Marília Novais da Mata Machado - Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo - Sonia Roedel (orgs.

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PSICOSSOCIOLOGIA análise social e intervenção
André Lévy André Nicolaï Eugène Enriquez Jean Dubost

Psicossociologia
Análise social e intervenção

André Lévy André Nicolaï Eugène Enriquez Jean Dubost ORGANIZADORES Marília Novais da Mata Machado Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo Sonia Roedel COLABORADORAS: Regina D.B. de Barros Teresa Cristina Carreteiro

Psicossociologia
Análise social e intervenção

Belo Horizonte 2001

Copyright © 2001 by Os Organizadores Primeira edição publicada pela Editora Vozes (Petrópolis/RJ), em 1994. Capa Jairo Alvarenga Lage Editoração eletrônica Waldênia Alvarenga Santos Ataide Revisão de textos Erick Ramalho Editora responsável Rejane Dias

P974

Psicossociologia; análise social e intervenção / André Lévy et al.; organizado e traduzido por Marília Novais da Mata Machado et al. – Belo Horizonte: Autêntica, 2001. 264p. ISBN 85-7526-022-7 1.Psicologia social. 2. Levy, André. 3. Machado, Marília Novais da Mata. I. Título. CDU 316.6

2001
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SUMÁRIO

PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO
Marília Novais da Mata Machado, Eliana de Moura Castro, José Newton Garcia de Araújo e Sonia Roedel...........................................

07

PREFÁCIO
Marília Novais da Mata Machado e Sonia Roedel...................................... 09 Parte I –

Análise social

ANÁLISE SOCIAL E SUBJETIVIDADE
Eliana de Moura Castro e José Newton Garcia de Araújo............................ 17

O PAPEL DO SUJEITO HUMANO NA DINÂMICA SOCIAL
Eugène Enriquez.......................................................................................... 27

A INTERIORIDADE ESTÁ ACABANDO?
Eugène Enriquez.......................................................................................... 45

O VÍNCULO GRUPAL
Eugène Enriquez.......................................................................................... 61

O FANATISMO RELIGIOSO E POLÍTICO
Eugène Enriquez.......................................................................................... 75

CONJUNÇÃO, NA EMPRESA, DE UM PROJETO PESSOAL E FAMILIAR, COM A HISTÓRIA DE UMA REGIÃO: O PROCESSO DE CRIAÇÃO INSTITUCIONAL
André Lévy................................................................................................... 91 Parte II – A

psicossociologia em exame

PSICOSSOCIOLOGIA EM EXAME
Teresa Cristina Carreteiro............................................................................. 107

A PSICOSSOCIOLOGIA: CRISE OU RENOVAÇÃO?
André Lévy................................................................................................... 109

A MUDANÇA: ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO
André Lévy................................................................................................... 121

........................... 185 DA FORMAÇÃO E DA INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAS Eugène Enriquez......................................................................Psicossociologia – Análise social e intervenção RUPTURAS.............................................. 211 AS ORIGENS TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA E ALGUMAS QUESTÕES ATUAIS Jean Dubost............................................... 171 INTERVENÇÃO COMO PROCESSO André Lévy................................................................................................ MUTAÇÕES E COMPLEXIFICAÇÃO EM ECONOMIA André Nicolaï................................ 237 6 ................................................................................................... 143 Parte III – Intervenção psicossociológica INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA Regina D....... Benevides de Barros........................................................................................................................................................................ 165 NOTAS SOBRE A ORIGEM E EVOLUÇÃO DE UMA PRÁTICA DE INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA Jean Dubost............................................. 133 IDENTIFICAÇÕES EXPERIMENTAIS E INOVAÇÕES SOCIAIS André Nicolaï............

a psicanálise. principalmente em suas vertentes sociológica e psicossocial. tornou-se ainda mais importante. o livro continua sendo de interesse para os estudiosos das ciências humanas e sociais em geral. esta transdisciplina simultaneamente teórica e prática. da organização e do funcionamento social. a administração e a política. Por tudo isso. A psicanálise seguiu sendo uma das principais teorias inspiradoras. a educação. pois apresenta justamente os fundamentos e a história dessa disciplina que se fortalece: esboça uma teoria do socius. fruto do trabalho de psicólogos. quanto para os que praticam a psicologia. juntou-se o levantamento e análise de histórias de vida. bem conhecida e divulgada no Brasil. Desde a primeira edição. esclarecedoras dos processos de criação do social. feita à partir de análises sociais de práticas realizadas em situações concretas.PREFÁCIOÀSEGUNDAEDIÇÃO É com grande satisfação que vemos este livro chegar à sua segunda edição. tanto para os que se dedicam à reflexão teórica. cuja história é nele revista e avaliada. sociólogos e um economista. Junho de 2001 Os organizadores 7 . por meio da “intervenção psicossociológica”. Assim. a economia. tal como no momento da primeira edição. o direito. prático e metodológico. À metodologia de intervenções/pesquisas. este livro. A sua perspectiva clínica ganhou espaço. hoje. reais. o campo da psicossociologia cresceu. a sociologia. O fortalecimento do CIRFIP – Centro Internacional de Pesquisa. dispositivo de consulta e pesquisa. mas novas e originais elaborações teóricas foram desenvolvidas. Formação e Intervenção Psicossociológica – acompanhou todo esse vigor teórico. cada vez mais utilizada. A coletânea de textos que o compõem interroga e constrói a psicossociologia.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 8 .

nas quais o psicossociólogo tinha o papel de um pesquisador-interventor. freqüentemente através de experimentos. das organizações e das comunidades. isto é. abandonaram totalmente uma certa prática de pesquisa-ação que estudava grupos artificiais e. reflexão e análise dessa disciplina. organizações e comunidades. permitiu que um novo tipo de discurso fosse enunciado. no quadro da vida cotidiana. dedicou-se ao estudo de sujeitos abstratos. em seus grupos. se revelassem. que condutas. Atuando diretamente na vida dos grupos. considerados como conjuntos concretos que mediam a vida pessoal dos indivíduos e são por esses criados. relação de colaboração na qual os problemas são prioritários com relação aos métodos. respondendo a uma demanda e adotando uma posição de analista. a metodologia de pesquisa-ação. as condutas concretas dos indivíduos. os psicossociólogos criaram a intervenção psicossociológica. Seu campo é bem delimitado: é o dos grupos. são o objeto de pesquisa. Em conseqüência. excluíram os métodos nos quais as decisões eram tomadas de maneira unilateral pelo pesquisador. geridos e transformados. até então desconhecidas. grupos. igualmente. A ênfase à concretitude foi o divisor de águas que estabeleceu a especificidade da Psicossociologia frente à Psicologia Social e que se refletiu na diversificação das metodologias inicialmente utilizadas: enquanto a Psicologia Social. a Psicossociologia interessou-se pelo estudo de sujeitos em situações cotidianas. organizações e comunidades. inicialmente. Portanto. empregando para tanto. o pesquisador-prático. ele teve acesso aos processos conscientes e inconscientes que aí atuavam e às condutas lingüísticas que as pessoas realizavam. Passaram a se preocupar. Por meio dessa abordagem. com as instâncias de mudança. fez aparecerem certos problemas.PREFÁCIO A Psicossociologia é uma vertente da Psicologia Social. A partir dos anos 50. em especial. por sua presença. dissociados de seu papel social real de sujeitos concretos. 9 .

chega-se ao conhecimento e à explicação da natureza do vínculo que congrega os indivíduos. retirando sua originalidade sobretudo de sua construção teórica. no qual um convite à análise e à reflexão é repetido em cada texto. aptos a um “imaginário motor”. buscando certezas através das quais vão abrandar seus sentimentos de desamparo e impotência. irmãos apenas no complô contra os que são representados como diferentes. nos termos de E. mobilizados por ilusões e crenças. pouco a pouco tecido. sujeitos que. 60 e 70. adquire um sabor de novidade. É essa trajetória teórica que se pretende apresentar neste livro. Reencontra indivíduos que caem facilmente no fanatismo. encontra também sujeitos capazes de saírem desse “imaginário enganoso”. por um ato de decisão. no “narcisismo das pequenas diferenças” (FREUD). de onde e como surge a dinâmica social. de transformações nos sistemas sociais (A. são capazes de realizar “esse obscuro objeto do desejo”. torna visível a presença do sujeito social. mesmo que involuntariamente. que a análise talvez pouco abale uma instituição que se imagina estável. hoje ela se renova. contra esse pano de fundo. ENRIQUEZ. disputando tanto mais com seu semelhante quanto mais iguais figurem ser. A partir da análise social instaurada com a intervenção psicossociológica. na crença exacerbada em valores estimados como transcendentes. LÉVY). idealizando e buscando destruir seus chefes. DUBOST). que é também um ato de palavra. é formulada uma teoria. sujeitos capazes de serem autônomos. sujeitos que são verdadeiros autores e atores. Paulatinamente. Teoria e prática se confundem nessa tarefa. podendo se tornar os principais agentes de suas próprias evoluções e das de seus grupos e organizações (J. e do processo de criação institucional. da sublimação e de um imaginário que facilitariam a solidariedade entre os homens. que 10 . a Psicossociologia redescobre sujeitos pulsionais. do trabalho da pulsão de morte.Psicossociologia – Análise social e intervenção Entretanto. dos desejos de onipotência e dominação. sempre inacabada. a mudança social (A. com suas mudanças e rupturas. Ao lado do reconhecimento de uma ordem social marcada pela luta de todos contra todos. se foi esse vínculo estreito entre pesquisa e ação que caracterizou a Psicossociologia dos anos 50. já sendo a priori evidente que a opacidade do social não será eliminada. do socius. fortemente movidos por sentimentos ambivalentes de amor e ódio. Ora. Porém. da organização e do funcionamento social. foi possível também constatar o trabalho da pulsão de vida. e serem criadores da história. pois a teorização é fruto da reflexão que. NICOLAÏ). a partir de eventos da vida cotidiana e de intervenções psicossociológicas.

