autor em
utilizou, em seu sermões, de uma linguagem fundamentar logicamente suas afirmações
escorreita, empregando um número pequeno de através de raciocínios constantes.
trocadilhos, evitando assim os excessos cultistas.
4. O esforço da fundamentação lógica se manifesta,
de certa maneira, nos constantes empregos de
SERMÃO DE SANTO ANTôNIO (EXTRATO)
“ou”. Podemos dizer que, neste parágrafo, o
“Vós, diz Cristo Senhor Nosso, falando com os pregado- Padre Vieira não deixa a seu ouvinte margem
res, sois o sal da terra: e chama-Ihes sal da terra, porque quer para que ele escape ao seu raciocínio:

46 * Literatura Brasileira
“OU” o sal não salga, OU a terra não se deixa se portanto, na exortação que faz. Além disso,
salgar; “OU” os pregadores não pregam a percebemos também o realismo descritivo do
verdadeira doutrina OU os ouvintes não a querem jesuíta, quando descreve as consequências da
receber; “OU” os pregadores dizem uma coisa e temida invasão: as cenas são rudemente
fazem outra, OU os ouvintes querem antes imitar apresentadas aos olhos dos ouvintes, tornando-se
o que eles fazem, que fazer o que dizem; “OU” mais acentuadas em sua dimensão de horror pela
os pregadores se pregam a si, OU os ouvintes repetição constante de “chorarão”, ao início de cada
servem a seus apetites. frase. (A esta repetição de uma palavra, no início de
várias frases, chamamos anáfora).
5. Observando a simetria das construções
empregadas por Vieira, podemos verificar que ela
SERMÃO DA SEXAGÉSIMA
se aproxima bastante da simetria que apontamos
em G. de Matos, ou seja, o caráter lúdico da
Vieira analisa a ineficiência dos pregadores e
literatura barroca se manifesta tanto nas obras
teoriza a respeito da arte de pregar.
cultistas como nas conceitistas.
“Há de formar o pregador uma só matéria, há de
6. Como última característica da literatura barroca
defini-Ia para que se conheça, há de dividi-Ia para que se
presente neste texto, encontramos o esforço por
distinga, há de prová-Ia com a escritura, há de declará-Ia
tornar-se acessível aos ouvintes. A citação
com a razão, há de confirmá-Ia com o exemplo, há de
bíblica, segundo a qual os pregadores são “o sal
ampliá-Ia com as causas, com os efeitos, com as
da terra” é, evidentemente, metafórica, isto é, da
circunstâncias que se hão de seguir, com os
mesma maneira que o sal preserva os alimentos inconvenientes que se hão de evitar; há de responder às
da deterioração, cabe aos pregadores salvar a dúvidas, há de satisfazer às dificuldades, há de impugnar
terra da degradação. Assim, através de um e refutar com toda força de eloquência a argumentos
exemplo concreto (o sal, responsável pela contrários, e depois disso há de colher, há de apertar, há
conservação dos alimentos), Vieira fala de um de concluir, há de persuadir, há de acabar”.
conceito abstrato (os pregadores, a quem cabe
salvar a terra do pecado). Vemos a importância que ocupa, em sua
teoria da oratória, a subdivisão do tema em itens e a
SERMÃO PELO BOM SUCESSO DAS planificação cuidadosa das várias etapas do sermão.
ARMAS DE PORTUGAL CONTRA AS DE
HOLANDA (EXTRATO)
RESUMA O ASSUNTO
“Finjamos, pois (o que até fingido e imaginado faz
horror) finjamos que vêm a Bahia e o resto do Brasil às I - Barroco ou _______________________________________

mãos dos Holandeses. O que é que há de suceder em tal 1. O que determina o aparecimento do Barroco é:
caso? Entrarão por esta cidade com fúria de vencedores
_________________________________________________
e de hereges; não perdoarão o estado, o sexo nem a
_________________________________________________
idade; com o fio dos mesmos alfanges medirão ao todo: _________________________________________________
chorarão as mulheres, vendo que não se guarda decoro
a sua modéstia; chorarão os velhos, vendo que não se 2. Características:
a) contraste
guarda cortesia as suas cãs; chorarão os nobres, vendo
_________________________________________________
que não se guarda cortesia a sua qualidade; chorarão os
_________________________________________________
religiosos e veneráveis sacerdotes, vendo que até as
_________________________________________________
coroas sagradas os não defendem; chorarão finalmente
todos e entre todos, mais lastimosamente, os inocentes...”
b) verbalismo

Podemos perceber claramente o diálogo com _________________________________________________


_________________________________________________
os ouvintes, quando Vieira se utiliza da primeira
_________________________________________________
pessoa do plural (finjamos: nós finjamos), incluindo-

Literatura Brasileira * 47
c) religiosidade
b) conceptismo
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d) pessimismo
4. Temática
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________________________________________________

e) culto da solidão

5. Início:
_________________________________________________
_________________________________________________ data ____________________________________________
_________________________________________________ obra ____________________________________________
autor_____________________________________________

3. Estilos

a) cultismo

_________________________________________________
_________________________________________________
_________________________________________________

Quadro Sinóptico

Autores Obras Características

Gregório de Matos

Padre Antônio Vieira

48 * Literatura Brasileira
EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO 6. No Brasil, o Barroco está ligado:
a) Ao Jesuitismo;
b) Aos dominicanos;
1.
c) Exclusivamente aos leigos;
“Bote a sua casaca de veludo
d) Ao Padre Anchieta;
E seja capitão sequer dois dias,
e) Nenhuma delas.
Conversa à porta de Domingos Dias
Que pega fidalguia mais que tudo.
7. Assinale a alternativa que contiver o fato histórico que teve
Seja um magano, um pícaro, um cornudo repercussões na literatura barroca portuguesa e brasileira:
Vá a palácio, e após das cortesias a) Tratado de Madri;
Perca quanto ganhar nas mercancias b) Grandes descobrimentos ;
Em que perca o alheio, esteja mudo.” c) Contrarreforma;
d) Expulsão dos Jesuítas;
Estes dois quartetos são de Gregório de Matos. Classifique- e) Nenhuma delas.
os em relação à obra do autor.
8. As origens do movimento barroco encontram-se:
_________________________________________________ a) Em Portugal;
_________________________________________________ b) Na França;
c) Na Espanha;
_________________________________________________ d) Na Alemanha;
e) Nenhuma das alternativas.
2.
“Entre (ó Floralva) assombros repetidos 9. Podemos dizer que:
E é pena com que vivo ausente, a) O Barroco rompeu com a tradição teocêntrica da Idade
Que palavras a voz não me consente; Média Portuguesa.
E só para sentir, me dá sentidos. b) Na base do Barroco português e brasileiro encontramos
uma tentativa de fusão do teocentrismo com o antropo-
Nos prantos e nos ais enternecidos, centrismo.
Dizer não pode o peito o mal que sente; c) A literatura barroca é desequilibrada, de mau gosto e
Pois vai confusa a queixa na corrente; confusa.
E mal articulada nos gemidos.” d) Cultismo e conceitismo são diferentes estilos encontráveis
tanto na obra de Vieira como em Gregório de Matos.
Estes dois quartetos pertencem a um soneto:
a) lírico-amoroso; 10. Vieira foi expulso do Brasil:
b) lírico-religioso;
a) Por lutar contra a escravidão dos índios;
c) satírico;
b) Por ser aliado dos holandeses invasores;
d) épico.
c) Por ter defendido os cristãos novos;
d) Por ser sebastianista;
3. Assinale a alternativa correta: e) Nenhuma é correta.
a) A obra de Vieira é desligada do momento histórico em que
viveu o jesuíta. 11. O apelido de Gregório de Matos era:
b) Na obra de Vieira destacam-se os temas místicos e a) a Águia de Haia;
contemplativos. b) Poeta dos Escravos;
c) Homem de seu tempo, Vieira tratou, em seus Sermões, de c) Poeta da Dor;
quase todos os temas de sua época. d) Boca do Inferno.
d) Vieira é o maior poeta barroco brasileiro.

4. A linguagem de Vieira pode ser definida como: Explique o motivo: _________________________________

a) Tipicamente barroca: prolixa e cheia de trocadilhos; ________________________________________________


b) Poética e mística;
c) Clássica e escorreita;
d) Incorreta e pobre. 12.
Sermão da Sexagésima
5.
“Será por ventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos? Um
“Nasce o sol, e não dura mais que um dia.
estilo tão dificultoso, um estilo tão afetado, um estilo tão
Depois da luz, se segue a noite escura,
encontrado a toda arte e a toda natureza?
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria”. (...)
(Gregório de Matos) O pregador há de ser como quem semeia, e não como quem
ladrilha ou azuleja. Não fez Deus o céu em xadrez de estrelas,
a) Aponte características barrocas no excerto: como os pregadores fazem o sermão em xadrez de palavras.
Se de uma parte está branco, de outra há de estar negro; se
_________________________________________________ de uma parte está dia, de outra há de estar noite? Se de uma
_________________________________________________ parte dizem luz, da outra hão de dizer sombra; se de uma
parte dizem desceu, da outra hão de dizer subiu. Basta que
_________________________________________________ não havemos de ver num sermão duas palavras em paz.
Todos hão de estar sempre em fronteira com o seu contrário?

b) Que visão do mundo é aí veiculada? (...)


Mas dir-me-eis: Padre, os pregadores de hoje pregam do
_________________________________________________ Evangelho, não pregam das Sagradas Escrituras? Pois como
_________________________________________________ não pregam a palavra de Deus? - Esse é o mal. Pregam
palavras de Deus, não pregam a Palavra de Deus.”
_________________________________________________
Literatura Brasileira * 49
a) Que estilo de linguagem está criticando Vieira? De que
imagem se utiliza para criticá-Ia?

_________________________________________________

_________________________________________________

_________________________________________________

b) Que figura de linguagem, bastante utilizada por poetas barro-


cos, é desvalorizada?

_________________________________________________

_________________________________________________

_________________________________________________

c) Vieira consegue desvincular-se do estilo que critica? Explique.

_________________________________________________

_________________________________________________

_________________________________________________

d) Podemos afirmar em relação à concepção de Vieira que


“métodos díspares atingem o mesmo objetivo”? Por quê?

_________________________________________________

_________________________________________________

_________________________________________________

50 * Literatura Brasileira
arcadismo

1 - Contexto históriCo no campo psicológico, biológico e físico é apenas


aparente e resulta da mesma evolução material.
O século XVIII caracteriza-se pela
consolidação da revolução iniciada no Renas- CONSEQUÊNCIAS:
cimento: difusão da conquista do racionalismo,
experimentalismo, espírito de observação, concep- 1ª - Uma visão de mundo científica: o homem
ção científica do mundo e na larga renovação mental da época acredita na ciência como meio de explicar
baseada no progresso das ciências e na atividade o mundo e como meio de modificar a sociedade.
científica. 2ª - A Razão passa a ser a base de todo o
saber humano: a religiosidade do Barroco é
Profundas mudanças foram registradas:
menosprezada.
Todas essas mudanças caracterizam um
a) Intenso progresso científico:
movimento cultural que marca a fisionomia da
• lei da gravidade descoberta por Newton
Europa do século XVIII: o lIuminismo.
(1642-1727);
lIuminismo (de iluminação = esclarecimento)
• abordagem das leis das sensações pela
designa um “esforço de renovação cultural de
Psicologia;
natureza sobretudo política, que tinha em vista a
• classificação dos seres vivos pela
atualização de conceitos, de normas e técnicas, uma
Biologia.
maior eficiência na ordem social e se subordinava à
b) Desse surto de progresso resulta a concepção nova de progresso humano”.
tecnologia e o consequente aumento da produção. A ideia de progresso como meio de trazer a
Generaliza-se a concepção de que negócios e felicidade ao maior número de pessoas é
ciências constituem campos independentes da predominante na época.
esfera religiosa e do estado. Por isso, o século XVIII é conhecido como
século das luzes, época em que se acredita que tudo
c) A grande quantidade de produtos gera pode ser explicado pela ciência e pela razão. Essa
novas formas de comércio, fortalecendo a burguesia. visão de mundo se concretiza na Enciclopédia,
d) A industrialização provoca a urbanização publicada na França em 1751, tendo à frente os
cada vez mais crescente, o que ocasiona o filósofos D’ Alembert, Voltaire e Diderot.
fenômeno da corrida às cidades e o abandono do Não é difícil deduzir que a propagação do
campo. saber científico se opõe às ideias predominan-
temente religiosas do período anterior, o Barroco. O
e) A Declaração dos Direitos do Homem vem despojamento religioso, o sentimento de equilíbrio
à luz em 1789, na França. de uma sociedade que acredita ter atingido a síntese
da razão com a fé, vai-se refletir na produção
f) Experiência é o meio de conhecimento da
artística do período.
realidade, e a consequência indireta disso é o culto
É nesse contexto que aparece o Arcadismo
da razão prática.
que vai se opor às ideias Barrocas, ao gosto do
g) Os progressos na investigação biológica esplêndido e grandioso, da ostentação, na busca de
fortalecem a concepção de que o mundo é qualidades clássicas de medida, conveniência,
fundamentalmente homogêneo: a heterogeneidade disciplina, pureza, simplicidade.

Literatura Brasileira * 51
séCulo xViii - brasil pastores, chefiados pelo deus Pan, dedicavam-se ao
pastoreio e à poesia.
Na primeira metade do século XVIII, Vila Rica
Neoclassicismo (neo = novo), pois o
(atual Ouro Preto-MG) centraliza o surto de desen-
movimento propunha, basicamente, a imitação dos
volvimento que Minas Gerais conhece, com a corrida
clássicos, quer voltando à Antiguidade grego-romana
do ouro, e transforma-se rapidamente na capital
quer imitando escritores quinhentistas da
econômica e cultural da Colônia. Com a riqueza,
Renascença, considerados fonte de equilíbrio e
desenvolveu-se também a cultura intelectual. Os sobriedade.
humildes arraiais de catadores se transformam em A palavra imitação, nesse caso, não deve ser
belas cidades. Vila Rica, São João del-Rei, Mariana, entendida como cópia pura e simples dos clássicos.
Diamantina constituíram-se em focos de instrução, Trata-se, antes de tudo, de seguir determinadas
onde se estudavam não só as letras clássicas, mas convenções.
também as literaturas italiana, espanhola e
portuguesa. Essa civilização do ouro produziu CARACTERÍSTICAS:
algumas das figuras mais notáveis das nossas artes:
na escultura e na arquitetura - Antônio Francisco Poesia objetiva e impessoal: o poeta busca
Lisboa (o Aleijadinho); na pintura - Manuel da Costa interpretar sentimentos comuns, não individuais.
Ataíde; na literatura - o grupo de poetas que se Predomínio da razão sobre os sentimentos: orienta-
costuma chamar a escola mineira. se pela verdade e sinceridade; preocupa-se com a
Os governadores e funcionários da colônia satisfação intelectual e lógica do leitor, antes da
cometiam abusos sem conta. Não Ihes interessava a emoção.
administração feliz e útil e sim o enriquecimento Imitação de autores clássicos (ver neoclassicis-mo):
próprio e o do Reino (= Portugal). As Cartas (“Carpe diem” = aproveitar o presente, o dia);
Chilenas, de Tomás Antônio Gonzaga, são um relato (“Fugere urbem” = fugir da cidade);
da miséria do povo e da cobiça e arbitrariedade dos (“Locus amoenus”= lugar agradável).
mandantes. Bucolismo: fuga para o campo, considerado uma
Na pacata colônia, tem imensa repercussão espécie de paraíso perdido para o homem
as novas ideias da Revolução Francesa que (principalmente europeu). Defende a teoria de que o
conseguira destruir instituições; a independência homem é puro e feliz quando em contato com a
nacional é a Inconfidência. natureza (Rousseau).
Cláudio Manuel da Costa, Gonzaga e Pastoralismo: o poeta adota nomes de pastores e há
Alvarenga Peixoto, os poetas de destaque do uma constante referência a eles, bem como a
período, foram grandes amigos, e os três se viram descrição de sua vida, do campo e das atividades
envolvidos no movimento literário da Inconfidência pastoris. Observa-se que esta paixão pelo campo é,
(1789). A tentativa malogrou ainda no período das quase sempre, idealizada e deslocada (espe-
conversações: presos os conspiradores, Cláudio cialmente no Brasil), pois os poetas não eram
Manuel da Costa suicidou-se e os outros dois foram pastores e nem criavam ovelhinhas brancas como
desterrados para a África. afirma Gonzaga em um dos seus poemas.
Simplicidade (no conteúdo e na forma): o ideal de
vida é comum e simples, desprezando o luxo. Na
2. literatura forma, repudia as formas barrocas confusas e
rebuscadas, cultivando períodos curtos e vocabulário
O estilo que predomina na literatura da mais acessível.
época é denominado Arcadismo ou Neoclas-sicismo. Panteísmo: doutrina segundo a qual só o mundo é
Convém examinar esses dois nomes, pois real e Deus é a somatória de todas as coisas.
eles sintetizam a visão do mundo expressa pela Paganismo: em oposição à religiosidade barroca,
Literatura da época. valorização dos deuses greco-romanos.
Arcadismo: deriva de Arcádia, região mitoló-
gica da Grécia, que simbolizava o ideal de vida, onde

52 * Literatura Brasileira
CARACTERÍSTICAS DO temática, seus assuntos prediletos são o
ARCADISMO BRASILEIRO: desencanto da vida e a ausência de Nise, a
amada.
Além das anteriormente citadas, encontramos,
na poesia árcade do Brasil, as seguintes caracte- Principais obras:
rísticas:
Obras Poéticas (1768 - marcam o início do
Nativismo - com a exploração de paisagens Arcadismo).
e atividades brasileiras. Exemplos em Gonzaga,
Vila Rica, poema épico em que o autor
Basílio e Santa Rita.
pretendeu narrar a fundação da cidade e sua
Independência formal - exemplos em
história.
Basílio.
Subjetivismo - que foge aos padrões
arcádicos. Exemplos na 2ª parte de Marília de
Exemplos:
Dirceu.

O início do Arcadismo no Brasil se dá com a “Pastores, que levais ao monte o gado,


publicação de Obras Poéticas de Cláudio Manuel da Vede lá como andais por essa serra,
Costa, em 1768. Chamou-se ao nosso Arcadismo de Que para dar contágio a toda a terra,
Grupo Arcádico Mineiro por ter se difundido em Basta ver-se o meu rosto magoado.
Minas Gerais, basicamente pelos Inconfidentes. Eu ando, vós me vedes, tão pesado
E a Pastora infiel, que me faz guerra,
É a mesma, que em meu semblante encerra
OS ÁRCADES BRASILEIROS A causa de um martírio tão cansado.

CLAUDIO MANUEL DA COSTA (1729-1789) Se a quereis conhecer, vinde comigo,

Pseudônimo árcade: Glauceste Satúrnio. Vereis a formosura, que eu adoro;


Musa-pastora: Nise Mas não; tanto não sou Vosso inimigo:
Biografia: Nasceu nos arredores de Mariana Deixai, não a vejais; eu vô-lo imploro;
(MG). Fez o Curso de Letras no Colégio dos Jesuítas Que se seguir quiserdes o que eu sigo,
(RJ) e formou-se em Cânones em Coimbra. Foi Chorareis, ó Pastores, o que eu choro.”
advogado em Vila Rica, secretário do governo,
minerador e inconfidente. Morreu em Vila Rica,
enforcado na prisão. Suicídio, dizem. Do poema Vila Rica:
Características: “Leia a posteridade, ó pátrio rio,
- Foi um poeta de alta consciência artística. Em meus versos teu nome celebrado;
- De formação cultista, desejava engajar-se Por que vejas uma hora despertado
na reforma arcádica. O sono vil do esquecimento frio.
- Formou-se na Europa, mas desejava Não se vê nas tuas margens o sóbrio,
exprimir a realidade do Brasil. Fresco assento de um álamo copado;
- Dos poetas do grupo mineiro, foi o mais Não vês ninfa cantar, pastar o gado
preso aos modelos arcádicos. Na tarde clara do calmoso estio.
- Era o mais culto e o mais correto na
Turvo, banhando as pálidas areias
metrificação e na linguagem.
Nas porções do riquíssimo tesouro
- Seus sonetos (a melhor parte de sua
O vasto campo da ambição recreias.
produção) mostram uma técnica esmerada,
têm linguagem e métrica perfeitas; são Que de seus raios o planeta louro
sempre formais, distantes, frios. Enriquecendo o influxo em tuas veias,
- Suas obras denunciam certa pobreza Quanto em chamas fecundo, brota em ouro.”

Literatura Brasileira * 53
“Onde estou? Este sítio desconheço: cheio de honrarias e cargos.
Quem fez tão diferente aquele prado? Não passa de lenda a velha informação
Tudo outra natureza tem tomado; biográfica que dava Gonzaga como tendo terminado
E em contemplá-lo tímido esmoreço. os seus dias em situação de miséria e loucura,
torturado pelas saudades do Brasil e de Marília.
Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço
De estar a ela um dia reclinado:
Ali em vale um monte está mudado: Características:
Quanto pode dos anos o progresso!
Gonzaga foi árcade, mas sua poesia indica
Árvores aqui vi tão florescentes, transição do Classicismo ao Romantismo.
Que faziam perpétua a primavera: Em sua poesia, há muitas citações, até em
Nem troncos vejo agora decadentes. excesso, há devaneios ridículos, ao lado da
Eu me engano: a região esta não era: simplicidade emotiva, explorando o amor golpeado
Mas que venho a estranhar, se estão presentes pelo destino - vem daí a lenda sobre os noivos da
Meus males com que tudo degenera!” Inconfidência (como foram chamados Marília e
Dirceu) e a popularidade das liras do poeta.
A variedade métrica, imagens felizes, a
TOMÁS ANTôNIO GONZAGA(1744-1810) presença da paisagem brasileira, tornam as liras
Pseudônimo árcade: Dirceu amorosas de T. A. Gonzaga, um livro de valor da
Musa-pastora: Marília literatura (colonial) brasileira.
Biografia: Nasceu no Porto (Portugal), filho de
pai brasileiro e de mãe portuguesa. Veio para o
Brasil aos oito anos, com o pai. Aos dezesseis anos Obras principais:
volta a Portugal para estudar em Coimbra. Em 1782, Marília de Dirceu (liras), obra lírica
aos 32 anos, portanto, vem para o Brasil e se fixa em Cartas Chilenas, obra satírica
Vila Rica, como ouvidor e juiz.
Os críticos o têm como autêntico brasileiro,
pela família, pela formação e, principalmente, pelos MARÍLIA DE DIRCEU
temas que desenvolveu em sua poética, sempre Nesta obra, o autor nos mostra a paixão de
preocupado com as coisas e a paisagem brasileira. um pastor (Dirceu) pela pastora (Marília). Divide-se
Em Vila Rica, já maduro, apaixonou-se por em duas partes. Na primeira, fala da felicidade do
Maria Doroteia Joaquina de Seixas, de 16 anos, e namoro e do noivado. Há descrições da amada,
dela ficou noivo. Foi denunciado como conspirador, confissões de amor e sonhos de felicidade. Na
preso e transportado para a fortaleza da Ilha das segunda, fala dos sofrimentos morais e físicos da
Cobras (RJ), de onde saiu anos após, em 1792, para prisão e da sua consolação no amor de Marília.
cumprir a sentença de desterro em Moçambique Nesta segunda parte atinge, de certo modo, a
(África), por dez anos. temática pré-romântica ao se tornar o centro de suas
Gonzaga cantara à sua amada: - “Minha bela preocupações, expressando uma forte confiança em
Marília, tudo passa” - ainda nos tempos felizes do sua conduta e revelando o seu modo de ser.
noivado. Marília deve ter conservado o amor em seu Os temas são: os encantos de Marília, os
coração, pois morreu solteira, em avançada idade. amores de Dirceu, a visão da vida futura, tranquila e
Gonzaga, advogado e procurador da Coroa e da burguesa. Tudo muito sentimental. O poeta se
Fazenda de Moçambique, figura de destaque na apresenta pacato, mas tem consciência de seu valor
sociedade local, casou-se um ano depois com uma e posição.
senhora “de mais fortuna e poucas letras” (Juliana
Mascarenhas). Exemplo:
Esgotado o prazo do desterro, Gonzaga “Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
continuou em Moçambique, onde foi nomeado juiz que vive de guardar alheio gado,
de Alfândega. Sua vida correu tranquila. Morreu de tosco trato, de expressões grosseiro,

54 * Literatura Brasileira
dos frios gelos e dos sóis queimado. Personagens das Cartas:
Tenho próprio casal* e nele assisto; Critilo (Gonzaga) - remetente
dá-me vinho, legume, fruta, azeite, Doroteu (Cláudio M. da Costa) - destinatário
das brancas ovelhinhas tiro o leite,
Fanfarrão Minésio - o governador Meneses
e mais as finas lãs, de que me visto.
Chile - Brasil
Graças, Marília bela,
graças à minha estrela! Santiago - Vila Rica
As cartas são treze, estando incompletas a
Os teus olhos espalham luz divina, sétima e a décima terceira.
a quem a luz do sol em vão se atreve; A maioria dos críticos reconhece o valor
papoila ou rosa delicada e fina literário dessas cartas, que são um documento de
te cobre as faces, que são cor da neve. crítica de costumes, têm valor social pela exatidão
Os teus cabelos são uns fios d’ouro; dos fatos narrados e pela verdadeira revolução que
teu lindo corpo bálsamo vapora. provocaram.
Ah! não, não fez o céu, gentil pastora, Circulavam manuscritas e anônimas entre os
para a glória de amor igual tesouro! habitantes de Vila Rica e conclamavam o povo
Graças, Marília bela, indefeso a lutar contra governadores injustos.
graças à minha estrela!”
“Pretende, Doroteu, o nosso chefe
* Casal: Pequena propriedade rústica; granja Erguer uma cadeia majestosa
Que possa escurecer a velha fama
Gonzaga destinava a Marília uma existência Da torre de Babel, e, mais, dos grandes,
calma, altamente intelectualizada, num ambiente Custosos edifícios que fizeram,
poético. Para sepulcros seus, os reis do Egito.
Na lira 3 da parte III, o poeta nos dá uma
...Desiste, louco chefe, dessa empresa:
mostra disto, vendo-se sentado à mesa de estudo:
Um soberbo edifício levantado
Sobre ossos de inocentes, construído
“Verás em cima da espaçosa mesa
Altos volumes de enredados feitos; Com lágrimas dos pobres, nunca serve
Ver-me-ás folhear os grandes livros De glória ao seu autor, mas sim de opróbrio.”
E decidir os pleitos.
Enquanto resolver os meus consultos,
Tu me farás gostosa companhia, Há denúncia social, como a situação nas
Lendo os fatos da sábia mestra História prisões:
E os cantos da poesia.
“Passam, prezado amigo, de quinhentos
Lerás em alta voz a imagem bela;
Os presos que se ajuntam na cadeia.
Eu, vendo que lhe darás o justo apreço,
Uns dormem encolhidos sobre a terra,
Gostoso tornarei a ler de novo
O cansado processo.” Mal cobertos dos trapos, que molharam
De dia, no trabalho. Os outros ficam
Ainda mal sentados, e descansam
CARTAS CHILENAS As pesadas cabeças sobre os braços
Poema satírico escrito (na 2ª metade do Em cima dos joelhos encruzados.”
século XVIII), sob o pseudônimo de Critilo. Constitui
As cartas satirizam os maus governantes,
uma diatribe violentíssima contra a pessoa e a
como neste exemplo:
administração do governador Luís da Cunha
Meneses e seus auxiliares em Vila Rica entre 1783 “Amarelo colete e sobretudo
a 1788. Tantos excessos, arbitrariedades cometeu Vestida uma vermelha justa farda.
que contra ele se voltou a camada esclarecida da De cada bolso da fardeta, pendem
cidade. Gonzaga, ouvidor, desde o início entrou em Listradas pontas de dois brancos lenços;
conflito com o governador, por esse motivo. Na cabeça vazia se atravessa

Literatura Brasileira * 55
Um chapéu desmarcado, nem sei como Ó tormento sem igual!
Sustenta o pobre nó do laço o peso.
Ao amor cruel e esquivo
Ah! tu, Catão severo, tu que estranhas
Entreguei minha esperança,
Rir-se um cônsul moço, que fizeras
Que me pinta na lembrança
Se em Chile agora entrasses e se visses
Mais ativo o fero mal.
Ser o rei dos peraltas quem governa?”
Não verás em peito amante
Coração de mais ternura,
MANUEL INÁCIO DA SILVA ALVARENGA Nem que guarde fé mais pura,
(1749 - 1814) Mais constanre e mais leal.
Pseudônimo árcade: Alcindo Palmireno Glaura! Glaura! não respondes?
Musa: Glaura E te escondes nestas brenhas?
Biografia: Nasceu em Vila Rica, mestiço, filho Dou às penhas meu lamento;
de um músico pobre. Graças aos amigos do pai, Ó tormento sem igual!”
estudou no Rio de Janeiro. Do pai herdou a
facilidade para a música, tocando rabeca e flauta. Silva Alvarenga fala de mangueira, cajueiros,
Era simpático e espirituoso e por isso se tornou laranjeiras:
muito popular, tanto aqui quanto em Portugal para
onde foi em 1771, a fim de estudar em Coimbra. Era “Carinhosa e doce, ó Glaura,
um estudioso das literaturas europeias, da Vem esta aura lisonjeira;
matemática e das ciências. Fundou uma sociedade E a Mangueira já florida
científica, que durou pouco, e que ele restaurou mais Nos convida a respirar.
tarde sob o nome de Sociedade Literária. Esta foi
Cajueiro desgraçado,
dissolvida pelo novo vice-rei e o poeta foi preso, a que Fado te entregaste,
acusado de manter um clube em cujas reuniões se Pois brotaste em terra dura,
discutia religião e política. Sem cultura e sem senhor!”

Características: Silva Alvarenga fala do Pico da Gávea, com


ternura, do Pão-de-Açúcar:
• Variedade de sentimento e de ritmos.
• Simplicidade constante, talvez maior que a
“Nem tu, ó Pão-de-Açúcar, namorado
de Gonzaga.
Da formosa cidade, velho e forte,
• Naturalidade ao descrever cenas brasileiras.
Que dás repouso às nuvens e te avanças
• Está entre os prenunciadores do Roman-
Por defendê-la do furor das ondas”
tismo.

Obras:
INÁCIO JOSÉ DE ALVARENGA PEIXOTO
Desertor das Letras, poema heroico - cômico,
(1744 - 1792)
escrito quando estudava em Coimbra. É uma sátira
Pseudônimo árcade: Eureste Fenício
aos métodos de ensino antes da reforma pombalina.
Musa: Bárbara Heliodora, sua esposa, poetisa.
Foi publicado às custas do Marquês de Pombal e
Biografia: Nasceu no Rio. Formou-se em
enaltecia a reforma universitária que este executou.
Direito, em Coimbra e voltou ao Brasil, onde foi bem
Glaura, sua obra principal. É dedicada à sua
acolhido pelo vice-rei da época. Abandona a
musa, Glaura, que realmente existiu.
advocacia e se torna minerador, enriquecendo.
Proprietário de lavras, fica descontente com a
Exemplo:
cobrança exagerada de impostos, com a derrama.
“Glaura! Glaura! não respondes? Envolveu-se na Conjuração Mineira e foi condenado
E te escondes nestas brenhas? ao desterro na África (em Ambaça), onde faleceu.
Dou às penhas meu lamento; Dizem ter sido ele quem propôs o lema da bandeira

56 * Literatura Brasileira
dos inconfidentes Libertas quae sera tamen, além de “Bárbara Bela,
contribuir financeiramente para a causa revolucio- Do Norte estrela
nária. Deixou fama de homem eloquente e imagino- Que o meu destino
so. sabes guiar
De ti ausente Triste somente
As horas passo
Características:
a suspirar.
• Começou a escrever como neoclássico,
depois escreveu liras laudatórias (= de Isto é castigo
louvor), o que constitui a maior parte de Que amor me dá.
suas obras (normalmente em louvor aos Tu, entre os braços,
poderosos). Ternos abraços
• Prega o universo do trabalho e da ordem, ao Da filha amada
fundo a paisagem mística da Arcádia. Podes gozar
• O déspota ilustrado e o seu ideal: combina o Priva-me a estrela
progressismo e o governo forte. De ti e dela,
• Preso na Ilha das Cobras, negou ter parti- Busca dois modos
cipado do movimento e se torna servil à D. De me matar.
Maria I. Isto é castigo
• Os sonetos apresentam traços pré-român- Que amor me dá.”
ticos, misturados à intenção neoclássica.
Conta-se que a filha do poeta morreu de
desgosto, com a sua condenação e que a esposa
Obras: enlouquecida, vagava pelas ruas da cidade.
Tradução: Mérope (de Maffei) Cecília Meireles, uma das maiores poetisas do
Drama: Eneias no Lácio (em versos) Modernismo, revive, no século XX, a tragédia que
Ode ao Marquês de Pombal: tema do herói marcou a família de Alvarenga Peixoto, em sua obra
pacífico. Romanceiro da Inconfidência.
Obras Poéticas: temática lírico-amorosa.
FREI JOSÉ DA SANTA RITA DURÃO
(1722 - 1784)
Exemplos: Pseudônimo árcade: não tem
Biografia: Nasceu em Cata Preta (MG) e
OdE faleceu em Lisboa. Filho de um militar português.
Doutorou-se em Filosofia e Teologia em Coimbra.
“Grande Marquês, os sátiros saltando Fugiu para a Itália (por problemas eclesiásticos) e aí
por entre verdes parras, passou mais de vinte anos, numa vida de estudos.
defendidas por ti de estranhas garras; Voltou a Portugal com a queda de Pombal. Foi
os trigos ondeando professor e reitor da Universidade de Coimbra. Sua
nas fecundas searas; principal atividade passa a ser a redação do
os incensos fumando sobre as aras, Caramuru.
à nascente cidade
mostram a verdadeira heroicidade. Características:
Ao mundo esconde o sol seus resplendores • Segue os preceitos clássicos, o modelo
e a mão da Noite embrulha os horizontes; camoniano.
não cantam aves, não murmuram fontes, • Substitui o maravilhoso pagão (deuses do
não fala Pã na boca dos pastores.” Olimpo) pelo maravilhoso cristão (milagres).
• Reflete o clima patriótico do século XVIII,
BÁRBARA BELA que antecede a independência.

Literatura Brasileira * 57
• Caramuru é mais nosso que Uraguai nas Corre a ver o espetáculo, assombrada;
alusões à flora nativa e aos costumes E, ignorando a ocasião de estranha empresa,
indígenas, mas ainda está muito distante do Pasma da turba feminil, que nada,
homem americano. Uma que às mais precede em gentileza,
• Pela correção da linguagem, figura Durão Não vinha menos bela, do que irada;
entre os nossos clássicos do idioma. Era Moema, que de inveja geme,
E já vizinha à nau se apega ao leme.
Obra:
Caramuru, poema épico, em que narra o XXXVIII
naufrágio, salvamento e aventuras do português - Bárbaro (a bela diz:), tigre e não homem...
Diogo Álvares Correia, cognominado Caramuru Porém o tigre, por cruel que brame,
(“deus do trovão”, “homem de fogo”) pelos indígenas. Acha forças amor, que enfim o domem;
Durão refere-se a fatos históricos desde o Só a ti não domou, por mais que eu te ame.
descobrimento até sua época. Descreve a paisagem Fúrias, raios, coriscos, que o ar consomem,
brasileira, suas riquezas, flora e fauna. Dá Como não consumis aquele infame?
informações sobre o índio, seus valores e tradições, Mas pagar tanto amor com tédio e asco...
seu espírito guerreiro, sua ação épica. Ah que o corisco és tu... raio... penhasco?

O poema contém dez cantos.


XXXIX
Personagens:
Caramuru; Bem puderas, cruel, ter sido esquivo,
Paraguaçu → filha do cacique (sua esposa); Quando eu a fé rendia ao teu engano;
Gupeva → chefe indígena; Nem me ofenderas a escutar-me altivo,
Que é favor, dado a tempo, um desengano;
Moema → amante de Caramuru.
Porém, deixando o coração cativo,
Com fazer-te a meus rogos sempre humano,
O poema narra o naufrágio de Caramuru e
Fugiste-me, traidor, e desta sorte
seu namoro com as índias. Paraguaçu fora
Paga meu fino amor tão crua morte?
destinada pelo pai, o cacique Taparica, para esposa
de Gupeva. A índia não o aceita. Gupeva cede-a a
XL
Caramuru e ambos se apaixonam. Caramuru e a
índia deixam o Brasil numa nau francesa e se Tão dura ingratidão menos sentira
casam, em Paris, tendo por padrinhos os reis da E esse fado cruel doce me fora,
França. Se a meu despeito triunfar não vira
Essa indigna, essa infame, essa traidora.
Por serva, por escrava, te seguira.
Se não temera de chamar senhora
MORTE dE MOEMA (CANTO VI)
A vil Paraguaçu, que, sem que o creia,
Sobre ser-me inferior, é néscia e feia.

XXXVI
XLI
“É fama então que a multidão formosa
Enfim, tens coração de ver-me aflita,
Das damas, que Diogo pretendiam,
Flutuar, moribunda, entre estas ondas;
Vendo avançar-se a nau na via undosa,
A um ai somente, com que aos meus respondas.
E que a esperança de o alcançar perdiam,
Nem o passado amor teu peito incita
Entre as ondas com ânsia furiosa,
Bárbaro, se esta fé teu peito irrita,
Nadando, o esposo pelo mar seguiam, (Disse, vendo-o fugir), ah! não te escondas!
E nem tanta água, que flutua vaga, Dispara sobre mim teu cruel raio...
O ardor que o peito tem, banhando apaga. E indo a dizer o mais, cai num desmaio.
XXXVII

Copiosa multidão da nau francesa

58 * Literatura Brasileira
XLII como membro da Academia Real das Ciências.

Perde o lume dos olhos, pasma e treme, Características:


Pálida a cor, o aspecto moribundo;
• Fugiu aos recursos gongóricos e arcádicos.
Com mão já sem vigor, soltando o leme,
• Em o Uraguai não há musas, nem estrofes
Entre as salsas escumas desce ao fundo.
regulares, nem rima.
Mas na onda do mar, que, irado, freme,
• Em lugar do maravilhoso pagão dos
Tornando a aparecer desde o profundo,
clássicos, o que aparece é a bruxaria
- Ah! Diogo cruel! - disse com mágoa,
indígena.
E, sem mais vista ser, sorveu-se na água.
• Capacidade poética. Brilho do estilo.
• Precursor do indianismo, fala do homem e
XLIII
da terra. O índio, para ele, é exemplo de
Choraram da Bahia as ninfas belas, nobreza e valor.
Que, nadando, a Moema acompanhavam;
E, vendo que sem dor navegam delas, Obra:
A branca praia com furor tornavam. Uraguai
Nem pode o claro herói sem pena vê-las, Assunto: a guerra que Portugal (ajudado pela
Com tantas provas que de amor lhe davam; Espanha) moveu contra os índios das Missões
Nem mais lhe lembra o nome de Moema, Jesuíticas denominadas Sete Povos, para fazer
Sem que eu amante a chore, ou grato gema.” cumprir o Tratado de Madri, de 1750. Os portugue-
ses deveriam se apossar dos Sete Povos das
Missões do Uraguai e os espanhóis, da Colônia do
Vocabulário:
Santíssimo Sacramento.
undoso: em que há ondas.
turba: multidão em desordem. Tempo: princípios de 1756.
sorte: forma.
lado: destino. Espaço: Sete Povos, no Rio Grande do Sul.
sobre: além de. Tema central: a luta pela posse da terra, com
néscio: ignorante, estúpido
incitar: instigar, estimular. os jesuítas organizando a resistência.
salso: salgado. Dedicatória: ao irmão do Marquês de Pombal.
fremir: rugir, bramir
ninfa: divindade fabulosa dos rios, dos bosques dos montes. Herói: General Gomes Freire de Andrada.

Personagens:
JOSÉ BASÍLIO DA GAMA (1741 - 1795) - O chefe dos portugueses - general G. F.
Pseudônimo árcade: Termindo Sipílio Andrada;
Biografia: Nasceu num sítio nos arredores de - O chefe dos espanhóis - general Catâneo;
São João del-Rei, de pai português e mãe brasileira. - O cacique Cacambo;
Órfão, foi recolhido pelos jesuítas e com eles - A esposa do cacique - Lindoia;
estudou no Colégio do Rio. Basílio foi para Portugal - O guerreiro Tatuguaçu - irmão de Lindoia;
e Itália (1766). Em Portugal, acusado de Jesuitismo, - O guerreiro índio Cepé e seu irmão - Pindó;
foi preso e deveria ser deportado para Angola. - O padre administrador das Missões - Balda;
Livrou-se do exílio ao escrever um epitalâmio para a - O filho natural de Balda - Baldeta;
filha de Pombal. Este lhe perdoou e deu-lhe carta de - A feiticeira Tanajura.
fidalguia e o cargo de secretário particular. Com a
morte do rei D. José e a consequente queda de Trama: Após a luta, os europeus incendeiam
Pombal, Basílio não perdeu as honrarias. A nova o acampamento, ocasião em que morrem Cepé e
rainha, D. Maria I, elevou-o ao cargo de escudeiro Cacambo. O padre Balda planeja casar a viúva,
fidalgo da casa real. Em 1769 publicou o poema Lindoia, com seu filho Baldeta. Mas a índia se mata,
épico Uraguai, no qual fazia comentários ferinos aos deixando-se picar por uma cobra venenosa. Os
jesuítas, aos quais devia sua educação, só para jesuítas ateiam fogo ao aldeamento e o abandonam.
agradar ainda mais a Pombal. Faleceu em Lisboa, Termina a guerra.

Literatura Brasileira * 59
URAGUAI - CANTO IV O suspirado nome de Cacambo
Inda conserva o pálido semblante
“Salvas as Tropas do noturno incêndio, Um não sei quê de magoado e triste
Aos povos se avizinha o grande Andrade, Que os corações mais duros enternece,
Depois de afugentar os índios fortes, Tanto era bela no seu rosto a Morte!”
Que a subida dos montes defendiam,
E rotos muitas vezes, e espalhados No finaI do Uraguai, Basílio fala ao seu
Os tapes cavaleiros, que arremessam poema, antevendo-lhe a perenidade:
Duas causas de morte em uma lança,
“Serás lido, Uraguai, cubra os meus olhos
E em largo giro todo o campo escrevem.
Embora um dia a escura noite eterna,
Que negue agora a perfídia calúnia,
Tu vive, e goza a luz serena e pura.”
Que se ensinava aos bárbaros gentios
A disciplina militar, e negue
Que mãos traidoras e distantes povos
EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO
Por ásperos desertos conduziam
1. Relacione os trechos dos textos a seus autores:
O pó sulfúreo, e as sibilantes balas;
E o bronze, que rugia nos seus muros. a) Silva Alvarenga
b) T. A. Gonzaga
Tu que viste, e pisaste, ó Blasco insigne, c) Alvarenga Peixoto
Todo aquele país, tu só pudeste, d) Cláudio M. Costa

Co’a mão, que dirigia o ataque horrendo, ( ) “Eu, Marília, não sou algum vaqueiro
Que viva de guardar alheio gado.”
E aplanava os caminhos à vitória, ( ) “Glaura! Glaura! não respondes?
Descrever ao teu Rei o sítio, e as armas E te escondes nestas brenhas?”
( ) “Pretende, Doroteu, o nosso chefe
E os ódios, e o furor, e a incrível guerra. Erguer uma cadeia majestosa.”
Pisaram finalmente os altos riscos ( ) “Bárbara Bela
Do Norte estrela.”
De escalvada montanha, que os infernos
Co’o peso oprime, e a testa altiva esconde
2. Complete:
Na região, que não perturbe o vento.”
a) O Arcadismo é o estilo de época do século _____________
A seguir, a cena da morte de Lindoia (canto III) b) Também podemos chamar o Arcadismo de____________
que termina por um verso famoso cuja beleza de
_____________________________________________
forma ultrapassa à do poeta romano Petrarca de
c) Arcadismo inicia-se em ____________________________
onde foi traduzido:
com a obra ______________________________________
“Este lugar delicioso, e triste
escrita por ______________________________________
Cansada de viver, tinha escolhido
Para morrer a mísera Lindoia. d) Dê três características do Arcadismo brasileiro:

Lá reclinada, como que dormia,


_____________________________________________
Na branda relva, e nas mimosas flores,
_____________________________________________
Tinha a face na mão, e a mão no tronco
De um fúnebre cipreste, que espalhava _____________________________________________

Melancólica sombra. Mais de perto


Descobrem que se enrola no seu corpo 3. Faça um breve resumo das Cartas Chilenas.

Verde serpente, e lhe passeia, e cinge _________________________________________________


Pescoço e braços, e lhe lambe o seio. _________________________________________________
Fogem de a ver assim, sobressaltados,
E param cheios de temor ao longe; 4. Movimento estético que gravita em torno de três geratrizes:
Natureza, Verdade, Razão, buscando fazer da literatura a
E nem se atrevem a chamá-Ia, e temem
“expressão racional da natureza, para, assim, manifestar a
Que desperte assustada, e irrite o monstro verdade”.
E fuja, e apresse no fugir a morte. Trata-se do
E por todas as partes repetido ( ) Barroco;

60 * Literatura Brasileira
( ) Romantismo; a) Quem é o autor?
( ) Simbolismo;
( ) Modernismo; _____________________________________________
( ) Neoclassicismo.
_____________________________________________

5. O texto a seguir é modernista, mas recupera o Arcadismo: _____________________________________________

“Doces invenções da Arcádia!


Delicada primavera:
pastoras, sonetos, liras, b) Que figura é valorizada? Esta valorização implica adesão
- entre as ameaças austeras a que linha política da época?
de mais impostos e taxas
que uns protelam e outros negam. _____________________________________________
Casamentos impossíveis.
Calúnias. Sátiras. Essa paixão da mediocridade _____________________________________________
que na sombra se exaspera.
E os versos de asas douradas,
c) A expressão “infame República” alude a quê?
que amor trazem e amor levam ...
Anarda. Nise. Marília ... ______________________________________________
As verdades e as quimeras.
Outras leis, outras pessoas. ______________________________________________
Novo mundo que começa.
Nova raça. Outro destino. ______________________________________________
Plano de melhoras eras.
E os inimigos atentos,
que, de olhos sinistros, velam. d) Como é visto o elemento selvagem?
E os aleives. E as denúncias.
E as ideias”. ______________________________________________
(Romanceiro da Inconfidência, Cecília Meireles)
______________________________________________

______________________________________________
a) De que fato histórico trata o poema?

7. “Escrevestes cartas anônimas,


_____________________________________________ apontastes vossos amigos,
irmãos, compadres, pais e filhos...
_____________________________________________ (...)
Vistes caídos os que matastes,
_____________________________________________ em vis masmorras, forcas, degredos,
indicados por vosso punho,
por vossa língua peçonhenta,
b) No poema são revelados dois momentos: um literário e (...)
outro político. Quais são eles? Explique-os. - só por serdes os pusilânimes”
(Romanceiro da Inconfidência,
Cecília Meireles)
_____________________________________________

_____________________________________________

_____________________________________________ a) Há referência aos árcades no poema? Quais? Comprove.

______________________________________________
c) Quem são Nise, Marília, Anarda?
______________________________________________
_____________________________________________
______________________________________________
_____________________________________________

_____________________________________________
FAÇA UMA SINOPSE DO ASSUNTO

6. “Entra no povo e ao templo se encaminha ARCADISMO


O invicto Andrade, e generoso, entanto,
Reprime a militar licença, e a todos
Co’a grande sombra ampara - alegre e brando 1. Contexto Histórico:
No meio da vitória. Em roda o cercam
(Nem se enganaram) procurando abrigo
Chorosas mães, e filhos inocentes, - Conquistas do período:
e curvos pais e tímidas donzelas
________________________________________________
(...)
Cai a infame República por terra. ________________________________________________
Aos pés do General as toscas armas
Já tem deposto o rude Americano, ________________________________________________
Que reconhece as ordens e se humilha,
________________________________________________
E a imagem do seu rei prostrado adora.”
________________________________________________

Literatura Brasileira * 61
- Consequências:
Neoclassicismo:
________________________________________________
________________________________________________
________________________________________________
________________________________________________
________________________________________________
________________________________________________
________________________________________________
________________________________________________
________________________________________________
________________________________________________

- Contexto brasileiro:

________________________________________________

________________________________________________

________________________________________________

________________________________________________

________________________________________________

2. Definição:

Arcádia:

________________________________________________

________________________________________________

________________________________________________

________________________________________________

________________________________________________

3. Quadro Comparativo:

Características do Arcadismo Características do Barroco

62 * Literatura Brasileira
4. Quadro sinóptico:

Autores Características Obras

1. Cláudio M. da Costa

2. Tomás Antônio Gonzaga

3. Silva Alvarenga

4. Santa Rita Durão

5. Basílio da Gama

6. Alvarenga Peixoto

Literatura Brasileira * 63
romantismo

“Casar assim pensamento com o notório que as camadas populares não tinham
sentimento, a ideia com a paixão, colorir tudo grande preparo intelectual, não eram cultas, o que
isso com a imaginação, fundir tudo isto com o as fazia incapazes de assimilar a erudição clássica,
sentimento da religião e da divindade, eis a as sutilezas do torneio verbal, a disciplina rigorosa
Poesia - A Poesia grande e santa - A Poesia de composição, as alegorias fundadas na cultura
como eu a compreendo sem a poder definir, greco-romana, especialmente na mitologia. Este
como eu a sinto sem poder traduzir”. novo público leitor buscava uma expressão artística
(Gonçalves Dias) que fosse, ou uma forma de entretenimento, ou
projeção de seus gostos e anseios. O apare-cimento
do romance folhetinesco publicado com
1. Contexto históriCo periodicidade regular pela imprensa, explorando a
Cultural - a reVolução complicação sentimental, a intriga, o mistério, a
FranCesa aventura, ancestral das novelas de radiodifusão e
televisivas atuais, expressa essa tendência.
O Romantismo é um movimento que configura A palavra-chave do período Romântico foi
um estilo de vida e de arte predominante na “LIBERDADE”, no campo político, pela superação do
Civilização Ocidental, no período compreendido, absolutismo; no campo econômico, pelo Liberalismo
aproximadamente, entre a segunda metade do do “Laissez faire, laissez passer”; no campo artístico,
século XVIII e a primeira do século XIX. Reflete, no pela derrocada das regras e preceitos clássicos - “ni
campo artístico, as profundas transformações règles, ni modèles” - proclamava Victor Hugo, um
históricas do período, marcado pelo apogeu do dos arautos da nova estética.
processo de transferência da liderança histórica da
aristocracia para a burguesia.
Esse processo se deflagrou com maior Metamos o martelo nas teorias, nas
intensidade a partir do advento do lIuminismo, da poéticas e nos sistemas. Abaixo esse velho
divulgação de suas propostas pelos enciclopedistas, reboco que mascara a fachada da arte, nada
culminando com a REVOLUÇÃO FRANCESA. A de regras nem de modelos.
partir daí, os ideais de “Liberdade, Igualdade e Victor Hugo
Fraternidade” ecoam pelo mundo todo, anunciando
transformações. Os donos do poder não são mais o
Clero e a Nobreza, e o sangue azul deixou de ser a
condição indispensável para o reconhecimento da 2. literatura
sociedade. No processo revolucionário de tomada
do poder, a burguesia contou com o apoio do povo,
das classes mais humildes, o que dá à Revolução AS ORIGENS DO ROMANTISMO
um cunho popular-burguês. E AS INFLUÊNCIAS EUROPEIAS
A ascensão das classes médias provoca um
deslocamento do público consumidor da Literatura, As primeiras manifestações do Romantismo
que passa a ser o burguês e não mais o nobre. Por podem ser localizadas:
isso, a arte clássica, aristocrática, seria substituída a) Na ALEMANHA, onde o vigor e o gênio de
pela arte romântica, de cunho nacional e popular. É Göethe marcam, a partir de Werther, o início da

Literatura Brasileira * 65
ruptura com a preceptiva clássica, ao lado de outros, Homem e Pereira da Silva a Niterói - Revista
que comungam no espírito da “STURN UND Brasiliense, em que as novas ideias românticas são
DRANG” (tempestade e violência), nome que se dá divulgadas. No entanto, devemos reconhecer que já
ao movimento que antecede o Romantismo Alemão, se percebiam certas características românticas em
insurgindo-se contra os rigores do Classicismo. obras de autores anteriores, além de alguns fatos
b) Na INGLATERRA, com a poesia que iam contribuindo para a formação de um
melancólica subjetiva de Young e com a reabilitação ambiente propício ao desenvolvimento e aceitação
da poética medieval. Tem grande influência, na das ideias românticas.
nossa literatura, o romance histórico medieval, criado Podemos dizer que os autores do Arcadismo
por WALTER SCOTT, cujo “Ivanhoé” serve de brasileiro, além de se utilizarem dos artifícios típicos
modelo aos heróis de José de Alencar, e a poesia do da estética neoclássica (imitação de autores gregos
“spleen” (nostalgia) de BYRON, modelo constante e latinos, uso da mitologia pagã, etc.) já expres-
do negativismo, do tédio e do satanismo de Álvares savam em suas poesias, alguns elementos que
de Azevedo e seus seguidores. seriam depois explorados pelos românticos, como,
c) Na FRANÇA, onde, já nos iluministas por exemplo: o elogio da vida em natureza, livre das
(Rousseau e Diderot) o convencionalismo é alvo da agitações sociais e mundanas; exaltação de
rebeldia dos “novos”, CHATEAUBRIAND redescobre aspectos da natureza brasileira (flora e fauna);
as belezas do cristianismo, sobrepondo-se à expressão sentimental de estados de alma, etc.
mitologia dos poetas árcades. Com Atala, valoriza as Além desses aspectos, é preciso lembrar que
sugestões de paisagem americana, que José de já existia, desde o século XVI, muita coisa escrita
Alencar assimilou no seu Iracema. Os cantos de sobre o Brasil pelos viajantes e missionários,
Vigny, a lira amorosa, naturista e religiosa de principalmente, em que eram frequentes os elogios
Lamartine e as confissões de Alfred Musset ecoam às nossas riquezas naturais, à bondade natural do
na poesia brasileira da primeira à última fase do indígena, o que muitas vezes dava a impressão de
movimento romântico. A poesia social rebelde e que a terra brasileira era um verdadeiro paraíso.
declamatória de Victor Hugo, e seu romance de É necessário ainda destacar a importância,
denúncia da opressão do proletariado - OS para o desenvolvimento do Romantismo, da vinda
MISERÁVEIS - plasmaram a retórica de Castro da Família Real para o Brasil, em 1808, pois os atos
Alves. Também as narrativas passionais de Georges de D. João VI, têm importância fundamental para a
Sand e o romance de aventura de Alexandre Dumas evolução da nossa cultura: a abertura dos portos; a
deixaram marcas no gosto literário brasileiro. Cabe criação de bibliotecas, de escolas superiores; a
notar que a França de Napoleão Bonaparte foi o permissão para o funcionamento de tipografias (de
centro irradiador das ideias do liberalismo e do gosto onde surgiria o jornalismo, importante agente cultural
artístico romântico. À medida que os exércitos no século XIX). Além disso, as sucessivas levas de
napoleônicos avançavam, iam inoculando, na imigrantes portugueses contribuíram para a
Espanha, em Portugal, na Itália, na Bélgica, na formação de um público cada vez maior que
Rússia, os germens das novas ideias. No Brasil, a procurava, na literatura, a representação de seus
emancipação política fez com que declinasse a próprios dramas sentimentais, mais ou menos como
influência portuguesa, pela absorção de modelos faz o público de hoje, com relação ao cinema e à
franceses e ingleses. televisão.
d) No BRASIL, foi particularmente importante Contemporânea ao movimento de Indepen-
o Romantismo, pois constitui um elemento decisivo dência de 1822, a literatura romântica sempre
na evolução não só da literatura como também da expressou sua ligação com a política e, ao lado da
própria cultura brasileira. euforia da liberdade e do desejo de construção de
Didaticamente falando, o ano de 1836 marca uma pátria brasileira, surgiu também o desejo de
o início do Romantismo brasileiro, quando criação de uma literatura brasileira; o esforço para
Gonçalves de Magalhães publica seu livro de essa realização, como afirma o crítico Antônio
poesias Suspiros Poéticos e Saudades, e lança, em Cândido, era visto como um “ato de brasilidade”.
Paris, juntamente com Araújo Porto-Alegre, Torres A influência do Romantismo foi também muito

66 * Literatura Brasileira
importante na linguagem literária. Reivindicando a 2. SENTIMENTALISMO
liberdade de expressar as peculiaridades e as O sentimento passa a ser considerado o
diferenças da fala brasileira, alguns autores grande valor da vida, pois somente através dele
procuraram criar o que se poderia chamar de “estilo consegue-se expressar o interior do indivíduo. Esta
literário brasileiro”, isto é, um modo de sujeitar a ênfase ao lado sentimental do ser humano culminará
língua portuguesa à sensibilidade brasileira. numa visão intimista e egocêntrica da vida cuja
Temos, em resumo, que o Romantismo, no medida mais exata chamar-se-á “impulsos do
Brasil, se revestiu de características próprias, pois, coração”.
coincidindo com a época de nossa autonomia, Esse predomínio do sentimento sobre a razão,
acabou se tornando uma espécie de estilo da vida a princípio, parecia equilibrado; porém, com o passar
cultural do país, considerando-se o escritor um porta- do tempo, houve um exagero tal que chegou a tomar
voz da sensibilidade popular e dos anseios políticos “proporções de epidemia, degenerando numa
e sociais da coletividade. tristeza vaga, numa insaciedade tediosa e
docemente mórbida: o mal do século”.

