EU, TODOS OS SONETOS E OUTRAS POESIAS

(OBRA COMPLETA)

AUGUSTO DOS ANJOS

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Autor: Augusto dos Anjos Título: Eu, todos os sonetos e outras poesias Data da Digitalização: 2004 Data Publicação Original: Primeiras décadas do séc. XX

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ÍNDICE
Introdução
As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos (por Horácio de Almeida) ....................................... 06 Um Currículo Escrito pelo próprio poeta (respostas ao inquérito de Licínio dos Santos) .............. 33

Sonetos
O Morcego ..................................................34 Psicologia de um Vencido ......................... 34 A Idéia ....................................................... 35 O Lázaro da Pátria ..................................... 35 Idealização da Humanidade Futura ........... 36 Soneto ao Meu Primeiro Filho .................. 36 Versos a um Cão ....................................... 37 O Deus-Verme .......................................... 37 Debaixo do Tamarindo .............................. 38 Budismo Moderno ..................................... 38 Sonho de um Monista ................................ 39 Solitário ..................................................... 39 Mater Originalis ........................................ 40 O lupanar ................................................... 40 Idealismo ................................................... 41 Último Credo ............................................. 41 O Caixão Fantástico .................................. 42 Solilóquio de um Visionário ..................... 42 A um Carneiro Morto ................................ 43 Vozes da Morte ......................................... 43 Insânia de um Simples .............................. 44 Asa de Corvo ............................................. 44 O Martírio do Artista ................................. 45 O Mar, a Escada e o Homem ..................... 45 Decadência ................................................ 46 Ricordanza della mia Gioventú ................. 46 A Um Mascarado ...................................... 47 Vozes de um Túmulo ................................ 47 Contrastes .................................................. 48 Soneto I a meu pai doente ......................... 48 Soneto II a meu pai morto ......................... 49 Soneto III ................................................... 49 Depois da Orgia ......................................... 50 A Arvore da Serra ..................................... 50 Vencido ..................................................... 51 O Corrupião ............................................... 51 Alucinação a Beira Mar ............................. 52 Vandalismo ............................................... 52 Versos Íntimos .......................................... 53 Vencedor ................................................... 53 Eterna Mágoa ............................................ 54 O Lamento das Coisas .............................. O Meu Nirvana ......................................... Caput Immortale ....................................... Apóstrofe a Carne ..................................... Louvor a Unidade ..................................... O Pântano ................................................. Supreme Convulsion ................................. A Um Gérmen .......................................... Natureza Íntima ........................................ A Floresta ................................................. Guerra ....................................................... O Sarcófago .............................................. Hino a Dor ................................................ Última Visio ............................................. Aos Meus Filhos ....................................... A Dança da Psique .................................... O Poeta do Hediondo ................................ A Fome e o Amor ..................................... Homos Infimus ......................................... Minha Finalidade ...................................... Noli Mi Tangere ....................................... O Canto dos Presos ................................... Aberração .................................................. Vítima do Dualismo .................................. Ao Luar ..................................................... A Um Epiléptico ....................................... Canto da Onipotência ............................... Minha Arvore ........................................... Anseio (Quem Sou Eu...) .......................... Revelação I ............................................... Revelação II .............................................. Versos a um Coveiro ................................ Trevas ....................................................... As Montanhas I ......................................... As Montanhas II ....................................... Apocalipse ................................................ A Nau ........................................................ Volúpia Imortal ......................................... O Fim das Coisas ...................................... A Noite ..................................................... A Obsessão do Sangue ............................. 54 55 55 56 56 57 57 58 58 59 59 60 60 61 61 62 62 63 63 64 64 65 65 66 66 67 67 68 68 69 69 70 70 71 71 72 72 73 73 74 74

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Vox Victimae ............................................ Agonia de Um Filósofo ............................. O Último Número ..................................... Saudade ..................................................... Abandonada ............................................... Ceticismo ................................................... Mágoas ...................................................... Ouvi, Senhora ............................................ Triste Regresso .......................................... Infeliz ........................................................ N’augusta solidão dos cemitérios ............. Noivado ..................................................... No meu peito arde .................................... A Máscara ................................................. Amor e Religião ........................................ Canta no espaço a passarada ..................... O Coveiro .................................................. Pecadora .................................................... No Claustro ............................................... Il Trovatore ................................................ A Louca ..................................................... Primavera .................................................. A Esperança .............................................. Senhora, eu trajo o luto do passado .......... Sofredora ................................................... Ecos d’Alma .............................................. Amor e Crença .......................................... Ariana ........................................................ Tempos Idos .............................................. Na rua em funeral ei-la que passa ............. Adeus, adeus, adeus! E, suspirando... ....... A Aeronave ............................................... Lirial .......................................................... A Minha Estrela ........................................ A praça estava cheia.... .............................. A Esmola de Dulce .................................... Ave Dolorosa ............................................ Gênio das trevas lúgubres... ...................... Nimbos ...................................................... O Mar ....................................................... Anseio (Nessas Paragens Desoladas...) ..... Aurora Morta, Foge! ................................. No Campo ................................................. Canta o Teu Riso Esplendida Sonata ........ Cravo de Noiva ......................................... Plenilúnio .................................................. Insânia ....................................................... O Bandolim ...............................................

75 75 76 76 77 77 78 78 79 79 80 80 81 81 82 82 83 83 84 84 85 85 86 86 87 87 88 88 89 89 90 90 91 91 92 92 93 93 94 94 95 95 96 96 97 97 98 98

Ara Maldita ............................................... 99 Na etérea limpidez... ................................ 99 Treva e Luz ............................................ 100 O Templo da Descrença .......................... 100 A Peste .................................................... 101 Ideal ........................................................ 101 Cítara Mística ......................................... 102 Súplica num Túmulo .............................. 102 Afetos ..................................................... 103 Martírio Supremo .................................. 103 Sombra Imortal ....................................... 104 Coração Frio ........................................... 104 Noturno (Para o Vale Noital...) ............... 105 Sedutora .................................................. 105 Pelo Mundo ............................................. 106 E o Mar Gemeu a Funda Melopéia ......... 106 O Riso .................................................... 107 Vamos, Querida! ..................................... 107 A uma Mártir ......................................... 108 Régio ...................................................... 108 Pelo Mar ................................................. 109 Pallida Luna ............................................ 109 A Morte de Vênus ................................... 110 Mártir da Fome ....................................... 110 Sonho de Amor ....................................... 111 A Orgia Mata a Mocidade ...................... 111 Festival ................................................... 112 Noturno (Chove, lá fora...) ...................... 112 E Ele Morreu .......................................... 113 Vaes Victis .............................................. 113 A Dor ..................................................... 114 Terra Fúnebre ......................................... 114 O sonho, a Crença e o Amor ................... 115 Meditando ............................................... 115 Para Quem Tem na Vida... ...................... 116 Soneto a Frederico Nietzche ................... 116 O Negro ................................................. 117 Vinhas trilhando gárrulo a Avenida ........ 117 O Ébrio ................................................... 118 O Canto da Coruja .................................. 118 Senectude Precoce .................................. 119 André Chénier .......................................... 119 Mystica Visio .......................................... 120 Ilusão ...................................................... 120 Nome Maldito ........................................ 121 Dolências ................................................ 121 A Lágrima ............................................... 122

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................. 180 Canto Íntimo ................................................................ 195 Numa Forja ...................Outras Poesias Monólogo de uma Sombra ................................................... 141 Os Doentes ......................... 212 5 .............................123 Uma noite no Cairo .................................................................................... 166 A Luva ....................................... 197 Quadras ...................................... 183 Gozo Insatisfeito ....................... 192 Ode ao Amor .............................................................................. 200 Mãos ............... 190 Mistérios de um Fósforo ................................. 186 Insônia .......................................... 175 Barcarola . 156 Gemidos de Arte ........ 162 Versos de Amor .................................... 183 História de Um Vencido .. 199 Tristezas de um Quarto Minguante ............................................... 209 Poema Negro .................................................. 182 Canto de Agonia .............................. 170 A Vitória do Espírito ...................................................................128 As Cismas do Destino ....... 179 Estrofes Sentidas .............................................................. 203 Vênus Morta ............................ 173 A Ilha de Cipango .............................. 184 Idealizações ..... 155 Duas Estrofes ........................................................................... 204 Viagem de um Vencido ...................................................................................................................................... 205 Queixas Noturnas .... 157 A Meretriz ................................................................................................................................................................... 155 Mater ............................................... 129 A Caridade ........................ 168 Noite de um Visionário .................................................................................................................................. 176 Ave Libertas ........... 142 À Mesa ......................................................................................................

numa atitude de respeito e reflexão. Seja como * (do livro As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos. proponho-me a interpretá-lo a partir de um ângulo até agora pouco estudado — a inquietação de sua personalidade. contudo. Deste modo. Por conseguinte. A crítica metodológica do autor do Eu e Outras Poesias devia constituir o alvo desta escalada. desejosos de. O autor revela o homem e ambos estão por inteiro em sua obra. não conhecemos sequer a nossa. em suas mensagens de angústia. Nessa tentativa de interpretação psicológica. quando não irrompia ovante para logo se perder na dúvida. nos moldes da velha orientação impressionista. inatingível também ao bisturi dos que tentam dissecar o interior humano. sobretudo pela sinceridade com que nela está fotografado. É preciso. já que não podemos penetrar com tanta intimidade o mundo subliminal. isto é. Gráfica Ouvidor. o que de alguma forma facilita o trabalho de interpretação. RJ. na verdade. Difícil tarefa é essa de querer conhecer a alma dos nossos semelhantes. não vejo documento mais preciso para conhecer o autor que a sua própria obra. acompanhá-lo na trajetória desse pensamento tumultuário. penso poder levantar a ponta da cortina para melhor compreensão das suas mensagens de angústia. segundo as síndromes patológicas revelados. Só o estudo do conjunto poderá explicar os matizes de um pensamento que tinha por norma ocultar-se em metáforas. Não me parece. 1962) 6 . ed. já outros o fizeram com maior ou menor adequação. Toda vez que o poeta se concentrava na dor que mais o cruciava. ao menos. pois. Nalgum ponto. Interpretar cada verso isoladamente não é tarefa que se enquadre no plano deste trabalho. um psicastênico para outros. Fazer o elogio do poeta. Teria sido um neurótico para uns. esteja o poeta revelado por inteiro em todos os reflexos de sua alma. poder conhecer a árvore pelo fruto. Apenas como contribuição a essa crítica de sentido mais amplo. realçar a força de sua inteligência manifestada na originalidade do estilo e na tônica de um materialismo filosófico. que o não convencia de todo. Sua personalidade singular ali se projeta. senão em mais de um. e era aí. A crítica literária já lhe realçou a obra em sua forma estética.INTRODUÇÃO AS RAZÕES DA ANGÚSTIA DE AUGUSTO DOS ANJOS* Por Horácio de Almeida Muito se tem escrito sobre Augusto dos Anjos. Em Augusto dos Anjos não há que procurar o autor fora de sua obra. entrava em crise espiritual. nesse estado de superexcitação. compreendendo inclusive a estilística. quando. paremos reverentes à porta do templo. que é de todas a menos operante. que forjava em versos candentes a produção que depois levava ao papel. Convenha-se antes de tudo que Augusto não foi um homem normal. não escapasse um pouco da minha acuidade intelectual. A crítica genética já lhe esvurmou a alma em busca de uma explicação para as suas anomalias psíquicas. o eu fora do Eu. é possível que se tenha conservado à distância da crítica literária. nos moldes em que se ajusta a passividade compreensiva do comum dos homens. no que há de mais sutil e imponderável. na chaga viva de sua consciência.

quando este ainda em estado de gestação sofreu uma comoção das mais fortes. o refinamento de suas faculdades morais. Oscar Wilde e outros loucos geniais ou degenerados superiores. a de Nietzche. aos que se rebaixam para subir. que nada explica. nas modalidades do caráter. De seu pai também não herdou as características psíquicas que o marcaram a fundo. reduzir tudo a categorismo. nem os que vieram depois. da inteligência. Pai e irmãos passavam por normais. tem sido Augusto comparado a Leopardi. menos a de Byron. E por curiosa coincidência. no final. Juízo é coisa que todos julgam ter. na classificação dos antropologistas do século passado. Explica-se deste modo. do sentimento. Todas se angustiaram por acontecimentos imprevistos. choques emocionais. fobias. de fundo genético. perturbou-a por muito tempo. Isto posto. Nietzche.for. todo o seu temperamento emocional. Tanto isso parece verdade que seus irmãos. causada pela perda imprevista de um irmão querido. Augusto não era um homem igual aos outros. tais modelos de comparação passaram também pelas mesmas crises intra-uterinas que afetaram a sensibilidade do autor do Eu. repetindo conceitos. Ao que se sabe. por motivos vários. A mãe do poeta. além mesmo da gravidez. Byron. aos que se acomodam. enfim. tal fato não podia deixar de refletir-se no filho em gestação. a de Byron. mas da mediocridade ajuizada que enche de presença os quadros humanos nunca ninguém viu sair obra duradoura. não há negar também a dos psicológicos. sestros. com preocupações de grandeza e fidalguia. O traumatismo moral que tão fundamente abalou a mãe. sobretudo quando tal obra reflete da primeira à última página a alma do autor. pelo drama que padeceu na vida intra-uterina. mas vale a pena ser louco quando se deixa por tal motivo um nome à admiração da posteridade. assim como está provada a hereditariedade dos caracteres biológicos. igualmente inteligentes. A causa primária de sua desordem nervosa já é assunto conhecido. jamais denotaram qualquer grau de semelhança ou relação de afinidade com a alma bizarra do poeta. de quem o sobrinho nascituro herdaria o nome e as conseqüências do choque. que já era constitucionalmente quase louca. Não se trata aqui de fazer coincidir a personalidade criadora de 7 . a de Wilde. caracterizado por uma sensibilidade doentia. sofreram perturbações muito fortes na época de gestação daqueles notáveis supranormais. como é do gosto da crítica científica. aos que perseguem riquezas ou fazem do amor o cio bestial. estudante de medicina. a partir de Lombroso. ficou desajustada da mente pelo resto da vida. sobre o seu caso clínico. Nem os que nasceram antes. que procura dissecar a alma para ajustá-la a quadros nosológicos já catalogados e. Por seu parentesco espiritual. enfim. tenho por desnecessário entrar aqui nesse campo de especulação psiquiátrica. por vezes controvertidos. não é possível interpretar a obra de um escritor. com distúrbios os mais evidentes no seu sistema nervoso. em relação com a casuística. Sem o concurso da causa primária. só ele dava a impressão de um desajustado. tiques nervosos. Assim como a mãe de Augusto. como se houvesse saído do limbo para cair na labareda. a de Leopardi. Não há que imputar a Augusto a pecha de louco. sobretudo quando provém da linha materna. Obviamente.

A paisagem bucólica da várzea. é a vocação que já revelava para o infortúnio. Sílvio Romero. no último ano do século passado. saído da roça. aprendeu a ler e. de vez que a literatura indígena longe estava de adquirir a consciência de sua função. até o túmulo. numa defesa de tese na Faculdade de Direito do Recife. segundo os primeiros retratos que temos dele. o seu tipo de pássaro molhado. cuja vida corria sem obstáculos. O que há de singular nele não é. quando apareceu para os primeiros exames no velho Liceu Paraibano. Quando Órris o conheceu nos idos de 1900. Nada de admirar. sem afastar-se do lar. Falava nele o positivista que. evolvia para o evolucionismo de Speneer. cinco anos após a sua morte. Esse adolescente sorumbático já poetava desde os sete anos de idade. E para completar o esboço do auto-retrato acrescentava: “Eu hoje só vivo para a descrença”. mas não era somente isso. Já em 1875. bradava para o conceituado mestre que o argüia. conforme disse num soneto que não consta. Os conhecimentos filosóficos gozavam reputação de primeira plana. agravados por outros que irromperam na idade perigosa. estavam a fazer dele um lírico. como expressão do pensamento nacional. que lançou em 1919. sofreu duros reveses. ao invés de um estudante bisonho. em contraste com a mocidade e a inteligência. em Monólogos de uma Sombra. Alexandre dos Anjos. os quais o acompanhariam. Logo mais. como uma fatalidade. haurido no transformismo de Haeckel e no evolucionismo de Spencer. A doutrina positivista foi a primeira a ganhar terreno. para aprazimento intelectual das elites. em 1900. era um introvertido. confessava-se já então “afeito às mágoas e ao tormento”. Vinha-se de uma época em que a erudição nacional destilava-se da cultura européia. definia mais claramente esse pensamento “como uma vocação para a Desgraça e um tropismo ancestral para o infortúnio”. A amizade que logo nasceu da admiração foi regada mais tarde com lágrimas de saudade no elogio que fez do poeta. a rigor. Com seu pai. na várzea do Paraíba. Era de fato um excêntrico. com o título Eu e Outras Poesias. A par disso. Augusto nasceu e se criou no engenho Pau d’Arco. inspirado na natureza e no amor. em sua linha tomista. viu nele um tipo excêntrico de pássaro molhado. porquanto as duas já se apresentam fundidas sem a química da ajuda biográfica. reunindo a esse volume a produção posterior à edição princeps de 1912. entrou a estudar as matérias do curso de humanidades. começou a envenenar-se com o materialismo filosófico. mas no final 8 . a sua própria vida sem problemas. Tais idéias materialistas eram a coqueluche que o século passado legara ao presente. publicado no Almanaque do Estado da Paraíba. do Eu. em prefácio à segunda edição do Eu. Deste modo. Ocioso será afirmar que a metafísica ortodoxa. guiado apenas pela ilustração paterna. para maior complicação de sua personalidade. O rapazinho de 16 anos.Augusto com a sua personalidade psicológica. Coelho Rodrigues. Órris Soares confessa que só conseguiu passar no exame de latim porque se valeu do colega que o ajudou a destrinchar Horácio. que a metafísica estava morta. sofregamente bebida nas academias. foi logo chamando a atenção de mestres e colegas pelos conhecimentos que demonstrava. a quietude da vida na província. Tão na flor da juventude e já se dizia um descrente. Muito cedo. não fossem os conflitos espirituais que trazia do berço. visto ter nascido poeta. dr. logo mais.

os que ainda não tinham qualquer convicção filosófica. disse-me certa vez que só depois de formado foi que veio a conhecê-lo direito. desde o monismo de Haeckel ao evolucionismo de Spencer. de que católico era sinônimo de burro. Toda a preocupação era combater o pensamento teológico. Embora educado na religião católica. Na Paraíba. que ficou sem seguidores e acabou relegada pelo próprio poeta. O materialismo dialético dos nossos dias retrocede. conciliada. de onde saiu formado em 1907. aliás bem pouco lisonjeiro. formavam rodas para discutir o sexo dos anjos. Laurindo Leão. em sua. faziam praça de livres pensadores. Foi nesse ambiente de agitação doutrinária. em seu livro Frases e Notas. que se irradiava do Recife ao sopro tempestuoso de Tobias Barreto e seus ardorosos discípulos. por ver em tudo isso hipóteses visionárias. ficava a escutar os companheiros. proceda ou não proceda. Esquisitão que era. os intelectuais mais dotados. irradiação natural da Escola do Recife discutia-se o problema do ser e do não-ser. O beatério era o último reduto do catolicismo. a ciência do Direito interessou menos ao estudante taciturno que as especulações filosóficas do materialismo naturalista. mas a metafísica resistiu ao impacto das idéias novas. já no seu ocaso. Os menos letrados. ou mesmo. o queixo apoiado no cabo do guarda-chuva. já lidos nos filósofos da natureza. quando ainda pontificava na Faculdade de Direito do Recife um devoto do fenomenismo agnóstico. o pensamento ao longe. não exclui absolutamente a hipótese da existência da alma. Comte passou.de contas resistiu ao choque de uma crença que condenava até a indagação anatômica e a astronomia sideral. introduziu entre nós a poesia científica. emancipou-se dela intelectualmente. que só cuidava de preocupações teológicas. dupla feição de filósofo e de poeta. o rapazelho sorumbático deu asas ao pensamento nos conflitos entre a consciência e o sentimento. nas concepções filosóficas de seus poemas. mas a origem simiesca do homem. firmava-se o conceito. isto é. Até no Piauí. José Américo de Almeida. segundo o depoimento de Cristino Castelo Branco. Martins Júnior. Desta forma. enquanto a metafísica do verdadeiro cristianismo continua palpitando na alma de todos os povos. Aliás. com a evolução da matéria e do espírito. já era moda entre os renovadores o lançamento de poemas filosóficos. aliás. Um que foi seu colega de estudos e morou com ele na mesma pensão em Recife. Augusto pouco falava. se o diabo é tão feio como o pintam. A matéria em sua essência afigurava-se-lhe tão misteriosa como a força. Ao que parece. desde Haller. Ainda na fase preparatória de estudos. tentou o milagre de 9 . a velha Escolástica. Nas rodas que se faziam na Paraíba. Darwin e Haeckel podem ser contestados ainda hoje como panteístas pelos que seguem ao pé da letra a história bíblica da Criação. influenciado pelos naturalistas e evolucionistas do século. Desses embates. um século antes de Hugo. que Augusto dos Anjos penetrou os umbrais da tradicional escola. está sujeita também ao processo da evolução. Os filósofos da natureza foram ficando para trás. Era a época da evolução do pensamento brasileiro. suportou a mais dura crise. confundidas ambas na unidade cósmica. a exemplo de Victor Hugo. que. entre o mundo da forma e o mundo da razão. como toda substância animada. como se desconhecesse ou procurasse desconhecer a parte subjetiva de si mesmo. adepto do positivismo. como uma velharia do século. Por todo o Nordeste.

E é de mim que decorrem. ampla. “esse mineiro doido das origens”. naquela mesma idade em que. terso na linguagem. Rimbaud escrevera Bateau ivre. Venho de outras eras. todavia. Augusto compôs Monólogos de uma Sombra. já diferenciado na mônada. Por ela vai buscar-se no mundo informe da vida planetária. depois de infinitas transformações. Realizou de fato esse milagre em estrofações de profunda força conceptiva e de cunho tão pessoal que toda a sua produção traz a marca do autor — a eurritmia musicada dos decassílabos. Pólipo de recônditas reentrâncias. até adquirir a forma humana. É a sua confissão de f transformista. Do cosmopolitismo das moneras. A partir da monera. O aspecto conceptual do poema. identifica-se na substância primeva. E a morbidez dos seres ilusórios! E por aí vai. fundado na unidade cósmica. 186 versos. as duas primeiras estrofes dos Monólogos: Sou uma Sombra. Em Bateau ivre quem fala é o barco ébrio e conta a sua derrota. na larva que procede do caos telúrico. Integrado na sociedade.. Em minha ignota mônada. começa então o drama crucial da consciência. Não sofre apenas a sua dor. e vem vindo como uma monera através de milhões de anos. simultâneas. numa caminhada de 31 estâncias. e—crente no tema. enfim. facilmente o identifica. poema que abre o Eu e Outras Poesias. já desiludido.. nas duas composições uma coincidência de temas. Não sei se Augusto leu alguma vez Rimbaud. Quem já o leu uma vez. A simbiose das coisas me equilibra. que é a derrota da humanidade. que passou do reino vegetal para o animal. ouvindo a citação de dois versos seus tomados ao acaso. desesperado por não poder libertar a energia intra-atômica e dominar a lei da mecânica universal. como amostra. por força das sucessivas mutações da matéria.reduzir a um campo único a ciência e a arte. incomparável na forma musicada. trinta anos antes. Da substância de todas as substâncias. a ponto de mostrar seu nojo à natureza humana.. bem mostra a preocupação indagativa do poeta de penetrar a coisa em si. sempre a evoluir em movimentos rotatórios. chega aos seres mais complexos. Larva do caos telúrico. vibra A alma dos movimentos rotatórios. Em Monólogos de uma Sombra é a Sombra que fala e a Sombra é o eu do poeta. como bem observa Cavalcanti Proença. Imitá-lo seria obra grosseira de pastiche. procedo Da escuridão do cósmico segredo. mas há casos em que a vidência poética de um é manifesta no outro. A saúde das forças subterrâneas. ora transfigurado em sátiro vilíssimo. mas há paralelismo de símbolos e de força criadora. a consciência 10 . Nessa ânsia de penetrar a vida fenomênica das formas. Aos 17 anos. Encontra-se.. Não há. E assim continua. Vejamos. ora transfigurado em filósofo moderno. mas “a solidariedade subjetiva de todas as espécies sofredoras”.

numa espécie de solidariedade subjetiva. Por fim. A mesma coisa. que tinha os ouvidos totalmente tapados. Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma 11 . segundo querem os frenologistas. Vemos o poeta a adquirir a forma humana e a degradar-se em seguida num gozo efêmero de dolorosas conseqüências. que a ele não interessava considerar. respondeu-me que por todo o casco da cabeça. sem mais compreender que prodígios são esses da monera. É a concepção monística. temos aí um transformismo metafísico. chamando a si. diante das maravilhas do aparelho encefálico. Quando a matéria transmigra acompanhada de um elemento hereditário que memoniza o instinto da espécie através das gerações. segundo a qual a matéria e o espírito se unificam numa só substância. Para os que negam o espírito há muitos fenômenos que ficam sem explicação. o que vale dizer. em esconderijos apropriados. centro de toda a acuidade sensorial. uma espécie de fogo que devora e não consome.conspurcada de gozo malsão. sente-se vencido diante do seu martírio e do martírio das criaturas. tantas vezes exaltada pelo poeta. com sótão e porão. ouvia mais que um tísico. no princípio era a força. O próprio Augusto. No fundo. o remorso já acordado na caverna escura. sente o remorso a queimar-lhe a consciência. Todo mundo sabe que é pelo ouvido que se ouve. Nesse estado d’alma. entendia o agregado abstrato da saudade. as conchas das orelhas rasas como a palma da mão e. como está dito em Monólogos de uma Sombra. entrega-se ao sacrifício. embora intelectualmente convencido da teoria racionalista. manifestou o seu espanto. natural de minha terra. Isso não impede que o espírito seja o agente atuante de tão prodigiosa membrana. E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva! Bem examinada a questão. Eis que assim se expressa em Os Doentes: A vida vem do éter que se condensa.No princípio era o Verbo. força será admitir um agente oculto capaz de operar o fenômeno. Augusto nunca deixou de ser um metafísico no sentido religioso da palavra. Perguntei-lhe um dia por onde entrava o som. onde impera a força que responde pelo movimento ubiqüitário da massa. Por alma. dezenove séculos antes. Sabemos que a consciência tem a sua morada no cérebro. a forma para ele era a manifestação passageira da matéria em seus processos evolutivos. Nada obstante. no entanto. assombrado com o não-ser. do ponto de vista metafísico. A partir dai. A rigor. conheci um sujeito. noção trivialíssima das funções orgânicas. há que distinguir um pormenor. E por que não admitir logo a alma? Se eu disser que a consciência e a inteligência têm a sua sede no espírito. posto que falasse às vezes em alma divina e em Deus de amor e de bondade. o vidente de Patmos: . o sofrimento de toda a humanidade. dentro do mundo fenomenal. No tocante à transformação da matéria. já havia dito. cuido não estar proferindo uma heresia. que faz quase lembrar a reencarnação.

Este ambiente me causa repugnância. a matéria putrefata. Sofro. O mundo em que vive é um vasto hospital. dominado por um ceticismo acabrunhador. uma natureza gasta. procura penetrar o mistério da substância universal. Monstro de escuridão e rutilância. faz perguntas ao destino: “Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?” E nesse duelo da matéria com o espírito perturba-se. fonte inesgotável de vida. admite o éter. Augusto falava como um homem que já perdeu o ideal da vida. impreca. Custa crer que este soneto . A influência má dos signos do zodíaco. Essa saturação filosófica fez-lhe um grande mal. onde imperam sombras. Sobe-me à boca uma ânsia igual à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. desde a epigênese da infância. mas “diante da sombra do mistério eterno” considera-se vencido. na melhor das suposições. Em sua alma atormentada as superexcitações provocam visões aterradoras. O próprio amor. inconformado com a idéia de ser um dia roído pelos vermes. Já o verme . Ao invés de fecundação do espírito. Exausto da luta. sem problemas materiais: Eu. Em tudo. um mundo de fantasmas errantes que não adquiriram ainda a consciência de sua dor. onde não há lugar para a alegria.tenha sido escrito por um adolescente para quem o cotidiano devia correr. Que o sangue podre das carnificinas Come e à vida em geral declara guerra. firmava-se no presente a flagelar-se na ciência racionalista. causa-lhe repugnância. que era o pior dos remédios para a sua alma inquieta. E há-de deixar-me apenas os cabelos. filho do carbono e do amoníaco. servindo de pasto a uma civilização corrompida. solta blasfêmias. o lado malsão da vida. que é o Deus materialista de Haeckel. Mas como é preciso preencher um claro na consciência. Na idade em que os encantos do mundo douram a existência. rasgar do mundo o velário espêsso. Os tormentos mortais da alma crescem com a descrença. o éter cósmico. Anda a espreitar meus olhos para roê-los. Por toda parte. Na frialdade inorgânica da terra! Assombrado com o futuro. Profundissimamente hipocondríaco.. procura 12 .este operário das ruínas. cadáveres e bocas necrófagas.. Querendo fugir a essas coisas.Psicologia de um Vencido . vermes. perscrutar a fenomenalidade da energia a erguer da prisão milenária outras espécies que hão de vir. No auge da inquietação.Fazer a luz do cérebro que pensa. Nem por isso admite Deus. só serviu para adensar o clima de alucinação.

seria capaz de executar o quadro de suas aflições. que ele denomina um sonho ladrão. gasta imensas energias e enche de culminâncias. O niilismo esvaziava-lhe a alma da mesma forma que o cientificismo materialista. sente o desejo. mas não me parece bastante para torná-lo um desgraçado. acompanham-no. podia exercer influência no temperamento sensível do poeta.. Espera aí encontrar o seu nirvana. deve ter acontecido na sua juventude. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das idéias! Mas de novo se encontra em face do nada. Antes de mais nada. com efeito. coberto de desgraças.refúgio na inexistência espiritual.. Com efeito. A julgar pelos seus gemidos. não há homem que sofra mais. Mas o diabo não larga a sua presa. Algo de mais grave. paralelamente. a terrível moléstia que se atribui. E de onde vem essa dor? É possível que tenha a explicá-la um concurso de causas. para não desmoronar a fortaleza de suas convicções filosóficas. que os anos não carcomem. Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer. que exulta triunfante: Gozo o prazer. como se supunha. Onde quer que se refugie. Um inocente metido na prisão talvez se revoltasse menos que ele no ergástulo da carne. Falava como um homem que parecia ter a consciência carregada de remorsos. como se já tivesse despido a carcaça da matéria. não é demais supor a existência de algum motivo oculto capaz de levá-lo ao desespero. evadido de si mesmo. Nenhum pintor. Depois disso. tenta ir ao fundo da crença monística. E é nesta manumissão schopenhauriana. em suas visões oníricas. numa atitude mental de fuga à realidade. monstros terríveis. Mas há dentro dele qualquer coisa que o chama à realidade. no todo ou em parte. como se o infortúnio tivesse desabado sobre a sua cabeça. uma desgraça na vida do poeta. Até agora 13 . Grita a sua dor por toda parte e. E via em mim. na vã expectativa de que seu ego o deixe em sossego. supõe-se integrado na imanência da idéia soberana. diz ele. Por um instante. com o poder de sua imaginação. E para não capitular a esse apelo. Há. O resultado de bilhões de raças Que. a perda da crença e. pois que precisaria a tinta de todos os tormentos do homem. o Eu e Outras Poesias. há muitos anos desapareceram! Nesta temática vai longe. nem Haeckel compreenderam. já cansado de escutar a natureza. O subconsciente o aturde. leve-se em conta a deformação de uma sensibilidade que vinha do berço e o predispunha ao desequilíbrio das sensações entre o eu e o mundo externo. de subverter-se no grande todo e fazer da parte abstrata do universo a sua morada equilibrada e firme. Tudo isso. podia fazer dele um triste.

. depois de haver conhecido os inefáveis afagos do amor. Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E via em mim. é que deve começar o trabalho de pesquisa para a verdadeira interpretação psicológica do autor. coberto de desgraças Mas veio o vento que a Desgraça espalha Para iludir minha desgraça estudo. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrio! Um penetrante e corrosivo frio 14 . Exatamente aí. A dificuldade está em conhecer o valor dos símbolos e em seguida decifrar as alegorias. Trata-se.. Por suas próprias palavras. Por enquanto. Iríamos a um país de eternas pazes. Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. Por mais que Augusto negue o amor. de uma paixão. que é o drama mais doloroso de sua consciência. Por mais que procure fugir ao assunto. não tenho dúvidas em afirmar que foi o drama do amor... sempre se revela. Mas é ele próprio quem está a falar continuamente numa desgraça. dada a ausência de biografia. inútil seria qualquer esforço. em .esse seu sofrimento tem sido considerado puramente abstrato. não vejo maior necessidade de conhecer a biografia de Augusto dos Anjos para bem interpretar a sua obra. no capítulo do amor. Gozei numa hora séculos de afagos. Mesmo que quisesse recorrer a essa fonte para uma boa exegese literária. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. Lembro-me bem. desespero virtual e não real.A Ilha de Cipango alude a uma felicidade perdida. Mas o seu eu está projetado na obra e nestas condições não preciso de outro elemento identificador para firmeza do valor interpretativo que neste trabalho tenho a intenção de destacar. Minha desgraça há de ficar sozinha! E que desgraça foi essa que o fez ficar assim tão sombrio? Convém que ele mesmo conte a sua história. no tocante a esse drama. cujo desfecho infeliz teria abalado convulsivamente sua personalidade carente de equilíbrio. Banhei-me na água de risonhos lagos E finalmente me cobri de flores. pois. Ele próprio. não pode ocultar que foi vítima dele.

Anestesiou-me a sensibilidade. E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. A tarde morre. Passa o seu enterro. . A luz descreve ziguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos!

Até aqui, apenas um lampejo, mas o bastante para mostrar que foi por causa de um amor desventurado que se fez assim tão sombrio. Onde deixa vislumbrar um pouco mais de claridade é neste outro quadro - A Árvore da Serra:
As árvores, meu filho, não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho... É preciso cortá-la, pois, meu filho, Para que eu tenha uma velhice calma! — Meu pai, porque sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs alma nos cedros... no junquilho... Esta árvore, meu pai, possui minha alma!... Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa: “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!” E quando a árvore, olhando a pátria serra, Caiu aos golpes do machado bronco, O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra!

Numa e noutra composição, como se vê, o assunto é tratado em linguagem hermética. Aliás, o uso de metáfora é freqüente nele, mais ainda quando alude ao drama da consciência. Um corte transversal nas duas composições - A Ilha de Cipango e A Arvore da Serra - entremostra a desventura amorosa. A cena teria se passado no engenho Pau D’Arco, residência do poeta. O moço triste era ele, e a namorada, a árvore da serra, que possuía a sua alma. A bem amada já havia cedido o seu amor ao poeta, como adiante veremos. Por ser uma jovem de condição humilde, um junquilho entre cedros, o pai austero, orgulhoso de sua estirpe ou premido pela família, determinou ou concordou tirar para sempre da presença do filho aquela flor silvestre, que o tinha preso aos seus encantos, crendo que, com o desaparecimento do empecilho, pudesse ter uma velhice calma.

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Para melhor compreensão do drama, convém apanhar o pensamento do poeta na parte em que as duas composições esboçam de leve o quadro: - “Gozei numa hora séculos de afagos,/’ Banhei-me na água de risonhos lagos,/ E finalmente me cobri de flores ... / Mas veio o vento que a Desgraça espalha”/ “Esta árvore, meu pai, possui minha alma!” ‘ / “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”/ “Foi sobre esta ilha que extingui meu sonho!”/ Desde então para cá fiquei sombrio!/ Um penetrante e corrosivo frio/ Anestesiou-me a sensibilidade.”// “Invoco os Deuses salvadores do erro./ A tarde morre. Passa o seu enterro!”// “Pela estrada feral dois realejos/’ Estão chorando meus amores mortos!”./ “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/ Caiu aos golpes do machado bronco,/ O moço triste se abraçou com o tronco/ E nunca mais se levantou da terra!” Seus versos deixam transparecer que houve violência. Mais de uma vez fala o poeta em golpes: - “E a grandes golpes arrancou as raízes/’ Que prendiam meus dias infelizes/ A um sonho antigo de felicidade!” / / “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/i/ Caiu aos golpes do machado bronco”/... A moça, ao que parece, era natural do brejo ou do sertão lugares que ficam sobre a Serra da Borborema, cujos contornos, na faixa do horizonte, se avistam da várzea do Paraíba, pois de outra forma não há sentido para o verso que diz: “E quando a árvore, olhando a pátria serra”... Se aprofundarmos um pouco mais a indagação, vamos encontrar retalhos desse episódio em quase todas as composições do Eu. A coisa tem começo em Monólogos de uma Sombra, quando o poeta, em seu primeiro exame de consciência, já mordido pelo remorso, acusa o sátiro que ele foi.
As alucinações táteis pululam. Sente que megatérios o estrangulam; A asa negra das moscas o horroriza. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa!

