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Dom Casmurro
Machado de Assis

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Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão. A viagem era curta.“Meu caro Dom Casmurro. Contei a anedota aos amigos da cidade. . por graça. vê se deixas essa caverna do Engenho Novo.”. sentou-se ao pé de mim. e acabou recitando-me versos. mas não passou do gesto. Sucedeu.”. Tudo por estar cochilando! Também não achei melhor título para a minha narração . que afinal pegou. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. porém. fechei os olhos três ou quatro vezes. não cuide que o dispenso do teatro amanhã. e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. vindo da cidade para o Engenho Novo. murmurou ele. mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. que. estava amuado. como eu estava cansado. venha e dormirá aqui na cidade. dou-lhe chá. Dom veio por ironia. domingo vou jantar com você. . para atribuir-me fumos de fidalgo. Os vizinhos. que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados. Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso. disse eu acordando.Já acabei. e vai lá passar uns quinze dias comigo.Dom Casmurro Machado de Assis CAPÍTULO 1 DO TÍTULO Uma noite destas. vai este mesmo. a casa é a mesma da Renania. dou-lhe camarote. encontrei num trem da Central um rapaz aqui do bairro. chamam-me assim. Nem por isso me zanguei. . deram curso à alcunha. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios. e eles. Dom Casmurro.Continue. e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. alguns em bilhetes: “Dom Casmurro. tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso. dou-lhe cama.São muito bonitos. . falou da lua e dos ministros.” Não consultes dicionários. Cumprimentou-me. só não lhe dou moça.se não tiver outro daqui até ao fim do livro. E com pequeno esforço.“Vou para Petrópolis. que eu conheço de vista e de chapéu.

Vivo só. fi-la construir de propósito. umas grinaldas de flores miúdas e grandes pássaros que as tomam nos blocos. já ela estava assim decorada. e que apenas conserva o hábito externo. vá um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde. Em tudo. um poço e lavadouro. com um criado. passo a escrever o livro. agora. Naturalmente era gosto do tempo meter sabor clássico e figuras antigas em pinturas americanas. Nero e Massinissa. Tenho chacrinha. as mesmas alcovas e salas. há bastantes anos. poderá cuidar que a obra é sua. O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida. flores. Não alcanço a razão de tais personagens. alguns nem tanto. semelhante à pintura que se põe na barba e nos cabelos. mais falto eu mesmo. varanda ao fundo. Quando fomos para a casa de Mata-cavalos. Pois. como todos os documentos falsos. mal comparando. O que aqui está é. Nos quatro cantos do tecto as figuras das estações. há aqui o mesmo contraste da vida interior. porém. como outrora. e esta lacuna é tudo. digamos os motivos que me põem a pena na mão. Há livros que apenas terão isso dos seus autores. Antes disso. mas não a mim. de espaço a espaço. mas vá lá. O mais é também análogo e parecido.. dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra. três janelas de frente. Os amigos que me restam são de data recente. que é ruidosa. uma casuarina. se o rosto é igual. todos os antigos foram estudar a geologia dos campos-santos. Construtor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz: é o mesmo prédio assobradado.sendo o título seu. Enfim. Se só me faltassem os outros. e restaurar na velhice a adolescência. que é pacata. Um dia. A casa em que moro é própria.. o interno não agüenta tinta. Quanto às . com os nomes por baixo. CAPÍTULO 2 DO LIVRO Agora que expliquei o título. a fisionomia é diferente. e ao centro das paredes os medalhões de César. Uma certidão que me desse vinte anos de idade poderia enganar os estranhos. vinha do decênio anterior. Uso louça velha e mobília velha. não consegui recompor o que foi nem o que fui. legume. levado de um desejo tão particular que me vexa imprimi-lo. lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de Mata-cavalos. senhor. Na principal destas. a pintura do tecto e das paredes é mais ou menos igual. com a exterior. Augusto. como se diz nas autópsias. que desapareceu.

viverei o que vivi. mas eu não hei de trocar as datas à minha vida só para agradar às pessoas que não amam histórias velhas. o ano é que é um tanto remoto. A casa era a da Rua de Mata-cavalos. e vou deitar ao papel as reminiscências que me vierem vindo. algumas datam de quinze anos. melhores. como tudo cansa. e lembrou-me escrever um livro. e tal freqüência é cansativa.. Distrações raras. Sim. mas não me acudiram as forças necessárias. que ainda agora me treme a pena na mão. agradeço-vos o conselho. grande César. de memória. Fiquei tão alegre com esta idéia. Foi então que os bustos pintados nas paredes entraram a falar-me e a dizer-me que. o mês novembro. não o do trem. comecemos a evocação por uma célebre tarde de novembro. quando ouvi proferir o meu nome e escondi-me atrás da porta. o ano era de 1857. Quis variar. e. filosofia e política acudiram-me. mas a língua que falam obriga muita vez a consultar os dicionários. pouco apareço e menos falo. Tive outras muitas. mas aquela nunca se me apagou do espírito. mas é também exato que perdeu muito espinho que a fez molesta. pegasse da pena e contasse alguns. Augusto. que nunca me esqueceu. e piores. é outra coisa a certos respeitos. Eia. mas exigia documentos e datas como preliminares. Massinissa. conservo alguma recordação doce e feiticeira. e assentarei a mão para alguma obra de maior tomo. Entretanto. . Nero. era obra modesta. Em verdade. aquela vida antiga aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei. e tu. Talvez a narração me desse a ilusão. tudo árido e longo. Deste modo. como ao poeta. vida diferente não quer dizer vida pior. pensei em fazer uma “História dos Subúrbios” menos seca que as memórias do Padre Luís Gonçalves dos Santos relativas à cidade. esta monotonia acabou por exaurir-me também. Duas ou três fariam crer nela aos outros. Ora.amigas. que me incitas a fazer os meus comentários. O mais do tempo é gasto em hortar. É o que vais entender. e quase todas crêem na mocidade. lendo. jardinar e ler. inquietas sombras?. outras de menos. mas o do Fausto: Aí vindes outra vez.. Depois. uma vez que eles não alcançavam reconstituir-me os tempos idos. e as sombras viessem perpassar ligeiras. CAPÍTULO 3 A DENÚNCIA Ia entrar na sala de visitas. como bem e não durmo mal. Jurisprudência.

Sim. abafando a voz. Compreendo o seu gesto. senhor José Dias. doutor. há dez anos. Mano Cosme. .Bem. . vou tratar de metê-lo no seminário quanto antes. e esta é a dificuldade. são dois criançolas. eu divirto-me..Pode ser minha senhora. Pois eu hei de crer?. tem-se ganho o principal. Não esqueçamos que um bispo presidiu a Constituinte. vai sendo tempo. interrompeu minha mãe. .Mas. Não me parece bonito que o nosso Bentinho ande metido nos cantos com a filha do Tartaruga..Em todo caso. Não se esqueça que foram criados juntos.. onde está o gamão?” . .Uma grande dificuldade. a senhora terá muito que lutar para separá-los. .. tenho visto os pequenos brincando. Minha mãe quis saber o que era. .É um modo de falar. parece-lhe que todos têm a alma cândida. queria dizer: “São imaginações do José Dias os pequenos divertem-se.Governo como a cara dele! atalhou tio Cosme.. voltou e.. Metidos nos cantos? .. Basta a idade. que. tomara ele que as coisas corressem de maneira. a senhora persiste na idéia de meter o nosso Bentinho no seminário? É mais que tempo.. Bentinho quase que não sai de lá. a gente do Pádua. daí vieram as nossas relações. Bentinho mal tem quinze anos. veio ver se havia alguém no corredor. Oxalá tenham razão. Bentinho há de satisfazer os desejos de sua mãe e depois a igreja brasileira tem altos destinos. Capitu fez quatorze à semana passada.Dona Glória. não estou defendendo ninguém. creio que o senhor está enganado. a senhora não crê em tais cálculos. sempre juntos. estou citando O que eu .. traduzido em vulgar. . você que acha? Tio Cosme respondeu com um “Ora!” que. depois de alguns instantes de concentração.Há algum tempo estou para lhe dizer isto. porque se eles pegam de namoro.Perdão. desde aquela grande enchente. cedendo a antigos rancores políticos.Não acho. mas não me atrevia. . disse que a dificuldade estava na casa ao pé. . mas creia que não falei senão depois de muito examinar. A pequena é uma desmiolada. o pai faz que não vê. não deu por mim. em que a família Pádua perdeu tanta coisa. José Dias. e que o Padre Feijó governou o Império. e nunca vi nada que faça desconfiar. Em segredinhos.Que dificuldade? . e já agora pode haver uma dificuldade. uma vez que não perdeu a idéia de o fazer padre. .A gente do Pádua? . .

Trazia as calças curtas para que lhe ficassem bem esticadas. teria os seus cinqüenta e cinco anos. “ CAPÍTULO 4 UM DEVER AMARÍSSIMO! José Dias amava os superlativos.. realmente é melhor que não comece a dizer missa atrás das portas.. Um dever amaríssimo! . O rodaque de chita.. Prima Justina creio que se levantou e foi ter com ela. chupado. um dever amaríssimo. parecia nele uma casaca de cerimônia. e vi-o passar com as suas calças brancas engomadas. um silogismo completo. Não pude ouvir as palavras que tio Cosme entrou a dizer. e talvez neste mundo. bem pensado. a premissa antes da conseqüência. ande. Creio que. que estava no interior da casa. Prima Justina exortava: “Prima Glória! Prima Glória!” José Dias desculpava-se: “Se soubesse. pela estima. Cosi-me muito à parede. olhe cá..Sei que você fez promessa. não as havendo. mas uma promessa assim.. mana Glória? Está chorando? Ora esta pois isto é coisa de lágrimas? Minha mãe assoou-se sem responder.. servia a prolongar as frases.. Contudo... mana Glória.Eu? . com um arco de aço por dentro. A gravata de cetim preto. se tem de ser padre.É promessa. Era magro.quero é dizer que o clero ainda tem grande papel no Brasil. que é isso. há de cumprir-se. prima Justina? . presilhas. não sei. mas falei pela veneração. Levantou-se com o passo vagaroso do costume. Era um modo de dar feição monumental às idéias. outra emoção. continuou tio Cosme. Mas. mas um vagar calculado e deduzido. uma promessa de tantos anos. Seguiu-se um alto silêncio. Foi dos últimos que usaram presilhas no Rio de Janeiro.. veste caseira e leve.. pelo afeto. mas outra força maior. com um princípio de calva. vá buscar o gamão. . Você que acha. . Quanto ao pequeno. para cumprir um dever amargo. era então moda.. Mas. não teria falado. a conseqüência antes da conclusão. há mesmo necessidade de fazê-lo padre? . Levantou-se para ir buscar o gamão.. durante o qual estive a pique de entrar na sala.Você o que quer é um capote. rodaque e gravata de mola. imobilizava-lhe o pescoço.Deus é que sabe de todos.Verdade é que cada um sabe melhor de si.. não aquele vagar arrastado se era dos preguiçosos.

Voltarei daqui a três meses. menti. era muita vez rápido e lépido nos movimentos. os olhos. Então meu pai propôs-lhe ficar ali vivendo. e não o fez sem estudar muito e muito. o mais acertado. José Dias curou o feitor e uma escrava. aceitou casa e comida sem outro estipêndio. você curou das outras vezes. gravíssimo. mas é tempo de restabelecer tudo. Quando meu pai foi eleito deputado e veio para o Rio de Janeiro com a família.. tão natural nesta como naquela maneira. Tomara este título para ajudar a propaganda da nova escola. é dizer que foram os remédios indicados nos livros. se era preciso. Era nosso agregado desde muitos anos. como pedia então. meu pai já não podia dispensá-lo. Outrossim. todo o mundo pareciam rir nele. mas comunicativo. com pequeno ordenado. salvo o que quisessem dar por festas. Havia então um andaço de febres. dizendo que era justo levar a saúde à casa de sapé do pobre.Creio que sim. e eu acabava de nascer. toda a pessoa. levava um Manual e uma botica. os motivos do meu procedimento podiam ser e eram dignos. . . Tinha o dom de se fazer aceito e necessário. meu pai ainda estava na antiga fazenda de Itaguaí. ria largo. Eles. e teve o seu quarto ao fundo da chácara. abaixo de Deus. eles. mas fique morando conosco. de um grande riso sem vontade. Eu era um charlatão. Não negue. disse-lhe meu pai que fosse ver a nossa escravatura. Também se descompunha em acionados. . Não foi despedido. suspirou e acabou confessando que não era médico. e. para servir à verdade.CAPÍTULO 5 O AGREGADO Nem sempre ia naquele passo vagaroso e rígido. Um dia apareceu ali vendendo-se por médico homeopata. mas a consciência não lhe permitia aceitar mais doentes. . porém. Voltou dali a duas semanas. José Dias recusou.. Nos lances graves. a homeopatia é a verdade.Quem lhe impede que vá a outras partes? Vá aonde quiser.Mas. toda a cara. sim. . reinando outra vez febres em Itaguaí. Um dia. José Dias deixou-se estar calado. os dentes. dava-se por falta dele. a tal ponto ás bochechas. e não quis receber nenhuma remuneração. ele veio também.

Formado para as serenas funções do capitalismo. Ao cabo. repetiu José Dias cheio de veneração. por cima da cama. desde que ela enviuvou. tio Cosme não enriquecia no foro: ia comendo.como de pessoa da família. José Dias não perdia as defesas orais de tio Cosme. . perto do júri. ele trazia o velho escovado e liso. cerzido. as cortesias que fizesse vinham antes do cálculo que da índole. dizia ele muita vez. de uma elegância pobre e modesta. minha senhora. gostou de ver que ele punha Deus no devido lugar. A fortuna troca muita vez as mãos à natureza. José Dias. mas nem tudo é ótimo neste mundo.Abaixo. Com o tempo. o bastante para divertir ao serão e à sobremesa. era amigo. abotoado. Era quem lhe vestia e despia a toga. E minha mãe. abaixo de Deus. Era lido. com muitos . dos pólos e de Robespierre. . ao menos. tinha amigos em Lisboa. “Esta é a melhor apólice”. dizia ele. mas a nossa família. Minha mãe ficou-lhe muito grata. e sorriu aprovando. era a casa dos três viúvos. disseram-me. não direi ótimo. já teria voltado para lá. A roupa durava-lhe muito. que era no extinto Aljube. ao contrário das pessoas que enxovalham depressa o vestido novo. Contava muita vez uma viagem que fizera à Europa.Fique. falar dos efeitos do calor e do frio. . encaixilhou-as e pendurou-as no quarto. Copiou as palavras. Tio Cosme. Teve um pequeno legado no testamento. não me lembra. como prima Justina. ou explicar algum fenômeno. e confessava que a não sermos nós. E não lhe suponhas alma subalterna. a dor que o pungiu foi enorme. e sabia opinar obedecendo. . José Dias agradeceu de cabeça. uma apólice e quatro palavras de louvor. ele foi despedir-se dela. Minha mãe dava-lhe de quando em quando alguns cobres. Tinha o escritório na antiga Rua das Violas. Trabalhava no crime. depois da missa. não abusava. adquiriu certa autoridade na família. confiava-lhe a cópia de papéis de autos. Já então era viúvo.Obedeço. CAPÍTULO 6 TIO COSME Tio Cosme vivia com minha mãe. certa audiência. ao sétimo dia. posto que de atropelo. que era religiosa. era tudo. e não consentiu que ele deixasse o quarto da chácara.Abaixo ou acima? perguntou-lhe tio Cosme um dia. Quando meu pai morreu. que era advogado.

. foi aceito de muitas damas. e a gordura acabou com o resto de idéias públicas e específicas. aqui mesmo. há de queixar-se de você. .cumprimentos no fim. Padre que seja. Era gordo e pesado. enquanto o irmão perguntava: . dava um impulso. eu não sabia montar. Posto que nascido na roça (donde vim com dois anos) e apesar dos costumes do tempo. Raramente a besta deixava de mostrar por um gesto que acabava de receber o mundo. mas os anos levaram-lhe o mais do ardor político e sexual. pegou-me. tenho medo. e não souber. Em casa. o corpo ameaçava subir. se quiser florear como os outros rapazes. Nas horas de lazer vivia olhando ou jogava. e.Não está acostumado. Tio Cosme pegou em mim e escanchou-me em cima da besta. Tio Cosme. e tinha medo ao cavalo. Uma das minhas recordações mais antigas era vê-lo montar todas as manhãs a besta que minha mãe lhe deu e que o levava ao escritório.Deve acostumar-se. Tio Cosme acomodava as carnes. enquanto ele erguia o pé e pousava no estribo . . dava o último surto da terra. sorria de persuasão. ainda não sendo padre. afagou-me.Pois que se queixe.Medo! Ora. após alguns instantes largos. segundo impulso. Quando me vi no alto (tinha nove anos). além de partidário exaltado. Agora só cumpria as obrigações do ofício e sem amor. Contam que.Mana Glória. “Agora é que ele vai namorar deveras”. se for vigário na roça. Já não dava para namoros. Nele era velho costume e necessidade. menos por gosto que por vergonha de dizer que não sabia montar. o primeiro. Também não me esqueceu o que ele me fez uma tarde. e a besta partia a trote. disseram quando eu comecei as lições. Enfim. Não se diria o mesmo de tio Cosme. tinha a respiração curta e os olhos dorminhocos. . pois um tamanhão destes tem medo de besta mansa? . Depois. referia os debates.a isto seguia-se um minuto de descanso ou reflexão. e desta vez caía em cima do selim. medo! A verdade é que eu só vim a aprender equitação mais tarde. o chão lá embaixo. mas não subia. tio Cosme enfeixava todas as forças físicas e morais. Uma ou outra vez dizia pilhérias. entrei a gritar desesperadamente: “Mamãe! mamãe!” Ela acudiu pálida e trêmula. mana Glória. em rapaz. cuidou que me estivessem matando. sozinho e desamparado. O preto que a tinha ido buscar à cocheira segurava o freio. igual efeito. é preciso que monte a cavalo. por mais modesto que quisesse ser.

tais quais na outra casa. efeito da pintura que me assombrava em pequeno. sem adornos. A pintura escureceu muito. onde vivera os dois últimos anos de casada. Quando a loteria e Pandora me aborrecem. salvo um trechozinho pegado às orelhas. com um xale preto. comprou alguns que pôs ao ganho ou alugou. com os seus sapatos de cordovão rasos e surdos. Os cabelos. Concluo que não se devem abolir as loterias. e deixou-se estar na casa de Mata-cavalos. pois. a cara é toda rapada. Contava então vinte anos. Tenho ali na parede o retrato dela. O pescoço sai de uma gravata preta de muitas voltas. e podia voltar para Itaguaí. uma dúzia de prédios. No painel parece oferecer a flor ao marido. desde manhã até à noite. Aqui os tenho aos dois bem casados de outrora. os bem-aventurados. Pedro de Albuquerque Santiago. Lidava assim. por lhe ter ficado a esperança no fundo. Vendeu a fazendola e os escravos. ao lado do marido. o retrato mostra uns olhos redondos. dobrado em triângulo e abrochado ao peito por um camafeu. ergo os . O que se lê na cara de ambos é que. naquele ano da graça de 1857. a não ser vagamente que era alto e usava cabeleira grande. se a felicidade conjugal pode ser comparada à sorte grande. mas teimava em esconder os saldos da juventude. vendo e guiando os serviços todos da casa inteira. descendente de outra paulista. Não me lembra nada dele. em alguma parte há de ela ficar. como ninguém tachou de má a boceta de Pandora. que me acompanham para todos os lados. Era ainda bonita e moça. e tinha uma flor entre os dedos. Dona Maria da Glória Fernandes Santiago contava quarenta e dois anos de idade. Quando lhe morreu o marido. contava trinta e um anos de idade. a um lado e outro.CAPÍTULO 7 Dona GLÓRIA Minha Mãe era boa criatura. mas ainda dá idéia de ambos. eram apanhados sobre a nuca por um velho pente de tartaruga. Era filha de uma senhora mineira. O de minha mãe mostra que era linda. preferiu ficar perto da igreja em que meu pai fora sepultado. Não quis. por mais que a natureza quisesse preservá-la da ação do tempo. continuar um sonho provavelmente. certo número de apólices. que se foram desta para a outra vida. eles a tiraram no bilhete comprado de sociedade. Vivia metida em um eterno vestido escuro. Nenhum premiado as acusou ainda de imorais. os bem-amados. alguma vez trazia a touca branca de folhas. Ora. a família Fernandes. em bandós.

apesar de velho. mas aqui estão os retratos de ambos. Trazia ainda os bigodes dos seus papéis. em tal maneira que me fez crer nela. O de minha mãe. abanou a cabeça e replicou: . é só um Capítulo. lembra-me que ela chorou muito. E explicou-me um dia a definição. o empresário cometia mais uma. “O desuso é que me faz mal”.. CAPÍTULO 8 E TEMPO Mas é tempo de tornar àquela tarde de novembro. o acender das luzes. tudo o que sucedera antes foi como o pintar e vestir das pessoas que tinham de entrar em cena. Vinha aqui jantar comigo algumas vezes. estendendo a flor ao marido. Talvez valha a pena dá-la. As vezes. “A vida é uma ópera”. São como fotografias instantâneas da felicidade. o preparo das rabecas.. CAPÍTULO 9 A ÓPERA Já não tinha voz.. sem abrir a boca. Depois da morte dele. acrescentava.. a sinfonia. Quando andava. sem que o encardido do tempo lhes tirasse a primeira expressão. meu guapo cavalheiro!” O de meu pai. faz este comentário: “Vejam como esta moça me quer. olhando para a gente. depois de muito Chianti..vozes assim abafadas são sempre possíveis. Agora é que eu ia começar a minha ópera. São retratos que valem por originais. cantarolava. Verdadeiramente foi o princípio da minha vida. uma tarde clara e fresca.. algum trecho ainda mais idoso que ele ou tanto . parece dizer: “Sou toda sua. não sei.olhos para eles. ia ao empresário e expunha-lhe todas as injustiças da terra e do céu. como uma viagem de mar ou uma batalha. repetiu-me a definição do costume. e como eu lhe dissesse que a vida tanto podia ser uma ópera. parecia cortejar uma princesa de Babilônia. Sempre que uma companhia nova chegava da Europa. sossegada como a nossa casa e o trecho da rua em que morávamos. como não sei se tiveram desgostos: era criança e comecei por não ser nascido. e ele saía a bradar contra a iniqüidade. dizia-me um velho tenor italiano que aqui viveu e morreu.” Se padeceram moléstias. mas teimava em dizer que a tinha. e esqueço os bilhetes brancos e a boceta fatídica. Uma noite.

. com palavras que vou resumir.. de beber um gole de licor. Tudo se teria passa do sem mais nada..Não. . Satanás levou o manuscrito consigo para o inferno. coros e bailarinos. jovem maestro de muito futuro. Não falta quem diga que nisso mesmo está a além da composição.. dela resultaram alguns desconcertos que a audiência prévia e a colaboração amiga teriam evitado com efeito. e ele expulso do conservatório. fazei-a executar. não quero saber de ensaios. quando não são o soprano e o contralto que lutam pelo tenor. . O tenor e o barítono lutam pelo soprano. estou pronto a dividir contigo os direitos de autor. escutai-a emendai-a. . Basta-me haver composto o libreto.. e se a achardes digna das alturas. Deus é o poeta. não desaprendi as lições recebidas. fugindo à . sem melhor fortuna.compôs a partitura. mas fora do céu. . . e logo que a acabou foi levá-la ao Padre Eterno. pousou o cálix. . há lugares em que o verso vai para a direita e a música. este planeta. meu caro Marcolini. até que Deus. E depois.Não. e acaso para reconciliar-se com o céu. Tramou uma rebelião que foi descoberta a tempo. Senhor. para a esquerda.Mas.Senhor. e a orquestração é excelente.. retorquiu o Senhor. com todas as partes.Quê. A música é de Satanás. em presença do mesmo baixo e dos mesmos comprimirás. se Deus não houvesse escrito um libreto de ópera do qual abrira mão. e expôs-me a história da criação. em presença do baixo e dos comprimirás. Com o fim de mostrar que valia mais que os outros. não quero ouvir nada. Foi talvez um mal esta recusa. Rafael e Gabriel. cansado e cheio de misericórdia.Ouvi agora alguns ensaios! .. primárias e comprimárias.A vida é uma ópera e uma grande ópera..Nada! nada! Satanás suplicou ainda. Pode ser também que a música em demasia doce e mística daqueles outros condiscípulos fosse aborrecível ao seu gênio essencialmente trágico.. Rival de Miguel. Aqui tendes a partitura. admiti-me com ela a vossos pés. que aprendeu no conservatório do céu. . consentiu em que a ópera fosse executada. e inventou uma companhia inteira. não tolerava a precedência que eles tinham na distribuição dos prêmios.. disse-lhe. Há coros a numerosos.Mas. por entender que tal gênero de recreio era impróprio da sua eternidade. Criou um teatro especial. muitos bailados...

o maestro abusa das massas corais. é uma excrescência para imitar as Mulheres Patuscas de Windsor. eu tenho horror à graça. a ária de Abel.. mas com o andar da ópera é provável que estas sejam preenchidas ou explicadas. encobrindo muita vez o sentido por um modo confuso. mas tudo cabe na mesma ópera. No princípio era o dó. . O êxito é crescente. meu amigo. Também há obscuridades. posto seja bonita em alguns lugares. Certos motivos cansam à força de repetição. que não são os mesmos. e talvez italiano. nem essa farsa nem Shakespeare eram nascidos. etc. com tal arte e fidelidade. eu não tenho graça. Já não dizem o mesmo os amigos deste. Não se ouve? Também não se ouve o pau nem a pedra. evidentemente. Tal é a opinião dos imparciais. As partes orquestrais são aliás tratadas com grande perícia. poucos os escolhidos”. os coros da guilhotina e da escravidão. O grotesco. Este cálix (e enchia-o novamente). mas aquietou-se logo. que parece ele próprio o autor da composição. não está no texto do poeta. Não é raro que os mesmos lances se reproduzam. Chegam a afirmar que o poeta inglês não teve outro gênio senão transcrever a letra da ópera.monotonia.. não se negando o maestro a emendar a obra onde achar que não responde de todo ao pensamento sublime do poeta. e. é absolutamente diversa e até contrária ao drama. Um ou outro admite certas rudezas e tais ou quais lacunas. mas. Satanás em papel. Dizem eles que. Os amigos do maestro querem que dificilmente se possa acha obra tão bem acabada. este cálix é um breve estribilho. Juram que o libreto foi sacrificado. e replicou: Caro Santiago. sem razão suficiente. Deus recebe eu ouro. é um plagiário. há de haver algum. . .Graça? bradou ele com fúria. e trabalhada com arte em outros. Isto que digo é a verdade pura e última. que ensine esta verdade aos homens.Esta peça. por exemplo. pode ser que tenor. Um dia quando todos os livros forem queimados por inúteis. e aquelas desapareçam inteiramente. ao tempo em que o jovem Satanás compôs a grande ópera. Poeta e músico recebem pontualmente os seus direitos autorais. não se podendo calcular em que tempo será ele demolido por utilidade astronômica. porque a regra da divisão é aquilo da Escritura: “Muitos são os chamados.. Tudo é música.Tem graça. e assim explicam o terceto do Éden. Este ponto é contestado pelos satanistas com alguma aparência de razão.. e do dó fez-se ré. durará enquanto durar o teatro. concluiu o velho tenor. que a partitura corrompeu o sentido da letra. .

Cantei um duo tecnicismo. que buscou testemunhas da obrigação. tão temente a Deus. Prazos largos são fáceis de subscrever. e há filósofos que são.CAPÍTULO 10 ACEITO A TEORIA Que é demasiada metafísica para um só tenor. latim e doutrina. meu caro leitor. sentiu o terror de separar-se de mim. dizia-me sempre que era para aprender a ser padre. Minha mãe esperou que os anos viessem vindo. mas enviuvou antes disso. para que nos separássemos o mais tarde possível. a imaginação os faz infinitos. metê-lo na Igreja. minha mãe pegou-se com Deus para que o segundo vingasse. velho amigo do tio Cosme. Não disse nada a meu pai. por aquele Padre Cabral. Unicamente. brincos de criança. confiando a promessa a parentes e familiares. porque a denúncia de José Dias. Não quis saber de lágrimas nem da causa que as fazia verter a minha mãe. mas era tão devota. e que . Os projetos vinham do tempo em que fui concebido. e a ocasião destes é a que vou dizer.. A mim é que ele me denunciou. Imagens de santos. Eu. contava fazê-lo quando eu entrasse para a escola. aceito a teoria do meu velho Marcolini. mas porque a minha vida se casa bem à definição. não só pela verossimilhança. depois um quatro. fez-me aprender em casa primeiras letras. vamos à primeira parte. conversações de casa. tenores desempregados. nem depois de me dar à luz. se fosse varão. por ser já então história velha. deixei o esconderijo. não há dúvida. em resumo. e corri à varanda do fundo. tudo convergia para o altar quando íamos à missa. Tendo-lhe nascido morto o primeiro filho. Mas não adiantemos. leitor amigo. que ia lá jogar às noites.. livros devotos. nem antes. CAPÍTULO 11 A PROMESSA Tão depressa vi desaparecer o agregado no corredor. Entretanto ia-me afeiçoando à idéia da Igreja. que é muita vez toda a verdade. Talvez esperasse uma menina. Viúva. em que eu vim a saber que já cantava. mas a perda da voz explica tudo. datava de dezesseis anos. prometendo. depois um trio. A causa eram provavelmente os seus projetos eclesiásticos. foi dada principalmente a mim.

como alma perdida. Ultimamente não me falavam já do seminário.um tanto às escondidas. non sum dignus. Ela servia de sacristão. ou pegava-me na mão. as pernas bambas. não havendo vocação. não tínhamos o primeiro.. e me derramava não sei que bálsamo interior. atordoado.” . podiam antes o seminário do mundo que o de S. sorrindo. Não me atrevia a descer à chácara. e logo me dispersava. Arranjávamos um altar. a tal ponto que eu supunha ser negócio findo... era muito comum ouvir à minha vizinha: “Hoje há missa?” Eu já sabia o que isto queria dizer. respondia afirmativamente.” “Em segredinhos. No tempo em que brincávamos assim. colunas amareladas que me passastes à direita ou à esquerda.... brincava de missa. engrolávamos o latim e precipitávamos as cerimônias. Minha mãe ficava muita vez a olhar para mim..” “Se eles pegam de namoro. arranjávamos o altar. que desmentia a abominação do meu pecado.reparasse no padre.. e a segunda viria tirar-nos o gosto do sacrifício. estacando para amparar-me. e ia pedir hóstia por outro nome. E as vozes repetiam-se confusas. Às vezes dava por mim. que me envolvia em mim mesmo. porque minha mãe dizia que missa não era coisa de brincadeira.” Tijolos que pisei e repisei naquela tarde. e alterávamos o ritual. e me trazia arrepios. a hóstia era sempre um doce.. Em casa. em vós me ficou a melhor parte da crise. Capitu e eu. no sentido de dividirmos a hóstia entre nós. Isto. que eu devia dizer três vezes. não tirasse os olhos do padre. Quinze anos.. tal era a gulodice do padre e do sacristão. “Em segredinhos. José.. para apertá-la muito. penso que só dizia uma. Vozes confusas repetiam o discurso do José Dias: “Sempre juntos.” “Sempre juntos. Não bebíamos vinho nem água. e passar ao quintal vizinho.. a sensação de um gozo novo. a pretexto de nada. Dominus. o coração parecendo querer sair-me pela boca fora. voltava com ela. um ar de riso de satisfação. ia tonto.. e andava outra vez e estacava. Comecei a andar de um lado para outro. segundo eu ia ou vinha. CAPÍTULO 12 NA VARANDA Parei na varanda.

Antes dela ir para o colégio.. e eram aventuras extraordinárias. Era um coqueiro velho. nem os cantos outra utilidade. as perguntas curiosas. Então Capitu abanava a cabeça com uma grande expressão de desengano e melancolia.mas eu retorquia chamando-lhe maluca. vendo-me inquieto e adivinhando a causa. A emoção era doce e nova. Quando me perguntava se sonhara com ela na véspera. e eu dizia que não. borboletas. algum gesto. Em todos esses sonhos andávamos unidinhos. agora os sentia como sinais de alguma coisa. mocetão. dizendo que os dela eram mais bonitos que os meus. a matéria das nossas conversações era a de sempre. e assim as meias palavras. o prazer que sentia quando ela me passava a mão pelos cabelos. Eu. Capitu chamava-me às vezes bonito. Pássaros. os adolescentes daquela idade não tinham outro ofício. as respostas vagas. que subíamos ao Corcovado pelo ar.outras pegava-me nas mãos para contar-me os dedos. a fim de os dar a outros anjos que acabavam de nascer. apenas reproduziam a nossa familiaridade. e eu cria nos coqueiros velhos. dizia que os dela eram muito mais lindos que os meus.” Um coqueiro. francamente. eu. dizendo que os achava lindíssimos. e muita vez não passavam da simples repetição do dia. o gosto de recordar a infância. ou então que os anjos vinham perguntar-nos pelos nomes. murmurou de cima de si que não era feio que os meninos de quinze anos andassem nos cantos com as meninas de quatorze. sem fazer o mesmo aos dela. e no último ano era completa. os cuidados. andava cosido às saias dela. depois que saiu do colégio. Fez-se cor de pitanga. alguma frase. uma flor . tanto mais de espantar quanto que tinha os cabelos realmente admiráveis . eram tudo travessuras de criança. disse-lhe que eram como a pessoa que sonhava. E comecei a recordar esses e outros gestos e palavras. uma cigarra que ensaiava o estilo. Capitu um dia notou a diferença. mas não me ocorria nada entre nós que fosse deveras secreto. Os silêncios dos últimos dias.. Também eu os contava..“Se eles pegam de namoro. mas esta voltou pouco a pouco. sem que eu a buscasse nem suspeitasse. é certo que não estabelecemos logo a antiga intimidade. Com que então eu amava Capitu. toda a gente viva do ar era da mesma opinião. mais ainda que nos velhos livros. só agora entendia a comoção que me davam essas e outras confidências. que me não descobriam nada. Entretanto.. ouvia-lhe contar que sonhara comigo. Os que eu tinha com ela não eram assim. que dançávamos na lua. depois de certa hesitação. ao contrário. Pois. mas a causa dela fugia-me. Também . e Capitu a mim? Realmente.

que me denunciara a mim mesmo. nunca mais me esqueceu. Era costume delas. e sendo recebidos do outro com muitas mesuras. estacavam. Esse primeiro palpitar da seiva. com intervalos. nem achei que lhe fosse comparável qualquer outra sensação da mesma espécie. fazíamos visita batendo de um lado. o mal que dissera. o médico era eu. Se se falava nela.abria-se empurrando de um lado ou puxando de outro. e valem de si mesma. e a quem eu perdoava tudo. mas com exclusivismo também. o mal que fizera. quando éramos somente companheiros de travessuras. ouvi bradar uma voz de dentro da casa ao pé: E no quintal: . Eu amava Capitu! Capitu amava-me! E as minhas pernas andavam.adverti que era fenômeno recente acordar com o pensamento em Capitu. segundo era louvor ou crítica. Entrava no quintal dela com um pau debaixo do braço. Naquele instante. Era quase que exclusivamente nossa. Havia ali uma porta de comunicação mandada rasgar por minha mãe. Cheguei a pensar nela durante as missas daquele mês. essa revelação da consciência a si própria. em minha casa. assim me trazia gosto ou desgosto mais intensos que outrora. é verdade. apenas inferiores aos braços. Em crianças. trêmulas e crentes de abarcar o mundo. nem as demais Virtudes eternas. prestava mais atenção que dantes. e. As minhas chegaram ao pé do muro. desandavam.Vem cá! Não me pude ter. e às manhãs também. Quando as bonecas de Capitu adoeciam. e estremecer quando lhe ouvia os passos. para imitar o . e escutá-la de memória. A porta não tinha chave nem taramela. quando Capitu e eu éramos pequenos. Que as pernas também são pessoas. Naturalmente também por ser a primeira. e caminharam para o quintal vizinho. às tardes. Tudo isto me era agora apresentado pela boca de José Dias. a eterna Verdade não valeria mais que ele. CAPÍTULO 13 CAPITU De repente. nem a eterna Bondade.Mamãe! E outra vez na casa: . quando a cabeça não as rege por meio de idéias. As pernas desceram-me os três degraus que davam para a chácara. e fechava-se ao peso de uma pedra pendente o uma corda. Naturalmente por ser minha. e o que pudesse vir de um e de outro.

Capitu estava ao pé do muro fronteiro.vem cá.Que é que você tem? . tinha agora a vista não . a despeito de alguns ofícios rudes. mas não achei língua.Que é que você tem? repetiu. apertada em um vestido de chita.bengalão do Doutor João da Costa.Notícia de quê? Pensei em dizer-lhe que ia entrar para o seminário e espreitar a impressão que lhe faria. E emendei logo. Então eu coçava o queixo.Eu? Nada. há pouco tão andarilhas. rasos e velhos. tinha a boca fina e o queixo largo. Quis insistir que nada.Deixa de estar esburacando o muro . Se a consternasse é que realmente gostava de mim. As mãos. alta. não cheiravam a sabões finos nem águas de toucador.É uma notícia. . não. senti que não poderia falar claramente. desciam-lhe pelas costas. encostou-se ao muro. . com certeza. empurrei a porta. . um coração que desta vez ia sair. nariz reto e comprido. A voz da mãe era agora mais perto. com as pontas atadas uma à outra. pela boca fora. exclamava Capitu. naturalmente levava o gesto mudado. tomava o pulso à doente e pedia-lhe que mostrasse a língua. você tem alguma coisa. e acabava mandando aplicar-lhe umas sanguessugas ou dar-lhe um vomitório: era a terapêutica habitual do médico. porque ela veio a mim. à moda do tempo. Todo eu era olhos e coração. voltada para ele. ao dar comigo. Quis passar ao quintal. “É surda. se não. balbuciei finalmente. .Nada.Capitu! . . Calçava sapatos de duraque. Caminhei para ela. mas com água do poço e sabão comum trazia-as sem mácula. forte e cheia. é que não gostava. coitada!”. Não podia tirar os olhos daquela criatura de quatorze anos. eram curadas com amor. Os cabelos grossos. meio desbotado.Não é nada. Afinal fiz um esforço. a que ela mesma dera alguns pontos. riscando com um prego. como se viesse já da porta dos fundos. Mas todo esse cálculo foi obscuro e rápido.Mamãe! . Morena. como se quisesse esconder alguma coisa. como o doutor. pareciam agora presas ao chão. e entrei. . olhos claros e grandes. e perguntou-me inquieta: . O rumor da porta fê-la olhar para trás. mas as pernas. feitos em duas tranças.

sei como. sendo uma das faces a Epístola e a outra o Evangelho. o lugar em que ela estivera riscando. as mãos é que se estenderam pouco a pouco. Não soltamos as mãos. estava assim diante dela como de um altar. e que eu poria aqui com os erros de ortografia que trouxesse. tal era a diferença entre o estudante e o adolescente. e depois de vagarem ao perto. mas. Ergueu-os logo. e ficamos a olhar um para o outro. tornavam a meter-se uns pelos outros. e antes que ela raspasse o muro. Não nos movemos. os lábios a patena. Foi o mesmo que acender em mim o desejo de ler o que era.Então? . mas não traria nenhum.Você sabe. Dei um pulo. e dei um passo... fundindo-se. Faltava dizer a missa nova. Não marquei a hora exata daquele gesto. O que se lhe seguiu foi ainda mais rápido. ou por negar de outra maneira. Nisto olhei para o muro. escrevendo ou esburacando. tinha orgias de latim e era virgem de mulheres. sem suspeitar as do amar. como dissera a mãe. ou por temer que eu acabasse fugindo. correu adiante e apagou o escrito. Capitu agarrou-me. Conhecia as regras do escrever. tu valias bem duas ou três páginas. CAPÍTULO 14 A INSCRIÇÃO Tudo o que contei no fim do outro Capítulo foi obra de um instante. mas quero ser poupado. .. Confissão de crianças. por um latim que ninguém aprende e é a língua .. sinto a falta de uma nota escrita naquela mesma noite. li estes dois nomes. Capitu tinha os olhos no chão. Padre futuro. abertos ao prego. não falamos nada... apertando-se. e sim dispostos: BENTO CAPITOLINA Voltei-me para ela. o muro falou por nós.. todas quatro. A boca podia ser o cálix. Em verdade. nem elas se deixaram cair de cansadas ou de esquecidas. devagar. Então quis vê-los de perto. Os olhos fitavam-se e desfitavam-se. Devia tê-la marcado. pegando-se.. Vi uns riscos abertos e lembrou-me o gesto que ela fizera para cobri-los.

Capitu! . E nem assim ri. O susto é naturalmente sério . mm uma só criatura seráfica.Papai! . entrada de Pádua. para legitimar a resposta de Capitu. um perfil.. para apagar bem o escrito. não pode. Estávamos ali com o céu em nossas mãos. dizendo que eu não ria daquela vez por estar ao pé do pai. Pádua saiu ao quintal. mas já a filha tinha começado outra coisa.Já tinha rido das outras vezes. mas Bentinho ri logo. e ficamos atrapalhados. Era um homem baixo e grosso. CAPÍTULO 15 OUTRA VOZ REPENTINA Outra voz repentina. não ria. . ou menos que duvidoso em que nos apanhou.fê-lo rir. donde lhe veio a alcunha de Tartaruga. unindo os nervos. apagou os nossos nomes escritos. pernas e braços curtos. era o essencial. disfarçadamente.Vocês estavam jogando o siso? perguntou. tornavam ao coração caladas como vinham. as palavras de boca é que nem tentavam sair. Não me tenhas por sacrilégio. todo meigo. Há coisas que só se aprendem tarde é mister nascer com elas . .Não me estragues o reboco do muro. Esta. não agüenta. faziam das duas criaturas uma só. era só o agregado.católica dos homens. Capitu foi ao muro. convidando-me ao jogo. sim. com o prego. cansada de esperar. e. que disse ser o retrato dele. senhor.Estávamos. Papai quer ver? E séria. fitou em mim os olhos. apesar do gesto duvidoso. por mais que devesse fazê-lo. Capitu riscava sobre o riscado. Olhei para um pé de sabugueiro que ficava perto: Capitu respondeu por ambos. ao pé da mulher.. costas abauladas.Vocês estão jogando o siso? Era o pai de Capitu. desviou o rosto. Ninguém lhe chamava assim lá em casa. que José Dias lhe pôs. Soltamos as mãos depressa.Quando eu cheguei à porta. . e não fui capaz de rir.eu estava ainda sob a ação do que trouxe. Os olhos continuaram a dizer coisas infinitas. . leitora minha devota a limpeza da intenção lava o que puder haver menos curial no estilo. mas desta vez uma voz de homem: . e tanto podia ser dele como da mãe . De resto. que estava à porta dos fundos. a ver o que era. ele chegou sem cólera. .

Trocava pássaros com outros amadores. escrevo todas as noites que é um desespero. uma sepultura perpétua de família. Tinha-os de vária espécie. comprava-os. mandar vir da Europa alguns pássaros. e guardar o que sobrasse para acudir às moléstias grandes. apanhava alguns. foi ter com a mãe. a mesma cabeça. a mulher é que lhe disse que o melhor era comprar a casa. sem ser preciso jurar pelo céu nem pela terra. ande ver.Quem dirá que esta pequena tem quatorze anos? Parece dezessete. que faziam cantando um barulho de todos os diabos. esta Dona Fortunata que ali está à porta dos fundos da casa. o pai. deixando-nos a mim e ao pai encantados dela. após duas voltas.. armando alçapões. etc. Demais.Há muitos dias que não a vejo. cheia. dizia-me. Estou com vontade de dar um capote ao doutor. teve de ceder aos conselhos de minha mãe. posto que menor. CAPÍTULO 16 O ADMINISTRADOR INTERINO Pádua era empregado em repartição dependente do Ministério da Guerra. a casa em que morava. tratava deles como se fossem gente. foi comprar um cavalo do Cabo. e a vida era barata. Também. negócio de relatório. Meu desejo era ir atrás de Capitu e falar-lhe agora do mal que nos esperava. falando à filha. dez contos de réis. Ia agora mesmo buscar a gaiola. no próprio quintal.Está. como a tia. a quem Dona Fortunata pediu . Capitu. um adereço de brilhantes para a mulher. mas não tenho podido. crê-se facilmente. Não ganhava muito. que continuava à porta da casa. . em casa. em pé. E melhor é naturalmente cedo que artificialmente tarde. se adoeciam. forte. mas a mulher. Que o meu desejo era nenhum. alta. Comprou-a com a sorte grande que lhe saiu num meio bilhete de loteria.para fazê-las cedo. A primeira idéia do Pádua. cor e tamanho. olhando para ela e para mim. . quando lhe saiu o prêmio. A área que havia no centro da casa era cercada de gaiolas de canários. Mamãe está boa? continuou voltando-se inteiramente para mim. e demais amava particularmente os passarinhos. ando com trabalhos da repartição. afinal. Você já viu o meu gaturamo? Está ali no fundo. cheio de ternura: . Pádua hesitou muito. era propriedade dele. os mesmos olhos claros. mas o pai era o pai. mas a mulher gastava pouco. assobradada como a nossa.

auxílio. Nem foi só nessa ocasião que minha mãe lhes valeu; um dia
chegou a salvar a vida ao Pádua. Escutai; a anedota é curta.
O administrador da repartição em que Pádua trabalhava teve de ir ao
Norte, em comissão. Pádua, ou por ordem regulamentar, ou por especial
designação, ficou substituindo o administrador com os respectivos
honorários. Esta mudança de fortuna trouxe-lhe certa vertigem; era antes
dos dez contos. Não se contentou de reformar a roupa e a copa, atirou-se
às despesas supérfluas, deu jóias à mulher, nos dias de festa matava um
leitão, era visto em teatros, chegou aos sapatos de verniz. Viveu assim
vinte e dois meses na suposição de uma eterna interinidade. Uma tarde
entrou em nossa casa, aflito e desvairado, ia perder o lugar, porque
chegara o efetivo naquela manhã. Pediu à minha mãe que velasse pelas
infelizes que deixava; não podia sofrer a desgraça, matava-se. Minha mãe
falou-lhe com bondade, mas ele não atendia a coisa nenhuma.
- Não, minha senhora, não consentirei em tal vergonha! Fazer descer a
família, tornar atrás... Já disse, mato-me! Não hei de confessar à minha
gente esta miséria. E os outros? Que dirão os vizinhos? E os amigos? E o
público?
- Que público, senhor Pádua? Deixe-se disso; seja homem. Lembre se que
sua mulher não tem outra pessoa... e que há de fazer? Pois um homem...
Seja homem, ande.
Pádua enxugou os olhos e foi para casa, onde viveu prostrado alguns
dias, mudo, fechado na alcova,- ou então no quintal, ao pé do poço, como
se a idéia da morte teimasse nele. Dona Fortunata ralhava:
- Joãozinho, você é criança?
Mas, tanto lhe ouviu falar em morte que teve medo, e um dia correu a
pedir à minha mãe que lhe fizesse o favor de ver se lhe salvava o marido
que se queria matar. Minha mãe foi achá-lo à beira do poço, e
intimou-lhe que vivesse. Que maluquice era aquela de parecer que ia
ficar desgraçado, por causa de uma gratificação menos, e perder um
emprego interino? Não, senhor, devia ser homem, pai de família, imitar a
mulher e a filha... Pádua obedeceu; confessou que acharia forças para
cumprir a vontade de minha mãe.
- Vontade minha, não; obrigação sua.
- Pois seja obrigação; não desconheço que é assim mesmo.
Nos dias seguintes, continuou a entrar e sair de casa, cosido à parede,
cara no chão. Não era o mesmo homem que estragava o chapéu em cortejar a
vizinhança, risonho, olhos no ar, antes mesmo da administração interina.
Vieram as semanas, a ferida foi sarando Pádua começou a interessar-se

pelos negócios domésticos, a cuidar dos passarinhos, a dormir tranqüilo
as noites e as tardes, a conversa e dar notícias da rua. A serenidade
regressou; atrás dela veio a alegria, um domingo, na figura de - dois
amigos, que iam jogar o solo, a tentos. Já ele ria, já brincava, tinha o
ar do costume; a ferida sarou de todo.
Com o tempo veio um fenômeno interessante. Pádua começou s falar da
administração interina, não somente sem as saudades dos honorários, nem
o vexame da perda, mas até com desvanecimento e orgulho. A administração
ficou sendo a hégira, donde ele contava para diante e para trás.
- No tempo em que eu era administrador...
Ou então:
- Ah! sim, lembra-me, foi antes da minha administração, ou um dois meses
antes... Ora espere; a minha administração começou. É isto, mês e meio
antes; foi mês e meio antes, não foi mais.
Ou ainda:
- Justamente; havia já seis meses que eu administrava...
Tal é o sabor póstumo das glórias interinas. José Dias bradava que era a
vaidade sobrevivente; mas o Padre Cabral, que levava tudo para a
Escritura, dizia que com o vizinho Pádua se dava a lição de Elifás a Jó:
“Não desprezes a correção do Senhor; Ele fere e cura”

CAPÍTULO 17
OS VERMES “ELE FERE E CURA!”
Quando, mais tarde, vim a saber que a lança de Aquiles também curou uma
ferida que fez, tive tais ou quais veleidades de escrever uma
dissertação a este propósito. Cheguei a pegar em livros velhos, livros
mortos, livros enterrados, a abri-los, a compará-los, catando o texto e
o sentido, para achar a origem comum do oráculo pagão e do pensamento
israelita. Catei os próprios vermes dos livros, para que me dissessem o
que havia nos textos roídos por eles.
- Meu senhor, respondeu-me um longo verme gordo, nós não sabemos
absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhermos o que roemos,
nem amamos ou detestamos o que roemos; nós roemos.
Não lhe arranquei mais nada. Os outros todos, como se houvessem passado
palavra, repetiam a mesma cantilena. Talvez esse discreto silêncio sobre
os textos roídos fosse ainda um modo de roer o roído.