CARACTERÍSTICAS DO ROMANTISMO

“O romantismo reduz toda poesia ao


1. SUBJETlVISMO lirismo, como forma natural e primitiva, oriunda
Representa um dos traços fundamentais da sensibilidade e da imaginação individuais
dessa estética o “culto do eu”. O artista traz à tona o da paixão e do amor. Poesia tornou-se
seu mundo interior com plena liberdade. Não há sinônimo de autoexpressão.”
mais a preocupação com modelos clássicos e (Afrânio Coutinho)
universalizantes; é a vitória do indivíduo, da sua
visão de mundo, do seu impulso criador. É a
exposição triunfal do homem interior em suas
fantasias, aspirações e intuições.
ESTE INFERNO DE AMAR

VAGABUNDO “Este inferno de amar - como eu amo!


Quem mo pôs aqui n’alma... quem foi?
Eat, drink, and love; what can the rest avail us? Esta chama me alenta e consome,
(Byron, Don Juan) que é a vida - e que a vida destrói
Como é que se veio a atear.
“Eu durmo e vivo ao sol como um cigano, Quando - ai quando se há de ela apagar?
Fumando meu cigarro vaporoso;
Nas noites de verão namoro estrelas; Eu não sei, não me lembra o passado,
Sou pobre, sou mendigo e sou ditoso! a outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez... - foi um sonho -
Ando roto, sem bolsos nem dinheiro; Em que paz tão serena a dormir!
Mas tenho na viola uma riqueza: Oh! que doce era aquele sonhar
Canto à lua de noite serenatas, Quem me veio, ai de mim! despertar?
E quem vive de amor não tem pobreza. Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o Sol tanta luz!
Escrevo na parede as minhas rimas, E os meus olhos ardentes os pus.
De painéis a carvão adorno a rua; Que fez ela? eu que fiz? - Não o sei.
Como as aves do céu e as flores puras Mas nessa hora a viver comecei... ”
Abro meu peito ao sol e durmo à lua”. (AImeida Garret)
(Álvares de Azevedo)

Literatura Brasileira * 67
“Oh! ter vinte anos sem gozar de leve Quem golpes daria
A ventura de uma alma de donzela! Fatais, como eu dou?
E sem na vida ter sentido nunca - Guerreiros, ouvi-me;
Na suave atração de um róseo corpo - Quem há, como eu sou?
Meus olhos turvos se fechar de gozo!
Oh! Nos meus sonhos, pelas noites minhas Na caça ou na lide,
Passam tantas visões sobre o meu peito!” Quem há que me afronte?!
(Álvares de Azevedo) A onça raivosa
Meus passos conhece,
O inimigo estremece,
3. EVASÃO OU ESCAPISMO E a ave medrosa
O choque das aspirações do escritor com a Se esconde no céu.
realidade que o cerca, faz com que ele “fuja” para - Quem há mais valente,
um mundo à base do sonho e de emoções pessoais. - Mais destro do que eu?”
A sua imaginação dá-lhe a possibilidade de criar, (Gonçalves Dias)
diante dessa insatisfação, o seu universo, decorrente
de uma visão pessoal da realidade. Foge para um
lugar de sonhos onde a imaginação corre à solta, A religiosidade
sem rédeas, sem leis, sem proibições.
E, do inevitável confronto desse mundo Recupera-se a religiosidade medieval e dá-se
utópico com o real a única solução é a evasão, que mais ênfase ao sentimento da religião, ao senso de
se processa em três níveis: no tempo, no espaço e mistério e envolvimento que nela se encerram. A
na morte. ditadura religiosa, imposta através de um conjunto
rígido de dogmas, racionalmente propostos pelo
Evasão no tempo classicismo, foi substituída então por uma
concepção pessoal da religião.
Se a época contemporânea o leva ao conflito,
procura no passado (individual ou histórico) as “Deus! ó Deus! onde estás que não respondes!
situações consideradas ideais. Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes
No plano histórico, ele vai descobrir a Idade Embuçado nos céus?
Média com seus elementos pitorescos, misteriosos e Há dois mil anos te mandei meu grito,
lendários. Que embalde, desde então corre o infinito...
A Idade Média identifica as origens da Onde estás, Senhor Deus?”
nacionalidade, a matriz cultural de cada povo. O (Castro Alves)
romântico vai em busca da personalidade, dos traços
individuais que distinguem as nações. “Quando ao sopé da cruz me chego aflito,
Vai existir a valorização das tradições Sinto que o meu sofrer se vai minguando,
populares, da história de cada país que passam a Sinto minha alma que de novo existe,
servir de temática para dramas e romances. Sinto meu coração arder em chamas,
Essa atitude trouxe ao Romantismo do Brasil Arder meus lábios ao dizer teu nome.”
o Indianismo - a exaltação do índio - que, muitas (Gonçalves Dias)
vezes, aparece como um legítimo cavaleiro
medieval, o super-herói romântico e/ou elementos Evasão no Plano Individual
do Brasil-colônia.
Valorização da infância como um tempo feliz e
“Valente na guerra estável. A sociedade atuaria como um elemento
Quem há, como eu sou? corruptor do elemento humano (Rousseau), daí a
Quem vibra o tacape supervalorização da criança e do selvagem como
Com mais valentia? modelo de pureza e inocência.

68 * Literatura Brasileira
“Oh! que saudades que tenho passam a favorecer a solitária vida do romântico.
Da Aurora da minha vida,
Da minha infância querida “Amo o silêncio, os areais extensos,
Que os anos não trazem mais! Os vastos brejos e os sertões sem dia,
Que amor, que sonhos, que flores, Porque meu seio como a sombra é triste,
Naquelas tardes fagueiras Porque minh’alma é de ilusões vazia.”
À sombra das bananeiras, (Fagundes Varela)
Debaixo dos laranjais!”
(Casimiro de Abreu)
c) GOSTO PELAS RUÍNAS: porque elas
representam a vitória da natureza sobre a ação do
homem.
Evasão no Espaço
d) GOSTO PELO NOTURNO: que vai de
a) NATUREZA: o romântico vai encontrar na encontro à atmosfera de mistério, tão a gosto
natureza o lugar de refúgio, de tranquilidade, onde o romântico. A esse fato acrescentam-se as imagens
seu espírito pode encontrar a paz. Ele verá a de cemitérios solitários, paisagens enluaradas -
natureza como um prolongamento de seus ambiente propício à fantasia e à imaginação,
sentimentos e de sua alma; será sua musa e sua favorecidas pelo valor que os objetos adquirem.
confidente, participante e companheira. Ela não
mais será “apenas cenário” como era no contexto
árcade. “Que horrenda noite!... que pavor me cerca!
Por toda parte mil fantasmas se erguem
“É bela a noite, quando grave estende De espesso fumo, sem cessar vibrando
Sobre a terra dormente o negro manto Olhos de brasas.
De brilhantes estrelas recamado;
Mas nessa escuridão, nesse silêncio Naquele vale de ciprestes negros
que ela consigo traz, há um quê de horrível Zunem os ventos com furor não visto...
que espanta e desespera e geme n’alma; Daquela rocha, murmurando, o rio
Um quê de triste que nos lembra a morte!” Se precipita.”
(Gonçalves Dias) (Gonçalves Dias)

“Oceano terrível, mar imenso


De vagas procelosas que se enrolam
Floridas rebentando em branca espuma Evasão na Morte
Num polo e noutro polo,
Enfim... enfim te vejo; enfim meus olhos A morte é vista como a evasão das evasões,
Na indômita cerviz trêmulos cravo, como a solução definitiva para o mal de viver. O
E esse rugido teu sanhudo e forte poeta convive com ela, idolatra-a e vê nela a
Enfim medroso escuto!” libertação da sua angústia de viver.
(Gonçalves Dias)
“Era-lhe a vida uma comédia insípida
Estúpida e sem graça ele a passava
Com a fria indiferença do marujo
b) GOSTO PELO EXÓTICO E PITORESCO: Que fuma o seu cachimbo reclinado
procurando novas situações, o romântico vai a terras Na proa do navio olhando as vagas
distantes, onde a sua imaginação e fantasia chegam - Vivia por viver... porque vivia.”
às raias do sobrenatural. As florestas virgens, as (Fagundes Varela)
paisagens orientais, os locais ermos e soturnos

Literatura Brasileira * 69
“Pensamento gentil de paz eterna “Meu herói é um moço preguiçoso
Amiga morte, vem. Tu és o termo Que viveu e bebia porventura
De dois fantasmas que a existência formam, Como nós, meu leitor, se era formoso
- Dessa alma vã e desse corpo enfermo. Ao certo não o sei. Em mesa impura
Esgotara seu lábio fervoroso
Pensamento gentil de paz eterna Como vós e como eu a taça escura...
Amiga morte, vem. Tu és o nada, Era pálida sim... mas não d’estudo;
Tu és a ausência das moções da vida, No mais... era um devasso e disse tudo.”
Do prazer que nos custa a dor passada. (Álvares de Azevedo)

Por isso, ó morte, eu amo-te, e não temo


Por isso, ó morte, eu quero-te comigo. b) Os países do Novo Mundo não conheceram o
Leva-me à região da paz horrenda, medieval. Mas urgia criar um passado heroico,
Leva-me ao nada, leva-me contigo.” uma tradição, que sustentasse o elan nacio-
(Junqueira Freire) nalista. Descobriu-se o índio, que passou a
significar, para as literaturas americanas, o
mesmo que o cavaleiro medieval; o herói
lendário, nobre, altruísta, guerreiro fiel aos
4. IDEALISMO - MULHER - HERÓI - MUNDO deveres de seu clã. Por isso, o Peri de José de
MULHER - é a criatura ideal, um misto de Alencar se parece mais com Ivanhoé do que com
anjo, santa e mulher em torno da qual gravitam todas os nossos sofridos tupis, guaranis, etc. Salien-
as qualidades femininas: carinhosa, fiel, formosa, tamos também o antagonismo existente em Peri,
prendada, centro de todas as atenções e selvagem das matas brasileiras, possuidor de
delicadezas. Figura poderosa e inatingível, capaz de uma força que supera os limites humanos, mas,
mudar a vida do homem, de levá-Io à morte e à ao mesmo tempo, uma criatura terna, amável,
loucura. capaz de amar platonicamente a bela Ceci.

“Então passou-se sobre esse vasto deserto de


SONETO água e céu uma cena estupenda, heroica, sobre-humana
um espetáculo grandioso, uma sublime loucura.
“Pálida, à luz da lâmpada sombria, Peri alucinado suspendeu-se aos cipós que se
Sobre o leito de flores reclinada, entrelaçavam pelos ramos das árvores já cobertas de
Como a lua por noite embalsamada, água, e com um esforço desesperado cingindo o tronco
Entre as nuvens de amor ela dormia! da palmeira nos seus braços hirtos, abalou-o até as raízes.
Três vezes os seus músculos de aço, estorcendo-
Era a virgem do mar, na escuma fria se inclinaram a haste robusta, e três vezes o seu corpo
Pela maré das águas embalada! vergou, cedendo a retração violenta da árvore, que
Era um anjo entre nuvens d’alvorada voltava ao lugar que a natureza lhe havia marcado.”
Que em sonhos se banhava e se esquecia!” (José de Alencar , O Guarani)
(Álvares de Azevedo)

MUNDO: “com que os poetas sonhavam e


HERÓI construíram perfeito. Para onde pudessem fugir
buscando lenitivo ao seu sofrimento.”
a) O herói romântico não se contenta com o mundo
em que vive, é rebelde e desafiador. Julga-se “Oh! céu de minha terra - azul sem mancha -
diferente de outros homens, é solitário e, Oh! sol de fogo que me queima a fronte,
dificilmente, encontra lenitivo para essa revolta e Nuvens doiradas que correis no acaso,
solidão. Névoas da tarde que cobria o monte

70 * Literatura Brasileira
Perfumes da floresta, vozes doces, língua, com a incorporação de neologismos, e a
Mansa lagoa que o luar prateia, tentativa de aproximação entre a língua literária e a
Claros riachos, cachoeiras altas, linguagem oral e coloquial. A superação do rigor
Ondas tranquilas que morreis na areia.” linguístico dos clássicos possibilitou uma dicção mais
(Casimiro de Abreu) compatível com o gosto e o entendimento do leitor
da época.

5. ILOGISMO “Frouxo o verso talvez, pálida a rima.


A exacerbação do subjetivismo faz com que Por estes meus delírios cambaleia,
os românticos acreditem em si mesmos e nos Porém odeio o pó que deixa a lima
mundos que criam, guiados pela intuição, mesmo E o tedioso emendar que gela a veia!
quando essa atitude fere a lógica e a razão. Daí Quanto a mim é o fogo quem anima
decorre o ilogismo, a instabilidade emocional, De uma estância o calor quando formei-a,
traduzida em atitudes antitéticas e paradoxais: Se a estátua não saiu como pretendo,
alegria/tristeza, entusiasmo/depressão, desejo/ auto- Quebro-a - mas nunca seu metal emendo.”
punição. (Álvares de Azevedo)

“Ó páginas da vida que eu amava,


Rompei-vos! nunca mais! tão desgraçado!... ROMANTISMO NO BRASIL
Ardei, lembranças doces do passado!
Quero rir-me de tudo que eu amava!” Além do conjunto de características comuns
(Álvares de Azevedo) ao Romantismo europeu, é possível apontar no
Romantismo brasileiro alguns traços específicos.
“Quando junto de ti eu sinto às vezes
Em doce enleio desvairar-me o siso, a) Cor local
Nos meus olhos incertos sinto lágrimas... Corresponde à utilização poética de nossa
Natureza tropical, com sua variedade de
E por te amar, por teu desdém - perdi-me... aspectos, oposta a dos países europeus. A
Tresnoitei-me em orgias macilento, descrição da paisagem local indica a tomada de
Brindei blasfemo ao vício e da minh’alma consciência e a afirmação daquilo que é
Tentei me suicidar no esquecimento!” característico em cada país. Casimiro de Abreu
(Álvares de Azevedo) afirma: “O filho dos trópicos deve escrever numa
linguagem propriamente sua - lânguida, como
ele, quente como o sol que o abrasa, grande e
6. LIBERDADE DE CRIAÇÃO E misteriosa como as suas matas seculares...”
DESPREOCUPAÇÃO COM A
FORMA b) Indianismo
Foi a forma mais representativa de nacionalismo
Libertando-se dos modelos clássicos, os literário. Corresponde, no Brasil, à busca de um
românticos abandonam as formas fixas (são raros os legítimo antepassado nacional, já que não
sonetos, odes, oitavas, etc.); a obrigatoriedade da possuíramos Idade Média com heróis típicos. Por
rima, valorizando o verso branco; negam e fundem outro lado, a figura do índio foi idealizada pelos
os gêneros literários, abandonando a siste- escritores românticos com a finalidade de nivelar
matização, impondo o desaparecimento de alguns esse nosso antepassado ao português colo-
gêneros, como a epopeia clássica, a tragédia, a nizador. O índio romântico é sempre bom, nobre,
comédia e propiciando o surgimento de outros, como bonito e cavaleiro generoso.
o drama, o romance de costumes.
Uma conquista importante dos autores Segundo Dante Moreira Leite, o indianismo
românticos foi a renovação e o enriquecimento da tinha conteúdo ideológico. “O índio foi, no

Literatura Brasileira * 71
Romantismo, uma imagem do passado e, portanto, 2. Identifique nos fragmentos abaixo, características românticas
que neles predominam:
não apresentava qualquer ameaça à ordem vigente,
sobretudo à escravatura. a)
“Ó anjo do meu Deus, se nos meus sonhos
Os escritores, políticos e leitores identi- A promessa do amor me não mentia,
ficavam-se com esse índio do passado, ao qual Concede um pouco ao infeliz poeta
Uma hora da ilusão que o embebia!”
atribuíam virtudes e grandezas; o índio contem- (Junqueira Freire)
porâneo que, no século XIX, como agora, arrastava- b)
se na miséria e na semiescravidão, não constituía “E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
um tema literário”. Não quero que uma nota de alegria
Não podemos esquecer, ainda, que o Se cale por meu triste passamento.

indianismo se articulava com uma proposta europeia Eu deixo a vida como deixa o tédio
mais ampla; a ideia do bom selvagem. No caso do Do deserto, o poento caminheiro
- Como as horas de um longo pesadelo
Brasil, o índio representava a concretização desse Que se desfaz ao dobre de um sineiro.”
homem em estado natural, ainda não “corrompido” (Álvares de Azevedo)

pela civilização. c)
“Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz - e escrevam nela:
Foi poeta - sonhou - e amou na vida.”
EXERCÍCIOS (Álvares de Azevedo)

d)
1. Complete o quadro com as características românticas que se “Morrer... quando este mundo é um paraíso,
opõem às apresentadas: E a alma um cisne de douradas plumas;
Não! o seio da amante é um lago virgem...
Quero boiar à tona das espumas.”
Classicismo - Neoclassicismo Romantismo (Castro Alves)

e)
Culto à antiguidade greco-Iatina “Aqui sobre esta mesa junto ao leito
Em caixa negra dois retratos guardo.
Não os profanem indiscretas vistas.
Imitação dos modelos clássicos Eu beijo-os cada noite: neste exílio
Venero-os juntos e os prefiro unidos
- Meu pai e minha mãe - Se acaso um dia
Mitologia pagã Na minha solidão me acharem morto,
Não os abra ninguém. Sobre meu peito
Lancem-os em meu túmulo mais doce
Arte é imitação
Será certo o dormir da noite negra
Tendo no peito essas imagens puras.”
Mundo real (Álvares de Azevedo)
f)
“Meu amor...Meu amor é um delírio...
Predomínio da razão É a volúpia, que abrasa e consome
Meu amor é uma mescla sem nome.
És um anjo, e minh’alma - um altar
Natureza como cenário Oh! meu Deus! manda ao tempo, que fuja,
Que deslizem em fio os instantes,
E o ponteiro, que passa os quadrantes,
Equilíbrio - Moderação Marque a hora em que a possa beijar!”
(Castro Alves)
Linguagem comedida
g)
“Fugiremos à pátria. Iremos longe
Imparcialidade Habitar num deserto. No meu peito
Eu tenho amores para encher de encantos
Uma alma de mulher... Por que sorriste?
Homem universal Sou um louco. Maldita a folha negra
Em que Deus escreveu a minha sina...”
(Álvares de Azevedo)
O lógico e objetivo

h)
Manutenção das formas fixas “Meu peito de gemer já está cansado,
Meus olhos de chorar;
E eu sofro ainda, e já não posso alívio
Visão objetiva de mundo
Sequer no pranto achar!”
(Gonçalves Dias)

72 * Literatura Brasileira
i) Poesia à sublime fonte donde ela emana, como o eflúvio d’ água,
“Basta!... Eu sei que a mocidade que da rocha se precipita, e ao seu cume remonta, ou como a
É o Moisés no Sinai; reflexão da luz ao corpo luminoso; vingar ao mesmo tempo a
Das mãos do eterno recebe Poesia das profanações do vulgo, indicando apenas no Brasil uma
As tábuas da lei! - Marchai! nova estrada aos futuros engenhos.
Quem cai na luta com glória, A poesia, este aroma d’ alma, deve de contínuo subir ao
Tomba nos braços da História Senhor; som acorde da inteligência deve santificar as virtudes, e
No coração do Brasil! amaldiçoar os vícios.
Moços, do topo dos Andes, O poeta, empunhando a lira da Razão, cumpre vibrar as
Pirâmides vastas, grandes, cordas eternas do Santo, do Justo e do Belo, do reformador da
Vos contemplam séculos mil!” nossa Poesia, nos seus primores d’arte, nem sempre se apoderou
(Castro Alves) desta ideia. Compõe-se uma grande parte de suas obras de
traduções; e quando ele é original causa mesmo dó que cantasse
j)
o homem selvagem de preferência ao homem civilizado, como se
“Não achei na terra amores
aquele a este superasse, como se a civilização não fosse obra de
Que merecessem os meus,
Deus, a que era o homem chamado pela força da inteligência,
Não tenho um ente no mundo
com que a Providência dos mais seres o distinguira.
A quem diga o meu - adeus.”
(Junqueira Freire) Outros apenas curaram de falar aos sentidos, outros em
l) quebrar as leis da decência.
“Sombras do vale, noites da montanha, Seja qual for o lugar em que se ache o poeta, ou
Que minha alma cantou e amava tanto, apunhalado pelas dores, ou ao lado de sua bela, embalado pelos
Protegei o meu corpo abandonado, prazeres; no cárcere, como no palácio, na paz, como sobre o
E no silêncio derramai-lhe canto!” campo da batalha, se ele é verdadeiro poeta, jamais deve
(Álvares de Azevedo) esquecer-se de sua missão, e se acha sempre o segredo de
encantar os sentidos, vibrar as cordas do coração, e elevar o
m) pensamento nas asas da harmonia até às ideias arquétipas.
“Eu amo a noite quando deixa os montes O poeta sem religião, e sem moral, é como o veneno
Bela, mas bela de um horror sublime, derramado na fonte, onde morrem quantos aí procuram aplacar a
E sobre a face dos desertos quedos sede.
Seu régio selo de mistério imprime”. Ora, nossa religião, nossa moral é aquela que nos
(Fagundes Varela) ensinou o Filho de Deus, aquela que civilizou o mundo moderno,
aquela que ilumina a Europa, e a América, e só este bálsamo
sagrado deve verter os cânticos dos poetas brasileiros.
3. O texto dado a seguir é um fragmento do prefácio de Suspiros Uma vez determinado e conhecido o fim, o gênero se
Poéticos e Saudades - obra que introduz o Romantismo apresenta naturalmente. Até aqui, como só se procurava fazer
brasileiro. uma obra segundo a Arte, imitar era o meio indicado: fingida era
a inspiração, e artificial o entusiasmo. Desprezavam os poetas a
consideração se a Mitologia podia, ou não, influir sobre nós.
Contanto que dissessem que as Musas do Helicon os inspiravam,
SUSPIROS POÉTICOS E SAUDADES que Fabo guiava seu carro puxado pela quadriga, que a Aurora
abria as portas do Oriente com seus dedos de rosas, e outras tais
“Pede o uso que se dê um prólogo ao livro, como um e quejandas imagens tão usadas, cuidavam que tudo tinha feito,
pórtico ao edifício e como este deve indicar por sua construção a e que com Homero emparelhavam; como se pudesse parecer
que divindade se consagra o templo, assim deve aquele designar belo que achasse algum velho manto grego, e com ele se
o caráter da obra. Santo uso de que nos aproveitamos, para cobrisse. Antigos e safados ornamentos, de que todos se servem
desvanecer alguns preconceitos, que talvez contra este livro se a ninguém honravam.
elevem em alguns espíritos apoucados. Quanto à forma, isto é, à construção, por assim dizer,
É um livro de poesias escritas, segundo as impressões material das estrofes, e de cada cântico em particular, nenhuma
dos lugares, ora assentado entre as ruínas da antiga Roma, ordem seguimos; exprimindo as ideias como elas se
meditando sobre a sorte dos impérios; ora no cimo dos Alpes, a apresentaram, para não destruir o acento da inspiração; além de
imaginação vagando no infinito como um átomo no espaço; ora na que, a igualdade dos versos, a regularidade das rimas, e a
gótica catedral, admirando a grandeza de Deus, e os prodígios simetria das estâncias produz uma tal monotonia, e dá afeição de
do Cristianismo; ora entre os ciprestes que espalham sua sombra concerto artifício que jamais podem agradar. Ora, não se compõe
sobre túmulos; ora enfim refletindo sobre a sorte da Pátria, sobre uma orquestra só com sons limitativos, e períodos explicativos.
as paixões dos homens, sobre o nada da vida. Quando em outro tempo publicamos um volume das
São poesias de um peregrino, variadas como as cenas Poesias da nossa infância, não tínhamos ainda assaz refletido
da Natureza, diversas como as fases da vida, mas que se sobre estes pontos, e em quase todas estas faltas incorremos;
harmonizam pela unidade do pensamento, e se ligam como os hoje porém cuidamos ter seguido melhor caminho. Valha-nos ao
anéis de uma cadeia; poesias d’ alma e do coração e que só pela menos o bom desejo, se não correspondem as obras ao nosso
alma e no coração devem ser julgadas. intento; outros mais mimosos da Natureza farão o que não nos é
Quem ao menos uma vez separou-se de seus pais, dado.
chorou sobre a campa de um amigo, e armado com o bastão de Algumas palavras acharão neste livro que nos dicionários
peregrino, errou de cidade, uma cidade de ruínas, como portugueses se não encontram; mas as línguas vivas se
repudiado pelos seus; quem no silêncio da noite, cansado de enriquecem com progresso da civilização, e das ciências, e uma
injustiça e misérias dos homens; quem meditou sobre a nova ideia pede um novo termo.
instabilidade das cousas da vida, e sobre a ordem providencial Eis as necessárias explicações para aqueles que leem de
que reina na história da Humanidade, como nossa alma em todas boa fé, e se aprazem de colher uma pérola no meio das ondas;
as nossas ações; esse achará um eco de sua alma nestas folhas para aqueles, porém, que com olhos de prisma tudo decompõem,
que lançamos hoje a seus pés, e um suspiro que se harmonize e como as serpentes sabem converter em veneno até o néctar
com o seu suspiro. das flores, tudo é perdido; o que poderemos nós dizer-Ihes? ...Eis
Para bem se avaliar esta obra, três causas revela notar: mais uma pedra onde afiem suas presas; mais uma taça onde
o fim, o gênero e a forma. saciem sua febre de escárnio.
O fim deste livro, ao menos aquele a que nos Este livro é uma tentativa, é um ensaio; se ele merecer o
propusemos, que ignoramos se o atingimos, é o de elevar a público acolhimento, cobraremos ânimo, e continuaremos a

Literatura Brasileira * 73
publicar outros que já temos feito, e aqueles que fazer poderemos Inquisição (1837, tragédia em verso), Olgiato
com o tempo.
É um tributo que pagamos à Pátria, enquanto lhe não (tragédia), Amância (novela), A Confederação dos
oferecemos cousa de maior valia; é o resultado de algumas horas Tamoios (1856, poema épico), além de obras de
de repouso, em que a imaginação se dilata, e a atenção
descansa, fatigada pela seriedade da ciência. críticas e filosofia.
Tu vais, ó livro, ao meio do turbilhão em que se debate
nossa Pátria; onde a trombeta da mediocridade abala todos os
ossos, e desperta todas as ambições, onde tudo está gelado, 2. GONÇALVES DIAS
exceto o egoísmo; tu vais, como uma folha no meio da floresta (1823 -1864)
batida pelos ventos do inverno, e talvez tenhas de perder-te antes
de ser ouvido, como um grito no meio da tempestade. Nasceu em Caxias, MA, em 1823. Faleceu no
Vai, nós te enviamos, cheio de amor pela Pátria, de naufrágio do Ville de Boulogne (no qual o poeta
entusiasmos por tudo o que é grande, e de esperança em Deus,
e no futuro.” regressava da Europa, desenganado), nos baixios
Adeus! de Atins, perto do Maranhão, em 1864.
Paris, julho de 1836.
Gonçalves de Magalhães É o primeiro poeta “de sensibilidade artística
realmente brasileira”. Trazia, por sinal, o sangue das
Lido o texto, identifique as características do Romantismo três raças: o pai era português e a mãe, cafuza.
que ele aponta:
Estudou Direito em Coimbra, onde entrou em
____________________________________________________
contato com os românticos portugueses e estudou
____________________________________________________
as principais literaturas europeias.
____________________________________________________
Voltou ao Brasil em 1845. No ano seguinte,
____________________________________________________
publicou Primeiros Cantos, a primeira obra
verdadeiramente romântica no tema e na forma, que
o tornou, imediatamente, poeta de primeira

POESIA ROMâNTICA grandeza.


De 1846 a 1852, publicou suas obras mais
importantes, enquanto ocupou cargos de relevo junto
Com finalidade didática, costuma-se dividir os ao Imperador.
poetas românticos em três gerações: Apaixonou-se por Ana Amélia Ferreira do Vale
que lhe inspirou belas poesias. Dona Lourença (mãe
de Ana Amélia) não permitiu o casamento (1852).
PRIMEIRA GERAÇÃO Esta recusa foi fatal para o poeta. Embora ele
desposasse, posteriormente, D. Olímpia, Ana Amélia
Foi a geração que definiu, implantou e continuaria sempre a “mulher carinhosamente
consolidou o Romantismo no Brasil. amada e nunca esquecida”.
Destacou-se pela correção da linguagem e
perfeição da forma.
1. GONÇALVES DE MAGALHÃES
(1811 - 1882) OBRAS:
Introduziu, em 1836, o Romantismo no Brasil Poesias: Primeiros Cantos (1845), Segundos
com Suspiros Poéticos e Saudades, de inspiração Cantos (1848), Sextilhas de Frei Antão (1848),
francesa, “cujo prefácio, pelas ideias literárias que Últimos Cantos (1851), Os Timbiras (1857). Prosa:
discutia e defendia, valeu mais que os poemas, de Paktul (drama), Beatriz Cenci (1847, drama), Leonor
um poeta que ficou sempre nas boas intenções, na de Mendonça (1847, um dos mais belos dramas de
boa técnica versificatória e estilística, mas nunca nossa literatura), Boabdill (drama), Meditação,
chegou propriamente a sentir poesia romântica”. Memória de Agapito Goiaba, Brasil e Oceania (1852,
Dedicou-se à poesia nacionalista e religiosa, memória), Dicionário da Língua Tupi (1858), além de
inspirando-se também na tristeza e na saudade. diários de viagem e de expedições científicas.

OBRAS:
Suspiros Poéticos e Saudades (1836), CARACTERÍSTICAS
Poesias (1832), Antônio José ou O Poeta e a a) Poesia amorosa: “Amor é vida” - o poeta

74 * Literatura Brasileira
escreveu e aprovou: Amor e vida foram inseparáveis Às vezes, oh! sim, derramam tão fraco,
em sua existência. Tão frouxo brilhar,
Embora tivesse diversos casos de amor, que Que a mim me parece que o ar lhes falece,
lhe inspiraram não poucas poesias, sua melhor parte E os olhos tão meigos, que o pranto umedece,
de poemas amorosos gira em torno de Ana Amélia. Me fazem chorar.
Até a recusa de casamento temos um poeta otimista,
sonhador, cantando o amor, a felicidade, retratando Assim lindo infante, que dorme tranquilo,
uma alma cheia de afeto e entusiasmo, versejando Desperta a chorar;
fácil. São exemplos: Seus Olhos, Leviana, Inocência, E mudo e sisudo, cismando mil coisas,
Suspiros. Não pensa - a pensar.
Depois da recusa (1852), volta-se o poeta
para seu íntimo e começa a lastimar seu ingrato Nas almas tão puras da virgem, do infante,
destino. Sofre. A mórbida imaginação que possuía, Às vezes do céu
aproxima-o sempre mais da desgraça e da morte. Cai doce harmonia duma Harpa celeste,
Citem-se: Se Se Morre de Amor, Se muito Sofri já Um vago desejo; e a mente se veste
não me Perguntes, Ainda Uma Vez - Adeus!. De pranto co’um véu.

Observemos os textos: Quer sejam saudades, quer sejam desejos


Da Pátria melhor;
Eu amo seus olhos que choram sem causa
SEUS OLHOS Um pranto sem dor.

“Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, Eu amo seus olhos tão negros, tão puros,
De vivo luzir, De vivo fulgor;
Estrelas incertas, que as águas dormentes Seus olhos que exprimem tão doce harmonia,
Do mar vão ferir; Que falam de amores com tanta poesia,
Com tanto pudor.
Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
Têm meiga expressão, Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
Mais doce que a brisa, - mais doce que o nauta Assim é que são;
De noite cantando, - mais doce que a frauta Eu amo esses olhos que falam de amores
Quebrando a solidão. Com tanta paixão”.

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,


De vivo luzir. AINDA UMA VEZ - ADEUS
São meigos infantes, gentis, engraçados
Brincando a sorrir. I
“Enfim te vejo! - enfim posso,
São meigos infantes, brincando, saltando Curvado a teus pés, dizer-te,
Em jogo infantil, Que não cessei de querer-te,
Inquietos, travessos; - causando tormento, Pesar de quanto sofri.
Com beijos nos pagam a dor de um momento, Muito penei! Cruas ânsias,
Com modo gentil. Dos teus olhos afastado,
Houveram-me acabrunhado
Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, A não lembrar-me de ti!
Assim é que são;
Às vezes luzindo, serenos, tranquilos, II
Às vezes vulcão! Dum mundo a outro impelido,
Derramei os meus lamentos

Literatura Brasileira * 75
Nas surdas asas dos ventos, Expor-te em pública praça,
Do mar na crespa cerviz! Como um alvo à populaça,
Baldão, ludíbrio da sorte Um alvo aos dictérios seus!
Em terra estranha, entre gente Devera, podia acaso
Que alheios males não sente, Tal sacrifício aceitar-te
Nem se condói do infeliz! Para no cabo pagar-te,
Meus dias unindo aos teus?
III
Louco, aflito, a saciar-me VIII
D’agravar minha ferida, Devera, sim; mas pensava,
Tomou-me tédio da vida, Que de mim t’esquecerias,
Passos da morte senti; Que, sem mim, alegres dias
Mas quase no passo extremo, T’esperavam; e em favor
No último arcar da esp’rança, De minhas preces, contava
Tu me vieste à lembrança: Que o bom Deus me aceitaria
Quis viver mais e vivi! O meu quinhão de alegria
Pelo teu quinhão de dor!
IV
Vivi; pois Deus me guardava IX
Para este lugar e hora! Que me enganei, ora o vejo:
Depois de tanto, senhora, Nadam-te os olhos em pranto,
Ver-te e falar-te outra vez; Arfa-te o peito, e no entanto
Rever-me em teu rosto amigo, Nem me podes encarar;
Pensar em quanto hei perdido, Erro foi, mas não foi crime,
E este pranto dolorido Não te esqueci, eu to juro:
Deixar correr a teus pés. Sacrifiquei meu futuro,
Vida e glória por te amar!
V
Mas que tens? Não me conheces? X
De mim afastas teu rosto? Tudo, tudo; e na miséria
Pois tanto pôde o desgosto Dum martírio prolongado,
Transformar o rosto meu? Lento, cruel, disfarçado,
Sei a aflição quanto pode, Que eu nem a ti confiei;
Sei quanto ela desfigura, ‘Ela é feliz (me dizia)
E eu não vivi na ventura... Seu descanso é obra minha.’
Olha-me bem, que sou eu! Negou-me a sorte mesquinha...
Perdoa, que me enganei!
VI
Nenhuma voz me diriges!... XI
Julgas-te acaso ofendida? Tantos encantos me tinham,
Deste-me amor, e a vida Tanta ilusão me afagava.
Que ma darias - bem sei; De noite, quando acordava,
Mas lembrem-te aqueles feros De dia em sonhos talvez!
Corações, que se meteram Tudo isso agora onde para?
Entre nós; e se venceram, Onde a ilusão dos meus sonhos?
Mal sabes quanto lutei! Tantos projetos risonhos,
Tudo esse engano desfez!
VII
Oh! se lutei!... mas devera

76 * Literatura Brasileira
XII XVII
Enganei-me!... - Horrendo caos Adeus qu’eu parto, senhora;
Nessas palavras se encerra, Negou-me o fado inimigo
Quando do engano, quem erra, Passar a vida contigo,
Não pode voltar atrás! Ter sepultura entre os meus;
Amarga irrisão! reflete: Negou-me nesta hora extrema,
Quando eu gozar-te pudera, Por extrema despedida,
Mártir quis ser, cuidei qu’era... Ouvir-te a voz comovida
E um louco fui, nada mais! Soluçar um breve Adeus!

XIII XVIII
Louco, julguei adornar-me Lerás porém algum dia
Com palmas d’alta virtude! Meus versos d’alma arrancados,
Que tinha eu bronco e rude D’amargo pranto banhados,
C’o que se chama ideal? Com sangue escritos; - e então
O meu eras tu, não outro; Confio que te comovas,
Stava em deixar minha vida Que a minha dor te apiade,
Correr por ti conduzida, Que chores, não de saudade,
Pura, na ausência do mal. Nem de amor, - de compaixão.”

XIV
Pensar eu que o teu destino b) Poesia indianista: É Gonçalves Dias
Ligado ao meu, outro fora. acusado de ter apresentado o índio transfigurado
Pensar que te vejo agora, num plano ideal. Observe-se que o indianismo
Por culpa minha, infeliz; gonçalvino é autêntico, pois o poeta, além de possuir
Pensar que a tua ventura sangue de índio (e fazer indianismo em “legítima
Deus ab eterno a fizera, defesa”), conheceu, diretamente e através de
No meu caminho a pusera... estudos, o índio americano. Seus índios são nobres,
E eu! eu fui que a não quis! corajosos, cavalheiros.
Lembram muito os cavaleiros da Idade Média.
XV Principais poemas: I - Juca-Pirama, Os Timbiras
És doutro agora, e pr’a sempre! (épico: o autor completou somente quatro dos dez
Eu a mísero desterro cantos planejados); O Canto do Guerreiro, Os
Volto, chorando o meu erro, Cantos do Piaga, Canção do Tamoio.
Quase descrendo dos céus!
Dói-te de mim, pois me encontras
Em tanta miséria posto, CANÇÃO DO TAMOIO
Que a expressão deste desgosto
Será um crime ante Deus! “Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
XVI É luta renhida:
Dói-te de mim, que t’imploro Viver é lutar.
Perdão, a teus pés curvado; A vida é combate,
Perdão!... de não ter ousado Que os fracos abate,
Viver contente e feliz! Que os fortes, os bravos,
Perdão da minha miséria, Só pode exaltar.
Da dor que me rala o peito
E se do mal que te hei feito, Um dia vivemos!
Também do mal que me fiz! O homem que é forte

Literatura Brasileira * 77
Não teme da morte; Porém se a fortuna,
Só teme fugir; Traindo teus passos,
No arco que entesa Te arroja nos laços
Tem certa uma presa Do inimigo falaz!
Quer seja tapuia, Na última hora
Condor ou tapir. Teus feitos memora,
Tranquilo nos gestos,
O forte, o cobarde
Impávido, audaz.
Seus feitos inveja
De o ver na peleja
E cai como o tronco
Garboso e ferroz;
Do raio tocado,
E os tímidos velhos
Partido, rojado
Nos graves conselhos,
Por larga extensão;
Curvadas as frontes,
Assim morre o forte!
Escutam-lhe a voz!
No passo da morte
Domina, se vive; Triunfa, conquista
Se morre, descansa Mais alto brasão.
Dos seus na lembrança,
Na voz do porvir. As armas ensaia,
Não cures da vida! Penetra na vida:
Sê bravo, sê forte! Pesada ou querida,
Não fujas da morte, Viver é lutar.
Que a morte há de vir! Se o duro combate
E pois que és meu filho, Os fracos abate,
Meus brios reveste; Aos fortes, aos bravos,
Tamoio nasceste, Só pode exaltar.”
Valente serás.
Sê duro guerreiro,
Robusto, fragueiro, DEPRECAÇÃO
Brasão dos tamoios
Na guerra e na paz. “Tupã, ó Deus grande! cobriste o teu rosto
Com denso velamem de penas gentis;
Teu grito de guerra
E jazem teus filhos clamando vingança
Retumbe aos ouvidos
Dos bens que lhes deste da perda infeliz!
D’inimigos transidos
Por vil comoção;
Tupã, ó Deus grande! teu rosto descobre:
E tremam d’ouvi-lo
Bastante sofremos com tua vingança!
Pior que o sibilo
Já lágrimas tristes choraram teus filhos,
Das setas ligeiras,
Teus filhos que choram tão grande mudança.
Pior que o trovão.

E a mãe nessas tabas, Anhangá impiedoso nos trouxe de longe


Querendo calados Os homens que o raio manejam cruentos,
Os filhos criados Que vivem sem pátria, que vagam sem tino
Na lei do terror; Trás do ouro correndo, voraces, sedentos.
Teu nome lhes diga,
Que a gente inimiga E a terra em que pisam e os campos e os rios
Talvez não escute Que assaltam, são nossos; tu és nosso Deus:
Sem pranto, sem dor! Por que lhes concedes tão alta pujança,
Se os raios de morte, que vibram, são teus?

78 * Literatura Brasileira
Tupã, ó Deus grande! cobriste o teu rosto c) Poesia da natureza: Os críticos insistem em
Com denso velamem de penas gentis; afirmar que G. Dias é panteísta. E com razão, se
E jazem teus filhos clamando vingança entendermos por panteísmo a identificação dos
Dos bens que lhes deste da perda infeliz. sentimentos do poeta com a natureza. Ou mais: a
comunhão poeta-natureza. Isto se explica porque o
Teus filhos valentes, temidos na guerra, poeta viveu parte de sua infância no sítio Boa Vista,
No albor da manhã quão fortes que os vi! perto de Caxias, onde teve íntima ligação com a
A morte pousava nas plumas da frecha, natureza, sempre presente em suas obras.
No gume da maça, no arco Tupi! Celebrou o amanhecer, o entardecer, o sol, as
estrelas, a lua, o céu, as flores, a tempestade, as
E hoje em que apenas a enchente do rio florestas.
Cem vezes hei visto crescer e baixar...
Já restam bem poucos dos teus, qu’inda possam “Salve, ó Lua cândida,
Dos seus, que já dormem, os ossos levar. Que trás dos altos montes
Erguendo a fronte pálida,
Teus filhos valentes causavam terror, Dos negros horizontes
Teus filhos enchiam as bordas do mar, As sombras melancólicas
As ondas coalhavam de estreitas igaras, Vens ora afugentar!”
De frechas cobrindo o espaço do ar. (A Lua)

Já hoje não caçam nas matas frondosas “ Eu amo a noite solitária e muda,
A corça ligeira, o trombudo coati... Quando no vasto céu fitando os olhos,
A morte pousava nas plumas da frecha, Além do escuro, que lhe tinge a face,
No gume da maça, no arco Tupi! Alcanço deslumbrado
Milhões de sóis a divagar no espaço,
O Piaga nos disse que breve seria, Como em salas de esplêndido banquete
A que nos infliges cruel punição; Mil tochas aromáticas ardendo
E os teus inda vagam por serras, por vales, Entre nuvens d’incenso!”
Buscando um asilo por ínvio sertão! (A Noite)

Tupã, ó Deus grande! descobre o teu rosto:


Bastante sofremos com tua vingança! d) Poesia saudosista: As constantes
Já lágrimas tristes choraram teus filhos, separações e a distância da pátria e dos amigos
Teus filhos que choram tão grande tardança. fazem com que a saudade repasse a obra de G.
Dias. “Canção do Exílio”, que abre Primeiros Cantos,
Descobre o teu rosto, ressurjam os bravos, é a poesia que melhor identifica esse aspecto.
Que eu vi combatendo no albor da manhã;
Conheçam-te os feros, confessem vencidos
Que és grande e te vingas, qu’és Deus, ó Tupã!” CANÇÃO DO EXÍLIO

“Minha terra tem palmeiras,


Notas: deprecação = invocação, pedido insistente; denso velame
Onde canta o Sabiá;
(v.2) = véu espesso, máscara; cruentos (v.l0) = sangrentos; vagas
sem tino (v.11) = andam sem rumo; trás (v.12) = atrás; voraces As aves, que aqui gorjeiam,
(v.22) = ávidos, ambiciosos; pujança (v.15) = força, poder; olhar da Não gorjeiam como lá.
manhã (v.22) = alvorada; gume da maça (v.24) = lado afiado da
clava, arma dos índios; igaras (v.31) = canoas; Piaga (v.37) =
Nosso céu tem mais estrelas,
espécie de feiticeiro, sacerdote e curandeiro; ínvio (v.40) =
impenetrável; tardança (v.44) = demora; feroz (v.47) = ferozes, Nossas várzeas têm mais flores,
cruéis; Anhangá (v.9) = força do mal, o gênio mal da floresta. Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Literatura Brasileira * 79
Em cismar, sozinho, à noite, tismo exagerado, melancolia perene, constante
Mais prazer encontro eu lá; tédio, pessimismo, vontade de sofrer, verdadeira
Minha terra tem palmeiras, obsessão pela morte, vontade de fugir desta
Onde canta o sabiá. realidade para um mundo indefinido com que esses
poetas sonhavam.
Minha terra tem primores, Observa com propriedade D. Fontana que
Que tais não encontro eu cá; “para ser poeta era necessário sofrer com desespero
Em cismar - sozinho, à noite - os embates da paixão desordenada e sentir na vida
Mais prazer encontro eu lá; boêmia os negros pesares do infortúnio; era preciso
Minha terra tem palmeiras, descrer da felicidade e morrer jovem”.
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra, 1. ÁLVARES DE AZEVEDO


Sem que eu volte para lá; (1831 - 1852)
Sem que desfrute os primores Nasceu em 1831, em São Paulo, e faleceu em
Que não encontro por cá; 1852, no Rio de Janeiro, de enterite.
Sem qu’inda aviste as palmeiras, Conhecido como o Poeta da Dúvida ou
Onde canta o Sabiá.” Lacrimoso Perene.

e) Poesia autobiográfica: Muitas poesias OBRAS:


gonçalvinas têm por assunto sua vida. De um modo Lira dos Vinte Anos (1853, poesia), Noite na
geral, apresentam as horas felizes do passado - Taverna (contos), O Conde Lopo (poema), Macário
poucas e fugidias - contrastando com um presente (drama), todas póstumas.
Álvares de Azevedo é o poeta que melhor
de sofrimento, de tristeza, de quem se vê vítima do
representa o byronismo no Brasil, pois sua obra
destino.
apresenta as características fundamentais do mal do
Exemplificam este aspecto as poesias: “Adeus
século. Sem tempo para amadurecer e sentindo a
aos Meus Amigos do Maranhão” e “Quadras da
morte próxima, produziu intensa e desordena-
Minha Vida”.
damente.
Devemos destacar dois temas que, além da
f) Poesia medieval: Escreveu Sextilhas de Frei
dúvida, envolvem suas obras: o amor e a morte.
Antão, em português arcaico, onde “o Frei celebra,
O amor com que o poeta sempre sonhou,
de modo às vezes jocoso, os velhos tempos de fé e
buscou incessantemente e não alcançou. O poeta
valentia do povo português”.
reconhece:

“ Bom tempo foy o d’outr’ora


“Oh! se pudesse amar! ... É impossível
Quando o reyno era christão;
Mão fatal escreveu na minha vida!...”
Quando nas guerras de mouros
Era o rey nosso pendão,
Álvares de Azevedo não teve amores. Não há
Quando as donas consumião
notícias de uma só inclinação amorosa.
Seos teres em devação.”
A morte, com que o poeta se encontrou desde
criança quando faleceu uma irmã, acompanhou-o
sempre e tanto que o poeta a tinha, tragicamente,
SEGUNDA GERAÇÃO
como noiva e amante.

Conhecida como geração byroniana ou


geração ultrarromântica, por ter Byron como mito- LEMBRANÇA DE MORRER -

herói.
No more! o never more!
O mal do século tomou conta desta geração.
Shelly
Compreenda-se por mal do século: subje-

80 * Literatura Brasileira
“Quando em meu peito rebentar-se a fibra, Sombras do vale, noites da montanha,
Que o espírito enlaça à dor vivente, Que minh’alma cantou e amava tanto,
Não derramem por mim nem uma lágrima Protejei o meu corpo abandonado,
Em pálpebra demente. E no silêncio derramai-lhe um canto!

E nem desfolhem na matéria impura Mas quando preludia ave d’aurora


A flor do vale que adormece ao vento: E quando, à meia-noite, o céu repousa,
Não quero que uma nota de alegria Arvoredos do bosque, abri os ramos...
Se cale por meu triste passamento. Deixai a lua prantear-me a lousa!”

Eu deixo a vida como deixa o tédio


SE EU MORRESSE AMANHÃ
Do deserto, o poento caminheiro
- Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro; “Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Como o desterro de minh’alma errante, Minha mãe de saudades morreria
Onde fogo insensato a consumia: Se eu morresse amanhã!
Só levo uma saudade - é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia. Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Só levo uma saudade - é dessas sombras Eu perdera chorando essas coroas
Que eu sentia velar nas noites minhas... Se eu morresse amanhã!
De ti, ó minha mãe! pobre coitada
Que por minha tristeza te definhas! Que sol! que céu azul! que doce na’lva
Acorda a natureza mais louçã!
De meu pai... de meus únicos amigos, Não me batera tanto amor no peito
Poucos - bem poucos! - e que não zombavam Se eu morresse amanhã!
Quando, em noites de febre endoidecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam. Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
Se uma lágrima as pálpebras me inunda, A dor no peito emudecera ao menos
Se um suspiro nos seios treme ainda, Se eu morresse amanhã!”
É pela virgem que sonhei... que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!
SONETO
Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores... “Perdoa-me, visão dos meus amores,
Se viveu, foi por ti! e de esperança Se a ti ergui meus olhos suspirando!...
De na vida gozar de teus amores. Se eu pensava num beijo desmaiando
Gozar contigo uma estação de flores!
Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo... De minhas faces os mortais palores,
Ó minha virgem dos errantes sonhos, Minha febre noturna delirando,
Filha do céu, eu vou amar contigo! Meus ais, meus tristes ais vão revelando
Que peno e morro de amorosas dores...
Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida, Morro, morro por ti na minha aurora
À sombra de uma cruz, e escrevam nela: A dor do coração, a dor mais forte,
- Foi poeta - sonhou - e amou na vida. A dor de um desengano me devora...

Literatura Brasileira * 81
Sem que última esperança me conforte, coração que se inspira sobre o eterno tema do
Eu - que outrora vivia! - eu sinto agora amor”, a saudade, a terra natal, a mãe, a irmã, o lar,
Morte no coração, nos olhos morte!” a infância, a inocência - temas que tocarão sempre
a alma brasileira e, principalmente, a alma jovem e
sonhadora.
SONETO
b) A linguagem do poeta é de uma
“Pálida, a luz da lâmpada sombria, simplicidade que chega, às vezes, a ser ingênua. É
Sobre o leito de flores reclinada, límpida, espontânea, clara e viva como os
Como a lua por noite embalsamada, sentimentos que traduz. Essencialmente comu-
Entre as nuvens do amor ela dormia! nicativa.

Era a virgem do mar! na escuma fria MEUS OITO ANOS


Pela maré das água embalada!
Era um anjo entre nuvens d’alvorada “Oh! que saudades que tenho
Que em sonhos se banhava e se esquecia! Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Era mais bela! o seio palpitando... Que os anos não trazem mais!
Negros olhos as pálpebras abrindo... Que amor, que sonhos, que flores,
Formas nuas no leito resvalando... Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Não te rias de mim, meu anjo lindo! Debaixo dos laranjais!
Por ti - as noites eu velei chorando,
Por ti - nos sonhos morrerei sorrindo!” Como são belos os dias
Do despontar da existência!
- Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
2. CASIMIRO DE ABREU O mar é lago sereno
(1839 - 1860) O céu - um manto azulado,
Nasceu em 1839, na fazenda da Prata, O mundo - um sonho dourado,
Capivari, RJ. Faleceu em 1860, em Indaiá-açu, RJ, A vida - um hino d’amor!
de tuberculose.
O pai sufocou-lhe todas as pretensões Que auroras, que sol, que vida,
poéticas, obrigando-o a estudar e praticar comércio. Que noites de melodia
Para tanto, Casimiro é enviado a Portugal onde, Naquela doce alegria,
longe da pátria, roído da saudade, escreve suas Naquele ingênuo folgar!
primeiras e mais belas poesias. O céu bordado d’estrelas,
A terra de aromas cheia,
OBRAS: As ondas beijando a areia
Camões e o Jaú (1856, cena dramática em E a lua beijando o mar!
verso); As Primaveras (1859, poesia).
Conhecido como o Poeta da saudade. Oh! dias da minha infância!
Os críticos são unânimes em considerar Oh! meu céu de primavera!
Casimiro de Abreu “o mais popular e o mais Que doce a vida não era
brasileiro dos nossos poetas”. Nessa risonha manhã!
Isto se explica por duas razões: Em vez das mágoas de agora,
a) Seus temas: “flores e estrelas, murmúrios Eu tinha nessas delícias
da terra e mistérios do céu, sonhos de virgem, risos De minha mãe as carícias
e cantigas de criança, trovas de mancebo; e o E beijos de minha irmã!

82 * Literatura Brasileira
Livre filho das montanhas, Quem dera
Eu ia bem satisfeito, Que sintas
Da camisa aberto o peito, As dores
- Pés descalços, braços nus - De amores
Correndo pelas campinas Que louco
À roda das cachoeiras, Senti!
Atrás das asas ligeiras Quem dera
Das borboletas azuis! Que sintas...
- Não negues,
Naqueles tempos ditosos Não mintas...
la colher as pitangas, - Eu vi!...
Trepava a tirar as mangas. Valsavas:
Brincava à beira do mar, - Teus belos
Rezava às Ave-Marias, Cabelos,
Achava o céu sempre lindo, Já soltos,
Adormecia sorrindo Revoltos,
E despertava a cantar! Saltavam,
Voavam,
Oh! que saudades que tenho Brincavam
Da aurora da minha vida, No colo
Da minha infância querida Que é meu;
Que os anos não trazem mais! E os olhos
Que amor, que sonhos, que flores, Escuros
Naquelas tardes fagueiras Tão puros,
À sombra das bananeiras, Os olhos
Debaixo dos laranjais!” Perjuros
Volvias,
A VALSA Tremias,
Sorrias,
“Tu, ontem, P'ra outro
Na dança Não eu!
Que cansa, Quem dera
Voavas Que sintas
Co'as faces As dores
Em rosas De amores
Formosas Que louco
De vivo, Senti!
Lascivo Quem dera
Carmim; Que sintas!...
Na valsa, - Não negues,
Tão falsa, Não mintas...
Corrias, - Eu vi!...
Fugias, Meu Deus!
Ardente, Eras bela
Contente, Donzela,
Tranquila, Valsando,
Serena, Sorrindo,
Sem pena Fugindo,
De mim! Qual silfo

Literatura Brasileira * 83
Risonho Senti!
Que em sonho Quem dera
Nos vem! Que sintas!...
Mas esse - Não negues,
Sorriso Não mintas!...
Tão liso - Eu vi!...
Que tinhas Na valsa
Nos lábios Cansaste;
De rosa, Ficaste
Formosa, Prostrada,
Tu davas, Turbada!
Mandavas Pensavas,
A quem?! Cismavas,
Quem dera E estavas
Que sintas Tão pálida
As dores Então;
De amores Qual pálida
Que louco Rosa
Senti! Mimosa
Quem dera No vale
Que sintas!... Do vento
- Não negues, Cruento
Não mintas... Batida,
- Eu vi!... Caída
Calado, Sem vida
Sozinho, No chão!
Mesquinho, Quem dera
Em zelos Que sintas
Ardendo, As dores
Eu vi-te De amores
Correndo Que louco
Tão falsa Senti!
Na valsa Quem dera
Veloz! Que sintas!...
Eu triste - Não negues,
Vi tudo! Não mintas...
Mas mudo - Eu vi!...”
Não tive
Nas galas
Das salas, AMOR E MEDO
Nem falas,
Nem cantos, I
Nem prantos,
“Quando eu te fujo e me desvio cauto
Nem voz!
Da luz de fogo que te cerca, oh! bela,
Quem dera
Contigo dizes, suspirando amores:
Que sintas
- ‘Meu Deus! que gelo, que frieza aquela!’
As dores
De amores Como te enganas! meu amor é chama
Que louco Que se alimenta no voraz segredo,

84 * Literatura Brasileira
E se te fujo é que te adoro louco... Vil, machucara com meu dedo impuro
És bela - eu moço; tens amor - eu medo!... As pobres flores da grinalda virgem!

Tenho medo de mim, de ti, de tudo, Vampiro infame, eu sorveria em beijos


Da luz, da sombra, do silêncio ou vozes, Toda inocência que teu lábio encerra,
Das folhas secas, do chorar das fontes, E tu serias no lascivo abraço
Das horas longas a correr velozes. Anjo enlodado nos pauis da terra.

