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Definição Filosófica da Pessoa Humana

Batista Mondin INTRODUÇÃO O objetivo constante da filosofia foi, sempre, praticamente um só: conhecer o homem, ou seja, conhecer a si mesmo. Isso não foi afirmado somente por Sócrates, Agostinho ou Descartes mas também por Kant. Este último, num famoso parágrafo de sua lógica escreve, "O campo da filosofia pode ser delimitado nas seguintes questões: 1ª) O que eu posso saber? 2ª) O que eu devo fazer? 3ª) O que posso esperar? 4ª) O que é o homem? (Was ist der Mensch) ". A primeira pergunta se refere à metafísica, a segunda à moral, a terceira à religião. Observa, porém, o próprio Kant, que as três primeiras podem ser reduzidas à última questão, pois, tudo se fundamenta no próprio homem: "No fundo, tudo isto se poderia reduzir à antropologia, porque as três primeiras perguntas se referem à última". 1 A história da filosofia nos ensina, além disso, que os principais pontos de vista no estudo do homem são quatro: ? o ponto de vista da natureza, (que é o ponto de vista clássico) no qual o homem vem concebido como microcosmo; - ponto de vista de Deus, (que é aquele dos Padres dos primeiros tempos da Igreja e dos Escolásticos), por ele o homem vem concebido como Imago Dei; - ponto de vista do Eu (que é aquele da filosofia moderna), no qual o homem é concebido como subjetividade autoconsciente; - o ponto de vista do Outro (que é aquele da pós-modernidade), onde o homem é concebido como um ser dialógico. De fato, uma compreensão completa do homem deve levar em consideração, além do Eu, também o Outro, o Mundo, e Deus. O homem não é uma ilha dispersa no oceano, nem uma mônada, fechada em si mesma e sobre si mesma, mas, um ser coexistente e comunicante, um ser excêntrico dotado de uma abertura infinita, graças à qual se move constantemente em três direções: em direção ao mundo, à natureza, em direção aos outros, o próximo e em direção a Deus. A relação que o homem tem consigo mesmo não é uma relação de coincidência imediata com o próprio ser, mas uma relação que deve realizar um longo caminho que passa por três vias: o próximo, o mundo e Deus. Isso depende do fato de que o homem não entra neste mundo como uma obra já inteiramente completa, totalmente definida, mas, principalmente, como um projeto aberto, a ser definido, a ser realizado e que, na definição e realização de si mesmo, deve ter em conta três coisas: o próximo, o mundo e Deus. Como escreveu Santo Agostinho em Solilóquios, duas são as questões que mais interessam e angustiam a razão humana: a primeira questão, é a mais querida, porque interessa diretamente ao nosso ser; a segunda, é mais preciosa, porque se refere ao ser supremo. Das duas questões se ocuparam os filósofos de todas as escolas e de todas as épocas da história, dando, ora precedência à questão de Deus, como na época clássica e cristã, ora, à questão do homem, como na época moderna. Nenhuma das duas questões pode ser resolvida definitivamente, como, por exemplo, a questão do egocentrismo ou da constituição do átomo. Trata?se, além disso, de questões profundamente pessoais que cada um deve enfrentar por conta própria. Para resolvê-las, os fatores da tradição e do contexto cultural no qual se trabalha e se vive têm sempre uma grande importância. A época moderna, eminentemente antropocêntrica e carregada de subjetividade, como definiu Hegel, tinha pretensão de resolver o problema do homem, eliminando a questão de Deus, mas essa via conduziu os pensadores ao Niilismo, onde, juntamente com Deus, caiu também o homem. O homem, segundo a célebre sentença de Sartre, tornou-se uma paixão inútil. Nós, pensadores, que estamos atravessando o deserto que se estende entre a modernidade e a pósmodernidade, nos defrontamos com o problema do homem, sem a confiança enganadora que a modernidade depositava na razão, mas sem aquela angústia desesperada que caracteriza a direção mais barulhenta da pós-modernidade, aquela que leva o nome de pensamento frágil. O filósofo cristão pós-moderno dispõe de uma confiança limitada nos poderes da razão, a confiança com a qual, fazendo bom uso dessa faculdade, ele poderá adquirir importantes conhecimentos em relação ao homem, em relação ao mundo e em relação a Deus. O filósofo cristão que enfrenta o problema do homem, na conjuntura cultural em que vivemos atualmente, deve fazê-lo recorrendo a todos os recursos que o saber humano coloca agora à sua disposição: as ciências humanas, a filosofia, a psicologia, a antropologia cultural, a sociologia, a fenomenologia etc. Num estudo magistral dedicado ao homem, E. Cassirer afirma que a essência do homem não consiste em qualquer substância oculta, mas nas suas obras, e que o homem, portanto, pode ser definido através de

que mais induz. das próprias obras. nós acreditamos ser válida somente a segunda. A filosofia clássica Platão. isto é. da natureza sobre a história. fundada sobre o primado do intelecto sobre a vontade. passaremos a uma outra definição. é o amálgama (sínodo) entre a natureza e a história. somente. a digestão. Segundo uma das definições mais comuns. ou seja. constituído de uma essência imutável que lhe foi dada pela natureza. De fato ela abraça todos os produtos especificamente humanos. diligente e sutil inquisição. e aquela menos conhecida de Cassirer. portanto. àquela muito séria de Hegel. Toda dimensão somática e biológica é produzida diretamente pelas forças da natureza. Cassirer. E é também uma definição mais adequada. o conjunto de características mais. O homem é o artífice de si mesmo. Entre essas duas posições antagônicas existe uma mediação. que o homem. considerava o homem como um ser natural. Aqui não sou efetivamente eu que ajo. um animal simbólico. em parte pela natureza e tem parte pela história. a ela nós chamamos de cultura. da existência sobre a essência. é aquela que considera o homem como ser cultural. vêm da natureza. a respiração. das operações. Da fenomenologia à metafísica: esse é o itinerário seguido por Aristóteles. portanto. é o espírito. da contemplação sobre a práxis.suas obras. Desta primeira definição. a cultura é o conjunto de todas as atividades e de todos os produtos que são frutos da iniciativa e da genialidade do homem. e não é nem o resultado de uma prodigiosa autotese. se revelam somente através do objeto. Mas uma das definições mais objetiva. PRIMEIRA DEFINIÇÃO: SER CULTURAL Ao homem se deram e se podem dar inumeráveis definições. da qual derivam não só as leis biológicas. portanto. ser subsistente. um bípede sem penas. por via da implicação e do aprofundamento. Não o vê mais apenas como uma criação da natureza. típica do mundo clássico e aquela historicista. às quais. animal racional. A nossa primeira definição do homem é aquela que diz que ele é um ser cultural (e não natural). baseada no primado da liberdade sobre a inteligência. de Nietzsche. e