CAPÍTULO 18
UM PLANO
Pai nem mãe foram ter conosco, quando Capitu e eu, na sala de visitas,
falávamos do seminário. Com os olhos em mim, Capitu queria saber que
notícia era a que me afligia tanto. Quando lhe disse o que era, fez-se
cor de cera.
- Mas eu não quero, acudi logo, não quero entrar em seminários; não
entro, é escusado teimarem comigo, não entro.
Capitu, a princípio, não disse nada. Recolheu os olhos, meteu-os em si e
deixou-se estar com as pupilas vagas e surdas, a boca entreaberta, toda
parada. Então eu, para dar força às afirmações, comecei a jurar que não
seria padre. Naquele tempo jurava muito e rijo, pela vida e pela morte.
Jurei pela hora da morte. Que a luz me faltasse na hora da morte se
fosse para o seminário. Capitu não parecia crer nem descrer, não parecia
sequer ouvir; era uma figura de pau. Quis chamá-la, sacudi-la, mas
faltou-me animo. Essa criatura que brincara comigo, que pulara, dançara,
creio até que dormira comigo, deixava-me agora com os braços atados e
medrosos. Enfim, tornou a si, mas tinha a cara lívida, e rompeu nestas
palavras furiosas:
- Beata! carola! papa-missas!
Fiquei aturdido. Capitu gostava tanto de minha mãe, e minha mãe dela,
que eu não podia entender tamanha explosão. É verdade que também
gostava
de mim, e naturalmente mais, ou melhor, ou de outra maneira, coisa
bastante a explicar o despeito que lhe trazia a ameaça da separação; mas
os impropérios, como entender que lhe chamasse nomes tão feios, e
principalmente para deprimir costumes religiosos, que eram os seus? Que
ela também ia à missa, e três ou quatro vezes minha mãe é que a levou,
na nossa velha sege. Também lhe dera um rosário, uma cruz de ouro e um
livro de Horas... Quis defendê-la, mas Capitu não me deixou, continuou a
chamar-lhe beata e carola, em voz tão alta que tive medo fosse ouvida
dos pais. Nunca a vi tão irritada como então; parecia disposta a dizer
tudo a todos. Cerrava os dentes, abanava a cabeça... Eu, assustado, não
sabia que fizesse, repetia os juramentos, prometia ir naquela mesma
noite declarar em casa que, por nada neste mundo, entraria no seminário.
- Você? Você entra.
- Não entro.

. que ele me paga! Disse isto fechando o punho. é um dos seus privilégios. Fiquei tão satisfeito de ver que assim espontaneamente reparava as injúrias que lhe saíram do peito. quem vai para a rua é ele. dá-lhe atenção demais. a adolescência e a infância não são. Quando eu for dono da casa. rindo. menos a parte que lhe dizia respeito. . respondeu Capitu. deixei o canto e corri para a varanda. Pediu-me algumas circunstâncias mais. não me fica um instante Mamãe é boa demais. Calou-se outra vez. não lhe pude dar toda a significação. tinha mudado. e proferi outras ameaças. um preto. Ao relembrá-las. Aos quinze anos. temente a Deus. Estava séria. não e ainda a Capitu do costume. A reflexão não era coisa rara nela.Não sei. as próprias palavras de uns e de outros. Quis saber a conversação da minha casa. deixe estar. .E que interesse tem José Dias em lembrar isto? perguntou-me no fim. Quando tornou a falar. mas quase. ouvi só dizer que ela não chorasse. . falava baixo. foi só para fazer mal. Capitu deixou-se ir. Como eu não queria dizer o ponto inicial da conversa. você verá. Ele chegou a mostrar-se arrependido.Chorou por quê? . que não era coisa de choro. eu então. É um sujeito muito ruim. Em meio disto.Você verá se entra ou não. . Tínhamos chegado à janela.. para não ser apanhado. e conheciam-se as ocasiões pelo apertado dos olhos.Acho que nenhum. e saiu.Não. deixe estar que me há de pagar.. pouco antes.. Mas. .Não. mamãe. desde algum tempo. vinha apregoando cocadas. depois a conversa entrou a cochilar e dormir. que era ela mesma. não acabava de entendê-las. qué cocada hoje? . sem aflição. neste pontos ridículas. não podia deixar de cumprir.Cocadinha tá boa. Parece até que chorou. parou em frente e perguntou: . cresce na madureza e atinge o maior grau na velhice. confessou que certamente não era por mal que minha mãe me queria fazer padre. A tenção de Capitu estava agora particularmente nas lágrimas de minha mãe. há até certa graça em ameaçar muito e não executar nada. eu contei-lha toda.Sinhazinha. era a promessa antiga que ela. e o tom delas.José Dias? . mas. que peguei da mão dela e apertei-a muito. que. não me acho ridículo. Capitu refletia. Este mal ou este perigo começa na mocidade.

não de salto. na prática faziam-se hábeis. foi que a enojou agora. a modo que lhe deixara uma impressão aborrecida. mas aos saltinhos. porque não tem Vintém. Não sei se me explico bem. Capitu. iria realmente até Bordéus. pela ação de empenho. Prima Justina era melhor que ele. não quis saber de doce. e melhor que os dois seria o Padre Cabral. não me faria embarcar no paquete e fugir. . ora vendendo. parecendo ir à fortaleza da Laje em ponte movediça. Vi que em meio da crise. destinada a picar a vaidade das crianças. usava repeti-la nos nossos jogos da puerícia.Se eu fosse rica. surdas. Comprei-as. ora comprando um doce ausente. fiquemos em que a minha amiga. espreitou-me os olhos. tão sabido do bairro e da nossa infância: Chora. o que tanto pode ser perfeição como imperfeição. Rejeitou tio Cosme. se não aprovava a minha ordenação. Ao contrário. pelo que. por onde eu. saltando. você fugia. Capitu. metia-se no paquete e ia para a Europa. Suponde uma concepção grande executada por meios pequenos. chora Chora. . o pregão das velhas tardes. Dito isto. era um “boa-vida”.Vá-se embora. rindo. trocando os papéis comigo. deixando minha mãe na praia. ou só agradeceram a boa intenção. e alcançavam o fim proposto. porque logo depois me disse: . eu conservava um canto para as cocadas. combatendo os meus projetos de resistência franca. e gostava muito de doce. Tal era a feição particular do caráter da minha amiga. Capitu recusou. Como vês. mas eram só atrevidas em si. o pregão que o preto foi cantando. não era capaz de dar um passo para suspendê-la. à espera. aos quatorze anos. mas tive de as comer sozinho. fosse antes pelos meios brandos. mas creio que eles não lhe disseram nada. Creio que a letra. da palavra. muito menos que outras que lhe vieram depois.. tinha já idéias atrevidas. estenderia uma fila de canoas daqui até lá. ela a sabia de cor e de longe. e examinasse antes as pessoas com quem podíamos contar. menina. Com efeito. replicou ela sem rispidez. não admira que.Dê cá! disse eu descendo o braço para receber duas. para não sair do desejo vago e hipotético de me mandar para a Europa. Assim. mas o momento não é para definições tais. se pudesse cumpri-lo. da persuasão lenta e diuturna. apesar de equilibrada e lúcida. sinuosas. Da toada não era. o sentimento era tão amigo que eu podia escusar o extraordinário da aventura.

Mas que se perde em experimentar? Experimentemos. mas ele queria ir. São Paulo era um frágil biombo.. acentuando alguns como principais. mas o principal não é isso. Tudo é que você não tenha medo. .Posso confessar? . . e inquiria-me depois sobre eles. é que ele. mostre que quer e que pode. Capitu repetiu. a ver se entendera bem. não. E insistia em que pedisse com boa cara. mas assim como quem pede um copo de água a pessoa que tem obrigação de o trazer. . em vez da grossa parede espiritual e eterna. . José Dias. e pagou a entrada aos dois. diga-lhe que está pronto a ir estudar leis em São Paulo. tanto falou que sua mãe acabou consentindo. Capitu. mas seria aparecer francamente. Dona Glória presta-lhe atenção.Pois. Estremeci de prazer. destinado a ser arredado um dia. Faça-lhe também elogios. faz-se outra coisa... Dona Glória pode ser que mude de resolução. sim..Lembra-me.. . ele gosta muito de ser elogiado. Ele gosta muito de você. mande. Olhe.Justo.Isso não. mas o padre não havia de trabalhar contra a Igreja. mete-se então o Padre Cabral. continuou Capitu. façam que lhe digo. peça. onde se fizeram sucessivamente sete.pela autoridade. disse que o teatro era uma escola de costumes. dirá agora outra coisa. mostre que há de vir a ser dono da casa.Não importa. logo virá a tarde.. Prometi falar a José Dias nos termos propostos. se não mudar. .Não acho. e da manhã e da tarde se fará o primeiro dia.. tendo de servir a vocês falará com muito mais calor que outra pessoa. lembra-se? . Não lhe fale acanhado. .. Conto estas minúncias para que melhor se entenda aquela manhã da minha amiga. . Dê-lhe bem a entender que não é favor. se não trocara uns por outros.Pode ser um bom empenho. e fez um discurso. . .Mas se foi ele mesmo que falou.Então vá para o seminário. e o melhor é outra coisa. como no Gênesis.Que tem José Dias? . Você não se lembra como é que foi ao teatro pela primeira vez há dois meses Dona Glória não queria e bastava isso para que José Dias não teimasse. só se eu lhe confessasse que não tinha vocação. Ande.

tudo era dizê-las em tom que não ofendesse. e mais lentamente ainda as palavras sem falta. era ao meu refúgio. “E Capitu tem razão. saíram-me quase súplices. ele é um simples agregado. Disse as primeiras. Assim cheguei aos números vinte. repetindo-as novamente.. Amanhã. escolha o lugar e diga-me”. se eles viessem. para ver se eram adequadas e se obedeciam às recomendações de Capitu: “Preciso falar-lhe. A soma era enorme. Afinal disse comigo que as palavras podiam servir. impróprias de um criançola para um homem maduro. ao meu amigo. Não choveu. Cuidei de escolher outras e parei. as outras foram adiadas. que não pensasse nos termos em que falaria ao agregado. repeti-as comigo. Na chácara. Vim depressa. entre seco e benévolo. e à medida que se amontoavam iam sendo esquecidas. a casa é minha. nem adoçar muito. pode muito bem trabalhar por mim. sem falta. trinta. quase ríspidas. porém.” CAPÍTULO 20 MIL PADRE-NOSSOS E MIL AVE-MARIAS Levantei os olhos ao céu. se não chovesse em certa tarde de passeio a Santa Teresa. Formulei o pedido de cabeça. mas eu não rezei as orações. A razão é que eu andava carregado de promessas não cumpridas. e então achei-as secas demais. Desde pequenino acostumara-me a pedir ao céu os seus favores. e desfazer o plano de mamãe. E a prova é que. se José Dias arranjar que eu não vá para o seminário”. mediante orações que diria. Proferi-as lentamente. cinqüenta. como para sublinhá-las. Era ao outro céu que eu erguia a minha alma. antes de entrar em casa. mas não foi para vê-lo coberto ou descoberto. que começava a embruscar-se. Era um modo de peitar a vontade . A última foi de duzentos padre-nossos e duzentas ave-marias. E então disse de mim para mim: “Prometo rezar mil padre-nossos e mil ave-marias.. Entrei nas centenas e agora no milhar.CAPÍTULO 19 SEM FALTA Quando voltei casa era noite. Jeitoso é. francamente. escolhendo as palavras que diria e o tom delas. um meio-termo. e. Repeti-as ainda. pensei. não tanto. depois em voz alta. Bastava não carregar tanto.

não é? Mamãe perguntou por mim? . tudo me acudia sem se fixar de vez no espírito. eu adiava a paga. e dizendo-lhe eu que não. Vivia conosco por favor de minha mãe. Não é que prima Justina fosse de biocos. . negar-se a ouvir-me sem muito dinheiro. Mil. mil. tudo o que as velhas escravas me contavam de promessas célebres. mas eu disse que você já tinha vindo. minha mãe queria ter uma senhora íntima ao pé de si.Perguntou. Deus podia muito bem. mil. dizia francamente a Pedro o mal que pensava de Paulo. tudo se cumprisse. Veio ao patamar e perguntou-me onde estivera. mas. Afinal perdi-me nas contas. cada promessa nova era feita e jurada no sentido de pagar a dívida antiga. A mentira espantou-me. Passeamos alguns minutos na varanda. “Mil. Quis saber se eu não esquecera os projetos eclesiásticos de minha mãe. repeti comigo. e também por interesse. a matéria do benefício era agora imensa. Mas vão lá matar a preguiça de uma alma que a trazia do berço e não a sentia atenuada pela vida! O céu fazia-me o favor. irritado com os esquecimentos. fechando a escrituração da minha consciência moral sem déficit. se é que não as achas ridículas. inquiriu-me sobre o gosto que eu tinha à vida de . mediante a intenção. As missas eram numerosas. e a Paulo o que pensava de Pedro.. Realmente. ou subir de joelhos a ladeira da Glória para ouvir uma. mil”. conversando com Dona Fortunata. Mandar dizer cem missas. ir à Terra Santa. devia feri-los por força. boca fina e olhos curiosos. Cogitei muito no modo de resgatar a dívida espiritual. Era preciso uma soma que pagasse os atrasados todos. Homem grave. confessar que mentira é que me pareceu novidade. Era muito duro subir uma ladeira de joelhos. podiam empenhar-me outra vez a alma. e distraí-me. alumiada por um lampião. magra e pálida. além disso. Sublimes não eram.. Não achava outra espécie em que. passeando de um lado para outro. não menos que a franqueza da notícia. e antes parenta que estranha..Estive aqui ao pé.. não menos que a salvação ou o naufrágio da minha existência inteira. Era quadragenária. CAPÍTULO 21 PRIMA JUSTINA Na varanda achei prima Justina.divina pela quantia das orações. É tarde. é possível que estas agitações de menino te enfadem. A Terra Santa ficava muito longe.

como se não soubesse nada Prima Justina completou a notícia dizendo que ainda naquela tarde José Dias lembrara a minha mãe a promessa antiga. mas como há de esquecer se uma pessoa estiver sempre. e que a vida de padre é isto e aquilo.Quem é? . a senhora podia pedir a mamãe.. tudo com aquelas palavras que só ele conhece. Note que é só para fazer mal. .padre.José Dias? concluí.Prima Glória pode ser que. . que não se importa com isso. nos ouvidos. em passando os dias. há cá em casa quem lhe meta isso na cabeça. apesar da casca de polidez. passados alguns instantes.Eu gosto do que mamãe quiser. atalhou prontamente. eu também não. um intrigante. Não contou. . pedir outra coisa. Suponha que eu gostasse de ser padre.Mas falou à toa? perguntei. vá esquecendo a promessa.Vida de padre é muito bonita. um grosseirão. um especulador. Hoje de tarde falou como você não imagina. Enruguei a testa interrogativamente.. explicou rindo. um bajulador. já ela contava isto a todas as pessoas da nossa amizade. ..Ora. mas também.Pois é verdade. . fez apenas um gesto como indicando que havia outra coisa que não podia dizer.Era capaz de. os elogios da Igreja. a ver se ela contava a denúncia do meu namoro com a vizinha. e não há nada no mundo que a faça mudar de resolução.De quê? . porque ele é tão religioso como este lampião. disse: .. é bonita. mas o que pergunto é se você gostaria de ser padre. Você ainda era pequenino. ou só conhecidas. e. que eu não trabalho para a desgraça dos outros. zás que darás. ..Sim. Respondi esquivo: . ... e aquela afetação. .. Eu.Prima Justina. não.. ainda hoje.. . mas ainda que não desejasse. Lá avivar-lhe a memória. e recapitulou todo o mal que pensava de José Dias e não era pouco. só o tempo.Naturalmente. quem! Quem é que há de ser? Primo Cosme não é. a senhora era capaz de uma coisa? .Isso não.. falando do seminário? E os discursos que ele faz. Novamente me recomendou que não me desse por achado. Você não se dê por achado.. . prima Glória tem este negócio firme na cabeça.Prima Glória deseja muito que você se ordene. .

era com o gesto de aprovação que dava a cada uma das asserções da outra. se não gosta. ouvida por ela. É certo que. ouvir-me. quando eu falava. entre um pirralho da minha idade e uma viúva quarentona não havia lugar para ciúmes. mas ainda assim. não faço. falando do calor e da próxima festa da Conceição. fazer o ofício de todos os sentidos. se o receio me não fizesse discreto. não creio que fossem ciúmes. se é que também ela não desconfiava já. os costumes. como prima Justina se metesse a elogiar-lhe os modos. CAPÍTULO 22 SENSAÇÕES ALHEIAS Não alcancei mais nada. ao contrário insinuou-me que podia vir a ser uma moça bonita. a minha resposta era: “Prima Glória. na sala de visitas.. se ela me dissesse: “Prima Justina. É o que eu diria e direi se ela me consultar algum dia. que já a achava lindíssima. cheirar-me. Entretanto. Só pensei nisso na cama... Se ela me consultasse bem. o amor que tinha a minha mãe. sim. Então. se ele gosta de ser padre. pareciam apalpar-me. o trabalhar para os seus. dos meus velhos oratórios. Agora. eu penso que. o melhor é ficar”. e finalmente de Capitu. Só então senti que os olhos de prima Justina.. Ciúmes não podiam ser. após algum tempo. bradaria que era a mais bela criatura do mundo. Quando não era com palavras. disse-me que era um pouco trêfega e olhava por baixo. Não disse mal dela. e certamente com a felicidade que devia iluminar-me a cara. Não adverti que assim confirmava a denúncia de José Dias. tudo isto me acendeu a ponto de elogiá-la também. modificou os elogios a Capitu. prima Justina reteve-me alguns minutos.não peço. mas. pode ir. gostar-me. como eu quisesse ir para dentro. a gravidade. CAPÍTULO 23 PRAZO DADO . e para o fim arrependi-me do pedido: devia ter seguido o conselho de Capitu. Creio antes. creio isto. você que acha?”. Eu. Creio que prima Justina achou no espetáculo das sensações alheias uma ressurreição vaga das próprias. e até lhe fez algumas críticas. ir falar-lhe sem ser chamada. Também se goza por influição dos lábios que narram. à tarde. sim.

. Nos diálogos.Amanhã. disse-me ele: .Perfeitamente. Houve só uma altercarão. Lia cantado e compassado. ia comigo à rua. Mais tarde. na rua. conforme o sexo dos interlocutores. meio sério para dar autoridade à lição. doutrina e história sagrada. dos meus livros. alguma vez. quando íamos para o chá. foi dispensar-me o pajem. . Creio que José Dias achou desusado este meu falar. CAPÍTULO 24 DE MÃE E DE SERVO José Dias tratava-me com extremos de mãe e atenções de servo. ele assistia às lições. Cuidava dos meus arranjos em casa. sem falta.A lição foi hoje.Sim. entramos no ônibus. na varanda. pedirei a mamãe. fez-se pajem. Não lhe pergunto o que é. não hesitar. minha mãe achou o dia quente e não consentiu que eu fosse a pé. escolha o lugar e diga-me. José Dias vinha andando cheio de leitura de Walter Scott que fizera a minha mãe e a prima Justina. alternava o som das vozes. Ajudava assim o mestre de primeiras letras. meio risonho para obter o perdão da emenda. como era próprio da criança e do meu estilo habitual. quando o Padre Cabral me ensinava latim. podemos apear-nos à porta do Passeio Público. . mas as palavras o eram. Tenho umas compras que fazer. fazia reflexões eclesiásticas. da desinência exata. da minha higiene e da minha prosódia. você pode ir comigo. É dia de lição? . dos meus sapatos. O tom não me saíra tão imperativo como eu receava. que eram levemente grossas ou finas.. Os castelos e os parques saíam maiores da boca dele. à porta de casa. Ao despedir-se de mim. ele a corrigia. Fez-se tudo o melhor possível. afirmo desde já que é matéria grave e pura. Aos oito anos os meus plurais careciam.Não importa. A primeira coisa que consegui logo que comecei a andar fora. senhor. os lagos tinham mais água e a “abóbada celeste” contava alguns milhares mais de estrelas centelhantes. . e reproduziam com moderação a ternura e a cólera. Foi no corredor.Até amanhã. . disse-me José Dias. não pedir. e o não interrogar. certamente lhe deu idéia de uma pessoa nova e de uma nova situação.Preciso falar-lhe amanhã.

Capitu. outras doentes ou só vadias espalhavam-se melancolicamente no caminho que vai da porta ao terraço. perguntava ao padre: “Não é verdade que o nosso jovem amigo caminha depressa?” Chamava-me “um prodígio”. Seguimos para o terraço. Dona Glória. era natural. como se riu. nunca ouvi que falasse mal do senhor. . . no fim. .Perdoe-me. Algumas caras velhas. em criança.É verdade. disse ele a um sujeito. mas honestidade e estima não bastam. gostava do elogio. posto não avaliasse todo o valor deste outro elogio.e. consentiu. interrompi suspendendo o passo. para me dar animo. ele podia passar por criado. Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada. nem porque ele fale mal de mim e se ria. possuía já certo número de qualidades morais sólidas.Perdão. em minha presença. talvez um ano. A gente Pádua não é de todo má. não se lembra? .. apesar deles. Pois. que é boa como a mãe de Deus. e ele não nego que seja honesto. .Há muito tempo que não venho aqui. sem contar que. Em lhe cheirando a homem chulo é com ele. se não fosse a vaidade e a adulação. e as outras qualidades perdem muito de valor com as más companhias em que ele anda. pelo contrário. . para a minha idade. era um elogio.. mas foi tão de passagem. não pode gostar disso.Quando era mais jovem. não é bonito que você ande com o Pádua na rua. há dias..Mas eu andei algumas vezes.. afinal.. não há três meses que esteve aqui com o nosso vizinho Pádua. que o senhor era “um homem de capacidade e . apesar daqueles olhos que o Diabo lhe deu. . Andando. mas ouça-me. e ela. . já que falamos nisto. poderia passar. dizia a minha mãe ter conhecido outrora meninos muito inteligentes. atalhou ele. mas que eu excedia a todos esses. dos meus sapatos acalcanhados. CAPÍTULO 25 NO PASSEIO PÚBLICO Entramos no Passeio Público. falei do jardim: . Oh! a adulação! Dona Fortunata merece estima. Mas você está ficando moço e ele vai tomando confiança. Eu.. Não digo isto por ódio. não há muito tempo. tem um bom emprego. um dia.Ele pediu a sua mãe que o deixasse trazer consigo. possui a casa em que mora. Pádua tem uma tendência para gente reles.

Outros. mas o que ainda mais o assombrou foi esta conclusão: . José Dias tornou a perguntar o que era. não gosto da vida de padre.Não lhe agradeço nada. continuei eu.Conto com o senhor para salvar-me. peremptório. mastigado. Realmente. Bentinho? . depois replicou: . Não obstante. mas eu não posso ser padre.Não posso.Neste caso. até cocheiro de ônibus. José Dias ficou aturdido. Os olhos do agregado escancararam-se. Padre. ordene. e olhamos para o mar. e vinha de cor. Toda a cara dele era pouca para a estupefação. como pode parecer do texto. . A carreira é bonita.Pois que outra coisa. . José Dias endireitou-se pasmado.Mamãe quê? Que é que tem mamãe? . que era pouco. Todo esse discurso não me saiu assim. Quando os olhos tornaram às dimensões ordinárias: . Tínhamos outra vez andado. que é? . não tenho jeito.Mamãe. subimos ao terraço. disse eu depois de alguns instantes. Não contava certamente com a resistência. me têm feito o favor de juízos altos. disse finalmente. mas não é para mim. eu próprio não me conhecia. de melhor sangue. Estou por tudo o que ela quiser. e o prazer que eu contava dar-lhe com a escolha da proteção não se mostrou em nenhum dos músculos.. mamãe sabe que eu faço tudo o que ela manda. a matéria do discurso revelara em mim uma alma nova.Vejo que o senhor não quer senão o meu benefício. E nada disso impede que ele seja o que lhe digo. como a prima Justina na véspera. não.Um favor? Mande. . José Dias ouvira-o espantado. Mas a palavra final é que trouxe um vigor único.” José Dias sorriu deliciosamente. ansioso também. em voz um pouco surda e tímida. peço-lhe um favor.. não posso ser padre.Mas que posso eu fazer? perguntou. . Durante algum tempo não pude dizer o resto. mas aos pedaços. por mais acanhada que fosse. . as sobrancelhas arquearam-se. não menos pasmado que ele. levantava-me o queixo e espetava os olhos em mim.sabia falar como um deputado nas câmaras. mas fez um esforço grande e fechou outra vez o rosto.Mamãe quer que eu seja padre. sacudia-me com brandura. enfiado natural mente. estou pronto a ser o que for do seu agrado. . de vez.

Se eu fosse destemido. ele voltara os seus para o lado da barra. se tal é a sua ..Não é tarde. retorquiu lisonjeado. .Em que lhe posso valer.. Timidez não é tão ruim moeda. Como insistisse: .. ..Há de ser também o de proteger os amigos..Pode muito. Calou se alguns instantes. meu querido. irei falar a sua mãe. vou para São Paulo. . anjo do céu? Não hei de dissuadir sua mãe de um projeto que é. por quê? porque são ilustres e virtuosas. para lhe provar que não há falta de vontade. Vá para as leis. Não prometo vencer. senão que seja feliz. ou ainda mais longe. como parece. seu tio é um cavalheiro perfeitíssimo Tenho conhecido famílias distintas. . eu tinha os olhos nele. e uma ação valia outra. Olhe. como merece? . além de promessa. é tarde.. como eu. Contentei-me de responder que não era tarde. não é por vadiação. rompesse a chamar-lhe mentiroso.é o talento de saber o que é bom e digno de admiração e de apreço.. em nossa casa. Deveras. Que desejo.Se eu quiser? Mas que outra coisa quero eu. todos o apreciam Mamãe pede muita vez os seus conselhos. Quando pudesse. mas então seria preciso confessar-lhe que estivera à escuta. .. se ela quiser que eu estude leis. nenhuma poderá vencer a sua em nobreza de sentimentos. . trabalharei com alma.São bondades. a ambição e O sonho de longos anos.Pois ainda é tempo.uma idéia que o alegrou extraordinariamente. O talento que seu tio acha em mim confesso que o tenho. Pode ir a São Paulo. que merecem tudo. mas lutar. Sua mãe é uma santa.É tarde. CAPÍTULO 26 AS LEIS SÃO BELAS Pela cara de José Dias passou algo parecido com o reflexo de uma idéia.. O senhor sabe que. não quer ser padre? As leis são belas. a Pernambuco. Há boas universidades por esse mundo fora. ainda é tempo. Aí está! nunca ninguém me há de ouvir dizer nada de pessoas tais. mas é só um. atrás da porta. não é? Tio Cosme diz que o senhor é pessoa de talento. . disse ele. mas. com a indignação que experimentei. São favores de pessoas dignas. se o senhor quiser. é provável que. Ainda ontem fez-me o favor de dizer: “José Dias. senão servi-lo. Estou pronto: para tudo. preciso meter Bentinho no seminário”.

sem acabar de tentar minha mãe nem tio Cosme.. . Anjo do meu coração. .Pegue-se também com Deus. O céu estava meio enfarruscado. estamos a bordo! Ah! você não imagina o que é a Europa. a terra e o céu. não quererá guiar os negócios. ainda que possa e vá. e lá ficar durante a eternidade dos meus estudos. viaja: Podemos ir juntos. Deus é dono de tudo. perto da praia. nem as danças fantásticas dos pássaros me desviavam o espírito do meu interlocutor. Dona Glória provavelmente não poderá acompanhá-lo. emendei-me: . e andar com você de um lado para outro. e ao mesmo tempo que estuda. espanhol. mas pedir não é alcançar.. só por si. avançando ou pairando. As leis são belas. e cuidar de hospedarias. Não contava com esta possibilidade de ir comigo. pede a mamãe que me não meta no seminário? ..Hei de falar.. No ar. se vontade de servir é poder de mandar. e tornavam a erguer-se para descer novamente.. Oh! as leis são belíssimas! .. Bentinho. papéis. grandes pássaros negros faziam giros. Uma vez que você não pode ser padre. por mais que louvasse os ares e as belezas. . concluiu apontando para o céu. na água. Oh! a Europa. e prefere as leis. . Uma das suas ambições era tornar à Europa.com Deus e a Virgem Santíssima. Vou falar a Dona Glória. ouviremos inglês. veremos as terras estrangeiras. mas não conte só comigo. sem desfazer na teologia que é melhor que tudo..Pedir. como a vida eclesiástica é a mais santa. Por que não há de ir estudar leis fora daqui? Melhor é ir logo para alguma universidade. francês.. italiano. Depois de lhe responder que sim.vocação. um mendigo estendeu-nos a mão.Está dito. o passado. falava dela muitas vezes. José Dias passou . e desciam a roçar os pés. russo e até sueco.. fale também a seu tio.Não blasfeme.. matrículas. estamos a bordo! CAPÍTULO 27 AO PORTÃO No portão do Passeio. peço. Peça-lhe a sua felicidade que eu não faço outra coisa. o presente e o futuro. estamos aqui.Deus fará o que o senhor quiser.Estamos a bordo.. Levantou a perna e fez uma pirueta. ele é... Mas nem as sombras do céu.

adiante, mas eu pensei em Capitu e no seminário, tirei dois vinténs do
bolso e dei-os ao mendigo. Este beijou a moeda; eu pedi-lhe que rogasse
a Deus por mim, a fim de que eu pudesse satisfazer todos os meus
desejos.
- Sim, meu devoto!
- Chamo-me Bento, acrescentei para esclarecê-lo.

CAPÍTULO 28
NA RUA
José Dias ia tão contente que trocou o homem dos momentos graves, como
era à rua, pelo homem dobradiço e inquieto. Mexia-se todo, falava de
tudo, fazia-me parar a cada passo diante de um mostrador ou de um cartaz
de teatro. Contava-me o enredo de algumas peças, recitava monólogos em
verso. Fez os recados todos, pagou contas, recebeu aluguéis de casa;
para si comprou um vigésimo de loteria. Afinal, o homem teso rendeu o
flexível, e passou a falar pausado, com superlativos. Não vi que a
mudança era natural; temi que houvesse mudado a resolução assentada, e
entrei a tratá-lo com palavras e gestos carinhosos, até entrarmos no
ônibus.

CAPÍTULO 29
O IMPERADOR
Em caminho, encontramos o Imperador, que vinha da Escola de Medicina. O
ônibus em que íamos parou, como todos os veículos; os passageiros
desceram à rua e tiraram o chapéu, até que o coche imperial passasse.
Quando tornei ao meu lugar, trazia uma idéia fantástica, a idéia de ir
ter com o Imperador, contar-lhe tudo e pedir-lhe a intervenção. Não
confiaria esta idéia a Capitu. “Sua Majestade pedindo, mamãe cede”,
pensei comigo.
Vi então o Imperador escutando-me, refletindo e acabando por dizer que
sim, que iria falar a minha mãe; eu beijava-lhe a mão, com lágrimas. E
logo me achei em casa, à esperar até que ouvi os batedores e o piquete
de cavalaria; é o Imperador! é o Imperador! toda a gente chegava as
janelas para vê-lo passar, mas não passava, o coche parava à nossa
porta, o Imperador apeava-se e entrava. Grande alvoroço na vizinhança:

“O Imperador entrou em casa de Dona Glória! Que será? Que não será?” A
nossa família saía a recebê-lo; minha mãe era a primeira que lhe beijava
a mão. Então o Imperador, todo risonho, sem entrar na sala ou entrando,
- não me lembra bem, os sonhos são muita vez confusos,- pedia a minha
mãe que me não fizesse padre, - e ela, lisonjeada e obediente, prometia
que não.
- A medicina, por que lhe não manda ensinar medicina?
- Uma vez que é do agrado de Vossa Majestade..
- Mande ensinar-lhe medicina; é uma bonita carreira, e nós temos aqui
bons professores. Nunca foi à nossa Escola? É uma bela Escola. Já temos
médicos de primeira ordem, que podem ombrear com os melhores de outras
terras. A medicina é uma grande ciência; basta só isto de dar a saúde
aos outros, conhecer as moléstias; combatê-las, vencê-las... A senhora
mesma há de ter visto milagres Seu marido morreu, mas a doença era
fatal, e ele não tinha cuidado em si... É uma bonita carreira: mande-o
para a nossa Escola. Faça isso por mim, sim? Você quer, Bentinho?
- Mamãe querendo.
- Quero, meu filho. Sua Majestade manda.
Então o Imperador dava outra vez a mão a beijar, e saía, acompanhado de
todos nós, a rua cheia de gente, as janelas atopetadas, um silêncio de
assombro: o Imperador entrava no coche. inclinava-se e fazia um gesto de
adeus, dizendo ainda: “A medicina, a nossa Escola.” E o coche partia
entre invejas e agradecimentos.
Tudo isso vi e ouvi. Não, a imaginação de Ariosto não é mais fértil que
a das crianças e dos namorados, nem a visão do impossível precisa mais
que de um recanto de ônibus. Consolei-me por instantes, digamos minutos,
até destruir-se o plano e voltar-me para as caras sem sonhos dos meus
companheiros.

CAPÍTULO 30
O SANTÍSSlMO
Terás entendido que aquela lembrança do Imperador acerca da medicina não
era mais que a sugestão da minha pouca vontade de sair do Rio de
Janeiro. Os sonhos do acordado são como os outros sonhos, tecem-se pelo
desenho das nossas inclinações e das nossas recordações. Vá que fosse
para São Paulo, mas a Europa... Era muito longe, muito mar e muito
tempo. Viva a medicina! Iria contar estas esperanças a Capitu.

- Parece que vai sair o Santíssimo, disse alguém no ônibus. Ouço um
sino; é, creio que é em Santo Antônio dos Pobres. Pare, senhor recebedor!
O recebedor das passagens puxou a correia que ia ter ao braço do
cocheiro, o ônibus parou, e o homem desceu. José Dias deu duas voltas
rápidas à cabeça, pegou-me no braço e fez-me descer consigo. Iríamos
também acompanhar o Santíssimo. Efetivamente, o sino chamava os fiéis
àquele serviço da última hora. Já havia algumas pessoas na sacristia.
Era a primeira vez que me achava em momento tão grave; obedeci, a
princípio constrangido, mas logo depois satisfeito, menos pela caridade
do serviço que por me dar um ofício de homem. Quando o sacristão começou
a distribuir as opas, entrou um sujeito esbaforido, era o meu vizinho
Pádua, que também ia acompanhar o Santíssimo. Deu conosco, veio
cumprimentar-nos. José Dias fez um gesto de aborrecido, e apenas lhe
respondeu com uma palavra seca, olhando para o padre que lavava as mãos.
Depois, como Pádua falasse ao sacristão, baixinho, aproximou-se deles;
eu fiz a mesma coisa. Pádua solicitava do sacristão uma das varas do
pálio. José Dias pediu uma para si.
- Há só uma disponível, disse o sacristão.
- Pois essa, disse José Dias.
- Mas eu tinha pedido primeiro, aventurou Pádua.
- Pediu primeiro, mas entrou tarde, retorquiu José Dias; eu já cá
estava. Leve uma tocha.
Pádua, apesar do medo que tinha ao outro, teimava em querer a vara, tudo
isto em voz baixa e surda. O sacristão achou meio de conciliar a
rivalidade, tomando a si obter de um dos outros seguradores do pálio que
cedesse a vara ao Pádua, conhecido na paróquia, como José Dias. Assim
fez, mas José Dias transtornou ainda esta combinação. Não, uma vez que
tínhamos outra vara disponível, pedia-a para mim, “jovem seminarista”, a
quem esta distinção cabia mais diretamente. Pádua ficou pálido, como as
tochas. Era pôr à prova o coração de um pai. O sacristão, que me
conhecia de me ver ali com minha mãe, aos domingos, perguntou de curioso
se eu era deveras seminarista.
- Ainda não, mais vai sê-lo, respondeu José Dias piscando o olho
esquerdo para mim, que, apesar do aviso, fiquei zangado.
- Bem, cedo ao nosso Bentinho, suspirou o pai de Capitu.
Pela minha parte, quis ceder-lhe a vara; lembrou-me que ele costumava
acompanhar o Santíssimo Sacramento aos moribundos levando uma tocha,
mas
que a última vez conseguira uma vara do pálio. A distinção especial do

tinha uma filha de quinze ou dezesseis anos que estava chorando à porta do quarto. Com pouco. Que era lustre nupcial Não sei. Vim para perto de uma janela. e não vejo outra mais que bodas. felizmente a casa era perto. cheio de uma glória pia e risonha. Esta nova sensação me dominou tanto que José Dias veio a mim. na Rua do Senado. erguia a cabeça com o ar de ser ele próprio o Deus dos exércitos. tochas distribuídas e acesas. em voz baixa: . ouvi distintamente o meu nome. rompendo a marcha do pálio. É uma metáfora.. e. com os braços no ar.. e me disse ao ouvido. falar-me. assim lhe encheu a boca de riso agora. A enferma era uma senhora viúva. era alguma coisa contrária à morte. doeu-me mais. O vigário confessou a doente. De resto. Quis ceder-lhe a vara. Assim fica entendido o alvoroço com que entrara na igreja. senti-me me cansado. senti um ímpeto de soluçar também. e ouvi alguém dizer-me: . tísica. talvez nem tivesse graça. vi-a escrever no muro. andar à volta. O pranto da moça redobrou tanto que senti os meus olhos molhados e fugi. que. o administrador regressava ao antigo cargo. os braços caíam-me. padre e cibório prontos. e a minha imaginação. e pediu ao sacristão que nos pusesse.Não ria assim! .. outra vez a interinidade interrompida. A moça não era formosa. tão lúgubres na ocasião tinham-me ares de um lustre nupcial.Não chore assim! A imagem de Capitu ia comigo. os cabelos caíam despenteados. com as duas varas da frente. não pude mirá-lo por muito tempo. Opas enfiadas. há pouco. enfiei pelo corredor. Pádua roía a tocha amargamente. Foi ele mesmo que me contou e explicou isto.. tanto que cuidou logo de ir pedi-lo. assim como lhe atribuíra lágrimas. para tocha qualquer pessoa servia. que se ajoelhavam. era a segunda vez do pálio. quando enfim pensei em Capitu. Não obstante o total falava e cativava o coração. passando pelos fiéis. o agregado tolheu-me esse ato de generosidade. o sacristão de hissope e campainha nas mãos. de uma doçura que me embriagou. e a voz era dela. paralelamente a mim. Quando me vi com uma das varas. As tochas acesas. deu-lhe a comunhão e os santos óleos. Pobre criatura! A dor era comunicativa em si mesma complicada da lembrança de minha mãe. saiu o préstito à rua. E nada! E tornava à tocha comum. e as lágrimas faziam-lhe encarquilhar os olhos.pálio vinha de cobrir o vigário e o sacramento. fiquei comovido. a ele e a mim. nem ao agregado. não acho outra forma mais viva de dizer a dor e a humilhação do meu vizinho.

o sol cá fora. escrever e contar. a animação da rua.o peso da vara era mui pequeno. se vingasse a idéia da Europa. Era o momento da saída.Não marcou dia. Apesar de substituído por mim. ao contrário. tudo parecia remoer consigo. mostrou se satisfeita. tudo me enchia a alma de lepidez nova. as devotas que chegavam às janelas ou entravam nos corredores e se ajoelhavam à nossa passagem. Pedia o som das palavras. CAPÍTULO 31 AS CURIOSIDADES DE CAPITU Capitu preferia tudo ao seminário. replicou. mas a ótima delas é nenhuma. não aprendeu. Há conceitos que se devem incutir na alma do leitor. Eram de vária espécie. francês. aí fica. Peguei da minha vara. Esta imagem é porventura melhor que a outra. os rapazes da minha idade que me fitavam cheios de inveja. Capitu quis que lhe repetisse as respostas todas do agregado. Bentinho. mais mulher do que eu era homem. fiquemos por ora com a promessa de José Dias. a fazer renda- . assim úteis como inúteis. fica também. Quando é que ele disse que falaria a sua mãe? . não acabava de se consolar da tocha.Não. à força de repetição. que apenas lhe contara. deixemos o Imperador sossegado. por exemplo. explicáveis e inexplicáveis. não iam garridos. e. doutrina e obras de agulha. E quando eu lhe contei o meu sonho imperial: . e apenas mostravam a compostura do ato. outras frívolas. As curiosidades de Capitu dão para um Capítulo. e agora voltávamos para a igreja. Era também mais curiosa. mas também não iam tristes. Se ainda o não disse. o que fazia a distancia menor. ia mais humilhado. que falaria logo que pudesse. as alterações do gesto e até a pirueta. Também se pode dizer que conferia. rotulava e pregava na memória a minha exposição. isto é. e que me pegasse com Deus. Pádua. No colégio onde. desde os sete anos. E contudo havia outros que também traziam tocha. umas graves. a narração e o diálogo. uma criatura mui particular. . Era minuciosa e atenta. como já conhecia a distancia.Fiquei sério depressa. da miserável tocha. aprendera a ler. gostava de saber tudo. Em vez de ficar abatida com a ameaça da larga separação. prometeu que ia ver. Via-se que caminhavam com honra. Capitu era Capitu. Se disse. Demais.

Perfeição não era. . . copiado da tela que minha mãe tinha na sala e que ainda agora está comigo. Capitu quis saber o que eram as figuras da sala de visitas. mas as ações citadas por José Dias davam-lhe gestos de admiração. Um homem que podia tudo! que fazia tudo! Um homem que dava a uma senhora uma pérola do valor de seis milhões de sestércio! . com exclamações em latim: . e pediu-me que esperasse para ver se estava parecido. Era o de meu pai. Foi nessa ocasião que ela perguntou a minha mãe por que é que já não usava as jóias do retrato. Mas.Anda apanhar um capotinho. Capitu. das pessoas. um diadema e brincos. Um dia. ao contrário. com atenção. quis que prima Justina lhe ensinasse. Capitu obedecia e jogava com facilidade. Um dia fui achá-la desenhando a lápis um retrato.César! Júlio César! Grande homem! Tu quoque. referia-se ao que estava na sala. apenas de estimação. e havendo feito aquilo de memória em poucos minutos. Tio Cosme ensinou-lhe gamão. demorando-se um pouco mais em César. Se não estudou latim com o Padre Cabral foi porque o padre. como aprendeu música mais tarde. A erudição deste não avultava muito mais que a sua homeopatia de Cantagalo. respondeu entusiasmado: . depois de lhe propor gracejando. querendo saber das ruínas. e os cabelos eram pequenos círculos uns sobre outros. não sei se diga com amor. dizia-lhe ele.por isso mesmo. não tendo ela rudimento algum de arte. a história. tinha um grande colar. Capitu confessou-me um dia que esta razão acendeu nela o desejo de o saber. folheava os nossos livros de gravuras. acabou dizendo que latim não era língua de meninas. Já então namorava o piano da nossa casa. não tendo presente o valor do sestércio. com o de meu pai. Lia os nossos romances. o lugar. achei que era obra de muito merecimento. estou que aprenderia facilmente pintura. Em compensação. o nome. os olhos saíram esbugalhados. Brute? Capitu não achava bonito o perfil de César. José Dias dava-lhe essas notícias com certo orgulho de erudito.E quanto valia cada sestércio? José Dias. O agregado disse-lho sumariamente. das campanhas.descontai-me a idade e a simpatia. Ainda assim. dava os últimos rasgos. velho traste inútil. quis aprender inglês com um velho professor amigo do pai e parceiro deste ao solo.É o maior homem da história! A pérola de César acendia os olhos de Capitu. Ficou muito tempo com a cara virada para ele. mas não foi adiante.

no qual não sei se aprendeu ou ensinou. eram dez horas da manhã. e achou que o Imperador fizera muito bem em querer subir ao trono aos quinze anos. era um espelhinho de pataca (perdoai a barateza). fui ver a minha amiga.Mas então quando fala? . entre as duas janelas. que estava no quintal nem esperou que eu lhe perguntasse pela filha.Parece que não. como eu. .Há alguma coisa? . Caso houve. Dona Fortunata. Este pode ser que não fosse. alfaias velhas. apenas entrei na sala. Ouvindo falar várias vezes da Maioridade. . um dito daqui. como eu. CAPÍTULO 32 OLHOS DE RESSACA Tudo era matéria às curiosidades de Capitu.Eu bem. uma lembrança dali. ou se fez ambas as coisas.Oh! conte-me as festas da Coroação! Sabia já o que os pais lhe haviam dito. disseram-lho. . a infância e a mocidade de minha mãe.Está na sala penteando o cabelo. Tudo era matéria às curiosidades de Capitu. comprado a um mascate italiano. passados alguns dias do ajuste com o agregado.Não há nada. disse-me. Nascera muito depois daquelas festas célebres. argolinha de latão. vá devagarzinho para lhe pregar um susto. mobílias antigas. um adágio dacolá. Fui devagar. costumes. notícias de Itaguaí. José Dias ainda não falou? . cabelos. Se não foi ele. É o que contarei no outro Capítulo. foi o pé. vim ver você antes que o Padre Cabral chegue para a lição. pendente da parede. porém. toda ela voou pelos ares. Capitu. mas naturalmente tinha para si que eles pouco mais conheceriam do que o que se passou nas ruas.São jóias viúvas. Neste direi somente que.. Como passou a noite? . Um ou outro..Foi pelas festas da Coroação. Queria a notícia das tribunas da Capela Imperial e dos salões dos bailes. a verdade é que. pente. teimou um dia em saber o que fora este acontecimento. moldura tosca. . mas ou o pé ou o espelho traiu-me.Quando é que botou estas? .. e só lhe ouvi esta pergunta: . respondi.

mas poderá alcançar?. falará assim por alto e por longe. cava e escura.. Depois.Que tem. Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos. assim também a quantidade das delícias que terão gozado no céu os seus desafetos aumentará as dores aos condenados do inferno. tem. agarrei-me às outras partes vizinhas.. Este outro suplício escapou ao divino Dante. a onda que saía delas vinha crescendo... . a cor e a doçura eram minhas conhecidas. “olhos de cigana oblíqua e dissimulada. se sentir que você realmente não quer ser padre. Não me acode imagem capaz de dizer. com os meus olhos longos.. eu nada achei extraordinário. É o que me dá idéia daquela feição nova. Olhos de ressaca? Vá. aos cabelos espalhados pelos ombros.. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico. e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos. interrompeu Capitu. entrará em matéria. E se não fosse preciso alguém para vencer já. acho que fará tudo. ao cabo de um tempo não marcado. nos dias de ressaca. dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. se nunca os vira. Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles. constantes. como a vaga que se retira da praia.Disse-me que hoje ou amanhã pretende tocar no assunto. uma força que arrastava para dentro. o que eles foram e me fizeram. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento.Teimo. Eu já nem sei se José Dias poderá influir tanto.. não vai logo de pancada. Capitu. Para não ser arrastado.Você jura? . não se lhe falaria. É um inferno isto! Você teime com ele.. e de todo. e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Quer primeiro ver se mamãe tem a resolução feita. Deixe ver os olhos. às orelhas. nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. aos braços. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. . mas tão depressa buscava as pupilas. com tal expressão que. Hoje mesmo ele há de falar. se. de ressaca. Estou para contar que. Só me perguntava o que era. ameaçando envolver-me. A eternidade tem as suas pêndulas. sem quebra da dignidade do estilo. .Juro. um toque. Retórica dos namorados. mas eu não estou aqui para emendar poetas. puxar-me e tragar-me. porém. enfiados neles. mas dissimulada sabia. imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto. Bentinho.. Ele é atendido.” Eu não sabia o que era oblíqua. . crescidos e sombrios.

