Apoio:

Patrocínio:

Realização:

Dom Casmurro
Machado de Assis

. virtualbooks. eletrônico ou impresso.É proibida a reprodução do conteúdo deste livro em qualquer meio de comunicação.com.br Todos os direitos reservados a Editora Virtual Books Online M&M Editores Ltda.Copyright © 2000. sem autorização escrita da Editora.

”. tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso. Contei a anedota aos amigos da cidade. . alguns em bilhetes: “Dom Casmurro. e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. dou-lhe chá. e acabou alcunhando-me Dom Casmurro.“Vou para Petrópolis. que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados.São muito bonitos. domingo vou jantar com você. encontrei num trem da Central um rapaz aqui do bairro. que afinal pegou. A viagem era curta. a casa é a mesma da Renania. vê se deixas essa caverna do Engenho Novo.Dom Casmurro Machado de Assis CAPÍTULO 1 DO TÍTULO Uma noite destas. estava amuado. vindo da cidade para o Engenho Novo. e eles. E com pequeno esforço. Cumprimentou-me. murmurou ele. fechei os olhos três ou quatro vezes. para atribuir-me fumos de fidalgo. Dom Casmurro. falou da lua e dos ministros. deram curso à alcunha. só não lhe dou moça. por graça. Dom veio por ironia. que. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios. não cuide que o dispenso do teatro amanhã. e acabou recitando-me versos.Já acabei. venha e dormirá aqui na cidade. mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. mas não passou do gesto. dou-lhe cama.Continue. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão. . Tudo por estar cochilando! Também não achei melhor título para a minha narração . . Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso. e vai lá passar uns quinze dias comigo. Nem por isso me zanguei.“Meu caro Dom Casmurro. . dou-lhe camarote. porém. como eu estava cansado.” Não consultes dicionários.”. Sucedeu.se não tiver outro daqui até ao fim do livro. sentou-se ao pé de mim. disse eu acordando. chamam-me assim. que eu conheço de vista e de chapéu. Os vizinhos. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. vai este mesmo.

semelhante à pintura que se põe na barba e nos cabelos. com um criado. o interno não agüenta tinta. e restaurar na velhice a adolescência. com a exterior. há bastantes anos. Não alcanço a razão de tais personagens. que é pacata.. Quanto às . CAPÍTULO 2 DO LIVRO Agora que expliquei o título. três janelas de frente. a fisionomia é diferente. A casa em que moro é própria. há aqui o mesmo contraste da vida interior. de espaço a espaço. O que aqui está é. a pintura do tecto e das paredes é mais ou menos igual. todos os antigos foram estudar a geologia dos campos-santos. Pois. fi-la construir de propósito. Augusto. O mais é também análogo e parecido. levado de um desejo tão particular que me vexa imprimi-lo. mas não a mim. e que apenas conserva o hábito externo. que é ruidosa. Na principal destas. Uso louça velha e mobília velha. se o rosto é igual. senhor. uma casuarina. não consegui recompor o que foi nem o que fui. Nero e Massinissa. lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de Mata-cavalos. alguns nem tanto. Tenho chacrinha. como outrora. Um dia. digamos os motivos que me põem a pena na mão. Antes disso. umas grinaldas de flores miúdas e grandes pássaros que as tomam nos blocos. varanda ao fundo. Há livros que apenas terão isso dos seus autores. Construtor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz: é o mesmo prédio assobradado. já ela estava assim decorada. como todos os documentos falsos. um poço e lavadouro. mal comparando. passo a escrever o livro. agora. e esta lacuna é tudo. mais falto eu mesmo. e ao centro das paredes os medalhões de César. O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida. Se só me faltassem os outros. Vivo só. Os amigos que me restam são de data recente. com os nomes por baixo. vinha do decênio anterior. Nos quatro cantos do tecto as figuras das estações. Enfim.. legume. Uma certidão que me desse vinte anos de idade poderia enganar os estranhos. vá um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde. que desapareceu. como se diz nas autópsias. dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra. Naturalmente era gosto do tempo meter sabor clássico e figuras antigas em pinturas americanas. Em tudo. flores. as mesmas alcovas e salas. porém. poderá cuidar que a obra é sua. mas vá lá. Quando fomos para a casa de Mata-cavalos.sendo o título seu.

Quis variar. vida diferente não quer dizer vida pior. Talvez a narração me desse a ilusão. Ora. mas é também exato que perdeu muito espinho que a fez molesta. Foi então que os bustos pintados nas paredes entraram a falar-me e a dizer-me que. o mês novembro. Jurisprudência. mas a língua que falam obriga muita vez a consultar os dicionários. outras de menos. Massinissa. mas aquela nunca se me apagou do espírito. e quase todas crêem na mocidade. é outra coisa a certos respeitos. Duas ou três fariam crer nela aos outros. que nunca me esqueceu. e tu. como tudo cansa. melhores. O mais do tempo é gasto em hortar. É o que vais entender. agradeço-vos o conselho. filosofia e política acudiram-me. viverei o que vivi. . e piores. A casa era a da Rua de Mata-cavalos.amigas. que ainda agora me treme a pena na mão. e vou deitar ao papel as reminiscências que me vierem vindo. quando ouvi proferir o meu nome e escondi-me atrás da porta.. algumas datam de quinze anos. esta monotonia acabou por exaurir-me também. como ao poeta. de memória. lendo. pouco apareço e menos falo. pegasse da pena e contasse alguns. pensei em fazer uma “História dos Subúrbios” menos seca que as memórias do Padre Luís Gonçalves dos Santos relativas à cidade. conservo alguma recordação doce e feiticeira. inquietas sombras?. aquela vida antiga aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei. jardinar e ler. Fiquei tão alegre com esta idéia. mas exigia documentos e datas como preliminares. e assentarei a mão para alguma obra de maior tomo. Eia. uma vez que eles não alcançavam reconstituir-me os tempos idos. Nero. era obra modesta. Em verdade. mas não me acudiram as forças necessárias. como bem e não durmo mal. mas eu não hei de trocar as datas à minha vida só para agradar às pessoas que não amam histórias velhas.. CAPÍTULO 3 A DENÚNCIA Ia entrar na sala de visitas. Augusto. Deste modo. Entretanto. e. o ano é que é um tanto remoto. e as sombras viessem perpassar ligeiras. que me incitas a fazer os meus comentários. tudo árido e longo. Depois. Tive outras muitas. mas o do Fausto: Aí vindes outra vez. não o do trem. grande César. Sim. Distrações raras. o ano era de 1857. e lembrou-me escrever um livro. e tal freqüência é cansativa. comecemos a evocação por uma célebre tarde de novembro.

.Não acho. tem-se ganho o principal. Capitu fez quatorze à semana passada. a senhora persiste na idéia de meter o nosso Bentinho no seminário? É mais que tempo. desde aquela grande enchente.. Minha mãe quis saber o que era.Governo como a cara dele! atalhou tio Cosme. depois de alguns instantes de concentração. não deu por mim. Compreendo o seu gesto. .. A pequena é uma desmiolada.Que dificuldade? . e já agora pode haver uma dificuldade. a senhora não crê em tais cálculos. em que a família Pádua perdeu tanta coisa.Dona Glória. parece-lhe que todos têm a alma cândida.Em todo caso. e nunca vi nada que faça desconfiar.. Não esqueçamos que um bispo presidiu a Constituinte... Metidos nos cantos? .Perdão. a senhora terá muito que lutar para separá-los. daí vieram as nossas relações. interrompeu minha mãe. e que o Padre Feijó governou o Império. Bentinho mal tem quinze anos. que. Pois eu hei de crer?.Sim. Oxalá tenham razão. e esta é a dificuldade.Bem. a gente do Pádua. onde está o gamão?” . Bentinho há de satisfazer os desejos de sua mãe e depois a igreja brasileira tem altos destinos. senhor José Dias. . Basta a idade..A gente do Pádua? . mas não me atrevia. não estou defendendo ninguém. o pai faz que não vê. estou citando O que eu .Há algum tempo estou para lhe dizer isto.. . abafando a voz.É um modo de falar. Em segredinhos. Bentinho quase que não sai de lá. tenho visto os pequenos brincando. . eu divirto-me. disse que a dificuldade estava na casa ao pé. vou tratar de metê-lo no seminário quanto antes. . Não se esqueça que foram criados juntos. mas creia que não falei senão depois de muito examinar. . queria dizer: “São imaginações do José Dias os pequenos divertem-se. tomara ele que as coisas corressem de maneira. . voltou e. Mano Cosme. traduzido em vulgar. creio que o senhor está enganado. cedendo a antigos rancores políticos.Uma grande dificuldade. José Dias. .Pode ser minha senhora. uma vez que não perdeu a idéia de o fazer padre.Mas. . . são dois criançolas. veio ver se havia alguém no corredor. há dez anos.. vai sendo tempo. doutor. . sempre juntos. Não me parece bonito que o nosso Bentinho ande metido nos cantos com a filha do Tartaruga. você que acha? Tio Cosme respondeu com um “Ora!” que. porque se eles pegam de namoro.

presilhas. Prima Justina creio que se levantou e foi ter com ela. há de cumprir-se.. que estava no interior da casa.É promessa. teria os seus cinqüenta e cinco anos. . e talvez neste mundo. vá buscar o gamão. prima Justina? . uma promessa de tantos anos.Verdade é que cada um sabe melhor de si. a premissa antes da conseqüência. Seguiu-se um alto silêncio. mana Glória. mas um vagar calculado e deduzido. Levantou-se para ir buscar o gamão. com um princípio de calva. outra emoção. Contudo. durante o qual estive a pique de entrar na sala. pelo afeto. que é isso. mas outra força maior. pela estima. .. com um arco de aço por dentro. a conseqüência antes da conclusão... não as havendo.. não aquele vagar arrastado se era dos preguiçosos. realmente é melhor que não comece a dizer missa atrás das portas. Prima Justina exortava: “Prima Glória! Prima Glória!” José Dias desculpava-se: “Se soubesse.. um dever amaríssimo.. olhe cá. Era um modo de dar feição monumental às idéias. era então moda... continuou tio Cosme.. Levantou-se com o passo vagaroso do costume. não teria falado.Sei que você fez promessa. Era magro.Você o que quer é um capote.. se tem de ser padre. mas uma promessa assim. Um dever amaríssimo! .. não sei.. há mesmo necessidade de fazê-lo padre? . ande.Eu? . imobilizava-lhe o pescoço. um silogismo completo. Quanto ao pequeno. chupado. Foi dos últimos que usaram presilhas no Rio de Janeiro. mana Glória? Está chorando? Ora esta pois isto é coisa de lágrimas? Minha mãe assoou-se sem responder. mas falei pela veneração.Deus é que sabe de todos. Você que acha. Mas. Cosi-me muito à parede. O rodaque de chita. veste caseira e leve. Não pude ouvir as palavras que tio Cosme entrou a dizer. Trazia as calças curtas para que lhe ficassem bem esticadas. “ CAPÍTULO 4 UM DEVER AMARÍSSIMO! José Dias amava os superlativos. Mas. bem pensado. A gravata de cetim preto. e vi-o passar com as suas calças brancas engomadas. rodaque e gravata de mola. Creio que. servia a prolongar as frases. para cumprir um dever amargo.. parecia nele uma casaca de cerimônia.quero é dizer que o clero ainda tem grande papel no Brasil.

meu pai ainda estava na antiga fazenda de Itaguaí. Nos lances graves. levava um Manual e uma botica. abaixo de Deus. . eles. os motivos do meu procedimento podiam ser e eram dignos. ria largo. tão natural nesta como naquela maneira. e.Quem lhe impede que vá a outras partes? Vá aonde quiser. o mais acertado. Outrossim.. se era preciso. e não o fez sem estudar muito e muito.CAPÍTULO 5 O AGREGADO Nem sempre ia naquele passo vagaroso e rígido. você curou das outras vezes. gravíssimo. e teve o seu quarto ao fundo da chácara. disse-lhe meu pai que fosse ver a nossa escravatura. menti. . Um dia. Eles. Um dia apareceu ali vendendo-se por médico homeopata.Mas. Havia então um andaço de febres. porém. Eu era um charlatão. Não negue. Quando meu pai foi eleito deputado e veio para o Rio de Janeiro com a família. sim.. como pedia então. dava-se por falta dele. os olhos. meu pai já não podia dispensá-lo. . Não foi despedido. os dentes. reinando outra vez febres em Itaguaí. a homeopatia é a verdade. com pequeno ordenado. dizendo que era justo levar a saúde à casa de sapé do pobre. todo o mundo pareciam rir nele. mas é tempo de restabelecer tudo. era muita vez rápido e lépido nos movimentos. aceitou casa e comida sem outro estipêndio. de um grande riso sem vontade. e eu acabava de nascer. José Dias deixou-se estar calado. ele veio também. Tomara este título para ajudar a propaganda da nova escola. toda a cara. . .Voltarei daqui a três meses. Voltou dali a duas semanas. toda a pessoa. Então meu pai propôs-lhe ficar ali vivendo. mas comunicativo. mas a consciência não lhe permitia aceitar mais doentes. e não quis receber nenhuma remuneração.Creio que sim. mas fique morando conosco. salvo o que quisessem dar por festas. José Dias recusou. José Dias curou o feitor e uma escrava. é dizer que foram os remédios indicados nos livros. Tinha o dom de se fazer aceito e necessário. a tal ponto ás bochechas. para servir à verdade. Também se descompunha em acionados. Era nosso agregado desde muitos anos. suspirou e acabou confessando que não era médico.

repetiu José Dias cheio de veneração. CAPÍTULO 6 TIO COSME Tio Cosme vivia com minha mãe. .Abaixo. disseram-me. a dor que o pungiu foi enorme. abaixo de Deus. Formado para as serenas funções do capitalismo. Quando meu pai morreu.Obedeço. tinha amigos em Lisboa. e confessava que a não sermos nós. perto do júri. ou explicar algum fenômeno. Era quem lhe vestia e despia a toga. minha senhora.Fique. com muitos . por cima da cama. A fortuna troca muita vez as mãos à natureza. de uma elegância pobre e modesta. ele trazia o velho escovado e liso. Minha mãe ficou-lhe muito grata. gostou de ver que ele punha Deus no devido lugar. ao menos. dos pólos e de Robespierre. desde que ela enviuvou. José Dias agradeceu de cabeça. e sabia opinar obedecendo. as cortesias que fizesse vinham antes do cálculo que da índole. Ao cabo. e não consentiu que ele deixasse o quarto da chácara. confiava-lhe a cópia de papéis de autos. encaixilhou-as e pendurou-as no quarto. A roupa durava-lhe muito. certa audiência. já teria voltado para lá. era a casa dos três viúvos. cerzido. José Dias não perdia as defesas orais de tio Cosme. Minha mãe dava-lhe de quando em quando alguns cobres. não abusava.como de pessoa da família. posto que de atropelo. Contava muita vez uma viagem que fizera à Europa. e sorriu aprovando. falar dos efeitos do calor e do frio. ao sétimo dia. o bastante para divertir ao serão e à sobremesa. Trabalhava no crime. Teve um pequeno legado no testamento. Copiou as palavras. que era no extinto Aljube. que era religiosa. adquiriu certa autoridade na família. Com o tempo. . mas a nossa família. depois da missa. como prima Justina. . “Esta é a melhor apólice”. Era lido. ele foi despedir-se dela. ao contrário das pessoas que enxovalham depressa o vestido novo. era amigo. Já então era viúvo. Tio Cosme. E minha mãe. era tudo.Abaixo ou acima? perguntou-lhe tio Cosme um dia. dizia ele. uma apólice e quatro palavras de louvor. José Dias. abotoado. não direi ótimo. não me lembra. Tinha o escritório na antiga Rua das Violas. que era advogado. mas nem tudo é ótimo neste mundo. . E não lhe suponhas alma subalterna. tio Cosme não enriquecia no foro: ia comendo. dizia ele muita vez.

em rapaz. Uma das minhas recordações mais antigas era vê-lo montar todas as manhãs a besta que minha mãe lhe deu e que o levava ao escritório. pegou-me. . por mais modesto que quisesse ser. Posto que nascido na roça (donde vim com dois anos) e apesar dos costumes do tempo. e a gordura acabou com o resto de idéias públicas e específicas. há de queixar-se de você. Depois. aqui mesmo. Tio Cosme. dava um impulso. após alguns instantes largos. Quando me vi no alto (tinha nove anos). e.Não está acostumado. se for vigário na roça. sorria de persuasão. Nas horas de lazer vivia olhando ou jogava. dava o último surto da terra. cuidou que me estivessem matando.Deve acostumar-se. ainda não sendo padre. mas os anos levaram-lhe o mais do ardor político e sexual. afagou-me. Contam que. tenho medo. referia os debates. Tio Cosme pegou em mim e escanchou-me em cima da besta.Mana Glória. o corpo ameaçava subir. entrei a gritar desesperadamente: “Mamãe! mamãe!” Ela acudiu pálida e trêmula. é preciso que monte a cavalo. enquanto o irmão perguntava: . medo! A verdade é que eu só vim a aprender equitação mais tarde. Já não dava para namoros. e a besta partia a trote. Agora só cumpria as obrigações do ofício e sem amor. mas não subia. mana Glória. Não se diria o mesmo de tio Cosme. o chão lá embaixo.a isto seguia-se um minuto de descanso ou reflexão. O preto que a tinha ido buscar à cocheira segurava o freio. se quiser florear como os outros rapazes. Padre que seja. pois um tamanhão destes tem medo de besta mansa? . . tinha a respiração curta e os olhos dorminhocos. e desta vez caía em cima do selim. Nele era velho costume e necessidade. igual efeito.cumprimentos no fim. . Era gordo e pesado. sozinho e desamparado. eu não sabia montar. disseram quando eu comecei as lições. e tinha medo ao cavalo. Também não me esqueceu o que ele me fez uma tarde. “Agora é que ele vai namorar deveras”. enquanto ele erguia o pé e pousava no estribo . Tio Cosme acomodava as carnes. o primeiro. além de partidário exaltado. Uma ou outra vez dizia pilhérias. Em casa. .Pois que se queixe.Medo! Ora. Raramente a besta deixava de mostrar por um gesto que acabava de receber o mundo. foi aceito de muitas damas. tio Cosme enfeixava todas as forças físicas e morais. menos por gosto que por vergonha de dizer que não sabia montar. Enfim. segundo impulso. e não souber.

em bandós. alguma vez trazia a touca branca de folhas. os bem-aventurados. a família Fernandes. No painel parece oferecer a flor ao marido. Pedro de Albuquerque Santiago. Não me lembra nada dele. Não quis. em alguma parte há de ela ficar. preferiu ficar perto da igreja em que meu pai fora sepultado. vendo e guiando os serviços todos da casa inteira. Quando a loteria e Pandora me aborrecem. uma dúzia de prédios. eles a tiraram no bilhete comprado de sociedade. Contava então vinte anos. Aqui os tenho aos dois bem casados de outrora. como ninguém tachou de má a boceta de Pandora.CAPÍTULO 7 Dona GLÓRIA Minha Mãe era boa criatura. Quando lhe morreu o marido. se a felicidade conjugal pode ser comparada à sorte grande. comprou alguns que pôs ao ganho ou alugou. A pintura escureceu muito. por lhe ter ficado a esperança no fundo. contava trinta e um anos de idade. Tenho ali na parede o retrato dela. ergo os . Os cabelos. Lidava assim. continuar um sonho provavelmente. Dona Maria da Glória Fernandes Santiago contava quarenta e dois anos de idade. Era ainda bonita e moça. dobrado em triângulo e abrochado ao peito por um camafeu. que se foram desta para a outra vida. tais quais na outra casa. os bem-amados. e podia voltar para Itaguaí. eram apanhados sobre a nuca por um velho pente de tartaruga. O que se lê na cara de ambos é que. O pescoço sai de uma gravata preta de muitas voltas. a cara é toda rapada. Vivia metida em um eterno vestido escuro. com um xale preto. a não ser vagamente que era alto e usava cabeleira grande. o retrato mostra uns olhos redondos. Concluo que não se devem abolir as loterias. salvo um trechozinho pegado às orelhas. Nenhum premiado as acusou ainda de imorais. Era filha de uma senhora mineira. a um lado e outro. mas ainda dá idéia de ambos. com os seus sapatos de cordovão rasos e surdos. pois. mas teimava em esconder os saldos da juventude. sem adornos. Ora. efeito da pintura que me assombrava em pequeno. descendente de outra paulista. certo número de apólices. Vendeu a fazendola e os escravos. desde manhã até à noite. e tinha uma flor entre os dedos. que me acompanham para todos os lados. O de minha mãe mostra que era linda. e deixou-se estar na casa de Mata-cavalos. ao lado do marido. naquele ano da graça de 1857. por mais que a natureza quisesse preservá-la da ação do tempo. onde vivera os dois últimos anos de casada.

Agora é que eu ia começar a minha ópera. sossegada como a nossa casa e o trecho da rua em que morávamos. o empresário cometia mais uma. repetiu-me a definição do costume.. faz este comentário: “Vejam como esta moça me quer. Talvez valha a pena dá-la. São como fotografias instantâneas da felicidade. abanou a cabeça e replicou: . olhando para a gente. As vezes. é só um Capítulo. como não sei se tiveram desgostos: era criança e comecei por não ser nascido. acrescentava. uma tarde clara e fresca. mas teimava em dizer que a tinha.” Se padeceram moléstias. ia ao empresário e expunha-lhe todas as injustiças da terra e do céu. como uma viagem de mar ou uma batalha. algum trecho ainda mais idoso que ele ou tanto . estendendo a flor ao marido. e esqueço os bilhetes brancos e a boceta fatídica.olhos para eles. e como eu lhe dissesse que a vida tanto podia ser uma ópera.. lembra-me que ela chorou muito. a sinfonia. não sei. CAPÍTULO 8 E TEMPO Mas é tempo de tornar àquela tarde de novembro. E explicou-me um dia a definição. “A vida é uma ópera”. Verdadeiramente foi o princípio da minha vida. Uma noite. tudo o que sucedera antes foi como o pintar e vestir das pessoas que tinham de entrar em cena. parecia cortejar uma princesa de Babilônia. parece dizer: “Sou toda sua.. sem que o encardido do tempo lhes tirasse a primeira expressão. São retratos que valem por originais. sem abrir a boca. O de minha mãe. “O desuso é que me faz mal”.vozes assim abafadas são sempre possíveis. dizia-me um velho tenor italiano que aqui viveu e morreu. Depois da morte dele. o preparo das rabecas. em tal maneira que me fez crer nela.. mas aqui estão os retratos de ambos. e ele saía a bradar contra a iniqüidade. cantarolava. apesar de velho. o acender das luzes. meu guapo cavalheiro!” O de meu pai. Vinha aqui jantar comigo algumas vezes. depois de muito Chianti. Quando andava. Sempre que uma companhia nova chegava da Europa. CAPÍTULO 9 A ÓPERA Já não tinha voz.. Trazia ainda os bigodes dos seus papéis..

este planeta.. . com palavras que vou resumir. Criou um teatro especial. . mas fora do céu. Senhor.compôs a partitura. coros e bailarinos.. Com o fim de mostrar que valia mais que os outros. Tramou uma rebelião que foi descoberta a tempo. admiti-me com ela a vossos pés. O tenor e o barítono lutam pelo soprano. e expôs-me a história da criação. Tudo se teria passa do sem mais nada.. Pode ser também que a música em demasia doce e mística daqueles outros condiscípulos fosse aborrecível ao seu gênio essencialmente trágico. de beber um gole de licor. e a orquestração é excelente. primárias e comprimárias. . Satanás levou o manuscrito consigo para o inferno. estou pronto a dividir contigo os direitos de autor. .Mas.Senhor.. em presença do baixo e dos comprimirás. meu caro Marcolini. quando não são o soprano e o contralto que lutam pelo tenor. Basta-me haver composto o libreto. e inventou uma companhia inteira.Ouvi agora alguns ensaios! .Quê. consentiu em que a ópera fosse executada. se Deus não houvesse escrito um libreto de ópera do qual abrira mão.. E depois. dela resultaram alguns desconcertos que a audiência prévia e a colaboração amiga teriam evitado com efeito. sem melhor fortuna... . não quero ouvir nada. não desaprendi as lições recebidas. escutai-a emendai-a.. muitos bailados... para a esquerda. A música é de Satanás. e acaso para reconciliar-se com o céu. e se a achardes digna das alturas. não tolerava a precedência que eles tinham na distribuição dos prêmios. e ele expulso do conservatório. jovem maestro de muito futuro. Foi talvez um mal esta recusa..Não. há lugares em que o verso vai para a direita e a música. fugindo à . . por entender que tal gênero de recreio era impróprio da sua eternidade. retorquiu o Senhor. Há coros a numerosos.Mas. disse-lhe. com todas as partes. pousou o cálix.Nada! nada! Satanás suplicou ainda. e logo que a acabou foi levá-la ao Padre Eterno.. Rafael e Gabriel. que aprendeu no conservatório do céu.Não. fazei-a executar. cansado e cheio de misericórdia. Aqui tendes a partitura. . em presença do mesmo baixo e dos mesmos comprimirás. Deus é o poeta. Rival de Miguel. até que Deus. não quero saber de ensaios. Não falta quem diga que nisso mesmo está a além da composição.A vida é uma ópera e uma grande ópera.

Um ou outro admite certas rudezas e tais ou quais lacunas. concluiu o velho tenor. posto seja bonita em alguns lugares. os coros da guilhotina e da escravidão. a ária de Abel. Um dia quando todos os livros forem queimados por inúteis. e aquelas desapareçam inteiramente. eu tenho horror à graça. e assim explicam o terceto do Éden. e. que parece ele próprio o autor da composição. evidentemente. ao tempo em que o jovem Satanás compôs a grande ópera.Graça? bradou ele com fúria. meu amigo. Já não dizem o mesmo os amigos deste. este cálix é um breve estribilho. e trabalhada com arte em outros. Satanás em papel. . mas aquietou-se logo. etc. com tal arte e fidelidade. Isto que digo é a verdade pura e última. Deus recebe eu ouro. há de haver algum. As partes orquestrais são aliás tratadas com grande perícia. Chegam a afirmar que o poeta inglês não teve outro gênio senão transcrever a letra da ópera. eu não tenho graça. Dizem eles que. Juram que o libreto foi sacrificado. é uma excrescência para imitar as Mulheres Patuscas de Windsor.monotonia. que a partitura corrompeu o sentido da letra. porque a regra da divisão é aquilo da Escritura: “Muitos são os chamados. não se negando o maestro a emendar a obra onde achar que não responde de todo ao pensamento sublime do poeta. Tudo é música. . . é um plagiário. . encobrindo muita vez o sentido por um modo confuso. sem razão suficiente. e replicou: Caro Santiago. Este cálix (e enchia-o novamente). poucos os escolhidos”.. nem essa farsa nem Shakespeare eram nascidos. não está no texto do poeta. O êxito é crescente. e talvez italiano. Tal é a opinião dos imparciais.. mas com o andar da ópera é provável que estas sejam preenchidas ou explicadas. durará enquanto durar o teatro. não se podendo calcular em que tempo será ele demolido por utilidade astronômica. Este ponto é contestado pelos satanistas com alguma aparência de razão. o maestro abusa das massas corais. Poeta e músico recebem pontualmente os seus direitos autorais. mas. Não se ouve? Também não se ouve o pau nem a pedra. que não são os mesmos. por exemplo. que ensine esta verdade aos homens. mas tudo cabe na mesma ópera. No princípio era o dó. Também há obscuridades.Esta peça..Tem graça. Os amigos do maestro querem que dificilmente se possa acha obra tão bem acabada. é absolutamente diversa e até contrária ao drama.. Certos motivos cansam à força de repetição. O grotesco. pode ser que tenor. Não é raro que os mesmos lances se reproduzam. e do dó fez-se ré.

latim e doutrina. sentiu o terror de separar-se de mim. Tendo-lhe nascido morto o primeiro filho. tudo convergia para o altar quando íamos à missa. mas porque a minha vida se casa bem à definição. Cantei um duo tecnicismo. confiando a promessa a parentes e familiares. Mas não adiantemos. metê-lo na Igreja. que buscou testemunhas da obrigação. Imagens de santos. tão temente a Deus. conversações de casa. minha mãe pegou-se com Deus para que o segundo vingasse. que ia lá jogar às noites. por aquele Padre Cabral. e a ocasião destes é a que vou dizer. foi dada principalmente a mim. A mim é que ele me denunciou.. e corri à varanda do fundo. Prazos largos são fáceis de subscrever. Não quis saber de lágrimas nem da causa que as fazia verter a minha mãe. CAPÍTULO 11 A PROMESSA Tão depressa vi desaparecer o agregado no corredor. para que nos separássemos o mais tarde possível. livros devotos. por ser já então história velha. aceito a teoria do meu velho Marcolini. não só pela verossimilhança. Unicamente. Não disse nada a meu pai. datava de dezesseis anos. Talvez esperasse uma menina. Eu. meu caro leitor. não há dúvida. que é muita vez toda a verdade.. Viúva. depois um quatro. vamos à primeira parte. brincos de criança.CAPÍTULO 10 ACEITO A TEORIA Que é demasiada metafísica para um só tenor. mas enviuvou antes disso. prometendo. leitor amigo. A causa eram provavelmente os seus projetos eclesiásticos. em resumo. contava fazê-lo quando eu entrasse para a escola. velho amigo do tio Cosme. em que eu vim a saber que já cantava. Minha mãe esperou que os anos viessem vindo. tenores desempregados. fez-me aprender em casa primeiras letras. mas era tão devota. Os projetos vinham do tempo em que fui concebido. se fosse varão. nem depois de me dar à luz. nem antes. Entretanto ia-me afeiçoando à idéia da Igreja. e há filósofos que são. e que . dizia-me sempre que era para aprender a ser padre. depois um trio. deixei o esconderijo. mas a perda da voz explica tudo. porque a denúncia de José Dias. a imaginação os faz infinitos.

estacando para amparar-me.. e ia pedir hóstia por outro nome. para apertá-la muito. No tempo em que brincávamos assim. ou pegava-me na mão. não tirasse os olhos do padre. Comecei a andar de um lado para outro. a hóstia era sempre um doce. sorrindo. e andava outra vez e estacava.” . as pernas bambas. como alma perdida. e me trazia arrepios. e me derramava não sei que bálsamo interior.. Em casa. voltava com ela. arranjávamos o altar.” Tijolos que pisei e repisei naquela tarde.. tal era a gulodice do padre e do sacristão. Isto... non sum dignus.” “Em segredinhos. Não bebíamos vinho nem água. a sensação de um gozo novo. Ela servia de sacristão. e alterávamos o ritual. podiam antes o seminário do mundo que o de S. e logo me dispersava. E as vozes repetiam-se confusas. José. no sentido de dividirmos a hóstia entre nós. segundo eu ia ou vinha..um tanto às escondidas.. “Em segredinhos. respondia afirmativamente. em vós me ficou a melhor parte da crise. a pretexto de nada. Vozes confusas repetiam o discurso do José Dias: “Sempre juntos.. que eu devia dizer três vezes.. um ar de riso de satisfação. a tal ponto que eu supunha ser negócio findo. Quinze anos..” “Se eles pegam de namoro. Não me atrevia a descer à chácara. atordoado. penso que só dizia uma. brincava de missa. Capitu e eu. engrolávamos o latim e precipitávamos as cerimônias. e passar ao quintal vizinho..” “Sempre juntos. não havendo vocação. CAPÍTULO 12 NA VARANDA Parei na varanda. o coração parecendo querer sair-me pela boca fora. Ultimamente não me falavam já do seminário. Arranjávamos um altar.. que me envolvia em mim mesmo. Minha mãe ficava muita vez a olhar para mim. que desmentia a abominação do meu pecado. e a segunda viria tirar-nos o gosto do sacrifício. Dominus.. ia tonto. Às vezes dava por mim. era muito comum ouvir à minha vizinha: “Hoje há missa?” Eu já sabia o que isto queria dizer. porque minha mãe dizia que missa não era coisa de brincadeira.reparasse no padre. colunas amareladas que me passastes à direita ou à esquerda. não tínhamos o primeiro.

“Se eles pegam de namoro. e muita vez não passavam da simples repetição do dia. apenas reproduziam a nossa familiaridade. algum gesto. o gosto de recordar a infância. os cuidados. mas esta voltou pouco a pouco. E comecei a recordar esses e outros gestos e palavras. uma cigarra que ensaiava o estilo. o prazer que sentia quando ela me passava a mão pelos cabelos. uma flor . Eu. dizendo que os dela eram mais bonitos que os meus. as respostas vagas. as perguntas curiosas. eram tudo travessuras de criança. e no último ano era completa. e Capitu a mim? Realmente. agora os sentia como sinais de alguma coisa. Então Capitu abanava a cabeça com uma grande expressão de desengano e melancolia. borboletas. sem que eu a buscasse nem suspeitasse. Também . e eu dizia que não. ou então que os anjos vinham perguntar-nos pelos nomes.outras pegava-me nas mãos para contar-me os dedos. Os silêncios dos últimos dias. mas a causa dela fugia-me. depois de certa hesitação. Era um coqueiro velho. Entretanto. sem fazer o mesmo aos dela. Em todos esses sonhos andávamos unidinhos. é certo que não estabelecemos logo a antiga intimidade. andava cosido às saias dela. Fez-se cor de pitanga. Antes dela ir para o colégio. A emoção era doce e nova. e eu cria nos coqueiros velhos. tanto mais de espantar quanto que tinha os cabelos realmente admiráveis . francamente. ouvia-lhe contar que sonhara comigo. só agora entendia a comoção que me davam essas e outras confidências. toda a gente viva do ar era da mesma opinião.. que dançávamos na lua. vendo-me inquieto e adivinhando a causa. que me não descobriam nada. Os que eu tinha com ela não eram assim. Quando me perguntava se sonhara com ela na véspera.” Um coqueiro. e assim as meias palavras. dizendo que os achava lindíssimos. Pássaros. Também eu os contava. a matéria das nossas conversações era a de sempre. Capitu chamava-me às vezes bonito. Com que então eu amava Capitu. Pois.. nem os cantos outra utilidade. murmurou de cima de si que não era feio que os meninos de quinze anos andassem nos cantos com as meninas de quatorze.mas eu retorquia chamando-lhe maluca. depois que saiu do colégio. os adolescentes daquela idade não tinham outro ofício. eu.. Capitu um dia notou a diferença. a fim de os dar a outros anjos que acabavam de nascer. que subíamos ao Corcovado pelo ar. alguma frase. mais ainda que nos velhos livros. disse-lhe que eram como a pessoa que sonhava. ao contrário. e eram aventuras extraordinárias. mas não me ocorria nada entre nós que fosse deveras secreto.. mocetão. dizia que os dela eram muito mais lindos que os meus.

e escutá-la de memória. Se se falava nela. que me denunciara a mim mesmo. essa revelação da consciência a si própria. e estremecer quando lhe ouvia os passos.adverti que era fenômeno recente acordar com o pensamento em Capitu. nunca mais me esqueceu. o mal que dissera. às tardes. Cheguei a pensar nela durante as missas daquele mês. para imitar o . em minha casa. Em crianças. e às manhãs também. fazíamos visita batendo de um lado. CAPÍTULO 13 CAPITU De repente. e fechava-se ao peso de uma pedra pendente o uma corda. Naquele instante.Vem cá! Não me pude ter. estacavam. Tudo isto me era agora apresentado pela boca de José Dias. prestava mais atenção que dantes. ouvi bradar uma voz de dentro da casa ao pé: E no quintal: . quando a cabeça não as rege por meio de idéias. Naturalmente também por ser a primeira. nem a eterna Bondade. apenas inferiores aos braços. a eterna Verdade não valeria mais que ele. As pernas desceram-me os três degraus que davam para a chácara. o mal que fizera. Naturalmente por ser minha. Esse primeiro palpitar da seiva. e. Que as pernas também são pessoas. com intervalos. Quando as bonecas de Capitu adoeciam.abria-se empurrando de um lado ou puxando de outro. As minhas chegaram ao pé do muro. Era costume delas. A porta não tinha chave nem taramela. e a quem eu perdoava tudo. Entrava no quintal dela com um pau debaixo do braço. nem achei que lhe fosse comparável qualquer outra sensação da mesma espécie. segundo era louvor ou crítica.Mamãe! E outra vez na casa: . e valem de si mesma. e o que pudesse vir de um e de outro. desandavam. trêmulas e crentes de abarcar o mundo. quando Capitu e eu éramos pequenos. quando éramos somente companheiros de travessuras. nem as demais Virtudes eternas. Havia ali uma porta de comunicação mandada rasgar por minha mãe. é verdade. o médico era eu. Eu amava Capitu! Capitu amava-me! E as minhas pernas andavam. mas com exclusivismo também. assim me trazia gosto ou desgosto mais intensos que outrora. e sendo recebidos do outro com muitas mesuras. e caminharam para o quintal vizinho. Era quase que exclusivamente nossa.

Caminhei para ela.Capitu! . à moda do tempo. pela boca fora. e entrei. porque ela veio a mim. E emendei logo. Afinal fiz um esforço. Morena. nariz reto e comprido. como se viesse já da porta dos fundos. com as pontas atadas uma à outra. riscando com um prego. Os cabelos grossos. rasos e velhos. a que ela mesma dera alguns pontos. ao dar comigo.Não é nada. há pouco tão andarilhas. não.Deixa de estar esburacando o muro . A voz da mãe era agora mais perto. . Calçava sapatos de duraque. Todo eu era olhos e coração. como o doutor. “É surda. feitos em duas tranças. Não podia tirar os olhos daquela criatura de quatorze anos.vem cá. voltada para ele. coitada!”.Que é que você tem? repetiu. Se a consternasse é que realmente gostava de mim. .Nada. Então eu coçava o queixo. alta. . Capitu estava ao pé do muro fronteiro.Notícia de quê? Pensei em dizer-lhe que ia entrar para o seminário e espreitar a impressão que lhe faria. olhos claros e grandes. mas não achei língua. apertada em um vestido de chita. naturalmente levava o gesto mudado. um coração que desta vez ia sair.bengalão do Doutor João da Costa. e perguntou-me inquieta: .É uma notícia. Quis insistir que nada. não cheiravam a sabões finos nem águas de toucador. tinha a boca fina e o queixo largo. tinha agora a vista não . encostou-se ao muro. Mas todo esse cálculo foi obscuro e rápido. se não. As mãos.Eu? Nada. desciam-lhe pelas costas. meio desbotado. mas as pernas. você tem alguma coisa. balbuciei finalmente. . O rumor da porta fê-la olhar para trás. é que não gostava. a despeito de alguns ofícios rudes. forte e cheia. mas com água do poço e sabão comum trazia-as sem mácula. e acabava mandando aplicar-lhe umas sanguessugas ou dar-lhe um vomitório: era a terapêutica habitual do médico. senti que não poderia falar claramente. . pareciam agora presas ao chão.Mamãe! . com certeza. empurrei a porta. Quis passar ao quintal. como se quisesse esconder alguma coisa.Que é que você tem? . exclamava Capitu. eram curadas com amor. . tomava o pulso à doente e pedia-lhe que mostrasse a língua.

. as mãos é que se estenderam pouco a pouco.. Vi uns riscos abertos e lembrou-me o gesto que ela fizera para cobri-los. nem elas se deixaram cair de cansadas ou de esquecidas. Conhecia as regras do escrever. mas. e dei um passo. Padre futuro. Capitu tinha os olhos no chão. todas quatro. Os olhos fitavam-se e desfitavam-se... por um latim que ninguém aprende e é a língua . li estes dois nomes. como dissera a mãe. tal era a diferença entre o estudante e o adolescente. fundindo-se. CAPÍTULO 14 A INSCRIÇÃO Tudo o que contei no fim do outro Capítulo foi obra de um instante. e que eu poria aqui com os erros de ortografia que trouxesse. ou por temer que eu acabasse fugindo.. ou por negar de outra maneira. escrevendo ou esburacando. Ergueu-os logo.sei como. apertando-se. sem suspeitar as do amar. Devia tê-la marcado. Capitu agarrou-me.. pegando-se. tu valias bem duas ou três páginas.. e ficamos a olhar um para o outro. Foi o mesmo que acender em mim o desejo de ler o que era. abertos ao prego. Em verdade. Dei um pulo. Confissão de crianças. A boca podia ser o cálix. o lugar em que ela estivera riscando. o muro falou por nós. e antes que ela raspasse o muro. mas quero ser poupado. os lábios a patena. estava assim diante dela como de um altar. Não nos movemos. e sim dispostos: BENTO CAPITOLINA Voltei-me para ela. mas não traria nenhum. tornavam a meter-se uns pelos outros.. correu adiante e apagou o escrito.Então? . Nisto olhei para o muro. e depois de vagarem ao perto. O que se lhe seguiu foi ainda mais rápido.Você sabe. devagar. Então quis vê-los de perto. não falamos nada. Não soltamos as mãos. sinto a falta de uma nota escrita naquela mesma noite. Faltava dizer a missa nova. tinha orgias de latim e era virgem de mulheres. . sendo uma das faces a Epístola e a outra o Evangelho. Não marquei a hora exata daquele gesto.

sim. Não me tenhas por sacrilégio. mas Bentinho ri logo. ao pé da mulher. Soltamos as mãos depressa. dizendo que eu não ria daquela vez por estar ao pé do pai. e. Estávamos ali com o céu em nossas mãos. De resto. não pode. costas abauladas. senhor. apagou os nossos nomes escritos. era o essencial. com o prego. para apagar bem o escrito. . ou menos que duvidoso em que nos apanhou.eu estava ainda sob a ação do que trouxe. mas já a filha tinha começado outra coisa. disfarçadamente. Era um homem baixo e grosso. Olhei para um pé de sabugueiro que ficava perto: Capitu respondeu por ambos. cansada de esperar. por mais que devesse fazê-lo. que disse ser o retrato dele. as palavras de boca é que nem tentavam sair. todo meigo.Quando eu cheguei à porta. e tanto podia ser dele como da mãe . .. leitora minha devota a limpeza da intenção lava o que puder haver menos curial no estilo.Estávamos.. mas desta vez uma voz de homem: . Ninguém lhe chamava assim lá em casa. não ria. mm uma só criatura seráfica. pernas e braços curtos. a ver o que era. Os olhos continuaram a dizer coisas infinitas. para legitimar a resposta de Capitu. apesar do gesto duvidoso. entrada de Pádua. Capitu foi ao muro. que estava à porta dos fundos. E nem assim ri. um perfil.católica dos homens. . convidando-me ao jogo. tornavam ao coração caladas como vinham.Papai! .Vocês estavam jogando o siso? perguntou. donde lhe veio a alcunha de Tartaruga. não agüenta. ele chegou sem cólera.Já tinha rido das outras vezes. Esta. unindo os nervos.Vocês estão jogando o siso? Era o pai de Capitu.Não me estragues o reboco do muro. CAPÍTULO 15 OUTRA VOZ REPENTINA Outra voz repentina. Há coisas que só se aprendem tarde é mister nascer com elas . que José Dias lhe pôs. .fê-lo rir.Capitu! . Capitu riscava sobre o riscado. era só o agregado. e ficamos atrapalhados. e não fui capaz de rir. Pádua saiu ao quintal. O susto é naturalmente sério . desviou o rosto. faziam das duas criaturas uma só. Papai quer ver? E séria. fitou em mim os olhos. .

mas a mulher gastava pouco. Tinha-os de vária espécie. quando lhe saiu o prêmio. . em casa. foi comprar um cavalo do Cabo. posto que menor. deixando-nos a mim e ao pai encantados dela. a mulher é que lhe disse que o melhor era comprar a casa. se adoeciam.Está. assobradada como a nossa. a quem Dona Fortunata pediu .Quem dirá que esta pequena tem quatorze anos? Parece dezessete. esta Dona Fortunata que ali está à porta dos fundos da casa. CAPÍTULO 16 O ADMINISTRADOR INTERINO Pádua era empregado em repartição dependente do Ministério da Guerra. afinal. Estou com vontade de dar um capote ao doutor. ande ver. mas não tenho podido. Demais. A primeira idéia do Pádua. ando com trabalhos da repartição. cheio de ternura: . dez contos de réis. alta. e demais amava particularmente os passarinhos. Trocava pássaros com outros amadores. foi ter com a mãe. como a tia. comprava-os. Capitu. após duas voltas. Também. apanhava alguns. olhando para ela e para mim. Não ganhava muito. crê-se facilmente. tratava deles como se fossem gente. . no próprio quintal. Comprou-a com a sorte grande que lhe saiu num meio bilhete de loteria. que continuava à porta da casa. era propriedade dele. Ia agora mesmo buscar a gaiola. Você já viu o meu gaturamo? Está ali no fundo. A área que havia no centro da casa era cercada de gaiolas de canários. e guardar o que sobrasse para acudir às moléstias grandes. uma sepultura perpétua de família. Meu desejo era ir atrás de Capitu e falar-lhe agora do mal que nos esperava.. sem ser preciso jurar pelo céu nem pela terra. o pai. cheia. dizia-me. teve de ceder aos conselhos de minha mãe. negócio de relatório. que faziam cantando um barulho de todos os diabos. etc. cor e tamanho. a casa em que morava. Mamãe está boa? continuou voltando-se inteiramente para mim. a mesma cabeça. em pé.para fazê-las cedo. um adereço de brilhantes para a mulher. Que o meu desejo era nenhum. mas o pai era o pai. falando à filha. os mesmos olhos claros. mandar vir da Europa alguns pássaros. Pádua hesitou muito. forte. armando alçapões.Há muitos dias que não a vejo. mas a mulher. escrevo todas as noites que é um desespero. E melhor é naturalmente cedo que artificialmente tarde. e a vida era barata.

auxílio. Nem foi só nessa ocasião que minha mãe lhes valeu; um dia
chegou a salvar a vida ao Pádua. Escutai; a anedota é curta.
O administrador da repartição em que Pádua trabalhava teve de ir ao
Norte, em comissão. Pádua, ou por ordem regulamentar, ou por especial
designação, ficou substituindo o administrador com os respectivos
honorários. Esta mudança de fortuna trouxe-lhe certa vertigem; era antes
dos dez contos. Não se contentou de reformar a roupa e a copa, atirou-se
às despesas supérfluas, deu jóias à mulher, nos dias de festa matava um
leitão, era visto em teatros, chegou aos sapatos de verniz. Viveu assim
vinte e dois meses na suposição de uma eterna interinidade. Uma tarde
entrou em nossa casa, aflito e desvairado, ia perder o lugar, porque
chegara o efetivo naquela manhã. Pediu à minha mãe que velasse pelas
infelizes que deixava; não podia sofrer a desgraça, matava-se. Minha mãe
falou-lhe com bondade, mas ele não atendia a coisa nenhuma.
- Não, minha senhora, não consentirei em tal vergonha! Fazer descer a
família, tornar atrás... Já disse, mato-me! Não hei de confessar à minha
gente esta miséria. E os outros? Que dirão os vizinhos? E os amigos? E o
público?
- Que público, senhor Pádua? Deixe-se disso; seja homem. Lembre se que
sua mulher não tem outra pessoa... e que há de fazer? Pois um homem...
Seja homem, ande.
Pádua enxugou os olhos e foi para casa, onde viveu prostrado alguns
dias, mudo, fechado na alcova,- ou então no quintal, ao pé do poço, como
se a idéia da morte teimasse nele. Dona Fortunata ralhava:
- Joãozinho, você é criança?
Mas, tanto lhe ouviu falar em morte que teve medo, e um dia correu a
pedir à minha mãe que lhe fizesse o favor de ver se lhe salvava o marido
que se queria matar. Minha mãe foi achá-lo à beira do poço, e
intimou-lhe que vivesse. Que maluquice era aquela de parecer que ia
ficar desgraçado, por causa de uma gratificação menos, e perder um
emprego interino? Não, senhor, devia ser homem, pai de família, imitar a
mulher e a filha... Pádua obedeceu; confessou que acharia forças para
cumprir a vontade de minha mãe.
- Vontade minha, não; obrigação sua.
- Pois seja obrigação; não desconheço que é assim mesmo.
Nos dias seguintes, continuou a entrar e sair de casa, cosido à parede,
cara no chão. Não era o mesmo homem que estragava o chapéu em cortejar a
vizinhança, risonho, olhos no ar, antes mesmo da administração interina.
Vieram as semanas, a ferida foi sarando Pádua começou a interessar-se

pelos negócios domésticos, a cuidar dos passarinhos, a dormir tranqüilo
as noites e as tardes, a conversa e dar notícias da rua. A serenidade
regressou; atrás dela veio a alegria, um domingo, na figura de - dois
amigos, que iam jogar o solo, a tentos. Já ele ria, já brincava, tinha o
ar do costume; a ferida sarou de todo.
Com o tempo veio um fenômeno interessante. Pádua começou s falar da
administração interina, não somente sem as saudades dos honorários, nem
o vexame da perda, mas até com desvanecimento e orgulho. A administração
ficou sendo a hégira, donde ele contava para diante e para trás.
- No tempo em que eu era administrador...
Ou então:
- Ah! sim, lembra-me, foi antes da minha administração, ou um dois meses
antes... Ora espere; a minha administração começou. É isto, mês e meio
antes; foi mês e meio antes, não foi mais.
Ou ainda:
- Justamente; havia já seis meses que eu administrava...
Tal é o sabor póstumo das glórias interinas. José Dias bradava que era a
vaidade sobrevivente; mas o Padre Cabral, que levava tudo para a
Escritura, dizia que com o vizinho Pádua se dava a lição de Elifás a Jó:
“Não desprezes a correção do Senhor; Ele fere e cura”

CAPÍTULO 17
OS VERMES “ELE FERE E CURA!”
Quando, mais tarde, vim a saber que a lança de Aquiles também curou uma
ferida que fez, tive tais ou quais veleidades de escrever uma
dissertação a este propósito. Cheguei a pegar em livros velhos, livros
mortos, livros enterrados, a abri-los, a compará-los, catando o texto e
o sentido, para achar a origem comum do oráculo pagão e do pensamento
israelita. Catei os próprios vermes dos livros, para que me dissessem o
que havia nos textos roídos por eles.
- Meu senhor, respondeu-me um longo verme gordo, nós não sabemos
absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhermos o que roemos,
nem amamos ou detestamos o que roemos; nós roemos.
Não lhe arranquei mais nada. Os outros todos, como se houvessem passado
palavra, repetiam a mesma cantilena. Talvez esse discreto silêncio sobre
os textos roídos fosse ainda um modo de roer o roído.