A seguir, em As Cismas do Destino, descreve o segundo ato da tragédia:
Fetos magros, ainda na placenta, Estendiam-me as mãos rudimentares! Ah! Com certeza, Deus me castigava! Por toda a parte, como um réu confesso, Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo, me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Não sei porque me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança

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E um pedaço de víscera escarlate. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse, E até o fim, cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória.

O terceiro ato da cena, constante do mesmo poema, é de revolta contra os seus, os que, cansados de viver na paz de Buda ou inflamados de preconceitos de nobreza, se encheram de humano orgulho, e quais guerreiros priscos contra uma imbele criatura que ao amor se rendera, entraram em conserto para a consumação da tragédia. Assim fala o poeta:
Todos os personagens da tragédia, Cansados de viver na paz de Buda, Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psico-plasma Humano sofre na mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, A morte desgraçada dos açougues... Tudo isso que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra!

E ao terminar o poema, no qual pôs toda a sua amargura, o peito arfando de impotente indignação, solta esse brado de desespero:
Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psiquê no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo!

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Como quem afasta de si a visão terrível de um drama macabro, guarda-se o poeta, mui cautelosamente, de descobrir o motivo cruciante do seu trabalho poético, deixando, entretanto, a perceber, em cada símbolo, em cada imagem de sentimentos dissimulados, um fragmento da realidade que abrasava o seu mundo interior. Sofre realmente e sofre mais porque a dor que se dissimula não estanca, principalmente quando falta ao paciente resignação cristã ou conformidade filosófica. A obsessão do sangue vai até o fim. Alma agoniada por tormentos mil, anda gemendo pelas estradas solitárias, perseguida por visões alucinadoras. Numa de suas últimas composições, ainda atormentado pelo monocromatismo monstruoso da universal vermelhidão, assim recorda o passado sombrio:
No inferno da visão alucinada, Viu montanhas de sangue enchendo a estrada, Viu vísceras vermelhas pelo chão...

Ele guarda para todo o sempre o pesar do golpe sofrido. Ora irrompe em forma de protesto, ora de arrependimento pela culpa que lhe cabe. A consciência inquietada pelo remorso é aquele morcego do seu soneto, que à noite entra imperceptivelmente em seu quarto. Seu coração ficou um deserto. Nem mais amor a Deus, nem mais amor à humanidade, nem mais amor à mulher. Ao coração devastado a alegria nunca mais voltou. Vive somente para a sua dor. Poder, riquezas, glórias terrenas, são coisas que despreza. Em sua musa, o amor não terá mais lugar, nem mesmo como tema de glorificação poética. Causa-lhe até repugnância. Explica-se desse modo a deficiência cromática de seus versos. Só na cor do sangue às vezes se manifesta. Em toda a sua poesia, a paisagem do Pau D’Arco se converte em cenário triste e repugnante. Com referência a esse cenário, diz ele em Psicologia de um Vencido: “Este ambiente me causa repugnância...” Alguns críticos tomaram o impropério como dirigido à sociedade da Paraíba. Do Pau D’Arco, ressalva apenas o velho Tamarindo, a árvore da perpétua maravilha, a cuja sombra amou e chorou. Varado de dor — continua amando em espírito, um amor etéreo, que está fora da carne e não tem mais sentido com o coração. Eis que assim se manifesta: Porque o amor, tal como eu o estou amando, É espírito, é éter, é substância fluida, É assim como o ar que a gente pega e cuida, Cuida, entretanto, não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes, imponderabilíssima e impalpável, Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! O fato em si é de todo interesse para a interpretação da obra original de Augusto. Já os detalhes do fato são sobras que ficarão reservadas ao investigador biográfico, que infelizmente ainda não apareceu. Em Augusto dos Anjos o que mais interessa é a biografia do poeta. Erro será querer julgá-lo como prosador, fora da área da poesia, como tem sido estranhamente fariscado por alguns críticos. Na prosa, era, de fato, rebarbativo, como de refinado mau gosto também foi, na prosa, o genial cantor dos Lusíadas. Apenas como um desafio ao futuro biógrafo, seria curioso saber como se chamava a moça que Augusto metamorfoseou na árvore da serra. Essa curiosidade vem a propósito do nome de uma 18

Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim. nunca foi chegado a santos. surpreende com a invocação de Santa Francisca. Como um bemol ou como um sustenido.. Porque não evitei o precipício Estrangulando a minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! De outras vezes. ao mesmo tempo que. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido. que não é das mais invocadas.. Em cujo olhar o vício não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse. Rola impetuosa por meu peito a dentro?! Porque é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ao mapa-mundi estranha. Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta.. Sonâmbulo. O poeta. E invejo o sofrimento desta Santa.santa.Queixas Noturnas .. eu também vou passando Sonâmbulo. Sonâmbulo. mas no poema .Insônia . em mágoa. Noite. como é sabido. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Porque cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício. contrito. como em .extravasava desta forma o seu lamento: 19 .. Depois de embebedado deste vinho..referindo-se certamente ao espectro de sua desventurada amada. confessa mais uma vez a sua culpa.

Rezo. ando! Bati nas pedras de um tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza a minha única saúde! Curioso é que o egoísmo de uma dor sem fim não lhe fez perder o amor ao pai. Talvez visse nela uma criatura transtornada pela “mania mística”. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. cuidei que ele dormia E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o!” deixa-o. sonhando. num carro azul de glórias. mas para os que crêem há ainda uma esperança. Minha alma sai agoniada. sem resolver a verdade interior. De nada valia para um espírito inquietante como o seu uma filosofia que arma o seu sistema à margem da vida.. ama-o até mesmo na atômica desordem. A projeção da imagem materna esvaneceu-se por certo como símbolo da mais freqüente e sublimada veneração. Mas pareceu-me. pouco fala. luta por fugir dela.As Cismas do Destino . que parece se deixou levar por pressão da família. A morte é o fim de tudo. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. como referiu vagamente em As Cismas do Destino.. Ao pai. Da mãe. que não admite a vida espiritual. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu. Mãe. A satisfação que buscava nos conhecimentos filosóficos só lhe faz aumentar a sede de infinito. Madrugada de treze de janeiro. Em . entre as estrelas flóreas. Como Elias.brada: 20 . quando a morte o olhar lhe vidra. Toda a crença monística em que procura consolo não lhe explica à satisfação o fenômeno da vida. entre estes monstros. isso mesmo sem revelar um mínimo de afeto. Ao vê-lo morto. dormir primeiro. não para ele. E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. entretanto. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. o ofício da agonia. expressa a sua mágoa numa comovente unção. Nem uma névoa no estrelado véu. em que a piedade do sentimento se sublima na tessitura da composição. apenas três vezes. E porque a visão da morte não o deixa em sossego. como perseguido pela sinistra ceifeira.Quem foi que viu minha Dor chorando? Saio.

Impressionado sem cessar com a morte E sentindo o que um lázaro não sente. O sentimento profundo de dor e de descrença afastava-o da realidade. como em toda a obra. não cria em Deus. O remédio que então buscava para as suas mágoas era o pior dos excitantes. levava-o a recolher-se em si mesmo. escravo do raciocínio frio. Já que não crê em Deus. Forma difusa da matéria imbele. que só faziam aumentar a sua ânsia de infinito. Nada o consolava nesse estado de espírito. E porque não se acalmava? Faltava-lhe fé. Aqui. em A Ilha de Cipango: Tenho alucinações de toda a sorte. desabafando-se nestes termos contra a natureza: Tu não és minha mãe. habitado por monstros humanos. ponto final da última cena. desesperado por não encontrar solução no raciocínio frio e racionalista. embora ansiasse por encontrá-lo. alguém há de responder pelos sucessos infelizes do seu destino. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Presumivelmente.. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas Atravessando os ares bruscamente.Morte.. ilustre membro da Academia Paraibana de Letras.. Essa visão shakespeariana das espadas cruzando o espaço tanto pode ser a perseguição da morte como o trágico fim da sua amada.. devia ter na época. Por tua causa apodreci nas cruzes. é natural que se mostre rebelado contra a natureza. em Alucinação à Beira Mar: “Um medo de morrer meus pés esfriava”. Não me parece tenha razão 21 . Nestas condições. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. Meu raciocínio enorme te condena! E num horror quase pânico exclama. Procura assim desoprimir o coração. quando recebeu os 22 açoites da natureza. cheio de imperfeições. ardendo em indagações subjectivas. 22 anos de idade. as palavras também servem para ocultar o pensamento. tanto que nos conflitos entre a inteligência e o sentimento tomava o partido do intelectualismo. que Augusto era um cerebral. em cujas entranhas um feto magro estendia-lhe as mãos rudimentares. E ainda. pois estava certo que nem Deus compreendia os seus soluços. Acha Flósculo da Nóbrega. Vivia um mundo à parte. Ao invés de ajustá-lo à realidade. Minha filosofia te repele.

Era ali que ele sentia bulir na alma o drama de sua existência. nunca recebeu hostilidades. Fosse como ele diz. Ao contemplar esse ambiente. Mas ninguém tinha culpa de ser ele um incompreendido. A inspiração despertava com a dor. Há. contudo. que o 22 . na vertigem: Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. teria Augusto encontrado satisfação na filosofia. Surgem daí as freqüentes inflexões mentais e os distúrbios emocionais de fundo neurótico. Os seus melhores versos. tinha-se na conta de um doente. como um sonâmbulo. toda a mágoa do seu espírito vem à tona. conforme declarou nesta honesta confissão. um espiritualista em eterna briga com o racionalismo. Desta. passos largos. condenado a expectorar os pulmões dilacerados. um cuidado muito discreto da família em negar a tuberculose. Já é tempo de desfazer um equivoco que de tão repetido vai criando raízes. ao redor da capela do engenho. não se deixaria possuir pelo demônio da dúvida. noite a dentro. e a mim pergunto. Não que tenha recebido ofensas dela. de vez que ninguém o compreendia. no caso. foram produzidos no Pau D’Arco. não viveria atormentado com os mitos que o afastavam da realidade. os de maior densidade emocional. um homem excluído do mundo. Um tuberculoso pode sucumbir a outro evento que lhe antecipe o fim. Não importa que tenha morrido de pneumonia. em 1912. Nem ele próprio se conhecia. mas porque se sente um desajustado. que só repugnância lhe causava. Na luta em que Augusto se debate. O mundo que o fazia sofrer não era de certo o da sociedade paraibana. podia ter alguma razão para queixar-se da sociedade. volta-se vez por outra contra a sociedade. Em agravo da tortura moral que não cessa de persegui-lo. Em reforço desse argumento temos uma prova no próprio Eu. Tomado de tensão nervosa pela repugnância que lhe causava o ambiente. o cérebro em fogo. As suas relações com a sociedade parecem rompidas.o ilustre intelectual paraibano. excetuado da segunda parte do Eu e Outras Poesias o grande soneto O Lamento das Coisas. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. Punha-se então a passear. que o acolhia com carinho. No fundo. ao contrário. entrava em crise espiritual. conforme ouvi de Alcides Carneiro que ouvira dos seus íntimos. torturado no sentimento do desamparo. De um modo geral. O que produziu no sul do País. andar bamboleante. Suas percepções sensoriais estão sempre em conflito com as atividades especulativas do espírito. destoa em força emocional do que produzira em sua terra natal. sua musa empalideceu à falta de ambiente. além de pouco. Depois que o poeta deixou a Paraíba. que não se sabe se foi escrito na Paraíba ou no sul. o que ele via realmente era o ambiente do engenho Pau D’Arco. via na sociedade a representação da humanidade sofredora. em Poema Negro: A passagem dos séculos me assombra. mas no particular. Era.

tudo isso ele pincelou num quadro que é uma jóia de rara beleza. Não há. Mas ninguém pode furtar-se às impressões da infância. deixa escapar este triste lamento: O inventário do que eu já tinha sido Espantava. sob os seus pés. Eu bem sabia. Esse retorno do pensamento aos dias tranqüilos do passado.próprio poeta confessava. ansiado e contrafeito. despedaçando as imagens dos próprios sonhos. que os enfermos se reuniam pela camaradagem da moléstia. De início. atormenta-se com a idéia de que. como um arrependido. levado pela lembrança terna de um mundo cheio de encantos e maravilhas. a imagem dos sonhos remotos que ele quebrara com o furor de um iconoclasta. havia “um fígado doente que sangrava e uma garganta de órfã que gemia”. como ele chamava. em Os Doentes. Lá para o fim do poema. Foi a partir dai que entrou a sentir o vazio de sua alma. entra a descrever a cidade dos lázaros. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. eis que escuta. confessa-se minado pela tuberculose. Era ali. 23 . em serenata. a arremetida que deu depois contra esses tesouros do coração. assim principia o soneto Apóstrofe à Carne: “Quando eu pego nas carnes do meu rosto/’ Pressinto o fim da orgânica batalha”. depois de exclamar que sua angústia feroz não tinha nome. Parece que desperta para a vida. imaginária cidade à margem do Paraíba. num desalento ainda maior. jamais preenchido pelo cientificismo materialista. Já cansado do ceticismo. Perdido o amor. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! Mais tarde. o soneto Vandalismo. numa emoção que comove. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minha alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. que pode figurar sem favor entre os melhores da língua. Depois disso. A tragédia espiritual de Augusto começou desde que extinguiu seu sonho de amor sobre a Ilha de Cipango. Em As Cismas do Destino. como se já tivesse perdido o alento de viver. na terra onde pisava. os acordes saudosos do coração. onde os anjos cantavam. à guisa de ácido resíduo. hosanas ao Senhor. Na ascensão barométrica da calma. fez dele um misantropo. “na urbe natal do Desconsolo”. Mais adiante. passa a chorar a sua dor e a alheia. que admirar chore um dia a crença perdida. pois. na qual os doentes consagravam a sua última fonética a uma recitação de misereres. aliada à descrença. perdeu também a crença. Essa real ou imaginária doença.

para ele. Canta a aleluia virginal das crenças. quando a aflição interior explodia em chamas 24 . Flóscolo da Nóbrega. Não é. Como os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. reconhecendo nele apenas o mérito de artista do verso. Sua obra. Não era espremendo o cérebro como muitos que se apagam antes de morrer.. Sabe-se como compunha. por exemplo. num discurso de recepção a Flóscolo da Nóbrega. ao aludir com desdenhoso apreço aos motivos abjetos que abundam no Eu e Outras Poesias. João Lélis.Meu coração tem catedrais imensas. Enfim. pois. Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! Caminha para cinqüenta anos que Augusto dos Anjos morreu. em gemidos de dor. destaco Órris Soares. Ao contrário da incontinente afirmativa. há sempre o que referir. cada leitor tem o direito de sentir o autor a seu modo. na Academia Paraibana de Letras. José Américo de Almeida. apenas como autor de um livro apologético. tenham bordejado na superfície do abismo em. mas dar opinião atabalhoada a respeito daquilo que não chegou a ser entendido muda de figura. No final de contas. este último. João Lélis e De Castro e Silva. Raul Machado. Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. já na 27ª edição. ler. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas. No desespero dos iconoclastas. que não é biografia e não chega a ser estudo.. Santos Neto. era apenas o meio de formular soluções. tanto sobre a obra como sobre a personalidade do autor. Onde um nume de amor. Templos de priscas e longínquas datas. Dos outros. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. que se afundava a alma do poeta. quase todos. chegou a dizer que Augusto não era poeta. A arte. a musa é que tomava o poeta de assalto nos momentos de suas lucubrações. posto que. Para só mencionar os intelectuais paraibanos que se pronunciaram sobre Augusto dos Anjos. disse que Augusto agarrava a musa e saía com ela a passear pelos recônditos da diluição biológica. Álvaro de Carvalho. continua despertando o mesmo interesse dos primeiros tempos. muitas opiniões foram veiculadas. a outros poderá parecer insípido ou fastidioso. Assim é que. gostar e não gostar é coisa que se não discute. Negou-lhe peremptoriamente as qualidades de poeta. Nesse decurso. em serenatas. de admirar que ao lado de conceitos da mais justa penetração girem outros que espantam pela desconformidade. O que a uns desperta atenção e convida mesmo a uma meditação mais séria.

em excelente estudo sobre o artesanato na poesia de Augusto dos Anjos. o sentimento parece ter outra dimensão. à margem das correntes estéticas do pensamento literário. Por tudo isso. impressionam pelo poder da dialética. associado à vibração sonora. na época. essa repulsa idiossincrásica que compromete o crítico antes de atingir o alvo. sobretudo da crítica provinciana. Não importa que Augusto tenha ficado sem seguidores. cujos adeptos se apraziam em demolir toda vez que a obra visada não estava na conformidade do seu gosto. Foi então que recitou de inopino. Jamais foi o leit-motiv de sua produção intelectual. como lamenta o crítico. tem a prejudicá-la a idiossincrasia literária que afasta cada vez mais o retratista do retratado. Álvaro de Carvalho escreveu dois estudos sobre Augusto dos Anjos. afirma e reafirma que o Eu ficou como planta exótica.devoradoras. túmulos. Muitas vezes. Neles. Em ambos. por ver em tais composições a podridão enroupada em jargão científico ou jargão clínico. à primeira vista incompatível com a poesia. insulado em sua própria grandeza. a passear a esmo. nem o gosto se levava em conta quando prevalecia a prevenção pessoal ou quando se pretendia alcançar fama com a marreta da demolição. entre nós. Poe e Rimbaud. No entanto. também 25 . duendes. mas quem os lê e os medita tem a impressão de que foram cavoucados na rocha. Repugna-lhe o fartum que diz emanar do Eu e Outras Poesias. já por sua tendência malsã de ver as coisas pelo lado abjeto. com efeito. Os que o conheceram de perto descrevem-no de andar banzeiro. Escrevia numa linguagem difícil porque era esse o seu estilo. figuras espectrais e outras visões sinistras. Euclides da Cunha. reside justamente no termo técnico. disse que uma das suas forças. Essa crítica. essa linguagem. entrava disciplinada em seus versos. segundo a classificação que adota de Agripino Grieco. Seus versos. que pretende ser de interpretação psicológica. claro que avulta ainda mais o seu mérito. lá fora. olhar perdido no espaço. Bilac pode ter sido um lapidário da forma. sangue de vísceras dilaceradas. certa preocupação inclusive dos simbolistas. o outro 25 anos depois. A virtuosidade ganha valor na opulência da expressão verbal. lábios crispados. que só deu pela presença do amigo depois de concluído o trabalho mental. o ilustre escritor paraibano opõe embargos ao poeta. o que era. a densidade. escarros. o que acabava de compor. a sua personalidade psicológica. tem as suas raízes no caráter polêmico da crítica passadista. Essa incompreensão a respeito de Augusto. Anoja-se o crítico diante de cadáveres. Os versos espoucavam no momento da inspiração. vermes. Em ter ficado sozinho. seu colega de turma e companheiro de estudos desde a fase preparatória. enquanto forjava mentalmente a composição. Cavalcanti Proença. surpreendeu-o num desses partos sem dor e tão absorto divagava o poeta. em 1945. já pelo cientificismo que tem por incompatível com a linguagem poética. que não tenha fecundado a poesia nacional. Órris Soares. de um a outro canto da sala. Augusto foi um torturado da idéia a serviço de um estro estrepitoso. este na prosa. num timbre especial de voz. um em 1920. como em compasso de música. Só depois de elaborada é que ia para o papel.

O próprio Augusto tinha a consciência de que ia ficar sozinho e que era o poeta do hediondo. de sentido mais profundo. nem tudo pode ter cabimento. reconheça-se que essa poesia é humana. Ou então. como se vê. elogios ou restrições. Por suas excentricidades e afinidades outras de ordem espiritual. Com Mallarmé.ficaram sem seguidores. num dos seus últimos sonetos. O anojamento de Álvaro de Carvalho. a fim de atingir. neste ensaio de exegese literária. deu resposta por antecipação aos reparos dos seus futuros críticos. Eis porque. que apenas transparece em linguagem evasiva. na impotência de estabelecer relação entre o mundo visível e o invisível. Foi exatamente com esse título — Poeta do Hediondo — que ele. Augusto tem sido comparado aos mais altos padrões da corrente estética do pensamento. ninguém lhes nega a grandeza de gigantes. Há. juízos despropositados de quem roça pelo assunto sem penetrar o recôndito da dor possessiva que tanto sublimava o poeta. aparelhou. pela tristeza indefinível da alma. na interpretação de um drama emocional. Se há fartum de diluição biológica na poesia de Augusto. está em tempo de ser feita. numa revolta do espírito que vai aos extremos da blasfêmia. pelas crises espirituais porque ambos passaram. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Tenho por desnecessário dizer que uma interpretação psicológica de Augusto. é mais uma aversão de olfato alérgico. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto. mesmo doentia. tenho por objetivo abrir aos estudiosos uma clareira que os conduza ao fundo da obra. o que forma em seu conjunto a harmonia orgânica de toda a obra poética do consagrado artista paraibano. Absurdo é querer sujeitar a literatura aos padrões em voga. Com Verlaine. Não pode o critico ser ortodoxo. com efeito. Note-se mais que a esse vigor casa-se uma virtude de efeitos encantatórios. Nem por isso. Sua obra está aí mesmo a desafiar a argúcia dos mais entendidos. no duelo da carne. como se definiu neste quarteto de Minha Finalidade: Pré-determinação imprescritível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. Com Baudelaire. 26 . pela bizarria do estro e pelo gosto malsão de impregnar a poesia com o almíscar das coisas abjetas. O autor é o que é e não o que o crítico quer que ele: seja. não lhe tira o vigor da expressão verbal. Até mesmo quando desce ao abominável das podridões tumulares cintila em fulgurações de gênio. manifestada em poemas impressionistas de aguda sensação. Mas é preciso notar que essa musa. Admita-se que a musa de Augusto tenha algo de doentio. Da vasta literatura que já se produziu sobre Augusto dos Anjos. por isso mesmo poética.

na terra santa. crematismos. citado por Augusto Meyer. temida pelo outro. Até nas aliterações e metáforas. Encontra-se. de uma honestidade quase bravia. pelo sentido da dor universal. na postura de um campônio rústico. só nesse ponto dissimula o pensamento. em grupos prosternados. um grande medo toma conta do poeta. as mesmas figuras de linguagem. para a neologia e o vocábulo raro. Também no amor os dois se assemelham. desde a sua fase inicial. Nos transportes espirituais os dois correm parelha. de mistura com alucinações. Com Leopardi.. e eu ouço tudo e calo! O amor na Humanidade é uma mentira. Curioso é que fez a citação ‘unicamente para dizer que nenhuma parecença encontrara entre com emprego de termos técnicos.. posto que as coisas que tinha a dizer exigiam. como quem deriva o pensamento para o lado oposto da imagem triste que o assedia. havia acentuada tendência do poeta. em termos de comparação. Não fica apenas aí o confronto. em quem se acumulam. ao pé de um muro carcomido pelo tempo. Augusto tem as suas razões para desdenhar o amor. que cultivava em sua sensibilidade enfermiça. assentado sobre cacos de pote e urtigas. que dialoga com os elementos imponderáveis.” Então desperta como de um pesadelo e com os olhos ainda ensanguentados da vigília sente a tristeza de ver mais uma vez como a sua vida é tão vazia. visionário. ambos procuram traduzir a sensação das coisas inanimadas. vem o barulho das matracas. Só com Rimbaud. foi José Américo de Almeida. os mesmos descuidos de metro e rima. desejada por um. como se fosse uma convicção firmada e firmada com ênfase. Em outros lances de sua obra manifesta o mesmo desdém. Augusto lembra Rimbaud. por sua natureza. De lá de fora. Segundo Delahaye. É. “Na Eternidade. quando a cristandade parecia pura sobre a terra. Súbito. sensações simples e cenestesias. Veja-se como se pronuncia a respeito do assunto: Falas de amor. a idéia pura das coisas. num artigo publicado em 1914. guardando o corpo do Divino Mestre. e é com veneração religiosa que vê os soldados do Vaticano. O único que mencionou Rimbaud. em tropos ousados. O triste espetáculo do seu século leva Rimbaud a um passado remoto. as mesmas despreocupações do rebuscado pour épater le bourgeois. nunca nenhum dos seus críticos traçou o paralelo. encontra-se em Roma. Vez por outra. palavras raras e eruditas. um mês após a morte de Augusto. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. A mesma coisa ocorre com Augusto.através da sensação. a filosofia da dor. como neste exemplo: 27 . os ventos gemedores estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na Serra da Borborema. isso mesmo de passagem. Honesto em tudo. numa sexta-feira santa. Ouvindo isso. pela tortura do espírito e pela constância do tema da morte. Com Antero do Quental. Dentro da Igreja de São Pedro o silêncio só é quebrado pelo vento que entoa cânticos de morte. no ar de minha terra. usando símbolos e valores que convergem para o fim colimado.

depois de errar longos anos pela África e pelo Oriente Médio. como Tântalo. o bem e o mal caminhando juntos. segundo é fama. teve motivos de sobra para tratar o amor com aquele desdenhoso apreço. é como a cana azeda. mas que o levaram ao resultado conhecido. tendo culminado com aquele célebre tiro que recebeu de Verlaine. Teria acontecido com ele alguma coisa? Ao que se sabe. vítima de injustiças humanas. Há. Rimbaud encontrou-se a si mesmo depois que descobriu o caminho da virtude — le sentier de l’honner — que tanto procurava. enquanto Augusto não chegou a cumprir a sua. provo-a. contudo.”. acabou por admitir a presença de uma realidade espiritual. que era o seu anseio máximo. em suma. Começou então a ver e a sentir milhões de criaturas encantadoras.Sobre histórias de amor o interrogar-me É vão. largou-se para a África. por causas várias. Quando viu que tudo quanto imaginava como solução para restabelecer o paraíso não passava de divagação delirante. Era a vida que lhe chegava e que fugia de Augusto. Não sou capaz de amar mulher alguma. a julgar pelos seus lamentos. Também Rimbaud modulou o seu canto no mesmo tom: “Je n’aime pas les femmes: l’amour est à réinventer. No tempo de jovem. Depois desse fato.. Ou então como nesta outra amostra: Parece muito doce aquela cana. Nem há mulher talvez capaz de amar-me. à beira da água. na Bélgica. onde se casou com uma nativa da Abissínia. É que Rimbaud era portador de uma mensagem que acabou por cumprir. que é talvez o drama mais crucial de suas consciências. um suave concerto espiritual na natureza. converteu-se à realidade e mandou ao diabo o ar do inferno que o sufocava. poeta. As repetidas negativas ocultam de certo uma dolorosa frustração. A violência do veneno que ingeriu muito cedo nas fontes materialistas fá-lo morrer de sede. Motivos escabrosos. Augusto sentia-se puro. Em cada um deles. e por isso mesmo não achava conformidade para a sua dor. E como não 28 . andou conspurcado de sensações súcubas. é improfícuo. Rimbaud. . Ao invés de aceitá-la como resultante de seu egocentrismo. é verdade. embora tenham se casado e tido filhos. A toda boca que o não prova engana. Não percebe sequer que toda a sua angústia é nascida de suas entranhas. ilusão treda! O amor. filha legítima de sua alma. homens de bem cheios de nobres intenções. sente-se que há um complexo de culpa. chupo-a. uma diferença de fundo entre os dois poetas.. Descasco-a.. é inútil. exacerbava-a. em busca do paraíso terrestre. Ninguém sofre mais do que ele. Augusto e Rimbaud negam sistematicamente o amor.

o que recebe influências supera o modelo de inspiração. como fontes de inspiração. Também Rimbaud bebeu na mesma taça de Põe. É sabido que nenhum escritor adquire a força do seu gênio senão depois de renovarse interiormente. segundo apregoam os fundibulários da crítica. conforme confissão feita a Mário de Alencar. revolta-se contra o mundo. chegaríamos por certo ao pai Homero que. 29 . silvos de labaredas e suspiros de empestados. Uma mesma idéia artística pode ser tratada com sabor de originalidade por mais de um autor. Todo vácuo que se abre na vida interior é prejudicial ao comportamento do indivíduo. Machado de Assis só entrou na posse de si mesmo depois que se converteu à descrença. isto é. Augusto revela-se mais lido em Põe e em Shakespeare. sem preencher esse vácuo. Jamais desceu ao fundo de si mesmo. dessa conversão ao materialismo. contra a sua grei. Rimbaud salvou-se porque se encontrou a si mesmo. onde não faltavam o ranger de dentes. mas depois que abandonou a luta espiritual afundou no suicídio. numa reação inócua. teria apenas disciplinado em poemas imortais os cânticos populares da época. Uma análise mais demorada encontraria maiores pontos de contacto entre Augusto e Rimbaud. se fossemos no rasto dos poetas mais notáveis em busca de fontes de inspiração ou influências literárias. segundo o conhecido conceito bergsoniano do intuitivismo. Possuído do demônio da dúvida. quando a monera já manifestava os primeiros sintomas de diluição. Um problema sempre gera outro. e se o fez alguma vez foi guiado pela dialética do monismo. entre a voz do sentimento e a da razão. Neste passo.Une Saison en Enfer . quanto mais afunda no racionalismo mais vacila na dúvida. como Camões na de Petrarca e de Vergílio. isto é. Mesmo assim. tudo quanto desperta a alma. como muito bem já disse Augusto Meyer a propósito de Machado de Assis. Por curioso paradoxo. Nas coincidências de temas ou mesmo de paralelismo de imagens não se veja.. Ou será preenchido ou compromete a dinâmica das forças morais.espécie de autobiografia moral. mas nem isso acredito tenha havido. Augusto vai irredento até o fim. Há muitas espécies de conversões em literatura. beleza. Dominado pela idéia de um mundo sem objetivo. som. A vida. martelada em versos magníficos e candentes. a criação. o amor. depois que perdeu a ilusão dos homens. autores que exerceram forte influência em sua formação intelectual. sem procurar levantar o véu das aspirações profundas de sua alma. que se agravou o drama latente de sua alma inquieta. porém. Torturava-se por ver somente o lado negativo das coisas. Rimbaud também criou para si uma estação no inferno . perdia-se no estado de dúvida. deixava-se ficar no interior da concha. sua vida se transforma num verdadeiro inferno. imitação. do qual se considerava prisioneiro. Tais similitudes valeriam. luz. da mesma forma como sucumbira Antero do Quental. Ele mesmo se esvaziava no mundo vazio que se criou. quando muito. perfume. cor. Mallarmé também passou pelas mesmas crises. Esse divórcio do eu com o indivíduo acabou por abranger a própria sociedade. tudo quanto eleva os sentidos. A conversão de Augusto foi às avessas e porque não se desconverteu estabeleceu-se o conflito do eu com o indivíduo. Não raras vezes. contra a sociedade.pode reformar o mundo. os mistérios da natureza. Foi a partir daí. nada disso seria capaz de provocar-lhe uma sensação nova de vida.

No meio em que viveu era querido e admirado. certos de que no futuro sobrará tempo para essas coisas. porquanto Deus é princípio e é fim. aceitar as imperfeições do mundo. É o que há. Não fosse a trama filosófica do individualismo racionalista. Mas no mundo fechado em que se enclausurava não era possível ver lá fora as almas piedosas e aflitas que tão necessitadas como ele pediam socorro. outros negando. é. levantou-se a questão de saber se Deus existe ou não existe. mas os que o seguem desconhecem. nas apóstrofes do poeta contra o cristianismo. Se o Cristo não vem em seu auxílio. Na prática. teria certamente encontrado a realidade espiritual que nasce da fé e se alimenta na caridade. 30 . Todos nós. E como não lhe bastasse pela exigüidade dos proventos. Convém. Embora não caiba nos limites deste trabalho uma digressão sobre a contradição reinante no mundo da crença. se não há Deus. Num dos muitos grêmios literários que proliferam na terra de Iracema. quando não proferida por modo vulgar e chulo. um episódio que me foi contado por um amigo do Ceará. a meu ver. alcançando a grande esforço um lugar de diretor de Grupo Escolar. como ninguém ainda se entendesse. outros andam com a Bíblia debaixo do braço e o coração carregado de impiedade. todavia. via de regra. que se veja na blasfêmia. em meio a tantas emoções extravasadas. com raríssimas exceções. nas Alterosas. lecionando a quatro gatos pingados todas as matérias do curso de humanidades. Se emigrou para o sul do país foi porque a Paraíba do seu tempo nada tinha de melhor para dar-lhe senão uma cátedra no Liceu Paraibano. Toda a obra poética de Augusto é um grito de dor arrancado do fundo da alma. heresia maior que a do poeta quando. em torrentes de eloqüência. supria-se do mais no magistério particular. resolveu o presidente submeter a questão a votos. A conquista da fé importa na conquista do próprio eu. O cristianismo se apresenta como a doutrina de Cristo. Os oradores. Para uma alma sequiosa de infinito como a sua não há que estranhar uma ou outra expressão de revolta. um pedido de socorro. afetando melindres de devotos. a propósito. tal como Rimbaud. a essência dos Evangelhos. é objeto de amor e de crença e não de investigação científica. olhar menos para as suas dores e um pouco mais para as alheias. Isso mostra que ele. sem advertir-se de que jamais dera um passo ao encontro do Mestre. Ao cabo do bombardeio oratório. Só é possível possuir a fé quando se está convencido da verdade. Apurada a eleição e com base no resultado. há que distinguir entre blasfêmia contra o cristianismo e blasfêmia contra o Cristo. Vale mencionar. uns afirmando. Ora. Se há Deus. decretar a inexistência de Deus por decisão tomada nas urnas ou no bozó. No sul do país continuou a mesma luta heróica pela subsistência. na realidade. Alguns críticos.Enredado em idéias preconcebidas. a reação que lhe ocorre é a de menosprezo ao cristianismo. descuramos o nosso destino espiritual pelo gozo do momento que passa. é questão que não deve ser formulada. sentia-se Augusto na impossibilidade de admitir a realidade da vida. viram nisso o pecado da blasfêmia. no desespero de tantos sofrimentos. uns batem nos peitos diante do altar e querem logo a recompensa do sacrifício feito. se manifesta ainda escravo do batismo. se sucediam na tribuna. proclamou que Deus não existe.