Mas. Pedi-lhe que se sentasse. se quisesse. Uma ninfa! Todo eu estou mitológico. mas então com as mãos. é que nunca penteastes uma pequena. como podem supor os cabeleireiros de ofício. Sentou-se. colhi-os todos e entrei a alisá-los com o pente. Ainda há pouco. com muito cuidado. risquemos ninfa. falando dos seus olhos de ressaca. Os dedos roçavam na nuca da pequena ou nas espáduas vestidas de chita. enfim. mas ainda que fosse da mesma altura. por mais que eu os quisesse intermináveis. às vezes por desazo. . . que eram parte dela.que era capaz de os pentear. isso sim. Não pedi ao céu que eles fossem tão longos como os da Aurora. digamos somente uma criatura amada.Senta aqui. nem assim depressa. mas devagar. CAPÍTULO 33 O PENTEADO E Capitu deu-me as costas. risquei Tétis. “Vamos ver o grande cabeleireiro”. . e dividi-os em duas porções iguais.Vai embaraçar-me o cabelo todo. tecer duas tranças que pudessem envolver o infinito por um número inominável de vezes. O trabalho era atrapalhado. e disse-lhe. mas. . e a sensação era um deleite. porque não conhecia ainda esta divindade que os velhos poetas me apresentaram depois. disse-me rindo. Não as fiz logo. . palavra que envolve todas as potências cristãs e pagãs.Se embaraçar. Continuei a alisar os cabelos. você desembaraça depois. Se isto vos parecer enfático.Você? ..agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitu.Eu mesmo. Peguei-lhe dos cabelos. voltando-se para o espelho. nunca pusestes as mãos adolescentes na jovem cabeça de uma ninfa. desde a testa até as últimas pontas. os cabelos iam acabando. devagarinho.para dizer alguma coisa. outras de propósito para desfazer o feito e refazê-lo. desgraçado leitor. que lhe desciam à cintura. . saboreando pelo tato aqueles fios grossos. é melhor.Vamos ver. para compor as duas tranças. cheguei a escrever Tétis.. Enfim acabei as duas tranças.. Em pé não dava jeito: não esquecestes que ela era um nadinha mais alta que eu. desejei penteá-los por todos os séculos dos séculos. Onde estava a fita para atar-lhes as .

quando a mãe apontou à porta. . Em vez de ir ao espelho. mamãe? Isto? redargüiu Capitu. Juntei as pontas das tranças. uni-as por um laço. . o espaldar da cadeira era baixo. atordoado.Estará bom? .pontas Em cima da mesa. Capitu ergueu-se. de costas para mim. que ela explicou por estas palavras alegres: . até que exclamei: .Que tem? acudiu a mãe. transbordando de benevolência . nenhuma contração de acanhamento. Está muito bem. sem fala. Capitu! Não quis. eu desci os meus. pediu-me para acabar o penteado. Capitu derreou a cabeça. Nenhum laivo amarelo. alargando aqui. não achava gesto nem ímpeto que me descolasse da parede e me atirasse a ela com mil palavras cálidas e mimosas.Mamãe. Capitu compôs-se depressa. leitor precoce. era Dona Fortunata.. faltava-me língua. ainda que quisesse. machucar o pescoço. mamãe! E com um enfadamento gracioso e voluntário que às vezes tinha. Cheguei a dizer-lhe que estava feia. Inclinei-me depois sobre ela rosto a rosto. ninguém dirá que é de pessoa que não sabe pentear. eu recuei até à parede com uma espécie de vertigem. e fez isto. Grande foi a sensação do beijo. tão depressa que. podia ficar tonta. rápida. um triste pedaço de fita enxovalhada. os olhos escuros. e.Veja no espelho.Levanta. Des Grieux (e mais era Des Grieux) não pensava ainda na diferença dos sexos. Não mofes dos meus quinze anos. mas nem esta razão a moveu. pegou do . Não me atrevi a dizer nada. Ora. Quando eles me clarearam vi que Capitu tinha os seus no chão. os olhos de uma na linha da boca do outro. a tal ponto que me foi preciso acudir com as mãos e ampará-la. Pedi-lhe que levantasse a cabeça. retoquei a obra. Veja que tranças! .O que. e ficamos assim a olhar um para o outro... que pensais que fez Capitu? Não vos esqueçais que estava sentada. não levantou a cabeça. um riso espontâneo e claro. CAPÍTULO 34 SOU HOMEM! Ouvimos passos no corredor. mas trocados. olhe como este senhor cabeleireiro me penteou. ela abanava a cabeça e ria. Com dezessete. até que ela abrochou os lábios. Preso. desfazendo as tranças. achatando ali.Pronto! ..

embaixo dos meus. maluquices da filha. sem pensar. parece-me que desconfiou. não logravam romper de dentro.. sentei-me na cama. mas a filha não dizia nada. nada disso valeu a sensação do beijo. achou talvez que houvera entre nós algo mais que penteado. e logo perdia tudo para sentir somente os beiços de Capitu Sentia-os estirados. Não havia ninguém fora. repeti que era homem. e disse-me que não fizesse caso. recordando o penteado e o resto. um simples artigo. do cabimento. tinha uns esquecimentos em que perdia a consciência de mim e das coisas que me rodeavam. próximo ou remoto. igualmente esticados para os dela. e encheram-me a boca sem poder sair nenhuma. éramos dois e contrários.” Assim. e via a cama. e elas acudiram de pronto. a vista dos nossos nomes aberto por ela no muro do quintal deu-me grande abalo. Uma exclamação.com efeito. e corri à porta da alcova. murmurando: “Eis aqui um que não fará grande carreira no mundo. os livros. ouvia algum som de fora. vago.. o chão. Olhava com ternura para mim e para ela. Dona Fortunata tirou-me daquela hesitação. Voltei para dentro. Como eu quisesse falar também para disfarçar o meu estado. Colombo não o teve maior. mas não passei à sala da lição. por menos que as emoções o dominem. Ainda agora tenho o eco aos meus ouvidos. Depois. despedi-me e enfiei pelo corredor. a lição do velho coqueiro também. um almirante e um sol de outubro. E tornava a mim. por mais que investissem com força. baixinho. há em cada adolescente um mundo encoberto. Era uma saída. descobrindo a América. Tinha estremeções. O gosto que isto me deu foi enorme. Vendo-me calado.Sou homem! Supus que me tivessem ouvido. sem querer.. o Padre Cabral estava à minha espera. peguei dos livros. e unindo-se uns aos outros. Corri ao meu quarto. De repente. E todas as palavras recolheram-se ao coração.. ela encobrindo com a palavra o que eu publicava pelo silêncio. chamei algumas palavras cá de dentro. apanhados pela mãe. Andando. saiu-me da boca esta palavra de orgulho: . porque a palavra saiu em voz alta. cosido à parede. enfiado. não era nada. e. O beijo de Capitu fechava-me os lábios. A denúncia de José Dias alvoroçara-me. e perdoai a banalidade em favo.pente e alisou os cabelos para renovar o penteado. Dona Fortunata chamou-lhe tonta. nenhum me deslumbrou tanto. para viver não sei onde nem como. ouvi que a mãe censurava as maneira da filha. dizendo que minha mãe me mandara chamar para a lição de latim. as paredes. Podiam ser . mas de atropelo. Fiz outros achados mais tarde. e sorriu por dissimulação. como vistes.

monsenhores. eram os ossos da verdade. Não corri precisamente. muitas intelectuais. não eram a carne e o sangue dela.mentira ou ilusão. núncios. mas o susto que causaria a minha mãe fez-me rejeitá-la. Esta distinção do papa dera-lhe grande contentamento e a todos os nossos. Não. . vamos ver.Prepara-te. Outras tenho. a meio caminho parei. a que inteiramente me revelou a mim mesmo. a mais nova. bispos. de todas as daquele tempo creio que a mais doce é esta. peguei dos livros e corri à lição. Tio Cosme viu exalçar-se no parceiro de voltarete. é o passar e repassar das memórias antigas Ora. um pesadelo extinto. Grande homem que fosse. mas as honras dele. todos os meus nervos me disseram que homens não são padres. tinha. Tive idéia de mentir. advertindo que devia ser muito tarde. vastas e numerosas. a mais compreensiva. Tio Cosme e prima Justina repetiam o título com admiração. ninguém ralhou comigo. Outra vez senti os beiços de Capitu. conversavam ruidosamente. porém.Protonotário apostólico! E voltando-se para mim: . mas que era protonotário apostólico? O Padre Cabral explicou que não era propriamente o cargo da cúria. alegar uma vertigem que me houvesse deitado no chão. como que fundidas. não podiam dizer tudo. O Padre Cabral recebera na véspera um recado do internúncio.. As próprias mãos tocadas. mas a saudade é isto mesmo. Pensei em prometer algumas dezenas de padre-nossos. tu podes vir a ser protonotário apostólico . e soube que. e internúncios. mas como se pensa em perigo que passou. O sangue era da mesma opinião. pela terceira vez. e repetia: . foi ter com ele. Sendo verdade. CAPÍTULO 35 O PROTONOTÁRIO APOSTÓLICO Enfim. e podiam ler-me no semblante alguma coisa. ouvi vozes alegres. fui andando.Sou homem! Quando repeti isto. Bentinho. igualmente intensas. por decreto pontifício. acostumados a cônegos. doces também. de vária espécie. pensei no seminário. um mal abortado. Talvez abuso um pouco das reminiscências osculares.era a primeira vez que ele soavaaos nossos ouvidos. acabava de ser nomeado protonotário apostólico. Quando entrei na sala.. a recordação era menor que esta. outra promessa em aberto e outro favor pendente. apertadas.

posto que. No uso comum.isto o obriga a ir a Roma? . Conheci aqui o meu homem. cheia de amor e de tristeza. dava alguns passos. tem razão. Eu.Não tem que festejar a vadiação. Dona Justina.Sim. o latim sempre lhe há de ser preciso. Um beijo e férias! Creio que o meu rosto disse isto mesmo. aplaudia a distinção. O tamanho do título como que lhe dobrava a magnificência. Minha mãe sorriu para mim. Se a intenção do meu mestre de latim era ir acostumando ao uso do título com o nome. . são só as honras. assim de passagem. Protonotário apostólico.O protonotário Santiago. . os primeiros atos políticos de Pio IX.Justamente. José Dias.Não esqueça.Há de ser padre. que continuava a refletir. e padre bonito.não impede que nos casos de maior formalidade. . para ligá-lo ao nome.. Estava em pé. e acabou dando-me férias. e recordou. sacudindo a barriga. a propósito. protonotário Cabral.disse Cabral. que entrou pouco depois de mim. Era muita felicidade para uma só hora. entendi que devia cumprimentá-lo também. era demasiado comprido. voltando a mim do receio. Padre Cabral acudiu que não era preciso dizê-lo todo. atos públicos. Era a primeira palavra. .Agora.. não impede. . cartas de cerimônia. o que sei é que quando ouvi o meu nome ligado a . observou minha mãe. . assentiram todos. . mas respondeu logo: ..acudiu prima Justina para se ir acostumando ao uso do título. etc. mas José Dias corrigiu a alegria: . . grandes esperanças da Itália. e protonotário também. como para acostumar os ouvidos da família.Protonotário Cabral. e este aplauso não lhe foi menos ao coração que os outros. a semente lançada à terra.Não. . basta protonotário. chamou-me peralta. bastava que lhe chamassem o protonotário Cabral. se empregue o título inteiro: protonotário apostólico. . senhor protonotário. Bateu-me na bochecha paternalmente. mana Glória.Não. mas ninguém pegou do assunto.esta segunda reflexão foi tio Cosme que a fez. porque tio Cosme. Subentendia-se apostólico.Mas. acentuou Cabral. ainda que não venha a ser padre. não sei bem. sorria ou tamborilava na tampa da boceta. o principal da hora e do lugar era o meu velho mestre de latim.Cabral ouvia com gosto a repetição do título.

tal título, deu-me vontade de dizer um desaforo. Mas a vontade aqui foi
antes uma idéia, uma idéia sem língua, que se deixou ficar quieta e
muda, tal como daí a pouco outras idéias... Aliás essas pedem um
Capítulo especial. Rematemos este dizendo que o mestre de latim falou
algum tempo da minha ordenação eclesiástica, ainda que sem grande
interesse. Ele buscava um assunto alheio para se mostrar esquecido da
própria glória, mas era esta que o deslumbrava na ocasião. Era um velho
magro, sereno, dotado de qualidades boas. Alguns defeitos tinha; o mais
excelso deles era ser guloso, não propriamente glutão; comia pouco, mas
estimava o fino e o raro, e a nossa cozinha, se era simples, era menos
pobre que a dele. Assim, quando minha mãe lhe disse que viesse jantar, a
fim de se lhe fazer uma saúde, os olhos com que aceitou seriam de
protonotário, mas não eram apostólicos. E para agradar a minha mãe
novamente pegou em mim, descrevendo o meu futuro eclesiástico, e queria
saber se ia para o seminário agora, no ano próximo, e oferecia-se a
falar ao “senhor bispo”, tudo marchetado do “protonotário Santiago.”

CAPÍTULO 36
IDÉIA SEM PERNAS E IDÉIA SEM BRAÇOS
Deixe-os, a pretexto de brincar, e fui-me outra vez a pensar na aventura
da manhã. Era o que melhor podia fazer, sem latim, e até com latim. Ao
cabo de cinco minutos, lembrou-me ir correndo à casa vizinha, agarrar
Capitu, desfazer-lhe as tranças, refazê-las e concluí-las daquela
maneira particular, boca sobre boca. E isto vamos é isto... Idéia só!
idéia sem pernas! As outras pernas não queriam correr nem andar. Muito
depois é que saíram vagarosamente e levaram-me à casa de Capitu. Quando
ali cheguei, dei com ela na sala, na mesma sala, sentada na marquesa,
almofada no regaço, cosendo em paz. Não me olhou de rosto, mas a furto e
a medo, ou, se preferes a fraseologia do agregado, oblíqua e
dissimulada. As mãos pararam, depois de encravada a agulha no pano. Eu,
do lado oposto da mesa, não sabia que fizesse e outra vez me fugiram as
palavras que trazia Assim gastamos alguns minutos compridos, até que ela
deixou inteiramente a costura, ergueu-se e esperou-me. Fui ter com ela,
e perguntei se a mãe havia dito alguma coisa; respondeu-me que não A
boca com que respondeu era tal que cuido haver-me provocado um gesto de
aproximação. Certo é que Capitu recuou um pouco.
Era ocasião de pegá-la, puxá-la e beijá-la... Idéia só! idéia sem

braços! Os meus ficaram caídos e mortos. Não conhecia nada da Escritura.
Se conhecesse, é provável que o espírito de Satanás me fizesse dar à
língua mística do Cântico um sentido direto e natural. Então obedeceria
ao primeiro versículo: “Aplique ele os lábios, dando-me o ósculo da sua
boca”. E pelo que respeita aos braços, que tinha inertes, bastaria
cumprir o versículo seis do capítulo 2: “A sua mão esquerda se pôs já
debaixo da minha cabeça, e a sua mão direita me abraçará depois”. Vedes
aí a cronologia dos gestos. Era só executá-la; mas ainda que eu
conhecesse o texto, as atitudes de Capitu eram agora tão retraídas, que
não sei se não continuaria parado. Foi ela, entretanto, que me tirou
daquela situação.

CAPÍTULO 37
A ALMA E CHEIA DE MISTÉRIOS
- Padre Cabral estava esperando há muito tempo?
- Hoje não dei lição; tive férias.
Expliquei-lhe o motivo das férias. Contei-lhe também que o Padre Cabral
falara da minha entrada no seminário, apoiando a resolução de minha mãe,
e disse dele coisas feias e duras. Capitu refletiu algum tempo, e acabou
perguntando-me se podia ir cumprimentar o padre, à tarde em minha casa.
- Pode, mas para quê?
- Papai naturalmente há de querer ir também, mas é melhor que ele vá à
casa do padre, é mais bonito. Eu não, que já sou meia moça, concluiu rindo.
O riso animou-me. As palavras pareciam ser uma troça consigo mesma, uma
vez que, desde manhã, era mulher, como eu era homem. Achei-lhe graça, e,
para dizer tudo, quis provar-lhe que era moça inteira. Peguei-lhe
levemente na mão direita, depois na esquerda, e fiquei assim pasmado e
trêmulo. Era a idéia com mãos. Quis puxar as de Capitu, para obrigá-la a
vir atrás delas, mas ainda agora a ação não respondeu à intenção.
Contudo, achei-me forte e atrevido. Não imitava ninguém- não vivia com
rapazes, que me ensinassem anedotas de amor. Não conhecia a violação de
Lucrécia. Dos romanos apenas sabia que falavam pela artinha do Padre
Pereira e eram patrícios de Pôncio Pilatos. Não nego que o final do
penteado da manhã era um grande passo no caminho da movimentação
amorosa, mas o gesto de então foi justamente o contrário deste. De
manhã, ela derreou a cabeça, agora fugia-me; nem é só nisso que os
lances diferiam; em outro ponto, parecendo haver repetição, houve

contraste.
Penso que ameacei puxá-la a mim. Não juro, começava a estar tão
alvoroçado, que não pude ter toda a consciência dos meus atos; mas
concluo que sim, porque ela recuou e quis tirar as mãos das minhas;
depois, talvez por não poder recuar mais, colocou um dos pés adiante e o
outro atrás, e fugiu com o busto. Foi este gesto que me obrigou a
reter-lhe as mãos com força. O busto afinal cansou e cedeu, mas a cabeça
não quis ceder também, e caída para trás, inutilizava todos os meus
esforços, porque eu já fazia esforços, leitor amigo. Não conhecendo a
lição do Cântico, não me acudiu estender a mão esquerda por baixo da
cabeça dela; demais, este gesto supõe um acordo de vontades, e Capitu,
que me resistia agora, aproveitaria o gesto para arrancar-se à outra mão
e fugir-me inteiramente. Ficamos naquela luta, sem estrépito, porque
apesar do ataque e da defesa, não perdíamos a cautela necessária para
não sermos ouvidos lá de dentro; a alma é cheia de mistérios. Agora sei
que a puxava; a cabeça continuou a recuar; até que cansou; mas então foi
a vez da boca. A boca de Capitu iniciou um movimento inverso,
relativamente à minha, indo para um lado, quando eu a buscava do outro
oposto. Naquele desencontro estivemos, sem que ousasse um pouco mais, e
bastaria um pouco mais...
Nisto ouvimos bater à porta e falar no corredor. Era o pai de Capitu,
que voltava da repartição um pouco mais cedo, como usava às vezes.
“Abre, Nanata! Capitu, abre!” Aparentemente era o mesmo lance da manhã,
quando a mãe deu conosco, mas só aparentemente verdade, era outro.
Considerai que de manhã tudo estava acabado, e o passo de Dona Fortunata
foi um aviso para que nos compuséssemos. Agora lutávamos com as mãos
presas, e nada estava sequer começado.
Ouvimos o ferrolho da porta que dava para o corredor interno era a mãe
que abria. Eu, uma vez que confesso tudo, digo aqui que não tive tempo
de soltar as mãos da minha amiga; pensei nisso, cheguei a tentá-lo, mas
Capitu, antes que o pai acabasse de entrar, fez um gesto inesperado,
pousou a boca na minha boca, e deu de vontade o que estava a recusar à
força. Repito, a alma é cheia de mistérios.

CAPÍTULO 38
QUE SUSTO, MEU DEUS!
Quando Pádua, vindo pelo interior, entrou na sala de visitas, Capitu, em

meu Deus! Agora é que o lance é o mesmo. tais quais. e deu à cara um ar meio enfiado. Como desse a este duas vezes em cinco minutos. . ou dois lances de há quarenta anos. Cabral ouviu as palavras de Capitu com infinito prazer. O alvoroço da primeira hora é melhor. inclinada sobre a costura. deteve-se um instante à porta da sala antes de ir beijar a mão a minha mãe e ao padre. Capitu. E coligindo os petrechos da costura.Que susto. o título de protonotário.Obrigado. mas eu. traz sensações mais íntimas e finas que qualquer outro. Foi logo falar ao pai. como a recolhê-la. perguntava em voz alta: . enfiou pelo corredor. que apertou a minha mão. o pai não lhe meteu mais medo. que é protonotário apostólico? .pé. um parabém da flora universal. No meio de uma situação que me atava a língua. usava da palavra com a maior ingenuidade deste mundo. vivam! exclamou o pai. que sabia tudo. é para mostrar que Capitu não se dominava só em presença da mãe. Capitu repetiu-lhe o que ouvira de mim. Papai está bom? E mamãe? A você não se pergunta. jantar. Alegou susto. bradando infantilmente: . muito obrigado. A minha persuasão é que coração não lhe batia mais nem menos.essa cara é mesmo de quem vende saúde. ela iria à minha.Mas. estimo que você goste também. fez um pequeno discurso em honra “ao coração paternal e . vi que era mentira e fiquei com inveja. Bentinho. esse estado da alma que vê na inclinação do arbusto. E como vamos de rezas? A todas as perguntas Capitu ia respondendo prontamente e bem trazia um vestidinho melhor e os sapatos de sair. e quis saber por que a filha falava em protonotário apostólico.Mamãe. de costas para mim. papai chegou! CAPÍTULO 39 A VOCAÇÃO Padre Cabral estava naquela primeira hora das honras em que as mínimas congratulações valem por odes. cara morta. sem agradecimentos. . Tempo chega em que os dignificados recebem os louvores como um tributo usual. Não entrou com a familiaridade do costume. tocado do vento.Ora. José Dias para se desforrar da concorrência. mas se conto aqui. e opinou logo que o pai devia ir cumprimentar o padre em casa dele.

um jovem pode muito bem estudar as letras humanas. a quem contara ultimamente a promessa de minha mãe. mas o que eu digo é outra coisa. . e que eu não mudava de vocação.Homem. Padre Cabral confirmou os louvores do agregado. é a melhor. . pode-se ou não se pode? . Prima Justina interveio: . José. mas o poder de Deus é soberano. e são sempre melhor ensinadas naquelas casas. e eu adorava os ofícios divinos. Sem vocação é que não há bom padre.Como? Então pode-se entrar para o seminário e não sair padre? Padre Cabral respondeu que sim. teimou com meu pai para que me metesse no seminário. .Pois então? exclamou José Dias triunfalmente. e ele sai apóstolo.Perfeitamente.Não contesto. contanto que o sacerdote venha já destinado do berço. veja São Paulo. tomei tal gosto aos estudos e à companhia dos padres. como todos devemos. . Um homem pode não ter gosto à igreja e até persegui-la. mas vocação não é só do berço que se traz.A vocação é tudo.Um moço sem gosto nenhum à vida eclesiástica pode acabar por ser muito bom padre. que era manifesta. Não havendo vocação. e em qualquer profissão liberal se serve a Deus. Não me quero dar por modelo.” . quando ele acabou José Dias sorriu sem vexame. meu pai cedeu. que também são úteis e honradas. senhor. tudo é que Deus o determine. Cabral acrescentou que o reitor de S. falo de vocação sincera e real.Pode-se. Mas. piscando-me o olho. falou da minha vocação. que era coadjutor de Santa Rita. e. Padre Cabral retorquia: . que acabei ordenando-me.A vocação é muito. .augustíssimo de Pio IX.Você é um grande prosa. mas aqui estou eu que nasci com a vocação da medicina. suponha que não acontecia assim. concluiu: . todas as crianças do meu tempo eram devotas. sem os seus superlativos. O estado eclesiástico é perfeitíssimo. O que eu digo é que se pode muito bem servir a Deus sem ser padre cá fora. os meus brinquedos foram sempre de igreja. o que é que acontecia? Tinha estudado no seminário algumas matérias que é bom saber.meu padrinho. voltando-se para mim. que se podia. e um dia a voz de Deus lhe fala. . disse tio Cosme. olhando em volta de si. ao que este acrescentou que o Cardeal Mastai evidentemente fora talhado para a tiara desde o princípio dos tempos. A prova não provava. E. Pois.

Não deixou minha mãe. . Uma preta. quase às escuras. . entrar no quintal. senhor protonotário. não atendia aos olhos ansiosos que eu lhe mandava. . vendo-nos naquela atitude.Não precisa. cosida às saias de minha mãe. Adeus. Capitu segredou-me que a escrava desconfiara. sozinhos. que cuidei simulada.Mas eu queria dizer a você. todos os impulsos da idade e da ocasião eram atravessá-la de todo. também não parecia escutar a conversação sobre o seminário e suas conseqüências. dar-lhe terceiro beijo. e ficássemos à vontade.Fica! Falava baixinho. não.tinha o meu nascimento por milagre. é claro que o meu dever. mas. que veio de dentro acender o lampião do corredor.. Duas vezes fui à janela. mas Capitu não me apareceu. não. pregado. Novamente me intimou que ficasse. Não me importou a recusa. esperando que ela fosse também.Não venha. se acabasse.. aliás. . estacou e fez-me sinal que voltasse. despediu-se. . Já conheceis as minhas fantasias. pegou-me na mão. A imaginação foi . e despedir-me. riu de simpatia e murmurou em tom que ouvíssemos alguma coisa que não entendi bem nem mal. agarrado ao chão. e pôs o dedo na mão. e enfiei pelo corredor. Eram ave-marias. como vim a saber depois. disse-vos a desta casa de Engenho Novo. disse minha mãe.. amanhã falaremos.. refleti algum tempo. Não obedeci.Escuta! .. acudiu ela rindo. o meu gosto. decorou o principal. Bentinho. descer à chácara. e ia talvez contar às outras. e. até acabar o mundo. e retirou-se.Adeus. senão para ir embora. Capitu. Contei-vos a da visita imperial.. e tive uma fantasia. Dona Glória.Amanhã. reproduzindo a de Mata-cavalos. eu sei o caminho. Capitu. CAPÍTULO 40 UMA ÉGUA Ficando só. . ele era da mesma opinião. Capitu que ia depressa. Tendo dado um passo no sentido de atravessar a sala. cheguei-me a ela. seguir a vizinha corredor fora. . eu deixei-me estar parado.Vai com ela.

Que é? Toda assustada.” CAPÍTULO 41 A AUDIÊNCIA SECRETA O resto fez-me ficar mais algum tempo. ao passo que me assustava. mamãe assusta-se por tudo. . acenda vela. senhora. .a companheira de toda a minha existência.Não.. senhora. não é coisa de cuidado.Não. escute. isso é volta de constipação. é melhor depois do chá. a menor brisa lhe dava um potro. A fantasia daquela hora foi confessar a minha mãe os meus amores para lhe dizer que não tinha vocação eclesiástica. . Mas. Vi entrar o Doutor João da Costa.Não é moléstia? . olhe. rápida. levou-me ao quarto dela. no corredor. se ela duvidar. quis saber o que é que me doía. “Sim.Mas então que é? . que entendeu guardar essa crendice nos seus livros. foi noutro autor antigo. Então eu perguntei-lhe. conhece-se pela voz. .. conto-lhe o que se passou outro dia. para mostrar que não tinha nada.. correndo.É uma coisa. e ordenou-me que lhe dissesse tudo. Disfarças para não tomar suadouro. E quase investindo para ela: . alguma vez tímida e amiga de empacar. e apalpava-me a testa para ver se tinha febre. o penteado e o resto. eu queria dizer-lhe uma coisa. a minha imaginação era uma grande égua ibera. mas deixemos metáforas atrevidas e impróprias dos meus quinze anos. pensei. viva. inquieta. dando comigo.. Creio haver lido em Tácito que as éguas iberas concebiam pelo vento. vou dizer a mamãe que não tenho vocação. senhora. pegou em mim. e preparou-se logo o voltarete do costume. A conversa sobre vocação tornava-me agora toda inteira. E. e.É. abria-me uma porta de saída. e confesso o nosso namoro. mamãe. Tentei rir. é isto.. Nem por isso permitiu adiar a confidência. se o estômago. perguntou se acompanhara Capitu. mas tu estás constipado.Mamãe. Neste particular. Minha mãe saiu da sala. se o peito. Não é nada mau. que saía logo cavalo de Alexandre.. as mais delas capaz de engolir campanhas e campanhas. ela foi só. Digamos o caso simplesmente. . para . se não foi nele. se a cabeça. .Não tenho nada não. logo. pensando.

E depois. para ficar? .principiar.. mas creio que a voz lhe tremia. A verdade é que minha mãe era cândida como a primeira aurora. Não houve cálculo nesta palavra. ainda falou gravemente e longamente sobre a promessa que fizera.Agora só para o ano.Mas tu gostavas tanto de ser padre. nem por simples intuição era capaz de deduzir uma coisa de outra. desviava as suspeitas de cima de Capitu. Bentinho. tu rias com tanto gosto! Como é que agora?. Calou-se durante alguns instantes. e pareceu-me que tinha os olhos úmidos. Ela afagou-me.. Disse-lhe que também sentia a nossa separação. por fazer crer que ela era a minha única afeição. Enxuguei os olhos e o nariz. disse ela. e que eu confessei não sentir em mim. quando é que ia para o seminário. continuou repetindo as reflexões que ouvira ao meu professor de latim. o que me veio animando à resistência. quando José Dias te chamava Reverendíssimo. Por outro lado. Quando te ordenares padre.Não volto para casa? .. a meio caminho. depois replicou-me sem imposição nem autoridade. Em pouco tempo eu me acostumaria aos companheiros e aos mestres.Vou. Vocação? Mas a vocação vem com o costume. é melhor. Não creio.. Como eu buscasse contestá-la. quando havia chamado minha mãe justamente para confirmá-las. nota que eu queria desviar as suspeitas de cima de Capitu. . depois das férias. anterior ao primeiro pecado. Daí o falar-lhe na vocação que se discutira naquela tarde. não me disse as . . por causa dos estudos. Depois. Negou que fosse separação. não. Quantas intenções viciosas há assim que embarcam. leitor amigo. com as suas batinas? Em casa. e acabaria gostando de viver com eles.Como ficar? . isto é.. não te lembras que até pedias para ir ver sair os seminaristas de São José. não concluiria da minha repentina oposição que eu andasse em segredinhos com Capitu. mas estimei dizê-la. e eu tornei ao filho submisso que era. como lhe dissera José Dias. era só alguma ausência. numa frase inocente e pura! Chega a fazer suspeitar que a mentira é muita vez tão involuntária como a transpiração.Eu só gosto de mamãe. repreendeu-me sem aspereza. depois quis repreender-me. vens morar comigo.. só os primeiros dias. mas as contradições são deste mundo. .Voltas aos sábados e pelas férias. . mas com alguma força.

Bentinho. um tio meu também foi padre.Nosso Senhor me acudiu. é bonito. saímos ambos. não lhe hei de mentir nem faltar. dizem. e quase a vi saltar-me ao colo e dizer-me que não seria padre. e a voz não lhe saía clara. é tarde. Bentinho.. e Deus que é grande e poderoso.. Creio que os olhos que lhe deitei foram tão queixosos que ela emendou logo a palavra. manha. Estás tonto. No seminário há interesse em conhecer-te. mas é inútil. que vive tão feliz com a irmã. Caminhou para a porta.Não. não. vamos para a sala. irás para o seminário. Antes de sair. isto é.. Bentinho. Bentinho? E como havia de saber que Deus me dispensava? . em pagamento a Deus.E se mamãe pedisse a Deus que a dispensasse da promessa? . à proporção que se aproximava o tempo. não podia ser manha. . Moleza é o que queria dizer. que valesse tanto ou mais. sabia muito bem que eu era amigo dela. que me fizesse homem e obedecesse ao que cumpria. meu filho. porque o Padre Cabral fala de ti com entusiasmo. que me deixas de moleza. . não me deixaria assim. voltou-se para mim.circunstâncias nem a ocasião. em benefício dela e para bem da minha alma.. Ser padre é bom e santo. que a havia de cumprir. e escapou de ser bispo. Afirmou o principal. Quisera um modo de pagar a dívida contraída. nem os motivos dela. eu sonho às vezes com anjos e santos. você conhece muitos. outra moeda. não. salvando a tua existência. coisas que só vim a saber mais tarde. e não seria capaz de fingir um sentimento que não tivesse. O que eu quero é que saibas bem os livros que estás estudando.Também eu. e aventurei-me a perguntar-lhe: . Vamos. Todas essas coisas e outras foram ditas um pouco atropeladamente. CAPÍTULO 42 CAPITU REFLETINDO . como o Padre Cabral. não só para ti. Está entendido: no primeiro ou no segundo mês do ano que vem. são coisas que não se fazem sem pecado. não peço. mas velada e esganada. e não achava nenhuma. Deixa de manha. mas não recuava dos seus propósitos. Este era já o seu desejo íntimo. como para o Padre Cabral. eu sei que seria castigada e bem castigada.Talvez em sonho. Vi que a emoção dela era outra vez grande.

acrescentando que passara mal por causa do que ouvira em minha casa. a entrevista com minha mãe. duas moscas andando e um pé de cadeira lascada. a verdade das verdades. como prestes a estalar de cólera. aquela de quinze. E como desatasse o lenço. Que faríamos agora? Capitu ouvia-me com atenção sôfrega..ela olhava para o chão. não quisera ter ouvido um desengano que eu reputava certo. vi que não se mexia. Ficamos sós na sala. logo que pude. Satisfi-la. Capitu despedia-se de três amigas que tinham ido visitá-la. Paula e Sancha.. Quando tornei a olhar para Capitu. ou se somente enxugou os olhos. Estava abatida. CAPÍTULO 43 VOCÊ TEM MEDO? . respirava a custo. na sala e na cama.Se eu acendesse vela. Agora. quando acabei.. até muito depois da meia-noite. e fiquei com tal medo que a sacudi brandamente. Vendo-lhe o gesto peguei-lhe na mão para animá-la. e ficamos a olhar para o ar. examinando bem. Também eu lhe contei o que se dera comigo. companheiras de colégio. trazia um lenço atado na cabeça. Minto. logo que a vi assim. Caímos no canapé. Já estou boa. Capitu refletia. e por fim as últimas respostas decisivas: dentro de dois ou três meses iria para o seminário. enquanto que eu fitava deveras o chão. estava boa. para não amofiná-la. cuido que os enxugou somente. antes e depois do chá. a mãe contou-me que fora excesso de leitura na véspera. atenuando o texto desta vez. mas também eu precisava ser animado. Era pouco. mas distraía-me da aflição.. é que já me arrependia de haver falado a minha mãe. chama-me compassivo. refletia. mas conteve-se. Não me chames dissimulado. Há tanto tempo que isto sucedeu que não posso dizer com segurança se chorou deveras. Mas eu creio que Capitu olhava para dentro de si mesma. esta de dezessete anos” primeira filha de um médico. ainda que demorado. as minhas súplicas. e com lamparina. a mãe disse-lhe timidamente que era melhor atá-lo... . mamãe zangava-se. as lágrimas dela. mas Capitu respondeu que não era preciso. Capitu confirmou a narração da mãe. antes de qualquer trabalho efetivo por parte de José Dias. Fiz o mesmo. refletia.No dia seguinte fui à casa vizinha. a segunda de um comerciante de objetos americanos. se lhe morressem as esperanças todas. é certo que receava perder Capitu. depois sombria. a verdade última. o roído das fendas. mas doía-me vê-la padecer. Capitu tornou cá para fora e pediu-me que outra vez lhe contasse o que se passara com minha mãe.

com um gesto cheio de graça. O erro de Capitu foi não deixá-los crescer infinitamente.De repente. fitou em mim os olhos de ressaca. em todo caso. e perguntou-me se tinha medo. entenderia. entrei a cogitar donde me viriam pancadas.Tem razão.. Fez o que disse. Capitu tornou ao que era.Mas. vaga e solta. mas.. e disse: . sentados sobre a borda do poço. . sem que os olhos de ressaca de Capitu deixassem de crescer para mim.. acompanhou-me ao quintal para se despedir de mim. Não é nada. nenhum de nós tem vontade de brincar.Medo? . .Medo de apanhar. a tal ponto que as fizeram esquecer de todo. Pois quem é que há de dar pancada ao prender você? Desculpe que eu hoje estou meia maluca. e. não querendo interrogá-la novamente.Não. você não está brincando. . e por que. Mas aquela pergunta assim. e também por que é que seria preso. e. antes diminuir até às dimensões normais. e atou o lenço outra vez na testa. até logo.. bateu-me na cara..Sim.Medroso! . Sem saber de mim. não pude atinar o que era. não precisava afligir-me.Medo de quê? . Todas essas belas instituições sociais me envolviam no seu mistério. Ventava. pergunto se você tem medo. . o . Em seguida.Como até logo? .Está-me voltando a dor de cabeça. de brigar. Valha-me Deus! vi de imaginação o aljube. nesta ocasião.Apanhar de quem? Quem é que me dá pancada? Capitu fez um gesto de impaciência. De apanhar? .. ainda aí nos detivemos por alguns minutos.. Os olhos de ressaca não se mexiam e pareciam crescer. de ser preso. e quem é que me havia de prender. . de trabalhar. cessando a reflexão. Bentinho. disse-me que estava brincando.Sim. vou botar uma rodela de limão nas fontes. sorrindo. foi só maluquice. Também vi a presiganga. . e. Não entendi. não entendo. Capitu. quero brincar. uma casa escura e infecta. o quartel dos Barbonos e a Casa de Correção. Se ela me tem dito simplesmente: “Vamos embora!” pode ser que eu obedecesse ou não. e dar-lhe o movimento do costume. .Eu? Mas. de andar..

. A voz. era uma das suas diversões. se você não vier logo.Você deixa seminário. mas para que escolher? Mamãe não é capaz de me perguntar isso. como de um fato certo e definitivo.Ou que me mato de saudades.. Suponha você que está no seminário e recebe a notícia de que eu vou morrer. e sua mãe não quiser que você venha. inclinei-me e li: mentiroso. que não achei resposta.Diga-me uma coisa.Que é? Diga. .Contra a ordem de sua mãe? . você vem? . perguntou-me: . CAPÍTULO 44 O PRIMEIRO FILHO . Capitu falou novamente da nossa separação.. a quem é que escolhia? .. um tanto sumida. deixe escrever uma coisa.Venho. há de responder com o coração na mão. quando não falava. . Não atinava com a . diga-me. . por mais que eu. Desde que se metera a desenhar. Como me lembrassem os nossos nomes abertos por ela no muro. buscasse agora razões para animá-la.Eu escolhia. mas eu pergunto.céu estava coberto. . levantou o olhar. oblíquo e dissimulado. receoso disso mesmo. Não me ouviu ou não me atendeu. e pedi-lhe a taquara.. deixa sua mãe. deixa tudo. mas fale verdade. Capitu olhou para mim.Eu? Fez-me sinal que sim. .Se você tivesse de escolher entre mim e sua mãe. quis fazer o mesmo no chão.. sem levantar os olhos.Pois sim.Não fale em morrer.Dê cá. narizes e perfis.Não diga isso! . . mas de um modo que me fez lembrar a definição de José Dias. Capita. Capitu! Capitu teve um risinho descorado e incrédulo... e com a taquara escreveu uma palavra no chão. riscava no chão. tudo lhe servia de papel e lápis. não quero disfarce. com um pedaço de taquara.Contra a ordem de mamãe. para me ver morrer? . Era tão estranho tudo aquilo.

. . se éramos sós? Dona Fortunata chegara uma vez à porta da casa. do lado da casa o chilrear dos passarinhos do Pádua. na rua um tropel de bestas. e o sangue correndo. . mas até me pareceu que repercutia no ar. comece pelas meias pretas. não há dúvida. Pater noster. mas com uma condição. disse-lhe que. ninguém mais. depois virão as roxas. Se me acudisse ali uma injúria grande ou pequena.Pois sim. O que eu não quero perder é a sua missa nova. mas eu sentia a secreta esperança de vê-la atirar-se a mim lavada em lágrimas. Como desforço. . . uma moça que morou na Rua de Mata-cavalos.Padre é bom. Mas talvez nesse tempo a moda seja outra. “ . a graça de um e a prontidão de outro. Hei de fazer um figurão. Nada mais. e acabou por dizer: . disse-lhe eu mordendo os beiços. A solidão era completa. Capitu limitou-se a arregalar muito os olhos. Quem. a vida de padre não era má. metido na alva. era pueril. afinal de contas. Tinha a cabeça vazia.. mas entrou logo depois. você ouvirá a minha missa nova. Lembra-me que umas andorinhas passaram por cima do quintal e foram para os lados do morro de Santa Teresa. Ao mesmo tempo tomei-me de receio de que alguém nos pudesse ouvir ou ler. com a capa de ouro por cima. e eu podia aceitá-la sem grande pena. é melhor cônego. com a mesma taquara. . . Tive então uma idéia ruim. como não atinava com a do falado. O roxo é cor muito bonita.“Aquela é Dona Capitolina. Ao longe. Ah! como eu sinto não ser um poeta romântico para dizer que isto era um duelo de ironias! Contaria os meus botes e os dela.Que morou? Você vai mudar-se? . cantando. mas não me lembrava nada. ou somente este fenômeno curioso. é possível que a escrevesse também. Qualquer serve. mas tornando logo ao sarcasmo: E você no altar.. contanto que eu ouça a missa nova. Muita gente há de perguntar: “Quem é aquela moça faceira que ali está com um vestido tão bonito?”.razão do escrito.. Francisco. Pensando bem. melhor que padre só cônego. A igreja há de ser grande. não só me espiava do chão com gesto escarninho. e o furor na alma.Mas não se pode ser cônego sem ser primeiramente padre. Capitu. por causa das meias roxas.Bem... que o nome escrito por ela. vozes vagas e confusas. Carmo ou S. . avise-me a tempo para fazer um vestido à moda saia balão e babados grandes.Candelária também.Ou Candelária.Quem sabe onde é que há de morar amanhã? disse ela com um tom leve de melancolia. até ao meu golpe final que foi este: .

o casamento dela com outro.Que é? . leva muitos anos. Logo depois fez descair os lábios.Diga se promete.Não sabendo o que é.Ao que ela respondeu: ..A primeira é que só se há de confessar comigo. Percorreu-me um fluido. e antes não me chegasse a sair da boca: não ouviria o que ouvi.Promete uma coisa? .A falar verdade são duas coisas... . . o primeiro filho de Capitu. a perda.Não.. A segunda é que. prometo que há de batizar o meu primeiro filho.Duas? Diga quais são. como se fosse a primeira boneca. é que. não há nada mais exato. sem crer por isso na veracidade do autor. a separação absoluta. Todavia. disse.. Falou do primeiro filho. e não escreveria aqui uma coisa que vai talvez achar incrédulos.. se também foi grande.. fio que torne a pegar do livro e que o abra na mesma página. .Que me case? disse ela um tanto comovida. continuei eu. portanto. não prometo. . veio de mistura com uma sensação esquisita. e abanou a cabeça.. .. . Bentinho. Quanto ao meu espanto. faça todos os gestos de incredulidade. CAPÍTULO 45 ABANE A CABEÇA. se o não fez antes e só agora. para eu lhe dar a penitência e a absolvição. LEITOR Abane a cabeça leitor.Vossa Reverendíssima pode falar. com tais palavras e maneiras. Olhe. Palavra que me custou. e acrescentou que esperava a segunda. .A primeira está prometida. a aniquilação.A segunda. Foi assim mesmo que Capitu falou. Mas. Aquela ameaça de um primeiro filho. se o tédio já o não obrigou a isso antes tudo é possível. sim. por haver-me acudido outra idéia. seria esperar muito tempo. prometo outra coisa. tudo isso produzia um tal . Promete-me que seja eu o padre que case você? . você não vai ser padre já amanhã.. disse ela vendo-me hesitar. Chegue a deitar fora este livro. .

se nem me deixou tempo de puxar o braço. mas não... como eu estivesse cabisbaixo. acabou. depois de alguma hesitação. e finalmente “os seus calundus. que não achei palavra nem gesto fiquei estúpido. Era amor puro. CAPÍTULO 47 “A SENHORA SAIU” . era a ternura da reconciliação.. que era muito chorão por esse tempo. que se dizem de tropel. não sei para que. Podia ser um simples descargo de consciência. Foi por causa do seminário? . Capitu não . e diria que as negociações partiram de mim. Capitu alegava a insônia. Não? Eu também não creio. ouvi dizer que lá dão pancada. e pedíamos reciprocamente perdão.” Eu.. nem sei se iria. a dor de cabeça. e. respondeu Capitu. mas voltando os olhos para cima a fim de ver os meus. Outra vez Dona Fortunata apareceu à porta da casa.. desapareceu logo. Para que bulir nisso? . Se.. por que é que você me perguntou se eu tinha medo de apanhar? . foi ela que as iniciou. Buscasse eu neste livro a minha glória. era efeito dos padecimentos da amiguinha. não tinha outra.. sem devoção. mas. o abatimento do espírito. CAPÍTULO 46 AS PAZES As Pazes fizeram-se como a guerra. mas nem me levantei. explique-me só uma coisa.. como penso.Não foi por nada. passei-lhe o braço pela cintura.Foi..Diga sempre.. disse eu finalmente.. eu via o primeiro filho brincando no chão. O bonito é que cada um de nós queria agora as culpas para si. Alguns instantes depois. Fiz-me de rogado. depois quis levantar-me para ir embora. como as rezas de obrigação. o meu braço continuou a apertar a cintura da filha. uma cerimônia. Capitu sorria. Capitu fitou-me uns olhos tão ternos. ela abaixou também a cabeça.efeito.. que me deixei ficar. sentia os olhos molhados. e foi assim que nos pacificamos. Fosse o que fosse. A explicação agradou-me. a não ser que fosse para certificar aos próprios olhos a realidade que o coração lhe dizia. e a posição os fazia tão súplices.Está bom. ela pegou-me na ponta dos dedos. depressa.

.. juro por Deus Nosso Senhor que só me casarei com você. Você jura uma coisa? lura que só há de casar comigo? Capitu não hesitou em jurar. quando a senhora não quer falar a ninguém. durante os quais refleti muito e acabei por uma idéia.. não casando nunca. juremos que nos havemos de casar um com outro. .Ainda que você case com outra. continuei. porém. Bem.Não há de ser assim. Jurou duas vezes e uma terceira: . ficou em casa. o tom da exclamação.Tudo pode ser. os nossos temores. força é reconhecer que não podia dizê-la. melhor que a ama. Sim. achei a criada galante. As andorinhas vinham agora em sentido contrário. começando já a somar as nossas saudades. Dizem que não estamos em idade de casar. Quem sou eu para você lembrar-se de mim nessa ocasião? .. E eu não desci triste nem zangado. .Devia bastar. Nós é que éramos os mesmos. foi tão alto que espantou a minha vizinha. apetecível. Basta isto? . disse ela. Há nessa cumplicidade um gosto particular.Que eu case com outra? . e até lhe vi as faces vermelhas de prazer. CAPÍTULO 48 JURAMENTO DO POÇO . eu não me atrevo a pedir mais. no coração de Capitu. ali ficamos somando as nossas ilusões.Mas eu também juro! Juro. não contando o prazer que dá a cara das visitas enganadas.Não quê? Tinha havido alguns minutos de silêncio.disse a verdade. cumprirei o meu juramento. Capitu. .. apaixonar-se por ela e casar. Mas juremos por outro modo. o pecado em comum iguala por instantes a condição das pessoas. haja o que houver. Bentinho.. e a mentira é dessas criadas que se dão pressa em responder às visitas que “a senhora saiu”. Você pode achar outra moça que lhe queira. ou não seriam as mesmas. que somos crianças. mas dois ou três anos passam depressa.já ouvi dizer criançolas. cochilando o seu arrependimento. você jura. e as costas com que elas descem. criançolas.Não! exclamei de repente. A verdade não saiu.

tínhamos o céu por testemunha. Realmente. na minha opinião. de jacarandá. era a afirmação do matrimônio. Viríamos aqui uma vez por ano. Havíamos de acender uma vela aos sábados. que era o melhor.Compreendeis a diferença. A cabeça da minha amiga sabia pensar claro e depressa. . não tomo ordens. a fórmula anterior era limitada. piloto de má morte. um meio-termo. Não afligíamos minha mãe. havíamos de ter um oratório bonito. seria longe. Podíamos acabar solteirões. Esta fórmula era melhor.. era mais que a eleição do cônjuge. na roça ou fora da cidade. Éramos religiosos. Eu prometia à minha esposa uma vida sossegada e bela. plantei-lhe flores. Capitu temia a nossa separação. não devia ser grande nem pequena. e o tempo correria até o ponto em que o casamento pudesse fazer-se. com a imagem de Nossa Senhora da Conceição. mas acabou aceitando este alvitre. CAPÍTULO 50 . apenas exclusiva. após tantas canseiras.Se teimarem muito. entramos a falar do futuro. não se navegam corações como os outros mares deste mundo. irei. alto. em parte para compensar a batina que eu ia deitar às urtigas. uma sege e um oratório. escolhi móveis. mas faço de conta que é um colégio qualquer. e tinha? a vantagem de me fortalecer o coração contra a investidura eclesiástica. como o sol e a lua. Se fosse em arrabalde. qualquer resistência ao seminário confirmaria a denúncia de José Dias. sem mentir ao juramento do poço. Esta reflexão não foi minha. A casa. Não nos censures.. tocávamos o porto a que nos devíamos ter abrigado logo. CAPÍTULO 49 UMA VELA AOS SÁBADOS Eis aqui como. Estávamos contentes. mas dela. Eu nem já temia o seminário. Juramos pela segunda fórmula. onde. Sim. em parte porque éramos religiosos. e ficamos tão felizes que todo receio de perigo desapareceu. Demorei-me mais nisto que no resto. ninguém nos fosse aborrecer.mas ainda restava uma parte que atribuo ao intuito secreto e inconsciente de captar a proteção do céu. Ao contrário.