CAPÍTULO 18
UM PLANO
Pai nem mãe foram ter conosco, quando Capitu e eu, na sala de visitas,
falávamos do seminário. Com os olhos em mim, Capitu queria saber que
notícia era a que me afligia tanto. Quando lhe disse o que era, fez-se
cor de cera.
- Mas eu não quero, acudi logo, não quero entrar em seminários; não
entro, é escusado teimarem comigo, não entro.
Capitu, a princípio, não disse nada. Recolheu os olhos, meteu-os em si e
deixou-se estar com as pupilas vagas e surdas, a boca entreaberta, toda
parada. Então eu, para dar força às afirmações, comecei a jurar que não
seria padre. Naquele tempo jurava muito e rijo, pela vida e pela morte.
Jurei pela hora da morte. Que a luz me faltasse na hora da morte se
fosse para o seminário. Capitu não parecia crer nem descrer, não parecia
sequer ouvir; era uma figura de pau. Quis chamá-la, sacudi-la, mas
faltou-me animo. Essa criatura que brincara comigo, que pulara, dançara,
creio até que dormira comigo, deixava-me agora com os braços atados e
medrosos. Enfim, tornou a si, mas tinha a cara lívida, e rompeu nestas
palavras furiosas:
- Beata! carola! papa-missas!
Fiquei aturdido. Capitu gostava tanto de minha mãe, e minha mãe dela,
que eu não podia entender tamanha explosão. É verdade que também
gostava
de mim, e naturalmente mais, ou melhor, ou de outra maneira, coisa
bastante a explicar o despeito que lhe trazia a ameaça da separação; mas
os impropérios, como entender que lhe chamasse nomes tão feios, e
principalmente para deprimir costumes religiosos, que eram os seus? Que
ela também ia à missa, e três ou quatro vezes minha mãe é que a levou,
na nossa velha sege. Também lhe dera um rosário, uma cruz de ouro e um
livro de Horas... Quis defendê-la, mas Capitu não me deixou, continuou a
chamar-lhe beata e carola, em voz tão alta que tive medo fosse ouvida
dos pais. Nunca a vi tão irritada como então; parecia disposta a dizer
tudo a todos. Cerrava os dentes, abanava a cabeça... Eu, assustado, não
sabia que fizesse, repetia os juramentos, prometia ir naquela mesma
noite declarar em casa que, por nada neste mundo, entraria no seminário.
- Você? Você entra.
- Não entro.

A tenção de Capitu estava agora particularmente nas lágrimas de minha mãe. e saiu.Não. há até certa graça em ameaçar muito e não executar nada. Capitu refletia. Mas. e o tom delas.Não sei. deixe estar. que peguei da mão dela e apertei-a muito.. as próprias palavras de uns e de outros. neste pontos ridículas. desde algum tempo. falava baixo. . não lhe pude dar toda a significação. Tínhamos chegado à janela.Cocadinha tá boa. A reflexão não era coisa rara nela. mas quase. não podia deixar de cumprir. eu contei-lha toda.. .. que era ela mesma. que não era coisa de choro.Chorou por quê? .Você verá se entra ou não. Estava séria. a adolescência e a infância não são. . . . Fiquei tão satisfeito de ver que assim espontaneamente reparava as injúrias que lhe saíram do peito. era a promessa antiga que ela. não me acho ridículo. mas. Calou-se outra vez. parou em frente e perguntou: . e proferi outras ameaças. que ele me paga! Disse isto fechando o punho. quem vai para a rua é ele. que. não me fica um instante Mamãe é boa demais. Este mal ou este perigo começa na mocidade. É um sujeito muito ruim. Capitu deixou-se ir.E que interesse tem José Dias em lembrar isto? perguntou-me no fim. Em meio disto. mamãe. Aos quinze anos. Pediu-me algumas circunstâncias mais. eu então. você verá. Quis saber a conversação da minha casa. Ao relembrá-las.Acho que nenhum. depois a conversa entrou a cochilar e dormir. não e ainda a Capitu do costume.Sinhazinha. foi só para fazer mal. e conheciam-se as ocasiões pelo apertado dos olhos. tinha mudado. um preto. rindo. Como eu não queria dizer o ponto inicial da conversa. deixe estar que me há de pagar. para não ser apanhado. cresce na madureza e atinge o maior grau na velhice. vinha apregoando cocadas.José Dias? . menos a parte que lhe dizia respeito. . sem aflição. Quando tornou a falar. Parece até que chorou. confessou que certamente não era por mal que minha mãe me queria fazer padre. ouvi só dizer que ela não chorasse. Quando eu for dono da casa. não acabava de entendê-las. dá-lhe atenção demais. Ele chegou a mostrar-se arrependido. temente a Deus. é um dos seus privilégios. respondeu Capitu. pouco antes. deixei o canto e corri para a varanda.Não. qué cocada hoje? .

o pregão das velhas tardes. para não sair do desejo vago e hipotético de me mandar para a Europa. e examinasse antes as pessoas com quem podíamos contar. Capitu. . replicou ela sem rispidez.Vá-se embora. espreitou-me os olhos. era um “boa-vida”. a modo que lhe deixara uma impressão aborrecida. mas eram só atrevidas em si. mas o momento não é para definições tais. Da toada não era. muito menos que outras que lhe vieram depois. se pudesse cumpri-lo. Como vês. fiquemos em que a minha amiga. chora Chora. o sentimento era tão amigo que eu podia escusar o extraordinário da aventura. fosse antes pelos meios brandos. Suponde uma concepção grande executada por meios pequenos. aos quatorze anos. trocando os papéis comigo. Não sei se me explico bem. ela a sabia de cor e de longe. rindo. mas aos saltinhos. da palavra. Rejeitou tio Cosme. Com efeito. mas tive de as comer sozinho. não admira que. pela ação de empenho. ora vendendo. não quis saber de doce. da persuasão lenta e diuturna. à espera. por onde eu. Dito isto. Comprei-as. estenderia uma fila de canoas daqui até lá. Tal era a feição particular do caráter da minha amiga. se não aprovava a minha ordenação. usava repeti-la nos nossos jogos da puerícia. . Capitu recusou. destinada a picar a vaidade das crianças.. eu conservava um canto para as cocadas. na prática faziam-se hábeis. iria realmente até Bordéus. ora comprando um doce ausente. e gostava muito de doce. Creio que a letra. Vi que em meio da crise. você fugia. foi que a enojou agora. surdas. ou só agradeceram a boa intenção.Se eu fosse rica. e melhor que os dois seria o Padre Cabral. Ao contrário. mas creio que eles não lhe disseram nada. Assim. Prima Justina era melhor que ele. não me faria embarcar no paquete e fugir. combatendo os meus projetos de resistência franca. Capitu. sinuosas. o que tanto pode ser perfeição como imperfeição. deixando minha mãe na praia. o pregão que o preto foi cantando. porque não tem Vintém. apesar de equilibrada e lúcida. e alcançavam o fim proposto. não era capaz de dar um passo para suspendê-la. porque logo depois me disse: . não de salto. tão sabido do bairro e da nossa infância: Chora. tinha já idéias atrevidas. menina. saltando. metia-se no paquete e ia para a Europa.Dê cá! disse eu descendo o braço para receber duas. pelo que. parecendo ir à fortaleza da Laje em ponte movediça.

dirá agora outra coisa. peça. Conto estas minúncias para que melhor se entenda aquela manhã da minha amiga. . acentuando alguns como principais..pela autoridade.Então vá para o seminário. tendo de servir a vocês falará com muito mais calor que outra pessoa. como no Gênesis. Ande. diga-lhe que está pronto a ir estudar leis em São Paulo.Que tem José Dias? .Justo. logo virá a tarde.. ele gosta muito de ser elogiado. Capitu repetiu.Mas se foi ele mesmo que falou. e fez um discurso. . mas o principal não é isso.. façam que lhe digo. mas o padre não havia de trabalhar contra a Igreja. Ele gosta muito de você.Não acho. . São Paulo era um frágil biombo.Isso não. E insistia em que pedisse com boa cara. continuou Capitu. e o melhor é outra coisa. se não trocara uns por outros. . e da manhã e da tarde se fará o primeiro dia. Capitu.Mas que se perde em experimentar? Experimentemos.. faz-se outra coisa.. se não mudar.Pode ser um bom empenho. . Olhe. não. mas assim como quem pede um copo de água a pessoa que tem obrigação de o trazer. Tudo é que você não tenha medo. Dê-lhe bem a entender que não é favor. em vez da grossa parede espiritual e eterna. Dona Glória pode ser que mude de resolução. mas ele queria ir. José Dias. . onde se fizeram sucessivamente sete.Posso confessar? . é que ele. mostre que quer e que pode. a ver se entendera bem. mostre que há de vir a ser dono da casa. mande. mas seria aparecer francamente. só se eu lhe confessasse que não tinha vocação. Estremeci de prazer. disse que o teatro era uma escola de costumes.. destinado a ser arredado um dia. Não lhe fale acanhado.. .Pois.. Prometi falar a José Dias nos termos propostos. tanto falou que sua mãe acabou consentindo. e inquiria-me depois sobre eles. mete-se então o Padre Cabral.Não importa.Lembra-me. . e pagou a entrada aos dois. . . Dona Glória presta-lhe atenção. sim. Você não se lembra como é que foi ao teatro pela primeira vez há dois meses Dona Glória não queria e bastava isso para que José Dias não teimasse. lembra-se? . Faça-lhe também elogios.

tudo era dizê-las em tom que não ofendesse. Cuidei de escolher outras e parei. Assim cheguei aos números vinte. mas não foi para vê-lo coberto ou descoberto. E então disse de mim para mim: “Prometo rezar mil padre-nossos e mil ave-marias. não tanto. ele é um simples agregado. A razão é que eu andava carregado de promessas não cumpridas. e à medida que se amontoavam iam sendo esquecidas. se José Dias arranjar que eu não vá para o seminário”. Desde pequenino acostumara-me a pedir ao céu os seus favores. A soma era enorme. sem falta. e então achei-as secas demais. escolha o lugar e diga-me”. se eles viessem.” CAPÍTULO 20 MIL PADRE-NOSSOS E MIL AVE-MARIAS Levantei os olhos ao céu.. nem adoçar muito. A última foi de duzentos padre-nossos e duzentas ave-marias. Bastava não carregar tanto. porém. antes de entrar em casa. entre seco e benévolo. pensei. Era ao outro céu que eu erguia a minha alma. era ao meu refúgio. Formulei o pedido de cabeça. francamente. Proferi-as lentamente. ao meu amigo. Na chácara. Era um modo de peitar a vontade . que começava a embruscar-se. “E Capitu tem razão. e desfazer o plano de mamãe. a casa é minha. Afinal disse comigo que as palavras podiam servir. depois em voz alta. repeti-as comigo. Não choveu. Jeitoso é. se não chovesse em certa tarde de passeio a Santa Teresa. Entrei nas centenas e agora no milhar. Amanhã. e mais lentamente ainda as palavras sem falta.. as outras foram adiadas. quase ríspidas. um meio-termo. trinta. mas eu não rezei as orações. Disse as primeiras. pode muito bem trabalhar por mim. mediante orações que diria. Repeti-as ainda. saíram-me quase súplices. escolhendo as palavras que diria e o tom delas. repetindo-as novamente. Vim depressa. como para sublinhá-las. impróprias de um criançola para um homem maduro. E a prova é que. e. que não pensasse nos termos em que falaria ao agregado. para ver se eram adequadas e se obedeciam às recomendações de Capitu: “Preciso falar-lhe. cinqüenta.CAPÍTULO 19 SEM FALTA Quando voltei casa era noite.

mas. e a Paulo o que pensava de Pedro. minha mãe queria ter uma senhora íntima ao pé de si.. CAPÍTULO 21 PRIMA JUSTINA Na varanda achei prima Justina. Quis saber se eu não esquecera os projetos eclesiásticos de minha mãe.Estive aqui ao pé. Não achava outra espécie em que. e antes parenta que estranha. alumiada por um lampião. Mas vão lá matar a preguiça de uma alma que a trazia do berço e não a sentia atenuada pela vida! O céu fazia-me o favor. eu adiava a paga. mil”. podiam empenhar-me outra vez a alma. É tarde. Sublimes não eram. mil. Mil. além disso. não menos que a franqueza da notícia. Vivia conosco por favor de minha mãe. tudo o que as velhas escravas me contavam de promessas célebres. Era quadragenária. Homem grave. é possível que estas agitações de menino te enfadem.. Não é que prima Justina fosse de biocos. magra e pálida. Cogitei muito no modo de resgatar a dívida espiritual. mediante a intenção. Afinal perdi-me nas contas. repeti comigo. Veio ao patamar e perguntou-me onde estivera. e distraí-me. Deus podia muito bem. ou subir de joelhos a ladeira da Glória para ouvir uma. conversando com Dona Fortunata.divina pela quantia das orações. e também por interesse. Passeamos alguns minutos na varanda. A Terra Santa ficava muito longe. mil. mas eu disse que você já tinha vindo. dizia francamente a Pedro o mal que pensava de Paulo. se é que não as achas ridículas. devia feri-los por força. e dizendo-lhe eu que não.. cada promessa nova era feita e jurada no sentido de pagar a dívida antiga. As missas eram numerosas. passeando de um lado para outro. A mentira espantou-me. . Mandar dizer cem missas. inquiriu-me sobre o gosto que eu tinha à vida de . tudo me acudia sem se fixar de vez no espírito. Realmente. “Mil. Era muito duro subir uma ladeira de joelhos. ir à Terra Santa. confessar que mentira é que me pareceu novidade. tudo se cumprisse. a matéria do benefício era agora imensa. não menos que a salvação ou o naufrágio da minha existência inteira. boca fina e olhos curiosos. negar-se a ouvir-me sem muito dinheiro. irritado com os esquecimentos. fechando a escrituração da minha consciência moral sem déficit.Perguntou. Era preciso uma soma que pagasse os atrasados todos.. não é? Mamãe perguntou por mim? .

e que a vida de padre é isto e aquilo. . mas o que pergunto é se você gostaria de ser padre. Respondi esquivo: . Você não se dê por achado..padre.. mas ainda que não desejasse.Pois é verdade.Era capaz de. nos ouvidos. Você ainda era pequenino. só o tempo. Novamente me recomendou que não me desse por achado. e aquela afetação. quem! Quem é que há de ser? Primo Cosme não é. que eu não trabalho para a desgraça dos outros. . Não contou.Prima Glória pode ser que.Vida de padre é muito bonita.. Note que é só para fazer mal. falando do seminário? E os discursos que ele faz. a ver se ela contava a denúncia do meu namoro com a vizinha.Quem é? . em passando os dias. . há cá em casa quem lhe meta isso na cabeça. um especulador.Isso não. os elogios da Igreja. e recapitulou todo o mal que pensava de José Dias e não era pouco..José Dias? concluí. um grosseirão. .Ora. Enruguei a testa interrogativamente.. atalhou prontamente.. Suponha que eu gostasse de ser padre.. Lá avivar-lhe a memória. . .De quê? . ou só conhecidas..Naturalmente..Mas falou à toa? perguntei. porque ele é tão religioso como este lampião. Hoje de tarde falou como você não imagina. fez apenas um gesto como indicando que havia outra coisa que não podia dizer.Eu gosto do que mamãe quiser. .Prima Justina. zás que darás. a senhora podia pedir a mamãe. um bajulador. disse: . . passados alguns instantes.Prima Glória deseja muito que você se ordene. prima Glória tem este negócio firme na cabeça. . e. vá esquecendo a promessa... explicou rindo. . é bonita. um intrigante. ainda hoje.. como se não soubesse nada Prima Justina completou a notícia dizendo que ainda naquela tarde José Dias lembrara a minha mãe a promessa antiga. eu também não.Sim. mas como há de esquecer se uma pessoa estiver sempre. apesar da casca de polidez. pedir outra coisa. já ela contava isto a todas as pessoas da nossa amizade. . não. Eu. mas também. que não se importa com isso. a senhora era capaz de uma coisa? . tudo com aquelas palavras que só ele conhece. e não há nada no mundo que a faça mudar de resolução.

. os costumes. se é que também ela não desconfiava já. que já a achava lindíssima. Não disse mal dela. gostar-me. e certamente com a felicidade que devia iluminar-me a cara.. sim. Então. pareciam apalpar-me. creio isto. bradaria que era a mais bela criatura do mundo. Só pensei nisso na cama. Creio antes. fazer o ofício de todos os sentidos. cheirar-me. É certo que. Só então senti que os olhos de prima Justina. Também se goza por influição dos lábios que narram. o amor que tinha a minha mãe. Entretanto. sim.não peço. a gravidade. tudo isto me acendeu a ponto de elogiá-la também. falando do calor e da próxima festa da Conceição. disse-me que era um pouco trêfega e olhava por baixo. entre um pirralho da minha idade e uma viúva quarentona não havia lugar para ciúmes. e até lhe fez algumas críticas. mas. modificou os elogios a Capitu. se o receio me não fizesse discreto. ouvir-me. o melhor é ficar”. CAPÍTULO 22 SENSAÇÕES ALHEIAS Não alcancei mais nada. a minha resposta era: “Prima Glória. o trabalhar para os seus. Quando não era com palavras. dos meus velhos oratórios. pode ir. e para o fim arrependi-me do pedido: devia ter seguido o conselho de Capitu. após algum tempo. Creio que prima Justina achou no espetáculo das sensações alheias uma ressurreição vaga das próprias. Eu. Ciúmes não podiam ser. Se ela me consultasse bem. não faço. É o que eu diria e direi se ela me consultar algum dia. ir falar-lhe sem ser chamada. mas ainda assim. CAPÍTULO 23 PRAZO DADO . à tarde. como eu quisesse ir para dentro. ouvida por ela. na sala de visitas. como prima Justina se metesse a elogiar-lhe os modos. prima Justina reteve-me alguns minutos.. Não adverti que assim confirmava a denúncia de José Dias. quando eu falava. era com o gesto de aprovação que dava a cada uma das asserções da outra. se não gosta. Agora. eu penso que. não creio que fossem ciúmes. se ele gosta de ser padre. ao contrário insinuou-me que podia vir a ser uma moça bonita. se ela me dissesse: “Prima Justina. você que acha?”. e finalmente de Capitu..

Nos diálogos. alternava o som das vozes. ele assistia às lições. foi dispensar-me o pajem. A primeira coisa que consegui logo que comecei a andar fora. disse-me José Dias. podemos apear-nos à porta do Passeio Público. José Dias vinha andando cheio de leitura de Walter Scott que fizera a minha mãe e a prima Justina. Ajudava assim o mestre de primeiras letras. É dia de lição? . Aos oito anos os meus plurais careciam. Ao despedir-se de mim. na rua. como era próprio da criança e do meu estilo habitual. . mas as palavras o eram. fazia reflexões eclesiásticas. . O tom não me saíra tão imperativo como eu receava. ele a corrigia. quando o Padre Cabral me ensinava latim. quando íamos para o chá. meio sério para dar autoridade à lição. . não hesitar. ia comigo à rua. Lia cantado e compassado. à porta de casa.Até amanhã. . Foi no corredor. conforme o sexo dos interlocutores. que eram levemente grossas ou finas. fez-se pajem.Preciso falar-lhe amanhã. Creio que José Dias achou desusado este meu falar. Fez-se tudo o melhor possível. meio risonho para obter o perdão da emenda. Houve só uma altercarão.A lição foi hoje. Cuidava dos meus arranjos em casa. certamente lhe deu idéia de uma pessoa nova e de uma nova situação. Mais tarde. pedirei a mamãe. e reproduziam com moderação a ternura e a cólera. dos meus livros. escolha o lugar e diga-me. Os castelos e os parques saíam maiores da boca dele. da minha higiene e da minha prosódia. alguma vez.Perfeitamente. sem falta. Tenho umas compras que fazer. na varanda. afirmo desde já que é matéria grave e pura. os lagos tinham mais água e a “abóbada celeste” contava alguns milhares mais de estrelas centelhantes. da desinência exata.Não importa. senhor. você pode ir comigo.Sim. .. dos meus sapatos. minha mãe achou o dia quente e não consentiu que eu fosse a pé. entramos no ônibus. Não lhe pergunto o que é. não pedir. disse-me ele: . doutrina e história sagrada. CAPÍTULO 24 DE MÃE E DE SERVO José Dias tratava-me com extremos de mãe e atenções de servo.Amanhã. e o não interrogar.

. possui a casa em que mora. possuía já certo número de qualidades morais sólidas. em criança. Capitu.e. atalhou ele. afinal. não se lembra? . Em lhe cheirando a homem chulo é com ele. Pois.Mas eu andei algumas vezes. . Mas você está ficando moço e ele vai tomando confiança. era natural. em minha presença.Perdão. não é bonito que você ande com o Pádua na rua.É verdade. um dia.. posto não avaliasse todo o valor deste outro elogio. interrompi suspendendo o passo. gostava do elogio. apesar daqueles olhos que o Diabo lhe deu. pelo contrário.. Dona Glória.. Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada. . outras doentes ou só vadias espalhavam-se melancolicamente no caminho que vai da porta ao terraço. mas que eu excedia a todos esses. dizia a minha mãe ter conhecido outrora meninos muito inteligentes. e ele não nego que seja honesto. Andando.Perdoe-me. já que falamos nisto. não pode gostar disso. era um elogio.Ele pediu a sua mãe que o deixasse trazer consigo. para me dar animo.. como se riu.Há muito tempo que não venho aqui. para a minha idade. não há três meses que esteve aqui com o nosso vizinho Pádua. há dias. . Oh! a adulação! Dona Fortunata merece estima. tem um bom emprego. Seguimos para o terraço. ele podia passar por criado. dos meus sapatos acalcanhados. no fim. consentiu. Eu.. mas foi tão de passagem. disse ele a um sujeito. nem porque ele fale mal de mim e se ria. Algumas caras velhas.Quando era mais jovem. CAPÍTULO 25 NO PASSEIO PÚBLICO Entramos no Passeio Público. se não fosse a vaidade e a adulação. perguntava ao padre: “Não é verdade que o nosso jovem amigo caminha depressa?” Chamava-me “um prodígio”. e ela. que é boa como a mãe de Deus. Não digo isto por ódio. poderia passar.. mas ouça-me. apesar deles. Pádua tem uma tendência para gente reles. e as outras qualidades perdem muito de valor com as más companhias em que ele anda. falei do jardim: . mas honestidade e estima não bastam. talvez um ano. . . não há muito tempo. nunca ouvi que falasse mal do senhor. A gente Pádua não é de todo má. que o senhor era “um homem de capacidade e . . sem contar que.

Mamãe quer que eu seja padre. disse finalmente. não. me têm feito o favor de juízos altos. depois replicou: . a matéria do discurso revelara em mim uma alma nova. não posso ser padre. não tenho jeito. mas o que ainda mais o assombrou foi esta conclusão: .” José Dias sorriu deliciosamente.. Quando os olhos tornaram às dimensões ordinárias: . . não gosto da vida de padre. como a prima Justina na véspera. as sobrancelhas arquearam-se. continuei eu.Vejo que o senhor não quer senão o meu benefício. . e o prazer que eu contava dar-lhe com a escolha da proteção não se mostrou em nenhum dos músculos. disse eu depois de alguns instantes.Mamãe quê? Que é que tem mamãe? . mas eu não posso ser padre. Estou por tudo o que ela quiser. peço-lhe um favor. Os olhos do agregado escancararam-se. por mais acanhada que fosse. subimos ao terraço.Neste caso.. até cocheiro de ônibus. . Toda a cara dele era pouca para a estupefação. de vez. Realmente.Mamãe.Não lhe agradeço nada. peremptório. mas fez um esforço grande e fechou outra vez o rosto. como pode parecer do texto. . mas aos pedaços.Pois que outra coisa. estou pronto a ser o que for do seu agrado. José Dias ficou aturdido.Não posso. mamãe sabe que eu faço tudo o que ela manda.Um favor? Mande. mas não é para mim. Tínhamos outra vez andado. e olhamos para o mar. ansioso também. que é? . Padre. Durante algum tempo não pude dizer o resto.sabia falar como um deputado nas câmaras. Não obstante.Mas que posso eu fazer? perguntou. enfiado natural mente. em voz um pouco surda e tímida. mastigado. José Dias tornou a perguntar o que era. levantava-me o queixo e espetava os olhos em mim. eu próprio não me conhecia. José Dias endireitou-se pasmado. Bentinho? . Outros. e vinha de cor. E nada disso impede que ele seja o que lhe digo. ordene. . de melhor sangue. José Dias ouvira-o espantado.Conto com o senhor para salvar-me. que era pouco. Mas a palavra final é que trouxe um vigor único. não menos pasmado que ele. A carreira é bonita. Não contava certamente com a resistência. sacudia-me com brandura. Todo esse discurso não me saiu assim. .

. é provável que. em nossa casa. a ambição e O sonho de longos anos. Quando pudesse. mas lutar. Olhe. como parece. é tarde. Sua mãe é uma santa. vou para São Paulo.. . a Pernambuco.uma idéia que o alegrou extraordinariamente. Estou pronto: para tudo. . nenhuma poderá vencer a sua em nobreza de sentimentos. trabalharei com alma. Que desejo. ele voltara os seus para o lado da barra.Se eu quiser? Mas que outra coisa quero eu. como merece? .É tarde. senão servi-lo. mas é só um. disse ele. Há boas universidades por esse mundo fora. São favores de pessoas dignas. ainda é tempo. O talento que seu tio acha em mim confesso que o tenho. Contentei-me de responder que não era tarde. com a indignação que experimentei.Pode muito.. Calou se alguns instantes. e uma ação valia outra.Pois ainda é tempo. ou ainda mais longe. atrás da porta. meu querido. . se tal é a sua . se o senhor quiser.São bondades.. Ainda ontem fez-me o favor de dizer: “José Dias. rompesse a chamar-lhe mentiroso. não quer ser padre? As leis são belas. Como insistisse: . por quê? porque são ilustres e virtuosas.Em que lhe posso valer. Não prometo vencer.Não é tarde. . não é? Tio Cosme diz que o senhor é pessoa de talento. retorquiu lisonjeado. se ela quiser que eu estude leis. ... . Aí está! nunca ninguém me há de ouvir dizer nada de pessoas tais... mas então seria preciso confessar-lhe que estivera à escuta.é o talento de saber o que é bom e digno de admiração e de apreço. que merecem tudo. seu tio é um cavalheiro perfeitíssimo Tenho conhecido famílias distintas.Há de ser também o de proteger os amigos. como eu. Pode ir a São Paulo. O senhor sabe que. preciso meter Bentinho no seminário”. além de promessa. Timidez não é tão ruim moeda. CAPÍTULO 26 AS LEIS SÃO BELAS Pela cara de José Dias passou algo parecido com o reflexo de uma idéia. Vá para as leis.. todos o apreciam Mamãe pede muita vez os seus conselhos. Se eu fosse destemido. senão que seja feliz. não é por vadiação. anjo do céu? Não hei de dissuadir sua mãe de um projeto que é. eu tinha os olhos nele. . mas. para lhe provar que não há falta de vontade. Deveras. irei falar a sua mãe.

fale também a seu tio.. ele é. mas pedir não é alcançar.Hei de falar. sem desfazer na teologia que é melhor que tudo. Oh! a Europa.. emendei-me: . ainda que possa e vá. grandes pássaros negros faziam giros. Deus é dono de tudo. . e prefere as leis.Estamos a bordo. sem acabar de tentar minha mãe nem tio Cosme. se vontade de servir é poder de mandar. Vou falar a Dona Glória. Dona Glória provavelmente não poderá acompanhá-lo.. e cuidar de hospedarias. Oh! as leis são belíssimas! . avançando ou pairando.vocação. nem as danças fantásticas dos pássaros me desviavam o espírito do meu interlocutor.. José Dias passou . o presente e o futuro. Uma das suas ambições era tornar à Europa. estamos aqui. e andar com você de um lado para outro. francês. italiano. matrículas. Levantou a perna e fez uma pirueta.. .Pegue-se também com Deus. O céu estava meio enfarruscado. As leis são belas. falava dela muitas vezes. pede a mamãe que me não meta no seminário? . na água.Não blasfeme. um mendigo estendeu-nos a mão. . e ao mesmo tempo que estuda.. Bentinho. estamos a bordo! CAPÍTULO 27 AO PORTÃO No portão do Passeio. perto da praia. Peça-lhe a sua felicidade que eu não faço outra coisa. papéis. veremos as terras estrangeiras.. Por que não há de ir estudar leis fora daqui? Melhor é ir logo para alguma universidade. como a vida eclesiástica é a mais santa.. concluiu apontando para o céu. ouviremos inglês.com Deus e a Virgem Santíssima. viaja: Podemos ir juntos. e desciam a roçar os pés. peço. mas não conte só comigo.. estamos a bordo! Ah! você não imagina o que é a Europa. Anjo do meu coração. só por si. e tornavam a erguer-se para descer novamente.. não quererá guiar os negócios. Uma vez que você não pode ser padre. . Depois de lhe responder que sim.Deus fará o que o senhor quiser. Não contava com esta possibilidade de ir comigo.Pedir. espanhol. a terra e o céu. o passado. russo e até sueco. e lá ficar durante a eternidade dos meus estudos.Está dito... por mais que louvasse os ares e as belezas. No ar. Mas nem as sombras do céu..

adiante, mas eu pensei em Capitu e no seminário, tirei dois vinténs do
bolso e dei-os ao mendigo. Este beijou a moeda; eu pedi-lhe que rogasse
a Deus por mim, a fim de que eu pudesse satisfazer todos os meus
desejos.
- Sim, meu devoto!
- Chamo-me Bento, acrescentei para esclarecê-lo.

CAPÍTULO 28
NA RUA
José Dias ia tão contente que trocou o homem dos momentos graves, como
era à rua, pelo homem dobradiço e inquieto. Mexia-se todo, falava de
tudo, fazia-me parar a cada passo diante de um mostrador ou de um cartaz
de teatro. Contava-me o enredo de algumas peças, recitava monólogos em
verso. Fez os recados todos, pagou contas, recebeu aluguéis de casa;
para si comprou um vigésimo de loteria. Afinal, o homem teso rendeu o
flexível, e passou a falar pausado, com superlativos. Não vi que a
mudança era natural; temi que houvesse mudado a resolução assentada, e
entrei a tratá-lo com palavras e gestos carinhosos, até entrarmos no
ônibus.

CAPÍTULO 29
O IMPERADOR
Em caminho, encontramos o Imperador, que vinha da Escola de Medicina. O
ônibus em que íamos parou, como todos os veículos; os passageiros
desceram à rua e tiraram o chapéu, até que o coche imperial passasse.
Quando tornei ao meu lugar, trazia uma idéia fantástica, a idéia de ir
ter com o Imperador, contar-lhe tudo e pedir-lhe a intervenção. Não
confiaria esta idéia a Capitu. “Sua Majestade pedindo, mamãe cede”,
pensei comigo.
Vi então o Imperador escutando-me, refletindo e acabando por dizer que
sim, que iria falar a minha mãe; eu beijava-lhe a mão, com lágrimas. E
logo me achei em casa, à esperar até que ouvi os batedores e o piquete
de cavalaria; é o Imperador! é o Imperador! toda a gente chegava as
janelas para vê-lo passar, mas não passava, o coche parava à nossa
porta, o Imperador apeava-se e entrava. Grande alvoroço na vizinhança:

“O Imperador entrou em casa de Dona Glória! Que será? Que não será?” A
nossa família saía a recebê-lo; minha mãe era a primeira que lhe beijava
a mão. Então o Imperador, todo risonho, sem entrar na sala ou entrando,
- não me lembra bem, os sonhos são muita vez confusos,- pedia a minha
mãe que me não fizesse padre, - e ela, lisonjeada e obediente, prometia
que não.
- A medicina, por que lhe não manda ensinar medicina?
- Uma vez que é do agrado de Vossa Majestade..
- Mande ensinar-lhe medicina; é uma bonita carreira, e nós temos aqui
bons professores. Nunca foi à nossa Escola? É uma bela Escola. Já temos
médicos de primeira ordem, que podem ombrear com os melhores de outras
terras. A medicina é uma grande ciência; basta só isto de dar a saúde
aos outros, conhecer as moléstias; combatê-las, vencê-las... A senhora
mesma há de ter visto milagres Seu marido morreu, mas a doença era
fatal, e ele não tinha cuidado em si... É uma bonita carreira: mande-o
para a nossa Escola. Faça isso por mim, sim? Você quer, Bentinho?
- Mamãe querendo.
- Quero, meu filho. Sua Majestade manda.
Então o Imperador dava outra vez a mão a beijar, e saía, acompanhado de
todos nós, a rua cheia de gente, as janelas atopetadas, um silêncio de
assombro: o Imperador entrava no coche. inclinava-se e fazia um gesto de
adeus, dizendo ainda: “A medicina, a nossa Escola.” E o coche partia
entre invejas e agradecimentos.
Tudo isso vi e ouvi. Não, a imaginação de Ariosto não é mais fértil que
a das crianças e dos namorados, nem a visão do impossível precisa mais
que de um recanto de ônibus. Consolei-me por instantes, digamos minutos,
até destruir-se o plano e voltar-me para as caras sem sonhos dos meus
companheiros.

CAPÍTULO 30
O SANTÍSSlMO
Terás entendido que aquela lembrança do Imperador acerca da medicina não
era mais que a sugestão da minha pouca vontade de sair do Rio de
Janeiro. Os sonhos do acordado são como os outros sonhos, tecem-se pelo
desenho das nossas inclinações e das nossas recordações. Vá que fosse
para São Paulo, mas a Europa... Era muito longe, muito mar e muito
tempo. Viva a medicina! Iria contar estas esperanças a Capitu.

- Parece que vai sair o Santíssimo, disse alguém no ônibus. Ouço um
sino; é, creio que é em Santo Antônio dos Pobres. Pare, senhor recebedor!
O recebedor das passagens puxou a correia que ia ter ao braço do
cocheiro, o ônibus parou, e o homem desceu. José Dias deu duas voltas
rápidas à cabeça, pegou-me no braço e fez-me descer consigo. Iríamos
também acompanhar o Santíssimo. Efetivamente, o sino chamava os fiéis
àquele serviço da última hora. Já havia algumas pessoas na sacristia.
Era a primeira vez que me achava em momento tão grave; obedeci, a
princípio constrangido, mas logo depois satisfeito, menos pela caridade
do serviço que por me dar um ofício de homem. Quando o sacristão começou
a distribuir as opas, entrou um sujeito esbaforido, era o meu vizinho
Pádua, que também ia acompanhar o Santíssimo. Deu conosco, veio
cumprimentar-nos. José Dias fez um gesto de aborrecido, e apenas lhe
respondeu com uma palavra seca, olhando para o padre que lavava as mãos.
Depois, como Pádua falasse ao sacristão, baixinho, aproximou-se deles;
eu fiz a mesma coisa. Pádua solicitava do sacristão uma das varas do
pálio. José Dias pediu uma para si.
- Há só uma disponível, disse o sacristão.
- Pois essa, disse José Dias.
- Mas eu tinha pedido primeiro, aventurou Pádua.
- Pediu primeiro, mas entrou tarde, retorquiu José Dias; eu já cá
estava. Leve uma tocha.
Pádua, apesar do medo que tinha ao outro, teimava em querer a vara, tudo
isto em voz baixa e surda. O sacristão achou meio de conciliar a
rivalidade, tomando a si obter de um dos outros seguradores do pálio que
cedesse a vara ao Pádua, conhecido na paróquia, como José Dias. Assim
fez, mas José Dias transtornou ainda esta combinação. Não, uma vez que
tínhamos outra vara disponível, pedia-a para mim, “jovem seminarista”, a
quem esta distinção cabia mais diretamente. Pádua ficou pálido, como as
tochas. Era pôr à prova o coração de um pai. O sacristão, que me
conhecia de me ver ali com minha mãe, aos domingos, perguntou de curioso
se eu era deveras seminarista.
- Ainda não, mais vai sê-lo, respondeu José Dias piscando o olho
esquerdo para mim, que, apesar do aviso, fiquei zangado.
- Bem, cedo ao nosso Bentinho, suspirou o pai de Capitu.
Pela minha parte, quis ceder-lhe a vara; lembrou-me que ele costumava
acompanhar o Santíssimo Sacramento aos moribundos levando uma tocha,
mas
que a última vez conseguira uma vara do pálio. A distinção especial do

Quis ceder-lhe a vara.. o agregado tolheu-me esse ato de generosidade. que se ajoelhavam. e pediu ao sacristão que nos pusesse.. Que era lustre nupcial Não sei. De resto. era alguma coisa contrária à morte. com as duas varas da frente. fiquei comovido. O pranto da moça redobrou tanto que senti os meus olhos molhados e fugi. Esta nova sensação me dominou tanto que José Dias veio a mim. assim como lhe atribuíra lágrimas. vi-a escrever no muro. não acho outra forma mais viva de dizer a dor e a humilhação do meu vizinho. Assim fica entendido o alvoroço com que entrara na igreja. o administrador regressava ao antigo cargo. Foi ele mesmo que me contou e explicou isto. a ele e a mim. A moça não era formosa. outra vez a interinidade interrompida. tanto que cuidou logo de ir pedi-lo. os braços caíam-me. padre e cibório prontos. em voz baixa: . Pobre criatura! A dor era comunicativa em si mesma complicada da lembrança de minha mãe. tinha uma filha de quinze ou dezesseis anos que estava chorando à porta do quarto. O vigário confessou a doente. andar à volta. e. Pádua roía a tocha amargamente. cheio de uma glória pia e risonha.. paralelamente a mim. tísica. com os braços no ar. e me disse ao ouvido. para tocha qualquer pessoa servia. passando pelos fiéis. tão lúgubres na ocasião tinham-me ares de um lustre nupcial. doeu-me mais. Quando me vi com uma das varas. o sacristão de hissope e campainha nas mãos. assim lhe encheu a boca de riso agora. É uma metáfora. E nada! E tornava à tocha comum.Não ria assim! .Não chore assim! A imagem de Capitu ia comigo. senti um ímpeto de soluçar também. ouvi distintamente o meu nome. erguia a cabeça com o ar de ser ele próprio o Deus dos exércitos. enfiei pelo corredor. quando enfim pensei em Capitu. que. na Rua do Senado.. e a minha imaginação. de uma doçura que me embriagou. Vim para perto de uma janela. talvez nem tivesse graça. falar-me.pálio vinha de cobrir o vigário e o sacramento. A enferma era uma senhora viúva. Com pouco. Não obstante o total falava e cativava o coração. não pude mirá-lo por muito tempo. deu-lhe a comunhão e os santos óleos. e não vejo outra mais que bodas. era a segunda vez do pálio. senti-me me cansado. e ouvi alguém dizer-me: . nem ao agregado. saiu o préstito à rua. e as lágrimas faziam-lhe encarquilhar os olhos. e a voz era dela. rompendo a marcha do pálio. As tochas acesas. há pouco. Opas enfiadas. tochas distribuídas e acesas. os cabelos caíam despenteados. felizmente a casa era perto.

a narração e o diálogo. o que fazia a distancia menor. explicáveis e inexplicáveis. desde os sete anos. aprendera a ler. . Era também mais curiosa. tudo parecia remoer consigo. e. as devotas que chegavam às janelas ou entravam nos corredores e se ajoelhavam à nossa passagem. francês. as alterações do gesto e até a pirueta. Se ainda o não disse. e apenas mostravam a compostura do ato. se vingasse a idéia da Europa. que apenas lhe contara. fica também. uma criatura mui particular. Via-se que caminhavam com honra. No colégio onde. Era minuciosa e atenta. que falaria logo que pudesse. e que me pegasse com Deus. Quando é que ele disse que falaria a sua mãe? . a animação da rua. ia mais humilhado. assim úteis como inúteis. à força de repetição. da miserável tocha. As curiosidades de Capitu dão para um Capítulo. não iam garridos. mostrou se satisfeita. mais mulher do que eu era homem. Pedia o som das palavras. gostava de saber tudo. não acabava de se consolar da tocha. aí fica. rotulava e pregava na memória a minha exposição. ao contrário. Se disse. Esta imagem é porventura melhor que a outra. E quando eu lhe contei o meu sonho imperial: . prometeu que ia ver. E contudo havia outros que também traziam tocha. outras frívolas. por exemplo. os rapazes da minha idade que me fitavam cheios de inveja. escrever e contar.o peso da vara era mui pequeno. deixemos o Imperador sossegado.Não. Bentinho. Demais. mas também não iam tristes. CAPÍTULO 31 AS CURIOSIDADES DE CAPITU Capitu preferia tudo ao seminário. não aprendeu. Apesar de substituído por mim. fiquemos por ora com a promessa de José Dias. como já conhecia a distancia. replicou. Era o momento da saída. mas a ótima delas é nenhuma. Capitu quis que lhe repetisse as respostas todas do agregado. o sol cá fora. Capitu era Capitu. e agora voltávamos para a igreja. Também se pode dizer que conferia. a fazer renda- . tudo me enchia a alma de lepidez nova. Eram de vária espécie. Há conceitos que se devem incutir na alma do leitor. Peguei da minha vara. Em vez de ficar abatida com a ameaça da larga separação. doutrina e obras de agulha. isto é. Pádua. umas graves.Fiquei sério depressa.Não marcou dia.

com atenção. Um dia fui achá-la desenhando a lápis um retrato. demorando-se um pouco mais em César. José Dias dava-lhe essas notícias com certo orgulho de erudito. referia-se ao que estava na sala. Ficou muito tempo com a cara virada para ele. . das campanhas. e os cabelos eram pequenos círculos uns sobre outros. mas as ações citadas por José Dias davam-lhe gestos de admiração. O agregado disse-lho sumariamente. Já então namorava o piano da nossa casa. Tio Cosme ensinou-lhe gamão.Anda apanhar um capotinho.por isso mesmo.descontai-me a idade e a simpatia. acabou dizendo que latim não era língua de meninas. velho traste inútil. Mas. como aprendeu música mais tarde. querendo saber das ruínas. Era o de meu pai. Um dia. Perfeição não era. mas não foi adiante. e pediu-me que esperasse para ver se estava parecido.É o maior homem da história! A pérola de César acendia os olhos de Capitu. quis que prima Justina lhe ensinasse. o lugar. com exclamações em latim: . estou que aprenderia facilmente pintura. Foi nessa ocasião que ela perguntou a minha mãe por que é que já não usava as jóias do retrato. não tendo ela rudimento algum de arte. achei que era obra de muito merecimento. tinha um grande colar. Ainda assim. dizia-lhe ele. Brute? Capitu não achava bonito o perfil de César. respondeu entusiasmado: . Capitu obedecia e jogava com facilidade. Capitu confessou-me um dia que esta razão acendeu nela o desejo de o saber. dava os últimos rasgos. copiado da tela que minha mãe tinha na sala e que ainda agora está comigo. depois de lhe propor gracejando. Em compensação. Capitu quis saber o que eram as figuras da sala de visitas. não sei se diga com amor. A erudição deste não avultava muito mais que a sua homeopatia de Cantagalo. quis aprender inglês com um velho professor amigo do pai e parceiro deste ao solo. Capitu. Um homem que podia tudo! que fazia tudo! Um homem que dava a uma senhora uma pérola do valor de seis milhões de sestércio! . não tendo presente o valor do sestércio. o nome. folheava os nossos livros de gravuras.E quanto valia cada sestércio? José Dias. um diadema e brincos. ao contrário. . com o de meu pai. os olhos saíram esbugalhados.César! Júlio César! Grande homem! Tu quoque. das pessoas. a história. Lia os nossos romances. Se não estudou latim com o Padre Cabral foi porque o padre. apenas de estimação. e havendo feito aquilo de memória em poucos minutos.

mobílias antigas. Caso houve. . mas naturalmente tinha para si que eles pouco mais conheceriam do que o que se passou nas ruas. foi o pé. ou se fez ambas as coisas. Ouvindo falar várias vezes da Maioridade. Fui devagar. costumes.Eu bem. cabelos.Quando é que botou estas? . . comprado a um mascate italiano. Nascera muito depois daquelas festas célebres. notícias de Itaguaí. como eu.Foi pelas festas da Coroação.Não há nada. José Dias ainda não falou? . vá devagarzinho para lhe pregar um susto. e achou que o Imperador fizera muito bem em querer subir ao trono aos quinze anos. apenas entrei na sala. como eu. Capitu. eram dez horas da manhã. Se não foi ele. e só lhe ouvi esta pergunta: .Mas então quando fala? . pente.São jóias viúvas. passados alguns dias do ajuste com o agregado. um dito daqui. argolinha de latão. É o que contarei no outro Capítulo. era um espelhinho de pataca (perdoai a barateza). no qual não sei se aprendeu ou ensinou. Dona Fortunata. Como passou a noite? . toda ela voou pelos ares. Queria a notícia das tribunas da Capela Imperial e dos salões dos bailes. disseram-lho. Este pode ser que não fosse.Está na sala penteando o cabelo. . alfaias velhas.. teimou um dia em saber o que fora este acontecimento. Neste direi somente que.Parece que não. porém. disse-me... pendente da parede. . um adágio dacolá. vim ver você antes que o Padre Cabral chegue para a lição. respondi. fui ver a minha amiga. CAPÍTULO 32 OLHOS DE RESSACA Tudo era matéria às curiosidades de Capitu. entre as duas janelas. uma lembrança dali. Um ou outro. Tudo era matéria às curiosidades de Capitu. moldura tosca. a infância e a mocidade de minha mãe.Há alguma coisa? . a verdade é que. que estava no quintal nem esperou que eu lhe perguntasse pela filha.Oh! conte-me as festas da Coroação! Sabia já o que os pais lhe haviam dito. mas ou o pé ou o espelho traiu-me.