de BARROS. Assim. o pensamento filosófico de C. os conceitos recentemente formulados nas ciências “duras”. o desenvolvimento de um processo organizacional. Política. aqui e ali. Essa teoria fundamenta inclusive a crítica a uma Sociologia abstrata. CASTRO. Os autores – Jean DUBOST. auto-organização e complexificação a partir do ruído. é analisada. são analisadas novas ideologias.Prefácio o exame minucioso de todo grupo. André LÉVY e André NICOLAÏ –. O que reúne essa equipe é seu interesse pela área das Ciências Humanas e a perspectiva transdisciplinar com a qual abordam não apenas suas disciplinas específicas – Psicologia Social (R. como sistemas dinâmicos. toda organização e toda comunidade pode ser indefinidamente continuado. J. A. enfim. E. CARRETEIRO. apontando para as representações imaginárias do social e para questões referentes à autonomia e à heteronomia. Sonia ROEDEL. CASTORIADIS. mas também de outras referências. assim como. está presente em quase todos os textos. de suas demandas de amor e proteção. Sociologia. relações de poder e autoridade. que pensa em termos de sistemas e de modos de produção. e ressalta as mudanças preparadas por grupos pertencentes a movimentos sociais. José Newton G. S. são analisados mitos tão diferentes como o da sociedade transparente. BARROS. Eliana de Moura CASTRO. nomes consagrados na França mas ainda pouco conhecidos dos leitores brasileiros. de suas fantasias de onipotência. distanciada das situações concretas reais onde se dão os fatos sociais. considerando a sociedade como um conjunto hierarquizado de sistemas de ação. formuladora de grandes quadros teóricos mas. Eugène ENRIQUEZ. ARAÚJO. estruturas dissipativas. de ARAÚJO. a respeito das suas representações historicamente constituídas. autopoieses. 11 . Para essa reflexão “desmistificadora e desmitificadora” (E. Os textos são permeados pela Sociologia da Ação de A. assim como novos sagrados e certezas. DUBOST. Mas nada impede a reflexão e a análise a respeito dos valores. Teresa Cristina CARRETEIRO e Regina D. MATA-MACHADO). ROEDEL). de seus desejos de afirmação narcísica e de reconhecimento. ENRIQUEZ) não se lança mão apenas da Psicanálise. o da qualidade total e o do corpo passível de ser eternamente jovem. convida a nomear e a analisar novas práticas sociais e novas formas de ação coletiva. LÉVY. práticas de intervenção mitificadas. formadoras das sociedades atuais e futuras. são apresentados nesse livro por Marília N. T. a condição de construção da vida social. entretanto. normas e formas de pensar o mundo que orientam os diversos atores sociais. B. TOURAINE que. da MATA-MACHADO. nestas páginas. Assim. M. Psicologia Clínica (J.

CARRETEIRO – Psicologia Clínica – e E. MATA-MACHADO e S. 1990-1. ROEDEL. A. LÉVY.Foram escolhidos. NICOLAÏ (mimeogr. a Psicossociologia. CASTRO. LÉVY). julgou-se indispensável incluir dois textos – “O vínculo grupal” (E.). “Rupturas.Em segundo lugar. mutações e complexificação em economia” – A. ENRIQUEZ) e Economia (A. Foi feita uma primeira escolha de 14 artigos que seriam distribuídos em quatro partes. especialmente. UFF – Universidade Federal Fluminense (R. todos esses intelectuais têm em comum o fato de trabalharem em universidades – Universidade de Paris VII (E. . “A interioridade está acabando? – E. muitos dos quais trazidos pela equipe francesa. ROEDEL). no Brasil. “O fanatismo religioso e político” – E. de um projeto pessoal e familiar. Assim. mais da metade dos artigos apresentados neste livro foi publicada depois de 1989: “O papel do sujeito humano na dinâmica social” – E. Os membros dessa equipe estão formalmente ligados através de convênio de intercâmbio científico patrocinado. 1990-1. 1989. MATA-MACHADO – Psicologia Social). a partir do exame de uma centena de textos. ENRIQUEZ. CASTRO – Psicanálise. a maior parte dos brasileiros tem o título de doutor por universidades francesas (Paris VII: J. feita em novembro de 1991: . CARRETEIRO). a disciplina que os congrega. ENRIQUEZ. Paris XIII: M. DUBOST. 1990. NICOLAÏ) – mas. mantidos entretanto os critérios da primeira seleção. cobrindo questões atuais. UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais (J. NICOLAÏ. T. “A Psicossociologia: crise ou renovação? – A. primeiramente. na França. a seleção dos artigos aqui apresentados foi feita por M. mostrando a situação da evolução do pensamento teórico dos autores. MATAMACHADO). sofreu modificações. pelo COFECUB ( Comité Français d’Evaluation de la Coopération Universitaire avec le Brésil). NICOLAÏ). textos recentes.). ENRIQUEZ. com a história de uma região: o processo de criação institucional” – A. ENRIQUEZ). Paris XIII (A. resultando em treze textos. Inicialmente. M. ARAÚJO.Psicossociologia – Análise social e intervenção Direito (E. Dois deles eram inéditos no momento da seleção: “Conjunção. E. estudada tanto pela equipe francesa quanto pela brasileira (que compreende outros membros além dos organizadores e colaboradores). pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior) e. distribuídos em três partes. 1991. Essa primeira proposta. Paris X (J. LÉVY (mimeogr. em função do mencionado convênio. “identificações experimentais e inovações sociais” – A. T. FUNREI – Fundação de Ensino Superior de São João del Rei (S. na empresa. ARAÚJO. BARROS. ENRIQUEZ) e “A mudança: esse obscuro objeto do 12 . Além desse território de pesquisa.

editado por Jorge Zahar. certamente refletindo posturas teóricas diferentes. Por exemplo. o termo lien social foi traduzido por “vínculo social”. 1980. Esses artigos foram organizados em três grupos que correspondem às três partes do livro. optou-se por uma seqüência de textos de caráter histórico. DUBOST.Em terceiro lugar. Todas as traduções foram feitas por professores universitários ou por estudiosos ligados. CASTRO e M. em cada texto. 1987). a última tradução foi preferida.Prefácio desejo” (A. apresenta a intervenção. de atividades e produções criadoras. LÉVY. para designar 13 . DUBOST. Buscou-se uma certa uniformização. CARRETEIRO e J. 1976. a apreensão de seu sentido original. esse dispositivo de consulta e pesquisa que fundamentou e inspirou a construção teórica. preferiu-se “fantasia”. . foi objeto de discussão e comparação. mantiveram-se termos como “fantasmático”. E. “forclusão” ou “preclusão”. “Notas sobre a origem e evolução de uma prática de intervenção psicossociológica” – J. ENRIQUEZ: Da horda ao Estado. 1980) e um texto que faz uma retrospectiva desse pensamento. Por exemplo. o grupo e a questão da mudança. em maior ou menor grau. a possível confusão com a fantasia carnavalesca só auxilia a aproximação com esse mundo imaginário. LÉVY) – uma vez que marcam um ponto de transição teórica na forma de conceber. Utilizou-se a palavra “narcíseo”. contudo. Seus nomes aparecem. respectivamente. algumas aterrorizantes. por estar dicionarizada (Novo Dicionário Aurélio) e por permitir. ENRIQUEZ. “Intervenção como processo” – A. finalmente. à Psicossociologia e à Psicanálise. MATA-MACHADO. mantendo-se a tradução utilizada por T. através da análise etimológica. alguns mostrando a evolução do pensamento psicossociológico (“A respeito da formação e da intervenção psicossociológicas” – E. As traduções foram revistas por J. contrapondo as origens a temas recentes (“As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais” – J. além de ser uma parte de retrospectiva histórica. NASCIUTTI para o livro de E. de acordo com a tradução portuguesa do Vocabulário de Psicanálise de LAPLANCHE e PONTALIS). ARAÚJO. Mais de uma dificuldade de tradução. Outro exemplo: para a palavra fantasme (fantasia ou fantasma. a palavra forclusion tem aparecido em português como “foraclusão”. A segunda – Psicossociologia em Exame – é uma avaliação crítica da evolução da área e. na primeira nota de rodapé. a terceira – Intervenção Psicossociológica –. Psicanálise do vínculo social. A primeira – Análise Social – apresenta a construção teórica feita na disciplina.

essa foi a escolha. que procedeu a uma cuidadosa revisão final. Finalmente. não se utilizou uma tradução uniforme: empregou-se “pesquisa” na maior parte das vezes. a palavra investigation. foi igualmente traduzida por “pesquisa”. seguindo o Novo Dicionário Aurélio ou “narcísico” e “narcisista”. expressão bastante usada em português. seguindo o fluxo corrente das traduções de textos psicanalíticos. para a palavra enquête. Marília Novais da Mata Machado Sonia Roedel .“relativo a narciso”. a critério do tradutor. Agradecemos a colaboração de José Walter Albinati SILVA. quando a referência era obviamente a um “levantamento de dados”. entretanto. na expressão méthodes d’investigation. nosso primeiro leitor.

Parte I Análise social .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 16 .

