IRBr - Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata

Manual do Candidato

Geografia
Regina Célia Araújo

2ª Edição atualizada e revisada

Nova Tiragem Brasília 2007

Presidente

Jeronimo Moscardo

CENTRO DE HISTÓRIA E DOCUMENTAÇÃO DIPLOMÁTICA

Diretor

Álvaro da Costa Franco

Diretor

Carlos Henrique Cardim

A Fundação Alexandre Gusmão (Funag), instituída em 1971, é uma fundação pública vinculada ao Ministério das Relações Exteriores e tem a finalidade de levar à sociedade civil informações sobre a realidade internacional e sobre aspectos da pauta diplomática brasileira. Sua missão é promover a sensibilização da opinião pública nacional para os temas de relações internacionais e para a política externa brasileira. A Funag tem dois órgãos específicos singulares: Instituto de Pesquisas de Relações Internacionais (IPRI) – tem por objetivo desenvolver e divulgar estudos e pesquisas sobre as relações internacionais. Com esse propósito: - promove a coleta e a sistematização de documentos relativos ao seu campo de atuação; - fomenta o intercâmbio científico com instituições congêneres nacionais, estrangeiras e internacionais, e - realiza e promove conferências, seminários e congressos na área de relações internacionais. Centro de História e Documentação Diplomática (CHDD) – cabem-lhe estudos e pesquisas sobre a história das relações internacionais e diplomática do Brasil. Cumpre esse objetivo por meio de: criação, difusão de instrumentos de pesquisa; edição de livros sobre história diplomática do Brasil; pesquisas, exposições e seminários sobre o mesmo tema; publicação do periódico Cadernos do CHDD.

Ministério das Relações Exteriores Esplanada dos Ministérios, Bloco H Anexo II, Térreo, Sala 1 70170-900 - Brasília-DF Telefones: (61) 3411-6033/6034 Fax: (61) 3411-9125 Site: www.funag.gov.br Instituto de Pesquisas de Relações Internacionais (IPRI) Esplanada dos Ministérios, Bloco H Anexo II, Térreo, Sala 22 70170-900 - Brasília-DF Telefones: (61) 3411-6800/9115 Fax: (61) 3411-9588 E-mail: ipri@mre.gov.br Centro de História e Documentação Diplomática (CHDD) Palácio Itamaraty Avenida Marechal Floriano, 196 Centro – 20080-002 Rio de Janeiro – RJ Telefax: (21) 2233-2318/2079 E-mail: chdd.funag@veloxmail.com.br

APRESENTAÇÃO

A Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG) oferece aos candidatos ao Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata, do Instituto Rio Branco (IRBr), do Ministério das Relações Exteriores, a série Manuais do Candidato, com nove volumes: Português, Questões Internacionais Contemporâneas, História do Brasil, História Geral Contemporânea, Geografia, Direito, Economia, Inglês e Francês1. Os Manuais do Candidato constituem marco de referência conceitual, analítica e bibliográfica das matérias indicadas. O Concurso de Admissão, por ser de âmbito nacional, pode, em alguns centros de inscrição, encontrar candidatos com dificuldade de acesso à bibliografia credenciada ou a professores especializados. Dada a sua condição de guias, os manuais não devem ser encarados como apostilas que por si só habilitem o candidato à aprovação. A FUNAG convidou representantes do meio acadêmico com reconhecido saber para elaborarem os Manuais do Candidato. As opiniões expressas nos textos são de responsabilidade exclusiva de seus autores.

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O IRBr considera importante ao Concurso de Admissão que os candidatos não descuidem do aperfeiçoamento no idioma francês, uma vez que (a) será exigida proficiência de alto nível em francês no processo de formação de diplomatas e (b) parte da bibliografia do Programa de Formação e Aperfeiçoamento – Primeira Fase (PROFA I) é constituída de textos em francês.

velando pela conservação e difusão do acervo histórico diplomático do Brasil. é uma fundação pública vinculada ao Ministério das Relações Exteriores. mantendo um programa editorial voltado para a divulgação dos problemas atinentes às relações internacionais e à política externa brasileira. Com a missão de promover a sensibilização da opinião pública nacional para os temas de relações internacionais e para a política externa brasileira. promovendo exposições. atendendo ao compromisso com a democracia e com a transparência que orienta a ação do Itamaraty. organizando foros de discussão e reflexão. a Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG) promove atividades de natureza cultural e acadêmica que visem à divulgação e ampliação do debate acerca das relações internacionais contemporâneas e dos desafios da inserção do Brasil no contexto mundial. instituída em 1971. cuja finalidade é levar à sociedade civil informações sobre a realidade internacional e aspectos da pauta diplomática brasileira. E-mail: publicacoes@funag. a Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG) coloca-se em contato direto com os diferentes setores da sociedade.br .FUNAG A Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG). Fomentando a realização de estudos e pesquisas.gov.

................................................A Formação Territorial do Brasil .......... Herança Colonial.............................................................. Transnacionalização da Economia e Globalização das Relações de Produção: o Período Técnico-Científico e as Novas Tendências Políticas em Escala Global ......................................................... Regionalização e Divisão Regional do Trabalho no Brasil ................. 33 3................. O Processo de Modernização da Agricultura no Brasil e as suas Tendências Atuais . 89 1................ 107 3................ Exemplos de Questões .............................................SUMÁRIO Unidade I ......................................................................................... 11 3 Bibliografia ........................ Os Processos Recentes de Urbanização e a Rede de Cidades no Brasil ................. 113 4................. Bibliografia ...... 92 2........................................................................................ O Espaço Geográfico ........................................................................................................................... As Perspectivas de Integração da Bacia Amazônia ...................... Exemplos de Questões ...........O Brasil no Contexto Geopolítico Mundial ............................................ 74 6......................................... 142 ................................................... O Processo de Estruturação e os Objetivos do Mercosul ..................................................................................Sociedade e Espaço: o campo de reflexões da Geografia .................................... 86 7............................................................... 09 2..... 54 4............ O Processo de Industrialização e as Tendências Atuais da Localização da Indústria no Brasil .............................................. 141 6....................................................... 17 1............. 07 1............................................... 63 5............................... 19 2............... A Definição dos Limites Territoriais e o Processo de Ocupação do Território Brasileiro .................................................... Bibliografia ................................. 15 Unidade II ............ Teorias Geográficas da Relação Sociedade-Natureza ....................... Condição Periférica e Industrialização Tardia: AAmérica Latina ............................................. 133 5........................... 87 Unidade III ..

................................................................................................... 143 1......................................................... 182 5...................... Os Ecossistemas Brasileiros e as Principais Causas de sua Degradação .......................................... A Consciência Ambiental e o Planejamento de Usos Sustentáveis do Solo ...................................................................... 154 3...... As Demandas de Saneamento Básico e a Qualidade de Vida nas Cidades Brasileiras .......... 145 2......................... 170 4..................................................... Exemplos de Questões .A Questão Ambiental no Brasil e os Desafios do Desenvolvimento Sustentável . 183 .. Bibliografia ..........Unidade IV ........................................................

UNIDADE I SOCIEDADE E ESPAÇO: O CAMPO DE REFLEXÕES DA GEOGRAFIA .

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ou. O espaço geográfico materializa atributos das sociedades que os produziram.com 9 . 1. Sendo assim. transformou radicalmente a geografia do continente: as precárias vias de circulação medievais e as modestas cidades . que abarca desde a lógica da distribuição espacial das atividades humanas e suas transformações ao longo da história até a percepção subjetiva das realidades espaciais vivenciadas pelas diferentes sociedades e pelos grupos que as compõem. o conceito de espaço ocupa lugar de destaque. porém. mais simplesmente. O surto industrialista vivenciado pela Europa no século XIX. Nessa primeira Unidade. por exemplo. pretende-se introduzir a discussão acerca desse conceito e apresentar alguns momentos cruciais da história do pensamento geográfico. na produção do espaço geográfico. O processo de humanização da natureza e de transformação desta em recurso produtivo resulta na produção social de formas espaciais diferenciadas. modificam os ambientes naturais e produzem também espaço. Essa introdução conceitual. O Espaço Geográfico As sociedades humanas. de forma a orientar a leitura das Unidades subseqüentes. materialização de idéias e de ações das sociedades sobre a natureza. SOCIEDADE E ESPAÇO: O CAMPO DE REFLEXÕES DA GEOGRAFIA No vasto campo de reflexões da geografia. ao produzirem sua vida material e sua história. Nessa perspectiva. o espaço geográfico é coagulação do trabalho social.SOCIEDADE E ESPAÇO: O CAMPO DE REFLEXÕES DA GEOGRAFIA I. ele está em permanente mutação. e não dispensa uma revisão bibliográfica de maior fôlego acerca das grandes linhas teóricas e conceituais que vertebram o campo de reflexões da geografia: trata-se apenas de um quadro de referências fundamentais. está longe de ser conclusiva. O geógrafo Milton Santos define espaço como acumulação desigual de tempos. da inserção do país no contexto internacional e dos impactos do uso predatório dos recursos naturais sobre o patrimônio ambiental do país. que tratam da formação do território brasileiro.

formas mais ou menos duráveis. cristaliza em suas formas o passado e o presente das sociedades que a produziram: Uma região produtora de algodão.pelo menos em aparência – enquanto a sociedade evolui. Em realidade. As alterações por que passa a paisagem são apenas parciais. testemunhas do trabalho humano. Do mesmo modo. Cada vez que a sociedade passa por um processo de mudança.cederam lugar às ferrovias e às grandes aglomerações urbanas. e não um objeto fixo. São as testemunhas do 10 . a paisagem compreende dois elementos: Os objetos naturais. em ritmos e intensidade variados. na medida em que os novos investimentos estão promovendo. e ser o resultado da acumulação da atividade de muitas gerações. A mesma coisa acontece em relação ao espaço e a paisagem que se transforma para se adaptar às novas necessidades da sociedade. a integração crescente da economia chinesa com o mercado mundial está mudando a paisagem urbana das cidades litorâneas. A paisagem não tem nada de fixo. O seu traço comum é ser a combinação de objetos naturais e de objetos fabricados. uma desconcentração dos ramos industriais tradicionais pelo território e uma reconcentração das indústrias de base tecnológica em alguns pólos do Centro-Sul. que adquirem as feições das modernas aglomerações urbanas ocidentais. no passado como no presente.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO ruelas estreitas que obedeciam a um plano radioconcêntrico . assim como o espaço. ao mesmo tempo. Os objetos sociais. A geografia estuda uma realidade em permanente mutação. as relações sociais e políticas também mudam. a paisagem. De um lado alguns dos seus elementos não mudam . objetos sociais. Tudo isto são paisagens. Uma paisagem urbana ou uma cidade de tipo europeu ou de tipo americano. que não são obra do homem nem jamais foram tocados por ele. isto é. A abertura contemporânea da economia brasileira para os fluxos globalizados de capitais e mercadorias está mudando a geografia das atividades produtivas do país. de imóvel. de café ou trigo. Ainda de acordo com Milton Santos. Um centro urbano de negócios e as diferentes periferias urbanas.

o filósofo e geógrafo. Milton. Assim. o estudo da influência do meio – ou das condições naturais – sobre a humanidade ocupa lugar de destaque. A forma é alterada. alcançado na medida em que as sociedades dominassem de maneira progressivamente mais plena os recursos naturais disponíveis em seu meio. na mesma velocidade ou na mesma direção. dos povos civilizados. A paisagem é resultado de uma acumulação de tempos. para dar lugar a uma outra forma que atenda às necessidades novas da estrutura social. essas teorias são também uma expressão do contexto histórico no qual surgiram. Pensando o espaço do homem. publicadas no último quartel do século XIX. mais independentes com relação ao meio. “A história é um processo sem fim. cada porção do espaço. 37-38. o progresso consistiria na emancipação progressiva dos homens das determinações naturais. uma paisagem representa diferentes momentos do desenvolvimento de uma sociedade. essa acumulação é diferente: os objetos não mudam no mesmo lapso de tempo. altera-se continuamente para poder acompanhar as transformações da sociedade. Por outro lado. Para cada lugar. renovada. O território dos povos civilizados seria a expressão de uma ligação completa e íntima entre sociedade e natureza: 11 . muitas mudanças sociais não provocam necessariamente ou automaticamente modificações na paisagem. A paisagem. Teorias Geográficas da Relação Sociedade-Natureza Os mais importantes pensadores da geografia criaram teorias diferentes acerca das relações entre a natureza. Ratzel distinguia os povos naturais. Como sempre acontece na história das ciências.SOCIEDADE E ESPAÇO: O CAMPO DE REFLEXÕES DA GEOGRAFIA passado. 1986. Considerada em um ponto determinado no tempo. suprimida. assim como o espaço. p.] 2. mas os objetos mudam e dão uma geografia diferente a cada momento da história” dizia Kant. [SANTOS. Nas obras do geógrafo alemão Friedrich Ratzel. São Paulo: Hucitec. a história e o espaço geográfico. aqueles que vivem submetidos às leis da natureza.

representa um corpo vivo que se estendeu sobre uma parte da Terra e se diferenciou de outros corpos. mas porque vivem sob a constrição da natureza. Não por acaso. quando se ocupa um novo trecho de terra ou se abandona uma possessão anterior (. produto dos esforços físicos e intelectuais de inúmeras gerações. tornamo-nos cada vez mais independentes dos acidentes singulares do seu ser e agir na medida em que multiplicamos as ligações. [RATZEL. que não semeou.] Para Ratzel. 122. In: MORAES. localizado na sua área essencialmente delimitada. São Paulo: Ática. é para ele uma leve cadeia. mas no sentido de uma união mais multíplice e mais ampla. Ele se transforma em movimento externo.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Chamamos naturais certos povos não porque eles vivem nas mais íntimas relações imagináveis com a natureza. Friedrich. mas no seu modo de dependência com a natureza.. A distinção entre povo natural e povo civilizado não deve ser buscada no grau. cada povo. A expansão dos horizontes geográficos. 1990.). Povos naturais e povos civilizados. enquanto qualquer vento forte que lance à água as espigas de arroz atinge o indiano de modo vital. O camponês que acumula o trigo no seu celeiro é tão mais dependente do seu campo quanto o é o indiano que recolhe nos pântanos o seu arroz aquático. A civilização não é propriamente independência da natureza no sentido de uma separação completa. que não o prende tão facilmente. que igualmente se expandiram por fronteiras ou espaços vazios. Não nos tornamos completamente livres da natureza pelo fato de a explorarmos e estudarmos mais a fundo.). porque ele foi bastante prudente para recolher provisões. as suas teses foram associadas ao expansionismo latente da Alemanha do século XIX. As populações estão em contínuo movimento interno. De acordo com ele: Para a geografia política. Precisamente em razão da nossa civilização estamos unidos à natureza mais intimamente que todas as gerações que nos precederam. Ratzel. p. mas para o camponês esta dependência é menos grave. apresenta continuamente 12 . e o tamanho de um Estado seria indicador do grau de civilização de seu povo.. para diante ou para trás. a decadência ou o progresso de uma sociedade estariam ligados respectivamente à perda e à conquista de territórios. Antônio Carlos Robert (Org.

menores se tornam os Estados.). armas e adereços do mundo melanésio: nas conchas.. Friedrich.. 1990. In: MORAES. Logo. nos estágios inferiores de civilização. Dominar politicamente essas áreas. pela difusão de técnicas e hábitos ou pela complementariedade dos recursos naturais. uma íntima relação entre expansão política e religiosa. Em suas obras.. Vemos. De fato. As leis do crescimento espacial dos Estados. resultante desse contato: Observe em um mostruário de museu o espólio de vestuários.] O geógrafo francês Vidal de La Blache esteve na origem de uma outra importante escola da geografia. na ampliação da capacidade produtiva e no progressivo enfrentamento das limitações impostas pela natureza. Antônio Carlos Robert (Org. então.). [RATZEL. Ratzel. São Paulo: Ática. Mas mesmo elas são ultrapassadas pela enorme influência do comércio. La Blache propôs que. O contato entre “gêneros de vida” diferentes explicaria o contínuo aumento das fronteiras ecúmenas da terra. os diferentes grupos humanos criariam “gêneros de vida” particulares. 176-178. vemos também que. acima de tudo. publicadas entre o final do século XIX e o início do século XX..). O progresso residiria. Assim como a área do Estado cresce com sua cultura. os povos estão organizados em Estados menores. escamas de 13 . quanto mais descemos nos níveis da civilização.SOCIEDADE E ESPAÇO: O CAMPO DE REFLEXÕES DA GEOGRAFIA novas áreas para a expansão espacial das populações. realizada pelo comércio. que aumentam com a cultura. o tamanho de um Estado também se torna um dos parâmetros do seu nível cultural. Fornecendo apoio a todos esses impulsos estão as pressões populacionais. e que. amalgamá-las e mantê-las unidas requer energia ainda maior: Tal energia só pode se desenvolver lentamente pela e através da cultura (. levam à expansão devido às pressões espaciais (. p. tendo por sua vez promovido a cultura. que ainda hoje atua como um impulso poderoso em todas as direções de expansão. na relação histórica e cumulativa com a natureza – cujos recursos são desigualmente distribuídos –.

o mundo vegetal e animal permanece no estado de natureza. nas regiões de alta civilização. vemos que os nossos campos. Pode-se recorrer a inúmeros exemplos de modos de vida inspirados diretamente no meio ambiente. e 14 . quase nada se buscou no exterior: Por outro lado. Principes de Géographie Humaine. funcionariam como verdadeiras “oficinas de civilização”. civilizações nas quais o meio natural não se distingue senão através das complicações de elementos heterogêneos. os nossos prados e até mesmo a nossa floresta em parte são artificiais. quando olhamos a nossa volta. madeira e fibras vegetais. foi possível argumentar que a difusão do “gênero de vida” europeu pavimentaria o caminho do progresso nesses continentes. a geografia viveu um processo de especialização acadêmica. O pensamento geográfico sofreu grandes alterações desde o século XIX.] As cidades. a partir delas. espinhas. que os nossos companheiros. lugar de encontro por excelência. p. Uns são tão exatamente decalcados dos lugares onde se encontram. podemos reconhecer as características do meio litoral e equatorial. encontramos as coloridas plumas das aves da floresta. Parece que há um abismo entre esses rudimentos de cultura.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO tartarugas. e esses resultados de progresso acumulados de que vivem as nossas civilizações superiores. as teses de Vidal de La Blache operaram no sentido de apresentar uma justificativa ideológica para o colonialismo francês na África e na Ásia. De um lado. vegetais e animais. civilizações autônomas. são aqueles que escolhemos. Para muitos estudiosos. já que. 1990. esse meio foi pouco modificado. muitas das quais fundadas na dimensão espacial da dinâmica das contradições sociais. Paul Vidal de. dentes. expressão de meios locais. que não podemos transportá-los nem imaginá-los em outra parte. e que os muitos instrumentos e materiais que usamos podem ser também utilizados em meios físicos diferentes. nos ornamentos dos índios brasileiros. Os conceitos e as teorias fundamentais da disciplina foram problematizados e novas e importantes correntes teóricas surgiram. Excluindo-se os incêndios e os desbravamentos temporários. nos pastores das savanas africanas. 209. as peles de rinocerontes e as correias de couro de hipopótamo. os outros são dotados da faculdade de transmitir-se e de se espalhar: [LA BLACHE. Do mesmo modo que as demais ciências humanas. de outro. Paris: Editions Utz.

Espaço e Ciência Social. A bibliografia sugerida para essa Unidade oferece um panorama dos muitos caminhos que vêm sendo percorridos pelos estudos geográficos. por exemplo. _________. e fornece instrumentais indispensáveis a compreensão das Unidades subseqüentes. dedica-se à análise da espacialidade dos processos e estruturas produtivas e à formulação das mais diversas teorias de localização. 1992. São Paulo: Hucitec/Edusp. Sociedade. valendo-se de métodos investigativos caros aos historiadores. Iná Elias et alli. A Gênese da Geografia Moderna. 1988.SOCIEDADE E ESPAÇO: O CAMPO DE REFLEXÕES DA GEOGRAFIA diferentes arcabouços conceituais sustentam cada uma das suas áreas. 1992. Rio de Janeiro: Bertrand. A Geografia Econômica. MARTIM. GREGORY. 1993. Derek et alli. A Geografia Cultural abrange temas como a percepção do espaço na vida cotidiana e no universo cultural. Ideologias Geográficas. São Paulo: Hucitec/Edusp. além de estudar a construção social de identidades baseadas em lugares. Fronteiras e Nações.1992. Milton. São Paulo: Hucitec. São Paulo: Hucitec/ Edusp. Geografia Política e Geopolítica. Bibliografia Complementar COSTA. 3. Geografia Humana. Antônio Carlos R. SANTOS. André Roberto. 15 . Conceitos e Temas. A Geografia Política desvenda as complexas relações entre os Estados e os territórios e as dimensões políticas dos fenômenos de configuração do espaço. A Geografia Histórica preocupa-se com a formação dos territórios e com a história dos espaços e dos lugares. Bibliografia Bibliografia Básica CASTRO. Geografia. 1995. Metamorfoses do Espaço Habitado. Wanderley Messias da. Rio de Janeiro: Zahar. MORAES. 1989. São Paulo: Contexto.

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UNIDADE II A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL .

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por sua vez. nenhum produto agrícola era objeto de comércio em grande escala na Europa. A Definição dos Limites Territoriais e o Processo de Ocupação do Território Brasileiro Em sua gênese. A implantação da empresa agrícola colonial na América Portuguesa foi uma iniciativa inovadora e arrojada: no século XVI. a abertura econômica e o novo caráter de inserção do Brasil nos circuitos globais de produção e consumo vêm produzindo impactos profundos na dinâmica territorial brasileira e alterando de forma substancial da divisão regional do trabalho no país. o processo de formação territorial do Brasil está associado à empresa colonizadora. 1. ainda nos tempos da República Velha. As sucessivas ampliações da fronteira produtiva da América Portuguesa. Nas últimas décadas. bem como os grandes eixos temáticos de análise do território brasileiro. O caráter litorâneo do povoamento e a monopolização do acesso à terra remontam ao passado colonial. são problematizados nos textos que compõem essa Unidade. do Império Brasileiro) no sentido de assegurar a posse das bacias hidrográficas e das rotas e caminhos considerados estratégicos.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL II. alimentaram a conturbada história da ocupação do território e do traçado das atuais fronteiras brasileiras. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL O espaço brasileiro é resultado de uma sucessão de tempos históricos. definindo focos de produção e consumo dispersos pelo território. criou as condições necessárias à proliferação do fenômeno urbano e à industrialização. A economia cafeeira. assim como o esforço da Coroa Portuguesa (e. Os momentos cruciais de produção e valorização do território brasileiro. lançou as bases da integração econômica e geográfica do território e gerou os “desequilíbrios” regionais. O crescimento industrial registrado após a década de 1930. A consolidação de um pólo industrial no Sudeste e de periferias industriais nas demais regiões redesenharam a geografia do país. As transações comerciais a longa distância 19 . mais tarde.

MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA

REGINA CÉLIA ARAÚJO

eram restritas às mercadorias cujo valor pudesse compensar os altos custos de transporte, tais como produtos manufaturados e especiarias vindas do Oriente. As ilhas atlânticas de colonização portuguesa foram o laboratório da grande empresa agrícola que iria ter lugar na América Portuguesa. Nessas ilhas – Madeira, São Tomé, Cabo Verde e Açores –, a monocultura canavieira era praticada desde o século XV. As primeiras mudas de cana foram trazidas ao Brasil por Martim Afonso de Sousa, em 1531. Dois anos mais tarde, seria construído o primeiro engenho de açúcar da colônia, na vila de São Vicente. Em pouco tempo, a lavoura canavieira seria introduzida na Zona da Mata nordestina. O clima quente e úmido da região bem como a topografia suave e a presença de solos extremamente férteis (conhecidos como solos de massapê) ofereciam condições ideais para o plantio da cana. Na segunda metade do século XVI, a região nordeste da colônia – em especial as capitanias da Bahia e de Pernambuco – havia se firmado como o centro da empresa agrícola colonial. Vastos latifúndios canavieiros, cultivados por mão-de-obra escrava e dotados de um engenho de produção de açúcar, eram a unidade básica dessa empresa. O açúcar produzido nos engenhos era transportado pelos rios ou em carros de boi até os grandes portos exportadores: Recife e Salvador. Esses centros urbanos funcionavam como elos de ligação entre as regiões produtoras e os mercados consumidores de além-mar. Por isso, sediavam as principais instituições administrativas e comerciais da colônia. A empresa açucareira implantada pelos colonizadores no século XVI ocupava somente uma estreita faixa costeira do imenso território luso-americano. Porém, no século XVII, novas atividades econômicas foram implantadas, e a fronteira produtiva do território colonial conheceu sucessivos alargamentos. O sucesso comercial do açúcar nos mercados europeus estimulou o aumento da área canavieira da Zona da Mata nordestina: no século XVII, as terras de pasto dos engenhos se transformaram em canaviais. O gado foi expulso das terras nobres da fachada litorânea e ganhou os sertões.

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A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL

Partindo da Bahia e de Pernambuco (os dois maiores núcleos da produção canavieira), a pecuária se expandiu na direção do Rio São Francisco, que passou a ser conhecido como o “rio dos currais”, e do Rio Parnaíba. Os índios que se opuseram a essa marcha colonizadora sobre o sertão sofreram uma verdadeira guerra de extermínio. No fim do século XVII, grandes fazendas de pecuária extensiva dominavam a paisagem do sertão nordestino. Nelas, poucos homens livres – negros libertos, índios e brancos pobres – eram suficientes para cuidar do rebanho e transportá-lo para as feiras de gado da Zona da Mata. Nos entroncamentos dos caminhos do rebanho, pontos de contato entre o sertão pastoril e o litoral agrícola, surgiram inúmeros povoados, embriões das cidades sertanejas do nordeste brasileiro. Na Capitania de São Vicente, a prosperidade da empresa açucareira vicentina durou muito pouco: já na segunda metade do século XVI, os sinais de decadência eram evidentes. A estreiteza da fachada litorânea, comprimida pela proximidade da Serra do Mar, e a predominância de solos rasos e pantanosos desestimulavam a ampliação da agricultura canavieira na região. As maiores distâncias em relação aos portos europeus encareciam os custos de frete. O açúcar vicentino sucumbiu à concorrência do açúcar nordestino. O fracasso da empresa agrícola exportadora produziu um verdadeiro despovoamento do litoral vicentino. Os colonos paulistas galgaram a Serra do Mar e se estabeleceram nas vilas fundadas no planalto. São Paulo de Piratininga, fundada pelos jesuítas em 1554 e elevada à categoria de vila seis anos depois, se tornou o maior núcleo de povoamento da capitania ainda no século XVI. Um velho caminho indígena, o Caminho do Mar, era a principal via de ligação entre o litoral e os campos de Piratininga, que abrigavam a vila de São Paulo. Nos arredores da vila, os colonos praticavam a policultura de subsistência, utilizando a mão-de-obra dos índios escravizados. O apresamento e escravização dos índios era o principal meio de enriquecimento para os colonos da capitania. Os índios, além de serem necessários na policultura de subsistência, eram uma mercadoria de fácil transporte: podiam atravessar andando os difíceis caminhos do sertão e da serra.

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MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA

REGINA CÉLIA ARAÚJO

No século XVI, o apresamento dos índios permaneceu restrito aos arredores dos campos de Piratininga. No século XVII, a desorganização do tráfico negreiro, conseqüência das guerras holandesas, ampliou o mercado de índios escravizados nas regiões produtoras de açúcar. As bandeiras de apresamento ganharam o interior, aproveitando os cursos fluviais e abrindo caminhos terrestres. As reduções jesuíticas em território hispano-americano eram o principal alvo do bandeirantismo de apresamento: nelas, os índios estavam concentrados e domesticados. As freqüentes incursões às reduções localizadas às margens do Rio Paranapanema (atual Estado do Paraná) foram responsáveis pela transferência de muitos desses aldeamentos para a província argentina de Missões, entre o alto curso do Rio Paraná e o alto curso do Rio Uruguai. Na segunda metade do século XVII, a principal finalidade das expedições bandeirantes era a localização de jazidas de prata, ouro e pedras preciosas. O empreendimento contava com o apoio da Coroa lusitana, que contratou diversos sertanistas para organizar e comandar as bandeiras de pesquisa. A exportação de fumo assumiu importância nas receitas coloniais portuguesas na metade do século XVII. Produzido principalmente no Recôncavo Baiano e em Alagoas, o tabaco era exportado para mercados europeus, além de servir de moeda de troca com os aparelhos negreiros da costa africana. Também no século XVII, intensificaram-se as expedições oficiais pelo vale amazônico. Elas tiveram um sentido predominantemente geopolítico: tratavase de expulsar holandeses e ingleses, senhores de muitas feitorias ao longo do curso dos rios, e impedir o contrabando de produtos nativos tais como madeira e pescado. O Forte do Presépio de Belém, fundado em 1616, foi a ponta de lança da estratégia colonizadora da Coroa Ibérica no grande norte. Situado na foz do Rio Amazonas, esse núcleo de povoamento deveria centralizar a exportação das mercadorias e sediar os órgãos do poder metropolitano sobre a região. Plantas nativas, tais como o urucu, o cacau selvagem, o guaraná, a castanha-do-pará, o gergelim, a salsaparrilha e o pau-cravo, eram as principais mercadorias de exportação. Os aldeamentos indígenas controlados pelas diversas ordens religiosas representadas na região amazônica funcionavam como uma reserva de coletores

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Jacareí. próximas às minas do Rio Verde. Transposto esse rio. Mariana. Os caminhos abertos para a exportação desses produtos e para o abastecimento das Minas Gerais transformaram a geografia do Centro-Sul colonial. e seguia na direção do Rio Grande. alargando substancialmente a faixa de ocupação do território luso-brasileiro. a confirmação da existência de metais preciosos nas regiões planálticas de Minas Gerais. apareceram zonas de povoamento mais disperso. Sabará. Pindamonhangaba e Guaratinguetá. rumando para Jundiaí. passando por Mogi das Cruzes. Minas Novas e de Paracatu. Vila do Príncipe. Em torno desses núcleos. Após a Restauração. Todos os esforços produtivos da região mineradora estavam concentrados na extração de metais e pedras preciosas. Em média. Nas últimas décadas do século XVII. O segundo. Taubaté. O excedente alimentar das missões contribuía para o abastecimento de Belém e das pequenas cidades que surgiam na região. que ficaram conhecidos respectivamente como Caminho Geral do Sertão e Caminho Velho. seguia o curso do Rio Paraíba do Sul. Desde o final do século XVII. Arraial do Tijuco e outras. atravessava a Serra da Mantiqueira na altura da passagem de Hepacaré (atual Lorena) e buscava o sertão do Rio das Velhas. Laranjeiras. as bandeiras paulistas rumo aos sertões do Rio São Francisco seguiam dois caminhos principais. Caeté. tropas de mercadores ganharam os caminhos bandeirantes. Os mais importantes núcleos urbanos das Minas Gerais floresceram nessa região: Vila Rica de Ouro Preto. No início do século XVIII. Os gêneros alimentares produzidos nos arredores das vilas paulistas 23 . a Coroa lusitana intensificou a ocupação militarizada da região. mais utilizado. O primeiro partia de São Paulo. Os principais afloramentos auríferos e diamantinos estendiam-se da Bacia do Rio Grande até as nascentes do Rio Jequitinhonha. Uma rede de fortificações portuguesas foi construída seguindo a calha central do Rio Amazonas.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL dessas “drogas do sertão”. os caminhos paulistas demandavam dois meses de viagem até a região mineira. Itajubá. Mato Grosso e Goiás promoveu um afluxo populacional sem precedentes na história colonial. buscava a Serra das Vertentes e daí ganhava o São Francisco.

preocupada com o contrabando da produção aurífera. A topografia da região favorecia a condução 24 . Barbacena etc. a Coroa lusitana. mandou construir um caminho que ligasse a região mineradora e a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. O Caminho Novo tinha duas variantes: uma seguia até o porto de Pilar e galgava a Serra do Mar. Pelo Caminho Novo era possível atingir a região das Minas Gerais em apenas dezessete dias.000 homens livres. Na retaguarda da economia mineira. acompanhou esse surto produtivo: no início do século XVIII. A abertura do Caminho Novo canalizou para o Rio de Janeiro a maior parte dos lucros do comércio com o hinterland mineiro. Itararé. Ainda na primeira década do século XVIII. Itapetininga. Ambas se encontravam perto da cidade de Paraíba do Sul e daí seguiam na direção de Correias. O porto do Rio de Janeiro – transformado em boca das minas – se tornou o mais importante porto da colônia em volume de comércio exterior. os documentos oficiais registram uma população livre de 116. Pirapora.975 habitantes. a agricultura paulista se expandiu rapidamente. Cabreúva. alimentada pela constante imigração lusitana. Centros urbanos importantes floresceram e prosperaram nos caminhos de gado: Sorocaba (onde se realizavam as grandes feiras). A prosperidade econômica. Faxina. Além disso. a outra contornava a Baixada Fluminense e subia o Rio Santana. escoando a maior parte da produção aurífera e diamantina e centralizando as importações necessárias ao funcionamento da empresa mineira. transformados em centros de criação de muares. Apiaí. tornou-se ponto de passagem obrigatória das levas de imigrantes portugueses atraídos pelo ouro e dos lotes de mão-de-obra negra destinados ao trabalho nas minas. a capitania vicentina contava com 15.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO atingiam preços exorbitantes na região mineradora. para logo depois atingir os distantes campos sulinos do Rio Grande do Sul e do Uruguai. A criação de gado primeiro ganhou os campos de Paranaguá e Curitiba. Avaré e outros. A pecuária do sertão nordestino também conheceu um período de prosperidade no século XVIII: os currais do Rio São Francisco despejavam boiadas inteiras na região das Minas Gerais. iria transformar o Rio de Janeiro em sede administrativa do Vice-Reino do Brasil no ano de 1763. Em 1777. Juiz de Fora. tributária dessa relação privilegiada com os mercados das Minas Gerais. A curva demográfica.

no ano de 1750. 25 . O Tratado de Tordesilhas. Na metade do século XVIII. e estabelecia que todas as terras a leste do Meridiano de 50 graus oeste pertenceriam a Portugal. uma mercadoria muito mais valiosa nas Minas Gerais do que nas tradicionais regiões açucareiras da Zona da Mata. oficializou a incorporação de vastas possessões espanholas ao território colonial português. ressalta a importância da geopolítica imperial na horogênese das fronteiras brasileiras. firmado entre os dois países em 1494. os geógrafos Berta Becker e Cláudio Egler traçam em grandes linhas a ocupação colonial do território. dividia todo o mundo a ser descoberto entre as coroas de Portugal e Espanha. Textos Complementares Os textos selecionados abordam aspectos da formação territorial do Brasil e da definição dos limites territoriais do país. No primeiro. destacando as diferentes estratégias geopolíticas lusas que asseguraram o rompimento da linha de Tordesilhas e culminaram no Tratado de Madri. No segundo. Além do gado. sustentando a tese de que a fronteira nasce em uma etapa intermediária entre as definições abstratas dos tratados e a sua efetiva demarcação. os limites traçados no Tratado de Tordesilhas estavam definitivamente ultrapassados: a assinatura do Tratado de Madri.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL das boiadas até as zonas mineradoras. Como decorrência da busca de novas rotas para o Oriente pelos países ibéricos – a Espanha através do Ocidente e Portugal contornando a África – o território que constitui hoje o Brasil precedeu a criação da própria colônia. Texto 1 – O Período Colonial A ocupação e o povoamento do território que constituiria o Brasil não é senão um episódio do amplo processo de expansão marítima resultante do desenvolvimento das empresas comerciais européias. o geógrafo Demétrio Magnoli. os Caminhos Baianos sediavam um intenso – apesar de rigorosamente proibido – comércio de negros.

Uma estratégia de distribuição controlada da terra envolveu empreendedores privados na colonização do território sem ônus para a Coroa. assegurando a ocupação e o controle da fachada costeira oriental. a população nativa era relativamente escassa.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Definia-se. e as plantations de cana-deaçúcar tornaram-se a base da economia e defesa coloniais. imenso. e sua aquisição decorria de uma doação pessoal. A defesa do território e sua expansão não decorreu de conquista militar. franceses e ingleses. até então inédito. favorecida pela luta pelo poder hegemônico entre holandeses. deveu-se à experiência prévia de Portugal nas ilhas de São Tomé e Madeira. devido à pressão da Holanda. que fomentou uma indústria de equipamentos para engenhos açucareiros. que posteriormente daria o nome à nova colônia – e peles com os índios em modestas feitorias ao longo do litoral. ainda assim. A colonização do Brasil se apresentou aos monarcas portugueses a posteriori. Empreendimento mercantil e defesa da costa atlântica Inicialmente os portugueses comerciaram madeiras corantes – o pau-brasil. e no início também não acharam metais. segundo os méritos dos pretendentes e os serviços por eles prestados à Coroa. assim. assim. e pela união com a Espanha entre 1580 e 1640. a priori. Foi um processo de posse lento e complexo em que pesou a estratégia portuguesa. se basear no trabalho nativo. No início da colonização a legislação relativa à propriedade da terra estava baseada na política rural de Portugal. A terra ela vista como parte do patrimônio pessoal do rei. Foi então necessário organizar a produção. O Brasil colonial foi. Esse empreendimento. organizado como uma empresa comercial resultante da aliança entre a burguesia mercantil (inclusive holandesa) e a nobreza. ao contrário do que acontecia nos territórios espanhóis. bem como a organização comercial dos flamengos que controlavam um mercado expressivo na Europa Continental. Grã-Bretanha e França sobre o território. por exemplo. a colônia por um território correspondente a apenas 40% da sua área atual e. como domínio da Coroa. Através da divisão geométrica da costa atlântica em Capitanias Hereditárias (1530). logo depois da perda para os holandeses da maioria dos postos comerciais que Portugal tinha na Ásia e na África. a colonização foi iniciada 26 . portanto. Os portugueses não podiam.

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simultaneamente em vários pontos do território. A terra foi doada a donatários com o objetivo de promover a agricultura, sobretudo a da cana-de-açúcar. Eles tinham direitos soberanos e podiam repartir as terras a moradores capazes de explorá-las (sesmarias). A divisão respeitou a linha do Tratado de Tordesilhas, embora os limites entre as capitanias fossem desconhecidos. Colocou-se, então, o problema da mão-de-obra e do índio, foco de uma política ambígua face ao conflito entre a postura da Coroa, de cristianização dos índios para integrá-los no povoamento, e os interesses dos colonos em escravizálos. A Carta Régia de 1570 estabeleceu então que os índios só podiam ser aprisionados por “guerra justa”, e face à dificuldade de mão-de-obra recorreu-se ao tráfico de escravos africanos, financiado em grande parte pelos holandeses. Pelo fato de a terra não ser toda utilizada para fins comerciais, os proprietários podiam manter um certo número de arrendatários e meeiros que moravam nas áreas menos férteis de suas propriedades dedicando-se à economia de subsistência e eventualmente trabalhando na plantation. Assim, apesar de ser o lucro o motivo principal da economia, o controle sobre os escravos e homens livres e sobre a terra era mais importante para definir o status social do proletário do que a acumulação de riqueza1. O desenvolvimento de outros setores da economia não implicou a modificação da política agrária e do trabalho, típica das áreas canavieiras. Os pressupostos que guiaram essa política no século XVI sobreviveram até o século XIX. Se essa estratégia não trouxe a prosperidade econômica almejada, em contrapartida ela lançou as bases da estrutura econômica, social e política da colônia, da ocupação efetiva do território contra ameaças externas, e da interiorização do povoamento. As plantations litorâneas eram as células fundamentais da estrutura econômica e social da colônia. Daí partiu a expansão gradativa das fazendas de gado pelo sertão para abastecer em couro e animais de trabalho as zonas canavieiras. No litoral norte, o Rio Amazonas foi estratégico, por sua extensão e ampla navegabilidade, até 2.000 Km no interior em meio à floresta equatorial. Durante a

1 Ver VIOTTI DA COSTA, E. Da Monarquia a República: Momentos Decisivos. São Paulo: Grijaldo, 1977.

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união das Coroas de Portugal e Espanha (1580-1640), holandeses, franceses e ingleses trataram de ocupar militarmente esta área (1580-1640). Para defender a Bacia Amazônica, as formas iniciais de ocupação foram pequenos fortes, sendo o primeiro deles na foz do Amazonas, em Belém (1616). Para assegurar a ocupação a longo prazo, bem como a pacificação e lealdade das tribos aborígenes contra os holandeses, ingleses e franceses, os portugueses resolveram dividir a bacia entre ordens religiosas católicas. Seguiram assim os jesuítas espanhóis, que já haviam estabelecido um verdadeiro cordão estratégico ininterrupto de missões jesuíticas no coração do continente, do Prata ao Alto Amazonas, no século XVI e primeira metade do XVII2 (...). Expansão territorial para além de Tordesilhas Após a separação das duas Coroas (1640), a colonização portuguesa em pouco mais de um século invadiu áreas que pertenciam à Espanha e ocupou o território que é hoje o Brasil. O rompimento da linha de Tordesilhas tornou-se, para a metrópole, um objetivo, e não apenas uma conseqüência da defesa do território. A expulsão dos holandeses do nordeste, onde permaneceram de 16301654, levou à quebra do monopólio português na produção de cana-de-açúcar, na medida em que os holandeses desenvolveram a lavoura nas Antilhas. Arruinado e desfalcado nas suas colônias no Oriente e de sua marinha, Portugal tornou-se potência secundária, largamente dependente da Inglaterra que se afirmava no contexto internacional. O Brasil passou a ser sua última possessão ultramarina valiosa, e a extensão e o controle territorial da colônia tornaram-se decisivos para a recuperação econômica e a afirmação do Estado português centralizado. A ocupação da terra como base do direito sobre sua posse, isto é, o direito de facto, foi a estratégia básica na apropriação do território para além dos limites jurídicos do Tratado de Tordesilhas, sendo posteriormente reconhecida como um princípio legal. Essa prática se fez sob várias formas, sobretudo no interior e nas bacias do Amazonas e do Prata, estratégicas pela navegação e por sua posição nos extremos da colônia.

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Ver PRADO JR. C. Formação do Brasil Contemporânea. 2. ed. São Paulo: Brasiliense. 1945.

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O maior impulso para a expansão territorial decorreu sobretudo da descoberta do ouro (1690) no planalto do Brasil Central. O ouro se tornou a base econômica da colônia até meados do século XVIII, à medida que a economia açucareira decaía face à concorrência das Antilhas. A descoberta do ouro provocou um afluxo de imigrantes da metrópole, grande mobilidade interna e um rush gigantesco em alguns decênios, cobrindo uma área imensa no centro e oeste do atual território brasileiro (Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso). Caminhos de gado e tropas de mulas estabeleceram-se para abastecer os primeiros centros mineradores, constituindo-se nos primeiros eixos da integração interna da colônia. Em conseqüência da mineração, deslocou-se o eixo econômico para o centrosul e com ele se transferiu a capital da Bahia para o Rio de Janeiro (1763). Entretanto, o ciclo do ouro e diamantes, embora intenso, foi breve. Esgotou-se no último quartel do século XVIII, inclusive pela pressão dos impostos cobrados pela Coroa, que resultou no primeiro, mas fracassado, movimento pela independência: a Inconfidência de Minas Gerais em 1792. No vale do Amazonas, a Coroa estimulou a ação das missões que se tornaram as maiores exportadoras das “drogas” (canela, cravo, salsaparrilha, cacau nativo), além de produzirem alimentos para a subsistência e deterem o monopólio sobre a mão-de-obra indígena. Fortes e missionários penetraram profundamente no território amazônico assegurando a futura soberania de Portugal numa área imensa, ainda que com fraca base econômica e esparsamente povoada. No extremo sul, em fins do século XVII, um grande vácuo de poder existia entre os espanhóis sediados em Buenos Aires, na embocadura do Rio da Prata, e a ocupação portuguesa que se estendia até o paralelo de 26°S. A estratégia lusa teve dupla face. A face agressiva, correspondente à implantação de uma guarnição militar na margem norte do Rio da Prata, bem defronte do porto de Buenos Aires, criando a Colônia do Sacramento, em 1689, que foi causa de mais de um século de guerra. Tratava-se de interesses sobretudo ingleses com vistas ao controle do comércio de prata, couro e gado na Bacia do Prata. A face pacífica correspondeu à colonização dirigida pela metrópole que transferiu excedentes populacionais pobres dos Açores, instalando cerca de 4.000 casais em torno de Porto Alegre e em Santa Catarina (1747). Após a paz (1777), a terra foi distribuída em larga escala a militares e cavaleiros no atual Rio Grande do Sul como forma de consolidar a posse portuguesa dando origem a grandes latifúndios pastoris: as instâncias. Firmou-se, assim,

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assim. Bertha K. Em 1750. mas a expressão de uma prática – compareceu nos pressupostos implícitos de uma questão do prestigiado exame vestibular da Universidade de Campinas1.. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. A geopolítica da metrópole mostrou-se. EGLER. Esses mapas apresentavam. G. não importa o quão absurda pareça quando assim posta. p. que exibia dois mapas temáticos de ocupação do território do Brasil colonial. [BECKER. O rápido movimento da mineração e a lenta expansão das fazendas e dos caminhos de gado. Abordando as etapas teóricas de produção da fronteira. assim.) o discurso nacional virtualmente rejeita essa indagação. alcançar o perímetro da pátria preexistente. no século XVII. adotando como critério o utis possidetis. 30 . e a posse de facto ao longo das bacias consolidaram e expandiram a ocupação do território muito além dos limites de jure fixados pelo Tratado de Tordesilhas. exportava charque para o Rio de Janeiro e para Havana. Claudio A.. 1994. O traçado das fronteiras atuais não continha qualquer indício que pudesse distingui-lo daquele do Meridiano. referentes aos séculos XVI e XVII. O mais notável é que a questão enfocava precisamente o processo de ocupação do espaço geográfico: a ideologia subjacente faz crer que as manchas de povoamento a ocidente de Tordesilhas buscavam já.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO simultaneamente. já em 1780. isentando o corpo da pátria de qualquer condicionamento histórico e fazendo-o emanar da natureza. o Tratado de Madri estabelecendo pela primeira vez as linhas divisórias entre os domínios de Portugal e Espanha. a soberania portuguesa e a base econômica da região que. Raffestin assinala a distinção entre três momentos: 1 Trata-se da questão nº 2 da 1ª Fase da primeira prova de 1995-1996. Brasil uma nova potência regional na economia mundo. Ela se manifesta em obras acadêmicas. acertada. Recentemente – e este não é um caso singular. Legitimou-se. a linha das fronteiras atuais do Brasil.] Texto 2 – Horogênese e Origem das Fronteiras Nacionais Qual é a origem das fronteiras brasileiras? (. o reconhecimento do direito de posse a partir do efetivo povoamento e exploração da terra. além da linha do Meridiano de Tordesilhas. a apropriação do território cujos limites permanecem grosseiramente os mesmos de hoje. produzindo a sensação da convivência de dois limites distintos no mesmo tempo histórico. isto é. livros de divulgação histórica e geográfica e nos atlas escolares. Esta noção.. 40-46. encontra-se profundamente enraizada no imaginário geográfico nacional.

trata-se da passagem de uma representação “vaga” para uma representação “clara”. etapa final do processo. constitui processo característico de uma fase anterior. mas também por um custo de energia. Pela demarcação. Se é verdade. Ao insistir exclusivamente na temática da quantidade de informação presente em cada etapa. possibilitado pelo acúmulo de um vasto conjunto de informações e refletido nos documentos cartográficos sobre os quais é traçada a linha divisória. Historicamente. ao domínio dos séculos XIX e XX. São Paulo: Ática. e reflete um grau de controle sobre o espaço de que só dispõem os Estados contemporâneos. pois freqüentemente opera pela intuição. com traçados bastante distantes entre si. a arte cartográfica conseguiria fixar com razoável precisão as longitudes e determinar o traçado aproximado da linha divisória. como vimos. a mera definição abstrata de um traçado – como no caso de Tordesilhas. delimitar e demarcar a fronteira. 2 31 . o verdadeiro debate entre os Estados relativo às fronteiras se processa na etapa anterior. C.] A demarcação da fronteira sobre o terreno. o Meridiano de Tordesilhas não foi delimitado. A linha de fronteira nasce na etapa intermediária. de Cantino (1502). na ignorância da localização verdadeira dos acidentes geográficos mencionados2. já não concerne à origem das fronteiras. através dos padres Diogo Soares e Domingos Capassi. Tentativas de delimitação foram feitas pelos mapas do catalão Jaime Ferrer (1495). ou em grande parte das decisões do Tratado de Madri de 1750 – não gera uma fronteira. 167. como quer Raffestin. e nem poderia ser. quando são elaborados os tratados de limites3. quando se forjam os Estados nacionais. num jogo de palavras pretensamente profundo. de transição. como regra. 3 Há um problema suplementar na formulação de Raffestin. a demarcação de fronteiras pertence. A delimitação. de Diogo Ribeiro (1529) e de Oviedo (1545). No outro extremo. p. Apenas muito mais tarde. mas um conflito do qual a fronteira pudesse ser o pretexto. 1993. No fundo. acaba sendo obscurecida a diferença de qualidade entre elas (a menos que. se invoque a transubstanciação da quantidade em qualidade.. confere uma materialidade sensível à linha divisória. “De fato estabelecida” significa não estar mais sujeita à contestação por parte de um dos Estados que tivesse essa fronteira em comum.. inscrita no território. A passagem de uma etapa à outra se traduz por um acréscimo de informação. nos termos vagos do tratado e na base dos conhecimentos da época. A linha fronteiriça só é de fato estabelecida quando a demarcação se processa.). Esta tarefa.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL O mapa é o instrumento ideal para definir. no século XVIII. elimina-se não um conflito geral. que apenas a colocação de marcos sobre o terreno suprime a possibilidade de conflitos que tomam o traçado divisório como pretexto. que consiste num ato de apreensão intelectual do espaço geográfico em questão. a da delimitação. Por uma geografia do poder. que continuou a demandar o trabalho de comissões de demarcadores brasileiros por nove décadas depois do estabelecimento do último importante tratado de limites. de Enciso (1518). dos peritos de Badajós (1524). [RAFFESTIN.