E como era sincero e honesto. e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. O passado da flora brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida. A denominação. explodiu em As Cismas do Destino. começa o poema “Sou uma Sombra. Abraçada com a própria Eternidade.Debaixo do Tamarindo. encarnado nele e manifestado nesta passagem: Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade? Já em Monólogos de uma Sombra. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. desde Tales de Mileto. coisa que não cabe na boca de um ateu. vem de muito longe. esta árvore de amplos agasalhos Guarda. o sacrifício da linda moça Polixena. através dos séculos. dá à alma a denominação de sombra. Por mais de uma vez chegou a falar em alma divina. entendiam a alma. De inflexões mentais sua obra anda cheia.atormentado por visões escatológicas. Por outro lado. Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do cristianismo! Graciosa é a afirmação de que Augusto tenha tido a obsessão do sacrilégio. Mandando ao céu o fumo de um cigarro. Só muito raramente soltava uma blasfêmia. A minha sombra há de ficar aqui! Por sombra. como se vê. depois de carpir amargamente diante de um mundo que se mostrava indiferente às suas mágoas: Escarrar de um abismo noutro abismo. De outras vezes. nunca teve escrúpulos de manifestar as dúvidas que lhe abalavam a consciência. esse sombrio personagem do drama panteístico das trevas. virtudes que cultivava com extremado zelo.” E onde mais expressivo se mostra é neste admirável soneto . Voltando à pátria da homogeneidade. 31 . sob estes galhos. como uma caixa derradeira. não se pode dizer fosse ele um materialista ético. No tempo de meu Pai. Como uma vela fúnebre de cera. por mãos de seu filho Pirro. Camões fala na sombra de Aquiles quando exigia. os filósofos iônios.

perdendo-se novamente no enleio cósmico. à semelhança da mônada de Leibnitz ou da monera de Haeckel. tal como a entendiam os filósofos iônios. o metafísico cede lugar ao inveterado monista. virtualidade espiritual. Fala como um crente da cegueira da criatura humana. !" Este trabalho. como está dito em Sonhos de um Monista: A verdade espantosa do protilo Me aterrava. larva do caos telúrico. em briga com o dualismo. como entidade eterna. em soluços quase humanos. as formas microscópicas do mundo. conjunto das faculdades intelectuais e morais do homem. mito cosmogônico que liga entre si o espírito e a matéria. assaltado de alucinações. nas composições que vão até o fim do livro. ansiado por compreender o princípio anêmico dos seres. aos 30 anos de idade.essa mônada esquisita Coordenando e animando tudo aquilo! Em Ultima Visio revela-se um metafísico teológico. até mesmo num grão de areia. que não quer ver a glória de Deus resplandescendo em tudo. tal como se apresenta. Quem o ler nesse soneto dirá que já está reconciliado com Deus. Até Deus. 32 . Que outros. na Federação das Academias de Letras do Brasil. sua intimidade numenal. em Leopoldina. que procede do éter cósmico. era uma mônada. acrescenta. Assim fala e assim termina a composição: A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ainda tem de abrir para o infinito! Vã ilusão será pensar que já está reconciliado com Deus. mas dentro da alma aflita Via Deus . para ele. Mais poderia dizer agora. desde o declínio das crenças mitológicas. mais dotados de inteligência e espírito de penetração. a 12 de novembro de 1914. É a substância primeva. completem os estudos aqui esboçados ou deles discordem por modo a dar uma interpretação mais aceitável às mensagens de angústia. Assim vai. foi objeto de uma palestra proferida em maio de 1960. de onde decorrem todas as moléculas que se esvaem na transubstanciação da natureza. Quando essa cegueira for resgatada e arrancar o homem da inciência. vacilante na ciência fria. mas com o que ai está me contento. que eram uma constante na alma torturada do poeta paraibano. da substância de todas as substâncias. isto é. Daí por diante. então a presença do Eterno afastará a escuridão do caminho e aproximará a criatura do Criador.Mas o que Augusto chama a sua sombra não é ainda a alma. até que morre numa cidade das Alterosas. Choram ainda dentro dele.

entretanto. 1914 Nome: Augusto dos Anjos Idade: 28 anos Profissão: Professor e advogado Estado civil: Casado Filiação: Filho legítimo do bacharel Alexandre R. Quais os autores que mais o impressionaram: Shakespeare e Edgar Poe Qual o seu autor favorito: Todos os bons autores me agradam.UM CURRÍCULO ESCRITO PELO PRÓPRIO POETA Resposta ao inquérito de Licínio dos Santos em A Loucura dos Intelectuais. presumo. cefaléia e amnésia: Até esta data não sofro absolutamente de amnésia. da chamada vida física. R. vítima de surmenage morreu de paralisia geral e minha mãe é excessivamente nervosa Antecedentes pessoais: O que me pode adiantar sua infância: Desde a mais tenra idade eu me entreguei exclusivamente aos estudos. Tenho insônia raras vezes. Engenho Pau d'Arco. acompanhados muitas vezes de uma vontade de chorar. de abusar um pouco do café. Faz as suas irregularidade: Sim refeições com Tem muito apetite: Regular Faz uso do álcool: Não Faz uso excessivo do café. Em que idade começou a produzir: Se me não falha o poder de reminiscência. Rio de Janeiro. Quantas horas repousa: Meu repouso varia de 7 a 8 horas. Como faz o seu trabalho intelectual: Durante o dia. Quais as cores de sua predileção: A vermelha e a azul. o que não impede. quase sempre andando no meio de toda azáfama ambiente ou à noite deitado. chá ou outro excitante intelectual: Sou contra os excessos. comecei a produzir muito antes dos 9 anos. numa atmosfera de rigorosíssima moralidade. dos Anjos Antecedentes hereditários: Meu pai. Sofre de insônia. relegando por completo tudo quanto concerne ao desenvolvimento. Quais os trabalhos que deu à luz até a presente data: um livro de versos. Onde e como foi educado: Na Paraíba do Norte. Conservo de memória tudo quanto produzo. Eu. 33 . Tem continuados sonhos fantásticos: Quanto a sonhos fantásticos é também muito raramente que os tenho. mas a cefalalgia persegue-me constantemente. Córdula C. O que sente de anormal quando está produzindo: Uma série indescritível de fenômenos nervosos. dos Anjos e D. São muito poucas vezes que me sento à mesa para produzir. Quais as horas que dedica ao seu trabalho intelectual: Não tenho horas metodicamente preferidas para o meu trabalho mental.

agora. desde a epigênese da infância. Na frialdade inorgânica da terra! 34 .” -.Digo.. Anda a espreitar meus olhos para roê-los.. Fecho o ferrolho E olho o teto. Produndissimamente hipocondríaco. Ergo-me a tremer..este operário das ruínas -Que o sangue podre das carnificinas Come. Circularmente sobre a minha rede! Pego de um pau. E vejo-o ainda. Chego A tocá-lo. igual a um olho. A influência má dos signos do zodíaco. Este ambiente me causa repugnância. Morde-me a goela ígneo e escaldante molho. Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco.TODOS OS SONETOS O MORCEGO Meia-noite. e à vida em geral declara guerra. “Vou mandar levantar outra parede. E há de deixar-me apenas os cabelos. vede: Na bruta ardência orgânica dasede.. Minh’alma se concentra. filho do carbono e do amoníaco. Que ventre produziu tão feio parto?! A Consciência Humana é este morcego! Por mais que a gente faça. Monstro de escuridão e rutilância. Meu Deus! E este morcego! E. Sofro. Ao meu quarto me recolho. Já o verme -. à noite ele entra Imperceptivelmente em nosso quarto! PSICOLOGIA DE UM VENCIDO Eu. Esforços faço.

Em qualquer parte onde a cabeça ponha. tênue. Deixa circunferências de peçonha. À noite..A IDÉIA De onde ela vem?! De que matéria bruta Vem essa luz que sobre as nebulosas Cai de incógnitas criptas misteriosas Como as estalactites duma gruta?! Vem da psicogenética e alta luta Do feixe de moléculas nervosas. quando sonha. em desintegrações maravilhosas. Sente no tórax a pressão medonha Do bruto embate férreo das tenazes... e depois. Que.. Tísica. Delibera. Anoitece. Quebra a força centrípeta que a amarra. Todos os cinocéfalos vorazes Cheiram seu corpo. Marcas oriundas de úlceras e antrazes. Mostra aos montes e aos rígidos rochedos A hedionda elefantíase dos dedos Há um cansaço no Cosmos. E o Lázaro caminha em seu destino Para um fim que ele mesmo desconhece! 35 . de repente. raquítica. Chega em seguida às cordas da laringe. esbarra No molambo da língua paralítica! O LÁZARO DA PÁTRIA Filho podre de antigos Goitacases. Mas. mínima. quer e executa! Vem do encéfalo absconso que a constringe. Riem as meretrizes no Cassino. e quase morta.

E. Em tua morfogênese de infante A minha morfogênese ancestral?! Porção de minha plásmica substância.. Dentre as genealogias animais! Como quem esmigalha protozoários Meti todos os dedos mercenários Na consciência daquela multidão. Que poder embriológico fatal Destruiu.IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA Rugia nos meus centros cerebrais A multidão dos séculos futuros . a feder?! Ah! Possas tu dormir. Realizavam-se os partos mais obscuros. Meus olhos liam! No húmus dos monturos. Filho da grande força fecundante De minha brônzea trama neuronial. Panteisticamente dissolvido Na noumenalidade do NÃO SER! 36 .Homens que a herança de ímpetos impuros Tornara etnicamente irracionais! Não sei que livro. Fruto rubro de carne agonizante. em letras garrafais. Em que lugar irás passar a infância. feto esquecido. Tragicamente anônimo. com a sinergia de um gigante. Agregado infeliz de sangue e cal.. em vez de achar a luz que os Céus inflama. Somente achei moléculas de lama E a mosca alegre da putrefação! SONETO AO MEU PRIMEIRO FILHO Ao meu primeiro filho nascido morto com 7 meses incompletos 2 fevereiro 1911.

Jamais emprega o acérrimo exorcismo Em sua diária ocupação funérea.Alma do inferior rapsodo errante! Resigna-a. Filho da teleológica matéria. Janta hidrópicos. ampara-a. Na superabundância ou na miséria. Almoça a podridão das drupas agras. para provar A incógnita alma.. em que tu dormes.. Suficientíssima é.é o seu nome obscuro de batismo.VERSOS A UM CÃO Que força pôde adstrita e embriões informes. Verme -. avoenga e elementar Dos teus antepassados vemiformes. E irás assim... Tua garganta estúpida arrancar Do segredo da célula ovular Para latir nas solidões enormes? Esta obnóxia inconsciência. afaga-a. Livre das roupas do antropomorfismo. rói vísceras magras E dos defuntos novos incha a mão. E no inventário da matéria rica Cabe aos seus filhos a maior porção! 37 . pelos séculos adiante. Latindo a esquisitíssima prosódia Da angústia hereditária dos teus pais! O DEUS-VERME Fator universal do transformismo. acode-a A escala dos latidos ancestrais. Cão! -. E vive em contubérnio com a bactéria. arrima-a. Ah! Para ele é que a carne podre fica.

Como uma vela fúnebre de cera. esta árvore. Guarda. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. O passado da Flora Brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. Que importa a mim que a bicharia roa Todo o meu coração. e. Mas o agregado abstrato das saudades Fique batendo nas perpétuas grades Do último verso que eu fizer no mundo! 38 . esta tesoura. minha vida Igualmente a uma célula caída Na aberração de um óvulo infecundo.. Voltando à pátria da homogeneidade. portanto. como uma caixa derradeira.DEBAIXO DO TAMARINDO No tempo de meu Pai.. sob estes galhos. Abraçada com a própria Eternidade A minha sombra há de ficar aqui! BUDISMO MODERNO Tome. de amplos agasalhos. depois da morte?! Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também.. das diatomáceas da lagoa A criptógama cápsula se esbroa Ao contato de bronca destra forte! Dissolva-se. Dr.corte Minha singularíssima pessoa.

Na inconsciência de um zoófito tranqüilo.Velho caixão a carregar destroços -Levando apenas na tumba carcaça O pergaminho singular da pele E o chocalho fatídico dos ossos! 39 ..SONHO DE UM MONISTA Eu e o esqueleto esquálido de Esquilo Viajávamos. -. Alheio ao velho cálculo dos dias. como quem tudo repele. A energia intracósmica divina Que é o pai e é a mãe das outras energias! SOLITÁRIO Como um fantasma que se refugia Na solidão da natureza morta. com o esqueleto ao lado. um dia. por toda a pro-dinâmica infinita. Eu fui refugiar-me à tua porta! Fazia frio e o frio que fazia Não era esse que a carne nos contorta.essa mônada esquisita -Coordenando e animando tudo aquilo! E eu bendizia. Na guturalidade do meu brado. Como um pagão no altar de Proserpina. Por trás dos ermos túmulos. Cortava assim como em carniçaria O aço das facas incisivas corta! Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E eu saí. mas dentro da alma aflita Via Deus -. com uma ânsia sibarita.. A verdade espantosa do Protilo Me aterrava.

Dentro do ângulo diedro da parede. Oh! Mãe original das outras formas. Quando a promiscuidade aterradora Matar a última força geradora E comer o último óvulo do ventre! 40 . talvez. vede: É o grande bebedeouro coletivo. O hierofante que leu a minha sina Ignorante é de que és. Nenhuma ignota união ou nenhum sexo À contingência orgânica do sexo A tua estacionária alma prendeu. Vêm matar a sede! É o afrodístico leito do hetairismo A antecâmara lúbrica do abismo. Ah! De ti foi que.. A minha forma lúgubre nasceu! O LUPANAR Ah! Por que monstruosíssimo motivo Prenderam para sempre. Em que é mister que o gênero humano entre. moços do mundo. nesta rede. Como quase impalpável gelatina. Todas as noites.. como um gado vivo. Nos estados prodrômicos da vida. nascida Dessa homogeneidade indefinida Que o insigne Herbert Spencer nos ensina.MATER ORIGINALIS Forma vermicular desconhecida Que estacionaste. A alma do homem poilígamo e lascivo?! Este lugar. Onde os bandalhos. autônoma e sem normas. mísera e mofina.

É. como o filósofo mais crente. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo.. Do meu sepulcro para o teu sepulcro?! ÚLTIMO CREDO Como ama o homem adúltero o adultério E o ébrio a garrafa tóxica de rum. De Messalina e de Sardanapalo?! Pois é mister que. para o amor sagrado. Creio. é o ego sum qui sum . Amo o coveiro -. é o pneuma . perante a evolução imensa.Alavanca desviada do seu futuro -E haja só amizade verdadeira Duma caveira para outra caveira.IDEALISMO Falas de amor. O mundo fique imaterializado -. é esse danado número Um Que matou Cristo e que matou Tibério! Creio. O amor! Quando virei por fim a amá-lo?! Quando. É a morte. se o amor quea Humanidade inspira É o amor do sibarita e da hetaíra.. na generalidade descrente Com que a substância cósmica evolui. Que o homem universal de amanhã vença O homem particular eu que ontem fui! 41 .este ladrão comum Que arrasta a gente para o cemitério! É o transcendentalíssimo mistério! É o nous . e eu ouço tudo e calo! O amor da Humanidade é uma mentira.

. nele. Talvez meu Pai! Hoffmânicas viagens Enchiam meu encéfalo de imagens As mais contraditórias e confusas! A energia monística do Mundo.O CAIXÃO FANTÁSTICO Célere ia o caixão. Na rua apenas o caixão sombrio Ia continuando o seu passeio! SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO Para desvirginar o labirinto Do velho e metafísico Mistério. Mas.. À meia-noite. com a alma às escuras... De aberratórias abstrações abstrusas! Nesse caixão iam. Cinzas. como os sonhos dos selvagens. cartilagens Oriundas. talvez as Musas. É necessário que ainda eu suba mais! 42 . Numa antropofagia de faminto! A digestão desse manjar funéreo Tornado sangue transformou-me o instinto De humanas impressões visuais que eu sinto Nas divinas visões do íncola etéreo! Vestido de hidrogênio incandescente. subi talvez às máximas alturas. Comi meus olhos crus no cemitério. penetrava fundo No meu fenomenal cérebro cheio. caixas cranianas. improficuamente. Era tarde! Fazia muito frio. inclusas. se hoje volto assim. Pelas monotonias siderais. e. Vaguei um século.

para o Futuro. no Dia de Juízo.perdoaram! Oh! tu que no Perdão eu simbolizo. tuas sementes! E assim. glebas. meu velho! E essa futura Ultrafatalidade de ossatura. trilhos. Se fosses Deus. com o envelhecimento da nervura. Eu. Pelo muito que em vida nos amamos. Talvez perdoasses os que te mataram! VOZES DA MORTE Agora sim! Vamos morrer. Tu. a maldição de Pio Décimo caia em teu algoz sombrio E em todo aquele que for seu herdeiro! Maldito seja o mercador vadio Que te vender as carnes por dinheiro. vales. Tamarindo de minha desventura.fontes de perdão -. selvas. pois. porém. inda teremos filhos! 43 . Depois da morte. reunidos. com o envelhecimento dos tecidos! Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos! E a podridão. A que nos acharemos reduzidos! Não morrerão. Na multiplicidade dos teus ramos. em diferentes Florestas. Ao monstro que espremeu teu sangue grosso Teus olhos -. tua lã aquece o mundo inteiro E guarda as carnes dos que estão com frio! Quando a faca rangeu no teu pescoço.A UM CARNEIRO MORTO Misericordiosíssimo carneiro Esquartejado.

Perseguido por todos os reveses. adstrito ao triângulo mesquinho De um delta humilde.INSÂNIA DE UM SIMPLES Em cismas patológicas insanas.. apodrecer sozinho No silêncio de minha pequenez! ASA DE CORVO Asa de corvos carniceiros. Como a cinza que vive junto à brasa. É meu destino viver junto a esa asa. Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes O telhado de nossa própria casa. à categoria Das organizações liliputianas. Ser semelhante aos zoófitos e às lianas. asa De mau agouro que. Como os Goncourts. nos doze meses. Deixar enfim na cloaca mais sombria Este feixe de células humanas! E enquanto arremedando Éolo iracundo. Na orgia heliogabálica do mundo. na hierarquia Das formas vivas.. É ainda com essa asa extraordinária Que a Morte -. Apraz-me. como os irmãos siameses! É com essa asa que eu faço este soneto E a indústria humana faz o pano preto Que as famílias de luto martiriza.. Ganem todos os vícios de uma vez.a costureira funerária -Cose para o homem a última camisa! 44 . Ter o destino de uma larva fria. É-me grato adstringir-me..

caiu de bruços No pandemônio aterrador do Caos” 45 .O MARTÍRIO DO ARTISTA Arte ingrata! E conquanto. Busca exteriorizar o pensamento Que em suas fronetais células guarda! Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda! E ei-lo a tremer. aos soluços. “O fracasso da tua geografia “E do teu escafandro esmiuçador! “Ah! Jamais saberás ser superior. o Hércules. a mim. “Com a ampla hélice auxiliar com que outrora ia “Voando ao vento o vastíssimo vapor. E não lhe vem à boca uma palavra! O MAR. puxa e repuxa a língua.. Ouvindo a Escada e o Mar. É como o paralítico que. A ESCADA E O HOMEM “Olha agora. conquanto ainda hoje em dia. o Homem. em desalento. “À luz da epicurista ataraxia. Como o soldado que rasgou a farda No desespero do último momento! Tenta chorar e os olhos sente enxutos!. A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda.. à míngua Da própria voz e na que ardente o lavra Febre de em vão falar. “Homem. já transpuseste os meus degraus?!” E Augusto. mamífero inferior. violento. rasga o papel. com os dedos brutos Para falar. “Rasgue a água hórrida a nau árdega e singre-me! E a verticalidade da Escada íngreme: “Homem.

Sinhá-Mocinha. Estragara-lhe os centros medulares! Como quem quebra o objeto mais querido E começa a apanhar piedosamente Todas as microscópicas partículas... Em sucessivas atuações nefastas.. agora. Vejo. Nas suas 33 vértebras gastas Quase todas as pedras tumulares! A frialdade dos círculos polares. ralhava. após tudo perdido. então. Só lhe restam agora o último doente E a armação funerária das clavículas! RICORDANZA DELLA MIA GIOVENTÚ A minha ama-de-leite Guilhermina Furtava as moedas que o Doutor me dava. Via naquilo a minha própria ruína! Minha ama. Que a mim somente cabe o furto feito.DECADÊNCIA Iguais às linhas perpendiculares Caíram. Eu furtei mais. minha ama. afetava Susceptibilidade de menina: “-. hipócrita.Não. Que ela absolutamente não furtava. Penetrara-lhe os próprios neuroplastas. Furtaste a moeda só. entretanto. em minha cama. mas eu. como cruéis e hórridas hastas. porque furtei o peito Que dava leite para a tua filha! 46 . o ouro que brilha.. Ele hoje vê que. minha Mãe. Tu só furtaste a moeda. não fora ela! --“ E maldizia a sina.

à noite.. Assim Tântalo. aos reais convivas. a escândalos e incestos É natural que o instinto humano aceda! Sem que te arranquem da garganta queda A interjeição danada dos protestos.o brilho Destes meus olhos apagou!. porque não tem fim! No ardor do sonho que o fronema exalta Construí de orgulho ênea pirâmide alta. Hoje que apenas sou matéria e entulho Tenho consciência de que nada sou! 47 .A UM MASCARADO Rasga essa máscara ótima de seda E atira-a à arca ancestral dos palimpsestos.a mãe comum -. do que este que palmilho E que me assombra. Serviu as carnes do seu próprio filho! Por que para este cemitério vim?! Por que?! Antes da vida o angusto trilho Palmilhasse.. e. Terás somente uma vontade cega E uma tendência obscura de ser vivo! VOZES DE UM TÚMULO Morri! E a Terra -. após a árdua e atra refrega. E tu mesmo. igual a um porco. porém. que se desmoronou A pirâmide real do meu orgulho... É noite.. num festim... Hás de engolir.. Hoje. os restos Duma comida horrivelmente azeda! A sucessão de hebdômadas medonhas Reduzirá os mundos que tu sonhas Ao microcosmos do ovo primitivo.

Pai. Uma feição humana e outra divina São como a eximenina e a endimenina Que servem ambas para o mesmo feto! Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes! Por justaposição destes contrastes. para onde fores. pois.. Deus. e o ângulo reto. Tudo convém para o homem ser completo! O ângulo obtuso. para amenizar as minhas dores! Que coisa triste! O campo tão sem flores. para amenizar as dores tuas.CONTRASTES A antítese do novo e do obsoleto. Às alegrias juntam-se as tristezas. Deus não havia de magoar-te assim! 48 . e sendo justo... trilhando as mesmas ruas. O Amor e a Paz. Tu.. e o horror de nossas duas Mágoas crescendo e se fazendo horrores! Magoaram-te. E eu tão sem crença e as árvores tão nuas E tu. gemendo.Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim É bom. o Ódio e a Carnificina. Eu. O que o homem ama e o que o homem abomina. Junta-se um hemisfério a outro hemisfério. SONETO – I – A MEU PAI DOENTE Para onde fores. é justo. Irei também. E o carpinteiroque fabrica as mesas Faz também os caixões do cemitério!. Indiferente aos mil tormentos teus De assim magoar-te sem pesar havia?! -. meu Pai?! Que mão sombria.

num carro azul de glórias.. sonhando. Amo meu Pai na atômica desordem Entre as bocas necrófagas que o mordem E a terra infecta que lhe cobre os rins! 49 . dormir primeiro! E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o”! deixa-o. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu! SONETO – III Podre meu Pai! A morte o olhar lhe vidra. Duras leis as que os homens e a hórrida hidra A uma só lei biológica vinculam. Em seus lábios que os meus lábios osculam Microrganismos fúnebres pululam Numa fermentação gorda de cidra. Mãe. o ofício da agonia. E a marcha das moléculas regulam.SONETO – II – A MEU PAI MORTO Madrugada de Treze de Janeiro. Com a invariabilidade da clepsidra! Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos Roída toda de bichos. Como Elias. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. cuidei que ele dormia.... como os queijos Sobre a mesa de orgíacos festins!. Nem uma névoa no estrelado véu. Rezo. Mas pareceu-me. entre as estrelas flóreas.

Caiu aos golpes do machado bronco. para que eu viva!” E quando a árvore. olhando a pátria serra. por que sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs almas nos cedros. Esta árvore.. -. O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra! 50 . pai.. Para que eu tenha uma velhice calma! -.. É preciso cortá-la. meu filho. despindo a última alfaia Que ao comércio dos homens me traz presa.e ajoelhou-se. possui minh’alma!. Apraz-me... O sistema nervoso de um gigante Para sofrer na minha carne estuante A dor da força cósmica furiosa. numa rogativa: “Não mate a árvore.As árvores. meu filho. pois.Meu pai.DEPOIS DA ORGIA O prazer que na orgia a hetaíra goza Produz no meu sensorium de bacante O efeito de uma túnica brilhante Cobrindo ampla apostema escrofulosa! Troveja! E anelo ter. sôfrega e ansiosa. Semelhante a um cachorro de atalaia Às decomposições da Natureza.. Ficar latindo minha dor medonha! A ÁRVORE DA SERRA -. meu pai.Disse -.. não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho. Livre deste cadeado de peçonha.. enfim. no junquilho.

de à antiga rota Voar. preto e amarelo. Pões-te a assobiar. desde o mais prístino mito. Arrancou os cabelos na montanha! Desceu depois à gleba mais bastarda. não tens mais! E pois. E a alga criptógama e a úsnea e o cogumelo. Tu nunca mais verás a liberdade!.VENCIDO No auge de atordoadora e ávida sanha Leu tudo.. O CORRUPIÃO Escaveirado corrupião idiota. Pondo a áurea insígnia heráldica da farda À vontade do vômito plebeu. Foi a gaiola que te pôs assim! 51 . Continua a comer teu milho alpiste.. Ah! Tu somente ainda és igual a mim. sem cerebelo A gargalhada da última derrota! A gaiola aboliu tua vontade. Foi este mundo que me fez tão triste.. o amplo éter belo.. Acometido de uma febre estranha Sem o escândalo fônico de um grito. bruto. Que do fundo do chão todo o ano brota! Mas a ânsia de alto voar. Olha a atmosfera livre. por exemplo: o do boi Ápis do Egito Ao velho Niebelungen da Alemanha. E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria O vencido pensava que cuspia Na célula infeliz de onde nasceu. mergulhou a cabeça no Infinito.

Canta a aleluia virginal das crenças. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. No desespero dos iconoclastas Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! 52 .. assim como eu! VANDALISMO Meu coração tem catedrais imensas. Onde um nume de amor. O vento estava forte E aquela matemárica da Morte Com os seus números negros. Templos de priscas e longínquas datas. No eterno horror das convulsões marítimas Pareciam também corpos de vítimas Condenados à Morte.ALUCINAÇÃO À BEIRA MAR Um medo de morrer meus pés esfriava. ególatra céptico. cismava Em meu destino!. Noite alta.. na diuturna discórdia. Com os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos.. Ante o telúrico recorte. em serenatas. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas.. me assombrava! Mas a alga usufrutuária dos oceanos E os malacopterígios subraquianos Que um castigo de espécie emudeceu. a equórea coorte Atordoadamente ribombava! Eu.

nesta terra miserável. que. é a véspera do escarro. E à rutilância das espadas. amigo.. e doma Meu coração -.VERSOS ÍNTIMOS Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. Somente a Ingratidão -. Apedreja essa mão vil que te afaga. Acende teu cigarro! o beijo.. sente invevitável Necessidade de também ser fera. Meu coração triunfava nas arenas. ao todo. Vieram todos. uns cem. e. guerreiro. e qual mais presto assoma Nenhum pôde domar o prisioneiro.esta pantera -Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O Homem. o gládio de aço. Que ninguém doma um coração de poeta! 53 . E não pôde domá-lo enfim ninguém. A mão que afaga é a mesma que apedreja. toma A adaga de aço. Mora. Se a alguém causa inda pena a tua chaga. por fim. entre feras. Veio depois um domador de hienas E outro mais. veio um atleta.estranho carniceiro! Não podes?! Chama então presto o primeiro E o mais possante gladiador de Roma. Toma um fósforo. Escarra nessa boca que te beija! VENCEDOR Toma as espadas rútilas. E qual mais pronto. por fim.

Que. em sons subterrâneos. E é em suma.. Sabe que sofre.. chorando.. Da transcendência que se não realiza. a que só ele assiste. do Orbe oriundos.. A sucessividade dos segundos. Da luz que não chegou a ser lampejo. Quer resistir. jazem ainda na estática do Nada! É o soluço da forma ainda imprecisa. e quanto mais resiste Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.. o homem que é triste Para todos os séculos existe E nunca mais o seu pesar se apaga! Não crê em nada. pancada por pancada. mas o que não sabe E que essa mágoa infinda assim não cabe Na sua vida. nada há que traga Consolo à Mágoa. Ouço. O choro da Energia abandonada! É a dor da Força desaproveitada — O cantochão dos dínamos profundos. No rudimentarismo do Desejo! 54 . E quando esse homem se transforma em verme É essa mágoa que o acompanha ainda! O LAMENTO DAS COISAS Triste. é que essa mágoa infinda Transpõe a vida do seu corpo inerme. a escutar. o subconsciente ai formidando Da Natureza que parou. pois..ETERNA MÁGOA O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do Mundo. podendo mover milhões de mundos.

num grito de emoção. Foi que eu. Cesse a luz. afinal. Tua cabeça há de ficar vibrando Na negatividade universal! 55 . Parem as vidas. sincero Encontrei. pensando. que os anos não carcomem. Sobre a pancosmológica exaustão Reste apenas o acervo árido e vão Das muscularidades consumidas! Ainda assim. Como a última expressão da Dor sem termo. me desencarcero. Aglomeradamente e em turbilhão Solucem dentro do Universo ancião. Todas as urbes siderais vencidas! Morra o éter. a animar o cosmos ermo. eu. De que.O MEU NIRVANA No alheamento da obscura forma humana. impero Na imanência da Idéa Soberana! Destruída a sensação que oriunda fora Do tacto — ínfima antena aferidora Destas tegumentárias mãos plebéas — Gozo o prazer. feito força. Onde a Vida do humano aspecto fero Se desarraiga. o meu Nirvana! Nessa manumissão schopenhauereana. Oh! Nauta aflito do Subliminal. Morto o comércio físico nefando. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das Idéas! CAPUT IMMORTALE Na dinâmica aziaga das descidas.

numa alta aclamação. e. Era. feixe de mônadas bastardas. o olfato e o gosto! Carne. Da multimilenária dissonância Que as harmonias siderais invade. o ouvido.. a irmanar diamantes e hulhas. Diafragmas. "Com essa intuição monística dos gênios. decompondo-se. a vista.APOSTROFE À CARNE Quando eu pego nas carnes do meu rosto. ao sol posto. Onde a alva flama psíquica trabalha. Em tua podridão a herança horrenda. Dói-me ver.. Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas. A dardejar relampejantes brilhos. sem retumbância. muito embora a alma te acenda. O regresso dos átomos aflitos Ao descanso perpétuo da Unidade! 56 . E o Homem — negro e heteróclito composto. pois. arpões. Que eu tenho de deixar para os meus filhos! LOUVOR A UNIDADE "Escafandros. sem gritos. sondas e agulhas "Debalde aplicas aos heterogêneos "Fenômenos. "Num pluralismo hediondo o olhar mergulhas! "Une.. "À hirta forma falaz do are perennius "A transitoriedade das fagulhas!" — Era a estrangulação.. Pressinto o fim da orgânica batalha: — Olhos que o húmus necrófago estraçalha. há inúmeros milênios. Desagrega-se e deixa na mortalha O tacto.

no Mundo.. a porta. à espera de quem passa Para abrir-lhe. Este pântano é o túmulo absoluto. é a essência pura. E a alma o obnóxio quietismo sonolento Rasga. É a síntese. E eu sinto a angústia dessa raça ardente Condenada a esperar perpetuamente No universo esmagado da água morta! SUPREME CONVULSION O equilíbrio do humano pensamento Sofre também a súbita ruptura. e. — libertação do homem cativo — Ruptura do equilíbrio subjetivo. opondo-se à Inércia. Tragicamente. Ah! foi teu beijo convulsionador Que produziu este contraste fundo Entre a abundância do que eu sou. é a abreviatura Do todo o ubiqüitário Movimento! Sonho. E o nada do meu homem interior! 57 .O PÂNTANO Podem vê-lo. A convulsão meteórica do vento. na noite escura. sem dor. Que produz muita vez. às escâncaras. para mim que a Natureza escuto. é o transunto.. meus semelhantes! Mas. De todas as grandezas começantes! Larvas desconhecidas de gigantes Sobre o seu leito de peçonha e luto Dormem tranqüilamente o sono bruto Dos superorganismos ainda infantes! Em sua estagnação arde uma raça.

Vence o granito. como o gérmen de outros seres. tanto Que. é natural. rosto?! "Serei apenas mera crusta espessa?! "Pois é possível que Eu. Ao supremo infortúnio de ser alma! NATUREZA ÍNTIMA Ao filósofo Farias Brito Cansada de observar-se na corrente Que os acontecimentos refletia. geléia humana. o pranto Das tuas concreções plásmicas flua! A água. ainda sentia Era a mesma imortal monotonia De sua face externa indiferente! E a Natureza disse com desgosto: "Terei somente. Volvas à antiga inexistência calma!. em realidade. Teu desenvolvimento continua! Antes. "Menos interiormente me conheça?!" 58 . não progridas E em retrogradações indefinidas.. que ainda haveres De atingir. E hás de crescer. causa do Mundo.. deprimindo-o . geléia crua. porventura.. "Quanto mais em mim mesma me aprofundo. Reconcentrando-se em si mesma. ainda algum dia.. O espanto Convulsiona os espíritos. em conjugação com a terra nua.A UM GÉRMEN Começaste a existir. Antes o Nada. um dia. oh! gérmen. no teu silêncio. e. entanto. A Natureza olhou-se interiormente! Baldada introspecção! Noumenalmente O que Ela.

. Bracejamentos de álamos selvagens. Como um convite para estranhas viagens.Todas as hermenêuticas sondagens.... é ânsia. E a coorte Das raças todas. é transporte. no seu arcano. São absolutamente negativas! Araucárias. E a dramatização sangrenta e dura Vir Deus num simples grão de argila errante. Ante o hieróglifo e o enigma das folhagens.. Vivem só. nele.. .A FLORESTA Em vão com o mundo da floresta privas!. os elementos broncos. trancada num disfarce. É a Natureza que. Da avidez com que o Espírito procura É a Subconsciência que se transfigura Em volição conflagradora. Porque nunca puderam realizar-se! GUERRA Guerra é esforço.. Precisa de encharcar-se em sangue humano Para mostrar aos homens que está viva! 59 . na ordem cósmica. descendo A irracionalidade primitiva. é inquietude. é o instinto horrendo De subir.As ambições que se fizeram troncos.. que se entrega à morte Para a felicidade da Criatura! É a obsessão de ver sangue... . Tornam todas as almas pensativas! Há uma força vencida nesse mundo! Todo o organismo florestal profundo É dor viva. traçando arcos de ogivas.

inteira. ancoradouro Dos desgraçados.. Com os corpúsculos mágicos do tacto Prendo a orquestra de chamas que executas. sem convulsão que me alvorece. saúde dos seres que se fanam. sol do cérebro. em suma.. ouro De que as próprias desgraças se engalanam! Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato. Riqueza da alma.. E. Dói-lhe. Minha maior ventura é estar de posse De tuas claridades absolutas! 60 ..O SARCÓFAGO Senhor da alta hermenêutica do Fado Perlustro o atrium da Morte. Alegria das glândulas do choro De onde todas as lágrimas emanam. assim. acérrima e latente. Que o sarcófago. psíquico tesouro.. ereto e imóvel sente Em sua própria sombra sepultado! Dói-lhe (quem sabe?!) essa grandeza horrível Que em toda a sua máscara se expande. perante o Incognoscível Essa fatalidade de ser grande Para guardar unicamente poeira! HINO À DOR Dor. À humana comoção impondo-a.. És suprema! Os meus átomos se ufanam De pertencer-te.. É frio o ambiente E a chuva corta inexoravelmente O dorso de um sarcófago molhado! Ah! Ninguém ouve o soluçante brado De dor profunda. oh! Dor.

. em épocas futuras. Ions emanados do meu próprio ideal. Meu fantasma de carne passageira! Vulcão da bioquímica fogueira Destruiu-me todo o orgânico fastígio . A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ele ainda tem de abrir para o Infinito! AOS MEUS FILHOS Na intermitência da vital canseira. que. Dai-me asas.. para a hora derradeira! Culminâncias humanas ainda obscuras. para o último remígio. Minha continuidade emocional! 61 . pois. Um movimento universal de insânia Arrancará da insciência o homem precito. Haveis de ser no mundo subjetivo. Sois vós que sustentais ( Força Alta exige-o . ) Com o vosso catalítico prestígio. Expressões do universo radioativo.ÚLTIMA VISIO Quando o homem resgatado da cegueira Vir Deus num simples grão de argila errante.... Dai-me alma. pois. Terá nascido nesse mesmo instante A mineralogia derradeira! A impérvia escuridão obnubilante Há de cessar! Em sua glória inteira Deus resplandecerá dentro da poeira Como um gasofiláceo de diamante! Nessa última visão já subterrânea. Benditos vós..

Arranco do meu crânio as nebulosas. cedendo à ação de ignotos pesos! É então que a vaga dos instintos presos — Mãe de esterilidades e cansaços — Atira os pensamentos mais devassos Contra os ossos cranianos indefesos.. E acho um feixe de forças prodigiosas Sustentando dois monstros: a alma e o instinto! O POETA DO HEDIONDO Sofro aceleradíssimas pancadas No coração. A espaços As cabeças. então. A alma arde.A DANÇA DA PSIQUÊ A dança dos encéfalos acesos Começa. as mãos. sondando-me a consciência A ultra-inquisitorial clarividência De todas as neuronas acordadas! Quanto me dói no cérebro esta sonda! Ah! Certamente eu sou a mais hedionda Generalização do Desconforto. Ataca-me a existência A mortificadora coalescência Das desgraças humanas congregadas! Em alucinatórias cavalgadas. os pés e os braços Tombara... A carne é fogo. Emoções extraordinárias sinto. Subitamente a cerebral coréa Pára. O cosmos sintético da Idéa Surge. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto! 62 .. Eu sinto.