A terceira se volta sobre o esquecido e fascinante tema da interioridade. como quiseram algumas correntes das ciências humanas. LÉVY e E. funcionando independentemente dos sistemas ideológicos ou de outras “sobredeterminações” que falam por aquele que fala. aquilo que lhe cai nas mãos. marcando suas especificidades na articulação entre o psicológico e o social. ENRIQUEZ confessa sua antiga “irritação” com o sucesso das teses sustentadas principalmente pelos discípulos de FOUCAULT (sobre a morte do sujeito) e 17 . seja porque elas demandam um exercício novo de reflexão. visto como uma unidade da consciência ou do psiquismo. por exemplo) situados na gênese da violência que permeia a “afetividade coletiva”. Cabe. a idéia de um “eu”. a cada leitor se deter naquelas questões que lhe parecerem mais inquietantes. no entanto. desde o início. Mas não poderia ser diferente. no enfoque psicossociológico. não se trata também de simplesmente “matar” o sujeito. vamos selecionar três questões para as quais dirigimos nossos comentários. visto que todo leitor recebe. Ao apresentar tais artigos. A primeira delas diz respeito a uma discussão sobre o sujeito. Eles descartam.ANÁLISESOCIALESUBJETIVIDADE Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo A leitura dos artigos que compõem a primeira parte deste livro nos coloca em contato com alguns temas de rara atualidade. ENRIQUEZ abordam o tema do sujeito sob um ponto de vista que nos ajuda a compreender melhor o lugar onde eles situam a Psicossociologia. No entanto. à sua maneira.1 Pois bem. seja porque elas põem a nu alguns ranços de nossas posições teóricas ou da “visão de mundo” que inspira o conjunto de nossas práticas cotidianas. preenche ou interpreta. O sujeito que não “morreu” A. corremos o risco de enfatizar arbitrariamente apenas alguns de seus conteúdos. A segunda discute alguns fenômenos (a intolerância.2 .

um átomo talvez. notadamente aquela dos “grandes homens”? Em outras palavras: como explicar o incontestável “culto da personalidade”.. os autores caminham numa direção que. não estariam restritas. convém observar que. um sociólogo ligado à formação de lideranças sindicais em Minas Gerais. suas relações próximas e regulares.Psicossociologia – Análise social e intervenção ALTHUSSER (sobre a história como um processo sem sujeito). e não mais sobre os grandes dispositivos sociais. nos disse que os anos mais recentes dessa formação (ele se referia já aos anos noventa) poderiam se caracterizar.4 Então: até que ponto essas “vanguardas” só permitiam que se nomeassem as “estruturas” ou o “determinismo absoluto dos processos sociais”. mais próxima de uma self-psychology? Pois bem. a chamada “sociologia do cotidiano”. em relação a homens como LENIN ou MAO? Como explicar a exaltação “individual” de alguns heróis marxistas. Assim. situando todo o resto – especialmente o sujeito – apenas na esteira de seus efeitos? E até que ponto – valho-me de outra observação de ENRIQUEZ – seria privilégio do pensamento “de direita” encarar a história sob o ângulo da ação individual. A esse respeito. ligada a uma prática clínica. vemos que o “indivíduo” é. no conjunto das discussões sobre o sujeito. LÉVY.6 Isso é claro para os autores. notadamente através da teoria lacaniana. dentro de uma história regional e de um sistema complexo que envolve a terra. nos artigos aqui apresentados. o da Psicanálise. mesmo na França. entre outras coisas. nos parece em parte negligenciada. que distinções do tipo “sujeito falado” e “sujeito falante” foram “popularizadas” no ensino universitário ou no interior das instituições de formação psicanalítica. E. Não se trata nem de matá-lo nem de ressuscitá-lo como uma entidade absolutamente autônoma. já na virada dos anos setenta.3 Seria incorreto dizer que esse “reaparecimento” do sujeito se deu mais lenta ou tardiamente. no desenrolar da história da revolução?5 Já num outro campo.. No texto de A.”. a empresa-família é anterior ao sujeito. nas décadas anteriores. principalmente em algumas vanguardas intelectuais e políticas? Há algum tempo. o ofício ou o produto. se interrogava diretamente sobre “o sujeito individual. entre nós. ela é 18 . por exemplo. como um período de redescoberta do indivíduo ou da subjetividade. a família. antes de tudo. por exemplo. só então deixando de lado toda uma tradição discursiva. apenas a uma outra elite? Não seria apenas recentemente. as discussões sobre o descentramento ou a “subversão” do sujeito. um ponto de passagem. no momento da grande divulgação da Psicanálise no Brasil. a polêmica suscitada por tais teses estaria há muito “esfriada”.

“mesmo aceitando as determinações que o fizeram tal como ele é”. sua constituição “plural” ou coletiva. enfim. “às vezes sem sabê-lo. as relações sociais. por exemplo. um papel essencial nas transformações sociais”. daí a ilusão da identidade pessoal. de uma cultura particular que desenvolve suas ‘significações imaginárias específicas e que dita em parte sua conduta’”. A. segundo os autores. os processos sociais “nunca regulam completamente a conduta individual. Mas qual seria a contribuição maior desses autores? De um lado. mas que reenvia. tenta introduzir uma mudança de si mesmo. a um processo de massificação que acaba justamente por ameaçar o sujeito. Importante ainda. Desse modo. através da noção (via CASTORIADIS) de heteronomia: todo indivíduo só existe ou funciona “no interior de um contexto social dado. identidade coletiva. fanatismo de empresa etc. O primeiro é aquele que se agarra. só sabendo repetir ou reproduzir o funcionamento social. as significações das ações”. narcisismo grupal. a onda do individualismo acabaria por suprimir o sujeito. pois ele tem sempre uma “parcela de originalidade e autonomia”. Essa dimensão “grupal” da subjetividade merece atenção especial. num crescente alienar-se. isto é. espírito de empresa. sempre imprevisível.” De outro lado. ele alude tanto a um imaginário cultural quanto a um “projeto de família” ou a um narcisismo “regional” das pequenas diferenças. narcisismo social. LÉVY nos lembra. através de FREUD. aquela de afirmar que o indivíduo só é parcialmente heterônomo. Ela é aqui veiculada através de expressões como “narcisismo das pequenas diferenças”. a questão das identificações múltiplas: não sabemos. além de desempenhar. Assim sendo. que a história de uma empresa revela um trabalho psíquico individual mas sobretudo coletivo. a identificações coletivas rígidas ou a um coletivo totalitário. “no momento em que falamos. os autores colocam em destaque um aspecto específico da constituição do sujeito. do qual alguém como o dirigente é apenas um prolongamento.Análise social e subjetividade um projeto de seus antepassados. ENRIQUEZ aponta aqui a diferença entre as noções de indivíduo e sujeito. pois este. ENRIQUEZ retoma essa posição. já que “somos uma pluralidade de pessoas psíquicas” ou que o eu é um terreno por onde transitam múltiplos “visitantes”. antes de mais nada. quem está falando e por que falamos dessa maneira”. é alguém capaz de produzir uma certa “anormalidade”7 em relação aos padrões sociais. 19 . é sabermos distinguir os fenômenos ligados a essa concepção de sujeito coletivo e os fenômenos oriundos da onda de individualismo – um fenômeno sem dúvida coletivo –. Ele destaca ainda. tenta transformar “o mundo. Daí também o estilhaçamento da “bela unidade do indivíduo”.

ilusão e crença. pois sua ação – presumem – tem a marca do sagrado. A primeira: é importante considerarmos que o recrudescimento das ideologias nazistas e de um racismo generalizado não são um privilégio da Europa Central. E aí o vínculo grupal se exterioriza em forma de violência: ódio ao exterior.Psicossociologia – Análise social e intervenção As “referências duras” ou as sementes da violência grupal Passemos agora à segunda questão.” 20 . amor (ou cumplicidade?) mútuo. Mas as ideologias petrificadas acabam gerando suas réplicas ou o seu avesso. Falamos da ocorrência cada vez maior – inclusive no Brasil – de episódios de intolerância. outras propostas políticas. Conseqüências imediatas: toda alteridade (outros grupos. Assim. cabem algumas observações. os nordestinos.. além da sua. pois ela se torna uma ameaça. árida novidade. presentes ora nos grupos nascentes e minoritários. Assim. sobre os skinheads verde-amarelos a imprensa também informou sobre a existência de um grupo denominado Nação Islã. outras idéias. xenofobia. objeto do noticiário nacional: querem garantir um “futuro glorioso” para o nosso país. como um fenômeno “periférico”. científico ou outro qualquer). científicas etc. O que os seus membros fazem é incontestável para eles mesmos. “céticos quanto à eficiência do Estado”10 se armam contra “as violências cometidas pelos carecas e pela polícia contra negros. E aí florescem as condutas totalitárias e massificadas. no início de 1993. mas exemplar. O grupo não suporta nenhuma outra verdade. Basta lembrar. além de poupar toda interrogação sobre o valor ou o sentido de seu projeto (seja esse projeto político. os judeus e.9 composto por militantes islâmicos negros que. esportivo. em diversos momentos.. o grupo se atribui uma aura de excepcionalidade. A essa altura. A isso se ajunta a observação – importante e oportuna – de que o estofo da afetividade grupal não é a racionalidade (afinal. estamos falando de mecanismos inconscientes). mas sim os processos de idealização. Esses musculosos jovens de cabeça raspada já se tornaram..8 Essas “ideologias petrificadas” são também assunto de fartos noticiários na mídia brasileira. ora nos grupos que já se impuseram em uma dada cultura ou sociedade. como a intolerância e o fanatismo.) deve ser eliminada. mas que tentam ainda se expandir. algum tempo após as notícias. fanatismo e outras manifestações daquilo que ENRIQUEZ denomina “referências duras e estabilizadas”. sentimento de “sermos portadores” da verdade etc. como se tinha notícia até pouco tempo.. religioso. que os skinheads já têm seus representantes no Brasil. religiosas. que se refere a um núcleo de fenômenos essencialmente coletivos. tentando eliminar dele os negros.