Você jura? . mas poderá alcançar?. Deixe ver os olhos. . É o que me dá idéia daquela feição nova. entrará em matéria. Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. Ele é atendido. ao cabo de um tempo não marcado. nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. assim também a quantidade das delícias que terão gozado no céu os seus desafetos aumentará as dores aos condenados do inferno. e queria ver se podiam chamar assim. Hoje mesmo ele há de falar. É um inferno isto! Você teime com ele. E se não fosse preciso alguém para vencer já. de ressaca. dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu.Teimo.. Bentinho. enfiados neles. cava e escura. Este outro suplício escapou ao divino Dante. não vai logo de pancada. Não me acode imagem capaz de dizer. crescidos e sombrios. A eternidade tem as suas pêndulas. falará assim por alto e por longe. se sentir que você realmente não quer ser padre. mas tão depressa buscava as pupilas. Depois. Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles. tem. com tal expressão que. Olhos de ressaca? Vá. imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto... . às orelhas.. se. “olhos de cigana oblíqua e dissimulada.Disse-me que hoje ou amanhã pretende tocar no assunto. nos dias de ressaca. a cor e a doçura eram minhas conhecidas. e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos. o que eles foram e me fizeram.. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento. e de todo. Para não ser arrastado. ameaçando envolver-me. mas dissimulada sabia. um toque. . Capitu. aos cabelos espalhados pelos ombros.. Capitu deixou-se fitar e examinar. Retórica dos namorados.Que tem. porém. se nunca os vira.. aos braços. Eu já nem sei se José Dias poderá influir tanto. não se lhe falaria.Juro. constantes. acho que fará tudo. interrompeu Capitu. eu nada achei extraordinário. Quer primeiro ver se mamãe tem a resolução feita. Só me perguntava o que era. puxar-me e tragar-me. a onda que saía delas vinha crescendo. sem quebra da dignidade do estilo. Estou para contar que.. agarrei-me às outras partes vizinhas.” Eu não sabia o que era oblíqua. com os meus olhos longos. como a vaga que se retira da praia. . mas eu não estou aqui para emendar poetas.. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico. uma força que arrastava para dentro.

isso sim. CAPÍTULO 33 O PENTEADO E Capitu deu-me as costas. cheguei a escrever Tétis.Eu mesmo. como podem supor os cabeleireiros de ofício. Peguei-lhe dos cabelos. se quisesse. saboreando pelo tato aqueles fios grossos. para compor as duas tranças. por mais que eu os quisesse intermináveis. Não pedi ao céu que eles fossem tão longos como os da Aurora. e a sensação era um deleite.Vai embaraçar-me o cabelo todo. . colhi-os todos e entrei a alisá-los com o pente. enfim. risquemos ninfa. desejei penteá-los por todos os séculos dos séculos. . com muito cuidado. .. mas então com as mãos.agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitu. “Vamos ver o grande cabeleireiro”. nunca pusestes as mãos adolescentes na jovem cabeça de uma ninfa. Uma ninfa! Todo eu estou mitológico. Ainda há pouco.. palavra que envolve todas as potências cristãs e pagãs.. Os dedos roçavam na nuca da pequena ou nas espáduas vestidas de chita. que lhe desciam à cintura. Em pé não dava jeito: não esquecestes que ela era um nadinha mais alta que eu. é melhor. Enfim acabei as duas tranças. Continuei a alisar os cabelos.Vamos ver. Mas. . às vezes por desazo. mas.para dizer alguma coisa. . desgraçado leitor. Sentou-se. outras de propósito para desfazer o feito e refazê-lo. Não as fiz logo. Onde estava a fita para atar-lhes as . tecer duas tranças que pudessem envolver o infinito por um número inominável de vezes. mas devagar. digamos somente uma criatura amada. disse-me rindo. Pedi-lhe que se sentasse. mas ainda que fosse da mesma altura. desde a testa até as últimas pontas.Se embaraçar. é que nunca penteastes uma pequena. devagarinho. os cabelos iam acabando.Senta aqui. nem assim depressa. O trabalho era atrapalhado. .que era capaz de os pentear. e dividi-os em duas porções iguais. voltando-se para o espelho. que eram parte dela. risquei Tétis. Se isto vos parecer enfático. você desembaraça depois.Você? . porque não conhecia ainda esta divindade que os velhos poetas me apresentaram depois. falando dos seus olhos de ressaca. e disse-lhe.

. não achava gesto nem ímpeto que me descolasse da parede e me atirasse a ela com mil palavras cálidas e mimosas. Juntei as pontas das tranças. alargando aqui. Capitu compôs-se depressa. Veja que tranças! . Não me atrevi a dizer nada. mamãe? Isto? redargüiu Capitu. os olhos escuros. leitor precoce.. a tal ponto que me foi preciso acudir com as mãos e ampará-la. mas nem esta razão a moveu. sem fala. nenhuma contração de acanhamento. rápida.Que tem? acudiu a mãe. Preso.Pronto! . de costas para mim. até que ela abrochou os lábios. olhe como este senhor cabeleireiro me penteou. que ela explicou por estas palavras alegres: . Inclinei-me depois sobre ela rosto a rosto. achatando ali. transbordando de benevolência . Não mofes dos meus quinze anos. Capitu derreou a cabeça. quando a mãe apontou à porta. ainda que quisesse. atordoado. retoquei a obra. Em vez de ir ao espelho. Ora. pegou do . ela abanava a cabeça e ria. machucar o pescoço.Levanta. Des Grieux (e mais era Des Grieux) não pensava ainda na diferença dos sexos. podia ficar tonta. desfazendo as tranças. eu recuei até à parede com uma espécie de vertigem. tão depressa que. Está muito bem. Cheguei a dizer-lhe que estava feia. Com dezessete. um triste pedaço de fita enxovalhada.. e ficamos assim a olhar um para o outro.Estará bom? . e fez isto.O que. os olhos de uma na linha da boca do outro. uni-as por um laço. .Mamãe. que pensais que fez Capitu? Não vos esqueçais que estava sentada. não levantou a cabeça. Capitu ergueu-se. pediu-me para acabar o penteado. eu desci os meus. Quando eles me clarearam vi que Capitu tinha os seus no chão. Pedi-lhe que levantasse a cabeça. mamãe! E com um enfadamento gracioso e voluntário que às vezes tinha. até que exclamei: . Nenhum laivo amarelo.. faltava-me língua. era Dona Fortunata.pontas Em cima da mesa.Veja no espelho. CAPÍTULO 34 SOU HOMEM! Ouvimos passos no corredor. um riso espontâneo e claro. ninguém dirá que é de pessoa que não sabe pentear. Capitu! Não quis. e. Grande foi a sensação do beijo. o espaldar da cadeira era baixo. mas trocados. .

não logravam romper de dentro. próximo ou remoto. embaixo dos meus. O beijo de Capitu fechava-me os lábios.com efeito. De repente. não era nada. descobrindo a América. Dona Fortunata chamou-lhe tonta.” Assim. as paredes. O gosto que isto me deu foi enorme. A denúncia de José Dias alvoroçara-me. e unindo-se uns aos outros. Dona Fortunata tirou-me daquela hesitação. e logo perdia tudo para sentir somente os beiços de Capitu Sentia-os estirados. cosido à parede. despedi-me e enfiei pelo corredor. recordando o penteado e o resto. porque a palavra saiu em voz alta. éramos dois e contrários. peguei dos livros. um simples artigo. sentei-me na cama. maluquices da filha. saiu-me da boca esta palavra de orgulho: . por mais que investissem com força. sem querer. apanhados pela mãe. e elas acudiram de pronto. ela encobrindo com a palavra o que eu publicava pelo silêncio. sem pensar. Tinha estremeções. tinha uns esquecimentos em que perdia a consciência de mim e das coisas que me rodeavam. repeti que era homem. nenhum me deslumbrou tanto. dizendo que minha mãe me mandara chamar para a lição de latim. mas não passei à sala da lição. ouvia algum som de fora. a vista dos nossos nomes aberto por ela no muro do quintal deu-me grande abalo. e corri à porta da alcova. Fiz outros achados mais tarde. baixinho. mas de atropelo.. como vistes. Podiam ser . parece-me que desconfiou. por menos que as emoções o dominem. e. igualmente esticados para os dela. chamei algumas palavras cá de dentro. achou talvez que houvera entre nós algo mais que penteado. Corri ao meu quarto. um almirante e um sol de outubro. o Padre Cabral estava à minha espera. vago. E todas as palavras recolheram-se ao coração. do cabimento. os livros. Ainda agora tenho o eco aos meus ouvidos. E tornava a mim. e sorriu por dissimulação. Uma exclamação. Era uma saída. Não havia ninguém fora. e via a cama. murmurando: “Eis aqui um que não fará grande carreira no mundo. Olhava com ternura para mim e para ela.pente e alisou os cabelos para renovar o penteado. Andando. o chão. Colombo não o teve maior.. Depois. enfiado. e perdoai a banalidade em favo. Vendo-me calado. e encheram-me a boca sem poder sair nenhuma. mas a filha não dizia nada.. Como eu quisesse falar também para disfarçar o meu estado.. nada disso valeu a sensação do beijo. para viver não sei onde nem como. a lição do velho coqueiro também. há em cada adolescente um mundo encoberto. ouvi que a mãe censurava as maneira da filha.Sou homem! Supus que me tivessem ouvido. e disse-me que não fizesse caso. Voltei para dentro.

mas que era protonotário apostólico? O Padre Cabral explicou que não era propriamente o cargo da cúria. a mais nova. Não corri precisamente. fui andando. e repetia: . bispos. ninguém ralhou comigo. ouvi vozes alegres. eram os ossos da verdade. acostumados a cônegos. não eram a carne e o sangue dela. e podiam ler-me no semblante alguma coisa. Grande homem que fosse.. Tio Cosme e prima Justina repetiam o título com admiração. a recordação era menor que esta. mas a saudade é isto mesmo. Esta distinção do papa dera-lhe grande contentamento e a todos os nossos. Tio Cosme viu exalçar-se no parceiro de voltarete.mentira ou ilusão. um mal abortado. núncios. mas como se pensa em perigo que passou. pela terceira vez. muitas intelectuais. não podiam dizer tudo.Sou homem! Quando repeti isto. mas o susto que causaria a minha mãe fez-me rejeitá-la. vamos ver. e soube que. Talvez abuso um pouco das reminiscências osculares. de vária espécie. O sangue era da mesma opinião. porém. conversavam ruidosamente. Pensei em prometer algumas dezenas de padre-nossos.era a primeira vez que ele soavaaos nossos ouvidos. outra promessa em aberto e outro favor pendente. um pesadelo extinto. Bentinho. O Padre Cabral recebera na véspera um recado do internúncio. tu podes vir a ser protonotário apostólico . Tive idéia de mentir. foi ter com ele. Outras tenho. CAPÍTULO 35 O PROTONOTÁRIO APOSTÓLICO Enfim. de todas as daquele tempo creio que a mais doce é esta. apertadas. acabava de ser nomeado protonotário apostólico. por decreto pontifício. como que fundidas. monsenhores. Não. . e internúncios. Quando entrei na sala. pensei no seminário. todos os meus nervos me disseram que homens não são padres. mas as honras dele. igualmente intensas. a mais compreensiva.Prepara-te. tinha. alegar uma vertigem que me houvesse deitado no chão. Outra vez senti os beiços de Capitu. a que inteiramente me revelou a mim mesmo.. peguei dos livros e corri à lição. Sendo verdade. a meio caminho parei. doces também. é o passar e repassar das memórias antigas Ora. vastas e numerosas.Protonotário apostólico! E voltando-se para mim: . As próprias mãos tocadas. advertindo que devia ser muito tarde.

. Um beijo e férias! Creio que o meu rosto disse isto mesmo.acudiu prima Justina para se ir acostumando ao uso do título. mas respondeu logo: . Padre Cabral acudiu que não era preciso dizê-lo todo.Não. Protonotário apostólico. .Não tem que festejar a vadiação.Sim. entendi que devia cumprimentá-lo também. Dona Justina. chamou-me peralta.O protonotário Santiago. Era muita felicidade para uma só hora.Cabral ouvia com gosto a repetição do título. assentiram todos. assim de passagem. .esta segunda reflexão foi tio Cosme que a fez. que continuava a refletir. são só as honras.Há de ser padre. tem razão.Mas.isto o obriga a ir a Roma? . e este aplauso não lhe foi menos ao coração que os outros. Se a intenção do meu mestre de latim era ir acostumando ao uso do título com o nome. basta protonotário. voltando a mim do receio. posto que. e protonotário também. . não impede.Justamente. que entrou pouco depois de mim. etc. Bateu-me na bochecha paternalmente. dava alguns passos. o principal da hora e do lugar era o meu velho mestre de latim. . . mas José Dias corrigiu a alegria: . mas ninguém pegou do assunto. protonotário Cabral. Subentendia-se apostólico. cartas de cerimônia. a propósito. O tamanho do título como que lhe dobrava a magnificência. Estava em pé. senhor protonotário. e padre bonito. Minha mãe sorriu para mim. .Não esqueça.. porque tio Cosme. .Agora. acentuou Cabral. a semente lançada à terra. bastava que lhe chamassem o protonotário Cabral..Não. não sei bem. Eu. ainda que não venha a ser padre. para ligá-lo ao nome. José Dias.. aplaudia a distinção.não impede que nos casos de maior formalidade. No uso comum. Conheci aqui o meu homem. se empregue o título inteiro: protonotário apostólico. mana Glória. era demasiado comprido. o que sei é que quando ouvi o meu nome ligado a . sorria ou tamborilava na tampa da boceta. .disse Cabral. grandes esperanças da Itália. cheia de amor e de tristeza. observou minha mãe. o latim sempre lhe há de ser preciso.Protonotário Cabral. e recordou. . sacudindo a barriga. Era a primeira palavra. como para acostumar os ouvidos da família. os primeiros atos políticos de Pio IX. atos públicos. e acabou dando-me férias.

tal título, deu-me vontade de dizer um desaforo. Mas a vontade aqui foi
antes uma idéia, uma idéia sem língua, que se deixou ficar quieta e
muda, tal como daí a pouco outras idéias... Aliás essas pedem um
Capítulo especial. Rematemos este dizendo que o mestre de latim falou
algum tempo da minha ordenação eclesiástica, ainda que sem grande
interesse. Ele buscava um assunto alheio para se mostrar esquecido da
própria glória, mas era esta que o deslumbrava na ocasião. Era um velho
magro, sereno, dotado de qualidades boas. Alguns defeitos tinha; o mais
excelso deles era ser guloso, não propriamente glutão; comia pouco, mas
estimava o fino e o raro, e a nossa cozinha, se era simples, era menos
pobre que a dele. Assim, quando minha mãe lhe disse que viesse jantar, a
fim de se lhe fazer uma saúde, os olhos com que aceitou seriam de
protonotário, mas não eram apostólicos. E para agradar a minha mãe
novamente pegou em mim, descrevendo o meu futuro eclesiástico, e queria
saber se ia para o seminário agora, no ano próximo, e oferecia-se a
falar ao “senhor bispo”, tudo marchetado do “protonotário Santiago.”

CAPÍTULO 36
IDÉIA SEM PERNAS E IDÉIA SEM BRAÇOS
Deixe-os, a pretexto de brincar, e fui-me outra vez a pensar na aventura
da manhã. Era o que melhor podia fazer, sem latim, e até com latim. Ao
cabo de cinco minutos, lembrou-me ir correndo à casa vizinha, agarrar
Capitu, desfazer-lhe as tranças, refazê-las e concluí-las daquela
maneira particular, boca sobre boca. E isto vamos é isto... Idéia só!
idéia sem pernas! As outras pernas não queriam correr nem andar. Muito
depois é que saíram vagarosamente e levaram-me à casa de Capitu. Quando
ali cheguei, dei com ela na sala, na mesma sala, sentada na marquesa,
almofada no regaço, cosendo em paz. Não me olhou de rosto, mas a furto e
a medo, ou, se preferes a fraseologia do agregado, oblíqua e
dissimulada. As mãos pararam, depois de encravada a agulha no pano. Eu,
do lado oposto da mesa, não sabia que fizesse e outra vez me fugiram as
palavras que trazia Assim gastamos alguns minutos compridos, até que ela
deixou inteiramente a costura, ergueu-se e esperou-me. Fui ter com ela,
e perguntei se a mãe havia dito alguma coisa; respondeu-me que não A
boca com que respondeu era tal que cuido haver-me provocado um gesto de
aproximação. Certo é que Capitu recuou um pouco.
Era ocasião de pegá-la, puxá-la e beijá-la... Idéia só! idéia sem

braços! Os meus ficaram caídos e mortos. Não conhecia nada da Escritura.
Se conhecesse, é provável que o espírito de Satanás me fizesse dar à
língua mística do Cântico um sentido direto e natural. Então obedeceria
ao primeiro versículo: “Aplique ele os lábios, dando-me o ósculo da sua
boca”. E pelo que respeita aos braços, que tinha inertes, bastaria
cumprir o versículo seis do capítulo 2: “A sua mão esquerda se pôs já
debaixo da minha cabeça, e a sua mão direita me abraçará depois”. Vedes
aí a cronologia dos gestos. Era só executá-la; mas ainda que eu
conhecesse o texto, as atitudes de Capitu eram agora tão retraídas, que
não sei se não continuaria parado. Foi ela, entretanto, que me tirou
daquela situação.

CAPÍTULO 37
A ALMA E CHEIA DE MISTÉRIOS
- Padre Cabral estava esperando há muito tempo?
- Hoje não dei lição; tive férias.
Expliquei-lhe o motivo das férias. Contei-lhe também que o Padre Cabral
falara da minha entrada no seminário, apoiando a resolução de minha mãe,
e disse dele coisas feias e duras. Capitu refletiu algum tempo, e acabou
perguntando-me se podia ir cumprimentar o padre, à tarde em minha casa.
- Pode, mas para quê?
- Papai naturalmente há de querer ir também, mas é melhor que ele vá à
casa do padre, é mais bonito. Eu não, que já sou meia moça, concluiu rindo.
O riso animou-me. As palavras pareciam ser uma troça consigo mesma, uma
vez que, desde manhã, era mulher, como eu era homem. Achei-lhe graça, e,
para dizer tudo, quis provar-lhe que era moça inteira. Peguei-lhe
levemente na mão direita, depois na esquerda, e fiquei assim pasmado e
trêmulo. Era a idéia com mãos. Quis puxar as de Capitu, para obrigá-la a
vir atrás delas, mas ainda agora a ação não respondeu à intenção.
Contudo, achei-me forte e atrevido. Não imitava ninguém- não vivia com
rapazes, que me ensinassem anedotas de amor. Não conhecia a violação de
Lucrécia. Dos romanos apenas sabia que falavam pela artinha do Padre
Pereira e eram patrícios de Pôncio Pilatos. Não nego que o final do
penteado da manhã era um grande passo no caminho da movimentação
amorosa, mas o gesto de então foi justamente o contrário deste. De
manhã, ela derreou a cabeça, agora fugia-me; nem é só nisso que os
lances diferiam; em outro ponto, parecendo haver repetição, houve

contraste.
Penso que ameacei puxá-la a mim. Não juro, começava a estar tão
alvoroçado, que não pude ter toda a consciência dos meus atos; mas
concluo que sim, porque ela recuou e quis tirar as mãos das minhas;
depois, talvez por não poder recuar mais, colocou um dos pés adiante e o
outro atrás, e fugiu com o busto. Foi este gesto que me obrigou a
reter-lhe as mãos com força. O busto afinal cansou e cedeu, mas a cabeça
não quis ceder também, e caída para trás, inutilizava todos os meus
esforços, porque eu já fazia esforços, leitor amigo. Não conhecendo a
lição do Cântico, não me acudiu estender a mão esquerda por baixo da
cabeça dela; demais, este gesto supõe um acordo de vontades, e Capitu,
que me resistia agora, aproveitaria o gesto para arrancar-se à outra mão
e fugir-me inteiramente. Ficamos naquela luta, sem estrépito, porque
apesar do ataque e da defesa, não perdíamos a cautela necessária para
não sermos ouvidos lá de dentro; a alma é cheia de mistérios. Agora sei
que a puxava; a cabeça continuou a recuar; até que cansou; mas então foi
a vez da boca. A boca de Capitu iniciou um movimento inverso,
relativamente à minha, indo para um lado, quando eu a buscava do outro
oposto. Naquele desencontro estivemos, sem que ousasse um pouco mais, e
bastaria um pouco mais...
Nisto ouvimos bater à porta e falar no corredor. Era o pai de Capitu,
que voltava da repartição um pouco mais cedo, como usava às vezes.
“Abre, Nanata! Capitu, abre!” Aparentemente era o mesmo lance da manhã,
quando a mãe deu conosco, mas só aparentemente verdade, era outro.
Considerai que de manhã tudo estava acabado, e o passo de Dona Fortunata
foi um aviso para que nos compuséssemos. Agora lutávamos com as mãos
presas, e nada estava sequer começado.
Ouvimos o ferrolho da porta que dava para o corredor interno era a mãe
que abria. Eu, uma vez que confesso tudo, digo aqui que não tive tempo
de soltar as mãos da minha amiga; pensei nisso, cheguei a tentá-lo, mas
Capitu, antes que o pai acabasse de entrar, fez um gesto inesperado,
pousou a boca na minha boca, e deu de vontade o que estava a recusar à
força. Repito, a alma é cheia de mistérios.

CAPÍTULO 38
QUE SUSTO, MEU DEUS!
Quando Pádua, vindo pelo interior, entrou na sala de visitas, Capitu, em

sem agradecimentos. José Dias para se desforrar da concorrência. que é protonotário apostólico? .essa cara é mesmo de quem vende saúde. E como vamos de rezas? A todas as perguntas Capitu ia respondendo prontamente e bem trazia um vestidinho melhor e os sapatos de sair. e quis saber por que a filha falava em protonotário apostólico.Mas. Tempo chega em que os dignificados recebem os louvores como um tributo usual. Foi logo falar ao pai. mas se conto aqui. Alegou susto. bradando infantilmente: . esse estado da alma que vê na inclinação do arbusto. que sabia tudo. meu Deus! Agora é que o lance é o mesmo. como a recolhê-la.pé. Bentinho. que apertou a minha mão. .Obrigado. cara morta. vivam! exclamou o pai. é para mostrar que Capitu não se dominava só em presença da mãe. O alvoroço da primeira hora é melhor. enfiou pelo corredor.Que susto. perguntava em voz alta: . traz sensações mais íntimas e finas que qualquer outro. tocado do vento. Cabral ouviu as palavras de Capitu com infinito prazer. um parabém da flora universal. o pai não lhe meteu mais medo. fez um pequeno discurso em honra “ao coração paternal e . o título de protonotário. mas eu. ou dois lances de há quarenta anos. vi que era mentira e fiquei com inveja. inclinada sobre a costura. jantar. e opinou logo que o pai devia ir cumprimentar o padre em casa dele. e deu à cara um ar meio enfiado. tais quais. de costas para mim. ela iria à minha. muito obrigado.Mamãe. . E coligindo os petrechos da costura. Capitu.Ora. usava da palavra com a maior ingenuidade deste mundo. A minha persuasão é que coração não lhe batia mais nem menos. papai chegou! CAPÍTULO 39 A VOCAÇÃO Padre Cabral estava naquela primeira hora das honras em que as mínimas congratulações valem por odes. estimo que você goste também. Não entrou com a familiaridade do costume. Capitu repetiu-lhe o que ouvira de mim. deteve-se um instante à porta da sala antes de ir beijar a mão a minha mãe e ao padre. No meio de uma situação que me atava a língua. Papai está bom? E mamãe? A você não se pergunta. Como desse a este duas vezes em cinco minutos.

o que é que acontecia? Tinha estudado no seminário algumas matérias que é bom saber. como todos devemos. piscando-me o olho. Cabral acrescentou que o reitor de S. mas o que eu digo é outra coisa. .Como? Então pode-se entrar para o seminário e não sair padre? Padre Cabral respondeu que sim. é a melhor. mas vocação não é só do berço que se traz. A prova não provava. e são sempre melhor ensinadas naquelas casas. Padre Cabral retorquia: . teimou com meu pai para que me metesse no seminário. O que eu digo é que se pode muito bem servir a Deus sem ser padre cá fora. que se podia. Prima Justina interveio: . e.A vocação é muito. que também são úteis e honradas. mas o poder de Deus é soberano. olhando em volta de si. O estado eclesiástico é perfeitíssimo. Padre Cabral confirmou os louvores do agregado. e que eu não mudava de vocação. . e ele sai apóstolo. falo de vocação sincera e real. José. Um homem pode não ter gosto à igreja e até persegui-la. que era coadjutor de Santa Rita.Um moço sem gosto nenhum à vida eclesiástica pode acabar por ser muito bom padre. e um dia a voz de Deus lhe fala. .Pode-se.augustíssimo de Pio IX. . os meus brinquedos foram sempre de igreja. E. tudo é que Deus o determine. todas as crianças do meu tempo eram devotas. ao que este acrescentou que o Cardeal Mastai evidentemente fora talhado para a tiara desde o princípio dos tempos. quando ele acabou José Dias sorriu sem vexame. e em qualquer profissão liberal se serve a Deus. sem os seus superlativos. Não me quero dar por modelo. que era manifesta.Você é um grande prosa. Pois. mas aqui estou eu que nasci com a vocação da medicina. suponha que não acontecia assim. tomei tal gosto aos estudos e à companhia dos padres. Sem vocação é que não há bom padre. concluiu: .A vocação é tudo.Perfeitamente. veja São Paulo.Homem.meu padrinho. contanto que o sacerdote venha já destinado do berço. que acabei ordenando-me. voltando-se para mim. Não havendo vocação. senhor. . Mas.Não contesto. pode-se ou não se pode? . e eu adorava os ofícios divinos. . disse tio Cosme. falou da minha vocação. um jovem pode muito bem estudar as letras humanas. meu pai cedeu.” .Pois então? exclamou José Dias triunfalmente. a quem contara ultimamente a promessa de minha mãe.

é claro que o meu dever. Contei-vos a da visita imperial. que veio de dentro acender o lampião do corredor. Adeus. dar-lhe terceiro beijo.Adeus. descer à chácara. Capitu que ia depressa. e. Duas vezes fui à janela. pegou-me na mão. Novamente me intimou que ficasse. A imaginação foi . . . disse minha mãe.Não venha. Não obedeci. disse-vos a desta casa de Engenho Novo. senhor protonotário. ele era da mesma opinião. não atendia aos olhos ansiosos que eu lhe mandava. entrar no quintal. e pôs o dedo na mão. e enfiei pelo corredor. e retirou-se. se acabasse. aliás.Escuta! . esperando que ela fosse também. não.. . pregado. todos os impulsos da idade e da ocasião eram atravessá-la de todo. seguir a vizinha corredor fora. Eram ave-marias. Dona Glória. até acabar o mundo. reproduzindo a de Mata-cavalos. e ficássemos à vontade. também não parecia escutar a conversação sobre o seminário e suas conseqüências.Não precisa. agarrado ao chão.. amanhã falaremos. como vim a saber depois.tinha o meu nascimento por milagre. que cuidei simulada.Fica! Falava baixinho. Capitu segredou-me que a escrava desconfiara. o meu gosto. Não me importou a recusa. mas Capitu não me apareceu. . .. e tive uma fantasia. sozinhos. senão para ir embora. não. . acudiu ela rindo.. mas. despediu-se. decorou o principal. eu sei o caminho. . quase às escuras. Uma preta. Bentinho. Capitu. vendo-nos naquela atitude. e despedir-me. refleti algum tempo.. eu deixei-me estar parado. riu de simpatia e murmurou em tom que ouvíssemos alguma coisa que não entendi bem nem mal. cosida às saias de minha mãe.Mas eu queria dizer a você. Capitu. Não deixou minha mãe. CAPÍTULO 40 UMA ÉGUA Ficando só. cheguei-me a ela. Tendo dado um passo no sentido de atravessar a sala. Já conheceis as minhas fantasias. estacou e fez-me sinal que voltasse.Amanhã.Vai com ela. e ia talvez contar às outras..

. escute. para . . se não foi nele. no corredor. ao passo que me assustava.Mas então que é? . as mais delas capaz de engolir campanhas e campanhas. . olhe.. logo.Não.. para mostrar que não tinha nada. a menor brisa lhe dava um potro. conhece-se pela voz. pegou em mim. mas tu estás constipado. “Sim.Não tenho nada não. se o estômago. conto-lhe o que se passou outro dia.Mamãe.. E. que entendeu guardar essa crendice nos seus livros. se ela duvidar. Neste particular. e apalpava-me a testa para ver se tinha febre.. rápida. senhora. perguntou se acompanhara Capitu.. e ordenou-me que lhe dissesse tudo. o penteado e o resto. eu queria dizer-lhe uma coisa. dando comigo. e.É uma coisa. Digamos o caso simplesmente. levou-me ao quarto dela. a minha imaginação era uma grande égua ibera. vou dizer a mamãe que não tenho vocação. Nem por isso permitiu adiar a confidência.” CAPÍTULO 41 A AUDIÊNCIA SECRETA O resto fez-me ficar mais algum tempo.a companheira de toda a minha existência.Que é? Toda assustada. é isto. A fantasia daquela hora foi confessar a minha mãe os meus amores para lhe dizer que não tinha vocação eclesiástica. Disfarças para não tomar suadouro. foi noutro autor antigo. Não é nada mau. se a cabeça. E quase investindo para ela: . acenda vela. senhora. mas deixemos metáforas atrevidas e impróprias dos meus quinze anos. e confesso o nosso namoro. senhora.Não. . pensei. não é coisa de cuidado. Creio haver lido em Tácito que as éguas iberas concebiam pelo vento. . isso é volta de constipação. abria-me uma porta de saída. alguma vez tímida e amiga de empacar. inquieta. correndo. e preparou-se logo o voltarete do costume.Não é moléstia? . . A conversa sobre vocação tornava-me agora toda inteira. se o peito.É. Tentei rir. . mamãe assusta-se por tudo. viva. Vi entrar o Doutor João da Costa. quis saber o que é que me doía. ela foi só. que saía logo cavalo de Alexandre. Mas. Então eu perguntei-lhe. Minha mãe saiu da sala. mamãe. pensando. é melhor depois do chá.

. Enxuguei os olhos e o nariz. e que eu confessei não sentir em mim. o que me veio animando à resistência.Não volto para casa? . mas as contradições são deste mundo. e acabaria gostando de viver com eles. depois das férias. leitor amigo.. Quando te ordenares padre. e eu tornei ao filho submisso que era.Vou. . depois quis repreender-me. só os primeiros dias. anterior ao primeiro pecado. quando havia chamado minha mãe justamente para confirmá-las. Ela afagou-me. a meio caminho. quando é que ia para o seminário. Calou-se durante alguns instantes. nem por simples intuição era capaz de deduzir uma coisa de outra. Por outro lado.. vens morar comigo.. mas com alguma força. continuou repetindo as reflexões que ouvira ao meu professor de latim. tu rias com tanto gosto! Como é que agora?. Quantas intenções viciosas há assim que embarcam. quando José Dias te chamava Reverendíssimo.Como ficar? . era só alguma ausência. não. nota que eu queria desviar as suspeitas de cima de Capitu. Depois.Agora só para o ano. numa frase inocente e pura! Chega a fazer suspeitar que a mentira é muita vez tão involuntária como a transpiração. repreendeu-me sem aspereza. é melhor. isto é. para ficar? . e pareceu-me que tinha os olhos úmidos.Voltas aos sábados e pelas férias. A verdade é que minha mãe era cândida como a primeira aurora. Não creio. não me disse as .. Como eu buscasse contestá-la. depois replicou-me sem imposição nem autoridade. disse ela. com as suas batinas? Em casa.principiar. .. Disse-lhe que também sentia a nossa separação. Bentinho. Vocação? Mas a vocação vem com o costume. Não houve cálculo nesta palavra. não concluiria da minha repentina oposição que eu andasse em segredinhos com Capitu. mas creio que a voz lhe tremia. . E depois. por causa dos estudos. Daí o falar-lhe na vocação que se discutira naquela tarde. como lhe dissera José Dias. Negou que fosse separação. ainda falou gravemente e longamente sobre a promessa que fizera. desviava as suspeitas de cima de Capitu. por fazer crer que ela era a minha única afeição.Eu só gosto de mamãe. não te lembras que até pedias para ir ver sair os seminaristas de São José. mas estimei dizê-la.Mas tu gostavas tanto de ser padre.. Em pouco tempo eu me acostumaria aos companheiros e aos mestres.

Quisera um modo de pagar a dívida contraída.Talvez em sonho. voltou-se para mim. não. Bentinho. mas não recuava dos seus propósitos. como o Padre Cabral. que me deixas de moleza. meu filho. coisas que só vim a saber mais tarde. porque o Padre Cabral fala de ti com entusiasmo. Vamos. e a voz não lhe saía clara. Deixa de manha. nem os motivos dela. Este era já o seu desejo íntimo. que valesse tanto ou mais. Todas essas coisas e outras foram ditas um pouco atropeladamente. outra moeda. não só para ti.. um tio meu também foi padre. em pagamento a Deus. mas velada e esganada. . irás para o seminário. Está entendido: no primeiro ou no segundo mês do ano que vem. é bonito. manha. é tarde. que me fizesse homem e obedecesse ao que cumpria. e aventurei-me a perguntar-lhe: . saímos ambos.Não. mas é inútil. em benefício dela e para bem da minha alma.Também eu. não. e não achava nenhuma.. vamos para a sala. No seminário há interesse em conhecer-te. Estás tonto. Bentinho. não podia ser manha.. Bentinho? E como havia de saber que Deus me dispensava? . Moleza é o que queria dizer. Vi que a emoção dela era outra vez grande. isto é. eu sonho às vezes com anjos e santos. são coisas que não se fazem sem pecado. não lhe hei de mentir nem faltar. CAPÍTULO 42 CAPITU REFLETINDO . que a havia de cumprir.Nosso Senhor me acudiu. Afirmou o principal. sabia muito bem que eu era amigo dela. como para o Padre Cabral. dizem.circunstâncias nem a ocasião. não peço. à proporção que se aproximava o tempo. não me deixaria assim. Caminhou para a porta. que vive tão feliz com a irmã. e não seria capaz de fingir um sentimento que não tivesse. Bentinho. e Deus que é grande e poderoso. eu sei que seria castigada e bem castigada. O que eu quero é que saibas bem os livros que estás estudando. você conhece muitos. e quase a vi saltar-me ao colo e dizer-me que não seria padre. Creio que os olhos que lhe deitei foram tão queixosos que ela emendou logo a palavra. Ser padre é bom e santo. .. e escapou de ser bispo. Antes de sair. salvando a tua existência.E se mamãe pedisse a Deus que a dispensasse da promessa? .

enquanto que eu fitava deveras o chão. . Que faríamos agora? Capitu ouvia-me com atenção sôfrega. e por fim as últimas respostas decisivas: dentro de dois ou três meses iria para o seminário. Não me chames dissimulado.ela olhava para o chão. atenuando o texto desta vez. e com lamparina. Há tanto tempo que isto sucedeu que não posso dizer com segurança se chorou deveras. Agora. Minto.. as minhas súplicas.. Quando tornei a olhar para Capitu. Vendo-lhe o gesto peguei-lhe na mão para animá-la. mas Capitu respondeu que não era preciso. acrescentando que passara mal por causa do que ouvira em minha casa. vi que não se mexia. Também eu lhe contei o que se dera comigo. cuido que os enxugou somente. E como desatasse o lenço. mas também eu precisava ser animado. quando acabei. refletia. examinando bem. trazia um lenço atado na cabeça. a verdade última.No dia seguinte fui à casa vizinha. Caímos no canapé. até muito depois da meia-noite. a mãe contou-me que fora excesso de leitura na véspera. Mas eu creio que Capitu olhava para dentro de si mesma. antes de qualquer trabalho efetivo por parte de José Dias. se lhe morressem as esperanças todas. a verdade das verdades. Estava abatida. as lágrimas dela. Capitu tornou cá para fora e pediu-me que outra vez lhe contasse o que se passara com minha mãe. Fiz o mesmo. duas moscas andando e um pé de cadeira lascada. mas distraía-me da aflição. logo que a vi assim. esta de dezessete anos” primeira filha de um médico. chama-me compassivo.. a entrevista com minha mãe. mamãe zangava-se. Capitu refletia. companheiras de colégio. Ficamos sós na sala. mas doía-me vê-la padecer.. depois sombria. Satisfi-la. é que já me arrependia de haver falado a minha mãe. Era pouco. Capitu despedia-se de três amigas que tinham ido visitá-la. ou se somente enxugou os olhos. antes e depois do chá. a mãe disse-lhe timidamente que era melhor atá-lo. logo que pude. Paula e Sancha. a segunda de um comerciante de objetos americanos. CAPÍTULO 43 VOCÊ TEM MEDO? . Capitu confirmou a narração da mãe.. mas conteve-se. é certo que receava perder Capitu. para não amofiná-la. ainda que demorado. refletia. aquela de quinze. Já estou boa. não quisera ter ouvido um desengano que eu reputava certo. como prestes a estalar de cólera.Se eu acendesse vela. na sala e na cama. estava boa.. respirava a custo. e ficamos a olhar para o ar. e fiquei com tal medo que a sacudi brandamente. o roído das fendas.

Capitu tornou ao que era. Também vi a presiganga.Medo? . De apanhar? .. vou botar uma rodela de limão nas fontes.Medo de apanhar. de ser preso. em todo caso. acompanhou-me ao quintal para se despedir de mim. de andar. de trabalhar. Ventava. e disse: . disse-me que estava brincando. Em seguida. antes diminuir até às dimensões normais. Todas essas belas instituições sociais me envolviam no seu mistério.Não. . Se ela me tem dito simplesmente: “Vamos embora!” pode ser que eu obedecesse ou não. Fez o que disse. a tal ponto que as fizeram esquecer de todo. não entendo. Mas aquela pergunta assim.. uma casa escura e infecta. Capitu. cessando a reflexão. . de brigar. não querendo interrogá-la novamente. nesta ocasião. entenderia. Pois quem é que há de dar pancada ao prender você? Desculpe que eu hoje estou meia maluca. foi só maluquice. sem que os olhos de ressaca de Capitu deixassem de crescer para mim. Não é nada. não precisava afligir-me. quero brincar. Os olhos de ressaca não se mexiam e pareciam crescer..Apanhar de quem? Quem é que me dá pancada? Capitu fez um gesto de impaciência..Sim. fitou em mim os olhos de ressaca. entrei a cogitar donde me viriam pancadas.. . nenhum de nós tem vontade de brincar. .Eu? Mas.De repente. sorrindo. até logo. e por que. e atou o lenço outra vez na testa. e. bateu-me na cara. e dar-lhe o movimento do costume. pergunto se você tem medo.Medroso! .. e quem é que me havia de prender.Tem razão. você não está brincando.Como até logo? .Está-me voltando a dor de cabeça.Sim.. mas. O erro de Capitu foi não deixá-los crescer infinitamente. Não entendi. e também por que é que seria preso.. ainda aí nos detivemos por alguns minutos. Sem saber de mim. o quartel dos Barbonos e a Casa de Correção. e perguntou-me se tinha medo. não pude atinar o que era. e. Valha-me Deus! vi de imaginação o aljube. . com um gesto cheio de graça.Mas. e. vaga e solta. Bentinho. sentados sobre a borda do poço. . .Medo de quê? . o .

.céu estava coberto.Ou que me mato de saudades. Capitu falou novamente da nossa separação.Contra a ordem de mamãe. e com a taquara escreveu uma palavra no chão.. inclinei-me e li: mentiroso. você vem? . diga-me. e pedi-lhe a taquara. ..Não diga isso! . Desde que se metera a desenhar. A voz. Não atinava com a . mas de um modo que me fez lembrar a definição de José Dias. Não me ouviu ou não me atendeu. com um pedaço de taquara.. como de um fato certo e definitivo. deixe escrever uma coisa. há de responder com o coração na mão. mas eu pergunto. . Capita. levantou o olhar. não quero disfarce. por mais que eu. mas para que escolher? Mamãe não é capaz de me perguntar isso. a quem é que escolhia? . Era tão estranho tudo aquilo. perguntou-me: . e sua mãe não quiser que você venha. .Dê cá.Não fale em morrer. Capitu! Capitu teve um risinho descorado e incrédulo. que não achei resposta. se você não vier logo. Suponha você que está no seminário e recebe a notícia de que eu vou morrer.Contra a ordem de sua mãe? .Eu? Fez-me sinal que sim. receoso disso mesmo. .Você deixa seminário. . riscava no chão.Diga-me uma coisa. sem levantar os olhos..Venho. para me ver morrer? .Pois sim.Se você tivesse de escolher entre mim e sua mãe. mas fale verdade. deixa sua mãe. quando não falava. buscasse agora razões para animá-la. oblíquo e dissimulado.Que é? Diga. tudo lhe servia de papel e lápis. quis fazer o mesmo no chão. Capitu olhou para mim. Como me lembrassem os nossos nomes abertos por ela no muro.. narizes e perfis.. CAPÍTULO 44 O PRIMEIRO FILHO . deixa tudo. .. um tanto sumida.Eu escolhia. era uma das suas diversões.

é melhor cônego. Ah! como eu sinto não ser um poeta romântico para dizer que isto era um duelo de ironias! Contaria os meus botes e os dela. Quem. você ouvirá a minha missa nova. A solidão era completa.razão do escrito. Muita gente há de perguntar: “Quem é aquela moça faceira que ali está com um vestido tão bonito?”. Carmo ou S. Tive então uma idéia ruim. Francisco. . mas tornando logo ao sarcasmo: E você no altar... a graça de um e a prontidão de outro. ninguém mais. Qualquer serve. “ . Capitu limitou-se a arregalar muito os olhos. . Mas talvez nesse tempo a moda seja outra. que o nome escrito por ela. e eu podia aceitá-la sem grande pena.Candelária também. . não há dúvida. Ao mesmo tempo tomei-me de receio de que alguém nos pudesse ouvir ou ler. cantando. mas não me lembrava nada. ou somente este fenômeno curioso. . até ao meu golpe final que foi este: . Lembra-me que umas andorinhas passaram por cima do quintal e foram para os lados do morro de Santa Teresa. com a mesma taquara. era pueril. mas até me pareceu que repercutia no ar. avise-me a tempo para fazer um vestido à moda saia balão e babados grandes. Pater noster.Bem. Se me acudisse ali uma injúria grande ou pequena.Padre é bom.Mas não se pode ser cônego sem ser primeiramente padre. e o sangue correndo. é possível que a escrevesse também.. . Pensando bem. se éramos sós? Dona Fortunata chegara uma vez à porta da casa. disse-lhe que. Ao longe. comece pelas meias pretas. metido na alva. Nada mais.Ou Candelária. O roxo é cor muito bonita. uma moça que morou na Rua de Mata-cavalos. A igreja há de ser grande. mas entrou logo depois. por causa das meias roxas.. vozes vagas e confusas. depois virão as roxas. mas com uma condição.Quem sabe onde é que há de morar amanhã? disse ela com um tom leve de melancolia.. com a capa de ouro por cima. O que eu não quero perder é a sua missa nova. . contanto que eu ouça a missa nova. mas eu sentia a secreta esperança de vê-la atirar-se a mim lavada em lágrimas. não só me espiava do chão com gesto escarninho. Como desforço. do lado da casa o chilrear dos passarinhos do Pádua. na rua um tropel de bestas. melhor que padre só cônego. e acabou por dizer: . e o furor na alma. afinal de contas. . como não atinava com a do falado. Hei de fazer um figurão. Tinha a cabeça vazia..Pois sim.Que morou? Você vai mudar-se? . Capitu. disse-lhe eu mordendo os beiços.“Aquela é Dona Capitolina. a vida de padre não era má.

. a separação absoluta. leva muitos anos.Vossa Reverendíssima pode falar..Diga se promete. Logo depois fez descair os lábios. . . prometo que há de batizar o meu primeiro filho.A primeira está prometida. sem crer por isso na veracidade do autor.Que é? .. . e não escreveria aqui uma coisa que vai talvez achar incrédulos. e antes não me chegasse a sair da boca: não ouviria o que ouvi. por haver-me acudido outra idéia. . Foi assim mesmo que Capitu falou. Chegue a deitar fora este livro.A segunda. com tais palavras e maneiras. CAPÍTULO 45 ABANE A CABEÇA. Falou do primeiro filho. Promete-me que seja eu o padre que case você? . não prometo. prometo outra coisa. tudo isso produzia um tal .Que me case? disse ela um tanto comovida. Aquela ameaça de um primeiro filho.Não. disse ela vendo-me hesitar. seria esperar muito tempo. . Quanto ao meu espanto. é que. LEITOR Abane a cabeça leitor. se também foi grande. você não vai ser padre já amanhã.Não sabendo o que é. e acrescentou que esperava a segunda. a aniquilação.Duas? Diga quais são. Olhe. .A falar verdade são duas coisas. Mas. disse.A primeira é que só se há de confessar comigo.. . Palavra que me custou. . veio de mistura com uma sensação esquisita. para eu lhe dar a penitência e a absolvição. faça todos os gestos de incredulidade.. continuei eu. o primeiro filho de Capitu. fio que torne a pegar do livro e que o abra na mesma página. A segunda é que..Ao que ela respondeu: . Percorreu-me um fluido. Bentinho. não há nada mais exato. e abanou a cabeça..Promete uma coisa? . se o não fez antes e só agora. a perda. sim.. Todavia. se o tédio já o não obrigou a isso antes tudo é possível.. como se fosse a primeira boneca. portanto.. o casamento dela com outro.

eu via o primeiro filho brincando no chão. e pedíamos reciprocamente perdão.. passei-lhe o braço pela cintura. Se. mas voltando os olhos para cima a fim de ver os meus.. e diria que as negociações partiram de mim. e finalmente “os seus calundus. depois quis levantar-me para ir embora. por que é que você me perguntou se eu tinha medo de apanhar? ... como penso. Outra vez Dona Fortunata apareceu à porta da casa. O bonito é que cada um de nós queria agora as culpas para si.Não foi por nada.. e.. foi ela que as iniciou. Fosse o que fosse. sem devoção. Capitu sorria. Era amor puro. que me deixei ficar. Para que bulir nisso? . acabou.Está bom. como as rezas de obrigação. depressa. era efeito dos padecimentos da amiguinha. Capitu não . desapareceu logo.Diga sempre. que era muito chorão por esse tempo.efeito. Não? Eu também não creio. como eu estivesse cabisbaixo. ela pegou-me na ponta dos dedos. respondeu Capitu. que se dizem de tropel. que não achei palavra nem gesto fiquei estúpido. o abatimento do espírito. a dor de cabeça.. depois de alguma hesitação.Foi. e a posição os fazia tão súplices. A explicação agradou-me. Buscasse eu neste livro a minha glória.. o meu braço continuou a apertar a cintura da filha. não tinha outra. se nem me deixou tempo de puxar o braço. disse eu finalmente. uma cerimônia. mas não. Podia ser um simples descargo de consciência.. Foi por causa do seminário? . CAPÍTULO 46 AS PAZES As Pazes fizeram-se como a guerra. sentia os olhos molhados. não sei para que. Capitu fitou-me uns olhos tão ternos.” Eu.. Fiz-me de rogado. ela abaixou também a cabeça. mas. Capitu alegava a insônia.. mas nem me levantei. Alguns instantes depois. ouvi dizer que lá dão pancada. a não ser que fosse para certificar aos próprios olhos a realidade que o coração lhe dizia.. era a ternura da reconciliação. explique-me só uma coisa. CAPÍTULO 47 “A SENHORA SAIU” . nem sei se iria. e foi assim que nos pacificamos.

Dizem que não estamos em idade de casar. porém. Bentinho. CAPÍTULO 48 JURAMENTO DO POÇO . juro por Deus Nosso Senhor que só me casarei com você. cumprirei o meu juramento. que somos crianças. no coração de Capitu. os nossos temores. achei a criada galante.. juremos que nos havemos de casar um com outro.já ouvi dizer criançolas.Mas eu também juro! Juro. Jurou duas vezes e uma terceira: . quando a senhora não quer falar a ninguém. Você pode achar outra moça que lhe queira.. começando já a somar as nossas saudades. não contando o prazer que dá a cara das visitas enganadas. e até lhe vi as faces vermelhas de prazer.Tudo pode ser.. ficou em casa. o tom da exclamação.Não quê? Tinha havido alguns minutos de silêncio.Que eu case com outra? . Você jura uma coisa? lura que só há de casar comigo? Capitu não hesitou em jurar..Não há de ser assim. Mas juremos por outro modo. força é reconhecer que não podia dizê-la.Devia bastar. Sim. ali ficamos somando as nossas ilusões. . eu não me atrevo a pedir mais. Capitu. melhor que a ama. cochilando o seu arrependimento. A verdade não saiu. apaixonar-se por ela e casar. continuei. não casando nunca. você jura. e as costas com que elas descem.Não! exclamei de repente. disse ela. E eu não desci triste nem zangado. As andorinhas vinham agora em sentido contrário. durante os quais refleti muito e acabei por uma idéia. Nós é que éramos os mesmos. . apetecível. e a mentira é dessas criadas que se dão pressa em responder às visitas que “a senhora saiu”.. haja o que houver.Ainda que você case com outra. ou não seriam as mesmas. Bem. criançolas. o pecado em comum iguala por instantes a condição das pessoas. Basta isto? .disse a verdade. foi tão alto que espantou a minha vizinha. . . Quem sou eu para você lembrar-se de mim nessa ocasião? . Há nessa cumplicidade um gosto particular. mas dois ou três anos passam depressa.