O véu da noite me atormenta em dores, Depois... desperta no febril delírio,


A luz da aurora me intumesce os seios, - Olhos pisados - como um vão lamento,
E ao vento fresco do cair das tardes Tu perguntaras: - qu’é da minha c’roa?...
Eu me estremeço de cruéis receios. Eu te diria: - desfolhou-a o vento!...

É que esse vento que na várzea - ao longe, Oh! não me chames coração de gelo!
Do colmo o fumo caprichoso ondeia, Bem vês: traí-me no fatal segredo.
Soprando um dia tornaria incêndio Se de ti fujo é que te adoro e muito,
A chama viva que teu riso ateia! És bela - eu moço; tens amor, eu - medo!...”

Ai! se abrasado crepitasse o cedro,


Cedendo ao raio que a tormenta envia, 3. FAGUNDES VARELA
Diz: - que seria da plantinha humilde (1841 - 1875)
Que à sombra dele tão feliz crescia? Nasceu em Santa Rita do Rio Claro, RJ, em
1841 e faleceu em Niterói, em 1875, de congestão
A labareda que se enrosca ao tronco cerebral.
Torrara a planta qual queimara o galho, Teve o poeta uma infância nômade. O pai era
E a pobre nunca reviver pudera, juiz. Já rapaz (em 1859), procura ingressar na
Chovesse embora paternal orvalho! Faculdade de Direito. Entrega-se de corpo e alma à
boemia. Em 1862 casa-se; mas no ano seguinte,
II morre-Ihe o primeiro filho, Emiliano.
Ai! se eu te visse no calor da sesta, Entrega-se ainda mais ao álcool. Em 1865

A mão tremente no calor das tuas, muda-se para Recife. Morre-lhe a esposa. Abandona
os estudos e passa a viver de fazenda em fazenda e
Amarrotado o teu vestido branco,
pelas cidades próximas à cidade natal. Nem o
Soltos cabelos nas espáduas nuas!...
segundo casamento o corrige.
Ai! se eu te visse, Madalena pura,
Sobre o veludo reclinada a meio, OBRAS:
Olhos cerrados na volúpia doce, Noturnas (1861), O Estandarte Auriverde
Os braços frouxos - palpitante o seio!... (1863), Vozes da América (1864), Cantos e
Ai! se eu te visse em languidez sublime, Fantasias (1865), Cantos Meridionais (1869), Cantos
Na face as rosas virginais do pejo, do Ermo e da Cidade (1869), Anchieta ou O
Trêmula a fala a protestar baixinho... Evangelho das Selvas (1875), Cantos Religiosos (de
Vermelha a boca, soluçando um beijo!... parceria com o irmão) e Diário de Lázaro - sendo as
últimas duas, póstumas.
Diz: - que seria da pureza d’anjo,
Das vestes alvas, do candor das asas?
Aspectos mais importantes de sua obra:
- Tu te queimaras, a pisar descalça,
- Criança louca, - sobre um chão de brasas!
a) Poeta religioso: A obra máxima é Anchieta
No fogo vivo eu me abrasara inteiro! ou O Evangelho das Selvas (dez cantos, versos
Ébrio e sedento na fugaz vertigem brancos), em que Anchieta narra aos índios a vida,

Literatura Brasileira * 85
paixão e morte de Cristo. Correi, correi, oh! lágrimas saudosas,
Deus é uma presença constante na obra do Legado acerbo da ventura extinta,
poeta; a Bíblia, o seu grande livro. Esta religiosidade Dúbios archotes que a tremer clareiam
(mais do que religião) era refúgio para os A lousa fria de um sonhar que é morto!
sofrimentos, para a infelicidade, sua constante Correi! Um dia vos verei mais belas
companheira. Que os diamantes de Ofir e de Golconda
Fulgurar na coroa de martírios
b) Poeta da natureza: Até hoje ninguém o Que me circunda a fronte cismadora!
superou como paisagista. Seus motivos São mortos para mim da noite os fachos,
paisagísticos vão dos “convencionais” (embora Mas Deus vos faz brilhar, lágrimas santas,
grandiosos) como o mar, as serras, o Amazonas, aos E à vossa luz caminharei nos ermos!
mais “rústicos” como o mato virgem, o brejo, a Estrelas do sofrer, gotas de mágoa,
choça, a viola dos tropeiros, passando pelos mais Brando orvalho do céu! Sede benditas!
“delicados”: o sabiá, a rola, a borboleta, o vaga-lume. Oh! filho de minh’alma! Última rosa
Que neste solo ingrato vicejava!
c) Poeta do sofrimento: Foi o sofrimento moral Minha esperança amargamente doce!
que levou a inspiração de Varela ao ponto máximo. Quando as garças vierem do ocidente
Seu filho Emiliano, morto com três meses de idade, Buscando um novo clima onde pousarem,
inspirou-lhe “Cântico do Calvário”, a mais bela e Não mais te embalarei sobre os joelhos,
perfeita elegia escrita em língua portuguesa. Teve Nem de teus olhos no cerúleo brilho
pouquíssimos momentos de alegria e felicidade. A Acharei um consolo a meus tormentos!
vida foi-lhe ingrata. E o poeta confessa: Não mais te invocarei a musa errante
Nesses retiros onde cada folha
“Por toda a parte em que arrastei meu manto Era um polido espelho de esmeralda
Deixei um traço fundo de agonias!...” Que refletia os fugitivos quadros
Dos suspirados tempos que se foram!
Varela cantou ainda o amor, com acentos mais Não mais perdido em vaporosas cismas
realistas do que o fizeram seus coetâneos, em face Escutarei ao pôr do sol nas serras,
de maior experiência; foi precursor da poesia social Vibrar a trompa sonorosa e leda
e da poesia abolicionista. Por isto, Varela é Do caçador que aos lares se recolhe!”
considerado poeta de transição entre a segunda e (...)
terceira geração.

AVE! MARIA!
CâNTICO DO CALVÁRIO
À memória de meu filho.
Morto a 11 de dezembro de 1863. “A noite desce - lentas e tristes
Cobrem as sombras a serrania,
“Eras na vida a pomba predileta Calam-se as aves, choram os ventos,
Que sobre um mar de angústias conduzia Dizem os gênios: - Ave! Maria!
O ramo da esperança!... - Eras a estrela
Que entre as névoas do inverno cintilava Na torre estreita de pobre templo
Apontando o caminho ao pegureiro!... Ressoa o sino da freguesia,
Eras a messe de um dourado estio!... Abrem-se as flores, Vésper desponta,
Eras o idílio de um amor sublime!... Cantam os anjos: - Ave! Maria!
Eras a glória, a inspiração, a pátria,
O porvir de teu pai! - Ah! no entanto, No tosco albergue de seus maiores,
Pomba - varou-te a flecha do destino! Onde só reinam paz e alegria,
Astro - engoliu-te o temporal do Norte! Entre os filhinhos o bom colono
Teto - caíste! Crença - já não vives! Repete as vozes: - Ave! Maria!

86 * Literatura Brasileira
E, longe, longe, na velha estrada, O ARRANCO DA MORTE
Para e saudades à pátria envia
Romeiro exausto que o céu contempla, “Pesa-me a vida já. Força de bronze
E fala aos ermos: - Ave! Maria! Os desmaiados braços me pendura.
Ah! já não pode o espírito cansado
Incerto nauta por feios mares, Sustentar a matéria.
Onde se estende névoa sombria,
Se encosta ao mastro, descobre a fronte, Eu morro, eu morro. A matutina brisa
Reza baixinho: - Ave! Maria! Já não me arranca um riso. A rósea tarde
Já não me doura as descoradas faces
Nas soledades, sem pão nem água, Que gélidas se encovam.
Sem pouso e tenda, sem luz nem guia,
Triste mendigo, que as praças busca, O noturno crepúsculo caindo
Curva-se e clama: - Ave! Maria! Só não me lembra o escurecido bosque,
Onde me espera, a meditar prazeres,
Só nas alcovas, nas salas dúbias, A bela que eu amava.
Nas longas mesas de longa orgia
Não diz o ímpio, não diz o avaro, A meia-noite já não traz-me em sonhos
Não diz o ingrato: - Ave! Maria! As formas dela - desejosa e lânguida -
Ao pé do leito, recostada em cheio
Ave! Maria! - No céu, na terra! Sobre meus braços ávidos.
Luz da aliança! Doce harmonia!
Hora divina! Sublime estância! A cada instante o coração vencido
Bendita sejas! - Ave! Maria!” Diminui um palpite; o sangue, o sangue,
Que nas artérias férvido corria,
Arroxa-se e congela.

4. JUNQUEIRA FREIRE Ah! é chegada a minha hora extrema!


(1832 - 1855) Vai meu corpo dissolver-se em cinza;
Nasceu em Salvador, BA, em 1832, onde Já não podia sustentar mais tempo
faleceu em 1855, vítima de moléstia cardíaca. O espírito tão puro.

É uma cena inteiramente nova.


OBRAS: Como será? - Como um prazer tão belo,
Inspirações do Claustro (1855, poesia) e Estranho e peregrino, e raro e doce,
Contradições Poéticas (poesia). Vem assaltar-me todo!
Aos dezoito anos entra para o Mosteiro de
São Bento da Bahia, tentando achar solução para E pelos imos ossos me refoge
seu mórbido desequilíbrio. Sem vocação para a vida Não sei que fio elétrico. Eis! sou livre!
monástica, sua crise agrava e abandona o claustro. O corpo que foi meu! que todo impuro!
Sua obra mostra a interessante luta do Caiu, uniu-se à terra.”
monge-poeta em busca de equilíbrio espiritual e
existencial. Mais blasfemo que religioso, mais MORTE
filosófico que crente, mais racional que romântico, (Hora de delírio)
seu isolamento aumenta-Ihe a dor. “Daí temas lhe
são peculiares: o monge, que ele lastima e a morte “Pensamento gentil de paz eterna,
a que ele aspira”. Amiga morte, vem. Tu és o termo
De dois fantasmas que a existência formam,
- Dessa alma vã e desse corpo enfermo.

Literatura Brasileira * 87
Pensamento gentil de paz eterna, Por minha face sinistra
Amiga morte, vem. Tu és o nada, Meu pranto não correrá.
Tu és ausência das moções da vida, Meus olhos moribundos
Do prazer que nos custa a dor passada. Terrores ninguém lerá.

Pensamento gentil de paz eterna, Não achei na terra amores


Amiga morte, vem. Tu és apenas Que merecessem os meus.
A visão mais real das que nos cercam, Não tenho um ente no mundo
Que nos extingues as visões terrenas. A quem diga o meu - adeus.

Nunca temi tua destra, Não posso da vida à campa


Não sou o vulgo profano: Transportar uma saudade.
Nunca pensei que teu braço Cerro meus olhos contente
Brande um punhal sobr’humano. Sem um ai de ansiedade

Nunca julguei-te em meus sonhos Por isso, ó morte, eu amo-te, e não temo;
Um esqueleto mirrado; Por isso, ó morte, eu quero-te comigo.
Nunca dei-te, pra voares, Leva-me à região da paz horrenda,
Terrível ginete alado. Leva-me ao nada, leva-me contigo.”

Nunca te dei uma foice


Dura, fina e recurvada; TERCEIRA GERAÇÃO
Nunca chamei-te inimiga,
Ímpia, cruel, ou culpada. A partir de 1860, começam a aparecer alguns
autores que, embora revelem acentuada influência
Amei-te sempre: - e pertencer-te quero dos poetas das gerações anteriores (notadamente
Para sempre também, amiga morte. Álvares de Azevedo, Gonçalves Dias e Casimiro de
Quero o chão, quero a terra, - esse elemento Abreu), já trazem algumas novidades para a poesia
Que não se sente dos vaivéns da sorte. do Romantismo.
Acompanhando a crescente difusão das
Para tua hecatombe de um segundo ideias liberais e democráticas, a poesia dessa fase
Não falta alguém? - Preenche-a comigo. expressará de modo bem evidente sua ligação com
Leva-me à região da paz horrenda, questões políticas e sociais.
Leva-me ao nada, leva-me contigo. O desejo de igualdade e de reformas sociais
encontrará eco, principalmente, na poesia
Miríadas de vermes lá me esperam abolicionista, de que Castro Alves é o melhor
Para nascer de meu fermento ainda. representante.
Para nutrir-se de meu suco impuro, O lirismo vai abandonando as idealizações
Talvez me espera uma plantinha linda. amorosas e as fantasias do ultrarromantismo para
abordar o tema do amor e do relacionamento
Também desta vida à campa amoroso de forma mais realista e sensual.
Não transporto uma saudade. No estilo, é grande a influência do poeta
Cerro meus olhos contente francês Victor Hugo, assimilado e imitado pelos
Sem um ai de ansiedade românticos brasileiros, surgindo então o
condoreirismo, um estilo que se caracteriza pelo tom
E como autômato infante de oratória, grandiloquente, vibrante, próprio para ser
Que inda não sabe sentir, declamado ou recitado.
Ao pé da morte querida Resumindo, é a geração conhecida como
Hei de insensato sorrir. condoreira (por usar uma linguagem tão elevada

88 * Literatura Brasileira
como o voo do condor), ou hugoana (por inspirar-se Glorificou “os homens que foram mártires de
na poesia do Victor Hugo) que se livra do injustiças e modelos de grandezas de alma e
ultrarromantismo. Entrega-se, principalmente, a espírito” (Jesuítas, Pedro Ivo).
temas sociais e políticos (a abolição da escravatura,
a liberdade, o progresso, a República).

O NAVIO NEGREIRO
(Tragédia no mar)
CASTRO ALVES
(1847 - 1871) I
Nasceu na fazenda Cabeceiras, município de “‘Stamos em pleno mar... Doudo no espaço 
Muritiba, BA, em 1847 e faleceu em Salvador em Brinca o luar - dourada borboleta - 
1871, de tuberculose. E as vagas após ele correm... cansam 
Depois dos estudos preparatórios em Como turbas de infantes inquietas. 
Salvador, vai, em 1862, para Recife em cuja
Faculdade de Direito ingressa em 1864, sendo ‘Stamos em pleno mar... Do firmamento 
colega do líder estudantil Tobias Barreto. Reforça a Os astros saltam como espumas de ouro... 
incipiente campanha liberal-abolicionista. Faz-se O mar em troca acende as ardentias, 
orador e poeta. - Constelações do líquido tesouro... 
Em 1868, chega a São Paulo, acompanhado
da atriz Eugênia Câmara, com quem viera desde ‘Stamos em pleno mar... Dois infinitos 
Recife. Em São Paulo, torna-se aclamado orador e Ali s’estreitam num abraço insano, 
poeta. Azuis, dourados, plácidos, sublimes... 
Numa caçada nos arredores de São Paulo, Qual dos dous é o céu? Qual o oceano?... 
fere o calcanhar esquerdo e acaba perdendo o pé.
Ferido em sua vaidade e já tuberculoso, volta à ‘Stamos em pleno mar... Abrindo as velas 
Bahia, em 1869, certo já de sua morte próxima. Ao quente arfar das virações marinhas, 
Veleiro brigue corre à flor dos mares, 
OBRAS: Como roçam na vaga as andorinhas... 
Espumas Flutuantes (1870), A Cachoeira de
Paulo Afonso (1876), Os Escravos (1883), Gonzaga Donde vem? onde vai?  Das naus errantes 
ou A Revolução de Minas (drama encenado na Bahia Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?... 
em 1867). Neste Saara os corcéis o pó levantam,  
Galopam, voam, mas não deixam traço... 
Os aspectos mais importantes de sua poesia
são o social e o amoroso: Bem feliz quem ali pode nest’hora 
a) poeta social: “Corajoso defensor dos Sentir deste painel a majestade!... 
princípios de liberdade, de justiça social, apologista Embaixo - o mar... em cima - o firmamento... 
do progresso”. E no mar e no céu — a imensidade... 
Defendeu, com versos inflamados e ousadas
figuras, os escravos, revelando corajosamente a Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!... 
miséria física e moral em que eram obrigados a viver. Que música suave ao longe soa! 
Citem-se as poesias: Vozes d’ África, Navio Negreiro, Meu Deus! como é sublime um canto ardente 
A Mãe do Cativo, A Cruz da Estrada. Conhecido, por Pelas vagas sem fim boiando à toa! 
isso como O Poeta da Abolição ou O Poeta dos
Escravos. Homens do mar! ó rudes marinheiros 
Defendeu ainda o povo esquecido, inculto e Tostados pelo sol dos quatro mundos! 
injustificado (O Povo ao Poder) e o “papel civilizado Crianças que a procela acalentara 
da imprensa” (O Livro e a América). No berço destes pélagos profundos! 

Literatura Brasileira * 89
Esperai! esperai! deixai que eu beba  Os marinheiros Helenos, 
Esta selvagem, livre poesia...  Que a vaga jônia criou, 
Orquestra - o mar, que ruge pela proa,  Belos piratas morenos 
E o vento, que nas cordas assobia...  Do mar que Ulisses cortou, 
Homens, que Fídias talhara, 
Por que foges assim, barco ligeiro?  Vão cantando em noite clara 
Por que foges do pávido poeta?...  Versos que Homero gemeu... 
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira  Nautas de todas as plagas! 
Que semelha no mar - doudo cometa!  Vós sabeis achar nas vagas 
As melodias do céu! ... 
Albatroz! Albatroz! águia do oceano, 
Tu, que dormes das nuvens entre as gazas, 
III
Sacode as penas, Leviathan do espaço! 
Albatroz!  Albatroz! dá-me estas asas... Desce do espaço imenso, ó águia do oceano! 
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano 
II Como o teu mergulhar no brigue voador... 
Porém que vejo eu aí... Que quadro d’amarguras! 
Que importa do nauta o berço, 
Que canto funeral! ... Que tétricas figuras! ... 
Donde é filho, qual seu lar?... 
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror! 
Ama a cadência do verso 
Que lhe ensina o velho mar! 
Cantai! que a morte é divina...  IV

Resvala o brigue à bolina  Era um sonho dantesco... o tombadilho  


Como golfinho veloz.  Que das luzernas avermelha o brilho, 
Presa ao mastro da mezena  Em sangue a se banhar. 
Saudosa bandeira acena  Tinir de ferros... estalar de açoite...  
Às vagas que deixa após.  Legiões de homens negros como a noite 
Horrendos a dançar... 
Do Espanhol as cantilenas 
Requebradas de langor,  Negras mulheres, suspendendo às tetas  
Lembram as moças morenas,  Magras crianças, cujas bocas pretas  
As andaluzas em flor!  Rega o sangue das mães.  
Da Itália o filho indolente  Outras moças, mas nuas e espantadas,  
Canta Veneza dormente,  No turbilhão de espectros arrastadas, 
- Terra de amor e traição -  Em ânsia e mágoa vãs. 
Ou do golfo no regaço 
Relembra os versos de Tasso,  E ri-se a orquestra irônica, estridente... 
Junto às lavas do vulcão!  E da ronda fantástica a serpente  
Faz doudas espirais ... 
O Inglês - marinheiro frio,  Se o velho arqueja... se no chão resvala...  
Que ao nascer no mar se achou,  Ouvem-se gritos... o chicote estala 
(Porque a Inglaterra é um navio,  E voam mais e mais... 
Que Deus na Mancha ancorou), 
Rijo entoa pátrias glórias,  Presa nos elos de uma só cadeia,  
Lembrando, orgulhoso, histórias  A multidão faminta cambaleia 
De Nelson e de Aboukir...  E chora e dança ali... 
O Francês - predestinado -  Um de raiva delira, outro enlouquece...  
Canta os louros do passado  Outro, que de martírios embrutece, 
E os loureiros do porvir...  Cantando, geme e ri... 

90 * Literatura Brasileira
No entanto o capitão manda a manobra...  Como Agar o foi também, 
E após fitando o céu que se desdobra  Que sedentas, alquebradas, 
Tão puro sobre o mar,  De longe... bem longe vêm 
Diz, do fumo entre os densos nevoeiros:  Trazendo com tíbios passos 
‘Vibrai rijo o chicote, marinheiros!  Filhos e algemas nos braços, 
Fazei-os mais dançar!...’  N’alma lágrimas e fel. 
Como Agar sofrendo tanto
E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .  Que nem o leite do pranto
E da ronda fantástica a serpente         Têm que dar para Ismael... 
Faz doudas espirais!...  Lá nas areias infindas 
Qual num sonho dantesco as sombras voam...  Das palmeiras no país, 
Gritos, ais, maldições, preces ressoam  Nasceram - crianças lindas, 
E ri-se Satanás!...   Viveram - moças gentis... 
Passa um dia a caravana, 
V Quando a virgem na cabana 
Senhor Deus dos desgraçados!  Cisma da noite nos véus ... 
Dizei-me vós, Senhor Deus!  ... Adeus! ó choça do monte!..., 
Se é loucura... se é verdade  ... Adeus! palmeiras da fonte!... 
Tanto horror perante os céus?...  ... Adeus! amores... adeus!... 
Ó mar, por que não apagas  Depois o areal extenso... 
Co’a esponja de tuas vagas  Depois o oceano de pó... 
De teu manto este borrão?...  Depois... no horizonte imenso 
Astros! noites! tempestades!  Desertos... desertos só... 
Rolai das imensidades!  E a fome, o cansaço, a sede... 
Varrei os mares, tufão!  Ai! quanto infeliz que cede 
E cai p’ra não mais s’erguer!... 
Quem são estes desgraçados,  Vaga um lugar na cadeia, 
Que não encontram em vós,  Mas o chacal sobre a areia 
Mais que o rir calmo da turba  Acha um corpo que roer. 
Que excita a fúria do algoz?... 
Ontem a Serra Leoa, 
Quem são? Se a estrela se cala, 
A guerra, a caça ao leão, 
Se a vaga à pressa resvala 
O sono dormido à toa 
Como um cúmplice fugaz, 
Sob a tenda d’amplidão! 
Perante a noite confusa... 
Hoje o porão negro, fundo, 
Dize-o tu, severa Musa, 
Infecto, apertado, imundo, 
Musa libérrima, audaz!... 
Tendo a peste por jaguar... 
E o sono sempre cortado 
São os filhos do deserto
Pelo arranco de um finado, 
Onde a terra esposa a luz, 
E o baque de um corpo ao mar... 
Onde vive em campo aberto 
A tribo dos homens nus... 
Ontem plena liberdade... 
São os guerreiros ousados, 
A vontade por poder... 
Que com os tigres mosqueados 
Hoje cúm’lo de maldade! 
Combatem na solidão... 
Nem são livres p’ra morrer!... 
Ontem simples, fortes, bravos... 
Prende-os a mesma corrente 
Hoje míseros escravos 
- Férrea, lúgubre serpente - 
Sem luz, sem ar, sem razão... 
Nas roscas da escravidão... 
São mulheres desgraçadas,  E assim roubados à morte, 

Literatura Brasileira * 91
Dança a lúgubre coorte  TRAGÉDIA NO LAR
Ao som do açoute... Irrisão!... 
“Na Senzala, úmida, estreita,
Senhor Deus dos desgraçados!  Brilha a chama da candeia,
Dizei-me vós, Senhor Deus!  No sapé se esgueira o vento.
Se eu deliro... ou se é verdade  E a luz da fogueira ateia.
Tanto horror perante os céus?...
Ó mar, por que não apagas  Junto ao fogo, uma africana,
Co’a esponja de tuas vagas  Sentada, o filho embalando,
Do teu manto este borrão?  Vai lentamente cantando
Astros! noites! tempestades!  Uma tirana indolente,
Rolai das imensidades!  Repassada de aflição.
Varrei os mares, tufão! ...  E o menino ri contente...
Mas treme e grita gelado,
VI Se nas palhas do telhado
Existe um povo que a bandeira empresta  Ruge o vento do sertão.
P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!... 
E deixa-a transformar-se nessa festa  Se o canto para um momento,
Em manto impuro de bacante fria!...  Chora a criança imprudente ...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta  Mas continua a cantiga ...
Que impudente na gávea tripudia?!...  E ri sem ver o tormento
Silêncio!... Musa! chora, chora tanto,  Daquele amargo cantar.
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...  Ai! triste, que enxugas rindo
Os prantos que vão caindo
Auriverde pendão de minha terra,  Do fundo, materno olhar,
Que a brisa do Brasil beija e balança,  E nas mãozinhas brilhantes
Estandarte que a luz do sol encerra  Agitas como diamantes
E as promessas divinas da esperança...  Os prantos do seu pensar ...
Tu, que da Liberdade após a guerra, 
Foste hasteado dos heróis na lança,  E voz como um soluço lacerante
Antes te houvessem roto na batalha,  Continua a cantar:
Que servires a um povo de mortalha!... 
“Eu sou como a garça triste
Fatalidade atroz que a mente esmaga!...  “Que mora à beira do rio,
Extingue nesta hora o brigue imundo  “As orvalhadas da noite
O trilho que Colombo abriu nas vagas,  “Me fazem tremer de frio.
Como um íris no pélago profundo!... 
...Mas é infâmia demais... Da etérea plaga  “Me fazem tremer de frio
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo...  “Como os juncos da lagoa;
Andrada! arranca esse pendão dos ares!...  “Feliz da araponga errante
Colombo! fecha a porta dos teus mares!...” “Que é livre, que livre voa.

“Que é livre, que livre voa


“Para as bandas do seu ninho,
“E nas braúnas à tarde
“Canta longe do caminho.

“Canta longe do caminho.


“Por onde o vaqueiro trilha,

92 * Literatura Brasileira
“Se quer descansar as asas Amá-lo uma loucura! Alma de lodo,
“Tem a palmeira, a baunilha. Para ti - não há luz.
Tens a noite no corpo, a noite na alma,
“Tem a palmeira, a baunilha, Pedra que a humanidade pisa calma,
“Tem o brejo, a lavadeira, - Cristo que verga à cruz!
“Tem as campinas, as flores,
“Tem a relva, a trepadeira, Na hipérbole do ousado cataclisma
Um dia Deus morreu... fuzila um prisma
“Tem a relva, a trepadeira, Do Calvário ao Tabor!
“Todas têm os seus amores, Viu-se então de Palmira os pétreos ossos,
“Eu não tenho mãe nem filhos, De Babel o cadáver de destroços
“Nem irmão, nem lar, nem flores”. Mais lívidos de horror.

A cantiga cessou. . . Vinha da estrada Era o relampejar da liberdade


A trote largo, linda cavalhada Nas nuvens do chorar da humanidade,
De estranho viajor, Ou sarça do Sinai,
Na porta da fazenda eles paravam, - Relâmpagos que ferem de desmaios...
Das mulas boleadas apeavam Revoluções, vós deles sois os raios,
E batiam na porta do senhor. Escravos, esperai! ...

Figuras pelo sol tisnadas, lúbricas, Leitor, se não tens desprezo


Sorrisos sensuais, sinistro olhar, De vir descer às senzalas,
Os bigodes retorcidos, Trocar tapetes e salas
O cigarro a fumegar, Por um alcouce cruel,
O rebenque prateado Vem comigo, mas ... cuidado ...
Do pulso dependurado, Que o teu vestido bordado
Largas chilenas luzidas, Não fique no chão manchado,
Que vão tinindo no chão, No chão do imundo bordel.
E as garruchas embebidas
No bordado cinturão. Não venhas tu que achas triste
Às vezes a própria festa.
A porta da fazenda foi aberta; Tu, grande, que nunca ouviste
Entraram no salão. Senão gemidos da orquestra
Por que despertar tu’alma,
Por que tremes mulher? A noite é calma, Em sedas adormecida,
Um bulício remoto agita a palma Esta excrescência da vida
Do vasto coqueiral. Que ocultas com tanto esmero?
Tem pérolas o rio, a noite lumes, E o coração - tredo lodo,
A mata sombras, o sertão perfumes, Fezes d’ânfora doirada
Murmúrio o bananal. Negra serpe, que enraivada,
Morde a cauda, morde o dorso
Por que tremes, mulher? Que estranho crime, E sangra às vezes piedade,
Que remorso cruel assim te oprime E sangra às vezes remorso?...
E te curva a cerviz?
O que nas dobras do vestido ocultas? Não venham esses que negam
É um roubo talvez que aí sepultas? A esmola ao leproso, ao pobre.
É seu filho ... Infeliz! ... A luva branca do nobre
Oh! senhores, não mancheis...
Ser mãe é um crime, ter um filho - roubo! Os pés lá pisam em lama,

Literatura Brasileira * 93
Porém as frontes são puras Havíeis muito chorar
Mas vós nas faces impuras Havíeis muito gemer,
Tendes lodo, e pus nos pés. Diríeis a rir - Perdão?!
Deixai meu filho... arrancai-me
Porém vós, que no lixo do oceano Antes a alma e o coração!
A pérola de luz ides buscar,
Mergulhadores deste pego insano - Cala-te miserável! Meus senhores,
Da sociedade, deste tredo mar. O escravo podeis ver ...

Vinde ver como rasgam-se as entranhas E a mãe em pranto aos pés dos mercadores
De uma raça de novos Prometeus, Atirou-se a gemer.
Ai! vamos ver guilhotinadas almas - Senhores! basta a desgraça
Da senzala nos vivos mausoléus. De não ter pátria nem lar,
De ter honra e ser vendida
- Escrava, dá-me teu filho! De ter alma e nunca amar!
Senhores, ide-lo ver:
É forte, de uma raça bem provada, Deixai à noite que chora
Havemos tudo fazer. Que espere ao menos a aurora,
Ao ramo seco uma flor;
Assim dizia o fazendeiro, rindo, Deixai o pássaro ao ninho,
E agitava o chicote... Deixai à mãe o filhinho,
A mãe que ouvia Deixai à desgraça o amor.
Imóvel, pasma, doida, sem razão!
À Virgem Santa pedia Meu filho é-me a sombra amiga
Com prantos por oração; Neste deserto cruel!...
E os olhos no ar erguia Flor de inocência e candura.
Que a voz não podia, não. Favo de amor e de mel!

- Dá-me teu filho! repetiu fremente Seu riso é minha alvorada,


O senhor, de sobr’olho carregado. Sua lágrima doirada
- Impossível!... Minha estrela, minha luz!
- Que dizes, miserável?! É da vida o único brilho...
- Perdão, senhor! perdão! meu filho dorme... Meu filho! é mais... é meu filho...
Inda há pouco o embalei, pobre inocente, Deixai-mo em nome da Cruz!...
Que nem sequer pressente
Que ides... Porém nada comove homens de pedra,
- Sim, que o vou vender! Sepulcros onde é morto o coração.
- Vender?!. . . Vender meu filho?! A criança do berço ei-los arrancam
Que os bracinhos estende e chora em vão!
Senhor, por piedade, não...
Vós sois bom... antes do peito Mudou-se a cena. Já vistes
Me arranqueis o coração! Bramir na mata o jaguar,
Por piedade, matai-me! Oh! É impossível E no furor desmedido
Que me roubem da vida o único bem! Saltar, raivando atrevido.
Apenas sabe rir... é tão pequeno! O ramo, o tronco estalar,
Inda não sabe me chamar?... Também Morder os cães que o morderam...
Senhor, vós tendes filhos... quem não tem? De vítima feita algoz,
Em sangue e horror envolvido
Se alguém quisesse os vender Terrível, bravo, feroz?

94 * Literatura Brasileira
Assim a escrava da criança ao grito Prazeres divinais... gozos do Empíreo...
Destemida saltou, ... Mas um dia volvi aos lares meus.
E a turba dos senhores aterrada Partindo eu disse - ‘Voltarei!...descansa!...’
Ante ela recuou. Ela, chorando mais que uma criança,

- Nem mais um passo, cobardes! Quando voltei... era o palácio em festa!...


Nem mais um passo! ladrões! E a voz d’Ela e de um homem lá na orquestra
Se os outros roubam as bolsas, Preenchiam de amor o azul dos céus.
Vós roubais os corações! ... Entrei!... Ela me olhou branca...surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!...
Entram três negros possantes,
Brilham punhais traiçoeiros... E ela arquejando murmurou-me: ‘adeus’!”
Rolam por terra os primeiros
Da morte nas contorções. ADORMECIDA

Um momento depois a cavalgada “Uma noite, eu me lembro....Ela dormia


Levava a trote largo pela estrada Numa rede encostada molemente...
A criança a chorar. Quase aberto o roupão... solto o cabelo
Na fazenda o azorrague então se ouvia E o pé descalço no tapete rente.
E aos golpes - uma doida respondia
Com frio gargalhar! ...” ‘Stava aberta a janela. Um cheiro agreste
Exalavam as silvas da campina...
b) Poeta amoroso: Libertado já do clima do E ao longe, num pedaço do horizonte,
mal do século, Castro Alves é realista no amor. Não Via-se a noite plácida e divina.
sonha com amadas impossíveis vaporosas. Inspira-
se nas mulheres que o cercam como Eugênia De um jasmineiro os galhos encurvados,
Câmara, Teresa e outras, enfocando-as sob um Indiscretos entravam pela sala,
clima de erotismo e sensualidade, valorizando, E de leve oscilando ao tom das auras,
também, o amor físico. Iam na face trêmulos - beijá-Ia.

O “ADEUS” DE TERESA Era um quadro celeste!... A cada afago,


Mesmo em sonhos a moça estremecia...
“A vez primeira que eu fitei Teresa, Quando ela serenava...a flor beijava-a...
Como as plantas que arrasta a correnteza, Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...
A valsa nos levou nos giros seus...
E amamos juntos... E depois na sala Dir-se-ia que naquele doce instante
‘Adeus’ eu disse-lhe a tremer co’a fala... Brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
E ela, corando, murmurou-me: ‘adeus’. Fazia-lhe ondear as negras tranças!

Uma noite... entreabriu-se um reposteiro... E o ramo ora chegava, ora afastava-se...


E da alcova saía um cavaleiro Mas quando a via despertada a meio,
Inda beijando uma mulher sem véus... Pra não zangá-la... sacudia alegre
Era eu... Era a pálida Teresa! Uma chuva de pétalas no seio...
‘Adeus’ lhe disse conservando-a presa...
Eu, fitando esta cena, repetia
E ela entre beijos murmurou-me: ‘adeus’. Naquela noite lânguida e sentida:
‘Ó flor! - tu és a virgem das campinas!’
Passaram tempos... séc’ulos de delírio... ‘Virgem! - Tu és a flor de minha vida!...’”

Literatura Brasileira * 95
BOA NOITE E deixa-me dormir balbuciando:
- Boa-noite! - formosa Consuelo!...”
“Boa-noite, Maria! Eu vou-me embora.
A lua nas janelas bate em cheio. Exercícios referentes ao poema “Adormecida”.
Boa-noite, Maria! É tarde... é tarde...
1 Faça um levantamento das expressões que descrevem a
Não me apertes assim contra teu seio. “adormecida”:

__________________________________________________
Boa-noite!... E tu dizes - Boa-noite.
Mas não digas assim por entre beijos... __________________________________________________
Mas não mo digas descobrindo o peito
- Mar de amor onde vagam meus desejos! 2. A figura da mulher apresentada no poema é:
( ) idealizada;
( ) sensual;
Julieta do céu! Ouve... a calhandra
( ) sonhadora;
Já rumoreja o canto da matina. ( ) depreciada.
Tu dizes que eu menti?... pois foi mentira...
Quem cantou foi teu hálito, divina! 3. A sinestesia (apelo ao sensorial) atua de modo decisivo na
descrição do cenário natural e humano. Transcreva, do poema,
expressões que signifiquem:
Se a estrela-d’alva os derradeiros raios a) O apelo olfativo:
Derrama nos jardins do Capuleto,
__________________________________________________
Eu direi, me esquecendo d’alvorada:
‘É noite ainda em teu cabelo preto...’ __________________________________________________

É noite ainda! Brilha na cambraia b) O tátil:


- Desmanchado o roupão, a espádua nua
__________________________________________________
O globo de teu peito entre os arminhos
Como entre as névoas se balouça a lua... __________________________________________________

É noite, pois! Durmamos, Julieta! c) O visual:


Recende a alcova ao trescalar das flores.
__________________________________________________
Fechemos sobre nós estas cortinas...
- São as asas do arcanjo dos amores. __________________________________________________

A frouxa luz da alabastrina lâmpada 4. Observando a estrutura do poema, divida-o em prólogo, trama
e epílogo:
Lambe voluptuosa os teus contornos...
Oh! Deixa-me aquecer teus pés divinos __________________________________________________
Ao doudo afago de meus lábios mornos.
__________________________________________________

Mulher do meu amor! Quando aos meus beijos __________________________________________________

Treme tua alma, como a lira ao vento,


Das teclas de teu seio que harmonias, 5. Indique as estrofes que apresentam:
Que escalas de suspiros, bebo atento! a) Cenário:

__________________________________________________
Ai! Canta a cavatina do delírio,
Ri, suspira, soluça, anseia e chora... __________________________________________________
Marion! Marion!... É noite ainda.
b) Jogo amoroso:
Que importa os raios de uma nova aurora?!...
__________________________________________________
Como um negro e sombrio firmamento,
__________________________________________________
Sobre mim desenrola teu cabelo...

96 * Literatura Brasileira
c) Emoção do poeta diante da cena: França:

__________________________________________________ __________________________________________________

__________________________________________________ __________________________________________________

__________________________________________________
6. Transcreva os versos que apresentam, apesar dos tons
extremamente sensuais, o lirismo típico do amor platônico:
__________________________________________________

__________________________________________________
__________________________________________________

__________________________________________________
__________________________________________________

FAÇA UMA SINOPSE DO ASSUNTO


Brasil:

1. Contexto histórico __________________________________________________

a) Em que medida a Revolução Francesa influenciou no __________________________________________________


aparecimento do Romantismo?
__________________________________________________
__________________________________________________
__________________________________________________
__________________________________________________
__________________________________________________
__________________________________________________
__________________________________________________
__________________________________________________
2. Características gerais do Romantismo.
__________________________________________________
__________________________________________________
__________________________________________________
__________________________________________________
__________________________________________________
__________________________________________________
b) Origens:
__________________________________________________
Alemanha:
__________________________________________________
__________________________________________________
__________________________________________________
__________________________________________________
__________________________________________________
__________________________________________________

__________________________________________________ 3. Início do Romantismo no Brasil: (ano) ___________________

__________________________________________________ (obra) _____________________________________________

__________________________________________________ ________________________________________________

(autor) ____________________________________________

Inglaterra: _________________________________________________

__________________________________________________

__________________________________________________

__________________________________________________

__________________________________________________

__________________________________________________

__________________________________________________

Literatura Brasileira * 97
4. Poesia Romântica

QUADRO SINÓPTICO

Gerações Características Autores Características dos autores Obras

Gonçalves de
Magalhães

Gonçalves Dias

Álvares de Azevedo

Casimiro de Abreu

Fagundes Varela

Junqueira Freire

3ª Castro Alves

98 * Literatura Brasileira
EXERCÍCIOS sua visão ingênua e romântica da vida monacal. Do poema
e das informações recebidas, deduzimos tratar-se de:
I. Dê o que se pede!
__________________________________________________
1.
“Eu vivo sozinha; ninguém me procura! II - Identifique a geração a que pertencem os versos a seguir e
Acaso feitura cite as características encontradas nos mesmos:
Não sou de Tupã?
Se algum dentre os homens de mim não se esconde,
- Tu és, me responde, a) “Por isso, ó morte, eu amo-te e não temo;
- Tu és Marabá!” Por isso, ó morte, eu quero-te comigo.
Leva-me à região da paz horrenda,
Analisando o vocabulário, principalmente, podemos deduzir Leva-me ao nada, leva-me contigo.”
que o texto acima pertence a que geração?

_____________________________________________________ Geração:_____________________________________________

Características:
2. Que figura, tipo ou herói substitui o cavaleiro medieval
no Brasil? Explique!
__________________________________________________
_____________________________________________________
_____________________________________________________ __________________________________________________

_____________________________________________________ __________________________________________________

3. Que nome se deu a este movimento? __________________________________________________

_____________________________________________________
b) “Ó Guerreiros da Taba sagrada,
Ó Guerreiros da Tribo Tupi,
4. Falam deuses nos cantos do Piaga,
“Era um sonho dantesco... O tombadilho Ó Guerreiros, meus cantos ouvi.”
Que das luzernas avermelha o brilho,
Em sangue a se banhar. Geração:____________________________________________
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite, Características:
Horrendos a dançar...”
(Navio Negreiro)
__________________________________________________
Pela linguagem grandiloquente, pela temática social
(abolicionista), concluímos serem os versos acima do poeta: __________________________________________________

_____________________________________________________
__________________________________________________

5.
__________________________________________________
“É noite ainda! Brilha na cambraia
- Desmanchado o roupão, a espádua nua
O globo de teu peito entre os arminhos __________________________________________________
Como entre as névoas se balouça a lua...
(...) c) “Oh! Bendito o que semeia
A frouxa luz da alabastrina lâmpada Livros...livros à mão cheia...
Lambe voluptuosa os teus contornos... E manda o povo pensar!
Oh! Deixa-me aquecer teus pés divinos O livro caindo n’alma
Ao doudo afago de meus lábios mornos. É germe - que faz a palma.
(Boa-Noite) É chuva - que faz o mar.

O conteúdo do excerto do poema acima mostra-nos uma Vós, que o templo das ideias
Largo - abris às multidões,
visão mais realista do amor e há traços de erotismo. Tais P’ra o batismo luminoso
características são próprias do poeta:_________________ Das grandes revoluções
Agora que o trem de ferro
_______________________________________________
Acorda o tigre no cerro

6. E espanta os caboclos nus,


“Eu também antevi dourados dias Fazei desse ‘rei dos ventos’
Nesse dia fatal. - Ginete dos pensamentos,
Eu também, como tu, sonhei contente - Arauto da grande luz!...
Uma ventura igual.
Bravo! a quem salva o futuro,
Eu também ideei a linda imagem Fecundando a multidão!...
Da placidez da vida: Num poema amortalhada
Eu também desejei o claustro estéril, Nunca morre uma nação.
Como feliz guarida. “ Como Göethe moribundo
Brada ‘luz!’ o Novo Mundo
O autor do texto acima, de forma autobiográfica, mostra-nos Num brado de Briaréu...

Literatura Brasileira * 99
Luz! pois, no vale e na serra... ( ) o mal do século;
Que, se a luz rola na terra, ( ) a saudade;
Deus colhe gênios no céu!...” ( ) a dor.

2. Houve um movimento político que influenciou o Romantismo.


Geração:____________________________________________ Trata-se da:

Características: ( ) Inconfidência Mineira;


( ) Guerra do Paraguai;
( ) Guerra dos Emboabas;
__________________________________________________ ( ) Revolução Francesa;
( ) Guerra dos Cem Anos.
__________________________________________________
3. O Romantismo surgiu no momento em que o sentimento de
__________________________________________________ nacionalismo era muito forte e se alastrava pelo país um
sentimento de:
__________________________________________________
( ) americanismo;
( ) lusofobia;
( ) europeização;
III - Responda às questões abaixo: ( ) classicismo;
( ) revolução.
1. Qual a obra, autor e ano de publicação que inicia o Romantismo
no Brasil? 4.
“Do tamarindo a flor jaz entreaberta,
__________________________________________________ Já solta o bogari mais doce aroma!
Também meu coração, como estas flores,
__________________________________________________ Melhor perfume ao pé da noite exala.”

É possível reconhecer na estrofe acima, um exemplo da


2. Que revista, publicada em Paris, por Gonçalves de Magalhães corrente:
e Manuel de Araújo Porto-Alegre, apresentava as produções do
Romantismo brasileiro? ( ) barroca, pela imagem que evoca a natureza como um
símbolo da transitoriedade da vida;
__________________________________________________ ( ) arcádica, pois o poeta revela o seu amor a uma natureza
idealizada que, para ele, representa o mundo ordenado;
( ) romântica, pela identificação de sentimentos humanos
__________________________________________________
com aspectos da natureza;
( ) parnasiana, pela visão da natureza como imagem
escultural da perfeição;
3. Dos poetas todos do Romantismo, qual é considerado o melhor ( ) simbolista, pois a natureza é aí apenas um recurso que o
paisagista? (É conhecido como “poeta do sofrimento” ou “poeta poeta transcende, atingindo um nível de espiritualidade
da natureza”). plena.
__________________________________________________
5. Embora característica de movimento romântico de grande im-
portância, não teve expressividade maior na 2ª geração:
__________________________________________________
( ) Valorização do “ego” do artista;
4. Quais os dois principais aspectos da poesia de Castro Alves? ( ) Visão pessimista da vida;
__________________________________________________ ( ) Sentimento de solidão e de tédio de viver;
( ) Valorização do passado nacional;
( ) Fuga da realidade e busca de mundos próprios.
__________________________________________________

6. Sua obra Anchieta ou O Evangelho das Selvas denota o lado


5. Havia, no Brasil, assunto bastante para a temática dos místico do poeta:
condoreiros? Por quê?
__________________________________________________ ( ) Castro Alves;
( ) Gonçalves Dias;
( ) Gonçalves de Magalhães;
__________________________________________________ ( ) Tobias Barreto;
( ) Fagundes VareIa.
6. Que poeta é considerado o maior representante do “mal do
século” no Brasil?
__________________________________________________

__________________________________________________ A FICÇÃO ROMâNTICA


IV - Marque com um “X” a resposta certa: No Brasil, o primeiro romance, no sentido
1. O tema predominante na obra de Casimiro de Abreu é: cronológico, foi o FILHO DO PESCADOR, de
Teixeira e Souza, publicado em 1843. Tal obra fica
( ) a infância;
( ) a dúvida; registrada como um simples documento, pois,

100 * Literatura Brasileira


destituída de valor artístico, marca o aparecimento histórico, de preferência remoto ou lendário, de
do gênero no Brasil. modo a permitir a idealização. O compromisso do
A concretização do novo gênero “romance”, romancista com a história restringe-se essencial-
no Brasil, ocorre no ano de 1844, quando JOAQUIM mente à reconstituição do clima da época, à
MANUEL DE MACEDO publicou A MORENINHA, fidelidade aos hábitos, costumes e instituições. O
que traria relativa influência para os escritores da romance de capa e espada e o romance de mistérios
época. são desdobramentos do romance histórico: o
Ao lado da poesia e do teatro, a ficção, primeiro, voltado para a vingança punitiva e
entendida como Romance, Novela e Conto, suspense; o segundo, voltado para a exploração das
completa o quadro dos gêneros preferidos, entre peripécias, surpresas, desembocando, às vezes, na
nós. As características principais são: fantasmagoria.
a) detalhes de costumes e de cor local;
No Brasil, a narrativa baseia-se em fatos do
b) comunhão entre a Natureza e os sentimentos das
nosso passado, principalmente da nossa história
personagens;
colonial.
c) elevação de sentimentos e nobreza de
Exemplo: As Minas de Prata.
caracteres, em oposição à vilania, com o triunfo
do bem e a punição do mal, com intenção
4. ROMANCE REGIONALISTA
moralizante;
Explora, no Romantismo, as paisagens e
d) linearidade das personagens, esterotipadas,
costumes das ilhas naturais brasileiras, o Nordeste,
previsíveis;
e) complicação sentimental: o herói e a heroína têm o Pampa Gaúcho, O Pantanal Mato-grossense, o
o encontro final, o happy end, retardado pela Sertão de Minas Gerais e Goiás, ora tendendo ao
ação do vilão, ou pelo conflito entre a honra e o nativismo e ufanismo (Alencar, Bernardo
dever, ou ainda pela intriga ou orgulho ferido, Guimarães), ora valorizando o aspecto documental
criando, no leitor, a expectativa pelo desenlace. (Taunay e Frânklin Távora).
Quando tal não é possível, a solução encontrada Exemplos: Inocência, O Garimpeiro.
pelo autor é a fuga pela morte, loucura ou
celibato. 5. ROMANCE INDIANISTA
A narrativa se desenvolve baseada em
Entre as modalidades de romance cultivadas personagens indígenas, focalizando o ambiente,
no Brasil, destacam-se: procedimento, cultura e tradições do índio brasileiro.
Visa, em sua grande maioria, à criação de
1. ROMANCE DE FOLHETIM “heróis nacionais”, místicos, lendários, tomados
É publicado com periodicidade regular pela como símbolos e elementos formadores da
imprensa, explorando a complicação sentimental, a nacionalidade.
intriga, o mistério, a aventura, à maneira das novelas Exemplos: Ubirajara, Iracema, O Guarani.
da televisão. Esta modalidade gozou de grande
popularidade até o advento da radiodifusão, quando
passou a ser divulgada por esse veículo. ROMANCISTAS

2. ROMANCE URBANO 1. JOAQUIM MANUEL DE MACEDO


Retrata os ambientes, cenas, costumes e (São João do Itaboraí-RJ, 1820 - Rio, 1882)
tipos humanos extraídos da burguesia. Volta-se para Escreveu muito, nos mais diversos gêneros.
a caracterização exterior dos personagens: atos, Sempre por diletantismo. Foi aceito de imediato pelo
gestos, palavras, diálogos, roupas, etc. público porque explorou com muita felicidade a
Exemplos: Senhora, A Moreninha, A Pata da “psicologia feminina e a sociedade carioca da
Gazela, etc. época”, bem como por usar a linguagem do leitor.
Hoje, Macedo caminha para o esquecimento.
3. ROMANCE HISTÓRICO Foi o criador da ficção brasileira “pela forma e
A matéria narrativa é fornecida pelo passado pelo estilo”, com A Moreninha, em 1844.

Literatura Brasileira * 101


OBRAS: IRACEMA
A Moreninha (1844), O Moço Loiro (1845), Os
Dois Amores (1848), Vicentina (1853), As Mulheres “Poema em prosa”: assim se referia Machado
de Mantilha (1869), etc. de Assis ao romance Iracema, de Alencar, obra que,
A Moreninha - Apresenta Augusto deixando- desde as primeiras linhas, já chama nossa atenção
se dominar lentamente pelos encantos de Carolina para o trabalho com a linguagem.
(o tipo da mocinha brasileira) irmã de Felipe, colega Em capítulos curtos, superpõem-se imagens
de Augusto. sobre imagens, comparações sobre comparações,
cada uma mais bela, original, adequada, para sugerir
o nascimento de um mundo. O romance desenvolve
2. JOSÉ DE ALENCAR a lenda da fundação do Ceará, a história dos amores
(Mecejana-CE, 1829 - Rio, 1877) de Iracema e Martim, e do ódio entre as tribos
Formou-se em Direito em São Paulo (1850), tabajara e potiguara.
fixando-se, em seguida, no Rio de Janeiro. Dedica- O enredo do romance é bastante simples:
se ao romance, à crítica, ao jornalismo, ao teatro e à Iracema encontra Martim andando pela floresta e o
política. acolhe na cabana de seu pai, Araquém. Aos poucos
É, todavia, como romancista que se coloca desperta o amor da índia por Martim, que retribui o
entre os primeiros da nossa Literatura. sentimento.
O estilo de Alencar é inconfundível. Levado Iracema, guardadora dos segredos da
por uma imaginação insuperável, surpreende o leitor Jurema, fizera um voto de castidade, que quebra ao
com brilhantes comparações e figuras, aproveitando- tornar-se esposa de Martim. Abandona a tribo e
se, para isto, com frequência, de elementos segue com ele, dando à luz, algum tempo depois, a
indígenas e de nossa natureza. um filho, Moacir, que, simbolicamente, representaria
Preocupou-se, ainda, Alencar com “criar um o homem brasileiro, nascido das raças índia e
estilo brasileiro, um modo de escrever que refletisse branca.
o espírito do nosso povo, as particularidades Martim parte por longo tempo e, quando
sintáticas e vocabulares do falar brasileiro”, tendo retorna, encontra Iracema à morte. Enterra-a ao pé
acrescentado inúmeros tupinismos e brasileirismos de um coqueiro, toma o filho e parte para Portugal.
à língua nacional. O texto selecionado para exemplificação é o
Destaca-se ainda, a musicalidade da prosa primeiro capítulo, que é um texto antológico, que
alencariana. Obras suas, como Iracema, são inicia com a famosa e belíssima invocação:
verdadeiros poemas em prosa.
“Verdes mares bravios de minha terra natal, onde
OBRAS: canta a jandaia nas frondes da carnaúba.”
Indianista: Iracema, Ubirajara (1874).
Urbanas: Cinco Minutos (1856), A Viuvinha Nele, podemos perceber todo o fascínio da
(1857), Lucíola (1862), Diva (1864), A Pata da linguagem desse romance, que se desenvolve no
Gazela (1870), Sonhos d’Ouro (1872), Senhora mesmo nível poético da invocação inicial.
(1875), Encarnação (1877, póstuma).
Históricas: O Guarani (1857), As Minas de
Prata (1862-6), Alfarrábios, O Ermitão da Glória, O Capítulo I
Garatuja (1873), A Guerra dos Mascates (1873).
Regionalista: O Gaúcho (1870), O Tronco do “Verdes mares bravios de minha terra natal,
Ipê (1871), Til (1872), O Sertanejo (1876). onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba.
Do que escreveu para teatro destacam-se: O Verdes mares, que brilhais como líquida
Demônio Familiar (comédia) e As Asas de um Anjo esmeralda aos raios do sol nascente, perlongando
(drama). as alvas praias ensombradas de coqueiros.
Serenai, verdes mares, e alisai docemente a
vaga impetuosa, para que o barco aventureiro

102 * Literatura Brasileira


manso resvale à flor das águas. nas frondes da carnaúba; (7)
Onde vai a afouta jangada, que deixa rápida a
costa cearense, aberta ao fresco terraI a grande Verdes mares, que brilhais (7)
vela? como líquida esmeralda (7)
Onde vai como branca alcíone buscando o aos raios do sol nascente, (7)
rochedo pátrio nas solidões do oceano? perlongando as alvas praias (7)
Três entes respiram sobre o frágil lenho que ensombradas de coqueiros; (7)
vai singrando veloce, mar em fora.
Um jovem guerreiro cuja tez branca não cora Serenai, verdes mares, (6)
o sangue americano; uma criança e um rafeiro que e alisai docemente (6)
viram a luz no berço das florestas, e brincam irmãos, a vaga impetuosa, (6)
filhos ambos da mesma terra selvagem. para que o barco aventureiro manso (IO)
A lufada intermitente traz da praia um eco resvale à flor das águas.” (6)
vibrante, que ressoa entre o marulho das vagas:
- Iracema! Todas as imagens de que Alencar se utiliza
O moço guerreiro, encostado ao mastro, leva para se referir a Iracema são retiradas da natureza
os olhos presos na sombra fugitiva da terra; a local, identificando Iracema claramente com essa
espaços o olhar empanado por tênue lágrima cai natureza, fazendo-a símbolo do Brasil e, por
sobre o jirau, onde folgam as duas inocentes extensão, da América. Um crítico já observou que
criaturas, companheiras de seu infortúnio. Iracema é anagrama de América, isto é, Iracema tem
Nesse momento o lábio arranca d’ alma um exatamente as mesmas letras de América, só que
agro sorriso. Que deixara ele na terra do exílio? outra ordem.
Uma história que me contaram nas lindas Segue, como ilustração, o segundo capítulo
várzeas onde nasci, à calada da noite, quando a lua que apresenta Iracema, “virgem dos lábios de mel”.
passeava no céu argenteando os campos, e a brisa
rugitava nos palmares.
Refresca o vento. Capítulo II
O rulo das vagas precipita. O barco salta
sobre as ondas e desaparece no horizonte. Abre-se “Além, muito além daquela serra, que ainda
a imensidade dos mares, e a borrasca enverga, azula no horizonte, nasceu Iracema.
como o condor, as foscas asas sobre o abismo. Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha
Deus te leve a salvo, brioso e altivo barco, por os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais
entre as vagas revoltas, e te poje nalguma enseada longos que seu talhe de palmeira.
amiga! Soprem para ti as brandas auras, e para ti O favo da jati não era doce como seu sorriso;
jaspeie a bonança mares de leite! nem a baunilha rescendia no bosque como seu hálito
Enquanto vogas à discrição do vento, airoso perfumado.
barco, volva às brancas areias a saudade, que te Mais rápida que a ema selvagem, a morena
acompanha, mas não se parte da terra onde revoa.” virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde
campeava sua guerreira tribo, da grande nação
Já se notou, frequentes vezes, o ritmo tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava
extremamente cadenciado desses três primeiros apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as
parágrafos. Mais de um autor distribuiu essas primeiras águas.
palavras no papel, como versos de um poema Um dia, ao pino do sol, ela repousava em um
tradicional, para mostrar visualmente esse ritmo claro da floresta. Banhava-lhe o corpo a sombra da
cadenciado. Veja como fica. oiticica, mais fresca do que o orvalho da noite. Os
ramos da acácia silvestre esparziam flores sobre os
“Verdes mares bravios (seis sílabas) úmidos cabelos. Escondidos na folhagem, os
de minha terra natal, (7) pássaros ameigavam o canto.
onde canta a jandaia (6) Iracema saiu do banho; o aljôfar d’água ainda

Literatura Brasileira * 103


a roreja, como à doce mangaba que corou em SENHORA
manhã de chuva. Enquanto repousa, empluma das
penas do guará as flechas do seu arco, e concerta Fernando Seixas rompera o namoro com
com o sabiá da mata, pousado no galho próximo, o Aurélia Camargo porque era ela pobre, voltando
canto agreste. suas atenções para a rica Adelaide Amaral. Mais
A graciosa ará, sua companheira e amiga, tarde, Aurélia torna-se, inesperadamente, herdeira
brinca junto dela. Às vezes sobe os ramos da árvore de grande fortuna. Sabendo que Fernando estava
e de lá chama a virgem pelo nome; outras, remexe o em má situação financeira, Aurélia salda-lhe as
uru de palha matizada, onde traz a selvagem seus dívidas para se casarem. Casados, Aurélia, além de
perfumes, os alvos fios do crautá, as agulhas da desprezá-lo, exige que a trate de Senhora.
juçara com que tece a renda, e as tintas de que Humilhado, Fernando consegue o dinheiro para
matiza o algodão. libertar-se e, com a liberdade, nasce o amor entre
Rumor suspeito quebra a doce harmonia da eles.
sesta. Ergue a virgem os olhos, que o sol não
deslumbra; sua vista perturba-se. O GUARANI
Diante dela e todo a contemplá-Ia, está um
guerreiro estranho, se é guerreiro e não algum mau Em 1604, vivia Dom Antônio de Mariz com sua
espírito da floresta. Tem nas faces o branco das família (a mulher Lauriana, os filhos Diogo e Cecília
areias que bordam o mar; nos olhos o azul triste das e a sobrinha Isabel) numa fazenda à margem direita
águas profundas. Ignotas armas e tecidos ignotos do rio Paquequer, afluente do Paraíba. Cecília é
cobrem-lhe o corpo. disputada por Álvaro (fidalgo português) e Loredano
Foi rápido, como o olhar, o gesto de Iracema. (ex-carmelita e aventureiro) e defendida pelo goitacá
A flecha embebida no arco partiu. Gotas de sangue Peri, que via na moça a Senhora com quem sonhara
borbulham na face do desconhecido. e a quem jurara servir. Os aimorés, para vingar a
De primeiro ímpeto, a mão lesta caiu sobre a morte de uma índia, atacam e destroem a fazenda
cruz da espada; mas logo sorriu. O moço guerreiro de D. Antônio. Enquanto a fazenda era destruída,
aprendeu na religião de sua mãe, onde a mulher é Peri consegue salvar Cecília.
símbolo de ternura e amor. Sofreu mais d’alma que
da ferida.
O sentimento que ele pôs nos olhos e no 3. MANUEL ANTôNIO DE ALMEIDA
rosto, não o sei eu. Porém a virgem lançou de si o (Rio de Janeiro, 1831 - RJ, 1861)
arco e a uiraçaba, e correu para o guerreiro, sentida De origem modesta, conseguiu concluir
da mágoa que causara. A mão que rápida ferira, Medicina (1855), mas não clinicou. Foi administrador
estancou mais rápida e compassiva o sangue que da Tipografia Nacional, onde iniciou na profissão de
gotejava. Depois Iracema quebrou a flecha homicida; tipógrafo Machado de Assis. Como redator do
deu a haste ao desconhecido, guardando consigo a Correio Mercantil, ainda estudante, escreveu a obra
ponta farpada. que o imortalizou: Memórias de um Sargento de
O guerreiro falou: Milícias (1854-5).
- Quebras comigo a flecha da paz? Almeida deixou uma obra inteiramente
- Quem te ensinou, guerreiro branco, a deslocada, pois fugiu totalmente ao esquema do
linguagem de meus irmãos? Donde vieste a estas momento que exigia romances tipo A Moreninha.
matas, que nunca viram outro guerreiro como tu? Fez uma obra humorística, focalizou a classe pobre,
- Venho de bem longe, filha das florestas. pôs como central um personagem picaresco, foi fiel
Venho das terras que teus irmãos já possuíram, e aos costumes e linguajar da época, construiu
hoje têm os meus. personagens coerentes e reais. O estilo é fácil e
- Bem-vindo seja o estrangeiro aos campos comunicativo.
dos tabajaras, senhores das aldeias, e à cabana de Por fidelidade às coisas apresentadas,
Araquém, pai de Iracema.” Almeida é considerado o precursor do nosso
Realismo.