Suponha que Nosso Senhor nega disposição a seu filho. eu não revelasse vocação eclesiástica. uma vocação que Nosso Senhor lhe recusou. não tendo alcançado ir comigo para a Europa. e disse-lhe que já sabia disso por mim mesmo. no fim de um ano as coisas estariam mudadas. Não foi ainda a nossa despedida. padeci muito. tudo é infinito.. Era uma concessão do padre. Fez-lhe tão bem este tratamento de filha (era a primeira vez que minha mãe lhe dava). Há nisto alguma exageração. o melhor remédio é a Europa. por um modo que pede Capítulo especial. disse ele. Dava a minha mãe um perdão antecipado. como diz o padre. O que . aos quinze anos. demais. só lhe parecia que um ano era bastante. por mais preparado que estivesse. quando minha mãe lhe anunciou a minha ida definitiva para o seminário: . A senhora não podia pôr em seu filho. que nem teve tempo de ficar triste. piscando-me o olho. somaria mais que todas as vertidas desde Adão e Eva. mas a boca disse que não. fazendo vir do credor a relevação da dívida. e nesse caso. Realmente. se não vier em um ano. e que o costume do seminário não lhe dá o gosto que me concedeu a mim.UM MEIO-TERMO Meses depois fui para o seminário de S. é que a vontade divina é outra.. Também. Há de ser um padre de mão-cheia. agarrou-se ao mais próximo. se eu me ativer só à lembrança da sensação. em particular: . José.Minha filha. meu amiguinho. esta fez-se na véspera. uma ou outra vez. Entretanto. Os olhos dela brilharam. Se não sentir gosto nenhum. não fico longe da verdade. o Padre Cabral achara um meio-termo. E a mim. você vai perder o seu companheiro de criança. José Dias. Minha mãe também padeceu. e apoiou o “alvitre do senhor protonotário”. Em particular animou-me a suportar tudo com paciência. Capitu deu-me igual conselho. se no fim de dois anos. seguiria outra carreira.. experimentar-me a vocação. beijou-lhe a mão.As promessas devem ser cumpridas conforme Deus quer.Vá por um ano. mais tarde.. e um ano andava depressa. mas sofria com alma e coração. para compensar este escrúpulo de exatidão que me aflige.. que dentro de um ano a vocação eclesiástica do nosso Bentinho se manifesta clara e decisiva. é que Deus não quer. . Se eu pudesse contar as lágrimas que chorei na véspera e na manhã. . um ano passa depressa. mas é bom ser enfático. antes de nascido.Estou certo..

eu era puro. fica. e antes dela a vocação.. foi o mais que pôde.unicamente digo aqui é que. Eu não ia mentir ao seminário. como a pequena lhe pedia. uma vez que levava um contrato feito no próprio cartório do céu. Nem durou muito a nossa despedida. depois de algumas hesitações. para lhe dar um retrato. a buscar de aparência a investidura sacerdotal. tudo há de ser breve como esse instante. Tudo isto me lembra a nossa despedida. E desde já fica. Quanto ao selo. quando recebeu o mimo. Deus. ela ia prendendo minha mãe. nem de ressaca. como fez as mãos limpas. Não consentiu em fotografar-se.. deu-lhe um anel dos seus e algumas galanterias. como no quintal. porque. Beijou o retrato com paixão. O que o mandamento divino quer é que não juremos em vão pelo santo nome de Deus. Oh! minha doce companheira da meninice. aí é que nos despedimos de uma vez. e igualmente sensível. feita aos vinte e cinco anos. Entrou a achar em Capitu uma porção de graças novas. se pensar. e puro entrei na aula de S. CAPÍTULO 52 O VELHO PÁDUA Já agora conto também os adeuses do velho Pádua. de dotes finos e raros. assim fez os lábios limpos. foi a conjunção das nossas bocas amorosas. não eram oblíquos.. em verdade.. Mas a vocação eras tu. tanto se doía como se aprazia de qualquer coisa. José. Os olhos de Capitu. fez-se mais assídua e terna. Logo cedo veio à nossa . em casa dela. CAPÍTULO 51 ENTRE LUZ E FUSCO Entre luz e fusco. eram direitos. a investidura eras tu. claros. antes do acender das velas. e. e puro fiquei. lúcidos. resolveu dar-lha. se até lá não pensar de outra maneira. Talvez risque isto na impressão. ao passo que nos prendíamos um ao outro. Minha mãe era de natural simpático. na sala de visitas. minha mãe fez-lhe a mesma coisa a ela. mas tinha uma miniatura. e a malícia está antes na tua cabeça perversa que na daquele casal de adolescentes. e não foi só o aperto de mão que selou o contrato. não se descrevem. vivia ao pé dela. com os olhos nela. Juramos novamente que havíamos de casar um com outro. é a nossa defesa.

e. Enfim. guarde. ele abraçou-me com ternura. são os mais felizes! “Por que falará assim? pensei. Havia embrulhado em um papel um cacho dos meus cabelos. . O valor é a lembrança.. como ia dizendo. mas a afeição é imensa.” . Se lhe disserem outra coisa. pode contar com a nossa companhia. para guardá-lo.Seja feliz! disse-me. A mim e a toda a minha gente creia que ficam muitas saudades. Naturalmente sabe que José Dias diz mal dele.. como quem empregou em um só bilhete todas as suas economias de esperanças.Mas. não desejo. creia. não vivo papando os jantares nem morando em casa alheia. . A intenção era levá-los a Capitu. São intrigas. levava a cara dos desenganados. . Padre que seja. a filha saberia tomá-lo e guardá-lo.eu sou de outra espécie. Fui apertar-lhe a mão. Quero só que me não esqueça. cortados na véspera. Deus é grande e descobre a verdade. qualquer coisa. Que lindos que são! Como é que se corta uma beleza destas? Dê cá um abraço! outro! mais outro! adeus! Tinha os olhos úmidos deveras. vindos de fora para desunião das famílias. excelentes pessoas..Um cachinho dos seus cabelos! exclamou Pádua abrindo e fechando o embrulho. a nossa casa está às suas ordens. Se algum dia perder sua mãe e seu tio. e vê sair branco o maldito número. não acredite. eu não sou como outros. e eu sou grato às finezas recebidas. porque são boas pessoas.. ao sair. ... que é mais cuidadosa que a mãe. por esta luz que me alumia. se algum dia perder os seus parentes. Peguei do embrulho e dei-lho. Também eu.um número tão bonito! .. um botão de colete. fui vítima de intrigas. tão grandes e tão bonitos. aduladores baixos. como merece. Oh! obrigado! obrigado por mim e pela minha gente! Vou dá-lo à velha.. desfizeram-se. não.casa. Suspirou e continuou: .coisa que eu.Não esqueça o seu velho Pádua.Dá licença? perguntou metendo a cabeça pela porta. Não é suficiente em importância. quando me casei. ou à pequena. Minha mãe disse-lhe que fosse falar-me ao quarto. um caderno latino. se tem algum trapinho que me deixe em lembrança. mas tive idéia de dá-lo ao pai. certos parasitas. Tive um sobressalto.Aqui está. coisa que já lhe não preste para nada. Não. não esqueça o velho Pádua. Todos nós estimamos muito ao senhor.

até que formalmente rejeitou o alvitre.. Há pessoas a quem as lágrimas não acodem logo nem nunca. Poupa-me as outras despedidas. exclusivamente. quando eu lhe beijei a mão em despedida. volta-me papa! José Dias. nhô Bentinho! não se esqueça de sua Joana! Sua Miquelina fica rezando por vosmecê!” Na rua José Dias insistiu nas esperanças: . Já não era. a alopatia é erro na terapêutica. e vai morrer. . Se lhe disserem que pode aprender na Escola de Medicina aquela parte da ciência comum a todos os sistemas. fazendo-me recomendações. Prima Justina disfarçava naturalmente os seus padecimentos íntimos. anatomia.Agüente um ano. lembro-me deste: “Dividi-lo com Deus é ainda possuí-lo”. no quarto dele. vou indagar. A alopatia é o erro dos séculos. é verdade. patologia.Dizem que não é bom tempo de atravessar o Atlântico. disse ele. disse-me rindo: . composto e grave. tínhamos falado na véspera. . iremos em março ou abril.Não duvidaria aprovar a idéia. Era manhã de um lindo dia. não são alopáticas nem homeopáticas. explicou-se. Os moleques cochichavam. Antes de um ano estaríamos a bordo. é a mentira. é o assassinato. é a ilusão. . rapaz. por livros e por língua de homens cultores da verdade. Agora não dizia nada. . Tio Cosme. diz-se que padecem mais que as outras. Minha mãe apertava-me ao peito. Talvez chorasse mal ou nada. mas é melhor aprender logo tudo de uma vez. Assim falara na véspera e no quarto. Como eu achasse muito breve. emendando os descuidos de minha mãe. até lá tudo estará arranjado. a podridão alopata. ou proferia algum aforismo sobre a religião e a família.Anda lá. se na Escola de Medicina não ensinassem. apertou os beiços. dando ordens.Posso estudar medicina aqui mesmo. se não for. as escravas tomam a bênção: “Bênção. onde fui ver se era ainda possível evitar o seminário. Fisiologia. Quando minha mãe me deu o último beijo: “Quadro amantíssimo!” suspirou ele.. Prima Justina suspirava. não dizia nada a princípio. mas deu-me esperanças e principalmente animou-me muito.CAPÍTULO 53 A CAMINHO! Fui para o seminário. José Dias correu os dedos pelos suspensórios com um gesto de impaciência.

nem me bastaria a isso um Capítulo.. toda a velha palhada saiu cá fora. Sorriu. um sermão do padre X. Vivemos algum tempo do nosso velho seminário. Contrário a isso foi um seminarista que não seguiu a carreira. Ou porque eram dele. menos o Panegírico de Santa Mônica. e suspiramos de companhia. é possível que componha um abreviado do que ali vi e vivi. passou. Como eu precisasse de algumas informações. coçou-se. Foram cócegas da mocidade. elogiado por algumas pessoas e então lido entre os seminaristas. baste o caso. copioso Naturalmente conversamos do passado. . das pessoas que tratei. fui pedir-lhas. Tudo isso é história velha. Ah! não vou contar o seminário. Ordenou-se anos depois encontrei-o no coro de S. de todo o resto. e continuando a procurar num livro aberto a hora em que tinha de cantar no dia seguinte. memórias pessoais. em 1882.. que veio distribuindo pela vida fora. a vida cara..Que versos? perguntou meio espantado. Tinha composto um Panegírico de Santa Mônica. casara e esquecera tudo. um mote. Pedro e pedi-lhe que me mostrasse os versos novos.Ah! sorriu ele. ou porque éramos então moços. estava bom. senhor meu amigo. não despega mais. e dedicou-o a Santo Agostinho. Deixara seminário.. deixara letras. E falou-me em prosa de uma infinidade de coisas do dia. ali dei com este meu colega. sem ir mais longe. Esta sarna de escrever. Pois não se lembra que no seminário. algum dia... Chamava-se. um livro.. Alcançou licença de imprimi-lo. cujo livro de frade-poeta era recente. uma vigairaria mineira. Na mocidade é possível curar-se um homem dela. casos de estudo.. Não. feito chefe de uma seção administrativa. o que é mais moço é que um dia. as recordações traziam tal poder de . indo ver certo negócio em repartição de marinha. aqui mesmo no seminário tive um companheiro que compôs versos. dos costumes. deu-me tudo. à maneira dos de Junqueira Freire. .. e. confessou-me que não fizera mais versos depois de ordenado. Não é preciso dizer o nome. e seria impossível achar melhor nem mais pronta vontade. certo.CAPÍTULO 54 PANEGÍRICO DE SANTA MÔNICA No Seminário. um verbo. claro. sim. incidentes de nada. e rimos juntos..Os seus. umas vinte e nove páginas.. quando pega aos cinqüenta anos. .

e depois de alguns instantes de pesquisa mental. e as sensações também. Antes de vinte e quatro horas estava em minha casa. e vieram amizades novas que também se foram depois.Conservou o meu Panegírico? Não achei que dizer. os acontecimentos vêm uns sobre outros. se alguma sombra contrária houve então.Perfeitamente. os nossos recreios. oh! o Padre Lopes. e os daqui tomaram vigairarias fora. como é lei da vida.. . que não posso dar a ninguém. lembra-se? o Padre Lopes. . E como me visse folhear o opúsculo: . não apareceu agora.Bom tempo! suspirou ele.O meu Panegírico de Santa Mônica. E. . Panegírico de Santa Mônica! Como isto me faz remontar os anos da minha mocidade! Nunca me esqueceu o seminário. nada fez apagar aquele tempo da nossa convivência. Concordou que fossem belas. os recreios.. ..É o penúltimo exemplar.Recorda-se bem? . disse-me. acentuando certas frases para lhe dar a impressão de que achavam eco em minha memória. . tentei mover os beiços. e naturalmente ouvia. com o folheto. era quase caridade recordar alguma lauda.Também eu. devia estar ouvindo. respondi que por muito tempo o conservara. disse-me. fitando em mim uns olhos murchos e teimosos. quase todos. após alguma reflexão. perguntou-me: . as viagens. meu caro colega.Veja se lhe lembra algum pedaço. Não me lembrou logo. mas sem lacuna. manchado do tempo.. e ainda assim depois de algum tempo de . um velho folheto de vinte e seis anos. e apontou-as. mas preferia outras. mas a explicação devia bastar. Os anos passam. e com uma dedicatória manuscrita e respeitosa. li uma delas. Ele confessou-me que perdera de vista todos os companheiros do seminário. creia.. Ele. afinal perguntei: . mas as mudanças. agora só me resta um. Vinte e seis anos de intervalo fazem morrer amizades mais estreitas e assíduas.Panegírico? Que panegírico? . uma vez ordenados.Hei de levar-lhe um exemplar. as lições. mas só me disse uma palavra.. os padres.. encardido.felicidade que. com os olhos no ar.. voltaram naturalmente às suas províncias. Pois. mas não tinha palavra. mas era cortesia.

e porque também eu tive o meu Panegírico. A insônia. como ele dissera as suas no claustro. e. um desses versos capitas no sentido e na forma. Então adverti que os sonetos mais gabados eram os que concluíam com chave de ouro. o primeiro verso não era ainda uma idéia. naturalmente. era uma exclamação. afinal deixei-me estar de costas. vinha mais nada. despediu-se e saiu. estando eu na cama como uma exclamação solta.Tem agradado muito este meu Panegírico! CAPÍTULO 55 UM SONETO Dita a palavra. diria em verso as minhas tristezas. recolhendo os olhos e um suspiro! . o soneto. Era um poema breve e prestadio. Assim na cama. Tinha o alvoroço da mãe que sente o filho. a idéia viria depois. as cócegas pediam-me unhas.silêncio. eu. e deitado ora sobre o lado direito. Decorei bem o verso. e tanto de rima como de verso solto. ia competir com aquele monge da Bahia pouco antes revelado. ao notar que tinha a medida de verso. e então na moda. envolvido no lençol. considerando que o verso final. não sei. saiu assim. a poesia. com dificuldade traria a . com os olhos no tecto. ora sobre o esquerdo. e flor do céu. recitando sempre verso. Qual à idéia. tratei de poetar. r afinal ative-me ao soneto. francamente achava-o bonito. Fiquei só com o Panegírico. Não escolhi logo. pensei em compor com ele alguma coisa. e o primeiro verso é o que ides ler: Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura! Como e por que me saiu este verso da cabeça. a religião. Pensei em forjar uma de tais chaves. um soneto. e repetia-o em voz baixa. Ia ser poeta. saindo cronologicamente dos treze anteriores. não me deixou dormir uma longa hora ou duas. porém. musa de olhos arregalados. mas nem assim. e ainda agora não me parece mau: Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura! Quem era a flor? Capitu. isto é. contarei a história de um soneto que nunca fiz: era no tempo do seminário. aos lençóis. e o primeiro filho. seminarista. e coçava-me com alma. qualquer outro conceito a que coubesse a metáfora da flor. e o que as folhas dele me lembraram foi tal que merece um Capítulo ou mais. logo. apertou-me as mãos com as forças todas de um vasto agradecimento. Antes. mas podia ser a virtude. a princípio cuidei de outra forma. Aguardei o resto.

assim: Ganha-se a vida. nesse caso a flor do céu seria a liberdade. no sentido natural. Começar bem e acabar bem não era pouco. à vista do último verso. escrevendo. ganha-se a batalha! Sem vaidade. um languidamente: Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura e o outro com grande brio: Perde-se a vida. nem terceiro. Recitei uma e muitas vêzes a chave de ouro. com a simples transposição de duas palavras. pareceu-me melhor não ser Capitu. era um verso magnífico. não vinha nenhum. ganha-se a batalha! A sensação que tive é que ia sair um soneto perfeito. perde-se a batalha! O sentido vinha a ser justamente o contrário. mas também não era vulgar. Neste caso. por exemplo. Era mais próprio dizer que. Para me dar um banho de inspiração. saiu este: Perde-se a vida. e fazer dela a luta pela pátria. na pugna pela justiça. e dispus-me a ligá-los pelos doze centrais. com a idéia em si. a vitória ganha à custa da própria vida. cada um a seu modo. depois repeti os dois versos seguidamente. Tive alguns ímpetos de raiva. nem quarto. perder-se-ia acaso a vida. Então tornava ao meu soneto. Esta acepção porém. Achei melhor a justiça. e falando como se fosse de outro. Cansado de esperar. e recitei os dois versos. mas afinal aceitei definitivamente uma idéia nova a caridade.perfeição louvada. Sonoro. os versos acudissem. se eles é que a suscitavam. é possível. Assim foi que me deter minei a compor o último verso do soneto. pode ser que. seria a justiça. não há dúvida. tão naturalmente. pensamento alevantado e nobre. mas talvez isso mesmo trouxesse a inspiração. sendo o poeta um seminarista. evoquei alguns sonetos célebres.. Que não fosse novidade. A idéia agora. lembrou-me alterar o sentido do último verso. que se não acabava de crer se ela é que os fizera.. e mais de uma vez pensei em sair da cama e ir ver tinta e papel. mas a batalha ficava ganha. e gastei alguns minutos em escolher uma ou outra. os versos saíam uns dos outros. e novamente repetia o primeiro verso e esperava o segundo. Também me ocorreu aceitar a batalha. depois de muito suar. era uma ironia: não exercendo a . mas. e. Naquela ocasião achei-o sublime. e notei que os mais deles eram facílimos. imaginei que tais chaves eram fundidas antes da fechadura. o segundo não vinha. E tinha um pensamento. podia não caber tanto como a primeira. e ainda agora não explico por que via misteriosa entrou numa cabeça de tão poucos anos.

como tudo. ou se estiver chovendo. apesar de padre.. os irmãos Albuquerques. com os seus consoantes e sentidos próprios? Trabalhei em vão. como a fala. tão recente como no primeiro dia. e as demais obras de arte.. ainda que mais breve. CAPÍTULO 56 UM SEMINARISTA Tudo meia repetindo o diabo do opúsculo. fez-se político. enquanto o outro seguiu medicina e dizem haver descoberto um específico contra a febre amarela. não sabendo por onde lhe pegasse. e esta viva metáfora não me daria os versos esquivos. senhores. se não morreu já. não vieram os versos. Mas. olhos claros. Luís Borges. ou na roça. nada me consola daquele soneto que não fiz. Não tinha janela. acostumada a ajudá-los. Ao domingo. traziam o calor da juventude nascente. o calor do passado. não achando maior dificuldade que escrever. um dos quais é cônego na Bahia. Chamava-se Ezequiel de Sousa Escobar era um rapaz esbelto. e a mão. dou esses dois versos ao primeiro desocupado que os quiser. e agora estou compondo esta narração. e lograva entender algum texto. catei. que está de vigário em Meia-Ponte. inconscientemente. em qualquer ocasião de lazer. às vezes. como as odes e os dramas. Tudo é dar-lhe uma idéia e encher o centro que falta. um magricela. se tivesse. não falava claro nem seguido as mãos não apertavam as outras. por uma razão de ordem metafísica. com as suas letras velhas e citações latinas. é possível que fosse pedir uma idéia à noite. Vi o Bastos. como eu creio que os sonetos existem feitos. e acabou senador do império. Não fitava de rosto. não eram frias. o meu próprio calor. não seriam para mim como rimas das estrelas. mas perde-se a batalha do céu. Queria lê-las outra vez. esperei. Criei forças novas e esperei. nem . Quantas outras caras me fitavam das páginas frias do Panegírico! Não. busquei. Pois. dobrava a folha como se estivesse lendo de verdade. Quem não estivesse acostumado com ele podia acaso sentir-se mal.. Vi sair daquelas folhas muitos perfis de seminaristas. creio que era quando os olhos me caíam na palavra do fim da página. como as mãos.. por exemplo. pode tentar ver se o soneto sai.caridade. Era um encanto ir por ele. bem ou mal. Eis aqui outro seminarista. como os pés. E quem sabe se os vagalumes luzindo cá embaixo. fazia o seu ofício. Pelo tempo adiante escrevi algumas páginas em prosa. pode-se ganhar a vida. um pouco fugitivos.

desde a porta da rua até o fundo do quintal. quando a gente cuidava tê-los entre os seus. já não tinha nada. A princípio. sendo delgados e curtos. como o resto. Era mais velho que eu três anos. hei de mostrar-lhe as cartas dela. Talvez esta faculdade prejudicasse alguma outra. ou então que recordava a lição da véspera. cogitando. filho de um advogado de Curitiba. dizia ele. olhos enfiados em si. capelas e bazares. Uma coisa não seria tão fugitiva. e o meio e o tempo os fizeram mais pousados. Este era homem de fortes sentimentos católicos. cheias de carícias e conselhos. e Escobar empurrou-as e entrou. eram simples e afetuosas. como sabes. íamos dar com ele. e tinha memória para guardá-las todas. seduzido pelas palavras dele. simples alpendres ou paços suntuosos. mas também ria folgado e largo. Escobar veio abrindo a alma toda. a minha história.se deixavam apertar delas. fui tímido. que servia de correspondente ao pai. mas ele fez-se entrado na minha confiança. nem dom casmurro. Morreu pouco depois. . até as palavras. Não sei o que era a minha. bastava empurrá-las. Não imagina que boa criatura que ela é. Cá o achei dentro. até que. Quando ele entrou na minha intimidade pedia-me freqüentemente explicações e repetições miúdas. Escobar tinha uma irmã. logo. interessantes. muita vez. O mesmo digo dos pés. muita luz e ar puro. todas as quais vinham a dar na bondade e no espírito daquela criatura. tais eram que me fariam capaz de acabar casando com ela se não fosse Capitu. à semelhança de conventos e prisões.. Respondia-nos sempre que meditava algum ponto espiritual. De fato. Esta dificuldade em pousar foi a maior obstáculo que achou para tomar os costumes do seminário. estive quase a contar-lhe logo. Eu. A alma da gente. não raro com janelas para todos os lados. a reflexão.Não é só na beleza que é um anjo. Outrossim. Aqueles modos fugitivos. cá ficou. . sem janelas ou com poucas e gradeadas. Eu não era ainda casmurro. que era um anjo. Também as há fechadas e escuras. mas como as portas não tinham chaves nem fechaduras. Escobar contava-me histórias dela. O sorriso era instantâneo. por que os dedos. é uma casa assim disposta. que lia depressa estavam aqui como lá. cessavam quando ele queria. aparentado com um comerciante do Rio de Janeiro.. Escreve-me muita vez. o receio é que me tolhia a franqueza. mas também na bondade.

se não fica então. CAPÍTULO 58 O TRATADO Foi o caso que. E aqui verás tal ou qual esperteza minha. não fica nunca. que ia no mesmo passo. há sempre no assunto alguma coisa menos austera. Também. sem susto nem vexame. Várias pessoas acudiram. . . é evidentemente um erro. leitor meu amigo. porquanto (e é isto que eu quisera dizer em latim). Uma dessas.CAPÍTULO 57 DE PREPARAÇÃO Ah! Mas não eram só os seminaristas que me iam saindo daquelas folhas velhas do Panegírico. como diria o meu finado José Dias podeis ler o Capítulo até ao fim. a distancia. não foi uma nem outra coisa.. agradeceu. que é casta para os castos. Sim. ao ler o que vais ler. E isto é muito. Por mais composto que este me saia. quando examina a possibilidade do que há de vir. leitora castíssima. uma segunda-feira. porquanto. ela ergueu-se muito vexada. Sirva este de preparação. vi cair na rua uma senhora. levava ligas de seda. Quando chegamos à esquina. fica robusto e disposto. porquanto a senhora tinha as meias mui lavadas. e andavam. como pode ser torpe para os torpes. que pede umas linhas de repouso e preparação. em tal caso.Este gosto de imitar as francesas da Rua do Ouvidor. a nossa desastrada. sem tirar espaço ao resto. o coração. e não este tique-tique afrancesado. As meias e as ligas da senhora branqueavam e enroscavam-se diante de mim. erguiam-se e iam-se embora. dizia-me José Dias andando e comentando a queda. e o mal é menor mal. Não é que a matéria não ache termos honestos em nossa língua. olhei para a outra rua. e enfiou pela rua próxima. e não as perdeu. sacudiu-se.. devia ser de pena ou de riso. Eu mal podia ouvi-lo. as proporções dos acontecimentos e a cópia deles. voltando eu para o seminário. Já agora meto a história em outro Capítulo. caíam. As nossas moças devem andar como sempre andaram. e não as sujou. com seu vagar e paciência. e das primeiras quisera contá-la aqui em latim. O meu primeiro gesto. Elas me trouxeram também sensações passadas. e vi. mas não tiveram tempo de a levantar. tique-tique. é provável que o aches menos cru do que esperavas. tais e tantas que eu não poderia dizê-las todas.

não vi mulher na rua. tique-tique. mas é impossível que não tenha arranhado os joelhos. tique-tique. e lembravam-me a queda da senhora. busquei afugentá-las com esconderijos e outros métodos. e. Acordei.. Não podendo rejeitar de mim aqueles quadros. No seminário. e por isso mesmo contempláveis.... Vou esgarçando isto com reticências para dar uma idéia das minhas idéias.Parece que não se machucou. senão quando elas mesmo de cansadas. Uma multidão de abomináveis criaturas veio andar à roda de mim. As batinas traziam ar de saias. com as mãos presas em volta de mim. se iam embora. Também é possível.. rezei padre-nossos. como se não tivesse havido interrupção. mas tão depressa dormi como tornaram. Não formulei isto por palavras. Vindo o mal pela manhã adiante. e credos. aquela presteza é manha.. e sendo este livro a verdade pura. a quem não desejasse uma queda. a algumas adivinhei que traziam as meias esticadas e as ligas justas. todas ágeis como o diabo.. sonhei com elas.. todas as que eu encontrara na rua. nem foi preciso. faziam um vasto círculo de saias ou. Creio que foi “manha” que ele disse.. Sábios da Escritura.. recorri a um tratado entre a minha consciência e a minha imaginação.. ave-marias. a primeira hora foi insuportável. choviam pés e pernas sobre a minha cabeça.. Dali em diante. . mas por um modo que o não perdesse de todo. tentei vencê-lo. adivinhai o que podia ser. . o contrato fez-se tacitamente. com alguma repugnância. Eram belas. outras grossas.. Assim fui até madrugada. até o seminário. E por alguns dias. As visões feminis seriam de ora avante consideradas como simples encarnações dos vícios. que eram assim difusas e confusas. Tal haveria que nem levasse meias. mas fez-se. mostravam-me agora de relance as ligas azuis. A cabeça ia-me quente.. com certeza não dou nada. e não as rejeitava. Já não era uma só que eu via cair.. Foi isto. Mas eu as via com elas. como o melhor modo de temperar o caráter e aguerri-lo para os combates ásperos da vida. De noite. .. tique-tique. Não dormi mais. e o andar não era seguro.Tanto melhor para ela. umas finas.tique-tique. trepadas no ar. eu fiquei “nos joelhos arranhados”. era eu mesmo que evocava as visões para fortalecer-me. é força confessar que tive de interromper mais de uma vez as minhas orações para acompanhar no escuro uma figura ao longe. disse eu.. Ou então. mas certamente não unia a frase nova à antiga. sempre no meio para concertá-la bem. Pegava depressa na oração.. eram azuis.

não. e os generais sacam das espadas que tinham ficado na bainha.CAPÍTULO 59 CONVIVAS DE BOA MEMÓRIA Há dessas reminiscências que não descansam antes que a pena ou a língua as publique. a minha memória não é boa. as suas árvores. e fiz mais: pus-lhe não só o que faltava da santa. os seus altares. O que faço. Não. E antes seja olvido que confusão. e os clarins soltam as notas que dormiam no metal. o seminarista Escobar e vários outros. mas era um antigo. e tudo marcha com uma alma imprevista que tudo se acha fora de um livro falho. e somente raras circunstancias. conquanto a prova de ter a memória fraca seja exatamente não me acudir agora o nome de tal antigo. não me aflijo nunca. as ligas. todos me aparecem agora com as suas águas. A vida é cheia de tais convivas. e basta. é comparável a alguém que tivesse vivido por hospedarias. . Assim preencho as lacunas alheias. CAPÍTULO 60 QUERIDO OPÚSCULO Assim fiz eu ao Panegírico de Santa Mônica. Ao contrário. assim podes também preencher as minhas. é que se lhe grava tudo pela continuidade e repetição. leitor amigo. Quantas idéias finas me acodem então! Que de reflexões profundas! Os rios. em chegando ao fim. sem guardar delas nem caras nem nomes. Vais agora ver o mais que naquele dia me foi saindo das páginas amarelas do opúsculo. as montanhas. Como eu invejo os que não esqueceram a cor das primeiras calças que vestiram! Eu não atino com a das que enfiei ontem Juro só que não eram amarelas porque execro essa cor. explico-me. as igrejas que não vi nas folhas lidas. Eu. A quem passe a vida na mesma casa de família. pessoas e afeições. é cerrar os olhos e evocar todas as coisas que não achei nele. Um antigo dizia arrenegar de conviva que tem boa memória. Viste o soneto. mas ainda coisas que não eram dela. Nada se emenda bem nos livros confusos. as meias. e eu sou acaso um deles. quando leio algum desta outra casta. com os seus eternos móveis e costumes. mas isso mesmo pode ser olvido e confusão. mas tudo se pode meter nos livros omissos.

o desvanecimento de minha mãe nessas ocasiões era indescritível. como aquele das cocadas que contei no cap. não deixam de lembrar que uma pessoa as calçava de manhã. mestre de música. e as de minha mãe e tio Cosme.Querido opúsculo. tu não prestavas para nada. e grudá-lo às pernas do Capítulo. quase a todas as horas. aqui estão outras lembranças. fiquei tão curtido de saudades que me lembrou fazê-lo escrever por um amigo. e logo pintou a tristeza de minha mãe. . mas que mais presta um velho par de chinelas? Entretanto. é preciso que a gente os tenha conhecido e padecido no tempo. 18. há muita vez no casal de chinelas um como aroma e calor de dois pés. quando contei o pregão das cocadas. como a pedra da rua. a quem o mostrei. encerrem casos. Justamente. foi porque outro músico. melhor é poupar ao editor do livro o trabalho e a despesa da gravura. Vês que não pus nada. José Dias apertou-me as mãos com alvoroço. ou as descalçava à noite. Mas. Tio Cosme também se enternecia muito. duros e opacos. como os opúsculos de seminário. trazidas por José Dias ao seminário. vamos ao mais que me foi saindo das páginas amarelas. Para que não aconteça o mesmo aos outros profissionais que porventura me lerem. porque as chinelas são ainda uma parte da pessoa e tiveram o contato dos pés. pessoas e sensações. me confessou ingenuamente não achar no trecho escrito nada que lhe acordasse saudades. mas a maior saudade está naturalmente no maior dos corações. E se a comparação não vale. . e contava-me tudo isso cheio de uma admiração lacrimosa. Se depois jarretei o Capítulo. que falava de mim todos os dias. disse-me este. sem o que tudo é calado e incolor. nem ponho.Mamãe.Todos estão saudosos. ao entrar ela. um assobio particular. Gastas e rotas. Já agora creio que não basta que os pregões de rua. CAPÍTULO 61 A VACA DE HOMERO O mais foi muito. a porta da casa. Como a aprovasse sempre. Vi saírem os primeiros dias da separação. um pregão de quitanda. sem embargo das palavras de conforto que me deram os padres e os seminaristas. e qual é ele? perguntou escrevendo a resposta nos olhos. e acrescentasse alguma palavra relativamente aos dotes que Deus lhe dera. ao erguer da cama. . acudi eu.

quando muito. as pálpebras não lhe caíram nem as pupilas fizeram os movimentos anteriores. e logo .Era melhor que fosse este mesmo ano. vinham caminhando na nossa direção.. Conto ouvir-lhe a missa nova.. . e vale sempre entrar no mundo ungido com os santos óleos da teologia.. todo ele era atenção e interrogação. mas ainda que não chegue a ordenar-se.Isso é negócio meu. A viagem à Europa é o que é preciso. Tenha paciência. mas parece que dará conta da mão. Ou ela não fosse mãe! Que coração amantíssimo! . mas pode fazer-se daqui a um ou dois anos. depois despegaram-se da parede e entraram a vagar pelo pátio todo. Tendo eu dito à Excelentíssima que Deus lhe dera.lembra-me como se fosse hoje. irá ungido com os santos óleos da teologia. não se perde nada em ir sabendo já daqui alguma coisa. até que novamente se ergueram. não escrevia nem orava. mas um anjo do céu e doutor ficou tão comovido que não achou outro modo de vencer o choro senão fazendo-me um daqueles elogios de galhofa que só ele sabe. no pode ter melhores estudos que os que fizer aqui. e assim ficaram por alguns instantes. que os conhecia. Não é preciso dizer que Dona Glória enxugou furtivamente uma lágrima.. não um filho..Tão tarde! . senhor José Dias. Eu é que não gostei nada. um sorriso claro e amigo lhe errava nos lábios.os olhos de José Dias fulguraram tão intensamente que me encheram de espanto As pálpebras caíram depois. . Não lhe perguntei o que é que tinha. acudiu José Dias. mas demos tempo em tempo. e disse-lho. e pediu-lhes notícias minhas. ele agradeceu.Mas. Neste ponto. andava e gemia em volta da cria que acabava de parir. disse um deles. em 1859 ou 1860. .. Ao passarem por nós. Podia compará-lo aqui à vaca de Homero. e. o agregado. Para a viagem da existência. se não era em si mesmos. ainda não acabando padre a vida do seminário é útil. concluiu demorando mais as palavras. um deles de teologia. explicando que eram idéias que lhe escapavam no correr da conversação.Ontem até se deu um caso interessante.O que eu lhe dizia agora mesmo. já porque dois lentes. O lente de teologia gostou da metáfora. já por acanhamento. Desta vez a fulguração dos olhos foi menor. como que embebidos em alguma coisa. e os olhos fixaram-se na parede do pátio. demais. Ao contrário. vá estudando.Por ora nada se pode afiançar. cortejou-os com as deferências devidas.. e a minha saída daqui? .

que os lentes se foram, sacudi a cabeça:
- Não quero saber dos santos óleos da teologia; desejo sair daqui o mais
cedo que puder, ou já...
- Já, meu anjo, não pode ser; mas pode suceder que muito antes do que
imaginamos. Quem sabe se este mesmo ano de 58? Tenho um plano feito, e
penso já nas palavras com que hei de expô-lo a Dona Glória; estou certo
que ela cederá e irá conosco.
- Duvido que mamãe embarque.
- Veremos. Mãe é capaz de tudo; mas, com ela ou sem ela, tenho por certa
a nossa ida, e não haverá esforço que eu não empregue, deixe estar.
Paciência é que é preciso. E não faça aqui nada que dê lugar a censuras
ou queixas; muita docilidade e toda a aparente satisfação. Não ouviu o
elogio do lente? É que você tem-se portado bem. Pois continue.
- Mas, 1859 ou 1860 é muito tarde.
- Será este ano, replicou José Dias.
- Daqui a três meses?
- Ou seis.
- Não; três meses.
- Pois sim. Tenho agora um plano, que me parece melhor que outro
qualquer. É combinar a ausência de vocação eclesiástica e a necessidade
de mudar de ares. Você por que não tosse?
- Por que não tusso?
- Já, já, não, mas eu hei de avisar você para tossir, quando for
preciso, aos poucos, uma tossezinha seca, e algum fastio; eu irei
preparando a Excelentíssima... Oh! tudo isto é em benefício dela. Uma
vez que o filho não pode servir a Igreja, como deve ser servida, o
melhor modo de cumprir a vontade de Deus é dedicá-lo a outra coisa. O
mundo também é igreja para os bons...
Pareceu-me outra vez a vaca de Homero, como se este “mundo também é
igreja para os bons”, fosse outro bezerro, irmão dos “santos óleos da
teologia.” Mas não dei tempo à ternura materna, e repliquei:
- Ah! entendo! mostrar que estou doente para embarcar, não é?
José Dias hesitou um pouco, depois explicou-se:
- Mostrar a verdade, porque, francamente, Bentinho, eu há meses que
desconfio do seu peito. Você não anda bom do peito. Em pequeno, teve
umas febres e uma ronqueira... Passou tudo, mas há dias em que está mais
descorado. Não digo que já seria o mal, mas o mal pode vir depressa.
Numa hora cai a casa. Por isso, se aquela santa senhora não quiser ir
conosco,- ou para que vá mais depressa, acho que uma boa tosse... Se a

tosse há de vir de verdade, melhor é apressá-la... Deixe estar, eu
aviso...
- Bem, mas em saindo daqui não há de ser para embarcar logo; saio
primeiro, depois cuidaremos do embarque; o embarque é que pode ficar
para o ano. Não dizem que o melhor tempo é abril ou Maio? Pois seja
maio. Primeiro deixo o seminário daqui a dois meses...
E porque a palavra me estivesse a pigarrear na garganta, dei uma volta
rápida, e perguntei-lhe à queima-roupa:
- Capitu como vai?

CAPÍTULO 62
UMA PONTA DE IAGO
A pergunta era imprudente, na ocasião em que eu cuidava de transferir o
embarque. Equivalia a confessar que o motivo principal ou único da minha
repulsa ao seminário era Capitu, e fazer crer Improvável a viagem.
Compreendi isto depois que falei; quis emendar-me, mas nem soube como,
nem ele me deu tempo.
- Tem andado alegre, como sempre; é uma tontinha. Aquilo enquanto não
pegar algum peralta da vizinhança, que case com ela...
Estou que empalideci; pelo menos, senti correr um frio pelo corpo todo.
A notícia de que ela vivia alegre, quando eu chorava todas as noites,
produziu-me aquele efeito, acompanhado de um bater de coração, tão
violento, que ainda agora cuido ouvi-lo. Há alguma exageração nisto; mas
o discurso humano é assim mesmo, um composto de partes excessivas e
partes diminutas, que se compensam, ajustando-se. Por outro lado, se
entendermos que a audiência aqui não é das orelhas, senão da memória,
chegaremos à exata verdade. A minha memória ouve ainda agora as
pancadas
do coração naquele instante. Não esqueças que era a emoção do primeiro
amor. Estive quase a perguntar a José Dias que me explicasse a alegria
de Capitu, o que é que ela fazia, se vivia rindo, cantando ou pulando,
mas retive-me a tempo, e depois outra idéia...
Outra idéia, não,- um sentimento cruel e desconhecido, o pulo ciúme,
leitor das minhas entranhas. Tal foi o que me mordeu, ao repetir comigo
as palavras de José Dias: “Algum peralta da vizinhança.” Em verdade,
nunca pensara em tal desastre. Vivia tão nela, dela e para ela, que a
intervenção de um peralta era como uma noção sem realidade; nunca me

acudiu que havia peraltas na vizinhança, vária idade e feitio, grandes
passeadores das tardes. Agora lembrava-me que alguns olhavam para
Capitu,- e tão senhor me sentia dela que era como se olhassem para mim,
um simples dever de admiração e de inveja. Separados um do outro pelo
espaço e pelo destino, o mal aparecia-me agora, não só possível mas
certo. E a alegria de Capitu confirmava a suspeita; se ela vivia alegre
é que já namorava a outro, acompanhá-lo-ia com os olhos na rua,
falar-lhe-ia à janela, às ave-marias, trocariam flores e...
E... quê? Sabes o que é que trocariam mais- se o não achas por ti mesmo,
escusado é ler o resto do Capítulo e do livro, não acharás mais nada,
ainda que eu o diga com todas as letras da etimologia. Mas se o achaste,
compreenderás que eu, depois de estremecer, tivesse um ímpeto de
atirar-me pelo portão fora, descer o resto dai ladeira, correr, chegar à
casa do Pádua, agarrar Capitu e intimar-lhe que me confessasse quantos,
quantos, quantos já lhe dera o peralta da vizinhança. Não fiz nada. Os
mesmos sonhos que ora conto não tiveram, naqueles três ou quatro
minutos, esta lógica de movimentos e pensamentos. Eram soltos, emendados
e mal emendados, com o desenho truncado e torto, uma confusão, um
turbilhão, que me cegava e ensurdecia. Quando tornei a mim, José Dias
concluía uma frase, cujo princípio não ouvi, e o mesmo fim era vago: “A
conta que dará de si.” Que conta e quem? Cuidei naturalmente que falava
ainda de Capitu, e quis perguntar-lho, mas a vontade morreu ao nascer,
como tantas outras gerações delas. Limitei-me a inquirir do agregado
quando é que iria a casa ver minha mãe.
- Estou com saudades de mamãe. Posso ir já esta semana?
- Vai sábado.
- Vai sábado.
- Sábado? Ah! sim! sim! Peça a mamãe que me mande buscar sábado!
Sábado!
Este sábado, não? Que me mande buscar, sem falta.

CAPÍTULO 63
METADES DE UM SONHO
Fiquei ansioso pelo sábado. Até lá os sonhos perseguiam-me, ainda
acordado, e não os digo aqui para não alongar esta parte do livro. Um só
ponho, e no menor número de palavras, ou antes porei dois, porque um
nasceu de outro, a não ser que ambos formem duas metades de um só. Tudo

estava deserta. e provavelmente a roda andara mal. CAPÍTULO 64 UMA IDÉIA E UM ESCRÚPULO Relendo o Capítulo passado. ou uma encíclica. A maior destas devia ser dada com a boca. Não sonhei mais aquela noite. e este livro seria talvez uma simples prática paroquial. acode-me uma idéia e um escrúpulo. o peralta fora levar-lhe a lista dos prêmios da loteria. vi um destes que conversava com a minha amiga ao pé da janela. Enquanto ele falava. quando ele de si mesmo a deu. e olhei para as . consegui conciliá-lo. Capitu dava-me com os olhos todas as sortes grandes e pequenas. enxugando os olhos e mirando um triste bilhete de loteria. e acordei sozinho no dormitório. volta-me papa!” Ah! por que não cumpri esse desejo? Depois de Napoleão. Sobre a madrugada.nada dos nadas veio ter comigo. ele fugiu. Peguei-lhe nas mãos. resmunguei não sei que palavras. E aqui entra a segunda parte do sonho. que perturbava assim a adolescência de um pobre seminarista. não a havendo mais banal na terra. se bispo. eu relancei os olhos pela rua. ia pedir a explicação. se papa. e o bilhete saíra branco. e dei mal as lições daquele dia. nem sortes grandes ou pequenas. esquecer tudo para dormir. Tinha o número 4004. tenente e imperador. que o céu nos dá todos os dias e todos os meses. mas nos esforços que fiz para ver se dormia novamente e pegava nele outra vez. Deixei o manuscrito.. O interesse do que acabas de ler não está na matéria do sonho. dona leitora. ou uma pastoral. se eu fosse padre. era impossível que não devesse ter a sorte grande. O escrúpulo é justamente de escrever a idéia. Capitu inclinou-se para fora. Disse-me que esta simetria de algarismos era misteriosa e bela. posto que daquela banalidade do sol e da lua. Como estivesse a espiar os peraltas da vizinhança. Não me parecendo isto claro. nem bilhetes de loterias.isto é obscuro. todos os destinos estão neste século. Nunca dos nuncas poderás saber a energia e obstinação que empreguei em fechar os olhos. mas não estava só tinha o pai ao pé de si. avancei para Capitu. Não fosse ele. mas a culpa é do vosso sexo. mas então nem peraltas. Pádua desapareceu. meu rapaz. Quanto ao sonho foi isto. Esse mesmo trabalho fez-me perder o sono até à madrugada. apertá-los bem. como as suas esperanças do bilhete. mas não dormia. como me recomendara tio Cosme: “Anda lá. Corri ao lugar.

declarou-me que os sonhos já não pertencem à sua jurisdição Quando eles moravam na ilha que Luciano lhes deu. os rapazes também. e eu acabei afeiçoando me à vida nova. não poderiam fazê-lo. filhos da memória ou da digestão. onde ela tinha o seu palácio. Os sonhos antigos foram aposentados. e os modernos moram no cérebro da pessoa. Sabes que esta casa do Engenho Novo. ainda que quisessem imitar os outros. CAPÍTULO 65 A DISSIMULAÇÃO Chegou Sábado. No fim de cinco semanas estive quase a contar a este as minhas penas e esperanças. como todas as ilhas de todos os mares. Capitu refreou-me. irei dizendo o mais da minha história e suas pessoas. Donde concluo que um dos oficiais do homem é fechar e apertar muito os olhos a ver se continua pela noite velha o sonho truncado da noite moça. De manhã. como a dos amores. o meu fim em imitar a outra foi ligar as duas pontas da vida. . Estes. são agora objeto da ambição e da rivalidade da Europa e dos Estados Unidos. Mas os tempos mudaram tudo. e não continuam mais A noite não me respondeu logo. a ilha dos sonhos. basta-me um sono quieto e apagado. Antes de concluir este Capítulo. nem outros. Pois que não amo a política. Os padres gostavam de mim.paredes. por mais que tentasse dormir e dormisse. Era uma alusão às Filipinas. disposições e pinturas. os morros palejavam de luar e o espaço morria de silêncio. e ainda menos a política internacional. fui à janela indagar da noite por que razão os sonhos hão de ser assim tão tênues que se esgarçam ao menor abrir de olhos ou voltar de corpo. Pois o mesmo sucedeu àquele sonho do seminário. Como eu insistisse. e Escobar mais que os rapazes e os padres. Ia alternando a casa e o seminário. dar-me-ia explicações possíveis. e donde os fazia sair com as suas caras de vária feição. fechei a janela e vim acabar este capítulo para ir dormir. Capitu! . Estava deliciosamente bela. como te disse no Capítulo II. nas dimensões. é reprodução da minha antiga casa de Mata-cavalos. com a fresca.Escobar é muito meu amigo. Outrossim. chegaram outros sábados. Tal é a idéia banal e nova que eu não quisera pôr aqui e só provisoriamente a escrevo. Não peço agora os sonhos de Luciano. o que aliás na alcancei.

basta o nosso juramento de que nos havemos de casar um com outro. ele já me disse que há de vir cá para conhecer mamãe. e eu não lhe dou licença de dizer nada a pessoa nenhuma. na manhã seguinte. Era justo. calei-me e obedeci. .Com Dona Glória e Dona Justina mostro-me naturalmente alegre. podia indagá-lo do pai e da mãe.. e este é tão bom que a omissão seria um crime. depois que lhe respondi às mil perguntas que me fez sobre o tratamento que me davam. .. A mãe chegou a dizer-lhe. respondeu Capitu cheia de convicção. que eu lá vou logo. concluiu voltando-se para José Dias: . Capitu fez-se muito séria. . com ela. ou todo. mas os exemplos não se fizeram senão para ser citados. Minha mãe.Excelentíssima. e. recordando as palavras da véspera. e se me doía alguma coisa. foram tão tristes como os meus.você não acha que o nosso Bentinho dará um bom padre? . Em tudo isso mostrava a minha amiga tanta lucidez que eu bem podia deixar de citar um terceiro exemplo. mas também meu. Se parecesse. quando eu fui à casa dela. e se dormia bem. elas tratariam de separar-nos mais. também tivera noites desconsoladas. e perguntou-me como é que queria que se portasse. que não pensasse mais em mim.Acho que sim. tudo o que a ternura das mães inventa para cansar a paciência de um filho. as relações. . . e os dias.Pode vir a ser. a alegria que ela mostrara desde a minha entrada no seminário. quando eu vivia curtido de saudades. por palavras encobertas. ainda duvida que saia daqui um bom padre? . em casa dela. vá para casa. no quintal dela. me aconselhou a ir embora. interrompeu minha mãe voltando-se para a filha do Pádua que estava na sala.. Outra coisa em que obedeci às suas reflexões foi. uma vez que suspeitavam de nós. você não tem direito de contar um segredo que não é só seu. e talvez acabassem não me recebendo. É natural que Dona Glória queira estar com você muito tempo.E você. . senhora. Para mim. a disciplina..senhor José Dias. pela primeira vez. logo no primeiro sábado.Não importa. Assim lhe disse.Hoje não fique aqui mais tempo. Foi à minha terceira ou quarta vinda à casa. e lançando-lhe em rosto. os estudos. Não gostei da convicção.. se puder. após alguns minutos de conversa. Capitu.. para que não pareça que a denúncia de José Dias é verdadeira.Mas não é meu amigo.

as pessoas assim dispostas excedem os serviços naturais. e não sentia bem de pessoa alguma Talvez do marido. pois em vida andavam às brigas. devíamos dissimular para matar qualquer suspeita. e ao mesmo tempo gozar toda a liberdade anterior. era póstuma.Não é? disse ela com ingenuidade. Eu. ou se algum mal pensou dela foi entre si e o travesseiro. Capitu. mais assíduas. Esta opinião. logo que almocei. e. só prima Justina é que franziu a testa. não existiria homem capaz de competir com ele na afeição. dizendo tio Cosme que ainda queria ver com que mão havia eu de abençoar o povo à missa. alguma vez ficava para jantar. a propósito do sol e da chuva. corri a referir-lhe a conversa e a louvar-lhe a astúcia. às manhãs. e os últimos seis meses acabaram separados. CAPÍTULO 66 INTIMIDADE Capitu ia agora entrando na alma de minha mãe. Viviam o mais do tempo juntas. falando de mim. e olhou para mim interrogativamente. vamos enganar toda esta gente. em todo caso. que havia olhado para todos. minha mãe. Capitu sorriu de agradecida. o louvor dos mortos é um modo de orar por eles. Tanto melhor para a justiça dela. . Mas o exemplo completa-se com o que ouvi no dia seguinte. Também gostaria de minha mãe. lhe desse a estima devida. dias antes. Não penso que ela aspirasse a algum legado. Mas comi mal. explica-se que não desestimasse a dona e calasse os seus ressentimentos. segundo tio Cosme. e tratei de comer. estando a falar de moças que se casam cedo. estava tão contente com aquela grande dissimulação de Capitu que não vi mais nada. contou que. Capitu lhe dissera: “Pois a mim quem me há de casar há de ser o padre Bentinho. e construir tranqüilos o nosso futuro. de aparência. Compreende-se que. José Dias não dessorriu. Capitu ia lá coser. eu espero que ele se ordene!” Tio Cosme riu da graça. ou de nada. ou só . nas maneiras e na agudeza de espírito. fazem-se mais risonhas.Você tem razão. ao almoço. multiplicam os cuidados. no trabalho e na honestidade. não pude resistir ao gesto da prima.Era isto mesmo. Era assaz sincera para dizer o mal que sentia de alguém. mas não tratava de todo mal a minha amiga. Prima Justina não acompanhava a parenta naquelas finezas. . concluí eu. Tudo isso era contrário à natureza de prima Justina. mas o marido era morto. Como vivesse de favor na casa. precedem os fâmulos. feita de azedume e de implicância.