Superexcitadíssimos. na superfície do planeta. Deixa a tua alegria aos seres brutos. no ardor dos seus assomos A alegoria do que outrora fomos E a imagem bronca do que inda hoje sois! HOMO INFIMUS Homem.A FOME E O AMOR A um monstro Fome! E. aumenta. Todas as danações sexuais que abrangem A apolínica besta famulenta! Ambos assim.. na ânsia voraz que. Sangram-te os olhos. Excrescência de terra singular. No desembestamento que os arrasta. Receando outras mandíbulas a esbangem. criatura cega. ris! Fruto injustificável dentre os frutos. os dois Representam. ávida.. tragando a ambiência vasta. enquanto as almas se confrangem. e. Montão de estercorária argila preta. Teu coração se desagrega. o alfa e o omega Amarguram-te. Antes da refeição sanguinolenta! Amor! E a satiríasis sedenta. Os dentes antropófagos que rangem. Tu só tens um direito: — o de chorar! 63 . carne sem luz. Rugindo. Hebdômadas hostis Passam. Porque. O Universo calado te renega E a tua própria boca te maldiz! O nôumeno e o fenômeno. Realidade geográfica infeliz. entretanto.

aparelhou. Ai! Não toqueis em minhas faces verdes. Levou-me o crânio e pôs-lhe dentro a palma Dos que amam apreender o Inapreensível! Predeterminação imprescriptível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. homens felizes. O Amor. E trago em mim. de sofrerdes A sensação de todas as misérias! 64 . Sob pena. a Ciência. a Glória. num sincronismo eterno A fórmula de todos os destinos! NOLI ME TANGERE A exaltação emocional do Gozo. Que força alguma inibitória acalma.. por conseqüência um ser monstruoso! Em minha arca encefálica indefesa Choram as forças más da Natureza Sem possibilidades de repouso! Agregados anômalos malditos Despedaçam-se. Da dor humana. o Inferno.. soluçando. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Na canonização emocionante. mordem-se.. dão gritos Nas minhas camas cerebrais funéreas.MINHA FINALIDADE Turbilhão teleológico incoercível.. — A águia dos latifúndios florentinos! Sistematizo. a Arte e a Beleza Servem de combustíveis à ira acesa Das tempestades do meu ser nervoso! Eu sou. sou maior que Dante.

Existo Como o cancro. Uiva.. Como Belerofonte com a Quimera Mato o ideal. A ignomínia de todos os abusos! É a prosódia do cárcere. não cabendo mais dentro dos peitos.. é a partênea Aterradoramente heterogênea Dos grandes transviamentos subjectivos. (Hoje. Minha alma é um misto De anomalias lúgubres.. Criando na alma a estesia abstrusa da ânsia. urdo o crime.. Que. achato a esfera E acho odor de cadáver na fragrância! Chamo-me Aberração. Em que o Mal se engrandece e o ódio se exalta. amanhã e em qualquer era) Minha hibridez é a súmula sincera Das defectividades da Substância.O CANTO DOS PRESOS Troa. a alardear bárbaros sons abstrusos. Teço a infâmia. cresto o sonho. a exigir que os sãos enfermem. Pela promiscuidade dos reclusos! No wagnerismo desses sons confusos. È a saudade dos erros satisfeitos. em voz muito alta. engendro o lodo E nas mudanças do Universo todo Deixo inscrita a memória do meu gérmen! 65 . Entoado asperamente. O epitalâmio da Suprema Falta. ontem. Se escapa pela boca dos cativos! ABERRAÇÃO Na velhice automática e na infância. à luz de fantástica ribalta.

dona.VÍTIMA DO DUALISMO Ser miserável dentre os miseráveis -.. por fim. pelos caminhos quedos Minha tátil intensidade é tanta Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos! Quebro a custódia dos sentidos tredos E a minha mão. de quanta Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos. à noite.. como um corvo. Feita dos mais variáveis elementos. Transponho ousadamente o átomo rude E.. dada às bravias Cóleras dos dualismos implacáveis E à gula negra das antinomias! Psique biforme. invado. Nos paroxismos da hiperestesia. Criação a um tempo escura e cor-de-rosa. apreendo. minha alma. ausculto. o Infinito se levanta À luz do luar. Ceva-se em minha carne.Carrego em minhas células sombrias Antagonismos irreconciliáveis E as mais opostas idiossincrasias! Muito mais cedo do que o imagináveis Eis-vos.. Todas as coisas íntimas suplanta! Penetro. agarro. Encho o Espaço com a minha plenitude! 66 . o Céu e o Inferno absorvo. O Infinitésimo e o Indeterminado. transmudado em rutilância fria. A simultaneidade ultramonstruosa De todos os contrastes famulentos! AO LUAR Quando. enfim.

. virgem. Laquesis. projetado muito além da História. como a luz do amanhecer. Como a luz que arde. Eu. Na hiperculminação definitiva O meu supremo e extraordinário Ser! Em minha sobre-humana retentiva Brilhavam. e nos abismos Ninguém responderá tua pergunta! Reclamada por negros magnetismos Tua cabeça há de cair. Sentia dos fenômenos o fim...A UM EPILÉTICO Perguntaras quem sou?! – ao suor que te unta À dor que os queixos te arrebenta. Tu hás de entrar completamente puro Para a circulação do Grande Todo! CANTO DA ONIPOTÊNCIA Cloto. A coisa em si movia-se aos meus brados E os acontecimentos subjugados Olhavam como escravos para mim! 67 .. defunta Na aterradora operação conjunta Da tarefa animal dos organismos! Mas após o antropófago alambique Em que é mister todo o teu corpo fique Reduzido a excreções de sânie e lodo. aos trismos Da epilepsia horrenda. Átropos. A perfeição virtual tornada viva E o embrião do que podia acontecer! Por antecipação divinatória. E acima deles. num monturo. arder. como um astro. Siva. Tifon.

Branda. Folhas e frutos.. tenta transpor o Ideal. entanto.. rábido. minha árvore humana desfolhada! Mulher nenhuma afagará meu tronco! Eu não me abalarei. Grita em meu grito. e entre rochas duras Mostra ao Cosmos a face degradada! Entre os pedrouços maus dessa morada É que.. neste ergástulo das vidas Danadamente. remoinha. Hão de encontrar as gerações futuras Só. sobre a terra ardente Hão de encher outras árvores! Somente Minha desgraça há de ficar sozinha! ANSEIO (QUEM SOU EU.. E.Trilhões de células vencidas. a afagar tantas feridas. às apalpadelas e às escuras.MINHA ÁRVORE Olha: É um triângulo estéril de ínvia estrada! Como que a erva tem dor. A áurea mão taumatúrgica do Amor Traça. Essa elementaríssima semente Do que hei de ser. Roem-na amarguras Talvez humanas. nas minhas formas carcomidas.) Quem sou eu. a soluçar de dor?! -. nem mesmo ao ronco Do furacão que.. alarga-se em meu hausto. ai! como eu sinto no esqueleto exausto Não poder dar-lhe vida material! 68 . esse mundo incoerente... A estrutura de um mundo superior! Alta noite.. Nutrindo uma efeméride inferior.

ateando da alma o ocíduo lume. transpondo a escarpa augusta Dos limites orgânicos estreitos. desconforto E ataraxia. Ouço o universo ansioso que se agita Dentro de cada pensamento humano! No abstrato abismo equóreo. sânie e perfume. Dentro dos quais recalco em vão minha ânsia. Penetro a essência plásmica infinita.REVELAÇÃO I Escafandrista de insondado oceano Sou eu que. hirto. Apreendo. A potencialidade do que é morto E a eficácia prolífica do estrume! Ah! Sou eu que. revolvendo o ego profundo E a escuridão dos cérebros medonhos.Tudo a unidade do meu ser resume! Sou eu que. em que me inundo.Mãe promíscua do amor e do ódio insano! Sou eu que. -. Massa palpável e éter.. feto vivo e aborto. em cisma abismadora absorto. -. Restituo triunfalmente à esfera calma Todos os cosmos que circulam na alma Sob a forma embriológica de sonhos! II Treva e fulguração. Sinto bater na putrescível crusta Do tegumento que me cobre os peitos Toda a imortalidade da Substância! 69 . auscultando o absconso arcano! Por um poder de acústica esquisita. Sou eu que.. aliando Buda ao sibarita.

Tal é. -... cérebros. dois. A própria Esfinge há de falar-vos ainda E eu. rádios e úmeros. sem complicados silogismos. Esoterismos Da Morte! Eu vejo. somente em. por hipótese. em fúlgidos letreiros. três. quatro.VERSOS A UM COVEIRO Numerar sepulturas e carneiros. hei de ficar trancado Na noite aterradora de mim mesmo! 70 . A tua conta não acaba mais! TREVAS Haverá. cinco. Rotos os nimbos maus que a obstruem a esmo.. infinita como os próprios números. Continua a contar na paz ascética Dos tábidos carneiros sepulcrais Tíbias. Para convulsionar a alma que dorme Todas as tempestades são pequenas! Há de a Terra vibrar na ardência infinda Do éter em branca luz transubstanciado. na abismal sustância informe.. Reduzir carnes podres a algarismos. nas geenas Luz bastante fulmínea que transforme Dentro da noite cavernosa e enorme Minhas trevas anímicas serenas?! Raio horrendo haverá que as rasgue apenas?! Não! Porque. A aritmética hedionda dos coveiros! Um. Porque. Na progressão dos números inteiros A gênese de todos os abismos! Oh! Pitágoras da última aritmética. crânios.

Qual é. A significação dessas montanhas! Quem não vê nas graníticas entranhas A subjetividade ascensional Paralisada e estrangulada. sob o horror Dessas agregações de pedra bruta?! Como nesses relevos orográficos. assim. Por um abortamento de mecânica. recalcados. em contrações de dor. me semente. e dize-me. A representação ainda inorgânica De tudo aquilo que parou em mim?! II Agora. íngremes. De onde rebenta. alma. perscruta O puerpério geológico interior.AS MONTANHAS I Das nebulosas em que te emaranhas Levanta-te. Inacessíveis aos humanos tráficos Onde sóis. amam jazer. na natureza espiritual. Toda a sublevação da crusta hirsuta! No curso inquieto da terráquea luta Quantos desejos fervidos de amor Não dormem. a alma. mal Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?! Ah! Nesse anelo trágico de altura Não serão as montanhas. se o que ainda não existe Não vibra em gérmen no agregado triste Da síntese sombria do meu Ser?! 71 . oh! delumbrada alma. Estacionadas. Quem sabe. porventura. afinal.

sonha! Mágoas. Federações sidéricas quebradas.. e. Destrói a ebulição que a água alvorota E põe todos os astros na desgraça! São despedaçamentos. haurem-lhe o cheiro! Na glauca artéria equórea ou no estaleiro Ergue a alta mastreação... Espião da cataclísmica surpresa. derrubadas.. alçando o hirto esporão guerreiro. Pára e.APOCALIPSE Minha divinatória Arte ultrapassa Os séculos efêmeros e nota Diminuição dinâmica. A íngreme cordoalha úmida fica. em noite aziaga e ignota. derrota Na atual força. da Massa. a amarra agarrada à âncora. Zarpa. integérrima. E estende os braços de madeira rica Para as populações do mundo inteiro! Aguarda-a ampla reentrância de angra horrenda. o último a ser. E não haver uma alma que lhe entenda A angústia transoceânica medonha No rangido de todas as enxárcias! 72 . A única luz tragicamente acesa a universalidade agonizante! A NAU A Heitor Lima Sôfrega. E eu só. pelo orbe adiante. que o Éter indica. É a subversão universal que ameaça A Natureza. se as Tem. subjugue-as ou difarce-as. babando. Lambe-lhe a quilha e espúmea onda impudica E ébrios tritões...

Arrancar. que ela encheu. em que arde o Ser. Com essa volúpia das ossadas novas Hão de ainda se apertar cada vez mais! O FIM DAS COISAS Pode o homem bruto. Tragicamente. continua a arder! Surdos destarte a apóstrofes e brados. ainda depois da morte. Os nossos esqueletos descarnados. o dolo sáxeo. Haurindo o gás sulfídrico das covas. num triunfo surpreendente. A humanidade vai pesar seu gênio Encontra o mundo. Sôfrego. cave. vazio! 73 . Dentro dos ossos. E quando. na ânsia ardente De perscrutar o íntimo do orbe.VOLÚPIA IMORTAL Cuidas que o genesíaco prazer. adstrito à ciência grave. Fome do átomo e eurítmico transporte De todas as moléculas.. e.. Para a perpetuação da Espécie forte. Das profundezas do Subconsciente O milagre estupendo da aeronave! Rasgue os broncos basaltos negros. aborte Na hora em que a nossa carne apodrecer?! Não! Essa luz dial. invente A lâmpada aflogística de Davy! Em vão! Contra o poder criador do Sonho O Fim das Coisas mostra-se medonho Como o desaguadouro atro de um rio. Em convulsivas contorções sensuais. ao cabo do último milênio.

.. A água transubstancia-se. Horrível! O osso Frontal em fogo. Ficam brilhando com fulgor sinistro Dentro da treva onímoda e complexa Os olhos fundos dos que estão com medo A OBSESSÃO DO SANGUE Acordou. Somente. Extraordinariamente atordoadora. A carne que ele havia de comer! No inferno da visão alucinada. com um berro bárbaro de gozo. Na mão dos açougueiros. eis que viu. iguais a espiões que acordam cedo. Ah! Certamente não podia ser! Levantou-se. A onda estoura Na negridão do oceano e entre os navios Troa bárbara zoada de ais bravios..A NOITE A nebulosidade ameaçadora Tolda o éter. fora. E. Era tão moço. O monocromatismo monstruoso Daquela universal vermelhidão! 74 . vendo sangue. há instantes. Disse.. Ia talvez morrer. À custódia do anímico registro A planetária escuridão se anexa. antes do almoço.. Viu vísceras vermelhas pelo chão. E amou. a escorrer Fita rubra de sangue muito grosso.. Viu montanhas de sangue enchendo a estrada.. mancha a gleba. Olhou-se no espelho. agride os rios E urde amplas teias de carvões sombrios No ar que álacre e radiante..

percorro como um gênio Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!. Leio o obsoleto Rig-Veda. Outras cabeças aparecerão Para compartilhar do meu destino! Na festa genetlíaca do Nada. E em tudo igual a Goethe. Rasgo dos mundos o velário espesso. O Inconsciente me assombra e eu nele rolo Com a eólica fúria do harmatã inquieto! Assisto agora à morte de um inseto!.VOX VICTIMAE Morto! Consciência quieta haja o assassino Que me acabou.. E ai! Como é boa esta volúpia obscura Que une os ossos cansados da criatura Ao corpo ubiqüitário do Criador! AGONIA DE UM FILÓSOFO Consulto o Phtah-Hotep. Ah! todos os fenômenos do solo Parecem realizar de pólo a pólo O ideal do Anaximandro de Mileto! No hierático areópago heterogêneo Das idéias. Abraço-me com a terra atormentada Em contubérnio convulsionador.. E. ante obras tais. reconheço O império da substância universal ! 75 ... me não consolo... dando-me ao corpo vão Esta volúpia de ficar no chão Fruindo na tabidez sabor divino! Espiando o meu cadáver ressupino. No mar de humana proliferação...

E à dor e ao sofrimento eterno afeito. imensa. Tragicamente de si mesmo oriundo. ao meu lado.. E assim afeito às mágoas e ao tormento. P’ra iluminar-me a alma descontente. imóvel. Porque eu hoje só vivo da descrença. Da saudade na campa enegrecida Guardo a lembrança que me sangra o peito. Fora da sucessão. atro e subterrâneo.O ÚLTIMO NÚMERO Hora da minha morte. resignado. Se acende o círio triste da Saudade. amigo! Pois que a minha autogênica Grandeza Nunca vibrou em tua língua presa. E o coração me rasga atroz. Eu a bendigo da descrença. Não te abandono mais! Morro contigo!" SAUDADE Hoje que a mágoa me apunhala o seio. Para dar vida à dor e ao sofrimento. Hirta. Era de vê-lo. Mas que no entanto me alimenta a vida. Parecia dIzer-me: "É tarde. No fundo Do meu entendimento moribundo Jazia o Último Número cansado. 76 . A Idéia estertorava-se.Que fazes ainda no meu crânio? E o Último Número. estranho ao mundo. em meio. À noute qunado em funda soledade Minh’alma se recolhe tristemente. Como o reflexo fúnebre do Incriado: Bradei: -.

CETICISMO Desci um dia ao tenebroso abismo. eu creio em ti. mas me perdoa! Se esta dúvida cruel qual me magoa Me torna ínfimo. Não sei se viva p’ra morrer na terra. gárrulos voando . Hoje ela habita a erma soledade. Fazem lembrar em noute de saudade A luz mortiça d’um olhar nublado. desgraçado réu.o exorcismo Terrível me feriu.Oh! Deus. volvi ao ceticismo. Não sei se morra p’ra viver no Céu! 77 . e então sereno. Da Igreja . De joelhos aos pés do Nazareno Baixo rezei. O brilho se apagou daquela estrela Que a vida lhe tornava venturosa! Sombras que passam. Fugazes sonhos. Fraco que sou. de ilusões tão bela. seu olhar magoado.Resta somente um’alma tristurosa! Coitada! o gozo lhe fugiu correndo. Ah. sombras cor-de-rosa .a Grande Mãe . em fundo misticismo: .ABANDONADA Ao meu irmão Odilon dos Anjos Bem depressa sumiu-se a vaporosa Nuvem de amores. Onde a dúvida ergueu altar profano.Todas se foram num festivo bando. entre o medo que o meu Ser aterra. Em que vive e em que aos poucos vai morrendo! Seu rosto triste. Cansado de lutar no mundo insano.

E que tornou-o assim. Tristes fanaram redolentes rosas. num mês de tantas flores. de amor ferido. Exausto de pisar mágoas pisadas. Eterno pegureiro caminhando. As minhas crenças que alentei outrora Rolam dispersas. Oh! Minha infância nunca teve flores! Volvendo à quadra azul da mocidade. Quando a morte matar meus dissabores. Minh’alma levo aflita à Eternidade. Hoje eu carrego a cruz das minhas dores! OUVI. Como um coveiro a sepultar quimeras! 78 . Cansado de chorar pelas estradas.MÁGOAS Quando nasci. amei. Desfeitas todas num guaiar dorido. Sombrio e mudo e glacial. SENHORA Ouvi. pálidas agora. E como a luz do sol vai-se apagando! E eu triste. Morreram todas. langorosas. Revolvo as cinzas de passadas eras. Todas murcharam. Ouvi. o cântico sentido Do coração que geme e s’estertora N’ânsia letal que o mata e que o devora. Mais tarde da existência nos verdores Da infância nunca tive as venturosas Alegrias que passam bonançosas. todas sem olores. triste pela vida afora. triste e descrido. senhora. tristes. senhora. senhora.

Alma viúva das paixões da vida. venceu batalhas. coração amargurado. Era o soldado. E voltou. Tu que. Altivo lutador. E tinha que deixar p’ra sempre aquela Meiga visão. Ao chegar. Se nada te aniquila o desalento Que te invade. Esconde à Natureza o sofrimento. Dos canhões ao ribombo e das metralhas. e na existência agora Triste soluças a ilusão peerdida. Oh! Tu. mas a fronte aureolada. e o pesar negro e profundo. Alma arrancada do prazer do mundo. Apaixonou-se d’uma virgem bela. Louco vivia. enamorado dela. No sepulcro da loura virgem bela. um tresloucado. INFELIZ Alma viúva das paixões da vida. 79 . que na grinalda emurchecida De teu passado de felicidade Foste juntar os goivos da Saudade Às flores da Esperança enlanguescida. Cantaste e riste. pendeu triste e desmaiada. Juncou-lhe a fronte aurifulgente estrela. Vivia alegre o vate apaixonado. olímpica e singela! E partiu. na estrada da existência em fora. Mas a Pátria chamou-o.TRISTE REGRESSO Uma vez um poeta. E fica no teu ermo entristecida.

E rompe a orquestra sepulcral da morte.Alvos fantasmas pelos merencórios Túmulos tristes. Quebrando a paz suprema dos sepulcros. ardentes . Quando há de ser o venturoso dia?! Quando há de ser!? O noivo então dizia E a noiva e ambos d’amores s’embriagavam. São minhas crenças divinais. a brisa respondia. Vinha rompendo a aurora majestosa.N’AUGUSTA SOLIDÃO DOS CEMITÉRIOS N’augusta solidão dos cemitérios. Ambos unidos soluçara um beijo. Era o supremo beijo de noivado! 80 . Hoje rolando nos umbrais marmóreos. Quando há de ser!? E os pássaros falavam. Há de chegar. Desliza então a lúgubre coorte. Fora no campo pássaros trinavam. Chegara enfim o dia desejado. funéreos. E a mesma frase o noivo repetia. silentes. NOIVADO Os namorados ternos suspiravam. pálidos. soturnais. Quando da vida. Resvalando nas sombras dos ciprestes. Passam meus sonhos sepultados nestes Brancos sepulcros. no eternal soluço. Dos rouxinóis ao sonoroso harpejo E a luz do sol vibrava esplendorosa. Eu choro e gemo e triste me debruço Na lájea fria dos meus sonhos pulcros.

Como no mar a vaga embravecida Vai bater-se na rocha empedernida. Espumando e rugindo em marulhada. Muitos que esgotam do prazer a taça Sentem no peito a dor indefinida. porém. da febre ardente Da ventura fugaz e transitória O peito rompe a capa tormentória Para sorrindo palpitar contente. A MÁSCARA Eu sei que há muito pranto na existência. Eu subo na atitude dolorida De um Cristo a redimir um mundo vário. Assim a turba inconsciente passa. No delírio. A morte me será vingança eterna. E onde a vida borbulha e o sangue medra. Aí existe a mágoa em sua essência. Dores que ferem corações de pedra. Mas se das minhas dores ao calvário. 81 . E entre a mágoa que masc’ra eterna apouca A humanidade ri-se e ri-se louca No carnaval intérmino da vida. Em luta co’a natura sempiterna.NO MEU PEITO ARDE No meu peito arde em chamas abrasada A pira da vingança reprimida. E em centelhas de raiva ensurdecida A vingança suprema e concentrada. E espuma e ruge a cólera entranhada. Já que do mundo não vinguei-me em vida.

" CANTA NO ESPAÇO A PASSARADA Ao meu prezado irmão Alexandre Júnior pelas nove primaverasque hoje completou. bonecos de formoso busto. Quantos. Eu só encontro no primor de rima A justa oferta. oh! Quantos Ouviram dele frases de candura Que d’infelizes enxugavam prantos! E como alegres não ficaram tantos Corações sem prazer e sem ventura! No entanto dizem que este padre amara. Da sua fala na eternal doçura Falava o coração. Tu’alma ri-se descuidosamente. E Deus lhe disse: "És duas vezes santo. um desses santos Sacerdotes da Fé de crença pura. Pois se da Religião fizeste culto. estulto. consente Que neste dia de ventura tanta Vá. Su’alma livre para o Céu se alara. Minh’alma alegre no teu rir s’encanta. Somente assim festejarei teus anos. Morrera um dia desvairado. Irmão querido.AMOR E RELIGIÃO Conheci-o: era um padre. num abraço de ternura santa. Jóias. Foste do amor o mártir sacrossanto. Mostrar-te o afeto que meu peito sente. a jóia que te exprima O amor fraterno do teu mano Em 28 de abril de 1901 82 . bom Papá. dão-te enganos. Canta no espaço a passarada e canta Dentro do peito o coração contente. Enquanto outros que podem.

O COVEIRO Uma tarde de abril suave e pura Visitava eu somente ao derradeiro Lar. morria Uma noute entre as vascas da agonia Tendo no corpo o verme do pecado! 83 . tinha ido ver a sepultura De um ente caro. Eu senti a minh’alma entristecida E interroguei-o: "Eterno companheiro Da morte. Ali jazia o seu amor primeiro! Depois. o porte emoldurado No mármore sublime dos contornos. Balbuciou. Do destino fatal. Moldada pela mão da Natureza. presa. Do fado. aveludado. Dançavam-lhe no colo perfumado. Lá encontrei um pálido coveiro Com a cabeça para o chão pendida. amigo verdadeiro. Tornou-se a pecadora vil. A chama cruel que arrasta os corações. Os seios rijos eram dois brasões Onde fulgia o simb’lo do Pecado. tomando a enxada gravemente. Os seios brancos. sorrindo tristemente: "Ai! Foi por isso que me fiz coveiro!" PECADORA Tinha no olhar cetíneo. divina. Bela. No entanto. que matou-te o coração?" Ele apontou para uma cruz no chão. mornos. palpitantes. esta mulher de grã beleza.

Repercute. Perdem-se as notas pelo Azul morrendo. Nem a sombra mais leve de ventura! Sempre as arcadas ogivais. mudas! IL TROVATORE Canta da torre o trovador saudoso Addio. mavioso. addio. lembranças minhas! Saudades d’umas noutes em que vinhas Cantar comigo em doce desafio! Mas.Addio. Ai! não. Vagueiam tristemente desfiladas De freiras e de monjas tristurosas. No sigilo das rezas misteriosas. E à noute quando rezam na clausura. desnudas. Eleonora! Oh! sonhos meus! E o canto se desprende harmonioso Na vibração final do extremo adeus. Que guardam cinzas de ilusões passadas. pouco a pouco. os sons esmorecendo. Eleonora. Subindo pelo Azul da Inspiração. Na vastidão silente das caladas Abóbodas sombrias tenebrosas.NO CLAUSTRO Pelas do claustro salas silenciosas De lutulentas. . Assim canta também meu coração. Que guardam pér’las de funéreas rosas. E as mesmas monjas sempre tristurosas. úmidas arcadas. Trovador torturado e angustioso. addio! 84 . E as mesmas portas impassíveis. dolente. não acordeis.

Os dias voltarão a ser tristonhos E tu hás de dormir o eterno sono. Tu que sorveste o fel das minhas dores E me trouxeste o néctar dos teus sonhos! Cedo virá. Vai morta em vida assim pelo caminho. . tão moça e já desventurada. Arca sagrada de cerúleos sonhos. . soluça . Num sepulcro de rosas e de flores.Em seu passado Houve um drama d’amor misterioso . a desgraçada estulta. Moça.a veste desgrenhada. O cabelo revolto em desalinho. Chova-te o Céu cintilações sidéreas E a terra chova no teu seio flores! Esplende.A LOUCA A Dias Paredes Quando ela passa: . PRIMAVERA A meu irmão Odilon dos Anjos Primavera gentil dos meus amores. Primavera. Da desdita ferida pelo espinho. Canta.coração saudoso. Primavera gentil dos meus amores! 85 . Na auréola azul dos dias teus risonhos.O segredo d’um peito torturado E hoje. No sudário de mágoa sepultada. para guardar a mágoa oculta. gargalha. No seu olhar feroz eu adivinho O mistério da dor que a traz penada.Arca cerúlea de ilusões etéreas. o triste outono. Eu sei a sua história. os teus fulgores. porém. Chora.

Quantas venturas que me acalentaram! Mau peito. O berço onde as venturas se embalaram. O mistério d’um peito que estertora E o segredo d’um’alma que não sonha! Não. ela não cansa. Também como ela não sucumbe a Crença. risonha. Voltam sonhos nas asas da Esperança. ergue o teu grito. Muita gente infeliz assim não pensa. Na voz da morte a me bradar: descansa! SENHORA. tristonha . No entanto o mundo é uma ilusão completa. E não é a Esperança por sentença Este laço que ao mundo nos manieta? Mocidade. Vão-se sonhos nas asas da Descrença. EU TRAJO O LUTO DO PASSADO Senhora. túm’lo do prazer finado. eu trajo o luto do passado.Cantar o Ocaso quando surge a Aurora. Foi outrora do riso abençoado. Sirva-te a crença de fanal bendito.A ESPERANÇA A Esperança não murcha. Salve-te a glória no futuro . 86 . Senhora. que vivo atrelado ao desalento. Mas não queiras saber nunca. Este luto sem fim que é o meu Calvário E anseio e choro.avança! E eu. portanto. Sonâmbulo da dor angustiado. Também espero o fim do meu tormento. não busques saber por que. delirante e vário. É minha sina perenal.

sublime na Descrença. Mas quando vibrar a última balada Da tarde e se calar a passarada Na bruma sepulcral que o céu embaça. Chora . Por entre o resplandor das Primaveeras Oh! madrugada azul dos meus sonhares. Como Jesus a soluçar no Horto! ECOS D’ALMA Oh! madrugada de ilusões. Bela na Dor. Quando o rosário de seu pranto rola.SOFREDORA Cobre-lhe a fria palidez do rosto O sendal da tristeza que a desola. nervosa e louca Esquecer por momento a mágoa intensa Arrancando um sorriso à flor da boca. Fitando a nebulosa do meu Sonho E a Via-Láctea da Ilusão que passa! 87 . Sombra perdida lá do meu Passado. Mas volta logo um negro desconforto. santíssima. Vinde entornar a clâmide puríssima Da luz que fulge no ideal sagrado! Longe das tristes noutes tumulares Quem me dera viver entre quimeras. Quem me dera morrer então risonho.o orvalho do pranto lhe perola As faces maceradas de desgosto. porém. Tenta às vezes. Das brancas rosas do seu triste rosto Que rolam murchas como um sol já posto Um perfume de lágrimas se evola.

Dorme talvez. Em flácido abandono Lembra formosa no seu casto sono A languidez dormente da indiana. Enquanto o amante pálido. Emergem da camisa cetinosa Entre as rendas sutis de filigrana. A carne exuberante e capitosa Trescala a essência que de si dimana. As níveas pomas do candor da rosa. pois. e. Esse manto de amor doce e clemente Que lava as dores e que enxuga o pranto?! Ah! Se queres saber a sua grandeza. sê bendita! ARIANA Ela é o tipo perfeito da ariana. o olhar velado No Mistério da Carne Soberana 88 . Essa sublime adoração do crente. a fronte triste. a seu lado Medita.AMOR E CRENÇA E sê bendita! H. Rendilhando-lhe o colo de sultana. Estende o teu olhar à Natureza. Que os encantos e a força dos poderes Reúne tudo em si. num só encanto? Esse mistério eterno e sacrossanto. púbere.. Fita a cúp’la do Céu santa e infinita! Deus é o templo do Bem. Na altura Imensa. nevada. ama. crê em Deus. mimosa. Sienkiewicz Sabes que é Deus?! Esse infinito e santo Ser que preside e rege os outros seres. Branca.. O amor é a hóstia que bendiz a Crença.

E na choça a lamúria que traspassa O coração.TEMPOS IDOS Não enterres. Eu vivo dessas crenças que passaram.Quero abraçar o meu passado morto. Da juventude a virginal capela A lhe cingir de luz a fronte baça. Tem pena dessas cinzas que ficaram. . A romaria eterna dos aflitos. . dos proscritos. porém. Entre todos. Ao dobre funeral dos tempos idos! NA RUA EM FUNERAL EI-LA QUE PASSA (Lendo o "Poema de Maio") Na rua em funeral ei-la que passa. além. A alma saudosa pelo amor vibrada. Que não se enterra assim sem compaixão Os escombros benditos de um Passado! Ai! Não me arranques d’alma este conforto! . Dos romeiros saudosos da desgraça. coveiro. o meu Passado.A Stella Matutina da Desgraça! 89 . e quero sempre tê-las ao meu lado! Não. Vai Corina mendiga e esfarrapada. não quero o meu sonho sepultado No cemitério da Desilusão.Dizer adeus aos sonhos meus perdidos! Deixa ao menos que eu suba à Eternidade Velado pelo círio da Saudade. lânguida e bela. ânsias e gritos De mães que arquejam sobre os probrezitos Filhos que a Fome derrubou na praça. A procissão dos tristes.

Fitando o abismo sepulcral dos mares. Vinha o luar iluminando a estrada E eu vinha pela estrada soluçando.eu disse. 90 . Saí deixando morta a minha amada. Hermeto Lima Adeus. Perto. Para mim no mundo Tudo acabou-se. Deixa ver na fulgência do seu rastro A trajetória augusta da Ciência. devassando a terra. suspirando. Mas no mistério astral da noute bela Pareceu-me inda ouvir o nome dela No marulhar monótono das águas! A AERONAVE Cindindo a vastidão do Azul profundo. SUSPIRANDO Pareceu-me inda ouvir o nome dela No badalar monótono dos sinos. E na esteira sem fim da azúlea esfera Ei-la embalada n’amplidão dos ares. A aeronave que um mistério encerra Vai pelo espaço acompanhando o mundo. É como um despertar de estranho mito. Voa. Vencendo o azul que ante si s’erguera. Sulcando o espaço. ADEUS. apenas restam mágoas. Súbito ecoou do sino o som profundo! Adeus! .ADEUS. um ribeiro claro murmurando Muito baixinho como quem chorava. adeus. se eleva em busca do infinito. ADEUS! E. Auroreando a humana consciência. Cheia da luz do cintilar de um astro. Parecia o ribeiro estar chorando As lágrimas que eu triste gotejava. adeus! E.

A sombra deste afeto estiolado. Lá onde nunca chegue esta saudade. Se eu sou o orvalho eterno que te chora. .a mágica princesa! E eu vi o Sol do Céu iluminando A Catedral da Grande Natureza. Mas a noute chegou. Deixa beijar-te a face que descora! Fosses antes a rosa purpurina E eu beijaria a pétala divina Da rosa. E nunca mais eu vi a minha estrela! 91 . triste. Envolto da tristeza no delírio. Minh’alma que de longe a acompanhava. onde não pousa a desventura. E eu disse . estrela do Passado! Esconde-te no Azul da Imensidade. irmã pálida da Aurora. Para eu sorrir à sombra da ventura! A MINHA ESTRELA A meu irmão Aprígio A. Estrela esmaecida do Martírio. com ela Negras sombras também foram chegando. Viu o adeus que do Céu ela enviava. e a estrela foi p’ra o Céu subindo. Disse.LIRIAL Por que choras assim.Vai-te. Ai! que ao menos talvez na vida escassa Não chorasses à sombra da desgraça. P’ra que pendes o cálice que enflora Teu seio branco do palor do círio?! Baixa a mim. E quando ela no Azul foi-se sumindo Surgia a Aurora . tristonho lírio.

A praça estava cheia.o criminoso . a minha bem amada. E ela fita-me. Caiu na praça como fulminado A soluçar: perdão. O olhar azul pregado n’amplidão.. perdão! A ESMOLA DE DULCE Ao Alfredo A. Pedir a Dulce. A esmola dum carinho apetecido. como este beijo me consola! Bendita seja a Dulce! A minha vida Estava unicamente nessa esmola. o algoz . Vítima augusta de indelével falso.. E eu balbucio trêmula balada: . E dos lábios de Dulce cai um beijo. isento de pecado. E na atitude do Crucificado. Depois. e eu gemo o último harpejo. Estendo à Dulce a mão. O condenado Transpunha nobremente o cadafalso. E todo o dia eu vou como um perdido De dor. Pude rever naquele desgraçado O drama lutuoso da Paixão. 92 . por entre a dolorosa estrada. o olhar enlanguescido.Senhora.então.e estertorada A minha voz soluça num gemido. Quando do algoz cruento o braço alçado Se dispunha a vibrar sem compaixão O golpe na cabeça do culpado Ele. a fé perdida. Morre-me a voz.A PRAÇA ESTAVA CHEIA. dai-me u’a esmola . perdão. Puro de crime.

nem me turba a calma A aurora deste amor que é o meu ocaso! 93 . Seja-te a vida uma agonia intensa! Vives de crenças mortas e te nutres.AVE DOLOROSA Ave perdida para sempre . acolhe-me. ave negra da Desgraça.venenos d’alma E eu busco a plaga onde o repouso mora. Leva-me o esp’rito dessa luz que mata.. E o viver calmo e sossegado tolhe-me! Leva-me. E a alma me ofusca e o peito me maltrata. onde d’água raso O olhar não trago. Gêmea da Mágoa e núncia da Descrença! Dos sonhos meus na Catedral imensa Que nunca pouses. e à ingrata Luz deste mundo em breve me arrebata E num pallium de tênebras recolhe-me! Aqui há muita luz e muita aurora. na névoa baça Onde o teu vulto lúrido esvoaça.crença Perdida . obumbra-me em teu seio. E hás de tombar um dia em mágoas lentas.. assassino. E as trevas moram.. acolhe-me N’asa da Morte redentora. Negrejadas das asas lutulentas Que te emprestar o corvo do Destino! GÊNIO DAS TREVAS LÚGUBRES.. Num desespero rábido. e. Gênio das trevas lúgubres. Empenhada na sanha dos abutres. Há perfumes d’amor . Lá.segue a trilha que te traça O Destino.