104 * Literatura Brasileira


MEMÓRIAS DE UM 5. BERNARDO GUIMARÃES
SARGENTO DE MILÍCIAS (Ouro Preto, 1825 -1884)
Cursou Direito em São Paulo, onde foi colega
Conta as aventuras do endiabrado Leonardo, de Álvares de Azevedo de cuja obra cuidou. Mais
do nascimento ao casamento com Luisinha. Filho de tarde foi juiz, jornalista e professor.
Leonardo Pataca e Maria das Hortaliças, o herói é Bernardo Guimarães é, como observa Heron
criado à solta. Sua vida, farta de travessuras, muda de Alencar, “mais contador de histórias do que
quando se casa e consegue ser sargento de milícias. romancista”. E foi contando histórias que fixou o
Citem-se ainda os personagens: o temido delegado pitoresco de Minas Gerais e Goiás, sua paisagem,
major Vidigal; Vidinha, bonita e namoradeira; a tipos e costumes. Foi o primeiro regionalista
Comadre e outros que se movimentam no Rio do romântico.
tempo do Rei.
OBRAS:
4. VISCONDE DE TAUNAY O Ermitão de Muquém (1869), O Garimpeiro
(Rio de Janeiro, 1843 - 1899)
(1872), O Seminarista (1872), O índio Afonso
(1873), A Escrava Isaura (1875), Maurício (1877).
Engenheiro militar, participou da expedição
que foi defender o Sul de Mato Grosso, durante a
A ESCRAVA ISAURA
Guerra do Paraguai. Registrou no livro La Retraite
de La Laguna a heroica retirada da coluna brasileira,
lsaura fora criada e educada com esmero,
desde Laguna (no Paraguai) até o rio Aquidauana,
pela patroa, mãe do cobiçoso Leôncio. Este se casa
num total de trinta e nove léguas.
com Malvina que fica com lsaura. A infeliz escrava,
De invejável cultura, foi professor e político.
para ver-se livre da perseguição do senhor, foge com
Como escritor, consagrou-se pelo realismo mitigado,
o pai Miguel para Recife, onde passa a chamar-se
ao apresentar as paisagens, os tipos e os costumes
Elvira. Lá, conhece Álvaro, rapaz de ótima formação.
do sertão mato-grossense. Taunay está entre os
Reconhecida pelo vil Martinho, é conduzida à
melhores paisagistas nacionais.
fazenda de Leôncio, no Estado do Rio. Álvaro,
sabendo da grave situação de Leôncio, compra-lhe
OBRAS:
a fazenda. Liberta Isaura e casa-se com ela.
Das diversas que escreveu, duas
permaneceram: A Retirada de Laguna (1871), O SEMINARISTA
escrita em francês e traduzida em 1874 por Salvador
de Mendonça e Inocência (1872). Eugênio e Margarida amavam-se desde
crianças. Ele, extremamente sensível, abraça (por
imposição da família) a carreira sacerdotal,
INOCÊNCIA dominado sempre mais pelo amor de Margarida.
Quando volta, já neossacerdote, à terra natal, tem
A história se passa no sudeste mato- que atender Margarida moribunda e encomendar-lhe
grossense. Pereira tem uma filha, “donzela de o cadáver. Ao dirigir-se depois para o altar, a fim de
fascinadora beleza”, prometida em casamento a celebrar a Missa, Eugênio, totalmente transtornado,
Manecão. Aparece na fazenda um curandeiro de arranca as vestes sagradas, joga-se contra o altar e
nome Cirino e promete curar a maleita da Inocência. sai correndo. Enlouquecera.
De remédio em remédio, nasce entre eles o amor.
Descobertos, Cirino é morto pelo rival Manecão.
Inocência, dois anos depois, também morre “de 6. FRâNKLlN TÁVORA
saudade”. Destaque-se a presença do cientista (Baturité-CE, 1842 - Rio, 1888)
alemão Meyer na fazenda do Pereira, à procura da O mais modesto dos romancistas. Lutou
borboleta que denomina Papilio Innocentiae, tenazmente pela criação da Literatura do Norte, o
graciosa homenagem à moça tão bela e infeliz. que o torna um dos fundadores do nosso
regionalismo.

Literatura Brasileira * 105


OBRAS: ambiente ao qual se aclimatou;
Cartas de Semprônio (crítica, contra José de - “ajustou-se à alma do povo, cujos anseios e
Alencar, 1871), Um Casamento no Arrabalde qualidades sentiu e exprimiu”. Não nos esqueçamos
(romance, 1869), O Cabeleira (romance, 1876). que nascemos como nação com aquele movimento
e o novo estilo identificou-se com o nosso modo de
O CABELEIRA ser;
- com ele, nasceu “o culto brasileiro da
Narra a vida aventurosa de José Gomes (o inspiração, da improvisação e da espontaneidade”
Cabeleira). A mãe Joana quer educá-Io no bom como fontes de criação;
caminho. O pai Joaquim, no entanto, encaminha-o - marcou-se de um caráter social;
no crime. Somente Luisinha, que Cabeleira há muito - traduziu-se numa forma peculiar de india-
amava, consegue regenerá-lo, mas ele é preso pela nismo, ao casar a doutrina do “bom selvagem” de
polícia. Rousseau com as tendências antiportuguesas. O
sentimento nativista brasileiro fez do índio e sua
civilização um símbolo de independência espiritual,
O TEATRO ROMâNTICO política, social e literária;
- teve também significação na nossa literatura
O teatro romântico começa no Brasil em 1838, romântica o conhecido “mal do século”, em poetas
com a encenação da tragédia Antônio José de como Álvares de Azevedo, Junqueira Freire,
Gonçalves de Magalhães e da comédia O Juiz de Casimiro de Abreu e romancistas como Macedo e
Paz na Roça de Martins Pena. Alencar, por exemplo;
Na altura de 1860, aparecem os dramas de - a busca de inspiração em elementos
casaca - “teatro de atualidade, de tese social e de nacionais encontrou eco num Brasil recém-
análise psicológica”. independente, em plena fase de afirmação de sua
Embora G. de Magalhães, Gonçalves Dias e personalidade como nação;
outros tenham escrito para o teatro, foi Martins Pena - a procura de cor local característica
quem melhor realizou o gênero teatral entre os “conduziu à compreensão da literatura popular, em
românticos. que, para os românticos, residiria o caráter original
da criatividade literária e de onde partiria o veio
MARTINS PENA formador da literatura”. Daí o interesse por “mitos e
(Rio de Janeiro -1815 - Lisboa - 1848)
cosmogonias ameríndias”; daí a proliferação de
Seguiu a carreira diplomática, mas realizou-se estudos sobre o nosso folclore;
como comediógrafo. É o criador da comédia nacional
- o culto da natureza encontrou campo
com O Juiz de Paz na Roça.
propício na exuberante paisagem nacional;
Escreveu peças para o povo rir. Nelas, retrata
- os românticos realizaram “a criação dos
com muita facilidade a vida social e doméstica da
gêneros literários com feitio brasileiro quer quanto ao
cidade e do campo da primeira metade do século
tema quer quanto às marcas de estilo”;
XIX.
- com o Romantismo, criou-se a ficção brasi-
OBRAS:
leira, consolidou-se a poesia em nossa terra;
O Juiz de Paz na Roça (1838), Judas no
- os escritores românticos libertaram a língua
Sábado de Aleluia (1844), O Noviço, Quem Casa
falada no Brasil das normas clássicas dos escritores
Quer Casa (1845), etc.
portugueses: preocupavam-se com uma língua
nacional;
- com o movimento romântico constitui-se,
REPERCUSSÕES DO ROMANTISMO
entre nós, a carreira literária “e a compreensão da
figura do homem de letras na comunidade”;
O Romantismo é de tal forma importante para
- também nos trouxe o movimento romântico
a nossa literatura que não poderíamos deixar de
“a melhoria e a ampliação do público” para o
assinalar o que o caracteriza essencialmente em
romance, a poesia e o teatro;
nossa terra e o que ficou de sua presença. Assim,
- foi, enfim, com o Romantismo que o Brasil
cumpre apresentar que, ressalvada a permanência
ganhou literatura própria.
de suas características universais: (Estilos de Época na Literatura -
- ganhou aspectos peculiares, por força do Domício Proença Filho)

106 * Literatura Brasileira


EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO __________________________________________________

1. Esquematize o “modelo” de romance romântico. c) Histórico:

__________________________________________________
__________________________________________________
__________________________________________________
__________________________________________________
d) Regionalista:
__________________________________________________
__________________________________________________
__________________________________________________ __________________________________________________

__________________________________________________
e) Indianista:
__________________________________________________
__________________________________________________

__________________________________________________

2. Modalidade de Romance - Exemplos

a) Folhetim: 3. 1º Romance Romântico:


__________________________________________________ __________________________________________________
__________________________________________________ __________________________________________________

b) Urbano: autor:
__________________________________________________ __________________________________________________

4. Quadro Sinóptico

Autores Características Obras

1. José de Alencar

2. Manuel Antônio de Almeida

3. Visconde de Taunay

4. Bernardo Guimarães

5. Frânklin Távora

6. Martins Pena

Literatura Brasileira * 107


5. A que se deve a criação do gênero “Romance” no século XIX? 12. O autor - fundador do sertanejismo -, Bernardo Guimarães,
caracteriza em seus romances:
__________________________________________________
a) as tradições e crendices do povo nortista;
b) temas tradicionais do sertanejo paulista;
6. O romance classifica-se em: c) a vida simples e pacata dos sertanejos cariocas;
d) temas tradicionais e populares das regiões rurais de Minas
a) ________________________________________________ Gerais e Goiás;
e) com propriedade, os temas do gaúcho.
b) _______________________________________________
13. A personagem central é Leonardo Pataca, “filho de uma
pisadela e de um beliscão”, circunstâncias em que seus pais
c) ________________________________________________ se conheceram. Leonardo Pataca surge, assim, como
primeiro herói malandro do nosso romance, ou melhor, o
d) ________________________________________________ primeiro herói pícaro (termo espanhol). Sendo pobre e
abandonado pelos pais, vive às custas do padrinho
(Compadre) e se comporta endiabradamente, por exemplo,
7. Como José de Alencar apresenta o índio? desaparecendo na procissão da Via-Sacra, sem dar
satisfação. O herói (o menino) está sempre pronto à aventura,
_________________________________________________
por isso, acompanha os ciganos. Depois, resolve o problema
do padrinho com uma dose certa de esperteza.
__________________________________________________ A referência é feita:

8. Como são vistos os heróis dos romances regionalistas


a) a uma obra realista de Machado de Assis, chamada
alencarianos?
Memórias Póstumas de Brás Cubas.
_________________________________________________ b) a uma obra pré-romântica de Tomás Antônio Gonzaga,
chamada Marília de Dirceu.
__________________________________________________ c) a uma obra romântica de Joaquim Manuel de Macedo,
chamada A Moreninha.
__________________________________________________ d) a uma obra pré-realista de Manuel Antônio de Almeida,
chamada Memórias de um Sargento de Milícias.
_________________________________________________ e) a uma obra modernista de Mário de Andrade, chamada
Macunaíma.
__________________________________________________
14. Sobre o romance romântico, assinale a alternativa incorreta:
__________________________________________________ a) O sentimento amoroso deve ser sempre desinteressado e
puro.
b) A sociedade é apresentada como hipócrita.
9. O que retratam os romances urbanos de José de Alencar? c) O personagem principal é sempre um herói, de ideais
elevados; nunca idealizado.
_________________________________________________
d) O bem sempre acaba triunfando.
e) Em oposição aos clássicos, que preferiam retratar em
__________________________________________________
suas obras natureza perfeita, os românticos procuravam
mostrar paisagens naturais em toda a sua exuberância e
__________________________________________________ magia.

__________________________________________________ 15. O movimento romântico brasileiro é nacionalista por


excelência; daí, a razão de incluir palavras indígenas em suas
__________________________________________________ obras. O escritor brasileiro que mais se destacou nesse
propósito foi:
a) Gonçalves Dias;
10. Cite um exemplo de cada tipo de romance de José de Alencar: b) Machado de Assis;
c) Bernardo Guimarães;
_________________________________________________ d) José de Alencar;
e) Joaquim Manuel de Macedo.
_________________________________________________

_________________________________________________ 16. Assinale o item correto:


a) Macedo, que explorou com muita felicidade a psicologia
_________________________________________________ feminina, continua sendo um dos autores mais lidos hoje.
b) São características do estilo de Alencar: a imaginação
_________________________________________________ insuperável e a musicalidade, embora tenha fracassado
ao introduzir tupinismos e brasileirismos na língua
________________________________________________ nacional.
c) Manuel Antônio de Almeida, autor de um só livro, foi muito
feliz ao retratar a burguesia carioca e apresentar as
diabruras de Leonardo.
11. Que classe social é sempre o tema dos romances urbanos ou
d) Bernardo Guimarães registrou, em livro, a heroica retirada
de costumes?
de uma coluna do Exército Brasileiro de Laguna ao rio
Aquidauana.
_________________________________________________
e) Em Inocência, o autor “descreve o amor proibido de uma
_________________________________________________ jovem sertaneja, submetida às imposições paternas”.

108 * Literatura Brasileira


realismo-
Naturalismo

“ Pouco importa que os fatos sejam físicos ou exprimir através dele. Tudo, para ser compreendido,
morais; eles sempre têm as suas causas. Tanto tem que se reduzir a um denominador comum: o
existem causas para a ambição, a coragem, a dinheiro”. (Arnold Hauser)
veracidade, como para a digestão, o movimento
muscular, e o calor animal. O vício e a virtude são c) Ciência:
produtos químicos como o açúcar e o vitríolo.” O enorme progresso científico da época gerou
(Taine) a teoria de que todos os fenômenos aparentemente
isolados, na verdade, pertenciam a uma única
realidade material. É notável o desenvolvimento das
1. Contexto históriCo ciências biológicas. A título de exemplo, citamos
algumas descobertas do período: a utilização do éter
A partir da segunda metade do século XIX, a na anestesia, a assepsia, a teoria microbiana das
concepção espiritualista de mundo que caracterizava doenças, a descoberta dos micro-organismos
o período romântico vai sendo substituída por uma responsáveis pelas sífilis, malária e tuberculose, a
visão mais científica e materialista, decorrente da descrição dos hormônios e vitaminas.
importância dada à ciência, vista como único Às anteriores, associam-se as buscas no
instrumento seguro para explicar a realidade. Para campo da calorimetria, ótica, termodinâmica,
compreender a nova estética cultural, analisemos telefonia, astronomia, eletricidade, eletromagne-
rapidamente o contexto histórico-cultural. tismo, etc.
Identificam-se a pesquisa e o uso de novas
a) Sociedade: fontes de energia, como o carvão, o petróleo e a
Na Europa, a aristocracia feudal e a Igreja eletricidade, o que propicia o desenvolvimento
deixaram de desempenhar um papel orientador na industrial, em especial, na metalurgia e nos ramos
vida política. A classe média, cuja maneira de viver têxteis.
nada tem em comum com a aristocracia tradicional, Paralelamente, acentua-se o interesse pela
passa a ocupar o primeiro plano no cenário histórico. biologia e pela genética, que até os anos anteriores
Mais tarde, classe média e operariado, cujos haviam permanecido limitadas pelas concepções
objetivos se confundiam, começam a separar-se. dos antigos.
Dessa separação decorre a consciência do Assim, João Batista Lamark (1744-1829)
proletariado e seu esforço no sentido de se formula as leis da evolução natural, assegurando
organizar. São essas condições que propiciam o que a formação ou desaparecimento de órgãos, nos
Manifesto Comunista de 1848, em que Marx e seres vivos, são condicionados pelo uso, e que as
Engels analisam a situação do proletariado e alterações ocorridas se integram ao patrimônio da
apontam soluções para os problemas detectados. espécie.
Fundamental é a referência ao Darwinismo,
b) Economia: princípio estabelecido por Darwin, de que há uma
O racionalismo econômico do período leva a comunhão de origem entre todos os seres vivos. É a
uma industrialização cada vez mais intensa, com a teoria da evolução natural das espécies, que expõe
consequente vitória do capitalismo. “O dinheiro é a uma concepção biológica da vida. Darwin publica,
grande força que domina toda a vida pública e em 1859, A Origem das Espécies provocando uma
privada, toda a força e todos os direitos passam a se verdadeira revolução no campo das ciências.

Literatura Brasileira * 109


d) Filosofia: viver significa sofrer. O homem é determinado pela
dor e pelo sofrimento, e a conquista da alegria
• Positivismo também advém de um esforço doloroso que logo
No campo da filosofia, o evento que se destrói as ânsias e desejos humanos”.
destaca é a publicação do Curso de Filosofia Todas essas doutrinas contribuem para dar ao
Positiva, ocorrido entre 1830 e 1842, e a do Sistema homem deste momento uma concepção materialista
de Política Positiva, entre 1851 e 1854, ambos da da vida. O subjetivismo cede lugar ao objetivismo; o
autoria de Augusto Comte (1798 - 1857). Com essas interesse pelo passado, característico do
obras, instaura-se um novo pensamento filosófico, Romantismo, é substituído pelo presente e pela
que não destoa da mentalidade geral da época no noção de desenvolvimento e progresso.
que diz respeito à importância da natureza, da
objetividade e do culto ao real. Segundo Comte, a e) Sociologia:
humanidade está entrando, com o Positivismo, em No domínio da sociologia, aparecem as
um terceiro estágio de sua evolução - os dois teorias de Spencer, explicando a luta pela existência
primeiros haviam sido o teológico e o metafísico. como uma crescente divergência entre as classes
Agora, os fatos é que determinam o conheci-mento, sociais. Em 1862, inicia seus trabalhos, formulando
o abstrato perdeu seu valor para o concreto; a O Evolucionismo, levando os historiadores a
observação e a experiência tornam-se regras interpretarem a história como resultante de
básicas para o pensamento e para a atividade movimentos sociais.
científica.

• Determinismo A ARTE
Doutrina de Taine, que explica a obra de arte
como produto de leis inflexíveis: raça, meio e A arte vai revelar todas essas modificações,
momento. Fundamentado nos princípios positivistas, suplantando o idealismo do período romântico,
Taine leva, em 1864, as novas concepções para o expressando a concepção predominantemente
domínio artístico, criando o determinismo literário, no materialista da vida, isenta de idealização e
prefácio de sua História da Literatura Inglesa. sentimentalismo. O povo torna-se tema da pintura,
Procura provar que a “personalidade” do fato que representa uma tomada de posição política
homem é condicionada por três aspectos: a) por parte dos pintores que seguem a nova estética.
Hereditariedade - a criança recebe caracteres do pai Para eles, verdade social e verdade artística se
e da mãe; b) Meio ambiente - a criança vai identificam, tornando-se a arte um meio de denúncia
aprendendo a se comportar em contato com outras da ordem social vigente, um protesto contra a classe
pessoas; c) Momento Histórico - em cada época da dominante.
história da humanidade a criança desenvolve-se e
forma sua personalidade segundo as influências de
então. O CONTEXTO BRASILEIRO
Quando o escritor realista se orientava por
esse cientificismo, elaborava obras classificadas Com a morte de Castro Alves, o romantismo
como naturalistas (um realismo mais científico). nacional se esgota e entra em franca decadência. Já
Resta-nos, ainda, citar a forte atuação que as em 1870, Sílvio Romero, crítico literário influenciado
ideias filosóficas de Arthur Schopenhauer (1788 - pelas novas ideias que varriam a Europa, passa o
1860) exercem sobre o pensamento europeu do atestado de óbito à poesia romântica, acusando-a de
século XIX. Através de três obras: Mundo como “lirismo retumbante e indianismo decrépito”. O centro
vontade e representação (1819), A autonomia da irradiador do novo espírito é Recife, onde pontifica a
vontade (1839) e O Fundamento Moral (1840), o figura intelectual de Tobias Barreto, agitando
filósofo alemão apresenta o homem condicionado a desordenadamente as doutrinas científicas e
determinismos morais. Segundo suas ideias, “o sociológicas europeias. Além disso, a Questão
mundo é a exteriorização de uma força cega, onde Coimbrã (1865) que introduziu o Realismo em

110 * Literatura Brasileira


Portugal, fora acompanhada com interesse no Brasil.
FRANÇA
Também a situação política brasileira instável e
agitada (a partir de 1870 podemos constatar: a Flaubert Zola

fundação do Clube Republicano, a Questão


Religiosa, A Abolição, a Questão Militar, a República, Madame Thérèze
Bovary Raquin
etc.) contribuiu para que os escritores procurassem
(1857) (1867)
uma nova maneira de captar, refletir e interpretar a
realidade.
Superando o eufórico nacionalismo, o Realis- Eça de Queiroz PORTUGAL Abel Botelho
mo significa, dentro da evolução da literatura Questão
Coimbrã
brasileira, um movimento crítico que alarga as O Crime do (1865) O Barão de
dimensões dessa literatura. Padre Amaro Lavos
(1875) (1891)

Segundo Afrânio Coutinho, o Realismo olhou


para o mundo brasileiro, ensinou o escritor brasileiro Machado de Assis BRASIL Aluísio Azevedo

a tratar esteticamente do material autóctone, não


Memórias
mais com o sentimentalismo romântico. É com ele
Póstumas de O Mulato
que a literatura finca pé definitivamente no solo Brás Cubas (1881)
(1881)
pátrio.

2. literatura CARACTERÍSTICAS DO REALISMO

O Realismo é de origem francesa. A obra


Madame Bovary, de Gustave Flaubert (1857), que 1. OBJETIVIDADE
analisa impiedosamente a hipocrisia romântica e Para aproximar sua atitude à do cientista, o
burguesa, foi o romance que o introduziu. Mais tarde, autor realista busca encarar os fatos com
Emile Zola, com a obra Thérèze Raquin inaugura o objetividade e impessoalidade (embora nem sempre
Naturalismo, metamorfose avançada do Realismo. consiga), não idealizando a realidade, mas buscando
No Brasil, há uma coincidência cronológica registrá-la, sem emitir julgamentos sobre os fatos ou
entre as duas correntes: Realismo e Naturalismo, personagens.
pois sendo a França o centro irradiador, houve
tempo, entre nós, para uma assimilação simultânea 2. PERSONAGENS NÃO IDEALIZADAS
de ambos. Assim, o ano de 1881 marca a introdução Para o artista realista, o homem é apenas uma
do Realismo e do Naturalismo brasileiros com as peça na engrenagem do mundo. Em função disso,
obras: Memórias Póstumas de Brás Cubas, de principalmente os escritores de tendência naturalista
Machado de Assis e O Mulato, de Aluísio Azevedo, enfatizam comportamentos instintivos de perso-
respectivamente. nagens, comparando-os a animais.
Veja o gráfico explicativo da evolução das O realista procura enfocar o homem comum,
duas escolas. Observe as diferenças cronológicas com todos os seus contrastes, sem idealizações.
entre Realismo e Naturalismo na Europa e a
coincidência cronológica no Brasil. 3. PERSONAGEM CONDICIONADA AO
MEIO FÍSICO E SOCIAL
É uma consequência de visão de mundo em
que o homem não tem qualquer privilégio sobre os
demais elementos. Assim, a personagem aparece
condicionada a fatores naturais (temperamento,
raça, clima) e fatores culturais (ambiente e

Literatura Brasileira * 111


educação). Suas ações fundamentam-se em causas Em função disso, a visão do mundo do
determinantes, ora de natureza biológica, ora de naturalista é mais mecanicista, mais determinista,
natureza social. Baseando as ações das pois aceita o princípio segundo o qual só as leis da
personagens em razões científicas, plausíveis e ciência são válidas. Como decorrência, o homem é
lógicas, o escritor pretende eliminar os acasos e condicionado por forças que determinam seu
milagres, frequentes no Romantismo. comportamento. Nos romances naturalistas, o
comportamento das personagens resulta da
4. AMOR FISIOLÓGICO liberação dos instintos, sob determinadas condições
Diferentemente dos românticos que viam no do meio. Por usar métodos científicos de observação
amor a solução de todas as coisas, o escritor realista e análise, a vida interior fica relegada a quase nada
apresenta o amor como ato predominantemente e todas as personagens naturalistas são muito
fisiológico. Há uma acentuada preferência pelo semelhantes, uma vez que estão submetidas às
enfoque do adultério, encarado como causa da mesmas leis.
destruição familiar e da sociedade. Diferente disso, os dramas das personagens
realistas têm origem moral ou são decorrentes de
5. ESPAÇO URBANO/TEMPO desequilíbrio social.
CONTEMPORâNEO Observa-se no artista naturalista uma
É nítida a preferência pelo espaço urbano, tendência a retratar temas ligados à patologia sexual
pois a burguesia fixou-se principalmente nas cidades ou social, aos aspectos mais repulsivos da vida e às
e é aí que residem os elementos a serem camadas mais baixas da sociedade.
combatidos, já que a obra literária é vista como
instrumento de denúncia dos desequilíbrios sociais. Em resumo:
Há preocupação em retratar pessoas da
época, encarando o presente histórico, os conflitos Diferenças apresentadas:
do homem da época, os problemas concretos, os
dramas cotidianos. REALISMO
1 - Pratica método de observação.
6. NARRATIVA/LINGUAGEM 2 - Acumula documentos para dar impressão
O processo narrativo obedece à lógica, de vida real.
eliminando acasos e milagres. Via de regra, o 3 - Reproduz tanto a realidade interior como a
desenlace é previsível. exterior.
A linguagem é mais simples que a linguagem 4 - Cria o romance documental.
dos românticos. O detalhismo é característica, 5 - Às vezes, toma temas do passado.
explicada pela intenção de retratar fielmente a 6 - Tem preocupações sociais.
realidade focalizada, o que torna a narrativa mais
lenta.
NATURALISMO

DIFERENÇAS ENTRE 1 - Pratica método de experimentação.


REALISMO E NATURALISMO 2 - Imagina experiências que remetem a con-
clusões às quais só a observação não houvera
O Naturalismo surge como um segmento do podido chegar.
Realismo. Ambos se fundamentam nos mesmos 3 - Tem preocupações sociais.
princípios científicos, filosóficos e artísticos. 4 - Pretende apoiar-se na ciência.
5 - Cria o romance experimental.
“O Realismo se tingirá de Naturalismo, no romance 6 - Prefere o presente ou espreita o futuro,
e no conto, sempre que fizer enredos e personagens aplicando lei da herança.
submeterem-se ao destino cego das leis naturais que a 7 - Alegra-se nos aspectos mais deploráveis e
ciência da época julgava ter codificado.” (A. Bosi) crus da realidade.

112 * Literatura Brasileira


ASPECTOS EM COMUM: ________________________________________________

• Ambos procuram retratar o real. ________________________________________________


• Fundamentação filosófica idêntica: Positi- ________________________________________________
vismo e Determinismo. ________________________________________________
• São ambos anticlericais, antirromânticos e ________________________________________________
antiburgueses. ________________________________________________
• Querem retratar e educar a sociedade. ________________________________________________

________________________________________________

EXERCÍCIOS 7. Qual a razão dessas duas correntes aparecerem juntas no


Brasil?

________________________________________________
1. Indique as principais diferenças entre o realista e o romântico,
________________________________________________
quanto às suas relações com o mundo.
________________________________________________
________________________________________________
________________________________________________
________________________________________________
________________________________________________
________________________________________________

________________________________________________
8. No contexto cultural que preparou a estética realista, qual a
________________________________________________ classe de pessoas que estava começando a se organizar?

2. Relacione as colunas: ________________________________________________


(1) românticos
________________________________________________
(2) realistas

( ) fantasia; 9. Assinale a afirmativa correta com relação ao pensamento do


( ) observação; final do século XIX.
( ) nacionalismo ufanista; ( ) O que mais importava na sociedade era o desenvol-
( ) cientificismo. vimento da cultura, não o dinheiro.
( ) A ciência teve, também, grande desenvolvimento.
3. Qual das afirmações abaixo pode ser considerada correta ( ) Acreditavam na origem divina do homem.
quanto ao Realismo: ( ) Não acreditavam no fatalismo.
( ) Apesar das intenções críticas, acabou por fazer a
apologia dos valores burgueses e de suas instituições,
como o casamento e a Igreja. 10. Explique a teoria de Taine.
( ) Desenvolveu, principalmente, uma literatura voltada para
os problemas rurais, mostrando como o progresso das ________________________________________________
cidades estava corrompendo a vida campestre.
________________________________________________
( ) Procurou analisar, com mais objetividade e senso crítico,
os problemas sociais, denunciando vícios e corrupção da ________________________________________________
burguesia.
( ) Libertando-se do excesso de sentimentalismo dos ________________________________________________
românticos, desenvolveu o romance nacionalista,
________________________________________________
exaltando o modo de vida da nova sociedade brasileira
que estava surgindo.
11. Em que consiste a teoria Evolucionista?
4. Com relação ao Naturalismo:
( ) Importa o presente. ________________________________________________
( ) Prefere a experimentação à observação. ________________________________________________
( ) Deseja fazer arte desinteressada.
( ) Reproduz a realidade interior. ________________________________________________
( ) Idealiza os personagens.
________________________________________________
5. Localize o Realismo e o Naturalismo no tempo e no espaço ________________________________________________
________________________________________________

________________________________________________ 12. As manifestações artísticas do Realismo:


( ) Usam muitos símbolos.
________________________________________________ ( ) Representam o real, sem idealização e sentimentalismo.
( ) Fazem da arte uma denúncia.
________________________________________________ ( ) Praticam arte pela arte.
________________________________________________
13. Estabeleça a diferença entre Realismo e Naturalismo:
Personagem
6. Defina Realismo e Naturalismo. Realista: _________________________________________

________________________________________________ _________________________________________________

Literatura Brasileira * 113


Naturalista: ______________________________________ Nascido em família humilde, começou
________________________________________________ vendendo os doces que a madrasta fazia. Tornou-
________________________________________________ se, depois, sacristão da Igreja de Lampadosa.
Obteve, em seguida, o lugar de aprendiz de tipógrafo
Tema na Imprensa Nacional, dirigida, na época, por
Realista: ________________________________________ Manuel Antônio de Almeida, o autor de Memórias de
________________________________________________ um Sargento de Milícias (1845), um romance
________________________________________________ picaresco, quase realista, em pleno apogeu do
Romantismo.
Naturalista:________________________________________
Casou-se em 1869 com Dona Carolina
Augusta Xavier de Novaes, portuguesa recém-
________________________________________________
chegada ao Brasil, que o ajudou no aprimoramento
_________________________________________________
da sua cultura, até então quase toda autodidata.
Entrou, nessa época, para o serviço público e
Romance
chegou ao cargo de Diretor Geral de Contabilidade
Realista: _________________________________________
do Ministério da Viação.
_________________________________________________
Fundou a Academia Brasileira de Letras
_________________________________________________ (1897), da qual foi, por aclamação, o primeiro
presidente.
Naturalista:_______________________________________ Teve intensa atividade na imprensa, criando a
________________________________________________ crônica, de que se tornou um grande mestre.
________________________________________________ É considerado um dos mais completos
escritores brasileiros: poeta, contista, romancista,
14. O que os dois movimentos têm em comum? dramaturgo e crítico literário, além de jornalista.
________________________________________________ Machado de Assis tem obras românticas,
________________________________________________ escritas até os seus quarenta anos (1879), e
________________________________________________ realistas, depois dessa data.
________________________________________________ Os seus melhores romances, de mais
________________________________________________
profunda análise da alma humana, são os de fim de
século: Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881),
15. Qual era a situação social do Brasil na época do aparecimento Quincas Borba (1891) e Dom Casmurro (1899).
do Realismo e Naturalismo?

________________________________________________
OBRAS:
________________________________________________ 1ª Fase
________________________________________________ TEATRO: Desencantos (1861); Teatro (1863);
________________________________________________ Quase Ministro (1864).
________________________________________________ POESIA: Crisálidas (1864); Falenas (1870);
Americanas (1875).
CONTO: Contos Fluminenses (1870);
AUTORES E OBRAS DO PERÍODO Histórias da Meia-Noite (1873).
ROMANCE: Ressurreição (1872); A Mão e a
1. MACHADO DE ASSIS Luva (1876); laiá Garcia (1878).
(1839 - 1908) A primeira fase apresenta, entre outras, como
“O ponto mais alto e mais equilibrado da principais características: soluções estéticas mais
prosa realista brasileira acha-se na ficção de próximas do Romantismo; tênues traços de humor,
Machado de Assis”. (Alfredo Bosi) mas desprovidos de pessimismo, de ceticismo e de
Joaquim Maria Machado de Assis nasceu e ironia; o sentimentalismo supera as sugestões
morreu no Rio de Janeiro, que deixou apenas uma sensualistas e erotizantes.
vez para umas férias em Friburgo.

114 * Literatura Brasileira


2ª Fase ou ainda de enfermeira...”
POESIA: Poesias Completas (1901).
CONTO: Papéis Avulsos (1882); Histórias sem
Data (1884); Várias Histórias (1895). 2. VISÃO DE MUNDO
ROMANCE: Memórias Póstumas de Brás Todo autor deixa transparecer, através de sua
Cubas (1881); Quincas Borba (1891); Dom obra, sua visão do mundo, sua maneira particular de
Casmurro (1899); Esaú e Jacó (1904); Memorial de enxergar a realidade (entendendo realidade não só
Aires (1908). como os dados exteriores e materiais, mas também
ENSAIOS, CRôNICAS: Páginas Reco- como os dados interiores e imateriais).
lhidas (1899); Relíquias da Casa Velha (1906). A frequência de determinados traços na obra
Na segunda fase, o autor: de Machado permite ressaltar algumas das
- extirpa o “sentimentalismo” e o “moralismo características que evidenciam sua maneira
superficial”; particular de ver o mundo.
- extingue a “fictícia unidade da pessoa
humana”;
- despreza as “frases piegas” e “o receio de a) Pessimismo
chocar preconceitos” ; Alguns fatores são responsáveis pela visão
- elimina “a concepção do predomínio do pessimista que transparece na obra de Machado:
amor sobre todas as paixões”; - A certeza de que o homem se deforma
- afirma “a possibilidade de escrever um livro devido a um sistema social que o leva à hipocrisia,
sem recorrer à natureza”; com a finalidade de ser aceito por uma opinião
- desdenha a “cor local”; pública baseada em valores não essenciais à vida.
- introduz, “finalmente, entre nós, o humo- - A constatação de que o “tédio e a dor são os
rismo”. dois inimigos da felicidade humana”.
- A constatação de que a cada ser humano
compete viver uma vida que ele não escolheu e cujo
CARACTERÍSTICAS GERAIS DA OBRA destino lhe escapa.
MACHADIANA A estes três elementos acrescenta-se a
certeza machadiana de que as causas, por mais
nobres que sejam, ocultam sempre interesses
1. PERSONAGENS impuros.
Preocupado em fixar a problemática do Seu pessimismo, no entanto, não apresenta
homem universal, Machado busca inspiração no um caráter angustiado nem desesperador. Antes se
homem comum e nas ações cotidianas. Por isso, inclina à ironia, à aceitação da compensação relativa
seus romances não se prendem a seres que a vida nos pode oferecer.
extraordinários ou a ações espetaculares. A passagem seguinte, retirada de Memórias
Penetrando na consciência da personagem, Póstumas de Brás Cubas, apresenta uma visão de
sondando-lhe o funcionamento, Machado focaliza desencanto em relação ao homem:
impiedosa e penetrantemente a vaidade, as frivoli-
dades, a hipocrisia, a ambição, a inveja, o adultério. “Cada edição da vida é uma edição, que
corrige a anterior, e que será corrigida também, até
“... mas eu observei que a adulação das a edição definitiva, que o editor dá de graça aos
mulheres não é a mesma coisa que a dos homens. vermes”.
Esta orça pela servilidade; a outra confunde-se com
a afeição. As formas graciosamente curvas, a Segue-se um fragmento narrativo, retirado do
palavra doce, a mesma fraqueza física dão à ação capítulo Das Negativas, em que podemos comprovar
lisonjeira da mulher, uma cor local, um aspecto o negativismo da visão de mundo do autor:
legítimo. Não importa idade do adulado; a mulher há
de ter sempre para ele uns ares de mãe ou de irmã, “Este último capítulo é todo de negativas. Não

Literatura Brasileira * 115


alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, 3. PERSONAGEM X PAISAGEM
não fui califa, não conheci o casamento. (...) O foco de análise está profundamente
Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa centrado no homem, na penetração da intimidade
imaginará que não houve míngua nem sobra, e dos personagens. Abafa todo interesse por
conseguintemente que saí quite com a vida. E elementos exteriores, ao contrário dos românticos,
imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado que estavam mais preocupados com a imagem
do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é exterior da “nacionalidade”, com a “cor local” - no
a derradeira negativa deste capítulo de negativas: - caso, a pujança da paisagem, o vigor da natureza -
Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o e a tipicidade do elemento humano, do indígena, em
legado de nossa miséria”. especial.

b) Humor
Em Machado, o humor tem uma função crítica 4. TEMAS
ou demonstra pena da condição humana. No Com o que se estudou, já está claro que o
primeiro caso, torna-se ironia e, no segundo, esse tema obsessivamente repetido na ficção
humor nos leva, às vezes, a um misto de riso e machadiana é o homem, e que todos os demais
piedade, mas sobretudo conduz o leitor a uma elementos se conjugam para conduzir a ele. Mas sob
reflexão sobre a condição humana. que aspectos é encarado este homem?
No exemplo a seguir, Machado desvaloriza, a A visão machadiana é amarga, pessimista,
partir da ironia, a prática da dedicatória, invertendo o profundamente cética, uma vez que ele visualiza o
seu caráter positivo de agradecimento: ser humano como que preso em estreitos círculos -
biológicos, morais, psicológicos que, numa pressão
“Ao verme concêntrica, acabam esmagando qualquer valor
que positivo.
primeiro roeu as frias carnes O tema da degenerescência ou da
do meu cadáver
decomposição do homem é uma das tônicas do
dedico
como saudosa lembrança criador de Brás Cubas, o defunto-autor, que serve
estas para exemplificar os três aspectos mais significativos
memórias póstumas”. que assume o tema:
• a degenerescência biológica - que se
configura pela degradação por que passa o corpo do
Leia alguns trechos de obras de Machado de homem durante a vida, com suas doenças, velhice e
Assis que comprovam essas características: morte;
• a degenerescência moral - que se manifesta
“...Tu tens pressa de envelhecer e o livro anda na permanente acomodação entre as ações e as
devagar: tu amas a narração direta e nutrida, estilo intenções que levam o personagem a agir,
regular e fluente e este livro e o meu estilo são como despistando seus interesses mais baixos ou
os ébrios, guinam à direita, à esquerda, andam e justificando os próprios impulsos mediante
param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o raciocínios sutis e motivos nobres, mascarando
céu, escorregam e caem...” permanentemente a ambição e as pequenas
traições cotidianas;
“...Perdão, mas este capítulo devia ser • a degenerescência psicológica - que se
precedido de outro em que contasse um incidente, explica sobretudo no desarranjo dos sentidos, nas
ocorrido poucas semanas antes, dois meses antes situações de delírio, e que culmina com a loucura,
da partida de Sancha. Vou escrevê-lo; podia antepô- um dos aspectos mais encontradiços ao longo da
lo a este, antes de mandar o livro ao prelo, mas custa segunda fase.
muito alterar o número das páginas: vai assim
mesmo, depois a narração seguirá direita até o fim”. CONCLUINDO
Independentemente do pessimismo e do

116 * Literatura Brasileira


ceticismo que contaminam a visão do homem na ________________________________________________

obra machadiana, é ela extremamente significativa ________________________________________________


do ponto de vista de realização literária, na medida ________________________________________________
em que não só procura fornecer elementos para ________________________________________________
conhecimento da problemática humana, em seus ________________________________________________
pontos mais importantes, como ainda o faz mediante ________________________________________________
técnicas de narração que se mostram altamente
elaboradas, numa linguagem que pode ser chamada
A CARTOMANTE
de clássica, pelo rigor do emprego do vocabulário,
pela fluência da sintaxe, pela riqueza de sugestões
das figuras de que se utiliza o autor para criar climas HAMLET observa a Horácio que há mais
extremamente significativos, linguística e estetica- cousas no céu e na terra do que sonha a nossa
mente. filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela
Do ponto de vista de sua classificação, Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro
conclui-se que Machado de Assis aproveita de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera
elementos do Romantismo, do Realismo e do
consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia
Naturalismo, embora não se subordine a nenhuma
por outras palavras.
destas estéticas. Cronologicamente, escreve durante
- Ria, ria. Os homens são assim; não
a vigência do Realismo e do Naturalismo e por,
acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela
razões didáticas, é geralmente enquadrado neste
adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que
período.
eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar
as cartas, disse-me: “A senhora gosta de uma
pessoa...” Confessei que sim, e então ela continuou
EXERCÍCIO
a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-
Identifique as características de Machado de Assis, no
me que eu tinha medo de que você me esquecesse,
texto: mas que não era verdade...
“Cansado e aborrecido, entendi que não podia achar a - Errou! Interrompeu Camilo, rindo.
felicidade em parte nenhuma; fui além: acreditei que ela não - Não diga isso, Camilo. Se você soubesse
existia na terra, e preparei-me desde ontem para o grande
mergulho na eternidade. Hoje, almocei, fumei um charuto e como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já
debrucei-me à janela. No fim de dez minutos, vi passar um lhe disse. Não ria de mim, não ria...
homem bem trajado, fitando a miúdo os pés. Conheci-o de vista:
era uma vítima dos grandes revezes, mas ia risonho, e Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela
contemplava os pés, digo mal, os sapatos. Estes eram novos, de
verniz, muito bem talhados, e possivelmente cosidos a primor. Ele
sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus
levantava os olhos para as janelas, para as pessoas, mas tornava- sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando
os aos sapatos, como por uma lei de atração, anterior e superior
à vontade. Ia alegre, via-se-Ihe no rosto a expressão de bem- tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele
aventurança. Evidentemente era feliz; e talvez, não tivesse mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era
almoçado; talvez mesmo não levasse um vintém no bolso. Mas ia
feliz, e contemplava as botas. imprudente andar por essas casas. Vilela podia
A felicidade será um par de botas? Esse homem, tão sabê-lo, e depois...
esbofeteado pela vida, achou finalmente o riso de fortuna. Nada
vale nada. Nenhuma preocupação deste século, nenhum - Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na
problema social ou moral, nem as tristezas de que termina,
miséria ou guerra de classes, crises da arte e da política, nada
casa.
vale, para ele, um par de botas. Ele fita-se, ele respira-as, ele reluz - Onde é a casa?
com elas, ele calca com elas o chão de um globo que lhe
pertence. Daí o orgulho das atitudes, a rigidez dos passos, e um - Aqui perto, na Rua da Guarda Velha; não
certo ar de tranquilidade olímpica... Sim, a felicidade é um par de passava ninguém nessa ocasião. Descansa; eu não
botas.”
(Machado de Assis - Histórias sem Data) sou maluca.
Camilo riu outra vez:
________________________________________________ - Tu crês deveras nessas coisas? perguntou-
________________________________________________ lhe.
________________________________________________ Foi então que ela, sem saber que traduzia
________________________________________________ Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muita cousa
________________________________________________ misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não

Literatura Brasileira * 117


acreditava, paciência; mas o certo é que a um pouco mais velha que ambos: contava trinta
cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é anos, Vilela vinte e nove e Camilo vinte e seis.
que ela agora estava tranquila e satisfeita. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer
Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se. Não mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um
queria arrancar-lhe as ilusões. Também ele, em ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a
criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um ação do tempo, como os óculos de cristal, que a
arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e natureza põe no berço de alguns para adiantar os
que aos vinte anos desapareceram. No dia em que anos. Nem experiência, nem intuição.
deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só Uniram-se os três. Convivência trouxe
o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da intimidade. Pouco depois morreu a mãe de Camilo,
mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se
dúvida, e logo depois em uma só negação total. grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos
Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente
poderia dizê-lo, não possuía um só argumento; do coração, e ninguém o faria melhor.
limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é Como daí chegaram ao amor, não o soube ele
ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; nunca. A verdade é que gostava de passar as horas
diante do mistério, contentou-se em levantar os ao lado dela; era a sua enfermeira moral, quase uma
ombros, e foi andando. irmã, mas principalmente era mulher e bonita. Odor
Separaram-se contentes, ele ainda mais que di femina: eis o que ele aspirava nela, e em volta
ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não só dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os
o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios.
correr às cartomantes, e, por mais que a Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam
repreendesse, não podia deixar de sentir-se às noites; — ela mal, — ele, para lhe ser agradável,
lisonjeado. A casa do encontro era na antiga rua dos pouco menos mal. Até aí as cousas. Agora a ação
Barbonos, onde morava uma comprovinciana de da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que
Rita. Esta desceu pela Rua das Mangueiras, na procuravam muita vez os dele, que os consultavam
direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes
pela da Guarda Velha, olhando de passagem para a insólitas. Um dia, fazendo ele anos, recebeu de
casa da cartomante. Vilela uma rica bengala de presente, e de Rita
Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma apenas um cartão com um vulgar cumprimento a
aventura e nenhuma explicação das origens. Vamos lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração;
a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho.
Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes,
no funcionalismo, contra a vontade do pai, que ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça,
queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo em que pela primeira vez passeaste com a mulher
preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo.
emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela Assim é o homem, assim são as cousas que o
da província, onde casara com uma dama formosa e cercam.
tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca Camilo quis sinceramente fugir, mas já não
de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os pôde. Rita como uma serpente, foi-se acercando
lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo. dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num
- É o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou
a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo; atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos,
falava sempre do senhor. desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi
Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não
amigos deveras. Depois, Camilo confessou de si tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí
para si que a mulher do Vilela não desmentia as foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando
cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem
gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era padecer nada mais que algumas saudades, quando

118 * Literatura Brasileira


estavam ausentes um do outro. A confiança e estima nossa casa; preciso falar-te sem demora.” Era mais
de Vilela continuavam a ser as mesmas. de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que
Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta teria sido mais natural chamá-lo ao escritório; por
anônima, que lhe chamava imoral e pérfido, e dizia que em casa? Tudo indicava matéria especial, e a
que a aventura era sabida de todos. Camilo teve letra, fosse realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe
medo, e, para desviar as suspeitas, começou a trêmula. Ele combinou todas essas cousas com a
rarear as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as notícia da véspera.
ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma - Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem
paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. As demora, - repetia ele com os olhos no papel.
ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um
inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso drama, Rita subjugada e lacrimosa, Vilela indignado,
um pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir pegando na pena e escrevendo o bilhete, certo de
os obséquios do marido, para tornar menos dura a que ele acudiria, e esperando-o para matá-lo. Camilo
aleivosia do ato. estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo, e em
Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e todo caso repugnava-lhe a ideia de recuar, e foi
medrosa, correu à cartomante para consultá-la sobre andando. De caminho, lembrou-se de ir a casa;
a verdadeira causa do procedimento de Camilo. podia achar algum recado de Rita, que lhe
Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança, e explicasse tudo. Não achou nada, nem ninguém.
que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. Voltou à rua, e a ideia de estarem descobertos
Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu parecia-lhe cada vez mais verossímil; era natural
mais duas ou três cartas anônimas, tão apaixonadas, uma denúncia anônima, até da própria pessoa que o
que não podiam ser advertência da virtude, mas ameaçara antes; podia ser que Vilela conhecesse
despeito de algum pretendente; tal foi a opinião de agora tudo. A mesma suspensão das suas visitas,
Rita, que, por outras palavras mal compostas, sem motivo aparente, apenas com um pretexto fútil,
formulou este pensamento: — a virtude é preguiçosa viria confirmar o resto.
e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não
é ativo e pródigo. relia o bilhete, mas as palavras estavam decoradas,
Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; diante dos olhos, fixas; ou então, - o que era ainda
temia que o anônimo fosse ter com Vilela, e a pior, - eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a
catástrofe viria então sem remédio. Rita concordou própria voz de Vilela. “Vem já, já à nossa casa;
que era possível. preciso falar-te sem demora”. Ditas, assim, pela voz
- Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para do outro, tinham um tom de mistério e ameaça. Vem,
comparar a letra com a das cartas que lá já, já, para quê? Era perto de uma hora da tarde. A
aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo- comoção crescia de minuto a minuto. Tanto imaginou
a... o que se iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo.
Nenhuma apareceu; mas daí a algum tempo Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir
Vilela começou a mostrar-se sombrio, falando pouco, armado, considerando que, se nada houvesse, nada
como desconfiado. Rita deu-se pressa em dizê-lo ao perdia, e a precaução era útil. Logo depois rejeitava
outro, e sobre isso deliberaram. A opinião dela é que a ideia, vexado de si mesmo, e seguia, picando o
Camilo devia tornar à casa deles, tatear o marido, e passo, na direção do Largo da Carioca, para entrar
pode ser até que lhe ouvisse a confidência de algum num tílburi. Chegou, entrou e mandou seguir a trote
negócio particular. Camilo divergia; aparecer depois largo.
de tantos meses era confirmar a suspeita ou “Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso
denúncia. Mais valia acautelarem-se, sacrificando- estar assim...”
se por algumas semanas. Combinaram os meios de Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe
se corresponderem, em caso de necessidade, e a comoção. O tempo voava, e ele não tardaria a
separaram-se com lágrimas. entestar com o perigo. Quase no fim da Rua da
No dia seguinte, estando na repartição, Guarda Velha, o tílburi teve de parar; a rua estava
recebeu Camilo este bilhete de Vilela: “Vem já, já, à atravancada com uma carroça, que caíra. Camilo,

Literatura Brasileira * 119


em si mesmo, estimou o obstáculo, e esperou. No mal alumiada por uma janela, que dava para o
fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à telhado dos fundos. Velhos trastes, paredes
esquerda, ao pé do tílburi, ficava a casa da sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava
cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e do que destruía o prestígio.
nunca ele desejou tanto crer na lição das cartas. A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e
Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as sentou-se do lado oposto, com as costas para a
outras estavam abertas e pejadas de curiosos do janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em
incidente da rua. Dir-se-ia a morada do indiferente cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou
Destino. um baralho de cartas compridas e enxovalhadas.
Camilo reclinou-se no tílburi, para não ver Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para
nada. A agitação dele era grande, extraordinária, e ele, não de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma
do fundo das camadas morais emergiam alguns mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra,
fantasmas de outro tempo, as velhas crenças, as com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três
superstições antigas. O cocheiro propôs-lhe voltar a cartas sobre a mesa, e disse-lhe:
primeira travessa, e ir por outro caminho; ele - Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O
respondeu que não, que esperasse. E inclinava-se senhor tem um grande susto...
para fitar a casa... Depois fez um gesto incrédulo: era Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo.
a ideia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao - E quer saber, continuou ela, se lhe
longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; acontecerá alguma coisa ou não...
desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no - A mim e a ela, explicou vivamente ele.
cérebro; mas daí a pouco moveu outra vez as asas, A cartomante não sorriu; disse-lhe só que
mais perto, fazendo uns giros concêntricos... Na rua, esperasse. Rápido pegou outra vez as cartas e
gritavam os homens, safando a carroça: baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas
- Anda! agora! empurra! vá! vá! descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços,
Daí a pouco estaria removido o obstáculo. uma, duas, três vezes; depois começou a estendê-
Camilo fechava os olhos, pensava em outras las. Camilo tinha os olhos nela, curioso e ansioso.
cousas; mas a voz do marido sussurrava-lhe às - As cartas dizem-me...
orelhas as palavras da carta: “Vem já, já...” E ele via Camilo inclinou-se para beber uma a uma as
as contorções do drama e tremia. A casa olhava para palavras. Então ela declarou-lhe que não tivesse
ele. As pernas queriam descer e entrar... Camilo medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a
achou-se diante de um longo véu opaco... pensou outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante,
rapidamente no inexplicável de tantas cousas. A voz era indispensável muita cautela; ferviam invejas e
da mãe repetia-lhe uma porção de casos despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da
extraordinários; e a mesma frase do príncipe de beleza de Rita... Camilo estava deslumbrado. A
Dinamarca reboava-lhe dentro: “Há mais cousas no cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as
céu e na terra do que sonha a filosofia...” Que perdia na gaveta.
ele, se...? - A senhora restituiu-me a paz ao espírito,
Deu por si na calçada, ao pé da porta; disse disse ele estendendo a mão por cima da mesa e
ao cocheiro que esperasse, e rápido enfiou pelo apertando a da cartomante.
corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os Esta levantou-se, rindo.
degraus comidos dos pés, o corrimão pegajoso; mas - Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato...
ele não viu nem sentiu nada. Trepou e bateu. Não E de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe na
aparecendo ninguém, teve ideia de descer; mas era testa. Camilo estremeceu, como se fosse a mão da
tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as própria sibila, e levantou-se também. A cartomante
fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com
três pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante. passas, tirou um cacho destas, começou a
Camilo disse que ia consultá-la, ela fê-lo entrar. Dali despencá-las e comê-las, mostrando duas fileiras de
subiram ao sótão, por uma escada ainda pior que a dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma
primeira e mais escura. Em cima, havia uma salinha, ação comum, a mulher tinha um ar particular.

