IRBr - Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata

Manual do Candidato

Geografia
Regina Célia Araújo

2ª Edição atualizada e revisada

Nova Tiragem Brasília 2007

Presidente

Jeronimo Moscardo

CENTRO DE HISTÓRIA E DOCUMENTAÇÃO DIPLOMÁTICA

Diretor

Álvaro da Costa Franco

Diretor

Carlos Henrique Cardim

A Fundação Alexandre Gusmão (Funag), instituída em 1971, é uma fundação pública vinculada ao Ministério das Relações Exteriores e tem a finalidade de levar à sociedade civil informações sobre a realidade internacional e sobre aspectos da pauta diplomática brasileira. Sua missão é promover a sensibilização da opinião pública nacional para os temas de relações internacionais e para a política externa brasileira. A Funag tem dois órgãos específicos singulares: Instituto de Pesquisas de Relações Internacionais (IPRI) – tem por objetivo desenvolver e divulgar estudos e pesquisas sobre as relações internacionais. Com esse propósito: - promove a coleta e a sistematização de documentos relativos ao seu campo de atuação; - fomenta o intercâmbio científico com instituições congêneres nacionais, estrangeiras e internacionais, e - realiza e promove conferências, seminários e congressos na área de relações internacionais. Centro de História e Documentação Diplomática (CHDD) – cabem-lhe estudos e pesquisas sobre a história das relações internacionais e diplomática do Brasil. Cumpre esse objetivo por meio de: criação, difusão de instrumentos de pesquisa; edição de livros sobre história diplomática do Brasil; pesquisas, exposições e seminários sobre o mesmo tema; publicação do periódico Cadernos do CHDD.

Ministério das Relações Exteriores Esplanada dos Ministérios, Bloco H Anexo II, Térreo, Sala 1 70170-900 - Brasília-DF Telefones: (61) 3411-6033/6034 Fax: (61) 3411-9125 Site: www.funag.gov.br Instituto de Pesquisas de Relações Internacionais (IPRI) Esplanada dos Ministérios, Bloco H Anexo II, Térreo, Sala 22 70170-900 - Brasília-DF Telefones: (61) 3411-6800/9115 Fax: (61) 3411-9588 E-mail: ipri@mre.gov.br Centro de História e Documentação Diplomática (CHDD) Palácio Itamaraty Avenida Marechal Floriano, 196 Centro – 20080-002 Rio de Janeiro – RJ Telefax: (21) 2233-2318/2079 E-mail: chdd.funag@veloxmail.com.br

APRESENTAÇÃO

A Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG) oferece aos candidatos ao Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata, do Instituto Rio Branco (IRBr), do Ministério das Relações Exteriores, a série Manuais do Candidato, com nove volumes: Português, Questões Internacionais Contemporâneas, História do Brasil, História Geral Contemporânea, Geografia, Direito, Economia, Inglês e Francês1. Os Manuais do Candidato constituem marco de referência conceitual, analítica e bibliográfica das matérias indicadas. O Concurso de Admissão, por ser de âmbito nacional, pode, em alguns centros de inscrição, encontrar candidatos com dificuldade de acesso à bibliografia credenciada ou a professores especializados. Dada a sua condição de guias, os manuais não devem ser encarados como apostilas que por si só habilitem o candidato à aprovação. A FUNAG convidou representantes do meio acadêmico com reconhecido saber para elaborarem os Manuais do Candidato. As opiniões expressas nos textos são de responsabilidade exclusiva de seus autores.

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O IRBr considera importante ao Concurso de Admissão que os candidatos não descuidem do aperfeiçoamento no idioma francês, uma vez que (a) será exigida proficiência de alto nível em francês no processo de formação de diplomatas e (b) parte da bibliografia do Programa de Formação e Aperfeiçoamento – Primeira Fase (PROFA I) é constituída de textos em francês.

gov. a Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG) promove atividades de natureza cultural e acadêmica que visem à divulgação e ampliação do debate acerca das relações internacionais contemporâneas e dos desafios da inserção do Brasil no contexto mundial. E-mail: publicacoes@funag. a Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG) coloca-se em contato direto com os diferentes setores da sociedade. cuja finalidade é levar à sociedade civil informações sobre a realidade internacional e aspectos da pauta diplomática brasileira. Com a missão de promover a sensibilização da opinião pública nacional para os temas de relações internacionais e para a política externa brasileira. promovendo exposições.br . instituída em 1971. atendendo ao compromisso com a democracia e com a transparência que orienta a ação do Itamaraty. velando pela conservação e difusão do acervo histórico diplomático do Brasil. Fomentando a realização de estudos e pesquisas. é uma fundação pública vinculada ao Ministério das Relações Exteriores.FUNAG A Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG). organizando foros de discussão e reflexão. mantendo um programa editorial voltado para a divulgação dos problemas atinentes às relações internacionais e à política externa brasileira.

............. Regionalização e Divisão Regional do Trabalho no Brasil .. 113 4......................................... 107 3................................... O Processo de Estruturação e os Objetivos do Mercosul ....................... 86 7....... O Espaço Geográfico ............................ O Processo de Modernização da Agricultura no Brasil e as suas Tendências Atuais ..................................................... 87 Unidade III .............. 133 5.......... 19 2... 92 2.. A Definição dos Limites Territoriais e o Processo de Ocupação do Território Brasileiro .............. Bibliografia .......................................................................... 142 ............................................. 63 5............................................................ 15 Unidade II ..........................................................................................SUMÁRIO Unidade I ................ As Perspectivas de Integração da Bacia Amazônia ...... Exemplos de Questões . 54 4........................A Formação Territorial do Brasil ...... O Processo de Industrialização e as Tendências Atuais da Localização da Indústria no Brasil .................................................................................... Bibliografia .......... 89 1................................................................................. Herança Colonial.................................................................. 33 3.............................. Transnacionalização da Economia e Globalização das Relações de Produção: o Período Técnico-Científico e as Novas Tendências Políticas em Escala Global ............... 17 1........................................... 09 2............................................................. 11 3 Bibliografia ....................................................................O Brasil no Contexto Geopolítico Mundial ........... Teorias Geográficas da Relação Sociedade-Natureza ................. 141 6...................... Os Processos Recentes de Urbanização e a Rede de Cidades no Brasil .................. Exemplos de Questões .............................................. 74 6.............................................................................................................................................................................Sociedade e Espaço: o campo de reflexões da Geografia ....................................................... 07 1............................................ Condição Periférica e Industrialização Tardia: AAmérica Latina ..........

........................................................................... 183 ...... As Demandas de Saneamento Básico e a Qualidade de Vida nas Cidades Brasileiras ...... 145 2....... A Consciência Ambiental e o Planejamento de Usos Sustentáveis do Solo ............................................................. 170 4.................................Unidade IV ............... 143 1.................... 154 3........................................... 182 5...... Os Ecossistemas Brasileiros e as Principais Causas de sua Degradação .............................. Bibliografia ................................................................................................................................... Exemplos de Questões .........A Questão Ambiental no Brasil e os Desafios do Desenvolvimento Sustentável ............

UNIDADE I SOCIEDADE E ESPAÇO: O CAMPO DE REFLEXÕES DA GEOGRAFIA .

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O processo de humanização da natureza e de transformação desta em recurso produtivo resulta na produção social de formas espaciais diferenciadas. ele está em permanente mutação. na produção do espaço geográfico. 1. O geógrafo Milton Santos define espaço como acumulação desigual de tempos. Nessa primeira Unidade. de forma a orientar a leitura das Unidades subseqüentes. mais simplesmente. porém. Sendo assim. por exemplo. Nessa perspectiva. ao produzirem sua vida material e sua história. o espaço geográfico é coagulação do trabalho social. O espaço geográfico materializa atributos das sociedades que os produziram. ou. Essa introdução conceitual. e não dispensa uma revisão bibliográfica de maior fôlego acerca das grandes linhas teóricas e conceituais que vertebram o campo de reflexões da geografia: trata-se apenas de um quadro de referências fundamentais. SOCIEDADE E ESPAÇO: O CAMPO DE REFLEXÕES DA GEOGRAFIA No vasto campo de reflexões da geografia. O surto industrialista vivenciado pela Europa no século XIX. pretende-se introduzir a discussão acerca desse conceito e apresentar alguns momentos cruciais da história do pensamento geográfico. da inserção do país no contexto internacional e dos impactos do uso predatório dos recursos naturais sobre o patrimônio ambiental do país. que abarca desde a lógica da distribuição espacial das atividades humanas e suas transformações ao longo da história até a percepção subjetiva das realidades espaciais vivenciadas pelas diferentes sociedades e pelos grupos que as compõem.SOCIEDADE E ESPAÇO: O CAMPO DE REFLEXÕES DA GEOGRAFIA I. está longe de ser conclusiva. O Espaço Geográfico As sociedades humanas. o conceito de espaço ocupa lugar de destaque.com 9 . modificam os ambientes naturais e produzem também espaço. que tratam da formação do território brasileiro. transformou radicalmente a geografia do continente: as precárias vias de circulação medievais e as modestas cidades . materialização de idéias e de ações das sociedades sobre a natureza.

de imóvel. na medida em que os novos investimentos estão promovendo. A geografia estuda uma realidade em permanente mutação.pelo menos em aparência – enquanto a sociedade evolui. uma desconcentração dos ramos industriais tradicionais pelo território e uma reconcentração das indústrias de base tecnológica em alguns pólos do Centro-Sul. as relações sociais e políticas também mudam. cristaliza em suas formas o passado e o presente das sociedades que a produziram: Uma região produtora de algodão. que adquirem as feições das modernas aglomerações urbanas ocidentais. a integração crescente da economia chinesa com o mercado mundial está mudando a paisagem urbana das cidades litorâneas. e não um objeto fixo. e ser o resultado da acumulação da atividade de muitas gerações. objetos sociais. que não são obra do homem nem jamais foram tocados por ele. a paisagem compreende dois elementos: Os objetos naturais. De um lado alguns dos seus elementos não mudam .MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO ruelas estreitas que obedeciam a um plano radioconcêntrico . O seu traço comum é ser a combinação de objetos naturais e de objetos fabricados. de café ou trigo. no passado como no presente. Uma paisagem urbana ou uma cidade de tipo europeu ou de tipo americano. Do mesmo modo. A mesma coisa acontece em relação ao espaço e a paisagem que se transforma para se adaptar às novas necessidades da sociedade. As alterações por que passa a paisagem são apenas parciais. em ritmos e intensidade variados. testemunhas do trabalho humano. Os objetos sociais. Um centro urbano de negócios e as diferentes periferias urbanas. ao mesmo tempo. isto é.cederam lugar às ferrovias e às grandes aglomerações urbanas. Ainda de acordo com Milton Santos. Em realidade. São as testemunhas do 10 . a paisagem. A abertura contemporânea da economia brasileira para os fluxos globalizados de capitais e mercadorias está mudando a geografia das atividades produtivas do país. assim como o espaço. Tudo isto são paisagens. Cada vez que a sociedade passa por um processo de mudança. A paisagem não tem nada de fixo. formas mais ou menos duráveis.

suprimida. alcançado na medida em que as sociedades dominassem de maneira progressivamente mais plena os recursos naturais disponíveis em seu meio. São Paulo: Hucitec. [SANTOS. cada porção do espaço. p. Pensando o espaço do homem. o filósofo e geógrafo. Nas obras do geógrafo alemão Friedrich Ratzel. A forma é alterada. muitas mudanças sociais não provocam necessariamente ou automaticamente modificações na paisagem. altera-se continuamente para poder acompanhar as transformações da sociedade. 1986. O território dos povos civilizados seria a expressão de uma ligação completa e íntima entre sociedade e natureza: 11 . 37-38. Considerada em um ponto determinado no tempo. o estudo da influência do meio – ou das condições naturais – sobre a humanidade ocupa lugar de destaque. publicadas no último quartel do século XIX. mais independentes com relação ao meio. uma paisagem representa diferentes momentos do desenvolvimento de uma sociedade. Teorias Geográficas da Relação Sociedade-Natureza Os mais importantes pensadores da geografia criaram teorias diferentes acerca das relações entre a natureza. Para cada lugar. Como sempre acontece na história das ciências. A paisagem. aqueles que vivem submetidos às leis da natureza. na mesma velocidade ou na mesma direção. a história e o espaço geográfico. dos povos civilizados. Milton. para dar lugar a uma outra forma que atenda às necessidades novas da estrutura social. A paisagem é resultado de uma acumulação de tempos. assim como o espaço.] 2. Ratzel distinguia os povos naturais. renovada. Assim. mas os objetos mudam e dão uma geografia diferente a cada momento da história” dizia Kant. essas teorias são também uma expressão do contexto histórico no qual surgiram. essa acumulação é diferente: os objetos não mudam no mesmo lapso de tempo.SOCIEDADE E ESPAÇO: O CAMPO DE REFLEXÕES DA GEOGRAFIA passado. o progresso consistiria na emancipação progressiva dos homens das determinações naturais. Por outro lado. “A história é um processo sem fim.

representa um corpo vivo que se estendeu sobre uma parte da Terra e se diferenciou de outros corpos.). Friedrich. apresenta continuamente 12 . porque ele foi bastante prudente para recolher provisões. a decadência ou o progresso de uma sociedade estariam ligados respectivamente à perda e à conquista de territórios. A distinção entre povo natural e povo civilizado não deve ser buscada no grau. A civilização não é propriamente independência da natureza no sentido de uma separação completa. Ele se transforma em movimento externo. In: MORAES. Ratzel. Povos naturais e povos civilizados. quando se ocupa um novo trecho de terra ou se abandona uma possessão anterior (. De acordo com ele: Para a geografia política. [RATZEL. 122. que igualmente se expandiram por fronteiras ou espaços vazios.). localizado na sua área essencialmente delimitada. mas no sentido de uma união mais multíplice e mais ampla. mas para o camponês esta dependência é menos grave. mas no seu modo de dependência com a natureza.] Para Ratzel. mas porque vivem sob a constrição da natureza. 1990. Precisamente em razão da nossa civilização estamos unidos à natureza mais intimamente que todas as gerações que nos precederam.. para diante ou para trás. que não o prende tão facilmente. que não semeou. Antônio Carlos Robert (Org. enquanto qualquer vento forte que lance à água as espigas de arroz atinge o indiano de modo vital. as suas teses foram associadas ao expansionismo latente da Alemanha do século XIX. As populações estão em contínuo movimento interno. São Paulo: Ática. e o tamanho de um Estado seria indicador do grau de civilização de seu povo. cada povo. A expansão dos horizontes geográficos. Não por acaso. p.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Chamamos naturais certos povos não porque eles vivem nas mais íntimas relações imagináveis com a natureza. Não nos tornamos completamente livres da natureza pelo fato de a explorarmos e estudarmos mais a fundo.. é para ele uma leve cadeia. produto dos esforços físicos e intelectuais de inúmeras gerações. O camponês que acumula o trigo no seu celeiro é tão mais dependente do seu campo quanto o é o indiano que recolhe nos pântanos o seu arroz aquático. tornamo-nos cada vez mais independentes dos acidentes singulares do seu ser e agir na medida em que multiplicamos as ligações.

tendo por sua vez promovido a cultura. Friedrich. nos estágios inferiores de civilização. Fornecendo apoio a todos esses impulsos estão as pressões populacionais.. menores se tornam os Estados. Ratzel. Mas mesmo elas são ultrapassadas pela enorme influência do comércio. [RATZEL. na ampliação da capacidade produtiva e no progressivo enfrentamento das limitações impostas pela natureza. São Paulo: Ática. p. acima de tudo.] O geógrafo francês Vidal de La Blache esteve na origem de uma outra importante escola da geografia.).. La Blache propôs que. os diferentes grupos humanos criariam “gêneros de vida” particulares. que aumentam com a cultura..). quanto mais descemos nos níveis da civilização. Dominar politicamente essas áreas. 1990. publicadas entre o final do século XIX e o início do século XX. amalgamá-las e mantê-las unidas requer energia ainda maior: Tal energia só pode se desenvolver lentamente pela e através da cultura (. que ainda hoje atua como um impulso poderoso em todas as direções de expansão. realizada pelo comércio. resultante desse contato: Observe em um mostruário de museu o espólio de vestuários. O contato entre “gêneros de vida” diferentes explicaria o contínuo aumento das fronteiras ecúmenas da terra. Assim como a área do Estado cresce com sua cultura. Em suas obras. escamas de 13 . Logo. Vemos. As leis do crescimento espacial dos Estados. uma íntima relação entre expansão política e religiosa. e que. 176-178. vemos também que. na relação histórica e cumulativa com a natureza – cujos recursos são desigualmente distribuídos –. os povos estão organizados em Estados menores. armas e adereços do mundo melanésio: nas conchas.. De fato. O progresso residiria. Antônio Carlos Robert (Org. pela difusão de técnicas e hábitos ou pela complementariedade dos recursos naturais. levam à expansão devido às pressões espaciais (.).SOCIEDADE E ESPAÇO: O CAMPO DE REFLEXÕES DA GEOGRAFIA novas áreas para a expansão espacial das populações. In: MORAES. então. o tamanho de um Estado também se torna um dos parâmetros do seu nível cultural.

e 14 . Excluindo-se os incêndios e os desbravamentos temporários. podemos reconhecer as características do meio litoral e equatorial. expressão de meios locais. vemos que os nossos campos. foi possível argumentar que a difusão do “gênero de vida” europeu pavimentaria o caminho do progresso nesses continentes. O pensamento geográfico sofreu grandes alterações desde o século XIX. dentes. Pode-se recorrer a inúmeros exemplos de modos de vida inspirados diretamente no meio ambiente. espinhas.] As cidades. nos pastores das savanas africanas. 209. e esses resultados de progresso acumulados de que vivem as nossas civilizações superiores. funcionariam como verdadeiras “oficinas de civilização”. as teses de Vidal de La Blache operaram no sentido de apresentar uma justificativa ideológica para o colonialismo francês na África e na Ásia. Uns são tão exatamente decalcados dos lugares onde se encontram. 1990. civilizações autônomas. Principes de Géographie Humaine. os outros são dotados da faculdade de transmitir-se e de se espalhar: [LA BLACHE. o mundo vegetal e animal permanece no estado de natureza. e que os muitos instrumentos e materiais que usamos podem ser também utilizados em meios físicos diferentes. muitas das quais fundadas na dimensão espacial da dinâmica das contradições sociais. De um lado. encontramos as coloridas plumas das aves da floresta. Parece que há um abismo entre esses rudimentos de cultura. a geografia viveu um processo de especialização acadêmica. Os conceitos e as teorias fundamentais da disciplina foram problematizados e novas e importantes correntes teóricas surgiram. vegetais e animais. os nossos prados e até mesmo a nossa floresta em parte são artificiais. as peles de rinocerontes e as correias de couro de hipopótamo. nas regiões de alta civilização. p.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO tartarugas. que os nossos companheiros. madeira e fibras vegetais. civilizações nas quais o meio natural não se distingue senão através das complicações de elementos heterogêneos. já que. Paris: Editions Utz. Para muitos estudiosos. a partir delas. lugar de encontro por excelência. quase nada se buscou no exterior: Por outro lado. de outro. esse meio foi pouco modificado. nos ornamentos dos índios brasileiros. que não podemos transportá-los nem imaginá-los em outra parte. quando olhamos a nossa volta. Paul Vidal de. são aqueles que escolhemos. Do mesmo modo que as demais ciências humanas.

A Geografia Cultural abrange temas como a percepção do espaço na vida cotidiana e no universo cultural. além de estudar a construção social de identidades baseadas em lugares. A Gênese da Geografia Moderna. Bibliografia Complementar COSTA. por exemplo. MORAES. Milton. Derek et alli. 1988. e fornece instrumentais indispensáveis a compreensão das Unidades subseqüentes. MARTIM. Antônio Carlos R. Rio de Janeiro: Bertrand. valendo-se de métodos investigativos caros aos historiadores. São Paulo: Contexto. Sociedade. André Roberto. São Paulo: Hucitec/Edusp. São Paulo: Hucitec/ Edusp. 3.SOCIEDADE E ESPAÇO: O CAMPO DE REFLEXÕES DA GEOGRAFIA diferentes arcabouços conceituais sustentam cada uma das suas áreas.1992. 15 . Metamorfoses do Espaço Habitado. 1995. 1993. _________. Iná Elias et alli. Geografia. 1992. Fronteiras e Nações. 1992. A Geografia Econômica. Rio de Janeiro: Zahar. SANTOS. A Geografia Histórica preocupa-se com a formação dos territórios e com a história dos espaços e dos lugares. dedica-se à análise da espacialidade dos processos e estruturas produtivas e à formulação das mais diversas teorias de localização. São Paulo: Hucitec/Edusp. A bibliografia sugerida para essa Unidade oferece um panorama dos muitos caminhos que vêm sendo percorridos pelos estudos geográficos. 1989. A Geografia Política desvenda as complexas relações entre os Estados e os territórios e as dimensões políticas dos fenômenos de configuração do espaço. Bibliografia Bibliografia Básica CASTRO. Conceitos e Temas. São Paulo: Hucitec. Geografia Política e Geopolítica. Espaço e Ciência Social. Geografia Humana. Ideologias Geográficas. GREGORY. Wanderley Messias da.

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UNIDADE II A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL .

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definindo focos de produção e consumo dispersos pelo território. 1. mais tarde. bem como os grandes eixos temáticos de análise do território brasileiro. lançou as bases da integração econômica e geográfica do território e gerou os “desequilíbrios” regionais. alimentaram a conturbada história da ocupação do território e do traçado das atuais fronteiras brasileiras. O crescimento industrial registrado após a década de 1930. A Definição dos Limites Territoriais e o Processo de Ocupação do Território Brasileiro Em sua gênese. A consolidação de um pólo industrial no Sudeste e de periferias industriais nas demais regiões redesenharam a geografia do país. ainda nos tempos da República Velha. assim como o esforço da Coroa Portuguesa (e.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL II. As sucessivas ampliações da fronteira produtiva da América Portuguesa. criou as condições necessárias à proliferação do fenômeno urbano e à industrialização. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL O espaço brasileiro é resultado de uma sucessão de tempos históricos. a abertura econômica e o novo caráter de inserção do Brasil nos circuitos globais de produção e consumo vêm produzindo impactos profundos na dinâmica territorial brasileira e alterando de forma substancial da divisão regional do trabalho no país. nenhum produto agrícola era objeto de comércio em grande escala na Europa. do Império Brasileiro) no sentido de assegurar a posse das bacias hidrográficas e das rotas e caminhos considerados estratégicos. Nas últimas décadas. A economia cafeeira. são problematizados nos textos que compõem essa Unidade. O caráter litorâneo do povoamento e a monopolização do acesso à terra remontam ao passado colonial. A implantação da empresa agrícola colonial na América Portuguesa foi uma iniciativa inovadora e arrojada: no século XVI. o processo de formação territorial do Brasil está associado à empresa colonizadora. As transações comerciais a longa distância 19 . por sua vez. Os momentos cruciais de produção e valorização do território brasileiro.

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REGINA CÉLIA ARAÚJO

eram restritas às mercadorias cujo valor pudesse compensar os altos custos de transporte, tais como produtos manufaturados e especiarias vindas do Oriente. As ilhas atlânticas de colonização portuguesa foram o laboratório da grande empresa agrícola que iria ter lugar na América Portuguesa. Nessas ilhas – Madeira, São Tomé, Cabo Verde e Açores –, a monocultura canavieira era praticada desde o século XV. As primeiras mudas de cana foram trazidas ao Brasil por Martim Afonso de Sousa, em 1531. Dois anos mais tarde, seria construído o primeiro engenho de açúcar da colônia, na vila de São Vicente. Em pouco tempo, a lavoura canavieira seria introduzida na Zona da Mata nordestina. O clima quente e úmido da região bem como a topografia suave e a presença de solos extremamente férteis (conhecidos como solos de massapê) ofereciam condições ideais para o plantio da cana. Na segunda metade do século XVI, a região nordeste da colônia – em especial as capitanias da Bahia e de Pernambuco – havia se firmado como o centro da empresa agrícola colonial. Vastos latifúndios canavieiros, cultivados por mão-de-obra escrava e dotados de um engenho de produção de açúcar, eram a unidade básica dessa empresa. O açúcar produzido nos engenhos era transportado pelos rios ou em carros de boi até os grandes portos exportadores: Recife e Salvador. Esses centros urbanos funcionavam como elos de ligação entre as regiões produtoras e os mercados consumidores de além-mar. Por isso, sediavam as principais instituições administrativas e comerciais da colônia. A empresa açucareira implantada pelos colonizadores no século XVI ocupava somente uma estreita faixa costeira do imenso território luso-americano. Porém, no século XVII, novas atividades econômicas foram implantadas, e a fronteira produtiva do território colonial conheceu sucessivos alargamentos. O sucesso comercial do açúcar nos mercados europeus estimulou o aumento da área canavieira da Zona da Mata nordestina: no século XVII, as terras de pasto dos engenhos se transformaram em canaviais. O gado foi expulso das terras nobres da fachada litorânea e ganhou os sertões.

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A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL

Partindo da Bahia e de Pernambuco (os dois maiores núcleos da produção canavieira), a pecuária se expandiu na direção do Rio São Francisco, que passou a ser conhecido como o “rio dos currais”, e do Rio Parnaíba. Os índios que se opuseram a essa marcha colonizadora sobre o sertão sofreram uma verdadeira guerra de extermínio. No fim do século XVII, grandes fazendas de pecuária extensiva dominavam a paisagem do sertão nordestino. Nelas, poucos homens livres – negros libertos, índios e brancos pobres – eram suficientes para cuidar do rebanho e transportá-lo para as feiras de gado da Zona da Mata. Nos entroncamentos dos caminhos do rebanho, pontos de contato entre o sertão pastoril e o litoral agrícola, surgiram inúmeros povoados, embriões das cidades sertanejas do nordeste brasileiro. Na Capitania de São Vicente, a prosperidade da empresa açucareira vicentina durou muito pouco: já na segunda metade do século XVI, os sinais de decadência eram evidentes. A estreiteza da fachada litorânea, comprimida pela proximidade da Serra do Mar, e a predominância de solos rasos e pantanosos desestimulavam a ampliação da agricultura canavieira na região. As maiores distâncias em relação aos portos europeus encareciam os custos de frete. O açúcar vicentino sucumbiu à concorrência do açúcar nordestino. O fracasso da empresa agrícola exportadora produziu um verdadeiro despovoamento do litoral vicentino. Os colonos paulistas galgaram a Serra do Mar e se estabeleceram nas vilas fundadas no planalto. São Paulo de Piratininga, fundada pelos jesuítas em 1554 e elevada à categoria de vila seis anos depois, se tornou o maior núcleo de povoamento da capitania ainda no século XVI. Um velho caminho indígena, o Caminho do Mar, era a principal via de ligação entre o litoral e os campos de Piratininga, que abrigavam a vila de São Paulo. Nos arredores da vila, os colonos praticavam a policultura de subsistência, utilizando a mão-de-obra dos índios escravizados. O apresamento e escravização dos índios era o principal meio de enriquecimento para os colonos da capitania. Os índios, além de serem necessários na policultura de subsistência, eram uma mercadoria de fácil transporte: podiam atravessar andando os difíceis caminhos do sertão e da serra.

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REGINA CÉLIA ARAÚJO

No século XVI, o apresamento dos índios permaneceu restrito aos arredores dos campos de Piratininga. No século XVII, a desorganização do tráfico negreiro, conseqüência das guerras holandesas, ampliou o mercado de índios escravizados nas regiões produtoras de açúcar. As bandeiras de apresamento ganharam o interior, aproveitando os cursos fluviais e abrindo caminhos terrestres. As reduções jesuíticas em território hispano-americano eram o principal alvo do bandeirantismo de apresamento: nelas, os índios estavam concentrados e domesticados. As freqüentes incursões às reduções localizadas às margens do Rio Paranapanema (atual Estado do Paraná) foram responsáveis pela transferência de muitos desses aldeamentos para a província argentina de Missões, entre o alto curso do Rio Paraná e o alto curso do Rio Uruguai. Na segunda metade do século XVII, a principal finalidade das expedições bandeirantes era a localização de jazidas de prata, ouro e pedras preciosas. O empreendimento contava com o apoio da Coroa lusitana, que contratou diversos sertanistas para organizar e comandar as bandeiras de pesquisa. A exportação de fumo assumiu importância nas receitas coloniais portuguesas na metade do século XVII. Produzido principalmente no Recôncavo Baiano e em Alagoas, o tabaco era exportado para mercados europeus, além de servir de moeda de troca com os aparelhos negreiros da costa africana. Também no século XVII, intensificaram-se as expedições oficiais pelo vale amazônico. Elas tiveram um sentido predominantemente geopolítico: tratavase de expulsar holandeses e ingleses, senhores de muitas feitorias ao longo do curso dos rios, e impedir o contrabando de produtos nativos tais como madeira e pescado. O Forte do Presépio de Belém, fundado em 1616, foi a ponta de lança da estratégia colonizadora da Coroa Ibérica no grande norte. Situado na foz do Rio Amazonas, esse núcleo de povoamento deveria centralizar a exportação das mercadorias e sediar os órgãos do poder metropolitano sobre a região. Plantas nativas, tais como o urucu, o cacau selvagem, o guaraná, a castanha-do-pará, o gergelim, a salsaparrilha e o pau-cravo, eram as principais mercadorias de exportação. Os aldeamentos indígenas controlados pelas diversas ordens religiosas representadas na região amazônica funcionavam como uma reserva de coletores

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A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL dessas “drogas do sertão”. Os mais importantes núcleos urbanos das Minas Gerais floresceram nessa região: Vila Rica de Ouro Preto. e seguia na direção do Rio Grande. Os principais afloramentos auríferos e diamantinos estendiam-se da Bacia do Rio Grande até as nascentes do Rio Jequitinhonha. que ficaram conhecidos respectivamente como Caminho Geral do Sertão e Caminho Velho. Arraial do Tijuco e outras. Transposto esse rio. os caminhos paulistas demandavam dois meses de viagem até a região mineira. passando por Mogi das Cruzes. Nas últimas décadas do século XVII. Pindamonhangaba e Guaratinguetá. mais utilizado. Caeté. atravessava a Serra da Mantiqueira na altura da passagem de Hepacaré (atual Lorena) e buscava o sertão do Rio das Velhas. Minas Novas e de Paracatu. as bandeiras paulistas rumo aos sertões do Rio São Francisco seguiam dois caminhos principais. Os caminhos abertos para a exportação desses produtos e para o abastecimento das Minas Gerais transformaram a geografia do Centro-Sul colonial. apareceram zonas de povoamento mais disperso. Jacareí. Os gêneros alimentares produzidos nos arredores das vilas paulistas 23 . Taubaté. Em torno desses núcleos. Sabará. O primeiro partia de São Paulo. Em média. No início do século XVIII. Todos os esforços produtivos da região mineradora estavam concentrados na extração de metais e pedras preciosas. Uma rede de fortificações portuguesas foi construída seguindo a calha central do Rio Amazonas. a confirmação da existência de metais preciosos nas regiões planálticas de Minas Gerais. seguia o curso do Rio Paraíba do Sul. Desde o final do século XVII. tropas de mercadores ganharam os caminhos bandeirantes. rumando para Jundiaí. Laranjeiras. Mariana. alargando substancialmente a faixa de ocupação do território luso-brasileiro. buscava a Serra das Vertentes e daí ganhava o São Francisco. Mato Grosso e Goiás promoveu um afluxo populacional sem precedentes na história colonial. Vila do Príncipe. Itajubá. O segundo. Após a Restauração. O excedente alimentar das missões contribuía para o abastecimento de Belém e das pequenas cidades que surgiam na região. próximas às minas do Rio Verde. a Coroa lusitana intensificou a ocupação militarizada da região.

A prosperidade econômica. a capitania vicentina contava com 15. Cabreúva. preocupada com o contrabando da produção aurífera. transformados em centros de criação de muares. Avaré e outros. iria transformar o Rio de Janeiro em sede administrativa do Vice-Reino do Brasil no ano de 1763.975 habitantes. Em 1777. A abertura do Caminho Novo canalizou para o Rio de Janeiro a maior parte dos lucros do comércio com o hinterland mineiro. tornou-se ponto de passagem obrigatória das levas de imigrantes portugueses atraídos pelo ouro e dos lotes de mão-de-obra negra destinados ao trabalho nas minas. Centros urbanos importantes floresceram e prosperaram nos caminhos de gado: Sorocaba (onde se realizavam as grandes feiras). Itararé. Apiaí.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO atingiam preços exorbitantes na região mineradora. Ainda na primeira década do século XVIII. Pirapora. acompanhou esse surto produtivo: no início do século XVIII. tributária dessa relação privilegiada com os mercados das Minas Gerais. a outra contornava a Baixada Fluminense e subia o Rio Santana. A pecuária do sertão nordestino também conheceu um período de prosperidade no século XVIII: os currais do Rio São Francisco despejavam boiadas inteiras na região das Minas Gerais. A topografia da região favorecia a condução 24 . Juiz de Fora. a agricultura paulista se expandiu rapidamente. Barbacena etc. A criação de gado primeiro ganhou os campos de Paranaguá e Curitiba. escoando a maior parte da produção aurífera e diamantina e centralizando as importações necessárias ao funcionamento da empresa mineira. mandou construir um caminho que ligasse a região mineradora e a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. para logo depois atingir os distantes campos sulinos do Rio Grande do Sul e do Uruguai. Pelo Caminho Novo era possível atingir a região das Minas Gerais em apenas dezessete dias. A curva demográfica.000 homens livres. alimentada pela constante imigração lusitana. Faxina. Ambas se encontravam perto da cidade de Paraíba do Sul e daí seguiam na direção de Correias. a Coroa lusitana. O Caminho Novo tinha duas variantes: uma seguia até o porto de Pilar e galgava a Serra do Mar. Além disso. O porto do Rio de Janeiro – transformado em boca das minas – se tornou o mais importante porto da colônia em volume de comércio exterior. Itapetininga. Na retaguarda da economia mineira. os documentos oficiais registram uma população livre de 116.

No segundo. Na metade do século XVIII. firmado entre os dois países em 1494. oficializou a incorporação de vastas possessões espanholas ao território colonial português. os Caminhos Baianos sediavam um intenso – apesar de rigorosamente proibido – comércio de negros. Textos Complementares Os textos selecionados abordam aspectos da formação territorial do Brasil e da definição dos limites territoriais do país. sustentando a tese de que a fronteira nasce em uma etapa intermediária entre as definições abstratas dos tratados e a sua efetiva demarcação. e estabelecia que todas as terras a leste do Meridiano de 50 graus oeste pertenceriam a Portugal. No primeiro. os limites traçados no Tratado de Tordesilhas estavam definitivamente ultrapassados: a assinatura do Tratado de Madri. Além do gado. Texto 1 – O Período Colonial A ocupação e o povoamento do território que constituiria o Brasil não é senão um episódio do amplo processo de expansão marítima resultante do desenvolvimento das empresas comerciais européias. uma mercadoria muito mais valiosa nas Minas Gerais do que nas tradicionais regiões açucareiras da Zona da Mata. 25 . O Tratado de Tordesilhas. os geógrafos Berta Becker e Cláudio Egler traçam em grandes linhas a ocupação colonial do território. Como decorrência da busca de novas rotas para o Oriente pelos países ibéricos – a Espanha através do Ocidente e Portugal contornando a África – o território que constitui hoje o Brasil precedeu a criação da própria colônia. dividia todo o mundo a ser descoberto entre as coroas de Portugal e Espanha. destacando as diferentes estratégias geopolíticas lusas que asseguraram o rompimento da linha de Tordesilhas e culminaram no Tratado de Madri. o geógrafo Demétrio Magnoli. ressalta a importância da geopolítica imperial na horogênese das fronteiras brasileiras. no ano de 1750.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL das boiadas até as zonas mineradoras.

Os portugueses não podiam. Através da divisão geométrica da costa atlântica em Capitanias Hereditárias (1530). logo depois da perda para os holandeses da maioria dos postos comerciais que Portugal tinha na Ásia e na África. como domínio da Coroa. que fomentou uma indústria de equipamentos para engenhos açucareiros. imenso. franceses e ingleses. ainda assim. que posteriormente daria o nome à nova colônia – e peles com os índios em modestas feitorias ao longo do litoral. Esse empreendimento. Empreendimento mercantil e defesa da costa atlântica Inicialmente os portugueses comerciaram madeiras corantes – o pau-brasil. A colonização do Brasil se apresentou aos monarcas portugueses a posteriori. deveu-se à experiência prévia de Portugal nas ilhas de São Tomé e Madeira. devido à pressão da Holanda. assegurando a ocupação e o controle da fachada costeira oriental. a colônia por um território correspondente a apenas 40% da sua área atual e. ao contrário do que acontecia nos territórios espanhóis. e no início também não acharam metais. até então inédito. e pela união com a Espanha entre 1580 e 1640. e as plantations de cana-deaçúcar tornaram-se a base da economia e defesa coloniais. segundo os méritos dos pretendentes e os serviços por eles prestados à Coroa. a priori.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Definia-se. Foi um processo de posse lento e complexo em que pesou a estratégia portuguesa. e sua aquisição decorria de uma doação pessoal. Grã-Bretanha e França sobre o território. bem como a organização comercial dos flamengos que controlavam um mercado expressivo na Europa Continental. A defesa do território e sua expansão não decorreu de conquista militar. favorecida pela luta pelo poder hegemônico entre holandeses. a população nativa era relativamente escassa. se basear no trabalho nativo. por exemplo. Uma estratégia de distribuição controlada da terra envolveu empreendedores privados na colonização do território sem ônus para a Coroa. O Brasil colonial foi. assim. A terra ela vista como parte do patrimônio pessoal do rei. a colonização foi iniciada 26 . assim. Foi então necessário organizar a produção. portanto. No início da colonização a legislação relativa à propriedade da terra estava baseada na política rural de Portugal. organizado como uma empresa comercial resultante da aliança entre a burguesia mercantil (inclusive holandesa) e a nobreza.

A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL

simultaneamente em vários pontos do território. A terra foi doada a donatários com o objetivo de promover a agricultura, sobretudo a da cana-de-açúcar. Eles tinham direitos soberanos e podiam repartir as terras a moradores capazes de explorá-las (sesmarias). A divisão respeitou a linha do Tratado de Tordesilhas, embora os limites entre as capitanias fossem desconhecidos. Colocou-se, então, o problema da mão-de-obra e do índio, foco de uma política ambígua face ao conflito entre a postura da Coroa, de cristianização dos índios para integrá-los no povoamento, e os interesses dos colonos em escravizálos. A Carta Régia de 1570 estabeleceu então que os índios só podiam ser aprisionados por “guerra justa”, e face à dificuldade de mão-de-obra recorreu-se ao tráfico de escravos africanos, financiado em grande parte pelos holandeses. Pelo fato de a terra não ser toda utilizada para fins comerciais, os proprietários podiam manter um certo número de arrendatários e meeiros que moravam nas áreas menos férteis de suas propriedades dedicando-se à economia de subsistência e eventualmente trabalhando na plantation. Assim, apesar de ser o lucro o motivo principal da economia, o controle sobre os escravos e homens livres e sobre a terra era mais importante para definir o status social do proletário do que a acumulação de riqueza1. O desenvolvimento de outros setores da economia não implicou a modificação da política agrária e do trabalho, típica das áreas canavieiras. Os pressupostos que guiaram essa política no século XVI sobreviveram até o século XIX. Se essa estratégia não trouxe a prosperidade econômica almejada, em contrapartida ela lançou as bases da estrutura econômica, social e política da colônia, da ocupação efetiva do território contra ameaças externas, e da interiorização do povoamento. As plantations litorâneas eram as células fundamentais da estrutura econômica e social da colônia. Daí partiu a expansão gradativa das fazendas de gado pelo sertão para abastecer em couro e animais de trabalho as zonas canavieiras. No litoral norte, o Rio Amazonas foi estratégico, por sua extensão e ampla navegabilidade, até 2.000 Km no interior em meio à floresta equatorial. Durante a

1 Ver VIOTTI DA COSTA, E. Da Monarquia a República: Momentos Decisivos. São Paulo: Grijaldo, 1977.

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união das Coroas de Portugal e Espanha (1580-1640), holandeses, franceses e ingleses trataram de ocupar militarmente esta área (1580-1640). Para defender a Bacia Amazônica, as formas iniciais de ocupação foram pequenos fortes, sendo o primeiro deles na foz do Amazonas, em Belém (1616). Para assegurar a ocupação a longo prazo, bem como a pacificação e lealdade das tribos aborígenes contra os holandeses, ingleses e franceses, os portugueses resolveram dividir a bacia entre ordens religiosas católicas. Seguiram assim os jesuítas espanhóis, que já haviam estabelecido um verdadeiro cordão estratégico ininterrupto de missões jesuíticas no coração do continente, do Prata ao Alto Amazonas, no século XVI e primeira metade do XVII2 (...). Expansão territorial para além de Tordesilhas Após a separação das duas Coroas (1640), a colonização portuguesa em pouco mais de um século invadiu áreas que pertenciam à Espanha e ocupou o território que é hoje o Brasil. O rompimento da linha de Tordesilhas tornou-se, para a metrópole, um objetivo, e não apenas uma conseqüência da defesa do território. A expulsão dos holandeses do nordeste, onde permaneceram de 16301654, levou à quebra do monopólio português na produção de cana-de-açúcar, na medida em que os holandeses desenvolveram a lavoura nas Antilhas. Arruinado e desfalcado nas suas colônias no Oriente e de sua marinha, Portugal tornou-se potência secundária, largamente dependente da Inglaterra que se afirmava no contexto internacional. O Brasil passou a ser sua última possessão ultramarina valiosa, e a extensão e o controle territorial da colônia tornaram-se decisivos para a recuperação econômica e a afirmação do Estado português centralizado. A ocupação da terra como base do direito sobre sua posse, isto é, o direito de facto, foi a estratégia básica na apropriação do território para além dos limites jurídicos do Tratado de Tordesilhas, sendo posteriormente reconhecida como um princípio legal. Essa prática se fez sob várias formas, sobretudo no interior e nas bacias do Amazonas e do Prata, estratégicas pela navegação e por sua posição nos extremos da colônia.

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Ver PRADO JR. C. Formação do Brasil Contemporânea. 2. ed. São Paulo: Brasiliense. 1945.