. Sim. uma sege e um oratório. Juramos pela segunda fórmula. e tinha? a vantagem de me fortalecer o coração contra a investidura eclesiástica. tínhamos o céu por testemunha. na roça ou fora da cidade. não tomo ordens. havíamos de ter um oratório bonito. após tantas canseiras. com a imagem de Nossa Senhora da Conceição. piloto de má morte. alto. mas faço de conta que é um colégio qualquer. mas dela. A cabeça da minha amiga sabia pensar claro e depressa. Eu prometia à minha esposa uma vida sossegada e bela. e ficamos tão felizes que todo receio de perigo desapareceu. A casa. em parte porque éramos religiosos.Compreendeis a diferença. Ao contrário. Havíamos de acender uma vela aos sábados. CAPÍTULO 50 . apenas exclusiva. Não afligíamos minha mãe. Não nos censures. a fórmula anterior era limitada. Podíamos acabar solteirões. Demorei-me mais nisto que no resto. CAPÍTULO 49 UMA VELA AOS SÁBADOS Eis aqui como. Esta reflexão não foi minha. irei. entramos a falar do futuro. mas acabou aceitando este alvitre. era mais que a eleição do cônjuge. onde. Éramos religiosos. como o sol e a lua.. qualquer resistência ao seminário confirmaria a denúncia de José Dias. Estávamos contentes.mas ainda restava uma parte que atribuo ao intuito secreto e inconsciente de captar a proteção do céu. era a afirmação do matrimônio.Se teimarem muito. não se navegam corações como os outros mares deste mundo. plantei-lhe flores. Esta fórmula era melhor. Capitu temia a nossa separação. Realmente. na minha opinião. e o tempo correria até o ponto em que o casamento pudesse fazer-se. Se fosse em arrabalde.. escolhi móveis. não devia ser grande nem pequena. de jacarandá. seria longe. sem mentir ao juramento do poço. em parte para compensar a batina que eu ia deitar às urtigas. tocávamos o porto a que nos devíamos ter abrigado logo. ninguém nos fosse aborrecer. um meio-termo. Eu nem já temia o seminário. que era o melhor. Viríamos aqui uma vez por ano.

antes de nascido. que nem teve tempo de ficar triste. por um modo que pede Capítulo especial. somaria mais que todas as vertidas desde Adão e Eva. tudo é infinito. Minha mãe também padeceu. em particular: .As promessas devem ser cumpridas conforme Deus quer. agarrou-se ao mais próximo. uma ou outra vez. não fico longe da verdade. se não vier em um ano.. E a mim. Não foi ainda a nossa despedida. beijou-lhe a mão. Há nisto alguma exageração. . Suponha que Nosso Senhor nega disposição a seu filho. fazendo vir do credor a relevação da dívida. Os olhos dela brilharam. que dentro de um ano a vocação eclesiástica do nosso Bentinho se manifesta clara e decisiva. e nesse caso. por mais preparado que estivesse. e um ano andava depressa. mas sofria com alma e coração.Vá por um ano. . mais tarde. seguiria outra carreira...Minha filha. e que o costume do seminário não lhe dá o gosto que me concedeu a mim. disse ele. Era uma concessão do padre. no fim de um ano as coisas estariam mudadas. Há de ser um padre de mão-cheia. o melhor remédio é a Europa. para compensar este escrúpulo de exatidão que me aflige. meu amiguinho.Estou certo. e disse-lhe que já sabia disso por mim mesmo. Se não sentir gosto nenhum. é que a vontade divina é outra. mas é bom ser enfático. José Dias. Capitu deu-me igual conselho. mas a boca disse que não. quando minha mãe lhe anunciou a minha ida definitiva para o seminário: .UM MEIO-TERMO Meses depois fui para o seminário de S. esta fez-se na véspera. José. Entretanto. demais. é que Deus não quer. só lhe parecia que um ano era bastante. o Padre Cabral achara um meio-termo. Se eu pudesse contar as lágrimas que chorei na véspera e na manhã. não tendo alcançado ir comigo para a Europa. se no fim de dois anos. Em particular animou-me a suportar tudo com paciência. você vai perder o seu companheiro de criança. como diz o padre. O que . e apoiou o “alvitre do senhor protonotário”. Realmente. aos quinze anos. padeci muito. uma vocação que Nosso Senhor lhe recusou. experimentar-me a vocação. piscando-me o olho.. A senhora não podia pôr em seu filho. Fez-lhe tão bem este tratamento de filha (era a primeira vez que minha mãe lhe dava)... um ano passa depressa. Dava a minha mãe um perdão antecipado. Também. se eu me ativer só à lembrança da sensação. eu não revelasse vocação eclesiástica.

e igualmente sensível. eu era puro. como fez as mãos limpas. Oh! minha doce companheira da meninice. em verdade. vivia ao pé dela. claros. Tudo isto me lembra a nossa despedida. CAPÍTULO 51 ENTRE LUZ E FUSCO Entre luz e fusco. é a nossa defesa. e antes dela a vocação. fez-se mais assídua e terna. fica. como no quintal. José. nem de ressaca. Logo cedo veio à nossa . Talvez risque isto na impressão. foi o mais que pôde. na sala de visitas. Eu não ia mentir ao seminário.. quando recebeu o mimo. ao passo que nos prendíamos um ao outro. Nem durou muito a nossa despedida. Mas a vocação eras tu. Juramos novamente que havíamos de casar um com outro. resolveu dar-lha. a investidura eras tu. e. se pensar.. Não consentiu em fotografar-se. e a malícia está antes na tua cabeça perversa que na daquele casal de adolescentes. E desde já fica. aí é que nos despedimos de uma vez. não eram oblíquos. eram direitos. deu-lhe um anel dos seus e algumas galanterias. não se descrevem. como a pequena lhe pedia. Os olhos de Capitu. se até lá não pensar de outra maneira. para lhe dar um retrato. com os olhos nela. depois de algumas hesitações. e puro fiquei. CAPÍTULO 52 O VELHO PÁDUA Já agora conto também os adeuses do velho Pádua. foi a conjunção das nossas bocas amorosas.unicamente digo aqui é que. Entrou a achar em Capitu uma porção de graças novas. minha mãe fez-lhe a mesma coisa a ela. uma vez que levava um contrato feito no próprio cartório do céu. em casa dela. Deus. Beijou o retrato com paixão. e puro entrei na aula de S. de dotes finos e raros. assim fez os lábios limpos. tudo há de ser breve como esse instante. a buscar de aparência a investidura sacerdotal. Quanto ao selo. O que o mandamento divino quer é que não juremos em vão pelo santo nome de Deus. ela ia prendendo minha mãe.. e não foi só o aperto de mão que selou o contrato. porque. lúcidos. mas tinha uma miniatura. antes do acender das velas.. Minha mãe era de natural simpático. feita aos vinte e cinco anos. tanto se doía como se aprazia de qualquer coisa.

Oh! obrigado! obrigado por mim e pela minha gente! Vou dá-lo à velha. Não. mas tive idéia de dá-lo ao pai. desfizeram-se.coisa que eu. se algum dia perder os seus parentes. ou à pequena. aduladores baixos. quando me casei. Padre que seja. O valor é a lembrança. guarde. por esta luz que me alumia. . Havia embrulhado em um papel um cacho dos meus cabelos. A mim e a toda a minha gente creia que ficam muitas saudades.Não esqueça o seu velho Pádua. e. Que lindos que são! Como é que se corta uma beleza destas? Dê cá um abraço! outro! mais outro! adeus! Tinha os olhos úmidos deveras.. não. eu não sou como outros. Suspirou e continuou: . pode contar com a nossa companhia. Se lhe disserem outra coisa. São intrigas. Quero só que me não esqueça.. . Enfim. Peguei do embrulho e dei-lho. são os mais felizes! “Por que falará assim? pensei.. excelentes pessoas. um botão de colete..eu sou de outra espécie.Seja feliz! disse-me. a nossa casa está às suas ordens. Também eu. Tive um sobressalto. qualquer coisa. levava a cara dos desenganados. mas a afeição é imensa. ao sair. Minha mãe disse-lhe que fosse falar-me ao quarto. coisa que já lhe não preste para nada.Um cachinho dos seus cabelos! exclamou Pádua abrindo e fechando o embrulho. Não é suficiente em importância. Fui apertar-lhe a mão. vindos de fora para desunião das famílias. como merece. A intenção era levá-los a Capitu.casa.. Se algum dia perder sua mãe e seu tio. . tão grandes e tão bonitos. como ia dizendo. como quem empregou em um só bilhete todas as suas economias de esperanças.. não desejo. . que é mais cuidadosa que a mãe.. Naturalmente sabe que José Dias diz mal dele.” . cortados na véspera.. um caderno latino. Deus é grande e descobre a verdade. porque são boas pessoas. creia. não acredite. e eu sou grato às finezas recebidas. para guardá-lo. ele abraçou-me com ternura.Dá licença? perguntou metendo a cabeça pela porta. e vê sair branco o maldito número. não esqueça o velho Pádua. a filha saberia tomá-lo e guardá-lo. fui vítima de intrigas. não vivo papando os jantares nem morando em casa alheia. certos parasitas. Todos nós estimamos muito ao senhor.um número tão bonito! .Mas. se tem algum trapinho que me deixe em lembrança.Aqui está.

é verdade. explicou-se.. . onde fui ver se era ainda possível evitar o seminário. Talvez chorasse mal ou nada. Quando minha mãe me deu o último beijo: “Quadro amantíssimo!” suspirou ele. a podridão alopata. Os moleques cochichavam. fazendo-me recomendações. até lá tudo estará arranjado. lembro-me deste: “Dividi-lo com Deus é ainda possuí-lo”. no quarto dele. e vai morrer. mas é melhor aprender logo tudo de uma vez. é o assassinato.Posso estudar medicina aqui mesmo.Anda lá. patologia. se na Escola de Medicina não ensinassem. as escravas tomam a bênção: “Bênção. emendando os descuidos de minha mãe. diz-se que padecem mais que as outras.Não duvidaria aprovar a idéia. composto e grave. rapaz. se não for. a alopatia é erro na terapêutica. não são alopáticas nem homeopáticas. volta-me papa! José Dias. Agora não dizia nada. Assim falara na véspera e no quarto. Já não era. quando eu lhe beijei a mão em despedida. não dizia nada a princípio. Prima Justina suspirava. nhô Bentinho! não se esqueça de sua Joana! Sua Miquelina fica rezando por vosmecê!” Na rua José Dias insistiu nas esperanças: .. Há pessoas a quem as lágrimas não acodem logo nem nunca. . é a ilusão. Se lhe disserem que pode aprender na Escola de Medicina aquela parte da ciência comum a todos os sistemas. exclusivamente.Dizem que não é bom tempo de atravessar o Atlântico. apertou os beiços. dando ordens. Como eu achasse muito breve. até que formalmente rejeitou o alvitre. iremos em março ou abril. anatomia. por livros e por língua de homens cultores da verdade. Tio Cosme. ou proferia algum aforismo sobre a religião e a família. disse-me rindo: . Minha mãe apertava-me ao peito. mas deu-me esperanças e principalmente animou-me muito. disse ele. A alopatia é o erro dos séculos. José Dias correu os dedos pelos suspensórios com um gesto de impaciência. Poupa-me as outras despedidas. . é a mentira. . vou indagar. Fisiologia. tínhamos falado na véspera. Antes de um ano estaríamos a bordo.Agüente um ano.CAPÍTULO 53 A CAMINHO! Fui para o seminário. Era manhã de um lindo dia. Prima Justina disfarçava naturalmente os seus padecimentos íntimos.

. passou. menos o Panegírico de Santa Mônica. Pedro e pedi-lhe que me mostrasse os versos novos. casara e esquecera tudo. incidentes de nada.. Ah! não vou contar o seminário. das pessoas que tratei. senhor meu amigo. Como eu precisasse de algumas informações.. umas vinte e nove páginas. fui pedir-lhas. copioso Naturalmente conversamos do passado.. um sermão do padre X. Alcançou licença de imprimi-lo. um livro. . .. baste o caso. . Vivemos algum tempo do nosso velho seminário. algum dia. certo.Ah! sorriu ele. Chamava-se. e seria impossível achar melhor nem mais pronta vontade. aqui mesmo no seminário tive um companheiro que compôs versos. a vida cara. Não.. é possível que componha um abreviado do que ali vi e vivi. e suspiramos de companhia. deu-me tudo. Esta sarna de escrever. Ou porque eram dele. não despega mais.. nem me bastaria a isso um Capítulo. as recordações traziam tal poder de . estava bom.. Pois não se lembra que no seminário. Não é preciso dizer o nome. claro. Foram cócegas da mocidade. Sorriu.. um verbo. Deixara seminário.Os seus. confessou-me que não fizera mais versos depois de ordenado. elogiado por algumas pessoas e então lido entre os seminaristas. indo ver certo negócio em repartição de marinha. feito chefe de uma seção administrativa. de todo o resto. deixara letras. memórias pessoais. Tudo isso é história velha... em 1882. e. Contrário a isso foi um seminarista que não seguiu a carreira. ali dei com este meu colega. dos costumes. Na mocidade é possível curar-se um homem dela. uma vigairaria mineira. quando pega aos cinqüenta anos. Ordenou-se anos depois encontrei-o no coro de S. ou porque éramos então moços.CAPÍTULO 54 PANEGÍRICO DE SANTA MÔNICA No Seminário. E falou-me em prosa de uma infinidade de coisas do dia. coçou-se. o que é mais moço é que um dia. e dedicou-o a Santo Agostinho.Que versos? perguntou meio espantado. um mote. que veio distribuindo pela vida fora. cujo livro de frade-poeta era recente. casos de estudo. Tinha composto um Panegírico de Santa Mônica. sem ir mais longe. sim. e continuando a procurar num livro aberto a hora em que tinha de cantar no dia seguinte. e rimos juntos. toda a velha palhada saiu cá fora. à maneira dos de Junqueira Freire.

fitando em mim uns olhos murchos e teimosos. e com uma dedicatória manuscrita e respeitosa. que não posso dar a ninguém.. mas sem lacuna. e ainda assim depois de algum tempo de .Bom tempo! suspirou ele.felicidade que.. e depois de alguns instantes de pesquisa mental. com o folheto.O meu Panegírico de Santa Mônica. como é lei da vida. perguntou-me: . mas as mudanças... as viagens.Panegírico? Que panegírico? . mas preferia outras. quase todos. Concordou que fossem belas. Ele. não apareceu agora. os recreios. após alguma reflexão. encardido.. disse-me. e naturalmente ouvia. os acontecimentos vêm uns sobre outros. Antes de vinte e quatro horas estava em minha casa.Recorda-se bem? . acentuando certas frases para lhe dar a impressão de que achavam eco em minha memória. lembra-se? o Padre Lopes. mas não tinha palavra. Vinte e seis anos de intervalo fazem morrer amizades mais estreitas e assíduas. agora só me resta um. Os anos passam. mas a explicação devia bastar. . mas só me disse uma palavra. voltaram naturalmente às suas províncias. disse-me.Também eu. um velho folheto de vinte e seis anos. . os padres. as lições.Veja se lhe lembra algum pedaço. com os olhos no ar. Não me lembrou logo.É o penúltimo exemplar. tentei mover os beiços. Pois. li uma delas. creia.. devia estar ouvindo. . meu caro colega.Perfeitamente. Panegírico de Santa Mônica! Como isto me faz remontar os anos da minha mocidade! Nunca me esqueceu o seminário. e vieram amizades novas que também se foram depois.. e as sensações também. afinal perguntei: . mas era cortesia. . uma vez ordenados. se alguma sombra contrária houve então. E como me visse folhear o opúsculo: . era quase caridade recordar alguma lauda. .. Ele confessou-me que perdera de vista todos os companheiros do seminário. E. e apontou-as.Hei de levar-lhe um exemplar. manchado do tempo. e os daqui tomaram vigairarias fora.Conservou o meu Panegírico? Não achei que dizer. nada fez apagar aquele tempo da nossa convivência. os nossos recreios. oh! o Padre Lopes. respondi que por muito tempo o conservara.

envolvido no lençol.silêncio. estando eu na cama como uma exclamação solta. Aguardei o resto. era uma exclamação. e então na moda. a poesia. recolhendo os olhos e um suspiro! . e coçava-me com alma. eu. Então adverti que os sonetos mais gabados eram os que concluíam com chave de ouro. e tanto de rima como de verso solto. Era um poema breve e prestadio. vinha mais nada. como ele dissera as suas no claustro. considerando que o verso final. Decorei bem o verso. mas podia ser a virtude. despediu-se e saiu. e. tratei de poetar. Fiquei só com o Panegírico.Tem agradado muito este meu Panegírico! CAPÍTULO 55 UM SONETO Dita a palavra. Ia ser poeta. e deitado ora sobre o lado direito. porém. não me deixou dormir uma longa hora ou duas. e ainda agora não me parece mau: Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura! Quem era a flor? Capitu. Tinha o alvoroço da mãe que sente o filho. a idéia viria depois. qualquer outro conceito a que coubesse a metáfora da flor. logo. e repetia-o em voz baixa. isto é. as cócegas pediam-me unhas. com dificuldade traria a . r afinal ative-me ao soneto. com os olhos no tecto. seminarista. ia competir com aquele monge da Bahia pouco antes revelado. e o primeiro verso é o que ides ler: Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura! Como e por que me saiu este verso da cabeça. um soneto. Não escolhi logo. pensei em compor com ele alguma coisa. a princípio cuidei de outra forma. e o primeiro filho. Assim na cama. e flor do céu. Antes. ora sobre o esquerdo. o primeiro verso não era ainda uma idéia. ao notar que tinha a medida de verso. recitando sempre verso. não sei. afinal deixei-me estar de costas. e porque também eu tive o meu Panegírico. aos lençóis. francamente achava-o bonito. Qual à idéia. musa de olhos arregalados. a religião. e o que as folhas dele me lembraram foi tal que merece um Capítulo ou mais. mas nem assim. Pensei em forjar uma de tais chaves. saindo cronologicamente dos treze anteriores. contarei a história de um soneto que nunca fiz: era no tempo do seminário. diria em verso as minhas tristezas. A insônia. naturalmente. apertou-me as mãos com as forças todas de um vasto agradecimento. saiu assim. um desses versos capitas no sentido e na forma. o soneto.

pensamento alevantado e nobre. Achei melhor a justiça. Recitei uma e muitas vêzes a chave de ouro. e falando como se fosse de outro. depois de muito suar. Tive alguns ímpetos de raiva. com a simples transposição de duas palavras. lembrou-me alterar o sentido do último verso. nem terceiro. ganha-se a batalha! Sem vaidade. se eles é que a suscitavam. é possível. Assim foi que me deter minei a compor o último verso do soneto. e recitei os dois versos. e fazer dela a luta pela pátria. que se não acabava de crer se ela é que os fizera. e gastei alguns minutos em escolher uma ou outra. Era mais próprio dizer que. imaginei que tais chaves eram fundidas antes da fechadura. pareceu-me melhor não ser Capitu. não há dúvida. cada um a seu modo. e ainda agora não explico por que via misteriosa entrou numa cabeça de tão poucos anos. mas talvez isso mesmo trouxesse a inspiração. Para me dar um banho de inspiração. à vista do último verso. não vinha nenhum. saiu este: Perde-se a vida. escrevendo.perfeição louvada.. Também me ocorreu aceitar a batalha. com a idéia em si. Esta acepção porém. A idéia agora. assim: Ganha-se a vida. Naquela ocasião achei-o sublime. Começar bem e acabar bem não era pouco. ganha-se a batalha! A sensação que tive é que ia sair um soneto perfeito. era um verso magnífico. na pugna pela justiça.. o segundo não vinha. Neste caso. Que não fosse novidade. perde-se a batalha! O sentido vinha a ser justamente o contrário. E tinha um pensamento. depois repeti os dois versos seguidamente. por exemplo. era uma ironia: não exercendo a . sendo o poeta um seminarista. seria a justiça. nem quarto. e novamente repetia o primeiro verso e esperava o segundo. e mais de uma vez pensei em sair da cama e ir ver tinta e papel. mas. tão naturalmente. a vitória ganha à custa da própria vida. mas afinal aceitei definitivamente uma idéia nova a caridade. mas também não era vulgar. e notei que os mais deles eram facílimos. Sonoro. Então tornava ao meu soneto. os versos acudissem. perder-se-ia acaso a vida. no sentido natural. pode ser que. Cansado de esperar. nesse caso a flor do céu seria a liberdade. e. mas a batalha ficava ganha. podia não caber tanto como a primeira. evoquei alguns sonetos célebres. um languidamente: Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura e o outro com grande brio: Perde-se a vida. e dispus-me a ligá-los pelos doze centrais. os versos saíam uns dos outros.

. acostumada a ajudá-los. e esta viva metáfora não me daria os versos esquivos. com as suas letras velhas e citações latinas. um dos quais é cônego na Bahia. creio que era quando os olhos me caíam na palavra do fim da página. senhores. Vi sair daquelas folhas muitos perfis de seminaristas. o calor do passado. dobrava a folha como se estivesse lendo de verdade. Quem não estivesse acostumado com ele podia acaso sentir-se mal. se não morreu já. Pelo tempo adiante escrevi algumas páginas em prosa. em qualquer ocasião de lazer. como as odes e os dramas. ainda que mais breve. inconscientemente. apesar de padre. Ao domingo. não achando maior dificuldade que escrever. não falava claro nem seguido as mãos não apertavam as outras. dou esses dois versos ao primeiro desocupado que os quiser. por exemplo. o meu próprio calor.. é possível que fosse pedir uma idéia à noite. não vieram os versos. CAPÍTULO 56 UM SEMINARISTA Tudo meia repetindo o diabo do opúsculo. se tivesse. um pouco fugitivos. um magricela. como os pés. e as demais obras de arte. Não fitava de rosto. Tudo é dar-lhe uma idéia e encher o centro que falta. Quantas outras caras me fitavam das páginas frias do Panegírico! Não. e a mão. tão recente como no primeiro dia.caridade. pode tentar ver se o soneto sai. nada me consola daquele soneto que não fiz. Eis aqui outro seminarista. como as mãos. como a fala. que está de vigário em Meia-Ponte. esperei. bem ou mal.. pode-se ganhar a vida. busquei. Pois. não seriam para mim como rimas das estrelas. fazia o seu ofício. Mas. ou se estiver chovendo. Não tinha janela. catei. olhos claros. e acabou senador do império. não sabendo por onde lhe pegasse. Era um encanto ir por ele. fez-se político. enquanto o outro seguiu medicina e dizem haver descoberto um específico contra a febre amarela. Chamava-se Ezequiel de Sousa Escobar era um rapaz esbelto. como eu creio que os sonetos existem feitos. Luís Borges. nem . os irmãos Albuquerques. Criei forças novas e esperei. E quem sabe se os vagalumes luzindo cá embaixo. e agora estou compondo esta narração. como tudo.. traziam o calor da juventude nascente. por uma razão de ordem metafísica. com os seus consoantes e sentidos próprios? Trabalhei em vão. Queria lê-las outra vez. e lograva entender algum texto. ou na roça. não eram frias. mas perde-se a batalha do céu. Vi o Bastos. às vezes.

. Não imagina que boa criatura que ela é. e o meio e o tempo os fizeram mais pousados. O mesmo digo dos pés. Escobar tinha uma irmã. não raro com janelas para todos os lados. que lia depressa estavam aqui como lá. até as palavras. a minha história. mas como as portas não tinham chaves nem fechaduras. Eu não era ainda casmurro. íamos dar com ele. Aqueles modos fugitivos. Respondia-nos sempre que meditava algum ponto espiritual. Também as há fechadas e escuras. muita vez.. Morreu pouco depois. hei de mostrar-lhe as cartas dela. como o resto. capelas e bazares. Esta dificuldade em pousar foi a maior obstáculo que achou para tomar os costumes do seminário. Outrossim. Uma coisa não seria tão fugitiva. é uma casa assim disposta. que servia de correspondente ao pai. mas também na bondade. A princípio. Não sei o que era a minha. todas as quais vinham a dar na bondade e no espírito daquela criatura. o receio é que me tolhia a franqueza. à semelhança de conventos e prisões. cogitando. tais eram que me fariam capaz de acabar casando com ela se não fosse Capitu. por que os dedos. sendo delgados e curtos. que era um anjo. Este era homem de fortes sentimentos católicos. Quando ele entrou na minha intimidade pedia-me freqüentemente explicações e repetições miúdas.Não é só na beleza que é um anjo. dizia ele. ou então que recordava a lição da véspera. cheias de carícias e conselhos. desde a porta da rua até o fundo do quintal. A alma da gente. logo. e Escobar empurrou-as e entrou. De fato. seduzido pelas palavras dele. mas também ria folgado e largo. interessantes.se deixavam apertar delas. mas ele fez-se entrado na minha confiança. fui tímido. Cá o achei dentro. cá ficou. eram simples e afetuosas. Eu. olhos enfiados em si. cessavam quando ele queria. simples alpendres ou paços suntuosos. Escobar contava-me histórias dela. a reflexão. quando a gente cuidava tê-los entre os seus. sem janelas ou com poucas e gradeadas. Talvez esta faculdade prejudicasse alguma outra. estive quase a contar-lhe logo. . como sabes. Escreve-me muita vez. Escobar veio abrindo a alma toda. e tinha memória para guardá-las todas. filho de um advogado de Curitiba. Era mais velho que eu três anos. nem dom casmurro. até que. bastava empurrá-las. aparentado com um comerciante do Rio de Janeiro. muita luz e ar puro. já não tinha nada. . O sorriso era instantâneo.

que pede umas linhas de repouso e preparação. a distancia. E aqui verás tal ou qual esperteza minha. Sirva este de preparação. Sim. Uma dessas. tais e tantas que eu não poderia dizê-las todas. dizia-me José Dias andando e comentando a queda. devia ser de pena ou de riso. e andavam. Por mais composto que este me saia. Não é que a matéria não ache termos honestos em nossa língua. e vi. e não este tique-tique afrancesado. há sempre no assunto alguma coisa menos austera. porquanto (e é isto que eu quisera dizer em latim). que é casta para os castos. o coração. ela ergueu-se muito vexada.CAPÍTULO 57 DE PREPARAÇÃO Ah! Mas não eram só os seminaristas que me iam saindo daquelas folhas velhas do Panegírico. vi cair na rua uma senhora. sem tirar espaço ao resto. sacudiu-se. Várias pessoas acudiram. . caíam. uma segunda-feira. CAPÍTULO 58 O TRATADO Foi o caso que. As nossas moças devem andar como sempre andaram. erguiam-se e iam-se embora. levava ligas de seda. e enfiou pela rua próxima. mas não tiveram tempo de a levantar. leitor meu amigo. não fica nunca. e o mal é menor mal. As meias e as ligas da senhora branqueavam e enroscavam-se diante de mim. voltando eu para o seminário. em tal caso. quando examina a possibilidade do que há de vir.Este gosto de imitar as francesas da Rua do Ouvidor. tique-tique. como pode ser torpe para os torpes. as proporções dos acontecimentos e a cópia deles. olhei para a outra rua. que ia no mesmo passo. leitora castíssima.. porquanto a senhora tinha as meias mui lavadas.. Já agora meto a história em outro Capítulo. a nossa desastrada. O meu primeiro gesto. ao ler o que vais ler. é provável que o aches menos cru do que esperavas. agradeceu. Também. e não as perdeu. porquanto. e das primeiras quisera contá-la aqui em latim. sem susto nem vexame. é evidentemente um erro. . Eu mal podia ouvi-lo. não foi uma nem outra coisa. Elas me trouxeram também sensações passadas. E isto é muito. fica robusto e disposto. com seu vagar e paciência. Quando chegamos à esquina. se não fica então. como diria o meu finado José Dias podeis ler o Capítulo até ao fim. e não as sujou.

Não podendo rejeitar de mim aqueles quadros. com certeza não dou nada.. mas por um modo que o não perdesse de todo. que eram assim difusas e confusas. o contrato fez-se tacitamente. nem foi preciso. Creio que foi “manha” que ele disse. ..Parece que não se machucou. Pegava depressa na oração. Tal haveria que nem levasse meias.. Não dormi mais. outras grossas. Uma multidão de abomináveis criaturas veio andar à roda de mim. tique-tique. Eram belas. como o melhor modo de temperar o caráter e aguerri-lo para os combates ásperos da vida. a quem não desejasse uma queda. tique-tique. é força confessar que tive de interromper mais de uma vez as minhas orações para acompanhar no escuro uma figura ao longe... com alguma repugnância. ave-marias. sonhei com elas. As visões feminis seriam de ora avante consideradas como simples encarnações dos vícios. De noite. e não as rejeitava. No seminário. mas tão depressa dormi como tornaram.. trepadas no ar. e por isso mesmo contempláveis. não vi mulher na rua. mas fez-se.. .. Vindo o mal pela manhã adiante. tentei vencê-lo. . mas é impossível que não tenha arranhado os joelhos. E por alguns dias.tique-tique. a algumas adivinhei que traziam as meias esticadas e as ligas justas. Acordei. Sábios da Escritura. Ou então. sempre no meio para concertá-la bem. faziam um vasto círculo de saias ou. umas finas. era eu mesmo que evocava as visões para fortalecer-me.. busquei afugentá-las com esconderijos e outros métodos. Não formulei isto por palavras. e lembravam-me a queda da senhora. com as mãos presas em volta de mim... até o seminário. mas certamente não unia a frase nova à antiga. Assim fui até madrugada. se iam embora. A cabeça ia-me quente. Foi isto.Tanto melhor para ela. a primeira hora foi insuportável. Já não era uma só que eu via cair. choviam pés e pernas sobre a minha cabeça. recorri a um tratado entre a minha consciência e a minha imaginação.. adivinhai o que podia ser. As batinas traziam ar de saias. aquela presteza é manha.. mostravam-me agora de relance as ligas azuis. eram azuis. disse eu. tique-tique. Vou esgarçando isto com reticências para dar uma idéia das minhas idéias. todas ágeis como o diabo. e o andar não era seguro. como se não tivesse havido interrupção. Dali em diante. e. e credos. todas as que eu encontrara na rua. e sendo este livro a verdade pura. Mas eu as via com elas... eu fiquei “nos joelhos arranhados”... rezei padre-nossos. senão quando elas mesmo de cansadas.. Também é possível.

A vida é cheia de tais convivas. Um antigo dizia arrenegar de conviva que tem boa memória. sem guardar delas nem caras nem nomes.CAPÍTULO 59 CONVIVAS DE BOA MEMÓRIA Há dessas reminiscências que não descansam antes que a pena ou a língua as publique. mas era um antigo. E antes seja olvido que confusão. todos me aparecem agora com as suas águas. Como eu invejo os que não esqueceram a cor das primeiras calças que vestiram! Eu não atino com a das que enfiei ontem Juro só que não eram amarelas porque execro essa cor. e somente raras circunstancias. Nada se emenda bem nos livros confusos. e os clarins soltam as notas que dormiam no metal. Ao contrário. Assim preencho as lacunas alheias. não. as suas árvores. e os generais sacam das espadas que tinham ficado na bainha. O que faço. mas isso mesmo pode ser olvido e confusão. os seus altares. e fiz mais: pus-lhe não só o que faltava da santa. Quantas idéias finas me acodem então! Que de reflexões profundas! Os rios. mas ainda coisas que não eram dela. Eu. as igrejas que não vi nas folhas lidas. o seminarista Escobar e vários outros. as montanhas. quando leio algum desta outra casta. com os seus eternos móveis e costumes. é que se lhe grava tudo pela continuidade e repetição. as ligas. A quem passe a vida na mesma casa de família. as meias. Viste o soneto. pessoas e afeições. explico-me. não me aflijo nunca. leitor amigo. mas tudo se pode meter nos livros omissos. é comparável a alguém que tivesse vivido por hospedarias. e tudo marcha com uma alma imprevista que tudo se acha fora de um livro falho. e basta. . Vais agora ver o mais que naquele dia me foi saindo das páginas amarelas do opúsculo. e eu sou acaso um deles. CAPÍTULO 60 QUERIDO OPÚSCULO Assim fiz eu ao Panegírico de Santa Mônica. conquanto a prova de ter a memória fraca seja exatamente não me acudir agora o nome de tal antigo. Não. a minha memória não é boa. assim podes também preencher as minhas. em chegando ao fim. é cerrar os olhos e evocar todas as coisas que não achei nele.

mas que mais presta um velho par de chinelas? Entretanto. a porta da casa. como a pedra da rua. Justamente. Para que não aconteça o mesmo aos outros profissionais que porventura me lerem. E se a comparação não vale. que falava de mim todos os dias. e acrescentasse alguma palavra relativamente aos dotes que Deus lhe dera. quase a todas as horas. e qual é ele? perguntou escrevendo a resposta nos olhos. ao entrar ela. ou as descalçava à noite. quando contei o pregão das cocadas.Querido opúsculo. Já agora creio que não basta que os pregões de rua. sem o que tudo é calado e incolor. Tio Cosme também se enternecia muito. e contava-me tudo isso cheio de uma admiração lacrimosa. trazidas por José Dias ao seminário. acudi eu. não deixam de lembrar que uma pessoa as calçava de manhã. Gastas e rotas. encerrem casos. como aquele das cocadas que contei no cap. sem embargo das palavras de conforto que me deram os padres e os seminaristas. tu não prestavas para nada. e grudá-lo às pernas do Capítulo. aqui estão outras lembranças. mestre de música. Se depois jarretei o Capítulo. um assobio particular. 18. . Mas. Como a aprovasse sempre. me confessou ingenuamente não achar no trecho escrito nada que lhe acordasse saudades. disse-me este. . vamos ao mais que me foi saindo das páginas amarelas. e as de minha mãe e tio Cosme. nem ponho. Vês que não pus nada. foi porque outro músico. um pregão de quitanda. José Dias apertou-me as mãos com alvoroço.Todos estão saudosos.Mamãe. o desvanecimento de minha mãe nessas ocasiões era indescritível. como os opúsculos de seminário. . fiquei tão curtido de saudades que me lembrou fazê-lo escrever por um amigo. porque as chinelas são ainda uma parte da pessoa e tiveram o contato dos pés. ao erguer da cama. CAPÍTULO 61 A VACA DE HOMERO O mais foi muito. é preciso que a gente os tenha conhecido e padecido no tempo. a quem o mostrei. Vi saírem os primeiros dias da separação. duros e opacos. mas a maior saudade está naturalmente no maior dos corações. pessoas e sensações. e logo pintou a tristeza de minha mãe. melhor é poupar ao editor do livro o trabalho e a despesa da gravura. há muita vez no casal de chinelas um como aroma e calor de dois pés.

lembra-me como se fosse hoje.. as pálpebras não lhe caíram nem as pupilas fizeram os movimentos anteriores.. quando muito. e assim ficaram por alguns instantes. Desta vez a fulguração dos olhos foi menor. e os olhos fixaram-se na parede do pátio. Tendo eu dito à Excelentíssima que Deus lhe dera. mas um anjo do céu e doutor ficou tão comovido que não achou outro modo de vencer o choro senão fazendo-me um daqueles elogios de galhofa que só ele sabe. não um filho. mas ainda que não chegue a ordenar-se. disse um deles. Eu é que não gostei nada.Mas. Ou ela não fosse mãe! Que coração amantíssimo! . se não era em si mesmos. no pode ter melhores estudos que os que fizer aqui. não se perde nada em ir sabendo já daqui alguma coisa.Era melhor que fosse este mesmo ano. já por acanhamento. O lente de teologia gostou da metáfora. vinham caminhando na nossa direção. até que novamente se ergueram. senhor José Dias..Isso é negócio meu. Podia compará-lo aqui à vaca de Homero. depois despegaram-se da parede e entraram a vagar pelo pátio todo.Ontem até se deu um caso interessante.. Neste ponto. Ao contrário. cortejou-os com as deferências devidas. e pediu-lhes notícias minhas. e logo . Tenha paciência. Conto ouvir-lhe a missa nova. mas parece que dará conta da mão. Não é preciso dizer que Dona Glória enxugou furtivamente uma lágrima.. o agregado. mas demos tempo em tempo. Para a viagem da existência. não escrevia nem orava. explicando que eram idéias que lhe escapavam no correr da conversação. que os conhecia. irá ungido com os santos óleos da teologia. e vale sempre entrar no mundo ungido com os santos óleos da teologia. mas pode fazer-se daqui a um ou dois anos. ainda não acabando padre a vida do seminário é útil. em 1859 ou 1860. .. como que embebidos em alguma coisa. e disse-lho..O que eu lhe dizia agora mesmo. acudiu José Dias. Ao passarem por nós. já porque dois lentes. . ele agradeceu. e a minha saída daqui? . demais. um sorriso claro e amigo lhe errava nos lábios.Tão tarde! .os olhos de José Dias fulguraram tão intensamente que me encheram de espanto As pálpebras caíram depois. vá estudando. um deles de teologia. . e.Por ora nada se pode afiançar. Não lhe perguntei o que é que tinha. concluiu demorando mais as palavras. todo ele era atenção e interrogação. andava e gemia em volta da cria que acabava de parir. A viagem à Europa é o que é preciso.

que os lentes se foram, sacudi a cabeça:
- Não quero saber dos santos óleos da teologia; desejo sair daqui o mais
cedo que puder, ou já...
- Já, meu anjo, não pode ser; mas pode suceder que muito antes do que
imaginamos. Quem sabe se este mesmo ano de 58? Tenho um plano feito, e
penso já nas palavras com que hei de expô-lo a Dona Glória; estou certo
que ela cederá e irá conosco.
- Duvido que mamãe embarque.
- Veremos. Mãe é capaz de tudo; mas, com ela ou sem ela, tenho por certa
a nossa ida, e não haverá esforço que eu não empregue, deixe estar.
Paciência é que é preciso. E não faça aqui nada que dê lugar a censuras
ou queixas; muita docilidade e toda a aparente satisfação. Não ouviu o
elogio do lente? É que você tem-se portado bem. Pois continue.
- Mas, 1859 ou 1860 é muito tarde.
- Será este ano, replicou José Dias.
- Daqui a três meses?
- Ou seis.
- Não; três meses.
- Pois sim. Tenho agora um plano, que me parece melhor que outro
qualquer. É combinar a ausência de vocação eclesiástica e a necessidade
de mudar de ares. Você por que não tosse?
- Por que não tusso?
- Já, já, não, mas eu hei de avisar você para tossir, quando for
preciso, aos poucos, uma tossezinha seca, e algum fastio; eu irei
preparando a Excelentíssima... Oh! tudo isto é em benefício dela. Uma
vez que o filho não pode servir a Igreja, como deve ser servida, o
melhor modo de cumprir a vontade de Deus é dedicá-lo a outra coisa. O
mundo também é igreja para os bons...
Pareceu-me outra vez a vaca de Homero, como se este “mundo também é
igreja para os bons”, fosse outro bezerro, irmão dos “santos óleos da
teologia.” Mas não dei tempo à ternura materna, e repliquei:
- Ah! entendo! mostrar que estou doente para embarcar, não é?
José Dias hesitou um pouco, depois explicou-se:
- Mostrar a verdade, porque, francamente, Bentinho, eu há meses que
desconfio do seu peito. Você não anda bom do peito. Em pequeno, teve
umas febres e uma ronqueira... Passou tudo, mas há dias em que está mais
descorado. Não digo que já seria o mal, mas o mal pode vir depressa.
Numa hora cai a casa. Por isso, se aquela santa senhora não quiser ir
conosco,- ou para que vá mais depressa, acho que uma boa tosse... Se a

tosse há de vir de verdade, melhor é apressá-la... Deixe estar, eu
aviso...
- Bem, mas em saindo daqui não há de ser para embarcar logo; saio
primeiro, depois cuidaremos do embarque; o embarque é que pode ficar
para o ano. Não dizem que o melhor tempo é abril ou Maio? Pois seja
maio. Primeiro deixo o seminário daqui a dois meses...
E porque a palavra me estivesse a pigarrear na garganta, dei uma volta
rápida, e perguntei-lhe à queima-roupa:
- Capitu como vai?

CAPÍTULO 62
UMA PONTA DE IAGO
A pergunta era imprudente, na ocasião em que eu cuidava de transferir o
embarque. Equivalia a confessar que o motivo principal ou único da minha
repulsa ao seminário era Capitu, e fazer crer Improvável a viagem.
Compreendi isto depois que falei; quis emendar-me, mas nem soube como,
nem ele me deu tempo.
- Tem andado alegre, como sempre; é uma tontinha. Aquilo enquanto não
pegar algum peralta da vizinhança, que case com ela...
Estou que empalideci; pelo menos, senti correr um frio pelo corpo todo.
A notícia de que ela vivia alegre, quando eu chorava todas as noites,
produziu-me aquele efeito, acompanhado de um bater de coração, tão
violento, que ainda agora cuido ouvi-lo. Há alguma exageração nisto; mas
o discurso humano é assim mesmo, um composto de partes excessivas e
partes diminutas, que se compensam, ajustando-se. Por outro lado, se
entendermos que a audiência aqui não é das orelhas, senão da memória,
chegaremos à exata verdade. A minha memória ouve ainda agora as
pancadas
do coração naquele instante. Não esqueças que era a emoção do primeiro
amor. Estive quase a perguntar a José Dias que me explicasse a alegria
de Capitu, o que é que ela fazia, se vivia rindo, cantando ou pulando,
mas retive-me a tempo, e depois outra idéia...
Outra idéia, não,- um sentimento cruel e desconhecido, o pulo ciúme,
leitor das minhas entranhas. Tal foi o que me mordeu, ao repetir comigo
as palavras de José Dias: “Algum peralta da vizinhança.” Em verdade,
nunca pensara em tal desastre. Vivia tão nela, dela e para ela, que a
intervenção de um peralta era como uma noção sem realidade; nunca me

acudiu que havia peraltas na vizinhança, vária idade e feitio, grandes
passeadores das tardes. Agora lembrava-me que alguns olhavam para
Capitu,- e tão senhor me sentia dela que era como se olhassem para mim,
um simples dever de admiração e de inveja. Separados um do outro pelo
espaço e pelo destino, o mal aparecia-me agora, não só possível mas
certo. E a alegria de Capitu confirmava a suspeita; se ela vivia alegre
é que já namorava a outro, acompanhá-lo-ia com os olhos na rua,
falar-lhe-ia à janela, às ave-marias, trocariam flores e...
E... quê? Sabes o que é que trocariam mais- se o não achas por ti mesmo,
escusado é ler o resto do Capítulo e do livro, não acharás mais nada,
ainda que eu o diga com todas as letras da etimologia. Mas se o achaste,
compreenderás que eu, depois de estremecer, tivesse um ímpeto de
atirar-me pelo portão fora, descer o resto dai ladeira, correr, chegar à
casa do Pádua, agarrar Capitu e intimar-lhe que me confessasse quantos,
quantos, quantos já lhe dera o peralta da vizinhança. Não fiz nada. Os
mesmos sonhos que ora conto não tiveram, naqueles três ou quatro
minutos, esta lógica de movimentos e pensamentos. Eram soltos, emendados
e mal emendados, com o desenho truncado e torto, uma confusão, um
turbilhão, que me cegava e ensurdecia. Quando tornei a mim, José Dias
concluía uma frase, cujo princípio não ouvi, e o mesmo fim era vago: “A
conta que dará de si.” Que conta e quem? Cuidei naturalmente que falava
ainda de Capitu, e quis perguntar-lho, mas a vontade morreu ao nascer,
como tantas outras gerações delas. Limitei-me a inquirir do agregado
quando é que iria a casa ver minha mãe.
- Estou com saudades de mamãe. Posso ir já esta semana?
- Vai sábado.
- Vai sábado.
- Sábado? Ah! sim! sim! Peça a mamãe que me mande buscar sábado!
Sábado!
Este sábado, não? Que me mande buscar, sem falta.

CAPÍTULO 63
METADES DE UM SONHO
Fiquei ansioso pelo sábado. Até lá os sonhos perseguiam-me, ainda
acordado, e não os digo aqui para não alongar esta parte do livro. Um só
ponho, e no menor número de palavras, ou antes porei dois, porque um
nasceu de outro, a não ser que ambos formem duas metades de um só. Tudo

Não sonhei mais aquela noite. que o céu nos dá todos os dias e todos os meses. ou uma pastoral. o peralta fora levar-lhe a lista dos prêmios da loteria. esquecer tudo para dormir. meu rapaz. Quanto ao sonho foi isto.isto é obscuro. mas a culpa é do vosso sexo. Sobre a madrugada. nem bilhetes de loterias. que perturbava assim a adolescência de um pobre seminarista. nem sortes grandes ou pequenas. se papa. Esse mesmo trabalho fez-me perder o sono até à madrugada. todos os destinos estão neste século. Enquanto ele falava. acode-me uma idéia e um escrúpulo. Pádua desapareceu. Corri ao lugar. quando ele de si mesmo a deu. estava deserta. se bispo. e o bilhete saíra branco. mas não estava só tinha o pai ao pé de si. e provavelmente a roda andara mal.. não a havendo mais banal na terra. tenente e imperador. Disse-me que esta simetria de algarismos era misteriosa e bela. Não fosse ele. era impossível que não devesse ter a sorte grande. CAPÍTULO 64 UMA IDÉIA E UM ESCRÚPULO Relendo o Capítulo passado. Peguei-lhe nas mãos. dona leitora. como as suas esperanças do bilhete. mas não dormia. Como estivesse a espiar os peraltas da vizinhança. e olhei para as . E aqui entra a segunda parte do sonho. Tinha o número 4004. Nunca dos nuncas poderás saber a energia e obstinação que empreguei em fechar os olhos. Capitu dava-me com os olhos todas as sortes grandes e pequenas. enxugando os olhos e mirando um triste bilhete de loteria. Capitu inclinou-se para fora. eu relancei os olhos pela rua. como me recomendara tio Cosme: “Anda lá. mas então nem peraltas. O escrúpulo é justamente de escrever a idéia. A maior destas devia ser dada com a boca. resmunguei não sei que palavras. e dei mal as lições daquele dia. se eu fosse padre. ele fugiu. consegui conciliá-lo. mas nos esforços que fiz para ver se dormia novamente e pegava nele outra vez. posto que daquela banalidade do sol e da lua. volta-me papa!” Ah! por que não cumpri esse desejo? Depois de Napoleão. Não me parecendo isto claro. vi um destes que conversava com a minha amiga ao pé da janela. Deixei o manuscrito. ou uma encíclica. ia pedir a explicação. e este livro seria talvez uma simples prática paroquial.nada dos nadas veio ter comigo. avancei para Capitu. e acordei sozinho no dormitório. apertá-los bem. O interesse do que acabas de ler não está na matéria do sonho.

o meu fim em imitar a outra foi ligar as duas pontas da vida. Os sonhos antigos foram aposentados.paredes. Estes. Como eu insistisse. onde ela tinha o seu palácio. Tal é a idéia banal e nova que eu não quisera pôr aqui e só provisoriamente a escrevo. Estava deliciosamente bela. Outrossim. Os padres gostavam de mim. os rapazes também. fechei a janela e vim acabar este capítulo para ir dormir. Mas os tempos mudaram tudo. Sabes que esta casa do Engenho Novo. por mais que tentasse dormir e dormisse. e donde os fazia sair com as suas caras de vária feição. basta-me um sono quieto e apagado. e não continuam mais A noite não me respondeu logo. fui à janela indagar da noite por que razão os sonhos hão de ser assim tão tênues que se esgarçam ao menor abrir de olhos ou voltar de corpo. nas dimensões. é reprodução da minha antiga casa de Mata-cavalos. No fim de cinco semanas estive quase a contar a este as minhas penas e esperanças. como te disse no Capítulo II. nem outros. e eu acabei afeiçoando me à vida nova. disposições e pinturas. Era uma alusão às Filipinas. Donde concluo que um dos oficiais do homem é fechar e apertar muito os olhos a ver se continua pela noite velha o sonho truncado da noite moça. com a fresca. chegaram outros sábados. CAPÍTULO 65 A DISSIMULAÇÃO Chegou Sábado. como a dos amores. a ilha dos sonhos. Antes de concluir este Capítulo. e Escobar mais que os rapazes e os padres. Pois que não amo a política. irei dizendo o mais da minha história e suas pessoas. Capitu! . De manhã. Pois o mesmo sucedeu àquele sonho do seminário. ainda que quisessem imitar os outros. os morros palejavam de luar e o espaço morria de silêncio. e ainda menos a política internacional. não poderiam fazê-lo. Não peço agora os sonhos de Luciano. e os modernos moram no cérebro da pessoa.Escobar é muito meu amigo. declarou-me que os sonhos já não pertencem à sua jurisdição Quando eles moravam na ilha que Luciano lhes deu. dar-me-ia explicações possíveis. Capitu refreou-me. Ia alternando a casa e o seminário. como todas as ilhas de todos os mares. o que aliás na alcancei. filhos da memória ou da digestão. . são agora objeto da ambição e da rivalidade da Europa e dos Estados Unidos.

na manhã seguinte. e. mas também meu. se puder. interrompeu minha mãe voltando-se para a filha do Pádua que estava na sala. e lançando-lhe em rosto. respondeu Capitu cheia de convicção. Outra coisa em que obedeci às suas reflexões foi.Acho que sim. podia indagá-lo do pai e da mãe. e eu não lhe dou licença de dizer nada a pessoa nenhuma. ele já me disse que há de vir cá para conhecer mamãe.. calei-me e obedeci. ainda duvida que saia daqui um bom padre? .Pode vir a ser. e perguntou-me como é que queria que se portasse.E você. Para mim. basta o nosso juramento de que nos havemos de casar um com outro. também tivera noites desconsoladas. Foi à minha terceira ou quarta vinda à casa. senhora..Mas não é meu amigo. você não tem direito de contar um segredo que não é só seu. me aconselhou a ir embora. uma vez que suspeitavam de nós. elas tratariam de separar-nos mais.. para que não pareça que a denúncia de José Dias é verdadeira. Se parecesse. com ela. Assim lhe disse..Com Dona Glória e Dona Justina mostro-me naturalmente alegre.senhor José Dias. no quintal dela. concluiu voltando-se para José Dias: . os estudos.. tudo o que a ternura das mães inventa para cansar a paciência de um filho. depois que lhe respondi às mil perguntas que me fez sobre o tratamento que me davam. . Era justo. .Não importa. Em tudo isso mostrava a minha amiga tanta lucidez que eu bem podia deixar de citar um terceiro exemplo. após alguns minutos de conversa. ou todo. A mãe chegou a dizer-lhe. a alegria que ela mostrara desde a minha entrada no seminário. e este é tão bom que a omissão seria um crime. por palavras encobertas. logo no primeiro sábado. Não gostei da convicção. e se dormia bem. a disciplina.. Capitu fez-se muito séria. e se me doía alguma coisa. quando eu vivia curtido de saudades. . recordando as palavras da véspera.Excelentíssima. quando eu fui à casa dela. É natural que Dona Glória queira estar com você muito tempo. . pela primeira vez. que não pensasse mais em mim.você não acha que o nosso Bentinho dará um bom padre? . Capitu. vá para casa. mas os exemplos não se fizeram senão para ser citados. em casa dela. e os dias. as relações. Minha mãe. foram tão tristes como os meus. e talvez acabassem não me recebendo. .Hoje não fique aqui mais tempo. . que eu lá vou logo.

logo que almocei. falando de mim.Era isto mesmo. Tanto melhor para a justiça dela. . feita de azedume e de implicância. e olhou para mim interrogativamente. em todo caso. Esta opinião. Capitu ia lá coser. estando a falar de moças que se casam cedo. o louvor dos mortos é um modo de orar por eles. multiplicam os cuidados. Viviam o mais do tempo juntas. nas maneiras e na agudeza de espírito. segundo tio Cosme. devíamos dissimular para matar qualquer suspeita. Capitu. às manhãs.Não é? disse ela com ingenuidade. e. concluí eu. explica-se que não desestimasse a dona e calasse os seus ressentimentos. mais assíduas. Eu. corri a referir-lhe a conversa e a louvar-lhe a astúcia. a propósito do sol e da chuva. José Dias não dessorriu. Capitu sorriu de agradecida. e os últimos seis meses acabaram separados.Você tem razão. Como vivesse de favor na casa. Capitu lhe dissera: “Pois a mim quem me há de casar há de ser o padre Bentinho. contou que. ou se algum mal pensou dela foi entre si e o travesseiro.as pessoas assim dispostas excedem os serviços naturais. fazem-se mais risonhas. alguma vez ficava para jantar. Mas o exemplo completa-se com o que ouvi no dia seguinte. precedem os fâmulos. vamos enganar toda esta gente. não existiria homem capaz de competir com ele na afeição. Não penso que ela aspirasse a algum legado. mas não tratava de todo mal a minha amiga. e construir tranqüilos o nosso futuro. pois em vida andavam às brigas. eu espero que ele se ordene!” Tio Cosme riu da graça. e não sentia bem de pessoa alguma Talvez do marido. dizendo tio Cosme que ainda queria ver com que mão havia eu de abençoar o povo à missa. . ou só . e tratei de comer. só prima Justina é que franziu a testa. CAPÍTULO 66 INTIMIDADE Capitu ia agora entrando na alma de minha mãe. no trabalho e na honestidade. ao almoço. Prima Justina não acompanhava a parenta naquelas finezas. Compreende-se que. estava tão contente com aquela grande dissimulação de Capitu que não vi mais nada. não pude resistir ao gesto da prima. lhe desse a estima devida. era póstuma. mas o marido era morto. e ao mesmo tempo gozar toda a liberdade anterior. dias antes. minha mãe. Era assaz sincera para dizer o mal que sentia de alguém. de aparência. Mas comi mal. ou de nada. Também gostaria de minha mãe. Tudo isso era contrário à natureza de prima Justina. que havia olhado para todos.