120 * Literatura Brasileira


Camilo, ansioso por sair, não sabia como pagasse; olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até
ignorava o preço. onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve
- Passas custam dinheiro, disse ele afinal, assim uma sensação do futuro, longo, longo,
tirando a carteira. Quantas quer mandar buscar? interminável.
- Pergunte ao seu coração, respondeu ela. Daí a pouco chegou à casa de Vilela. Apeou-
Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e deu- se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A
lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O preço usual casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de
era dois mil-réis. pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e
- Vejo bem que o senhor gosta muito dela... E apareceu-lhe Vilela.
faz bem; ela gosta muito do senhor. Vá, vá tranquilo. - Desculpa, não pude vir mais cedo; que há?
Olhe a escada, é escura; ponha o chapéu... Vilela não lhe respondeu; tinha as feições
A cartomante tinha já guardado a nota na decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta
algibeira, e descia com ele, falando, com um leve interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito
sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e de terror: - ao fundo sobre o canapé, estava Rita
desceu a escada que levava à rua, enquanto a morta e ensanguentada. Vilela pegou-o pela gola, e,
cartomante alegre com a paga, tornava acima, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.
cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tílburi ___________________________________________
esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote
___________________________________________
largo.
Tudo lhe parecia agora melhor, as outras ___________________________________________
cousas traziam outro aspecto, o céu estava límpido
___________________________________________
e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que
chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela ___________________________________________
e reconheceu que eram íntimos e familiares. Onde é
___________________________________________
que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu também
que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se ___________________________________________
tanto; podia ser algum negócio grave e gravíssimo.
___________________________________________
- Vamos, vamos depressa, repetia ele ao
cocheiro. ___________________________________________

E consigo, para explicar a demora ao amigo, ___________________________________________


engenhou qualquer cousa; parece que formou
também o plano de aproveitar o incidente para tornar
à antiga assiduidade... De volta com os planos,
reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. 3. ALUÍSIO AZEVEDO
Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o (1857 - 1913)
estado dele, a existência de um terceiro; por que não Aluísio Tancredo Gonçalves de Azevedo
adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o nasceu em São Luís, Maranhão, em 1857. Depois
futuro. Era assim, lentas e contínuas, que as velhas de seus primeiros estudos, dedicou-se ao comércio,
crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o como caixeiro. Com quatorze anos, estudou pintura
mistério empolgava-o com as unhas de ferro. Às no Liceu Maranhense, mas não concretizou seus
vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas objetivos neste campo artístico. Iniciou na imprensa
a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, como caricaturista de “O Figaro” e, em 1878, foi
a exortação: — Vá, vá, ragazzo innamorato; e no fim, obrigado a voltar a São Luís devido à morte do pai.
ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, Nessa época, publicou o romance Uma lágrima de
tais eram os elementos recentes, que formavam, Mulher, ainda de inspiração romântica. As leituras de
com os antigos, uma fé nova e vivaz. Zola e Eça mostraram-lhe um novo caminho. Em
A verdade é que o coração ia alegre e 1881, publicou, então, O Mulato, com o qual
impaciente, pensando nas horas felizes de outrora e inaugurou o Naturalismo na literatura brasileira. O
nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória, Camilo romance provocou violenta reação na sociedade

Literatura Brasileira * 121


maranhense, coagindo-o a retornar ao Rio de vem de dentro para fora e que o outro vem de fora
Janeiro. Dessa fase em diante, dedicou-se à para dentro. Não se lembrava, o infeliz, de que o
literatura e à imprensa, publicando romances, primeiro existirá fatalmente, por uma lei indefectível
escrevendo folhetins e contos na imprensa. da natureza; ao passo que o segundo só aparecerá
Aprovado em concurso, foi nomeado para o cargo se lhe derem elementos de vida”.
de vice-cônsul em Vigo (Espanha). Fora do Brasil, (Casa de Pensão)
abandonou a carreira de escritor, deixando apenas
um livro como registro de suas viagens pelo Oriente.
Faleceu em Buenos Aires, em 1913. (...) “mas desde que Jerônimo propendeu para
Na carreira literária de Aluísio Azevedo, ela, fascinando-a com a sua tranquila seriedade de
distinguimos duas fases: a composição de obras animal bom e forte, o sangue da mestiça reclamou
para imprensa, com o intuito de se sustentar na vida os seus direitos de apuração, e Rita preferiu no
modesta e sem recursos, e a produção de europeu o macho de raça superior. O cavouqueiro,
verdadeiras obras-primas em que se encontram os pelo seu lado, cedendo às imposições mesológicas,
romances de intenção artística, quando adere ao enfarava a esposa, sua congênere, e queria a
espírito naturalista e passa a analisar o mulata, porque a mulata era o prazer, era a volúpia,
comportamento da sociedade burguesa. era o fruto dourado e acre destes sertões
À linha folhetinesca pertencem: Memórias de americanos, onde a alma de Jerônimo aprendeu
um Condenado, publicado posteriormente com o lascívias de macaco e onde seu corpo porejou o
título de A Condessa Vésper, Mistérios da Tijuca, cheiro sensual dos bodes.”
(reeditado com o nome de Girândola dos Amores), (O Cortiço)
Filomena Borges, O Esqueleto e A Mortalha de
Alzira. São livros de feição romântica, escritos para
satisfazer às solicitações do jornal. Neste último fragmento, temos uma descrição
À linha artística filiam-se O Mulato, Casa de bastante objetiva do suicídio de Bertoleza. Atente-se
Pensão, O Coruja, O Homem, O Cortiço e O Livro para a ausência de sentimentalismo e para a
de Uma Sogra. animalização da personagem:
Aluísio Azevedo - disse Valentim Magalhães - “Os policiais, vendo que ela não se
“é no Brasil talvez o único escritor que ganha o pão despachava, desembainharam os sabres. Bertoleza
exclusivamente à custa de sua pena, mas note-se então, erguendo-se com ímpeto de anta bravia,
recuou de um salto e, antes que alguém conseguisse
que apenas ganha o pão: as letras no Brasil ainda
alcançá-Ia, já de um só golpe certeiro e fundo
não dão para a manteiga”.
rasgara o ventre de lado a lado.
E depois emborcou para a frente, rugindo e
“Aluísio Azevedo foi um dos raros romancistas
esfocinhando moribunda numa lameira de sangue.”
de massas na literatura brasileira”. (Lúcia Miguel
(O Cortiço)
Pereira)

Os romances do autor são teses que


objetivam provar determinadas concepções
CARACTERÍSTICAS DE SUA OBRA:
consideradas científicas no século XIX. A seguir
temos exemplos em que o autor se utiliza de
Os diálogos são vivos e naturais. As
situações vividas pelos personagens para afirmar
descrições minuciosas e precisas. O romancista não
certas teses sobre a determinação sociobiológica do
comportamento do homem: se preocupa em criar tipos que permaneçam, pela
“E não se lembrava, o imprudente, de que o sua originalidade e pela personalidade identificadora
amor de pai é bem contrário ao amor de filho; não e singular. Sua ocupação artística reside em verificar
se lembrava de que aquele nasce e subsiste por si e o comportamento social dos seres que cria. Melhor
que este precisa ser criado; que aquele é um ainda: quer sondar até que ponto o social é capaz
princípio e que este é uma consequência; que um de determinar a vida individual do ser humano, como

122 * Literatura Brasileira


ocorre com os inúmeros portugueses que pululam 4. RAUL POMPEIA
no livro, todos aos poucos se condicionando ao (1863 - 1895)
clima, ao meio tropical brasileiro, perdendo suas
qualidades sóbrias e modestas para caírem vítimas O Ateneu é a obra-prima.
do sensualismo tropical e da malandragem coletiva
que domina a todos. O que seus personagens CARACTERÍSTICAS:
possuem de interior é revelado no retrato superficial
e ligeiro, na reiteração dos gestos e na repetição dos A obra O Ateneu compõe-se de uma série de
mesmos tiques e cacoetes: uso de determinadas episódios e reflexões sobre a vida de internato (o
palavras, modo de andar, jeito de se vestir, relacionamento entre os adolescentes, o ensino, os
movimento do corpo, das mãos, dos olhos. Sua professores, as efemérides), apresentados pelo
preferência é pelo cotidiano, pelo comum a todos, narrador memorialista (Sérgio).
pela visão inteiriça e total da sociedade, ou melhor, No fragmento que segue, percebe-se a crítica
dos aspectos sórdidos e negativos da sociedade. Por social à instituição escolar, prática recorrente na
isso, sua linguagem tem que ser clara, simples, estética realista que põe em xeque todos os valores
direta e correta, além de viva, palpitante e incisiva. sociais. Aqui a escola, em vez de templo do saber,
O Cortiço é sua obra-prima. Aluísio se apenas reflete o social em que predomina a lei do
preocupa, acima de tudo, em mostrar o proce- mais forte.
dimento da coletividade. O protagonista do romance “Isto é uma multidão, é preciso força dos
é o ambiente do cortiço, com toda a movimentação cotovelos para romper. Não sou criança, nem idiota;
de seus personagens. vivo só e vejo de longe; mas vejo. Não pode
imaginar. Os gênios fazem aqui dois sexos, como se
Enredo: fosse uma escola mista. Os rapazes tímidos,
João Romão, empregado dum vendeiro, ingênuos, sem sangue, são brandamente impelidos
consegue comprar a venda do patrão, depois de para o sexo da fraqueza; são dominados, festejados,
muito economizar. Constrói, então, um conjunto de pervertidos como meninas ao desamparo. Quando,
casinhas, que formam o “O Cortiço São Romão”. em segredo dos pais, pensam que o colégio é a
Amiga-se com Bertoleza, a escrava que se submete melhor das vidas, com o acolhimento dos mais
a todas as privações para servir a ele, que considera velhos, entre brejeiro e afetuoso, estão perdidos...
seu senhor. O cortiço progride, desenvolve-se e Faça-se homem, meu amigo! Comece por não
expande-se através dos dramas, vícios e paixões de admitir protetores”.
seus habitantes. Quando fica rico, João Romão, para
ascender socialmente, vai casar-se com Zulmira, A obra apresenta traços impressionistas, ou
filha de um aristocrata, vizinho de suas propriedades. seja, o autor não retrata a realidade diretamente,
Bertoleza suicida-se. mas a impressão que ela produz.
A grande preocupação do autor é apresentar
e analisar os mais variados tipos humanos que Poderemos verificar a presença do
constituem o pequeno mundo do cortiço: Leandra (a Impressionismo no exemplo abaixo, no qual se
machona), Jerônimo (o cavouqueiro português), revela a impressão que o autor guardou do diretor
Firmo (o capoeira), Libório (o velho interesseiro), da escola (Aristarco):
Pombinha (a moça transformada em meretriz).
Aluísio Azevedo é, pois, o romancista social. “... mas o retrato que me ficou para sempre do
Em O Mulato, retrata a vida da província, apre- meu diretor, foi aquele - o belo bigode branco, o
sentando contundente crítica ao preconceito de cor; queixo barbeado, o olhar perdido nas trevas,
em Casa de Pensão, espelha a cidade do Rio de fotografia estática, na aventura de um raio elétrico”.
Janeiro, espaço característico de sua ficção.

Literatura Brasileira * 123


4. JÚLIO CÉSAR RIBEIRO dimento, exalta a boa moral da província contra a
(1845 - 1890) corrupção reinante nos grandes centros.
Filho de pai norte-americano, dedicou-se ao É possuidor de um estilo muito preciso e
jornalismo e ao ensino. Era franco abolicionista e, inflamado quando caricatura seus inimigos ou
em seu jornal, em Sorocaba, eram proibidos descreve cenas abomináveis.
anúncios sobre escravos fugidos. Bateu-se pelos No fragmento que segue, veem-se passagens
ideais republicanos. Foi também filósofo. bem naturalistas, enfatizando a tese do determinis-
mo biológico. A personagem, desprovida de razão, é
OBRAS: dominada pelo instinto sexual, animalizando-se:
ROMANCES: O Padre Belchior de Pontes “Seu instinto de mulher nova acordara agora
(1876 - 77) obscurecendo-lhe todas as outras faculdades, ao
A Carne (1888) cheiro almiscarado que transudava dos sovacos de
DIVERSOS: Cartas Sertanejas (1885) João da Mata. Coisa extraordinária! aquele fartum
Gramática Portuguesa (1881 ) de suor e sarro de cachimbo produzia-Ihe um efeito
Procelárias (trabalhos em periódicos) singular nos sentidos, como uma mistura de
essências sutis e deliciosas, desconsertando-Ihe as
CARACTERÍSTICAS: ideias. Uma coisa impelia-a para o padrinho, sem
que ela compreendesse exatamente essa força
Era intransigente nas suas opiniões: polêmico oculta e misteriosa”.
por natureza, revidou as críticas feitas a seu livro A (A Normalista)
Carne pelo Padre Sena Freitas, com uma verdadeira
enxurrada de insultos.
Esses artigos fazem parte de Procelárias. O
EXERCÍCIOS
romance A Carne foi recebido com pedradas e, nas
épocas posteriores, continuou a sofrer críticas. É um
dos livros mais reeditados no Brasil e sempre 1. Cite três fatores que influíram no aparecimento do Realismo.
esgotado, merecendo inclusive uma edição ________________________________________________
cinematográfica. _____________________________________________
_____________________________________________
_____________________________________________
5. ADOLFO FERREIRA CAMINHA
_____________________________________________
(1867 - 1897)
Adepto da República, amigo da liberdade,
2. O Realismo foi inaugurado na França, em 1857, por Flaubert
escreveu artigo protestando contra os castigos e a obra:
corporais a bordo dos navios de guerra. ________________________________________________

_____________________________________________
OBRAS:
A Normalista (1893) 3. No Brasil, o Realismo iniciou-se em 1881, com a obra:

Bom Crioulo (1895) ________________________________________________


Tentação (1896) _____________________________________________

4. Cite cinco características realistas:


CARACTERÍSTICAS:
________________________________________________
Em o Bom Crioulo, versa com minúcias, por
_____________________________________________
vezes repugnantes, sobre o homossexualismo, ao
________________________________________________
mesmo tempo em que condena os castigos
aplicados aos negros, alusão clara aos castigos 5. Como podemos caracterizar o romance realista?

corporais em voga na marinha. ________________________________________________

Em A Normalista, ridiculariza o provincianismo _____________________________________________


tacanho, e, em Tentação, numa espécie de arrepen- ________________________________________________

124 * Literatura Brasileira


6. Quais os três elementos a que Taine condicionava a obra c) centrou suas críticas na sociedade de sua época; por isso
literária? está ultrapassado: o homem moderno não pode ver-se
________________________________________________ em suas personagens.
d) investigou em profundidade o homem universal, nas
_____________________________________________ personagens cotidianas, indo além da crítica à sociedade.
e) norteou-se pelos princípios do Naturalismo, ressaltando
7. A obra que inaugurou o Naturalismo no Brasil foi sempre os fatores biológicos do comportamento humano.
_______________________________de Aluísio Azevedo,
14. Pode-se dizer a respeito de Aluísio Azevedo:
em___________________, mas sua obra-prima foi: a) Em seus romances encontramos análises profundas da
psicologia das personagens, o que o associa ao realismo
________________________________________________
machadiano.
b) Sua primeira obra naturalista atacava o preconceito racial
8. Por que o romance naturalista recebe o nome de arraigado na província.
experimental? c) Apesar de colocar suas personagens no cenárío de
________________________________________________ cortiços ou casas de pensão, faz com que vivam o amor
de acordo com a concepção romântica.
_____________________________________________ d) Não escreveu para teatro, mas desenvolveu, paralela-
_____________________________________________ mente à ficção, uma vasta obra crítica teatral.
e) Foi naturalista tão ferrenho, que atacou os romancistas
de sua geração que ainda cultivavam os folhetins
9. Cite cinco características naturalistas. românticos.
________________________________________________
15. Qual das afirmações abaixo, sobre O Cortiço, de Aluísio
_____________________________________________
Azevedo, é correta?
_____________________________________________ a) É uma das obras românticas do autor, pela exuberância
das descrições da paisagem urbana.
b) É um romance social, com uma personagem dominante:
10. Destaque as características que diferenciam Realismo do
Naturalismo: a habitação coletiva, dentro da qual se movem criaturas
oprimidas e marginalizadas.
________________________________________________ c) É o primeiro romance naturalista brasileiro e centra-se na
_____________________________________________ denúncia do preconceito racial no Maranhão.
d) É um romance de análise introspectiva, centrada no amor
_____________________________________________
puro de uma adolescente que vem a ser corrompida pelo
________________________________________________ meio social em que vive.
e) É um romance panfleto, que denuncia os problemas
_____________________________________________
sociais existentes no Maranhão, sobretudo os cortiços.
_____________________________________________
16. (FCC-RJ) Os romances Memórias Póstumas de Brás Cubas
e O Mulato, do último quartel do século XIX, inauguram
Nas questões a seguir, assinale a resposta certa:
concepções estéticas e filosóficas que se opõem ao:
11. De origem humílima (filho de um mulato e de uma lavadeira a) Romantismo;
portuguesa dos Açores), tornou-se um dos maiores escritores b) Arcadismo;
brasileiros. Sua obra é polimórfica: abrange a poesia, o conto, c) Realismo;
o romance, a crônica, o teatro e o ensaio.
d) Simbolismo;
Estes breves dados bibliográficos correspondem a:
a) José de Alencar; e) Naturalismo.
b) Machado de Assis;
c) Mário de Andrade; 17. (Santa Casa - SP) “De um casebre miserável, de porta e
d) Monteiro Lobato; janela, ouviam-se gritar os armadores enferrujados de uma
e) Érico Veríssimo. rede e uma voz tísica e aflautada, de mulher, cantar em
falsete a ‘gentil Carolina era bela’ (...) Os cães, estendidos
12. São constantes no romance machadiano:
a) o humor fino, a preferência pela psicologia feminina, o pelas calçadas, tinham uivos que pareciam gemidos
pessimismo, o tom filosófico. humanos, movimentos irascíveis, mordiam o ar, querendo
b) a ironia, a preferência pela psicologia masculina, a morder os mosquitos”.
revolta, os capítulos curtos.
c) o senso de proporção, o vocábulo preciso, a crença na A denúncia de profundos desajustes, originários de um
bondade humana, a sátira.
ambiente degradado pela miséria - que muitas vezes reduz o
d) o humor fino, a preferência pela psicologia masculina, o
pessimismo, o tom filosófico. homem a um caso de patologia social e humana - é
e) a ironia, o senso de proporção, preferência pela psicologia preocupação frequente de certa corrente literária. O excerto
feminina, os capítulos curtos, a sátira. acima, que exemplifica essa tendência, é representativo:
a) do primeiro momento do Romantismo;
13. Machado de Assis, na sua obra de ficção narrativa:
b) do Simbolismo;
a) começou romântico e como tal se manteve na idealização
com que descreve as personagens de suas obras. c) do Ultrarromantismo;
b) condenou o Romantismo e introduziu no Brasil o d) do Naturalismo;
Realismo, que só trocou pelo Naturalismo. e) da primeira geração modernista.

Literatura Brasileira * 125


Parnasianismo

PROFISSÃO DE FÉ Torce, aprimora, alteia, lima


A frase; e, enfim,
“Le poète est ciseleur, No verso de ouro engasta a rima,
Le ciseleur est poète.” Como um rubim.
Victor Hugo
Quero que a estrofe cristalina,
Dobrada ao jeito
“Não quero o Zeus Capitolino, Do ourives, saia da oficina
Hercúleo e belo, Sem um defeito:
Talhar no mármore divino
Com camartelo. E que o lavor do verso, acaso,
Por tão sutil,
Que outro - não eu - a pedra corte Possa o lavor lembrar de um vaso
Para, brutal De Becerril.
Erguer de Atene o altivo porte
Descomunal. E horas sem conta passo, mudo,
O olhar atento,
Mais que esse vulto extraordinário, A trabalhar, longe de tudo
Que assombra a vista, O pensamento.
Seduz-me um leve relicário
De fino artista. Porque o escrever - tanta perícia,
Tanta requer,
Invejo o ourives quando escrevo: Que ofício tal... nem há notícia
Imito o amor De outro qualquer.
Com que ele, em ouro, o alto relevo
Faz de uma flor. Assim procedo. Minha pena
Segue esta norma,
Imito-o. E, pois, nem de Carrara Por te servir, Deusa serena,
A pedra firo: Serena forma!
O alvo cristal, a pedra rara,
O ônix prefiro. Deusa! a onda vil, que se avoluma
De um torvo mar,
Por isso, corre, por servir-me, Deixa-a crescer; e o lodo e a espuma
Sobre o papel Deixa-a rolar!
A pena, como em prata firme
Corre o cinzel. Blasfemo, em grita surda e horrendo
ímpeto, o bando
Corre; desenha, enfeita a imagem, Venha dos bárbaros crescendo,
A ideia veste: Vociferando...
Cinge-lhe ao corpo a ampla roupagem
Azul-celeste. Deixa-o: que venha e uivando passe .

Literatura Brasileira * 127


- Bando feroz! Ver esta língua, que cultivo,
Não se te mude a cor da face Sem ouropéis,
E o tom da voz! Mirrada ao hálito nocivo
Dos infiéis!...
Olha-os somente, armada e pronta,
Radiante e bela; Não! morra tudo que me é caro,
E, ao braço o escudo, a raiva afronta Fique eu sozinho!
Dessa procela! Que não encontre um só amparo
Em meu caminho!
Este que à frente vem, e o todo
Possui minaz Que a minha dor nem a um amigo
De um vândalo ou de um visigodo, Inspire dó...
Cruel e audaz! Mas, ah! que eu fique só contigo,
Contigo só!
Este, que, de entre os mais, o vulto
Ferrenho alteia, Vive! que eu viverei, servindo
E, em jato, expele o amargo insulto Teu culto, e, obscuro,
Que te enlameia: Tuas custódias esculpindo
No ouro mais puro,
É em vão que as forças cansa, e à luta
Se atira; é em vão Celebrarei o teu ofício
Que brande no ar a maça bruta No altar: porém,
À bruta mão. Se ainda é pequeno o sacrifício,
Morra eu também!
Não morrerás, Deusa sublime!
Do trono egrégio Caia eu também, sem esperança,
Assistirás intacta ao crime Porém tranquilo,
Do sacrilégio. Inda, ao cair, vibrando a lança,
Em prol do Estilo!”
E, se morreres por ventura, (Olavo Bilac)
Possa eu morrer
Contigo, e a mesma noite escura É-nos difícil, em outra época, com outros
Nos envolver! valores, entender tamanho “amor” do poeta pela
Língua e pela FORMA, mas o poema serve muito
Ah! ver por terra, profanada, bem para mostrar a preocupação fundamental dos
A ara partida; poetas parnasianos, ou seja, a BUSCA DA
E a arte imortal aos pés calcada, PERFEIÇÃO FORMAL.
Prostituída!...
EXERCÍCIOS

Ver derrubar de eterno sólido


Agora, após tomar fôlego, resolva os exercícios propostos que o
O Belo, e o som ajudarão a entender o PARNASIANISMO:
Ouvir da queda do Acropólio, RESPONDA O QUE SE PEDE:
Do Partenon!...
1. A que se compara o poeta ao elaborar uma poesia? Por quê?

_________________________________________________
Sem sacerdotes, a crença morta
_________________________________________________
Sentir, e o susto
Ver, e o extermínio, entrando a porta 2. Que tipo de cultura é evocada no decorrer de todo o poema ?

Do templo augusto!... _________________________________________________

_________________________________________________

128 * Literatura Brasileira


3. Que tipo de sintaxe predomina: a ordem direta ou ordem 8. Qual a ideia central da 13ª estrofe?
inversa? Por quê? Transcreva versos que exemplifiquem:
_________________________________________________
_________________________________________________
_________________________________________________
_________________________________________________
_________________________________________________
4. Segundo o texto, quais as condições necessárias para a _________________________________________________
efetivação do trabalho poético?

_________________________________________________ 9. Lendo essa proposta de poesia, você conclui que é mais


_________________________________________________ importante o conteúdo, a mensagem ou a forma, a técnica?

_________________________________________________
5. Na 12ª estrofe, o poeta fala sobre o ofício de escrever. É,
segundo ele, fácil ou difícil escrever bem? Por quê? _________________________________________________
_________________________________________________ 10. Considerando que a Língua é uma realidade histórica sujeita
_________________________________________________ a mudanças, o ideal do poeta (cristalização da linguagem) é
viável? Por quê?
6. O texto reflete a impassibilidade pregada pelos poetas _________________________________________________
parnasianos? Explique.
_________________________________________________
_________________________________________________

_________________________________________________

7. Os parnasianos buscavam encontrar palavras raras e


incomuns... Localize algumas dessas palavras no texto e
procure seu sentido no dicionário.

_________________________________________________

_________________________________________________

_________________________________________________

_________________________________________________

SÍNTESE GRÁFICA DO MOVIMENTO PARNASIANO

Obsessão Perfeccionismo na Riqueza de


formal construção do poema vocabulário

Esteticismo

Universalismo:
Realismo Arte
Orientalismo,
Materialismo e pela
Helenismo
Pessimismo Arte
e Romanismo

Aproximação das
artes plásticas:
poesia“Pintura”
e poesia “Escultura”.

Impassiblidade: Descritivismo: Precisão, Clareza e


Controle Emocional Atitude de Observação Objetividade

Literatura Brasileira * 129


PARNASIANISMO foi uma fase de reação AUTORES DO PERÍODO
contra o ROMANTISMO e correspondeu, na poesia,
àquilo que o Realismo representou na prosa. O 1. ALBERTO DE OLIVEIRA
nome provém da revista francesa Parnaso (Poeta das Palmeiras)
Contemporâneo (Le Parnase Contemporain), revista (1859 - 1937)
literária que preconizava os ideais da Escola. Foi ali
que nossos poetas buscaram seus modelos. É CARACTERÍSTICAS:
interessante notar-se também que tal movimento só - Técnica de composição apurada.
existiu, ao menos com expressão, na França e no - Ritmo elegante, vocabulário preciso e rimas
trabalhadas.
Brasil.
- Predomínio da descrição de paisagens e
Determina-se o início do Parnasianismo no objetos.
Brasil no ano de 1882, com a publicação de - Impassível de início, vai aderindo ao lirismo
FANFARRAS, de TEÓFILO DIAS. objetivo.

CARACTERÍSTICAS: OBRAS:
Canções Românticas; Meridionais; Versos e
Além das características gerais da ESCOLA
Rimas; Sonetos e Poemas; Poesias (4 séries); Livro
REALISTA, o Parnasianismo exigia técnica de
de Ema.
composição muito severa.

Eis as principais características:


COMPOSIÇÕES CONSAGRADAS:
• A perfeição está na forma.
• Correção absoluta de linguagem, com Vaso Grego, Vaso Chinês, Aspiração, O Muro,
predomínio da ordem indireta. Alma em Flor.
• Comedimento no emprego de figuras de
ornamento. ALMA EM FLOR
• Musicalidade nos versos, adquirida, princi-
“Sei que um perfume intenso em tudo havia.
palmente, na variedade de vogais.
Era enfeitada e nova a laranjeira,
• Emprego de rimas ricas e raras; de palavras
E o pomar verde pela vez primeira
raras, incomuns.
Florido era na agreste serrania.
• Arte pela arte; ela existe somente para si
mesma e não em função da moral, religião, etc. Com botões de ouro e a espada luzidia
• Poesia descritiva, com predomínio da Rachando ao sol a tropical palmeira;
descrição do real, mas não da análise. Era sertão, era a floresta inteira
• Preferência por formas poéticas fixas, Que em corimbos, festões e luz se abria.
especialmente o SONETO.
Sei que um frêmito de asas multicores
• Gosto pelo exotismo.
Se ouvia. Eram insetos aos cardumes
• Contenção emotiva.
A rebolir, fosforescendo no ar
• Desprezo aos temas individuais.
• Objetividade e impassibilidade na com- Era a criação toda, aves e flores,
posição. Flores e sol, e astros e vagalumes
A amar... a amar... E que ânsia em mim de amar”.
Os poetas brasileiros não conseguiram atingir
a tal impassibilidade e objetividade, criando um Observe:
“lirismo objetivo”, em que entram o amor, a saudade, a) O texto é essencialmente descritivo.
a despedida, a solidão, os sonhos e a evasão. b) Há presença da palmeira e das flores.
c) A rima é formada por classes de palavras
diferentes, rica, portanto.
d) O autor tem preferência pela ordem inversa.

130 * Literatura Brasileira


e) O texto pertence à fase de maturidade do poeta Se se pudesse, o espírito que chora,
(Poesias 2ª Edição) e o mostra mais emotivo. Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
VASO CHINÊS Nos causa, então piedade nos causasse!

“Estranho mimo aquele vaso! Vi-o, Quanta gente que ri, talvez, consigo
Casualmente, uma vez, de um perfumado Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Contador sobre o mármor luzidio, Como invisível chaga cancerosa!
Entre um leque e o começo de um bordado.
Quanta gente que ri, talvez existe,
Fino artista chinês, enamorado, Cuja ventura única consiste
Nele pusera o coração doentio Em parecer aos outros venturosa!”
Em rubras flores de um sutil lavrado,
Na tinta ardente, de um calor sombrio. Observe:
a) Opção pelo soneto, forma cara aos parna-
Mas, talvez por contraste à desventura, sianos.
Quem o sabe?... de um velho mandarim b) Poesia existencialista/psicológica, tematizan-
Também lá estava a singular figura: do a dicotomia existente entre essência e
aparência.
Que arte em pintá-la! A gente acaso vendo-a, c) Percepção negativa do homem, enfatizando a
Sentia um não sei quê com aquele chim dor, a angústia e a miséria humana.
De olhos cortados à feição de amêndoa.”

AS POMBAS
2. RAIMUNDO CORREIA
“Vai-se a primeira pomba despertada...
(Poeta das Pombas)
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
(1860-1911)
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada...
CARACTERÍSTICAS:
E à tarde, quando a rígida nortada
- Sentimento de transitoriedade.
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
- Preocupação existencial.
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
- Grande sensibilidade e poder pictórico.
- A poesia atinge profundidade psicológica. Voltam todas em bando e em revoada...
- Poesia filosófica e pessimista.
Também dos corações onde abotoam
OBRAS: Os sonhos, um por um, céleres voam,
Primeiros Sonhos; Sinfonias; Versos e Como voam as pombas dos pombais;
Versões; Aleluias; Poesias.
No azul da adolescência as asas soltam,
COMPOSIÇÕES CONSAGRADAS: Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
Mal Secreto, As Pombas, A Cavalgada, E eles aos corações não voltam mais... ”
Banzo.

MAL SECRETO

“Se a cólera que espuma, a dor que mora


N’ alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Literatura Brasileira * 131


3. OLAVO BRAZ MARTINS DOS Morrerei de aflição e de saudade...
GUIMARÃES BILAC Espera! até que o dia resplandeça,
(Poeta das Estrelas) Aquece-me com tua mocidade!
(1865 - 1918)
Sobre o teu colo deixa-me a cabeça
CARACTERÍSTICAS: Repousar, como há pouco repousava...
Espera um pouco! deixa que amanheça!’
- Busca o perfeccionismo formal.
- Presença do sentimentalismo e subjeti-
- E ela abria-me os braços. E eu ficava.
vismo.
- Cultivou o lirismo amoroso-erótico. II
- Empreendendor de campanhas naciona-
E, já manhã, quando ela me pedia
listas.
Que de seu claro corpo me afastasse,
Eu, com olhos em lágrimas, dizia:
OBRAS:
Poesias (1888) que compreende: “Não pode ser! Não vês que o dia nasce?’”
a) Panóplias (rigorosamente parnasiano);
b) Via-Láctea (lirismo singelo, amorosidade);
c) Sarças de Fogo (erótico); OUVIR ESTRELAS
d) O Caçador de Esmeraldas (épico);
e) Alma Inquieta. “‘Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!’ E eu vos direi, no entanto,
Poesias Infantis: Que, para ouvi-las, muita vez desperto
Tarde (1919), (serenidade, meditativo). E abro as janelas, pálido de espanto...

COMPOSIÇÕES CONSAGRADAS: E conversamos toda a noite, enquanto


Ouvir Estrelas, Nel Mezzo del Camin, Língua A via-láctea, como um pálio aberto,
Portuguesa, O Julgamento de Frineia, Satânia, Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inania Verba, Hino à Bandeira. Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: ‘Tresloucado amigo!


TERCETOS Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?’
I

“Noite ainda, quando ela me pedia E eu vos direi: ‘Amai para entendê-las!
Entre dois beijos que me fosse embora, Pois só quem ama pode ter ouvido
Eu, com os olhos em lágrimas, dizia: Capaz de ouvir e de entender estrelas.’”

‘Espera ao menos que desponte a aurora!


NEL MEZZO DEL CAMIN...
Tua alcova é cheirosa como um ninho...
E olha que escuridão há lá por fora!
“Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Como queres que eu vá, triste e sozinho,
Tinhas a alma de sonhos povoada,
Casando a treva e o frio de meu peito
E a alma de sonhos povoada eu tinha...
Ao frio e à treva que há pelo caminho?!
E paramos de súbito na estrada
Ouves? é o vento! é um temporal desfeito! Da vida: longos anos, presa à minha
Não me arrojes à chuva e à tempestade! A tua mão, a vista deslumbrada
Não me exiles do vale do teu leito! Tive da luz que teu olhar continha.

132 * Literatura Brasileira


Hoje, segues de novo... Na partida Não se mostre na fábrica o suplício
Nem o pranto os teus olhos umedece, Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Nem te comove a dor da despedida. Sem lembrar os andaimes do edifício:

E eu, solitário, volto a face, e tremo, Porque a Beleza, gêmea da Verdade,


Vendo o teu vulto que desaparece Arte pura, inimiga do artifício,
Na extrema curva do caminho extremo.” É a força e a graça na simplicidade.”

Apesar dos poetas parnasianos se colocarem


O fragmento a seguir revela a opção do poeta
como antirromânticos, nesses poemas encontramos
pelo veio cívico:
um Olavo Bilac sentimental, romântico e subjetivo.
Comprove estas afirmações a partir de elementos
“Ama com fé e orgulho a Terra em que nasceste
dos textos. Estabeleça um paralelo destes poemas
Criança, não verás nenhum país como este
com o poema “Ainda Uma Vez Adeus” de Gonçalves
Olha que céu, que mar, que rio, que florestas
Dias, presente na parte do Romantismo desta A natureza, aqui, perpetuamente em festa,
apostila. É um seio de mãe a transbordar carinhos”.

LÍNGUA PORTUGUESA

“Última flor do Lácio, inculta e bela, 4. VICENTE AUGUSTO DE


És, a um tempo, esplendor e sepultura; CARVALHO
Ouro nativo, que, na ganga impura, (Poeta do Mar)
A bruta mina entre os cascalhos vela... (1866 -1924)

Amo-te assim, desconhecida e obscura, CARACTERÍSTICAS:


Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela, - Poesia acentuadamente lírica.
E o arrolo da saudade e da ternura! - Temas preferidos: natureza e mar.

Amo o teu viço e o teu aroma OBRAS:


De virgens selvas e de oceanos largos! Ardentias; Relicário; Rosa, Rosa de Amor;
Amo-te, ó rude e doloroso idioma, Poemas e Canções.

Em que da voz materna ouvi: ‘meu filho!’


E em que Camões chorou, no exílio amargo, VELHO TEMA
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!”
“Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada;
A UM POETA Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.
“Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego O eterno sonho da alma desterrada,
Do claustro, na paciência e no sossego, Sono que a traz ansiosa e embevecida,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua! É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.
Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva se construa Essa felicidade que supomos,
De tal modo, que a imagem fique nua, Árvore milagrosa que sonhamos
Rica mas sóbria, como um templo grego. Toda arreada de dourados pomos,

Literatura Brasileira * 133


Existe, sim: mas nós não a alcançamos No poema a seguir, o poeta trata, entre outros
Porque está sempre apenas onde a pomos temas, da morte, motivo recorrente em sua poética:
E nunca a pomos onde nós estamos.”
“Vida, não tens os ódios nem a estima
PALAVRAS AO MAR De quem o gozo teu não desconhece.
Conhecendo, entretanto, a farta messe
“Mar, belo mar selvagem De dissabores que o teu seio anima.
Das nossas praias solitárias! Tigre
A que as brisas da terra o sono embalam, Do mal abaixo e da bondade acima
A que o vento do largo eriça o pelo! Esta se alteia quando aquele desce,
Ouço-te às vezes revoltado e brusco, E, muda a voz, sem pragas e sem prece,
Escondido, fantástico, atirando Não há quem, alto, tal estado exprima.
Pela sombra das noites sem estrelas
A blasfêmia colérica das ondas... Logo velado por neblinas densas
À luz do sol e ao luar sempre escondido,
Também eu ergo às vezes
Noss’alma, em nada crê, nem tem descrenças.
Imprecaçães, clamores e blasfêmias
Contra essa mão desconhecida e vaga E ó morte, eu te desejo convencido
Que traçou meu destino... Crime absurdo E orgulhoso do bem que me dispensas,
O crime de nascer! Foi o meu crime. Na glória de morrer sem ter vivido! ...”
E eu expio-o vivendo, devorado
Por esta angústia do meu sonho inútil.
Maldita a vida que promete e falta,
Que mostra o céu prendendo-nos à terra, EXERCÍCIOS
E, dando as asas, não permite o voo!”

1. Assinale a alternativa correta:

I. A poesia realista chamou-se:


Fragmento naturista, poetizando o mar, motivo
recorrente em Vicente de Carvalho. Da fusão do a) Simbolismo;
b) Modernismo;
sensorial e do emotivo nasce uma linguagem rica em c) Marinismo;
imagens da natureza e em ressonâncias d) Parnasianismo;
e) Eufuísmo.
psicológicas e existenciais. O tom é pessimista e
melancólico, característica da poesia parnasiana em
II. A poesia parnasiana:
geral.
a) preocupava-se com o subjetivismo exagerado do autor.
b) tinha em mira apenas os problemas contemporâneos do
poeta.
c) fazia arte pela arte e se voltava ao passado das
civilizações clássicas.
5. EMÍLIO DE MENEZES d) era de uma nostalgia sem limites.
(O Último Boêmio) e) não se preocupava com a linguagem.

(1866 - 1918)
2 - Coloque ‘x’ nas afirmações certas:

Curitibano de nascimento, viveu no Rio, sendo ( ) O surgimento da poesia parnasiana fez desaparecer,
na época, o interesse pela poesia romântica, cujo
muito apreciado pelo seu humor e poesia satírica. último grande nome fora Castro Alves, falecido em
1871.
Sua poesia é difícil pela preocupação constante com ( ) O Parnasianismo constitui-se numa corrente poética de
a rima rara, tornando o vocabulário inatingível e vanguarda e teve, por isso, enorme repercussão e
aceitação no movimento modernista.
bizarro. Apesar do homem brincalhão, suas poesias ( ) Em geral, o poeta parnasiano preza mais a forma do
refletem preocupação acentuada com a morte. que o conteúdo.
( ) Uma das tarefas centrais do Parnasianismo foi dar
roupagem nova à tradição clássica, fato que se exprime
OBRAS: principalmente na utilização de fontes latinas ou
gregas, mais ou menos adaptadas ao gosto moderno.
Marcha Fúnebre; Últimas Rimas; Mortalha. ( ) O Parnasianismo, com a máxima da “arte pela arte”,

134 * Literatura Brasileira


pregando o desvinculamento da realidade político- ( ) impassibilidade, correção de versos, explosões de
social, existiu predominantemente no Brasil e na sentimento.
França, ao passo que, em outros países, o que ( ) objetividade, universalidade, exaltação de tradições.
realmente existiu foi uma poesia realista, que não
dispensava tal temática. b) Assinale a alternativa verdadeira sobre Raimundo Correia:
( ) Em sua maioria, nossos poetas parnasianos deixaram
uma obra que atende bem ao princípio da objetividade ( ) Destacou-se pela produção de hinos patrióticos.
e impassibilidade e o melhor exemplo disso é Olavo ( ) Seu amor às palmeiras deu-lhe o cognome de “Poeta
Bilac. das Palmeiras.”
( ) A tônica principal de sua poesia é a preocupação
3. Associe: existencial.
a) Olavo Bilac ( ) Poeta do amor, é muito claro na exposição dos
b) Alberto de Oliveira sentimentos.
c) Raimundo Correia
6. Sobre Emílio de Menezes é lícito afirmar:
( ) Uma de suas principais obras é Tarde, expressão das
angústias de maturidade. ( ) Foi lírico e satírico, demonstrando grande preocupação
( ) Foi por excelência o poeta “SCHOPENHAURIANO” com a morte.
dessa fase esteticista chamada Parnasianismo: ( ) Sua leitura é fácil e o vocabulário acessível.
sensibilidade voltada para a auscultação das dores do ( ) Destacou-se após a morte, quando foi deveras
mundo. valorizado.
( ) Entre os parnasianos, foi considerado o mais técnico e ( ) Enquanto vivo, não era apreciado por seus coetâneos.
formal, o mais apegado aos cânones da escola.
( ) Alguns o chamam, de forma simplista, de parnasiano na 7. É correto dizer-se a respeito de Olavo Bilac que:
forma e romântico no conteúdo. a) sua poesia, rica em símbolos, é marcada por um extremo
( ) Foi o mais popular, o mais apreciado poeta parnasiano, misticismo; por isso, abstém-se de exprimir a
certamente pelo entusiasmo ou pela sensualidade que sensualidade das paixões carnais.
brotam em sua poesia. b) durante a revolução modernista, sua poesia foi citada
( ) Sua poesia é, principalmente, marcada pela angústia do como um exemplo digno de ser imitado, pela
tempo e pelo pessimismo. despreocupação quanto à forma.
( ) Em Poesias, que contém Panóplias, Via-Láctea, Sarças c) ao contrário de outros parnasianos, não apresenta em sua
de Fogo e outras, a inquietação do poeta é ampla e
poesia traço algum da temática greco-Iatina.
variada, ao contrário de seu livro final.
d) em sua obra encontra-se, a par da poesia lírica-amorosa,
( ) Dentre seus temas, podemos destacar a descrição da
poesia patriótica e de cunho épico.
beleza plástica da mulher e o patriotismo.
e) apesar de exaltar as virtudes da Língua Portuguesa, sua
( ) Foi exímio paisagista, com predominância de palmeiras
poesia apresenta erros gramaticais advindos do
e flores.
arrebatamento da inspiração criadora.
( ) É o mais filosófico dos parnasianos e há em seus versos
profunda preocupação com a efemeridade da vida e
angústia existencial. 8. Não caracteriza a estética parnasiana:
a) o culto da forma;
4. Identifique o autor dos versos, valendo-se da seguinte b) a impassibilidade;
classificação: c) o descritivismo;
a) Olavo Bilac d) o culto do vago e do impreciso;
b) Raimundo Correia e) n.d.a.
c) Alberto de Oliveira
d) Vicente de Carvalho 9. Dedicou-se à vida literária e ao jornalismo, tendo abandonado
os estudos, depois de tentar os cursos de Medicina e Direito.
( ) “Vai-se a primeira pomba despertada... Poeta emocional, sua poesia apresenta lirismo amoroso.
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas Patriota vibrante, nacionalista fulgurante e autor da letra do
De pombas vão-se dos pombais, apenas “Hino à Bandeira”:
Raia sanguínea e fresca a madrugada...” a) Álvares de Azevedo;
b) Olavo Bilac;
( ) “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo c) Gonçalves Dias;
Perdeste o senso! ‘E eu vos direi, no entanto, d) Castro Alves;
Que, para ouvi-Ias, muita vez desperto e) Raimundo Correia.
E abro as janelas, pálido de espanto...’”
10. Análise de texto:
( ) “Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa, que sonhamos, MUSA IMPASSÍVEL
Toda arreada de dourados pomos,
“Musa! um gesto sequer de dor ou de sincero
Existe sim: mas nós não a alcançamos Luto jamais te afeie o cândido semblante!
Porque está sempre apenas onde a pomos Diante de um Job, conserva o mesmo orgulho; e diante
E nunca a pomos onde nós estamos.” De um morto, o mesmo olhar e sobrecenho austero.

( ) “Da serra azul, onde a palmeira medra, Em teus olhos não quero a lágrima; não quero
Onde paira a neblina, se deriva, Em tua boca o suave e idílico descante.
A gotear de lisins de esconsa pedra, Celebra ora um fantasma anguiforme de Dante,
Um fio de água viva.” Ora o vulto marcial de um guerreiro de Homero.
Dá-me o hemistíquio d’ouro, a imagem atrativa;
5. Marque apenas uma alternativa correta: A rima cujo som, de uma harmonia creba,
a) O Parnasianismo caracterizou-se por: Cante aos ouvidos d’alma; a estrofe limpa e viva;
( ) culto de forma, esteticismo, sobriedade. Versos que lembrem, com seus bárbaros ruídos,
( ) reação contra a poesia individualista, reposição dos Ora o áspero rumor de um calhau que se quebra,
ideais clássicos da Arte, tendência ao mistério e Ora o surdo rumor de mármores partidos”.
retratação de estado de alma. (Francisca Júlia)

Literatura Brasileira * 135


Job - personagem bíblico que significa aquele que sofre, aquele 11. Análise de texto:
para quem a vida é provação;
Sobrecenho - semblante severo; CRESCENTE DE AGOSTO
Idílico - amoroso;
Descante - canto; “Altea-se no azul aos poucos o crescente,
Anguiforme - que tem a forma de serpente; O ar embalsama, os cirros1 leva, o escuro afasta;
Dante - grande poeta italiano renascentista, autor da Divina Vasto, de extremo a extremo, enche a alameda vasta,
Comédia; E emborca a urna de Luz nas águas da corrente!
Marcial - relativo à guerra;
Homero - poeta grego, a quem são atribuídas as principais Na escumilha2 da teia, onde a aranha indolente
epopeias da Grécia Antiga: a Ilíada e a Odisseia; Dorme, feita de orvalho, uma pérola engasta.
Hemistíquio - a metade de um verso alexandrino (de doze sílabas Faz aos Lírios mais branca a flor cetínea e casta,
métricas), e por extensão, de qualquer verso; Mais brancos os jasmins e a murta3 redolente.4
Creba - repetida;
Calhau - fragmento de rocha dura, pedra solta, seixo. Faz chorar um violão lá não sei onde... (A ouvi-lo,
Na calada da noite um não-sei-quê me invade)
Faz que haja em tudo um como estranho espasmo e enlevo,
1. Ao longo do soneto, o eu lírico tem como interlocutora a sua
musa, isto é, a sua fonte de inspiração artística. Faz cousas rezar, ao seu clarão tranquilo,
a) Quais as características da musa, presentes no primeiro Faz nascer dentro de mim uma grande saudade,
quarteto? Faz nascer de saudade estes versos que escrevo.”

______________________________________________ (Alberto de Oliveira)


______________________________________________

______________________________________________ Vocabulário:
1. nuvem
2. tecido fino
b) Ainda de acordo com essa estrofe e com os dois versos 3. pequeno arbusto
iniciais do segundo quarteto, que comportamento a musa 4. aromático
deve rejeitar para manter suas características?

______________________________________________ 1. Desenvolva uma análise formal do poema:


a) Esquema métrico:
______________________________________________ ________________________________________________
______________________________________________ ________________________________________________

c) Tais comportamentos lembram que estilo literário? Por ________________________________________________


quê?
________________________________________________
_____________________________________________

______________________________________________
b) Esquema rímico:
________________________________________________
2. A “musa impassível” parnasiana é fundamentalmente
antirromântica. Como o título e os seis versos iniciais do ________________________________________________
poema justificam a 1ª parte dessa afirmação?
________________________________________________
_________________________________________________

_________________________________________________

_________________________________________________ c) Figuras de linguagem:

________________________________________________
3. Identifique e comprove três características parnasianas do
texto. ________________________________________________

_________________________________________________ ________________________________________________

_________________________________________________

_________________________________________________ d) Linguagem:
_________________________________________________
________________________________________________
_________________________________________________
________________________________________________
_________________________________________________
________________________________________________

4. Agora, compare os estilos das Escolas da segunda metade do


século XIX: de um lado o Realismo e o Naturalismo e, de outro, 2. Aponte características parnasianas no poema, comprovando
o Parnasianismo. Encontre uma semelhança e uma diferença com passagens do texto:
entre eles. ________________________________________________
_________________________________________________ ________________________________________________
_________________________________________________ ________________________________________________

136 * Literatura Brasileira


3. Nos dois últimos tercetos ocorrem certas características que
vão de encontro aos ideais estéticos do Parnasianismo.
Detecte-os e comente.
________________________________________________

________________________________________________

________________________________________________

4. Um dos ideais parnasianos é atingir a perfeição formal,


mesmo que em detrimento do conteúdo. Analisando essa
questão, explique o último terceto.
________________________________________________

________________________________________________

________________________________________________

Literatura Brasileira * 137


simbolismo

1 - QuaDro históriCo causa. Aparece-nos assim o aspecto conflitante,


ambíguo do Impressionismo: a realidade a que eles
Em fins do ano de 1880, o mundo ocidental se referem é objetiva (característica realista), mas a
passa por transformações culturais, sociais e impressão, que o escritor tem dela, é subjetiva
políticas. A França, como centro irradiador de cultura, (característica simbolista).
é derrotada na guerra contra a Alemanha. A derrota Para o impressionista, a realidade ainda é o
compromete um mundo de ideias e concepções. As ponto de partida da arte, mas é preciso retratá-Ia sob
proposições científicas e o predomínio da razão o prisma pessoal do artista, que a isola num único
sobre os sentimentos, tão caros ao Realismo, sofrem momento dado: se a realidade é a origem da obra
uma revisão. Como consequência, a arte tende ao de arte, o que importa transmitir são as sensações
abandono da objetividade e retoma as posições de causadas ao artista por essa mesma realidade, que
ordem subjetiva do Romantismo. Os anseios, as se transforma em pano de fundo da obra de arte.
aspirações individuais e coletivas, difundidas através Não obstante esse fato, o Simbolismo foi uma
de várias gerações, afloram. reação contra o Parnasianismo, que privara a poesia
de sua essência de liberdade e singeleza criadora e
a tornara demasiadamente formal, artesanal e
2 - a reação estétiCa exterior.
Historicamente, o movimento simbolista tem
Um grupo de intelectuais franceses- suas raízes profundas nos traços que haviam
Baudelaire, Verlaine, Rimbaud e Mallarmé - rebelou- permanecido subjacentes durante a escola realista,
se contra o racionalismo materialista e cientificista naturalista e parnasiana. Por isso, os poetas que, a
até então reinante nas artes em geral, durante o princípio, adotaram as ideias de Baudelaire, Verlaine
império realista. e Mallarmé, como reação à poesia parnasiana,
Os realistas brasileiros começaram a sentir passaram a ser chamados de decadentes ou, ainda,
que o seu ideário se esgotava, impondo-se a escolha nefelibatas (habitantes das nuvens). Em 1886, Jean
de novos caminhos para a arte. No fim dessa Moréas sugeriu a troca do termo decadente por
década, realizaram-se as grandes esperanças dos simbolista. A partir de então, Simbolismo foi o termo
realistas brasileiros: a abolição da escravatura e a consagrado para designar a nova escola.
conquista republicana. Sem outras finalidades a que A filosofia de vida dos simbolistas se prendeu
pretender, a escola esvaziou-se rapidamente e caiu aos novos tratados, aparecidos na época, e
num artificialismo estéril. Também a desilusão com o francamente contrários aos princípios realistas.
cientificismo e materialismo motivou o aparecimento Receberam muitas influências dos filósofos:
de uma nova tendência, de caracteres opostos aos Hartmann (1842 - 1906), cuja obra indicava o incons-
do Realismo, que amava o abstrato e o imaterial, ciente como o grande princípio vital do mundo:
voltada para o mundo interior: o Simbolismo. Filosofia do Inconsciente (1869); Schopenhauer
A interpenetração das técnicas realistas e (1778 - 1860), que afirmava o predomínio da vontade
simbolistas chegou a produzir uma nova estética, universal sobre a vontade individual, resultando o
que é responsável mais direta pela transição para o mundo numa representação: O mundo como
Modernismo posterior. Essa estética se chama vontade e representação; Bergson: Ensaio sobre
impressionista, porque os escritores procuram dados imediatos da consciência.
manifestar as impressões que a realidade Ihes As ideias realistas cederam diante das novas

Literatura Brasileira * 139


atitudes idealistas e metafísicas, vencidas por um de cada um, em que reina o caos e a anarquia e, na
misticismo crescente. tentativa de trazer este universo ao homem comum,
Assim, tínhamos os dois pontos necessários compuseram poemas extremamente vagos e
para o surgimento da nova escola artística: um complexos; imprecisos e, não raro, ilógicos e
princípio filosófico, tendendo para o espiritualismo e indecifráveis. Devido a isto, os poetas desta época
para a mística, e um estilo de época, determinado foram chamados de “Nefelibatas”, isto é, sonhadores
pela regra de Verlaine: a música, em primeiro lugar. quanto aos ideais, nebulosos quanto ao conteúdo e
inatingíveis quanto à linguagem.

3 - CaraCterístiCas “Nos Santos óleos do luar, floria


teu corpo ideal, com o resplendor da Helade...
As características do Simbolismo dependem E em toda a etérea, branda claridade
diretamente do misticismo filosófico, impondo ao como que erravam fluidos de harmonia.”
artista a solidão e a personalidade absoluta da arte, (Em sonhos...)
o desarranjo dos contornos e a dubiedade do
conjunto. O Simbolismo é, sobretudo, um estado de “Desta torre desfraldam-se altaneiras,
espírito perturbador e confuso, agoniado e solitário. por sóis de céus imensos broqueladas,
Na arte literária, essas características se realizam bandeiras reais, do azul das madrugadas
pelo predomínio de musicalidade do verso sobre a e do íris flamejante das poncheiras.”
estrutura do assunto, da sugestão sobre a alusão, (Torre de Ouro)
do indireto sobre o direto, conduzindo o poeta, da
metáfora para a alegoria, entendida como conti- Por isso, diante de um texto simbolista, é
nuação metafórica. necessário que o leitor se disponha mais a sentir a
Vamos detalhar algumas características musicalidade, a sugestão, do que se preocupar em
principais: apreender a ideia, a mensagem, o que nem sempre
é possível.
1. Subjetivismo:
Esta é uma característica própria de escolas
anteriores que valorizam o mundo interior do 3. Musicalidade:
indivíduo. O Simbolismo vai além do subjetivismo O Simbolismo, libertando a palavra de sua
dos românticos (início do século XIX) pretendendo carga lógica, descobriu uma grande afinidade entre
atingir as áreas do subconsciente e do inconsciente. POESIA e MÚSICA. A música conduz vivamente as
Os textos que surgiam, portanto, revelavam-se emoções (tão íntimas e complexas) de quem
poesia “difícil”, embrenhando-se nas zonas mais compõe a quem a ouve. As palavras, por isso, são
ensombrecidas do eu e das emoções. O eu profundo escolhidas pela sonoridade, valendo-se das
torna-se o tema preferido dos simbolistas que, aliterações, assonâncias, ecos, rimas de toda sorte:
divisando novas instâncias da existência, encontra
abismos: “vastidões supremas”, “prisões colossais”, “Quando os sons dos violões vão soluçando,
“portas do mistério”; manifesta os desejos íntimos: Quando os sons dos violões nas cordas gemem,
“boca para deleites e delírios da volúpia carnal”; E vão dilacerando e deliciando,
visão pessoal e sombria do mundo: “os miseráveis, Rasgando as almas que nas sombras tremem.
os rotos são as flores dos esgotos”, “toda alma num
cárcere anda presa”, “esta profunda e intérmina Vozes veladas, veludosas vozes
esperança”. Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
2. Conteúdo Irracional: Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas”.
Os simbolistas, ao voltarem para dentro do (Violões que Choram)
seu “ego”, iniciam uma viagem interior de
imprevisíveis resultados. Invadindo o universo íntimo

140 * Literatura Brasileira


Cabe explicar ainda que aliteração é o uso perdida a antiga ingenuidade dócil
repetido de um mesmo fonema para sugerir um som chora um pranto noturno de Vencido”
que aproxime a linguagem do conteúdo. (A Flor do Diabo)
Observe na 1ª estrofe (Violões que Choram),
o uso excessivo das nasais (m e n) provocando um “Pelas regiões tenuíssimas da bruma
som “fechado”, “arrastado”, “pesado” indo de vagam as Virgens e as Estrelas raras...”
encontro ao sofrimento das almas; e na 2ª estrofe a (Carnal e Místico)
repetição do (v e z) sugerindo serenidade e
provocando musicalidade. Todos esses recursos atendem ao desejo de
Assonância é o uso repetido das mesmas encontrar uma nova linguagem, já que a tradicional
vogais tônicas em palavras diferentes: não se coadunava com os propósitos de expressar o
mundo enigmático que emana do interior do poeta.
“Ó Formas alvas, brancas, Formas claras Surge na poesia um arsenal metafórico, uma
De luares, de neves, de neblinas!... sintaxe especial, combinações vocabulares, uso de
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas... cores e conotações impressionantes, capazes de
Incensos dos turíbulos das aras...” traduzir as novas concepções.
(Antífona)
5. Concepção mística da vida:
Para entender melhor estas características, A poesia permite inventar “sonhos e visões”,
observe o que diz o poeta Verlaine neste fragmento que libertam; o universo é etéreo, fluido, inefável. Os
de Arte Poética. corpos não têm lugar para se manifestarem. A
sensualidade não se corporifica, é desejo suspenso:
“Antes de qualquer coisa, a música
e, para isso, prefere o ímpar “O ventre em pinchos, empinava todo
mais vago e mais solúvel no ar como réptil objeto o lodo,
sem nada que pese ou que pouse espolinhando e retorcido em fúria.

