EU, TODOS OS SONETOS E OUTRAS POESIAS

(OBRA COMPLETA)

AUGUSTO DOS ANJOS

Para ter acesso a outros títulos libertos das irresponsáveis convenções do mercado, acesse:

WWW . SAB OTA GE M . C J B . NET

Autor: Augusto dos Anjos Título: Eu, todos os sonetos e outras poesias Data da Digitalização: 2004 Data Publicação Original: Primeiras décadas do séc. XX

Esta obra foi digitalizada, formatada, revisada e liberta das excludentes convenções do mercado pelo Coletivo Sabotagem. Ela não possui direitos autorais pode e deve ser reproduzida no todo ou em parte, além de ser liberada a sua distribuição, preservando seu conteúdo e o nome do autor.

2

ÍNDICE
Introdução
As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos (por Horácio de Almeida) ....................................... 06 Um Currículo Escrito pelo próprio poeta (respostas ao inquérito de Licínio dos Santos) .............. 33

Sonetos
O Morcego ..................................................34 Psicologia de um Vencido ......................... 34 A Idéia ....................................................... 35 O Lázaro da Pátria ..................................... 35 Idealização da Humanidade Futura ........... 36 Soneto ao Meu Primeiro Filho .................. 36 Versos a um Cão ....................................... 37 O Deus-Verme .......................................... 37 Debaixo do Tamarindo .............................. 38 Budismo Moderno ..................................... 38 Sonho de um Monista ................................ 39 Solitário ..................................................... 39 Mater Originalis ........................................ 40 O lupanar ................................................... 40 Idealismo ................................................... 41 Último Credo ............................................. 41 O Caixão Fantástico .................................. 42 Solilóquio de um Visionário ..................... 42 A um Carneiro Morto ................................ 43 Vozes da Morte ......................................... 43 Insânia de um Simples .............................. 44 Asa de Corvo ............................................. 44 O Martírio do Artista ................................. 45 O Mar, a Escada e o Homem ..................... 45 Decadência ................................................ 46 Ricordanza della mia Gioventú ................. 46 A Um Mascarado ...................................... 47 Vozes de um Túmulo ................................ 47 Contrastes .................................................. 48 Soneto I a meu pai doente ......................... 48 Soneto II a meu pai morto ......................... 49 Soneto III ................................................... 49 Depois da Orgia ......................................... 50 A Arvore da Serra ..................................... 50 Vencido ..................................................... 51 O Corrupião ............................................... 51 Alucinação a Beira Mar ............................. 52 Vandalismo ............................................... 52 Versos Íntimos .......................................... 53 Vencedor ................................................... 53 Eterna Mágoa ............................................ 54 O Lamento das Coisas .............................. O Meu Nirvana ......................................... Caput Immortale ....................................... Apóstrofe a Carne ..................................... Louvor a Unidade ..................................... O Pântano ................................................. Supreme Convulsion ................................. A Um Gérmen .......................................... Natureza Íntima ........................................ A Floresta ................................................. Guerra ....................................................... O Sarcófago .............................................. Hino a Dor ................................................ Última Visio ............................................. Aos Meus Filhos ....................................... A Dança da Psique .................................... O Poeta do Hediondo ................................ A Fome e o Amor ..................................... Homos Infimus ......................................... Minha Finalidade ...................................... Noli Mi Tangere ....................................... O Canto dos Presos ................................... Aberração .................................................. Vítima do Dualismo .................................. Ao Luar ..................................................... A Um Epiléptico ....................................... Canto da Onipotência ............................... Minha Arvore ........................................... Anseio (Quem Sou Eu...) .......................... Revelação I ............................................... Revelação II .............................................. Versos a um Coveiro ................................ Trevas ....................................................... As Montanhas I ......................................... As Montanhas II ....................................... Apocalipse ................................................ A Nau ........................................................ Volúpia Imortal ......................................... O Fim das Coisas ...................................... A Noite ..................................................... A Obsessão do Sangue ............................. 54 55 55 56 56 57 57 58 58 59 59 60 60 61 61 62 62 63 63 64 64 65 65 66 66 67 67 68 68 69 69 70 70 71 71 72 72 73 73 74 74

3

Vox Victimae ............................................ Agonia de Um Filósofo ............................. O Último Número ..................................... Saudade ..................................................... Abandonada ............................................... Ceticismo ................................................... Mágoas ...................................................... Ouvi, Senhora ............................................ Triste Regresso .......................................... Infeliz ........................................................ N’augusta solidão dos cemitérios ............. Noivado ..................................................... No meu peito arde .................................... A Máscara ................................................. Amor e Religião ........................................ Canta no espaço a passarada ..................... O Coveiro .................................................. Pecadora .................................................... No Claustro ............................................... Il Trovatore ................................................ A Louca ..................................................... Primavera .................................................. A Esperança .............................................. Senhora, eu trajo o luto do passado .......... Sofredora ................................................... Ecos d’Alma .............................................. Amor e Crença .......................................... Ariana ........................................................ Tempos Idos .............................................. Na rua em funeral ei-la que passa ............. Adeus, adeus, adeus! E, suspirando... ....... A Aeronave ............................................... Lirial .......................................................... A Minha Estrela ........................................ A praça estava cheia.... .............................. A Esmola de Dulce .................................... Ave Dolorosa ............................................ Gênio das trevas lúgubres... ...................... Nimbos ...................................................... O Mar ....................................................... Anseio (Nessas Paragens Desoladas...) ..... Aurora Morta, Foge! ................................. No Campo ................................................. Canta o Teu Riso Esplendida Sonata ........ Cravo de Noiva ......................................... Plenilúnio .................................................. Insânia ....................................................... O Bandolim ...............................................

75 75 76 76 77 77 78 78 79 79 80 80 81 81 82 82 83 83 84 84 85 85 86 86 87 87 88 88 89 89 90 90 91 91 92 92 93 93 94 94 95 95 96 96 97 97 98 98

Ara Maldita ............................................... 99 Na etérea limpidez... ................................ 99 Treva e Luz ............................................ 100 O Templo da Descrença .......................... 100 A Peste .................................................... 101 Ideal ........................................................ 101 Cítara Mística ......................................... 102 Súplica num Túmulo .............................. 102 Afetos ..................................................... 103 Martírio Supremo .................................. 103 Sombra Imortal ....................................... 104 Coração Frio ........................................... 104 Noturno (Para o Vale Noital...) ............... 105 Sedutora .................................................. 105 Pelo Mundo ............................................. 106 E o Mar Gemeu a Funda Melopéia ......... 106 O Riso .................................................... 107 Vamos, Querida! ..................................... 107 A uma Mártir ......................................... 108 Régio ...................................................... 108 Pelo Mar ................................................. 109 Pallida Luna ............................................ 109 A Morte de Vênus ................................... 110 Mártir da Fome ....................................... 110 Sonho de Amor ....................................... 111 A Orgia Mata a Mocidade ...................... 111 Festival ................................................... 112 Noturno (Chove, lá fora...) ...................... 112 E Ele Morreu .......................................... 113 Vaes Victis .............................................. 113 A Dor ..................................................... 114 Terra Fúnebre ......................................... 114 O sonho, a Crença e o Amor ................... 115 Meditando ............................................... 115 Para Quem Tem na Vida... ...................... 116 Soneto a Frederico Nietzche ................... 116 O Negro ................................................. 117 Vinhas trilhando gárrulo a Avenida ........ 117 O Ébrio ................................................... 118 O Canto da Coruja .................................. 118 Senectude Precoce .................................. 119 André Chénier .......................................... 119 Mystica Visio .......................................... 120 Ilusão ...................................................... 120 Nome Maldito ........................................ 121 Dolências ................................................ 121 A Lágrima ............................................... 122

4

................................................................... 180 Canto Íntimo ......... 200 Mãos .. 176 Ave Libertas ..............123 Uma noite no Cairo ...... 209 Poema Negro . 179 Estrofes Sentidas ............................................................................................................................................... 162 Versos de Amor ......................................................................... 155 Mater ............................................................................. 166 A Luva ................................................................................................................... 173 A Ilha de Cipango .................................................... 204 Viagem de um Vencido .............................. 199 Tristezas de um Quarto Minguante .........................................................................Outras Poesias Monólogo de uma Sombra ......... 129 A Caridade ................ 197 Quadras ..................................................... 186 Insônia .................................................................. 183 Gozo Insatisfeito ................ 205 Queixas Noturnas .......................................................................................... 142 À Mesa ............... 155 Duas Estrofes ........................................................................................... 156 Gemidos de Arte ........................................................................... 192 Ode ao Amor ................................................................................................................ 190 Mistérios de um Fósforo ................................................................................................ 170 A Vitória do Espírito ................................................ 182 Canto de Agonia ................ 184 Idealizações ........................ 183 História de Um Vencido .................... 203 Vênus Morta ....128 As Cismas do Destino .......... 141 Os Doentes ......................................... 195 Numa Forja ... 157 A Meretriz ................................................... 175 Barcarola ........................................ 212 5 ....................................................... 168 Noite de um Visionário .......

quando não irrompia ovante para logo se perder na dúvida. A crítica genética já lhe esvurmou a alma em busca de uma explicação para as suas anomalias psíquicas. que é de todas a menos operante. Interpretar cada verso isoladamente não é tarefa que se enquadre no plano deste trabalho. Difícil tarefa é essa de querer conhecer a alma dos nossos semelhantes. sobretudo pela sinceridade com que nela está fotografado. já que não podemos penetrar com tanta intimidade o mundo subliminal. que forjava em versos candentes a produção que depois levava ao papel. O autor revela o homem e ambos estão por inteiro em sua obra. Nessa tentativa de interpretação psicológica. o eu fora do Eu. contudo. A crítica metodológica do autor do Eu e Outras Poesias devia constituir o alvo desta escalada. paremos reverentes à porta do templo. poder conhecer a árvore pelo fruto. É preciso. Sua personalidade singular ali se projeta. Em Augusto dos Anjos não há que procurar o autor fora de sua obra. é possível que se tenha conservado à distância da crítica literária. Convenha-se antes de tudo que Augusto não foi um homem normal. Teria sido um neurótico para uns. Apenas como contribuição a essa crítica de sentido mais amplo. nos moldes em que se ajusta a passividade compreensiva do comum dos homens. e era aí. não vejo documento mais preciso para conhecer o autor que a sua própria obra. o que de alguma forma facilita o trabalho de interpretação. Gráfica Ouvidor. que o não convencia de todo. Não me parece. ed. Deste modo. Seja como * (do livro As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos.INTRODUÇÃO AS RAZÕES DA ANGÚSTIA DE AUGUSTO DOS ANJOS* Por Horácio de Almeida Muito se tem escrito sobre Augusto dos Anjos. Toda vez que o poeta se concentrava na dor que mais o cruciava. segundo as síndromes patológicas revelados. A crítica literária já lhe realçou a obra em sua forma estética. senão em mais de um. compreendendo inclusive a estilística. no que há de mais sutil e imponderável. nos moldes da velha orientação impressionista. acompanhá-lo na trajetória desse pensamento tumultuário. um psicastênico para outros. na verdade. na chaga viva de sua consciência. inatingível também ao bisturi dos que tentam dissecar o interior humano. já outros o fizeram com maior ou menor adequação. 1962) 6 . desejosos de. isto é. Só o estudo do conjunto poderá explicar os matizes de um pensamento que tinha por norma ocultar-se em metáforas. quando. não conhecemos sequer a nossa. entrava em crise espiritual. ao menos. pois. esteja o poeta revelado por inteiro em todos os reflexos de sua alma. penso poder levantar a ponta da cortina para melhor compreensão das suas mensagens de angústia. nesse estado de superexcitação. RJ. realçar a força de sua inteligência manifestada na originalidade do estilo e na tônica de um materialismo filosófico. em suas mensagens de angústia. Nalgum ponto. Fazer o elogio do poeta. Por conseguinte. proponho-me a interpretá-lo a partir de um ângulo até agora pouco estudado — a inquietação de sua personalidade. numa atitude de respeito e reflexão. não escapasse um pouco da minha acuidade intelectual.

a de Byron. que procura dissecar a alma para ajustá-la a quadros nosológicos já catalogados e. mas vale a pena ser louco quando se deixa por tal motivo um nome à admiração da posteridade. Não se trata aqui de fazer coincidir a personalidade criadora de 7 . tal fato não podia deixar de refletir-se no filho em gestação. de fundo genético. aos que se acomodam. de quem o sobrinho nascituro herdaria o nome e as conseqüências do choque. que nada explica. A mãe do poeta. sobretudo quando provém da linha materna. com preocupações de grandeza e fidalguia. quando este ainda em estado de gestação sofreu uma comoção das mais fortes. sobre o seu caso clínico. não há negar também a dos psicológicos. tem sido Augusto comparado a Leopardi. De seu pai também não herdou as características psíquicas que o marcaram a fundo. reduzir tudo a categorismo. ficou desajustada da mente pelo resto da vida. estudante de medicina. mas da mediocridade ajuizada que enche de presença os quadros humanos nunca ninguém viu sair obra duradoura. Juízo é coisa que todos julgam ter. repetindo conceitos. só ele dava a impressão de um desajustado. Pai e irmãos passavam por normais. sestros. O traumatismo moral que tão fundamente abalou a mãe. Oscar Wilde e outros loucos geniais ou degenerados superiores. aos que perseguem riquezas ou fazem do amor o cio bestial. a de Wilde. nas modalidades do caráter. Por seu parentesco espiritual. por motivos vários. além mesmo da gravidez. igualmente inteligentes. Sem o concurso da causa primária. do sentimento. Assim como a mãe de Augusto. Não há que imputar a Augusto a pecha de louco. no final. Byron. Nem os que nasceram antes. Ao que se sabe. E por curiosa coincidência. sofreram perturbações muito fortes na época de gestação daqueles notáveis supranormais. A causa primária de sua desordem nervosa já é assunto conhecido. sobretudo quando tal obra reflete da primeira à última página a alma do autor. Obviamente.for. a de Leopardi. não é possível interpretar a obra de um escritor. por vezes controvertidos. tais modelos de comparação passaram também pelas mesmas crises intra-uterinas que afetaram a sensibilidade do autor do Eu. a de Nietzche. choques emocionais. tenho por desnecessário entrar aqui nesse campo de especulação psiquiátrica. caracterizado por uma sensibilidade doentia. assim como está provada a hereditariedade dos caracteres biológicos. Isto posto. enfim. enfim. fobias. como é do gosto da crítica científica. tiques nervosos. aos que se rebaixam para subir. nem os que vieram depois. todo o seu temperamento emocional. causada pela perda imprevista de um irmão querido. na classificação dos antropologistas do século passado. Augusto não era um homem igual aos outros. Tanto isso parece verdade que seus irmãos. perturbou-a por muito tempo. pelo drama que padeceu na vida intra-uterina. Explica-se deste modo. Nietzche. a partir de Lombroso. jamais denotaram qualquer grau de semelhança ou relação de afinidade com a alma bizarra do poeta. como se houvesse saído do limbo para cair na labareda. que já era constitucionalmente quase louca. com distúrbios os mais evidentes no seu sistema nervoso. menos a de Byron. em relação com a casuística. Todas se angustiaram por acontecimentos imprevistos. da inteligência. o refinamento de suas faculdades morais.

Esse adolescente sorumbático já poetava desde os sete anos de idade. estavam a fazer dele um lírico. Ocioso será afirmar que a metafísica ortodoxa. sem afastar-se do lar. no último ano do século passado. para aprazimento intelectual das elites. Muito cedo. em sua linha tomista. confessava-se já então “afeito às mágoas e ao tormento”. numa defesa de tese na Faculdade de Direito do Recife. Augusto nasceu e se criou no engenho Pau d’Arco. do Eu. Alexandre dos Anjos. A doutrina positivista foi a primeira a ganhar terreno. de vez que a literatura indígena longe estava de adquirir a consciência de sua função. Falava nele o positivista que. sofreu duros reveses. como expressão do pensamento nacional. Sílvio Romero. A paisagem bucólica da várzea. que a metafísica estava morta. segundo os primeiros retratos que temos dele. inspirado na natureza e no amor. Coelho Rodrigues. sofregamente bebida nas academias. bradava para o conceituado mestre que o argüia. como uma fatalidade. Era de fato um excêntrico. em contraste com a mocidade e a inteligência. evolvia para o evolucionismo de Speneer. foi logo chamando a atenção de mestres e colegas pelos conhecimentos que demonstrava. começou a envenenar-se com o materialismo filosófico. agravados por outros que irromperam na idade perigosa. a sua própria vida sem problemas. entrou a estudar as matérias do curso de humanidades. na várzea do Paraíba. Tais idéias materialistas eram a coqueluche que o século passado legara ao presente. saído da roça. a quietude da vida na província. Deste modo. não fossem os conflitos espirituais que trazia do berço. até o túmulo. mas não era somente isso. em Monólogos de uma Sombra. em prefácio à segunda edição do Eu. visto ter nascido poeta. Tão na flor da juventude e já se dizia um descrente. Logo mais. mas no final 8 . Os conhecimentos filosóficos gozavam reputação de primeira plana. Órris Soares confessa que só conseguiu passar no exame de latim porque se valeu do colega que o ajudou a destrinchar Horácio. logo mais. os quais o acompanhariam. cinco anos após a sua morte. em 1900. reunindo a esse volume a produção posterior à edição princeps de 1912. guiado apenas pela ilustração paterna. porquanto as duas já se apresentam fundidas sem a química da ajuda biográfica. A par disso. a rigor. Vinha-se de uma época em que a erudição nacional destilava-se da cultura européia. era um introvertido. com o título Eu e Outras Poesias. o seu tipo de pássaro molhado. ao invés de um estudante bisonho. A amizade que logo nasceu da admiração foi regada mais tarde com lágrimas de saudade no elogio que fez do poeta. para maior complicação de sua personalidade. Já em 1875. Nada de admirar.Augusto com a sua personalidade psicológica. dr. O rapazinho de 16 anos. é a vocação que já revelava para o infortúnio. haurido no transformismo de Haeckel e no evolucionismo de Spencer. conforme disse num soneto que não consta. publicado no Almanaque do Estado da Paraíba. viu nele um tipo excêntrico de pássaro molhado. que lançou em 1919. Quando Órris o conheceu nos idos de 1900. aprendeu a ler e. O que há de singular nele não é. E para completar o esboço do auto-retrato acrescentava: “Eu hoje só vivo para a descrença”. quando apareceu para os primeiros exames no velho Liceu Paraibano. cuja vida corria sem obstáculos. Com seu pai. definia mais claramente esse pensamento “como uma vocação para a Desgraça e um tropismo ancestral para o infortúnio”.

que se irradiava do Recife ao sopro tempestuoso de Tobias Barreto e seus ardorosos discípulos. o queixo apoiado no cabo do guarda-chuva. tentou o milagre de 9 . Até no Piauí. que Augusto dos Anjos penetrou os umbrais da tradicional escola. A matéria em sua essência afigurava-se-lhe tão misteriosa como a força. por ver em tudo isso hipóteses visionárias. o rapazelho sorumbático deu asas ao pensamento nos conflitos entre a consciência e o sentimento. Augusto pouco falava. Martins Júnior. como toda substância animada. mas a metafísica resistiu ao impacto das idéias novas. a exemplo de Victor Hugo. Era a época da evolução do pensamento brasileiro. proceda ou não proceda. O beatério era o último reduto do catolicismo. os intelectuais mais dotados. Ao que parece. em seu livro Frases e Notas. a ciência do Direito interessou menos ao estudante taciturno que as especulações filosóficas do materialismo naturalista. que. Ainda na fase preparatória de estudos. Os filósofos da natureza foram ficando para trás. Os menos letrados. Nas rodas que se faziam na Paraíba. influenciado pelos naturalistas e evolucionistas do século. Laurindo Leão. nas concepções filosóficas de seus poemas. firmava-se o conceito. introduziu entre nós a poesia científica. entre o mundo da forma e o mundo da razão. confundidas ambas na unidade cósmica. a velha Escolástica. ou mesmo. não exclui absolutamente a hipótese da existência da alma. aliás bem pouco lisonjeiro. com a evolução da matéria e do espírito. irradiação natural da Escola do Recife discutia-se o problema do ser e do não-ser. como uma velharia do século. ficava a escutar os companheiros. os que ainda não tinham qualquer convicção filosófica. Comte passou. já lidos nos filósofos da natureza. de onde saiu formado em 1907. Um que foi seu colega de estudos e morou com ele na mesma pensão em Recife. Foi nesse ambiente de agitação doutrinária. mas a origem simiesca do homem. disse-me certa vez que só depois de formado foi que veio a conhecê-lo direito. que ficou sem seguidores e acabou relegada pelo próprio poeta. Na Paraíba. faziam praça de livres pensadores. desde Haller. Por todo o Nordeste. o pensamento ao longe. conciliada. em sua. já era moda entre os renovadores o lançamento de poemas filosóficos. de que católico era sinônimo de burro. está sujeita também ao processo da evolução. Esquisitão que era. quando ainda pontificava na Faculdade de Direito do Recife um devoto do fenomenismo agnóstico. como se desconhecesse ou procurasse desconhecer a parte subjetiva de si mesmo. emancipou-se dela intelectualmente. se o diabo é tão feio como o pintam. já no seu ocaso. aliás. isto é. Darwin e Haeckel podem ser contestados ainda hoje como panteístas pelos que seguem ao pé da letra a história bíblica da Criação. um século antes de Hugo. segundo o depoimento de Cristino Castelo Branco. adepto do positivismo. Desses embates. enquanto a metafísica do verdadeiro cristianismo continua palpitando na alma de todos os povos. O materialismo dialético dos nossos dias retrocede. Embora educado na religião católica. Toda a preocupação era combater o pensamento teológico. Desta forma. formavam rodas para discutir o sexo dos anjos. que só cuidava de preocupações teológicas. suportou a mais dura crise. José Américo de Almeida. Aliás. desde o monismo de Haeckel ao evolucionismo de Spencer.de contas resistiu ao choque de uma crença que condenava até a indagação anatômica e a astronomia sideral. dupla feição de filósofo e de poeta.

por força das sucessivas mutações da matéria. Por ela vai buscar-se no mundo informe da vida planetária. na larva que procede do caos telúrico. A partir da monera. todavia. ouvindo a citação de dois versos seus tomados ao acaso. ora transfigurado em sátiro vilíssimo. já diferenciado na mônada. Em minha ignota mônada. É a sua confissão de f transformista. Quem já o leu uma vez. Augusto compôs Monólogos de uma Sombra. Integrado na sociedade. ampla. Venho de outras eras. Do cosmopolitismo das moneras. desesperado por não poder libertar a energia intra-atômica e dominar a lei da mecânica universal. O aspecto conceptual do poema. e vem vindo como uma monera através de milhões de anos.. E é de mim que decorrem. Vejamos.. Nessa ânsia de penetrar a vida fenomênica das formas. Aos 17 anos. mas há casos em que a vidência poética de um é manifesta no outro. a ponto de mostrar seu nojo à natureza humana. facilmente o identifica. numa caminhada de 31 estâncias. como amostra. começa então o drama crucial da consciência. 186 versos. Não há. Imitá-lo seria obra grosseira de pastiche. naquela mesma idade em que. enfim. que passou do reino vegetal para o animal. ora transfigurado em filósofo moderno. vibra A alma dos movimentos rotatórios. Rimbaud escrevera Bateau ivre. chega aos seres mais complexos.. Realizou de fato esse milagre em estrofações de profunda força conceptiva e de cunho tão pessoal que toda a sua produção traz a marca do autor — a eurritmia musicada dos decassílabos. as duas primeiras estrofes dos Monólogos: Sou uma Sombra. que é a derrota da humanidade. a consciência 10 . bem mostra a preocupação indagativa do poeta de penetrar a coisa em si. trinta anos antes. Pólipo de recônditas reentrâncias. depois de infinitas transformações. procedo Da escuridão do cósmico segredo. A simbiose das coisas me equilibra. A saúde das forças subterrâneas. simultâneas. Encontra-se. nas duas composições uma coincidência de temas. fundado na unidade cósmica. mas “a solidariedade subjetiva de todas as espécies sofredoras”. Da substância de todas as substâncias. sempre a evoluir em movimentos rotatórios. E a morbidez dos seres ilusórios! E por aí vai. já desiludido. E assim continua. Não sofre apenas a sua dor. Não sei se Augusto leu alguma vez Rimbaud. mas há paralelismo de símbolos e de força criadora. identifica-se na substância primeva. terso na linguagem. como bem observa Cavalcanti Proença. Em Bateau ivre quem fala é o barco ébrio e conta a sua derrota. poema que abre o Eu e Outras Poesias. Larva do caos telúrico. até adquirir a forma humana. incomparável na forma musicada. “esse mineiro doido das origens”.reduzir a um campo único a ciência e a arte. Em Monólogos de uma Sombra é a Sombra que fala e a Sombra é o eu do poeta.. e—crente no tema.

noção trivialíssima das funções orgânicas. uma espécie de fogo que devora e não consome. sente-se vencido diante do seu martírio e do martírio das criaturas. as conchas das orelhas rasas como a palma da mão e. temos aí um transformismo metafísico. entrega-se ao sacrifício. numa espécie de solidariedade subjetiva. natural de minha terra. No tocante à transformação da matéria. centro de toda a acuidade sensorial. A rigor. embora intelectualmente convencido da teoria racionalista. É a concepção monística. A partir dai. sem mais compreender que prodígios são esses da monera. o sofrimento de toda a humanidade. que a ele não interessava considerar. no entanto. Para os que negam o espírito há muitos fenômenos que ficam sem explicação. E por que não admitir logo a alma? Se eu disser que a consciência e a inteligência têm a sua sede no espírito. que tinha os ouvidos totalmente tapados. já havia dito. conheci um sujeito. O próprio Augusto. Nada obstante. que faz quase lembrar a reencarnação. há que distinguir um pormenor. respondeu-me que por todo o casco da cabeça. Nesse estado d’alma. A mesma coisa. Sabemos que a consciência tem a sua morada no cérebro. segundo querem os frenologistas. ouvia mais que um tísico. no princípio era a força. No fundo. posto que falasse às vezes em alma divina e em Deus de amor e de bondade. em esconderijos apropriados. como está dito em Monólogos de uma Sombra. dezenove séculos antes. manifestou o seu espanto. segundo a qual a matéria e o espírito se unificam numa só substância. o remorso já acordado na caverna escura. diante das maravilhas do aparelho encefálico. entendia o agregado abstrato da saudade. chamando a si. E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva! Bem examinada a questão. Perguntei-lhe um dia por onde entrava o som. cuido não estar proferindo uma heresia.conspurcada de gozo malsão. dentro do mundo fenomenal. o que vale dizer. a forma para ele era a manifestação passageira da matéria em seus processos evolutivos. Augusto nunca deixou de ser um metafísico no sentido religioso da palavra. Quando a matéria transmigra acompanhada de um elemento hereditário que memoniza o instinto da espécie através das gerações. Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma 11 . Todo mundo sabe que é pelo ouvido que se ouve. assombrado com o não-ser. o vidente de Patmos: . força será admitir um agente oculto capaz de operar o fenômeno. onde impera a força que responde pelo movimento ubiqüitário da massa. tantas vezes exaltada pelo poeta. Por alma. sente o remorso a queimar-lhe a consciência. Por fim. Vemos o poeta a adquirir a forma humana e a degradar-se em seguida num gozo efêmero de dolorosas conseqüências. Isso não impede que o espírito seja o agente atuante de tão prodigiosa membrana. Eis que assim se expressa em Os Doentes: A vida vem do éter que se condensa. com sótão e porão.No princípio era o Verbo. do ponto de vista metafísico.

tenha sido escrito por um adolescente para quem o cotidiano devia correr. dominado por um ceticismo acabrunhador. Profundissimamente hipocondríaco.. um mundo de fantasmas errantes que não adquiriram ainda a consciência de sua dor. Exausto da luta. Sofro. só serviu para adensar o clima de alucinação. desde a epigênese da infância. inconformado com a idéia de ser um dia roído pelos vermes. cadáveres e bocas necrófagas. Mas como é preciso preencher um claro na consciência. Que o sangue podre das carnificinas Come e à vida em geral declara guerra. fonte inesgotável de vida. filho do carbono e do amoníaco.Fazer a luz do cérebro que pensa. na melhor das suposições. admite o éter. Monstro de escuridão e rutilância. procura penetrar o mistério da substância universal. impreca. Anda a espreitar meus olhos para roê-los. Em sua alma atormentada as superexcitações provocam visões aterradoras. Sobe-me à boca uma ânsia igual à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. Na idade em que os encantos do mundo douram a existência. Por toda parte. Os tormentos mortais da alma crescem com a descrença. rasgar do mundo o velário espêsso.este operário das ruínas. a matéria putrefata. Querendo fugir a essas coisas. que é o Deus materialista de Haeckel. Custa crer que este soneto . solta blasfêmias. O próprio amor. causa-lhe repugnância. procura 12 . No auge da inquietação. Augusto falava como um homem que já perdeu o ideal da vida. o lado malsão da vida. faz perguntas ao destino: “Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?” E nesse duelo da matéria com o espírito perturba-se. O mundo em que vive é um vasto hospital. onde imperam sombras. Este ambiente me causa repugnância. onde não há lugar para a alegria.Psicologia de um Vencido .. mas “diante da sombra do mistério eterno” considera-se vencido. firmava-se no presente a flagelar-se na ciência racionalista. Nem por isso admite Deus. servindo de pasto a uma civilização corrompida. Na frialdade inorgânica da terra! Assombrado com o futuro. A influência má dos signos do zodíaco. Essa saturação filosófica fez-lhe um grande mal. vermes. Já o verme . perscrutar a fenomenalidade da energia a erguer da prisão milenária outras espécies que hão de vir. Em tudo. sem problemas materiais: Eu. Ao invés de fecundação do espírito. E há-de deixar-me apenas os cabelos. o éter cósmico. uma natureza gasta. que era o pior dos remédios para a sua alma inquieta.

o Eu e Outras Poesias. Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer. sente o desejo. Algo de mais grave. monstros terríveis. deve ter acontecido na sua juventude. uma desgraça na vida do poeta. tenta ir ao fundo da crença monística. Antes de mais nada. supõe-se integrado na imanência da idéia soberana. Falava como um homem que parecia ter a consciência carregada de remorsos. Por um instante. evadido de si mesmo. acompanham-no. E via em mim. Tudo isso. Grita a sua dor por toda parte e. leve-se em conta a deformação de uma sensibilidade que vinha do berço e o predispunha ao desequilíbrio das sensações entre o eu e o mundo externo.refúgio na inexistência espiritual. Um inocente metido na prisão talvez se revoltasse menos que ele no ergástulo da carne. em suas visões oníricas. já cansado de escutar a natureza. não é demais supor a existência de algum motivo oculto capaz de levá-lo ao desespero. Até agora 13 . que exulta triunfante: Gozo o prazer. numa atitude mental de fuga à realidade. na vã expectativa de que seu ego o deixe em sossego. a perda da crença e.. Nenhum pintor. como se o infortúnio tivesse desabado sobre a sua cabeça. diz ele. Há. pois que precisaria a tinta de todos os tormentos do homem. podia fazer dele um triste. como se já tivesse despido a carcaça da matéria. que ele denomina um sonho ladrão. há muitos anos desapareceram! Nesta temática vai longe. não há homem que sofra mais. Com efeito. no todo ou em parte. a terrível moléstia que se atribui. gasta imensas energias e enche de culminâncias. que os anos não carcomem. coberto de desgraças. E para não capitular a esse apelo. seria capaz de executar o quadro de suas aflições. mas não me parece bastante para torná-lo um desgraçado. Mas há dentro dele qualquer coisa que o chama à realidade. para não desmoronar a fortaleza de suas convicções filosóficas. Depois disso.. E é nesta manumissão schopenhauriana. paralelamente. nem Haeckel compreenderam. com o poder de sua imaginação. com efeito. O niilismo esvaziava-lhe a alma da mesma forma que o cientificismo materialista. Mas o diabo não larga a sua presa. como se supunha. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das idéias! Mas de novo se encontra em face do nada. Onde quer que se refugie. O subconsciente o aturde. podia exercer influência no temperamento sensível do poeta. Espera aí encontrar o seu nirvana. A julgar pelos seus gemidos. O resultado de bilhões de raças Que. de subverter-se no grande todo e fazer da parte abstrata do universo a sua morada equilibrada e firme. E de onde vem essa dor? É possível que tenha a explicá-la um concurso de causas.

Iríamos a um país de eternas pazes. . não tenho dúvidas em afirmar que foi o drama do amor. é que deve começar o trabalho de pesquisa para a verdadeira interpretação psicológica do autor. Trata-se.A Ilha de Cipango alude a uma felicidade perdida. Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E via em mim. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrio! Um penetrante e corrosivo frio 14 .. Mas é ele próprio quem está a falar continuamente numa desgraça. que é o drama mais doloroso de sua consciência. desespero virtual e não real. Por mais que procure fugir ao assunto. Por suas próprias palavras.. não vejo maior necessidade de conhecer a biografia de Augusto dos Anjos para bem interpretar a sua obra. de uma paixão. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. no tocante a esse drama. Minha desgraça há de ficar sozinha! E que desgraça foi essa que o fez ficar assim tão sombrio? Convém que ele mesmo conte a sua história.esse seu sofrimento tem sido considerado puramente abstrato. em . pois. no capítulo do amor.. Banhei-me na água de risonhos lagos E finalmente me cobri de flores. coberto de desgraças Mas veio o vento que a Desgraça espalha Para iludir minha desgraça estudo. Gozei numa hora séculos de afagos. Mesmo que quisesse recorrer a essa fonte para uma boa exegese literária. dada a ausência de biografia. A dificuldade está em conhecer o valor dos símbolos e em seguida decifrar as alegorias. Por enquanto. sempre se revela. inútil seria qualquer esforço. depois de haver conhecido os inefáveis afagos do amor. Ele próprio. cujo desfecho infeliz teria abalado convulsivamente sua personalidade carente de equilíbrio. Mas o seu eu está projetado na obra e nestas condições não preciso de outro elemento identificador para firmeza do valor interpretativo que neste trabalho tenho a intenção de destacar. Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. Exatamente aí. não pode ocultar que foi vítima dele. Por mais que Augusto negue o amor. Lembro-me bem.

Anestesiou-me a sensibilidade. E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. A tarde morre. Passa o seu enterro. . A luz descreve ziguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos!

Até aqui, apenas um lampejo, mas o bastante para mostrar que foi por causa de um amor desventurado que se fez assim tão sombrio. Onde deixa vislumbrar um pouco mais de claridade é neste outro quadro - A Árvore da Serra:
As árvores, meu filho, não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho... É preciso cortá-la, pois, meu filho, Para que eu tenha uma velhice calma! — Meu pai, porque sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs alma nos cedros... no junquilho... Esta árvore, meu pai, possui minha alma!... Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa: “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!” E quando a árvore, olhando a pátria serra, Caiu aos golpes do machado bronco, O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra!

Numa e noutra composição, como se vê, o assunto é tratado em linguagem hermética. Aliás, o uso de metáfora é freqüente nele, mais ainda quando alude ao drama da consciência. Um corte transversal nas duas composições - A Ilha de Cipango e A Arvore da Serra - entremostra a desventura amorosa. A cena teria se passado no engenho Pau D’Arco, residência do poeta. O moço triste era ele, e a namorada, a árvore da serra, que possuía a sua alma. A bem amada já havia cedido o seu amor ao poeta, como adiante veremos. Por ser uma jovem de condição humilde, um junquilho entre cedros, o pai austero, orgulhoso de sua estirpe ou premido pela família, determinou ou concordou tirar para sempre da presença do filho aquela flor silvestre, que o tinha preso aos seus encantos, crendo que, com o desaparecimento do empecilho, pudesse ter uma velhice calma.