Caso tivesse ressentimentos de minha mãe. mas vão buscá-lo. Prima Justina tolerava esses cuidados. prima Justina acabava sorrindo. o silêncio.. atenta. a febre passa. outro dia. como negócio simples.. já. Capitu. Em vão tio Cosme: . O coração batia-me com força. minha mãe amanheceu tão transtornada que ordenou me mandassem buscar ao seminário. Contou particularmente ao reitor o que havia.Mana Glória.. desde que a não via. . e recebi licença para ir a casa. quis que Capitu lhe servisse de enfermeira. você assusta-se sem motivo. não perdoou à minha amiga a intervenção.Vamos assustá-lo. rindo. e a minha alma não se salva. Na rua. posto que isto a aliviasse de cuidados penosos. Só me falara na doença. Cuidaram fosse delírio. não custando nada trazer-me. eu temendo ler no rosto dele alguma notícia dura e definitiva. o que tiver de ser seu às mãos lhe há de ir”. nem ela precisava de razões suplementares. inda que azedo mas a sós com minha mãe achava alguma palavra ruim que dizer da menina. mas o chamado. perguntou-lhe se não tinha que fazer em casa. já.mas cabisbaixo e suspirando.a premissa antes da conseqüência. A vida é cheia de obrigações que a gente cumpre.. mais de uma vez . não se demorem. por mais vontade que tenha de as infringir deslavadamente. Demais. não era uma razão mais para detestar Capitu.Não! não! mandem buscá-lo! Posso morrer. Um dia. indagava dela e ia procurá-la. a conseqüência antes da conclusão. Capitu usava certa magia que cativa. com o tempo trocou de maneiras e acabou fugindo-lhe. a intimidade de Capitu fê-la mais aborrecível à minha parenta Se a princípio não a tratava mal. Como minha mãe adoecesse de uma febre. íamos calados. José Dias foi incumbido do recado. os suspiros podiam dizer alguma coisa mais. se Bentinho não estiver ao pé de mim.dissesse mal dela a Deus e ao Diabo.Pois não lhe digam nada. CAPÍTULO 67 UM PECADO Já agora não tiro a doente da cama sem contar o que se deu comigo. soltou-lhe este epigrama: “Não precisa correr tanto. ele não alterando o passo do costume. Entrou tão atordoado que me assustou. . Prima Justina. . Contudo. as pernas bambeavam-me. Ao cabo de cinco dias. que a pôs às portas da morte.mas.

. pois nada articulou parecido com palavras. sem ousar abrir a boca. como uma necessidade da obra humana. com a perspectiva da liberdade certa... mas muito além da dos inválidos. aceitando o pior. que não podia ser pesar do meu pecado. que é feio um mocinho da sua idade andar chorando na rua. mas uma idéia que poderia ser traduzida por elas: “Mamãe defunta. de ver um corpo defunto. O anseio de escutar a verdade complicava-se em mim com o temor de a saber. Senti uma angústia grande. A rua. para combater o Terror. me encarava com os olhos furados e escuros. .. Enxugue os olhos.. mas então era sempre a morte de minha mãe. o centésimo de um instante.. Quanto mais andava aquela Rua dos Barbonos. pelo efeito do remorso que me ficou. de ouvir os prantos.. quisera interrogar o meu companheiro. cheguei aos Arcos. Ia só andando. mas agora. Foi uma sugestão da luxúria e do egoísmo. as casas voavam de um e outro lado. A piedade filial desmaiou um instante. não estas palavras. Leitor. Oh! eu não poderia nunca expor aqui tudo o que senti naqueles terríveis minutos. Fui.Não! não! Que idéia é essa? O estado dela é gravíssimo.. A casa não era logo ali. e foi então que a Esperança.. Não há de ser nada.. assim também se vão embora. menos que um instante. Era a primeira vez que a morte me aparecia assim perto. Bentinho? . e eu quis pedir-lhe que não dissesse nada a ninguém. foi um instante. de entrar. me segredou ao coração. Uma vez olhou para mim tão cheio de pena que me pareceu haver-me adivinhado. Tão depressa alumiou a noite. foi um relâmpago. e não pude mais. Mas a pena trazia tanto amor. chorei de uma vez. já nem tinha tal desejo. pelo desaparecimento da dívida e do devedor.. ainda assim o suficiente para complicar a minha aflição com um remorso. e Deus pode tudo. uma febre. mas não é mal de morte. por mais que José Dias andasse superlativamente devagar.. José Dias suspirava. Com os . me envolvia. como um gesto do destino. um nó na garganta. Três ou quatro vezes.? . e a escuridão fez-se mais cerrada. perto da do Senado. acaba o seminário”. entrei na Rua de Mata-cavalos. mais me aterrava a idéia de chegar a casa. parecia fugir-me debaixo dos pés. assim como dão com força. que eu ia castigar-me. etc.Mamãe. As febres. como se esvaiu.cuidei cair. e uma corneta que nessa ocasião tocava no quartel dos Municipais Permanentes ressoava aos meus ouvidos como a trombeta do juízo final.Que é.

debruçado sobre a cama. foi aquele gravíssimo. Estava queimando os olhos ardiam nos meus. pensei em dizer tudo a minha mãe. subi trêmulo os seis degraus da escada. e. José Dias fez crescer a minha tristeza se achares neste livro algum caso da mesma família. e pedir perdão a minha mãe do ruim pensamento que tive. posto que de todas as palavras de José Dias uma só me ficasse no coração. mas como este era alto. chamando-me seu filho. mas saindo de almas cândidas e verdadeiras tais promessas são como a moeda fiduciária. era uma veleidade pura. repito. mas não suspeitou naturalmente todas as causas da minha aflição. Vi depois que ele só queria dizer grave. Padre que me lês. explica tudo. gostou de ver a minha entrada. onde está o lenço? Enxuguei os olhos. perdoa este recurso.ainda que o devedor as não pague. levanta. Eu confessarei tudo o que importar à minha história. c’est mon essence. CAPÍTULO 68 ADIEMOS A VIRTUDE Poucos teriam animo de confessar aquele meu pensamento da Rua de Mata-cavalos. foi a última vez que o empreguei A crise em que me achava. Entrando no meu quarto. valem a soma que dizem. fiquei longe das suas carícias: . não menos que o costume e a fé. que estava na alcova. Eram mais dois mil. segundo me disse depois. mas o uso do superlativo faz a boca longa. há só um modo de escrever a própria . os meus gestos. avisa-me.Não.. e eu lhe rezaria dois mil padre-nossos. mas esta idéia não me mordia. usei ainda uma vez do meu velho meio das promessas espirituais. Ajoelhei-me ao pé do leito.dedos. e fui andando. entramos. nada há mais feio que dal pernas longuíssimas a idéias brevíssimas. por mais que o pecado me doesse Então levado do remorso. logo que ela ficasse boa. ouvia as palavras ternas de minha mãe que me apertava muito as mãos. ansioso agora por chegar a casa. leitor para que o emende na segunda edição. chegamos. e pedi a Deus que me perdoasse e salvasse a vida de minha mãe. Enfim. uma ação que eu não faria nunca. e daí a pouco. Ora. toda ela parecia consumida por um vulcão interno. Montaigne escreveu de si: ce ne sont pas mes gestes que j’escris. meu filho. palavras e lágrimas. por amor do período. levanta! Capitu. Enxuguei os olhos. c’est moi. onde iam os antigos? Não paguei uns nem outros. não.

é um Rothschild . mas era tão lento nos suspensórios e nas presilhas. não menos simples que clara. diria com muito gosto alguma bela ação contemporânea. pela teoria que tenho dos pecados e das virtudes. Quando um de tais cônjuges é mais forte que o outro.. e no dia seguinte perdi o trem da mesma estrada. mas a regra é dar-se a prática simultânea dos dois. Jeová. aliados por matrimônio para se compensarem na vida. e. por estar uma noite com muita dor de cabeça. ç pena que eu não possa fundamentar isto com um ou mais casos estranhos. Já me sucedeu. à medida que me vai lembrando e convidando à construção ou reconstrução de mim mesmo. é certo que nasci com alguns daqueles casais. Sentia necessidade de evitar qualquer conversação que me desviasse o pensamento do fim a que ia.. Tal faço eu. sem que este. fazê-lo renunciar ao pagamento da minha promessa. Pelo que me toca. fica transferida a melhor oportunidade. por não haver praticado tal virtude ou cometido tal pecado se possa dizer isento de um ou de outro. falta-me tempo. aqui no Engenho Novo. Reduz-se a isto que cada pessoa nasce com certo número deles e delas. e principiou a vestir-se. o bem e o mal. depois do que se passou no Capítulo LXVII. Nem era só pedir-lhe perdão do pecado. posto que divino. Voilà mes gestes. mas não me lembra. por ter ido dar a minha bengala a um cego que não trazia bordão. Nem perderás em esperar. voilà mon essence. meu amigo. Demais. e alguma vez com resplendor maior da terra e do céu. CAPÍTULO 69 A MISSA Um dos gestos que melhor exprimem a minha essência foi a devoção com que corri no domingo próximo a ouvir missa em S. eu queria estar só. visto que digo tudo. ou por isso mesmo. agora que contei um pecado.essência. e naturalmente ainda os possuo. desejar que o trem da Central estourasse longe dos meus ouvidos e interrompesse a linha por muitas horas. que não pude esperar por ele. se me lembrasse. e era reconciliar-me com Deus. com vantagem do portador de ambos. ao contrário. O agregado quis ir comigo. ele só guia o indivíduo. Não só as belas ações são belas em qualquer ocasião como são também possíveis e prováveis. era também agradecer o restabelecimento de minha mãe. Antônio dos Pobres. acode-me agora que. ainda que morresse alguém. é contá-la toda. Por exemplo.

persignei-me. Era sinhazinha Sancha. A gente não era muita. Ouvi missa. .Obrigado. e ira mais tarde. ouvindo as saudações e os cochichos. . Mas a minha incorrigível timidez me fechou essa porta certa. e não pude sair logo. .Mas que queres? . e o homem olhava para mim.Manda-se lá um preto dizer que o senhor fica almoçando. Ia na direção da porta. quis por força que eu fosse almoçar com ele. eu não queria outra coisa. e não faz moratórias. velhos e moços. parei e olhei para todos. Gurgel era homem de quarenta anos ou pouco mais. lembrou-me que a Igreja estabeleceu no confessionário um cartório seguro. E chegaram-me estas palavras: . e recebi a bênção final do oficiante como um ato solene de reconciliação. com propensão a engrossar o ventre. Vi então uma moça e um homem.muito mais humano. ouvindo a moça. viemos juntos. e na confissão o mais autêntico dos instrumentos para o ajuste de contas morais entre o homem e Deus. mamãe espera-me. mas eu não vi uns nem outros. ouvia e esperava. O pai veio a mim. . fechei o livro de missa e caminhei para a porta. chegando à porta da casa. Depois saímos. mas a igreja também não é grande. Havia homens e mulheres. mas devagar. depois pedi perdão do pecado e revelação da dívida. com a onda. disse-lhe que estava restabelecida. e a moça olhava para mim falando ao homem. Ora. No fim. que saíam da igreja e pararam. Sinhazinha Sancha. a companheira de colégio de Capitu que queria notícias de minha mãe. agradeci a vida e saúde de minha mãe. Como o homem muda! Hoje chego a publicá-lo.Queria saber dela. receei não achar palavras com que dizer ao confessor o meu segredo. voltada para o pai. No adro. e. papai pergunte. como eu vinha na mesma direção. e pagaria logo as que fizesse.Venho outro dia. perdoa as dívidas integralmente. dali em diante não faria mais promessas que não pudesse pagar. logo. e provavelmente olhos feios e belos. CAPÍTULO 70 DEPOIS DA MISSA Rezei anda. mostrou-me a casa dele. ao levantar a Deus. Não ela feia. era muito obsequioso. onde se fez claro. sedas e chitas. uma vez que o devedor queira deveras emendar a vida e cortar nas despesas.

. Nunca me visitara até ali. conquanto falasse mais do que veio a falar depois ainda assim não era tanto como os rapazes da nossa idade. despedi-me veio ao patamar da escada.. Quis saber a minha idade. a filha deu-me recomendações para Capitu e para minha mãe.Os outros souberam? . . respirou. quis que descansasse alguns minutos.Manda-se lá um preto dizer que o senhor janta aqui.. que também acabava grosso. “A missa das oito já há de ter acabado. disse ele. Escobar foi visitar-me e saber da saúde de minha mãe. disse me o número do armazém.Parece que sim: alguns souberam. de minuto a minuto. três dias antes. mano Cosme?.Tive receio. tinham já mentido dizendo a minha mãe que eu voltara e estava mudando de roupa. nem as nossas relações estavam Já tão estreitas..” Assim falava ela. mas há feições que tiram a graça de uns para dá-la a outros. Teria acontecido alguma coisa.. Quando lhe disse que não. Como eu recusasse o almoço... aproveitou o domingo para ir ter comigo e perguntar se continuava o perigo ou não. .Incômodo nenhum. Gurgel era viúvo e morria pela filha. Tio Cosme quis que jantasse conosco. Escobar era muito polido e. Enfim. Rua da Quitanda.mas sabendo a razão da minha saída. interveio tio Cosme. repeti-as: . mas eu entrei e comigo a tranqüilidade.Tanto incômodo! . Eu. Tio Cosme e José Dias gostaram do moço. como vieram a ser depois.. o agregado disse-lhe que vira uma vez o pai no Rio de Janeiro. Mandem ver. lembrando-me das palavras do Gurgel. naquele dia achei-o um pouco mais expansivo que de costume. a minha fé. o pai estava à janela e fez-me um gesto largo de despedida. . Não pude recusar e subi. os meus estudos. Vestia simples. e dava-me conselhos para o caso de vir a ser padre.. Da rua olhei para cima. CAPÍTULO 71 VISITA DE ESCOBAR Em casa. Era o dia das boas sensações. Bentinho devia está de volta. e irá depois. Escobar refletiu um instante e acabou dizendo que o correspondente do pai esperava por ele.só se lhe podia notar a semelhança do nariz.

onde não achara restrição. prima Justina provavelmente não viu defeito claro ou importante no nosso hóspede. desde que um de nós lhe notou um dia no seminário. a ver se. mas não olhou. Escobar despediu-se logo depois de jantar. também os dominava agora. . e quis saber quem era que me . Conservei-me à porta.Vê-se que era um coração puro! Os olhos de Escobar. onde esperamos a passagem de um ônibus. e aparecera. de dentro do ônibus. claros como já disse. primeiro exemplo que vi de que um homem pode corrigir-se muito bem dos defeitos miúdos. ou então foi obra de uso velho. a boca fina e chocarreira. de quando em quando e veio a perdê-lo. nem diminuir a graça delas. ficaram querendo bem a Escobar.mas tinha sempre a altura necessária para não afrontar as outras feições. sejam histórias verdadeiras. por dentro da veneziana. virou-se e disse-me: . depois que ele saiu. Nisto não houve exageração do agrado. vendo que ela não acabava a frase. ainda olharia para trás. na sala como na mesa. com a mão. Era Capitu. Viu as nossas despedidas tão rasgadas e afetuosas. a mesma prima Justina achou que era um moço muito apreciável. assim os definiu José Dias. Realmente. sejam romances. o nariz curvo e delgado. A testa é que era um pouso baixa. Em casa. depois de alguns instantes de contemplação. apesar dos quarenta anos que traz em cima de si. nem podia tê-la. Disse-me que o armazém do correspondente era na Rua dos Pescadores.. A hora que passou comigo foi de franca amizade. Mostrei-lhe os poucos livros que possuía. que levou a restringir. eram dulcíssimos. A cara rapada mostrava uma pele alva e lisa. Separamo-nos com muito afeto: ele. Nunca deixei de sentir tal ou qual desvanecimento em que os meus amigos agradassem a todos. ao longe. São coisas que se adivinham na vida. era interessante de rosto. vindo a risca do cabelo quase em cima da sobrancelha esquerda. apesar. e mantenho esta palavra.Escobar aceitou e jantou. que nos espreitara desde algum tempo. e agora abrira inteiramente a janela. Não é preciso dizer que era Capitu. Apesar de quê? perguntou-lhe José Dias. Tinha o sestro de sacudir o ombro direito.. o apesar era uma espécie de ressalva para algum que lhe viesse a descobrir um dia.Que amigo é esse tamanho? perguntou alguém de uma janela ao pé. fui levá-lo à porta. Notei que os movimentos rápidos que tinha e dominava na aula. e ficava aberto até às nove horas: ele é que se não queria demorar fora. como nos livros.. Não teve resposta. ainda me disse adeus. Gostou muito do retrato de meu pai.

Otelo mataria a si e a Desdêmona no primeiro ato. e eu proporia. por outro lado. . os três seguintes seriam dados à ação lenta e decrescente do ciúme. nem tu. Nesse gênero há porventura alguma coisa que reformar. repetiu a palavra. em não sei que teatro. ia para a cama com uma boa impressão de ternura e de amor: Ela amou o que me afligira. como ensaio. e executa dentro os sinais correspondentes ao diálogo. agora mais alto. envergonhado. CAPÍTULO 73 O CONTRA-REGRA O destino não é só dramaturgo. como todos os dramaturgos. tão certo é que o destino. CAPÍTULO 72 UMA REFORMA DRAMÁTICA Nem eu. e o bom conselho do fino lago: “Mete dinheiro na bolsa. até que o pano cai.” Desta maneira. uma trovoada. Então caminhou para o fundo. isto é. nem ela. um drama que acabar pelo juízo final. a olhar para cima. as explicações de Otelo e Desdêmona. não anuncia as peripécias nem o desfecho. designa a entrada dos personagens em cena. nem qualquer outra pessoa desta história poderia responder mais. disfarçadamente trágico. espécie de: conceito. Asaverus. Eles chegam a seu tempo. e o último ficaria só com as cenas iniciais da ameaça dos turcos.merecia tanto. disse eu indo pôr-me embaixo da janela. o espectador. que as peças começassem pelo fim. acharia no teatro a charada habitual que os periódicos lhe dão. e os espectadores vão dormir. e dizer em voz surda: “O pisão! o pisão! o pisão!” O público . é também o seu próprio contra-regra. Quando eu era moça representou-se aí. mas ainda nada. para advertir o contra-regra. e. por que os últimos atos explicam o desfecho do primeiro. Eu amei a piedade dela. dá-lhes as cartas e outros objetos. mas efetivamente com o fim de falar ao bastidor. um tiro. O principal personagem era Asaverus.É o Escobar. que no último quadro concluía um monólogo por esta exclamação: “Ouço a trombeta do arcanjo!” Não se ouviu trombeta nenhuma. apagam-se as luzes. um carro. por um lado.

às tardes. Três mil-réis! tudo se perde na noite dos tempos! Ora. quando a trombeta soou deveras. mas aquele sujeito costumava passar ali. assim faz o Destino. a cabeça do homem deixava-se ir voltando para trás. o lado de Capitu e olhou para Capitu.. é o pistão do arcanjo” Assim se explicam a minha estada debaixo da janela de Capitu e a passagem de um cavaleiro. Vão lá raciocinar com um coração de brasa.. figura e postura esbeltas: a cara não me era desconhecida. e depois. que é o seu próprio contra-regra. um cavalo e uma namorada. enfiei pelo meu corredor. um dandy. outro andando e parando. rédea na mão esquerda a direita à cinta. um sentado. e Asaverus bradou pela terceira vez que era a do arcanjo.. Montava um belo cavalo alazão. Era uso do tempo namorar a cavalo. inconscientemente guardada.. tio Cosme e José Dias conversavam.” Era certamente alusão ao cavaleiro. o dandy do cavalo baio não passou como os outros.1851 que residia em Catumbi.. Tal foi o segundo dente de ciúme que me mordeu. morava no antigo Campo da Aclamação. Uma das suas poesias é destinada a contar . para ver a namorada no Catete. até que.. Tal recordação agravou a impressão que eu trazia da rua. firme na sela. CAPÍTULO 74 A PRESILHA Na sala de visitas. era a trombeta do juízo final e soou a tempo. e Capitu para ele. A rigor. como era o meu! Nem disse nada a Capitu. alugara um cavalo por três mil-réis. e. um gaiato da platéia corrigiu cá de baixo: “Não. que me dispôs a crer na malícia dos seus olhares? A vontade que tive foi pegar em José Dias pela gola. e depois. era natural admirar as belas figuras. botas de verniz. mas voltou a cabeça para o nosso lado. o cavalo andava. como então dizíamos... e. todos iam às suas namoradas. quando dei por mim. e ainda outros viriam atrás.” Relê Alvares de Azevedo. mas não seria essa palavra. levá-lo ao .ouviu esta palavra e desatou a rir. A vista de José Dias lembrou-me o que ele me dissera no seminário: “Aquilo enquanto não pegar algum peralta da vizinhança que case com ela. Relê Alencar: “Porque um estudante. senhor. não pode estar sem estas duas coisas. Tinham passado outros. O cavaleiro não se contentou de ir andando. dizia um dos seus personagens de teatro de 1858. saí da rua à pressa. estava na sala de visitas.

nem nunca mais. ao vão da outra janela. enterrá-las bem. imaginava que Capitu saísse da janela assustada e não tardasse a aparecer. e. abotoe a presilha. frio e sereno. CAPÍTULO 75 O DESESPERO Escapei ao agregado.Olhe a presilha. eu saí correndo. Quis tapar-lhe a boca. como se me avisasse. Bentinho? Para não fitá-lo. eu continuei surdo.. Eu falava-me. até ver-lhe sair a vida com o sangue.. Duas vezes dei por mim mordendo os dentes. não me fez sair do quarto e Capitu ria alto. mas não escapei a mim mesmo. Os olhos. a sós comigo e o meu desprezo. e abafava os soluços com a ponta do lençol. e perguntou-me com interesse: .corredor e perguntar-lhe se falara de verdade ou por hipótese. Jurei não ir ver Capitu aquela tarde. continuou a andar e a falar. e José Dias veio ter comigo. e entrei atrás de mim. mas José Dias. eu perseguia-me. Via-me já ordenado. voltava-lhe as costas. muito desprezo. agora. não teria mais que desprezo. que parara ao ver-me entrar. falava alto. . mas eu. Corri ao meu quarto.Que é. respondi apontando com o dedo: . que viera passar o resto da tarde com minha mãe. Da cama ouvi a voz dela. e chorava. escapei a minha mãe não indo ao quarto dela. mas. por maior que fosse o abalo que me deu. queria ir à casa ao pé. até que tio Cosme ergueu-se para ir ver a doente. impaciente. e fazer-me padre de uma vez. Chamava-lhe perversa. eu atirava-me à cama. E os dois falavam. A vontade que me dava era cravar-lhe as unhas no pescoço. fiquei com medo de ouvi-lo. como se a tivesse entre eles. José Dias inclinou-se. caindo. para indagar e explicar. Eu. que choraria de arrependimento e me pediria perdão. como das outras vezes. como ele insistisse em saber o que é que eu tinha. deixei cair os olhos. diante dela.. e rolava comigo. e naturalmente comigo. imaginando que vinha justamente dizer-mo.. Há um instante tinha eu desejo de lhe perguntar o que havia entre Capitu e os peraltas do bairro. José Dias viu no meu rosto algum sinal diferente da expressão habitual. viram que uma das presilhas das calças do agregado estava desabotoada.

.E que poderia haver. ouvi-la e julgá-la. Se olhara para ele. senão como os outros que ali passavam às tardes. Não ceei e dormi mal. A minha dor agora complicava-se do receio de haver ido além do que convinha. com os olhos no tecto. por eles e pelas lágrimas. a cavalo ou a pé. depois suspirou. estava diferente. nem por isso deixou de dizer que. era a primeira suspeita e a última. Tinha ambas as coisas. era prova exatamente de não haver nada entre ambos. mas abatido.Não! não! não! não lhe peço isto! Consentiu em retirar a promessa. depois abanou a cabeça. Podia estar zangada comigo. peguei-lhe das mãos e beijei as com tanta alma e calor que as senti estremecer. para evitar nova equivocação.CAPÍTULO 76 EXPLICAÇÃO Ao fim de algum tempo.Vai casar? Ia casar. mas eu acudi de pronto. Enxugou os olhos com os dedos. . lembrou-me a recomendação que minha mãe fazia de me não deitar depois do jantar para evitar alguma congestão. podia não querer-me agora e preferir o cavaleiro. Quis resolver tudo. e fez um gesto de separação. com o fim de não ir ao seminário e falar a Capitu. estava sossegado. estaria aflita E com a minha reclusão. com uma moça da Rua dos Barbonos. e ela o sentiu no meu gesto. disse-me que era grande injúria que lhe fazia. deixando de examinar o negócio. tudo estaria dissolvido entre nós Aceitei a ameaça... Esta razão quadrou-me mais que tudo. Como me achasse estirado na cama. Capitu ria agora menos e falava mais baixo. mas não saí do quarto. Ergui-me de golpe. disse-me com quem. Confessou-me que não conhecia o rapaz. à primeira suspeita da minha parte. simulei maior incômodo. não podia crer que depois da nossa troca de juramentos. eu os beijei de novo. . tão leviana a julgasse que pudesse crer. Na manhã seguinte não estava melhor. Quando soube a causa da minha reclusão da véspera. E aqui romperam-lhe lágrimas. mas fez outra. e jurei que nunca a haveria de cumprir. podia ser que tivesse defesa e explicação. . mas nem por isso me abalou. se houvesse. deixaria de ir mais à janela. Posto que a cabeça me doesse um pouco. e foi que. se ele vai casar? concluiu. era natural dissimular.

e lá fora. achei-o inquieto.. se eu me demorasse mais um dia em casa. Santiago. Não é claro isto. na quarta-feira. eu sou seu amigo também. ninguém se distrai à toa. Perguntava-me com interesse o que é que tivera. e se estava bom de todo. olhando para ontem. Não referi tudo. CAPÍTULO 78 SEGREDO POR SEGREDO De resto. tinha razões para andar distraído também. era bom disfarçar o mais que pudesse. .Tenho motivos. parece que estou repetindo. . quando é certo que ele me lembra outros que não quisera lembrar por nada. Ouvia. Mas a verdade é que não tenho aqui relações com ninguém. .. e foi Escobar que a recebeu. ele esperou.Então parece-lhe?.Que é? . à sua parte.. . mas só uma parte. ...Se eu disser a mesma coisa. espetando-me os olhos. mas eu não me . perde a graça. a tal ponto se espiritualizaram com o tempo que chegam a diluir-se no prazer. Quando voltei ao seminário. você é meu amigo. .Escobar. naquele mesmo tempo senti tal ou qual necessidade de contar a alguém o que se passava entre mim e Capitu. mas buscava ficar atento.Escobar. mas nem tudo é claro na vida ou nos livros A verdade é que sinto um gosto particular em referir tal aborrecimento.Creio.CAPÍTULO 77 PRAZER DAS DORES VELHAS Contando aquela crise do meu amor adolescente.Sim. não tenho propriamente um amigo. Hesitei. disse-me que era sua intenção ir ver-me. você às vezes está que não ouve nada. aqui ao seminário você é a pessoa que mais me tem entrado no coração. Três dias depois disse que me estavam achando muito distraído..Estou. . você é o primeiro e creio que já notaram. Ele. e é que as dores daquela quadra. a não ser a gente da família. . disfarce. retorquiu ele sorrindo. sinto uma coisa que não sei se explico bem.

Que mais há de ser? Dei duas voltas e sussurrei a primeira palavra da minha confidência. a vida uma carreira excelente. tão escassa e surda. a modéstia. Era como que uma felicidade mais. Então contei-lhe por alto o que podia. não é preciso dizê-lo. os meus acreditam. Era um grande e belo mundo.. Estou aqui. você é capaz de guardar um segredo? . senti que a voz se me precipitava da garganta. e faço de conta que me confesso a um padre.Nem você? . achou até natural e espetou-me outra vez os olhos. Não podia levar para a igreja um coração que não era do céu. Aquele coração moço que me ouvia e me dava razão. mas o contado era multo. uma vez que eu só podia servi-lo no mundo. Uma pessoa devia ser uma moça.. Nem cuides que pasmou de me ver namorado.Nem eu.. Voltamos uma e muitas vezes: eu louvava as qualidades morais de Capitu. aí me cumpria ficar.Se precisa de absolvição. Não calculas o prazer que me deu a confidência que lhe fiz. absolutamente nadafica só entre nós. Deus protegia os sinceros. Deu-me de conselhos que não me fizesse padre.” com reticência. que não a ouvi eu mesmo. matéria adequada à admiração de um seminarista. no fim da nossa conversação declarou-me que era segredo enterrado em cemitério.Desculpe. mas eu não posso ser padre. e nesse caso. . seria um mau padre. meu desejo é o comércio. está absolvido. sou religioso. nem outros assim. mas demoradamente para ter o gosto de repisar o assunto Escobar escutava com interesse. Não foi preciso mais para que ele entendesse. . . Eu sei que é moço sério..importo com isso. também eu tenho o propósito de não acabar o curso. .Escobar.Escobar.Segredo por segredo.Só isso? . e eu nem mais nem menos um mimoso do céu. . . E não é que eu não seja religioso. é um modo de falar. por exemplo. Uma pessoa?.. Santiago. nem o melhor. trazia a este mundo um aspecto extraordinário. eu não posso ser padre. não lhe referi o Capítulo do penteado. sei porém que disse “uma pessoa. . eis a minha sensação. .Você que pergunta é porque duvida. Que voltamos ao assunto. mas o comércio é a minha paixão. mas da terra. Ao contrário. O amor do trabalho . Comovido. nem seria padre. a simpleza. e esperam. Nota que eu não lhe disse tudo. mas não diga nada.

sim. . mas é possível fazer distinção. pode ir sempre. Capitu vai passar uns dias com uma amiga da Rua dos Inválidos. sim. mas toda a verdade. gostei de ouvi-lo falar assim. Ainda agora. vamos ao Capítulo. para que um e outro digam a verdade. . você irá lá.e os costumes religiosos. por que não foi ontem jantar comigo? . Sabes a opinião que eu tinha de minha mãe. depois de interromper esta linha para mirar-lhe o retrato que pende da parede. Por mais que me estivesse então obrigando a uma carreira que eu não queria. como uma santa. nem ele me perguntava por elas. . só a verdade. não podia deixar de sentir que era adorável. apenas insinuei a conveniência de a conhecer de vista. ao voltar de casa. delicado e sutil. uma vez que toquei no ponto. acho que trazia no rosto impressa aquela qualidade.Agora não é possível. minha mãe era adorável. Não lhe tocava nas graças físicas. E porventura era certo que me obrigava à carreira eclesiástica? Aqui chego a um ponto. melhor é acabar com ele.Você não me convidou. Quando ela vier. CAPÍTULO 80 . Realmente. . mas. e o filho há de ouvir o autor.Também eu fiquei gostando de todos. confesso-lhe que sua mãe é uma senhora adorável. sem prejuízo (ao contrário!) da parte humana e terrestre que havia nela. Cabe ainda notar que esse ponto é que torna justamente a santa mais adorável. um destes em que o autor tem de atender ao filho.Pois precisa convidar? Lá em casa todos ficaram gostando muito de você. não cabia dizer agora o que só mais tarde presumi descobrir. que apenas trocara com ela quatro palavras Uma só bastava a penetrar-lhe a essência íntima. disse-lhe na primeira semana. Basta de prefácio ao Capítulo. Nem de outro modo se explica a opinião de Escobar. que esperei viesse depois tanto que já pesquisava em que altura lhe daria um Capítulo. mas pode ir antes.Não é verdade? retorqui cheio de alvoroço. CAPÍTULO 79 VAMOS AO CAPÍTULO Com efeito. É grave e complexo.

foi guardada por ela. Um dos aforismos de Franklin é que. feita com fervor. é possível que alterasse os planos. começou a adiar a minha entrada no seminário.VENHAMOS AO CAPÍTULO Venhamos ao Capítulo. um dos familiares que serviam de endossantes da letra. Bem examinadas. a questão é se é oportuno e adequado fazê-las todas. Minha mãe concordou e recolhi-me a S. embora os dois ofícios não fossem nem sejam inconciliáveis. a mágoa da separação. Um dia. sem sequer agravar a taxa do juro. era uma conclusão primeira. tudo se manteve. Mas meu pai morrera sem saber nada. Ora. não dependia daquela quantia para comer. e mais de um padre entre na luta dos partidos e no governo dos homens. e. Em todo caso. das suas práticas religiosas. verteu ela umas lágrimas. vê-se que eram saudades prévias.e pode ser também. e da fé pura que as animava. e naturalmente inclinava-se à negativa. Por que é que Deus a puniria. reformar uma letra. É o que se chama. A promessa. não bastando concluir para destruir. no mais íntimo do coração. e consentiu nas transferências de pagamento. comercialmente falando. Era um raciocínio tardio: devia ter sido feito no dia em que fui gerado. A nossa quaresma não foi mais longa que as outras. Minha mãe era temente a Deus. . Penso que lhe senti o sabor da felicidade no leite que me deu a mamar. falou da necessidade de entregar o preço ajustado. e . negando-lhe um segundo filho? A vontade divina podia ser a minha vida. está num dos Capítulos primeiros. nesse mesmo Capítulo. se vivesse. Católica e devota. e minha mãe. confiou os seus projetos e motivos a parentes e familiares. nem o agregado José Dias entendeu absolutamente: eu. sabes que para o fim de apertar o vínculo moral da obrigação. que estava atrás da porta. sem necessidade de lhe dedicar ab ovo. sabes disto. Nem ignoras que a minha carreira eclesiástica era objeto de promessa feita quando fui concebido. sentia muito bem que as promessas se cumprem. é provável que me encaminhasse somente à política. Tudo está contado oportunamente. não as entendi mais que eles. e ela ficou diante do contrato. para quem tem de pagar na páscoa. Outorgam. apesar da distancia. e que nenhum dos presentes nem tio Cosme. mas. aceita com misericórdia. José. Meu pai. nem prima Justina. porém. com alegria. O credor era arquimilionário. posto me mandasse ensinar latim e doutrina. a quaresma é curta. como única devedora. é o princípio do ponto. que enxugou sem explicar. como tinha a vocação da política. pode ser que arrependimento da promessa.

dando parte dos seus anos para conservar-me consigo. falando e cantando. lá vivia horas e horas. CAPÍTULO 81 . tendo confiado a alguém a importância de uma dívida para levá-la ao credor o portador guardasse o dinheiro consigo e não levasse nada. tendo o céu sido feito no segundo dia e a terra no terceiro. No momento de fazê-lo cair. ouve a voz do anjo que lhe ordena da parte do Senhor: “Não faças mal algum a teu filho. e mais a lenha para o holocausto. se és religioso. e o meu nome era entre ambas como a senha da vida futura. eu romperia o contrato sem que ela tivesse culpa. o fogo e o cutelo. Tal seria a esperança secreta de minha mãe. pegou do cutelo e levantou-o ao alto. E atou Isaac em cima do feixe de lenha. st pudesse. Assim a senti sempre na corrente da vida ordinária. o frescor das tardes. é o final do ponto anunciá-lo. revolvia-lhe os olhos. o ato de terceiro não desobriga o contratante. minha mãe levou o filho ao monte da Visão. Como Abraão. assim como suponho que rejeitou tal idéia. O céu e a terra acabam conciliando-se. Um cochilo da fé teria resolvido a questão a meu favor. mas a vantagem de contratar com o céu é que intenção vale dinheiro. a lua das noites. conheci que temes a Deus”. fora do clero. e. esta esperança íntima e secreta entrou a invadir o coração de minha mãe. Ela ficava comigo sem ato propriamente seu. Pouco a pouco veio-lhe a persuasão de que a pequena me faria feliz. Sucedeu que a minha ausência foi logo temperada pela assiduidade de Capitu. me levasse a não ficar lá nem por Deus nem pelo Diabo. mas a fé velava com os seus grandes olhos ingênuos. uma troca de promessa. Capitu era naturalmente o anjo da Escritura.eu fui para o seminário. Então. o sol das manhãs. A verdade é que minha mãe não podia tê-la agora longe de si. Capitu passou a ser a flor da casa. ouvindo. tornando-me absolutamente incompatível com o seminário. por modo idêntico ou análogo. Na vida comum. a esperança de que o nosso amor. Neste caso. Minha mãe faria. haverás buscado alguma vez conciliar o céu e a terra. A afeição crescente era manifesta por atos extraordinários. Era como se. eles são quase irmãos gêmeos. Hás de ter tido conflitos parecidos com esse. por lhe parecer uma deslealdade. Minha mãe apalpava-lhe o coração. Esta começou a fazer-se-lhe necessária. casado e pai: é o que presumo.

. Eis aqui um Capítulo fúnebre como um cemitério. . mortes.Por que não vais vê-la? Não me disseste que o pai de Sancha te ofereceu a casa? . insinuou prima Justina.Fique aqui um bocadinho. Prima Justina escapou aos meus. mas são tão baixo e abafado que nem as paredes ouviram. quis que lhe falasse. . que não quer outra. mas tão depressa me viu. mas quer falar-lhe. Um mover deles faria parar ou cair um inimigo ou um rival. Não a matei por não ter à mão ferro nem corda. e voltando-se para mim: E a enfermeira de Sancha. Custou-lhe a crer que fosse eu. corri à Rua dos Inválidos. se elas ouviram algo. Como ele queria muito à filha. para desnortear a justiça. Um dos erros da Providência foi deixar ao homem unicamente os braços e os dentes. vindo dizer ao pai de Sancha que a filha o mandara chamar.UMA PALAVRA Assim contado o que descobri mais tarde. Os olhos bastavam ao primeiro efeito. Agora se entenderá que ela me dissesse.Talvez ficassem namorando. certamente a amiga pediu-lhe que dormisse lá. exerceriam vingança pronta. e no domingo.Pois então? Mas é se queres. Capitu trazia sinais de fadiga e comoção. pensava já vê-la morta. disse-lhe ele. e efetivamente conversamos por alguns minutos. se pudessem matar. fresca e lépida. no primeiro sábado. às onze horas. como armas de ataque. quando eu cheguei a casa. Falou-me. e soube que Capitu estava na Rua dos Inválidos. com sinhazinha Gurgel: . pistola nem punhal. teriam suprido tudo. Foi Capitu que os trouxe à porta da sala. eu e que não escapei ao efeito da insinuação. ficou toda outra. os mesmos olhos matadores seriam olhos piedosos.Ofereceu. nada entenderam. senhor. Eu ansiava por um raio de luz clara e céu azul. .Não. com este acréscimo que. e as pernas como armas de fuga ou de defesa. nem elas nem os móveis. e anunciou-me que se mataria também.Está pior? perguntou Gurgel assustado. a mocinha de sempre. De resto. Capitu devia ter voltado hoje para acabar um trabalho comigo. suicídios e assassinatos. O pai de Sancha recebeu-me em desalinho e triste.caíra na véspera com uma febre. eu já volto. . e correriam a chorar a vítima. não menos que espantada. A filha estava enferma. elas que têm ouvidos. posso trasladar para aqui uma palavra de minha mãe. . que se ia agravando.mas os olhos que lhe deitei.

Data daí a opinião particular que tenho do canapé. que brilhavam extraordinariamente . Capitu e eu. e mostra a casa toda sem sair da sala. com tal insistência que os aceitamos e nos sentamos.Seremos felizes! Repeti estas palavras.Conselho dela? murmurou Capitu. Eu levantei-me depressa e não achei compostura. mas. . Dois homens sentados nele podem debater o destino de um império.. com a pura verdade. disse ele. Ele faz aliar a intimidade e o decoro. estendeu-me a mão e enfiou pelo corredor.. Nem sobressalto nem nada. continuou a prestar os seus serviço às nossas mãos presas e às nossas cabeças juntas ou quase juntas. visto que nos ofereceu os serviços da sua palhinha. com os simples dedos.Não. CAPÍTULO 82 O CANAPÉ Deles. voltou-se para mim. e disse-me que levasse lembranças a minha mãe e a prima Justina. Também me lembra.mas.a febre parece que cede. quer visse ou não. e que até breve. apertando os dela. Ao contrário. Foi o que fizemos. Vagamente lembra-me que lhe perguntei se a demora ali seria grande. só o canapé pareceu haver compreendido a nossa situação moral. Capitu ergueu-se naturalmente e perguntou-lhe se a febre aumentará.. metia os olhos pelas cadeiras. a conselho de minha mãe. isto é. e duas mulheres a graça de um vestido. E acrescentou com os olhos. vagamente. que lhe expliquei a minha visita à Rua dos inválidos..Não sei.que estavam tão tristes como o dono. Todas as minhas invejas foram com ela. um homem e uma mulher só por aberração das leis naturais dirão outra coisa que não seja de si mesmos. nenhum ar de mistério da parte de Capitu.. O canapé. . .. Como era possível que Capitu se governasse tão facilmente e eu não? . CAPÍTULO 83 O RETRATO Gurgel tornou à sala e disse a Capitu que a filha chamava por ela.

com os louvores de Gurgel. Na verdade. até a amizade que ela tem a Sanchinha . agora que eu a via de dias a dias. Quanto ao gênio. e a pessoa que me chamava era um pobre homem grisalho e mal vestido. Um dos costumes da minha vida foi sempre concordar com a opinião provável do meu interlocutor.Morreu há meia hora. Capitu ia crescendo às carreiras as formas arredondavam-se e avigoravam-se com grande intensidade moralmente a mesma coisa. mas achei que não e pus-me a andar. Estava já na Rua de Matacavalos. examinei ainda comigo se efetivamente ele teria desconfiado alguma coisa. perguntou-me se Capitu era parecida com o retrato. CAPÍTULO 84 CHAMADO No saguão e na rua. enterra-se amanhã. A casa era uma loja de louça. . de cada vez que vinha a casa achava-a mais alta e mais cheia. Gurgel.. fui respondendo que sim. Então ele disse que era o retrato da mulher dele. e a boca outro império. onde pendia um retrato de moça. Mandei recado a sua mãe agora mesmo. voltando-se para a parede da sala. e desde os pés até à cabeça. aborrece ou impõe. a tal ponto que não acudi logo a uma voz que me chamava: .Está uma moça. e ela fez-me a caridade de mandar algumas flores para botar no caixão.. desde que a matéria não me agrava.Senhor Bentinho! Senhor Bentinho! Só depois que a voz cresceu e o dono dela chegou à porta é que eu parei e vi o que era e onde estava.Finalmente. pareciam irmãs. Era mulher por dentro e por fora. Esse arvorecer era mais apressado. mulher à direita e à esquerda. a testa principalmente e os olhos.a mãe não era mais amiga dela. disse-me ele chorando. e foi bom que morresse. com a alegria de Capitu. os olhos pareciam ter outra reflexão. sabe que meu filho Manduca morreu? . .Morreu? . Ia satisfeito com a visita. Murmurei que sim.Senhor Bentinho.. mulher por todos os lados. Meu pobre filho! Tinha de morrer. Antes de examinar se efetivamente Capitu era parecida com o retrato. Também achava que as feições eram semelhantes. Na vida há dessas semelhanças assim esquisitas. observou Gurgel olhando também para ela. . e que as pessoas que a conheceram diziam a mesma coisa. escassa e pobre: tinha as portas meio cerradas. era um.