É preciso também que não vás nunca Era a dança macabra e multiforma de um
escolher tuas palavras sem ambiguidade verme estranho, colossal enorme
nada mais claro que a canção cinzenta do demônio sangrento da luxúria.”
onde o Indeciso se junta ao Precioso” (Dança do Ventre)

4. “Sugerir e não nomear”: “Se tens sede de Paz e d’Esperança,


Segundo Mallarmé, “Nomear um objeto é se estás cego de Dor e de Pecado,
suprimir três quartos do prazer do poema que é feito valha-te o Amor, o grande abandono,
da felicidade de adivinhar pouco a pouco”. Em outras sacia a sede com amor, descansa.
palavras, os poetas simbolistas faziam poesia para
ser sentida e não compreendida ou explicada; o O coração que é puro e que é contrito,
leitor deve abandonar-se às emoções e às intuições. se sabe ter doçura e ter dolência,
E, para permitir uma leitura múltipla de seus poemas, revive nas estrelas do Infinito.
usaram a polivalência da metáfora (substituição do
significado natural de uma palavra, por exemplo, Revive, assim, fica imortal, na essência
Felisberto é um touro), e os símbolos (Amor, Sonho, dos anjos paira, não desprende em grito
Dor, Sombra) usados, assim, em maiúsculo, como a e fica, como os Anjos, na Existência.”
indicar a infinitude da ideia, a plurivalência, o que de (A Grande Sede)
universal se pode extrair deles:

“Mas hoje o Diabo já senil, já fóssil, 6. Sinestesia (fusão de sensações):


de sua criação desiludido, Na poesia simbolista, é comum a ocorrência

Literatura Brasileira * 141


de sinestesia, que permite ao poeta a expressão de hiato, de uma libertação circunscrita a dois únicos
estados do inconsciente, em que as imagens se grandes escritores: Cruz e Sousa e Alphonsus de
associam em planos nem sempre lógicos, como no Guimaraens. Simbolismo e Parnasianismo concor-
sonho. Uma ideia pode despertar várias sensações. reram na mesma época no Brasil; aquele abafou as
manifestações deste por pouquíssimo tempo, mas
“Tarde de olhos azuis e de seios morenos. cedeu, logo depois, diante de uma maioria insensível
Ó tarde linda, ó tarde doce que se admira, ao misticismo simbolista; e o Parnasianismo
Como uma torre de pérolas e safira. continuou. É claro que, embora desaparecido, o
Ó tarde como quem tocasse um violino. Simbolismo afetou a produção dos últimos realistas,
Tarde como Endimion, quando ele era menino cuja obra ultrapassa os princípios fundamentais da
Tarde em que a terra está mole de tanto beijo, escola, mas ainda não chega a confundir-se com os
Porém querendo mais, nervosa de desejo...” ideais simbolistas; ficam a meio caminho entre as
(Emiliano Perneta) duas tendências artísticas, sem realizarem
integralmente nenhuma das duas. Para estes, serve
o meio termo a que nos referimos ao expor as atitu-
des simbolistas: foram escritores impressionistas,
como Raul Pompeia e Graça Aranha.
O SIMBOLISMO NO BRASIL O manifesto simbolista data de 1891, lançado
na “Folha Popular”, jornal carioca, sob a responsa-
bilidade de Emiliano Perneta, seguido dois anos
Nada havia, no panorama cultural do Brasil, depois, 1893, pelos dois livros de Cruz e Sousa, que
que pudesse sustentar semelhante renovação impuseram vitoriosamente o novo movimento: Missal
literária; raros grupos sociais se dispuseram a (poesia em prosa) e Broquéis (em verso).
consumir essa poesia que conviveu, paralelamente, O movimento vai até 1902 quando Euclides da
com o Parnasianismo e foi por este contaminado, Cunha lança Os Sertões, que vai inaugurar o novo
constituindo-se o Simbolismo como movimento credo: Pré-Modernismo.
subtérreo de nossas letras. Valorizando a mais fina
sensibilidade, o Simbolismo não fez sentido ao
burguês que não o entendeu e nem o atualizou, PRINCIPAIS AUTORES DO SIMBOLISMO
fazendo com que o movimento cedo perdesse a
vitalidade e seus representantes mais expressivos
vivessem à margem da sociedade e da vida literária. 1. JOÃO DA CRUZ E SOUSA -
O Simbolismo brasileiro acompanhou as (Florianópolis, 1861 - 1898)
manifestações literárias de Baudelaire, Verlaine, (Cisne Negro)
Mallarmé e Rimbaud e teve como centros principais Nasceu em Florianópolis, sendo filho de pai
o Rio de Janeiro e Curitiba, embora tenha também escravo e mãe alforriada. A educação e o nome
aparecido em outros lugares, como Minas Gerais e (Sousa) recebeu-os do Marechal de Campo
Rio Grande do Sul. Guilherme Xavier de Sousa, a quem seus pais
Há uma diferença muito grande entre o nosso serviam.
movimento brasileiro e o português ou francês: Inicialmente sua poesia foi influenciada pelo
nessas terras, o prestígio simbolista sobrepujou o Romantismo de veio contestador (Castro Alves) e
movimento realista, venceu-o, acabou com ele; o pelo ideário realista de crítica social. Porém, tais
Modernismo, mais tarde, virá chocar-se com as influências foram cedendo lugar à cosmovisão
últimas tendências do Simbolismo, tanto na França, simbolista mais voltada à poetização de verdades
quanto em Portugal. No Brasil, ao contrário, o existenciais-subjetivas.
Modernismo ainda lutava com as tendências Casou-se com a negra Gavita e seus
realistas, principalmente com os últimos desgostos agravam-se com o casamento. Sua vida
parnasianos, porque a vitória do Simbolismo transforma-se numa luta contra a miséria e a
brasileiro foi efêmera, não passou de um ligeiro infelicidade: poucos reconhecem seu valor como

142 * Literatura Brasileira


poeta; a esposa enlouquece, a pobreza e a crise existencial latente que iria explodir mais tarde,
humilhante condição de negro o sufocam; a embala-se num sensualismo espiritual ou platônico
tuberculose ataca seus filhos, matando dois. A (época do seu noivado com Gavita), mas já de
mesma moléstia lhe é fatal em 1898. mistura com temas trágicos, próprios da condição
humana.

CARACTERÍSTICAS:
CARNAL E MÍSTICO
Sua poesia carrega-se de impulsos pessoais e
dos sofrimentos ocasionados pela miséria, pelo “Pelas regiões tenuíssimas da bruma
desprezo e por sua condição racial. vagam as Virgens e as Estrelas raras...
Sua poesia era a sua vida porque, através Como que o leve aroma das searas
dela, podia levantar-se na escala social, todo o horizonte em derredor perfuma.
beneficiando-se do seu engenho e ombrear-se com
os brancos que lhe admiravam o gênio. Dois Numa evaporação de branca espuma
assuntos predominaram em sua obra: vão diluindo as perspectivas claras...
a) a penetração no seu íntimo, desvendando Com brilhos crus e fúlgidos de tiaras
um mundo de amargura, tanto mais comovente as Estrelas apagam-se uma a uma.
quanto era real o sentido de solidão que sentia,
negro numa terra de escravocratas. Seu mundo Então, na treva, em místicas dormências,
interior é selvagem e sombrio; desfila, com sidéreas latescências,
b) a visão das coisas, procurando uma das Virgens o sonâmbulo cortejo...
significação para o mundo, onde via a miséria e a
desgraça, a injustiça e a dor. Um mundo exterior que Ó Formas vagas, nebulosidades!
equivalia ao seu mundo interior, uma projeção Essência das eternas virgindades!
apenas do seu íntimo. Ó intensas quimeras do Desejo...”
Seu verso delira em sons e cores, altamente
dramático, poucas vezes obscuro, mas sempre
místico, extraterreno, quase surrealista, cheio de ANTÍFONA
visões que o torturavam e magoavam intensamente.
O poeta canta o estigma de sua raça e se deixa
“Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
seduzir pelas formas brancas. O poema “Antífona”
de luares, de neves, de neblinas!...
expressa a obsessão e o fascínio pelas cores alvas.
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...
A poesia reflete a consciência obcecada do poeta
Incensos dos turíbulos das aras...
mediante a fusão de todas as sensações: cor, som,
cheiro, tato e paladar. Sua comunicação com o leitor
Formas do Amor, constelarmente puras,
culto é extraordinária, porque tem máxima
de Virgens e de Santas vaporosas...
capacidade de expressão para os mistérios da vida,
Brilhos errantes, mádidas frescuras
antes através da música e símbolos que da
e dolências de lírios e de rosas...
ordenação lógica do pensamento.
Dentro do Simbolismo, sua obra significa tanto
Indefiníveis músicas supremas,
quanto a de qualquer poeta nacional ou estrangeiro
harmonias da Cor e do Perfume...
por sua pungente irmanação com o sofrimento.
Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,
Produziu uma poesia que procura expressar o
Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume...
elemento transcendente, vago, nebuloso da vida.

Visões, salmos e cânticos serenos,


Há três momentos na poesia de Cruz e Sousa:
surdinas de órgãos flébeis, soluçantes...
• O primeiro correspondente aos livros Missal Dormências de volúpicos venenos
e Broquéis, nos quais o poeta, deixando antever a sutis e suaves, mórbidos, radiantes...

Literatura Brasileira * 143


Infinitos espíritos dispersos, eflúvio: emanação invisível, exalação.
éter: o espaço celeste.
inefáveis, edênicos, aéreos, alacre: alegre, jovial.
fecundai o Mistério destes versos fulva: amarelada, dourada.
tantálico: de Tântalo, ser mitológico que, por roubar os manjares
com a chama ideal de todos os mistérios. dos deuses para dá-Ios a conhecer aos homens, foi condenado
pelos deuses a jamais alcançar a água e alimentos, que se
afastavam à medida que ele se aproximava; por extensão,
Do Sonho as mais azuis diafaneidades desejado e inacessível.
turbilhão: remoinho de vento; aquilo que impele violentamente.
que fuljam, que na Estrofe se levantem quimérico: irreal.
e as emoções, todas as castidades tropel: desordem, balbúrdia.
cabalístico: misterioso; místico; secreto.
da alma do Verso, pelos versos cantem.

• O segundo momento (1896), corresponde


Que o pólen de ouro dos mais finos astros
aos livros Evocações (poesia em prosa) e Faróis (em
fecunde e inflame a rima clara e ardente...
verso), quando predominam a revolta e o desespero,
Que brilhe a correção dos alabastros
agravados pela morte do pai e a loucura da esposa.
sonoramente, luminosamente.
A tragédia existencial ou metafísica, que se iniciara
anteriormente, toma corpo e se instala definitiva. Os
Forças originais, essência, graça
temas agora giram em torno da morte, dos soluços e
de carnes de mulher, delicadezas...
lamentos, da solidão, do tédio, da humilhação.
Todo esse eflúvio que por ondas passa
Nesta fase acentua-se, também, a sedução do
do Éter nas róseas e áureas correntezas...
poeta pelos seres marginais à sociedade. Os loucos,
os rotos, os vadios, os miseráveis, os suicidas
Cristais diluídos de clarões alacres,
exercem um certo fascínio sobre o poeta. Esta
desejos, vibrações, ânsias, alentos,
tematização do elemento marginal pode ser
fulvas vitórias, triunfamentos acres,
explicada pelo viés do Simbolismo, movimento de
os mais estranhos estremecimentos...
fundo romântico, ligado à face obscura e maldita da
sociedade, quanto pelo viés pessoal do poeta em
Flores negras do tédio e flores vagas
virtude de sua condição de “emparedado” pela cor e
de amores vãos, tantálicos, doentios...
pela condição social humilde. A seguir comprovamos
Fundas vermelhidões de velhas chagas
essa interpretação:
em sangue, abertas, escorrendo em rios.....

Tudo! vivo e nervoso e quente e forte,


LITANIA DOS POBRES
nos turbilhões quiméricos do Sonho,
passe, cantando, ante o perfil medonho
“Os miseráveis, os rotos
e o tropel cabalístico da Morte...”
são as flores dos esgotos.

Vocabulário: São espectros implacáveis


antífona: versículo recitado ou cantado, antes ou depois de um os rotos, os miseráveis.
salmo. No caso, é a poesia que abre o livro Broquéis,
transformando-se numa espécie de síntese da obra do poeta.
turíbulo: vaso onde se queima incenso. São prantos negros de furnas
ara: altar.
mádida: úmida, molhada pelo orvalho. caladas, mudas, soturnas.
dolência: mágoa, lástima, lamento, dor.
ocaso: pôr do sol.
réquiem: ‘descanso’, ‘repouso’, a encomendação de um morto; São os grandes visionários
parte do ofício fúnebre.
surdina: pequena peça que se adapta a um instrumento para dos abismos tumultuários.
abafar a sonoridade ou alterar o timbre.
flébil: choroso, lacrimoso.
volúpico: o mesmo que voluptuoso; que causa prazer sensual. As sombras das sombras mortas,
inefável: encantador; que não se pode exprimir por palavras. cegos, a tatear nas portas.
edênico: relativo a Éden, paradisíaco.
diafaneidade: qualidade do que é diáfano, isto é, translúcido,
transparente. Procurando o céu, aflitos
fulgir: resplandecer, sobressair, ter fulgor, brilhar.
alabastro: rocha branca e translúcida. e varando o céu de gritos.

144 * Literatura Brasileira


Faróis à noite apagados a subir, descer montanhas.
por ventos desesperados.
Como avalanches terríveis
Inúteis, cansados braços enchendo plagas incríveis.
pedindo amor aos Espaços.
Atravessa já os mares,
Mãos inquietas, estendidas com aspectos singulares.
ao vão deserto das vidas.
Perde-se além nas distâncias
Figuras que o Santo Ofício a caravana das ânsias.
condena a feroz suplício.
Perde-se além na poeira,
Arcas soltas ao nevoento das Esferas na cegueira.
dilúvio do Esquecimento.
Vai enchendo o estranho mundo
Perdidas na correnteza com o seu soluçar profundo.
das culpas da Natureza.
Como torres formidandas
Ó pobres! Soluços feitos de torturas miserandas.
dos pecados imperfeitos!
E de tal forma no imenso
Arrancadas amarguras mundo ele se torna denso.
do fundo das sepulturas.
E de tal forma se arrasta
Imagens dos deletérios, por toda a região mais vasta.
imponderáveis mistérios.
E de tal forma um encanto
Bandeiras rotas, sem nome, secreto vos veste tanto.
das barricadas da fome.
E de tal forma já cresce
Bandeiras estraçalhadas o bando, que em vós parece.
das sangrentas barricadas.
Ó Pobres de ocultas chagas
Fantasmas vãos, sibilinos lá das mais longínquas plagas!
da caverna dos Destinos!
Parece que em vós há sonho
Ó pobres! o vosso bando e o vosso bando é risonho.
é tremendo, é formidando!
Que através das rotas vestes
Ele já marcha crescendo, trazeis delícias celestes.
o vosso bando tremendo…
Que as vossas bocas, de um vinho
Ele marcha por colinas, prelibam todo o carinho…
por montes e por campinas.
Que os vossos olhos sombrios
Nos areiais e nas serras trazem raros amavios.
em hostes como as de guerras.
Que as vossas almas trevosas
Cerradas legiões estranhas vêm cheias de odor das rosas.

Literatura Brasileira * 145


De torpores, d’indolências Sutis palpitações à luz da lua,
e graças e quint’essências. anseio dos momentos mais saudosos,
quando lá choram na deserta rua
Que já livres de martírios as cordas vivas dos violões chorosos.
vêm festonadas de lírios.
Quando os sons dos violões vão soluçando,
quando os sons dos violões nas cordas gemem,
Vêm nimbadas de magia,
e vão dilacerando e deliciando,
de morna melancolia!
rasgando as almas que nas sombras tremem.

Que essas flageladas almas Harmonias que pungem, que laceram,


reverdecem como palmas. dedos Nervosos e ágeis que percorrem
cordas e um mundo de dolências geram,
Balanceadas no letargo gemidos, prantos, que no espaço morrem…
dos sopros que vêm do largo…
E sons soturnos, suspiradas mágoas,
Radiantes d’ilusionismos, mágoas amargas e melancolias,
segredos, orientalismos. no sussurro monótono das águas,
noturnamente, entre ramagens frias.
Que como em águas de lagos
Vozes veladas, veludosas vozes,
boiam nelas cisnes vagos…
volúpias dos violões, vozes veladas,
vagam nos velhos vórtices velozes
Que essas cabeças errantes
dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.
trazem louros verdejantes.
Tudo nas cordas dos violões ecoa
E a languidez fugitiva e vibra e se contorce no ar, convulso…
de alguma esperança viva. Tudo na noite, tudo clama e voa
sob a febril agitação de um pulso.
Que trazeis magos aspeitos
e o vosso bando é de eleitos. Que esses violões nevoentos e tristonhos
são ilhas de degredo atroz, funéreo,
Que vestes a pompa ardente para onde vão, fatigadas do sonho
do velho Sonho dolente. almas que se abismaram no mistério.

Sons perdidos, nostálgicos, secretos,


Que por entre os estertores
finas, diluídas, vaporosas brumas,
sois uns belos sonhadores.”
longo desolamento dos inquietos
navios a vagar à flor de espumas.

VIOLÕES QUE CHORAM Oh! languidez, languidez infinita,


nebulosas de sons e de queixumes,
vibrado coração de ânsia esquisita
“Ah! plangentes violões dormentes, mornos,
e de gritos felinos de ciúmes!
soluços ao luar, choros ao vento…
Tristes perfis, os mais vagos contornos, Que encantos acres nos vadios rotos
bocas murmurejantes de lamento. quando em toscos violões, por lentas horas,
vibram, com a graça virgem dos garotos,
Noites de além, remotas, que eu recordo,
um concerto de lágrimas sonoras!
noites de solidão, noites remotas
que nos azuis da Fantasia bordo, Quando uma voz, em trêmulos, incerta,
vou constelando de visões ignotas. palpitando no espaço, ondula, ondeia,

146 * Literatura Brasileira


e o canto sobe para a flor deserta E como que há histéricos espasmos
soturna e singular da lua cheia. na mão que esses violões agita, largos…
E o som sombrio é feito de sarcasmos
Quando as estrelas mágicas florescem,
e de sonambulismos e letargos.
e no silêncio astral da Imensidade
por lagos encantados adormecem Fantasmas de galés de anos profundos
as pálidas ninfeias da Saudade! na prisão celular atormentados,
sentindo nos violões os velhos mundos
Como me embala toda essa pungência,
da lembrança fiel de áureos passados;
essas lacerações como me embalam,
como abrem asas brancas de clemência Meigos perfis de tísicos, dolentes
as harmonias dos violões que falam! que eu vi dentre os violões errar gemendo,
prostituídos de outrora, nas serpentes
Que graça ideal, amargamente triste,
dos vícios infernais desfalecendo;
nos lânguidos bordões plangendo passa…
Quanta melancolia de anjo existe Tipos intonsos, esgrouviados, tortos,
nas visões melodiosas dessa graça. das luas tardas sob o beijo níveo,
para os enterros dos seus sonhos mortos
Que céu, que inferno, que profundo inferno,
nas queixas dos violões buscando alívio;
que ouros, que azuis, que lágrimas, que risos,
quanto magoado sentimento eterno corpos frágeis, quebrados, doloridos,
nesses ritmos trêmulos e indecisos… frouxos, dormentes, adormidos, langues
na degenerescência dos vencidos
Que anelos sexuais de monjas belas
de toda a geração, todos os sangues;
nas ciliciadas carnes tentadoras,
vagando no recôndito das celas, marinheiros que o mar tornou mais fortes,
por entre as ânsias dilaceradoras… como que feitos de um poder extremo
para vencer a convulsão das mortes,
Quanta plebeia castidade obscura
dos temporais o temporal supremo;
vegetando e morrendo sobre a lama,
proliferando sobre a lama impura, veteranos de todas as campanhas,
como em perpétuos turbilhões de chama. enrugados por fundas cicatrizes,
procuram nos violões horas estranhas,
Que procissão sinistra de caveiras,
vagos aromas, cândidos, felizes.
de espectros, pelas sombras mortas, mudas...
Que montanhas de dor, que cordilheiras Ébrios antigos, vagabundos velhos,
de agonias aspérrimas e agudas. torvos despojos da miséria humana,
têm nos violões secretos Evangelhos,
Véus neblinosos, longos véus de viúvas
toda a Bíblia fatal da dor insana.
enclausuradas nos ferais desterros
errando aos sóis, aos vendavais e às chuvas, Enxovalhados, tábidos palhaços
sob abóbadas lúgubres de enterros; de carapuças, máscaras e gestos
lentos e lassos, lúbricos, devassos,
Velhinhas quedas e velhinhos quedos,
lembrando a florescência dos incestos;
cegas, cegos, velhinhas e velhinhos,
sepulcros vivos de senis segredos, Todas as ironias suspirantes
eternamente a caminhar sozinhos; que ondulam no ridículo das vidas,
caricaturas tétricas e errantes
E na expressão de quem se vai sorrindo,
dos malditos, dos réus, dos suicidas;
com as mãos bem juntas e com os pés bem juntos
e um lenço preto o queixo comprimindo, Toda essa labiríntica nevrose
passam todos os lívidos defuntos… das virgens nos românticos enleios;

Literatura Brasileira * 147


os ocasos do Amor, toda a clorose Estranhos roseirais nele florescem,
que ocultamente lhes lacera os seios; folhas augustas, nobres reverdecem
de acanto, mirto e sempiterno louro.
Toda a mórbida música plebeia
de requebros de faunos e ondas lascivas;
Neste caminho encontra-se o tesouro
a langue, mole e morna melopeia
pelo qual tantas almas estremecem;
das valsas alanceadas, convulsivas;
é por aqui que tantas almas descem
Tudo isso, num grotesco desconforme, ao divino e fremente sorvedouro.
em ais de dor, em contorsões de açoites,
revive nos violões, acorda e dorme É por aqui que passam meditando,
através do luar das meias-noites!” que cruzam, descem, trêmulos, sonhando,
neste celeste, límpido caminho

• O terceiro momento reflete resignação e fé, Os seres virginais que vêm da Terra
representado pela obra Últimos Sonetos, publicados ensanguentados da tremenda guerra,
em 1905. A revolta e o desespero cedem lugar a um embebedados do sinistro vinho.”
período de resignação e fé, da sublimação das
misérias humanas e apresenta o espírito de renúncia
conquistado pelo poeta. 2. ALPHONSUS DE GUIMARAENS
O tom de confiança absoluta na salvação pelo (Ouro Preto, 1870 - 1921)
exercício da “vida obscura” e pelo percurso da “via Alphonsus Henrique da Costa Guimaraens é
dolorosa” está presente nos sonetos a seguir, outro nome de expressão do Simbolismo brasileiro.
pertencentes à última fase da poesia de Cruz e Exceto pelo abalo sentimental que teve aos 16
Sousa. anos com a morte da prima Constança que amava,
teve uma vida tranquila e que se reflete na sua obra.
SORRISO INTERIOR A poesia de Alphonsus de Guimaraens é
mansa, dolente, amarga, mas suave, sem os toques
“O ser que é ser e que jamais vacila trágicos do poeta negro (Cruz e Sousa), a quem
nas guerras imortais entra sem susto, tanto admirou. Simbolista por excelência, seus
leva consigo este brasão augusto poemas caracterizavam-se pela musicalidade, voca-
do grande amor, da nobre fé tranquila. bulário expressivo e anunciam uma busca da perene
espiritualização.
Os abismos carnais da triste argila
ele os vence sem ânsias e sem custo... OBRAS:
fica sereno, num sorriso justo, Em Setenário das Dores de Nossa Senhora, o
enquanto tudo em derredor oscila. lirismo religioso nos revela o fascínio perante as
verdades do Cristianismo, mas impregnado na
Ondas interiores de grandeza contemplação mística da mulher, bem longe da
dão-lhe essa glória em frente à Natureza, sensualidade parnasiana de Bilac; Dona Mística
esse esplendor, todo esse largo eflúvio. (1899); Kiriale (1902); uma obra póstuma: Pastoral
aos Crentes do Amor e da Morte (1923).
O ser que é ser transforma tudo em flores... Além do lirismo religioso e do amoroso,
e para ironzar as próprias dores. Alphonsus tem a preocupação com os mistérios da
Canta por entre as águas do dilúvio!” existência, procurando fugir à desgraça e à dor,
solitário na sua fantasia.
Sua poesia é marcada também pelo
CAMINHO DA GLÓRIA medievalismo (fuga para o mundo da fantasia onde
o poeta consegue realizar-se como o cavalheiro
“Este caminho é cor-de-rosa e é de ouro. medieval ou como o trovador das cantigas de amor,

148 * Literatura Brasileira


ou ainda, como o espírito que vagueia no Éden). Arrebol: coloração avermelhada do nascer ou do pôr do sol.
Ebúrnea: de marfim; que tem a aparência do marfim.
Dois polos sobressaem-se em sua temática: o amor Lúgubre: triste, fúnebre.
e a morte. Responso: versículo rezado ou cantado alternadamente pelos
dois coros, ou pelo coro e por um solista depois da leitura de
determinados textos litúrgicos.
Esquivo: arisco, intratável.

A CATEDRAL

“Entre brumas, ao longe, surge a aurora. HÃO DE CHORAR POR ELA OS


O hialino orvalho aos poucos se evapora, CINAMOMOS...
Agoniza o arrebol.
A catedral ebúrnea do meu sonho “Hão de chorar por ela os cinamomos,
Aparece, na paz do céu risonho, Murchando as flores ao tombar do dia.
Toda branca de sol. Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.
E o sino canta em lúgubres responsos:
‘Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!’ As estrelas dirão – ‘Ai! nada somos,
Pois ela se morreu silente e fria...’
O astro glorioso segue a eterna estrada. E pondo os olhos nela como pomos,
Uma áurea seta lhe cintila em cada Hão de chorar a irmã que lhes sorria.
Refulgente raio de luz.
A catedral ebúrnea do meu sonho, A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
Onde os meus olhos tão cansados ponho, Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
Recebe a bênção de Jesus. Entre lírios e pétalas de rosa.

E o sino clama em lúgubres responsos: Os meus sonhos de amor serão defuntos...


‘Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!’ E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: - ‘Por que não vieram juntos?’”
Por entre lírios e lilases desce
A tarde esquiva: amargurada prece
Põe-se a lua a rezar. SONETO XIV
A catedral ebúrnea do meu sonho
Aparece, na paz do céu tristonho, “Piedosa: o olhar nunca baixou à terra.
Toda branca de luar. Fitava o céu, porque era pura e santa...
Tinha o orgulho fidalgo de um infante
E o sino chora em lúgubres responsos:
Que entre escudeiros e lacaios erra.
‘Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!’

Deusa nenhuma, por mais alta, encerra


O céu é todo trevas: o vento uiva.
Em si, talvez, misericórdia tanta:
Do relâmpago a cabeleira ruiva
Ainda hoje na minha Alma se alevanta
Vem açoitar o rosto meu.
Como uma Cruz no cimo de uma serra.
E a catedral ebúrnea do meu sonho
Afunda-se no caos do céu medonho
Foi-lhe a vida um eterno mês de maio
Como um astro que já morreu.
Cheio de rezas brancas a Maria,
Que ela vivera como um desmaio.
E o sino geme em lúgubres responsos:
‘Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!’”
Tão branca assim! Fizera-se de cera...
Vocabulário: Sorriu-lhes Deus e ela que lhe sorria,
Bruma: nevoeiro, neblina. Virgem voltou como do céu descera.”
Hialino: que tem a aparência do vidro ou a transparência do
vidro.

Literatura Brasileira * 149


ISMÁLIA 3. EMILlANO PERNETA
(1866 -1921)
“Quando Ismália enlouqueceu, É considerado introdutor do Simbolismo no
Pôs-se na torre a sonhar... Brasil por suas atividades na “Folha Popular”, jornal
Viu uma lua no céu, em que publicou os primeiros manifestos
Viu outra lua no mar. simbolistas. Amigo fraterno de Cruz e Sousa, sua
poesia pode ser considerada expressionista, às
No sonho em que se perdeu,
vezes contendo um clima satânico por influência do
Banhou-se toda de luar...
poeta francês Baudelaire e do próprio Romantismo
Queria subir ao céu,
que subjaz ao Simbolismo. Sua produção poética
Queria descer ao mar...
também mostra um homem arrastado pelo desejo
E, no desvario seu, intenso de conhecer o próprio fim.
Na torre pôs-se a cantar... Poeta paranaense, impôs-se aos conter-
Estava perto do céu, râneos como exemplo e modelo. Formado em
Estava longe do mar... Direito, desempenhou, em Curitiba, a advocacia, o
jornalismo e o magistério como homem de letras.
E como um anjo pendeu Escreveu: Músicas (1888), Inimigo, Ilusão e
As asas para voar... Setembro. Sua prosa ainda está inédita e a poesia
Queria a lua do céu, de Emiliano Perneta, lida e valorizada por poucos,
Queria a lua do mar... espera um estudo analítico à sua altura.
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu, DAMAS

Seu corpo desceu ao mar.”


“Ânsia de te querer que já não tem mais fim,
Meu espírito vai, meu coração caminha,
EXERCÍCIOS Como uma estrela, como um sol, como um clarim,
Mas tudo em vão, sei eu! Tu és uma rainha! ...

1. Qual o tema do poema?


És a constelação maravilhosa, a minha
_________________________________________________ Aspiração, de luz magnífica, ai de mim!
_________________________________________________ A nudez, o clarão, a formosura, a linha,
_________________________________________________ O espelho ideal! Ó Torre de Marfim!

2. Localize algumas antíteses no texto.


Nunca me hás de querer, batendo-me por ti,
_________________________________________________
Pomo duma discórdia infrutífera, beijo
_________________________________________________ Todo em fogo, e a arder, assim como um rubi...
_________________________________________________

Mas é por isso que eu, ó desesperação,


3. Qual o desejo contraditório de Ismália? Amo-te com furor, com ódio te desejo,
_________________________________________________
E mordo-te, Ideal, e adoro-te, Ilusão!”

_________________________________________________

_________________________________________________
CORRE MAIS QUE UMA VELA

4. Aponte características simbolistas no poema. “Corre mais que uma vela, mais depressa,
_________________________________________________ Ainda mais depressa do que o vento,
_________________________________________________ Corre como se fosse a treva espessa
_________________________________________________ Do tenebroso véu do esquecimento.

150 * Literatura Brasileira


- Eu não sei de corrida igual a essa;
Precursores:
São anos e parece que é um momento;
_________________________________________________
Corre, não cessa de correr, não cessa,
Corre mais que a luz e o pensamento. _________________________________________________

_________________________________________________
É uma corrida doida, essa corrida.
Mais furiosa do que a própria vida,
Características:
Mais veloz que as notícias infernais...
conteúdo:

Corre mais fatalmente do que a sorte. _________________________________________________

Corre para a desgraça e para a morte. _________________________________________________


Mas eu queria que corresse mais!” _________________________________________________

Nesse poema, encontramos uma visão trágica


linguagem:
da existência, que perpassa boa parte da obra do
_________________________________________________
poeta. Podemos vê-lo como a síntese das suas
ânsias de autodestruição. _________________________________________________

Você agora vai preencher um quadro _________________________________________________


esquemático, um resumo que lhe dará uma visão
global do assunto.
forma:

_________________________________________________

SIMBOLISMO _________________________________________________

_________________________________________________

Época/razão do surgimento: No Brasil


obra inaugural: autor/ano
_________________________________________________
_________________________________________________
_________________________________________________
_________________________________________________
_________________________________________________ _________________________________________________

COMPARE AS CARACTERÍSTICAS:

Romantismo Realismo/Parnasianismo Simbolismo

Literatura Brasileira * 151


QUADRO DE AUTORES E OBRAS

Autores Características da obra Obras

1ª Fase

1. João da Cruz e Sousa 2ª Fase

3ª Fase

2. Alphonsus de Guimaraens

3. Emiliano Perneta

EXERCÍCIOS ( ) Predomínio do inconsciente, do que é misterioso, vago,


indefinível.
( ) Amor à exatidão que leva ao excesso de minúcias, valori-
1. Use (S) para as características simbolistas; (N) para as de zando o elemento descrito.
outras escolas: ( ) Uma poesia primitiva, natural, autêntica e completamente
( ) Subjetivismo, sentimentalismo; livre das peias tradicionais.
( ) Preocupação com o aspecto formal;
( ) Linguagem figurada, musical, colorida e rica; 5. Com relação à escola simbolista, pode-se dizer que:
( ) Volta-se para a “interpretação da realidade nacional”; a) os simbolistas reavivaram o culto da forma, na época
( ) Fuga da realidade exterior; esquecido, para recuperarem o seu lugar junto ao
( ) Temática intimista; materialismo;
( ) Emprego do símbolo em toda a sua polivalência;
b) as palavras começaram a adquirir valor de representação
( ) Subjetivismo anímico (da alma).
do sentimento e os versos revestiram-se de musicalidade,
de maior sonoridade e de um caráter místico, perdendo a
2. Qual a informação correta?
rigidez métrica;
a) Cruz e Sousa voltou toda a sua produção poética para a
c) ausência de lirismo amoroso, que cede lugar a uma
causa da libertação de sua raça.
concepção mais realista da vida, condicionada pelas
b) Cruz e Sousa foi, enquanto viveu, o ídolo da poesia da
transformações sociais;
época.
d) rígida disciplina de sobriedade e contiguidade nas
c) Podemos dividir a produção literária de Cruz e Sousa em
duas partes: a primeira, em prosa e publicada em vida; a imagens, clareza sintático-semântica e repugnância à
segunda, em verso, publicada depois da morte. expressão de sentido vagamente encantatório.
d) Últimos Sonetos mostra Cruz e Sousa já conformado com
a sua situação, tirando da dor e da condição em que se 6. Use V ou F (verdadeira ou falsa):
encontrava, inspiração para as suas obras. ( ) Cruz e Sousa nada produziu em prosa, embora a prosa,
e) n.d.a no Simbolismo, fosse importante.
( ) O Simbolismo manifestou-se, na mesma época, em
3. Não é tema de Alphonsus Guimaraens: diversas cidades brasileiras.
a) Constança; ( ) O Simbolismo não aceitava a preocupação formal parna-
b) Nossa Senhora; siana, tanto que aboliu o soneto e outras formas
c) O Amor; tradicionais.
d) A Morte; ( ) Por fuga da realidade exterior entendemos que o poeta
e) A Matéria. se alheia do mundo que o cerca, voltando-se somente
para seu mundo interior.
4. Considerando a Escola Simbolista, assinale (C) para as
afirmações certas e (E) para as afirmações erradas. 7. O Simbolismo teve no________________________________
( ) Fuga da matéria e a busca da região do espírito. um estilo de época coetâneo e que, na verdade, superou-o
( ) A perfeição da forma, seguindo determinados cânones em popularidade e prestígio.
clássicos. a) Realismo;
( ) Realidade criada num mundo de abstração do mundo b) Naturalismo;
objetivo, só compreendida pela natureza do espírito. c) Parnasianismo;

152 * Literatura Brasileira


d) Romantismo; apresenta em sua obra o amor espiritualizado, a evasão da
e) Barroco. vida, a religiosidade e a morte.

8. Complete as frases com os conceitos adequados: 13. “Dar nome a um objeto é aniquilar três quartos da fruição do
a) O país que deu origem ao Simbolismo no mundo foi poema, que deriva da satisfação de adivinhar pouco a pouco:
_______________________________________________ . sugeri-Io, evocá-Io, isto é que encanta a imaginação.”
A afirmação acima, do poeta francês Mallarmé, refere-se ao:

b) No ano de ________________, o Simbolismo brasileiro a) Barroco;


b) Arcadismo;
teve seu início com as obras: ________________________ c) Parnasianismo;
_________________________________________________ d) Romantismo;
e) Simbolismo.
(coletânea de poesias em prosa) e_____________________
14. Assinale, nas opções a seguir, a afirmação que se refere ao
(poesias em verso) da autoria de _____________________ . Simbolismo:
a) Não se destina ao pensamento, dirige-se ao instinto, ao
c) Os poetas simbolistas foram chamados de “decadentes ou subconsciente.
b) Dirige-se à razão; enfoca a realidade.
_______________________________________________” c) Voltaram à baila os deuses esquecidos, as ninfas e os
pastores enamorados.
(habitantes das nuvens). d) Estética de observação, de análise, de crítica social.
e) A literatura voltou-se para os temas nacionais.
9. Numere a 2ª coluna pela 1ª de acordo com as fases de Cruz
e Sousa: 15. “Que importa o número do verso, se o ritmo é belo?”
Considerando a afirmação acima, assinale a relação que se
(a) 1ª fase (b) 2ª fase (c) 3ª fase aplica à mesma:

( ) O poeta resigna-se na fé. a) Parnasianismo______________________ arte;


( ) O poeta embala-se num sensualismo espiritual ou b) Romantismo_________________ nacionalismo;
platônico. c) Simbolismo ______________________ música;
( ) A tragédia existencial ou metafísica se instala com temas d) Arcadismo _____________________bucolismo;
em torno da morte, dos lamentos, da solidão, do tédio e e) Barroco ___________________________ ideia.
da humilhação.
16. Somente uma das afirmações não se refere ao Simbolismo:
10. Utilizando a convenção da pergunta anterior, diga a qual fase a) Desprezo pela natureza em favor do místico e do
pertence cada estrofe de poemas de Cruz e Sousa: sobrenatural;
b) Concepção objetiva da vida;
( ) “Os miseráveis, os rotos c) Concepção mística da vida;
São as flores dos esgotos. d) Linguagem exótica, colorida;
São espectros implacáveis e) Conhecimento intuitivo.
Os rotos, os miseráveis.”
17. Assinale a frase certa:
( ) “ Formas do Amor, constelarmente puras, a) No Simbolismo, os versos devem primar pela perfeição
De Virgens e de Santas vaporosas... formal.
Brilhos errantes, mádidas frescuras b) O Simbolismo pouco traduz da realidade objetiva e o
E dolências de lírios e de rosas...” subjetivismo está presente.
c) O Simbolismo retrata a sociedade brasileira da época.
( ) “Neste caminho encontra-se o tesouro d) O Simbolismo preocupou-se em fazer poesia social.
pelo qual tantas almas estremecem; e) O simbolista é totalmente diferente do romântico.
é por aqui que tantas almas descem
ao divino e fremente sorvedouro.” 18. Assinale a alternativa que contenha apenas características
simbolistas:
11. Cite cinco características simbolistas. a) Rigidez formal, altamente descritiva, “arte pela arte”, largo
uso do soneto;
_________________________________________________ b) Idealização do herói, objetivismo, sentimentalismo,
_________________________________________________ escapismo;
c) Temática intimista, desvinculamento da realidade exterior,
_________________________________________________ linguagem figurada;
d) Volta à Antiguidade clássica, bucolismo e pastoralismo,
_________________________________________________ linguagem simples;
_________________________________________________ e) Fraqueza de conteúdo, supervalorização da forma,
temática religiosa.
_________________________________________________
19. Marque a opção correta:
a) Para o simbolista, a interiorização vale mais do que a
12. Escreva o nome do poeta para completar as seguintes
exteriorização.
asserções:
b) O Simbolismo busca inspiração no mundo que o cerca.
a) _______________________________________________ c) A linguagem simbolista deve ser precisa e denotativa.
d) Os simbolistas libertam-se totalmente das técnicas parna-
nasceu em Curitiba e escreveu Ilusão, Setembro. sianas.
b)_______________________________________________ e) Os poetas simbolistas foram, na grande maioria, famosos
em vida.
produziu uma poesia que procura expressar o elemento
transcendente, vago e nebuloso da vida. 20. Qual das características abaixo se aplica a Cruz e Sousa?
a) Preferência por assuntos mórbidos: doenças e morte.
c)_______________________________________________ b) Busca do transcendente, sentimento trágico da existência.

Literatura Brasileira * 153


c) Nele o amor e a morte são inseparáveis, um complementa c) Que visão da natureza é veiculada no poema?
o outro.
d) Exalta o destino do homem e concita-o à luta. _________________________________________________
e) Transforma sua noiva, falecida precocemente, no símbolo _________________________________________________
da mulher ideal.
_________________________________________________
21. Palavras ligadas ao tema da morte, adjetivos vagos e
imprecisos, vocabulário litúrgico, atmosfera de mistério,
inovações métricas, musicalidade dos versos são traços d) Há um sentimento de autocompaixão no texto. Explique-o.
básicos do período literário designado por:
a) Romantismo; _________________________________________________
b) Parnasianismo; _________________________________________________
c) Simbolismo;
d) Pré-Modernismo; _________________________________________________
e) Modernismo.

22. A temática de Cruz e Sousa, além da busca do transcendente,


envolve de maneira bem nítida: 25. Análise de texto:
a) a religiosidade angustiada;
b) o sentimento trágico da existência;
c) os sonhos líricos e sentimentais;
d) a lembrança mística da mulher amada. CREIO!

23. A poesia de Alphonsus de Guimaraens caracteriza-se: “Eu creio! Pude crer. Ah! Finalmente pude,
a) pela extrema perfeição formal, que a leva a ser Rompendo das paixões e o espesso torvelinho,
considerada modelo da estética parnasiana. Vibrando de prazer as cordas do alaúde,
b) por exprimir uma visão específica da vida, a de que o Ver a estrela da fé brilhar em meu caminho!
homem precisa viver intensamente antes que a morte o
aniquile. Eu sinto-me tão bem dentro deste alvo linho,
c) pelo misticismo e pela atmosfera de sonho e de mistério. Que até me refloriu a graça e a saúde;
d) pela obsessão da morte do filho único, exaltado num de Ando quase a voar, sou quase um passarinho,
seus poemas famosos. E penso que voltou a flor da juventude...
e) por ser repleta de símbolos filosóficos que retomam temas
da Antiguidade medieval. Que doirada ilusão! que divina loucura!
Só me arrebata o olhar a luminosa altura,
24. Análise de texto: Onde fulgem de amor todos os astros nus...

Beijo embriagador! Oh! fogo que me abrasas!


“Hão de chorar por ela os cinamomos, Quanto me faz febril a ideia de ter asas,
Murchando as flores ao tombar do dia. E de poder fugir para a infinita luz!”
Dos laranjais hão de cair os pomos, (Emiliano Perneta)
Lembrando-se daquela que os colhia.

As estrelas dirão: - ‘Ai, nada somos,


Pois ela se morreu silente e fria...’ a) Há nítida preocupação formal nesse poema simbolista.
E pondo os olhos nela como pomos, Comprove, analisando esquema métrico, rímico, linguagem e
Hão de chorar a irmã que lhes sorria. figuras de linguagem.

A lua, que lhe foi mãe carinhosa, _________________________________________________


Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
_________________________________________________
Entre lírios e pétalas de rosa.
_________________________________________________
Os meus sonhos de amor serão defuntos...
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la, _________________________________________________
Pensando em mim: - ‘Por que não vieram juntos?’”
_________________________________________________

_________________________________________________
a). Qual a situação da amada no momento da escritura do
poema? Baseado neste fato, descubra quem é o autor do _________________________________________________
poema.

_________________________________________________

_________________________________________________ b) Há subjetividade e espiritualidade no poema? Comente,


utilizando-se de passagens do texto.
_________________________________________________
_________________________________________________

_________________________________________________
b) A referência a estrelas poderia caracterizar o poema como de _________________________________________________
autoria de Olavo Bilac? A visão do elemento feminino condiz
com formalização da mulher na poética deste poeta? _________________________________________________

_________________________________________________ _________________________________________________

_________________________________________________ _________________________________________________

_________________________________________________ _________________________________________________

154 * Literatura Brasileira


c) Ocorre no poema um descompasso entre conteúdo e forma à
medida que o autor, para falar sobre o universo espiritual,
utiliza-se de uma linguagem que apela para o sexual.
Comente.

_________________________________________________

_________________________________________________

_________________________________________________

_________________________________________________

_________________________________________________

_________________________________________________

_________________________________________________

Literatura Brasileira * 155


O Pré-modernismo
no Brasil

1. Contexto históriCo As grandes conquistas científicas do período


servem de sustentação para o enaltecimento do
a) NO BRASIL progresso, o que conduz à euforia. Só para ter uma
ideia do extraordinário avanço técnico da época,
O fim do século XIX e as duas primeiras observe os inventos que surgem no início do século:
décadas do século XX vão encontrar uma sociedade a) o telégrafo;
brasileira que admite a seguinte esquematização b) o carro movido a motor;
didática: c) a lâmpada elétrica;
d) o telefone;
Classes conservadoras, reacionárias a e) o cinema;
mudanças. f) o avião.

• Classe dominante representada pelos


Toda essa evolução científica, rompendo
cafeicultores e pecuaristas. Dessa dominação
barreiras de tempo e espaço, leva o homem a um
político-econômica, resulta a política do café
estado de euforia que conduz à valorização do “viver
com Ieite (São Paulo e Minas Gerais como
centros de decisão). confortavelmente”, do “aproveitar o presente”. Paris
• Burguesia industrial nascente em São Paulo é o centro do prazer e também o centro do mundo.
e no Rio de Janeiro. É a chamada “belle époque” que atinge seu ponto
• Predomínio da cultura cafeeira. culminante.
Em 1914, estoura a Primeira Guerra Mundial,
Novos estratos sociais que exigiam soluções que levou o homem à descrença total em relação
inéditas. aos sistemas políticos, sociais e filosóficos até então
vigentes. Termina o período em que todos se
• Imigrante europeu vindo para substituir a mão sentiam seguros e eufóricos. Em 1918, o conflito
de obra escrava. chega ao fim. É claro que esse conflito, que envolveu
• Marginalização do negro, que tinha sido o mundo, gerou um enorme descontentamento,
recém-libertado. agravado depois pela Revolução Russa, em 1917,
• Aparecimento do proletariado. que propunha uma forma de governo socialista.
• Declínio da cultura açucareira. O homem que viveu a guerra questiona os
valores de seu tempo.
Doze anos depois, o mundo enfrentou a
b) NA EUROPA tremenda crise econômica de 1929, da qual resultou
o segundo conflito mundial em 1939.
As duas primeiras décadas do século XX vão Nesse ligeiro período de entreguerras,
assistir, na Europa, à crise do capitalismo e ao assiste-se aos “anos loucos”, fase marcada, pri-
nascimento da democracia de massas. A burguesia cipalmente, por uma ânsia de viver freneticamente,
tem consciência do perigo que representa a viver o hoje e o agora.
revolução socialista, mas acredita ainda na A guerra tinha lançado no espírito humano a
possibilidade de resolver as crises ocasionais da incerteza sobre a permanência e a duração da paz.
economia capitalista.

Literatura Brasileira * 157


2. maniFestaçÕes artístiCas Movimentos de Vanguarda.
Entende-se por vanguarda, o conjunto de
manifestações artísticas que surgiram em torno da
a) NO BRASIL Primeira Guerra Mundial, compreendendo-se o
período que a antecedeu, o período da guerra e o
Foi nesse contexto que a música popular período que a sucedeu, enquanto o mundo se
brasileira: maxixe, toada, modinha e serenata - preparava para a Segunda Grande Guerra.
começou a ganhar os salões sisudos onde, até Cronologicamente, a vanguarda europeia
então, só entravam a polca e a valsa. Essa aceitação apresenta os seguintes principais movimentos
da música popular brasileira por parte da elite deu-se estéticos: Futurismo, Cubismo, Dadaísmo e
a partir do momento em que compositores “sérios” Surrealismo.
começaram a se interessar pelos ritmos conside- Para entender o espírito desses movimentos,
rados populares. é necessário observar que:
O carnaval começa a se firmar como a a) todos eles propõem a desorganização
principal festa popular do Rio de Janeiro. Em 1901, consciente da cultura e, em especial, da arte
Chiquinha Gonzaga divulga a célebre marcha “Abre produzida até então;
Alas” e, em 1907, surge a primeira sociedade b) ocorre uma grande integração entre
carnavalesca do Rio de Janeiro. diversas manifestações artísticas do período: a
Data desse período, ainda, o nascimento do pintura, a escultura, a arquitetura, a literatura e a
samba. A música de carnaval vai incorporar a sátira música apresentam muitos traços comuns;
política como tema, utilizando-a com um caráter c) apesar da proposta de criar algo
bastante irreverente. inteiramente novo, os vanguardistas da época não
Na música erudita, destaca-se, prin- deixaram, por vezes, de se inspirar em elementos
cipalmente, Alberto Nepomuceno, que compõe considerados como imperecíveis, buscados nos
música com “intenção nacionalista”. séculos XVI, XVII e XVIII.
A pintura, por outro lado, seguia no mais puro O estudo de cada uma dessas vanguardas é
estilo acadêmico, ignorando as manifestações que importante para observar até que ponto elas
já se processavam na Europa: contentava-se em interferiram no surgimento do Modernismo brasileiro.
refletir os temas e ambientes da elite.
Apenas em 1913 e em 1917, apareceram
sintomas de renovação. Em 1913, o pintor russo FUTURISMO
Lasar Segall fez uma exposição de sua obra,
apresentando novos temas e processos. Sua
exposição passou despercebida. Em 1917, a pintora Futurismo foi um movimento que produziu
Anita Malfati promoveu uma exposição que causou mais manifestos do que obras propriamente ditas.
escândalo. Cerca de trinta manifestos, lançados de 1905
a 1919, permitem traçar três fases para o movimento
futurista:
b) NA EUROPA a) de 1905 a 1909: em que o verso livre é a
principal reivindicação;
A chamada arte moderna reflete a b) de 1909 a 1914: em que os futuristas
inquietação, a multiplicidade de aspectos, enfim, o batem-se, sobretudo, pela chamada “imaginação
dinamismo do período. sem freios” e pela “palavra em liberdade”;
As primeiras manifestações artísticas do c) de 1919 em diante: em que o Futurismo
século XX caracterizavam-se, principalmente, pelo adquire uma coloração política, tornando-se porta-
intuito de chocar a opinião pública, com ideias voz do Fascismo.
absolutamente novas, pela ruptura com o passado e Alguns exemplos de poesia brasileira que
pela abertura em relação às possibilidades de incorporaram o verso livre e as palavras em
constantes mudanças. Surgem, na Europa, os liberdade:

158 * Literatura Brasileira


“E a manhã em que é preciso arrombar as misteriosas portas
noiva do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram
invernal ontem. Nós vivemos já no absoluto, já que nós
humidecida, criamos a eterna velocidade onipresente.
Névoas 7 - Nós queremos glorificar a guerra - única higiene
Ventos do mundo - o militarismo, o patriotismo, o gesto
Gotas de água, destrutor dos anarquistas, as belas ideias que
Se desenrola que nem novelo de fofa lã” matam, e o menosprezo à mulher.
(Mário de Andrade) 8 - Nós queremos demolir os museus, as bibliotecas,
combater o moralismo, o feminismo e todas as
covardias oportunistas e utilitárias.”
“Bananeiras
O sol
O cansaço da ilusão
Igrejas CUBISMO
O ouro na serra de pedra
A decadência” O termo cubismo, surgido na pintura, designa
(Oswald de Andrade) um modo de expressão em que o artista fraciona o
elemento da realidade que está interessado em
representar e depois o expressa através de planos
Tendo em F. T. Marinetti seu mais importante superpostos e simultâneos.
propagador, os futuristas lutavam, especialmente, Os nomes mais importantes do Cubismo são:
pela destruição do passado e pela negação total dos Picasso, Fernand Leger, Mondrian, Delaunay.
valores estéticos vigentes. Na Literatura, o principal representante dessa
corrente é o poeta francês Guillaume Apollinaire.
Trechos do manifesto futurista:
Não há um manifesto da poesia cubista. Um
1 - “ Nós queremos cantar o amor ao perigo, o hábito trecho do artigo “Meditações estéticas sobre a
à energia e à temeridade. pintura”, de Apollinaire (1913) mostra alguns
2 - Os elementos essenciais de nossa poesia serão aspectos das reivindicações cubistas.
a coragem, a audácia e a revolta. “Os grandes poetas e os grandes artistas têm
3 - Tendo a literatura até aqui enaltecido a por função social remover continuamente a
imobilidade pensativa, o êxtase e o sono, nós aparência que reveste a Natureza, aos olhos dos
queremos exaltar o movimento agressivo, a homens. Sem os poetas, sem os artistas, os homens
insônia febril, o passo ginástico, o salto mortal, a se aborreceriam depressa com a monotonia cultural.
bofetada e o soco. A ideia sublime que eles têm do Universo cairia com
4 - Nós declaramos que o esplendor do mundo se vertiginosa rapidez. A ordem, que aparece na
enriqueceu com uma beleza nova: a beleza da Natureza e que não é senão um efeito da arte, logo
velocidade. Um automóvel de corrida com seu se evaporaria. Tudo se desmancharia no caos. Não
cofre adornado de grossos tubos como serpentes mais estações, não mais civilização, não mais
de fôlego explosivo... um automóvel rugidor, que pensamentos, não mais humanidade, não mais vida,
parece correr sobre a metralha, é mais belo que e a imponente escuridão reinaria para sempre. Os
a Vitória de Samotrácia. poetas e os artistas determinam e consertam a
5 - Não há mais beleza senão na luta. Nada de obra- imagem de sua época e docilmente o futuro se
prima sem um caráter agressivo. A poesia deve amolda ao seu gosto.”
ser um assalto violento contra as forças
desconhecidas, para intimá-Ias a deitar-se diante DADAÍSMO
do homem.
6 - Nós estamos sobre o promontório extremo dos Foi o mais radical dos movimentos de
séculos!... Para que olhar para trás, no momento vanguarda europeia do início do nosso século.

Literatura Brasileira * 159


Tristan Tzara, o líder do movimento, afirma “RECEITA” DE POEMA DADAÍSTA:
que dadá, palavra que ele encontrou casualmente
ao colocar uma espátula num dicionário fechado, “Pegue um jornal.
pode significar: rabo de vaca santa, mãe, nome de Pegue a tesoura.
um cavalo de pau, certamente, a ama de Ieite. Mas Escolha no jornal um artigo do tamanho que
o próprio Tzara acaba por afirmar que dadá não você deseja dar ao seu poema.
significa nada. Recorte o artigo.
Por aí, já podemos entender que o Recorte em seguida com atenção algumas
Dadaísmo é a negação total, a apologia do absurdo palavras que formam esse artigo e meta-as
e do incoerente. Fenômeno típico da guerra, o num saco.
Dadaísmo é um processo contra a civilização que Agite suavemente.
conduzira a sociedade ao conflito mundial. Tire em seguida cada pedaço um após o
Os dadaístas não propõem nada, apenas a outro.
destruição, pois se lançam contra todos os valores Copie conscienciosamente na ordem em que
culturais que Ihes parecem sem lógica, procurando elas são tiradas do saco.
um mundo mágico, muito semelhante ao mundo O poema se parecerá com você.
infantil. Por isso, a proposta dos dadaístas é a E ei-lo um escritor infinitamente original e de
construção de uma antiarte. uma sensibilidade graciosa, ainda que
Decorre daí que as características de uma incompreendido do público.”
obra dadaísta são a improvisação, a desordem e a (Tristan Tzara)
absoluta ausência de equilíbrio.