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O maior impulso para a expansão territorial decorreu sobretudo da descoberta do ouro (1690) no planalto do Brasil Central. O ouro se tornou a base econômica da colônia até meados do século XVIII, à medida que a economia açucareira decaía face à concorrência das Antilhas. A descoberta do ouro provocou um afluxo de imigrantes da metrópole, grande mobilidade interna e um rush gigantesco em alguns decênios, cobrindo uma área imensa no centro e oeste do atual território brasileiro (Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso). Caminhos de gado e tropas de mulas estabeleceram-se para abastecer os primeiros centros mineradores, constituindo-se nos primeiros eixos da integração interna da colônia. Em conseqüência da mineração, deslocou-se o eixo econômico para o centrosul e com ele se transferiu a capital da Bahia para o Rio de Janeiro (1763). Entretanto, o ciclo do ouro e diamantes, embora intenso, foi breve. Esgotou-se no último quartel do século XVIII, inclusive pela pressão dos impostos cobrados pela Coroa, que resultou no primeiro, mas fracassado, movimento pela independência: a Inconfidência de Minas Gerais em 1792. No vale do Amazonas, a Coroa estimulou a ação das missões que se tornaram as maiores exportadoras das “drogas” (canela, cravo, salsaparrilha, cacau nativo), além de produzirem alimentos para a subsistência e deterem o monopólio sobre a mão-de-obra indígena. Fortes e missionários penetraram profundamente no território amazônico assegurando a futura soberania de Portugal numa área imensa, ainda que com fraca base econômica e esparsamente povoada. No extremo sul, em fins do século XVII, um grande vácuo de poder existia entre os espanhóis sediados em Buenos Aires, na embocadura do Rio da Prata, e a ocupação portuguesa que se estendia até o paralelo de 26°S. A estratégia lusa teve dupla face. A face agressiva, correspondente à implantação de uma guarnição militar na margem norte do Rio da Prata, bem defronte do porto de Buenos Aires, criando a Colônia do Sacramento, em 1689, que foi causa de mais de um século de guerra. Tratava-se de interesses sobretudo ingleses com vistas ao controle do comércio de prata, couro e gado na Bacia do Prata. A face pacífica correspondeu à colonização dirigida pela metrópole que transferiu excedentes populacionais pobres dos Açores, instalando cerca de 4.000 casais em torno de Porto Alegre e em Santa Catarina (1747). Após a paz (1777), a terra foi distribuída em larga escala a militares e cavaleiros no atual Rio Grande do Sul como forma de consolidar a posse portuguesa dando origem a grandes latifúndios pastoris: as instâncias. Firmou-se, assim,

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G. o Tratado de Madri estabelecendo pela primeira vez as linhas divisórias entre os domínios de Portugal e Espanha. não importa o quão absurda pareça quando assim posta. referentes aos séculos XVI e XVII.. Ela se manifesta em obras acadêmicas. produzindo a sensação da convivência de dois limites distintos no mesmo tempo histórico. 40-46.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO simultaneamente.) o discurso nacional virtualmente rejeita essa indagação. a apropriação do território cujos limites permanecem grosseiramente os mesmos de hoje.. a soberania portuguesa e a base econômica da região que. Raffestin assinala a distinção entre três momentos: 1 Trata-se da questão nº 2 da 1ª Fase da primeira prova de 1995-1996. que exibia dois mapas temáticos de ocupação do território do Brasil colonial. isto é. Em 1750. Bertha K. Claudio A. no século XVII. e a posse de facto ao longo das bacias consolidaram e expandiram a ocupação do território muito além dos limites de jure fixados pelo Tratado de Tordesilhas. acertada. a linha das fronteiras atuais do Brasil. Abordando as etapas teóricas de produção da fronteira. O mais notável é que a questão enfocava precisamente o processo de ocupação do espaço geográfico: a ideologia subjacente faz crer que as manchas de povoamento a ocidente de Tordesilhas buscavam já. exportava charque para o Rio de Janeiro e para Havana. Legitimou-se. O traçado das fronteiras atuais não continha qualquer indício que pudesse distingui-lo daquele do Meridiano. o reconhecimento do direito de posse a partir do efetivo povoamento e exploração da terra. adotando como critério o utis possidetis. alcançar o perímetro da pátria preexistente. isentando o corpo da pátria de qualquer condicionamento histórico e fazendo-o emanar da natureza. Esta noção. EGLER. já em 1780. Esses mapas apresentavam.] Texto 2 – Horogênese e Origem das Fronteiras Nacionais Qual é a origem das fronteiras brasileiras? (. 30 . Recentemente – e este não é um caso singular. assim. p. livros de divulgação histórica e geográfica e nos atlas escolares. assim.. [BECKER. encontra-se profundamente enraizada no imaginário geográfico nacional. além da linha do Meridiano de Tordesilhas. mas a expressão de uma prática – compareceu nos pressupostos implícitos de uma questão do prestigiado exame vestibular da Universidade de Campinas1. Brasil uma nova potência regional na economia mundo. A geopolítica da metrópole mostrou-se. 1994. O rápido movimento da mineração e a lenta expansão das fazendas e dos caminhos de gado. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.

ao domínio dos séculos XIX e XX. 1993. A linha fronteiriça só é de fato estabelecida quando a demarcação se processa. que apenas a colocação de marcos sobre o terreno suprime a possibilidade de conflitos que tomam o traçado divisório como pretexto. constitui processo característico de uma fase anterior. A passagem de uma etapa à outra se traduz por um acréscimo de informação. [RAFFESTIN. a mera definição abstrata de um traçado – como no caso de Tordesilhas. e nem poderia ser. no século XVIII. que consiste num ato de apreensão intelectual do espaço geográfico em questão. “De fato estabelecida” significa não estar mais sujeita à contestação por parte de um dos Estados que tivesse essa fronteira em comum. p. C. se invoque a transubstanciação da quantidade em qualidade. Ao insistir exclusivamente na temática da quantidade de informação presente em cada etapa. elimina-se não um conflito geral. num jogo de palavras pretensamente profundo.). dos peritos de Badajós (1524). de Cantino (1502). confere uma materialidade sensível à linha divisória.. a demarcação de fronteiras pertence. Pela demarcação. inscrita no território. possibilitado pelo acúmulo de um vasto conjunto de informações e refletido nos documentos cartográficos sobre os quais é traçada a linha divisória. como quer Raffestin. No fundo. com traçados bastante distantes entre si. Esta tarefa. pois freqüentemente opera pela intuição. a da delimitação. acaba sendo obscurecida a diferença de qualidade entre elas (a menos que. delimitar e demarcar a fronteira.] A demarcação da fronteira sobre o terreno. de transição. Historicamente.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL O mapa é o instrumento ideal para definir. quando se forjam os Estados nacionais. Apenas muito mais tarde. o Meridiano de Tordesilhas não foi delimitado. Tentativas de delimitação foram feitas pelos mapas do catalão Jaime Ferrer (1495). São Paulo: Ática. mas um conflito do qual a fronteira pudesse ser o pretexto. ou em grande parte das decisões do Tratado de Madri de 1750 – não gera uma fronteira. a arte cartográfica conseguiria fixar com razoável precisão as longitudes e determinar o traçado aproximado da linha divisória. A delimitação. quando são elaborados os tratados de limites3. 167. Por uma geografia do poder. Se é verdade. nos termos vagos do tratado e na base dos conhecimentos da época.. mas também por um custo de energia. como regra. 2 31 . No outro extremo. 3 Há um problema suplementar na formulação de Raffestin. já não concerne à origem das fronteiras. de Diogo Ribeiro (1529) e de Oviedo (1545). e reflete um grau de controle sobre o espaço de que só dispõem os Estados contemporâneos. o verdadeiro debate entre os Estados relativo às fronteiras se processa na etapa anterior. trata-se da passagem de uma representação “vaga” para uma representação “clara”. que continuou a demandar o trabalho de comissões de demarcadores brasileiros por nove décadas depois do estabelecimento do último importante tratado de limites. de Enciso (1518). na ignorância da localização verdadeira dos acidentes geográficos mencionados2. etapa final do processo. como vimos. através dos padres Diogo Soares e Domingos Capassi. A linha de fronteira nasce na etapa intermediária.

desempenhado pelas guerras. Cit. ou cerca de 17% da secção terrestre. Um exame da configuração histórica das díades fronteiriças brasileiras revela.. 49. pois cada díade ou segmento condensa uma história complexa que envolve. díade remete também ao grupo de dois. O Império delimitou 7. Foucher4 para designar “uma fronteira comum a dos estados contíguos” – de extensões muito diversas5. que pode ser eventualmente anterior ao tratado definitivo. é responsável efetivamente por apenas 2. ainda que. pg.086 km. sucessivos tratados contraditórios. p. Fronts et Frontières. tido e havido como momento por excelência da configuração dos limites. e numa terrestre de 15. classificada aqui como período nacional.). mas que o condicionou decisivamente. O termo foi cunhado a partir da raiz grega horoi – da qual se originou “horizonte” em línguas latinas – que servia para designar os limites políticos do território da cidade. Quanto ao momento da sua delimitação. só foi plenamente incorporada como limite da projeção oriental brasileira após a extinção do tráfico negreiro e a conseqüente supressão dos múltiplos liames entre o Império e a África ocidental. dyade designa a reunião de dois princípios que se completam e antagonizam reciprocamente.062 km. 6 Op. Em português.709 km. enquanto mais de metade da extensão dos limites de horogênese nacional originaram-se de FOUCHER. ou 32% (. A secção terrestre se decompõe em dez díades – do termo dyade.367 km. o papel significativo. em francês. o termo se aplica a um par de cromossomos. Em Biologia. A “era de Rio Branco”. Michel. definida em razão da fachada oceânica do Atlântico. Tomou-se por base classificatória o momento da delimitação estrutural de uma linha de fronteira. Não deixa de ser interessante sublinhar um contraste: perto de 30% da extensão dos limites de horogênese imperial originaram-se de guerras. por razões óbvias. ou pouco mais que a metade da secção terrestre do invólucro total. Evidentemente. que estão subdivididos numa secção marítima de 7. O período colonial.. 5 4 32 . A secção marítima. quanto às condições de origem. respondeu por quase o dobro: 5. Paris: Fayard. um masculino e outro feminino. caracterizado pela complementaridade e antagonismo. episódios de conflito militar ou arbitragem.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO O invólucro fronteiriço do Brasil estende-se por 23.719 km. 15. tenha constituído uma linha de fronteira dos territórios portugueses na América. No seu sentido filosófico. cunhado por M. às vezes.948 km de fronteiras. 1991. embora longe de predominante. o exame derruba facilmente o mito da antigüidade das linhas limítrofes do país: o Império é o grande período de horogênese – para empregar outro termo cunhado por Foucher6. a classificação da horogênese implica uma dose razoável de subjetivismo. novos litígios.

1982. Tinham em comum a valorização do setor externo. originadas pelo efeito multiplicador da constituição de atividades urbanas comerciais. 1997. por isso. Nas primeiras décadas do século XX. promovendo um desenvolvimento sem precedentes da infra-estrutura de transportes e urbanização2. 239-243. FFLCH-USP. No Sudeste. Dissertação de Mestrado. Agroindústria e Urbanização: o Caso de Guariba. p. de fato.” In: GOLDESNTEIN. e a “era de Rio Branco”.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL arbitramento. um elemento constitutivo desse complexo) como responde ainda às necessidades próprias da vida urbana”. 1990. 2 O geógrafo Demétrio Magnoli atribui a dinâmica urbanizadora característica do complexo cafeeiro paulista à existência de um circuito local de reprodução do capital. 13-19. As ligações internas desse “arquipélago exportador” eram frágeis: os mercados regionais tinham importância muito maior que o embrionário mercado nacional.] 2. Divisão Territorial do Brasil e Nova Regionalização. até certo ponto. Departamento de Geografia da USP. Demétrio. as percepções hispano-americanas relativas à agressividade expansionista imperial. 1 A expressão “arquipélago econômico” foi utilizada por Lea Goldestein e Manuel Seabra para caracterizar o período agrário-exportador da economia brasileira. Ao mesmo tempo. Manuel. São Paulo: Moderna/Edusp. Lea e SEABRA. Regionalização e Divisão Regional do Trabalho no Brasil Nas primeiras décadas do século XX. A territorialidade colonial sobreviveu à independência1. o complexo cafeeiro exportador era o núcleo do principal mercado regional do país. a economia brasileira encontrava-se fragmentada regionalmente. que traçou a maior parte da extensão de fronteiras platinas.a sua magnitude e o seu desenvolvimento -está em função das características do mercado local gerado pela crescente diferenciação interna da sociedade cafeeira e pela monetização de parte dos rendimentos dos trabalhadores rurais. que concentrou a sua obra de limites predominantemente na área amazônica. Assim. a existência desse circuito local dinamiza novas relações sociais. [MAGNOLI. realizando um ‘crescimento para fora’. uma divisão regional interna do trabalho em dimensão nacional. nesse período “não existia. industriais e de serviços. Isso justifica. As diversas regiões se ligavam diretamente a centros do capitalismo mundial. ainda que a caracterização não seja historicamente apropriada. o café já tinha deixado a fase escravista e ingressado na fase capitalista. “Ilhas” econômicas voltadas para o mercado externo desenvolviam-se no Sudeste. 33 . Revista do Departamento de Geografia (1). São Paulo. p. Segundo eles. Contudo. fica evidenciada a “divisão do trabalho” entre o Império. O corpo da pátria: imaginação geográfica e política externa no Brasil (1808-1912). no Nordeste e na Amazônia. a pequena cidade cafeeira não apenas responde a necessidades objetivas do complexo capitalista (sendo. que se desenvolveria à sombra do circuito internacionalizado: “O circuito cafeeiro local. Demétrio. 1n: MAGNOLI.

MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO O complexo cafeeiro gerava economias complementares na sua periferia. italiana e eslava tinham promovido o aparecimento de importantes centros agrícolas no Vale do Itajaí. O sistema de produção. Nos cerrados do Centro-Oeste. A produção canavieira. Os manufaturados do Sudeste. a imigração alemã. criando um mercado interno nacional. A produção algodoeira. uma pecuária ultra-extensiva sustentava o povoamento rarefeito e já fornecia carne bovina para o pólo cafeeiro. As áreas não-cafeeiras de Minas Gerais. A competição desigual com as mercadorias fabricadas nas outras regiões resultou na forte concentração de capitais e infra-estrutura no Sudeste. A industrialização acelerada dos anos 1930-1960 rompeu o isolamento dos mercados regionais. o surto da borracha não criou as bases para o desenvolvimento regional e sequer dinamizou um importante mercado regional. ocasionando grande depressão. em função da desorganização das exportações americanas provocadas pela Guerra de Secessão. invadiram todo o país. ao contrário. Em Minas Gerais. O processo de unificação econômica do espaço brasileiro teve como contrapartida a emergência 34 . No Sul. as decadentes regiões mineradoras tinham regredido para a pequena produção agrícola. Além de alimentos. Essas áreas aumentavam as suas exportações agrícolas para São Paulo. vivia um surto de prosperidade ligado às transformações tecnológicas que culminaram com a substituição do engenho pela usina. produzidos com tecnologia superior e em escala industrial. baseado no controle das matas e dos seringais pelas companhias exportadoras. tinha conhecido sua época de ouro algumas décadas antes. após uma prolongada decadência. As grandes exportações de borracha natural para a Europa e os Estados Unidos tinham atraído levas de migrantes nordestinos para a Amazônia Ocidental. nos arredores de Curitiba e na região serrana gaúcha. A Amazônia sediava o pólo exportador de borracha. as áreas coloniais do Sul e as áreas de pecuária do Centro-Oeste ligavam-se cada vez mais ao território cafeeiro paulista. cuja importância se restringiu ao período 1870-1920. Ao contrário do ciclo cafeeiro. essas áreas forneciam mãode-obra para a economia paulista. impediu qualquer acumulação interna da riqueza gerada pelas exportações. O Nordeste constituía outro pólo exportador. organizado em torno da cana e do algodão. A volta do algodão americano aos mercados internacionais atingira a produção nordestina.

Por outro lado. e de suas subdivisões. que fundamentou a ótica dos “desequilíbrios regionais”. cujos interesses se confundiam muitas vezes com os da burguesia industrial.... na elaboração de um mercado interno unificado. das “regiões econômicosociais” vinculadas ao período primário exportador da economia brasileira dominante até fins do século XIX. no crescente papel do Estado na dinâmica da economia nacional. não só o fim de uma fase em que a economia nacional era constituída por várias economias regionais. através da “política dos governadores” ou das oligarquias nacionais. pela expansão do capitalismo industrial no Brasil. está vinculada às novas realidades nacionais. por exemplo.) remoção da barreira alfandegária que existia até então entre os estados que não mais poderiam cobrar impostos estaduais 35 .A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL de uma divisão territorial do trabalho.. e a conseqüente dissolução das “economias regionais”. O “esfacelamento” da estrutura espacial em “arquipélago” significou. Essa integração se deu a partir do desenvolvimento de certas áreas industriais. a expansão do capitalismo no Brasil implicou o centralismo político-administrativo que se processou no nível do governo federal. e o forte impacto que a “questão regional” iria ter daí em diante na vida política e na geografia do país: (. em 1934. em última instância. Queremos com isso dizer que a origem dessa problemática regional. Por um lado. cujo dinamismo gerou uma redivisão territorial do trabalho.) Torna-se difícil desvincular a definição oficial das “grandes regiões” do Brasil de 1945. determinadas.. Este contexto ilumina a criação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). a de decompor o território nacional em blocos regionais oficiais. e o conseqüente enfraquecimento dos poderes locais e/ou regionais representados. (. a expansão do capitalismo no Brasil implicou a crescente integração da economia e do território nacionais.) Foi através desse crescente papel do Estado. ou seja. que foram sendo criadas condições para uma crescente integração econômica do espaço nacional. que se acentuaram com a década de 30. mas também o “desaparecimento” das regiões enquanto regiões “econômico-sociais”. em outras palavras. do novo papel que o Estado assumia na vida do país.. com base na internalização de nossa economia e. Foi o caso da (. consequentemente.

As regiões humanas. demográficas e econômicas. o comportamento demográfico. pela sua instabilidade. as regiões eram definidas segundo uma combinação de características físicas. In: Revista Brasileira de Geografia – IBGE. 36 . a agricultura. o governo brasileiro tornou pública uma outra proposta de regionalização. A partir do conceito de região natural. 1992. vegetação e relevo. principalmente clima. a estrutura industrial. Assim como na Divisão Regional de 1946. porém. de umas partes com as outras. No caso de uma divisão para fins didáticos deve ser sempre considerada como básica a divisão em regiões naturais”. o que facilitou o incremento do comércio regional. fundamentaram essa primeira regionalização3. As regiões homogêneas foram delimitadas a partir de estudos setoriais envolvendo os domínios ecológicos. Em 1969. particularmente as econômicas. seis grandes macrorregiões foram identificadas através do estudo das influências recíprocas entre os diferentes fatores naturais. O resultado desses estudos foi a divisão do Brasil em 360 microrregiões homogêneas. também saída dos quadros do IBGE. consideradas mais estáveis e permanentes. Fábio M. emprestado da geografia regional francesa.9. 3 “As regiões naturais constituem a melhor base para uma divisão regional prática. os limites interestaduais foram considerados no traçado das Grandes Regiões. GUIMARÃES. agrupadas em cinco grandes unidades macrorregionais.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO sobre mercadorias provenientes de outras unidades da federação. uma boa divisão para estudo do país numa dada época. constituem. Desta vez. facilitando e possibilitando a integração acima referida que se deu a partir da “região” hegemônica industrial do Sudeste. Departamento de Geografia – USP. [PERIDES. n. a rede de transportes e de fluxos. Os poderes dos estados foram ainda mais restringidos. A Divisão Regional do Brasil de 1945 – Realidade e Método. quando mais importar a comparação no espaço. Pedro Paulo. In: Revista Orientação. Abril-Junho de 1941. em favor do poder central.S. não fornecem base conveniente para tal comparação no tempo.] O IBGE apresentou a primeira regionalização oficial do território brasileiro em 1946. sobretudo para fins estatísticos e especialmente para uma divisão permanente que permita a comparação de dados de diferentes épocas. Outro exemplo do papel do Estado na integração econômica do espaço nacional: os grandes investimentos por ele feito em obras de infraestrutura de alcance nacional. As bases naturais do território. com a perda dos direitos que eles tinham de legislar sobre o comércio exterior. Divisão Regional do Brasil. tais como nos transportes.

O Centro-Sul se destaca como o centro econômico do Brasil. a tecnoburocracia ligada ao regime militar acreditava que o estudo estatístico integrado dos fenômenos naturais e sócioeconômicos forneceria subsídios à ação planejadora do Estado. passou a fazer parte da Região Norte. concentrando 70% da população nacional e a maior parte da produção industrial e agropecuária do país. os estados da Bahia e de Sergipe foram incluídos na Região Nordeste.3% do valor da transformação industrial do país e 70. criado pela Constituição de 1988. por exemplo. A Região Sudeste foi criada em substituição à antiga Região Leste. passou a integrar a Região Sudeste. antes pertencente à Região Sul. Nas últimas décadas. individualizados segundo critérios geoeconômicos. O núcleo triangular São Paulo-Rio de Janeiro-Belo Horizonte surgia como ímã dessa região “central”. O Nordeste se individualiza pela estagnação econômica. vem ganhando espaço nas publicações geográficas e na imprensa em geral. Essa delimitação não leva em conta as fronteiras entre os estados: o norte semi-árido de Minas Gerais.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL Na Divisão Regional do Brasil de 1969. metade do território do Maranhão integra o Complexo Amazônico. O critério de regionalização oficializado pelo governo militar em 1969 considera as atividades econômicas como fundamentais na diferenciação dos espaços: são elas que vão determinar as políticas de investimentos públicos e de valorização de áreas consideradas “deprimidas”. os três estados detinham 80. com apenas uma modificação: o Estado do Tocantins. uma outra proposta de regionalização. marcada pela pobreza e pela repulsão demográfica. elaborada pelo geógrafo Pedro Pinchas Geiger em 1967. pela repulsão 37 . São Paulo. Essas modificações foram justificadas com base no processo de industrialização e de crescimento econômico do país. integra o Complexo Regional Nordestino. a outra metade pertence ao Complexo Nordestino. Influenciada pela new geography norte-americana. Rio de Janeiro e Minas Gerais serviu de base à delimitação de uma região “central” do ponto de vista da economia. a nova Região Nordeste despontava como região-problema. A concentração da indústria nos estados de São Paulo. A divisão regional proposta em 1969 ainda hoje é utilizada como base estatística e para fins didáticos. Juntos.1 % dos empregos do setor. Por outro lado. Trata-se da divisão do país em três grandes complexos regionais.

A estratégia de planejamento regional se intensificou na segunda metade da década de 1960. Antéro Duarte Lopes e Teresa Cativo Rosa apresenta uma caracterização da Região Norte. Região e Políticas Públicas A Sudene. é diferente do Nordeste do IBGE. a Amazônia Legal.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO populacional e pela disseminação da pobreza. Rondônia. criada em 1959. Textos Complementares Os textos selecionados foram extraídos dos ensaios que integram a obra Desigualdades regionais e desenvolvimento. Em 1966. que atualmente engloba os estados do Acre. foi a vez da Superintendência para o Desenvolvimento da Amazônia (Sudam). Tocantins e Roraima. foi a vez da Superintendência para o Desenvolvimento do Centro-Oeste (Sudeco) e da Superintendência para o Desenvolvimento do Sul (Sudesul). já que todos esses órgãos de planejamento são subordinados ao governo federal. Essa estratégia revela a forte centralização do poder político característica desse período. de autoria dos pesquisadores Sergio C. integrou as estratégias da Sudam para o desenvolvimento da região. pelas baixas densidades populacionais e ainda pelo altamente predatório processo de ocupação recente. foi o primeiro organismo permanente de planejamento regional brasileiro. Mato Grosso. Tânia Bacelar de Araújo assinala a 38 . Eles iluminam aspectos importantes da problemática das regiões e da divisão regional do trabalho no Brasil contemporâneo. expressa nos altos índices de mortalidade infantil. incluindo a região semi-árida do norte de Minas Gerais. Amazonas. subnutrição e analfabetismo. principalmente no oeste do Mato Grosso e ao longo da calha do Rio Amazonas. O Complexo Amazônico se caracteriza pela presença da floresta equatorial. A criação da Sudam definiu uma nova região de planejamento. O primeiro deles. além do oeste do Estado do Maranhão. No ano seguinte. O Nordeste da Sudene. região de planejamento. definida enquanto uma das últimas fronteiras de recursos do mundo. base territorial para levantamentos estatísticos. ligado aos grandes projetos agropecuários e minerais. originada das pesquisas desenvolvidas na Fundação de Desenvolvimento Administrativo (Fundap) sobre o Federalismo no Brasil. Amapá. No segundo. Sua área de atuação ultrapassa os limites da Região Nordeste. Buarque. O incentivo a grandes projetos agropecuários. Pará.

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complexidade e a heterogeneidade que caracterizam o nordeste brasileiro. Finalmente, Osmil Galindo e Valdeci Monteiro dos Santos investigam os diferentes aspectos da expansão da fronteira agrícola na Região Centro-Oeste. Texto 1- Caracterização da Região Norte A Região Norte caracteriza-se por um macroespaço de 3,9 milhões de Km2, predominantemente dominado pela floresta tropical úmida e pelo complexo hidrológico da bacia do rio Solimões-Amazonas. Essa unidade socioeconômica e ambiental, de uma perspectiva agregada, esconde uma grande diversidade interna, formada por vários ecossistemas naturais com características distintas e condições específicas para a presença humana e a atividade econômica. Na realidade, ao contrário dos estereótipos difundidos sobre a região, a diversidade – ambiental, socioeconômica, tecnológica e cultural – é a principal característica desse amplo espaço regional brasileiro. Dominada em grande parte (84%) por floresta densa de mata alta, a região registra vastas extensões de mata de cipó, mata aberta de bambu, matas serranas e mata seca, além de florestas de várzea, igapó e manguezais. Possui ainda áreas de savana, campinas e cerca de 700 mil Km2 de cerrado. No geral, esses ecossistemas têm em comum, além da diversidade e extensão territorial, a fragilidade e a delicadeza de seu equilíbrio. “No ambiente terrestre – afirma a Sudam/PNUD1 – o ciclo de nutrientes é essencialmente baseado na cadeia trófica com pequena participação do substrato inorgânico, fazendo com que a modificação da cobertura vegetal possa ser, portanto, desastrosa: e o ambiente aquático, essencialmente lótico, embora com as águas correndo em baixas velocidades, se modificado pela implantação de barramentos artificiais, pode também sofrer irremediáveis degradações.” Como espaço geográfico de caráter político-administrativo, a Região Norte engloba sete estados da Federação: Pará, Amapá, Amazonas, Roraima, Rondônia, Acre e Tocantins2. Constitui a região de maior extensão territorial do Brasil, equivalente a mais de 45% do total nacional.

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Sudam/PNUD – Avaliação da política de investimentos do FINAM. Belém. 1990. (Mimeogr.). Essa delimitação espacial não corresponde à regionalização utilizada no processo de planejamento, que utiliza o conceito de Amazônia Legal, à qual correspondem as instituições de planejamento e instrumentos fiscais-financeiros regionais. A Amazônia Legal acrescenta, aos sete estados referidos, parte do Estado do Maranhão, correspondente à Pré-Amazônia maranhense, o Estado do Mato Grosso, em grande parte dominado pela Hiléia, e o recém-criado Estado do Tocantins (incluído, antes de 1988, como parte do Estado de Goiás).

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A Região Norte concentra uma das maiores reservas de recursos naturais do planeta, representada especialmente pela grande riqueza florestal, pela massa de ecossistemas aquáticos e pela biodiversidade. Concentra cerca de um terço das florestas tropicais úmidas da Terra, calculado em mais de 300 milhões de hectares de floresta densa e mais de 100 milhões de hectares de floresta aberta, o que abriga um total de madeiras comercializáveis da ordem de 45 bilhões de m3 de madeira em pé (Sudam/SDR3). Com uma bacia hidrográfica de quase seis milhões Km2, reúne um grande potencial hidrelétrico e de recursos pesqueiros, além de vastas áreas de várzea, com potencial agrícola ainda inexplorado. Além disso, tem grandes reservas de minérios tradicionais (ferro, bauxita, ouro e cassiterita) e de minérios com novas aplicações tecnológicas (nióbio, manganês, titânio) (Sudam/SDR). Entretanto, a mais importante riqueza da Região Norte neste final de século, dominado pela revolução científica e tecnológica, reside na diversidade dos seus ecossistemas, representada pelo material biológico de espécies vegetais, animais e microorganismos (plantas medicinais, aromáticas, alimentícias, toxinas, tanantes, oleaginosas, fibrosas, fungos, bactérias etc.). Essas espécies tornam a região uma grande usina de vida: o maior banco genético do planeta, contendo provavelmente cerca de 30% do estoque genético mundial. É uma valiosa biblioteca viva para pesquisa no terreno da genética e microbiologia e para o desenvolvimento da biotecnologia4. A grande concentração de riquezas em recursos naturais torna a região Norte uma das últimas fronteiras de recursos do mundo e, especialmente, do Brasil. Com o esgotamento de fontes internacionais e a implantação de vias de penetração econômica, a região Norte ganhou destaque nas últimas décadas e se transformou numa região de fronteira. Essa característica vai determinar e explicar as frentes de ocupação e as diversas iniciativas políticas orientadas para a integração da região Norte na expansão econômica e modernização brasileira. Por outro lado, sua amplitude, localização e acumulação de biodiversidade tornam a região Norte uma base de interesses e disputas geopolíticas. Constituindo um complexo ecológico transnacional integral e articulado pela continuidade e

Sudam/SDR - Sustainable development of the Amazon - development strategy and investiment alternatives. Belém, 1992. 4 Ver BECKER, Benha K. - Estudo geopolítico contemporâneo da Amazônia. Sudam/BASA/Suframa/ PNUD -Macrocenários da Amazônia, 1989. (Mimeogr.).

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contigüidade da floresta, juntamente com seu amplo sistema fluvial, a região Norte une vários subsistemas ecológicos da América Latina. A dimensão territorial da Amazônia brasileira lhe confere um estatuto de quase-continente, com a floresta amazônica compondo um grande maciço natural concentrado no território brasileiro (Sudam/MIR)5. A ampliação recente da consciência internacional dos problemas globais de conservação ambiental realimenta o debate e os interesses sobre as florestas tropicais úmidas, de modo que a região Norte (Amazônia, num sentido mais amplo) volta a ser objeto de pressões e disputas geopolíticas, que giram em tomo das formas de apropriação de sua riqueza – especialmente a biodiversidade – e da sua posição no controle das condições climáticas. Todos esses fatores devem ter importante peso na definição de políticas e iniciativas voltadas à região Norte, à sua ocupação econômica, à utilização de suas riquezas e ao controle político, econômico e estratégico da fronteira norte do Brasil. [BUARQUE, Sergio C.; DUARTE, Antéro Lopes e ROSA, Teresa Cativo. Integração Fragmentada e Crescimento da Fronteira Norte. In: AFFONSO, Rui de Britto Álvares e SILVA, Pedro Luiz Barros (org.). Desigualdades regionais e desenvolvimento. São Paulo: Fundap/UNESP, 1995, p.94-96.] Texto 2 – Heterogeneidade Econômica Intra-regional Nas últimas décadas, mudanças importantes remodelaram a realidade econômica nordestina, questionando inclusive visões tradicionalmente consagradas sobre a região. Nordeste região problema, Nordeste da seca e da miséria. Nordeste sempre ávido por verbas públicas, verdadeiro “poço sem fundo” em que as tradicionais políticas compensatórias, de caráter assistencialista, só contribuem para consolidar velhas estruturas socioeconômicas e políticas, perpetuadoras da miséria. Essas são apenas visões parciais sobre a região nos dias presentes. Revelam parte da verdade sobre a realidade econômica e social nordestina, mas não apreendem os fatos novos dos anos mais recentes. Não revelam a atual e crescente complexidade da realidade econômica regional e não permitem desvendar uma das mais marcantes características do Nordeste atual: a grande diversidade, a crescente heterogeneidade de suas estruturas econômicas.

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Sudam/MIR -Plano de desenvolvimento da Amazônia: 1994/97. Belém, 1993. (Mimeogr.).

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das áreas de moderna agricultura de grãos (que se estendem dos cerrados baianos. KATZ. ora como “pólos dinâmicos”. Nesse sentido. do moderno pólo de fruticultura do Rio Grande do Norte (com base na agricultura irrigada do Vale do Açu). Menos por seu dinamismo e mais pelo fato de desenvolverem modernas atividades de base tecnológica. o complexo minero-metalúrgico de Carajás. Economia do Nordeste: tendências recentes das áreas dinâmicas. o pólo têxtil e de confecções de Fortaleza. seu diferenciado desenvolvimento urbano e até as especificidades de suas economias metropolitanas. Policarpo. Dentre eles. quando não comandadas pelo Estado brasileiro. Tais estruturas são tratadas na literatura especializada ora como “frentes de expansão”. tentou identificar melhor essas áreas. a percepção da realidade econômica nordestina exige uma análise mais detalhada. Pesquisa recente dos professores Policarpo Lima e Fred Katz. 1993. além do pólo agroindustrial de Petrolina/Juazeiro (com base na agricultura irrigada do sub-médio São Francisco). é mister ressaltar os novos focos de dinamismo da economia regional que convivem atualmente com as tradicionais áreas agrícolas ou agropastoris da região: uma análise que perceba as diferentes trajetórias econômicas dos diversos estados nordestinos e. do pólo de pecuária intensiva do agreste de Pernambuco. ora como “manchas ou focos” de dinamismo e até como “enclaves”. Áreas de modernização intensa Nos anos recentes. focos de dinamismo em grande parte responsáveis pelo desempenho relativamente positivo apresentado pelas atividades econômicas na região. merecem referência ainda os tecnopólos de Campina Grande (PB) e Recife (PE). da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. e dos diversos pólos turísticos implantados nas principais cidades litorâneas do Nordeste. (Mimeogr. no que se refere a atividades industriais. mais recentemente. caracterizando-as e analisando seus novos impactos e suas perspectivas de expansão1. Fred. mesmo. Tendências da acumulação privada reforçadas pela ação estatal. 42 . cabe destaque para o complexo petroquímico de Camaçari.). 1 LIMA. fizeram surgir e se desenvolver no Nordeste diversos subespaços dotados de estruturas econômicas modernas e ativas.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Embora traços gerais possam ser identificados. É o que se tentará nesta parte do trabalho. movimentos importantes da economia brasileira tiveram repercussões fortes na Região Nordeste. ao sul dos estados do Maranhão e Piauí).

vale registrar que. representavam 19. sozinho. importou num investimento total de cerca de US$ 4. O pólo de Camaçari contribuiu também para a elevação das exportações baianas. em 1990. O parque têxtil e de confecções de Fortaleza é competitivo nacionalmente e. Entre 1970 e 1985. como mostram Lima e Katz constituise num dos principais pilares da crescente importância da produção de bens intermediários no Nordeste. O pólo têxtil e de confecções de Fortaleza.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL O pólo petroquímico de Camaçari. O pólo de Camaçari concorreu para alterar estruturalmente a economia baiana. contando com fontes de financiamento diversas. mais os ligados às prestadoras de serviços (31 mil). por sua vez. aumentando o peso do setor secundário de 12% em 1960 para quase 30% do PIB estadual em 1990. enquanto os ligados ao vestuário passavam de 152 para 850. 1993). sendo de 32. Embora as repercussões esperadas fossem maiores. os empregos diretos (25 mil). o pólo cearense reunia cerca de três mil empresas. no caso da fiação. tanto em âmbito regional como nacional. Esse complexo industrial foi viabilizado com a participação de capitais privados nacionais e multinacionais e com o suporte estatal (Petrobrás). 43 . desponta como um dos importantes centros do setor.6% do emprego gerado na indústria de transformação do Estado. o número de estabelecimentos têxteis do Ceará cresceu de 155 para 358. o pólo petroquímico de Camaçari.6% da receita tributária do Estado da Bahia. Implementado ao longo dos anos 70.8% o seu peso na receita do ICMS gerado pela indústria de transformação.5 bilhões e com o programa de ampliação previsto chegará a US$ 6 bilhões. contribuiu com 13. Em 1991. internacionalmente. o pólo de Camaçari representa hoje uma possível base para a esperada verticalização da matriz industrial da petroquímica regional. Quanto aos seus impactos. gerava 60 mil empregos diretos e era responsável por 12% do ICMS do Ceará (Lima e Katz. em virtude de sua atualização tecnológica. Em 1989. segundo o Sindicato da Indústria de Confecções do Ceará.

Cortando regiões anteriormente isoladas. há espaços para um reforço do setor de tecelagem (60% dos tecidos são adquiridos fora do Estado). o projeto CELMAR.primas.3% para 21. Por outro lado. que tem a CVRD como sócia. em Imperatriz. impactos importantes já se notam nos anos 80: o PIB total do estado aumentou de US$ 2 bilhões em 1980 para US$ 3 bilhões em 1987. e mais três mil no 44 . O complexo minero-metalúrgico do Maranhão está associado aos desdobramentos do Programa Grande Carajás (PGC) e ao interesse do capital multinacional em diversificar suas fontes de abastecimento de matérias. dado que nesses segmentos existe uma defasagem tecnológica a ser superada. vai produzir celulose. o que já vem sendo estimulado por empresários ligados às fiações. O encadeamento do pólo cearense com a base agrícola da região é reduzido. implantando a infra-estrutura para exploração/exportação de minério de ferro.2 bilhão. Outro projeto em implantação. 1993). nos efeitos “para frente” conta-se com a perspectiva da instalação de pequenas e médias malharias que se beneficiariam das fiações já existentes. Contudo. tendo o produto da indústria ampliado sua participação no total estadual de 14. a Companhia Vale do Rio Doce – CVRD desempenhou um dos papéis principais. devido à devastação promovida pelo bicudo na produção de algodão no Nordeste. com produção estimada de 420 mil toneladas/ano. Para esse projeto. No que se refere ao segmento das confecções. Em função desses investimentos. estão previstos investimentos de US$ 1. bem como para o crescimento de unidades fornecedoras de aviamentos e linhas (cerca de 80% destes são comprados fora) (Lima e Katz.8%. Para a montagem desse pólo. a abertura comercial pode ter implicações negativas sobre a tecelagem e as confecções.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO As perspectivas da expansão do setor evidentemente dependem da retomada do crescimento e da melhor distribuição de renda na economia brasileira. gerando diretamente 800 empregos. onde a produção de soja se expande. a Estrada de Ferro Carajás (EFC) integrou-as ao circuito da produção mercantil e contribuiu para dinamizar o pólo agrícola do sul do Maranhão.

A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL reflorestamento. além de cerca de 3. Impactos da irrigação sobre os setores urbanos nas regiões de Juazeiro e Petrolina. De forma semelhante ao caso da CVRD. Ao mesmo tempo se deu a implantação de grandes projetos de médias empresas nacionais e. ALCAN e BILLINGTON. de soda cáustica de Alagoas. O projeto da ALUMAR também tem grande peso. O complexo agroindustrial de Petrolina/Juazeiro surgiu nos anos 70. Nesse período. quanto ao processamento local em plantas industriais. a presença do Estado foi fundamental. 45 . 1990. (Mimeogr. Também nesse caso. Ao longo dos anos 80. na economia de São Luiz. hoje. pelo menos para os padrões locais. instalaram-se na área diversas plantas industriais de ramos variados: processamento de alimentos.se o cultivo cada vez maior de produtos de elevado valor comercial. embalagens.200 empregos indiretos (Lima e Katz.). da energia elétrica de Tucuruí. equipamentos de irrigação. além dos serviços de manutenção refletidos nos empregos indiretos. 226. mesmo. destinados tanto à venda in natura para os mercados de maior poder aquisitivo. que resultou em projeto de investimento da ordem de US$ 2 bilhões para a produção de três milhões de toneladas/ano de alumina e 500 mil de alumínio. externo inclusive. a Estrada de Ferro Carajás ajudou a dinamizar a instalação de usinas de ferro-gusa e de ferroliga ao longo de sua extensão. os projetos elevaram a intensidade de uso de capital. Constatou. bens de capital. já que são exportados 95% do produto (Lima e Katz. fertilizantes e rações (Lima e Katz. na indústria maranhense. 1993). Recife. internacionais. Texto para discussão n. a ALUMAR é responsável por um fluxo mensal de rendimentos significativo. As articulações pelo uso do alumínio são reduzidas. foram incorporados à agricultura cerca de 56 mil hectares. 100 empregos diretos.200 os empregos indiretos. materiais de construção. Além disso. Nessa época. Trata-se de uma associação das empresas ALCOA. O projeto criou 4. 1993). tendo ainda articulações a montante via absorção de bauxita do Rio Trombetas. de cal do Ceará. Olímpio. uma vez que montou a maior parte da infraestrutura de captação e distribuição de água. 1993). estimando-se em 1. com base na implantação de grandes projetos de irrigação. enquanto o setor industrial gerava cerca de 24 mil empregos2. CME/PIMES/UFPE. estando atualmente sendo geradas um milhão de toneladas de alumina e 350 mil de alumínio. 2 Ver GALVO.

sendo 460 mil toneladas de soja).MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO As áreas de moderna agricultura de grãos se estendem dos cerrados do oeste baiano ao sul do Maranhão e Piauí. produziu-se no Piauí e Tocantins cerca de um milhão de toneladas). 46 . O processo de urbanização do oeste baiano. foram produzidas 800 mil toneladas de grãos no oeste da Bahia (soja. Com a soja. enquanto crescia também a produção de arroz. Foram instaladas no Município de Barreiras duas plantas industriais de processamento de soja. a produção de grãos vem crescendo bastante (em 1992. arroz e feijão. após avanços tecnológicos que viabilizaram o cultivo do produto nos cerrados. na forma de óleo e de farelo. Recife: Sudene. A produção também se estende para o sul do Maranhão. suinocultura. milho. são pontos de intenso dinamismo econômico implantados no território nordestino. como foi visto. Tiveram papel importante os subsídios governamentais3 e os investimentos públicos em infraestrutura. Essas áreas não conhecem crise e recessão. As potencialidades agrícolas e minerais aí se 3 Ver SANTOS FILHO. Estima-se que 230 mil toneladas de soja sejam absorvidas no próprio Nordeste. Na safra de 1991/92. no Estado do Piauí. Nos anos mais recentes. frigorificação de carnes. Aí despontam atividades como avicultura. Esses. sendo exportadas cerca de 140 mil toneladas de farelo (Lima e Katz. a área plantada com soja expandiu 143 vezes e a produção em 848 vezes. 1993). implantada na área por agricultores do sul do País. 1989. que se especializam na exportação. Entre 1980/81 e 1985/86. calcário) e de equipamentos próprios para a agricultura. Milton. O pólo de fruticultura do Vale Açu cresce comandado por grandes empresas (com destaque para a Maísa). Começam a desenvolver-se também atividades de produção de insumos (fertilizantes. A expansão da economia do oeste da Bahia está associada à introdução e à rápida expansão da soja. implanta-se na região todo um conjunto de atividades e práticas ligadas à agricultura moderna.

feijão e mandioca). Nessas áreas. As zonas canavieiras expandiram-se muito. mas permanente. a muitas famílias sertanejas. são incapazes de dispor de meios para enfrentar um ano seco. Nesse quadro. que traz consigo a alternativa da produção de um energético para o mercado interno (o álcool). em outras áreas a resistência à mudança permanece sendo a marca principal do ambiente socioeconômico: as zonas cacaueiras. No “arranjo” organizacional local. De positivo. rendeiros e parceiros produzem. ocorridos nos anos recentes. em geral. canavieiras e o sertão semiárido são as principais e históricas áreas desse tipo. 47 . os pequenos produtores. e as que aconteceram. Na ausência do produto.1 milhões de pessoas em 1993). cobrindo parte da população idosa e assegurando uma renda mínima.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL revelam com grande evidência. Mas o crescimento se faz com base na incorporação de terras (a área cultivada rapidamente duplica). portanto. mas não conseguem acumular: descapitalizados ao final de cada ciclo produtivo. a modernização é restrita. Permanência de velhas estruturas Ao mesmo tempo em que diversos subespaços do Nordeste desenvolvem atividades modernas. as tradicionais “frentes de emergência” (como são chamados os programas assistenciais do Governo) alistam número enorme de agricultores (2. o algodão era a principal (embora reduzida) fonte de renda monetária dos pequenos produtores e trabalhadores rurais desses espaços nordestinos. a crise do algodão (com a presença do bicudo e as alterações na demanda. nos momentos de irregularidade de chuvas. não houve mudanças significativas. esses pequenos produtores são obrigados a levar ao mercado o pequeno excedente da agricultura alimentar tradicional de sequeiro (milho. Não é sem razão que. constituindo um Nordeste que não existia há poucas décadas. seletiva. Quando ocorre. como o desaparecimento da cultura do algodão. a extensão da ação previdenciária. impulsionadas nos anos 70 pelo Proálcool. mais do que na elevação dos padrões de produtividade. o que ajuda a manter um padrão dominantemente tradicional. nos anos de chuva regular. tiveram impactos negativos. no padrão tecnológico e empresarial da indústria têxtil modernizada na região) contribui para tomar ainda mais difícil e frágil a sobrevivência do imenso contingente populacional que habita os espaços dominados pelo complexo pecuária/agricultura de sequeiro. uma vez que a pecuária sempre foi atividade privativa dos grandes proprietários locais. No caso do semi-árido.

como a redução da produção de alimentos e a intensificação da emigração rural. proprietárias das áreas de ANDRADE.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Nas áreas cacaueiras. no Nordeste também se assistiu a um grande dinamismo agropecuário e agroindustrial no oeste baiano e no sul do Maranhão e Piauí. Nas áreas em que predominam a rigidez das velhas estruturas econômicosociais e o domínio político das oligarquias tradicionais da região. As oligarquias nordestinas. No semi-árido. e apresentada ao País como desnecessária em muitos fóruns (inclusive nos acadêmicos) com base no “sucesso” da ocupação de novas terras. Nos anos 60 e seguintes. Mário Lacerda de. Como a estratégia brasileira das últimas décadas foi concentrar a expansão da agropecuária em áreas novas (especialmente no Centro-Oeste). em áreas da antiga “fronteira agrícola” da região. Primeiro. Recife: SUDENE. há traços comuns importantes. 1986. nas quais as velhas estruturas foram criando sucessivos mecanismos de preservação. Na Zona da Mata. Simultaneamente. Os Agrestes. Mesmo onde a irrigação introduziu uma agricultura moderna no semi-árido. cabe destacar que são áreas de ocupação antiga. o processo de concentração fundiária tem aumentado nos anos recentes. os incentivos à pecuária fortaleceram e modernizaram essa que sempre foi a atividade principal da unidade produtiva típica do sertão e do agreste nordestino. inclusive na estrutura fundiária. a questão fundiária agravou-se6. A base técnica modernizou-se. “o capim expulsa a policultura alimentar e o gado tange o homem”. aprofundando a crise nessa sub-região. José (coord. A hegemonia crescente da pecuária nos moldes em que foi realizada agravou a questão fundiária do Nordeste. portanto. A questão fundiária é mais dramática e vem se agravando. das secas também resulta o agravamento da já elevada concentração das terras em mãos de pouquíssimos produtores: “na seca. 6 Ver GRAZIANO DA SILVA. Campinas: Instituto de Economia. pequenos produtores inviabilizados vendem suas terras a baixos preços e os latifúndios crescem”. a “modernização” foi conservadora. Manuel Correia. n° 3. In: Estudos Regionais. A Terra e o homem no Nordeste. 1989. PRON1. e o monopólio da cana sobre as áreas cultiváveis se ampliou. 5 4 48 . além de provocar outros efeitos importantes.) A irrigação e a problemática fundiária do Nordeste.1980. Na sábia afirmação do geógrafo Melo5. MELO. a resistência à mudança convive na fase mais recente com importante queda nos preços internacionais do cacau. por exemplo. São Paulo: Atlas. a proposta da reforma agrária foi abandonada na prática pelos sucessivos governos militares e civis. como bem explica Andrade4.

para o mesmo período. Nesse contexto. Ao mesmo tempo. para evitar seu enquadramento como latifúndio por dimensão” (Graziano da Silva. 1989). em 1985. A concentração fundiária aumentou no Nordeste nas últimas décadas. caracterizando maior instabilidade. a área total ampliou-se de 74 milhões de hectares para 92 milhões de hectares. Nesses espaços. dois terços dos indigentes rurais do País estão no Nordeste. muitas vezes registradas como imóveis distintos. como foi visto. e se registra maior presença de grandes posseiros em comparação com o resto do Nordeste (Graziano da Silva.002 hectares). Estudo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) destaca ainda. por exemplo). no sentido de elevar a desigualdade da distribuição. em 1985) é superior ao tamanho médio desses estabelecimentos no resto do Nordeste (1. Nesse período. sendo a diferença relativa maior no Nordeste. tanto no Nordeste como no Brasil. Esse fato reforça a hipótese de que as formas peculiares de exploração da terra no Nordeste conferem-lhe uma estrutura de posse da terra diferenciada da existente na média do Brasil.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL antiga ocupação e sempre bem situadas nas estruturas de poder. onde se reproduz a estrutura desigual do resto do Nordeste. um caso ilustrativo é o de grandes fazendas que reúnem áreas de posse e áreas de diferentes escrituras. a situação é agravada pela presença de “latifúndios maiores”: lá a área média do 1 % dos maiores estabelecimentos (1. passando de 27% em 1970 para 32% em 1985. continuavam a beneficiar-se dessa macroopção. Segundo o Mapa da Fome feito recentemente pelo IPEA. os estabelecimentos com menos de 100 hectares (94% do total) ocupavam quase 30% da área. apesar da miséria alarmante dominante nas áreas rurais do Nordeste. No semi-árido. Na zona semi-árida.4% do total) aumentaram sua participação na área total. 49 . Em 1970. após tantos anos de dinamismo econômico. de acordo com os censos agropecuários realizados pela Fundação IBGE.914 hectares. E. o acesso à terra é feito por formas precárias (parceria. 1989). as velhas estruturas socioeconômicas e políticas têm na base fundiária um de seus principais pilares de sustentação. os estabelecimentos de mais de mil hectares (0. que “a desigualdade da posse da terra é maior que a da produtividade. essa participação caiu para 28%. a questão fundiária permanece praticamente intocada.