15

Para melhor compreensão do drama, convém apanhar o pensamento do poeta na parte em que as duas composições esboçam de leve o quadro: - “Gozei numa hora séculos de afagos,/’ Banhei-me na água de risonhos lagos,/ E finalmente me cobri de flores ... / Mas veio o vento que a Desgraça espalha”/ “Esta árvore, meu pai, possui minha alma!” ‘ / “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”/ “Foi sobre esta ilha que extingui meu sonho!”/ Desde então para cá fiquei sombrio!/ Um penetrante e corrosivo frio/ Anestesiou-me a sensibilidade.”// “Invoco os Deuses salvadores do erro./ A tarde morre. Passa o seu enterro!”// “Pela estrada feral dois realejos/’ Estão chorando meus amores mortos!”./ “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/ Caiu aos golpes do machado bronco,/ O moço triste se abraçou com o tronco/ E nunca mais se levantou da terra!” Seus versos deixam transparecer que houve violência. Mais de uma vez fala o poeta em golpes: - “E a grandes golpes arrancou as raízes/’ Que prendiam meus dias infelizes/ A um sonho antigo de felicidade!” / / “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/i/ Caiu aos golpes do machado bronco”/... A moça, ao que parece, era natural do brejo ou do sertão lugares que ficam sobre a Serra da Borborema, cujos contornos, na faixa do horizonte, se avistam da várzea do Paraíba, pois de outra forma não há sentido para o verso que diz: “E quando a árvore, olhando a pátria serra”... Se aprofundarmos um pouco mais a indagação, vamos encontrar retalhos desse episódio em quase todas as composições do Eu. A coisa tem começo em Monólogos de uma Sombra, quando o poeta, em seu primeiro exame de consciência, já mordido pelo remorso, acusa o sátiro que ele foi.
As alucinações táteis pululam. Sente que megatérios o estrangulam; A asa negra das moscas o horroriza. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa!

A seguir, em As Cismas do Destino, descreve o segundo ato da tragédia:
Fetos magros, ainda na placenta, Estendiam-me as mãos rudimentares! Ah! Com certeza, Deus me castigava! Por toda a parte, como um réu confesso, Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo, me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Não sei porque me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança

16

E um pedaço de víscera escarlate. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse, E até o fim, cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória.

O terceiro ato da cena, constante do mesmo poema, é de revolta contra os seus, os que, cansados de viver na paz de Buda ou inflamados de preconceitos de nobreza, se encheram de humano orgulho, e quais guerreiros priscos contra uma imbele criatura que ao amor se rendera, entraram em conserto para a consumação da tragédia. Assim fala o poeta:
Todos os personagens da tragédia, Cansados de viver na paz de Buda, Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psico-plasma Humano sofre na mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, A morte desgraçada dos açougues... Tudo isso que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra!

E ao terminar o poema, no qual pôs toda a sua amargura, o peito arfando de impotente indignação, solta esse brado de desespero:
Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psiquê no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo!

17

Como quem afasta de si a visão terrível de um drama macabro, guarda-se o poeta, mui cautelosamente, de descobrir o motivo cruciante do seu trabalho poético, deixando, entretanto, a perceber, em cada símbolo, em cada imagem de sentimentos dissimulados, um fragmento da realidade que abrasava o seu mundo interior. Sofre realmente e sofre mais porque a dor que se dissimula não estanca, principalmente quando falta ao paciente resignação cristã ou conformidade filosófica. A obsessão do sangue vai até o fim. Alma agoniada por tormentos mil, anda gemendo pelas estradas solitárias, perseguida por visões alucinadoras. Numa de suas últimas composições, ainda atormentado pelo monocromatismo monstruoso da universal vermelhidão, assim recorda o passado sombrio:
No inferno da visão alucinada, Viu montanhas de sangue enchendo a estrada, Viu vísceras vermelhas pelo chão...

Ele guarda para todo o sempre o pesar do golpe sofrido. Ora irrompe em forma de protesto, ora de arrependimento pela culpa que lhe cabe. A consciência inquietada pelo remorso é aquele morcego do seu soneto, que à noite entra imperceptivelmente em seu quarto. Seu coração ficou um deserto. Nem mais amor a Deus, nem mais amor à humanidade, nem mais amor à mulher. Ao coração devastado a alegria nunca mais voltou. Vive somente para a sua dor. Poder, riquezas, glórias terrenas, são coisas que despreza. Em sua musa, o amor não terá mais lugar, nem mesmo como tema de glorificação poética. Causa-lhe até repugnância. Explica-se desse modo a deficiência cromática de seus versos. Só na cor do sangue às vezes se manifesta. Em toda a sua poesia, a paisagem do Pau D’Arco se converte em cenário triste e repugnante. Com referência a esse cenário, diz ele em Psicologia de um Vencido: “Este ambiente me causa repugnância...” Alguns críticos tomaram o impropério como dirigido à sociedade da Paraíba. Do Pau D’Arco, ressalva apenas o velho Tamarindo, a árvore da perpétua maravilha, a cuja sombra amou e chorou. Varado de dor — continua amando em espírito, um amor etéreo, que está fora da carne e não tem mais sentido com o coração. Eis que assim se manifesta: Porque o amor, tal como eu o estou amando, É espírito, é éter, é substância fluida, É assim como o ar que a gente pega e cuida, Cuida, entretanto, não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes, imponderabilíssima e impalpável, Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! O fato em si é de todo interesse para a interpretação da obra original de Augusto. Já os detalhes do fato são sobras que ficarão reservadas ao investigador biográfico, que infelizmente ainda não apareceu. Em Augusto dos Anjos o que mais interessa é a biografia do poeta. Erro será querer julgá-lo como prosador, fora da área da poesia, como tem sido estranhamente fariscado por alguns críticos. Na prosa, era, de fato, rebarbativo, como de refinado mau gosto também foi, na prosa, o genial cantor dos Lusíadas. Apenas como um desafio ao futuro biógrafo, seria curioso saber como se chamava a moça que Augusto metamorfoseou na árvore da serra. Essa curiosidade vem a propósito do nome de uma 18

Porque não evitei o precipício Estrangulando a minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! De outras vezes..extravasava desta forma o seu lamento: 19 . ao mesmo tempo que. surpreende com a invocação de Santa Francisca. E invejo o sofrimento desta Santa. mas no poema . que não é das mais invocadas... Em cujo olhar o vício não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Porque cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício.Insônia . eu também vou passando Sonâmbulo. como em .Queixas Noturnas . Como um bemol ou como um sustenido. como é sabido. contrito. O poeta. Sonâmbulo. Noite.santa. confessa mais uma vez a sua culpa. Rola impetuosa por meu peito a dentro?! Porque é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ao mapa-mundi estranha... Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim.referindo-se certamente ao espectro de sua desventurada amada. Sonâmbulo.. Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta. em mágoa. nunca foi chegado a santos. Depois de embebedado deste vinho.

mas para os que crêem há ainda uma esperança. como perseguido pela sinistra ceifeira.. pouco fala.Quem foi que viu minha Dor chorando? Saio. E porque a visão da morte não o deixa em sossego. expressa a sua mágoa numa comovente unção. A satisfação que buscava nos conhecimentos filosóficos só lhe faz aumentar a sede de infinito. como referiu vagamente em As Cismas do Destino. ando! Bati nas pedras de um tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza a minha única saúde! Curioso é que o egoísmo de uma dor sem fim não lhe fez perder o amor ao pai. que não admite a vida espiritual. o ofício da agonia. apenas três vezes. E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. Em . dormir primeiro.As Cismas do Destino . cuidei que ele dormia E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o!” deixa-o. Toda a crença monística em que procura consolo não lhe explica à satisfação o fenômeno da vida. Como Elias. Madrugada de treze de janeiro. A morte é o fim de tudo. entretanto. não para ele. entre estes monstros. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido.brada: 20 . Nem uma névoa no estrelado véu. Talvez visse nela uma criatura transtornada pela “mania mística”. A projeção da imagem materna esvaneceu-se por certo como símbolo da mais freqüente e sublimada veneração. ama-o até mesmo na atômica desordem.. Da mãe. Rezo. Mãe. sonhando. Minha alma sai agoniada. Mas pareceu-me. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. luta por fugir dela. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu. que parece se deixou levar por pressão da família. isso mesmo sem revelar um mínimo de afeto. Ao pai. num carro azul de glórias. De nada valia para um espírito inquietante como o seu uma filosofia que arma o seu sistema à margem da vida. em que a piedade do sentimento se sublima na tessitura da composição. sem resolver a verdade interior. Ao vê-lo morto. entre as estrelas flóreas. quando a morte o olhar lhe vidra. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei.

. Minha filosofia te repele. Vivia um mundo à parte. E porque não se acalmava? Faltava-lhe fé. Acha Flósculo da Nóbrega. habitado por monstros humanos. Forma difusa da matéria imbele. Nada o consolava nesse estado de espírito. quando recebeu os 22 açoites da natureza.. Não me parece tenha razão 21 . desesperado por não encontrar solução no raciocínio frio e racionalista. Procura assim desoprimir o coração.. ponto final da última cena. como em toda a obra. desabafando-se nestes termos contra a natureza: Tu não és minha mãe. escravo do raciocínio frio. E ainda.Morte.. as palavras também servem para ocultar o pensamento. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas Atravessando os ares bruscamente. não cria em Deus. cheio de imperfeições. alguém há de responder pelos sucessos infelizes do seu destino. Por tua causa apodreci nas cruzes. pois estava certo que nem Deus compreendia os seus soluços. Aqui. devia ter na época. em Alucinação à Beira Mar: “Um medo de morrer meus pés esfriava”. O sentimento profundo de dor e de descrença afastava-o da realidade. ilustre membro da Academia Paraibana de Letras. Essa visão shakespeariana das espadas cruzando o espaço tanto pode ser a perseguição da morte como o trágico fim da sua amada. em cujas entranhas um feto magro estendia-lhe as mãos rudimentares. levava-o a recolher-se em si mesmo. que Augusto era um cerebral. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Presumivelmente. que só faziam aumentar a sua ânsia de infinito. 22 anos de idade. O remédio que então buscava para as suas mágoas era o pior dos excitantes. Já que não crê em Deus. é natural que se mostre rebelado contra a natureza. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. Ao invés de ajustá-lo à realidade. embora ansiasse por encontrá-lo. ardendo em indagações subjectivas. Meu raciocínio enorme te condena! E num horror quase pânico exclama. Impressionado sem cessar com a morte E sentindo o que um lázaro não sente. tanto que nos conflitos entre a inteligência e o sentimento tomava o partido do intelectualismo. Nestas condições. em A Ilha de Cipango: Tenho alucinações de toda a sorte.

nunca recebeu hostilidades. em Poema Negro: A passagem dos séculos me assombra. A inspiração despertava com a dor. Depois que o poeta deixou a Paraíba. além de pouco. o que ele via realmente era o ambiente do engenho Pau D’Arco. Os seus melhores versos. os de maior densidade emocional. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. tinha-se na conta de um doente. sua musa empalideceu à falta de ambiente. Na luta em que Augusto se debate. Surgem daí as freqüentes inflexões mentais e os distúrbios emocionais de fundo neurótico. contudo. volta-se vez por outra contra a sociedade. não viveria atormentado com os mitos que o afastavam da realidade. toda a mágoa do seu espírito vem à tona. que o acolhia com carinho. mas porque se sente um desajustado. Desta. Mas ninguém tinha culpa de ser ele um incompreendido. O mundo que o fazia sofrer não era de certo o da sociedade paraibana. como um sonâmbulo. que não se sabe se foi escrito na Paraíba ou no sul. Tomado de tensão nervosa pela repugnância que lhe causava o ambiente. foram produzidos no Pau D’Arco. Não importa que tenha morrido de pneumonia. em 1912. podia ter alguma razão para queixar-se da sociedade. ao redor da capela do engenho. No fundo. conforme ouvi de Alcides Carneiro que ouvira dos seus íntimos. excetuado da segunda parte do Eu e Outras Poesias o grande soneto O Lamento das Coisas. O que produziu no sul do País. Era ali que ele sentia bulir na alma o drama de sua existência. na vertigem: Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. noite a dentro. que o 22 . um homem excluído do mundo. Não que tenha recebido ofensas dela. Ao contemplar esse ambiente. Há. um cuidado muito discreto da família em negar a tuberculose. o cérebro em fogo. via na sociedade a representação da humanidade sofredora. conforme declarou nesta honesta confissão. passos largos. Punha-se então a passear. teria Augusto encontrado satisfação na filosofia. Em agravo da tortura moral que não cessa de persegui-lo. entrava em crise espiritual. Nem ele próprio se conhecia. Um tuberculoso pode sucumbir a outro evento que lhe antecipe o fim. As suas relações com a sociedade parecem rompidas. mas no particular. não se deixaria possuir pelo demônio da dúvida. Fosse como ele diz. Era. de vez que ninguém o compreendia. destoa em força emocional do que produzira em sua terra natal. um espiritualista em eterna briga com o racionalismo. Já é tempo de desfazer um equivoco que de tão repetido vai criando raízes. condenado a expectorar os pulmões dilacerados. Em reforço desse argumento temos uma prova no próprio Eu. e a mim pergunto. ao contrário. De um modo geral.o ilustre intelectual paraibano. andar bamboleante. que só repugnância lhe causava. torturado no sentimento do desamparo. Suas percepções sensoriais estão sempre em conflito com as atividades especulativas do espírito. no caso.

que pode figurar sem favor entre os melhores da língua. a imagem dos sonhos remotos que ele quebrara com o furor de um iconoclasta. Mais adiante. Lá para o fim do poema. Mas ninguém pode furtar-se às impressões da infância. despedaçando as imagens dos próprios sonhos. Essa real ou imaginária doença. entra a descrever a cidade dos lázaros. De início. em serenata. depois de exclamar que sua angústia feroz não tinha nome. à guisa de ácido resíduo. tudo isso ele pincelou num quadro que é uma jóia de rara beleza. como ele chamava. pois. sob os seus pés. 23 . Na ascensão barométrica da calma. confessa-se minado pela tuberculose. deixa escapar este triste lamento: O inventário do que eu já tinha sido Espantava. na terra onde pisava. assim principia o soneto Apóstrofe à Carne: “Quando eu pego nas carnes do meu rosto/’ Pressinto o fim da orgânica batalha”. como se já tivesse perdido o alento de viver. Parece que desperta para a vida. Perdido o amor. fez dele um misantropo. Já cansado do ceticismo. num desalento ainda maior. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minha alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. que admirar chore um dia a crença perdida. a arremetida que deu depois contra esses tesouros do coração. ansiado e contrafeito. Era ali. atormenta-se com a idéia de que. Em As Cismas do Destino. em Os Doentes. numa emoção que comove. onde os anjos cantavam. Foi a partir dai que entrou a sentir o vazio de sua alma. Esse retorno do pensamento aos dias tranqüilos do passado.próprio poeta confessava. como um arrependido. havia “um fígado doente que sangrava e uma garganta de órfã que gemia”. na qual os doentes consagravam a sua última fonética a uma recitação de misereres. A tragédia espiritual de Augusto começou desde que extinguiu seu sonho de amor sobre a Ilha de Cipango. aliada à descrença. passa a chorar a sua dor e a alheia. Depois disso. o soneto Vandalismo. levado pela lembrança terna de um mundo cheio de encantos e maravilhas. jamais preenchido pelo cientificismo materialista. os acordes saudosos do coração. Não há. imaginária cidade à margem do Paraíba. hosanas ao Senhor. perdeu também a crença. que os enfermos se reuniam pela camaradagem da moléstia. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! Mais tarde. Eu bem sabia. eis que escuta. “na urbe natal do Desconsolo”.

quase todos. continua despertando o mesmo interesse dos primeiros tempos. já na 27ª edição. No desespero dos iconoclastas. Como os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. de admirar que ao lado de conceitos da mais justa penetração girem outros que espantam pela desconformidade. Onde um nume de amor. gostar e não gostar é coisa que se não discute. Canta a aleluia virginal das crenças. este último. ao aludir com desdenhoso apreço aos motivos abjetos que abundam no Eu e Outras Poesias. Raul Machado.Meu coração tem catedrais imensas. Santos Neto. mas dar opinião atabalhoada a respeito daquilo que não chegou a ser entendido muda de figura. Negou-lhe peremptoriamente as qualidades de poeta. na Academia Paraibana de Letras. Não era espremendo o cérebro como muitos que se apagam antes de morrer. num discurso de recepção a Flóscolo da Nóbrega. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. a outros poderá parecer insípido ou fastidioso. Sua obra. cada leitor tem o direito de sentir o autor a seu modo. quando a aflição interior explodia em chamas 24 . ler. que não é biografia e não chega a ser estudo. tenham bordejado na superfície do abismo em. para ele. a musa é que tomava o poeta de assalto nos momentos de suas lucubrações. Enfim. Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! Caminha para cinqüenta anos que Augusto dos Anjos morreu. Não é. chegou a dizer que Augusto não era poeta. Templos de priscas e longínquas datas. pois. Álvaro de Carvalho. muitas opiniões foram veiculadas. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas. apenas como autor de um livro apologético. reconhecendo nele apenas o mérito de artista do verso. destaco Órris Soares. Dos outros. posto que. Sabe-se como compunha. que se afundava a alma do poeta. João Lélis e De Castro e Silva. Nesse decurso. em serenatas. por exemplo. Ao contrário da incontinente afirmativa. tanto sobre a obra como sobre a personalidade do autor. há sempre o que referir. em gemidos de dor. Assim é que. disse que Augusto agarrava a musa e saía com ela a passear pelos recônditos da diluição biológica. José Américo de Almeida. Para só mencionar os intelectuais paraibanos que se pronunciaram sobre Augusto dos Anjos. O que a uns desperta atenção e convida mesmo a uma meditação mais séria. Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. No final de contas.. A arte. Flóscolo da Nóbrega. João Lélis. era apenas o meio de formular soluções..

insulado em sua própria grandeza. este na prosa. já pelo cientificismo que tem por incompatível com a linguagem poética. certa preocupação inclusive dos simbolistas. No entanto. figuras espectrais e outras visões sinistras. a densidade. essa repulsa idiossincrásica que compromete o crítico antes de atingir o alvo. Os que o conheceram de perto descrevem-no de andar banzeiro. com efeito. também 25 . o sentimento parece ter outra dimensão. Augusto foi um torturado da idéia a serviço de um estro estrepitoso. Não importa que Augusto tenha ficado sem seguidores. Poe e Rimbaud. Euclides da Cunha. túmulos. Em ambos. o outro 25 anos depois. como lamenta o crítico. Bilac pode ter sido um lapidário da forma. de um a outro canto da sala. surpreendeu-o num desses partos sem dor e tão absorto divagava o poeta. cujos adeptos se apraziam em demolir toda vez que a obra visada não estava na conformidade do seu gosto.devoradoras. a sua personalidade psicológica. sangue de vísceras dilaceradas. por ver em tais composições a podridão enroupada em jargão científico ou jargão clínico. Por tudo isso. seu colega de turma e companheiro de estudos desde a fase preparatória. sobretudo da crítica provinciana. tem a prejudicá-la a idiossincrasia literária que afasta cada vez mais o retratista do retratado. o que acabava de compor. Em ter ficado sozinho. Essa incompreensão a respeito de Augusto. reside justamente no termo técnico. Neles. duendes. afirma e reafirma que o Eu ficou como planta exótica. já por sua tendência malsã de ver as coisas pelo lado abjeto. Seus versos. lábios crispados. Muitas vezes. A virtuosidade ganha valor na opulência da expressão verbal. mas quem os lê e os medita tem a impressão de que foram cavoucados na rocha. Escrevia numa linguagem difícil porque era esse o seu estilo. o que era. impressionam pelo poder da dialética. enquanto forjava mentalmente a composição. nem o gosto se levava em conta quando prevalecia a prevenção pessoal ou quando se pretendia alcançar fama com a marreta da demolição. que não tenha fecundado a poesia nacional. Só depois de elaborada é que ia para o papel. vermes. associado à vibração sonora. Foi então que recitou de inopino. Os versos espoucavam no momento da inspiração. à primeira vista incompatível com a poesia. Jamais foi o leit-motiv de sua produção intelectual. essa linguagem. em 1945. como em compasso de música. olhar perdido no espaço. um em 1920. Álvaro de Carvalho escreveu dois estudos sobre Augusto dos Anjos. Anoja-se o crítico diante de cadáveres. a passear a esmo. em excelente estudo sobre o artesanato na poesia de Augusto dos Anjos. claro que avulta ainda mais o seu mérito. Órris Soares. à margem das correntes estéticas do pensamento literário. segundo a classificação que adota de Agripino Grieco. lá fora. Essa crítica. escarros. o ilustre escritor paraibano opõe embargos ao poeta. entrava disciplinada em seus versos. num timbre especial de voz. Cavalcanti Proença. tem as suas raízes no caráter polêmico da crítica passadista. que pretende ser de interpretação psicológica. na época. Repugna-lhe o fartum que diz emanar do Eu e Outras Poesias. que só deu pela presença do amigo depois de concluído o trabalho mental. disse que uma das suas forças. entre nós.

Nem por isso. Há. Por suas excentricidades e afinidades outras de ordem espiritual. juízos despropositados de quem roça pelo assunto sem penetrar o recôndito da dor possessiva que tanto sublimava o poeta. O próprio Augusto tinha a consciência de que ia ficar sozinho e que era o poeta do hediondo. deu resposta por antecipação aos reparos dos seus futuros críticos.ficaram sem seguidores. com efeito. que apenas transparece em linguagem evasiva. Note-se mais que a esse vigor casa-se uma virtude de efeitos encantatórios. como se definiu neste quarteto de Minha Finalidade: Pré-determinação imprescritível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. numa revolta do espírito que vai aos extremos da blasfêmia. aparelhou. nem tudo pode ter cabimento. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto. não lhe tira o vigor da expressão verbal. Da vasta literatura que já se produziu sobre Augusto dos Anjos. num dos seus últimos sonetos. O anojamento de Álvaro de Carvalho. no duelo da carne. como se vê. por isso mesmo poética. pelas crises espirituais porque ambos passaram. mesmo doentia. neste ensaio de exegese literária. manifestada em poemas impressionistas de aguda sensação. é mais uma aversão de olfato alérgico. Se há fartum de diluição biológica na poesia de Augusto. Foi exatamente com esse título — Poeta do Hediondo — que ele. Admita-se que a musa de Augusto tenha algo de doentio. Com Baudelaire. elogios ou restrições. está em tempo de ser feita. reconheça-se que essa poesia é humana. na impotência de estabelecer relação entre o mundo visível e o invisível. Mas é preciso notar que essa musa. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Tenho por desnecessário dizer que uma interpretação psicológica de Augusto. de sentido mais profundo. Com Verlaine. Absurdo é querer sujeitar a literatura aos padrões em voga. Até mesmo quando desce ao abominável das podridões tumulares cintila em fulgurações de gênio. O autor é o que é e não o que o crítico quer que ele: seja. 26 . Augusto tem sido comparado aos mais altos padrões da corrente estética do pensamento. o que forma em seu conjunto a harmonia orgânica de toda a obra poética do consagrado artista paraibano. pela bizarria do estro e pelo gosto malsão de impregnar a poesia com o almíscar das coisas abjetas. Não pode o critico ser ortodoxo. ninguém lhes nega a grandeza de gigantes. Eis porque. na interpretação de um drama emocional. pela tristeza indefinível da alma. a fim de atingir. tenho por objetivo abrir aos estudiosos uma clareira que os conduza ao fundo da obra. Ou então. Sua obra está aí mesmo a desafiar a argúcia dos mais entendidos. Com Mallarmé.

no ar de minha terra. em quem se acumulam. desejada por um. isso mesmo de passagem. as mesmas figuras de linguagem. Só com Rimbaud. “Na Eternidade.através da sensação. de uma honestidade quase bravia. na postura de um campônio rústico. em grupos prosternados. palavras raras e eruditas. temida pelo outro. O único que mencionou Rimbaud. É. desde a sua fase inicial. vem o barulho das matracas. Com Antero do Quental. encontra-se em Roma. nunca nenhum dos seus críticos traçou o paralelo.. sensações simples e cenestesias.. pela tortura do espírito e pela constância do tema da morte. Encontra-se. um grande medo toma conta do poeta. Veja-se como se pronuncia a respeito do assunto: Falas de amor. foi José Américo de Almeida. Em outros lances de sua obra manifesta o mesmo desdém. Augusto lembra Rimbaud. a idéia pura das coisas.” Então desperta como de um pesadelo e com os olhos ainda ensanguentados da vigília sente a tristeza de ver mais uma vez como a sua vida é tão vazia. um mês após a morte de Augusto. para a neologia e o vocábulo raro. posto que as coisas que tinha a dizer exigiam. a filosofia da dor. que cultivava em sua sensibilidade enfermiça. O triste espetáculo do seu século leva Rimbaud a um passado remoto. Até nas aliterações e metáforas. Nos transportes espirituais os dois correm parelha. Dentro da Igreja de São Pedro o silêncio só é quebrado pelo vento que entoa cânticos de morte. pelo sentido da dor universal. Também no amor os dois se assemelham. Augusto tem as suas razões para desdenhar o amor. usando símbolos e valores que convergem para o fim colimado. guardando o corpo do Divino Mestre. na terra santa. e eu ouço tudo e calo! O amor na Humanidade é uma mentira. numa sexta-feira santa. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. em tropos ousados. que dialoga com os elementos imponderáveis. como se fosse uma convicção firmada e firmada com ênfase. os mesmos descuidos de metro e rima. de mistura com alucinações. A mesma coisa ocorre com Augusto. as mesmas despreocupações do rebuscado pour épater le bourgeois. por sua natureza. Não fica apenas aí o confronto. Curioso é que fez a citação ‘unicamente para dizer que nenhuma parecença encontrara entre com emprego de termos técnicos. De lá de fora. Vez por outra. quando a cristandade parecia pura sobre a terra. só nesse ponto dissimula o pensamento. assentado sobre cacos de pote e urtigas. ambos procuram traduzir a sensação das coisas inanimadas. ao pé de um muro carcomido pelo tempo. os ventos gemedores estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na Serra da Borborema. Segundo Delahaye. Honesto em tudo. Ouvindo isso. visionário. Súbito. em termos de comparação. havia acentuada tendência do poeta. como quem deriva o pensamento para o lado oposto da imagem triste que o assedia. e é com veneração religiosa que vê os soldados do Vaticano. crematismos. citado por Augusto Meyer. Com Leopardi. num artigo publicado em 1914. como neste exemplo: 27 .

um suave concerto espiritual na natureza. acabou por admitir a presença de uma realidade espiritual. Também Rimbaud modulou o seu canto no mesmo tom: “Je n’aime pas les femmes: l’amour est à réinventer. Rimbaud. que era o seu anseio máximo. A violência do veneno que ingeriu muito cedo nas fontes materialistas fá-lo morrer de sede. Descasco-a. contudo. é verdade. Não sou capaz de amar mulher alguma. mas que o levaram ao resultado conhecido. Motivos escabrosos. Nem há mulher talvez capaz de amar-me. o bem e o mal caminhando juntos. Ninguém sofre mais do que ele. É que Rimbaud era portador de uma mensagem que acabou por cumprir. à beira da água. é inútil. Depois desse fato. em suma. Em cada um deles. As repetidas negativas ocultam de certo uma dolorosa frustração. onde se casou com uma nativa da Abissínia. Rimbaud encontrou-se a si mesmo depois que descobriu o caminho da virtude — le sentier de l’honner — que tanto procurava. vítima de injustiças humanas. embora tenham se casado e tido filhos. Era a vida que lhe chegava e que fugia de Augusto. Não percebe sequer que toda a sua angústia é nascida de suas entranhas. E como não 28 . tendo culminado com aquele célebre tiro que recebeu de Verlaine. Começou então a ver e a sentir milhões de criaturas encantadoras.. Augusto sentia-se puro. é como a cana azeda. a julgar pelos seus lamentos. poeta. em busca do paraíso terrestre. que é talvez o drama mais crucial de suas consciências. enquanto Augusto não chegou a cumprir a sua. exacerbava-a. No tempo de jovem. Teria acontecido com ele alguma coisa? Ao que se sabe. andou conspurcado de sensações súcubas. depois de errar longos anos pela África e pelo Oriente Médio. provo-a. uma diferença de fundo entre os dois poetas.. segundo é fama. Ou então como nesta outra amostra: Parece muito doce aquela cana.Sobre histórias de amor o interrogar-me É vão. A toda boca que o não prova engana. como Tântalo. Quando viu que tudo quanto imaginava como solução para restabelecer o paraíso não passava de divagação delirante. converteu-se à realidade e mandou ao diabo o ar do inferno que o sufocava.”. por causas várias. na Bélgica. teve motivos de sobra para tratar o amor com aquele desdenhoso apreço. filha legítima de sua alma. homens de bem cheios de nobres intenções. Augusto e Rimbaud negam sistematicamente o amor.. é improfícuo. . largou-se para a África. Ao invés de aceitá-la como resultante de seu egocentrismo. chupo-a. sente-se que há um complexo de culpa. e por isso mesmo não achava conformidade para a sua dor. Há. ilusão treda! O amor.

mas nem isso acredito tenha havido. Possuído do demônio da dúvida. perfume. beleza. Não raras vezes. quando a monera já manifestava os primeiros sintomas de diluição. como muito bem já disse Augusto Meyer a propósito de Machado de Assis. Por curioso paradoxo. 29 . sem preencher esse vácuo. conforme confissão feita a Mário de Alencar. Todo vácuo que se abre na vida interior é prejudicial ao comportamento do indivíduo. como fontes de inspiração. tudo quanto eleva os sentidos. revolta-se contra o mundo. isto é. nada disso seria capaz de provocar-lhe uma sensação nova de vida. e se o fez alguma vez foi guiado pela dialética do monismo.Une Saison en Enfer . Neste passo. teria apenas disciplinado em poemas imortais os cânticos populares da época. numa reação inócua. o amor. silvos de labaredas e suspiros de empestados. Também Rimbaud bebeu na mesma taça de Põe. Tais similitudes valeriam. contra a sociedade. da mesma forma como sucumbira Antero do Quental. Augusto revela-se mais lido em Põe e em Shakespeare. Rimbaud também criou para si uma estação no inferno . segundo o conhecido conceito bergsoniano do intuitivismo. Rimbaud salvou-se porque se encontrou a si mesmo. segundo apregoam os fundibulários da crítica. os mistérios da natureza. Nas coincidências de temas ou mesmo de paralelismo de imagens não se veja. autores que exerceram forte influência em sua formação intelectual. Mesmo assim.pode reformar o mundo. sem procurar levantar o véu das aspirações profundas de sua alma. Jamais desceu ao fundo de si mesmo. som. que se agravou o drama latente de sua alma inquieta. A vida. chegaríamos por certo ao pai Homero que. quando muito. dessa conversão ao materialismo. Torturava-se por ver somente o lado negativo das coisas. sua vida se transforma num verdadeiro inferno. Ou será preenchido ou compromete a dinâmica das forças morais. Foi a partir daí. se fossemos no rasto dos poetas mais notáveis em busca de fontes de inspiração ou influências literárias. Há muitas espécies de conversões em literatura. porém. Ele mesmo se esvaziava no mundo vazio que se criou. tudo quanto desperta a alma. A conversão de Augusto foi às avessas e porque não se desconverteu estabeleceu-se o conflito do eu com o indivíduo. deixava-se ficar no interior da concha.espécie de autobiografia moral. Augusto vai irredento até o fim. depois que perdeu a ilusão dos homens. Uma mesma idéia artística pode ser tratada com sabor de originalidade por mais de um autor. mas depois que abandonou a luta espiritual afundou no suicídio. Esse divórcio do eu com o indivíduo acabou por abranger a própria sociedade. perdia-se no estado de dúvida.. luz. cor. isto é. Machado de Assis só entrou na posse de si mesmo depois que se converteu à descrença. martelada em versos magníficos e candentes. onde não faltavam o ranger de dentes. contra a sua grei. quanto mais afunda no racionalismo mais vacila na dúvida. como Camões na de Petrarca e de Vergílio. Dominado pela idéia de um mundo sem objetivo. do qual se considerava prisioneiro. Uma análise mais demorada encontraria maiores pontos de contacto entre Augusto e Rimbaud. Um problema sempre gera outro. Mallarmé também passou pelas mesmas crises. entre a voz do sentimento e a da razão. imitação. É sabido que nenhum escritor adquire a força do seu gênio senão depois de renovarse interiormente. a criação. o que recebe influências supera o modelo de inspiração.

viram nisso o pecado da blasfêmia. que se veja na blasfêmia. Alguns críticos. decretar a inexistência de Deus por decisão tomada nas urnas ou no bozó. é. descuramos o nosso destino espiritual pelo gozo do momento que passa.Enredado em idéias preconcebidas. Apurada a eleição e com base no resultado. outros andam com a Bíblia debaixo do braço e o coração carregado de impiedade. O cristianismo se apresenta como a doutrina de Cristo. Isso mostra que ele. via de regra. levantou-se a questão de saber se Deus existe ou não existe. tal como Rimbaud. Se emigrou para o sul do país foi porque a Paraíba do seu tempo nada tinha de melhor para dar-lhe senão uma cátedra no Liceu Paraibano. todavia. nas apóstrofes do poeta contra o cristianismo. é objeto de amor e de crença e não de investigação científica. sem advertir-se de que jamais dera um passo ao encontro do Mestre. olhar menos para as suas dores e um pouco mais para as alheias. 30 . é questão que não deve ser formulada. afetando melindres de devotos. a meu ver. aceitar as imperfeições do mundo. resolveu o presidente submeter a questão a votos. Ora. porquanto Deus é princípio e é fim. se sucediam na tribuna. É o que há. uns afirmando. E como não lhe bastasse pela exigüidade dos proventos. Vale mencionar. se não há Deus. a reação que lhe ocorre é a de menosprezo ao cristianismo. No meio em que viveu era querido e admirado. com raríssimas exceções. Convém. outros negando. mas os que o seguem desconhecem. sentia-se Augusto na impossibilidade de admitir a realidade da vida. certos de que no futuro sobrará tempo para essas coisas. uns batem nos peitos diante do altar e querem logo a recompensa do sacrifício feito. no desespero de tantos sofrimentos. Para uma alma sequiosa de infinito como a sua não há que estranhar uma ou outra expressão de revolta. alcançando a grande esforço um lugar de diretor de Grupo Escolar. quando não proferida por modo vulgar e chulo. Os oradores. Num dos muitos grêmios literários que proliferam na terra de Iracema. como ninguém ainda se entendesse. em meio a tantas emoções extravasadas. um episódio que me foi contado por um amigo do Ceará. nas Alterosas. Ao cabo do bombardeio oratório. Mas no mundo fechado em que se enclausurava não era possível ver lá fora as almas piedosas e aflitas que tão necessitadas como ele pediam socorro. heresia maior que a do poeta quando. supria-se do mais no magistério particular. há que distinguir entre blasfêmia contra o cristianismo e blasfêmia contra o Cristo. na realidade. A conquista da fé importa na conquista do próprio eu. Só é possível possuir a fé quando se está convencido da verdade. Se o Cristo não vem em seu auxílio. Não fosse a trama filosófica do individualismo racionalista. se manifesta ainda escravo do batismo. um pedido de socorro. a essência dos Evangelhos. Embora não caiba nos limites deste trabalho uma digressão sobre a contradição reinante no mundo da crença. Todos nós. proclamou que Deus não existe. Se há Deus. No sul do país continuou a mesma luta heróica pela subsistência. Na prática. lecionando a quatro gatos pingados todas as matérias do curso de humanidades. a propósito. em torrentes de eloqüência. teria certamente encontrado a realidade espiritual que nasce da fé e se alimenta na caridade. Toda a obra poética de Augusto é um grito de dor arrancado do fundo da alma.

atormentado por visões escatológicas. Mandando ao céu o fumo de um cigarro. Voltando à pátria da homogeneidade. O passado da flora brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida. como se vê. vem de muito longe.Debaixo do Tamarindo. sob estes galhos. o sacrifício da linda moça Polixena. por mãos de seu filho Pirro. explodiu em As Cismas do Destino. coisa que não cabe na boca de um ateu. De outras vezes. depois de carpir amargamente diante de um mundo que se mostrava indiferente às suas mágoas: Escarrar de um abismo noutro abismo. os filósofos iônios. Abraçada com a própria Eternidade. Por mais de uma vez chegou a falar em alma divina. através dos séculos. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. E como era sincero e honesto. encarnado nele e manifestado nesta passagem: Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade? Já em Monólogos de uma Sombra. 31 . No tempo de meu Pai. nunca teve escrúpulos de manifestar as dúvidas que lhe abalavam a consciência. não se pode dizer fosse ele um materialista ético. esse sombrio personagem do drama panteístico das trevas. Camões fala na sombra de Aquiles quando exigia. A denominação. Só muito raramente soltava uma blasfêmia. Por outro lado.” E onde mais expressivo se mostra é neste admirável soneto . esta árvore de amplos agasalhos Guarda. virtudes que cultivava com extremado zelo. entendiam a alma. Como uma vela fúnebre de cera. A minha sombra há de ficar aqui! Por sombra. De inflexões mentais sua obra anda cheia. dá à alma a denominação de sombra. como uma caixa derradeira. começa o poema “Sou uma Sombra. e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. desde Tales de Mileto. Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do cristianismo! Graciosa é a afirmação de que Augusto tenha tido a obsessão do sacrilégio.

na Federação das Academias de Letras do Brasil. que não quer ver a glória de Deus resplandescendo em tudo. Choram ainda dentro dele. então a presença do Eterno afastará a escuridão do caminho e aproximará a criatura do Criador. Daí por diante. tal como a entendiam os filósofos iônios. aos 30 anos de idade.Mas o que Augusto chama a sua sombra não é ainda a alma. Fala como um crente da cegueira da criatura humana. à semelhança da mônada de Leibnitz ou da monera de Haeckel. que eram uma constante na alma torturada do poeta paraibano. para ele. É a substância primeva. conjunto das faculdades intelectuais e morais do homem. mais dotados de inteligência e espírito de penetração. perdendo-se novamente no enleio cósmico. vacilante na ciência fria. desde o declínio das crenças mitológicas. mito cosmogônico que liga entre si o espírito e a matéria. era uma mônada. 32 . isto é. nas composições que vão até o fim do livro. assaltado de alucinações. !" Este trabalho. em briga com o dualismo. até que morre numa cidade das Alterosas. acrescenta. Até Deus. a 12 de novembro de 1914. o metafísico cede lugar ao inveterado monista. foi objeto de uma palestra proferida em maio de 1960. em soluços quase humanos.essa mônada esquisita Coordenando e animando tudo aquilo! Em Ultima Visio revela-se um metafísico teológico. como entidade eterna. da substância de todas as substâncias. sua intimidade numenal. tal como se apresenta. larva do caos telúrico. em Leopoldina. virtualidade espiritual. de onde decorrem todas as moléculas que se esvaem na transubstanciação da natureza. Mais poderia dizer agora. completem os estudos aqui esboçados ou deles discordem por modo a dar uma interpretação mais aceitável às mensagens de angústia. que procede do éter cósmico. Assim fala e assim termina a composição: A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ainda tem de abrir para o infinito! Vã ilusão será pensar que já está reconciliado com Deus. as formas microscópicas do mundo. Quem o ler nesse soneto dirá que já está reconciliado com Deus. mas dentro da alma aflita Via Deus . Quando essa cegueira for resgatada e arrancar o homem da inciência. Assim vai. como está dito em Sonhos de um Monista: A verdade espantosa do protilo Me aterrava. até mesmo num grão de areia. Que outros. mas com o que ai está me contento. ansiado por compreender o princípio anêmico dos seres.