nosso time de futebol. é também no bojo da xenofobia que vemos aparecer um movimento separatista. onde se perenizem as vivências de eternidade e de totalidade. seja num grupo democrático. rapidamente. Muitos outros exemplos poderiam ser levantados. tão presente nas igrejas evangélicas e católicas (o movimento “carismático” arremeda. os rituais “emocionais” dos programas de auditório das tevês brasileiras. nossa igrejinha teórica e/ou acadêmica. O que se torna problemático. já de início. às vezes. contrapor as noções de sujeito e interioridade. a fim de refletir sobre o sentido e o estatuto 21 . mas empregada freqüentemente no campo da Psicologia. E. no Sul do Brasil. Dessa mesma linha “fanáticoreligiosa”. o espectro do Integralismo está nos revisitando e o racismo reaparece com suas múltiplas caras. não escapam setores conhecidos de nossos partidos políticos. Poderíamos. nossa “seita” de comedores vegetarianos. por analogia. Digamos isso de outra maneira: se o inconsciente “desconhece” o tempo e a morte. nesse movimento de fechar-se em si mesmo. sejam elas brancas ou negras. onde a evocação dos termos “nós” ou “nosso(a)” teria efeitos de um regulador social e de um redutor das angústias individuais:11 nossa saga familiar. Enfim.Análise social e subjetividade Aliás. infantilizando os “fiéis”. Vale lembrar as investidas do fanatismo religioso. a eterna questão do sentido. livrando o indivíduo e o grupo de um “desespero” impossível de suportar. nosso grupo body-building. ele desconhece também. Interioridade – metáfora espacial A terceira questão que nos propomos a comentar aqui diz respeito à interioridade. nosso partido de direita ou de esquerda etc. principalmente aqueles que se atribuem uma identidade ideológica. Em outras palavras. cada sujeito está perseguindo. o vazio do sentido de qualquer projeto e de qualquer ação. a ação grupal deve cobrir um vazio. ela deve ser doadora de sentido. noção de origem literária e filosófica. Gostaríamos de lembrar. em níveis talvez menos contundentes. é que o grupo passa a não suportar a alteridade e sua “busca de sentido”. onde o ritual é banalizado e seu simbolismo empobrecido). Não são portanto de modo nenhum insensatas as teorias que assimilam a vida grupal à idéia de um sonho12 (ANZIEU) ou à idéia de um círculo fechado (FONTANA)13 onde não haja “brecha” alguma. poderíamos nos referir também a narcisismos e intolerâncias em diversas outras “cenas coletivas”. resvala necessariamente para a intolerância. isolada e coletivamente. uma questão mencionada mais de uma vez tanto por LÉVY quanto por ENRIQUEZ: em todo projeto grupal. seja num grupo intolerante. num clima onde toda crítica está ausente.

Escapando às problemáticas da morte do sujeito e da sua divisão.14 O espaço da percepção é o conjunto de movimentos virtuais. pois. o que é pura duração. de uma discussão paralela àquela entre ser e não-ser. ele existe atualmente e está. os dados imediatos da consciência são pura qualidade. é ‘uma terra estrangeira’”. o sentimento de possuir um dentro que carrega sofrimento. íntima. na esfera psicossocial. Aliás. interessante lembrar que a interioridade é muitas vezes dolorosamente percebida como uma sensação de vazio interior. A questão do espaço. parece transcender o tempo ou estar menos sujeita à dimensão temporal. A interioridade remete. a interioridade possibilita uma outra abordagem da inserção do singular no social e do choque das forças em conflito. parece haver uma tendência. 22 . em oposição ao vazio: trata-se. ela seria mais facilmente sentida e intuída do que tematizada. foi discutida em termos do cheio. alegria. onde ninguém tem o direito de penetrar. da mesma forma como nega que se possa falar do vazio. E embora não possa ser tomada como sinônimo de interior. filósofo que centra sua reflexão na dimensão temporal. questionamentos. para ela. ENRIQUEZ define a interioridade como sendo “o sentimento que uma pessoa experimenta de ter uma vida interior.Psicossociologia – Análise social e intervenção dessa última. tanto por parte dos empresários quanto dos fanáticos religiosos. Toda representação da interioridade se desenvolve numa especialização. pois o que é essencialmente da ordem do qualitativo é dificilmente apreendido como tal). num certo sentido. interrogações e que. BERGSON. vítima de ataques. o que nos permitiria mesmo aludir a uma hegemonia do espaço. por ser da ordem da especialização. A compreensão da interioridade é. pois. à alternativa interior x exterior. a não ser por arrombamento. é numa relação espacial que ela se inscreve. Para ele. condicionada pela especialização (e aqui a crítica bergsoniana procede. Mas cabe principalmente destacar que ela não se afigura como um conceito que inclua o inconsciente. segundo o autor. na Filosofia antiga. quase que imediatamente. sendo que a intuição do homem é sempre virtualidade motora ou apreensão espacial. Talvez seja. mas a inteligência tende a espacializar o que é fluxo qualitativo. ameaçado de extinção. PARMÓNIDES não admite que se possa falar do não-ser. que não é recente. Só o ser existe e ele é cheio. A interioridade. Por outro lado. Se esse sentimento nem sempre existiu. em se pensar espacialmente. mostra que a apreensão de nós mesmos é condicionada por uma organização onde domina a especialização.

Já a identidade marca a diferença. sendo os orifícios os lugares privilegiados de troca com o exterior. diferenciando o interno do externo. bonito. A conseqüência dessa situação é uma tendência a tratar o que vem de dentro como se se originasse do exterior. O aparelho perceptivo se situa no limite dentro-fora. o que se vê por fora é um reflexo do interior.Análise social e subjetividade A grande dificuldade na apreensão da interioridade é a passagem do interior para o exterior. pois o organismo não dispõe de proteção nesse sentido. só permitindo a percepção de pequenas quantidades. capta os estímulos exteriores e também os internos. Pode-se dizer que o sentido de interioridade reside sobretudo na noção de receptáculo de riquezas ou monstruosidades que a pessoa percebe de forma mais ou menos clara. A interioridade define o sujeito de um ponto de vista espacial: o interior é diferente do exterior. É interessante notar que a criança exprime a relação com o objeto primeiramente por identificação: eu sou o objeto. Dito de outro modo. temos de falar nos órgãos dos sentidos. Assim.16 um escudo protetor que defende o organismo contra estímulos externos. pois o conceito de inconsciente vem perturbar profundamente o caráter unitário do psiquismo. meio de se situar no mundo. quase que uma obsessão em relação ao próprio território. O dinamismo e a eficiência profissional são buscados através do treinamento corporal. O culto exagerado do corpo. aponta para uma relação direta entre dentro e fora (narcisismo de morte. ao que marca a diferença. A percepção do espaço remete à visão. sendo ao mesmo tempo o container e o meio de comunicação com o outro. porque especular. Já os estímulos provindos do interior chegam sem redução. segundo o modelo adotado em relação ao perigo externo. na época atual. refletindo a si mesmo). Um corpo dinâmico (isto é. isto é. que pode ser descrito como um narcisismo de morte. o recalque nada mais é do que a fuga de uma ameaça interna. diz FREUD. unidade e similaridade. Nessa relação de passagem do exterior para o interior. considerando o 23 . eu não sou. O conceito de eu-pele de ANZIEU15 chama a atenção para essa superfície – a pele – que faz a demarcação do dentro e do fora. ENRIQUEZ aborda o processo de idealização do corpo. a pele se liga à formação do eu. saturada de comunicação. separada. a identidade própria. depois da perda do objeto. Limite e superfície privilegiada de estimulações. Existe. enérgico e jovem) é garantia de sucesso individual. ela é capaz de dizer: eu tenho. denotadas pelo termo identidade. As idéias de permanência. O ter é ulterior. isto é. Há. e essa questão tem a ver necessariamente com o corpo. foram abaladas pela Psicanálise.

Notas 1 Humberto ECO. Em outras palavras. E o mais importante. o profundo – e aqui a referência espacial é clara – marca a individualidade. O espaço de dentro é o lugar ao mesmo tempo da certeza de si próprio e do seu lado desconhecido. no campo da argumentação psicossociológica.Psicossociologia – Análise social e intervenção conteúdo que constitui o sujeito. enquanto as duas primeiras ficaram a cargo de José Newton G. isto é. naquilo em que ele é diferente do outro. pelo fato de que ela aparece sobretudo como uma região espacial metafórica. Afinal. por ser essencialmente espacial. 1985) nos aponta essa singularidade do lugar do leitor. resta-nos reafirmar que a noção de interioridade comporta certa ambivalência teórica: de uma lado. Por isso. Dessa passividade podemos inferir o caráter estático da interioridade e isso faz ressaltar o papel das forças sociais que a agridem. ARAÚJO. quer como sentimento pessoal. em sua obra Lector in Fabula (trad. o seu manejo “espacial” apresenta vantagens de apreensibilidade. nenhuma leitura é um ato neutro. Esta última questão foi elaborada por Eliana de Moura CASTRO. em outros termos. oferecer uma resistência passiva. é que ela remete à vida consciente e não ao inconsciente. É por seu cunho espacial que a interioridade comporta um caráter estável e estático. é certamente desprovida de energia ou. à concepção de uma interioridade psíquica que está sujeita a todas as investidas externas. só podendo. do outro que eu sou. feitas pela religião. de outro lado. ao eu e muito menos ao sujeito). Uma tal instância parece estar realmente à mercê dos ataques perpetrados por uma sociedade cruel. a imagem do dentro carnal corresponde a uma imagem do dentro espiritual. pela empresa ou pela sociedade. Finalmente. a interioridade considerada. com interstícios a serem preenchidos pelo leitor. francesa Grasset. já dissemos. As propostas absolutizantes. e como bem captou ENRIQUEZ. pois. 2 24 . O oculto. porque confrontadas à interioridade (e não à identidade. que todo texto é um tecido de espaços em branco. A imposição de um padrão idealizante de comportamento e de pensamento implica uma “profunda” agressão à intimidade da pessoa. isto é. o fato de ser uma noção construída a partir da espacialidade faz dela uma metáfora limitada do psiquismo. é no cenário da espacialidade que essa ameaça se realiza. a interioridade é mais palpável (quase que literalmente). Essa dimensão do inatingível e do secreto constitui a interioridade. Ele diz. Assim. se tornam assim mais claras. quer como conceito psicológico. é passiva. entre outras coisas.