. porque ele. e eu. As minhas idéias de ouro perderam toda a cor e o metal para se trocarem em cinza escura e feia. nenhuma nota aborrecida viria interromper as melodias da minha alma. à porta da alcova duas crianças olhavam espantadas para dentro. A simples notícia era já uma turvação grande.. Por que morrer exatamente há meia hora? Toda hora é apropriada ao óbito. Realmente. mas antes peque por excessivo que por diminuto. que era horrível. Um dia destes ainda se lembrou do senhor. Custa-me dizer isto. nem sequer humanas. Suspendamos a pena e vamos à janela espairecer a memória. Não culpo ao homem... deixei ao corpo fazer o que pudesse. .coitado. já pelo defunto. que não queria ver o Manduca... já pela morte. sem alma para entrar nem fugir. O cadáver jazia na cama. A loja era escura. o trem da Estrada Central que bufa. a palmeira que investe para o céu. Eis o mal todo. morre-se muito bem às seis ou sete horas da tarde. para mim. mas apesar de tudo sempre dói.. e finalmente aquela torre de igreja. Que vida que ele teve!. a coisa mais importante era Capitu.. A um canto da sala de jantar vi a mãe chorando. e o corpo acabou entrando. mas provavelmente não falei por palavras claras. com o dedo na boca. O mal foi que os dois casos se conjugassem na mesma tarde. Quer vê-lo? Entre. Há coisas que se não ajustam nem combinam. CAPÍTULO 85 O DEFUNTO Tal foi o sentimento confuso com que entrei na loja de louça. e não distingui mais nada. ande vê-lo. Se eu passasse antes ou depois. Tudo o que vejo lá fora respira vida.. e perguntou se estava no seminário. noutra ocasião pode ser até que entrasse com facilidade e curiosidade. encostado ao portal. Isto aqui. e que a morte de um viesse meter o nariz na vida do outro. a cabra que rumina ao pé de uma carroça. para ele.. Quis responder que não. agora que as janelas da área estavam cerradas. a galinha que marisca no chão da rua. a cama. o quadro era feio. mas agora ia tão contente! Ver um defunto ao voltar de uma namorada. assobia.. Mas também não me culpem a mim. fumega e passa.. e o interior da casa menos luz tinha. Penso que cheguei a dizer que tinha pressa. ou se o Manduca esperasse algumas horas para morrer. a coisa mais importante do momento era o filho. é outra coisa. e fiz até um gesto para fugir. sim. abria-me espaço com o gesto. Não era medo.

os seus parentes são mortos. Quando eu vi. aroma ao infecto. amai moças lindas e graciosas.Coitado de Manduca! soluçava a mãe. trocam a morte pela vida. ainda que de fugida.Padeceu muito! suspirou o pai.buscava esquecer o defunto. Vivo era feio.apesar de não ter músculos nem folhagem. Tudo arredei da vista. não morreu nem morre.. mas tanto lhe darias quinze como vinte e dois. o triste corpo daquele meu vizinho. elas dão remédio ao mal.. Eu cuidei de sair. e o mais que não disse para não dar a estas páginas um aspecto repugnante. . Teria dezoito ou dezenove anos. Verdade é que o outro Manduca era mais velho. a cara não permitia trazer a idade à vista antes a escondia nas dobras da. olhei. mas podes imaginá-lo. cedi. Um rapaz.. pálido e disforme. a tomar fôlego. E rápido saí. em poucos segundos. e mais na vida e na cara fresca e lépida de Capitu. rapazes! CAPÍTULO 87 A SEGE Chegara ao último degrau. Amai.. Amai. como se . atravessei a loja. .morto pareceu-me horrível. até que recuei de todo e saí do quarto. Parei no corredor. principalmente. e despedi-me O pai perguntou-me se lhe faria o favor de ir ao enterro. rapazes! e. e uma idéia me entrou no cérebro. tornei a olhar. faria o que minha mãe quisesse. posto também se chame Manduca. Não sei que mão oculta me compeliu a olhar outra vez.. estendido na cama. que antes de três minutos me achei em casa. que não sabia. respondi com a verdade. RAPAZES! Era tão perto.. fiquei apavorado e desviei os olhos. e saltei à rua. nada menos que a lepra. é morto. disse que era esperado em casa. que ali no beco empina um papagaio de papel. Diga-se tudo. diga-se tudo. Vá. bastou-me pensar na outra casa. se existe algum não é em tal evidência que se vexe ou doa. CAPÍTULO 86 AMAI. Manduca padecia de uma cruel enfermidade.

quando era mais pequeno.estivesse a esperar por mim. metia a cara no vidro. e era conhecida na rua e no bairro pela “sege antiga. mamãe! E em pé. que corriam para os lados quando era preciso entrar ou sair. Parei no degrau.Senta. porque ela não permitia ver as pessoas que iam dentro. .” A sege ia tanto com a vida recôndita de minha mãe. ou atravessavam diante da sege. e na rua as pessoas que iam e vinham. e então o espetáculo era particularmente interessante. Não cuides que era o desejo de andar de carro. tão velho como a sege... Ouvi de memória as palavras do pai de Manduca pedindo-me que fosse ao enterro no dia seguinte. esperando minha mãe. Refleti um instante. vestido. se chovia. por mais que tivesse o gosto da condução. com grandes pernadas ou passos miúdos. que tem um filho. Cada cortina tinha um óculo de vidro. Quando fui crescendo em idade imaginei que adivinhavam e diziam: “É aquela senhora da Rua de Mata-cavalos. continuamos a andar nela.Mas demora! Fica entendido que era para saborear a sege. e segurando a rédea da outra. Dos lados via passar as casas. vai devagar. .Deixa espiar. escanchado na mula da esquerda. pediria a minha mãe que me alugasse um carro.. Era uma velha sege obsoleta. naturalmente sobre quem iria dentro. olhavam para a sege e falavam entre si. . com duas cortinas de couro na frente. a sege parava. dizia-me rindo: . na mão levava o chicote grosso e comprido. que quando já não havia nenhuma outra.Pai João vai levar nhonhô! E era raro que eu não lhe recomendasse: .João. quando me via à porta. O cocheiro. com gente ou sem ela. as pessoas paradas na calçada ou à porta das casas.” Afinal minha mãe consentiu em deixá-la. por onde eu gostava de espiar para fora. que era nosso escravo. abertas ou fechadas. o chicote e as mulas. e via o cocheiro com as suas grandes botas. Em pequeno. demora muito as bestas. Quando havia impedimento de gente ou de animais. mas ele gostava e eu também. Bentinho! . estreita e curta. lojas ou não. Tudo incômodo.Nhã Glória não gosta. entre as grades da cancela. de duas rodas. Era uma velha sege de meu pai. lembra-me que ia assim muita vez com minha mãe às visitas de amizade ou de cerimônia e à missa. não pela vaidade.. Bentinho. . que ela conservou o mais que pôde. as botas. sim. podia ir ao enterro.

um resto da pessoa. a idéia de ir ao enterro não vinha da lembrança do carro e suas doçuras. velhas idéias. a mesma alma integral e pura. Bis aí o que era. Abri a cancela. A lembrança do carro podia vir acessoriamente depois. . Tudo o que me lembrou dizer. . CAPÍTULO 88 UM PRETEXTO HONESTO Não. não iria ao seminário. assim como ouvira da memória a palavra do pai do morto.sem a vender logo.Você acha que não deve ir? perguntou-lhe minha mãe. e. disse. A razão de a guardar inútil foi exclusivamente sentimental. Gurgel aflito. pentes desusados. Tinha o seu museu de relíquias.Coitado de Manduca! CAPÍTULO 89 A RECUSA Minha Mãe ficou perplexa quando lhe pedi para ir ao enterro. Prima Justina opinou pela negativa. a pretexto de saber de sinhazinha Gurgel. era a lembrança do marido. um trecho de mantilha. a si mesma se queria fazer velha. o penteado. só abriu mão dela porque as despesas de cocheira a obrigaram a isso. velhas maneiras. acompanhando o enterro no dia seguinte.. A origem era outra: era porque. Capitu comigo no canapé. mas já deixei dito que. umas moedas de cobre datadas de 1824 e 1825. Voltaria à Rua dos Inválidos. velhas modas. um tanto mais demorada. esse era filho também do carrancismo que ela confessava aos amigos. e depois era gente pobre. Contava que tudo me saísse como naquele dia. para que tudo fosse antigo. ouvi agora a da mãe. Minha mãe exprimia bem a fidelidade aos velhos hábitos. neste ponto.. Antes de transpô-la.Vou pedir a mamãe. e repeti a meia voz: . e podia fazer outra visita a Capitu. Mas o uso.Perder um dia de seminário Fiz-lhe notar a amizade que o Manduca me tinha. as mãos presas. Tudo o que vinha de meu pai era conservado como um pedaço dele. mas a principal e imediata foi aquela. não alcançava tudo o que queria. .. ..

ainda mais breve que este em que vo-lo digo. no dia seguinte. Era todo o seu recreio. fiquei amuado. receando que me chamassem como na véspera. foi só um instante. a razão é dos russos. e o terceiro domingo em que entrei na loja tocamos outra vez no assunto. Fui andando e pensando no pobre-diabo. o que é impossível. tornou ele. que então ardia e andava nos jornais. senhor. como falássemos da guerra da Criméia. Fui pensando nelas. CAPÍTULO 90 A POLÊMICA No dia seguinte. . Tinha eu de treze para quatorze anos. Manduca fez o mesmo ao dos aliados. Que amizade é essa que eu nunca vi? Prima Justina venceu.ou. e a justiça está com os aliados. Uma vez que não ia ao enterro antes longe que próximo. Fosse o que fosse. Naturalmente. . este sol riu. Da segunda vez que o vi ali.. se parei. pensando no motivo. entre nós.Não. deitado na cama. Não éramos amigos. donde ele espiava um palmo da rua e a gente que passava. andei até mais depressa. e eu respondi que não.. Intimidade que intimidade podia haver entre a doença dele e a minha saúde? Tivemos relações breves e distantes. e não fiquei pouco espantado. passei pela casa do defunto. Quando referi o caso ao agregado. Manduca vivia no interior da casa. Foi ali que o vi uma vez. o aspecto não atraía decerto. dois anos antes. o pai enfiava-lhe uma camisola escura. Só se a justiça não vencer neste mundo. íamos com o que nos diziam os jornais da cidade transcrevendo os de fora. . a doença ia-lhe comendo parte das carnes.. Fui sempre um tanto moscovita nas minhas idéias. recordando algumas. os dedos queriam apertar-se. mas pode ser também que cada um de nós tivesse a opinião do seu temperamento. não me desagradou.Pois veremos. Se me não engano. nem nos conhecíamos de muito. sem entrar nem parar . sobre a tarde. lendo por desfastio. Manduca disse que os aliados haviam de vencer. e disse-me que o motivo escondido da prima era provavelmente não dar ao enterro “o lustre da minha pessoa”. a propósito. Ao domingo. Mal podeis crer a que propósito foi.Acho que não. e trazia-o para o fundo da loja. Defendi o direito da Rússia. mais tarde achei-lhe um sabor particular. Reduziam-se todas a uma polêmica. Foi a guerra da Criméia.

e que pergunte ao moleque. depois que o senhor lhe escreve aqueles papéis. pela sua parte. que me chamava a outros exercícios. Logo que eu mando o caixeiro levar-lhe os papéis dele. o sorriso que a acendeu dissimulou o mal físico. mas a idéia que me ficou deles é que eram irrespondíveis. e daí continuou por algum tempo uma polêmica ardente. não era exaltada. onde ele jazia estirado na cama. e se demorará muito. entra a indagar da resposta. As horas tristes e compridas eram agora breves e alegres. não era ruidosa. deitou-se ao debate. Fala e ri muito. o calor é que crescia. e a própria saúde. não tinha gestos. O acaso dera-lhe em mim um adversário. . os olhos desaprenderam de chorar. Ou gosto da polêmica ou qualquer outra causa que não alcanço. Manduca. assunto da cidade e do mundo. a família.Então Manduca propôs que trocássemos a argumentação por escrito. Senti esta mudança dele nas próprias maneiras do pai e da mãe. os recreios. mal coberto por uma colcha de retalhos. salvo o palmo de rua ao domingo de tarde. Fizeram-me entrar na alcova. concluindo por esta frase profética: “Os russos não hão de entrar em Constantinopla!” Li-a e meti-me a refutá-la. não me deixou sentir toda a repugnância que saía da cama e do doente. defendendo cada um os seus clientes com força e brio. tinha só esta guerra. não me lembra se trazia coisas novas ou não. em que nenhum de nós cedia. . Não me recorda um só dos argumentos que empreguei. como a um remédio novo e radical. A convicção com que me recebeu o papel e disse que ia ler e responderia é que não tem palavras nossas nem alheias que a digam de todo e com verdade. um gozo infinito de vitória. que tinha gosto à escrita. dizia-me o dono da loja. mas que ninguém ia tratar com ele. profunda. à porta da rua. Fui eu mesmo levar-lhe o meu papel. agora que o século está a expirar. nem talvez interesse conhecê-los. Tinha já papel. e na terça ou quarta-feira recebi duas folhas de papel contendo a exposição e defesa do direito dos aliados. pena e tinta ao pé da cama. Naturalmente a mim sobravam mil coisas que distraíam. e da integridade da Turquia. grande. era simples. por mais nojosa que tivesse então a cara. se porventura choravam antes. ele. e o prazer com que lhe dei o papel foi sincero. e o final era o mesmo: “Os russos não hão de entrar em Constantinopla!” Trepliquei. Dias depois recebi a réplica. antes de saber os meus argumentos. o estudo.Não imagina como ele anda agora. Manduca. nem a moléstia os permitiria. uma vez. Manduca era mais longo e pronto que eu.

a não ser esta: que servi de alívio um dia ao meu vizinho Manduca. Mas a predição será eterna? Não chegarão a entrar algum dia? Problema difícil. mas.quando passar. e começa logo a escrever a resposta. até que não dei mais nenhuma. não se a Turquia morre porque a morte não poupa a ninguém. apenas recebe os seus papéis. Há ocasiões em que não come ou come mal. Hoje pensando melhor. CAPÍTULO 91 ACHADO QUE CONSOLA É claro que as reflexões que aí deixo não foram feitas então. Mas também. a questão é saber. nem depois.. r nosso caso particular. como os Estados morrem. Se há no outro mundo tal ou qual prêmio para as virtudes sem intenção. nem então. atira-se a lê-los. fazendo-lhe esquecer o mal e o resto. afirmava a mesma predição eterna: “Os russos não hão de entrar em Constantinopla!” Não entraram.. não creio que fosse pecado opinar contra a Rússia. A vida dele resistiu como a Turquia se afinal cedeu foi porque lhe faltou uma aliança como a anglo-francesa. acho que não só servi de alívio. ele estará purgando há quarenta anos a felicidade . mas até lhe dei felicidade. mas não recebendo contestação alguma. mas se os russos entrara algum dia em Constantinopla. mas agora no gabinete do Engenho Novo Então não fiz propriamente nenhuma. como todas.ele ainda teimou duas ou três vezes depois do meu silêncio. E o achado consola-me. é que não os mande à hora do almoço ou de jantar. relê jornais e toma notas. para entrar na sepultura. gastou três anos de dissolução.. efetivamente. a caminho do seminário. essa era a questão para o meu vizinho leproso. Comecei a demorar as respostas. A última como a primeira. não se faz brincando. Quanto ao Manduca. não se podendo considerar tal o simples acordo da medicina e da farmácia. rota e infecta colcha de retalhos. se era. Enquanto espera. nem até agora. já agora não esquecerei mais que dei dois ou três meses de felicidade a um pobre-diabo. tanto que eu queria pedir-lhe uma coisa. Morreu afinal. Fui eu que cansei primeiro. como a história. por fadiga também ou por não aborrecer. esta pagará um ou dois dos meus muitos pecados. O próprio Manduca. tão certo é que a natureza.. É alguma coisa na liquidação da minha vida. acabou de todo com as suas apologias. debaixo da triste.

não contando o gosto do carro. Há consolação maiores. Mas o tempo apagou depressa todas essas saudades e ressurreições.Vim para isto mesmo. sem opinar coisa nenhuma.. CAPÍTULO 92 O DIABO NÃO É TÃO FEIO COMO SE PINTA Manduca enterrou-se sem mim. Também senti não sei que melancolia ao recordar a primeira polêmica da vida. antes do meio-dia. e outra que direi no Capítulo que vem. como se me não visse desde longos meses. se alguém tiver de ler o meu livro com alguma atenção mais da que lhe exigir o preço do exemplar. E talvez saia assim a flor mais bela. CAPÍTULO 93 UM AMIGO POR UM DEFUNTO Quanto à outra pessoa que teve a força obliterativa. temperando o mal com a opinião anti-russa. cuja imagem dormiu comigo na mesma noite. A muitos outros aconteceu a mesma coisa. veio ter a Mata-cavalos.... o meu jardineiro afirma que as violetas. Escobar? . . Capitu. Quero dizer que o meu vizinho de Mata-cavalos. Minha mãe agradeceu-lhe a amizade que me tinha. mas deve ser verdade.. Quero dizer. Nem foi só ele. decerto e uma das mais excelentes é não padecer esse nem outro mal algumas a natureza é tão divina que se diverte com tais contrastes. O resto deste Capítulo é só para pedir que. para terem um cheiro superior.donde concluirá (já tarde) que era ainda melhor haver gemido somente. e tal amigo que durante cerca de cinco minutos esteve com a minha mão entre as suas. sem que eu sentisse nada. foi o meu colega Escobar que no domingo. Um amigo supria assim um defunto. e ele respondeu com . duas pessoas vieram ajudá-lo. e aos mais nojentos ou mais aflitos acena com uma flor. mas este caso afligiu-me particular mente pela razão já dita. o gosto com que ele recebia os meus papéis e se propunha a refutá-los.que alcançou em dois ou três meses. dava à podridão das suas carnes um reflexo espiritual que as consolava. hão mister de estrume de porco.Você janta comigo. não deixe de concluir que o Diabo não é tão feio como se pinta. Não examinei.

chegou-se ..muita polidez.. .Seguramente.Nhonhô! Estávamos na horta da minha casa. “na doce e rara mãe” que o céu me deu. Enviuvou há muitos anos? Contei-lhe o que sabia da vida dela e de meu pai. ainda que um tanto atado. senhora grave.São olhos refletidos.Nem eu digo que sejam de outro. Quando eu referi a Escobar aquela opinião de minha mãe (sem lhe contar as outras naturalmente) vi que o prazer dele foi extraordinário. Também a alguém há de você sair. acrescentou. . foi que me estimava pelas minhas boas qualidades e aprimorada educação. nem podia deixar de ser assim. pedindo explicação das passagens omissas ou só escuras. dizendo que eram bondades. e elogiou também minha mãe. Olhe. contou-me duas ou três reminiscências dos seus três anos de idade. tio Cosme dois capotes. nos bons exemplos. .. em resumo. Agradeceu. e o preto andava em serviço. mas. pode ser que a senhora Dona Justina tenha alguma razão. é de lá. depois. A verdade é que uma coisa não impede outra. Eu estava tão contente como se Escobar fosse invenção minha.. ainda agora frescas. muito moça. e prima Justina não achou tacha que lhe pôr.. perguntando mais. mas o homem não é sempre o mesmo em todos os instantes. O que ele disse.Justamente! confirmou José Dias. Parece curioso. Tudo isso com a voz engasgada e trêmula. e a reflexão casa-se muito bem à curiosidade natura. E não contávamos voltar . expliquei.Já fez quarenta. Tomás! . disse minha mãe. veio ela confessar-nos que o meu amigo Escobar era um tanto metediço e tinha uns olhos policiais a que não escapava nada. no seminário todos me queriam bem. José Dias desfechou-lhe dois superlativos. como se carecesse de palavra pronta. respondi eu vagamente por vaidade. agora não voltamos mais. acudiu José Dias. . Quarenta anos! Nem parece trintaestá muito moça e bonita. opinou tio Cosme. Já viste que não era assim. para não discordar dela. Escobar escutava atento. Todos ficaram gostando dele. . no segundo ou terceiro domingo. distinta e moça.Não é possível! exclamou Escobar. são exatamente os dela. Quando eu lhe disse que não me lembrava nada da roça. a palavra obedecia-lhe. Que idade teria? . . Insistia na educação.. tão pequenino viera. isso parece.A mim parece-me um mocinho muito sério. sim. com esses olhos que Deus lhe deu. entretanto. .Não.São os olhos dele. aquele preto que ali vai passando.

É casado. Nem são todos os da rosa: a maior parte ficou lá.Não. . Antônio Moçambique. e o céu estava tão azul. e só então reparei nisto. ele riu também. sim.Não sei. Caminhamos para o fundo. aquele outro Damião. depois continuamos. . interrompeu Escobar. São assim as boas horas deste mundo. ele parou um instante aí. é bonita. .Todas as letras do alfabeto. este Pedro..Bem.Não lhe hão de faltar tectos. mas parece.. . Quais foram as reflexões não me lembra agora.. senhor. outros estão alugados Não era possível ter todos em casa.. . mais outro. sim..Conheço essa.O que me admira é que Dona Glória se acostumasse logo a viver. alguns com os mesmos nomes. Escobar confessou esse acordo do interno com o externo. tornou a falar de minha mãe. Tomás? . em casa da cidade. eram diferentes letras.Você ainda se lembra da roça. disse ele. aquele José. Maria onde está? . CAPÍTULO 94 IDÉIAS ARITMÉTICAS . Mamãe tem outras casas maiores que esta. como a da Rua da Quitanda. Passamos o lavadouro. a propósito da beleza moral que se ajusta à física.. . diz porém que há de morrer aqui. senhor. ou da pessoa. onde tudo é apertado. que a natureza parecia rir também conosco. distinguindo-se por um apelido. na Cidade-Nova. Com efeito. mirando a pedra de bater roupa e fazendo reflexões a propósito do asseio. e ri. As outras estão alugadas. disse eu para Escobar. .a nós e esperou.. A minha alegria acordava a dele.Alembra.E estão todos aqui em casa? perguntou ele.Está socando milho.Tem também no Rio Comprido. vá-se embora. como João Fulo. Maria Gorda ou de nação como Pedro Benguela. lembra-me só que as achei engenhosas. concluiu ele sorrindo com simpatia. Algumas são bem grandes. por palavras tão finas e altas que me comoveram. . e ainda outro. apontei ainda outros escravos.. “um anjo dobrado”. . depois. . a de lá é naturalmente grande. . uma no Catete. alguns andam ganhando na rua. e o ar tão claro. Mostrei outro.

O mesmo digo do b e do p. Mas onde a perfeição é maior é no emprego do zero. Criado na ortografia de meus pais. ao passo que ele podia somar. Um 5 sozinho é um 5. . em si mesmo. e na semana seguinte levei-lhe escritos em um papel os algarismos das casas e dos aluguéis. Veja os algarismos: não há dois que façam o mesmo ofício. é 500. coisa que não fazem as letras dobradas. treze. pois eu tanto aprovo com um p como com dois pp. passou-os pelos olhos a fim de os decorar. sabia também calcular depressa e bem. dá 484. etc. e acrescentou que as idéias aritméticas podiam ir ao infinito. ao que ele respondeu que era um preconceito. mas não ousava refutá-lo. em meio minuto bradava-me: . vinte algarismos.. São trapalhices caligráficas.Há letras inúteis e letras dispensáveis. custava-me a ouvir tais blasfêmias. e assim por diante. Era das cabeças aritméticas de Holmes (2 + 2 = 4). era para ele como nada: cerrava um pouco os olhos. e enquanto eu fitava o relógio. dê-me o número das casas de sua mãe e os aluguéis de cada uma. em três minutos. mas o ofício deste sinal negativo é justamente aumentar. com a vantagem que eram mais fáceis de menear. e sussurrava as denominações dos algarismos: estava pronto. um dia. Isto com sete.Dá tudo 1:070$000 mensais. Assim. quaisquer quantias.. Contudo. que foi muito. do c e do z. proferi algumas palavras de defesa. . e se eu não disser a soma total em dois. A divisão que foi sempre uma das operações difíceis para mim. Que serviço diverso prestam o d e o t? Têm quase o mesmo som. dê-me um caso. e sussurrava. Agora dobre 11 e terá 22. . eu não era capaz de resolver de momento um problema filosófico ou lingüístico. Oh! o vento não é mais rápido! Foi dito e feito.Não digo o mais.. e 7 é 7. 4 é 4. nada. Escobar pegou o papel. olhe. o mesmo do k e do g.. Assim que.Por exemplo. ele erguia as pupilas. Não se imagina a facilidade com que ele somava ou multiplicava de cor. o que não vale nada faz valer muito.. O valor do zero é. e tinha esta opinião que os algarismos. ponha-lhe dois 00. multiplique por igual número. voltados para cima. A vocação era tal que o fazia amar os próprios sinais das somas. Nem ele sabia só elogiar é pensar. enforque-me! Aceitei a aposta. dê-me uma porção de números que eu não saiba nem possa saber antes. E admire a beleza com que um 4 e um 7 formam esta coisa que se exprime por 11. eram muito mais conceituosos que as vinte e cinco letras do alfabeto.. o mesmo do s. dizia ele. em um minuto. sendo poucos. cerrava as pálpebras.

. e mostrei-lho.Mas. Fiquei tão entusiasmado com a facilidade mental do meu amigo.Agora é certo que você vai sair já do seminário. a de José Dias não lhe quis ficar atrás.Quebremos-lhe a castanha na boca! . Vou jogar com eles que me chamaram. CAPÍTULO 95 O PAPA A amizade de Escobar fez-se grande e fecunda. indo à missa. . decerto. É ilusão. no quintal. . com tal força que ainda me doem os dedos. era aquilo mesmo. Ao primeiro aspecto confesso que fiquei deslumbrado. Considera que eram não menos de nove casas. A idéia é tão santa que não está mal no santuário.Certíssima! No dia seguinte revelou-me o mistério.. brincando.Fiquemos ainda mais amigos que até aqui. não consente esses gestos excessivos podem estimar-se com moderação. outros seminaristas notaram a nossa efusão. . Suspendamos a pena por alguns instantes. Interrompi-o dizendo que não inveja. Olhava-me triunfalmente. e portanto mais naturais.. Escobar apertou-me a mão às escondidas. Pois tudo isto em que eu gastaria três ou quatro minutos. Amanha. A natureza é simples... se não é efeito das longas horas que tenho estado a escrever sem parar. Trazia uma nota de grandeza e de espiritualidade que . e que os aluguéis variavam de uma para outra.fê-lo Escobar de cor. .Como? . . . e perguntava se não era exato. Na primeira semana disse-me este em casa: . que não pude deixar de abraçá-lo. Bentinho. tirei do bolso o papelinho que levava com a soma total. só por lhe mostrar que sim. Era no pátio. lá no quarto.A modéstia. amanhã. nem um erro: 1:070$000.Fiquei pasmado. ou na rua. indo de 70$000 a 180$000. A arte é atrapalhada.Mas é coisa certa? . Eu. um padre que estava com eles não gostou.e havia de ser no papel.. Escobar observou-me que os outros e o padre falavam de inveja e propôs-me viver separados.Isto prova que as idéias aritméticas são mais simples.Espere até amanhã. conto-lhe o que há. disse-nos. tanto pior para eles.

interroga. estava arrependida do que fizera. Minha mãe.Parece-me bem. você beijando o pé ao príncipe dos apóstolos. dirão que é dado pedir a dispensa cá de longe. e boca no nosso caso é a moeda.Oh! Bentinho! interrompeu o agregado. expondo-lhe tudo.Não? . Não digo mais. .falava aos meus olhos de seminarista.. o reitor? Não era natural que lhe confiasse tal assunto. com o sorriso evangélico. não. nem ninguém.. Rigorosamente. absolve e abençoa. Bem sei a objeção que se pode opor a esta idéia. Não. nem professor. Considere o quadro... . era só o tempo de refletir. não pregá-la. Que me parecia? . Bentinho. Digo? Não se amofina com o seu velho? Você o que quer é consultar a uma pessoa. Pois eu vou.. Capitu e Escobar.Melhor é falar domingo que vem.. inclina-se.. sejam satisfeitos. Bentinho. e podemos partir daqui a dois meses. não preciso mais. Sua Santidade.. o levita prometido. além do mais que não digo.. e prostrar-se aos pés do papa o próprio objeto do favor. Levaremos cartas do internúncio e do bispo. Comigo. mas buscá-la. . a Virgem recomenda ao santíssimo filho que todos os seus desejos. Pode ser um bom remédio. Ora. Cumpria rompê-lo. ao parecer dele. ele e eu iríamos a Roma pedir a absolvição do papa.. que vai pedir para sua mãe terníssima e dulcíssima a dispensa de Deus. ou antes. Os anjos o contemplam.Pois resolvamos hoje mesmo. mas. você pode muito bem gastar consigo.Quem tem boca vai a Roma.É o único..Não se vai a Roma brincando. com o poder de desligar dado aos apóstolos. é o único! Vou já hoje conversar com Dona Glória. mas entendia que o vínculo moral da promessa a prendia indissoluvelmente. uma semana. cartas de capuchinhos.. . basta refletir que é muito mais solene e bonito ver entrar no Vaticano. mas eu neguei a pés juntos que quisesse consultar ninguém. e ele não acabou o . E que pessoa. e que o que você amar na terra seja igualmente amado no céu. e para tanto valia a Escritura. no domingo daria a resposta. . deixe-me pensar primeiro. e desde já lhe dizia que a idéia não me parecia má. que vivia do ofício enquanto ia pregando a palavra divina. Serei como São Paulo. porque é preciso acabar o capítulo. eram duas pessoas. e desejaria ver-me cá fora.. três camisas e o pão diário. cartas para o nosso ministro.. Assim que. Era não menos que isto. . um par de calças. ouve. respondi depois de alguns segundos de reflexão. nem reitor. Pensar em quê? Você o que quer.

Não. porque o Santo Padre vale sempre mais que tudo. quase me comeram de contemplação. de costume fugidios. jurasse que no fim de seis meses estaria de volta.Esquece. Falou a todos os meus sentimentos de católico e de namorado. não iria. . esquece-me inteiramente. por tudo. declarou crer que eu cumpriria o juramento. que eu só geograficamente sabia onde ficava. Vi a alma aliviada de minha mãe. Os olhos. que me daria um bom conselho. Quando voltei ao seminário. Capitu não achava outra idéia. e acabou triste. vi-lhe no rosto um clarão. Bentinho. E não haverá outro meio? Dona Glória está morta para que você saia do seminário.Juro. e eu com elas. Se Capitu achasse longe. Não é de lá que vêm as cantoras? Você esquece-me. mas julga-se presa pela promessa. e a Itália principalmente. Mas se o papa não tiver ainda soltado a você? Mando dizer isso mesmo. e eu que visse também por meu lado. . ia ver se não haveria outra coisa. . mas a distancia que estaria da vontade de Capitu é que não. E se você mentir? Esta palavra doeu-me muito. se acaso fosse a Roma.Sim. . Juro que no fim de seis meses estarei de volta. não é preciso isso. rindo e chamando-me disfarçado Depois. De caminho. e ele conosco. Bentinho. vi a alma feliz de Capitu. Eis o ponto essencial. um reflexo de idéia e ouvi-lhe dizer com volubilidade: . disse ela. também. mas ainda assim não consentiu logo. Há melhor. . nem acabava de adotar esta. A Europa dizem que é tão bonita. Ouviu-me atentamente.mas era preciso ouvi-la. pediu-me que.Nunca! .discurso.Por Deus.não dizia melhor.Por Deus? . contei tudo ao meu amigo Escobar que me ouviu com igual atenção e acabou com a mesma tristeza da outra. e assim também a Escobar. ambas em casa. De repente. e não achei logo que lhe replicasse Capitu meteu o negócio à bulha. espiritualmente. CAPÍTULO 96 UM SUBSTITUTO Expus a Capitu a idéia de José Dias.. tudo mediante uma pequena viagem a Roma.mas ha coisa que produz .Você indo. .

está dado um padre ao altar.. CAPÍTULO 97 A SAÍDA Tudo se fez por esse teor. a promessa cumpre-se. . não se perdendo o padre. ou eu mesmo consulto. entendo. .Também eu. . Minha mãe hesitou um pouco.070$000. cada um com os seus olhos perdidos.. e um órfão não precisaria grandes comodidades. mas acabou cedendo. Vou melhorar o meu latim e saio. realmente.. Sentia-me pilhérico.E saímos juntos. Eu. . .Ainda uma vez. a religião c a liberdade fazem boa companhia.Não há outra coisa.Que é? . parecendo gostar da resposta. que podia ser... tendo consultado o bispo. se quer e se ele hesitar.Você também? . para que no comércio? . Depois ficamos a cuidar de nós mesmos. depois que o Padre Cabral. Escobar observou que. Aqui devia ser o meio do livro. O próprio latim não é preciso. Escobar ouviu-me contentíssimo. fazê-lo ordenar à sua custa. sem que você. dê-lhe um sacerdote. . pelo lado econômico.Não acha? continuou ele. disse eu. . Citou a soma dos aluguéis das casas. parece que é isso. a questão era fácil minha mãe gastaria o mesmo que comigo. provavelmente. que não seja você.Entendo. voltou a dizer-lhe que sim. nem dou teologia. disse eu rindo.Sim.Sua mãe fez promessa a Deus de lhe dar um sacerdote não é? Pois bem. fala-se ao senhor bispo. é isso mesmo. Escobar sorriu. Consulte sobre isto o protonotário: ele lhe dirá se não é a mesma coisa. Tinha então pouco mais de dezessete. Oh! como a esperança alegra tudo. Os dele estavam assim. quando tornei de longe. Ela pode muito bem tomar a si algum mocinho órfão. ..In hoc signo vinces.. disse ele gravemente.o mesmo efeito.. refletindo: . . além dos escravos. Saí do seminário no fim to ano. e agradeci de novo o plano lembrado. não podia havê-lo melhor. 1.

com o melhor da narração por dizer. Achavam-me lindo. mas eram também das moças que na rua ou da janela não me deixavam viver sossegado. capítulo sobre capítulo. A mãe de Capitu falecera. cumpre não esquecer a grande diferença de idade. Agora não há mais que levá-la a grandes pernadas. Talvez ele não pensasse em mais que associá-la aos seus . O que essa qualidade superlativa me rendeu não poderia nunca dizê-lo aqui. Um dos sacrifícios que faço a esta dura necessidade é a análise das minhas emoções dos dezessete anos. os vinte. outras valerão por anos. e diziam-mo. uns assomos de petulância e de atrevimento. Passei os dezoito anos. Minha mãe resolvera-se a envelhecer. os vestidos. aos poucos e espalhadamente. e não diria mal. José Dias também. e descer comigo a serra. mas. o pai aposentara-se no mesmo cargo em que quis dar demissão da vida. Já esta página vale por meses. algumas queriam mirar de mais perto a minha beleza.mas a inexperiência fez-me ir atrás da pena. ainda assim os cabelos brancos vinham de má vontade. não tanto que me não fizesse a fineza de ir assistir à minha graduação. os dezenove. eram do sangue. Era opinião de prima Justina que ele afagara a idéia de convidar minha mãe a segundas núpcias. CAPÍTULO 98 CINCO ANOS Venceu a razão. debaixo do recolhimento casto. Tudo mudara em volta de mim. e assim chegaremos ao fim. Posto que filho do seminário e de minha mãe. Não sei se alguma vez tiveste dezessete anos. Já não andaria tanto de um lado para outro. Tio Cosme padecia do coração e ia descansar. fui-me aos estudos. A prima Justina apenas estava mais idosa. tudo em resumo. se tal idéia houve. e a vaidade é um princípio de corrupção. deves saber que é a idade em que a metade do homem e a metade do menino formam um só curioso. aos vinte e dois era bacharel em Direito. e chego quase ao fim do papel. os vinte e um. pouca reflexão. lépido e viçoso. sentia já. Eu era um curiosíssimo. sem cair no erro que acabo de condenar. como se o bacharel fosse ele. Se sim. a touca. os sapatos rasos e surdos eram os mesmos de outrora. a análise das minhas emoções daquele tempo é que entrava no meu plano. diria o meu agregado José Dias. Escobar começava a negociar em café depois de haver trabalhado quatro anos em uma das primeiras casas do Rio de Janeiro. pousa emenda.

Desde que a viu animou-me muito no nosso amor. preferia José Dias... E minha mãe beijava-me com uma ternura que não sei escrever Tio Cosme. Capitu entregou-lhe a primeira carta. A princípio. Hás de ir ver a ordenação. O bigode é que desfaz um pouco.Mano Cosme. que foi mãe e avó das outras.primeiros tentamens comerciais. . logo que pôde.Sim... Sempre achei que te parecias com ele. ordena-se para o ano. CAPÍTULO 99 O FILHO É A CARA DO PAI Minha mãe. tanto que alguma vez. . . se o meu senhor coração consentir. entre lágrimas: . a pedido meu. eis aí a tua mãe! Minha mãe. como se recebesses em ti mesmo a sagração. mas é muito parecido. é a cara do pai. e de fato. os olhos. eu também. e dizendo ao ver-nos abraçados: . olha bem para mim. . como amigo. É o pai. não foi melhor que ele não teimasse em ser padres Veja se este peralta daria um padre capaz. e fê-lo servir a ambos nós. Olha. mas José Dias repugnava-me por um resto de respeito de criança. . respondeu tio Cosme.adivinha com quem. chamava a esta a “sua cunhadinha.Vai indo.casou com a boa Sancha a amiga de Capitu. as aventuras e os livros. Mas veja bem. Que ele casou. não sem este remoque: “Dona Glória é medrosa e não tem ambição.Sim. mano Cosme. concluiu por chalaça.Como vai o meu substituto? . lembrando o evangelho de São João. Venceu Escobar posto que vexada. tem alguma coisa. Nem depois de casado suspendeu ele o obséquio. agora é muito mais. quando eu regressei bacharel quase estalou de felicidade Ainda ouço a voz de José Dias. Bentinho.. E diga-me agora mana Glória. não é? . veja se não é a figura do meu defunto. minha mãe adiantou-lhe alguns dinheiros. quase irmã dela.Mulher. um pouco mais moderno. que ele lhe restituiu. a disposição do rosto. escrevendo-me.Justamente! exclamou minha mãe.” Assim se formam as afeições e os parentescos. É bom que te sintas na alma do outro. mana Glória.” A separação não nos esfriou. Ele foi o terceiro na troca das cartas entre mim e Capitu.. eis aí o teu filho! Filho. o bigode realmente. As relações que travou com o pai de Sancha estreitaram as que já trazia com Capitu. custou-lhe a ela aceitá-lo..

Bentinho.. Bentinho.Há de ser feliz. e marido de truz. e todos em casa. e trabalhador... Macbeth!” ... Ainda agora sou capaz de jurar que a voz era da fada.. espanta .. é caju chupado. é também outra coisa. meteram-se no coração da gente e falam de dentro para fora. velho também sabe amar. os escravos. é um anjíssimo. e me disse em voz igualmente macia e cálida: “Tu serás feliz. Há de ser prima das feiticeiras da Escócia: “Tu serás rei. muita vez a ouvi clara e distinta. em particular. BENTINHO” No quarto. ouvi o resto do discurso de José Dias: . porque ela é um anjo. os Escobares. a felicidade não é só a glória.. é a mesma predição.É boa! Você mesmo é que está dizendo. e ela mesma repetiam-me o título. não vale nada.. Ah! você não confiou tudo ao velho José Dias! O pobre José Dias está aí para um canto. Esta. as visitas.. . Não lhe nego que é moço muito distinto.Você ouviu? perguntei eu erguendo-me também. Quando voltei do meu espanto. ia pensando na felicidade e na glória. já lhe contei que ouvi da boca dos lentes. tu vais ser feliz. naturalmente as fadas. José Dias também.Que há de ser? Quem é que não sabe tudo?. a filha. Demais.Mas que é? . Aquela intimidade de vizinhos tinha de acabar nisto. . A distinção que tirou em todas as matérias é prova disso. desfazendo a mala e tirando a carta de bacharel de dentro da lata.Ouviu uma voz que dizia que eu serei feliz? . Perdoe a cincada. enquanto José Dias me ajudava calado e zeloso. assim como mereceu esse diploma que ali está.E por que não seria feliz? perguntou José Dias.” . os maiores elogios. Uma fada invisível desceu ali. como merece.. CAPÍTULO 100 “TU SERÁS FELIZ.“Tu serás feliz. endireitando o tronco e fitando-me.. enfim. pela mesma toada universal e eterna. que não é favor de ninguém. Via o casamento e a carreira ilustre.Ouviu o quê? . que é verdadeiramente uma bênção do céu. agora são os novos. expulsas dos contos e dos versos. a prima.para alegrá-la. chamava-me doutor. foi . mas. por exemplo. Bentinho!” Ao cabo. Pádua.

Mamãe aprova deveras? . e uma dona de casa. e não vi que essa menina travessa e já de olhos pensativos era a flor caprichosa de um fruto sadio e doce. deu-me igual profecia. Depois da morte da mãe. paga as contas. contanto ela sempre achasse que o doutor era um feixe de ossos. algumas semanas depois. agora que se aposentou. deveras. prendada. falava de Capitu. minha mãe. e logo sério: Digo isto por gracejo. quando lhe fui pedir licença para casar. confundi os modos de criança com expressões de caráter. boa. comentou rindo. tomou conta de tudo. Ouvia só a voz da minha fada interior. mas não é fora de propósito. Há de ver que não ha nada.Pois então? Temos falado sobre isso.Você sabe que elas se dão muito. não faz mais que receber o ordenado e entregá-lo à filha. o protonotário é que me contou) dizem que os dois andam meio inclinados a acabar com a viuvez..Prima Justina? ... Talvez agora case mais depressa.Não sabe? São contos. Pádua. fez-me o favor de perguntar se Capitu não daria uma boa esposa..Positivamente. . cuida de tudo. mantimento. meu filho! . que me repetia mas já então sem palavras: “Tu serás feliz. naturalmente. e ela fez-me o favor de pedir a minha opinião.. Não ouvi o resto. na resposta. com termos diversos. Cuidei o contrário. luz. Pergunte-lhe o que é que eu lhe disse em termos claros e positivos. pergunte-lhe.. Só se ela é um cemitério.. A filha é que distribui o dinheiro. e dizem (não sei. mamãe consultou o senhor sobre o nosso casamento? . casando-se.um modo de acentuar a perfeição daquela moça.. Enfim. . Bentinho!” E a voz de Capitu me disse a mesma coisa. eu é que. . roupa. Por que é que não me contou também o que outros sabem. e por isso é que sua prima anda cada vez mais amuada. amiga da gente.. E quanto à formosura você sabe melhor que ninguém.Mas.Mamãe sempre que me escrevia. falei em nora. não. mas enfim. e cá em casa está mais que adivinhado e aprovado? . Disse-lhe que não podia desejar melhor nora para si. além do consentimento. entre si. . você já a viu o ano passado. o Doutor João da Costa enviuvou há poucos meses. faz o rol das despesas. outrora. e assim também a de Escobar.. Dona Glória não negou e até deu um ar de riso. os quais ambos me confirmaram a notícia de José Dias pela sua própria impressão. que não lhe digo nada. salva a redação própria de mãe: “Tu serás feliz. discreta.

. Tal foi aquela . que tem as chaves do céu. Pedro. tratando-as com honra. CAPÍTULO 102 DE CASADA Imagina um relógio que só tivesse pêndulo. Ao que eu repliquei que a minha esposa teria sempre as mais finas rendas deste mundo. recitou alguns versículos da sua primeira epístola: “As mulheres sejam sujeitas a seus maridos. fez-nos entrar. S. como estas.. Foi grande fineza e não foi única. e depois de tocar-nos com o báculo. como a vasos mais fracos. morto de esperar. o céu recolheu a chuva e acendeu as estrelas.” Em seguida.” Quanto às de S. se a execução fosse na terra. como se houvessem nascido juntos. por sinal que chovia. e eles entoaram um trecho do cântico. fez sinal aos anjos. A música ia com o texto. que não sabia Escritura nem latim. à maneira de uma ópera de Wagner. e herdeiras convosco da graça da vida. de maneira que não se vissem as horas escritas. A verdade que Capitu. Descansa que não farei descrição alguma. tão concertadamente. Do mesmo modo. nada mais natural a um ex-seminarista que ouvir por toda a parte latim e Escritura.. que eu era a única renda e o único enfeite que jamais poria em si. maridos. Quando chegamos ao alto da Tijuca... não só as já conhecidas. coabitai com elas. disse-me no dia seguinte que estava por tudo. mas o homem que está escondido no coração. decorou algumas palavras. Pedro.CAPÍTULO 101 NO CÉU Pois sejamos felizes de uma vez. sem mostrador. pode ser que tudo fosse um sonho. antes que o leitor pegue em si. onde era o nosso ninho de noivos. mas era no céu. Não seja o adorno delas o enfeite dos cabelos riçados ou as rendas de ouro. por exemplo: “Sentei-me à sombra daquele que tanto havia desejado. Depois. vós. casemo-nos. visitamos uma parte daquele lugar infinito. nem a língua humana possui formas idôneas para tanto. e vá espairecer a outra parte. mas ainda as que só serão descobertas daqui a muitos séculos. Ao cabo. abriu-nos as portas dele. que desmentiriam a hipótese do tenor italiano.. uma tarde de março. Foi em 1865. O pêndulo iria de um lado para outro mas nenhum sinal externo mostraria a marcha do tempo.

da falta de notícias nossas. outros paravam. olhando. . ver-nos e imaginar alguma doença. que queria ver papai. mas ia falando do pai e de minha mãe. achei que Capitu estava um tanto impaciente por descer.” E ambos os dois: “A uma mocetona!” . e descemos com sol. e acabou festejando o nosso consórcio.Parece. e. Não obstante. os anos da adolescência. tudo me mostrou que a causa da impaciência de Capitu eram os sinais exteriores do novo estado. De quando em quando. . falávamos em descer. que teimava em não vir. alguns perguntavam: “Quem são?” e um sabido explicava: “Este é o Doutor Santiago. confesso. a denúncia que está nos primeiros capítulos. mas isso mesmo era um modo de não sairmos de nós. as famílias residem em Mata-cavalos. Perguntei-lhe se já estava aborrecida de mim. disto e daquilo. Dona Capitolina. muitos voltavam a cabeça curiosos. Então eu esperei tantos anos para aborrecer-me em sete dias? Não. senti a mesma coisa. tornávamos ao passado e divertíamo-nos em relembrar as nossas tristezas e calamidades. falando. moram na Glória.Não. me confirmassem e me invejassem. há de ser com tempo encoberto. Concordava em ficar.Eu? .Pois vamos amanhã. depois de uma longa paixão de crianças. E quando eu me vi embaixo. e o braço para andar na rua. redargüiu rindo. Peguei-lhe no riso e na palavra. disse ela fechando-me a cara entre as mãos e chegando muito os olhos aos meus. . e ríamos de José Dias que conspirou a nossa desunião. Na rua. mas a impaciência continuou.Você há de ser sempre criança. Bentinho. digo isto porque é realmente assim. que casou há dias com aquela moça. pisando as ruas com ela. Uma ou outra vez.semana da Tijuca. A alegria com que pôs o seu chapéu de casada. a ponto que nos arrufamos um pouco. Inventava passeios para que me vissem. e o ar de casada com que me deu a mão para entrar e sair do carro. mas as manhãs marcadas eram sempre de chuva ou de sol. e nós esperávamos um dia encoberto. creio que eles podem estar desejosos de. . Não lhe bastava ser casada entre quatro paredes e algumas árvores. pela minha parte. Assim vivemos novamente a nossa longa espera de namorados. precisava do resto do mundo também. parando.

sinto que a vida e o resto não sejam tão rijos como as Pirâmides. é verdade. dez e onze horas. Eles moravam em Andaraí. não sei que atriz ou . não podendo ser tantas como desejávamos. Sancha e Capitu continuavam depois de casadas a amizade da escola. Escobar contribuíra muito para as minhas estréias no foro. Interveio com um advogado célebre para que me admitisse à sua banca. quando não podia ser mais. não as ponho aqui para ir poupando papel. Tudo corria bem. e só nos separávamos às nove.. e os processos vinham chegando. íamos lá jantar alguns domingos. Imagina o resto. mas palavras que eram músicas verdadeiras. ou eles vinham fazê-lo conosco. mas foram deliciosas. Eu era advogado de algumas casas ricas. ambos escutávamos comovidos e convencidos. íamos sempre muito cedo. logo depois do almoço. aonde que riam que fôssemos muitas vezes. CAPÍTULO 104 AS PIRÂMIDES José Dias dividia-se agora entre mim e minha mãe. desde a tarde de 1858. Escobar e eu a do seminário. as aves emplumando as asas e subindo ao céu. esquecendo tudo. Ao fim de dois anos de casado. e o céu agora mais largo para poder contê-las também. alternando os jantares da Glória com os almoços de Mata-cavalos. e. as nossas relações de família estavam previamente feitas. Escobar e a mulher viviam felizes. tudo corria bem. Um dia. A felicidade tem boa alça. a nossa excelente. tudo espontaneamente. Perdera meu sogro. e o tio Cosme estava por pouco. José Dias achou melhor. salvo o desgosto grande de não ter um filho. mas a saúde de minha mãe era boa. Jantar é pouco.CAPÍTULO 103 A FELICIDADE TEM BOA ALMA Mocetona é vulgar. tinham uma filhinha. negócio de teatro.. Agora que penso naqueles dias de Andaraí e da Glória. para gozarmos o dia compridamente. levando abraços dos nossos e palavras suas. e arranjou-me algumas procurações. comparou-nos a aves criadas em dois vãos de telhados contíguos. Em tempo ouvi falar de uma aventura do marido. Demais. Nenhum de nós riu. Foi a única pessoa cá de baixo que nos visitou na Tijuca.

Não sabendo piano. e enfeitava-se com amor quando ia a um baile.Virá.Uma criança. replicou-me: . não queria que eu lhe comprasse muitas nem caras. quando íamos a passeios ou espetáculos. . mas pouco e raro. e um dia afligiu-se tanto que prometi não comprar mais nenhuma. o marido trabalhador. por não ter voz. De dançar gostava. deixa lá. e melhor será que fiquem no céu. Eram os mais belos da noite. a sombra das montanhas e dos navios. e se não der nenhum é que os quer para si. leitora. Já não era como em criança. se eram nascidos. Os braços merecem um período. nos primeiros tempos. As vezes. Na Glória era uma das nossas recreações. ou a gente que passava na praia. e. um filho é o complemento natural da vida. Deus os dará quando quiser.Homem. aprendeu depois de casada. os braços é que. Não vinha. outras dava-lhe notícias de astronomia. Embora gostasse de jóias. tudo corria bem. e depressa. Capitu gostava de rir e divertir-se. se for necessário. CAPÍTULO 105 OS BRAÇOS No mais. como os aluguéis da casa. e daí a pouco tocava nas casas de amizade. era como um pássaro que saísse da gaiola. e na primeira noite que os levou nus a um baile. mas provavelmente estariam ainda no mármore.. donde vieram. não creio que houvesse iguais na cidade. notícias de amador que ela escutava atenta e curiosa. ou se não íamos a algum espetáculo ou serão particular (e estes eram raros) passávamos as noites à nossa janela da Glória.. Quando não estávamos com a família ou com amigos. A nossa vida era mais ou menos plácida. Como eu um dia dissesse a Escobar que lastimava não ter um filho. também cantava. mas se foi certo.bailarina. como as outras moças. Capitu pedia-o em suas orações. Arranjava-se com graça e modéstia. não deu escândalo. que eram então de menina. mirando o mar e o céu. agora pagava antecipadamente. eu contava a Capitu a história da cidade. mas foi só por pouco tempo. eu mais de uma vez dava por mim a rezar e a pedi-lo. nem sempre tanto que não cochilasse um pouco. Sancha era modesta. a ponto que me encheram de desvane acontecimento. Eram belos. . ou nas mãos do divino escultor. Conversava mal . um dia chegou a entender que era melhor não cantar nada e cumpriu o alvitre. nem os seus.