Que o céu reflete. Banhando a fria solidão das fragas. O MAR O mar é triste como um cemitério. Cada rocha é uma eterna sepultura Banhada pela imácula brancura De ondas chorando num albor etéreo. Os nimbos das procelas desta vida. dentre a escura Treva do oceano. negros palinuros Da tempestade negra e da tristeza. Reflete a luz do sol que já não arde.NIMBOS Nimbos de bronze que empanais escuros O santuário azul da Natureza. sem bruma Que a transparência tolde. Que o guia e o leva ao porto da bonança. Abismados na bruma enegrecida. a voz do meu saltério! Quando a cândida espuma dessas vagas. sem nenhuma Nuvem sequer. Chora a saudade envolta nesta espuma! 94 . Julgo ver nos reflexos de minh’alma As mesmas nuvens deslizando em calma. num mar de esp’rança. Mas quando o céu é límpido. só descanta. e a alma é a Flâmula do sonho. Quando vos vejo. então. Onde a quebrar-se tão fugaz se esfuma. Ah! dessas no bramir funéreo Jamais vibrou a sinfonia pura Do amor. Treme na treva a púrpura da tarde. a vida é qual risonho Batel.

Tendo a minh’alma presa nos teus braços! Pau d’Arco . Vem! Rasga deste peito as nebulosas gazas E. Adeus oh! Dia escuro. foge! Eu busco a virgem loura Que fugiu-me do peito ao teu clarão de morte E Ela era a minha estrela..ANSEIO (NESSAS PARAGENS DESOLADAS.o Sol que as almas doura! Fugiu. meu Futuro.1902 95 . é desengano. quem dera Voar est’alma a ti. Donde Fluiu outrora a luz dum doce engano. num Pálio auroral de Luz deslumbradora. Aurora morta. foge . O grande Sol de afeto .1902 AURORA MORTA. FOGE! Aurora morta. agita as tuas asas.. Cantarias do amor a primavera. o meu único Norte. Sírius da minha Sorte E da Noute da vida a Vênus Redentora. Anseios d’alma aqui se perdem. Nem vibra a corda que a saudade esconde. e em si a Luz consoladora Do amor .eu busco a virgem loura! Pau d’Arco . oh! Minha Mágoa. longe dos laços Dessa jaula de carne que a encarcera! Ah! Que unidos assim. lá nos espaços. Agora. Dia do meu Passado! Irrompe.esse clarão eterno d’alma forte Astro da minha Paz. onde O silêncio campeia soberano Morreram notas do bulício humano.. é dor. Hoje é trevas. Triste criança virginal.) Nessas paragens desoladas. Ascende à Claridade.. E eu ergo preces que ninguém responde.

Sonorizando os sonhos já passados.a Louca tenebrosa. e.os roseirais descoram E elas bóiam no pranto da corrente Que as rosas. despertando sonhos.Cítara suave dos apaixonados. Pendem e caem . Como que um doce tilintar de prata E a vibração de mil cristais quebrados. Quando. entretanto. Pau d’Arco – 1902 CANTA O TEU RISO ESPLÊNDIDA SONATA Canta o teu riso esplêndida sonata. E há. as águas límpidas alvejam Com cristais. as flores também choram Num chuveiro de pétalas. Vai-se minh'alma toda nos teus lábios. no teu riso de anjos encantados. Cantando sempre em trínula volata! Aurora ideal dos dias meus risonhos. Ah! num delíquio de ventura louca. Chora a corrente múrmura. emergindo às trevas que a negrejam.1902 96 . No alto.. Bendito o riso assim que se desata . chorando enfloram. úmido de beijos em ressábios Teu riso esponta. à dolente Unção da noute. Ri-se o meu coração na tua boca! Pau D'Arco . nitente.NO CAMPO Tarde. Um arroio canta pela umbrosa Estrada.. ao luar. os astros rumorejam Um presságio de noute luminosa E ei-la que assoma . Aragem suspirosa Agita os roseirais que ali vicejam. Branca.

Se evolarn castos. Minh'alma triste pelos céus flutua! Pau d'Arco -1902. noctâmbulo da Dor e da Saudade. olências de virgínea Carne fremindo num langor de pomas. Ah! como a branca e merencórea lua. sacrossantos. Pau d'Arco -1902. Onde as almas das virgens em crisálida De seios alvos e de fronte pálida. entre os encantos Dum noivado risonho em primavera. toda a cálida Mística essência desse alampadário. é como os prantos Níveos. Eu. que a virgem chora. eterna noctâmbula do Amor. Guarda segredos divinais que eu dera Duas vidas. E tudo quer que nessa flor se enleve O poeta.CRAVO DE NOIVA Ao Dias Paredes Cravo de noiva. Voga a lua na etérea imensidade! Ela. PLENILUNIO Desmaia o plenilúnio. virginais aromas De essência estranha. Também envolta num sudário — a Dor. A nívea cor de cera Que o seu seio branqueja. P'ra desvendar os seus segredos santos. 97 . Derramam a urna dum perfume vário. E a lua é como um pálido sacrário. Flor dos mistérios d'alma. É que dessa concha armínea Da lactescência angélica da neve. se duas eu tivera. A gaze pálida Que lhe serve de alvíssimo sudário Respira essências raras.

.Quero partir em busca do Passado. Paraíba -1902 O BANDOLIM Cantas. Tanto que gemes. a lua é triste e calma. sonhar novas idades. soluças. bandolim do Fado. Busquei então na nebulosa fria Das Ilusões. E vais aos poucos soluçando mágoas. E vais aos poucos soluçando queixas! 98 . É como as nênias do Coveiro d'alma! Tudo eterizas num coral de endeixas. Quando alta noute. Teu canto.. Choras. Mas ao esplendor das velhas majestades Vacila a mente e o seu ardor esfria. bandolim do Fado E de Saudade o peito meu transbordas. pompeia a luz da branca aurora.Quero Correr em busca do Futuro. vindo de profundas fráguas. Que desespero insano me apavora! Aqui. Tanto que cantas. E eu tremo e hesito entre um mistério escuro: .INSÂNIA No mundo vago das idealidades Afundei minha louca fantasia. Ali. e ilusões acordas. Um dia morto da Ilusão às bordas. Cedo atraiu-me a áurea fulgidia Da refulgência antiga das idades. e eu julgo que nas tuas cordas Choram todas as cordas do Passado! Guardas a alma talvez d'um desgraçado. chora um ocaso sepultado. .

caindo dos altares. Lúcia sorriu-se à bruma nevoenta. também ria! 99 . E eu quis beijar-te o lábio redolente. O céu tremia em seu trevoso flanco. tu vinhas a cindir os ares. A vida Despontava na aurora amortecida  rutilância mágica do dia. Fulgia a bruma para sempre. senão co'o o meu olhar te espanco! E eu vi que.ARA MALDITA Como um'ave.Esses teus seios que os cerúleos lares Branquejaram de eternos nenúfares. grave e lenta. Quiseste-me beijar a ara do peito. à voz de Lúcia. Para nunca tocarem negros sonhos! Caíste enfim no meu sacrário ardente. agora. E beijei-te. O sol. E Lúcia disse à bruma lutulenta: . Tocando n'ara negra o níveo seio. Caíste morta ao celestial preceito. Aquele riso despertava a aurora! E tudo riu-se. E eu vi os seios teus virem inconhos . qual hóstia. NA ETÉREA LIMPIDEZ. mas eis que neste enleio. alegre e rubro. E. Foste caindo n'ara dos meus sonhos. E a procela chorou n'um fundo arranco De mágoa triste e de paixão violenta. e como Lúcia.. cindindo os céus risonhos.Foge. Na etérea limpidez de um sonho branco. Meiga..

TREVA E LUZ Neste pélago escuro em que te afundas. Beije-te o seio e te abençoe o ventre! O TEMPLO DA DESCRENÇA O Templo da Descrença . E a lua. às fundas Águas do mar das glórias obumbradas. á luz das alvoradas santas Ungem-te o corpo redolências tantas. a Virgem Mãe dos céus escampos. Diluis teu peito em sensações profundas. e. Tudo! até o altar onde a Angústia vibra intensa N'uma fúria assombrai de feras em delírio! Penetro louco enfim o abismo funerário. Em mim como no Templo a Angústia se condensa. Flores mortas da Aurora. em bando. o túmulo da Crença. Longe das sombras aurorais e amadas. Que. E a rasgar. Agora. E vejo o pedestal que sustenta a Descrença! . ante o branco estendal das madrugadas. o Mundo se concentre. urnas de Sonho.A colunata êxul do Sonho Morto . eis que emerges. em banho ideal de amor te inundas. eu sombrio chorando Ante a imagem fatal do Sepulcro da Crença! 100 . e. luminosa. a rasgar o lúrido sacrário. Sentes o peito em ânsias revoltadas.o círio Da Quimera Falaz. A imensa Cruz da Dor está serena como um lírio! E vejo o pedestal que sustenta o Martírio.ei-lo que avisto. Nua. E em mim como no Templo. Mas. Que beija a terra e que abençoa os campos. ao ver-te nua. E.

Como o Cristo sagrado dos altares. . santa de inocência! Anjo de luz de astral aurifulgência.Virgens filhas das virgens nebulosas! Quero-te assim.Fúlgido foco de escaldantes brasas . Quero-te assim . Todos dizem co'os olhos para a Sorte .. Etéreo como as Wilis vaporosas. Colmado o seio de virentes flores. formosa entre as formosas. Embaladas no albor da adolescência.. entre esplendores. como o sol . enquanto Vai devastando o coração das casas. tudo chora. tudo! Quando Ela passa. semeando a Morte.o astro Deixa um rastro de luto em cada canto! IDEAL Quero-te assim.a Peste N'um insano ceifar que aterra e espanta. E como o sol que a segue e deixa um rastro De luz em tudo.. A alma diluída em eterais cismares. 101 .A PESTE Filha da raiva de Jeová . formosa. ela. Plena de graça.. De espaço a espaço sepulturas planta E em cada coração planta um cipreste! Exulta o Eterno e. e a Peste ri-se.. No olhar d'amor a mística fulgência E o misticismo cândido das rosas..e que bendita sejas Como as aras sagradas das igrejas.O sol a segue.É o castigo de Deus que passa mudo! .

eis-me a teus pés. a teus pés. Açucena de Deus..Harpa virgem brandindo mil delírios! Quedo-me aos poucos. E para mim. Perdão! E este silêncio e esta tumba que cala! Insânia. Perdão! E este sepulcro imenso que não fala! 102 .dois sangrentos círios A gêmea florescência de dois lírios Entrelaçados numa unção divina. Chegou a Noite.. perdoa o teu vencido.. meu anjo. E o lábio meu pra sempre apartado do teu Não há de beijar mais o teu lábio querido! Ah! Quando tu morreste.. E eu ouço etérea cavatina! Há nos teus lábios . para onde Me levar o Destino abatido e tristonho. pois. E a Noite afeia corno num sarcasmo E agora a sombra vesperal morreu. .. lírio morto do Céu! Perdão! E a minha voz estertora um gemido. pelo mundo. pátria da Aurora exilada do Sonho! .. penseroso e pasmo. assim. insânia.. É a música de Deus que vem do Céu! SÚPLICA NUM TÚMULO Maria. Como o santo levita dos Martírios. Implorar-te o perdão do imenso crime meu! Eis-me. insânia. Teu canto agora é um salmodiar de arcanjo.. Eu venho arrependido.CÍTARA MÍSTICA Cantas. Rendo piedosa dúlia peregrina À tua doce voz que me fascina.. ah! ninguém me responde.Irei agora.. o meu Sonho morreu! Perdão.

porém. seja como o fardo Desta descrença funeral em que ardo E com que o fogo da paixão ateio! Funambulescamente a alma se atira À luta das paixões. no Inferno do Gozo. como a Aurora Que ao beijo vesperal anseia e expira. Em ânsia de repouso. Turificando a languidez dum seio! O amor. Desce para a alma o ocaso da Carícia Ora em sonhos de Dor.. Chora saudades do terreno pouso! Como um mártir de estranho sacrifício. supremos. Da Messalina fria no regaço. . e..Amor que é mirra e que é sagrado nardo. Cristo d'amor morri pela inocência! 103 . Onde nunca gemeu o humano passo. Transpus um dia o Inferno Azul do Gozo! O amor em lavas de candência d'aço.. Por um Cocito ardente e luxurioso. e ora Em contorço es supremas de Delícia! MARTÍRIO SUPREMO Duma Quimera ao fascinante abraço. Banhou-me o peito. Mas. sem Calvário.AFETOS Bendito o amor que infiltra n'alma o enleio E santifica da existência o cardo. que da Desgraça veio Maldito seja. Tinha os lábios crestados pela ardência Da luz letal do grande Sol do Vício! E mergulhei mais fundo no estuário..

também da Dor. eu vi. nem mais alquebre Um coração como a alma que está morta. a noute é tumbal. ...E tu velas. Sombra de gelo que me apaga a febre. lá dos braços hercúleos. O penetral que leva à derradeira porta! Revejo em ti.SOMBRA IMORTAL . eu que te almejo... Ah! que um dia da Vida... mulher. a sós. Lua que já passou e que hoje ainda corta O penetral que guia à derradeira estância. no pó da fulgurância Como uma velha cruz vela na sombra morta! Fora... me acalenta e conforta! Noute! E somente tu velas a rutilância.Sonâmbulo glacial da estranha pena! Estavas fria! A neve que a alma corta Não gele talvez mais.Lua que esfria o sol do meu desejo! 104 . Como um'alma de mãe.. . Teu coração rolou da luz serena! E eu tinha ido ver a aurora tua Nos raios d'ouro da celeste arena.. Domados pela meiga Ónfale a que me rendo! CORAÇÃO FRIO Frio o sagrado coração da lua. e a saudade da infância. E vi-te triste. ansiando a luz amena No silêncio notívago da rua.. num lânguido smorzando A sombra virginal qu'eu adoro chorando E há de um dia amparar-me na luta correndo.. desvalida e nua! E o olhar perdi. estes dardos acúleos Caíam. E estavas morta.

chegando. e é noute de fatais abrolhos. Bendita a Santa do Carinho. profundo?! Rumores santos. te acolheu a mata. Para o Infinito e para o Céu voltados! Cantas.) Para o vale noital da eterna gaza Rolou o Sol . O roble altivo entreteceu4e um ninho. No lago branco e rútilo do dia O azul pompeava para sempre vasto. Que canto é este.. Rendida ao eflúvio do teu seio casto! 105 . E um canto vai morrer no vale fundo. e. e no Santo harpejo. e em lânguida sonata Vinhas transpondo a margem do caminho. Alvorejando em arrebol de prata. Choras. Pérolas e ouro pela serrania... Uma pantera foi se ajoelhando. inata! E. no negror me abrasa. virginal..imenso moribundo E a noute veio na negrura d'asa.. Alva d'aurora. Santificada pela Dor do Mundo! U'a luz. o seio branco... ajoelhando à imagem do Carinho. tu. Branca bem como empalecido arminho. Somente tristes os teus olhos vejo. entanto.NOTURNO (PARA O VALE NOITAL.. Chegaste. Que luz é esta que das brumas vasa. e no meu peito estes teus olhos Como que cravam dois punhais gelados! SEDUTORA Alva d'aurora..

Crepitaç5es de flamas incendidas Nalma explodindo como fogos santos. Qual rosa branca que ao tufão vacila. Nos campos-santos enterrando os Sonhos! E O MAR GEMEU A FUNDA MELOPÉIA E o mar gemeu a funda melopéia À luz feral que a tarde morta instila. Nesse momento a Lua vinha calma E céu e mar num desespero mudo Não viram que num halo de veludo À alma de Déa se evolava est'alma. E as brumas velam nos sinistros mantos E as virgens dormem nas tumbais jazidas! Súbitos fremem 'spasmos derradeiros.. Vão pelo mundo ensangüentando as Vidas.PELO MUNDO Ânsias que pungem. Eflúvios quentes e fatais quebrantos Crestam a alma das virgens adormidas. E o mar chamou-a para o funda abismo! E o céu chamou-a para o Misticismo. E a paixão morre e os corações coveiros Vão como duendes pelos céus risonhos. Chorando auroras músicas perdidas Na estrada santa ensangüentando as Vidas. Já Vésper.. 106 .. Fria como um crepúsculo da Judéia. Triste como um soluço de Dalila. no Alto. mórbidos encantos. cintila! Naquela hora morria para a Idéia A minha branca e desgraçada Déa.. e lânguida.

. No ar. Canta no espaço a maldição da Vida! 107 .o voltairesco clown . clown da Sorte . sonolento e tardo.Fogo sagrado nos festins da Morte . Alenta a Vida que tombou no Tédio! Que à Dor se prende. Clarões de sonho em nimbos de epicédio! Bendito sejas. Punge-me o peito da Saudade o cardo Enquanto um mocho. Silfos morriam. Riso.Ele. os gaturamos Num recesso de névoa. Na Via-Látea fria do Nirvana.quem mede-o?! .O RISO "Ri. coração. Desfaz-se o peito em vibrações dormentes E o Fado geme sob a névoa fria! Que eu sinta n'alma o que tu n'alma sentes! Nesta Missa de Atroz Melancolia Bebes chorando o Vinho da Agonia . adormecida. QUERIDA! Vamos.Eterno fogo. querida! Já é Ave-Maria . que ao frio alvor da Mágoa Humana. tristíssimo palhaço" Cruz e Souza O Riso . E ergue à sombra da dor a que se irmana Lauréis de sangue de volúpia insana. saturnal do Inferno! Eu te bendigo! No mundano cúmulo És a Ironia que tombou no túmulo Nas sombras mortas de um desgosto eterno! VAMOS.... e a todo o seu assédio.Consagração das almas padecentes! Foi numa tarde assim que nos amamos.A hora dos tristes e dos descontentes.

A UMA MÁRTIR Alma em cilício, vem, enrista a dava, Brande no seio o espículo e o acinace E unjam-te o seio que d'auroras nasce Sangrentas bênçãos eclodindo em lava! Nossa Senhora te unge a face escrava, Cristo saudoso te abençoa a face De monja - violeta que do Céu baixasse À Virgem Santa Natureza brava! Vais caminhando para a terra extrema, Rosa dos Sonhos! e o teu galho trema E a tua crença, o desespero mate-a... E em nuvens d'ouro ascende enfim ao plaustro Da Neve Eterna, estrela azul do claustro, Levada para o Azul da Via-Látea!

RÉGIO Festa no paço! Noite... E no entretanto Luzes; flores, clarões por toda a festa E há nos régios salões, em cada aresta, Credências d'ouro de supremo encanto. No baldaquino a orquestra real se apresta E o áureo dossel finge um relevo santo... - Bissos egípcios d'alto gosto, a um canto, Flordilisados de nelumbo e giesta. Morreu a noite e veio o Sol Eterno - Âmbar de sangue que desceu do Inferno No turbilhão dos alvos raios diurnos... Brilham no paço refulgências de elmo E a princesa assomou corno um santelmo Na realeza branca dos coturnos.

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PELO MAR Manhã em flor. O mar é um policromo E imenso lago d'íris e alabastros... À aurora é branco e ao sol, o mar é como Um pálio imenso que caiu dos astros. Longe, bem longe, no alvoral assomo Ergue um navio os altanados mastros E o Oceano dorme - alourecido pomo Num leito irial de pérolas e nastros. A alma da Mágoa vai pelo seu dorso, Em sonhos geme... Um coração de corso Geme no mar, vibra no mar, entanto, Colma-lhe o seio a opala das esponjas... E à noute morta choram vagas - monjas Purificadas no cristal do pranto!

PALLIDA LUNA És do Passado! Vieste d'alvorada N'asa dos elfos pela Morte espalma... Cantas... e eu ouço esta berceuse calma Da harpa dos mundos ideais do Nada! Ergue o Missal brilhante de tu'alma, Mas nessa elevação mistificada, Vem, que eu te espero, Deusa constelada Desce, anêmona êxul que o Céu ensalma! Venhas e desças, Lua dos Martírios, Desças, mas venhas pela unção dos lírios. Visão de Ocaso de enluaradas comas, Vaso de Unção descido dos espaços, Para ungirmos nós dois, os nossos paços, Na tule idealizada dos aromas.

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A MORTE DE VÊNUS Velhos berilos, pálidas cortinas, Morno frouxel de nardos recendendo Velam-lhe o sono... e Vênus vai morrendo No berço azul das névoas matutinas! Halos de luz de brancas musselinas Vão-lhe do corpo virginal descendo - Abelha irial que foi adormecendo Sobre um coxim de pérolas divinas. E quando o Sol lhe beija a espádua nua, Cai-lhe da carne o resplendor da Lua No reverbero dos deslumbramentos... Enquanto no ar há sândalos, há flores E haustos de morte - os últimos clangores Da música chorosa dos mementos!

MÁRTIR DA FOME Nesta da vida lúgubre caverna De ossos e frios funerais que eu sinto Corno um chacal saciando o eterno instinto Vou saciando a minha Fome Eterna. - Fome de sangue de um Passado extinto, De extintas crenças - bacanal superna, Horrível assim como a Hidra de Lema E muda como o bronze de Corinto! Ânsias de sonhos, desespero fundo! E a alma que sonha no marnel do Mundo, Morre de Fome pelas noites belas... E como o Cristo - o Mártir do Calvário Morre. E no entanto vai para o estelário Matar a Fome num festim de estrelas!

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SONHO DE AMOR Sobre o aromal e amplo coxim de Flora, Que os vapores da tarde inda incensavam E que um incenso tênue e bom vapora, Os namorados lânguidos sonhavam. A alma do Ocaso entrava o céu agora E havia pelas tênebras que entravam Ora estrangulamentos surdos, ora Ruídos de carnes que se estrangulavam. E sonharam assim durante toda A noute, e toda a alva manhã durante! - O Sol jorrava largos raios longos E em roda víride e nevado, em roda, Lembrava o campo um colorido ondeante De vidros verdes e cristais oblongos!

A ORGIA MATA A MOCIDADE A orgia mata a mocidade, quando Rugem na carne do delírio as feras, E o moço morre como está sonhando Nas suas vinte e cinco primaveras. Em cima - o oiro sem mancha das esferas, Em baixo oiro manchado de execrando Festim de sibarita:, das heteras Lubricamente se despedaçando! Em cima, a rede do estelário imáculo Suspensa no alto como um tabernáculo - A orgia, em baixo, e no delírio doudo Corno arvoredos juvenis tombados Os moços mortos, os brasões manchados, E um turbilhão de púrpuras no lodo!

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Estatuetas de mármore de Lemnos Estão dispostas numa simetria Inconfundível..) Chove.. LÁ FORA. Saio de casa. E em meio ás refrações verdes e hialinas. vão bater. A incandescência irial dos candelabros.. em compassados trenos Sobre os veludos da tapeçaria. Fulgem por entre mil cristais vermelhos O alvo cristal dos nítidos espelhos E a seda verde dos arbustos glabros.FESTIVAL Para Jônatas Costa Címbalos soam no salão.. E eu sonho erguer-me aos páramos etéreos Enquanto a chuva cai nos cemitérios E o vento apaga os lampiões da rua! 112 .. ameaçando os séculos futuros! De São Francisco no plangente bronze Em badaladas compassadas onze Horas soaram. O dia Foge. mas meus movimentos Susto. Os ventos. Os passos mal seguros Trêmulo movo. recordando a estria Dos corpos de Afrodite e Vênus. diante do vulto dos conventos. NOTURNO (CHOVE. Desencadeados. Vibra. Negro.. violentos. e ao compasso de arrabis serenos A valsa rompe. batendo em todas as retinas. Surge agora a Lua. Lá fora os lampiões escuros Semelham monjas a morrer. De encontro ás torres e de encontro aos muros.

.E ELE MORREU Ao sétimo dia de seu falecimento E ele morreu. Que há muito tempo não cantava lá. Primavera.. enquanto o Tédio a carne me trabalha. poetas. inverno! 113 .. Já que perdi a última batalha! E. tão sereno e forte! Quando meu Pai deixou o lar amigo Um sabiá da casa muito antigo. Ele que foi um forte Que nunca se quebrou pelo Desgosto Morreu. outono. A Dor meu coração torça e retorça! Cubra-me o corpo a podridão dos trapos! Os vibriões. E hoje. verão. Diluiu o silêncio em litanias. os sapos Encontrem nele pábulo eviterno.. já faz sete dias Que eu ouço o canto desse sabiá! VAE VICTIS A Dor meu coração torça e retorça E me retalhe como se retalhe Para escárnio e alegria da canalha Um leão vencido que perdeu a força! Sobre mim caia essa vingança corsa. os vermes vis.. .. mas não deixou na ara do rosto Um só vestígio que acusasse a Morte! O anatomista que investiga a sorte Das vidas que se abismam no Sol-posto Ficaria admirado do seu rosto Vendo-o tão belo..Repositório de milhões de miasmas Onde se fartem todos os fantasmas.

inda altiva. Gemem poetas . enluta E todo mundo que por ela passa Há de beber a taça da cicuta E há de beber até o fim da taça! Há de beber. abraçado às campas dos poetas. e o travo há de sentir. e quando passa.A DOR Chama-se a Dor. onde. E se cantar como a Saudade canta. ao noturno açoute. O caminheiro fique nesta Terra! À noute aqui um trovador eterno Chora.. e a ameaça Amarga dessa desgraçada fruta Que é a fruta amargosa da Desgraça! E quando o mundo todo paralisa E quando a multidão toda agoniza.. aqui é a Terra! Em que a alma chora e em que a Saudade canta! O caminheiro que o Pesar desterra.pássaros da Noute! 114 . enxuta A face. inda o olhar sereno De agonizante multidão rodeada. Aqui é o Campo-Santo. Derrama em cada boca envenenada Mais uma gota do fatal veneno! TERRA FÚNEBRE Aqui morreram tantos poetas! Tanta Guitarra morta este lugar encerra!. Carpem na sombra pássaros ascetas. Ela. Pare chorando nesta Terra Santa. . enxuto o olhar.Esse sombrio trovador é o Inverno! Aqui é a Terra. ela.

Contentamento numa dor medonha?! Há muito tempo. nada há que o abata e o vença! Por isso. E esse ouro santo vir rolando pelas Trevas profundas do meu pensamento! 115 . poeta. na Suprema Altura Sinto. e por fim. De onde me vem esta felicidade?! MEDITANDO Penso em venturas! A alma do homem pensa Sempre em venturas! Sorte do homem! O homem Há de embalar eternamente a crença Sem ter grilhões e sem ter leis que o domem! Punjam-no os vermes da Desgraça. no imenso Azul do Firmamento Ir rolando pelo ouro das estrelas. assomem Descrenças. o sonho. Luta. a crença e o amor. do meu seio Partiu num célere arrebatamento De minha crença arrebentando a grade Pois se eu não amo e se também não creio De onde me vem este contentamento. que não ama e que não sonha?! Pois a alma acostumada a ser tristonha Pode achar por acaso ou porventura Felicidade numa sepultura. Vence. A CRENÇA E O AMOR O sonho. surjam tédios na Descrença. sendo a risonha Santíssima Trindade da Ventura Pode ser venturosa a criatura Que não crê. e morrem os vermes que o consomem. eu penso na Ventura! E o pensamento.O SONHO.

. auríferos tesouros. Desconheceste Deus no vidro do astrolábio E quando a ciência vã te proclamava sábio A tua construção quebrou-se de repente! 116 . Foi-te mister sondar a substância das cousas . em homenagem ao aniversário natalício de Alexandre Rodrigues dos Anjos 28 de abril de 1905. Tesouros reais.PARA QUEM TEM NA VIDA. O homem e a lesma e a rocha e a pedra e o carvalho e a haste?! Pois... por fim.. Depois quando no irmão estremecido Fazem aliança o gênio e a probidade. nada achaste! A loucura destruiu tudo que arquitetaste E a Alemanha tremeu ao teu gemido fundo. nada achaste..Construíste de ilusões um mundo diferente... profundo.. Atinge o amor um grau nunca atingido No termômetro santo da Amizade. por fim. homem meditabundo?! Escalpelaste todo o cadáver do mundo E. pois. e. De que te serviu. Terá no entanto indubitavelmente A admiração do século presente E a sagração dos séculos vindouros! SONETO A FREDERICO NIETZCHE Para que nesta vida o espírito esfalfaste Em vás meditações. Feito no decurso de dois minutos. para penetrar o mistério das lousas. Para quem tem na vida compreendido Toda a grandeza da Fraternidade O aniversário dum irmão querido A alma de alegres emoções invade. estudares. O Alexandre dos Anjos merecia Grandes coroas nesse grande dia.

. E subiu tanto e subiu tanto e tanto Que hoje que és morto. o óbolo da Vida! Recordo agora a nossa despedida Na Estação do Cobé. ela subiu.. Fulge o fogo mordente dos mormaços E a chama fulge do solar brasido. dois gigantes mudos.ei-Ia que sobe ainda! Pau D'Arco – 1905 117 . no entanto. E eu cuido ver os múltiplos produtos Da Terra . São dois colossos.santa nevrose que com fios de ferro as almas cose Principalmente se uma está ferida! Das tuas dores na procela brava Não soubeste talvez que eu te estimava! Mas a amizade oculta não se finda... Embora oculta. Representando a integridade humana! Nesses braços de força soberana Gloriosamente á luz do sol desnudos Ao bruto encontro dos ferrões agudos Gemeu por muito tempo a alma africana! No colorido dos teus brônzeos braços... Quando o fantasma da tuberculose Pediu-te.as flores e os metais e os frutos Simbolizados nesse colorido! VINHAS TRILHANDO GÁRRULO A AVENIDA À memória do meu colega Caldas Líns Vinhas trilhando gárrulo a Avenida Onde Deus manda que todo homem goze.O NEGRO Oh! Negro. . . em ânsias. oh! Filho da Hotentóia ufana Teus braços brônzeos como dois escudos.

Era o suplício!.E o horror começa! Rasga As vestes. Achava a Glória que ninguém achava! E todo o dia então eu me embriagava . uma convulsão a engasga E morre ouvindo o mesmo canto aziago! 118 ...O ÉBRIO Bebi! Mas sei porque bebi!. e não vê por onde fuja. Mas eu não contarei nunca a ninguém. A ninguém nunca eu contarei a história Dos que. Implora a Deus como a um fetiche vago. ouve o canto aziago da coruja! . .. na atra estrada que trilhei.. Daí a pouco.. O CANTO DA CORUJA A coruja cantara-lhe na porta Sinistramente a noite inteira! Indício Mais certo não havia! . ira-o morrer também.. ela seria morta. Saiu. Trás de mim. A estrada torta Lembrava a antiga ponte de Sublício.Se ao menos voasse! . Quantos também. como eu.em busca de ascender A essa Babel fictícia do Prazer Que procuravam e que eu procurava. O Sol ardia. . ver Se nesta ânsia suprema de beber. como eu.Quer fugir.. Havia pelo chão um desperdício De folhas que a áurea xantofila corta. foram buscar a Glória E que.Novo Sileno. Buscava Em verdes nuanças de miragens. Nisto. quantos também deixei..

canta vibrantes Versos divinos que arrebatam a hoste.... a alma serena. diz ao povo: "É pena! .Foi tanta agrura Que eu nem sei se foi dor ou foi saudade! Sei que durante toda a travessia Da minha infância trágica.Continua a cantar." Pau d'Arco -1905 119 .. Mas. pressentindo a lousa. Sei que na infância nunca tive auroras. vivia.. Por isso. Batendo com a cabeça no barrote Da guilhotina. Grave como um lacedemônio harmoste André Chénier ia subir ao poste A que Luís XVI subira dantes! Que a sua morte a homem nenhum desgoste E incite o heroísmo das nações distantes. Olha essa neve pura! . Não há quem nele um só tremor denote! . ele a morrer. Vinte e quatro anos em vinte e quatro horas..Aqui ainda havia alguma cousa. eu já nem sei mais nada! ANDRÉ CHÉNIER Na real magnificência dos gigantes..SENECTUDE PRECOCE Envelheci. E afora disto..Foi saudade? Foi dor? . A cal da sepultura Caiu por sobre a minha mocidade. E eu que julgava em minha idealidade Ver inda toda a geração futura! Eu que julgava! Pois não é verdade?! Hoje estou velho. de repente... Assim como uma casa abandonada.

Para onde eu ia. sendo assim beijado Muito acima do humano borborinho! Falou-me de ilusões e de luares. A múmia de um herói do tempo de Ísis. Bem como tu. que nessa crença infinda Feliz me viste no Passado. A infelicidade Parece às vezes com a felicidade E os infelizes mostram ser felizes! Assim. Ostenta ainda as mesmas cicatrizes Que eternizaram sua heroicidade! Quem vê o her6i..... beijou-me com um carinho Que a um ser divino não seria dado. Da tribo alegre que povoa os ares. Dizes Tudo que sentes. diz que ele é vivo. e ainda Te persuades de que sou feliz! 120 . em Tebas .. inda com o braço altivo.Assombrava-me aquela claridade! Mas através daquelas falsas luzes Pude rever enfim todas as cruzes Que têm pesado sobre a Humanidade! ILUSÃO Dizes que sou feliz. Não mentes. persuadido fica do que diz.. Diz que ele não morreu.a tumbal cidade. . E eu me elevava.. E. não andei mais sozinho! Abraçou-me. o vulto ia a meu lado E desde então..MYSTICA VISIO Vinha passando pelo meu caminho Um vulto estranhamente iluminado.

Saiu aos tombos. assim. de saudades me despedaçando De novo. aos tropeços. antes de viver! Meu corpo. Sofreu o que olhos de homem não têm visto E olhos de fera não puderam ver! Acostumei-me. A percorrer desertos e desertos.NOME MALDITO Das trombetas proféticas o alarde Falou-lhe. pois. ia.O tamarindo reverdeça ainda. à tarde.. morrer. Nada se altere em sua marcha infinda .. assim como o de Jesus Cristo. por seus onze augúrios certos: "E maldito o teu nome! E aos céus abertos. quando Eu. E.. assombrado. A lua continue sempre a nascer! 121 . E foi assim que ele morreu um dia Amaldiçoado pelo próprio nome! DOLÊNCIAS Eu fui cadáver. onde. a sofrer E acostumado a assim sofrer existo.. Existo! . Não há divina proteção que o guarde!" Dúvidas cruéis! Momentos cruéis! Incertos E cruéis momentos! Ânsias cruéis! E. Teve sede e fome. amigos. triste e sem cantar... apesar disto Inda cadáver hei também de ser! Quando eu morrer de novo. com medo do Infinito. Por toda a parte viu seu nome escrito! Vieram-lhe as ânsias. como um cão covarde. Por toda a parte.E apesar disto.

. Vem-me então à lembrança o pai Ioiô Na ânsia psíquica da última eficácia! E logo a lágrima em meus olhos cai. .O farmacêutico me obtemperou.A farmacologia e a medicina Com a relatividade dos sentidos Desconhecem os mil desconhecidos Segredos dessa secreção divina..Faça-me o obséquio de trazer reunidos Clorureto de sódio.A LÁGRIMA . água e albumina. Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu Pai Do que todas as drogas da farmácia! 122 . porque isto é que origina A lágrima de todos os vencidos! . Ah! Basta isto.

Pólipo de recônditas reentrâncias. simultâneas.. Amarguradamente se me antolha. Como um pouco de saliva quotidiana Mostro meu nojo à Natureza Humana. vibra A alma dos movimentos rotatórios..OUTRAS POESIAS MONÓLOGO DE UMA SOMBRA “Sou uma Sombra! Venho de outras eras.O metafisicismo de Abidarma -E trago. A solidariedade subjetiva De todas as espécies sofredoras.. O amarelecimento do papirus E a miséria anatômica da ruga! Na existência social. sem bramânicas tesouras.Esta universitária sanguessuga Que produz. Não conheço o acidente da Senectus -. Do cosmopolitismo das moneras.. Amo o esterco. Como um dorso de azêmola passiva. procedo Da escuridão do cósmico segredo. E é de mim que decorrem. À luz do americano plenilúnio. possuo uma arma -. A podridão me serve de Evangelho. Em minha ignota mônada. 123 . os resíduos ruins dos quiosques E o animal inferior que urra nos bosques É com certeza meu irmão mais velho! Tal qual quem para o próprio túmulo olha... ampla. sem dispêndio algum de vírus. Larva de caos telúrico. A saúde das forças subterrâneas E a morbidez dos seres ilusórios! Pairando acima dos mundanos tetos. Da substância de todas as substâncias! A simbiose das coisas me equilibra.