33 . Eu. R. comecei a produzir muito antes dos 9 anos. Como faz o seu trabalho intelectual: Durante o dia. de abusar um pouco do café. Conservo de memória tudo quanto produzo. Onde e como foi educado: Na Paraíba do Norte. Rio de Janeiro. Quais as horas que dedica ao seu trabalho intelectual: Não tenho horas metodicamente preferidas para o meu trabalho mental. numa atmosfera de rigorosíssima moralidade. Quais os trabalhos que deu à luz até a presente data: um livro de versos. Tem continuados sonhos fantásticos: Quanto a sonhos fantásticos é também muito raramente que os tenho. acompanhados muitas vezes de uma vontade de chorar.UM CURRÍCULO ESCRITO PELO PRÓPRIO POETA Resposta ao inquérito de Licínio dos Santos em A Loucura dos Intelectuais. da chamada vida física. o que não impede. entretanto. relegando por completo tudo quanto concerne ao desenvolvimento. São muito poucas vezes que me sento à mesa para produzir. Quais os autores que mais o impressionaram: Shakespeare e Edgar Poe Qual o seu autor favorito: Todos os bons autores me agradam. cefaléia e amnésia: Até esta data não sofro absolutamente de amnésia. Tenho insônia raras vezes. mas a cefalalgia persegue-me constantemente. Em que idade começou a produzir: Se me não falha o poder de reminiscência. Sofre de insônia. chá ou outro excitante intelectual: Sou contra os excessos. Faz as suas irregularidade: Sim refeições com Tem muito apetite: Regular Faz uso do álcool: Não Faz uso excessivo do café. dos Anjos e D. presumo. Quais as cores de sua predileção: A vermelha e a azul. quase sempre andando no meio de toda azáfama ambiente ou à noite deitado. Engenho Pau d'Arco. vítima de surmenage morreu de paralisia geral e minha mãe é excessivamente nervosa Antecedentes pessoais: O que me pode adiantar sua infância: Desde a mais tenra idade eu me entreguei exclusivamente aos estudos. Quantas horas repousa: Meu repouso varia de 7 a 8 horas. Córdula C. 1914 Nome: Augusto dos Anjos Idade: 28 anos Profissão: Professor e advogado Estado civil: Casado Filiação: Filho legítimo do bacharel Alexandre R. O que sente de anormal quando está produzindo: Uma série indescritível de fenômenos nervosos. dos Anjos Antecedentes hereditários: Meu pai.

Esforços faço.. “Vou mandar levantar outra parede. igual a um olho..” -. Já o verme -. Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. Ao meu quarto me recolho. Sofro. Este ambiente me causa repugnância. desde a epigênese da infância. Circularmente sobre a minha rede! Pego de um pau. à noite ele entra Imperceptivelmente em nosso quarto! PSICOLOGIA DE UM VENCIDO Eu. agora.. Monstro de escuridão e rutilância. A influência má dos signos do zodíaco. filho do carbono e do amoníaco. Produndissimamente hipocondríaco. Anda a espreitar meus olhos para roê-los. Meu Deus! E este morcego! E. Ergo-me a tremer. E vejo-o ainda. vede: Na bruta ardência orgânica dasede. Que ventre produziu tão feio parto?! A Consciência Humana é este morcego! Por mais que a gente faça. e à vida em geral declara guerra. Chego A tocá-lo. Fecho o ferrolho E olho o teto. Minh’alma se concentra. E há de deixar-me apenas os cabelos. Na frialdade inorgânica da terra! 34 .este operário das ruínas -Que o sangue podre das carnificinas Come.TODOS OS SONETOS O MORCEGO Meia-noite.Digo. Morde-me a goela ígneo e escaldante molho..

Anoitece. Marcas oriundas de úlceras e antrazes.. Deixa circunferências de peçonha. À noite.. Mostra aos montes e aos rígidos rochedos A hedionda elefantíase dos dedos Há um cansaço no Cosmos. e quase morta. E o Lázaro caminha em seu destino Para um fim que ele mesmo desconhece! 35 .. em desintegrações maravilhosas. quando sonha. Que. quer e executa! Vem do encéfalo absconso que a constringe. Delibera. Riem as meretrizes no Cassino. Chega em seguida às cordas da laringe. Quebra a força centrípeta que a amarra. Tísica. tênue.A IDÉIA De onde ela vem?! De que matéria bruta Vem essa luz que sobre as nebulosas Cai de incógnitas criptas misteriosas Como as estalactites duma gruta?! Vem da psicogenética e alta luta Do feixe de moléculas nervosas. esbarra No molambo da língua paralítica! O LÁZARO DA PÁTRIA Filho podre de antigos Goitacases. Sente no tórax a pressão medonha Do bruto embate férreo das tenazes. Em qualquer parte onde a cabeça ponha. mínima. Todos os cinocéfalos vorazes Cheiram seu corpo. Mas. de repente. raquítica. e depois..

.Homens que a herança de ímpetos impuros Tornara etnicamente irracionais! Não sei que livro. Fruto rubro de carne agonizante. E.IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA Rugia nos meus centros cerebrais A multidão dos séculos futuros . Que poder embriológico fatal Destruiu. Meus olhos liam! No húmus dos monturos. Agregado infeliz de sangue e cal. Realizavam-se os partos mais obscuros. Dentre as genealogias animais! Como quem esmigalha protozoários Meti todos os dedos mercenários Na consciência daquela multidão.. feto esquecido. Em tua morfogênese de infante A minha morfogênese ancestral?! Porção de minha plásmica substância. Tragicamente anônimo. Panteisticamente dissolvido Na noumenalidade do NÃO SER! 36 . Filho da grande força fecundante De minha brônzea trama neuronial. Em que lugar irás passar a infância. em vez de achar a luz que os Céus inflama. em letras garrafais. a feder?! Ah! Possas tu dormir. com a sinergia de um gigante. Somente achei moléculas de lama E a mosca alegre da putrefação! SONETO AO MEU PRIMEIRO FILHO Ao meu primeiro filho nascido morto com 7 meses incompletos 2 fevereiro 1911.

E irás assim. Na superabundância ou na miséria. avoenga e elementar Dos teus antepassados vemiformes... em que tu dormes. pelos séculos adiante. rói vísceras magras E dos defuntos novos incha a mão.é o seu nome obscuro de batismo. arrima-a.VERSOS A UM CÃO Que força pôde adstrita e embriões informes. E vive em contubérnio com a bactéria. Almoça a podridão das drupas agras. Suficientíssima é. Janta hidrópicos. Latindo a esquisitíssima prosódia Da angústia hereditária dos teus pais! O DEUS-VERME Fator universal do transformismo. Jamais emprega o acérrimo exorcismo Em sua diária ocupação funérea. acode-a A escala dos latidos ancestrais. ampara-a. Livre das roupas do antropomorfismo.. Ah! Para ele é que a carne podre fica. Filho da teleológica matéria. Tua garganta estúpida arrancar Do segredo da célula ovular Para latir nas solidões enormes? Esta obnóxia inconsciência.Alma do inferior rapsodo errante! Resigna-a. Verme -. E no inventário da matéria rica Cabe aos seus filhos a maior porção! 37 . afaga-a. para provar A incógnita alma.. Cão! -.

Guarda.. Abraçada com a própria Eternidade A minha sombra há de ficar aqui! BUDISMO MODERNO Tome. Voltando à pátria da homogeneidade. e. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. Que importa a mim que a bicharia roa Todo o meu coração. das diatomáceas da lagoa A criptógama cápsula se esbroa Ao contato de bronca destra forte! Dissolva-se. Como uma vela fúnebre de cera. esta árvore. Dr. Mas o agregado abstrato das saudades Fique batendo nas perpétuas grades Do último verso que eu fizer no mundo! 38 . minha vida Igualmente a uma célula caída Na aberração de um óvulo infecundo. de amplos agasalhos. O passado da Flora Brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri.corte Minha singularíssima pessoa. como uma caixa derradeira.. depois da morte?! Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também. portanto..DEBAIXO DO TAMARINDO No tempo de meu Pai. sob estes galhos. esta tesoura.

mas dentro da alma aflita Via Deus -.essa mônada esquisita -Coordenando e animando tudo aquilo! E eu bendizia.. Na guturalidade do meu brado. Alheio ao velho cálculo dos dias. um dia. Eu fui refugiar-me à tua porta! Fazia frio e o frio que fazia Não era esse que a carne nos contorta. Por trás dos ermos túmulos. como quem tudo repele.. -. A energia intracósmica divina Que é o pai e é a mãe das outras energias! SOLITÁRIO Como um fantasma que se refugia Na solidão da natureza morta. com uma ânsia sibarita. A verdade espantosa do Protilo Me aterrava.SONHO DE UM MONISTA Eu e o esqueleto esquálido de Esquilo Viajávamos. Como um pagão no altar de Proserpina. Na inconsciência de um zoófito tranqüilo.Velho caixão a carregar destroços -Levando apenas na tumba carcaça O pergaminho singular da pele E o chocalho fatídico dos ossos! 39 . com o esqueleto ao lado. Cortava assim como em carniçaria O aço das facas incisivas corta! Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E eu saí. por toda a pro-dinâmica infinita.

Todas as noites. Dentro do ângulo diedro da parede. como um gado vivo. Como quase impalpável gelatina. A minha forma lúgubre nasceu! O LUPANAR Ah! Por que monstruosíssimo motivo Prenderam para sempre. A alma do homem poilígamo e lascivo?! Este lugar. nesta rede. Vêm matar a sede! É o afrodístico leito do hetairismo A antecâmara lúbrica do abismo. nascida Dessa homogeneidade indefinida Que o insigne Herbert Spencer nos ensina. Em que é mister que o gênero humano entre. Oh! Mãe original das outras formas. Nos estados prodrômicos da vida. Quando a promiscuidade aterradora Matar a última força geradora E comer o último óvulo do ventre! 40 . autônoma e sem normas. Nenhuma ignota união ou nenhum sexo À contingência orgânica do sexo A tua estacionária alma prendeu. Ah! De ti foi que. moços do mundo. Onde os bandalhos. mísera e mofina. vede: É o grande bebedeouro coletivo. talvez..MATER ORIGINALIS Forma vermicular desconhecida Que estacionaste.. O hierofante que leu a minha sina Ignorante é de que és.

. para o amor sagrado. se o amor quea Humanidade inspira É o amor do sibarita e da hetaíra. e eu ouço tudo e calo! O amor da Humanidade é uma mentira. Creio. O amor! Quando virei por fim a amá-lo?! Quando. como o filósofo mais crente. na generalidade descrente Com que a substância cósmica evolui. é o ego sum qui sum .IDEALISMO Falas de amor.Alavanca desviada do seu futuro -E haja só amizade verdadeira Duma caveira para outra caveira. Do meu sepulcro para o teu sepulcro?! ÚLTIMO CREDO Como ama o homem adúltero o adultério E o ébrio a garrafa tóxica de rum. De Messalina e de Sardanapalo?! Pois é mister que.. é o pneuma .este ladrão comum Que arrasta a gente para o cemitério! É o transcendentalíssimo mistério! É o nous . Amo o coveiro -. Que o homem universal de amanhã vença O homem particular eu que ontem fui! 41 . É. perante a evolução imensa. é esse danado número Um Que matou Cristo e que matou Tibério! Creio. O mundo fique imaterializado -. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. É a morte.

subi talvez às máximas alturas. penetrava fundo No meu fenomenal cérebro cheio. talvez as Musas. e. Na rua apenas o caixão sombrio Ia continuando o seu passeio! SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO Para desvirginar o labirinto Do velho e metafísico Mistério. cartilagens Oriundas. É necessário que ainda eu suba mais! 42 . nele. Vaguei um século. Mas. Pelas monotonias siderais..O CAIXÃO FANTÁSTICO Célere ia o caixão. Talvez meu Pai! Hoffmânicas viagens Enchiam meu encéfalo de imagens As mais contraditórias e confusas! A energia monística do Mundo. Cinzas. inclusas. como os sonhos dos selvagens. Era tarde! Fazia muito frio. Numa antropofagia de faminto! A digestão desse manjar funéreo Tornado sangue transformou-me o instinto De humanas impressões visuais que eu sinto Nas divinas visões do íncola etéreo! Vestido de hidrogênio incandescente. À meia-noite.. De aberratórias abstrações abstrusas! Nesse caixão iam. improficuamente. com a alma às escuras. se hoje volto assim. caixas cranianas.. Comi meus olhos crus no cemitério..

A que nos acharemos reduzidos! Não morrerão. com o envelhecimento dos tecidos! Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos! E a podridão. para o Futuro. porém. em diferentes Florestas. a maldição de Pio Décimo caia em teu algoz sombrio E em todo aquele que for seu herdeiro! Maldito seja o mercador vadio Que te vender as carnes por dinheiro. tuas sementes! E assim. Se fosses Deus. Ao monstro que espremeu teu sangue grosso Teus olhos -. tua lã aquece o mundo inteiro E guarda as carnes dos que estão com frio! Quando a faca rangeu no teu pescoço. trilhos. meu velho! E essa futura Ultrafatalidade de ossatura. vales. Pelo muito que em vida nos amamos. Tamarindo de minha desventura. pois. Na multiplicidade dos teus ramos. reunidos.perdoaram! Oh! tu que no Perdão eu simbolizo. inda teremos filhos! 43 . Eu. selvas.A UM CARNEIRO MORTO Misericordiosíssimo carneiro Esquartejado. Depois da morte. Tu. glebas. com o envelhecimento da nervura.fontes de perdão -. Talvez perdoasses os que te mataram! VOZES DA MORTE Agora sim! Vamos morrer. no Dia de Juízo.

Apraz-me.a costureira funerária -Cose para o homem a última camisa! 44 . à categoria Das organizações liliputianas. Como a cinza que vive junto à brasa. É meu destino viver junto a esa asa. como os irmãos siameses! É com essa asa que eu faço este soneto E a indústria humana faz o pano preto Que as famílias de luto martiriza. É-me grato adstringir-me. asa De mau agouro que. nos doze meses. adstrito ao triângulo mesquinho De um delta humilde. Na orgia heliogabálica do mundo..INSÂNIA DE UM SIMPLES Em cismas patológicas insanas. na hierarquia Das formas vivas.. Ganem todos os vícios de uma vez. Perseguido por todos os reveses. Ter o destino de uma larva fria. apodrecer sozinho No silêncio de minha pequenez! ASA DE CORVO Asa de corvos carniceiros. É ainda com essa asa extraordinária Que a Morte -. Ser semelhante aos zoófitos e às lianas.. Como os Goncourts.. Deixar enfim na cloaca mais sombria Este feixe de células humanas! E enquanto arremedando Éolo iracundo. Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes O telhado de nossa própria casa.

caiu de bruços No pandemônio aterrador do Caos” 45 . rasga o papel.O MARTÍRIO DO ARTISTA Arte ingrata! E conquanto. Ouvindo a Escada e o Mar. com os dedos brutos Para falar. Busca exteriorizar o pensamento Que em suas fronetais células guarda! Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda! E ei-lo a tremer. aos soluços. É como o paralítico que. “Rasgue a água hórrida a nau árdega e singre-me! E a verticalidade da Escada íngreme: “Homem. em desalento.. “O fracasso da tua geografia “E do teu escafandro esmiuçador! “Ah! Jamais saberás ser superior. o Hércules. A ESCADA E O HOMEM “Olha agora. “Com a ampla hélice auxiliar com que outrora ia “Voando ao vento o vastíssimo vapor. à míngua Da própria voz e na que ardente o lavra Febre de em vão falar. “À luz da epicurista ataraxia. A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda. o Homem. puxa e repuxa a língua.. conquanto ainda hoje em dia. Como o soldado que rasgou a farda No desespero do último momento! Tenta chorar e os olhos sente enxutos!. E não lhe vem à boca uma palavra! O MAR. “Homem. já transpuseste os meus degraus?!” E Augusto. a mim. violento. mamífero inferior.

. minha ama. hipócrita. o ouro que brilha. então. agora. como cruéis e hórridas hastas. Só lhe restam agora o último doente E a armação funerária das clavículas! RICORDANZA DELLA MIA GIOVENTÚ A minha ama-de-leite Guilhermina Furtava as moedas que o Doutor me dava. Furtaste a moeda só. Estragara-lhe os centros medulares! Como quem quebra o objeto mais querido E começa a apanhar piedosamente Todas as microscópicas partículas. Penetrara-lhe os próprios neuroplastas. Eu furtei mais. entretanto. em minha cama. após tudo perdido. mas eu.. afetava Susceptibilidade de menina: “-.Não. Que a mim somente cabe o furto feito. Tu só furtaste a moeda.DECADÊNCIA Iguais às linhas perpendiculares Caíram. Via naquilo a minha própria ruína! Minha ama. Vejo. ralhava. não fora ela! --“ E maldizia a sina. Em sucessivas atuações nefastas. Que ela absolutamente não furtava. Ele hoje vê que. porque furtei o peito Que dava leite para a tua filha! 46 . Sinhá-Mocinha... Nas suas 33 vértebras gastas Quase todas as pedras tumulares! A frialdade dos círculos polares. minha Mãe.

Hás de engolir. a escândalos e incestos É natural que o instinto humano aceda! Sem que te arranquem da garganta queda A interjeição danada dos protestos.. e. porque não tem fim! No ardor do sonho que o fronema exalta Construí de orgulho ênea pirâmide alta. num festim.o brilho Destes meus olhos apagou!. Serviu as carnes do seu próprio filho! Por que para este cemitério vim?! Por que?! Antes da vida o angusto trilho Palmilhasse..a mãe comum -.A UM MASCARADO Rasga essa máscara ótima de seda E atira-a à arca ancestral dos palimpsestos.. É noite. E tu mesmo.. Assim Tântalo. porém.. Terás somente uma vontade cega E uma tendência obscura de ser vivo! VOZES DE UM TÚMULO Morri! E a Terra -. aos reais convivas. igual a um porco. à noite.. do que este que palmilho E que me assombra.. os restos Duma comida horrivelmente azeda! A sucessão de hebdômadas medonhas Reduzirá os mundos que tu sonhas Ao microcosmos do ovo primitivo. Hoje. Hoje que apenas sou matéria e entulho Tenho consciência de que nada sou! 47 . que se desmoronou A pirâmide real do meu orgulho. após a árdua e atra refrega..

Irei também. Uma feição humana e outra divina São como a eximenina e a endimenina Que servem ambas para o mesmo feto! Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes! Por justaposição destes contrastes. e sendo justo. para amenizar as dores tuas. Eu. E o carpinteiroque fabrica as mesas Faz também os caixões do cemitério!.CONTRASTES A antítese do novo e do obsoleto. para onde fores. Tudo convém para o homem ser completo! O ângulo obtuso. Deus não havia de magoar-te assim! 48 .. e o ângulo reto. O que o homem ama e o que o homem abomina. gemendo.. E eu tão sem crença e as árvores tão nuas E tu. trilhando as mesmas ruas. o Ódio e a Carnificina. Indiferente aos mil tormentos teus De assim magoar-te sem pesar havia?! -. e o horror de nossas duas Mágoas crescendo e se fazendo horrores! Magoaram-te. Às alegrias juntam-se as tristezas. SONETO – I – A MEU PAI DOENTE Para onde fores. Pai..Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim É bom. meu Pai?! Que mão sombria. Tu. Deus.. O Amor e a Paz. pois. Junta-se um hemisfério a outro hemisfério. para amenizar as minhas dores! Que coisa triste! O campo tão sem flores. é justo.

Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu! SONETO – III Podre meu Pai! A morte o olhar lhe vidra. entre as estrelas flóreas.. Amo meu Pai na atômica desordem Entre as bocas necrófagas que o mordem E a terra infecta que lhe cobre os rins! 49 . Com a invariabilidade da clepsidra! Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos Roída toda de bichos. Como Elias. Mãe. Mas pareceu-me. o ofício da agonia. num carro azul de glórias. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido.. sonhando. E a marcha das moléculas regulam.SONETO – II – A MEU PAI MORTO Madrugada de Treze de Janeiro. Rezo. Duras leis as que os homens e a hórrida hidra A uma só lei biológica vinculam. Nem uma névoa no estrelado véu. cuidei que ele dormia. dormir primeiro! E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. como os queijos Sobre a mesa de orgíacos festins!. E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o”! deixa-o. Em seus lábios que os meus lábios osculam Microrganismos fúnebres pululam Numa fermentação gorda de cidra.. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei..

sôfrega e ansiosa. O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra! 50 . meu pai... -. por que sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs almas nos cedros. numa rogativa: “Não mate a árvore. meu filho. pai. olhando a pátria serra. Semelhante a um cachorro de atalaia Às decomposições da Natureza. possui minh’alma!. para que eu viva!” E quando a árvore.Meu pai. Esta árvore. enfim. Ficar latindo minha dor medonha! A ÁRVORE DA SERRA -. O sistema nervoso de um gigante Para sofrer na minha carne estuante A dor da força cósmica furiosa. pois.. despindo a última alfaia Que ao comércio dos homens me traz presa. Para que eu tenha uma velhice calma! -.. Caiu aos golpes do machado bronco... Livre deste cadeado de peçonha.Disse -.e ajoelhou-se. não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho.DEPOIS DA ORGIA O prazer que na orgia a hetaíra goza Produz no meu sensorium de bacante O efeito de uma túnica brilhante Cobrindo ampla apostema escrofulosa! Troveja! E anelo ter. meu filho.As árvores.. no junquilho. Apraz-me. É preciso cortá-la..

Acometido de uma febre estranha Sem o escândalo fônico de um grito. bruto. sem cerebelo A gargalhada da última derrota! A gaiola aboliu tua vontade. E a alga criptógama e a úsnea e o cogumelo. Tu nunca mais verás a liberdade!. preto e amarelo.. Arrancou os cabelos na montanha! Desceu depois à gleba mais bastarda. Foi a gaiola que te pôs assim! 51 .VENCIDO No auge de atordoadora e ávida sanha Leu tudo. Que do fundo do chão todo o ano brota! Mas a ânsia de alto voar.. Ah! Tu somente ainda és igual a mim. de à antiga rota Voar. mergulhou a cabeça no Infinito. Pões-te a assobiar.. desde o mais prístino mito. o amplo éter belo. por exemplo: o do boi Ápis do Egito Ao velho Niebelungen da Alemanha.. O CORRUPIÃO Escaveirado corrupião idiota. Olha a atmosfera livre. Pondo a áurea insígnia heráldica da farda À vontade do vômito plebeu. Foi este mundo que me fez tão triste. Continua a comer teu milho alpiste. não tens mais! E pois. E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria O vencido pensava que cuspia Na célula infeliz de onde nasceu.

ALUCINAÇÃO À BEIRA MAR Um medo de morrer meus pés esfriava. Canta a aleluia virginal das crenças. em serenatas... cismava Em meu destino!. Com os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. ególatra céptico. Noite alta. Templos de priscas e longínquas datas. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. Ante o telúrico recorte. Onde um nume de amor. assim como eu! VANDALISMO Meu coração tem catedrais imensas. No eterno horror das convulsões marítimas Pareciam também corpos de vítimas Condenados à Morte. No desespero dos iconoclastas Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! 52 . na diuturna discórdia.. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. me assombrava! Mas a alga usufrutuária dos oceanos E os malacopterígios subraquianos Que um castigo de espécie emudeceu.. O vento estava forte E aquela matemárica da Morte Com os seus números negros. a equórea coorte Atordoadamente ribombava! Eu.

e. por fim.. e doma Meu coração -. sente invevitável Necessidade de também ser fera.esta pantera -Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O Homem. o gládio de aço.estranho carniceiro! Não podes?! Chama então presto o primeiro E o mais possante gladiador de Roma. E não pôde domá-lo enfim ninguém. por fim. e qual mais presto assoma Nenhum pôde domar o prisioneiro. guerreiro. ao todo. E qual mais pronto. que. amigo. Escarra nessa boca que te beija! VENCEDOR Toma as espadas rútilas. veio um atleta. toma A adaga de aço. Que ninguém doma um coração de poeta! 53 . E à rutilância das espadas. uns cem. Vieram todos. A mão que afaga é a mesma que apedreja. Toma um fósforo. Veio depois um domador de hienas E outro mais.. Se a alguém causa inda pena a tua chaga. Acende teu cigarro! o beijo. Mora. entre feras. Apedreja essa mão vil que te afaga. Meu coração triunfava nas arenas. Somente a Ingratidão -.VERSOS ÍNTIMOS Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. é a véspera do escarro. nesta terra miserável.

em sons subterrâneos. chorando.. a escutar.. A sucessividade dos segundos. mas o que não sabe E que essa mágoa infinda assim não cabe Na sua vida. a que só ele assiste. Que. o homem que é triste Para todos os séculos existe E nunca mais o seu pesar se apaga! Não crê em nada. Sabe que sofre. podendo mover milhões de mundos. Quer resistir. do Orbe oriundos.. é que essa mágoa infinda Transpõe a vida do seu corpo inerme. pancada por pancada. nada há que traga Consolo à Mágoa. jazem ainda na estática do Nada! É o soluço da forma ainda imprecisa. pois. Da luz que não chegou a ser lampejo. E quando esse homem se transforma em verme É essa mágoa que o acompanha ainda! O LAMENTO DAS COISAS Triste. Da transcendência que se não realiza. e quanto mais resiste Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.ETERNA MÁGOA O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do Mundo.. No rudimentarismo do Desejo! 54 .. o subconsciente ai formidando Da Natureza que parou. E é em suma. Ouço.. O choro da Energia abandonada! É a dor da Força desaproveitada — O cantochão dos dínamos profundos.

Cesse a luz. Tua cabeça há de ficar vibrando Na negatividade universal! 55 . a animar o cosmos ermo. Foi que eu. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das Idéas! CAPUT IMMORTALE Na dinâmica aziaga das descidas. Parem as vidas. De que. que os anos não carcomem. Morto o comércio físico nefando. impero Na imanência da Idéa Soberana! Destruída a sensação que oriunda fora Do tacto — ínfima antena aferidora Destas tegumentárias mãos plebéas — Gozo o prazer. Onde a Vida do humano aspecto fero Se desarraiga. sincero Encontrei. afinal. Oh! Nauta aflito do Subliminal. feito força. num grito de emoção. me desencarcero. eu. Sobre a pancosmológica exaustão Reste apenas o acervo árido e vão Das muscularidades consumidas! Ainda assim. pensando. Como a última expressão da Dor sem termo.O MEU NIRVANA No alheamento da obscura forma humana. Todas as urbes siderais vencidas! Morra o éter. Aglomeradamente e em turbilhão Solucem dentro do Universo ancião. o meu Nirvana! Nessa manumissão schopenhauereana.

O regresso dos átomos aflitos Ao descanso perpétuo da Unidade! 56 . Da multimilenária dissonância Que as harmonias siderais invade. "À hirta forma falaz do are perennius "A transitoriedade das fagulhas!" — Era a estrangulação. muito embora a alma te acenda.APOSTROFE À CARNE Quando eu pego nas carnes do meu rosto. e. numa alta aclamação. Que eu tenho de deixar para os meus filhos! LOUVOR A UNIDADE "Escafandros. Pressinto o fim da orgânica batalha: — Olhos que o húmus necrófago estraçalha. arpões. Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas. Desagrega-se e deixa na mortalha O tacto. Dói-me ver. ao sol posto. o ouvido. Em tua podridão a herança horrenda. Era. há inúmeros milênios.. a irmanar diamantes e hulhas. Diafragmas.. sem gritos.. "Num pluralismo hediondo o olhar mergulhas! "Une. A dardejar relampejantes brilhos. o olfato e o gosto! Carne. a vista. "Com essa intuição monística dos gênios.. decompondo-se. E o Homem — negro e heteróclito composto. sondas e agulhas "Debalde aplicas aos heterogêneos "Fenômenos. sem retumbância. pois. Onde a alva flama psíquica trabalha. feixe de mônadas bastardas.

O PÂNTANO Podem vê-lo. é o transunto. no Mundo.. Que produz muita vez. Tragicamente. Ah! foi teu beijo convulsionador Que produziu este contraste fundo Entre a abundância do que eu sou. E a alma o obnóxio quietismo sonolento Rasga. é a abreviatura Do todo o ubiqüitário Movimento! Sonho. meus semelhantes! Mas. na noite escura. De todas as grandezas começantes! Larvas desconhecidas de gigantes Sobre o seu leito de peçonha e luto Dormem tranqüilamente o sono bruto Dos superorganismos ainda infantes! Em sua estagnação arde uma raça. sem dor. A convulsão meteórica do vento. Este pântano é o túmulo absoluto. e.. E eu sinto a angústia dessa raça ardente Condenada a esperar perpetuamente No universo esmagado da água morta! SUPREME CONVULSION O equilíbrio do humano pensamento Sofre também a súbita ruptura. às escâncaras. — libertação do homem cativo — Ruptura do equilíbrio subjetivo. a porta. à espera de quem passa Para abrir-lhe. é a essência pura. É a síntese. para mim que a Natureza escuto. opondo-se à Inércia. E o nada do meu homem interior! 57 .

.. O espanto Convulsiona os espíritos. "Menos interiormente me conheça?!" 58 . rosto?! "Serei apenas mera crusta espessa?! "Pois é possível que Eu. A Natureza olhou-se interiormente! Baldada introspecção! Noumenalmente O que Ela. geléia crua. geléia humana.. o pranto Das tuas concreções plásmicas flua! A água. entanto. Vence o granito. Ao supremo infortúnio de ser alma! NATUREZA ÍNTIMA Ao filósofo Farias Brito Cansada de observar-se na corrente Que os acontecimentos refletia. em realidade. um dia. ainda algum dia. deprimindo-o . Antes o Nada. que ainda haveres De atingir. Reconcentrando-se em si mesma. E hás de crescer. e. como o gérmen de outros seres. oh! gérmen.. porventura. Volvas à antiga inexistência calma!. causa do Mundo. ainda sentia Era a mesma imortal monotonia De sua face externa indiferente! E a Natureza disse com desgosto: "Terei somente. tanto Que. Teu desenvolvimento continua! Antes. não progridas E em retrogradações indefinidas. é natural. em conjugação com a terra nua. no teu silêncio.A UM GÉRMEN Começaste a existir. "Quanto mais em mim mesma me aprofundo.

E a coorte Das raças todas. traçando arcos de ogivas.. São absolutamente negativas! Araucárias... Vivem só.... trancada num disfarce. E a dramatização sangrenta e dura Vir Deus num simples grão de argila errante.As ambições que se fizeram troncos. no seu arcano. é ânsia. É a Natureza que. Ante o hieróglifo e o enigma das folhagens. na ordem cósmica. Como um convite para estranhas viagens. os elementos broncos.Todas as hermenêuticas sondagens.. é o instinto horrendo De subir.. Porque nunca puderam realizar-se! GUERRA Guerra é esforço. Tornam todas as almas pensativas! Há uma força vencida nesse mundo! Todo o organismo florestal profundo É dor viva.A FLORESTA Em vão com o mundo da floresta privas!. nele. . descendo A irracionalidade primitiva.. Precisa de encharcar-se em sangue humano Para mostrar aos homens que está viva! 59 .. que se entrega à morte Para a felicidade da Criatura! É a obsessão de ver sangue. . é inquietude. Bracejamentos de álamos selvagens. é transporte. Da avidez com que o Espírito procura É a Subconsciência que se transfigura Em volição conflagradora.

És suprema! Os meus átomos se ufanam De pertencer-te. em suma. psíquico tesouro. perante o Incognoscível Essa fatalidade de ser grande Para guardar unicamente poeira! HINO À DOR Dor. inteira. E. Com os corpúsculos mágicos do tacto Prendo a orquestra de chamas que executas. Que o sarcófago. Dói-lhe. assim. Riqueza da alma.O SARCÓFAGO Senhor da alta hermenêutica do Fado Perlustro o atrium da Morte. ereto e imóvel sente Em sua própria sombra sepultado! Dói-lhe (quem sabe?!) essa grandeza horrível Que em toda a sua máscara se expande. É frio o ambiente E a chuva corta inexoravelmente O dorso de um sarcófago molhado! Ah! Ninguém ouve o soluçante brado De dor profunda.. acérrima e latente. Alegria das glândulas do choro De onde todas as lágrimas emanam. saúde dos seres que se fanam. oh! Dor.. Minha maior ventura é estar de posse De tuas claridades absolutas! 60 .. sem convulsão que me alvorece. ancoradouro Dos desgraçados... ouro De que as próprias desgraças se engalanam! Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato. sol do cérebro... À humana comoção impondo-a.

Sois vós que sustentais ( Força Alta exige-o . Terá nascido nesse mesmo instante A mineralogia derradeira! A impérvia escuridão obnubilante Há de cessar! Em sua glória inteira Deus resplandecerá dentro da poeira Como um gasofiláceo de diamante! Nessa última visão já subterrânea. Ions emanados do meu próprio ideal.. Haveis de ser no mundo subjetivo. Benditos vós.ÚLTIMA VISIO Quando o homem resgatado da cegueira Vir Deus num simples grão de argila errante. A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ele ainda tem de abrir para o Infinito! AOS MEUS FILHOS Na intermitência da vital canseira.. Expressões do universo radioativo. pois. Dai-me asas. Minha continuidade emocional! 61 ... para o último remígio. que. Dai-me alma.. em épocas futuras. pois. ) Com o vosso catalítico prestígio. Um movimento universal de insânia Arrancará da insciência o homem precito. Meu fantasma de carne passageira! Vulcão da bioquímica fogueira Destruiu-me todo o orgânico fastígio . para a hora derradeira! Culminâncias humanas ainda obscuras..

A carne é fogo.. Subitamente a cerebral coréa Pára. O cosmos sintético da Idéa Surge. E acho um feixe de forças prodigiosas Sustentando dois monstros: a alma e o instinto! O POETA DO HEDIONDO Sofro aceleradíssimas pancadas No coração.A DANÇA DA PSIQUÊ A dança dos encéfalos acesos Começa. os pés e os braços Tombara. as mãos.. sondando-me a consciência A ultra-inquisitorial clarividência De todas as neuronas acordadas! Quanto me dói no cérebro esta sonda! Ah! Certamente eu sou a mais hedionda Generalização do Desconforto... Ataca-me a existência A mortificadora coalescência Das desgraças humanas congregadas! Em alucinatórias cavalgadas. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto! 62 . Eu sinto. Emoções extraordinárias sinto. A espaços As cabeças. cedendo à ação de ignotos pesos! É então que a vaga dos instintos presos — Mãe de esterilidades e cansaços — Atira os pensamentos mais devassos Contra os ossos cranianos indefesos. Arranco do meu crânio as nebulosas. A alma arde. então.