Cit. 6 Op. 15. Em Biologia. díade remete também ao grupo de dois. novos litígios. Fronts et Frontières.). O período colonial. Foucher4 para designar “uma fronteira comum a dos estados contíguos” – de extensões muito diversas5. o exame derruba facilmente o mito da antigüidade das linhas limítrofes do país: o Império é o grande período de horogênese – para empregar outro termo cunhado por Foucher6.709 km. O termo foi cunhado a partir da raiz grega horoi – da qual se originou “horizonte” em línguas latinas – que servia para designar os limites políticos do território da cidade. a classificação da horogênese implica uma dose razoável de subjetivismo. o termo se aplica a um par de cromossomos. A secção terrestre se decompõe em dez díades – do termo dyade. embora longe de predominante. 1991. 49.367 km. que estão subdivididos numa secção marítima de 7. que pode ser eventualmente anterior ao tratado definitivo. o papel significativo. definida em razão da fachada oceânica do Atlântico. episódios de conflito militar ou arbitragem. Paris: Fayard. A “era de Rio Branco”. cunhado por M. em francês. tenha constituído uma linha de fronteira dos territórios portugueses na América. Tomou-se por base classificatória o momento da delimitação estrutural de uma linha de fronteira. enquanto mais de metade da extensão dos limites de horogênese nacional originaram-se de FOUCHER. às vezes. respondeu por quase o dobro: 5. Um exame da configuração histórica das díades fronteiriças brasileiras revela. quanto às condições de origem. é responsável efetivamente por apenas 2. Em português. ou cerca de 17% da secção terrestre. O Império delimitou 7.948 km de fronteiras. ou pouco mais que a metade da secção terrestre do invólucro total. mas que o condicionou decisivamente. A secção marítima. Michel. pg. ainda que.062 km.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO O invólucro fronteiriço do Brasil estende-se por 23. Evidentemente. e numa terrestre de 15. desempenhado pelas guerras.719 km. classificada aqui como período nacional. pois cada díade ou segmento condensa uma história complexa que envolve. Quanto ao momento da sua delimitação. 5 4 32 . p. No seu sentido filosófico. caracterizado pela complementaridade e antagonismo. Não deixa de ser interessante sublinhar um contraste: perto de 30% da extensão dos limites de horogênese imperial originaram-se de guerras. dyade designa a reunião de dois princípios que se completam e antagonizam reciprocamente.. tido e havido como momento por excelência da configuração dos limites. sucessivos tratados contraditórios. por razões óbvias.086 km.. ou 32% (. um masculino e outro feminino. só foi plenamente incorporada como limite da projeção oriental brasileira após a extinção do tráfico negreiro e a conseqüente supressão dos múltiplos liames entre o Império e a África ocidental.

1990.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL arbitramento. Demétrio. A territorialidade colonial sobreviveu à independência1. o complexo cafeeiro exportador era o núcleo do principal mercado regional do país. uma divisão regional interna do trabalho em dimensão nacional. por isso. Departamento de Geografia da USP. Segundo eles. FFLCH-USP. Isso justifica. Dissertação de Mestrado. Regionalização e Divisão Regional do Trabalho no Brasil Nas primeiras décadas do século XX. promovendo um desenvolvimento sem precedentes da infra-estrutura de transportes e urbanização2. a pequena cidade cafeeira não apenas responde a necessidades objetivas do complexo capitalista (sendo. Ao mesmo tempo. “Ilhas” econômicas voltadas para o mercado externo desenvolviam-se no Sudeste. No Sudeste. 2 O geógrafo Demétrio Magnoli atribui a dinâmica urbanizadora característica do complexo cafeeiro paulista à existência de um circuito local de reprodução do capital. São Paulo: Moderna/Edusp. industriais e de serviços. um elemento constitutivo desse complexo) como responde ainda às necessidades próprias da vida urbana”. Nas primeiras décadas do século XX. no Nordeste e na Amazônia. 1982. de fato. p. Tinham em comum a valorização do setor externo. que concentrou a sua obra de limites predominantemente na área amazônica. 1n: MAGNOLI. As ligações internas desse “arquipélago exportador” eram frágeis: os mercados regionais tinham importância muito maior que o embrionário mercado nacional. que traçou a maior parte da extensão de fronteiras platinas. realizando um ‘crescimento para fora’. São Paulo. as percepções hispano-americanas relativas à agressividade expansionista imperial. As diversas regiões se ligavam diretamente a centros do capitalismo mundial. [MAGNOLI. que se desenvolveria à sombra do circuito internacionalizado: “O circuito cafeeiro local.] 2. Divisão Territorial do Brasil e Nova Regionalização. e a “era de Rio Branco”. o café já tinha deixado a fase escravista e ingressado na fase capitalista.” In: GOLDESNTEIN. a economia brasileira encontrava-se fragmentada regionalmente. Agroindústria e Urbanização: o Caso de Guariba. a existência desse circuito local dinamiza novas relações sociais. Contudo. originadas pelo efeito multiplicador da constituição de atividades urbanas comerciais. fica evidenciada a “divisão do trabalho” entre o Império. 1 A expressão “arquipélago econômico” foi utilizada por Lea Goldestein e Manuel Seabra para caracterizar o período agrário-exportador da economia brasileira. 33 . Demétrio. ainda que a caracterização não seja historicamente apropriada. nesse período “não existia. O corpo da pátria: imaginação geográfica e política externa no Brasil (1808-1912). 239-243. 1997. Manuel.a sua magnitude e o seu desenvolvimento -está em função das características do mercado local gerado pela crescente diferenciação interna da sociedade cafeeira e pela monetização de parte dos rendimentos dos trabalhadores rurais. Revista do Departamento de Geografia (1). 13-19. p. Lea e SEABRA. até certo ponto. Assim.

Em Minas Gerais. criando um mercado interno nacional. No Sul. em função da desorganização das exportações americanas provocadas pela Guerra de Secessão. tinha conhecido sua época de ouro algumas décadas antes. as áreas coloniais do Sul e as áreas de pecuária do Centro-Oeste ligavam-se cada vez mais ao território cafeeiro paulista. organizado em torno da cana e do algodão. baseado no controle das matas e dos seringais pelas companhias exportadoras. o surto da borracha não criou as bases para o desenvolvimento regional e sequer dinamizou um importante mercado regional. cuja importância se restringiu ao período 1870-1920. Nos cerrados do Centro-Oeste. nos arredores de Curitiba e na região serrana gaúcha. essas áreas forneciam mãode-obra para a economia paulista. produzidos com tecnologia superior e em escala industrial. As áreas não-cafeeiras de Minas Gerais. O Nordeste constituía outro pólo exportador. Os manufaturados do Sudeste. O processo de unificação econômica do espaço brasileiro teve como contrapartida a emergência 34 . A volta do algodão americano aos mercados internacionais atingira a produção nordestina. A competição desigual com as mercadorias fabricadas nas outras regiões resultou na forte concentração de capitais e infra-estrutura no Sudeste. A Amazônia sediava o pólo exportador de borracha. invadiram todo o país. Essas áreas aumentavam as suas exportações agrícolas para São Paulo. após uma prolongada decadência. uma pecuária ultra-extensiva sustentava o povoamento rarefeito e já fornecia carne bovina para o pólo cafeeiro. A industrialização acelerada dos anos 1930-1960 rompeu o isolamento dos mercados regionais. A produção canavieira. Além de alimentos. A produção algodoeira. ocasionando grande depressão. as decadentes regiões mineradoras tinham regredido para a pequena produção agrícola. vivia um surto de prosperidade ligado às transformações tecnológicas que culminaram com a substituição do engenho pela usina. Ao contrário do ciclo cafeeiro. a imigração alemã. As grandes exportações de borracha natural para a Europa e os Estados Unidos tinham atraído levas de migrantes nordestinos para a Amazônia Ocidental. O sistema de produção. impediu qualquer acumulação interna da riqueza gerada pelas exportações. italiana e eslava tinham promovido o aparecimento de importantes centros agrícolas no Vale do Itajaí.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO O complexo cafeeiro gerava economias complementares na sua periferia. ao contrário.

cujos interesses se confundiam muitas vezes com os da burguesia industrial. em última instância. e o forte impacto que a “questão regional” iria ter daí em diante na vida política e na geografia do país: (. e de suas subdivisões. (. mas também o “desaparecimento” das regiões enquanto regiões “econômico-sociais”. consequentemente. pela expansão do capitalismo industrial no Brasil. ou seja.) remoção da barreira alfandegária que existia até então entre os estados que não mais poderiam cobrar impostos estaduais 35 . e o conseqüente enfraquecimento dos poderes locais e/ou regionais representados. em outras palavras.) Foi através desse crescente papel do Estado. que se acentuaram com a década de 30. Por um lado. no crescente papel do Estado na dinâmica da economia nacional.. não só o fim de uma fase em que a economia nacional era constituída por várias economias regionais. Essa integração se deu a partir do desenvolvimento de certas áreas industriais. do novo papel que o Estado assumia na vida do país. com base na internalização de nossa economia e. por exemplo... a expansão do capitalismo no Brasil implicou a crescente integração da economia e do território nacionais.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL de uma divisão territorial do trabalho... determinadas. O “esfacelamento” da estrutura espacial em “arquipélago” significou. Este contexto ilumina a criação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). que foram sendo criadas condições para uma crescente integração econômica do espaço nacional. e a conseqüente dissolução das “economias regionais”. a de decompor o território nacional em blocos regionais oficiais. cujo dinamismo gerou uma redivisão territorial do trabalho. em 1934. que fundamentou a ótica dos “desequilíbrios regionais”. Queremos com isso dizer que a origem dessa problemática regional. a expansão do capitalismo no Brasil implicou o centralismo político-administrativo que se processou no nível do governo federal. Por outro lado. está vinculada às novas realidades nacionais. Foi o caso da (.) Torna-se difícil desvincular a definição oficial das “grandes regiões” do Brasil de 1945.. através da “política dos governadores” ou das oligarquias nacionais. na elaboração de um mercado interno unificado. das “regiões econômicosociais” vinculadas ao período primário exportador da economia brasileira dominante até fins do século XIX.

as regiões eram definidas segundo uma combinação de características físicas. vegetação e relevo. constituem. a estrutura industrial.] O IBGE apresentou a primeira regionalização oficial do território brasileiro em 1946. Outro exemplo do papel do Estado na integração econômica do espaço nacional: os grandes investimentos por ele feito em obras de infraestrutura de alcance nacional. não fornecem base conveniente para tal comparação no tempo. In: Revista Orientação. [PERIDES. também saída dos quadros do IBGE. n. emprestado da geografia regional francesa. principalmente clima. Pedro Paulo. particularmente as econômicas.9. O resultado desses estudos foi a divisão do Brasil em 360 microrregiões homogêneas. pela sua instabilidade. a rede de transportes e de fluxos. As bases naturais do território. A Divisão Regional do Brasil de 1945 – Realidade e Método. com a perda dos direitos que eles tinham de legislar sobre o comércio exterior. GUIMARÃES. Departamento de Geografia – USP. quando mais importar a comparação no espaço. o governo brasileiro tornou pública uma outra proposta de regionalização. Os poderes dos estados foram ainda mais restringidos. sobretudo para fins estatísticos e especialmente para uma divisão permanente que permita a comparação de dados de diferentes épocas. 1992. em favor do poder central. 36 . tais como nos transportes. demográficas e econômicas. de umas partes com as outras. No caso de uma divisão para fins didáticos deve ser sempre considerada como básica a divisão em regiões naturais”. Divisão Regional do Brasil. o comportamento demográfico. agrupadas em cinco grandes unidades macrorregionais. Assim como na Divisão Regional de 1946. Desta vez. As regiões humanas. consideradas mais estáveis e permanentes. Abril-Junho de 1941.S. A partir do conceito de região natural. o que facilitou o incremento do comércio regional. Fábio M. Em 1969. 3 “As regiões naturais constituem a melhor base para uma divisão regional prática. porém.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO sobre mercadorias provenientes de outras unidades da federação. a agricultura. uma boa divisão para estudo do país numa dada época. os limites interestaduais foram considerados no traçado das Grandes Regiões. As regiões homogêneas foram delimitadas a partir de estudos setoriais envolvendo os domínios ecológicos. In: Revista Brasileira de Geografia – IBGE. facilitando e possibilitando a integração acima referida que se deu a partir da “região” hegemônica industrial do Sudeste. fundamentaram essa primeira regionalização3. seis grandes macrorregiões foram identificadas através do estudo das influências recíprocas entre os diferentes fatores naturais.

os estados da Bahia e de Sergipe foram incluídos na Região Nordeste. integra o Complexo Regional Nordestino.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL Na Divisão Regional do Brasil de 1969. a tecnoburocracia ligada ao regime militar acreditava que o estudo estatístico integrado dos fenômenos naturais e sócioeconômicos forneceria subsídios à ação planejadora do Estado. concentrando 70% da população nacional e a maior parte da produção industrial e agropecuária do país. individualizados segundo critérios geoeconômicos. O núcleo triangular São Paulo-Rio de Janeiro-Belo Horizonte surgia como ímã dessa região “central”. elaborada pelo geógrafo Pedro Pinchas Geiger em 1967. criado pela Constituição de 1988. A divisão regional proposta em 1969 ainda hoje é utilizada como base estatística e para fins didáticos. passou a integrar a Região Sudeste. O critério de regionalização oficializado pelo governo militar em 1969 considera as atividades econômicas como fundamentais na diferenciação dos espaços: são elas que vão determinar as políticas de investimentos públicos e de valorização de áreas consideradas “deprimidas”. a outra metade pertence ao Complexo Nordestino. Essas modificações foram justificadas com base no processo de industrialização e de crescimento econômico do país. A concentração da indústria nos estados de São Paulo.3% do valor da transformação industrial do país e 70. os três estados detinham 80. marcada pela pobreza e pela repulsão demográfica. Nas últimas décadas. Juntos. passou a fazer parte da Região Norte. Essa delimitação não leva em conta as fronteiras entre os estados: o norte semi-árido de Minas Gerais. uma outra proposta de regionalização.1 % dos empregos do setor. Por outro lado. São Paulo. antes pertencente à Região Sul. a nova Região Nordeste despontava como região-problema. Rio de Janeiro e Minas Gerais serviu de base à delimitação de uma região “central” do ponto de vista da economia. O Nordeste se individualiza pela estagnação econômica. Influenciada pela new geography norte-americana. por exemplo. O Centro-Sul se destaca como o centro econômico do Brasil. pela repulsão 37 . com apenas uma modificação: o Estado do Tocantins. metade do território do Maranhão integra o Complexo Amazônico. vem ganhando espaço nas publicações geográficas e na imprensa em geral. A Região Sudeste foi criada em substituição à antiga Região Leste. Trata-se da divisão do país em três grandes complexos regionais.

Amapá. A estratégia de planejamento regional se intensificou na segunda metade da década de 1960. expressa nos altos índices de mortalidade infantil. definida enquanto uma das últimas fronteiras de recursos do mundo. que atualmente engloba os estados do Acre. Em 1966. Eles iluminam aspectos importantes da problemática das regiões e da divisão regional do trabalho no Brasil contemporâneo. A criação da Sudam definiu uma nova região de planejamento. incluindo a região semi-árida do norte de Minas Gerais. Antéro Duarte Lopes e Teresa Cativo Rosa apresenta uma caracterização da Região Norte. No segundo. foi a vez da Superintendência para o Desenvolvimento da Amazônia (Sudam). O primeiro deles.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO populacional e pela disseminação da pobreza. principalmente no oeste do Mato Grosso e ao longo da calha do Rio Amazonas. Textos Complementares Os textos selecionados foram extraídos dos ensaios que integram a obra Desigualdades regionais e desenvolvimento. Pará. base territorial para levantamentos estatísticos. Buarque. O incentivo a grandes projetos agropecuários. No ano seguinte. Mato Grosso. região de planejamento. Tocantins e Roraima. pelas baixas densidades populacionais e ainda pelo altamente predatório processo de ocupação recente. a Amazônia Legal. Sua área de atuação ultrapassa os limites da Região Nordeste. O Complexo Amazônico se caracteriza pela presença da floresta equatorial. foi o primeiro organismo permanente de planejamento regional brasileiro. criada em 1959. originada das pesquisas desenvolvidas na Fundação de Desenvolvimento Administrativo (Fundap) sobre o Federalismo no Brasil. Amazonas. Tânia Bacelar de Araújo assinala a 38 . O Nordeste da Sudene. além do oeste do Estado do Maranhão. Rondônia. Região e Políticas Públicas A Sudene. Essa estratégia revela a forte centralização do poder político característica desse período. ligado aos grandes projetos agropecuários e minerais. de autoria dos pesquisadores Sergio C. é diferente do Nordeste do IBGE. subnutrição e analfabetismo. foi a vez da Superintendência para o Desenvolvimento do Centro-Oeste (Sudeco) e da Superintendência para o Desenvolvimento do Sul (Sudesul). integrou as estratégias da Sudam para o desenvolvimento da região. já que todos esses órgãos de planejamento são subordinados ao governo federal.

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complexidade e a heterogeneidade que caracterizam o nordeste brasileiro. Finalmente, Osmil Galindo e Valdeci Monteiro dos Santos investigam os diferentes aspectos da expansão da fronteira agrícola na Região Centro-Oeste. Texto 1- Caracterização da Região Norte A Região Norte caracteriza-se por um macroespaço de 3,9 milhões de Km2, predominantemente dominado pela floresta tropical úmida e pelo complexo hidrológico da bacia do rio Solimões-Amazonas. Essa unidade socioeconômica e ambiental, de uma perspectiva agregada, esconde uma grande diversidade interna, formada por vários ecossistemas naturais com características distintas e condições específicas para a presença humana e a atividade econômica. Na realidade, ao contrário dos estereótipos difundidos sobre a região, a diversidade – ambiental, socioeconômica, tecnológica e cultural – é a principal característica desse amplo espaço regional brasileiro. Dominada em grande parte (84%) por floresta densa de mata alta, a região registra vastas extensões de mata de cipó, mata aberta de bambu, matas serranas e mata seca, além de florestas de várzea, igapó e manguezais. Possui ainda áreas de savana, campinas e cerca de 700 mil Km2 de cerrado. No geral, esses ecossistemas têm em comum, além da diversidade e extensão territorial, a fragilidade e a delicadeza de seu equilíbrio. “No ambiente terrestre – afirma a Sudam/PNUD1 – o ciclo de nutrientes é essencialmente baseado na cadeia trófica com pequena participação do substrato inorgânico, fazendo com que a modificação da cobertura vegetal possa ser, portanto, desastrosa: e o ambiente aquático, essencialmente lótico, embora com as águas correndo em baixas velocidades, se modificado pela implantação de barramentos artificiais, pode também sofrer irremediáveis degradações.” Como espaço geográfico de caráter político-administrativo, a Região Norte engloba sete estados da Federação: Pará, Amapá, Amazonas, Roraima, Rondônia, Acre e Tocantins2. Constitui a região de maior extensão territorial do Brasil, equivalente a mais de 45% do total nacional.

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Sudam/PNUD – Avaliação da política de investimentos do FINAM. Belém. 1990. (Mimeogr.). Essa delimitação espacial não corresponde à regionalização utilizada no processo de planejamento, que utiliza o conceito de Amazônia Legal, à qual correspondem as instituições de planejamento e instrumentos fiscais-financeiros regionais. A Amazônia Legal acrescenta, aos sete estados referidos, parte do Estado do Maranhão, correspondente à Pré-Amazônia maranhense, o Estado do Mato Grosso, em grande parte dominado pela Hiléia, e o recém-criado Estado do Tocantins (incluído, antes de 1988, como parte do Estado de Goiás).

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A Região Norte concentra uma das maiores reservas de recursos naturais do planeta, representada especialmente pela grande riqueza florestal, pela massa de ecossistemas aquáticos e pela biodiversidade. Concentra cerca de um terço das florestas tropicais úmidas da Terra, calculado em mais de 300 milhões de hectares de floresta densa e mais de 100 milhões de hectares de floresta aberta, o que abriga um total de madeiras comercializáveis da ordem de 45 bilhões de m3 de madeira em pé (Sudam/SDR3). Com uma bacia hidrográfica de quase seis milhões Km2, reúne um grande potencial hidrelétrico e de recursos pesqueiros, além de vastas áreas de várzea, com potencial agrícola ainda inexplorado. Além disso, tem grandes reservas de minérios tradicionais (ferro, bauxita, ouro e cassiterita) e de minérios com novas aplicações tecnológicas (nióbio, manganês, titânio) (Sudam/SDR). Entretanto, a mais importante riqueza da Região Norte neste final de século, dominado pela revolução científica e tecnológica, reside na diversidade dos seus ecossistemas, representada pelo material biológico de espécies vegetais, animais e microorganismos (plantas medicinais, aromáticas, alimentícias, toxinas, tanantes, oleaginosas, fibrosas, fungos, bactérias etc.). Essas espécies tornam a região uma grande usina de vida: o maior banco genético do planeta, contendo provavelmente cerca de 30% do estoque genético mundial. É uma valiosa biblioteca viva para pesquisa no terreno da genética e microbiologia e para o desenvolvimento da biotecnologia4. A grande concentração de riquezas em recursos naturais torna a região Norte uma das últimas fronteiras de recursos do mundo e, especialmente, do Brasil. Com o esgotamento de fontes internacionais e a implantação de vias de penetração econômica, a região Norte ganhou destaque nas últimas décadas e se transformou numa região de fronteira. Essa característica vai determinar e explicar as frentes de ocupação e as diversas iniciativas políticas orientadas para a integração da região Norte na expansão econômica e modernização brasileira. Por outro lado, sua amplitude, localização e acumulação de biodiversidade tornam a região Norte uma base de interesses e disputas geopolíticas. Constituindo um complexo ecológico transnacional integral e articulado pela continuidade e

Sudam/SDR - Sustainable development of the Amazon - development strategy and investiment alternatives. Belém, 1992. 4 Ver BECKER, Benha K. - Estudo geopolítico contemporâneo da Amazônia. Sudam/BASA/Suframa/ PNUD -Macrocenários da Amazônia, 1989. (Mimeogr.).

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contigüidade da floresta, juntamente com seu amplo sistema fluvial, a região Norte une vários subsistemas ecológicos da América Latina. A dimensão territorial da Amazônia brasileira lhe confere um estatuto de quase-continente, com a floresta amazônica compondo um grande maciço natural concentrado no território brasileiro (Sudam/MIR)5. A ampliação recente da consciência internacional dos problemas globais de conservação ambiental realimenta o debate e os interesses sobre as florestas tropicais úmidas, de modo que a região Norte (Amazônia, num sentido mais amplo) volta a ser objeto de pressões e disputas geopolíticas, que giram em tomo das formas de apropriação de sua riqueza – especialmente a biodiversidade – e da sua posição no controle das condições climáticas. Todos esses fatores devem ter importante peso na definição de políticas e iniciativas voltadas à região Norte, à sua ocupação econômica, à utilização de suas riquezas e ao controle político, econômico e estratégico da fronteira norte do Brasil. [BUARQUE, Sergio C.; DUARTE, Antéro Lopes e ROSA, Teresa Cativo. Integração Fragmentada e Crescimento da Fronteira Norte. In: AFFONSO, Rui de Britto Álvares e SILVA, Pedro Luiz Barros (org.). Desigualdades regionais e desenvolvimento. São Paulo: Fundap/UNESP, 1995, p.94-96.] Texto 2 – Heterogeneidade Econômica Intra-regional Nas últimas décadas, mudanças importantes remodelaram a realidade econômica nordestina, questionando inclusive visões tradicionalmente consagradas sobre a região. Nordeste região problema, Nordeste da seca e da miséria. Nordeste sempre ávido por verbas públicas, verdadeiro “poço sem fundo” em que as tradicionais políticas compensatórias, de caráter assistencialista, só contribuem para consolidar velhas estruturas socioeconômicas e políticas, perpetuadoras da miséria. Essas são apenas visões parciais sobre a região nos dias presentes. Revelam parte da verdade sobre a realidade econômica e social nordestina, mas não apreendem os fatos novos dos anos mais recentes. Não revelam a atual e crescente complexidade da realidade econômica regional e não permitem desvendar uma das mais marcantes características do Nordeste atual: a grande diversidade, a crescente heterogeneidade de suas estruturas econômicas.

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Sudam/MIR -Plano de desenvolvimento da Amazônia: 1994/97. Belém, 1993. (Mimeogr.).

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é mister ressaltar os novos focos de dinamismo da economia regional que convivem atualmente com as tradicionais áreas agrícolas ou agropastoris da região: uma análise que perceba as diferentes trajetórias econômicas dos diversos estados nordestinos e. caracterizando-as e analisando seus novos impactos e suas perspectivas de expansão1. Pesquisa recente dos professores Policarpo Lima e Fred Katz. Fred. Tendências da acumulação privada reforçadas pela ação estatal. (Mimeogr. KATZ. a percepção da realidade econômica nordestina exige uma análise mais detalhada. cabe destaque para o complexo petroquímico de Camaçari. Menos por seu dinamismo e mais pelo fato de desenvolverem modernas atividades de base tecnológica. o pólo têxtil e de confecções de Fortaleza. da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. 1993. Áreas de modernização intensa Nos anos recentes. do moderno pólo de fruticultura do Rio Grande do Norte (com base na agricultura irrigada do Vale do Açu). ora como “pólos dinâmicos”. Tais estruturas são tratadas na literatura especializada ora como “frentes de expansão”. focos de dinamismo em grande parte responsáveis pelo desempenho relativamente positivo apresentado pelas atividades econômicas na região. mais recentemente. tentou identificar melhor essas áreas. seu diferenciado desenvolvimento urbano e até as especificidades de suas economias metropolitanas. fizeram surgir e se desenvolver no Nordeste diversos subespaços dotados de estruturas econômicas modernas e ativas. ora como “manchas ou focos” de dinamismo e até como “enclaves”. 42 . das áreas de moderna agricultura de grãos (que se estendem dos cerrados baianos. Nesse sentido. quando não comandadas pelo Estado brasileiro. 1 LIMA. o complexo minero-metalúrgico de Carajás. ao sul dos estados do Maranhão e Piauí). movimentos importantes da economia brasileira tiveram repercussões fortes na Região Nordeste.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Embora traços gerais possam ser identificados. Policarpo. Economia do Nordeste: tendências recentes das áreas dinâmicas. mesmo. além do pólo agroindustrial de Petrolina/Juazeiro (com base na agricultura irrigada do sub-médio São Francisco). no que se refere a atividades industriais. e dos diversos pólos turísticos implantados nas principais cidades litorâneas do Nordeste. do pólo de pecuária intensiva do agreste de Pernambuco.). É o que se tentará nesta parte do trabalho. Dentre eles. merecem referência ainda os tecnopólos de Campina Grande (PB) e Recife (PE).

8% o seu peso na receita do ICMS gerado pela indústria de transformação. O pólo têxtil e de confecções de Fortaleza. o número de estabelecimentos têxteis do Ceará cresceu de 155 para 358. o pólo de Camaçari representa hoje uma possível base para a esperada verticalização da matriz industrial da petroquímica regional. sozinho. gerava 60 mil empregos diretos e era responsável por 12% do ICMS do Ceará (Lima e Katz. contribuiu com 13. Implementado ao longo dos anos 70. O pólo de Camaçari contribuiu também para a elevação das exportações baianas. desponta como um dos importantes centros do setor.6% do emprego gerado na indústria de transformação do Estado. contando com fontes de financiamento diversas. importou num investimento total de cerca de US$ 4. representavam 19. Embora as repercussões esperadas fossem maiores.6% da receita tributária do Estado da Bahia.5 bilhões e com o programa de ampliação previsto chegará a US$ 6 bilhões. o pólo cearense reunia cerca de três mil empresas. 43 . segundo o Sindicato da Indústria de Confecções do Ceará. 1993). em 1990. Em 1989. O parque têxtil e de confecções de Fortaleza é competitivo nacionalmente e. internacionalmente. vale registrar que. Em 1991. por sua vez. sendo de 32. os empregos diretos (25 mil).A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL O pólo petroquímico de Camaçari. Quanto aos seus impactos. O pólo de Camaçari concorreu para alterar estruturalmente a economia baiana. no caso da fiação. o pólo petroquímico de Camaçari. em virtude de sua atualização tecnológica. enquanto os ligados ao vestuário passavam de 152 para 850. Esse complexo industrial foi viabilizado com a participação de capitais privados nacionais e multinacionais e com o suporte estatal (Petrobrás). como mostram Lima e Katz constituise num dos principais pilares da crescente importância da produção de bens intermediários no Nordeste. Entre 1970 e 1985. tanto em âmbito regional como nacional. mais os ligados às prestadoras de serviços (31 mil). aumentando o peso do setor secundário de 12% em 1960 para quase 30% do PIB estadual em 1990.

bem como para o crescimento de unidades fornecedoras de aviamentos e linhas (cerca de 80% destes são comprados fora) (Lima e Katz. dado que nesses segmentos existe uma defasagem tecnológica a ser superada. Outro projeto em implantação. implantando a infra-estrutura para exploração/exportação de minério de ferro.2 bilhão. Por outro lado. O complexo minero-metalúrgico do Maranhão está associado aos desdobramentos do Programa Grande Carajás (PGC) e ao interesse do capital multinacional em diversificar suas fontes de abastecimento de matérias. impactos importantes já se notam nos anos 80: o PIB total do estado aumentou de US$ 2 bilhões em 1980 para US$ 3 bilhões em 1987. vai produzir celulose. a Estrada de Ferro Carajás (EFC) integrou-as ao circuito da produção mercantil e contribuiu para dinamizar o pólo agrícola do sul do Maranhão. tendo o produto da indústria ampliado sua participação no total estadual de 14.3% para 21. a abertura comercial pode ter implicações negativas sobre a tecelagem e as confecções. estão previstos investimentos de US$ 1. Para a montagem desse pólo. Cortando regiões anteriormente isoladas. há espaços para um reforço do setor de tecelagem (60% dos tecidos são adquiridos fora do Estado).8%.primas. e mais três mil no 44 . O encadeamento do pólo cearense com a base agrícola da região é reduzido. Contudo. Em função desses investimentos. a Companhia Vale do Rio Doce – CVRD desempenhou um dos papéis principais. em Imperatriz. devido à devastação promovida pelo bicudo na produção de algodão no Nordeste. Para esse projeto. o que já vem sendo estimulado por empresários ligados às fiações. onde a produção de soja se expande. No que se refere ao segmento das confecções. com produção estimada de 420 mil toneladas/ano. gerando diretamente 800 empregos. nos efeitos “para frente” conta-se com a perspectiva da instalação de pequenas e médias malharias que se beneficiariam das fiações já existentes. o projeto CELMAR. que tem a CVRD como sócia. 1993).MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO As perspectivas da expansão do setor evidentemente dependem da retomada do crescimento e da melhor distribuição de renda na economia brasileira.

a presença do Estado foi fundamental. na indústria maranhense. CME/PIMES/UFPE. Olímpio. tendo ainda articulações a montante via absorção de bauxita do Rio Trombetas. Nessa época. bens de capital. As articulações pelo uso do alumínio são reduzidas. enquanto o setor industrial gerava cerca de 24 mil empregos2. 45 . 226. Nesse período. da energia elétrica de Tucuruí. equipamentos de irrigação. Também nesse caso. além de cerca de 3. Trata-se de uma associação das empresas ALCOA. de soda cáustica de Alagoas. mesmo.200 empregos indiretos (Lima e Katz.).A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL reflorestamento. internacionais. pelo menos para os padrões locais. 1993). uma vez que montou a maior parte da infraestrutura de captação e distribuição de água. 1993). Além disso. Ao longo dos anos 80. quanto ao processamento local em plantas industriais. embalagens. instalaram-se na área diversas plantas industriais de ramos variados: processamento de alimentos. De forma semelhante ao caso da CVRD.200 os empregos indiretos. destinados tanto à venda in natura para os mercados de maior poder aquisitivo. hoje. estando atualmente sendo geradas um milhão de toneladas de alumina e 350 mil de alumínio. ALCAN e BILLINGTON. Ao mesmo tempo se deu a implantação de grandes projetos de médias empresas nacionais e. Recife. materiais de construção. 2 Ver GALVO. Impactos da irrigação sobre os setores urbanos nas regiões de Juazeiro e Petrolina. a Estrada de Ferro Carajás ajudou a dinamizar a instalação de usinas de ferro-gusa e de ferroliga ao longo de sua extensão. com base na implantação de grandes projetos de irrigação. além dos serviços de manutenção refletidos nos empregos indiretos. a ALUMAR é responsável por um fluxo mensal de rendimentos significativo. foram incorporados à agricultura cerca de 56 mil hectares. já que são exportados 95% do produto (Lima e Katz. na economia de São Luiz. 1993). Texto para discussão n. 100 empregos diretos. O complexo agroindustrial de Petrolina/Juazeiro surgiu nos anos 70. que resultou em projeto de investimento da ordem de US$ 2 bilhões para a produção de três milhões de toneladas/ano de alumina e 500 mil de alumínio. O projeto da ALUMAR também tem grande peso. externo inclusive. fertilizantes e rações (Lima e Katz. estimando-se em 1. O projeto criou 4. 1990. os projetos elevaram a intensidade de uso de capital.se o cultivo cada vez maior de produtos de elevado valor comercial. (Mimeogr. Constatou. de cal do Ceará.

arroz e feijão. O processo de urbanização do oeste baiano. Tiveram papel importante os subsídios governamentais3 e os investimentos públicos em infraestrutura. 46 . foram produzidas 800 mil toneladas de grãos no oeste da Bahia (soja. Recife: Sudene. Começam a desenvolver-se também atividades de produção de insumos (fertilizantes. Na safra de 1991/92. O pólo de fruticultura do Vale Açu cresce comandado por grandes empresas (com destaque para a Maísa). frigorificação de carnes. sendo 460 mil toneladas de soja). Milton. após avanços tecnológicos que viabilizaram o cultivo do produto nos cerrados. 1989. suinocultura. na forma de óleo e de farelo. Com a soja. Aí despontam atividades como avicultura. sendo exportadas cerca de 140 mil toneladas de farelo (Lima e Katz. As potencialidades agrícolas e minerais aí se 3 Ver SANTOS FILHO. implantada na área por agricultores do sul do País. Essas áreas não conhecem crise e recessão. calcário) e de equipamentos próprios para a agricultura. implanta-se na região todo um conjunto de atividades e práticas ligadas à agricultura moderna. produziu-se no Piauí e Tocantins cerca de um milhão de toneladas). Foram instaladas no Município de Barreiras duas plantas industriais de processamento de soja. Entre 1980/81 e 1985/86. milho. A expansão da economia do oeste da Bahia está associada à introdução e à rápida expansão da soja. a produção de grãos vem crescendo bastante (em 1992. que se especializam na exportação. Estima-se que 230 mil toneladas de soja sejam absorvidas no próprio Nordeste. no Estado do Piauí. a área plantada com soja expandiu 143 vezes e a produção em 848 vezes. são pontos de intenso dinamismo econômico implantados no território nordestino. 1993).MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO As áreas de moderna agricultura de grãos se estendem dos cerrados do oeste baiano ao sul do Maranhão e Piauí. enquanto crescia também a produção de arroz. como foi visto. Esses. Nos anos mais recentes. A produção também se estende para o sul do Maranhão.

como o desaparecimento da cultura do algodão. em outras áreas a resistência à mudança permanece sendo a marca principal do ambiente socioeconômico: as zonas cacaueiras. De positivo. mas não conseguem acumular: descapitalizados ao final de cada ciclo produtivo. ocorridos nos anos recentes. rendeiros e parceiros produzem. Nesse quadro. nos momentos de irregularidade de chuvas. as tradicionais “frentes de emergência” (como são chamados os programas assistenciais do Governo) alistam número enorme de agricultores (2. o algodão era a principal (embora reduzida) fonte de renda monetária dos pequenos produtores e trabalhadores rurais desses espaços nordestinos. seletiva.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL revelam com grande evidência. canavieiras e o sertão semiárido são as principais e históricas áreas desse tipo. Na ausência do produto. Nessas áreas.1 milhões de pessoas em 1993). os pequenos produtores. Quando ocorre. que traz consigo a alternativa da produção de um energético para o mercado interno (o álcool). Não é sem razão que. em geral. e as que aconteceram. a muitas famílias sertanejas. a crise do algodão (com a presença do bicudo e as alterações na demanda. não houve mudanças significativas. feijão e mandioca). mais do que na elevação dos padrões de produtividade. As zonas canavieiras expandiram-se muito. constituindo um Nordeste que não existia há poucas décadas. Permanência de velhas estruturas Ao mesmo tempo em que diversos subespaços do Nordeste desenvolvem atividades modernas. no padrão tecnológico e empresarial da indústria têxtil modernizada na região) contribui para tomar ainda mais difícil e frágil a sobrevivência do imenso contingente populacional que habita os espaços dominados pelo complexo pecuária/agricultura de sequeiro. nos anos de chuva regular. cobrindo parte da população idosa e assegurando uma renda mínima. No caso do semi-árido. o que ajuda a manter um padrão dominantemente tradicional. portanto. tiveram impactos negativos. esses pequenos produtores são obrigados a levar ao mercado o pequeno excedente da agricultura alimentar tradicional de sequeiro (milho. uma vez que a pecuária sempre foi atividade privativa dos grandes proprietários locais. 47 . a modernização é restrita. a extensão da ação previdenciária. No “arranjo” organizacional local. impulsionadas nos anos 70 pelo Proálcool. mas permanente. são incapazes de dispor de meios para enfrentar um ano seco. Mas o crescimento se faz com base na incorporação de terras (a área cultivada rapidamente duplica).

e apresentada ao País como desnecessária em muitos fóruns (inclusive nos acadêmicos) com base no “sucesso” da ocupação de novas terras. a “modernização” foi conservadora. há traços comuns importantes. São Paulo: Atlas. nas quais as velhas estruturas foram criando sucessivos mecanismos de preservação. Campinas: Instituto de Economia. “o capim expulsa a policultura alimentar e o gado tange o homem”. Primeiro. Simultaneamente. Os Agrestes. José (coord. A Terra e o homem no Nordeste. a questão fundiária agravou-se6. A questão fundiária é mais dramática e vem se agravando. As oligarquias nordestinas.) A irrigação e a problemática fundiária do Nordeste. aprofundando a crise nessa sub-região. Como a estratégia brasileira das últimas décadas foi concentrar a expansão da agropecuária em áreas novas (especialmente no Centro-Oeste). Na sábia afirmação do geógrafo Melo5. das secas também resulta o agravamento da já elevada concentração das terras em mãos de pouquíssimos produtores: “na seca. o processo de concentração fundiária tem aumentado nos anos recentes. In: Estudos Regionais. Na Zona da Mata. 6 Ver GRAZIANO DA SILVA. a resistência à mudança convive na fase mais recente com importante queda nos preços internacionais do cacau. por exemplo. 5 4 48 . n° 3. como bem explica Andrade4.1980. além de provocar outros efeitos importantes. Mário Lacerda de. inclusive na estrutura fundiária. MELO. PRON1. A hegemonia crescente da pecuária nos moldes em que foi realizada agravou a questão fundiária do Nordeste. a proposta da reforma agrária foi abandonada na prática pelos sucessivos governos militares e civis. Nos anos 60 e seguintes. proprietárias das áreas de ANDRADE. 1989. A base técnica modernizou-se. 1986. em áreas da antiga “fronteira agrícola” da região. pequenos produtores inviabilizados vendem suas terras a baixos preços e os latifúndios crescem”. portanto. e o monopólio da cana sobre as áreas cultiváveis se ampliou. Mesmo onde a irrigação introduziu uma agricultura moderna no semi-árido. como a redução da produção de alimentos e a intensificação da emigração rural. Manuel Correia. no Nordeste também se assistiu a um grande dinamismo agropecuário e agroindustrial no oeste baiano e no sul do Maranhão e Piauí. cabe destacar que são áreas de ocupação antiga. os incentivos à pecuária fortaleceram e modernizaram essa que sempre foi a atividade principal da unidade produtiva típica do sertão e do agreste nordestino. Nas áreas em que predominam a rigidez das velhas estruturas econômicosociais e o domínio político das oligarquias tradicionais da região. Recife: SUDENE. No semi-árido.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Nas áreas cacaueiras.

após tantos anos de dinamismo econômico. Nesse período. 1989). em 1985. os estabelecimentos com menos de 100 hectares (94% do total) ocupavam quase 30% da área. Nesses espaços. onde se reproduz a estrutura desigual do resto do Nordeste. os estabelecimentos de mais de mil hectares (0. Segundo o Mapa da Fome feito recentemente pelo IPEA. Em 1970. Estudo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) destaca ainda. para o mesmo período. no sentido de elevar a desigualdade da distribuição.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL antiga ocupação e sempre bem situadas nas estruturas de poder. No semi-árido.914 hectares. que “a desigualdade da posse da terra é maior que a da produtividade. a questão fundiária permanece praticamente intocada.4% do total) aumentaram sua participação na área total. sendo a diferença relativa maior no Nordeste. Ao mesmo tempo. essa participação caiu para 28%.002 hectares). de acordo com os censos agropecuários realizados pela Fundação IBGE. dois terços dos indigentes rurais do País estão no Nordeste. caracterizando maior instabilidade. a situação é agravada pela presença de “latifúndios maiores”: lá a área média do 1 % dos maiores estabelecimentos (1. 1989). Na zona semi-árida. apesar da miséria alarmante dominante nas áreas rurais do Nordeste. E. Nesse contexto. A concentração fundiária aumentou no Nordeste nas últimas décadas. as velhas estruturas socioeconômicas e políticas têm na base fundiária um de seus principais pilares de sustentação. continuavam a beneficiar-se dessa macroopção. tanto no Nordeste como no Brasil. em 1985) é superior ao tamanho médio desses estabelecimentos no resto do Nordeste (1. Esse fato reforça a hipótese de que as formas peculiares de exploração da terra no Nordeste conferem-lhe uma estrutura de posse da terra diferenciada da existente na média do Brasil. um caso ilustrativo é o de grandes fazendas que reúnem áreas de posse e áreas de diferentes escrituras. por exemplo). e se registra maior presença de grandes posseiros em comparação com o resto do Nordeste (Graziano da Silva. para evitar seu enquadramento como latifúndio por dimensão” (Graziano da Silva. como foi visto. 49 . passando de 27% em 1970 para 32% em 1985. muitas vezes registradas como imóveis distintos. a área total ampliou-se de 74 milhões de hectares para 92 milhões de hectares. o acesso à terra é feito por formas precárias (parceria.

na expansão das fronteiras agrícolas2. De fato. Essa participação não ocorreu evidentemente por acaso. aproximando-se da definição estabelecida por Sawyer. como sendo uma área potencial que oferece condições para a expansão da atividade agropecuária (funcionamento de mercados específicos.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO [ARAÚJO. Charles Curt. sistemas de transportes adequados e disponibilidade de terras a serem ocupadas). São Paulo: Fundap. como sabemos. Nordeste. Desigualdades regionais e desenvolvimento. As conseqüências mais significativas deste novo enfoque de intervenção do Estado na região foram sentidas no sul do Mato Grosso do Sul e centro-sul de Goiás.). baseado em MUELLER. o processo de ocupação do Centro-Oeste foi descontínuo. Madrid: Naciones Unidas/CIFCACEPAL-PNUMA.). As primeiras ocupações ocorreram por iniciativa privada e de forma espontânea. Ed. Pedro Luiz Barros (org. essencialmente. João Paulo dos (org. estes dois subespaços regionais experimentaram um processo de elevado crescimento econômico e populacional. a agricultura brasileira apresentou um desempenho aceitável. O Centro-Oeste: evolução. nos anos 50 e 60. A ecologia e o novo padrão de desenvolvimento no Brasil. São Paulo: Nobel. 1992. In: VELLOSO. Universidade Estadual Paulista. Ver: SAWYER. p. situação atual e perspectivas de desenvolvimento sustentável. E. Donald. A região era considerada até recentemente.] Texto 3 – A Dinâmica Econômica Desde o fim do século XVII até as primeiras décadas deste século. Foi a partir da década dos 40 que o Estado passou a intervir decisivamente no processo de ocupação da região. um dos grandes “vazios nacionais”. 1 50 . 1983. A mobilização populacional foi motivada basicamente pela apropriação de recursos naturais disponíveis e não pela ação governamental. A industrialização por substituição de importações passou a requerer da agricultura dupla atribuição: “produzir excedentes de alimentos a custos razoáveis” e “fornecer recursos para financiar o desenvolvimento urbano-industrial do centro dinâmico da economia nacional”1. apoiado. 2 A idéia de fronteira é utilizada em sentido amplo. 132-138. Nordestes: Que Nordeste? In: AFFONSO. Tânia Bacelar de. Rui de Britto Álvares e SILVA. “nucleado” e espacialmente desarticulado. da mesma forma que o Norte. 1995. Ocupación y desocupación de la frontera agrícola en el Brasil: un ensayo de interpretación estructural y espacial.