aquela universalmente conhecida de Aristóteles. através do estudo das obras. fez-se sozinho. À descoberta da natureza da alma se chega. mas é constituído. (a própria potência!). Era claramente uma concepção estática do homem. ser espiritual. Plotino e outros). ser agápico e transcendente. quer dizer a pessoa. Essa definição está no meio termo entre as duas concepções antitéticas do homem. A concepção naturalista. São Tomás reconhece que o estudo da alma é uma coisa tão árdua que requer diligens et subtilis inquisitio2. por sua vez. No plano moral não existe nenhum outro imperativo fora daquele de traduzir em ato a própria possibilidade. ou seja. como quando fechamos os olhos diante da luz muito forte etc. mas um sujeito-coisa em mim mesmo e em torno a mim. porque o homem não é como as plantas e os animais. Muito de quanto existe nele pertence à natureza. Santo Agostinho e São Tomás na antropologia que lhes era própria. mas não de sua natureza. mas é fruto de uma sapiente colaboração entre natureza e cultura. Eis. mas como um produto de si mesmo. tanto a criança como o adulto. também (parcialmente) definido mediante suas obras. nós buscaremos definir aquilo que o eminente filósofo alemão considera indefinível. de Sartre. mas da mesma forma significativa. do próprio eu não existe nenhum conhecimento direto. É o meu . A filosofia moderna realizou uma mudança radical. O homem não é somente um produto da natureza e nem apenas da história. aquela que majoritariamente inclui. a essência do homem. da prática sobre a teoria. própria do mundo moderno. Croce e Pannenberg. desde aquela humorística de Platão. Comte. Aquele pequeno ser humano que vem à luz depois de nove meses de gestação é fruto das leis genéticas que a natureza escreveu no corpo dos pais. No entanto. ao olhar cuidadoso. a natureza do nosso ser e o lugar que ocupamos no universo. na qual precisaremos sempre mais. pode ser estudado. é obra da cultura. a circulação do sangue. É a tese de Hegel. mas como ser cultural. imediato. os movimentos involuntários com que respondemos aos estímulos e as manifestações agressoras. a pulsação do coração. um puro produto das leis da natureza. sempre melhor. Os organismos e as faculdades de que são unidos. mas também os ditames morais. Como as obras revelam o seu autor. mas qual é a operação global. e. dizia o imperativo categórico da filosofia grega. As definições sucessivas serão: ser livre. isto é. Da alma. Zenon. Numa concepção historicista do homem. Também um grande número das atividades somáticas e psíquicas que nós desenvolvemos dependem das leis da natureza. de Heidegger e da maior parte dos filósofos modernos. nem simplesmente como ser histórico. a qual não considera o homem nem como ser natural. por exemplo. a natureza. Nem tudo no homem é produto da cultura. existe uma atividade superior que é realmente totalizadora. Age segundo a natureza. Das duas teses de Cassirer. existe apenas uma intuição da existência. aquilo porque o homem é homem. Todas as ações que realizamos por necessidade e instinto são produzidas em nós pela natureza. o nosso ponto de partida na exploração do grande mistério que é o homem. Aristóteles. da história sobre a natureza. porque abarca todas as atividades indicadas por Hegel. ser coexistente e proexistente e. que abraça todas as outras e é.

fazer este ou aquele tipo. Os escolásticos costumam distinguir três gêneros de liberdade: exercitii (querer e não querer). O objetivo primário da cultura é promover a realização da pessoa. igrejas etc. digno de prêmio ou castigo. Sem a cultura não é possível existir nem a pessoa individualmente. o homem é em grande medida o artífice de si mesmo. se acasala. O animal. Devemos. pré-fabricado pela natureza. à realização do homem: fazer ou não fazer o homem. A liberdade assegura à moral uma conditio sine qua non. a liberdade. um traço. de louvor ou de lamento. mas referem-se. a corrida. escolas. seria absurdo buscar nele. Mas a função da liberdade não é simplesmente aquela de garantir uma conotação ética ao agir humano. instintivo. se defende. A cultura não é uma roupa que se vista ou se dispa ao próprio prazer. O homem. cultivando a si mesmo. Pela realidade humana. o seu nada de ser Se se concebia antes o homem como pleno. se realiza e o faz perfeitamente. trens. navios. seu próprio ser. computadores. Estas distinções são importantes.. E que são produtos eminentemente culturais. Assim. a vontade. nada lhe vem de fora nem de dentro que se possa receber e aceitar. enquanto condições subjetivas necessárias para produzir cultura. sem nenhuma forma de ajuda. desde o menor detalhe.. especificationis (fazer esta ou aquela coisa). ela abraça todas as dimensões do fazer humano e a todas resume: a razão. pertence a sua cultura. desabrochar. isto é. Enquanto as plantas e os animais sofrem. construir o mundo. a religião. é antropológica e ontológica A liberdade é dada ao homem para que ele possa realizar a si mesmo.. mas é um elemento constitutivo da essência do homem. carros. O ato livre não é um ato cego. que são o conhecimento e a vontade. este ou aquele modelo de homem. É por instinto que desenvolve as próprias atitudes. como se viu. num tempo breve. se realiza gradual e livremente. ao invés disso. até a insustentável necessidade de fazer-se. antes de tudo e sobretudo. não é qualquer coisa acidental ou secundária. contrarietatis (fazer o bem ou o mal).. Ele deve se construir com suas próprias mãos. moralistas e juristas.. pontes. de fato. que pertence a vontade 4. aviões. como costumam assegurar muitos filósofos. o homem é capaz de cultivá-lo e de transformá-lo profundamente. Sobre este aspecto Sartre afirma muito bem: a liberdade permite ao homem tornar?se o artífice de si mesmo. realizar bem ou realizar mal o homem. Graças à liberdade o homem não se torna somente de sujeito moral. responsável pelas próprias ações. É por instinto que o animal se nutre. para distinguir o homem dos outros seres. Isto é sem dúvida verdadeiro. escreve Sartre: . bombas etc. a luta. Como bem disse São Tomás: o ato livre requer duas condições: o consilium ou judicium que cabe ao intelecto e a electio. momentos e espaços psíquicos em que ele seria livre: equivaleria a buscar o vazio num recipiente que . mas sim da cultura. mas também o produto principal. Como se observou. instintivamente. se cobre. ela faz parte da natureza humana. cujo ser é inteiramente produzido. não é um edifício pré-fabricado que basta simplesmente montar. é graças à liberdade que ele consegue aquilo que os animais obtêm mediante os instintos. desenvolver-se. em seguida. SEGUNDA DEFINIÇÃO: HOMEM SER LIVRE A condição essencial que faz do homem um ser cultural é a liberdade. tudo aquilo que se realiza sem a minha cooperação3. etc. É completamente abandonado. antes mesmo que ética ou jurídica. escolha. a linguagem. a situação histórica. ser quer dizer. Kant a