Sangram-te os olhos. na ânsia voraz que. criatura cega. Todas as danações sexuais que abrangem A apolínica besta famulenta! Ambos assim. No desembestamento que os arrasta. tragando a ambiência vasta. Hebdômadas hostis Passam. na superfície do planeta.A FOME E O AMOR A um monstro Fome! E.. e. ávida. O Universo calado te renega E a tua própria boca te maldiz! O nôumeno e o fenômeno. Realidade geográfica infeliz. Montão de estercorária argila preta. Superexcitadíssimos. enquanto as almas se confrangem. carne sem luz. aumenta. Os dentes antropófagos que rangem. os dois Representam. Antes da refeição sanguinolenta! Amor! E a satiríasis sedenta. Deixa a tua alegria aos seres brutos. ris! Fruto injustificável dentre os frutos.. Tu só tens um direito: — o de chorar! 63 . Excrescência de terra singular. no ardor dos seus assomos A alegoria do que outrora fomos E a imagem bronca do que inda hoje sois! HOMO INFIMUS Homem. o alfa e o omega Amarguram-te. Porque. Receando outras mandíbulas a esbangem. entretanto. Teu coração se desagrega. Rugindo.

Ai! Não toqueis em minhas faces verdes. a Arte e a Beleza Servem de combustíveis à ira acesa Das tempestades do meu ser nervoso! Eu sou. a Ciência. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Na canonização emocionante. homens felizes. num sincronismo eterno A fórmula de todos os destinos! NOLI ME TANGERE A exaltação emocional do Gozo.. Levou-me o crânio e pôs-lhe dentro a palma Dos que amam apreender o Inapreensível! Predeterminação imprescriptível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. aparelhou. por conseqüência um ser monstruoso! Em minha arca encefálica indefesa Choram as forças más da Natureza Sem possibilidades de repouso! Agregados anômalos malditos Despedaçam-se.. — A águia dos latifúndios florentinos! Sistematizo. a Glória.. mordem-se. O Amor. soluçando. dão gritos Nas minhas camas cerebrais funéreas.MINHA FINALIDADE Turbilhão teleológico incoercível. de sofrerdes A sensação de todas as misérias! 64 . Que força alguma inibitória acalma. sou maior que Dante.. E trago em mim. o Inferno. Sob pena. Da dor humana.

Minha alma é um misto De anomalias lúgubres. Que. urdo o crime.O CANTO DOS PRESOS Troa. Se escapa pela boca dos cativos! ABERRAÇÃO Na velhice automática e na infância. Uiva. achato a esfera E acho odor de cadáver na fragrância! Chamo-me Aberração.. Teço a infâmia. Em que o Mal se engrandece e o ódio se exalta. O epitalâmio da Suprema Falta. Como Belerofonte com a Quimera Mato o ideal.. a exigir que os sãos enfermem. amanhã e em qualquer era) Minha hibridez é a súmula sincera Das defectividades da Substância. a alardear bárbaros sons abstrusos. È a saudade dos erros satisfeitos. não cabendo mais dentro dos peitos. à luz de fantástica ribalta.. A ignomínia de todos os abusos! É a prosódia do cárcere. engendro o lodo E nas mudanças do Universo todo Deixo inscrita a memória do meu gérmen! 65 . é a partênea Aterradoramente heterogênea Dos grandes transviamentos subjectivos. Pela promiscuidade dos reclusos! No wagnerismo desses sons confusos. cresto o sonho.. Criando na alma a estesia abstrusa da ânsia. (Hoje. em voz muito alta. ontem. Existo Como o cancro. Entoado asperamente.

Encho o Espaço com a minha plenitude! 66 . ausculto. Todas as coisas íntimas suplanta! Penetro. o Céu e o Inferno absorvo.VÍTIMA DO DUALISMO Ser miserável dentre os miseráveis -. Feita dos mais variáveis elementos. por fim. O Infinitésimo e o Indeterminado. A simultaneidade ultramonstruosa De todos os contrastes famulentos! AO LUAR Quando. dona. Nos paroxismos da hiperestesia. Criação a um tempo escura e cor-de-rosa. transmudado em rutilância fria. de quanta Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos. enfim. Transponho ousadamente o átomo rude E. como um corvo. dada às bravias Cóleras dos dualismos implacáveis E à gula negra das antinomias! Psique biforme. apreendo. Ceva-se em minha carne. pelos caminhos quedos Minha tátil intensidade é tanta Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos! Quebro a custódia dos sentidos tredos E a minha mão..Carrego em minhas células sombrias Antagonismos irreconciliáveis E as mais opostas idiossincrasias! Muito mais cedo do que o imagináveis Eis-vos.. à noite. agarro.. minha alma. invado. o Infinito se levanta À luz do luar..

Átropos. Tu hás de entrar completamente puro Para a circulação do Grande Todo! CANTO DA ONIPOTÊNCIA Cloto. arder. Siva. Na hiperculminação definitiva O meu supremo e extraordinário Ser! Em minha sobre-humana retentiva Brilhavam. E acima deles. Sentia dos fenômenos o fim.A UM EPILÉTICO Perguntaras quem sou?! – ao suor que te unta À dor que os queixos te arrebenta.. como um astro. A coisa em si movia-se aos meus brados E os acontecimentos subjugados Olhavam como escravos para mim! 67 . defunta Na aterradora operação conjunta Da tarefa animal dos organismos! Mas após o antropófago alambique Em que é mister todo o teu corpo fique Reduzido a excreções de sânie e lodo. aos trismos Da epilepsia horrenda. A perfeição virtual tornada viva E o embrião do que podia acontecer! Por antecipação divinatória. e nos abismos Ninguém responderá tua pergunta! Reclamada por negros magnetismos Tua cabeça há de cair. Eu.... Laquesis. Tifon. como a luz do amanhecer. num monturo. virgem. projetado muito além da História. Como a luz que arde.

a soluçar de dor?! -. sobre a terra ardente Hão de encher outras árvores! Somente Minha desgraça há de ficar sozinha! ANSEIO (QUEM SOU EU. neste ergástulo das vidas Danadamente.. Essa elementaríssima semente Do que hei de ser.. minha árvore humana desfolhada! Mulher nenhuma afagará meu tronco! Eu não me abalarei. nas minhas formas carcomidas. Nutrindo uma efeméride inferior. a afagar tantas feridas. alarga-se em meu hausto. esse mundo incoerente.. ai! como eu sinto no esqueleto exausto Não poder dar-lhe vida material! 68 . Hão de encontrar as gerações futuras Só. Grita em meu grito. Roem-na amarguras Talvez humanas. rábido. entanto. Branda. Folhas e frutos.) Quem sou eu..MINHA ÁRVORE Olha: É um triângulo estéril de ínvia estrada! Como que a erva tem dor... A áurea mão taumatúrgica do Amor Traça. às apalpadelas e às escuras. tenta transpor o Ideal. e entre rochas duras Mostra ao Cosmos a face degradada! Entre os pedrouços maus dessa morada É que. E. A estrutura de um mundo superior! Alta noite...Trilhões de células vencidas. remoinha. nem mesmo ao ronco Do furacão que.

desconforto E ataraxia. transpondo a escarpa augusta Dos limites orgânicos estreitos. A potencialidade do que é morto E a eficácia prolífica do estrume! Ah! Sou eu que..Tudo a unidade do meu ser resume! Sou eu que. Massa palpável e éter. em que me inundo.. hirto. sânie e perfume. Penetro a essência plásmica infinita. auscultando o absconso arcano! Por um poder de acústica esquisita. -. revolvendo o ego profundo E a escuridão dos cérebros medonhos. feto vivo e aborto.REVELAÇÃO I Escafandrista de insondado oceano Sou eu que. Sinto bater na putrescível crusta Do tegumento que me cobre os peitos Toda a imortalidade da Substância! 69 . Dentro dos quais recalco em vão minha ânsia. ateando da alma o ocíduo lume. Restituo triunfalmente à esfera calma Todos os cosmos que circulam na alma Sob a forma embriológica de sonhos! II Treva e fulguração. Sou eu que. Apreendo. em cisma abismadora absorto. aliando Buda ao sibarita. -.Mãe promíscua do amor e do ódio insano! Sou eu que. Ouço o universo ansioso que se agita Dentro de cada pensamento humano! No abstrato abismo equóreo.

na abismal sustância informe. dois. nas geenas Luz bastante fulmínea que transforme Dentro da noite cavernosa e enorme Minhas trevas anímicas serenas?! Raio horrendo haverá que as rasgue apenas?! Não! Porque. hei de ficar trancado Na noite aterradora de mim mesmo! 70 .VERSOS A UM COVEIRO Numerar sepulturas e carneiros. Continua a contar na paz ascética Dos tábidos carneiros sepulcrais Tíbias. Porque. A tua conta não acaba mais! TREVAS Haverá. Na progressão dos números inteiros A gênese de todos os abismos! Oh! Pitágoras da última aritmética. rádios e úmeros. cinco.. Para convulsionar a alma que dorme Todas as tempestades são pequenas! Há de a Terra vibrar na ardência infinda Do éter em branca luz transubstanciado. A própria Esfinge há de falar-vos ainda E eu. por hipótese. cérebros. em fúlgidos letreiros. sem complicados silogismos. Rotos os nimbos maus que a obstruem a esmo. Esoterismos Da Morte! Eu vejo. três.Tal é. Reduzir carnes podres a algarismos. quatro.. somente em. -. infinita como os próprios números.. crânios.. A aritmética hedionda dos coveiros! Um.

afinal. De onde rebenta. Quem sabe. recalcados. mal Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?! Ah! Nesse anelo trágico de altura Não serão as montanhas. Por um abortamento de mecânica. assim. Inacessíveis aos humanos tráficos Onde sóis. A representação ainda inorgânica De tudo aquilo que parou em mim?! II Agora. Estacionadas. porventura. perscruta O puerpério geológico interior. em contrações de dor. a alma. sob o horror Dessas agregações de pedra bruta?! Como nesses relevos orográficos. e dize-me. Qual é. oh! delumbrada alma. na natureza espiritual. A significação dessas montanhas! Quem não vê nas graníticas entranhas A subjetividade ascensional Paralisada e estrangulada. alma.AS MONTANHAS I Das nebulosas em que te emaranhas Levanta-te. amam jazer. Toda a sublevação da crusta hirsuta! No curso inquieto da terráquea luta Quantos desejos fervidos de amor Não dormem. me semente. se o que ainda não existe Não vibra em gérmen no agregado triste Da síntese sombria do meu Ser?! 71 . íngremes.

E não haver uma alma que lhe entenda A angústia transoceânica medonha No rangido de todas as enxárcias! 72 . Zarpa... haurem-lhe o cheiro! Na glauca artéria equórea ou no estaleiro Ergue a alta mastreação. sonha! Mágoas. É a subversão universal que ameaça A Natureza. alçando o hirto esporão guerreiro. a amarra agarrada à âncora. se as Tem.. Federações sidéricas quebradas. pelo orbe adiante.APOCALIPSE Minha divinatória Arte ultrapassa Os séculos efêmeros e nota Diminuição dinâmica. e. Espião da cataclísmica surpresa. A íngreme cordoalha úmida fica. o último a ser. E estende os braços de madeira rica Para as populações do mundo inteiro! Aguarda-a ampla reentrância de angra horrenda. Pára e. Destrói a ebulição que a água alvorota E põe todos os astros na desgraça! São despedaçamentos. E eu só. subjugue-as ou difarce-as. integérrima. em noite aziaga e ignota. Lambe-lhe a quilha e espúmea onda impudica E ébrios tritões. derrubadas. derrota Na atual força. da Massa... babando.. A única luz tragicamente acesa a universalidade agonizante! A NAU A Heitor Lima Sôfrega. que o Éter indica.

. vazio! 73 .. Fome do átomo e eurítmico transporte De todas as moléculas. e. Com essa volúpia das ossadas novas Hão de ainda se apertar cada vez mais! O FIM DAS COISAS Pode o homem bruto. Haurindo o gás sulfídrico das covas. invente A lâmpada aflogística de Davy! Em vão! Contra o poder criador do Sonho O Fim das Coisas mostra-se medonho Como o desaguadouro atro de um rio. que ela encheu. cave. Tragicamente. continua a arder! Surdos destarte a apóstrofes e brados. Sôfrego.VOLÚPIA IMORTAL Cuidas que o genesíaco prazer. Os nossos esqueletos descarnados. em que arde o Ser. E quando. o dolo sáxeo. aborte Na hora em que a nossa carne apodrecer?! Não! Essa luz dial. Arrancar. A humanidade vai pesar seu gênio Encontra o mundo. Dentro dos ossos. num triunfo surpreendente. Para a perpetuação da Espécie forte. ainda depois da morte. adstrito à ciência grave. na ânsia ardente De perscrutar o íntimo do orbe. ao cabo do último milênio. Em convulsivas contorções sensuais. Das profundezas do Subconsciente O milagre estupendo da aeronave! Rasgue os broncos basaltos negros.

mancha a gleba. antes do almoço. vendo sangue... iguais a espiões que acordam cedo. Viu vísceras vermelhas pelo chão.. Horrível! O osso Frontal em fogo. A água transubstancia-se.. agride os rios E urde amplas teias de carvões sombrios No ar que álacre e radiante. com um berro bárbaro de gozo. fora. Ia talvez morrer. À custódia do anímico registro A planetária escuridão se anexa. A onda estoura Na negridão do oceano e entre os navios Troa bárbara zoada de ais bravios. A carne que ele havia de comer! No inferno da visão alucinada. Extraordinariamente atordoadora. Viu montanhas de sangue enchendo a estrada. Olhou-se no espelho. Era tão moço... Ficam brilhando com fulgor sinistro Dentro da treva onímoda e complexa Os olhos fundos dos que estão com medo A OBSESSÃO DO SANGUE Acordou. Somente. Ah! Certamente não podia ser! Levantou-se. a escorrer Fita rubra de sangue muito grosso. Disse.. há instantes. eis que viu.. Na mão dos açougueiros. E amou. O monocromatismo monstruoso Daquela universal vermelhidão! 74 .A NOITE A nebulosidade ameaçadora Tolda o éter. E.

E ai! Como é boa esta volúpia obscura Que une os ossos cansados da criatura Ao corpo ubiqüitário do Criador! AGONIA DE UM FILÓSOFO Consulto o Phtah-Hotep. Leio o obsoleto Rig-Veda. No mar de humana proliferação... E. ante obras tais. me não consolo. Ah! todos os fenômenos do solo Parecem realizar de pólo a pólo O ideal do Anaximandro de Mileto! No hierático areópago heterogêneo Das idéias. Rasgo dos mundos o velário espesso. percorro como um gênio Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!. reconheço O império da substância universal ! 75 . Outras cabeças aparecerão Para compartilhar do meu destino! Na festa genetlíaca do Nada... Abraço-me com a terra atormentada Em contubérnio convulsionador..VOX VICTIMAE Morto! Consciência quieta haja o assassino Que me acabou.. O Inconsciente me assombra e eu nele rolo Com a eólica fúria do harmatã inquieto! Assisto agora à morte de um inseto!.. dando-me ao corpo vão Esta volúpia de ficar no chão Fruindo na tabidez sabor divino! Espiando o meu cadáver ressupino.. E em tudo igual a Goethe.

Eu a bendigo da descrença. P’ra iluminar-me a alma descontente. Hirta. Tragicamente de si mesmo oriundo.. resignado. À noute qunado em funda soledade Minh’alma se recolhe tristemente. 76 . Parecia dIzer-me: "É tarde. imensa. em meio. ao meu lado. E assim afeito às mágoas e ao tormento. estranho ao mundo. imóvel. atro e subterrâneo. Era de vê-lo.O ÚLTIMO NÚMERO Hora da minha morte. A Idéia estertorava-se. E à dor e ao sofrimento eterno afeito. Porque eu hoje só vivo da descrença. amigo! Pois que a minha autogênica Grandeza Nunca vibrou em tua língua presa. Como o reflexo fúnebre do Incriado: Bradei: -. Fora da sucessão. Se acende o círio triste da Saudade. Mas que no entanto me alimenta a vida. E o coração me rasga atroz. Da saudade na campa enegrecida Guardo a lembrança que me sangra o peito. Não te abandono mais! Morro contigo!" SAUDADE Hoje que a mágoa me apunhala o seio. No fundo Do meu entendimento moribundo Jazia o Último Número cansado.Que fazes ainda no meu crânio? E o Último Número. Para dar vida à dor e ao sofrimento.

Fazem lembrar em noute de saudade A luz mortiça d’um olhar nublado. Em que vive e em que aos poucos vai morrendo! Seu rosto triste. Não sei se morra p’ra viver no Céu! 77 . gárrulos voando . O brilho se apagou daquela estrela Que a vida lhe tornava venturosa! Sombras que passam.o exorcismo Terrível me feriu. Ah. desgraçado réu. sombras cor-de-rosa . volvi ao ceticismo. Fugazes sonhos. e então sereno. de ilusões tão bela.Todas se foram num festivo bando. eu creio em ti.ABANDONADA Ao meu irmão Odilon dos Anjos Bem depressa sumiu-se a vaporosa Nuvem de amores.a Grande Mãe . Não sei se viva p’ra morrer na terra. seu olhar magoado. Onde a dúvida ergueu altar profano. Cansado de lutar no mundo insano. Fraco que sou.Resta somente um’alma tristurosa! Coitada! o gozo lhe fugiu correndo. Da Igreja . CETICISMO Desci um dia ao tenebroso abismo. entre o medo que o meu Ser aterra. em fundo misticismo: . Hoje ela habita a erma soledade. De joelhos aos pés do Nazareno Baixo rezei.Oh! Deus. mas me perdoa! Se esta dúvida cruel qual me magoa Me torna ínfimo.

triste pela vida afora. langorosas. Revolvo as cinzas de passadas eras.MÁGOAS Quando nasci. triste e descrido. de amor ferido. Mais tarde da existência nos verdores Da infância nunca tive as venturosas Alegrias que passam bonançosas. Cansado de chorar pelas estradas. Ouvi. todas sem olores. senhora. Morreram todas. tristes. pálidas agora. senhora. E como a luz do sol vai-se apagando! E eu triste. Como um coveiro a sepultar quimeras! 78 . E que tornou-o assim. As minhas crenças que alentei outrora Rolam dispersas. senhora. Quando a morte matar meus dissabores. num mês de tantas flores. Eterno pegureiro caminhando. amei. Minh’alma levo aflita à Eternidade. Exausto de pisar mágoas pisadas. SENHORA Ouvi. o cântico sentido Do coração que geme e s’estertora N’ânsia letal que o mata e que o devora. Hoje eu carrego a cruz das minhas dores! OUVI. Tristes fanaram redolentes rosas. Sombrio e mudo e glacial. Desfeitas todas num guaiar dorido. Todas murcharam. Oh! Minha infância nunca teve flores! Volvendo à quadra azul da mocidade.

TRISTE REGRESSO Uma vez um poeta. No sepulcro da loura virgem bela. venceu batalhas. e na existência agora Triste soluças a ilusão peerdida. 79 . Ao chegar. Cantaste e riste. Alma arrancada do prazer do mundo. Altivo lutador. Era o soldado. E fica no teu ermo entristecida. mas a fronte aureolada. Se nada te aniquila o desalento Que te invade. pendeu triste e desmaiada. Vivia alegre o vate apaixonado. E voltou. Oh! Tu. na estrada da existência em fora. um tresloucado. Dos canhões ao ribombo e das metralhas. Alma viúva das paixões da vida. olímpica e singela! E partiu. Mas a Pátria chamou-o. enamorado dela. e o pesar negro e profundo. E tinha que deixar p’ra sempre aquela Meiga visão. Louco vivia. coração amargurado. Juncou-lhe a fronte aurifulgente estrela. Esconde à Natureza o sofrimento. Tu que. Apaixonou-se d’uma virgem bela. que na grinalda emurchecida De teu passado de felicidade Foste juntar os goivos da Saudade Às flores da Esperança enlanguescida. INFELIZ Alma viúva das paixões da vida.

pálidos. Chegara enfim o dia desejado. soturnais. Hoje rolando nos umbrais marmóreos. Fora no campo pássaros trinavam. São minhas crenças divinais. silentes. no eternal soluço. NOIVADO Os namorados ternos suspiravam. Era o supremo beijo de noivado! 80 . Quebrando a paz suprema dos sepulcros. E rompe a orquestra sepulcral da morte. Quando há de ser!? E os pássaros falavam. Resvalando nas sombras dos ciprestes. E a mesma frase o noivo repetia. Dos rouxinóis ao sonoroso harpejo E a luz do sol vibrava esplendorosa. a brisa respondia. Há de chegar.N’AUGUSTA SOLIDÃO DOS CEMITÉRIOS N’augusta solidão dos cemitérios. funéreos. Vinha rompendo a aurora majestosa.Alvos fantasmas pelos merencórios Túmulos tristes. Passam meus sonhos sepultados nestes Brancos sepulcros. Eu choro e gemo e triste me debruço Na lájea fria dos meus sonhos pulcros. Ambos unidos soluçara um beijo. Desliza então a lúgubre coorte. ardentes . Quando da vida. Quando há de ser o venturoso dia?! Quando há de ser!? O noivo então dizia E a noiva e ambos d’amores s’embriagavam.

Assim a turba inconsciente passa.NO MEU PEITO ARDE No meu peito arde em chamas abrasada A pira da vingança reprimida. Em luta co’a natura sempiterna. No delírio. A morte me será vingança eterna. E entre a mágoa que masc’ra eterna apouca A humanidade ri-se e ri-se louca No carnaval intérmino da vida. porém. E onde a vida borbulha e o sangue medra. Muitos que esgotam do prazer a taça Sentem no peito a dor indefinida. E espuma e ruge a cólera entranhada. 81 . Como no mar a vaga embravecida Vai bater-se na rocha empedernida. Mas se das minhas dores ao calvário. Espumando e rugindo em marulhada. Eu subo na atitude dolorida De um Cristo a redimir um mundo vário. da febre ardente Da ventura fugaz e transitória O peito rompe a capa tormentória Para sorrindo palpitar contente. A MÁSCARA Eu sei que há muito pranto na existência. E em centelhas de raiva ensurdecida A vingança suprema e concentrada. Já que do mundo não vinguei-me em vida. Dores que ferem corações de pedra. Aí existe a mágoa em sua essência.

Da sua fala na eternal doçura Falava o coração. Foste do amor o mártir sacrossanto. Enquanto outros que podem. Morrera um dia desvairado. a jóia que te exprima O amor fraterno do teu mano Em 28 de abril de 1901 82 .AMOR E RELIGIÃO Conheci-o: era um padre. E Deus lhe disse: "És duas vezes santo. Pois se da Religião fizeste culto. dão-te enganos. bom Papá. um desses santos Sacerdotes da Fé de crença pura. Irmão querido." CANTA NO ESPAÇO A PASSARADA Ao meu prezado irmão Alexandre Júnior pelas nove primaverasque hoje completou. Canta no espaço a passarada e canta Dentro do peito o coração contente. Su’alma livre para o Céu se alara. Quantos. num abraço de ternura santa. Somente assim festejarei teus anos. bonecos de formoso busto. oh! Quantos Ouviram dele frases de candura Que d’infelizes enxugavam prantos! E como alegres não ficaram tantos Corações sem prazer e sem ventura! No entanto dizem que este padre amara. Minh’alma alegre no teu rir s’encanta. estulto. Tu’alma ri-se descuidosamente. Jóias. consente Que neste dia de ventura tanta Vá. Eu só encontro no primor de rima A justa oferta. Mostrar-te o afeto que meu peito sente.

Tornou-se a pecadora vil. sorrindo tristemente: "Ai! Foi por isso que me fiz coveiro!" PECADORA Tinha no olhar cetíneo.O COVEIRO Uma tarde de abril suave e pura Visitava eu somente ao derradeiro Lar. tomando a enxada gravemente. No entanto. divina. esta mulher de grã beleza. Dançavam-lhe no colo perfumado. Do destino fatal. tinha ido ver a sepultura De um ente caro. Bela. Os seios rijos eram dois brasões Onde fulgia o simb’lo do Pecado. Moldada pela mão da Natureza. Eu senti a minh’alma entristecida E interroguei-o: "Eterno companheiro Da morte. mornos. presa. Balbuciou. Lá encontrei um pálido coveiro Com a cabeça para o chão pendida. Ali jazia o seu amor primeiro! Depois. o porte emoldurado No mármore sublime dos contornos. aveludado. amigo verdadeiro. morria Uma noute entre as vascas da agonia Tendo no corpo o verme do pecado! 83 . A chama cruel que arrasta os corações. Do fado. palpitantes. que matou-te o coração?" Ele apontou para uma cruz no chão. Os seios brancos.

os sons esmorecendo. addio! 84 . E à noute quando rezam na clausura. Na vastidão silente das caladas Abóbodas sombrias tenebrosas. Perdem-se as notas pelo Azul morrendo. Que guardam cinzas de ilusões passadas. não acordeis. Repercute. úmidas arcadas. Subindo pelo Azul da Inspiração. . desnudas. No sigilo das rezas misteriosas. Eleonora. Que guardam pér’las de funéreas rosas. Nem a sombra mais leve de ventura! Sempre as arcadas ogivais. lembranças minhas! Saudades d’umas noutes em que vinhas Cantar comigo em doce desafio! Mas. E as mesmas monjas sempre tristurosas. pouco a pouco. Ai! não. Vagueiam tristemente desfiladas De freiras e de monjas tristurosas. addio. Eleonora! Oh! sonhos meus! E o canto se desprende harmonioso Na vibração final do extremo adeus. E as mesmas portas impassíveis. mavioso. dolente. mudas! IL TROVATORE Canta da torre o trovador saudoso Addio.Addio. Trovador torturado e angustioso.NO CLAUSTRO Pelas do claustro salas silenciosas De lutulentas. Assim canta também meu coração.

Em seu passado Houve um drama d’amor misterioso . Chora. Chova-te o Céu cintilações sidéreas E a terra chova no teu seio flores! Esplende. Arca sagrada de cerúleos sonhos. Eu sei a sua história. Os dias voltarão a ser tristonhos E tu hás de dormir o eterno sono. para guardar a mágoa oculta. PRIMAVERA A meu irmão Odilon dos Anjos Primavera gentil dos meus amores. Num sepulcro de rosas e de flores. .A LOUCA A Dias Paredes Quando ela passa: . Moça. o triste outono. porém. tão moça e já desventurada. Canta. O cabelo revolto em desalinho. Tu que sorveste o fel das minhas dores E me trouxeste o néctar dos teus sonhos! Cedo virá. Vai morta em vida assim pelo caminho. Na auréola azul dos dias teus risonhos. Da desdita ferida pelo espinho. No sudário de mágoa sepultada.a veste desgrenhada. gargalha.O segredo d’um peito torturado E hoje. Primavera. .Arca cerúlea de ilusões etéreas. soluça . os teus fulgores. a desgraçada estulta. Primavera gentil dos meus amores! 85 .coração saudoso. No seu olhar feroz eu adivinho O mistério da dor que a traz penada.

O mistério d’um peito que estertora E o segredo d’um’alma que não sonha! Não. não busques saber por que. Também espero o fim do meu tormento. Este luto sem fim que é o meu Calvário E anseio e choro. É minha sina perenal.A ESPERANÇA A Esperança não murcha. Na voz da morte a me bradar: descansa! SENHORA.Cantar o Ocaso quando surge a Aurora. O berço onde as venturas se embalaram. tristonha . Mas não queiras saber nunca. Foi outrora do riso abençoado. risonha. ergue o teu grito. No entanto o mundo é uma ilusão completa. Senhora. que vivo atrelado ao desalento. Voltam sonhos nas asas da Esperança. E não é a Esperança por sentença Este laço que ao mundo nos manieta? Mocidade. Quantas venturas que me acalentaram! Mau peito. delirante e vário. EU TRAJO O LUTO DO PASSADO Senhora. 86 . Também como ela não sucumbe a Crença. Vão-se sonhos nas asas da Descrença. ela não cansa. Sonâmbulo da dor angustiado. túm’lo do prazer finado. eu trajo o luto do passado. Muita gente infeliz assim não pensa. portanto. Salve-te a glória no futuro .avança! E eu. Sirva-te a crença de fanal bendito.

Sombra perdida lá do meu Passado. Bela na Dor. sublime na Descrença.o orvalho do pranto lhe perola As faces maceradas de desgosto. santíssima. Das brancas rosas do seu triste rosto Que rolam murchas como um sol já posto Um perfume de lágrimas se evola. porém. Mas volta logo um negro desconforto. Vinde entornar a clâmide puríssima Da luz que fulge no ideal sagrado! Longe das tristes noutes tumulares Quem me dera viver entre quimeras. Chora . Mas quando vibrar a última balada Da tarde e se calar a passarada Na bruma sepulcral que o céu embaça. Como Jesus a soluçar no Horto! ECOS D’ALMA Oh! madrugada de ilusões. Quem me dera morrer então risonho. Quando o rosário de seu pranto rola. nervosa e louca Esquecer por momento a mágoa intensa Arrancando um sorriso à flor da boca. Tenta às vezes. Por entre o resplandor das Primaveeras Oh! madrugada azul dos meus sonhares.SOFREDORA Cobre-lhe a fria palidez do rosto O sendal da tristeza que a desola. Fitando a nebulosa do meu Sonho E a Via-Láctea da Ilusão que passa! 87 .

Fita a cúp’la do Céu santa e infinita! Deus é o templo do Bem. mimosa. sê bendita! ARIANA Ela é o tipo perfeito da ariana. Essa sublime adoração do crente. e. Estende o teu olhar à Natureza.AMOR E CRENÇA E sê bendita! H. num só encanto? Esse mistério eterno e sacrossanto. Que os encantos e a força dos poderes Reúne tudo em si.. Sienkiewicz Sabes que é Deus?! Esse infinito e santo Ser que preside e rege os outros seres. Esse manto de amor doce e clemente Que lava as dores e que enxuga o pranto?! Ah! Se queres saber a sua grandeza. o olhar velado No Mistério da Carne Soberana 88 . Branca. púbere. pois. crê em Deus. nevada. Rendilhando-lhe o colo de sultana. Enquanto o amante pálido.. A carne exuberante e capitosa Trescala a essência que de si dimana. Em flácido abandono Lembra formosa no seu casto sono A languidez dormente da indiana. Dorme talvez. Emergem da camisa cetinosa Entre as rendas sutis de filigrana. Na altura Imensa. a fronte triste. O amor é a hóstia que bendiz a Crença. a seu lado Medita. ama. As níveas pomas do candor da rosa.

Quero abraçar o meu passado morto. A romaria eterna dos aflitos. coveiro. Dos romeiros saudosos da desgraça. Entre todos. lânguida e bela. porém. ânsias e gritos De mães que arquejam sobre os probrezitos Filhos que a Fome derrubou na praça. A procissão dos tristes. e quero sempre tê-las ao meu lado! Não. Eu vivo dessas crenças que passaram. Vai Corina mendiga e esfarrapada. não quero o meu sonho sepultado No cemitério da Desilusão. Ao dobre funeral dos tempos idos! NA RUA EM FUNERAL EI-LA QUE PASSA (Lendo o "Poema de Maio") Na rua em funeral ei-la que passa. .A Stella Matutina da Desgraça! 89 . Tem pena dessas cinzas que ficaram. A alma saudosa pelo amor vibrada. Que não se enterra assim sem compaixão Os escombros benditos de um Passado! Ai! Não me arranques d’alma este conforto! . além. o meu Passado. Da juventude a virginal capela A lhe cingir de luz a fronte baça. dos proscritos.Dizer adeus aos sonhos meus perdidos! Deixa ao menos que eu suba à Eternidade Velado pelo círio da Saudade.TEMPOS IDOS Não enterres. . E na choça a lamúria que traspassa O coração.

Fitando o abismo sepulcral dos mares. Cheia da luz do cintilar de um astro.ADEUS. Deixa ver na fulgência do seu rastro A trajetória augusta da Ciência. Vinha o luar iluminando a estrada E eu vinha pela estrada soluçando. 90 . adeus! E. Parecia o ribeiro estar chorando As lágrimas que eu triste gotejava. Voa. Perto. ADEUS! E. Para mim no mundo Tudo acabou-se. SUSPIRANDO Pareceu-me inda ouvir o nome dela No badalar monótono dos sinos. devassando a terra. Hermeto Lima Adeus. apenas restam mágoas. A aeronave que um mistério encerra Vai pelo espaço acompanhando o mundo. Vencendo o azul que ante si s’erguera. ADEUS. Auroreando a humana consciência. um ribeiro claro murmurando Muito baixinho como quem chorava. suspirando. Súbito ecoou do sino o som profundo! Adeus! . Sulcando o espaço. se eleva em busca do infinito. Mas no mistério astral da noute bela Pareceu-me inda ouvir o nome dela No marulhar monótono das águas! A AERONAVE Cindindo a vastidão do Azul profundo. É como um despertar de estranho mito. adeus. E na esteira sem fim da azúlea esfera Ei-la embalada n’amplidão dos ares. Saí deixando morta a minha amada.eu disse.

com ela Negras sombras também foram chegando. e a estrela foi p’ra o Céu subindo. E quando ela no Azul foi-se sumindo Surgia a Aurora . triste. P’ra que pendes o cálice que enflora Teu seio branco do palor do círio?! Baixa a mim. E nunca mais eu vi a minha estrela! 91 . Deixa beijar-te a face que descora! Fosses antes a rosa purpurina E eu beijaria a pétala divina Da rosa. Ai! que ao menos talvez na vida escassa Não chorasses à sombra da desgraça. Minh’alma que de longe a acompanhava.Vai-te. Lá onde nunca chegue esta saudade. Envolto da tristeza no delírio. Mas a noute chegou. Viu o adeus que do Céu ela enviava.A sombra deste afeto estiolado. irmã pálida da Aurora.a mágica princesa! E eu vi o Sol do Céu iluminando A Catedral da Grande Natureza.LIRIAL Por que choras assim. tristonho lírio. Estrela esmaecida do Martírio. Se eu sou o orvalho eterno que te chora. Disse. . E eu disse . onde não pousa a desventura. Para eu sorrir à sombra da ventura! A MINHA ESTRELA A meu irmão Aprígio A. estrela do Passado! Esconde-te no Azul da Imensidade.

dai-me u’a esmola . A esmola dum carinho apetecido.o criminoso . Quando do algoz cruento o braço alçado Se dispunha a vibrar sem compaixão O golpe na cabeça do culpado Ele. Morre-me a voz. a fé perdida. E todo o dia eu vou como um perdido De dor. perdão.então. Estendo à Dulce a mão. E ela fita-me. O olhar azul pregado n’amplidão. E eu balbucio trêmula balada: . Puro de crime. e eu gemo o último harpejo.. a minha bem amada. E dos lábios de Dulce cai um beijo. Caiu na praça como fulminado A soluçar: perdão.e estertorada A minha voz soluça num gemido.Senhora. Depois. o olhar enlanguescido. por entre a dolorosa estrada. Vítima augusta de indelével falso. Pude rever naquele desgraçado O drama lutuoso da Paixão.A PRAÇA ESTAVA CHEIA. Pedir a Dulce. 92 . E na atitude do Crucificado.. perdão! A ESMOLA DE DULCE Ao Alfredo A. O condenado Transpunha nobremente o cadafalso. A praça estava cheia. o algoz . isento de pecado. como este beijo me consola! Bendita seja a Dulce! A minha vida Estava unicamente nessa esmola.

Negrejadas das asas lutulentas Que te emprestar o corvo do Destino! GÊNIO DAS TREVAS LÚGUBRES... e. acolhe-me. E as trevas moram. Leva-me o esp’rito dessa luz que mata. acolhe-me N’asa da Morte redentora. E o viver calmo e sossegado tolhe-me! Leva-me.crença Perdida . na névoa baça Onde o teu vulto lúrido esvoaça. Gênio das trevas lúgubres. assassino. Gêmea da Mágoa e núncia da Descrença! Dos sonhos meus na Catedral imensa Que nunca pouses. Há perfumes d’amor ...segue a trilha que te traça O Destino. Empenhada na sanha dos abutres.AVE DOLOROSA Ave perdida para sempre . onde d’água raso O olhar não trago. Num desespero rábido. Lá. Seja-te a vida uma agonia intensa! Vives de crenças mortas e te nutres. E a alma me ofusca e o peito me maltrata.venenos d’alma E eu busco a plaga onde o repouso mora. obumbra-me em teu seio. nem me turba a calma A aurora deste amor que é o meu ocaso! 93 . ave negra da Desgraça. e à ingrata Luz deste mundo em breve me arrebata E num pallium de tênebras recolhe-me! Aqui há muita luz e muita aurora. E hás de tombar um dia em mágoas lentas.