SURREALISMO
Trechos do manifesto dadaísta:
Em 1924, André Breton, um poeta francês,
lança o Manifesto do Surrealismo, dando início
1 - “Eu redijo um manifesto e não quero nada, àquele que seria, cronologicamente, o último
eu digo portanto certas coisas e sou por princípio movimento da vanguarda europeia dos anos 20.
contra os manifestos, como sou também contra os O Surrealismo apresenta ligações com o
princípios. Dadaísmo e o Futurismo. Lutando pela elaboração
2 - Sabe-se pelos jornais que os negros Krou de uma nova cultura, os surrealistas propunham a
denominam a cauda de uma vaca santa: DADÁ. O destruição da sociedade e sua recriação a partir de
cubo é a mãe em certa região da Itália: DADÁ. Um novas técnicas.
cavalo de madeira, a ama de leite, dupla afirmação Nesse aspecto, divergem dos dadaístas, que
em russo e em romeno: DADÁ. tinham apenas caráter destruidor.
Em termos de expressão artística, a grande
3 - DADÁ NÃO SIGNIFICA NADA.
novidade apresentada pelo Surrealismo foi a escrita
4 - A obra de arte não deve ser a beleza em si
automática, ou seja, um método em que o escritor
mesma, porque a beleza está morta.
deve deixar-se levar pelos seus impulsos,
5 - Como querer ordenar o caos que constitui
registrando tudo que lhe for ditado pela inspiração,
esta infinita informe variação: o homem? O princípio:
sem se preocupar com a ordem, a lógica, ou
‘ama teu próximo’ é uma hipocrisia. ‘Conhece-te’ é
quaisquer outros fatores que possam representar
uma utopia, porém mais aceitável porque contém a coerção de seu espírito criador.
maldade. Nada de piedade. Após a carnificina, resta- Os surrealistas procuram atingir uma outra
nos a esperança de uma humanidade purificada. realidade, situada no plano do subconsciente ou do
6 - ... nasceu DADÁ de um desejo de inconsciente, realidade que é diferente da realidade
independência, de desconfiança na comunidade. empírica, da realidade objetiva.
Aqueles que nos pertencem conservam sua Por isso, o sonho passa a ser a grande arma
liberdade. Nós não reconhecemos nenhuma teoria.” de conhecimento proposto pelos surrealistas. No

160 * Literatura Brasileira


sonho, a realidade e a irrealidade, a lógica e a moral ou estética.”
fantasia coexistem com perfeição.
Leia, agora, um texto surrealista:
A fantasia, os estados tristes e melancólicos
atraem muito os surrealistas e, nesse aspecto, suas
AS REALIDADES
técnicas de penetração do espírito humano se
aproximam daquelas utilizadas pelos românticos. “Era uma vez uma realidade
São nomes importantes do Surrealismo: com as suas ovelhas de lã real
a) Na pintura: Salvador Dali, De Chirico e a filha do rei passou por ali
Hans Arp; E as ovelhas baliam que linda que está
b) No teatro: Antonin Artaud; a re a rea a realidade.
c) No cinema: Luis Buñel;
d) Na literatura: Paul Éluard e André Breton. Na noite era uma vez
uma realidade que sofria de insônia
Manifesto surrealista:
Então chegava a madrinha fada
1 - “As confidências dos loucos, eu passaria a e realmente levava-a pela mão
vida a provocá-Ias. São pessoas de uma a re a re a realidade.
honestidade escrupulosa e cuja inocência só é
comparável à minha. Foi preciso que Colombo No trono havia uma vez
partisse com loucos para descobrir a América. E um velho rei que se aborrecia
vejam como essa loucura se corporificou e durou. e pela noite perdia o seu manto
2 - ... a atitude intelectual e moral. Tenho e por rainha puseram-lhe ao lado
horror a ela, pois é feita de mediocridade, de ódio e a re a re a realidade.
suficiência sem atrativo. CAUDA: dade dade a reali
3 - Vivemos ainda no reinado da lógica, eis, dade dade a realidade
bem entendido, aonde eu queria chegar. Mas os A real a real
processos lógicos, de nossos dias, só se aplicam à idade idade dá a reali
resolução de problemas de interesse secundário. ali
4 - Se as profundezas de nosso espírito a re a realidade
abrigam forças estranhas capazes de aumentar as era uma vez a REALIDADE.”
da superfície, ou de lutar vitoriosamente contra elas, (Luis Aragon)
há todo interesse em captá-las, em captá-las desde
o início, para submetê-Ias em seguida, se isso Seguem alguns excertos poéticos de

ocorrer, ao controle de nossa razão. dimensão surrealista da poesia brasileira, como

5 - O sonho não pode ser ele também também algumas passagens do Prefácio
Interessantíssimo de Mário de Andrade em que o
aplicado à solução das questões fundamentais da
poeta opta pela escrita automática:
vida?
6 - Conta-se que, diariamente, na hora de “Quando sinto a impulsão lírica escrevo sem
adormecer, Saint-Pol-Roux mandava colocar sobre pensar tudo o que meu inconsciente me grita.
a porta de sua mansão de Camaret um aviso onde Penso depois: não só para corrigir, como
se lia: ‘O Poeta trabalha’. para justificar o que escrevi.”
7 - ... o maravilhoso é sempre belo, não
importa qual maravilhoso seja belo, nada há mesmo “Quem leciona História no Brasil obedecerá a
senão o maravilhoso que seja belo. uma ordem que, certo, não consiste, em
8 - ‘Surrealismo’, s.m. Automatismo psíquico estudar a Guerra do Paraguai antes do ilustre
pelo qual alguém se propõe a exprimir, seja acaso de Pedro Álvares. Quem canta seu
verbalmente, seja por escrito, seja de qualquer outra subconsciente seguirá a ordem imprevista
maneira, o funcionamento real do pensamento. das comoções, das associações de imagens,
Ditado do pensamento, na ausência de todo controle dos contatos exteriores.
exercido pela razão, fora de qualquer preocupação Acontece que o tema às vezes descaminha.”

Literatura Brasileira * 161


“A mulher do fim do mundo AUTORES E OBRAS DO PRÉ-MODERNISMO
Dá de comer às roseiras,
Dá de beber às estátuas, 1. MONTEIRO LOBATO
Dá de sonhar aos poetas. (1882 -1948)
Desencadeou uma luta em favor dos
A mulher do fim do mundo
interesses nacionais, combatendo a exploração e
Chama a luz com um assobio,
tornando-se muito conhecido por sua campanha pela
Faz a virgem virar pedra,
extração do petróleo brasileiro. Tal embate lhe
Cura a tempestade,
Desvia o curso dos sonhos custou seis meses de prisão no governo de Getúlio

Escreve cartas aos rios, Vargas.


Me puxa do sono eterno Urupês e Cidades Mortas são os dois livros de
Para os seus braços que cantam.” contos que se destacam entre as obras de Lobato,
(Murilo Mendes)
através dos quais o autor se propôs a renovar
esteticamente a nossa ficção e denunciar as facetas
negativas da sociedade que o rodeava. Em Urupês,
cria o personagem Jeca-Tatu: o caipira que vegetava
3. literatura de cócoras, incapaz de ação, apático e desalentado
- símbolo da ignorância e do caboclo brasileiro. Em
Cidades Mortas, o autor retrata a decadência das
Nesse contexto histórico-cultural, surgiu uma cidades paulistas no Vale do Paraíba, no declínio da
literatura de transição que cobre as duas primeiras economia cafeeira.
décadas do século XX no Brasil. Essa literatura Lobato usava, predominantemente, o estilo
antecipa algumas características do Modernismo. direto, linguagem fluente, simples, fácil, mais
Esse período literário, denominado de Pré-moder- próxima do coloquial. Incorporou expressões típicas
nismo, apresenta duas facetas: da fala regional. Não chegou, entretanto, a promover
a revolução da estrutura da frase, da linguagem, da
a) traço conservador: representado pela temática.
permanência de elementos naturalistas e parna- Não aderiu ao Modernismo, apesar de suas
sianos. ideias inovadoras e preocupação com a renovação
b) traço renovador: representado pelo inte- literária, com os problemas brasileiros. Entretanto,
resse em relação à realidade brasileira, revelando as se não chegou a ser grande criador de novas formas
tensões de nossa sociedade da época. na área da literatura para adultos, na infantil foi o
grande inovador que todos conhecemos.
Submetendo a vida brasileira da época a um
questionamento, os escritores vão fixar situações Urupês (fragmentos)
sociais de seu tempo, como a Guerra de Canudos, o (...)
problema da adaptação do imigrante, a situação do
caboclo abandonado, entre outros. “Quando Pedro I lança aos ecos o seu grito
Pôs-se a literatura brasileira, mais do que histórico e o país desperta estrovinhado à crise
nunca, à procura do nacional, para a sua incor- duma mudança de dono, o caboclo ergue-se, espia
poração. e acocora-se de novo.
O nacionalismo cultural brasileiro encontra Pelo 13 de Maio, mal esvoaça o florido decre-
expressão em diversas teses, defendidas inter- to da Princesa e o negro exausto larga num uf! o
mitentemente através de nossa história: pensar no cabo da enxada, o caboclo olha, coça a cabeça,
Brasil, interpretá-Io, procurar integrar a cultura na ‘magina e deixa que do velho mundo venha quem
realidade brasileira, enfatizar os valores de nossa nele pegue de novo.
civilização e as qualidades regionais de nossa A 15 de Novembro, troca-se um trono vitalício
cultura, pôr em destaque as nossas características pela cadeira quadrienal. O país bestifica-se ante o
raciais, sociais, culturais. inopinado da mudança. O caboclo não dá pela coisa.

162 * Literatura Brasileira


Vem Floriano; estouram as granadas de Mobília, nenhuma. A cama é uma espipada esteira
Custódio; Gumercindo bate às portas de Roma; de peri posta sobre o chão batido.
Incitátus derranca o país. O caboclo continua de Às vezes se dá ao luxo de um banquinho de
cócoras, a modorrar... três pernas - para os hóspedes. Três pernas
Nada o esperta. Nenhuma ferrotoada o põe de permitem equilíbrio; inútil, portanto, meter a quarta, o
pé. Social, como individualmente, em todos os atos que ainda o obrigaria a nivelar o chão. Para que
da vida, Jeca, antes de agir, acocora-se. assentos, se a natureza os dotou de sólidos,
Jeca Tatu é um peraquára do Paraíba, rachados calcanhares sobre os quais se sentam?
maravilhoso epitome de carne onde se resumem Nenhum talher. Não é a munheca um talher
todas as características da espécie. completo - colher, garfo e faca a um tempo?
Ei-Io que vem falar ao patrão. Entrou, saudou. No mais, umas cuias, gamelinhas, um pote
Seu primeiro movimento após prender entre os esbeiçado, a pichorra e a panela de feijão.
lábios a palha de milho, sacar o rolete de fumo e Nada de armários ou baús. A roupa, guarda-a
disparar a cusparada d’ esguicho, é sentar-se jeito- no corpo. Só tem dois parelhos; um que traz no uso
samente sobre os calcanhares. Só então destrava a e outro na lavagem.
língua e a inteligência. Os mantimentos apaiola nos cantos da casa.
- ‘Não vê que...’ Inventou um cipó preso à cumeeira, de
De pé ou sentado as ideias se lhe entramam, gancho na ponta e um disco de lata no alto: ali
a língua emperra e não há de dizer coisa com coisa. pendura o toucinho, a salvo dos gatos e ratos.
De noite, na choça de palha, acocora-se em Da parede pende a espingarda pica-pau, o
frente ao fogo para ‘aquentá-lo’, imitado da mulher e polvarinho de chifre, o São Benedito defumado, o
da prole. rabo de tatu e as palmas bentas de queimar durante
Para comer, negociar uma barganha, ingerir as fortes trovoadas. Servem de gaveta os buracos
um café, tostar um cabo de foice, fazê-Io noutra da parede.
posição será desastre infalível. Há de ser de Seus remotos avós não gozaram maiores
cócoras. comodidades. Seus netos não meterão quarta perna
Nos mercados, para onde leva a quitanda ao banco. Para quê? Vive-se bem sem isso.
domingueira, é de cócoras, como um faquir do Se pelotas de barro caem, abrindo seteiras na
Bramaputra, que vigia os cachinhos de brejaúva ou parede, Jeca não se move a repô-las. Ficam pelo
o feixe de três palmitos. resto da vida os buracos abertos, a entremostrarem
Pobre Jeca Tatu! Como é bonito no romance e nesgas de céu.
feio na realidade! Quando a palha do teto, apodrecida, greta em
Jeca mercador, Jeca lavrador, Jeca filósofo... fendas por onde pinga a chuva, Jeca, em vez de
Quando comparece às feiras, todo mundo remendar a tortura, limita-se, cada vez que chove, a
logo adivinha o que ele traz: sempre coisas que a aparar numa gamelinha a água gotejante...
natureza derrama pelo mato e ao homem só custa o Remendo... Para quê? se uma casa dura dez
gesto de espichar a mão e colher - cocos de tucum anos e faltam ‘apenas’ nove para que ele abandone
ou jiçará, guabirobas, bacuparis, maracujás, jataís, aquela? Esta filosofia economiza reparos.
pinhões, orquídeas; ou artefatos de taquarapoca- Na mansão de Jeca a parede dos fundos
peneiras, cestinhas, samburás, tipitis, pios de bojou para fora um ventre empanzinado, ameaçando
caçador; ou utensílios de madeira mole - gamelas, ruir; os barrotes, cortados pela umidade, oscilam na
pilõezinhos, colheres de pau. podrigueira do baldrame. A fim de neutralizar o
Nada mais. desaprumo e prevenir suas consequências, ele
Seu grande cuidado é espremer todas as grudou na parede uma Nossa Senhora enquadrada
consequências da lei do menor esforço - e nisto vai em moldurinha amarela - santo de mascate.
longe. - ‘Por que não remenda essa parede, homem
Começa na morada. Sua casa de sapé e lama de Deus?’
faz sorrir aos bichos que moram em toca e gargalhar - ‘Ela não tem coragem de cair. Não vê a
ao joão-de-barro. Pura biboca de bosquímano. escora?’

Literatura Brasileira * 163


Não obstante, ‘por via das dúvidas’, quando a fora da seção de queixas, estimulou o fazendeiro a
ronca a trovoada, Jeca abandona a toca e vai reincidir. Reincidiu. E quando deu acordo de si, virara
agachar-se no oco dum velho embiruçu do quintal - o que os noticiaristas gravemente chamam ‘um
para se saborear de longe com a eficácia da escora homem de letras’.
santa. Ora aí está como as coisas se arrumam, e
Um pedaço de pau dispensaria o milagre; mas como, por obra e graça de meia dúzia de Neros de
entre pendurar o santo e tomar da foice, subir ao pé no chão, entra a correr mundo mais um livro.
morro, cortar a madeira, atorá-Ia, baldeá-Ia e Setembro, 1918.”
especar a parede, o sacerdote da Grande Lei do
O artigo “Velha Praga” com que o tal fazendeirinho
Menor Esforço não vacila. É coerente.
“veio pela imprensa” era o seguinte:
Um terreirinho descalvado rodeia a casa. O
mato o beira. Nem árvores frutíferas, nem horta, nem
VELHA PRAGA
flores - nada revelador de permanência.
Há mil razões para isso; porque não é sua a
“Andam todos em nossa terra por tal forma
terra; porque se o ‘tocarem’ não ficará nada que a
estonteados com as proezas infernais dos
outrem aproveite; porque para frutas há o mato;
belacíssimos ‘vons’ alemães, que não sobram olhos
porque a ‘criação’ come; porque...”
para enxergar males caseiros.
(...)
Venha, pois, uma voz do sertão dizer às
gentes da cidade que se lá fora o fogo da guerra
“VELHA PRAGA”
lavra implacável, fogo não menos destruidor devasta
nossas matas, com furor não menos germânico.
Conto publicado em seu livro Urupês, de 1918 Em agosto, por força do excessivo prolon-
(publicado avulso inicialmente no jornal “O Estado gamento do inverno, ‘von Fogo’ lambeu montes e
de S.Paulo”, em 1914) vales, sem um momento de tréguas, durante o mês
... inteiro.
“Mal se ia aquele, vinha outro: Vieram em começos de setembro chuvinhas
– Patrão, o Trajibu está queimando! de apagar poeira e, breve, novo ‘verão de sol’ se
– Então, já seis? estirou por outubro adentro, dando azo a que se
– É verdade. Há o fogo do Teixeirinha, o fogo torrasse tudo quanto escapara à sanha de agosto.
de Maneta, o fogo do Jeca... A serra da Mantiqueira ardeu como ardem
– Fogo ‘signés’!... Que patifes! Mas hão de aldeias na Europa, e é hoje um cinzeiro imenso,
pagar. Denuncio-os todos à polícia. entremeado aqui e acolá de manchas de verdura –
O capataz sorriu. as restingas úmidas, as grotas frias, as nesgas
– Não vale a pena. São eleitores do governo; salvas a tempo pela cautela dos aceiros. Tudo mais
o patrão não arranja nada. é crepe negro.
– Mas não haverá ao menos um incendiário À hora em que escrevemos, fins de outubro,
oposicionista que possa pagar o pato? chove. Mas que chuva cainha! Que miséria d’água!
– Não vê! Caboclo é ali firme no governo Enquanto caem do céu pingos homeopáticos,
justamente p’r’amor do fogo. medidos a conta-gotas, o fogo, amortecido mas não
Tinha razão o homem. Eram todos do dominado, amoita-se insidioso nas piúcas(1), a
governo. E o eleitor da roça, em paga da fidelidade fumegar imperceptivelmente, pronto para rebentar
partidária, goza-se do direito de queimar o mato em chamas mal se limpe o céu e o sol lhe dê a mão.
alheio. Preocupa à nossa gente civilizada o conhecer
Impossibilitado de agir contra eles por meio da em quanto fica na Europa por dia, em francos e
justiça, o pobre fazendeiro limitou-se a ‘tocar’ alguns cêntimos, um soldado em guerra; mas ninguém
que eram seus agregados e... a ‘vir pela imprensa’. cuida de calcular os prejuízos de toda sorte advindos
Escreveu e mandou para as ‘Queixas e de uma assombrosa queima destas. As velhas
Reclamações’ d’ ‘O Estado de São Paulo’ a tal camadas de húmus destruídas; os sais preciosos
catilinária mãe dos Urupês. Esse jornal, publicando- que, breve, as enxurradas deitarão fora, rio abaixo,

164 * Literatura Brasileira


via oceano; o rejuvenescimento florestal do solo silêncio, com o seu cachorro, o seu pilão, a pica-
paralisado e retrogradado; a destruição das aves pau(3) e o isqueiro de modo a sempre conservar-se
silvestres e o possível advento de pragas inse- fronteiriço, mudo e sorna. Encoscorado numa rotina
tiformes; a alteração para piora do clima com a de pedra, recua para não adaptar-se.
agravação crescente das secas; os vedos e É de vê-lo surgir a um sítio novo para nele
aramados perdidos; o gado morto ou depreciado armar a sua arapuca de agregado; nômade por força
pela falta de pastos; as cento e uma particularidades de vagos atavismos, não se liga à terra, como o
que dizem respeito a esta ou aquela zona e, dentro campônio europeu ‘agrega-se’, tal qual o ‘sarcopte’,
delas, a esta ou aquela ‘situação’ agrícola. pelo tempo necessário à completa sucção da seiva
Isto, bem somado, daria algarismos de convizinha; feito o que, salta para diante com a
apavorar; infelizmente no Brasil subtrai-se; somar mesma bagagem com que ali chegou.
ninguém soma... Vem de um sapezeiro para criar outro.
É peculiar de agosto, e típica, esta desastrosa Coexistem em íntima simbiose: sapé e caboclo são
queima de matas; nunca, porém, assumiu tamanha vidas associadas. Este inventou aquele e lhe dilata
violência, nem alcançou tal extensão, como neste os domínios; em troca, o sapé lhe cobre a choça e
tortíssimo 1914 que, benza-o Deus, parece lhe fornece fachos para queimar a colmeia das
aparentado de perto com o célebre ano 1000 de pobres abelhas.
macabra memória. Tudo nele culmina, vai logo às do Chegam silenciosamente, ele a ‘sarcopta’
cabo, sem conta nem medida. As queimas não fêmea, esta com um filhote no útero, outro ao peito,
fugiram à regra. outro de sete anos à ourela da saia – este já de
Razão sobeja para, desta feita, encarnarmos pitinho na boca e faca à cinta. Completam o rancho
a sério o problema. Do contrário, a Mantiqueira será um cachorro sarnento – Brinquinho, - a foice, a
em pouco tempo toda um sapezeiro sem fim, enxada, o pica-pau, o pilãozinho de sal, a panela de
erisipelado de samambaias – esses dois términos à barro, um santo encardido, três galinhas pevas e um
uberdade das terras montanhosas. galo índio. Com estes simples ingredientes, o
Qual a causa da renitente calamidade? fazedor de sapezeiros perpetua a espécie e a obra
É mister um rodeio para chegar lá. da esterilização iniciada com os remotíssimos avós.
A nossa montanha é vítima de um parasita, Acampam.
um piolho de terra, peculiar ao solo brasileiro como Em três dias uma choça, que por eufemismo
o Argas o é aos galinheiros ou o Sarcoptes mutans chamam casa, brota da terra como um urupê. Tiram
à perna das aves domésticas. Poderíamos, tudo do lugar, os esteios, os caibros, as ripas, os
analogicamente, classificá-lo entre as variedades do barrotes, o cipó que os liga, o barro das paredes e a
Porrigo decalvans, o parasita do couro cabeludo palha do teto. Tão íntima é a comunhão dessas
produtor da ‘pelada’, pois que onde ele assiste(2) se palhoças com a terra local, que dariam ideia de coisa
vai despojando a terra de sua coma vegetal até cair nascida do chão por obra espontânea da natureza –
em morna decrepitude, nua e descalvada. Em quatro se a natureza fosse capaz de criar coisas tão feias.
anos, a mais ubertosa região se despe dos jequitibás Barreada a casa, pendurado o santo, está
magníficos e das perobeiras milenárias – seu lavrada a sentença de morte daquela paragem.
orgulho e grandeza, para, em achincalhe crescente, Começam as requisições. Com a pica-pau o
cair em capoeira, passar desta à humildade da caboclo limpa a floresta das aves incautas. Pólvora
vassourinha e, descendo sempre, encruar defini- e chumbo adquire-os vendendo palmitos no povoado
tivamente na desdita do sapezeiro - sua tortura e vizinho. É este um traço curioso da vida do caboclo
vergonha. e explica o seu largo dispêndio de pólvora; quando o
Este funesto parasita da terra é o CABOCLO, palmito escasseia, rareiam os tiros, só a caça grande
espécie de homem baldio, seminômade, inadaptável merecendo sua carga de chumbo; se o palmital se
à civilização, mas que vive à beira dela na penumbra extingue, exultam as pacas: está encerrada a
das zonas fronteiriças. À medida que o progresso estação venatória.
vem chegando com a via férrea, o italiano, o arado, Depois ataca a floresta. Roça e derruba, não
a valorização da propriedade, vai ele refugindo em perdoando ao mais belo pau. Árvores diante de cuja

Literatura Brasileira * 165


majestosa beleza Ruskin choraria de comoção, ele possível, barata, fácil e já estabelecida como praxe,
as derriba, impassível, para extrair um mel-de-pau é ‘tocá-lo’.
escondido num oco. Curioso esse preceito: ‘ao caboclo, toca-se’.
Pronto o roçado, e chegado o tempo da Toca-se, como se toca um cachorro
queima, entra em funções o isqueiro. Mas aqui o importuno, ou uma galinha que vareja pela sala. E
‘sarcopte’ se faz raposa. Como não ignora que a lei tão afeito anda ele a isso, que é comum ouví-lo dizer:
impõe aos roçados um aceiro de dimensões ‘Se eu fizer tal coisa, o senhor não me toca?’
suficientes à circunscrição do fogo, urde traças para Justiça sumária – que não pune, entretanto,
iludir a lei, cocando dest’arte a insigne preguiça e a dado o nomadismo do paciente.
velha malignidade. Enquanto a mata arde, o caboclo regala-se.
Cisma o caboclo à porta da cabana. (4) – Êta fogo bonito!
Cisma, de fato, não devaneios líricos, mas No vazio de sua vida semisselvagem, em que
jeitos de transgredir as posturas com a respon- os incidentes são um jacu abatido, uma paca fisgada
sabilidade a salvo. E consegue-o. Arranja sempre um n’água ou o filho novimensal, a queimada é o grande
álibi demonstrativo de que não esteve lá no dia do espetáculo do ano, supremo regalo dos olhos e dos
fogo. ouvidos.
Onze horas. Entrado setembro, começo das ‘águas’, o
O sol quase a pino queima como chama. Um caboclo planta na terra em cinzas um bocado de
‘sarcopte’ anda por ali, ressabiado. Minutos após, milho, feijão e arroz; mas o valor da sua produção é
crepita a labareda inicial, medrosa, numa touça mais nenhum diante dos males que para preparar uma
seca; oscila incerta; ondeia ao vento; mas logo quarta de chão ele semeou.
encorpa, cresce, avulta, tumultua infrene e, senhora O caboclo é uma quantidade negativa. Tala
do campo, estruge fragorosa com infernal violência, cinquenta alqueires de terra para extrair deles o com
devorando as tranqueiras, estorricando as mais altas que passar fome e frio durante o ano. Calcula as
frondes, despejando para o céu golfões de fumo sementeiras pelo máximo da sua resistência às
estrelejado de faíscas. privações. Nem mais, nem menos. ‘Dando para
É o fogo de mato! passar fome’, sem virem a morrer disso, ele, a
E como não o detém nenhum aceiro, esse mulher e o cachorro – está tudo muito bem; assim
fogo invade a floresta e caminha por ela adentro, ora fez o pai, o avô; assim fará a prole empanzinada que
frouxo, nas capetingas(5) ralas, ora maciço, aos naquele momento brinca nua no terreiro.
estouros, nas moitas de taquaruçu; caminha sem Quando se exaure a terra, o agregado muda
tréguas, moroso e tíbio quando a noite fecha, de sítio. No lugar, ficam a tapera e o sapezeiro. Um
insolente se o sol ajuda. ano que passe e só este atestará a sua estada ali; o
E vai galgando montes em arrancadas mais se apaga como por encanto. A terra reabsorve
furiosas, ou descendo encostas a passo lento e os frágeis materiais da choça e, como nem sequer
traiçoeiro até que o detenha a barragem natural dum uma laranjeira ele plantou, nada mais lembra a
rio, estrada ou grota noruega. (6) passagem por ali do Manoel Peroba, do Chico
Barrado, inflete para os flancos, ladeia o Marimbondo, do Jeca Tatu ou outros sons ignaros,
obstáculo, deixa-o para trás, esgueira-se para os de dolorosa memória para a natureza circunvizinha.”
lados – e lá continua o abrasamento implacável.
(1) Tocos semicarbonizados.
Amordaçado por uma chuva repentina, alapa-se nas
(2) Reside: está estabelecida.
piúcas, quieto e invisível, para no dia seguinte, ao (3 ) Espingarda de carregar pela boca.
esquentar do sol, prosseguir na faina carbonizante. (4) Verso de Ricardo Gonçalves.
Quem foi o incendiário? Donde partiu o fogo? (5) Capins de mato dentro, sempre ralos, magrelas.
(6) Grota fria onde não bate o sol.
Indaga-se, descobre-se o Nero: é um urum-
(7) A terra se mede pela quantidade de milho que nela
beva qualquer, de barba rala, amoitado num litro(7) pode ser plantada: daí um alqueire, uma quarta, um litro de
de terra litigiosa. terra.
E agora? Que fazer? Processá-lo?
Não há recurso legal contra ele. A única pena

166 * Literatura Brasileira


2. LIMA BARRETO escritores que acreditam na literatura como um meio
(1881 - 1922) de estimular o leitor para que ele reflita e lute pelo
A respeito de Lima Barreto, especialmente de reconhecimento de seus direitos. Por isso, criou
seus romances mais importantes, podemos indicar situações ficcionais que retratam os desequilíbrios
alguns aspectos característicos: sociais de sua época. São temas comuns em sua
obra:
1. QUANTO ÀS PERSONAGENS
a) questão racial:
O universo de personagens criado por Lima
Barreto está repleto de políticos ineficazes e
“... repugnava-lhe ver o filho casado com uma
poderosos, de ignorantes que passam por sábios, de
criada preta, ou com uma pobre mulata costureira ...”
militares incapazes e tirânicos. A esse mundo de
(Clara dos Anjos)
privilegiados ele opõe as figuras do subúrbio, uma
multidão de oprimidos, mostrando sua inspiração e
“ - Que nome! Félix da Costa! Parece até
sua revolta contra uma ordem social injusta.
enjeitado! É algum mulatinho?”
(Recordações do Escrivão lsaías Caminha)
“Casas que mal dariam para uma pequena
família são divididas, subdivididas, e os minúsculos
aposentos assim obtidos, alugados à população
b) denúncia da hipocrisia e das falsas aparências:
miserável da cidade. Aí, nesses caixotins humanos,
é que se encontra a fauna menos observada da
“Interessante é que os companheiros o
nossa vida, sobre a qual a miséria paira com um rigor
respeitavam, tinham em grande conta o seu saber e
londrino.”
ele vivia na seção cercado do respeito de um gênio,
(Triste fim de Policarpo Quaresma)
um gênio do papelório e das informações. Acresce
2. QUANTO AO ESPAÇO FOCALIZADO que Genelício juntava a sua segura posição
A ação de seus romances passa-se no Rio de administrativa, um curso de direito a acabar; e tantos
Janeiro. Os bairros pobres da cidade merecem títulos juntos não poderiam deixar de impressionar
especial destaque por parte do escritor. favoravelmente às preocupações casamenteiras do
“O subúrbio é um refúgio dos infelizes. Os que casal Albernaz.”
perderam o emprego, as fortunas; os que faliram nos (Triste fim de Policarpo Quaresma)
negócios, enfim, todos os que perderam a sua
situação normal vão-se aninhar ali...”
(Clara dos Anjos) c) denúncia da associação de dinheiro a prestígio:

3. QUANTO À ÉPOCA FOCALIZADA “Médico e rico, pela fortuna da mulher, ele não
Lima Barreto prende-se à realidade histórica, andava satisfeito. A ambição de dinheiro e o desejo
documentando, através de ficção, os acontecimen- de nomeada esporeavam-no... ” (idem)
tos importantes da vida republicana.
“Falavam ao ouvido de Floriano, cochi-
chavam, batiam-lhe nas espáduas. O marechal d) critica à burocracia medíocre e inútil:
quase não falava: movia com a cabeça ou
pronunciava um monossílabo ...” “Certa vez, foi atacado de uma pequena crise
(Triste fim de Policarpo Quaresma) de nervos, porque, por mais papéis que consultasse
no arquivo, não havia meio de encontrar uma
[O marechal Floriano Peixoto foi presidente da disposição* que fixasse o número de setas que
República durante 1891 -1894]. atravessam a imagem de São Sebastião. (...)
Beldoregas não podia compreender que o número
4. QUANTO À TEMÁTlCA de dias em que chove no ano não pudesse ser
Lima Barreto pertence àquela classe de fixado; e se ainda não estava, em aviso ou portaria,

Literatura Brasileira * 167


era porque o Congresso e os Ministros não vinte anos, o amor da Pátria tomou-o inteiro. Não
prestavam.” fora o amor comum, palrador e vazio; fora um
(Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá) sentimento sério, grave e absorvente. Nada de
ambições políticas ou administrativas; o que
Quaresma pensou, ou melhor: o que o patriotismo o
e) crítica ao nacionalismo ufanista e quixotesco: fez pensar, foi num conhecimento inteiro do Brasil,
levando-o a meditações sobre os seus recursos,
Esse é o tema central do romance Triste fim para depois então apontar os remédios, as medidas
de Policarpo Quaresma. progressivas, com pleno conhecimento de causa.
Não se sabia bem onde nascera, mas não fora
decerto em São Paulo, nem no Rio Grande do Sul,
5. QUANTO À LINGUAGEM nem no Pará. Errava quem quisesse encontrar nele
O autor procura uma forma de expressão qualquer regionalismo; Quaresma era antes de tudo
simples e clara, utilizando uma linguagem que, brasileiro. Não tinha predileção por esta ou aquela
muitas vezes, aproxima-se da língua falada na parte de seu país, tanto assim que aquilo que o fazia
época. Por isso, foi acusado de desleixo e vibrar de paixão não eram só os pampas do Sul com
incorreção. o seu gado, não era o café de São Paulo, não eram
A linguagem acadêmica é criticada, por o ouro e os diamantes de Minas, não era a beleza
exemplo, através do excessivo rigor da personagem da Guanabara, não era a altura da Paulo Afonso, não
Lobo, redator do jornal onde trabalha Isaías era o estro de Gonçalves Dias ou o ímpeto de
Caminha: Andrade Neves - era tudo isso junto, fundido, sob a
bandeira estrelada do Cruzeiro.
“... era um código tirânico, uma espécie de Logo aos dezoito anos quis fazer-se militar;
colete de força em que vestira as suas pobres ideias junta de saúde julgou-o incapaz. Desgostou-se,
e queria vestir as dos outros. Há três ou cinco sofreu, mas não maldisse a Pátria. O ministério era
gramáticas portuguesas, porque há três ou cinco liberal, ele se fez conservador e continuou mais do
opiniões sobre uma mesma matéria. Lobo que nunca a amar a ‘terra que o viu nascer’.
organizara uma série delas sobre as inúmeras Impossibilitado de evoluir-se sob os dourados do
dúvidas nas regras do nosso escrever e do nosso Exército, procurou a administração e dos seus ramos
falar e ai de quem discrepasse no jornal! Era escolheu o militar.
emendado da primeira vez, da segunda repreendido, Era onde estava bem. No meio de soldados,
da terceira odeia até ser despedido...” de canhões, de veteranos, de papelada inçada de
(Recordações do Escrivão Isaías Caminha) quilos de pólvora, de nomes de fuzis e termos
técnicos de artilharia, aspirava diariamente aquele
hálito de guerra, de bravura, de vitória, de triunfo,
TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA que é bem o hálito da Pátria.
Durante os lazeres burocráticos, estudou, mas
Policarpo Quaresma, personagem central do estudou a Pátria, nas suas riquezas naturais, na sua
romance do qual foi extraído o trecho seguinte, é um história, na sua geografia, na sua literatura e na sua
major que, tendo estudado a realidade brasileira, política. Quaresma sabia as espécies de minerais,
torna-se um ardente patriota. Seu nacionalismo vegetais e animais que o Brasil continha; sabia o
exagerado leva-o a propor mudanças absurdas na valor do ouro, dos diamantes exportados por Minas,
vida do país, a ponto de ele ser internado num as guerras holandesas, as batalhas do Paraguai, as
hospício. Tornando-se partidário de Floriano Peixoto, nascentes e o curso de todos os rios. Defendia com
presencia arbitrariedades que o fazem voltar-se azedume e paixão a proeminência do Amazonas
contra o governo que antes apoiara. Preso por ter sobre todos os demais rios do mundo. Para isso ia
protestado contra a prisão injusta de alguns até o crime de amputar alguns quilômetros ao Nilo e
soldados, é enviado para a Ilha das Cobras. era com este rival do ‘seu’ rio que ele mais implicava.
“Policarpo era patriota. Desde moço, aí pelos Ai de quem o citasse na sua frente! Em geral, calmo

168 * Literatura Brasileira


e delicado, o major ficava agitado e malcriado, Academia Julien; é da grande arte dos nervosos, dos
quando se discutia a extensão do Amazonas em face criadores, daqueles cujas emoções e pensamentos
da do Nilo.” saltam logo do cérebro para o papel ou para a tela.
Ele começa com o pincel, pensando em todas as
regras do desenho e da pintura, mas bem depressa
PROBLEMA VITAL
deixa uma e outra cousa, pega a espátula, os dedos
[Revista Contemporânea] e tudo o que ele viu e sentiu sai de um só jato,
[22-2-1919]
repentinamente, rapidamente.
O seu livro é uma maravilha nesse sentido,
Poucas vezes se há visto nos meios literários
mas o é também em outro, quando nos mostra o
do Brasil uma estreia como a do Senhor Monteiro
pensador dos nossos problemas sociais, quando nos
Lobato. As águias provincianas se queixam de que o
revela, ao pintar a desgraça das nossas gentes
Rio de Janeiro não lhes dá importância e que os
roceiras, a sua grande simpatia por elas. Ele não as
homens do Rio só se preocupam com coisas do Rio
e da gente dele. É um engano. O Rio de Janeiro é embeleza, ele não as falsifica; fá-las tal e qual.

muito fino para não dar importância a uns sabichões Eu quereria muito me alongar sobre este seu
de aldeia que, por terem lido alguns autores, julgam livro de contos, Urupês, mas não posso agora. Dar-
que ele não os lê também; mas, quando um me-ia ele motivo para discorrer sobre o que penso
estudioso, um artista, um escritor, surja onde ele dos problemas sociais que ele agita; mas são tantos
surgir no Brasil, aparece no Rio, sem esses espinhos que me emaranho no meu próprio pensamento e
de ouriço, todo o carioca independente e autônomo tenho medo de fazer uma cousa confusa, a menos
de espírito está disposto a aplaudi-lo e dar-lhe o que não faça com pausa e tempo. Vale a pena
apoio da sua admiração. Não se trata aqui da esperar.
barulheira da imprensa, pois essa não o faz, senão Entretanto, eu não poderia deixar de referir-
para aqueles que lhe convêm, tanto assim que me ao seu estranho livro, quando me vejo obrigado
sistematicamente esquece autores e nomes que, a dar notícia de um opúsculo seu que me enviou.
com os homens dela, todo o dia e hora lidam. Trata-se do Problema vital, uma coleção de artigos,
O Senhor Monteiro Lobato com seu livro publicados por ele, no Estado de S. Paulo, referentes
Urupês veio demonstrar isso. Não há quem não o à questão do saneamento do interior do Brasil.
tenha lido aqui e não há quem não o admire. Não foi Trabalhos de jovens médicos como os
preciso barulho de jornais para seu livro ser lido. Há doutores Artur Neiva, Carlos Chagas, Belisário Pena
um contágio para as boas obras que se impõem por e outros, vieram demonstrar que a população roceira
simpatia. do nosso país era vítima desde muito de várias
O que é de admirar em tal autor e em tal obra, moléstias que a alquebravam fisicamente. Todas
é que ambos tenham surgido em São Paulo, tão elas têm uns nomes rebarbativos que me custam
formalista, tão regrado que parecia não admitir nem muito a escrever; mas Monteiro Lobato os sabe de
um nem a outra. cor e salteado e, como ele, hoje muita gente.
Não digo que, aqui, não haja uma escola Conheci-as, as moléstias, pelos seus nomes
delambida de literatura, com uma retórica trapalhona vulgares: papeira, opilação, febres e o mais difícil
de descrições de luares com palavras em “ll” e de que tinha na memória era – bócio. Isto, porém, não
tardes de trovoadas com vocábulos com “rr” vem ao caso e não é o importante da questão.
dobrados: mas São Paulo, com as suas elegâncias Os identificadores de tais endemias julgam ser
ultraeuropeias, parecia-me ter pela literatura, senão necessário um trabalho sistemático para o
o critério da delambida que acabo de citar, mas um saneamento dessas regiões afastadas e não são só
outro mais exagerado. estas. Aqui, mesmo, nos arredores do Rio de
O sucesso de Monteiro Lobato, lá, retumbante Janeiro, o doutor Belisário Pena achou 250 mil
e justo, fez-me mudar de opinião. habitantes atacados de maleitas, etc. Residi, durante
A sua roça, as suas paisagens não são a minha meninice e adolescência, na ilha do
cousas de moça prendada, de menina de boa Governador, onde meu pai era administrador das
família, de pintura de discípulo ou discípula da Colônias de Alienados. Pelo meu testemunho, julgo

Literatura Brasileira * 169


que o doutor Pena tem razão. Lá todos sofriam de com seus miseráveis trabalhadores, esfolarão mais
febres e logo que fomos para lá, creio que em 1890 os seus clientes, tirando-lhes ainda mais dos seus
ou 1891, não havia dia em que não houvesse, na míseros salários do que tiravam antigamente. Onde
nossa casa, um de cama, tremendo com a sezão e tal cousa irá repercutir? Na alimentação, no
delirando de febre. A mim, foram precisas até vestuário. Estamos, portanto, na mesma.
injeções de quinino. Em suma, para não me alongar. O problema,
Por esse lado, julgo que ele e os seus conquanto não se possa desprezar a parte médica
auxiliares não falsificam o estado de saúde de propriamente dita, é de natureza econômica e social.
nossas populações campestres. Têm toda razão. O Precisamos combater o regímen capitalista na
que não concordo com eles, é com o remédio que agricultura, dividir a propriedade agrícola, dar a
oferecem. Pelo que leio em seus trabalhos, pelo que propriedade da terra ao que efetivamente cava a
a minha experiência pessoal pode me ensinar, me terra e planta e não ao doutor vagabundo e parasita,
parece que há mais nisso uma questão de higiene que vive na “Casa Grande” ou no Rio ou em São
domiciliar e de regímen alimentar. Paulo. Já é tempo de fazermos isto e é isto que eu
A nossa tradicional cabana de sapê e paredes chamaria o “Problema Vital”.
de taipa é condenada e a alimentação dos roceiros
é insuficiente, além do mau vestuário e do abandono Lima Barreto
do calçado. A data que consta em Bagatelas – 22-2-1918- é
certamente um erro tipográfico, já que em 26-12-1918 Lima
A cabana de sapê tem origem muito Barreto, em carta, acusa o recebimento de Urupês
profundamente no nosso tipo de propriedade
agrícola – a fazenda. Nascida sob o influxo do
regímen do trabalho escravo, ela se vai eternizando,
sem se modificar, nas suas linhas gerais. Mesmo, 3. EUCLlDES DA CUNHA
em terras ultimamente desbravadas e servidas por (1866 - 1909)
estradas de ferro, como nessa zona da Noroeste, Nasceu no Rio de Janeiro, estudou na Escola
que Monteiro Lobato deve conhecer melhor do que Militar e fez curso de Engenharia. De formação
eu, a fazenda é a forma com que surge a positivista e republicano convicto, Euclides sempre
propriedade territorial no Brasil. Ela passa de pais a mostrou grande interesse por ciências naturais e por
filhos; é vendida integralmente e quase nunca, ou filosofia. Viveu durante algum tempo em São Paulo
nunca, se divide. O interesse do seu proprietário é e, em 1897, foi enviado pelo jornal O Estado de São
tê-la intacta, para não desvalorizar as suas terras. Paulo ao sertão da Bahia, para cobrir, como
Deve ter uma parte de matas virgens, outra parte de correspondente, a guerra de Canudos. Na condição
capoeira, outra de pastagens, tantos alqueires de de ex-militar, Euclides pôde informar com precisão
pés de café, casa de moradia, de colonos, currais, os movimentos de guerra das três últimas semanas
etc. de conflito. Suas mensagens, transmitidas pelo
Para isso, todos aqueles agregados ou cousa telégrafo, permitiram que o Sul do país
que valha, que são admitidos a habitar no latifúndio, acompanhasse passo a passo a campanha,
têm uma posse precária das terras que usufruem; e, mobilizando e dividindo a opinião pública. Cinco
não sei se está isto nas leis, mas nos costumes está, anos depois, o autor lançou Os sertões, obra que
não podem construir casa de telha, para não narra e analisa os acontecimentos de Canudos à luz
adquirirem nenhum direito de locação mais estável. das teorias científicas da época.
Onde está o remédio, Monteiro Lobato? Creio Euclides deixou também vários outros
que procurar meios e modos de fazer desaparecer a escritos - tratados, cartas, artigos -, todos relacio-
“fazenda”. nados ao país, às suas características regionais,
Não acha? Pelo que li no Problema vital, há geográficas e culturais.
câmaras municipais paulistas que obrigam os
fazendeiros a construir casas de telhas, para os seus Os sertões (1902)
colonos e agregados. Será bom? Examinemos. Os
proprietários de latifúndios, tendo mais despesas Escrito com inteligência e sensibilidade, o livro

170 * Literatura Brasileira


tem um caráter científico que o eleva à condição de espenda da sela. Caminhando, mesmo a passo
verdadeiro tratado geofísico e social de nosso país, rápido, não traça trajetória retilínea e firme. Avança
privilegiando o Nordeste, palco da chacina de celeremente, num bambolear característico, de que
Canudos. parecem ser o traço geométrico os meandros das
Sua própria estrutura revela a formação trilhas sertanejas. E se na marcha estaca pelo motivo
científica positivista e determinista de Euclides. mais vulgar, para enrolar um cigarro, bater o isqueiro,
Divide-se em três partes, que correspondem aos três ou travar ligeira conversa com um amigo, cai logo -
fatores considerados fundamentais para o estudo de cai é o termo - de cócoras, atravessando largo tempo
qualquer acontecimento social, de acordo com Taine, numa posição de equilíbrio instável, em que todo o
um dos mestres do determinismo francês. São eles: seu corpo fica suspenso pelos dedos grandes dos
o meio, a raça e o momento histórico. pés, sentado sobre os calcanhares, com uma
Meio (cenário) - “A terra” (1ª parte) - simplicidade a um tempo ridícula e adorável.
Descrição geofísica do Brasil, com destaque à região É o homem permanentemente fatigado.
nordestina; estudo do fenômeno cíclico das secas. (...)
Raça (personagem) - “O homem” (2ª parte) Entretanto, toda esta aparência de cansaço
- Apresentação comparativa dos vários tipos ilude.
regionais brasileiros; análise do sertanejo e de sua Nada é mais surpreendedor do que vê-la
capacidade de resistência, relacionando meio desaparecer de improviso. Naquela organização
ambiente e elemento humano: o homem como combalida operam-se, em segundos, transmutações
produto dos componentes geofísicos e sociais do completas. Basta o aparecimento de qualquer
meio em que vive; estudo minucioso de Antônio incidente exigindo-Ihe o desencadear das energias
Conselheiro, o líder messiânico em torno de quem adormecidas. O homem transfigura-se. Empertiga-
se formou, cresceu e se desenvolveu Canudos, se estadeando novos relevos, novas linhas na
tornando-se uma comunidade autônoma em relação estatura e no gesto; e a cabeça firma-se-lhe, alta,
ao resto do país, com leis e valores próprios. sobre os ombros possantes, aclarada pelo olhar
Momento histórico - “A luta” (3ª parte) - desassombrado e forte: e corrigem-se-Ihe, prestes,
Relato da Campanha de Canudos, desde o incidente numa descarga nervosa instantânea, todos os
que a deflagrou (uma troca de tiros entre policiais e efeitos do relaxamento habitual dos órgãos; e da
habitantes de Canudos, no momento da entrega de figura vulgar do tabaréu canhestro, reponta,
rifles comprados por estes numa pequena cidade da inesperadamente, o aspecto dominador de um titã
Bahia), até o extermínio do arraial, com cinco mil acobreado e potente, num desdobramento
soldados “rugindo raivosamente” diante de quatro surpreendente de força e agilidade extraordinárias.”
sobreviventes.
O trecho seguinte é um dos mais conhecidos
de toda a obra. 4. GRAÇA ARANHA
“O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não (1868 -1931)
tem o raquitismo exaustivo dos mestiços Canaã, romance publicado em 1902, é fruto
neurastênicos do litoral. das impressões colhidas em Porto Cachoeiro,
A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance comunidade do Espírito Santo, em que se observa o
de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica contraste entre a população nativa e os imigrantes
impecável, o desempenho, a estrutura corretíssima alemães. Romance de tese, reproduz os aconte-
das organizações atléticas. cimentos com um certo naturalismo “científico”. Ao
É desgracioso, desengonçado, torto. discutir, no entanto, a problemática do povo primitivo
Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a que quer integrar-se na natureza, e ao colocar os
fealdade típica dos fracos. A pé, quando parado, aspectos folclóricos que caracterizam a alma
recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou brasileira, projeta nitidamente a preocupação do
parede que encontra; a cavalo, se sofreia o animal século XX, antecipando a ficção modernista.
para trocar duas palavras com um conhecido, cai Os personagens centrais - Milkau e Lentz -
logo sobre um dos estribos, descansando sobre a são porta-vozes de posições antagônicas a respeito

Literatura Brasileira * 171


da vida. Milkau representa a solidariedade, o amor, terra. Nós penetramos na argamassa da Nação e a
enquanto Lentz simboliza a lei do mais forte. Os vamos amolecendo; nós nos misturamos a este
diálogos entre os dois personagens ocupam grande povo, matamos as suas tradições e espalhamos a
parte do livro, o que permite classificar a obra como confusão... Ninguém mais se entende; as línguas
romance de tese, pois o autor pretende defender um estão baralhadas; indivíduos, vindos de toda parte,
ponto de vista. trazem na alma a sombra de deuses diferentes;
Paralelamente a este antagonismo, ocorre o todos são estranhos, os pensamentos não se
drama de Maria, que fora seduzida pelo filho de seus comunicam, os homens e as mulheres não se amam
patrões, expulsa de casa e repudiada pelos demais com as mesmas palavras... Tudo se desagrega, uma
membros da colônia. O filho de Maria nasceu na civilização cai e se transforma no desconhecido... O
mata e é devorado pelos porcos, o que lhe custa um remodelamento vai sendo demorado... Há uma
julgamento como assassina do próprio filho. Milkau tragédia na alma do brasileiro, quando ele sente que
ajuda Maria a fugir e os dois partem em busca de não se desdobrará mais até ao infinito. Toda a lei da
Canaã, a terra prometida. criação é criar à própria semelhança. E a tradição
O trecho transcrito a seguir mostra um diálogo rompeu-se, o pai não transmitirá mais ao filho a sua
entre os personagens centrais da obra. Milkau relata imagem, a língua vai morrer, os velhos sonhos da
a Lentz suas impressões de uma viagem a São João raça, os longínquos e fundos desejos da
del-Rei, em Minas. personalidade emudeceram, o futuro não entenderá
“ - Dou-me por muito feliz em ter ido a tempo o passado...”
de ver tudo isto, porque não muito longe esse
conjunto de poesia, de tradição nacional vai acabar.
Na verdade, é com mágoa que sinto estar prestes o 5. SIMÕES LOPES NETO
desmoronamento daquela cidade circundada de (1865 – 1916)
colônias estrangeiras, que a estreitam lentamente Sua obra regionalista, composta de contos, é
até um dia a vencer e transformar sem piedade.
uma das principais do período pré-modernista. Além
- Mas isto é a lei da vida e do destino fatal
da exuberância de sua linguagem, que é um registro
deste País. Nós renovaremos a Nação, nos
minucioso do falar gaúcho, seus contos trazem a
espalharemos sobre ela, a cobriremos com nossos
preocupação em mostrar os valores, as alegrias e os
corpos brancos e a engrandeceremos para a
dramas da gente dos pampas, dos vaqueiros.
eternidade. A velha cidade mineira da sua narração
não me interessa, os meus olhos se projetam para o Interessado em captar o que há de essencialmente
futuro. Porto do Cachoeiro tem mais significação humano por baixo das aparências regionais, Simões
moral hoje pela força de vida, de energia que em si Lopes Neto revela um agudo senso de observação
contém do que os lugares mortos de um país que se psicológica das personagens. No livro Lendas do
vai extinguir... Falando-lhe com a maior franqueza, a Sul, deu forma literária a histórias do folclore gaúcho,
civilização dessa terra está na imigração de tornando-se muito famoso o conto “O negrinho do
europeus; mas é preciso que cada um de nós traga pastoreio”.
a vontade de governar e dirigir. Obras principais: Contos gauchescos
- Nas suas palavras mesmas - disse Milkau - (1912); Lendas do Sul (1913).
está escrita a nossa grande responsabilidade. É
provável que o nosso destino seja transformar de
baixo a cima este País, de substituir por outra
TREZENTAS ONÇAS
civilização toda a cultura, a religião e as tradições de
um povo. É uma nova conquista, lenta, tenaz, “Eu tropeava, nesse tempo. Duma feita que
pacífica em seus meios, mas terrível em seus viajava de escoteiro, com a guaiaca1 empanzinada
projetos de ambição. É preciso que a substituição de onças2 de ouro, vim parar aqui neste mesmo
seja tão pura e tão luminosa que sobre ela não caia passo, por me ficar mais perto da estância da
a amargura e a maldição das destruições. E por ora Coronilha, onde devia pousar.
nós somos apenas um dissolvente da raça desta Parece que foi ontem!... Era por fevereiro; eu

172 * Literatura Brasileira


vinha abombado de troteada. pedra...
Olhe, ali, na restinga, à sombra daquela Assim, de meio assombrado me fui repondo
mesma reboleira de mato, que está nos vendo, na
3
quando ouvi que indagavam:
beira do passo4, desencilhei; e estendido nos - Então patrício? Está doente?
pelegos a cabeça no lombilho , com o chapéu sobre
5 - Obrigado! Não, senhor - respondi - Não é
os olhos, fiz uma sesteada morruda. doença; é que sucedeu-me uma desgraça: perdi
Despertando, ouvindo o ruído manso da água uma dinheirama do meu patrão...
tão limpa e tão fresca rolando sobre o pedregulho, - A la fresca!...9
tive ganas de me banhar; até para quebrar a - É verdade... Antes morresse, que isto! Que
lombeira... e fui-me à água que nem capincho ! 6 vai ele pensar agora de mim!...
Debaixo da barranca havia um fundão onde - É uma dos diabos, é... Mas não se
mergulhei umas quantas vezes; e sempre puxei acoquine, homem!
umas braçadas, poucas, porque não tinha cancha Nisso o cusco brasino deu uns pulos ao
para um bom nado. focinho do cavalo, como querendo lambê-lo, e logo
E solito e no silêncio, tornei a vestir-me, correu para a estrada, aos latidos. E olhava-me, e
encilhei o zaino e montei. vinha e ia, e tornava a latir...
Daquela vereda andei como três léguas, Ah!... E num repente lembrei-me de tudo.
chegando à estância cedo ainda, obra assim de Parecia que estava vendo o lugar da sesteada, o
braça e meia de sol. banho, a arrumação das roupas nuns galhos de
Ah!... Esqueci de dizer-lhe que andava comigo sarandi e, em cima de uma pedra, a guaiaca e por
um cachorrinho brasino , um cusco, mui esperto e
7 cima dela o cinto das armas, e até uma ponta de
boa vigia. Era das crianças, mas às vezes dava-lhe cigarro de que tirei uma última tragada, antes de
para acompanhar-me e, depois de sair a porteira, entrar na água, e que deixei espetada num espinho,
nem por nada fazia cara-volta8, a não ser comigo. E ainda fumegando, soltando uma fitinha de fumaça
nas viagens dormia sempre ao meu lado, sobre a azul, que subia, fininha e direita, no ar sem vento...
ponta da carona, na cabeceira dos arreios. Tudo, vi tudo.
Por sinal que uma noite... Estava lá, na beirada do passo, a guaiaca. E
Mas isso é outra coisa; vamos ao caso. o remédio era um só: tocar a meia rédea, antes que
Durante a troteada bem reparei que volta e outros andantes passassem.
meia o cusco parava-se na estrada e latia e corria Num vu estava a cavalo; e mal isto, o
para trás, e olhava-me, olhava-me e latia de novo e cachorrito pegou a retouçar, numa alegria, ganindo -
troteava um pouco sobre o rastro. Parecia que o Deus me perdoe! - que até parecia fala!
bichinho estava me chamando!... Mas, como eu ia, E dei de rédea, dobrando o cotovelo do
ele tornava a alcançar-me, para daí a pouco cercado.
recomeçar. Ali logo frenteei com uma comitiva de
Pois, amigo! Não lhe conto nada! Quando tropeiros, com grande cavalhada por diante, e que
botei o pé em terra na ramada da estância, ao por certo vinha tomar pouso na estância. Na cruzada
mesmo tempo que dava as - boas tardes! - ao dono nos tocamos todos na aba do sombreiro; uns
da casa, aguentei um tirão seco no coração... Não quantos vinham de balandrau10 enfiado. Sempre me
senti na cintura o peso da guaiaca! deu uma coraçonada11 para fazer umas perguntas...
Tinha perdido trezentas onças de ouro que mas engoli a língua.
levava, para pagamento de gados que ia levantar. Amaguei12 o corpo e penicando de esporas,
E logo passou-me pelos olhos um clarão de toquei a galope largo. O cachorrinho ia ganiçando,
cegar, depois uns coriscos tirante a roxo... Depois ao lado, na sombra do cavalo, já mui comprida.
tudo me ficou cinzento, para escuro... A estrada estendia-se deserta; à esquerda os
Eu era mui pobre - e, ainda hoje, é como campos desdobravam-se a perder de vista, serenos,
vancê sabe... Estava começando a vida, e o dinheiro verdes, clareados pela luz macia do sol morrente,
era do meu patrão, um charqueador, sujeito de manchados de pontas de gado que iam-se
contas mui limpas e brabo como uma manga de arrolhando13 nos paradouros da noite; à direita, o sol,

Literatura Brasileira * 173


muito baixo, vermelho-dourado, entrando em massa Mas que cantar, podia eu!...
de nuvens de beiradas luminosas. O zaino respirou forte e sentou16, trocando a
Nos atoleiros, secos, nem um quero-quero: orelha, farejando no escuro: o bagual tinha
uma que outra perdiz, sorrateira, piava de manso por reconhecido o lugar, estava no passo.
entre os pastos maduros; e longe, entre o resto da Senti o cachorrinho respirando, como asso-
luz que fugia de um lado e a noite que vinha, leado. Apeei-me.
peneirada, do outro, alvejava a brancura de um joão- Não bulia uma folha; o silêncio, nas sombras
grande, voando, sereno, quase sem mover as asas, do arvoredo, metia respeito... Que medo, não, que
como numa despedida triste, em que a gente não entra em peito de gaúcho.
também não sacode os braços... Embaixo, o rumor da água pipocando sobre o
Foi caindo uma aragem fresca; e um silêncio pedregulho; vagalumes retouçando no escuro.
grande em tudo. Desci, dei com o lugar onde havia estado; tenteei os
O zaino 14 era um pingaço 15 de lei; e o galhos do sarandi; achei a pedra onde tinha posto a
cachorrinho, agora sossegado, meio de banda, de guaiaca e as armas; corri as mãos por todos os
língua de fora e de rabo em pé, troteava miúdo e lados, mais pra lá, mais pra cá... Nada! Nada!...
ligeiro dentro da polvadeira rasteira que as patas do Então, senti frio dentro da alma... O meu
flete levantavam. patrão ia dizer que eu o havia roubado!... Roubado!...
E entrou o sol; ficou nas alturas um clarão Pois então eu ia lá perder as onças!... Qual! Ladrão,
afogueado, como de incêndio num pajonal; depois o ladrão, é que era!...
lusco-fusco; depois, cerrou a noite escura; depois, E logo uma tenção ruim entrou-me nos miolos:
no céu, só estrelas... só estrelas... eu devia matar-me, para não sofrer a vergonha
O zaino atirava o freio e gemia no compasso daquela suposição.
do galope, comendo caminho. Bem por cima da É; era o que eu devia fazer: matar-me... e já,
minha cabeça as Três-Marias tão bonitas, tão vivas, aqui mesmo!
tão alinhadas, pareciam me acompanhar... Lembrei- Tirei a pistola do cinto; amartilhei17 o gatilho...
me dos meus filhinhos, que as estavam vendo, benzi-me e encostei no ouvido o cano, grosso e frio,
talvez; lembrei-me da minha mãe, de meu pai, que carregado de bala...
também as viram, quando eram crianças e que já as Ah! Patrício! Deus existe!...
conheceram pelo seu nome de Marias, as Três- No refilão daquele momento, olhei para diante
Marias. - Amigo! Vancê é moço, passa a sua vida e vi... As Três-Marias luzindo na água... o cusco
rindo... Deus o conserve!... sem saber nunca como é encarapitado na pedra, ao meu lado, estava me
pesada a tristeza dos campos quando o coração lambendo a mão... e logo, logo, o zaino relinchou lá
pena!... em cima, na barranca do riacho, ao mesmíssimo
Há que tempos eu não chorava!... Pois me tempo que a cantoria alegre de um grilo retinia ali
vieram lágrimas... Devagarinho, como gateando, perto, num oco de pau!... Patrício! Não me avexo
subiram... Tremiam sobre as pestanas, luziam um duma heresia; mas era Deus que estava no
tempinho... e, ainda quentes, no arranco do galope lá luzimento daquelas estrelas, era Ele que mandava
caíam elas na polvadeira da estrada, como um pingo aqueles bichos brutos arredarem de mim a má
d’água perdido, que nem mosca, nem formiga daria tenção...
com ele!... O cachorrinho tão fiel lembrou-me a amizade
Por entre as minhas lágrimas, como um sol da minha gente; o meu cavalo lembrou-me a
cortando um chuvisqueiro, passou-me na lembrança liberdade, o trabalho, e aquele grilo cantador trouxe
a toada dum verso lá dos meus pagos: a esperança...
Eh-pucha! Patrício, eu sou mui rude... A gente
Quem canta refresca a alma, vê caras, não vê corações... Pois o meu, dentro do
Cantar adoça o sofrer; peito, naquela hora, estava como um espinilho ao
Quem canta zomba da morte: sol, num descampado, no pino do meio-dia: era luz
Cantar ajuda a viver!... de Deus por todos os lados!...
E já todo no meu sossego de homem, meti a

174 * Literatura Brasileira


pistola no cinto. Fechei um baio18, bati o isqueiro e 11. Palpite, pressentimento.
12. Jogar o corpo à frente, quando a cavalo, para dar impulso ao
comecei a pitar. animal.
13. Reunir-se, agrupar-se.
E fui pensando. Tinha, por minha culpa, 14. Cavalo castanho-escuro.
15. Aumentativo de pingo (cavalo bom).
exclusivamente por minha culpa, tinha perdido as 16. Passar de repente.
17. Engatilhar.
trezentas onças, uma fortuna para mim. Não sabia 18. Cigarro de palha.
19. Bois.
como explicar o sucedido, comigo, acostumado a 20. Diminuir.
bem cuidar das coisas. Agora... era vender o 21. Mate chimarrão.
22. Cusco, cãozinho.
campito, a ponta de gado manso - tirando umas
leiteiras para as crianças e a junta dos jaguanés19
lavradores - vender a tropilha dos colorados... e 6. AUGUSTO DOS ANJOS
pronto! Isso havia chegar, folgado; e caso mer- (1884 - 1914)
masse20 a conta... enfim, havia se ver o jeito a dar... No Pré-modernismo, o gênero predominante
Porém matar-se um homem, assim no mais... e foi a prosa. No que diz respeito à poesia, observa-se
chefe de família... isso, não! a permanência dos estilos anteriores, exceção feita
E d’espacito vim subindo a barranca; assim a um poeta: Augusto dos Anjos. Seu único livro - Eu
que me sentiu, o zaino escarceou, mastigando o - mostra uma poesia pessimista, por vezes macabra.
freio. Os temas preferidos desse poeta prendem-se a
Desmaneei-o, apresilhei o cabresto; o pingo doenças, micróbios, sangue, putrefação de cadá-
agarrou a volta e eu montei, aliviado. veres, tudo sob o absoluto reinado do verme -
O cusco escaramuçou, contente; a trote e símbolo da destruição implacável a que está sujeita
galope voltei para a estância. toda a matéria.
Ao dobrar a esquina do cercado enxerguei luz É nítida, em sua obra, a influência do
na casa, a cachorrada saiu logo, acuando. O zaino materialismo evolucionista de fins do século XIX. A
relinchou alegremente, sentindo os companheiros; utilização de um vocabulário repleto de termos
do potreiro outros relinchos vieram. Apeei-me no científicos e técnicos é responsável por uma poesia
galpão, arrumei as garras e soltei o pingo, que se estranha, inédita em nossa literatura, que certa-
rebolcou, com ganas. mente chocou o público acostumado à elegância
Então fui para dentro: na porta dei o - parnasiana.
Louvado seja Jesu-Cristo, boa noite! e entrei, e Segundo o crítico Alfredo Bosi, “para o poeta
comigo, rente, o cusco. Na sala do estancieiro havia do Eu, as forças da matéria, que pulsam em todos os
uns quantos paisanos; era a comitiva que chegava seres em particular no homem, conduzem ao Mal e
quando eu saía; corria o amargo ! 21 ao Nada, através de uma destruição implacável...”
Em cima da mesa a chaleira, e ao lado dela,
enroscada, como uma jararaca na ressolana, estava A IDEIA
a minha guaiaca, barriguda, por certo com as “De onde ela vem?! De que matéria bruta
trezentas onças dentro. Vem essa luz que sobre as nebulosas
- Louvado seja Jesu-Cristo, patrício! Boa Cai de incógnitas criptas misteriosas
noite! Entonces, que tal le foi de susto?... Como as estalactites duma gruta?!
E houve uma risada grande de gente boa.
Vem da psicogenética e alta luta
Eu também fiquei-me rindo, olhando para a
Do feixe de moléculas nervosas,
guaiaca e para o guaipeva22, arrolhadito aos meus
Que, em desintegrações maravilhosas,
pés...
Delibera, e depois, quer e executa!
Vocabulário:
1. Cinto largo de couro, com pequenos bolsos.
2. Antiga moeda de ouro brasileira. Vem do encéfalo absconso que a constringe,
3. Touceira de ervas ou de arbustos.
4. Passagem, lugar de um curso de água por onde se passa a Chega em seguida às cordas do laringe,
pé ou a cavalo.
5. Espécie de sela usada no Rio Grande do Sul. Tísica, tênue, mínima, raquítica...
6. Capivara.
7. Vermelho com listras escuras. Quebra a força centrípeta que a amarra,
8. Meia-volta.
9. Expressão de espanto, descrença. Mas, de repente, e quase morta, esbarra
10. Poncho ou pala com abertura no meio, pela qual se passa a
cabeça. No molambo da língua paralítica!”

Literatura Brasileira * 175


VERSOS ÍNTIMOS PSICOLOGIA DE UM VENCIDO

“Vês?! Ninguém assistiu ao formidável “Eu, filho do carbono e do amoníaco,


Enterro de tua última quimera. Monstro de escuridão e rutilância,
Somente a Ingratidão - esta pantera Sofro, desde a epigênese da infância,
Foi tua companheira inseparável! A influência má dos signos do zodíaco.

Acostuma-te à lama que te espera! Profundissimamente hipocondríaco,


O Homem, que, nesta terra miserável, Este ambiente me causa repugnância...
Mora, entre feras, sente inevitável Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Necessidade de também ser fera. Que se escapa da boca de um cardíaco.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro! Já o verme - este operário das ruínas -
O beijo, amigo, é a véspera do escarro, Que o sangue podre das carnificinas
A mão que afaga é a mesma que apedreja. Come, e à vida em geral declara guerra,

Se a alguém causa inda pena a tua chaga, Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
Apedreja essa mão vil que te afaga, E há de deixar-me apenas os cabelos,
Escarra nessa boca que te beija!” Na frialdade inorgânica da terra!”

ETERNA MÁGOA
EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO
“O homem por sobre quem caiu a praga
Da tristeza do Mundo, o homem que é triste Siga o roteiro de forma a elaborar um resumo que lhe
Para todos os séculos existe possibilite uma visão geral do Pré-Modemismo.

E nunca mais o seu pesar se apaga!


PRÉ-MODERNISMO:
Não crê em nada, pois, nada há que traga
Consolo à Mágoa, a que só ele assiste.
1. Modificações artístico-culturais ocorridas no início do século -
Quer resistir, e quanto mais resiste conquistas científicas:
Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.
_________________________________________________
Sabe que sofre, mas o que não sabe _________________________________________________
É que essa mágoa infinda assim não cabe _________________________________________________
Na sua vida, é que essa mágoa infinda
_________________________________________________
Transpõe a vida do seu corpo inerme;
E quando esse homem se transforma em verme 2. Características da Literatura do período (transição)
É essa mágoa que o acompanha ainda!”
- traço conservador:

_________________________________________________
O POETA DO HEDIONDO
_________________________________________________
“Sofro aceleradíssimas pancadas _________________________________________________
No coração. Ataca-me a existência _________________________________________________
A mortificadora coalescência
Das desgraças humanas congregadas!
- traço renovador:
Em alucinatórias cavalgadas, _________________________________________________
Eu sinto, então, sondando-me a consciência _________________________________________________
A ultrainquisitorial clarividência
_________________________________________________
De todas as neuronas acordadas!

Quanto me dói no cérebro esta sonda!


Ah! Certamente eu sou a mais hedionda
Generalização do Desconforto...
Eu sou aquele que ficou sozinho
Cantando sobre os ossos do caminho
A poesia de tudo quanto é morto!”

176 * Literatura Brasileira


AUTORES E OBRAS DO PERÍODO

Autores Obras Características

Euclides da Cunha

Lima Barreto

Monteiro Lobato

Graça Aranha

Augusto dos Anjos

INFLUÊNCIA EUROPEIA - VANGUARDAS

Movimentos Características Propagadores Traços comuns

Futurismo

Cubismo

Dadaísmo

Surrealismo

Literatura Brasileira * 177


EXERCÍCIOS 6. Análise de texto:

1. Analisa os ambientes, tradições e costumes da vida carioca:


a) Euclides da Cunha; O MORCEGO
b) Lima Barreto;
c) Graça Aranha;
d) Coelho Neto; “Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
e) Monteiro Lobato.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
2. (PUC-RS) Na figura de ______________________________ Na bruta ardência orgânica da sede,
Monteiro Lobato criou o símbolo do brasileiro abandonado ao
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.
seu atraso e miséria pelos poderes públicos:
a) O Cabeleira;
b) Jeca Tatu; ‘Vou mandar levantar outra parede...’
c) João Miramar; - Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
d) Blau Nunes;
e) Augusto Matraga. E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!
3. (FUVEST - SP) Além de escrever para crianças, Monteiro
Lobato dedicou-se à literatura em geral.
Pego de um pau. Esforços faço. Chego
a) Em que gênero ele se evidenciou como autor
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
regionalista?
Que ventre produziu tão feio parto?!
_________________________________________________

_________________________________________________ A Consciência Humana é este morcego!


Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!”
b) lndique uma de suas obras regionalistas e comente
linguagem e temas: (Augusto dos Anjos)
_________________________________________________

________________________________________________

_________________________________________________ a) Que paralelo se estabelece no poema? Por quê?

_________________________________________________ _________________________________________________
_________________________________________________
_________________________________________________
_________________________________________________
_________________________________________________

4. (UFRS) Uma atitude comum caracteriza a postura literária de _________________________________________________


autores pré-modernistas, a exemplo de Lima Barreto, Graça
Aranha, Monteiro Labato e Euclides da Cunha:
a) a necessidade de superar, em termos de um programa
definido, as estéticas românticas e realistas.
b) Podemos dizer que o poeta apresenta uma visão naturalista da
b) a pretensão de dar um caráter definitivamente brasileiro à
nossa literatura, que julgavam por demais europeizada.
c) uma preocupação com o estudo e com a observação da existência? Por quê?
realidade brasileira.
d) a necessidade de fazer crítica social, já que o Realismo _________________________________________________
havia sido ineficaz nessa matéria.
e) o aproveitamento estético do que havia de melhor na _________________________________________________
herança literária brasileira, desde suas primeiras
manifestações. _________________________________________________

_________________________________________________
5. (CESCEM - SP) Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima
Barreto, é:
a) um livro de memórias em que a personagem-título,
através de um artifício narrativo, conta as atribulações de
c) Há uma relação entre o particular e o universal no poema.
sua vida até a hora da morte.
b) a história de um visionário e nacionalista fanático que Explique-a. A sua resposta justificaria o uso de maiúsculas em
busca, ingenuamente, resolver sozinho os males sociais “Consciência Humana”? Por quê?
de seu tempo.
c) uma autobiografia que expõe sua insatisfação em relação _________________________________________________
à burocracia carioca.
d) o relato das aventuras de um nacionalista ingênuo e
_________________________________________________
fanático que lidera um grupo de oposição no início dos
tempos republicanos.
_________________________________________________
e) o retrato da vida e morte de um humilde burocrata,
conformado, a contragosto, com a realidade social de seu
tempo. _________________________________________________

178 * Literatura Brasileira


Modernismo

Todos os acontecimentos estudados, prepa- Lopes, em São Paulo), que acabariam por triunfar
raram terreno para o surgimento do Modernismo. com a Revolução de Outubro de 1930. A época, das
No Brasil, esse movimento se divide em 3 mais agitadas da história do país, foi ainda marcada
fases: por outros acontecimentos de relevo, como a
1ª fase: vai de 1922 a 1930; peripécia da Coluna Prestes (1925 - 1927), crise
2ª fase: de 1930 a 1945; econômica do café, devido ao “crack” da Bolsa de
3ª fase: de 1945 a mais ou menos 1960. New York (1929), fundação do Partido Comunista
Brasileiro (março de 1922).
A seguir, você verá as características e
principais representantes de cada uma das fases.
2. a semana De arte moDerna

Paralelamente à ruptura no campo político,


MODERNISMO preparava-se outra de caráter artístico, que
culminaria na Semana de Arte Moderna, realizada
1ª Fase (1922 - 1930) de 11 a 18 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal
de São Paulo. Apresentaram-se vários artistas
representantes das novas tendências, em meio a
escândalos, vaias e tumultos. Os modernistas se
1. Contexto históriCo afirmavam, violenta e escandalosamente, propugna-
dos pela libertação artística em todos os níveis:
O Modernismo, em sua primeira fase, iniciou vocabulário, sintaxe, escolha dos temas, maneiras
em 1922, com a realização, em São Paulo, da de encarar o mundo. Pretendiam colocar a cultura
Semana de Arte Moderna e se caracterizou por uma brasileira a par das correntes de vanguarda do
radical renovação nos rumos da literatura nacional. A pensamento europeu, ao mesmo tempo que pregava
profunda reviravolta que, nesses anos, marcou não a tomada de consciência da realidade brasileira.
apenas a literatura, mas toda cultura e a vida
nacional, tem suas raízes mais remotas no espírito
revolucionário que se formou no Brasil, na altura do Alguns nomes se destacaram:
último decênio do século XIX e suas causas mais
recentes nas transformações políticas, sociais e a) na música: Heitor Villa-Lobos;
culturais que seguiram à Primeira Guerra Mundial. b) na arquitetura: Antonio Moya;
No plano nacional, é notável a formação, em c) na pintura: Anita Malfatti, Di Cavalcanti e
fins do século XIX e início do XX, de um clima de Rego Monteiro;
inconformismo em relação à ordem política e social d) na literatura: Mário de Andrade, Oswald de
instaurada pela República, de 1889, e pela Andrade, Manuel Bandeira, Graça Aranha
Constituição de 1891. e Ronald de Carvalho, entre outros.
Esse clima de inconformismo veio surtir
efeitos concretos, na altura da década de 20, com os Realizaram-se três espetáculos, nos dias 13,
movimentos armados de 1922 (“Os 18 de 15 e 17, cabendo a Graça Aranha, também o
Copacabana”) e de 1924 (revolta de Isidoro Dias responsável pelo nome da apresentação, a abertura

Literatura Brasileira * 179


da Semana, com sua conferência “A emoção Em ronco que aterra,
estética na arte moderna” que, apesar de confusa e Berra o sapo-boi:
declamatória, foi ouvida respeitosamente pelo – “Meu pai foi à guerra!”
público, que provavelmente não a entendeu. Mas a – “Não foi!” – “Foi!” – “Não foi!”.
música de Ernani Braga, que fazia uma sátira a
Chopin, causou espanto. O espetáculo de Villa- O sapo-tanoeiro,
Lobos, no dia 17, também foi perturbado, principal- Parnasiano aguado,
mente porque se supôs fosse “futurismo” o artista se Diz: – “Meu cancioneiro
apresentar de casaca e chinelo, quando o É bem martelado.
compositor assim se calçava por estar com um calo
arruinado... Mas não era só contra a música que os Vede como primo
passadistas se revoltaram. A irritação dirigia-se, Em comer os hiatos!
especialmente, à nova literatura e às novas Que arte! E nunca rimo
manifestações da arte plástica. Os termos cognatos.
Na segunda noite - 15 de fevereiro - houve
muita algazarra, (Menotti del Picchia, em seu O meu verso é bom
discurso, prevê que os conservadores desejam Frumento sem joio.
enforcá-lo “um a um, nos finos assobios de suas Faço rimas com
vaias”), especialmente, à hora em que, apresentados Consoantes de apoio.
por Menotti deI Picchia, os autores liam ou
declamavam a prosa e poesia modernas. Vai por cinquenta anos
O poema “Os sapos”, de Manuel Bandeira, Que lhes dei a norma:
que ridiculariza o Parnasianismo, mormente o Pós- Reduzi sem danos
Parnasianismo, foi declamado por Ronald de A fôrmas a forma.
Carvalho “sob os apupos, os assobios, a gritaria de
‘foi não foi’ da maioria do público”. Ronald, aliás, Clame a saparia
disse também versos de Ribeiro Couto e Plínio Em críticas céticas:
Salgado. Oswald de Andrade leu trechos de seu Não há mais poesia,
romance Os condenados. Agenor Barbosa obteve Mas há artes poéticas...”
aplausos com o poema “Os pássaros de aço”, sobre
o avião, e Sérgio Miliet falou sob o acompanhamento Urra o sapo-boi:
de relinchos e miados. – “Meu pai foi rei” – “Foi!”
Enfim, durante o espetáculo, houve quem – “Não foi” – “Foi!” – “Não foi!”
cantasse como galo e latisse como cachorro, no
dizer de Menotti del Picchia, ou “a revelação de Brada em um assomo
algumas vocações de terra-nova e galinha d’angola, O sapo-tanoeiro:
muito aproveitáveis”, na frase de Oswald de – “A grande arte é como
Andrade. Lavor de joalheiro
Eis o poema “Os sapos” de Manuel Bandeira,
declamado por Ronald de Carvalho: Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
OS SAPOS Canta no martelo.”

Enfunando os papos, Outros, sapos-pipas


Saem da penumbra, (Um mal em si cabe),
Aos pulos, os sapos. Falam pelas tripas:
A luz os deslumbra. – “Sei!” – “Não sabe!” – “Sabe!”.

180 * Literatura Brasileira


Longe dessa grita, as técnicas e ideias utilizadas pelos modernistas.
Lá onde mais densa Primeiro, porque essas ideias chegaram até nós
A noite infinita quase que simultaneamente com sua ocorrência em
Verte a sombra imensa; Paris, a capital cultural da época. Segundo, porque
os modernistas não se limitaram a copiar o que se
Lá, fugido ao mundo, fazia na França. De acordo com um dos
Sem glória, sem fé, participantes do movimento, “eles fizeram em São
No perau profundo Paulo o que os franceses faziam em Paris:
E solitário, é revolucionaram tudo para pôr seu país dentro das
correntes de ideias do momento, criaram uma arte e
Que soluças tu, uma literatura que exprimiam a época em que
Transido de frio, viviam. Por isso eram modernos” (Apud Aracy
Sapo-cururu Amaral).
Da beira do rio... Para alcançar esse objetivo, os modernistas
romperam com as formas de expressão já gastas e
VOCABULÁRIO solidificadas na arte brasileira.
Foi assim que a pintora Anita Malfatti
enfunar: retesar, inchar, encher-se de vaidade;
sapo-boi: sapo-gigante, espécie da mesma família a que pertence
apresentou obras em que se nota o total
o sapo-cururu, distinguindo-se deste pelo maior comprimento; descompromisso quanto à cor e à simplificação das
sapo-tanoeiro: (perereca, sapo-ferreiro) o seu coaxar lembra o
som do bater de ferro contra ferro, fato que lhe motivou o nome
formas.
popular; Di Cavalcanti, por sua vez, apresentou uma
aguado: desagradável, monótono;
pintura predominantemente geométrica.
martelado: trabalhado, ritmado;
primar: ser primoroso, hábil; Na música de Villa-Lobos, aparecia o
comer os hiatos: rimar termos cognatos (termos que têm raiz aproveitamento de temas do folclore brasileiro e a
comum, como belo, beleza, embelezar) e fazer rimas com
consoantes de apoio (consoante que forma sílaba com a última utilização de um ou outro instrumento inédito: uma
vogal tônica de um verso, como em exemplos do próprio texto: folha de zinco que vibrava, por exemplo.
joio, apoio) são expressões que se referem a procedimentos
poéticos de estilos literários preocupados sobretudo com a A escultura de Brecheret mostrava obras em
perfeição formal, entre os quais se destaca o Parnasianismo;
que a estilização e a preocupação com a cor eram as
frumento sem joio: frumento = o melhor trigo; joio = erva daninha.
O sentido, no poema, é de “retoricamente perfeito”; notas dominantes.
a fôrmas a forma: no primeiro caso, a palavra forma(vogal o Os projetos arquitetônicos expostos mos-
fechada) significa molde, norma, receita; no segundo caso, a
mesma palavra é pronunciada com a vogal aberta; travam uma preocupação em restabelecer o colonial
cético: que duvida de tudo, descrente; brasileiro.
assomo: irritação, enfurecimento;
Como se pode perceber, a conquista de uma
“A grande arte é como/Lavor de joalheiro [...]”: referência ao
poema “Profissão de fé”, de Olavo Bilac, em que o autor compara nova forma de expressão foi a tônica da Semana.
o trabalho do poeta com o do ourives-joalheiro;
Embora não houvesse homogeneidade de tendên-
lavor: trabalho;
estatuário: escultor; cias, houve um ponto em comum: todas eram contra
perau: declive rápido do fundo do mar ou de um rio, junto à costa a tradição acadêmica. Todas propunham uma nova
ou à margem; barranco;
linguagem para expressar a realidade brasileira.
transido: esmorecido, abatido;
sapo-cururu: espécie de sapo mais comum no Brasil. Uma linguagem que era nossa e, ao mesmo tempo,
universal.

Para compreender melhor essa manifestação


artística que marca a ruptura com a arte tradicional, 3. LITERATURA
é necessário considerar que o Modernismo brasileiro
esteve em consonância com grandes movimentos Essa mesma preocupação com uma nova
internacionais de renovação de ideias e da arte. Por linguagem expressiva marca as manifestações
isso, foram estudadas, nas páginas anteriores, as literárias da primeira fase do Modernismo.
vanguardas artísticas da Europa. Muito importante é frisar que o português que
A França, mais uma vez, serviu de fonte para se escrevia, aqui, antes da Semana de 22, era uma

Literatura Brasileira * 181


réplica do português lusitano, sempre sob a poesia Pau-Brasil:
vigilância severa dos gramáticos tradicionais. “A poesia existe nos fatos. Os casebres de
Era uma língua que “sufocava a expressão açafrão e de ocre, nos verdes na Favela, sob o azul
genuína dos intelectuais brasileiros”. cabralino, são fatos estéticos.
Contra esse instrumento, considerado inade- O carnaval no Rio é o acontecimento religioso
quado para expressar uma realidade nossa, da raça. Pau-Brasil, Wagner submerge os cordões
voltaram-se os modernistas, buscando, sem a fiscali- no Botafogo. Bárbaro e nosso. A formação étnica
zação da gramática, enfocar os problemas de nossa rica. Riqueza vegetal. O minério. A cozinha. O
realidade. Os conteúdos, por isso, modificaram-se. vatapá, o ouro e a dança.
Procedeu-se a uma busca de temas brasileiros, à Contra o gabinetismo, a prática culta da vida.
valorização do cotidiano e da pesquisa do material Engenheiros em vez de jurisconsultos, perdidos
folclórico como fonte de expressão de nossa como chineses na genealogia das ideias.
realidade. A língua sem arcaísmos, sem erudição.
Natural e neológica. A contribuição milionária de
Divulgação das ideias da Semana todos os erros. Como falamos. Como somos.”
A poesia Pau-Brasil é uma sala de jantar
Após a Semana, continuou o trabalho de domingueira, com passarinhos cantando na mata
divulgação das ideias modernistas e também o resumida das gaiolas, um sujeito magro compondo
esforço no sentido de não permitir o desapareci- uma valsa para flauta e a Maricota lendo o jornal.
mento da nova moda artística. No jornal anda todo o presente. (“Correio da
O grande número de manifestos e revistas Manhã”,18/ 03/1924.)
surgidos entre 22 e 30 permite-nos avaliar os
desdobramentos da Semana da Arte Moderna: 03. Revista Estética, do Rio de Janeiro, lançada
em 1924. (M. Andrade, M. Bandeira, Graça
01. Revista Klaxon - revista inovadora quer no Aranha)
projeto gráfico quer na proposta de um projeto 04. Grupo Verde-Amarelo (1925) em oposição ao
gráfico diferente. A revista durou nove nú- Movimento Pau-Brasil, propondo, em vez de
meros. Publicava crônicas, artigos, gravuras primitivismo, um nacionalismo ufanista.
e anúncios, buzinando, pedindo passagens Líderes: Menotti del Picchia, Plínio Salgado,
para o atual, o novo. (Klaxon é a palavra que Cassiano Ricardo e Guilherme de Almeida.
designa a buzina localizada no exterior do Por volta de 1929, o Grupo Verde-Amarelo vai
carro). se transformar no Grupo da Anta (a anta foi
02. Movimento Pau-Brasil - dirigido por Oswald de escolhida símbolo da nacionalidade por ter
Andrade, contando com a participação de sido totem do povo tupi), com uma linha
Tarsila do Amaral, Alcântara Machado, Raul política clara: adesão ao Integralismo, versão
Bopp e Mário de Andrade. O programa nacional do Nazifascismo. Em 1929, o Grupo
pregava o primitivismo, a simplicidade, a da Anta publica seu “Manifesto Nhengaçu
crítica ao nacionalismo postiço. Apresen-tava Verde-Amarelo”.
como proposta uma literatura extrema-mente
vinculada à realidade brasileira, a partir de
uma redescoberta do Brasil. Politicamente, o Eis um fragmento:
grupo tendia para a esquerda. Desse grupo, é
o “Manifesto Pau-Brasil”, redigido por Oswald “0 grupo ‘verdamarelo’, cuja regra é a
de Andrade, publicado em 18/03/1924. Alguns liberdade plena de cada um ser brasileiro
dos princípios deste manifesto foram seguidos como quiser e puder; cuja condição é cada um
por Oswald de Andrade no seu livro de interpretar o seu país e o seu povo através de
poemas Pau-Brasil, publicado numa editora si mesmo, da própria determinação instintiva;
francesa e ilustrado por Tarsila do Amaral. - o grupo ‘verdamarelo’, à tirania das
Eis algumas passagens do Manifesto da sistematizações ideológicas, responde com a

182 * Literatura Brasileira


sua alforria e a amplitude sem obstáculo de CONCLUSÕES:
sua ação brasileira. (. . .)
A geração de 1922 a 1930 definiu e implantou
o Modernismo no Brasil. Foi destrutiva, anárquica,
Aceitamos todas as instituições conserva-
nacionalista extremada, apelou para o sarcasmo e a
doras, pois é dentro delas mesmo que
ironia, para a ousadia e liberdade absoluta.
faremos a inevitável renovação do Brasil,
Houve predomínio da poesia sobre a prosa.
como o fez, através de quatro séculos, a alma
da nossa gente, através de todas as
expressões históricas.
CARACTERÍSTICAS:
Nosso nacionalismo é ‘verdamarelo’ e tupi.”

a) Utilização de uma nova prosódia, mais próxima


05. A Revista (1925), tendo a colaboração de
do coloquial, com a adoção do verso livre.
Carlos Drummond de Andrade, apareceu em
Minas Gerais.
“Como tenho pensado em ti na solidão das noites
06. Revista Terra Roxa e Outras Terras (1926 -
[úmidas. (16 sílabas)
SP) que contou com a participação de Mário
De névoa úmida (4 sílabas)
de Andrade e Oswald de Andrade.
Na areia úmida!” (4 sílabas)
07. A Revista Festa, publicada no Rio de Janeiro,
(Manuel Bandeira)
sob a direção de Tasso da Silveira, tenta
imprimir um caráter espiritualista ao
b) Aproximação entre a poesia e a prosa, com a
Modernismo. subversão dos gêneros literários tradicionais: a
08. Manifesto Antropófago (1928), o mais radical poesia trata de temas “prosaicos”, com
manifesto do Modernismo: propunha a vocabulário e ritmo próximo da prosa, enquanto
“devoração” da cultura e das técnicas que a nova prosa faz decididamente uso de uma
importadas e sua reelaboração com auto- série de processos de elaboração poética.
nomia, transformando um produto importado
em exportável. Mário, Oswald de Andrade e
Raul Bopp lutavam por uma poesia primitiva, CENA
dentro dos objetivos do manifesto Pau-Brasil.
“ O canivete voou
E o negro comprado na cadeia
Eis um fragmento: Estatelou de costas
E bateu co a cabeça na pedra”
(Oswald de Andrade)
“Só a antropofagia nos une. Socialmente.
Economicamente. Filosoficamente. “ O Pão de Açúcar era um teorema geométrico.
Única lei do mundo. Expressão masca- Passageiros tombadilhavam o êxtase oficial da
rada de todos os coletivismos. De todas as cidade encravada de crateras.”
religiões. A todos os tratados de paz. (Oswald de Andrade)
Tupy, or not tupy that is the question.
Contra todas as catequeses. E contra a
mãe dos Gracos. c) Rejeição dos padrões gramaticais portugueses
Só me interessa o que não é meu. Lei do com adoção de novos padrões estilísticos, que
homem. Lei do Antropófago.” aproximaram a linguagem literária do modo de
falar brasileiro (iniciar períodos pelo pronome
Por esse breve panorama, percebe-se oblíquo, usar o pronome se com a função de
que o processo de propagação das ideias sujeito, além de procurar incorporar a seu estilo,
modernistas se fez, basicamente, em São Paulo, ritmos, expressões e vocábulos da linguagem
Minas, Rio e no Nordeste do país. mais usual e “vulgar”) .

Literatura Brasileira * 183


“ De tarde, quando volta do serviço, a Carmela antropologia”. (Antônio Cândido e V. A. Castello,
chama ele na cerca.” Presença na Literatura Brasileira).
(Mario de Andrade)
“ passa galhardo um filho de imigrante,
“Como estava grande! Pois fazem seis anos já! loiramente domando um automóvel”
(Idem) (Mário de Andrade)

“ Agora é abril, ôh minha doce amiga, g) Os autores modernistas se utilizaram da paródia,


Te reclinaste sobre mim, como a verdade, carnavalizando determinados valores do
Fui virar, fundeei o rosto no teu corpo.” Romantismo de veio nacionalista, sobretudo
(Idem) satirizando a visão idealizada da natureza, do
índio, da infância e da pátria.

d) Uma nova visão do mundo, que implicava uma Texto romântico:


total renovação dos temas tradicionalmente
aceitos pela literatura, vem de par com a adoção “Além, muito além daquela serra, que ainda
de novos padrões linguísticos: o de serem atuais, azula no horizonte, nasceu Iracema.
exprimirem a vida diária. Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha
os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais
“Há poesia longos que o talhe da palmeira.
Na dor O favo da jati não era doce como seu sorriso,
Na flor nem a baunilha rescendia no bosque como seu hálito
No beija-flor perfumado.
No elevador” Mais rápida que a ema selvagem, a morena
(Oswald de Andrade) virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde
campeava sua guerreira tribo, da grande nação
e) Adoção da temática do cunho nacional, agora, tabajara.”
porém, tratada pelos novos escritores de forma (Iracema, José de Alencar)
sensivelmente diversa daquela que se nota na
literatura do século XIX. Texto modernista (paródia):

“ Brasil... “No fundo do mato virgem nasceu


Mastigado na gostosura quente do amendoim. . . Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto
Falado numa língua curumim e filho do medo da noite. Houve um momento em
De palavras incertas num remeleixo melado que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo
[ melancólico...” do Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma
(Mário de Andrade) criança feia. Essa criança é que chamaram
Macunaíma.
Já na meninice fez coisas de sarapantar. De
f) Especial atenção a tudo que “indicasse a primeiro passou mais de seis anos não falando. Si o
presença da civilização industrial: a máquina, a incitavam a falar exclamava:
metrópole mecanizada, o cinema, a vida - Ai! que preguiça!”
excitante de uma sociedade que liquidava seus (Macunaíma, Mário de Andrade)
resquícios patriarcais e adotava rapidamente os
novos ritmos da vida contemporânea. A análise Evidencia-se a intertextualidade entre os dois
psicológica e o lirismo aprofundaram-se com um textos, visto que Mário parodia Alencar, mostrando o
senso do que há no homem de infantil, mas elemento indígena Macunaíma como o avesso de
também de complicado, retorcido, utilizando as Iracema. Através do humor, caracteriza o herói
sugestões da psicanálise, do surrealismo e da indígena como feio, malandro, preguiçoso, ou seja, o

184 * Literatura Brasileira


contrário do índio romântico. senhor feudal

Texto romântico: “ Se Pedro Segundo


Vier aqui
“Minha terra tem palmeiras, Com história
Onde canta o sabiá: Eu boto ele na cadeia”
As aves que aqui gorjeiam, (Oswald de Andrade)
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas PRINCIPAIS REPRESENTANTES:


Nossas várzeas têm mais flores
Nossos bosques têm mais vida POESIA
Nossa vida mais amores.” Foi a forma de expressão predominante da
(Gonçalves Dias) primeira fase. Destacam-se: Mário de Andrade,
Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, Guilherme de
Textos modernistas (paródias): Almeida, Menotti del Picchia, Raul Bopp, Cassiano
Ricardo.
“Minha terra tem palmeiras
Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui PROSA
Não cantam como os de lá.” A expressão em prosa não tem o mesmo
(Oswald de Andrade) destaque, mas adquiriu traços novos. Destacam-se:
Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Alcântara
Machado.
“Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza. AUTORES E OBRAS DA 1ª FASE
Os poetas de minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista.
(...) 1. MÁRIO DE ANDRADE
A gente não pode dormir (1893 - 1945)
com os oradores e os pernilongos Cognominado de “0 Papa do Modernismo”,
Os sururus em família têm por testemunha a foi, sem dúvida, o espírito mais vasto do
[Gioconda.” Modernismo; o mais versátil e culto, o que maior
(Murilo Mendes) influência exerceu.
Foi poeta, romancista, crítico, folclorista,
musicista. Nascido em São Paulo, encontrou, na
Enquanto Gonçalves Dias enaltece a pátria, própria cidade, o motivo de sua poesia. A poesia
valorizando a natureza, M. Mendes, recuperando o urbana de Mário nasce dos horizontes de cimento
texto gonçalvino, mostra a realidade local de modo armado, das brisas misturadas com a fumaça das
crítico, apontando vários aspectos negativos da chaminés, das colinas de asfalto, dos exuberantes
pátria como: cultura de importação, incultura e linguajares cotidianos e das caricaturas humanas da
alienação. “selva da cidade” .
Como pudemos observar, os modernistas Mário de Andrade não se preocupou em
fazem uma leitura pelo avesso dos românticos. seguir esse ou aquele estilo, mas procurou, antes de
tudo, libertar-se de qualquer “galicismo” literário em
h) O humor, repelido até então pela poesia que era proveito de uma temática essencialmente brasileira.
considerada nobre, é uma novidade. O poema- Sem teorias sobre a “arte de escrever”, sem respeitar
piada caracteriza-se pela condensação, irreve- a “gramaticidade” compulsória do bem-escrever,
rência e polêmica que pretende provocar. “inventou” sua própria poesia, espontânea,

Literatura Brasileira * 185


apaixonada, lúcida e bem-humorada, às vezes, Nele, o autor procura dar uma visão poética à cidade
amarga. de São Paulo, dentro do caráter demolidor que
“Quando sinto a impulsão lírica escrevo sem caracterizou a 1ª fase do Modernismo.
pensar tudo o que meu inconsciente me grita. Penso
depois: não só para corrigir, como para justificar o ODE AO BURGUÊS
que escrevi”.
(Mário de Andrade)
Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
Algumas características da obra de Mário de
A digestão bem feita de São Paulo!
Andrade:
O homem-curva! o homem-nádegas!
- A teoria da colagem ou montagem. Partindo O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
do princípio de que o homem moderno é diuturna- é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!
mente bombardeado por propaganda, cinema,
Eu insulto as aristocracias cautelosas!
televisão, carro, velocidade... em sua mente formam-
Os barões lampiões! Os condes Joões! Os duques zurros!
se quadros com recortes desordenados das mais
que vivem dentro de muros sem pulos;
diversas realidades, já que não há tempo para
e gemem sangues de alguns mil-réis fracos
separar, analisar... assim o verso, o poema devem
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
permitir um baralhamento que dê o “clima” em que
e tocam os “Printemps” com as unhas!
vive o homem moderno.
- O manuseio da linguagem e assunto Eu insulto o burguês-funesto!
coloquial, o tom irônico. Tudo em nome de uma O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
espontaneidade diretamente ofensiva à Literatura Fora os que algarismam os amanhãs!
acadêmica da época. Olha a vida dos nossos setembros!
- O abuso de neologismos de toda ordem, Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
simbolizando talvez o caráter cosmopolita dos Mas à chuva dos rosais
nossos maiores centros urbanos, principalmente São o êxtase fará sempre Sol!
Paulo.
- A transição para o mundo atual dos mitos Morte à gordura!
indígenas, africanos, sertanejos. É uma busca de Morte às adiposidades cerebrais!
raízes para dentro da história e para dentro da alma Morte ao burguês-mensal!
humana. ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
- O caráter missionário de sua obra, em Padaria Suissa! Morte viva ao Adriano!
função da arte e do pensamento de sua própria “- Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
geração... Mário tomou como sua a causa da - Um colar... - Conto e quinhentos!!!
renovação do país, participando em todas as áreas, Mas nós morremos de fome!”
em todas as circunstâncias, dinamizando a pesquisa
Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
pela sua irradiação pessoal.
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
OBRAS:
Ódio aos temperamentos regulares!
Poesia: Há uma gota de sangue em cada
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
poema; Pauliceia desvairada (1922 - marco do
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Modernismo); Losango Cáqui; Clã do jabuti; Lira
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
paulistana.
sempiternamente as mesmices convencionais!
Romance: Amar verbo intransitivo; Macunaí-
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
ma.
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Ensaio: A escrava que não é lsaura; O
Todos para a Central do meu rancor inebriante!
empalhador de passarinhos.
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
O texto a seguir é de Pauliceia desvairada. Morte ao burguês de giolhos,

186 * Literatura Brasileira


cheirando religião e que não crê em Deus! INSPIRAÇÃO
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão! “São Paulo! comoção de minha vida...
Fora! Fú! Fora o bom burguês! Os meus amores são flores feitas de original!...
Arlequinal!... Trajes de losango... Cinza e ouro...
• burguês-níquel: Mário de Andrade, para Luz e bruma... Forno e inverno morno...
caracterizar o burguês, cria uma série de Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes...
substantivos compostos, formados por dois Perfumes de Paris... Arys!
substantivos, exercendo o segundo a função de Bofetadas líricas no Trianon... Algodoal!...
adjetivo.
• barões, condes, duques: uma caracterização da São Paulo! comoção de minha vida...
aristocracia brasileira. Galicismo a berrar nos desertos da América.”
• algarismam: neologismo de Mário de Andrade;
algarismar seria transformar tudo em algarismos,
cifras, valores. O TROVADOR
• arlequinal: relativo a Arlequim, personagem de
antigas comédias italianas, caracterizado por “Sentimentos em mim do asperamente
roupa multicolorida, geralmente feita de losangos. dos homens das primeiras eras...
• tílburi: antigo veículo de duas rodas, puxado por As primaveras dos sarcasmos
um cavalo; charrete. intermitentemente no meu coração arlequinal!...
• purée: o mesmo que purê, alimento pastoso, feito Intermitentemente...
de batatas amassadas. Outras vezes é um doente, um frio
• ventas: nariz. na minha alma doente como um longo som
• secos e molhados: expressão que designa redondo...
alimentos respectivamente sólidos e líquidos; por Cantabona! Cantabona!
extensão, local onde se vendem esses alimentos. Dloron...
• sempiternamente: eternamente.
• giolhos: joelhos. Sou um tupi tangendo um alaúde!”

No primeiro poema, o verso inicial repetido ao


fim ‘São Paulo! comoção de minha vida...’ esclarece
O TRABALHO ENTRELAÇADO À VIDA o que inspira o poeta, enquanto o último verso, que
(Juarez Poletto) segue à repetição do primeiro: ‘Galicismo a berrar
nos desertos da América’ aponta a ambiguidade da
“Qualquer motivo lírico desde o amor até as construção nacional, ao mesmo tempo europeia e
carroças cheias de café, desde o guarda-chuva americana, o que casa perfeitamente com o verso
paradoxal até a cidade que virou mulher cabe na final do segundo poema: ‘Sou um tupi tangendo um
poética de Mário de Andrade, pois esse mundo é o alaúde’, reflexão que confirma a situação também
seu mundo, sua cidade e nela o poeta não se perde, ambígua do poeta. Mário de Andrade declara seus
nem no mundo exterior que o motiva nem no interior amores à cidade dupla que quer cantar e já a
que organiza. Mas é sempre um índio tangendo um identifica como arlequinal: ‘Cinza e ouro... / Luz e
alaúde: a alma é nacional, o instrumento estrangeiro. bruma... Forno e inverno morno...’. Há também na
Um ser dividido que procura uma unidade. Os dois
1
cidade ‘Perfumes de Paris...’ e ‘Bofetadas líricas no
primeiros poemas de Pauliceia desvairada apontam Trianon’. Este último verso fica sugestivo especial-
já em seus títulos para o conteúdo poético da obra e mente por ser o Trianon o espaço onde funciona a
a atitude do poeta, respectivamente: ‘Inspiração’ e Academia Francesa de Letras. Mário está se
‘O trovador’ (1922). negando a aplaudir o Trianon, como quem se nega a
seguir a orientação europeia de arte, o que é uma
das propostas do Modernismo brasileiro. Mais tarde,

Literatura Brasileira * 187


os franceses doam (constroem) uma réplica do 1
Sobre a busca dessa unidade, ver KNOLL,
Trianon - O Petit Trianon - onde hoje funciona a Victor. Paciente arlequinada: uma leitura da obra
Academia Brasileira de Letras, cujos membros na poética de Mário de Andrade. São Paulo: Hucitec,
época dos anos vinte se opuseram ao movimento 1983.
modernista de São Paulo.
Um trovador, assim se identifica o poeta de
coração arlequinal, ou seja, de coração dividido entre MACUNAÍMA
os ‘homens das primeiras eras’ e a ‘alma doente’ de Esta “rapsódia”* (como era qualificada na
hoje. Há nos ‘homens das primeiras eras’ uma busca primeira edição) conta as aventuras de Macunaíma,
das origens, ou um reconhecimento delas, ou ainda herói de uma tribo amazônica. O livro é construído
uma descoberta do tupi que há em sua voz de poeta. no encontro de lendas indígenas e da vida brasileira
O homem rude ‘do asperamente’ está associado às cotidiana, de mistura com lendas e tradições
‘primaveras de sarcasmo’, sugerindo que o início da populares. Macunaíma é o “herói sem nenhum
história desse homem não se fez de glória, mas de caráter”. O fantástico assume um ar de coisa
zombaria. O homem áspero e primitivo não corriqueira e o lirismo da mitologia se funde a cada
predomina, já que oscila ‘intermitentemente’ com ‘um passo com a piada, a brincadeira.
doente’, mas de ‘alma doente’. Esse doente é o É a obra mais conhecida de Mário. Utilizando
homem de hoje, o poeta, que se identifica com ‘um uma trama narrativa muito simples, o autor recria
longo som redondo’, ou seja, um criador de poeticamente um vasto material do folclore e da
associações sonoras, um cantor, um trovador ou, cultura popular brasileira. Aglutinando todo esse
como desvendou Victor Knoll, um arauto que material, aparece a personagem central, Macu-
anuncia a brasilidade. As onomatopeias que vêm em naíma, que ganhara de sua mulher - Ci - um
seguida ‘Cantabona! Cantabona! Dlorom...’ podem amuleto: a pedra muiraquitã. Esse talismã foi furtado
induzir aos sons que representam o mundo do pelo gigante Pietro Pietra (também chamado
progresso racional, a parte europeia das gentes Piaimã), que foge para São Paulo. Acompanhado de
brasileiras - até porque ‘cantabona’ aponta para a seus irmãos Jiguê e Maanape, o herói Macunaíma
influência italiana e parece conter a significação de parte para São Paulo com a finalidade de reaver o
bom cantar - e, por outro lado, ‘dlorom’ pode amuleto. Após muitas aventuras, Macunaíma
representar um estrondo rude e natural do mundo consegue recuperar o amuleto, mas perde-o logo em
mais primitivo da realidade de origem da nação. seguida.
‘Dlorom’, porém, também sugere onomatopai- Perseguido pela minhoca gigante Oibê,
camente o dedilhar de um acorde num instrumento Macunaíma percorre todo o Brasil, até que um dia
de cordas. Então o último verso casa perfeitamente resolve subir ao Céu, transformando-se na
com o conjunto: ‘Sou um tupi tangendo um alaúde!’. constelação da Ursa Maior.
Essa é a primeira imagem que o livro
* rapsódia = “É a compilação, numa mesma obra, de temas ou
apresenta: o labor do poeta, do qual emana um assuntos heterogêneos de várias origens” (Massaud Moisés).
projeto de canto literário voltado para uma dupla
face, a do tupi - face nacional comprometida com os
valores de origem do povo brasileiro - e do alaúde - MACUNAÍMA
influência da formação europeia na cultura e nos
valores do povo citadino que vive nesta terra. Esse “No fundo do mato-virgem nasceu
canto se revela ambíguo, pois abarca em si opostos Macunaíma, herói da nossa gente. Era preto retinto
que não compactuam e não se compreendem nas e filho do medo da noite. Houve um momento em
suas distâncias culturais, mas ao mesmo tempo que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo
vivem sob o mesmo céu, daí se poder dizer que do Uraricoera, que a índia, tapanhumas pariu uma
arlequinal não é só São Paulo, mas o Brasil e a criança feia. Essa criança é que chamaram de
própria poesia de Mário de Andrade, na medida que Macunaíma.
canta sua cidade e a nação em sua multiplicidade de Já na meninice fez coisas de sarapantar. De
etnias, valores e realizações.” primeiro passou mais de seis anos não falando. Si o

188 * Literatura Brasileira


incitavam a falar ele exclamava: O favo da jati não era doce como seu sorriso, nem a
baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado.
– Ai! que preguiça!... Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria
e não dizia mais nada. Ficava no canto da o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo
da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava
maloca, trepado no jirau de paxiúba, espiando o apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras
trabalho de outros e principalmente os dois manos águas”.

que tinha, Maanape já velhinho e Jiguê na força de


a) Que diferenças existem entre as duas caracterizações do
homem. O divertimento dele era decepar cabeça de
índio como “símbolo da nacionalidade”?
saúva. Vivia deitado mas si punha os olhos em
________________________________________________
dinheiro, Macunaíma dandava pra ganhar vintém. E
________________________________________________
também espertava quando a família ia tomar banho
________________________________________________
no rio, todos juntos e nus. Passava o tempo do
________________________________________________
banho dando mergulho, e as mulheres soltavam
________________________________________________
gritos gozados por causa dos guaimuns diz-que
habitando a água doce por lá. No mucambo si b) Explique tais diferenças, à luz de uma análise de Antônio
Cândido sobre nossa primeira geração modernista.
alguma cunhatã se aproximava dele pra fazer [...] “o nosso modernismo importa essencialmente, em sua
festinha, Macunaíma punha a mão nas graças dela, fase heroica, na libertação de uma série de recalques
históricos, sociais, étnicos, que são trazidos triunfalmente à
cunhatã se afastava. Nos machos guspia na cara. tona da consciência literária. Este sentimento de triunfo, que
Porém respeitava os velhos e frequentava com assinala o fim da posição de inferioridade no diálogo secular
com Portugal e já nem o leva mais em conta, define a
aplicação a murua a poracê o torê o bacororô a originalidade própria do Modernismo na dialética do geral e
cucuicogue, todas essas danças religiosas da tribo. do particular [...] As nossas deficiências, supostas ou reais,
são reinterpretadas como superioridades. [...] O primitivismo
Quando era pra dormir trepava no macuru é agora fonte de beleza e não mais empecilho à elaboração
pequeninho sempre se esquecendo de mijar. Como da cultura”.
(Antônio Cândido. Literatura e sociedade. São Paulo,
a rede da mãe estava por debaixo do berço, o herói Companhia Editora Nacional, 1967).
mijava quente na velha, espantando os mosquitos ________________________________________________
bem. Então adormecia sonhando palavras feias, ________________________________________________
imoralidades estrambólicas e dava patadas no ar. ________________________________________________
Nas conversas das mulheres no pino do dia ________________________________________________
o assunto eram sempre as peraltagens do herói. As
________________________________________________
mulheres se riam muito simpatizadas, falando que
“espinho que pinica, de pequeno já traz ponta”, e
2. O anti-herói não é o vilão, mas o herói que contradiz a
numa pajelança Rei Nagô fez um discuro e avisou concepção tradicional de heroísmo, ao reunir em si virtudes e
que o herói era inteligente.” defeitos. Pensando nessa afirmação, encontre no texto duas
características de Macunaíma que seriam vistas como
qualidades pelo senso comum.
VOCABULÁRIO:
________________________________________________
jirau de paxiúba: estrado feito com varas e fibras de um tipo de
palmeira encontrado na Amazônia; ________________________________________________
dandava pra ganhar vintém: expressão extraída de cantiga de ________________________________________________
ninar – referência à esperteza da personagem;
________________________________________________
guaimum: caranguejo;
cunhatã: mulher adolescente; ________________________________________________
pajelança: práticas e rituais mágicos promovidos pelos pajés.

3. Quanto à linguagem da obra, aponte os aspectos mais


expressivos do projeto nacionalista de Mário de Andrade de
EXERCÍCIOS criar uma língua nacional.

________________________________________________
1. Leia este fragmento da página de abertura de Iracema, de
José de Alencar, e compare a caracterização romântica do ________________________________________________
índio com sua caracterização modernista, por Mário de
Andrade. ________________________________________________

________________________________________________
“Além, muito além daquela serra, que ainda azula no
horizonte, nasceu Iracema. ________________________________________________
Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos
mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de
palmeira.

Literatura Brasileira * 189


2. OSWALD DE ANDRADE LEVANTE
(1890 - 1954)
Espírito irreverente e combativo. Iniciou sua “Contam que houve uma porção de enforcados
vida literária através de “O pirralho”, jornal de crítica E as caveiras espetadas nos postes
e humor fundado por ele próprio. Fez viagens à Da fazenda desabitada
Europa, onde entrou em contato com as vanguardas Miavam de noite
artísticas europeias, tornando-se, em 1922, uma das No vento do mato”
figuras centrais do Modernismo. Iniciador do
movimento nativista Pau-Brasil e Antropofágico, sua
obra apresenta, de maneira geral, as características ERRO DE PORTUGUÊS
já comentadas desta 1ª fase, ou seja, um
nacionalismo que busca as origens sem perder a “Quando o português chegou
visão crítica da realidade brasileira. Busca valorizar Debaixo duma bruta chuva
o falar cotidiano, analisa criticamente a sociedade Vestiu o índio
burguesa capitalista, como em Serafim Ponte Que pena!
Grande e O rei da vela. Na poesia, cria pequenos Fosse uma manhã de sol
poemas com forte apelo visual. O índio tinha despido
O português”

OBRAS: O enfoque da paisagem brasileira aparece na


Poesia e Prosa: Pau-Brasil, Os condenados, terceira parte do livro Pau-Brasil:
Estrela do absinto, Memórias sentimentais de João
Miramar, Serafim Ponte Grande. NOTURNO
Teatro: O rei da vela, O homem e o cavalo.
No seu livro de poemas Pau-Brasil, publicado “Lá fora o luar continua
em Paris, em 1925, Oswald de Andrade põe em E o trem divide o Brasil
prática algumas propostas do Manifesto. Vejamos: Como um meridiano”
A primeira parte do livro, “História do Brasil”, é
uma tentativa de recuperar poeticamente os Outros exemplos:
documentos escritos pelos primeiros colonizadores
e visitantes, numa postura crítica diante de nossa VÍCIO NA FALA
História.
“Para dizerem milho dizem mio
Para melhor dizem mió
FESTA DA RAÇA Para pior pió
Para telha dizem teia
“Hu* certo animal se acha também nestas partes Para telhado dizem teiado
A que chamam Preguiça E vão fazendo telhados”
Tem hua* guedelha grande no toutiço
E se move com passos tão vagarosos
Que ainda que ande quinze dias aturado
O CAPOEIRA
Não vencerá distância de hu* tiro de pedra.”

* mantida a grafia arcaica transposta por Oswald de Andrade


“- Qué apanhá sordado?
com função estética. - O quê?
- Qué apanhá?
Na segunda parte do livro, “Poemas da Pernas e cabeças na calçada”
colonização”, Oswald de Andrade registra alguns
momentos desse período de nossa História.

190 * Literatura Brasileira


A TRANSAÇÃO 15. CONSELHOS
“No quarto de dormir ralhos queridos não
“O fazendeiro criara filhos queriam que eu andasse com meu primo. Pontico
Escravos escravas não tivera educação desde criança e por isso amava
Nos terreiros de pitangas e jabuticabas vagabundear. Que diriam as famílias de nossas
Mas um dia trocou relações que me vissem em molecagens gritantes
O ouro da carne preta e musculosa ou com servos? Só elas é que devíamos frequentar.
As gabirobas e os coqueiros Eu achava abomináveis as famílias das
Os monjolos e os bois nossas relações.”
Por terras imaginárias (MSJM)
Onde nasceria a lavoura verde do café”

46. ANGLOMANIA
“Tomamos board-house francesa em Albany
PRONOMINAIS Street não longe do Hyde Park.
Durante o dia almoçávamos a cidade
“Dê-me um cigarro visitando entre jardins múmias do British Museum.
Diz a gramática Chegava a noite pontual e policemen corriam
Do professor e do aluno pesados estores do céu para alexandrinais poetas
E do mulato sabido compatriotas percorrerem de tube o famoso astro da
Mas o bom negro e