qualifica como conditio essendi moralitatis. Diversamente dos outros seres vivos. poucas semanas ou poucos meses. Grande parte daquilo que nós possuímos e que fazemos desde criança não é fruto da naturcía. O homem. Na liberdade confluem as melhores energias do homem. aquela que mais distingue o homem dos animais e das plantas. literatura. O homem não é somente o sujeito ativo da cultura. mas é um ato da vontade iluminada pela razão. reconhecer que a tarefa primeira e principal da cultura não é construir casas.sistema Psicossomático. ele não é só o artífice. em outras palavras. De fato. no ambiente natural em que se encontram. nem o grupo social. Hoje se compreende que um aspecto. como hoje se faz com casas. adequando-o às próprias necessidades. o ambiente natural e sociológico. Essa é a característica mais destacável. justo ou injusto. tanto que podemos qualificá-lo como bom ou mal. a técnica. porque ele realiza aquilo que a natureza apenas começou a esboçar. nos baseávamos na sua racionalidade e na sua vontade ou sobre a sua liberdade ou sobre a sua linguagem ou sobre a sua técnica ou a sua religião etc. uma dimensão do homem que o especifica ou o caracteriza. a liberdade não é um ser: é o ser do homem. Sua tarefa principal é construir o homem. a arte. um projeto de humanidade que seja adequado à dignidade e à exigência da pessoa humana. mas também o sujeito passivo. É por instinto que busca aquilo que é bom para si mesmo e para a sua espécie. No passado. Eis aqui a nossa primeira e preliminar definição do homem: o homem é essencialmente um ser cultural. o canto etc. A liberdade faz pelo homem muito mais: a sua função.

é valor máximo. um ser espiritual. mesmo sendo de todas as realidades aquela menos evidente. portanto. para a sociedade e para o mundo inteiro sobre condições de vida. que já realizou e ainda fazer hipóteses para si. A liberdade que se exprime de mil modos e que no homem é sem limites. Nietzsche que usava aquilo que a sua experiência imediata percebia. e é requisito da liberdade que é isenção da necessidade e domínio sobre a matéria. argumentada e demonstrada. somática e. existem muitos indícios: a auto?consciência. segundo a bela expressão de Gabriel Marcel e Emmanuel Mounier. escreveu: O verdadeiro humanismo nos ensina que existe no homem alguma coisa de maior do que aquilo que aparece à sua consciência ordinária. que conversamos. do homem como ser cultural e como ser livre. ele abraça. uma presença espiritual mais sutil. Também Deus é inevidente e. porém é a liberdade. é feita justamente para isto: para a realização do ser do homem. como o homem possa sentir?se livre em relação a tudo aquilo que já fez. do espaço. ao invés. le néant ? exibe um documento válido e convincente. espírito. corpórea. que prescindido do tempo. antes de tudo e sobretudo. corpo. Não por isso a espiritualidade se toma um fenômeno secundário.. de que cada um de nós goza pessoalmente em modo exclusivo e incomunicável. este é no homem. do espaço e da quantidade. também uma dimensão espiritual. A realização do ser do homem é confiada à sua liberdade. A segunda definição diz que o homem é essencialmente livre. Nós que nos interrogamos sobre o homem. a necessidade e o instinto. Por este motivo. Sobrevoa o mundo inteiro da experiência. A espiritualidade do homem é. se ele mesmo. algo que gera idéias e pensamentos. e somente o espírito. O homem não pode ser para algumas coisas livre e para outras escravo: é todo inteiro e sempre livre ou não o é de fato'. que nos escutamos. que nos falamos. porque o homem é . sobretudo. De fato. a qual elucida e explicita a primeira. faz dele um nada. voltado primeiramente ao espírito: deve ter em mira a dimensão espiritual do nosso ser. como sustentava Marx. TERCEIRA DEFINIÇÃO: O HOMEM É ESPÍRITO Que o homem seja espírito não é coisa óbvia. a alma. além da dimensão corpórea somática e material. Somente uma realidade imaterial e espiritual pode fazer isso. O homem com a sua soberana liberdade se eleva. além dos limites de espaço e tempo que o circundam. Fazer o homem. aliás o documento mais importante e decisivo do fato que o ser do homem não pode ser reduzido à matéria e às suas forças e que. inerte. O que é óbvio é exatamente o contrário: que o homem é matéria. a mente e o espírito. o fazemos graças à matéria. declarava que o homem é corpo e somente corpo. a reflexão. opaco. não obstante. A liberdade. o qual contrapondo-a a um ser gélido. O espírito sopra onde quer: spiritus ubi vult spirat. o que mais conta e o que representa o ser mais profundo e mais duradouro. as diabólicas mistificações de uma cultura leiga que busca com todos os meios estender um vasto véu de fumaça sobre a esfera do espírito. portanto. acidental: um epifenômeno da matéria. avalia e julga o presente e o passado e pode também prefigurar-se e programar seu futuro. e não se explica. a adoração. graças à liberdade deve ser. da quantidade e da matéria. significa fazer o homem em todas as suas dimensões. porque possui uma dimensão interior de natureza espiritual: a alma. sujeito à degeneração e à corrupção. que se chama. A única doutrina que pode apresentar uma antiga linguagem intelectual é aquela que se baseia na idéia de que a condição ordinária do homem não é a sua essência mais íntima: que existe nele um ser mais profundo. A sua não evidência nada diz a propósito da sua importância e do seu valor.antes se enchia até transbordar. é inteiramente sujeito à categoria do tempo. Radhacrishnan. é um ato de ser espiritual. porque leva consigo um elemento de imaterialidade e de espiritualidade. Da espiritualidade do ser profundo do homem a que costumamos dar o nome de anima. Esta é. que o torna insatisfeito de suas conquistas puramente terrenas. a espiritualidade não dispensa a matéria. Mas o indício mais certo. alma ou mente6. realizem todas as condições de aperfeiçoamento possível. A definição do homem como espírito é implícita nas duas definições precedentes. da qual o homem é essencialmente dotado. sopro vital. que é a tarefa própria da moral. Não obstante as aparências que exercem forte chamado em direção à dimensão material. como sublinhou Sartre. somática e espiritual. que dialogamos. psíquica e intelectual. mas que significa. que já obteve. é essencialmente livre. mas por sua causa do espírito que está em nós. porque não se compreende. O cultivo do homem.. realizar o homem como espírito. O homem é. incessantemente. máximo filósofo indiano do século XX. um espírito encarnado. O ato de ser. contemplação. aquilo que São Tomás chama actus essendi da alma. valor absoluto. Assim chegamos a uma segunda definição do homem. a condição própria do espírito: libertas est conditio essendi spiritualitatis O espírito. O homem pode e deve cultivar a si mesmo: é objeto e também sujeito da cultura porque é livre. o colóquio. da matéria. que se atualiza. a auto transcendência etc. de fato.