.com as outras pessoas. por exemplo.Você não me ouve. só para vê-los. Capitu já me chamou assim. o contrário parece-me indecente.Qual Sírius. quando vi que os homens não se fartavam de olhar para eles. CAPÍTULO 106 DEZ LIBRAS ESTERLINAS Eu já disse que era poupada.Sanchinha também não vai. os últimos que usou antes de calçar botinas. mas levou-os meio vestidos de escumilha ou não sei que.O que é que eu dizia? .você falava de Sírius. . que tinha o mesmo gênio. Há vinte minutos que eu falei de Sírius. e basta. direi um caso. ou fica dito agora. quase de os pedir. dessas que se guardam por tradição. gostava de ouvir falar e fazer assim. como o cendal de Camões. com outras velharias. Foi justamente por ocasião de uma lição de astronomia. por mais que eles se entrelaçassem aos das casacas alheias.Eu? Ouço perfeitamente. que nem cobria nem descobria inteiramente. Ela sorriu e respondeu que os braços de Sanchinha eram mal feitos. concordou logo comigo. mas cedeu depressa. a quem confiei candidamente os meus tédios. a outros foi. fiquei vexado e aborrecido. . nesse. Capitu. Capitu. lá não foi assim no segundo baile. à Praia da Glória. Ao terceiro não fui.Não é? Mas não diga o motivo. e não foi ao baile. hão de chamar-nos seminaristas. ou irá de mangas compridas. . de os buscar.. Uma noite perdeu-se em fitar o mar. Quanto às puras economias de dinheiro. Sabes que alguma vez a fiz cochilar um pouco. trouxe-os para casa.. Nem por isso deixei de contar a Capitu a aprovação de Escobar. . por lembrança ou por saudade. .Você. uns sapatinhos rasos de fitas pretas que se cruzavam no peito do pé e princípio da perna. e não só de dinheiro mas também de coisas usadas. e que roçavam por eles as mangas pretas. que me deu ciúmes. Minha mãe. Uns sapatos. . com tal força e concentração. dizendo-me que eram pedaços de criança. e aqui tive o apoio de Escobar. e tirava-os de longe em longe da gaveta da cômoda.

na mão. e o ímpeto que me deu foi deixar a sala.Não é muito. é o que a avarenta de sua mulher pôde arranjar. eu não disse para que você não desconfiasse.Pois você guarde-as. falava de Marte.Quem foi o corretor? . mas daí a pouco estava eu mesmo calculando também. e replicou que a culpa de romper o segredo era minha. emendou ela apressada. eram as sobras do dinheiro que eu lhe dava mensalmente para as despesas. Realmente. já então com papel e lápis. Escobar sorriu e disse-me que estava para ir ao meu escritório contar-me tudo. dez libras só. .Ele esteve cá? .“Não sei. . mas Capitu deteve-me.Mas que libras são essas? perguntei-lhe no fim. somando uns dinheiros para descobrir certa parcela que não achava.Como é que ele não me disse nada? . Ao contrário. fui ter com Escobar ao armazém. e dava a diferença que ela buscava. não o sentido. A princípio supus que era um recurso para desenfadar-me. Capitu. em alguns meses. A cunhadinha (continuava a dar este nome a Capitu) tinha-lhe falado naquilo por ocasião da nossa última visita a Andaraí. Tive vontade de gastar o dobro do ouro em algum presente comemorativo. .. respondi. concluiu fazendo tinir o ouro na mão. agora que tudo está tão caro?”.” . .Falava de. Fiquei sério. sobre o joelho. era de Marte.Quando contei isto a Sanchinha. fez-se a mais mimosa das criaturas.O seu amigo Escobar.. consultou-me sobre o que havíamos de fazer daquelas libras.Tudo isto? . e disse-lhe a razão do segredo. Tratava-se de uma conversão de papel em ouro. Capitu fitou-me rindo. .São suas..Pouco antes de você chegar. ficou espantada: “Como é que Capitu pode economizar. sei que arranjou dez libras.São nossas. . foi ao quarto e voltou com dez libras esterlinas. confessou-me que estivera contando. ao percebê-lo. emendou. começou-me na mão. .Foi hoje mesmo. concluiu ele. . . No dia seguinte. mas é claro que só apanhara o som da palavra. filha. e ri-me do segredo de ambos. Ergueu-se. isto é.

Um anônimo ou anônima que passe na esquina da rua faz com que metamos Sírius dentro de Marte. não fora ou acima dela. ao piano ou à janela. E não foram propriamente as dez libras esterlinas que fizeram isto. estaria eu outra vez na sala. orgulho ou consolação. meu amigo. Não. as noites mais claras. como quem sentia não poder dizer o mesmo da mulher. continuando a lição interrompida: . aceno. Assim pensarias m também. ela ainda mais meiga. a terra e as estrelas. é para que não cuides que a vaidade de professor é que me fez padecer com a desatenção de Capitu e ter ciúmes do mar. . metade culpadas. Venho explicar-te que tive tais ciúmes pelo que podia estar na cabeça de minha mulher. um quinto. CAPÍTULO 107 CIÚMES DO MAR Se não fosse a astronomia. um terço. mas sem entusiasmo. e Deus mais Deus. o ar mais brando. dez minutos. tão pouco tempo. A recordação de uns simples olhos basta para fixar outros que os recordem e se deleitem com a imaginação deles.Marte está a distancia de.. Foi isto que me fez empalidecer. provavelmente. mas só chega. calar e querer fugir da sala para voltar. mas a astronomia tem dessas confusões. Dez minutos depois. É sabido que as distrações de uma pessoa podem ser culpadas. Sanchinha não é gastadeira.Capitu é um anjo! Escobar concordou de cabeça. mas não é por isso que torno a ela. suspiro ou sinal ainda mais miúdo e leve. mas com o mesmo pouco ou menos reconstruiria o céu. e tu sabes. nem o . leitor. nem papel trocado. se era possível. depois de alguns instantes de reflexão: . Eu. tão certo é que as virtudes das pessoas próximas nos dão te ou qual vaidade.Não creio. Deus sabe quando. a diferença que há de um a outro na distancia e no tamanho.. não descobriria eu tão cedo as dez libras de Capitu. simples palavra. com pouco derrubaria tudo. mas também não poupada. um décimo de culpadas.. pois que em matéria de culpa a graduação é infinita. Não é mister pecado efetivo e mortal. mas curtos. o que lhe dou chega. A verdade é que fiquei mais amigo de Capitu.Vê se ela aprende também. dez minutos depois. Tão pouco tempo? Sim. Os meus ciúmes eram intensos.

vínhamos suspirando as nossas invejas. um triste menino que fosse. . porque há um deus para os pais novos. um filho próprio da minha pessoa. contavam as travessuras e agudezas da menina. e pedindo mentalmente ao céu que no-las matasse. mas que o nosso destino afirmou que seria.As invejas morreram. Não era escasso nem feio. como os outros pais. ficávamos cheios de invejas. por diferençá-la de minha mulher. CAPÍTULO 108 UM FILHO Pois nem tudo isso me matava a sede de um filho. e as nossas conversações mais íntimas. Capitu não era menos terna para ele e para mim. mas pensadas ou deliradas a cada instante. a perguntar-lhe donde vinha. como eu já pedia. nem creio que a possa haver idêntica. nem em casa para não afligir Capitu convalescente. do nosso passado e do nosso futuro. mas as cautelas que Capitu empregou para o fim de descobrir-me um dia o cuidado de todos os dias. e toda aquela união da natureza para a nutrição e vida de um ser que não fora nada. faladeira e curiosa.. A minha alegria quando ele nasceu. e. Quando eu via o meu filho chupando o leite da mãe. não sei dizê-la. ficava que não sei dizer nem digo.. vivia com o espírito no menino. Fora. nunca a tive igual. As horas de maior encanto e mistério eram as de amamentação. e não tardou que viesse ao mundo o fruto delas. ou que de longe ou de perto se pareça com ela.. e por que é que eu estava tão inteiramente nele. Talvez perdi algumas causas no toro por descuido. e várias outras tolices sem palavras. conversávamos de nós. Foi uma vertigem e uma loucura. e receio que o que dissesse . Também não caía. e a nossa constância e o nosso amor fizeram que chegasse a ser. Dávamos as mãos um ao outro.. quando não olhávamos para o nosso filho. positivamente não me lembra.sentimento de economia que revelavam e que eu conhecia. com os olhos a observá-lo. em casa. A pequena era graciosa e gorducha. Os pais. Não cantava na rua por natural vergonha. e nós. mas um filho. a mirá-lo. Quando íamos a Andaraí e víamos a filha de Escobar e Sancha. as esperanças nasceram. visto que lhe deram o mesmo nome à pia. quando voltávamos à noite para a Glória. Escobar também se me fez mais pegado ao coração. As nossas visitas foram-se tornando mais próximas. familiarmente Capituzinha. amarelo e magro. mas um rapagão robusto e lindo.

que também foi passar com Capitu os primeiros dias e noites. riu-se e não se magoou. disse-lhe entre outros carinhos: . eu os meus sonhos. de atropelo. Quis rejeitar o obséquio de Sancha. estas vieram depois. pela infância unida e correta. Escobar acompanhava muita vez as minhas criancices. Escusai minúcias.Não desisto do favor. Eu via o meu filho médico. Eu ainda tentei espaçar a cerimônia a ver se tio Cosme sucumbia primeiro à doença. A possibilidade de político foi consultada. Bem se vê que você é pai de primeira viagem. A amizade existe. e está tudo passado. Contei discretamente a anedota a Escobar. .. Era minha idéia que Escobar fosse padrinho do pequeno.. e propus que os encaminhássemos a este fim.me saísse escuro. que batia com grande força. também Capitu. e às noites sigo para Andaraí. velhaco.Anda. e há de ser depressa o batizado. Escobar cumpriu o que disse. e cri que me saísse orador. que me recolhi à minha casmurrice. mas deve haver. quis que o almoço do batizado fosse na chácara dele. respondeu me que eu não tinha nada com isso. voltando-se para mim: . afinadas pelo coração. jantava conosco. Aceitei a lembrança. pela educação igual e comum.Não se lembra que o senhor foi lá vê-la? . que. . ninguém diria o que veio a se Demóstenes. Sobre tarde descíamos à praia ou íamos ao Passeio Público. . em solteira. advogado. a madrinha devia ser e seria minha mãe. antes que a minha doença me leve de vez. e ia-se à noite.onde está a segunda? Usávamos então estas graças em família. e foi.Também você. ao ver a criança. negociante. e grande orador. também interrogava o futuro. esteve toda nas mãos com que apertei as de Escobar. ao ouvir-lhe isto. . mas Escobar. redargüia Escobar. Hoje. e na total ausência de palavras com que ali assinei o pacto.Pode ser. Chegou a falar da hipótese de casar o pequeno com a filha. para que ele me compreendesse e desculpasse. e até aceitei a hipótese de ser poeta.Eu virei jantar com vocês. fora tratá-la à Rua dos Inválidos. não sei se ainda há tal linguagem. meti-o em várias universidades e bancos. Não houve remédio senão levar o . oito dias. E. Fez mais. toma a bênção a teu padrinho.Lembra-me. fazendo ele os seus cálculos. mas parece que esta era mais de aborrecer que de matar. Mas a primeira parte se trocou por intervenção do tio Cosme. não é preciso contar a dedicação da minha mãe e de Sancha. Assim que.

mas também os apóstolos não levam a boa doutrina senão depois de a terem toda no coração. se lhes não relata tudo e o resto. ou quase todas. um rapagão bonito. a menor febrícula. desde vadio até apóstolo. não o fazia antes de farto deles. CAPÍTULO 109 UM FILHO ÚNICO Ezequiel.menino à pia. era o de Escobar. e nisto fazia lembrar a mãe. metia-se às vezes consigo. adivinhavam-se nele todas as vocações possíveis. se considerares que ele foi único. já inquietos. onde se lhe deu o nome de Ezequiel.ao contrário. imaginarás os cuidados que nos deu. opinava que a causa principal desta outra inclinação. quando começou o capítulo anterior. e fazem-se ainda assim completas e acabadas. um só e único. bom negociante. e anunciava-me que o fana seu sócio. no sentido de homem que pensa e cala. CAPÍTULO 110 RASGOS DA INFÂNCIA O resto come-me ainda muitos capítulos. talvez fosse convidar implicitamente as vizinhas a igual apostolado. e ria-se da própria graça. não era ainda gerado. que nenhum outro veio. Assim também. que nada entendem. Este outro é destinado a fazer chegar o meu Ezequiel aos cinco anos. segundo cumpria e urgia. A tudo acudíamos. e eu disse a Capitu que lhe . quando acabou era cristão e católico. e eu quis suprir deste modo a falta de compadrio. agitava-se todo e instava por ir persuadir às vizinhas que os doces que eu lhe trazia eram doces deveras. e que sustos nos meteram as crises dos dentes e outras. Ezequiel não parecia desmentir os meus sonhos da Praia da Glória. quando os pais lhe trouxessem doces. Aos cinco e seis anos. mas há leitores tão obtusos. desde pequena. Vadio é aqui posto no bom sentido. Vamos ao resto. como se quisessem namorar todas as moças da vizinhança. Escobar. morto nem vivo. há vidas que os têm menos. os sonos que nos tirou. com os seus olhos claros. não menos que de doce. Agora. certo nem incerto. coisa que não era necessário dizer. toda a existência comum das crianças. Gostava de música.

Em São Paulo. por que é que ele não deixa cair a espada de uma vez? .Mas. Daí a pouco interrompi um romance que ela tocava. perguntou-me impaciente: . meu filho! . é porque é pintado.Meu filho.Lembra-me de um preto que vendia doce. Comprei-lhe soldadinhos de chumbo.. . e todos os seus amores iam para o de espada alçada. ele o fez com prazer (bastou-me repetir-lho de memória). todas as crianças o fazem.Estou vendo..Não me lembra. Em nenhuma vi as ânsias de gosto com que assistia à passagem da tropa e ouvia tocar a marcha dos tambores. às tardes. Um dia (ingênua idade!). que ainda se lembrará das palavras.Mas então por que é que ele se pintou? . e que ele corria a ver. A leitora.Nem das palavras. Capitu achou à toada um sabor particular.Nem das palavras? .Olha o comandante! Olha o cavalo do comandante! Olha os soldados! Um dia amanheceu tocando corneta com a mão.tirasse ao piano o pregão do preto das cocadas de Matacavalos. . você não se lembra daquele preto que vendia doce. Fiz. e não achei tréplica.Não diga isso. corri aos meus papéis velhos.contou ao filho a história do pregão.ela teclou as dezesseis notas. O que nem todas fazem é ter os olhos que esta tinha. Já não falo dos batalhões que passavam na rua. quando estudante. Expliquei-lho. . Nunca lhe dei oratórios. e eu guardei o papelinho. papai! olha! . tanto mais que lhe lembrarão ainda as vozes da sua infância e adolescência haverá olvidado algumas. de ator e bailarino.. pedi a um professor de música que me transcrevesse a toada do pregão. outro de espada alçada. mas nem tudo fica na cabeça. quase delicioso. o que ela não esperava. mas não sei mais da toada. mas cavalos de pau e espada à cinta eram com ele. . fui procurá-lo. dado que me tenha lido com atenção. papai. porém. um soldado caído. com o pedacinho de papel na mão. . Assim me replicou Capitu. querendo que lhe explicasse uma peça de artilharia. gravuras de batalhas que ele mirava por muito tempo. . e assim o cantava e teclava.dei-lhe uma cornetinha de metal. Fazia de médico de militar. Ezequiel aproveitou a música para pedir-me que desmentisse o texto dando-lhe algum dinheiro. ficará espantada de tamanho esquecimento..Olha.

e o meu pequeno enlevado.Pois sim. Em verdade. papai! . e o silêncio não podia ser maior. Escobar concluiu: . mas eu queria ver. os que amam a natureza como ela quer ser amada. esperneando. e não lhe nego ainda agora. o menino. em suma. mas aqui a ponho outra vez.Vão ver que é o gato que apanhou algum rato. logo que sentiu mais gente. dos sucessos ocorridos. dispôs-se a correr. na chácara de Escobar. aliás frouxíssimos. Ao vê-lo assim atento.Que foi? A esta hora o rato está comido. um rói-me os . sem tirar-lhe os olhos de cima. sem repúdio parcial nem exclusões injustas. Ia dizer religioso. era um gato e um rato. bati palmas para que o gato fugisse. . 0s outros nem tiveram tempo de atalhar-me. mas também porque havia naquela ação do gato e do rato alguma coisa que prendia com ritual. deteve-se. A única circunstancia particular era estar o rato vivo. mas vi que são incompatíveis. Ezequiel não disse nada. acompanhei-os. risquei a palavra. teve graça. O único rumor eram os últimos guinchos do rato. acocorou-se. fez-nos sinal que nos calássemos. Os dois riram-se. De resto. não acham nela nada inferior. Não me pesa dizê-lo. perguntamos-lhe de longe o que era. . Já pensei em os fazer viver juntos. Amo o rato. Efetivamente. e ficou olhando. deu com um gato que tinha um rato atravessado na boca.Ri-me do engano e expliquei-lhe que não era o soldado que se tinha pintado no papel. e tive de explicar também o que era gravador e o que era gravura: as curiosidades de Capitu. Um tanto aborrecido. apesar do tempo passado.as pernas mal se lhe moviam e desordenadamente. Vamos ver Capitu quis também ver o filho. O gato nem deixava a presa. o instante foi curto. fez-nos outro sinal de silêncio. sem interesse nem graça.Ora. nem via por onde fugisse. não desamo o gato. que é o diabo. mas o gravador. e da tal ou qual simpatia ao rato que acho em mim. Ezequiel ficou abatido. Tais são os principais rasgos da infância: mais um e acabo o capítulo Um dia. O gato. Os ratos continuam a infestar-me a casa. lance banal. CAPÍTULO 111 CONTADO DEPRESSA Achei-lhe graça. não só por significar a totalidade do silêncio. e o gato fugiu. eu mesmo achei-lhe graça.

e entregou-se-me. iria a pau. que gostamos da paz. que só agora sabe disto.Não sai a nós. já lhe achei até um jeito dos pés de Escobar e dos olhos. a pedrada. Fui-me a ele. era uma hora. O que faria com certeza era ir atrás dos cães. . afastaram-se. Foi quando nasceu Ezequiel. Contarei o caso depressa. . fiquei assim não sei como. . imita prima Justina. e foi como se procurasse o leitor. disse-me ela um dia. eu tinha já na mão as bolas envenenadas. repliquei. nem a enfermeira podiam dormir. se já perdoei a um cachorro que me levou o descanso em piores circunstancias. confiança ou o que quer que seja. Ao leitor pode parecer que foi o cheiro da carne que remeteu o cão ao silêncio.Sim não sairá maricas. tocado de pena e guardei as bolas no bolso. que é o seu modo de rir deles. E se tivesse um pau. um ficou a curta distancia. carinho. mas papai em moço era assim também..Imitar os gestos. Capitu deixou-se estar pensando e olhando para mim.livros. Agora reparava que realmente era vezo do filho. Não comporia bolas envenenadas. O diabo ainda latiu. Quando eles me viram. mas não é muito que eu lhes perdoe. e três cães na rua latiam toda a noite. mas não as recusaria também. mandei fazer três bolas de carne.Imitar como? . De noite. dois desceram para o lado da Praia do Flamengo. e disse afinal que era preciso emendá-lo. . eu só lhe descubro um defeitozinho gosta de imitar os outros. as atitudes. Então resolvi matá-los. comprei veneno. me atou a vontade. imita José Dias. Sancha vivia ao pé dela. os modos. CAPÍTULO 112 AS IMITAÇÕES DE EZEQUIEL Tal não faria Ezequiel. e eu mesmo inseri nelas a droga. como que esperando. saí. Procurei o fiscal. suponho.. a mãe estava com febre. foi-se calando. assobiando e dando estalinhos com os dedos. ele veio a mim. A conclusão é que se livrou. com a bulha dos cães. eu cuido que ele não me quis atribuir perfídia ao gesto. nem a doente. até onde lhe dessem as pernas. mexendo a cauda. outro o queijo. Não digo que não. devagar. mas fiado nos sinais de amizade. Capitu morria por aquele batalhador futuro. até que se calou de todo. e ia deitar-lhe uma delas. mamãe é que contava. quando aquele riso especial. Como eu continuasse.

. depois estirou os braços e atirou-mos sobre os ombros.. quando se zangava com alguém. é natural que me perguntes se. É certo que Capitu gostava de ser vista. e senti não haver ali um escultor que nos transferisse a atitude a um pedaço de mármore. vingança de menino. concordo. sendo antes tão cioso dela. um par de valsa. e apenas se pintarão. qualquer homem.Sim. A senhora que me disse isto cuido que gostou de mim.Também não vamos mortificá-lo. Continuei. e o meio mais próprio a tal fim (disse-me uma senhora.. mas da obra. Sim. ninguém quer saber de modelo. Não importa. .Há... vou ver. moço ou maduro. Quando uma pessoa ou um grupo saem bem. não muitos. a mais ínfima palavra. e não há ver sem mostrar que se vê. e foi naturalmente por não achar da minha parte correspondência aos seus afetos que me explicou daquela maneira os seus olhos teimosos. . e não digo nada sobre eles.Quando me zangava. por mais mulheres bonitas que achasse. Naquele tempo. me enchia de terror ou desconfiança. .mas parecia-lhe que era só imitar por imitar. CAPÍTULO 113 EMBARGOS DE TERCEIRO Por falar nisto. a tal ponto que o menor gesto me afligia.E naquele tempo gostavas de mim? disse eu batendo-lhe na face. A resposta de Capitu foi um riso doce de escárnio. e a obra é que fica. como sucede a muitas pessoas grandes. tão cheios de graça que pareciam (velha imagem!) um colar de flores. senhor. mas eu não gosto de imitações em casa. uma insistência qualquer. Só brilharia o artista. Outros olhos me procuravam também. Eu fiz o mesmo aos meus. Um vizinho. . mas eram ainda vindouras. Você também não era assim. Sempre há tempo de corrigi-lo. muita vez só a indiferença bastava. Cheguei a ter ciúmes de tudo e de todos. não continuei a sê-lo apesar do filho e dos anos. e para que não fosse mais longe. um dia) é ver também. tendo aliás confessado a princípio as minhas aventuras vindouras. um desses risos que não se descrevem. é certo. A minha própria mãe . nós saberíamos que éramos nós. nenhuma receberia a mínima parte do amor que tinha a Capitu. continuei. que tomam as maneiras dos outros.

. e não vale a pena de um capítulo. só me lembra que fosse duas vezes sem ela. tendo ele jantado na cidade. Vinha para aquele negócio dos embargos. . a que ela não foi por ter adoecido. um benefício de ator. . 110 ) a um professor de música de São Paulo que me escrevesse a toada daquele pregão de doces de Mata-cavalos. Eram uns embargos de terceiro. que ficara doente. Em si. para me não meter medo. senão agradáveis. . disse-me ele. mas jurou que era a verdade pura. falemos já. Ao teatro íamos juntos. ocorrera um incidente importante. mas agravara o padecimento para que eu fosse divertir-me. . disse ela estendendo tragicamente o braço. ele que as registra nos livros eternos. Vamos aos embargos. . não quis ir para casa sem dizer-me o que era. desces. a matéria é chocha. Expliquei-lhe que tinha saído para o teatro donde voltara receoso de Capitu. Se estiver pior. Era tarde para mandar o camarote a Escobar. sobe.A cunhadinha está tão doente como você ou eu. e o tabelião divino sabe as coisas que se juram em tais momentos.Você jura? .Queixava-se da cabeça e do estômago. Expliquemos o explicado. Escobar sorriu e disse: .Não. vou-me embora.. Capitu era tudo e mais que tudo. CAPÍTULO 114 EM QUE SE EXPLICA O EXPLICADO Antes de ir aos embargos. Capitu estava melhor e até boa. Não falava alegre. Encontrei Escobar à porta do corredor. Aproveitei o gesto para beijar-lhe a mão. . não vivia nem trabalhava que não fosse pensando nela. ela pode estar melhor. Confessou-me que apenas tivera uma dor de cabeça de nada. Capitu e eu tínhamos jurado não esquecer mais aquele pregão. e. quanto mais dois..Doente de quê? perguntou Escobar. o que me fez desconfiar que mentia.Juro. mas voltei no fim do primeiro ato. mas já agora falaria depois.Vinha falar-te. saí. foi em momento de grande ternura.não queria mais que metade.Então.. Viste que eu pedi (cap. mas quis por força que eu fosse. mas não bem explicado. mas há matérias tais que trazem ensinamentos interessantes.. e uma estréia de ópera. expliquemos ainda um ponto que já ficou explicado. estava ainda no seminário.

a nossa constituição política. a juro alto e prazo curto. Da circunstancia nova que Escobar me trazia apenas digo o que lhe disse então.Nada? . ela as desfez com a arte fina que possuía. ninguém sabe se há de manter ou não um juramento.Quando fui para São Paulo. Foi para não faltar ao juramento que fiz isto. capaz de dissipar as mesmas tristezas de Olímpio. CAPÍTULO 115 DÚVIDAS SOBRE DÚVIDAS Vamos agora aos embargos. desde que não mete a alma no purgatório. referi as minhas dúvidas a Capitu. Mas os prazos renovam-se. é profundamente moral. Mas hás de crer que quando corri aos papéis velhos. Purgatório é uma casa de penhores. naquela noite da Glória. mas tal suspeita não ia com a nossa amizade.Quase nada.. qualquer esquece. esquecer. isto é. vi que a ia perdendo inteiramente. que é o eterno naufrágio. Quando ele saiu.. . . Escobar olhava para mim descer fiado.Tomaremos depressa. um jeito uma graça toda sua. como se cuidasse que eu recusava a circunstancia nova para forrar-me a escrevê-la. . que não valia nada.Para reforçar as razões que já temos vale menos que o chá que você vai tomar comigo. E por que iremos aos embargos? Deus sabe o que custa escrevê-los. mas a alguém que tenha mais temor a Deus que aos homens não lhe importará mentir. Ao certo. Acabou com um pecado terrível. também não me lembrava já da toada nem do texto? Fiz-me de pontual ao juramento. querendo um dia relembrar a toada. Durante ele. . quanto mais contá-los. . transferindo o juramento à afirmação simples. . Faltar ao compromisso é sempre infidelidade. Tomamos depressa. que empresta sobre todas as virtudes. que me fez o obséquio de a escrever no pedacinho de papel. consegui recordá-la e corri ao professor. Coisas futuras! Portanto. uma vez ou outra.É tarde para tomar chá. e este é que foi o meu pecado. até que um dia uma ou duas virtudes medianas pagam todos os pecados grandes e pequenos.Então vale alguma coisa. Não confudam purgatório com inferno.

via no alto da escada. à escolha.. . Ao passo que me falava. .Vamos.Quem sabe se não anda doente? . como verdadeiras rãs. quando este saía da sala. coaxavam dentro de mim. Fomos jantar com a minha velha.Tens razão... Em lhe faltando o neto. Quando voltamos. Palavra puxa palavra. da Europa e da homeopatia. à noite. prima Justina da vizinhança. e ele que veio até aqui. da política. logo que eles passem e as saudades aumentem. e ele enchia-me a cara de beijos. falando das minhas dúvidas. a esta hora. mas quando eu subia. recrudescia de ternura. entre as grades da cancela. Sogras eram todas assim. José Dias falou do casamento e suas belezas. posto que os seus cabelos brancos não o fossem todos nem totalmente.Já disse a você o que é.. CAPÍTULO 116 FILHO DO HOMEM . Dali em diante foi cada vez mais doce comigo. mamãe não lhe faz as mesmas graças. Pois vamos.Seria o negócio dos embargos.. Pouco entrou na conversação.. Capitu novamente me aconselhou que esperássemos. é que está impressionado com a demanda. ela torna a ser o que era. coisas de sogra. nós o havíamos acostumado a ver o ósculo da chegada e da saída.Mas eu tenho notado que já é fria também com Ezequiel Quando ele vai comigo.. Disse-lhe que começava a achar minha mãe um tanto fria e arredia com ela. . Pois aqui mesmo valeu a arte fina de Capitu.era uma espécie de mocidade qüinquagenária ou de ancianidade viçosa. . não quero falar dos olhos molhados.. risonha como toda a nossa infância. Já lhe podia chamar assim.Vamos nós jantar com ela amanhã? . tio Cosme das suas moléstias. concluiu. Eu era então um poço delas. à entrada e à saída. e o rosto estivesse comparativamente fresco. viemos por ali a pé. Mamãezinha tem ciúmes de você. Mas nada de melancolias.. a ponto de me tirarem o sono algumas vezes. a cara deliciosa da minha amiga e esposa. ou de José Dias. não me ia esperar à janela. Ezequiel às vezes estava com ela. falei de outras dúvidas. para não espertar-me os ciúmes. Não. Também não era diferente da costumada. lá vinha um dia e mudavam.

por que é que não nos visita há tanto tempo? . quando ele copia os meus gestos. José Dias pediu para ver o nosso “profetazinho” (assim chamava a Ezequiel) e fez-lhe as festas do costume. . . Que digna senhora nos saiu a criança travessa de Mata-cavalos. era duro confessar que ele foi uma verdadeira bênção do céu.São os modos de dizer da Bíblia. . entro também no coro. disse eu.. como eu. agora é obrigada a estar quieta. Ezequiel..Agora. já lhe vou tirando esse costume de imitar os outros. mas não estendi tão longe a intimidade do agregado. pequenino. Capitu. nem podia haver coisa nenhuma. filho do homem?” . filho do homem?” “Dize-me. até . Vamos. e não a frieza quando íamos nós a Mata-cavalos. onde estão os teus brinquedos?” “Queres comer doce. Tu como vais. Não havia nada.Tem razão. mas a princípio ficava envergonhadíssimo.Apalpei José Dias sobre as maneiras novas de minha mãe.. a mim.Não. parece-me que sou eu mesmo. Alguns dos gestos já lhe iam ficando mais repetidos...Mas tem muita graça. quando os ouço. .Pois eu não gosto deles.Perfeitamente! . Eu falava assim para variar. quando Dona Glória elogia a sua nora e comadre. como os das mãos e pés de Escobar. que lá tem o seu mal.Creio que tem andado mais achacada dos seus reumatismos.Mas. como é que eu ando na rua? . enquanto não nos conhecíamos. meu anjo? Meu anjo... .Não.Então mamãe?. como é que eu ando? . Imagine a aflição dela. ao pé do irmão. filho do homem. Você não imagina como a Bíblia é cheia de expressões cruas e grosseiras.” .Que filho do homem é esse? perguntou-lhe Capitu agastada. sim. replicou ela com aspereza. Eu mesmo achava feio tal sestro. . senhor. como soube depois) e perguntava-lhe: “Como vai isso. ultimamente.. que andava o dia inteiro. concordou o agregado. mamãe não quer.. Para quem chegou. Outro dia chegou a fazer um gesto de Dona Glória. Este ano tem feito muito frio. tão bem que ela lhe deu um beijo em paga. Desta vez falou ao modo bíblico (estivera na véspera a folhear o livro de Ezequiel. a arrenegar deste casamento. mas tudo acabou em bem. Quis observar-lhe que tal razão explicava a interrupção das visitas.. O pai é que nos separou um pouco. ficou espantado. atalhou Capitu. tantos eram os louvores incessantes que ele ouvia “à bela e virtuosa Capitu. Pois.

. Não é que Escobar ainda lá more nem sequer viva. é bonita. que o repreendeu e chamou a si foi Capitu. quando me deu na gana experimentar se as sensações antigas estavam mortas ou dormiam só. e não fez mal. Enfim. Capitu ralhava. não perto. Eu creio que o mar então batia na . tinha subido pela Rua da Princesa. creio que João de Barros. uma vez que estávamos tão próximos. porque os sonos. Não podemos deixar de rir. o ruas antigas! ó casas antigas! ó pernas antigas! Todos nós éramos antigos. Velha é a casa. mas não lhe alteraram nada. Um historiador da nossa língua.apanhara o modo de voltar a cabeça deste. no sentido de velho e acabado. quando falava. realmente. Não digo que número é para não irem indagar e cavar a história. e o pedaço de praia entre a Glória e o Flamengo era como um caminho de uso próprio e particular. como o diabo. dizia o rei que os bons amigos deviam ficar longe uns dos outros. se eu duvido que o rei dissesse tal palavra nem que ela seja verdadeira.. acendi um charuto. ele na minha. tínhamos por assim dizer uma só casa. ouviu? CAPÍTULO 117 AMIGOS PRÓXIMOS Já então Escobar deixara Andaraí e comprara uma casa no Flamengo. Eu respirava um pouco. meio agitado. e dei por mim no Catete. Provavelmente foi o mesmo escritor que a inventou para adornar o texto. casa que ainda ali vi. dizendo a José Dias: . apenas começamos a falar de outra coisa.Não quero isso. não posso dizê-lo bem. passei. confundem vivos e defuntos. põe na boca de um rei bárbaro algumas palavras mansas. e não é preciso dizer que no mau sentido. saltou ao meio da sala. morreu pouco depois. quando ria. eu mais que ninguém. por um modo que hei de contar. Que a sombra do escritor me perdoe. Fazia-me pensar nas duas casas de Mata-cavalos. com o seu muro de permeio. quando são pesados. Não sei até se ainda tem o mesmo número. uma rua antiga. mas pode ser que fosse do mar. Mas o menino era travesso. . Enquanto viveu. A primeira pessoa que fechou a cara.O senhor anda assim.eu vivia na dele. porque é bonita. há dias. para se não zangarem como as águas do mar que batiam furiosas no rochedo que eles viam dali. quando os portugueses lhe propunham estabelecer ali ao pé uma fortaleza. e o de deixá-la cair. a não ser a respiração.

como é seu costume. a que se pode acrescentar que nem tudo o que dura muito tempo. mas também há amigos de perto e do peito. precisávamos falar de um projeto em família. não só os dois casais inseparáveis. ao canto da janela. e Sancha acrescentou que até já se iam parecendo. . dificilmente se despegará da cabeça. jogando ou mirando o mar.disse-lhe que de um projeto que eu não sabia qual fosse. Eu expliquei: . As nossas mulheres viviam na casa uma da outra. Tudo podia ser.Não. mas não acabaram casados. Na véspera tínhamos passado a noite no Flamengo. acharam todos que sim. disse-me que fôssemos lá jantar no dia seguinte. O certo é que eles se queriam muito. Seguramente há inimigos contíguos. falando-me à janela. ora na Glória.Para os quatro? Uma contradança. Agora que a comparação seja verdadeira é que não. Quando o marido saiu. Vem amanhã.. mas um domingo.. Esta segunda parte não acha crentes fáceis. nós passávamos as noites cá ou lá conversando. Escobar concordou comigo. Opinei de cabeça. .Não. longe do coração. Como eu observasse que podia acontecer com eles o que se dera entre mim e Capitu. veio ter comigo. Não és capaz de adivinhar o que seja. O nosso castelo era sólido. Nós não podíamos ter os corações agora mais perto. e é bom que seja assim. Os dois pequenos passavam dias. Sancha não tirava os olhos de nós durante a conversa. leitor.pedra. a idéia de que um castelo de vento dura mais que o mesmo vento de que é feito. e insinuou que alguma vez as crianças que se freqüentam muito acabam parecendo-se umas com as outras. para que se não perca o costume daquelas construções quase eternas. CAPÍTULO 118 A MÃO DE SANCHA Tudo acaba. ela pediu-me segredo e revelou-me o que era: uma viagem à Europa dali a dois . é um velho truísmo. nem eu digo. como me sucedia nas matérias que eu não sabia bem nem mal. desde Ulisses e antes. e podiam acabar casados. um projeto para os quatro. é porque Ezequiel imita os gestos dos outros. ora no Flamengo. como ainda o agregado e prima Justina. Foi então que Escobar. ao contrário. E o escritor esquecia (salvo se ainda não era do seu tempo) esquecia o adágio: longe dos olhos. Perguntou-me de que é que faláramos.

Pararam os quatro e ficaram diante uns dos outros.O mar amanhã está de desafiar a gente. acresce que sabiam nadar. como se pensa na bela desconhecida que passa. uns esperando que os outros passassem. Talvez o simples pensamento me transluzisse cá fora. os olhos de Sancha não convidavam a expansões fraterais. Nem só os apalpei com essa idéia. e fiquei incerto. é que um dia pensei nela. Custa-me esta confissão.. apalpa. disse-me a voz de Escobar. . mas ainda senti outra coisa. como se fossem os de Sancha. Entretanto. pareciam quentes e intimativos. O mar batia com grande força na praia. que eu visse naquele gesto de Sancha uma sanção ao projeto do marido e um agradecimento. É preciso nadar bem. e agora por um movimento invencível. tornei a falar com os olhos à dona da casa. e estes braços. mas então dar-se-ia que ela adivinhando. não se me daria beijá-la na testa. A mão dela apertou muito a minha. A cautela desligou-nos eu tornei a voltar-me para fora. Quando saímos.Vamos.Você entra no mar amanhã? . achei-os mais grossos e fortes que os meus. quase suspirando. Sancha ergueu a cabeça e olhou para mim com tanto prazer que eu. era jarretar a verdade.. havia ressaca. . que a gente recebe e repete em si mesma. e ter estes pulmões disse ele batendo no peito. . diziam outra coisa. como agora.. mas não posso suprimi-la.. e ela me fugisse outrora irritada ou acanhada. Senti ainda os dedos de Sancha entre os . como eu. Invencível. Tal se dá na rua entre dois teimosos. e não tardou que se afastassem da janela.Tenho entrado com mares maiores. encontrei-os em caminho. muito maiores. esta palavra foi como uma bênção de padre à missa.anos. mas nenhum passavam. mas o fluido particular que me correu todo o corpo desviou de mim a conclusão que deixo escrita. . graças às relações dela e Capitu. e demorou-se mais que de costume A modéstia pedia então. E assim posto entrei a cavar na memória se alguma vez olhara para ela com a mesma expressão. Você não imagina o que é um bom mar em hora bravia. A noite era clara. e tive-lhes inveja. Apalpei-lhe os braços. ao pé do piano. Disse isto de costas para dentro. Assim devia ser. onde eu fiquei olhando para o mar. Dali mesmo busquei os olhos de Sancha. Tive um certeza só.Vamos todos? perguntei por fim. ao pé de mim. pensativo.

que iam adiante. Cá fora.. onde me demorei mais que de costume. quem me provaria que não era mais que uma sensação fulgurante. Sancha e Capitu eram tão amigas que seria um prazer mais para elas irem juntas. mas eu conversava mal. e chamei-me desleal. concluiu José Dias um discurso que vinha fazendo. a virtude. trabalhavam só os minutos da virtude e da razão. que eu tinha ali. A timidez pode ser que fosse outra causa daquela crise. Quando houvesse alguma intenção sexual. não é só o céu que dá as nossas virtudes. Os instantes do Diabo intercalavam-se nos minutos de Deus. Foi um instante de vertigem e de pecado. José Dias despediu-se de nós à porta. e fomos conversando os quatro.Como devem ser todas as daquela casa. a timidez também.. uma bela noite! . que nos dá a compleicão. que eu sentia de memória dentro da minha mão.. agora aquilo. Ouvia-se o mar forte. Assim refletiria se pudesse.. continuou o agregado. é. não contando o acaso. O retrato de Escobar.. . Capitu e prima Justina. Agarrei-me a esta hipótese que se conciliava com a mão de Sancha. Sinceramente. Paixão não era nem insinuação. cá fora o mar está zangado.a ressaca era grande e. Eu recolhi-me ao meu gabinete. iria embora. Entretanto. Passou depressa no relógio do tempo. mas a princípio vaguei à toa.meus.como já se ouvia de casa. filha dela. rejeitei a figura da mulher do meu amigo. apertada e apertando. apertando uns aos outros. quem me afirmava que houvesse alguma intenção daquela espécie no gesto da despedida e nos anteriores? Tudo podia ligar-se ao interesse da nossa viagem. detiveram-se numa das voltas da praia. falou-me como se fosse a própria pessoa. Capricho . escute. destinada a morrer com a noite e o sono? Há remorsos que não nascem de outro pecado.Uma senhora deliciosíssima. no dia seguinte. mas o acaso é um mero acidente.. emendando-me: Realmente. Combati sinceramente os impulsos que trazia do Flamengo. como a timidez vem do céu. não. Prima Justina dormiu em nossa casa. viam-se crescer as ondas. quente e demorada.. Não havia meio de esquecer inteiramente a mão de Sancha nem os olhos que trocamos. ao pé do de minha mãe. . o mesmo sangue celestial. nem têm maior duração. Agora achava-lhes isto. depois do almoço e da missa. a distancia. que moderei logo. e o relógio foi assim marcando alternativamente a minha perdição e a minha salvação. genealogicamente. Demais.Deliciosíssima! repeti com algum ardor. a melhor origem delas é o céu. quando cheguei o relógio ao ouvido. eu achava-me mal entre um amigo e a atração.

escrita embaixo. e espancaram de todo as recordações da véspera. tomei café. O retrato de Escobar pareceu falar-me. alegações falsas. inadmissíveis. Naquele tempo a minha vista era boa. ouvi passos precipitados na escada. quer fechá-lo às pressas. que eu ia lendo nos autos. A moldura que lhe mandei pôr não encobria a dedicatória. a mão esquerda no dorso de uma cadeira. percorri os jornais e fui estudar uns autos. A figura de Sancha desapareceu inteiramente no meio das alegações da parte adversa.seria ou quê? Ao fim de vinte minutos era nada. CAPÍTULO 121 A CATÁSTROFE No melhor deles. não nas costas do cartão: “Ao meu querido Bentinho o seu querido Escobar 20-4-70. a direita metida ao peito. Uma só vez olhei para o retrato de Escobar. Tornei aos autos. sacudi a cabeça e fui deitar-me. sem apoio na lei nem nas praxes. Capitu e prima Justina saíram para a missa das nove. CAPÍTULO 120 OS AUTOS Na manhã seguinte acordei livre das abominações da véspera. Era uma bela fotografia tirada um ano antes. a campainha soou. Tinha garbo e naturalidade. o olhar ao longe para a esquerda do espectador. Estava de pé.” Estas palavras fortaleceram-me os pensamentos daquela manhã. CAPÍTULO 119 NÃO FAÇA ISSO. QUERIDA! A leitora. eu mudo de rumo. Pereira e Sousa. sobrecasaca abotoada. querida.. na Lapa. inteiramente nada. que é minha amiga e abriu este livro com o fim de descansar da cavatina de ontem para a valsa de hoje. Não faça isso. chamei-lhes alucinações. Vi que era fácil ganhar a demandaconsultei Dalloz. . ao ver que beiramos um abismo. eu podia lê-las do lugar em que estava.vi-lhe a atitude franca e simples..

Tinha-as escrito com receio de que a emoção me impedisse de improvisar.estávamos em março de 1871. não podiam lá caber todos.. falando do desastre.Então. CAPÍTULO 122 O ENTERRO A Viúva. tudo eram carros. divergindo alguns na avaliação dos bens. Capitu e prima Justina esperavam-me. . Poupo-vos as lágrimas da viúva. acudiram todos. escrevi algumas linhas e mostrei-as em casa a José Dias. ouvindo referir a chegada do morto. Pediu-me o papel.. Em caminho. acudi eu mesmo.. não fizera mais que recordar o tempo do seminário. e a afluência dos amigos foi numerosa. Elogiavam as qualidades de Escobar. Alguns conhecidos vieram interrogar-me: . que as achou realmente dignas do morto e de mim. mas havendo acordo em que o passivo devia ser pequeno. golpes na cancela. começada. eu vou cuidar do enterro. ou eu não lhe ouvi o resto. as da outra gente. Poucas mais seriam. ruas. As canoas que acudiram mal puderam trazer-lhe o cadáver. muitos estavam na praia. Praia. Era um escravo da casa de Sancha que me chamava . pesando as palavras.Para ir lá. Quis que o enterro fosse pomposo. Nunca me esqueceu o mês nem o ano. sinhô nadando. A casa não sendo grande.Vão fazer companhia à pobre Sanchinha. deixei recado a Capitu e corri ao Flamengo. outra enfastiada apenas. uma com o parecer abatido e estúpido. sinhô morrendo. apontando o lugar em que Escobar falecera. Escobar meteu-se a na dar..soaram palmas. continuada e nunca . Não disse mais nada. Saí de lá cerca de onze horas. Assim fizemos. vamos ouvi-lo? . as minhas. recitou lentamente o discurso. foi enrolado e morreu. no Flamengo espalhou a notícia. como usava fazer. e confirmou a primeira opinião. a nossa amizade. muitos deles particulares. vozes. um ou outro discutia o recente gabinete Rio Branco. arriscou-se um pouco mais fora que de costume.Quatro palavras. No tílburi em que andei uma ou duas horas. Praça da Glória. apesar do mar bravio. Como eu houvesse resolvido falar no cemitério. as relações de Escobar. fui adivinhando a verdade. Vesti-me. José Dias ouviu também falar dos negócios do finado. as nossas simpatias.

Consolava a outra. as mulheres todas. As minhas cessaram logo. parecia vencer-se a si mesma.. olhando a furto para a gente que estava na sala. que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas. amparando a viúva. e ajudar a levar o féretro à cova. Chegando a casa. Palavra que.. chegou a hora da encomendação e da partida. como a vaga do mar lá fora. Só Capitu. No meio dela. continuou o seu ofício. Sancha quis despedir-se do marido. No carro disse a José Dias que se calasse. Muitos homens choravam também. quando cheguei à porta. defunto e tudo. Fechamo-lo.interrompida. Redobrou de carícias para a amiga. queria arrancá-la dali. e quis levá-la. mas o cadáver parece que a retinha também. Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa. sem o pranto nem palavras desta. não me arrancando nada. Capitu enxugou-as depressa. mas grandes e abertos. e eu peguei numa das argolas. tal seria o discurso. quais os da viúva. desatar as correias. De quando em quando enxugava os olhos. como se quisesse tragar também o nadador da manhã. No cemitério tive de repetir a cerimônia da casa. Momento houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto. tão apaixonadamente fixa. e o desespero daquele lance consternou a todos. rompeu o alarido final. tive um daqueles meus impulsos que nunca chegavam à execução: foi atirar à rua caixão. Fiquei a ver as dela. Era José Dias que me convidava a fechar o ataúde. tudo gente e carros. O que isto me . vi o sol claro.. CAPÍTULO 123 OLHOS DE RESSACA Enfim. O cocheiro aventurou duas ou três perguntas sobre a minha situação moral. até que um lance da fortuna fez separar para sempre duas criaturas que prometiam ficar por muito tempo unidas. as cabeças descobertas..Vamos. são horas. CAPÍTULO 124 O DISCURSO . A confusão era geral. deitei aquelas emoções ao papel.

nem seguido.Então. e alguém. e é um bom autor. As lágrimas. ao cabo de alguns instantes de total silêncio. trouxeram a cal e a pá. faltam-nos. meti a mão no bolso. mas há narrações exatas em verso. As mãos que me deram a apertar eram de solidariedade. Creio que poucos me ouviram. mas o gesto geral foi de compreensão c de aprovação. É impossível que algum Homero não tirasse da minha situação muito melhor efeito. Nem digas que nos faltam Homeros.. Um homem. um sussurro vago. Homero é que relata isto. Descido o cadáver à cova. aqueles olhos. temendo que me adivinhassem a verdade. e até mau verso. Era o discurso. defunto. algumas vozes interrogativas. os discursos são antes de alegria que de melancolia. forcejava por escondê-la bem. não todo. e tudo passa como se Aquiles não matasse Heitor.custou imagina. terás ido a mais de um enterro. se as têm. Compara tu a situação de Príamo com a minha. fale. e. Não era só a emoção nova que me fazia assim. por beijar a mão daquele que lhe matou o filho. as mãos tremiam-me. a voz parecia-me entrar cm vez de sair. mas é porque os Príamos procuram a sombra e o silêncio. era o próprio texto. alguns diziam: “Muito bonito! muito bem! magnífico!” José Dias achou que a eloqüência estivera na altura da piedade. ou qualquer outro estranho. é certo. nem claro. . pela causa apontada em Camões. os louvores à pessoa e aos seus méritos. Só a minha grande turvação recusaria um obséquio tão simples. CAPÍTULO 125 UMA COMPARAÇÃO Príamo julga-se o mais infeliz dos homens. que me pareceu jornalista. eu acabava de louvar as virtudes do homem que recebera. saquei o papel e li-o aos trambolhões. as memórias do amigo. tudo isto que eu era obrigado a dizer e dizia mal. Queriam o discurso. Tinham jus ao discurso anunciado. não obstante contá-lo em verso. leitor. que me dizia ao ouvido: .. os pés quietos. para que as caras apareçam limpas e serenas. sabes disto. as orelhas atentas. ou quando menos igual. Ao mesmo tempo. Maquinalmente. José Dias. pediu-me licença para levar o manuscrito e imprimi-lo. sinais. é a crise que me tomou quando vi todos os olhos em mim. são enxugadas atrás da porta. senhor. não. mas o que não sabes nem pode saber nenhum dos teus amigos. as saudades confessadas.