29-31) afirma que. desembocam na idéia central de uma conexo fechada. McDOUGALL (cf: Plaidoyer pour une certaine anormalité. em nível individual.. In: Bulletin de Psychologie. n. o culto à figura de GUEVARA. “como se todo uso da noção de subjetividade devesse inevitavelmente aludir a um sujeito inteiramente transparente a si mesmo. 322. mais perto de nós. alguns anos atrás. encontrando aí as condições de gratificação narcísica. p. Conseqüentemente. a vida grupal seria experimentada como 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 25 . 1983. soberano. publica uma reportagem intitulada “Quarto Reich – nazismo no ar”. por isso mesmo. na Biblioteca Nacional de Paris.Análise social e subjetividade 3 Cf. BALANDIER. Le groupe et l’inconscient: l’imaginaire groupal. Paris. à medida em que estrutura as economias psíquicas e funciona como um aparelho redutor de angústia. Paris: Dunod. O autor evoca J. 1970. Cf: ANZIEU. 445-449). reportagem da revista Isto É. “Essai d’identification du quotidien”. Cf. ANSART vê a ideologia como um sistema simbólico que favorece a regulação social. nas quais o Sr. D. p. Paris: Gallimard. a incontestável condenação desta figura do sujeito devesse se traduzir pelo abandono puro e simples de qualquer referência à subjetividade” (op. G. Lembremos. Não vem ao caso evocar aqui a ameaça do racismo na Europa do Leste. P. SELLIER (cf: Le mythe du héros. a questão dos fornos crematórios nos campos de concentração. não passavam de “mero detalhe”. 50-53. cit. principalmente após as recentes eleições da Rússia. Seu objetivo é uma “revisão” da história do nazismo. como um instrumento terapêutico. Paris: Bordas. tomo XXIX. A adesão a uma ideologia leva o indivíduo a um mundo de trocas com o outro. De outro lado. que incontestavelmente “sustentou a fé” de várias gerações. líder da extrema-direita francesa. Essa mesma revista. Observação semelhante já fora feita. Alain RENAUT (cf: L’ère de l’individu. 1989) chama nossa atenção para uma simplificação das discussões sobre a idéia de sujeito. de 28/04/93. visando negar os massacres cometidos pelo Terceiro Reich (entre outras coisas. 13). p. 1978) para quem a normalidade seria “uma carência que atinge a vida fantasmática e que afasta o sujeito dele mesmo”. em seus níveis mais profundos. além de serem historicamente contestáveis. em seu número de 1º/12/93. senhor de si e do universo e como se. p. 1984. Esse autor comenta que os termos nó e círculo. uma editora de propaganda nazista. P. JIRINOWSKI saiu vitorioso.. Para ele. não esqueçamos também a intolerância no interior das sociedades muçulmanas. 1975-1976. vol. Assim. p. empenhadas numa guerra dita religiosa e que leva aos extremos o endurecimento ideológico grupal. inferidos da etimologia do termo e da elucidação do conceito de grupo.. na América Latina e mesmo na Europa. fez reaparecer o sujeito. uma boa metade dos livros consagrados a heróis são livros russos e posteriores à Revolução de 1917. por Jean-Marie LE PEN. “Discours politique et réduction de l’angoisse”. face às estruturas e aos sistemas”. In: Cahiers Internationaux de Sociologie. Paris: Gallimard. P. A matéria se refere a uma empresa gaúcha. 5-12. concedeu-se também lugar à vida privada e não apenas às “grandes causas” trabalhista e revolucionária. LXXIV. nessa mudança. BALANDIER comenta (e esse artigo é de 1983) que o mais importante da multiplicidade de pesquisas sobre a vida cotidiana é que esse “movimento recente. o dono dessa editora diz que o massacre dos judeus teria sido uma “montagem da mídia”). (Cf: ANSART. vendendo livros e vídeos pelo Brasil afora.

Paris: Dunod.) 14 Cf: BERGSON. Paris: PUF. semelhante à vivência intra-uterina. 15 16 26 . (Cf: FONTANA (A) et al. 68.Psicossociologia – Análise social e intervenção infinita e atemporal. 1985. 1967. Buenos Aires: Editorial Vancu. S. Essai sur les données immédiates de la conscience. p. El tiempo y los grupos. XVIII vol. Além do princípio do prazer (1920). ss. ver: FREUD. ANZIEU. 42. Entre outras alusões a essa questão. da edição Standard das Obras Completas de Sigmund Freud. H. Rio de Janeiro: Imago. D. 120 ed. 1976. 1977. Le moi-peau. p.

ele nunca é um ser falante nem um autor de seus atos. assim. Com efeito. fui um dos primeiros a abordá-lo e não tenho nenhuma razão para me desdizer. 27 . LAGACHE. não é porque esse tema voltou violentamente que vou abandoná-lo. As grandes determinações sociais estão enterradas (sem dúvida um pouco precipitadamente demais) e. ALTHUSSER). sob o pretexto de que o pensamento “de direita” só tinha encarado a história sob o ângulo da ação dos grandes homens. mesmo sem dizê-lo. um ser falado. Seguindo essas abordagens. o indivíduo só pode endossar condutas enunciadas como legítimas por sua nação. como psique. O indivíduo torna-se. pareceu-me o sinal do triunfo de teorias que enaltecem. ao invés. em grupos e organizações. meu propósito é susceptível de ser considerado como modismo. fiquei irritado com o sucesso das teses sobre a morte do sujeito (desenvolvidas por discípulos dogmáticos de Michel FOUCAULT) e com as teses sobre a história como processo sem sujeito (L.OPAPELDOSUJEITOHUMANONADINÂMICASOCIAL1 Eugène Enriquez O tema que abordarei tem retido minha atenção há vários anos. a argumentação que proponho se afasta da que tem sido habitualmente apresentada. sua classe ou sua raça. que nega a interrogação de D. por outro lado. em maior ou menor grau. No momento atual. um ser agido. um determinismo absoluto dos processos sociais. por um lado. do aumento do individualismo. No entanto. pois. De minha parte. como lugar de condutas significativas e como ser em interação contínua com outros.2 A razão é simples: como muitos outros autores. que decidi me manifestar. Fazer desaparecer o indivíduo ou o sujeito (voltarei mais tarde à distinção que é possível fazer entre esses dois termos). pareceu-me sempre aberrante fazer desaparecer o indivíduo humano do movimento da história. só se fala do indivíduo. segundo a qual “o papel das personalidades individuais na história não pode ser descartado a priori”. É contra essa tendência reducionista. do sujeito. ele participa da dinâmica de uma determinada sociedade.

em uma nação etc. a cada homem. BURKE. quer pelo desenvolvimento das forças produtivas – MARX. portadoras de 28 . em uma classe. é impossível analisar a conduta de um indivíduo sem referi-la à conduta dos outros para com ele. já que nascemos sempre em um grupo. conduta estruturada social e culturalmente. ele só existe e só pode funcionar no interior de um social dado. num lugar-tela. em parte inconscientemente.Psicossociologia – Análise social e intervenção Para ir diretamente ao cerne do assunto. quer seja por Deus – BOSSUET. “a possibilidade de saber que alhures. de uma cultura particular que desenvolve suas “significações imaginárias” (CASTORIADIS)3 específicas e que lhe dita. ela própria. numa sociedade que é. Em outras palavras. uma cultura. heterônima. a anterioridade dos processos sociais. se projetam os desejos mais insatisfeitos e ficar seguro de que esse alhures não virá invadir o aqui da vida cotidiana”. zonas inexploradas. que pode tomar a forma de totens. De fato. Nessas condições. porque toda sociedade comporta falhas. ou seríamos constrangidos a nos alinhar à tese que quero combater: a do determinismo social que traz. que lhe deu direito à existência. ir muito longe nesse sentido. gostaria de partir de uma consideração trivial: todo indivíduo nasce em uma sociedade que instaurou. mas deixassem também. para retomar a terminologia de C. isto é. DE MAISTRE –. o esvaziamento da história (já que a história tem um sentido predeterminado. já que ela não se pensa como sendo o produto da ação histórica e da atividade psíquica de seus membros. Uma tal sociedade heterônima tem. LENIN) e o do papel do indivíduo em um processo que se desenvolve segundo uma lógica implacável.5 a fim de que eles desempenhassem seu papel de garantia das vidas psíquica e social. Não é necessário. as sociedades nunca são totalmente heterônimas. todo indivíduo é fundamentalmente heterônomo. mas só até certo ponto (Paul VEYNE4 teve razão ao perguntar se os gregos acreditavam em seus mitos). que pode exigir o sacrifício de seus membros pela causa que encarna. ao mesmo tempo. é que a distância não pode mais ser mantida e que é possível situar a sociedade completamente (ou quase completamente. Essa emergência acontece. em parte voluntariamente. logicamente. portanto. em parte. CASTORIADIS. elas souberam mantê-los “à maior distância possível”. tendência a só produzir indivíduos heterônimos. Freqüentemente. mas como estando submetida a um Sagrado Transcendente.6 Só quando os religiosos cedem ao desejo de instaurar um Estado teocrático. de antepassados e de Deuses. ou de um Deus único. em uma etnia. conformados a seus votos e a seus ideais. Nessas condições. além disso. no entanto. Elas crêem em seus Deuses e em seus mitos. sua conduta. é preciso pressupor.