A mobilização populacional foi motivada basicamente pela apropriação de recursos naturais disponíveis e não pela ação governamental. Ocupación y desocupación de la frontera agrícola en el Brasil: un ensayo de interpretación estructural y espacial. Desigualdades regionais e desenvolvimento. 132-138. 1 50 . Madrid: Naciones Unidas/CIFCACEPAL-PNUMA. Nordestes: Que Nordeste? In: AFFONSO.). “nucleado” e espacialmente desarticulado. p. 2 A idéia de fronteira é utilizada em sentido amplo. 1983. baseado em MUELLER. A ecologia e o novo padrão de desenvolvimento no Brasil. Essa participação não ocorreu evidentemente por acaso. De fato. como sabemos. A industrialização por substituição de importações passou a requerer da agricultura dupla atribuição: “produzir excedentes de alimentos a custos razoáveis” e “fornecer recursos para financiar o desenvolvimento urbano-industrial do centro dinâmico da economia nacional”1. sistemas de transportes adequados e disponibilidade de terras a serem ocupadas). essencialmente.).] Texto 3 – A Dinâmica Econômica Desde o fim do século XVII até as primeiras décadas deste século. um dos grandes “vazios nacionais”. da mesma forma que o Norte. estes dois subespaços regionais experimentaram um processo de elevado crescimento econômico e populacional. A região era considerada até recentemente. São Paulo: Fundap. Ver: SAWYER. como sendo uma área potencial que oferece condições para a expansão da atividade agropecuária (funcionamento de mercados específicos. apoiado. Rui de Britto Álvares e SILVA. aproximando-se da definição estabelecida por Sawyer.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO [ARAÚJO. 1995. O Centro-Oeste: evolução. Universidade Estadual Paulista. Foi a partir da década dos 40 que o Estado passou a intervir decisivamente no processo de ocupação da região. a agricultura brasileira apresentou um desempenho aceitável. As conseqüências mais significativas deste novo enfoque de intervenção do Estado na região foram sentidas no sul do Mato Grosso do Sul e centro-sul de Goiás. E. Ed. João Paulo dos (org. Tânia Bacelar de. As primeiras ocupações ocorreram por iniciativa privada e de forma espontânea. In: VELLOSO. São Paulo: Nobel. Pedro Luiz Barros (org. situação atual e perspectivas de desenvolvimento sustentável. na expansão das fronteiras agrícolas2. o processo de ocupação do Centro-Oeste foi descontínuo. nos anos 50 e 60. Donald. Nordeste. Charles Curt. 1992.

para garantir uma oferta adequada de divisas. e de Anápolis (GO). no Mato Grosso do Sul. Ângela. e de outro. provocando um inesperado fluxo migrante que se estende do Mato Grosso do Sul à fronteira com Rondônia. largamente subsidiados pelo sistema de crédito e benefícios fiscais. Glória de Dourados. a partir da década de 1970 e nos anos 80 – inclusive com a viabilização dos cerrados e da área norte da região –. tanto pelas possibilidades abertas pela agropecuária e agroindústria. provocando o surgimento de várias cidades. Em que pese já se encontrar em funcionamento uma estrutura comercial em plena atividade nas áreas mais acessíveis do sul de Goiás e de Mato Grosso do Sul. o avanço para os outros espaços regionais. acabou expulsando um bom contingente de pequenos agricultores. algodão e milho)”. produtividade e emprego na agricultura -uma análise regional. como entreposto agrícola. como a sua parte central.se. O impulso verificado na expansão e modernização agropecuária do CentroOeste. com a presença de grandes propriedades agrícolas. Campinas. (Mimeogr.). encontrava-se então limitado.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL decisivos estímulos governamentais. a consolidação econômica do sul e centro de Goiás. principalmente no Paraná. se dá num novo contexto: a agricultura passa a adquirir importância central na expansão e diversificação das exportações. 3 KAGEYAMA. a exemplo de Jateí. 51 . como importantes núcleos urbanos. e a se inserir em um processo de verticalização. Verificou. um acelerado processo de colonização na área de influência das cidades de Dourados e Campo Grande. café. Nova Andradina e Angélica. Kageyama3 (1986) caracteriza essa nova fase da ocupação do CentroOeste como: “presença maciça de grandes empreendimentos capitalistas. como fornecedora de matérias-primas para a indústria. 1986. com destaque para a sub-região dos cerrados e do imenso norte do atual Estado do Mato Grosso. a denominada modernização conservadora no campo no sul do País. do dia para a noite. de um lado. Modernização. voltados fundamentalmente para a atividade de pecuária extensiva e de algumas culturas de exportação (soja. quanto pela consolidação das cidades de Brasília (DF) e Goiânia (GO). arroz. Durante os anos 70.

foram decisivos os estímulos do Pólocentro. foram criados no fim da década de 1960 com objetivos claros de favorecer a inserção de grandes investimentos. principalmente em torno da rodovia BelémBrasília. Maria de Nazaré (arg. passou a ocorrer presença maciça de grandes fazendas. 1988). Partes das microregiões de Rondonópolis e Garças experimentaram um crescimento vigoroso da agricultura voltada para os grandes mercados nacionais (Aguiar. investimentos em infra-estrutura e apoio técnico. o Provárzea e o Profir. 52 . administrados pela Sudam. com seu sistema de crédito. durante muito tempo inexplorado. as atenções voltaram-se para aquelas áreas que foram gradativamente incorporadas e passaram a ter uma articulação mais estreita com os mercados do Centro-Sul. PNUD.). Mas no fim dos anos 70. Na viabilização econômica dos cerrados.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Com relação à área dos cerrados. se estimulasse o avanço da fronteira agrícola na Amazônia4. foi o conjunto de estímulos fiscais e a política de crédito. A Questão da produção e-do abastecimento alimentar no Brasil: um diagnóstico macro com cortes regionais. O fator fundamental para a acentuação do processo de ocupação fundiária verificada em algumas partes do Centro-Oeste. Também nessa área. também devem ser destacados outros programas. No norte e noroeste de Mato Grosso deu-se forte expansão baseada em grandes projetos de colonização pública e privada e numa política de expressivos estímulos governamentais. que dariam origem a fornecedores importantes de produtos agropecuários para o mercado nacional. com destaque para os incentivos fiscais e financeiros da Sudam e BASA. a falta de major conhecimento técnico que possibilitasse a sua viabilização comercial fez com que. Brasília: IPEA/IPLAN. No caso de Goiás. com certo arrefecimento da expansão amazônica e com a resolução dos problemas de fertilidade dos solos (viabilizada pelos avanços tecnológicos da Embrapa). Além do Pólocentro. Os instrumentos de incentivos fiscais. 4 Ver AGUIAR. verifica-se uma importante participação de grandes projetos incentivados pelo governo. num primeiro momento. como o Prodecer. notadamente na área sob a influência da Amazônia Legal – que tem um fortíssimo componente especulativo –. 1988.

[GALINDO. Osmil e MONTEIRO DOS SANTOS. o acirramento dos conflitos de terra. Estudo recente5 detectou que. Além disso. no pretc. ao mesmo tempo. Para se ter uma idéia da magnitude do impacto das empresas incentivadas sobre a concentração fundiária na região. CentroOeste: Evolução recente da economia regional. e na porção norte – que compreende o Mato Grosso e o norte de Goiás – como sendo um locus privilegiado das frentes especulativas. 215 no Estado do Mato Grosso e 53 em Goiás. e na rentabilidade dos empreendimentos. foram aprovados 626 projetos. Dos 626 aprovados.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL Na decisão de investimento dos projetos incentivados. Tais projetos apresentaram grau muito reduzido de operacionalização. foram mais eficientes em “gerar a concentração fundiária e de renda” (Aguiar. até 1985. tais incentivos governamentais e o caráter especulativo da apropriação de terra nessas áreas refletiram-se indiretamente nas outras regiões. marcadamente capitalistas e tecnificadas. In: AFFONSO. tiveram reduzido impacto no volume de produção e vendas. com suas grandes empresas agropecuárias. notadamente em projetos de usinas de açúcar e de reflorestamento. apenas 249 se encontravam em operação em 1985. Manuel Correia de. A especulação com a terra e o financiamento estatal facilitado definiram estreita associação entre o capital fundiário e o financeiro. cujo tamanho médio das propriedades era de cerca de 21 mil hectares. 1988). ocorreu a instalação de importantes grupos empresariais oriundos do Nordeste e do Sudeste no Mato Grosso e Goiás. de certa forma. pode-se caracterizar a expansão da fronteira agrícola no CentroOeste em sua parte mais ao sul – Mato Grosso do Sul e parte sul de Goiás – como vigorosas frentes de agricultura comercial. 1989). assim como foram diminutos os benefícios via geração de ICM e de criação de empregos para a região. basta dizer que. 1994. em alguns casos ultrapassando o exorbitante tamanho de 100 mil hectares (Sudam/PNUD. Rui de Britto Álvares 5 ANDRADE. Valdeci. Recife. Pode-se afirmar que. 53 . nos últimos anos. Modernização e pobreza. Em suma. Por outro lado. pesava bastante a futura valorização das terras onde seria implantada a empresa. provocando o “fechamento” da fronteira e.

Pedro Luiz (org. foi o pano de fundo desse movimento urbanizador. O processo de urbanização brasileiro apoiou-se essencialmente no êxodo rural. A constituição de uma economia de mercado de âmbito nacional. A elevada participação da população urbana no conjunto da população do Sudeste expressa um estágio avançado de modernização econômica. 1995. São Paulo: Fundap/UNESP. incentivado pela modernização técnica do trabalho rural e pela concentração crescente da propriedade fundiária. 54 . Desigualdades regionais e desenvolvimento.] 3. Os Processos Recentes de Urbanização e a Rede de Cidades no Brasil O processo de urbanização conheceu uma aceleração notável no país desde a década de 1950. que se manifesta em todo o país. p. não é uniforme. registrou um crescimento extremamente fraco no período. ultrapassou a marca dos 110 milhões em 1991. apesar de geral. Todos os estados da região apresentam participação da população urbana superior à média nacional. com profunda transformação da economia rural e subordinação da agropecuária à indústria. BARROS. por sua vez. 158-161. A urbanização do Brasil.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO e SILVA. A população urbana. polarizada pelas indústrias implantadas no Sudeste. As diferentes regiões e estados do país apresentam uma urbanização desigual e contrastes marcantes na distribuição da população entre o meio rural e o meio urbano. passando de cerca de 33 milhões em 1950 para pouco menos de 38 milhões em 1991.). As desigualdades no ritmo do processo de urbanização refletem as disparidades econômicas regionais e a própria inserção diferenciada de cada região na economia nacional. A urbanização do Centro-Oeste foi impulsionada pela fundação de Brasília e pelas rodovias de integração nacional que interligaram a nova capital com o Sudeste. Expressa também o peso decisivo da economia urbana na produção regional da riqueza. A população rural. que não chegava a 20 milhões em 1950.

A baixa capitalização e produtividade do setor agrícola limita a repulsão da população rural. São esses fluxos que explicam a significativa parcela de população rural em estados como Pará. Depois.se para áreas rurais. mais de 40 milhões de pessoas vivem nas metrópoles do país. A Região Sul viveu um processo de urbanização lento e limitado até a década de 1970: a estrutura agrária familiar e policultora. pois o afluxo de populações para a região nas últimas décadas. ancorada no parcelamento da propriedade da terra nas áreas de planaltos. de outro. houve um intenso êxodo rural no Nordeste que não transparece nas estatísticas regionais: trata-se do movimento migratório para o Sudeste. o crescimento relativo da população urbana tem sido mais lento. de soja ou cereais) acentuou a tendência urbanizadora. A tendência à metropolização foi um reflexo das condições em que ocorreu a modernização da economia do país. em função das particularidades do setor agrícola regional. essencialmente. A ocupação do espaço rural por grandes propriedades (fazendas de gado. concentrador: gerou cidades grandes e metrópoles. Atualmente. e a Amazônia. o desenvolvimento insuficiente do mercado regional limita a atração exercida pelas cidades. No Nordeste.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL de um lado. Contudo. só existiam duas cidades com mais de 500 mil habitantes. A industrialização do país percorreu caminhos 55 . Simultaneamente. Tocantins e Rondônia. camponeses expulsos do meio rural formaram fluxos migratórios que se dirigiram para as novas frentes pioneiras do Centro-Oeste e da Amazônia. orientou. elas já eram 25. A persistência de uma elevada participação da população rural decorre da estrutura minifundiária e familiar tradicional da faixa do Agreste. pelo menos até a década de 1980. que retém a força de trabalho no campo e controla o ritmo do êxodo rural. Minas Gerais e Rio de Janeiro. Na Região Norte. restringia o êxodo rural. Em 1940. O processo de urbanização brasileira foi. em 1991. que transferia populações do campo nordestino para as cidades dos estados de São Paulo. como conseqüência da abertura de novas frentes pioneiras. o movimento urbanizador foi menos intenso. O Estado do Mato Grosso do Sul apresenta um nível de urbanização similar ao dos estados do Sudeste. a mecanização acelerada da agricultura e a concentração da propriedade da terra impulsionaram a transferência acelerada da população rural para o meio urbano.

De fato. 56 . estimulados pelos mercados consumidores materializados nas metrópoles. In: As Lutas Sociais e a Cidade. concentrando estes recursos. provenientes do Estado. na região liderada pela cidade de São Paulo. Guaratinguetá. Essa associação provou ser bastante custosa em termos de gastos públicos e pressão inflacionária. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Importantes centros industriais como São José dos Campos. A concentração econômica determinou a aglomeração espacial. o Estado investiu pesado em energia. A presença de barreiras físicas muito nítidas – a Serra do Mar. Um número reduzido de cidades tornou-se pólos de atração populacional. no espaço geográfico de expansão destas duas principais aglomerações urbanas brasileiras. Lúcio (org. da força de trabalho e do mercado em determinados pontos selecionados do território. ao criar condições gerais e infra-estrutura necessárias para o pleno funcionamento do capital industrial no setor transnacionalizado de consumo durável. de empresas transnacionais ou de grandes grupos privados nacionais. provisão de infra-estrutura. Taubaté. 1 Lúcio Kowarick e Milton Campanário analisam o crescimento e a importância industrial da Região Metropolitana de São Paulo a partir deste prisma: “Os investimentos diretos das empresas multinacionais feitos.) São Paulo. mas também como espaço construído capaz de fazer circular o valor ali criado. Cresce. transportes e insumos básicos.” KOWARICK. o peso relativo deste núcleo urbano não só enquanto espaço receptor de investimentos diretos estrangeiros. e outras medidas altamente atrativas. crescendo e diversificando a sua economia. A região metropolitana representa um produto característico desse tipo de urbanização concentradora que o país experimentou. que continua a se desenvolver. A implantação de uma economia de tipo monopolista refletiu-se na concentração da produção. e a Serra da Mantiqueira. adensa-se o espaço urbanizado vinculado diretamente às cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro. incentivos fiscais. Metrópole do Subdesenvolvimento Industrializado. gerando a metropolização1. 1988. Barra Mansa e Volta Redonda configuram um espaço de fluxos cada vez mais intensos. está conduzindo ao aparecimento da primeira megalópole do país. especialmente. particularmente de origem estatal.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO muito diferentes daqueles da Revolução Industrial européia. a oeste – aprofunda a tendência à formação de uma verdadeira megalópole. Através do Vale do Paraíba. A Grande São Paulo e a Grande Rio de Janeiro constituem os exemplos mais importantes do processo metropolizador brasileiro. Baseou-se em investimentos volumosos de capital. via de regra. assim. na forma de financiamento direto. O processo de metropolização. com grande apoio no capital doméstico. a leste.

Os produtos industriais e os serviços. [In: CORRÊA. vai se recorrer mais freqüentemente à banca de jornais do que a uma livraria. hospitais e escolas – tornando-se assim o centro de atração para esse área externa. no entanto. Essa posição ajuda a compreender seu crescimento populacional. Essas cidades estão no topo da hierarquia urbana. apresentam entre si diferenças. 57 . São Paulo e Rio de Janeiro. de acordo com o geógrafo Roberto Lobato Corrêa: O papel mais importante de uma cidade é o de distribuir produtos industriais e serviços para as empresas agrárias. não só quanto à natureza. caracterizada pela dependência de cidades que distribuem produtos industriais e serviços cada vez de menor freqüência de consumo. bancos. Assim. Em função dessa diferença na freqüência de consumo dos diversos produtos industriais e dos serviços. maior que o do próprio núcleo urbano. O grau de importância de cada cidade depende da extensão do mercado atingido pelas mercadorias e serviços que ela distribui. cada cidade tem. extremamente expressivo. portanto.se uma diferença na respectiva localização: aqueles produtos industriais e serviços de consumo muito freqüente são encontrados em pequenas cidades. mas também à freqüência de consumo. verifica. aglomerações cuja influência se manifesta em todo o território. um mercado consumidor externo a si mesmo. Roberto Lobato. de fácil acesso a uma grande população pelas vias de circulação que para lá convergem. enquanto aqueles outros de consumo menos freqüentes são encontrados em cidades médias. In: Revista Brasileira de Geografia. servindo a todo o mercado consumidor do país. e os de consumo raro apenas nas grandes cidades.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL A rede de cidades no Brasil A importância das cidades na organização do espaço deriva da sua capacidade de oferecer mercadorias e serviços para um mercado consumidor amplo. e para a população de uma área externa à cidade – a sua região de influência.estabelecimentos comerciais e industriais. Regiões de Influência Urbana. Abril-Junho de 1941. passa-se a noção de hierarquia urbana. Assim. em função do qual vai adquirir um equipamento funcional. Assim.] O Brasil possui duas metrópoles nacionais. do mesmo modo que se procura com maior freqüência um médico de clínica geral do que um especialista em doenças do coração. industriais e comerciais.

Belém – a metrópole que influencia quase todo o vasto espaço amazônico – é um porto marítimo situado na foz do Rio Tocantins. Brasília. com ausência de comunicações fáceis entre as metrópoles. claramente. destacando as múltiplas relações que ela estabelece com o território nacional. Salvador. as metrópoles regionais (Salvador. No Sudeste e no Sul. direcionado basicamente para o próprio mercado urbano. A trajetória histórica da ocupação do território – marcada pela concentração populacional numa faixa próxima ao litoral – determinou a localização da maior parte das metrópoles. sua chamada zona de influência. a capital política e administrativa do país. muito precária. elas estruturam o espaço nacional. desde o início. Num segundo 58 . não chegou a se tornar sequer uma metrópole regional completa. No Nordeste. apenas Belo Horizonte é. quatro momentos do ponto de vista do papel e da significação das metrópoles. Goiânia. mais ampla que o território dos seus estados. Recife e Fortaleza). Texto 1 – A “Dissolução” da Metrópole Houve. polarizando regiões de influência e redistribuindo bens e serviços para um mercado imenso e diversificado. Em conseqüência. o geógrafo Milton Santos analisa os impactos da revolução técnico-científica na problemática urbana e discute a transfiguração de São Paulo de metrópole industrial em metrópole informacional. estas apenas comandavam uma fração do território. uma metrópole interior. enquanto Manaus é um porto fluvial interligado ao oceano. a capacidade de polarização externa da cidade foi. Quando o Brasil urbano era um arquipélago. A cidade não desenvolveu um setor de serviços voltado para o mercado regional. funciona como metrópole regional. No Norte. Texto Complementar No texto abaixo. Juntamente com São Paulo e Rio de Janeiro. e estão subordinadas economicamente apenas às metrópoles nacionais. Belo Horizonte. seu aparato de distribuição de bens e serviços conheceu um crescimento endógeno. No Centro-Oeste. Porto Alegre. Ao contrário. ao longo da história brasileira. Recife. Curitiba.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO As metrópoles regionais são aglomerações que exercem uma influência vasta. só uma cidade. Fortaleza e Belém são as cidades que funcionam como metrópoles regionais.

tanto no âmbito material quanto no intelectual. à crise desse mercado. cada vez mais numerosas. tanto agrícola quanto industrial. com estabelecimentos dispersos. depois. a própria região concentrada. próprio da dinâmica territorial em todos os tempos. mas também à sua circulação. também. que comandam o território com apoio do Estado. Em outro sentido. sejam objeto de dispersão geográfica. expressões particulares segundo os períodos históricos. ganha. a respectiva Região Metropolitana e seu entorno. mercado e território.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL momento. as tendências concentradoras atingiam número maior de variáveis. A nova divisão do trabalho territorial atinge. ao longo de sua história territorial. A comercialização tende a se concentrar. ligadas ao processo direto da produção. mas a integração territorial é. mas segmentado. Um terceiro momento é quando um mercado único nacional se constitui. as tendências à dispersão começam a se impor e atingem parcela cada vez mais importante dos fatores. há reforços pela formação de um mercado único. todavia. a desconcentração da produção moderna. uma difusão social e geográfica do consumo em suas diversas modalidades e. todavia. distribuídos em áreas mais vastas e lugares mais numerosos. Pode-se dizer. praticamente. ou ainda melhor. são. nacionais e estrangeiras. também. economicamente e geograficamente. As novas formas de um trabalho intelectual mais sofisticado. a integração do espaço brasileiro e a modernização capitalista ensejam. em primeiro lugar. Recentemente. único e diferenciado. de que dependem a concepção e o controle da produção. no nível nacional e estadual ou regional. posteriormente. ainda que outras formas de trabalho intelectual. um mercado hierarquizado e articulado pelas firmas hegemônicas. que. limitada ao Sudeste e ao Sul. presentes somente em poucos pontos do espaço. no caso do Brasil. Um não se entende sem o outro. são sinônimos. Com o fim da segunda guerra mundial. há um movimento de concentração das formas de intercâmbio. onde a acumulação de atividades intelectuais ligadas à nova modernidade assegura a possibilidade de criação de numerosas atividades produtivas 59 . que é um mercado único. concentradas. atribuindo novas funções às cidades de todos os tamanhos. E o quarto momento é quando conhece um ajustamento: primeiro à expansão e. Não é demais lembrar que mercado e espaço. privilegiando a cidade de São Paulo. O movimento de concentração-dispersão. ainda que a pobreza persistente da população assegure a permanência de pequenos comércios e serviços.

nodal ou não. de modo dialético.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO de ponta. uma vez mais. todavia faltavam as condições de instantaneidade e de simultaneidade que somente hoje se verificam. Digamos que o núcleo migrava. graças a uma seletividade ainda maior no uso das novas condições de realização da vida social. cada vez mais no período atual. ao longo do tempo. como metrópole irrecusável para todo o território brasileiro. temos tempos subalternos e diferenciados. São Paulo fica presente em todo o território brasileiro. Antes. Agora. sem dúvida. ao contrário do que muitos foram levados a imaginar e a escrever. mas do tempo social. parte considerável de sua operação depende de outras variáveis geograficamente concentradas. mas o fazia com defasagens e perdas. ambos esses fatos garantindo-lhe preeminência em relação às demais áreas e lhe atribuindo. A definição do lugar é. Atividades modernas presentes em diversos pontos do País necessitam de se apoiar em São Paulo para um número crescente de tarefas. Mas. O que há é uma verdadeira multiplicação do tempo. de modo complementar e contraditório. Em cada outro ponto. com dispersão das mensagens e ordens. o espaço se tornava mais e mais unificado e mais fluido. A simultaneidade entre os lugares não é mais apenas a do tempo físico. para o campo e para a periferia. mesmo. por isso mesmo. Se. É desse modo que São Paulo se impõe como metrópole onipresente e. nem este se apaga. Dispersão e concentração dãose. a metrópole estava presente em diversas partes do País. graças a esses novos nexos. lugares funcionais da metrópole. na sociedade informatizada atual nem o espaço se dissolve. paralelamente. através das metrópoles. E. Os lugares seriam. a de um lugar funcional à sociedade como um todo. dos momentos da vida social. por causa de uma hierarquização do tempo social. marcados por dominâncias 60 . geradores de fluxos de informação indispensáveis ao trabalho produtivo. Se muitas variáveis modernas se difundem amplamente sobre o território. da rede urbana ou do espaço. e no mesmo momento. todas as localizações tornam-se funcionalmente centrais. tempo do relógio. novas condições de polarização. abrindo lugar apenas para o tempo. a metrópole está presente em toda parte. e ao mesmo tempo. Mas o tempo que está em todos os lugares é o tempo do Estado e o tempo das multinacionais e das grandes empresas. por isso mesmo.

Nenhuma dispõe da mesma quantidade e qualidade de informações que a metrópole. como precedentemente colocadas. são vividos por cada lugar. com base em diferenciação muitas vezes maior do que ontem. cada qual desses lugares é hierarquicamente subordinado. Antes. Porque as defasagens são diferentes para as diversas variáveis ou fatores é que os lugares são diversos. Rio Claro. diante de nós. assim.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL específicas. ultrapassadas. Nenhuma cidade. a metrópole está presente em toda parte.1987. condição. além da metrópole. pois. e um novo obstáculo a uma inter-relação mais frutuosa entre aglomerações do mesmo nível. assim. n. na maior parte das vezes. capazes de manipulação da informação. uma nova realidade do sistema urbano.. p. Trata-se. Temos. Boletim de Geografia Teorética. Cordeiro1. Esta é a grande cidade cuja força essencial deriva do poder de controle. Informações virtualmente de igual valor em toda a rede urbana não estão igualmente disponíveis em termos de tempo. Helena K. Está aí o novo princípio da hierarquia.. de verdadeira “dissolução da metrópole”. Trata-se de fato novo. 61 . e. hierarquia com nova qualidade. em suas diversas etapas. 1 CORDEIRO. agora. sobre a economia e o território. Com isso. e a das regiões polarizadas. Porque há defasagens. como a descentralização era diacrônica: hoje a instantaneidade é socialmente sincrônica. 31-34. no mesmo momento. anos 16-17. aliás. Os momentos que. Os principais pontos de controle da economia transacional no espaço brasileiro. no mesmo tempo do relógio. nova hierarquia se impõe entre lugares. pela hierarquia das informações. completamente diferente da metrópole industrial. Sua inserção no sistema mais global de informações de que depende seu próprio significado depende da metrópole. sofrem defasagens e se submetem a hierarquias (em relação ao emissor e controlador dos fluxos diversos). nela sediadas. do funcionamento da sociedade econômica e da sociedade política. instantaneamente. ficam. As questões de centro-periferia. o fenômeno da “metrópole transacional” de que fala Helena K. a metrópole não apenas não chegava ao mesmo tempo em todos os lugares. entre os diversos pontos do território. “chega” a outra cidade com a mesma celeridade. Hoje. da qual necessitam para o exercício do processo produtivo. de atividades hegemônicas. 153-196.

por causa de suas atividades quaternárias de criação e controle. O papel de comando é devido a essas forças superiores de produção não-material. o que traz como conseqüência. (Mimeogr. tem. Sérgio. espaço onde os fluxos de matéria desenhavam o esqueleto do sistema urbano2. Prova de que sua força não depende da indústria é que aumenta seu poder organizador ao mesmo tempo em que se nota uma desconcentração da atividade fabril. Retomemos o exemplo. tão diferentes da produção industrial. Nas condições de passagem de uma fase a outra. em Manaus trinta dias depois. uma vez que as grandes firmas que controlam a informação 2 Ainda que o peso da atividade industrial seja muito expressivo na aglomeração paulistana. uma espécie de segmentação do mercado enquanto território e uma segmentação vertical do território enquanto mercado. No passado. Sérgio. elas próprias sendo conseqüência da integração crescente do País a novas condições da vida internacional.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO O dado organizacional é o espaço de fluxos estruturadores do território e não mais. A informatização e o processo urbano no Brasil. uma vez que os diversos agentes sociais e econômicos não utilizam o território de forma igual. de modo figurativo. Foi a partir dessa base que a capital industrial se transformou em capital informacional acumulando em períodos consecutivos papel metropolitano crescente. In: Relatório de pesquisa para a Finep. como na fase anterior. ao mesmo tempo e imediatamente. em Salvador três dias depois. mas já não é a mesma metrópole. São Paulo hoje está presente em todos os pontos do território informatizado brasileiro3. No caso brasileiro. vale a pena insistir sobre essa diferença pois em ambos os momentos a metrópole é a mesma: São Paulo. 1988. não é essa função metropolitana que atualmente assegura a São Paulo papel diretor na dinâmica espacial brasileira. pelos seus vetores hegemônicos.. somente a metrópole industrial tem condições para instalar novas condições de comando. entre outras coisas. GERTEL. em Belém dez dias depois. São Paulo sempre esteve presente no País todo: presente no Rio um dia depois. capaz. de desorganizar e reorganizar.). O locus dessas atividades privilegiadas. se a compararmos com o resto do País. ao seu talento e em seu proveito. A metrópole informacional assenta sobre a metrópole industrial. In: COLÓQUIO DE GEOGRAFIA BRASILARGENTINA-URUGUAI. as atividades periféricas e impondo novas questões para o processo de desenvolvimento regional. set. 1986. beneficiando-se dessas precondições para mudar qualitativamente. Isso representa um desafio às planificações regionais. Universidade de São Paulo.. ao mesmo tempo. Esse papel é. 62 . 3 Ver GERTEL. pois agora são os fluxos de informação que hierarquizam o sistema urbano. todavia. muito que ver com o fato de que essa mesma aglomeração paulistana era e continua sendo um centro importante de uma atividade fabril complexa. O Computador no território brasileiro. O fato é que estamos diante do fenômeno de uma metrópole onipresente. praticamente sem competidor no País.

e somente elas podem realizar a negentropia. A participação do Rio de Janeiro na indústria brasileira apresenta uma redução mais intensa e também mais antiga. O fato de que a força nova das grandes firmas. somada ao Rio de Janeiro. O Processo de Industrialização e as Tendências Atuais da Localização da Indústria no Brasil O processo de industrialização brasileira gerou uma profunda concentração espacial. Em 1960. Milton. A urbanização brasileira. 89-93. Entretanto. Bahia. que esteja não apenas a serviço do econômico. A isenção fiscal oferecida pelos governos estaduais assim como as diferenças regionais de custos da mão-de-obra – significativamente menores nos estados do Nordeste – ajudam a entender esta tendência recente. Santa Catarina. o predomínio paulista no Setor Secundário nacional – cujas raízes encontram-se na etapa inicial da industrialização. Em 1920. ed. O Estado de São Paulo concentra pouco menos que a metade do valor total da produção industrial do país. manifesta no intenso crescimento da produção em estados como Paraná. p. [SANTOS. Amazonas e Ceará. O espaço é assim desorganizado e reorganizado a partir dos mesmos pólos dinâmicos. a antiga Guanabara. quando a 63 . A indústria da Região Sudeste é responsável por quase dois terços da força de trabalho e mais de dois terços do valor da produção.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL e a redistribuem ao seu talante têm papel entrópico em relação às demais áreas. As regiões Sul e Nordeste aparecem muito atrás. nas últimas décadas. 1994. Apesar dela. neste período científico-técnico.] 4. São Paulo: Hucitec. tinha quase 30% do valor da produção. ocorrida no interior da economia cafeeira exportadora – ainda é marcante. traga como conseqüência uma segmentação vertical do território supõe que se redescubram mecanismos capazes de levar a uma nova horizontalização das relações. 2. mas também do social. enquanto as regiões Norte e Centro-Oeste apresentam uma participação apenas marginal no Setor Secundário do país. observa-se uma tendência incipiente de desconcentração industrial.

ao longo dos bairros 64 . atraindo capitais e empresários. abrangendo o leste do Estado de São Paulo. O fluxo imigratório orientado inicialmente para o café gerou uma classe operária numerosa. A cidade de São Paulo transformou-se no principal pólo industrial do país já nas primeiras décadas do século.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO capital foi transferida para Brasília. fabricação de bens de consumo e de bens de produção. encontra-se um complexo heterogêneo de atividades secundárias que envolve indústrias modernas e tradicionais. no nó de ligação entre o leque de ferrovias que se abria para o oeste cafeeiro e o porto de Santos. calçados. nessa região. predominaram as fábricas de bens de consumo não-duráveis (têxteis. a participação fluminense já tinha caído para 16%. em grande parte. e hoje ela não chega a 10%. Mas. No interior dessa área. São Paulo encontrava-se em situação geográfica estratégica. A redução da participação de São Paulo e do Rio de Janeiro explica a diminuição da participação geral do Sudeste. O espaço industrial da Região Sudeste O triângulo Rio-São Paulo-Belo Horizonte é o grande pólo industrial do país. constituída por trabalhadores italianos e espanhóis. o sul de Minas Gerais. As primeiras áreas industriais situaram-se junto aos eixos ferroviários que ligavam a cidade ao Rio de Janeiro (E. até Vitória. desde logo. vestuário. A economia cafeeira de exportação gerou as condições para o arranque industrial da cidade. O crescimento econômico do interior abria vastos mercados consumidores para os manufaturados que começavam a ser fabricados na capital. ocorre significativo crescimento da participação de Minas Gerais no Setor Secundário nacional. o centro dos negócios de exportação e importação e das atividades bancárias. à concentração de siderúrgicas de grande porte no Vale do Aço e à formação de importantes distritos industriais nos arredores de Belo Horizonte. Esse crescimento deve-se. bebidas e alimentos). F. o Rio de Janeiro e avançando por todo o sul do Espírito Santo. Central do Brasil). A capital tornou-se. Nesse primeiro surto industrialista. além das pequenas metalúrgicas e químicas.

Brás e Moóca. tanto quanto à absorção da força de trabalho como quanto ao valor da produção. No início do século. atraindo as novas fábricas que se implantavam. que por muito tempo se fundamentou na agricultura e na agroindústria. e junto aos trilhos da Sorocabana. Sorocaba. São José dos Campos. Santos e Cubatão – gerou mercados consumidores e reuniu força de trabalho para o deslanche da industrialização. Os eixos rodoviários substituíram as linhas de trem. Com elas. uma significativa aglomeração industrial foi criada no município de Guarulhos. O caráter terciário da metrópole é cada vez mais evidente. mais tarde. na direção da Baixada Santista. o espaço paulista vem conhecendo um processo de dispersão industrial. na direção do Rio de Janeiro. Ribeirão Preto. Nas últimas décadas. envolvendo particularmente os municípios de Osasco e Carapicuíba. São Bernardo do Campo. O chamado ABCD transformou-se na maior aglomeração industrial da América Latina e no berço do principal pólo do movimento sindical brasileiro.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL do Belenzinho. No eixo da Via Dutra. também surgiu uma região fabril. a cidade era a capital do país e abrigava 65 . na Lapa. Ao longo do eixo da Via Anchieta. Entre os eixos das vias Raposo Tavares e Castelo Branco. No pós-guerra. O crescimento dos núcleos urbanos regionais – como Campinas. a indústria transbordou os limites do município da capital e surgiram centros industriais de grande porte nos municípios vizinhos. Esse processo é conseqüência da expansão econômica do interior paulista. as indústrias químicas. A implantação de infra-estruturas energéticas e vias de transporte modernas criou novas localizações favoráveis para as indústrias. São Caetano do Sul e Diadema passaram a abrigar as grandes montadoras automobilísticas implantadas no governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961). A desconcentração industrial no Estado de São Paulo reflete também a tendência ao deslocamento de novas empresas para fora das localizações metropolitanas. instalaram-se as fábricas de autopeças e as metalúrgicas e. o crescimento industrial foi impulsionado por fatores históricos diferentes. O interior do estado apresenta um crescimento industrial muito maior que a metrópole. os municípios de Santo André. No Rio de Janeiro.

A industrialização do Rio de Janeiro apoiou-se na dimensão do mercado consumidor formado pela aglomeração urbana e nos atrativos oferecidos pela presença dos órgãos de governo e empresas estatais. As linhas férreas definiram regiões industriais na zona norte da cidade. durante as décadas de 1960 e 1970. inúmeras cidades polarizadas por São José dos Campos e Taubaté transformaramse em núcleos industriais. F. situada no eixo da Via Dutra e da E. na parte fluminense do Vale. que tinha sido em meados do século XIX o foco das plantações cafeeiras escravistas e vivera depois uma profunda decadência. em cidades como Petrópolis. a CSN. os municípios da região tornaram-se localizações privilegiadas 66 . No Vale do Paraíba paulista. na orla litorânea. O sinal pioneiro da industrialização do Vale foi a implantação da primeira siderúrgica estatal. Teresópolis e Nova Friburgo. Situados no caminho que liga os principais mercados consumidores do país.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO o maior porto marítimo nacional. a CSN impulsionou o aparecimento de estabelecimentos metalúrgicos. A formação das metrópoles de São Paulo e do Rio de Janeiro estimulou a expansão industrial no Vale do Paraíba. Duque de Caxias. os municípios da Baixada Fluminense. iniciada em 1941. Essa região desenvolveu-se como um tradicional centro têxtil. Outra destacada concentração industrial fluminense localiza-se na Zona Serrana. Em Volta Redonda e Barra Mansa. é um pólo químico organizado em torno da REDUC. Contava com mais de 1 milhão de habitantes. Mais tarde. Duque de Caxias. enquanto a zona sul. na Grande Rio – como Nova Iguaçu. abrigava os bairros residenciais de alta renda. São João do Meriti e Nilópolis –. Central do Brasil. e contando com farto abastecimento de água. Mas não polarizava uma economia de exportação com o dinamismo das plantações cafeeiras paulistas. que conquistou parcelas expressivas do mercado nacional. com cerca de 700 mil habitantes. transformaramse em importantes distritos industriais. junto à rodovia e à ferrovia. O processo de expansão espacial da indústria seguiu uma trajetória similar à de São Paulo. com mais de 1 milhão de habitantes. enquanto São Paulo não ultrapassava os 100 mil. é a maior aglomeração industrial da periferia do Rio. Nova Iguaçu. o que determinou um crescimento industrial muito menos vigoroso.

Sua origem está ligada a um projeto estratégico das elites mineiras. como cidade planejada. primeira montadora transnacional situada fora do Estado de São Paulo. Décadas depois. instalou-se no final da década de 1970 a Fiat Automóveis. a implantação da Cia. destinada a garantir a instalação de um vasto parque siderúrgico estatal no estado. Siderúrgica Belgo-Mineira. destinado a reverter o processo de decadência econômica de Minas Gerais. com cerca de 400 mil habitantes. as elites mineiras direcionaram a sua atenção para o desenvolvimento industrial do estado. é o principal desses núcleos. A produção industrial do Nordeste concentra-se em torno das metrópoles regionais (Salvador. vultosos investimentos estatais resultaram na criação de outras usinas gigantescas e na transformação do “Vale do Aço” na maior concentração siderúrgica do país. Em Betim. abrigando um importante parque metalúrgico e químico. marcada pela predominância de ramos tradicionais. Após a Revolução de 1930. abriu a via de industrialização das cidades do Alto Vale do Rio Doce. Outras concentrações industriais Na Região Sul. Antes da Segunda Guerra. com a formação de núcleos fabris modernos e diversificados nos municípios da Região Metropolitana. transnacional. No Norte. Belo Horizonte nasceu em 1897. A luta pela implantação da siderurgia de grande porte envolveu a valorização das vastas reservas de minérios de ferro e manganês do chamado Quadrilátero Central. estende-se uma importante região industrial. As políticas de concessão de incentivos para o capital privado resultaram na vigorosa industrialização dos arredores de Belo Horizonte. Contagem. a mais expressiva concentração industrial corresponde à Zona Franca de Manaus. Essa nova orientação materializouse por meio da concessão de incentivos diversos para a atração de investimentos industriais privados e também por uma pressão permanente sobre o governo central. 67 .A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL para estabelecimentos ligados à produção de bens intermediários e bens de consumo duráveis. de Porto Alegre a Curitiba. Recife e Fortaleza).

onde o município de Canoas se destaca como pólo metalúrgico. estabeleceram-se fabricantes de artigos de couro e calçados. artigos de couro e calçados. O importante ramo de madeira e mobiliário do Paraná. O complexo têxtil dessa área. Um empresariado regional apareceu nas áreas coloniais. A presença de mão-de-obra abundante e barata representa incentivo suplementar. Outro exemplo de expansão de uma indústria local é oferecido pelos estabelecimentos vinícolas da Serra Gaúcha. Nas cidades gaúchas de colonização alemã próximas a Porto Alegre. desenvolveram-se fábricas têxteis. implantados nas cidades de Caxias do Sul e Bento Gonçalves. O segundo caracterizase pelo predomínio de fábricas de bens de consumo duráveis atraídas pelos incentivos da Sudene. Blumenau e Brusque. de louças e brinquedos. Entretanto. Na Região Nordeste. cresceu e conquistou o mercado nacional. 68 . como também com a agroindústria de óleos vegetais disseminada pelas principais cidades do interior da região e. estabelecido em Curitiba e Ponta Grossa. em cidades como Joinville. é outra ilustração desse processo. como Novo Hamburgo e São Leopoldo. O primeiro gira em torno da Refinaria Landulfo Alves que gera matérias-primas para empresas petroquímicas e químicas estatais. O fluxo imigratório que formou zonas de colonização alemãs.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO A expansão industrial do Sul apoiou-se fortemente em fatores regionais. com os frigoríficos e indústrias de fumo do Rio Grande do Sul. Uma característica do modelo industrial do Sul é o predomínio das indústrias dependentes de matérias-primas vegetais e agropecuárias. privadas e transnacionais. ainda. É o que ocorre não só com a fabricação de vinhos. químico e de material elétrico. a indústria moderna é produto do planejamento governamental. essa estratégia industrializante se manifestou com o surgimento do pólo petroquímico de Camaçari e do distrito industrial de Aratu. inicialmente rudimentar. a principal concentração industrial complexa e diversificada do Sul localiza-se na Grande Porto Alegre. italianas e eslavas trouxe artífices e elementos qualificados. Em Salvador. cujos alicerces repousam sobre os incentivos fiscais fornecidos pela Sudene e na implantação de um setor hidrelétrico de porte na Bacia do São Francisco. Lá. O Vale do Itajaí ilustra esse modelo de industrialização.

A ênfase nas indústrias de alta capitalização – de bens intermediários e de bens de consumo duráveis – resultou numa absorção de mão-de-obra relativamente baixa. em Sergipe e Pernambuco. Verifica-se uma tendência similar no setor calçadista. Nesse caso. A Zona Franca de Manaus nasceu em 1967. vinculada ao Ministério do Interior. a CSN e o Grupo Vicunha – já solidamente implantado no estado – para a implantação da Companhia Siderúrgica do Ceará. aliada ao baixo custo da mão- 69 . significativamente menor do que nas regiões industriais do Centro-Sul.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL Na Grande Recife. pouco contribuindo para elevar os níveis de vida e emprego da população das metrópoles regionais. Cabo e Paulista. por exemplo. A isenção total de impostos sobre importação de máquinas. A estratégia de modernização industrial do Nordeste apoiou-se na idéia de transferência de capitais externos à região. e. o processo de industrialização vem ganhando novos contornos. em menor escala. é tributário da conjunção dos mecanismos de incentivos fiscais e do custo da mão-de-obra. também marcados pelo predomínio das indústrias de bens de consumo duráveis e dos capitais oriundos do Centro-Sul. No Ceará. através da isenção fiscal e dos mais diversos investimentos em infra-estrutura de transportes tem sido decisivo. O crescimento do setor têxtil no Rio Grande do Norte e no Ceará. Ao contrário do que ocorreu com grande parte das indústrias de tecelagem e confecção que operam no Centro-Sul. A modernização da infraestrutura regional e mecanismos de isenção fiscal estão na base do novo ciclo industrializante que caracteriza a região. estado nordestino que experimentou os maiores índices de crescimento econômico na primeira metade da década de 1990. sob a supervisão da Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus). em Pecém. matérias-primas e componentes e sobre exportação de mercadorias. as filiais nordestinas de empresas tais como a Vicunha e a Alpargatas continuaram ampliando as suas vendas depois da abertura das importações. o apoio do governo estadual. no contexto da abertura econômica. os incentivos fiscais geraram os distritos de Jaboatão. Na última década. e os projetos de transformar a futura siderúrgica em fator de atração para montadoras de automóveis e indústrias de autopeças. como indica a recente formação de um consórcio entre a CVRD. as estratégias industriais não se restringem ao setor de bens de consumo.

a Zona Franca representava 75% do PIB de todo o estado e gerava mais de 120 mil empregos diretos e indiretos. 70 . extraído dos ensaios que integram a obra Desigualdades regionais e desenvolvimento.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO de-obra local. A política recente de abertura da economia nacional e redução das tarifas de importação coloca em risco a continuidade de seu desenvolvimento. A existência de variados mecanismos de incentivos estaduais e regionais e uma ampla fronteira de recursos naturais. Grande parte da produção de eletrodomésticos do país concentrava-se na capital do Amazonas. Assim. As empresas eletroeletrônicas dominam o parque industrial da Zona Franca. sendo 549 localizadas em Manaus. deveria atrair grandes empresas transnacionais e nacionais para a fabricação de bens de consumo duráveis na região.8% em 1985. com grande ênfase em indústria de bens intermediários. apoiada no avanço da infra-estrutura. Em 1987. baseou. Os mercados consumidores são extra-regionais: a produção destina-se ao consumo nacional e internacional. e de bens duráveis de consumo. vindo em seguida as mecânicas e as de material de transporte.se fundamentalmente no padrão industrial e tecnológico anterior. Texto 1 – Reestruturação Produtiva e Mudanças Tecnológicas O crescimento industrial ocorrido na fase conhecida como “milagre econômico”. Clélio Campolina Diniz e Fabiana Borges Teixeira dos Santos analisam o impacto da emergência de novas tecnologias produtivas na geografia industrial da Região Sudeste no Brasil. Texto Complementar No texto abaixo. a partir do final da década de 1960 e durante a de 1970. destacando as estratégias locacionais das indústrias modernas e apresentando os principais pólos tecnológicos do Estado de São Paulo.3% em 1970 para 1. A participação do estado na produção industrial brasileira saltou de 0. o processo de industrialização da área é nitidamente artificial. o Estado do Amazonas saltou de 145 indústrias em 1967 para 800 em 1977. praticamente não se utiliza matérias-primas regionais. Devido à Zona Franca. Os capitais dominantes são transnacionais. altamente intensivas em recursos naturais.