Engrenagem de vísceras vulgares -Os dedos carregados de peçonha. O coração. E apenas encontrou na idéia gasta. bestas agrestes. em síntese. a boca. Estrangulada dentro da matéria! E o que ele foi: clavículas.Na alma crepuscular de minha raça Como uma vocação para a Desgraça E um tropismo ancestral para o Infortúnio. Que se chama o Filósofo Moderno! Quis compreender. magnetismo misterioso. luzem. Como quem se submete a uma charqueada. Raio X. a coçar chagas plebéias. já nos últimos momentos. Nas eterizações indefiníveis Da energia intra-atômica liberta! Será calor. A que todas as coisas se reduzem! E hão de achá-lo. O espólio dos seus dedos peçonhentos. ondulação aérea. amanhã. Tudo coube na lógica medonha Dos apodrecimentos musculares. Aí vem sujo. O horror dessa mecânica nefasta. Sobre a esteira sarcófaga das pestes A mostrar. Trazendo no deserto das idéias O desespero endêmico do inferno. Quimiotaxia. causa ubíqua de gozo. abdômen. iguais a fogos passageiros. Que. Com a cara hirta. Tal a finalidade dos estames! Mas ele viverá. A vida fenomênica das Formas. 124 . tatuada de fuligens Esse mineiro doido das origens. -. Sonoridade potencial dos seres. rotos os liames Dessa estranguladora lei que aperta Todos os agregados perecíveis. quebrando estéreis normas. Ao clarão tropical da luz danada. Fonte de repulsões e de prazeres. o Homem.

Uivando. Sôfrego. em lúbricos arroubos. 125 .. O cuspo afrodisíaco das fêmeas. o monstro as vítimas aguarda. Brancas bacantes bêbadas o beijam. fazendo um s. Vendo as larvas malignas que se embrulham No cadáver malsão. Sentindo o odor das carnações abstêmias. E à noite. Há estratificações requintadíssimas De uma animalidade sem castigo. bastarda. brincam. Lembra a fome incoercível que escancara A mucosa carnívora dos lobos. E até os membros da família engulham. Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo. Suas artérias hírcicas latejam.. Negra paixão congênita. reduzir-se À herança miserável dos micróbios! Estoutro agora é o sátiro peralta Que o sensualismo sodomita exalta. Num suicídio graduado. em suas clélulas vilíssimas. pelos cenóbios?!. à noite. ébrio de vício.A desarrumação dos intestinos Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos Dentro daquela massa que o húmus come. E explode. Numa glutonaria hedionda. No sombrio bazer domeretrício. vai gozar. À guisa de um faquir.. igual à luz que o ar acomete. Toda a sensualidade da simbiose. Do seu zooplasma ofídico resulta. E foi então para isto que esse doudo Estragou o vibrátil plasma todo... Como as cadelas que as dentuças trincam No espasmo fisiológico da fome. É uma trágica festa emocionante! A bacteriologia inventariante Toma conta do corpo que apodrece. consumir-se... No horror de sua anômala nevrose. Como que.. Como no babilônico sansara . E após tantas vigílias.

A família alarmada dos remorsos. Hirto. torna água Todo o fogo telúrico profundo 126 . As alucinações tácteis pululam. Na própria ânsia dionísica do gozo. com os candeeiros apagados. Que é talvez propriedade do carbono! Ah! Dentro de toda a alma existe a prova De que a dor como um dartro se renova. Reconhecendo. As incestuosidades sanguinárias Que ele tem praticado na família. observa a ciência crua. observa através a tênue trança Dos filamentos fluídicos de um halo A destra descarnada de um duende.. Mostrando. para agarrá-lo! Cresce-lhe a intracefálica tortura. Dentro da elipse ignívoma da lua A realidade de uma esfera opaca. esculpindo a humana mágoa. se estende Dentro da noite má. Acorda. Abranda as rochas rígidas. Que tateando nas tênebras. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa! Míngua-se o combustível da lanterna E a consciência do sátiro se inferna.Macbeths da patológica vigília. Somente a Arte. Numa coreografia de danados.Com a veemência mavórtica do aríete E os arremessos de uma catapulta.. quando a noite avança. A asa negra das moscas o horroriza. Quando o prazer barbaramente a ataca.. E de su’alma na caverna escura. Essa necessidade de horroroso. Mas muitas vezes. Sente que megatérios o estrangulam. É o despertar de um povo subterrâneo! É a fauna cavernícola do crânio -. Assim também. bêbedo de sono. Fazendo ultra-epiléticos esforços. em rembrandtescas telas várias..

até que minha efêmera cabeça. Na ânsa de um nervosíssimo entusiasmo. entre daveiras sujas. -. A orquestra arrepiadora do sarcasmo! Era a elegia panteísta do Universo. Reverta à quietação datrava espessa E à palidez das fotosferas mortas! 127 . -. entanto. Na produção do sangue humano imenso. ouvindo estes vocábulos. Sem os métodos da abstrusa ciência fria E os trovões gritadores da dialética. Executando. Continua o martírio das criaturas: -.O último solilóquio dos suicidas -E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva!” Disse isto a Sombra. E. Julgava ouvir monótonas corujas. Que a mais alta expressãoda dor estética Consiste essencialmente na alegria..O homicídio nas vielas mais escuras. E o turbilhão de tais fonemas acres Trovejando grandíloquos massacres. Prostituído talvez. Era a canção da Natureza exausta. Da luz da lua aos pálidos venábulos.O ferido que a hostil gleba atra escarva. sem que. a desintegre. A aspereza orográfica do mundo! Provo desta maneira ao mundo odiento Pelas grandes razões do sentimento. Chorando e rindo na ironia infausta Da incoerência infernal daquelas frases. em suas bases. À condição de uma planície alegre. Há-de ferir-me as auditivas portas..E reduz.

das pirâmides o quedo E atro perfil. discutindo.. na mais próxima planície. Tonto do vinho.... Dorme soturna a natureza sábia. Pasta um cavalo esplêndido da Arábia. Vaga no espaço um silfo solitário.. No ângulo mais recôndito da rua Passa cantando uma mulher hebraica. um saltimbanco da Ásia. Os mastins negros vão ladrando à lua. Executando evoluções de razzia Solta um brado epilético de injúria! Em derredor duma ampla mesa preta -. Troam kinnors ! Depois tudo é tranqüilo. O Egito é sempre assim quando anoitece! Às vezes. Soluça toda a noite a água do Nilo! 128 .. parece Uma sombria interjeição de medo! Como um contraste àqueles mesereres. A Lua cheia Está sinistra. exposto ao luar. Num quiosque em festa alegre turba grita. A rua é triste. Apenas como um velho stradivário.UMA NOITE NO CAIRO Noite no Egito. e sobre a paz do mundo A alma dos Faraós anda e vagueia. no apogeu da fúria. Resplandece a celeste superfície. conversando. Embaixo.Última nota do conúbio infando -Vêem-se dez jogadores de roleta Fumando. O Cairo é de uma formosura arcaica. O céu claro e produndo Fulgura. E dentro dançam homens e mulheres Numa aglomeração cosmopolita. Convulso e roto.

Profundamente lúbrica e revolta. com a boca aberta. Livres de microscópios e escalpelos.. então. Assombrado com a minha sombra magra. E aprofundando o raciocínio obscuro. O calçamento Sáxeo. e tinha medo! Na austera abóbada alta o fósforo alvo Das estrelas luzia. Do carvão da treva imensa Caía um ar danado de doença Sobre a cara geral dos edifícios! Tal uma horda feroz de cães famintos. Copiava a polidez de um crânio alvo. 129 . Como uma pele de rinoceronte Estendida por toda a minha vida! A noite fecundava o ovo dos vícios Animais. Pensava no Destino. na alma da cidade. parodiando saraus cínicos. Ponte Buarque de Macedo. Uivava dentro do eu .AS CISMAS DO DESTINO I Recife. indo em direção à casa do Agra.. a irritar-me os globos oculares. Dançavam. Atravessando uma estação deserta. de asfalto rijo. A ponte era comprida. E a minha sombra enorme enchia a ponte. Eu vi. Bilhões de centrossomas apolínicos Na câmara promíscua do vitellus . à luz de áureos reflexos. Eu. atro e vidrento. A matilha espantada dos instintos! Era como se. Mostrando as carnes. O trabalho genésico dos sexos. uma besta solta Soltasse o berro da animalidade. Fazendo à noite os homens do Futuro. Mas. Apregoando e alardeando a cor nojenta. Lembro-me bem.

como um réu confesso. E. É bem possível que eu umdia cegue. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse. 130 . Ninguém compreendia o meu soluço. Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! Mas o vento cessara por instantes Ou. Ah! Com certeza. ainda na placenta. Não sei por que me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança E um pedaço de víscera escarlate. O ventobravo me atirava flechas E aplicações hiemais de gelo russo. na ígnea crosta do Cruzeiro. Deus me castigava! Por toda a parte. Estendiam-me as mãos rudimentares! Mostravam-me o apriorismo incognoscível Dessa fatalidade igualitária. Julgava eu ver o fúnebre candeeiro Que há de me alumiar na hora da morte. A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas. Que fez minha família originária Do antro daquela fábrica terrível! A corrente atmosférica mais forte Zunia.Fetos magros. No ardor desta letal tórrida zona. pelo menos. A vingança dos mundos astronômicos Enviava à terra extraordinária faca. Posta em rija adesão de goma laca Sobre os meus elementos anatômicos. o ignis sapiens do Orco Abafava-me o peito arqueado e porco Num núcleo de substâncias abrasantes.

cinco. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minh’alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. cujas caudais meus beiços regam. Sob a forma de mínimas camândulas. Mandando ao Céu o fumo de um cigarro. quotidianamente. Benditas sejam todas essas glândulas. três. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. de tal arte. em minha boca. à guisa de ácido resíduo. aos poucos. a hemoptísis! Na alta alucinação de minhas cismas O microcosmos líquido da gota Tinha a abundância de uma artéria rota. seis e sete Vezes que eu me furei com um canivete. Não! Não era o meu cuspo. cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória. para não cuspir por toda a parte. A hemoglobina vinha cheia de água! Cuspo. Igual ao ruído de um calhau redondo Arremessado no apogeu do estrondo. Que. Que eu. Na ascensão barométrica da calma. com certeza Era a expectoração pútrida e crassa Dos brônquios pulmorares de uma raça Que violou as leis da Natureza! Era antes uma tosse ubíqua. 131 . te segregam! Escarrar de um abismo noutro abismo. Chegou-me o estado máximo da mágoa! Duas. ansiado e contrafeito. quatro. Pelos fundibulários da montanha! E a saliva daqueles infelizes Inchava. Arrebatada pelos aneurismas. estranha. Eu bem sabia. Ia engolindo.E até ao fim.

da cor de um doente de icterícia. Nessa hora de monólogos sublimes. Jamais exprimiria o acérrimo asco Que os canalhas do mundo me provocam! II Foi no horror dessa noite tão funérea Que eu descobri. Siva e Arimã. Vai pela escuridão pensando crimes. a rir. estava ali. Iluminava. E o luar. Imitando o barulho dos engasgos. com as brancas tíbias tortas. A falta de unidade na matéria! Os esqueletos desarticulados. para hipnotizar-me! Em tudo. Embriões de mundos que não progrediram! 132 . o In e os trasgos. A camisa vermelha dos incestos. Com a força visualística do lince. Livres do acre fedor das carnes mortas. Davam pancadas no adro das igrejas. sem pudicícia. Um sugestionador olho. ali posto De propósito. Buscando uma taverna que os açoite. Numa dança de números quebrados! Todas as divindades malfazejas. de certo. então. meus olhos distinguiram Da miniatura singular de uma aspa. os duendes. Rodopiavam. Ninguém. a espiar-me. lembrava ante o meu rosto.Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do Cristianismo! Porque. Perpetravam-se os atos mais funestos. A companhia dos ladrões da noite. se no orbe oval que os meus pés tocam Eu não deixasse o meu cuspo carrasco. maior talvez que Vinci. Mas um lampião. À anatomia mínima da caspa.

A pedra dura. daquele horrendo Caos de corpos orgânicos disformes Rebentariam cérebros enormes.Ser cachorro! Ganir incompreendidos Verbos! Querer dizer-nos que não finge. Cansados de viver na paz de Buda. Maior que as epopéias carolíngias! Era a revolta trágica dos tipos Ontogênicos mais elementares. Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. Escapando-se apenas em latidos! Despir a putrescível forma tosca. Nos antiperistálticos abalos Que produzem nos bois e nos cavalos A contração dos gritos instintivos! Tempo viria. Todos os personagens da tragédia. em que. distingo-a. 133 . Deixar cair sobre a barriga inerte O apetite necrófago da mosca! A alma dos animais! Pego-a. os montes argilosos Criariam feixes de cordões nervosos E o neuroplasma dos que raciocinam! Almas pigméias! Deus subjuga-as. Desde os foraminíferos dos mares À grei liliputiana dos pólipos. E o meu sonho crescia nosilâncio. cinge-as À imperfeição! Mas vem o Tempo. Na atra dissoluçào que tudo inverte. e vence-O. fervendo! Nessa época que os sábios não ensinam. Acho-a nesse interior duelo secreto Entre a ânsia de um vocábulo completo E uma expressão que não chegou à língua! Surpreendo-a em quatrilhões de corpos vivos. Como bolhas febris de água. E a palavra embrulhar-se na laringe.

Iam depois dormir nos lupanares Onde. berrava. na dor forte do vômito. refletindo. No meu temperamento de covarde! Mas. sobre o meu caso Vi que.A planta que a canícula ígnea torra. na glória da concupiscência. E apesar de já não ser assim tão tarde. Os bêbedos alvares que me olhavam. 134 . E as coisas inorgânicas mais nulas Apregoavam encéfalos. Aquela humanidade parasita. Como um bicho inferior. jazia atravassada no meu crânio A intercessão fatídica do atraso! A hipótese genial do microzima Me estrangulava o pensamento guapo. E sacudidos de um tremor indômito Expeliam. Depositavam quase sem consciência As derradeiras forças musculares. aflita. medulas Na alegria guerreira da desforra! Os protistas e o obscuro acervo rijo Dos espongiários e dos infusórios Recebiam com os seus órgãos sensóricos O triunfo emocional do regozijo. Um conjunto de gosmas amarelas. Em cujo repugnante receptáculo Minha perscrutação via o espetáculo De uma progênie idiota de palermas. igual a um amniota subterrâneo. Com os copos cheios esterilizavam A substância prolífica dos sêmens! Enterravam as mãos dentro das goelas. a sós. E eu me encolhia todo como um sapo Que tem um peso incômodo por cima! Nas agonias do delirium-tremens . Fabricavam destarte os bastodermas.

Há o malvado carbúnculo que mata A sociedade infante dos bezerros! Quantas moças que o túmulo reclama! E após a podridão de tantas moças. num fundo de caverna. Forma difusa da matéria embele. a morte é ingrata. Oh! Senhora dos nossos esqueletos E das caveiras diárias que fabricas! E eu desejava ter. 135 . Rolam sem eficácia os amuletos... Meu raciocínio enorme te condena! Diante de ti. Numa impressionadora voz interna. como um cordão. Ao pensar nas pessoas que perdera. numa ânsia rara. É que as mulheres ruins ficam sem leite E os meninos sem pai morrem de fome! Por que há de haver aqui tantos enterros? Lá no “Engenho” também. Nessas perquisições que não têm pausa. Reboou. tal qual. o eco particular do meu Destino. embora o homem te aceite. III “Homem! por mais que a Idéia deintegres. pior que o remorso do assassino. por tua causa. nas catedrais mais ricas. Fazer da parte abstrada do Universo. ponto final da última cena. Os porcos espojando-se nas poças Da virgindade reduzida à lama! Morte.e. na cara! Era um sonho ladrão de submergir-me Na vida universal. em tudo imerso. Minha filosofia te repele. Minha morada equilibrada e firme! Nisto.Prostituição ou outro qualquer nome. A inconsciência das máscaras de cera Que a gente prega.

estriada. magro homem. 136 . E se. fora Mister que. antes Fosses. espirra. A própria humanidade sofredora! A universal complexidade é que Ela Compreende. Trazes. por vezes. e a hialina lâmpada oca. a refletir teus semelhantes. Negro e sem fim é esse em que te mergulhas lugar do Cosmos. por perscrutar (oh! ciência louca!) O conteúdo das lágrimas hediondas.Jamais. Mesmo ainda assim. e a ele se prendem Como às pulseiras que os mascates vendem A aderência teimosa da ferrugem. se divide. com a bronca enxada árdega. onde a dor infrene É feita como é feito o querosene Nos recôncavos úmidos das hulhas! Porque. saberás a causa De todos os fenômenos alegres! Em vão. não como és. As rebeladas cóleras que rugem No homem civilizado. o cordeiro simbólico da Páscoa. quando toda a estuada Idéia Dás ao sôfrego estudo da ninféia E de outras plantas dicotiledôneas! A diáfana água alvíssima e a hórrida áscua Que da ígnea flama bruta. em síntese. sondas A estéril terra. A formação molecular da mirra. para que a Dor perscrutes. seu todo não RESIDENCIA No quociente isolado da parcela! Ah! Como o ar imortal a Dor não finda! Das papilas nervosas que há nos tatos Veio e vai desde os tempos mais transatos Para outros tempos que hão de vir ainda! Como o machucamento das insônias Te estraga.

O homem grande oprimindo o homem pequeno A lua falsa de um parasseleno. à espera que a mansa vítima o entre. Deixa os homens deitados. abalando os solos. Na sangueira concreta dos massacres. A rotação dos fluidos produzindo A depressão geológica dos pólos. A água arbitrária que hiulcos caules grossos Carrega e come. Que ainda degrada os povos hotentotes. -. As aves moças que perderam a asa. O fogo-fátuo que ilumina os ossos. Os terremotos que. O tecido da roupa que se gasta. A mentira meteórica do arco-íris. O achatamento ignóbil das cabeças. O trem particular que um corpo arrasta Sinistramente pela via férrea. as negras formas feias Dos aracnídeos e das centopéias. A cristalização da massa térrea.Tudo que gera no materno ventre A causa fisiológica do nojo. Os sanguinolentíssimos chicotes Da hemorragia. sem mortalha. O Amor e a Fome. As pálpebras inchadas na vigília. O fogão apagado de uma casa. As projeções flamívomas que ofuscam. a fera ultriz que o fojo Entra. Lembram paióis de pólvora explodindo. 137 . Onde morreu o chefe da família. as nódoas mais espessas.O orbe feraz que bastos jojos acres Produz’a rebelião que na batalha. A sensação que uma coalhada fresca Transmite às mãos nervosas dos que a buscam. Como uma pincelada rembrandtesca. O antagonismo de Tífon e Osíris.

O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psicoplasma Humano sofre da mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E, (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, À morte desgraçada dos açougues... Tudo isto que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra! Por descobrir tudo isso, embalde cansas! Ignoto é o gérmem dessa força ativa Que engendra, em cada célula passiva, A heterogeneidade das mudanças! Poeta, feito malsão, criado com os sucos De um leite mau, carnívoro asqueroso, Gerado no atavismo monstruoso Da alma desordenada dos malucos; Última das criaturas inferiores Governada por átomos mesquinhos, Teu pé mata a uberdade dos caminhos E esteriliza os ventres geradores! O áspero mal que a tudo, em torno, trazes, Amálogo é ao que, negro e a seu turno, Traz o ávido filóstomo noturno Ao sangue dos mamíferos vorazes! Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhes A perfeição dos seres existentes, Hás de mostrar a cárie dos teus dentes Na anatomia horrenda dos detalhes!

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O Espaço -- esta abstração spencereana Que abrange as relações de coexistência E só! Não tem nenhuma dependência Com as vértebras mortais da espécie humana! As radiantes elipses que as estrelas Traçam, e ao espectador falsas se antolham São verdades de luz que os homens olham Sem poder, entretanto, compreendê-las. Em vão, com a mão corrupta, outro éter pedes Que essa mão, de esqueléticas falanges, Dentro dessa água que com a vista abranges, Também prova o princípio de Arquimedes! A fadiga feroz que te esbordoa Há de deixar-te essa medonha marca, Que, nos corpos inchados de anasarca, Deixam os dedos de qualquer pessoa! Nem terás no trabalho que tiveste A misericordiosa toalha amiga, Que afaga os homens doentes de bexiga E enxuga, à noite, as pústulas da peste! Quando chegar depois a hora tranqüila, Tu serás arrastado, na carreira, Como um cepo inconsciente de madeira Na evolução orgânica da argila! Um dia comparado com um milênio Seja, pois, o teu último Evangelho... É a evolução do novo para o velho E do homogêneo para o heterogêneo! Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largo A apodrecer!... És poeira e embalde vibras! O corvo que comer as tuas fibras Há de achar nelas um sabor amargo!”

IV Calou-se a voz. A noite era funesta. E os queixos, a exibir trismos danados,

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Eu puxava os cabelos desgrenhados Como o Rei Lear, no meio da floresta! Maldizia, com apóstrofes veementes, No estentor de mil línguas insurretas, O convencionalismo das Pandetas E os textos maus dos códigos recentes! Minha imaginação atormentada Paria absurdos... Como diabos juntos, perseguiam-me os olhos dos defuntos Com a carne da esclerótica esverdeada. Secara a clorofila das lavouras. Igual aos sustenidos de uma endecha Vinha-me às cordas glóticas a queixa Das coletividades sofredoras. O mundo resignava-se invertido Nas forças principais do seu trabalho... A gravidade era um princípio falho, A análise espectral tinha mentido! O Estado, a Associação, os Municípios Eram mortos. De todo aquele mundo Restava um mecanismo moribundo E uma teleologia sem princípios. Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psique no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo! Mas a Terra negava-me o equilíbrio... Na Natureza, uma mulher de luto Cantava, espiando as árvores sem fruto. A canção prostituta do ludíbrio.

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A CARIDADE No universo a caridade Em contraste ao vicio infando É como um astro brilhando Sobre a dor da humanidade! Nos mais sombrios horrores Por entre a mágoa nefasta A caridade se arrasta Toda coberta de flores! Semeadora de carinhos Ela abre todas as portas E no horror das horas mortas Vem beijar os pobrezinhos. Torna as tormentas mais calmas Ouve o soluço do mundo E dentro do amor profundo Abrange todas as almas. O céu de estrelas se veste Em fluidos de misticismo Vibra no nosso organismo Um sentimento celeste. A alegria mais acesa Nossas cabeças invade... Glória, pois, á Caridade No seio da Natureza! Estribilho Cantemos todos os anos Na festa da Caridade A solidariedade Dos sentimentos humanos.

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OS DOENTES

I Como uma cascavel que se enroscava, A cidade dos lázaros dormia... Somente, na metróplole vazia, Minha cabeça autônoma pensava! Mordia-me a obsessão má de que havia, Sob os meus pés, na terra onde eu pisava, Um fígado doente que sangrava E uma garganta órfã que gemia! Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam... E via em mim, coberto de desgraças, O resultado de bilhões de raças Que há muito desapareceram!

II Minha angústia feroz não tinha nome. Ali, na urbe natal do Desconsolo, Eu tinha de comer o último bolo Que Deus fazia para a minha fome! Convulso, o vento entoava um pseudosalmo. Contrastando, entretanto, com o ar convulso A noite funcionava como um pulso Fisiologicamente muito calmo. Caíam sobre os meus centros nervosos, Como os pingos ardentes de cem velas, O uivo desenganado das cadelas E o gemido dos homens bexigosos. Pensava! E em que eu pensava, não perguntes! Mas, em cima de um túmulo, um cachorro

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os astros miúdos Reduziam os Céus sérios e rudos A uma epiderme cheia de sarampos! III Dormia embaixo. a ameixa. como as ervas. A incógnita psique das massas mortas Que dormem. a abóbora. sobre as hortas. A comunhão dos homens reunidos Pela camaradagem da moléstia. Benigna água. o urro Reboava.Pedia para mim água e socorro À comiseração dos transeuntes! Bruto. Em cuja álgida unção. A Paraíba indígena se lava! A manga. No Alto. Além jazia os pés da serra. o álamo E a câmara odorífera dos sumos Absorvem diariamente o ubérrimo húmus Que Deus espalha à beira do seu tálamo! Nos de teu curso desobstruídos trilhos. de errante rio. branda e beatífica. a amêndoa. Meu ser estacionava. O hidrogênio e o oxigênio que tu choras Pelo falecimento dos teus filhos! Ah! Somente eu compreendo. com a promíscua véstia No enbotamento crasso dos sentidos. satisfeito. em quaisquer horas. A queixada específica de um burro! Gordo adubo de agreste urtiga brava. Apenas eu compreendo. Criando as superstições de minha terra. Na esteira igualitária do teu leito! O vento continuava sem cansaço E enchia com a fluidez do eólico hissope Em seu fantasmagórido galope A abundância geométrica do espaço. magnânima e magnífica. 143 . alto e hórrido. olhando os campos Circunjacentes.

como inúmeros soldados. a existência Numa bacia autômata de barro. vendo em cada escarro O retrato da própria consciência! Querer dizer a angústia de que é pábulo E com a respiração já muito fraca Sentir como que a ponta de uma faca. 144 . Nas cancerosidades do organismo! Falar somente uma linguagem rouca. adstritos ao quimiotropismo Erótico. Cair doente e passar a vida inteira Com a boca junto de uma escarradeira. Pintando o chão de coágulos sangüíneos! Sentir. Um português cansado e incompreensível. Restos repugnantíssimos de bílis. O ruído de uma tosse hereditária. por mais que os cardos grandes rocem Seus corpos brutos.Feriam-me o nervo óptico e a retina Aponevroses e tendões de Aquiles. Maior felicidade é a destas cousas Submetidas apenas às leis físicas! Estas. Estas não cospem sangue. estas não tossem! Descender dos macacos catarríneos. Vômitos impregnados de ptialina. Alucinado. Reboando pelos séculos vindouros. Estas dis bacalhaus o óleo não bebem. Adivinhando o frio que há nas lousas. aos bocados. Da degenerescência étnica do Ária Se escapava. Cortanto as raízes do último vocábulo. OH! desespero das pessoas tísicas. entre estrépitos e estouros. os micróbios assanhados Passearem. dores não recebem. Vomitar o pulmão na noite horrível Em que se deita sangue pela boca! Expulsar.

resfriando-vos o rosto. Vinha da vibração bruta da corda Mais recôndita da alma brasileira! Aturdia-me a tétrica miragem De que. Onde a Resignação os braços cruza. urrando ultrajes Contra a dissolução que vos espera! Porque a morte. Consagrando vossa última fonética A uma recitação de mesereres. com efeito. em cachoeiras desobstruídas Encharcava os buracos das feridas. onde toda a vida orgânica Há de pagar um dia o último imposto! IV Começara a chover. É a alfândega. magras mulheres. hoje. Alagava a medula dos Doentes! Do fundo do meu trágico destino. naquele instante. Nos ardores danados da febre hética. Saía. Antes levardes ainda uma quimera Para a garganta omnívora das lajes Do que morrerdes. Pelas algentes Ruas. A mágoa gaguejada de um cretino.Não haver terapêutica que arranque Tanta opressão como se. com o vexame de uma fusa. 145 . a água. em sonhos mórbidos. me acorda. Consoante a minha concepção vesânica. no Amazonas. Lhe houvessem sacudido sobre o peito A máquina pneumática de Bianchi! E o ar fugindo e a Morte a arca da tumba A erguer. como um cronômetro gigante Marcando a transição emocionante Do lar materno para a catacumba! Mas vos não lamenteis. Aquele ruído obscuro de gagueira Que à noite.

O gênio de Colombo Manchou de opróbrios a alma do mazombo . Na tumba de Iracema!. como um lúgubre ciclone. entregue a vísceras glutonas. Jazem. Em vez da prisca tribo e indiana tropa A gente deste século. Esse achincalhamento do progresso Que o anulava na crítica da História! Como quem analisa uma apostema. todas as inúbias. adstrito à étnica escória. 146 . caladas.. De repente. Uma desesperada ânsia improfícua De estrangular aquela gente iníqua Que progredia sobre os seus despojos! Mas. Cuspiu na cova do morubixaba ! E o índio.. Dora em diante Seu povo tombaria agonizante Na luta da espingarda contra a flecha! Veio-lhe então como à fêmea vêm antojos. E sentia-se pior que um vagabundo Microcéfalo vil que a espécie encerra. Com uma clarividência aterradora. E agora.. A carcaça esquecida de um selvagem. A civilização entrou na taba Em que ele estava. tendo o horror no rosto impresso. por fim.. Ah! Tudo. Diminuído na crônica do mundo! A hereditariedade dessa pecha Seguiria seus filhos. Desterrado na sua própria terra. Exercia sobre ela ação funesta Desde o desbravamento da floresta à ultrajante invenção do telefone. Recebeu. sem difíceis nuanças dúbias. Viu toda a podridão de sua raça. espantada.Fedia. diante a xantocróide raça loura. acordando na desgraça.

No horror daquela noite monstruosa. Batia com o pentágono dos dedos Sobre um fundo hipotético de chagas! Diabólica dinâmica daninha Oprimia meu cérebro indefeso Com a força onerosíssima de um peso Que eu não sabia mesmo de onde vinha. Com a contorção neurótica de um bicho Que ingeriu 30 gramas de noz-vômica. rolando sobre o lixo. Hereditariedades politípicas Punham na minha boca putrescível Interjeições de abracadabra horrível E os verbos indignados das Filípicas. Uma necessidade de suicídio E um desejo incoercível de ser morto! Naquela angústia absurda e tragicômica Eu chorava. com voz estentorosa.: o homem e o ofídio.Vê somente a caveira abandonada De uma raça esmagada pela Europa! V Era a hora em que arrastados pelos ventos. Os fantasmas hamléticos dispersos Atiram na consciência dos perversos A sombra dos remorsos famulentos. A peçonha inicial de onde nascemos. Maldiziam. E eu. Perfurava-me o peito a áspera pua do desânimo negro que me prostra. Todos os vocativos dos blasfemos. As mães sem coração rogavam pragas Aos filhos bons. Como que havia na ânsia de conforto De cada ser. 147 . ex. E quase a todos os momentos mostra Minha caveira aos bêbedos da rua. roído pelos medos.

era A saudade inconsciente da monera Que havia sido minha mãe antiga. perante a cova. na terráquea superfície. A pragmática má de humanos usos Não compreende que a Morte que não dorme É a absorção do movimento enorme Na dispersão dos átomos difusos. Confundir-me com aquela coisa porca! Vinha. por epigênese. Eu voltarei.E. Reduzido à plastídula homogênea. como um homem doido que se enforca. Era (nem sei em síntese o que diga) Um velhíssimo instinto atávico. com o auxílio especial do osso masséter Mastigando homeomérias neutras de éter Nutrir-me da matéria imponderável. o anelo instável De. Sem diferenciação de espécie alguma. Arrancar do meu próprio corpo a prova Da persistência trágica da força. Consubstanciar-me todo com a imundície. porém. cansado. Menor que o anfióxus e inferior à tênia. da árdua liça À substância inorgânica primeva De onde. veio Eva E a stirpe radiolar chamada Actissa . reaparece Na universalidadej do c arbono! A vida vem do éter que se condensa Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma Fazer a luz do cérebro que pensa. Não me incomoda esse último abandono Se a carne individual hoje apodrece Amanhã. 148 . Com o horror tradicional da raiva corsa Minha vontade era. às vezes. Tentava. em suma. Anelava ficar um dia. como Cristo.

Cheirava com prazer no sacrifício A lepra má que lhe roía o braço! E ensangüentava os dedos da mão nívea Com o sentimento gasto e a emoção pobre. Uma.. a perversão de que era presa o sensorium daquela prostituta Vinha da adaptação quase absoluta À ambiência microbiana da baixeza! Entanto. Estendestes ao mundo. Nem tínheis. Se extenuavam nas camas. Acordavam os bairros da luxúria.Quando eu for misturar-me com as violetas Minha lira. doentes de hematúria. embalde. a saraiva Caindo.. Duas mamárias glândulas estéreis! Ah! Certamente não havia ainda Rompido. Nessa alegria bárbara que cobre Os saracoteamentos da lascívia. virgem fostes. 149 .. para além. entre oscilantes chamas. e. Um cão agora Punha a atra língua hidrófoba de fora Em contrações miológicas de raiva. dando emoção à pedra Na acústica de todos os planetas! VI À álgida agulha.. vítima última da insânia. e as mãos. no horizonte. à-toa. Mas. O sol malvado que secou a fonte De vossa castidade agora finda! Talvez tivésseis fome. As prostitutas. com violência. alva. análoga era. De certo. agora. derreada de cansaço. ignóbil.. quando o éreis. até que. Quase que escangalhada pelo vício. Não tínheis ainda essa erupção cutânea.. maior que a Bíblia e a Fedra Reviverá.

Desde as musculaturas que apodrecem À ruína vegetal dos lírios secos.Fostes vender a virginal coroa Ao primeiro bandido do arrabalde. 150 . Nas quietudes nirvânicas mais doces O noivado que em vida não tivestes! VII Quase todos os lutos conjugados. E estais velha! -. na craniana caixa tosca. Sentia. porém. inquieto. Somente as bruxas negras da derrota Freqüentam diariamente vosso quarto! prometem-vos (quem sabe?!) entre os ciprestes Longe da mancebia dos alcouces. A racionalidade dessa mosca. Como quem nada encontra que o perturbe. Lançavam pinceladas pretas de óleo Na arquitetura arcaica dos sobrados. Como uma associação de monopólio. Dentro da noite funda um braço humano Parecia cavar ao longe um poço Para enterrar minha ilusão de moço. A consciência terrível desse inseto! Regougando. E hoje. eu. que a sociedade vos enxota. Como a boca de um poço artesiano! Atabalhoadamente pelos becos. Eu pensava nas coisas que perecem. no chão frio da igreja. E vai depois levá-lo ao cemitério! E esfregando as mãos magras. Cismava no propósito funéreo Da mosca debochada que fareja O defunto.De vós o mundo é farto. argots e aljâmias. A energúmena gei dos ébrios da urbe Festejava seu sábado de infâmias.

lúpulo E outras substâncias tóxicas da tasca. O ar ambiente cheirava a ácido acético. Já podre. Em cujo aspecto o olhar perspícuo prendo. Onde minh’alma inteira surpreendia A Humanidade que se lamentava! Era todo o meu sonho. Mas. A mandíbula inchada de um morfético! Saliências polimórficas vermelhas. uma cabeça Que possa mastigar na hora da morte E nua. Vem para aqui. com o ar de quem empesta. Sem ter. sobre a palha espessa. de repente. Absorvia com gáudio absinto. À falta idiossincrásica de escrúpulo. estriges voam. em que eu entrei adrede. E a ébria turba que escaras sujas masca. Quanta gente. assim inchado. palpável.Aquilo era uma negra eucaristia. Puxava aquele povo de demônios Para a promiscuidade das adegas. Dá-me a impressão de um boulevard que fede. escorraçando a festa. Como se fosse um corpo organizado! VIII Em torno a mim. Rugindo fundamente nos neurônios. Pela degradação dos que o povoam. roubada à humana coorte Morre de fome. O fácies do morfético assombrava! -.A estática fatal das paixões cegas. nos braços de um canalha 151 . Punham-lhe num destaque horrendo o horrendo Tamanho aberratório das orelhas. nesta hora. como Ugolino. que a morféia miserável Tornava às impressões táteis. após baixar ao caos budista. E o cemitério. Apareceu.

vinham Com a podridão dar de comer às flores! Os defuntos então me ofereciam Com as articulações das mãos inermes. atira a raça negra Ao contubérnio diário das quitandas! Na evolução de minha dor grotesca. Ao pegar num milhão de miolos gastos. Pisando. Nos corpos nus das moças hotentotes Entregues. Eu mendigava aos vermes insubmissos 152 . Na impaciência do estômago vazio. entre fardos. As escaveiradíssimas figuras Das negras desonradas pelos brancos. transgredindo a igualitária regra Da Natureza. a camisa suada. a alma aos arrancos. cheio de vermes. ao clarão de alguns archotes. iguais a irmãs de caridade. à meia-noite! Com uma ilimitadíssima tristeza. Vendo passar com as túnicas obscuras. Num prato de hospital. Todos os meus cabelos se arrepiaram. como quem salta. Todos os animais que apodreciam! É possível que o estômago se afoite (Muito embora contra isto a alma se irrite) A cevar o antropófago apetite. À sodomia indigna dos moscardos.porque o madapolão para a mortalha Custa 1$200 ao lojista! Que resta das cabeças que pensaram?! E afundado nos sonhos mais nefastos. Eu devorava aquele bolo frio Feito das podridões da Natureza! E hirto. Comendo carne humana. Eu maldizia o deus de mãos nefandas Que. Os evolucionistas benfeitores Que por entre os cadáveres caminham.