não se pode esquecer que o discurso. choca-se a condutas que se referem a outros valores e hábitos. um discurso dominante. se põem a acumular riquezas. apoiando-se nas funções corporais. um papel essencial nas transformações sociais. como evocava FREUD. seja lá por que modo.8 Enfim. Elas se tornaram. a médio ou a longo prazo. desde a Revolução Francesa. pelo menos de imediato e.O papel do sujeito humano na dinâmica social mudanças possíveis) do lado da heteronomia. como FREUD aponta: não parece que se possa levar o homem. Deve-se. ignorando soberanamente a ideologia dominante. visitados ou não pelo espírito de Calvino e pela idéia de ascese intramundana. outro um novo tear. Alguém inventa uma máquina a vapor. contra a vontade da massa. cada vez mais fundadoras delas mesmas e afastaram um pouco seu aspecto heterônimo e. Embora exista. mesmo sem percebê-lo. em toda sociedade. É claro que conseqüências danosas podem decorrer de tal discurso. de maneira invisível. Milhares de artesãos arruinados e de camponeses esfaimados encontram-se disponíveis para entrar nas fábricas. até mesmo se choca. Notemos que as sociedades modernas. devemos nos lembrar que cada indivíduo é um desvio em relação a todos os outros. ele sempre estará inclinado a defender seu direito à liberdade individual. desde a Renascença e. souberam deixar sua parte ao religioso sem lhe atribuir uma autoridade essencial sobre as consciências nem um papel central na organização. Além disso. às vezes. sem sabê-lo.7 Quanto ao indivíduo humano. uma “parcela de originalidade e de autonomia”. às vezes. Reis continuam a se 29 . O que escreve CASTORIADIS a respeito do nascimento do capitalismo esclarece esse ponto: Centenas de burgueses. ele também só é parcialmente heterônimo. concluir que o indivíduo mais heterônimo (mais conformado aos imperativos sociais) está sempre em condições de demonstrar. Mas. na medida em que sua psique se estrutura progressivamente. em certos casos. como dizem FRITSCH e PASSERON. não reina totalmente sobre as consciências e os inconscientes e que ele provoca fenômenos de rejeição. Acrescentarei ainda que o indivíduo desempenha sempre. em pessoas e grupos sempre diferentes. portanto. fanático. não a um contra-discurso organizado mas. por mais totalitário que seja. a trocar sua natureza pela de um térmita. Filósofos e físicos tentam pensar o universo como uma grande máquina e buscam encontrar suas leis. sobretudo. esse discurso é modulado diferentemente pelos diversos grupos e classes que compõem essa sociedade e.

a vitória nunca sendo definitiva. pois não há tarefa mais elevada do que desempenhar a missão que lhe foi confiada.Psicossociologia – Análise social e intervenção subordinar e a debilitar a nobreza e criam instituições nacionais. a individualização. sua família) pela organização da qual ele veste a camisa. Tendo argumentado que a heteronomia completa não pode existir.9 Assim. em nossa época. não é bom fazer parte dos que não são combatentes. então. E esse diretor continuava: “Quero ver vocês todos como uma única cabeça”. No entanto. do seu serviço. Uma nova ética puritana se organiza: o vencedor deve experimentar uma ascese. Ao contrário. como sublinha CASTORIADIS. fico mais à vontade para me distinguir de uma certa tendência do pensamento contemporâneo. De fato. é. sempre imprevisível. Se cada um deve manifestar sua singularidade. Ele deve gozar com essa renúncia. porque o homem de sucesso não é o homem nobre nem o virtuoso. deve fazê-lo porque todos os outros estão submetidos à mesma injunção. mas é o homem da performance mensurável. se os processos psicogenéticos pressupõem. relativa ao papel do indivíduo e do primado do individualismo. vencedores que querem ir até o fim. mas a criatividade torna-se uma norma irrefutável. dominando os homens pelo terror e pela opressão interiorizados). ainda mais porque não são desprovidos de ambigüidade. O winner sempre pode se tornar o looser. deve se sacrificar (sacrificar sua vida. estes últimos nunca regulam completamente a conduta individual. Todos os indivíduos e grupos em questão perseguem fins que lhes são próprios. Um diretor de pessoal de uma grande empresa dizia recentemente a seus gerentes: “Todos vocês devem se tornar criativos”. que estão prontos a se “exaurir” pelo triunfo da equipe. ela pode ser bem efêmera. Nessa ética. Assim. cada um deve ser criativo à sua maneira. Max WEBER não se enganava quando escrevia: “Quando 30 . o resultado – o capitalismo – é de uma ordem completamente diferente. O conformismo está diretamente implicado em uma tal concepção do individualismo. objeto de tantas preocupações. Ninguém visa à totalidade social enquanto tal. da sua organização. performance sempre a recomeçar. Poderei também precisar as diferenças que estabeleço entre indivíduo e sujeito (mesmo observando que essas diferenças podem ser de natureza ou simplesmente de grau). de ambivalência e de contradição (salvo no caso da “horda primitiva” ou de uma sociedade que erigiu um Estado total. apenas um elemento do processo de massificação. o elemento esportivo predomina. que gostam de tomar iniciativa e gostam do risco. os processos sociais. mais freqüentemente. Assim. “matadores frios”. seu tempo.

na primeira fila para aplaudir os grandes e dar consistência a todos os movimentos autoritários de tipo mais ou menos fascistizante. REICH. hoje em dia. características de um esporte. quando se fala do indivíduo. naquele tempo. assim. igualmente. onde seu paroxismo predomina. a se associar a paixões puramente agonísticas. Nos Estados Unidos.12 Por isso é que ele pode propagar a “peste” emocional. ou ainda. a renúncia ao pensamento como prazer de representação ininterrupta e processo destinado a todos os homens. O “zé-ninguém” está sempre. A adesão à “cultura da empresa” torna-se dogma. Esse movimento de conformismo não fascina somente os indivíduos que trabalham na indústria e no comércio. além disso. que ele se desfazia de sua capacidade de liberdade e de produção de idéias. na maioria das vezes. o que lhe confere. nos hospitais. Ele atinge. Todos os indivíduos devem ter agora o espírito de empresa. atrás da força e da grandeza de outros homens.10 Assim. mas não se orgulha de si mesmo. o indivíduo renuncia.O papel do sujeito humano na dinâmica social o exercício do dever profissional não pode ser ligado a valores espirituais e culturais mais elevados. para depositar seu destino nas mãos dos outros. pelo próprio fato da empresa ter conseguido vender sua paixão pela eficácia ao conjunto do corpo social e. O “zéninguém” ignora que ele é “zé-ninguém” e tem medo de ter consciência disso. tem-se no pensamento um indivíduo conformado. os que W. a busca da riqueza. REICH mostrava que o “zé-ninguém” admirava tanto os que ele acreditava serem grandes. não se restringe a pessoas susceptíveis de obter satisfações tangíveis. mas que. 31 . Como escreve REICH: O grande homem sabe quando e em quê ele é “zé-ninguém”. financeiras ou de prestígio. aqueles a quem chamamos vencedores. Ele dissimula sua pequenez e sua estreiteza de espírito por trás de sonhos de força e de grandeza. igualmente. o “culto da empresa”. em vez de admirar o que ele concebeu. um novo ritual. designava por “zé-ninguém”. posições de poder. nas universidades. algumas vezes mostrando-se mais “realista que o rei”. ter exportado seus valores para fora de seu campo restrito. tende. em geral. É particularmente perturbador o fato de que esse movimento não apenas invade todos os campos da vida social. desvestida de seu sentido ético-religioso. a justificá-lo”. Admira o pensamento que ele não concebeu. Orgulha-se dos grandes chefes de guerra. quer se trate de pessoas que trabalhem na empresa. Tem repercussões e impacto profundo em todos os membros da sociedade. que deve funcionar segundo comportamentos que agradem à sociedade.11 os que tendem a se tornar transmissores dos ideais da sociedade.

Em outras palavras. para existirem. sempre ameaçador). assim. Quanto mais os ideais são necessários à constituição do sujeito. rejeitado pelas autoridades tutelares que assumem o papel de pais benevolentes. pois lhe fornecem uma base e o poder de escolher entre ações legitimadas pela sociedade – ou por suas próprias exigências pessoais –. o mecanismo central que permite a toda sociedade instaurar-se e manter-se e a todo indivíduo viver como um membro essencial desse conjunto. apresentando-se como objeto maravilhoso. médios ou pequenos homens. correndo um mínimo possível de riscos. Além disso. de repressão e de adesão. a condição de produção e de representação de indivíduos que se situam mais na heteronomia do que na autonomia. A idealização permite a cada um sentirse parte interessada no devir social e ser liberto de seu desamparo original. favorecendo a singularidade na massificação buscada e aceita por grandes. o que devemos fazer e como seremos recompensados. às vezes. nós próprios nos tornamos admiráveis. o mundo criado não é contestável. tentar interpretá-lo e demarcar sua abrangência. A idealização é. então. É por isso que o indivíduo pode aceitar recalcar seus desejos. Só com essa condição será possível refletir sobre o que constitui o surgimento do sujeito. aderir profundamente às injunções sociais e. Miramo-nos no espelho que nos é estendido pelo próprio objeto de nossa admiração. a sociedade dá um sentido preestabelecido a nossas diversas ações e nos indica. Ela transmite uma mensagem de serenidade: a ordem social existe e nos preserva de toda interrogação fundamental a seu respeito (especialmente sobre o caos originário. Esses indivíduos heterônimos (levando-se em conta que a heteronomia total não existe nesse mundo) precisam. angústia de estar sem proteção e ser abandonado. depois de descrever esse fenômeno. é a melhor garantia de nossa estabilidade psíquica. Se adoramos chefes que encarnam ideais fortes ou sociedades aparelhadas de virtudes admiráveis. apoiado 32 . tanto mais a doença do ideal (a idealização) desempenha um papel fundamental na edificação de uma sociedade e de indivíduos heterônimos. agora bem conhecido. reprimir suas pulsões. ela lisonjeia nosso próprio narcisismo.Psicossociologia – Análise social e intervenção O processo de individualização. Ele troca sua liberdade pela segurança de manter seu narcisismo individual. idealizar a sociedade e os ideais que ela propõe. Resta-me. ser um agente ativo desses processos de recalque. eles funcionam (mais do que vivem) sob a égide da doença do ideal. evocado por FREUD no Futuro de uma Ilusão. portanto. Por que a idealização desempenha um papel tão importante? Porque ela nos tranqüiliza profundamente: uma sociedade idealizada. é.

um proletário. sem se dar conta de que.13 Reencontrar a coesão. Perdemos progressivamente nossos marcos identificatórios. portanto. nas quais. os ideais são múltiplos. um capitalista. 33 . de simplesmente não ser. que tem como efeito “unir uns aos outros. Vivemos em sociedades nas quais. como mostrou FREUD. de fato. ao nosso “nós”. o racismo. A identidade coletiva favorece ainda. estamos divididos e angustiados. o fanatismo. graças a esse jogo identificatório.O papel do sujeito humano na dinâmica social pelo narcisismo grupal ou social (pois cada grupo ou cada sociedade quer formar um “nós” indissociável). produzir por produzir. provocando a idealização (quando as causas a defender e os projetos a realizar não são evidentes). um budista. está cheia de perigos. freqüentemente. uma massa maior de homens. consumir por consumir?) Ora. (Com efeito. através desse processo. enquanto o século XIX nos tinha dado como ideal o progresso infinito do espírito humano em sua vontade de domínio científico do mundo. dificilmente. contraditórios. tem como futuro possível a xenofobia. G.14 o “narcisismo das pequenas diferenças”. É necessário precisar esse último ponto. é se voltar ao grupo de pertinência. que sentido pode ter ganhar por ganhar. a tentativa de refazer identidades coletivas fortes. Se somos apenas um espartano. o narcisismo social. De fato. é imputar os problemas ao outro. pelos vínculos do amor [e eu mencionaria os da fascinação. ideais vazios e desprovidos de sentido. estamos perto de não ser absolutamente nada e. podemos escapar à pré-formação desejada pela sociedade e não nos tornar indivíduos totalmente heterônimos. com a única condição de restarem ainda outros de fora para serem alvos de ataques”. da sedução ou da obrigação]. graças a identidades coletivas fortes. mesmo se os ideais que elas têm a nos propor são. DEVEREUX expressa-o muito bem: O ato de formular e de assumir uma identidade coletiva maciça e dominante – e isso. qualquer que seja essa identidade – constitui o primeiro passo para a renúncia ‘definitiva’ à identidade real. de que podemos ter marcos identificatórios mutáveis ao longo de nossa vida e de que. Vivemos um déficit de ideais transcendentes. nós próprios nos dissolvemos enquanto portadores de uma identidade irredutível à dos outros. eles suscitam a aceitação ou a identificação. A identidade coletiva. É o momento em que as identidades pessoais começam a deteriorar e as sociedades tentam redefinir identidades coletivas fortes. É recusar (como já apontei anteriormente) o fato de que somos o produto de identificações múltiplas.

a respeito de qualquer tipo de problema. ao fanatismo religioso e político que permite a indivíduos de uma cultura não suportarem o menor desvio da parte de outros que compartilham a mesma cultura. que. portanto. sempre tem em si mesmo os recursos para se libertar das malhas do social). não quero identificá-lo ao grande homem que tem uma visão globalizante. ela é indispensável ao artista que deve fazer obra de arte. em sua vida de trabalho. esquecer que esse “narcisismo grupal” pode até chegar ao racismo exacerbado e. preso na massificação obtida pelo apego às identidades coletivas. recriar o funcionamento social tal como ele é (salvo a reserva já feita – mas sobre a qual faço questão de insistir – de que um tal indivíduo. a sua conversão. o indivíduo singular. Não podemos. O sujeito humano é aquele que tenta sair tanto da clausura social quanto da clausura psíquica. 34 . não pode ser considerado como sujeito humano. o melhor é citar WINNICOTT:15 A pulsão criativa pode ser vista em si mesma. reproduzir. na qual se forja uma imagem dos estrangeiros (ou dos desviantes) como perseguidores onipotentes e. tem como projeto voluntário. Ela é animada pelo ódio e por uma alucinação coletiva. criança. as relações sociais. Vê-se. para se abrir ao mundo e para tentar transformá-lo. nos lugares da vida cotidiana. que visa à transformação da totalidade enquanto tal. menos o questionamento é possível e menos os indivíduos podem tentar aceder à autonomia. em suas relações sociais de todos os dias. bem entendido. aceitando as determinações que o fizeram tal como é. no entanto. seres a eliminar. quanto mais uma cultura se quer unificada. Tal indivíduo só sabe repetir. portanto. quanto mais a identidade coletiva existe. O indivíduo que adere sem falha a esse tipo de cultura só pode se sacrificar por ela e comportar-se de forma heterônima. Para definir criatividade. Quando digo que o sujeito transforma o mundo. O indivíduo individualizado (e não individuado. a individuação estando do lado da constituição do sujeito). as significações das ações. Quero simplesmente dizer que cada um. bem como da tranqüilização narcísica. tentar introduzir uma mudança em si mesmo e nos outros. totalmente pré-formado e definido pela sociedade. Com efeito. daí.Psicossociologia – Análise social e intervenção Esse “narcisismo” permite “uma satisfação cômoda do instinto agressivo e através dela a coesão da comunidade se torna mais fácil para seus membros”. por mínima que seja. mas ela está igualmente presente em cada um de nós – bebê. ao menos. mais intolerante ela se torna e mais ela deseja a morte dos outros ou. O sujeito é um ser criativo. A essa figura do indivíduo individualizado opõe-se seu inverso: a figura do sujeito.

em seus Conselhos a um viajante. o nascimento. respirando a plenos pulmões um ar salubre. ela está presente em quem faz. Paul KLEE escreve: O que quero ensinar a meus alunos não é a forma fechada. homem portanto de sabedoria e loucura. que não correspondem a vocês e que estragarão suas vidas. aqui e agora. levo a sério. aquela única que conta – a criação enquanto gênese. qualquer coisa – seja uma lambuzada com seus excrementos. Quanto mais longe mergulha o olhar do artista. Marcel DESCHAMP exclama: “Alarguei a maneira de respirar” e o poeta Victor SEGALEN. mas aos remansos cheios de embriaguez do grande rio diversidade. A referência a WINNICOTT significa que não me interesso particularmente pela vontade que os grandes homens têm de transformar todas as variáveis do mundo (uma tal preocupação é a de um espírito “elitista”). ludens e viator. HUNDERTWASSER declara a seus alunos: Se vieram para aprender. de repente. antes que ela se fixe em natureza morta. chegarás. porque vão aprender coisas que não lhes são próprias. em lugar de uma imagem da natureza.O papel do sujeito humano na dinâmica social adolescente. interessando-se mais pela germinação das coisas do que pelos resultados 35 . demens (objeto da hybris). e que o mundo possa testemunhá-la. a fim de que sua pulsão criativa tome forma e figura. em compensação. o primeiro movimento indistinto da matéria. a vontade de cada um de fazer mudar as coisas (pequenas e grandes) e o desejo de criar. O sujeito é. Os artistas não se enganaram a esse respeito. não ao charco das alegrias imortais. voluntariamente.. a gestação. imobilizada. mais seu horizonte se alarga do presente ao passado. um ser capaz.. quanto na inspiração do arquiteto que. A única maneira de se encontrarem enquanto artistas é através de sua própria ação criadora16 e isso pode ser feito somente em suas casas. E mais se imprime. é a formação. Essa pulsão criativa aparece tanto na vida cotidiana da criança retardada. do jogo e da vagabundagem.. adulto ou velho – que pousa um olhar surpreso em tudo o que vê. uma novidade irredutível. assim se expressa: Evita escolher um lugar de asilo. meu amigo. é ainda pior. dando “um sentido mais puro às palavras da tribo” (MALLARMÉ). sabe o que quer construir e pensa então nos materiais que poderá utilizar.. seja um choro intencionalmente prolongado para saborear sua musicalidade. que sente prazer em respirar. ao mesmo tempo sapiens. portanto. não na escola!.

18 Essa visão é radical e não posso compartilhar inteiramente dela. sente-se eleito por Deus. Os grandes homens correspondem efetivamente à definição de pessoas que querem criar coisas voluntariamente. Mas digo: no poder só há loucos perigosos. No entanto. mesmo se tem a aparência de um sujeito que teve uma influência primordial na dinâmica social. estão presos à fantasia do dominação total que os leva a negar a alteridade do outro (e. recriando-o apenas pela palavra e instalando-se num imaginário enganoso (no qual tudo se torna possível). inebriado pela diversidade da vida e capaz de percebê-la. é preciso parar um momento. Essa desagregação da Europa Central tem ainda. Com efeito. 36 . há o exemplo – estudado por FREUD19 – do presidente Woodrow WILSON. Michel SERRES. preso na ganga dos ideais. de seus medos. pastor presbiteriano que lhe havia reservado o papel de salvador do mundo. os manipuladores ocupando uma posição perversa. aliás. Caracterizemos rapidamente esses três tipos. Sabe-se o que aconteceu com esse projeto grandioso: o desmembramento do império austro-húngaro deu à Alemanha a hegemonia da Europa Central e foi um dos fatores da segunda guerra mundial. fazendo-o tomar consciência de sua culpabilidade. um pouco paranóico. em particular o grande homem. Assim. freqüentemente é apenas um “indivíduo individualizado”. O que não impede que ela tenha uma parte de verdade. os sedutores ocupando uma posição histérica. para lavar o mundo de sua sujeira. O megalômano. identificado a seu pai.17 Porém. sem dominar o caminho que toma nem as conseqüências exatas de seus atos. WILSON acreditava-se eleito por Deus (seu pai encarnando a palavra divina) para propor. atualmente. os fundamentos de uma paz geral e definitiva entre as diferentes nações em guerra. Todos jogam o mesmo jogo e escondem da humanidade que eles preparam sua morte sem acasos.Psicossociologia – Análise social e intervenção tangíveis. de suas metamorfoses a própria condição de sua vida. assegurando-lhe a redenção. cientificamente. para realizar uma missão salvadora. pode-se identificar os megalômanos ocupando uma posição paranóica. propõe uma visão totalmente negativa: Não digo: há loucos perigosos no poder e um só bastaria. homem apto a recolocar em jogo sua vida e a correr riscos. Foi por isso que chamei esse sujeito de criador da história. entre os grandes homens. pela natureza. homem que sabe desposar suas contradições e fazer de seus conflitos. portanto. a esse respeito. a sua própria alteridade). depois da guerra de 1914-1918. porque uma armadilha nos espera aqui: o criador de história.