Abismados na bruma enegrecida. Que o guia e o leva ao porto da bonança. e a alma é a Flâmula do sonho. Mas quando o céu é límpido. Os nimbos das procelas desta vida. Ah! dessas no bramir funéreo Jamais vibrou a sinfonia pura Do amor.NIMBOS Nimbos de bronze que empanais escuros O santuário azul da Natureza. num mar de esp’rança. Cada rocha é uma eterna sepultura Banhada pela imácula brancura De ondas chorando num albor etéreo. Chora a saudade envolta nesta espuma! 94 . Reflete a luz do sol que já não arde. Julgo ver nos reflexos de minh’alma As mesmas nuvens deslizando em calma. sem bruma Que a transparência tolde. então. Que o céu reflete. negros palinuros Da tempestade negra e da tristeza. só descanta. O MAR O mar é triste como um cemitério. dentre a escura Treva do oceano. Quando vos vejo. Banhando a fria solidão das fragas. sem nenhuma Nuvem sequer. Treme na treva a púrpura da tarde. a voz do meu saltério! Quando a cândida espuma dessas vagas. a vida é qual risonho Batel. Onde a quebrar-se tão fugaz se esfuma.

quem dera Voar est’alma a ti. Donde Fluiu outrora a luz dum doce engano.. Aurora morta.esse clarão eterno d’alma forte Astro da minha Paz.ANSEIO (NESSAS PARAGENS DESOLADAS. Vem! Rasga deste peito as nebulosas gazas E. O grande Sol de afeto . lá nos espaços. Dia do meu Passado! Irrompe.eu busco a virgem loura! Pau d’Arco . Agora. FOGE! Aurora morta. foge . Ascende à Claridade. onde O silêncio campeia soberano Morreram notas do bulício humano. longe dos laços Dessa jaula de carne que a encarcera! Ah! Que unidos assim. Sírius da minha Sorte E da Noute da vida a Vênus Redentora. é dor. num Pálio auroral de Luz deslumbradora. agita as tuas asas.. Adeus oh! Dia escuro.1902 95 .o Sol que as almas doura! Fugiu. Triste criança virginal. E eu ergo preces que ninguém responde. Hoje é trevas. oh! Minha Mágoa. meu Futuro.1902 AURORA MORTA. Anseios d’alma aqui se perdem... Nem vibra a corda que a saudade esconde. o meu único Norte. é desengano. foge! Eu busco a virgem loura Que fugiu-me do peito ao teu clarão de morte E Ela era a minha estrela. Tendo a minh’alma presa nos teus braços! Pau d’Arco . Cantarias do amor a primavera. e em si a Luz consoladora Do amor .) Nessas paragens desoladas.

E há. os astros rumorejam Um presságio de noute luminosa E ei-la que assoma . úmido de beijos em ressábios Teu riso esponta. Ah! num delíquio de ventura louca. à dolente Unção da noute. Pendem e caem .. Sonorizando os sonhos já passados. despertando sonhos. Vai-se minh'alma toda nos teus lábios. Chora a corrente múrmura. No alto. nitente.NO CAMPO Tarde.os roseirais descoram E elas bóiam no pranto da corrente Que as rosas.1902 96 . entretanto. no teu riso de anjos encantados.. ao luar. Branca. emergindo às trevas que a negrejam. Como que um doce tilintar de prata E a vibração de mil cristais quebrados. as águas límpidas alvejam Com cristais. e.Cítara suave dos apaixonados. Quando. as flores também choram Num chuveiro de pétalas. Um arroio canta pela umbrosa Estrada. Aragem suspirosa Agita os roseirais que ali vicejam. Ri-se o meu coração na tua boca! Pau D'Arco . Pau d’Arco – 1902 CANTA O TEU RISO ESPLÊNDIDA SONATA Canta o teu riso esplêndida sonata. chorando enfloram. Bendito o riso assim que se desata .a Louca tenebrosa. Cantando sempre em trínula volata! Aurora ideal dos dias meus risonhos.

se duas eu tivera. E tudo quer que nessa flor se enleve O poeta. P'ra desvendar os seus segredos santos. Minh'alma triste pelos céus flutua! Pau d'Arco -1902. 97 . É que dessa concha armínea Da lactescência angélica da neve. E a lua é como um pálido sacrário. entre os encantos Dum noivado risonho em primavera. que a virgem chora. Também envolta num sudário — a Dor. sacrossantos. toda a cálida Mística essência desse alampadário. eterna noctâmbula do Amor. olências de virgínea Carne fremindo num langor de pomas. Derramam a urna dum perfume vário. Pau d'Arco -1902. PLENILUNIO Desmaia o plenilúnio.CRAVO DE NOIVA Ao Dias Paredes Cravo de noiva. virginais aromas De essência estranha. A nívea cor de cera Que o seu seio branqueja. Eu. noctâmbulo da Dor e da Saudade. A gaze pálida Que lhe serve de alvíssimo sudário Respira essências raras. Se evolarn castos. Ah! como a branca e merencórea lua. Guarda segredos divinais que eu dera Duas vidas. Voga a lua na etérea imensidade! Ela. Flor dos mistérios d'alma. Onde as almas das virgens em crisálida De seios alvos e de fronte pálida. é como os prantos Níveos.

sonhar novas idades. a lua é triste e calma. e ilusões acordas. Choras. bandolim do Fado E de Saudade o peito meu transbordas. É como as nênias do Coveiro d'alma! Tudo eterizas num coral de endeixas. Que desespero insano me apavora! Aqui.Quero partir em busca do Passado. Teu canto. Tanto que cantas. E eu tremo e hesito entre um mistério escuro: . chora um ocaso sepultado. Um dia morto da Ilusão às bordas.. E vais aos poucos soluçando mágoas.INSÂNIA No mundo vago das idealidades Afundei minha louca fantasia. . Quando alta noute. Mas ao esplendor das velhas majestades Vacila a mente e o seu ardor esfria. Cedo atraiu-me a áurea fulgidia Da refulgência antiga das idades.. Paraíba -1902 O BANDOLIM Cantas. Ali. Tanto que gemes. e eu julgo que nas tuas cordas Choram todas as cordas do Passado! Guardas a alma talvez d'um desgraçado. vindo de profundas fráguas. Busquei então na nebulosa fria Das Ilusões. E vais aos poucos soluçando queixas! 98 . bandolim do Fado. pompeia a luz da branca aurora. soluças.Quero Correr em busca do Futuro.

E Lúcia disse à bruma lutulenta: ..Foge. Para nunca tocarem negros sonhos! Caíste enfim no meu sacrário ardente. E beijei-te. A vida Despontava na aurora amortecida  rutilância mágica do dia. E. Meiga. Tocando n'ara negra o níveo seio. O céu tremia em seu trevoso flanco. à voz de Lúcia. agora. Na etérea limpidez de um sonho branco. Quiseste-me beijar a ara do peito. Aquele riso despertava a aurora! E tudo riu-se. E eu vi os seios teus virem inconhos .ARA MALDITA Como um'ave.. O sol. qual hóstia. cindindo os céus risonhos. alegre e rubro. senão co'o o meu olhar te espanco! E eu vi que. Caíste morta ao celestial preceito. E eu quis beijar-te o lábio redolente. E a procela chorou n'um fundo arranco De mágoa triste e de paixão violenta. grave e lenta. mas eis que neste enleio. tu vinhas a cindir os ares. e como Lúcia. Fulgia a bruma para sempre. NA ETÉREA LIMPIDEZ. também ria! 99 . caindo dos altares.Esses teus seios que os cerúleos lares Branquejaram de eternos nenúfares. Foste caindo n'ara dos meus sonhos. Lúcia sorriu-se à bruma nevoenta.

a rasgar o lúrido sacrário. eu sombrio chorando Ante a imagem fatal do Sepulcro da Crença! 100 . luminosa. á luz das alvoradas santas Ungem-te o corpo redolências tantas. em bando.TREVA E LUZ Neste pélago escuro em que te afundas. ao ver-te nua. E.ei-lo que avisto. Mas. às fundas Águas do mar das glórias obumbradas. Flores mortas da Aurora. em banho ideal de amor te inundas. a Virgem Mãe dos céus escampos. Tudo! até o altar onde a Angústia vibra intensa N'uma fúria assombrai de feras em delírio! Penetro louco enfim o abismo funerário. e. Nua. Sentes o peito em ânsias revoltadas. Que beija a terra e que abençoa os campos. Diluis teu peito em sensações profundas. E em mim como no Templo.o círio Da Quimera Falaz. o Mundo se concentre. ante o branco estendal das madrugadas. Agora. E a rasgar. Beije-te o seio e te abençoe o ventre! O TEMPLO DA DESCRENÇA O Templo da Descrença . urnas de Sonho. E a lua. A imensa Cruz da Dor está serena como um lírio! E vejo o pedestal que sustenta o Martírio. Longe das sombras aurorais e amadas.A colunata êxul do Sonho Morto . e. E vejo o pedestal que sustenta a Descrença! . o túmulo da Crença. eis que emerges. Que. Em mim como no Templo a Angústia se condensa.

o astro Deixa um rastro de luto em cada canto! IDEAL Quero-te assim..e que bendita sejas Como as aras sagradas das igrejas.. entre esplendores. tudo! Quando Ela passa. 101 .A PESTE Filha da raiva de Jeová . como o sol . Colmado o seio de virentes flores.Virgens filhas das virgens nebulosas! Quero-te assim. e a Peste ri-se. santa de inocência! Anjo de luz de astral aurifulgência. Embaladas no albor da adolescência. Plena de graça.a Peste N'um insano ceifar que aterra e espanta. Como o Cristo sagrado dos altares. A alma diluída em eterais cismares.O sol a segue. De espaço a espaço sepulturas planta E em cada coração planta um cipreste! Exulta o Eterno e. enquanto Vai devastando o coração das casas. formosa. formosa entre as formosas. No olhar d'amor a mística fulgência E o misticismo cândido das rosas.. ela. tudo chora. E como o sol que a segue e deixa um rastro De luz em tudo.É o castigo de Deus que passa mudo! .. . Etéreo como as Wilis vaporosas. Quero-te assim . semeando a Morte. Todos dizem co'os olhos para a Sorte ...Fúlgido foco de escaldantes brasas .

meu anjo. assim. Como o santo levita dos Martírios. insânia. pois. Perdão! E este silêncio e esta tumba que cala! Insânia. E eu ouço etérea cavatina! Há nos teus lábios .. E o lábio meu pra sempre apartado do teu Não há de beijar mais o teu lábio querido! Ah! Quando tu morreste.. perdoa o teu vencido. Rendo piedosa dúlia peregrina À tua doce voz que me fascina. Teu canto agora é um salmodiar de arcanjo. . ah! ninguém me responde. E para mim..Harpa virgem brandindo mil delírios! Quedo-me aos poucos. Eu venho arrependido. Perdão! E este sepulcro imenso que não fala! 102 . para onde Me levar o Destino abatido e tristonho. É a música de Deus que vem do Céu! SÚPLICA NUM TÚMULO Maria. insânia. Chegou a Noite..dois sangrentos círios A gêmea florescência de dois lírios Entrelaçados numa unção divina... Implorar-te o perdão do imenso crime meu! Eis-me... Açucena de Deus.CÍTARA MÍSTICA Cantas. pelo mundo. eis-me a teus pés..Irei agora. a teus pés. o meu Sonho morreu! Perdão. E a Noite afeia corno num sarcasmo E agora a sombra vesperal morreu.. lírio morto do Céu! Perdão! E a minha voz estertora um gemido. pátria da Aurora exilada do Sonho! . penseroso e pasmo.

.. Banhou-me o peito. Turificando a languidez dum seio! O amor. Tinha os lábios crestados pela ardência Da luz letal do grande Sol do Vício! E mergulhei mais fundo no estuário. porém. que da Desgraça veio Maldito seja. Da Messalina fria no regaço. sem Calvário. . e. Cristo d'amor morri pela inocência! 103 .. Em ânsia de repouso. Mas.. supremos.Amor que é mirra e que é sagrado nardo. como a Aurora Que ao beijo vesperal anseia e expira.AFETOS Bendito o amor que infiltra n'alma o enleio E santifica da existência o cardo. e ora Em contorço es supremas de Delícia! MARTÍRIO SUPREMO Duma Quimera ao fascinante abraço. Desce para a alma o ocaso da Carícia Ora em sonhos de Dor. seja como o fardo Desta descrença funeral em que ardo E com que o fogo da paixão ateio! Funambulescamente a alma se atira À luta das paixões. no Inferno do Gozo. Por um Cocito ardente e luxurioso. Chora saudades do terreno pouso! Como um mártir de estranho sacrifício. Onde nunca gemeu o humano passo. Transpus um dia o Inferno Azul do Gozo! O amor em lavas de candência d'aço.

mulher. Domados pela meiga Ónfale a que me rendo! CORAÇÃO FRIO Frio o sagrado coração da lua.. Teu coração rolou da luz serena! E eu tinha ido ver a aurora tua Nos raios d'ouro da celeste arena. me acalenta e conforta! Noute! E somente tu velas a rutilância. também da Dor.SOMBRA IMORTAL ... a noute é tumbal. Sombra de gelo que me apaga a febre. ansiando a luz amena No silêncio notívago da rua. Ah! que um dia da Vida.. no pó da fulgurância Como uma velha cruz vela na sombra morta! Fora. E estavas morta. nem mais alquebre Um coração como a alma que está morta. E vi-te triste..E tu velas.. Como um'alma de mãe.Sonâmbulo glacial da estranha pena! Estavas fria! A neve que a alma corta Não gele talvez mais. eu que te almejo.. a sós. lá dos braços hercúleos. estes dardos acúleos Caíam. . O penetral que leva à derradeira porta! Revejo em ti. eu vi. desvalida e nua! E o olhar perdi. Lua que já passou e que hoje ainda corta O penetral que guia à derradeira estância... . e a saudade da infância...Lua que esfria o sol do meu desejo! 104 . num lânguido smorzando A sombra virginal qu'eu adoro chorando E há de um dia amparar-me na luta correndo..

Branca bem como empalecido arminho. o seio branco. inata! E. te acolheu a mata. no negror me abrasa. Choras. profundo?! Rumores santos. e.. O roble altivo entreteceu4e um ninho.. chegando.) Para o vale noital da eterna gaza Rolou o Sol .. e no meu peito estes teus olhos Como que cravam dois punhais gelados! SEDUTORA Alva d'aurora. e no Santo harpejo..imenso moribundo E a noute veio na negrura d'asa.. Rendida ao eflúvio do teu seio casto! 105 . Alvorejando em arrebol de prata. Uma pantera foi se ajoelhando. virginal. e em lânguida sonata Vinhas transpondo a margem do caminho. E um canto vai morrer no vale fundo.. Para o Infinito e para o Céu voltados! Cantas. Bendita a Santa do Carinho. e é noute de fatais abrolhos. Chegaste.. entanto. Alva d'aurora. Que canto é este. No lago branco e rútilo do dia O azul pompeava para sempre vasto. Santificada pela Dor do Mundo! U'a luz. tu. ajoelhando à imagem do Carinho.NOTURNO (PARA O VALE NOITAL.. Que luz é esta que das brumas vasa.. Somente tristes os teus olhos vejo. Pérolas e ouro pela serrania.

cintila! Naquela hora morria para a Idéia A minha branca e desgraçada Déa. Fria como um crepúsculo da Judéia. 106 . E as brumas velam nos sinistros mantos E as virgens dormem nas tumbais jazidas! Súbitos fremem 'spasmos derradeiros. Chorando auroras músicas perdidas Na estrada santa ensangüentando as Vidas... E a paixão morre e os corações coveiros Vão como duendes pelos céus risonhos.. Triste como um soluço de Dalila. e lânguida. E o mar chamou-a para o funda abismo! E o céu chamou-a para o Misticismo. Já Vésper. Crepitaç5es de flamas incendidas Nalma explodindo como fogos santos.PELO MUNDO Ânsias que pungem. Nesse momento a Lua vinha calma E céu e mar num desespero mudo Não viram que num halo de veludo À alma de Déa se evolava est'alma.. no Alto. Nos campos-santos enterrando os Sonhos! E O MAR GEMEU A FUNDA MELOPÉIA E o mar gemeu a funda melopéia À luz feral que a tarde morta instila. Vão pelo mundo ensangüentando as Vidas. Eflúvios quentes e fatais quebrantos Crestam a alma das virgens adormidas. Qual rosa branca que ao tufão vacila. mórbidos encantos.

. E ergue à sombra da dor a que se irmana Lauréis de sangue de volúpia insana. tristíssimo palhaço" Cruz e Souza O Riso ..Ele. Clarões de sonho em nimbos de epicédio! Bendito sejas. Na Via-Látea fria do Nirvana.Eterno fogo.Fogo sagrado nos festins da Morte .O RISO "Ri. Canta no espaço a maldição da Vida! 107 .quem mede-o?! .. saturnal do Inferno! Eu te bendigo! No mundano cúmulo És a Ironia que tombou no túmulo Nas sombras mortas de um desgosto eterno! VAMOS.A hora dos tristes e dos descontentes. os gaturamos Num recesso de névoa. QUERIDA! Vamos.o voltairesco clown .Consagração das almas padecentes! Foi numa tarde assim que nos amamos. coração. clown da Sorte . Punge-me o peito da Saudade o cardo Enquanto um mocho. que ao frio alvor da Mágoa Humana. e a todo o seu assédio. sonolento e tardo. querida! Já é Ave-Maria . Desfaz-se o peito em vibrações dormentes E o Fado geme sob a névoa fria! Que eu sinta n'alma o que tu n'alma sentes! Nesta Missa de Atroz Melancolia Bebes chorando o Vinho da Agonia . Riso. adormecida. No ar. Silfos morriam.. Alenta a Vida que tombou no Tédio! Que à Dor se prende.

A UMA MÁRTIR Alma em cilício, vem, enrista a dava, Brande no seio o espículo e o acinace E unjam-te o seio que d'auroras nasce Sangrentas bênçãos eclodindo em lava! Nossa Senhora te unge a face escrava, Cristo saudoso te abençoa a face De monja - violeta que do Céu baixasse À Virgem Santa Natureza brava! Vais caminhando para a terra extrema, Rosa dos Sonhos! e o teu galho trema E a tua crença, o desespero mate-a... E em nuvens d'ouro ascende enfim ao plaustro Da Neve Eterna, estrela azul do claustro, Levada para o Azul da Via-Látea!

RÉGIO Festa no paço! Noite... E no entretanto Luzes; flores, clarões por toda a festa E há nos régios salões, em cada aresta, Credências d'ouro de supremo encanto. No baldaquino a orquestra real se apresta E o áureo dossel finge um relevo santo... - Bissos egípcios d'alto gosto, a um canto, Flordilisados de nelumbo e giesta. Morreu a noite e veio o Sol Eterno - Âmbar de sangue que desceu do Inferno No turbilhão dos alvos raios diurnos... Brilham no paço refulgências de elmo E a princesa assomou corno um santelmo Na realeza branca dos coturnos.

108

PELO MAR Manhã em flor. O mar é um policromo E imenso lago d'íris e alabastros... À aurora é branco e ao sol, o mar é como Um pálio imenso que caiu dos astros. Longe, bem longe, no alvoral assomo Ergue um navio os altanados mastros E o Oceano dorme - alourecido pomo Num leito irial de pérolas e nastros. A alma da Mágoa vai pelo seu dorso, Em sonhos geme... Um coração de corso Geme no mar, vibra no mar, entanto, Colma-lhe o seio a opala das esponjas... E à noute morta choram vagas - monjas Purificadas no cristal do pranto!

PALLIDA LUNA És do Passado! Vieste d'alvorada N'asa dos elfos pela Morte espalma... Cantas... e eu ouço esta berceuse calma Da harpa dos mundos ideais do Nada! Ergue o Missal brilhante de tu'alma, Mas nessa elevação mistificada, Vem, que eu te espero, Deusa constelada Desce, anêmona êxul que o Céu ensalma! Venhas e desças, Lua dos Martírios, Desças, mas venhas pela unção dos lírios. Visão de Ocaso de enluaradas comas, Vaso de Unção descido dos espaços, Para ungirmos nós dois, os nossos paços, Na tule idealizada dos aromas.

109

A MORTE DE VÊNUS Velhos berilos, pálidas cortinas, Morno frouxel de nardos recendendo Velam-lhe o sono... e Vênus vai morrendo No berço azul das névoas matutinas! Halos de luz de brancas musselinas Vão-lhe do corpo virginal descendo - Abelha irial que foi adormecendo Sobre um coxim de pérolas divinas. E quando o Sol lhe beija a espádua nua, Cai-lhe da carne o resplendor da Lua No reverbero dos deslumbramentos... Enquanto no ar há sândalos, há flores E haustos de morte - os últimos clangores Da música chorosa dos mementos!

MÁRTIR DA FOME Nesta da vida lúgubre caverna De ossos e frios funerais que eu sinto Corno um chacal saciando o eterno instinto Vou saciando a minha Fome Eterna. - Fome de sangue de um Passado extinto, De extintas crenças - bacanal superna, Horrível assim como a Hidra de Lema E muda como o bronze de Corinto! Ânsias de sonhos, desespero fundo! E a alma que sonha no marnel do Mundo, Morre de Fome pelas noites belas... E como o Cristo - o Mártir do Calvário Morre. E no entanto vai para o estelário Matar a Fome num festim de estrelas!

110

SONHO DE AMOR Sobre o aromal e amplo coxim de Flora, Que os vapores da tarde inda incensavam E que um incenso tênue e bom vapora, Os namorados lânguidos sonhavam. A alma do Ocaso entrava o céu agora E havia pelas tênebras que entravam Ora estrangulamentos surdos, ora Ruídos de carnes que se estrangulavam. E sonharam assim durante toda A noute, e toda a alva manhã durante! - O Sol jorrava largos raios longos E em roda víride e nevado, em roda, Lembrava o campo um colorido ondeante De vidros verdes e cristais oblongos!

A ORGIA MATA A MOCIDADE A orgia mata a mocidade, quando Rugem na carne do delírio as feras, E o moço morre como está sonhando Nas suas vinte e cinco primaveras. Em cima - o oiro sem mancha das esferas, Em baixo oiro manchado de execrando Festim de sibarita:, das heteras Lubricamente se despedaçando! Em cima, a rede do estelário imáculo Suspensa no alto como um tabernáculo - A orgia, em baixo, e no delírio doudo Corno arvoredos juvenis tombados Os moços mortos, os brasões manchados, E um turbilhão de púrpuras no lodo!

111

em compassados trenos Sobre os veludos da tapeçaria. ameaçando os séculos futuros! De São Francisco no plangente bronze Em badaladas compassadas onze Horas soaram. mas meus movimentos Susto. Desencadeados. Surge agora a Lua. O dia Foge... LÁ FORA. Negro.. e ao compasso de arrabis serenos A valsa rompe. A incandescência irial dos candelabros.. Vibra.FESTIVAL Para Jônatas Costa Címbalos soam no salão. Os passos mal seguros Trêmulo movo.) Chove. E em meio ás refrações verdes e hialinas. violentos. recordando a estria Dos corpos de Afrodite e Vênus. Estatuetas de mármore de Lemnos Estão dispostas numa simetria Inconfundível. diante do vulto dos conventos. De encontro ás torres e de encontro aos muros. Saio de casa. E eu sonho erguer-me aos páramos etéreos Enquanto a chuva cai nos cemitérios E o vento apaga os lampiões da rua! 112 .. batendo em todas as retinas. vão bater. Lá fora os lampiões escuros Semelham monjas a morrer. Fulgem por entre mil cristais vermelhos O alvo cristal dos nítidos espelhos E a seda verde dos arbustos glabros. NOTURNO (CHOVE. Os ventos..

. A Dor meu coração torça e retorça! Cubra-me o corpo a podridão dos trapos! Os vibriões. já faz sete dias Que eu ouço o canto desse sabiá! VAE VICTIS A Dor meu coração torça e retorça E me retalhe como se retalhe Para escárnio e alegria da canalha Um leão vencido que perdeu a força! Sobre mim caia essa vingança corsa.. mas não deixou na ara do rosto Um só vestígio que acusasse a Morte! O anatomista que investiga a sorte Das vidas que se abismam no Sol-posto Ficaria admirado do seu rosto Vendo-o tão belo. verão. E hoje.Repositório de milhões de miasmas Onde se fartem todos os fantasmas.. os sapos Encontrem nele pábulo eviterno.. outono. Ele que foi um forte Que nunca se quebrou pelo Desgosto Morreu.. enquanto o Tédio a carne me trabalha. Que há muito tempo não cantava lá.. poetas.E ELE MORREU Ao sétimo dia de seu falecimento E ele morreu.. Já que perdi a última batalha! E. Primavera. inverno! 113 .. os vermes vis. tão sereno e forte! Quando meu Pai deixou o lar amigo Um sabiá da casa muito antigo. Diluiu o silêncio em litanias.

inda altiva. e a ameaça Amarga dessa desgraçada fruta Que é a fruta amargosa da Desgraça! E quando o mundo todo paralisa E quando a multidão toda agoniza. Gemem poetas .Esse sombrio trovador é o Inverno! Aqui é a Terra. Aqui é o Campo-Santo. e quando passa. abraçado às campas dos poetas. Derrama em cada boca envenenada Mais uma gota do fatal veneno! TERRA FÚNEBRE Aqui morreram tantos poetas! Tanta Guitarra morta este lugar encerra!.. onde. enxuta A face. O caminheiro fique nesta Terra! À noute aqui um trovador eterno Chora. Carpem na sombra pássaros ascetas. enxuto o olhar. e o travo há de sentir. ela. Pare chorando nesta Terra Santa. inda o olhar sereno De agonizante multidão rodeada.. ao noturno açoute. E se cantar como a Saudade canta. Ela. aqui é a Terra! Em que a alma chora e em que a Saudade canta! O caminheiro que o Pesar desterra. .pássaros da Noute! 114 . enluta E todo mundo que por ela passa Há de beber a taça da cicuta E há de beber até o fim da taça! Há de beber.A DOR Chama-se a Dor.

A CRENÇA E O AMOR O sonho. poeta. que não ama e que não sonha?! Pois a alma acostumada a ser tristonha Pode achar por acaso ou porventura Felicidade numa sepultura. De onde me vem esta felicidade?! MEDITANDO Penso em venturas! A alma do homem pensa Sempre em venturas! Sorte do homem! O homem Há de embalar eternamente a crença Sem ter grilhões e sem ter leis que o domem! Punjam-no os vermes da Desgraça. E esse ouro santo vir rolando pelas Trevas profundas do meu pensamento! 115 .O SONHO. assomem Descrenças. e por fim. eu penso na Ventura! E o pensamento. Vence. e morrem os vermes que o consomem. a crença e o amor. Luta. na Suprema Altura Sinto. Contentamento numa dor medonha?! Há muito tempo. do meu seio Partiu num célere arrebatamento De minha crença arrebentando a grade Pois se eu não amo e se também não creio De onde me vem este contentamento. surjam tédios na Descrença. no imenso Azul do Firmamento Ir rolando pelo ouro das estrelas. nada há que o abata e o vença! Por isso. o sonho. sendo a risonha Santíssima Trindade da Ventura Pode ser venturosa a criatura Que não crê.

. Depois quando no irmão estremecido Fazem aliança o gênio e a probidade. pois.PARA QUEM TEM NA VIDA. por fim. De que te serviu.Construíste de ilusões um mundo diferente.. Feito no decurso de dois minutos... Tesouros reais.. homem meditabundo?! Escalpelaste todo o cadáver do mundo E. Desconheceste Deus no vidro do astrolábio E quando a ciência vã te proclamava sábio A tua construção quebrou-se de repente! 116 . por fim. para penetrar o mistério das lousas. estudares. O homem e a lesma e a rocha e a pedra e o carvalho e a haste?! Pois. em homenagem ao aniversário natalício de Alexandre Rodrigues dos Anjos 28 de abril de 1905. nada achaste. O Alexandre dos Anjos merecia Grandes coroas nesse grande dia. Atinge o amor um grau nunca atingido No termômetro santo da Amizade.. Para quem tem na vida compreendido Toda a grandeza da Fraternidade O aniversário dum irmão querido A alma de alegres emoções invade. Terá no entanto indubitavelmente A admiração do século presente E a sagração dos séculos vindouros! SONETO A FREDERICO NIETZCHE Para que nesta vida o espírito esfalfaste Em vás meditações. auríferos tesouros... e. Foi-te mister sondar a substância das cousas . profundo. nada achaste! A loucura destruiu tudo que arquitetaste E a Alemanha tremeu ao teu gemido fundo.

São dois colossos. E subiu tanto e subiu tanto e tanto Que hoje que és morto. oh! Filho da Hotentóia ufana Teus braços brônzeos como dois escudos.. ela subiu. Fulge o fogo mordente dos mormaços E a chama fulge do solar brasido. . E eu cuido ver os múltiplos produtos Da Terra .. em ânsias. Representando a integridade humana! Nesses braços de força soberana Gloriosamente á luz do sol desnudos Ao bruto encontro dos ferrões agudos Gemeu por muito tempo a alma africana! No colorido dos teus brônzeos braços.. Embora oculta. .as flores e os metais e os frutos Simbolizados nesse colorido! VINHAS TRILHANDO GÁRRULO A AVENIDA À memória do meu colega Caldas Líns Vinhas trilhando gárrulo a Avenida Onde Deus manda que todo homem goze. no entanto.... o óbolo da Vida! Recordo agora a nossa despedida Na Estação do Cobé. Quando o fantasma da tuberculose Pediu-te. dois gigantes mudos.santa nevrose que com fios de ferro as almas cose Principalmente se uma está ferida! Das tuas dores na procela brava Não soubeste talvez que eu te estimava! Mas a amizade oculta não se finda.ei-Ia que sobe ainda! Pau D'Arco – 1905 117 .O NEGRO Oh! Negro.

foram buscar a Glória E que. A estrada torta Lembrava a antiga ponte de Sublício. Saiu. ouve o canto aziago da coruja! . na atra estrada que trilhei. Trás de mim. ver Se nesta ânsia suprema de beber.. ela seria morta.. e não vê por onde fuja. como eu.E o horror começa! Rasga As vestes. Mas eu não contarei nunca a ninguém. .em busca de ascender A essa Babel fictícia do Prazer Que procuravam e que eu procurava..O ÉBRIO Bebi! Mas sei porque bebi!.Quer fugir. uma convulsão a engasga E morre ouvindo o mesmo canto aziago! 118 . Quantos também.. como eu. Daí a pouco. quantos também deixei. ira-o morrer também. Buscava Em verdes nuanças de miragens. Achava a Glória que ninguém achava! E todo o dia então eu me embriagava . O Sol ardia..Se ao menos voasse! . Implora a Deus como a um fetiche vago. A ninguém nunca eu contarei a história Dos que.Novo Sileno.Era o suplício!. . O CANTO DA CORUJA A coruja cantara-lhe na porta Sinistramente a noite inteira! Indício Mais certo não havia! .. Nisto.. Havia pelo chão um desperdício De folhas que a áurea xantofila corta..

. Sei que na infância nunca tive auroras... a alma serena.Continua a cantar. Batendo com a cabeça no barrote Da guilhotina. Grave como um lacedemônio harmoste André Chénier ia subir ao poste A que Luís XVI subira dantes! Que a sua morte a homem nenhum desgoste E incite o heroísmo das nações distantes.. de repente. Olha essa neve pura! . diz ao povo: "É pena! . Vinte e quatro anos em vinte e quatro horas.. vivia. A cal da sepultura Caiu por sobre a minha mocidade. pressentindo a lousa.. canta vibrantes Versos divinos que arrebatam a hoste. Mas.Foi saudade? Foi dor? . E eu que julgava em minha idealidade Ver inda toda a geração futura! Eu que julgava! Pois não é verdade?! Hoje estou velho. E afora disto. Por isso. ele a morrer.." Pau d'Arco -1905 119 .Aqui ainda havia alguma cousa. Assim como uma casa abandonada. Não há quem nele um só tremor denote! .. eu já nem sei mais nada! ANDRÉ CHÉNIER Na real magnificência dos gigantes...SENECTUDE PRECOCE Envelheci.Foi tanta agrura Que eu nem sei se foi dor ou foi saudade! Sei que durante toda a travessia Da minha infância trágica.

E. sendo assim beijado Muito acima do humano borborinho! Falou-me de ilusões e de luares... não andei mais sozinho! Abraçou-me. Ostenta ainda as mesmas cicatrizes Que eternizaram sua heroicidade! Quem vê o her6i.a tumbal cidade. Bem como tu.MYSTICA VISIO Vinha passando pelo meu caminho Um vulto estranhamente iluminado. Dizes Tudo que sentes. A múmia de um herói do tempo de Ísis.. beijou-me com um carinho Que a um ser divino não seria dado. Para onde eu ia. inda com o braço altivo. persuadido fica do que diz. A infelicidade Parece às vezes com a felicidade E os infelizes mostram ser felizes! Assim. e ainda Te persuades de que sou feliz! 120 ... Diz que ele não morreu.Assombrava-me aquela claridade! Mas através daquelas falsas luzes Pude rever enfim todas as cruzes Que têm pesado sobre a Humanidade! ILUSÃO Dizes que sou feliz. que nessa crença infinda Feliz me viste no Passado. Da tribo alegre que povoa os ares. em Tebas .. o vulto ia a meu lado E desde então. .. Não mentes. diz que ele é vivo. E eu me elevava..

E foi assim que ele morreu um dia Amaldiçoado pelo próprio nome! DOLÊNCIAS Eu fui cadáver. morrer. aos tropeços. Nada se altere em sua marcha infinda .. de saudades me despedaçando De novo. Por toda a parte viu seu nome escrito! Vieram-lhe as ânsias. Não há divina proteção que o guarde!" Dúvidas cruéis! Momentos cruéis! Incertos E cruéis momentos! Ânsias cruéis! E. A percorrer desertos e desertos. A lua continue sempre a nascer! 121 . amigos. Teve sede e fome.NOME MALDITO Das trombetas proféticas o alarde Falou-lhe. ia.. a sofrer E acostumado a assim sofrer existo. pois. assim como o de Jesus Cristo. Saiu aos tombos.. E. Sofreu o que olhos de homem não têm visto E olhos de fera não puderam ver! Acostumei-me. assim. triste e sem cantar..O tamarindo reverdeça ainda.E apesar disto. com medo do Infinito.. quando Eu.. antes de viver! Meu corpo. apesar disto Inda cadáver hei também de ser! Quando eu morrer de novo. onde. Por toda a parte. à tarde. por seus onze augúrios certos: "E maldito o teu nome! E aos céus abertos. como um cão covarde. assombrado. Existo! .

. .A farmacologia e a medicina Com a relatividade dos sentidos Desconhecem os mil desconhecidos Segredos dessa secreção divina. Vem-me então à lembrança o pai Ioiô Na ânsia psíquica da última eficácia! E logo a lágrima em meus olhos cai. Ah! Basta isto. Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu Pai Do que todas as drogas da farmácia! 122 . porque isto é que origina A lágrima de todos os vencidos! . água e albumina..A LÁGRIMA .O farmacêutico me obtemperou.Faça-me o obséquio de trazer reunidos Clorureto de sódio.

sem dispêndio algum de vírus... Não conheço o acidente da Senectus -. Em minha ignota mônada. ampla.. Larva de caos telúrico. procedo Da escuridão do cósmico segredo. Pólipo de recônditas reentrâncias. À luz do americano plenilúnio.O metafisicismo de Abidarma -E trago. O amarelecimento do papirus E a miséria anatômica da ruga! Na existência social. E é de mim que decorrem. A podridão me serve de Evangelho.OUTRAS POESIAS MONÓLOGO DE UMA SOMBRA “Sou uma Sombra! Venho de outras eras. Como um pouco de saliva quotidiana Mostro meu nojo à Natureza Humana. simultâneas. A saúde das forças subterrâneas E a morbidez dos seres ilusórios! Pairando acima dos mundanos tetos.. vibra A alma dos movimentos rotatórios..Esta universitária sanguessuga Que produz. sem bramânicas tesouras. Amarguradamente se me antolha. A solidariedade subjetiva De todas as espécies sofredoras. Do cosmopolitismo das moneras. Da substância de todas as substâncias! A simbiose das coisas me equilibra.. 123 . os resíduos ruins dos quiosques E o animal inferior que urra nos bosques É com certeza meu irmão mais velho! Tal qual quem para o próprio túmulo olha. Amo o esterco. possuo uma arma -. Como um dorso de azêmola passiva.

Nas eterizações indefiníveis Da energia intra-atômica liberta! Será calor. Que. tatuada de fuligens Esse mineiro doido das origens. -. iguais a fogos passageiros. quebrando estéreis normas. amanhã.Na alma crepuscular de minha raça Como uma vocação para a Desgraça E um tropismo ancestral para o Infortúnio. Quimiotaxia. luzem. ondulação aérea.Engrenagem de vísceras vulgares -Os dedos carregados de peçonha. em síntese. rotos os liames Dessa estranguladora lei que aperta Todos os agregados perecíveis. a coçar chagas plebéias. Ao clarão tropical da luz danada. magnetismo misterioso. A que todas as coisas se reduzem! E hão de achá-lo. causa ubíqua de gozo. a boca. O horror dessa mecânica nefasta. Tal a finalidade dos estames! Mas ele viverá. Estrangulada dentro da matéria! E o que ele foi: clavículas. já nos últimos momentos. Sonoridade potencial dos seres. A vida fenomênica das Formas. Que se chama o Filósofo Moderno! Quis compreender. 124 . Fonte de repulsões e de prazeres. E apenas encontrou na idéia gasta. abdômen. o Homem. Trazendo no deserto das idéias O desespero endêmico do inferno. O coração. Com a cara hirta. Aí vem sujo. Raio X. bestas agrestes. Como quem se submete a uma charqueada. Sobre a esteira sarcófaga das pestes A mostrar. Tudo coube na lógica medonha Dos apodrecimentos musculares. O espólio dos seus dedos peçonhentos.

Sôfrego. Toda a sensualidade da simbiose.. E foi então para isto que esse doudo Estragou o vibrátil plasma todo.. Há estratificações requintadíssimas De uma animalidade sem castigo. à noite. Suas artérias hírcicas latejam.A desarrumação dos intestinos Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos Dentro daquela massa que o húmus come. o monstro as vítimas aguarda. em suas clélulas vilíssimas. Vendo as larvas malignas que se embrulham No cadáver malsão. 125 . Brancas bacantes bêbadas o beijam. Numa glutonaria hedionda.. Negra paixão congênita. Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo. E à noite. Como as cadelas que as dentuças trincam No espasmo fisiológico da fome. em lúbricos arroubos.. Sentindo o odor das carnações abstêmias. Como no babilônico sansara . No horror de sua anômala nevrose. reduzir-se À herança miserável dos micróbios! Estoutro agora é o sátiro peralta Que o sensualismo sodomita exalta.. E explode. vai gozar.. ébrio de vício. À guisa de um faquir. Lembra a fome incoercível que escancara A mucosa carnívora dos lobos. No sombrio bazer domeretrício.. Uivando.. Num suicídio graduado. O cuspo afrodisíaco das fêmeas. E após tantas vigílias. E até os membros da família engulham. É uma trágica festa emocionante! A bacteriologia inventariante Toma conta do corpo que apodrece. brincam. Do seu zooplasma ofídico resulta. pelos cenóbios?!. bastarda. Como que. igual à luz que o ar acomete. fazendo um s. consumir-se.

E de su’alma na caverna escura. Quando o prazer barbaramente a ataca. Essa necessidade de horroroso. em rembrandtescas telas várias. Sente que megatérios o estrangulam.. Abranda as rochas rígidas. quando a noite avança.Macbeths da patológica vigília. bêbedo de sono. Que tateando nas tênebras. Assim também. esculpindo a humana mágoa. Mas muitas vezes. Fazendo ultra-epiléticos esforços. se estende Dentro da noite má. observa através a tênue trança Dos filamentos fluídicos de um halo A destra descarnada de um duende. Na própria ânsia dionísica do gozo. torna água Todo o fogo telúrico profundo 126 .. observa a ciência crua. Hirto. A família alarmada dos remorsos. A asa negra das moscas o horroriza. As incestuosidades sanguinárias Que ele tem praticado na família. Acorda. Reconhecendo. com os candeeiros apagados. Numa coreografia de danados. É o despertar de um povo subterrâneo! É a fauna cavernícola do crânio -. As alucinações tácteis pululam. para agarrá-lo! Cresce-lhe a intracefálica tortura.. Dentro da elipse ignívoma da lua A realidade de uma esfera opaca. Somente a Arte. Mostrando..Com a veemência mavórtica do aríete E os arremessos de uma catapulta. Que é talvez propriedade do carbono! Ah! Dentro de toda a alma existe a prova De que a dor como um dartro se renova. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa! Míngua-se o combustível da lanterna E a consciência do sátiro se inferna.

A orquestra arrepiadora do sarcasmo! Era a elegia panteísta do Universo. Na produção do sangue humano imenso. Há-de ferir-me as auditivas portas.O homicídio nas vielas mais escuras. Era a canção da Natureza exausta. Sem os métodos da abstrusa ciência fria E os trovões gritadores da dialética. Prostituído talvez.O último solilóquio dos suicidas -E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva!” Disse isto a Sombra. À condição de uma planície alegre.. Que a mais alta expressãoda dor estética Consiste essencialmente na alegria. E. entanto. ouvindo estes vocábulos.O ferido que a hostil gleba atra escarva. sem que. até que minha efêmera cabeça. Reverta à quietação datrava espessa E à palidez das fotosferas mortas! 127 . Chorando e rindo na ironia infausta Da incoerência infernal daquelas frases. Na ânsa de um nervosíssimo entusiasmo. E o turbilhão de tais fonemas acres Trovejando grandíloquos massacres. Executando. -. -. em suas bases. a desintegre. Da luz da lua aos pálidos venábulos. A aspereza orográfica do mundo! Provo desta maneira ao mundo odiento Pelas grandes razões do sentimento. entre daveiras sujas.. Julgava ouvir monótonas corujas.E reduz. Continua o martírio das criaturas: -.

UMA NOITE NO CAIRO Noite no Egito. Os mastins negros vão ladrando à lua. A Lua cheia Está sinistra. Convulso e roto. Vaga no espaço um silfo solitário. A rua é triste.. No ângulo mais recôndito da rua Passa cantando uma mulher hebraica. das pirâmides o quedo E atro perfil. Troam kinnors ! Depois tudo é tranqüilo. na mais próxima planície. Tonto do vinho. Apenas como um velho stradivário. no apogeu da fúria. Dorme soturna a natureza sábia. parece Uma sombria interjeição de medo! Como um contraste àqueles mesereres..Última nota do conúbio infando -Vêem-se dez jogadores de roleta Fumando. discutindo. Embaixo.. e sobre a paz do mundo A alma dos Faraós anda e vagueia. O céu claro e produndo Fulgura. O Cairo é de uma formosura arcaica. Pasta um cavalo esplêndido da Arábia... Executando evoluções de razzia Solta um brado epilético de injúria! Em derredor duma ampla mesa preta -. Num quiosque em festa alegre turba grita. Soluça toda a noite a água do Nilo! 128 . E dentro dançam homens e mulheres Numa aglomeração cosmopolita. O Egito é sempre assim quando anoitece! Às vezes. Resplandece a celeste superfície.. exposto ao luar. um saltimbanco da Ásia. conversando.

Eu vi. Mostrando as carnes. Assombrado com a minha sombra magra. Ponte Buarque de Macedo. atro e vidrento. Mas. E aprofundando o raciocínio obscuro. Atravessando uma estação deserta. Bilhões de centrossomas apolínicos Na câmara promíscua do vitellus . na alma da cidade. com a boca aberta. parodiando saraus cínicos. O calçamento Sáxeo. a irritar-me os globos oculares. O trabalho genésico dos sexos. Profundamente lúbrica e revolta. Como uma pele de rinoceronte Estendida por toda a minha vida! A noite fecundava o ovo dos vícios Animais. E a minha sombra enorme enchia a ponte. A matilha espantada dos instintos! Era como se. então. Pensava no Destino. 129 . Fazendo à noite os homens do Futuro. uma besta solta Soltasse o berro da animalidade. Lembro-me bem. Copiava a polidez de um crânio alvo. à luz de áureos reflexos. de asfalto rijo. Apregoando e alardeando a cor nojenta. Livres de microscópios e escalpelos.AS CISMAS DO DESTINO I Recife. Dançavam... A ponte era comprida. Do carvão da treva imensa Caía um ar danado de doença Sobre a cara geral dos edifícios! Tal uma horda feroz de cães famintos. e tinha medo! Na austera abóbada alta o fósforo alvo Das estrelas luzia. Uivava dentro do eu . Eu. indo em direção à casa do Agra.

O ventobravo me atirava flechas E aplicações hiemais de gelo russo. Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! Mas o vento cessara por instantes Ou. A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Ninguém compreendia o meu soluço.Fetos magros. É bem possível que eu umdia cegue. o ignis sapiens do Orco Abafava-me o peito arqueado e porco Num núcleo de substâncias abrasantes. Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas. E. Posta em rija adesão de goma laca Sobre os meus elementos anatômicos. como um réu confesso. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse. Julgava eu ver o fúnebre candeeiro Que há de me alumiar na hora da morte. 130 . na ígnea crosta do Cruzeiro. ainda na placenta. Não sei por que me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança E um pedaço de víscera escarlate. A vingança dos mundos astronômicos Enviava à terra extraordinária faca. Deus me castigava! Por toda a parte. Estendiam-me as mãos rudimentares! Mostravam-me o apriorismo incognoscível Dessa fatalidade igualitária. pelo menos. Ah! Com certeza. Que fez minha família originária Do antro daquela fábrica terrível! A corrente atmosférica mais forte Zunia. No ardor desta letal tórrida zona.

Benditas sejam todas essas glândulas. cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória. A hemoglobina vinha cheia de água! Cuspo. com certeza Era a expectoração pútrida e crassa Dos brônquios pulmorares de uma raça Que violou as leis da Natureza! Era antes uma tosse ubíqua. Ia engolindo. Arrebatada pelos aneurismas. quatro. para não cuspir por toda a parte. cujas caudais meus beiços regam. à guisa de ácido resíduo. aos poucos. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minh’alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. te segregam! Escarrar de um abismo noutro abismo. Mandando ao Céu o fumo de um cigarro.E até ao fim. Não! Não era o meu cuspo. Que eu. Chegou-me o estado máximo da mágoa! Duas. três. 131 . cinco. de tal arte. Pelos fundibulários da montanha! E a saliva daqueles infelizes Inchava. Igual ao ruído de um calhau redondo Arremessado no apogeu do estrondo. em minha boca. Que. ansiado e contrafeito. Na ascensão barométrica da calma. estranha. quotidianamente. a hemoptísis! Na alta alucinação de minhas cismas O microcosmos líquido da gota Tinha a abundância de uma artéria rota. Sob a forma de mínimas camândulas. seis e sete Vezes que eu me furei com um canivete. Eu bem sabia.

Vai pela escuridão pensando crimes. Numa dança de números quebrados! Todas as divindades malfazejas. ali posto De propósito. A companhia dos ladrões da noite. Siva e Arimã.Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do Cristianismo! Porque. lembrava ante o meu rosto. Imitando o barulho dos engasgos. se no orbe oval que os meus pés tocam Eu não deixasse o meu cuspo carrasco. o In e os trasgos. Nessa hora de monólogos sublimes. com as brancas tíbias tortas. Um sugestionador olho. Jamais exprimiria o acérrimo asco Que os canalhas do mundo me provocam! II Foi no horror dessa noite tão funérea Que eu descobri. Embriões de mundos que não progrediram! 132 . Rodopiavam. Mas um lampião. da cor de um doente de icterícia. A camisa vermelha dos incestos. a rir. Perpetravam-se os atos mais funestos. então. Livres do acre fedor das carnes mortas. a espiar-me. maior talvez que Vinci. À anatomia mínima da caspa. A falta de unidade na matéria! Os esqueletos desarticulados. de certo. Iluminava. Davam pancadas no adro das igrejas. Ninguém. os duendes. Buscando uma taverna que os açoite. meus olhos distinguiram Da miniatura singular de uma aspa. E o luar. sem pudicícia. estava ali. para hipnotizar-me! Em tudo. Com a força visualística do lince.

Nos antiperistálticos abalos Que produzem nos bois e nos cavalos A contração dos gritos instintivos! Tempo viria. E a palavra embrulhar-se na laringe. Na atra dissoluçào que tudo inverte. e vence-O.Ser cachorro! Ganir incompreendidos Verbos! Querer dizer-nos que não finge. Como bolhas febris de água. E o meu sonho crescia nosilâncio. daquele horrendo Caos de corpos orgânicos disformes Rebentariam cérebros enormes. fervendo! Nessa época que os sábios não ensinam. Maior que as epopéias carolíngias! Era a revolta trágica dos tipos Ontogênicos mais elementares. cinge-as À imperfeição! Mas vem o Tempo. Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. Desde os foraminíferos dos mares À grei liliputiana dos pólipos. Cansados de viver na paz de Buda. A pedra dura. Deixar cair sobre a barriga inerte O apetite necrófago da mosca! A alma dos animais! Pego-a. Todos os personagens da tragédia. 133 . os montes argilosos Criariam feixes de cordões nervosos E o neuroplasma dos que raciocinam! Almas pigméias! Deus subjuga-as. distingo-a. em que. Acho-a nesse interior duelo secreto Entre a ânsia de um vocábulo completo E uma expressão que não chegou à língua! Surpreendo-a em quatrilhões de corpos vivos. Escapando-se apenas em latidos! Despir a putrescível forma tosca.

na glória da concupiscência. a sós. aflita. Um conjunto de gosmas amarelas. Como um bicho inferior. E sacudidos de um tremor indômito Expeliam. E as coisas inorgânicas mais nulas Apregoavam encéfalos. na dor forte do vômito. Em cujo repugnante receptáculo Minha perscrutação via o espetáculo De uma progênie idiota de palermas. berrava. jazia atravassada no meu crânio A intercessão fatídica do atraso! A hipótese genial do microzima Me estrangulava o pensamento guapo. sobre o meu caso Vi que. Com os copos cheios esterilizavam A substância prolífica dos sêmens! Enterravam as mãos dentro das goelas.A planta que a canícula ígnea torra. medulas Na alegria guerreira da desforra! Os protistas e o obscuro acervo rijo Dos espongiários e dos infusórios Recebiam com os seus órgãos sensóricos O triunfo emocional do regozijo. 134 . Depositavam quase sem consciência As derradeiras forças musculares. E apesar de já não ser assim tão tarde. igual a um amniota subterrâneo. Iam depois dormir nos lupanares Onde. E eu me encolhia todo como um sapo Que tem um peso incômodo por cima! Nas agonias do delirium-tremens . Os bêbedos alvares que me olhavam. No meu temperamento de covarde! Mas. Fabricavam destarte os bastodermas. refletindo. Aquela humanidade parasita.

135 . A inconsciência das máscaras de cera Que a gente prega. como um cordão. nas catedrais mais ricas. Oh! Senhora dos nossos esqueletos E das caveiras diárias que fabricas! E eu desejava ter. numa ânsia rara. tal qual.Prostituição ou outro qualquer nome. Numa impressionadora voz interna. embora o homem te aceite.. o eco particular do meu Destino. na cara! Era um sonho ladrão de submergir-me Na vida universal. É que as mulheres ruins ficam sem leite E os meninos sem pai morrem de fome! Por que há de haver aqui tantos enterros? Lá no “Engenho” também.e. Os porcos espojando-se nas poças Da virgindade reduzida à lama! Morte. por tua causa. pior que o remorso do assassino. em tudo imerso. ponto final da última cena. a morte é ingrata. num fundo de caverna. Rolam sem eficácia os amuletos. Meu raciocínio enorme te condena! Diante de ti. Reboou. Há o malvado carbúnculo que mata A sociedade infante dos bezerros! Quantas moças que o túmulo reclama! E após a podridão de tantas moças. Minha morada equilibrada e firme! Nisto. Forma difusa da matéria embele. Minha filosofia te repele. Nessas perquisições que não têm pausa.. III “Homem! por mais que a Idéia deintegres. Fazer da parte abstrada do Universo. Ao pensar nas pessoas que perdera.

com a bronca enxada árdega. por vezes. se divide. Negro e sem fim é esse em que te mergulhas lugar do Cosmos. Trazes. magro homem. A formação molecular da mirra. As rebeladas cóleras que rugem No homem civilizado. onde a dor infrene É feita como é feito o querosene Nos recôncavos úmidos das hulhas! Porque. para que a Dor perscrutes. a refletir teus semelhantes. Mesmo ainda assim. saberás a causa De todos os fenômenos alegres! Em vão. o cordeiro simbólico da Páscoa. estriada. antes Fosses. A própria humanidade sofredora! A universal complexidade é que Ela Compreende. não como és. quando toda a estuada Idéia Dás ao sôfrego estudo da ninféia E de outras plantas dicotiledôneas! A diáfana água alvíssima e a hórrida áscua Que da ígnea flama bruta. sondas A estéril terra.Jamais. e a ele se prendem Como às pulseiras que os mascates vendem A aderência teimosa da ferrugem. E se. espirra. fora Mister que. por perscrutar (oh! ciência louca!) O conteúdo das lágrimas hediondas. seu todo não RESIDENCIA No quociente isolado da parcela! Ah! Como o ar imortal a Dor não finda! Das papilas nervosas que há nos tatos Veio e vai desde os tempos mais transatos Para outros tempos que hão de vir ainda! Como o machucamento das insônias Te estraga. em síntese. e a hialina lâmpada oca. 136 .

O fogo-fátuo que ilumina os ossos. abalando os solos. Onde morreu o chefe da família. Os sanguinolentíssimos chicotes Da hemorragia. as negras formas feias Dos aracnídeos e das centopéias. O achatamento ignóbil das cabeças. A mentira meteórica do arco-íris. O fogão apagado de uma casa. O trem particular que um corpo arrasta Sinistramente pela via férrea. O tecido da roupa que se gasta. Os terremotos que. A água arbitrária que hiulcos caules grossos Carrega e come. A sensação que uma coalhada fresca Transmite às mãos nervosas dos que a buscam. As aves moças que perderam a asa. à espera que a mansa vítima o entre. A rotação dos fluidos produzindo A depressão geológica dos pólos. sem mortalha. O antagonismo de Tífon e Osíris. 137 . Lembram paióis de pólvora explodindo. Na sangueira concreta dos massacres. A cristalização da massa térrea. -. As pálpebras inchadas na vigília. O Amor e a Fome. As projeções flamívomas que ofuscam.Tudo que gera no materno ventre A causa fisiológica do nojo. Como uma pincelada rembrandtesca. as nódoas mais espessas. Deixa os homens deitados. Que ainda degrada os povos hotentotes. O homem grande oprimindo o homem pequeno A lua falsa de um parasseleno.O orbe feraz que bastos jojos acres Produz’a rebelião que na batalha. a fera ultriz que o fojo Entra.

O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psicoplasma Humano sofre da mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E, (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, À morte desgraçada dos açougues... Tudo isto que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra! Por descobrir tudo isso, embalde cansas! Ignoto é o gérmem dessa força ativa Que engendra, em cada célula passiva, A heterogeneidade das mudanças! Poeta, feito malsão, criado com os sucos De um leite mau, carnívoro asqueroso, Gerado no atavismo monstruoso Da alma desordenada dos malucos; Última das criaturas inferiores Governada por átomos mesquinhos, Teu pé mata a uberdade dos caminhos E esteriliza os ventres geradores! O áspero mal que a tudo, em torno, trazes, Amálogo é ao que, negro e a seu turno, Traz o ávido filóstomo noturno Ao sangue dos mamíferos vorazes! Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhes A perfeição dos seres existentes, Hás de mostrar a cárie dos teus dentes Na anatomia horrenda dos detalhes!

138

O Espaço -- esta abstração spencereana Que abrange as relações de coexistência E só! Não tem nenhuma dependência Com as vértebras mortais da espécie humana! As radiantes elipses que as estrelas Traçam, e ao espectador falsas se antolham São verdades de luz que os homens olham Sem poder, entretanto, compreendê-las. Em vão, com a mão corrupta, outro éter pedes Que essa mão, de esqueléticas falanges, Dentro dessa água que com a vista abranges, Também prova o princípio de Arquimedes! A fadiga feroz que te esbordoa Há de deixar-te essa medonha marca, Que, nos corpos inchados de anasarca, Deixam os dedos de qualquer pessoa! Nem terás no trabalho que tiveste A misericordiosa toalha amiga, Que afaga os homens doentes de bexiga E enxuga, à noite, as pústulas da peste! Quando chegar depois a hora tranqüila, Tu serás arrastado, na carreira, Como um cepo inconsciente de madeira Na evolução orgânica da argila! Um dia comparado com um milênio Seja, pois, o teu último Evangelho... É a evolução do novo para o velho E do homogêneo para o heterogêneo! Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largo A apodrecer!... És poeira e embalde vibras! O corvo que comer as tuas fibras Há de achar nelas um sabor amargo!”

IV Calou-se a voz. A noite era funesta. E os queixos, a exibir trismos danados,

139

Eu puxava os cabelos desgrenhados Como o Rei Lear, no meio da floresta! Maldizia, com apóstrofes veementes, No estentor de mil línguas insurretas, O convencionalismo das Pandetas E os textos maus dos códigos recentes! Minha imaginação atormentada Paria absurdos... Como diabos juntos, perseguiam-me os olhos dos defuntos Com a carne da esclerótica esverdeada. Secara a clorofila das lavouras. Igual aos sustenidos de uma endecha Vinha-me às cordas glóticas a queixa Das coletividades sofredoras. O mundo resignava-se invertido Nas forças principais do seu trabalho... A gravidade era um princípio falho, A análise espectral tinha mentido! O Estado, a Associação, os Municípios Eram mortos. De todo aquele mundo Restava um mecanismo moribundo E uma teleologia sem princípios. Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psique no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo! Mas a Terra negava-me o equilíbrio... Na Natureza, uma mulher de luto Cantava, espiando as árvores sem fruto. A canção prostituta do ludíbrio.

140

A CARIDADE No universo a caridade Em contraste ao vicio infando É como um astro brilhando Sobre a dor da humanidade! Nos mais sombrios horrores Por entre a mágoa nefasta A caridade se arrasta Toda coberta de flores! Semeadora de carinhos Ela abre todas as portas E no horror das horas mortas Vem beijar os pobrezinhos. Torna as tormentas mais calmas Ouve o soluço do mundo E dentro do amor profundo Abrange todas as almas. O céu de estrelas se veste Em fluidos de misticismo Vibra no nosso organismo Um sentimento celeste. A alegria mais acesa Nossas cabeças invade... Glória, pois, á Caridade No seio da Natureza! Estribilho Cantemos todos os anos Na festa da Caridade A solidariedade Dos sentimentos humanos.

141

OS DOENTES

I Como uma cascavel que se enroscava, A cidade dos lázaros dormia... Somente, na metróplole vazia, Minha cabeça autônoma pensava! Mordia-me a obsessão má de que havia, Sob os meus pés, na terra onde eu pisava, Um fígado doente que sangrava E uma garganta órfã que gemia! Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam... E via em mim, coberto de desgraças, O resultado de bilhões de raças Que há muito desapareceram!

II Minha angústia feroz não tinha nome. Ali, na urbe natal do Desconsolo, Eu tinha de comer o último bolo Que Deus fazia para a minha fome! Convulso, o vento entoava um pseudosalmo. Contrastando, entretanto, com o ar convulso A noite funcionava como um pulso Fisiologicamente muito calmo. Caíam sobre os meus centros nervosos, Como os pingos ardentes de cem velas, O uivo desenganado das cadelas E o gemido dos homens bexigosos. Pensava! E em que eu pensava, não perguntes! Mas, em cima de um túmulo, um cachorro

142

branda e beatífica. a amêndoa. Em cuja álgida unção. a abóbora. Além jazia os pés da serra. magnânima e magnífica.Pedia para mim água e socorro À comiseração dos transeuntes! Bruto. Benigna água. o álamo E a câmara odorífera dos sumos Absorvem diariamente o ubérrimo húmus Que Deus espalha à beira do seu tálamo! Nos de teu curso desobstruídos trilhos. Na esteira igualitária do teu leito! O vento continuava sem cansaço E enchia com a fluidez do eólico hissope Em seu fantasmagórido galope A abundância geométrica do espaço. em quaisquer horas. Criando as superstições de minha terra. como as ervas. A comunhão dos homens reunidos Pela camaradagem da moléstia. o urro Reboava. com a promíscua véstia No enbotamento crasso dos sentidos. satisfeito. A incógnita psique das massas mortas Que dormem. os astros miúdos Reduziam os Céus sérios e rudos A uma epiderme cheia de sarampos! III Dormia embaixo. No Alto. A Paraíba indígena se lava! A manga. 143 . sobre as hortas. O hidrogênio e o oxigênio que tu choras Pelo falecimento dos teus filhos! Ah! Somente eu compreendo. alto e hórrido. A queixada específica de um burro! Gordo adubo de agreste urtiga brava. de errante rio. a ameixa. Meu ser estacionava. olhando os campos Circunjacentes. Apenas eu compreendo.

Estas não cospem sangue. OH! desespero das pessoas tísicas. a existência Numa bacia autômata de barro. Da degenerescência étnica do Ária Se escapava. Adivinhando o frio que há nas lousas. Vomitar o pulmão na noite horrível Em que se deita sangue pela boca! Expulsar. Estas dis bacalhaus o óleo não bebem. por mais que os cardos grandes rocem Seus corpos brutos. Cortanto as raízes do último vocábulo. Cair doente e passar a vida inteira Com a boca junto de uma escarradeira. vendo em cada escarro O retrato da própria consciência! Querer dizer a angústia de que é pábulo E com a respiração já muito fraca Sentir como que a ponta de uma faca. estas não tossem! Descender dos macacos catarríneos. Maior felicidade é a destas cousas Submetidas apenas às leis físicas! Estas. 144 . entre estrépitos e estouros. dores não recebem. aos bocados. Vômitos impregnados de ptialina. O ruído de uma tosse hereditária. adstritos ao quimiotropismo Erótico. Reboando pelos séculos vindouros. como inúmeros soldados. Restos repugnantíssimos de bílis. Um português cansado e incompreensível. Alucinado. os micróbios assanhados Passearem. Nas cancerosidades do organismo! Falar somente uma linguagem rouca. Pintando o chão de coágulos sangüíneos! Sentir.Feriam-me o nervo óptico e a retina Aponevroses e tendões de Aquiles.

Saía. resfriando-vos o rosto. no Amazonas.Não haver terapêutica que arranque Tanta opressão como se. urrando ultrajes Contra a dissolução que vos espera! Porque a morte. hoje. naquele instante. A mágoa gaguejada de um cretino. Vinha da vibração bruta da corda Mais recôndita da alma brasileira! Aturdia-me a tétrica miragem De que. me acorda. em sonhos mórbidos. Aquele ruído obscuro de gagueira Que à noite. Consagrando vossa última fonética A uma recitação de mesereres. Onde a Resignação os braços cruza. Lhe houvessem sacudido sobre o peito A máquina pneumática de Bianchi! E o ar fugindo e a Morte a arca da tumba A erguer. Nos ardores danados da febre hética. É a alfândega. onde toda a vida orgânica Há de pagar um dia o último imposto! IV Começara a chover. a água. como um cronômetro gigante Marcando a transição emocionante Do lar materno para a catacumba! Mas vos não lamenteis. Antes levardes ainda uma quimera Para a garganta omnívora das lajes Do que morrerdes. com o vexame de uma fusa. Alagava a medula dos Doentes! Do fundo do meu trágico destino. magras mulheres. com efeito. Pelas algentes Ruas. Consoante a minha concepção vesânica. 145 . em cachoeiras desobstruídas Encharcava os buracos das feridas.

Com uma clarividência aterradora. A civilização entrou na taba Em que ele estava. Cuspiu na cova do morubixaba ! E o índio. como um lúgubre ciclone. Esse achincalhamento do progresso Que o anulava na crítica da História! Como quem analisa uma apostema. adstrito à étnica escória. tendo o horror no rosto impresso. todas as inúbias. Recebeu. acordando na desgraça.. Jazem. A carcaça esquecida de um selvagem. O gênio de Colombo Manchou de opróbrios a alma do mazombo . Viu toda a podridão de sua raça. espantada. De repente. diante a xantocróide raça loura. Em vez da prisca tribo e indiana tropa A gente deste século.. Na tumba de Iracema!. caladas. entregue a vísceras glutonas. Exercia sobre ela ação funesta Desde o desbravamento da floresta à ultrajante invenção do telefone.. Diminuído na crônica do mundo! A hereditariedade dessa pecha Seguiria seus filhos. sem difíceis nuanças dúbias. 146 . E sentia-se pior que um vagabundo Microcéfalo vil que a espécie encerra. Desterrado na sua própria terra. E agora. Uma desesperada ânsia improfícua De estrangular aquela gente iníqua Que progredia sobre os seus despojos! Mas.. Ah! Tudo. Dora em diante Seu povo tombaria agonizante Na luta da espingarda contra a flecha! Veio-lhe então como à fêmea vêm antojos.Fedia. por fim.

Os fantasmas hamléticos dispersos Atiram na consciência dos perversos A sombra dos remorsos famulentos. E eu.Vê somente a caveira abandonada De uma raça esmagada pela Europa! V Era a hora em que arrastados pelos ventos. ex. Uma necessidade de suicídio E um desejo incoercível de ser morto! Naquela angústia absurda e tragicômica Eu chorava. 147 . Maldiziam. No horror daquela noite monstruosa. Perfurava-me o peito a áspera pua do desânimo negro que me prostra. Batia com o pentágono dos dedos Sobre um fundo hipotético de chagas! Diabólica dinâmica daninha Oprimia meu cérebro indefeso Com a força onerosíssima de um peso Que eu não sabia mesmo de onde vinha. roído pelos medos. Todos os vocativos dos blasfemos. com voz estentorosa. rolando sobre o lixo. E quase a todos os momentos mostra Minha caveira aos bêbedos da rua. A peçonha inicial de onde nascemos. Hereditariedades politípicas Punham na minha boca putrescível Interjeições de abracadabra horrível E os verbos indignados das Filípicas.: o homem e o ofídio. Com a contorção neurótica de um bicho Que ingeriu 30 gramas de noz-vômica. As mães sem coração rogavam pragas Aos filhos bons. Como que havia na ânsia de conforto De cada ser.

Arrancar do meu próprio corpo a prova Da persistência trágica da força. Era (nem sei em síntese o que diga) Um velhíssimo instinto atávico. veio Eva E a stirpe radiolar chamada Actissa . Eu voltarei. Reduzido à plastídula homogênea. como um homem doido que se enforca. Tentava. Não me incomoda esse último abandono Se a carne individual hoje apodrece Amanhã. Sem diferenciação de espécie alguma. perante a cova. era A saudade inconsciente da monera Que havia sido minha mãe antiga. A pragmática má de humanos usos Não compreende que a Morte que não dorme É a absorção do movimento enorme Na dispersão dos átomos difusos. porém. Com o horror tradicional da raiva corsa Minha vontade era. como Cristo. às vezes. Confundir-me com aquela coisa porca! Vinha. 148 . com o auxílio especial do osso masséter Mastigando homeomérias neutras de éter Nutrir-me da matéria imponderável. na terráquea superfície.E. da árdua liça À substância inorgânica primeva De onde. o anelo instável De. Anelava ficar um dia. em suma. reaparece Na universalidadej do c arbono! A vida vem do éter que se condensa Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma Fazer a luz do cérebro que pensa. Consubstanciar-me todo com a imundície. Menor que o anfióxus e inferior à tênia. cansado. por epigênese.

Mas. O sol malvado que secou a fonte De vossa castidade agora finda! Talvez tivésseis fome.. para além. maior que a Bíblia e a Fedra Reviverá. Um cão agora Punha a atra língua hidrófoba de fora Em contrações miológicas de raiva.. De certo. no horizonte. Não tínheis ainda essa erupção cutânea. 149 .. a perversão de que era presa o sensorium daquela prostituta Vinha da adaptação quase absoluta À ambiência microbiana da baixeza! Entanto. embalde. dando emoção à pedra Na acústica de todos os planetas! VI À álgida agulha. Quase que escangalhada pelo vício. virgem fostes. Duas mamárias glândulas estéreis! Ah! Certamente não havia ainda Rompido. Se extenuavam nas camas. ignóbil. análoga era. com violência. Uma. Acordavam os bairros da luxúria. Nem tínheis. Nessa alegria bárbara que cobre Os saracoteamentos da lascívia. e. derreada de cansaço.Quando eu for misturar-me com as violetas Minha lira. à-toa. agora.. Estendestes ao mundo. doentes de hematúria. quando o éreis. alva. As prostitutas. e as mãos. até que. Cheirava com prazer no sacrifício A lepra má que lhe roía o braço! E ensangüentava os dedos da mão nívea Com o sentimento gasto e a emoção pobre. entre oscilantes chamas. a saraiva Caindo.. vítima última da insânia..

A consciência terrível desse inseto! Regougando. eu. no chão frio da igreja.Fostes vender a virginal coroa Ao primeiro bandido do arrabalde. 150 . Como quem nada encontra que o perturbe. na craniana caixa tosca. Dentro da noite funda um braço humano Parecia cavar ao longe um poço Para enterrar minha ilusão de moço. porém. Cismava no propósito funéreo Da mosca debochada que fareja O defunto. que a sociedade vos enxota. E vai depois levá-lo ao cemitério! E esfregando as mãos magras. Desde as musculaturas que apodrecem À ruína vegetal dos lírios secos.De vós o mundo é farto. inquieto. Como uma associação de monopólio. Lançavam pinceladas pretas de óleo Na arquitetura arcaica dos sobrados. Sentia. Nas quietudes nirvânicas mais doces O noivado que em vida não tivestes! VII Quase todos os lutos conjugados. Somente as bruxas negras da derrota Freqüentam diariamente vosso quarto! prometem-vos (quem sabe?!) entre os ciprestes Longe da mancebia dos alcouces. Eu pensava nas coisas que perecem. Como a boca de um poço artesiano! Atabalhoadamente pelos becos. argots e aljâmias. E hoje. E estais velha! -. A energúmena gei dos ébrios da urbe Festejava seu sábado de infâmias. A racionalidade dessa mosca.

Puxava aquele povo de demônios Para a promiscuidade das adegas. com o ar de quem empesta. palpável. Absorvia com gáudio absinto. roubada à humana coorte Morre de fome. Onde minh’alma inteira surpreendia A Humanidade que se lamentava! Era todo o meu sonho. Quanta gente.A estática fatal das paixões cegas. O fácies do morfético assombrava! -. Apareceu. Como se fosse um corpo organizado! VIII Em torno a mim. assim inchado. E o cemitério. Rugindo fundamente nos neurônios. nos braços de um canalha 151 . O ar ambiente cheirava a ácido acético. A mandíbula inchada de um morfético! Saliências polimórficas vermelhas. Sem ter. Vem para aqui. Mas. Pela degradação dos que o povoam. de repente. Em cujo aspecto o olhar perspícuo prendo. após baixar ao caos budista. uma cabeça Que possa mastigar na hora da morte E nua. sobre a palha espessa. escorraçando a festa. como Ugolino. Dá-me a impressão de um boulevard que fede. em que eu entrei adrede. que a morféia miserável Tornava às impressões táteis. E a ébria turba que escaras sujas masca. Já podre. lúpulo E outras substâncias tóxicas da tasca. Punham-lhe num destaque horrendo o horrendo Tamanho aberratório das orelhas. À falta idiossincrásica de escrúpulo.Aquilo era uma negra eucaristia. estriges voam. nesta hora.

Nos corpos nus das moças hotentotes Entregues. a alma aos arrancos. ao clarão de alguns archotes. Eu mendigava aos vermes insubmissos 152 . à meia-noite! Com uma ilimitadíssima tristeza. iguais a irmãs de caridade. transgredindo a igualitária regra Da Natureza. cheio de vermes. Eu maldizia o deus de mãos nefandas Que. Pisando. vinham Com a podridão dar de comer às flores! Os defuntos então me ofereciam Com as articulações das mãos inermes. Vendo passar com as túnicas obscuras. Os evolucionistas benfeitores Que por entre os cadáveres caminham. como quem salta. As escaveiradíssimas figuras Das negras desonradas pelos brancos.porque o madapolão para a mortalha Custa 1$200 ao lojista! Que resta das cabeças que pensaram?! E afundado nos sonhos mais nefastos. entre fardos. Todos os meus cabelos se arrepiaram. Num prato de hospital. Ao pegar num milhão de miolos gastos. a camisa suada. atira a raça negra Ao contubérnio diário das quitandas! Na evolução de minha dor grotesca. Comendo carne humana. Eu devorava aquele bolo frio Feito das podridões da Natureza! E hirto. À sodomia indigna dos moscardos. Na impaciência do estômago vazio. Todos os animais que apodreciam! É possível que o estômago se afoite (Muito embora contra isto a alma se irrite) A cevar o antropófago apetite.

De quem possui um sol dentro de casa. Era a volúpia fúnebre que os ossos Me inspiravam. Proporcionando-me o prazer inédito. Nunca mais as goteiras cairiam Como propositais setas malvadas. E arrancara milhares de existências Do ovário ignóbil de uma fauna imunda. déspota e sem normas.Como indenização dos meus serviços. À apreensão fisiológica do faro O odor cadaveroso dos destroços! IX O inventário do que eu já tinha sido Espantava. trazendo-me ao sol claro. O benefício de uma cova fresca. Como o íncola do pólo ártico. E eis-me a absorver a luz de fora. O adesionismo biôntico das formas Multiplicadas pela lei da herança! 153 . No frio matador das madrugadas. Manhã. No céu calamitoso de vingança Desagregava. Os raios caloríficos da aurora. Dentro da filogênese moderna. às vezes. Uma sobrevivência de Sidarta. Ia arrastando agora a alma infecunda Na mais triste de todas as falências. Por sobre o coração dos que sofriam! Do meu cérebro à absconsa tábua rasa Vinha a luz restituir o antigo crédito. em vez de hiena ou lagarta. Absorve. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! O gênio procriador da espécie eterna Que me fizera. após a noite de seis meses.

em colônias fluídas. A gestação daquele grande feto.. os sáxeos prédios tortos Tinham aspectos de edifícios mortos. O começo magnífico de um sonho! Entre as formas decrépitas do povo. Parecia também desagregar-se! O prodromos de um tétano medonho Repuxavam-me o rosto. com os pés atolados no Nirvana. O Espaço abstrato que não morre Cansara. Acompanhava. tudo a extenuar-se Estava. o vagido de uma outra Humanidade! E eu. Hirto de espanto. Decompondo-se desde os alicerces! A doença era geral. O ar que. oh! Morte. entanto.. Vinha da original treva noturna. com um prazer secreto. Que vinha substituir a Espécie Humana! 154 . em vão teu ódio exerces! Mas. Para alcançar depois a periferia! Contra a Arte. vinha de dentro Da matéria em fusão que ainda há no centro. Já batiam por cima dos estragos A sensação e os movimentos vagos Da célula inicial de um Cosmos novo! O letargo larvário da cidade Crescia.. numa furna. corre.A ruína vinha horrenda e deletéria Do subsolo infeliz.. Eu sentia nascer-me n’alma. Igual a um parto. a meu ver.

. como eu. Com a diferença que Lisboa existe E tu. Coisa hedionda! Corro. não existes mais! 155 . Que um dia no ano trágico de mil E setecentos e cinqüenta e cinco. com este assomo Que a espécie humana em comer carne tem!. Petrarca A queda do teu lírico arrabil De um sentimento português ignoto Lembra Lisboa. Apenas com uma diferença triste. E agora. DUAS ESTROFES À memória de João de Deus Ahi! ciechi! il tanto affaticar che giova? Tutti torniamo alla gran madre antica E il nostro nome appena si ritrova. bela como um brinco.. É a hora De comer. amigo... Antegozando a ensangüentada presa. Possa a terra vingar-se do meu crime Comendo-me também. Para comer meus próprios semelhantes Eis-me sentado à mesa! Como porções de carne morta. Foi abalada por um terremoto! A água quieta do Tejo te abençoa. Tu representas toda essa Lisboa De glórias quase sobrenaturais. têm carne.À MESA Cedo à sofreguidão do estômago. Como! E pois que a Razão me não reprime. Ai! Como Os que. Rodeado pelas moscas repugnantes.

sem pretensões. Do que essa pequenina sanguessuga. Assim.. oh! Mãe. que te esgotou as pomas. haurindo amplo deleite. Há de crescer. à amostra. Clara. E o antigo leão. te emergiu do ventre! E puseste-lhe. quanto a mim. comparo. À sombra dos sicômoros eternos! 156 . um novo Ser. Bebendo a vida no teu seio gordo! Pois.MATER Como a crisálida emergindo do ovo Para que o campo flórido a concentre. sujo de sangue. -Com que avidez ele essa fonte suga! Ninguém mais com a Beleza está de acordo.Fecunda fonte desse mesmo leite Que amamentou os éfebos de Esparta. nas vitrinas. a atmosfera se encherá de aromas. entre dores. Há de beijar-te as mãos todos os dias! Quando chegar depois tua velhice Batida pelos bárbaros invernos. Essas humanas coisas pequeninas A um biscuit de quilate muito raro Exposto aí. O Sol virá das épocas sadias. há de tornar-se arbusto E álamo altivo de ramagem grossa.. Mas o ramo fragílimo e venusto Que hoje nas débeis gêmulas se esboça. Relembrarás chorando o que eu te disse. No lábio róseo a grande teta farta -.

Por que me deu consciência dos meus atos Para eu me arrepender de todos eles?! Quisera antes. Beber a acre e estagnada água do charco... Tais quais. numa ininterrupta Adesão. O mesmo assombro que sentiu Parfeno Quando arrancou os olhos de Dionisos! Em giro e em redemoinho em mim caminham Ríspidas mágoas estranguladoras.filhos legítimos dos trigos -Nutrem a geração do Ódio e da Guerra. com que guarda meus sapatos. Por causa disto. nos fortes fulcros. Não fez cair o túmulo de Plínio Por sobre todo o meu raciocínio Para que eu nunca mais raciocinase?! Pois minha Mãe tão cheia assim daqueles Carinhos. haurindo o tépido ar sereno. Dormir na manjedoura com os cavalos! 157 . Magro. Os pães -. Nabucodonosor ser do Pau d’Arco. não prendi minha existência?! Por que Jeová. eu vivo pelos matos. maior do que Laplace. Tenho estremecimentos indecisos E sinto. as tesouras Brônzeas. também gira e redemoinham. roendo a substância córnea de unha. mordendo glabros talos.GEMIDOS DE ARTE I Esta desilusão que me acabrunha É mais traidora do que o foi Pilatos!. Os cachorros anônimos da terra São talvez os meus únicos amigos! Ah! Por que desgraçada contingência À híspida aresta sáxea áspera e abrupta Da rocha brava.

pegajoso e untuoso ao tacto! Reúnam-se em rebelião ardente e acesa Todas as minhas forças emotivas 158 . E eu vou andando. Subtraída à hediondez de ínfimo casco. goza O lodo. Úmido. cheio de chamusco. Dorme num leito de feridas. onde não cuspa língua alguma O óleo rançoso da saliva humana! Uma região sem nódoas e sem lixos. Comprar vestidos pretos numa loja E andar de luto pelo pai que é morto! E por trezentos e sessenta dias Trabalhar e comer! Martírios juntos! Alimentar-se dos irmãos defuntos. e não se contamina! Ser homem! escapar de ser aborto! Sair de um vente inchado que se anoja. no agudo grau da última crise. apalpa a úlcera cancerosa.Mas a carne é que é humana! A alma é divina. Beija a peçonha. O braço do ladrão se paralise E a mão da meretriz caia aos pedaços! II O sol agora é de um fulgor compacto. Com a flexibilidade de um molusco. Chupar os ossos das alimarias! Barulho de mandíbulas e abdômens! E vem-me com um desprezao por tudo isto Uma vontade absurda de ser Cristo Para sacrificar-me pelos homens! Soberano desejo! Soberana Ambição de construir para o homem uma Região. Onde a forca feroz coma o carrasco E o olho do estuprador se encha de bichos! Outras constelações e outros espaços Em que.

depois de morrer. E a alma dos vegetais rebenta inteira De todos os corpúsculos do pólen... Deleito a vista na verdura gorda Que nas hastes delgadas se balouça! Avisto o vulto das sombrias granjas Perdidas no alto. Os ventos vagabundos batem.. largando pêlos. No chão coleia a lagartixa. Possuir aí o nome dum arbusto Qualquer ou de qualquer obscura planta! 159 .E armem ciladas como cobras vivas Para despedaçar minha tristeza! O sol de cima espiando a flora moça Arda. A câmara nupcial de cada ovário Se abre. A terra cheira. depois de tanta Tristeza.. pelo ar. Entrançados. salta.Augusto . O ar cheira. Um pássaro alvo artífice da teia De um ninho. Voam à semelhan ça de cabelos Os chicotes finíssimos dos juncos. quero. bolem Nas árvores. queime. Nos terrenos baixos. Em grandes semicírculos aduncos.. no árdego trabalho.. Das laranjeiras eu admiro os cachos E a ampla circunferência das laranjas. Eu. corte. Olhando para as pútridas charnecas Grita o exército avulso das marrecas Na úmida copa dos bambus verdoengos. fustigue. morda!. Com a rapidez duma semicolcheia. De árvore em árvore e de galho em galho. em vez do nome -. Por toda a parte a seiva bruta esguicha Num extravasamento involuntário. Ladra furiosa a tribo dos podengos.

sem conchego nobre. Como um anel enorme de aliança. sentiu e amou este homem pobre Que carregava canas para o engenho! Nos outros tempos e nas outras eras. O cupim negro broca o âmago fino Do teto. Urram os bois. Amontoadas em grossos feixes rijos. Estão olhando aquelas coisas mortas! Fico a pensar no Espírito disperso Que. Trôpega e antiga. O céu lembra uma lauda Do mais incorruptível pergaminho. Como pela avenida das Mappales. Por saibros e por cem côncavos vales. dos esconderijos. batendo a cauda. Pintam caretas verdes nas taperas.III Pelo acidentalíssimo caminho Faísca o sol. Na bruta dispersão de vítreos cacos. Quantas flores! Agora. Não sei que subterrânea e atra voz rouca. Uma atmosfera má de incômoda hulha Abafa o ambiente. Os musgos. Nédios. Aqui. Une todas as coisas do Universo! 160 . E traça trombas de elefantes Com as circunvoluções extravagantes Do seu complicadíssimo intestino. As lagartixas. O lodo obscuro trepa-se nas portas. Viveu. À dura luz do sol resplandecente. unindo a pedra ao gneiss e a árvore à criança. outrora. uma parede doente Mostra a cara medonha dos buracos. O aziago ar morto a morte Fede. O ardente calor da areia forte Racha-me os pés como se fosse agulha. em vez de flores. como exóticos pintores. Me arrasta à casa do finado Toca ! Todas as tardes a esta casa venho.

É o dinheiro coberto de azinhavre Que o escravo ganha. Chamando-me do sol com as suas asas! Gosto do sol ignívomo e iracundo Como o réptil gosta quando se molha E na atra escuridão dos ares. sem pai que me ame. E o espírito infeliz que em mim se encarna Se alegre ao sol. com a cabeça em brasas Ante a fatalidade que me oprime. com a misericórdia de um tijolo!.. Súbito. arrebentando a horrenda calma.. De pé. Grito. Que por vezes me absorve. da mesma forma que o homem morre. como quem raspa a sarna. e se gritio é para que meu grito Seja a revelação deste Infiniti Que eu trago encarcerado da minh’alma! Sol brasileiro! queima-me os destroços! Quero assistir.. Só. aqui. é o óbolo obscuro.. À carbonização dos próprios ossos! 161 . trabalhando aos brancos! Seja este sol meu último consolo.E assim pensando. à luz da consciência infame. Julgo ver este Espírito sublime. É o pedaço já podre de pão duro Que o miserável recebeu na estrada! Não são os cinco mil milhões de francos Que a Alemanha pediu a Jules Favre.. A lamparina quando falta o azeite Morre.. olha Melancolicamente para o mundo! Essa alegria imaterializada. Tudo enfim a mesma órbita percorre E as bocas vão beber o mesmo leite.

aliando. recebe. por fim. arremessada sobre o rude 'Despenhadeiro da decrepitude. Uma mulher completamente nua! É a meretriz que. Lúbrica. funcionária dos instintos. hórridos uivos Na mesma esteira pública. 162 . de cabelos ruivos. em contorções sombrias. urna de ovos mortos.. O Vício estruge. à falta Da água criadora que alimenta as proles! É ela que. à lua.A MERETRIZ A rua dos destinos desgraçados Faz medo. Sente. espremendo os peitos. O indumento vilíssimo do servo Ao brilho da augustal toga pretexta. Na vacuidade das entranhas frias O esgotamento intrínseco da besta! E ela que. hirta. O eretismo das classes superiores E o orgasmo bastardíssimo da plebe! É ela que. Reduzidos. Bramando. à luz do olhar protervo. Sofre em cada molécula a angústia alta De haver secado. A escuridão dos gineceus falidos E a desgraça de todos os ovários! Irrita-se-lhe a carne á meia-noite. excita-a o açoite Do incêndio que lhe inflama a língua espúria. através os meus sentidos. Com a roupa amarfanhada e os beiços tintos. como o estepe. Espicaça-a a ignomínia.. a âmbulas moles. ébria e lasciva. Gane instintivamente de luxúria! Navio para o qual todos os portos Estão fechados. a arquivar credos desfeitos. Com as mãos chagadas. Na vizinhança aziaga dos ossuários Representa. em coréas doudas. Entre farraparias e esplendores. E a mulher. alta noite. Ouvem-se os brados Da danação carnal. Na sodomia das mais negras bodas Desarticula-se.

no horror da ocídua fase Esterilizadora de órgãos.Chão de onde unia só planta não rebenta. filha do inferno. aos tácitos apelos Das suas carnes e dos seus cabelos.... dos que são caducos Desde que a Mâe-Comum lhes deu início.. Toda a sensualidade tempestuosa Dos apetites bárbaros do Sexo! 163 . Passa agora ao clarão da lua acesa E é seu corpo expiatório. de bruços. Na óptica abreviatura de um reflexo. Mais que a vaga incoercível na água oceânea. pela própria hereditariedade A lei da seleção disfarça em Vício! É o júbilo aparente da alma quase A eclipsar-se. E a dor profunda da incapacidade Que. Lembra o ruído harto azorrague A vergastar ásperos dorsos grossos. E é aterradora essa alegria de ossos Pedindo ao sensualismo que os esmague! É o pseudo-regozijo dos eunucos Por natureza.. Para a Finalidade Transcendente Gera o prodígio anímico da Insânia! Nas frias antecâmaras do Nada O fantasma da fêmea castigada. já morta essencialmente. alvo e desnudo A síntese eucarística de tudo Que não se realizou na Natureza! Antigamente. Ei-la. Pagando com volúpia o crime eterno De não ter sido fiel ao seu destino! E o Desespero que se faz bramido De anelo animalíssimo incontido. bêbeda de gozo Saciando o geotropismo pavoroso De unir o corpo à terra famulenta! Nesse espolinhamento repugnante O esqueleto irritado da bacante Estrala.. E a Carne que. É o hino Da matéria incapaz.. em cada humana nebulosa.. Fulgia.

. impune.. como aborto inútil. Na homofagia hedionda que o consome.. Agarrou-se-lhe aos seios impudicos Como o abraço mortífero do Ficus 164 . decerto.. sonhos de culminância. Criando concupiscências infinitas Como eviterno lobo insatisfeito. Lançando a sombra horrível dos seus vultos Sobre a noite fechada daquela alma! É o sublevantamento coletivo De um mundo inteiro que aparece vivo. Gorda a escorrer-lhe das artérias túmidas Lembrava um transbordar de ânforas cheias. e a estraga Na delinqüência .. Libertos da ancestral modorra calma. Brilha na prostituta moribunda Como a fosforescência sobre a lama! É a visita alarmante do que outrora Na abundância prospérrima da aurora. adstrito a inferior plasma inconsútil. Vinha saciar a milenária fome Dentro das abundâncias do seu leito! Toda a libidinagem dos mormaços Americanos fluía-lhe dos braços. Que. Mas que.. talvez. Irradiava-se-lhe...... rubros. Ficou rolando. hírcica. Saem da infância embrionária e erguem-se. radiando. Numa cenografia de diorama. adultos. do deserto! Vede! A prostituição ofídia aziaga Cujo tóxico instila a infâmia. A hora da morte acende-lhe o intelecto E à úmida habitação do vício abjecto Afluem milhões de sóis.. das veias E em torrencialidades quentes e úmidas. momentaneamente luz fecunda.. Resíduos memoriais tornam-se luzes Fazem-se idéias e ela vê as cruzes Do seu martirológio miserando! Inícios atrofiados de ética.O atavismo das raças sibaritas. ânsia De perfeição.. Pudera progredir. Como o .

....... ................................................. .............. ................................................ Na horrorosa avulsão da forma nívea Dizer ainda palavras de lascívia..................................................... condenada....................................................................... ................................................ .. Ser meretriz depois do túmulo! A alma Roubada a hirta quietude da urbe calma Onde se extinguem todos os escolhos: E............................................................ .. 165 .........................................................Sugando a seiva da árvore a que se une! ....................... oca................ .............................................. Mordeu-lhe a boca e o rosto....... Oferecer-se à bicharia infame Com a terra do sepulcro a encher-lhe os olhos! Sentir a língua aluir-se-lhe na boca E com a cabeça sem cabelos............... .................................................................................... .................... ....................................... Enroscou-se-lhe aos abraços com tal gosto........................................... ao trágico ditame..................................... ..................

A toda a boca que o não prova engana. em ânsias. pois. é substância fluida. É Espírito. Como um saco vazio dentro d’alma! 166 . por experiência. Oposto ideal ao meu ideal conservas. tal como eu o estou amando. Para que. consoante o qual. o observas. Porque o amor. Todas as ciências menos esta ciência! Certo. entretanto. Quis saber que era o amor. provo-a. Descasco-a. ilusão treda! O amor. Por conseguinte Chamas amor aquilo que eu não chamo. Cuida. Como Mársias -. chegando à última calma Meu podre coração roto não role. não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes. este o amor não é que. amo Mas certo. observo o amor. é éter. Diverso é. oposto a mim. chupo-a. enfim. Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! Para reproduzir tal sentimento Daqui por diante. E hoje que.. conheço o seu conteúdo. é como a cana azeda.VERSOS DE AMOR A um poeta erótico Parece muito doce aquela cana. o ponto outro de vista Consoante o qual. Pudera eu ter. eu que idolatro o estudo. É assim como o ar que a gente pega e cuida. que o idioma em que te eu falo Possam todas as línguas decliná-lo Possam todos os homens compreendê-lo. Imponderabilíssima e impalpável. do egoísta Modo de ver. o egoísta amor este é que acinte Amas.o inventor da flauta -Vou inventar também outro instrumento! Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo Ambiciono.. enfim. poeta. Integralmente desfibrado e mole. atenta a orelha cauta.

. trágico e maldito.. com o seu grande grito. contra ele.. Entendi. E só. Como Vulcano. os monstros zombeteiros. Durante as vinte e quatro horas do dia! Riam de mim. que devia..O pensamento é uma locomotiva Tem a grandeza duma força viva Correndo sem cessar para o Progresso. trabalhar contente. Tenha a sorte de Cícero proscrito Ou morra embora. Sem ter uma alma só que me idolatre. 167 . Escrevia Mais por impulso de idiosincrasia Do que por uma propulsão consciente.A LUVA Para o Augusto Belmont Pensa na glória! Arfa-lhe o peito. Mas meu orgulho ainda é maior do que ela! Ruja a boca danada da profana Coorte dos homens.. no quadrilátero da alcova. olhando o céu que além se expande: ". Como Camões morrendo sobre um catre!" Nisto. abre. opresso. horrendo e preto O áspide abjeto do Pesar se mova!. Trabalharei assim dias inteiros. depois disso. a tumbal janela E diz.. em ânsias. Que importa que. Vem-lhe á imaginação este soneto: "A princípio escrevia simplesmente Para entreter o espírito..A maldade do mundo é muito grande. sobre a forja ardente Da ilha de Lemnos.

E como um desafio à eternidade Atira a luva para o próprio Cristo! Chove. Sobre a cidade geme a chuva. E na suprema convulsão o doudo Parece aos astros atirar a luva! 168 . sacudindo-o todo.Que meu orgulho do alto do Infinito Suplantará a própria espécie humana! Quebro montanhas e aos tutões resisto Numa absolta impassibilidade". Batem-lhe os nervos.

É a potencialidade que me eleva Ao grande Deus. Arimânico gênio destrutivo Desconjuntava minha autônoma alma Esbandalhando essa unidade calma.“Que esta alucinação tátil não cresça!” -.NOITE DE UM VISIONÁRIO Número cento e três. sob os pés do orgulho humano. Recebiam os cuspos do desprezo. lhe entregue. alto. Eu tinha a sensação de quem se esfola E inopinadamente o corpo atola Numa poça de carne liquefeita! -. Com os ligamentos glóticos precisos. E a ela se aliava o ardor das sirtes líbias. E eu sí a tremer com a língua grossa E a volição no cúmulo do exício. Com a rebeldia acérrima dos nervos Minha atormentadíssima cabeça. O reino mineral americano Dormia. num canto de carro. A essa hora.Dizia. Como um cara. E a cimalha minúscula das ervas. E não haver quem. Rua Direita. Que forma a coerência do ser vivo. e erguia.ca! Perante o inexorável céu aceso Agregações abióticas espúrias. íntegra. Mas a aguadilha pútrida o ombro inerme Me aspergia. 169 . Cortanto o melanismo da epiderme. banhava minhas tíbias. recebendo injúrias. Como quem é levado para o hospício Aos trambolhões.este sombrio personagem Do drama panteístico da treva! Depois de dezesseis anos de estudo Generalizações grandes e ousadas Traziam minhas forças concentradas Na compreensão monística de tudo. e absorve em cada viagem Minh’alma -. por ver-vos. oh! céu. nas telúrias reservas.

úmida e fresca. Mais tristes que as elegais de Propércio. Um pedaço de língua disponível Para a filogenética vingança! A cidade exalava um podre béfio: Os anúncios das casas de comércio. Dedos denunciadores escreviam Na lúgubre extensão da rua preta Todo o destino negro do planeta. O motor teleológico da Vida Parara! Agora.coetâneo do horrendo cataclismo -Era puxado para aquele abismo No redemoinho universal das cousas! 170 . Vinha do coração quente da terra Um rumor de matéria dissolvida. O vibrião. Pela alta frieza intrínseca. em diástoles de guerra. Onde minhas moléculas sofriam. A química feroz do cemitério Transformava porções de átomos juntos No óleo malsão que escorre dos defuntos. com o ar horrível. Com a abundância de um geyser deletério. As vegetalidades subalternas Que osserenos noturnos orvalhavam.A liberdade de vingar em risos A angústia milenária que o persegue! Bolia nos obscuros labirintos Da fértil terra gorda. Um necrófilo mau forçava as lousas E eu -. E no estrume fresquíssimo da gleba Formigavam. o ancilóstomo. me pediam. o colpode E outros irmãos legítimso da ameba! E todas essas formas que Deus lança No Cosmos. lembravam Toalhas molhadas sobre as minhas pernas. Pareciam talvez meu epitáfio. A ínfima fauna abscôndita e grotesca Da família bastarda dos helmintos. com a símplice sarcode.

a viúva. Uma vez. o passo constrangendo. E pelas catacumbas desprezadas. nunca visto Tauxiava o Céu de grandes roxos Da mesma cor da túnica de Cristo. rutilava Lantejoulada de opalinos crivos. e o olhar errante. aos lampejos derradeiros Das irisadas vespertinas velas. Feras rompiam tolos e balseiros. funeral mesquita. Súbito alguém.. nos altares esboroados.A VITÓRIA DO ESPÍRITO Era uma preta. Mochos vagavam como sentinelas. Em passo lento. Os astros mortos refulgiam vivos E a noite. A Lua encheu o espaço sem limites E. dentro. Era uma viúva. Engalanava-lhe as paredes frias Uma coroa de urzes e de cardos Coberta em pálio pelas laçarias. Abandonada aos lobos e aos leopardos Numa floresta lúgubre e esquisita. ampla e brilhante.Um vento frio começou gemendo. Já na eminência da amplidão sidérea Como uma umbela. Em atalaia às gerações passadas! Um crepúsculo imenso.. . Parou em frente da mesquita morta. Foram caindo como estalactites Sobre o ouro e a prata das alfaias priscas 171 . se desenrolava A esteira astral da retração etérea. foi transpondo a porta. Fulgia em tudo uma estriação violeta E um violáceo clarão banhava os mochos Que em torno estavam da mesquita preta. Eternamente aberta ao sol e à chuva.

arremetendo. E raivosas. E iam cair em pérolas de sangue Sobre as asas doiradas das abelhas. contra ela. entretanto. E ardendo na impulsão das ânsias doidas E em sevas fúrias. as panteras todas Avançam para a viúva desvalida.O próprio Deus cantava na floresta! Nos arvoredos rejuvenescidos. E havia no atro olhar dessas panteras Essa alegria doida da carnagem Que é a alegria única das feras. Estrugiam canções desesperadas De misereres e de sustenidos. por um chão de onagras Vinha passeando corno numa viagem Um grupo feio de panteras magras. A Natureza celebrava a festa Do astro glorioso em cantos e baladas . entanto. Além. Como uma exposição de carnes vivas. Tiram-lhe todas ali mesmo a vida. Fora. E sobre o corpo da viúva exangue. infernais ardendo Todas as feras. No desfilar de sua carne morta A transitoriedade da matéria! 172 . Morria a noite.Um dilúvio de fósforos prateados E uma chuva doirada de faíscas. O espírito da viúva se quedara Ao contemplar dessa fulgente porta E dessa clara e alva redoma aérea. As flâmulas altivas Do sol nascente erguiam-se vermelhas. na redoma clara Que envolve a porta da região etérea.

Assim. Verde. A saudade interior que há no meu peito.. ao sol. exata. num enleio doce. Anunciando desmoronamentos De mil lajedos sobre mil lajedos. passeia! A agonia do sol vai ter começo! Caio de joelhos. Pára. entre assombros. tenho alucinações de toda a sorte.. À cuja sombra descansou Colombo! Foi nessa ilha encantada de Cipango..A ILHA DE CIPANGO Estou sozinho! A estrada se desdobra Como uma imensa e rutilante cobra De epiderfe finíssima de areia.. Qual num sonho arrebatado fosse. Ofereço Preces a Deus de amor e de respeito E o Ocaso que nas águas se retrata Nitidamente repdoruz.. brilha A árvore da perpétua maravilha. Atravessando os ares bruscamente.. Da qual. E ao longe soam trágicos fracassos De heróis. partindo e fraturando os braços Nas pontas escarpadas dos rochedos! Mas de repente. pela vez primeira... no meio. em plena podridão. afetando a forma de um losango. ostentando amplo floral risonho. E por essa finíssima epiderme Eis-me passeando como um grande verme Que. trêmulo. Rica. quem diante duma cordilheira.. Impressionado sem cessar com a Morte E sentindo o que um lázaro não sente. Na ilha encantada de Cipango tombo. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas. 173 . Os olhos volvo para o céu divino E observo-me pigmeu e pequenino Através de minúsculos espelhos.. Sente vontade de cair de joelhos! Soa o rumor fatídico dos ventos. em luz perpétua.

Passa o seu enterro!.. Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrioi! Um penetrante e corrosivo frio Anestesiou-me a sensibilidade E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. E finalmente me cobri de flores. Iríamos a um país de eternas pazes Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio.. A tarde morre. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos! E a treva ocupa toda a estrada longa. O Firmamento é uma caverna oblonga Em cujo fundo a Via-Láctea existe... Gozei numa hora séculos de afagos.. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha..Que Toscanelli viu seu sonho extinto E como sucedeu a Afonso Quinto Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho! Lembro-me bem... A luz descreve siguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. E como agora a lua cheia brilha! Ilha maldita vinte vezes a ilha Que para todo o sempre me fez triste! 174 . Banhei-me na água de risonhos lagos.

a luzir Como um diamante de Ofir Imita a curva de um arco. O Céu.. Quem as esconda.globo de louça Surgiu. Mas desgraçado do pobre Que em meio da Vida cai! Esse não volta. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas. Cantam! Os astros do Céu Ouçam e a Lua Cheia ouça! 175 . as esconda. Espelham-se os esplendores Do céu. vem outra onda E nesse eterno vaivém Coitadas! não acham quem. Se um cai. Vagueia um poeta num barco.BARCAROLA Cantam nautas. em lúcido véu. esse vai Para o túmulo que o cobre. Alegoria tristonha Do que pelo Mundo vai! Se um sonha e se ergue. Em fulvos filões doirados Cai a luz dos astros por Sobre o marítimo horror Como globos estrelados. de cima. A Lua . Lá onde as rochas se assentam Fulguram como outros sóis Os flamívomos faróis Que os navegantes orientam.. nas Águas. em reflexos. outro se ergue e sonha. fingindo cristais Das mais deslumbrantes cores. outro cai. Vai uma onda.

E disse e porque isto disse O luar no Céu se apagou. Mais um coveiro do Verso! Cantam flautas.. "Sonhador do último sonho! "Numa redoma ilusória "Cercou-te a glória falaz. porém. "Mas nunca mais.. forte.. Sua voz é igual à voz Das dores todas do mundo. "Viajeiro da Extrema-Unção.. poeta da Morte!" . Haja silêncio no mar Para se ouvir a sereia. "Fecha-te nesse medonho "Reduto de Maldição.Ouça do alto a Lua Cheia Que a sereia vai falar.. E como um requiem profundo De tristíssimos bemóis. Súbito o barco tombou Sem que o poeta o pressentisse! Vista de luto o Universo E Deus se enlute no Céu! Mais um poeta que morreu.. Que é que ela diz?! Será uma História de amor feliz? Não! O que a sereia diz Não é história nenhuma. nunca mais "Há de cercar-te essa glória! "Nunca mais! Sê. "O poeta é como Jesus! "Abraça-te á tua Cruz "E morre. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas! 176 .

Banhou-se o coração do Brasileiro Num eflúvio de luz auroreada. . essa bendita e branca Luz que os negrores da opressão espanca. Que apouca o triunfo e que se chama sangue. É que baqueia a vida escravizada! Já se ouvem os clangores do pregoeiro.AVE LIBERTAS Ao clarão irial da madrugada. Manchar não pode as aras da República. Rola um drama que a Pátria exalça e doura Numa auréola de paz imorredoura. A bênção do valor dos vossos filhos! 177 . A Liberdade assoma majestosa. A República rola-lhe nos ombros. fazei que destes brilhos. Oh! Liberdade. Vós. Há de transpor sereno os penetrais Da Pátria. Da liberdade ao toque alvissareiro. oh Pátria. risonho. Como um Tritão. Não! que esse ideal puro. esplendorosa. Fulgente do valor da vossa glória. E ali do despotismo entre os escombros. e.Estrela d'Alva imaculada e pura! É livre a Pátria outrora opressa e exangue! Esse labéu que mancha a glória pública. Caia do santuário lá da História. Enquanto fora na trevosa agrura Sucumbe o servilismo. pois. Da República a nova sublimada. e há de elevar-se neste sonho Ao topo azul das Glórias Imortais! Esplende. Essa luz etereal bendita e calma. oh! Redentora d'alma. levando ao mundo inteiro.

Passa um rebanho de carneiros dóceis. cantam óperas inteiras.Mas hoje. Aves de várias cores e de várias Espécies. A Natureza veste extraordinárias Roupagens de ouro. à luz das minhas frases. 178 . ao matinal assomo. Na área em que estou. A compreensão da minha niilidade Aumenta à proporção que aumenta o dia E pouco a pouco o encéfalo me invade Numa clareza de fotografia. desvairado. Eleito Deus no altar do fetichismo! Tudo sacrifiquei para adorá-lo .. vendo o horror dos meus destroços. Estremecendo em suas próprias bases.ESTROFES SENTIDAS Eu sei que o Amor enche o Universo todo E se prende dos poetas à guitarra Como o Pólipo que se agarra ao lodo E a ostra que às rochas eternais se agarra. Além. E o Sol arranca as minhas crenças como Boucher de Perthes arrancava fósseis. E em qualquer parte do Universo veja Sombrias ruínas de um solar egrégio E o desmoronamento duma Igreja Despedaçada pelo sacrilégio. Uniformiza todos os anelos E une organizações fortes e fracas Nos mesmos laços e nos mesmos elos. nas oliveiras. O amor reduz-nos a uniformes placas.. Uma montanha que se desmorona. Tenho vontade de estrangulá-lo E reduzi-lo muitas vezes a ossos! Todo o ser que no mundo turbilhona Veja do Amor. sem prever o abismo Fiz desse amor um ídolo de Roma. E. Por muito tempo eu lhe sorvi o aroma.

à nitidez real dos aspectos. O Sábio vê em proporções enormes Aquilo que é composto de pequenas Partes. eu vou cantando a nênia Do Amor que eu tive e que se fez argila. À sombra dum verdoengo tamarindo Que representa a minha infância morta! 179 . A inanidade da Ilusão demonstro Mas.Observo então a condição tristonha Da Humanidade. Como Tirteu na guerra de Messênia! Transponho assim toda a sombria escarpa Sinistro como quem medita um crime. construindo corpos quase informes E aquilo que é uma parcela apenas. e não tal qual a sonha E a vê o Sábio pelo telescópio. Da observação nos elevados montes Prefiro.. heroicamente. demonstrando-a. à frente dele.este maldito monstro Que no meu próprio estômago alimento! Nisto a alma o oficio da Paixão entoa E vai cair. Ver mastodontes onde há mastodontes E insetos ver onde há somente insetos. Tal qual ela é. ébria de fumo e de ópio.. E quando a Dor me dói. sinto um violento Rancor da Vida . na água Da misteriosíssima lagoa Que a língua humana denomina Mágoa! Dos meus sonhos o exército desfila E. tanjo minha harpa E a harpa saudosa a minha Dor exprime! Estes versos de amor que agora findo Foram sentidos na solidão de uma horta.

a esmo. Passo longos dias. Onde há sonhos inefáveis Vejo os vermes miseráveis Que hão de comer os meus braços. Um grande recolhimento Preside neste momento Todas as forças do Mundo. Que o amor abriu no meu peito. Não me queixo mais da sorte Nem tenho medo da Morte Que eu tenho a Morte em mim mesmo! "Meu amor. em sonhos. De lá. Vem cá. Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra!" 180 .CANTO ÍNTIMO Meu amor. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra! O Sol está moribundo. dos grandes espaços. Muito longe. em sonhos erra. erra. se duvidas. Muito longe. olha estas feridas. Ah! Se me ouvisses falando! (E eu sei que ás dores resistes) Dir-te-ia coisas tão tristes Que acabarias chorando.