e a alma pertence à ordem do espírito. a sua pessoa e a sua unicidade inviolável possuem características peculiares que são aquelas que determinam e explicam as primeiras duas definições que demos sobre o homem. nós sabemos não existe nenhum outro ser mais perfeito do que o homem. A subsistência espiritual do homem é essencialmente. e que além de ser o seu próprio artífice: ele também é o resultado da cultura. É a finitude do espírito humano. cultura de sua saúde e de sua eficiência. Com esse termo. Enquanto espírito encarnado e finito. mas é pessoa justamente porque subsiste na ordem do espírito. em colaboração com os outros. a sua existência e a sua auto-realização é essencialmente ligada à existência e à realização dos outros espíritos encarnados que são o seu próximo. freqüentemente se transformam em fatores negativos e impeditivos para a realização pessoal: o mundo transforma?se numa gaiola. não dizemos do cão. mas de um grupo social. Ora. Cada pessoa humana tem necessidade dos outros: para vir ao mundo. Buber. na maior parte dos casos. para educar-se. a substância. também à filosofia oriental e à filosofia platônica. que são aquelas apontadas por Descartes. para programar-se a si mesma e para realizar seu próprio projeto de humanidade. que afirmam consistir a pessoa na capacidade de dialogar com os outros. No mundo em que vivemos. Esta definição vem corrigida pelo conceito dialógico. ou mesmo. numa capa de chuva. portanto. O espírito do homem se hipostatisa no corpo. toma como seu. Enquanto espírito ele pode entrar em comunicação com os outros espíritos. do cavalo. O homem. entre as quais aparece aquela personalística: a sexualidade é dada ao homem primeiramente para realização de sua pessoa e. Só do homem dizemos que é pessoa. QUARTA DEFINIÇÃO: O HOMEM E ESPÍRITO Não existe um termo melhor para qualificar o ser do homem do que o termo persona. precisamente. e toma vãs suas fontes espirituais e o seu projeto de . o ser do homem. Mas o que se entende. se designa aquilo que há de mais perfeito no universo: Persona significat id quod est perfectissimum in tota natura. o homem se encontra associado aos outros espíritos encarnados e finitos. infinita. é um espírito finito. Hume. que identificam a pessoa com a auto consciência. para crescer. ao mesmo tempo. dando relevo ao aspecto da coexistência. que normalmente são fatores positivos. necessariamente também cultura do corpo. por sua pátria. cada ser racional nasce. definições ontológicas. Fichte e. em grande escala. como se viu. não é obra de um indivíduo.intimamente e primariamente espírito. Acima de tudo. de vários gêneros e podem ser reunidas em três grupos: definições psicológicas. e extremamente aberto e excêntrico enquanto é espírito. substancialmente. Enquanto espírito goza de uma abertura sem limites. A coexistência. Esta é a grande lição da qual somos devedores. O corpo humano é um corpo sexuado e a sexualidade desenvolve no homem uma pluralidade de funções. segundo São Tomás. além do cristianismo. Em segundo lugar a substância espiritual do homem é uma subsistência finita: o homem é um espírito finito. Levinas. A substância do homem é a alma. numa droga que sufoca e mortifica as suas íntimas aspirações. a convivência com os outros. com esse termo? Várias são as definições propostas. aquele projeto de humanidade que corresponde aos ideais buscados pelo seu grupo social. como fez Leibniz. no caso de haver confusão entre a auto-suficiência e autonomia ontológica. as suas ambições os seus ideais. a cultura enquanto forma de uma sociedade e tradição de um povo. Assim. é espírito. portanto. tudo é intensamente socializado. ainda que seja próprio do espírito tender ao infinito. vive e cresce no interior de um grupo social e. que busca o caminho que ele deve percorrer no cultivo de si mesmo. voltada ao infinito. é um espírito encarnado e. O conceito clássico de pessoa. pode favorecer uma compreensão individualista e privatista do homem e. definições dialógicas: são aquelas de Mounier. cuja definição é subsistente racional. a liberdade e a espiritualidade se propõe a definir a pessoa como ser subsistente na ordem do espírito. se pode chegar ao ponto de fazer da pessoa uma mônada sem porta e sem janelas. Ricouer. um ser fechado em si mesmo. A cultura do homem se torna. em segundo lugar. o homem é. scilicet subsistens in natura rationali 7. Mas a subsistência espiritual do homem e. Vimos que o homem é um ser cultural. Vivemos sob o império dos meios de comunicação. como ser cultural e como ser livre. O espírito nele não é um acidente. para nutrir-se. que afirmam ser a pessoa a própria essência. que está implícita na terceira: o homem é pessoa. com a auto-suficiência e autonomia existencial. Por isso. ligada à matéria. Passemos à quarta definição. mas a sua substância. em vista de sua plena realização. enquanto subsistente. do gato e nem mesmo das plantas e das pedras. para realização da pessoa através de um correto uso da sexualidade. Graças à sua subsistência na ordem do espírito. E no universo. O nosso argumento sobre a cultura. ao fato de que o homem é essencialmente um ser social: que ele existe com os outros e realiza-se a si mesmo.