Assim. embora não necessariamente nas velhas e tradicionais áreas industriais2. Mudança tecnológica e desenvolvimento regional nos anos 90. essas atividades tendem a reforçar os processos aglomerativos. se fez com grandes transformações estruturais e tecnológicas. Boston: Allen & Unwin. relações interindustriais articuladas geograficamente e facilidade de acesso1. work. Boston: Allen & Unwin. High Tech America: the what. (ed. ao contrário. STORPER. as mudanças tecnológicas em curso induzem à expansão os setores que estão fortemente sustentados na ciência e na técnica. M. especialmente com a incorporação produtiva dos cerrados. recriando os distritos industriais. 1 Ver MARKUSEN. 3 Negri e Pacheco questionam esse argumento. porque as novas indústrias tenderiam a se localizar na área mais desenvolvida do País. Ver NEGRI. Por outro lado. O movimento migratório e os serviços tenderam a acompanhar o crescimento industrial e agropecuário.). seguramente. 71 . embora mantendo-se a desconcentração relativa da área metropolitana de São Paulo3. 2 Ver SCOTT. especialmente no grande eixo que vai da região central de Minas Gerais até o nordeste do Rio Grande do Sul. Aj. acredita-se que a reestruturação produtiva teria um efeito reconcentrador das atividades industriais. 1993. Production. where and why of the sunrises industries. Campinas: Unicamp. (Mimeogr. ocorreu também o movimento da fronteira em sentido ao Centro-Oeste. now. As transformações estruturais em curso alterarão. O crescimento agropecuário. o sentido regional do desenvolvimento econômico brasileiro. No caso do Brasil. é fortemente influenciada pela existência de centros de pesquisa e ensino. Ann et alli. Nesse sentido. como demonstra a experiência mundial. O processo de reestruturação industrial no contexto internacional e a abertura da economia pressionam a indústria brasileira a realizar mudanças tecnológicas e organizacionais que permitam ganhos de produtividade capazes de prepará-las para enfrentar a competição internacional. A localização dessas atividades. Carlos Américo. ao lado do grande crescimento da produção de grãos nos estados do Sul do Brasil. alegando que o processo de desconcentração atinge a maioria das regiões brasileiras.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL propiciaram um processo de desconcentração para várias regiões e estados brasileiros.).1986. BARJAS e PACHECO. reduzindo a demanda por recursos naturais. territory: the geographical anatomy of industrial capitalism. mercado de trabalho profissional.. 1986.

em 1987. São Carlos e Araraquara. Pólos. Piracicaba. mais de 200 mil empregos industriais. especialmente em Campinas e São Carlos. criado em 1927. transformando Campinas. a Companhia de Desenvolvimento Tecnológico (Codetec). criado em 1887. Negri e Pacheco. parques e incubadoras: a busca da modernização e da competitivídade. Constituída por uma rede de cidades de porte médio. Jorge Ruben Biton. e no parque industrial já existente. 19935. cujo conjunto já alcançava. Os pólos tecnológicos no Estado de São Paulo: uma avaliação crítica. Além de um parque industrial diversificado e com a presença de um grande número de filiais de empresas multinacionais. Levantamentos realizados por Medeiros et alii4 indicam a existência de 15 cidades com alguma experiência em pólos tecnológicos. incluindo as cidades de Campinas e seus satélites. as mais bem-sucedidas são as localizadas no Estado de São Paulo. em 1976. Dessas experiências. São Carlos e São José dos Campos. 4 MEDEIROS. no mais importante centro de ensino e pesquisa do País. parte das novas indústrias. José Avelino et alli. onde estariam sendo aglomeradas indústrias modernas. criado em 1969 – a criação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) veio reforçar e redefinir a posição da cidade como centro de ensino e pesquisa. em 1985. o Laboratório Nacional de Luz Sincroton (LNLS). Baseada nessas condições. a região de Campinas vem-se transformando na mais importante nova região industrial do País.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Assim. embora mais recentemente tenham sido feitas avaliações pessimistas com relação a esses casos (Tapia. do Instituto de Tecnologia de Alimentos. 5 TAPIA. Posteriormente. 1992. Brasília: CNPq. 1993).]. vem ganhando importância a experiência dos novos distritos industriais. O papel da Unicamp como uma universidade especializada em pósgraduação foi vital para que a Telebrás decidisse pela instalação do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento (CPqD) naquela cidade. Rio Claro. foram criados o Centro Tecnológico para Informática (CTI). 72 . Campinas. em 1984. SENAI. com ênfase em indústrias baseadas em modernas tecnologias. Limeira. Americana.n. especialmente em Campinas. Além da história de pesquisa na cidade – em virtude do Instituto Agronômico de Campinas. talvez. [s. 1993. O caso de Campinas é singular. do Instituto Biológico de Defesa Agrícola e Animal. IBICT. em 1976. além da proximidade geográfica com a área metropolitana de São Paulo. estabeleceu-se um corredor industrial entre Campinas e Araraquara.

1993). que. Clélio Campolina. sede de várias grandes empresas multinacionais que ali encontraram uma alternativa locacional em razão da sua localização no eixo Rio-São Paulo. articulada com as instituições de pesquisa e ensino da região. Tapia. em 1969. 19936. RAZAVI. Apesar das críticas aos resultados dessas experiências. especialmente dos Estados Unidos. a exemplo da metalomecânica. (Mimeogr. da sua proximidade ao Porto de São Sebastião e do clima ameno das montanhas de Campos de Jordão. aquela região certamente se transformará na mais atraente alternativa locacional para vários segmentos das indústrias de alta tecnologia. no início da década de 1960 foi criado o Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE). apontando o limite do seu crescimento (Tapia.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL pode ser considerada de tecnologia moderna. que transformou São José dos Campos em uma das cidades mais avançadas no ensino de engenharia do País. Outro caso que merece destaque é São José dos Campos. Além das instituições de pesquisa ligadas ao setor militar.] 1993. 1993) (. como indica a maioria das análises sobre a região (Diniz e Razavi. algumas surgidas como spin-off daquelas instituições.. foi instalado na cidade um conjunto de atividades industriais. continuando a crescer até 1987. contra a exportação de armas pelo Brasil.). colocaram a nova indústria de São José dos Campos em profunda crise conjuntural e estrutural. além das pesquisas correspondentes. 73 . especialmente na linha de armamentos. 6 DINIZ. A cidade possui ainda a sede do Centro Técnico Aeroespacial (CTA). Negri e Pacheco. aliado à queda da demanda de aeronaves. Mohamadi. instalada na década dos 40.). Caso o Brasil consiga retomar o crescimento. o fim da Guerra Fria. 1993. As pesquisas do CTA e de seus institutos coligados desembocaram na criação da Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer). Emergence of a new industrial districts in Brazil: São José dos Campos and Campinas Cases. Esse fato permitiu que o emprego industrial em São José dos Campos subisse de 17 mil para 48 mil entre 1970 e 1980. Com base nas instituições de ensino e pesquisa locais. os efeitos do fim da Guerra Irã-Iraque e da Guerra do Golfo e as pressões políticas internacionais. [s.I.. além da expansão de setores já consolidados. ligado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). No entanto. novas iniciativas deverão surgir nessas cidades. e a do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA). das facilidades da região. criou também os cursos de mestrado e doutorado em áreas afins.

Nesse sentido. acelerado após o término da Segunda Guerra Mundial. Em conseqüência. a economia rural tornou-se consumidora de mercadorias do setor industrial. Rui de Britto Álvares e SILVA. As culturas agrícolas que conheceram um maior desenvolvimento foram aquelas voltadas para a produção de insumos industriais. incorporando tratores. soja (indústria de óleos vegetais) e cana (indústria de açúcar e álcool combustível). agricultura brasileira está orientada pelo binômio industrialização-exportação. Sudeste: Heterogeneidade Estrutural e Perspectivas. ocorreu intensa liberação de trabalhadores. Clélio Campolina e TEIXEIRA DOS SANTOS. subordinou a agropecuária às necessidades do capital urbano-industrial.] 5. Além de fornecedora de insumos industriais. 1995. especialmente no Centro-Sul do país. A agricultura passou a funcionar como retaguarda do crescimento do setor industrial e financeiro. Esse mesmo processo de modernização implicou a crescente mecanização das atividades agrícolas. que não dispõem dos capitais necessários para o incremento da produtividade. A modernização da base técnica indica um processo de capitalização da agricultura que diferencia cada vez mais os produtores rurais empresariais dos produtores rurais familiares. arados mecânicos. p. em fornecedora de matérias-primas para as indústrias. fertilizantes e pesticidas. colhedeiras e semeadeiras. expelidos da agropecuária e forçados a 74 . adubos. A alta lucratividade da produção de insumos agroindustriais atraiu capitais e investimentos para culturas como as da laranja (indústria de cítricos). À medida que se voltava para as necessidades da economia urbana.). 212-215. a agricultura modernizava a sua base técnica. Desigualdades regionais e desenvolvimento. São Paulo: Fundap/UNESP. definindo novas funções para a economia rural. A economia rural transformou-se. O Processo de Modernização da Agricultura no Brasil e as suas Tendências Atuais O processo de modernização e industrialização da economia brasileira. Fabiana Borges. In: AFFONSO. antes de tudo. Pedro Luiz Barros (org.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO [DINIZ.

cerrados 75 . Nas zonas semi-áridas do Agreste. O desenvolvimento agrícola dessas áreas é reflexo do transbordamento da economia rural dos estados do Sul e de São Paulo. baseada no uso de pastagens naturais de campos. sul de Minas Gerais e Rio de Janeiro. organizada em torno de grandes propriedades e culturas tropicais. O mercado externo absorveu uma parcela considerável do aumento da produção agrícola de insumos industriais. dos mercados consumidores. no Centro-Sul do país. Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A faixa litorânea úmida do Nordeste constitui um espaço singular.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL procurar ocupação na indústria e nos serviços. Paraná. O Centro-Oeste e as franjas meridionais e orientais da Amazônia são espaços de expansão da agropecuária moderna e cada vez mais integrados aos mercados do Centro-Sul. a economia rural comportou-se como fonte de força de trabalho para a economia urbana. condiciona o desenvolvimento da produtividade das atividades agropecuárias: um pesado investimento na aquisição de terras exige lucros elevados para ser compensador. portanto. a laranja (vendida na forma de suco). marcado pelo predomínio da agricultura comercial tradicional. encontra-se um complexo econômico agropecuário moderno. predomina a pequena produção camponesa de tipo familiar. voltada para a produção de álcool e açúcar. Esse é o domínio da pecuária tradicional. Desse modo. vinculado às necessidades industriais e altamente dependente de fluxos financeiros. Nas áreas mais urbanizadas e industrializadas. em primeiro lugar. esse sistema de produção está combinado com a agroindústria canavieira. É por isso que a modernização agrícola se realiza. pois a proximidade dos mercados consumidores aumenta a concorrência pelo uso da terra. Em Pernambuco e Alagoas. a ligação entre a modernização da economia e a capitalização da agricultura se exprime através do preço da terra. Em São Paulo. O alto preço da terra. As terras distantes dos centros urbanos e industriais e. por sua vez. Produtos como a soja. o preço da terra agrícola é mais elevado. extensiva. apresentam preços muito menores. o fumo e as carnes de aves juntaram-se ao café como itens exportados de grande peso. No plano espacial.

mais afastadas do litoral.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO ou caatingas e numa baixa densidade de animais. O sistema das sesmarias. por sua vez. implica o aprofundamento da concentração da propriedade. Em 1850. mas controlam cerca de 45% da área agrícola. 76 . A luta pela terra A terra é o meio de produção fundamental na economia rural. A valorização da terra. A extinção do sistema de sesmarias. o latifundiário (sesmeiro). os estabelecimentos rurais com 1. determinando que a única via para o acesso à terra seria a compra. a introdução do trabalho livre na economia cafeeira assinalou um momento decisivo na evolução da estrutura fundiária brasileira. os estabelecimentos rurais com menos de 10 hectares somam mais de metade do total. A modernização da economia rural teve como conseqüência a valorização monetária da terra. realizou-se paralelamente ao englobamento dos sítios pelas fazendas. Já naquela época. que detinha vasta extensão de terras e geralmente empregava um contingente numeroso de escravos para a produção de gêneros tropicais exportáveis. originou uma expansão descontrolada do apossamento de terras. de outro. Nos vales dos rios e junto às estradas aparecem zonas de lavouras camponesas em pequenos estabelecimentos. No outro extremo. surgiam os dois personagens básicos da economia rural do país: de um lado.000 hectares ou mais representam pouco mais de 1% do total. que ocupava as terras devolutas. em 1822. com a expulsão dos camponeses pobres para as cidades ou para as fronteiras agrícolas. A concentração da propriedade da terra é um dos traços marcantes da economia rural brasileira. mas representam cerca de 2% área agrícola cadastrada no país. De acordo com os dados do Censo Agropecuário de 1995. a Lei de Terras veio frear esse processo. gerou esse padrão concentrador que se reproduziria ao longo da história do país. dedicandose à produção de subsistência e também a culturas alimentares consumidas nos latifúndios. por exemplo. A transformação da produção agrícola nas áreas mais prósperas do Centro-Sul. do século XVI. No século XIX. cujas origens remontam ao modelo de colonização aplicado ao território lusitano na América. o posseiro.

onde se estabeleceram migrantes provenientes da Região Sul. O processo cíclico de expansão das fronteiras agrícolas e concentração da estrutura fundiária gera conflitos permanentes e crescentes pela posse da terra.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL Os trabalhadores rurais expulsos das áreas agrícolas mais antigas funcionam como vanguarda de expansão das fronteiras da economia rural. em regiões distantes onde são abertas novas estradas e existem terras devolutas em abundância. Nessas áreas novas. Rondônia e Acre. o predomínio do pequeno estabelecimento camponês ficou praticamente restrito a certas regiões de Mato Grosso. Assim. Muitas vezes eles são precedidos pelos grileiros que. forjam títulos de propriedade de terras e expulsam os ocupantes. subornando funcionários governamentais e contratando jagunços e pistoleiros. ocorria um movimento inverso. Depois da instalação dos camponeses pobres. de reconcentração fundiária. o crescimento contínuo da área agrícola total se realiza através de ciclos de desconcentração e reconcentração da estrutura fundiária. a estrutura fundiária costuma exibir intensa fragmentação e a paisagem predominante é a dos sítios e roças familiares. Durante toda a década de 1970. Instalam-se. Nas fronteiras agrícolas amazônicas. a modernização agrícola em São Paulo (principalmente com a expansão canavieira) e no Paraná (com a expansão da soja) eliminava os sítios e expulsava os camponeses pobres. Ao mesmo tempo. os pequenos estabelecimentos aumentavam a sua participação na área total enquanto regredia a participação dos estabelecimentos maiores. a ocupação das franjas amazônicas (Maranhão. as fronteiras agrícolas assistem à chegada dos grandes proprietários. quando se intensificava a ocupação dos atuais estados de Goiás e Mato Grosso do Sul. Na década de 1960. Naquela fase. Pará e Tocantins) realizava-se através da expropriação dos posseiros e implantação de grandes estabelecimentos pecuaristas ou madeireiros. Tais 77 . como posseiros ou pequenos proprietários. Os conflitos entre grileiros e posseiros são os principais personagens da violência das regiões de fronteira. grileiros e fazendeiros são um único personagem. Outras vezes.

mas é preciso paciência para achá-los na França. É claro que o potencial 78 . basta examinar os fatos para perceber que o caminho seguido pelas nações mais desenvolvidas foi exatamente o inverso. A tal ponto que grandes fazendas e assalariados agrícolas são ótimos indicadores de subdesenvolvimento. e em suas excolônias. na Alemanha ou na Grã-Bretanha.” Muita gente pensa assim.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO conflitos vêm se avolumando nas últimas décadas. ainda são numerosos nas áreas próximas ao México. Assim. ainda que necessária por motivos éticos e democráticos”. Na América do Norte. Texto Complementar No texto reproduzido abaixo. publicado originalmente na revista Ciência Hoje. No Japão. do ponto de vista econômico-desenvolvimentista. configurando um panorama de uma guerra aberta no campo brasileiro. traça um diagnóstico da agricultura brasileira e defende novos rumos para a política agrária nacional. destacando a importância da produção familiar. mas sabe-se que o caminho do campo é o da grande empresa e do trabalho assalariado. Espanha ou Grécia. Talvez a maior parte da intelectualidade brasileira seja vítima desse engano. Em todas as agriculturas do Primeiro Mundo. mas tornam-se cada vez mais raros à medida que se sobe em direção ao Canadá. Os que vêem a agricultura patronal como o principal agente do desenvolvimento rural também costumam dizer que “a reforma agrária dos anos 90 será necessariamente anacrônica. é fácil encontrar ambos em Portugal. só com uma lupa é possível descobrir assalariados agrícolas. No entanto. a crença de que “o caminho do campo é o da grande empresa e do trabalho assalariado” só faz sentido se esse caminho for o do subdesenvolvimento. Na Europa. Texto 1 – Terra Dividida: Os Equívocos da Política Agrária É muito comum encontrar na grande imprensa afirmações como esta: “Claro que a distribuição de terra tem um papel a cumprir. o professor José Eli da Veiga do Departamento de Economia da Universidade de São Paulo analisa as especificidades do setor agrícola nas economias contemporâneas. a grande empresa e o trabalho assalariado tornaram-se apêndices de uma massa de estabelecimentos de médio porte tocados essencialmente pelo trabalho familiar.

aumentou bastante a possibilidade de um trabalhador rural ter acesso a um lote de terra que lhe garanta a subsistência básica (casa e comida).A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL impulsionador de uma reforma agrária no Brasil. Apesar da força do mito da superioridade da agricultura patronal. apenas 115 mil famí1ias (média de 5. Foi a reforma agrária que transferiu aos agricultores de Taiwan o equivalente a 13% do produto interno bruto de 1952 e aumentou em 33% a renda per capita dos agricultores da Coréia do Sul. e bem mais que isso se também tiver acesso a bens públicos essenciais (como educação e assistência técnica) e a linhas adequadas de crédito. Só é possível dizer que os programas oficiais de ‘colonização’ atingiram. No entanto. a saída encontrada pelos ‘excedentes populacionais” que teimavam em continuar no campo era migrar em direção à floresta amazônica para tentar formar uma posse. Na época da ditadura. o assentamento anual de algumas dezenas de milhares de ‘sem-terra’ valerá pouco se nada for feito para liberar o potencial econômico de pelo menos 2 milhões de agricultores familiares ‘com-terra’. Até o Banco Mundial reconhece hoje essa vantagem especial. O pior é que essa suposição é muito comum. inclusive entre os que falam e escrevem a favor da redução das desigualdades. não seria igual ao que teria sido no fim dos anos 50 ou na primeira metade dos anos 60. Ações pós-democratização Com a redemocratização. Ainda assim. Quantos conseguiram ninguém sabe. pensar que uma verdadeira reforma agrária já não teria importância econômica contraria a principal lição das reformas desse tipo bemsucedidas: nenhuma outra política governamental é tão redistributiva. E aos que resistiram não é oferecida formação profissional adequada aos desafios do século XXI. a política agrária ganhou tanta importância desde 1985.5 mil famílias por 79 . Dizer que “a reforma agrária será anacrônica do ponto de vista econômico-desenvolvimentista” só faz sentido para quem supõe que o Brasil pode se desenvolver sem uma drástica desconcentração da riqueza. Não por outra razão. neste final de milênio (se isso fosse possível). nos 20 anos de ditadura. a sociedade brasileira está aos poucos se dando conta de sua absurda ineficiência distributiva. Muitos dos melhores agricultores já deixaram o campo ou foram reduzidos a simples safristas. Até porque grande parte do capital humano da agricultura foi dilapidado ou destruído nos últimos 30 ou 40 anos.

MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO ano). que diminuía 0. desempenho que dará mais um grande salto se as metas do atual governo forem cumpridas (figura 1). de que cerca de 28. Mas há fortes indicações de que o processo começa a se esgotar nos anos 90. entre 1985 e 1994 quadruplicou a possibilidade de uma família sem-terra ser assentada.300 70. Mas o verdadeiro impacto dessa aceleração só pode ser estimado pela comparação dos dados de assentamento com os dados disponíveis sobre a estrutura agrária.600 280. Ou seja.1% ao ano entre 1992 e 1995. Figura 1. E.000 6. aumentou 0. antes de tudo.4 milhões de pessoas deixaram a área rural entre 1960 e 1980. os ocupados em atividades 80 . pois enquanto diminui o êxodo rural cresce a desocupação agrícola. Agricultores sem-terra assentados pelo governo brasileiro Período 1964-1984 1985-1989 1990-1992 1993-1994 1995-1998 Ditadura Governo Sarney Governo Collor Governo Itamar Metas gov. enquanto o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) atendeu pouco mais.000 Média Anual 5. atual N° de Famílias 115. que diminuía 0. A estimativa do demógrafo George Martine.4% ao ano entre 1992 e 1995. Número equivalente de famí1ias foi assentado só por governos estaduais nos primeiros 10 anos de redemocratização. pela comparação do número de famílias que está conseguindo terra com o número de famílias expulsas da atividade agrícola.1 % ao ano nos anos 80. É crescente a população rural não-agrícola.6% ao ano na década de 1980 e passou a diminuir apenas 0. Ao mesmo tempo. nas três últimas décadas. A população rural com 10 anos ou mais. algo próximo a 300 mil famílias por ano.000 12. O economista José Francisco Graziano da Silva destacou a mudança na taxa de redução da população rural. sugere que o êxodo envolveu.000 A combatividade do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra e sobretudo a simpatia que conquistou nas camadas médias urbanas tornaram quase certo que nos anos 90 o assentamento de famílias rurais sem-terra será fortemente acelerado.000 90.500 18.

2 a 2. totalizando 316 mil ocupados – ou seja.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL agrícolas.5 ocupados em cada família). Entre 1992 e 1995.5 milhões de famílias que trabalham por conta própria. No Japão. essa situação só se consolidou com as radicais reformas agrárias do pós-guerra. A agricultura familiar No século XXI. foi passageira. que cresciam 1. Nesse período. passaram a diminuir 0. O saldo positivo de 20 a 30 mil lotes. A ilusão. a agricultura familiar é predominante em todo o Primeiro Mundo. Na primeira metade do século XIX prevaleceu a opinião conservadora: as terras públicas eram vendidas 81 . 12 mil agricultores por conta própria e 24 mil não-remunerados. Desde o início do século XX as políticas adotadas em tais países favoreceram a progressiva afirmação da agricultura familiar. um perfil da estrutura agrária brasileira.1 % ao ano nos anos 80. de que a agricultura adotaria o modelo ‘fabril’ de organização produtiva. Mas nos demais países desenvolvidos as elites dirigentes não demoraram tanto para perceber as desvantagens econômicas e sociais da agricultura baseada no trabalho assalariado.9% ao ano entre 1992 e 1995. Se o atual governo conseguir assentar 70 mil famílias por ano. com área média em tomo de 7 ha. Esse número indica que estariam saindo da agricultura 40 a 50 mil famílias por ano. sem grande margem de erro. entre 126 mil e 158 mil famílias (supondo. na segunda metade do século XIX. É uma gota no oceano. como ocorreu na indústria britânica desde o final do século XVIII. em estimativa otimista. estará mais que compensando a desocupação estimada. as estatísticas indicam que deixaram essas atividades 280 mil empregados. Mas o que significa esse saldo positivo de 20 ou 30 mil famílias por ano em um universo de mais de 6 milhões de famílias? O que significa esse saldo positivo de 20 ou 30 mil lotes familiares de alguns poucos hectares (ha) em uma estrutura agrária na qual os 530 mil empregadores concentram mais de 75% das terras agrícolas? Apesar da pobreza das estatísticas disponíveis. Nos Estados Unidos. ficaram sem ocupações agrícolas assalariadas ou por conta própria cerca de 120 mil a 150 mil famílias. retiraria de 150 mil a 200 mil ha por ano dos 300 milhões de ha detidos por 500 mil fazendeiros e os acrescentaria aos 95 milhões de ha em posse das 3. pode-se montar. essa opção foi até anterior.

8 bilhões). no final do ciclo britânico (século XIX). Os restantes 19% (US$ 30. quando a rebelião dos estados sulistas deu maioria parlamentar ao jovem Partido Republicano. Ao contrário do que muitos pensam. o sistema agrícola brasileiro começou com o complexo cafeeiro. mundialmente popularizados pelos westerns. As vendas das sociedades de tipo familiar aumentaram. Ao contrário da aristocracia britânica. De 1870 a 1880 houve verdadeiro boom colonizador na linha MinnesotaDakota-Nebraska-Kansas. assim como o oeste do Kansas. em algumas áreas do oeste do Texas e até na Califórnia.4 bilhões). as ‘corporações’ são exceção. Mas aos poucos a atribuição de terras foi liberalizada. as atividades do setor não formavam 82 . que se livrou de seus domínios na Primeira Guerra.5 bilhões) vieram de formas societárias não classificadas como familiares ou patronais. a preços altos e pagas à vista. mesmo a tremenda evolução organizacional da agricultura daquele país ocorrida neste século não alterou de modo significativo seu caráter essencialmente familiar. pipocaram conflitos entre cowboys e sodbusters.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO em grandes glebas. Com a exceção do fluxo colonizador que ocupou o extremo sul até o sudoeste do Paraná. Imensos domínios foram comprados em leilões por muitos especuladores. Na última década do século. pois os melhores já haviam sido apropriados nos anos 1850. os senhores do leste preferiram impedir o acesso de suas populações rurais à propriedade da terra. Antes. surgiu a famosa Homestead Law. O último censo agropecuário. onde ficaram com os piores solos. que visava distribuir lotes de 160 acres a famílias de colonos. Assim. os assentamentos pioneiros já cobriam grande parte do oeste de Nebraska e do leste do Colorado. de 1992. o padrão agrário adotado no país teve características semelhantes às do leste europeu. revela que a participação destas nas vendas do setor é declinante – apenas 6% (US$ 9. Mas nada seguraria a multidão de sem-terra europeus que cruzou o Atlântico. Durante a Guerra Civil (1861-1865). Eles fixaram-se no noroeste. Na luta contra a grilagem dos barões de gado.9 bilhões). Já a tradicional agricultura familiar foi responsável por 54% da produção comercializada (US$ 87. chegando a 21 % (US$ 34. O Brasil é um dos exemplos mais chocantes da opção inversa: de desprezo e intolerância em relação à agricultura familiar. em processo doloroso e cheio de idas e vindas. A rigor. O caráter essencialmente familiar da agricultura norte-americana não parou de se afirmar.

no início da redemocratização. Pode-se dizer que mais da metade dos estabelecimentos agrícolas do país. E a escolha da cana-de-açúcar como única cultura do Proálcool também ajudou os grandes fazendeiros a avançarem sobre as terras da jovem agricultura familiar do Sudeste. revelou que a produção familiar resistiu à opção contrária das elites. Apesar de tudo. É fundamental examinar também os enormes contrastes regionais. No Nordeste. A migração como opção Durante os 20 anos de ditadura militar. É preciso enfatizar que esses quase 3 milhões de estabelecimentos familiares não tinham nada a ver com a idéia muito difundida de agricultura ‘de subsistência’. a opção da população rural excedente foi a migração. Houve amplo pacto para impedir o acesso à terra dos negros e dos imigrantes europeus e japoneses. por meio de incentivos fiscais. uma parte dos colonos pôde comprar lotes. Mas o imenso excedente populacional formado desde então passou a exercer forte pressão para ter acesso à terra. Os níveis médios de renda bruta das camadas mais representativas da agricultura familiar (em valores para todo o Brasil) estavam longe do que se poderia considerar uma agricultura ‘não-comercial’ . No entanto. as ligas camponesas nordestinas. reduzindo o alcance social da corrida ao Oeste. naquele ano. era flagrante o contraste entre a estrutura agropecuária brasileira e a experiência dos países que se desenvolveram durante o século XX. Isso fica bem claro quando se estima a renda monetária bruta dos estabelecimentos não-patronais (através da simples diferença entre receitas e despesas agropecuárias). a política oficial de ocupação favoreceu o surgimento de grandes fazendas de gado. apenas um quarto dos estabelecimentos não-patronais tinha níveis 83 . principalmente para regiões de fronteira. eram familiares. em meados dos anos 80. tirado em 1985. o último retrato da agricultura brasileira. junto com os movimentos de sem-terra sulistas. Assim. postos à venda por fazendeiros falidos. onde tentavam se fixar como posseiros. Só após a crise de 1929 e a longa depressão dela decorrente. O modo como as elites dirigentes aboliram a escravidão e importaram colonos para as lavouras de café teve o mesmo sentido histórico da ‘segunda servidão’ do leste europeu.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL um sistema. quase levaram o governo de João Goulart a optar pela agricultura familiar. No início dos anos 60.

destinados também à melhoria da qualidade de vida. Além de nova concepção para o financiamento da produção de agricultores familiares e suas organizações. quase metade (43%) da soja e 38% do café foram produzidos por imóveis ‘não-patronais’. à 84 . embora esse tipo de imóvel ocupasse apenas 34% da área agropecuária paulista e respondesse por apenas 33% do valor total da produção estadual. bem abaixo dos registrados nas outras regiões. que criou o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). Ou seja. Pode-se supor que essa relação seja ainda mais favorável no Brasil de hoje. apesar dos bons níveis de renda bruta. Basta dizer que até exportações de milho passam a ser competitivas. a extinção do ICMS sobre exportações pode ter um impacto imediato e muito efetivo na agricultura familiar. mesmo assim. O sociólogo Ricardo Abramovay mostrou que. a agricultura brasileira verá sua renda aumentar em até R$ 2. Nos Estados Unidos cada aumento de US$ 1 bilhão das exportações agrícolas gerava uns 30 mil novos empregos – quase a metade no próprio setor agrícola (dados de 1984). trata-se de uma estratégia de parceria entre eles. Segundo cálculos do economista Fernando Homem de Mello. Sinais de uma nova agenda Uma política agrícola específica para a agricultura familiar começou a emergir com o Decreto 1. estaduais e federal) e iniciativa privada na aplicação dos recursos. o caráter ‘comercial’ da agricultura familiar era mais evidente nas regiões Sul e Sudeste. de 28 de junho de 1996. publicados na revista Exame (11/9/96). em especial nos segmentos mais consolidados. em 1991. Não é mais uma simples diferenciação do crédito para ‘pequenos agricultores’. à adoção de tecnologia. Mais da metade (52%) do algodão. governos (municipais. foi bem alta a participação dos imóveis rurais ‘não-patronais’ no valor da produção de atividades sem dúvida comerciais. Para o Estado de São Paulo há dados bem mais recentes.946. situação antes impensável.5 bilhões ao ano até o final da década. ao aprimoramento profissional. Além disso. a agricultura familiar ainda revelava a incipiência natural da dinâmica da fronteira. Já no Norte e no Centro-Oeste.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO razoáveis de renda bruta e. o fim do imposto também elevou alguns preços pagos ao produtor. Por isso. O aumento das exportações ajudará a manter postos de trabalho. já que as indústrias precisam evitar que suas matérias-primas sejam vendidas no mercado externo.

imobiliárias. como reação à forte pressão pela preservação ambiental. Tal ambiente inclui (a) o ensino regular básico oferecido em escolas rurais. os governos federal e estaduais devem ter papel estritamente normativo. o programa recebeu R$ 1 bilhão. ser resumido a um mero ‘pacote’ acompanhado de receitas simples sobre o uso de insumos básicos. No domínio fundiário. fundiário e creditício. (b) a quase inexistente formação profissional e (c) as redes de extensão e/ou assistência técnica e suas relações com o sistema de pesquisa agropecuária. e o ambiente educacional hoje disponível para os agricultores não é capaz de acompanhar essa mudança. Mas o novo padrão não poderá. é importante favorecer a aquisição de terras por jovens agricultores familiares com boas perspectivas profissionais. que mal começou a ser implantado. profissionais liberais e outros) ou grandes fazendeiros. O padrão da ‘revolução verde’. No entanto. É muito comum que terras ofertadas por agricultores que mudam para outra região ou deixam a atividade (caso típico dos que se aposentam sem sucessores) sejam adquiridas por agentes não-agrícolas (comerciantes. desenvolver a agricultura familiar exigirá que o Pronaf seja aprofundado e ampliado em três domínios prioritários: educacional. No domínio educacional. Em 1996. Para que esse tipo de ordenamento agrário seja eficaz. e simultaneamente permitir diversas formas de planejamento e gestão sócio-ambiental do espaço agrário. está sendo substituído por outro. principalmente aos jovens. A sociedade ganharia mais se fosse aumentada a chance de transferir essas terras a agricultores familiares. que orientou a chamada ‘modernização conservadora’. com participação ativa das organizações civis 85 . Mas ele certamente pode abrir novas oportunidades de expansão e/ou reconversão produtiva para o maior número possível de imóveis familiares com chances de consolidação. É muito cedo para avaliar o Pronaf. As decisões operacionais devem ser tomadas em nível intermunicipal. É preciso reforçar o caráter ‘versátil’ da atividade agrícola. dos quais R$ 200 milhões para custeio e R$ 800 milhões para investimentos. sem qualquer oportunidade de compra pelos que mais precisam delas: os agricultores vizinhos.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL adequação e implantação de infra-estrutura e outros objetivos. como o antigo. no âmbito das políticas agrícolas e agrária. tendo como principal insumo o conhecimento. é necessário mudar o padrão tecnológico.

Isso significa financiar de forma direta o ‘desenvolvimento global integrado’ – ou seja.] 6. Terra dividida – os equívocos da política agrária. reorientação ou reconversão do sistema de produção – de estabelecimentos familiares dirigidos por jovens agricultores de reconhecida capacidade profissional. No domínio creditício. Relacione os dois fatos. uma forma decisiva de apoio seria a criação de uma linha especial de crédito de investimento dirigida ao jovem agricultor familiar. [VEIGA.se. Ou seja.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO locais. In: Ciência Hoje.” √ Concurso de 1998 √ “A soja aparece como um dos principais produtos agrícolas na pauta de exportações brasileiras nas últimas décadas. das plantações desse produto e os sistemas de produção 86 . através de organizações locais (governamentais e não-governamentais). que a produção de café foi a grande responsável pelo povoamento e estruturação territorial dessa unidade da Federação. Analise a trajetória de difusão. 26-31. José Eli da. o Estado de São Paulo responde por cerca de 45% do valor da transformação industrial gerado no Brasil. Sabe. o que expressa o grande nível de concentração da atividade no território nacional. Exemplos de Questões Concurso de 1997 √ “Há décadas. a evolução agrária de uma microrregião deve ser controlada pela sociedade. agosto de 1998. Mas para isso é imprescindível que tais iniciativas tenham legitimidade e sejam realmente capazes de intervir no mercado de terras rurais.” “O padrão contemporâneo de produção industrial é denominado por vários autores de ‘pós-fordismo’. também. expansão. SBPC. Explique o que caracteriza tal padrão. p. quais são as suas inovações em relação ao anteriormente vigente e quais suas repercussões sobre a localização das indústrias no Brasil. pelo território brasileiro.

1993. Bibliografia Complementar AFFONSO. 1993. Paulo C.1995. 1996. Milton. Rui de Britto Álvares e SILVA.” √ “A existência de frentes pioneiras tem sido uma constante no decorrer da história brasileira.” Concurso de 1999 √ “Diferencie ‘Amazônia’. lná E.). São Paulo: IPESP/Hucitec. tentando fornecer prognósticos e delinear cenários sobre a matéria nas próximas décadas. Os fundos territoriais sob soberania do país são. Manuel Correa de. 1994. São Paulo: Hucitec. BECKER. Bibliografia Bibliografia Básica BECKER.” 7. Rio de Janeiro: Bertrand. 1995. Berta e EGLER. GOMES COSTA.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL predominantes em cada área produtora. São Paulo: Hucitec/ANPUR. ‘Região Norte’ e ‘Amazônia Legal’. e comente a principal característica observável no padrão de ocupação dessa região. Desigualdades regionais e desenvolvimento. A Urbanização Brasileira. 87 . (orgs. Brasil. LAVINAS. São Paulo: Hucitec. São Paulo: Fundap/ UNESP. Reestruturação do Espaço Urbano e Regional no Brasil. Uma Nova Potência Regional na Economia Mundo. Lena et alli. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. ANDRADE. da e CORREA. de. finitos.). porém. 1995. Roberto L. Questões atuais da reorganização do território. e indique seus portos de escoamento para o exterior. CASTRO. A Questão do Território no Brasil. SANTOS. Comente essa relação. Cláudio. Berta et alli. Geografia e Meio Ambiente no Brasil. Pedro Luiz Barros (org.

MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO CASTRO. Ariovaldo U. 88 . 1999. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. Roberto L. O Corpo da Pátria. OLIVEIRA. Iná Elias de et alli (org). São Paulo: Ática. São Paulo: Contexto. CORREA. 1987. MAGNOLI. Redescobrindo o Brasil: 500 anos depois. Região e Organização Espacial. Demétrio. A Agricultura Camponesa no Brasil. 1992. de. São Paulo: Moderna/Edusp. 1997.

UNIDADE III O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL .

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em um contexto marcado pelas políticas de cunho liberalizante e pela inserção do Brasil nas cadeias produtivas globalizadas. Os investimentos no exterior mundializam as cadeias produtivas sob o comando de grandes corporações transnacionais. O processo de transnacionalização da economia alterou de forma substancial a trajetória histórica da industrialização brasileira e as relações do país com a economia mundial. A configuração de blocos econômicos transnacionais é um também um aspectos da globalização da economia mundial: a ampliação dos mercados consolidada por meio daqueles opera no sentido de ampliar a competitividade das empresas que concorrem no mercado mundial. estimulado por políticas liberais de redução das barreiras alfandegárias. No âmbito econômico. gera novas dinâmicas de comércio e investimento no Cone Sul. se globaliza e se regionaliza em blocos”. No âmbito geopolítico. a globalização acelera-se desde meados da década de 1980. com a implosão das economias planificadas da União Soviética e Europa Oriental e com a abertura da China Popular aos investimentos internacionais. como causa e conseqüência desse conjunto de transformações. a transnacionalização da economia e a globalização das relações de produção figuram. 91 . A consolidação do Mercosul. A circulação de informações define padrões mundiais de consumo e difunde as marcas das empresas globalizadas. Esses eventos possibilitaram a extensão da economia de mercado para novos espaços geográficos. Segundo muitos autores. capitais e informações entre os mercados nacionais. O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL A realidade mundial contemporânea é marcada por revolucionárias transformações de ordem científica e tecnológica e pela crescente integração das economias nacionais. o processo de globalização é resultado da intensificação dos fluxos de mercadorias.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL III. ao mesmo tempo. simultaneamente. conectados em escala global. dissemina por todo o planeta as tecnologias e os produtos da nova revolução industrial. definido pelo embaixador Celso Lafer como “uma plataforma de inserção competitiva numa economia que. enquanto um enorme volume de capitais circula entre os principais mercados financeiros. O crescimento do comércio internacional de mercadorias e serviços.

o México e a Argentina. e que abordam relações entre eles e a realidade brasileira. 1. esse ciclo de crescimento pode ser tributado à reconstrução das estruturas produtivas da Europa Ocidental e do Japão e à abertura de filiais de empresas transnacionais em países até então de baixa industrialização. Os empréstimos de capital norteamericanos. Os Estados Unidos exerceram uma hegemonia econômica quase absoluta durante o ciclo longo de crescimento. principalmente eletromecânicas. até o início da década de 1970. tais como o Brasil. Esse ciclo de prosperidade só seria interrompido na década de 1970. 92 . As corporações transnacionais norte-americanas lideraram os investimentos industriais no resto do mundo e impulsionaram a formação de grandes parques industriais na periferia capitalista. desencadearam a reconstrução européia.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Para compor a presente Unidade. foram selecionados trabalhos que conceituam e problematizam os novos paradigmas de produção e consumo em escala mundial. Transnacionalização da Economia e Globalização das Relações de Produção: o Período Técnico-Científico e as Novas Tendências Geopolíticas em Escala Global A economia mundial de mercado conheceu um ciclo longo de forte crescimento nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. em especial na América Latina. Em grande parte. canalizados através do Plano Marshall (1948-52). O mercado consumidor norte-americano absorveu grande parte das exportações que sustentaram o reerguimento japonês. mantinha paridade fixa com o ouro. A elevação brutal dos preços do barril de petróleo resultante dos dois “choques” protagonizados pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) gerou recessão e desemprego. As décadas de prosperidade se apoiaram na reconstrução e ampliação de estruturas produtivas baseadas em tecnologias tradicionais. O dólar funcionava como moeda mundial e. mas sinalizou mudanças estruturais no paradigma tecnológico dos países desenvolvidos. A utilização intensiva de energia e matérias-primas assim como a absorção crescente de força de trabalho semi-qualificada em linhas de produção sustentaram uma oferta ampliada de mercadorias destinadas a mercados consumidores em expansão.

Nesse contexto. simultaneamente. as telecomunicações. a história do homem faz-se a partir de momentos divergentes. uma proposta de unificação dos mercados do continente. desconexos. a biotecnologia. foi assinado o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta). a robótica e a química fina desenvolvem mercadorias revolucionárias. A informática. o presidente norte-americano George Bush lançou a Iniciativa para as Américas. A contínua incorporação de tecnologias de ponta no processo produtivo implica investimentos de alto custo em produtos que rapidamente se tornam obsoletos. ajudam a soldar a integração econômica dessa região do mundo. torna possível uma tomada de conhecimento imediata de acontecimentos simultâneos e cria entre lugares e acontecimentos uma relação unitária 93 .O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL Os fundamentos técnicos da era industrial emergente repousam sobre a automatização e a robotização e sobre a utilização menos intensiva de matériasprimas e energia. disparatados. Após longos decênios de preparação. a seu turno. Já a história do homem de nossa geração é aquela em que os momentos convergiram. A instantaneidade da informação globalizada aproxima os lugares. graças a esse domínio do tempo e do espaço em escala planetária. Em agosto de 1992. novas matérias-primas e novos materiais sintetizados em laboratórios. Os investimentos industriais japoneses. O período técnico-científico é também a era da informação e da simultaneidade dos eventos. De acordo com o geógrafo Milton Santos: Durante milênios. o que exige uma ampliação da escala dos mercados. México e Estados Unidos em um poderoso mercado comum. configurando. que disseminam as cadeias produtivas pelas economias do Sudeste Asiático. Ao mesmo tempo. a União Européia se transformou em uma união econômica e monetária. através de computadores pessoais e redes de informação conectadas por satélites e cabos de fibra óptica. o acontecer de cada lugar podendo ser imediatamente comunicado a qualquer outro. como uma soma de aconteceres dispersos. a integração do mercado mundial ameaça diluir os limites representados pelas barreiras nacionais. um processo de globalização e de regionalização. com a adoção de uma moeda única. Em junho de 1990. unindo Canadá. as inovações tecnológicas se difundem com rapidez inusitada. utilizando mão-deobra altamente especializada.

sem dúvida. e permanecem estagnadas nesse patamar. O quadro mais dramático é. a siderurgia e o têxtil – e da rígida regulamentação do mercado de trabalho que caracteriza a maior parte de suas economias. Essa circunstância explica a tendência mais ou menos recente de deslocamento das indústrias têxteis e de confecções para locais onde os salários são mais baixos. tais como Nova Iorque. em parte. São Paulo: Hucitec. Trata-se de um setor industrial de trabalho intensivo. Londres ou Frankfurt. [In: SANTOS. onde as taxas de desemprego duplicaram entre 1976 e 1985. a China. saltando de 5% para 10% da população ativa.] O espaço global da “era da informação” é polarizado pelas cidades onde se concentram as sedes das instituições que controlam as redes mundiais: bolsas de valores. As elevadas taxas de desemprego entre os jovens (15 a 24 anos) – em tomo de 25 % na França. As “cidades globais”. na produção e na capacidade exportadora do setor. A Natureza do Espaço. 94 .MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO à escala do mundo. por exemplo. eventos que são independentes. funcionam como centros de tomada de decisões capazes de afetar a organização de territórios em escala continental ou mundial. 162. agências públicas internacionais. O caso do setor têxtil é bastante significativo. Entre 1970 e 1990. p. empresas de serviços legais e financeiros. Hoje. a Índia. Revolução técnico-científica e mercado de trabalho A revolução técnico-científica gerou impactos profundos na oferta de empregos nos países desenvolvidos. incluídos em um mesmo sistema global de relações. Para muitos analistas. o da União Européia. e o peso dos salários no custo final das mercadorias é expressivo. o Paquistão e Taiwan conheceram um grande incremento no número de pessoas ocupadas. 1996. cada momento compreende. resultante da redução da oferta de empregos nos setores industriais tradicionais – tais como a construção naval. enquanto na Alemanha o número de trabalhadores do setor caiu de 400 mil para 150 mil. em todos os lugares. 30% na Itália e 40% na Espanha – revelam a existência de um quadro estrutural de descompasso entre o crescimento das economias e a geração de novos postos de trabalho. a explosão do desemprego na Europa é. pois emprega grandes quantidades de mão-de-obra. companhias de comércio exterior. corporações bancárias e industriais. Milton.

Nada ilustra melhor como o aumento da interdependência tornou tudo o que é nacional e local relevante para o mundo e. os investimentos e financiamentos estrangeiros. onde o mercado de trabalho é muito mais flexível e comporta diversas formas de trabalho temporário. No Japão. este 95 . o país é forçado a uma contração violenta para se ajustar às novas condições mundiais. tendo saltado de 2. Aliás. tendo tentado transferir a bomba-relógio dos nossos problemas para o mundo. a própria essência íntima desta crise consiste precisamente na interrelação país-mundo. Texto 1 -As Sereias da Globalização Ao se aproximar dos 500 anos.6% da PEA entre 1990 e 1998. o embaixador Rubens Ricúpero problematiza o próprio conceito de globalização.1 % para 3. tudo o que é global relevante para as comunidades nacionais e locais. O barateamento das importações ajudou a segurar os preços internos.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL Nos Estados Unidos. em grau muito maior. A fim de resolver problemas basicamente nacionais – a deriva para a hiperinflação – valorizou-se a moeda como instrumento para pôr a economia internacional a serviço da conquista de objetivo doméstico.7% em 1998. apesar da introdução de tecnologias poupadoras de mão-de-obra tanto no setor secundário quanto no setor terciário. analisando a inserção do Brasil na economia mundial em uma perspectiva histórica e apontando as alternativas do país frente às transformações em curso na economia e na política mundial. cobertos por outra contribuição internacional. apesar da tradição de empregos vitalícios. mas ao custo de crescentes déficits comerciais e em contas correntes. o Brasil vive crise inédita. que não só aumenta para seu povo a carga acumulada de sofrimentos herdada de episódios anteriores.6% em 1976 para 4. as taxas de desemprego recuaram de 7. No momento em que a crise iniciada na Ásia aumenta o temor do risco dos mercados emergentes e põe fim à conjuntura de liquidez abundante. É como se. as taxas de desemprego apresentaram tendência de crescimento durante toda a década de 1990. mas pela primeira vez é percebida de fora como ameaça à estabilidade da economia-mundo. Texto Complementar No artigo reproduzido abaixo.

o naufrágio do Brasil pode agora afogar muito passageiro de Primeira Classe. tendo na retaguarda o Tesouro norte-americano em postura mais ostensiva e declarada (contrariando o provérbio inglês segundo o qual “se você trouxe o cachorro.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO agora nô-la tivesse devolvido no instante em que a contagem se acerca do ponto crítico e a bomba ameaça explodir em nossas mãos. A outra diferença é que as condicionalidades a serem impostas no pacote de resgate irão certamente estreitar ainda mais a margem de manobra brasileira. sob formas diversas e a intervalos quase regulares. o que haveria de novo na sombra que se projeta sobre as comemorações do V Centenário do Descobrimento? O que mudou foi. o tamanho da economia brasileira e a simultaneidade de sua crise com a reação em cadeia que ameaça até os mercados financeiros mais avançados. acompanha-nos desde a Independência. É esse o aspecto que nos interessa explorar aqui: até que ponto a integração do Brasil na economia globalizada condiciona. aquele fim-de-século terminava como este: a assinatura por Campos Sales do funding-loam. Traduzida assim em seus elementos fundamentais. Se não faltam. com condições e conseqüências parecidas de aumento de impostos. o Tesouro dos EUA ou o G-7. Muito mais do que por ocasião do problema da dívida externa latino-americana a partir de 1982. em primeiro lugar. já reduzida de modo substancial pelas limitações oriundas dos acordos da Rodada Uruguai e outras iniciativas de igual inspiração a pretexto dos imperativos da globalização. velho conhecido nosso que. É o medo do contágio geral que explica a sensibilidade maior revelada neste episódio pelo Fundo Monetário. violenta deflação interna. falências em cadeia de empresas de todo o tipo. e hoje os negociadores brasileiros partem para Washington a fim de tratar com o FMI. facilita ou dificulta a integração do 96 . Não deixa. A diferença é que então tudo se passava em Londres. nesse sentido. precedentes para o garrote que nos sufoca. o acordo com os credores a fim de evitar a bancarrota. reais ou supostos. não é preciso latir no lugar dele”). com o Banco Rothschild à frente e o Tesouro britânico discretamente atrás das cortinas. de ser curiosa e melancólica a coincidência de que em 1898. a situação atual não passa de manifestação a mais do “estrangulamento do setor externo”. portanto. 100 anos atrás.

por meio das telecomunicações e da indústria audiovisual. avaliando. abstendo-se de juízos de valor. Estaremos condenados à uniformidade da cultura popular de massa. expressão das mais ambíguas e enganadoras. como em todo fenômeno histórico. A segunda abordagem pretende deduzir comportamentos e normas a partir do que julga captar da realidade. os elementos de continuidade e os de ruptura com o passado. pode-se dizer que existem duas maneiras básicas de encarar a globalização: como fenômeno histórico ou como ideologia. O primeiro. Na primeira acepção. com gostos e preferências indiferenciados que se estenderão do fast food à música. em termos algo esquemáticos. de natureza mais econômica e social. a norte-americana e. É prescritiva.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL próprio país? É ainda possível cogitar de projeto nacional em contexto de crescente e intrusiva interdependência? Existirá lugar hoje para afirmar a identidade nacional diante da tendência à uniformização de padrões? Globalização e autonomia nacional A questão se desdobra em dois problemas que. significando coisas diversas para interlocutores diferentes. de padrões e mentalidades características da cultura hegemônica. a ocidental. por extensão. é o da inserção ou marginalização em relação à economia global. dança e literatura? Ou podemos esperar que o aumento da comunicação entre povos e culturas produza o enriquecimento da inter-fertilização de estilos. a diversidade dentro de uma unidade alargada e fecundada por aportes diferentes? É impossível avançar muito nessa investigação se não se começar por esclarecer o que temos em mente quando falamos em globalização. podem ser definidos da seguinte forma. que obriga a abdicar de veleidades de autonomia nacional em favor da aceitação de modelos e regras de validade universal? Ou existirão caminhos e modalidades distintas de inserção que admitem levar em conta valores e objetivos particulares sem comprometer basicamente a meta de alcançar os benefícios de escala da economia de dimensão planetária? O segundo problema possui caráter sobretudo político e cultural e é geralmente descrito como o perigo da perda de identidade cultural diante da imposição maciça. dos fatos sob exame. tenta-se apreender e descrever de modo tão objetivo quanto possível. normativa. Há um caminho único para essa inserção. tombando com freqüência na 97 . Sem intenção de ser exaustivo ou particularmente rigoroso. o que se passa no domínio da realidade.

automático.). Torna-se então prescrição ou conselho sobre a melhor ou a única política a seguir a fim de ter êxito. de novo introduzida por revolução cultural no campo da ciência e da tecnologia (. a imposição obrigatória de novas relações de produção geradas pela tecnologia. Pelo reducionismo: reduzindo-a a um só ou a alguns poucos dos seus diversos elementos constitutivos... como as demais impulsionada por transformações culturais e científicas. queiramos ou não. Ao contrário dessas simplificações. sociais. de telecomunicações. a atual é uma transformação 98 . diferente em relação ao passado.). Em todas as suas etapas. na prática concreta. culturais.. isto é. essencialmente “outro”. Pelo determinismo: considerando como mecânico. sem precedentes históricos. irresistível. comercial ou financeira. uma só e invariável solução. Vivemos hoje a terceira fase desse processo. tomando possíveis formas inéditas de dominação política ou produção econômica (. Esse tipo de interpretação desfigura a globalização de quatro maneiras principais.). Pelo conformismo: pretendendo que a uniformidade cultural e a falta de alternativas nos forçam a aceitar. Pelo anti ou ahistoricismo: afirmando que se trata de fenômeno inteiramente novo. A afirmação e dominação ocidental..MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO doutrinação. de computadores. como a “tirania dos fatos”. abarcando muito mais que os componentes econômicos. que decorre na verdade mais das escolhas dos homens ou dos interesses dos poderosos.. a recomendada pelo pensamento “único”. quase sempre de natureza econômica. limitadas à energia e à matéria. ela tem sido produto de revolução no domínio cultural. esquecendo ou minimizando componentes políticos. particularmente as conquistas em matéria de eletrônica. a globalização se confunde em boa medida com a expansão do Ocidente e tem seu ponto de partida nas grandes viagens marítimas de descoberta dos séculos XV e XVI (. que se exprime em geral pela superação de novas fronteiras científicas e tecnológicas. Diversamente das modificações anteriores. vai conhecer segunda fase no século XVIII.. acompanhada de adicional salto de intensidade. Da perspectiva que nos interessa. na imposição de caminhos. a recomendação de que todos os países adotem políticas de liberalização rápidas e radicais como meio mais seguro de integração à economia internacional. a globalização é sobretudo processo de natureza cultural e histórica.

a aceleração do tempo e o encolhimento do espaço. Começa-se a utilizar a Internet não só para concluir operações comerciais mas até para entregar um produto quando seu caráter é não-material (programa de software. de um a outro celular ou de um satélite a uma estação terrestre. 4°) extremamente competitiva. textos literários. a desintegração da União Soviética. projeto de arquitetura. lançando as bases para o aparecimento da economia globalizada. os últimos bastiões do isolamento tombam um após o outro: Vietnã. 3°) predominantemente transnaciona1. acarretando crises financeiras e monetárias cada vez mais freqüentes e destrutivas. Birmânia. mão-de-obra e recursos naturais. o desenho e a fabricação dos produtos perdem o caráter integrado dentro de uma economia puramente nacional para se tomarem atividades que podem ser parceladas em segmentos a serem executados geograficamente em países diferentes e depois montados segundo a lógica dos custos. Mas. duas mudanças que fazem os homens e as culturas mais próximos e conscientes reciprocamente. Mongólia. 2°) de alta intensidade em conhecimento e já não mais em capital. É o predomínio do capitalismo financeiro e sua desvinculação parcial do mundo real da indústria e do comércio. arte). auditoria contábil. Essa nova economia é: 1°) de alta velocidade. Isso tudo possibilitou o aumento fantástico da circulação de recursos financeiros e a velocidade das operações com moedas estrangeiras. a exacerbação do espírito de especulação. As inovações tecnológicas aceleram a velocidade e o barateamento dos transportes e das comunicações. a liquidação dos regimes comunistas na Europa Central e Oriental. Nicholas Negroponte usa a expressão II bits versus atoms” para explicar que as transações internacionais consistem cada vez menos em matérias (átomos) atravessando fronteiras nacionais e cada vez mais de bits (de informação) que fluem de um computador a outro. Cambodja. seu efeito integrador foi acelerado por uma ruptura política decisiva. de cálculo. A concepção. são acontecimentos que põem fim à heterogeneidade ideológica introduzida pela Revolução Bolchevista de 1917 e criam clima favorável à crescente convergência em termos de legitimidade política e de formas de organização social e econômica. música. O 99 . No livro Being Digital.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL do tempo e do espaço. Como resultado do impacto dessas transformações. se ainda uma vez a revolução científica e tecnológica está na raiz desta nova etapa. campanha de publicidade. de engenharia. parecer jurídico ou de consultoria. A queda do muro de Berlim. a unificação da Alemanha. Os mercados comerciais se unificam com a queda das barreiras.

o inédito de certos eventos contemporâneos (o impacto da eletrônica. na era vitoriana. Exemplo claro é o da tentativa interesseira de fazer aceitar a idéia de que globalização e liberalização são termos sinônimos e intercambiáveis. meio ambiente. Parece que chegamos ao fim de “5. está se tomando difícil e até impossível comprar certas tecnologias sensíveis consideradas essenciais para 100 . entre 1870 e 1914. o trabalho e a tecnologia. A abordagem de largo fôlego facilita desmascarar imposturas ideológicas que se valem do falso argumento da absoluta excepcionalidade do momento atual. livros. das telecomunicações. Foi nessa época que 50 milhões de europeus imigraram para as Américas e a Oceania. não só o nível de liberalização igualava ou superava o atual em comércio e investimentos. no auge da neoglobalização.000 anos de solidão”. os fluxos de empréstimos. A Internet cria a possibilidade de organizar campanhas sobre direitos humanos. a história gêmea. sem contar os milhões de coolies asiáticos. do capitalismo e do Ocidente. de operações monetárias. utilizando-se a equivalência para exigir aos países que se liberalizem sem condições sob pena de ficarem à margem da globalização. Esse era também o tempo em que se podia imitar ou copiar muito mais facilmente invenções. que somente essa visão braudeliana concilia e equilibra ruptura e continuidade. Pode-se talvez objetar que esse conceito de globalização é abrangente demais e o dilui a ponto de confundi-lo com a evolução do capitalismo ou da expansão do Ocidente. não existe nada que se assemelhe à liberalização a toque-de-caixa promovida no tratamento do capital e do comércio. Em relação a esses dois fatores de produção. Hoje. exacerbou-se a liberalização comercial.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO espaço econômico se unifica em escala planetária para o comércio. a queda do muro de Berlim) e a continuidade do fluxo majestoso das correntes profundas que caracterizam os ciclos seculares. os investimentos das empresas transnacionais. de longa duração. financeira. de investimentos. questões trabalhistas de um canto ao outro da Terra. O raciocínio cai rapidamente por terra quando se assinala que. como era incomparavelmente mais acentuado em matéria de mobilidade de mão-de-obra e de tecnologia. ao contrário. No caso da tecnologia. músicas. de meio milênio. A questão não é de interesse meramente acadêmico. Penso. em outras fases da globalização. mas paradoxalmente registra-se retrocesso nítido em política de imigração e tendência cada vez mais restritiva ao reforço dos monopólios de exploração de patentes e outras formas de restringir o acesso à propriedade intelectual.

não teria existido sem as migrações européias e asiáticas bem como o tráfico de africanos. como então se dizia. 101 . E isso ocorre justamente quando o acesso ao conhecimento e à informação passou a ser o fator decisivo do desenvolvimento. é verdade. A Independência é outro episódio do mesmo movimento de longa duração. o Japão. Nova Zelândia). cresceram e definharam à sombra do comércio global. com seu horror ao monopólio mercantil das metrópoles e a exigência de abertura dos portos. Isto é. produto da globalização Devido à democracia semi-direta. elementos integrantes da globalização. à soja ou suco de laranja). diz-se que a Suíça não tem exército. a velha questão de ser “Cavalcanti ou cavalgado”. mas a qualidade do fenômeno. ele continuou como aguada e porto de abastecimento de frutos e legumes frescos para os navios do Oriente. Todos os seus ciclos econômicos. pode-se afirmar que o problema do Brasil não é a falta de integração à globalização. a Suíça é um exército. De fato o que é o Brasil senão o fruto da expansão do capitalismo mercantil do Ocidente? Sua invenção ou achamento. Ela não deixa. a Índia. essa certidão de nascimento e de maturidade com os demais “países novos” das Américas e alguns outros (Austrália. mas o caráter subalterno e dependente de uma integração existente de velha data. por mais de 30 anos após a descoberta. intencional ou não. O Brasil partilha. como na Grécia antiga. do açúcar ao café (e. Nem a China. a quantidade. contudo. o pau-brasil. Sua população. O Brasil. o problema brasileiro não é pouca globalização. só que agora na fase do capitalismo da Revolução Industrial. e à milícia formada por todos os cidadãos. Da mesma forma. próximo ou remoto. é episódio. de ser característica singular como genealogia e não pode ser estendida aos velhos países do Ocidente ou do Oriente. É mesmo dos raros países batizados com o nome de um dos produtos exóticos de que era guloso o mercantilismo.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL assegurar o domínio do mercado pelas empresas que as controlam. semente da dívida externa que desde então não cessou de aumentar. cuja identidade já se encontrava definida em suas linhas mestras antes que a primeira cara vela tocasse o mar com sua quilha. A guerra e o reconhecimento da Independência foram financiados por empréstimos globais da praça de Londres. pode-se acrescentar. produto da mistura das “três raças tristes”. nasceram. da segunda viagem da carreira das Índias e.

com seus milhares de escravos. a Espanha ou Portugal. O exemplo revela claramente que não é qualquer tipo de inserção no comércio e na economia globais que contribui para metas desejáveis de progresso social e econômico. Seu efeito duplamente concentrador da riqueza e da renda.oligárquico. em cotejo com estados que nunca gozaram de grande prosperidade no 102 . na Costa Rica. a Itália. da colonização européia.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO a Arábia. emergiram dessa experiência com perfil de desenvolvimento modesto mas menos distorcido pelas desigualdades monstruosas dos “sucessos” de então. a França. Ou o Chile remediado. nação de agricultores de classe média. cacau) para os mercados externos junto aos quais funcionava como apêndice e complemento perfeitamente integrado na divisão internacional de trabalho. do Comendador Breves. em fins de 1990. O panorama não é diferente entre nós. a Inglaterra. a Pérsia cabem nesse molde. Pernambuco e Alagoas do açúcar e dos senhores de engenho e das taras políticas e sociais produzidas pelo contraste de dominação e sujeição. que iria se estender de 1850 a 1930. Em sua última conferência em Paris. do tipo de organização econômica e social geradora de desequilíbrios e desigualdades que. esse modelo só podia subsistir graças ao fornecimento de produtos tropicais de exportação (açúcar. Ou mesmo no Nordeste. José Guilherme descrevia como o projeto de Brasil de José Bonifácio se vira suplantado pelo que chamava de modelo liberal. moldou perduravelmente a realidade do que Joaquim Nabuco chamava de “país sem povo”. por meio de propriedade da terra e do trabalho não-remunerado. por período quase secular. que estiveram um tanto à margem da economia mundial do século XIX. Pense-se. como mostrou José Guilherme Merquior. até hoje. de um lado. É até paradoxal observar como certos países latinoamericanos. e tampouco nele se enquadram a Rússia. confrontado ao Peru dos oligarcas. Basta lembrar da província fluminense dos barões de Vassouras. e de Santa Catarina das pequenas e médias propriedades. comparada com a opulenta Cuba do açúcar e do tabaco (e dos escravos). Prolongamento da estrutura herdada da colônia e sustentado no latifúndio (o sistema de plantation) e na escravidão (mais tarde no assalariado rural miserável). a inserção na economia mundial foi a condição mesma que tornou possível a preservação. devido à sua pobreza de produtos cobiçados pelos mercados da época. constituem o obstáculo principal à realização do país como unidade coesa e integrada. café. por exemplo. por outro. pois um povo verdadeiro deveria ser formado por homens livres. a Alemanha. Em nosso caso. poucas semanas antes de morrer.

com muito pouco transbordamento e efeito multiplicador para o resto.. concentrou o avanço tecnológico e a riqueza apenas nesse segmento estreito da população. Outro exemplo é o dualismo ou “polarização geográfica” que caracteriza a integração do 103 . passando por Pernambuco do açúcar e pela Bahia do cacau. na Itália. Sergipe. o separatismo da Lega Nord. mantendo entre si contatos econômicos de pouca densidade. com a gradual ligação das regiões por vias de transportes outras que a antiga navegação de cabotagem. o obstáculo mais formidável a qualquer esforço de homogeneização. até os ricos oferecem seu quinhão de sacrifício. períodos em que se teve de reduzir à força o tipo de inserção tradicional na economia externa. Esse panorama só começa a mudar com a industrialização. como Ceará. estavam vinculadas às praças estrangeiras de onde tudo importavam. pela primeira vez. Faz sua aparição o proletariado industrial. pois são obrigados a renunciar às importações de luxo e consumir mofinos produtos nacionais. de um mercado nacional. É só então que se esboça aos poucos a formação. o peso da massa dos salários urbanos cria mercado de consumo para os produtos da indústria paulista e. Rio Grande do Norte. reflete como a segurança fornecida pelo mercado europeu ampliado reduz a solidariedade com o empobrecido sul da península. As Províncias e regiões. Se era raso o nível de interação econômica entre regiões. já que a escravidão. A verdade é que o tipo de inserção de que o Brasil longamente desfrutou. Na União Européia. pelo problema dos ventos da contracosta do Nordeste. do Pará da borracha ao Rio do café. como observa Celso Furtado. ainda menos positiva foi a influência desse modo de inserção na integração da população. dificultados adicionalmente..O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL passado. na época da navegação à vela. É interessante notar que a industrialização vai receber forte impulso durante os dois conflitos mundiais e a Grande Depressão. economia de exportação do setor primário. que hoje se mostram mais aptos a produzir setores empresariais modernos. protegida por barreiras aduaneiras ou facilitada pela escassez de divisas e dificuldades de abastecimento devido a causas externas. sugerindo que um movimento destinado a promover a integração de um conjunto maior pode paradoxalmente pôr em risco a unidade nacional alcançada a duras penas. pouco mais de um século após a unificação do país. As provas de que o problema continua atual tampouco faltam. era justamente perpetuada (e justificada) pela necessidade de manter alimentada a lavoura de exportação.

para meus interlocutores realidade remota. A rigor. para as quais o comércio exterior representa 150 por cento ou mais do PIB.. A característica comum de todas essas economias é que elas haurem sua força basicamente de poderoso mercado interno. os países caribenhos. isto é. Eu mesmo ouvi muitas vezes em Manaus e Belém expressões de dúvida sobre as possíveis vantagens que a Amazônia poderia retirar do Mercosul.. pretenderia que idêntica prioridade fosse válida para os “países-monstros” da classificação de George Kennan (ver Around the Cragged Hill). as Guianas. a Colômbia. pois não mais enfrenta barreiras) (. Rússia.a partir do momento em que o motor do crescimento deixa de ser a formação do mercado interno para ser a integração com 104 . em comparação com os ganhos mais tangíveis que derivariam do intercâmbio com vizinhos próximos como a Venezuela.. CidadesEstado como Hong Kong ou Cingapura. segundo os países. os Estados que somam a um território continental uma população gigante.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO México com os EUA no âmbito do Nafta. as exportações para terceiros raramente representando mais de 12 a 15 por cento do PIB (isso é válido até para União Européia se considerarmos o comércio intra-europeu como doméstico.. contudo. não têm outra opção. o consumo per capita na Baja Califórnia é 5 vezes superior ao de Oaxaca) do que os do sul.. Índia. pequenos países abertos e tradicionalmente especializados na intermediação comercial como a Holanda e a Bélgica. muito mais os Estados da fronteira (a média de salários de Nuevo León é 3 vezes maior que a de Chiapas. Em texto incluído no livro sugestivamente intitulado A Construção Interrompida. aos quais tenciona juntarse a União Européia à medida que estende sua unificação a domínios essenciais como a política exterior e a de defesa. favorecendo. são apenas cinco. China. Celso Furtado já indagava: “. a expectativa de vida no norte é de 20 anos mais que no sul. o que ele é. O que se pode reter desses exemplos é que variam muito.). em boa parte excluídos desses benefícios.. Ninguém. em particular para os países subdesenvolvidos de grande área territorial e profundas disparidades regionais de renda. o grau de essencialidade e as implicações da inserção na economia global.como desconhecer que o esvaziamento dos sistemas decisórios nacionais será de conseqüências imprevisíveis para a ordenação política de vastas áreas do mundo. EUA. até agora. Brasil. como o Brasil ?” Observava em seguida: “.

vê-se que Celso Furtado não foi um mau profeta. Em lugar de branco ou negro. utilizando para isso o poder dos seus imensos mercados internos. quando se ia do totalitarismo estalinista ou maoísta. só nos resta a escolha de variedade infinita de gradações de cinzento. Quando se lembra o que ocorre na guerra de subsídios aos investimentos entre estados da Federação e o verdadeiro leilão promovido pelas transnacionais para instigar a concessão desses subsídios. mais capazes que outros países menores de fazer prevalecer sua vontade política sobre a lógica de custos das transnacionais. que a autonomia das decisões. inclusive com autonomia de decisões em política exterior e de defesa. enfraquecendo consideravelmente os vínculos de solidariedade entre elas”. Essa administração dos matizes. mais ênfase na estabilidade de preços ou na expansão econômica. verdadeiros micro-universos. Mas. como é o Brasil. mais ou menos flexibilidade ou segurança de emprego. a escolha de ritmo prudente. É essa mesma vontade a serviço de um projeto nacional completo.).. a predominância da lógica das empresas transnacionais na ordenação das atividades econômicas conduzirá quase necessariamente a tensões inter-regionais. sobretudo financeira. os efeitos de sinergia gerados pela interdependência das distintas regiões do país desaparecem. tudo apontando para a inviabilização do país como projeto nacional”. que distingue a China e a Índia. ao mais radical liberalismo do mercado. gradual. controlado. à exacerbação de rivalidades corporativas e à formação de bolsões de miséria. É aqui precisamente que reside a vantagem comparativa dos estados gigantes. numa ponta do espectro. São exemplos que refutam convincentemente o mito da irresistibilidade da globalização e comprovam. que exista essa vontade política a serviço de um projeto de nação. como ele mesmo admite: “Um sistema econômico nacional não é outra coisa senão a prevalência de critérios políticos que permitem superar a rigidez da lógica econômica na busca do bem-estar coletivo”. na outra. É certo que já não se dispõe hoje da amplíssima margem de escolha da época dos extremos ideológicos.. E concluía: “Em um país ainda em formação. essa busca do difícil equilíbrio entre o realismo dos fatos e o idealismo dos valores e aspirações.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL a economia internacional. é claro. de liberalização. de lambugem. deixa espaço mais do que suficiente para cada sociedade construir modelo harmonizador da eficácia 105 . com mais Estado ou mais mercado. não só não prejudica como é o melhor meio de proteger-se do contágio de crises devastadoras como a que assola a Ásia e o mundo (. Desde.

sem emprego ou com trabalho de baixa produtividade. de participar plenamente da vida da comunidade. não basta ter abolido a escravidão. Para isso temos de completar reformas internas só possíveis com um mínimo de consenso social e político. Daí o imperativo de elevar a poupança doméstica para não voltar a agravar a excessiva dependência em relação a recursos estrangeiros.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO decorrente dos requisitos de validade universal com as especificidades particulares e as preferências próprias a povos de história e problemas diferentes (. Foi essa a ilusão do passado. removeria nossas mazelas. A verdadeira cidadania só se alcança quando se resolvem os problemas básicos do emprego. Longe de se contradizerem. com respeito dos 106 . a curto prazo e sem violência. que fira de frente o problema vital da segurança econômica do indivíduo na sociedade. terá de produzir. É claro que necessitamos. não seu substituto. O país e a economia têm de crescer de dentro para fora e não de fora para dentro. mas não é satisfatória. o Brasil pode e deve retomar a construção interrompida da cidadania e do mercado interno. A fim de ser cidadão.). Em outras palavras. que suba das próprias bases sociais. graças à remuneração justa. atores do mercado. Mas esse deve ser aporte complementar ao esforço próprio. do salário digno. de tecnologia. da possibilidade de se instruir e de se curar. quando se pensava que a reforma eleitoral. A integração ao mercado de produção e consumo dos milhões de brasileiros que subsistem precariamente à margem dele. Em conclusão. e como consumidores. da contribuição da economia global.. do acesso de nossas exportações aos mercados externos a fim de aumentarmos a capacidade de importar. San Tiago Dantas. sem acesso à informação ou vítima da informação controlada por impérios privados. de financiamento. quando elas se transformam em agentes. e não uma reforma outorgada pela classe dominante. sem educação e saúde. quando as pessoas se inserem na sociedade como produtores. universal. pode ser melhor que o passado. é processo capaz de liberar altíssima carga de energia e de fornecer o dinamismo para o crescimento da economia por muitas e muitas décadas. expressiva apenas de uma concessão sem conciliação. o voto livre. ser livre e ter o direito de voto. esses termos são interdependentes. ao receber poucos meses antes de sua morte o título de “homem de visão” daquele ano dramático: “Terá de ser uma reforma incorporada às aspirações do povo. da competição que traz eficiência. por meio do emprego. É o que dizia em 25 de Outubro de 1963. tal é o atraso a recuperar nos padrões de consumo. secreto. como a China.. de investimentos produtivos. Hoje sabemos que uma democracia de massas pobres. isto é.

Voltamos. à procura de uma identidade que. do esforço de criar condições para que se afirme finalmente a identidade brasileira. Na véspera de completar meio milênio de vida. sofrido e criativo do nosso povo. de modo que atinja a sociedade no seu todo. da classe dirigente como das classes produtoras e trabalhadoras. Condição Periférica e Industrialização Tardia: A América Latina As estruturas econômicas herdadas do período colonial e as modalidades de integração ao mercado internacional produziram realidades econômicas bastante diversificadas nos países latino-americanos. eleve o padrão da vida e crie número crescente de ocupações e atividades. percorrendo as trilhas cruzadas ou superpostas da sua existência selvagem.. o da antinomia uniformização versus identidade cultural. Alfredo Bosi ensina que uma das principais motivações da obra foi “o desejo (. em primeiro lugar. de tão plural que é. colonial e moderna. Por isso só elas apresentam ao mundo o rosto mestiço.. ao ponto de partida desta nossa viagem de 500 anos de crise e crescimento. que só pode nascer da plena realização do potencial de nossa gente. Em Situação de Macunaíma. os caminhos do Brasil em debate. n° 2. [RICÚPERO. Dela decorre também a chave de outro dilema.. obter de nós mesmos. Rubens.] 2. mar/abr 99. Ao longo do século. p. As sereias da globalização... nossa gente..O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL direitos. In: Rumos. o futebol e a música popular. uma redistribuição de renda social. que se intitulava profeticamente “San Tiago Aponta Caminhos”: “. sejam as únicas onde as pessoas não necessitam de acesso à educação formal para se distinguir.Nenhuma reforma poderá ser implantada hoje. Não é casual que as raras áreas em que o Brasil se projeta internacionalmente. um conjunto de 107 .” Esta é a única resposta aceitável humanamente à pergunta que abria meu artigo. retirada do artigo amarelecido de Visão. Herança Colonial.) imperioso de pensar o povo brasileiro. 75-84.. se não conseguirmos. um nível mínimo de confiança na viabilidade de um projeto brasileiro”.. encerro este artigo com outra citação de San Tiago. beira a surpresa e a indeterminação: daí ser o herói sem nenhum caráter” (grifado por mim). com Macunaíma.

porém. a força de trabalho imigrante. desenvolveu-se. as condições iniciais para a industrialização foram estabelecidas pelo complexo rural exportador: os capitais britânicos. As eleições de 1946 conduziram Juan Domingos Perón à presidência. também contribuiu para essa etapa de decolagem industrial. apoiadas na cidade e na indústria. Na Argentina. o Chile e o Brasil – viveu um acelerado processo de industrialização. cargo que conservaria até o golpe militar de 1955. com destaque para as indústrias mecânicas. a indústria de processamento de alimentos (óleos vegetais. O peso da influência européia no país reflete-se ainda hoje na distribuição da produção automobilística: as fábricas italianas e francesas lideram o ramo. 108 . a malha ferroviária e o porto de Buenos Aires. couro). Os capitais nacionais inseriram-se predominantemente no setor alimentício e exportador e no de bens de consumo não-duráveis. através da criação da companhia de exploração do petróleo da região de Comodoro Rivadávia. Esse processo – ligado tanto a fluxos internacionais de investimento quanto a esforços industrializantes internos – remodelou as formas de integração desses países à economia mundial e fez surgir estruturas econômicas complexas. com larga vantagem sobre as montadoras norte-americanas. o Estado inaugurou a sua participação como empreendedor industrial. Ainda na década de 1930. carne. com o desenvolvimento das indústrias de bens de consumo não-alimentícios. O ingresso de capitais norte-americanos.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO países do subcontinente – a Argentina. A Primeira Guerra Mundial e a depressão internacional da década de 1930 provocaram o surto inicial de substituição de importações. o México. A “década de Perón” foi marcada pelo crescimento industrial do país. enquanto os demais permaneciam dependentes de estruturas econômicas primárias. voltada desde o início para a exportação. voltadas para o mercado interno. Sobre essas bases. Os capitais internacionais desenvolveram o setor de bens duráveis. que disputavam posições com os investimentos britânicos. desde o início do século XX. A moderna Argentina industrial. nasceu após a Segunda Guerra Mundial. Esse processo apoiou-se essencialmente nas pequenas e médias empresas de capitais nacionais. a Yacimientos Petrolíferos Fiscales (YPF). O Estado encampou os serviços públicos e ferroviários surgidos dos antigos investimentos britânicos e desenvolveu a indústria de base.

um banco de investimentos. apresentam jazidas de prata. a instalação de filiais de conglomerados estrangeiros – especialmente norte-americanos – renovou a paisagem industrial mexicana. foram criadas as duas grandes empresas estatais voltadas para o projeto de industrialização: Petróleo de México (PEMEX) e a Nacional Financiera. A PEMEX estabeleceu o monopólio estatal da exploração das imensas reservas de petróleo da região do Golfo do México e criou as bases para o desenvolvimento da indústria petroquímica. o México optou por não ingressar na OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo). 109 . A exploração do petróleo ganhou impulso na década de 1970. As áreas das sierras. O baixo custo da força de trabalho e a presença de uma base industrial erguida pelo Estado também contribuíram para o fluxo de investimentos externos.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL A Argentina transformou-se em um país urbano e industrial. Até hoje. O modelo econômico protecionista adotado por sucessivos governos mexicanos – baseado na multiplicação das taxas alfandegárias no estímulo à produção nacional – atraiu para dentro das fronteiras do país os investimentos de empresas transnacionais. no complexo rural. direcionado principalmente para Europa Ocidental e América Latina. Na década de 1930. paradoxalmente. no governo Lazaro Cárdenas. A estrutura industrial depende. A Nacional Financiera. a mineração e a indústria de transformação mineral representam parcela significativa das exportações nacionais. financiou o desenvolvimento da indústria privada nos mais diversos setores. O subsolo mexicano é rico em recursos minerais. em grande medida. na região central do país. a modernização industrial baseou-se em investimentos estatais e transnacionais e em uma vasta oferta de recursos minerais. chumbo e cobre. Dispondo do vasto mercado consumidor norte-americano. No México. O comércio exterior do país. exibe forte predominância dos produtos de origem primária. Desde a Segunda Guerra. zinco. a fim de determinar livremente os seus níveis de produção e não subordinar suas exportações ao sistema de cotas do cartel petrolífero. quando o óleo se tornou o produto principal na exportação nacional. do vasto e diferenciado ramo do processamento de alimentos. mas o lastro da sua economia continua a repousar.

a economia mineradora. realizou uma reforma agrária e iniciou um programa de nacionalização gradual das empresas mineradoras. Assim. Seu sucessor. as minas norte-americanas de cobre. essencial para a indústria bélica. Durante o governo da Unidade Popular. cresciam as atividades urbanas e ampliavam-se os investimentos estatais em infra-estrutura. O estrangulamento dos mercados internacionais lançou o país ao caos econômico. um golpe militar encabeçado pelo general Augusto Pinochet encerrou o governo da Unidade Popular. Este quadro turbulento se arrastou até a Segunda Guerra Mundial. Iniciava-se um segundo surto de industrialização. eleito em 1964. Um incipiente surto de industrialização teve lugar neste período. O novo governo pôs em prática 110 . Santiago. iria muito mais longe.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO No Chile. implementou um programa de reformas cujos principais alvos eram o combate à estrutura agrária fundada nos velhos latifúndios e o domínio exercido pelos capitais estrangeiros sobre o setor mineral. Na sombra da economia exportadora. A crise de 1929 incidiu devastadoramente sobre a economia chilena. herdada dos períodos anteriores. fortemente apoiado pelas políticas públicas. marginal durante a colonização. eleito em 1970 por uma coligação de partidos de centro-esquerda. fortemente polarizada pela capital. multiplicaram seus investimentos tanto na mineração como no parque industrial. O Chile conheceu uma urbanização rápida e precoce. Em de setembro de 1973. O cobre. empresas transnacionais. a emergência de um importante setor urbano industrial não eliminou a elevada concentração fundiária e de renda. O programa de reforma agrária foi acelerado e aprofundado. se transformou no centro da vida nacional após a independência. o sistema bancário e muitas das grandes empresas industriais privadas foram nacionalizados. principalmente norte-americanas. fortes convulsões sociais e instabilidade política. No pós-guerra. Porém. O governo democrata-cristão de Eduardo Frei. a implantação de poderosas companhias européias de extração de cobre e salitre criou vínculos estreitos entre o país e os mercados e capitais estrangeiros. Em meados do século XIX. ao mesmo tempo que o conflito restringia as importações de manufaturas. Salvador Allende. conheceu então uma valorização acentuada. traduzido por um período de desemprego em massa.

Nacional. Simonsen divulgou em 1939 a primeira história da industrialização brasileira2. é a maior empresa chilena em volume de comércio exterior. 1926. O. Os países que ficaram alijados da decolagem industrial seguem dependendo de exportações de produtos agrícolas e minerais. O cobre responde por cerca de 40% do total das vendas. Nos dois casos trataram-se de intelectuais engajados. assenta-se na base econômica propiciada pela extração. Brandão publicou Agrarismo e Industrialismo em 19261 e R. 1973. dirigente comunista e o segundo. comercialização e exportação do petróleo. Texto 1 -Teorias Sobre a Industrialização Brasileira e Latino-Americana A industrialização brasileira é tema de debate da nossa intelectualidade desde as décadas de 1920 e 1930. 111 . que prosseguiria com a democratização. e a distingue do conjunto dos países industrializados do subcontinente. São Paulo: Cia Ed. de tradição anarquista. Evolução industrial do Brasil e outros estudos. que contribuiu desde 1922 para a implantação e crescimento do PCB e apontava a presença esmagadora de latifundiários no aparelho de Estado brasileiro na década de 1920 e a necessidade de reforma agrária para a industrialização. ocorrida em 1989. a forte integração ao mercado mundial é a principal característica da economia chilena. Buenos Aires. o geógrafo Armen Mamigonian apresenta as diferentes correntes interpretativas acerca da industrialização brasileira e latino-americana. ambos defensores da industrialização. A Venezuela representa um caso particular: sua industrialização. Em muitos casos. Texto Complementar No artigo parcialmente reproduzido abaixo. 2 SIMONSEN. Edição organizada por E. Simonsen foi fundador da CIESP (1928) e da FIESP e o líder industrial de maior prestígio no Brasil nas décadas de 30 e 40. Carone. Edusp. o primeiro. responsável por grande parte das minas do país. Fritz Mayer foi o pseudônimo de Octávio Brandão. A competitividade externa passou a ser o fundamento da economia nacional. relativamente significativa. Atualmente. numa época em que se considerava o Brasil como “país essencialmente agrícola” e cuja 1 MAYER. O Chile é o maior exportador de cobre do mundo e a estatal Codelco. líder industrial. F. R. eles se tomaram bases importantes das rotas internacionais de narcotráfico e de capitais clandestinos.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL um amplo programa de privatizações e de abertura da economia para o capital estrangeiro. Agrarismo e Industrialismo.

assim corno se fez um longo percurso intelectual. de C. 1957. Rangel e C. tais corno: 1) as conjunturas de crise das exportações (guerras mundiais. procuraram apontar os fatores sociais da emersão do mercado interno e dos capitais para a industrialização. Furtado. G. Desde então o avanço industrial brasileiro foi considerável. mas ainda hoje as interpretações continuam contrastantes.) e IANNI. 3 112 . 1945. 5 CARDOSO. Furtado. pouco abordados por C. defensoras do processo de industrialização. Formação Econômica do Brasil. Paradoxalmente.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO industrialização sofria grandes resistências dos setores ligados à divisão internacional do trabalho. Prado Ir. crise de 1929 etc. PRADO JR.. Rio de Janeiro: ISEB. Cardoso e O. precocemente as esquerdas brasileiras tomaram-se. até então. Dualidade Básica da Economia Brasileira. Rio de Janeiro: ISEB. O debate que se seguiu. 2) a condição de periferia do sistema mundial capitalista bloqueava ou não a industrialização?. A industrialização brasileira recebeu um capítulo na História Econômica do Brasil. pois não percebia as dimensões econômico-sociais e políticas que o processo de industrialização já alcançava. “Fatores humanos da industrialização no Brasil: Ver Brasiliense n° 30.. 38. interna e externamente. C. a universidade não julgava a temática relevante. H. C. publicados na década de 50. de C. Ianni5. Fundo Cultura. Furtado4 . 1959. 3) a que classes sociais couberam as primeiras iniciativas industriais: aos fazendeiros. Rio de Janeiro: Ed. São Paulo: Brasiliense. à pequena burguesia e outros setores populares? etc. “Condições sociais da industrialização em São Paulo” (Ver Brasiliense n. F. Rangel e Furtado publicaram vários outros textos. quando o Departamento de Sociologia da USP entrou no debate. que provocou alguns esclarecimentos. 1957 cujas idéias foram aplicadas no PAIM. História do Brasil. 1960. 4 RANGEL. I. a questão da industrialização havia chegado na época ao próprio âmbito popular.) tinham sido favoráveis ou desfavoráveis ao avanço industrial?. com a participação de numerosos pesquisadores universitários brasileiros e estrangeiros. Paralelamente. junto com a burguesia industrial. FURTADO. iria demonstrar o caráter controvertido das interpretações. I. Industrialização e Economia Natural. Escrita originalmente para o Fondo de Cultura Económíca (México). 1960. onde também se veiculavam opiniões divergentes: a industrialização havia começado com Volta Redonda ou com a implantação das usinas hidrelétricas da Light? A indústria brasileira era multinacional? etc. H. o tema da industrialização só despertou o interesse dos professores universitários após a publicação de Formação Econômica do Brasil. pois refletem as vinculações entre elas e as classes sociais interessadas no processo. No fundo. Assim. publicado em 19453 e mais tarde mereceu interpretações mais aprofundadas nos escritos de dois economistas ligados aos órgãos de planejamento governamentais. O. aos comerciantes de export-import. sobretudo F.

O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL Nas esquerdas brasileiras três teorias referentes à economia brasileira em geral e à industrialização em particular. 2) a teoria da dependência. o México e a Argentina e os demais integrantes sabotaram as metas de integração.). a ênfase generalizada dos países latino-americanos nos mercados internos limitou o potencial de crescimento do comércio na área da ALALC. Berta K. São Paulo: Hucitec. sucessivamente: 1) a teoria da CEPAL. O Processo de Estruturação e os Objetivos do Mercosul O conceito de integração econômica latino-americana surgiu no ambiente da Guerra Fria. 1995. que teve grande aceitação no período seguinte ao golpe militar. Geografia e meio ambiente no Brasil. reconhece o enorme dinamismo do processo de acumulação capitalista brasileiro (. Mais tarde. p. expresso pela fundação da CEE. Outra fonte de influência foi o movimento de integração européia. que se desenrolou entre o final dos anos 40 e o início dos anos 60. et alli (org. tiveram papel hegemônico na luta intelectual. contou com sete integrantes: Argentina. refletindo uma reação à hegemonia geopolítica dos Estados Unidos. além do México. enfatizou a subordinação da industrialização aos interesses do centro do sistema capitalista.). dominou o ambiente cultural de 1955 a 1964. México e Uruguai. Inicialmente. As divergências entre o Brasil. Paraguai. In: BECKER. realçados pela vastidão dos espaços geográficos que recobria. 3) a teoria dos ciclos econômicos. com grande aceitação recente. O Tratado previa o estabelecimento gradual de um mercado comum. recebeu a adesão de Colômbia.. envolvendo quase toda a América do Sul. influenciou na emergência desse novo conceito. Peru. Chile. 113 . 65-66. [MARMIGONIAN. preparado pela constituição de uma zona de livre comércio. Teorias sobre a industrialização Brasileira e Latino Americana. que popularizou a expressão “industrialização por substituição de importação”. A ALALC (Associação Latino-Americana de Livre Comércio) foi criada pelo Tratado de Montevidéu de 1960. chocaram-se desde o início com as desigualdades econômicas internas. em 1957. Equador. Brasil. Os ambiciosos objetivos da Associação. O processo da descolonização afro-asiática. Ao mesmo tempo.] 3.. Armen. Venezuela e Bolívia.

fixada pelo Tratado de Integração. Nessa área. antecipando para 31 de dezembro de 1994 o estabelecimento do mercado comum bilateral. entrou em vigor o Acordo de Complementação Econômica (ACE-14). Aí estão as duas metrópoles nacionais 114 . desenhou-se a meta de um mercado comum. A condição prévia para essa aproximação foi a redemocratização política. até a sua completa eliminação. quando o Tratado de Assunção definiu os contornos do Mercosul. que vai das áreas frias e secas das altas latitudes patagônicas ao domínio equatorial amazônico. em julho de 1986. Cooperação e Desenvolvimento. Mesmo conservando como objetivo de largo prazo a criação de um mercado comum. encontram-se as principais metrópoles e zonas industriais dos países-membros. A adesão do Uruguai e do Paraguai ao projeto comunitário ocorreu em março de 1991. Agrupa quatro parceiros extremamente díspares. O Mercosul nasceu da aproximação brasileiro-argentina e dos acordos prévios de integração bilateral firmados entre os dois países. os governos dos dois países decidiram acelerar o processo de integração. enquanto o Uruguai e o Paraguai são economias fortemente dependentes dos seus vizinhos. O núcleo geoeconômico do Mercosul é a região platina. Paraguai e Uruguai – abrange o Centro-Sul do Brasil. Em novembro de 1988. O novo Tratado tem metas menos pretensiosas e mais flexíveis. O passo inicial da aproximação foi a assinatura do Programa de Integração e Cooperação Econômica Brasil-Argentina. Em seguida. Em julho de 1990. o Pampa argentino. O Mercosul estende-se por um vasto espaço geográfico. que a substituiu pela ALADI (Associação Latino-Americana de Integração). A nova organização recebeu a adesão de todos os integrantes de sua predecessora. A Bacia do Prata – vertebrada pelos rios Paraná. prevendo a redução gradual das tarifas alfandegárias. no prazo de dez anos. estimula a realização de acordos comerciais limitados e uniões aduaneiras entre países-membros.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO O fracasso da ALALC foi reconhecido tacitamente pelo Tratado de Montevidéu de 1980. além das grandes concentrações demográficas. ocorrida em meados da década de 1980 nos dois países. sob os pontos de vista demográfico e econômico: o Brasil e a Argentina são potências latino-americanas. o Uruguai e a porção oriental do Paraguai.

O Pampa concentra a maior parte da riqueza e da população do país. Curitiba e Porto Alegre. Rosário é um importante centro siderúrgico. seguida da abertura de rodovias de integração. Montevidéu. desde o início. Córdoba destaca-se como pólo de indústrias dinâmicas: lá se encontram as principais montadoras automobilísticas de capital europeu. Assunção. estendem-se as periferias regionais: a Patagônia. sob a hegemonia do porto de Buenos Aires. o Estado de São Paulo. ao norte. A aglomeração metropolitana de Buenos Aires. na Argentina. em 1960. no Paraguai. o Chaco e a Mesopotâmia. no Uruguai. A industrialização do Brasil. A soldagem do Pampa à Europa. A organização do espaço regional argentino segue um nítido esquema de tipo centro-periferia. O Centro-Sul surgia como expressão da integração econômica dessa parte do território nacional. Ao seu redor. as sedes das corporações e a maior parte da produção industrial. o Sudeste industrial estava firmemente soldado às áreas complementares de agricultura e pecuária no Sul e nas regiões meridionais do Centro-Oeste. em especial. a grande metrópole argentina (Buenos Aires) e importantes cidades que organizam o espaço regional: Belo Horizonte. No final do governo de Juscelino Kubitschek (1956-61). A estruturação do território da Argentina realizou-se.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL brasileiras (São Paulo e Rio de Janeiro). A inauguração de Brasília.quando a indústria já se havia tornado o núcleo dinâmico da economia nacional. No Pampa. O Uruguai forma uma faixa de transição entre o Centro-Sul brasileiro e o Pampa argentino. Ao redor da área portenha. A troca entre os produtos agropecuários do interior estancieiro (o trigo. valorizou a Região Sudeste e. Apesar da sua economia estar fundamentada nas atividades 115 . Rosário e Córdoba. passando por Rosário. com mais de 10 milhões de habitantes (cerca de um terço da população do país) concentra os serviços financeiros. desde as primeiras décadas do século. os Andes. encontra-se o cinturão industrial do país. a oeste. no Brasil. ao sul. realizou-se através do livre-cambismo e sob a influência dominante da Inglaterra. desenvolveu-se a valorização do Pampa agrícola e pecuarista. . a carne e a lã) e os manufaturados europeus beneficiava essencialmente a elite portenha e os grandes estancieiros exportadores. na segunda metade do século XIX. que se estende em arco aberto de Buenos Aires a Córdoba. refletia a transformação de Goiás e do atual Mato Grosso do Sul em espaços de expansão da economia do Sudeste.

6 milhão de habitantes. 116 . a paisagem monótona das grandes propriedades de pecuária ultra-extensiva – onde escasseiam homens e animais – é pontuada por regiões minifundistas. O rio. atingindo cerca de 85%. A configuração de uma zona de livre comércio. no qual todos os fatores de produção passariam a dispor de liberdade de alocação. de exportação e importação. no leste. que logo alcançou dimensões internacionais. primeiro passo do Tratado. onde se pratica uma agricultura de subsistência de baixa produtividade. onde. o que representa a metade da população nacional. define duas áreas distintas: o oeste. pelo rio de mesmo nome. amplia a escala dos mercados para as empresas envolvidas e reorganiza a divisão regional do trabalho. que corta Assunção. encontram-se as zonas dinâmicas e a usina de Itaipu. O processo de integração deflagrado pelos acordos entre o Brasil e a Argentina e aprofundado pelo Tratado de Assunção tende a interferir nas dinâmicas territoriais dos países-membros. de norte a sul. estendem-se as grandes regiões agropecuárias. a cidade desenvolveu um forte centro financeiro. a agricultura da fronteira é controlada por empresários rurais brasileiros. Essas mudanças seriam aprofundadas com a evolução rumo ao mercado comum. A aglomeração metropolitana de Montevidéu agrupa cerca de 1. aparecem áreas de agricultura comercial. O Paraguai é atravessado. Próximo à fronteira nordeste.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO primárias. A função portuária continua a representar a principal atividade da capital. As companhias de navegação. as empresas de transportes dinamizam a vida econômica da capital. Ao lado das funções administrativas e comerciais. Esta concentração urbana da população é conseqüência da estrutura fundiária baseada no domínio da grande propriedade e das modalidades predominantes de uso do solo – a pecuária extensiva e as culturas mecanizadas – poupadoras de mão-de-obra. Entre o Rio Paraguai e a fronteira oriental. os armazéns. passando a receber investimentos especulativos provenientes da Argentina e do Brasil. em especial soja e café. O padrão agroexportador da economia do país condicionou a hegemonia da capital portuária sobre o interior pampeano. Nas áreas menos férteis. sob forte influência brasileira. junto ao Brasil. a taxa de urbanização é bastante elevada. que corresponde ao despovoado Chaco. Em grande parte.

uruguaio e brasileiro. No campo dos transportes terrestres. viabilizada pelas eclusas de Jupiá e Três Irmãos. proposto pelas lideranças industriais. Nesse contexto. Situadas nas faixas de fronteira. já conhecida com Rodovia Sul-Americana. A infra-estrutura disponível às empresas do Mercosul aparece como um dos elementos fundamentais na definição de sua competitividade e eficiência. O advento do Mercosul e das novas estratégias comerciais e empresariais abre amplas perspectivas de integração territorial na sub-região. no trecho brasileiro do Alto Paraná. O traçado desta estrada. A soldagem entre o Sudeste. da carência de investimentos e infra-estruturas. um projeto de forte impacto é o da auto-estrada São Paulo-Buenos Aires. que não é servido por eclusas e exige o transbordo rodoviário de cargas. Paraguai e Uruguai. encontram-se as duas frentes de expansão do povoamento da área do Mercosul: a Amazônia brasileira e a Patagônia argentina. a hidrovia do Mercosul é o projeto de maior envergadura. Esses dois ecossistemas inteiramente diferentes exibem uma semelhança socioeconômica e territorial – tanto a Amazônia equatorial como a Patagônia fria e seca são vastos espaços de baixas densidades demo gráficas e elevada potencialidade econômica. No plano do transporte fluvial. o Mercosul acentua a urgência de integração das regiões setentrionais – a Mesopotâmia e o Chaco – ao núcleo portenho-pampeano. integraria o leste dos territórios argentino. Essa hidrovia tem como único obstáculo de porte o desnível de Itaipu. o Sul e a parte meridional do CentroOeste – sob o comando dos capitais industriais e financeiros baseados em São Paulo – ganha novo impulso com a abertura do mercado argentino. essas regiões se ressentem de fraco dinamismo econômico e. Muito além do núcleo geográfico platino. O traçado litorâneo. as iniciativas no campo dos transportes ganham uma especial relevância. é objeto de intensos debates envolvendo lideranças industriais e rurais dos três estados da região Sul do Brasil. A entrada em operação da hidrovia Tietê-Paraná. principalmente no caso do Chaco. o Mercosul tende a reforçar as modalidades históricas de regionalização.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL No caso do Brasil. No caso da Argentina. interligou o Centro-Sul do Brasil aos mercados de Argentina. favoreceria o complexo industrial instalado nas capitais 117 . Assim.

de autoria dos embaixadores Sérgio Abreu e Lima Florêncio e Ernesto Henrique Fraga Araújo. Além da auto-estrada.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO dos estados da região Sul do Brasil. c) coordenação de políticas macroeconômicas. O segundo. escrito pela geógrafa Mônica Arroyo. Texto 1 -Os Objetivos do Mercosul O Mercosul é um processo de integração que tem como meta a construção de um Mercado Comum. o Atlântico ao Pacífico na América do Sul e abririam novas perspectivas de integração do Cone Sul com a Bacia do Pacífico. pela primeira vez. a rodovia interior poderia servir de “corredor” para 26% da economia gaúcha. 48% da catarinense e 53% da paranaense. situa o bloco subregional no contexto das tendências simultâneas de globalização e regionalização que presidem a economia mundial contemporânea. no norte do Chile. diminuir o êxodo rural e ampliar a oferta de empregos na região. e) livre circulação de mão-de-obra. f) livre circulação de capitais. destaca os objetivos e as características básicas do Mercosul. Segundo estudos realizados na Universidade de Passo Fundo. Textos Complementares Os textos selecionados para introduzir a discussão sobre a origem e o significado do Mercosul abordam dois aspectos cruciais no processo de integração. d) livre comércio de serviços. Uma ligação ferroviária entre o porto de Santos e esse mesmo porto chileno também está em projeto. O primeiro deles. do Paraná e de Santa Catarina propõem a interiorização da estrada. Essa meta pode ser decomposta nos seguintes elementos básicos: a) eliminação das barreiras tarifárias e não-tarifárias no comércio entre os países-membros. unindo Buenos Aires a Colônia. Estas ligações uniriam. O projeto seria complementado com a construção de uma ponte de 50 Km sobre o Rio da Prata. 118 . Os empresários e políticos do interior do Rio Grande do Sul. planeja-se uma ligação rodoviária entre o porto de Rio Grande e o porto de Antofagasta. de forma a beneficiar os produtores rurais dos três estados. b) adoção de uma Tarifa Externa Comum (TEC).

Hoje. A desgravação tarifária maior para o comércio intrazonal (i.e. um país pode importar produtos de outro integrante da Zona sem pagar tarifas. Entretanto. e das quais falaremos mais adiante. é um dos grandes estímulos que os países têm para integrarem-se. A esta vantagem chamamos Preferência Tarifária ou Margem em Preferência. que serão gradativamente eliminadas. entre os países envolvidos no Mercosul) é uma característica essencial dos processos de integração: as alíquotas aplicadas ao comércio dentro da zona são sempre diferentes (e menores) do que aquelas praticadas com países fora da zona. que deverão ser trabalhados ao longo dos próximos anos para que o Mercosul se torne um Mercado Comum. chamada de Margem de Preferência. que desaparecerão com o tempo. a) Eliminação de barreiras tarifárias e não-tarifárias O primeiro objetivo do Mercosul. Ora. o estabelecimento de uma Tarifa Externa Comum. Esta diferença. o Mercosul já preenche os requisitos para ser considerado uma União Aduaneira. Ou seja. a eliminação das tarifas e das restrições não-tarifárias entre os seus parceiros. a liberalização do comércio de serviços. a importação de um produto proveniente de um mercado fora do Mercosul está sujeita à mesma alíquota tarifária nos quatro países. com algumas exceções. 119 . Cumpridos esses dois objetivos básicos. b) Tarifa Externa Comum O segundo objetivo do Mercosul. Trata-se da coordenação de políticas macroeconômicas. conclui-se que os integrantes do grupo têm uma vantagem. o Tratado de Assunção estabelece ainda outros objetivos. a livre circulação de trabalhadores e a livre circulação de capitais. como continua a haver tarifas para os países fora do grupo.. desde aquela data.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL Examinemos um a um esses objetivos. foi concretizado também em 31 de dezembro de 1994 – igualmente prevendo-se algumas exceções. foi atingido em 31 de dezembro de 1994.

a qualquer momento. de modo a evitar desequilíbrios comerciais. Criar-seia. e quanto mais se desenvolva a interdependência entre as economias dos países-membros. causando desequilíbrio na balança comercial em desfavor dos parceiros. que poderia prejudicar a todos. A política macroeconômica de um país se divide em três esferas principais: política cambial (taxa de câmbio da moeda nacional em relação ao dólar ou a um padrão de referência externo). É 120 . É preciso compreender. ou promoverão eles também desvalorizações de suas moedas. um país pode. Num ambiente onde não exista coordenação. em detrimento dos concorrentes do outros países-membros). Benéfica porque constituirá um fator de disciplina na condução das políticas econômicas. um circuito de “desvalorizações competitivas”. já que implicará uma limitação na autonomia de cada país para conduzir sua política econômica. no entanto.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO c) Coordenação de políticas macroeconômicas O objetivo seguinte é a coordenação de políticas macroeconômicas. a coordenação de políticas macroeconômicas será certamente um processo lento. mais necessária se fará a coordenação de políticas macroeconômicas – tanto por seus efeitos comerciais já apontados acima. e porque contribuirá para um ambiente de previsibilidade e de regras do jogo estáveis. decretar uma maxidesvalorização de sua moeda. que não se pode pretender implementar em um período muito curto. política monetária (taxa de juros e quantidade de moeda a ser emitida) e política fiscal (controle dos recursos a serem arrecadados e gastos pelo Estado). A importância de coordenação macroeconômica entre países em processo de integração fica bastante clara quando se considera a questão do câmbio. Estes últimos terão duas opções: ou absorverão as conseqüências da medida e as distorções decorrentes da diferença cambial. o que estimulará intensamente suas exportações e reduzirá suas importações. como por seu impacto nos fluxos de investimento (um país com juros mais elevados pode atrair mais capitais externos) e nas condições de concorrência (um país que cobra menos impostos incentiva os seus produtores locais. que a autolimitação decorrente do processo de coordenação macroeconômica será benéfica para cada país. Quanto mais avance o processo de integração no Mercosul. A coordenação de políticas cambiais implica que cada país aceita limites nas modificações que pode introduzir em sua taxa de câmbio. mudança de grande envergadura. Apesar de necessária. neste caso.

A crescente interpenetração das economias resultará. Além disso. no entanto.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL bom para qualquer país. Atividades nesse sentido já estão em andamento. além da harmonização de legislações. mas ainda há boa distância a percorrer até a livre circulação de capitais. tende a criar uma pressão crescente pelo desenvolvimento de ações facilitadoras da circulação de mão-de-obra. A participação direta de representantes dos trabalhadores no processo de discussão desses temas. é necessária. por exemplo. e) Livre circulação de capitais Por fim. que já ocorre e que provavelmente será reforçada no quadro do Foro Consultivo Econômico e Social – do qual falaremos – . ainda. com efeito. no futuro. não importando que isso seja uma decisão absolutamente individual ou a decorrência de compromissos assumidos num processo de integração. a crise financeira mundial no início de 1995. Por outra parte. parece contribuir antes para critérios de maior controle sobre os fluxos de capital do que para uma facilitação desses movimentos. Mas. no interesse dos trabalhadores de cada país pelo mercado de trabalho dos vizinhos. Até aqui. o trabalhador pode beneficiar-se apenas – embora já seja muito – dos empregos que o Mercosul cria em seu próprio país de cidadania. como já está ocorrendo. é necessário um enorme esforço de harmonização das legislações trabalhistas e previdenciária. a facilitação do reconhecimento mútuo de títulos e diplomas. d) Liberalização do comércio de serviços Os negociadores do Mercosul terão que enfrentar. Os investidores dos países do Mercosul já contam com certas facilidades e garantias para suas aplicações no mercado dos parceiros. quando se considera também a situação dos profissionais de nível superior – igualmente interessados no mercado dos outros países do Mercosul – . com seu impacto traumático. temos o objetivo da livre circulação de capitais. e a crescente demanda da sociedade civil provavelmente forçará sua aceleração no curto e médio prazo. que já está sendo desenvolvido. a questão da circulação de trabalhadores. ter uma política cambial estável. A 121 . o trabalhador deverá ter acesso também aos empregos que o Mercosul cria no país vizinho. Somente o acesso desimpedido a esses mercados permitirá que o trabalhador aproveite os frutos da integração na sua totalidade. Para que isso seja possível.

Trata-se do sistema de integração mais profundo. mais cedo ou mais tarde. apesar das dúvidas dos “euro-céticos”. “Não podemos querer atingir em poucos anos o que a Europa levou quatro décadas para alcançar”. pela União Européia. ao lado de uma facilitação dos fluxos de capitais produtivos. provavelmente. o Mercosul está sempre acontecendo.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO liberalização dos fluxos de capital no Mercosul será. sempre que se fala de processos de integração. O estágio que o Mercosul alcançou em 10 de janeiro de 122 . é lícito concluir que o Mercosul já alcançou patamares bem avançados de integração. Não é o modelo arquetípico com o qual os demais processos de integração têm que se parecer ao máximo. assim. naturalmente. Entretanto. a União Aduaneira vigente desde 10 de janeiro representa urna massa crítica de tal ordem que por si só. num sistema dotado de organicidade e dinamismo. os avanços geram novos avanços. só atingidos. mais ambicioso e economicamente mais pujante já implementado. que para alcançar o estágio de Mercado Comum o Mercosul ainda terá de concretizar objetivos de grande envergadura: a coordenação de políticas macroeconômicas. e seu sucesso é absolutamente inegável. apequenar o que já foi conseguido. A União Européia surge. como um paradigma. Essa perspectiva não deve. contudo. Sempre uma nova idéia. Percebe-se. Sendo um processo. por mais complexos que sejam. exigirá. a União Européia não é uma matriz a ser fotocopiada. pelo próprio desdobramento de sua lógica interna. muitas vezes se faz de forma superficial. uma liberalização bastante qualificada: a tendência aponta para um maior controle dos movimentos de capitais especulativos. um novo projeto de acordo está fermentando em alguma parte. mais complexo. Examinando os diversos modelos de processos de integração e a situação que o Mercosul ocupa nesse quadro. Não podemos nos esquecer de todas as implicações da palavra “processo” quando descrevemos o Mercosul como um processo de integração. um novo tema. Na verdade. E as idéias geram idéias. a liberalização do comércio de serviços e a livre circulação de mão-de-obra e capitais. A comparação dos tempos da União Européia e do Mercosul. a consecução desses outros objetivos. até agora. dizem. O equívoco dessa visão de uma União Européia arquetípica fica muito evidente quando se vêem certos comentários sobre os prazos para a construção do Mercosul: “os prazos são irrealistas”.

já haviam. inauguradas nos anos 80. na realidade. que baseando-se inicialmente no complexo metalmecânico passou também – e fundamentalmente – a fazê-lo no complexo eletroeletrônico. A regionalização. mas em cerca de onze anos a partir da assinatura do Tratado de Roma. A complexidade crescente no processo produtivo é um dos eixos dessas mudanças. como veremos. Por outra parte. após três anos e meio de negociações – o de União Aduaneira – .O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL 1995. Isso é possível pela conformação de um novo padrão industrial. por outro lado. Elas se opõem quanto à direção do movimento que em cada uma está implícita. eliminado as barreiras ao seu comércio recíproco e adotado uma Tarifa Externa Comum – em ambos os casos com algumas exceções. Sérgio Abreu e Lima e ARAÚJO. São Paulo: Ed. 28-33. Ernesto Henrique Fraga. os seis países signatários do Tratado de Roma. o Mercosul está alicerçado sobre um longo processo de integração latino-americana. não se pode pensar que o Mercosul surgiu do nada. mostra uma tendência a atuar em uma área limitada do planeta. Na verdade. de 1957. A concorrência mediante preços já não é tão decisiva quanto a que se traduz na qualidade e na diferenciação dos produtos. essa oposição é só aparente já que essas tendências complementam-se para dar respostas às mudanças estruturais que estão transformando paulatinamente o cenário mundial. A globalização remete à idéia de um movimento que tem como “campo de ação” todo o planeta. como também ocorre no Mercosul. foi atingido pelos membros originários da União Européia.] Texto 2 – Mercosul: Novo Território ou Ampliação de Velhas Tendências? O contexto internacional Duas tendências concomitantes no sistema internacional contemporâneo têm se acentuado na última década: a globalização e a regionalização da economia. Mercosul hoje. Com efeito. sobretudo no campo da microeletrônica. A incorporação do conhecimento tecnológico aparece como a condição necessária para o aumento da produtividade e do crescimento econômico. [FLORÊNCIO. p. 1996. Porém. As novas tecnologias. e sobre as iniciativas de integração bilateral Brasil-Argentina. iniciado em 1960. Alfa Omega. um movimento que opera na escala mundial. em uma escala mais reduzida. não em quarenta. em 1968. 123 .

É assim que. Dessa forma. os espaços nacionais deixam de ser o locus privilegiado para o processo de acumulação. Produtos mais complexos. além das fronteiras nacionais. de um lado. Madri. como a aplicação do princípio just in time (gestão por fluxos). cria a necessidade de ampliar a dimensão dos mercados. mais intensivos em tecnologia. em equipamentos e sistemas flexíveis de produção de manufaturados. 1991). O avanço nas tecnologias de informação facilita significativamente essa tendência ao permitir que as etapas de produção se localizem em países diferentes mantendo o monitoramento centralizado sobre elas. por implicar. com métodos administrativos mais eficientes. Manuel. investimentos de alto custo e. EI socialismo futuro. Assim.la nueva división internacional del trabajo y el projeto socialista. embora não seja novidade. Embora seu tamanho seja consideravelmente mais reduzido que o das empresas dos países industrializados. em que a ênfase é dada à qualificação da mão-de-obra e à maior integração entre a administração e a produção. Esse salto. projeção e desenhos de novos produtos. a qual. as novas tecnologias exigem escala planetária. E na organização do trabalho. com a diminuição relativa na estrutura ocupacional dos operários (Cacciamali. exigem mercados mais sofisticados e segmentados na economia mundial. Os governos nacionais buscam ampliar o espaço de realização das 1 Na produção. com inovações aplicadas na concepção.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO imprimem um salto qualitativo no processo de produção. a expansão das grandes firmas oligopólicas nos setores produtivo e financeiro modifica substantivamente a geografia mundial. Dessa maneira. com novas técnicas gerenciais e de alocação e treinamento dos recursos humanos. 124 . Esse aprofundamento do processo de concentração e centralização do capital tem permitido aumentar o controle dos conglomerados sobre as relações econômicas internacionais. La economia informacional. Na gestão. 3 Neste sentido. 1991. Ominami (1986) destaca o rápido aumento do número de países em desenvolvimento que dispõem de empresas com investimentos diretos no estrangeiro. tanto para as grandes empresas quanto para os próprios países. 4. 2 Ver CASTELLS. esta tendência incrementou-se desde os anos 70. na utilização de robôs e em formas de energia. assentou-se nas últimas décadas3. acentuando a tendência à globalização da economia. a qualidade da infom1ação tem se convertido em fator estratégico para a competitividade das empresas. de gestão e de organização do trabalho1. das regiões e dos países2. neste processo. cuja manifestação cada vez mais acentuada é a consolidação de um espaço integrado da empresa. uma rápida obsolescência dos produtos e processos. de outro. Outra mudança estrutural a considerar nesta análise é a crescente transnacionalização da economia.

Pelo contrário. Esses acordos sub-regionais de comércio reativados nos anos 90 são precedidos pela adoção de políticas unilaterais de liberalização em um contexto de 4 Os projetos mais avançados neste sentido são o Mercado Único Europeu e a Área de Livre Comércio entre Estados Unidos. liberalizar completamente o comércio intrazonal de produtos agropecuários a partir de 30 de junho de 1992. o Pacto Andino anunciou que o prazo para a formação de uma Zona de Livre Comércio seria o dia 31 de dezembro de 1991 e antecipou para 1995 a adoção de uma tarifa externa comum. Por seu lado. existem permanentes divergências para decidir se prioriza a solução dos problemas “domésticos” ou os relativos à Comunidade. 125 . conforme tentam acomodar seus interesses específicos. Nessa reordenação. É bom ressaltar.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL mercadorias com maior abertura da economia. se transforma assim em uma saída para enfrentar as novas condições da competitividade internacional4. Essa superposição é muitas vezes conflitiva pela tensão existente entre esses agentes. observa-se uma simultaneidade de movimentos diferentes que influem um no outro: o das empresas transnacionais. com peso ainda significativo das políticas conduzidas pelos Estados5. processo de integração que tem alcançado o maior grau de aprofundamento. que os agrupamentos entre países têm preferentemente caráter intergovernamental. O interesse associativo destas iniciativas visando o fortalecimento da base regional não é contraditório ou excludente. já que ambas decorrem da necessidade cada vez mais presente da criação de mercados ampliados. 6 Em novembro de 1990. uniões aduaneiras ou mercados comuns. são complementares ao coincidir na busca de uma inserção em um contexto mais amplo. no entanto. com a tendência à globalização. Podem-se mencionar também o Pacto Andino e o Mercado Comum Centro-Americano. com a assinatura da Ata de La Paz. Canadá e México (NAFTA – North American Free Trade Agreement). 1991). e suprimir os obstáculos ao comércio intra-regional de manufaturas (Hirst. tanto regional quanto mundial. através da criação de zonas de livre comércio. acordos preexistentes que receberam novo impulso a partir de renovados programas de negociações regionais6. Algumas particularidades latino-americanas A formação de um mercado comum no Cone Sul (Mercosul) é uma das iniciativas intra-regionais de caráter minilateral que se tem registrado na América Latina no início da década de 1990. os dos Estadosnação e os dos novos conjuntos ou agrupamentos de Estados. 5 Mesmo na Comunidade Européia. em julho de 1991 os governos dos países da América Central comprometeram-se a: reduzir até 31 de dezembro de 1992 a tarifa externa. A ampliação dos mercados.

após o choque dos juros. programas de estabilização que foram administrados por meio de contenção de demanda interna sem uma definição prévia de política industrial e sem priorizar setores. abr-jun.se conformar. Esta denominação refere-se basicamente ao fato de que a América Latina está em um período de retardamento de seu processo de industrialização.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO políticas de abertura das economias nacionais. este tipo de acordo mais restringido parece “reconhecer a inviabilidade dos acordos múltiplos. com políticas econômicas nem sempre compatíveis e governos instáveis. o que acabou por provocar uma desorganização econômica”7. com maior profundidade. Isso se expressa claramente a partir de 1982. associações minilaterais que dinamizem o comércio intrazonal8. 1991. com diversos graus de desenvolvimento. quando se trata de países heterogêneos. que facilitou o desenvolvimento industrial a partir da presença tutelar do Estado e com diferentes mecanismos de proteção econômica. procuram. “O modelo de crescimento com endividamento. ou mesmo as áreas sociais. A posterior aplicação de políticas de ajuste permite explicar o predomínio da estagnação. Diante desse contexto particular para o continente latino-americano e das mudanças estruturais do sistema econômico internacional. seu desenvolvimento. É no âmbito financeiro que se percebe. 226. Acordar entre onze. no início da década de 1980. 8 De acordo com Quijano (1991). Mudanças recentes no produto e no emprego: uma comparação entre os países industrializados e aqueles em desenvolvimento. recessão e descapitalização que caracteriza a chamada “década perdida”. 45(2). Maria Cristina. quando sucessivamente diferentes países latino-americanos declaram a moratória. que reúne na ALADI os 11 países da região. como uma das formas de reativação econômica. Rio de Janeiro. Efetivamente. 7 CACCIAMALI. É conveniente lembrar que tais receitas recessivas são tuteladas ou controladas pelo Fundo Monetário Internacional. O modelo substitutivo de importações. 50). a crise estrutural que tem afetado secularmente o continente se aprofunda com uma gravidade sem precedentes na década passada. começa a dar sinais de esgotamento nos anos 80. que desde 1982 monitoriza o pagamento da dívida externa. implicou. 126 . Revista Brasileira de Economia. que a cada renovação mudam a ponderação ao projeto regional. p. parece uma tarefa inviável” (p. como o Tratado de Montevidéu.

Costa Rica. Em 1990. Os momentos da integração econômica no Cone Sul O processo de integração no Cone Sul começa em 1985 com um encontro entre os presidentes Raúl Alfonsin (Argentina) e José Sarney (Brasil) em Foz do 9 Em 1989. Peru e Uruguai. que surge com a assinatura do Tratado de Assunção em março de 1991. Honduras. o qual exige um importante esforço na coordenação das políticas internas dos países envolvidos. aconteceram processos eleitorais na Argentina. o Programa de Integração e Cooperação Econômica (PICE) entre Argentina e Brasil. Paraguai e Uruguai. que foi assinado em 1986. em El Salvador.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL Salienta-se que esses fatos têm seu correlato no plano político. que deverá estar estabelecido a 31 de dezembro de 1994 e que implica as seguintes metas: (a) livre circulação de bens. (c) a coordenação das políticas macroeconômicas e setoriais entre os Estados-membros. Agora. Sem dúvida. no Paraguai e na Venezuela. serviços e fatores produtivos entre os países. no Chile. no Panamá. Nicarágua. (b) o estabelecimento de uma política comercial comum em relação a terceiros países. os Estados-Parte decidem constituir um mercado comum. Limitam-se ao tratamento da questão das barreiras ao comércio (dos membros da comunidade entre si e no seu relacionamento com o resto do mundo). Brasil. Neste contexto situa-se o Mercosul. a análise deve remontar a seu antecedente mais recente. De acordo com o Artigo nº 1 desse Tratado. para entender o Mercosul. proposta de integração entre Argentina. como uma área de livre comércio e uma união aduaneira. Optou-se por uma proposta que implica um importante aprofundamento no processo de integração econômica. 127 . trata-se de proposta ambiciosa para cumprir em quatro anos. exigem um grau menos avançado de integração. por sua parte. Outras modalidades. no Brasil. indício da consolidação nos processos de transição democrática que vivem vários países da região. O mercado comum. na Bolívia. na Colômbia. Tentam-se transformar os processos de integração já em curso em um instrumento para dinamizar as relações econômicas exteriores. vem acompanhada por um desenho mais pragmático da política externa. pois a renovação dos numerosos governos no começo da década9. e (d) o compromisso de harmonizar as legislações nacionais nas áreas pertinentes. inclui a livre mobilidade da mão-de-obra e de capital.

começa-se a assinar uma série de acordos e protocolos bilaterais visando aprofundar um programa de negociações. 11 ARAÚJO JR. procurando atingir dois objetivos: a curto prazo. recuperar o nível de transações e corrigir desequilíbrios sistemáticos nos fluxos de comércio e. Argentina e a balança de poder regional: equilíbrio. São Paulo. 10 MELLO. Tese de doutoramento. em uma situação de mercado ampliado. Pelo contrário. José Tavares de. Os protocolos setoriais são os instrumentos básicos deste Programa. 271.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Iguaçu. Esta opção é uma tentativa de reverter o esquema predominante no comércio bilateral. que se baseia fundamentalmente na exportação. Esquema clássico de especialização intersetorial. 1991. Como afirma Almeida Mello “com o fim do autoritarismo e do Estado de Segurança Nacional nos dois países platinos. Texto para discussão. estimulando uma diversificação das estruturas produtivas e o aproveitamento das economias de escala. o retorno à democracia e ao “estado de direito” contribuiu para que a dinâmica da cooperação-integração subordinasse a lógica da rivalidade-competição. pode até provocar a desaparição de algum setor em um dos parceiros comerciais. Isto implica uma divisão do trabalho por produtos mais que por ramos de produção. de produtos primários com pouco grau de processamento por parte da Argentina diante das exportações brasileiras de manufaturas. alimentar e automobilística. A opção por soberanias compartidas na América Latina: o papel da economia brasileira. Facilitam uma abertura negociada por setor e por produto. p. que. nos quais predominava uma relação de mútua desconfiança. Departamento de Ciência Política. que consolide seu papel de indutores do crescimento regional11. 1991. Leonel Itassu Alemeida. Brasil. Rio de Janeiro: Instituto de Economia Industrial. 256. o comércio intra-ramos promovido pelo PICE busca a criação de vantagens comparativas dinâmicas que incrementem a competitividade de alguns setores. que havia predominado nas relações brasileiroargentinas até o fim da década de 1970”10. criar um novo padrão de relacionamento entre as duas economias. a longo prazo. Universidade de São Paulo. Este fato é significativo já que se situa no processo de reabertura democrática iniciado nos dois países depois de traumáticos regimes militares. preponderância ou hegemonia? (1969-1986). Universidade Federal do Rio de Janeiro. Um dos objetivos mais significativos do PICE é promover uma especialização intrasetorial. 128 . Daí a preferência que se outorga as indústrias de bens de capital. Assim sendo. na qual se prioriza o intercâmbio de bens análogos com certo grau de diferenciação.

propõem-se medidas como a formação de empresas binacionais e a criação de um fundo de investimentos. Cabe destacar o caráter gradual que se pretende impor ao processo com a finalidade de. linear e Ver HALPERÍN. Efetivamente. Ao mesmo tempo. Para estes dois países o Tratado estende o prazo do programa de liberalização até 31 de dezembro de 1995. Estabelece uma redução tarifária generalizada. os bens dos setores mais sensíveis. Isso é importante na medida em que existem fortes disparidades entre vários segmentos dos setores envolvidos e. 14 O marco formal desta nova proposta instala-se com a Ata de Buenos Aires assinada em julho de 1990 entre Argentina e Brasil. “dar tempo para que os setores produtivos nos dois países se ajustem às contingências criadas pela abertura parcial e seletiva dos mercados”. deixa de corresponder com uma política de abertura gradual e seletiva dos mercados para adquirir um sentido funcional em um contexto generalizado de exposição competitiva à economia mundial13. que produzem uma modificação radical nas políticas econômicas sustentadas basicamente em um conjunto de princípios neoliberais. com os governos dos presidentes Menem e Collor. 1990. 1991. a qual ocorre nem tanto por uma avaliação estrita de seus resultados. e mais tarde se atualiza com o Tratado de Assunção e a incorporação do Uruguai e do Paraguai ao processo.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL Além de estabelecer mecanismos progressivos de eliminação tarifária e de remoção de barreiras não-tarifárias. portanto. Universidad de Belgrano. mas como uma das respostas ao quadro de asfixia econômica e financeira em que se encontravam ambos os países12. Faculdad Latino Americana de Ciencias Sociales. julio. como certas produções agrícolas. 130. A renovação dos governos democráticos na Argentina e Brasil nos anos 90 promove uma reformulação ampla do PICE. set. ARAÚJO JR. 33. Rio de Janeiro: Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior. Avances y desafíos en la formación del Mercosur. no início. visando estimular a complementaridade produtiva. José Tavares de. o processo de integração aprofundase no sentido de aspirar à constituição de um mercado comum e também alcança uma nova dinâmica14. Buenos Aires. Documento. A Ata de Buenos Aires e as perspectivas de integrarão do Cone Sul. o processo de integração. Buenos Aires. Mônica. precisam-se desenhar linhas de reconversão industrial para acompanhar o processo. embora se reafirme. Como foi indicado no item precedente. 13 Ver HIRST. Marcelo. Texto para discussão interna. deve-se ressaltar a preocupação por uma abertura seletiva que implica não incluir. conforme o PICE. Documentos e informes de investigación. La cuestión nacional y los dilemas jurídicos e institucionales en el processo de integración entre Argentina y Brasil. 12 129 . 1992.

No entender de Araújo (1990). ajudaram a desgastar a idéia de integração latino-americana. ARAÚJO JR.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO automática. enquanto há tempo. regida por prazos de cumprimento estrito. Rio de Janeiro: Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior. das relações econômicas preexistentes. 18. é bom lembrar que na Europa. a uma decisão de tipo político que imprime determinado conteúdo ao projeto. esse processo levou mais de quatro décadas. em conseqüência. há décadas submetida a retóricas governamentais inconseqüentes” (p. junto a uma eliminação de barreiras não-tarifárias. p. 33. seria conveniente. 1990. posto que nenhum dos dois governos está preparado para enfrentar. “a decisão de encurtar os prazos do programa foi uma temeridade. Texto para discussão interna. no passado. a partir de 20% de redução tarifária anual. 15 130 . Dificilmente podem-se atender a essas dificuldades em um ritmo tão peremptório. Esta decisão de acelerar o processo de formação de um mercado comum com o estabelecimento de calendários extremamente apertados é também uma forma de desconhecer as assimetrias entre os países envolvidos e. A propósito. as dificuldades inerentes ao complicado exercício de harmonizar políticas. Em outro de seus trabalhos acrescenta que “a fim de evitar que o Mercosul se torne mais um exemplo da longa lista de fracassos latinoamericanos. e estabelecer prazos mais sensatos para a formação do mercado comum”15. José Tavares de. 10). que significa uma liberalização comercial de caráter universal (todos os produtos são submetidos automaticamente à redução tarifária). Essa atitude representa um esforço inútil de criar fatos novos com o objetivo de manter a credibilidade do programa. reduzir transitoriamente seu escopo para um Tratado de Livre Comércio. A Ata de Buenos Aires e as perspectivas de integração do Cone Sul. nos próximos dois ou três anos. set. sem crise de inflação e dívida externa. Um dilema ainda não resolvido Um processo de integração econômica entre vários países responde. sem dúvida. e é idêntica a inúmeras outras que. Define-se assim uma mudança radical nas condições de concorrência já que se suprime a possibilidade de uma adaptação gradual de cada item ou matéria negociada a suas particularidades. Este último depende principalmente dos processos políticos internos de cada país.

permitiria orientar o processo de industrialização em face de um aumento de sua competitividade a partir de economia de escala e especialização. CHUDNOVSK. Halperín (1991) aponta duas opções para os governos do Cone Sul: uma negociação de abertura maciça para o aproveitamento planificado dos mercados. ou uma abertura irrestrita com condições impostas pelas “forças do mercado”. resultados diferenciados. incluindo previsões para os diferentes setores e ramos de produção e uma política externa comum. Tendencias e incertidumbres. La trayectoria del proceso de integración argentinobrasileño. Documento de Trabajo. A diferença no grau de intervenção estatal que subjaz a cada uma das opções implica. compatibilizar os regimes de promoção setorial e fixar algum mecanismo de paridade ou equivalência cambial de caráter permanente. precisa-se de políticas industriais e tecnológicas ativas em cada país. A partir daí a reestruturação passa a ser orientada estritamente pelos mecanismos do mercado. A segunda opção. Daniel y PORTA. Daí que vários autores falam dos possíveis cenários ou opções que o processo de integração pode enfrentar. 1990. A primeira opção exige uma regulação estatal mediante unificação e harmonização das políticas econômicas. Uma implementação de políticas industriais e tecnológicas ativas. e um esforço deliberado de harmonização das políticas econômicas além do plano cambial. Esta concepção assemelha-se à “comercialista” que apontam Chudnosky e Porta. uma abertura rápida e uma desregulação da economia podem conduzir a uma reconversão com um alto custo social e a um aprofundamento do esquema de especialização intersetorial. também. Pode. 16 131 . Ao contrário. implica uma elevada desregulação das atividades econômicas. Seria suficiente. na qual a coordenação das políticas econômicas centra-se basicamente no tipo de câmbio.se assimilar este caminho ao cenário “industrialista” definido por Chudnosky e Porta16 os quais supõem uma liberalização comercial dentro de um projeto global de reestruturação industrial. neste caso. associada a uma liberalização comercial progressiva. Universidad de la República.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL da condução de seus governos e da participação dos diferentes segmentos da sociedade civil. ao contrário. Fernando. Uruguay: Centro de Estudios e Investigación de Posgrado (CEIPOS). Ao respeito. Para isso.

o marco jurídico etc. corresponderia basicamente à via de tipo “industrialista”. pode-se concluir que o enfoque do avanço gradual por setores. 122-130. por sua vez. que. os que já detêm um importante grau de controle da economia. São Paulo: Hucitec. Industrialización. fundamentalmente das pequenas e médias empresas. se superpõe aos esforços individuais.)”17. pode-se inferir que em um cenário “comercialista” predominam as velhas tendências. A partir desse suposto. o aparato científico-tecnológico. as instituições. [ARROYO. Conforme observado. 1994. Sem dúvida. setembro. p. por inumeráveis aspectos que conformam o entorno das firmas (desde a infra-estrutura física. In: SEMINÁRIO LAS VENTAJAS COMPETITIVAS DE LA NACIÓN. um esquema de intercâmbio no qual só se beneficiam os setores mais concentrados. Globalização e espaço latino-americano.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Neste sentido. o sistema de distribuição e comercialização até os valores culturais. Documento de trabajo. competitividad e inserción externa. isto é. embora sejam condição necessária para atingir esse objetivo. a rede de provedores e subcontratistas. devem estar acompanhados. o único que pode facilitar a participação de todos os agentes econômicos no processo.] KOSACOFF. Monica. que predominou no primeiro momento do processo de integração entre Argentina e Brasil. Cada vez mais na experiência internacional torna-se central a idéia de “competitividade sistêmica” como base sólida para o desenvolvimento econômico. Buenos Aires: Presidencia de la Nación. a inflexão produzida a partir de 1990 mostra que o novo esquema parece estar mais próximo da opção “comercialista”. In: SCARLATO. Francisco Capuano e outros (org. esta noção “substitui e.). as condições que conformam tal entorno dependem em grande medida da presença ativa do Estado. 17 132 . Bernardo. na qual o Estado aparece subordinado à lógica do mercado. 1991. Segundo Kosakoff. Mercosul: Novas territorialidades ou ampliação de velhas tendências. Pelo contrário. necessariamente. deseja-se destacar que a possibilidade de atingir níveis crescentes de competitividade não depende exclusivamente dos esforços individuais dos agentes econômicos.

criado em 1985. consiste em uma rede integrada de telecomunicações baseadas no sensoriamento remoto. essas estratégias envolveram a criação de órgãos de planejamento. No caso brasileiro. a Amazônia Internacional vem sendo objeto de diferentes estratégias nacionais de desenvolvimento e integração. Já o Sistema de Vigilância da Amazônia (SIVAM). da Bolívia. 133 . constituída em sua maior parte por terras baixas florestadas equatoriais drenadas pelo sistema fluvial comandado pelo Rio Amazonas. estendendo-se pelos territórios do Brasil (cerca de 69% da área total). a Cuiabá-Porto Velho. A abertura de uma rota viária amazônica para o Pacífico através da complementação da BR-364. é uma área tornada estratégica pela sua importância crescente na rota de produção e distribuição mundial de narcóticos. Submetida a diferentes soberanias. tais como as rodovias Belém-Brasília. criada em 1966 para coordenar e supervisionar programas e planos destinados a dinamizar a economia da região e a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa). a Cuiabá-Santarém e a Transamazônica. em especial a partir da década de 1960. Além disso. por exemplo. Através dele. provavelmente. Envolveram também a construção de grandes eixos viários de integração. a Venezuela. do Equador. Mais recentemente. da maior “fronteira de recursos” do planeta. por sensores instalados em aviões e por radares fixos. da Venezuela e das Guianas. o governo pretende controlar o tráfego aéreo e as atividades ilegais – tais como contrabando de minérios e narcotráfico – na região. as estratégias nacionais parecem apontar no sentido de garantir o controle sobre as permeáveis fronteiras da região. tais como a Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam). Trata-se. por exemplo. nascida no ano seguinte com o objetivo de estimular o processo de industrialização da cidade de Manaus. é um projeto tão antigo quanto polêmico. que processará imagens obtidas por satélites. As Perspectivas de Integração da Bacia Amazônica A Amazônia Internacional. a Guiana. o Suriname e a Guiana Francesa.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL 4. do Peru. de forma a ligar Rio Branco (no Acre) até Pucallpa (Peru). que não chegou a se concretizar. devido ao seu imenso potencial energético e mineral e à sua incalculável riqueza biológica. prevê a instalação de uma rede integrada de bases militares do Exército e da Marinha acompanhando as fronteiras setentrionais do Brasil com a Colômbia. ocupa cerca de 35% da superfície da América do Sul. concebido no início da década de 1990. O Projeto Calha Norte.

A aprovação de um projeto de macrozoneamento econômico e ecológico para a Amazônia Legal. emergem esforços no sentido de viabilizar o estabelecimento de políticas de desenvolvimento e de sustentabilidade ambiental para o conjunto da Amazônia Internacional. apresenta as problemáticas comuns às localidades fronteiriças e analisa as perspectivas de cooperação entre os países da região. a Amazônia brasileira é alvo de uma imensa pressão ecológica internacional devido ao valor de seu patrimônio genético. mormente quando a nova ordem mundial se reorganiza em grandes mercados supranacionais. e. Entretanto. Texto Complementar No fragmento de texto abaixo.Em Busca de um Projeto Pan-Amazônico O equacionamento da problemática amazônica nacional requer igualmente a compreensão e a compatibilização de interesses atuantes no conjunto dos países amazônicos. A substância e a viabilidade de um pacto Pan-Amazônico são discutidos pela geógrafa Berta Becker. A maior dificuldade para soldar um pacto supranacional reside na ausência de projetos nacionais para a Amazônia capazes de compatibilizar os projetos internacional e regional. enfrentar as pressões internacionais e definir a forma de inserção dos países sul-americanos na ordem mundial. por outro. Texto 1. a geógrafa Berta Becker problematiza a organização territorial da Amazônia. no texto complementar que encerra essa Unidade. minimizar investimentos para o desenvolvimento regional e para assegurar as fronteiras. criar importante instrumento de barganha para negociar com os credores. A formação de um pacto amazônico seria vantajosa econômica e politicamente. E a integração continental pode se constituir como projeto nacional para os países amazônicos. a cooperação entre países com herança histórica e condições naturais similares e contigüidade física significa. Entre esses esforços. por um lado.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Ao mesmo tempo. ocorrida no início da década de 1990. ao lado das estratégias nacionais. Em face da crise das economias e dos Estados nacionais. 134 . assinado por todos os países da região em 1978. destacase o Tratado de Cooperação Amazônico (TCA). é em parte resultado dessa pressão.

os conflitos e o tráfico fronteiriço. a industrialização por substituição das importações e o forte crescimento demográfico valorizaram as amazônias como fronteiras agrícolas nacionais e os Estados cooptaram o movimento relativamente espontâneo da população em nome da unidade nacional. Datam da década de 1940 as primeiras práticas estatais para a ocupação das respectivas amazônias. que passam a dirigir a ocupação segundo a filosofia do desenvolvimento e segurança. Mas há também problemáticas específicas e conflitos a neutralizar: como abrir a economia e. Entre 1930 e 1960. e principalmente de 1970. Empresas estrangeiras mineradoras e governos autoritários. problemas comuns a esses países e que exigem tratamento conjunto. Elementos comuns e diferenciados na problemática amazônica continental Todos os países amazônicos convergem para uma problemática básica: a virtualidade e a vulnerabilidade históricas da Amazônia sul-americana. as amazônias passam a se valorizar como fronteira de recursos mundial e nacional e fronteira geopolítica nacional. estabelecido entre Venezuela e Colômbia (intensificado com os estudos elaborados pela Missão do BID em 1964). essencial para a formulação do projeto nacional democrático? Uma estratégia para a Amazônia sul-americana há que considerar problemáticas comuns e diversas desses países e as possibilidades que oferecem à cooperação. intensificando-se as práticas bilaterais. A partir da década de 1960. sem dúvida.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL Há. mas é geograficamente periférica do ponto de vista nacional. que permaneceram. À semelhança do Brasil. que surge ciclicamente com diferentes projetos. Por esse valor econômico e estratégico tornou-se central sob a óptica mundial e nacional. muito aquém do discurso. Seu valor econômico e estratégico é patente na tese de sua internacionalização. bem como para a cooperação fronteiriça. estimulam a migração. Dentre essas práticas destaca-se o Estatuto Fronteiriço de 1942. contudo. manter os privilégios regionais consolidados? Como participar de um pacto supranacional sem a consolidação plena da nação. só recentemente se desencadeou a rápida ocupação das amazônias sul-americanas. simultaneamente. Alguns elementos comuns dessa problemática e das políticas podem ser identificados: 135 . mas condições históricas e naturais garantiram a sua permanência como patrimônio das sociedades sul-americanas.

de terra e sociais. e que têm como efeito perverso provocar conflitos ambientais. problemáticas específicas tornam essa cooperação difícil. 2. Práticas governamentais inadequadas. que se resumem a projetos de colonização e redes viárias precárias. a soberania é contestada pela ocupação conflitiva e descontrolada numa área de difícil acesso. na geopolítica de caráter militar. território a ser conquistado. 3. inerente ao modelo de ocupação adotado e que acentua a sua posição dicotômica central/periférica. patrocinados diretamente pelos Estados. aos seguintes fatores: 136 . Os projetos foram parte de uma estratégia para desviar o fluxo demográfico das áreas densamente povoadas para as respectivas amazônias. o afluxo migratório foi muito superior ao esperado e não consegue ser absorvido pelos escassos e precários projetos estabelecidos. criando tensões com as populações indígenas e escapando ao controle governamental. Essa lógica comum encontra sua raiz mais profunda na visão latino-americana que alia desenvolvimento à segurança nacional – isto é. a Amazônia foi vista como “espaço vazio”. Se tal comunalidade aponta para a necessidade e a possibilidade de cooperação. Um problema de soberania decorrente de conflitos externos e internos. O fortalecimento das elites regionais. Em todos os discursos oficiais. Os países da Amazônia sul-americana são bem mais heterogêneos do que aparentam. No plano interno. é contestada não tanto pela imbricação crescente de empresas e organismos internacionais no processo de ocupação – fenômeno hoje de âmbito universal – nem apenas pela pressão ecológica e financeira internacional. no entanto. se legitimaram através de ações que privilegiaram o capital externo à região com apoio militar. Uma lógica comum acompanhada de estratégias semelhantes no tocante ao chamado processo de desenvolvimento regional. e tal poder de compra vem arrastando todos os países amazônicos para a economia de um produto cujo preço rivaliza com o do ouro. devido. 4. pelo menos. E os programas para seu desenvolvimento.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO 1. mas também pelo narcotráfico. No plano externo. instaladas com desconhecimento das condições locais. O mercado norte-americano de drogas consome por ano cerca de 150 bilhões de dólares (mais que a dívida externa brasileira). tanto nacionais como de cooperação intergovernamental.

em alguns países. cumpre assinalar a dificuldade vinculada ao desnível entre o Brasil e os demais países em termos de maior dinamismo econômico e extensão territorial. que é variado. como novos fatores da organização territorial na Amazônia. na perspectiva de uma estratégia comum. A diversidade de condições geológicas. O grau de ingovernabilidade. Movimentos migratórios tendem a se aproximar e mesmo ultrapassar os limites políticos de cada país. Neste contexto.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL 1. Indicam também que. a ocupação 137 . é útil identificar os espaços onde se devem concentrar esforços de cooperação. decorrente da ineficácia da ação governamental. extensão que repercute no seu maior ou menor distanciamento em relação aos centros vitais dos respectivos países. mas superior ao brasileiro. como decorrência da ação governamental perversa. A partir da década de 1970. Essa concepção foi justificada com a política externa agressiva do regime militar brasileiro entre 1964 e 1974. 2. O nível cultural e organizacional das populações indígenas. adotada na cooperação entre países. Tais diferenças parecem explicar a prática de acordos bilaterais. fluindo para um ou outro segundo as oportunidades econômicas que apresentem. nas fronteiras políticas. 3. Em outras palavras. 4. Aí se torna mais transparente o papel das atividades ilegais. Possibilidades de cooperação no contexto local: a questão fronteiriça Nas fronteiras políticas dos países amazônicos se materializa parcela importante da teia de relações que se pretende cada vez mais densa na região. que. da magnitude dos conflitos e do megapoder dos traficantes de drogas. sobretudo ouro e droga. referente ao dinamismo e à diversificação das economias nacionais. a marginalidade e a vida econômica e política oficial. à distribuição da renda e à pobreza. constituem um Estado paralelo. que é concebido como ameaçador pelos demais países. O nível de desenvolvimento econômico e social. as fronteiras vêm experimentando um processo de vivificação desordenada. vários processos conflitivos se superpõem: a ingerência externa e a soberania nacional. de revestimento florestal e de extensão das diversas amazônias. de sua crise e de movimentos espontâneos.

é hoje a pequena Vila Pacaraima. Embora pouco permaneça no Brasil. devido a um imenso desnível entre as duas cidades em termos de habitação. a maioria na clandestinidade. que compram mercadorias em Boa Vista e revendem em Lethem.. mais bem aparelhada do que Bonfim. A maior parte dos brasileiros da região vive do lado venezuelano. O movimento aqui é oposto. ou permaneça de forma ilegal. Fluxo de mão-de-obra brasileira para a Guiana Francesa É o que ocorre entre Oiapoque (AP) e Saint Georges.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO desordenada e a emergência de economias transfronteiriças. que tende a crescer devido aos investimentos franceses em infra-estrutura e hidreletricidade. O movimento nessa fronteira se caracteriza como uma trilha de comerciantes. constituindo embriões de novas territorialidades (. A Guiana Francesa é tida como terra prometida para muitos brasileiros que lá vivem. b) BV-8 (RR)/Santa Elena do Uiaren (Venezuela). fruto do desnível socioeconômico entre países vizinhos e do ritmo de sua recuperação. principalmente guianeses. e os garimpeiros exercem poder na região. Comércio legal e ilegal em torno de Boa Vista (RR) Três situações se identificam: a) Bonfim (RR)/Lethem (Guiana). infra-estrutura e serviço médico e oferta de trabalho. o ouro responde em grande parte pelo crescimento de Boa Vista. 138 . Algumas dessas situações podem ser exemplificadas em localidades fronteiriças. c) Rio Catrimani – divisa entre Roraima (Brasil) e Estado Bolívar (Venezuela). uns organizados em tomo da União dos Sindicatos e Associações de Garimpeiros da Amazônia Legal (Usagal).). em Boa Vista. Essa área Yanomami é a porta de entrada clandestina dos garimpeiros brasileiros em território venezuelano. revendendo dólares e combustível adquiridos na Venezuela. que contrasta fortemente com a mais bem desenvolvida cidade venezuelana de Santa Elena (ligada por asfalto até Caracas).. marco fronteiriço. A localidade de BV8.

pequena vila próxima a Cáceres. agravada pelas restrições que Peru e Colômbia fazem à entrada de produtos brasileiros. com uma realidade socioeconômica e psicológica diferente da do restante de cada território nacional. b) Brasiléia-Guajará-Mirim-Costa Marques (RO)/Peru e Bolívia. tríade que constitui a grande porta de entrada do narcotráfico no Brasil. onde vivem isolados num regime semi-escravagista nas colônias bolivianas ou em seringais de próprios brasileiros.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL Narcotráfico na fronteira ocidental a) Tabatinga (AM)/Letícia (Colômbia). que participa da rota sudeste. Fronteiras são áreas. Esse ponto de fronteira se tornou a preocupação mais urgente do comando militar da Amazônia devido à guerra do narcotráfico na Colômbia e a conseqüente fuga de colombianos e de peruanos para Tabatinga e Vila Bittencourt. gerou ainda uma queda substancial no comércio local. que são as linhas divisórias entre soberanias. e sudeste. muito maior e mais desenvolvida. 139 . onde os traficantes operam livremente. via São Paulo e Rio de Janeiro. Tal permeabilidade das fronteiras amazônicas. via Manaus. c) Palmarito (MT)/Bolívia. mas o grande problema da área é o fluxo de seringueiros brasileiros para as matas bolivianas. sendo muito mais bem equipados em termos de veículos motorizados e armas do que o exército. que carecem de infra-estrutura e vivem em função de Letícia. principalmente no Brasil. comum aos dois lados da linha divisória. faixas. passando por vários núcleos intermediários. que no Brasil se estendem por 11 mil quilômetros. A situação neste caso é oposta. A repressão ao tráfico. que lhes imprime uma identidade própria. como também para uma nova política de desenvolvimento integrado que reconheça as economias transfronteiriças. redistribuindo o produto para o exterior através das rotas norte. O lado brasileiro apresenta condições de vida bem superiores em relação ao lado boliviano. Fronteiras não devem ser confundidas com limites. Extravasamento da exploração da borracha brasileira É o que caracteriza a área de Plácido de Castro (AC) Vila Montevideo (Bolívia). aponta para a necessidade não só de vigilância das atividades ilegais e de suporte ao povoamento.

P. ao sul. b) as novas territorialidades fronteiriças. na medida em que a maior parte da população e suas atividades regionais se concentram nos núcleos urbanos. Brasília: Ministério das Relações Exteriores. praticados assistematicamente pela Colômbia. centradas em núcleos urbanos. onde os limites jurisdicionais dos Estados se interpenetram através de pólos de desenvolvimento fronteiriço2. através de programas mútuos de cunho social e de escala limitada. entendida não mais como linha divisória. COELHO. mas também o lugar da sua solução. sob a responsabilidade do Ministério do Interior. 1992.O. Projeto Pró-Amazônia. a chamada “fronteira institucional de integração”. fortalecendo a nova tendência. 140 . Unesco. e Vila Bittencourt-La Pedrea. Planos-modelos de desenvolvimento integrado de comunidades vizinhas na fronteira: uma proposta. Caso contrário. Bertha K. Os Planos de Desenvolvimento Integrado de Comunidades Vizinhas na Fronteira. – Desfazendo mitos: Amazônia uma selva urbanizada. Peru e Equador. que são o lugar dos problemas. através do Plano-Modelo de Desenvolvimento Integrado de Comunidades Vizinhas do Eixo Tabatinga-Apaporis (PAT).MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Em termos de estratégia para a região. 2 Cf. 1 Cf.). configuram-se como os espaços privilegiados para uma ação conjunta. cumpre reconhecer uma dupla realidade amazônica que tem sido negligenciada: a) a Amazônia é uma selva urbanizada1. Para tanto. ao norte. através de grandes projetos. foram iniciados pelo Brasil em 1987 com a Colômbia. 1990.). (Mimeogr. A cooperação fronteiriça na Amazônia. mas como área composta por subáreas de cada país. criou-se o Grupo Técnico Interministerial de Alto Nível para. BECKER. mas também o desenvolvimento da própria fronteira.P. (Mimeogr. envolvendo a fronteira Tabatinga-Letícia. de 14 de dezembro de 1987). corre-se o risco de que os programas sejam meras tentativas frustradas de afirmação numa conjuntura de crise das economias e dos Estados nacionais. localizados em pontos nodais. A partir dessa iniciativa. é necessário ultrapassar as experiências e iniciativas internas de cada governo. O reconhecimento e a admissão pelas políticas nacionais desse espaço comum não é uma tarefa fácil. coordenar tecnicamente a execução dos planos-modelo a serem constituídos justamente nas áreas de economia transfronteiriça assinadas (decreto publicado no D. Requer mudança de doutrina geopolítica que privilegie não apenas o fortalecimento dos centros de poder dominantes do país. que não contemplam o outro lado da fronteira nem a dinâmica fronteiriça.

” 141 . Justamente porque seu arcabouço jurídico-institucional flexível permite construções dinâmicas e inovadoras que podem ser nesse momento ativadas. na atualidade.). Berta K.” √ “A questão do desemprego aparece. p.” Concurso de 1998 √ “Analise os mecanismos dos processos de circulação que explicam por que a crise na economia dos chamados ‘Tigres Asiáticos’ tem repercussões internacionais.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL Em que pesem as críticas à estrutura institucional do TCA. ele constitui um marco genérico de princípios norteadores da cooperação. Uma estratégia latino.” Concurso de 1999 √ “Existem duas propostas de traçado potencial para o eixo básico que estruturará o sistema de transportes do Mercosul. 1996. Significado geopolítico da Amazônia: elementos para uma estratégia. [BECKER. São Paulo: Memorial/Editora Unesp. Comente as causas estruturais de tal situação e compare sua manifestação nas três maiores economias do mundo na última década. Exemplos de Questões Concurso de 1997 √ “A circulação financeira é marcada por acentuada extraterritorialidade. uma mercadoria circule pelo mundo sem sair do lugar. como um problema internacional. apontando seus possíveis desdobramentos na economia brasileira. atualmente. 195-201. Comente essa afirmação. Tal condição propicia que. Identifique as duas possibilidades e discorra sobre os previsíveis efeitos de cada alternativa na organização do espaço meridional-oriental sulamericano.americana para a Amazônia.] 5. In: PAVAN. ligando São Paulo a Buenos Aires. Crodowaldo (coord.

PAVAN. Mercosul hoje. p. Crodowaldo (coord. Georges. SANTOS. Comente os argumentos favoráveis a esse projeto.” 6.). Francisco C. Território: Globalização e Fragmentação. Fim de século e Globalização. São Paulo: Alfa Omega. Uma estratégia latino-americana para a Amazônia. 1996.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO √ “A articulação da malha viária brasileira com algum ponto no oceano Pacífico é um projeto antigo que ainda não se pode concretizar. Sérgio Abreu e Lima e ARAÚJO. 1994. São Paulo: Hucitec/ANPUR. Emesto Henrique Fraga. apontando os interesses subjacentes a cada argumentação. Espaço e Globalização. 1996. São Paulo: Hucitec. 142 . Globalização e Espaço Latino-Americano. et alli. et alli. São Paulo: Memorial/Editora Unesp. 1994.1995. Economia. São Paulo: Hucitec/ANPUR. São Paulo: Hucitec/ ANPUR. Maria Adélia A. Bibliografia Bibliografia Básica BENKO. SOUZA. 1996. 195-201. SCARLATO. Milton et alli. Bibliografia Complementar FLORÊNCIO.

UNIDADE IV A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL .

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a crescente preocupação com o meio ambiente é uma manifestação da crise da idéia de progresso que fundou a civilização industrial.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL IV. no mundo inteiro. traçamos um síntese do quadro físico do país e das principais causas de degradação de seus grandes domínios paisagísticos. 1. Nas cidades. o progresso foi identificado com o lucro empresarial. A pressão sobre os ecos sistemas frágeis do planeta assim como o grau e a 145 . Nas economias estatizadas. Nas economias capitalistas. já é corrente a noção de que o uso intensivo e predatório dos recursos naturais pode trazer conseqüências dramáticas para a qualidade de vida das populações. Ainda que coexistam as mais diferentes opiniões sobre as causas e os modos de enfrentamento do problema. questões ligadas ao saneamento básico e à destinação do lixo interferem no cotidiano de um número crescente de brasileiros. tanto no presente quanto no futuro. A Consciência Ambiental e o Planejamento de Usos Sustentáveis do Solo O conceito de desenvolvimento econômico da civilização industrial valorizou acima de tudo a multiplicação quantitativa da produção e do consumo. A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL Nas últimas décadas. Os textos desta Unidade discutem alguns dos conceitos norteadores do debate ambiental. A relação entre qualidade de vida e ambiente urbano é tematizada nos textos que finalizam a Unidade. com destaque para a idéia de desenvolvimento sustentável. ele era sinônimo de rápida industrialização. Para situar a problemática ambiental no Brasil. os problemas ambientais freqüentemente se transformam em questões de saúde pública. Além da poluição atmosférica. Pelo menos em parte. O lucro capitalista e o produtivismo socialista excluíram o meio ambiente das preocupações econômicas e políticas. o debate ambiental tornou-se tema político prioritário. envolvendo tanto os Estados quanto parcelas expressivas da sociedade. com ênfase nos setores de base.

uma revolução energética. Entretanto. a invenção do dínamo e a do alternador abriram o caminho para a produção de eletricidade.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO irreversibilidade das alterações antrópicas no ambiente global ganharam um estatuto inédito nas últimas décadas e freqüentam um número cada vez maior de fóruns internacionais de discussão. Nas sociedades urbano-industriais que então despontavam. que consumiam grandes quantidades de carvão. a habilidade manual e a força muscular foram progressivamente substituídas pelos processos mecânicos. submetido às pressões do crescimento exponencial da população e da produção econômica. o desmatamento e o conseqüente empobrecimento do patrimônio genético do planeta. e a segunda em Nova Iorque. O caso do consumo energético é particularmente ilustrativo a esse respeito. em 1881. grande parte da crise ambiental contemporânea é resultante de padrões de produção e consumo adotados por parcela relativamente pequena da população mundial. O vapor obtido pela queima do carvão movia navios. assim como os resultados da emissão dos gases de estufa na atmosfera. e na vida cotidiana das sociedades industrializadas. na qual foram incorporados dezenas de eletrodomésticos. prevaleceu a idéia de que o planeta é um sistema finito de recursos. Nela. a eletricidade iria operar profundas transformações nos processos produtivos. figuram entre os principais temas de debate. O ferro das máquinas e ferrovias era obtido nos altos-fornos da siderurgia. caso não se tomassem severas medidas restritivas ao crescimento demográfico e da produção nos países pobres. A Revolução Industrial. A ONU estima que 90% do consumo individual do mundo seja realizado por apenas 20% da população do planeta. que inaugurou a era dos grandes impactos ambientais. foi. As suas conclusões apontavam o horizonte do colapso do sistema. Mais tarde. O avanço dos desertos. A primeira usina de eletricidade do mundo surgiu em Londres. ferrovias e indústrias. Ambas forneciam energia para a iluminação. no mesmo ano. fundamentalmente. realizada em Estocolmo (Suécia) em 1972. 146 . Em meados do século XIX. à explosão demográfica dos países pobres. Na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente. com a introdução dos motores elétricos. a crise ambiental do planeta foi associada. em muitos sentidos.

eles correspondem a perto de 90% da oferta mundial de energia. Nas sociedades pré-industriais. pelo menos. ele também é utilizado como fonte de energia nas usinas termelétricas e. em que pese os grandes investimentos em pesquisa realizados para torná-las mais eficientes e menos caras. Rússia. tais como a energia solar. Desde a década de 1970. a água e os minerais radioativos: juntos. a eólica e a geotérmica.7 tonelada equivalente de petróleo (TEP) por ano. os níveis de consumo energético pouco se alteraram nos últimos séculos. As fontes de energias limpas e renováveis. Entretanto.268 no Haiti. enfrentar a crise ambiental implica diminuir a utilização dos principais recursos energéticos. com destaque para a lenha. os níveis atuais excluem grande parte da humanidade do consumo de bens e serviços considerados essenciais.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL A difusão dos motores a combustão interna explica a importância crescente do petróleo na estrutura energética dos países industrializados. apesar de abrigarem pouco mais de 10% da população do planeta.197 consumi das por habitante em Banglagesh e 0. Esse contraste. além de revelar o verdadeiro fosso que separa os padrões de consumo vigentes entre os países do mundo. Além de servir de combustível para automóveis. entretanto. que precisam de energia para serem produzidos e distribuídos. em média. Estima-se que o consumo de energia comercial per capita no mundo seja de aproximadamente 1. 8 TEPs. O conceito de desenvolvimento sustentável. é matéria-prima para muitas indústrias químicas. mas esse número significa muito pouco: um norte-americano consome anualmente. De acordo com as recomendações da Conferência de Estocolmo. amplamente divulgado pelo documento “Nosso Futuro Comum”. ainda são predominantes. Apenas quatro países -Estados Unidos. o petróleo e o gás natural. contra apenas 0. ou. Atualmente. está no centro das discussões acerca dos problemas ambientais do planeta. produzido pela Comissão Mundial de Meio 147 . Japão e Alemanha -são responsáveis por aproximadamente 40% do consumo energético mundial. ainda constituem parcelas desprezíveis no balanço energético mundial. A utilização de qualquer um deles acarreta impactos ambientais. os recursos energéticos mais utilizados no mundo são o carvão. mantê-la em níveis próximos aos atuais. aviões e tratores. e as fontes energéticas tradicionais. registra-se também um aumento significativo na produção e consumo de energia nuclear nos países desenvolvidos. ainda.

Satisfazer as necessidades e as aspirações humanas é o principal objetivo do desenvolvimento. e quando estes são passíveis de se estender ao conjunto da humanidade. que devem receber a máxima prioridade.. Essa comissão. as necessidades básicas de grande número de pessoas – alimento. Além dessas 148 . o desenvolvimento sustentável só existe quando se cumprem os requisitos ambientais para a continuidade histórica dos padrões de produção e consumo desejados. Nessa perspectiva. Publicado em 1987. o uso intensivo de recursos naturais e a manutenção de padrões de consumo acima das possibilidades ecológicas em certas regiões do planeta. emprego – não estão sendo atendidas. Portanto.amplo diagnóstico acerca da problemática ambiental em âmbito planetário e de propor estratégicas de desenvolvimento ecologicamente sustentáveis.). o relatório preconiza a adoção de agendas ambientais que. são fatores de risco para o ambiente global. – a noção das limitações que o estágio da tecnologia e da organização social impõe ao meio ambiente. sobretudo as necessidades essenciais dos pobres do mundo. possam elevar os padrões de vida dos países pobres e garantir as condições ambientais futuras do planeta: O desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem a suas próprias necessidades. roupas.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Ambiente e Desenvolvimento. De acordo com ele. habitação. foi criada pela ONU em 1983 com a missão de elaborar um . Ele contém dois conceitos-chave: – o conceito de “necessidades”. se contrapõe em muitos sentidos às concepções predominantes na reunião de Estocolmo. ao mesmo tempo. assim como a disseminação da pobreza em outras. Nos países em desenvolvimento.. o Relatório Brundtland (como ficaria conhecido) aborda de maneira integrada as questões ambientais. impedindo-o de atender às necessidades presentes e futuras (. demográficas e sociais. presidida pela líder do partido trabalhista norueguês Gro Harlem Brundtland. e precisam ser combatidos em nome de um futuro mais justo e ambientalmente mais saudável.

Uma floresta pode ser desmatada em uma parte de uma bacia fluvial e ampliada em outro lugar – e isso pode não ser mau.. 149 . e o desenvolvimento sustentável requer a promoção de valores que mantenham os padrões de consumo dentro do limite das possibilidades ecológicas a que todos podem. os regimes hídricos e as perdas genéticas. Mas o simples crescimento não basta. por exemplo. Mesmo assim. se a exploração tiver sido planejada e se se levarem em conta os níveis de erosão do solo. sempre poderão ocorrer crises ecológicas e de outros tipos. aspirar. como demonstra. pode ficar intacto. Onde já são atendidas. o uso da energia. Por isso o desenvolvimento sustentável exige que as sociedades atendam às necessidades humanas.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL necessidades básicas. e o desenvolvimento sustentável exige claramente que haja crescimento econômico em regiões onde tais necessidades não estão sendo atendidas. Nenhum ecossistema. ele é compatível com o crescimento econômico. Obviamente. As necessidades são determinadas social e culturalmente.. muitos de nós vivemos acima dos meios ecológicos do mundo. e isto constitui um risco para o meio ambiente. As satisfações das necessidades essenciais depende em parte de que se consiga o crescimento potencial pleno.). desde que esse crescimento reflita os princípios amplos da sustentabilidade e da não-exploração dos outros. Uma grande atividade produtiva pode coexistir com a pobreza disseminada. o crescimento e o desenvolvimento econômicos produzem mudanças no ecossistema físico. Padrões de vida que estejam além do mínimo básico só são sustentáveis se os padrões gerais de consumo tiverem por objetivo alcançar o desenvolvimento sustentável a longo prazo. seja onde for. Num mundo onde a pobreza e a injustiça são endêmicas. as pessoas também aspiram legitimamente a uma melhor qualidade de vida. de um modo razoável. Para que haja um desenvolvimento sustentável é preciso que todos tenham atendidas as suas necessidades básicas e lhes sejam proporcionadas oportunidades de concretizar suas aspirações e uma vida melhor. tanto aumentando o potencial de produção quanto assegurando a todos as mesmas oportunidades (.

como o ar e a água. e. O resto se transforma em rejeitos. Em essência. para garantir que o recurso não se esgote antes de haver bons substitutos para ele. Mas os níveis de uso devem levar em conta a disponibilidade do recurso. o uso reduz a quantidade de que disporão as futuras gerações. como minerais e combustíveis fósseis. a direção dos investimentos. uma vez levados em conta os efeitos da exploração sobre todo o sistema. desde que sejam usados dentro dos limites de regeneração e crescimento natural. No tocante a recursos não-renováveis. As matérias-primas e a energia usadas nos processos de produção só em parte se convertem em produtos úteis. é preciso definir a produtividade máxima sustentável.renováveis mantenha o máximo de opções futuras possíveis. O desenvolvimento tende a simplificar os ecossistemas e a reduzir a diversidade das espécies que neles vivem.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Em geral. Os chamados bens livres. não se renovam. é um processo de transformação no qual a exploração de recursos. de tecnologias que minimizem seu esgotamento. Portanto a Terra não deve ser deteriorada além de um limite razoável de recuperação. da água e de outros elementos naturais. a orientação do desenvolvimento tecnológico e a 150 . Isso não quer dizer que esses recursos não devam ser usados. não é preciso esgotar os recursos renováveis. uma vez extintas. No caso dos minerais e dos combustíveis fósseis. a fim de manter a integridade global do ecossistema. é preciso dosar o índice de esgotamento e a ênfase na reciclagem e no uso econômico. Mas a maioria dos recursos renováveis é parte de um ecossistema complexo e interligado. como florestas e peixes. são também recursos. o desenvolvimento sustentável. O desenvolvimento sustentável exige que o índice de destruição dos recursos não. e a probabilidade de se obterem substitutos para ele. Para haver um desenvolvimento sustentável é preciso minimizar os impactos adversos sobre a qualidade do ar. A extinção de espécies vegetais e animais pode limitar muito as opções das gerações futuras. por isso o desenvolvimento sustentável requer a conservação das espécies vegetais e animais. E as espécies.

e é um dos pilares da Agenda 21. 151 .A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL mudança institucional se harmonizam e reforçam o potencial presente e futuro. um vasto programa de ações de curto. e como foi interpretada no Brasil e nos demais países da América Latina. já que mostrou como a concepção de desenvolvimento sustentável foi forjada na Conferência do Rio de Janeiro em 1992. ainda que o interesse na ecologia tenha sido grande. Texto 1 .A Geopolítica do Desenvolvimento Sustentável A geopolítica do desenvolvimento sustentável envolve ampla gama de tópicos. 1991.] O conceito de desenvolvimento sustentável foi um dos fios condutores dos debates da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento. já no Rio de Janeiro. Ao falar em desenvolvimento sustentável. havia privilegiado os aspectos biológicos e ecológicos. p. os participantes da América do Sul deram um peso igual aos imperativos ecológicos (“sustentabilidade”) e aos econômicos e humanos (“desenvolvimento”). para os participantes sul-americanos foi igualmente importante a necessidade de pensar o desenvolvimento. médio e longo prazos aprovado pela Conferência no sentido de garantir a sustentabilidade ambiental dos novos investimentos produtivos e recuperar áreas já degradadas pelo uso predatório dos recursos naturais. realizada no Rio de Janeiro em 1992. Texto Complementar No ensaio parcialmente reproduzido abaixo. [Comissão Mundial de Meio Ambiente e Desenvolvimento. 46-49. Nosso Futuro Comum. a fim de atender às necessidades e aspirações humanas. A experiência brasileira e o desenvolvimento sustentável A experiência brasileira é particularmente interessante. Rio de Janeiro: FGV. A Conferência de Estocolmo. o geógrafo francês Paul Claval apresenta e problematiza o conceito de desenvolvimento sustentável. em 1972. discutem-se questões referentes a alguns destes tópicos. que no caso brasileiro são fascinantes e provocantes. enfatizando suas repercussões no contexto brasileiro. Neste texto.

como geralmente o fazem grandes empresas. Ressalta a diversidade dos grupos. explica a intensa luta pela terra na fronteira e a atmosfera ardente na qual ocorre o desenvolvimento. numa era da comunicação de massa. sem mudar suas identidades. descobriram as possibilidades de uma vida melhor. tais comunidades passaram a considerar-se com direito à educação. o cumprimento dos objetivos conservacionistas encapsulados no desenvolvimento sustentável. A sociedade civil se organizou e a política de brutal exploração dos recursos naturais. Mesmo se as condições econômicas que justificam essas atitudes pertencem ao passado. dominante até quinze anos atrás. hoje em dia. a terra aparece como uma variável estratégica. A política de abertura da floresta tropical aplicada durante os anos 60 e 70 teve conseqüências catastróficas sob os aspectos social e ecológico. O sistema de propriedade da terra no Brasil faz com que o desenvolvimento seja visto como uma questão de acesso das pequenas comunidades à terra. Atualmente esta é. Semelhante evolução certamente facilitará. A Amazônia é uma espécie de laboratório para as pessoas que desejam entender as possibilidades de desenvolvimento sustentável no futuro. e o desenvolvimento se tornou uma aspiração fundamental. um bem de consumo e um fator de produção. é considerada uma necessidade e um direito. e permitir às pequenas comunidades a elevação de seus padrões de vida sem romper o equilíbrio local. o desenvolvimento sustentável geralmente vem sendo abordado com ênfase em pequenas comunidades. Com um melhor sistema de comunicações. foi substituída por ações que restringiram o desgaste do solo e favoreceram as pequenas 152 . Nesse contexto. um elemento de status social. o problema do desenvolvimento é ao mesmo tempo sociocultural e ecológico. mesmo pelos mais baixos e remotos componentes da sociedade global.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO No Brasil. Já nos anos 90 verificou-se uma rápida mudança de enfoque. porém. A população local deseja ser reconhecida como agente responsável e dinâmico da sociedade global. simultaneamente. tais grupos ainda possuíam todas as características das sociedades tradicionais. Até os grupos indígenas aspiram ao desenvolvimento. associações e organizações governamentais e não-governamentais envolvidas no processo de desenvolvimento sustentável brasileiro. A modernização da sociedade. numa perspectiva de longo prazo. mas. serviços de saúde etc. Uma geração atrás. É importante impedir que ambientes frágeis sejam explorados brutalmente.

em parte graças ao conflito/cooperação de instituições internacionais. A definição de Roberto Guimarães sobre desenvolvimento sustentável. mas não a qualquer preço. Essa mudança foi possível. expressa ao nível da política internacional. Daí a necessidade de descobrir novos instrumentos capazes de promover essa nova forma de crescimento. O papel do Brasil no desenvolvimento da idéia do crescimento sustentável foi. Esteve também ligada à compreensão do fato de que os países do Sul desejavam desenvolver-se. A formulação geral do problema do desenvolvimento sustentável A idéia do crescimento sustentável resultou do desenvolvimento de uma nova consciência ecológica. pela primeira vez. o que explica a realização da Conferência em 1992 no Rio de Janeiro. considerando que a eficiência das zonas de proteção será duvidosa caso seu papel continue sendo somente indicativo. A nova política para a Amazônia conta com um instrumento privilegiado. Os riscos inerentes ao desenvolvimento são avaliados para cada área homogênea. permitindo a proteção das áreas mais frágeis em termos de desenvolvimento e/ou vida social. da maior importância. na Conferência de Estocolmo. do Estado brasileiro e das organizações não-governamentais (ONGs).A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL comunidades de índios e seringueiros. e ao conseqüente declínio das instituições provedoras de serviços de bem-estar social ligadas a tais ideologias. Seu propósito é respeitar a biodiversidade e aproveitar as novas tecnologias. sendo difícil entender o que os países do Sul esperam do crescimento sustentável sem referência a este país. sempre que estas permitam o acesso a padrões mais eficazes para o crescimento e o reforço das comunidades locais. a definição de zonas de proteção. conseqüentemente. Com o fim da Guerra Fria. em 1972. O desenvolvimento sustentável recebeu o apoio da opinião pública no bojo da crise das filosofias da história ocidentais. Uma nova logística do desenvolvimento está sendo experimentada. é simples: o desenvolvimento é sustentável enquanto a produção não excede as taxas normais de produção dos recursos renováveis e de substituição dos recursos 153 . neste livro. Alguns consideraram essa iniciativa muito positiva. Outros permaneceram céticos a respeito. as relações Norte-Sul ganharam mais importância.

Os ecossistemas são sistemas abertos. é possível ante ver novas formas de retroalimentação. O problema da sustentabilidade é tão velho quanto a humanidade. capazes de impulsionar processos auto-reguladores e de desenvolver sistemas de produção que usem menos matérias-primas e energia. também se tornou mais fácil graças às novas tecnologias de informação e comunicação. mas. que se refere à idéia de que os sistemas naturais são comandados por fluxos de matéria e energia. A geografia política do desenvolvimento sustentável. A Geopolítica e o Desenvolvimento Sustentável. In: BECKER. Bertha K. o problema do desenvolvimento sustentável deixou de ser somente um problema de oferta de recursos. As telecomunicações permitem a difusão maior e mais rápida de informações a respeito das áreas problemáticas. baseadas no uso generalizado de formas concentradas de energia. mas tomou novas formas com o advento de tecnologias modernas. A solução do problema do desenvolvimento sustentável ficou mais difícil do que no passado por causa do aumento do consumo de energia. e MIRANDA. Essa característica gerou a diminuição dos custos de transporte e o aumento da urbanização. 457-461. [CLAVAL. estando cada vez mais “ligado à capacidade de reciclagem dos ambientes onde a população e as atividades se concentram. p. A abrangência de um ecossistema é definida pelas necessidades do observador. O problema da reciclagem. para alguns. especialmente no Sul.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO não-renováveis. Os Ecossistemas Brasileiros e as Principais Causas de sua Degradação Ecossistema é um termo originário da ecologia. Assim. Como resultado. UFRJ. transformou-se na questão prioritária. materiais e organismos – e de saída – para onde fluem materiais processados. pois estão conectados a ambientes de entrada -fonte de energia. portanto. nos níveis global e local. favorecendo uma consciência mais clara da sustentabilidade. que atuam tanto entre o meio físico e os organismos vivos como no interior da comunidade biótica.] 2. Paul. 1997. e também organismos e energia. assim como uma vasta floresta. Uma lagoa pode ser tratada como ecossistema. 154 . Mariana. Rio de Janeiro: Ed.

a presença de uma rede hidrográfica muito rica. Ao norte das depressões amazônicas. Trata-se da linha de serras dos Planaltos Residuais Norte-Amazônicos. na qual predomina o regime tropical (chuvas abundantes no verão). as depressões e as planícies. são os rios. Os planaltos resultam da ação destrutiva dos agentes do modelado: são áreas onde o processo de erosão predomina sobre o processo de deposição de sedimentos. Os principais agentes da morfologia do relevo. as chuvas e as temperaturas. Isso explica a baixa altimetria que o caracteriza e o predomínio de um modelado de formas suaves e arredondadas. com 2. constituída por cadeias de morros pontiagudos (cristas). chapadas e morros. formadas por serras. como o Pico da Neblina. para a definição dos quais considera-se aspectos do relevo e dos climas. com 3. sobre uma base geológica muito antiga. alia-se às temperaturas médias elevadas características da maior parte do território na formação de três unidades de relevo: os planaltos. Ao contrário do que sugere o nome. O relevo brasileiro O relevo brasileiro é resultado da ação da erosão e do intemperismo. pois alterações pequenas nos outros elementos provocam mudanças bruscas na cobertura vegetal. os planaltos apresentam superfícies irregulares. Por definição. também chamados de agentes do modelado.014 metros e o Pico 31 de Março. As formações vegetais são o elemento-síntese dos domínios. que desgasta e aplaina os escudos cristalinos. e da lenta configuração das bacias sedimentares.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL No caso brasileiro. No Brasil.992 metros. costuma-se denominar ecossistemas grandes domínios paisagísticos. através dos processos de acumulação. junto às fronteiras com as Guianas e a Venezuela. Essas áreas abrigam as nascentes de 155 . encontram-se alguns dos pontos mais elevados do Brasil. Os planaltos brasileiros situam-se tanto em áreas cristalinas do Escudo Brasileiro (por exemplo: os Planaltos e Serras do Atlântico Leste-Sudeste) ou do Escudo das Guianas (os Planaltos Residuais Norte-Amazônicos) como em áreas sedimentares das bacias do Paraná e do Meio-Norte. os planaltos situam-se em cotas altimétricas superiores a 300 metros.

as escarpas têm denominações tecnicamente inadequadas. Rios como o Tapajós e o Guaporé têm as suas nascentes na Chapada dos Parecis e dirigem-se para o norte. rumo à calha amazônica. que separa a baixada litorânea dos planaltos no Sudeste e Sul do país. acentuando o intemperismo. são formados por elevações suavemente arredondadas que se sucedem ininterruptamente até o horizonte. No Centro-Oeste. Freqüentemente. Brasília foi erguida sobre uma dessas elevações. Tais formações. como é o caso da Serra do Mar. como também no dos Parecis. apenas interrompida pelas chapadas e chapadões. que atestam o longo processo de desgaste próprio dos climas tropicais úmidos. Nessa área. e o trabalho de erosão das chuvas modelaram paisagens características. Os Planaltos e Chapadas da Bacia do Paraná exibem terrenos sedimentares areníticos. as paisagens apresentam-se completamente diferentes. A elevada umidade do ar. típicos da Serra da Mantiqueira. no Centro-Oeste. a quase 1200 metros de altitude. O Rio Paraguai tem 156 . Nesses planaltos. elevadas e aplainadas. o solo de maior fertilidade natural do país. configurando uma paisagem extensivamente aplainada. abrigam-se importantes rios. As escarpas aparecem na transição entre áreas rebaixadas e planaltos. O Brasil do Sudeste também exibe cadeias de morros como as serras do Espinhaço (que abriga as grandes jazidas minerais do Quadrilátero Ferrífero) e da Mantiqueira. A decomposição do basalto deu origem à famosa terra roxa. tais planaltos comportam-se como divisores entre bacias hidrográficas. dirigindo-se para o sul. como o Jequitinhonha. são delimitadas por taludes abruptos e funcionam como divisores de águas. onde ocorreram derrames vulcânicos datados da Era Mesozóica. aparecem os morros em meia laranja. As altitudes médias situam-se entre 200 e 500 metros. Trombetas e Jari. o Doce e o Paraíba do Sul. Nos vales encaixados entre as linhas de serras. funcionando como imensos “degraus” que demarcam altimetrias muito diferentes.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO inúmeros afluentes e subafluentes da margem esquerda do Rio Amazonas. como os rios Negro e Branco. cujos cursos seguem a declividade natural do relevo. Os mares de morros.

A longa duração desses processos gerou superfícies suavemente inclinadas e bastante aplainadas. que separa os afluentes do Rio São Francisco dos afluentes do Rio Tocantins. o grande Planalto da Borborema interrompe a depressão. voltada para o interior. acompanhando os degraus do relevo e originando quedas d’água. A chapada funciona como divisor entre as águas da Bacia do Paraguai e as da Bacia do Amazonas. As chapadas separam vales de rios perenes – como o próprio Parnaíba. o Araguaia forma a Ilha do Bananal. No Nordeste ocidental. As depressões brasileiras situam-se em cotas altimétricas entre os 100 e os 500 metros. a maior ilha fluvial do país. A Depressão Sertaneja e do São Francisco configura. A elevação mais importante é a do Espigão Mestre. a depressão abriga inúmeros rios temporários que. Nesse trajeto. São depressões tipicamente caracterizadas os altos e médios vales dos rios Tocantins e Araguaia. cujas nascentes situam-se no Centro-Oeste. Paraíba e Rio Grande do Norte. os planaltos e chapadas da Bacia do Parnaíba exibem terrenos sedimentares e altitudes geralmente modestas. assinalando a transição para o litoral úmido. O Tocantins e o Araguaia se dirigem para o norte. um longo corredor encaixado entre áreas planálticas. em contato com 157 .A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL suas nascentes na Chapada dos Parecis. dominada pelo clima semi-árido. o Mearim e o Pindaré – ou rios temporários. na sua porção meridional. As depressões também exibem predomínio de processos erosivos. formando o eixo fluvial do Pantanal Mato-grossense. A face oeste da Borborema. típicos do sertão do Piauí. esse foi um importante caminho de interiorização seguido pelos vaqueiros e criadores nordestinos. na curta estação chuvosa. antes de rumar para o sul e receber as águas de dezenas de afluentes. No passado. percorrem o sertão de Ceará. Nessa área. Pernambuco. Na sua porção setentrional. acompanhando o curso do Rio São Francisco através de Minas Gerais e da Bahia. está sujeita a longas secas. entre a Bahia e os estados de Tocantins e Goiás. A face leste recebe os ventos úmidos do litoral que.

MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO o ar mais frio da escarpa. Essa planície é rodeada por depressões e planaltos sedimentares. no contato com os terrenos sedimentares. em direção à calha do Rio Paraná. que estão. sabe-se que a verdadeira planície restringe-se a uma estreita faixa que acompanha o vale do Rio Amazonas e o baixo curso de alguns dos seus afluentes. constitui parte de uma vasta depressão relativa encaixada entre a Cordilheira dos Andes e os 158 . Na planície verdadeira – o vale inundável dos grandes rios – onde ocorre intenso trabalho de sedimentação quaternária. vastas áreas da Amazônia eram consideradas uma imensa planície. fundada na ignorância das altimetrias escondidas sob a floresta equatorial e dos processos geomorfológicos atuantes na área. e outra de inclinação abrupta. ao contrário dos planaltos e depressões. por outro lado. terra firme). cristalinos e mais elevados. separando os terrenos cristalinos do oriente dos derrames vulcânicos da Bacia do Paraná. a sedimentação é terciária e predominam os processos erosivos. Nas depressões e planaltos sedimentares circundantes (chamados. na denominação regional. Assentada sobre terrenos sedimentares da Era Quaternária. A Planície e Pantanal Mato-grossense. encaixados entre os planaltos residuais norte e sul-amazônicos. por sua vez. Atualmente. a erosão diferencial originou uma linha de cuestas. No Estado de São Paulo. são áreas onde o processo de sedimentação se sobrepõe ao processo de erosão. A acumulação de sedimentos realiza-se pela ação das águas dos rios. Na zona de contato entre os terrenos vulcânicos da Bacia do Paraná e os terrenos sedimentares (menos resistentes) das depressões. as depressões desenham um imenso S que se prolonga de São Paulo ao Rio Grande do Sul. conhecidas localmente como serras. foi desfeita pelo levantamento aerofotogramétrico da região. As cuestas. As planícies. Há algumas décadas. é a mais típica planície brasileira. as cuestas formam paisagens características. No Sul e Sudeste. Essa crença. provocam chuvas freqüentes e propiciam condições ideais para o cultivo de frutas tropicais. apresentam uma vertente de declínio suave. predominam os processos de deposição. do mar ou de lagos. As planícies situam-se em cotas altimétricas inferiores a 100 metros.

onde se alargam. responsável pela maior parte dos fenômenos climáticos. descortinam as restingas e lagunas do Rio de Janeiro e as praias e baixadas de São Paulo. Isto significa que os processos erosivos predominam sobre os processos de sedimentação na maior parte do território. em terras brasileiras. Os grandes tipos climáticos A dinâmica das massas de ar é responsável pela sucessão habitual dos tipos de tempo que caracterizam o clima. No trecho nordestino. portanto. as planícies litorâneas tornam-se mais estreitas. as planícies são interrompidas por tabuleiros: superfícies de baixa altitude. quando constituídos por rochas cristalinas. O Chaco abrange terras brasileiras. ou barreiras. Tais declives são chamados falésias. funcionando como bacia de captação de cursos fluviais provenientes das áreas circundantes. 159 . O relevo brasileiro é constituído. as planícies litorâneas exibem uma grande variedade de paisagens. freqüentemente interrompidas pelas majestosas escarras da Serra do Mar. No Sudeste. o Negro e o Miranda – inundam grande parte das terras deprimidas e as transformam em uma enorme área de deposição de sedimentos.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL planaltos do Escudo Brasileiro. As planícies ocupam uma porção relativamente pequena do território. correspondendo aos vales de importantes rios e à maior parte da extensa faixa costeira. predominantemente. como os cordões arenosos e dunas do Ceará e as lagoas e brejos de Alagoas. Tanto no Nordeste como no Sul. o Taquari. De norte para sul. chegando quase a desaparecer em trechos da costa Sul e Sudeste. quando constituídos por rochas sedimentares. o Cuiabá. é. por planaltos e depressões. o Rio Paraguai e os seus afluentes – como. as planícies. Durante a época das chuvas. no verão. denominada Chaco. com topo bastante aplainado e acentuados declives na face voltada para o mar. paraguaias. As Planícies e Tabuleiros Litorâneos estendem-se do Maranhão ao Rio Grande do Sul. argentinas e bolivianas. O eixo dessa bacia de captação é formado pelo Rio Paraguai.

apresentando menores médias pluviométricas que as vigentes no resto do país. caracteriza-se por apresentar invernos secos e verões chuvosos. O Clima Tropical Semi-Árido abrange a área do Sertão nordestino. A pluviosidade média anual varia entre 1. que atua principalmente no Meio-Norte e no litoral amazônico. que caracteriza o litoral das regiões Sudeste e Nordeste do país. sobre a qual se forma a massa Equatorial continental (mEc). quente e chuvoso. que domina boa parte do Centro-Oeste e do MeioNorte brasileiros. também quente e úmida.000 milímetros. pode-se individualizar cinco tipos climáticos no Brasil. O Clima Tropical. As chuvas são resultado da convecção (ascensão vertical e conseqüente condensação) da umidade. De acordo com o geógrafo Aziz Ab’Saber.000 milímetros. centro de origem da massa Tropical continental (mTc). As outras massas de ar que atuam no continente são marítimas.500 milímetros. e as médias anuais de precipitação giram em torno de 2. também apresenta elevadas médias térmicas e pluviométricas. A pluviosidade média anual situa-se em torno dos 1. a massa Tropical atlântica (mTa). quente e úmida. Essa área funciona como um centro dispersor de massas de ar. fria e úmida. que atua principalmente no Brasil meridional. As chuvas não ultrapassam a barreira dos 750 milímetros ao ano e apresentam-se irregularmente distribuídas. O Clima Equatorial Úmido. dominado principalmente pela atuação da massa Tropical atlântica. mas penetra até a Amazônia no inverno. 160 . domina a Região Norte do país e é resultado da atuação da massa Equatorial continental durante todo o ano. apenas duas regiões funcionam como fontes de massa de ar: a Amazônia ocidental. e a Planície do Chaco.500 milímetros e 2. o semi-árido brasileiro. Com base na dinâmica das massas de ar.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Na América do Sul. quente e úmida. O Clima Litorâneo Úmido. ocasionando o fenômeno conhecido localmente como “friagem”. que influencia diretamente o clima da costa oriental brasileira e a massa Polar atlântica (mPa). quente e seca. Três delas são importantes para os climas brasileiros: a massa Equatorial atlântica (rnEa).

irregulares no tempo e no espaço. maio de 1992. servindo como mera referência genérica para efeito de comparação com as regiões úmidas e subúmidas do país”2. de Alagoas. Revista Ciência Hoje.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL onde se localiza o famoso Polígono das Secas1. p. Os domínios paisagísticos Seis grandes domínios macroecológicos foram identificados no Brasil: três deles (o Domínio Amazônico. No Meio-Norte do território brasileiro. o Domínio dos Mares de Morros Florestados e o Domínio das Araucárias) abrangem áreas originariamente florestadas e os restantes (Domínios dos Cerrados. Ele funciona como enorme delta interno: devido à pouca declividade do terreno. Ceará e Piauí. uma grande faixa de transição conhecida como Mata dos Cocais separa o Domínio Amazônico do Domínio da Caatinga. ou. designa uma ampla área na qual o balanço da evapotranspiração é negativo durante a maior parte do ano. não existindo uma estação seca. e que se estende pelo norte de Minas Gerais. A média pluviométrica anual é elevada (cerca de 1. criada no início do século XX pelos técnicos da antiga Inspetoria Nacional de Obras contra as Secas. de Pernambuco. principalmente no inverno. Entretanto. 6. por parte dos territórios da Bahia. que constituem unidades paisagísticas nas quais se mesclam características dos domínios vizinhos. existem vastas extensões territoriais não incluídas em nenhum dos domínios. mas está sujeito à penetração da massa Polar atlântica. da Caatinga e das Pradarias) correspondem a áreas com predomínio de espécies vegetais herbáceas e arbustivas. com duração de cinco a oito meses. especial ECO-Brasil. os 1 Essa expressão. São as faixas de transição. se caracteriza por “Invernos secos e quase sem chuvas. e verão chuvoso. O Clima Subtropical Úmido é dominado pela massa Tropical atlântica. de Sergipe. 2 Ver Os Sertões: a originalidade da terra. com quatro a sete meses de precipitações pluviais. por exemplo. ainda. 161 . O Pantanal Mato-grossense é um outro bom exemplo de região de transição. e pela totalidade dos estados do Rio Grande do Norte. áreas onde a instabilidade das condições ecológicas deu origem a uma interação entre os elementos naturais que nada têm a ver com as características dos domínios circundantes. de forma que os índices que buscam medir médias de precipitações guardam uma alta dose de irrealidade.500 milímetros). Apresenta as maiores amplitudes térmicas entre os climas brasileiros: os verões são quentes e os invernos são frios.

porém. apresentam solos ricos em nutrientes. Estima-se que o ecossistema florestal abrigue aproximadamente 80 mil espécies vegetais e 30 milhões de animais. A caça predatória e ilegal. de baixa fertilidade. mas pela própria floresta. representa uma grande ameaça à fauna pantaneira. No Rio Taquari. o desmatamento das margens dos principais rios que atravessam o Pantanal e o extrativismo mineral figuram como grandes geradores de impactos ambientais na região. contrastam com a pobreza de grande parte dos solos da região. é uma floresta latifoliada marcadamente heterogênea. alagadiços. A vegetação de terrenos inundáveis (matas de várzea e igapós) ocupa aproximadamente 10% do ecossistema florestal. Apenas algumas planícies aluviais. adaptando-se às condições ambientais da região. inundadas pelo Rio Amazonas.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO rios que drenam a região demoram a vazar.O Domínio Amazônico A floresta amazônica. Os solos. Além disso. Mais de 70% do Domínio Amazônico são constituídos por solos ácidos e intemperizados. ampliando a área de inundação do rio e ameaçando a fauna silvestre. A riqueza e a exuberância do ecossistema florestal. a vegetação de terra firme (a chamada hiléia) se espalha em cerca de 80% da área. mesclando características de todos os domínios macroecológicos brasileiros. o Domínio Amazônico apresenta múltiplos enclaves de campos e cerrados. A reciclagem dos nutrientes orgânicos e minerais necessários à manutenção dos ecossistemas regionais não é feita pelos solos. por exemplo. A vegetação pantaneira é extremamente heterogênea. que prevalece na paisagem desse domínio. responsável pela grande densidade e diversidade da fauna da região. Esse contraste revela a fragilidade do ecossistema amazônico. são de baixa fertilidade natural. porém. inundando grande parte da planície e trazendo um grande fluxo de nutrientes. a retirada da cobertura vegetal se associa a um processo crescente de assoreamento do leito fluvial. compondo uma das maiores reservas biológicas do planeta. . 162 . Grandes propriedades de pecuária extensiva ocupam as terras baixas alagadiças do Pantanal. Além da caça.

Mato Grosso (23%) e Maranhão (19%). Os estados mais afetados foram os do Pará (34%). Mas a ocupação empresarial da Amazônia provoca interferências profundas e permanentes no meio natural. a floresta tropical úmida conhecida como Mata Atlântica recobria cerca de 95% do Domínio dos “Mares de Morros”. caboclos. em forma de “meias-laranjas”. A vegetação original não se regenera e a erosão pluvial age destruidoramente. Isto é: a vegetação nutre-se dela mesma. . impedindo que os poucos nutrientes sejam carreados pelas águas da chuva. frutos e flores que caem anualmente sobre o solo se transformam em material orgânico e mineral consumido pela vegetação. o desmatamento atinge algo entre 8% e 20% da Amazônia. Trata. Originalmente. predominantemente cristalina. Não existem dados precisos sobre o tamanho e a velocidade do desmatamento na Amazônia. compõem a morfologia da região as escarpas planálticas que separam o planalto cristalino da planície costeira. Além dos “Mares de Morros”. produziu um relevo típico de morros arredondados. Depois de abandonadas. seringueiros -representava uma adaptação especial a esse ecossistema frágil. A ação dos agentes do modelado sobre a estrutura geológica.se de uma formação florestal densa e heterogênea. A agricultura tradicional dos povos da floresta – índios. a floresta protege os solos.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL As toneladas de folhas. as clareiras conhecem uma recolonização biológica pela mata. empobrecendo ainda mais os solos descobertos.O Domínio dos “Mares de Morros” Florestados Este domínio macroecológico caracteriza-se pela morfologia e pela cobertura vegetal. A baixa densidade demográfica possibilitou o desenvolvimento de cultivos de subsistência – como a mandioca. do café nas serras do Sudeste foram os grandes responsáveis pelo início da devastação 163 . mais tarde. Segundo cálculos aproximados. As madeireiras abrem brechas enormes na vegetação. culturas agrícolas de mercado se espalham extensivamente sobre as velhas áreas florestadas. que utiliza a coivara. A introdução do cultivo da cana-de-açúcar no Nordeste e. a batata-doce e o inhame – em sistema de roça itinerante. o milho. Além disso. O desmatamento está trazendo danos irreparáveis ao ecossistema florestal. espaços de pastagens homogêneas substituem a mata.

Nas primeiras décadas do século. extensas áreas florestais foram queimadas e se transformaram em áreas de cultivo de milho. concentradas nos meses do verão. retirando seus nutrientes. verdadeiras ilhas florestais em alguns trechos montanhosos das escarpas planálticas. Originalmente. Mais tarde. A devastação da Mata das Araucárias se iniciou com a colonização alemã e italiana. responsáveis pela baixa fertilidade dos solos desse domínio. As características climáticas são. mais de 80% do território dos estados de Santa Catarina e Paraná ainda estavam recobertos pela vegetação nativa. móveis e artefatos domésticos. esse domínio era revestido por uma floresta subtropical conhecida como Mata das Araucárias e por manchas de vegetação herbácea e arbustiva. . mais de metade da vegetação original já estava devastada. os colonos utilizavam a madeira para a construção de casas. Trata-se de uma região tropical. nos quais a altitude média varia entre 850 metros e 1. as chuvas abundantes “lavam” o solo.basálticos da porção oriental da Bacia do Rio Paraná. Atualmente. Também desmatavam pequenos trechos para a prática da poli cultura de alimentos. de verões chuvosos e invernos secos. a área encontra-se exposta a desmoronamentos e transporte de material. com a expansão da agricultura. Hoje. em parte. o que provoca acúmulo do ferro e do alumínio responsáveis pela toxidez e acidez dos solos. 164 . No verão. No início do século XX. videiras e árvores frutíferas.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO da mata original. A devastação da Mata Atlântica tem agravado os processos erosivos que atingem a região. restam menos de 4% da cobertura vegetal primária. a seca prolongada tem como conseqüência altas taxas de evaporação.300 metros. restam apenas algumas manchas dos bosques de araucária originais. no inverno.O Domínio dos Cerrados O Domínio dos Cerrados abrange as chapadas e chapadões do Brasil Central. especialmente nas escarpas mais íngremes.O Domínio dos Planaltos de Araucárias O Domínio dasAraucárias ocupa os planaltos sedimentares. Sujeita a chuvas intensas. trigo. . Em 1950.

é composto principalmente por dois estratos. o impacto positivo das queimadas sobre o ecossistema dos cerrados parece depender da freqüência com que são realizadas. de campos sujos (gramíneas e arbustos). A semi-aridez é responsável pela pouca decomposição química das rochas. e o herbáceo. é uma formação vegetal adaptada ao calor e à aridez. nas quais o estrato herbáceo-arbustivo é muito pobre e rarefeito). Assim. o arbóreo-arbustivo. cerca de 400 quilos por hectare em um campo cerrado. funcionam como uma preciosa fonte de nutrientes minerais. A combinação desses estratos produz uma cobertura vegetal em forma de um grande mosaico. As pesquisas indicam que incêndios anuais podem tomar os solos ainda mais pobres. Durante o incêndio. A Caatinga. campos sujos e campos cerrados. absorvidos principalmente pelas plantas do estrato herbáceo-subarbustivo. muitas espécies conseguem rebrotar poucos dias após a passagem do fogo. Suas principais espécies possuem folhas pequenas e hastes 165 . o fogo ajuda na reciclagem de nutrientes. o que resulta em solos pouco profundos intercalados por terrenos pedregosos e afloramentos rochosos.subarbustivo. Nas áreas recobertas por campos limpos. as colinas sertanejas. Já os cerradões são menos adaptados às queimadas. ao contrário.O Domínio da Caatinga O Domínio da Caatinga apresenta relevo em forma de colinas com vertentes suaves. radicalmente distinto das florestas tropicais úmidas. vegetação dominante. podem se transformar em campos limpos. e. de campos cerrados (predominância de arbustos. Entretanto. constituído por trechos de campos limpos (predominância de gramíneas). As cinzas resultantes. O Cerrado compõe um ecossistema bastante peculiar. O ecossistema florestal. quando desmatado através de queimadas. a camada superficial dos solos do Cerrado funciona como um isolante térmico.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL O Cerrado. vegetação dominante. abriga espécies que sobrevivem após as queimadas. não se regenera. de caráter lenhoso. com espécies de 3 a 5 metros) e cerradões (florestas cujas copas se tocam e criam sombra. formado pelas gramíneas e outras ervas. . O Cerrado. quando essas são reincidentes. protegendo o sistema subterrâneo das plantas.

registra-se uma sensível diminuição das espécies forrageiras nativas dos campos gaúchos. hoje ultrapassa os 185 hectares. portanto. no município de Alegrete (RS). o sobrepastoreio. nas encostas. na forma de colinas conhecidas como “coxilhas”. A pecuária extensiva é a principal atividade econômica da região. A irregularidade das precipitações e a natureza dos solos e da cobertura vegetal fazem do domínio macroecológico da Caatinga uma área naturalmente susceptível aos processos de desertificação e. Devido ao pisoteio excessivo do gado. As colinas são recobertas por vegetação campestre. encontramse alguns trechos de matas úmidas.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO espinhentas. o início de um processo de desertificação. Nos topos mais planos. 166 . a vegetação se toma mais densa e diversificada. quando a perda de umidade é maior do que a precipitação. Nas áreas de maior altitude. bastante vulnerável a ocupação humana. o aumento dos processos erosivos e até. -O Domínio das Pradarias Esse domínio paisagístico abrange a região conhecida como Campanha Gaúcha. em expansão nas áreas originalmente recobertas pelos campos. A irrigação. o cultivo excessivo e a mineração figuram entre as principais causas dos processos de desertificação já iniciados. conhecidas regionalmente como brejos. que recebem chuvas de relevo. incapazes de reter a água. o “deserto de São João”. em algumas áreas. O uso recorrente da queimada como técnica de limpeza das pastagens contribui para o empobrecimento dos solos. Há cinqüenta anos. A pecuária e a monocultura de trigo e soja. Nele. tomam o balanço da evapotranspiração negativo durante a maior parte do ano. destaca-se a presença de um relevo suavemente ondulado. têm provocado a diminuição da fertilidade dos solos. forma-se um tapete herbáceo ralo e pobre em espécies. atingia 12 hectares. A rede hidrográfica da Caatinga caracteriza-se pela predominância de rios intermitentes e sazonais: os rios autóctones permanecem secos por cinco a sete meses durante o ano. O excesso de calor e a predominância de solos pouco profundos.

o governo brasileiro. criou a Secretaria Especial do Meio Ambiente (SEMA). com a devida autonomia e poder jurídico outorgado pelo Estado. da coordenação e do assessoramento no combate à poluição e na preservação da qualidade dos recursos hídricos. posteriormente: acompanhar as transformações do ambiente por meio de técnicas de aferição direta e sensoriamento remoto. identificando as ocorrências adversas e atuando no sentido de sua correção. a formação e o treinamento de técnicos e especialistas em assuntos relativos à preservação do meio ambiente. essas funções foram desdobradas e. 167 . promover. em 1973. assessorar órgãos e entidades incumbidos da conservação do meio ambiente. atuar junto aos agentes financeiros para a concessão de financiamentos a entidades públicas e privadas com vistas à recuperação dos recursos naturais afetados por processos predatórios ou poluidores. Texto 1 -Tentativas de Conservação e Preservação Ambiental à Brasileira Influenciado pela crítica à sua controvertida participação na Conferência de Estocolmo em 1972 e pela polêmica gerada em torno da proposta brasileira de desenvolvimento a qualquer custo. em todos os níveis. do planejamento. tendo em vista o uso racional dos recursos naturais. realizar diretamente ou colaborar com órgãos especializados no controle e na fiscalização das normas e padrões estabelecidos. os geógrafos José Bueno Conti e Sueli Angelo Furlan apresentam e comentam os esforços realizados pelo governo brasileiro no sentido de preservar o patrimônio ambiental do país. Vinculada ao Ministério do Interior.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL Texto Complementar No fragmento de texto reproduzido abaixo. principalmente os recursos hídricos. à SEMA coube. cuja função era a de atuar nos campos da pesquisa. promover a elaboração e o estabelecimento de normas e padrões relativos à preservação do meio ambiente.

cada uma com seu estatuto próprio. Foram criadas diversas modalidades de unidades de conservação. podendo ou não representar as áreas atuais de maior diversidade de plantas e animais. Abordar item por item dessa política hoje seria escrever um tratado. outras se assemelham a unidades de planejamento nas quais as atividades têm de obedecer a regras estabelecidas pelo poder público. Esses itens sofreram pequenas modificações em 1981. O tamanho mínimo efetivo para as unidades de conservação não está ainda bem definido. educar o povo a respeito do uso adequado dos recursos naturais. Territórios e Municípios. Sob as leis brasileiras. Para os objetivos deste livro. pela antiga SEMA. quando o governo federal decidiu descentralizar a atuação da SEMA. criando órgãos e entidades da União. Distrito Federal. O IBAMA é responsável. pela política nacional de unidades de conservação. metade da 168 .MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO cooperar com os órgãos especializados na preservação de espécies animais e vegetais ameaçadas de extinção e na manutenção de estoques de material genético. manter atualizada a relação dos agentes poluidores e substâncias nocivas no que se refere ao interesse do país. Umas são bastante restritivas quanto à exploração. bastam os resultados da política criada por essas instituições governamentais. Uma unidade de conservação é uma amostra representativa de ecossistemas brasileiros que deverá ser regida por regras especiais de uso do solo. pelo IBGE e outras agências. A primeira prioridade é dada a áreas onde estudos independentes de duas ou mais autoridades indicam a existência de “refúgios do Pleistoceno”. quando foi criado o IBAMA. Como são os critérios para a seleção de áreas a serem preservadas? O que são parques. dos Estados. A terceira prioridade é para áreas protegidas recomendadas pelo RADAMBRASIL. reservas biológicas. entre outras funções. Novas modificações ocorreram com a fusão do antigo IBDF e Sudepe com a SEMA. A segunda prioridade é para áreas que representam tanto formações vegetais típicas como também refúgios do Pleistoceno. Essas áreas são consideradas como sendo de dispersão evolutiva. além das unidades de conservação. estações ecológicas e áreas de proteção ambiental? Vários são os fatores a serem considerados quando se decide sobre a localização das áreas protegidas.

basicamente. Parques nacionais e reservas biológicas O sistema de parques nacionais brasileiros começou em 1937. além de algumas reservas indígenas.4 milhão de ha. no Sudeste do Brasil. quando foi estabelecido o Parque Nacional de Itatiaia. Mas esses dados não podem ser generalizados para outros grupos de animais. ocupando 1. Não havia nenhuma unidade de conservação na região amazônica. Atualmente o Brasil tem 53 parques e 18 reservas. entretanto os critérios para selecioná-los têm variado ao longo do tempo. Outros fatores foram também considerados. foi decidido basear o tamanho de áreas protegidas nas espécies de aves neotropicais de florestas úmidas de planície. Estações ecológicas e áreas de proteção ambiental A política de preservação de recursos ambientais no Brasil consiste. O projeto deve também mostrar modos de induzir “manchas” de floresta a suportar mais espécies do que elas naturalmente suportariam. O Fundo Mundial para a Vida Silvestre (WWF) e o Instituto Brasileiro de Pesquisa da Amazônia (INPA) estão se baseando nessa lei para a execução de um projeto que visa determinar se “ilhas” ou “manchas” isoladas de floresta podem suportar tantas espécies quanto uma mesma área incluída numa floresta contínua e maior. essas aves necessitam de uma área mínima de aproximadamente 250 mil ha para manter as taxas de extinção abaixo de 1 % da totalidade inicial de espécies por século. embora houvesse oito reservas florestais e uma categoria transitória que confere pouca ou nenhuma proteção. Em 1972 havia dezesseis parques nacionais e quatro reservas biológicas no país. totalizando aproximadamente 12 milhões de ha. As espécies de plantas e animais da área a ser estudada são registradas antes que a “ilha” de floresta seja isolada (como parte do processo de desenvolvimento) e estudos posteriores são programados para determinar as mudanças no período de alguns anos.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL terra incluída em qualquer projeto econômico deve ser mantida como floresta (onde houver essa formação. é claro). Na Amazônia. na proteção de amostras representativas dos principais ecossistemas 169 . Desde então novos parques nacionais e reservas biológicas têm sido criados.

que tenham como finalidade o estudo dos efeitos de certas atividades sobre o ecossistema. pode-se dizer que são poucos os trabalhos que visam ao conhecimento e monitoramento das áreas citadas. 1995. Com o advento da Lei n° 6. por exemplo. proporcionando assim locais de lazer à população.] 3. Sueli Angelo. Jurandyr I. p. os solos e a biota. de valor ecológico. foi estabelecida uma nova modalidade de preservação ambiental. Os 10% restantes podem ser utilizados para experimentações. Nela somente podem ser realizadas pesquisas que não impliquem alteração do ecossistema natural. denominada área de proteção ambiental. quase 3 bilhões de pessoas. Sanches (org. Uma estação ecológica é uma extensão de área natural. vivem em cidades. Do ponto de vista do planejamento. As Demandas de Saneamento Básico e a Qualidade de Vida nas Cidades Brasileiras Atualmente. A maior parte da área de cada estação – cerca de 90% – é considerada área de reserva integral. 202-207. como queimadas. In: ROSS. [CONTI. Entretanto. Em 1800.Alguns dos parques estabelecidos pelas prefeituras municipais contam com uma reserva de vegetação bastante densa que também é aberta ao público. As áreas de proteção ambiental compreendem determinadas porções do território nacional de relevante interesse para a proteção ambiental. destinada à pesquisa e experimentação científica. o que equivale à cerca de metade da população mundial.). Os parques urbanos cumprem um importante papel no lazer da população urbana e representam em muitos casos as manchas mais significativas de áreas verdes das cidades.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO brasileiros. com vistas a assegurar as condições ecológicas locais. a urbanização acelerada da população mundial é um fenômeno recente. São Paulo: EDUSP. só 3% da humanidade habitava 170 . José Bueno e FURLAN. Geografia do Brasil. que diminuem cada vez mais nos grandes centros. De forma geral a pesquisa ainda é incipiente quando comparada à velocidade com que se dá a degradação ambiental neste país.902 (27/04/81). Geocologia: o clima. Parques urbanos Em nível municipal foram estabelecidos parques cujo objetivo principal é preservar áreas verdes.

Londres. deverá ocupar um modesto nono lugar em 2015. em 1996. Também algumas metrópoles da costa oeste e do sul dos Estados Unidos fugiram ao padrão do mundo desenvolvido e conheceram uma verdadeira explosão demográfica entre 1950 e 1990: nesse período. que em 1950 era a maior do mundo. mas muito lentamente: a cidade. Tóquio figura como a principal exceção: em 1942. a região metropolitana de Tóquio já possuía mais de 15 milhões de habitantes em 1970 e ultrapassou a marca dos 26 milhões em 1996. Nova Iorque. de 1 milhão para 3. ainda em 1850. No início do século XX. no qual apenas duas cidades ultrapassavam a marca de um milhão de habitantes: Londres e Paris. São Francisco passou de 2. 14% da população mundial já viviam nas cidades. por exemplo. Paris. atingiu 6 milhões em 1940 e. a metrópole contava com 7. 171 . as metrópoles dos países industriais centrais viveram o apogeu de seu crescimento populacional entre 1850 e 1950. Foi o início do processo de metropolização que deu origem a imensas aglomerações urbanas como Londres. com mais de 13 milhões de pessoas. a segunda metade do século XIX foi um período de rápida urbanização. contava com apenas 100 mil habitantes. perdeu 2% de sua população entre 1980 e 1990. Na maior parte dos casos.2 milhões para 6. A explosão populacional que acompanhou estrondoso crescimento econômico vivenciado pelo Japão nas décadas do pós-guerra transformou a região metropolitana de Tóquio no centro da mais populosa área urbanizada do mundo. Mesmo assim. Chicago.7 milhões.4 milhões de habitantes. Los Angeles foi o caso mais espetacular: no início do século XX. A população de Nova Iorque continua a crescer. a própria Europa era um continente predominantemente rural. A partir da década de 1970.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL no meio urbano e. A Revolução Industrial mudou esse quadro. atualmente figura na quarta posição e.2 milhões de habitantes. elas apresentaram crescimento fraco ou até mesmo estagnação e regressão populacional. Houston. Na Europa e nos Estados Unidos. de acordo com os cálculos da ONU. figurava como a sétima metrópole do mundo. mas os bombardeios da Segunda Guerra Mundial foram responsáveis por uma significativa retração populacional. Uma quantidade crescente de energia e alimentos passou a ser importada de lugares cada vez mais distantes para suprir as demandas urbanas. Dallas de 1 para 5 milhões.

no Brasil o processo de urbanização foi notadamente acelerado a partir da década de 1950. têm sido um fenômeno característico do mundo subdesenvolvido.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Entretanto. No conjunto do mundo desenvolvido. principalmente sob a forma de loteamentos na periferia da mancha urbana. a taxa de urbanização anual gira em tomo de 5%. a transferência de parcelas expressivas da classe média para a orla oceânica deflagrou o erguimento de torres residenciais. Assim. 17 estão localizadas em países subdesenvolvidos. figuram duas cidades brasileiras: São Paulo e Rio de Janeiro. Nas metrópoles e grandes cidades litorâneas. vendidos em prestações à população de baixa renda. como o “centro velho” e a região da Avenida Paulista. atualmente legalizada. como Rio de Janeiro ou Santos. isto é. O êxodo rural acelerado e o processo de metropolização do pós-guerra geraram a expansão da “cidade clandestina”. formando muralhas de 172 . Como vimos na Unidade II. desafiavam a legislação municipal. Entre elas. Os principais centros comerciais e de escritórios. a expansão da mancha urbana das metrópoles brasileiras não impediu o aparecimento de “ilhas de verticalização”. O predomínio do crescimento horizontal que marcou. nos países subdesenvolvidos. A expansão das grandes cidades se realizou de forma predominantemente horizontal. são exemplos de espaços intensamente verticalizados. pouco mais de três quartos da população brasileira vivem nas cidades. pelo menos até a década de 1970. grandes aglomerações urbanas com mais de 10 milhões de habitantes. constituíram bairros imensos que se encontram atualmente consolidados e legalizados. nessas áreas periféricas. Das 21 megacidades que existem hoje no mundo. nas últimas décadas o ritmo frenético da urbanização e o aparecimento de novas megacidades. de modo clandestino e ilegal. A produção da moradia. em São Paulo.7%. de forma que a cidade real. através da ocupação de áreas suburbanas carentes de serviços públicos. formou-se. os graves problemas ambientais urbanos afetam a qualidade de vida de parcelas crescentes na população. e apesar dessas exceções. realizou-se basicamente pela autoconstrução. o crescimento anual da população urbana gira em tomo de 0. glebas de especuladores imobiliários arruadas irregularmente e subdivididas em lotes diminutos. em grande parte. Esses loteamentos clandestinos. As terras agregadas à cidade. Sucessivas anistias do poder público regularizaram as vias e loteamentos. Atualmente.

As metrópoles brasileiras assumiram uma feição espalhada e disforme. Ainda hoje. As conseqüências ambientais da ocupação desordenada dos espaços periféricos são de gravidade semelhante. O alastramento espacial das periferias – mais rápido que o crescimento da população e muito superior ao incremento da arrecadação de impostos – acarreta carência crônica dos serviços públicos e de infra-estruturas urbanas. O transporte automotivo comandou a ampliação territorial das cidades. As águas pluviais correm diretamente para os cursos d’água. os trens suburbanos e as linhas de metrô nas metrópoles brasileiras cobrem uma parcela relativamente pequena dos fluxos de passageiros.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL prédios em frente ao mar. devorando terras cada vez mais distantes do centro. Entretanto. escolas e postos de saúde. com um modelo predominantemente horizontal de expansão da área edificada. protegidas legalmente de ocupação desde 1975. Essa tendência à horizontalização foi determinada pelo atraso na implantação de um esqueleto de vias férreas e de metrô para o transporte urbano de massa. A expansão desordenada. conheceram desvalorização 173 . o desmatamento das várzeas e cabeceiras dos córregos e rios para expansão dos loteamentos agravou o problema das enchentes. A ausência dessa “armadura ferroviária” condicionou uma expansão da área urbanizada ao longo do eixo das avenidas radiais. em vez de serem barradas por áreas verdes e superfícies permeáveis. bem como por infra-estruturas viárias. horizontalizada e espalhada da metrópole gera uma pressão crescente de demanda por serviços públicos de água. as “ilhas de verticalização” conviveram. Os custos mais baixos de abertura de ruas e avenidas estimularam o prolongamento dos eixos de transporte ao longo de traçados lineares. geralmente direcionados para os vetores com menores obstáculos naturais. alongandose sobre alguns eixos principais de tráfego. Ao mesmo tempo. além de intensificar o estrangulamento financeiro das administrações municipais. As áreas das bacias hidrográficas tributárias das represas Billings e Guarapiranga. o alastramento da mancha urbana na direção sul do município e sudeste da Região Metropolitana provocou a invasão das áreas de proteção de mananciais. Na Grande São Paulo. espaços com baixa densidade de ocupação surgiam no intervalo entre as grandes vias radiais. iluminação e transportes. Por outro lado. por várias décadas. esgotos.

O modelo de expansão periférica e horizontalizada das metrópoles brasileiras entrou em crise na última década. os morros próximos à orla oceânica são de propriedade pública ou da Marinha. Localizadas junto aos bairros residenciais de classe média da Zona Sul. Do ponto de vista espacial. De acordo com um estudo realizado pela Prefeitura de São Paulo no início dos anos 90. “sem dúvida.. o importante reside no surgimento de relativa dispersão dessas camadas por outros espaços da cidade: maior parcela de pobres tomou o rumo das zonas centrais. proliferaram os loteamentos clandestinos nas proximidades dos córregos e das represas. s/d. como o Rio de Janeiro. Prefeitura de São Paulo/Brasiliense. Nas metrópoles litorâneas. em função da incapacidade crescente das camadas populares de adquirirem terrenos e materiais de construção.. Em conseqüência. que se acentuaram durante os anos 80. a alternativa para muitas famílias é a moradia em favelas ou cortiços”1.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO imobiliária. que constituem importante fonte de empregos no comércio e nos serviços. Como conseqüência do esgotamento desse modelo. as encostas desses morros abrigam algumas das principais favelas da cidade. p. caracterizada por visível empobrecimento das áreas centrais. Esse processo de deslocamento dos grupos pauperizados aponta – senão para o esgotamento – para a rápida queda do padrão periférico do crescimento urbano de São Paulo. (. Contudo. sem que com isso se diga que as periferias deixaram de abrigar predominantemente os contingentes de baixo poder aquisitivo. 1 Prefeitura de São Paulo: São Paulo Crise e Mudança. A redução do movimento migratório em direção às cidades maiores e a desaceleração do crescimento vegetativo contribuem também para o encerramento dessa etapa de descontrolada expansão horizontal das metrópoles. baseado na autoconstrução em terrenos desprovidos de benfeitorias públicas. aumenta a favelização e o encortiçamento nas áreas mais antigas e estabilizadas das cidades.) Diante desses fenômenos. ameaçando poluir as águas e inviabilizar a utilização dessas fontes de abastecimento da cidade. 53. ocorre uma aproximação entre as localizações residenciais populares e as localizações residenciais das classes médias. essa é uma dinâmica nova na ocupação do espaço de São Paulo. 174 .

e particularmente a dos setores de saneamento e transportes públicos. é a intensidade dos processos de degradação ambiental que acompanham a urbanização. legibilidade e rigidez dos espaços urbanos. reforçaram-se as iniciativas visando associar as duas questões. é problema antigo e sempre existiu na história da humanidade. problema agravado pela intensidade da concentração urbana.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL Texto Complementar No fragmento de texto reproduzido abaixo. O que é novo. 175 . da falta de informação e de educação sanitária e ambiental. o arquiteto Nabil Bonduki discorre sobre os principais problemas ambientais que afetam as cidades brasileiras. Esse quadro é ainda agravado pelos sérios danos à qualidade de vida decorrentes de verdadeiras cirurgias urbanas realizadas a título de resolver problemas de circulação que resultam na perda de identidade. e apresenta indicadores importantes acerca da qualidade de vida de suas populações.Meio Ambiente. provocando uma crescente contaminação dos recursos naturais. do risco. A Conferência Habitat II dá ênfase à questão urbana ambiental ao definir a sustentabilidade como princípio e assentamentos humanos sustentáveis como objetivo a ser perseguido. As causas dessa carência de serviços públicos. No Brasil urbano a realidade socioambiental de uma grande parcela da população está marcada pelas dimensões da exclusão. 1992). essenciais à manutenção da saúde e à proteção do meio ambiente. em geral. seja da cidade ou do campo. podem ser assim resumidas: A crise institucional e financeira que afetou a capacidade de investimento do setor público. Texto 1 . do agravo. Saneamento e Transporte A intensidade e as características da urbanização em todo o mundo geraram dois grandes problemas nesse final de século: a questão urbana e a questão ambiental. A deterioração ambiental. resultando em crescente vulnerabilidade das cidades. principalmente o ar e a água. neste final de século. A partir da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (Rio. Os mais graves problemas ambientais são principalmente um efeito da urbanização sobre os ecossistemas.

A diversificação e o aumento quantitativo das necessidades de saneamento da população urbana e da demanda por serviços. erosões. Assim. a crise ambiental urbana brasileira representa um tema muito propício para colocar em debate a necessidade de novos compromissos com o desenvolvimento de assentamentos humanos – urbanos ou rurais – sustentáveis. ampliação e modernização. As necessidades de ajustamento político-institucionais dos modos de regulação das relações sociais entre os produtores de serviços e usuários. a concentração da população e das atividades econômicas no espaço e os padrões tecnológicos da produção industrial têm reforçado um quadro ambiental altamente degradado em conseqüência de um estilo de desenvolvimento que leva ao uso predatório dos recursos naturais.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO O envelhecimento das redes e dos sistemas de infra-estrutura que demandam substituição. É muito recente a explicitação do componente ambiental nas políticas urbanas e de saneamento. Embora a ação governamental de proteção ao meio ambiente e à conservação dos recursos naturais tenha se intensificado no campo da gestão ambiental na última década. Situação ambiental urbana Nas últimas décadas. O quadro urbano brasileiro está marcado pela existência de assentamentos humanos precários. concentrando os problemas mais sérios de degradação ambiental. e um comprometimento ambiental que provocam graus crescentes de deterioração da qualidade de vida. As cidades estão no cerne dessa questão: enquanto centros de produção e consumo são grande exploradores de recursos naturais como água. O aumento da demanda por transportes públicos derivados da retomada do crescimento econômico. onde vivem os pobres. a preocupação com os problemas ambientais urbanos (brown agenda) ainda não recebeu a mesma atenção da agenda verde. 176 . combustíveis fósseis e terra agriculturável. Enchentes. a urbanização acelerada e desordenada.

As diferenças de atendimento entre população urbana e rural igualmente refletem a estratégia da política de saneamento do BNH. Enquanto na Região Norte apenas 1. particularmente nas grandes cidades.87% nas áreas urbanas e 6. uma vez que os dados mostram que se considerarmos os domicílios que não possuem canalização interna. A falta de alternativas de moradia popular e de lotes urbanos a preços acessíveis. sendo que este índice atinge 85.33% dos domicílios está ligado à rede geral.46%. na Região Sul.84% nas áreas rurais. apenas 13.24%. o total de domicílios servidos representa 63. As variações entre regiões dão uma dimensão das desigualdades existentes. Com relação à cobertura de rede de esgotos.8% nas rurais. sendo que apenas 12. uma vez que apenas 35. poluição das águas e do ar. sendo 87.68% não possuem qualquer tipo de escoadouro. Estes indicadores mostram o nível de precariedade existente.81 % nas áreas urbanas e 9. O atendimento na área do saneamento O acesso aos serviços de água teve uma considerável expansão nas duas últimas décadas.65%. forçou os grupos mais pobres da população a ocupar ilegalmente espaços impróprios para assentamentos como encostas íngremes. no Nordeste esse número representa 8. risco agravado pela ausência de infra-estrutura. 32% possuem fossas rudimentares e 14. na Região Sudeste.2% utilizavam emissário para lançamento do esgoto coletado em corpos d’água e 7.88%.11 % dos domicílios brasileiros têm fossa séptica. mas são servidos por rede geral. que é melhor servida. várzeas inundáveis. Em 1989.71 %. áreas de risco para o tipo de moradia precária dessa população. tem-se um quadro extremamente precário.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL deslizamentos. o índice de domicílios servidos era de 70.79% realizavam algum tipo 177 . áreas de proteção de mananciais. de acordo com o Censo Demográfico.25% dos municípios possuíam alguma forma de serviço público de esgotamento sanitário. beiras de rio e cursos d’ água. afetando diferencialmente os setores mais pobres.29% do total da população são servidos. Em 1991. 47. 65% do total de domicílios permanentes tinham canalização interna abasteci da por rede geral de água. atingem o cotidiano da população. e na Centro-Oeste 27. bem como a diminuição da cobertura vegetal. conforme os dados a seguir. em conseqüência da prioridade concedida ao serviço pelo Plano Nacional de Saneamento – Planasa executado sob comando do BNH. onde 17.

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de tratamento, na maioria dos casos, lagoa de estabilização. Assim, constata-se que, além dos 52,75% dos municípios que não dispõem de serviço de coleta, a maior parte dos que dispõem realiza a coleta, mas não trata do esgoto coletado. As disparidades regionais são flagrantes: na Região Sudeste apenas 15% dos municípios tratam o esgoto coletado, na região Sul 7%, na Centro-Oeste 3,69%, no Nordeste 3,63% e na região Norte 7,7% (IBGE, Pesquisa Nacional de Saneamento Básico, 1989). Ainda utilizando dados do Censo Demográfico de 1991, constata-se que 80% dos domicílios urbanos brasileiros têm coleta de lixo, representando cerca de 22 milhões de domicílios com cobertura desses serviços. Verifica-se portanto que uma parte considerável dos domicílios urbanos dá destinação inadequada para o lixo produzido. Do total dos domicílios urbanos 8,51 % queimam ou enterram o lixo, 11,55% jogam em terrenos baldios e outros locais e 0,72% dá outra destinação para o lixo. Esses dados indicam que ainda perdura uma quantidade significativa do lixo produzido que não recebe tratamento adequado. De acordo com a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico do IBGE, em 1989, em todas as regiões do país o problema que se coloca é muito sério, uma vez que a maior parte é despejada em vazadouros a céu aberto (lixões). A maioria dos municípios brasileiros joga o lixo em vazadouros a céu aberto, totalizando 72% do lixo coletado e somente 47,14% do lixo coletado recebe tratamento adequado: 24,66% em aterro controlado, 16,72% em aterro sanitário e 5,73% em usinas de compostagem, incineração e reciclagem. Somente 52,55% dos municípios brasileiros declararam ter recolhimento de lixo hospitalar, sendo que, entre esses, 74,63% despejam o lixo hospitalar em vazadouros a céu aberto e nos demais municípios o lixo hospitalar é incinerado ou disposto em aterros especiais. A adoção de vazadouro a céu aberto como solução para disposição final dos resíduos representa um sério risco que não se circunscreve apenas à área onde se localiza. Pelo fato de não receberem qualquer tipo de tratamento e controle, os lixões liberam gases e substâncias líquidas de elevadas toxicidades que poluem o ar, o solo, os rios e aqüíferos subterrâneos e superficiais. Além de provocarem problemas ambientais, contribuem para a degradação da paisagem urbana, afetando direta e indiretamente a população que mora em suas vizinhanças. Esses problemas concentram-se nos bairros periféricos, onde vivem as camadas mais pobres da população.

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A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

O atendimento às necessidades de transporte urbano A situação precária dos transportes públicos urbanos, particularmente nas grandes cidades brasileiras, decorre da prevalência dos deslocamentos por transporte particular individual em detrimento da priorização do transporte coletivo. O custo da implantação e manutenção da infra-estrutura viária, da sinalização e da operação do tráfego próprias para o automóvel, em face do atual quadro de incapacidade de investimento do Estado, tem impedido o atendimento adequado das necessidades de transporte para a maioria da população. A produção da indústria automobilística saltou de 914 mil automóveis/ano em 1990 para quase 1,8 milhões em 1995. O enorme contingente de veículos particulares resultante dessa expansão circula hoje nas cidades sem que tenha havido, por um lado, preparo, aparelhamento e incremento nas atividades de gerenciamento dos transportes nem, por outro lado, incremento nos investimentos públicos necessários. Os sistemas metroviários, de responsabilidade dos estados, e os trens metropolitanos, operados pelos estados e pela União, responsáveis por 8% do total das viagens metropolitanas, não têm conseguido ampliar o atendimento da demanda devido à descontinuidade dos investimentos necessários e aos cortes substanciais nos seus orçamentos. À exceção do Metrô de São Paulo, que tem se beneficiado por fluxos regulares de recursos, os demais sistemas de alta capacidade, implantados no Brasil na década de 1970, não puderam ser expandidos ou concluídos, deixando de cumprir seu papel de principal meio de transporte das áreas onde foram implantados. A poluição do ar e da água Dentre as questões ambientais urbanas mais importantes no caso brasileiro alinha-se a poluição atmosférica. Os problemas ambientais gerados pela poluição do ar nas grandes cidades brasileiras têm duas fontes: as fontes industriais e as fontes veiculares. Mas a principal fonte de poluição atmosférica ainda é o monóxido de carbono produzido pela frota de veículos, cujo crescimento resultou do desenvolvimento da indústria automobilística, do baixo preço do petróleo e da expansão das malhas rodoviária e urbana. Tais fatores levaram a opções equivocadas que priorizaram o transporte individual em detrimento do transporte coletivo e os

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sistemas rodoviários em detrimento dos transportes ferroviários e hidroviários nas grandes cidades. A inexistência de sistemas adequados de tratamento de resíduos líquidos e sólidos, resultantes tanto das atividades econômicas (agrícola, industrial e mineradora) quanto das atividades domésticas, tem provocado também altos índices de poluição hídrica. Em relação ao setor industrial, destaca-se que a maior parte dos estabelecimentos com alto potencial poluidor da água localizase na região Sudeste, representando 52% do total, sendo que 21 % estão no Nordeste e 19% no Sul. A concentração de estabelecimentos se dá nos estados de São Paulo e Minas Gerais, representando respectivamente 31 % e 12% do país. Tal como no caso da poluição do ar, a grande concentração industrial e urbana apresenta elevadas cargas orgânicas e inorgânicas em relação à capacidade assimilativa dos corpos receptores e torna suas águas impróprias para a maioria dos usos. Estratégias de intervenção do Estado e da Sociedade Persiste a desvinculação entre as políticas públicas de saneamento e meio ambiente, questão amplamente tratada na Consulta Nacional sobre a Gestão do Saneamento e do Meio Ambiente Urbano, realizada em 1994 pelo Instituto Brasileiro de Administração Municipal com o apoio do Programa de Gestão Urbana (PNUD/Habitat/Banco Mundial), envolvendo representantes do governo e da sociedade, em todas as regiões do país. As conclusões dessa Consulta Nacional apontam, entre outras, para uma tendência de criação de novos formatos institucionais capazes de propiciar uma gestão ambiental urbana integrada, mais eficiente, efetiva e democrática. Não obstante, cabe lembrar uma ação governamental, em nível federal, que vem progressivamente agindo para a superação da mencionada desvinculação das políticas ambientais e urbanas. Trata-se do Programa de Zoneamento Ecológico Econômico do Território Nacional -ZEE, coordenado pela Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e executado pelos estados, de acordo com as diretrizes de descentralização. Quanto às ações de saneamento, reiniciam-se as operações de financiamento à expansão e à melhoria dos serviços, com recursos do FGTS,

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inclusive o princípio poluidor-pagador. e novas alternativas de prestação de serviços. 181 . novos mecanismos de regulação e financiamento.PMSS. o poder decisório sobre as prioridades na alocação de recursos. A reformulação da política de saneamento e a modernização do setor são objeto do Projeto de Modernização do Setor de Saneamento . Algumas alternativas de mobilização de capitais privados para o setor têm sido ensaiadas. A preocupação com os problemas ambientais gerados pelos transportes levou ao desenvolvimento de tecnologias que utilizam fontes de energia renováveis e aquelas de menor impacto no meio ambiente. O PMSS é o trabalho mais abrangente. através da Caixa Econômica Federal. completo e ambicioso sobre saneamento já enfrentado pelo país. o Programa transfere a colegiados estaduais. a órgãos e entidades estaduais ou municipais. frotas de táxis e veículos do serviço público têm sido realizadas em vários municípios. Coerente com as propostas de descentralização da execução das políticas públicas. conduzido pela Secretaria de Política Urbana do Ministério de Planejamento e Orçamento e financiado com recursos do Banco Mundial.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL através do Programa Pró-Saneamento. O uso de tecnologias adequadas A escassez de recursos para investimentos em face dos déficits de infraestrutura levou a se prestar maior atenção às tecnologias de baixo custo. o qual procura explorar novo ordenamento institucional. mas não são passíveis de generalização uma vez que não se pode pretender substituir por completo o investimento público pela privatização. custos que a grande maioria da população não pode pagar. Os empréstimos poderão ser concedidos. cujas prioridades são o atendimento à população mais carente e a conclusão das obras já contratadas em todo o país. Experiências de resultados animadores com a utilização de gás natural automotivo em frotas de ônibus urbanos. formados por representantes de governo (estado e municípios) e da sociedade. chamadas de “alternativas” ou “adequadas”. Isso porque a tecnologia “tradicionalmente usada para a execução desse tipo de obra tem altos custos de implantação dos serviços.

para todas as áreas urbanas do país. A tendência observada é de extensão de seu uso. 1997. Exemplos de Questões Concurso de 1997 √ “Segundo vários autores. Nabil (org. Faça uma reflexão sobre a relação entre essas escalas no mundo contemporâneo. meio ambiente e gestão urbana nas cidades brasileiras. p. agir localmente’. 28-32. [BONDUKI.” Concurso de 1998 √ “A percepção internacional acerca da questão ambiental foi se fortalecendo ao longo das últimas décadas. Quanto ao primeiro. Habitat.). levando em conta seus possíveis reflexos sobre as soberanias nacionais. 2a ed. Por outro lado. Nabil.] 4.” 182 . As práticas bemsucedidas em habitação. Aponte os principais documentos elaborados sobre a matéria a partir da década de 1970 e comente as modificações observadas nos seus enfoques sobre a ‘questão ambiental’.. num percurso que vem registrando significativas mudanças de concepção quanto ao equacionamento do tema. Tais mudanças ficam bem mais evidentes nos documentos gerados por comissões e conferências internacionais. Exemplo mais conhecido e estudado é o saneamento condominal. São Paulo: Studio Nobel. a globalização e a questão ambiental seriam projetos associados. onde se concentram os maiores déficits de cobertura em todo o país e cuja resolução por tecnologia convencional é extremamente onerosa. tem sido um campo fértil para a experimentação com tecnologias de baixo custo. comenta o Professor Milton Santos. ‘há que se tomar cada lugar na Terra como uma fração do espaço mundial’. In: BONDUKI. Habitat e Qualidade de Vida: as práticas bem sucedidas em cidades brasileiras. onde as condições técnicas o permitam. é uma máxima do movimento ambientalista internacional a afirmação ‘pensar globalmente.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO A dimensão dos problemas de esgotamento sanitário.

1999. 1997. Natureza e Sociedade de Hoje: uma Leitura Geográfica. Bibliografia Complementar MORAES. O Mito Moderno da Natureza Intocada. 1994. Desenvolvimento Sustentável e Políticas Públicas. Meio Ambiente e Ciências Humanas. Maria Adélia A.” 5. A Geografia Política do Desenvolvimento Sustentável. __________. São Paulo: Cortez. Antônio Carlos. Localize com precisão tal área no território nacional e descreva os mecanismos atmosféricos que determinam.). Mariana (orgs. sua situação climática. Antônio Carlos R. estrutural e sazonalmente. São Paulo: Hucitec/ANPUR.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL Concurso de 1999 √ “ A expressão ‘polígono das secas’ é de uso corrente na geografia regional brasileira. CAV ALCANTI. 183 . Rio de Janeiro: Editora UFRJ. Clóvis et alli. Bibliografia Bibliografia Básica BECKER. e MIRANDA. São Paulo: EDUSP/ Hucitec. São Paulo: Hucitec. DIEGUES. 1993. São Paulo: Hucitec. SOUZA. Meio Ambiente. Bertha K. 1996. et alli. 1997.Contribuições para a Gestão da Zona Costeira do Brasil: elementos para uma geografia do litoral brasileiro.

8 Cartão Supremo 240g 2 (capa) AP 75g2 Número de páginas Tiragem Impressão e acabamento 184 1.7 cm 13 x 25.9 Times New Roman 12/17.Título Autora Editoração Eletrônica Revisão de Texto Formato Mancha Gráfica Tipologia Papel Manual do Candidato .Geografia Regina Célia Araújo Paulo Pedersolli e Cláudia Capella José Romero Pereira Júnior 21 x 29.500 exemplares Gráfica Brasil .

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