. rindo.dissesse mal dela a Deus e ao Diabo. inda que azedo mas a sós com minha mãe achava alguma palavra ruim que dizer da menina. por mais vontade que tenha de as infringir deslavadamente. soltou-lhe este epigrama: “Não precisa correr tanto. atenta.mas. não custando nada trazer-me. mas vão buscá-lo. Entrou tão atordoado que me assustou.. Cuidaram fosse delírio. Contou particularmente ao reitor o que havia. e recebi licença para ir a casa. Capitu usava certa magia que cativa. outro dia. Caso tivesse ressentimentos de minha mãe. não perdoou à minha amiga a intervenção. você assusta-se sem motivo. quis que Capitu lhe servisse de enfermeira. a febre passa. A vida é cheia de obrigações que a gente cumpre.mas cabisbaixo e suspirando. perguntou-lhe se não tinha que fazer em casa. Só me falara na doença. se Bentinho não estiver ao pé de mim.a premissa antes da conseqüência. . desde que a não via. CAPÍTULO 67 UM PECADO Já agora não tiro a doente da cama sem contar o que se deu comigo. a conseqüência antes da conclusão. não era uma razão mais para detestar Capitu. como negócio simples. já. Capitu. ele não alterando o passo do costume. Ao cabo de cinco dias.Vamos assustá-lo. mais de uma vez .Mana Glória. prima Justina acabava sorrindo. Como minha mãe adoecesse de uma febre. o silêncio.Não! não! mandem buscá-lo! Posso morrer. e a minha alma não se salva.. a intimidade de Capitu fê-la mais aborrecível à minha parenta Se a princípio não a tratava mal. já. Prima Justina. Contudo.. as pernas bambeavam-me.Pois não lhe digam nada. Em vão tio Cosme: . mas o chamado. íamos calados. Um dia. José Dias foi incumbido do recado. minha mãe amanheceu tão transtornada que ordenou me mandassem buscar ao seminário. nem ela precisava de razões suplementares. os suspiros podiam dizer alguma coisa mais. indagava dela e ia procurá-la. eu temendo ler no rosto dele alguma notícia dura e definitiva. Demais. com o tempo trocou de maneiras e acabou fugindo-lhe. que a pôs às portas da morte. O coração batia-me com força. o que tiver de ser seu às mãos lhe há de ir”. Prima Justina tolerava esses cuidados. . posto que isto a aliviasse de cuidados penosos. . Na rua. não se demorem.

.. já nem tinha tal desejo. não estas palavras. Tão depressa alumiou a noite. com a perspectiva da liberdade certa. Três ou quatro vezes. acaba o seminário”. perto da do Senado. Senti uma angústia grande. me encarava com os olhos furados e escuros. que eu ia castigar-me.Não! não! Que idéia é essa? O estado dela é gravíssimo. como um gesto do destino.. aceitando o pior. quisera interrogar o meu companheiro.. menos que um instante. Enxugue os olhos. de ouvir os prantos. cheguei aos Arcos. Fui. pelo efeito do remorso que me ficou. foi um instante. mas muito além da dos inválidos. José Dias suspirava. o centésimo de um instante.. A rua. e a escuridão fez-se mais cerrada. Com os . Mas a pena trazia tanto amor. assim como dão com força. Ia só andando. me segredou ao coração.cuidei cair. mais me aterrava a idéia de chegar a casa.Que é. A piedade filial desmaiou um instante. mas uma idéia que poderia ser traduzida por elas: “Mamãe defunta. e não pude mais. uma febre. Bentinho? . que é feio um mocinho da sua idade andar chorando na rua. mas não é mal de morte.Mamãe. chorei de uma vez. e eu quis pedir-lhe que não dissesse nada a ninguém. . e uma corneta que nessa ocasião tocava no quartel dos Municipais Permanentes ressoava aos meus ouvidos como a trombeta do juízo final. parecia fugir-me debaixo dos pés.. pois nada articulou parecido com palavras. assim também se vão embora. de entrar. mas então era sempre a morte de minha mãe. foi um relâmpago.. as casas voavam de um e outro lado. por mais que José Dias andasse superlativamente devagar. A casa não era logo ali. para combater o Terror. Leitor. O anseio de escutar a verdade complicava-se em mim com o temor de a saber. como se esvaiu. pelo desaparecimento da dívida e do devedor. um nó na garganta. sem ousar abrir a boca.? . e Deus pode tudo. como uma necessidade da obra humana.. que não podia ser pesar do meu pecado. Não há de ser nada. entrei na Rua de Mata-cavalos. e foi então que a Esperança.. Oh! eu não poderia nunca expor aqui tudo o que senti naqueles terríveis minutos. Foi uma sugestão da luxúria e do egoísmo. Uma vez olhou para mim tão cheio de pena que me pareceu haver-me adivinhado. Quanto mais andava aquela Rua dos Barbonos. Era a primeira vez que a morte me aparecia assim perto. ainda assim o suficiente para complicar a minha aflição com um remorso. de ver um corpo defunto.. me envolvia. mas agora.. etc.. As febres.

não menos que o costume e a fé. explica tudo. mas esta idéia não me mordia. que estava na alcova. onde iam os antigos? Não paguei uns nem outros. chamando-me seu filho. uma ação que eu não faria nunca. Eu confessarei tudo o que importar à minha história. mas como este era alto.ainda que o devedor as não pague. usei ainda uma vez do meu velho meio das promessas espirituais. perdoa este recurso. José Dias fez crescer a minha tristeza se achares neste livro algum caso da mesma família. c’est moi. os meus gestos. e fui andando. levanta. onde está o lenço? Enxuguei os olhos.. foi aquele gravíssimo. nada há mais feio que dal pernas longuíssimas a idéias brevíssimas. chegamos. segundo me disse depois. Vi depois que ele só queria dizer grave. mas saindo de almas cândidas e verdadeiras tais promessas são como a moeda fiduciária. mas o uso do superlativo faz a boca longa. e pedi a Deus que me perdoasse e salvasse a vida de minha mãe. palavras e lágrimas. ansioso agora por chegar a casa. repito. e. não. e daí a pouco. posto que de todas as palavras de José Dias uma só me ficasse no coração. meu filho. fiquei longe das suas carícias: . entramos. foi a última vez que o empreguei A crise em que me achava. c’est mon essence. Ajoelhei-me ao pé do leito. por amor do período. toda ela parecia consumida por um vulcão interno. levanta! Capitu. por mais que o pecado me doesse Então levado do remorso. e eu lhe rezaria dois mil padre-nossos. Ora. pensei em dizer tudo a minha mãe. Estava queimando os olhos ardiam nos meus.Não. Enxuguei os olhos. Enfim. Entrando no meu quarto. era uma veleidade pura. Padre que me lês. CAPÍTULO 68 ADIEMOS A VIRTUDE Poucos teriam animo de confessar aquele meu pensamento da Rua de Mata-cavalos. ouvia as palavras ternas de minha mãe que me apertava muito as mãos. leitor para que o emende na segunda edição. há só um modo de escrever a própria . mas não suspeitou naturalmente todas as causas da minha aflição. avisa-me. e pedir perdão a minha mãe do ruim pensamento que tive.dedos. logo que ela ficasse boa. debruçado sobre a cama. valem a soma que dizem. Montaigne escreveu de si: ce ne sont pas mes gestes que j’escris. Eram mais dois mil. subi trêmulo os seis degraus da escada. gostou de ver a minha entrada.

e no dia seguinte perdi o trem da mesma estrada. é um Rothschild . é contá-la toda. era também agradecer o restabelecimento de minha mãe.. Não só as belas ações são belas em qualquer ocasião como são também possíveis e prováveis. não menos simples que clara. Voilà mes gestes. Jeová. à medida que me vai lembrando e convidando à construção ou reconstrução de mim mesmo. meu amigo. sem que este. diria com muito gosto alguma bela ação contemporânea. fica transferida a melhor oportunidade. Nem era só pedir-lhe perdão do pecado. e naturalmente ainda os possuo. por ter ido dar a minha bengala a um cego que não trazia bordão. mas não me lembra. fazê-lo renunciar ao pagamento da minha promessa. mas era tão lento nos suspensórios e nas presilhas. Já me sucedeu. e principiou a vestir-se. Pelo que me toca. Tal faço eu. por não haver praticado tal virtude ou cometido tal pecado se possa dizer isento de um ou de outro. e. Nem perderás em esperar. desejar que o trem da Central estourasse longe dos meus ouvidos e interrompesse a linha por muitas horas.. Sentia necessidade de evitar qualquer conversação que me desviasse o pensamento do fim a que ia. Demais. por estar uma noite com muita dor de cabeça. Reduz-se a isto que cada pessoa nasce com certo número deles e delas.essência. acode-me agora que. mas a regra é dar-se a prática simultânea dos dois. ao contrário. eu queria estar só. CAPÍTULO 69 A MISSA Um dos gestos que melhor exprimem a minha essência foi a devoção com que corri no domingo próximo a ouvir missa em S. posto que divino. ainda que morresse alguém. ç pena que eu não possa fundamentar isto com um ou mais casos estranhos. e alguma vez com resplendor maior da terra e do céu. aliados por matrimônio para se compensarem na vida. pela teoria que tenho dos pecados e das virtudes. e era reconciliar-me com Deus. ou por isso mesmo. Quando um de tais cônjuges é mais forte que o outro. o bem e o mal. Antônio dos Pobres. falta-me tempo. O agregado quis ir comigo. depois do que se passou no Capítulo LXVII. aqui no Engenho Novo. Por exemplo. se me lembrasse. que não pude esperar por ele. visto que digo tudo. voilà mon essence. agora que contei um pecado. é certo que nasci com alguns daqueles casais. com vantagem do portador de ambos. ele só guia o indivíduo.

No fim. depois pedi perdão do pecado e revelação da dívida. ouvindo a moça. e pagaria logo as que fizesse. lembrou-me que a Igreja estabeleceu no confessionário um cartório seguro. Ora. . e a moça olhava para mim falando ao homem. A gente não era muita. . Mas a minha incorrigível timidez me fechou essa porta certa. mas a igreja também não é grande. a companheira de colégio de Capitu que queria notícias de minha mãe. fechei o livro de missa e caminhei para a porta. chegando à porta da casa. . dali em diante não faria mais promessas que não pudesse pagar. velhos e moços. e não pude sair logo. disse-lhe que estava restabelecida.muito mais humano. . mas devagar. como eu vinha na mesma direção. Havia homens e mulheres. Vi então uma moça e um homem. Ouvi missa. Depois saímos. E chegaram-me estas palavras: . e.Venho outro dia.Manda-se lá um preto dizer que o senhor fica almoçando. viemos juntos. CAPÍTULO 70 DEPOIS DA MISSA Rezei anda. Como o homem muda! Hoje chego a publicá-lo. ao levantar a Deus. ouvia e esperava. receei não achar palavras com que dizer ao confessor o meu segredo. e ira mais tarde. e na confissão o mais autêntico dos instrumentos para o ajuste de contas morais entre o homem e Deus. quis por força que eu fosse almoçar com ele. uma vez que o devedor queira deveras emendar a vida e cortar nas despesas.Mas que queres? .Queria saber dela. e provavelmente olhos feios e belos. mamãe espera-me. que saíam da igreja e pararam. com propensão a engrossar o ventre. Gurgel era homem de quarenta anos ou pouco mais. parei e olhei para todos. e recebi a bênção final do oficiante como um ato solene de reconciliação. persignei-me. Sinhazinha Sancha. era muito obsequioso. mas eu não vi uns nem outros. Ia na direção da porta. ouvindo as saudações e os cochichos. mostrou-me a casa dele. onde se fez claro. voltada para o pai. papai pergunte. e o homem olhava para mim. perdoa as dívidas integralmente. eu não queria outra coisa.Obrigado. sedas e chitas. com a onda. logo. O pai veio a mim. Não ela feia. Era sinhazinha Sancha. agradeci a vida e saúde de minha mãe. e não faz moratórias. No adro.

Manda-se lá um preto dizer que o senhor janta aqui. Como eu recusasse o almoço. a minha fé. Era o dia das boas sensações. o pai estava à janela e fez-me um gesto largo de despedida. Vestia simples. o agregado disse-lhe que vira uma vez o pai no Rio de Janeiro. . Mandem ver. Quis saber a minha idade. . que também acabava grosso. lembrando-me das palavras do Gurgel. nem as nossas relações estavam Já tão estreitas. interveio tio Cosme. Rua da Quitanda. . Escobar foi visitar-me e saber da saúde de minha mãe.mas sabendo a razão da minha saída.. três dias antes. mano Cosme?. Não pude recusar e subi. como vieram a ser depois. disse me o número do armazém.. mas eu entrei e comigo a tranqüilidade. naquele dia achei-o um pouco mais expansivo que de costume. Escobar refletiu um instante e acabou dizendo que o correspondente do pai esperava por ele.Tive receio. Eu. . respirou.. repeti-as: . Tio Cosme quis que jantasse conosco. a filha deu-me recomendações para Capitu e para minha mãe.Incômodo nenhum. Da rua olhei para cima.. Enfim. Escobar era muito polido e.Parece que sim: alguns souberam.Os outros souberam? .” Assim falava ela.. Quando lhe disse que não. aproveitou o domingo para ir ter comigo e perguntar se continuava o perigo ou não. e dava-me conselhos para o caso de vir a ser padre. mas há feições que tiram a graça de uns para dá-la a outros. quis que descansasse alguns minutos. disse ele. Teria acontecido alguma coisa. Tio Cosme e José Dias gostaram do moço. tinham já mentido dizendo a minha mãe que eu voltara e estava mudando de roupa. e irá depois.só se lhe podia notar a semelhança do nariz.. Bentinho devia está de volta. despedi-me veio ao patamar da escada. os meus estudos. de minuto a minuto. CAPÍTULO 71 VISITA DE ESCOBAR Em casa. Nunca me visitara até ali.. “A missa das oito já há de ter acabado.Tanto incômodo! . Gurgel era viúvo e morria pela filha.. conquanto falasse mais do que veio a falar depois ainda assim não era tanto como os rapazes da nossa idade.

Escobar aceitou e jantou. apesar. Mostrei-lhe os poucos livros que possuía. ainda me disse adeus. depois que ele saiu. apesar dos quarenta anos que traz em cima de si. que levou a restringir. onde esperamos a passagem de um ônibus. Tinha o sestro de sacudir o ombro direito. Viu as nossas despedidas tão rasgadas e afetuosas. onde não achara restrição. . Era Capitu. como nos livros. nem diminuir a graça delas. o apesar era uma espécie de ressalva para algum que lhe viesse a descobrir um dia. vendo que ela não acabava a frase. Apesar de quê? perguntou-lhe José Dias. ou então foi obra de uso velho. ficaram querendo bem a Escobar. de quando em quando e veio a perdê-lo. e agora abrira inteiramente a janela. vindo a risca do cabelo quase em cima da sobrancelha esquerda... ao longe. sejam histórias verdadeiras. eram dulcíssimos.mas tinha sempre a altura necessária para não afrontar as outras feições. e ficava aberto até às nove horas: ele é que se não queria demorar fora. desde que um de nós lhe notou um dia no seminário. prima Justina provavelmente não viu defeito claro ou importante no nosso hóspede. Gostou muito do retrato de meu pai. na sala como na mesa. a mesma prima Justina achou que era um moço muito apreciável. de dentro do ônibus.Vê-se que era um coração puro! Os olhos de Escobar. primeiro exemplo que vi de que um homem pode corrigir-se muito bem dos defeitos miúdos. o nariz curvo e delgado. A cara rapada mostrava uma pele alva e lisa. virou-se e disse-me: . Não é preciso dizer que era Capitu. por dentro da veneziana. Em casa. sejam romances. e quis saber quem era que me . fui levá-lo à porta. claros como já disse. A hora que passou comigo foi de franca amizade. Escobar despediu-se logo depois de jantar. Separamo-nos com muito afeto: ele. Nunca deixei de sentir tal ou qual desvanecimento em que os meus amigos agradassem a todos. e mantenho esta palavra. assim os definiu José Dias. A testa é que era um pouso baixa. também os dominava agora. e aparecera. que nos espreitara desde algum tempo. nem podia tê-la. a boca fina e chocarreira. com a mão. depois de alguns instantes de contemplação. era interessante de rosto..Que amigo é esse tamanho? perguntou alguém de uma janela ao pé. Disse-me que o armazém do correspondente era na Rua dos Pescadores. Não teve resposta. Notei que os movimentos rápidos que tinha e dominava na aula. Nisto não houve exageração do agrado. mas não olhou. Conservei-me à porta. ainda olharia para trás. a ver se. Realmente. São coisas que se adivinham na vida.

Eu amei a piedade dela. disse eu indo pôr-me embaixo da janela. ia para a cama com uma boa impressão de ternura e de amor: Ela amou o que me afligira. como ensaio. por outro lado. que as peças começassem pelo fim. nem tu. apagam-se as luzes. envergonhado. repetiu a palavra. mas efetivamente com o fim de falar ao bastidor. e dizer em voz surda: “O pisão! o pisão! o pisão!” O público . Asaverus. Eles chegam a seu tempo. Nesse gênero há porventura alguma coisa que reformar. nem ela.merecia tanto.É o Escobar. Otelo mataria a si e a Desdêmona no primeiro ato. um tiro. Então caminhou para o fundo. e eu proporia.” Desta maneira. tão certo é que o destino. em não sei que teatro. os três seguintes seriam dados à ação lenta e decrescente do ciúme. por que os últimos atos explicam o desfecho do primeiro. Quando eu era moça representou-se aí. como todos os dramaturgos. o espectador. designa a entrada dos personagens em cena. e o bom conselho do fino lago: “Mete dinheiro na bolsa. a olhar para cima. agora mais alto. isto é. e. nem qualquer outra pessoa desta história poderia responder mais. e os espectadores vão dormir. até que o pano cai. dá-lhes as cartas e outros objetos. é também o seu próprio contra-regra. acharia no teatro a charada habitual que os periódicos lhe dão. as explicações de Otelo e Desdêmona. para advertir o contra-regra. e o último ficaria só com as cenas iniciais da ameaça dos turcos. espécie de: conceito. que no último quadro concluía um monólogo por esta exclamação: “Ouço a trombeta do arcanjo!” Não se ouviu trombeta nenhuma. mas ainda nada. um carro. disfarçadamente trágico. . O principal personagem era Asaverus. CAPÍTULO 72 UMA REFORMA DRAMÁTICA Nem eu. CAPÍTULO 73 O CONTRA-REGRA O destino não é só dramaturgo. não anuncia as peripécias nem o desfecho. uma trovoada. por um lado. e executa dentro os sinais correspondentes ao diálogo. um drama que acabar pelo juízo final.

era a trombeta do juízo final e soou a tempo. mas voltou a cabeça para o nosso lado. Uma das suas poesias é destinada a contar .” Relê Alvares de Azevedo. o cavalo andava. quando a trombeta soou deveras. o lado de Capitu e olhou para Capitu. não pode estar sem estas duas coisas. outro andando e parando. Vão lá raciocinar com um coração de brasa.. um sentado. e depois. A vista de José Dias lembrou-me o que ele me dissera no seminário: “Aquilo enquanto não pegar algum peralta da vizinhança que case com ela... para ver a namorada no Catete. firme na sela. Montava um belo cavalo alazão.. A rigor. Tinham passado outros. às tardes... saí da rua à pressa. um dandy. que me dispôs a crer na malícia dos seus olhares? A vontade que tive foi pegar em José Dias pela gola. era natural admirar as belas figuras. e. como era o meu! Nem disse nada a Capitu. é o pistão do arcanjo” Assim se explicam a minha estada debaixo da janela de Capitu e a passagem de um cavaleiro. inconscientemente guardada. estava na sala de visitas. e Asaverus bradou pela terceira vez que era a do arcanjo. Três mil-réis! tudo se perde na noite dos tempos! Ora. quando dei por mim. e Capitu para ele.1851 que residia em Catumbi. morava no antigo Campo da Aclamação. CAPÍTULO 74 A PRESILHA Na sala de visitas.. alugara um cavalo por três mil-réis. mas não seria essa palavra. o dandy do cavalo baio não passou como os outros. que é o seu próprio contra-regra. Relê Alencar: “Porque um estudante. e depois. dizia um dos seus personagens de teatro de 1858. como então dizíamos. um gaiato da platéia corrigiu cá de baixo: “Não. figura e postura esbeltas: a cara não me era desconhecida. Era uso do tempo namorar a cavalo.ouviu esta palavra e desatou a rir. rédea na mão esquerda a direita à cinta. e. todos iam às suas namoradas.” Era certamente alusão ao cavaleiro. levá-lo ao . um cavalo e uma namorada. Tal foi o segundo dente de ciúme que me mordeu. e ainda outros viriam atrás. botas de verniz. tio Cosme e José Dias conversavam. senhor.. a cabeça do homem deixava-se ir voltando para trás. Tal recordação agravou a impressão que eu trazia da rua. até que. mas aquele sujeito costumava passar ali. O cavaleiro não se contentou de ir andando. assim faz o Destino. enfiei pelo meu corredor.

como se me avisasse. abotoe a presilha. eu atirava-me à cama. imaginando que vinha justamente dizer-mo. mas não escapei a mim mesmo.. e chorava. Corri ao meu quarto. frio e sereno. e José Dias veio ter comigo. que choraria de arrependimento e me pediria perdão. Bentinho? Para não fitá-lo. até ver-lhe sair a vida com o sangue. eu saí correndo. como se a tivesse entre eles. eu perseguia-me. como das outras vezes. . imaginava que Capitu saísse da janela assustada e não tardasse a aparecer. escapei a minha mãe não indo ao quarto dela. viram que uma das presilhas das calças do agregado estava desabotoada. e fazer-me padre de uma vez. deixei cair os olhos. não teria mais que desprezo. Da cama ouvi a voz dela. mas. respondi apontando com o dedo: . fiquei com medo de ouvi-lo.Olhe a presilha. a sós comigo e o meu desprezo. E os dois falavam. Quis tapar-lhe a boca. falava alto. nem nunca mais. Jurei não ir ver Capitu aquela tarde. Há um instante tinha eu desejo de lhe perguntar o que havia entre Capitu e os peraltas do bairro. enterrá-las bem. José Dias viu no meu rosto algum sinal diferente da expressão habitual. mas José Dias. e entrei atrás de mim. e abafava os soluços com a ponta do lençol. ao vão da outra janela. voltava-lhe as costas. por maior que fosse o abalo que me deu. José Dias inclinou-se. e. mas eu. e perguntou-me com interesse: . até que tio Cosme ergueu-se para ir ver a doente. que viera passar o resto da tarde com minha mãe. muito desprezo. CAPÍTULO 75 O DESESPERO Escapei ao agregado. caindo. e naturalmente comigo. eu continuei surdo. diante dela. impaciente. e rolava comigo. Os olhos. Via-me já ordenado. não me fez sair do quarto e Capitu ria alto..corredor e perguntar-lhe se falara de verdade ou por hipótese. Eu falava-me. para indagar e explicar.. continuou a andar e a falar.. como ele insistisse em saber o que é que eu tinha. agora.Que é. queria ir à casa ao pé. que parara ao ver-me entrar. Duas vezes dei por mim mordendo os dentes. Eu. A vontade que me dava era cravar-lhe as unhas no pescoço. Chamava-lhe perversa.

Vai casar? Ia casar. tudo estaria dissolvido entre nós Aceitei a ameaça. era a primeira suspeita e a última. disse-me com quem. mas fez outra.CAPÍTULO 76 EXPLICAÇÃO Ao fim de algum tempo. Tinha ambas as coisas. não podia crer que depois da nossa troca de juramentos. estaria aflita E com a minha reclusão. era prova exatamente de não haver nada entre ambos. mas nem por isso me abalou. Posto que a cabeça me doesse um pouco.. se houvesse. disse-me que era grande injúria que lhe fazia. a cavalo ou a pé. Ergui-me de golpe. deixaria de ir mais à janela. A minha dor agora complicava-se do receio de haver ido além do que convinha. mas abatido. Se olhara para ele.E que poderia haver. era natural dissimular. . depois suspirou. Capitu ria agora menos e falava mais baixo. Esta razão quadrou-me mais que tudo. depois abanou a cabeça. Podia estar zangada comigo. E aqui romperam-lhe lágrimas. senão como os outros que ali passavam às tardes. Não ceei e dormi mal. ouvi-la e julgá-la. com os olhos no tecto. para evitar nova equivocação. mas não saí do quarto. com uma moça da Rua dos Barbonos. eu os beijei de novo. podia ser que tivesse defesa e explicação. tão leviana a julgasse que pudesse crer. Na manhã seguinte não estava melhor. Quando soube a causa da minha reclusão da véspera. e ela o sentiu no meu gesto. Confessou-me que não conhecia o rapaz.. por eles e pelas lágrimas. . nem por isso deixou de dizer que. simulei maior incômodo. e jurei que nunca a haveria de cumprir. Quis resolver tudo. se ele vai casar? concluiu. . à primeira suspeita da minha parte. Como me achasse estirado na cama. e fez um gesto de separação.Não! não! não! não lhe peço isto! Consentiu em retirar a promessa. deixando de examinar o negócio. . e foi que. lembrou-me a recomendação que minha mãe fazia de me não deitar depois do jantar para evitar alguma congestão. estava sossegado. peguei-lhe das mãos e beijei as com tanta alma e calor que as senti estremecer. mas eu acudi de pronto. com o fim de não ir ao seminário e falar a Capitu. Enxugou os olhos com os dedos. estava diferente. podia não querer-me agora e preferir o cavaleiro.

Que é? .Tenho motivos. a não ser a gente da família.CAPÍTULO 77 PRAZER DAS DORES VELHAS Contando aquela crise do meu amor adolescente. . e se estava bom de todo. e foi Escobar que a recebeu.. . aqui ao seminário você é a pessoa que mais me tem entrado no coração.. tinha razões para andar distraído também. você é o primeiro e creio que já notaram. achei-o inquieto.Escobar. mas só uma parte. Hesitei. não tenho propriamente um amigo.Se eu disser a mesma coisa.Creio. Não é claro isto.Estou. mas eu não me . . à sua parte. era bom disfarçar o mais que pudesse. sinto uma coisa que não sei se explico bem. . Três dias depois disse que me estavam achando muito distraído. .Então parece-lhe?. mas nem tudo é claro na vida ou nos livros A verdade é que sinto um gosto particular em referir tal aborrecimento.. CAPÍTULO 78 SEGREDO POR SEGREDO De resto. parece que estou repetindo.. . espetando-me os olhos. naquele mesmo tempo senti tal ou qual necessidade de contar a alguém o que se passava entre mim e Capitu. Quando voltei ao seminário.Sim. Mas a verdade é que não tenho aqui relações com ninguém. perde a graça.Escobar. ele esperou. você é meu amigo. eu sou seu amigo também. Ele. a tal ponto se espiritualizaram com o tempo que chegam a diluir-se no prazer. Ouvia. Santiago.. quando é certo que ele me lembra outros que não quisera lembrar por nada.. você às vezes está que não ouve nada. ninguém se distrai à toa. Perguntava-me com interesse o que é que tivera. olhando para ontem. mas buscava ficar atento. Não referi tudo. na quarta-feira. retorquiu ele sorrindo. disfarce. . e lá fora. se eu me demorasse mais um dia em casa. . e é que as dores daquela quadra. disse-me que era sua intenção ir ver-me.

Que mais há de ser? Dei duas voltas e sussurrei a primeira palavra da minha confidência. . Eu sei que é moço sério. Não podia levar para a igreja um coração que não era do céu. a modéstia. Não foi preciso mais para que ele entendesse. matéria adequada à admiração de um seminarista. que não a ouvi eu mesmo. . e faço de conta que me confesso a um padre...Escobar. você é capaz de guardar um segredo? .. Estou aqui. mas da terra. e esperam. Uma pessoa devia ser uma moça. e eu nem mais nem menos um mimoso do céu. também eu tenho o propósito de não acabar o curso. . absolutamente nadafica só entre nós. achou até natural e espetou-me outra vez os olhos. sou religioso. . . Deu-me de conselhos que não me fizesse padre. a simpleza. os meus acreditam. . Santiago. não lhe referi o Capítulo do penteado. aí me cumpria ficar. Uma pessoa?. eis a minha sensação. seria um mau padre.Escobar. trazia a este mundo um aspecto extraordinário. Ao contrário.” com reticência. . Comovido. e nesse caso.Nem você? . sei porém que disse “uma pessoa.Desculpe. Era como que uma felicidade mais. Nem cuides que pasmou de me ver namorado. Aquele coração moço que me ouvia e me dava razão. é um modo de falar..importo com isso. senti que a voz se me precipitava da garganta. Que voltamos ao assunto. Voltamos uma e muitas vezes: eu louvava as qualidades morais de Capitu. Era um grande e belo mundo.Só isso? .Você que pergunta é porque duvida. tão escassa e surda. a vida uma carreira excelente. Nota que eu não lhe disse tudo. E não é que eu não seja religioso. no fim da nossa conversação declarou-me que era segredo enterrado em cemitério. uma vez que eu só podia servi-lo no mundo. Então contei-lhe por alto o que podia.Se precisa de absolvição.Segredo por segredo. . nem o melhor.Nem eu. mas eu não posso ser padre. Deus protegia os sinceros. mas não diga nada. nem seria padre. meu desejo é o comércio. Não calculas o prazer que me deu a confidência que lhe fiz. por exemplo. mas demoradamente para ter o gosto de repisar o assunto Escobar escutava com interesse. não é preciso dizê-lo. nem outros assim. mas o contado era multo. está absolvido. O amor do trabalho . mas o comércio é a minha paixão. eu não posso ser padre..

não cabia dizer agora o que só mais tarde presumi descobrir. e o filho há de ouvir o autor. mas toda a verdade. mas pode ir antes. você irá lá. só a verdade. . um destes em que o autor tem de atender ao filho. sim. Ainda agora. pode ir sempre. que esperei viesse depois tanto que já pesquisava em que altura lhe daria um Capítulo. Por mais que me estivesse então obrigando a uma carreira que eu não queria. minha mãe era adorável. Cabe ainda notar que esse ponto é que torna justamente a santa mais adorável.Você não me convidou. . confesso-lhe que sua mãe é uma senhora adorável.Também eu fiquei gostando de todos. . . gostei de ouvi-lo falar assim. não podia deixar de sentir que era adorável. Nem de outro modo se explica a opinião de Escobar.Não é verdade? retorqui cheio de alvoroço. Basta de prefácio ao Capítulo. Quando ela vier. por que não foi ontem jantar comigo? .e os costumes religiosos. Não lhe tocava nas graças físicas. É grave e complexo. que apenas trocara com ela quatro palavras Uma só bastava a penetrar-lhe a essência íntima. nem ele me perguntava por elas. Capitu vai passar uns dias com uma amiga da Rua dos Inválidos. E porventura era certo que me obrigava à carreira eclesiástica? Aqui chego a um ponto. sim. uma vez que toquei no ponto. CAPÍTULO 79 VAMOS AO CAPÍTULO Com efeito. disse-lhe na primeira semana. delicado e sutil. CAPÍTULO 80 .Agora não é possível. como uma santa. depois de interromper esta linha para mirar-lhe o retrato que pende da parede. sem prejuízo (ao contrário!) da parte humana e terrestre que havia nela. Realmente. apenas insinuei a conveniência de a conhecer de vista. para que um e outro digam a verdade.Pois precisa convidar? Lá em casa todos ficaram gostando muito de você. mas. Sabes a opinião que eu tinha de minha mãe. ao voltar de casa. vamos ao Capítulo. melhor é acabar com ele. mas é possível fazer distinção. acho que trazia no rosto impressa aquela qualidade.

falou da necessidade de entregar o preço ajustado. para quem tem de pagar na páscoa. Nem ignoras que a minha carreira eclesiástica era objeto de promessa feita quando fui concebido. a mágoa da separação. que enxugou sem explicar. comercialmente falando. Um dos aforismos de Franklin é que. não as entendi mais que eles. Mas meu pai morrera sem saber nada. das suas práticas religiosas. foi guardada por ela. Minha mãe era temente a Deus. e ela ficou diante do contrato. Outorgam. é possível que alterasse os planos. José. sem necessidade de lhe dedicar ab ovo. . posto me mandasse ensinar latim e doutrina. e que nenhum dos presentes nem tio Cosme. e . sentia muito bem que as promessas se cumprem. vê-se que eram saudades prévias. Tudo está contado oportunamente. se vivesse.e pode ser também. Um dia. confiou os seus projetos e motivos a parentes e familiares. e da fé pura que as animava. apesar da distancia. Em todo caso. aceita com misericórdia. a questão é se é oportuno e adequado fazê-las todas. não dependia daquela quantia para comer. era uma conclusão primeira. como tinha a vocação da política. nem prima Justina. porém. que estava atrás da porta. sabes disto. e naturalmente inclinava-se à negativa. é o princípio do ponto. e minha mãe. Católica e devota. Ora. Minha mãe concordou e recolhi-me a S. não bastando concluir para destruir. negando-lhe um segundo filho? A vontade divina podia ser a minha vida. sem sequer agravar a taxa do juro. começou a adiar a minha entrada no seminário. A promessa. É o que se chama. Era um raciocínio tardio: devia ter sido feito no dia em que fui gerado. a quaresma é curta. Por que é que Deus a puniria. com alegria. verteu ela umas lágrimas. Penso que lhe senti o sabor da felicidade no leite que me deu a mamar. A nossa quaresma não foi mais longa que as outras. O credor era arquimilionário. reformar uma letra. Meu pai. no mais íntimo do coração. tudo se manteve.VENHAMOS AO CAPÍTULO Venhamos ao Capítulo. feita com fervor. pode ser que arrependimento da promessa. é provável que me encaminhasse somente à política. como única devedora. um dos familiares que serviam de endossantes da letra. e mais de um padre entre na luta dos partidos e no governo dos homens. nem o agregado José Dias entendeu absolutamente: eu. embora os dois ofícios não fossem nem sejam inconciliáveis. mas. e. Bem examinadas. sabes que para o fim de apertar o vínculo moral da obrigação. nesse mesmo Capítulo. e consentiu nas transferências de pagamento. está num dos Capítulos primeiros.

Minha mãe apalpava-lhe o coração. Era como se. uma troca de promessa. dando parte dos seus anos para conservar-me consigo. me levasse a não ficar lá nem por Deus nem pelo Diabo. a lua das noites. falando e cantando. O céu e a terra acabam conciliando-se. tornando-me absolutamente incompatível com o seminário. Esta começou a fazer-se-lhe necessária. Sucedeu que a minha ausência foi logo temperada pela assiduidade de Capitu. tendo o céu sido feito no segundo dia e a terra no terceiro. revolvia-lhe os olhos. e o meu nome era entre ambas como a senha da vida futura. tendo confiado a alguém a importância de uma dívida para levá-la ao credor o portador guardasse o dinheiro consigo e não levasse nada. é o final do ponto anunciá-lo. eles são quase irmãos gêmeos. Assim a senti sempre na corrente da vida ordinária. Minha mãe faria. se és religioso. por lhe parecer uma deslealdade. Capitu era naturalmente o anjo da Escritura.eu fui para o seminário. conheci que temes a Deus”. ouvindo. a esperança de que o nosso amor. mas a vantagem de contratar com o céu é que intenção vale dinheiro. o frescor das tardes. Tal seria a esperança secreta de minha mãe. eu romperia o contrato sem que ela tivesse culpa. E atou Isaac em cima do feixe de lenha. pegou do cutelo e levantou-o ao alto. Então. ouve a voz do anjo que lhe ordena da parte do Senhor: “Não faças mal algum a teu filho. Como Abraão. lá vivia horas e horas. por modo idêntico ou análogo. assim como suponho que rejeitou tal idéia. Pouco a pouco veio-lhe a persuasão de que a pequena me faria feliz. Um cochilo da fé teria resolvido a questão a meu favor. Hás de ter tido conflitos parecidos com esse. Na vida comum. o ato de terceiro não desobriga o contratante. Ela ficava comigo sem ato propriamente seu. Neste caso. haverás buscado alguma vez conciliar o céu e a terra. fora do clero. esta esperança íntima e secreta entrou a invadir o coração de minha mãe. A verdade é que minha mãe não podia tê-la agora longe de si. No momento de fazê-lo cair. Capitu passou a ser a flor da casa. casado e pai: é o que presumo. minha mãe levou o filho ao monte da Visão. e. CAPÍTULO 81 . st pudesse. mas a fé velava com os seus grandes olhos ingênuos. o fogo e o cutelo. A afeição crescente era manifesta por atos extraordinários. e mais a lenha para o holocausto. o sol das manhãs.

e anunciou-me que se mataria também. Custou-lhe a crer que fosse eu. mortes. e efetivamente conversamos por alguns minutos. . os mesmos olhos matadores seriam olhos piedosos. não menos que espantada. Prima Justina escapou aos meus. e voltando-se para mim: E a enfermeira de Sancha. fresca e lépida. Eu ansiava por um raio de luz clara e céu azul. pensava já vê-la morta. mas tão depressa me viu. insinuou prima Justina. exerceriam vingança pronta. mas quer falar-lhe. disse-lhe ele. eu e que não escapei ao efeito da insinuação.Está pior? perguntou Gurgel assustado. como armas de ataque. senhor. . Capitu trazia sinais de fadiga e comoção. e no domingo. Um dos erros da Providência foi deixar ao homem unicamente os braços e os dentes. se elas ouviram algo.caíra na véspera com uma febre. que se ia agravando. O pai de Sancha recebeu-me em desalinho e triste. pistola nem punhal. Um mover deles faria parar ou cair um inimigo ou um rival. com sinhazinha Gurgel: . Falou-me. corri à Rua dos Inválidos. Foi Capitu que os trouxe à porta da sala. e correriam a chorar a vítima. Agora se entenderá que ela me dissesse. .UMA PALAVRA Assim contado o que descobri mais tarde.mas os olhos que lhe deitei. De resto. ficou toda outra. quando eu cheguei a casa. Os olhos bastavam ao primeiro efeito. . no primeiro sábado. nem elas nem os móveis. com este acréscimo que.Fique aqui um bocadinho. a mocinha de sempre.Não. mas são tão baixo e abafado que nem as paredes ouviram. que não quer outra. às onze horas. se pudessem matar. A filha estava enferma. certamente a amiga pediu-lhe que dormisse lá. Capitu devia ter voltado hoje para acabar um trabalho comigo.Pois então? Mas é se queres.Talvez ficassem namorando.Ofereceu. suicídios e assassinatos. para desnortear a justiça. teriam suprido tudo. elas que têm ouvidos. Como ele queria muito à filha. e as pernas como armas de fuga ou de defesa. eu já volto. vindo dizer ao pai de Sancha que a filha o mandara chamar. quis que lhe falasse. nada entenderam. posso trasladar para aqui uma palavra de minha mãe. . . e soube que Capitu estava na Rua dos Inválidos.Por que não vais vê-la? Não me disseste que o pai de Sancha te ofereceu a casa? . Não a matei por não ter à mão ferro nem corda. Eis aqui um Capítulo fúnebre como um cemitério.

com tal insistência que os aceitamos e nos sentamos. só o canapé pareceu haver compreendido a nossa situação moral. metia os olhos pelas cadeiras.a febre parece que cede.Conselho dela? murmurou Capitu. Ele faz aliar a intimidade e o decoro. Também me lembra.. visto que nos ofereceu os serviços da sua palhinha. e que até breve. CAPÍTULO 83 O RETRATO Gurgel tornou à sala e disse a Capitu que a filha chamava por ela. quer visse ou não. Vagamente lembra-me que lhe perguntei se a demora ali seria grande.. disse ele. estendeu-me a mão e enfiou pelo corredor. . apertando os dela. Como era possível que Capitu se governasse tão facilmente e eu não? . isto é. mas. Eu levantei-me depressa e não achei compostura. continuou a prestar os seus serviço às nossas mãos presas e às nossas cabeças juntas ou quase juntas.. Dois homens sentados nele podem debater o destino de um império.. que lhe expliquei a minha visita à Rua dos inválidos. e duas mulheres a graça de um vestido. que brilhavam extraordinariamente . com os simples dedos. e disse-me que levasse lembranças a minha mãe e a prima Justina.mas. Capitu ergueu-se naturalmente e perguntou-lhe se a febre aumentará.Seremos felizes! Repeti estas palavras. Nem sobressalto nem nada.que estavam tão tristes como o dono. Data daí a opinião particular que tenho do canapé. Ao contrário. e mostra a casa toda sem sair da sala. Foi o que fizemos. Todas as minhas invejas foram com ela. nenhum ar de mistério da parte de Capitu. . com a pura verdade. a conselho de minha mãe. .. voltou-se para mim. Capitu e eu. um homem e uma mulher só por aberração das leis naturais dirão outra coisa que não seja de si mesmos. E acrescentou com os olhos. vagamente. CAPÍTULO 82 O CANAPÉ Deles. O canapé.Não.Não sei..

Mandei recado a sua mãe agora mesmo. . Ia satisfeito com a visita. . disse-me ele chorando. Capitu ia crescendo às carreiras as formas arredondavam-se e avigoravam-se com grande intensidade moralmente a mesma coisa. voltando-se para a parede da sala. com os louvores de Gurgel. Esse arvorecer era mais apressado. mulher por todos os lados.Morreu? .Senhor Bentinho! Senhor Bentinho! Só depois que a voz cresceu e o dono dela chegou à porta é que eu parei e vi o que era e onde estava. sabe que meu filho Manduca morreu? . Meu pobre filho! Tinha de morrer. Um dos costumes da minha vida foi sempre concordar com a opinião provável do meu interlocutor. e foi bom que morresse. era um. de cada vez que vinha a casa achava-a mais alta e mais cheia. onde pendia um retrato de moça. aborrece ou impõe. observou Gurgel olhando também para ela.Está uma moça. Na verdade. mulher à direita e à esquerda. e ela fez-me a caridade de mandar algumas flores para botar no caixão. Murmurei que sim. e desde os pés até à cabeça. escassa e pobre: tinha as portas meio cerradas. e que as pessoas que a conheceram diziam a mesma coisa.. Estava já na Rua de Matacavalos. Na vida há dessas semelhanças assim esquisitas. agora que eu a via de dias a dias.a mãe não era mais amiga dela. desde que a matéria não me agrava. pareciam irmãs.. . CAPÍTULO 84 CHAMADO No saguão e na rua. Era mulher por dentro e por fora. a testa principalmente e os olhos. mas achei que não e pus-me a andar. Antes de examinar se efetivamente Capitu era parecida com o retrato. enterra-se amanhã. a tal ponto que não acudi logo a uma voz que me chamava: . os olhos pareciam ter outra reflexão. e a boca outro império. e a pessoa que me chamava era um pobre homem grisalho e mal vestido.Senhor Bentinho. Também achava que as feições eram semelhantes. Gurgel. Então ele disse que era o retrato da mulher dele. perguntou-me se Capitu era parecida com o retrato. com a alegria de Capitu. até a amizade que ela tem a Sanchinha .Morreu há meia hora. A casa era uma loja de louça.. fui respondendo que sim.Finalmente. Quanto ao gênio. examinei ainda comigo se efetivamente ele teria desconfiado alguma coisa.

Suspendamos a pena e vamos à janela espairecer a memória. com o dedo na boca.. Mas também não me culpem a mim. nenhuma nota aborrecida viria interromper as melodias da minha alma.. sem alma para entrar nem fugir. mas provavelmente não falei por palavras claras. e finalmente aquela torre de igreja. Eis o mal todo. Penso que cheguei a dizer que tinha pressa.. que não queria ver o Manduca. . Não culpo ao homem. o trem da Estrada Central que bufa. agora que as janelas da área estavam cerradas. CAPÍTULO 85 O DEFUNTO Tal foi o sentimento confuso com que entrei na loja de louça. que era horrível. Quis responder que não.. para ele. mas apesar de tudo sempre dói. fumega e passa. mas agora ia tão contente! Ver um defunto ao voltar de uma namorada. e o corpo acabou entrando.. ou se o Manduca esperasse algumas horas para morrer. a cabra que rumina ao pé de uma carroça. é outra coisa. assobia. Que vida que ele teve!. As minhas idéias de ouro perderam toda a cor e o metal para se trocarem em cinza escura e feia. e fiz até um gesto para fugir. Tudo o que vejo lá fora respira vida. Custa-me dizer isto. encostado ao portal. à porta da alcova duas crianças olhavam espantadas para dentro. A um canto da sala de jantar vi a mãe chorando.. morre-se muito bem às seis ou sete horas da tarde. abria-me espaço com o gesto. e eu. O cadáver jazia na cama. e que a morte de um viesse meter o nariz na vida do outro... mas antes peque por excessivo que por diminuto.. e o interior da casa menos luz tinha. a cama. o quadro era feio. a palmeira que investe para o céu. nem sequer humanas. Quer vê-lo? Entre. noutra ocasião pode ser até que entrasse com facilidade e curiosidade. a coisa mais importante era Capitu. Um dia destes ainda se lembrou do senhor. Há coisas que se não ajustam nem combinam.coitado. para mim. ande vê-lo. já pelo defunto. já pela morte. Realmente. Por que morrer exatamente há meia hora? Toda hora é apropriada ao óbito. O mal foi que os dois casos se conjugassem na mesma tarde. Isto aqui. A loja era escura.... A simples notícia era já uma turvação grande. sim. e não distingui mais nada. Se eu passasse antes ou depois. porque ele. a coisa mais importante do momento era o filho. Não era medo. a galinha que marisca no chão da rua. e perguntou se estava no seminário. deixei ao corpo fazer o que pudesse.

e uma idéia me entrou no cérebro. que ali no beco empina um papagaio de papel. nada menos que a lepra. o triste corpo daquele meu vizinho.Coitado de Manduca! soluçava a mãe.. Vá. a cara não permitia trazer a idade à vista antes a escondia nas dobras da. Não sei que mão oculta me compeliu a olhar outra vez. não morreu nem morre.. respondi com a verdade. e despedi-me O pai perguntou-me se lhe faria o favor de ir ao enterro. Amai... disse que era esperado em casa. pálido e disforme. posto também se chame Manduca. fiquei apavorado e desviei os olhos... aroma ao infecto. se existe algum não é em tal evidência que se vexe ou doa. e saltei à rua.buscava esquecer o defunto. a tomar fôlego. elas dão remédio ao mal. RAPAZES! Era tão perto. bastou-me pensar na outra casa. . trocam a morte pela vida. Tudo arredei da vista. Diga-se tudo. Amai. que antes de três minutos me achei em casa. . até que recuei de todo e saí do quarto. olhei. principalmente. estendido na cama. Verdade é que o outro Manduca era mais velho. Teria dezoito ou dezenove anos. é morto. faria o que minha mãe quisesse. rapazes! CAPÍTULO 87 A SEGE Chegara ao último degrau. Eu cuidei de sair. amai moças lindas e graciosas. atravessei a loja.Padeceu muito! suspirou o pai. os seus parentes são mortos. tornei a olhar. mas podes imaginá-lo. Vivo era feio. rapazes! e. e mais na vida e na cara fresca e lépida de Capitu. CAPÍTULO 86 AMAI. Um rapaz. E rápido saí. mas tanto lhe darias quinze como vinte e dois. em poucos segundos. cedi. como se . e o mais que não disse para não dar a estas páginas um aspecto repugnante.apesar de não ter músculos nem folhagem. Parei no corredor. Quando eu vi. que não sabia. Manduca padecia de uma cruel enfermidade.morto pareceu-me horrível. ainda que de fugida. diga-se tudo.

dizia-me rindo: . ou atravessavam diante da sege. que ela conservou o mais que pôde. . naturalmente sobre quem iria dentro. que era nosso escravo. Refleti um instante. de duas rodas. Ouvi de memória as palavras do pai de Manduca pedindo-me que fosse ao enterro no dia seguinte. mas ele gostava e eu também. Era uma velha sege de meu pai.estivesse a esperar por mim. as pessoas paradas na calçada ou à porta das casas. que tem um filho. lembra-me que ia assim muita vez com minha mãe às visitas de amizade ou de cerimônia e à missa. por mais que tivesse o gosto da condução. . com duas cortinas de couro na frente.” A sege ia tanto com a vida recôndita de minha mãe. Cada cortina tinha um óculo de vidro. Quando havia impedimento de gente ou de animais. as botas. na mão levava o chicote grosso e comprido. Quando fui crescendo em idade imaginei que adivinhavam e diziam: “É aquela senhora da Rua de Mata-cavalos. mamãe! E em pé. o chicote e as mulas. . por onde eu gostava de espiar para fora. abertas ou fechadas.. escanchado na mula da esquerda. a sege parava. não pela vaidade. .Senta. sim. estreita e curta.. e na rua as pessoas que iam e vinham. Dos lados via passar as casas. Era uma velha sege obsoleta. entre as grades da cancela. e via o cocheiro com as suas grandes botas. vestido. porque ela não permitia ver as pessoas que iam dentro.Nhã Glória não gosta. O cocheiro.João. que quando já não havia nenhuma outra. Bentinho. Parei no degrau. esperando minha mãe. quando era mais pequeno. Em pequeno. lojas ou não. Bentinho! . metia a cara no vidro.Deixa espiar. se chovia. pediria a minha mãe que me alugasse um carro. com grandes pernadas ou passos miúdos. e então o espetáculo era particularmente interessante. vai devagar. tão velho como a sege. e era conhecida na rua e no bairro pela “sege antiga. olhavam para a sege e falavam entre si.” Afinal minha mãe consentiu em deixá-la. demora muito as bestas. Tudo incômodo. que corriam para os lados quando era preciso entrar ou sair. com gente ou sem ela. e segurando a rédea da outra. continuamos a andar nela. Não cuides que era o desejo de andar de carro..Pai João vai levar nhonhô! E era raro que eu não lhe recomendasse: ..Mas demora! Fica entendido que era para saborear a sege. podia ir ao enterro. quando me via à porta.

sem a vender logo. A lembrança do carro podia vir acessoriamente depois. não iria ao seminário. CAPÍTULO 88 UM PRETEXTO HONESTO Não.. Abri a cancela. Tinha o seu museu de relíquias. pentes desusados. para que tudo fosse antigo.. não alcançava tudo o que queria. Gurgel aflito.Perder um dia de seminário Fiz-lhe notar a amizade que o Manduca me tinha.. e depois era gente pobre. ouvi agora a da mãe. esse era filho também do carrancismo que ela confessava aos amigos. e. Bis aí o que era. disse. mas já deixei dito que. assim como ouvira da memória a palavra do pai do morto. um resto da pessoa. Tudo o que me lembrou dizer. Minha mãe exprimia bem a fidelidade aos velhos hábitos. velhas modas. um tanto mais demorada. . neste ponto. Capitu comigo no canapé. Contava que tudo me saísse como naquele dia. Tudo o que vinha de meu pai era conservado como um pedaço dele.Vou pedir a mamãe. velhas maneiras. mas a principal e imediata foi aquela. Antes de transpô-la.Coitado de Manduca! CAPÍTULO 89 A RECUSA Minha Mãe ficou perplexa quando lhe pedi para ir ao enterro. Prima Justina opinou pela negativa. e podia fazer outra visita a Capitu. era a lembrança do marido. a si mesma se queria fazer velha. . Voltaria à Rua dos Inválidos. . um trecho de mantilha. umas moedas de cobre datadas de 1824 e 1825. acompanhando o enterro no dia seguinte. só abriu mão dela porque as despesas de cocheira a obrigaram a isso.Você acha que não deve ir? perguntou-lhe minha mãe. A origem era outra: era porque. . as mãos presas. velhas idéias. A razão de a guardar inútil foi exclusivamente sentimental.. Mas o uso. e repeti a meia voz: . a mesma alma integral e pura. a pretexto de saber de sinhazinha Gurgel. o penteado. a idéia de ir ao enterro não vinha da lembrança do carro e suas doçuras.

Era todo o seu recreio. Quando referi o caso ao agregado.Acho que não. andei até mais depressa. Defendi o direito da Rússia. Mal podeis crer a que propósito foi. e não fiquei pouco espantado.. no dia seguinte. Fosse o que fosse. e eu respondi que não. donde ele espiava um palmo da rua e a gente que passava. e a justiça está com os aliados. Manduca vivia no interior da casa. sobre a tarde..ou. Ao domingo. ainda mais breve que este em que vo-lo digo. Fui sempre um tanto moscovita nas minhas idéias. Reduziam-se todas a uma polêmica. o que é impossível. CAPÍTULO 90 A POLÊMICA No dia seguinte. Uma vez que não ia ao enterro antes longe que próximo. este sol riu. recordando algumas. Não éramos amigos. íamos com o que nos diziam os jornais da cidade transcrevendo os de fora. a propósito. Fui pensando nelas. e disse-me que o motivo escondido da prima era provavelmente não dar ao enterro “o lustre da minha pessoa”. passei pela casa do defunto. Manduca disse que os aliados haviam de vencer. Se me não engano. se parei. senhor. e trazia-o para o fundo da loja. Tinha eu de treze para quatorze anos. que então ardia e andava nos jornais. . como falássemos da guerra da Criméia. Naturalmente. a razão é dos russos.. . Foi ali que o vi uma vez. fiquei amuado. . Só se a justiça não vencer neste mundo. receando que me chamassem como na véspera. Manduca fez o mesmo ao dos aliados. o aspecto não atraía decerto. lendo por desfastio. Foi a guerra da Criméia. sem entrar nem parar .Não. tornou ele. Fui andando e pensando no pobre-diabo. nem nos conhecíamos de muito. deitado na cama.Pois veremos. pensando no motivo. mais tarde achei-lhe um sabor particular. mas pode ser também que cada um de nós tivesse a opinião do seu temperamento. e o terceiro domingo em que entrei na loja tocamos outra vez no assunto. não me desagradou. Da segunda vez que o vi ali. entre nós. a doença ia-lhe comendo parte das carnes. os dedos queriam apertar-se. dois anos antes. Intimidade que intimidade podia haver entre a doença dele e a minha saúde? Tivemos relações breves e distantes. o pai enfiava-lhe uma camisola escura. Que amizade é essa que eu nunca vi? Prima Justina venceu. foi só um instante.

depois que o senhor lhe escreve aqueles papéis. nem talvez interesse conhecê-los. Naturalmente a mim sobravam mil coisas que distraíam. Manduca. O acaso dera-lhe em mim um adversário. assunto da cidade e do mundo. que me chamava a outros exercícios. Logo que eu mando o caixeiro levar-lhe os papéis dele. que tinha gosto à escrita. Ou gosto da polêmica ou qualquer outra causa que não alcanço.Não imagina como ele anda agora. antes de saber os meus argumentos. agora que o século está a expirar. Dias depois recebi a réplica. Não me recorda um só dos argumentos que empreguei. uma vez. profunda. por mais nojosa que tivesse então a cara. A convicção com que me recebeu o papel e disse que ia ler e responderia é que não tem palavras nossas nem alheias que a digam de todo e com verdade. Senti esta mudança dele nas próprias maneiras do pai e da mãe. Fui eu mesmo levar-lhe o meu papel. e se demorará muito. o estudo. ele. e a própria saúde. e da integridade da Turquia. deitou-se ao debate. Tinha já papel. Fizeram-me entrar na alcova. concluindo por esta frase profética: “Os russos não hão de entrar em Constantinopla!” Li-a e meti-me a refutá-la. e o prazer com que lhe dei o papel foi sincero. . Fala e ri muito.Então Manduca propôs que trocássemos a argumentação por escrito. e que pergunte ao moleque. em que nenhum de nós cedia. As horas tristes e compridas eram agora breves e alegres. pela sua parte. se porventura choravam antes. grande. não era ruidosa. a família. mas que ninguém ia tratar com ele. salvo o palmo de rua ao domingo de tarde. . o sorriso que a acendeu dissimulou o mal físico. era simples. pena e tinta ao pé da cama. mal coberto por uma colcha de retalhos. não me deixou sentir toda a repugnância que saía da cama e do doente. os olhos desaprenderam de chorar. Manduca. nem a moléstia os permitiria. onde ele jazia estirado na cama. mas a idéia que me ficou deles é que eram irrespondíveis. Manduca era mais longo e pronto que eu. o calor é que crescia. como a um remédio novo e radical. não era exaltada. não me lembra se trazia coisas novas ou não. os recreios. tinha só esta guerra. e o final era o mesmo: “Os russos não hão de entrar em Constantinopla!” Trepliquei. defendendo cada um os seus clientes com força e brio. e na terça ou quarta-feira recebi duas folhas de papel contendo a exposição e defesa do direito dos aliados. à porta da rua. não tinha gestos. entra a indagar da resposta. e daí continuou por algum tempo uma polêmica ardente. dizia-me o dono da loja. um gozo infinito de vitória.

não se podendo considerar tal o simples acordo da medicina e da farmácia. se era. mas. relê jornais e toma notas.quando passar. como a história.ele ainda teimou duas ou três vezes depois do meu silêncio. acho que não só servi de alívio. Mas também. O próprio Manduca. essa era a questão para o meu vizinho leproso. a não ser esta: que servi de alívio um dia ao meu vizinho Manduca. atira-se a lê-los. mas não recebendo contestação alguma. mas se os russos entrara algum dia em Constantinopla. como os Estados morrem. Mas a predição será eterna? Não chegarão a entrar algum dia? Problema difícil. para entrar na sepultura. tão certo é que a natureza.. rota e infecta colcha de retalhos.. r nosso caso particular. Comecei a demorar as respostas. é que não os mande à hora do almoço ou de jantar. A vida dele resistiu como a Turquia se afinal cedeu foi porque lhe faltou uma aliança como a anglo-francesa. nem até agora. fazendo-lhe esquecer o mal e o resto. apenas recebe os seus papéis. como todas. ele estará purgando há quarenta anos a felicidade . a caminho do seminário. nem depois. efetivamente. CAPÍTULO 91 ACHADO QUE CONSOLA É claro que as reflexões que aí deixo não foram feitas então. nem então. mas até lhe dei felicidade. afirmava a mesma predição eterna: “Os russos não hão de entrar em Constantinopla!” Não entraram. e começa logo a escrever a resposta. a questão é saber. A última como a primeira. E o achado consola-me. É alguma coisa na liquidação da minha vida. Quanto ao Manduca. tanto que eu queria pedir-lhe uma coisa. mas agora no gabinete do Engenho Novo Então não fiz propriamente nenhuma. Enquanto espera. gastou três anos de dissolução. Morreu afinal. por fadiga também ou por não aborrecer. não se a Turquia morre porque a morte não poupa a ninguém. Hoje pensando melhor. acabou de todo com as suas apologias. Há ocasiões em que não come ou come mal. até que não dei mais nenhuma.. não se faz brincando. já agora não esquecerei mais que dei dois ou três meses de felicidade a um pobre-diabo.. Se há no outro mundo tal ou qual prêmio para as virtudes sem intenção. esta pagará um ou dois dos meus muitos pecados. Fui eu que cansei primeiro. não creio que fosse pecado opinar contra a Rússia. debaixo da triste.

o meu jardineiro afirma que as violetas. dava à podridão das suas carnes um reflexo espiritual que as consolava. como se me não visse desde longos meses. A muitos outros aconteceu a mesma coisa. Escobar? . Mas o tempo apagou depressa todas essas saudades e ressurreições. mas este caso afligiu-me particular mente pela razão já dita.. cuja imagem dormiu comigo na mesma noite. E talvez saia assim a flor mais bela.. duas pessoas vieram ajudá-lo. se alguém tiver de ler o meu livro com alguma atenção mais da que lhe exigir o preço do exemplar.que alcançou em dois ou três meses. não contando o gosto do carro. Há consolação maiores.Vim para isto mesmo.. e tal amigo que durante cerca de cinco minutos esteve com a minha mão entre as suas.. sem que eu sentisse nada. CAPÍTULO 92 O DIABO NÃO É TÃO FEIO COMO SE PINTA Manduca enterrou-se sem mim. temperando o mal com a opinião anti-russa.. foi o meu colega Escobar que no domingo. hão mister de estrume de porco. Nem foi só ele. decerto e uma das mais excelentes é não padecer esse nem outro mal algumas a natureza é tão divina que se diverte com tais contrastes. não deixe de concluir que o Diabo não é tão feio como se pinta. CAPÍTULO 93 UM AMIGO POR UM DEFUNTO Quanto à outra pessoa que teve a força obliterativa. O resto deste Capítulo é só para pedir que. antes do meio-dia. Minha mãe agradeceu-lhe a amizade que me tinha. para terem um cheiro superior. Também senti não sei que melancolia ao recordar a primeira polêmica da vida. Quero dizer que o meu vizinho de Mata-cavalos. o gosto com que ele recebia os meus papéis e se propunha a refutá-los. e aos mais nojentos ou mais aflitos acena com uma flor. Um amigo supria assim um defunto.donde concluirá (já tarde) que era ainda melhor haver gemido somente. e outra que direi no Capítulo que vem. Capitu. e ele respondeu com . .Você janta comigo. veio ter a Mata-cavalos. Quero dizer. sem opinar coisa nenhuma. Não examinei. mas deve ser verdade.

ainda que um tanto atado. . no seminário todos me queriam bem.. .Não. isso parece. . pedindo explicação das passagens omissas ou só escuras. Todos ficaram gostando dele. . tão pequenino viera. Parece curioso.. e o preto andava em serviço. A verdade é que uma coisa não impede outra. distinta e moça. muito moça.São os olhos dele.muita polidez. nem podia deixar de ser assim.Já fez quarenta. . entretanto..Nhonhô! Estávamos na horta da minha casa. Já viste que não era assim. “na doce e rara mãe” que o céu me deu. expliquei. perguntando mais.A mim parece-me um mocinho muito sério. foi que me estimava pelas minhas boas qualidades e aprimorada educação.. Tomás! . . nos bons exemplos. O que ele disse. mas. Eu estava tão contente como se Escobar fosse invenção minha.. e elogiou também minha mãe. pode ser que a senhora Dona Justina tenha alguma razão.. Escobar escutava atento. a palavra obedecia-lhe. para não discordar dela. aquele preto que ali vai passando. Insistia na educação.Não é possível! exclamou Escobar. são exatamente os dela. Tudo isso com a voz engasgada e trêmula. E não contávamos voltar . contou-me duas ou três reminiscências dos seus três anos de idade. chegou-se . e prima Justina não achou tacha que lhe pôr. depois. como se carecesse de palavra pronta. dizendo que eram bondades. mas o homem não é sempre o mesmo em todos os instantes. respondi eu vagamente por vaidade. José Dias desfechou-lhe dois superlativos. Olhe. Que idade teria? . com esses olhos que Deus lhe deu. .Justamente! confirmou José Dias. acudiu José Dias. é de lá. Também a alguém há de você sair. veio ela confessar-nos que o meu amigo Escobar era um tanto metediço e tinha uns olhos policiais a que não escapava nada. opinou tio Cosme. no segundo ou terceiro domingo. sim.Seguramente. em resumo. ainda agora frescas. disse minha mãe.São olhos refletidos. Enviuvou há muitos anos? Contei-lhe o que sabia da vida dela e de meu pai. Quando eu referi a Escobar aquela opinião de minha mãe (sem lhe contar as outras naturalmente) vi que o prazer dele foi extraordinário. Agradeceu. Quarenta anos! Nem parece trintaestá muito moça e bonita. acrescentou. agora não voltamos mais. Quando eu lhe disse que não me lembrava nada da roça. senhora grave.Nem eu digo que sejam de outro. e a reflexão casa-se muito bem à curiosidade natura. tio Cosme dois capotes.

. A minha alegria acordava a dele.Conheço essa. lembra-me só que as achei engenhosas. Mamãe tem outras casas maiores que esta.. Nem são todos os da rosa: a maior parte ficou lá. uma no Catete.E estão todos aqui em casa? perguntou ele. . Maria Gorda ou de nação como Pedro Benguela. disse ele. Antônio Moçambique.Não. São assim as boas horas deste mundo. apontei ainda outros escravos. tornou a falar de minha mãe. como a da Rua da Quitanda. Tomás? . diz porém que há de morrer aqui. . sim. Mostrei outro. . ele parou um instante aí.. “um anjo dobrado”. alguns andam ganhando na rua. ou da pessoa. disse eu para Escobar.Está socando milho. . .Tem também no Rio Comprido. CAPÍTULO 94 IDÉIAS ARITMÉTICAS . . mirando a pedra de bater roupa e fazendo reflexões a propósito do asseio. Maria onde está? . na Cidade-Nova.Alembra. e ri. Caminhamos para o fundo.Não lhe hão de faltar tectos. senhor.a nós e esperou. a propósito da beleza moral que se ajusta à física. Passamos o lavadouro. eram diferentes letras..Todas as letras do alfabeto. distinguindo-se por um apelido..Você ainda se lembra da roça. As outras estão alugadas.O que me admira é que Dona Glória se acostumasse logo a viver. . mais outro. Quais foram as reflexões não me lembra agora. mas parece. . .Bem. . depois. a de lá é naturalmente grande. é bonita. sim.. aquele outro Damião.. e ainda outro. vá-se embora.. Com efeito. onde tudo é apertado.É casado. ele riu também. e só então reparei nisto. que a natureza parecia rir também conosco. aquele José. e o céu estava tão azul. Escobar confessou esse acordo do interno com o externo. concluiu ele sorrindo com simpatia. por palavras tão finas e altas que me comoveram. interrompeu Escobar. em casa da cidade. e o ar tão claro. senhor. este Pedro. Algumas são bem grandes.Não sei. como João Fulo. depois continuamos.. outros estão alugados Não era possível ter todos em casa. alguns com os mesmos nomes.

coisa que não fazem as letras dobradas. cerrava as pálpebras. ao passo que ele podia somar. eram muito mais conceituosos que as vinte e cinco letras do alfabeto. São trapalhices caligráficas. e se eu não disser a soma total em dois. A divisão que foi sempre uma das operações difíceis para mim. Um 5 sozinho é um 5. mas não ousava refutá-lo. do c e do z. . o que não vale nada faz valer muito. que foi muito. Que serviço diverso prestam o d e o t? Têm quase o mesmo som. dê-me uma porção de números que eu não saiba nem possa saber antes. com a vantagem que eram mais fáceis de menear.Há letras inúteis e letras dispensáveis. Veja os algarismos: não há dois que façam o mesmo ofício. é 500. ao que ele respondeu que era um preconceito. dizia ele. e sussurrava as denominações dos algarismos: estava pronto. dê-me o número das casas de sua mãe e os aluguéis de cada uma. era para ele como nada: cerrava um pouco os olhos. e tinha esta opinião que os algarismos. Oh! o vento não é mais rápido! Foi dito e feito... sendo poucos. Isto com sete. treze.. voltados para cima.Por exemplo. custava-me a ouvir tais blasfêmias.. enforque-me! Aceitei a aposta. Agora dobre 11 e terá 22. o mesmo do k e do g. proferi algumas palavras de defesa. E admire a beleza com que um 4 e um 7 formam esta coisa que se exprime por 11. etc. em si mesmo. um dia. e enquanto eu fitava o relógio.. O mesmo digo do b e do p. vinte algarismos. e 7 é 7. Assim que. em três minutos. pois eu tanto aprovo com um p como com dois pp. O valor do zero é. multiplique por igual número. e acrescentou que as idéias aritméticas podiam ir ao infinito. e na semana seguinte levei-lhe escritos em um papel os algarismos das casas e dos aluguéis. quaisquer quantias. em meio minuto bradava-me: . Escobar pegou o papel. mas o ofício deste sinal negativo é justamente aumentar. eu não era capaz de resolver de momento um problema filosófico ou lingüístico. dê-me um caso. Contudo. em um minuto. ponha-lhe dois 00. Nem ele sabia só elogiar é pensar. dá 484.Dá tudo 1:070$000 mensais. Assim. Mas onde a perfeição é maior é no emprego do zero. passou-os pelos olhos a fim de os decorar. 4 é 4. ele erguia as pupilas.. sabia também calcular depressa e bem. e assim por diante. . . e sussurrava. o mesmo do s.Não digo o mais. Criado na ortografia de meus pais. Era das cabeças aritméticas de Holmes (2 + 2 = 4). olhe. Não se imagina a facilidade com que ele somava ou multiplicava de cor. A vocação era tal que o fazia amar os próprios sinais das somas. nada.

Escobar apertou-me a mão às escondidas. tanto pior para eles.. só por lhe mostrar que sim.. amanhã. Era no pátio. Interrompi-o dizendo que não inveja. disse-nos.A modéstia. .Fiquei pasmado. lá no quarto. É ilusão. tirei do bolso o papelinho que levava com a soma total. e perguntava se não era exato.Certíssima! No dia seguinte revelou-me o mistério. Olhava-me triunfalmente. . conto-lhe o que há. a de José Dias não lhe quis ficar atrás. A idéia é tão santa que não está mal no santuário. no quintal..Espere até amanhã. indo à missa. Bentinho..Fiquemos ainda mais amigos que até aqui.Quebremos-lhe a castanha na boca! . A arte é atrapalhada. Pois tudo isto em que eu gastaria três ou quatro minutos. outros seminaristas notaram a nossa efusão. era aquilo mesmo. Suspendamos a pena por alguns instantes. Amanha. um padre que estava com eles não gostou.Isto prova que as idéias aritméticas são mais simples. que não pude deixar de abraçá-lo. Eu. . Trazia uma nota de grandeza e de espiritualidade que .Mas é coisa certa? . Fiquei tão entusiasmado com a facilidade mental do meu amigo. Ao primeiro aspecto confesso que fiquei deslumbrado. e que os aluguéis variavam de uma para outra. e portanto mais naturais. . CAPÍTULO 95 O PAPA A amizade de Escobar fez-se grande e fecunda. .Como? .fê-lo Escobar de cor. Na primeira semana disse-me este em casa: . Considera que eram não menos de nove casas. Vou jogar com eles que me chamaram. ou na rua. com tal força que ainda me doem os dedos. e mostrei-lho.. não consente esses gestos excessivos podem estimar-se com moderação.Agora é certo que você vai sair já do seminário. . nem um erro: 1:070$000. indo de 70$000 a 180$000.e havia de ser no papel. A natureza é simples. Escobar observou-me que os outros e o padre falavam de inveja e propôs-me viver separados. . se não é efeito das longas horas que tenho estado a escrever sem parar. decerto.Mas. brincando.

. e ele não acabou o . inclina-se... ou antes. Capitu e Escobar. .. estava arrependida do que fizera. dirão que é dado pedir a dispensa cá de longe.. você beijando o pé ao príncipe dos apóstolos. mas. Assim que. ele e eu iríamos a Roma pedir a absolvição do papa.. Minha mãe. Pensar em quê? Você o que quer. E que pessoa. Cumpria rompê-lo. Digo? Não se amofina com o seu velho? Você o que quer é consultar a uma pessoa. . além do mais que não digo. e podemos partir daqui a dois meses.Não se vai a Roma brincando. no domingo daria a resposta. Comigo. Levaremos cartas do internúncio e do bispo. com o poder de desligar dado aos apóstolos. não. que vivia do ofício enquanto ia pregando a palavra divina. basta refletir que é muito mais solene e bonito ver entrar no Vaticano.. Rigorosamente. Bentinho.É o único. o levita prometido. o reitor? Não era natural que lhe confiasse tal assunto. deixe-me pensar primeiro. absolve e abençoa. Bem sei a objeção que se pode opor a esta idéia. Era não menos que isto. Não. expondo-lhe tudo. .falava aos meus olhos de seminarista. você pode muito bem gastar consigo. sejam satisfeitos. Serei como São Paulo. mas entendia que o vínculo moral da promessa a prendia indissoluvelmente. .Melhor é falar domingo que vem. . Ora. ao parecer dele. . nem reitor. Pois eu vou. nem professor. Bentinho.. um par de calças. Os anjos o contemplam.Pois resolvamos hoje mesmo. mas eu neguei a pés juntos que quisesse consultar ninguém.Parece-me bem. é o único! Vou já hoje conversar com Dona Glória.. cartas de capuchinhos. Não digo mais. mas buscá-la. Sua Santidade. e desde já lhe dizia que a idéia não me parecia má. que vai pedir para sua mãe terníssima e dulcíssima a dispensa de Deus. Considere o quadro. respondi depois de alguns segundos de reflexão. e prostrar-se aos pés do papa o próprio objeto do favor. uma semana.Quem tem boca vai a Roma. e que o que você amar na terra seja igualmente amado no céu. nem ninguém.. não pregá-la. Que me parecia? . cartas para o nosso ministro. três camisas e o pão diário. Pode ser um bom remédio. ouve... não preciso mais. e desejaria ver-me cá fora.Oh! Bentinho! interrompeu o agregado. e para tanto valia a Escritura. e boca no nosso caso é a moeda. porque é preciso acabar o capítulo.Não? . com o sorriso evangélico. eram duas pessoas.. a Virgem recomenda ao santíssimo filho que todos os seus desejos.. era só o tempo de refletir. interroga.

quase me comeram de contemplação.Juro.Sim. e acabou triste. e ele conosco. A Europa dizem que é tão bonita.Não. Bentinho. . pediu-me que. Ouviu-me atentamente.Você indo. . vi-lhe no rosto um clarão. e não achei logo que lhe replicasse Capitu meteu o negócio à bulha.. um reflexo de idéia e ouvi-lhe dizer com volubilidade: . declarou crer que eu cumpriria o juramento. não iria. e eu com elas.Nunca! . Vi a alma aliviada de minha mãe. Capitu não achava outra idéia.mas ha coisa que produz . também. Mas se o papa não tiver ainda soltado a você? Mando dizer isso mesmo. De repente. . Quando voltei ao seminário. mas julga-se presa pela promessa. E se você mentir? Esta palavra doeu-me muito.discurso. Bentinho. e a Itália principalmente.mas era preciso ouvi-la. mas a distancia que estaria da vontade de Capitu é que não. se acaso fosse a Roma. . Eis o ponto essencial. não é preciso isso. e assim também a Escobar. Falou a todos os meus sentimentos de católico e de namorado. . jurasse que no fim de seis meses estaria de volta. ambas em casa.Por Deus. nem acabava de adotar esta. por tudo.Esquece. esquece-me inteiramente. CAPÍTULO 96 UM SUBSTITUTO Expus a Capitu a idéia de José Dias. . vi a alma feliz de Capitu. de costume fugidios. rindo e chamando-me disfarçado Depois. espiritualmente. tudo mediante uma pequena viagem a Roma. mas ainda assim não consentiu logo. Não é de lá que vêm as cantoras? Você esquece-me. ia ver se não haveria outra coisa. contei tudo ao meu amigo Escobar que me ouviu com igual atenção e acabou com a mesma tristeza da outra. Os olhos. Há melhor. De caminho. Juro que no fim de seis meses estarei de volta. Se Capitu achasse longe. que eu só geograficamente sabia onde ficava. porque o Santo Padre vale sempre mais que tudo. e eu que visse também por meu lado.Por Deus? .não dizia melhor. que me daria um bom conselho. E não haverá outro meio? Dona Glória está morta para que você saia do seminário. disse ela.

está dado um padre ao altar. disse eu. cada um com os seus olhos perdidos. sem que você. . a questão era fácil minha mãe gastaria o mesmo que comigo. Escobar sorriu. . Consulte sobre isto o protonotário: ele lhe dirá se não é a mesma coisa. Oh! como a esperança alegra tudo. voltou a dizer-lhe que sim. não podia havê-lo melhor.Sua mãe fez promessa a Deus de lhe dar um sacerdote não é? Pois bem. Minha mãe hesitou um pouco. disse ele gravemente. Depois ficamos a cuidar de nós mesmos.Que é? . 1. para que no comércio? .Entendo.. entendo.. Eu. se quer e se ele hesitar.o mesmo efeito. Saí do seminário no fim to ano. Ela pode muito bem tomar a si algum mocinho órfão.. não se perdendo o padre. disse eu rindo. provavelmente. e agradeci de novo o plano lembrado. Escobar observou que.070$000.. . .Também eu.In hoc signo vinces. .. mas acabou cedendo. Os dele estavam assim. e um órfão não precisaria grandes comodidades.Você também? . depois que o Padre Cabral. parecendo gostar da resposta.. Tinha então pouco mais de dezessete. . . é isso mesmo. parece que é isso.Ainda uma vez. realmente. CAPÍTULO 97 A SAÍDA Tudo se fez por esse teor. . . dê-lhe um sacerdote. Escobar ouviu-me contentíssimo. fazê-lo ordenar à sua custa. nem dou teologia. a promessa cumpre-se. além dos escravos. Sentia-me pilhérico. Citou a soma dos aluguéis das casas. pelo lado econômico. fala-se ao senhor bispo. O próprio latim não é preciso. que podia ser. refletindo: . ou eu mesmo consulto. a religião c a liberdade fazem boa companhia. Vou melhorar o meu latim e saio. que não seja você..Não acha? continuou ele. quando tornei de longe.E saímos juntos.. tendo consultado o bispo.Não há outra coisa.Sim. Aqui devia ser o meio do livro.

Agora não há mais que levá-la a grandes pernadas. algumas queriam mirar de mais perto a minha beleza. os vinte. e não diria mal. os vestidos. Já não andaria tanto de um lado para outro. com o melhor da narração por dizer. Talvez ele não pensasse em mais que associá-la aos seus . Posto que filho do seminário e de minha mãe. e chego quase ao fim do papel. Tudo mudara em volta de mim. aos poucos e espalhadamente. lépido e viçoso. sem cair no erro que acabo de condenar. debaixo do recolhimento casto. não tanto que me não fizesse a fineza de ir assistir à minha graduação. e descer comigo a serra. os dezenove. José Dias também. cumpre não esquecer a grande diferença de idade. Se sim. A mãe de Capitu falecera. pousa emenda. mas eram também das moças que na rua ou da janela não me deixavam viver sossegado. o pai aposentara-se no mesmo cargo em que quis dar demissão da vida. Tio Cosme padecia do coração e ia descansar. fui-me aos estudos. outras valerão por anos. os sapatos rasos e surdos eram os mesmos de outrora. ainda assim os cabelos brancos vinham de má vontade. O que essa qualidade superlativa me rendeu não poderia nunca dizê-lo aqui. sentia já. eram do sangue. diria o meu agregado José Dias. e a vaidade é um princípio de corrupção. Eu era um curiosíssimo. Um dos sacrifícios que faço a esta dura necessidade é a análise das minhas emoções dos dezessete anos. Achavam-me lindo. pouca reflexão. os vinte e um. A prima Justina apenas estava mais idosa. se tal idéia houve. mas. aos vinte e dois era bacharel em Direito. deves saber que é a idade em que a metade do homem e a metade do menino formam um só curioso. e assim chegaremos ao fim. capítulo sobre capítulo. Escobar começava a negociar em café depois de haver trabalhado quatro anos em uma das primeiras casas do Rio de Janeiro. a análise das minhas emoções daquele tempo é que entrava no meu plano. Passei os dezoito anos.mas a inexperiência fez-me ir atrás da pena. CAPÍTULO 98 CINCO ANOS Venceu a razão. Já esta página vale por meses. Minha mãe resolvera-se a envelhecer. Era opinião de prima Justina que ele afagara a idéia de convidar minha mãe a segundas núpcias. e diziam-mo. Não sei se alguma vez tiveste dezessete anos. tudo em resumo. como se o bacharel fosse ele. uns assomos de petulância e de atrevimento. a touca.

.primeiros tentamens comerciais. um pouco mais moderno. Nem depois de casado suspendeu ele o obséquio.” Assim se formam as afeições e os parentescos. não foi melhor que ele não teimasse em ser padres Veja se este peralta daria um padre capaz. que foi mãe e avó das outras. Sempre achei que te parecias com ele. . e fê-lo servir a ambos nós. .Sim. tem alguma coisa. concluiu por chalaça. eu também. é a cara do pai..Justamente! exclamou minha mãe. minha mãe adiantou-lhe alguns dinheiros.. lembrando o evangelho de São João. As relações que travou com o pai de Sancha estreitaram as que já trazia com Capitu.casou com a boa Sancha a amiga de Capitu. E diga-me agora mana Glória.” A separação não nos esfriou. mano Cosme. É o pai. Desde que a viu animou-me muito no nosso amor. como se recebesses em ti mesmo a sagração. chamava a esta a “sua cunhadinha. Que ele casou. agora é muito mais.Mulher. entre lágrimas: . mas José Dias repugnava-me por um resto de respeito de criança. eis aí a tua mãe! Minha mãe. como amigo. escrevendo-me. quase irmã dela. que ele lhe restituiu. . .Como vai o meu substituto? . Ele foi o terceiro na troca das cartas entre mim e Capitu. logo que pôde. Capitu entregou-lhe a primeira carta. CAPÍTULO 99 O FILHO É A CARA DO PAI Minha mãe.Sim. respondeu tio Cosme. quando eu regressei bacharel quase estalou de felicidade Ainda ouço a voz de José Dias.. a disposição do rosto. o bigode realmente. veja se não é a figura do meu defunto. O bigode é que desfaz um pouco. os olhos. Olha. Bentinho. Venceu Escobar posto que vexada.Vai indo. olha bem para mim. É bom que te sintas na alma do outro. eis aí o teu filho! Filho. custou-lhe a ela aceitá-lo.. . tanto que alguma vez. não sem este remoque: “Dona Glória é medrosa e não tem ambição.. preferia José Dias. a pedido meu. se o meu senhor coração consentir.adivinha com quem. mas é muito parecido. não é? . as aventuras e os livros.. mana Glória. e dizendo ao ver-nos abraçados: .Mano Cosme. Mas veja bem. e de fato. A princípio. ordena-se para o ano. E minha mãe beijava-me com uma ternura que não sei escrever Tio Cosme. Hás de ir ver a ordenação.

Quando voltei do meu espanto. a felicidade não é só a glória.. a filha. expulsas dos contos e dos versos. os Escobares. é um anjíssimo. .Que há de ser? Quem é que não sabe tudo?. e marido de truz. Bentinho.E por que não seria feliz? perguntou José Dias. Perdoe a cincada. Ainda agora sou capaz de jurar que a voz era da fada. não vale nada. pela mesma toada universal e eterna. os maiores elogios.” .Ouviu o quê? . Aquela intimidade de vizinhos tinha de acabar nisto. Via o casamento e a carreira ilustre. Ah! você não confiou tudo ao velho José Dias! O pobre José Dias está aí para um canto. . meteram-se no coração da gente e falam de dentro para fora. Macbeth!” . e todos em casa. velho também sabe amar. porque ela é um anjo.. ouvi o resto do discurso de José Dias: . Não lhe nego que é moço muito distinto.para alegrá-la. que é verdadeiramente uma bênção do céu. José Dias também.Há de ser feliz. mas. A distinção que tirou em todas as matérias é prova disso.É boa! Você mesmo é que está dizendo. Uma fada invisível desceu ali.. como merece. desfazendo a mala e tirando a carta de bacharel de dentro da lata. agora são os novos. Bentinho!” Ao cabo. foi . Bentinho. Esta. enfim. que não é favor de ninguém. e ela mesma repetiam-me o título.. é também outra coisa.. endireitando o tronco e fitando-me... a prima. enquanto José Dias me ajudava calado e zeloso. já lhe contei que ouvi da boca dos lentes. é caju chupado.. é a mesma predição. assim como mereceu esse diploma que ali está. as visitas. e me disse em voz igualmente macia e cálida: “Tu serás feliz. chamava-me doutor. por exemplo..Mas que é? . CAPÍTULO 100 “TU SERÁS FELIZ. BENTINHO” No quarto. Há de ser prima das feiticeiras da Escócia: “Tu serás rei. naturalmente as fadas. tu vais ser feliz.Ouviu uma voz que dizia que eu serei feliz? .“Tu serás feliz. em particular. e trabalhador..Você ouviu? perguntei eu erguendo-me também. muita vez a ouvi clara e distinta. os escravos... Demais. ia pensando na felicidade e na glória. Pádua. espanta .

com termos diversos...Você sabe que elas se dão muito. Enfim. Disse-lhe que não podia desejar melhor nora para si.um modo de acentuar a perfeição daquela moça. E quanto à formosura você sabe melhor que ninguém. . falava de Capitu.. e assim também a de Escobar. mas não é fora de propósito. meu filho! . Não ouvi o resto.. paga as contas. na resposta.. contanto ela sempre achasse que o doutor era um feixe de ossos. Bentinho!” E a voz de Capitu me disse a mesma coisa. discreta. e por isso é que sua prima anda cada vez mais amuada. e logo sério: Digo isto por gracejo. faz o rol das despesas. naturalmente. tomou conta de tudo.Mas. salva a redação própria de mãe: “Tu serás feliz. o protonotário é que me contou) dizem que os dois andam meio inclinados a acabar com a viuvez. mas enfim. boa.. mamãe consultou o senhor sobre o nosso casamento? . . e não vi que essa menina travessa e já de olhos pensativos era a flor caprichosa de um fruto sadio e doce.Pois então? Temos falado sobre isso. . o Doutor João da Costa enviuvou há poucos meses.Mamãe aprova deveras? . cuida de tudo. pergunte-lhe. deveras. Depois da morte da mãe. .. deu-me igual profecia. entre si. Só se ela é um cemitério.. fez-me o favor de perguntar se Capitu não daria uma boa esposa. eu é que. prendada. Talvez agora case mais depressa. falei em nora. Pádua. comentou rindo. algumas semanas depois. não. casando-se. luz.Não sabe? São contos. confundi os modos de criança com expressões de caráter. você já a viu o ano passado. Cuidei o contrário.Prima Justina? . Pergunte-lhe o que é que eu lhe disse em termos claros e positivos. e ela fez-me o favor de pedir a minha opinião. e uma dona de casa. outrora. e cá em casa está mais que adivinhado e aprovado? . minha mãe. Ouvia só a voz da minha fada interior. agora que se aposentou. Dona Glória não negou e até deu um ar de riso. que me repetia mas já então sem palavras: “Tu serás feliz. A filha é que distribui o dinheiro. que não lhe digo nada. roupa..Positivamente. e dizem (não sei.. amiga da gente. além do consentimento. mantimento. quando lhe fui pedir licença para casar.Mamãe sempre que me escrevia. os quais ambos me confirmaram a notícia de José Dias pela sua própria impressão. Por que é que não me contou também o que outros sabem. não faz mais que receber o ordenado e entregá-lo à filha. Há de ver que não ha nada.

pode ser que tudo fosse um sonho. onde era o nosso ninho de noivos. mas ainda as que só serão descobertas daqui a muitos séculos. visitamos uma parte daquele lugar infinito. recitou alguns versículos da sua primeira epístola: “As mulheres sejam sujeitas a seus maridos. decorou algumas palavras.CAPÍTULO 101 NO CÉU Pois sejamos felizes de uma vez. Quando chegamos ao alto da Tijuca. nada mais natural a um ex-seminarista que ouvir por toda a parte latim e Escritura. por exemplo: “Sentei-me à sombra daquele que tanto havia desejado. que tem as chaves do céu.. O pêndulo iria de um lado para outro mas nenhum sinal externo mostraria a marcha do tempo. fez-nos entrar. de maneira que não se vissem as horas escritas.” Quanto às de S. maridos. Pedro. como se houvessem nascido juntos. e depois de tocar-nos com o báculo. A verdade que Capitu. uma tarde de março. Foi grande fineza e não foi única. à maneira de uma ópera de Wagner. sem mostrador. Ao que eu repliquei que a minha esposa teria sempre as mais finas rendas deste mundo.. que não sabia Escritura nem latim. nem a língua humana possui formas idôneas para tanto. Do mesmo modo. antes que o leitor pegue em si. CAPÍTULO 102 DE CASADA Imagina um relógio que só tivesse pêndulo. e eles entoaram um trecho do cântico. o céu recolheu a chuva e acendeu as estrelas. e herdeiras convosco da graça da vida. se a execução fosse na terra. mas o homem que está escondido no coração. e vá espairecer a outra parte. morto de esperar. tão concertadamente. Ao cabo.. como estas. Foi em 1865. como a vasos mais fracos. Tal foi aquela . casemo-nos. mas era no céu. abriu-nos as portas dele.. tratando-as com honra. Descansa que não farei descrição alguma. Pedro. não só as já conhecidas. vós. A música ia com o texto. que eu era a única renda e o único enfeite que jamais poria em si.. S. que desmentiriam a hipótese do tenor italiano.. Não seja o adorno delas o enfeite dos cabelos riçados ou as rendas de ouro.” Em seguida. disse-me no dia seguinte que estava por tudo. coabitai com elas. Depois. por sinal que chovia. fez sinal aos anjos.

Peguei-lhe no riso e na palavra. . e o ar de casada com que me deu a mão para entrar e sair do carro.semana da Tijuca. falando. . e ríamos de José Dias que conspirou a nossa desunião. há de ser com tempo encoberto. .Eu? . . e. e o braço para andar na rua. olhando. disse ela fechando-me a cara entre as mãos e chegando muito os olhos aos meus. e acabou festejando o nosso consórcio. confesso. Na rua.Parece. digo isto porque é realmente assim. muitos voltavam a cabeça curiosos. mas ia falando do pai e de minha mãe. a denúncia que está nos primeiros capítulos. a ponto que nos arrufamos um pouco. precisava do resto do mundo também. Assim vivemos novamente a nossa longa espera de namorados. Então eu esperei tantos anos para aborrecer-me em sete dias? Não. mas a impaciência continuou. tornávamos ao passado e divertíamo-nos em relembrar as nossas tristezas e calamidades. as famílias residem em Mata-cavalos. creio que eles podem estar desejosos de. mas isso mesmo era um modo de não sairmos de nós. os anos da adolescência. A alegria com que pôs o seu chapéu de casada. depois de uma longa paixão de crianças. que casou há dias com aquela moça. ver-nos e imaginar alguma doença. disto e daquilo. falávamos em descer. me confirmassem e me invejassem. pisando as ruas com ela. redargüiu rindo. alguns perguntavam: “Quem são?” e um sabido explicava: “Este é o Doutor Santiago.” E ambos os dois: “A uma mocetona!” . tudo me mostrou que a causa da impaciência de Capitu eram os sinais exteriores do novo estado. Não lhe bastava ser casada entre quatro paredes e algumas árvores. Não obstante. mas as manhãs marcadas eram sempre de chuva ou de sol. Bentinho. achei que Capitu estava um tanto impaciente por descer. Concordava em ficar. E quando eu me vi embaixo. De quando em quando. da falta de notícias nossas. pela minha parte. outros paravam. e descemos com sol. que teimava em não vir. que queria ver papai.Você há de ser sempre criança. parando. moram na Glória. senti a mesma coisa. Uma ou outra vez. e nós esperávamos um dia encoberto. Dona Capitolina.Pois vamos amanhã. Perguntei-lhe se já estava aborrecida de mim. Inventava passeios para que me vissem.Não.

. esquecendo tudo. não podendo ser tantas como desejávamos. não as ponho aqui para ir poupando papel. íamos sempre muito cedo. tudo espontaneamente. Escobar contribuíra muito para as minhas estréias no foro. dez e onze horas. Tudo corria bem. levando abraços dos nossos e palavras suas. para gozarmos o dia compridamente. Interveio com um advogado célebre para que me admitisse à sua banca. Escobar e a mulher viviam felizes. mas palavras que eram músicas verdadeiras. as nossas relações de família estavam previamente feitas. José Dias achou melhor. e. Ao fim de dois anos de casado. Sancha e Capitu continuavam depois de casadas a amizade da escola. ambos escutávamos comovidos e convencidos. Eu era advogado de algumas casas ricas. quando não podia ser mais. CAPÍTULO 104 AS PIRÂMIDES José Dias dividia-se agora entre mim e minha mãe. tinham uma filhinha. sinto que a vida e o resto não sejam tão rijos como as Pirâmides. aonde que riam que fôssemos muitas vezes. Jantar é pouco. comparou-nos a aves criadas em dois vãos de telhados contíguos. não sei que atriz ou . Eles moravam em Andaraí. Perdera meu sogro. alternando os jantares da Glória com os almoços de Mata-cavalos. Demais. desde a tarde de 1858. e o tio Cosme estava por pouco.. salvo o desgosto grande de não ter um filho. Foi a única pessoa cá de baixo que nos visitou na Tijuca. A felicidade tem boa alça. negócio de teatro. e só nos separávamos às nove. a nossa excelente. íamos lá jantar alguns domingos. as aves emplumando as asas e subindo ao céu. é verdade. Um dia. Escobar e eu a do seminário.CAPÍTULO 103 A FELICIDADE TEM BOA ALMA Mocetona é vulgar. ou eles vinham fazê-lo conosco. Nenhum de nós riu. e os processos vinham chegando. mas a saúde de minha mãe era boa. Em tempo ouvi falar de uma aventura do marido. Agora que penso naqueles dias de Andaraí e da Glória. mas foram deliciosas. logo depois do almoço. Imagina o resto. e o céu agora mais largo para poder contê-las também. e arranjou-me algumas procurações. tudo corria bem.

bailarina. Eram os mais belos da noite. Não sabendo piano. não queria que eu lhe comprasse muitas nem caras. De dançar gostava. nem os seus. e melhor será que fiquem no céu. e na primeira noite que os levou nus a um baile. também cantava.Uma criança. ou nas mãos do divino escultor. As vezes. e. a ponto que me encheram de desvane acontecimento. Conversava mal . deixa lá. não creio que houvesse iguais na cidade. tudo corria bem.Homem.. o marido trabalhador. um dia chegou a entender que era melhor não cantar nada e cumpriu o alvitre. . Não vinha.. mirando o mar e o céu. como as outras moças. ou se não íamos a algum espetáculo ou serão particular (e estes eram raros) passávamos as noites à nossa janela da Glória. era como um pássaro que saísse da gaiola. quando íamos a passeios ou espetáculos. e um dia afligiu-se tanto que prometi não comprar mais nenhuma. e depressa. que eram então de menina. leitora. replicou-me: . Já não era como em criança. os braços é que. mas provavelmente estariam ainda no mármore. se eram nascidos.Virá. e daí a pouco tocava nas casas de amizade. notícias de amador que ela escutava atenta e curiosa. outras dava-lhe notícias de astronomia. Quando não estávamos com a família ou com amigos. e se não der nenhum é que os quer para si. nem sempre tanto que não cochilasse um pouco. eu contava a Capitu a história da cidade. Capitu pedia-o em suas orações. agora pagava antecipadamente. . mas se foi certo. um filho é o complemento natural da vida. Capitu gostava de rir e divertir-se. CAPÍTULO 105 OS BRAÇOS No mais. mas pouco e raro. Deus os dará quando quiser. aprendeu depois de casada. como os aluguéis da casa. ou a gente que passava na praia. Na Glória era uma das nossas recreações. Como eu um dia dissesse a Escobar que lastimava não ter um filho. não deu escândalo. Sancha era modesta. a sombra das montanhas e dos navios. se for necessário. nos primeiros tempos. Eram belos. Embora gostasse de jóias. donde vieram. Arranjava-se com graça e modéstia. eu mais de uma vez dava por mim a rezar e a pedi-lo. por não ter voz. mas foi só por pouco tempo. Os braços merecem um período. A nossa vida era mais ou menos plácida. e enfeitava-se com amor quando ia a um baile.

.Eu? Ouço perfeitamente. Uns sapatos. lá não foi assim no segundo baile. por mais que eles se entrelaçassem aos das casacas alheias. por exemplo.Você não me ouve. uns sapatinhos rasos de fitas pretas que se cruzavam no peito do pé e princípio da perna. Uma noite perdeu-se em fitar o mar.. Minha mãe. concordou logo comigo. nesse. Ela sorriu e respondeu que os braços de Sanchinha eram mal feitos. dessas que se guardam por tradição. trouxe-os para casa. hão de chamar-nos seminaristas. por lembrança ou por saudade. o contrário parece-me indecente. .você falava de Sírius. CAPÍTULO 106 DEZ LIBRAS ESTERLINAS Eu já disse que era poupada. e não só de dinheiro mas também de coisas usadas. os últimos que usou antes de calçar botinas.Você. que me deu ciúmes. que nem cobria nem descobria inteiramente. e aqui tive o apoio de Escobar. e não foi ao baile.O que é que eu dizia? . Foi justamente por ocasião de uma lição de astronomia. só para vê-los.Não é? Mas não diga o motivo. mas levou-os meio vestidos de escumilha ou não sei que. . . fiquei vexado e aborrecido. a outros foi. quase de os pedir. ou fica dito agora. como o cendal de Camões. mas cedeu depressa. que tinha o mesmo gênio. e tirava-os de longe em longe da gaveta da cômoda. Sabes que alguma vez a fiz cochilar um pouco. e que roçavam por eles as mangas pretas. direi um caso. Nem por isso deixei de contar a Capitu a aprovação de Escobar. Capitu. com outras velharias.com as outras pessoas. quando vi que os homens não se fartavam de olhar para eles. Quanto às puras economias de dinheiro.Qual Sírius. de os buscar. e basta. Há vinte minutos que eu falei de Sírius. . .Sanchinha também não vai. Capitu. .. Ao terceiro não fui. dizendo-me que eram pedaços de criança. com tal força e concentração. ou irá de mangas compridas. gostava de ouvir falar e fazer assim. à Praia da Glória. Capitu já me chamou assim. a quem confiei candidamente os meus tédios.

Pouco antes de você chegar. Fiquei sério. Tive vontade de gastar o dobro do ouro em algum presente comemorativo. e ri-me do segredo de ambos.Quem foi o corretor? . emendou.Mas que libras são essas? perguntei-lhe no fim. Capitu. . emendou ela apressada. e dava a diferença que ela buscava. em alguns meses. foi ao quarto e voltou com dez libras esterlinas. não o sentido. falava de Marte. filha. Ergueu-se. Escobar sorriu e disse-me que estava para ir ao meu escritório contar-me tudo.Tudo isto? . sobre o joelho. . Capitu fitou-me rindo.” . e disse-lhe a razão do segredo.. Ao contrário. . . era de Marte.Ele esteve cá? .São suas. A princípio supus que era um recurso para desenfadar-me.O seu amigo Escobar. No dia seguinte.Pois você guarde-as.Como é que ele não me disse nada? . . dez libras só.Quando contei isto a Sanchinha. mas Capitu deteve-me. eram as sobras do dinheiro que eu lhe dava mensalmente para as despesas. agora que tudo está tão caro?”. Realmente. concluiu fazendo tinir o ouro na mão. . e o ímpeto que me deu foi deixar a sala. .“Não sei. na mão. A cunhadinha (continuava a dar este nome a Capitu) tinha-lhe falado naquilo por ocasião da nossa última visita a Andaraí. Tratava-se de uma conversão de papel em ouro.Falava de. consultou-me sobre o que havíamos de fazer daquelas libras. isto é. fez-se a mais mimosa das criaturas. mas é claro que só apanhara o som da palavra.. sei que arranjou dez libras. respondi. eu não disse para que você não desconfiasse. concluiu ele. é o que a avarenta de sua mulher pôde arranjar. começou-me na mão. . fui ter com Escobar ao armazém. somando uns dinheiros para descobrir certa parcela que não achava.Não é muito. já então com papel e lápis.. ao percebê-lo.São nossas. e replicou que a culpa de romper o segredo era minha. ficou espantada: “Como é que Capitu pode economizar. confessou-me que estivera contando. mas daí a pouco estava eu mesmo calculando também. .Foi hoje mesmo.

pois que em matéria de culpa a graduação é infinita. não fora ou acima dela. calar e querer fugir da sala para voltar. um décimo de culpadas. metade culpadas. É sabido que as distrações de uma pessoa podem ser culpadas.Marte está a distancia de. Sanchinha não é gastadeira.Vê se ela aprende também. mas curtos. dez minutos depois. mas só chega. e Deus mais Deus. A verdade é que fiquei mais amigo de Capitu. leitor. não descobriria eu tão cedo as dez libras de Capitu. Os meus ciúmes eram intensos. ela ainda mais meiga. provavelmente. e tu sabes. nem papel trocado. continuando a lição interrompida: . o que lhe dou chega. Foi isto que me fez empalidecer. Um anônimo ou anônima que passe na esquina da rua faz com que metamos Sírius dentro de Marte. mas a astronomia tem dessas confusões.. Dez minutos depois. A recordação de uns simples olhos basta para fixar outros que os recordem e se deleitem com a imaginação deles. suspiro ou sinal ainda mais miúdo e leve.Não creio. a diferença que há de um a outro na distancia e no tamanho. simples palavra. um quinto. a terra e as estrelas. tão certo é que as virtudes das pessoas próximas nos dão te ou qual vaidade. ao piano ou à janela. tão pouco tempo. Tão pouco tempo? Sim. mas não é por isso que torno a ela. meu amigo.. dez minutos. depois de alguns instantes de reflexão: . Não é mister pecado efetivo e mortal. orgulho ou consolação. é para que não cuides que a vaidade de professor é que me fez padecer com a desatenção de Capitu e ter ciúmes do mar. Assim pensarias m também. . Eu. como quem sentia não poder dizer o mesmo da mulher. mas com o mesmo pouco ou menos reconstruiria o céu.. um terço. o ar mais brando. com pouco derrubaria tudo. CAPÍTULO 107 CIÚMES DO MAR Se não fosse a astronomia. nem o . as noites mais claras. mas também não poupada. estaria eu outra vez na sala.Capitu é um anjo! Escobar concordou de cabeça. Não. aceno. Venho explicar-te que tive tais ciúmes pelo que podia estar na cabeça de minha mulher. se era possível. Deus sabe quando. mas sem entusiasmo. E não foram propriamente as dez libras esterlinas que fizeram isto.

Também não caía.As invejas morreram. Capitu não era menos terna para ele e para mim. as esperanças nasceram. a perguntar-lhe donde vinha. . A minha alegria quando ele nasceu. e a nossa constância e o nosso amor fizeram que chegasse a ser. e não tardou que viesse ao mundo o fruto delas. conversávamos de nós. mas um filho. positivamente não me lembra. não sei dizê-la. mas as cautelas que Capitu empregou para o fim de descobrir-me um dia o cuidado de todos os dias. como os outros pais. e receio que o que dissesse . familiarmente Capituzinha. ficávamos cheios de invejas.. e nós. nem creio que a possa haver idêntica. Não cantava na rua por natural vergonha. As nossas visitas foram-se tornando mais próximas. quando voltávamos à noite para a Glória. e as nossas conversações mais íntimas. Escobar também se me fez mais pegado ao coração. amarelo e magro. Quando eu via o meu filho chupando o leite da mãe. quando não olhávamos para o nosso filho. em casa. Dávamos as mãos um ao outro. ficava que não sei dizer nem digo. Os pais. e por que é que eu estava tão inteiramente nele. mas que o nosso destino afirmou que seria.. Não era escasso nem feio. um triste menino que fosse.. e pedindo mentalmente ao céu que no-las matasse. um filho próprio da minha pessoa. vínhamos suspirando as nossas invejas. como eu já pedia. do nosso passado e do nosso futuro.. e toda aquela união da natureza para a nutrição e vida de um ser que não fora nada. e. nunca a tive igual. A pequena era graciosa e gorducha. As horas de maior encanto e mistério eram as de amamentação. e várias outras tolices sem palavras. por diferençá-la de minha mulher. Foi uma vertigem e uma loucura. CAPÍTULO 108 UM FILHO Pois nem tudo isso me matava a sede de um filho.sentimento de economia que revelavam e que eu conhecia. vivia com o espírito no menino. Talvez perdi algumas causas no toro por descuido. a mirá-lo. com os olhos a observá-lo. faladeira e curiosa. Fora. visto que lhe deram o mesmo nome à pia. nem em casa para não afligir Capitu convalescente. ou que de longe ou de perto se pareça com ela. porque há um deus para os pais novos. contavam as travessuras e agudezas da menina. mas pensadas ou deliradas a cada instante. Quando íamos a Andaraí e víamos a filha de Escobar e Sancha. mas um rapagão robusto e lindo.

velhaco. redargüia Escobar. pela infância unida e correta. disse-lhe entre outros carinhos: . que também foi passar com Capitu os primeiros dias e noites. mas parece que esta era mais de aborrecer que de matar. Aceitei a lembrança.Também você. Hoje. estas vieram depois. Eu ainda tentei espaçar a cerimônia a ver se tio Cosme sucumbia primeiro à doença. quis que o almoço do batizado fosse na chácara dele. a madrinha devia ser e seria minha mãe. pela educação igual e comum. e na total ausência de palavras com que ali assinei o pacto. Sobre tarde descíamos à praia ou íamos ao Passeio Público. de atropelo. Escusai minúcias. em solteira. Quis rejeitar o obséquio de Sancha. fazendo ele os seus cálculos. toma a bênção a teu padrinho. Não houve remédio senão levar o . Eu via o meu filho médico. voltando-se para mim: . ao ouvir-lhe isto. e às noites sigo para Andaraí. ao ver a criança. ninguém diria o que veio a se Demóstenes. também interrogava o futuro. meti-o em várias universidades e bancos. Bem se vê que você é pai de primeira viagem. advogado. negociante. Escobar acompanhava muita vez as minhas criancices. Escobar cumpriu o que disse. e ia-se à noite. Era minha idéia que Escobar fosse padrinho do pequeno.Anda. fora tratá-la à Rua dos Inválidos. Chegou a falar da hipótese de casar o pequeno com a filha.onde está a segunda? Usávamos então estas graças em família. . que me recolhi à minha casmurrice. mas Escobar. e até aceitei a hipótese de ser poeta. oito dias. eu os meus sonhos. e está tudo passado. riu-se e não se magoou.Eu virei jantar com vocês. mas deve haver. para que ele me compreendesse e desculpasse. que.Não se lembra que o senhor foi lá vê-la? . Fez mais.me saísse escuro.Lembra-me. e foi. e há de ser depressa o batizado. jantava conosco. respondeu me que eu não tinha nada com isso. afinadas pelo coração. e cri que me saísse orador. A possibilidade de político foi consultada. . Assim que.. . não sei se ainda há tal linguagem.Pode ser. e grande orador. Contei discretamente a anedota a Escobar. Mas a primeira parte se trocou por intervenção do tio Cosme. esteve toda nas mãos com que apertei as de Escobar. A amizade existe. não é preciso contar a dedicação da minha mãe e de Sancha. . E. e propus que os encaminhássemos a este fim.. que batia com grande força. também Capitu.Não desisto do favor. antes que a minha doença me leve de vez.

há vidas que os têm menos. segundo cumpria e urgia. quando começou o capítulo anterior.menino à pia. mas também os apóstolos não levam a boa doutrina senão depois de a terem toda no coração. quando acabou era cristão e católico. no sentido de homem que pensa e cala. CAPÍTULO 110 RASGOS DA INFÂNCIA O resto come-me ainda muitos capítulos. CAPÍTULO 109 UM FILHO ÚNICO Ezequiel. Vamos ao resto. Assim também. bom negociante. mas há leitores tão obtusos. desde vadio até apóstolo. imaginarás os cuidados que nos deu. e fazem-se ainda assim completas e acabadas. certo nem incerto. como se quisessem namorar todas as moças da vizinhança. quando os pais lhe trouxessem doces. e nisto fazia lembrar a mãe. um rapagão bonito.ao contrário. agitava-se todo e instava por ir persuadir às vizinhas que os doces que eu lhe trazia eram doces deveras. não menos que de doce. e anunciava-me que o fana seu sócio. Agora. morto nem vivo. metia-se às vezes consigo. que nada entendem. e que sustos nos meteram as crises dos dentes e outras. era o de Escobar. que nenhum outro veio. ou quase todas. e ria-se da própria graça. Aos cinco e seis anos. adivinhavam-se nele todas as vocações possíveis. Gostava de música. desde pequena. se considerares que ele foi único. e eu disse a Capitu que lhe . coisa que não era necessário dizer. e eu quis suprir deste modo a falta de compadrio. não o fazia antes de farto deles. os sonos que nos tirou. Vadio é aqui posto no bom sentido. um só e único. com os seus olhos claros. se lhes não relata tudo e o resto. onde se lhe deu o nome de Ezequiel. já inquietos. talvez fosse convidar implicitamente as vizinhas a igual apostolado. não era ainda gerado. Ezequiel não parecia desmentir os meus sonhos da Praia da Glória. A tudo acudíamos. Escobar. Este outro é destinado a fazer chegar o meu Ezequiel aos cinco anos. opinava que a causa principal desta outra inclinação. a menor febrícula. toda a existência comum das crianças.

corri aos meus papéis velhos. por que é que ele não deixa cair a espada de uma vez? . Expliquei-lho.Nem das palavras? . tanto mais que lhe lembrarão ainda as vozes da sua infância e adolescência haverá olvidado algumas.Mas.Meu filho. gravuras de batalhas que ele mirava por muito tempo. querendo que lhe explicasse uma peça de artilharia... meu filho! .. Ezequiel aproveitou a música para pedir-me que desmentisse o texto dando-lhe algum dinheiro. e eu guardei o papelinho.Lembra-me de um preto que vendia doce. Fazia de médico de militar. e que ele corria a ver. O que nem todas fazem é ter os olhos que esta tinha. ficará espantada de tamanho esquecimento. pedi a um professor de música que me transcrevesse a toada do pregão. de ator e bailarino. . Fiz. quando estudante. Já não falo dos batalhões que passavam na rua. Assim me replicou Capitu. outro de espada alçada. e assim o cantava e teclava. um soldado caído. Em São Paulo.Estou vendo.. mas nem tudo fica na cabeça. mas não sei mais da toada. A leitora.Mas então por que é que ele se pintou? . às tardes.Olha o comandante! Olha o cavalo do comandante! Olha os soldados! Um dia amanheceu tocando corneta com a mão. porém. ele o fez com prazer (bastou-me repetir-lho de memória).Nem das palavras. Capitu achou à toada um sabor particular.Olha. Um dia (ingênua idade!).Não me lembra. Daí a pouco interrompi um romance que ela tocava. papai. você não se lembra daquele preto que vendia doce.tirasse ao piano o pregão do preto das cocadas de Matacavalos. é porque é pintado.ela teclou as dezesseis notas. Comprei-lhe soldadinhos de chumbo. papai! olha! . e não achei tréplica. mas cavalos de pau e espada à cinta eram com ele. Nunca lhe dei oratórios. que ainda se lembrará das palavras.contou ao filho a história do pregão. Em nenhuma vi as ânsias de gosto com que assistia à passagem da tropa e ouvia tocar a marcha dos tambores. fui procurá-lo.dei-lhe uma cornetinha de metal. todas as crianças o fazem. . dado que me tenha lido com atenção. . . o que ela não esperava.Não diga isso. e todos os seus amores iam para o de espada alçada. . . perguntou-me impaciente: . quase delicioso. com o pedacinho de papel na mão.

e o gato fugiu. não desamo o gato. era um gato e um rato. sem tirar-lhe os olhos de cima. De resto. O único rumor eram os últimos guinchos do rato. Ezequiel não disse nada. fez-nos outro sinal de silêncio. e tive de explicar também o que era gravador e o que era gravura: as curiosidades de Capitu. Em verdade. fez-nos sinal que nos calássemos. Ezequiel ficou abatido. dos sucessos ocorridos. mas também porque havia naquela ação do gato e do rato alguma coisa que prendia com ritual. Escobar concluiu: . mas aqui a ponho outra vez. Os ratos continuam a infestar-me a casa. bati palmas para que o gato fugisse. o instante foi curto.Ora. deteve-se. aliás frouxíssimos. Tais são os principais rasgos da infância: mais um e acabo o capítulo Um dia.Pois sim. e o silêncio não podia ser maior. risquei a palavra. não só por significar a totalidade do silêncio. perguntamos-lhe de longe o que era. acompanhei-os. sem repúdio parcial nem exclusões injustas. na chácara de Escobar. acocorou-se. Vamos ver Capitu quis também ver o filho. Efetivamente. Um tanto aborrecido. Não me pesa dizê-lo.as pernas mal se lhe moviam e desordenadamente. sem interesse nem graça. mas vi que são incompatíveis. apesar do tempo passado.Ri-me do engano e expliquei-lhe que não era o soldado que se tinha pintado no papel. o menino. lance banal. mas eu queria ver. deu com um gato que tinha um rato atravessado na boca. 0s outros nem tiveram tempo de atalhar-me. .Vão ver que é o gato que apanhou algum rato. esperneando.Que foi? A esta hora o rato está comido. Já pensei em os fazer viver juntos. O gato. eu mesmo achei-lhe graça. não acham nela nada inferior. um rói-me os . em suma. A única circunstancia particular era estar o rato vivo. nem via por onde fugisse. dispôs-se a correr. teve graça. Ia dizer religioso. e da tal ou qual simpatia ao rato que acho em mim. logo que sentiu mais gente. e o meu pequeno enlevado. e não lhe nego ainda agora. Os dois riram-se. mas o gravador. papai! . Amo o rato. Ao vê-lo assim atento. . e ficou olhando. que é o diabo. os que amam a natureza como ela quer ser amada. O gato nem deixava a presa. CAPÍTULO 111 CONTADO DEPRESSA Achei-lhe graça.

mamãe é que contava. A conclusão é que se livrou. até onde lhe dessem as pernas. eu tinha já na mão as bolas envenenadas. como que esperando. Procurei o fiscal. Como eu continuasse. e três cães na rua latiam toda a noite. tocado de pena e guardei as bolas no bolso. com a bulha dos cães. Agora reparava que realmente era vezo do filho. me atou a vontade. Sancha vivia ao pé dela. Não comporia bolas envenenadas. mexendo a cauda. suponho. confiança ou o que quer que seja. Então resolvi matá-los. que gostamos da paz.. iria a pau. mas não as recusaria também. E se tivesse um pau. comprei veneno. Contarei o caso depressa. foi-se calando. disse-me ela um dia. quando aquele riso especial. a mãe estava com febre. e eu mesmo inseri nelas a droga.. mas papai em moço era assim também. assobiando e dando estalinhos com os dedos. . CAPÍTULO 112 AS IMITAÇÕES DE EZEQUIEL Tal não faria Ezequiel. eu cuido que ele não me quis atribuir perfídia ao gesto. Capitu morria por aquele batalhador futuro. e entregou-se-me. mandei fazer três bolas de carne. . até que se calou de todo. os modos. já lhe achei até um jeito dos pés de Escobar e dos olhos. ele veio a mim. as atitudes.livros. Capitu deixou-se estar pensando e olhando para mim. mas fiado nos sinais de amizade. saí. era uma hora. De noite. e ia deitar-lhe uma delas. fiquei assim não sei como. imita José Dias. outro o queijo. imita prima Justina. afastaram-se. Fui-me a ele. Foi quando nasceu Ezequiel. nem a doente. se já perdoei a um cachorro que me levou o descanso em piores circunstancias. e foi como se procurasse o leitor. O que faria com certeza era ir atrás dos cães. a pedrada. dois desceram para o lado da Praia do Flamengo. eu só lhe descubro um defeitozinho gosta de imitar os outros. e disse afinal que era preciso emendá-lo. Quando eles me viram. Ao leitor pode parecer que foi o cheiro da carne que remeteu o cão ao silêncio. que só agora sabe disto. devagar. nem a enfermeira podiam dormir. . um ficou a curta distancia.Sim não sairá maricas. mas não é muito que eu lhes perdoe. Não digo que não. carinho. O diabo ainda latiu. repliquei. que é o seu modo de rir deles.Imitar os gestos.Imitar como? .Não sai a nós. .

A minha própria mãe .. Eu fiz o mesmo aos meus. . mas eu não gosto de imitações em casa. como sucede a muitas pessoas grandes. ninguém quer saber de modelo. A resposta de Capitu foi um riso doce de escárnio. que tomam as maneiras dos outros. por mais mulheres bonitas que achasse. quando se zangava com alguém. vingança de menino. e o meio mais próprio a tal fim (disse-me uma senhora. me enchia de terror ou desconfiança. não muitos. não continuei a sê-lo apesar do filho e dos anos. e para que não fosse mais longe. nenhuma receberia a mínima parte do amor que tinha a Capitu. Naquele tempo. Um vizinho. e senti não haver ali um escultor que nos transferisse a atitude a um pedaço de mármore. a mais ínfima palavra. tão cheios de graça que pareciam (velha imagem!) um colar de flores. mas eram ainda vindouras. a tal ponto que o menor gesto me afligia. . e foi naturalmente por não achar da minha parte correspondência aos seus afetos que me explicou daquela maneira os seus olhos teimosos. tendo aliás confessado a princípio as minhas aventuras vindouras.. CAPÍTULO 113 EMBARGOS DE TERCEIRO Por falar nisto.Há. um dia) é ver também. A senhora que me disse isto cuido que gostou de mim. Outros olhos me procuravam também. depois estirou os braços e atirou-mos sobre os ombros. muita vez só a indiferença bastava. Sempre há tempo de corrigi-lo. Cheguei a ter ciúmes de tudo e de todos. mas da obra. qualquer homem.Também não vamos mortificá-lo. sendo antes tão cioso dela. é certo. Continuei. continuei. nós saberíamos que éramos nós. uma insistência qualquer. É certo que Capitu gostava de ser vista. um desses risos que não se descrevem. . .. é natural que me perguntes se.Sim. Você também não era assim. e a obra é que fica. concordo. e não digo nada sobre eles. Só brilharia o artista.E naquele tempo gostavas de mim? disse eu batendo-lhe na face.mas parecia-lhe que era só imitar por imitar. vou ver. senhor. e apenas se pintarão. Não importa.Quando me zangava. Quando uma pessoa ou um grupo saem bem. um par de valsa.. . e não há ver sem mostrar que se vê. moço ou maduro. Sim.

. e. Vamos aos embargos.A cunhadinha está tão doente como você ou eu. ele que as registra nos livros eternos. não vivia nem trabalhava que não fosse pensando nela. . Se estiver pior. o que me fez desconfiar que mentia. . estava ainda no seminário. Ao teatro íamos juntos. para me não meter medo. que ficara doente. e não vale a pena de um capítulo. só me lembra que fosse duas vezes sem ela. Não falava alegre. mas voltei no fim do primeiro ato.não queria mais que metade. Expliquemos o explicado. mas agravara o padecimento para que eu fosse divertir-me. desces. Confessou-me que apenas tivera uma dor de cabeça de nada. Em si. Escobar sorriu e disse: . Eram uns embargos de terceiro. . Vinha para aquele negócio dos embargos. senão agradáveis. mas quis por força que eu fosse.Não. Viste que eu pedi (cap. tendo ele jantado na cidade. Capitu estava melhor e até boa. disse ela estendendo tragicamente o braço. e o tabelião divino sabe as coisas que se juram em tais momentos. . Capitu e eu tínhamos jurado não esquecer mais aquele pregão. disse-me ele. expliquemos ainda um ponto que já ficou explicado. e uma estréia de ópera.Você jura? . 110 ) a um professor de música de São Paulo que me escrevesse a toada daquele pregão de doces de Mata-cavalos. Encontrei Escobar à porta do corredor. Aproveitei o gesto para beijar-lhe a mão.. saí.. . Capitu era tudo e mais que tudo.Doente de quê? perguntou Escobar. mas já agora falaria depois. . quanto mais dois.Queixava-se da cabeça e do estômago. vou-me embora. mas não bem explicado.. Era tarde para mandar o camarote a Escobar. sobe. falemos já. foi em momento de grande ternura. a matéria é chocha. um benefício de ator.Então. Expliquei-lhe que tinha saído para o teatro donde voltara receoso de Capitu. ocorrera um incidente importante. ela pode estar melhor..Vinha falar-te. não quis ir para casa sem dizer-me o que era. mas há matérias tais que trazem ensinamentos interessantes. mas jurou que era a verdade pura. a que ela não foi por ter adoecido.Juro. CAPÍTULO 114 EM QUE SE EXPLICA O EXPLICADO Antes de ir aos embargos.

Escobar olhava para mim descer fiado. CAPÍTULO 115 DÚVIDAS SOBRE DÚVIDAS Vamos agora aos embargos. Mas hás de crer que quando corri aos papéis velhos. a juro alto e prazo curto. . capaz de dissipar as mesmas tristezas de Olímpio. Mas os prazos renovam-se. Ao certo.Tomaremos depressa. que não valia nada.É tarde para tomar chá. . que me fez o obséquio de a escrever no pedacinho de papel.Então vale alguma coisa. transferindo o juramento à afirmação simples. como se cuidasse que eu recusava a circunstancia nova para forrar-me a escrevê-la. Foi para não faltar ao juramento que fiz isto. Durante ele. que empresta sobre todas as virtudes. naquela noite da Glória. ninguém sabe se há de manter ou não um juramento.Nada? . mas tal suspeita não ia com a nossa amizade. vi que a ia perdendo inteiramente. isto é.Para reforçar as razões que já temos vale menos que o chá que você vai tomar comigo. esquecer. querendo um dia relembrar a toada. desde que não mete a alma no purgatório.. é profundamente moral. até que um dia uma ou duas virtudes medianas pagam todos os pecados grandes e pequenos. Da circunstancia nova que Escobar me trazia apenas digo o que lhe disse então. a nossa constituição política. qualquer esquece. Coisas futuras! Portanto. Quando ele saiu. . um jeito uma graça toda sua.Quando fui para São Paulo. . . referi as minhas dúvidas a Capitu. . mas a alguém que tenha mais temor a Deus que aos homens não lhe importará mentir. também não me lembrava já da toada nem do texto? Fiz-me de pontual ao juramento. uma vez ou outra. Tomamos depressa. Faltar ao compromisso é sempre infidelidade.Quase nada. e este é que foi o meu pecado. que é o eterno naufrágio. quanto mais contá-los. Acabou com um pecado terrível.. Purgatório é uma casa de penhores. Não confudam purgatório com inferno. ela as desfez com a arte fina que possuía. E por que iremos aos embargos? Deus sabe o que custa escrevê-los. consegui recordá-la e corri ao professor.

Vamos. Não. Fomos jantar com a minha velha. Eu era então um poço delas. .. José Dias falou do casamento e suas belezas. Em lhe faltando o neto. à escolha.Tens razão. a cara deliciosa da minha amiga e esposa.. ela torna a ser o que era. como verdadeiras rãs. posto que os seus cabelos brancos não o fossem todos nem totalmente. viemos por ali a pé. e o rosto estivesse comparativamente fresco. logo que eles passem e as saudades aumentem. a esta hora. tio Cosme das suas moléstias. ou de José Dias. CAPÍTULO 116 FILHO DO HOMEM .. coaxavam dentro de mim. coisas de sogra. mas quando eu subia. quando este saía da sala. falei de outras dúvidas. à noite. Ezequiel às vezes estava com ela. é que está impressionado com a demanda. Pois vamos. prima Justina da vizinhança. . recrudescia de ternura. nós o havíamos acostumado a ver o ósculo da chegada e da saída.. entre as grades da cancela.Quem sabe se não anda doente? . Mas nada de melancolias. mamãe não lhe faz as mesmas graças.era uma espécie de mocidade qüinquagenária ou de ancianidade viçosa..Vamos nós jantar com ela amanhã? ..Mas eu tenho notado que já é fria também com Ezequiel Quando ele vai comigo. da política.. não quero falar dos olhos molhados. e ele enchia-me a cara de beijos. para não espertar-me os ciúmes. Já lhe podia chamar assim. e ele que veio até aqui. Pouco entrou na conversação.. Dali em diante foi cada vez mais doce comigo. . Palavra puxa palavra. Ao passo que me falava. lá vinha um dia e mudavam. Disse-lhe que começava a achar minha mãe um tanto fria e arredia com ela. da Europa e da homeopatia. Quando voltamos. Sogras eram todas assim. Também não era diferente da costumada. concluiu. não me ia esperar à janela. falando das minhas dúvidas. via no alto da escada. Mamãezinha tem ciúmes de você. à entrada e à saída.. .Seria o negócio dos embargos. Capitu novamente me aconselhou que esperássemos.Já disse a você o que é. a ponto de me tirarem o sono algumas vezes. risonha como toda a nossa infância. Pois aqui mesmo valeu a arte fina de Capitu.

Imagine a aflição dela. O pai é que nos separou um pouco. Tu como vais.Tem razão.. Ezequiel. era duro confessar que ele foi uma verdadeira bênção do céu.Pois eu não gosto deles. filho do homem.. disse eu. .Mas tem muita graça. Vamos. senhor. Quis observar-lhe que tal razão explicava a interrupção das visitas. ficou espantado. Alguns dos gestos já lhe iam ficando mais repetidos. onde estão os teus brinquedos?” “Queres comer doce. como os das mãos e pés de Escobar.Apalpei José Dias sobre as maneiras novas de minha mãe. Eu mesmo achava feio tal sestro. Este ano tem feito muito frio. mas a princípio ficava envergonhadíssimo.. Você não imagina como a Bíblia é cheia de expressões cruas e grosseiras. . mas não estendi tão longe a intimidade do agregado.Mas. que andava o dia inteiro. . pequenino. tão bem que ela lhe deu um beijo em paga.. quando os ouço. quando Dona Glória elogia a sua nora e comadre. Para quem chegou. como é que eu ando? .. entro também no coro. a mim. que lá tem o seu mal.. e não a frieza quando íamos nós a Mata-cavalos. por que é que não nos visita há tanto tempo? . . Pois. concordou o agregado. como é que eu ando na rua? . Capitu. Não havia nada. a arrenegar deste casamento. Desta vez falou ao modo bíblico (estivera na véspera a folhear o livro de Ezequiel. mamãe não quer. como eu.São os modos de dizer da Bíblia. como soube depois) e perguntava-lhe: “Como vai isso. ao pé do irmão. nem podia haver coisa nenhuma.Perfeitamente! .. até . Eu falava assim para variar.Não. replicou ela com aspereza. filho do homem?” “Dize-me.. parece-me que sou eu mesmo.” . filho do homem?” .Não. quando ele copia os meus gestos. tantos eram os louvores incessantes que ele ouvia “à bela e virtuosa Capitu. sim. mas tudo acabou em bem. Que digna senhora nos saiu a criança travessa de Mata-cavalos.Então mamãe?. . enquanto não nos conhecíamos. . José Dias pediu para ver o nosso “profetazinho” (assim chamava a Ezequiel) e fez-lhe as festas do costume. atalhou Capitu.Creio que tem andado mais achacada dos seus reumatismos. Outro dia chegou a fazer um gesto de Dona Glória..Que filho do homem é esse? perguntou-lhe Capitu agastada. meu anjo? Meu anjo..Agora. agora é obrigada a estar quieta. já lhe vou tirando esse costume de imitar os outros. ultimamente.

se eu duvido que o rei dissesse tal palavra nem que ela seja verdadeira. mas pode ser que fosse do mar. Provavelmente foi o mesmo escritor que a inventou para adornar o texto. quando me deu na gana experimentar se as sensações antigas estavam mortas ou dormiam só. tínhamos por assim dizer uma só casa. Eu creio que o mar então batia na . para se não zangarem como as águas do mar que batiam furiosas no rochedo que eles viam dali. quando falava.. porque os sonos. Eu respirava um pouco. como o diabo. casa que ainda ali vi. há dias.apanhara o modo de voltar a cabeça deste. Fazia-me pensar nas duas casas de Mata-cavalos. a não ser a respiração. Mas o menino era travesso. porque é bonita. e dei por mim no Catete. é bonita.. Um historiador da nossa língua. Não podemos deixar de rir. não posso dizê-lo bem. confundem vivos e defuntos. Não digo que número é para não irem indagar e cavar a história. tinha subido pela Rua da Princesa. dizendo a José Dias: . eu mais que ninguém. ele na minha. não perto. no sentido de velho e acabado. põe na boca de um rei bárbaro algumas palavras mansas. mas não lhe alteraram nada. Enquanto viveu. por um modo que hei de contar. com o seu muro de permeio. quando os portugueses lhe propunham estabelecer ali ao pé uma fortaleza. quando são pesados. morreu pouco depois. ouviu? CAPÍTULO 117 AMIGOS PRÓXIMOS Já então Escobar deixara Andaraí e comprara uma casa no Flamengo.O senhor anda assim. meio agitado. Não é que Escobar ainda lá more nem sequer viva. Capitu ralhava. que o repreendeu e chamou a si foi Capitu. Que a sombra do escritor me perdoe. creio que João de Barros. e o pedaço de praia entre a Glória e o Flamengo era como um caminho de uso próprio e particular. e não fez mal. uma vez que estávamos tão próximos. acendi um charuto. Enfim. quando ria. o ruas antigas! ó casas antigas! ó pernas antigas! Todos nós éramos antigos. realmente.Não quero isso. Velha é a casa. e o de deixá-la cair. apenas começamos a falar de outra coisa.eu vivia na dele. e não é preciso dizer que no mau sentido. dizia o rei que os bons amigos deviam ficar longe uns dos outros. passei. A primeira pessoa que fechou a cara. Não sei até se ainda tem o mesmo número. saltou ao meio da sala. . uma rua antiga.

nem eu digo. a idéia de que um castelo de vento dura mais que o mesmo vento de que é feito. falando-me à janela. . desde Ulisses e antes.disse-lhe que de um projeto que eu não sabia qual fosse. Vem amanhã.. Quando o marido saiu. e podiam acabar casados. Foi então que Escobar. Eu expliquei: . longe do coração.. Opinei de cabeça. O nosso castelo era sólido. ora no Flamengo. é um velho truísmo. Os dois pequenos passavam dias. disse-me que fôssemos lá jantar no dia seguinte. ela pediu-me segredo e revelou-me o que era: uma viagem à Europa dali a dois . para que se não perca o costume daquelas construções quase eternas. jogando ou mirando o mar.Não. precisávamos falar de um projeto em família. como me sucedia nas matérias que eu não sabia bem nem mal. Não és capaz de adivinhar o que seja. Na véspera tínhamos passado a noite no Flamengo. As nossas mulheres viviam na casa uma da outra. Esta segunda parte não acha crentes fáceis. ora na Glória. O certo é que eles se queriam muito. E o escritor esquecia (salvo se ainda não era do seu tempo) esquecia o adágio: longe dos olhos.pedra. ao contrário. Escobar concordou comigo. CAPÍTULO 118 A MÃO DE SANCHA Tudo acaba. é porque Ezequiel imita os gestos dos outros. Seguramente há inimigos contíguos. leitor. Como eu observasse que podia acontecer com eles o que se dera entre mim e Capitu. mas não acabaram casados. como ainda o agregado e prima Justina. Perguntou-me de que é que faláramos.Para os quatro? Uma contradança. Tudo podia ser.Não. ao canto da janela. e é bom que seja assim. a que se pode acrescentar que nem tudo o que dura muito tempo. mas também há amigos de perto e do peito. Agora que a comparação seja verdadeira é que não. Nós não podíamos ter os corações agora mais perto. um projeto para os quatro. como é seu costume. . nós passávamos as noites cá ou lá conversando. dificilmente se despegará da cabeça. veio ter comigo. e insinuou que alguma vez as crianças que se freqüentam muito acabam parecendo-se umas com as outras. não só os dois casais inseparáveis. e Sancha acrescentou que até já se iam parecendo. Sancha não tirava os olhos de nós durante a conversa. acharam todos que sim. mas um domingo.

havia ressaca. . Dali mesmo busquei os olhos de Sancha. .Você entra no mar amanhã? . e ela me fugisse outrora irritada ou acanhada. mas nenhum passavam. como agora. tornei a falar com os olhos à dona da casa. diziam outra coisa. Disse isto de costas para dentro. Senti ainda os dedos de Sancha entre os . mas ainda senti outra coisa. como se fossem os de Sancha. É preciso nadar bem. A mão dela apertou muito a minha. não se me daria beijá-la na testa. Entretanto. O mar batia com grande força na praia. mas então dar-se-ia que ela adivinhando.. uns esperando que os outros passassem. que a gente recebe e repete em si mesma. achei-os mais grossos e fortes que os meus. que eu visse naquele gesto de Sancha uma sanção ao projeto do marido e um agradecimento.anos.Vamos todos? perguntei por fim. e não tardou que se afastassem da janela. onde eu fiquei olhando para o mar. e tive-lhes inveja. apalpa. e estes braços.. os olhos de Sancha não convidavam a expansões fraterais. Talvez o simples pensamento me transluzisse cá fora. Tal se dá na rua entre dois teimosos. era jarretar a verdade. Assim devia ser. A cautela desligou-nos eu tornei a voltar-me para fora. mas não posso suprimi-la.Vamos. como se pensa na bela desconhecida que passa. mas o fluido particular que me correu todo o corpo desviou de mim a conclusão que deixo escrita. esta palavra foi como uma bênção de padre à missa. Nem só os apalpei com essa idéia. Quando saímos. E assim posto entrei a cavar na memória se alguma vez olhara para ela com a mesma expressão. muito maiores. Você não imagina o que é um bom mar em hora bravia. é que um dia pensei nela.O mar amanhã está de desafiar a gente..Tenho entrado com mares maiores. pareciam quentes e intimativos. graças às relações dela e Capitu. e fiquei incerto. como eu. Sancha ergueu a cabeça e olhou para mim com tanto prazer que eu. ao pé de mim. . ao pé do piano. . Custa-me esta confissão. Pararam os quatro e ficaram diante uns dos outros. encontrei-os em caminho. disse-me a voz de Escobar. pensativo. e ter estes pulmões disse ele batendo no peito. quase suspirando. Invencível. acresce que sabiam nadar. e agora por um movimento invencível. A noite era clara. Apalpei-lhe os braços. Tive um certeza só.. e demorou-se mais que de costume A modéstia pedia então.

. apertando uns aos outros. e o relógio foi assim marcando alternativamente a minha perdição e a minha salvação. destinada a morrer com a noite e o sono? Há remorsos que não nascem de outro pecado. eu achava-me mal entre um amigo e a atração. como a timidez vem do céu. Sancha e Capitu eram tão amigas que seria um prazer mais para elas irem juntas. iria embora. quem me afirmava que houvesse alguma intenção daquela espécie no gesto da despedida e nos anteriores? Tudo podia ligar-se ao interesse da nossa viagem. José Dias despediu-se de nós à porta.. cá fora o mar está zangado. não. o mesmo sangue celestial. Ouvia-se o mar forte.Deliciosíssima! repeti com algum ardor. Eu recolhi-me ao meu gabinete. e fomos conversando os quatro. Sinceramente. Agora achava-lhes isto. apertada e apertando. que eu tinha ali. Prima Justina dormiu em nossa casa. viam-se crescer as ondas. mas eu conversava mal. genealogicamente. nem têm maior duração. Assim refletiria se pudesse. Foi um instante de vertigem e de pecado. emendando-me: Realmente. quem me provaria que não era mais que uma sensação fulgurante. Passou depressa no relógio do tempo. é. Quando houvesse alguma intenção sexual. que nos dá a compleicão. depois do almoço e da missa. detiveram-se numa das voltas da praia. não contando o acaso. e chamei-me desleal..Uma senhora deliciosíssima. uma bela noite! . escute. quando cheguei o relógio ao ouvido. a melhor origem delas é o céu. mas a princípio vaguei à toa. Não havia meio de esquecer inteiramente a mão de Sancha nem os olhos que trocamos. Capricho . . no dia seguinte.a ressaca era grande e. continuou o agregado. a distancia. Capitu e prima Justina. Paixão não era nem insinuação. não é só o céu que dá as nossas virtudes. que moderei logo. Agarrei-me a esta hipótese que se conciliava com a mão de Sancha. a virtude..Como devem ser todas as daquela casa. rejeitei a figura da mulher do meu amigo. Entretanto. agora aquilo. ao pé do de minha mãe. trabalhavam só os minutos da virtude e da razão. a timidez também. Demais. mas o acaso é um mero acidente.como já se ouvia de casa. Cá fora. onde me demorei mais que de costume. Os instantes do Diabo intercalavam-se nos minutos de Deus. filha dela. que eu sentia de memória dentro da minha mão. quente e demorada.meus.. concluiu José Dias um discurso que vinha fazendo. Combati sinceramente os impulsos que trazia do Flamengo. que iam adiante.. falou-me como se fosse a própria pessoa.. A timidez pode ser que fosse outra causa daquela crise.. O retrato de Escobar.

Uma só vez olhei para o retrato de Escobar. Naquele tempo a minha vista era boa. o olhar ao longe para a esquerda do espectador.” Estas palavras fortaleceram-me os pensamentos daquela manhã. ao ver que beiramos um abismo. não nas costas do cartão: “Ao meu querido Bentinho o seu querido Escobar 20-4-70. sacudi a cabeça e fui deitar-me. Tornei aos autos. CAPÍTULO 121 A CATÁSTROFE No melhor deles. CAPÍTULO 119 NÃO FAÇA ISSO. sobrecasaca abotoada. O retrato de Escobar pareceu falar-me. . Tinha garbo e naturalidade. tomei café. percorri os jornais e fui estudar uns autos. eu mudo de rumo.. chamei-lhes alucinações. quer fechá-lo às pressas.seria ou quê? Ao fim de vinte minutos era nada.vi-lhe a atitude franca e simples. CAPÍTULO 120 OS AUTOS Na manhã seguinte acordei livre das abominações da véspera. Era uma bela fotografia tirada um ano antes. eu podia lê-las do lugar em que estava. escrita embaixo. Estava de pé. A moldura que lhe mandei pôr não encobria a dedicatória. Capitu e prima Justina saíram para a missa das nove. a campainha soou.. ouvi passos precipitados na escada. sem apoio na lei nem nas praxes. Vi que era fácil ganhar a demandaconsultei Dalloz. na Lapa. e espancaram de todo as recordações da véspera. A figura de Sancha desapareceu inteiramente no meio das alegações da parte adversa. inteiramente nada. alegações falsas. QUERIDA! A leitora. inadmissíveis. Não faça isso. a direita metida ao peito. que é minha amiga e abriu este livro com o fim de descansar da cavatina de ontem para a valsa de hoje. Pereira e Sousa. que eu ia lendo nos autos. a mão esquerda no dorso de uma cadeira. querida.

continuada e nunca . vozes. uma com o parecer abatido e estúpido. ou eu não lhe ouvi o resto. muitos deles particulares. escrevi algumas linhas e mostrei-as em casa a José Dias. não fizera mais que recordar o tempo do seminário. ruas. que as achou realmente dignas do morto e de mim. recitou lentamente o discurso. outra enfastiada apenas.Para ir lá. No tílburi em que andei uma ou duas horas. As canoas que acudiram mal puderam trazer-lhe o cadáver. as relações de Escobar. fui adivinhando a verdade. Poupo-vos as lágrimas da viúva.. as nossas simpatias. foi enrolado e morreu. Alguns conhecidos vieram interrogar-me: . Praia. divergindo alguns na avaliação dos bens.. não podiam lá caber todos. eu vou cuidar do enterro. falando do desastre. as da outra gente. mas havendo acordo em que o passivo devia ser pequeno. apesar do mar bravio. começada. Quis que o enterro fosse pomposo. Vesti-me.estávamos em março de 1871.Quatro palavras. acudi eu mesmo. pesando as palavras. deixei recado a Capitu e corri ao Flamengo. Tinha-as escrito com receio de que a emoção me impedisse de improvisar. as minhas. Como eu houvesse resolvido falar no cemitério. sinhô nadando. . como usava fazer. tudo eram carros. vamos ouvi-lo? . sinhô morrendo. acudiram todos.soaram palmas. Escobar meteu-se a na dar. golpes na cancela. Em caminho. no Flamengo espalhou a notícia. e confirmou a primeira opinião. Saí de lá cerca de onze horas. Elogiavam as qualidades de Escobar. Poucas mais seriam. Era um escravo da casa de Sancha que me chamava . A casa não sendo grande. ouvindo referir a chegada do morto.Então. Pediu-me o papel. Capitu e prima Justina esperavam-me.Vão fazer companhia à pobre Sanchinha. e a afluência dos amigos foi numerosa. Não disse mais nada. apontando o lugar em que Escobar falecera... a nossa amizade. arriscou-se um pouco mais fora que de costume. muitos estavam na praia. Nunca me esqueceu o mês nem o ano. Praça da Glória. CAPÍTULO 122 O ENTERRO A Viúva. um ou outro discutia o recente gabinete Rio Branco. Assim fizemos. José Dias ouviu também falar dos negócios do finado.

Vamos. tive um daqueles meus impulsos que nunca chegavam à execução: foi atirar à rua caixão. chegou a hora da encomendação e da partida. Chegando a casa. desatar as correias. queria arrancá-la dali. como se quisesse tragar também o nadador da manhã. O cocheiro aventurou duas ou três perguntas sobre a minha situação moral. são horas. até que um lance da fortuna fez separar para sempre duas criaturas que prometiam ficar por muito tempo unidas. rompeu o alarido final. amparando a viúva. Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa. De quando em quando enxugava os olhos. quando cheguei à porta.interrompida. Fechamo-lo. Consolava a outra. deitei aquelas emoções ao papel. Fiquei a ver as dela. No cemitério tive de repetir a cerimônia da casa. vi o sol claro. Era José Dias que me convidava a fechar o ataúde. tão apaixonadamente fixa. O que isto me . mas o cadáver parece que a retinha também. olhando a furto para a gente que estava na sala.. Muitos homens choravam também.. Sancha quis despedir-se do marido. Palavra que. Só Capitu. e o desespero daquele lance consternou a todos. No carro disse a José Dias que se calasse. não me arrancando nada. CAPÍTULO 124 O DISCURSO . sem o pranto nem palavras desta. e ajudar a levar o féretro à cova. A confusão era geral. quais os da viúva. No meio dela.. parecia vencer-se a si mesma. e quis levá-la. tal seria o discurso. como a vaga do mar lá fora. mas grandes e abertos. tudo gente e carros. Capitu enxugou-as depressa. as cabeças descobertas. continuou o seu ofício.. que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas. Redobrou de carícias para a amiga. CAPÍTULO 123 OLHOS DE RESSACA Enfim. e eu peguei numa das argolas. Momento houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto. as mulheres todas. defunto e tudo. As minhas cessaram logo.

tudo isto que eu era obrigado a dizer e dizia mal.. um sussurro vago. terás ido a mais de um enterro. ou qualquer outro estranho. e. os pés quietos. se as têm. sabes disto. mas o gesto geral foi de compreensão c de aprovação. leitor. é a crise que me tomou quando vi todos os olhos em mim. É impossível que algum Homero não tirasse da minha situação muito melhor efeito. e até mau verso. CAPÍTULO 125 UMA COMPARAÇÃO Príamo julga-se o mais infeliz dos homens. não obstante contá-lo em verso. era o próprio texto. as orelhas atentas. temendo que me adivinhassem a verdade. para que as caras apareçam limpas e serenas.Então. mas há narrações exatas em verso. pela causa apontada em Camões. os louvores à pessoa e aos seus méritos. Um homem. Não era só a emoção nova que me fazia assim. nem claro. ao cabo de alguns instantes de total silêncio. .custou imagina. Descido o cadáver à cova. Creio que poucos me ouviram. senhor. As mãos que me deram a apertar eram de solidariedade. Nem digas que nos faltam Homeros. faltam-nos. Compara tu a situação de Príamo com a minha. não. defunto. que me dizia ao ouvido: . mas o que não sabes nem pode saber nenhum dos teus amigos. Maquinalmente. e é um bom autor. aqueles olhos. e tudo passa como se Aquiles não matasse Heitor. mas é porque os Príamos procuram a sombra e o silêncio. não todo. é certo. sinais.. as mãos tremiam-me. por beijar a mão daquele que lhe matou o filho. saquei o papel e li-o aos trambolhões. ou quando menos igual. são enxugadas atrás da porta. alguns diziam: “Muito bonito! muito bem! magnífico!” José Dias achou que a eloqüência estivera na altura da piedade. trouxeram a cal e a pá. fale. as memórias do amigo. eu acabava de louvar as virtudes do homem que recebera. pediu-me licença para levar o manuscrito e imprimi-lo. forcejava por escondê-la bem. que me pareceu jornalista. a voz parecia-me entrar cm vez de sair. os discursos são antes de alegria que de melancolia. Tinham jus ao discurso anunciado. Era o discurso. Só a minha grande turvação recusaria um obséquio tão simples. meti a mão no bolso. Homero é que relata isto. algumas vozes interrogativas. nem seguido. As lágrimas. Queriam o discurso. José Dias. e alguém. as saudades confessadas. Ao mesmo tempo.

Neste ponto do discurso.. Cuidei de recompor-lhe os olhos.. A viúva era realmente amantíssima.estas iriam pausadas ou não. digno da esposa amantíssima que Deus lhe dera. fica já destruído de uma vez. disse-lhe eu. uma grande alma.CAPÍTULO 126 CISMANDO Pouco depois de sair do cemitério. Concluí de mim para mim que era a antiga paixão que me ofuscava ainda e me fazia desvairar como sempre. arrepiar caminho. José Dias demonstrou longamente o contrário. Quando cheguei a esta conclusão final. sem embargo dos esforços de José Dias para impedi-lo. O que aqui vai por ordem lógica e dedutiva. parar. graças aos solavancos do carro e às interrupções de José Dias.Vou fazer uma visita. . mas voltei para trás. O carro andaria mais depressa que as pernas. espírito ativo. disse a José Dias que fosse buscar as senhoras ao Flamengo e as levasse para casa. Não seria o mesmo caso de Capitu. A razão disto era acabar de cismar. deixei-o falar sozinho e peguei a cismar comigo.Não presta para nada. e escolher uma resolução que fosse adequada ao momento. rasguei o discurso e deitei os pedaços pela portinhola fora. porém. até que me . Tinha já comparado o gesto de Sancha na véspera e o desespero daquele dia. se houvesse algo que dissimular. depois elogiou o enterro. Assim se desvaneceu de todo a ilusão da minha vaidade. Fui andando e cismando. eu iria a pé. . a posição em que a vi. o ajuntamento de pessoas que devia natural mente impor-lhe a dissimulação. não vale nada. chegava também à porta de casa. e subi outra vez a Rua do Catete. bom amigo. e como posso ter a tentação de dá-lo a imprimir. andei largo espaço.. O que cismei foi tão escuro e confuso que não me deixou tomar pé. No Catete mandei parar o carro. tinha sido antes uma barafunda de idéias e sensações. podia afrouxar o passo. amigo. Eram as dúvidas que me afligiam ou a necessidade de afligir Capitu com a minha grande demora? Ponhamos que eram as duas causas. Agora.. eram inconciliáveis. raciocinava e evocava claro e bem. . coração reto. e deixar que a cabeça cismasse à vontade. Não presta. e por último fez o panegírico do morto.Mas.

vestido claro. e continuou a tocar. todo rebeca. Na ocasião em que ia passando. e tocava.ia tocando para mim. que ali foram. Ao fundo. todo arco. como eu fui. ou por esta máxima. que estava apenas encostada. Perdeu-os sem perder uma nota. confiar-lhe as caras à navalha. e dei com prima Justina e José Dias jogando . tocava. ficava à porta a ouvi-lo e a enamorar-lhe a mulher. e verdadeiramente não as esquece nunca. Divina arte! Ia-se formando um grupo. Batiam oito horas numa padaria. tocava agora com mais calor. Quanto ao marido. CAPÍTULO 127 O BARBEIRO Perto de casa. Supõe agora que este. e endireitei para casa. a despeito da hora e de ser domingo. tocaria desesperadamente..senti sossegar. que me conhecia de vista. enfiei pelo corredor e subi as escadas sem estrépito. então é que ele. Se me não engano. Pobre barbeiro! perdeu duas barbas naquela noite. passava a alma ao arco. Era a mulher dele. Esta consideração fez-me chegar francamente à porta da loja. voltado para ele. creio que me descobriu de dentro. empurrei a cancela. subi as escadas sem estrépito. sem ver a mulher. vi apontar uma moça trigueira. Divina arte! CAPÍTULO 128 PUNHADO DE SUCESSOS Como ia dizendo. ele viu-me. chegou a dizê-lo com os olhos. Nunca me esqueceu o caso deste barbeiro. sem ver fregueses. havia um barbeiro. Parei na calçada a ouvi-lo (tudo são pretextos a um coração agoniado).. grudava a face ao instrumento. A máxima é que a gente esquece devagar as boas ações que pratica. executava não sei que peça. que os compiladores podem tirar daqui e inserir nos compêndios de escola. levantando a cortina de chita que fechava o interior da casa. que eram o pão do dia seguinte. Não atendeu a um freguês. tudo para ser ouvido de um traunseunte. deixei a porta da loja e vim andando para casa. em vez de ir-se embora. e logo a outro. ou por estar ligado a um momento grave da minha vida. e veio agradecer-me com a presença o favor que eu fazia ao marido. flor no cabelo. amava a rebeca e não tocava inteiramente mal.

nem reparar se havia algum criado.. da mulher e da filha. e não sei como poderá. abraçou-me e disse-me que. mas só achei frases soltas.Também não quis? . trazia os olhos vermelhos. concertou os cabelos tão demoradamente que pareceria afetação.. era preciso pensar primeiro na minha vida. a simpatia do comércio. Vivemos assim a trocar memórias e regalos. Também ele as possuía de minha mão. mas . Vieram os jornais do dia: davam notícia do desastre e da morte de Escobar. sem se lhe dar das visitas. ao mirar o filho dormindo. Não me deixava nada. o álbum de Capitu. Perguntei-lhe por que não ficara com Sancha aquela noite. que uma vez juntas não tinham sentido. mas não quis. e na aflição da viúva. José Dias achou a frase “lindíssima”. e passar aqui uns dias conosco. Quanto a recolher os pedacinhos de papel deitados à rua. Também pensei em fazer outro. Na terça-feira foi aberto o testamento.Mas passa. uma bengala de marfim. e assim acabamos a noite. ponderou José Dias. e todos falamos do desastre e da viúva.cartas na saleta próxima. mas era lembrança do finado. Tudo isso foi na segunda-feira. todas as manhãs. ora em dia de anos. um pássaro. Tentei meter o caso à bulha. livros. Os outros suspenderam o jogo. os estudos e os negócios deste. o que é que não passa? atalhou prima Justina. Pensei em recompô-lo. Capitu saiu para ir ver se o filho dormia. ainda assim ofereci-me. e podia ser apanhado em falso pelos que me tinham ouvido no cemitério. as qualidades pessoais. disse-nos que. arrependi-me de haver rasgado o discurso. e também falavam dos bens deixados.. se quisesse pensar nela. era tarde. E. ora sem razão particular. Inventariei as lembranças de Escobar.Tem lá muita gente. Capitu levantou-se do canapé e veio a mim. Também lhe disse que era melhor vir para cá. não que quisesse dá-lo a imprimir. estariam já varridos. Tudo isso me empanava os olhos. . . . . mas era já difícil. e perguntou a Capitu por que é que não fazia versos. O rosto dela era agora sereno e puro. um tinteiro de bronze. a vista do mar há de ser-lhe penosa. Capitu censurou a imprudência de Escobar. Quando tornou. que me nomeava segundo testamenteiro. duas paisagens do Paraná e outras. pensara na filhinha de Sancha. se não soubéssemos que ela era muito amiga de si. E como em torno desta idéia começássemos uma troca de palavras. o primeiro lugar cabia a mulher.Entretanto.. Ao passar pelo espelho.Também não. e não dissimulou a tristeza que lhe trazia a dor da amiga. No dia seguinte.

uma vez que os acontecimentos. Testamento. depois tornaríamos à tona da água. amiga minha. não leia mais. E propôs-me a Europa. mas o que agora a alcançar. Capitu sorriu para animar-me. apesar do aviso. Ela propôs-me jogar cartas ou . CAPÍTULO 129 A Dona SANCHA Dona Sancha. inventário. Capitu desta vez chorou muito.as palavras que me escrevera em carta separada eram sublimes de amizade e estima. Eu não sabia que lhe respondesse. come piante novelle. esse acabou. Petrópolis. Rinovellate di novelle fronde. Minas. e iríamos residir em algum beco. desmentimos a minha ilusão. Viveríamos sossegados e esquecidos. abandone o resto. sem marido nem filha. quiser ir até o fim. peço-lhe que não leia este livro. e é ainda o melhor que se pode fazer depois da mocidade. onde nos encontraremos renovados. Por enquanto. iremos daqui até à porta do céu. mil desses remédios aconselhados aos melancólicos. como as plantas novas. contando os gestos daquele sábado.. Sancha retirou-se para a casa dos parentes no Paraná. E que tinha que andassem mal? Tornariam a andar bem. esse é indelével. para lhe não dar tentação e abri-lo outra vez. Como insistisses repliquei-lhe que os meus negócios andavam mal. O que já lhe tiver feito. recusei as diversões. Se. não respondo pelo mal que receber.. CAPÍTULO 130 UM DIA. tudo andou quase tão depressa como aqui vai dito. Deixei-me estar calado e aborrecido. a culpa é sua. se o houver lido até aqui. Ao cabo de pouco tempo. A ternura com que me disse isto era de comover as pedras. uma série de bailes. melhor será queimá-lo. O resto em Dante. Um dia. um dia Capitu quis saber o que é que me fazia andar calado e aborrecido. e eu com eles. que eu faço a mesma coisa. os objetos de algum valor seriam vendidos. ou. Basta fechá-lo. e até lá as jóias. Não. Pois nem assim. Respondi-lhe secamente que não era preciso vender nada. mas compôs-se depressa. Vá envelhecendo.

Olha. olha firme. ou um com outro. Afinal não haveria mais que meia dúzia de expressões no mundo. . os olhos de Ezequiel saíam aos da mãe. alheia a ambos. em que contasse um incidente. como eu não aceitasse nada. Vou escrevê-lo. a banca do advogado rendia-me bastante. queriam-se muito. abriu o piano. vira para o lado de papai. mas não me pareceram esquisitos por isso. eram os olhos de Escobar. é curto. fitava agora a outra borda da mesa. porque. peguei do chapéu e saí. Capitu tinha meia dúzia de gestos únicos na terra. Aquele entrou-me pela alma dentro. . ou ele com ela. Capitu sorriu abanando a cabeça com um ar que nunca achei em mulher alguma. uma visita a Mata-cavalos.Perdão. um passeio a pé.damas. e é daí que mestre Povo tirou aquele adágio que quem o feio ama bonito lhe parece. na beleza. depois a narração seguirá direita até o fim. assim. um amigo de papai e o defunto Escobar. em verdade. Só vi duas pessoas assim. Capitu. e muitas semelhanças se dariam naturalmente. mas custa muito alterar o número das páginas. Ezequiel. dizendo-lhe eu que. CAPÍTULO 131 ANTERIOR AO ANTERIOR Foi o caso que a minha vida era outra vez doce e plácida. dois meses depois da partida de Sancha. e começou a tocar. podia antepô-lo a este antes de mandar o livro ao prelo. Assim fica explicado que eu corresse à minha esposa e amiga e lhe . eu aproveitei a ausência. Era depois de jantar.Logo. ocorrido poucas semanas antes.. papai? . Começava o ano de 1872. não precisa revirar os olhos. Aproximei-me de Ezequiel.Você já reparou que Ezequiel tem nos olhos uma expressão esquisita? perguntou-me Capitu. As pessoas valem o que vale a afeição da gente. Ezequiel ia crescendo. Ezequiel não entendeu nada.Vamos passear. mas é também certo que ele me queria ainda mais a mim.. Capitu estava mais bela... estávamos ainda à mesa. assim. mas este capítulo devia ser precedido de outro. foi para a sala. olhou espantado para ela e para mim. mas. vai assim mesmo. Demais. provavelmente porque não gostei tanto das outras. achei que Capitu tinha razão. assim. meu filho. e. Capitu brincava com o filho. e afinal saltou-me ao colo: .

Fugia-lhe. não abria as vidraças. eu tolerava-as e praticava as. ficava desarmado e diferia o castigo de um dia para outro. a letra era clara e a notícia claríssima. Mas o que pudesse dissimular ao mundo. que vivia mais perto de mim que ninguém. no gabinete. Quando. o corpo. tornava a casa e via no alto da escada a criaturinha que me queria e esperava. sorrir. ora de golpe. a cara. não se notará aqui. Antes de descoberta aquela má terra da verdade. e já tão tarde que não se poderá dizê-lo sem falha nem canseira. O costume valeu muito contra o efeito da mudança. até que a família pêndula o quadro na parede. Eram como um debuxo primitivo que o artista vai enchendo e colorindo aos poucos. sem abrir as janelas. não podia fazê-lo a mim. iam-se apurando com o tempo. Todas essas ações eram repulsivas. beijar-me no gabinete de manhã. tivemos outros de pouca . e a figura entra a ver. primeiro que se possa ler uma carta. Mas o principal irá. Escobar vinha assim surgindo da sepultura.enchesse a cara de beijos. a pessoa inteira. depois fui lendo melhor. para me não descobrir a mim mesmo e ao mundo. corria a casa. em memória do que foi e já não pode ser. por ser tão miúdo e repetido. Quando nem mãe nem filho estavam comigo o meu desespero era grande. para dividir pelo tempo da morte todos os minutos da vida embaçada e agoniada. mas a mudança fez-se. receber-me na escada. e eu jurava matá-los a ambos. E o principal é que os nossos temporais eram agora contínuos e terríveis. palpitar. a luz coada pelas persianas basta a distinguir as letras. do seminário e do Flamengo para se sentar comigo à mesa. Li a carta. CAPÍTULO 132 O DEBUXO E O COLORIDO Nem só os olhos. Aqui podia ser e era. falar quase. é certo. fez-se como a manhã que aponta vagarosa. não à maneira de teatro. fechava-me. fiquemos nos olhos de Ezequiel. porém. mas as restantes feições. Quando novamente abria os olhos e a carta. em casa. ora devagar. mas este outro incidente não é radicalmente necessário à compreensão do capítulo passado e dos futuros. ou pedir-me à noite a bênção do costume. mal a princípio e não toda. O que se passava entre mim e Capitu naqueles dias sombrios. chegava a fechar os olhos. depois lê-se a carta na rua. metia o papel no bolso.

dura. ou pelo descostume em que eu ficava. Aos sábados.Papai não diz que jura. a falar verdade. como um marujo contaria o seu naufrágio. Assim. A ausência temporária não atalhou o mal. no gabinete. conto aquela parte da minha vida.Vou sim. Releva-me estas metáforas. Levei-o a pé. Já entre nós só faltava dizer a palavra última. era a volta de Escobar mais vivo e ruidoso. eu sentia-me cada vez pior. até que outro pé de vento desbaratava tudo. . e nós. ou porque o tempo fosse andando e completando a semelhança. cheiram ao mar e à maré que deram morte ao meu amigo e comborço Escobar. .Vou. Eu. Era no antigo Largo da Lapa. pela mão. Ezequiel entrava turbulento. . . o sol claro e o mar chão. Até a voz. A mesma situação nova agravou a minha paixão. porque o demo do pequeno cada vez morria mais por mim. e quando. por onde abríamos novamente as velas que nos levavam às ilhas e costas mais belas do universo. que não era tardia nem dúbia.Papai não vai! . foi como se não fosse. Fui eu mesmo que o levei um dia de manhã. papai! . . já me parecia a mesma. mas a volta dele. custou muito ao menino aceitar esta situação. próxima e firme. mas não escapava ao domingo. como levara o ataúde do outro. nos olhos um do outro. se voltaria para casa. buscava não andar em casa e só entrar quando ele estivesse dormindo. expansivo. e sempre que Ezequiel vinha para nós não fazia mais que separar-nos. cheio de riso e de amor. sentia agora uma aversão que mal podia disfarçar. posto sempre fosse homem de terra. e toda a arte fina de Capitu para fazê-lo atenuar.Pois juro. perto da nossa casa. ao menos. esperávamos outra bonança. postos à capa. O pequeno ia chorando e fazendo perguntas a cada passo. . . porém. e se eu iria vê-lo.Pois sim. Ezequiel vivia agora mais fora da minha vista. vibrante e decisiva. uma segunda-feira. não tardava que o céu se fizesse azul. nós a líamos. ao fim das semanas..Jura. antes total. donde só viesse aos sábados. quando eu me achava entre jornais e autos. Capitu propôs metê-lo em um colégio. E lá o levei e deixei. Cheiram também aos olhos de ressaca de Capitu.Quero ir com papai! Papai há de ir comigo! bradava ele.. dentro de pouco.

nas quais a sexta-feira era o dia de agouro.. ora tinha trabalho que me obrigava a fechar o gabinete. Certa idéia. e posto avoasse com elas. ou só o menos que pudesse. Não podendo encobrir inteiramente esta disposição moral. e a morte não se gasta. quando cuidava não ser mais que uma ou duas horas. eu a levava na retina. Amanheceu. O ser sexta-feira creio que foi acaso. era como se fosse fixa. CAPÍTULO 133 UMA IDÉIA Um dia-era uma sexta-feira. porque o prêmio da loteria gasta-se. as mesmas asas trépidas. Sei que escrevi algumas cartas. Não me lembra bem o resto do dia. cuidava de me não fazer encontradiço com ele.tanto a ela como aos outros. em casa. que negrejava em mim. é provável que a idéia não batesse as asas senão pela necessidade que sentia de vir ao ar e à vida. que não digo. não havendo almanaques no cérebro. A farmácia faliu. com a cor mais pálida que de costume. ouvi cantar baladas. CAPÍTULO 134 O DIA DE SÁBADO A idéia saiu finalmente do cérebro. ela veio comigo. Quando me achei com a morte no bolso senti tamanha alegria como se acabasse de tirar a sorte grande. Também nenhuma noite me passou tão curta. o dono fez-se banqueiro. lê agora outro capítulo. e não pude dormir. ora saía ao domingo para ir passear pela cidade e arrabaldes o meu mal secreto. mas também pode ter sido propósito. por mais que a sacudisse de mim. vindas da roça e da antiga metrópole. Já me vais entendendo. Era noite. abriu as asas e entrou a batê-las de um lado para outro. ou ainda maior. é verdade. Entretanto. e o banco prospera. Fui a casa de . antes de se ver cumprida. não que me encobrisse as coisas externas. comprei uma substancia.não pude mais. Saí. para não espertar o desejo de prová-la. como fazem as idéias que querem sair. mas via-as através dela. fui educado no terror daquele dia. A vida é tão bela que a mesma idéia da morte precisa de vir primeiro a ela. Cá fora tinha a mesma cor escura. supondo deixar a idéia em casa. e sem se demorarem nada.

Então eu perguntava a mim mesmo se alguma daquelas não teria amado alguém que jazesse agora no cemitério. sabia apenas o assunto. à medida que o mouro rolava convulso. Cheguei a abrir mão do projeto. Que era preciso para viver? Nunca mais deixar aquela casa ou prender aquela hora a mim mesmo. um fogo intenso e vasto. tio Cosme esquecido do coração. vagas e turvas. Vi as últimas horas da noite e as primeiras do dia. CAPÍTULO 135 OTELO Jantei fora. as primeiras carroças. que a consumisse de todo. Passei uma hora em paz. como eterna extinção. e a reduzisse a pó. tão culpada como Capitu? E que morte lhe daria o mouro? Um travesseiro não bastaria. . pois não me pude furtar à observação de que um lenço bastou a acender os ciúmes de Otelo e compor a mais sublime tragédia deste mundo. Vaguei pelas ruas o resto da noite. . Ouvi as súplicas de Desdêmona. e vinham outras incoerências. e estimei a coincidência.. vinha eu dizendo rua abaixo.não queria expor-me a encontrar algum conhecido. é verdade um quase nada.. as suas palavras amorosas e puras. e Iago destilava a sua calúnia. Vi as grandes raivas do mouro. se ela deveras fosse culpada. minha mãe menos triste.minha mãe. a título de visita. era preciso sangue e fogo. mas o bastante para ir até à manhã... mas Capitu devia morrer.um simples lenço!. com o fim de despedir-me. e o pó seria lançado ao vento. enquanto os homens iam fumar. alguma vez nem lençóis há e valem só as camisas. vi os derradeiros passeadores e os primeiros varredores. Ceei. De noite fui ao teatro.E era inocente.e aqui dou matéria à meditação dos psicólogos deste e de outros continentes. Tais eram as idéias que me iam passando pela cabeça. hoje são precisos os próprios lençóis. tudo ali me pareceu melhor nesse dia. . até que o pano subia e continuava a peça.que faria o público. e a morte que este lhe deu entre aplausos frenéticos do público. que eu não vira nem lera nunca. Representava-se justamente Otelo. por causa de um lenço. As senhoras ficavam quase todas nos camarotes. prima Justina da língua. Nos intervalos não me levantava da cadeira. Os lenços perderam-se. os primeiros ruídos. e a fúria do mouro. O último ato mostrou-me que não eu. os primeiros . Ou de verdade ou por ilusão.

antes de se matar. subi pé ante pé. O copeiro trouxe o café. guardei o livro. que repetiria depois. e fui para a mesa onde ficara a xícara. e escrevi ainda uma carta. Entretanto. Tirei o veneno do bolso. iam dar seis horas. fiquei em mangas de camisa. querendo fugir a qualquer suspeita de imitação. Já a casa estava em rumores. Ergui-me. Escrevi dois textos. nem a serra dos órgãos. assim como ele precisara dos sentimentos do filósofo. mas era já numerosa e ia a algum trabalho. claro e breve. nem ser dada a notícia nas gazetas com a da cor das calças que eu então vestia. para intrepidamente morrer. Cheguei a casa. A mão tremeu-me ao abrir o papel em que trazia a droga . A gente que passava não era tanta. Nem era só imitá-lo nisso. leu e releu um livro de Platão. lembra-me bem que. senti necessidade de lhe dizer uma palavra em que lhe ficasse o remorso da minha morte. era tempo de acabar comigo. Não lhe lembrava o nosso passado. tinha necessidade de incutir em mim a coragem dele. lembrou-me que Catão. um dia que vinha depois do outro e me veria ir para nunca mais voltar. estirei-me no canapé. assentei de pô-lo novamente no seu lugar. e nobremente expira. Nenhuma das outras era para ela. abri a porta devagarinho. Um dos males da ignorância é não ter este remédio à última hora. Não tinha Platão comigo. nem a fortaleza de Santa Cruz e as outras. antes de beber o veneno. mas um tomo truncado de Plutarco. e meti-me no gabinete.albores. O primeiro queimei-o por ser longo e difuso. As ruas que eu andava como que me fugiam por si mesmas. eu é que não repetiria mais nada. Há muita gente que se mata sem ele. CAPÍTULO 136 A XÍCARA DE CAFÉ O meu plano foi esperar o café. nem as lutas havidas. não tendo esquecido de todo a minha história romana. como nos dias comuns da semana. em que era narrada a vida do célebre romano. falava-lhe só de Escobar e da necessidade de morrer. nem alegria alguma. para não ser encontrado ao pé de mim o livro de Plutarco. se pudesse achar essa espécie de cocaína moral dos bons livros. a última. dissolver nele a droga e ingeri-la. mas estou que muita mais gente poria termo aos seus dias. bastou-me a ocupar aquele pouco tempo. O segundo continha só o necessário. Até lá. e para em tudo imitá-lo. Não tornaria a contemplar o mar da Glória. dirigida a Capitu.

mas o pequeno beijava-me a mão. como o gesto. Pus a xícara em cima da mesa. . a memória em Desdêmona inocente. diga-se tudo. Inclinei-me e perguntei a Ezequiel se já tomara café. . Mas não sei que senti que me fez recuar. é provável que não estivesse aqui escrevendo este livro. lá estava ele. Assim disposto. os olhos vagos. meia xícara só. com a mão nas costas da cadeira. deu-me outro impulso que me custa dizer aqui. pensei. era melhor. e comecei a mexer o café. mas disposto a fazê-la cair pela goela abaixo.Toma outra xícara. Efetivamente.Papai! papai! CAPÍTULO 137 SEGUNDO IMPULSO Se eu não olhasse para Ezequiel. a figura do pequeno fez-me recuar até dar de costas na estante. Cheguei a pegar na xícara. Ouvi a voz de Ezequiel no corredor.mas vá lá. . como de costume.. Mas a fotografia de Escobar deu-me o animo que me ia faltando. e a vista dele. Chamem me embora assassino. ou a temperatura. puxando-me: . beberia depois. Ezequiel abraçou-me os joelhos.Papai! papai! Leitor. esticou-se na ponta dos pés. Ainda assim tive animo de despejar a substancia na xícara.embrulhada.. caso o sabor lhe repugnasse. .Já. e repetia. e dei por mim a beijar doudamente a cabeça do menino. tão trêmulo que quase a entornei. . Cheguei-lhe a xícara. vou à missa com mamãe.E papai? . a olhar ao longe. papai.. “Acabemos com isto”.. cogitei se não seria melhor esperar que Capitu e o filho saíssem para a missa. o meu segundo impulso foi criminoso. Quando ia a beber. vi-o entrar e correr a mim bradando: . como que rendo subir e dar-me o beijo do costume. o espetáculo da véspera vinha intrometer-se na realidade da manhã.. anda.Papai! papai! exclamava Ezequiel. houve aqui um gesto que eu não descrevo por havê-lo inteiramente esquecido. porque o meu primeiro ímpeto foi correr ao café e bebê-lo. mas crê que foi belo e trágico. não serei eu que os desdiga ou contradiga. entrei a passear no gabinete. porque o café estava frio.Eu mando vir mais. bebe! Ezequiel abriu a boca.

uma vez que a mãe e o filho iam à missa. Sem lhe contar o episódio do café. se pode chamar de um século. . Ela olhava sempre. Que houve entre vocês? .O quê? perguntou ela como se ouvira mal. a coisa nenhuma. a própria natureza jurava por si. não.Não há que explicar. a maior parte das vezes.Não ouviu o que lhe disse? Capitu respondeu que ouvira choro e rumor de palavras. . eu não creio. repeti as palavras ditas duas vezes com tal resolução que a fizeram afrouxar. haja ou não testemunhas alugadas. ao dar com ela. Seguiu-se um daqueles silêncios. e não menor a indignação que lhe sucedeu. não sei se era dos meus olhos. Era já um falar seco e breve. não entendo as tuas lágrimas nem as de Ezequiel. mas Capitu pareceu-me lívida. eu não sou teu pai! CAPÍTULO 138 CAPITU QUE ENTRA Quando levantei a cabeça. Eis aí outro lance.Só se pode explicar tal injúria pela convicção sincera. à dor que a retorcia. . a minha era verdadeira.. Eu creio que ouvira tudo claramente mas confessá-lo seria perder a esperança do silêncio e da reconciliação por isso negou a audiência e confirmou unicamente a vista. e eu não queria duvidar dela. Desta vez.Não. e Capitu não saía sem falar-me. repeti-lhe as palavras do final do capítulo. disse ao filho que se fosse embora.Há tudo. nunca revelou a menor sombra . aos seus gestos. dei com a figura de Capitu diante de mim. disse eu. sem atender à linguagem de Capitu. Grande foi a estupefação de Capitu. entretanto você que era tão cioso dos menores gestos. Após alguns instantes. e pediu-me que lhe explicasse. a que. questão de preço. que parecerá de teatro.Que não é meu filho. . tão naturais ambas que fariam duvidar as primeiras testemunhas de vista do nosso foro. tanto mais que a pessoa que me contou isto acabava de perder uma demanda. esperando.. tal é a extensão do tempo nas grandes crises. sem mentir. eu nem olhava para ela. Capitu recompôs-se. Assim que. Já ouvi que as há para vários casos. e é tão natural como o primeiro. Mas.. disse-me ela: .

mas diga tudo primeiro. porém. Mas não falemos nisto.Há coisas que se não dizem. que a senhora insiste.. A vontade de Deus explicará tudo. para que eu me defenda. Desta vez a confusão dela fez-se confissão pura.. gritando:. cada um iria com a sua ferida.Pois até os defuntos! Nem os mortos escapam aos seus ciúmes! Concertou a capinha e ergueu-se. não nos fica bem dizer mais nada. ou peço-lhe desde já a nossa separação: não posso mais! . Suspirou. creio que suspirou. depois do que ouvi. CAPÍTULO 139 A FOTOGRAFIA Palavra que estive a pique de crer que era vítima de uma grande ilusão.. . involuntariamente.. e depois um para o outro. Bentinho. mas pude aludir aos amores de Escobar sem proferir-lhe o nome.Não. depois. disse-lhe não sei que palavras adequadas a este fim. em um tom juntamente irônico e melancólico: . Uma vez. posso ouvir o resto. e murmurou: . ou conte o resto.“Mamãe! mamãe! é hora da missa!” restituiu-me à consciência da realidade. olhamos para a fotografia de Escobar. Que é que lhe deu agora tal convicção? Ande.A separação é coisa decidida.Que se não dizem só metade. aqui vai o que lhe posso dizer. . Este era aquele. . eu creio. de um riso que eu sinto não poder transcrever aqui. diga tudo. que não pedia outra coisa mais que a plena justificação dela. Não disse tudo. Capitu olhou para mim com desdém. Capitu e eu.. enquanto eu.continuou vendo que eu não respondia nada.. Podia estar um tanto confusa.apesar do seminário não acredita em Deus. Era melhor que a fizéssemos por meias palavras ou em silêncio. Que é que lhe deu tal idéia? Diga. mas já que disse metade. Capitu não pôde deixar de rir. é a casualidade da semelhança. não pode ser muito. o porte não era de acusada. De boca. . e é tudo.Sei a razão disto. mas a entrada repentina de Ezequiel. não . redargüi pegando-lhe na proposta. porém.diga tudo.. Pedi-lhe ainda uma vez que não teimasse. fale! fale! Despeça-me daqui. Tinha-se sentado numa cadeira ao pé da mesa. se você acha que tenho defesa.de desconfiança. uma fantasmagoria de alucinado. Ri-se? É natural. Bentinho. havia por força alguma fotografia de Escobar pequeno que seria o nosso pequeno Ezequiel.

E por que os não esganei um dia. relê o capítulo. encontros e incidentes.Confiei a Deus todas as minhas amarguras. eu acabava de achar outra. mas não foi. todas essas reminiscências vieram vindo agora. repetiu as últimas palavras. Qualquer que fosse a razão do ato. Contava com a minha debilidade ou com a própria incerteza em que eu podia estar da paternidade do outro. quando me mostrou em casa dele o retrato da mulher. No intervalo. tanto melhor quanto que não era definitiva. justiça. e estou às suas ordens. parecido com Capitu. . mas reparação. senhor. quando desviei os olhos da rua onde . palavras. ou eu ia atentando mais nelas. ouvi dentro de mim que a nossa separação é indispensável. era natural pegar do café e bebê-lo. CAPÍTULO 140 VOLTA DA IGREJA Ficando só. puxou do filho e saíram para a missa. e nos outros dias. e a que faltou o meu velho ciúme.. rejeitei a morte. desde que impressões novas e fortes o descobriam? Nesse caso era um homem apenas encoberto. e deixava a porta aberta à reparação. lembravam-me episódios vagos e remotos. Ezequiel ia ter comigo ao gabinete.confessou nada. mas não fica longe. um segredo que me fez rir. Reduzem-se a dizer que há tais semelhanças inexplicáveis. Hás de lembrar-te delas. se devesse havê-la. em tal atropêlo que me atordoaram. não. Acaso haveria em mim um homem novo. uma palavra dela sonhando. e as feições do pequeno davam idéia clara das do outro. um que aparecia agora. se não. Não disse perdão. e esperei o regresso de Capitu. Em verdade vos digo que tudo estava pensado e feito. mas falhou tudo. por não me lembrar já qual seja. como espreitando um gesto de recusa ou de espera. Este foi mais demorado que de costume. Pelo dia adiante. Os olhos com que me disse isto eram embuçados. evocara as palavras do finado Gurgel. Respondi-lhe que ia pensar. A morte era uma solução. cujo número não ponho aqui. tinha perdido o gosto à morte.. disse-me Capitu ao voltar da igreja. Pois. cheguei a temer que ela houvesse ido à casa de minha mãe. De envolta. isto é. tudo em que a minha cegueira não pôs malícia. Uma vez em que os fui achar sozinhos e calados. e faríamos o que eu pensasse...

em vez de trepadas no fio de arame. que foi conosco. naturalmente as viagens eram feitas com o intuito de simular isto mesmo. confessando que a aborrecíamos. José Dias não foi comigo. mas não a procurei.. se os chins os inventaram. Ia a bordo despedir-se de mim. não é que lhe faltasse vontade. que aprenderia o resto nas escolas do país. ensinando a língua materna a Ezequiel... novo nem velho. sem ódio. as minhas outras andorinhas estavam trepadas no ar. e acharam-lhe graça.Venha. Escobar declarou que. dizendo-me uma palavra amiga e alegre. .estavam duas andorinhas trepadas no fio telegráfico? Dentro. . mas tão cautelosos que se desenfiaram logo. continuou. estivessem à mesa do jantar cozidas.” E ficamos a tratar dos chins e dos clássicos que falaram deles. ficou de companhia a Capitu. e para o fim saudosas. e eu dava-lhes. “Nunca comi os ninhos delas.. A última vez não foi a bordo. quase inválido e a minha mãe. queriam notícias. finalmente. nem ver nada. pedia-me que a fosse ver. para ele. Contei-lhes o namoro das andorinhas de fora. CAPÍTULO 142 UMA SANTA Entenda-se que. enquanto Capitu. e enganar a opinião. os olhos enfiados nos olhos. mas devem ser bons. ficava de companhia a tio Cosme. e repeti a viagem com o mesmo resultado. que envelheceu depressa. foi a outros cuidados. e as palavras que me dizia. não passear. Pegamos em nós e fomos para a Europa. tornei ao Brasil. Na volta. como se acabasse de viver com ela. seria melhor se as andorinhas. acaso afetuosas. Uma professora do Rio Grande. os gestos de lenço. Assim regulada a vida. Embarquei um ano depois. os próprios olhos que enxugava eram tais que me comoviam também. posto que rijo. As dela eram submissas. Capitu começara a escrever-me cartas. CAPÍTULO 141 A SOLUÇÃO Aqui está o que fizemos. Agora lembrava-me tudo o que então me pareceu nada. Também ele estava velho. Um dia. Ao cabo de alguns meses. os que se lembravam dela. se nas viagens que fiz à Europa. a que respondi com brevidade e sequidão. paramos na Suíça.

confirmaria aqui o que lhe digo. bom latinista.. o administrador do cemitério consultou o vigário da paróquia. No fim. com grande melancolia. não lhe escrevendo o nome. não sei se me verá mais. O protonotário Cabral. disse mal do padre. Um dado de mestre! . senhor. Fiz fazer essa inscrição com alguma dificuldade. Procura no cemitério de S.E possuía algumas prendas de sociedade. quando saímos. sim. se a conhecessem mandariam esculpir santíssima.Conheci-o. pio e caridoso.Uma vez que não há outro sentido. não posso. Bentinho.Mas. O escultor achou-a esquisita. José Dias assistiu a estas diligências.Então. .. nem poderia havê-lo. chamou-lhe meticuloso.. filiação. lá em casa sempre ouvi que era insigne parceiro ao gamão.? .. a eterna.Quer dizer que era uma santa senhora. A minha idéia é dar com tal palavra uma definição terrena de todas as virtudes que a finada possuiu na vida.Todavia. nem nomes. hesito só... perdão. as datas.Tinha muito bom dado! suspirou lentamente o vigário. É aí. admite-se. nem ele nem os outros homens do cemitério. .Nem eu contesto a verdade. sendo a modéstia uma delas. Conheceu então o protonotário? . disse eu. o nome. Tanto é assim que.Bom canonista. parece-lhe. Não foi logo. depois que eu acabar? . . a filiação.Não a conheceram. . creio que vou para a outra Europa.Está com medo? . .. Era um padre-modelo.Não posso. eu não quero dizer que naquela sepultura está uma canonizada. .. .Quem se importará com datas.. Só lhe achava desculpa por não ter conhecido minha mãe.Não. com esta única indicação: Uma santa. atalhei. desejo conservá-la póstuma..Justamente. Agora. continuou o vigário. minha mãe embarcou primeiro. . . não? . este ponderou-me que as santas es tão no altar e no céu. João Batista uma sepultura sem nome. CAPÍTULO 143 . adeus. na fórmula.. se fosse vivo.

com legado ou sem ele. apenas me lembra aquela. tendo a própria casa velha. Mandei chamar um médico homeopata. Bentinho. Realmente. após uma agonia curta.” Era assim que ele preparava os cuidados da terceira geração. José Dias soergueu-se e olhou para fora. A doença foi rápida. pedia-lhe também que não deixasse de falar a Ezequiel no velho amigo do pai e do avô. a que pedia que lhe mandasse o retrato de Ezequiel. Pobre José Dias! Por que hei de negar que chorei por ele? CAPÍTULO 144 UMA PERGUNTA TARDIA Assim chorem por mim todos os olhos de amigos e amigas que deixo neste mundo. o ar pode fazer-lhe mal.Não. Esta casa do Engenho Novo. não se separaria de mim. em todas as escolas se morre. após alguns instantes. A alopatia é o catolicismo da medicina. a não ser o coração do jovem estudante. Tenho-me feito esquecer. Não é que haja efetivamente ligado as duas pontas da vida. deixou cair a cabeça.O ÚLTIMO SUPERLATIVO Não foi o último superlativo de José Dias. Já disse isto mesmo. .. na mesma rua antiga. e pediu que abríssemos a janela. o melhor deles. A . murmurando: Lindíssimo! Foi a última palavra que proferiu neste mundo. Talvez a esperança dele fosse enterrar-me. estava um céu azul e claro. foram idéias da mocidade. até que veio o último. . o mais doce. Já então morava comigo. “destinado pelo céu a amar o mesmo sangue. e mais por efeito de comparação e de reflexão que de sentimento.Que mal? Ar é vida. mas Capitu ia adiando a remessa de correio a correio. converto-me à fé de meus pais. não impedi que a demolissem e vim reproduzi-la nesta. Outros teve que não vale a pena escrever aqui.Não. Abrimos a janela. Correspondia-se com Capitu. Morreu sereno.basta um alopata. que o tempo levou. Hão de perguntar-me por que razão. até que ele não pediu mais nada. conquanto reproduza a de Mata-cavalos. Moro longe e saio pouco. Demais. mas não é provável. posto que minha mãe lhe deixasse uma pequena lembrança. mas a morte veio antes de Ezequiel.. Pouco antes ouviu que o céu estava lindo. . disse ele. o que lhe fez da morte um pedaço de vida. veio dizer-me que.

falar-lhe na mãe. A mãe. A razão é que. DE SANTIAGO .pergunta devia ser feita a princípio. logo que minha mãe morreu. Ao pé dessa música sonora e jovial. pintado na parede. tinha agora um ar de ponto de interrogação. em vez de reto. ficou esperando. segundo contei em tempo. ouvi também o grunhir dos porcos. de costas. No quintal a aroeira e a pitangueira. e. mas aqui vai a resposta. Tudo me era estranho e adverso. Não me mexi. a caçamba velha e o lavadouro. Só depois é que me lembrou que cumpria ter certo alvoroço e correr. lembrou-me fazer esta reprodução por explicações que dei ao arquiteto. metade Dom Casmurro Ao entrar na sala. A casuarina era a mesma que eu deixara ao fundo. foi já nesta casa que um dia. e toda a casa me desconheceu. Trajava à moderna naturalmente. Estava. fiz primeiro uma longa visita de inspeção por alguns dias. mirando o busto de Massinissa. o mesmo rosto do meu amigo. buscando algum pensamento que ali deixasse. e parece que era a cantiga das manhãs novas. mais tarde. Conhece-me pelos retratos e correu para mim. lá repousa na velha Suíça. Acabei de vestir-me às pressas. um pai entre manso e crespo. era nem mas nem menos o meu antigo c jovem companheiro do seminário de José.creio que ainda não disse que estava morta e enterrada. naturalmente pasmava do intruso.A pessoa está aí? perguntei ao criado. e não fiz rumor Não obstante. Ao contrário. o poço. dei com um rapaz. querendo ir para lá. recebi um cartão com este nome: EZEQUIEL A. como outrora. Vim cauteloso. logo. Quando saí do quarto. e não achei nenhum. mas o aspecto geral reproduzia a pessoa morta. a ramagem começou a sussurrar alguma coisa que não entendi logo. CAPÍTULO 145 O REGRESSO Ora. . salvo as cores que eram vivas. fi-lo esperar uns dez ou quinze minutos na sala. ouviu-me os passos. Corri os olhos pelo ar. . Não fui logo. com ares de pai. e as maneiras eram diferentes. menos cheio de corpo e. abraçá-lo. nada sabia de mim. espécie de troça concentrada e filosófica. um pouco mais baixo..Sim senhor. estando a vestir-me para almoçar. quando vim para o Engenho Novo. Deixei que demolissem a casa. mas o tronco. e voltou-se depressa.

A idéia de que pudesse ter visto alguma fotografia de Escobar. enganas-te. fechava os olhos para não ver gestos nem nada. diante de mim. os estudos. cenas e palavras. e papai não parava. e o meu colega do seminário ia ressurgindo cada vez mais do cemitério. tanto mais facilmente quando que ele parecia haver-me deixado na véspera evocava a meninice. com igual riso e maior respeito. como o homem mais puro do mundo. Se fosse vivo José Dias. Era o meu comborço. acharia nele a minha própria pessoa. Teve seus minutos de aborrecimento. senhor. a princípio doeu-me que Ezequiel não fosse realmente meu filho.Era na Lapa.. eu ia desesperado.Vamos almoçar.Papai ainda se lembra quando me levou para o colégio? perguntou rindo. A mãe falava muito em mim. e comecei um interrogatório para ter menos que falar e dominar assim a minha emoção. é verdade. e continuou a comer. fiz-me pai deveras. Conhecia aquela parenta. Eu. aceito. com a cara metida no prato. Escobar comia assim também.Morreu bonita. mas o diabrete falava e ria. nem se acudisse.Pois não hei de lembrar-me? . o sotaque era afrancesado. não me acudiu. que me não completasse e continuasse. total. e eu com as perninhas. Expliquei-lhe que realmente pouco diferia do que era. eu acabava crendo tudo. particularmente os de arqueologia. Mas isto mesmo dava animação à cara dele. mas estando enferma. bebeu um gole. persistiria. Sim. posto que a idéia da paternidade do outro me estivesse já familiar. o mesmo obséquio e a mesma graça. Às vezes.Era o próprio. louvando-me extraordinariamente.. Prima Justina quis vê-lo. a ida para o colégio.. dava-me cada puxão. Creio que o desejo . era o filho de seu pai. eu também estava de preto. . disse-me ele A voz era a mesma de Escobar. . e o defunto falava e ria por ele. Vestia de luto pela mãe. pediu-me que o levasse lá. Se o rapaz tem saído à mãe. . Ansiava por ver-me. não gostava da ressurreição. Ezequiel cria em mim como na mãe.Papai não faz diferença dos últimos retratos. . o mais digno de ser querido. Sentamo-nos.. Ei-lo aqui. Falava da antiguidade com amor. Estendeu o copo ao vinho que eu lhe oferecia. tinha a cabeça aritmética do pai. o exato. Se pensas que o almoço foi amargo. . o verdadeiro Escobar. que Capitu por descuido levasse consigo. contava o Egito e os seus milhares de séculos. sem se perder nos algarismos. concluiu. Contou-me a vida na Europa. Não havendo remédio senão ficar com ele. que era a sua paixão.

sejam velhas ou novas. e à Palestina. Sorria vexado. senti-me tão cruel e perverso que peguei no rapaz e quis apertá-lo ao coração. Como disse que uma das conseqüências dos amores furtivos do pai era pagar eu as arqueologias do filho. antes lhe pagasse a lepra. qualquer emoção pode trazer-lhe a morte. os olhos que ele me deitou foram ternos e agradecidos. ao Egito. encarei-o depois. Não fomos. Ezequiel falou-me em uma viagem à Grécia. a conta das despesas e o resto do dinheiro que ele levava. Assim acontecia sempre que voltava para casa. promessa feita a alguns amigos. e foi enterrado nas imediações de Jerusalém. um trecho de praia.De que sexo? perguntei rindo. Ezequiel morreu de uma febre tifóide. tão outra a fizeram os anos e a morte. quando ficar melhor. em grego: “Tu eras perfeito nos teus caminhos. alguma rua. disse eu a Ezequiel que queria ir vê-la. Quando esta idéia me atravessou o cérebro. como se as casas morressem meninas. grego e latino.. Admirava-se que muitas destas fossem as mesmas que ele deixara. Eram dois colegas da universidade. Ela descansa no Senhor ou como quer que seja. e respondeu-me que as mulheres eram criaturas tão da moda e do dia que nunca haviam de entender uma ruína de trinta séculos. mas recuei. Ezequiel viu-lhe a cara no caixão e não a conheceu. contava-me as recordações que ia recebendo das ruas e das casas. Seria um regalo último. nem podia. . Iremos vê-la. Ao cabo de seis meses. a morte levou-a dentro de poucos dias. atalhei-o a tempo. . e era todo alegria. pagaria o triplo para não tornar a vê-lo. . iam-lhe lembrando uma porção de coisas. ao fim do dia.Está muito mal. o desenho da sepultura. como se faz a um filho de verdade. tirada do profeta Ezequiel. viagem científica. CAPÍTULO 146 NÃO HOUVE LEPRA Não houve lepra.” Mandaram-me ambos os textos.de ver Ezequiel era para o fim de verificar no moço o debuxo que porventura houvesse achado no menino. onde os dois amigos da universidade lhe levantaram um túmulo com esta inscrição. Onze meses depois. No caminho para o cemitério. e dei-lhe logo os primeiros dinheiros precisos.. mas há febres por todas essas terras humanas. alguma torre. Prometi-lhe recursos.

ou se esta foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente. ia até à esquina.” Parei e perguntei calado: “Quando seria o dia da criação de Ezequiel?” Ninguém me respondeu. O resto é saber se a Capitu da Praia da Glória já estava dentro da de Mata-cavalos. e também esta cansava.Levo. desde o dia da tua criação. sem me faltarem amigas que me consolassem da primeira. com grandes despedidas. espiava. e ia embora com o catálogo na mão. calcante pede. Vivi o melhor que pude. As outras iam modestamente. achei que era exato. Eu ficava à porta. se chovia. dava-lhe o braço.Até amanhã.Como quisesse verificar o texto. consultei a minha Vulgata. Então. Apesar de tudo. os quadros históricos ou de gênero. Não voltavam mais. mas tinha ainda um complemento: “Tu eras perfeito nos teus caminhos. uma aquarela.Levas o catálogo? . . CAPÍTULO 148 E BEM.. Caprichos de pouca dura. se . uma gouache. E O RESTO? Agora . e. por que é que nenhuma dessas caprichosas me fez esquecer a primeira amada do meu coração? Talvez porque nenhuma tinha os olhos de ressaca. e as metia dentro. e não via nada nem ninguém. um pastel. Mas não é este propriamente o resto do livro. é verdade. Uma só dessas visitas tinha carro à porta e cocheiro de libré. Eis aí mais um mistério para ajuntar aos tantos deste mundo. e maiores recomendações. até amanhã. consultava o relógio. ou se fartam de vê-la. entrávamos. jantei bem e fui ao teatro.. Não lhe dei essa cor ou descor. nem os de cigana oblíqua e dissimulada. filho de Sirach. CAPÍTULO 147 A EXPOSIÇÃO RETROSPECTIVA Já sabes que a minha alma. eu é que ia buscar um carro de praça. mostrava-lhe as paisagens. e. ou a luz da sala esmorece. não ficou aí para um canto como uma flor lívida e solitária. . esperando. Elas é que me deixavam como pessoas que assistem a uma exposição retrospectiva. Jesus. se aparecia outra visita. por mais lacerada que tenha sido.

e tu concordarás comigo.. como no seu cap.. E bem. a saber. se te lembras bem da Capitu menina. ou o resto dos restos.soubesse dos meus primeiros ciúmes. qualquer que seja a solução. tão extremosos ambos e tão queridos também. quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me. dir-me-ia. hás de reconhecer que uma estava dentro da outra. FIM . uma coisa fica. A terra lhes seja leve! Vamos à “História dos Subúrbios”. que a minha primeira amiga e o meu maior amigo. Mas eu creio que não. 9 . versículo 1: “Não tenhas ciúmes de tua mulher para que ela não se meta a enganar-te com a malícia que aprender de ti”. como a fruta dentro da casca. e é a suma das sumas.