ao contrário. assistimos a desagregação de tantos casamentos senão por falta de proexistência? Assim. mais feliz. uma via que todos devemos percorrer para chegar à plena realização de nós mesmos. os outros o esvaziaram do seu ser O arbítrio dos outros decide sobre as possibilidades cotidianas do indivíduo (Dasein). um marido. Estes. Nessa irrelevância e impessoalidade Eles (das Man) exercitam a sua autêntica ditadura. decide aquilo que os outros já decidiram por ele: O indivíduo se move na subjetividade dos outros. pois aí são necessários a comunicação. repete aquilo que dizem os outros. Os perigos da coexistência são o anonimato e a massificação. de outros espíritos encarnados pelo Espírito divino. acreditamos ser revoltante aquilo que Eles acham que é revoltante. Nos retiramos da grande massa como Eles se retiram. o amor. A coexistência. constitui também o caminho régio da própria auto-realização. A proexistência que ajuda a realização dos outros (do próximo) repercute positivamente. de renúncia de si mesmo. a interioridade é indispensável. pode tomar?se um grande obstáculo à sua realização: um fator de compreensão e de nivelamento. mas o seu âmbito é muito restrito. dos amigos. Este Eles. é necessário um forte empenho da vontade e o exercício cotidiano. enquanto subsistente na ordem do espírito. também sobre o ser do próprio proexistente: é como que se antecipasse uma via para a realização de sua pessoa: consolida-a. Não. O voluntariado. A experiência cotidiana confirma isso. Quanto mais se empenha em dar espaço à humanidade do outro. tanto mais se cresce na própria humanidade. mas uma terceira pessoa sem nome. nas suas múltiplas formas de expressão. Fazemos lazer e nos divertimos como Eles se divertem. da pátria. justamente por causa de sua dimensão espiritual.. A proexistência que se coloca a serviço de outras pessoas. torna-a maior. ao invés de contribuírem para reforçar a própria personalidade. na ordem da práxis. A coexistência proexistencial tem. um professor. é um exercício concreto de proexistência. como âmbito de exercício. Santo Agostinho tem absoluta razão: "Noli forsa ire. vemos e julgamos literatura e arte como Eles vêem e como Eles julgam. Outros. portanto. segundo a célebre expressão de D.. ou seja. lemos. como resulta desta aguda análise de Heidegger. segundo a bem conhecida linguagem heidegeriana . cada um é como o outro. o espírito de sacrifício. Para certas pessoas (o pai. mostrando que um pai. a mãe. a dedicação. se enfraquece inevitavelmente no momento em que se transforma de uma relação de proexistência. prescreve um modo de ser da cotidianidade 8. a dos próximos e a dos terceiros. Bonhoeffer. mais do que crescimento e desenvolvimento. uma mãe.) esta atitude é algo de instintivo e de conatural. A pessoa. Pertence aos outros e lhes consolida a força ( . que é essencialmente proexistencial. como se vê. mais nobre. Uma coexistência assim dissolve completamente a singularidade individual no modo de ser dos "outros ". Por que então. como fazem alguns . numa relação de existência egocêntrica e egoísta. Sobre eles prevalecem as estruturas e exigências sociais. aquela união de amor. mas também um meio excelente de realização de si mesmo como pessoa. é um existencial. é impessoal. quem ocupa a posição de proximidade? Pode-se dividir o vasto mundo dos outros em duas grandes categorias. porém. Para que a proexistência possa se tomar um traço dominante da pessoa. uma condição primária da pessoa. é essencialmente abertura e comunicação. in interiore homine habitat veritas9. deve assumir as imagens da proexistência e da proximidade. etimologicamente. o próximo. um princípio de ocultamente e de sufocamento da sua capacidade e das suas possibilidades e de desperdício de seus tesouros e de seus talentos. hoje. Tal abertura e tal capacidade de comunicação conferem à pessoa a possibilidade de viver a própria coexistência na forma de proexistência: de transformar o viver com os outros. são muito mais satisfeitos e felizes e. o amigo. um dos maiores estudiosos da dimensão da sociabilidade (Mitsein). Não por isso os outros são determinados. em um ser para os outros. Próximo. um amigo.. quanto maior são os sacrifícios e as renúncias que souberem. dos empenhos e dos valores. o homem moderno tende a se tomar um das Man (Eles). O decisivo é só o inobservado domínio que os outros exercem sobre o indivíduo sem que este lhe dê o peso ou o assuma conscientemente na coexistência (Mitsein). um soldado etc. em um viver para os outros. a homogeneidade dos interesses. A proexistência é a generosidade e a dedicação. se consideram tanto mais realizados. falando dos outros. o herói etc. acima de tudo. No uso dos meios de transporte. dos pobres. individualidade e consistência. para a descoberta da verdade.humanidade. a coexistência. Mas. Certamente. são todos (não. ). são entre eles substituíveis. Como demonstrou com grande lucidez Heidegger. ou seja. Na coexistência a massa supera a pessoa: os direitos e os valores pessoais não contam mais. enriquece-a. uma esposa. como espírito encarnado. significa ser vizinho. porém. enfrentar e suportar por amor dos filhos. que faz aquilo que fazem os outros. do cônjuge. Não é ele mesmo. como uma soma). dimensão essencial da pessoa. E não é simplesmente um modo de vir ao encontro da necessidade do próximo e de ocupar o tempo livre. pensa aquilo que pensam os outros. a esposa. A coexistência. é preocupar-se pelo outro mais do que por si mesmo. Portanto. É dar precedência ao outro. nos meios de transmissão das informações (jornais). não um Eu ou um Tu. desfazendo?se mais a sua diversidade e concreticidade. para atingir a meta da realização da pessoa. podem favorecer o achatamento e o nivelamento das descobertas.

Foi Jesus Cristo quem conferiu à categoria da proximidade uma extensão ilimitada. Dificilmente para um branco americano ou sul-africano. que não é uma modalidade de um saber mas. que é o crescimento na dimensão mais profunda da pessoa. de língua. O critério que determina quem é o próximo é o de simplesmente ser vizinho no momento que ele precisar de nossa ajuda. digno de ser amado com todas as forças. Relação de parentela. Por este motivo.. do poder etc. e que vai muito além daquela que acontece porque se é membro das várias comunidades humanas.11 A comunidade com o próximo começa nas minhas obrigações com a sua segurança. sobre qualquer outra coisa ou pessoa. não amando a si mesmo. Sou ligado a ele. pois supera a todos. abraça todos os homens. ou culpa. de conceituação. proximidade é relação fundamental que une todos os homens: ela precede cada forma de representação. Deus mesmo. e vice-versa. de decisão e. . Escreve Levinas: O próximo se refere a mim. mas o próximo e. tem um significado fundamental entre todos os sistemas derivados da comunidade humana. Por este motivo. simplicidade e profundidade. é necessário também a proexistência. (implere voluntatem proximi sicut et suiipsius10). antes de qualquer argumento. de empenho. E isso vale tanto quando o primeiro mandamento se expressa segundo a forma do Antigo Testamento: Não faça ao outro. um frêmito do humano completamente ligado ao outro. não indicada pelo fato de ser membro de uma comunidade. enquanto tal. isto é. se consegue. Jesus propõe que se tome o vizinho como próximo. como na fórmula do Novo Testamento: Ama o próximo como a ti mesmo. Quem tem direito a esta relação: os familiares. que vem em primeiro lugar. os compatriotas? Estende-se também a todos os homens? Geralmente nós damos à categoria da proximidade uma extensão muito limitada. ou insônia ou distanciamento. antes de qualquer relação biológica. Wojtyla. 14 Todos os estudiosos que exploraram a estrutura da proximidade. Persona e ato. Levinas e por K. A realização de si mesmo passa necessariamente através do próximo.. para definir adequadamente a pessoa. seu resguardo.autores ou. o próximo. é a proposta da categoria de proximidade formulada por K. de uma obsessão e. Com a parábola do bom Samaritano (Lc 10. não basta a subsistência nem a coexistência. Para Levinas a. O próximo me convoca antes que eu o designe. O conceito de próximo leva em conta só a humanidade. de cor. de cultura. O conceito de próximo cria. O próximo é irmão. Portanto. como o é cada outro homem. concordam em dizer que ela é uma relação primária que se radica diretamente na essência própria da pessoa. fonte de todo amor e supremamente amável. assim. sem conotaçães que dividem. os parentes. sem levar em conta qualquer referência a esta ou aquela comunidade ou sociedade. em sede ética se deve dizer que próximo abraça todos os outros. contra qualquer lógica. da qual sou um possuidor. os pais. Fraternidade irrescindível.Wojtyla naquele excelente estudo de fenomenologia da pessoa. a proximidade é uma impossibilidade em afastar-se sem ocasionar a quebra do compromisso. ou alienação. de sexo. do sexo. infinita. e o âmbito da proexistência é o próximo. Me ordena antes de ser reconhecido. como explica São Tomás. de religião.. ou seja. convocação irrecusável: . Observamos. e que é. derrubando todas as barreiras da raça. os vizinhos. antes de qualquer ligação de contrato. de idade etc. portanto. continua K. os irmãos. o mesmo vale para o palestino ou árabe em relação ao hebreu. e isso significa.37) Ele faz compreender que a categoria da proximidade não tem limites. de per si. sem distinção de raça. Wojtyla. todos aqueles que estão em dificuldade. De fato. de julgamento. antes de qualquer compromisso assumido ou refutado. do sérvio em relação aos croatas. escreve: O sistema de referência. fazer a vontade do próximo como a própria. tanto que chega a adquirir o aspecto de uma obsessão. acima de tudo. 13 Portanto. o próprio crescimento espiritual. constitui o fundamento último da moral. porque se impõe. em profundidade. os amigos. 29. em relação ao conhecer. a mais ampla plataforma comunitária que vai além de qualquer diversidade com o outro. os filhos. O sistema de referência "próximo" explica de todo modo. a plenitude da participação. dos muçulmanos em relação aos cristãos. mas uma relação pessoal: aquela relação pela qual o outro é tratado como nós mesmos. da religião. O conceito de próximo é ligado ao homem. em termos tão firmes como estes. a categoria da proximidade nos faz apreciar algo de mais absoluto. simplesmente porque é homem. sem nenhuma discriminação e que se ame também os próprios inimigos. o negro entra na categoria da proximidade. todos os representantes da espécie humana. da riqueza. da cultura. A categoria da proximidade como elemento importante na definição da pessoa foi utilizada sobretudo por E. que aqui proximidade não conota uma relação espacial ou temporal (vizinhança no espaço ou no tempo). imediatamente no encontro com o outro. pela dimensão. de nossa aproximação. Ele indica. em primeiro lugar.12 Da mesma forma. ao mesmo tempo. através do próximo. aquilo que é contido em qualquer sistema do tipo membro da comunidade.

Mas é também uma exigência ética. uma função soteriológica. mas a sua personalidade. por pouca coisa. a pessoa humana. como se esforçou para mostrar Santo Agostinho. E assim. sua inteligência. não veio ao nosso meio. Como já vimos. segundo a celebre expressão bonhoefferiana. sua liberdade e todas as riquezas de que dispõe? O modelo. não simplesmente na sua unidade. depois de ter evidenciado o valor da paixão de Cristo como remédio para o pecado. para levar à plenitude da própria pessoa é. É um homem para os outros. está toda por ser definida. De resto. ou seja. Segundo São Tomás. antes de tudo. visível. E. segundo o ensinamento constante dos Padres da Igreja e dos grandes Escolásticos envolve uma dupla função. do Filho na inteligência. Se buscamos a paciência. que ele espelha Deus. é modelo supremo daquela disposição da pessoa que maiormente contribui à sua própria realização como pessoa: a proexistência. Mas. onde encontra o homem o modelo adequado para plasmar-se a si mesmo. como amor. para nossa salvação. infinito como vontade. da salvação. de São Boaventura e São Tomás. Ele se encarnou e se fez como um de nós. ao mesmo tempo. na sua Trindade. Para o homem. Na origem. ut hominem faceret Deum) 16 Toda a vida de Cristo tem uma função exemplar. A pessoa. ainda que o texto bíblico: Deus creavit hominem ad imaginem et similitudinem suam. IMAGEM DE DEUS O homem é imagem. é pessoa. que é ontologicamente teoforme. inefável. santo. São Tomás no comentário ao Símbolo (Creio). ser imagem de Deus é verdade ontológica e exigência ética. tem tudo quanto precisa para ser pessoa. mas também.. é um modelo concretamente impossível de ser proposto. Cristo. de mil modos. Cristo se encarnou por causa de nossos pecados. oceano infinito de Si mesmo. Por este motivo. de fato. Enquanto espírito. Deus mesmo. A função primária da cultura é a de conduzir indistintamente o indivíduo. encontra-se inscrito na própria espiritualidade. a uma personalidade rica e bem definida. Nem mesmo no melhor dos outros homens. diz que o seu valor como modelo (quantum ad exemplum) não é de modo nenhum inferior (nom minor est utilitas): De fato. o homem deve fazer-se imitador de Deus. em forma germinal. forte. quis eliminar este paradoxo. para exercer uma função pedagógica: para mostrar-nos o rosto de Deus (Quem me vê. Cristo é. os homens são sempre dotados de uma humanidade imperfeita. 27). em particular. incipiente e incompleta. de modo particular. isto é. É o que escreveu o grande Platão no Teeteto. na cruz não falta o exemplo de nenhuma virtude ( . mas é também doutrina de Platão e dos platônicos. misterioso. Nele mesmo. O homem é espelho do Pai na memória. realizar plenamente essa verdade. porém. é uma obra de arte. Este é um ensinamento constante e concorde dos Padres da Igreja e de todos os grandes Escolásticos. sua vontade. porque por mais que possa ser bom. é invisível. como já tinham percebido nossos pais. sábio. Deus criou o homem à sua imagem e semelhança (Gn 1. É. nem nos animais. Deus mesmo. mas para a máxima utilidade(?). subsistente na ordem do espírito. que a imitação de Deus é tornar-se justo e santo sustentado por visão espiritual e intelectual. A encarnação. na cruz encontramos a paciência . A tarefa da ética é fazer o homem. como bondade. mas sem figura e sem rosto.QUINTA DEFINIÇÃO: O HOMEM É TEOMORFO. assumindo a nossa carne. O único modelo adequado à aspiração de infinitude do homem. Quem quer viver perfeitamente para o outro não tem nada afazer além de desprezar tudo aquilo que Cristo na cruz desprezou. a humanidade primitiva não pode avaliar-se pela exemplaridade de nenhum outro ser humano. acrescentando. inacessível: Ele ipsum subsistens. subsiste Nele mesmo. na Cruz. enquanto ser inteligente e livre. em si mesmo. e buscar tudo aquilo que Cristo buscou de fato. Não pode ser outro que um modelo infinito: infinito como espírito. nesse mundo. nem nos astros. teve um papel decisivo na difusão desta verdade. Tanto se assemelha. De fato. a maior de todas as obras de arte. ícone de Deus. entretanto. e em segundo lugar. voluntariamente. para nos fazer donos de sua divindade. O que faz supor que não se trata de uma verdade de fé. Na sua bondade infinita. acessível a nós. e do Espírito no amor. Ontologicamente. o homem. para a realização plena de si mesmo. Toda a sua prática serve de modelo para quem quer ser imitador de Deus. e para tirar dele sua espiritualidade. inteligente.15 Deus. Antes de tudo. a paixão basta sozinha para informar completamente (ad informandum totaliter) a nossa vida. a Ele marcadamente assemelhado. e assim. não pode encontrá-lo nas criaturas inferiores: nem nas plantas. O único modelo adequado que o homem deve assumir. como liberdade. verdade ontológica. vê o Pai) e para nos fazer ver como vive quem possui o ser teomorfo e para nos dar a graça de viver efetivamente como seres divinos. doação total. o homem é cópia fiel de Deus. Para se transformar num modelo concreto. infinito como inteligência. que ganha a condição de ser humano ao nascer. é um modelo que não é modelo. ). se fez homem para transformar o homem em Deus (sic factus est homo.. que sobre esse ponto reflete o pensamento comum de todos escritores cristãos: O filho de Deus. a pessoa humana é um projeto. mais do que uma obra completa. sobre o qual o homem deve decalcar o desenho da sua própria personalidade.

não pode ter um valor absoluto. não se compreende. Mas o homem é um espírito finito. desde o nascimento. sim à ordem axiológica. o divino sem Deus. mas também numa visão ontológica. olhemos o crucifixo (. com a fome.) Se queremos um exemplo de obediência. sabedoria. na linguagem de Santo Agostinho. mesmo sendo rei dos reis. porque é um subsistente na ordem do espírito. com a droga. com a desonra. Àquele que é absoluto não somente numa visão axiológica. justiça. cada homem possui uma dignidade real. mas somente um meio. quer dizer. nem se sustenta. morto. Sem a fundamentação em Deus. Porque. ontologicarnente absoluto. De outro lado. com a miséria. SEXTA DEFINIÇÃO: O HOMEM É VALOR ABSOLUTO Até agora tivemos várias definições sobre o homem. da ética. zombado cuspido. destinado a permanecer incompleto para sempre. a um absoluto axiológico. Isto significa que a sua condição de absoluto e infinitude não pertence à ordem ontológica mas. pode tornar-se sempre mais pleno. percorrendo as estradas da fenomenologia. Ele é o valor que valoriza e que consagra definitivamente. nos campos de concentração. nas câmaras de gás. Agora passamos a considerar o homem numa visão axiológica.21 CONCLUSÃO Para definirmos nosso ser fizemos um longo caminho. o Absoluto Valor. negando-lhe a . ontologicamente contingente reenvia. O homem é um valor absoluto. cresce e se desenvolve somente com o cristianismo. soberano. ou seja. mas sim um valor instrumental.. É um valor em contínua gestação. Todas revelam a extraordinária grandeza do homem. necessariamente. afirmar que o homem é um valor absoluto e reconhecer nele valores absolutos (verdade. para a eternidade.mais excelente (excelentíssima). porque a Ele só compete essencialmente. Já a pessoa traz em si a forma de Deus. O homem é absoluto e infinito como valor. o absoluto valor homem. contraditoriamente. como ser. um valor absoluto o homem tem necessidade de Deus. portanto. é um valor absoluto. na visão ontológica que é espírito subsistente (ou seja. desconhecida do pensamento pagão. com a injúria. ele se toma necessariamente uma realidade manipulada. se buscamos a humildade. sigamos aquele que. Com a assistência do Espírito Santo. e a primeira propriedade do espírito é ser livre. A interpretação teocêntrica e teomórfica da realidade humana é a única capaz de explicar e fundar o valor absoluto da pessoa. Assim. pessoa) e teomorfo. ). portanto. que o homem é o buscador de Deus. Isto exige uma explicação: como é possível um valor absoluto. caçoado. efetivamente. pode-se brutalizá-lo com a violência. é um admitir. Trata-se.. Se o homem é só corpo. instrumentalizada e. . é uma dignidade soberana sem consistência. isto é. bondade. da ontologia e da axiologia. Se queremos um modelo de desprezo pelas coisas terrenas. Antes de tudo. inteiramente. o título de absoluto. com efeito. a Deus.. ganha espaço. Assim. e não à dos meios. Enquanto espírito. até os mais monstruosos e caprichosos: pode-se matá-lo no útero materno. necessariamente. Na visão fenomenológica vimos que é um ser cultural (mais do que natural). para realizar-se como ser teomorfo. pode-se dizer. só matéria.justiça e constrangendo-o ao desemprego. ontologicamente contingente? Um absoluto axiológico. Para ser. Esta verdade.. sem admitir o Valor primeiro subsistente. o valor absoluto da pessoa humana até que não se alcance a sua fonte. finalmente. o homem como valor absoluto ontologicamente contingente remete. com efeito. em forma incipiente. totalmente gratuito e arbitrário considerar o homem um valor absoluto. para usar e não para ser utilizado. o homem é um valor absoluto que não consegue absolutizar-se. a teomorfa. mas não como ser. uma dignidade sacra e inviolável. justo afirmar como Scheler: O homem é o portador de uma tendência que transcende todo o possível valor vital e se direciona ao divino.) como ideais que se realizam. a pessoa deve tornar-se cristiforme. de uma verdade estreitamente ligada ao conceito de pessoa. sobre a cruz foi desnudado. O valor absoluto do homem está no espírito. Senhor de todos os potentados. Por isso. imagem de Deus. todos os crimes contra o homem tornam-se possíveis. não mais simplesmente um fim. durante a vida. à ordem do frui e não àquela do uti. na medida em que sabe fazer-se discípulo e imitador de Cristo. sigamos Aquele que se fez obediente ao Pai até a morte ( . na visão ética vimos que é livre. precisamente por este motivo. que é um conceito de clara matriz cristã. incapaz de vir complemente à luz. É um valor absoluto somente nas palavras. constatando que é um valor absoluto participado. do ponto de vista de sua dignidade e de seu valor. Se não se o situa o valor no espírito é. obrigado a beber fel e vinagre e.20 Parece-me. 17 Portanto. ou como valor. não um valor instrumental: ele pertence à ordem dos fins. naturalmente. porque é pessoa. amor etc. coroado de espinhos. de acordo com o modelo divino.

como a mais bela de todas as criaturas. L’être et le néant. dimensões. PLATONE. Para que domine as obras de tuas mãos sob seus pés tudo colocaste: ovelhas e bois. Tr. 1. faculdades. De vera refigione. para que venhas visitá-lo? E o fizeste pouco menos que um deus. J. C. e o é. todos eles. 16. toda alma e todas as suas próprias forças. é necessário uma cultura integral. 1. R 4. SCHELER. e as feras do campo também. qualidades. S. coroando-o de glória e beleza. 21. S. S. com todo coração. In Symb. dotes. por sua vez. GUARDINI. Então.R. permanece essencialmente um ser cultural: isto é. Chiodi. sobretudo. Città del Vaticano. 14O. 919?824. Idem. 15. 1953. Gallimard. 1957. Theol. a. Bocca. M. Senhor Nosso. ou deveria propor-se. ó Senhor. tanto objetivamente. LEVINAS E ' Altrimenti che essere. sua meta final de autorealização. AGOSTINHO. S. TOMMASO. aquela do espírito é a única dimensão que faz do homem um valor absoluto e perene. II valore uomo. 1957. Expos. S. Tommaso. Pp. Lógica. as aves do céu e os peixes do oceano que percorrem as sendas dos mares. Theol. rendendo louvor ao seu Senhor. 1966. DeiFormafismus in der Ethik and die materiale WertethiL Hafle. MONDIN. Quem não temeria. que saiba cultivar todo homem. 833. 9O7. Libertà. 27. 1987. todo-poderoso. B. Jaca Book. Uma cultura do homem para ser integral deve ser. acompanhando o canto. Milano. 25A 2. 12. segundo aquele desígnio que Deus mesmo traçou para ele na criação.1 11. RADHAKRISHNAN S. grazia. Marceliana. Iahweh. e um filho de Adão. Bréscia. R 11O. Idem. R 515. S. Theol. quão poderoso é teu nome em toda a terra!” O homem é a glória de Deus no universo. 11/11. Pois tuas justas decisões se tomaram manifestas. R 1O8. 1982.. 29. p. um ser que se define e se realiza mediante a cultura. Para realizálo integralmente. o nosso canto será: "Grandes e maravilhosas são as tuas obras. teus caminhos são justos e verdadeiros. Dignidade verdadeiramente excelsa como canta o Salmista: "que é um mortal. com as harpas divinas. Paris. HEIDEGGER M. Milano. como subjetivamente. juntamente com os anjos. SÃO TOMÁS S. a amar Deus por si mesmo. E somente desse modo. ó Rei das nações. 5. Esta se propõe. 3.” 1. 17. 1983. e é chamado. n. 1916. 13. 87. Teeteto. R 331. 3O1?3O2. 1O. K. 8. R 328.fr. é a única criatura que Deus ama por si mesmo. Essere e tempo. p. TOMMASO. Refigioni orientali e pensicro occidentale. Dino. cultura do espírito porque. Milano.P. e que potencializou na redenção. O destino último do homem é unir-se ao coro dos anjos para celebrar a glória do Senhor. ó Senhor Deus.O homem. 27. . 9. destino. Cuidar da própria alma é um imperativo categórico de toda boa cultura: somente essa corresponde à grandiosíssima dignidade do homem. Persona e atto. 45. como diz o Apocalipse. Roma. 14. 6. a realizar o homem integralmente. TÉ It. KANT. enquanto cabe a ele dar glória ao Senhor. com as suas propriedades. O homem. o homem chega à perfeita alegria. Idem. 3. SARTRE. para dele te lembrares. porém. 1 ed. e não glorificaria o teu nome? Sim! Só tu és santo! Todas as nações virão prostrar-se diante de ti. WOJTYLA. 2O.