Mas..CAPÍTULO 126 CISMANDO Pouco depois de sair do cemitério. Quando cheguei a esta conclusão final. Tinha já comparado o gesto de Sancha na véspera e o desespero daquele dia. No Catete mandei parar o carro. Fui andando e cismando. O que cismei foi tão escuro e confuso que não me deixou tomar pé. graças aos solavancos do carro e às interrupções de José Dias. . andei largo espaço. A razão disto era acabar de cismar. mas voltei para trás.Não presta para nada. a posição em que a vi. O que aqui vai por ordem lógica e dedutiva. e como posso ter a tentação de dá-lo a imprimir. chegava também à porta de casa. deixei-o falar sozinho e peguei a cismar comigo. Concluí de mim para mim que era a antiga paixão que me ofuscava ainda e me fazia desvairar como sempre. rasguei o discurso e deitei os pedaços pela portinhola fora. uma grande alma. amigo. .. e por último fez o panegírico do morto. sem embargo dos esforços de José Dias para impedi-lo. disse a José Dias que fosse buscar as senhoras ao Flamengo e as levasse para casa. porém. parar. Assim se desvaneceu de todo a ilusão da minha vaidade. Não seria o mesmo caso de Capitu. Não presta. depois elogiou o enterro. disse-lhe eu. Eram as dúvidas que me afligiam ou a necessidade de afligir Capitu com a minha grande demora? Ponhamos que eram as duas causas. espírito ativo. fica já destruído de uma vez.Vou fazer uma visita. até que me . e deixar que a cabeça cismasse à vontade. arrepiar caminho. digno da esposa amantíssima que Deus lhe dera.estas iriam pausadas ou não. A viúva era realmente amantíssima. e subi outra vez a Rua do Catete. o ajuntamento de pessoas que devia natural mente impor-lhe a dissimulação. bom amigo. Cuidei de recompor-lhe os olhos. coração reto. raciocinava e evocava claro e bem. Agora. se houvesse algo que dissimular. tinha sido antes uma barafunda de idéias e sensações. O carro andaria mais depressa que as pernas. eu iria a pé. Neste ponto do discurso. e escolher uma resolução que fosse adequada ao momento. podia afrouxar o passo. .. não vale nada.. José Dias demonstrou longamente o contrário. eram inconciliáveis.

então é que ele.ia tocando para mim. e veio agradecer-me com a presença o favor que eu fazia ao marido. Batiam oito horas numa padaria. Quanto ao marido.. vi apontar uma moça trigueira. e endireitei para casa. Esta consideração fez-me chegar francamente à porta da loja. Nunca me esqueceu o caso deste barbeiro. Pobre barbeiro! perdeu duas barbas naquela noite. Se me não engano. chegou a dizê-lo com os olhos. Parei na calçada a ouvi-lo (tudo são pretextos a um coração agoniado). subi as escadas sem estrépito. e tocava. a despeito da hora e de ser domingo. que ali foram. todo rebeca. ficava à porta a ouvi-lo e a enamorar-lhe a mulher. deixei a porta da loja e vim andando para casa. flor no cabelo. ele viu-me. passava a alma ao arco. Perdeu-os sem perder uma nota. voltado para ele. ou por estar ligado a um momento grave da minha vida. Divina arte! CAPÍTULO 128 PUNHADO DE SUCESSOS Como ia dizendo. vestido claro. tudo para ser ouvido de um traunseunte. tocaria desesperadamente.. todo arco. Divina arte! Ia-se formando um grupo. e verdadeiramente não as esquece nunca. executava não sei que peça. tocava. ou por esta máxima. grudava a face ao instrumento. Ao fundo. amava a rebeca e não tocava inteiramente mal. e continuou a tocar. creio que me descobriu de dentro. Na ocasião em que ia passando. tocava agora com mais calor. enfiei pelo corredor e subi as escadas sem estrépito. e dei com prima Justina e José Dias jogando . CAPÍTULO 127 O BARBEIRO Perto de casa. em vez de ir-se embora. sem ver a mulher. que me conhecia de vista. Não atendeu a um freguês. empurrei a cancela. como eu fui.senti sossegar. levantando a cortina de chita que fechava o interior da casa. Era a mulher dele. Supõe agora que este. confiar-lhe as caras à navalha. sem ver fregueses. A máxima é que a gente esquece devagar as boas ações que pratica. que os compiladores podem tirar daqui e inserir nos compêndios de escola. que eram o pão do dia seguinte. que estava apenas encostada. e logo a outro. havia um barbeiro.

Capitu levantou-se do canapé e veio a mim. . mas não quis. ora em dia de anos. . Também pensei em fazer outro. O rosto dela era agora sereno e puro. todas as manhãs. um pássaro. Vivemos assim a trocar memórias e regalos. ainda assim ofereci-me. ora sem razão particular. e também falavam dos bens deixados. Também lhe disse que era melhor vir para cá. uma bengala de marfim.. Também ele as possuía de minha mão. as qualidades pessoais.Também não quis? . a simpatia do comércio. mas só achei frases soltas. e todos falamos do desastre e da viúva. Tudo isso foi na segunda-feira. Não me deixava nada. concertou os cabelos tão demoradamente que pareceria afetação.Tem lá muita gente.cartas na saleta próxima. ponderou José Dias. disse-nos que. E. que uma vez juntas não tinham sentido. um tinteiro de bronze. . Vieram os jornais do dia: davam notícia do desastre e da morte de Escobar. sem se lhe dar das visitas.Também não. livros. e passar aqui uns dias conosco. Tentei meter o caso à bulha. Capitu saiu para ir ver se o filho dormia. Capitu censurou a imprudência de Escobar. Inventariei as lembranças de Escobar. estariam já varridos. e perguntou a Capitu por que é que não fazia versos. a vista do mar há de ser-lhe penosa. não que quisesse dá-lo a imprimir.Entretanto. Perguntei-lhe por que não ficara com Sancha aquela noite. No dia seguinte. o primeiro lugar cabia a mulher. e não dissimulou a tristeza que lhe trazia a dor da amiga. e não sei como poderá. Na terça-feira foi aberto o testamento. era tarde. José Dias achou a frase “lindíssima”.. ao mirar o filho dormindo. era preciso pensar primeiro na minha vida. o álbum de Capitu. mas era já difícil. duas paisagens do Paraná e outras. pensara na filhinha de Sancha. os estudos e os negócios deste. Tudo isso me empanava os olhos. nem reparar se havia algum criado. arrependi-me de haver rasgado o discurso.. e podia ser apanhado em falso pelos que me tinham ouvido no cemitério. trazia os olhos vermelhos.. Pensei em recompô-lo. Ao passar pelo espelho. e na aflição da viúva. da mulher e da filha. se não soubéssemos que ela era muito amiga de si. e assim acabamos a noite. o que é que não passa? atalhou prima Justina. Quanto a recolher os pedacinhos de papel deitados à rua. mas . se quisesse pensar nela. abraçou-me e disse-me que. Quando tornou. E como em torno desta idéia começássemos uma troca de palavras.Mas passa. Os outros suspenderam o jogo. . mas era lembrança do finado. que me nomeava segundo testamenteiro.

depois tornaríamos à tona da água. melhor será queimá-lo. os objetos de algum valor seriam vendidos. uma vez que os acontecimentos. E que tinha que andassem mal? Tornariam a andar bem. se o houver lido até aqui. Sancha retirou-se para a casa dos parentes no Paraná. que eu faço a mesma coisa. Capitu sorriu para animar-me. Vá envelhecendo. esse acabou. Petrópolis. onde nos encontraremos renovados. Por enquanto. Um dia.as palavras que me escrevera em carta separada eram sublimes de amizade e estima. O que já lhe tiver feito. Rinovellate di novelle fronde. iremos daqui até à porta do céu. e até lá as jóias. abandone o resto. mas compôs-se depressa. e é ainda o melhor que se pode fazer depois da mocidade. sem marido nem filha. contando os gestos daquele sábado. Eu não sabia que lhe respondesse. Testamento. quiser ir até o fim. Respondi-lhe secamente que não era preciso vender nada.. recusei as diversões. como as plantas novas. uma série de bailes. não leia mais. Basta fechá-lo. mil desses remédios aconselhados aos melancólicos. desmentimos a minha ilusão. come piante novelle. Viveríamos sossegados e esquecidos. peço-lhe que não leia este livro. E propôs-me a Europa. Como insistisses repliquei-lhe que os meus negócios andavam mal. Pois nem assim. e iríamos residir em algum beco. Capitu desta vez chorou muito. esse é indelével. um dia Capitu quis saber o que é que me fazia andar calado e aborrecido. CAPÍTULO 129 A Dona SANCHA Dona Sancha. Minas. Deixei-me estar calado e aborrecido. A ternura com que me disse isto era de comover as pedras. a culpa é sua. CAPÍTULO 130 UM DIA.. amiga minha. ou. Se. tudo andou quase tão depressa como aqui vai dito. Não. mas o que agora a alcançar. apesar do aviso. inventário. não respondo pelo mal que receber. Ao cabo de pouco tempo. O resto em Dante. Ela propôs-me jogar cartas ou . para lhe não dar tentação e abri-lo outra vez. e eu com eles.

eram os olhos de Escobar. em verdade.Você já reparou que Ezequiel tem nos olhos uma expressão esquisita? perguntou-me Capitu. CAPÍTULO 131 ANTERIOR AO ANTERIOR Foi o caso que a minha vida era outra vez doce e plácida. alheia a ambos. Demais. podia antepô-lo a este antes de mandar o livro ao prelo. mas não me pareceram esquisitos por isso. e começou a tocar. vira para o lado de papai. provavelmente porque não gostei tanto das outras. na beleza. Capitu brincava com o filho. . papai? . mas custa muito alterar o número das páginas. As pessoas valem o que vale a afeição da gente. a banca do advogado rendia-me bastante. fitava agora a outra borda da mesa. dizendo-lhe eu que.. uma visita a Mata-cavalos. assim. mas é também certo que ele me queria ainda mais a mim. Capitu tinha meia dúzia de gestos únicos na terra.Logo. Capitu. e. dois meses depois da partida de Sancha. Começava o ano de 1872. Ezequiel ia crescendo. abriu o piano. foi para a sala. Vou escrevê-lo. achei que Capitu tinha razão. Ezequiel não entendeu nada. um passeio a pé. olhou espantado para ela e para mim. Capitu estava mais bela. peguei do chapéu e saí.Perdão. Era depois de jantar. é curto. queriam-se muito. um amigo de papai e o defunto Escobar. e afinal saltou-me ao colo: . meu filho. Aquele entrou-me pela alma dentro. Olha.. ou um com outro. mas este capítulo devia ser precedido de outro. depois a narração seguirá direita até o fim.. ocorrido poucas semanas antes. assim. vai assim mesmo. . e é daí que mestre Povo tirou aquele adágio que quem o feio ama bonito lhe parece. estávamos ainda à mesa. e muitas semelhanças se dariam naturalmente. assim.. Capitu sorriu abanando a cabeça com um ar que nunca achei em mulher alguma. porque. Só vi duas pessoas assim.Vamos passear. Aproximei-me de Ezequiel. como eu não aceitasse nada. ou ele com ela. olha firme. em que contasse um incidente.damas. mas. Assim fica explicado que eu corresse à minha esposa e amiga e lhe . os olhos de Ezequiel saíam aos da mãe. não precisa revirar os olhos. eu aproveitei a ausência. Ezequiel. Afinal não haveria mais que meia dúzia de expressões no mundo.

corria a casa. porém. sem abrir as janelas. E o principal é que os nossos temporais eram agora contínuos e terríveis. tornava a casa e via no alto da escada a criaturinha que me queria e esperava. ou pedir-me à noite a bênção do costume. O que se passava entre mim e Capitu naqueles dias sombrios. CAPÍTULO 132 O DEBUXO E O COLORIDO Nem só os olhos. depois lê-se a carta na rua. ora devagar. Eram como um debuxo primitivo que o artista vai enchendo e colorindo aos poucos. e a figura entra a ver. O costume valeu muito contra o efeito da mudança. a luz coada pelas persianas basta a distinguir as letras. metia o papel no bolso. fez-se como a manhã que aponta vagarosa. até que a família pêndula o quadro na parede. beijar-me no gabinete de manhã. Mas o principal irá. fechava-me. não podia fazê-lo a mim. Quando novamente abria os olhos e a carta. mas as restantes feições. a pessoa inteira. no gabinete. Quando nem mãe nem filho estavam comigo o meu desespero era grande. depois fui lendo melhor. não à maneira de teatro. Todas essas ações eram repulsivas. fiquemos nos olhos de Ezequiel. e eu jurava matá-los a ambos. em memória do que foi e já não pode ser. Fugia-lhe. para me não descobrir a mim mesmo e ao mundo. primeiro que se possa ler uma carta. por ser tão miúdo e repetido. que vivia mais perto de mim que ninguém. Antes de descoberta aquela má terra da verdade. Mas o que pudesse dissimular ao mundo. do seminário e do Flamengo para se sentar comigo à mesa. Quando. Aqui podia ser e era. tivemos outros de pouca . o corpo. Escobar vinha assim surgindo da sepultura. não se notará aqui. ficava desarmado e diferia o castigo de um dia para outro.enchesse a cara de beijos. é certo. mas a mudança fez-se. a cara. eu tolerava-as e praticava as. mas este outro incidente não é radicalmente necessário à compreensão do capítulo passado e dos futuros. e já tão tarde que não se poderá dizê-lo sem falha nem canseira. para dividir pelo tempo da morte todos os minutos da vida embaçada e agoniada. palpitar. chegava a fechar os olhos. receber-me na escada. Li a carta. em casa. mal a princípio e não toda. sorrir. falar quase. ora de golpe. não abria as vidraças. iam-se apurando com o tempo. a letra era clara e a notícia claríssima.

nós a líamos. como levara o ataúde do outro. era a volta de Escobar mais vivo e ruidoso. .dura. se voltaria para casa. próxima e firme. nos olhos um do outro. e se eu iria vê-lo. e nós.Papai não diz que jura.. não tardava que o céu se fizesse azul. . papai! . posto sempre fosse homem de terra. cheio de riso e de amor. perto da nossa casa. Levei-o a pé. ou porque o tempo fosse andando e completando a semelhança. . . que não era tardia nem dúbia. A mesma situação nova agravou a minha paixão. por onde abríamos novamente as velas que nos levavam às ilhas e costas mais belas do universo. Ezequiel entrava turbulento. ao fim das semanas. . Ezequiel vivia agora mais fora da minha vista. o sol claro e o mar chão.Vou sim. no gabinete. buscava não andar em casa e só entrar quando ele estivesse dormindo. Assim. uma segunda-feira. expansivo. .Quero ir com papai! Papai há de ir comigo! bradava ele. E lá o levei e deixei. Aos sábados. ou pelo descostume em que eu ficava. Cheiram também aos olhos de ressaca de Capitu. eu sentia-me cada vez pior. A ausência temporária não atalhou o mal. donde só viesse aos sábados. quando eu me achava entre jornais e autos. antes total. postos à capa. Eu. a falar verdade.Papai não vai! . pela mão. esperávamos outra bonança.Pois juro. até que outro pé de vento desbaratava tudo. Fui eu mesmo que o levei um dia de manhã.. mas a volta dele. porém. custou muito ao menino aceitar esta situação. Capitu propôs metê-lo em um colégio. e quando.Pois sim. Releva-me estas metáforas. O pequeno ia chorando e fazendo perguntas a cada passo. vibrante e decisiva. Até a voz. . porque o demo do pequeno cada vez morria mais por mim. Já entre nós só faltava dizer a palavra última. dentro de pouco. sentia agora uma aversão que mal podia disfarçar. conto aquela parte da minha vida. cheiram ao mar e à maré que deram morte ao meu amigo e comborço Escobar. já me parecia a mesma. mas não escapava ao domingo. e sempre que Ezequiel vinha para nós não fazia mais que separar-nos. Era no antigo Largo da Lapa. como um marujo contaria o seu naufrágio. foi como se não fosse. ao menos. e toda a arte fina de Capitu para fazê-lo atenuar.Jura.Vou.

as mesmas asas trépidas. A vida é tão bela que a mesma idéia da morte precisa de vir primeiro a ela. e a morte não se gasta. como fazem as idéias que querem sair. quando cuidava não ser mais que uma ou duas horas. é provável que a idéia não batesse as asas senão pela necessidade que sentia de vir ao ar e à vida. Era noite.não pude mais. A farmácia faliu. vindas da roça e da antiga metrópole. cuidava de me não fazer encontradiço com ele. era como se fosse fixa. e posto avoasse com elas. ou só o menos que pudesse.tanto a ela como aos outros.. abriu as asas e entrou a batê-las de um lado para outro. Certa idéia. Cá fora tinha a mesma cor escura. Entretanto. com a cor mais pálida que de costume. Fui a casa de . para não espertar o desejo de prová-la. ou ainda maior. não que me encobrisse as coisas externas. mas também pode ter sido propósito. que negrejava em mim. nas quais a sexta-feira era o dia de agouro. ouvi cantar baladas. Já me vais entendendo. Amanheceu. Saí. lê agora outro capítulo. e o banco prospera. e sem se demorarem nada. é verdade. não havendo almanaques no cérebro. eu a levava na retina. Não me lembra bem o resto do dia. em casa. Também nenhuma noite me passou tão curta. mas via-as através dela. ora tinha trabalho que me obrigava a fechar o gabinete. por mais que a sacudisse de mim. que não digo. fui educado no terror daquele dia. e não pude dormir. porque o prêmio da loteria gasta-se. o dono fez-se banqueiro. O ser sexta-feira creio que foi acaso. antes de se ver cumprida. CAPÍTULO 133 UMA IDÉIA Um dia-era uma sexta-feira. supondo deixar a idéia em casa. Sei que escrevi algumas cartas. Não podendo encobrir inteiramente esta disposição moral. ora saía ao domingo para ir passear pela cidade e arrabaldes o meu mal secreto. CAPÍTULO 134 O DIA DE SÁBADO A idéia saiu finalmente do cérebro. comprei uma substancia. ela veio comigo. Quando me achei com a morte no bolso senti tamanha alegria como se acabasse de tirar a sorte grande.

. e a fúria do mouro.. sabia apenas o assunto. um fogo intenso e vasto. Nos intervalos não me levantava da cadeira.E era inocente. hoje são precisos os próprios lençóis. como eterna extinção. se ela deveras fosse culpada. e o pó seria lançado ao vento.um simples lenço!. Então eu perguntava a mim mesmo se alguma daquelas não teria amado alguém que jazesse agora no cemitério. e vinham outras incoerências. e estimei a coincidência. à medida que o mouro rolava convulso. O último ato mostrou-me que não eu. Cheguei a abrir mão do projeto. Ceei. enquanto os homens iam fumar. que eu não vira nem lera nunca. tão culpada como Capitu? E que morte lhe daria o mouro? Um travesseiro não bastaria. alguma vez nem lençóis há e valem só as camisas. Vaguei pelas ruas o resto da noite. .não queria expor-me a encontrar algum conhecido.e aqui dou matéria à meditação dos psicólogos deste e de outros continentes. Vi as grandes raivas do mouro. os primeiros . mas Capitu devia morrer. que a consumisse de todo. pois não me pude furtar à observação de que um lenço bastou a acender os ciúmes de Otelo e compor a mais sublime tragédia deste mundo.. com o fim de despedir-me. tudo ali me pareceu melhor nesse dia. Ou de verdade ou por ilusão.minha mãe. prima Justina da língua. vagas e turvas.. e a morte que este lhe deu entre aplausos frenéticos do público. e Iago destilava a sua calúnia. . as primeiras carroças. mas o bastante para ir até à manhã. e a reduzisse a pó. os primeiros ruídos. minha mãe menos triste. vinha eu dizendo rua abaixo. Passei uma hora em paz.. era preciso sangue e fogo. Representava-se justamente Otelo. as suas palavras amorosas e puras. Vi as últimas horas da noite e as primeiras do dia. a título de visita. até que o pano subia e continuava a peça. Tais eram as idéias que me iam passando pela cabeça. CAPÍTULO 135 OTELO Jantei fora. Ouvi as súplicas de Desdêmona.que faria o público. As senhoras ficavam quase todas nos camarotes. vi os derradeiros passeadores e os primeiros varredores. é verdade um quase nada. Que era preciso para viver? Nunca mais deixar aquela casa ou prender aquela hora a mim mesmo. De noite fui ao teatro. tio Cosme esquecido do coração. por causa de um lenço. Os lenços perderam-se.

Não lhe lembrava o nosso passado. mas era já numerosa e ia a algum trabalho. nem a fortaleza de Santa Cruz e as outras. Há muita gente que se mata sem ele. se pudesse achar essa espécie de cocaína moral dos bons livros. claro e breve. e meti-me no gabinete. Escrevi dois textos. O copeiro trouxe o café. tinha necessidade de incutir em mim a coragem dele. não tendo esquecido de todo a minha história romana. senti necessidade de lhe dizer uma palavra em que lhe ficasse o remorso da minha morte. e escrevi ainda uma carta. iam dar seis horas. dissolver nele a droga e ingeri-la. Já a casa estava em rumores. As ruas que eu andava como que me fugiam por si mesmas. assentei de pô-lo novamente no seu lugar. fiquei em mangas de camisa. antes de se matar. Cheguei a casa. Até lá. guardei o livro. O primeiro queimei-o por ser longo e difuso. em que era narrada a vida do célebre romano. a última. estirei-me no canapé. eu é que não repetiria mais nada. Não tinha Platão comigo. A mão tremeu-me ao abrir o papel em que trazia a droga . leu e releu um livro de Platão. para não ser encontrado ao pé de mim o livro de Plutarco. para intrepidamente morrer. era tempo de acabar comigo. Nenhuma das outras era para ela. e para em tudo imitá-lo. nem alegria alguma. bastou-me a ocupar aquele pouco tempo. mas um tomo truncado de Plutarco. nem ser dada a notícia nas gazetas com a da cor das calças que eu então vestia. A gente que passava não era tanta. assim como ele precisara dos sentimentos do filósofo. Tirei o veneno do bolso. falava-lhe só de Escobar e da necessidade de morrer. Um dos males da ignorância é não ter este remédio à última hora. e nobremente expira. nem a serra dos órgãos. Ergui-me. um dia que vinha depois do outro e me veria ir para nunca mais voltar. subi pé ante pé. que repetiria depois. Entretanto. Não tornaria a contemplar o mar da Glória. lembrou-me que Catão.albores. querendo fugir a qualquer suspeita de imitação. lembra-me bem que. O segundo continha só o necessário. como nos dias comuns da semana. dirigida a Capitu. Nem era só imitá-lo nisso. CAPÍTULO 136 A XÍCARA DE CAFÉ O meu plano foi esperar o café. e fui para a mesa onde ficara a xícara. mas estou que muita mais gente poria termo aos seus dias. abri a porta devagarinho. nem as lutas havidas. antes de beber o veneno.

papai. Cheguei-lhe a xícara. Cheguei a pegar na xícara. era melhor. e dei por mim a beijar doudamente a cabeça do menino.Papai! papai! exclamava Ezequiel. beberia depois. Ainda assim tive animo de despejar a substancia na xícara. a olhar ao longe.. o meu segundo impulso foi criminoso. meia xícara só.. lá estava ele. como que rendo subir e dar-me o beijo do costume. Ouvi a voz de Ezequiel no corredor. entrei a passear no gabinete.embrulhada.Eu mando vir mais.E papai? . e repetia. diga-se tudo. o espetáculo da véspera vinha intrometer-se na realidade da manhã. Chamem me embora assassino. Mas a fotografia de Escobar deu-me o animo que me ia faltando.Papai! papai! CAPÍTULO 137 SEGUNDO IMPULSO Se eu não olhasse para Ezequiel. houve aqui um gesto que eu não descrevo por havê-lo inteiramente esquecido. com a mão nas costas da cadeira. Efetivamente. . ou a temperatura. porque o meu primeiro ímpeto foi correr ao café e bebê-lo. os olhos vagos.Papai! papai! Leitor.. e a vista dele. Mas não sei que senti que me fez recuar.. . Ezequiel abraçou-me os joelhos. deu-me outro impulso que me custa dizer aqui. “Acabemos com isto”. a memória em Desdêmona inocente.. mas o pequeno beijava-me a mão. Quando ia a beber. vi-o entrar e correr a mim bradando: . porque o café estava frio. pensei. Assim disposto.Toma outra xícara. e comecei a mexer o café. . bebe! Ezequiel abriu a boca.mas vá lá. anda. Pus a xícara em cima da mesa. mas disposto a fazê-la cair pela goela abaixo. como o gesto. esticou-se na ponta dos pés. caso o sabor lhe repugnasse.Já. . é provável que não estivesse aqui escrevendo este livro. a figura do pequeno fez-me recuar até dar de costas na estante. . não serei eu que os desdiga ou contradiga. cogitei se não seria melhor esperar que Capitu e o filho saíssem para a missa. como de costume. Inclinei-me e perguntei a Ezequiel se já tomara café. vou à missa com mamãe. tão trêmulo que quase a entornei. mas crê que foi belo e trágico. puxando-me: .

sem mentir. à dor que a retorcia. eu não sou teu pai! CAPÍTULO 138 CAPITU QUE ENTRA Quando levantei a cabeça. mas Capitu pareceu-me lívida. Seguiu-se um daqueles silêncios. Que houve entre vocês? . não. uma vez que a mãe e o filho iam à missa. entretanto você que era tão cioso dos menores gestos. a coisa nenhuma. . . questão de preço. dei com a figura de Capitu diante de mim. eu nem olhava para ela. Já ouvi que as há para vários casos. Assim que. tão naturais ambas que fariam duvidar as primeiras testemunhas de vista do nosso foro.O quê? perguntou ela como se ouvira mal. ao dar com ela. disse ao filho que se fosse embora. .Que não é meu filho. a própria natureza jurava por si. a minha era verdadeira. Após alguns instantes. eu não creio. Eu creio que ouvira tudo claramente mas confessá-lo seria perder a esperança do silêncio e da reconciliação por isso negou a audiência e confirmou unicamente a vista. Eis aí outro lance. esperando..Não há que explicar. não sei se era dos meus olhos.Não ouviu o que lhe disse? Capitu respondeu que ouvira choro e rumor de palavras. e Capitu não saía sem falar-me. e pediu-me que lhe explicasse. disse-me ela: . Capitu recompôs-se. e não menor a indignação que lhe sucedeu.. tanto mais que a pessoa que me contou isto acabava de perder uma demanda. a maior parte das vezes. e eu não queria duvidar dela. tal é a extensão do tempo nas grandes crises. sem atender à linguagem de Capitu. repeti-lhe as palavras do final do capítulo. . e é tão natural como o primeiro.Só se pode explicar tal injúria pela convicção sincera. a que. não entendo as tuas lágrimas nem as de Ezequiel. que parecerá de teatro. Ela olhava sempre. Mas. disse eu. se pode chamar de um século.Não. Era já um falar seco e breve. Sem lhe contar o episódio do café.Há tudo. nunca revelou a menor sombra . aos seus gestos. haja ou não testemunhas alugadas.. Grande foi a estupefação de Capitu. Desta vez. repeti as palavras ditas duas vezes com tal resolução que a fizeram afrouxar.

em um tom juntamente irônico e melancólico: . ou peço-lhe desde já a nossa separação: não posso mais! .Pois até os defuntos! Nem os mortos escapam aos seus ciúmes! Concertou a capinha e ergueu-se. e é tudo. depois do que ouvi. Suspirou. Que é que lhe deu tal idéia? Diga. Pedi-lhe ainda uma vez que não teimasse.apesar do seminário não acredita em Deus. diga tudo. porém. é a casualidade da semelhança.. disse-lhe não sei que palavras adequadas a este fim. não nos fica bem dizer mais nada. o porte não era de acusada. aqui vai o que lhe posso dizer. de um riso que eu sinto não poder transcrever aqui. Capitu olhou para mim com desdém. uma fantasmagoria de alucinado. posso ouvir o resto. Capitu não pôde deixar de rir. mas pude aludir aos amores de Escobar sem proferir-lhe o nome. creio que suspirou. Não disse tudo. ou conte o resto. Desta vez a confusão dela fez-se confissão pura. Uma vez. Podia estar um tanto confusa.. Que é que lhe deu agora tal convicção? Ande. Mas não falemos nisto. Era melhor que a fizéssemos por meias palavras ou em silêncio. para que eu me defenda. havia por força alguma fotografia de Escobar pequeno que seria o nosso pequeno Ezequiel. não . . involuntariamente. A vontade de Deus explicará tudo. depois. redargüi pegando-lhe na proposta. Ri-se? É natural. mas já que disse metade.A separação é coisa decidida. e murmurou: . que a senhora insiste... CAPÍTULO 139 A FOTOGRAFIA Palavra que estive a pique de crer que era vítima de uma grande ilusão. Este era aquele.Sei a razão disto.Não. porém. e depois um para o outro. se você acha que tenho defesa..continuou vendo que eu não respondia nada. De boca. que não pedia outra coisa mais que a plena justificação dela. gritando:. Bentinho.diga tudo. fale! fale! Despeça-me daqui.. enquanto eu. Capitu e eu.Há coisas que se não dizem. . . cada um iria com a sua ferida. eu creio. não pode ser muito. Bentinho.“Mamãe! mamãe! é hora da missa!” restituiu-me à consciência da realidade. .Que se não dizem só metade. olhamos para a fotografia de Escobar. mas diga tudo primeiro. mas a entrada repentina de Ezequiel.. Tinha-se sentado numa cadeira ao pé da mesa.de desconfiança.

se devesse havê-la. Pois. e faríamos o que eu pensasse. Contava com a minha debilidade ou com a própria incerteza em que eu podia estar da paternidade do outro. E por que os não esganei um dia. mas falhou tudo. parecido com Capitu. um segredo que me fez rir. eu acabava de achar outra. e nos outros dias. A morte era uma solução.confessou nada. Os olhos com que me disse isto eram embuçados. relê o capítulo. e deixava a porta aberta à reparação. evocara as palavras do finado Gurgel. lembravam-me episódios vagos e remotos. ouvi dentro de mim que a nossa separação é indispensável. .. um que aparecia agora. uma palavra dela sonhando. CAPÍTULO 140 VOLTA DA IGREJA Ficando só. tudo em que a minha cegueira não pôs malícia. mas não fica longe. palavras. não. desde que impressões novas e fortes o descobriam? Nesse caso era um homem apenas encoberto. quando desviei os olhos da rua onde . Acaso haveria em mim um homem novo. todas essas reminiscências vieram vindo agora. No intervalo. Em verdade vos digo que tudo estava pensado e feito. quando me mostrou em casa dele o retrato da mulher. era natural pegar do café e bebê-lo. e estou às suas ordens. Não disse perdão.. e a que faltou o meu velho ciúme. Pelo dia adiante. encontros e incidentes. cheguei a temer que ela houvesse ido à casa de minha mãe. Reduzem-se a dizer que há tais semelhanças inexplicáveis. Este foi mais demorado que de costume. rejeitei a morte. mas não foi. e esperei o regresso de Capitu. mas reparação. justiça. e as feições do pequeno davam idéia clara das do outro.Confiei a Deus todas as minhas amarguras. tanto melhor quanto que não era definitiva. senhor. por não me lembrar já qual seja. isto é. disse-me Capitu ao voltar da igreja. como espreitando um gesto de recusa ou de espera. Ezequiel ia ter comigo ao gabinete. Qualquer que fosse a razão do ato. cujo número não ponho aqui.. ou eu ia atentando mais nelas. se não. repetiu as últimas palavras. De envolta. em tal atropêlo que me atordoaram. Uma vez em que os fui achar sozinhos e calados.. Respondi-lhe que ia pensar. puxou do filho e saíram para a missa. Hás de lembrar-te delas. tinha perdido o gosto à morte.

paramos na Suíça. e repeti a viagem com o mesmo resultado. queriam notícias. seria melhor se as andorinhas. sem ódio. Capitu começara a escrever-me cartas. os próprios olhos que enxugava eram tais que me comoviam também. e as palavras que me dizia. Escobar declarou que.. se os chins os inventaram. novo nem velho. que envelheceu depressa. e enganar a opinião. . As dela eram submissas. Também ele estava velho. ficava de companhia a tio Cosme. que aprenderia o resto nas escolas do país. estivessem à mesa do jantar cozidas. Contei-lhes o namoro das andorinhas de fora. quase inválido e a minha mãe. Na volta. enquanto Capitu. e eu dava-lhes.” E ficamos a tratar dos chins e dos clássicos que falaram deles. mas não a procurei. Ia a bordo despedir-se de mim. que foi conosco. A última vez não foi a bordo. ficou de companhia a Capitu. Um dia. os gestos de lenço. CAPÍTULO 142 UMA SANTA Entenda-se que. foi a outros cuidados.. e acharam-lhe graça. as minhas outras andorinhas estavam trepadas no ar. não é que lhe faltasse vontade. não passear. ensinando a língua materna a Ezequiel. Agora lembrava-me tudo o que então me pareceu nada. mas devem ser bons. Pegamos em nós e fomos para a Europa. mas tão cautelosos que se desenfiaram logo.estavam duas andorinhas trepadas no fio telegráfico? Dentro. Embarquei um ano depois. dizendo-me uma palavra amiga e alegre. . e para o fim saudosas. Ao cabo de alguns meses. os que se lembravam dela.Venha. José Dias não foi comigo. Uma professora do Rio Grande. pedia-me que a fosse ver. acaso afetuosas.. como se acabasse de viver com ela.. os olhos enfiados nos olhos. CAPÍTULO 141 A SOLUÇÃO Aqui está o que fizemos. continuou. em vez de trepadas no fio de arame. Assim regulada a vida. tornei ao Brasil. naturalmente as viagens eram feitas com o intuito de simular isto mesmo. “Nunca comi os ninhos delas. a que respondi com brevidade e sequidão. finalmente. confessando que a aborrecíamos. para ele. se nas viagens que fiz à Europa. posto que rijo. nem ver nada.

quando saímos. o nome. Conheceu então o protonotário? .. se a conhecessem mandariam esculpir santíssima. . .Não a conheceram. Agora. eu não quero dizer que naquela sepultura está uma canonizada. disse mal do padre... CAPÍTULO 143 . Fiz fazer essa inscrição com alguma dificuldade. o administrador do cemitério consultou o vigário da paróquia. Procura no cemitério de S.. Um dado de mestre! .. chamou-lhe meticuloso. não lhe escrevendo o nome. O escultor achou-a esquisita. No fim. João Batista uma sepultura sem nome. . Não foi logo. na fórmula.Bom canonista. nem ele nem os outros homens do cemitério.Nem eu contesto a verdade. desejo conservá-la póstuma. perdão. atalhei. senhor..Justamente.? . . .E possuía algumas prendas de sociedade. confirmaria aqui o que lhe digo.Conheci-o. . sendo a modéstia uma delas.Não. nem nomes. . sim. a eterna. É aí.. minha mãe embarcou primeiro.Está com medo? . admite-se. Era um padre-modelo. parece-lhe.. .. com grande melancolia.Então. filiação. não sei se me verá mais. Tanto é assim que. Bentinho. nem poderia havê-lo. pio e caridoso.Tinha muito bom dado! suspirou lentamente o vigário. com esta única indicação: Uma santa. O protonotário Cabral.. bom latinista. lá em casa sempre ouvi que era insigne parceiro ao gamão.Uma vez que não há outro sentido. creio que vou para a outra Europa. José Dias assistiu a estas diligências. adeus. . continuou o vigário.Quer dizer que era uma santa senhora.Quem se importará com datas. Só lhe achava desculpa por não ter conhecido minha mãe. hesito só. não? . se fosse vivo. este ponderou-me que as santas es tão no altar e no céu. depois que eu acabar? .Mas. não posso..Não posso. disse eu.Todavia. as datas. A minha idéia é dar com tal palavra uma definição terrena de todas as virtudes que a finada possuiu na vida. a filiação.

Pouco antes ouviu que o céu estava lindo. em todas as escolas se morre. estava um céu azul e claro. Demais. a que pedia que lhe mandasse o retrato de Ezequiel. José Dias soergueu-se e olhou para fora. mas Capitu ia adiando a remessa de correio a correio. murmurando: Lindíssimo! Foi a última palavra que proferiu neste mundo. disse ele. apenas me lembra aquela. . Pobre José Dias! Por que hei de negar que chorei por ele? CAPÍTULO 144 UMA PERGUNTA TARDIA Assim chorem por mim todos os olhos de amigos e amigas que deixo neste mundo. Tenho-me feito esquecer. o ar pode fazer-lhe mal.basta um alopata. “destinado pelo céu a amar o mesmo sangue. . Não é que haja efetivamente ligado as duas pontas da vida. com legado ou sem ele. que o tempo levou. até que veio o último. após alguns instantes.” Era assim que ele preparava os cuidados da terceira geração. . o mais doce. Hão de perguntar-me por que razão. Esta casa do Engenho Novo.O ÚLTIMO SUPERLATIVO Não foi o último superlativo de José Dias. Já disse isto mesmo. Morreu sereno. A alopatia é o catolicismo da medicina. após uma agonia curta. e pediu que abríssemos a janela. deixou cair a cabeça. foram idéias da mocidade. até que ele não pediu mais nada. e mais por efeito de comparação e de reflexão que de sentimento. mas a morte veio antes de Ezequiel.. A doença foi rápida. mas não é provável. Já então morava comigo. Bentinho.Não. pedia-lhe também que não deixasse de falar a Ezequiel no velho amigo do pai e do avô. não se separaria de mim. Outros teve que não vale a pena escrever aqui. Correspondia-se com Capitu. Moro longe e saio pouco. veio dizer-me que. a não ser o coração do jovem estudante..Não. Mandei chamar um médico homeopata. Realmente. Abrimos a janela. posto que minha mãe lhe deixasse uma pequena lembrança. não impedi que a demolissem e vim reproduzi-la nesta. na mesma rua antiga. o que lhe fez da morte um pedaço de vida. conquanto reproduza a de Mata-cavalos. tendo a própria casa velha. Talvez a esperança dele fosse enterrar-me. converto-me à fé de meus pais. A . o melhor deles.Que mal? Ar é vida.

em vez de reto. No quintal a aroeira e a pitangueira. e não fiz rumor Não obstante.creio que ainda não disse que estava morta e enterrada. Quando saí do quarto. a caçamba velha e o lavadouro. metade Dom Casmurro Ao entrar na sala. falar-lhe na mãe. CAPÍTULO 145 O REGRESSO Ora. abraçá-lo. DE SANTIAGO . lembrou-me fazer esta reprodução por explicações que dei ao arquiteto. ficou esperando. ouvi também o grunhir dos porcos. e voltou-se depressa. Trajava à moderna naturalmente. fi-lo esperar uns dez ou quinze minutos na sala. . Conhece-me pelos retratos e correu para mim. querendo ir para lá. Ao contrário. salvo as cores que eram vivas. . e. o mesmo rosto do meu amigo. Vim cauteloso. A casuarina era a mesma que eu deixara ao fundo. de costas. Deixei que demolissem a casa. Ao pé dessa música sonora e jovial. espécie de troça concentrada e filosófica. Não me mexi. nada sabia de mim. fiz primeiro uma longa visita de inspeção por alguns dias. logo. A mãe. quando vim para o Engenho Novo. o poço. Só depois é que me lembrou que cumpria ter certo alvoroço e correr. Tudo me era estranho e adverso.pergunta devia ser feita a princípio. tinha agora um ar de ponto de interrogação. lá repousa na velha Suíça.A pessoa está aí? perguntei ao criado. pintado na parede.. Corri os olhos pelo ar. mas aqui vai a resposta. mirando o busto de Massinissa. e não achei nenhum. foi já nesta casa que um dia. naturalmente pasmava do intruso. com ares de pai. menos cheio de corpo e. mas o tronco. Estava. a ramagem começou a sussurrar alguma coisa que não entendi logo. segundo contei em tempo. e parece que era a cantiga das manhãs novas. buscando algum pensamento que ali deixasse. Acabei de vestir-me às pressas. recebi um cartão com este nome: EZEQUIEL A. mais tarde. era nem mas nem menos o meu antigo c jovem companheiro do seminário de José. logo que minha mãe morreu. estando a vestir-me para almoçar. Não fui logo. um pouco mais baixo. A razão é que. dei com um rapaz. como outrora. e toda a casa me desconheceu. e as maneiras eram diferentes.Sim senhor. ouviu-me os passos. mas o aspecto geral reproduzia a pessoa morta. um pai entre manso e crespo.

enganas-te. Teve seus minutos de aborrecimento. não me acudiu. A mãe falava muito em mim. Estendeu o copo ao vinho que eu lhe oferecia. e eu com as perninhas. concluiu. Às vezes. Ansiava por ver-me. e o meu colega do seminário ia ressurgindo cada vez mais do cemitério. bebeu um gole. posto que a idéia da paternidade do outro me estivesse já familiar. Sentamo-nos. o mais digno de ser querido.. tanto mais facilmente quando que ele parecia haver-me deixado na véspera evocava a meninice. que Capitu por descuido levasse consigo. cenas e palavras.Pois não hei de lembrar-me? .Vamos almoçar.. como o homem mais puro do mundo.. Prima Justina quis vê-lo. é verdade. . o verdadeiro Escobar. A idéia de que pudesse ter visto alguma fotografia de Escobar. o sotaque era afrancesado. Contou-me a vida na Europa. mas o diabrete falava e ria. Escobar comia assim também. e papai não parava. Se pensas que o almoço foi amargo. aceito. . . Eu. Falava da antiguidade com amor. era o filho de seu pai. persistiria. acharia nele a minha própria pessoa. nem se acudisse. não gostava da ressurreição.. particularmente os de arqueologia. dava-me cada puxão. que me não completasse e continuasse. eu acabava crendo tudo. louvando-me extraordinariamente. Se fosse vivo José Dias. o mesmo obséquio e a mesma graça.Era o próprio.Papai ainda se lembra quando me levou para o colégio? perguntou rindo. com a cara metida no prato. Conhecia aquela parenta. eu ia desesperado. tinha a cabeça aritmética do pai. Ezequiel cria em mim como na mãe. Sim. Se o rapaz tem saído à mãe. sem se perder nos algarismos.Era na Lapa. a princípio doeu-me que Ezequiel não fosse realmente meu filho. os estudos. Mas isto mesmo dava animação à cara dele. que era a sua paixão. Expliquei-lhe que realmente pouco diferia do que era. Não havendo remédio senão ficar com ele. pediu-me que o levasse lá. o exato. contava o Egito e os seus milhares de séculos. a ida para o colégio.Papai não faz diferença dos últimos retratos. senhor. Era o meu comborço. e comecei um interrogatório para ter menos que falar e dominar assim a minha emoção. Ei-lo aqui. eu também estava de preto. Creio que o desejo . . e continuou a comer. e o defunto falava e ria por ele. mas estando enferma. total. fechava os olhos para não ver gestos nem nada. disse-me ele A voz era a mesma de Escobar. com igual riso e maior respeito. . Vestia de luto pela mãe. fiz-me pai deveras.Morreu bonita. diante de mim.

atalhei-o a tempo.Está muito mal. onde os dois amigos da universidade lhe levantaram um túmulo com esta inscrição. alguma torre. Como disse que uma das conseqüências dos amores furtivos do pai era pagar eu as arqueologias do filho. Onze meses depois. Quando esta idéia me atravessou o cérebro. o desenho da sepultura.de ver Ezequiel era para o fim de verificar no moço o debuxo que porventura houvesse achado no menino. e foi enterrado nas imediações de Jerusalém. . um trecho de praia. os olhos que ele me deitou foram ternos e agradecidos. mas há febres por todas essas terras humanas. viagem científica. Ezequiel falou-me em uma viagem à Grécia. senti-me tão cruel e perverso que peguei no rapaz e quis apertá-lo ao coração. nem podia. Eram dois colegas da universidade. quando ficar melhor. CAPÍTULO 146 NÃO HOUVE LEPRA Não houve lepra. Ezequiel viu-lhe a cara no caixão e não a conheceu.” Mandaram-me ambos os textos. qualquer emoção pode trazer-lhe a morte.. Assim acontecia sempre que voltava para casa. encarei-o depois. e à Palestina. e respondeu-me que as mulheres eram criaturas tão da moda e do dia que nunca haviam de entender uma ruína de trinta séculos. Não fomos. Seria um regalo último. grego e latino. Ao cabo de seis meses. pagaria o triplo para não tornar a vê-lo. ao Egito. promessa feita a alguns amigos. tão outra a fizeram os anos e a morte. Ela descansa no Senhor ou como quer que seja. como se as casas morressem meninas. . . No caminho para o cemitério. a morte levou-a dentro de poucos dias.. Admirava-se que muitas destas fossem as mesmas que ele deixara. antes lhe pagasse a lepra. disse eu a Ezequiel que queria ir vê-la. como se faz a um filho de verdade. Iremos vê-la. Ezequiel morreu de uma febre tifóide. sejam velhas ou novas. mas recuei. a conta das despesas e o resto do dinheiro que ele levava. e era todo alegria. em grego: “Tu eras perfeito nos teus caminhos. Prometi-lhe recursos. alguma rua. tirada do profeta Ezequiel. ao fim do dia. Sorria vexado. e dei-lhe logo os primeiros dinheiros precisos. contava-me as recordações que ia recebendo das ruas e das casas.De que sexo? perguntei rindo. iam-lhe lembrando uma porção de coisas.

ou se esta foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente. ou se fartam de vê-la. Mas não é este propriamente o resto do livro. espiava. e também esta cansava. . e maiores recomendações. Eis aí mais um mistério para ajuntar aos tantos deste mundo. e.Levo. Uma só dessas visitas tinha carro à porta e cocheiro de libré. esperando. uma gouache. e ia embora com o catálogo na mão.. consultava o relógio. mas tinha ainda um complemento: “Tu eras perfeito nos teus caminhos.Levas o catálogo? . CAPÍTULO 148 E BEM. mostrava-lhe as paisagens. se chovia. ia até à esquina.” Parei e perguntei calado: “Quando seria o dia da criação de Ezequiel?” Ninguém me respondeu. um pastel. nem os de cigana oblíqua e dissimulada. Caprichos de pouca dura. os quadros históricos ou de gênero. eu é que ia buscar um carro de praça. até amanhã. entrávamos. é verdade. filho de Sirach. e as metia dentro.Até amanhã. jantei bem e fui ao teatro. e. consultei a minha Vulgata. E O RESTO? Agora . Eu ficava à porta. uma aquarela. por mais lacerada que tenha sido. Elas é que me deixavam como pessoas que assistem a uma exposição retrospectiva. ou a luz da sala esmorece. se . Jesus. não ficou aí para um canto como uma flor lívida e solitária.. As outras iam modestamente. e não via nada nem ninguém. Então. Não lhe dei essa cor ou descor. com grandes despedidas. se aparecia outra visita. Não voltavam mais. desde o dia da tua criação. calcante pede. sem me faltarem amigas que me consolassem da primeira. O resto é saber se a Capitu da Praia da Glória já estava dentro da de Mata-cavalos. Vivi o melhor que pude.Como quisesse verificar o texto. CAPÍTULO 147 A EXPOSIÇÃO RETROSPECTIVA Já sabes que a minha alma. Apesar de tudo. . dava-lhe o braço. por que é que nenhuma dessas caprichosas me fez esquecer a primeira amada do meu coração? Talvez porque nenhuma tinha os olhos de ressaca. achei que era exato.

. hás de reconhecer que uma estava dentro da outra. se te lembras bem da Capitu menina. e tu concordarás comigo. versículo 1: “Não tenhas ciúmes de tua mulher para que ela não se meta a enganar-te com a malícia que aprender de ti”.soubesse dos meus primeiros ciúmes. tão extremosos ambos e tão queridos também. como no seu cap. a saber. ou o resto dos restos. A terra lhes seja leve! Vamos à “História dos Subúrbios”.. como a fruta dentro da casca. que a minha primeira amiga e o meu maior amigo. e é a suma das sumas. dir-me-ia. FIM . uma coisa fica. quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me. E bem. Mas eu creio que não. 9 . qualquer que seja a solução.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful