EU, TODOS OS SONETOS E OUTRAS POESIAS

(OBRA COMPLETA)

AUGUSTO DOS ANJOS

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Autor: Augusto dos Anjos Título: Eu, todos os sonetos e outras poesias Data da Digitalização: 2004 Data Publicação Original: Primeiras décadas do séc. XX

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ÍNDICE
Introdução
As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos (por Horácio de Almeida) ....................................... 06 Um Currículo Escrito pelo próprio poeta (respostas ao inquérito de Licínio dos Santos) .............. 33

Sonetos
O Morcego ..................................................34 Psicologia de um Vencido ......................... 34 A Idéia ....................................................... 35 O Lázaro da Pátria ..................................... 35 Idealização da Humanidade Futura ........... 36 Soneto ao Meu Primeiro Filho .................. 36 Versos a um Cão ....................................... 37 O Deus-Verme .......................................... 37 Debaixo do Tamarindo .............................. 38 Budismo Moderno ..................................... 38 Sonho de um Monista ................................ 39 Solitário ..................................................... 39 Mater Originalis ........................................ 40 O lupanar ................................................... 40 Idealismo ................................................... 41 Último Credo ............................................. 41 O Caixão Fantástico .................................. 42 Solilóquio de um Visionário ..................... 42 A um Carneiro Morto ................................ 43 Vozes da Morte ......................................... 43 Insânia de um Simples .............................. 44 Asa de Corvo ............................................. 44 O Martírio do Artista ................................. 45 O Mar, a Escada e o Homem ..................... 45 Decadência ................................................ 46 Ricordanza della mia Gioventú ................. 46 A Um Mascarado ...................................... 47 Vozes de um Túmulo ................................ 47 Contrastes .................................................. 48 Soneto I a meu pai doente ......................... 48 Soneto II a meu pai morto ......................... 49 Soneto III ................................................... 49 Depois da Orgia ......................................... 50 A Arvore da Serra ..................................... 50 Vencido ..................................................... 51 O Corrupião ............................................... 51 Alucinação a Beira Mar ............................. 52 Vandalismo ............................................... 52 Versos Íntimos .......................................... 53 Vencedor ................................................... 53 Eterna Mágoa ............................................ 54 O Lamento das Coisas .............................. O Meu Nirvana ......................................... Caput Immortale ....................................... Apóstrofe a Carne ..................................... Louvor a Unidade ..................................... O Pântano ................................................. Supreme Convulsion ................................. A Um Gérmen .......................................... Natureza Íntima ........................................ A Floresta ................................................. Guerra ....................................................... O Sarcófago .............................................. Hino a Dor ................................................ Última Visio ............................................. Aos Meus Filhos ....................................... A Dança da Psique .................................... O Poeta do Hediondo ................................ A Fome e o Amor ..................................... Homos Infimus ......................................... Minha Finalidade ...................................... Noli Mi Tangere ....................................... O Canto dos Presos ................................... Aberração .................................................. Vítima do Dualismo .................................. Ao Luar ..................................................... A Um Epiléptico ....................................... Canto da Onipotência ............................... Minha Arvore ........................................... Anseio (Quem Sou Eu...) .......................... Revelação I ............................................... Revelação II .............................................. Versos a um Coveiro ................................ Trevas ....................................................... As Montanhas I ......................................... As Montanhas II ....................................... Apocalipse ................................................ A Nau ........................................................ Volúpia Imortal ......................................... O Fim das Coisas ...................................... A Noite ..................................................... A Obsessão do Sangue ............................. 54 55 55 56 56 57 57 58 58 59 59 60 60 61 61 62 62 63 63 64 64 65 65 66 66 67 67 68 68 69 69 70 70 71 71 72 72 73 73 74 74

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Vox Victimae ............................................ Agonia de Um Filósofo ............................. O Último Número ..................................... Saudade ..................................................... Abandonada ............................................... Ceticismo ................................................... Mágoas ...................................................... Ouvi, Senhora ............................................ Triste Regresso .......................................... Infeliz ........................................................ N’augusta solidão dos cemitérios ............. Noivado ..................................................... No meu peito arde .................................... A Máscara ................................................. Amor e Religião ........................................ Canta no espaço a passarada ..................... O Coveiro .................................................. Pecadora .................................................... No Claustro ............................................... Il Trovatore ................................................ A Louca ..................................................... Primavera .................................................. A Esperança .............................................. Senhora, eu trajo o luto do passado .......... Sofredora ................................................... Ecos d’Alma .............................................. Amor e Crença .......................................... Ariana ........................................................ Tempos Idos .............................................. Na rua em funeral ei-la que passa ............. Adeus, adeus, adeus! E, suspirando... ....... A Aeronave ............................................... Lirial .......................................................... A Minha Estrela ........................................ A praça estava cheia.... .............................. A Esmola de Dulce .................................... Ave Dolorosa ............................................ Gênio das trevas lúgubres... ...................... Nimbos ...................................................... O Mar ....................................................... Anseio (Nessas Paragens Desoladas...) ..... Aurora Morta, Foge! ................................. No Campo ................................................. Canta o Teu Riso Esplendida Sonata ........ Cravo de Noiva ......................................... Plenilúnio .................................................. Insânia ....................................................... O Bandolim ...............................................

75 75 76 76 77 77 78 78 79 79 80 80 81 81 82 82 83 83 84 84 85 85 86 86 87 87 88 88 89 89 90 90 91 91 92 92 93 93 94 94 95 95 96 96 97 97 98 98

Ara Maldita ............................................... 99 Na etérea limpidez... ................................ 99 Treva e Luz ............................................ 100 O Templo da Descrença .......................... 100 A Peste .................................................... 101 Ideal ........................................................ 101 Cítara Mística ......................................... 102 Súplica num Túmulo .............................. 102 Afetos ..................................................... 103 Martírio Supremo .................................. 103 Sombra Imortal ....................................... 104 Coração Frio ........................................... 104 Noturno (Para o Vale Noital...) ............... 105 Sedutora .................................................. 105 Pelo Mundo ............................................. 106 E o Mar Gemeu a Funda Melopéia ......... 106 O Riso .................................................... 107 Vamos, Querida! ..................................... 107 A uma Mártir ......................................... 108 Régio ...................................................... 108 Pelo Mar ................................................. 109 Pallida Luna ............................................ 109 A Morte de Vênus ................................... 110 Mártir da Fome ....................................... 110 Sonho de Amor ....................................... 111 A Orgia Mata a Mocidade ...................... 111 Festival ................................................... 112 Noturno (Chove, lá fora...) ...................... 112 E Ele Morreu .......................................... 113 Vaes Victis .............................................. 113 A Dor ..................................................... 114 Terra Fúnebre ......................................... 114 O sonho, a Crença e o Amor ................... 115 Meditando ............................................... 115 Para Quem Tem na Vida... ...................... 116 Soneto a Frederico Nietzche ................... 116 O Negro ................................................. 117 Vinhas trilhando gárrulo a Avenida ........ 117 O Ébrio ................................................... 118 O Canto da Coruja .................................. 118 Senectude Precoce .................................. 119 André Chénier .......................................... 119 Mystica Visio .......................................... 120 Ilusão ...................................................... 120 Nome Maldito ........................................ 121 Dolências ................................................ 121 A Lágrima ............................................... 122

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.................................................................................................................................... 209 Poema Negro ..................................................................................................................... 184 Idealizações .................................................................................... 197 Quadras ... 203 Vênus Morta . 155 Duas Estrofes .................................. 199 Tristezas de um Quarto Minguante ................................................................. 212 5 ............................................................................................................... 200 Mãos ................. 179 Estrofes Sentidas ........................................................................... 168 Noite de um Visionário ........ 157 A Meretriz ............. 192 Ode ao Amor ........... 155 Mater ....Outras Poesias Monólogo de uma Sombra ...................................................................... 162 Versos de Amor ................................................................................................................................................128 As Cismas do Destino ................... 156 Gemidos de Arte ................. 195 Numa Forja ............................ 170 A Vitória do Espírito ...................................................... 129 A Caridade ............ 182 Canto de Agonia .......................... 173 A Ilha de Cipango ................................................. 175 Barcarola ........................................................................................................................ 176 Ave Libertas ................................... 190 Mistérios de um Fósforo ............... 142 À Mesa ......... 205 Queixas Noturnas ............ 141 Os Doentes .. 204 Viagem de um Vencido ................................... 183 Gozo Insatisfeito .............................................................................123 Uma noite no Cairo ..... 166 A Luva ...................................... 186 Insônia ........................................................ 180 Canto Íntimo ......................................................................................... 183 História de Um Vencido .................................

Por conseguinte. ao menos. pois. Difícil tarefa é essa de querer conhecer a alma dos nossos semelhantes. na chaga viva de sua consciência. um psicastênico para outros. em suas mensagens de angústia. RJ. e era aí. não conhecemos sequer a nossa. que o não convencia de todo. Em Augusto dos Anjos não há que procurar o autor fora de sua obra. entrava em crise espiritual. poder conhecer a árvore pelo fruto. não vejo documento mais preciso para conhecer o autor que a sua própria obra. É preciso. Teria sido um neurótico para uns. isto é. ed. sobretudo pela sinceridade com que nela está fotografado. não escapasse um pouco da minha acuidade intelectual. Nessa tentativa de interpretação psicológica. paremos reverentes à porta do templo. nesse estado de superexcitação. A crítica metodológica do autor do Eu e Outras Poesias devia constituir o alvo desta escalada. Interpretar cada verso isoladamente não é tarefa que se enquadre no plano deste trabalho. proponho-me a interpretá-lo a partir de um ângulo até agora pouco estudado — a inquietação de sua personalidade. inatingível também ao bisturi dos que tentam dissecar o interior humano. no que há de mais sutil e imponderável. na verdade. Só o estudo do conjunto poderá explicar os matizes de um pensamento que tinha por norma ocultar-se em metáforas. nos moldes da velha orientação impressionista. Convenha-se antes de tudo que Augusto não foi um homem normal.INTRODUÇÃO AS RAZÕES DA ANGÚSTIA DE AUGUSTO DOS ANJOS* Por Horácio de Almeida Muito se tem escrito sobre Augusto dos Anjos. 1962) 6 . Apenas como contribuição a essa crítica de sentido mais amplo. Sua personalidade singular ali se projeta. Nalgum ponto. compreendendo inclusive a estilística. o que de alguma forma facilita o trabalho de interpretação. penso poder levantar a ponta da cortina para melhor compreensão das suas mensagens de angústia. A crítica literária já lhe realçou a obra em sua forma estética. acompanhá-lo na trajetória desse pensamento tumultuário. realçar a força de sua inteligência manifestada na originalidade do estilo e na tônica de um materialismo filosófico. desejosos de. já que não podemos penetrar com tanta intimidade o mundo subliminal. Fazer o elogio do poeta. quando não irrompia ovante para logo se perder na dúvida. numa atitude de respeito e reflexão. Toda vez que o poeta se concentrava na dor que mais o cruciava. Deste modo. senão em mais de um. O autor revela o homem e ambos estão por inteiro em sua obra. Gráfica Ouvidor. é possível que se tenha conservado à distância da crítica literária. Seja como * (do livro As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos. segundo as síndromes patológicas revelados. o eu fora do Eu. quando. nos moldes em que se ajusta a passividade compreensiva do comum dos homens. A crítica genética já lhe esvurmou a alma em busca de uma explicação para as suas anomalias psíquicas. já outros o fizeram com maior ou menor adequação. que forjava em versos candentes a produção que depois levava ao papel. esteja o poeta revelado por inteiro em todos os reflexos de sua alma. Não me parece. que é de todas a menos operante. contudo.

com distúrbios os mais evidentes no seu sistema nervoso. Obviamente. sestros. Nem os que nasceram antes. como se houvesse saído do limbo para cair na labareda. tal fato não podia deixar de refletir-se no filho em gestação. reduzir tudo a categorismo. por vezes controvertidos. quando este ainda em estado de gestação sofreu uma comoção das mais fortes. com preocupações de grandeza e fidalguia. a partir de Lombroso. Byron. além mesmo da gravidez. só ele dava a impressão de um desajustado. tem sido Augusto comparado a Leopardi.for. choques emocionais. nas modalidades do caráter. tais modelos de comparação passaram também pelas mesmas crises intra-uterinas que afetaram a sensibilidade do autor do Eu. perturbou-a por muito tempo. Não há que imputar a Augusto a pecha de louco. não há negar também a dos psicológicos. de quem o sobrinho nascituro herdaria o nome e as conseqüências do choque. causada pela perda imprevista de um irmão querido. que já era constitucionalmente quase louca. Juízo é coisa que todos julgam ter. do sentimento. O traumatismo moral que tão fundamente abalou a mãe. a de Nietzche. Todas se angustiaram por acontecimentos imprevistos. tiques nervosos. Pai e irmãos passavam por normais. a de Leopardi. na classificação dos antropologistas do século passado. E por curiosa coincidência. assim como está provada a hereditariedade dos caracteres biológicos. Não se trata aqui de fazer coincidir a personalidade criadora de 7 . menos a de Byron. Oscar Wilde e outros loucos geniais ou degenerados superiores. fobias. que nada explica. todo o seu temperamento emocional. sobretudo quando provém da linha materna. Tanto isso parece verdade que seus irmãos. estudante de medicina. De seu pai também não herdou as características psíquicas que o marcaram a fundo. o refinamento de suas faculdades morais. A mãe do poeta. mas da mediocridade ajuizada que enche de presença os quadros humanos nunca ninguém viu sair obra duradoura. tenho por desnecessário entrar aqui nesse campo de especulação psiquiátrica. de fundo genético. Ao que se sabe. Sem o concurso da causa primária. a de Wilde. a de Byron. sofreram perturbações muito fortes na época de gestação daqueles notáveis supranormais. sobretudo quando tal obra reflete da primeira à última página a alma do autor. aos que perseguem riquezas ou fazem do amor o cio bestial. não é possível interpretar a obra de um escritor. Assim como a mãe de Augusto. igualmente inteligentes. por motivos vários. aos que se rebaixam para subir. em relação com a casuística. enfim. Por seu parentesco espiritual. jamais denotaram qualquer grau de semelhança ou relação de afinidade com a alma bizarra do poeta. Explica-se deste modo. da inteligência. repetindo conceitos. pelo drama que padeceu na vida intra-uterina. enfim. como é do gosto da crítica científica. aos que se acomodam. Isto posto. caracterizado por uma sensibilidade doentia. no final. A causa primária de sua desordem nervosa já é assunto conhecido. ficou desajustada da mente pelo resto da vida. sobre o seu caso clínico. Nietzche. mas vale a pena ser louco quando se deixa por tal motivo um nome à admiração da posteridade. Augusto não era um homem igual aos outros. nem os que vieram depois. que procura dissecar a alma para ajustá-la a quadros nosológicos já catalogados e.

Falava nele o positivista que. em contraste com a mocidade e a inteligência. Nada de admirar. Quando Órris o conheceu nos idos de 1900. Os conhecimentos filosóficos gozavam reputação de primeira plana. sem afastar-se do lar. Esse adolescente sorumbático já poetava desde os sete anos de idade. quando apareceu para os primeiros exames no velho Liceu Paraibano. O rapazinho de 16 anos. como uma fatalidade. em Monólogos de uma Sombra. na várzea do Paraíba. é a vocação que já revelava para o infortúnio. Tão na flor da juventude e já se dizia um descrente. logo mais. cinco anos após a sua morte. Ocioso será afirmar que a metafísica ortodoxa. conforme disse num soneto que não consta. com o título Eu e Outras Poesias. Sílvio Romero. confessava-se já então “afeito às mágoas e ao tormento”. os quais o acompanhariam. inspirado na natureza e no amor. reunindo a esse volume a produção posterior à edição princeps de 1912. o seu tipo de pássaro molhado. começou a envenenar-se com o materialismo filosófico. Deste modo. Era de fato um excêntrico. Alexandre dos Anjos. Muito cedo. Tais idéias materialistas eram a coqueluche que o século passado legara ao presente. que lançou em 1919. sofreu duros reveses. viu nele um tipo excêntrico de pássaro molhado. porquanto as duas já se apresentam fundidas sem a química da ajuda biográfica. Coelho Rodrigues. evolvia para o evolucionismo de Speneer. A paisagem bucólica da várzea. definia mais claramente esse pensamento “como uma vocação para a Desgraça e um tropismo ancestral para o infortúnio”. Já em 1875. dr. Logo mais. publicado no Almanaque do Estado da Paraíba. foi logo chamando a atenção de mestres e colegas pelos conhecimentos que demonstrava. para aprazimento intelectual das elites. de vez que a literatura indígena longe estava de adquirir a consciência de sua função. A amizade que logo nasceu da admiração foi regada mais tarde com lágrimas de saudade no elogio que fez do poeta. numa defesa de tese na Faculdade de Direito do Recife. como expressão do pensamento nacional. Augusto nasceu e se criou no engenho Pau d’Arco. era um introvertido. a quietude da vida na província. em 1900. mas no final 8 . para maior complicação de sua personalidade. que a metafísica estava morta. entrou a estudar as matérias do curso de humanidades. Órris Soares confessa que só conseguiu passar no exame de latim porque se valeu do colega que o ajudou a destrinchar Horácio. segundo os primeiros retratos que temos dele. mas não era somente isso. aprendeu a ler e. saído da roça. ao invés de um estudante bisonho. visto ter nascido poeta. guiado apenas pela ilustração paterna. em prefácio à segunda edição do Eu. O que há de singular nele não é. no último ano do século passado. cuja vida corria sem obstáculos.Augusto com a sua personalidade psicológica. E para completar o esboço do auto-retrato acrescentava: “Eu hoje só vivo para a descrença”. Com seu pai. em sua linha tomista. a sua própria vida sem problemas. A doutrina positivista foi a primeira a ganhar terreno. sofregamente bebida nas academias. estavam a fazer dele um lírico. haurido no transformismo de Haeckel e no evolucionismo de Spencer. a rigor. A par disso. Vinha-se de uma época em que a erudição nacional destilava-se da cultura européia. bradava para o conceituado mestre que o argüia. do Eu. até o túmulo. agravados por outros que irromperam na idade perigosa. não fossem os conflitos espirituais que trazia do berço.

José Américo de Almeida. mas a metafísica resistiu ao impacto das idéias novas. que se irradiava do Recife ao sopro tempestuoso de Tobias Barreto e seus ardorosos discípulos. Desses embates. firmava-se o conceito. Foi nesse ambiente de agitação doutrinária. o pensamento ao longe. desde Haller. emancipou-se dela intelectualmente. Esquisitão que era. quando ainda pontificava na Faculdade de Direito do Recife um devoto do fenomenismo agnóstico. formavam rodas para discutir o sexo dos anjos. Desta forma. de que católico era sinônimo de burro. O materialismo dialético dos nossos dias retrocede. segundo o depoimento de Cristino Castelo Branco. a exemplo de Victor Hugo. ou mesmo. não exclui absolutamente a hipótese da existência da alma. aliás. se o diabo é tão feio como o pintam. está sujeita também ao processo da evolução. que só cuidava de preocupações teológicas. o rapazelho sorumbático deu asas ao pensamento nos conflitos entre a consciência e o sentimento. Comte passou. isto é. faziam praça de livres pensadores. O beatério era o último reduto do catolicismo. introduziu entre nós a poesia científica. Na Paraíba. a velha Escolástica. desde o monismo de Haeckel ao evolucionismo de Spencer. tentou o milagre de 9 . já lidos nos filósofos da natureza. Ainda na fase preparatória de estudos. que ficou sem seguidores e acabou relegada pelo próprio poeta. confundidas ambas na unidade cósmica. dupla feição de filósofo e de poeta. que Augusto dos Anjos penetrou os umbrais da tradicional escola. Aliás. suportou a mais dura crise. como se desconhecesse ou procurasse desconhecer a parte subjetiva de si mesmo. já era moda entre os renovadores o lançamento de poemas filosóficos. Os menos letrados. irradiação natural da Escola do Recife discutia-se o problema do ser e do não-ser. em seu livro Frases e Notas. como toda substância animada. aliás bem pouco lisonjeiro. a ciência do Direito interessou menos ao estudante taciturno que as especulações filosóficas do materialismo naturalista. disse-me certa vez que só depois de formado foi que veio a conhecê-lo direito. Nas rodas que se faziam na Paraíba. como uma velharia do século. Toda a preocupação era combater o pensamento teológico. ficava a escutar os companheiros. os intelectuais mais dotados. Embora educado na religião católica. Um que foi seu colega de estudos e morou com ele na mesma pensão em Recife. de onde saiu formado em 1907. Laurindo Leão. enquanto a metafísica do verdadeiro cristianismo continua palpitando na alma de todos os povos. mas a origem simiesca do homem. Até no Piauí. nas concepções filosóficas de seus poemas. Por todo o Nordeste. o queixo apoiado no cabo do guarda-chuva. por ver em tudo isso hipóteses visionárias. em sua. Augusto pouco falava. conciliada. os que ainda não tinham qualquer convicção filosófica. A matéria em sua essência afigurava-se-lhe tão misteriosa como a força. Darwin e Haeckel podem ser contestados ainda hoje como panteístas pelos que seguem ao pé da letra a história bíblica da Criação. proceda ou não proceda. Ao que parece. Martins Júnior. Os filósofos da natureza foram ficando para trás. adepto do positivismo.de contas resistiu ao choque de uma crença que condenava até a indagação anatômica e a astronomia sideral. com a evolução da matéria e do espírito. entre o mundo da forma e o mundo da razão. um século antes de Hugo. influenciado pelos naturalistas e evolucionistas do século. Era a época da evolução do pensamento brasileiro. já no seu ocaso. que.

mas há paralelismo de símbolos e de força criadora. poema que abre o Eu e Outras Poesias. Aos 17 anos.. ora transfigurado em filósofo moderno. E assim continua. enfim. Encontra-se. É a sua confissão de f transformista. a ponto de mostrar seu nojo à natureza humana. naquela mesma idade em que. as duas primeiras estrofes dos Monólogos: Sou uma Sombra. por força das sucessivas mutações da matéria. como bem observa Cavalcanti Proença. nas duas composições uma coincidência de temas. e vem vindo como uma monera através de milhões de anos. Quem já o leu uma vez. ouvindo a citação de dois versos seus tomados ao acaso. E é de mim que decorrem. já desiludido. facilmente o identifica. A simbiose das coisas me equilibra. Do cosmopolitismo das moneras. todavia. Venho de outras eras. Em Monólogos de uma Sombra é a Sombra que fala e a Sombra é o eu do poeta. a consciência 10 . mas há casos em que a vidência poética de um é manifesta no outro. Integrado na sociedade..reduzir a um campo único a ciência e a arte. E a morbidez dos seres ilusórios! E por aí vai. Da substância de todas as substâncias. incomparável na forma musicada. sempre a evoluir em movimentos rotatórios. identifica-se na substância primeva. Por ela vai buscar-se no mundo informe da vida planetária. Em minha ignota mônada. que é a derrota da humanidade. procedo Da escuridão do cósmico segredo. Realizou de fato esse milagre em estrofações de profunda força conceptiva e de cunho tão pessoal que toda a sua produção traz a marca do autor — a eurritmia musicada dos decassílabos. Em Bateau ivre quem fala é o barco ébrio e conta a sua derrota. 186 versos. Não há. Vejamos. “esse mineiro doido das origens”. chega aos seres mais complexos. O aspecto conceptual do poema. numa caminhada de 31 estâncias. Augusto compôs Monólogos de uma Sombra. bem mostra a preocupação indagativa do poeta de penetrar a coisa em si. e—crente no tema. A saúde das forças subterrâneas. desesperado por não poder libertar a energia intra-atômica e dominar a lei da mecânica universal. ampla. ora transfigurado em sátiro vilíssimo. Não sofre apenas a sua dor. terso na linguagem. vibra A alma dos movimentos rotatórios. Rimbaud escrevera Bateau ivre. trinta anos antes. começa então o drama crucial da consciência. Não sei se Augusto leu alguma vez Rimbaud.. A partir da monera. simultâneas. na larva que procede do caos telúrico. até adquirir a forma humana.. fundado na unidade cósmica. Imitá-lo seria obra grosseira de pastiche. Larva do caos telúrico. mas “a solidariedade subjetiva de todas as espécies sofredoras”. como amostra. que passou do reino vegetal para o animal. já diferenciado na mônada. Nessa ânsia de penetrar a vida fenomênica das formas. depois de infinitas transformações. Pólipo de recônditas reentrâncias.

Por alma. que tinha os ouvidos totalmente tapados.conspurcada de gozo malsão. A rigor. no princípio era a força. manifestou o seu espanto. Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma 11 . Isso não impede que o espírito seja o agente atuante de tão prodigiosa membrana. como está dito em Monólogos de uma Sombra. já havia dito. sem mais compreender que prodígios são esses da monera. assombrado com o não-ser. entendia o agregado abstrato da saudade. dezenove séculos antes. embora intelectualmente convencido da teoria racionalista. que a ele não interessava considerar. No fundo. A partir dai. No tocante à transformação da matéria. do ponto de vista metafísico. Sabemos que a consciência tem a sua morada no cérebro. que faz quase lembrar a reencarnação. segundo a qual a matéria e o espírito se unificam numa só substância. a forma para ele era a manifestação passageira da matéria em seus processos evolutivos. E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva! Bem examinada a questão. o remorso já acordado na caverna escura. conheci um sujeito. E por que não admitir logo a alma? Se eu disser que a consciência e a inteligência têm a sua sede no espírito. Eis que assim se expressa em Os Doentes: A vida vem do éter que se condensa. A mesma coisa. sente o remorso a queimar-lhe a consciência. no entanto. força será admitir um agente oculto capaz de operar o fenômeno. onde impera a força que responde pelo movimento ubiqüitário da massa. centro de toda a acuidade sensorial. natural de minha terra. numa espécie de solidariedade subjetiva. sente-se vencido diante do seu martírio e do martírio das criaturas. uma espécie de fogo que devora e não consome. posto que falasse às vezes em alma divina e em Deus de amor e de bondade. Nesse estado d’alma. o que vale dizer. diante das maravilhas do aparelho encefálico. Augusto nunca deixou de ser um metafísico no sentido religioso da palavra. Por fim. Quando a matéria transmigra acompanhada de um elemento hereditário que memoniza o instinto da espécie através das gerações. noção trivialíssima das funções orgânicas. com sótão e porão. dentro do mundo fenomenal. em esconderijos apropriados. o vidente de Patmos: . temos aí um transformismo metafísico. tantas vezes exaltada pelo poeta. respondeu-me que por todo o casco da cabeça. Todo mundo sabe que é pelo ouvido que se ouve. chamando a si. É a concepção monística. ouvia mais que um tísico. Para os que negam o espírito há muitos fenômenos que ficam sem explicação. entrega-se ao sacrifício. segundo querem os frenologistas. as conchas das orelhas rasas como a palma da mão e.No princípio era o Verbo. cuido não estar proferindo uma heresia. Vemos o poeta a adquirir a forma humana e a degradar-se em seguida num gozo efêmero de dolorosas conseqüências. o sofrimento de toda a humanidade. Perguntei-lhe um dia por onde entrava o som. há que distinguir um pormenor. O próprio Augusto. Nada obstante.

Já o verme .tenha sido escrito por um adolescente para quem o cotidiano devia correr. Custa crer que este soneto . rasgar do mundo o velário espêsso. Ao invés de fecundação do espírito.Psicologia de um Vencido . procura penetrar o mistério da substância universal.Fazer a luz do cérebro que pensa.. Este ambiente me causa repugnância. onde imperam sombras. desde a epigênese da infância. filho do carbono e do amoníaco. que é o Deus materialista de Haeckel. causa-lhe repugnância.. procura 12 . Sofro. fonte inesgotável de vida. faz perguntas ao destino: “Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?” E nesse duelo da matéria com o espírito perturba-se. Na idade em que os encantos do mundo douram a existência. Os tormentos mortais da alma crescem com a descrença. a matéria putrefata. Querendo fugir a essas coisas. servindo de pasto a uma civilização corrompida. Exausto da luta. vermes. uma natureza gasta. o éter cósmico. firmava-se no presente a flagelar-se na ciência racionalista. O próprio amor. Na frialdade inorgânica da terra! Assombrado com o futuro.este operário das ruínas. Em tudo. Anda a espreitar meus olhos para roê-los. solta blasfêmias. cadáveres e bocas necrófagas. mas “diante da sombra do mistério eterno” considera-se vencido. que era o pior dos remédios para a sua alma inquieta. dominado por um ceticismo acabrunhador. inconformado com a idéia de ser um dia roído pelos vermes. Augusto falava como um homem que já perdeu o ideal da vida. Que o sangue podre das carnificinas Come e à vida em geral declara guerra. Essa saturação filosófica fez-lhe um grande mal. Mas como é preciso preencher um claro na consciência. perscrutar a fenomenalidade da energia a erguer da prisão milenária outras espécies que hão de vir. onde não há lugar para a alegria. Monstro de escuridão e rutilância. Por toda parte. Profundissimamente hipocondríaco. Nem por isso admite Deus. Em sua alma atormentada as superexcitações provocam visões aterradoras. Sobe-me à boca uma ânsia igual à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. um mundo de fantasmas errantes que não adquiriram ainda a consciência de sua dor. No auge da inquietação. o lado malsão da vida. O mundo em que vive é um vasto hospital. só serviu para adensar o clima de alucinação. na melhor das suposições. A influência má dos signos do zodíaco. impreca. admite o éter. E há-de deixar-me apenas os cabelos. sem problemas materiais: Eu.

sente o desejo. nem Haeckel compreenderam. podia exercer influência no temperamento sensível do poeta. mas não me parece bastante para torná-lo um desgraçado. seria capaz de executar o quadro de suas aflições. O subconsciente o aturde. com o poder de sua imaginação. Algo de mais grave. E para não capitular a esse apelo. O resultado de bilhões de raças Que. A julgar pelos seus gemidos. na vã expectativa de que seu ego o deixe em sossego. tenta ir ao fundo da crença monística. Com efeito. E é nesta manumissão schopenhauriana. Há. evadido de si mesmo. como se já tivesse despido a carcaça da matéria.. Espera aí encontrar o seu nirvana. já cansado de escutar a natureza. Depois disso. o Eu e Outras Poesias. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das idéias! Mas de novo se encontra em face do nada. Mas o diabo não larga a sua presa. podia fazer dele um triste. E via em mim. Nenhum pintor. como se supunha. Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer. de subverter-se no grande todo e fazer da parte abstrata do universo a sua morada equilibrada e firme. não há homem que sofra mais. com efeito. no todo ou em parte. supõe-se integrado na imanência da idéia soberana. uma desgraça na vida do poeta. pois que precisaria a tinta de todos os tormentos do homem. Grita a sua dor por toda parte e. não é demais supor a existência de algum motivo oculto capaz de levá-lo ao desespero. Por um instante. O niilismo esvaziava-lhe a alma da mesma forma que o cientificismo materialista. Mas há dentro dele qualquer coisa que o chama à realidade. para não desmoronar a fortaleza de suas convicções filosóficas. Antes de mais nada. Falava como um homem que parecia ter a consciência carregada de remorsos. numa atitude mental de fuga à realidade. gasta imensas energias e enche de culminâncias. Um inocente metido na prisão talvez se revoltasse menos que ele no ergástulo da carne. Até agora 13 . que exulta triunfante: Gozo o prazer. a perda da crença e. Onde quer que se refugie. em suas visões oníricas. Tudo isso.refúgio na inexistência espiritual. a terrível moléstia que se atribui. que ele denomina um sonho ladrão. monstros terríveis. que os anos não carcomem. coberto de desgraças. há muitos anos desapareceram! Nesta temática vai longe.. como se o infortúnio tivesse desabado sobre a sua cabeça. paralelamente. E de onde vem essa dor? É possível que tenha a explicá-la um concurso de causas. acompanham-no. deve ter acontecido na sua juventude. diz ele. leve-se em conta a deformação de uma sensibilidade que vinha do berço e o predispunha ao desequilíbrio das sensações entre o eu e o mundo externo.

Por enquanto. . é que deve começar o trabalho de pesquisa para a verdadeira interpretação psicológica do autor. inútil seria qualquer esforço. no capítulo do amor.. Por suas próprias palavras. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrio! Um penetrante e corrosivo frio 14 . não vejo maior necessidade de conhecer a biografia de Augusto dos Anjos para bem interpretar a sua obra. Mesmo que quisesse recorrer a essa fonte para uma boa exegese literária. pois. Minha desgraça há de ficar sozinha! E que desgraça foi essa que o fez ficar assim tão sombrio? Convém que ele mesmo conte a sua história. Ele próprio. Por mais que procure fugir ao assunto. cujo desfecho infeliz teria abalado convulsivamente sua personalidade carente de equilíbrio. dada a ausência de biografia. em . Exatamente aí. A dificuldade está em conhecer o valor dos símbolos e em seguida decifrar as alegorias. Gozei numa hora séculos de afagos. Mas o seu eu está projetado na obra e nestas condições não preciso de outro elemento identificador para firmeza do valor interpretativo que neste trabalho tenho a intenção de destacar. de uma paixão. Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E via em mim.esse seu sofrimento tem sido considerado puramente abstrato. Mas é ele próprio quem está a falar continuamente numa desgraça. não pode ocultar que foi vítima dele. Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. Lembro-me bem. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. Iríamos a um país de eternas pazes.. coberto de desgraças Mas veio o vento que a Desgraça espalha Para iludir minha desgraça estudo.. no tocante a esse drama. Por mais que Augusto negue o amor. desespero virtual e não real. não tenho dúvidas em afirmar que foi o drama do amor.A Ilha de Cipango alude a uma felicidade perdida. sempre se revela. que é o drama mais doloroso de sua consciência. depois de haver conhecido os inefáveis afagos do amor. Trata-se. Banhei-me na água de risonhos lagos E finalmente me cobri de flores.

Anestesiou-me a sensibilidade. E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. A tarde morre. Passa o seu enterro. . A luz descreve ziguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos!

Até aqui, apenas um lampejo, mas o bastante para mostrar que foi por causa de um amor desventurado que se fez assim tão sombrio. Onde deixa vislumbrar um pouco mais de claridade é neste outro quadro - A Árvore da Serra:
As árvores, meu filho, não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho... É preciso cortá-la, pois, meu filho, Para que eu tenha uma velhice calma! — Meu pai, porque sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs alma nos cedros... no junquilho... Esta árvore, meu pai, possui minha alma!... Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa: “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!” E quando a árvore, olhando a pátria serra, Caiu aos golpes do machado bronco, O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra!

Numa e noutra composição, como se vê, o assunto é tratado em linguagem hermética. Aliás, o uso de metáfora é freqüente nele, mais ainda quando alude ao drama da consciência. Um corte transversal nas duas composições - A Ilha de Cipango e A Arvore da Serra - entremostra a desventura amorosa. A cena teria se passado no engenho Pau D’Arco, residência do poeta. O moço triste era ele, e a namorada, a árvore da serra, que possuía a sua alma. A bem amada já havia cedido o seu amor ao poeta, como adiante veremos. Por ser uma jovem de condição humilde, um junquilho entre cedros, o pai austero, orgulhoso de sua estirpe ou premido pela família, determinou ou concordou tirar para sempre da presença do filho aquela flor silvestre, que o tinha preso aos seus encantos, crendo que, com o desaparecimento do empecilho, pudesse ter uma velhice calma.

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Para melhor compreensão do drama, convém apanhar o pensamento do poeta na parte em que as duas composições esboçam de leve o quadro: - “Gozei numa hora séculos de afagos,/’ Banhei-me na água de risonhos lagos,/ E finalmente me cobri de flores ... / Mas veio o vento que a Desgraça espalha”/ “Esta árvore, meu pai, possui minha alma!” ‘ / “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”/ “Foi sobre esta ilha que extingui meu sonho!”/ Desde então para cá fiquei sombrio!/ Um penetrante e corrosivo frio/ Anestesiou-me a sensibilidade.”// “Invoco os Deuses salvadores do erro./ A tarde morre. Passa o seu enterro!”// “Pela estrada feral dois realejos/’ Estão chorando meus amores mortos!”./ “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/ Caiu aos golpes do machado bronco,/ O moço triste se abraçou com o tronco/ E nunca mais se levantou da terra!” Seus versos deixam transparecer que houve violência. Mais de uma vez fala o poeta em golpes: - “E a grandes golpes arrancou as raízes/’ Que prendiam meus dias infelizes/ A um sonho antigo de felicidade!” / / “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/i/ Caiu aos golpes do machado bronco”/... A moça, ao que parece, era natural do brejo ou do sertão lugares que ficam sobre a Serra da Borborema, cujos contornos, na faixa do horizonte, se avistam da várzea do Paraíba, pois de outra forma não há sentido para o verso que diz: “E quando a árvore, olhando a pátria serra”... Se aprofundarmos um pouco mais a indagação, vamos encontrar retalhos desse episódio em quase todas as composições do Eu. A coisa tem começo em Monólogos de uma Sombra, quando o poeta, em seu primeiro exame de consciência, já mordido pelo remorso, acusa o sátiro que ele foi.
As alucinações táteis pululam. Sente que megatérios o estrangulam; A asa negra das moscas o horroriza. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa!

A seguir, em As Cismas do Destino, descreve o segundo ato da tragédia:
Fetos magros, ainda na placenta, Estendiam-me as mãos rudimentares! Ah! Com certeza, Deus me castigava! Por toda a parte, como um réu confesso, Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo, me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Não sei porque me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança

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E um pedaço de víscera escarlate. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse, E até o fim, cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória.

O terceiro ato da cena, constante do mesmo poema, é de revolta contra os seus, os que, cansados de viver na paz de Buda ou inflamados de preconceitos de nobreza, se encheram de humano orgulho, e quais guerreiros priscos contra uma imbele criatura que ao amor se rendera, entraram em conserto para a consumação da tragédia. Assim fala o poeta:
Todos os personagens da tragédia, Cansados de viver na paz de Buda, Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psico-plasma Humano sofre na mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, A morte desgraçada dos açougues... Tudo isso que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra!

E ao terminar o poema, no qual pôs toda a sua amargura, o peito arfando de impotente indignação, solta esse brado de desespero:
Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psiquê no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo!

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Como quem afasta de si a visão terrível de um drama macabro, guarda-se o poeta, mui cautelosamente, de descobrir o motivo cruciante do seu trabalho poético, deixando, entretanto, a perceber, em cada símbolo, em cada imagem de sentimentos dissimulados, um fragmento da realidade que abrasava o seu mundo interior. Sofre realmente e sofre mais porque a dor que se dissimula não estanca, principalmente quando falta ao paciente resignação cristã ou conformidade filosófica. A obsessão do sangue vai até o fim. Alma agoniada por tormentos mil, anda gemendo pelas estradas solitárias, perseguida por visões alucinadoras. Numa de suas últimas composições, ainda atormentado pelo monocromatismo monstruoso da universal vermelhidão, assim recorda o passado sombrio:
No inferno da visão alucinada, Viu montanhas de sangue enchendo a estrada, Viu vísceras vermelhas pelo chão...

Ele guarda para todo o sempre o pesar do golpe sofrido. Ora irrompe em forma de protesto, ora de arrependimento pela culpa que lhe cabe. A consciência inquietada pelo remorso é aquele morcego do seu soneto, que à noite entra imperceptivelmente em seu quarto. Seu coração ficou um deserto. Nem mais amor a Deus, nem mais amor à humanidade, nem mais amor à mulher. Ao coração devastado a alegria nunca mais voltou. Vive somente para a sua dor. Poder, riquezas, glórias terrenas, são coisas que despreza. Em sua musa, o amor não terá mais lugar, nem mesmo como tema de glorificação poética. Causa-lhe até repugnância. Explica-se desse modo a deficiência cromática de seus versos. Só na cor do sangue às vezes se manifesta. Em toda a sua poesia, a paisagem do Pau D’Arco se converte em cenário triste e repugnante. Com referência a esse cenário, diz ele em Psicologia de um Vencido: “Este ambiente me causa repugnância...” Alguns críticos tomaram o impropério como dirigido à sociedade da Paraíba. Do Pau D’Arco, ressalva apenas o velho Tamarindo, a árvore da perpétua maravilha, a cuja sombra amou e chorou. Varado de dor — continua amando em espírito, um amor etéreo, que está fora da carne e não tem mais sentido com o coração. Eis que assim se manifesta: Porque o amor, tal como eu o estou amando, É espírito, é éter, é substância fluida, É assim como o ar que a gente pega e cuida, Cuida, entretanto, não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes, imponderabilíssima e impalpável, Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! O fato em si é de todo interesse para a interpretação da obra original de Augusto. Já os detalhes do fato são sobras que ficarão reservadas ao investigador biográfico, que infelizmente ainda não apareceu. Em Augusto dos Anjos o que mais interessa é a biografia do poeta. Erro será querer julgá-lo como prosador, fora da área da poesia, como tem sido estranhamente fariscado por alguns críticos. Na prosa, era, de fato, rebarbativo, como de refinado mau gosto também foi, na prosa, o genial cantor dos Lusíadas. Apenas como um desafio ao futuro biógrafo, seria curioso saber como se chamava a moça que Augusto metamorfoseou na árvore da serra. Essa curiosidade vem a propósito do nome de uma 18

eu também vou passando Sonâmbulo... Noite.. como em . Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido.. Sonâmbulo. nunca foi chegado a santos.referindo-se certamente ao espectro de sua desventurada amada. ao mesmo tempo que.Queixas Noturnas .Insônia . contrito. Depois de embebedado deste vinho.extravasava desta forma o seu lamento: 19 . como é sabido. Sonâmbulo. que não é das mais invocadas. em mágoa. mas no poema .. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim. Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta.santa. Porque não evitei o precipício Estrangulando a minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! De outras vezes. Em cujo olhar o vício não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse. O poeta. surpreende com a invocação de Santa Francisca. confessa mais uma vez a sua culpa. E invejo o sofrimento desta Santa. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Porque cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício. Rola impetuosa por meu peito a dentro?! Porque é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ao mapa-mundi estranha.. Como um bemol ou como um sustenido.

Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. A projeção da imagem materna esvaneceu-se por certo como símbolo da mais freqüente e sublimada veneração.. em que a piedade do sentimento se sublima na tessitura da composição. expressa a sua mágoa numa comovente unção. E porque a visão da morte não o deixa em sossego. Talvez visse nela uma criatura transtornada pela “mania mística”. Como Elias. sonhando. A morte é o fim de tudo. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. cuidei que ele dormia E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o!” deixa-o. ando! Bati nas pedras de um tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza a minha única saúde! Curioso é que o egoísmo de uma dor sem fim não lhe fez perder o amor ao pai. Da mãe. entre as estrelas flóreas. não para ele.As Cismas do Destino . isso mesmo sem revelar um mínimo de afeto. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza.Quem foi que viu minha Dor chorando? Saio. Mãe. De nada valia para um espírito inquietante como o seu uma filosofia que arma o seu sistema à margem da vida. Rezo. Mas pareceu-me. Em . Minha alma sai agoniada. apenas três vezes. dormir primeiro. que parece se deixou levar por pressão da família. entretanto. o ofício da agonia. Ao vê-lo morto. luta por fugir dela. mas para os que crêem há ainda uma esperança. Toda a crença monística em que procura consolo não lhe explica à satisfação o fenômeno da vida. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu. como perseguido pela sinistra ceifeira. quando a morte o olhar lhe vidra. Madrugada de treze de janeiro. que não admite a vida espiritual. Nem uma névoa no estrelado véu.brada: 20 .. A satisfação que buscava nos conhecimentos filosóficos só lhe faz aumentar a sede de infinito. entre estes monstros. sem resolver a verdade interior. num carro azul de glórias. como referiu vagamente em As Cismas do Destino. pouco fala. Ao pai. ama-o até mesmo na atômica desordem.

alguém há de responder pelos sucessos infelizes do seu destino. as palavras também servem para ocultar o pensamento. em A Ilha de Cipango: Tenho alucinações de toda a sorte. ponto final da última cena. Ao invés de ajustá-lo à realidade. que Augusto era um cerebral. O sentimento profundo de dor e de descrença afastava-o da realidade.. Impressionado sem cessar com a morte E sentindo o que um lázaro não sente. não cria em Deus. Vivia um mundo à parte. ardendo em indagações subjectivas. em cujas entranhas um feto magro estendia-lhe as mãos rudimentares. 22 anos de idade.. desesperado por não encontrar solução no raciocínio frio e racionalista. habitado por monstros humanos. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. Por tua causa apodreci nas cruzes. levava-o a recolher-se em si mesmo. em Alucinação à Beira Mar: “Um medo de morrer meus pés esfriava”. E porque não se acalmava? Faltava-lhe fé. Minha filosofia te repele. Forma difusa da matéria imbele.. Nestas condições. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Presumivelmente. tanto que nos conflitos entre a inteligência e o sentimento tomava o partido do intelectualismo. como em toda a obra. quando recebeu os 22 açoites da natureza. Meu raciocínio enorme te condena! E num horror quase pânico exclama. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas Atravessando os ares bruscamente.. E ainda. é natural que se mostre rebelado contra a natureza. que só faziam aumentar a sua ânsia de infinito. escravo do raciocínio frio.Morte. Aqui. pois estava certo que nem Deus compreendia os seus soluços. Não me parece tenha razão 21 . devia ter na época. O remédio que então buscava para as suas mágoas era o pior dos excitantes. Procura assim desoprimir o coração. Essa visão shakespeariana das espadas cruzando o espaço tanto pode ser a perseguição da morte como o trágico fim da sua amada. Nada o consolava nesse estado de espírito. desabafando-se nestes termos contra a natureza: Tu não és minha mãe. Acha Flósculo da Nóbrega. Já que não crê em Deus. cheio de imperfeições. ilustre membro da Academia Paraibana de Letras. embora ansiasse por encontrá-lo.

O mundo que o fazia sofrer não era de certo o da sociedade paraibana. via na sociedade a representação da humanidade sofredora. Surgem daí as freqüentes inflexões mentais e os distúrbios emocionais de fundo neurótico. Nem ele próprio se conhecia. destoa em força emocional do que produzira em sua terra natal. excetuado da segunda parte do Eu e Outras Poesias o grande soneto O Lamento das Coisas. como um sonâmbulo. não viveria atormentado com os mitos que o afastavam da realidade. um cuidado muito discreto da família em negar a tuberculose. além de pouco. de vez que ninguém o compreendia. um homem excluído do mundo. Em agravo da tortura moral que não cessa de persegui-lo. ao contrário. que não se sabe se foi escrito na Paraíba ou no sul. torturado no sentimento do desamparo. que o 22 . andar bamboleante. foram produzidos no Pau D’Arco. no caso. tinha-se na conta de um doente. Em reforço desse argumento temos uma prova no próprio Eu. mas porque se sente um desajustado. um espiritualista em eterna briga com o racionalismo. podia ter alguma razão para queixar-se da sociedade. nunca recebeu hostilidades. contudo. Era. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. sua musa empalideceu à falta de ambiente. De um modo geral. o que ele via realmente era o ambiente do engenho Pau D’Arco. O que produziu no sul do País. ao redor da capela do engenho. toda a mágoa do seu espírito vem à tona. No fundo. conforme declarou nesta honesta confissão. que só repugnância lhe causava. que o acolhia com carinho. Fosse como ele diz. os de maior densidade emocional. mas no particular. entrava em crise espiritual. Suas percepções sensoriais estão sempre em conflito com as atividades especulativas do espírito. Tomado de tensão nervosa pela repugnância que lhe causava o ambiente. Os seus melhores versos. Mas ninguém tinha culpa de ser ele um incompreendido. Depois que o poeta deixou a Paraíba.o ilustre intelectual paraibano. Um tuberculoso pode sucumbir a outro evento que lhe antecipe o fim. teria Augusto encontrado satisfação na filosofia. Desta. Há. em Poema Negro: A passagem dos séculos me assombra. A inspiração despertava com a dor. o cérebro em fogo. As suas relações com a sociedade parecem rompidas. Não importa que tenha morrido de pneumonia. Ao contemplar esse ambiente. Era ali que ele sentia bulir na alma o drama de sua existência. Na luta em que Augusto se debate. na vertigem: Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. condenado a expectorar os pulmões dilacerados. volta-se vez por outra contra a sociedade. não se deixaria possuir pelo demônio da dúvida. Já é tempo de desfazer um equivoco que de tão repetido vai criando raízes. Não que tenha recebido ofensas dela. conforme ouvi de Alcides Carneiro que ouvira dos seus íntimos. passos largos. e a mim pergunto. Punha-se então a passear. noite a dentro. em 1912.

numa emoção que comove. deixa escapar este triste lamento: O inventário do que eu já tinha sido Espantava. assim principia o soneto Apóstrofe à Carne: “Quando eu pego nas carnes do meu rosto/’ Pressinto o fim da orgânica batalha”. que os enfermos se reuniam pela camaradagem da moléstia. entra a descrever a cidade dos lázaros. que pode figurar sem favor entre os melhores da língua. depois de exclamar que sua angústia feroz não tinha nome. em serenata. despedaçando as imagens dos próprios sonhos. 23 . Já cansado do ceticismo. Mais adiante. eis que escuta. tudo isso ele pincelou num quadro que é uma jóia de rara beleza. imaginária cidade à margem do Paraíba. Depois disso. como ele chamava. sob os seus pés. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minha alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. Esse retorno do pensamento aos dias tranqüilos do passado. Perdido o amor. Lá para o fim do poema. Na ascensão barométrica da calma. num desalento ainda maior. passa a chorar a sua dor e a alheia. à guisa de ácido resíduo. em Os Doentes. ansiado e contrafeito. jamais preenchido pelo cientificismo materialista. fez dele um misantropo. De início. aliada à descrença. Foi a partir dai que entrou a sentir o vazio de sua alma. onde os anjos cantavam. como um arrependido. como se já tivesse perdido o alento de viver. levado pela lembrança terna de um mundo cheio de encantos e maravilhas. Eu bem sabia. pois. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. os acordes saudosos do coração. hosanas ao Senhor. a imagem dos sonhos remotos que ele quebrara com o furor de um iconoclasta. “na urbe natal do Desconsolo”. Era ali. atormenta-se com a idéia de que. que admirar chore um dia a crença perdida. Não há. confessa-se minado pela tuberculose. na terra onde pisava. na qual os doentes consagravam a sua última fonética a uma recitação de misereres. perdeu também a crença. A tragédia espiritual de Augusto começou desde que extinguiu seu sonho de amor sobre a Ilha de Cipango. Em As Cismas do Destino. o soneto Vandalismo. a arremetida que deu depois contra esses tesouros do coração. Mas ninguém pode furtar-se às impressões da infância. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! Mais tarde. Parece que desperta para a vida. Essa real ou imaginária doença.próprio poeta confessava. havia “um fígado doente que sangrava e uma garganta de órfã que gemia”.

Dos outros. Assim é que. ler. gostar e não gostar é coisa que se não discute.. Não é.Meu coração tem catedrais imensas. Para só mencionar os intelectuais paraibanos que se pronunciaram sobre Augusto dos Anjos. ao aludir com desdenhoso apreço aos motivos abjetos que abundam no Eu e Outras Poesias. para ele. destaco Órris Soares. a outros poderá parecer insípido ou fastidioso. Enfim. Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. posto que. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas. por exemplo. num discurso de recepção a Flóscolo da Nóbrega. Álvaro de Carvalho. muitas opiniões foram veiculadas. Templos de priscas e longínquas datas. tenham bordejado na superfície do abismo em. Santos Neto. na Academia Paraibana de Letras. apenas como autor de um livro apologético. que não é biografia e não chega a ser estudo. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. Canta a aleluia virginal das crenças. Sua obra. este último. pois. Flóscolo da Nóbrega. tanto sobre a obra como sobre a personalidade do autor. mas dar opinião atabalhoada a respeito daquilo que não chegou a ser entendido muda de figura. O que a uns desperta atenção e convida mesmo a uma meditação mais séria. era apenas o meio de formular soluções. disse que Augusto agarrava a musa e saía com ela a passear pelos recônditos da diluição biológica. No desespero dos iconoclastas. que se afundava a alma do poeta. continua despertando o mesmo interesse dos primeiros tempos. Raul Machado. Onde um nume de amor. A arte. No final de contas. Ao contrário da incontinente afirmativa. quase todos. Não era espremendo o cérebro como muitos que se apagam antes de morrer. cada leitor tem o direito de sentir o autor a seu modo. Negou-lhe peremptoriamente as qualidades de poeta. quando a aflição interior explodia em chamas 24 . Como os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. Sabe-se como compunha. há sempre o que referir. Nesse decurso. Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! Caminha para cinqüenta anos que Augusto dos Anjos morreu. chegou a dizer que Augusto não era poeta. em serenatas. em gemidos de dor. de admirar que ao lado de conceitos da mais justa penetração girem outros que espantam pela desconformidade. José Américo de Almeida. João Lélis e De Castro e Silva. a musa é que tomava o poeta de assalto nos momentos de suas lucubrações. João Lélis. já na 27ª edição.. reconhecendo nele apenas o mérito de artista do verso.

o outro 25 anos depois. reside justamente no termo técnico. tem a prejudicá-la a idiossincrasia literária que afasta cada vez mais o retratista do retratado. túmulos. Anoja-se o crítico diante de cadáveres. claro que avulta ainda mais o seu mérito. Augusto foi um torturado da idéia a serviço de um estro estrepitoso. entrava disciplinada em seus versos. seu colega de turma e companheiro de estudos desde a fase preparatória. vermes. Órris Soares. escarros. à primeira vista incompatível com a poesia. com efeito. Os que o conheceram de perto descrevem-no de andar banzeiro. Não importa que Augusto tenha ficado sem seguidores. certa preocupação inclusive dos simbolistas. olhar perdido no espaço.devoradoras. Jamais foi o leit-motiv de sua produção intelectual. também 25 . associado à vibração sonora. de um a outro canto da sala. já por sua tendência malsã de ver as coisas pelo lado abjeto. em excelente estudo sobre o artesanato na poesia de Augusto dos Anjos. sangue de vísceras dilaceradas. Poe e Rimbaud. um em 1920. a sua personalidade psicológica. cujos adeptos se apraziam em demolir toda vez que a obra visada não estava na conformidade do seu gosto. o que acabava de compor. o sentimento parece ter outra dimensão. sobretudo da crítica provinciana. Essa crítica. Só depois de elaborada é que ia para o papel. duendes. No entanto. entre nós. Em ter ficado sozinho. Escrevia numa linguagem difícil porque era esse o seu estilo. Cavalcanti Proença. a passear a esmo. este na prosa. Euclides da Cunha. disse que uma das suas forças. que pretende ser de interpretação psicológica. surpreendeu-o num desses partos sem dor e tão absorto divagava o poeta. essa repulsa idiossincrásica que compromete o crítico antes de atingir o alvo. na época. A virtuosidade ganha valor na opulência da expressão verbal. mas quem os lê e os medita tem a impressão de que foram cavoucados na rocha. como lamenta o crítico. que não tenha fecundado a poesia nacional. Bilac pode ter sido um lapidário da forma. segundo a classificação que adota de Agripino Grieco. Por tudo isso. que só deu pela presença do amigo depois de concluído o trabalho mental. lábios crispados. enquanto forjava mentalmente a composição. nem o gosto se levava em conta quando prevalecia a prevenção pessoal ou quando se pretendia alcançar fama com a marreta da demolição. o que era. afirma e reafirma que o Eu ficou como planta exótica. em 1945. já pelo cientificismo que tem por incompatível com a linguagem poética. Neles. Repugna-lhe o fartum que diz emanar do Eu e Outras Poesias. essa linguagem. impressionam pelo poder da dialética. Foi então que recitou de inopino. Essa incompreensão a respeito de Augusto. Seus versos. o ilustre escritor paraibano opõe embargos ao poeta. figuras espectrais e outras visões sinistras. a densidade. lá fora. tem as suas raízes no caráter polêmico da crítica passadista. Os versos espoucavam no momento da inspiração. num timbre especial de voz. Muitas vezes. como em compasso de música. Em ambos. à margem das correntes estéticas do pensamento literário. Álvaro de Carvalho escreveu dois estudos sobre Augusto dos Anjos. por ver em tais composições a podridão enroupada em jargão científico ou jargão clínico. insulado em sua própria grandeza.

Mas é preciso notar que essa musa. Augusto tem sido comparado aos mais altos padrões da corrente estética do pensamento. pelas crises espirituais porque ambos passaram. Até mesmo quando desce ao abominável das podridões tumulares cintila em fulgurações de gênio. Não pode o critico ser ortodoxo. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto. de sentido mais profundo. reconheça-se que essa poesia é humana. 26 . com efeito. neste ensaio de exegese literária. Sua obra está aí mesmo a desafiar a argúcia dos mais entendidos. aparelhou. tenho por objetivo abrir aos estudiosos uma clareira que os conduza ao fundo da obra. mesmo doentia. O autor é o que é e não o que o crítico quer que ele: seja. ninguém lhes nega a grandeza de gigantes. Com Verlaine. Eis porque. Note-se mais que a esse vigor casa-se uma virtude de efeitos encantatórios. como se definiu neste quarteto de Minha Finalidade: Pré-determinação imprescritível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. no duelo da carne. pela bizarria do estro e pelo gosto malsão de impregnar a poesia com o almíscar das coisas abjetas. é mais uma aversão de olfato alérgico. O próprio Augusto tinha a consciência de que ia ficar sozinho e que era o poeta do hediondo. por isso mesmo poética. o que forma em seu conjunto a harmonia orgânica de toda a obra poética do consagrado artista paraibano. O anojamento de Álvaro de Carvalho. na impotência de estabelecer relação entre o mundo visível e o invisível. Nem por isso. não lhe tira o vigor da expressão verbal. juízos despropositados de quem roça pelo assunto sem penetrar o recôndito da dor possessiva que tanto sublimava o poeta. Ou então. Há. Admita-se que a musa de Augusto tenha algo de doentio. num dos seus últimos sonetos. Com Baudelaire. pela tristeza indefinível da alma. na interpretação de um drama emocional. nem tudo pode ter cabimento. manifestada em poemas impressionistas de aguda sensação. está em tempo de ser feita. elogios ou restrições. deu resposta por antecipação aos reparos dos seus futuros críticos. Se há fartum de diluição biológica na poesia de Augusto. Com Mallarmé. que apenas transparece em linguagem evasiva. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Tenho por desnecessário dizer que uma interpretação psicológica de Augusto.ficaram sem seguidores. como se vê. numa revolta do espírito que vai aos extremos da blasfêmia. Por suas excentricidades e afinidades outras de ordem espiritual. Da vasta literatura que já se produziu sobre Augusto dos Anjos. a fim de atingir. Foi exatamente com esse título — Poeta do Hediondo — que ele. Absurdo é querer sujeitar a literatura aos padrões em voga.

Súbito. em grupos prosternados. guardando o corpo do Divino Mestre. Ouvindo isso. como quem deriva o pensamento para o lado oposto da imagem triste que o assedia. usando símbolos e valores que convergem para o fim colimado. havia acentuada tendência do poeta. “Na Eternidade.através da sensação. Curioso é que fez a citação ‘unicamente para dizer que nenhuma parecença encontrara entre com emprego de termos técnicos. em tropos ousados. vem o barulho das matracas. numa sexta-feira santa. a idéia pura das coisas. Nos transportes espirituais os dois correm parelha. Segundo Delahaye. O único que mencionou Rimbaud. na terra santa. Encontra-se. Augusto tem as suas razões para desdenhar o amor. as mesmas figuras de linguagem. posto que as coisas que tinha a dizer exigiam. quando a cristandade parecia pura sobre a terra. palavras raras e eruditas. só nesse ponto dissimula o pensamento.” Então desperta como de um pesadelo e com os olhos ainda ensanguentados da vigília sente a tristeza de ver mais uma vez como a sua vida é tão vazia. que dialoga com os elementos imponderáveis. um mês após a morte de Augusto. isso mesmo de passagem. Só com Rimbaud. Vez por outra. desejada por um. Até nas aliterações e metáforas. pela tortura do espírito e pela constância do tema da morte. num artigo publicado em 1914. a filosofia da dor. Augusto lembra Rimbaud. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. ao pé de um muro carcomido pelo tempo. Não fica apenas aí o confronto. no ar de minha terra. Dentro da Igreja de São Pedro o silêncio só é quebrado pelo vento que entoa cânticos de morte. Também no amor os dois se assemelham. de mistura com alucinações. por sua natureza. visionário. Com Leopardi. A mesma coisa ocorre com Augusto. Em outros lances de sua obra manifesta o mesmo desdém.. de uma honestidade quase bravia. em termos de comparação. em quem se acumulam. crematismos. De lá de fora. as mesmas despreocupações do rebuscado pour épater le bourgeois. nunca nenhum dos seus críticos traçou o paralelo. assentado sobre cacos de pote e urtigas. pelo sentido da dor universal. desde a sua fase inicial. encontra-se em Roma. e eu ouço tudo e calo! O amor na Humanidade é uma mentira. É. Veja-se como se pronuncia a respeito do assunto: Falas de amor. para a neologia e o vocábulo raro. os ventos gemedores estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na Serra da Borborema. que cultivava em sua sensibilidade enfermiça. sensações simples e cenestesias. Honesto em tudo. um grande medo toma conta do poeta. os mesmos descuidos de metro e rima. como se fosse uma convicção firmada e firmada com ênfase. como neste exemplo: 27 . na postura de um campônio rústico. foi José Américo de Almeida.. Com Antero do Quental. citado por Augusto Meyer. O triste espetáculo do seu século leva Rimbaud a um passado remoto. ambos procuram traduzir a sensação das coisas inanimadas. e é com veneração religiosa que vê os soldados do Vaticano. temida pelo outro.

provo-a. acabou por admitir a presença de uma realidade espiritual. A toda boca que o não prova engana. vítima de injustiças humanas. por causas várias. e por isso mesmo não achava conformidade para a sua dor. em suma.. Augusto sentia-se puro. Quando viu que tudo quanto imaginava como solução para restabelecer o paraíso não passava de divagação delirante. Rimbaud encontrou-se a si mesmo depois que descobriu o caminho da virtude — le sentier de l’honner — que tanto procurava. um suave concerto espiritual na natureza. . o bem e o mal caminhando juntos. Ninguém sofre mais do que ele. em busca do paraíso terrestre. Rimbaud. embora tenham se casado e tido filhos. Começou então a ver e a sentir milhões de criaturas encantadoras. A violência do veneno que ingeriu muito cedo nas fontes materialistas fá-lo morrer de sede. segundo é fama. No tempo de jovem. Nem há mulher talvez capaz de amar-me. Depois desse fato. a julgar pelos seus lamentos. mas que o levaram ao resultado conhecido. exacerbava-a. É que Rimbaud era portador de uma mensagem que acabou por cumprir.Sobre histórias de amor o interrogar-me É vão. homens de bem cheios de nobres intenções. que é talvez o drama mais crucial de suas consciências.”. largou-se para a África. teve motivos de sobra para tratar o amor com aquele desdenhoso apreço. ilusão treda! O amor. Em cada um deles. Ao invés de aceitá-la como resultante de seu egocentrismo. como Tântalo. Teria acontecido com ele alguma coisa? Ao que se sabe. converteu-se à realidade e mandou ao diabo o ar do inferno que o sufocava. na Bélgica. Há. Não sou capaz de amar mulher alguma. Era a vida que lhe chegava e que fugia de Augusto. Motivos escabrosos. onde se casou com uma nativa da Abissínia. As repetidas negativas ocultam de certo uma dolorosa frustração. é improfícuo. à beira da água. que era o seu anseio máximo. chupo-a. Descasco-a. depois de errar longos anos pela África e pelo Oriente Médio. andou conspurcado de sensações súcubas.. contudo. tendo culminado com aquele célebre tiro que recebeu de Verlaine. Não percebe sequer que toda a sua angústia é nascida de suas entranhas. enquanto Augusto não chegou a cumprir a sua. filha legítima de sua alma. Ou então como nesta outra amostra: Parece muito doce aquela cana. Augusto e Rimbaud negam sistematicamente o amor. Também Rimbaud modulou o seu canto no mesmo tom: “Je n’aime pas les femmes: l’amour est à réinventer. sente-se que há um complexo de culpa.. E como não 28 . é como a cana azeda. poeta. uma diferença de fundo entre os dois poetas. é verdade. é inútil.

luz. onde não faltavam o ranger de dentes. Uma análise mais demorada encontraria maiores pontos de contacto entre Augusto e Rimbaud. cor. Esse divórcio do eu com o indivíduo acabou por abranger a própria sociedade. conforme confissão feita a Mário de Alencar. do qual se considerava prisioneiro. autores que exerceram forte influência em sua formação intelectual. Ou será preenchido ou compromete a dinâmica das forças morais. a criação. porém. som. depois que perdeu a ilusão dos homens. deixava-se ficar no interior da concha. quando a monera já manifestava os primeiros sintomas de diluição. Um problema sempre gera outro. segundo apregoam os fundibulários da crítica. Augusto revela-se mais lido em Põe e em Shakespeare. perfume. É sabido que nenhum escritor adquire a força do seu gênio senão depois de renovarse interiormente. Dominado pela idéia de um mundo sem objetivo. numa reação inócua. silvos de labaredas e suspiros de empestados. como fontes de inspiração. Há muitas espécies de conversões em literatura. quanto mais afunda no racionalismo mais vacila na dúvida. isto é. nada disso seria capaz de provocar-lhe uma sensação nova de vida. o amor. Nas coincidências de temas ou mesmo de paralelismo de imagens não se veja. como Camões na de Petrarca e de Vergílio. perdia-se no estado de dúvida. quando muito. mas depois que abandonou a luta espiritual afundou no suicídio. contra a sociedade. sua vida se transforma num verdadeiro inferno. Foi a partir daí. isto é. imitação. A conversão de Augusto foi às avessas e porque não se desconverteu estabeleceu-se o conflito do eu com o indivíduo. que se agravou o drama latente de sua alma inquieta. contra a sua grei. Ele mesmo se esvaziava no mundo vazio que se criou. Mallarmé também passou pelas mesmas crises. Mesmo assim. Possuído do demônio da dúvida. martelada em versos magníficos e candentes. Torturava-se por ver somente o lado negativo das coisas. A vida. Machado de Assis só entrou na posse de si mesmo depois que se converteu à descrença. da mesma forma como sucumbira Antero do Quental. Não raras vezes. Neste passo. Jamais desceu ao fundo de si mesmo. mas nem isso acredito tenha havido. entre a voz do sentimento e a da razão. os mistérios da natureza. como muito bem já disse Augusto Meyer a propósito de Machado de Assis. sem procurar levantar o véu das aspirações profundas de sua alma. teria apenas disciplinado em poemas imortais os cânticos populares da época. dessa conversão ao materialismo. Uma mesma idéia artística pode ser tratada com sabor de originalidade por mais de um autor. tudo quanto eleva os sentidos. beleza.espécie de autobiografia moral. Augusto vai irredento até o fim. se fossemos no rasto dos poetas mais notáveis em busca de fontes de inspiração ou influências literárias. Tais similitudes valeriam. Rimbaud também criou para si uma estação no inferno . Também Rimbaud bebeu na mesma taça de Põe. revolta-se contra o mundo. tudo quanto desperta a alma. e se o fez alguma vez foi guiado pela dialética do monismo. sem preencher esse vácuo.. Todo vácuo que se abre na vida interior é prejudicial ao comportamento do indivíduo. o que recebe influências supera o modelo de inspiração. Rimbaud salvou-se porque se encontrou a si mesmo. Por curioso paradoxo.pode reformar o mundo. segundo o conhecido conceito bergsoniano do intuitivismo. chegaríamos por certo ao pai Homero que.Une Saison en Enfer . 29 .

outros andam com a Bíblia debaixo do braço e o coração carregado de impiedade. proclamou que Deus não existe. teria certamente encontrado a realidade espiritual que nasce da fé e se alimenta na caridade. Ora. uns batem nos peitos diante do altar e querem logo a recompensa do sacrifício feito. tal como Rimbaud. Toda a obra poética de Augusto é um grito de dor arrancado do fundo da alma. com raríssimas exceções. Mas no mundo fechado em que se enclausurava não era possível ver lá fora as almas piedosas e aflitas que tão necessitadas como ele pediam socorro. Num dos muitos grêmios literários que proliferam na terra de Iracema.Enredado em idéias preconcebidas. No meio em que viveu era querido e admirado. se não há Deus. a meu ver. Isso mostra que ele. quando não proferida por modo vulgar e chulo. certos de que no futuro sobrará tempo para essas coisas. Para uma alma sequiosa de infinito como a sua não há que estranhar uma ou outra expressão de revolta. a essência dos Evangelhos. O cristianismo se apresenta como a doutrina de Cristo. Se o Cristo não vem em seu auxílio. é objeto de amor e de crença e não de investigação científica. uns afirmando. como ninguém ainda se entendesse. lecionando a quatro gatos pingados todas as matérias do curso de humanidades. na realidade. um episódio que me foi contado por um amigo do Ceará. se sucediam na tribuna. Convém. porquanto Deus é princípio e é fim. via de regra. Ao cabo do bombardeio oratório. olhar menos para as suas dores e um pouco mais para as alheias. em meio a tantas emoções extravasadas. Na prática. descuramos o nosso destino espiritual pelo gozo do momento que passa. afetando melindres de devotos. Não fosse a trama filosófica do individualismo racionalista. mas os que o seguem desconhecem. todavia. No sul do país continuou a mesma luta heróica pela subsistência. se manifesta ainda escravo do batismo. Embora não caiba nos limites deste trabalho uma digressão sobre a contradição reinante no mundo da crença. Todos nós. é questão que não deve ser formulada. É o que há. um pedido de socorro. aceitar as imperfeições do mundo. Alguns críticos. nas apóstrofes do poeta contra o cristianismo. Os oradores. levantou-se a questão de saber se Deus existe ou não existe. outros negando. sem advertir-se de que jamais dera um passo ao encontro do Mestre. em torrentes de eloqüência. supria-se do mais no magistério particular. E como não lhe bastasse pela exigüidade dos proventos. que se veja na blasfêmia. decretar a inexistência de Deus por decisão tomada nas urnas ou no bozó. é. há que distinguir entre blasfêmia contra o cristianismo e blasfêmia contra o Cristo. alcançando a grande esforço um lugar de diretor de Grupo Escolar. heresia maior que a do poeta quando. a reação que lhe ocorre é a de menosprezo ao cristianismo. Se há Deus. A conquista da fé importa na conquista do próprio eu. Só é possível possuir a fé quando se está convencido da verdade. sentia-se Augusto na impossibilidade de admitir a realidade da vida. viram nisso o pecado da blasfêmia. no desespero de tantos sofrimentos. resolveu o presidente submeter a questão a votos. 30 . Apurada a eleição e com base no resultado. nas Alterosas. Se emigrou para o sul do país foi porque a Paraíba do seu tempo nada tinha de melhor para dar-lhe senão uma cátedra no Liceu Paraibano. Vale mencionar. a propósito.

E como era sincero e honesto. De inflexões mentais sua obra anda cheia. desde Tales de Mileto. Como uma vela fúnebre de cera. entendiam a alma. Voltando à pátria da homogeneidade. como se vê. A denominação. dá à alma a denominação de sombra. Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do cristianismo! Graciosa é a afirmação de que Augusto tenha tido a obsessão do sacrilégio. o sacrifício da linda moça Polixena. Camões fala na sombra de Aquiles quando exigia. O passado da flora brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida. depois de carpir amargamente diante de um mundo que se mostrava indiferente às suas mágoas: Escarrar de um abismo noutro abismo. como uma caixa derradeira. esse sombrio personagem do drama panteístico das trevas. vem de muito longe. Abraçada com a própria Eternidade. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. 31 . esta árvore de amplos agasalhos Guarda. No tempo de meu Pai.atormentado por visões escatológicas. encarnado nele e manifestado nesta passagem: Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade? Já em Monólogos de uma Sombra.Debaixo do Tamarindo. nunca teve escrúpulos de manifestar as dúvidas que lhe abalavam a consciência. explodiu em As Cismas do Destino. os filósofos iônios. começa o poema “Sou uma Sombra. Por mais de uma vez chegou a falar em alma divina. Só muito raramente soltava uma blasfêmia.” E onde mais expressivo se mostra é neste admirável soneto . e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. através dos séculos. sob estes galhos. por mãos de seu filho Pirro. De outras vezes. virtudes que cultivava com extremado zelo. A minha sombra há de ficar aqui! Por sombra. Mandando ao céu o fumo de um cigarro. coisa que não cabe na boca de um ateu. Por outro lado. não se pode dizer fosse ele um materialista ético.

completem os estudos aqui esboçados ou deles discordem por modo a dar uma interpretação mais aceitável às mensagens de angústia. em briga com o dualismo.essa mônada esquisita Coordenando e animando tudo aquilo! Em Ultima Visio revela-se um metafísico teológico. aos 30 anos de idade. conjunto das faculdades intelectuais e morais do homem. até que morre numa cidade das Alterosas. de onde decorrem todas as moléculas que se esvaem na transubstanciação da natureza. vacilante na ciência fria. mais dotados de inteligência e espírito de penetração. mito cosmogônico que liga entre si o espírito e a matéria. É a substância primeva. tal como se apresenta. Que outros. da substância de todas as substâncias. !" Este trabalho. Mais poderia dizer agora. o metafísico cede lugar ao inveterado monista. nas composições que vão até o fim do livro. que não quer ver a glória de Deus resplandescendo em tudo.Mas o que Augusto chama a sua sombra não é ainda a alma. Assim vai. Assim fala e assim termina a composição: A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ainda tem de abrir para o infinito! Vã ilusão será pensar que já está reconciliado com Deus. Daí por diante. Fala como um crente da cegueira da criatura humana. mas com o que ai está me contento. Quando essa cegueira for resgatada e arrancar o homem da inciência. em Leopoldina. para ele. Até Deus. larva do caos telúrico. as formas microscópicas do mundo. desde o declínio das crenças mitológicas. então a presença do Eterno afastará a escuridão do caminho e aproximará a criatura do Criador. acrescenta. como está dito em Sonhos de um Monista: A verdade espantosa do protilo Me aterrava. em soluços quase humanos. sua intimidade numenal. Choram ainda dentro dele. isto é. na Federação das Academias de Letras do Brasil. até mesmo num grão de areia. assaltado de alucinações. era uma mônada. como entidade eterna. à semelhança da mônada de Leibnitz ou da monera de Haeckel. que eram uma constante na alma torturada do poeta paraibano. a 12 de novembro de 1914. que procede do éter cósmico. perdendo-se novamente no enleio cósmico. tal como a entendiam os filósofos iônios. ansiado por compreender o princípio anêmico dos seres. 32 . virtualidade espiritual. foi objeto de uma palestra proferida em maio de 1960. Quem o ler nesse soneto dirá que já está reconciliado com Deus. mas dentro da alma aflita Via Deus .

entretanto. São muito poucas vezes que me sento à mesa para produzir. Rio de Janeiro. Quantas horas repousa: Meu repouso varia de 7 a 8 horas. Tenho insônia raras vezes. R. Em que idade começou a produzir: Se me não falha o poder de reminiscência. Faz as suas irregularidade: Sim refeições com Tem muito apetite: Regular Faz uso do álcool: Não Faz uso excessivo do café.UM CURRÍCULO ESCRITO PELO PRÓPRIO POETA Resposta ao inquérito de Licínio dos Santos em A Loucura dos Intelectuais. quase sempre andando no meio de toda azáfama ambiente ou à noite deitado. presumo. Quais as horas que dedica ao seu trabalho intelectual: Não tenho horas metodicamente preferidas para o meu trabalho mental. Conservo de memória tudo quanto produzo. chá ou outro excitante intelectual: Sou contra os excessos. Quais as cores de sua predileção: A vermelha e a azul. vítima de surmenage morreu de paralisia geral e minha mãe é excessivamente nervosa Antecedentes pessoais: O que me pode adiantar sua infância: Desde a mais tenra idade eu me entreguei exclusivamente aos estudos. Quais os autores que mais o impressionaram: Shakespeare e Edgar Poe Qual o seu autor favorito: Todos os bons autores me agradam. relegando por completo tudo quanto concerne ao desenvolvimento. O que sente de anormal quando está produzindo: Uma série indescritível de fenômenos nervosos. acompanhados muitas vezes de uma vontade de chorar. cefaléia e amnésia: Até esta data não sofro absolutamente de amnésia. 1914 Nome: Augusto dos Anjos Idade: 28 anos Profissão: Professor e advogado Estado civil: Casado Filiação: Filho legítimo do bacharel Alexandre R. o que não impede. Tem continuados sonhos fantásticos: Quanto a sonhos fantásticos é também muito raramente que os tenho. dos Anjos e D. numa atmosfera de rigorosíssima moralidade. Eu. Córdula C. de abusar um pouco do café. Engenho Pau d'Arco. da chamada vida física. mas a cefalalgia persegue-me constantemente. Onde e como foi educado: Na Paraíba do Norte. Quais os trabalhos que deu à luz até a presente data: um livro de versos. comecei a produzir muito antes dos 9 anos. Como faz o seu trabalho intelectual: Durante o dia. 33 . Sofre de insônia. dos Anjos Antecedentes hereditários: Meu pai.

Este ambiente me causa repugnância. Já o verme -. Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. Ao meu quarto me recolho. filho do carbono e do amoníaco. Anda a espreitar meus olhos para roê-los. Morde-me a goela ígneo e escaldante molho. vede: Na bruta ardência orgânica dasede. “Vou mandar levantar outra parede. e à vida em geral declara guerra. Na frialdade inorgânica da terra! 34 . Chego A tocá-lo. Esforços faço. Ergo-me a tremer. igual a um olho.. agora. Fecho o ferrolho E olho o teto.” -. Que ventre produziu tão feio parto?! A Consciência Humana é este morcego! Por mais que a gente faça.este operário das ruínas -Que o sangue podre das carnificinas Come. Minh’alma se concentra. Produndissimamente hipocondríaco. E há de deixar-me apenas os cabelos.Digo. Meu Deus! E este morcego! E.. desde a epigênese da infância. à noite ele entra Imperceptivelmente em nosso quarto! PSICOLOGIA DE UM VENCIDO Eu. Monstro de escuridão e rutilância.. A influência má dos signos do zodíaco. Circularmente sobre a minha rede! Pego de um pau.TODOS OS SONETOS O MORCEGO Meia-noite.. E vejo-o ainda. Sofro.

quando sonha. E o Lázaro caminha em seu destino Para um fim que ele mesmo desconhece! 35 . À noite..A IDÉIA De onde ela vem?! De que matéria bruta Vem essa luz que sobre as nebulosas Cai de incógnitas criptas misteriosas Como as estalactites duma gruta?! Vem da psicogenética e alta luta Do feixe de moléculas nervosas. e depois. e quase morta. Riem as meretrizes no Cassino. esbarra No molambo da língua paralítica! O LÁZARO DA PÁTRIA Filho podre de antigos Goitacases. Mas.. Anoitece. Que. Tísica. Todos os cinocéfalos vorazes Cheiram seu corpo. Mostra aos montes e aos rígidos rochedos A hedionda elefantíase dos dedos Há um cansaço no Cosmos. mínima. de repente. Marcas oriundas de úlceras e antrazes. Delibera. raquítica. Deixa circunferências de peçonha. Sente no tórax a pressão medonha Do bruto embate férreo das tenazes. Chega em seguida às cordas da laringe. Quebra a força centrípeta que a amarra.. tênue. quer e executa! Vem do encéfalo absconso que a constringe. Em qualquer parte onde a cabeça ponha.. em desintegrações maravilhosas.

Homens que a herança de ímpetos impuros Tornara etnicamente irracionais! Não sei que livro. Em tua morfogênese de infante A minha morfogênese ancestral?! Porção de minha plásmica substância. em letras garrafais.IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA Rugia nos meus centros cerebrais A multidão dos séculos futuros . Realizavam-se os partos mais obscuros. E. a feder?! Ah! Possas tu dormir. em vez de achar a luz que os Céus inflama. Somente achei moléculas de lama E a mosca alegre da putrefação! SONETO AO MEU PRIMEIRO FILHO Ao meu primeiro filho nascido morto com 7 meses incompletos 2 fevereiro 1911. Tragicamente anônimo. Filho da grande força fecundante De minha brônzea trama neuronial. Fruto rubro de carne agonizante. com a sinergia de um gigante. Dentre as genealogias animais! Como quem esmigalha protozoários Meti todos os dedos mercenários Na consciência daquela multidão. Panteisticamente dissolvido Na noumenalidade do NÃO SER! 36 . feto esquecido.. Em que lugar irás passar a infância. Agregado infeliz de sangue e cal.. Que poder embriológico fatal Destruiu. Meus olhos liam! No húmus dos monturos.

Janta hidrópicos. arrima-a. rói vísceras magras E dos defuntos novos incha a mão. Jamais emprega o acérrimo exorcismo Em sua diária ocupação funérea. Latindo a esquisitíssima prosódia Da angústia hereditária dos teus pais! O DEUS-VERME Fator universal do transformismo. avoenga e elementar Dos teus antepassados vemiformes. Filho da teleológica matéria.é o seu nome obscuro de batismo.. pelos séculos adiante. Livre das roupas do antropomorfismo. acode-a A escala dos latidos ancestrais. ampara-a. E vive em contubérnio com a bactéria. Cão! -. Tua garganta estúpida arrancar Do segredo da célula ovular Para latir nas solidões enormes? Esta obnóxia inconsciência. Suficientíssima é. em que tu dormes.. afaga-a. Na superabundância ou na miséria. Ah! Para ele é que a carne podre fica.Alma do inferior rapsodo errante! Resigna-a.. para provar A incógnita alma. Almoça a podridão das drupas agras. Verme -.VERSOS A UM CÃO Que força pôde adstrita e embriões informes. E irás assim.. E no inventário da matéria rica Cabe aos seus filhos a maior porção! 37 .

minha vida Igualmente a uma célula caída Na aberração de um óvulo infecundo. Como uma vela fúnebre de cera. depois da morte?! Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também. Guarda. esta árvore. sob estes galhos. Voltando à pátria da homogeneidade.corte Minha singularíssima pessoa. de amplos agasalhos.. portanto. Dr. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. O passado da Flora Brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. esta tesoura. Que importa a mim que a bicharia roa Todo o meu coração.. como uma caixa derradeira. das diatomáceas da lagoa A criptógama cápsula se esbroa Ao contato de bronca destra forte! Dissolva-se. e. Abraçada com a própria Eternidade A minha sombra há de ficar aqui! BUDISMO MODERNO Tome. Mas o agregado abstrato das saudades Fique batendo nas perpétuas grades Do último verso que eu fizer no mundo! 38 .DEBAIXO DO TAMARINDO No tempo de meu Pai..

Cortava assim como em carniçaria O aço das facas incisivas corta! Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E eu saí. como quem tudo repele.essa mônada esquisita -Coordenando e animando tudo aquilo! E eu bendizia. Como um pagão no altar de Proserpina. por toda a pro-dinâmica infinita. A verdade espantosa do Protilo Me aterrava.. Alheio ao velho cálculo dos dias. Na inconsciência de um zoófito tranqüilo. Na guturalidade do meu brado. com uma ânsia sibarita. -. com o esqueleto ao lado. Eu fui refugiar-me à tua porta! Fazia frio e o frio que fazia Não era esse que a carne nos contorta.Velho caixão a carregar destroços -Levando apenas na tumba carcaça O pergaminho singular da pele E o chocalho fatídico dos ossos! 39 . A energia intracósmica divina Que é o pai e é a mãe das outras energias! SOLITÁRIO Como um fantasma que se refugia Na solidão da natureza morta. Por trás dos ermos túmulos.SONHO DE UM MONISTA Eu e o esqueleto esquálido de Esquilo Viajávamos. mas dentro da alma aflita Via Deus -.. um dia.

Dentro do ângulo diedro da parede. Onde os bandalhos. mísera e mofina. Como quase impalpável gelatina. autônoma e sem normas. talvez. Nos estados prodrômicos da vida. O hierofante que leu a minha sina Ignorante é de que és. vede: É o grande bebedeouro coletivo. Vêm matar a sede! É o afrodístico leito do hetairismo A antecâmara lúbrica do abismo. A alma do homem poilígamo e lascivo?! Este lugar. A minha forma lúgubre nasceu! O LUPANAR Ah! Por que monstruosíssimo motivo Prenderam para sempre. moços do mundo. Nenhuma ignota união ou nenhum sexo À contingência orgânica do sexo A tua estacionária alma prendeu. Oh! Mãe original das outras formas. Quando a promiscuidade aterradora Matar a última força geradora E comer o último óvulo do ventre! 40 .. Ah! De ti foi que.. Todas as noites. nesta rede. Em que é mister que o gênero humano entre. nascida Dessa homogeneidade indefinida Que o insigne Herbert Spencer nos ensina.MATER ORIGINALIS Forma vermicular desconhecida Que estacionaste. como um gado vivo.

é esse danado número Um Que matou Cristo e que matou Tibério! Creio. se o amor quea Humanidade inspira É o amor do sibarita e da hetaíra.IDEALISMO Falas de amor. Do meu sepulcro para o teu sepulcro?! ÚLTIMO CREDO Como ama o homem adúltero o adultério E o ébrio a garrafa tóxica de rum. O mundo fique imaterializado -.Alavanca desviada do seu futuro -E haja só amizade verdadeira Duma caveira para outra caveira.. na generalidade descrente Com que a substância cósmica evolui. Creio. O amor! Quando virei por fim a amá-lo?! Quando. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. para o amor sagrado.. É. é o ego sum qui sum . e eu ouço tudo e calo! O amor da Humanidade é uma mentira. Que o homem universal de amanhã vença O homem particular eu que ontem fui! 41 . é o pneuma . perante a evolução imensa.este ladrão comum Que arrasta a gente para o cemitério! É o transcendentalíssimo mistério! É o nous . É a morte. Amo o coveiro -. como o filósofo mais crente. De Messalina e de Sardanapalo?! Pois é mister que.

Vaguei um século.. É necessário que ainda eu suba mais! 42 . e. cartilagens Oriundas. Mas. De aberratórias abstrações abstrusas! Nesse caixão iam. À meia-noite. subi talvez às máximas alturas. talvez as Musas. Pelas monotonias siderais. Era tarde! Fazia muito frio.. se hoje volto assim. inclusas.O CAIXÃO FANTÁSTICO Célere ia o caixão. Talvez meu Pai! Hoffmânicas viagens Enchiam meu encéfalo de imagens As mais contraditórias e confusas! A energia monística do Mundo. Comi meus olhos crus no cemitério. caixas cranianas. como os sonhos dos selvagens.. improficuamente. nele. Na rua apenas o caixão sombrio Ia continuando o seu passeio! SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO Para desvirginar o labirinto Do velho e metafísico Mistério. com a alma às escuras. penetrava fundo No meu fenomenal cérebro cheio. Numa antropofagia de faminto! A digestão desse manjar funéreo Tornado sangue transformou-me o instinto De humanas impressões visuais que eu sinto Nas divinas visões do íncola etéreo! Vestido de hidrogênio incandescente.. Cinzas.

Talvez perdoasses os que te mataram! VOZES DA MORTE Agora sim! Vamos morrer.A UM CARNEIRO MORTO Misericordiosíssimo carneiro Esquartejado. tua lã aquece o mundo inteiro E guarda as carnes dos que estão com frio! Quando a faca rangeu no teu pescoço. tuas sementes! E assim. com o envelhecimento dos tecidos! Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos! E a podridão. com o envelhecimento da nervura. porém. selvas. Ao monstro que espremeu teu sangue grosso Teus olhos -. no Dia de Juízo. pois. Tu. Se fosses Deus. glebas.fontes de perdão -. Depois da morte. para o Futuro. Na multiplicidade dos teus ramos. a maldição de Pio Décimo caia em teu algoz sombrio E em todo aquele que for seu herdeiro! Maldito seja o mercador vadio Que te vender as carnes por dinheiro.perdoaram! Oh! tu que no Perdão eu simbolizo. trilhos. A que nos acharemos reduzidos! Não morrerão. reunidos. em diferentes Florestas. vales. Eu. Pelo muito que em vida nos amamos. Tamarindo de minha desventura. inda teremos filhos! 43 . meu velho! E essa futura Ultrafatalidade de ossatura.

Como a cinza que vive junto à brasa. adstrito ao triângulo mesquinho De um delta humilde. É meu destino viver junto a esa asa. nos doze meses.a costureira funerária -Cose para o homem a última camisa! 44 . É-me grato adstringir-me. Ser semelhante aos zoófitos e às lianas..INSÂNIA DE UM SIMPLES Em cismas patológicas insanas. na hierarquia Das formas vivas.. Perseguido por todos os reveses. asa De mau agouro que. Ganem todos os vícios de uma vez. Na orgia heliogabálica do mundo. como os irmãos siameses! É com essa asa que eu faço este soneto E a indústria humana faz o pano preto Que as famílias de luto martiriza. Deixar enfim na cloaca mais sombria Este feixe de células humanas! E enquanto arremedando Éolo iracundo.. Apraz-me. à categoria Das organizações liliputianas. Como os Goncourts. Ter o destino de uma larva fria.. Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes O telhado de nossa própria casa. É ainda com essa asa extraordinária Que a Morte -. apodrecer sozinho No silêncio de minha pequenez! ASA DE CORVO Asa de corvos carniceiros.

violento. “À luz da epicurista ataraxia. caiu de bruços No pandemônio aterrador do Caos” 45 . aos soluços. Ouvindo a Escada e o Mar.O MARTÍRIO DO ARTISTA Arte ingrata! E conquanto. mamífero inferior. “O fracasso da tua geografia “E do teu escafandro esmiuçador! “Ah! Jamais saberás ser superior. rasga o papel. Como o soldado que rasgou a farda No desespero do último momento! Tenta chorar e os olhos sente enxutos!. Busca exteriorizar o pensamento Que em suas fronetais células guarda! Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda! E ei-lo a tremer. conquanto ainda hoje em dia. É como o paralítico que. “Rasgue a água hórrida a nau árdega e singre-me! E a verticalidade da Escada íngreme: “Homem. em desalento. “Com a ampla hélice auxiliar com que outrora ia “Voando ao vento o vastíssimo vapor. “Homem. puxa e repuxa a língua. o Hércules. a mim. já transpuseste os meus degraus?!” E Augusto. o Homem. com os dedos brutos Para falar.. A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda.. à míngua Da própria voz e na que ardente o lavra Febre de em vão falar. A ESCADA E O HOMEM “Olha agora. E não lhe vem à boca uma palavra! O MAR.

Furtaste a moeda só. Estragara-lhe os centros medulares! Como quem quebra o objeto mais querido E começa a apanhar piedosamente Todas as microscópicas partículas. após tudo perdido. Penetrara-lhe os próprios neuroplastas. então. minha Mãe. Sinhá-Mocinha. Que ela absolutamente não furtava. o ouro que brilha. minha ama. hipócrita. Via naquilo a minha própria ruína! Minha ama. agora. entretanto. em minha cama. Que a mim somente cabe o furto feito. Só lhe restam agora o último doente E a armação funerária das clavículas! RICORDANZA DELLA MIA GIOVENTÚ A minha ama-de-leite Guilhermina Furtava as moedas que o Doutor me dava. Vejo. porque furtei o peito Que dava leite para a tua filha! 46 ..DECADÊNCIA Iguais às linhas perpendiculares Caíram. Tu só furtaste a moeda. ralhava. como cruéis e hórridas hastas. Nas suas 33 vértebras gastas Quase todas as pedras tumulares! A frialdade dos círculos polares. não fora ela! --“ E maldizia a sina. afetava Susceptibilidade de menina: “-.Não.. Ele hoje vê que.. mas eu.. Em sucessivas atuações nefastas. Eu furtei mais.

Serviu as carnes do seu próprio filho! Por que para este cemitério vim?! Por que?! Antes da vida o angusto trilho Palmilhasse. os restos Duma comida horrivelmente azeda! A sucessão de hebdômadas medonhas Reduzirá os mundos que tu sonhas Ao microcosmos do ovo primitivo. Hás de engolir.A UM MASCARADO Rasga essa máscara ótima de seda E atira-a à arca ancestral dos palimpsestos. aos reais convivas. É noite. Hoje.. e. num festim.a mãe comum -.... a escândalos e incestos É natural que o instinto humano aceda! Sem que te arranquem da garganta queda A interjeição danada dos protestos. Terás somente uma vontade cega E uma tendência obscura de ser vivo! VOZES DE UM TÚMULO Morri! E a Terra -. porque não tem fim! No ardor do sonho que o fronema exalta Construí de orgulho ênea pirâmide alta. igual a um porco.. do que este que palmilho E que me assombra.o brilho Destes meus olhos apagou!. E tu mesmo. que se desmoronou A pirâmide real do meu orgulho... porém. após a árdua e atra refrega. Hoje que apenas sou matéria e entulho Tenho consciência de que nada sou! 47 . Assim Tântalo.. à noite.

SONETO – I – A MEU PAI DOENTE Para onde fores. gemendo. O que o homem ama e o que o homem abomina. Às alegrias juntam-se as tristezas. Pai. Eu. e o horror de nossas duas Mágoas crescendo e se fazendo horrores! Magoaram-te.CONTRASTES A antítese do novo e do obsoleto.Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim É bom.. Irei também. é justo. meu Pai?! Que mão sombria. trilhando as mesmas ruas. Uma feição humana e outra divina São como a eximenina e a endimenina Que servem ambas para o mesmo feto! Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes! Por justaposição destes contrastes. e sendo justo.. E o carpinteiroque fabrica as mesas Faz também os caixões do cemitério!. para amenizar as minhas dores! Que coisa triste! O campo tão sem flores. Tudo convém para o homem ser completo! O ângulo obtuso. Deus. Junta-se um hemisfério a outro hemisfério. o Ódio e a Carnificina. O Amor e a Paz.. Indiferente aos mil tormentos teus De assim magoar-te sem pesar havia?! -. para onde fores. pois.. para amenizar as dores tuas. e o ângulo reto. Deus não havia de magoar-te assim! 48 . Tu. E eu tão sem crença e as árvores tão nuas E tu.

E a marcha das moléculas regulam. Nem uma névoa no estrelado véu... Rezo. entre as estrelas flóreas. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu! SONETO – III Podre meu Pai! A morte o olhar lhe vidra.. Duras leis as que os homens e a hórrida hidra A uma só lei biológica vinculam. cuidei que ele dormia. Mas pareceu-me. Mãe. num carro azul de glórias. sonhando. o ofício da agonia. Amo meu Pai na atômica desordem Entre as bocas necrófagas que o mordem E a terra infecta que lhe cobre os rins! 49 . dormir primeiro! E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. Com a invariabilidade da clepsidra! Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos Roída toda de bichos.SONETO – II – A MEU PAI MORTO Madrugada de Treze de Janeiro. Em seus lábios que os meus lábios osculam Microrganismos fúnebres pululam Numa fermentação gorda de cidra. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. como os queijos Sobre a mesa de orgíacos festins!. Como Elias.. E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o”! deixa-o.

meu filho.e ajoelhou-se.DEPOIS DA ORGIA O prazer que na orgia a hetaíra goza Produz no meu sensorium de bacante O efeito de uma túnica brilhante Cobrindo ampla apostema escrofulosa! Troveja! E anelo ter. Esta árvore. para que eu viva!” E quando a árvore. O sistema nervoso de um gigante Para sofrer na minha carne estuante A dor da força cósmica furiosa. Caiu aos golpes do machado bronco. pois.. Para que eu tenha uma velhice calma! -.. possui minh’alma!.. meu pai. pai. É preciso cortá-la.Meu pai.. Ficar latindo minha dor medonha! A ÁRVORE DA SERRA -. não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho... meu filho. Semelhante a um cachorro de atalaia Às decomposições da Natureza. por que sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs almas nos cedros. sôfrega e ansiosa. numa rogativa: “Não mate a árvore. Apraz-me. olhando a pátria serra. -.. despindo a última alfaia Que ao comércio dos homens me traz presa. O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra! 50 .Disse -. no junquilho. enfim.As árvores.. Livre deste cadeado de peçonha.

. Olha a atmosfera livre. O CORRUPIÃO Escaveirado corrupião idiota. Que do fundo do chão todo o ano brota! Mas a ânsia de alto voar. por exemplo: o do boi Ápis do Egito Ao velho Niebelungen da Alemanha. sem cerebelo A gargalhada da última derrota! A gaiola aboliu tua vontade.. não tens mais! E pois. Pões-te a assobiar. bruto.. E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria O vencido pensava que cuspia Na célula infeliz de onde nasceu.VENCIDO No auge de atordoadora e ávida sanha Leu tudo. Acometido de uma febre estranha Sem o escândalo fônico de um grito. desde o mais prístino mito. o amplo éter belo. Foi este mundo que me fez tão triste.. Tu nunca mais verás a liberdade!. Continua a comer teu milho alpiste. Ah! Tu somente ainda és igual a mim. Foi a gaiola que te pôs assim! 51 . E a alga criptógama e a úsnea e o cogumelo. Pondo a áurea insígnia heráldica da farda À vontade do vômito plebeu. preto e amarelo. Arrancou os cabelos na montanha! Desceu depois à gleba mais bastarda. de à antiga rota Voar. mergulhou a cabeça no Infinito.

ALUCINAÇÃO À BEIRA MAR Um medo de morrer meus pés esfriava.. Com os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. ególatra céptico. No desespero dos iconoclastas Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! 52 . cismava Em meu destino!. me assombrava! Mas a alga usufrutuária dos oceanos E os malacopterígios subraquianos Que um castigo de espécie emudeceu. Ante o telúrico recorte. na diuturna discórdia. O vento estava forte E aquela matemárica da Morte Com os seus números negros. Onde um nume de amor.. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas.. em serenatas. No eterno horror das convulsões marítimas Pareciam também corpos de vítimas Condenados à Morte. Canta a aleluia virginal das crenças. Noite alta. assim como eu! VANDALISMO Meu coração tem catedrais imensas. Templos de priscas e longínquas datas.. a equórea coorte Atordoadamente ribombava! Eu.

Veio depois um domador de hienas E outro mais. e qual mais presto assoma Nenhum pôde domar o prisioneiro.estranho carniceiro! Não podes?! Chama então presto o primeiro E o mais possante gladiador de Roma. por fim. Meu coração triunfava nas arenas. entre feras.. E qual mais pronto. e. sente invevitável Necessidade de também ser fera. veio um atleta. e doma Meu coração -.esta pantera -Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O Homem. Vieram todos. Acende teu cigarro! o beijo.. ao todo. E não pôde domá-lo enfim ninguém.VERSOS ÍNTIMOS Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. nesta terra miserável. amigo. toma A adaga de aço. Se a alguém causa inda pena a tua chaga. uns cem. que. Que ninguém doma um coração de poeta! 53 . Somente a Ingratidão -. E à rutilância das espadas. Toma um fósforo. por fim. Escarra nessa boca que te beija! VENCEDOR Toma as espadas rútilas. A mão que afaga é a mesma que apedreja. Mora. Apedreja essa mão vil que te afaga. guerreiro. o gládio de aço. é a véspera do escarro.

E quando esse homem se transforma em verme É essa mágoa que o acompanha ainda! O LAMENTO DAS COISAS Triste.ETERNA MÁGOA O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do Mundo. nada há que traga Consolo à Mágoa. Que. A sucessividade dos segundos. pois.. em sons subterrâneos.. o subconsciente ai formidando Da Natureza que parou. podendo mover milhões de mundos. e quanto mais resiste Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga. a escutar.. pancada por pancada. E é em suma. é que essa mágoa infinda Transpõe a vida do seu corpo inerme. mas o que não sabe E que essa mágoa infinda assim não cabe Na sua vida. O choro da Energia abandonada! É a dor da Força desaproveitada — O cantochão dos dínamos profundos. o homem que é triste Para todos os séculos existe E nunca mais o seu pesar se apaga! Não crê em nada. Sabe que sofre... chorando. Da luz que não chegou a ser lampejo. a que só ele assiste.. jazem ainda na estática do Nada! É o soluço da forma ainda imprecisa. No rudimentarismo do Desejo! 54 . Quer resistir. Da transcendência que se não realiza. Ouço. do Orbe oriundos.

Parem as vidas. Foi que eu. Tua cabeça há de ficar vibrando Na negatividade universal! 55 . pensando. Como a última expressão da Dor sem termo. Todas as urbes siderais vencidas! Morra o éter.O MEU NIRVANA No alheamento da obscura forma humana. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das Idéas! CAPUT IMMORTALE Na dinâmica aziaga das descidas. Aglomeradamente e em turbilhão Solucem dentro do Universo ancião. num grito de emoção. Cesse a luz. feito força. me desencarcero. eu. De que. Morto o comércio físico nefando. que os anos não carcomem. afinal. o meu Nirvana! Nessa manumissão schopenhauereana. a animar o cosmos ermo. impero Na imanência da Idéa Soberana! Destruída a sensação que oriunda fora Do tacto — ínfima antena aferidora Destas tegumentárias mãos plebéas — Gozo o prazer. Oh! Nauta aflito do Subliminal. Sobre a pancosmológica exaustão Reste apenas o acervo árido e vão Das muscularidades consumidas! Ainda assim. sincero Encontrei. Onde a Vida do humano aspecto fero Se desarraiga.

o ouvido.. Da multimilenária dissonância Que as harmonias siderais invade. ao sol posto. muito embora a alma te acenda. Que eu tenho de deixar para os meus filhos! LOUVOR A UNIDADE "Escafandros. Pressinto o fim da orgânica batalha: — Olhos que o húmus necrófago estraçalha. Diafragmas. O regresso dos átomos aflitos Ao descanso perpétuo da Unidade! 56 . pois. numa alta aclamação.. "Com essa intuição monística dos gênios. "À hirta forma falaz do are perennius "A transitoriedade das fagulhas!" — Era a estrangulação. decompondo-se. há inúmeros milênios. Desagrega-se e deixa na mortalha O tacto. sem gritos..APOSTROFE À CARNE Quando eu pego nas carnes do meu rosto. Em tua podridão a herança horrenda. A dardejar relampejantes brilhos. a irmanar diamantes e hulhas. Dói-me ver. feixe de mônadas bastardas. o olfato e o gosto! Carne. Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas. Era. arpões. e. Onde a alva flama psíquica trabalha.. sem retumbância. a vista. sondas e agulhas "Debalde aplicas aos heterogêneos "Fenômenos. "Num pluralismo hediondo o olhar mergulhas! "Une. E o Homem — negro e heteróclito composto.

na noite escura. Que produz muita vez. E eu sinto a angústia dessa raça ardente Condenada a esperar perpetuamente No universo esmagado da água morta! SUPREME CONVULSION O equilíbrio do humano pensamento Sofre também a súbita ruptura. a porta. opondo-se à Inércia. é o transunto. Este pântano é o túmulo absoluto.. no Mundo. à espera de quem passa Para abrir-lhe. para mim que a Natureza escuto. É a síntese.O PÂNTANO Podem vê-lo. Ah! foi teu beijo convulsionador Que produziu este contraste fundo Entre a abundância do que eu sou.. E a alma o obnóxio quietismo sonolento Rasga. A convulsão meteórica do vento. é a essência pura. Tragicamente. sem dor. e. às escâncaras. é a abreviatura Do todo o ubiqüitário Movimento! Sonho. De todas as grandezas começantes! Larvas desconhecidas de gigantes Sobre o seu leito de peçonha e luto Dormem tranqüilamente o sono bruto Dos superorganismos ainda infantes! Em sua estagnação arde uma raça. meus semelhantes! Mas. — libertação do homem cativo — Ruptura do equilíbrio subjetivo. E o nada do meu homem interior! 57 .

Teu desenvolvimento continua! Antes. geléia crua. Antes o Nada. e. Ao supremo infortúnio de ser alma! NATUREZA ÍNTIMA Ao filósofo Farias Brito Cansada de observar-se na corrente Que os acontecimentos refletia. tanto Que. em conjugação com a terra nua. Volvas à antiga inexistência calma!. Vence o granito. porventura. O espanto Convulsiona os espíritos. entanto..A UM GÉRMEN Começaste a existir.. é natural. A Natureza olhou-se interiormente! Baldada introspecção! Noumenalmente O que Ela. Reconcentrando-se em si mesma. no teu silêncio. em realidade. um dia. ainda algum dia. oh! gérmen.. rosto?! "Serei apenas mera crusta espessa?! "Pois é possível que Eu. ainda sentia Era a mesma imortal monotonia De sua face externa indiferente! E a Natureza disse com desgosto: "Terei somente. o pranto Das tuas concreções plásmicas flua! A água. "Quanto mais em mim mesma me aprofundo. como o gérmen de outros seres. "Menos interiormente me conheça?!" 58 . não progridas E em retrogradações indefinidas. que ainda haveres De atingir. E hás de crescer. deprimindo-o .. causa do Mundo. geléia humana.

.As ambições que se fizeram troncos... Bracejamentos de álamos selvagens.. que se entrega à morte Para a felicidade da Criatura! É a obsessão de ver sangue. E a dramatização sangrenta e dura Vir Deus num simples grão de argila errante. é ânsia. Como um convite para estranhas viagens.. Precisa de encharcar-se em sangue humano Para mostrar aos homens que está viva! 59 . os elementos broncos.... Ante o hieróglifo e o enigma das folhagens. é inquietude. E a coorte Das raças todas. na ordem cósmica. Vivem só. Da avidez com que o Espírito procura É a Subconsciência que se transfigura Em volição conflagradora... traçando arcos de ogivas. é o instinto horrendo De subir. nele.Todas as hermenêuticas sondagens. é transporte. Porque nunca puderam realizar-se! GUERRA Guerra é esforço.A FLORESTA Em vão com o mundo da floresta privas!. Tornam todas as almas pensativas! Há uma força vencida nesse mundo! Todo o organismo florestal profundo É dor viva. trancada num disfarce. no seu arcano. . descendo A irracionalidade primitiva. . São absolutamente negativas! Araucárias. É a Natureza que.

assim. Dói-lhe. ancoradouro Dos desgraçados. Alegria das glândulas do choro De onde todas as lágrimas emanam. perante o Incognoscível Essa fatalidade de ser grande Para guardar unicamente poeira! HINO À DOR Dor. acérrima e latente. Que o sarcófago. É frio o ambiente E a chuva corta inexoravelmente O dorso de um sarcófago molhado! Ah! Ninguém ouve o soluçante brado De dor profunda.O SARCÓFAGO Senhor da alta hermenêutica do Fado Perlustro o atrium da Morte. Minha maior ventura é estar de posse De tuas claridades absolutas! 60 .. sem convulsão que me alvorece. ouro De que as próprias desgraças se engalanam! Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato. sol do cérebro. Com os corpúsculos mágicos do tacto Prendo a orquestra de chamas que executas. psíquico tesouro. E. saúde dos seres que se fanam. inteira.. em suma. oh! Dor.. Riqueza da alma.. ereto e imóvel sente Em sua própria sombra sepultado! Dói-lhe (quem sabe?!) essa grandeza horrível Que em toda a sua máscara se expande. És suprema! Os meus átomos se ufanam De pertencer-te... À humana comoção impondo-a..

.. Benditos vós. Terá nascido nesse mesmo instante A mineralogia derradeira! A impérvia escuridão obnubilante Há de cessar! Em sua glória inteira Deus resplandecerá dentro da poeira Como um gasofiláceo de diamante! Nessa última visão já subterrânea. Haveis de ser no mundo subjetivo. ) Com o vosso catalítico prestígio. Meu fantasma de carne passageira! Vulcão da bioquímica fogueira Destruiu-me todo o orgânico fastígio . para a hora derradeira! Culminâncias humanas ainda obscuras.. que. pois. Minha continuidade emocional! 61 ... para o último remígio. Expressões do universo radioativo.ÚLTIMA VISIO Quando o homem resgatado da cegueira Vir Deus num simples grão de argila errante. Sois vós que sustentais ( Força Alta exige-o . Um movimento universal de insânia Arrancará da insciência o homem precito.. Dai-me alma. Dai-me asas. Ions emanados do meu próprio ideal. pois. A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ele ainda tem de abrir para o Infinito! AOS MEUS FILHOS Na intermitência da vital canseira. em épocas futuras.

Ataca-me a existência A mortificadora coalescência Das desgraças humanas congregadas! Em alucinatórias cavalgadas.. cedendo à ação de ignotos pesos! É então que a vaga dos instintos presos — Mãe de esterilidades e cansaços — Atira os pensamentos mais devassos Contra os ossos cranianos indefesos. Emoções extraordinárias sinto.. os pés e os braços Tombara.. as mãos. Subitamente a cerebral coréa Pára. A alma arde.A DANÇA DA PSIQUÊ A dança dos encéfalos acesos Começa. A carne é fogo. Eu sinto. E acho um feixe de forças prodigiosas Sustentando dois monstros: a alma e o instinto! O POETA DO HEDIONDO Sofro aceleradíssimas pancadas No coração. então.. A espaços As cabeças. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto! 62 . sondando-me a consciência A ultra-inquisitorial clarividência De todas as neuronas acordadas! Quanto me dói no cérebro esta sonda! Ah! Certamente eu sou a mais hedionda Generalização do Desconforto. Arranco do meu crânio as nebulosas. O cosmos sintético da Idéa Surge.

Excrescência de terra singular. Realidade geográfica infeliz. os dois Representam. Porque. Teu coração se desagrega. criatura cega.A FOME E O AMOR A um monstro Fome! E. Antes da refeição sanguinolenta! Amor! E a satiríasis sedenta. na ânsia voraz que. Deixa a tua alegria aos seres brutos.. ris! Fruto injustificável dentre os frutos.. Tu só tens um direito: — o de chorar! 63 . Rugindo. Os dentes antropófagos que rangem. no ardor dos seus assomos A alegoria do que outrora fomos E a imagem bronca do que inda hoje sois! HOMO INFIMUS Homem. entretanto. Hebdômadas hostis Passam. Sangram-te os olhos. enquanto as almas se confrangem. O Universo calado te renega E a tua própria boca te maldiz! O nôumeno e o fenômeno. tragando a ambiência vasta. e. No desembestamento que os arrasta. o alfa e o omega Amarguram-te. Montão de estercorária argila preta. Superexcitadíssimos. na superfície do planeta. Receando outras mandíbulas a esbangem. carne sem luz. aumenta. Todas as danações sexuais que abrangem A apolínica besta famulenta! Ambos assim. ávida.

a Glória. O Amor. Da dor humana. Que força alguma inibitória acalma.. a Arte e a Beleza Servem de combustíveis à ira acesa Das tempestades do meu ser nervoso! Eu sou. sou maior que Dante. homens felizes. Ai! Não toqueis em minhas faces verdes.MINHA FINALIDADE Turbilhão teleológico incoercível. soluçando.. E trago em mim. — A águia dos latifúndios florentinos! Sistematizo. dão gritos Nas minhas camas cerebrais funéreas. mordem-se. aparelhou. a Ciência.. num sincronismo eterno A fórmula de todos os destinos! NOLI ME TANGERE A exaltação emocional do Gozo. de sofrerdes A sensação de todas as misérias! 64 . Sob pena. Levou-me o crânio e pôs-lhe dentro a palma Dos que amam apreender o Inapreensível! Predeterminação imprescriptível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Na canonização emocionante. o Inferno.. por conseqüência um ser monstruoso! Em minha arca encefálica indefesa Choram as forças más da Natureza Sem possibilidades de repouso! Agregados anômalos malditos Despedaçam-se.

ontem. Se escapa pela boca dos cativos! ABERRAÇÃO Na velhice automática e na infância. Minha alma é um misto De anomalias lúgubres. Existo Como o cancro.. Criando na alma a estesia abstrusa da ânsia. (Hoje. Pela promiscuidade dos reclusos! No wagnerismo desses sons confusos. urdo o crime. Como Belerofonte com a Quimera Mato o ideal. a exigir que os sãos enfermem. em voz muito alta.O CANTO DOS PRESOS Troa. amanhã e em qualquer era) Minha hibridez é a súmula sincera Das defectividades da Substância. Entoado asperamente. È a saudade dos erros satisfeitos. A ignomínia de todos os abusos! É a prosódia do cárcere... é a partênea Aterradoramente heterogênea Dos grandes transviamentos subjectivos. Teço a infâmia.. à luz de fantástica ribalta. Uiva. Em que o Mal se engrandece e o ódio se exalta. não cabendo mais dentro dos peitos. achato a esfera E acho odor de cadáver na fragrância! Chamo-me Aberração. a alardear bárbaros sons abstrusos. engendro o lodo E nas mudanças do Universo todo Deixo inscrita a memória do meu gérmen! 65 . O epitalâmio da Suprema Falta. Que. cresto o sonho.

. Nos paroxismos da hiperestesia. transmudado em rutilância fria..Carrego em minhas células sombrias Antagonismos irreconciliáveis E as mais opostas idiossincrasias! Muito mais cedo do que o imagináveis Eis-vos. O Infinitésimo e o Indeterminado. à noite. invado. apreendo. enfim. Todas as coisas íntimas suplanta! Penetro. dona. pelos caminhos quedos Minha tátil intensidade é tanta Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos! Quebro a custódia dos sentidos tredos E a minha mão. ausculto.. o Infinito se levanta À luz do luar. dada às bravias Cóleras dos dualismos implacáveis E à gula negra das antinomias! Psique biforme. Feita dos mais variáveis elementos. Ceva-se em minha carne. por fim. Transponho ousadamente o átomo rude E.. minha alma. como um corvo. o Céu e o Inferno absorvo. A simultaneidade ultramonstruosa De todos os contrastes famulentos! AO LUAR Quando.VÍTIMA DO DUALISMO Ser miserável dentre os miseráveis -. Criação a um tempo escura e cor-de-rosa. agarro. Encho o Espaço com a minha plenitude! 66 . de quanta Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos.

defunta Na aterradora operação conjunta Da tarefa animal dos organismos! Mas após o antropófago alambique Em que é mister todo o teu corpo fique Reduzido a excreções de sânie e lodo. Tu hás de entrar completamente puro Para a circulação do Grande Todo! CANTO DA ONIPOTÊNCIA Cloto. Como a luz que arde. arder. como um astro. aos trismos Da epilepsia horrenda. E acima deles. A perfeição virtual tornada viva E o embrião do que podia acontecer! Por antecipação divinatória. e nos abismos Ninguém responderá tua pergunta! Reclamada por negros magnetismos Tua cabeça há de cair. Tifon.. projetado muito além da História. Eu. Sentia dos fenômenos o fim. Átropos. A coisa em si movia-se aos meus brados E os acontecimentos subjugados Olhavam como escravos para mim! 67 . Laquesis. Siva. num monturo.. como a luz do amanhecer..A UM EPILÉTICO Perguntaras quem sou?! – ao suor que te unta À dor que os queixos te arrebenta. Na hiperculminação definitiva O meu supremo e extraordinário Ser! Em minha sobre-humana retentiva Brilhavam. virgem..

Roem-na amarguras Talvez humanas.. e entre rochas duras Mostra ao Cosmos a face degradada! Entre os pedrouços maus dessa morada É que. Folhas e frutos.MINHA ÁRVORE Olha: É um triângulo estéril de ínvia estrada! Como que a erva tem dor. a afagar tantas feridas.. nem mesmo ao ronco Do furacão que.Trilhões de células vencidas... Grita em meu grito.) Quem sou eu. esse mundo incoerente. Nutrindo uma efeméride inferior. Branda. A áurea mão taumatúrgica do Amor Traça... E. nas minhas formas carcomidas. Essa elementaríssima semente Do que hei de ser. A estrutura de um mundo superior! Alta noite. às apalpadelas e às escuras. alarga-se em meu hausto. neste ergástulo das vidas Danadamente. Hão de encontrar as gerações futuras Só. rábido. ai! como eu sinto no esqueleto exausto Não poder dar-lhe vida material! 68 . tenta transpor o Ideal... a soluçar de dor?! -. remoinha. minha árvore humana desfolhada! Mulher nenhuma afagará meu tronco! Eu não me abalarei. entanto. sobre a terra ardente Hão de encher outras árvores! Somente Minha desgraça há de ficar sozinha! ANSEIO (QUEM SOU EU.

-. revolvendo o ego profundo E a escuridão dos cérebros medonhos. feto vivo e aborto. Sinto bater na putrescível crusta Do tegumento que me cobre os peitos Toda a imortalidade da Substância! 69 .Tudo a unidade do meu ser resume! Sou eu que. sânie e perfume. desconforto E ataraxia. auscultando o absconso arcano! Por um poder de acústica esquisita.. A potencialidade do que é morto E a eficácia prolífica do estrume! Ah! Sou eu que.. Massa palpável e éter.Mãe promíscua do amor e do ódio insano! Sou eu que. Apreendo. -. ateando da alma o ocíduo lume. hirto. Penetro a essência plásmica infinita. aliando Buda ao sibarita.REVELAÇÃO I Escafandrista de insondado oceano Sou eu que. transpondo a escarpa augusta Dos limites orgânicos estreitos. Sou eu que. em cisma abismadora absorto. Ouço o universo ansioso que se agita Dentro de cada pensamento humano! No abstrato abismo equóreo. Dentro dos quais recalco em vão minha ânsia. Restituo triunfalmente à esfera calma Todos os cosmos que circulam na alma Sob a forma embriológica de sonhos! II Treva e fulguração. em que me inundo.

quatro. Reduzir carnes podres a algarismos.VERSOS A UM COVEIRO Numerar sepulturas e carneiros. Esoterismos Da Morte! Eu vejo. por hipótese. A aritmética hedionda dos coveiros! Um. na abismal sustância informe.. três. -. hei de ficar trancado Na noite aterradora de mim mesmo! 70 . A tua conta não acaba mais! TREVAS Haverá. Rotos os nimbos maus que a obstruem a esmo... Na progressão dos números inteiros A gênese de todos os abismos! Oh! Pitágoras da última aritmética. Porque. sem complicados silogismos. cérebros. infinita como os próprios números. rádios e úmeros.Tal é. dois. nas geenas Luz bastante fulmínea que transforme Dentro da noite cavernosa e enorme Minhas trevas anímicas serenas?! Raio horrendo haverá que as rasgue apenas?! Não! Porque.. em fúlgidos letreiros. A própria Esfinge há de falar-vos ainda E eu. somente em. Para convulsionar a alma que dorme Todas as tempestades são pequenas! Há de a Terra vibrar na ardência infinda Do éter em branca luz transubstanciado. Continua a contar na paz ascética Dos tábidos carneiros sepulcrais Tíbias. crânios. cinco.

oh! delumbrada alma. afinal. Qual é. porventura. Por um abortamento de mecânica. se o que ainda não existe Não vibra em gérmen no agregado triste Da síntese sombria do meu Ser?! 71 . íngremes.AS MONTANHAS I Das nebulosas em que te emaranhas Levanta-te. amam jazer. em contrações de dor. Inacessíveis aos humanos tráficos Onde sóis. Quem sabe. recalcados. De onde rebenta. e dize-me. mal Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?! Ah! Nesse anelo trágico de altura Não serão as montanhas. A representação ainda inorgânica De tudo aquilo que parou em mim?! II Agora. Estacionadas. alma. Toda a sublevação da crusta hirsuta! No curso inquieto da terráquea luta Quantos desejos fervidos de amor Não dormem. assim. A significação dessas montanhas! Quem não vê nas graníticas entranhas A subjetividade ascensional Paralisada e estrangulada. sob o horror Dessas agregações de pedra bruta?! Como nesses relevos orográficos. a alma. na natureza espiritual. me semente. perscruta O puerpério geológico interior.

e. derrubadas. integérrima. Espião da cataclísmica surpresa.. o último a ser. A única luz tragicamente acesa a universalidade agonizante! A NAU A Heitor Lima Sôfrega.. alçando o hirto esporão guerreiro. se as Tem. babando. Federações sidéricas quebradas. que o Éter indica.. E eu só. pelo orbe adiante.. E não haver uma alma que lhe entenda A angústia transoceânica medonha No rangido de todas as enxárcias! 72 .. haurem-lhe o cheiro! Na glauca artéria equórea ou no estaleiro Ergue a alta mastreação. E estende os braços de madeira rica Para as populações do mundo inteiro! Aguarda-a ampla reentrância de angra horrenda. a amarra agarrada à âncora. da Massa. subjugue-as ou difarce-as.APOCALIPSE Minha divinatória Arte ultrapassa Os séculos efêmeros e nota Diminuição dinâmica. É a subversão universal que ameaça A Natureza. A íngreme cordoalha úmida fica. Lambe-lhe a quilha e espúmea onda impudica E ébrios tritões. Destrói a ebulição que a água alvorota E põe todos os astros na desgraça! São despedaçamentos. Zarpa. Pára e. derrota Na atual força. em noite aziaga e ignota.. sonha! Mágoas.

Sôfrego. que ela encheu. Dentro dos ossos. aborte Na hora em que a nossa carne apodrecer?! Não! Essa luz dial. o dolo sáxeo. Para a perpetuação da Espécie forte.. ainda depois da morte. Tragicamente. vazio! 73 . em que arde o Ser. Com essa volúpia das ossadas novas Hão de ainda se apertar cada vez mais! O FIM DAS COISAS Pode o homem bruto. e. adstrito à ciência grave. continua a arder! Surdos destarte a apóstrofes e brados. Os nossos esqueletos descarnados. ao cabo do último milênio. A humanidade vai pesar seu gênio Encontra o mundo. Fome do átomo e eurítmico transporte De todas as moléculas. Em convulsivas contorções sensuais. num triunfo surpreendente. Haurindo o gás sulfídrico das covas. Das profundezas do Subconsciente O milagre estupendo da aeronave! Rasgue os broncos basaltos negros. cave. na ânsia ardente De perscrutar o íntimo do orbe..VOLÚPIA IMORTAL Cuidas que o genesíaco prazer. E quando. Arrancar. invente A lâmpada aflogística de Davy! Em vão! Contra o poder criador do Sonho O Fim das Coisas mostra-se medonho Como o desaguadouro atro de um rio.

há instantes. vendo sangue. Ia talvez morrer. Extraordinariamente atordoadora. iguais a espiões que acordam cedo.. agride os rios E urde amplas teias de carvões sombrios No ar que álacre e radiante.. E. Olhou-se no espelho. Ah! Certamente não podia ser! Levantou-se. A água transubstancia-se. À custódia do anímico registro A planetária escuridão se anexa. Disse.. A carne que ele havia de comer! No inferno da visão alucinada. Ficam brilhando com fulgor sinistro Dentro da treva onímoda e complexa Os olhos fundos dos que estão com medo A OBSESSÃO DO SANGUE Acordou. mancha a gleba. eis que viu. a escorrer Fita rubra de sangue muito grosso. A onda estoura Na negridão do oceano e entre os navios Troa bárbara zoada de ais bravios. Viu vísceras vermelhas pelo chão. Horrível! O osso Frontal em fogo.. Somente. com um berro bárbaro de gozo.. Era tão moço. antes do almoço.A NOITE A nebulosidade ameaçadora Tolda o éter. Viu montanhas de sangue enchendo a estrada. fora.... Na mão dos açougueiros. O monocromatismo monstruoso Daquela universal vermelhidão! 74 . E amou.

. me não consolo. Ah! todos os fenômenos do solo Parecem realizar de pólo a pólo O ideal do Anaximandro de Mileto! No hierático areópago heterogêneo Das idéias. O Inconsciente me assombra e eu nele rolo Com a eólica fúria do harmatã inquieto! Assisto agora à morte de um inseto!. dando-me ao corpo vão Esta volúpia de ficar no chão Fruindo na tabidez sabor divino! Espiando o meu cadáver ressupino.. E em tudo igual a Goethe. Leio o obsoleto Rig-Veda. Rasgo dos mundos o velário espesso.. Abraço-me com a terra atormentada Em contubérnio convulsionador. No mar de humana proliferação. Outras cabeças aparecerão Para compartilhar do meu destino! Na festa genetlíaca do Nada..VOX VICTIMAE Morto! Consciência quieta haja o assassino Que me acabou. ante obras tais.. percorro como um gênio Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!... reconheço O império da substância universal ! 75 . E. E ai! Como é boa esta volúpia obscura Que une os ossos cansados da criatura Ao corpo ubiqüitário do Criador! AGONIA DE UM FILÓSOFO Consulto o Phtah-Hotep..

estranho ao mundo.. Hirta. Tragicamente de si mesmo oriundo.Que fazes ainda no meu crânio? E o Último Número. Da saudade na campa enegrecida Guardo a lembrança que me sangra o peito. E assim afeito às mágoas e ao tormento. À noute qunado em funda soledade Minh’alma se recolhe tristemente. Eu a bendigo da descrença. imóvel. Não te abandono mais! Morro contigo!" SAUDADE Hoje que a mágoa me apunhala o seio. A Idéia estertorava-se. 76 . Para dar vida à dor e ao sofrimento. ao meu lado. E o coração me rasga atroz. atro e subterrâneo. Como o reflexo fúnebre do Incriado: Bradei: -. resignado. P’ra iluminar-me a alma descontente.O ÚLTIMO NÚMERO Hora da minha morte. amigo! Pois que a minha autogênica Grandeza Nunca vibrou em tua língua presa. Era de vê-lo. imensa. Fora da sucessão. Parecia dIzer-me: "É tarde. Se acende o círio triste da Saudade. Porque eu hoje só vivo da descrença. No fundo Do meu entendimento moribundo Jazia o Último Número cansado. Mas que no entanto me alimenta a vida. E à dor e ao sofrimento eterno afeito. em meio.

Da Igreja . sombras cor-de-rosa . CETICISMO Desci um dia ao tenebroso abismo. mas me perdoa! Se esta dúvida cruel qual me magoa Me torna ínfimo. volvi ao ceticismo. Fraco que sou. eu creio em ti. Hoje ela habita a erma soledade.Resta somente um’alma tristurosa! Coitada! o gozo lhe fugiu correndo. Cansado de lutar no mundo insano. De joelhos aos pés do Nazareno Baixo rezei. Fazem lembrar em noute de saudade A luz mortiça d’um olhar nublado. seu olhar magoado. de ilusões tão bela.Oh! Deus. desgraçado réu. Ah. e então sereno.Todas se foram num festivo bando. Em que vive e em que aos poucos vai morrendo! Seu rosto triste. Não sei se viva p’ra morrer na terra.ABANDONADA Ao meu irmão Odilon dos Anjos Bem depressa sumiu-se a vaporosa Nuvem de amores. gárrulos voando . O brilho se apagou daquela estrela Que a vida lhe tornava venturosa! Sombras que passam.o exorcismo Terrível me feriu. Onde a dúvida ergueu altar profano.a Grande Mãe . entre o medo que o meu Ser aterra. em fundo misticismo: . Não sei se morra p’ra viver no Céu! 77 . Fugazes sonhos.

E que tornou-o assim. SENHORA Ouvi. Mais tarde da existência nos verdores Da infância nunca tive as venturosas Alegrias que passam bonançosas. tristes. Morreram todas. todas sem olores. Revolvo as cinzas de passadas eras. triste pela vida afora. E como a luz do sol vai-se apagando! E eu triste. Como um coveiro a sepultar quimeras! 78 . num mês de tantas flores. Oh! Minha infância nunca teve flores! Volvendo à quadra azul da mocidade. senhora. o cântico sentido Do coração que geme e s’estertora N’ânsia letal que o mata e que o devora. triste e descrido. Desfeitas todas num guaiar dorido. Hoje eu carrego a cruz das minhas dores! OUVI. Tristes fanaram redolentes rosas. langorosas. Eterno pegureiro caminhando. Minh’alma levo aflita à Eternidade. senhora. Sombrio e mudo e glacial. de amor ferido. Exausto de pisar mágoas pisadas. Ouvi. amei. Todas murcharam. Quando a morte matar meus dissabores. As minhas crenças que alentei outrora Rolam dispersas.MÁGOAS Quando nasci. Cansado de chorar pelas estradas. senhora. pálidas agora.

um tresloucado. Louco vivia. Altivo lutador. E voltou. olímpica e singela! E partiu. e na existência agora Triste soluças a ilusão peerdida. Alma viúva das paixões da vida. na estrada da existência em fora. No sepulcro da loura virgem bela. que na grinalda emurchecida De teu passado de felicidade Foste juntar os goivos da Saudade Às flores da Esperança enlanguescida. Mas a Pátria chamou-o. Oh! Tu. E tinha que deixar p’ra sempre aquela Meiga visão. 79 . Juncou-lhe a fronte aurifulgente estrela. Apaixonou-se d’uma virgem bela. Dos canhões ao ribombo e das metralhas.TRISTE REGRESSO Uma vez um poeta. Ao chegar. e o pesar negro e profundo. INFELIZ Alma viúva das paixões da vida. Era o soldado. E fica no teu ermo entristecida. Cantaste e riste. Alma arrancada do prazer do mundo. mas a fronte aureolada. Se nada te aniquila o desalento Que te invade. Tu que. pendeu triste e desmaiada. Esconde à Natureza o sofrimento. Vivia alegre o vate apaixonado. venceu batalhas. coração amargurado. enamorado dela.

Passam meus sonhos sepultados nestes Brancos sepulcros. Era o supremo beijo de noivado! 80 . E rompe a orquestra sepulcral da morte. São minhas crenças divinais. a brisa respondia.N’AUGUSTA SOLIDÃO DOS CEMITÉRIOS N’augusta solidão dos cemitérios. funéreos. pálidos. Quando da vida. Chegara enfim o dia desejado. Vinha rompendo a aurora majestosa. Desliza então a lúgubre coorte. Quando há de ser!? E os pássaros falavam. Fora no campo pássaros trinavam. Há de chegar. silentes. Hoje rolando nos umbrais marmóreos. E a mesma frase o noivo repetia. NOIVADO Os namorados ternos suspiravam. Eu choro e gemo e triste me debruço Na lájea fria dos meus sonhos pulcros. ardentes . Quando há de ser o venturoso dia?! Quando há de ser!? O noivo então dizia E a noiva e ambos d’amores s’embriagavam.Alvos fantasmas pelos merencórios Túmulos tristes. Resvalando nas sombras dos ciprestes. Quebrando a paz suprema dos sepulcros. Dos rouxinóis ao sonoroso harpejo E a luz do sol vibrava esplendorosa. soturnais. no eternal soluço. Ambos unidos soluçara um beijo.

da febre ardente Da ventura fugaz e transitória O peito rompe a capa tormentória Para sorrindo palpitar contente. Eu subo na atitude dolorida De um Cristo a redimir um mundo vário. Aí existe a mágoa em sua essência. Muitos que esgotam do prazer a taça Sentem no peito a dor indefinida. 81 . E em centelhas de raiva ensurdecida A vingança suprema e concentrada. A MÁSCARA Eu sei que há muito pranto na existência. E espuma e ruge a cólera entranhada. E entre a mágoa que masc’ra eterna apouca A humanidade ri-se e ri-se louca No carnaval intérmino da vida. No delírio. porém. Já que do mundo não vinguei-me em vida. Mas se das minhas dores ao calvário. Assim a turba inconsciente passa. Como no mar a vaga embravecida Vai bater-se na rocha empedernida. A morte me será vingança eterna. Dores que ferem corações de pedra.NO MEU PEITO ARDE No meu peito arde em chamas abrasada A pira da vingança reprimida. Espumando e rugindo em marulhada. Em luta co’a natura sempiterna. E onde a vida borbulha e o sangue medra.

dão-te enganos. consente Que neste dia de ventura tanta Vá. Mostrar-te o afeto que meu peito sente. Jóias. Su’alma livre para o Céu se alara. oh! Quantos Ouviram dele frases de candura Que d’infelizes enxugavam prantos! E como alegres não ficaram tantos Corações sem prazer e sem ventura! No entanto dizem que este padre amara. Somente assim festejarei teus anos. Quantos. Da sua fala na eternal doçura Falava o coração. Canta no espaço a passarada e canta Dentro do peito o coração contente. Morrera um dia desvairado. bom Papá. Eu só encontro no primor de rima A justa oferta. a jóia que te exprima O amor fraterno do teu mano Em 28 de abril de 1901 82 . E Deus lhe disse: "És duas vezes santo. Minh’alma alegre no teu rir s’encanta. Irmão querido. um desses santos Sacerdotes da Fé de crença pura." CANTA NO ESPAÇO A PASSARADA Ao meu prezado irmão Alexandre Júnior pelas nove primaverasque hoje completou. Foste do amor o mártir sacrossanto. Pois se da Religião fizeste culto. Enquanto outros que podem. bonecos de formoso busto. Tu’alma ri-se descuidosamente.AMOR E RELIGIÃO Conheci-o: era um padre. num abraço de ternura santa. estulto.

Os seios brancos. Lá encontrei um pálido coveiro Com a cabeça para o chão pendida. Dançavam-lhe no colo perfumado. aveludado. que matou-te o coração?" Ele apontou para uma cruz no chão. morria Uma noute entre as vascas da agonia Tendo no corpo o verme do pecado! 83 . sorrindo tristemente: "Ai! Foi por isso que me fiz coveiro!" PECADORA Tinha no olhar cetíneo. A chama cruel que arrasta os corações. Do fado. No entanto. Do destino fatal.O COVEIRO Uma tarde de abril suave e pura Visitava eu somente ao derradeiro Lar. tomando a enxada gravemente. presa. mornos. amigo verdadeiro. Os seios rijos eram dois brasões Onde fulgia o simb’lo do Pecado. o porte emoldurado No mármore sublime dos contornos. Eu senti a minh’alma entristecida E interroguei-o: "Eterno companheiro Da morte. Ali jazia o seu amor primeiro! Depois. tinha ido ver a sepultura De um ente caro. Moldada pela mão da Natureza. palpitantes. Tornou-se a pecadora vil. esta mulher de grã beleza. Bela. divina. Balbuciou.

úmidas arcadas. Na vastidão silente das caladas Abóbodas sombrias tenebrosas. No sigilo das rezas misteriosas. não acordeis. Que guardam pér’las de funéreas rosas. addio! 84 . Eleonora! Oh! sonhos meus! E o canto se desprende harmonioso Na vibração final do extremo adeus. mudas! IL TROVATORE Canta da torre o trovador saudoso Addio. Nem a sombra mais leve de ventura! Sempre as arcadas ogivais. Trovador torturado e angustioso. E à noute quando rezam na clausura. Que guardam cinzas de ilusões passadas. dolente. Vagueiam tristemente desfiladas De freiras e de monjas tristurosas. E as mesmas monjas sempre tristurosas.Addio. addio. Perdem-se as notas pelo Azul morrendo. Subindo pelo Azul da Inspiração. mavioso. E as mesmas portas impassíveis. desnudas. . Ai! não. Eleonora. os sons esmorecendo. Repercute. pouco a pouco. lembranças minhas! Saudades d’umas noutes em que vinhas Cantar comigo em doce desafio! Mas.NO CLAUSTRO Pelas do claustro salas silenciosas De lutulentas. Assim canta também meu coração.

Primavera. os teus fulgores. . Eu sei a sua história. Num sepulcro de rosas e de flores. para guardar a mágoa oculta. No seu olhar feroz eu adivinho O mistério da dor que a traz penada. soluça . . O cabelo revolto em desalinho.coração saudoso. tão moça e já desventurada. porém. Vai morta em vida assim pelo caminho.O segredo d’um peito torturado E hoje. gargalha.a veste desgrenhada. a desgraçada estulta. Da desdita ferida pelo espinho. Primavera gentil dos meus amores! 85 . Tu que sorveste o fel das minhas dores E me trouxeste o néctar dos teus sonhos! Cedo virá.A LOUCA A Dias Paredes Quando ela passa: . No sudário de mágoa sepultada. Chova-te o Céu cintilações sidéreas E a terra chova no teu seio flores! Esplende. Na auréola azul dos dias teus risonhos. Canta. PRIMAVERA A meu irmão Odilon dos Anjos Primavera gentil dos meus amores. o triste outono. Arca sagrada de cerúleos sonhos. Chora. Moça. Os dias voltarão a ser tristonhos E tu hás de dormir o eterno sono.Arca cerúlea de ilusões etéreas.Em seu passado Houve um drama d’amor misterioso .

Foi outrora do riso abençoado. portanto.avança! E eu.Cantar o Ocaso quando surge a Aurora. tristonha . Na voz da morte a me bradar: descansa! SENHORA. É minha sina perenal. Salve-te a glória no futuro . que vivo atrelado ao desalento. Este luto sem fim que é o meu Calvário E anseio e choro. Também espero o fim do meu tormento. não busques saber por que. Sirva-te a crença de fanal bendito. EU TRAJO O LUTO DO PASSADO Senhora. túm’lo do prazer finado. 86 . delirante e vário. Mas não queiras saber nunca.A ESPERANÇA A Esperança não murcha. risonha. Sonâmbulo da dor angustiado. eu trajo o luto do passado. Muita gente infeliz assim não pensa. Quantas venturas que me acalentaram! Mau peito. E não é a Esperança por sentença Este laço que ao mundo nos manieta? Mocidade. O mistério d’um peito que estertora E o segredo d’um’alma que não sonha! Não. Vão-se sonhos nas asas da Descrença. Voltam sonhos nas asas da Esperança. Senhora. O berço onde as venturas se embalaram. ela não cansa. No entanto o mundo é uma ilusão completa. Também como ela não sucumbe a Crença. ergue o teu grito.

SOFREDORA Cobre-lhe a fria palidez do rosto O sendal da tristeza que a desola. Por entre o resplandor das Primaveeras Oh! madrugada azul dos meus sonhares. porém. Quando o rosário de seu pranto rola. Quem me dera morrer então risonho. Mas volta logo um negro desconforto. santíssima. Vinde entornar a clâmide puríssima Da luz que fulge no ideal sagrado! Longe das tristes noutes tumulares Quem me dera viver entre quimeras. Chora . nervosa e louca Esquecer por momento a mágoa intensa Arrancando um sorriso à flor da boca.o orvalho do pranto lhe perola As faces maceradas de desgosto. sublime na Descrença. Tenta às vezes. Das brancas rosas do seu triste rosto Que rolam murchas como um sol já posto Um perfume de lágrimas se evola. Mas quando vibrar a última balada Da tarde e se calar a passarada Na bruma sepulcral que o céu embaça. Como Jesus a soluçar no Horto! ECOS D’ALMA Oh! madrugada de ilusões. Fitando a nebulosa do meu Sonho E a Via-Láctea da Ilusão que passa! 87 . Bela na Dor. Sombra perdida lá do meu Passado.

Estende o teu olhar à Natureza. o olhar velado No Mistério da Carne Soberana 88 . e. Enquanto o amante pálido. ama.AMOR E CRENÇA E sê bendita! H. a seu lado Medita. O amor é a hóstia que bendiz a Crença. Rendilhando-lhe o colo de sultana. Em flácido abandono Lembra formosa no seu casto sono A languidez dormente da indiana. Emergem da camisa cetinosa Entre as rendas sutis de filigrana. As níveas pomas do candor da rosa. Esse manto de amor doce e clemente Que lava as dores e que enxuga o pranto?! Ah! Se queres saber a sua grandeza. a fronte triste. crê em Deus. pois. nevada. Na altura Imensa. Branca. Sienkiewicz Sabes que é Deus?! Esse infinito e santo Ser que preside e rege os outros seres. Que os encantos e a força dos poderes Reúne tudo em si. Dorme talvez.. num só encanto? Esse mistério eterno e sacrossanto. mimosa. sê bendita! ARIANA Ela é o tipo perfeito da ariana.. Essa sublime adoração do crente. púbere. Fita a cúp’la do Céu santa e infinita! Deus é o templo do Bem. A carne exuberante e capitosa Trescala a essência que de si dimana.

porém. ânsias e gritos De mães que arquejam sobre os probrezitos Filhos que a Fome derrubou na praça. lânguida e bela.A Stella Matutina da Desgraça! 89 . Ao dobre funeral dos tempos idos! NA RUA EM FUNERAL EI-LA QUE PASSA (Lendo o "Poema de Maio") Na rua em funeral ei-la que passa. Da juventude a virginal capela A lhe cingir de luz a fronte baça. Entre todos. . E na choça a lamúria que traspassa O coração.Quero abraçar o meu passado morto. e quero sempre tê-las ao meu lado! Não. dos proscritos. A alma saudosa pelo amor vibrada. além.TEMPOS IDOS Não enterres. . o meu Passado.Dizer adeus aos sonhos meus perdidos! Deixa ao menos que eu suba à Eternidade Velado pelo círio da Saudade. Tem pena dessas cinzas que ficaram. A procissão dos tristes. coveiro. A romaria eterna dos aflitos. Que não se enterra assim sem compaixão Os escombros benditos de um Passado! Ai! Não me arranques d’alma este conforto! . Dos romeiros saudosos da desgraça. Eu vivo dessas crenças que passaram. não quero o meu sonho sepultado No cemitério da Desilusão. Vai Corina mendiga e esfarrapada.

SUSPIRANDO Pareceu-me inda ouvir o nome dela No badalar monótono dos sinos. Mas no mistério astral da noute bela Pareceu-me inda ouvir o nome dela No marulhar monótono das águas! A AERONAVE Cindindo a vastidão do Azul profundo. devassando a terra. um ribeiro claro murmurando Muito baixinho como quem chorava. adeus! E. Sulcando o espaço.eu disse. Voa. ADEUS! E. A aeronave que um mistério encerra Vai pelo espaço acompanhando o mundo. Auroreando a humana consciência. Hermeto Lima Adeus. Para mim no mundo Tudo acabou-se. se eleva em busca do infinito. ADEUS. Súbito ecoou do sino o som profundo! Adeus! . Saí deixando morta a minha amada. É como um despertar de estranho mito. E na esteira sem fim da azúlea esfera Ei-la embalada n’amplidão dos ares.ADEUS. 90 . Fitando o abismo sepulcral dos mares. suspirando. Parecia o ribeiro estar chorando As lágrimas que eu triste gotejava. Vinha o luar iluminando a estrada E eu vinha pela estrada soluçando. apenas restam mágoas. Cheia da luz do cintilar de um astro. Perto. Vencendo o azul que ante si s’erguera. Deixa ver na fulgência do seu rastro A trajetória augusta da Ciência. adeus.

triste. Viu o adeus que do Céu ela enviava. E eu disse . Lá onde nunca chegue esta saudade. Deixa beijar-te a face que descora! Fosses antes a rosa purpurina E eu beijaria a pétala divina Da rosa. Ai! que ao menos talvez na vida escassa Não chorasses à sombra da desgraça. Mas a noute chegou. Minh’alma que de longe a acompanhava. Envolto da tristeza no delírio. estrela do Passado! Esconde-te no Azul da Imensidade.A sombra deste afeto estiolado. E nunca mais eu vi a minha estrela! 91 . Para eu sorrir à sombra da ventura! A MINHA ESTRELA A meu irmão Aprígio A. E quando ela no Azul foi-se sumindo Surgia a Aurora . e a estrela foi p’ra o Céu subindo. tristonho lírio. Se eu sou o orvalho eterno que te chora. .LIRIAL Por que choras assim. onde não pousa a desventura. Disse. Estrela esmaecida do Martírio. com ela Negras sombras também foram chegando.a mágica princesa! E eu vi o Sol do Céu iluminando A Catedral da Grande Natureza. irmã pálida da Aurora. P’ra que pendes o cálice que enflora Teu seio branco do palor do círio?! Baixa a mim.Vai-te.

A esmola dum carinho apetecido. Morre-me a voz. A praça estava cheia. Pedir a Dulce. Caiu na praça como fulminado A soluçar: perdão. Vítima augusta de indelével falso. como este beijo me consola! Bendita seja a Dulce! A minha vida Estava unicamente nessa esmola. Pude rever naquele desgraçado O drama lutuoso da Paixão. o algoz . E ela fita-me.e estertorada A minha voz soluça num gemido. E todo o dia eu vou como um perdido De dor. O condenado Transpunha nobremente o cadafalso. o olhar enlanguescido. E dos lábios de Dulce cai um beijo.. E eu balbucio trêmula balada: .A PRAÇA ESTAVA CHEIA. 92 . O olhar azul pregado n’amplidão. a fé perdida.então.o criminoso . e eu gemo o último harpejo. E na atitude do Crucificado. Puro de crime. isento de pecado. Estendo à Dulce a mão. Quando do algoz cruento o braço alçado Se dispunha a vibrar sem compaixão O golpe na cabeça do culpado Ele. Depois. a minha bem amada. perdão! A ESMOLA DE DULCE Ao Alfredo A..Senhora. perdão. por entre a dolorosa estrada. dai-me u’a esmola .

obumbra-me em teu seio. Lá. E o viver calmo e sossegado tolhe-me! Leva-me. Num desespero rábido.. e à ingrata Luz deste mundo em breve me arrebata E num pallium de tênebras recolhe-me! Aqui há muita luz e muita aurora.venenos d’alma E eu busco a plaga onde o repouso mora. na névoa baça Onde o teu vulto lúrido esvoaça. e. Negrejadas das asas lutulentas Que te emprestar o corvo do Destino! GÊNIO DAS TREVAS LÚGUBRES. ave negra da Desgraça. onde d’água raso O olhar não trago. Gênio das trevas lúgubres. Leva-me o esp’rito dessa luz que mata. acolhe-me.segue a trilha que te traça O Destino.. nem me turba a calma A aurora deste amor que é o meu ocaso! 93 . Seja-te a vida uma agonia intensa! Vives de crenças mortas e te nutres. assassino. E hás de tombar um dia em mágoas lentas. E as trevas moram.crença Perdida ... Há perfumes d’amor .AVE DOLOROSA Ave perdida para sempre . E a alma me ofusca e o peito me maltrata. Gêmea da Mágoa e núncia da Descrença! Dos sonhos meus na Catedral imensa Que nunca pouses. acolhe-me N’asa da Morte redentora. Empenhada na sanha dos abutres.

a vida é qual risonho Batel. Julgo ver nos reflexos de minh’alma As mesmas nuvens deslizando em calma. Chora a saudade envolta nesta espuma! 94 .NIMBOS Nimbos de bronze que empanais escuros O santuário azul da Natureza. a voz do meu saltério! Quando a cândida espuma dessas vagas. dentre a escura Treva do oceano. sem nenhuma Nuvem sequer. sem bruma Que a transparência tolde. negros palinuros Da tempestade negra e da tristeza. Banhando a fria solidão das fragas. e a alma é a Flâmula do sonho. Treme na treva a púrpura da tarde. Reflete a luz do sol que já não arde. só descanta. Mas quando o céu é límpido. Onde a quebrar-se tão fugaz se esfuma. Cada rocha é uma eterna sepultura Banhada pela imácula brancura De ondas chorando num albor etéreo. então. Que o guia e o leva ao porto da bonança. Os nimbos das procelas desta vida. num mar de esp’rança. Abismados na bruma enegrecida. Ah! dessas no bramir funéreo Jamais vibrou a sinfonia pura Do amor. O MAR O mar é triste como um cemitério. Quando vos vejo. Que o céu reflete.

) Nessas paragens desoladas. Tendo a minh’alma presa nos teus braços! Pau d’Arco . quem dera Voar est’alma a ti. Hoje é trevas. e em si a Luz consoladora Do amor . foge . Adeus oh! Dia escuro. E eu ergo preces que ninguém responde.eu busco a virgem loura! Pau d’Arco . FOGE! Aurora morta.1902 AURORA MORTA. num Pálio auroral de Luz deslumbradora. longe dos laços Dessa jaula de carne que a encarcera! Ah! Que unidos assim. o meu único Norte. Donde Fluiu outrora a luz dum doce engano.. Sírius da minha Sorte E da Noute da vida a Vênus Redentora. Nem vibra a corda que a saudade esconde. Ascende à Claridade.esse clarão eterno d’alma forte Astro da minha Paz. Aurora morta. Vem! Rasga deste peito as nebulosas gazas E.1902 95 . O grande Sol de afeto .. foge! Eu busco a virgem loura Que fugiu-me do peito ao teu clarão de morte E Ela era a minha estrela.ANSEIO (NESSAS PARAGENS DESOLADAS. é dor. agita as tuas asas. Anseios d’alma aqui se perdem. lá nos espaços.. onde O silêncio campeia soberano Morreram notas do bulício humano. meu Futuro.o Sol que as almas doura! Fugiu. é desengano. Agora. Dia do meu Passado! Irrompe. oh! Minha Mágoa. Triste criança virginal. Cantarias do amor a primavera..

.os roseirais descoram E elas bóiam no pranto da corrente Que as rosas. Cantando sempre em trínula volata! Aurora ideal dos dias meus risonhos. Quando. No alto. à dolente Unção da noute. as águas límpidas alvejam Com cristais. Pau d’Arco – 1902 CANTA O TEU RISO ESPLÊNDIDA SONATA Canta o teu riso esplêndida sonata. Chora a corrente múrmura.NO CAMPO Tarde. Ri-se o meu coração na tua boca! Pau D'Arco .. as flores também choram Num chuveiro de pétalas. emergindo às trevas que a negrejam. Vai-se minh'alma toda nos teus lábios. chorando enfloram. nitente. Pendem e caem . Branca. no teu riso de anjos encantados. os astros rumorejam Um presságio de noute luminosa E ei-la que assoma . Ah! num delíquio de ventura louca. ao luar. despertando sonhos.Cítara suave dos apaixonados. Aragem suspirosa Agita os roseirais que ali vicejam. Como que um doce tilintar de prata E a vibração de mil cristais quebrados. Sonorizando os sonhos já passados. e. Um arroio canta pela umbrosa Estrada. entretanto.a Louca tenebrosa. E há.1902 96 . úmido de beijos em ressábios Teu riso esponta. Bendito o riso assim que se desata .

Ah! como a branca e merencórea lua. Guarda segredos divinais que eu dera Duas vidas. Pau d'Arco -1902. Eu. E tudo quer que nessa flor se enleve O poeta. A gaze pálida Que lhe serve de alvíssimo sudário Respira essências raras. virginais aromas De essência estranha. noctâmbulo da Dor e da Saudade. P'ra desvendar os seus segredos santos. toda a cálida Mística essência desse alampadário. Se evolarn castos.CRAVO DE NOIVA Ao Dias Paredes Cravo de noiva. sacrossantos. olências de virgínea Carne fremindo num langor de pomas. É que dessa concha armínea Da lactescência angélica da neve. entre os encantos Dum noivado risonho em primavera. PLENILUNIO Desmaia o plenilúnio. A nívea cor de cera Que o seu seio branqueja. Minh'alma triste pelos céus flutua! Pau d'Arco -1902. eterna noctâmbula do Amor. é como os prantos Níveos. que a virgem chora. Também envolta num sudário — a Dor. Voga a lua na etérea imensidade! Ela. Flor dos mistérios d'alma. E a lua é como um pálido sacrário. 97 . Onde as almas das virgens em crisálida De seios alvos e de fronte pálida. se duas eu tivera. Derramam a urna dum perfume vário.

Um dia morto da Ilusão às bordas. Que desespero insano me apavora! Aqui. pompeia a luz da branca aurora.Quero partir em busca do Passado. É como as nênias do Coveiro d'alma! Tudo eterizas num coral de endeixas. . Quando alta noute. Cedo atraiu-me a áurea fulgidia Da refulgência antiga das idades. Ali. chora um ocaso sepultado. bandolim do Fado E de Saudade o peito meu transbordas. E vais aos poucos soluçando mágoas. sonhar novas idades.INSÂNIA No mundo vago das idealidades Afundei minha louca fantasia. vindo de profundas fráguas. Busquei então na nebulosa fria Das Ilusões. E vais aos poucos soluçando queixas! 98 . Teu canto.Quero Correr em busca do Futuro. Mas ao esplendor das velhas majestades Vacila a mente e o seu ardor esfria. Tanto que cantas.. Tanto que gemes. soluças. e eu julgo que nas tuas cordas Choram todas as cordas do Passado! Guardas a alma talvez d'um desgraçado. E eu tremo e hesito entre um mistério escuro: . e ilusões acordas. Choras.. Paraíba -1902 O BANDOLIM Cantas. a lua é triste e calma. bandolim do Fado.

Na etérea limpidez de um sonho branco. O sol. cindindo os céus risonhos. Caíste morta ao celestial preceito. Para nunca tocarem negros sonhos! Caíste enfim no meu sacrário ardente. caindo dos altares. NA ETÉREA LIMPIDEZ.ARA MALDITA Como um'ave. Lúcia sorriu-se à bruma nevoenta. Tocando n'ara negra o níveo seio. alegre e rubro. mas eis que neste enleio. qual hóstia.Esses teus seios que os cerúleos lares Branquejaram de eternos nenúfares. senão co'o o meu olhar te espanco! E eu vi que. A vida Despontava na aurora amortecida  rutilância mágica do dia. à voz de Lúcia. também ria! 99 . E Lúcia disse à bruma lutulenta: . grave e lenta. E a procela chorou n'um fundo arranco De mágoa triste e de paixão violenta. tu vinhas a cindir os ares. Fulgia a bruma para sempre.. Meiga. E eu vi os seios teus virem inconhos . E. Quiseste-me beijar a ara do peito.. agora.Foge. E eu quis beijar-te o lábio redolente. e como Lúcia. Aquele riso despertava a aurora! E tudo riu-se. O céu tremia em seu trevoso flanco. Foste caindo n'ara dos meus sonhos. E beijei-te.

Que beija a terra e que abençoa os campos. E a lua. Longe das sombras aurorais e amadas. E em mim como no Templo. Flores mortas da Aurora. Beije-te o seio e te abençoe o ventre! O TEMPLO DA DESCRENÇA O Templo da Descrença . o túmulo da Crença. Sentes o peito em ânsias revoltadas. ao ver-te nua. e.o círio Da Quimera Falaz. Em mim como no Templo a Angústia se condensa. Nua. ante o branco estendal das madrugadas. às fundas Águas do mar das glórias obumbradas.A colunata êxul do Sonho Morto . em banho ideal de amor te inundas.ei-lo que avisto. A imensa Cruz da Dor está serena como um lírio! E vejo o pedestal que sustenta o Martírio. E a rasgar. luminosa. a rasgar o lúrido sacrário. á luz das alvoradas santas Ungem-te o corpo redolências tantas. eis que emerges. o Mundo se concentre. em bando. E.TREVA E LUZ Neste pélago escuro em que te afundas. eu sombrio chorando Ante a imagem fatal do Sepulcro da Crença! 100 . Agora. Que. urnas de Sonho. a Virgem Mãe dos céus escampos. e. Tudo! até o altar onde a Angústia vibra intensa N'uma fúria assombrai de feras em delírio! Penetro louco enfim o abismo funerário. E vejo o pedestal que sustenta a Descrença! . Diluis teu peito em sensações profundas. Mas.

santa de inocência! Anjo de luz de astral aurifulgência. ela.O sol a segue. Todos dizem co'os olhos para a Sorte .Fúlgido foco de escaldantes brasas . formosa entre as formosas. No olhar d'amor a mística fulgência E o misticismo cândido das rosas.É o castigo de Deus que passa mudo! . Quero-te assim .A PESTE Filha da raiva de Jeová .. ... semeando a Morte. Colmado o seio de virentes flores. Plena de graça..o astro Deixa um rastro de luto em cada canto! IDEAL Quero-te assim. entre esplendores.. tudo! Quando Ela passa. Etéreo como as Wilis vaporosas. 101 . formosa. Embaladas no albor da adolescência. E como o sol que a segue e deixa um rastro De luz em tudo.a Peste N'um insano ceifar que aterra e espanta. Como o Cristo sagrado dos altares.Virgens filhas das virgens nebulosas! Quero-te assim. e a Peste ri-se. tudo chora. enquanto Vai devastando o coração das casas. A alma diluída em eterais cismares.. De espaço a espaço sepulturas planta E em cada coração planta um cipreste! Exulta o Eterno e. como o sol .e que bendita sejas Como as aras sagradas das igrejas.

Chegou a Noite. E para mim.. Açucena de Deus. ah! ninguém me responde.Irei agora. pátria da Aurora exilada do Sonho! .Harpa virgem brandindo mil delírios! Quedo-me aos poucos.. a teus pés. E o lábio meu pra sempre apartado do teu Não há de beijar mais o teu lábio querido! Ah! Quando tu morreste. Perdão! E este sepulcro imenso que não fala! 102 . Perdão! E este silêncio e esta tumba que cala! Insânia. lírio morto do Céu! Perdão! E a minha voz estertora um gemido.. insânia. o meu Sonho morreu! Perdão.. penseroso e pasmo. assim. É a música de Deus que vem do Céu! SÚPLICA NUM TÚMULO Maria... perdoa o teu vencido.CÍTARA MÍSTICA Cantas. Como o santo levita dos Martírios. meu anjo. pelo mundo. Teu canto agora é um salmodiar de arcanjo. E eu ouço etérea cavatina! Há nos teus lábios . eis-me a teus pés. insânia. E a Noite afeia corno num sarcasmo E agora a sombra vesperal morreu.. para onde Me levar o Destino abatido e tristonho.dois sangrentos círios A gêmea florescência de dois lírios Entrelaçados numa unção divina... Eu venho arrependido. Implorar-te o perdão do imenso crime meu! Eis-me. . Rendo piedosa dúlia peregrina À tua doce voz que me fascina. pois..

supremos. e. porém. Turificando a languidez dum seio! O amor. que da Desgraça veio Maldito seja.. Por um Cocito ardente e luxurioso. Desce para a alma o ocaso da Carícia Ora em sonhos de Dor. seja como o fardo Desta descrença funeral em que ardo E com que o fogo da paixão ateio! Funambulescamente a alma se atira À luta das paixões. Transpus um dia o Inferno Azul do Gozo! O amor em lavas de candência d'aço.AFETOS Bendito o amor que infiltra n'alma o enleio E santifica da existência o cardo. e ora Em contorço es supremas de Delícia! MARTÍRIO SUPREMO Duma Quimera ao fascinante abraço. Cristo d'amor morri pela inocência! 103 . Banhou-me o peito..Amor que é mirra e que é sagrado nardo.. Em ânsia de repouso. Onde nunca gemeu o humano passo.. . no Inferno do Gozo. Da Messalina fria no regaço. sem Calvário. Mas. Tinha os lábios crestados pela ardência Da luz letal do grande Sol do Vício! E mergulhei mais fundo no estuário. como a Aurora Que ao beijo vesperal anseia e expira. Chora saudades do terreno pouso! Como um mártir de estranho sacrifício.

SOMBRA IMORTAL .E tu velas. lá dos braços hercúleos.... a sós..Lua que esfria o sol do meu desejo! 104 .. Domados pela meiga Ónfale a que me rendo! CORAÇÃO FRIO Frio o sagrado coração da lua. nem mais alquebre Um coração como a alma que está morta. desvalida e nua! E o olhar perdi. Lua que já passou e que hoje ainda corta O penetral que guia à derradeira estância. no pó da fulgurância Como uma velha cruz vela na sombra morta! Fora. E estavas morta.Sonâmbulo glacial da estranha pena! Estavas fria! A neve que a alma corta Não gele talvez mais. a noute é tumbal.. eu vi.. Ah! que um dia da Vida. Como um'alma de mãe... Teu coração rolou da luz serena! E eu tinha ido ver a aurora tua Nos raios d'ouro da celeste arena.. estes dardos acúleos Caíam. me acalenta e conforta! Noute! E somente tu velas a rutilância. e a saudade da infância. .. ansiando a luz amena No silêncio notívago da rua. . num lânguido smorzando A sombra virginal qu'eu adoro chorando E há de um dia amparar-me na luta correndo. E vi-te triste. eu que te almejo. também da Dor. O penetral que leva à derradeira porta! Revejo em ti. mulher. Sombra de gelo que me apaga a febre..

. e no Santo harpejo. chegando.imenso moribundo E a noute veio na negrura d'asa. e é noute de fatais abrolhos.. Santificada pela Dor do Mundo! U'a luz. Alva d'aurora... E um canto vai morrer no vale fundo. tu. Chegaste.. Para o Infinito e para o Céu voltados! Cantas.) Para o vale noital da eterna gaza Rolou o Sol . entanto. ajoelhando à imagem do Carinho.. Que luz é esta que das brumas vasa. Uma pantera foi se ajoelhando. te acolheu a mata. e. Rendida ao eflúvio do teu seio casto! 105 . Bendita a Santa do Carinho.NOTURNO (PARA O VALE NOITAL. inata! E. e em lânguida sonata Vinhas transpondo a margem do caminho. Choras. e no meu peito estes teus olhos Como que cravam dois punhais gelados! SEDUTORA Alva d'aurora. o seio branco. profundo?! Rumores santos. Pérolas e ouro pela serrania. virginal. O roble altivo entreteceu4e um ninho. no negror me abrasa. No lago branco e rútilo do dia O azul pompeava para sempre vasto. Que canto é este.. Somente tristes os teus olhos vejo. Alvorejando em arrebol de prata. Branca bem como empalecido arminho...

Eflúvios quentes e fatais quebrantos Crestam a alma das virgens adormidas.. E o mar chamou-a para o funda abismo! E o céu chamou-a para o Misticismo. mórbidos encantos. 106 .. Nos campos-santos enterrando os Sonhos! E O MAR GEMEU A FUNDA MELOPÉIA E o mar gemeu a funda melopéia À luz feral que a tarde morta instila.. E a paixão morre e os corações coveiros Vão como duendes pelos céus risonhos. Chorando auroras músicas perdidas Na estrada santa ensangüentando as Vidas.PELO MUNDO Ânsias que pungem. Qual rosa branca que ao tufão vacila. no Alto. E as brumas velam nos sinistros mantos E as virgens dormem nas tumbais jazidas! Súbitos fremem 'spasmos derradeiros. Já Vésper. Vão pelo mundo ensangüentando as Vidas. Triste como um soluço de Dalila.. Nesse momento a Lua vinha calma E céu e mar num desespero mudo Não viram que num halo de veludo À alma de Déa se evolava est'alma. Crepitaç5es de flamas incendidas Nalma explodindo como fogos santos. cintila! Naquela hora morria para a Idéia A minha branca e desgraçada Déa. Fria como um crepúsculo da Judéia. e lânguida.

Desfaz-se o peito em vibrações dormentes E o Fado geme sob a névoa fria! Que eu sinta n'alma o que tu n'alma sentes! Nesta Missa de Atroz Melancolia Bebes chorando o Vinho da Agonia .Ele. coração.quem mede-o?! . No ar. saturnal do Inferno! Eu te bendigo! No mundano cúmulo És a Ironia que tombou no túmulo Nas sombras mortas de um desgosto eterno! VAMOS.Consagração das almas padecentes! Foi numa tarde assim que nos amamos... E ergue à sombra da dor a que se irmana Lauréis de sangue de volúpia insana. Clarões de sonho em nimbos de epicédio! Bendito sejas. tristíssimo palhaço" Cruz e Souza O Riso .Fogo sagrado nos festins da Morte .. Na Via-Látea fria do Nirvana. clown da Sorte . Punge-me o peito da Saudade o cardo Enquanto um mocho. que ao frio alvor da Mágoa Humana. Silfos morriam.A hora dos tristes e dos descontentes. os gaturamos Num recesso de névoa. adormecida.. Canta no espaço a maldição da Vida! 107 .o voltairesco clown .O RISO "Ri.Eterno fogo. Alenta a Vida que tombou no Tédio! Que à Dor se prende. e a todo o seu assédio. sonolento e tardo. QUERIDA! Vamos. querida! Já é Ave-Maria . Riso.

A UMA MÁRTIR Alma em cilício, vem, enrista a dava, Brande no seio o espículo e o acinace E unjam-te o seio que d'auroras nasce Sangrentas bênçãos eclodindo em lava! Nossa Senhora te unge a face escrava, Cristo saudoso te abençoa a face De monja - violeta que do Céu baixasse À Virgem Santa Natureza brava! Vais caminhando para a terra extrema, Rosa dos Sonhos! e o teu galho trema E a tua crença, o desespero mate-a... E em nuvens d'ouro ascende enfim ao plaustro Da Neve Eterna, estrela azul do claustro, Levada para o Azul da Via-Látea!

RÉGIO Festa no paço! Noite... E no entretanto Luzes; flores, clarões por toda a festa E há nos régios salões, em cada aresta, Credências d'ouro de supremo encanto. No baldaquino a orquestra real se apresta E o áureo dossel finge um relevo santo... - Bissos egípcios d'alto gosto, a um canto, Flordilisados de nelumbo e giesta. Morreu a noite e veio o Sol Eterno - Âmbar de sangue que desceu do Inferno No turbilhão dos alvos raios diurnos... Brilham no paço refulgências de elmo E a princesa assomou corno um santelmo Na realeza branca dos coturnos.

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PELO MAR Manhã em flor. O mar é um policromo E imenso lago d'íris e alabastros... À aurora é branco e ao sol, o mar é como Um pálio imenso que caiu dos astros. Longe, bem longe, no alvoral assomo Ergue um navio os altanados mastros E o Oceano dorme - alourecido pomo Num leito irial de pérolas e nastros. A alma da Mágoa vai pelo seu dorso, Em sonhos geme... Um coração de corso Geme no mar, vibra no mar, entanto, Colma-lhe o seio a opala das esponjas... E à noute morta choram vagas - monjas Purificadas no cristal do pranto!

PALLIDA LUNA És do Passado! Vieste d'alvorada N'asa dos elfos pela Morte espalma... Cantas... e eu ouço esta berceuse calma Da harpa dos mundos ideais do Nada! Ergue o Missal brilhante de tu'alma, Mas nessa elevação mistificada, Vem, que eu te espero, Deusa constelada Desce, anêmona êxul que o Céu ensalma! Venhas e desças, Lua dos Martírios, Desças, mas venhas pela unção dos lírios. Visão de Ocaso de enluaradas comas, Vaso de Unção descido dos espaços, Para ungirmos nós dois, os nossos paços, Na tule idealizada dos aromas.

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A MORTE DE VÊNUS Velhos berilos, pálidas cortinas, Morno frouxel de nardos recendendo Velam-lhe o sono... e Vênus vai morrendo No berço azul das névoas matutinas! Halos de luz de brancas musselinas Vão-lhe do corpo virginal descendo - Abelha irial que foi adormecendo Sobre um coxim de pérolas divinas. E quando o Sol lhe beija a espádua nua, Cai-lhe da carne o resplendor da Lua No reverbero dos deslumbramentos... Enquanto no ar há sândalos, há flores E haustos de morte - os últimos clangores Da música chorosa dos mementos!

MÁRTIR DA FOME Nesta da vida lúgubre caverna De ossos e frios funerais que eu sinto Corno um chacal saciando o eterno instinto Vou saciando a minha Fome Eterna. - Fome de sangue de um Passado extinto, De extintas crenças - bacanal superna, Horrível assim como a Hidra de Lema E muda como o bronze de Corinto! Ânsias de sonhos, desespero fundo! E a alma que sonha no marnel do Mundo, Morre de Fome pelas noites belas... E como o Cristo - o Mártir do Calvário Morre. E no entanto vai para o estelário Matar a Fome num festim de estrelas!

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SONHO DE AMOR Sobre o aromal e amplo coxim de Flora, Que os vapores da tarde inda incensavam E que um incenso tênue e bom vapora, Os namorados lânguidos sonhavam. A alma do Ocaso entrava o céu agora E havia pelas tênebras que entravam Ora estrangulamentos surdos, ora Ruídos de carnes que se estrangulavam. E sonharam assim durante toda A noute, e toda a alva manhã durante! - O Sol jorrava largos raios longos E em roda víride e nevado, em roda, Lembrava o campo um colorido ondeante De vidros verdes e cristais oblongos!

A ORGIA MATA A MOCIDADE A orgia mata a mocidade, quando Rugem na carne do delírio as feras, E o moço morre como está sonhando Nas suas vinte e cinco primaveras. Em cima - o oiro sem mancha das esferas, Em baixo oiro manchado de execrando Festim de sibarita:, das heteras Lubricamente se despedaçando! Em cima, a rede do estelário imáculo Suspensa no alto como um tabernáculo - A orgia, em baixo, e no delírio doudo Corno arvoredos juvenis tombados Os moços mortos, os brasões manchados, E um turbilhão de púrpuras no lodo!

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Saio de casa. recordando a estria Dos corpos de Afrodite e Vênus. Os passos mal seguros Trêmulo movo. e ao compasso de arrabis serenos A valsa rompe.FESTIVAL Para Jônatas Costa Címbalos soam no salão. NOTURNO (CHOVE. Vibra.. Desencadeados. LÁ FORA. vão bater. em compassados trenos Sobre os veludos da tapeçaria. Estatuetas de mármore de Lemnos Estão dispostas numa simetria Inconfundível.. mas meus movimentos Susto. batendo em todas as retinas. E eu sonho erguer-me aos páramos etéreos Enquanto a chuva cai nos cemitérios E o vento apaga os lampiões da rua! 112 . Os ventos.. ameaçando os séculos futuros! De São Francisco no plangente bronze Em badaladas compassadas onze Horas soaram. Lá fora os lampiões escuros Semelham monjas a morrer. violentos.. E em meio ás refrações verdes e hialinas. diante do vulto dos conventos. De encontro ás torres e de encontro aos muros. Surge agora a Lua.. O dia Foge.. Fulgem por entre mil cristais vermelhos O alvo cristal dos nítidos espelhos E a seda verde dos arbustos glabros. Negro. A incandescência irial dos candelabros.) Chove.

. Diluiu o silêncio em litanias.... E hoje. poetas. os vermes vis.. verão. Primavera. A Dor meu coração torça e retorça! Cubra-me o corpo a podridão dos trapos! Os vibriões. outono. Ele que foi um forte Que nunca se quebrou pelo Desgosto Morreu. enquanto o Tédio a carne me trabalha. tão sereno e forte! Quando meu Pai deixou o lar amigo Um sabiá da casa muito antigo.. . mas não deixou na ara do rosto Um só vestígio que acusasse a Morte! O anatomista que investiga a sorte Das vidas que se abismam no Sol-posto Ficaria admirado do seu rosto Vendo-o tão belo. já faz sete dias Que eu ouço o canto desse sabiá! VAE VICTIS A Dor meu coração torça e retorça E me retalhe como se retalhe Para escárnio e alegria da canalha Um leão vencido que perdeu a força! Sobre mim caia essa vingança corsa. os sapos Encontrem nele pábulo eviterno. Que há muito tempo não cantava lá. inverno! 113 .Repositório de milhões de miasmas Onde se fartem todos os fantasmas.E ELE MORREU Ao sétimo dia de seu falecimento E ele morreu.. Já que perdi a última batalha! E.

A DOR Chama-se a Dor. abraçado às campas dos poetas.. Pare chorando nesta Terra Santa. Aqui é o Campo-Santo. enluta E todo mundo que por ela passa Há de beber a taça da cicuta E há de beber até o fim da taça! Há de beber. Derrama em cada boca envenenada Mais uma gota do fatal veneno! TERRA FÚNEBRE Aqui morreram tantos poetas! Tanta Guitarra morta este lugar encerra!. e a ameaça Amarga dessa desgraçada fruta Que é a fruta amargosa da Desgraça! E quando o mundo todo paralisa E quando a multidão toda agoniza. e o travo há de sentir. ela. Ela. aqui é a Terra! Em que a alma chora e em que a Saudade canta! O caminheiro que o Pesar desterra.Esse sombrio trovador é o Inverno! Aqui é a Terra.. onde. e quando passa. inda o olhar sereno De agonizante multidão rodeada. E se cantar como a Saudade canta. inda altiva. ao noturno açoute. Gemem poetas .pássaros da Noute! 114 . Carpem na sombra pássaros ascetas. enxuto o olhar. O caminheiro fique nesta Terra! À noute aqui um trovador eterno Chora. enxuta A face. .

eu penso na Ventura! E o pensamento. e por fim. Luta.O SONHO. assomem Descrenças. do meu seio Partiu num célere arrebatamento De minha crença arrebentando a grade Pois se eu não amo e se também não creio De onde me vem este contentamento. A CRENÇA E O AMOR O sonho. nada há que o abata e o vença! Por isso. o sonho. De onde me vem esta felicidade?! MEDITANDO Penso em venturas! A alma do homem pensa Sempre em venturas! Sorte do homem! O homem Há de embalar eternamente a crença Sem ter grilhões e sem ter leis que o domem! Punjam-no os vermes da Desgraça. no imenso Azul do Firmamento Ir rolando pelo ouro das estrelas. surjam tédios na Descrença. E esse ouro santo vir rolando pelas Trevas profundas do meu pensamento! 115 . que não ama e que não sonha?! Pois a alma acostumada a ser tristonha Pode achar por acaso ou porventura Felicidade numa sepultura. a crença e o amor. e morrem os vermes que o consomem. na Suprema Altura Sinto. Contentamento numa dor medonha?! Há muito tempo. Vence. poeta. sendo a risonha Santíssima Trindade da Ventura Pode ser venturosa a criatura Que não crê.

e.. Terá no entanto indubitavelmente A admiração do século presente E a sagração dos séculos vindouros! SONETO A FREDERICO NIETZCHE Para que nesta vida o espírito esfalfaste Em vás meditações.. auríferos tesouros. Feito no decurso de dois minutos.. pois.Construíste de ilusões um mundo diferente. Depois quando no irmão estremecido Fazem aliança o gênio e a probidade. por fim. nada achaste! A loucura destruiu tudo que arquitetaste E a Alemanha tremeu ao teu gemido fundo.. Tesouros reais.. Atinge o amor um grau nunca atingido No termômetro santo da Amizade. estudares. para penetrar o mistério das lousas. em homenagem ao aniversário natalício de Alexandre Rodrigues dos Anjos 28 de abril de 1905.... O homem e a lesma e a rocha e a pedra e o carvalho e a haste?! Pois.PARA QUEM TEM NA VIDA. De que te serviu. profundo. nada achaste. homem meditabundo?! Escalpelaste todo o cadáver do mundo E. Desconheceste Deus no vidro do astrolábio E quando a ciência vã te proclamava sábio A tua construção quebrou-se de repente! 116 . por fim. O Alexandre dos Anjos merecia Grandes coroas nesse grande dia. Foi-te mister sondar a substância das cousas . Para quem tem na vida compreendido Toda a grandeza da Fraternidade O aniversário dum irmão querido A alma de alegres emoções invade.

. .ei-Ia que sobe ainda! Pau D'Arco – 1905 117 . E subiu tanto e subiu tanto e tanto Que hoje que és morto. . Embora oculta..as flores e os metais e os frutos Simbolizados nesse colorido! VINHAS TRILHANDO GÁRRULO A AVENIDA À memória do meu colega Caldas Líns Vinhas trilhando gárrulo a Avenida Onde Deus manda que todo homem goze. dois gigantes mudos..santa nevrose que com fios de ferro as almas cose Principalmente se uma está ferida! Das tuas dores na procela brava Não soubeste talvez que eu te estimava! Mas a amizade oculta não se finda. em ânsias. Quando o fantasma da tuberculose Pediu-te. no entanto. Representando a integridade humana! Nesses braços de força soberana Gloriosamente á luz do sol desnudos Ao bruto encontro dos ferrões agudos Gemeu por muito tempo a alma africana! No colorido dos teus brônzeos braços. São dois colossos. o óbolo da Vida! Recordo agora a nossa despedida Na Estação do Cobé.O NEGRO Oh! Negro.. Fulge o fogo mordente dos mormaços E a chama fulge do solar brasido.. ela subiu. oh! Filho da Hotentóia ufana Teus braços brônzeos como dois escudos.. E eu cuido ver os múltiplos produtos Da Terra .

ver Se nesta ânsia suprema de beber. Implora a Deus como a um fetiche vago. uma convulsão a engasga E morre ouvindo o mesmo canto aziago! 118 . quantos também deixei. A estrada torta Lembrava a antiga ponte de Sublício.. ira-o morrer também. A ninguém nunca eu contarei a história Dos que.E o horror começa! Rasga As vestes.Quer fugir.Se ao menos voasse! .... Havia pelo chão um desperdício De folhas que a áurea xantofila corta. O CANTO DA CORUJA A coruja cantara-lhe na porta Sinistramente a noite inteira! Indício Mais certo não havia! . como eu.Novo Sileno.Era o suplício!.em busca de ascender A essa Babel fictícia do Prazer Que procuravam e que eu procurava. Daí a pouco. Buscava Em verdes nuanças de miragens. Quantos também. ela seria morta. . como eu. Saiu. Achava a Glória que ninguém achava! E todo o dia então eu me embriagava ... Mas eu não contarei nunca a ninguém.O ÉBRIO Bebi! Mas sei porque bebi!. Nisto. e não vê por onde fuja.. Trás de mim. foram buscar a Glória E que.. O Sol ardia. ouve o canto aziago da coruja! . . na atra estrada que trilhei.

. pressentindo a lousa. Olha essa neve pura! . Batendo com a cabeça no barrote Da guilhotina.. Por isso..SENECTUDE PRECOCE Envelheci..... E eu que julgava em minha idealidade Ver inda toda a geração futura! Eu que julgava! Pois não é verdade?! Hoje estou velho. vivia.Aqui ainda havia alguma cousa. Assim como uma casa abandonada.. E afora disto.. A cal da sepultura Caiu por sobre a minha mocidade.Foi saudade? Foi dor? . de repente.Continua a cantar. Sei que na infância nunca tive auroras. eu já nem sei mais nada! ANDRÉ CHÉNIER Na real magnificência dos gigantes. a alma serena. canta vibrantes Versos divinos que arrebatam a hoste. Mas. Vinte e quatro anos em vinte e quatro horas. diz ao povo: "É pena! ." Pau d'Arco -1905 119 . Não há quem nele um só tremor denote! .. Grave como um lacedemônio harmoste André Chénier ia subir ao poste A que Luís XVI subira dantes! Que a sua morte a homem nenhum desgoste E incite o heroísmo das nações distantes. ele a morrer.Foi tanta agrura Que eu nem sei se foi dor ou foi saudade! Sei que durante toda a travessia Da minha infância trágica.

Da tribo alegre que povoa os ares.Assombrava-me aquela claridade! Mas através daquelas falsas luzes Pude rever enfim todas as cruzes Que têm pesado sobre a Humanidade! ILUSÃO Dizes que sou feliz. que nessa crença infinda Feliz me viste no Passado. não andei mais sozinho! Abraçou-me. E eu me elevava. Diz que ele não morreu. beijou-me com um carinho Que a um ser divino não seria dado. A múmia de um herói do tempo de Ísis. Ostenta ainda as mesmas cicatrizes Que eternizaram sua heroicidade! Quem vê o her6i. A infelicidade Parece às vezes com a felicidade E os infelizes mostram ser felizes! Assim.. e ainda Te persuades de que sou feliz! 120 . em Tebas . Dizes Tudo que sentes. sendo assim beijado Muito acima do humano borborinho! Falou-me de ilusões e de luares.. E. Bem como tu. persuadido fica do que diz... o vulto ia a meu lado E desde então. inda com o braço altivo.a tumbal cidade. Para onde eu ia.... diz que ele é vivo..MYSTICA VISIO Vinha passando pelo meu caminho Um vulto estranhamente iluminado. . Não mentes.

Por toda a parte viu seu nome escrito! Vieram-lhe as ânsias. antes de viver! Meu corpo.. aos tropeços. de saudades me despedaçando De novo.NOME MALDITO Das trombetas proféticas o alarde Falou-lhe. a sofrer E acostumado a assim sofrer existo. assim. Sofreu o que olhos de homem não têm visto E olhos de fera não puderam ver! Acostumei-me. assim como o de Jesus Cristo. à tarde. apesar disto Inda cadáver hei também de ser! Quando eu morrer de novo. quando Eu. ia. E. onde. amigos. Por toda a parte.. com medo do Infinito. assombrado. Saiu aos tombos. Não há divina proteção que o guarde!" Dúvidas cruéis! Momentos cruéis! Incertos E cruéis momentos! Ânsias cruéis! E. A lua continue sempre a nascer! 121 .. Teve sede e fome.O tamarindo reverdeça ainda. pois. A percorrer desertos e desertos. Existo! . Nada se altere em sua marcha infinda .E apesar disto. triste e sem cantar.. como um cão covarde. morrer... E foi assim que ele morreu um dia Amaldiçoado pelo próprio nome! DOLÊNCIAS Eu fui cadáver. por seus onze augúrios certos: "E maldito o teu nome! E aos céus abertos.

.O farmacêutico me obtemperou.A LÁGRIMA . porque isto é que origina A lágrima de todos os vencidos! . .. Vem-me então à lembrança o pai Ioiô Na ânsia psíquica da última eficácia! E logo a lágrima em meus olhos cai.A farmacologia e a medicina Com a relatividade dos sentidos Desconhecem os mil desconhecidos Segredos dessa secreção divina. Ah! Basta isto. Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu Pai Do que todas as drogas da farmácia! 122 . água e albumina.Faça-me o obséquio de trazer reunidos Clorureto de sódio.

vibra A alma dos movimentos rotatórios.. Da substância de todas as substâncias! A simbiose das coisas me equilibra. A podridão me serve de Evangelho. possuo uma arma -. A saúde das forças subterrâneas E a morbidez dos seres ilusórios! Pairando acima dos mundanos tetos. Pólipo de recônditas reentrâncias.O metafisicismo de Abidarma -E trago. Não conheço o acidente da Senectus -. Do cosmopolitismo das moneras. os resíduos ruins dos quiosques E o animal inferior que urra nos bosques É com certeza meu irmão mais velho! Tal qual quem para o próprio túmulo olha. procedo Da escuridão do cósmico segredo.OUTRAS POESIAS MONÓLOGO DE UMA SOMBRA “Sou uma Sombra! Venho de outras eras.. Larva de caos telúrico. O amarelecimento do papirus E a miséria anatômica da ruga! Na existência social. simultâneas. 123 .. Amo o esterco. E é de mim que decorrem.Esta universitária sanguessuga Que produz.. Como um pouco de saliva quotidiana Mostro meu nojo à Natureza Humana. À luz do americano plenilúnio... sem dispêndio algum de vírus. Amarguradamente se me antolha. ampla. Como um dorso de azêmola passiva. Em minha ignota mônada. sem bramânicas tesouras. A solidariedade subjetiva De todas as espécies sofredoras.

Como quem se submete a uma charqueada. O espólio dos seus dedos peçonhentos. 124 . ondulação aérea. abdômen. Que. Trazendo no deserto das idéias O desespero endêmico do inferno. Estrangulada dentro da matéria! E o que ele foi: clavículas. amanhã. a boca. Tal a finalidade dos estames! Mas ele viverá. a coçar chagas plebéias. -.Na alma crepuscular de minha raça Como uma vocação para a Desgraça E um tropismo ancestral para o Infortúnio.Engrenagem de vísceras vulgares -Os dedos carregados de peçonha. Fonte de repulsões e de prazeres. bestas agrestes. Aí vem sujo. Sonoridade potencial dos seres. quebrando estéreis normas. magnetismo misterioso. A que todas as coisas se reduzem! E hão de achá-lo. já nos últimos momentos. iguais a fogos passageiros. O coração. Raio X. A vida fenomênica das Formas. o Homem. tatuada de fuligens Esse mineiro doido das origens. Que se chama o Filósofo Moderno! Quis compreender. Quimiotaxia. E apenas encontrou na idéia gasta. causa ubíqua de gozo. Tudo coube na lógica medonha Dos apodrecimentos musculares. Ao clarão tropical da luz danada. O horror dessa mecânica nefasta. em síntese. Com a cara hirta. Nas eterizações indefiníveis Da energia intra-atômica liberta! Será calor. Sobre a esteira sarcófaga das pestes A mostrar. rotos os liames Dessa estranguladora lei que aperta Todos os agregados perecíveis. luzem.

ébrio de vício. Vendo as larvas malignas que se embrulham No cadáver malsão. em suas clélulas vilíssimas. o monstro as vítimas aguarda. Uivando.. No horror de sua anômala nevrose. E após tantas vigílias. Como que.. igual à luz que o ar acomete. Suas artérias hírcicas latejam. Há estratificações requintadíssimas De uma animalidade sem castigo. vai gozar. Lembra a fome incoercível que escancara A mucosa carnívora dos lobos. Negra paixão congênita. Toda a sensualidade da simbiose. brincam. No sombrio bazer domeretrício..A desarrumação dos intestinos Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos Dentro daquela massa que o húmus come. Do seu zooplasma ofídico resulta. O cuspo afrodisíaco das fêmeas. Como as cadelas que as dentuças trincam No espasmo fisiológico da fome. Como no babilônico sansara . E até os membros da família engulham. Sentindo o odor das carnações abstêmias. Num suicídio graduado. E à noite. reduzir-se À herança miserável dos micróbios! Estoutro agora é o sátiro peralta Que o sensualismo sodomita exalta.... 125 . Sôfrego. em lúbricos arroubos. Brancas bacantes bêbadas o beijam. À guisa de um faquir. Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo. consumir-se. à noite. É uma trágica festa emocionante! A bacteriologia inventariante Toma conta do corpo que apodrece. fazendo um s. pelos cenóbios?!.. E explode.. Numa glutonaria hedionda. E foi então para isto que esse doudo Estragou o vibrátil plasma todo. bastarda.

Mostrando. E de su’alma na caverna escura. Que tateando nas tênebras. É o despertar de um povo subterrâneo! É a fauna cavernícola do crânio -.Com a veemência mavórtica do aríete E os arremessos de uma catapulta. Quando o prazer barbaramente a ataca. Reconhecendo.. Mas muitas vezes.. se estende Dentro da noite má. A família alarmada dos remorsos. em rembrandtescas telas várias. Essa necessidade de horroroso. torna água Todo o fogo telúrico profundo 126 . Numa coreografia de danados. observa através a tênue trança Dos filamentos fluídicos de um halo A destra descarnada de um duende.. As incestuosidades sanguinárias Que ele tem praticado na família. Acorda.Macbeths da patológica vigília. Hirto. As alucinações tácteis pululam. Dentro da elipse ignívoma da lua A realidade de uma esfera opaca. Que é talvez propriedade do carbono! Ah! Dentro de toda a alma existe a prova De que a dor como um dartro se renova. observa a ciência crua. para agarrá-lo! Cresce-lhe a intracefálica tortura. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa! Míngua-se o combustível da lanterna E a consciência do sátiro se inferna. quando a noite avança. com os candeeiros apagados. esculpindo a humana mágoa. Fazendo ultra-epiléticos esforços. Somente a Arte. bêbedo de sono. Sente que megatérios o estrangulam. Na própria ânsia dionísica do gozo. Abranda as rochas rígidas. Assim também. A asa negra das moscas o horroriza..

A orquestra arrepiadora do sarcasmo! Era a elegia panteísta do Universo. Da luz da lua aos pálidos venábulos. -.. Na produção do sangue humano imenso. Julgava ouvir monótonas corujas. entanto.O último solilóquio dos suicidas -E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva!” Disse isto a Sombra.O ferido que a hostil gleba atra escarva. Executando. até que minha efêmera cabeça. em suas bases. a desintegre. Chorando e rindo na ironia infausta Da incoerência infernal daquelas frases.O homicídio nas vielas mais escuras. Reverta à quietação datrava espessa E à palidez das fotosferas mortas! 127 .E reduz. Que a mais alta expressãoda dor estética Consiste essencialmente na alegria. Era a canção da Natureza exausta. Prostituído talvez. À condição de uma planície alegre. Há-de ferir-me as auditivas portas. E o turbilhão de tais fonemas acres Trovejando grandíloquos massacres. Continua o martírio das criaturas: -.. A aspereza orográfica do mundo! Provo desta maneira ao mundo odiento Pelas grandes razões do sentimento. entre daveiras sujas. E. -. Na ânsa de um nervosíssimo entusiasmo. Sem os métodos da abstrusa ciência fria E os trovões gritadores da dialética. ouvindo estes vocábulos. sem que.

. O Egito é sempre assim quando anoitece! Às vezes. no apogeu da fúria. Resplandece a celeste superfície. Tonto do vinho. na mais próxima planície. O céu claro e produndo Fulgura.. Executando evoluções de razzia Solta um brado epilético de injúria! Em derredor duma ampla mesa preta -. Apenas como um velho stradivário.Última nota do conúbio infando -Vêem-se dez jogadores de roleta Fumando. um saltimbanco da Ásia. O Cairo é de uma formosura arcaica. Troam kinnors ! Depois tudo é tranqüilo. A Lua cheia Está sinistra. Pasta um cavalo esplêndido da Arábia. e sobre a paz do mundo A alma dos Faraós anda e vagueia. Num quiosque em festa alegre turba grita. No ângulo mais recôndito da rua Passa cantando uma mulher hebraica. E dentro dançam homens e mulheres Numa aglomeração cosmopolita. Embaixo... Convulso e roto. discutindo. A rua é triste. das pirâmides o quedo E atro perfil. Dorme soturna a natureza sábia. conversando.UMA NOITE NO CAIRO Noite no Egito. parece Uma sombria interjeição de medo! Como um contraste àqueles mesereres. Os mastins negros vão ladrando à lua. Soluça toda a noite a água do Nilo! 128 . Vaga no espaço um silfo solitário... exposto ao luar.

à luz de áureos reflexos. O calçamento Sáxeo. com a boca aberta. a irritar-me os globos oculares. Dançavam. Eu. E a minha sombra enorme enchia a ponte. Copiava a polidez de um crânio alvo. A matilha espantada dos instintos! Era como se. 129 . E aprofundando o raciocínio obscuro..AS CISMAS DO DESTINO I Recife. Atravessando uma estação deserta. Pensava no Destino. Eu vi. Do carvão da treva imensa Caía um ar danado de doença Sobre a cara geral dos edifícios! Tal uma horda feroz de cães famintos. Lembro-me bem. O trabalho genésico dos sexos. Ponte Buarque de Macedo. Assombrado com a minha sombra magra. Livres de microscópios e escalpelos. Mas. e tinha medo! Na austera abóbada alta o fósforo alvo Das estrelas luzia. Bilhões de centrossomas apolínicos Na câmara promíscua do vitellus . Profundamente lúbrica e revolta. Uivava dentro do eu . Como uma pele de rinoceronte Estendida por toda a minha vida! A noite fecundava o ovo dos vícios Animais. então. parodiando saraus cínicos.. Mostrando as carnes. de asfalto rijo. indo em direção à casa do Agra. uma besta solta Soltasse o berro da animalidade. na alma da cidade. A ponte era comprida. Apregoando e alardeando a cor nojenta. Fazendo à noite os homens do Futuro. atro e vidrento.

A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo me persegue! Essa obsessão cromática me abate.Fetos magros. O ventobravo me atirava flechas E aplicações hiemais de gelo russo. Julgava eu ver o fúnebre candeeiro Que há de me alumiar na hora da morte. Estendiam-me as mãos rudimentares! Mostravam-me o apriorismo incognoscível Dessa fatalidade igualitária. pelo menos. Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas. A vingança dos mundos astronômicos Enviava à terra extraordinária faca. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse. Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! Mas o vento cessara por instantes Ou. Ah! Com certeza. Posta em rija adesão de goma laca Sobre os meus elementos anatômicos. E. como um réu confesso. Ninguém compreendia o meu soluço. Não sei por que me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança E um pedaço de víscera escarlate. É bem possível que eu umdia cegue. ainda na placenta. na ígnea crosta do Cruzeiro. 130 . Deus me castigava! Por toda a parte. No ardor desta letal tórrida zona. o ignis sapiens do Orco Abafava-me o peito arqueado e porco Num núcleo de substâncias abrasantes. Que fez minha família originária Do antro daquela fábrica terrível! A corrente atmosférica mais forte Zunia.

Que. à guisa de ácido resíduo. Ia engolindo. seis e sete Vezes que eu me furei com um canivete. cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória. Chegou-me o estado máximo da mágoa! Duas. com certeza Era a expectoração pútrida e crassa Dos brônquios pulmorares de uma raça Que violou as leis da Natureza! Era antes uma tosse ubíqua. cujas caudais meus beiços regam. de tal arte. Sob a forma de mínimas camândulas. ansiado e contrafeito. Igual ao ruído de um calhau redondo Arremessado no apogeu do estrondo. Mandando ao Céu o fumo de um cigarro. Eu bem sabia. quotidianamente. em minha boca. Não! Não era o meu cuspo. quatro. 131 . Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. A hemoglobina vinha cheia de água! Cuspo. Na ascensão barométrica da calma. Que eu. te segregam! Escarrar de um abismo noutro abismo. cinco. para não cuspir por toda a parte. Arrebatada pelos aneurismas. Pelos fundibulários da montanha! E a saliva daqueles infelizes Inchava.E até ao fim. três. aos poucos. a hemoptísis! Na alta alucinação de minhas cismas O microcosmos líquido da gota Tinha a abundância de uma artéria rota. estranha. Benditas sejam todas essas glândulas. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minh’alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava.

a espiar-me. sem pudicícia. o In e os trasgos. Um sugestionador olho. Numa dança de números quebrados! Todas as divindades malfazejas. a rir. se no orbe oval que os meus pés tocam Eu não deixasse o meu cuspo carrasco. Iluminava. Buscando uma taverna que os açoite. A companhia dos ladrões da noite. Siva e Arimã. para hipnotizar-me! Em tudo. da cor de um doente de icterícia. então. A camisa vermelha dos incestos. de certo. E o luar. Vai pela escuridão pensando crimes. maior talvez que Vinci. estava ali. Ninguém. lembrava ante o meu rosto. Nessa hora de monólogos sublimes. ali posto De propósito. Livres do acre fedor das carnes mortas. A falta de unidade na matéria! Os esqueletos desarticulados. Imitando o barulho dos engasgos. com as brancas tíbias tortas. Davam pancadas no adro das igrejas.Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do Cristianismo! Porque. Com a força visualística do lince. Embriões de mundos que não progrediram! 132 . Jamais exprimiria o acérrimo asco Que os canalhas do mundo me provocam! II Foi no horror dessa noite tão funérea Que eu descobri. Mas um lampião. os duendes. Perpetravam-se os atos mais funestos. meus olhos distinguiram Da miniatura singular de uma aspa. Rodopiavam. À anatomia mínima da caspa.

E a palavra embrulhar-se na laringe. cinge-as À imperfeição! Mas vem o Tempo. Como bolhas febris de água. Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. 133 . e vence-O. em que. Escapando-se apenas em latidos! Despir a putrescível forma tosca. Cansados de viver na paz de Buda. distingo-a. daquele horrendo Caos de corpos orgânicos disformes Rebentariam cérebros enormes. fervendo! Nessa época que os sábios não ensinam. Deixar cair sobre a barriga inerte O apetite necrófago da mosca! A alma dos animais! Pego-a. Desde os foraminíferos dos mares À grei liliputiana dos pólipos. Acho-a nesse interior duelo secreto Entre a ânsia de um vocábulo completo E uma expressão que não chegou à língua! Surpreendo-a em quatrilhões de corpos vivos. Todos os personagens da tragédia. A pedra dura. Maior que as epopéias carolíngias! Era a revolta trágica dos tipos Ontogênicos mais elementares. E o meu sonho crescia nosilâncio.Ser cachorro! Ganir incompreendidos Verbos! Querer dizer-nos que não finge. os montes argilosos Criariam feixes de cordões nervosos E o neuroplasma dos que raciocinam! Almas pigméias! Deus subjuga-as. Na atra dissoluçào que tudo inverte. Nos antiperistálticos abalos Que produzem nos bois e nos cavalos A contração dos gritos instintivos! Tempo viria.

na dor forte do vômito. Fabricavam destarte os bastodermas. Depositavam quase sem consciência As derradeiras forças musculares. Um conjunto de gosmas amarelas. E eu me encolhia todo como um sapo Que tem um peso incômodo por cima! Nas agonias do delirium-tremens . na glória da concupiscência. refletindo. E as coisas inorgânicas mais nulas Apregoavam encéfalos. Os bêbedos alvares que me olhavam. Com os copos cheios esterilizavam A substância prolífica dos sêmens! Enterravam as mãos dentro das goelas. E apesar de já não ser assim tão tarde. a sós. E sacudidos de um tremor indômito Expeliam. jazia atravassada no meu crânio A intercessão fatídica do atraso! A hipótese genial do microzima Me estrangulava o pensamento guapo. Iam depois dormir nos lupanares Onde. sobre o meu caso Vi que. No meu temperamento de covarde! Mas. 134 . igual a um amniota subterrâneo.A planta que a canícula ígnea torra. Aquela humanidade parasita. aflita. Como um bicho inferior. Em cujo repugnante receptáculo Minha perscrutação via o espetáculo De uma progênie idiota de palermas. berrava. medulas Na alegria guerreira da desforra! Os protistas e o obscuro acervo rijo Dos espongiários e dos infusórios Recebiam com os seus órgãos sensóricos O triunfo emocional do regozijo.

por tua causa. A inconsciência das máscaras de cera Que a gente prega. Fazer da parte abstrada do Universo. Minha filosofia te repele. como um cordão. Minha morada equilibrada e firme! Nisto. Nessas perquisições que não têm pausa. embora o homem te aceite. É que as mulheres ruins ficam sem leite E os meninos sem pai morrem de fome! Por que há de haver aqui tantos enterros? Lá no “Engenho” também. na cara! Era um sonho ladrão de submergir-me Na vida universal. Reboou. Numa impressionadora voz interna. 135 . pior que o remorso do assassino. ponto final da última cena. Rolam sem eficácia os amuletos. III “Homem! por mais que a Idéia deintegres. o eco particular do meu Destino. em tudo imerso. Os porcos espojando-se nas poças Da virgindade reduzida à lama! Morte. numa ânsia rara. a morte é ingrata. Forma difusa da matéria embele. Meu raciocínio enorme te condena! Diante de ti. Oh! Senhora dos nossos esqueletos E das caveiras diárias que fabricas! E eu desejava ter. tal qual..e.. nas catedrais mais ricas.Prostituição ou outro qualquer nome. Ao pensar nas pessoas que perdera. Há o malvado carbúnculo que mata A sociedade infante dos bezerros! Quantas moças que o túmulo reclama! E após a podridão de tantas moças. num fundo de caverna.

A própria humanidade sofredora! A universal complexidade é que Ela Compreende. E se. não como és. o cordeiro simbólico da Páscoa. seu todo não RESIDENCIA No quociente isolado da parcela! Ah! Como o ar imortal a Dor não finda! Das papilas nervosas que há nos tatos Veio e vai desde os tempos mais transatos Para outros tempos que hão de vir ainda! Como o machucamento das insônias Te estraga. fora Mister que. por vezes. As rebeladas cóleras que rugem No homem civilizado. quando toda a estuada Idéia Dás ao sôfrego estudo da ninféia E de outras plantas dicotiledôneas! A diáfana água alvíssima e a hórrida áscua Que da ígnea flama bruta. A formação molecular da mirra. a refletir teus semelhantes. e a hialina lâmpada oca. estriada. Trazes. sondas A estéril terra. saberás a causa De todos os fenômenos alegres! Em vão. em síntese. magro homem. antes Fosses. Mesmo ainda assim. Negro e sem fim é esse em que te mergulhas lugar do Cosmos. por perscrutar (oh! ciência louca!) O conteúdo das lágrimas hediondas. com a bronca enxada árdega.Jamais. espirra. para que a Dor perscrutes. 136 . se divide. onde a dor infrene É feita como é feito o querosene Nos recôncavos úmidos das hulhas! Porque. e a ele se prendem Como às pulseiras que os mascates vendem A aderência teimosa da ferrugem.

Que ainda degrada os povos hotentotes. A rotação dos fluidos produzindo A depressão geológica dos pólos. Na sangueira concreta dos massacres. O antagonismo de Tífon e Osíris. O fogão apagado de uma casa. O trem particular que um corpo arrasta Sinistramente pela via férrea.O orbe feraz que bastos jojos acres Produz’a rebelião que na batalha.Tudo que gera no materno ventre A causa fisiológica do nojo. A cristalização da massa térrea. O achatamento ignóbil das cabeças. Os sanguinolentíssimos chicotes Da hemorragia. sem mortalha. as nódoas mais espessas. Os terremotos que. A mentira meteórica do arco-íris. abalando os solos. A água arbitrária que hiulcos caules grossos Carrega e come. as negras formas feias Dos aracnídeos e das centopéias. Deixa os homens deitados. O Amor e a Fome. Como uma pincelada rembrandtesca. O tecido da roupa que se gasta. à espera que a mansa vítima o entre. Lembram paióis de pólvora explodindo. A sensação que uma coalhada fresca Transmite às mãos nervosas dos que a buscam. a fera ultriz que o fojo Entra. As projeções flamívomas que ofuscam. -. Onde morreu o chefe da família. O fogo-fátuo que ilumina os ossos. As pálpebras inchadas na vigília. O homem grande oprimindo o homem pequeno A lua falsa de um parasseleno. 137 . As aves moças que perderam a asa.

O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psicoplasma Humano sofre da mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E, (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, À morte desgraçada dos açougues... Tudo isto que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra! Por descobrir tudo isso, embalde cansas! Ignoto é o gérmem dessa força ativa Que engendra, em cada célula passiva, A heterogeneidade das mudanças! Poeta, feito malsão, criado com os sucos De um leite mau, carnívoro asqueroso, Gerado no atavismo monstruoso Da alma desordenada dos malucos; Última das criaturas inferiores Governada por átomos mesquinhos, Teu pé mata a uberdade dos caminhos E esteriliza os ventres geradores! O áspero mal que a tudo, em torno, trazes, Amálogo é ao que, negro e a seu turno, Traz o ávido filóstomo noturno Ao sangue dos mamíferos vorazes! Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhes A perfeição dos seres existentes, Hás de mostrar a cárie dos teus dentes Na anatomia horrenda dos detalhes!

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O Espaço -- esta abstração spencereana Que abrange as relações de coexistência E só! Não tem nenhuma dependência Com as vértebras mortais da espécie humana! As radiantes elipses que as estrelas Traçam, e ao espectador falsas se antolham São verdades de luz que os homens olham Sem poder, entretanto, compreendê-las. Em vão, com a mão corrupta, outro éter pedes Que essa mão, de esqueléticas falanges, Dentro dessa água que com a vista abranges, Também prova o princípio de Arquimedes! A fadiga feroz que te esbordoa Há de deixar-te essa medonha marca, Que, nos corpos inchados de anasarca, Deixam os dedos de qualquer pessoa! Nem terás no trabalho que tiveste A misericordiosa toalha amiga, Que afaga os homens doentes de bexiga E enxuga, à noite, as pústulas da peste! Quando chegar depois a hora tranqüila, Tu serás arrastado, na carreira, Como um cepo inconsciente de madeira Na evolução orgânica da argila! Um dia comparado com um milênio Seja, pois, o teu último Evangelho... É a evolução do novo para o velho E do homogêneo para o heterogêneo! Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largo A apodrecer!... És poeira e embalde vibras! O corvo que comer as tuas fibras Há de achar nelas um sabor amargo!”

IV Calou-se a voz. A noite era funesta. E os queixos, a exibir trismos danados,

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Eu puxava os cabelos desgrenhados Como o Rei Lear, no meio da floresta! Maldizia, com apóstrofes veementes, No estentor de mil línguas insurretas, O convencionalismo das Pandetas E os textos maus dos códigos recentes! Minha imaginação atormentada Paria absurdos... Como diabos juntos, perseguiam-me os olhos dos defuntos Com a carne da esclerótica esverdeada. Secara a clorofila das lavouras. Igual aos sustenidos de uma endecha Vinha-me às cordas glóticas a queixa Das coletividades sofredoras. O mundo resignava-se invertido Nas forças principais do seu trabalho... A gravidade era um princípio falho, A análise espectral tinha mentido! O Estado, a Associação, os Municípios Eram mortos. De todo aquele mundo Restava um mecanismo moribundo E uma teleologia sem princípios. Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psique no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo! Mas a Terra negava-me o equilíbrio... Na Natureza, uma mulher de luto Cantava, espiando as árvores sem fruto. A canção prostituta do ludíbrio.

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A CARIDADE No universo a caridade Em contraste ao vicio infando É como um astro brilhando Sobre a dor da humanidade! Nos mais sombrios horrores Por entre a mágoa nefasta A caridade se arrasta Toda coberta de flores! Semeadora de carinhos Ela abre todas as portas E no horror das horas mortas Vem beijar os pobrezinhos. Torna as tormentas mais calmas Ouve o soluço do mundo E dentro do amor profundo Abrange todas as almas. O céu de estrelas se veste Em fluidos de misticismo Vibra no nosso organismo Um sentimento celeste. A alegria mais acesa Nossas cabeças invade... Glória, pois, á Caridade No seio da Natureza! Estribilho Cantemos todos os anos Na festa da Caridade A solidariedade Dos sentimentos humanos.

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OS DOENTES

I Como uma cascavel que se enroscava, A cidade dos lázaros dormia... Somente, na metróplole vazia, Minha cabeça autônoma pensava! Mordia-me a obsessão má de que havia, Sob os meus pés, na terra onde eu pisava, Um fígado doente que sangrava E uma garganta órfã que gemia! Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam... E via em mim, coberto de desgraças, O resultado de bilhões de raças Que há muito desapareceram!

II Minha angústia feroz não tinha nome. Ali, na urbe natal do Desconsolo, Eu tinha de comer o último bolo Que Deus fazia para a minha fome! Convulso, o vento entoava um pseudosalmo. Contrastando, entretanto, com o ar convulso A noite funcionava como um pulso Fisiologicamente muito calmo. Caíam sobre os meus centros nervosos, Como os pingos ardentes de cem velas, O uivo desenganado das cadelas E o gemido dos homens bexigosos. Pensava! E em que eu pensava, não perguntes! Mas, em cima de um túmulo, um cachorro

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sobre as hortas. a abóbora. Apenas eu compreendo. a amêndoa. Além jazia os pés da serra. o urro Reboava. A queixada específica de um burro! Gordo adubo de agreste urtiga brava. Em cuja álgida unção. 143 . com a promíscua véstia No enbotamento crasso dos sentidos. A incógnita psique das massas mortas Que dormem. os astros miúdos Reduziam os Céus sérios e rudos A uma epiderme cheia de sarampos! III Dormia embaixo. olhando os campos Circunjacentes. alto e hórrido. o álamo E a câmara odorífera dos sumos Absorvem diariamente o ubérrimo húmus Que Deus espalha à beira do seu tálamo! Nos de teu curso desobstruídos trilhos. A comunhão dos homens reunidos Pela camaradagem da moléstia. de errante rio. No Alto. Meu ser estacionava. magnânima e magnífica. O hidrogênio e o oxigênio que tu choras Pelo falecimento dos teus filhos! Ah! Somente eu compreendo. Criando as superstições de minha terra. em quaisquer horas. satisfeito. Na esteira igualitária do teu leito! O vento continuava sem cansaço E enchia com a fluidez do eólico hissope Em seu fantasmagórido galope A abundância geométrica do espaço. Benigna água.Pedia para mim água e socorro À comiseração dos transeuntes! Bruto. A Paraíba indígena se lava! A manga. como as ervas. a ameixa. branda e beatífica.

aos bocados. a existência Numa bacia autômata de barro. Cortanto as raízes do último vocábulo. Um português cansado e incompreensível. Adivinhando o frio que há nas lousas. Estas dis bacalhaus o óleo não bebem. Vômitos impregnados de ptialina. Restos repugnantíssimos de bílis. Cair doente e passar a vida inteira Com a boca junto de uma escarradeira. entre estrépitos e estouros. os micróbios assanhados Passearem. Nas cancerosidades do organismo! Falar somente uma linguagem rouca. Pintando o chão de coágulos sangüíneos! Sentir. vendo em cada escarro O retrato da própria consciência! Querer dizer a angústia de que é pábulo E com a respiração já muito fraca Sentir como que a ponta de uma faca. por mais que os cardos grandes rocem Seus corpos brutos. 144 . como inúmeros soldados. Alucinado. Estas não cospem sangue. adstritos ao quimiotropismo Erótico. dores não recebem.Feriam-me o nervo óptico e a retina Aponevroses e tendões de Aquiles. Maior felicidade é a destas cousas Submetidas apenas às leis físicas! Estas. estas não tossem! Descender dos macacos catarríneos. OH! desespero das pessoas tísicas. Vomitar o pulmão na noite horrível Em que se deita sangue pela boca! Expulsar. O ruído de uma tosse hereditária. Reboando pelos séculos vindouros. Da degenerescência étnica do Ária Se escapava.

Consoante a minha concepção vesânica. Saía. a água. Pelas algentes Ruas. É a alfândega. em cachoeiras desobstruídas Encharcava os buracos das feridas. Consagrando vossa última fonética A uma recitação de mesereres. naquele instante. no Amazonas. me acorda. Onde a Resignação os braços cruza. Lhe houvessem sacudido sobre o peito A máquina pneumática de Bianchi! E o ar fugindo e a Morte a arca da tumba A erguer. A mágoa gaguejada de um cretino.Não haver terapêutica que arranque Tanta opressão como se. magras mulheres. Vinha da vibração bruta da corda Mais recôndita da alma brasileira! Aturdia-me a tétrica miragem De que. com o vexame de uma fusa. hoje. em sonhos mórbidos. 145 . resfriando-vos o rosto. Nos ardores danados da febre hética. onde toda a vida orgânica Há de pagar um dia o último imposto! IV Começara a chover. como um cronômetro gigante Marcando a transição emocionante Do lar materno para a catacumba! Mas vos não lamenteis. urrando ultrajes Contra a dissolução que vos espera! Porque a morte. Aquele ruído obscuro de gagueira Que à noite. com efeito. Antes levardes ainda uma quimera Para a garganta omnívora das lajes Do que morrerdes. Alagava a medula dos Doentes! Do fundo do meu trágico destino.

De repente. E sentia-se pior que um vagabundo Microcéfalo vil que a espécie encerra... como um lúgubre ciclone. Recebeu. E agora. Cuspiu na cova do morubixaba ! E o índio. Diminuído na crônica do mundo! A hereditariedade dessa pecha Seguiria seus filhos. diante a xantocróide raça loura. Uma desesperada ânsia improfícua De estrangular aquela gente iníqua Que progredia sobre os seus despojos! Mas. todas as inúbias.. Exercia sobre ela ação funesta Desde o desbravamento da floresta à ultrajante invenção do telefone. O gênio de Colombo Manchou de opróbrios a alma do mazombo . tendo o horror no rosto impresso. caladas. Desterrado na sua própria terra. Com uma clarividência aterradora. A civilização entrou na taba Em que ele estava. 146 . por fim. espantada. Viu toda a podridão de sua raça. Na tumba de Iracema!. Jazem.. entregue a vísceras glutonas. acordando na desgraça. Dora em diante Seu povo tombaria agonizante Na luta da espingarda contra a flecha! Veio-lhe então como à fêmea vêm antojos. adstrito à étnica escória. sem difíceis nuanças dúbias. Ah! Tudo. A carcaça esquecida de um selvagem. Esse achincalhamento do progresso Que o anulava na crítica da História! Como quem analisa uma apostema.Fedia. Em vez da prisca tribo e indiana tropa A gente deste século.

Batia com o pentágono dos dedos Sobre um fundo hipotético de chagas! Diabólica dinâmica daninha Oprimia meu cérebro indefeso Com a força onerosíssima de um peso Que eu não sabia mesmo de onde vinha. As mães sem coração rogavam pragas Aos filhos bons.Vê somente a caveira abandonada De uma raça esmagada pela Europa! V Era a hora em que arrastados pelos ventos. Maldiziam. Com a contorção neurótica de um bicho Que ingeriu 30 gramas de noz-vômica. A peçonha inicial de onde nascemos. Hereditariedades politípicas Punham na minha boca putrescível Interjeições de abracadabra horrível E os verbos indignados das Filípicas. Como que havia na ânsia de conforto De cada ser. Perfurava-me o peito a áspera pua do desânimo negro que me prostra.: o homem e o ofídio. Uma necessidade de suicídio E um desejo incoercível de ser morto! Naquela angústia absurda e tragicômica Eu chorava. Os fantasmas hamléticos dispersos Atiram na consciência dos perversos A sombra dos remorsos famulentos. 147 . ex. E quase a todos os momentos mostra Minha caveira aos bêbedos da rua. com voz estentorosa. E eu. roído pelos medos. No horror daquela noite monstruosa. Todos os vocativos dos blasfemos. rolando sobre o lixo.

Consubstanciar-me todo com a imundície. Anelava ficar um dia. como Cristo. Tentava. porém. Confundir-me com aquela coisa porca! Vinha. 148 . como um homem doido que se enforca. da árdua liça À substância inorgânica primeva De onde. Arrancar do meu próprio corpo a prova Da persistência trágica da força. por epigênese. às vezes. na terráquea superfície. veio Eva E a stirpe radiolar chamada Actissa . era A saudade inconsciente da monera Que havia sido minha mãe antiga. Reduzido à plastídula homogênea. Sem diferenciação de espécie alguma. perante a cova. cansado. o anelo instável De. Com o horror tradicional da raiva corsa Minha vontade era. Não me incomoda esse último abandono Se a carne individual hoje apodrece Amanhã.E. em suma. Eu voltarei. A pragmática má de humanos usos Não compreende que a Morte que não dorme É a absorção do movimento enorme Na dispersão dos átomos difusos. Era (nem sei em síntese o que diga) Um velhíssimo instinto atávico. Menor que o anfióxus e inferior à tênia. reaparece Na universalidadej do c arbono! A vida vem do éter que se condensa Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma Fazer a luz do cérebro que pensa. com o auxílio especial do osso masséter Mastigando homeomérias neutras de éter Nutrir-me da matéria imponderável.

quando o éreis. Cheirava com prazer no sacrifício A lepra má que lhe roía o braço! E ensangüentava os dedos da mão nívea Com o sentimento gasto e a emoção pobre. O sol malvado que secou a fonte De vossa castidade agora finda! Talvez tivésseis fome. Acordavam os bairros da luxúria. doentes de hematúria. virgem fostes.Quando eu for misturar-me com as violetas Minha lira. agora. ignóbil. a saraiva Caindo. para além. à-toa. Estendestes ao mundo. 149 . De certo.. Uma... maior que a Bíblia e a Fedra Reviverá. Quase que escangalhada pelo vício. e. e as mãos. Se extenuavam nas camas. Não tínheis ainda essa erupção cutânea. até que. derreada de cansaço. Duas mamárias glândulas estéreis! Ah! Certamente não havia ainda Rompido. alva.. Mas. Um cão agora Punha a atra língua hidrófoba de fora Em contrações miológicas de raiva. As prostitutas. no horizonte.. com violência.. Nessa alegria bárbara que cobre Os saracoteamentos da lascívia. embalde. entre oscilantes chamas. vítima última da insânia. análoga era. Nem tínheis. dando emoção à pedra Na acústica de todos os planetas! VI À álgida agulha. a perversão de que era presa o sensorium daquela prostituta Vinha da adaptação quase absoluta À ambiência microbiana da baixeza! Entanto.

Lançavam pinceladas pretas de óleo Na arquitetura arcaica dos sobrados. E hoje. porém.De vós o mundo é farto. Cismava no propósito funéreo Da mosca debochada que fareja O defunto. argots e aljâmias. Desde as musculaturas que apodrecem À ruína vegetal dos lírios secos. Como a boca de um poço artesiano! Atabalhoadamente pelos becos. no chão frio da igreja. que a sociedade vos enxota. Sentia. na craniana caixa tosca. E vai depois levá-lo ao cemitério! E esfregando as mãos magras.Fostes vender a virginal coroa Ao primeiro bandido do arrabalde. Somente as bruxas negras da derrota Freqüentam diariamente vosso quarto! prometem-vos (quem sabe?!) entre os ciprestes Longe da mancebia dos alcouces. Como uma associação de monopólio. inquieto. A racionalidade dessa mosca. Eu pensava nas coisas que perecem. A energúmena gei dos ébrios da urbe Festejava seu sábado de infâmias. eu. Como quem nada encontra que o perturbe. Dentro da noite funda um braço humano Parecia cavar ao longe um poço Para enterrar minha ilusão de moço. A consciência terrível desse inseto! Regougando. Nas quietudes nirvânicas mais doces O noivado que em vida não tivestes! VII Quase todos os lutos conjugados. E estais velha! -. 150 .

Puxava aquele povo de demônios Para a promiscuidade das adegas. uma cabeça Que possa mastigar na hora da morte E nua. estriges voam. E o cemitério. palpável. Já podre. assim inchado. A mandíbula inchada de um morfético! Saliências polimórficas vermelhas. Em cujo aspecto o olhar perspícuo prendo. Mas. lúpulo E outras substâncias tóxicas da tasca. O ar ambiente cheirava a ácido acético. Apareceu. Onde minh’alma inteira surpreendia A Humanidade que se lamentava! Era todo o meu sonho. O fácies do morfético assombrava! -. em que eu entrei adrede. como Ugolino. E a ébria turba que escaras sujas masca. sobre a palha espessa.Aquilo era uma negra eucaristia. Punham-lhe num destaque horrendo o horrendo Tamanho aberratório das orelhas. Vem para aqui. Sem ter. nos braços de um canalha 151 . com o ar de quem empesta. roubada à humana coorte Morre de fome. Absorvia com gáudio absinto. Dá-me a impressão de um boulevard que fede.A estática fatal das paixões cegas. Quanta gente. nesta hora. Pela degradação dos que o povoam. escorraçando a festa. À falta idiossincrásica de escrúpulo. de repente. Como se fosse um corpo organizado! VIII Em torno a mim. Rugindo fundamente nos neurônios. que a morféia miserável Tornava às impressões táteis. após baixar ao caos budista.

a alma aos arrancos. Na impaciência do estômago vazio. Eu maldizia o deus de mãos nefandas Que. Eu mendigava aos vermes insubmissos 152 . Ao pegar num milhão de miolos gastos. ao clarão de alguns archotes. transgredindo a igualitária regra Da Natureza. atira a raça negra Ao contubérnio diário das quitandas! Na evolução de minha dor grotesca. Comendo carne humana. As escaveiradíssimas figuras Das negras desonradas pelos brancos. como quem salta. Num prato de hospital. vinham Com a podridão dar de comer às flores! Os defuntos então me ofereciam Com as articulações das mãos inermes. Nos corpos nus das moças hotentotes Entregues. a camisa suada. Todos os meus cabelos se arrepiaram. À sodomia indigna dos moscardos.porque o madapolão para a mortalha Custa 1$200 ao lojista! Que resta das cabeças que pensaram?! E afundado nos sonhos mais nefastos. iguais a irmãs de caridade. à meia-noite! Com uma ilimitadíssima tristeza. entre fardos. Os evolucionistas benfeitores Que por entre os cadáveres caminham. Todos os animais que apodreciam! É possível que o estômago se afoite (Muito embora contra isto a alma se irrite) A cevar o antropófago apetite. cheio de vermes. Vendo passar com as túnicas obscuras. Pisando. Eu devorava aquele bolo frio Feito das podridões da Natureza! E hirto.

De quem possui um sol dentro de casa. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! O gênio procriador da espécie eterna Que me fizera. Os raios caloríficos da aurora. Dentro da filogênese moderna. Era a volúpia fúnebre que os ossos Me inspiravam. No frio matador das madrugadas. déspota e sem normas. em vez de hiena ou lagarta. O adesionismo biôntico das formas Multiplicadas pela lei da herança! 153 . E eis-me a absorver a luz de fora.Como indenização dos meus serviços. Nunca mais as goteiras cairiam Como propositais setas malvadas. Absorve. Proporcionando-me o prazer inédito. às vezes. trazendo-me ao sol claro. E arrancara milhares de existências Do ovário ignóbil de uma fauna imunda. Como o íncola do pólo ártico. À apreensão fisiológica do faro O odor cadaveroso dos destroços! IX O inventário do que eu já tinha sido Espantava. Uma sobrevivência de Sidarta. Ia arrastando agora a alma infecunda Na mais triste de todas as falências. No céu calamitoso de vingança Desagregava. Manhã. O benefício de uma cova fresca. Por sobre o coração dos que sofriam! Do meu cérebro à absconsa tábua rasa Vinha a luz restituir o antigo crédito. após a noite de seis meses.

A ruína vinha horrenda e deletéria Do subsolo infeliz.. O começo magnífico de um sonho! Entre as formas decrépitas do povo. com um prazer secreto. vinha de dentro Da matéria em fusão que ainda há no centro... A gestação daquele grande feto. corre. em colônias fluídas. com os pés atolados no Nirvana. O ar que. Acompanhava. Hirto de espanto. Que vinha substituir a Espécie Humana! 154 . numa furna. Vinha da original treva noturna. tudo a extenuar-se Estava. Eu sentia nascer-me n’alma. em vão teu ódio exerces! Mas. a meu ver. oh! Morte. Igual a um parto. os sáxeos prédios tortos Tinham aspectos de edifícios mortos. entanto. o vagido de uma outra Humanidade! E eu. Já batiam por cima dos estragos A sensação e os movimentos vagos Da célula inicial de um Cosmos novo! O letargo larvário da cidade Crescia. Para alcançar depois a periferia! Contra a Arte.. Decompondo-se desde os alicerces! A doença era geral. Parecia também desagregar-se! O prodromos de um tétano medonho Repuxavam-me o rosto. O Espaço abstrato que não morre Cansara.

têm carne. Possa a terra vingar-se do meu crime Comendo-me também.À MESA Cedo à sofreguidão do estômago. como eu. Antegozando a ensangüentada presa. com este assomo Que a espécie humana em comer carne tem!. Foi abalada por um terremoto! A água quieta do Tejo te abençoa. Apenas com uma diferença triste. Coisa hedionda! Corro. bela como um brinco. DUAS ESTROFES À memória de João de Deus Ahi! ciechi! il tanto affaticar che giova? Tutti torniamo alla gran madre antica E il nostro nome appena si ritrova. Ai! Como Os que. É a hora De comer. Que um dia no ano trágico de mil E setecentos e cinqüenta e cinco. Rodeado pelas moscas repugnantes.. amigo. Com a diferença que Lisboa existe E tu... Tu representas toda essa Lisboa De glórias quase sobrenaturais. Como! E pois que a Razão me não reprime. E agora.. não existes mais! 155 . Para comer meus próprios semelhantes Eis-me sentado à mesa! Como porções de carne morta. Petrarca A queda do teu lírico arrabil De um sentimento português ignoto Lembra Lisboa.

que te esgotou as pomas. Clara.Fecunda fonte desse mesmo leite Que amamentou os éfebos de Esparta. E o antigo leão. O Sol virá das épocas sadias. Há de beijar-te as mãos todos os dias! Quando chegar depois tua velhice Batida pelos bárbaros invernos. um novo Ser. à amostra. Bebendo a vida no teu seio gordo! Pois. Do que essa pequenina sanguessuga. No lábio róseo a grande teta farta -. sem pretensões. Há de crescer. haurindo amplo deleite. a atmosfera se encherá de aromas..MATER Como a crisálida emergindo do ovo Para que o campo flórido a concentre. Assim.. nas vitrinas. Mas o ramo fragílimo e venusto Que hoje nas débeis gêmulas se esboça. entre dores. oh! Mãe. comparo. há de tornar-se arbusto E álamo altivo de ramagem grossa. sujo de sangue. -Com que avidez ele essa fonte suga! Ninguém mais com a Beleza está de acordo. te emergiu do ventre! E puseste-lhe. À sombra dos sicômoros eternos! 156 . Essas humanas coisas pequeninas A um biscuit de quilate muito raro Exposto aí. Relembrarás chorando o que eu te disse. quanto a mim.

Tenho estremecimentos indecisos E sinto. Não fez cair o túmulo de Plínio Por sobre todo o meu raciocínio Para que eu nunca mais raciocinase?! Pois minha Mãe tão cheia assim daqueles Carinhos. também gira e redemoinham. Tais quais. haurindo o tépido ar sereno. as tesouras Brônzeas. Por causa disto. Dormir na manjedoura com os cavalos! 157 . roendo a substância córnea de unha. eu vivo pelos matos. Beber a acre e estagnada água do charco.filhos legítimos dos trigos -Nutrem a geração do Ódio e da Guerra. maior do que Laplace. com que guarda meus sapatos. Nabucodonosor ser do Pau d’Arco. nos fortes fulcros. Magro. não prendi minha existência?! Por que Jeová..GEMIDOS DE ARTE I Esta desilusão que me acabrunha É mais traidora do que o foi Pilatos!. O mesmo assombro que sentiu Parfeno Quando arrancou os olhos de Dionisos! Em giro e em redemoinho em mim caminham Ríspidas mágoas estranguladoras. mordendo glabros talos.. Os cachorros anônimos da terra São talvez os meus únicos amigos! Ah! Por que desgraçada contingência À híspida aresta sáxea áspera e abrupta Da rocha brava. Por que me deu consciência dos meus atos Para eu me arrepender de todos eles?! Quisera antes. numa ininterrupta Adesão. Os pães -.

Com a flexibilidade de um molusco. cheio de chamusco. pegajoso e untuoso ao tacto! Reúnam-se em rebelião ardente e acesa Todas as minhas forças emotivas 158 . Beija a peçonha. no agudo grau da última crise. O braço do ladrão se paralise E a mão da meretriz caia aos pedaços! II O sol agora é de um fulgor compacto. onde não cuspa língua alguma O óleo rançoso da saliva humana! Uma região sem nódoas e sem lixos. Úmido. apalpa a úlcera cancerosa. goza O lodo. Onde a forca feroz coma o carrasco E o olho do estuprador se encha de bichos! Outras constelações e outros espaços Em que. E eu vou andando.Mas a carne é que é humana! A alma é divina. e não se contamina! Ser homem! escapar de ser aborto! Sair de um vente inchado que se anoja. Dorme num leito de feridas. Comprar vestidos pretos numa loja E andar de luto pelo pai que é morto! E por trezentos e sessenta dias Trabalhar e comer! Martírios juntos! Alimentar-se dos irmãos defuntos. Chupar os ossos das alimarias! Barulho de mandíbulas e abdômens! E vem-me com um desprezao por tudo isto Uma vontade absurda de ser Cristo Para sacrificar-me pelos homens! Soberano desejo! Soberana Ambição de construir para o homem uma Região. Subtraída à hediondez de ínfimo casco.

depois de morrer. fustigue. no árdego trabalho. Com a rapidez duma semicolcheia. depois de tanta Tristeza.E armem ciladas como cobras vivas Para despedaçar minha tristeza! O sol de cima espiando a flora moça Arda. Em grandes semicírculos aduncos. morda!. salta. Das laranjeiras eu admiro os cachos E a ampla circunferência das laranjas.Augusto . Deleito a vista na verdura gorda Que nas hastes delgadas se balouça! Avisto o vulto das sombrias granjas Perdidas no alto. A câmara nupcial de cada ovário Se abre. Olhando para as pútridas charnecas Grita o exército avulso das marrecas Na úmida copa dos bambus verdoengos.. Os ventos vagabundos batem. pelo ar. O ar cheira. queime. corte. No chão coleia a lagartixa. A terra cheira.. quero. Possuir aí o nome dum arbusto Qualquer ou de qualquer obscura planta! 159 . bolem Nas árvores. Nos terrenos baixos... Entrançados. Ladra furiosa a tribo dos podengos. Voam à semelhan ça de cabelos Os chicotes finíssimos dos juncos. Eu. largando pêlos. Um pássaro alvo artífice da teia De um ninho.. De árvore em árvore e de galho em galho. Por toda a parte a seiva bruta esguicha Num extravasamento involuntário. em vez do nome -.. E a alma dos vegetais rebenta inteira De todos os corpúsculos do pólen.

Une todas as coisas do Universo! 160 . Me arrasta à casa do finado Toca ! Todas as tardes a esta casa venho. Uma atmosfera má de incômoda hulha Abafa o ambiente. À dura luz do sol resplandecente. Aqui. As lagartixas. Urram os bois. E traça trombas de elefantes Com as circunvoluções extravagantes Do seu complicadíssimo intestino. como exóticos pintores. dos esconderijos. O cupim negro broca o âmago fino Do teto. O aziago ar morto a morte Fede. O lodo obscuro trepa-se nas portas. Na bruta dispersão de vítreos cacos. O ardente calor da areia forte Racha-me os pés como se fosse agulha. O céu lembra uma lauda Do mais incorruptível pergaminho. Estão olhando aquelas coisas mortas! Fico a pensar no Espírito disperso Que. Amontoadas em grossos feixes rijos. Quantas flores! Agora. Como um anel enorme de aliança. uma parede doente Mostra a cara medonha dos buracos. unindo a pedra ao gneiss e a árvore à criança. Viveu. Pintam caretas verdes nas taperas. Nédios. sem conchego nobre. Como pela avenida das Mappales. outrora. Por saibros e por cem côncavos vales. batendo a cauda.III Pelo acidentalíssimo caminho Faísca o sol. sentiu e amou este homem pobre Que carregava canas para o engenho! Nos outros tempos e nas outras eras. Os musgos. Não sei que subterrânea e atra voz rouca. em vez de flores. Trôpega e antiga.

. Tudo enfim a mesma órbita percorre E as bocas vão beber o mesmo leite. e se gritio é para que meu grito Seja a revelação deste Infiniti Que eu trago encarcerado da minh’alma! Sol brasileiro! queima-me os destroços! Quero assistir. com a cabeça em brasas Ante a fatalidade que me oprime.E assim pensando. É o dinheiro coberto de azinhavre Que o escravo ganha. olha Melancolicamente para o mundo! Essa alegria imaterializada. da mesma forma que o homem morre. Grito.. É o pedaço já podre de pão duro Que o miserável recebeu na estrada! Não são os cinco mil milhões de francos Que a Alemanha pediu a Jules Favre. À carbonização dos próprios ossos! 161 .. é o óbolo obscuro. De pé. à luz da consciência infame. Chamando-me do sol com as suas asas! Gosto do sol ignívomo e iracundo Como o réptil gosta quando se molha E na atra escuridão dos ares. sem pai que me ame. Julgo ver este Espírito sublime.. trabalhando aos brancos! Seja este sol meu último consolo. com a misericórdia de um tijolo!. como quem raspa a sarna. aqui. E o espírito infeliz que em mim se encarna Se alegre ao sol.. Que por vezes me absorve. A lamparina quando falta o azeite Morre. Só.. Súbito. arrebentando a horrenda calma.

Com a roupa amarfanhada e os beiços tintos. Ouvem-se os brados Da danação carnal. Sofre em cada molécula a angústia alta De haver secado. urna de ovos mortos.A MERETRIZ A rua dos destinos desgraçados Faz medo. em coréas doudas. O indumento vilíssimo do servo Ao brilho da augustal toga pretexta. excita-a o açoite Do incêndio que lhe inflama a língua espúria. hirta. hórridos uivos Na mesma esteira pública. aliando. Com as mãos chagadas. à lua. Uma mulher completamente nua! É a meretriz que. arremessada sobre o rude 'Despenhadeiro da decrepitude. Na vizinhança aziaga dos ossuários Representa. Gane instintivamente de luxúria! Navio para o qual todos os portos Estão fechados. Na sodomia das mais negras bodas Desarticula-se. Lúbrica. a âmbulas moles. em contorções sombrias. A escuridão dos gineceus falidos E a desgraça de todos os ovários! Irrita-se-lhe a carne á meia-noite. Reduzidos. à luz do olhar protervo. funcionária dos instintos. O Vício estruge. Bramando. Na vacuidade das entranhas frias O esgotamento intrínseco da besta! E ela que. Entre farraparias e esplendores. espremendo os peitos. a arquivar credos desfeitos. ébria e lasciva. como o estepe. Espicaça-a a ignomínia. O eretismo das classes superiores E o orgasmo bastardíssimo da plebe! É ela que.. por fim. 162 . à falta Da água criadora que alimenta as proles! É ela que. recebe. alta noite. através os meus sentidos. Sente. E a mulher.. de cabelos ruivos.

Chão de onde unia só planta não rebenta. já morta essencialmente.. E é aterradora essa alegria de ossos Pedindo ao sensualismo que os esmague! É o pseudo-regozijo dos eunucos Por natureza. Mais que a vaga incoercível na água oceânea. filha do inferno.. dos que são caducos Desde que a Mâe-Comum lhes deu início. Pagando com volúpia o crime eterno De não ter sido fiel ao seu destino! E o Desespero que se faz bramido De anelo animalíssimo incontido.. E a dor profunda da incapacidade Que. pela própria hereditariedade A lei da seleção disfarça em Vício! É o júbilo aparente da alma quase A eclipsar-se. Passa agora ao clarão da lua acesa E é seu corpo expiatório. Para a Finalidade Transcendente Gera o prodígio anímico da Insânia! Nas frias antecâmaras do Nada O fantasma da fêmea castigada. aos tácitos apelos Das suas carnes e dos seus cabelos. É o hino Da matéria incapaz.. Na óptica abreviatura de um reflexo. E a Carne que. em cada humana nebulosa. alvo e desnudo A síntese eucarística de tudo Que não se realizou na Natureza! Antigamente. no horror da ocídua fase Esterilizadora de órgãos.. de bruços.. bêbeda de gozo Saciando o geotropismo pavoroso De unir o corpo à terra famulenta! Nesse espolinhamento repugnante O esqueleto irritado da bacante Estrala. Fulgia. Toda a sensualidade tempestuosa Dos apetites bárbaros do Sexo! 163 . Ei-la... Lembra o ruído harto azorrague A vergastar ásperos dorsos grossos.

Agarrou-se-lhe aos seios impudicos Como o abraço mortífero do Ficus 164 . Libertos da ancestral modorra calma. Na homofagia hedionda que o consome... talvez. do deserto! Vede! A prostituição ofídia aziaga Cujo tóxico instila a infâmia. impune.. Criando concupiscências infinitas Como eviterno lobo insatisfeito. Como o . rubros. Resíduos memoriais tornam-se luzes Fazem-se idéias e ela vê as cruzes Do seu martirológio miserando! Inícios atrofiados de ética. momentaneamente luz fecunda... Que. Brilha na prostituta moribunda Como a fosforescência sobre a lama! É a visita alarmante do que outrora Na abundância prospérrima da aurora. Mas que. sonhos de culminância. Gorda a escorrer-lhe das artérias túmidas Lembrava um transbordar de ânforas cheias. Ficou rolando. ânsia De perfeição.. como aborto inútil. adstrito a inferior plasma inconsútil. adultos.. das veias E em torrencialidades quentes e úmidas. decerto. radiando. Irradiava-se-lhe.. Pudera progredir. Saem da infância embrionária e erguem-se. e a estraga Na delinqüência ..... Lançando a sombra horrível dos seus vultos Sobre a noite fechada daquela alma! É o sublevantamento coletivo De um mundo inteiro que aparece vivo. Numa cenografia de diorama. hírcica.. Vinha saciar a milenária fome Dentro das abundâncias do seu leito! Toda a libidinagem dos mormaços Americanos fluía-lhe dos braços. A hora da morte acende-lhe o intelecto E à úmida habitação do vício abjecto Afluem milhões de sóis.O atavismo das raças sibaritas..

.......... Oferecer-se à bicharia infame Com a terra do sepulcro a encher-lhe os olhos! Sentir a língua aluir-se-lhe na boca E com a cabeça sem cabelos...............................................Sugando a seiva da árvore a que se une! .... .................................................................................................. ...................... ...................... Ser meretriz depois do túmulo! A alma Roubada a hirta quietude da urbe calma Onde se extinguem todos os escolhos: E............................................... .......................................................................................... ............................ Na horrorosa avulsão da forma nívea Dizer ainda palavras de lascívia.............................. ............................................................... .......... Mordeu-lhe a boca e o rosto... .................. oca................................................................................... 165 ................................... .................... Enroscou-se-lhe aos abraços com tal gosto.......................................................................................... ao trágico ditame........ . .... condenada..........................

É assim como o ar que a gente pega e cuida. tal como eu o estou amando. consoante o qual. chupo-a. é como a cana azeda.o inventor da flauta -Vou inventar também outro instrumento! Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo Ambiciono. Cuida. Como Mársias -. poeta. entretanto. o observas. chegando à última calma Meu podre coração roto não role. do egoísta Modo de ver.. enfim. É Espírito. eu que idolatro o estudo. enfim. em ânsias. A toda a boca que o não prova engana. pois. Pudera eu ter. o ponto outro de vista Consoante o qual. conheço o seu conteúdo. observo o amor. o egoísta amor este é que acinte Amas. amo Mas certo. Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! Para reproduzir tal sentimento Daqui por diante. Oposto ideal ao meu ideal conservas. por experiência.. que o idioma em que te eu falo Possam todas as línguas decliná-lo Possam todos os homens compreendê-lo. é éter.VERSOS DE AMOR A um poeta erótico Parece muito doce aquela cana. Diverso é. Porque o amor. não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes. Como um saco vazio dentro d’alma! 166 . Descasco-a. ilusão treda! O amor. Todas as ciências menos esta ciência! Certo. Quis saber que era o amor. Integralmente desfibrado e mole. Para que. este o amor não é que. E hoje que. atenta a orelha cauta. é substância fluida. oposto a mim. Por conseguinte Chamas amor aquilo que eu não chamo. provo-a. Imponderabilíssima e impalpável.

olhando o céu que além se expande: ". Mas meu orgulho ainda é maior do que ela! Ruja a boca danada da profana Coorte dos homens.. os monstros zombeteiros.. no quadrilátero da alcova. Que importa que. opresso.. 167 . horrendo e preto O áspide abjeto do Pesar se mova!. trágico e maldito. Como Vulcano. Tenha a sorte de Cícero proscrito Ou morra embora. Trabalharei assim dias inteiros. Sem ter uma alma só que me idolatre.. Entendi.. trabalhar contente.A LUVA Para o Augusto Belmont Pensa na glória! Arfa-lhe o peito. que devia. . Como Camões morrendo sobre um catre!" Nisto. contra ele. Vem-lhe á imaginação este soneto: "A princípio escrevia simplesmente Para entreter o espírito. depois disso. com o seu grande grito. sobre a forja ardente Da ilha de Lemnos. Durante as vinte e quatro horas do dia! Riam de mim. a tumbal janela E diz. Escrevia Mais por impulso de idiosincrasia Do que por uma propulsão consciente. em ânsias.A maldade do mundo é muito grande. E só.O pensamento é uma locomotiva Tem a grandeza duma força viva Correndo sem cessar para o Progresso.. abre.

sacudindo-o todo. E como um desafio à eternidade Atira a luva para o próprio Cristo! Chove.Que meu orgulho do alto do Infinito Suplantará a própria espécie humana! Quebro montanhas e aos tutões resisto Numa absolta impassibilidade". E na suprema convulsão o doudo Parece aos astros atirar a luva! 168 . Sobre a cidade geme a chuva. Batem-lhe os nervos.

nas telúrias reservas. alto. E a cimalha minúscula das ervas. sob os pés do orgulho humano. Como um cara. E eu sí a tremer com a língua grossa E a volição no cúmulo do exício. Rua Direita.NOITE DE UM VISIONÁRIO Número cento e três. e erguia. Mas a aguadilha pútrida o ombro inerme Me aspergia. A essa hora. Eu tinha a sensação de quem se esfola E inopinadamente o corpo atola Numa poça de carne liquefeita! -. e absorve em cada viagem Minh’alma -. O reino mineral americano Dormia.ca! Perante o inexorável céu aceso Agregações abióticas espúrias. Que forma a coerência do ser vivo. recebendo injúrias. E a ela se aliava o ardor das sirtes líbias.“Que esta alucinação tátil não cresça!” -. Arimânico gênio destrutivo Desconjuntava minha autônoma alma Esbandalhando essa unidade calma. por ver-vos.Dizia. Com a rebeldia acérrima dos nervos Minha atormentadíssima cabeça. Recebiam os cuspos do desprezo. Com os ligamentos glóticos precisos. E não haver quem. banhava minhas tíbias. É a potencialidade que me eleva Ao grande Deus. lhe entregue. Cortanto o melanismo da epiderme. num canto de carro. 169 . Como quem é levado para o hospício Aos trambolhões. oh! céu. íntegra.este sombrio personagem Do drama panteístico da treva! Depois de dezesseis anos de estudo Generalizações grandes e ousadas Traziam minhas forças concentradas Na compreensão monística de tudo.

A liberdade de vingar em risos A angústia milenária que o persegue! Bolia nos obscuros labirintos Da fértil terra gorda. me pediam. Dedos denunciadores escreviam Na lúgubre extensão da rua preta Todo o destino negro do planeta. lembravam Toalhas molhadas sobre as minhas pernas. O vibrião. Pareciam talvez meu epitáfio. o ancilóstomo. A ínfima fauna abscôndita e grotesca Da família bastarda dos helmintos. Com a abundância de um geyser deletério. Mais tristes que as elegais de Propércio.coetâneo do horrendo cataclismo -Era puxado para aquele abismo No redemoinho universal das cousas! 170 . Vinha do coração quente da terra Um rumor de matéria dissolvida. As vegetalidades subalternas Que osserenos noturnos orvalhavam. com a símplice sarcode. com o ar horrível. O motor teleológico da Vida Parara! Agora. Onde minhas moléculas sofriam. úmida e fresca. A química feroz do cemitério Transformava porções de átomos juntos No óleo malsão que escorre dos defuntos. Um pedaço de língua disponível Para a filogenética vingança! A cidade exalava um podre béfio: Os anúncios das casas de comércio. E no estrume fresquíssimo da gleba Formigavam. Pela alta frieza intrínseca. Um necrófilo mau forçava as lousas E eu -. em diástoles de guerra. o colpode E outros irmãos legítimso da ameba! E todas essas formas que Deus lança No Cosmos.

Eternamente aberta ao sol e à chuva. Uma vez. Súbito alguém. Engalanava-lhe as paredes frias Uma coroa de urzes e de cardos Coberta em pálio pelas laçarias.A VITÓRIA DO ESPÍRITO Era uma preta. Já na eminência da amplidão sidérea Como uma umbela. se desenrolava A esteira astral da retração etérea.Um vento frio começou gemendo. Foram caindo como estalactites Sobre o ouro e a prata das alfaias priscas 171 . Os astros mortos refulgiam vivos E a noite.. rutilava Lantejoulada de opalinos crivos. aos lampejos derradeiros Das irisadas vespertinas velas. nunca visto Tauxiava o Céu de grandes roxos Da mesma cor da túnica de Cristo. E pelas catacumbas desprezadas. Parou em frente da mesquita morta. Em passo lento. nos altares esboroados. Mochos vagavam como sentinelas. a viúva. Abandonada aos lobos e aos leopardos Numa floresta lúgubre e esquisita. . foi transpondo a porta. funeral mesquita. A Lua encheu o espaço sem limites E. o passo constrangendo. Fulgia em tudo uma estriação violeta E um violáceo clarão banhava os mochos Que em torno estavam da mesquita preta. e o olhar errante. ampla e brilhante. Feras rompiam tolos e balseiros. Era uma viúva. dentro.. Em atalaia às gerações passadas! Um crepúsculo imenso.

na redoma clara Que envolve a porta da região etérea. E iam cair em pérolas de sangue Sobre as asas doiradas das abelhas. Como uma exposição de carnes vivas. Morria a noite. No desfilar de sua carne morta A transitoriedade da matéria! 172 . contra ela. Além. infernais ardendo Todas as feras. arremetendo. As flâmulas altivas Do sol nascente erguiam-se vermelhas. E raivosas. O espírito da viúva se quedara Ao contemplar dessa fulgente porta E dessa clara e alva redoma aérea.O próprio Deus cantava na floresta! Nos arvoredos rejuvenescidos. E ardendo na impulsão das ânsias doidas E em sevas fúrias. entanto. as panteras todas Avançam para a viúva desvalida. E sobre o corpo da viúva exangue. Fora. E havia no atro olhar dessas panteras Essa alegria doida da carnagem Que é a alegria única das feras. A Natureza celebrava a festa Do astro glorioso em cantos e baladas . Tiram-lhe todas ali mesmo a vida. por um chão de onagras Vinha passeando corno numa viagem Um grupo feio de panteras magras. Estrugiam canções desesperadas De misereres e de sustenidos. entretanto.Um dilúvio de fósforos prateados E uma chuva doirada de faíscas.

A ILHA DE CIPANGO Estou sozinho! A estrada se desdobra Como uma imensa e rutilante cobra De epiderfe finíssima de areia. brilha A árvore da perpétua maravilha. 173 . Impressionado sem cessar com a Morte E sentindo o que um lázaro não sente. em luz perpétua. trêmulo. Na ilha encantada de Cipango tombo. em plena podridão. Assim. Verde. quem diante duma cordilheira. Da qual. entre assombros. E ao longe soam trágicos fracassos De heróis.. Rica. passeia! A agonia do sol vai ter começo! Caio de joelhos. no meio. ostentando amplo floral risonho...... Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas. Atravessando os ares bruscamente. Anunciando desmoronamentos De mil lajedos sobre mil lajedos. Qual num sonho arrebatado fosse. num enleio doce. Sente vontade de cair de joelhos! Soa o rumor fatídico dos ventos... Os olhos volvo para o céu divino E observo-me pigmeu e pequenino Através de minúsculos espelhos.. pela vez primeira. Ofereço Preces a Deus de amor e de respeito E o Ocaso que nas águas se retrata Nitidamente repdoruz. A saudade interior que há no meu peito. partindo e fraturando os braços Nas pontas escarpadas dos rochedos! Mas de repente.. E por essa finíssima epiderme Eis-me passeando como um grande verme Que. tenho alucinações de toda a sorte. À cuja sombra descansou Colombo! Foi nessa ilha encantada de Cipango. afetando a forma de um losango. ao sol. Pára. exata.

O Firmamento é uma caverna oblonga Em cujo fundo a Via-Láctea existe.. E como agora a lua cheia brilha! Ilha maldita vinte vezes a ilha Que para todo o sempre me fez triste! 174 . Passa o seu enterro!.. Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrioi! Um penetrante e corrosivo frio Anestesiou-me a sensibilidade E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. A tarde morre... Iríamos a um país de eternas pazes Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio... Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos! E a treva ocupa toda a estrada longa. Banhei-me na água de risonhos lagos. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. E finalmente me cobri de flores. A luz descreve siguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos..Que Toscanelli viu seu sonho extinto E como sucedeu a Afonso Quinto Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho! Lembro-me bem. Gozei numa hora séculos de afagos..

de cima. Alegoria tristonha Do que pelo Mundo vai! Se um sonha e se ergue. Mas desgraçado do pobre Que em meio da Vida cai! Esse não volta. O Céu..globo de louça Surgiu. Espelham-se os esplendores Do céu. Em fulvos filões doirados Cai a luz dos astros por Sobre o marítimo horror Como globos estrelados. Vagueia um poeta num barco. Quem as esconda. Vai uma onda. A Lua . em reflexos. outro cai. Lá onde as rochas se assentam Fulguram como outros sóis Os flamívomos faróis Que os navegantes orientam. as esconda. fingindo cristais Das mais deslumbrantes cores. Cantam! Os astros do Céu Ouçam e a Lua Cheia ouça! 175 ..BARCAROLA Cantam nautas. Se um cai. vem outra onda E nesse eterno vaivém Coitadas! não acham quem. em lúcido véu. esse vai Para o túmulo que o cobre. a luzir Como um diamante de Ofir Imita a curva de um arco. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas. nas Águas. outro se ergue e sonha.

porém.E disse e porque isto disse O luar no Céu se apagou. E como um requiem profundo De tristíssimos bemóis. nunca mais "Há de cercar-te essa glória! "Nunca mais! Sê.. "Fecha-te nesse medonho "Reduto de Maldição. "Mas nunca mais.. "Viajeiro da Extrema-Unção.. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas! 176 . poeta da Morte!" .. Mais um coveiro do Verso! Cantam flautas. "O poeta é como Jesus! "Abraça-te á tua Cruz "E morre. Sua voz é igual à voz Das dores todas do mundo. forte.. "Sonhador do último sonho! "Numa redoma ilusória "Cercou-te a glória falaz.Ouça do alto a Lua Cheia Que a sereia vai falar.. Súbito o barco tombou Sem que o poeta o pressentisse! Vista de luto o Universo E Deus se enlute no Céu! Mais um poeta que morreu. Haja silêncio no mar Para se ouvir a sereia. Que é que ela diz?! Será uma História de amor feliz? Não! O que a sereia diz Não é história nenhuma.

Fulgente do valor da vossa glória. fazei que destes brilhos. pois. A bênção do valor dos vossos filhos! 177 . Caia do santuário lá da História. oh! Redentora d'alma. Rola um drama que a Pátria exalça e doura Numa auréola de paz imorredoura. esplendorosa. levando ao mundo inteiro. Essa luz etereal bendita e calma. Da República a nova sublimada. E ali do despotismo entre os escombros. oh Pátria.AVE LIBERTAS Ao clarão irial da madrugada. essa bendita e branca Luz que os negrores da opressão espanca.Estrela d'Alva imaculada e pura! É livre a Pátria outrora opressa e exangue! Esse labéu que mancha a glória pública. e há de elevar-se neste sonho Ao topo azul das Glórias Imortais! Esplende. Vós. Da liberdade ao toque alvissareiro. e. Manchar não pode as aras da República. A República rola-lhe nos ombros. Enquanto fora na trevosa agrura Sucumbe o servilismo. . Banhou-se o coração do Brasileiro Num eflúvio de luz auroreada. A Liberdade assoma majestosa. Oh! Liberdade. risonho. Há de transpor sereno os penetrais Da Pátria. Não! que esse ideal puro. É que baqueia a vida escravizada! Já se ouvem os clangores do pregoeiro. Que apouca o triunfo e que se chama sangue. Como um Tritão.

Na área em que estou. Aves de várias cores e de várias Espécies.Mas hoje. Uma montanha que se desmorona. ao matinal assomo.ESTROFES SENTIDAS Eu sei que o Amor enche o Universo todo E se prende dos poetas à guitarra Como o Pólipo que se agarra ao lodo E a ostra que às rochas eternais se agarra. Uniformiza todos os anelos E une organizações fortes e fracas Nos mesmos laços e nos mesmos elos. desvairado.. E o Sol arranca as minhas crenças como Boucher de Perthes arrancava fósseis. Passa um rebanho de carneiros dóceis. cantam óperas inteiras. Além. E. Estremecendo em suas próprias bases. Tenho vontade de estrangulá-lo E reduzi-lo muitas vezes a ossos! Todo o ser que no mundo turbilhona Veja do Amor. E em qualquer parte do Universo veja Sombrias ruínas de um solar egrégio E o desmoronamento duma Igreja Despedaçada pelo sacrilégio. A Natureza veste extraordinárias Roupagens de ouro. O amor reduz-nos a uniformes placas. vendo o horror dos meus destroços. A compreensão da minha niilidade Aumenta à proporção que aumenta o dia E pouco a pouco o encéfalo me invade Numa clareza de fotografia.. 178 . sem prever o abismo Fiz desse amor um ídolo de Roma. à luz das minhas frases. Eleito Deus no altar do fetichismo! Tudo sacrifiquei para adorá-lo . nas oliveiras. Por muito tempo eu lhe sorvi o aroma.

construindo corpos quase informes E aquilo que é uma parcela apenas.este maldito monstro Que no meu próprio estômago alimento! Nisto a alma o oficio da Paixão entoa E vai cair. E quando a Dor me dói.. A inanidade da Ilusão demonstro Mas. à nitidez real dos aspectos. sinto um violento Rancor da Vida . tanjo minha harpa E a harpa saudosa a minha Dor exprime! Estes versos de amor que agora findo Foram sentidos na solidão de uma horta. Ver mastodontes onde há mastodontes E insetos ver onde há somente insetos.Observo então a condição tristonha Da Humanidade. e não tal qual a sonha E a vê o Sábio pelo telescópio. na água Da misteriosíssima lagoa Que a língua humana denomina Mágoa! Dos meus sonhos o exército desfila E. Como Tirteu na guerra de Messênia! Transponho assim toda a sombria escarpa Sinistro como quem medita um crime. Tal qual ela é. ébria de fumo e de ópio. eu vou cantando a nênia Do Amor que eu tive e que se fez argila. O Sábio vê em proporções enormes Aquilo que é composto de pequenas Partes. à frente dele. À sombra dum verdoengo tamarindo Que representa a minha infância morta! 179 . heroicamente.. demonstrando-a. Da observação nos elevados montes Prefiro.

Vem cá. Ah! Se me ouvisses falando! (E eu sei que ás dores resistes) Dir-te-ia coisas tão tristes Que acabarias chorando. erra. olha estas feridas.CANTO ÍNTIMO Meu amor. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra! O Sol está moribundo. em sonhos erra. De lá. se duvidas. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra!" 180 . Não me queixo mais da sorte Nem tenho medo da Morte Que eu tenho a Morte em mim mesmo! "Meu amor. Muito longe. a esmo. Muito longe. Um grande recolhimento Preside neste momento Todas as forças do Mundo. em sonhos. Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois. Que o amor abriu no meu peito. Onde há sonhos inefáveis Vejo os vermes miseráveis Que hão de comer os meus braços. dos grandes espaços. Passo longos dias.

quanto mais me desespero..Misto de infinita mágoa e de crença infinita. Nos desertos da Vida uma estrela fulgura E o Viajeiro do Amor. vendo-a. oração.Que eu nunca chore assim! Que eu nunca chore como Chorei. até que esta dor se concentre No âmago de meu peito e de minha saudade. experimento O mais profundo e abalador atrito. Numa prece de amor. o louco. e o sofrimento De minha mocidade. e cansado e morrendo O Viajeiro vai.Calor que hoje me alenta e há de matar-me em breve. neve. agonia bendita! GOZO INSATISFEITO Entre o gozo que aspiro. murmura: . Na insaciedade desse gozo falho Busco no desespero do trabalho. e entre sorrisos e entre Mágoas soluço. morre! E a alma se lhe dilui na amplidão infinita. agonia bendita! . Fazer parar a máquina do instinto. agonia. e vê a luz e vendo Uma sombra que passa. prece que ainda Entre saudades rezo... abraça a sombra e. numa delícia infinda. a sós. sinto A insaciabilidade desse gozo! 181 . agonia! . escuridão e eterna claridade. agonia.. Neve da minha dor. Caminha e vai. . Amor. Sem um domingo ao menos de repouso. Agonia de amar.CANTO DE AGONIA Agonia de amor.. uma nuvem que corre. Neve que me embala como um berço divino... triste. Queimam-me o peito cáusticos de fogo Esta ânsia de absoluto desafogo Abrange todo o circulo infinito. Frio que me assassina. Delícia que ainda gozo.. ontem.Diz e morre-lhe a voz. amor e frio. Mas. num volutuoso assomo. neve do meu destino! E eu aqui a chorar nesta noite tão fria! Agonia.

Por seis horas seu braço empenhado na luta. lúgubre e só. Para as bordas fatais dum precipício fundo! Quis um momento ainda olhar para o Passado. Mas o braço cansou! Trabalhou. trôpego e cambaleando Foi-se arrastando. e entre o Hércules de outrora! Pois havia de assim. do agro solo. A terra escalda: é um forno..O Hércules que ele fora! O fraco que ele hoje era! E surpreendido viu que um abismo se erguera Entre o fraco que era hoje.. Fez reboar pelo solo. desoladoramente A revolver da terra o atro e infecundo arcano. A flama oriunda Da solar refração bate no mundo. Rasgando.HISTÓRIA DE UM VENCIDO I Sol alto. Triste. foi aos poucos se arrastando.. oito vezes. a superfície bruta.Do Eterno Bem motor principal e alavanca Arrancara-lhe a Crença assim como se arranca De um ninho a seda branca e de uma árvore o galho! Sangrou-lhe o coração a saudade da Aurora! . do alegre Sol ao grande globo quente E pôs-se para aí. nesta maldita senda De sofrimento ignaro em sofrimento ignaro Ir caminhando até tombar sem um amparo No tremendo marneI da Desgraça tremenda?! II Noute! O silêncio vinha entrando pelo mundo E ele. E em tudo que o rodeava. mordendo a atra terra infecunda. aclara o mar e por tudo se estende E arde em tudo.. E o Velho veio para o labor cotidiano. acende O pó. e o trabalho . alta e descompassada A dura vibração incômoda da enxada. funéreo 182 .

o último esforço. o Velho caminhava. o precipício estava. E amplo. tombando. a família! Não morreria. era a turba trovadora Que assim cantava. louco. o peito arqueou-se. o acalenta. viveria! Viveria! E a fecunda e deleitosa seara Verde dos campos. Num instante viu tudo. Nem viu que era chegado o termo da viagem.. ninguém o acalenta. e ele quis falar e estava mudo! Mudo! E a quem contaria agora as suas mágoas?! E trágico. bêbado de miragem. avistar a Árvore da Esperança. E bateram-lhe então de chofre na lembrança A casa que deixara. Compensaria toda a sua dor imensa Tal qual o Céu a dor de Cristo compensara! E aos tropeços. no horror bruto da despedida Abraçou-se com a Dor. Quis fazer um esforço .. enquanto a Terra Vencedora Celebrava ao luar a Missa dos Vencidos! E o cadáver. e o braço Pendeu exangue. Somente entre a negrura atra da terra poenta Alguém beija... alguém vela o cadáver: a Lua! 183 . a toa. pois! Somente morreria Se da Vida.. abraçou-se com a Vida E sepultou-se ali no coração das águas! Cantavam muito ao longe uns carmes doloridos! Eram tropeiros.. onde arde e floresce a Crença. ele pisasse os trilhos. avistando uma frondosa tília Julgou. os filhos. Que mal lhe haviam feito a esposa e a irmã e os filhos?! Preciso era viver! Portanto. e a sonhar. flutua! Ninguém o vê.Horrorizado viu como num cemitério Cadáveres de um lado e cinzas de outro lado! De súbito. e compreendendo tudo. a flux d'água.. sozinho. Caminhava. o cansaço Empolgara-o.. a rugir-lhe aos pés.

.ocaso nunca visto. A VIa-Láctea vai abrindo os braços! Áureas estrelas.. sangrento O sol. da Noite ao negro assomo Beijam-lhe o corpo ensangúentado d'ouro. pompeiam (triste maldição!) . rubro.condensada treva A sombra desce.Crepúsculo fatal vindo do Nada! Que importa o Sol! A Treva. E há no meu peito . Além. luminosas. santa e vitoriosa Dentre um velarium de veludos. Legiões de névoas mortas e finadas Como fragmentações d'ouro e basalto Lembram guirlandas pompeando no Alto Eterizadas.IDEALIZAÇÕES A Santos Neto I Em vão flameja. alvas. Nas chispas fulvas de um vulcão violento! E tudo em vão! Atrás da luz dourada. fulvos.. No ar há malabatros Turiferando a negridão tediosa. aos astrais desígnios. volaterizadas. a Sombra . ígneo. Atros. Subindo á majestade do Infinito. E os Sete Passos que magoaram Cristo! II Agora dorme o astro de sangue e de ouro Como um sultão cansado! As nuvens como Odaliscas. E a Noite emerge. Trazem no peito o branco das manhãs 184 .eis tudo! E no meu peito . mudo. Na majestade dum condor bendito... e o meu pesar se eleva E chora e sangra.. mudo. Descem os nimbos. e. Martirizado porque nunca dorme As Sete Chagas dum martírio enorme. Negras.. mudo. dourando as névoas dos espaços. Raios flamejam e fuzilam ígneos.Asas de corvo pelo coração.

o mastodonte. á luz áurea que dele Emana e estua e se refrange e ferve. em plena e fulva reverberação. Ah! Como tu.hóstia da Aurora. Como Herculanum foi após as chamas. Eu amo a noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. Abençoada pela Eternidade! E ei-lo de novo. em lodo tudo acaba. III De novo. Sírius me deslumbra. se. A alma se abate. E corno a Aurora .E dormem brancas corno leviatãs Sobre o oceano astral das nebulosas. se tornassem ferros?! IV Poeta. ontem moribundo. Mais em minh'alma um desespero brada?! De que serve. curvo ao seu destino. Hoje de novo. o tigre. se erguer. há-de Alva. Vésper me encanta. Fantástico. Mais em meu peito uma ilusão se enterra. lodo. e hás de ser após as chamas. aclarando os cerros E engalanando os arvoredos gaios. Ninguém se exime dessa lei imensa Que. assassino Ébrio de fogo. como se esses raios N'alma caindo. E nessa luz queimas4e em vão! És todo Pó. em vão na luz do sol te inflamas. de que serve Se é desespero e maldição todo ele?! Pois. dominando o mundo! Mas de que serve o Sol. O leão. A Mágoa ferve e estua. ciclópico. se triste em cada Raio que tomba no marnel da terra. a lesma.o Sol . e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca. de que serve... como tombou outrora. Tudo por fim há de acabar na mesma Tênebra que hoje sobre ti desaba. 185 . a Aurora. entre esplendores. se.

E foi deixando essas funéreas.. pelas penedias. a Lua que no céu se espalha. onde. foi valas funerais deixando. pois poeta.. canta! Canta a Descrença que passou cortando As tuas ilusões pelas raízes.Arrasta as almas pela Escuridão. Vives de cinzas e de ruinarias! V Agora é noite! E na estelar coorte. Iluminando as serranias.. como abutres Medonhos. um pedestal de tanta Treva e dor tanta. Geme a pungente orquestração noturna E chora a fanfarra triunfal da Morte. E em vez de chagas e de cicatrizes Deixar.. pelas escarpas. de ilusões te nutres.Fera rendida à música divina.. Então. Ergue. Como recordação da festa diurna. Pelos rochedos. banha As serranias duma luz estranha. de ossos. Harpas concertam! Brandas melodias Plangem.. Silêncio! Mas de novo as harpas Reboam pelo mar. Canto.. e. frias. e minh'alma cobre-se de flores . Vésper me encanta. Sírius me deslumbra.. Alva corno um pedaço de mortalha! Nessa música que a alma me ilumina Tento esquecer as minhas pr6prias dores. Eu amo a Noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. E arrasta os coraç5es pela Descrença. sobe ao pedestal. Medonhas valas. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca! 186 . e num supremo e insano E extraordinário e grande e sobre-humano Esforço.

Desta cidade pelas ruas erra A procissão dos Mártires da Terra Desde os Cristãos até Giordano Bruno! Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim. Mas. logo Toda a alvorada esplêndida se ostenta. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido Como um bemol e como um sustenido Rola impetuosa por meu peito adentro?! . triunfalmente. Depois de embebedado deste vinho.. 187 . E invejo o sofrimento desta Santa. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Por que cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício. sonâmbulo.. em mágoa. nos céus altos... eu também vou passando Sonâmbulo.Por que é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ou mapa-múndi estranha. Em cujo olhar o Vicio não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse. A dispersão dos sonhos vagos reuno. Por que não evitei o precipício Estrangulando minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! À proporção que a minha insônia aumenta Hierógafos e esfinges interrogo.INSÔNIA Noite..... sonâmbulo.

as flores..Vagueio pela Noite decaída. contemplo As maravilhas reais do meu Pau d'Arco! Cedo virá. Com o olhar a verde periferia abarco. No espaço a luz de Aldebarã e de Árgus Vai projetando sobre os campos largos O derradeiro fósforo da Vida. por exemplo. os corimbos. As árvores. porém. Estou alegre.. O Sol. o funerário. neste silêncio e neste mato. em mágoa imerso. Sacrificar-me por amor do Verso No meu eterno leito de Procusto! 188 . Cercado destas árvores. O odor da margarida e da begônia Subitamente me penetra o olfato. estronda Como um grande trovão extraordinário. Recordam santos nos seus próprios nichos. hedionda. equilibrando-se na esfera. batendo na alma. Incensa o ambiente o fumo dos cachimbos.. Aqui. Em que o Tédio. Outra vez serei pábulo do susto E terei outra vez de. Atro dragão da escura noite.. Respira com vontade a alma campônia! Grita a satisfação na alma dos bichos. Agora. Restitui-me a pureza da hematose E então uma interior metamorfose Nas minhas arcas cerebrais se opera.

Presto. "Miniatura alegórica do chão.Mucosa nojentíssima de pus. "Onde os ventres maternos ficam podres. por outra. por epigênese geral. síntese má da podridão. ébrio. porque um. aparece. "Na tua clandestina e erma alma vasta. Olho-o ainda. Olho-o. através ovóide e hialino Vidro. são dois Túmulos dentro de um carvão promíscuo. "Meu raciocínio sôfrego surpreende "Todas as formas da matéria gasta!" Raciocinar! Aziaga contingência! Ser quadrúpede! Andar de quatro pés E mais do que ser Cristo e ser Moisés Porque é ser animal sem ter consciência! Bêbedo. Mergulho. E o que depois fica e depois Resta é um ou. sinto O amargor especifico do absinto E o cheiro animalíssimo do parto! E afogo mentalmente os olhos fundos Na amorfia da cítula inicial."Cinza. a esvaziar báquicos odres: . o arquitetural e íntegro aspecto 189 . Risco-o Depois. "Onde nenhuma lâmpada se acende. certo. Todos os organismos são oriundos. amorfo e lúrido. harto. irrupto. os beiços na ânfora ínfima. ante Minha massa encefálica minguante Todo o gênero humano intra-uterino! É o caos da avita víscera avarenta . barro. é do sonho assíduo Que a individual psique humana tece e O outro é o do sonho altruístico da espécie Que é o substractum dos sonhos do indivíduo! E exclamo. e na ínfima ânfora. é mais de um. Dois são. A nutrir diariamente os fetos nus Pelas vilosidades da placenta? Certo. De onde.MISTÉRIOS DE UM FÓSFORO Pego de um fósforo.

Na síntese acrobática de um salto. Migalha de albumina semifluida. Na anfigonia que me produziu Nonilhões de moléculas de esterco. que. como nunca outro homem viu. o que nele Morre.. De onde o desprotegido homem nasceu Para a fatalidade dos tropismos. de agulhas e de pregos?! Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis! Dentro um dínamo déspota. na terra instável. Teus gineceus prolíficos envolvem Cinza fetal!. cósmico zero. Se escapa. ínfimo e infecto! É a flor dos genealógicos abismos . O espectro angulosíssimo do Medo! Em cismas filosóficas me perco E vejo. Em que todos os seres se resolvem! 190 . Vida. muito alto. em segredo. é o céu abscôndito do Nada. De minha antropocêntrica matéria Numa côncava xícara funérea Uma colher de cinza miserável! Abro na treva os olhos quase cegos.. Depois. dentre as tênebras. é todo aquele Que vem de um ventre inchado. E este ato extraordinário de morrer Que há de na última hebdômada. sois vós. Que fez a boca mística do druida E a língua revoltada de Lutero. Então. sozinho. mônada vil.Do mundo o mesmo inda e. sou eu. Que mão sinistra e desgraçada encheu Os olhos tristes que meu Pai me deu De alfinetes. ora. Basta um fósforo só Para mostrar a incógnita de pó. Move todos os meus nervos vibráteis. do meu espírito. Sob a morfologia de um moinho. atender Ao pedido da célula cansada! Um dia restará.Zooplasma pequeníssimo e plebeu.

. Adeus! Que eu veio enfim.. E esse acidente químico vulgar Extraordinariamente me impressiona! Mas minha crise artrítica não tarda. De onde quimicamente tu derivas. E eis-me outro fósforo a riscar.Ah! Maldito o conúbio incestuoso Dessas afinidades eletivas. com a alma vencida Na abjeção embriológica da vida O futuro de cinza que me aguarda! 191 . Na aclamação simbiótica do gozo! O enterro de minha última neurona Desfila.

E. Amor. .dúlia Que na fibra mais forte e até na fibra Mais tênue. tangendo tiorbas em volatas. e toda a alma Enches de beijos de infinita calma. E em tudo estruge a tua dúlia .. Ora. desces ao segredo insonte Do mar profundo onde a sereia canta E onde a Alcíone trêmula se espanta Ouvindo a gusla crebra da sereia! Rompe a manha. davas brandindo em seva e insana Fúria.ODE AO AMOR Enches o peito de cada homem.Estas multidões Sonham pátrias doiradas de ilusões Entre os tórculos negros da Desgraça . medras Nalma de cada virgem..Flores que tombam quando a neve passa No turbilhão das avalanches bravas! Tudo dominas! Dos vergéis tranqüilos Aos Capitólios. Sinos além bimbalham. e dos Capitólios Aos claros pulcros e brilhantes sólios De esplendor pulcro e de fulgências claras. Beijam-te o passo multidões escravas Dos Desgraçados! . Cantas a Vida que sangrando matas. Troa o conúbio dos amores velhos .As borboletas e os escaravelhos Beijam-se no ar. lembras.. E o aroma dos teus beijos infinitos Entra na terra. Retroa o sino. chora e se lamenta e vibra. . 192 . quietos Beijam-se além os silfos e os insetos Sob a esteira dos campos que se orvalham. a soberana Imagem pétrea das montanhas duras. vezes. bate nos granitos E quebra as rochas e arrebenta as pedras! És soberano! Sangras e torturas! Ora.. Rendilhados de fulvas gemas raras E pontilhados de crisoberilos. Sobes ao monte onde o edelweiss pompeia Nalma do que subiu àquele monte! Mas.

Irene. 193 . esse poder terrível. fosforeando. Egrégia estavas no teu plaustro egrégio Mais bela do que a Virgem de Corrégio E os quadros divinais de Guido Reni! Qual um crente em asiático pagode. Irene. Eis o motivo porque fiz esta ode. pois. sonhei-a. aos astros. Cativo. Irene. e eis o motivo. ontem. Quedo. beija os áureos pés dos ídolos.Enorme força regeneradora Que faz dos homens um leão que dorme E do Amor faz uma potência enorme Que vela sobre os homens.Essa dominação aterradora . Assim. quando Entre estrias de estrelas. impassível! Esta de amor ode queixosa. .E em cada peito onde um Ocaso chora Levanta a cruz da redenção da Aurora Como a Judite a redimir Betúlia! Bem haja. eis-me de ti cativo! Cativaste-me. Entre timbales e anafis estrídulos.

Onde a Matéria avança E a Substância caminha Aceleradamente para o gozo Da integração completa. Trinta e seis graus à sombra. Quase com febre. ao meio-dia. provinha Como de um negro cáspio de água impura A multissecular desesperança De sua espécie abjeta Condenada a uma estática mesquinha! Ria com essa metálica tristeza De ser na Natureza. bruta. erguido do pó. Da qual. a ouvir Cada átomo de ferro Contra a incude esmagado Sofrer. irritado.NUMA FORJA De inexplicáveis ânsias prisioneiro Hoje entrei numa forja. num sardonismo doloroso De ingênita amargura. O éter possuía A térmica violência de um braseiro. Inopinadamente 194 . No horror da metalúrgica batalha O ferro chiava e ria! Ria. Cujo negror profundo Astro nenhum exorna Gritando na bigorna Asperamente a sua própria dor! Era. Uma consciência eternamente obscura! O ferro continuava a chiar e a rir. Compreendia por fim que aquele berro À substância inorgânica arrancado Era a dor do minério castigado Na impossibilidade de reagir! Era um cosmos inteiro sofredor. tinir. a cuspir escórias De fúlgida limalha Dardejando centelhas transitórias. E eu nervoso. Dentro. berrar.

afinal.O ígneo jato vulcânico Que. . A ansiedade de um mundo Doente de ser inerte. A ouvir todo esse cosmos potencial.Para que à vida quente Da sinergia cósmica desperte. em lúgubre crescendo A antífona assimétrica E o incompreensível wagnerismo aziago De seu destino horrendo! Ao clangor de tais carmes de martírio Em cismas negras eu recaio imerso Buscando no delírio De uma imaginação convulsionada Mais revolta talvez de que a onda atlântica Compreender a semântica Dessa aleluia bárbara gritada Às margens glacialíssimas do Nada Pelas coisas mais brutas do Universo! 195 . Preso aos mineralógicos abismos Angustiado e arquejante A debater-se na estreiteza bronca De um bloco de metal! Como que a forja tétrica Num estridor de estrago Executava. atravessando a absconsa cripta enorme De minha cavernosa subconsciência. Punha em ciarividência Intramoleculares sóis acesos Perpetuamente às mesmas formas presos. Agarrados à inércia do Inorgânico Escravos da Coesão! Repuxavam-me a boca hórridos trismos E eu sentia. Cheia de ânsias e medos Com crispações nos dedos Piores que os paroxismos Da árvore que a atmosfera ultriz destronca. Cansado de estar só! Era a revelação De tudo que ainda dorme No metal bruto ou na geléia informe No parto primitivo da Criação! Era o ruído-clarão. Essa angústia alarmante Própria de alienação raciocinante.

Eu quero o meu Calvário .QUADRAS Embala-me em teus braços. Embala-me em teus braços! 196 . Assim como Jesus.Relíquias de Carrara Têm a ambrosia rara Da mais rara verbena.. Aperta-me em teu peito. oh! morena . Morreu-te a redolência. De lírios e boninas Um veludíneo leito.Anelo morrer vário Dos braços teus na Cruz! Porque não me confortas?! Bem sei. E dá-me assim. perdeste a ciência. Alma das virgens mortas Mas não! Apaga os traços De tão funesto aspeito.. De amores bons à sombra Quero em cheirosa alfombra Pousar os sonhos lassos! Teus seios. Aperta-me em teu peito. divina.

Diabo! Não ser mais tempo de milagre! Para que esta opressão desapareça Vou amarrar um pano na cabeça1 Molhar a minha fronte com vinagre. Morde-me os nervos o desejo doudo De dissolver-me.. Variando à ação mecânica dos dedos! Vai-me crescendo a aberração do sonho. três. e..ª-feira. Tenho 300 quilos no epigastro. Nos engenhos da várzea não existe Talvez um outro que se lhe equipare! Do observatório em que eu estou situado A lua magra..TRISTEZAS DE UM QUARTO MINGUANTE Quarto Minguante! E.Uma. 6. Mas novamente eis-me a perder a conta! 197 .. em suma. através do vidro azul. Eu escrevi os meus Gemidos de Arte?! A lâmpada a estirar línguas vermelhas Lambe o ar. E aos tombos.. Como um degenerado psicopata Eis-me a contar o número das telhas! . tonta Sinto a cabeça e a conta perco... de enterrar-me todo Naquele semicírculo medonho! Mas tudo isto é ilusão de minha parte! Quem sabe se não é porque não saio Desde que. O hemisfério lunar se ergue e se abaixa Num desenvolvimento de borracha. quatro.Uma. embora a lua o aclare. 3 de maio. Aumentam-se-me então os grandes medos. No bruto horror que me arrebata. em ânsias: . A conta recomeço. Vista. Este Engenho Pau d'Arco é muito triste. parece Um paralelepípedo quebrado! O sono esmaga o encéfalo do povo.. Dói-me a cabeça. quando a noite cresce. duas. Agora a cara do astro Lembra a metade de uma casca de ovo.

numa festa. Choro e quero beber a água do choro Com as mãos dispostas á feição de conchas. O suor me ensopa.Sucede a uma tontura outra tontura.. Tal urna planta aquática submersa. Tomba uma torre sobre a minha testa.. Cinco lençóis balançam numa corda. Minha família ainda está dormindo E eu não posso pedir outra camisa! Abro a janela. Um frio Cai sobre o meu estômago vazio Como se fosse um copo de sorvete! A alta frialdade me insensibiliza. Súbito me ergo. Antegozando as últimas delicias Mergulho as mãos . Vêm-me á imaginação sonhos dementes.aquela grande aranha Que anda tecendo a minha desventura! A luz do quarto diminuindo o brilho Segue todas as fases de um eclipse.. . Caem-me de uma só vez todos os dentes! Então dois ossos roídos me assombraram.. Figuras espectrais de bocas tronchas Tornam-me o pesadelo duradouro. Por muito tempo rolo no tapete. A luz fulge abundante 198 . E o amontoamento dos lençóis desmancho..Estarei morto?! E a esta pergunta estranha Responde a Vida .vis raízes adventícias No algodão quente de um tapete persa. Ponho o chapéu num gancho. por exemplo.. . A lua é morta.. Começo a ver coisas de Apocalipse No triângulo escaleno do ladrilho! Deito-me enfim. Meu tormento é infindo. Elevam-se fumaças Do engenho enorme. Mas aquilo mortalhas me recorda.. Acho-me.."Por ventura haverá quem queira roer-nos?! Os vermes já não querem mais comer-nos E os formigueiros lá nos desprezaram"..

nestes bucólicos retiros Toda a salva fatal de 21 tiros Que festejou os funerais de Hamleto! Ah! Minha ruína é pior do que a de Tebas! Quisera ser. observa A universal criação. cheios Dos tenros tinhorões e da úmida erva. o céu. De mim diverso. Entretanto. oh! Vida em que a sofrer me exortas Eu estaria como as bestas mortas Pendurado no bico dos abutres! 199 . longe do pão com que me nutres Nesta hora. Pelos respiratórios tênues tubos Dos poros vegetais. radiante e estriado. A ouvir. a terra resfolega Estrumada. numa última cobiça. cheia de adubos. no ato da entrega Do mato verde. rígido e de rastos Com a solidez do tegumento sujo Sulca. se ostenta A monarquia da árvore opulenta Que dá aos homens o óbolo dos frutos. passei o dia inquieto. feliz. Babujada por baixos beiços brutos. Côncavo. Broncos e feios. hierática. em diâmetro. A fatia esponjosa de carniça Que os corvos comem sobre as jurubebas! Porque. Vários reptis cortam os campos.E em vez do sepulcral Quarto Minguante Vi que era o sol batendo nas vidraças. No húmus feraz. o solo um caramujo Naturalmente pelos mata-pastos.

em sangue. ás dos cristais. Que apalpam e olham com lascfvia e gozo A pureza dos corpos infantis. E à noite. vão cheirar. Umas. mãos mais sanguinárias E estupradoras do que os bisturis Cortando a carne em flor das crianças mortas. Mãos adúlteras. Monstruosíssimas mãos. 200 . a farpas de rochedo Completamente iguais. pituitárias Olfativas.. quebrando portas O azul gasofiláceo silencioso Dos tálamos cristãos.MÃOS Há mãos que fazem medo Feias agregações pentagonais. Mãos de linhas análogas e anfratos Que a Natureza onicriadora fez Em contraposição e antagonismo Às da estrela. negras.. Mãos que adquiriram olhos. Outras. às da neve.. tentáculos sutis. Assinalados pelo mancinismo. a delinqüentes natos.. Pertencentes talvez.

Brande-lhe n'alma o frio dos sepulcros. Abençoada pelo meu tormento E consagrada pela sepultura. pálida camélia. langue e seminua. E como um nume de pesar. Opalescência trágica da lua! Tu. Pareces reviver a antiga Ofélia. Reza-lhe todo o cantochão memento Dessa Missa de amor da Extrema Agrura. Recordo o beijo que te dei nas tranças Emolduradas num florão de riços. No vácuo imenso das desesperanças E dos passados viços.VÊNUS MORTA A Via-Sacra Azul do amor primeiro Veste hoje o luto que a desgraça veste No miserere do meu desespero. Sonho abraçar-te.Lotus diluído n'alma dum cipreste! Como um lilás eternizando abrolhos Tinge de roxo o arminho da grinalda. de reverberantes E rubras asas de beliantos pulcros.Tufos de goivo em conchas de esmeralda.. plangente. Eu guardo o travo deste beijo ardente E a Nostalgia desta Pátria . Mas neste sonho. oh Quimera. E que ela suba na serena gaza Dos mistérios dourados e serenos À terra Ideal das púrpuras em brasa E ao Céu doirado e auroreal de Vênus! 201 . .. Guarda a saudade que levou do Mame.a Carne. Crava-lhe n'alma o tirso das bacantes. Rola a violeta santa dos teus olhos .

Aprazia-me assim. na escuridão. Cruzes na estrada. enquanto eu tropeçava sobre os paus. era só O ocaso sistemático de pó. No desespero de não serem grandes! 202 . Convulsionando Céus.. Mas o que meus sentidos apreendiam Dentro da treva lúgubre. Sentia estar pisando com a planta ávida Um povo de radículas e embriões Prestes a rebentar como vulcões. Eu procurava. como num chão profundo. com uma vela acesa. num ruidoso borborinho Bruto. A efígie apocalíptica do Caos Dançava no meu cérebro sombrio! O Céu estava horrivelmente preto E as árvores magríssimas lembravam Pontos de admiração que se admiravam De ver passar ali meu esqueleto! Sozinho. Em que as formas humanas se sumiam! Reboava.. com soluços quase humanos. Era o abjeto vibrião rudimentar Na impotência angustiosa de falar.VIAGEM DE UM VENCIDO Noite. Choravam. Do ventre equatorial da terra grávida! Dentro de mim. almas e oceanos As formas microscópicas do mundo! Era a larva agarrada a absconsas landes. uivando hoffmânnicos dizeres. A rebeldia dos meus pés danados Nas pedras resignadas do caminho. O feto original. Aves com frio. análogo ao peã de márcios brados. E. Mergulhar minha exótica visão Na intimidade noumenal dos seres. de onde decorrem Todas essas moléculas que morrem Nas transubstanciações da Natureza.

ao colher simples gardênia. de onde se vê o Homem de rastros. A multiplicidade heterogênea De sensações diversamente amargas. Noite alta.Vinha-me á boca. Numa crepitação própria de incêndio! Em contraposição à paz funérea. Brilhava. Onde Ormuzd guerreava com Arimã. Fluía. Na óssea armação das vértebras simétricas A angústia da biológica engrenagem! No Céu. vingadora. Mas das árvores. Cumpria-se afinal dentro de mim O próprio sofrimento da Substância! Como quem traz ao dorso multas cargas Eu sofria. Eles entravam todos na caverna Das consciências humanas mais fechadas! Ao castigo daquela rutilância. O brado emocionante de vindicta Das sensibilidades solitárias! A longanimidade e o vilipêndio. Como o protesto de uma raça invicta. Maior que o olhar que perseguiu Caim. Doía profundamente no meu crânio Esse funcionamento simultâneo De todos os conflitos da matéria! Eu. Na discórdia perpétua do sansara! Já me fazia medo aquela viagem A carregar pelas ladeiras tétricas. a esclarecer As manchas subjetivas do meu ser A espionagem fatídica dos astros! Sentinelas de espíritos e estradas. perdido no Cosmos. com a sidérica lanterna. assim. na ânsia dos párias. A abstinência e a luxúria. horrenda e monótona. frias como lousas. me tornara A assembléia belígera malsã. o bem e o mal Ardiam no meu orco cerebral. uma voz 203 .

na ânsia cósmica. Para erguer. Porque em todas as coisas. Deu4e (oh! mistério que se não traduz!) Neste astro ruim de tênebras e abrolhos A efeméride orgânica dos olhos E o simulacro atordoador da Luz! Por isto. Na prisão milenária dos subsolos. árvore. amanhã píncaros galgas. do Equador aos pólos. oh! filho dos terráqueos limos. enquanto Deus.Tão grande. iceberg. pois. em suma. isto é.. Para esconder-se nessa esfinge grande. tão profunda. Se hoje. tão feroz Que parecia vir da alma das cousas: "Se todos os fenômenos complexos. obscuro. porque. arvoredos desterrados. Nós. Jeová ou Siva Oculta à tua força cognitiva Fenomenalidades que hão de vir. A humildade botânica das algas De que grandeza não será capaz?! Quem sabe. com a febre mais bravia. a Energia A última etapa da objetivação?! É inútil. Rir da desgraça que de ti ressuma É quase a mesma coisa que chorar!" 204 . entres Na química genésica dos ventres. Rasgando avidamente o húmus malsão. a espiar enigmas. Desde a consciência à antítese dos sexos Vem de um dínamo fluídico de gás. rimos Das vãs diatribes com que aturdes o ar. Tragicamente. Crânio. ovário. Se a contração que hoje produz o choro Não há de ser no século vindouro Um simples movimento para rir?! Que espécies outras. Não trabalham. choramos. se ergue A esfinge do Mistério Universal! A própria força em que teu Ser se expande. que. diante do Homem. afinal. Rimos.. montanha.

desgraçadamente magro. A voz cavernosíssima de Deus. naquela noite de ânsia e inferno. astro decrépito. a escalar Céus e apogeus.As vibrações daquele horrível karma Meu dispêndio nervoso era tamanho Que eu sentia no corpo um vácuo estranho Como uma boca sôfrega a esvaziar-me! Na avançada epiléptica dos medos Cria ouvir. alheio ao mundanário ruído. Tinha necessidade de esconder-me Longe da espécie humana. a erguer-me. Reproduzida pelos arvoredos! Agora. A maior expressão do homem vencido Diante da sombra do Mistério Eterno! 205 . Eu. com os meus ossos! Restava apenas na minha alma bruta Onde frutificara outrora o Amor Uma volicional fome interior De renúncia budística absoluta! Porque. Eu fora. em destroços.

. é a rebelião Da criatura contra a natureza! Para essas lutas uma vida é pouca Inda mesmo que os músculos se esforcem. no combate. é o prélio enorme.QUEIXAS NOTURNAS Quem foi que viu a minha Dor chorando?! Saio. em coalhos. Minh'alma sai agoniada. Viver na luz dos astros imortais.. As minhas roupas. Os pobres braços do mortal se torcem E o sangue jorra. quero até rompê-las! Quero. Na ânsia incoercível de roubar a luz. 206 . era preciso a tinta Feita de todos os tormentos do homem! Como um ladrão sentado numa ponte Espera alguém. E muitas vezes a agonia é tanta Que. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. armado de arcabuz. A Eternidade esmagadora bate Numa dilatação exorbitante! E eu luto contra a universal grandeza Na mais terrível desesperação É a luta. rolando dos últimos degraus. arrancado das prisões carnais. entre estes monstros. pela boca. Abraçado com todas as estrelas! A Noite vai crescendo apavorante E dentro do meu peito. Estou á espera de que o Sol desponte! Bati nas pedras dum tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza é minha única saúde. O quadro de aflições que me consomem O próprio Pedro Américo não pinta. ando! Não trago sobre a túnica fingida As insígnias medonhas do infeliz Como os falsos mendigos de Paris Na atra rua de Santa Margarida. Para pintá-lo.

é improfícuo. A bênção matutina que recebo. Seja este. Se algum dia o Prazer vier procurar-me Dize a este monstro que eu fugi de casa! 207 . E tombe para sempre nessas lutas. Hoje é amargo tudo quanto eu gosto. O amor tem favos e tem caldos quentes E ao mesmo tempo que faz bem. o último canto meu Por esta grande noite brasileira! Melancolia! Estende-me a tu'asa! És a árvore em que devo reclinar-me.. Ah! Por todos os séculos vindouros Há de travar-se essa batalha vã Do dia de hoje contra o de amanhã. faz mal.. a água que bebo. é inútil.. O coração do Poeta é um hospital Onde morreram todos os doentes. em suma.O Hércules treme e vai tombar no caos De onde seu corpo nunca mais levanta! É natural que esse Hércules se estorça.. Estrangulado pelas rodas brutas Do mecanismo que tiver mais força. Este relógio trágico que marca Todos os atos da tragédia humana! Seja esta minha queixa derradeira Cantada sobre o túmulo de Orfeu. O velho tamarindo a que me encosto! Vou enterrar agora a harpa boêmia Na atra e assombrosa solidão feroz Onde não cheguem o eco duma voz E o grito desvairado da blasfêmia! Que dentro de minh'alma americana Não mais palpite o coração .esta arca. E é tudo: o pão que como. Igual á luta dos cristãos e mouros! Sobre histórias de amor o interrogar-me E vão. Não sou capaz de amar mulher alguma Nem há mulher talvez capaz de amar-me. enfim.

. Em vão com o grito do meu peito impreco! Dos brados meus ouvindo apenas o eco. ouvindo um grande estrondo.. Eu torço os braços numa angústia douda E muita vez. estudo. carrego A indiferença estúpida de um cego E o ar indolente de um chinês idiota! A passagem dos séculos me assombra. sozinho.. come... Como que. numa cova.Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. Para onde vou (o mundo inteiro o nota) Nos meus olhares fúnebres. a 1 de Janeiro. vendo o verme frio Que há de comer a minha carne toda! É a Morte -. Arranco os cadáveres das lousas E as suas partes podres examino.POEMA NEGRO A Santos Neto Para iludir minha desgraça. Sai para assassinar o mundo inteiro. abrindo todos os jazigos.Faminta e atra mulher que.esta carnívora assanhada -Serpente má de língua envenenada Que tudo que acha no caminho. à meia-noite. Na podridão daquele embrulho hediondo Reconheço assombrado o meu Destino! Surpreendo-me. Intimamente sei que não me iludo. -. A Morte. Corro. Levanta contra mim grandes cutelos E as baionetas dos dragões antigos! 208 . Mas de repente. rio Sinistramente. Então meu desvario se renova. e a mim pergunto.. em trajes pretos e amarelos. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. na vertigem: -. E o mundo inteiro não lhe mata a fome! Nesta sombria análise das cousas.

Como as estalactites da caverna. desta cova escura. e quando vi o que era.. Tu não és minha mãe. e após gritar a última injúria.. oh! Natureza! Eu desafio agora essa grandeza. Contra a agressão dos teus contrastes juntos A besta. Deste-me fogo quanto eu tinha sede. Cai no silêncio da Cidade Eterna A água da chuva em largos fios grossos. que eu me vingo! Súbito outra visão negra me espanta! Estou em Roma..E quando vi que aquilo vinha vindo Eu fui caindo como um sol caindo De declínio em declínio. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Semeadora terrível de defuntod. em grupos prosternados. Vi que era pó. É Sexta-feira Santa. De Jesus Cristo resta unicamente 209 . canalha.. Por tua causa apodreci nas cruzes. Amarrado no horror de tua rede. vi que era esterquilínio! Chegou a tua vez. como a gula de uma fera. Quis ver o que era. Chocalha os dentes com medonha fúria Como se fosso o atrito de dois ferros! Pois bem! Chegou minha hora de vingança. Com as longas fardas rubras. Deixa-te estar. Tu mataste o meu tempo de criança E de segunda-feira até domingo... No histerismo danado da tortura Todos os monstros que os teus peitos criam. Perante a qual meus olhos se extasiam. e de declínio Em declínio. os soldados Buardam o corpo do Divino Mestre. Eu desafio. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. acorda em berros Acorda. que em mim dorme. A trava invade o obscuro orbe terrestre No Vaticano.

A árvore dorme Eu. e a gente. Roma estremece! Além. Na Eternidade. A desagregação da minha Idéia Aumenta. com a minha dor enorme Os olhos ensangüento na vigília! E observo. Resume A espiritualidade da matéria E ele é que embala o corpo da miséria E faz da cloaca uma urna de perfume. no ar de minha terra.. o desalento e o desconforto Paralisam-me os círculos motores. O vento entoa cânticos de morte. a gente Sente vontade de abraçar-lhe os ossos! Não há ninguém na estrada da Ripetta. As luzes funerais arquejam fracas. num rumor forte Recomeça o barulha das matracas. vendo-o. Na agonia de tantos pesadelos Uma dor bruta puxa-me os cabelos.. somente eu. Desperto.Um esqueleto. os ventos gemedores Estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na serra Da Borborema. Na molécula e no átomo. enquanto o horror me corta a fala O aspecto sepulcral da austera FIM 210 . quieta. Como as chagas da morféia O medo. É tão vazia a minha vida! No pensamento desconexo e falho Trago as cartas confusas de um baralho E pedaço de cera derretida! Dorme a casa.. Dentro da igreja de São Pedro.. O céu dorme.

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