Kageyama3 (1986) caracteriza essa nova fase da ocupação do CentroOeste como: “presença maciça de grandes empreendimentos capitalistas. Ângela. como fornecedora de matérias-primas para a indústria. Verificou. e a se inserir em um processo de verticalização. a consolidação econômica do sul e centro de Goiás.se. produtividade e emprego na agricultura -uma análise regional. se dá num novo contexto: a agricultura passa a adquirir importância central na expansão e diversificação das exportações. 3 KAGEYAMA.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL decisivos estímulos governamentais. Em que pese já se encontrar em funcionamento uma estrutura comercial em plena atividade nas áreas mais acessíveis do sul de Goiás e de Mato Grosso do Sul. com a presença de grandes propriedades agrícolas. como entreposto agrícola.). acabou expulsando um bom contingente de pequenos agricultores. como a sua parte central. voltados fundamentalmente para a atividade de pecuária extensiva e de algumas culturas de exportação (soja. largamente subsidiados pelo sistema de crédito e benefícios fiscais. O impulso verificado na expansão e modernização agropecuária do CentroOeste. provocando um inesperado fluxo migrante que se estende do Mato Grosso do Sul à fronteira com Rondônia. com destaque para a sub-região dos cerrados e do imenso norte do atual Estado do Mato Grosso. no Mato Grosso do Sul. Nova Andradina e Angélica. Modernização. encontrava-se então limitado. Glória de Dourados. a partir da década de 1970 e nos anos 80 – inclusive com a viabilização dos cerrados e da área norte da região –. como importantes núcleos urbanos. e de outro. um acelerado processo de colonização na área de influência das cidades de Dourados e Campo Grande. 1986. café. o avanço para os outros espaços regionais. a exemplo de Jateí. 51 . e de Anápolis (GO). quanto pela consolidação das cidades de Brasília (DF) e Goiânia (GO). principalmente no Paraná. de um lado. provocando o surgimento de várias cidades. Durante os anos 70. arroz. a denominada modernização conservadora no campo no sul do País. algodão e milho)”. para garantir uma oferta adequada de divisas. tanto pelas possibilidades abertas pela agropecuária e agroindústria. do dia para a noite. Campinas. (Mimeogr.

notadamente na área sob a influência da Amazônia Legal – que tem um fortíssimo componente especulativo –. 1988. No caso de Goiás. verifica-se uma importante participação de grandes projetos incentivados pelo governo. num primeiro momento. 1988). Partes das microregiões de Rondonópolis e Garças experimentaram um crescimento vigoroso da agricultura voltada para os grandes mercados nacionais (Aguiar.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Com relação à área dos cerrados. as atenções voltaram-se para aquelas áreas que foram gradativamente incorporadas e passaram a ter uma articulação mais estreita com os mercados do Centro-Sul. administrados pela Sudam. No norte e noroeste de Mato Grosso deu-se forte expansão baseada em grandes projetos de colonização pública e privada e numa política de expressivos estímulos governamentais. Na viabilização econômica dos cerrados. durante muito tempo inexplorado. A Questão da produção e-do abastecimento alimentar no Brasil: um diagnóstico macro com cortes regionais. Brasília: IPEA/IPLAN. foram criados no fim da década de 1960 com objetivos claros de favorecer a inserção de grandes investimentos. foi o conjunto de estímulos fiscais e a política de crédito. o Provárzea e o Profir. Os instrumentos de incentivos fiscais. principalmente em torno da rodovia BelémBrasília. investimentos em infra-estrutura e apoio técnico. O fator fundamental para a acentuação do processo de ocupação fundiária verificada em algumas partes do Centro-Oeste. Também nessa área. passou a ocorrer presença maciça de grandes fazendas. se estimulasse o avanço da fronteira agrícola na Amazônia4. 4 Ver AGUIAR. Maria de Nazaré (arg. com certo arrefecimento da expansão amazônica e com a resolução dos problemas de fertilidade dos solos (viabilizada pelos avanços tecnológicos da Embrapa).). também devem ser destacados outros programas. com destaque para os incentivos fiscais e financeiros da Sudam e BASA. que dariam origem a fornecedores importantes de produtos agropecuários para o mercado nacional. Mas no fim dos anos 70. a falta de major conhecimento técnico que possibilitasse a sua viabilização comercial fez com que. Além do Pólocentro. PNUD. 52 . foram decisivos os estímulos do Pólocentro. com seu sistema de crédito. como o Prodecer.

assim como foram diminutos os benefícios via geração de ICM e de criação de empregos para a região. basta dizer que. Valdeci. o acirramento dos conflitos de terra. 215 no Estado do Mato Grosso e 53 em Goiás. In: AFFONSO. A especulação com a terra e o financiamento estatal facilitado definiram estreita associação entre o capital fundiário e o financeiro. nos últimos anos. Além disso. Estudo recente5 detectou que. até 1985. Manuel Correia de. de certa forma. e na porção norte – que compreende o Mato Grosso e o norte de Goiás – como sendo um locus privilegiado das frentes especulativas. pode-se caracterizar a expansão da fronteira agrícola no CentroOeste em sua parte mais ao sul – Mato Grosso do Sul e parte sul de Goiás – como vigorosas frentes de agricultura comercial. [GALINDO. tais incentivos governamentais e o caráter especulativo da apropriação de terra nessas áreas refletiram-se indiretamente nas outras regiões. notadamente em projetos de usinas de açúcar e de reflorestamento. 1989). marcadamente capitalistas e tecnificadas. e na rentabilidade dos empreendimentos. cujo tamanho médio das propriedades era de cerca de 21 mil hectares. Osmil e MONTEIRO DOS SANTOS. Pode-se afirmar que. Modernização e pobreza. 1988). no pretc. em alguns casos ultrapassando o exorbitante tamanho de 100 mil hectares (Sudam/PNUD.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL Na decisão de investimento dos projetos incentivados. Por outro lado. com suas grandes empresas agropecuárias. foram aprovados 626 projetos. Rui de Britto Álvares 5 ANDRADE. CentroOeste: Evolução recente da economia regional. 53 . ocorreu a instalação de importantes grupos empresariais oriundos do Nordeste e do Sudeste no Mato Grosso e Goiás. ao mesmo tempo. tiveram reduzido impacto no volume de produção e vendas. apenas 249 se encontravam em operação em 1985. foram mais eficientes em “gerar a concentração fundiária e de renda” (Aguiar. Em suma. provocando o “fechamento” da fronteira e. Dos 626 aprovados. Tais projetos apresentaram grau muito reduzido de operacionalização. pesava bastante a futura valorização das terras onde seria implantada a empresa. Recife. Para se ter uma idéia da magnitude do impacto das empresas incentivadas sobre a concentração fundiária na região. 1994.

A população urbana. 158-161. As diferentes regiões e estados do país apresentam uma urbanização desigual e contrastes marcantes na distribuição da população entre o meio rural e o meio urbano. A elevada participação da população urbana no conjunto da população do Sudeste expressa um estágio avançado de modernização econômica.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO e SILVA. p. que não chegava a 20 milhões em 1950. por sua vez. Expressa também o peso decisivo da economia urbana na produção regional da riqueza. apesar de geral.). registrou um crescimento extremamente fraco no período. A urbanização do Brasil.] 3. Desigualdades regionais e desenvolvimento. O processo de urbanização brasileiro apoiou-se essencialmente no êxodo rural. não é uniforme. 1995. com profunda transformação da economia rural e subordinação da agropecuária à indústria. 54 . A população rural. A urbanização do Centro-Oeste foi impulsionada pela fundação de Brasília e pelas rodovias de integração nacional que interligaram a nova capital com o Sudeste. que se manifesta em todo o país. polarizada pelas indústrias implantadas no Sudeste. BARROS. ultrapassou a marca dos 110 milhões em 1991. Todos os estados da região apresentam participação da população urbana superior à média nacional. Pedro Luiz (org. As desigualdades no ritmo do processo de urbanização refletem as disparidades econômicas regionais e a própria inserção diferenciada de cada região na economia nacional. São Paulo: Fundap/UNESP. Os Processos Recentes de Urbanização e a Rede de Cidades no Brasil O processo de urbanização conheceu uma aceleração notável no país desde a década de 1950. A constituição de uma economia de mercado de âmbito nacional. passando de cerca de 33 milhões em 1950 para pouco menos de 38 milhões em 1991. incentivado pela modernização técnica do trabalho rural e pela concentração crescente da propriedade fundiária. foi o pano de fundo desse movimento urbanizador.

A industrialização do país percorreu caminhos 55 . Tocantins e Rondônia. ancorada no parcelamento da propriedade da terra nas áreas de planaltos. pois o afluxo de populações para a região nas últimas décadas. A persistência de uma elevada participação da população rural decorre da estrutura minifundiária e familiar tradicional da faixa do Agreste. que transferia populações do campo nordestino para as cidades dos estados de São Paulo. mais de 40 milhões de pessoas vivem nas metrópoles do país. concentrador: gerou cidades grandes e metrópoles. A Região Sul viveu um processo de urbanização lento e limitado até a década de 1970: a estrutura agrária familiar e policultora. em função das particularidades do setor agrícola regional. camponeses expulsos do meio rural formaram fluxos migratórios que se dirigiram para as novas frentes pioneiras do Centro-Oeste e da Amazônia. que retém a força de trabalho no campo e controla o ritmo do êxodo rural. como conseqüência da abertura de novas frentes pioneiras. Depois. só existiam duas cidades com mais de 500 mil habitantes. O Estado do Mato Grosso do Sul apresenta um nível de urbanização similar ao dos estados do Sudeste. em 1991. Atualmente. e a Amazônia. o desenvolvimento insuficiente do mercado regional limita a atração exercida pelas cidades. Em 1940. Contudo. O processo de urbanização brasileira foi. de outro. restringia o êxodo rural. Simultaneamente. de soja ou cereais) acentuou a tendência urbanizadora. A baixa capitalização e produtividade do setor agrícola limita a repulsão da população rural.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL de um lado. o crescimento relativo da população urbana tem sido mais lento. Na Região Norte. A ocupação do espaço rural por grandes propriedades (fazendas de gado. orientou. Minas Gerais e Rio de Janeiro. pelo menos até a década de 1980. A tendência à metropolização foi um reflexo das condições em que ocorreu a modernização da economia do país. houve um intenso êxodo rural no Nordeste que não transparece nas estatísticas regionais: trata-se do movimento migratório para o Sudeste. No Nordeste. o movimento urbanizador foi menos intenso. elas já eram 25. a mecanização acelerada da agricultura e a concentração da propriedade da terra impulsionaram a transferência acelerada da população rural para o meio urbano. São esses fluxos que explicam a significativa parcela de população rural em estados como Pará.se para áreas rurais. essencialmente.

” KOWARICK. De fato. está conduzindo ao aparecimento da primeira megalópole do país. A presença de barreiras físicas muito nítidas – a Serra do Mar. e a Serra da Mantiqueira. Através do Vale do Paraíba. na região liderada pela cidade de São Paulo.) São Paulo. via de regra. a leste. especialmente. Rio de Janeiro: Paz e Terra. particularmente de origem estatal. Baseou-se em investimentos volumosos de capital. mas também como espaço construído capaz de fazer circular o valor ali criado. Barra Mansa e Volta Redonda configuram um espaço de fluxos cada vez mais intensos. e outras medidas altamente atrativas. o Estado investiu pesado em energia. da força de trabalho e do mercado em determinados pontos selecionados do território.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO muito diferentes daqueles da Revolução Industrial européia. adensa-se o espaço urbanizado vinculado diretamente às cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro. a oeste – aprofunda a tendência à formação de uma verdadeira megalópole. estimulados pelos mercados consumidores materializados nas metrópoles. Cresce. de empresas transnacionais ou de grandes grupos privados nacionais. o peso relativo deste núcleo urbano não só enquanto espaço receptor de investimentos diretos estrangeiros. crescendo e diversificando a sua economia. A região metropolitana representa um produto característico desse tipo de urbanização concentradora que o país experimentou. no espaço geográfico de expansão destas duas principais aglomerações urbanas brasileiras. transportes e insumos básicos. ao criar condições gerais e infra-estrutura necessárias para o pleno funcionamento do capital industrial no setor transnacionalizado de consumo durável. 1988. O processo de metropolização. provisão de infra-estrutura. Essa associação provou ser bastante custosa em termos de gastos públicos e pressão inflacionária. A concentração econômica determinou a aglomeração espacial. Um número reduzido de cidades tornou-se pólos de atração populacional. Guaratinguetá. na forma de financiamento direto. com grande apoio no capital doméstico. assim. 1 Lúcio Kowarick e Milton Campanário analisam o crescimento e a importância industrial da Região Metropolitana de São Paulo a partir deste prisma: “Os investimentos diretos das empresas multinacionais feitos. A Grande São Paulo e a Grande Rio de Janeiro constituem os exemplos mais importantes do processo metropolizador brasileiro. A implantação de uma economia de tipo monopolista refletiu-se na concentração da produção. concentrando estes recursos. que continua a se desenvolver. In: As Lutas Sociais e a Cidade. Metrópole do Subdesenvolvimento Industrializado. provenientes do Estado. incentivos fiscais. Lúcio (org. Taubaté. gerando a metropolização1. 56 . Importantes centros industriais como São José dos Campos.

Abril-Junho de 1941. Roberto Lobato. Em função dessa diferença na freqüência de consumo dos diversos produtos industriais e dos serviços. de acordo com o geógrafo Roberto Lobato Corrêa: O papel mais importante de uma cidade é o de distribuir produtos industriais e serviços para as empresas agrárias. e para a população de uma área externa à cidade – a sua região de influência. 57 . no entanto. verifica. O grau de importância de cada cidade depende da extensão do mercado atingido pelas mercadorias e serviços que ela distribui.se uma diferença na respectiva localização: aqueles produtos industriais e serviços de consumo muito freqüente são encontrados em pequenas cidades. extremamente expressivo. e os de consumo raro apenas nas grandes cidades.] O Brasil possui duas metrópoles nacionais. portanto.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL A rede de cidades no Brasil A importância das cidades na organização do espaço deriva da sua capacidade de oferecer mercadorias e serviços para um mercado consumidor amplo. servindo a todo o mercado consumidor do país. enquanto aqueles outros de consumo menos freqüentes são encontrados em cidades médias. apresentam entre si diferenças. vai se recorrer mais freqüentemente à banca de jornais do que a uma livraria. de fácil acesso a uma grande população pelas vias de circulação que para lá convergem. industriais e comerciais. em função do qual vai adquirir um equipamento funcional. Essa posição ajuda a compreender seu crescimento populacional. mas também à freqüência de consumo. do mesmo modo que se procura com maior freqüência um médico de clínica geral do que um especialista em doenças do coração. Assim. Os produtos industriais e os serviços. hospitais e escolas – tornando-se assim o centro de atração para esse área externa. Assim. [In: CORRÊA. São Paulo e Rio de Janeiro. Essas cidades estão no topo da hierarquia urbana. cada cidade tem. não só quanto à natureza. Regiões de Influência Urbana. Assim.estabelecimentos comerciais e industriais. um mercado consumidor externo a si mesmo. In: Revista Brasileira de Geografia. bancos. caracterizada pela dependência de cidades que distribuem produtos industriais e serviços cada vez de menor freqüência de consumo. maior que o do próprio núcleo urbano. passa-se a noção de hierarquia urbana. aglomerações cuja influência se manifesta em todo o território.

Recife. Ao contrário. com ausência de comunicações fáceis entre as metrópoles. ao longo da história brasileira. Juntamente com São Paulo e Rio de Janeiro. não chegou a se tornar sequer uma metrópole regional completa. mais ampla que o território dos seus estados. Num segundo 58 . Curitiba. Quando o Brasil urbano era um arquipélago. a capacidade de polarização externa da cidade foi. Texto 1 – A “Dissolução” da Metrópole Houve. A trajetória histórica da ocupação do território – marcada pela concentração populacional numa faixa próxima ao litoral – determinou a localização da maior parte das metrópoles. Recife e Fortaleza). direcionado basicamente para o próprio mercado urbano. Belém – a metrópole que influencia quase todo o vasto espaço amazônico – é um porto marítimo situado na foz do Rio Tocantins. No Sudeste e no Sul. sua chamada zona de influência. as metrópoles regionais (Salvador. Brasília. polarizando regiões de influência e redistribuindo bens e serviços para um mercado imenso e diversificado. Em conseqüência. elas estruturam o espaço nacional. Salvador. Goiânia. Porto Alegre. A cidade não desenvolveu um setor de serviços voltado para o mercado regional. enquanto Manaus é um porto fluvial interligado ao oceano. uma metrópole interior. No Nordeste. seu aparato de distribuição de bens e serviços conheceu um crescimento endógeno. claramente.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO As metrópoles regionais são aglomerações que exercem uma influência vasta. e estão subordinadas economicamente apenas às metrópoles nacionais. muito precária. No Centro-Oeste. Fortaleza e Belém são as cidades que funcionam como metrópoles regionais. Belo Horizonte. quatro momentos do ponto de vista do papel e da significação das metrópoles. No Norte. Texto Complementar No texto abaixo. a capital política e administrativa do país. só uma cidade. apenas Belo Horizonte é. estas apenas comandavam uma fração do território. destacando as múltiplas relações que ela estabelece com o território nacional. funciona como metrópole regional. o geógrafo Milton Santos analisa os impactos da revolução técnico-científica na problemática urbana e discute a transfiguração de São Paulo de metrópole industrial em metrópole informacional. desde o início.

A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL momento. um mercado hierarquizado e articulado pelas firmas hegemônicas. mas segmentado. em primeiro lugar. ao longo de sua história territorial. atribuindo novas funções às cidades de todos os tamanhos. todavia. tanto agrícola quanto industrial. à crise desse mercado. de que dependem a concepção e o controle da produção. Pode-se dizer. ainda que a pobreza persistente da população assegure a permanência de pequenos comércios e serviços. a respectiva Região Metropolitana e seu entorno. ganha. mercado e território. praticamente. As novas formas de um trabalho intelectual mais sofisticado. economicamente e geograficamente. que. nacionais e estrangeiras. a própria região concentrada. Com o fim da segunda guerra mundial. no nível nacional e estadual ou regional. depois. A comercialização tende a se concentrar. as tendências à dispersão começam a se impor e atingem parcela cada vez mais importante dos fatores. Em outro sentido. são. privilegiando a cidade de São Paulo. expressões particulares segundo os períodos históricos. único e diferenciado. com estabelecimentos dispersos. há um movimento de concentração das formas de intercâmbio. ou ainda melhor. A nova divisão do trabalho territorial atinge. todavia. distribuídos em áreas mais vastas e lugares mais numerosos. também. também. cada vez mais numerosas. presentes somente em poucos pontos do espaço. há reforços pela formação de um mercado único. uma difusão social e geográfica do consumo em suas diversas modalidades e. Um terceiro momento é quando um mercado único nacional se constitui. que é um mercado único. são sinônimos. E o quarto momento é quando conhece um ajustamento: primeiro à expansão e. onde a acumulação de atividades intelectuais ligadas à nova modernidade assegura a possibilidade de criação de numerosas atividades produtivas 59 . O movimento de concentração-dispersão. Um não se entende sem o outro. mas também à sua circulação. sejam objeto de dispersão geográfica. mas a integração territorial é. limitada ao Sudeste e ao Sul. ligadas ao processo direto da produção. as tendências concentradoras atingiam número maior de variáveis. a desconcentração da produção moderna. que comandam o território com apoio do Estado. no caso do Brasil. Recentemente. posteriormente. Não é demais lembrar que mercado e espaço. a integração do espaço brasileiro e a modernização capitalista ensejam. concentradas. ainda que outras formas de trabalho intelectual. tanto no âmbito material quanto no intelectual. próprio da dinâmica territorial em todos os tempos.

ao contrário do que muitos foram levados a imaginar e a escrever. graças a uma seletividade ainda maior no uso das novas condições de realização da vida social. mas o fazia com defasagens e perdas. na sociedade informatizada atual nem o espaço se dissolve. ao longo do tempo. parte considerável de sua operação depende de outras variáveis geograficamente concentradas. como metrópole irrecusável para todo o território brasileiro. de modo complementar e contraditório. tempo do relógio. abrindo lugar apenas para o tempo. e no mesmo momento. mas do tempo social. temos tempos subalternos e diferenciados. Antes. a metrópole estava presente em diversas partes do País.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO de ponta. Os lugares seriam. e ao mesmo tempo. para o campo e para a periferia. Mas. marcados por dominâncias 60 . nodal ou não. por isso mesmo. por causa de uma hierarquização do tempo social. lugares funcionais da metrópole. Mas o tempo que está em todos os lugares é o tempo do Estado e o tempo das multinacionais e das grandes empresas. a metrópole está presente em toda parte. Em cada outro ponto. Atividades modernas presentes em diversos pontos do País necessitam de se apoiar em São Paulo para um número crescente de tarefas. paralelamente. todavia faltavam as condições de instantaneidade e de simultaneidade que somente hoje se verificam. São Paulo fica presente em todo o território brasileiro. mesmo. E. Agora. Se. todas as localizações tornam-se funcionalmente centrais. com dispersão das mensagens e ordens. ambos esses fatos garantindo-lhe preeminência em relação às demais áreas e lhe atribuindo. através das metrópoles. cada vez mais no período atual. novas condições de polarização. o espaço se tornava mais e mais unificado e mais fluido. nem este se apaga. de modo dialético. A definição do lugar é. a de um lugar funcional à sociedade como um todo. Digamos que o núcleo migrava. da rede urbana ou do espaço. O que há é uma verdadeira multiplicação do tempo. A simultaneidade entre os lugares não é mais apenas a do tempo físico. por isso mesmo. sem dúvida. uma vez mais. Se muitas variáveis modernas se difundem amplamente sobre o território. graças a esses novos nexos. geradores de fluxos de informação indispensáveis ao trabalho produtivo. É desse modo que São Paulo se impõe como metrópole onipresente e. dos momentos da vida social. Dispersão e concentração dãose.

“chega” a outra cidade com a mesma celeridade. p. completamente diferente da metrópole industrial. nela sediadas. Porque as defasagens são diferentes para as diversas variáveis ou fatores é que os lugares são diversos. Boletim de Geografia Teorética. em suas diversas etapas. sofrem defasagens e se submetem a hierarquias (em relação ao emissor e controlador dos fluxos diversos). pela hierarquia das informações. no mesmo tempo do relógio. As questões de centro-periferia. hierarquia com nova qualidade. Trata-se de fato novo. Os principais pontos de controle da economia transacional no espaço brasileiro. nova hierarquia se impõe entre lugares. Porque há defasagens. do funcionamento da sociedade econômica e da sociedade política. como precedentemente colocadas. 61 . Esta é a grande cidade cuja força essencial deriva do poder de controle. 1 CORDEIRO. Cordeiro1. Nenhuma dispõe da mesma quantidade e qualidade de informações que a metrópole. sobre a economia e o território. Antes. são vividos por cada lugar. entre os diversos pontos do território. Helena K. Hoje.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL específicas. e a das regiões polarizadas. uma nova realidade do sistema urbano. a metrópole está presente em toda parte. além da metrópole. Com isso. Nenhuma cidade. aliás. cada qual desses lugares é hierarquicamente subordinado. 153-196. n.1987. Informações virtualmente de igual valor em toda a rede urbana não estão igualmente disponíveis em termos de tempo. assim. Está aí o novo princípio da hierarquia. instantaneamente. agora. Sua inserção no sistema mais global de informações de que depende seu próprio significado depende da metrópole.. e um novo obstáculo a uma inter-relação mais frutuosa entre aglomerações do mesmo nível. de atividades hegemônicas. no mesmo momento.. Os momentos que. pois. Trata-se. diante de nós. e. a metrópole não apenas não chegava ao mesmo tempo em todos os lugares. Temos. ultrapassadas. da qual necessitam para o exercício do processo produtivo. o fenômeno da “metrópole transacional” de que fala Helena K. ficam. condição. 31-34. assim. anos 16-17. na maior parte das vezes. de verdadeira “dissolução da metrópole”. capazes de manipulação da informação. como a descentralização era diacrônica: hoje a instantaneidade é socialmente sincrônica. Rio Claro. com base em diferenciação muitas vezes maior do que ontem.

somente a metrópole industrial tem condições para instalar novas condições de comando. Retomemos o exemplo. tem. beneficiando-se dessas precondições para mudar qualitativamente. (Mimeogr. set. In: Relatório de pesquisa para a Finep. ao mesmo tempo e imediatamente.. O fato é que estamos diante do fenômeno de uma metrópole onipresente. O papel de comando é devido a essas forças superiores de produção não-material. Universidade de São Paulo.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO O dado organizacional é o espaço de fluxos estruturadores do território e não mais. se a compararmos com o resto do País. em Belém dez dias depois. Sérgio. todavia. O locus dessas atividades privilegiadas. No passado. em Manaus trinta dias depois. as atividades periféricas e impondo novas questões para o processo de desenvolvimento regional. ao seu talento e em seu proveito. de desorganizar e reorganizar. não é essa função metropolitana que atualmente assegura a São Paulo papel diretor na dinâmica espacial brasileira. pelos seus vetores hegemônicos. Nas condições de passagem de uma fase a outra. por causa de suas atividades quaternárias de criação e controle. uma vez que os diversos agentes sociais e econômicos não utilizam o território de forma igual. Isso representa um desafio às planificações regionais. como na fase anterior. elas próprias sendo conseqüência da integração crescente do País a novas condições da vida internacional. entre outras coisas. pois agora são os fluxos de informação que hierarquizam o sistema urbano. praticamente sem competidor no País. ao mesmo tempo. vale a pena insistir sobre essa diferença pois em ambos os momentos a metrópole é a mesma: São Paulo. uma espécie de segmentação do mercado enquanto território e uma segmentação vertical do território enquanto mercado. em Salvador três dias depois. uma vez que as grandes firmas que controlam a informação 2 Ainda que o peso da atividade industrial seja muito expressivo na aglomeração paulistana. Esse papel é. tão diferentes da produção industrial. de modo figurativo. No caso brasileiro. A metrópole informacional assenta sobre a metrópole industrial. Foi a partir dessa base que a capital industrial se transformou em capital informacional acumulando em períodos consecutivos papel metropolitano crescente. muito que ver com o fato de que essa mesma aglomeração paulistana era e continua sendo um centro importante de uma atividade fabril complexa. O Computador no território brasileiro. espaço onde os fluxos de matéria desenhavam o esqueleto do sistema urbano2. São Paulo hoje está presente em todos os pontos do território informatizado brasileiro3. São Paulo sempre esteve presente no País todo: presente no Rio um dia depois. 3 Ver GERTEL. 1986.). o que traz como conseqüência. GERTEL. Prova de que sua força não depende da indústria é que aumenta seu poder organizador ao mesmo tempo em que se nota uma desconcentração da atividade fabril. In: COLÓQUIO DE GEOGRAFIA BRASILARGENTINA-URUGUAI. capaz.. Sérgio. 62 . 1988. A informatização e o processo urbano no Brasil. mas já não é a mesma metrópole.

Entretanto. ed. Milton. O espaço é assim desorganizado e reorganizado a partir dos mesmos pólos dinâmicos. 1994. p. 2. quando a 63 . A urbanização brasileira. tinha quase 30% do valor da produção. observa-se uma tendência incipiente de desconcentração industrial. enquanto as regiões Norte e Centro-Oeste apresentam uma participação apenas marginal no Setor Secundário do país. [SANTOS. O Processo de Industrialização e as Tendências Atuais da Localização da Indústria no Brasil O processo de industrialização brasileira gerou uma profunda concentração espacial. Em 1960. Apesar dela. mas também do social. Amazonas e Ceará.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL e a redistribuem ao seu talante têm papel entrópico em relação às demais áreas. São Paulo: Hucitec. A indústria da Região Sudeste é responsável por quase dois terços da força de trabalho e mais de dois terços do valor da produção. A isenção fiscal oferecida pelos governos estaduais assim como as diferenças regionais de custos da mão-de-obra – significativamente menores nos estados do Nordeste – ajudam a entender esta tendência recente. 89-93. manifesta no intenso crescimento da produção em estados como Paraná. Bahia. somada ao Rio de Janeiro. neste período científico-técnico. ocorrida no interior da economia cafeeira exportadora – ainda é marcante. e somente elas podem realizar a negentropia. O Estado de São Paulo concentra pouco menos que a metade do valor total da produção industrial do país. A participação do Rio de Janeiro na indústria brasileira apresenta uma redução mais intensa e também mais antiga. Em 1920.] 4. nas últimas décadas. As regiões Sul e Nordeste aparecem muito atrás. Santa Catarina. que esteja não apenas a serviço do econômico. O fato de que a força nova das grandes firmas. a antiga Guanabara. o predomínio paulista no Setor Secundário nacional – cujas raízes encontram-se na etapa inicial da industrialização. traga como conseqüência uma segmentação vertical do território supõe que se redescubram mecanismos capazes de levar a uma nova horizontalização das relações.

encontra-se um complexo heterogêneo de atividades secundárias que envolve indústrias modernas e tradicionais. bebidas e alimentos). atraindo capitais e empresários. e hoje ela não chega a 10%. O fluxo imigratório orientado inicialmente para o café gerou uma classe operária numerosa. o centro dos negócios de exportação e importação e das atividades bancárias. A cidade de São Paulo transformou-se no principal pólo industrial do país já nas primeiras décadas do século. desde logo. ao longo dos bairros 64 . em grande parte. Mas. constituída por trabalhadores italianos e espanhóis. O crescimento econômico do interior abria vastos mercados consumidores para os manufaturados que começavam a ser fabricados na capital. A economia cafeeira de exportação gerou as condições para o arranque industrial da cidade. a participação fluminense já tinha caído para 16%. ocorre significativo crescimento da participação de Minas Gerais no Setor Secundário nacional. Esse crescimento deve-se. Nesse primeiro surto industrialista. à concentração de siderúrgicas de grande porte no Vale do Aço e à formação de importantes distritos industriais nos arredores de Belo Horizonte. As primeiras áreas industriais situaram-se junto aos eixos ferroviários que ligavam a cidade ao Rio de Janeiro (E. no nó de ligação entre o leque de ferrovias que se abria para o oeste cafeeiro e o porto de Santos. vestuário. o sul de Minas Gerais. até Vitória. No interior dessa área. o Rio de Janeiro e avançando por todo o sul do Espírito Santo. O espaço industrial da Região Sudeste O triângulo Rio-São Paulo-Belo Horizonte é o grande pólo industrial do país. nessa região. A capital tornou-se. São Paulo encontrava-se em situação geográfica estratégica. calçados. Central do Brasil). predominaram as fábricas de bens de consumo não-duráveis (têxteis.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO capital foi transferida para Brasília. fabricação de bens de consumo e de bens de produção. F. além das pequenas metalúrgicas e químicas. abrangendo o leste do Estado de São Paulo. A redução da participação de São Paulo e do Rio de Janeiro explica a diminuição da participação geral do Sudeste.

Ribeirão Preto. os municípios de Santo André. as indústrias químicas. Ao longo do eixo da Via Anchieta. Entre os eixos das vias Raposo Tavares e Castelo Branco. O interior do estado apresenta um crescimento industrial muito maior que a metrópole. Brás e Moóca. envolvendo particularmente os municípios de Osasco e Carapicuíba. O caráter terciário da metrópole é cada vez mais evidente. São José dos Campos. Com elas. o crescimento industrial foi impulsionado por fatores históricos diferentes. uma significativa aglomeração industrial foi criada no município de Guarulhos. No eixo da Via Dutra. O chamado ABCD transformou-se na maior aglomeração industrial da América Latina e no berço do principal pólo do movimento sindical brasileiro. na direção da Baixada Santista. Santos e Cubatão – gerou mercados consumidores e reuniu força de trabalho para o deslanche da industrialização. São Caetano do Sul e Diadema passaram a abrigar as grandes montadoras automobilísticas implantadas no governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961). Esse processo é conseqüência da expansão econômica do interior paulista. tanto quanto à absorção da força de trabalho como quanto ao valor da produção. o espaço paulista vem conhecendo um processo de dispersão industrial. a cidade era a capital do país e abrigava 65 . Sorocaba. São Bernardo do Campo. A desconcentração industrial no Estado de São Paulo reflete também a tendência ao deslocamento de novas empresas para fora das localizações metropolitanas. No pós-guerra. No início do século. também surgiu uma região fabril. na direção do Rio de Janeiro. O crescimento dos núcleos urbanos regionais – como Campinas. e junto aos trilhos da Sorocabana. na Lapa. A implantação de infra-estruturas energéticas e vias de transporte modernas criou novas localizações favoráveis para as indústrias. instalaram-se as fábricas de autopeças e as metalúrgicas e. que por muito tempo se fundamentou na agricultura e na agroindústria. Os eixos rodoviários substituíram as linhas de trem. No Rio de Janeiro. a indústria transbordou os limites do município da capital e surgiram centros industriais de grande porte nos municípios vizinhos.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL do Belenzinho. atraindo as novas fábricas que se implantavam. Nas últimas décadas. mais tarde.

Central do Brasil. O processo de expansão espacial da indústria seguiu uma trajetória similar à de São Paulo. iniciada em 1941. Em Volta Redonda e Barra Mansa. enquanto a zona sul. e contando com farto abastecimento de água. No Vale do Paraíba paulista. Duque de Caxias. Essa região desenvolveu-se como um tradicional centro têxtil. A industrialização do Rio de Janeiro apoiou-se na dimensão do mercado consumidor formado pela aglomeração urbana e nos atrativos oferecidos pela presença dos órgãos de governo e empresas estatais. enquanto São Paulo não ultrapassava os 100 mil. transformaramse em importantes distritos industriais. As linhas férreas definiram regiões industriais na zona norte da cidade. a CSN. Mas não polarizava uma economia de exportação com o dinamismo das plantações cafeeiras paulistas. com cerca de 700 mil habitantes. Mais tarde. situada no eixo da Via Dutra e da E.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO o maior porto marítimo nacional. com mais de 1 milhão de habitantes. O sinal pioneiro da industrialização do Vale foi a implantação da primeira siderúrgica estatal. os municípios da região tornaram-se localizações privilegiadas 66 . Outra destacada concentração industrial fluminense localiza-se na Zona Serrana. na orla litorânea. que tinha sido em meados do século XIX o foco das plantações cafeeiras escravistas e vivera depois uma profunda decadência. Situados no caminho que liga os principais mercados consumidores do país. São João do Meriti e Nilópolis –. é a maior aglomeração industrial da periferia do Rio. durante as décadas de 1960 e 1970. Contava com mais de 1 milhão de habitantes. junto à rodovia e à ferrovia. A formação das metrópoles de São Paulo e do Rio de Janeiro estimulou a expansão industrial no Vale do Paraíba. Teresópolis e Nova Friburgo. os municípios da Baixada Fluminense. é um pólo químico organizado em torno da REDUC. que conquistou parcelas expressivas do mercado nacional. inúmeras cidades polarizadas por São José dos Campos e Taubaté transformaramse em núcleos industriais. Duque de Caxias. na parte fluminense do Vale. F. Nova Iguaçu. abrigava os bairros residenciais de alta renda. na Grande Rio – como Nova Iguaçu. a CSN impulsionou o aparecimento de estabelecimentos metalúrgicos. o que determinou um crescimento industrial muito menos vigoroso. em cidades como Petrópolis.

com cerca de 400 mil habitantes. instalou-se no final da década de 1970 a Fiat Automóveis. Siderúrgica Belgo-Mineira. Após a Revolução de 1930. Contagem. Sua origem está ligada a um projeto estratégico das elites mineiras. destinado a reverter o processo de decadência econômica de Minas Gerais. Em Betim. vultosos investimentos estatais resultaram na criação de outras usinas gigantescas e na transformação do “Vale do Aço” na maior concentração siderúrgica do país. abriu a via de industrialização das cidades do Alto Vale do Rio Doce. Antes da Segunda Guerra. Belo Horizonte nasceu em 1897. A luta pela implantação da siderurgia de grande porte envolveu a valorização das vastas reservas de minérios de ferro e manganês do chamado Quadrilátero Central.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL para estabelecimentos ligados à produção de bens intermediários e bens de consumo duráveis. Décadas depois. a implantação da Cia. A produção industrial do Nordeste concentra-se em torno das metrópoles regionais (Salvador. Recife e Fortaleza). com a formação de núcleos fabris modernos e diversificados nos municípios da Região Metropolitana. abrigando um importante parque metalúrgico e químico. as elites mineiras direcionaram a sua atenção para o desenvolvimento industrial do estado. estende-se uma importante região industrial. a mais expressiva concentração industrial corresponde à Zona Franca de Manaus. transnacional. 67 . No Norte. de Porto Alegre a Curitiba. Outras concentrações industriais Na Região Sul. primeira montadora transnacional situada fora do Estado de São Paulo. destinada a garantir a instalação de um vasto parque siderúrgico estatal no estado. marcada pela predominância de ramos tradicionais. é o principal desses núcleos. Essa nova orientação materializouse por meio da concessão de incentivos diversos para a atração de investimentos industriais privados e também por uma pressão permanente sobre o governo central. As políticas de concessão de incentivos para o capital privado resultaram na vigorosa industrialização dos arredores de Belo Horizonte. como cidade planejada.

italianas e eslavas trouxe artífices e elementos qualificados. Blumenau e Brusque. 68 . O primeiro gira em torno da Refinaria Landulfo Alves que gera matérias-primas para empresas petroquímicas e químicas estatais. Lá. Entretanto. como também com a agroindústria de óleos vegetais disseminada pelas principais cidades do interior da região e. cujos alicerces repousam sobre os incentivos fiscais fornecidos pela Sudene e na implantação de um setor hidrelétrico de porte na Bacia do São Francisco. ainda. Um empresariado regional apareceu nas áreas coloniais. Na Região Nordeste. A presença de mão-de-obra abundante e barata representa incentivo suplementar. estabelecido em Curitiba e Ponta Grossa. essa estratégia industrializante se manifestou com o surgimento do pólo petroquímico de Camaçari e do distrito industrial de Aratu. cresceu e conquistou o mercado nacional. Nas cidades gaúchas de colonização alemã próximas a Porto Alegre. implantados nas cidades de Caxias do Sul e Bento Gonçalves. O Vale do Itajaí ilustra esse modelo de industrialização. inicialmente rudimentar. artigos de couro e calçados. é outra ilustração desse processo.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO A expansão industrial do Sul apoiou-se fortemente em fatores regionais. a indústria moderna é produto do planejamento governamental. privadas e transnacionais. O importante ramo de madeira e mobiliário do Paraná. a principal concentração industrial complexa e diversificada do Sul localiza-se na Grande Porto Alegre. onde o município de Canoas se destaca como pólo metalúrgico. Outro exemplo de expansão de uma indústria local é oferecido pelos estabelecimentos vinícolas da Serra Gaúcha. É o que ocorre não só com a fabricação de vinhos. O fluxo imigratório que formou zonas de colonização alemãs. químico e de material elétrico. Uma característica do modelo industrial do Sul é o predomínio das indústrias dependentes de matérias-primas vegetais e agropecuárias. Em Salvador. O complexo têxtil dessa área. com os frigoríficos e indústrias de fumo do Rio Grande do Sul. de louças e brinquedos. em cidades como Joinville. O segundo caracterizase pelo predomínio de fábricas de bens de consumo duráveis atraídas pelos incentivos da Sudene. como Novo Hamburgo e São Leopoldo. estabeleceram-se fabricantes de artigos de couro e calçados. desenvolveram-se fábricas têxteis.

sob a supervisão da Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus). A modernização da infraestrutura regional e mecanismos de isenção fiscal estão na base do novo ciclo industrializante que caracteriza a região. Verifica-se uma tendência similar no setor calçadista. como indica a recente formação de um consórcio entre a CVRD. pouco contribuindo para elevar os níveis de vida e emprego da população das metrópoles regionais. o processo de industrialização vem ganhando novos contornos. é tributário da conjunção dos mecanismos de incentivos fiscais e do custo da mão-de-obra. Na última década. Cabo e Paulista. A isenção total de impostos sobre importação de máquinas. em menor escala. significativamente menor do que nas regiões industriais do Centro-Sul. A estratégia de modernização industrial do Nordeste apoiou-se na idéia de transferência de capitais externos à região. e os projetos de transformar a futura siderúrgica em fator de atração para montadoras de automóveis e indústrias de autopeças. A Zona Franca de Manaus nasceu em 1967. as estratégias industriais não se restringem ao setor de bens de consumo. e. também marcados pelo predomínio das indústrias de bens de consumo duráveis e dos capitais oriundos do Centro-Sul. A ênfase nas indústrias de alta capitalização – de bens intermediários e de bens de consumo duráveis – resultou numa absorção de mão-de-obra relativamente baixa. o apoio do governo estadual. por exemplo. as filiais nordestinas de empresas tais como a Vicunha e a Alpargatas continuaram ampliando as suas vendas depois da abertura das importações. Nesse caso. em Sergipe e Pernambuco. Ao contrário do que ocorreu com grande parte das indústrias de tecelagem e confecção que operam no Centro-Sul. vinculada ao Ministério do Interior. em Pecém. a CSN e o Grupo Vicunha – já solidamente implantado no estado – para a implantação da Companhia Siderúrgica do Ceará.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL Na Grande Recife. O crescimento do setor têxtil no Rio Grande do Norte e no Ceará. aliada ao baixo custo da mão- 69 . estado nordestino que experimentou os maiores índices de crescimento econômico na primeira metade da década de 1990. No Ceará. no contexto da abertura econômica. matérias-primas e componentes e sobre exportação de mercadorias. os incentivos fiscais geraram os distritos de Jaboatão. através da isenção fiscal e dos mais diversos investimentos em infra-estrutura de transportes tem sido decisivo.

Grande parte da produção de eletrodomésticos do país concentrava-se na capital do Amazonas. Assim. As empresas eletroeletrônicas dominam o parque industrial da Zona Franca. Texto 1 – Reestruturação Produtiva e Mudanças Tecnológicas O crescimento industrial ocorrido na fase conhecida como “milagre econômico”. vindo em seguida as mecânicas e as de material de transporte. a partir do final da década de 1960 e durante a de 1970. destacando as estratégias locacionais das indústrias modernas e apresentando os principais pólos tecnológicos do Estado de São Paulo. Clélio Campolina Diniz e Fabiana Borges Teixeira dos Santos analisam o impacto da emergência de novas tecnologias produtivas na geografia industrial da Região Sudeste no Brasil. sendo 549 localizadas em Manaus.8% em 1985. com grande ênfase em indústria de bens intermediários.se fundamentalmente no padrão industrial e tecnológico anterior. e de bens duráveis de consumo. baseou. A existência de variados mecanismos de incentivos estaduais e regionais e uma ampla fronteira de recursos naturais. apoiada no avanço da infra-estrutura. Em 1987. a Zona Franca representava 75% do PIB de todo o estado e gerava mais de 120 mil empregos diretos e indiretos.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO de-obra local. Os mercados consumidores são extra-regionais: a produção destina-se ao consumo nacional e internacional. A política recente de abertura da economia nacional e redução das tarifas de importação coloca em risco a continuidade de seu desenvolvimento. Devido à Zona Franca. praticamente não se utiliza matérias-primas regionais. o Estado do Amazonas saltou de 145 indústrias em 1967 para 800 em 1977.3% em 1970 para 1. deveria atrair grandes empresas transnacionais e nacionais para a fabricação de bens de consumo duráveis na região. Texto Complementar No texto abaixo. Os capitais dominantes são transnacionais. 70 . A participação do estado na produção industrial brasileira saltou de 0. o processo de industrialização da área é nitidamente artificial. extraído dos ensaios que integram a obra Desigualdades regionais e desenvolvimento. altamente intensivas em recursos naturais.

1986. Boston: Allen & Unwin. 1 Ver MARKUSEN. 71 . O processo de reestruturação industrial no contexto internacional e a abertura da economia pressionam a indústria brasileira a realizar mudanças tecnológicas e organizacionais que permitam ganhos de produtividade capazes de prepará-las para enfrentar a competição internacional. ocorreu também o movimento da fronteira em sentido ao Centro-Oeste. as mudanças tecnológicas em curso induzem à expansão os setores que estão fortemente sustentados na ciência e na técnica. Carlos Américo. STORPER. O movimento migratório e os serviços tenderam a acompanhar o crescimento industrial e agropecuário. BARJAS e PACHECO. Mudança tecnológica e desenvolvimento regional nos anos 90. A localização dessas atividades. essas atividades tendem a reforçar os processos aglomerativos. High Tech America: the what. 2 Ver SCOTT. acredita-se que a reestruturação produtiva teria um efeito reconcentrador das atividades industriais.. 3 Negri e Pacheco questionam esse argumento. As transformações estruturais em curso alterarão. Ann et alli. 1986. mercado de trabalho profissional. work. O crescimento agropecuário. Ver NEGRI. 1993. Campinas: Unicamp. Assim. territory: the geographical anatomy of industrial capitalism.). M. ao contrário.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL propiciaram um processo de desconcentração para várias regiões e estados brasileiros. seguramente. recriando os distritos industriais. o sentido regional do desenvolvimento econômico brasileiro. porque as novas indústrias tenderiam a se localizar na área mais desenvolvida do País. relações interindustriais articuladas geograficamente e facilidade de acesso1.). (Mimeogr. reduzindo a demanda por recursos naturais. (ed. se fez com grandes transformações estruturais e tecnológicas. como demonstra a experiência mundial. especialmente no grande eixo que vai da região central de Minas Gerais até o nordeste do Rio Grande do Sul. embora não necessariamente nas velhas e tradicionais áreas industriais2. where and why of the sunrises industries. ao lado do grande crescimento da produção de grãos nos estados do Sul do Brasil. Boston: Allen & Unwin. Por outro lado. Production. No caso do Brasil. alegando que o processo de desconcentração atinge a maioria das regiões brasileiras. Nesse sentido. Aj. embora mantendo-se a desconcentração relativa da área metropolitana de São Paulo3. now. é fortemente influenciada pela existência de centros de pesquisa e ensino. especialmente com a incorporação produtiva dos cerrados.

criado em 1887. Negri e Pacheco. Americana. parques e incubadoras: a busca da modernização e da competitivídade. em 1984. 19935. talvez. em 1976. o Laboratório Nacional de Luz Sincroton (LNLS). incluindo as cidades de Campinas e seus satélites. estabeleceu-se um corredor industrial entre Campinas e Araraquara. onde estariam sendo aglomeradas indústrias modernas. Rio Claro. José Avelino et alli. mais de 200 mil empregos industriais. com ênfase em indústrias baseadas em modernas tecnologias. parte das novas indústrias. Campinas. 1993). Jorge Ruben Biton. cujo conjunto já alcançava. 1992. 1993. [s. em 1985. São Carlos e Araraquara. no mais importante centro de ensino e pesquisa do País. 5 TAPIA. embora mais recentemente tenham sido feitas avaliações pessimistas com relação a esses casos (Tapia. Limeira. O caso de Campinas é singular. e no parque industrial já existente. Além da história de pesquisa na cidade – em virtude do Instituto Agronômico de Campinas. criado em 1927. Além de um parque industrial diversificado e com a presença de um grande número de filiais de empresas multinacionais. Constituída por uma rede de cidades de porte médio. Levantamentos realizados por Medeiros et alii4 indicam a existência de 15 cidades com alguma experiência em pólos tecnológicos. além da proximidade geográfica com a área metropolitana de São Paulo. Pólos. Brasília: CNPq. Os pólos tecnológicos no Estado de São Paulo: uma avaliação crítica. Baseada nessas condições. transformando Campinas. 4 MEDEIROS. 72 . a região de Campinas vem-se transformando na mais importante nova região industrial do País. do Instituto Biológico de Defesa Agrícola e Animal. a Companhia de Desenvolvimento Tecnológico (Codetec). vem ganhando importância a experiência dos novos distritos industriais. São Carlos e São José dos Campos. especialmente em Campinas e São Carlos. Piracicaba.n. O papel da Unicamp como uma universidade especializada em pósgraduação foi vital para que a Telebrás decidisse pela instalação do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento (CPqD) naquela cidade. em 1987.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Assim. especialmente em Campinas. foram criados o Centro Tecnológico para Informática (CTI). Dessas experiências. em 1976. SENAI. IBICT. Posteriormente. do Instituto de Tecnologia de Alimentos. as mais bem-sucedidas são as localizadas no Estado de São Paulo.]. criado em 1969 – a criação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) veio reforçar e redefinir a posição da cidade como centro de ensino e pesquisa.

Além das instituições de pesquisa ligadas ao setor militar. como indica a maioria das análises sobre a região (Diniz e Razavi. Apesar das críticas aos resultados dessas experiências.] 1993. novas iniciativas deverão surgir nessas cidades. o fim da Guerra Fria.).). da sua proximidade ao Porto de São Sebastião e do clima ameno das montanhas de Campos de Jordão. em 1969. (Mimeogr. no início da década de 1960 foi criado o Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE). ligado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). 73 . 1993) (. articulada com as instituições de pesquisa e ensino da região. Negri e Pacheco.. os efeitos do fim da Guerra Irã-Iraque e da Guerra do Golfo e as pressões políticas internacionais. No entanto. especialmente na linha de armamentos. especialmente dos Estados Unidos. e a do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA). [s. A cidade possui ainda a sede do Centro Técnico Aeroespacial (CTA). foi instalado na cidade um conjunto de atividades industriais. Emergence of a new industrial districts in Brazil: São José dos Campos and Campinas Cases. 6 DINIZ. aliado à queda da demanda de aeronaves. que transformou São José dos Campos em uma das cidades mais avançadas no ensino de engenharia do País. As pesquisas do CTA e de seus institutos coligados desembocaram na criação da Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer). instalada na década dos 40. apontando o limite do seu crescimento (Tapia. RAZAVI. das facilidades da região. Caso o Brasil consiga retomar o crescimento. Com base nas instituições de ensino e pesquisa locais. 1993). algumas surgidas como spin-off daquelas instituições. Mohamadi. 1993. além da expansão de setores já consolidados. criou também os cursos de mestrado e doutorado em áreas afins. que. a exemplo da metalomecânica. Esse fato permitiu que o emprego industrial em São José dos Campos subisse de 17 mil para 48 mil entre 1970 e 1980. continuando a crescer até 1987. aquela região certamente se transformará na mais atraente alternativa locacional para vários segmentos das indústrias de alta tecnologia.. além das pesquisas correspondentes.I. Outro caso que merece destaque é São José dos Campos. Tapia.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL pode ser considerada de tecnologia moderna. Clélio Campolina. sede de várias grandes empresas multinacionais que ali encontraram uma alternativa locacional em razão da sua localização no eixo Rio-São Paulo. contra a exportação de armas pelo Brasil. colocaram a nova indústria de São José dos Campos em profunda crise conjuntural e estrutural. 19936.

212-215.] 5. agricultura brasileira está orientada pelo binômio industrialização-exportação. Desigualdades regionais e desenvolvimento. a economia rural tornou-se consumidora de mercadorias do setor industrial. especialmente no Centro-Sul do país. Sudeste: Heterogeneidade Estrutural e Perspectivas. antes de tudo. definindo novas funções para a economia rural. A agricultura passou a funcionar como retaguarda do crescimento do setor industrial e financeiro. que não dispõem dos capitais necessários para o incremento da produtividade. À medida que se voltava para as necessidades da economia urbana. em fornecedora de matérias-primas para as indústrias. Fabiana Borges. acelerado após o término da Segunda Guerra Mundial. p. ocorreu intensa liberação de trabalhadores. expelidos da agropecuária e forçados a 74 . Clélio Campolina e TEIXEIRA DOS SANTOS.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO [DINIZ. fertilizantes e pesticidas. São Paulo: Fundap/UNESP. A economia rural transformou-se. A alta lucratividade da produção de insumos agroindustriais atraiu capitais e investimentos para culturas como as da laranja (indústria de cítricos). Esse mesmo processo de modernização implicou a crescente mecanização das atividades agrícolas. arados mecânicos. Além de fornecedora de insumos industriais. Rui de Britto Álvares e SILVA. colhedeiras e semeadeiras. Em conseqüência. a agricultura modernizava a sua base técnica. Pedro Luiz Barros (org. As culturas agrícolas que conheceram um maior desenvolvimento foram aquelas voltadas para a produção de insumos industriais. In: AFFONSO. subordinou a agropecuária às necessidades do capital urbano-industrial. adubos.). A modernização da base técnica indica um processo de capitalização da agricultura que diferencia cada vez mais os produtores rurais empresariais dos produtores rurais familiares. Nesse sentido. incorporando tratores. 1995. O Processo de Modernização da Agricultura no Brasil e as suas Tendências Atuais O processo de modernização e industrialização da economia brasileira. soja (indústria de óleos vegetais) e cana (indústria de açúcar e álcool combustível).

A faixa litorânea úmida do Nordeste constitui um espaço singular. o preço da terra agrícola é mais elevado. Produtos como a soja. No plano espacial. sul de Minas Gerais e Rio de Janeiro. Santa Catarina e Rio Grande do Sul. cerrados 75 . o fumo e as carnes de aves juntaram-se ao café como itens exportados de grande peso. Em Pernambuco e Alagoas. O alto preço da terra. a ligação entre a modernização da economia e a capitalização da agricultura se exprime através do preço da terra. a laranja (vendida na forma de suco). O Centro-Oeste e as franjas meridionais e orientais da Amazônia são espaços de expansão da agropecuária moderna e cada vez mais integrados aos mercados do Centro-Sul. Nas áreas mais urbanizadas e industrializadas. vinculado às necessidades industriais e altamente dependente de fluxos financeiros. Nas zonas semi-áridas do Agreste. Esse é o domínio da pecuária tradicional. Paraná. a economia rural comportou-se como fonte de força de trabalho para a economia urbana. Desse modo. É por isso que a modernização agrícola se realiza. portanto.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL procurar ocupação na indústria e nos serviços. apresentam preços muito menores. As terras distantes dos centros urbanos e industriais e. esse sistema de produção está combinado com a agroindústria canavieira. no Centro-Sul do país. O desenvolvimento agrícola dessas áreas é reflexo do transbordamento da economia rural dos estados do Sul e de São Paulo. baseada no uso de pastagens naturais de campos. voltada para a produção de álcool e açúcar. por sua vez. extensiva. pois a proximidade dos mercados consumidores aumenta a concorrência pelo uso da terra. encontra-se um complexo econômico agropecuário moderno. dos mercados consumidores. organizada em torno de grandes propriedades e culturas tropicais. marcado pelo predomínio da agricultura comercial tradicional. predomina a pequena produção camponesa de tipo familiar. condiciona o desenvolvimento da produtividade das atividades agropecuárias: um pesado investimento na aquisição de terras exige lucros elevados para ser compensador. em primeiro lugar. Em São Paulo. O mercado externo absorveu uma parcela considerável do aumento da produção agrícola de insumos industriais.

No século XIX. No outro extremo. O sistema das sesmarias. os estabelecimentos rurais com 1. A concentração da propriedade da terra é um dos traços marcantes da economia rural brasileira.000 hectares ou mais representam pouco mais de 1% do total. a introdução do trabalho livre na economia cafeeira assinalou um momento decisivo na evolução da estrutura fundiária brasileira. os estabelecimentos rurais com menos de 10 hectares somam mais de metade do total. Em 1850. a Lei de Terras veio frear esse processo. A extinção do sistema de sesmarias. com a expulsão dos camponeses pobres para as cidades ou para as fronteiras agrícolas. determinando que a única via para o acesso à terra seria a compra. 76 . surgiam os dois personagens básicos da economia rural do país: de um lado. mas representam cerca de 2% área agrícola cadastrada no país. que ocupava as terras devolutas. implica o aprofundamento da concentração da propriedade. o latifundiário (sesmeiro). originou uma expansão descontrolada do apossamento de terras. em 1822. do século XVI. mais afastadas do litoral. o posseiro. dedicandose à produção de subsistência e também a culturas alimentares consumidas nos latifúndios. Já naquela época.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO ou caatingas e numa baixa densidade de animais. gerou esse padrão concentrador que se reproduziria ao longo da história do país. A transformação da produção agrícola nas áreas mais prósperas do Centro-Sul. Nos vales dos rios e junto às estradas aparecem zonas de lavouras camponesas em pequenos estabelecimentos. de outro. A modernização da economia rural teve como conseqüência a valorização monetária da terra. por sua vez. mas controlam cerca de 45% da área agrícola. A valorização da terra. De acordo com os dados do Censo Agropecuário de 1995. por exemplo. realizou-se paralelamente ao englobamento dos sítios pelas fazendas. cujas origens remontam ao modelo de colonização aplicado ao território lusitano na América. A luta pela terra A terra é o meio de produção fundamental na economia rural. que detinha vasta extensão de terras e geralmente empregava um contingente numeroso de escravos para a produção de gêneros tropicais exportáveis.

onde se estabeleceram migrantes provenientes da Região Sul. grileiros e fazendeiros são um único personagem. Depois da instalação dos camponeses pobres. quando se intensificava a ocupação dos atuais estados de Goiás e Mato Grosso do Sul. Os conflitos entre grileiros e posseiros são os principais personagens da violência das regiões de fronteira. o crescimento contínuo da área agrícola total se realiza através de ciclos de desconcentração e reconcentração da estrutura fundiária. Naquela fase. Nas fronteiras agrícolas amazônicas. Na década de 1960. Instalam-se. Rondônia e Acre. os pequenos estabelecimentos aumentavam a sua participação na área total enquanto regredia a participação dos estabelecimentos maiores. Nessas áreas novas. Outras vezes. a ocupação das franjas amazônicas (Maranhão. Durante toda a década de 1970. o predomínio do pequeno estabelecimento camponês ficou praticamente restrito a certas regiões de Mato Grosso. as fronteiras agrícolas assistem à chegada dos grandes proprietários. a modernização agrícola em São Paulo (principalmente com a expansão canavieira) e no Paraná (com a expansão da soja) eliminava os sítios e expulsava os camponeses pobres. Pará e Tocantins) realizava-se através da expropriação dos posseiros e implantação de grandes estabelecimentos pecuaristas ou madeireiros. em regiões distantes onde são abertas novas estradas e existem terras devolutas em abundância. Assim. Muitas vezes eles são precedidos pelos grileiros que. de reconcentração fundiária. O processo cíclico de expansão das fronteiras agrícolas e concentração da estrutura fundiária gera conflitos permanentes e crescentes pela posse da terra. Ao mesmo tempo. subornando funcionários governamentais e contratando jagunços e pistoleiros. Tais 77 . a estrutura fundiária costuma exibir intensa fragmentação e a paisagem predominante é a dos sítios e roças familiares. como posseiros ou pequenos proprietários. forjam títulos de propriedade de terras e expulsam os ocupantes. ocorria um movimento inverso.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL Os trabalhadores rurais expulsos das áreas agrícolas mais antigas funcionam como vanguarda de expansão das fronteiras da economia rural.

Espanha ou Grécia. mas sabe-se que o caminho do campo é o da grande empresa e do trabalho assalariado. publicado originalmente na revista Ciência Hoje. mas tornam-se cada vez mais raros à medida que se sobe em direção ao Canadá. o professor José Eli da Veiga do Departamento de Economia da Universidade de São Paulo analisa as especificidades do setor agrícola nas economias contemporâneas. basta examinar os fatos para perceber que o caminho seguido pelas nações mais desenvolvidas foi exatamente o inverso. e em suas excolônias. Em todas as agriculturas do Primeiro Mundo. Assim. ainda que necessária por motivos éticos e democráticos”. Os que vêem a agricultura patronal como o principal agente do desenvolvimento rural também costumam dizer que “a reforma agrária dos anos 90 será necessariamente anacrônica. Na América do Norte. a grande empresa e o trabalho assalariado tornaram-se apêndices de uma massa de estabelecimentos de médio porte tocados essencialmente pelo trabalho familiar. ainda são numerosos nas áreas próximas ao México. Talvez a maior parte da intelectualidade brasileira seja vítima desse engano. É claro que o potencial 78 . Na Europa. só com uma lupa é possível descobrir assalariados agrícolas. na Alemanha ou na Grã-Bretanha. Texto Complementar No texto reproduzido abaixo. destacando a importância da produção familiar. do ponto de vista econômico-desenvolvimentista. traça um diagnóstico da agricultura brasileira e defende novos rumos para a política agrária nacional. No Japão. No entanto. configurando um panorama de uma guerra aberta no campo brasileiro. é fácil encontrar ambos em Portugal.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO conflitos vêm se avolumando nas últimas décadas. a crença de que “o caminho do campo é o da grande empresa e do trabalho assalariado” só faz sentido se esse caminho for o do subdesenvolvimento. A tal ponto que grandes fazendas e assalariados agrícolas são ótimos indicadores de subdesenvolvimento. mas é preciso paciência para achá-los na França.” Muita gente pensa assim. Texto 1 – Terra Dividida: Os Equívocos da Política Agrária É muito comum encontrar na grande imprensa afirmações como esta: “Claro que a distribuição de terra tem um papel a cumprir.

Não por outra razão. Só é possível dizer que os programas oficiais de ‘colonização’ atingiram. aumentou bastante a possibilidade de um trabalhador rural ter acesso a um lote de terra que lhe garanta a subsistência básica (casa e comida). e bem mais que isso se também tiver acesso a bens públicos essenciais (como educação e assistência técnica) e a linhas adequadas de crédito. Na época da ditadura.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL impulsionador de uma reforma agrária no Brasil. inclusive entre os que falam e escrevem a favor da redução das desigualdades. a saída encontrada pelos ‘excedentes populacionais” que teimavam em continuar no campo era migrar em direção à floresta amazônica para tentar formar uma posse. O pior é que essa suposição é muito comum. neste final de milênio (se isso fosse possível). Até porque grande parte do capital humano da agricultura foi dilapidado ou destruído nos últimos 30 ou 40 anos. No entanto. E aos que resistiram não é oferecida formação profissional adequada aos desafios do século XXI. Apesar da força do mito da superioridade da agricultura patronal. não seria igual ao que teria sido no fim dos anos 50 ou na primeira metade dos anos 60. nos 20 anos de ditadura. Ações pós-democratização Com a redemocratização. Quantos conseguiram ninguém sabe. Dizer que “a reforma agrária será anacrônica do ponto de vista econômico-desenvolvimentista” só faz sentido para quem supõe que o Brasil pode se desenvolver sem uma drástica desconcentração da riqueza.5 mil famílias por 79 . Até o Banco Mundial reconhece hoje essa vantagem especial. Muitos dos melhores agricultores já deixaram o campo ou foram reduzidos a simples safristas. a sociedade brasileira está aos poucos se dando conta de sua absurda ineficiência distributiva. Ainda assim. o assentamento anual de algumas dezenas de milhares de ‘sem-terra’ valerá pouco se nada for feito para liberar o potencial econômico de pelo menos 2 milhões de agricultores familiares ‘com-terra’. Foi a reforma agrária que transferiu aos agricultores de Taiwan o equivalente a 13% do produto interno bruto de 1952 e aumentou em 33% a renda per capita dos agricultores da Coréia do Sul. pensar que uma verdadeira reforma agrária já não teria importância econômica contraria a principal lição das reformas desse tipo bemsucedidas: nenhuma outra política governamental é tão redistributiva. a política agrária ganhou tanta importância desde 1985. apenas 115 mil famí1ias (média de 5.

Mas o verdadeiro impacto dessa aceleração só pode ser estimado pela comparação dos dados de assentamento com os dados disponíveis sobre a estrutura agrária. Figura 1.000 12. A população rural com 10 anos ou mais. pois enquanto diminui o êxodo rural cresce a desocupação agrícola.4 milhões de pessoas deixaram a área rural entre 1960 e 1980. aumentou 0. nas três últimas décadas. que diminuía 0.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO ano). sugere que o êxodo envolveu. Agricultores sem-terra assentados pelo governo brasileiro Período 1964-1984 1985-1989 1990-1992 1993-1994 1995-1998 Ditadura Governo Sarney Governo Collor Governo Itamar Metas gov. enquanto o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) atendeu pouco mais. É crescente a população rural não-agrícola. entre 1985 e 1994 quadruplicou a possibilidade de uma família sem-terra ser assentada.4% ao ano entre 1992 e 1995.500 18.000 6.000 90.300 70. Número equivalente de famí1ias foi assentado só por governos estaduais nos primeiros 10 anos de redemocratização. E.600 280. os ocupados em atividades 80 . algo próximo a 300 mil famílias por ano. O economista José Francisco Graziano da Silva destacou a mudança na taxa de redução da população rural.1 % ao ano nos anos 80. de que cerca de 28.6% ao ano na década de 1980 e passou a diminuir apenas 0. desempenho que dará mais um grande salto se as metas do atual governo forem cumpridas (figura 1). pela comparação do número de famílias que está conseguindo terra com o número de famílias expulsas da atividade agrícola. A estimativa do demógrafo George Martine. que diminuía 0.000 Média Anual 5.000 A combatividade do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra e sobretudo a simpatia que conquistou nas camadas médias urbanas tornaram quase certo que nos anos 90 o assentamento de famílias rurais sem-terra será fortemente acelerado. Mas há fortes indicações de que o processo começa a se esgotar nos anos 90.1% ao ano entre 1992 e 1995. atual N° de Famílias 115. antes de tudo. Ou seja. Ao mesmo tempo.

Desde o início do século XX as políticas adotadas em tais países favoreceram a progressiva afirmação da agricultura familiar. Nos Estados Unidos.9% ao ano entre 1992 e 1995. A agricultura familiar No século XXI. sem grande margem de erro. É uma gota no oceano. as estatísticas indicam que deixaram essas atividades 280 mil empregados. essa opção foi até anterior. totalizando 316 mil ocupados – ou seja. de que a agricultura adotaria o modelo ‘fabril’ de organização produtiva. estará mais que compensando a desocupação estimada. retiraria de 150 mil a 200 mil ha por ano dos 300 milhões de ha detidos por 500 mil fazendeiros e os acrescentaria aos 95 milhões de ha em posse das 3. na segunda metade do século XIX.5 ocupados em cada família). 12 mil agricultores por conta própria e 24 mil não-remunerados. entre 126 mil e 158 mil famílias (supondo. um perfil da estrutura agrária brasileira. No Japão. 2 a 2. ficaram sem ocupações agrícolas assalariadas ou por conta própria cerca de 120 mil a 150 mil famílias.5 milhões de famílias que trabalham por conta própria. pode-se montar. Esse número indica que estariam saindo da agricultura 40 a 50 mil famílias por ano. em estimativa otimista. a agricultura familiar é predominante em todo o Primeiro Mundo. Entre 1992 e 1995. Se o atual governo conseguir assentar 70 mil famílias por ano. essa situação só se consolidou com as radicais reformas agrárias do pós-guerra. foi passageira. O saldo positivo de 20 a 30 mil lotes. A ilusão. Na primeira metade do século XIX prevaleceu a opinião conservadora: as terras públicas eram vendidas 81 . que cresciam 1. como ocorreu na indústria britânica desde o final do século XVIII. com área média em tomo de 7 ha. Mas nos demais países desenvolvidos as elites dirigentes não demoraram tanto para perceber as desvantagens econômicas e sociais da agricultura baseada no trabalho assalariado. Nesse período.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL agrícolas.1 % ao ano nos anos 80. passaram a diminuir 0. Mas o que significa esse saldo positivo de 20 ou 30 mil famílias por ano em um universo de mais de 6 milhões de famílias? O que significa esse saldo positivo de 20 ou 30 mil lotes familiares de alguns poucos hectares (ha) em uma estrutura agrária na qual os 530 mil empregadores concentram mais de 75% das terras agrícolas? Apesar da pobreza das estatísticas disponíveis.

pipocaram conflitos entre cowboys e sodbusters. O caráter essencialmente familiar da agricultura norte-americana não parou de se afirmar. chegando a 21 % (US$ 34. O Brasil é um dos exemplos mais chocantes da opção inversa: de desprezo e intolerância em relação à agricultura familiar. Ao contrário do que muitos pensam. onde ficaram com os piores solos. Mas aos poucos a atribuição de terras foi liberalizada. Com a exceção do fluxo colonizador que ocupou o extremo sul até o sudoeste do Paraná. Já a tradicional agricultura familiar foi responsável por 54% da produção comercializada (US$ 87. as atividades do setor não formavam 82 . no final do ciclo britânico (século XIX). De 1870 a 1880 houve verdadeiro boom colonizador na linha MinnesotaDakota-Nebraska-Kansas. em algumas áreas do oeste do Texas e até na Califórnia. pois os melhores já haviam sido apropriados nos anos 1850. Ao contrário da aristocracia britânica. mesmo a tremenda evolução organizacional da agricultura daquele país ocorrida neste século não alterou de modo significativo seu caráter essencialmente familiar. as ‘corporações’ são exceção. Imensos domínios foram comprados em leilões por muitos especuladores. As vendas das sociedades de tipo familiar aumentaram. quando a rebelião dos estados sulistas deu maioria parlamentar ao jovem Partido Republicano.9 bilhões). o sistema agrícola brasileiro começou com o complexo cafeeiro. surgiu a famosa Homestead Law. Antes. a preços altos e pagas à vista. em processo doloroso e cheio de idas e vindas.4 bilhões). Na última década do século. Mas nada seguraria a multidão de sem-terra europeus que cruzou o Atlântico. Durante a Guerra Civil (1861-1865). Os restantes 19% (US$ 30.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO em grandes glebas. o padrão agrário adotado no país teve características semelhantes às do leste europeu. Assim. Eles fixaram-se no noroeste. O último censo agropecuário.8 bilhões).5 bilhões) vieram de formas societárias não classificadas como familiares ou patronais. de 1992. que visava distribuir lotes de 160 acres a famílias de colonos. mundialmente popularizados pelos westerns. assim como o oeste do Kansas. revela que a participação destas nas vendas do setor é declinante – apenas 6% (US$ 9. A rigor. que se livrou de seus domínios na Primeira Guerra. os senhores do leste preferiram impedir o acesso de suas populações rurais à propriedade da terra. Na luta contra a grilagem dos barões de gado. os assentamentos pioneiros já cobriam grande parte do oeste de Nebraska e do leste do Colorado.

era flagrante o contraste entre a estrutura agropecuária brasileira e a experiência dos países que se desenvolveram durante o século XX. revelou que a produção familiar resistiu à opção contrária das elites. a opção da população rural excedente foi a migração. O modo como as elites dirigentes aboliram a escravidão e importaram colonos para as lavouras de café teve o mesmo sentido histórico da ‘segunda servidão’ do leste europeu. o último retrato da agricultura brasileira. naquele ano. No Nordeste. Apesar de tudo. É fundamental examinar também os enormes contrastes regionais. No entanto. a política oficial de ocupação favoreceu o surgimento de grandes fazendas de gado. tirado em 1985. quase levaram o governo de João Goulart a optar pela agricultura familiar. apenas um quarto dos estabelecimentos não-patronais tinha níveis 83 . Pode-se dizer que mais da metade dos estabelecimentos agrícolas do país. A migração como opção Durante os 20 anos de ditadura militar. onde tentavam se fixar como posseiros. No início dos anos 60. no início da redemocratização. as ligas camponesas nordestinas. E a escolha da cana-de-açúcar como única cultura do Proálcool também ajudou os grandes fazendeiros a avançarem sobre as terras da jovem agricultura familiar do Sudeste. Assim.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL um sistema. Só após a crise de 1929 e a longa depressão dela decorrente. É preciso enfatizar que esses quase 3 milhões de estabelecimentos familiares não tinham nada a ver com a idéia muito difundida de agricultura ‘de subsistência’. Os níveis médios de renda bruta das camadas mais representativas da agricultura familiar (em valores para todo o Brasil) estavam longe do que se poderia considerar uma agricultura ‘não-comercial’ . Mas o imenso excedente populacional formado desde então passou a exercer forte pressão para ter acesso à terra. uma parte dos colonos pôde comprar lotes. por meio de incentivos fiscais. eram familiares. postos à venda por fazendeiros falidos. reduzindo o alcance social da corrida ao Oeste. Isso fica bem claro quando se estima a renda monetária bruta dos estabelecimentos não-patronais (através da simples diferença entre receitas e despesas agropecuárias). junto com os movimentos de sem-terra sulistas. Houve amplo pacto para impedir o acesso à terra dos negros e dos imigrantes europeus e japoneses. principalmente para regiões de fronteira. em meados dos anos 80.

MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO razoáveis de renda bruta e. publicados na revista Exame (11/9/96). o caráter ‘comercial’ da agricultura familiar era mais evidente nas regiões Sul e Sudeste. mesmo assim. à adoção de tecnologia. Segundo cálculos do economista Fernando Homem de Mello. já que as indústrias precisam evitar que suas matérias-primas sejam vendidas no mercado externo. trata-se de uma estratégia de parceria entre eles. Mais da metade (52%) do algodão. Pode-se supor que essa relação seja ainda mais favorável no Brasil de hoje. embora esse tipo de imóvel ocupasse apenas 34% da área agropecuária paulista e respondesse por apenas 33% do valor total da produção estadual. Além de nova concepção para o financiamento da produção de agricultores familiares e suas organizações. Ou seja. que criou o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). a extinção do ICMS sobre exportações pode ter um impacto imediato e muito efetivo na agricultura familiar. situação antes impensável. foi bem alta a participação dos imóveis rurais ‘não-patronais’ no valor da produção de atividades sem dúvida comerciais. quase metade (43%) da soja e 38% do café foram produzidos por imóveis ‘não-patronais’. Nos Estados Unidos cada aumento de US$ 1 bilhão das exportações agrícolas gerava uns 30 mil novos empregos – quase a metade no próprio setor agrícola (dados de 1984). O aumento das exportações ajudará a manter postos de trabalho. governos (municipais. a agricultura familiar ainda revelava a incipiência natural da dinâmica da fronteira. a agricultura brasileira verá sua renda aumentar em até R$ 2. em 1991. à 84 . Além disso. O sociólogo Ricardo Abramovay mostrou que. Já no Norte e no Centro-Oeste. Não é mais uma simples diferenciação do crédito para ‘pequenos agricultores’. em especial nos segmentos mais consolidados.946.5 bilhões ao ano até o final da década. bem abaixo dos registrados nas outras regiões. de 28 de junho de 1996. destinados também à melhoria da qualidade de vida. Por isso. ao aprimoramento profissional. Sinais de uma nova agenda Uma política agrícola específica para a agricultura familiar começou a emergir com o Decreto 1. o fim do imposto também elevou alguns preços pagos ao produtor. apesar dos bons níveis de renda bruta. estaduais e federal) e iniciativa privada na aplicação dos recursos. Para o Estado de São Paulo há dados bem mais recentes. Basta dizer que até exportações de milho passam a ser competitivas.

que orientou a chamada ‘modernização conservadora’. No entanto. desenvolver a agricultura familiar exigirá que o Pronaf seja aprofundado e ampliado em três domínios prioritários: educacional. está sendo substituído por outro.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL adequação e implantação de infra-estrutura e outros objetivos. tendo como principal insumo o conhecimento. No domínio educacional. no âmbito das políticas agrícolas e agrária. (b) a quase inexistente formação profissional e (c) as redes de extensão e/ou assistência técnica e suas relações com o sistema de pesquisa agropecuária. com participação ativa das organizações civis 85 . que mal começou a ser implantado. fundiário e creditício. Mas o novo padrão não poderá. É muito cedo para avaliar o Pronaf. como reação à forte pressão pela preservação ambiental. É preciso reforçar o caráter ‘versátil’ da atividade agrícola. é importante favorecer a aquisição de terras por jovens agricultores familiares com boas perspectivas profissionais. o programa recebeu R$ 1 bilhão. os governos federal e estaduais devem ter papel estritamente normativo. As decisões operacionais devem ser tomadas em nível intermunicipal. profissionais liberais e outros) ou grandes fazendeiros. É muito comum que terras ofertadas por agricultores que mudam para outra região ou deixam a atividade (caso típico dos que se aposentam sem sucessores) sejam adquiridas por agentes não-agrícolas (comerciantes. O padrão da ‘revolução verde’. A sociedade ganharia mais se fosse aumentada a chance de transferir essas terras a agricultores familiares. ser resumido a um mero ‘pacote’ acompanhado de receitas simples sobre o uso de insumos básicos. como o antigo. Para que esse tipo de ordenamento agrário seja eficaz. e simultaneamente permitir diversas formas de planejamento e gestão sócio-ambiental do espaço agrário. imobiliárias. Mas ele certamente pode abrir novas oportunidades de expansão e/ou reconversão produtiva para o maior número possível de imóveis familiares com chances de consolidação. No domínio fundiário. e o ambiente educacional hoje disponível para os agricultores não é capaz de acompanhar essa mudança. principalmente aos jovens. Em 1996. sem qualquer oportunidade de compra pelos que mais precisam delas: os agricultores vizinhos. dos quais R$ 200 milhões para custeio e R$ 800 milhões para investimentos. é necessário mudar o padrão tecnológico. Tal ambiente inclui (a) o ensino regular básico oferecido em escolas rurais.

” √ Concurso de 1998 √ “A soja aparece como um dos principais produtos agrícolas na pauta de exportações brasileiras nas últimas décadas. José Eli da. p. que a produção de café foi a grande responsável pelo povoamento e estruturação territorial dessa unidade da Federação. Explique o que caracteriza tal padrão. quais são as suas inovações em relação ao anteriormente vigente e quais suas repercussões sobre a localização das indústrias no Brasil. Mas para isso é imprescindível que tais iniciativas tenham legitimidade e sejam realmente capazes de intervir no mercado de terras rurais. pelo território brasileiro. a evolução agrária de uma microrregião deve ser controlada pela sociedade.] 6. o Estado de São Paulo responde por cerca de 45% do valor da transformação industrial gerado no Brasil. Isso significa financiar de forma direta o ‘desenvolvimento global integrado’ – ou seja. Ou seja. uma forma decisiva de apoio seria a criação de uma linha especial de crédito de investimento dirigida ao jovem agricultor familiar. o que expressa o grande nível de concentração da atividade no território nacional.se. In: Ciência Hoje. SBPC. Analise a trajetória de difusão. Relacione os dois fatos. Terra dividida – os equívocos da política agrária. Sabe. através de organizações locais (governamentais e não-governamentais). [VEIGA. reorientação ou reconversão do sistema de produção – de estabelecimentos familiares dirigidos por jovens agricultores de reconhecida capacidade profissional. agosto de 1998.” “O padrão contemporâneo de produção industrial é denominado por vários autores de ‘pós-fordismo’. 26-31. Exemplos de Questões Concurso de 1997 √ “Há décadas. No domínio creditício. expansão.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO locais. também. das plantações desse produto e os sistemas de produção 86 .

Questões atuais da reorganização do território. ANDRADE. Cláudio. Roberto L. Uma Nova Potência Regional na Economia Mundo. São Paulo: Fundap/ UNESP. 1995. LAVINAS.1995.A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL predominantes em cada área produtora.). 1995. SANTOS. GOMES COSTA. Bibliografia Bibliografia Básica BECKER. Rui de Britto Álvares e SILVA.” √ “A existência de frentes pioneiras tem sido uma constante no decorrer da história brasileira. Pedro Luiz Barros (org. A Questão do Território no Brasil. Milton. e indique seus portos de escoamento para o exterior. A Urbanização Brasileira. Desigualdades regionais e desenvolvimento. Lena et alli. ‘Região Norte’ e ‘Amazônia Legal’. 1994. 1993. São Paulo: Hucitec/ANPUR. CASTRO. tentando fornecer prognósticos e delinear cenários sobre a matéria nas próximas décadas. Manuel Correa de. Paulo C. Comente essa relação. da e CORREA. e comente a principal característica observável no padrão de ocupação dessa região. BECKER. (orgs. São Paulo: IPESP/Hucitec. 1996. porém. Reestruturação do Espaço Urbano e Regional no Brasil. Rio de Janeiro: Bertrand. 87 . Bibliografia Complementar AFFONSO. São Paulo: Hucitec. de. Brasil. Geografia e Meio Ambiente no Brasil. finitos.). 1993. lná E. Berta e EGLER. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.” Concurso de 1999 √ “Diferencie ‘Amazônia’. São Paulo: Hucitec.” 7. Os fundos territoriais sob soberania do país são. Berta et alli.

Ariovaldo U. Região e Organização Espacial. Redescobrindo o Brasil: 500 anos depois. Demétrio. 1992. A Agricultura Camponesa no Brasil. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. 1999. O Corpo da Pátria. 1997. São Paulo: Moderna/Edusp. São Paulo: Contexto. Roberto L. MAGNOLI. Iná Elias de et alli (org). de. São Paulo: Ática. CORREA. 88 . OLIVEIRA. 1987.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO CASTRO.

UNIDADE III O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL .

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A consolidação do Mercosul. Segundo muitos autores. conectados em escala global. No âmbito econômico. Esses eventos possibilitaram a extensão da economia de mercado para novos espaços geográficos. O processo de transnacionalização da economia alterou de forma substancial a trajetória histórica da industrialização brasileira e as relações do país com a economia mundial. dissemina por todo o planeta as tecnologias e os produtos da nova revolução industrial. enquanto um enorme volume de capitais circula entre os principais mercados financeiros. 91 . ao mesmo tempo. capitais e informações entre os mercados nacionais. gera novas dinâmicas de comércio e investimento no Cone Sul. como causa e conseqüência desse conjunto de transformações. em um contexto marcado pelas políticas de cunho liberalizante e pela inserção do Brasil nas cadeias produtivas globalizadas. A configuração de blocos econômicos transnacionais é um também um aspectos da globalização da economia mundial: a ampliação dos mercados consolidada por meio daqueles opera no sentido de ampliar a competitividade das empresas que concorrem no mercado mundial. com a implosão das economias planificadas da União Soviética e Europa Oriental e com a abertura da China Popular aos investimentos internacionais. A circulação de informações define padrões mundiais de consumo e difunde as marcas das empresas globalizadas. simultaneamente. a globalização acelera-se desde meados da década de 1980. Os investimentos no exterior mundializam as cadeias produtivas sob o comando de grandes corporações transnacionais. No âmbito geopolítico. definido pelo embaixador Celso Lafer como “uma plataforma de inserção competitiva numa economia que. se globaliza e se regionaliza em blocos”. O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL A realidade mundial contemporânea é marcada por revolucionárias transformações de ordem científica e tecnológica e pela crescente integração das economias nacionais. O crescimento do comércio internacional de mercadorias e serviços.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL III. estimulado por políticas liberais de redução das barreiras alfandegárias. o processo de globalização é resultado da intensificação dos fluxos de mercadorias. a transnacionalização da economia e a globalização das relações de produção figuram.

Os Estados Unidos exerceram uma hegemonia econômica quase absoluta durante o ciclo longo de crescimento.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Para compor a presente Unidade. esse ciclo de crescimento pode ser tributado à reconstrução das estruturas produtivas da Europa Ocidental e do Japão e à abertura de filiais de empresas transnacionais em países até então de baixa industrialização. mantinha paridade fixa com o ouro. As corporações transnacionais norte-americanas lideraram os investimentos industriais no resto do mundo e impulsionaram a formação de grandes parques industriais na periferia capitalista. A elevação brutal dos preços do barril de petróleo resultante dos dois “choques” protagonizados pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) gerou recessão e desemprego. 92 . foram selecionados trabalhos que conceituam e problematizam os novos paradigmas de produção e consumo em escala mundial. Em grande parte. o México e a Argentina. O dólar funcionava como moeda mundial e. Esse ciclo de prosperidade só seria interrompido na década de 1970. desencadearam a reconstrução européia. até o início da década de 1970. mas sinalizou mudanças estruturais no paradigma tecnológico dos países desenvolvidos. e que abordam relações entre eles e a realidade brasileira. Transnacionalização da Economia e Globalização das Relações de Produção: o Período Técnico-Científico e as Novas Tendências Geopolíticas em Escala Global A economia mundial de mercado conheceu um ciclo longo de forte crescimento nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. tais como o Brasil. canalizados através do Plano Marshall (1948-52). As décadas de prosperidade se apoiaram na reconstrução e ampliação de estruturas produtivas baseadas em tecnologias tradicionais. A utilização intensiva de energia e matérias-primas assim como a absorção crescente de força de trabalho semi-qualificada em linhas de produção sustentaram uma oferta ampliada de mercadorias destinadas a mercados consumidores em expansão. Os empréstimos de capital norteamericanos. O mercado consumidor norte-americano absorveu grande parte das exportações que sustentaram o reerguimento japonês. em especial na América Latina. principalmente eletromecânicas. 1.

através de computadores pessoais e redes de informação conectadas por satélites e cabos de fibra óptica. Após longos decênios de preparação. a robótica e a química fina desenvolvem mercadorias revolucionárias. o que exige uma ampliação da escala dos mercados. a história do homem faz-se a partir de momentos divergentes. De acordo com o geógrafo Milton Santos: Durante milênios. Em junho de 1990. configurando. torna possível uma tomada de conhecimento imediata de acontecimentos simultâneos e cria entre lugares e acontecimentos uma relação unitária 93 . ajudam a soldar a integração econômica dessa região do mundo. novas matérias-primas e novos materiais sintetizados em laboratórios. Nesse contexto. a seu turno. com a adoção de uma moeda única. uma proposta de unificação dos mercados do continente. como uma soma de aconteceres dispersos. A informática. Ao mesmo tempo. O período técnico-científico é também a era da informação e da simultaneidade dos eventos. simultaneamente. Já a história do homem de nossa geração é aquela em que os momentos convergiram. que disseminam as cadeias produtivas pelas economias do Sudeste Asiático. a União Européia se transformou em uma união econômica e monetária. as telecomunicações. graças a esse domínio do tempo e do espaço em escala planetária. a integração do mercado mundial ameaça diluir os limites representados pelas barreiras nacionais. disparatados. a biotecnologia. foi assinado o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta). utilizando mão-deobra altamente especializada. o presidente norte-americano George Bush lançou a Iniciativa para as Américas. A instantaneidade da informação globalizada aproxima os lugares. um processo de globalização e de regionalização. Os investimentos industriais japoneses. A contínua incorporação de tecnologias de ponta no processo produtivo implica investimentos de alto custo em produtos que rapidamente se tornam obsoletos. as inovações tecnológicas se difundem com rapidez inusitada. unindo Canadá. desconexos. Em agosto de 1992.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL Os fundamentos técnicos da era industrial emergente repousam sobre a automatização e a robotização e sobre a utilização menos intensiva de matériasprimas e energia. México e Estados Unidos em um poderoso mercado comum. o acontecer de cada lugar podendo ser imediatamente comunicado a qualquer outro.

Londres ou Frankfurt.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO à escala do mundo. O caso do setor têxtil é bastante significativo. a siderurgia e o têxtil – e da rígida regulamentação do mercado de trabalho que caracteriza a maior parte de suas economias.] O espaço global da “era da informação” é polarizado pelas cidades onde se concentram as sedes das instituições que controlam as redes mundiais: bolsas de valores. A Natureza do Espaço. agências públicas internacionais. 30% na Itália e 40% na Espanha – revelam a existência de um quadro estrutural de descompasso entre o crescimento das economias e a geração de novos postos de trabalho. São Paulo: Hucitec. enquanto na Alemanha o número de trabalhadores do setor caiu de 400 mil para 150 mil. pois emprega grandes quantidades de mão-de-obra. e o peso dos salários no custo final das mercadorias é expressivo. o da União Européia. As “cidades globais”. 162. em parte. onde as taxas de desemprego duplicaram entre 1976 e 1985. o Paquistão e Taiwan conheceram um grande incremento no número de pessoas ocupadas. em todos os lugares. corporações bancárias e industriais. a China. Milton. O quadro mais dramático é. a explosão do desemprego na Europa é. Entre 1970 e 1990. As elevadas taxas de desemprego entre os jovens (15 a 24 anos) – em tomo de 25 % na França. Essa circunstância explica a tendência mais ou menos recente de deslocamento das indústrias têxteis e de confecções para locais onde os salários são mais baixos. a Índia. resultante da redução da oferta de empregos nos setores industriais tradicionais – tais como a construção naval. tais como Nova Iorque. Hoje. sem dúvida. por exemplo. companhias de comércio exterior. funcionam como centros de tomada de decisões capazes de afetar a organização de territórios em escala continental ou mundial. eventos que são independentes. 1996. cada momento compreende. na produção e na capacidade exportadora do setor. Para muitos analistas. empresas de serviços legais e financeiros. Trata-se de um setor industrial de trabalho intensivo. saltando de 5% para 10% da população ativa. e permanecem estagnadas nesse patamar. p. 94 . incluídos em um mesmo sistema global de relações. Revolução técnico-científica e mercado de trabalho A revolução técnico-científica gerou impactos profundos na oferta de empregos nos países desenvolvidos. [In: SANTOS.

mas pela primeira vez é percebida de fora como ameaça à estabilidade da economia-mundo. É como se.1 % para 3.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL Nos Estados Unidos. mas ao custo de crescentes déficits comerciais e em contas correntes. cobertos por outra contribuição internacional. No Japão. o embaixador Rubens Ricúpero problematiza o próprio conceito de globalização.6% da PEA entre 1990 e 1998.6% em 1976 para 4. as taxas de desemprego recuaram de 7. que não só aumenta para seu povo a carga acumulada de sofrimentos herdada de episódios anteriores. Texto 1 -As Sereias da Globalização Ao se aproximar dos 500 anos. as taxas de desemprego apresentaram tendência de crescimento durante toda a década de 1990.7% em 1998. A fim de resolver problemas basicamente nacionais – a deriva para a hiperinflação – valorizou-se a moeda como instrumento para pôr a economia internacional a serviço da conquista de objetivo doméstico. No momento em que a crise iniciada na Ásia aumenta o temor do risco dos mercados emergentes e põe fim à conjuntura de liquidez abundante. Aliás. os investimentos e financiamentos estrangeiros. apesar da tradição de empregos vitalícios. tendo saltado de 2. Texto Complementar No artigo reproduzido abaixo. o Brasil vive crise inédita. o país é forçado a uma contração violenta para se ajustar às novas condições mundiais. analisando a inserção do Brasil na economia mundial em uma perspectiva histórica e apontando as alternativas do país frente às transformações em curso na economia e na política mundial. tudo o que é global relevante para as comunidades nacionais e locais. este 95 . apesar da introdução de tecnologias poupadoras de mão-de-obra tanto no setor secundário quanto no setor terciário. onde o mercado de trabalho é muito mais flexível e comporta diversas formas de trabalho temporário. tendo tentado transferir a bomba-relógio dos nossos problemas para o mundo. O barateamento das importações ajudou a segurar os preços internos. Nada ilustra melhor como o aumento da interdependência tornou tudo o que é nacional e local relevante para o mundo e. a própria essência íntima desta crise consiste precisamente na interrelação país-mundo. em grau muito maior.

Traduzida assim em seus elementos fundamentais. aquele fim-de-século terminava como este: a assinatura por Campos Sales do funding-loam. já reduzida de modo substancial pelas limitações oriundas dos acordos da Rodada Uruguai e outras iniciativas de igual inspiração a pretexto dos imperativos da globalização. A outra diferença é que as condicionalidades a serem impostas no pacote de resgate irão certamente estreitar ainda mais a margem de manobra brasileira. em primeiro lugar. de ser curiosa e melancólica a coincidência de que em 1898. É o medo do contágio geral que explica a sensibilidade maior revelada neste episódio pelo Fundo Monetário. facilita ou dificulta a integração do 96 . sob formas diversas e a intervalos quase regulares. A diferença é que então tudo se passava em Londres. com condições e conseqüências parecidas de aumento de impostos. violenta deflação interna. o naufrágio do Brasil pode agora afogar muito passageiro de Primeira Classe.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO agora nô-la tivesse devolvido no instante em que a contagem se acerca do ponto crítico e a bomba ameaça explodir em nossas mãos. 100 anos atrás. o acordo com os credores a fim de evitar a bancarrota. o que haveria de novo na sombra que se projeta sobre as comemorações do V Centenário do Descobrimento? O que mudou foi. Não deixa. velho conhecido nosso que. reais ou supostos. acompanha-nos desde a Independência. com o Banco Rothschild à frente e o Tesouro britânico discretamente atrás das cortinas. precedentes para o garrote que nos sufoca. o Tesouro dos EUA ou o G-7. portanto. e hoje os negociadores brasileiros partem para Washington a fim de tratar com o FMI. tendo na retaguarda o Tesouro norte-americano em postura mais ostensiva e declarada (contrariando o provérbio inglês segundo o qual “se você trouxe o cachorro. Se não faltam. falências em cadeia de empresas de todo o tipo. a situação atual não passa de manifestação a mais do “estrangulamento do setor externo”. É esse o aspecto que nos interessa explorar aqui: até que ponto a integração do Brasil na economia globalizada condiciona. o tamanho da economia brasileira e a simultaneidade de sua crise com a reação em cadeia que ameaça até os mercados financeiros mais avançados. Muito mais do que por ocasião do problema da dívida externa latino-americana a partir de 1982. nesse sentido. não é preciso latir no lugar dele”).

avaliando. por meio das telecomunicações e da indústria audiovisual. pode-se dizer que existem duas maneiras básicas de encarar a globalização: como fenômeno histórico ou como ideologia.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL próprio país? É ainda possível cogitar de projeto nacional em contexto de crescente e intrusiva interdependência? Existirá lugar hoje para afirmar a identidade nacional diante da tendência à uniformização de padrões? Globalização e autonomia nacional A questão se desdobra em dois problemas que. O primeiro. os elementos de continuidade e os de ruptura com o passado. como em todo fenômeno histórico. É prescritiva. o que se passa no domínio da realidade. abstendo-se de juízos de valor. expressão das mais ambíguas e enganadoras. a diversidade dentro de uma unidade alargada e fecundada por aportes diferentes? É impossível avançar muito nessa investigação se não se começar por esclarecer o que temos em mente quando falamos em globalização. por extensão. é o da inserção ou marginalização em relação à economia global. dança e literatura? Ou podemos esperar que o aumento da comunicação entre povos e culturas produza o enriquecimento da inter-fertilização de estilos. de natureza mais econômica e social. A segunda abordagem pretende deduzir comportamentos e normas a partir do que julga captar da realidade. significando coisas diversas para interlocutores diferentes. que obriga a abdicar de veleidades de autonomia nacional em favor da aceitação de modelos e regras de validade universal? Ou existirão caminhos e modalidades distintas de inserção que admitem levar em conta valores e objetivos particulares sem comprometer basicamente a meta de alcançar os benefícios de escala da economia de dimensão planetária? O segundo problema possui caráter sobretudo político e cultural e é geralmente descrito como o perigo da perda de identidade cultural diante da imposição maciça. Há um caminho único para essa inserção. dos fatos sob exame. a norte-americana e. de padrões e mentalidades características da cultura hegemônica. tombando com freqüência na 97 . normativa. a ocidental. tenta-se apreender e descrever de modo tão objetivo quanto possível. Na primeira acepção. em termos algo esquemáticos. podem ser definidos da seguinte forma. Estaremos condenados à uniformidade da cultura popular de massa. com gostos e preferências indiferenciados que se estenderão do fast food à música. Sem intenção de ser exaustivo ou particularmente rigoroso.

comercial ou financeira. a atual é uma transformação 98 . Esse tipo de interpretação desfigura a globalização de quatro maneiras principais. Torna-se então prescrição ou conselho sobre a melhor ou a única política a seguir a fim de ter êxito. a imposição obrigatória de novas relações de produção geradas pela tecnologia. esquecendo ou minimizando componentes políticos. que se exprime em geral pela superação de novas fronteiras científicas e tecnológicas. Vivemos hoje a terceira fase desse processo. irresistível. como as demais impulsionada por transformações culturais e científicas. tomando possíveis formas inéditas de dominação política ou produção econômica (.. Em todas as suas etapas. Pelo anti ou ahistoricismo: afirmando que se trata de fenômeno inteiramente novo. de telecomunicações. vai conhecer segunda fase no século XVIII. Pelo determinismo: considerando como mecânico. de novo introduzida por revolução cultural no campo da ciência e da tecnologia (. a recomendada pelo pensamento “único”. Da perspectiva que nos interessa.). Pelo conformismo: pretendendo que a uniformidade cultural e a falta de alternativas nos forçam a aceitar.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO doutrinação. limitadas à energia e à matéria.). culturais. diferente em relação ao passado. particularmente as conquistas em matéria de eletrônica. acompanhada de adicional salto de intensidade. sem precedentes históricos. Ao contrário dessas simplificações. automático. ela tem sido produto de revolução no domínio cultural. uma só e invariável solução. de computadores. Pelo reducionismo: reduzindo-a a um só ou a alguns poucos dos seus diversos elementos constitutivos. essencialmente “outro”. na imposição de caminhos. sociais.. abarcando muito mais que os componentes econômicos. isto é.. como a “tirania dos fatos”.. A afirmação e dominação ocidental. na prática concreta. a recomendação de que todos os países adotem políticas de liberalização rápidas e radicais como meio mais seguro de integração à economia internacional. queiramos ou não. Diversamente das modificações anteriores.. que decorre na verdade mais das escolhas dos homens ou dos interesses dos poderosos. quase sempre de natureza econômica. a globalização é sobretudo processo de natureza cultural e histórica..). a globalização se confunde em boa medida com a expansão do Ocidente e tem seu ponto de partida nas grandes viagens marítimas de descoberta dos séculos XV e XVI (.

a liquidação dos regimes comunistas na Europa Central e Oriental. 3°) predominantemente transnaciona1. campanha de publicidade. Cambodja. seu efeito integrador foi acelerado por uma ruptura política decisiva. parecer jurídico ou de consultoria. Isso tudo possibilitou o aumento fantástico da circulação de recursos financeiros e a velocidade das operações com moedas estrangeiras.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL do tempo e do espaço. de cálculo. música. lançando as bases para o aparecimento da economia globalizada. 2°) de alta intensidade em conhecimento e já não mais em capital. Começa-se a utilizar a Internet não só para concluir operações comerciais mas até para entregar um produto quando seu caráter é não-material (programa de software. a exacerbação do espírito de especulação. arte). É o predomínio do capitalismo financeiro e sua desvinculação parcial do mundo real da indústria e do comércio. auditoria contábil. Mas. No livro Being Digital. a aceleração do tempo e o encolhimento do espaço. Birmânia. acarretando crises financeiras e monetárias cada vez mais freqüentes e destrutivas. Os mercados comerciais se unificam com a queda das barreiras. duas mudanças que fazem os homens e as culturas mais próximos e conscientes reciprocamente. Mongólia. A concepção. A queda do muro de Berlim. 4°) extremamente competitiva. a unificação da Alemanha. de um a outro celular ou de um satélite a uma estação terrestre. são acontecimentos que põem fim à heterogeneidade ideológica introduzida pela Revolução Bolchevista de 1917 e criam clima favorável à crescente convergência em termos de legitimidade política e de formas de organização social e econômica. o desenho e a fabricação dos produtos perdem o caráter integrado dentro de uma economia puramente nacional para se tomarem atividades que podem ser parceladas em segmentos a serem executados geograficamente em países diferentes e depois montados segundo a lógica dos custos. O 99 . os últimos bastiões do isolamento tombam um após o outro: Vietnã. As inovações tecnológicas aceleram a velocidade e o barateamento dos transportes e das comunicações. mão-de-obra e recursos naturais. textos literários. se ainda uma vez a revolução científica e tecnológica está na raiz desta nova etapa. a desintegração da União Soviética. projeto de arquitetura. Nicholas Negroponte usa a expressão II bits versus atoms” para explicar que as transações internacionais consistem cada vez menos em matérias (átomos) atravessando fronteiras nacionais e cada vez mais de bits (de informação) que fluem de um computador a outro. Como resultado do impacto dessas transformações. de engenharia. Essa nova economia é: 1°) de alta velocidade.

Pode-se talvez objetar que esse conceito de globalização é abrangente demais e o dilui a ponto de confundi-lo com a evolução do capitalismo ou da expansão do Ocidente. Hoje. na era vitoriana. não existe nada que se assemelhe à liberalização a toque-de-caixa promovida no tratamento do capital e do comércio. em outras fases da globalização. não só o nível de liberalização igualava ou superava o atual em comércio e investimentos. está se tomando difícil e até impossível comprar certas tecnologias sensíveis consideradas essenciais para 100 . de investimentos. das telecomunicações. Esse era também o tempo em que se podia imitar ou copiar muito mais facilmente invenções. os investimentos das empresas transnacionais. A Internet cria a possibilidade de organizar campanhas sobre direitos humanos.000 anos de solidão”. de meio milênio. A questão não é de interesse meramente acadêmico. questões trabalhistas de um canto ao outro da Terra. Foi nessa época que 50 milhões de europeus imigraram para as Américas e a Oceania. financeira. livros. meio ambiente.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO espaço econômico se unifica em escala planetária para o comércio. do capitalismo e do Ocidente. utilizando-se a equivalência para exigir aos países que se liberalizem sem condições sob pena de ficarem à margem da globalização. os fluxos de empréstimos. o trabalho e a tecnologia. a história gêmea. o inédito de certos eventos contemporâneos (o impacto da eletrônica. ao contrário. Em relação a esses dois fatores de produção. mas paradoxalmente registra-se retrocesso nítido em política de imigração e tendência cada vez mais restritiva ao reforço dos monopólios de exploração de patentes e outras formas de restringir o acesso à propriedade intelectual. Exemplo claro é o da tentativa interesseira de fazer aceitar a idéia de que globalização e liberalização são termos sinônimos e intercambiáveis. No caso da tecnologia. músicas. que somente essa visão braudeliana concilia e equilibra ruptura e continuidade. como era incomparavelmente mais acentuado em matéria de mobilidade de mão-de-obra e de tecnologia. sem contar os milhões de coolies asiáticos. de longa duração. Parece que chegamos ao fim de “5. no auge da neoglobalização. A abordagem de largo fôlego facilita desmascarar imposturas ideológicas que se valem do falso argumento da absoluta excepcionalidade do momento atual. a queda do muro de Berlim) e a continuidade do fluxo majestoso das correntes profundas que caracterizam os ciclos seculares. exacerbou-se a liberalização comercial. Penso. O raciocínio cai rapidamente por terra quando se assinala que. entre 1870 e 1914. de operações monetárias.

o Japão. mas a qualidade do fenômeno. a Índia. da segunda viagem da carreira das Índias e. a Suíça é um exército. De fato o que é o Brasil senão o fruto da expansão do capitalismo mercantil do Ocidente? Sua invenção ou achamento.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL assegurar o domínio do mercado pelas empresas que as controlam. Nova Zelândia). Isto é. A Independência é outro episódio do mesmo movimento de longa duração. essa certidão de nascimento e de maturidade com os demais “países novos” das Américas e alguns outros (Austrália. Ela não deixa. a velha questão de ser “Cavalcanti ou cavalgado”. é episódio. É mesmo dos raros países batizados com o nome de um dos produtos exóticos de que era guloso o mercantilismo. mas o caráter subalterno e dependente de uma integração existente de velha data. A guerra e o reconhecimento da Independência foram financiados por empréstimos globais da praça de Londres. elementos integrantes da globalização. Da mesma forma. pode-se afirmar que o problema do Brasil não é a falta de integração à globalização. O Brasil. como na Grécia antiga. só que agora na fase do capitalismo da Revolução Industrial. cuja identidade já se encontrava definida em suas linhas mestras antes que a primeira cara vela tocasse o mar com sua quilha. ele continuou como aguada e porto de abastecimento de frutos e legumes frescos para os navios do Oriente. E isso ocorre justamente quando o acesso ao conhecimento e à informação passou a ser o fator decisivo do desenvolvimento. contudo. produto da mistura das “três raças tristes”. pode-se acrescentar. Nem a China. com seu horror ao monopólio mercantil das metrópoles e a exigência de abertura dos portos. de ser característica singular como genealogia e não pode ser estendida aos velhos países do Ocidente ou do Oriente. o problema brasileiro não é pouca globalização. produto da globalização Devido à democracia semi-direta. próximo ou remoto. O Brasil partilha. 101 . nasceram. semente da dívida externa que desde então não cessou de aumentar. cresceram e definharam à sombra do comércio global. Todos os seus ciclos econômicos. do açúcar ao café (e. à soja ou suco de laranja). a quantidade. intencional ou não. como então se dizia. diz-se que a Suíça não tem exército. e à milícia formada por todos os cidadãos. por mais de 30 anos após a descoberta. não teria existido sem as migrações européias e asiáticas bem como o tráfico de africanos. o pau-brasil. Sua população. é verdade.

a Pérsia cabem nesse molde. O exemplo revela claramente que não é qualquer tipo de inserção no comércio e na economia globais que contribui para metas desejáveis de progresso social e econômico. em cotejo com estados que nunca gozaram de grande prosperidade no 102 . Prolongamento da estrutura herdada da colônia e sustentado no latifúndio (o sistema de plantation) e na escravidão (mais tarde no assalariado rural miserável). por exemplo. do tipo de organização econômica e social geradora de desequilíbrios e desigualdades que. poucas semanas antes de morrer. que estiveram um tanto à margem da economia mundial do século XIX. que iria se estender de 1850 a 1930. constituem o obstáculo principal à realização do país como unidade coesa e integrada. por outro. pois um povo verdadeiro deveria ser formado por homens livres. devido à sua pobreza de produtos cobiçados pelos mercados da época. por meio de propriedade da terra e do trabalho não-remunerado. com seus milhares de escravos. José Guilherme descrevia como o projeto de Brasil de José Bonifácio se vira suplantado pelo que chamava de modelo liberal. Ou o Chile remediado. café. É até paradoxal observar como certos países latinoamericanos. a Itália. Pense-se. moldou perduravelmente a realidade do que Joaquim Nabuco chamava de “país sem povo”. em fins de 1990. O panorama não é diferente entre nós. de um lado. e de Santa Catarina das pequenas e médias propriedades. Em sua última conferência em Paris. confrontado ao Peru dos oligarcas. até hoje. a Alemanha. comparada com a opulenta Cuba do açúcar e do tabaco (e dos escravos). cacau) para os mercados externos junto aos quais funcionava como apêndice e complemento perfeitamente integrado na divisão internacional de trabalho. emergiram dessa experiência com perfil de desenvolvimento modesto mas menos distorcido pelas desigualdades monstruosas dos “sucessos” de então. esse modelo só podia subsistir graças ao fornecimento de produtos tropicais de exportação (açúcar. da colonização européia. Seu efeito duplamente concentrador da riqueza e da renda. Em nosso caso.oligárquico. Pernambuco e Alagoas do açúcar e dos senhores de engenho e das taras políticas e sociais produzidas pelo contraste de dominação e sujeição. do Comendador Breves. Ou mesmo no Nordeste. Basta lembrar da província fluminense dos barões de Vassouras. e tampouco nele se enquadram a Rússia. a Espanha ou Portugal. na Costa Rica. nação de agricultores de classe média. por período quase secular.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO a Arábia. a Inglaterra. como mostrou José Guilherme Merquior. a França. a inserção na economia mundial foi a condição mesma que tornou possível a preservação.

com a gradual ligação das regiões por vias de transportes outras que a antiga navegação de cabotagem. concentrou o avanço tecnológico e a riqueza apenas nesse segmento estreito da população. de um mercado nacional. As provas de que o problema continua atual tampouco faltam. pouco mais de um século após a unificação do país.. reflete como a segurança fornecida pelo mercado europeu ampliado reduz a solidariedade com o empobrecido sul da península. até os ricos oferecem seu quinhão de sacrifício. Esse panorama só começa a mudar com a industrialização. ainda menos positiva foi a influência desse modo de inserção na integração da população. sugerindo que um movimento destinado a promover a integração de um conjunto maior pode paradoxalmente pôr em risco a unidade nacional alcançada a duras penas. pelo problema dos ventos da contracosta do Nordeste. na Itália. com muito pouco transbordamento e efeito multiplicador para o resto. já que a escravidão.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL passado. como observa Celso Furtado. economia de exportação do setor primário. era justamente perpetuada (e justificada) pela necessidade de manter alimentada a lavoura de exportação. Se era raso o nível de interação econômica entre regiões. A verdade é que o tipo de inserção de que o Brasil longamente desfrutou. mantendo entre si contatos econômicos de pouca densidade. pois são obrigados a renunciar às importações de luxo e consumir mofinos produtos nacionais. que hoje se mostram mais aptos a produzir setores empresariais modernos. o peso da massa dos salários urbanos cria mercado de consumo para os produtos da indústria paulista e. As Províncias e regiões. períodos em que se teve de reduzir à força o tipo de inserção tradicional na economia externa. Outro exemplo é o dualismo ou “polarização geográfica” que caracteriza a integração do 103 . protegida por barreiras aduaneiras ou facilitada pela escassez de divisas e dificuldades de abastecimento devido a causas externas. o separatismo da Lega Nord. na época da navegação à vela. Faz sua aparição o proletariado industrial. estavam vinculadas às praças estrangeiras de onde tudo importavam. Sergipe. É interessante notar que a industrialização vai receber forte impulso durante os dois conflitos mundiais e a Grande Depressão. Na União Européia. como Ceará. Rio Grande do Norte. o obstáculo mais formidável a qualquer esforço de homogeneização. passando por Pernambuco do açúcar e pela Bahia do cacau. É só então que se esboça aos poucos a formação. do Pará da borracha ao Rio do café.. dificultados adicionalmente. pela primeira vez.

. Celso Furtado já indagava: “. O que se pode reter desses exemplos é que variam muito.como desconhecer que o esvaziamento dos sistemas decisórios nacionais será de conseqüências imprevisíveis para a ordenação política de vastas áreas do mundo. até agora.. em boa parte excluídos desses benefícios. as exportações para terceiros raramente representando mais de 12 a 15 por cento do PIB (isso é válido até para União Européia se considerarmos o comércio intra-europeu como doméstico. Rússia. EUA. contudo. a Colômbia. Em texto incluído no livro sugestivamente intitulado A Construção Interrompida. China. Índia. em comparação com os ganhos mais tangíveis que derivariam do intercâmbio com vizinhos próximos como a Venezuela. Eu mesmo ouvi muitas vezes em Manaus e Belém expressões de dúvida sobre as possíveis vantagens que a Amazônia poderia retirar do Mercosul. para meus interlocutores realidade remota. Ninguém. o consumo per capita na Baja Califórnia é 5 vezes superior ao de Oaxaca) do que os do sul....a partir do momento em que o motor do crescimento deixa de ser a formação do mercado interno para ser a integração com 104 . isto é. Brasil. A característica comum de todas essas economias é que elas haurem sua força basicamente de poderoso mercado interno. como o Brasil ?” Observava em seguida: “.). muito mais os Estados da fronteira (a média de salários de Nuevo León é 3 vezes maior que a de Chiapas.. os países caribenhos. segundo os países. pequenos países abertos e tradicionalmente especializados na intermediação comercial como a Holanda e a Bélgica. pois não mais enfrenta barreiras) (. não têm outra opção. a expectativa de vida no norte é de 20 anos mais que no sul. os Estados que somam a um território continental uma população gigante. em particular para os países subdesenvolvidos de grande área territorial e profundas disparidades regionais de renda. favorecendo. A rigor. para as quais o comércio exterior representa 150 por cento ou mais do PIB. pretenderia que idêntica prioridade fosse válida para os “países-monstros” da classificação de George Kennan (ver Around the Cragged Hill). o grau de essencialidade e as implicações da inserção na economia global. são apenas cinco. aos quais tenciona juntarse a União Européia à medida que estende sua unificação a domínios essenciais como a política exterior e a de defesa. o que ele é.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO México com os EUA no âmbito do Nafta. CidadesEstado como Hong Kong ou Cingapura. as Guianas.

inclusive com autonomia de decisões em política exterior e de defesa. verdadeiros micro-universos. essa busca do difícil equilíbrio entre o realismo dos fatos e o idealismo dos valores e aspirações. São exemplos que refutam convincentemente o mito da irresistibilidade da globalização e comprovam. que distingue a China e a Índia. Essa administração dos matizes. numa ponta do espectro. gradual. tudo apontando para a inviabilização do país como projeto nacional”. É essa mesma vontade a serviço de um projeto nacional completo.. quando se ia do totalitarismo estalinista ou maoísta. que exista essa vontade política a serviço de um projeto de nação. É certo que já não se dispõe hoje da amplíssima margem de escolha da época dos extremos ideológicos. Desde. de liberalização. na outra. que a autonomia das decisões. ao mais radical liberalismo do mercado. É aqui precisamente que reside a vantagem comparativa dos estados gigantes. utilizando para isso o poder dos seus imensos mercados internos. os efeitos de sinergia gerados pela interdependência das distintas regiões do país desaparecem. não só não prejudica como é o melhor meio de proteger-se do contágio de crises devastadoras como a que assola a Ásia e o mundo (. é claro. mais ênfase na estabilidade de preços ou na expansão econômica.). Quando se lembra o que ocorre na guerra de subsídios aos investimentos entre estados da Federação e o verdadeiro leilão promovido pelas transnacionais para instigar a concessão desses subsídios. com mais Estado ou mais mercado. a predominância da lógica das empresas transnacionais na ordenação das atividades econômicas conduzirá quase necessariamente a tensões inter-regionais. à exacerbação de rivalidades corporativas e à formação de bolsões de miséria. mais capazes que outros países menores de fazer prevalecer sua vontade política sobre a lógica de custos das transnacionais. sobretudo financeira. deixa espaço mais do que suficiente para cada sociedade construir modelo harmonizador da eficácia 105 . a escolha de ritmo prudente. como ele mesmo admite: “Um sistema econômico nacional não é outra coisa senão a prevalência de critérios políticos que permitem superar a rigidez da lógica econômica na busca do bem-estar coletivo”. enfraquecendo consideravelmente os vínculos de solidariedade entre elas”. controlado. Mas. Em lugar de branco ou negro. só nos resta a escolha de variedade infinita de gradações de cinzento. como é o Brasil. vê-se que Celso Furtado não foi um mau profeta.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL a economia internacional. E concluía: “Em um país ainda em formação.. mais ou menos flexibilidade ou segurança de emprego. de lambugem.

a curto prazo e sem violência. Para isso temos de completar reformas internas só possíveis com um mínimo de consenso social e político. pode ser melhor que o passado. ao receber poucos meses antes de sua morte o título de “homem de visão” daquele ano dramático: “Terá de ser uma reforma incorporada às aspirações do povo. quando elas se transformam em agentes. da competição que traz eficiência. o voto livre. da contribuição da economia global. A fim de ser cidadão. tal é o atraso a recuperar nos padrões de consumo. com respeito dos 106 .. O país e a economia têm de crescer de dentro para fora e não de fora para dentro. e não uma reforma outorgada pela classe dominante. sem educação e saúde. Hoje sabemos que uma democracia de massas pobres. de investimentos produtivos. atores do mercado. A integração ao mercado de produção e consumo dos milhões de brasileiros que subsistem precariamente à margem dele. Mas esse deve ser aporte complementar ao esforço próprio. expressiva apenas de uma concessão sem conciliação. o Brasil pode e deve retomar a construção interrompida da cidadania e do mercado interno. sem acesso à informação ou vítima da informação controlada por impérios privados. terá de produzir. que suba das próprias bases sociais. É o que dizia em 25 de Outubro de 1963. Foi essa a ilusão do passado. Longe de se contradizerem. do acesso de nossas exportações aos mercados externos a fim de aumentarmos a capacidade de importar. por meio do emprego. e como consumidores. de tecnologia. é processo capaz de liberar altíssima carga de energia e de fornecer o dinamismo para o crescimento da economia por muitas e muitas décadas. da possibilidade de se instruir e de se curar. A verdadeira cidadania só se alcança quando se resolvem os problemas básicos do emprego.). removeria nossas mazelas. de participar plenamente da vida da comunidade. não seu substituto. sem emprego ou com trabalho de baixa produtividade. que fira de frente o problema vital da segurança econômica do indivíduo na sociedade. ser livre e ter o direito de voto. do salário digno. universal. quando se pensava que a reforma eleitoral. como a China. de financiamento. quando as pessoas se inserem na sociedade como produtores. Daí o imperativo de elevar a poupança doméstica para não voltar a agravar a excessiva dependência em relação a recursos estrangeiros.. graças à remuneração justa. San Tiago Dantas. Em outras palavras.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO decorrente dos requisitos de validade universal com as especificidades particulares e as preferências próprias a povos de história e problemas diferentes (. isto é. mas não é satisfatória. É claro que necessitamos. secreto. esses termos são interdependentes. Em conclusão. não basta ter abolido a escravidão.

O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL direitos. que se intitulava profeticamente “San Tiago Aponta Caminhos”: “. uma redistribuição de renda social. à procura de uma identidade que. se não conseguirmos. que só pode nascer da plena realização do potencial de nossa gente..] 2.. n° 2. encerro este artigo com outra citação de San Tiago. Na véspera de completar meio milênio de vida.. beira a surpresa e a indeterminação: daí ser o herói sem nenhum caráter” (grifado por mim).. Dela decorre também a chave de outro dilema.. os caminhos do Brasil em debate. da classe dirigente como das classes produtoras e trabalhadoras. um conjunto de 107 . Não é casual que as raras áreas em que o Brasil se projeta internacionalmente. eleve o padrão da vida e crie número crescente de ocupações e atividades. p.. de tão plural que é. Condição Periférica e Industrialização Tardia: A América Latina As estruturas econômicas herdadas do período colonial e as modalidades de integração ao mercado internacional produziram realidades econômicas bastante diversificadas nos países latino-americanos.) imperioso de pensar o povo brasileiro. mar/abr 99.. com Macunaíma. colonial e moderna. o futebol e a música popular. Por isso só elas apresentam ao mundo o rosto mestiço. obter de nós mesmos. percorrendo as trilhas cruzadas ou superpostas da sua existência selvagem. [RICÚPERO. um nível mínimo de confiança na viabilidade de um projeto brasileiro”. retirada do artigo amarelecido de Visão. do esforço de criar condições para que se afirme finalmente a identidade brasileira. 75-84. Em Situação de Macunaíma. o da antinomia uniformização versus identidade cultural. sejam as únicas onde as pessoas não necessitam de acesso à educação formal para se distinguir. de modo que atinja a sociedade no seu todo. Rubens. Ao longo do século. nossa gente. sofrido e criativo do nosso povo.” Esta é a única resposta aceitável humanamente à pergunta que abria meu artigo. Herança Colonial. Voltamos.Nenhuma reforma poderá ser implantada hoje. ao ponto de partida desta nossa viagem de 500 anos de crise e crescimento. Alfredo Bosi ensina que uma das principais motivações da obra foi “o desejo (.. As sereias da globalização. In: Rumos. em primeiro lugar.

voltada desde o início para a exportação. A moderna Argentina industrial. o México. Sobre essas bases. nasceu após a Segunda Guerra Mundial.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO países do subcontinente – a Argentina. a indústria de processamento de alimentos (óleos vegetais. com o desenvolvimento das indústrias de bens de consumo não-alimentícios. Ainda na década de 1930. A Primeira Guerra Mundial e a depressão internacional da década de 1930 provocaram o surto inicial de substituição de importações. a malha ferroviária e o porto de Buenos Aires. com destaque para as indústrias mecânicas. Esse processo – ligado tanto a fluxos internacionais de investimento quanto a esforços industrializantes internos – remodelou as formas de integração desses países à economia mundial e fez surgir estruturas econômicas complexas. cargo que conservaria até o golpe militar de 1955. a Yacimientos Petrolíferos Fiscales (YPF). a força de trabalho imigrante. O ingresso de capitais norte-americanos. através da criação da companhia de exploração do petróleo da região de Comodoro Rivadávia. enquanto os demais permaneciam dependentes de estruturas econômicas primárias. carne. desenvolveu-se. o Estado inaugurou a sua participação como empreendedor industrial. O peso da influência européia no país reflete-se ainda hoje na distribuição da produção automobilística: as fábricas italianas e francesas lideram o ramo. A “década de Perón” foi marcada pelo crescimento industrial do país. Esse processo apoiou-se essencialmente nas pequenas e médias empresas de capitais nacionais. também contribuiu para essa etapa de decolagem industrial. O Estado encampou os serviços públicos e ferroviários surgidos dos antigos investimentos britânicos e desenvolveu a indústria de base. apoiadas na cidade e na indústria. com larga vantagem sobre as montadoras norte-americanas. couro). Na Argentina. que disputavam posições com os investimentos britânicos. desde o início do século XX. porém. Os capitais internacionais desenvolveram o setor de bens duráveis. As eleições de 1946 conduziram Juan Domingos Perón à presidência. voltadas para o mercado interno. 108 . as condições iniciais para a industrialização foram estabelecidas pelo complexo rural exportador: os capitais britânicos. o Chile e o Brasil – viveu um acelerado processo de industrialização. Os capitais nacionais inseriram-se predominantemente no setor alimentício e exportador e no de bens de consumo não-duráveis.

mas o lastro da sua economia continua a repousar. Até hoje. no complexo rural. A PEMEX estabeleceu o monopólio estatal da exploração das imensas reservas de petróleo da região do Golfo do México e criou as bases para o desenvolvimento da indústria petroquímica. em grande medida. na região central do país. quando o óleo se tornou o produto principal na exportação nacional. foram criadas as duas grandes empresas estatais voltadas para o projeto de industrialização: Petróleo de México (PEMEX) e a Nacional Financiera. o México optou por não ingressar na OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo). do vasto e diferenciado ramo do processamento de alimentos. chumbo e cobre. financiou o desenvolvimento da indústria privada nos mais diversos setores. zinco. a mineração e a indústria de transformação mineral representam parcela significativa das exportações nacionais. As áreas das sierras. No México.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL A Argentina transformou-se em um país urbano e industrial. paradoxalmente. A exploração do petróleo ganhou impulso na década de 1970. direcionado principalmente para Europa Ocidental e América Latina. Dispondo do vasto mercado consumidor norte-americano. A Nacional Financiera. um banco de investimentos. exibe forte predominância dos produtos de origem primária. a modernização industrial baseou-se em investimentos estatais e transnacionais e em uma vasta oferta de recursos minerais. O baixo custo da força de trabalho e a presença de uma base industrial erguida pelo Estado também contribuíram para o fluxo de investimentos externos. Na década de 1930. Desde a Segunda Guerra. O modelo econômico protecionista adotado por sucessivos governos mexicanos – baseado na multiplicação das taxas alfandegárias no estímulo à produção nacional – atraiu para dentro das fronteiras do país os investimentos de empresas transnacionais. apresentam jazidas de prata. a instalação de filiais de conglomerados estrangeiros – especialmente norte-americanos – renovou a paisagem industrial mexicana. a fim de determinar livremente os seus níveis de produção e não subordinar suas exportações ao sistema de cotas do cartel petrolífero. 109 . A estrutura industrial depende. O comércio exterior do país. no governo Lazaro Cárdenas. O subsolo mexicano é rico em recursos minerais.

principalmente norte-americanas. No pós-guerra. iria muito mais longe. fortes convulsões sociais e instabilidade política. a economia mineradora. O governo democrata-cristão de Eduardo Frei. realizou uma reforma agrária e iniciou um programa de nacionalização gradual das empresas mineradoras. traduzido por um período de desemprego em massa. ao mesmo tempo que o conflito restringia as importações de manufaturas. Santiago. essencial para a indústria bélica. o sistema bancário e muitas das grandes empresas industriais privadas foram nacionalizados. Porém. se transformou no centro da vida nacional após a independência. as minas norte-americanas de cobre. Em de setembro de 1973. Salvador Allende. Seu sucessor. Assim. Um incipiente surto de industrialização teve lugar neste período. O Chile conheceu uma urbanização rápida e precoce. O novo governo pôs em prática 110 . herdada dos períodos anteriores. implementou um programa de reformas cujos principais alvos eram o combate à estrutura agrária fundada nos velhos latifúndios e o domínio exercido pelos capitais estrangeiros sobre o setor mineral.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO No Chile. O estrangulamento dos mercados internacionais lançou o país ao caos econômico. eleito em 1970 por uma coligação de partidos de centro-esquerda. O programa de reforma agrária foi acelerado e aprofundado. eleito em 1964. marginal durante a colonização. fortemente apoiado pelas políticas públicas. Em meados do século XIX. Iniciava-se um segundo surto de industrialização. multiplicaram seus investimentos tanto na mineração como no parque industrial. Durante o governo da Unidade Popular. O cobre. A crise de 1929 incidiu devastadoramente sobre a economia chilena. cresciam as atividades urbanas e ampliavam-se os investimentos estatais em infra-estrutura. Este quadro turbulento se arrastou até a Segunda Guerra Mundial. empresas transnacionais. conheceu então uma valorização acentuada. um golpe militar encabeçado pelo general Augusto Pinochet encerrou o governo da Unidade Popular. a implantação de poderosas companhias européias de extração de cobre e salitre criou vínculos estreitos entre o país e os mercados e capitais estrangeiros. fortemente polarizada pela capital. Na sombra da economia exportadora. a emergência de um importante setor urbano industrial não eliminou a elevada concentração fundiária e de renda.

O Chile é o maior exportador de cobre do mundo e a estatal Codelco. O cobre responde por cerca de 40% do total das vendas. que contribuiu desde 1922 para a implantação e crescimento do PCB e apontava a presença esmagadora de latifundiários no aparelho de Estado brasileiro na década de 1920 e a necessidade de reforma agrária para a industrialização. é a maior empresa chilena em volume de comércio exterior. R. Agrarismo e Industrialismo. o geógrafo Armen Mamigonian apresenta as diferentes correntes interpretativas acerca da industrialização brasileira e latino-americana. ambos defensores da industrialização. Nacional. Os países que ficaram alijados da decolagem industrial seguem dependendo de exportações de produtos agrícolas e minerais. 111 . 1973. Atualmente. Buenos Aires. eles se tomaram bases importantes das rotas internacionais de narcotráfico e de capitais clandestinos. 2 SIMONSEN. A Venezuela representa um caso particular: sua industrialização. a forte integração ao mercado mundial é a principal característica da economia chilena. numa época em que se considerava o Brasil como “país essencialmente agrícola” e cuja 1 MAYER. Brandão publicou Agrarismo e Industrialismo em 19261 e R. assenta-se na base econômica propiciada pela extração. Edição organizada por E. A competitividade externa passou a ser o fundamento da economia nacional. Texto 1 -Teorias Sobre a Industrialização Brasileira e Latino-Americana A industrialização brasileira é tema de debate da nossa intelectualidade desde as décadas de 1920 e 1930. Texto Complementar No artigo parcialmente reproduzido abaixo. e a distingue do conjunto dos países industrializados do subcontinente. Evolução industrial do Brasil e outros estudos. de tradição anarquista. Fritz Mayer foi o pseudônimo de Octávio Brandão. líder industrial. dirigente comunista e o segundo. São Paulo: Cia Ed. responsável por grande parte das minas do país. relativamente significativa. F. Simonsen foi fundador da CIESP (1928) e da FIESP e o líder industrial de maior prestígio no Brasil nas décadas de 30 e 40. Edusp. O. 1926. comercialização e exportação do petróleo. Carone.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL um amplo programa de privatizações e de abertura da economia para o capital estrangeiro. Simonsen divulgou em 1939 a primeira história da industrialização brasileira2. Nos dois casos trataram-se de intelectuais engajados. o primeiro. que prosseguiria com a democratização. Em muitos casos. ocorrida em 1989.

“Condições sociais da industrialização em São Paulo” (Ver Brasiliense n. “Fatores humanos da industrialização no Brasil: Ver Brasiliense n° 30. 1957. Rio de Janeiro: ISEB. pouco abordados por C. C. C. 3) a que classes sociais couberam as primeiras iniciativas industriais: aos fazendeiros. publicados na década de 50. H. Escrita originalmente para o Fondo de Cultura Económíca (México). com a participação de numerosos pesquisadores universitários brasileiros e estrangeiros. I.) tinham sido favoráveis ou desfavoráveis ao avanço industrial?. 4 RANGEL. mas ainda hoje as interpretações continuam contrastantes. 1960. sobretudo F. Rangel e Furtado publicaram vários outros textos. G. Fundo Cultura. pois refletem as vinculações entre elas e as classes sociais interessadas no processo. de C. Desde então o avanço industrial brasileiro foi considerável. Formação Econômica do Brasil. procuraram apontar os fatores sociais da emersão do mercado interno e dos capitais para a industrialização. O.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO industrialização sofria grandes resistências dos setores ligados à divisão internacional do trabalho. Industrialização e Economia Natural. precocemente as esquerdas brasileiras tomaram-se. onde também se veiculavam opiniões divergentes: a industrialização havia começado com Volta Redonda ou com a implantação das usinas hidrelétricas da Light? A indústria brasileira era multinacional? etc. Prado Ir. 3 112 . até então. Furtado4 . pois não percebia as dimensões econômico-sociais e políticas que o processo de industrialização já alcançava.. Cardoso e O. No fundo. H. Furtado. 1945. à pequena burguesia e outros setores populares? etc. assim corno se fez um longo percurso intelectual. Paralelamente. Paradoxalmente. Assim. F. PRADO JR. 1959. interna e externamente. de C. O debate que se seguiu. História do Brasil. A industrialização brasileira recebeu um capítulo na História Econômica do Brasil. Rio de Janeiro: ISEB. 5 CARDOSO. Rio de Janeiro: Ed. junto com a burguesia industrial. crise de 1929 etc. a universidade não julgava a temática relevante.. Rangel e C. 38. aos comerciantes de export-import. Furtado. 2) a condição de periferia do sistema mundial capitalista bloqueava ou não a industrialização?. Ianni5. defensoras do processo de industrialização. São Paulo: Brasiliense. a questão da industrialização havia chegado na época ao próprio âmbito popular. publicado em 19453 e mais tarde mereceu interpretações mais aprofundadas nos escritos de dois economistas ligados aos órgãos de planejamento governamentais.) e IANNI. iria demonstrar o caráter controvertido das interpretações. 1957 cujas idéias foram aplicadas no PAIM. tais corno: 1) as conjunturas de crise das exportações (guerras mundiais. que provocou alguns esclarecimentos. FURTADO. 1960. quando o Departamento de Sociologia da USP entrou no debate. o tema da industrialização só despertou o interesse dos professores universitários após a publicação de Formação Econômica do Brasil. Dualidade Básica da Economia Brasileira. I.

A ALALC (Associação Latino-Americana de Livre Comércio) foi criada pelo Tratado de Montevidéu de 1960. reconhece o enorme dinamismo do processo de acumulação capitalista brasileiro (. Paraguai.. Peru. Brasil. 65-66. além do México. contou com sete integrantes: Argentina. Venezuela e Bolívia. 3) a teoria dos ciclos econômicos. que popularizou a expressão “industrialização por substituição de importação”. em 1957. chocaram-se desde o início com as desigualdades econômicas internas. México e Uruguai. O Processo de Estruturação e os Objetivos do Mercosul O conceito de integração econômica latino-americana surgiu no ambiente da Guerra Fria. São Paulo: Hucitec. [MARMIGONIAN. Armen.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL Nas esquerdas brasileiras três teorias referentes à economia brasileira em geral e à industrialização em particular. 1995. Chile. dominou o ambiente cultural de 1955 a 1964. preparado pela constituição de uma zona de livre comércio. Berta K. Ao mesmo tempo. que se desenrolou entre o final dos anos 40 e o início dos anos 60. Geografia e meio ambiente no Brasil.).] 3. refletindo uma reação à hegemonia geopolítica dos Estados Unidos. et alli (org. Inicialmente. Os ambiciosos objetivos da Associação. tiveram papel hegemônico na luta intelectual. influenciou na emergência desse novo conceito. expresso pela fundação da CEE. As divergências entre o Brasil. O processo da descolonização afro-asiática.). 2) a teoria da dependência. o México e a Argentina e os demais integrantes sabotaram as metas de integração. com grande aceitação recente. p. a ênfase generalizada dos países latino-americanos nos mercados internos limitou o potencial de crescimento do comércio na área da ALALC. que teve grande aceitação no período seguinte ao golpe militar.. enfatizou a subordinação da industrialização aos interesses do centro do sistema capitalista. Teorias sobre a industrialização Brasileira e Latino Americana. Mais tarde. recebeu a adesão de Colômbia. Outra fonte de influência foi o movimento de integração européia. envolvendo quase toda a América do Sul. 113 . sucessivamente: 1) a teoria da CEPAL. In: BECKER. realçados pela vastidão dos espaços geográficos que recobria. Equador. O Tratado previa o estabelecimento gradual de um mercado comum.

sob os pontos de vista demográfico e econômico: o Brasil e a Argentina são potências latino-americanas. Aí estão as duas metrópoles nacionais 114 . estimula a realização de acordos comerciais limitados e uniões aduaneiras entre países-membros. A adesão do Uruguai e do Paraguai ao projeto comunitário ocorreu em março de 1991. Em novembro de 1988. desenhou-se a meta de um mercado comum. Paraguai e Uruguai – abrange o Centro-Sul do Brasil. A condição prévia para essa aproximação foi a redemocratização política. Nessa área. antecipando para 31 de dezembro de 1994 o estabelecimento do mercado comum bilateral. ocorrida em meados da década de 1980 nos dois países.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO O fracasso da ALALC foi reconhecido tacitamente pelo Tratado de Montevidéu de 1980. O passo inicial da aproximação foi a assinatura do Programa de Integração e Cooperação Econômica Brasil-Argentina. Agrupa quatro parceiros extremamente díspares. A nova organização recebeu a adesão de todos os integrantes de sua predecessora. que vai das áreas frias e secas das altas latitudes patagônicas ao domínio equatorial amazônico. Em seguida. Mesmo conservando como objetivo de largo prazo a criação de um mercado comum. que a substituiu pela ALADI (Associação Latino-Americana de Integração). O núcleo geoeconômico do Mercosul é a região platina. fixada pelo Tratado de Integração. em julho de 1986. Cooperação e Desenvolvimento. além das grandes concentrações demográficas. no prazo de dez anos. os governos dos dois países decidiram acelerar o processo de integração. Em julho de 1990. entrou em vigor o Acordo de Complementação Econômica (ACE-14). quando o Tratado de Assunção definiu os contornos do Mercosul. O Mercosul nasceu da aproximação brasileiro-argentina e dos acordos prévios de integração bilateral firmados entre os dois países. O novo Tratado tem metas menos pretensiosas e mais flexíveis. enquanto o Uruguai e o Paraguai são economias fortemente dependentes dos seus vizinhos. prevendo a redução gradual das tarifas alfandegárias. o Uruguai e a porção oriental do Paraguai. O Mercosul estende-se por um vasto espaço geográfico. o Pampa argentino. até a sua completa eliminação. A Bacia do Prata – vertebrada pelos rios Paraná. encontram-se as principais metrópoles e zonas industriais dos países-membros.

quando a indústria já se havia tornado o núcleo dinâmico da economia nacional. realizou-se através do livre-cambismo e sob a influência dominante da Inglaterra. a oeste. Curitiba e Porto Alegre. na Argentina. em especial. no Uruguai. A aglomeração metropolitana de Buenos Aires. A organização do espaço regional argentino segue um nítido esquema de tipo centro-periferia. a grande metrópole argentina (Buenos Aires) e importantes cidades que organizam o espaço regional: Belo Horizonte. Rosário é um importante centro siderúrgico. no Paraguai.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL brasileiras (São Paulo e Rio de Janeiro). Córdoba destaca-se como pólo de indústrias dinâmicas: lá se encontram as principais montadoras automobilísticas de capital europeu. com mais de 10 milhões de habitantes (cerca de um terço da população do país) concentra os serviços financeiros. A industrialização do Brasil. O Centro-Sul surgia como expressão da integração econômica dessa parte do território nacional. A inauguração de Brasília. seguida da abertura de rodovias de integração. a carne e a lã) e os manufaturados europeus beneficiava essencialmente a elite portenha e os grandes estancieiros exportadores. No final do governo de Juscelino Kubitschek (1956-61). Rosário e Córdoba. valorizou a Região Sudeste e. encontra-se o cinturão industrial do país. Assunção. Ao seu redor. No Pampa. Montevidéu. sob a hegemonia do porto de Buenos Aires. o Estado de São Paulo. desenvolveu-se a valorização do Pampa agrícola e pecuarista. estendem-se as periferias regionais: a Patagônia. ao norte. Apesar da sua economia estar fundamentada nas atividades 115 . ao sul. refletia a transformação de Goiás e do atual Mato Grosso do Sul em espaços de expansão da economia do Sudeste. O Pampa concentra a maior parte da riqueza e da população do país. o Sudeste industrial estava firmemente soldado às áreas complementares de agricultura e pecuária no Sul e nas regiões meridionais do Centro-Oeste. os Andes. desde as primeiras décadas do século. as sedes das corporações e a maior parte da produção industrial. . A troca entre os produtos agropecuários do interior estancieiro (o trigo. o Chaco e a Mesopotâmia. no Brasil. desde o início. na segunda metade do século XIX. que se estende em arco aberto de Buenos Aires a Córdoba. A estruturação do território da Argentina realizou-se. A soldagem do Pampa à Europa. Ao redor da área portenha. passando por Rosário. O Uruguai forma uma faixa de transição entre o Centro-Sul brasileiro e o Pampa argentino. em 1960.

sob forte influência brasileira. a paisagem monótona das grandes propriedades de pecuária ultra-extensiva – onde escasseiam homens e animais – é pontuada por regiões minifundistas. que corresponde ao despovoado Chaco. Próximo à fronteira nordeste. a cidade desenvolveu um forte centro financeiro. Em grande parte. O rio. O Paraguai é atravessado. a taxa de urbanização é bastante elevada. As companhias de navegação. os armazéns. a agricultura da fronteira é controlada por empresários rurais brasileiros. de norte a sul. primeiro passo do Tratado. encontram-se as zonas dinâmicas e a usina de Itaipu. de exportação e importação. onde se pratica uma agricultura de subsistência de baixa produtividade. Entre o Rio Paraguai e a fronteira oriental. que logo alcançou dimensões internacionais. A configuração de uma zona de livre comércio. Esta concentração urbana da população é conseqüência da estrutura fundiária baseada no domínio da grande propriedade e das modalidades predominantes de uso do solo – a pecuária extensiva e as culturas mecanizadas – poupadoras de mão-de-obra. amplia a escala dos mercados para as empresas envolvidas e reorganiza a divisão regional do trabalho. Nas áreas menos férteis. as empresas de transportes dinamizam a vida econômica da capital. Ao lado das funções administrativas e comerciais. no leste. passando a receber investimentos especulativos provenientes da Argentina e do Brasil. A aglomeração metropolitana de Montevidéu agrupa cerca de 1.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO primárias. atingindo cerca de 85%. pelo rio de mesmo nome. estendem-se as grandes regiões agropecuárias. Essas mudanças seriam aprofundadas com a evolução rumo ao mercado comum. A função portuária continua a representar a principal atividade da capital.6 milhão de habitantes. O processo de integração deflagrado pelos acordos entre o Brasil e a Argentina e aprofundado pelo Tratado de Assunção tende a interferir nas dinâmicas territoriais dos países-membros. aparecem áreas de agricultura comercial. em especial soja e café. no qual todos os fatores de produção passariam a dispor de liberdade de alocação. O padrão agroexportador da economia do país condicionou a hegemonia da capital portuária sobre o interior pampeano. onde. define duas áreas distintas: o oeste. o que representa a metade da população nacional. junto ao Brasil. que corta Assunção. 116 .

Esses dois ecossistemas inteiramente diferentes exibem uma semelhança socioeconômica e territorial – tanto a Amazônia equatorial como a Patagônia fria e seca são vastos espaços de baixas densidades demo gráficas e elevada potencialidade econômica. encontram-se as duas frentes de expansão do povoamento da área do Mercosul: a Amazônia brasileira e a Patagônia argentina. as iniciativas no campo dos transportes ganham uma especial relevância. Assim. Paraguai e Uruguai. o Sul e a parte meridional do CentroOeste – sob o comando dos capitais industriais e financeiros baseados em São Paulo – ganha novo impulso com a abertura do mercado argentino. que não é servido por eclusas e exige o transbordo rodoviário de cargas. interligou o Centro-Sul do Brasil aos mercados de Argentina. No campo dos transportes terrestres. da carência de investimentos e infra-estruturas. A entrada em operação da hidrovia Tietê-Paraná. No caso da Argentina. principalmente no caso do Chaco. a hidrovia do Mercosul é o projeto de maior envergadura. Essa hidrovia tem como único obstáculo de porte o desnível de Itaipu. No plano do transporte fluvial. essas regiões se ressentem de fraco dinamismo econômico e. o Mercosul acentua a urgência de integração das regiões setentrionais – a Mesopotâmia e o Chaco – ao núcleo portenho-pampeano. favoreceria o complexo industrial instalado nas capitais 117 . um projeto de forte impacto é o da auto-estrada São Paulo-Buenos Aires. Nesse contexto. no trecho brasileiro do Alto Paraná. proposto pelas lideranças industriais. o Mercosul tende a reforçar as modalidades históricas de regionalização. O traçado litorâneo. Muito além do núcleo geográfico platino. uruguaio e brasileiro. Situadas nas faixas de fronteira.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL No caso do Brasil. é objeto de intensos debates envolvendo lideranças industriais e rurais dos três estados da região Sul do Brasil. já conhecida com Rodovia Sul-Americana. viabilizada pelas eclusas de Jupiá e Três Irmãos. O advento do Mercosul e das novas estratégias comerciais e empresariais abre amplas perspectivas de integração territorial na sub-região. A infra-estrutura disponível às empresas do Mercosul aparece como um dos elementos fundamentais na definição de sua competitividade e eficiência. integraria o leste dos territórios argentino. A soldagem entre o Sudeste. O traçado desta estrada.

pela primeira vez. do Paraná e de Santa Catarina propõem a interiorização da estrada. O primeiro deles. b) adoção de uma Tarifa Externa Comum (TEC). no norte do Chile. O projeto seria complementado com a construção de uma ponte de 50 Km sobre o Rio da Prata. o Atlântico ao Pacífico na América do Sul e abririam novas perspectivas de integração do Cone Sul com a Bacia do Pacífico. f) livre circulação de capitais. destaca os objetivos e as características básicas do Mercosul.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO dos estados da região Sul do Brasil. Essa meta pode ser decomposta nos seguintes elementos básicos: a) eliminação das barreiras tarifárias e não-tarifárias no comércio entre os países-membros. escrito pela geógrafa Mônica Arroyo. Os empresários e políticos do interior do Rio Grande do Sul. de autoria dos embaixadores Sérgio Abreu e Lima Florêncio e Ernesto Henrique Fraga Araújo. 48% da catarinense e 53% da paranaense. a rodovia interior poderia servir de “corredor” para 26% da economia gaúcha. Texto 1 -Os Objetivos do Mercosul O Mercosul é um processo de integração que tem como meta a construção de um Mercado Comum. d) livre comércio de serviços. diminuir o êxodo rural e ampliar a oferta de empregos na região. unindo Buenos Aires a Colônia. Segundo estudos realizados na Universidade de Passo Fundo. c) coordenação de políticas macroeconômicas. Textos Complementares Os textos selecionados para introduzir a discussão sobre a origem e o significado do Mercosul abordam dois aspectos cruciais no processo de integração. situa o bloco subregional no contexto das tendências simultâneas de globalização e regionalização que presidem a economia mundial contemporânea. e) livre circulação de mão-de-obra. O segundo. 118 . Estas ligações uniriam. planeja-se uma ligação rodoviária entre o porto de Rio Grande e o porto de Antofagasta. Uma ligação ferroviária entre o porto de Santos e esse mesmo porto chileno também está em projeto. de forma a beneficiar os produtores rurais dos três estados. Além da auto-estrada.

que serão gradativamente eliminadas. a eliminação das tarifas e das restrições não-tarifárias entre os seus parceiros.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL Examinemos um a um esses objetivos. a) Eliminação de barreiras tarifárias e não-tarifárias O primeiro objetivo do Mercosul. e das quais falaremos mais adiante. Trata-se da coordenação de políticas macroeconômicas. desde aquela data. foi concretizado também em 31 de dezembro de 1994 – igualmente prevendo-se algumas exceções. chamada de Margem de Preferência. foi atingido em 31 de dezembro de 1994. o estabelecimento de uma Tarifa Externa Comum. que desaparecerão com o tempo. A esta vantagem chamamos Preferência Tarifária ou Margem em Preferência. b) Tarifa Externa Comum O segundo objetivo do Mercosul. com algumas exceções. 119 . Esta diferença. Ou seja. Ora. Entretanto. a liberalização do comércio de serviços. Hoje. o Mercosul já preenche os requisitos para ser considerado uma União Aduaneira.e. entre os países envolvidos no Mercosul) é uma característica essencial dos processos de integração: as alíquotas aplicadas ao comércio dentro da zona são sempre diferentes (e menores) do que aquelas praticadas com países fora da zona. a importação de um produto proveniente de um mercado fora do Mercosul está sujeita à mesma alíquota tarifária nos quatro países. A desgravação tarifária maior para o comércio intrazonal (i.. conclui-se que os integrantes do grupo têm uma vantagem. o Tratado de Assunção estabelece ainda outros objetivos. como continua a haver tarifas para os países fora do grupo. Cumpridos esses dois objetivos básicos. um país pode importar produtos de outro integrante da Zona sem pagar tarifas. a livre circulação de trabalhadores e a livre circulação de capitais. que deverão ser trabalhados ao longo dos próximos anos para que o Mercosul se torne um Mercado Comum. é um dos grandes estímulos que os países têm para integrarem-se.

É 120 . que poderia prejudicar a todos. Quanto mais avance o processo de integração no Mercosul.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO c) Coordenação de políticas macroeconômicas O objetivo seguinte é a coordenação de políticas macroeconômicas. política monetária (taxa de juros e quantidade de moeda a ser emitida) e política fiscal (controle dos recursos a serem arrecadados e gastos pelo Estado). o que estimulará intensamente suas exportações e reduzirá suas importações. causando desequilíbrio na balança comercial em desfavor dos parceiros. ou promoverão eles também desvalorizações de suas moedas. de modo a evitar desequilíbrios comerciais. A coordenação de políticas cambiais implica que cada país aceita limites nas modificações que pode introduzir em sua taxa de câmbio. Apesar de necessária. A importância de coordenação macroeconômica entre países em processo de integração fica bastante clara quando se considera a questão do câmbio. um país pode. como por seu impacto nos fluxos de investimento (um país com juros mais elevados pode atrair mais capitais externos) e nas condições de concorrência (um país que cobra menos impostos incentiva os seus produtores locais. Num ambiente onde não exista coordenação. É preciso compreender. um circuito de “desvalorizações competitivas”. Benéfica porque constituirá um fator de disciplina na condução das políticas econômicas. em detrimento dos concorrentes do outros países-membros). a coordenação de políticas macroeconômicas será certamente um processo lento. que não se pode pretender implementar em um período muito curto. mais necessária se fará a coordenação de políticas macroeconômicas – tanto por seus efeitos comerciais já apontados acima. mudança de grande envergadura. A política macroeconômica de um país se divide em três esferas principais: política cambial (taxa de câmbio da moeda nacional em relação ao dólar ou a um padrão de referência externo). já que implicará uma limitação na autonomia de cada país para conduzir sua política econômica. a qualquer momento. Criar-seia. no entanto. e porque contribuirá para um ambiente de previsibilidade e de regras do jogo estáveis. Estes últimos terão duas opções: ou absorverão as conseqüências da medida e as distorções decorrentes da diferença cambial. decretar uma maxidesvalorização de sua moeda. que a autolimitação decorrente do processo de coordenação macroeconômica será benéfica para cada país. neste caso. e quanto mais se desenvolva a interdependência entre as economias dos países-membros.

Por outra parte. e) Livre circulação de capitais Por fim. como já está ocorrendo. não importando que isso seja uma decisão absolutamente individual ou a decorrência de compromissos assumidos num processo de integração. A crescente interpenetração das economias resultará. com efeito. Além disso. temos o objetivo da livre circulação de capitais. A 121 . Para que isso seja possível. é necessária. a crise financeira mundial no início de 1995. A participação direta de representantes dos trabalhadores no processo de discussão desses temas. ainda. a facilitação do reconhecimento mútuo de títulos e diplomas. o trabalhador pode beneficiar-se apenas – embora já seja muito – dos empregos que o Mercosul cria em seu próprio país de cidadania. ter uma política cambial estável. d) Liberalização do comércio de serviços Os negociadores do Mercosul terão que enfrentar.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL bom para qualquer país. além da harmonização de legislações. Somente o acesso desimpedido a esses mercados permitirá que o trabalhador aproveite os frutos da integração na sua totalidade. que já está sendo desenvolvido. Atividades nesse sentido já estão em andamento. quando se considera também a situação dos profissionais de nível superior – igualmente interessados no mercado dos outros países do Mercosul – . no futuro. o trabalhador deverá ter acesso também aos empregos que o Mercosul cria no país vizinho. no entanto. é necessário um enorme esforço de harmonização das legislações trabalhistas e previdenciária. Mas. que já ocorre e que provavelmente será reforçada no quadro do Foro Consultivo Econômico e Social – do qual falaremos – . e a crescente demanda da sociedade civil provavelmente forçará sua aceleração no curto e médio prazo. no interesse dos trabalhadores de cada país pelo mercado de trabalho dos vizinhos. por exemplo. tende a criar uma pressão crescente pelo desenvolvimento de ações facilitadoras da circulação de mão-de-obra. a questão da circulação de trabalhadores. mas ainda há boa distância a percorrer até a livre circulação de capitais. com seu impacto traumático. Até aqui. parece contribuir antes para critérios de maior controle sobre os fluxos de capital do que para uma facilitação desses movimentos. Os investidores dos países do Mercosul já contam com certas facilidades e garantias para suas aplicações no mercado dos parceiros.

apesar das dúvidas dos “euro-céticos”. Sendo um processo. Não podemos nos esquecer de todas as implicações da palavra “processo” quando descrevemos o Mercosul como um processo de integração. Examinando os diversos modelos de processos de integração e a situação que o Mercosul ocupa nesse quadro. o Mercosul está sempre acontecendo. A União Européia surge. Trata-se do sistema de integração mais profundo. uma liberalização bastante qualificada: a tendência aponta para um maior controle dos movimentos de capitais especulativos. a consecução desses outros objetivos. que para alcançar o estágio de Mercado Comum o Mercosul ainda terá de concretizar objetivos de grande envergadura: a coordenação de políticas macroeconômicas. muitas vezes se faz de forma superficial. A comparação dos tempos da União Européia e do Mercosul. apequenar o que já foi conseguido. a União Européia não é uma matriz a ser fotocopiada. dizem. Sempre uma nova idéia. mais ambicioso e economicamente mais pujante já implementado. “Não podemos querer atingir em poucos anos o que a Europa levou quatro décadas para alcançar”. a liberalização do comércio de serviços e a livre circulação de mão-de-obra e capitais. e seu sucesso é absolutamente inegável. E as idéias geram idéias. Na verdade. mais complexo. a União Aduaneira vigente desde 10 de janeiro representa urna massa crítica de tal ordem que por si só. pela União Européia. só atingidos. Essa perspectiva não deve. Entretanto. Não é o modelo arquetípico com o qual os demais processos de integração têm que se parecer ao máximo. como um paradigma. num sistema dotado de organicidade e dinamismo. sempre que se fala de processos de integração. naturalmente. contudo. O estágio que o Mercosul alcançou em 10 de janeiro de 122 . Percebe-se. os avanços geram novos avanços. por mais complexos que sejam.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO liberalização dos fluxos de capital no Mercosul será. provavelmente. O equívoco dessa visão de uma União Européia arquetípica fica muito evidente quando se vêem certos comentários sobre os prazos para a construção do Mercosul: “os prazos são irrealistas”. pelo próprio desdobramento de sua lógica interna. ao lado de uma facilitação dos fluxos de capitais produtivos. mais cedo ou mais tarde. assim. um novo projeto de acordo está fermentando em alguma parte. até agora. um novo tema. exigirá. é lícito concluir que o Mercosul já alcançou patamares bem avançados de integração.

como veremos. um movimento que opera na escala mundial. Mercosul hoje. inauguradas nos anos 80. Com efeito. Na verdade. A globalização remete à idéia de um movimento que tem como “campo de ação” todo o planeta. p.] Texto 2 – Mercosul: Novo Território ou Ampliação de Velhas Tendências? O contexto internacional Duas tendências concomitantes no sistema internacional contemporâneo têm se acentuado na última década: a globalização e a regionalização da economia. após três anos e meio de negociações – o de União Aduaneira – . que baseando-se inicialmente no complexo metalmecânico passou também – e fundamentalmente – a fazê-lo no complexo eletroeletrônico. As novas tecnologias. 1996. mostra uma tendência a atuar em uma área limitada do planeta. em uma escala mais reduzida. essa oposição é só aparente já que essas tendências complementam-se para dar respostas às mudanças estruturais que estão transformando paulatinamente o cenário mundial. Sérgio Abreu e Lima e ARAÚJO. Isso é possível pela conformação de um novo padrão industrial. 123 . não em quarenta. 28-33. mas em cerca de onze anos a partir da assinatura do Tratado de Roma. por outro lado. iniciado em 1960. São Paulo: Ed. sobretudo no campo da microeletrônica. A regionalização. na realidade. de 1957. A complexidade crescente no processo produtivo é um dos eixos dessas mudanças. como também ocorre no Mercosul. os seis países signatários do Tratado de Roma. já haviam. Por outra parte. Ernesto Henrique Fraga. Alfa Omega. em 1968. foi atingido pelos membros originários da União Européia. não se pode pensar que o Mercosul surgiu do nada. o Mercosul está alicerçado sobre um longo processo de integração latino-americana. A concorrência mediante preços já não é tão decisiva quanto a que se traduz na qualidade e na diferenciação dos produtos. Elas se opõem quanto à direção do movimento que em cada uma está implícita. e sobre as iniciativas de integração bilateral Brasil-Argentina.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL 1995. eliminado as barreiras ao seu comércio recíproco e adotado uma Tarifa Externa Comum – em ambos os casos com algumas exceções. A incorporação do conhecimento tecnológico aparece como a condição necessária para o aumento da produtividade e do crescimento econômico. Porém. [FLORÊNCIO.

MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO imprimem um salto qualitativo no processo de produção. a qual. das regiões e dos países2. com a diminuição relativa na estrutura ocupacional dos operários (Cacciamali. uma rápida obsolescência dos produtos e processos. de um lado. embora não seja novidade. Produtos mais complexos. Esse aprofundamento do processo de concentração e centralização do capital tem permitido aumentar o controle dos conglomerados sobre as relações econômicas internacionais. EI socialismo futuro. os espaços nacionais deixam de ser o locus privilegiado para o processo de acumulação. Os governos nacionais buscam ampliar o espaço de realização das 1 Na produção. exigem mercados mais sofisticados e segmentados na economia mundial. a qualidade da infom1ação tem se convertido em fator estratégico para a competitividade das empresas. acentuando a tendência à globalização da economia. investimentos de alto custo e. tanto para as grandes empresas quanto para os próprios países. O avanço nas tecnologias de informação facilita significativamente essa tendência ao permitir que as etapas de produção se localizem em países diferentes mantendo o monitoramento centralizado sobre elas. E na organização do trabalho.la nueva división internacional del trabajo y el projeto socialista. de gestão e de organização do trabalho1. as novas tecnologias exigem escala planetária. Ominami (1986) destaca o rápido aumento do número de países em desenvolvimento que dispõem de empresas com investimentos diretos no estrangeiro. neste processo. a expansão das grandes firmas oligopólicas nos setores produtivo e financeiro modifica substantivamente a geografia mundial. 4. Assim. 2 Ver CASTELLS. Na gestão. Esse salto. Outra mudança estrutural a considerar nesta análise é a crescente transnacionalização da economia. Manuel. É assim que. 1991). com métodos administrativos mais eficientes. assentou-se nas últimas décadas3. Embora seu tamanho seja consideravelmente mais reduzido que o das empresas dos países industrializados. na utilização de robôs e em formas de energia. projeção e desenhos de novos produtos. 3 Neste sentido. por implicar. cuja manifestação cada vez mais acentuada é a consolidação de um espaço integrado da empresa. além das fronteiras nacionais. Dessa forma. cria a necessidade de ampliar a dimensão dos mercados. esta tendência incrementou-se desde os anos 70. com inovações aplicadas na concepção. mais intensivos em tecnologia. como a aplicação do princípio just in time (gestão por fluxos). La economia informacional. com novas técnicas gerenciais e de alocação e treinamento dos recursos humanos. de outro. Dessa maneira. 1991. Madri. 124 . em que a ênfase é dada à qualificação da mão-de-obra e à maior integração entre a administração e a produção. em equipamentos e sistemas flexíveis de produção de manufaturados.

uniões aduaneiras ou mercados comuns. processo de integração que tem alcançado o maior grau de aprofundamento. são complementares ao coincidir na busca de uma inserção em um contexto mais amplo. o Pacto Andino anunciou que o prazo para a formação de uma Zona de Livre Comércio seria o dia 31 de dezembro de 1991 e antecipou para 1995 a adoção de uma tarifa externa comum. Nessa reordenação. os dos Estadosnação e os dos novos conjuntos ou agrupamentos de Estados. através da criação de zonas de livre comércio. O interesse associativo destas iniciativas visando o fortalecimento da base regional não é contraditório ou excludente. observa-se uma simultaneidade de movimentos diferentes que influem um no outro: o das empresas transnacionais. Algumas particularidades latino-americanas A formação de um mercado comum no Cone Sul (Mercosul) é uma das iniciativas intra-regionais de caráter minilateral que se tem registrado na América Latina no início da década de 1990. com peso ainda significativo das políticas conduzidas pelos Estados5. existem permanentes divergências para decidir se prioriza a solução dos problemas “domésticos” ou os relativos à Comunidade. com a tendência à globalização. Esses acordos sub-regionais de comércio reativados nos anos 90 são precedidos pela adoção de políticas unilaterais de liberalização em um contexto de 4 Os projetos mais avançados neste sentido são o Mercado Único Europeu e a Área de Livre Comércio entre Estados Unidos. e suprimir os obstáculos ao comércio intra-regional de manufaturas (Hirst. 125 . conforme tentam acomodar seus interesses específicos. 6 Em novembro de 1990. Pelo contrário. que os agrupamentos entre países têm preferentemente caráter intergovernamental. em julho de 1991 os governos dos países da América Central comprometeram-se a: reduzir até 31 de dezembro de 1992 a tarifa externa. Essa superposição é muitas vezes conflitiva pela tensão existente entre esses agentes. liberalizar completamente o comércio intrazonal de produtos agropecuários a partir de 30 de junho de 1992. se transforma assim em uma saída para enfrentar as novas condições da competitividade internacional4. já que ambas decorrem da necessidade cada vez mais presente da criação de mercados ampliados. 1991). tanto regional quanto mundial. acordos preexistentes que receberam novo impulso a partir de renovados programas de negociações regionais6. É bom ressaltar. A ampliação dos mercados. no entanto. Canadá e México (NAFTA – North American Free Trade Agreement).O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL mercadorias com maior abertura da economia. com a assinatura da Ata de La Paz. 5 Mesmo na Comunidade Européia. Podem-se mencionar também o Pacto Andino e o Mercado Comum Centro-Americano. Por seu lado.

procuram. Mudanças recentes no produto e no emprego: uma comparação entre os países industrializados e aqueles em desenvolvimento. com políticas econômicas nem sempre compatíveis e governos instáveis. 226. que facilitou o desenvolvimento industrial a partir da presença tutelar do Estado e com diferentes mecanismos de proteção econômica. com maior profundidade. Acordar entre onze. Maria Cristina. este tipo de acordo mais restringido parece “reconhecer a inviabilidade dos acordos múltiplos. 1991. programas de estabilização que foram administrados por meio de contenção de demanda interna sem uma definição prévia de política industrial e sem priorizar setores. como o Tratado de Montevidéu. quando sucessivamente diferentes países latino-americanos declaram a moratória. como uma das formas de reativação econômica. parece uma tarefa inviável” (p. ou mesmo as áreas sociais. seu desenvolvimento. associações minilaterais que dinamizem o comércio intrazonal8. implicou. É conveniente lembrar que tais receitas recessivas são tuteladas ou controladas pelo Fundo Monetário Internacional. 50). o que acabou por provocar uma desorganização econômica”7. que desde 1982 monitoriza o pagamento da dívida externa. 45(2). Isso se expressa claramente a partir de 1982. a crise estrutural que tem afetado secularmente o continente se aprofunda com uma gravidade sem precedentes na década passada. “O modelo de crescimento com endividamento. 8 De acordo com Quijano (1991). Diante desse contexto particular para o continente latino-americano e das mudanças estruturais do sistema econômico internacional. Esta denominação refere-se basicamente ao fato de que a América Latina está em um período de retardamento de seu processo de industrialização. começa a dar sinais de esgotamento nos anos 80. A posterior aplicação de políticas de ajuste permite explicar o predomínio da estagnação. quando se trata de países heterogêneos. abr-jun. 7 CACCIAMALI. após o choque dos juros. Efetivamente. recessão e descapitalização que caracteriza a chamada “década perdida”. no início da década de 1980.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO políticas de abertura das economias nacionais. Revista Brasileira de Economia. p. O modelo substitutivo de importações. que reúne na ALADI os 11 países da região. É no âmbito financeiro que se percebe. 126 . Rio de Janeiro. que a cada renovação mudam a ponderação ao projeto regional.se conformar. com diversos graus de desenvolvimento.

proposta de integração entre Argentina. Paraguai e Uruguai. no Chile. (c) a coordenação das políticas macroeconômicas e setoriais entre os Estados-membros. serviços e fatores produtivos entre os países. Limitam-se ao tratamento da questão das barreiras ao comércio (dos membros da comunidade entre si e no seu relacionamento com o resto do mundo). no Paraguai e na Venezuela. Optou-se por uma proposta que implica um importante aprofundamento no processo de integração econômica. indício da consolidação nos processos de transição democrática que vivem vários países da região. Brasil. Em 1990. Peru e Uruguai. que foi assinado em 1986. trata-se de proposta ambiciosa para cumprir em quatro anos. no Panamá. Nicarágua. em El Salvador. a análise deve remontar a seu antecedente mais recente. para entender o Mercosul. que surge com a assinatura do Tratado de Assunção em março de 1991.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL Salienta-se que esses fatos têm seu correlato no plano político. Sem dúvida. 127 . Costa Rica. que deverá estar estabelecido a 31 de dezembro de 1994 e que implica as seguintes metas: (a) livre circulação de bens. por sua parte. vem acompanhada por um desenho mais pragmático da política externa. exigem um grau menos avançado de integração. os Estados-Parte decidem constituir um mercado comum. Os momentos da integração econômica no Cone Sul O processo de integração no Cone Sul começa em 1985 com um encontro entre os presidentes Raúl Alfonsin (Argentina) e José Sarney (Brasil) em Foz do 9 Em 1989. o Programa de Integração e Cooperação Econômica (PICE) entre Argentina e Brasil. Tentam-se transformar os processos de integração já em curso em um instrumento para dinamizar as relações econômicas exteriores. no Brasil. De acordo com o Artigo nº 1 desse Tratado. Agora. e (d) o compromisso de harmonizar as legislações nacionais nas áreas pertinentes. inclui a livre mobilidade da mão-de-obra e de capital. O mercado comum. Honduras. (b) o estabelecimento de uma política comercial comum em relação a terceiros países. Neste contexto situa-se o Mercosul. pois a renovação dos numerosos governos no começo da década9. na Colômbia. aconteceram processos eleitorais na Argentina. como uma área de livre comércio e uma união aduaneira. o qual exige um importante esforço na coordenação das políticas internas dos países envolvidos. na Bolívia. Outras modalidades.

Universidade de São Paulo. o retorno à democracia e ao “estado de direito” contribuiu para que a dinâmica da cooperação-integração subordinasse a lógica da rivalidade-competição. Isto implica uma divisão do trabalho por produtos mais que por ramos de produção. Tese de doutoramento. começa-se a assinar uma série de acordos e protocolos bilaterais visando aprofundar um programa de negociações. de produtos primários com pouco grau de processamento por parte da Argentina diante das exportações brasileiras de manufaturas. pode até provocar a desaparição de algum setor em um dos parceiros comerciais. que. p. Esta opção é uma tentativa de reverter o esquema predominante no comércio bilateral. Este fato é significativo já que se situa no processo de reabertura democrática iniciado nos dois países depois de traumáticos regimes militares.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Iguaçu. que se baseia fundamentalmente na exportação. São Paulo. Argentina e a balança de poder regional: equilíbrio. 10 MELLO. 1991. nos quais predominava uma relação de mútua desconfiança. 271. 1991. 128 . a longo prazo. preponderância ou hegemonia? (1969-1986). Departamento de Ciência Política. criar um novo padrão de relacionamento entre as duas economias. Os protocolos setoriais são os instrumentos básicos deste Programa. Esquema clássico de especialização intersetorial. Texto para discussão. na qual se prioriza o intercâmbio de bens análogos com certo grau de diferenciação. José Tavares de. Universidade Federal do Rio de Janeiro. que consolide seu papel de indutores do crescimento regional11. Pelo contrário. Rio de Janeiro: Instituto de Economia Industrial. 11 ARAÚJO JR. em uma situação de mercado ampliado. que havia predominado nas relações brasileiroargentinas até o fim da década de 1970”10. alimentar e automobilística. recuperar o nível de transações e corrigir desequilíbrios sistemáticos nos fluxos de comércio e. Leonel Itassu Alemeida. Brasil. Daí a preferência que se outorga as indústrias de bens de capital. Facilitam uma abertura negociada por setor e por produto. A opção por soberanias compartidas na América Latina: o papel da economia brasileira. Assim sendo. 256. Como afirma Almeida Mello “com o fim do autoritarismo e do Estado de Segurança Nacional nos dois países platinos. Um dos objetivos mais significativos do PICE é promover uma especialização intrasetorial. procurando atingir dois objetivos: a curto prazo. o comércio intra-ramos promovido pelo PICE busca a criação de vantagens comparativas dinâmicas que incrementem a competitividade de alguns setores. estimulando uma diversificação das estruturas produtivas e o aproveitamento das economias de escala.

o processo de integração aprofundase no sentido de aspirar à constituição de um mercado comum e também alcança uma nova dinâmica14. La cuestión nacional y los dilemas jurídicos e institucionales en el processo de integración entre Argentina y Brasil. Ao mesmo tempo. Documentos e informes de investigación. Isso é importante na medida em que existem fortes disparidades entre vários segmentos dos setores envolvidos e. 14 O marco formal desta nova proposta instala-se com a Ata de Buenos Aires assinada em julho de 1990 entre Argentina e Brasil. 13 Ver HIRST. A renovação dos governos democráticos na Argentina e Brasil nos anos 90 promove uma reformulação ampla do PICE. visando estimular a complementaridade produtiva. Rio de Janeiro: Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior. 1991. mas como uma das respostas ao quadro de asfixia econômica e financeira em que se encontravam ambos os países12. conforme o PICE. os bens dos setores mais sensíveis. Buenos Aires. 1992. Como foi indicado no item precedente. 130. embora se reafirme. deve-se ressaltar a preocupação por uma abertura seletiva que implica não incluir. A Ata de Buenos Aires e as perspectivas de integrarão do Cone Sul. Avances y desafíos en la formación del Mercosur. 1990. como certas produções agrícolas. set. precisam-se desenhar linhas de reconversão industrial para acompanhar o processo. José Tavares de. e mais tarde se atualiza com o Tratado de Assunção e a incorporação do Uruguai e do Paraguai ao processo. portanto. 33. propõem-se medidas como a formação de empresas binacionais e a criação de um fundo de investimentos. Documento. Mônica.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL Além de estabelecer mecanismos progressivos de eliminação tarifária e de remoção de barreiras não-tarifárias. Para estes dois países o Tratado estende o prazo do programa de liberalização até 31 de dezembro de 1995. no início. com os governos dos presidentes Menem e Collor. Marcelo. Faculdad Latino Americana de Ciencias Sociales. 12 129 . Efetivamente. “dar tempo para que os setores produtivos nos dois países se ajustem às contingências criadas pela abertura parcial e seletiva dos mercados”. Cabe destacar o caráter gradual que se pretende impor ao processo com a finalidade de. o processo de integração. linear e Ver HALPERÍN. que produzem uma modificação radical nas políticas econômicas sustentadas basicamente em um conjunto de princípios neoliberais. ARAÚJO JR. Estabelece uma redução tarifária generalizada. julio. Universidad de Belgrano. a qual ocorre nem tanto por uma avaliação estrita de seus resultados. Texto para discussão interna. deixa de corresponder com uma política de abertura gradual e seletiva dos mercados para adquirir um sentido funcional em um contexto generalizado de exposição competitiva à economia mundial13. Buenos Aires.

Dificilmente podem-se atender a essas dificuldades em um ritmo tão peremptório. Um dilema ainda não resolvido Um processo de integração econômica entre vários países responde. Texto para discussão interna. em conseqüência. no passado. reduzir transitoriamente seu escopo para um Tratado de Livre Comércio. ajudaram a desgastar a idéia de integração latino-americana. No entender de Araújo (1990). é bom lembrar que na Europa. 33. enquanto há tempo. Este último depende principalmente dos processos políticos internos de cada país. Define-se assim uma mudança radical nas condições de concorrência já que se suprime a possibilidade de uma adaptação gradual de cada item ou matéria negociada a suas particularidades. que significa uma liberalização comercial de caráter universal (todos os produtos são submetidos automaticamente à redução tarifária). “a decisão de encurtar os prazos do programa foi uma temeridade. sem crise de inflação e dívida externa. as dificuldades inerentes ao complicado exercício de harmonizar políticas. junto a uma eliminação de barreiras não-tarifárias. sem dúvida. A propósito. a partir de 20% de redução tarifária anual. 10).MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO automática. p. e estabelecer prazos mais sensatos para a formação do mercado comum”15. há décadas submetida a retóricas governamentais inconseqüentes” (p. e é idêntica a inúmeras outras que. José Tavares de. a uma decisão de tipo político que imprime determinado conteúdo ao projeto. 18. 1990. A Ata de Buenos Aires e as perspectivas de integração do Cone Sul. Essa atitude representa um esforço inútil de criar fatos novos com o objetivo de manter a credibilidade do programa. Rio de Janeiro: Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior. nos próximos dois ou três anos. ARAÚJO JR. esse processo levou mais de quatro décadas. regida por prazos de cumprimento estrito. posto que nenhum dos dois governos está preparado para enfrentar. seria conveniente. Esta decisão de acelerar o processo de formação de um mercado comum com o estabelecimento de calendários extremamente apertados é também uma forma de desconhecer as assimetrias entre os países envolvidos e. Em outro de seus trabalhos acrescenta que “a fim de evitar que o Mercosul se torne mais um exemplo da longa lista de fracassos latinoamericanos. 15 130 . das relações econômicas preexistentes. set.

La trayectoria del proceso de integración argentinobrasileño. Esta concepção assemelha-se à “comercialista” que apontam Chudnosky e Porta. A primeira opção exige uma regulação estatal mediante unificação e harmonização das políticas econômicas. 16 131 .O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL da condução de seus governos e da participação dos diferentes segmentos da sociedade civil. Ao contrário. Halperín (1991) aponta duas opções para os governos do Cone Sul: uma negociação de abertura maciça para o aproveitamento planificado dos mercados. implica uma elevada desregulação das atividades econômicas. ou uma abertura irrestrita com condições impostas pelas “forças do mercado”. Pode. A partir daí a reestruturação passa a ser orientada estritamente pelos mecanismos do mercado. na qual a coordenação das políticas econômicas centra-se basicamente no tipo de câmbio. Uruguay: Centro de Estudios e Investigación de Posgrado (CEIPOS). Universidad de la República. uma abertura rápida e uma desregulação da economia podem conduzir a uma reconversão com um alto custo social e a um aprofundamento do esquema de especialização intersetorial. neste caso. A segunda opção. Fernando.se assimilar este caminho ao cenário “industrialista” definido por Chudnosky e Porta16 os quais supõem uma liberalização comercial dentro de um projeto global de reestruturação industrial. CHUDNOVSK. Daniel y PORTA. resultados diferenciados. Para isso. compatibilizar os regimes de promoção setorial e fixar algum mecanismo de paridade ou equivalência cambial de caráter permanente. 1990. associada a uma liberalização comercial progressiva. Documento de Trabajo. Seria suficiente. também. precisa-se de políticas industriais e tecnológicas ativas em cada país. Ao respeito. Tendencias e incertidumbres. permitiria orientar o processo de industrialização em face de um aumento de sua competitividade a partir de economia de escala e especialização. ao contrário. Daí que vários autores falam dos possíveis cenários ou opções que o processo de integração pode enfrentar. e um esforço deliberado de harmonização das políticas econômicas além do plano cambial. A diferença no grau de intervenção estatal que subjaz a cada uma das opções implica. Uma implementação de políticas industriais e tecnológicas ativas. incluindo previsões para os diferentes setores e ramos de produção e uma política externa comum.

que. a inflexão produzida a partir de 1990 mostra que o novo esquema parece estar mais próximo da opção “comercialista”. necessariamente. devem estar acompanhados. A partir desse suposto. Cada vez mais na experiência internacional torna-se central a idéia de “competitividade sistêmica” como base sólida para o desenvolvimento econômico. fundamentalmente das pequenas e médias empresas. Sem dúvida. se superpõe aos esforços individuais. Monica. que predominou no primeiro momento do processo de integração entre Argentina e Brasil. as condições que conformam tal entorno dependem em grande medida da presença ativa do Estado. corresponderia basicamente à via de tipo “industrialista”. Bernardo.)”17. na qual o Estado aparece subordinado à lógica do mercado. p. embora sejam condição necessária para atingir esse objetivo. Segundo Kosakoff.). o marco jurídico etc. [ARROYO. as instituições. competitividad e inserción externa. por inumeráveis aspectos que conformam o entorno das firmas (desde a infra-estrutura física. Industrialización. 17 132 . esta noção “substitui e. Pelo contrário. o único que pode facilitar a participação de todos os agentes econômicos no processo. pode-se inferir que em um cenário “comercialista” predominam as velhas tendências. Conforme observado. setembro. 1994. isto é. Buenos Aires: Presidencia de la Nación. Mercosul: Novas territorialidades ou ampliação de velhas tendências. 122-130. São Paulo: Hucitec. a rede de provedores e subcontratistas. por sua vez. Documento de trabajo. In: SCARLATO.] KOSACOFF. o aparato científico-tecnológico. o sistema de distribuição e comercialização até os valores culturais.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Neste sentido. pode-se concluir que o enfoque do avanço gradual por setores. In: SEMINÁRIO LAS VENTAJAS COMPETITIVAS DE LA NACIÓN. os que já detêm um importante grau de controle da economia. 1991. um esquema de intercâmbio no qual só se beneficiam os setores mais concentrados. deseja-se destacar que a possibilidade de atingir níveis crescentes de competitividade não depende exclusivamente dos esforços individuais dos agentes econômicos. Globalização e espaço latino-americano. Francisco Capuano e outros (org.

a Amazônia Internacional vem sendo objeto de diferentes estratégias nacionais de desenvolvimento e integração. do Peru. a Venezuela. As Perspectivas de Integração da Bacia Amazônica A Amazônia Internacional. Através dele. de forma a ligar Rio Branco (no Acre) até Pucallpa (Peru). consiste em uma rede integrada de telecomunicações baseadas no sensoriamento remoto. Trata-se. concebido no início da década de 1990. do Equador. provavelmente. essas estratégias envolveram a criação de órgãos de planejamento. o Suriname e a Guiana Francesa. em especial a partir da década de 1960. ocupa cerca de 35% da superfície da América do Sul. por exemplo. por sensores instalados em aviões e por radares fixos. o governo pretende controlar o tráfego aéreo e as atividades ilegais – tais como contrabando de minérios e narcotráfico – na região. O Projeto Calha Norte. a Cuiabá-Santarém e a Transamazônica. Envolveram também a construção de grandes eixos viários de integração. prevê a instalação de uma rede integrada de bases militares do Exército e da Marinha acompanhando as fronteiras setentrionais do Brasil com a Colômbia. Submetida a diferentes soberanias. criada em 1966 para coordenar e supervisionar programas e planos destinados a dinamizar a economia da região e a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa). da Venezuela e das Guianas. que não chegou a se concretizar. Além disso. estendendo-se pelos territórios do Brasil (cerca de 69% da área total). a Guiana. é uma área tornada estratégica pela sua importância crescente na rota de produção e distribuição mundial de narcóticos. 133 . A abertura de uma rota viária amazônica para o Pacífico através da complementação da BR-364. é um projeto tão antigo quanto polêmico. No caso brasileiro. criado em 1985. que processará imagens obtidas por satélites. a Cuiabá-Porto Velho. por exemplo. da maior “fronteira de recursos” do planeta. constituída em sua maior parte por terras baixas florestadas equatoriais drenadas pelo sistema fluvial comandado pelo Rio Amazonas. Mais recentemente. devido ao seu imenso potencial energético e mineral e à sua incalculável riqueza biológica. nascida no ano seguinte com o objetivo de estimular o processo de industrialização da cidade de Manaus. Já o Sistema de Vigilância da Amazônia (SIVAM).O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL 4. tais como as rodovias Belém-Brasília. as estratégias nacionais parecem apontar no sentido de garantir o controle sobre as permeáveis fronteiras da região. da Bolívia. tais como a Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam).

destacase o Tratado de Cooperação Amazônico (TCA). Texto Complementar No fragmento de texto abaixo. emergem esforços no sentido de viabilizar o estabelecimento de políticas de desenvolvimento e de sustentabilidade ambiental para o conjunto da Amazônia Internacional. a geógrafa Berta Becker problematiza a organização territorial da Amazônia. criar importante instrumento de barganha para negociar com os credores. a Amazônia brasileira é alvo de uma imensa pressão ecológica internacional devido ao valor de seu patrimônio genético. minimizar investimentos para o desenvolvimento regional e para assegurar as fronteiras. Entre esses esforços. por um lado. 134 . assinado por todos os países da região em 1978. Texto 1. A maior dificuldade para soldar um pacto supranacional reside na ausência de projetos nacionais para a Amazônia capazes de compatibilizar os projetos internacional e regional. ao lado das estratégias nacionais. ocorrida no início da década de 1990.Em Busca de um Projeto Pan-Amazônico O equacionamento da problemática amazônica nacional requer igualmente a compreensão e a compatibilização de interesses atuantes no conjunto dos países amazônicos. mormente quando a nova ordem mundial se reorganiza em grandes mercados supranacionais. enfrentar as pressões internacionais e definir a forma de inserção dos países sul-americanos na ordem mundial.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Ao mesmo tempo. A aprovação de um projeto de macrozoneamento econômico e ecológico para a Amazônia Legal. apresenta as problemáticas comuns às localidades fronteiriças e analisa as perspectivas de cooperação entre os países da região. a cooperação entre países com herança histórica e condições naturais similares e contigüidade física significa. Em face da crise das economias e dos Estados nacionais. A substância e a viabilidade de um pacto Pan-Amazônico são discutidos pela geógrafa Berta Becker. Entretanto. é em parte resultado dessa pressão. por outro. E a integração continental pode se constituir como projeto nacional para os países amazônicos. no texto complementar que encerra essa Unidade. A formação de um pacto amazônico seria vantajosa econômica e politicamente. e.

intensificando-se as práticas bilaterais. estabelecido entre Venezuela e Colômbia (intensificado com os estudos elaborados pela Missão do BID em 1964). os conflitos e o tráfico fronteiriço. as amazônias passam a se valorizar como fronteira de recursos mundial e nacional e fronteira geopolítica nacional. que surge ciclicamente com diferentes projetos. Elementos comuns e diferenciados na problemática amazônica continental Todos os países amazônicos convergem para uma problemática básica: a virtualidade e a vulnerabilidade históricas da Amazônia sul-americana. a industrialização por substituição das importações e o forte crescimento demográfico valorizaram as amazônias como fronteiras agrícolas nacionais e os Estados cooptaram o movimento relativamente espontâneo da população em nome da unidade nacional. Datam da década de 1940 as primeiras práticas estatais para a ocupação das respectivas amazônias. Seu valor econômico e estratégico é patente na tese de sua internacionalização. mas é geograficamente periférica do ponto de vista nacional. muito aquém do discurso. que permaneceram. manter os privilégios regionais consolidados? Como participar de um pacto supranacional sem a consolidação plena da nação. mas condições históricas e naturais garantiram a sua permanência como patrimônio das sociedades sul-americanas. bem como para a cooperação fronteiriça. estimulam a migração. À semelhança do Brasil. essencial para a formulação do projeto nacional democrático? Uma estratégia para a Amazônia sul-americana há que considerar problemáticas comuns e diversas desses países e as possibilidades que oferecem à cooperação. Entre 1930 e 1960.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL Há. Por esse valor econômico e estratégico tornou-se central sob a óptica mundial e nacional. problemas comuns a esses países e que exigem tratamento conjunto. que passam a dirigir a ocupação segundo a filosofia do desenvolvimento e segurança. A partir da década de 1960. só recentemente se desencadeou a rápida ocupação das amazônias sul-americanas. Empresas estrangeiras mineradoras e governos autoritários. Dentre essas práticas destaca-se o Estatuto Fronteiriço de 1942. simultaneamente. sem dúvida. Mas há também problemáticas específicas e conflitos a neutralizar: como abrir a economia e. e principalmente de 1970. Alguns elementos comuns dessa problemática e das políticas podem ser identificados: 135 . contudo.

problemáticas específicas tornam essa cooperação difícil. o afluxo migratório foi muito superior ao esperado e não consegue ser absorvido pelos escassos e precários projetos estabelecidos. Uma lógica comum acompanhada de estratégias semelhantes no tocante ao chamado processo de desenvolvimento regional. 3. criando tensões com as populações indígenas e escapando ao controle governamental. Se tal comunalidade aponta para a necessidade e a possibilidade de cooperação. território a ser conquistado. instaladas com desconhecimento das condições locais. e tal poder de compra vem arrastando todos os países amazônicos para a economia de um produto cujo preço rivaliza com o do ouro. e que têm como efeito perverso provocar conflitos ambientais. Práticas governamentais inadequadas. 4. no entanto. No plano interno. devido. inerente ao modelo de ocupação adotado e que acentua a sua posição dicotômica central/periférica. é contestada não tanto pela imbricação crescente de empresas e organismos internacionais no processo de ocupação – fenômeno hoje de âmbito universal – nem apenas pela pressão ecológica e financeira internacional. se legitimaram através de ações que privilegiaram o capital externo à região com apoio militar. na geopolítica de caráter militar. Os países da Amazônia sul-americana são bem mais heterogêneos do que aparentam. Um problema de soberania decorrente de conflitos externos e internos. patrocinados diretamente pelos Estados. que se resumem a projetos de colonização e redes viárias precárias. Essa lógica comum encontra sua raiz mais profunda na visão latino-americana que alia desenvolvimento à segurança nacional – isto é. E os programas para seu desenvolvimento. de terra e sociais. Os projetos foram parte de uma estratégia para desviar o fluxo demográfico das áreas densamente povoadas para as respectivas amazônias. a Amazônia foi vista como “espaço vazio”. O fortalecimento das elites regionais. pelo menos. Em todos os discursos oficiais. mas também pelo narcotráfico. tanto nacionais como de cooperação intergovernamental.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO 1. 2. O mercado norte-americano de drogas consome por ano cerca de 150 bilhões de dólares (mais que a dívida externa brasileira). No plano externo. aos seguintes fatores: 136 . a soberania é contestada pela ocupação conflitiva e descontrolada numa área de difícil acesso.

extensão que repercute no seu maior ou menor distanciamento em relação aos centros vitais dos respectivos países. em alguns países. Neste contexto. as fronteiras vêm experimentando um processo de vivificação desordenada. nas fronteiras políticas. 3. Essa concepção foi justificada com a política externa agressiva do regime militar brasileiro entre 1964 e 1974. Possibilidades de cooperação no contexto local: a questão fronteiriça Nas fronteiras políticas dos países amazônicos se materializa parcela importante da teia de relações que se pretende cada vez mais densa na região. de revestimento florestal e de extensão das diversas amazônias. que é variado. referente ao dinamismo e à diversificação das economias nacionais. O nível cultural e organizacional das populações indígenas. A partir da década de 1970. a marginalidade e a vida econômica e política oficial. como decorrência da ação governamental perversa. da magnitude dos conflitos e do megapoder dos traficantes de drogas. Movimentos migratórios tendem a se aproximar e mesmo ultrapassar os limites políticos de cada país. mas superior ao brasileiro. vários processos conflitivos se superpõem: a ingerência externa e a soberania nacional. 4. O nível de desenvolvimento econômico e social. Tais diferenças parecem explicar a prática de acordos bilaterais. cumpre assinalar a dificuldade vinculada ao desnível entre o Brasil e os demais países em termos de maior dinamismo econômico e extensão territorial. Aí se torna mais transparente o papel das atividades ilegais. a ocupação 137 . à distribuição da renda e à pobreza. que é concebido como ameaçador pelos demais países. O grau de ingovernabilidade.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL 1. sobretudo ouro e droga. adotada na cooperação entre países. 2. na perspectiva de uma estratégia comum. constituem um Estado paralelo. decorrente da ineficácia da ação governamental. que. Em outras palavras. como novos fatores da organização territorial na Amazônia. é útil identificar os espaços onde se devem concentrar esforços de cooperação. Indicam também que. fluindo para um ou outro segundo as oportunidades econômicas que apresentem. de sua crise e de movimentos espontâneos. A diversidade de condições geológicas.

fruto do desnível socioeconômico entre países vizinhos e do ritmo de sua recuperação. a maioria na clandestinidade. e os garimpeiros exercem poder na região. O movimento aqui é oposto. O movimento nessa fronteira se caracteriza como uma trilha de comerciantes. c) Rio Catrimani – divisa entre Roraima (Brasil) e Estado Bolívar (Venezuela).). que contrasta fortemente com a mais bem desenvolvida cidade venezuelana de Santa Elena (ligada por asfalto até Caracas). b) BV-8 (RR)/Santa Elena do Uiaren (Venezuela). A maior parte dos brasileiros da região vive do lado venezuelano. mais bem aparelhada do que Bonfim. Fluxo de mão-de-obra brasileira para a Guiana Francesa É o que ocorre entre Oiapoque (AP) e Saint Georges. Embora pouco permaneça no Brasil. ou permaneça de forma ilegal. em Boa Vista.. devido a um imenso desnível entre as duas cidades em termos de habitação. 138 . A Guiana Francesa é tida como terra prometida para muitos brasileiros que lá vivem. Essa área Yanomami é a porta de entrada clandestina dos garimpeiros brasileiros em território venezuelano. o ouro responde em grande parte pelo crescimento de Boa Vista. é hoje a pequena Vila Pacaraima.. revendendo dólares e combustível adquiridos na Venezuela. principalmente guianeses. uns organizados em tomo da União dos Sindicatos e Associações de Garimpeiros da Amazônia Legal (Usagal). A localidade de BV8. que compram mercadorias em Boa Vista e revendem em Lethem. que tende a crescer devido aos investimentos franceses em infra-estrutura e hidreletricidade. constituindo embriões de novas territorialidades (. Comércio legal e ilegal em torno de Boa Vista (RR) Três situações se identificam: a) Bonfim (RR)/Lethem (Guiana). marco fronteiriço. infra-estrutura e serviço médico e oferta de trabalho. Algumas dessas situações podem ser exemplificadas em localidades fronteiriças.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO desordenada e a emergência de economias transfronteiriças.

que no Brasil se estendem por 11 mil quilômetros. redistribuindo o produto para o exterior através das rotas norte. 139 . b) Brasiléia-Guajará-Mirim-Costa Marques (RO)/Peru e Bolívia. onde vivem isolados num regime semi-escravagista nas colônias bolivianas ou em seringais de próprios brasileiros. Esse ponto de fronteira se tornou a preocupação mais urgente do comando militar da Amazônia devido à guerra do narcotráfico na Colômbia e a conseqüente fuga de colombianos e de peruanos para Tabatinga e Vila Bittencourt. O lado brasileiro apresenta condições de vida bem superiores em relação ao lado boliviano. c) Palmarito (MT)/Bolívia. sendo muito mais bem equipados em termos de veículos motorizados e armas do que o exército. A repressão ao tráfico. que participa da rota sudeste. passando por vários núcleos intermediários. agravada pelas restrições que Peru e Colômbia fazem à entrada de produtos brasileiros. pequena vila próxima a Cáceres. e sudeste. faixas. muito maior e mais desenvolvida. via São Paulo e Rio de Janeiro. comum aos dois lados da linha divisória. com uma realidade socioeconômica e psicológica diferente da do restante de cada território nacional. onde os traficantes operam livremente. que são as linhas divisórias entre soberanias. que lhes imprime uma identidade própria. principalmente no Brasil. A situação neste caso é oposta. Extravasamento da exploração da borracha brasileira É o que caracteriza a área de Plácido de Castro (AC) Vila Montevideo (Bolívia). que carecem de infra-estrutura e vivem em função de Letícia. tríade que constitui a grande porta de entrada do narcotráfico no Brasil. como também para uma nova política de desenvolvimento integrado que reconheça as economias transfronteiriças. aponta para a necessidade não só de vigilância das atividades ilegais e de suporte ao povoamento.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL Narcotráfico na fronteira ocidental a) Tabatinga (AM)/Letícia (Colômbia). Fronteiras são áreas. mas o grande problema da área é o fluxo de seringueiros brasileiros para as matas bolivianas. gerou ainda uma queda substancial no comércio local. via Manaus. Fronteiras não devem ser confundidas com limites. Tal permeabilidade das fronteiras amazônicas.

Para tanto. A cooperação fronteiriça na Amazônia.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Em termos de estratégia para a região. entendida não mais como linha divisória. 1990. na medida em que a maior parte da população e suas atividades regionais se concentram nos núcleos urbanos. 1 Cf. P. sob a responsabilidade do Ministério do Interior. 2 Cf. Os Planos de Desenvolvimento Integrado de Comunidades Vizinhas na Fronteira. praticados assistematicamente pela Colômbia.P. COELHO. coordenar tecnicamente a execução dos planos-modelo a serem constituídos justamente nas áreas de economia transfronteiriça assinadas (decreto publicado no D. que não contemplam o outro lado da fronteira nem a dinâmica fronteiriça. O reconhecimento e a admissão pelas políticas nacionais desse espaço comum não é uma tarefa fácil.O. através de grandes projetos. A partir dessa iniciativa. Brasília: Ministério das Relações Exteriores. envolvendo a fronteira Tabatinga-Letícia. através de programas mútuos de cunho social e de escala limitada. onde os limites jurisdicionais dos Estados se interpenetram através de pólos de desenvolvimento fronteiriço2. mas também o desenvolvimento da própria fronteira. centradas em núcleos urbanos. Caso contrário. mas também o lugar da sua solução. e Vila Bittencourt-La Pedrea. Planos-modelos de desenvolvimento integrado de comunidades vizinhas na fronteira: uma proposta. – Desfazendo mitos: Amazônia uma selva urbanizada. mas como área composta por subáreas de cada país. Bertha K.). 1992. Requer mudança de doutrina geopolítica que privilegie não apenas o fortalecimento dos centros de poder dominantes do país. localizados em pontos nodais. BECKER. ao norte. criou-se o Grupo Técnico Interministerial de Alto Nível para. (Mimeogr. fortalecendo a nova tendência. é necessário ultrapassar as experiências e iniciativas internas de cada governo. a chamada “fronteira institucional de integração”. configuram-se como os espaços privilegiados para uma ação conjunta. Projeto Pró-Amazônia. ao sul. corre-se o risco de que os programas sejam meras tentativas frustradas de afirmação numa conjuntura de crise das economias e dos Estados nacionais.). através do Plano-Modelo de Desenvolvimento Integrado de Comunidades Vizinhas do Eixo Tabatinga-Apaporis (PAT). que são o lugar dos problemas. b) as novas territorialidades fronteiriças. 140 . (Mimeogr. foram iniciados pelo Brasil em 1987 com a Colômbia. de 14 de dezembro de 1987). Unesco. cumpre reconhecer uma dupla realidade amazônica que tem sido negligenciada: a) a Amazônia é uma selva urbanizada1. Peru e Equador.

atualmente.” Concurso de 1999 √ “Existem duas propostas de traçado potencial para o eixo básico que estruturará o sistema de transportes do Mercosul. Tal condição propicia que. como um problema internacional. Justamente porque seu arcabouço jurídico-institucional flexível permite construções dinâmicas e inovadoras que podem ser nesse momento ativadas.). Significado geopolítico da Amazônia: elementos para uma estratégia. uma mercadoria circule pelo mundo sem sair do lugar. 195-201. Berta K. apontando seus possíveis desdobramentos na economia brasileira. Comente essa afirmação. na atualidade. ele constitui um marco genérico de princípios norteadores da cooperação. Identifique as duas possibilidades e discorra sobre os previsíveis efeitos de cada alternativa na organização do espaço meridional-oriental sulamericano. Crodowaldo (coord. São Paulo: Memorial/Editora Unesp.” Concurso de 1998 √ “Analise os mecanismos dos processos de circulação que explicam por que a crise na economia dos chamados ‘Tigres Asiáticos’ tem repercussões internacionais.americana para a Amazônia. Exemplos de Questões Concurso de 1997 √ “A circulação financeira é marcada por acentuada extraterritorialidade. Uma estratégia latino. 1996. Comente as causas estruturais de tal situação e compare sua manifestação nas três maiores economias do mundo na última década.” 141 .” √ “A questão do desemprego aparece. In: PAVAN. [BECKER.] 5. ligando São Paulo a Buenos Aires.O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL Em que pesem as críticas à estrutura institucional do TCA. p.

Emesto Henrique Fraga.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO √ “A articulação da malha viária brasileira com algum ponto no oceano Pacífico é um projeto antigo que ainda não se pode concretizar. PAVAN. Economia. Bibliografia Bibliografia Básica BENKO. SOUZA. apontando os interesses subjacentes a cada argumentação. São Paulo: Memorial/Editora Unesp. Crodowaldo (coord. 142 . Milton et alli. 1994. SCARLATO. Uma estratégia latino-americana para a Amazônia. Sérgio Abreu e Lima e ARAÚJO.1995. p. São Paulo: Hucitec.” 6. Francisco C. Território: Globalização e Fragmentação. São Paulo: Alfa Omega. SANTOS. et alli. 195-201. 1996. Mercosul hoje. 1994. Georges. Maria Adélia A. São Paulo: Hucitec/ANPUR. São Paulo: Hucitec/ ANPUR. Comente os argumentos favoráveis a esse projeto. Bibliografia Complementar FLORÊNCIO. São Paulo: Hucitec/ANPUR. et alli. Espaço e Globalização. Fim de século e Globalização. 1996. Globalização e Espaço Latino-Americano.). 1996.

UNIDADE IV A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL .

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traçamos um síntese do quadro físico do país e das principais causas de degradação de seus grandes domínios paisagísticos. Para situar a problemática ambiental no Brasil. tanto no presente quanto no futuro. a crescente preocupação com o meio ambiente é uma manifestação da crise da idéia de progresso que fundou a civilização industrial. 1. o progresso foi identificado com o lucro empresarial.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL IV. o debate ambiental tornou-se tema político prioritário. A Consciência Ambiental e o Planejamento de Usos Sustentáveis do Solo O conceito de desenvolvimento econômico da civilização industrial valorizou acima de tudo a multiplicação quantitativa da produção e do consumo. A relação entre qualidade de vida e ambiente urbano é tematizada nos textos que finalizam a Unidade. A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL Nas últimas décadas. os problemas ambientais freqüentemente se transformam em questões de saúde pública. no mundo inteiro. questões ligadas ao saneamento básico e à destinação do lixo interferem no cotidiano de um número crescente de brasileiros. Além da poluição atmosférica. Nas economias estatizadas. com destaque para a idéia de desenvolvimento sustentável. Os textos desta Unidade discutem alguns dos conceitos norteadores do debate ambiental. envolvendo tanto os Estados quanto parcelas expressivas da sociedade. A pressão sobre os ecos sistemas frágeis do planeta assim como o grau e a 145 . Ainda que coexistam as mais diferentes opiniões sobre as causas e os modos de enfrentamento do problema. Nas cidades. Nas economias capitalistas. já é corrente a noção de que o uso intensivo e predatório dos recursos naturais pode trazer conseqüências dramáticas para a qualidade de vida das populações. Pelo menos em parte. com ênfase nos setores de base. O lucro capitalista e o produtivismo socialista excluíram o meio ambiente das preocupações econômicas e políticas. ele era sinônimo de rápida industrialização.

Na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO irreversibilidade das alterações antrópicas no ambiente global ganharam um estatuto inédito nas últimas décadas e freqüentam um número cada vez maior de fóruns internacionais de discussão. e na vida cotidiana das sociedades industrializadas. Nas sociedades urbano-industriais que então despontavam. a crise ambiental do planeta foi associada. figuram entre os principais temas de debate. a invenção do dínamo e a do alternador abriram o caminho para a produção de eletricidade. à explosão demográfica dos países pobres. o desmatamento e o conseqüente empobrecimento do patrimônio genético do planeta. A primeira usina de eletricidade do mundo surgiu em Londres. Entretanto. prevaleceu a idéia de que o planeta é um sistema finito de recursos. que consumiam grandes quantidades de carvão. e a segunda em Nova Iorque. em muitos sentidos. 146 . Em meados do século XIX. As suas conclusões apontavam o horizonte do colapso do sistema. O vapor obtido pela queima do carvão movia navios. fundamentalmente. Ambas forneciam energia para a iluminação. uma revolução energética. com a introdução dos motores elétricos. Nela. assim como os resultados da emissão dos gases de estufa na atmosfera. A Revolução Industrial. foi. O ferro das máquinas e ferrovias era obtido nos altos-fornos da siderurgia. submetido às pressões do crescimento exponencial da população e da produção econômica. em 1881. ferrovias e indústrias. a eletricidade iria operar profundas transformações nos processos produtivos. A ONU estima que 90% do consumo individual do mundo seja realizado por apenas 20% da população do planeta. Mais tarde. realizada em Estocolmo (Suécia) em 1972. grande parte da crise ambiental contemporânea é resultante de padrões de produção e consumo adotados por parcela relativamente pequena da população mundial. a habilidade manual e a força muscular foram progressivamente substituídas pelos processos mecânicos. O avanço dos desertos. no mesmo ano. O caso do consumo energético é particularmente ilustrativo a esse respeito. que inaugurou a era dos grandes impactos ambientais. caso não se tomassem severas medidas restritivas ao crescimento demográfico e da produção nos países pobres. na qual foram incorporados dezenas de eletrodomésticos.

Entretanto. As fontes de energias limpas e renováveis. registra-se também um aumento significativo na produção e consumo de energia nuclear nos países desenvolvidos. ainda. está no centro das discussões acerca dos problemas ambientais do planeta. A utilização de qualquer um deles acarreta impactos ambientais.197 consumi das por habitante em Banglagesh e 0. em que pese os grandes investimentos em pesquisa realizados para torná-las mais eficientes e menos caras.7 tonelada equivalente de petróleo (TEP) por ano. pelo menos. ainda são predominantes.268 no Haiti. enfrentar a crise ambiental implica diminuir a utilização dos principais recursos energéticos. apesar de abrigarem pouco mais de 10% da população do planeta. em média. os níveis de consumo energético pouco se alteraram nos últimos séculos. ou. o petróleo e o gás natural. eles correspondem a perto de 90% da oferta mundial de energia. produzido pela Comissão Mundial de Meio 147 . contra apenas 0. a eólica e a geotérmica. Japão e Alemanha -são responsáveis por aproximadamente 40% do consumo energético mundial. mantê-la em níveis próximos aos atuais. é matéria-prima para muitas indústrias químicas. além de revelar o verdadeiro fosso que separa os padrões de consumo vigentes entre os países do mundo. aviões e tratores. os recursos energéticos mais utilizados no mundo são o carvão. Nas sociedades pré-industriais. Esse contraste. a água e os minerais radioativos: juntos. Apenas quatro países -Estados Unidos. que precisam de energia para serem produzidos e distribuídos. Atualmente. Estima-se que o consumo de energia comercial per capita no mundo seja de aproximadamente 1. e as fontes energéticas tradicionais. os níveis atuais excluem grande parte da humanidade do consumo de bens e serviços considerados essenciais. Desde a década de 1970. com destaque para a lenha. mas esse número significa muito pouco: um norte-americano consome anualmente. entretanto. amplamente divulgado pelo documento “Nosso Futuro Comum”. ainda constituem parcelas desprezíveis no balanço energético mundial. O conceito de desenvolvimento sustentável.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL A difusão dos motores a combustão interna explica a importância crescente do petróleo na estrutura energética dos países industrializados. 8 TEPs. ele também é utilizado como fonte de energia nas usinas termelétricas e. Além de servir de combustível para automóveis. Rússia. tais como a energia solar. De acordo com as recomendações da Conferência de Estocolmo.

Ele contém dois conceitos-chave: – o conceito de “necessidades”.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Ambiente e Desenvolvimento. o desenvolvimento sustentável só existe quando se cumprem os requisitos ambientais para a continuidade histórica dos padrões de produção e consumo desejados. possam elevar os padrões de vida dos países pobres e garantir as condições ambientais futuras do planeta: O desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem a suas próprias necessidades. – a noção das limitações que o estágio da tecnologia e da organização social impõe ao meio ambiente. demográficas e sociais. ao mesmo tempo. Nos países em desenvolvimento. emprego – não estão sendo atendidas. Portanto. Essa comissão.. presidida pela líder do partido trabalhista norueguês Gro Harlem Brundtland.amplo diagnóstico acerca da problemática ambiental em âmbito planetário e de propor estratégicas de desenvolvimento ecologicamente sustentáveis. De acordo com ele. e precisam ser combatidos em nome de um futuro mais justo e ambientalmente mais saudável. sobretudo as necessidades essenciais dos pobres do mundo. são fatores de risco para o ambiente global. impedindo-o de atender às necessidades presentes e futuras (. o uso intensivo de recursos naturais e a manutenção de padrões de consumo acima das possibilidades ecológicas em certas regiões do planeta. se contrapõe em muitos sentidos às concepções predominantes na reunião de Estocolmo. Além dessas 148 . assim como a disseminação da pobreza em outras. Nessa perspectiva.). roupas. foi criada pela ONU em 1983 com a missão de elaborar um . e quando estes são passíveis de se estender ao conjunto da humanidade. o relatório preconiza a adoção de agendas ambientais que. Publicado em 1987. habitação. o Relatório Brundtland (como ficaria conhecido) aborda de maneira integrada as questões ambientais. as necessidades básicas de grande número de pessoas – alimento.. que devem receber a máxima prioridade. Satisfazer as necessidades e as aspirações humanas é o principal objetivo do desenvolvimento.

como demonstra. Nenhum ecossistema. e o desenvolvimento sustentável requer a promoção de valores que mantenham os padrões de consumo dentro do limite das possibilidades ecológicas a que todos podem. seja onde for. e isto constitui um risco para o meio ambiente. aspirar. pode ficar intacto. o crescimento e o desenvolvimento econômicos produzem mudanças no ecossistema físico. As satisfações das necessidades essenciais depende em parte de que se consiga o crescimento potencial pleno. tanto aumentando o potencial de produção quanto assegurando a todos as mesmas oportunidades (.. por exemplo. o uso da energia. Mas o simples crescimento não basta. ele é compatível com o crescimento econômico. 149 . Uma grande atividade produtiva pode coexistir com a pobreza disseminada.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL necessidades básicas. Para que haja um desenvolvimento sustentável é preciso que todos tenham atendidas as suas necessidades básicas e lhes sejam proporcionadas oportunidades de concretizar suas aspirações e uma vida melhor.). Por isso o desenvolvimento sustentável exige que as sociedades atendam às necessidades humanas. as pessoas também aspiram legitimamente a uma melhor qualidade de vida. Num mundo onde a pobreza e a injustiça são endêmicas.. os regimes hídricos e as perdas genéticas. se a exploração tiver sido planejada e se se levarem em conta os níveis de erosão do solo. de um modo razoável. As necessidades são determinadas social e culturalmente. muitos de nós vivemos acima dos meios ecológicos do mundo. desde que esse crescimento reflita os princípios amplos da sustentabilidade e da não-exploração dos outros. sempre poderão ocorrer crises ecológicas e de outros tipos. Uma floresta pode ser desmatada em uma parte de uma bacia fluvial e ampliada em outro lugar – e isso pode não ser mau. Obviamente. e o desenvolvimento sustentável exige claramente que haja crescimento econômico em regiões onde tais necessidades não estão sendo atendidas. Padrões de vida que estejam além do mínimo básico só são sustentáveis se os padrões gerais de consumo tiverem por objetivo alcançar o desenvolvimento sustentável a longo prazo. Onde já são atendidas. Mesmo assim.

No tocante a recursos não-renováveis. Em essência. são também recursos. No caso dos minerais e dos combustíveis fósseis. para garantir que o recurso não se esgote antes de haver bons substitutos para ele. não se renovam. e. por isso o desenvolvimento sustentável requer a conservação das espécies vegetais e animais. da água e de outros elementos naturais. é um processo de transformação no qual a exploração de recursos. desde que sejam usados dentro dos limites de regeneração e crescimento natural. Para haver um desenvolvimento sustentável é preciso minimizar os impactos adversos sobre a qualidade do ar. a fim de manter a integridade global do ecossistema. uma vez extintas. como minerais e combustíveis fósseis. As matérias-primas e a energia usadas nos processos de produção só em parte se convertem em produtos úteis. o desenvolvimento sustentável. de tecnologias que minimizem seu esgotamento. e a probabilidade de se obterem substitutos para ele. Mas os níveis de uso devem levar em conta a disponibilidade do recurso. Os chamados bens livres. E as espécies. a orientação do desenvolvimento tecnológico e a 150 .MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Em geral. A extinção de espécies vegetais e animais pode limitar muito as opções das gerações futuras. O resto se transforma em rejeitos. Portanto a Terra não deve ser deteriorada além de um limite razoável de recuperação. O desenvolvimento tende a simplificar os ecossistemas e a reduzir a diversidade das espécies que neles vivem.renováveis mantenha o máximo de opções futuras possíveis. o uso reduz a quantidade de que disporão as futuras gerações. é preciso definir a produtividade máxima sustentável. Isso não quer dizer que esses recursos não devam ser usados. é preciso dosar o índice de esgotamento e a ênfase na reciclagem e no uso econômico. como florestas e peixes. uma vez levados em conta os efeitos da exploração sobre todo o sistema. como o ar e a água. não é preciso esgotar os recursos renováveis. a direção dos investimentos. O desenvolvimento sustentável exige que o índice de destruição dos recursos não. Mas a maioria dos recursos renováveis é parte de um ecossistema complexo e interligado.

em 1972. A experiência brasileira e o desenvolvimento sustentável A experiência brasileira é particularmente interessante. a fim de atender às necessidades e aspirações humanas. Nosso Futuro Comum. Ao falar em desenvolvimento sustentável.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL mudança institucional se harmonizam e reforçam o potencial presente e futuro. Texto 1 . realizada no Rio de Janeiro em 1992. os participantes da América do Sul deram um peso igual aos imperativos ecológicos (“sustentabilidade”) e aos econômicos e humanos (“desenvolvimento”).A Geopolítica do Desenvolvimento Sustentável A geopolítica do desenvolvimento sustentável envolve ampla gama de tópicos. médio e longo prazos aprovado pela Conferência no sentido de garantir a sustentabilidade ambiental dos novos investimentos produtivos e recuperar áreas já degradadas pelo uso predatório dos recursos naturais. enfatizando suas repercussões no contexto brasileiro. o geógrafo francês Paul Claval apresenta e problematiza o conceito de desenvolvimento sustentável. e como foi interpretada no Brasil e nos demais países da América Latina. Neste texto. 151 . já que mostrou como a concepção de desenvolvimento sustentável foi forjada na Conferência do Rio de Janeiro em 1992. já no Rio de Janeiro. 1991. para os participantes sul-americanos foi igualmente importante a necessidade de pensar o desenvolvimento. havia privilegiado os aspectos biológicos e ecológicos. 46-49. e é um dos pilares da Agenda 21. A Conferência de Estocolmo. Texto Complementar No ensaio parcialmente reproduzido abaixo. [Comissão Mundial de Meio Ambiente e Desenvolvimento. um vasto programa de ações de curto. Rio de Janeiro: FGV. que no caso brasileiro são fascinantes e provocantes. discutem-se questões referentes a alguns destes tópicos.] O conceito de desenvolvimento sustentável foi um dos fios condutores dos debates da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento. ainda que o interesse na ecologia tenha sido grande. p.

descobriram as possibilidades de uma vida melhor. Nesse contexto. um elemento de status social. porém. sem mudar suas identidades. Com um melhor sistema de comunicações. hoje em dia. Até os grupos indígenas aspiram ao desenvolvimento. Atualmente esta é. o cumprimento dos objetivos conservacionistas encapsulados no desenvolvimento sustentável. A modernização da sociedade. serviços de saúde etc. e o desenvolvimento se tornou uma aspiração fundamental. explica a intensa luta pela terra na fronteira e a atmosfera ardente na qual ocorre o desenvolvimento. o problema do desenvolvimento é ao mesmo tempo sociocultural e ecológico. numa perspectiva de longo prazo. Já nos anos 90 verificou-se uma rápida mudança de enfoque. Uma geração atrás. e permitir às pequenas comunidades a elevação de seus padrões de vida sem romper o equilíbrio local. foi substituída por ações que restringiram o desgaste do solo e favoreceram as pequenas 152 . mesmo pelos mais baixos e remotos componentes da sociedade global. é considerada uma necessidade e um direito. tais comunidades passaram a considerar-se com direito à educação. É importante impedir que ambientes frágeis sejam explorados brutalmente. A política de abertura da floresta tropical aplicada durante os anos 60 e 70 teve conseqüências catastróficas sob os aspectos social e ecológico. simultaneamente. dominante até quinze anos atrás.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO No Brasil. A população local deseja ser reconhecida como agente responsável e dinâmico da sociedade global. a terra aparece como uma variável estratégica. numa era da comunicação de massa. Ressalta a diversidade dos grupos. Mesmo se as condições econômicas que justificam essas atitudes pertencem ao passado. Semelhante evolução certamente facilitará. um bem de consumo e um fator de produção. mas. como geralmente o fazem grandes empresas. associações e organizações governamentais e não-governamentais envolvidas no processo de desenvolvimento sustentável brasileiro. A Amazônia é uma espécie de laboratório para as pessoas que desejam entender as possibilidades de desenvolvimento sustentável no futuro. A sociedade civil se organizou e a política de brutal exploração dos recursos naturais. o desenvolvimento sustentável geralmente vem sendo abordado com ênfase em pequenas comunidades. O sistema de propriedade da terra no Brasil faz com que o desenvolvimento seja visto como uma questão de acesso das pequenas comunidades à terra. tais grupos ainda possuíam todas as características das sociedades tradicionais.

é simples: o desenvolvimento é sustentável enquanto a produção não excede as taxas normais de produção dos recursos renováveis e de substituição dos recursos 153 . as relações Norte-Sul ganharam mais importância. em parte graças ao conflito/cooperação de instituições internacionais. Esteve também ligada à compreensão do fato de que os países do Sul desejavam desenvolver-se. Daí a necessidade de descobrir novos instrumentos capazes de promover essa nova forma de crescimento. Uma nova logística do desenvolvimento está sendo experimentada. na Conferência de Estocolmo. Alguns consideraram essa iniciativa muito positiva. Com o fim da Guerra Fria. A definição de Roberto Guimarães sobre desenvolvimento sustentável. a definição de zonas de proteção. Outros permaneceram céticos a respeito. considerando que a eficiência das zonas de proteção será duvidosa caso seu papel continue sendo somente indicativo. do Estado brasileiro e das organizações não-governamentais (ONGs). conseqüentemente. sempre que estas permitam o acesso a padrões mais eficazes para o crescimento e o reforço das comunidades locais. A nova política para a Amazônia conta com um instrumento privilegiado. neste livro. pela primeira vez. A formulação geral do problema do desenvolvimento sustentável A idéia do crescimento sustentável resultou do desenvolvimento de uma nova consciência ecológica. e ao conseqüente declínio das instituições provedoras de serviços de bem-estar social ligadas a tais ideologias. mas não a qualquer preço.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL comunidades de índios e seringueiros. Seu propósito é respeitar a biodiversidade e aproveitar as novas tecnologias. O desenvolvimento sustentável recebeu o apoio da opinião pública no bojo da crise das filosofias da história ocidentais. Essa mudança foi possível. da maior importância. O papel do Brasil no desenvolvimento da idéia do crescimento sustentável foi. o que explica a realização da Conferência em 1992 no Rio de Janeiro. em 1972. Os riscos inerentes ao desenvolvimento são avaliados para cada área homogênea. expressa ao nível da política internacional. permitindo a proteção das áreas mais frágeis em termos de desenvolvimento e/ou vida social. sendo difícil entender o que os países do Sul esperam do crescimento sustentável sem referência a este país.

A Geopolítica e o Desenvolvimento Sustentável. que se refere à idéia de que os sistemas naturais são comandados por fluxos de matéria e energia. e também organismos e energia. nos níveis global e local. In: BECKER. p. Paul. assim como uma vasta floresta. Mariana. baseadas no uso generalizado de formas concentradas de energia. [CLAVAL. A solução do problema do desenvolvimento sustentável ficou mais difícil do que no passado por causa do aumento do consumo de energia. para alguns. A abrangência de um ecossistema é definida pelas necessidades do observador. Uma lagoa pode ser tratada como ecossistema. Rio de Janeiro: Ed. é possível ante ver novas formas de retroalimentação.] 2. 1997. O problema da sustentabilidade é tão velho quanto a humanidade. pois estão conectados a ambientes de entrada -fonte de energia. Assim. As telecomunicações permitem a difusão maior e mais rápida de informações a respeito das áreas problemáticas. 154 . Os ecossistemas são sistemas abertos. Essa característica gerou a diminuição dos custos de transporte e o aumento da urbanização. portanto. capazes de impulsionar processos auto-reguladores e de desenvolver sistemas de produção que usem menos matérias-primas e energia. e MIRANDA. materiais e organismos – e de saída – para onde fluem materiais processados. 457-461. que atuam tanto entre o meio físico e os organismos vivos como no interior da comunidade biótica. estando cada vez mais “ligado à capacidade de reciclagem dos ambientes onde a população e as atividades se concentram. o problema do desenvolvimento sustentável deixou de ser somente um problema de oferta de recursos.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO não-renováveis. Como resultado. favorecendo uma consciência mais clara da sustentabilidade. também se tornou mais fácil graças às novas tecnologias de informação e comunicação. O problema da reciclagem. mas. UFRJ. A geografia política do desenvolvimento sustentável. Os Ecossistemas Brasileiros e as Principais Causas de sua Degradação Ecossistema é um termo originário da ecologia. transformou-se na questão prioritária. mas tomou novas formas com o advento de tecnologias modernas. Bertha K. especialmente no Sul.

Ao contrário do que sugere o nome. com 3. encontram-se alguns dos pontos mais elevados do Brasil. também chamados de agentes do modelado. O relevo brasileiro O relevo brasileiro é resultado da ação da erosão e do intemperismo. formadas por serras. Trata-se da linha de serras dos Planaltos Residuais Norte-Amazônicos. através dos processos de acumulação.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL No caso brasileiro. as depressões e as planícies. No Brasil. os planaltos apresentam superfícies irregulares. alia-se às temperaturas médias elevadas características da maior parte do território na formação de três unidades de relevo: os planaltos. costuma-se denominar ecossistemas grandes domínios paisagísticos. Os planaltos brasileiros situam-se tanto em áreas cristalinas do Escudo Brasileiro (por exemplo: os Planaltos e Serras do Atlântico Leste-Sudeste) ou do Escudo das Guianas (os Planaltos Residuais Norte-Amazônicos) como em áreas sedimentares das bacias do Paraná e do Meio-Norte. com 2. que desgasta e aplaina os escudos cristalinos. Ao norte das depressões amazônicas. Essas áreas abrigam as nascentes de 155 .992 metros. junto às fronteiras com as Guianas e a Venezuela. constituída por cadeias de morros pontiagudos (cristas). os planaltos situam-se em cotas altimétricas superiores a 300 metros.014 metros e o Pico 31 de Março. para a definição dos quais considera-se aspectos do relevo e dos climas. pois alterações pequenas nos outros elementos provocam mudanças bruscas na cobertura vegetal. e da lenta configuração das bacias sedimentares. Os planaltos resultam da ação destrutiva dos agentes do modelado: são áreas onde o processo de erosão predomina sobre o processo de deposição de sedimentos. sobre uma base geológica muito antiga. na qual predomina o regime tropical (chuvas abundantes no verão). são os rios. Os principais agentes da morfologia do relevo. a presença de uma rede hidrográfica muito rica. chapadas e morros. Isso explica a baixa altimetria que o caracteriza e o predomínio de um modelado de formas suaves e arredondadas. as chuvas e as temperaturas. As formações vegetais são o elemento-síntese dos domínios. como o Pico da Neblina. Por definição.

no Centro-Oeste. O Brasil do Sudeste também exibe cadeias de morros como as serras do Espinhaço (que abriga as grandes jazidas minerais do Quadrilátero Ferrífero) e da Mantiqueira. como o Jequitinhonha. que separa a baixada litorânea dos planaltos no Sudeste e Sul do país. No Centro-Oeste. funcionando como imensos “degraus” que demarcam altimetrias muito diferentes. que atestam o longo processo de desgaste próprio dos climas tropicais úmidos. e o trabalho de erosão das chuvas modelaram paisagens características. o Doce e o Paraíba do Sul. As escarpas aparecem na transição entre áreas rebaixadas e planaltos. são formados por elevações suavemente arredondadas que se sucedem ininterruptamente até o horizonte. cujos cursos seguem a declividade natural do relevo. as escarpas têm denominações tecnicamente inadequadas. tais planaltos comportam-se como divisores entre bacias hidrográficas. Freqüentemente. As altitudes médias situam-se entre 200 e 500 metros. configurando uma paisagem extensivamente aplainada. o solo de maior fertilidade natural do país. abrigam-se importantes rios. elevadas e aplainadas. as paisagens apresentam-se completamente diferentes. O Rio Paraguai tem 156 .MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO inúmeros afluentes e subafluentes da margem esquerda do Rio Amazonas. típicos da Serra da Mantiqueira. Brasília foi erguida sobre uma dessas elevações. Nos vales encaixados entre as linhas de serras. aparecem os morros em meia laranja. acentuando o intemperismo. Nesses planaltos. apenas interrompida pelas chapadas e chapadões. Trombetas e Jari. Os mares de morros. rumo à calha amazônica. Nessa área. onde ocorreram derrames vulcânicos datados da Era Mesozóica. a quase 1200 metros de altitude. A elevada umidade do ar. são delimitadas por taludes abruptos e funcionam como divisores de águas. como também no dos Parecis. A decomposição do basalto deu origem à famosa terra roxa. Os Planaltos e Chapadas da Bacia do Paraná exibem terrenos sedimentares areníticos. como os rios Negro e Branco. como é o caso da Serra do Mar. Rios como o Tapajós e o Guaporé têm as suas nascentes na Chapada dos Parecis e dirigem-se para o norte. Tais formações. dirigindo-se para o sul.

No Nordeste ocidental. o Araguaia forma a Ilha do Bananal. A chapada funciona como divisor entre as águas da Bacia do Paraguai e as da Bacia do Amazonas. dominada pelo clima semi-árido. a depressão abriga inúmeros rios temporários que. As depressões também exibem predomínio de processos erosivos. antes de rumar para o sul e receber as águas de dezenas de afluentes. São depressões tipicamente caracterizadas os altos e médios vales dos rios Tocantins e Araguaia. na sua porção meridional. Nesse trajeto. voltada para o interior. A face leste recebe os ventos úmidos do litoral que. está sujeita a longas secas. Na sua porção setentrional. A Depressão Sertaneja e do São Francisco configura. entre a Bahia e os estados de Tocantins e Goiás. na curta estação chuvosa. percorrem o sertão de Ceará. O Tocantins e o Araguaia se dirigem para o norte. esse foi um importante caminho de interiorização seguido pelos vaqueiros e criadores nordestinos. acompanhando os degraus do relevo e originando quedas d’água. As chapadas separam vales de rios perenes – como o próprio Parnaíba. em contato com 157 . Nessa área. a maior ilha fluvial do país. Pernambuco. acompanhando o curso do Rio São Francisco através de Minas Gerais e da Bahia. um longo corredor encaixado entre áreas planálticas. assinalando a transição para o litoral úmido. No passado. formando o eixo fluvial do Pantanal Mato-grossense. cujas nascentes situam-se no Centro-Oeste. o Mearim e o Pindaré – ou rios temporários. A elevação mais importante é a do Espigão Mestre. A face oeste da Borborema. Paraíba e Rio Grande do Norte. o grande Planalto da Borborema interrompe a depressão. A longa duração desses processos gerou superfícies suavemente inclinadas e bastante aplainadas. As depressões brasileiras situam-se em cotas altimétricas entre os 100 e os 500 metros. típicos do sertão do Piauí.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL suas nascentes na Chapada dos Parecis. que separa os afluentes do Rio São Francisco dos afluentes do Rio Tocantins. os planaltos e chapadas da Bacia do Parnaíba exibem terrenos sedimentares e altitudes geralmente modestas.

Há algumas décadas. a erosão diferencial originou uma linha de cuestas. As planícies. No Estado de São Paulo. as cuestas formam paisagens características. são áreas onde o processo de sedimentação se sobrepõe ao processo de erosão. é a mais típica planície brasileira. conhecidas localmente como serras. a sedimentação é terciária e predominam os processos erosivos. na denominação regional. foi desfeita pelo levantamento aerofotogramétrico da região. separando os terrenos cristalinos do oriente dos derrames vulcânicos da Bacia do Paraná. Na zona de contato entre os terrenos vulcânicos da Bacia do Paraná e os terrenos sedimentares (menos resistentes) das depressões. no contato com os terrenos sedimentares. ao contrário dos planaltos e depressões. As cuestas. que estão. Nas depressões e planaltos sedimentares circundantes (chamados. por outro lado. sabe-se que a verdadeira planície restringe-se a uma estreita faixa que acompanha o vale do Rio Amazonas e o baixo curso de alguns dos seus afluentes. Na planície verdadeira – o vale inundável dos grandes rios – onde ocorre intenso trabalho de sedimentação quaternária.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO o ar mais frio da escarpa. No Sul e Sudeste. Assentada sobre terrenos sedimentares da Era Quaternária. Essa crença. em direção à calha do Rio Paraná. predominam os processos de deposição. A acumulação de sedimentos realiza-se pela ação das águas dos rios. vastas áreas da Amazônia eram consideradas uma imensa planície. constitui parte de uma vasta depressão relativa encaixada entre a Cordilheira dos Andes e os 158 . por sua vez. As planícies situam-se em cotas altimétricas inferiores a 100 metros. do mar ou de lagos. e outra de inclinação abrupta. A Planície e Pantanal Mato-grossense. fundada na ignorância das altimetrias escondidas sob a floresta equatorial e dos processos geomorfológicos atuantes na área. encaixados entre os planaltos residuais norte e sul-amazônicos. cristalinos e mais elevados. as depressões desenham um imenso S que se prolonga de São Paulo ao Rio Grande do Sul. Essa planície é rodeada por depressões e planaltos sedimentares. terra firme). Atualmente. provocam chuvas freqüentes e propiciam condições ideais para o cultivo de frutas tropicais. apresentam uma vertente de declínio suave.

o Cuiabá. predominantemente. De norte para sul. quando constituídos por rochas cristalinas. 159 . No trecho nordestino. quando constituídos por rochas sedimentares.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL planaltos do Escudo Brasileiro. com topo bastante aplainado e acentuados declives na face voltada para o mar. onde se alargam. No Sudeste. correspondendo aos vales de importantes rios e à maior parte da extensa faixa costeira. é. paraguaias. o Rio Paraguai e os seus afluentes – como. funcionando como bacia de captação de cursos fluviais provenientes das áreas circundantes. As Planícies e Tabuleiros Litorâneos estendem-se do Maranhão ao Rio Grande do Sul. como os cordões arenosos e dunas do Ceará e as lagoas e brejos de Alagoas. ou barreiras. Isto significa que os processos erosivos predominam sobre os processos de sedimentação na maior parte do território. o Negro e o Miranda – inundam grande parte das terras deprimidas e as transformam em uma enorme área de deposição de sedimentos. descortinam as restingas e lagunas do Rio de Janeiro e as praias e baixadas de São Paulo. As planícies ocupam uma porção relativamente pequena do território. Tanto no Nordeste como no Sul. O relevo brasileiro é constituído. O eixo dessa bacia de captação é formado pelo Rio Paraguai. O Chaco abrange terras brasileiras. no verão. Tais declives são chamados falésias. em terras brasileiras. Durante a época das chuvas. argentinas e bolivianas. responsável pela maior parte dos fenômenos climáticos. Os grandes tipos climáticos A dinâmica das massas de ar é responsável pela sucessão habitual dos tipos de tempo que caracterizam o clima. as planícies litorâneas exibem uma grande variedade de paisagens. as planícies. chegando quase a desaparecer em trechos da costa Sul e Sudeste. denominada Chaco. freqüentemente interrompidas pelas majestosas escarras da Serra do Mar. portanto. as planícies litorâneas tornam-se mais estreitas. por planaltos e depressões. o Taquari. as planícies são interrompidas por tabuleiros: superfícies de baixa altitude.

Com base na dinâmica das massas de ar. mas penetra até a Amazônia no inverno.000 milímetros. também apresenta elevadas médias térmicas e pluviométricas. quente e chuvoso.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Na América do Sul. O Clima Tropical.500 milímetros. A pluviosidade média anual situa-se em torno dos 1. O Clima Equatorial Úmido. O Clima Litorâneo Úmido. caracteriza-se por apresentar invernos secos e verões chuvosos. e as médias anuais de precipitação giram em torno de 2. fria e úmida. também quente e úmida. ocasionando o fenômeno conhecido localmente como “friagem”. As chuvas não ultrapassam a barreira dos 750 milímetros ao ano e apresentam-se irregularmente distribuídas. As outras massas de ar que atuam no continente são marítimas. dominado principalmente pela atuação da massa Tropical atlântica. apenas duas regiões funcionam como fontes de massa de ar: a Amazônia ocidental. e a Planície do Chaco. De acordo com o geógrafo Aziz Ab’Saber. Essa área funciona como um centro dispersor de massas de ar. O Clima Tropical Semi-Árido abrange a área do Sertão nordestino. apresentando menores médias pluviométricas que as vigentes no resto do país. sobre a qual se forma a massa Equatorial continental (mEc). que caracteriza o litoral das regiões Sudeste e Nordeste do país. centro de origem da massa Tropical continental (mTc). que domina boa parte do Centro-Oeste e do MeioNorte brasileiros.500 milímetros e 2. As chuvas são resultado da convecção (ascensão vertical e conseqüente condensação) da umidade. quente e úmida. pode-se individualizar cinco tipos climáticos no Brasil. Três delas são importantes para os climas brasileiros: a massa Equatorial atlântica (rnEa). 160 . A pluviosidade média anual varia entre 1. que atua principalmente no Brasil meridional. quente e úmida.000 milímetros. domina a Região Norte do país e é resultado da atuação da massa Equatorial continental durante todo o ano. que influencia diretamente o clima da costa oriental brasileira e a massa Polar atlântica (mPa). que atua principalmente no Meio-Norte e no litoral amazônico. quente e seca. a massa Tropical atlântica (mTa). o semi-árido brasileiro.

por parte dos territórios da Bahia. da Caatinga e das Pradarias) correspondem a áreas com predomínio de espécies vegetais herbáceas e arbustivas. e que se estende pelo norte de Minas Gerais. mas está sujeito à penetração da massa Polar atlântica. maio de 1992. 6. Os domínios paisagísticos Seis grandes domínios macroecológicos foram identificados no Brasil: três deles (o Domínio Amazônico. uma grande faixa de transição conhecida como Mata dos Cocais separa o Domínio Amazônico do Domínio da Caatinga. de Pernambuco. servindo como mera referência genérica para efeito de comparação com as regiões úmidas e subúmidas do país”2. por exemplo. O Clima Subtropical Úmido é dominado pela massa Tropical atlântica.500 milímetros). principalmente no inverno. não existindo uma estação seca. Ele funciona como enorme delta interno: devido à pouca declividade do terreno. Revista Ciência Hoje. e verão chuvoso. com quatro a sete meses de precipitações pluviais. irregulares no tempo e no espaço. Entretanto. p. São as faixas de transição. áreas onde a instabilidade das condições ecológicas deu origem a uma interação entre os elementos naturais que nada têm a ver com as características dos domínios circundantes. o Domínio dos Mares de Morros Florestados e o Domínio das Araucárias) abrangem áreas originariamente florestadas e os restantes (Domínios dos Cerrados. ainda. de Sergipe. e pela totalidade dos estados do Rio Grande do Norte. se caracteriza por “Invernos secos e quase sem chuvas. os 1 Essa expressão. 161 . de Alagoas. O Pantanal Mato-grossense é um outro bom exemplo de região de transição. Apresenta as maiores amplitudes térmicas entre os climas brasileiros: os verões são quentes e os invernos são frios.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL onde se localiza o famoso Polígono das Secas1. que constituem unidades paisagísticas nas quais se mesclam características dos domínios vizinhos. especial ECO-Brasil. A média pluviométrica anual é elevada (cerca de 1. Ceará e Piauí. existem vastas extensões territoriais não incluídas em nenhum dos domínios. No Meio-Norte do território brasileiro. designa uma ampla área na qual o balanço da evapotranspiração é negativo durante a maior parte do ano. 2 Ver Os Sertões: a originalidade da terra. de forma que os índices que buscam medir médias de precipitações guardam uma alta dose de irrealidade. criada no início do século XX pelos técnicos da antiga Inspetoria Nacional de Obras contra as Secas. com duração de cinco a oito meses. ou.

O Domínio Amazônico A floresta amazônica. A reciclagem dos nutrientes orgânicos e minerais necessários à manutenção dos ecossistemas regionais não é feita pelos solos. Grandes propriedades de pecuária extensiva ocupam as terras baixas alagadiças do Pantanal. é uma floresta latifoliada marcadamente heterogênea. de baixa fertilidade. o Domínio Amazônico apresenta múltiplos enclaves de campos e cerrados. são de baixa fertilidade natural. compondo uma das maiores reservas biológicas do planeta. A vegetação pantaneira é extremamente heterogênea. a vegetação de terra firme (a chamada hiléia) se espalha em cerca de 80% da área. Esse contraste revela a fragilidade do ecossistema amazônico. Os solos. adaptando-se às condições ambientais da região. Mais de 70% do Domínio Amazônico são constituídos por solos ácidos e intemperizados. A caça predatória e ilegal. que prevalece na paisagem desse domínio. 162 . a retirada da cobertura vegetal se associa a um processo crescente de assoreamento do leito fluvial. Além disso. inundadas pelo Rio Amazonas. A riqueza e a exuberância do ecossistema florestal. representa uma grande ameaça à fauna pantaneira. responsável pela grande densidade e diversidade da fauna da região. . Apenas algumas planícies aluviais. porém. mesclando características de todos os domínios macroecológicos brasileiros. por exemplo. contrastam com a pobreza de grande parte dos solos da região. inundando grande parte da planície e trazendo um grande fluxo de nutrientes.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO rios que drenam a região demoram a vazar. porém. alagadiços. Estima-se que o ecossistema florestal abrigue aproximadamente 80 mil espécies vegetais e 30 milhões de animais. mas pela própria floresta. apresentam solos ricos em nutrientes. Além da caça. o desmatamento das margens dos principais rios que atravessam o Pantanal e o extrativismo mineral figuram como grandes geradores de impactos ambientais na região. No Rio Taquari. ampliando a área de inundação do rio e ameaçando a fauna silvestre. A vegetação de terrenos inundáveis (matas de várzea e igapós) ocupa aproximadamente 10% do ecossistema florestal.

Os estados mais afetados foram os do Pará (34%). Mas a ocupação empresarial da Amazônia provoca interferências profundas e permanentes no meio natural. . A baixa densidade demográfica possibilitou o desenvolvimento de cultivos de subsistência – como a mandioca. produziu um relevo típico de morros arredondados.se de uma formação florestal densa e heterogênea. Além dos “Mares de Morros”. O desmatamento está trazendo danos irreparáveis ao ecossistema florestal. impedindo que os poucos nutrientes sejam carreados pelas águas da chuva. Não existem dados precisos sobre o tamanho e a velocidade do desmatamento na Amazônia. a floresta tropical úmida conhecida como Mata Atlântica recobria cerca de 95% do Domínio dos “Mares de Morros”. a batata-doce e o inhame – em sistema de roça itinerante. a floresta protege os solos. Além disso. seringueiros -representava uma adaptação especial a esse ecossistema frágil. Segundo cálculos aproximados. predominantemente cristalina. A agricultura tradicional dos povos da floresta – índios. o milho. Isto é: a vegetação nutre-se dela mesma. do café nas serras do Sudeste foram os grandes responsáveis pelo início da devastação 163 . As madeireiras abrem brechas enormes na vegetação. Depois de abandonadas.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL As toneladas de folhas. A introdução do cultivo da cana-de-açúcar no Nordeste e. o desmatamento atinge algo entre 8% e 20% da Amazônia. frutos e flores que caem anualmente sobre o solo se transformam em material orgânico e mineral consumido pela vegetação.O Domínio dos “Mares de Morros” Florestados Este domínio macroecológico caracteriza-se pela morfologia e pela cobertura vegetal. mais tarde. Mato Grosso (23%) e Maranhão (19%). espaços de pastagens homogêneas substituem a mata. em forma de “meias-laranjas”. Originalmente. as clareiras conhecem uma recolonização biológica pela mata. Trata. compõem a morfologia da região as escarpas planálticas que separam o planalto cristalino da planície costeira. caboclos. A ação dos agentes do modelado sobre a estrutura geológica. empobrecendo ainda mais os solos descobertos. A vegetação original não se regenera e a erosão pluvial age destruidoramente. que utiliza a coivara. culturas agrícolas de mercado se espalham extensivamente sobre as velhas áreas florestadas.

No verão. trigo. nos quais a altitude média varia entre 850 metros e 1.basálticos da porção oriental da Bacia do Rio Paraná. móveis e artefatos domésticos. Nas primeiras décadas do século. videiras e árvores frutíferas. Mais tarde. esse domínio era revestido por uma floresta subtropical conhecida como Mata das Araucárias e por manchas de vegetação herbácea e arbustiva. concentradas nos meses do verão. mais de 80% do território dos estados de Santa Catarina e Paraná ainda estavam recobertos pela vegetação nativa. No início do século XX. 164 . a seca prolongada tem como conseqüência altas taxas de evaporação. responsáveis pela baixa fertilidade dos solos desse domínio. as chuvas abundantes “lavam” o solo. extensas áreas florestais foram queimadas e se transformaram em áreas de cultivo de milho. restam menos de 4% da cobertura vegetal primária. Também desmatavam pequenos trechos para a prática da poli cultura de alimentos.O Domínio dos Planaltos de Araucárias O Domínio dasAraucárias ocupa os planaltos sedimentares. . . os colonos utilizavam a madeira para a construção de casas. A devastação da Mata das Araucárias se iniciou com a colonização alemã e italiana. Hoje. retirando seus nutrientes.O Domínio dos Cerrados O Domínio dos Cerrados abrange as chapadas e chapadões do Brasil Central.300 metros. em parte. a área encontra-se exposta a desmoronamentos e transporte de material. restam apenas algumas manchas dos bosques de araucária originais. especialmente nas escarpas mais íngremes. Trata-se de uma região tropical. verdadeiras ilhas florestais em alguns trechos montanhosos das escarpas planálticas. o que provoca acúmulo do ferro e do alumínio responsáveis pela toxidez e acidez dos solos. com a expansão da agricultura. Em 1950. de verões chuvosos e invernos secos. A devastação da Mata Atlântica tem agravado os processos erosivos que atingem a região. no inverno. mais de metade da vegetação original já estava devastada. Sujeita a chuvas intensas. Originalmente. As características climáticas são.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO da mata original. Atualmente.

. é composto principalmente por dois estratos. ao contrário. o arbóreo-arbustivo. quando desmatado através de queimadas. absorvidos principalmente pelas plantas do estrato herbáceo-subarbustivo. As pesquisas indicam que incêndios anuais podem tomar os solos ainda mais pobres. não se regenera. O Cerrado. Entretanto.O Domínio da Caatinga O Domínio da Caatinga apresenta relevo em forma de colinas com vertentes suaves. e o herbáceo. constituído por trechos de campos limpos (predominância de gramíneas). o impacto positivo das queimadas sobre o ecossistema dos cerrados parece depender da freqüência com que são realizadas. a camada superficial dos solos do Cerrado funciona como um isolante térmico. Assim. O Cerrado compõe um ecossistema bastante peculiar. Nas áreas recobertas por campos limpos. é uma formação vegetal adaptada ao calor e à aridez. podem se transformar em campos limpos. o fogo ajuda na reciclagem de nutrientes. muitas espécies conseguem rebrotar poucos dias após a passagem do fogo. nas quais o estrato herbáceo-arbustivo é muito pobre e rarefeito). Suas principais espécies possuem folhas pequenas e hastes 165 . cerca de 400 quilos por hectare em um campo cerrado. radicalmente distinto das florestas tropicais úmidas. com espécies de 3 a 5 metros) e cerradões (florestas cujas copas se tocam e criam sombra. Durante o incêndio. abriga espécies que sobrevivem após as queimadas. vegetação dominante. de campos sujos (gramíneas e arbustos). de caráter lenhoso. de campos cerrados (predominância de arbustos. e. as colinas sertanejas. A combinação desses estratos produz uma cobertura vegetal em forma de um grande mosaico. As cinzas resultantes. Já os cerradões são menos adaptados às queimadas.subarbustivo. O ecossistema florestal. formado pelas gramíneas e outras ervas. funcionam como uma preciosa fonte de nutrientes minerais. o que resulta em solos pouco profundos intercalados por terrenos pedregosos e afloramentos rochosos. vegetação dominante. quando essas são reincidentes. campos sujos e campos cerrados.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL O Cerrado. A semi-aridez é responsável pela pouca decomposição química das rochas. A Caatinga. protegendo o sistema subterrâneo das plantas.

A rede hidrográfica da Caatinga caracteriza-se pela predominância de rios intermitentes e sazonais: os rios autóctones permanecem secos por cinco a sete meses durante o ano. O excesso de calor e a predominância de solos pouco profundos. Devido ao pisoteio excessivo do gado. -O Domínio das Pradarias Esse domínio paisagístico abrange a região conhecida como Campanha Gaúcha. As colinas são recobertas por vegetação campestre. bastante vulnerável a ocupação humana. o aumento dos processos erosivos e até. conhecidas regionalmente como brejos. Há cinqüenta anos. destaca-se a presença de um relevo suavemente ondulado. na forma de colinas conhecidas como “coxilhas”. portanto. A irregularidade das precipitações e a natureza dos solos e da cobertura vegetal fazem do domínio macroecológico da Caatinga uma área naturalmente susceptível aos processos de desertificação e. forma-se um tapete herbáceo ralo e pobre em espécies. o início de um processo de desertificação. que recebem chuvas de relevo. tomam o balanço da evapotranspiração negativo durante a maior parte do ano. nas encostas. a vegetação se toma mais densa e diversificada. A irrigação. quando a perda de umidade é maior do que a precipitação. em expansão nas áreas originalmente recobertas pelos campos. incapazes de reter a água. hoje ultrapassa os 185 hectares. O uso recorrente da queimada como técnica de limpeza das pastagens contribui para o empobrecimento dos solos. Nele. o “deserto de São João”. A pecuária e a monocultura de trigo e soja. têm provocado a diminuição da fertilidade dos solos. o sobrepastoreio. Nas áreas de maior altitude. encontramse alguns trechos de matas úmidas. em algumas áreas. 166 . atingia 12 hectares. Nos topos mais planos. no município de Alegrete (RS).MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO espinhentas. o cultivo excessivo e a mineração figuram entre as principais causas dos processos de desertificação já iniciados. registra-se uma sensível diminuição das espécies forrageiras nativas dos campos gaúchos. A pecuária extensiva é a principal atividade econômica da região.

essas funções foram desdobradas e. o governo brasileiro. do planejamento. posteriormente: acompanhar as transformações do ambiente por meio de técnicas de aferição direta e sensoriamento remoto. à SEMA coube. atuar junto aos agentes financeiros para a concessão de financiamentos a entidades públicas e privadas com vistas à recuperação dos recursos naturais afetados por processos predatórios ou poluidores. identificando as ocorrências adversas e atuando no sentido de sua correção. em 1973.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL Texto Complementar No fragmento de texto reproduzido abaixo. Texto 1 -Tentativas de Conservação e Preservação Ambiental à Brasileira Influenciado pela crítica à sua controvertida participação na Conferência de Estocolmo em 1972 e pela polêmica gerada em torno da proposta brasileira de desenvolvimento a qualquer custo. realizar diretamente ou colaborar com órgãos especializados no controle e na fiscalização das normas e padrões estabelecidos. 167 . Vinculada ao Ministério do Interior. promover a elaboração e o estabelecimento de normas e padrões relativos à preservação do meio ambiente. em todos os níveis. criou a Secretaria Especial do Meio Ambiente (SEMA). da coordenação e do assessoramento no combate à poluição e na preservação da qualidade dos recursos hídricos. assessorar órgãos e entidades incumbidos da conservação do meio ambiente. tendo em vista o uso racional dos recursos naturais. com a devida autonomia e poder jurídico outorgado pelo Estado. os geógrafos José Bueno Conti e Sueli Angelo Furlan apresentam e comentam os esforços realizados pelo governo brasileiro no sentido de preservar o patrimônio ambiental do país. a formação e o treinamento de técnicos e especialistas em assuntos relativos à preservação do meio ambiente. promover. cuja função era a de atuar nos campos da pesquisa. principalmente os recursos hídricos.

Distrito Federal. criando órgãos e entidades da União. Foram criadas diversas modalidades de unidades de conservação. reservas biológicas. manter atualizada a relação dos agentes poluidores e substâncias nocivas no que se refere ao interesse do país. Uma unidade de conservação é uma amostra representativa de ecossistemas brasileiros que deverá ser regida por regras especiais de uso do solo. metade da 168 . Territórios e Municípios. Para os objetivos deste livro. pelo IBGE e outras agências. O tamanho mínimo efetivo para as unidades de conservação não está ainda bem definido. além das unidades de conservação. entre outras funções. Novas modificações ocorreram com a fusão do antigo IBDF e Sudepe com a SEMA. dos Estados. quando foi criado o IBAMA. bastam os resultados da política criada por essas instituições governamentais. A primeira prioridade é dada a áreas onde estudos independentes de duas ou mais autoridades indicam a existência de “refúgios do Pleistoceno”. quando o governo federal decidiu descentralizar a atuação da SEMA.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO cooperar com os órgãos especializados na preservação de espécies animais e vegetais ameaçadas de extinção e na manutenção de estoques de material genético. outras se assemelham a unidades de planejamento nas quais as atividades têm de obedecer a regras estabelecidas pelo poder público. cada uma com seu estatuto próprio. Essas áreas são consideradas como sendo de dispersão evolutiva. estações ecológicas e áreas de proteção ambiental? Vários são os fatores a serem considerados quando se decide sobre a localização das áreas protegidas. Esses itens sofreram pequenas modificações em 1981. O IBAMA é responsável. Como são os critérios para a seleção de áreas a serem preservadas? O que são parques. pela antiga SEMA. Abordar item por item dessa política hoje seria escrever um tratado. Umas são bastante restritivas quanto à exploração. Sob as leis brasileiras. pela política nacional de unidades de conservação. A terceira prioridade é para áreas protegidas recomendadas pelo RADAMBRASIL. podendo ou não representar as áreas atuais de maior diversidade de plantas e animais. A segunda prioridade é para áreas que representam tanto formações vegetais típicas como também refúgios do Pleistoceno. educar o povo a respeito do uso adequado dos recursos naturais.

O Fundo Mundial para a Vida Silvestre (WWF) e o Instituto Brasileiro de Pesquisa da Amazônia (INPA) estão se baseando nessa lei para a execução de um projeto que visa determinar se “ilhas” ou “manchas” isoladas de floresta podem suportar tantas espécies quanto uma mesma área incluída numa floresta contínua e maior. Outros fatores foram também considerados. Atualmente o Brasil tem 53 parques e 18 reservas. Parques nacionais e reservas biológicas O sistema de parques nacionais brasileiros começou em 1937. Na Amazônia. quando foi estabelecido o Parque Nacional de Itatiaia. As espécies de plantas e animais da área a ser estudada são registradas antes que a “ilha” de floresta seja isolada (como parte do processo de desenvolvimento) e estudos posteriores são programados para determinar as mudanças no período de alguns anos. ocupando 1. Desde então novos parques nacionais e reservas biológicas têm sido criados. totalizando aproximadamente 12 milhões de ha. Estações ecológicas e áreas de proteção ambiental A política de preservação de recursos ambientais no Brasil consiste. essas aves necessitam de uma área mínima de aproximadamente 250 mil ha para manter as taxas de extinção abaixo de 1 % da totalidade inicial de espécies por século. embora houvesse oito reservas florestais e uma categoria transitória que confere pouca ou nenhuma proteção. O projeto deve também mostrar modos de induzir “manchas” de floresta a suportar mais espécies do que elas naturalmente suportariam.4 milhão de ha. entretanto os critérios para selecioná-los têm variado ao longo do tempo.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL terra incluída em qualquer projeto econômico deve ser mantida como floresta (onde houver essa formação. no Sudeste do Brasil. na proteção de amostras representativas dos principais ecossistemas 169 . Mas esses dados não podem ser generalizados para outros grupos de animais. além de algumas reservas indígenas. é claro). foi decidido basear o tamanho de áreas protegidas nas espécies de aves neotropicais de florestas úmidas de planície. Não havia nenhuma unidade de conservação na região amazônica. basicamente. Em 1972 havia dezesseis parques nacionais e quatro reservas biológicas no país.

Jurandyr I. foi estabelecida uma nova modalidade de preservação ambiental. proporcionando assim locais de lazer à população. de valor ecológico. De forma geral a pesquisa ainda é incipiente quando comparada à velocidade com que se dá a degradação ambiental neste país. p. 202-207. só 3% da humanidade habitava 170 . In: ROSS. os solos e a biota. pode-se dizer que são poucos os trabalhos que visam ao conhecimento e monitoramento das áreas citadas. que diminuem cada vez mais nos grandes centros. que tenham como finalidade o estudo dos efeitos de certas atividades sobre o ecossistema. Sanches (org. a urbanização acelerada da população mundial é um fenômeno recente. como queimadas. Geografia do Brasil. As Demandas de Saneamento Básico e a Qualidade de Vida nas Cidades Brasileiras Atualmente. Parques urbanos Em nível municipal foram estabelecidos parques cujo objetivo principal é preservar áreas verdes. A maior parte da área de cada estação – cerca de 90% – é considerada área de reserva integral. com vistas a assegurar as condições ecológicas locais. Do ponto de vista do planejamento. Os 10% restantes podem ser utilizados para experimentações.). 1995. Com o advento da Lei n° 6. Entretanto. quase 3 bilhões de pessoas. Em 1800. José Bueno e FURLAN. Sueli Angelo. As áreas de proteção ambiental compreendem determinadas porções do território nacional de relevante interesse para a proteção ambiental. Nela somente podem ser realizadas pesquisas que não impliquem alteração do ecossistema natural. Uma estação ecológica é uma extensão de área natural. destinada à pesquisa e experimentação científica.Alguns dos parques estabelecidos pelas prefeituras municipais contam com uma reserva de vegetação bastante densa que também é aberta ao público. [CONTI. denominada área de proteção ambiental. o que equivale à cerca de metade da população mundial.] 3. São Paulo: EDUSP. vivem em cidades. por exemplo.902 (27/04/81).MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO brasileiros. Os parques urbanos cumprem um importante papel no lazer da população urbana e representam em muitos casos as manchas mais significativas de áreas verdes das cidades. Geocologia: o clima.

a metrópole contava com 7. mas os bombardeios da Segunda Guerra Mundial foram responsáveis por uma significativa retração populacional. perdeu 2% de sua população entre 1980 e 1990. a segunda metade do século XIX foi um período de rápida urbanização. A partir da década de 1970. Também algumas metrópoles da costa oeste e do sul dos Estados Unidos fugiram ao padrão do mundo desenvolvido e conheceram uma verdadeira explosão demográfica entre 1950 e 1990: nesse período. A explosão populacional que acompanhou estrondoso crescimento econômico vivenciado pelo Japão nas décadas do pós-guerra transformou a região metropolitana de Tóquio no centro da mais populosa área urbanizada do mundo. que em 1950 era a maior do mundo. Houston. Foi o início do processo de metropolização que deu origem a imensas aglomerações urbanas como Londres. Na maior parte dos casos. Dallas de 1 para 5 milhões. A população de Nova Iorque continua a crescer.7 milhões. atualmente figura na quarta posição e. com mais de 13 milhões de pessoas. Mesmo assim. Nova Iorque. Na Europa e nos Estados Unidos. 171 . Uma quantidade crescente de energia e alimentos passou a ser importada de lugares cada vez mais distantes para suprir as demandas urbanas. mas muito lentamente: a cidade. elas apresentaram crescimento fraco ou até mesmo estagnação e regressão populacional. a própria Europa era um continente predominantemente rural.2 milhões de habitantes. de 1 milhão para 3. 14% da população mundial já viviam nas cidades. no qual apenas duas cidades ultrapassavam a marca de um milhão de habitantes: Londres e Paris. deverá ocupar um modesto nono lugar em 2015. figurava como a sétima metrópole do mundo.2 milhões para 6. atingiu 6 milhões em 1940 e. No início do século XX. as metrópoles dos países industriais centrais viveram o apogeu de seu crescimento populacional entre 1850 e 1950. A Revolução Industrial mudou esse quadro. São Francisco passou de 2. por exemplo. Londres. Paris.4 milhões de habitantes. de acordo com os cálculos da ONU.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL no meio urbano e. Los Angeles foi o caso mais espetacular: no início do século XX. a região metropolitana de Tóquio já possuía mais de 15 milhões de habitantes em 1970 e ultrapassou a marca dos 26 milhões em 1996. contava com apenas 100 mil habitantes. Chicago. ainda em 1850. Tóquio figura como a principal exceção: em 1942. em 1996.

a expansão da mancha urbana das metrópoles brasileiras não impediu o aparecimento de “ilhas de verticalização”. pelo menos até a década de 1970. em São Paulo. o crescimento anual da população urbana gira em tomo de 0. de modo clandestino e ilegal. formou-se. Sucessivas anistias do poder público regularizaram as vias e loteamentos. No conjunto do mundo desenvolvido. desafiavam a legislação municipal. A produção da moradia. constituíram bairros imensos que se encontram atualmente consolidados e legalizados. 17 estão localizadas em países subdesenvolvidos. e apesar dessas exceções. a transferência de parcelas expressivas da classe média para a orla oceânica deflagrou o erguimento de torres residenciais. O predomínio do crescimento horizontal que marcou.7%. Atualmente. Como vimos na Unidade II. grandes aglomerações urbanas com mais de 10 milhões de habitantes. no Brasil o processo de urbanização foi notadamente acelerado a partir da década de 1950. isto é. Assim. pouco mais de três quartos da população brasileira vivem nas cidades. em grande parte. através da ocupação de áreas suburbanas carentes de serviços públicos. a taxa de urbanização anual gira em tomo de 5%. O êxodo rural acelerado e o processo de metropolização do pós-guerra geraram a expansão da “cidade clandestina”. nessas áreas periféricas. vendidos em prestações à população de baixa renda. Das 21 megacidades que existem hoje no mundo. realizou-se basicamente pela autoconstrução. como Rio de Janeiro ou Santos. de forma que a cidade real. figuram duas cidades brasileiras: São Paulo e Rio de Janeiro. Nas metrópoles e grandes cidades litorâneas. Entre elas. os graves problemas ambientais urbanos afetam a qualidade de vida de parcelas crescentes na população. nos países subdesenvolvidos. Esses loteamentos clandestinos. principalmente sob a forma de loteamentos na periferia da mancha urbana. formando muralhas de 172 . Os principais centros comerciais e de escritórios. A expansão das grandes cidades se realizou de forma predominantemente horizontal.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Entretanto. como o “centro velho” e a região da Avenida Paulista. são exemplos de espaços intensamente verticalizados. atualmente legalizada. têm sido um fenômeno característico do mundo subdesenvolvido. glebas de especuladores imobiliários arruadas irregularmente e subdivididas em lotes diminutos. As terras agregadas à cidade. nas últimas décadas o ritmo frenético da urbanização e o aparecimento de novas megacidades.

Entretanto. A ausência dessa “armadura ferroviária” condicionou uma expansão da área urbanizada ao longo do eixo das avenidas radiais. alongandose sobre alguns eixos principais de tráfego. Ao mesmo tempo. esgotos. as “ilhas de verticalização” conviveram. O transporte automotivo comandou a ampliação territorial das cidades. As metrópoles brasileiras assumiram uma feição espalhada e disforme. os trens suburbanos e as linhas de metrô nas metrópoles brasileiras cobrem uma parcela relativamente pequena dos fluxos de passageiros.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL prédios em frente ao mar. O alastramento espacial das periferias – mais rápido que o crescimento da população e muito superior ao incremento da arrecadação de impostos – acarreta carência crônica dos serviços públicos e de infra-estruturas urbanas. escolas e postos de saúde. espaços com baixa densidade de ocupação surgiam no intervalo entre as grandes vias radiais. As áreas das bacias hidrográficas tributárias das represas Billings e Guarapiranga. As conseqüências ambientais da ocupação desordenada dos espaços periféricos são de gravidade semelhante. A expansão desordenada. protegidas legalmente de ocupação desde 1975. iluminação e transportes. o alastramento da mancha urbana na direção sul do município e sudeste da Região Metropolitana provocou a invasão das áreas de proteção de mananciais. em vez de serem barradas por áreas verdes e superfícies permeáveis. horizontalizada e espalhada da metrópole gera uma pressão crescente de demanda por serviços públicos de água. o desmatamento das várzeas e cabeceiras dos córregos e rios para expansão dos loteamentos agravou o problema das enchentes. Essa tendência à horizontalização foi determinada pelo atraso na implantação de um esqueleto de vias férreas e de metrô para o transporte urbano de massa. bem como por infra-estruturas viárias. Ainda hoje. por várias décadas. geralmente direcionados para os vetores com menores obstáculos naturais. conheceram desvalorização 173 . Na Grande São Paulo. além de intensificar o estrangulamento financeiro das administrações municipais. Os custos mais baixos de abertura de ruas e avenidas estimularam o prolongamento dos eixos de transporte ao longo de traçados lineares. As águas pluviais correm diretamente para os cursos d’água. com um modelo predominantemente horizontal de expansão da área edificada. Por outro lado. devorando terras cada vez mais distantes do centro.

MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO imobiliária. Em conseqüência. s/d. Nas metrópoles litorâneas.. Esse processo de deslocamento dos grupos pauperizados aponta – senão para o esgotamento – para a rápida queda do padrão periférico do crescimento urbano de São Paulo. De acordo com um estudo realizado pela Prefeitura de São Paulo no início dos anos 90. os morros próximos à orla oceânica são de propriedade pública ou da Marinha. Localizadas junto aos bairros residenciais de classe média da Zona Sul. 1 Prefeitura de São Paulo: São Paulo Crise e Mudança.. caracterizada por visível empobrecimento das áreas centrais. aumenta a favelização e o encortiçamento nas áreas mais antigas e estabilizadas das cidades. “sem dúvida. Como conseqüência do esgotamento desse modelo. ocorre uma aproximação entre as localizações residenciais populares e as localizações residenciais das classes médias. p. que se acentuaram durante os anos 80. essa é uma dinâmica nova na ocupação do espaço de São Paulo. as encostas desses morros abrigam algumas das principais favelas da cidade. 174 . Prefeitura de São Paulo/Brasiliense. (. Contudo. A redução do movimento migratório em direção às cidades maiores e a desaceleração do crescimento vegetativo contribuem também para o encerramento dessa etapa de descontrolada expansão horizontal das metrópoles. 53. que constituem importante fonte de empregos no comércio e nos serviços. em função da incapacidade crescente das camadas populares de adquirirem terrenos e materiais de construção. ameaçando poluir as águas e inviabilizar a utilização dessas fontes de abastecimento da cidade. o importante reside no surgimento de relativa dispersão dessas camadas por outros espaços da cidade: maior parcela de pobres tomou o rumo das zonas centrais. Do ponto de vista espacial. a alternativa para muitas famílias é a moradia em favelas ou cortiços”1. sem que com isso se diga que as periferias deixaram de abrigar predominantemente os contingentes de baixo poder aquisitivo. O modelo de expansão periférica e horizontalizada das metrópoles brasileiras entrou em crise na última década. baseado na autoconstrução em terrenos desprovidos de benfeitorias públicas.) Diante desses fenômenos. como o Rio de Janeiro. proliferaram os loteamentos clandestinos nas proximidades dos córregos e das represas.

A Conferência Habitat II dá ênfase à questão urbana ambiental ao definir a sustentabilidade como princípio e assentamentos humanos sustentáveis como objetivo a ser perseguido. do risco. reforçaram-se as iniciativas visando associar as duas questões. essenciais à manutenção da saúde e à proteção do meio ambiente. 175 . As causas dessa carência de serviços públicos. No Brasil urbano a realidade socioambiental de uma grande parcela da população está marcada pelas dimensões da exclusão. Texto 1 . Os mais graves problemas ambientais são principalmente um efeito da urbanização sobre os ecossistemas. podem ser assim resumidas: A crise institucional e financeira que afetou a capacidade de investimento do setor público. A deterioração ambiental. resultando em crescente vulnerabilidade das cidades. e apresenta indicadores importantes acerca da qualidade de vida de suas populações. O que é novo. do agravo. legibilidade e rigidez dos espaços urbanos. neste final de século.Meio Ambiente. em geral. 1992). seja da cidade ou do campo. Saneamento e Transporte A intensidade e as características da urbanização em todo o mundo geraram dois grandes problemas nesse final de século: a questão urbana e a questão ambiental. o arquiteto Nabil Bonduki discorre sobre os principais problemas ambientais que afetam as cidades brasileiras. Esse quadro é ainda agravado pelos sérios danos à qualidade de vida decorrentes de verdadeiras cirurgias urbanas realizadas a título de resolver problemas de circulação que resultam na perda de identidade. principalmente o ar e a água.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL Texto Complementar No fragmento de texto reproduzido abaixo. problema agravado pela intensidade da concentração urbana. e particularmente a dos setores de saneamento e transportes públicos. A partir da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (Rio. é a intensidade dos processos de degradação ambiental que acompanham a urbanização. é problema antigo e sempre existiu na história da humanidade. provocando uma crescente contaminação dos recursos naturais. da falta de informação e de educação sanitária e ambiental.

O quadro urbano brasileiro está marcado pela existência de assentamentos humanos precários. concentrando os problemas mais sérios de degradação ambiental. a preocupação com os problemas ambientais urbanos (brown agenda) ainda não recebeu a mesma atenção da agenda verde. Situação ambiental urbana Nas últimas décadas. Embora a ação governamental de proteção ao meio ambiente e à conservação dos recursos naturais tenha se intensificado no campo da gestão ambiental na última década. As cidades estão no cerne dessa questão: enquanto centros de produção e consumo são grande exploradores de recursos naturais como água. As necessidades de ajustamento político-institucionais dos modos de regulação das relações sociais entre os produtores de serviços e usuários. combustíveis fósseis e terra agriculturável. Assim. a crise ambiental urbana brasileira representa um tema muito propício para colocar em debate a necessidade de novos compromissos com o desenvolvimento de assentamentos humanos – urbanos ou rurais – sustentáveis. ampliação e modernização. a concentração da população e das atividades econômicas no espaço e os padrões tecnológicos da produção industrial têm reforçado um quadro ambiental altamente degradado em conseqüência de um estilo de desenvolvimento que leva ao uso predatório dos recursos naturais.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO O envelhecimento das redes e dos sistemas de infra-estrutura que demandam substituição. 176 . É muito recente a explicitação do componente ambiental nas políticas urbanas e de saneamento. A diversificação e o aumento quantitativo das necessidades de saneamento da população urbana e da demanda por serviços. a urbanização acelerada e desordenada. onde vivem os pobres. e um comprometimento ambiental que provocam graus crescentes de deterioração da qualidade de vida. erosões. Enchentes. O aumento da demanda por transportes públicos derivados da retomada do crescimento econômico.

afetando diferencialmente os setores mais pobres. 47. áreas de proteção de mananciais. áreas de risco para o tipo de moradia precária dessa população. 65% do total de domicílios permanentes tinham canalização interna abasteci da por rede geral de água. na Região Sul. Com relação à cobertura de rede de esgotos.29% do total da população são servidos. 32% possuem fossas rudimentares e 14. no Nordeste esse número representa 8. sendo 87. risco agravado pela ausência de infra-estrutura.2% utilizavam emissário para lançamento do esgoto coletado em corpos d’água e 7. sendo que este índice atinge 85. As diferenças de atendimento entre população urbana e rural igualmente refletem a estratégia da política de saneamento do BNH. sendo que apenas 12. de acordo com o Censo Demográfico. onde 17. uma vez que apenas 35. uma vez que os dados mostram que se considerarmos os domicílios que não possuem canalização interna. forçou os grupos mais pobres da população a ocupar ilegalmente espaços impróprios para assentamentos como encostas íngremes.65%. mas são servidos por rede geral.68% não possuem qualquer tipo de escoadouro. conforme os dados a seguir. o índice de domicílios servidos era de 70. apenas 13. Em 1989.33% dos domicílios está ligado à rede geral. o total de domicílios servidos representa 63.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL deslizamentos.79% realizavam algum tipo 177 . O atendimento na área do saneamento O acesso aos serviços de água teve uma considerável expansão nas duas últimas décadas. particularmente nas grandes cidades. várzeas inundáveis. A falta de alternativas de moradia popular e de lotes urbanos a preços acessíveis. e na Centro-Oeste 27. em conseqüência da prioridade concedida ao serviço pelo Plano Nacional de Saneamento – Planasa executado sob comando do BNH. tem-se um quadro extremamente precário. As variações entre regiões dão uma dimensão das desigualdades existentes. beiras de rio e cursos d’ água. na Região Sudeste. poluição das águas e do ar. atingem o cotidiano da população. Em 1991.81 % nas áreas urbanas e 9. bem como a diminuição da cobertura vegetal. Estes indicadores mostram o nível de precariedade existente.25% dos municípios possuíam alguma forma de serviço público de esgotamento sanitário.88%.87% nas áreas urbanas e 6. Enquanto na Região Norte apenas 1.24%.11 % dos domicílios brasileiros têm fossa séptica.71 %.84% nas áreas rurais.46%.8% nas rurais. que é melhor servida.

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de tratamento, na maioria dos casos, lagoa de estabilização. Assim, constata-se que, além dos 52,75% dos municípios que não dispõem de serviço de coleta, a maior parte dos que dispõem realiza a coleta, mas não trata do esgoto coletado. As disparidades regionais são flagrantes: na Região Sudeste apenas 15% dos municípios tratam o esgoto coletado, na região Sul 7%, na Centro-Oeste 3,69%, no Nordeste 3,63% e na região Norte 7,7% (IBGE, Pesquisa Nacional de Saneamento Básico, 1989). Ainda utilizando dados do Censo Demográfico de 1991, constata-se que 80% dos domicílios urbanos brasileiros têm coleta de lixo, representando cerca de 22 milhões de domicílios com cobertura desses serviços. Verifica-se portanto que uma parte considerável dos domicílios urbanos dá destinação inadequada para o lixo produzido. Do total dos domicílios urbanos 8,51 % queimam ou enterram o lixo, 11,55% jogam em terrenos baldios e outros locais e 0,72% dá outra destinação para o lixo. Esses dados indicam que ainda perdura uma quantidade significativa do lixo produzido que não recebe tratamento adequado. De acordo com a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico do IBGE, em 1989, em todas as regiões do país o problema que se coloca é muito sério, uma vez que a maior parte é despejada em vazadouros a céu aberto (lixões). A maioria dos municípios brasileiros joga o lixo em vazadouros a céu aberto, totalizando 72% do lixo coletado e somente 47,14% do lixo coletado recebe tratamento adequado: 24,66% em aterro controlado, 16,72% em aterro sanitário e 5,73% em usinas de compostagem, incineração e reciclagem. Somente 52,55% dos municípios brasileiros declararam ter recolhimento de lixo hospitalar, sendo que, entre esses, 74,63% despejam o lixo hospitalar em vazadouros a céu aberto e nos demais municípios o lixo hospitalar é incinerado ou disposto em aterros especiais. A adoção de vazadouro a céu aberto como solução para disposição final dos resíduos representa um sério risco que não se circunscreve apenas à área onde se localiza. Pelo fato de não receberem qualquer tipo de tratamento e controle, os lixões liberam gases e substâncias líquidas de elevadas toxicidades que poluem o ar, o solo, os rios e aqüíferos subterrâneos e superficiais. Além de provocarem problemas ambientais, contribuem para a degradação da paisagem urbana, afetando direta e indiretamente a população que mora em suas vizinhanças. Esses problemas concentram-se nos bairros periféricos, onde vivem as camadas mais pobres da população.

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A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

O atendimento às necessidades de transporte urbano A situação precária dos transportes públicos urbanos, particularmente nas grandes cidades brasileiras, decorre da prevalência dos deslocamentos por transporte particular individual em detrimento da priorização do transporte coletivo. O custo da implantação e manutenção da infra-estrutura viária, da sinalização e da operação do tráfego próprias para o automóvel, em face do atual quadro de incapacidade de investimento do Estado, tem impedido o atendimento adequado das necessidades de transporte para a maioria da população. A produção da indústria automobilística saltou de 914 mil automóveis/ano em 1990 para quase 1,8 milhões em 1995. O enorme contingente de veículos particulares resultante dessa expansão circula hoje nas cidades sem que tenha havido, por um lado, preparo, aparelhamento e incremento nas atividades de gerenciamento dos transportes nem, por outro lado, incremento nos investimentos públicos necessários. Os sistemas metroviários, de responsabilidade dos estados, e os trens metropolitanos, operados pelos estados e pela União, responsáveis por 8% do total das viagens metropolitanas, não têm conseguido ampliar o atendimento da demanda devido à descontinuidade dos investimentos necessários e aos cortes substanciais nos seus orçamentos. À exceção do Metrô de São Paulo, que tem se beneficiado por fluxos regulares de recursos, os demais sistemas de alta capacidade, implantados no Brasil na década de 1970, não puderam ser expandidos ou concluídos, deixando de cumprir seu papel de principal meio de transporte das áreas onde foram implantados. A poluição do ar e da água Dentre as questões ambientais urbanas mais importantes no caso brasileiro alinha-se a poluição atmosférica. Os problemas ambientais gerados pela poluição do ar nas grandes cidades brasileiras têm duas fontes: as fontes industriais e as fontes veiculares. Mas a principal fonte de poluição atmosférica ainda é o monóxido de carbono produzido pela frota de veículos, cujo crescimento resultou do desenvolvimento da indústria automobilística, do baixo preço do petróleo e da expansão das malhas rodoviária e urbana. Tais fatores levaram a opções equivocadas que priorizaram o transporte individual em detrimento do transporte coletivo e os

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sistemas rodoviários em detrimento dos transportes ferroviários e hidroviários nas grandes cidades. A inexistência de sistemas adequados de tratamento de resíduos líquidos e sólidos, resultantes tanto das atividades econômicas (agrícola, industrial e mineradora) quanto das atividades domésticas, tem provocado também altos índices de poluição hídrica. Em relação ao setor industrial, destaca-se que a maior parte dos estabelecimentos com alto potencial poluidor da água localizase na região Sudeste, representando 52% do total, sendo que 21 % estão no Nordeste e 19% no Sul. A concentração de estabelecimentos se dá nos estados de São Paulo e Minas Gerais, representando respectivamente 31 % e 12% do país. Tal como no caso da poluição do ar, a grande concentração industrial e urbana apresenta elevadas cargas orgânicas e inorgânicas em relação à capacidade assimilativa dos corpos receptores e torna suas águas impróprias para a maioria dos usos. Estratégias de intervenção do Estado e da Sociedade Persiste a desvinculação entre as políticas públicas de saneamento e meio ambiente, questão amplamente tratada na Consulta Nacional sobre a Gestão do Saneamento e do Meio Ambiente Urbano, realizada em 1994 pelo Instituto Brasileiro de Administração Municipal com o apoio do Programa de Gestão Urbana (PNUD/Habitat/Banco Mundial), envolvendo representantes do governo e da sociedade, em todas as regiões do país. As conclusões dessa Consulta Nacional apontam, entre outras, para uma tendência de criação de novos formatos institucionais capazes de propiciar uma gestão ambiental urbana integrada, mais eficiente, efetiva e democrática. Não obstante, cabe lembrar uma ação governamental, em nível federal, que vem progressivamente agindo para a superação da mencionada desvinculação das políticas ambientais e urbanas. Trata-se do Programa de Zoneamento Ecológico Econômico do Território Nacional -ZEE, coordenado pela Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e executado pelos estados, de acordo com as diretrizes de descentralização. Quanto às ações de saneamento, reiniciam-se as operações de financiamento à expansão e à melhoria dos serviços, com recursos do FGTS,

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PMSS. através da Caixa Econômica Federal. Isso porque a tecnologia “tradicionalmente usada para a execução desse tipo de obra tem altos custos de implantação dos serviços. mas não são passíveis de generalização uma vez que não se pode pretender substituir por completo o investimento público pela privatização. Coerente com as propostas de descentralização da execução das políticas públicas. Os empréstimos poderão ser concedidos. O PMSS é o trabalho mais abrangente. e novas alternativas de prestação de serviços. Experiências de resultados animadores com a utilização de gás natural automotivo em frotas de ônibus urbanos. A reformulação da política de saneamento e a modernização do setor são objeto do Projeto de Modernização do Setor de Saneamento . frotas de táxis e veículos do serviço público têm sido realizadas em vários municípios. Algumas alternativas de mobilização de capitais privados para o setor têm sido ensaiadas. inclusive o princípio poluidor-pagador. O uso de tecnologias adequadas A escassez de recursos para investimentos em face dos déficits de infraestrutura levou a se prestar maior atenção às tecnologias de baixo custo. formados por representantes de governo (estado e municípios) e da sociedade. o qual procura explorar novo ordenamento institucional. chamadas de “alternativas” ou “adequadas”. novos mecanismos de regulação e financiamento. A preocupação com os problemas ambientais gerados pelos transportes levou ao desenvolvimento de tecnologias que utilizam fontes de energia renováveis e aquelas de menor impacto no meio ambiente. cujas prioridades são o atendimento à população mais carente e a conclusão das obras já contratadas em todo o país. o Programa transfere a colegiados estaduais. o poder decisório sobre as prioridades na alocação de recursos. a órgãos e entidades estaduais ou municipais.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL através do Programa Pró-Saneamento. completo e ambicioso sobre saneamento já enfrentado pelo país. custos que a grande maioria da população não pode pagar. 181 . conduzido pela Secretaria de Política Urbana do Ministério de Planejamento e Orçamento e financiado com recursos do Banco Mundial.

num percurso que vem registrando significativas mudanças de concepção quanto ao equacionamento do tema. Habitat. agir localmente’.). Aponte os principais documentos elaborados sobre a matéria a partir da década de 1970 e comente as modificações observadas nos seus enfoques sobre a ‘questão ambiental’.” 182 . Quanto ao primeiro. Habitat e Qualidade de Vida: as práticas bem sucedidas em cidades brasileiras. Exemplo mais conhecido e estudado é o saneamento condominal. 2a ed. Tais mudanças ficam bem mais evidentes nos documentos gerados por comissões e conferências internacionais.. ‘há que se tomar cada lugar na Terra como uma fração do espaço mundial’. Faça uma reflexão sobre a relação entre essas escalas no mundo contemporâneo. As práticas bemsucedidas em habitação. comenta o Professor Milton Santos. 28-32. meio ambiente e gestão urbana nas cidades brasileiras. onde se concentram os maiores déficits de cobertura em todo o país e cuja resolução por tecnologia convencional é extremamente onerosa. São Paulo: Studio Nobel. levando em conta seus possíveis reflexos sobre as soberanias nacionais. A tendência observada é de extensão de seu uso. 1997. p. Por outro lado. para todas as áreas urbanas do país. Nabil. a globalização e a questão ambiental seriam projetos associados.] 4. é uma máxima do movimento ambientalista internacional a afirmação ‘pensar globalmente. tem sido um campo fértil para a experimentação com tecnologias de baixo custo. Exemplos de Questões Concurso de 1997 √ “Segundo vários autores.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO A dimensão dos problemas de esgotamento sanitário. onde as condições técnicas o permitam. Nabil (org.” Concurso de 1998 √ “A percepção internacional acerca da questão ambiental foi se fortalecendo ao longo das últimas décadas. [BONDUKI. In: BONDUKI.

Desenvolvimento Sustentável e Políticas Públicas. 1993. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. et alli. Meio Ambiente e Ciências Humanas. 1999. A Geografia Política do Desenvolvimento Sustentável. São Paulo: EDUSP/ Hucitec. 1994. São Paulo: Hucitec. estrutural e sazonalmente. sua situação climática. Bertha K. Clóvis et alli.Contribuições para a Gestão da Zona Costeira do Brasil: elementos para uma geografia do litoral brasileiro. São Paulo: Cortez. São Paulo: Hucitec. O Mito Moderno da Natureza Intocada. 183 .A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL Concurso de 1999 √ “ A expressão ‘polígono das secas’ é de uso corrente na geografia regional brasileira. Antônio Carlos R.” 5. 1997. SOUZA. e MIRANDA.). DIEGUES. Natureza e Sociedade de Hoje: uma Leitura Geográfica. Localize com precisão tal área no território nacional e descreva os mecanismos atmosféricos que determinam. 1996. Mariana (orgs. Meio Ambiente. Bibliografia Bibliografia Básica BECKER. Antônio Carlos. São Paulo: Hucitec/ANPUR. Bibliografia Complementar MORAES. CAV ALCANTI. 1997. __________. Maria Adélia A.

9 Times New Roman 12/17.7 cm 13 x 25.500 exemplares Gráfica Brasil .Título Autora Editoração Eletrônica Revisão de Texto Formato Mancha Gráfica Tipologia Papel Manual do Candidato .Geografia Regina Célia Araújo Paulo Pedersolli e Cláudia Capella José Romero Pereira Júnior 21 x 29.8 Cartão Supremo 240g 2 (capa) AP 75g2 Número de páginas Tiragem Impressão e acabamento 184 1.

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