Uma sobrevivência de Sidarta.Como indenização dos meus serviços. Nunca mais as goteiras cairiam Como propositais setas malvadas. déspota e sem normas. De quem possui um sol dentro de casa. Como o íncola do pólo ártico. Ia arrastando agora a alma infecunda Na mais triste de todas as falências. Absorve. No céu calamitoso de vingança Desagregava. O adesionismo biôntico das formas Multiplicadas pela lei da herança! 153 . E arrancara milhares de existências Do ovário ignóbil de uma fauna imunda. O benefício de uma cova fresca. Proporcionando-me o prazer inédito. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! O gênio procriador da espécie eterna Que me fizera. às vezes. Dentro da filogênese moderna. No frio matador das madrugadas. À apreensão fisiológica do faro O odor cadaveroso dos destroços! IX O inventário do que eu já tinha sido Espantava. trazendo-me ao sol claro. E eis-me a absorver a luz de fora. após a noite de seis meses. Manhã. Era a volúpia fúnebre que os ossos Me inspiravam. Por sobre o coração dos que sofriam! Do meu cérebro à absconsa tábua rasa Vinha a luz restituir o antigo crédito. Os raios caloríficos da aurora. em vez de hiena ou lagarta.

. numa furna. Vinha da original treva noturna. Igual a um parto. Para alcançar depois a periferia! Contra a Arte. Decompondo-se desde os alicerces! A doença era geral. O começo magnífico de um sonho! Entre as formas decrépitas do povo.. corre. em colônias fluídas. A gestação daquele grande feto.A ruína vinha horrenda e deletéria Do subsolo infeliz. tudo a extenuar-se Estava. O ar que. oh! Morte. Parecia também desagregar-se! O prodromos de um tétano medonho Repuxavam-me o rosto. com os pés atolados no Nirvana. entanto. Eu sentia nascer-me n’alma. Já batiam por cima dos estragos A sensação e os movimentos vagos Da célula inicial de um Cosmos novo! O letargo larvário da cidade Crescia. Acompanhava. Que vinha substituir a Espécie Humana! 154 . em vão teu ódio exerces! Mas... O Espaço abstrato que não morre Cansara. a meu ver. vinha de dentro Da matéria em fusão que ainda há no centro. Hirto de espanto. os sáxeos prédios tortos Tinham aspectos de edifícios mortos. com um prazer secreto. o vagido de uma outra Humanidade! E eu.

amigo.. Como! E pois que a Razão me não reprime. Rodeado pelas moscas repugnantes. não existes mais! 155 .. Petrarca A queda do teu lírico arrabil De um sentimento português ignoto Lembra Lisboa. Com a diferença que Lisboa existe E tu. DUAS ESTROFES À memória de João de Deus Ahi! ciechi! il tanto affaticar che giova? Tutti torniamo alla gran madre antica E il nostro nome appena si ritrova. Tu representas toda essa Lisboa De glórias quase sobrenaturais. com este assomo Que a espécie humana em comer carne tem!. têm carne. Possa a terra vingar-se do meu crime Comendo-me também. É a hora De comer. Para comer meus próprios semelhantes Eis-me sentado à mesa! Como porções de carne morta. Que um dia no ano trágico de mil E setecentos e cinqüenta e cinco. Foi abalada por um terremoto! A água quieta do Tejo te abençoa. E agora.. bela como um brinco.À MESA Cedo à sofreguidão do estômago. Coisa hedionda! Corro. Antegozando a ensangüentada presa. Apenas com uma diferença triste. Ai! Como Os que. como eu..

nas vitrinas.. E o antigo leão. Relembrarás chorando o que eu te disse. sem pretensões. quanto a mim. haurindo amplo deleite. um novo Ser.Fecunda fonte desse mesmo leite Que amamentou os éfebos de Esparta. No lábio róseo a grande teta farta -. à amostra. oh! Mãe.. há de tornar-se arbusto E álamo altivo de ramagem grossa. À sombra dos sicômoros eternos! 156 . Essas humanas coisas pequeninas A um biscuit de quilate muito raro Exposto aí. Mas o ramo fragílimo e venusto Que hoje nas débeis gêmulas se esboça. te emergiu do ventre! E puseste-lhe. entre dores. Assim. -Com que avidez ele essa fonte suga! Ninguém mais com a Beleza está de acordo. Bebendo a vida no teu seio gordo! Pois. O Sol virá das épocas sadias. Há de crescer. Clara.MATER Como a crisálida emergindo do ovo Para que o campo flórido a concentre. sujo de sangue. Há de beijar-te as mãos todos os dias! Quando chegar depois tua velhice Batida pelos bárbaros invernos. que te esgotou as pomas. Do que essa pequenina sanguessuga. comparo. a atmosfera se encherá de aromas.

haurindo o tépido ar sereno. com que guarda meus sapatos. roendo a substância córnea de unha. as tesouras Brônzeas. nos fortes fulcros. numa ininterrupta Adesão.filhos legítimos dos trigos -Nutrem a geração do Ódio e da Guerra. Tais quais. maior do que Laplace..GEMIDOS DE ARTE I Esta desilusão que me acabrunha É mais traidora do que o foi Pilatos!. Não fez cair o túmulo de Plínio Por sobre todo o meu raciocínio Para que eu nunca mais raciocinase?! Pois minha Mãe tão cheia assim daqueles Carinhos. mordendo glabros talos. Os pães -. Por que me deu consciência dos meus atos Para eu me arrepender de todos eles?! Quisera antes. Os cachorros anônimos da terra São talvez os meus únicos amigos! Ah! Por que desgraçada contingência À híspida aresta sáxea áspera e abrupta Da rocha brava. O mesmo assombro que sentiu Parfeno Quando arrancou os olhos de Dionisos! Em giro e em redemoinho em mim caminham Ríspidas mágoas estranguladoras. eu vivo pelos matos. Tenho estremecimentos indecisos E sinto. Dormir na manjedoura com os cavalos! 157 .. Por causa disto. Magro. Nabucodonosor ser do Pau d’Arco. não prendi minha existência?! Por que Jeová. Beber a acre e estagnada água do charco. também gira e redemoinham.

goza O lodo. pegajoso e untuoso ao tacto! Reúnam-se em rebelião ardente e acesa Todas as minhas forças emotivas 158 . apalpa a úlcera cancerosa. Subtraída à hediondez de ínfimo casco. e não se contamina! Ser homem! escapar de ser aborto! Sair de um vente inchado que se anoja. O braço do ladrão se paralise E a mão da meretriz caia aos pedaços! II O sol agora é de um fulgor compacto. Com a flexibilidade de um molusco. Onde a forca feroz coma o carrasco E o olho do estuprador se encha de bichos! Outras constelações e outros espaços Em que. Úmido. E eu vou andando. Chupar os ossos das alimarias! Barulho de mandíbulas e abdômens! E vem-me com um desprezao por tudo isto Uma vontade absurda de ser Cristo Para sacrificar-me pelos homens! Soberano desejo! Soberana Ambição de construir para o homem uma Região. Comprar vestidos pretos numa loja E andar de luto pelo pai que é morto! E por trezentos e sessenta dias Trabalhar e comer! Martírios juntos! Alimentar-se dos irmãos defuntos. no agudo grau da última crise. Dorme num leito de feridas. Beija a peçonha. onde não cuspa língua alguma O óleo rançoso da saliva humana! Uma região sem nódoas e sem lixos.Mas a carne é que é humana! A alma é divina. cheio de chamusco.

depois de tanta Tristeza. depois de morrer. largando pêlos. queime. Ladra furiosa a tribo dos podengos. E a alma dos vegetais rebenta inteira De todos os corpúsculos do pólen.. Deleito a vista na verdura gorda Que nas hastes delgadas se balouça! Avisto o vulto das sombrias granjas Perdidas no alto. A terra cheira. salta. Os ventos vagabundos batem.. Um pássaro alvo artífice da teia De um ninho. Nos terrenos baixos. em vez do nome -. No chão coleia a lagartixa. Das laranjeiras eu admiro os cachos E a ampla circunferência das laranjas. De árvore em árvore e de galho em galho. bolem Nas árvores. fustigue. Por toda a parte a seiva bruta esguicha Num extravasamento involuntário. Entrançados. Possuir aí o nome dum arbusto Qualquer ou de qualquer obscura planta! 159 . quero. Em grandes semicírculos aduncos.Augusto ...E armem ciladas como cobras vivas Para despedaçar minha tristeza! O sol de cima espiando a flora moça Arda. pelo ar. Com a rapidez duma semicolcheia.. O ar cheira. no árdego trabalho.. corte. Eu. Voam à semelhan ça de cabelos Os chicotes finíssimos dos juncos. morda!. Olhando para as pútridas charnecas Grita o exército avulso das marrecas Na úmida copa dos bambus verdoengos. A câmara nupcial de cada ovário Se abre.

Estão olhando aquelas coisas mortas! Fico a pensar no Espírito disperso Que. Viveu. em vez de flores. Como um anel enorme de aliança. Une todas as coisas do Universo! 160 . Os musgos. O ardente calor da areia forte Racha-me os pés como se fosse agulha. O céu lembra uma lauda Do mais incorruptível pergaminho. unindo a pedra ao gneiss e a árvore à criança. Me arrasta à casa do finado Toca ! Todas as tardes a esta casa venho. Por saibros e por cem côncavos vales.III Pelo acidentalíssimo caminho Faísca o sol. outrora. sem conchego nobre. À dura luz do sol resplandecente. dos esconderijos. O lodo obscuro trepa-se nas portas. uma parede doente Mostra a cara medonha dos buracos. Como pela avenida das Mappales. sentiu e amou este homem pobre Que carregava canas para o engenho! Nos outros tempos e nas outras eras. Urram os bois. Na bruta dispersão de vítreos cacos. O cupim negro broca o âmago fino Do teto. Quantas flores! Agora. Uma atmosfera má de incômoda hulha Abafa o ambiente. batendo a cauda. Trôpega e antiga. Amontoadas em grossos feixes rijos. O aziago ar morto a morte Fede. como exóticos pintores. Nédios. Pintam caretas verdes nas taperas. As lagartixas. Aqui. Não sei que subterrânea e atra voz rouca. E traça trombas de elefantes Com as circunvoluções extravagantes Do seu complicadíssimo intestino.

trabalhando aos brancos! Seja este sol meu último consolo. É o pedaço já podre de pão duro Que o miserável recebeu na estrada! Não são os cinco mil milhões de francos Que a Alemanha pediu a Jules Favre. À carbonização dos próprios ossos! 161 . como quem raspa a sarna. Julgo ver este Espírito sublime. aqui. De pé. É o dinheiro coberto de azinhavre Que o escravo ganha..E assim pensando. à luz da consciência infame. com a misericórdia de um tijolo!.. Que por vezes me absorve. Grito. Só. sem pai que me ame.. Súbito. E o espírito infeliz que em mim se encarna Se alegre ao sol. com a cabeça em brasas Ante a fatalidade que me oprime. da mesma forma que o homem morre. Chamando-me do sol com as suas asas! Gosto do sol ignívomo e iracundo Como o réptil gosta quando se molha E na atra escuridão dos ares... A lamparina quando falta o azeite Morre. olha Melancolicamente para o mundo! Essa alegria imaterializada. é o óbolo obscuro. Tudo enfim a mesma órbita percorre E as bocas vão beber o mesmo leite.. arrebentando a horrenda calma. e se gritio é para que meu grito Seja a revelação deste Infiniti Que eu trago encarcerado da minh’alma! Sol brasileiro! queima-me os destroços! Quero assistir.

. Sofre em cada molécula a angústia alta De haver secado. Lúbrica. Com a roupa amarfanhada e os beiços tintos. excita-a o açoite Do incêndio que lhe inflama a língua espúria. Gane instintivamente de luxúria! Navio para o qual todos os portos Estão fechados. Na sodomia das mais negras bodas Desarticula-se. espremendo os peitos. funcionária dos instintos. Com as mãos chagadas. urna de ovos mortos. Bramando. hórridos uivos Na mesma esteira pública. O Vício estruge. alta noite. hirta. de cabelos ruivos. ébria e lasciva. através os meus sentidos. a âmbulas moles. a arquivar credos desfeitos. Reduzidos. A escuridão dos gineceus falidos E a desgraça de todos os ovários! Irrita-se-lhe a carne á meia-noite. por fim. Ouvem-se os brados Da danação carnal. Espicaça-a a ignomínia. Na vizinhança aziaga dos ossuários Representa. à falta Da água criadora que alimenta as proles! É ela que. em contorções sombrias. Entre farraparias e esplendores. 162 .. O indumento vilíssimo do servo Ao brilho da augustal toga pretexta.A MERETRIZ A rua dos destinos desgraçados Faz medo. como o estepe. Sente. recebe. à luz do olhar protervo. à lua. arremessada sobre o rude 'Despenhadeiro da decrepitude. aliando. Na vacuidade das entranhas frias O esgotamento intrínseco da besta! E ela que. Uma mulher completamente nua! É a meretriz que. em coréas doudas. O eretismo das classes superiores E o orgasmo bastardíssimo da plebe! É ela que. E a mulher.

Fulgia. Para a Finalidade Transcendente Gera o prodígio anímico da Insânia! Nas frias antecâmaras do Nada O fantasma da fêmea castigada.. E é aterradora essa alegria de ossos Pedindo ao sensualismo que os esmague! É o pseudo-regozijo dos eunucos Por natureza. Passa agora ao clarão da lua acesa E é seu corpo expiatório. Lembra o ruído harto azorrague A vergastar ásperos dorsos grossos. já morta essencialmente. pela própria hereditariedade A lei da seleção disfarça em Vício! É o júbilo aparente da alma quase A eclipsar-se. alvo e desnudo A síntese eucarística de tudo Que não se realizou na Natureza! Antigamente. E a Carne que. Na óptica abreviatura de um reflexo.Chão de onde unia só planta não rebenta. aos tácitos apelos Das suas carnes e dos seus cabelos. Pagando com volúpia o crime eterno De não ter sido fiel ao seu destino! E o Desespero que se faz bramido De anelo animalíssimo incontido. no horror da ocídua fase Esterilizadora de órgãos. Mais que a vaga incoercível na água oceânea... filha do inferno. Toda a sensualidade tempestuosa Dos apetites bárbaros do Sexo! 163 . E a dor profunda da incapacidade Que. Ei-la.. de bruços. em cada humana nebulosa... dos que são caducos Desde que a Mâe-Comum lhes deu início.. bêbeda de gozo Saciando o geotropismo pavoroso De unir o corpo à terra famulenta! Nesse espolinhamento repugnante O esqueleto irritado da bacante Estrala. É o hino Da matéria incapaz..

.. Mas que. Na homofagia hedionda que o consome. Agarrou-se-lhe aos seios impudicos Como o abraço mortífero do Ficus 164 . radiando. Como o .. Lançando a sombra horrível dos seus vultos Sobre a noite fechada daquela alma! É o sublevantamento coletivo De um mundo inteiro que aparece vivo. Saem da infância embrionária e erguem-se. rubros.. Resíduos memoriais tornam-se luzes Fazem-se idéias e ela vê as cruzes Do seu martirológio miserando! Inícios atrofiados de ética... das veias E em torrencialidades quentes e úmidas. impune. Ficou rolando. adstrito a inferior plasma inconsútil. Brilha na prostituta moribunda Como a fosforescência sobre a lama! É a visita alarmante do que outrora Na abundância prospérrima da aurora. adultos. Que. do deserto! Vede! A prostituição ofídia aziaga Cujo tóxico instila a infâmia. e a estraga Na delinqüência . A hora da morte acende-lhe o intelecto E à úmida habitação do vício abjecto Afluem milhões de sóis. Pudera progredir... ânsia De perfeição. Numa cenografia de diorama.. momentaneamente luz fecunda.O atavismo das raças sibaritas.. Criando concupiscências infinitas Como eviterno lobo insatisfeito.. Irradiava-se-lhe. Gorda a escorrer-lhe das artérias túmidas Lembrava um transbordar de ânforas cheias. Libertos da ancestral modorra calma. talvez. hírcica. como aborto inútil.. sonhos de culminância.. decerto.. Vinha saciar a milenária fome Dentro das abundâncias do seu leito! Toda a libidinagem dos mormaços Americanos fluía-lhe dos braços.

....................... ao trágico ditame...............Sugando a seiva da árvore a que se une! ....................... ........ Enroscou-se-lhe aos abraços com tal gosto............................................................................................... Mordeu-lhe a boca e o rosto.................................................... .............. condenada................................. ................ ..................................... Oferecer-se à bicharia infame Com a terra do sepulcro a encher-lhe os olhos! Sentir a língua aluir-se-lhe na boca E com a cabeça sem cabelos......................................... ....................................... Na horrorosa avulsão da forma nívea Dizer ainda palavras de lascívia................ ....................................................... ................................................................................................................................. .. 165 ................................................. oca........................... .............. ........................ .................. Ser meretriz depois do túmulo! A alma Roubada a hirta quietude da urbe calma Onde se extinguem todos os escolhos: E.............................

Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! Para reproduzir tal sentimento Daqui por diante. tal como eu o estou amando. é éter. pois.. Como Mársias -. E hoje que. este o amor não é que. em ânsias. Integralmente desfibrado e mole. ilusão treda! O amor. entretanto. conheço o seu conteúdo. Porque o amor. é substância fluida. Todas as ciências menos esta ciência! Certo. enfim. chegando à última calma Meu podre coração roto não role. chupo-a. do egoísta Modo de ver. enfim. Para que. Oposto ideal ao meu ideal conservas. Por conseguinte Chamas amor aquilo que eu não chamo. provo-a. amo Mas certo.o inventor da flauta -Vou inventar também outro instrumento! Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo Ambiciono.VERSOS DE AMOR A um poeta erótico Parece muito doce aquela cana. eu que idolatro o estudo. o egoísta amor este é que acinte Amas. Descasco-a. não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes. consoante o qual. É Espírito. atenta a orelha cauta. Diverso é. Imponderabilíssima e impalpável. É assim como o ar que a gente pega e cuida. é como a cana azeda. Quis saber que era o amor. observo o amor. Pudera eu ter. o ponto outro de vista Consoante o qual.. oposto a mim. por experiência. Cuida. A toda a boca que o não prova engana. que o idioma em que te eu falo Possam todas as línguas decliná-lo Possam todos os homens compreendê-lo. o observas. poeta. Como um saco vazio dentro d’alma! 166 .

que devia. Trabalharei assim dias inteiros. sobre a forja ardente Da ilha de Lemnos... Sem ter uma alma só que me idolatre. Que importa que.O pensamento é uma locomotiva Tem a grandeza duma força viva Correndo sem cessar para o Progresso. trágico e maldito. olhando o céu que além se expande: ". em ânsias.A LUVA Para o Augusto Belmont Pensa na glória! Arfa-lhe o peito. Tenha a sorte de Cícero proscrito Ou morra embora.. Durante as vinte e quatro horas do dia! Riam de mim. . depois disso. Vem-lhe á imaginação este soneto: "A princípio escrevia simplesmente Para entreter o espírito. Entendi.. horrendo e preto O áspide abjeto do Pesar se mova!. com o seu grande grito. Escrevia Mais por impulso de idiosincrasia Do que por uma propulsão consciente. a tumbal janela E diz.. Como Camões morrendo sobre um catre!" Nisto. E só. Mas meu orgulho ainda é maior do que ela! Ruja a boca danada da profana Coorte dos homens. contra ele. no quadrilátero da alcova. opresso. trabalhar contente. os monstros zombeteiros. 167 .A maldade do mundo é muito grande.. abre. Como Vulcano.

E na suprema convulsão o doudo Parece aos astros atirar a luva! 168 .Que meu orgulho do alto do Infinito Suplantará a própria espécie humana! Quebro montanhas e aos tutões resisto Numa absolta impassibilidade". E como um desafio à eternidade Atira a luva para o próprio Cristo! Chove. Sobre a cidade geme a chuva. Batem-lhe os nervos. sacudindo-o todo.

Recebiam os cuspos do desprezo. Com os ligamentos glóticos precisos. Como um cara.NOITE DE UM VISIONÁRIO Número cento e três. por ver-vos. E a ela se aliava o ardor das sirtes líbias.Dizia.“Que esta alucinação tátil não cresça!” -. A essa hora. 169 . E eu sí a tremer com a língua grossa E a volição no cúmulo do exício. alto. íntegra. e erguia. nas telúrias reservas. e absorve em cada viagem Minh’alma -. recebendo injúrias. Arimânico gênio destrutivo Desconjuntava minha autônoma alma Esbandalhando essa unidade calma. sob os pés do orgulho humano. Que forma a coerência do ser vivo. Cortanto o melanismo da epiderme. É a potencialidade que me eleva Ao grande Deus. Eu tinha a sensação de quem se esfola E inopinadamente o corpo atola Numa poça de carne liquefeita! -. banhava minhas tíbias. O reino mineral americano Dormia. Com a rebeldia acérrima dos nervos Minha atormentadíssima cabeça. Como quem é levado para o hospício Aos trambolhões. num canto de carro.ca! Perante o inexorável céu aceso Agregações abióticas espúrias. E a cimalha minúscula das ervas. oh! céu. lhe entregue. E não haver quem. Mas a aguadilha pútrida o ombro inerme Me aspergia. Rua Direita.este sombrio personagem Do drama panteístico da treva! Depois de dezesseis anos de estudo Generalizações grandes e ousadas Traziam minhas forças concentradas Na compreensão monística de tudo.

o ancilóstomo. A química feroz do cemitério Transformava porções de átomos juntos No óleo malsão que escorre dos defuntos. em diástoles de guerra. Onde minhas moléculas sofriam. Um necrófilo mau forçava as lousas E eu -. Dedos denunciadores escreviam Na lúgubre extensão da rua preta Todo o destino negro do planeta. lembravam Toalhas molhadas sobre as minhas pernas. A ínfima fauna abscôndita e grotesca Da família bastarda dos helmintos. Um pedaço de língua disponível Para a filogenética vingança! A cidade exalava um podre béfio: Os anúncios das casas de comércio. O motor teleológico da Vida Parara! Agora. Pareciam talvez meu epitáfio. Mais tristes que as elegais de Propércio. As vegetalidades subalternas Que osserenos noturnos orvalhavam. com o ar horrível. o colpode E outros irmãos legítimso da ameba! E todas essas formas que Deus lança No Cosmos. Pela alta frieza intrínseca. E no estrume fresquíssimo da gleba Formigavam. O vibrião. com a símplice sarcode. úmida e fresca.A liberdade de vingar em risos A angústia milenária que o persegue! Bolia nos obscuros labirintos Da fértil terra gorda.coetâneo do horrendo cataclismo -Era puxado para aquele abismo No redemoinho universal das cousas! 170 . me pediam. Vinha do coração quente da terra Um rumor de matéria dissolvida. Com a abundância de um geyser deletério.

foi transpondo a porta. Abandonada aos lobos e aos leopardos Numa floresta lúgubre e esquisita. nunca visto Tauxiava o Céu de grandes roxos Da mesma cor da túnica de Cristo. Foram caindo como estalactites Sobre o ouro e a prata das alfaias priscas 171 . Uma vez. Em atalaia às gerações passadas! Um crepúsculo imenso. nos altares esboroados. aos lampejos derradeiros Das irisadas vespertinas velas. Súbito alguém.. funeral mesquita.. se desenrolava A esteira astral da retração etérea. Era uma viúva. . A Lua encheu o espaço sem limites E. a viúva. Eternamente aberta ao sol e à chuva. Feras rompiam tolos e balseiros.A VITÓRIA DO ESPÍRITO Era uma preta. dentro. ampla e brilhante.Um vento frio começou gemendo. Parou em frente da mesquita morta. e o olhar errante. E pelas catacumbas desprezadas. Fulgia em tudo uma estriação violeta E um violáceo clarão banhava os mochos Que em torno estavam da mesquita preta. Os astros mortos refulgiam vivos E a noite. Engalanava-lhe as paredes frias Uma coroa de urzes e de cardos Coberta em pálio pelas laçarias. Já na eminência da amplidão sidérea Como uma umbela. Mochos vagavam como sentinelas. rutilava Lantejoulada de opalinos crivos. Em passo lento. o passo constrangendo.

E havia no atro olhar dessas panteras Essa alegria doida da carnagem Que é a alegria única das feras. O espírito da viúva se quedara Ao contemplar dessa fulgente porta E dessa clara e alva redoma aérea. Estrugiam canções desesperadas De misereres e de sustenidos. E iam cair em pérolas de sangue Sobre as asas doiradas das abelhas. infernais ardendo Todas as feras. entretanto. Tiram-lhe todas ali mesmo a vida. arremetendo. na redoma clara Que envolve a porta da região etérea. entanto. E ardendo na impulsão das ânsias doidas E em sevas fúrias. as panteras todas Avançam para a viúva desvalida.O próprio Deus cantava na floresta! Nos arvoredos rejuvenescidos. Fora. Morria a noite. No desfilar de sua carne morta A transitoriedade da matéria! 172 . Como uma exposição de carnes vivas. E sobre o corpo da viúva exangue. por um chão de onagras Vinha passeando corno numa viagem Um grupo feio de panteras magras. E raivosas. contra ela.Um dilúvio de fósforos prateados E uma chuva doirada de faíscas. Além. As flâmulas altivas Do sol nascente erguiam-se vermelhas. A Natureza celebrava a festa Do astro glorioso em cantos e baladas .

Sente vontade de cair de joelhos! Soa o rumor fatídico dos ventos. Verde. partindo e fraturando os braços Nas pontas escarpadas dos rochedos! Mas de repente. 173 . Rica... em plena podridão. E ao longe soam trágicos fracassos De heróis.. brilha A árvore da perpétua maravilha. num enleio doce.. A saudade interior que há no meu peito...A ILHA DE CIPANGO Estou sozinho! A estrada se desdobra Como uma imensa e rutilante cobra De epiderfe finíssima de areia. Atravessando os ares bruscamente.. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas. Pára. afetando a forma de um losango. Assim.. trêmulo.. exata. Na ilha encantada de Cipango tombo. ao sol. Impressionado sem cessar com a Morte E sentindo o que um lázaro não sente. pela vez primeira. em luz perpétua. Ofereço Preces a Deus de amor e de respeito E o Ocaso que nas águas se retrata Nitidamente repdoruz. tenho alucinações de toda a sorte. À cuja sombra descansou Colombo! Foi nessa ilha encantada de Cipango. Os olhos volvo para o céu divino E observo-me pigmeu e pequenino Através de minúsculos espelhos. no meio. entre assombros. Anunciando desmoronamentos De mil lajedos sobre mil lajedos. passeia! A agonia do sol vai ter começo! Caio de joelhos.. E por essa finíssima epiderme Eis-me passeando como um grande verme Que. quem diante duma cordilheira. Da qual. Qual num sonho arrebatado fosse. ostentando amplo floral risonho.

. E como agora a lua cheia brilha! Ilha maldita vinte vezes a ilha Que para todo o sempre me fez triste! 174 . Iríamos a um país de eternas pazes Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha.. A tarde morre. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio..Que Toscanelli viu seu sonho extinto E como sucedeu a Afonso Quinto Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho! Lembro-me bem.... Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos! E a treva ocupa toda a estrada longa. E finalmente me cobri de flores. A luz descreve siguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Gozei numa hora séculos de afagos. O Firmamento é uma caverna oblonga Em cujo fundo a Via-Láctea existe. Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrioi! Um penetrante e corrosivo frio Anestesiou-me a sensibilidade E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro.. Passa o seu enterro!. Banhei-me na água de risonhos lagos..

Espelham-se os esplendores Do céu. Vai uma onda. as esconda. Lá onde as rochas se assentam Fulguram como outros sóis Os flamívomos faróis Que os navegantes orientam. de cima. em reflexos.globo de louça Surgiu. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas. Se um cai.. nas Águas. Quem as esconda. O Céu. A Lua . Cantam! Os astros do Céu Ouçam e a Lua Cheia ouça! 175 . em lúcido véu. outro cai.BARCAROLA Cantam nautas. esse vai Para o túmulo que o cobre.. Mas desgraçado do pobre Que em meio da Vida cai! Esse não volta. Em fulvos filões doirados Cai a luz dos astros por Sobre o marítimo horror Como globos estrelados. a luzir Como um diamante de Ofir Imita a curva de um arco. fingindo cristais Das mais deslumbrantes cores. Vagueia um poeta num barco. vem outra onda E nesse eterno vaivém Coitadas! não acham quem. Alegoria tristonha Do que pelo Mundo vai! Se um sonha e se ergue. outro se ergue e sonha.

"Sonhador do último sonho! "Numa redoma ilusória "Cercou-te a glória falaz. nunca mais "Há de cercar-te essa glória! "Nunca mais! Sê. Mais um coveiro do Verso! Cantam flautas.Ouça do alto a Lua Cheia Que a sereia vai falar.. "Mas nunca mais.. "O poeta é como Jesus! "Abraça-te á tua Cruz "E morre... Sua voz é igual à voz Das dores todas do mundo. Haja silêncio no mar Para se ouvir a sereia. Súbito o barco tombou Sem que o poeta o pressentisse! Vista de luto o Universo E Deus se enlute no Céu! Mais um poeta que morreu.E disse e porque isto disse O luar no Céu se apagou. "Viajeiro da Extrema-Unção. E como um requiem profundo De tristíssimos bemóis. Que é que ela diz?! Será uma História de amor feliz? Não! O que a sereia diz Não é história nenhuma. "Fecha-te nesse medonho "Reduto de Maldição.. forte. poeta da Morte!" . porém. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas! 176 ..

Que apouca o triunfo e que se chama sangue. essa bendita e branca Luz que os negrores da opressão espanca. fazei que destes brilhos. . oh! Redentora d'alma. Não! que esse ideal puro. levando ao mundo inteiro. Caia do santuário lá da História. Rola um drama que a Pátria exalça e doura Numa auréola de paz imorredoura. Da República a nova sublimada. esplendorosa. Fulgente do valor da vossa glória. A República rola-lhe nos ombros. A Liberdade assoma majestosa. oh Pátria.Estrela d'Alva imaculada e pura! É livre a Pátria outrora opressa e exangue! Esse labéu que mancha a glória pública. A bênção do valor dos vossos filhos! 177 . Vós. É que baqueia a vida escravizada! Já se ouvem os clangores do pregoeiro.AVE LIBERTAS Ao clarão irial da madrugada. Enquanto fora na trevosa agrura Sucumbe o servilismo. e. E ali do despotismo entre os escombros. Oh! Liberdade. Há de transpor sereno os penetrais Da Pátria. Como um Tritão. Banhou-se o coração do Brasileiro Num eflúvio de luz auroreada. Da liberdade ao toque alvissareiro. Essa luz etereal bendita e calma. pois. Manchar não pode as aras da República. risonho. e há de elevar-se neste sonho Ao topo azul das Glórias Imortais! Esplende.

ESTROFES SENTIDAS Eu sei que o Amor enche o Universo todo E se prende dos poetas à guitarra Como o Pólipo que se agarra ao lodo E a ostra que às rochas eternais se agarra. 178 . E o Sol arranca as minhas crenças como Boucher de Perthes arrancava fósseis. Aves de várias cores e de várias Espécies.. vendo o horror dos meus destroços.Mas hoje. Uniformiza todos os anelos E une organizações fortes e fracas Nos mesmos laços e nos mesmos elos. O amor reduz-nos a uniformes placas. Estremecendo em suas próprias bases. A Natureza veste extraordinárias Roupagens de ouro. Na área em que estou. E em qualquer parte do Universo veja Sombrias ruínas de um solar egrégio E o desmoronamento duma Igreja Despedaçada pelo sacrilégio. Uma montanha que se desmorona. Tenho vontade de estrangulá-lo E reduzi-lo muitas vezes a ossos! Todo o ser que no mundo turbilhona Veja do Amor. à luz das minhas frases. nas oliveiras. Eleito Deus no altar do fetichismo! Tudo sacrifiquei para adorá-lo . Por muito tempo eu lhe sorvi o aroma. sem prever o abismo Fiz desse amor um ídolo de Roma.. A compreensão da minha niilidade Aumenta à proporção que aumenta o dia E pouco a pouco o encéfalo me invade Numa clareza de fotografia. ao matinal assomo. E. cantam óperas inteiras. Além. desvairado. Passa um rebanho de carneiros dóceis.

Observo então a condição tristonha Da Humanidade. heroicamente. Como Tirteu na guerra de Messênia! Transponho assim toda a sombria escarpa Sinistro como quem medita um crime. Tal qual ela é. ébria de fumo e de ópio. sinto um violento Rancor da Vida . construindo corpos quase informes E aquilo que é uma parcela apenas. À sombra dum verdoengo tamarindo Que representa a minha infância morta! 179 .. à nitidez real dos aspectos. Ver mastodontes onde há mastodontes E insetos ver onde há somente insetos. E quando a Dor me dói. eu vou cantando a nênia Do Amor que eu tive e que se fez argila. demonstrando-a.este maldito monstro Que no meu próprio estômago alimento! Nisto a alma o oficio da Paixão entoa E vai cair. A inanidade da Ilusão demonstro Mas. tanjo minha harpa E a harpa saudosa a minha Dor exprime! Estes versos de amor que agora findo Foram sentidos na solidão de uma horta. à frente dele. Da observação nos elevados montes Prefiro. na água Da misteriosíssima lagoa Que a língua humana denomina Mágoa! Dos meus sonhos o exército desfila E.. e não tal qual a sonha E a vê o Sábio pelo telescópio. O Sábio vê em proporções enormes Aquilo que é composto de pequenas Partes.

altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra! O Sol está moribundo.CANTO ÍNTIMO Meu amor. em sonhos. Ah! Se me ouvisses falando! (E eu sei que ás dores resistes) Dir-te-ia coisas tão tristes Que acabarias chorando. Que o amor abriu no meu peito. se duvidas. Onde há sonhos inefáveis Vejo os vermes miseráveis Que hão de comer os meus braços. Vem cá. olha estas feridas. Passo longos dias. em sonhos erra. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra!" 180 . Muito longe. Muito longe. Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois. Não me queixo mais da sorte Nem tenho medo da Morte Que eu tenho a Morte em mim mesmo! "Meu amor. erra. Um grande recolhimento Preside neste momento Todas as forças do Mundo. De lá. a esmo. dos grandes espaços.

agonia. abraça a sombra e. o louco. agonia bendita! . . sinto A insaciabilidade desse gozo! 181 . Numa prece de amor. Neve da minha dor.. neve do meu destino! E eu aqui a chorar nesta noite tão fria! Agonia. agonia... agonia! . Caminha e vai. Sem um domingo ao menos de repouso. Nos desertos da Vida uma estrela fulgura E o Viajeiro do Amor.. escuridão e eterna claridade. e o sofrimento De minha mocidade. ontem.Misto de infinita mágoa e de crença infinita. a sós.. Na insaciedade desse gozo falho Busco no desespero do trabalho. uma nuvem que corre. Fazer parar a máquina do instinto. Delícia que ainda gozo. Agonia de amar... e vê a luz e vendo Uma sombra que passa.Calor que hoje me alenta e há de matar-me em breve.. Amor.Que eu nunca chore assim! Que eu nunca chore como Chorei. Queimam-me o peito cáusticos de fogo Esta ânsia de absoluto desafogo Abrange todo o circulo infinito. experimento O mais profundo e abalador atrito. neve. oração.CANTO DE AGONIA Agonia de amor. triste. e entre sorrisos e entre Mágoas soluço. numa delícia infinda. Mas. quanto mais me desespero. num volutuoso assomo. vendo-a. Frio que me assassina. Neve que me embala como um berço divino. prece que ainda Entre saudades rezo.Diz e morre-lhe a voz. murmura: . agonia bendita! GOZO INSATISFEITO Entre o gozo que aspiro. e cansado e morrendo O Viajeiro vai. morre! E a alma se lhe dilui na amplidão infinita. até que esta dor se concentre No âmago de meu peito e de minha saudade. amor e frio.

lúgubre e só. a superfície bruta. Para as bordas fatais dum precipício fundo! Quis um momento ainda olhar para o Passado. do alegre Sol ao grande globo quente E pôs-se para aí.. aclara o mar e por tudo se estende E arde em tudo. e entre o Hércules de outrora! Pois havia de assim. Mas o braço cansou! Trabalhou.HISTÓRIA DE UM VENCIDO I Sol alto.. Rasgando.. desoladoramente A revolver da terra o atro e infecundo arcano. trôpego e cambaleando Foi-se arrastando. funéreo 182 . do agro solo. A terra escalda: é um forno. foi aos poucos se arrastando. E em tudo que o rodeava. alta e descompassada A dura vibração incômoda da enxada. Por seis horas seu braço empenhado na luta.O Hércules que ele fora! O fraco que ele hoje era! E surpreendido viu que um abismo se erguera Entre o fraco que era hoje. oito vezes. acende O pó.Do Eterno Bem motor principal e alavanca Arrancara-lhe a Crença assim como se arranca De um ninho a seda branca e de uma árvore o galho! Sangrou-lhe o coração a saudade da Aurora! . Fez reboar pelo solo. E o Velho veio para o labor cotidiano. mordendo a atra terra infecunda. Triste. e o trabalho . A flama oriunda Da solar refração bate no mundo. nesta maldita senda De sofrimento ignaro em sofrimento ignaro Ir caminhando até tombar sem um amparo No tremendo marneI da Desgraça tremenda?! II Noute! O silêncio vinha entrando pelo mundo E ele..

Horrorizado viu como num cemitério Cadáveres de um lado e cinzas de outro lado! De súbito. os filhos. pois! Somente morreria Se da Vida. onde arde e floresce a Crença. Somente entre a negrura atra da terra poenta Alguém beija. e o braço Pendeu exangue.. ninguém o acalenta. a flux d'água. no horror bruto da despedida Abraçou-se com a Dor. abraçou-se com a Vida E sepultou-se ali no coração das águas! Cantavam muito ao longe uns carmes doloridos! Eram tropeiros. avistando uma frondosa tília Julgou. o acalenta. Que mal lhe haviam feito a esposa e a irmã e os filhos?! Preciso era viver! Portanto... Quis fazer um esforço . E bateram-lhe então de chofre na lembrança A casa que deixara. e a sonhar. era a turba trovadora Que assim cantava. viveria! Viveria! E a fecunda e deleitosa seara Verde dos campos. a rugir-lhe aos pés. E amplo.. ele pisasse os trilhos. o precipício estava. Num instante viu tudo... alguém vela o cadáver: a Lua! 183 .. avistar a Árvore da Esperança. Nem viu que era chegado o termo da viagem. e compreendendo tudo. enquanto a Terra Vencedora Celebrava ao luar a Missa dos Vencidos! E o cadáver. Caminhava.o último esforço. e ele quis falar e estava mudo! Mudo! E a quem contaria agora as suas mágoas?! E trágico. o peito arqueou-se. Compensaria toda a sua dor imensa Tal qual o Céu a dor de Cristo compensara! E aos tropeços. flutua! Ninguém o vê. o cansaço Empolgara-o. louco. sozinho. a toa. bêbado de miragem.. tombando. o Velho caminhava. a família! Não morreria.

. E há no meu peito .. E a Noite emerge.IDEALIZAÇÕES A Santos Neto I Em vão flameja. santa e vitoriosa Dentre um velarium de veludos. Raios flamejam e fuzilam ígneos. e o meu pesar se eleva E chora e sangra..eis tudo! E no meu peito . pompeiam (triste maldição!) .Crepúsculo fatal vindo do Nada! Que importa o Sol! A Treva. e. Nas chispas fulvas de um vulcão violento! E tudo em vão! Atrás da luz dourada. sangrento O sol. mudo. A VIa-Láctea vai abrindo os braços! Áureas estrelas.. a Sombra . fulvos. Na majestade dum condor bendito. ígneo. Descem os nimbos. Martirizado porque nunca dorme As Sete Chagas dum martírio enorme. Trazem no peito o branco das manhãs 184 .. mudo. E os Sete Passos que magoaram Cristo! II Agora dorme o astro de sangue e de ouro Como um sultão cansado! As nuvens como Odaliscas. rubro.Asas de corvo pelo coração. Legiões de névoas mortas e finadas Como fragmentações d'ouro e basalto Lembram guirlandas pompeando no Alto Eterizadas. No ar há malabatros Turiferando a negridão tediosa. luminosas. mudo. volaterizadas. aos astrais desígnios. Subindo á majestade do Infinito. dourando as névoas dos espaços. Atros. .ocaso nunca visto. Além.condensada treva A sombra desce. alvas.. da Noite ao negro assomo Beijam-lhe o corpo ensangúentado d'ouro. Negras.

. se tornassem ferros?! IV Poeta. 185 . se. A Mágoa ferve e estua. a Aurora. lodo. Como Herculanum foi após as chamas. o tigre. O leão. Eu amo a noite que este Sol arranca! Namoro estrelas.. em lodo tudo acaba. em vão na luz do sol te inflamas. Abençoada pela Eternidade! E ei-lo de novo. e hás de ser após as chamas. ontem moribundo. Tudo por fim há de acabar na mesma Tênebra que hoje sobre ti desaba. Sírius me deslumbra. aclarando os cerros E engalanando os arvoredos gaios. III De novo. á luz áurea que dele Emana e estua e se refrange e ferve. se triste em cada Raio que tomba no marnel da terra. curvo ao seu destino. de que serve. como tombou outrora.E dormem brancas corno leviatãs Sobre o oceano astral das nebulosas. em plena e fulva reverberação. Mais em meu peito uma ilusão se enterra. E nessa luz queimas4e em vão! És todo Pó. Fantástico. assassino Ébrio de fogo. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca. há-de Alva. E corno a Aurora .hóstia da Aurora. ciclópico. dominando o mundo! Mas de que serve o Sol. o mastodonte. entre esplendores. Mais em minh'alma um desespero brada?! De que serve. se erguer. como se esses raios N'alma caindo.o Sol . Ninguém se exime dessa lei imensa Que. se. A alma se abate. Vésper me encanta. Ah! Como tu. de que serve Se é desespero e maldição todo ele?! Pois. Hoje de novo. a lesma.

Geme a pungente orquestração noturna E chora a fanfarra triunfal da Morte. Eu amo a Noite que este Sol arranca! Namoro estrelas... de ossos. Pelos rochedos. sobe ao pedestal. de ilusões te nutres.. Então. banha As serranias duma luz estranha. foi valas funerais deixando. Ergue. a Lua que no céu se espalha. como abutres Medonhos.Arrasta as almas pela Escuridão. pois poeta. Harpas concertam! Brandas melodias Plangem. e num supremo e insano E extraordinário e grande e sobre-humano Esforço. Silêncio! Mas de novo as harpas Reboam pelo mar. E em vez de chagas e de cicatrizes Deixar. E arrasta os coraç5es pela Descrença. Canto. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca! 186 . frias. Medonhas valas. Como recordação da festa diurna. pelas escarpas.Fera rendida à música divina. Vésper me encanta. Sírius me deslumbra. e minh'alma cobre-se de flores . Iluminando as serranias. E foi deixando essas funéreas... pelas penedias.. onde. Vives de cinzas e de ruinarias! V Agora é noite! E na estelar coorte. um pedestal de tanta Treva e dor tanta. e.. canta! Canta a Descrença que passou cortando As tuas ilusões pelas raízes. Alva corno um pedaço de mortalha! Nessa música que a alma me ilumina Tento esquecer as minhas pr6prias dores..

Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Por que cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício.... 187 . A dispersão dos sonhos vagos reuno. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido Como um bemol e como um sustenido Rola impetuosa por meu peito adentro?! .. triunfalmente. E invejo o sofrimento desta Santa. Em cujo olhar o Vicio não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse... nos céus altos. Desta cidade pelas ruas erra A procissão dos Mártires da Terra Desde os Cristãos até Giordano Bruno! Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta. eu também vou passando Sonâmbulo.. Depois de embebedado deste vinho. logo Toda a alvorada esplêndida se ostenta. Por que não evitei o precipício Estrangulando minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! À proporção que a minha insônia aumenta Hierógafos e esfinges interrogo. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim.. em mágoa. sonâmbulo. sonâmbulo. Mas.INSÔNIA Noite.Por que é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ou mapa-múndi estranha.

hedionda. Outra vez serei pábulo do susto E terei outra vez de. O Sol. Em que o Tédio. os corimbos. batendo na alma.. as flores. porém. As árvores. Com o olhar a verde periferia abarco.. Restitui-me a pureza da hematose E então uma interior metamorfose Nas minhas arcas cerebrais se opera. por exemplo. No espaço a luz de Aldebarã e de Árgus Vai projetando sobre os campos largos O derradeiro fósforo da Vida. O odor da margarida e da begônia Subitamente me penetra o olfato. Cercado destas árvores. o funerário. Agora. em mágoa imerso. Estou alegre.. Incensa o ambiente o fumo dos cachimbos. contemplo As maravilhas reais do meu Pau d'Arco! Cedo virá. Atro dragão da escura noite. Recordam santos nos seus próprios nichos. Sacrificar-me por amor do Verso No meu eterno leito de Procusto! 188 .Vagueio pela Noite decaída. Aqui. neste silêncio e neste mato. estronda Como um grande trovão extraordinário. Respira com vontade a alma campônia! Grita a satisfação na alma dos bichos.. equilibrando-se na esfera.

certo. o arquitetural e íntegro aspecto 189 . Olho-o.MISTÉRIOS DE UM FÓSFORO Pego de um fósforo. por outra. e na ínfima ânfora. Presto. amorfo e lúrido. são dois Túmulos dentro de um carvão promíscuo. A nutrir diariamente os fetos nus Pelas vilosidades da placenta? Certo. harto. aparece. ébrio. Dois são. Todos os organismos são oriundos. porque um."Cinza. Olho-o ainda. "Onde os ventres maternos ficam podres. "Miniatura alegórica do chão. irrupto. é mais de um. "Onde nenhuma lâmpada se acende. E o que depois fica e depois Resta é um ou.Mucosa nojentíssima de pus. Mergulho. é do sonho assíduo Que a individual psique humana tece e O outro é o do sonho altruístico da espécie Que é o substractum dos sonhos do indivíduo! E exclamo. barro. Risco-o Depois. síntese má da podridão. "Meu raciocínio sôfrego surpreende "Todas as formas da matéria gasta!" Raciocinar! Aziaga contingência! Ser quadrúpede! Andar de quatro pés E mais do que ser Cristo e ser Moisés Porque é ser animal sem ter consciência! Bêbedo. "Na tua clandestina e erma alma vasta. por epigênese geral. a esvaziar báquicos odres: . sinto O amargor especifico do absinto E o cheiro animalíssimo do parto! E afogo mentalmente os olhos fundos Na amorfia da cítula inicial. ante Minha massa encefálica minguante Todo o gênero humano intra-uterino! É o caos da avita víscera avarenta . através ovóide e hialino Vidro. os beiços na ânfora ínfima. De onde.

Teus gineceus prolíficos envolvem Cinza fetal!. na terra instável.Do mundo o mesmo inda e. em segredo. Na síntese acrobática de um salto. de agulhas e de pregos?! Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis! Dentro um dínamo déspota. Depois.. é todo aquele Que vem de um ventre inchado. o que nele Morre. Que mão sinistra e desgraçada encheu Os olhos tristes que meu Pai me deu De alfinetes. De minha antropocêntrica matéria Numa côncava xícara funérea Uma colher de cinza miserável! Abro na treva os olhos quase cegos. Migalha de albumina semifluida. Então. Move todos os meus nervos vibráteis. que. é o céu abscôndito do Nada. De onde o desprotegido homem nasceu Para a fatalidade dos tropismos. atender Ao pedido da célula cansada! Um dia restará. Se escapa. muito alto. O espectro angulosíssimo do Medo! Em cismas filosóficas me perco E vejo. cósmico zero. Vida. sois vós. como nunca outro homem viu. Na anfigonia que me produziu Nonilhões de moléculas de esterco. ínfimo e infecto! É a flor dos genealógicos abismos . Sob a morfologia de um moinho. mônada vil. Basta um fósforo só Para mostrar a incógnita de pó. sozinho. dentre as tênebras. Que fez a boca mística do druida E a língua revoltada de Lutero. do meu espírito. ora. Em que todos os seres se resolvem! 190 ..Zooplasma pequeníssimo e plebeu. E este ato extraordinário de morrer Que há de na última hebdômada. sou eu.

Adeus! Que eu veio enfim. Na aclamação simbiótica do gozo! O enterro de minha última neurona Desfila. E eis-me outro fósforo a riscar. De onde quimicamente tu derivas.Ah! Maldito o conúbio incestuoso Dessas afinidades eletivas. E esse acidente químico vulgar Extraordinariamente me impressiona! Mas minha crise artrítica não tarda... com a alma vencida Na abjeção embriológica da vida O futuro de cinza que me aguarda! 191 .

As borboletas e os escaravelhos Beijam-se no ar. Troa o conúbio dos amores velhos . Sinos além bimbalham.. e dos Capitólios Aos claros pulcros e brilhantes sólios De esplendor pulcro e de fulgências claras. lembras. E. Sobes ao monte onde o edelweiss pompeia Nalma do que subiu àquele monte! Mas.Estas multidões Sonham pátrias doiradas de ilusões Entre os tórculos negros da Desgraça . davas brandindo em seva e insana Fúria. chora e se lamenta e vibra. tangendo tiorbas em volatas. Rendilhados de fulvas gemas raras E pontilhados de crisoberilos.ODE AO AMOR Enches o peito de cada homem. Amor. medras Nalma de cada virgem. 192 .Flores que tombam quando a neve passa No turbilhão das avalanches bravas! Tudo dominas! Dos vergéis tranqüilos Aos Capitólios. e toda a alma Enches de beijos de infinita calma. . Cantas a Vida que sangrando matas.. vezes. E em tudo estruge a tua dúlia . a soberana Imagem pétrea das montanhas duras. Beijam-te o passo multidões escravas Dos Desgraçados! . Ora. bate nos granitos E quebra as rochas e arrebenta as pedras! És soberano! Sangras e torturas! Ora.. E o aroma dos teus beijos infinitos Entra na terra. desces ao segredo insonte Do mar profundo onde a sereia canta E onde a Alcíone trêmula se espanta Ouvindo a gusla crebra da sereia! Rompe a manha. . quietos Beijam-se além os silfos e os insetos Sob a esteira dos campos que se orvalham. Retroa o sino..dúlia Que na fibra mais forte e até na fibra Mais tênue.

Eis o motivo porque fiz esta ode. pois. eis-me de ti cativo! Cativaste-me. . Quedo.E em cada peito onde um Ocaso chora Levanta a cruz da redenção da Aurora Como a Judite a redimir Betúlia! Bem haja. Irene. Assim. Egrégia estavas no teu plaustro egrégio Mais bela do que a Virgem de Corrégio E os quadros divinais de Guido Reni! Qual um crente em asiático pagode. esse poder terrível. Entre timbales e anafis estrídulos. ontem. fosforeando. beija os áureos pés dos ídolos. Irene. Cativo. sonhei-a. aos astros.Enorme força regeneradora Que faz dos homens um leão que dorme E do Amor faz uma potência enorme Que vela sobre os homens. Irene.Essa dominação aterradora . e eis o motivo. quando Entre estrias de estrelas. 193 . impassível! Esta de amor ode queixosa.

irritado. Dentro. berrar. No horror da metalúrgica batalha O ferro chiava e ria! Ria. a ouvir Cada átomo de ferro Contra a incude esmagado Sofrer. O éter possuía A térmica violência de um braseiro. Quase com febre.NUMA FORJA De inexplicáveis ânsias prisioneiro Hoje entrei numa forja. erguido do pó. Onde a Matéria avança E a Substância caminha Aceleradamente para o gozo Da integração completa. provinha Como de um negro cáspio de água impura A multissecular desesperança De sua espécie abjeta Condenada a uma estática mesquinha! Ria com essa metálica tristeza De ser na Natureza. num sardonismo doloroso De ingênita amargura. bruta. Uma consciência eternamente obscura! O ferro continuava a chiar e a rir. Compreendia por fim que aquele berro À substância inorgânica arrancado Era a dor do minério castigado Na impossibilidade de reagir! Era um cosmos inteiro sofredor. ao meio-dia. tinir. a cuspir escórias De fúlgida limalha Dardejando centelhas transitórias. Cujo negror profundo Astro nenhum exorna Gritando na bigorna Asperamente a sua própria dor! Era. Trinta e seis graus à sombra. Da qual. E eu nervoso. Inopinadamente 194 .

. Agarrados à inércia do Inorgânico Escravos da Coesão! Repuxavam-me a boca hórridos trismos E eu sentia.Para que à vida quente Da sinergia cósmica desperte. Cheia de ânsias e medos Com crispações nos dedos Piores que os paroxismos Da árvore que a atmosfera ultriz destronca. em lúgubre crescendo A antífona assimétrica E o incompreensível wagnerismo aziago De seu destino horrendo! Ao clangor de tais carmes de martírio Em cismas negras eu recaio imerso Buscando no delírio De uma imaginação convulsionada Mais revolta talvez de que a onda atlântica Compreender a semântica Dessa aleluia bárbara gritada Às margens glacialíssimas do Nada Pelas coisas mais brutas do Universo! 195 . Cansado de estar só! Era a revelação De tudo que ainda dorme No metal bruto ou na geléia informe No parto primitivo da Criação! Era o ruído-clarão. Essa angústia alarmante Própria de alienação raciocinante.O ígneo jato vulcânico Que. afinal. A ansiedade de um mundo Doente de ser inerte. A ouvir todo esse cosmos potencial. Punha em ciarividência Intramoleculares sóis acesos Perpetuamente às mesmas formas presos. atravessando a absconsa cripta enorme De minha cavernosa subconsciência. Preso aos mineralógicos abismos Angustiado e arquejante A debater-se na estreiteza bronca De um bloco de metal! Como que a forja tétrica Num estridor de estrago Executava.

Assim como Jesus. Aperta-me em teu peito.Relíquias de Carrara Têm a ambrosia rara Da mais rara verbena. Morreu-te a redolência. Embala-me em teus braços! 196 . De amores bons à sombra Quero em cheirosa alfombra Pousar os sonhos lassos! Teus seios.. Eu quero o meu Calvário .QUADRAS Embala-me em teus braços.Anelo morrer vário Dos braços teus na Cruz! Porque não me confortas?! Bem sei. perdeste a ciência. divina. Aperta-me em teu peito. De lírios e boninas Um veludíneo leito. E dá-me assim.. oh! morena . Alma das virgens mortas Mas não! Apaga os traços De tão funesto aspeito.

Tenho 300 quilos no epigastro.. O hemisfério lunar se ergue e se abaixa Num desenvolvimento de borracha.. tonta Sinto a cabeça e a conta perco. A conta recomeço.Uma. em ânsias: . e.. três. Nos engenhos da várzea não existe Talvez um outro que se lhe equipare! Do observatório em que eu estou situado A lua magra. Vista. através do vidro azul. Aumentam-se-me então os grandes medos. Agora a cara do astro Lembra a metade de uma casca de ovo. Mas novamente eis-me a perder a conta! 197 .TRISTEZAS DE UM QUARTO MINGUANTE Quarto Minguante! E. 3 de maio. No bruto horror que me arrebata. de enterrar-me todo Naquele semicírculo medonho! Mas tudo isto é ilusão de minha parte! Quem sabe se não é porque não saio Desde que. Eu escrevi os meus Gemidos de Arte?! A lâmpada a estirar línguas vermelhas Lambe o ar... em suma.. quando a noite cresce.. quatro. embora a lua o aclare. Variando à ação mecânica dos dedos! Vai-me crescendo a aberração do sonho. Diabo! Não ser mais tempo de milagre! Para que esta opressão desapareça Vou amarrar um pano na cabeça1 Molhar a minha fronte com vinagre. 6.. Morde-me os nervos o desejo doudo De dissolver-me. parece Um paralelepípedo quebrado! O sono esmaga o encéfalo do povo. Como um degenerado psicopata Eis-me a contar o número das telhas! .Uma.ª-feira. Este Engenho Pau d'Arco é muito triste. E aos tombos. Dói-me a cabeça. duas.

. A luz fulge abundante 198 .. Começo a ver coisas de Apocalipse No triângulo escaleno do ladrilho! Deito-me enfim. Um frio Cai sobre o meu estômago vazio Como se fosse um copo de sorvete! A alta frialdade me insensibiliza. Elevam-se fumaças Do engenho enorme. Vêm-me á imaginação sonhos dementes.. Meu tormento é infindo. Ponho o chapéu num gancho. .vis raízes adventícias No algodão quente de um tapete persa. Caem-me de uma só vez todos os dentes! Então dois ossos roídos me assombraram. A lua é morta. Súbito me ergo. Minha família ainda está dormindo E eu não posso pedir outra camisa! Abro a janela. O suor me ensopa. ... Por muito tempo rolo no tapete. Antegozando as últimas delicias Mergulho as mãos . Tomba uma torre sobre a minha testa. Choro e quero beber a água do choro Com as mãos dispostas á feição de conchas. Acho-me.Estarei morto?! E a esta pergunta estranha Responde a Vida .. por exemplo.Sucede a uma tontura outra tontura. numa festa..aquela grande aranha Que anda tecendo a minha desventura! A luz do quarto diminuindo o brilho Segue todas as fases de um eclipse.. Cinco lençóis balançam numa corda. E o amontoamento dos lençóis desmancho. Mas aquilo mortalhas me recorda."Por ventura haverá quem queira roer-nos?! Os vermes já não querem mais comer-nos E os formigueiros lá nos desprezaram".. Tal urna planta aquática submersa. Figuras espectrais de bocas tronchas Tornam-me o pesadelo duradouro..

A ouvir. De mim diverso. numa última cobiça. cheia de adubos. Vários reptis cortam os campos. a terra resfolega Estrumada. no ato da entrega Do mato verde. rígido e de rastos Com a solidez do tegumento sujo Sulca. o solo um caramujo Naturalmente pelos mata-pastos. oh! Vida em que a sofrer me exortas Eu estaria como as bestas mortas Pendurado no bico dos abutres! 199 . Babujada por baixos beiços brutos. A fatia esponjosa de carniça Que os corvos comem sobre as jurubebas! Porque. radiante e estriado. longe do pão com que me nutres Nesta hora. o céu. Côncavo. hierática. observa A universal criação. cheios Dos tenros tinhorões e da úmida erva. se ostenta A monarquia da árvore opulenta Que dá aos homens o óbolo dos frutos. Pelos respiratórios tênues tubos Dos poros vegetais. feliz. nestes bucólicos retiros Toda a salva fatal de 21 tiros Que festejou os funerais de Hamleto! Ah! Minha ruína é pior do que a de Tebas! Quisera ser. No húmus feraz. passei o dia inquieto. Broncos e feios. em diâmetro.E em vez do sepulcral Quarto Minguante Vi que era o sol batendo nas vidraças. Entretanto.

. Mãos adúlteras. Que apalpam e olham com lascfvia e gozo A pureza dos corpos infantis. E à noite. Mãos que adquiriram olhos.. mãos mais sanguinárias E estupradoras do que os bisturis Cortando a carne em flor das crianças mortas. vão cheirar. tentáculos sutis. Umas. Monstruosíssimas mãos.. Mãos de linhas análogas e anfratos Que a Natureza onicriadora fez Em contraposição e antagonismo Às da estrela. pituitárias Olfativas. em sangue.MÃOS Há mãos que fazem medo Feias agregações pentagonais. às da neve. Pertencentes talvez. 200 . quebrando portas O azul gasofiláceo silencioso Dos tálamos cristãos. a farpas de rochedo Completamente iguais. Assinalados pelo mancinismo. a delinqüentes natos. ás dos cristais. negras.. Outras.

Eu guardo o travo deste beijo ardente E a Nostalgia desta Pátria . Recordo o beijo que te dei nas tranças Emolduradas num florão de riços. .Tufos de goivo em conchas de esmeralda. plangente. Pareces reviver a antiga Ofélia. Abençoada pelo meu tormento E consagrada pela sepultura.Lotus diluído n'alma dum cipreste! Como um lilás eternizando abrolhos Tinge de roxo o arminho da grinalda.a Carne. Mas neste sonho. Crava-lhe n'alma o tirso das bacantes.. E que ela suba na serena gaza Dos mistérios dourados e serenos À terra Ideal das púrpuras em brasa E ao Céu doirado e auroreal de Vênus! 201 . pálida camélia. Opalescência trágica da lua! Tu. langue e seminua.. Brande-lhe n'alma o frio dos sepulcros. E como um nume de pesar. Sonho abraçar-te. No vácuo imenso das desesperanças E dos passados viços. de reverberantes E rubras asas de beliantos pulcros. Guarda a saudade que levou do Mame. Rola a violeta santa dos teus olhos .VÊNUS MORTA A Via-Sacra Azul do amor primeiro Veste hoje o luto que a desgraça veste No miserere do meu desespero. oh Quimera. Reza-lhe todo o cantochão memento Dessa Missa de amor da Extrema Agrura.

Era o abjeto vibrião rudimentar Na impotência angustiosa de falar. A efígie apocalíptica do Caos Dançava no meu cérebro sombrio! O Céu estava horrivelmente preto E as árvores magríssimas lembravam Pontos de admiração que se admiravam De ver passar ali meu esqueleto! Sozinho.VIAGEM DE UM VENCIDO Noite. Mergulhar minha exótica visão Na intimidade noumenal dos seres. O feto original. enquanto eu tropeçava sobre os paus. de onde decorrem Todas essas moléculas que morrem Nas transubstanciações da Natureza. A rebeldia dos meus pés danados Nas pedras resignadas do caminho. Aprazia-me assim. Choravam. num ruidoso borborinho Bruto. E. como num chão profundo.. almas e oceanos As formas microscópicas do mundo! Era a larva agarrada a absconsas landes. uivando hoffmânnicos dizeres.. No desespero de não serem grandes! 202 . Do ventre equatorial da terra grávida! Dentro de mim. Convulsionando Céus. na escuridão. Eu procurava. Em que as formas humanas se sumiam! Reboava. análogo ao peã de márcios brados. era só O ocaso sistemático de pó. Mas o que meus sentidos apreendiam Dentro da treva lúgubre. com soluços quase humanos. com uma vela acesa. Cruzes na estrada. Sentia estar pisando com a planta ávida Um povo de radículas e embriões Prestes a rebentar como vulcões. Aves com frio.

de onde se vê o Homem de rastros. o bem e o mal Ardiam no meu orco cerebral. Como o protesto de uma raça invicta. Na óssea armação das vértebras simétricas A angústia da biológica engrenagem! No Céu.Vinha-me á boca. Mas das árvores. Doía profundamente no meu crânio Esse funcionamento simultâneo De todos os conflitos da matéria! Eu. Brilhava. A abstinência e a luxúria. A multiplicidade heterogênea De sensações diversamente amargas. Eles entravam todos na caverna Das consciências humanas mais fechadas! Ao castigo daquela rutilância. Onde Ormuzd guerreava com Arimã. frias como lousas. assim. Na discórdia perpétua do sansara! Já me fazia medo aquela viagem A carregar pelas ladeiras tétricas. na ânsia dos párias. com a sidérica lanterna. Fluía. Maior que o olhar que perseguiu Caim. uma voz 203 . horrenda e monótona. a esclarecer As manchas subjetivas do meu ser A espionagem fatídica dos astros! Sentinelas de espíritos e estradas. me tornara A assembléia belígera malsã. Cumpria-se afinal dentro de mim O próprio sofrimento da Substância! Como quem traz ao dorso multas cargas Eu sofria. perdido no Cosmos. O brado emocionante de vindicta Das sensibilidades solitárias! A longanimidade e o vilipêndio. Numa crepitação própria de incêndio! Em contraposição à paz funérea. Noite alta. ao colher simples gardênia. vingadora.

iceberg. árvore. A humildade botânica das algas De que grandeza não será capaz?! Quem sabe. amanhã píncaros galgas. isto é. porque. com a febre mais bravia. arvoredos desterrados. do Equador aos pólos. Porque em todas as coisas. afinal. Não trabalham. rimos Das vãs diatribes com que aturdes o ar. choramos. a Energia A última etapa da objetivação?! É inútil. na ânsia cósmica. Para esconder-se nessa esfinge grande. ovário. diante do Homem. Rimos. Crânio. tão profunda. Tragicamente. oh! filho dos terráqueos limos. montanha. Se hoje. Para erguer. Se a contração que hoje produz o choro Não há de ser no século vindouro Um simples movimento para rir?! Que espécies outras. Rir da desgraça que de ti ressuma É quase a mesma coisa que chorar!" 204 . tão feroz Que parecia vir da alma das cousas: "Se todos os fenômenos complexos.. Deu4e (oh! mistério que se não traduz!) Neste astro ruim de tênebras e abrolhos A efeméride orgânica dos olhos E o simulacro atordoador da Luz! Por isto.Tão grande. Na prisão milenária dos subsolos. Desde a consciência à antítese dos sexos Vem de um dínamo fluídico de gás. Jeová ou Siva Oculta à tua força cognitiva Fenomenalidades que hão de vir. a espiar enigmas. pois. entres Na química genésica dos ventres. Rasgando avidamente o húmus malsão. obscuro. enquanto Deus.. que. Nós. em suma. se ergue A esfinge do Mistério Universal! A própria força em que teu Ser se expande.

naquela noite de ânsia e inferno. Eu fora. A maior expressão do homem vencido Diante da sombra do Mistério Eterno! 205 . desgraçadamente magro.As vibrações daquele horrível karma Meu dispêndio nervoso era tamanho Que eu sentia no corpo um vácuo estranho Como uma boca sôfrega a esvaziar-me! Na avançada epiléptica dos medos Cria ouvir. astro decrépito. Reproduzida pelos arvoredos! Agora. a escalar Céus e apogeus. Eu. Tinha necessidade de esconder-me Longe da espécie humana. A voz cavernosíssima de Deus. em destroços. a erguer-me. com os meus ossos! Restava apenas na minha alma bruta Onde frutificara outrora o Amor Uma volicional fome interior De renúncia budística absoluta! Porque. alheio ao mundanário ruído.

A Eternidade esmagadora bate Numa dilatação exorbitante! E eu luto contra a universal grandeza Na mais terrível desesperação É a luta. em coalhos. O quadro de aflições que me consomem O próprio Pedro Américo não pinta. Minh'alma sai agoniada. armado de arcabuz. Viver na luz dos astros imortais. pela boca. Na ânsia incoercível de roubar a luz. era preciso a tinta Feita de todos os tormentos do homem! Como um ladrão sentado numa ponte Espera alguém. Estou á espera de que o Sol desponte! Bati nas pedras dum tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza é minha única saúde. quero até rompê-las! Quero. é o prélio enorme. é a rebelião Da criatura contra a natureza! Para essas lutas uma vida é pouca Inda mesmo que os músculos se esforcem. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. Os pobres braços do mortal se torcem E o sangue jorra.. Abraçado com todas as estrelas! A Noite vai crescendo apavorante E dentro do meu peito.QUEIXAS NOTURNAS Quem foi que viu a minha Dor chorando?! Saio. As minhas roupas. arrancado das prisões carnais.. entre estes monstros. no combate. 206 . Para pintá-lo. E muitas vezes a agonia é tanta Que. ando! Não trago sobre a túnica fingida As insígnias medonhas do infeliz Como os falsos mendigos de Paris Na atra rua de Santa Margarida. rolando dos últimos degraus.

.. é improfícuo. A bênção matutina que recebo. Seja este. Ah! Por todos os séculos vindouros Há de travar-se essa batalha vã Do dia de hoje contra o de amanhã. faz mal.O Hércules treme e vai tombar no caos De onde seu corpo nunca mais levanta! É natural que esse Hércules se estorça. enfim. O amor tem favos e tem caldos quentes E ao mesmo tempo que faz bem. Igual á luta dos cristãos e mouros! Sobre histórias de amor o interrogar-me E vão. E é tudo: o pão que como. Este relógio trágico que marca Todos os atos da tragédia humana! Seja esta minha queixa derradeira Cantada sobre o túmulo de Orfeu. o último canto meu Por esta grande noite brasileira! Melancolia! Estende-me a tu'asa! És a árvore em que devo reclinar-me. Hoje é amargo tudo quanto eu gosto. a água que bebo..esta arca.. Estrangulado pelas rodas brutas Do mecanismo que tiver mais força. Se algum dia o Prazer vier procurar-me Dize a este monstro que eu fugi de casa! 207 . Não sou capaz de amar mulher alguma Nem há mulher talvez capaz de amar-me. O velho tamarindo a que me encosto! Vou enterrar agora a harpa boêmia Na atra e assombrosa solidão feroz Onde não cheguem o eco duma voz E o grito desvairado da blasfêmia! Que dentro de minh'alma americana Não mais palpite o coração . E tombe para sempre nessas lutas. O coração do Poeta é um hospital Onde morreram todos os doentes. é inútil. em suma.

. Na podridão daquele embrulho hediondo Reconheço assombrado o meu Destino! Surpreendo-me.. Para onde vou (o mundo inteiro o nota) Nos meus olhares fúnebres. Arranco os cadáveres das lousas E as suas partes podres examino. Levanta contra mim grandes cutelos E as baionetas dos dragões antigos! 208 . abrindo todos os jazigos. Em vão com o grito do meu peito impreco! Dos brados meus ouvindo apenas o eco.POEMA NEGRO A Santos Neto Para iludir minha desgraça. carrego A indiferença estúpida de um cego E o ar indolente de um chinês idiota! A passagem dos séculos me assombra. Sai para assassinar o mundo inteiro. Corro.. Então meu desvario se renova. numa cova. à meia-noite. come. vendo o verme frio Que há de comer a minha carne toda! É a Morte -. ouvindo um grande estrondo. E o mundo inteiro não lhe mata a fome! Nesta sombria análise das cousas.Faminta e atra mulher que. rio Sinistramente.esta carnívora assanhada -Serpente má de língua envenenada Que tudo que acha no caminho. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho.. Mas de repente.. estudo. sozinho. na vertigem: -. em trajes pretos e amarelos. Intimamente sei que não me iludo.. a 1 de Janeiro. Eu torço os braços numa angústia douda E muita vez. A Morte.Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. -. e a mim pergunto. Como que.

Com as longas fardas rubras. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. Contra a agressão dos teus contrastes juntos A besta. É Sexta-feira Santa. e após gritar a última injúria. Deste-me fogo quanto eu tinha sede.. Eu desafio. acorda em berros Acorda. Chocalha os dentes com medonha fúria Como se fosso o atrito de dois ferros! Pois bem! Chegou minha hora de vingança. desta cova escura. Deixa-te estar. No histerismo danado da tortura Todos os monstros que os teus peitos criam. canalha.. Amarrado no horror de tua rede. que em mim dorme. Tu mataste o meu tempo de criança E de segunda-feira até domingo. Por tua causa apodreci nas cruzes. Perante a qual meus olhos se extasiam. A trava invade o obscuro orbe terrestre No Vaticano.. Vi que era pó. De Jesus Cristo resta unicamente 209 . como a gula de uma fera. vi que era esterquilínio! Chegou a tua vez. e de declínio Em declínio. em grupos prosternados. os soldados Buardam o corpo do Divino Mestre.. Tu não és minha mãe. Quis ver o que era...E quando vi que aquilo vinha vindo Eu fui caindo como um sol caindo De declínio em declínio. oh! Natureza! Eu desafio agora essa grandeza. Como as estalactites da caverna. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Semeadora terrível de defuntod. Cai no silêncio da Cidade Eterna A água da chuva em largos fios grossos. e quando vi o que era. que eu me vingo! Súbito outra visão negra me espanta! Estou em Roma.

Desperto..Um esqueleto. Dentro da igreja de São Pedro. quieta.. É tão vazia a minha vida! No pensamento desconexo e falho Trago as cartas confusas de um baralho E pedaço de cera derretida! Dorme a casa. vendo-o. Na molécula e no átomo. com a minha dor enorme Os olhos ensangüento na vigília! E observo. e a gente. num rumor forte Recomeça o barulha das matracas. somente eu. O céu dorme. Resume A espiritualidade da matéria E ele é que embala o corpo da miséria E faz da cloaca uma urna de perfume.. As luzes funerais arquejam fracas. A árvore dorme Eu. enquanto o horror me corta a fala O aspecto sepulcral da austera FIM 210 . os ventos gemedores Estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na serra Da Borborema. A desagregação da minha Idéia Aumenta. Na Eternidade. a gente Sente vontade de abraçar-lhe os ossos! Não há ninguém na estrada da Ripetta.. o desalento e o desconforto Paralisam-me os círculos motores. Na agonia de tantos pesadelos Uma dor bruta puxa-me os cabelos. no ar de minha terra. Como as chagas da morféia O medo. Roma estremece! Além. O vento entoa cânticos de morte.

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