Mas. agonia... prece que ainda Entre saudades rezo..Que eu nunca chore assim! Que eu nunca chore como Chorei. amor e frio. experimento O mais profundo e abalador atrito. Queimam-me o peito cáusticos de fogo Esta ânsia de absoluto desafogo Abrange todo o circulo infinito. ontem. agonia bendita! . numa delícia infinda. Nos desertos da Vida uma estrela fulgura E o Viajeiro do Amor.Diz e morre-lhe a voz.. oração.Calor que hoje me alenta e há de matar-me em breve. a sós.Misto de infinita mágoa e de crença infinita. e o sofrimento De minha mocidade. abraça a sombra e.. Na insaciedade desse gozo falho Busco no desespero do trabalho. quanto mais me desespero.. e entre sorrisos e entre Mágoas soluço. Caminha e vai. agonia bendita! GOZO INSATISFEITO Entre o gozo que aspiro. escuridão e eterna claridade. Numa prece de amor. o louco. vendo-a. . até que esta dor se concentre No âmago de meu peito e de minha saudade. agonia. Neve da minha dor.. triste. neve. e cansado e morrendo O Viajeiro vai. murmura: . Frio que me assassina. Fazer parar a máquina do instinto. uma nuvem que corre. neve do meu destino! E eu aqui a chorar nesta noite tão fria! Agonia. Delícia que ainda gozo. morre! E a alma se lhe dilui na amplidão infinita.CANTO DE AGONIA Agonia de amor. num volutuoso assomo.. Sem um domingo ao menos de repouso. Agonia de amar. Neve que me embala como um berço divino. Amor. agonia! . sinto A insaciabilidade desse gozo! 181 . e vê a luz e vendo Uma sombra que passa.

acende O pó. mordendo a atra terra infecunda. e o trabalho . e entre o Hércules de outrora! Pois havia de assim. lúgubre e só.. Fez reboar pelo solo. E em tudo que o rodeava.. nesta maldita senda De sofrimento ignaro em sofrimento ignaro Ir caminhando até tombar sem um amparo No tremendo marneI da Desgraça tremenda?! II Noute! O silêncio vinha entrando pelo mundo E ele. E o Velho veio para o labor cotidiano. Mas o braço cansou! Trabalhou. trôpego e cambaleando Foi-se arrastando. Rasgando. Por seis horas seu braço empenhado na luta. foi aos poucos se arrastando.HISTÓRIA DE UM VENCIDO I Sol alto. do alegre Sol ao grande globo quente E pôs-se para aí. Triste. oito vezes.. a superfície bruta.Do Eterno Bem motor principal e alavanca Arrancara-lhe a Crença assim como se arranca De um ninho a seda branca e de uma árvore o galho! Sangrou-lhe o coração a saudade da Aurora! . Para as bordas fatais dum precipício fundo! Quis um momento ainda olhar para o Passado. A terra escalda: é um forno. alta e descompassada A dura vibração incômoda da enxada. funéreo 182 .O Hércules que ele fora! O fraco que ele hoje era! E surpreendido viu que um abismo se erguera Entre o fraco que era hoje. do agro solo.. A flama oriunda Da solar refração bate no mundo. desoladoramente A revolver da terra o atro e infecundo arcano. aclara o mar e por tudo se estende E arde em tudo.

e ele quis falar e estava mudo! Mudo! E a quem contaria agora as suas mágoas?! E trágico. pois! Somente morreria Se da Vida. enquanto a Terra Vencedora Celebrava ao luar a Missa dos Vencidos! E o cadáver. alguém vela o cadáver: a Lua! 183 . era a turba trovadora Que assim cantava. no horror bruto da despedida Abraçou-se com a Dor.. a família! Não morreria. bêbado de miragem.. Quis fazer um esforço . Somente entre a negrura atra da terra poenta Alguém beija. ele pisasse os trilhos.. onde arde e floresce a Crença. flutua! Ninguém o vê. Que mal lhe haviam feito a esposa e a irmã e os filhos?! Preciso era viver! Portanto.. ninguém o acalenta. tombando. sozinho. abraçou-se com a Vida E sepultou-se ali no coração das águas! Cantavam muito ao longe uns carmes doloridos! Eram tropeiros. o cansaço Empolgara-o.. a rugir-lhe aos pés.. o acalenta. Num instante viu tudo.Horrorizado viu como num cemitério Cadáveres de um lado e cinzas de outro lado! De súbito. a flux d'água. avistando uma frondosa tília Julgou. Caminhava. louco.. e o braço Pendeu exangue. o Velho caminhava. Compensaria toda a sua dor imensa Tal qual o Céu a dor de Cristo compensara! E aos tropeços. E bateram-lhe então de chofre na lembrança A casa que deixara. viveria! Viveria! E a fecunda e deleitosa seara Verde dos campos. a toa. avistar a Árvore da Esperança. o precipício estava.. o peito arqueou-se. Nem viu que era chegado o termo da viagem. os filhos.o último esforço. E amplo. e compreendendo tudo. e a sonhar.

pompeiam (triste maldição!) .. E a Noite emerge.. Na majestade dum condor bendito. mudo. Atros.. a Sombra . aos astrais desígnios.ocaso nunca visto. E os Sete Passos que magoaram Cristo! II Agora dorme o astro de sangue e de ouro Como um sultão cansado! As nuvens como Odaliscas. mudo. Martirizado porque nunca dorme As Sete Chagas dum martírio enorme. Trazem no peito o branco das manhãs 184 . Negras. alvas.condensada treva A sombra desce. e o meu pesar se eleva E chora e sangra. fulvos. A VIa-Láctea vai abrindo os braços! Áureas estrelas. ígneo.IDEALIZAÇÕES A Santos Neto I Em vão flameja. volaterizadas. Legiões de névoas mortas e finadas Como fragmentações d'ouro e basalto Lembram guirlandas pompeando no Alto Eterizadas.. Descem os nimbos. No ar há malabatros Turiferando a negridão tediosa. E há no meu peito .eis tudo! E no meu peito .Asas de corvo pelo coração. dourando as névoas dos espaços.Crepúsculo fatal vindo do Nada! Que importa o Sol! A Treva.. sangrento O sol. Subindo á majestade do Infinito. da Noite ao negro assomo Beijam-lhe o corpo ensangúentado d'ouro. mudo. rubro.. Além. e. Nas chispas fulvas de um vulcão violento! E tudo em vão! Atrás da luz dourada. Raios flamejam e fuzilam ígneos. luminosas. . santa e vitoriosa Dentre um velarium de veludos.

em plena e fulva reverberação. o mastodonte. Sírius me deslumbra. a Aurora.o Sol . Tudo por fim há de acabar na mesma Tênebra que hoje sobre ti desaba. O leão. assassino Ébrio de fogo. A alma se abate. há-de Alva. como se esses raios N'alma caindo. Eu amo a noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. dominando o mundo! Mas de que serve o Sol. aclarando os cerros E engalanando os arvoredos gaios. Mais em meu peito uma ilusão se enterra. em vão na luz do sol te inflamas. se erguer. Vésper me encanta. se.. Como Herculanum foi após as chamas. entre esplendores. em lodo tudo acaba. ontem moribundo. III De novo. A Mágoa ferve e estua. á luz áurea que dele Emana e estua e se refrange e ferve. se tornassem ferros?! IV Poeta. o tigre. se. Ah! Como tu. E nessa luz queimas4e em vão! És todo Pó.hóstia da Aurora. curvo ao seu destino. e hás de ser após as chamas. E corno a Aurora . Fantástico. de que serve Se é desespero e maldição todo ele?! Pois. de que serve. se triste em cada Raio que tomba no marnel da terra. Hoje de novo.E dormem brancas corno leviatãs Sobre o oceano astral das nebulosas. Abençoada pela Eternidade! E ei-lo de novo. Mais em minh'alma um desespero brada?! De que serve. Ninguém se exime dessa lei imensa Que. ciclópico. lodo. como tombou outrora. 185 . e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca.. a lesma.

a Lua que no céu se espalha. Como recordação da festa diurna. banha As serranias duma luz estranha.Fera rendida à música divina. pois poeta. Canto. de ossos. Iluminando as serranias. pelas penedias. Ergue. onde. pelas escarpas... Alva corno um pedaço de mortalha! Nessa música que a alma me ilumina Tento esquecer as minhas pr6prias dores.. e.Arrasta as almas pela Escuridão. Vives de cinzas e de ruinarias! V Agora é noite! E na estelar coorte. Medonhas valas. Então. e num supremo e insano E extraordinário e grande e sobre-humano Esforço.. sobe ao pedestal.. frias.. Geme a pungente orquestração noturna E chora a fanfarra triunfal da Morte. Sírius me deslumbra. Eu amo a Noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. E arrasta os coraç5es pela Descrença. como abutres Medonhos. foi valas funerais deixando. E foi deixando essas funéreas. Vésper me encanta. Silêncio! Mas de novo as harpas Reboam pelo mar. Harpas concertam! Brandas melodias Plangem. um pedestal de tanta Treva e dor tanta. e minh'alma cobre-se de flores . canta! Canta a Descrença que passou cortando As tuas ilusões pelas raízes. E em vez de chagas e de cicatrizes Deixar... e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca! 186 . Pelos rochedos. de ilusões te nutres.

sonâmbulo. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido Como um bemol e como um sustenido Rola impetuosa por meu peito adentro?! . Em cujo olhar o Vicio não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse. logo Toda a alvorada esplêndida se ostenta. A dispersão dos sonhos vagos reuno.INSÔNIA Noite.. Mas.Por que é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ou mapa-múndi estranha. E invejo o sofrimento desta Santa. eu também vou passando Sonâmbulo. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim.... sonâmbulo. Depois de embebedado deste vinho. em mágoa.. 187 . triunfalmente. nos céus altos.. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Por que cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício.. Por que não evitei o precipício Estrangulando minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! À proporção que a minha insônia aumenta Hierógafos e esfinges interrogo. Desta cidade pelas ruas erra A procissão dos Mártires da Terra Desde os Cristãos até Giordano Bruno! Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta..

equilibrando-se na esfera. em mágoa imerso.Vagueio pela Noite decaída. Cercado destas árvores. Sacrificar-me por amor do Verso No meu eterno leito de Procusto! 188 . porém. batendo na alma. Respira com vontade a alma campônia! Grita a satisfação na alma dos bichos. Estou alegre. Outra vez serei pábulo do susto E terei outra vez de.. neste silêncio e neste mato. o funerário. Restitui-me a pureza da hematose E então uma interior metamorfose Nas minhas arcas cerebrais se opera. O odor da margarida e da begônia Subitamente me penetra o olfato. O Sol. Atro dragão da escura noite. Em que o Tédio.. No espaço a luz de Aldebarã e de Árgus Vai projetando sobre os campos largos O derradeiro fósforo da Vida. hedionda. Com o olhar a verde periferia abarco. Aqui.. contemplo As maravilhas reais do meu Pau d'Arco! Cedo virá. As árvores.. estronda Como um grande trovão extraordinário. Recordam santos nos seus próprios nichos. Agora. as flores. os corimbos. por exemplo. Incensa o ambiente o fumo dos cachimbos.

Olho-o. são dois Túmulos dentro de um carvão promíscuo. o arquitetural e íntegro aspecto 189 . aparece. harto. irrupto. "Onde os ventres maternos ficam podres. a esvaziar báquicos odres: . por epigênese geral. E o que depois fica e depois Resta é um ou. síntese má da podridão. barro. De onde. sinto O amargor especifico do absinto E o cheiro animalíssimo do parto! E afogo mentalmente os olhos fundos Na amorfia da cítula inicial. Dois são. através ovóide e hialino Vidro. porque um. Risco-o Depois. "Onde nenhuma lâmpada se acende. Olho-o ainda. é do sonho assíduo Que a individual psique humana tece e O outro é o do sonho altruístico da espécie Que é o substractum dos sonhos do indivíduo! E exclamo. amorfo e lúrido. "Miniatura alegórica do chão."Cinza. ébrio. os beiços na ânfora ínfima. certo. "Na tua clandestina e erma alma vasta. Todos os organismos são oriundos. A nutrir diariamente os fetos nus Pelas vilosidades da placenta? Certo. ante Minha massa encefálica minguante Todo o gênero humano intra-uterino! É o caos da avita víscera avarenta . e na ínfima ânfora. "Meu raciocínio sôfrego surpreende "Todas as formas da matéria gasta!" Raciocinar! Aziaga contingência! Ser quadrúpede! Andar de quatro pés E mais do que ser Cristo e ser Moisés Porque é ser animal sem ter consciência! Bêbedo. é mais de um. Mergulho.Mucosa nojentíssima de pus. Presto.MISTÉRIOS DE UM FÓSFORO Pego de um fósforo. por outra.

que. Em que todos os seres se resolvem! 190 . Vida. Que fez a boca mística do druida E a língua revoltada de Lutero. De onde o desprotegido homem nasceu Para a fatalidade dos tropismos. de agulhas e de pregos?! Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis! Dentro um dínamo déspota. sou eu. atender Ao pedido da célula cansada! Um dia restará..Do mundo o mesmo inda e. Que mão sinistra e desgraçada encheu Os olhos tristes que meu Pai me deu De alfinetes. é o céu abscôndito do Nada. em segredo. sois vós. Migalha de albumina semifluida. Depois. Sob a morfologia de um moinho. E este ato extraordinário de morrer Que há de na última hebdômada. cósmico zero. Move todos os meus nervos vibráteis. Na anfigonia que me produziu Nonilhões de moléculas de esterco..Zooplasma pequeníssimo e plebeu. Basta um fósforo só Para mostrar a incógnita de pó. Se escapa. sozinho. O espectro angulosíssimo do Medo! Em cismas filosóficas me perco E vejo. Teus gineceus prolíficos envolvem Cinza fetal!. ora. muito alto. o que nele Morre. ínfimo e infecto! É a flor dos genealógicos abismos . como nunca outro homem viu. Na síntese acrobática de um salto. é todo aquele Que vem de um ventre inchado. mônada vil. do meu espírito. Então. dentre as tênebras. na terra instável. De minha antropocêntrica matéria Numa côncava xícara funérea Uma colher de cinza miserável! Abro na treva os olhos quase cegos.

. com a alma vencida Na abjeção embriológica da vida O futuro de cinza que me aguarda! 191 . E esse acidente químico vulgar Extraordinariamente me impressiona! Mas minha crise artrítica não tarda.. De onde quimicamente tu derivas. Na aclamação simbiótica do gozo! O enterro de minha última neurona Desfila.Ah! Maldito o conúbio incestuoso Dessas afinidades eletivas. E eis-me outro fósforo a riscar. Adeus! Que eu veio enfim.

ODE AO AMOR Enches o peito de cada homem. E o aroma dos teus beijos infinitos Entra na terra.. e dos Capitólios Aos claros pulcros e brilhantes sólios De esplendor pulcro e de fulgências claras. vezes. quietos Beijam-se além os silfos e os insetos Sob a esteira dos campos que se orvalham.Flores que tombam quando a neve passa No turbilhão das avalanches bravas! Tudo dominas! Dos vergéis tranqüilos Aos Capitólios. . 192 . Ora. .As borboletas e os escaravelhos Beijam-se no ar. medras Nalma de cada virgem. Rendilhados de fulvas gemas raras E pontilhados de crisoberilos. Sobes ao monte onde o edelweiss pompeia Nalma do que subiu àquele monte! Mas. Troa o conúbio dos amores velhos . davas brandindo em seva e insana Fúria. tangendo tiorbas em volatas.Estas multidões Sonham pátrias doiradas de ilusões Entre os tórculos negros da Desgraça . chora e se lamenta e vibra. E em tudo estruge a tua dúlia .. Sinos além bimbalham.. bate nos granitos E quebra as rochas e arrebenta as pedras! És soberano! Sangras e torturas! Ora. a soberana Imagem pétrea das montanhas duras.dúlia Que na fibra mais forte e até na fibra Mais tênue. Amor. E. Retroa o sino.. e toda a alma Enches de beijos de infinita calma. desces ao segredo insonte Do mar profundo onde a sereia canta E onde a Alcíone trêmula se espanta Ouvindo a gusla crebra da sereia! Rompe a manha. Cantas a Vida que sangrando matas. lembras. Beijam-te o passo multidões escravas Dos Desgraçados! .

impassível! Esta de amor ode queixosa. Entre timbales e anafis estrídulos. ontem. Irene.Essa dominação aterradora . . Assim. Egrégia estavas no teu plaustro egrégio Mais bela do que a Virgem de Corrégio E os quadros divinais de Guido Reni! Qual um crente em asiático pagode.Enorme força regeneradora Que faz dos homens um leão que dorme E do Amor faz uma potência enorme Que vela sobre os homens. esse poder terrível. fosforeando. aos astros. Quedo. e eis o motivo. eis-me de ti cativo! Cativaste-me. 193 . pois. beija os áureos pés dos ídolos. quando Entre estrias de estrelas. Eis o motivo porque fiz esta ode. Irene. Cativo. Irene.E em cada peito onde um Ocaso chora Levanta a cruz da redenção da Aurora Como a Judite a redimir Betúlia! Bem haja. sonhei-a.

Trinta e seis graus à sombra. Uma consciência eternamente obscura! O ferro continuava a chiar e a rir. Dentro. ao meio-dia. O éter possuía A térmica violência de um braseiro. Da qual. irritado. provinha Como de um negro cáspio de água impura A multissecular desesperança De sua espécie abjeta Condenada a uma estática mesquinha! Ria com essa metálica tristeza De ser na Natureza. Inopinadamente 194 . Compreendia por fim que aquele berro À substância inorgânica arrancado Era a dor do minério castigado Na impossibilidade de reagir! Era um cosmos inteiro sofredor. Onde a Matéria avança E a Substância caminha Aceleradamente para o gozo Da integração completa. berrar. a ouvir Cada átomo de ferro Contra a incude esmagado Sofrer. No horror da metalúrgica batalha O ferro chiava e ria! Ria. num sardonismo doloroso De ingênita amargura. Quase com febre. erguido do pó.NUMA FORJA De inexplicáveis ânsias prisioneiro Hoje entrei numa forja. bruta. Cujo negror profundo Astro nenhum exorna Gritando na bigorna Asperamente a sua própria dor! Era. tinir. E eu nervoso. a cuspir escórias De fúlgida limalha Dardejando centelhas transitórias.

Agarrados à inércia do Inorgânico Escravos da Coesão! Repuxavam-me a boca hórridos trismos E eu sentia. em lúgubre crescendo A antífona assimétrica E o incompreensível wagnerismo aziago De seu destino horrendo! Ao clangor de tais carmes de martírio Em cismas negras eu recaio imerso Buscando no delírio De uma imaginação convulsionada Mais revolta talvez de que a onda atlântica Compreender a semântica Dessa aleluia bárbara gritada Às margens glacialíssimas do Nada Pelas coisas mais brutas do Universo! 195 . Cheia de ânsias e medos Com crispações nos dedos Piores que os paroxismos Da árvore que a atmosfera ultriz destronca.Para que à vida quente Da sinergia cósmica desperte. afinal. atravessando a absconsa cripta enorme De minha cavernosa subconsciência. Punha em ciarividência Intramoleculares sóis acesos Perpetuamente às mesmas formas presos. Cansado de estar só! Era a revelação De tudo que ainda dorme No metal bruto ou na geléia informe No parto primitivo da Criação! Era o ruído-clarão. Preso aos mineralógicos abismos Angustiado e arquejante A debater-se na estreiteza bronca De um bloco de metal! Como que a forja tétrica Num estridor de estrago Executava. Essa angústia alarmante Própria de alienação raciocinante. A ansiedade de um mundo Doente de ser inerte. A ouvir todo esse cosmos potencial.O ígneo jato vulcânico Que. .

E dá-me assim. Alma das virgens mortas Mas não! Apaga os traços De tão funesto aspeito. Aperta-me em teu peito. perdeste a ciência. Embala-me em teus braços! 196 .QUADRAS Embala-me em teus braços. De lírios e boninas Um veludíneo leito..Anelo morrer vário Dos braços teus na Cruz! Porque não me confortas?! Bem sei. Morreu-te a redolência. Eu quero o meu Calvário .. oh! morena . De amores bons à sombra Quero em cheirosa alfombra Pousar os sonhos lassos! Teus seios. divina. Assim como Jesus. Aperta-me em teu peito.Relíquias de Carrara Têm a ambrosia rara Da mais rara verbena.

e..Uma. tonta Sinto a cabeça e a conta perco. Dói-me a cabeça... Agora a cara do astro Lembra a metade de uma casca de ovo.ª-feira.TRISTEZAS DE UM QUARTO MINGUANTE Quarto Minguante! E. Nos engenhos da várzea não existe Talvez um outro que se lhe equipare! Do observatório em que eu estou situado A lua magra. O hemisfério lunar se ergue e se abaixa Num desenvolvimento de borracha. 3 de maio. E aos tombos. Morde-me os nervos o desejo doudo De dissolver-me. Este Engenho Pau d'Arco é muito triste. de enterrar-me todo Naquele semicírculo medonho! Mas tudo isto é ilusão de minha parte! Quem sabe se não é porque não saio Desde que.. Mas novamente eis-me a perder a conta! 197 .. Aumentam-se-me então os grandes medos. Como um degenerado psicopata Eis-me a contar o número das telhas! .. três. Diabo! Não ser mais tempo de milagre! Para que esta opressão desapareça Vou amarrar um pano na cabeça1 Molhar a minha fronte com vinagre. em ânsias: . No bruto horror que me arrebata.. Eu escrevi os meus Gemidos de Arte?! A lâmpada a estirar línguas vermelhas Lambe o ar.. Tenho 300 quilos no epigastro.Uma. em suma. A conta recomeço. 6. embora a lua o aclare. quando a noite cresce. duas. quatro. Variando à ação mecânica dos dedos! Vai-me crescendo a aberração do sonho. parece Um paralelepípedo quebrado! O sono esmaga o encéfalo do povo. através do vidro azul. Vista.

. . Choro e quero beber a água do choro Com as mãos dispostas á feição de conchas.Estarei morto?! E a esta pergunta estranha Responde a Vida . Vêm-me á imaginação sonhos dementes. Acho-me.. Meu tormento é infindo. A luz fulge abundante 198 .. Um frio Cai sobre o meu estômago vazio Como se fosse um copo de sorvete! A alta frialdade me insensibiliza. Figuras espectrais de bocas tronchas Tornam-me o pesadelo duradouro. Ponho o chapéu num gancho.aquela grande aranha Que anda tecendo a minha desventura! A luz do quarto diminuindo o brilho Segue todas as fases de um eclipse. O suor me ensopa.. Por muito tempo rolo no tapete. E o amontoamento dos lençóis desmancho. .vis raízes adventícias No algodão quente de um tapete persa... Tomba uma torre sobre a minha testa. A lua é morta. Caem-me de uma só vez todos os dentes! Então dois ossos roídos me assombraram. numa festa. Começo a ver coisas de Apocalipse No triângulo escaleno do ladrilho! Deito-me enfim.Sucede a uma tontura outra tontura.. Tal urna planta aquática submersa.. Elevam-se fumaças Do engenho enorme. Cinco lençóis balançam numa corda."Por ventura haverá quem queira roer-nos?! Os vermes já não querem mais comer-nos E os formigueiros lá nos desprezaram". Mas aquilo mortalhas me recorda.. Minha família ainda está dormindo E eu não posso pedir outra camisa! Abro a janela. Antegozando as últimas delicias Mergulho as mãos . por exemplo. Súbito me ergo..

A ouvir. a terra resfolega Estrumada. rígido e de rastos Com a solidez do tegumento sujo Sulca. longe do pão com que me nutres Nesta hora. no ato da entrega Do mato verde. numa última cobiça. se ostenta A monarquia da árvore opulenta Que dá aos homens o óbolo dos frutos. De mim diverso. passei o dia inquieto. cheia de adubos. radiante e estriado. Vários reptis cortam os campos. Entretanto. em diâmetro. No húmus feraz. hierática. Broncos e feios. o céu. feliz. o solo um caramujo Naturalmente pelos mata-pastos. Pelos respiratórios tênues tubos Dos poros vegetais. cheios Dos tenros tinhorões e da úmida erva. oh! Vida em que a sofrer me exortas Eu estaria como as bestas mortas Pendurado no bico dos abutres! 199 . A fatia esponjosa de carniça Que os corvos comem sobre as jurubebas! Porque. observa A universal criação. Babujada por baixos beiços brutos. nestes bucólicos retiros Toda a salva fatal de 21 tiros Que festejou os funerais de Hamleto! Ah! Minha ruína é pior do que a de Tebas! Quisera ser. Côncavo.E em vez do sepulcral Quarto Minguante Vi que era o sol batendo nas vidraças.

a farpas de rochedo Completamente iguais. Mãos de linhas análogas e anfratos Que a Natureza onicriadora fez Em contraposição e antagonismo Às da estrela. negras. mãos mais sanguinárias E estupradoras do que os bisturis Cortando a carne em flor das crianças mortas. Umas.. Monstruosíssimas mãos. Assinalados pelo mancinismo. tentáculos sutis. Mãos adúlteras. às da neve. 200 . quebrando portas O azul gasofiláceo silencioso Dos tálamos cristãos. E à noite. Que apalpam e olham com lascfvia e gozo A pureza dos corpos infantis. a delinqüentes natos. ás dos cristais. em sangue.. Mãos que adquiriram olhos.MÃOS Há mãos que fazem medo Feias agregações pentagonais. vão cheirar. Pertencentes talvez. pituitárias Olfativas.. Outras..

langue e seminua.. No vácuo imenso das desesperanças E dos passados viços. Opalescência trágica da lua! Tu. . E que ela suba na serena gaza Dos mistérios dourados e serenos À terra Ideal das púrpuras em brasa E ao Céu doirado e auroreal de Vênus! 201 . pálida camélia. Mas neste sonho. plangente. oh Quimera.. Rola a violeta santa dos teus olhos . Pareces reviver a antiga Ofélia. E como um nume de pesar. Sonho abraçar-te. Brande-lhe n'alma o frio dos sepulcros. de reverberantes E rubras asas de beliantos pulcros. Eu guardo o travo deste beijo ardente E a Nostalgia desta Pátria .Lotus diluído n'alma dum cipreste! Como um lilás eternizando abrolhos Tinge de roxo o arminho da grinalda.VÊNUS MORTA A Via-Sacra Azul do amor primeiro Veste hoje o luto que a desgraça veste No miserere do meu desespero. Guarda a saudade que levou do Mame.a Carne. Reza-lhe todo o cantochão memento Dessa Missa de amor da Extrema Agrura. Crava-lhe n'alma o tirso das bacantes. Abençoada pelo meu tormento E consagrada pela sepultura. Recordo o beijo que te dei nas tranças Emolduradas num florão de riços.Tufos de goivo em conchas de esmeralda.

No desespero de não serem grandes! 202 . A rebeldia dos meus pés danados Nas pedras resignadas do caminho. Choravam. Em que as formas humanas se sumiam! Reboava. análogo ao peã de márcios brados... de onde decorrem Todas essas moléculas que morrem Nas transubstanciações da Natureza. Era o abjeto vibrião rudimentar Na impotência angustiosa de falar. com uma vela acesa. O feto original. Sentia estar pisando com a planta ávida Um povo de radículas e embriões Prestes a rebentar como vulcões. Convulsionando Céus. num ruidoso borborinho Bruto. A efígie apocalíptica do Caos Dançava no meu cérebro sombrio! O Céu estava horrivelmente preto E as árvores magríssimas lembravam Pontos de admiração que se admiravam De ver passar ali meu esqueleto! Sozinho. Mas o que meus sentidos apreendiam Dentro da treva lúgubre. com soluços quase humanos. Eu procurava. Aves com frio. uivando hoffmânnicos dizeres. como num chão profundo. enquanto eu tropeçava sobre os paus. na escuridão. era só O ocaso sistemático de pó. Cruzes na estrada.VIAGEM DE UM VENCIDO Noite. Mergulhar minha exótica visão Na intimidade noumenal dos seres. E. Do ventre equatorial da terra grávida! Dentro de mim. Aprazia-me assim. almas e oceanos As formas microscópicas do mundo! Era a larva agarrada a absconsas landes.

A abstinência e a luxúria. uma voz 203 . Doía profundamente no meu crânio Esse funcionamento simultâneo De todos os conflitos da matéria! Eu. assim. Na óssea armação das vértebras simétricas A angústia da biológica engrenagem! No Céu. Cumpria-se afinal dentro de mim O próprio sofrimento da Substância! Como quem traz ao dorso multas cargas Eu sofria. Fluía. o bem e o mal Ardiam no meu orco cerebral. Eles entravam todos na caverna Das consciências humanas mais fechadas! Ao castigo daquela rutilância. perdido no Cosmos. Como o protesto de uma raça invicta. Maior que o olhar que perseguiu Caim. me tornara A assembléia belígera malsã. vingadora. com a sidérica lanterna. na ânsia dos párias. Mas das árvores. ao colher simples gardênia. de onde se vê o Homem de rastros. Noite alta. O brado emocionante de vindicta Das sensibilidades solitárias! A longanimidade e o vilipêndio. a esclarecer As manchas subjetivas do meu ser A espionagem fatídica dos astros! Sentinelas de espíritos e estradas. Brilhava. frias como lousas. horrenda e monótona. Na discórdia perpétua do sansara! Já me fazia medo aquela viagem A carregar pelas ladeiras tétricas.Vinha-me á boca. Numa crepitação própria de incêndio! Em contraposição à paz funérea. Onde Ormuzd guerreava com Arimã. A multiplicidade heterogênea De sensações diversamente amargas.

se ergue A esfinge do Mistério Universal! A própria força em que teu Ser se expande. Rimos. ovário. porque. Nós. que. obscuro. tão feroz Que parecia vir da alma das cousas: "Se todos os fenômenos complexos. na ânsia cósmica. rimos Das vãs diatribes com que aturdes o ar. pois. Não trabalham. montanha. iceberg. Desde a consciência à antítese dos sexos Vem de um dínamo fluídico de gás. isto é. do Equador aos pólos. Na prisão milenária dos subsolos. tão profunda. a espiar enigmas. diante do Homem. Crânio. arvoredos desterrados. Se a contração que hoje produz o choro Não há de ser no século vindouro Um simples movimento para rir?! Que espécies outras. Para erguer. Porque em todas as coisas. choramos. árvore. Tragicamente. a Energia A última etapa da objetivação?! É inútil. Rir da desgraça que de ti ressuma É quase a mesma coisa que chorar!" 204 . Para esconder-se nessa esfinge grande.Tão grande.. com a febre mais bravia. Rasgando avidamente o húmus malsão.. afinal. enquanto Deus. Deu4e (oh! mistério que se não traduz!) Neste astro ruim de tênebras e abrolhos A efeméride orgânica dos olhos E o simulacro atordoador da Luz! Por isto. Se hoje. A humildade botânica das algas De que grandeza não será capaz?! Quem sabe. amanhã píncaros galgas. em suma. Jeová ou Siva Oculta à tua força cognitiva Fenomenalidades que hão de vir. oh! filho dos terráqueos limos. entres Na química genésica dos ventres.

naquela noite de ânsia e inferno. Reproduzida pelos arvoredos! Agora. A maior expressão do homem vencido Diante da sombra do Mistério Eterno! 205 . astro decrépito. a escalar Céus e apogeus.As vibrações daquele horrível karma Meu dispêndio nervoso era tamanho Que eu sentia no corpo um vácuo estranho Como uma boca sôfrega a esvaziar-me! Na avançada epiléptica dos medos Cria ouvir. A voz cavernosíssima de Deus. em destroços. desgraçadamente magro. Tinha necessidade de esconder-me Longe da espécie humana. Eu fora. Eu. a erguer-me. alheio ao mundanário ruído. com os meus ossos! Restava apenas na minha alma bruta Onde frutificara outrora o Amor Uma volicional fome interior De renúncia budística absoluta! Porque.

Abraçado com todas as estrelas! A Noite vai crescendo apavorante E dentro do meu peito. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. Os pobres braços do mortal se torcem E o sangue jorra. rolando dos últimos degraus. As minhas roupas. Na ânsia incoercível de roubar a luz. O quadro de aflições que me consomem O próprio Pedro Américo não pinta. quero até rompê-las! Quero. entre estes monstros. Minh'alma sai agoniada. armado de arcabuz. A Eternidade esmagadora bate Numa dilatação exorbitante! E eu luto contra a universal grandeza Na mais terrível desesperação É a luta. no combate.. 206 . arrancado das prisões carnais. era preciso a tinta Feita de todos os tormentos do homem! Como um ladrão sentado numa ponte Espera alguém. em coalhos. Viver na luz dos astros imortais. Estou á espera de que o Sol desponte! Bati nas pedras dum tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza é minha única saúde. é a rebelião Da criatura contra a natureza! Para essas lutas uma vida é pouca Inda mesmo que os músculos se esforcem. é o prélio enorme. pela boca. E muitas vezes a agonia é tanta Que.. ando! Não trago sobre a túnica fingida As insígnias medonhas do infeliz Como os falsos mendigos de Paris Na atra rua de Santa Margarida.QUEIXAS NOTURNAS Quem foi que viu a minha Dor chorando?! Saio. Para pintá-lo.

. A bênção matutina que recebo. Seja este. em suma. Hoje é amargo tudo quanto eu gosto.. Estrangulado pelas rodas brutas Do mecanismo que tiver mais força.O Hércules treme e vai tombar no caos De onde seu corpo nunca mais levanta! É natural que esse Hércules se estorça. Não sou capaz de amar mulher alguma Nem há mulher talvez capaz de amar-me. O velho tamarindo a que me encosto! Vou enterrar agora a harpa boêmia Na atra e assombrosa solidão feroz Onde não cheguem o eco duma voz E o grito desvairado da blasfêmia! Que dentro de minh'alma americana Não mais palpite o coração . Se algum dia o Prazer vier procurar-me Dize a este monstro que eu fugi de casa! 207 . a água que bebo. enfim. o último canto meu Por esta grande noite brasileira! Melancolia! Estende-me a tu'asa! És a árvore em que devo reclinar-me... Este relógio trágico que marca Todos os atos da tragédia humana! Seja esta minha queixa derradeira Cantada sobre o túmulo de Orfeu. é improfícuo.esta arca. E tombe para sempre nessas lutas. O coração do Poeta é um hospital Onde morreram todos os doentes. faz mal. O amor tem favos e tem caldos quentes E ao mesmo tempo que faz bem. Igual á luta dos cristãos e mouros! Sobre histórias de amor o interrogar-me E vão. E é tudo: o pão que como. é inútil. Ah! Por todos os séculos vindouros Há de travar-se essa batalha vã Do dia de hoje contra o de amanhã.

numa cova. E o mundo inteiro não lhe mata a fome! Nesta sombria análise das cousas. Levanta contra mim grandes cutelos E as baionetas dos dragões antigos! 208 . Arranco os cadáveres das lousas E as suas partes podres examino. Corro. a 1 de Janeiro. estudo.Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. ouvindo um grande estrondo.. vendo o verme frio Que há de comer a minha carne toda! É a Morte -. à meia-noite. na vertigem: -. Em vão com o grito do meu peito impreco! Dos brados meus ouvindo apenas o eco. e a mim pergunto. Então meu desvario se renova.esta carnívora assanhada -Serpente má de língua envenenada Que tudo que acha no caminho.. Na podridão daquele embrulho hediondo Reconheço assombrado o meu Destino! Surpreendo-me.. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. Como que. Sai para assassinar o mundo inteiro.POEMA NEGRO A Santos Neto Para iludir minha desgraça. carrego A indiferença estúpida de um cego E o ar indolente de um chinês idiota! A passagem dos séculos me assombra. rio Sinistramente. Mas de repente.. abrindo todos os jazigos.. Intimamente sei que não me iludo. Eu torço os braços numa angústia douda E muita vez. A Morte. come.Faminta e atra mulher que.. Para onde vou (o mundo inteiro o nota) Nos meus olhares fúnebres. sozinho. em trajes pretos e amarelos. -.

os soldados Buardam o corpo do Divino Mestre. É Sexta-feira Santa. canalha. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Semeadora terrível de defuntod.. que eu me vingo! Súbito outra visão negra me espanta! Estou em Roma. Tu não és minha mãe. que em mim dorme. Chocalha os dentes com medonha fúria Como se fosso o atrito de dois ferros! Pois bem! Chegou minha hora de vingança. e de declínio Em declínio. Com as longas fardas rubras. Contra a agressão dos teus contrastes juntos A besta.. como a gula de uma fera.. desta cova escura.. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. Quis ver o que era. oh! Natureza! Eu desafio agora essa grandeza. e quando vi o que era. Eu desafio. Como as estalactites da caverna. Deste-me fogo quanto eu tinha sede. acorda em berros Acorda. Deixa-te estar. Perante a qual meus olhos se extasiam. em grupos prosternados. Tu mataste o meu tempo de criança E de segunda-feira até domingo.. Amarrado no horror de tua rede. Vi que era pó. A trava invade o obscuro orbe terrestre No Vaticano. De Jesus Cristo resta unicamente 209 .E quando vi que aquilo vinha vindo Eu fui caindo como um sol caindo De declínio em declínio. e após gritar a última injúria. vi que era esterquilínio! Chegou a tua vez. Cai no silêncio da Cidade Eterna A água da chuva em largos fios grossos. No histerismo danado da tortura Todos os monstros que os teus peitos criam.. Por tua causa apodreci nas cruzes.

A desagregação da minha Idéia Aumenta.. Dentro da igreja de São Pedro. quieta. O céu dorme. Como as chagas da morféia O medo. A árvore dorme Eu.. É tão vazia a minha vida! No pensamento desconexo e falho Trago as cartas confusas de um baralho E pedaço de cera derretida! Dorme a casa. Na agonia de tantos pesadelos Uma dor bruta puxa-me os cabelos. Resume A espiritualidade da matéria E ele é que embala o corpo da miséria E faz da cloaca uma urna de perfume. somente eu. Na molécula e no átomo. Na Eternidade. os ventos gemedores Estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na serra Da Borborema. e a gente.. no ar de minha terra. Roma estremece! Além. vendo-o. As luzes funerais arquejam fracas. num rumor forte Recomeça o barulha das matracas. a gente Sente vontade de abraçar-lhe os ossos! Não há ninguém na estrada da Ripetta.Um esqueleto. o desalento e o desconforto Paralisam-me os círculos motores. Desperto. enquanto o horror me corta a fala O aspecto sepulcral da austera FIM 210 . com a minha dor enorme Os olhos ensangüento na vigília! E observo.. O vento entoa cânticos de morte.