que não tinha interesse algum pelos outros. esse está. Ele é histérico na medida em que erotiza o conjunto das relações sociais. reduz as relações humanas a relações de objetos.O papel do sujeito humano na dinâmica social efeitos devastadores (aumento dos nacionalismos e do anti-semitismo). crê falar a linguagem da verdade. que estava pronto a utilizar qualquer meio para chegar a seus fins. “Eis as conseqüências dos atos ‘virtuosos’ daquele que se tomava como o Jeová dos Hebreus”. Poder-se-iam citar muitos outros nomes. recém-saídos das grandes escolas. a um de seus detratores: Lembre-se de que Deus quis que eu fosse presidente dos Estados Unidos e que nem você nem nenhum mortal pode impedi-lo. 37 . onde gosta da performance por ela mesma (ela dá satisfação a seu eu grandioso. ao contrário. inventando complôs. ou capacidades manipulatórias. de assegurar a mise-en-scène mais ao gosto da mídia e de ser o ator com melhor desempenho. só pensa em termos de estratégia. como LENIN: ao contrário. O surpreendente é que esse homem não se reivindique capacidades carismáticas excepcionais. a um nível mais irrisório. O sedutor histérico é o novo tipo de grande homem em voga. para isso. que tomou o poder contra os mencheviques. tem gosto pelo instantâneo. pelo acontecimento (Bernard TAPIE declara: sou um ser dos acontecimentos). graças a um golpe de força (porque o perverso não ama o real e. nem uma força de pensamento e de ação. como já indiquei anteriormente. durante a campanha para a sua eleição à presidência dos Estados Unidos. denega a realidade). os tecnocratas. quis fazer do alemão o povo eleito e. que queria dobrar o mundo à sua vontade. como WILSON ou HITLER. possuído pela fantasia do domínio total dos seres e das coisas.20 do homem que declarava. é um bom exemplo desses chefes perversos. por sua vez. segundo FREUD e BULLITT. incapaz de viver sem inimigos e fazendo seu povo pagar pelo fruto de seu delírio paranóico. caso bem conhecido e. ao mesmo tempo. deveria fazer desaparecer o outro povo que se considerava objeto da eleição divina. LENIN. que toma a si mesmo por ideal). Sua mensagem é simples: “Sou admirável porque o quis e qualquer um de vocês pode se tornar admirável. só considera o mundo sob o ângulo econômico. basta o de STALIN. o povo judeu. Quanto ao manipulador perverso. Ele vê o mundo como um grande teatro e tem o papel de escrever a peça mais persuasiva.21 Assim também HITLER. obcecado com a força pela força. quiseram dobrar o mundo a seus modelos e a suas equações. complexo demais para ser evocado em poucas linhas. O teatro é também para ele um terreno de esportes. ele se proíbe de ser excepcional.

sem interrogação. ele perdeu alguma coisa. Mesmo assim. Pode-se compreender o sucesso de um tal modelo.Psicossociologia – Análise social e intervenção se fizer como eu. meus aliados (. Podemos nos perguntar se essa falta de fantasia não é um pouco perigosa para quem fala e para aqueles a quem ele se dirige. há milhares de empresários na Itália que podem querer isso e esperá-lo. talvez. Mas. porque sou. ao contrário. Em outras palavras. um sujeito encarapaçado (segundo o termo de McDOUGALL) 38 . AGNELLI a gente nasce. nem mesmo na imaginação. Em todo caso.). Se elas tomarem um grande patrão italiano. A psicanalista Joyce McDOUGALL22 caracteriza essas pessoas como “caracteriais de tipo normal”. não se torna. os outros escapam a essa denominação. Ela descreve a seu respeito: O caracterial de tipo normal criou para si uma carapaça que o protege de todo despertar de seus conflitos neuróticos e psicóticos. Ele respeita as idéias recebidas como respeita as regras da sociedade e não as transgride jamais. não podem sonhar em se tornar AGNELLI. mas uma duração realista. com a condição de ser corajoso. a seus olhos. como indivíduos perfeitamente normais. Em contrapartida. AGNELLI por exemplo. de uma normalidade esmagadora. sem dúvida. M. Essa normalidade é uma carência que atinge a vida fantasmática e que afasta o sujeito dele mesmo. como GORBATCHEV.. não tenho dúvidas morais”. se tiver tanta coragem quanto eu”.. Mas uma tal evolução e uma tal mistura de estilo é ainda muito nova para ser descrita e explicada de maneira rigorosa. O grande patrão italiano C. um indivíduo sem fantasias. é possível tornar-se DE BENEDETTI...) são as pessoas comuns. Eles se apresentam. CHIRAC declarou um dia: “Eu não sonho. O sabor da madeleine não desencadeia nada nele e ele não perderá seu tempo em busca do tempo perdido. pois ele promete a qualquer um. Tentarei em outra ocasião. Partem de uma situação similar à minha e o tempo necessário para isso não parece uma duração mítica. uma demonstração do possível (. de BENEDETTI exprime muito bem essa posição: Na Itália. Poderia acrescentar à minha panóplia de “caracteres” os antigos burocratas obsessivos que fizeram sua carreira à sombra de grandes homens (os apparatchiki) e que um dia se tornam uma mistura de manipuladoresperversos e de sedutores-histéricos. se os megalômanos-paranóicos podem parecer mais ou menos “doidos” segundo a concepção de Michel SERRES. poder ser um verdadeiro chefe de empresa (e o que é mais glorioso atualmente que chegar a esse lugar?).

Mas ele conserva o mesmo projeto. São desprovidos da aptidão à transgressão. de ter – segundo o termo de FREUD – “uma alma de conquistador”. Vê-se bem aqui a diferença entre consistência e coerência. Mas não são verdadeiros criadores de história. ele o faz em sua linha. o caráter irrevogável de sua escolha e. conforme McDOUGALL. nas duas extremidades: os loucos de poder e os hiper-normais. como FREUD quando enunciava: “A Psicanálise é a minha causa”. ao inusitado. em FREUD. é também um ser que atinge “um certo grau de anormalidade” e que está em condições de interrogá-lo. Eles têm uma influência social inegável. a partir de trabalhos de Psicologia Social Experimental que desenvolveu com C. insiste sobre essa noção. dos outros. Teríamos. por um lado. mesmo se nada descobre. assim. fazer advir o sujeito individual. pois exprimem em voz alta o pensamento banalizado e dão satisfação aos desejos recalcados. S. Corre pela vida como em uma auto-estrada. de tudo realizar” (McDOUGALL). que é um verdadeiro projeto existencial: permitir a tomada de consciência. de tudo desarrumar. “uma certa anormalidade” (uns pecam pelo excesso. Um ser coerente tem uma personalidade compacta. tanto em sua forma violenta como em sua forma sedutora. fazer advir o sujeito coletivo. Ele não tem projeto. recolocar em questão algumas de suas idéias (como FREUD ou MARX. favorecer a tomada de consciência de situações reais. em MARX. de se lançar no desconhecido.O papel do sujeito humano na dinâmica social ou encouraçado (segundo a terminologia de REICH) está afastado dele mesmo e. por outro. MOSCOVICI. sem falhas. reproduzir. São portadores da pulsão de morte. a recusa de compromisso sobre o essencial. só sabem repetir. E. Não confiam na “imaginação radical” (CASTORIADIS) que jaz em todo ser humano. remanejando continuamente suas análises e suas teorias). É também um homem que demonstra consistência. 39 . em sua linhagem. Se o sujeito evolui. “que significa. São mesmo os mais numerosos entre as pessoas que ocupam postos de responsabilidade. mais ainda. mesmo se não provoca mais que um leve impacto sobre o movimento do mundo. a não ser o de continuar a fazer funcionar a sociedade tal como ela é. FAUCHEUX. na tradição da qual é herdeiro e que enriquece e deforma. o sujeito é um homem movido por uma idéia fixa. Pode-se então perguntar se essa hipernormalidade lhe permite ser sensível à surpresa. Um ser consistente pode ter dúvidas. outros pela falta) que lhes permitiria “manter os olhos ávidos da infância” (McDOUGALL) e ter vontade “de tudo questionar. criar seja lá que novidade for. assim. no sentido que dou a esse termo. A noção de sujeito torna-se precisa: não é apenas alguém que traz um projeto voluntário.23 Em certo sentido. pois falta a ambos. tomar caminhos transversais. a perceber as coisas e os seres sob outro ângulo.

portanto. como também a provocá-los. ARISTÓTELES dizia que o homem de gênio deveria saber utilizar o Kairos. uma outra exigência e. da mesma forma que apela para uma estadia sem lugar. Para SEGALEN. a ocasião. consistência e astúcia andam juntas. porque a dispersão. é que. Nem MARX nem FREUD foram pessoas boazinhas. Consistência e furor. no momento atual. quando ela se apresenta. provenientes 40 . no entanto.” O sujeito não é homem de comprometimentos. recentemente republicado. Está muito próximo do que BLANCHOT evoca a respeito do homem votado ao exílio.24 O “exota”. sentir-se à margem mesmo se a sociedade deseja sua integração. para fazer triunfar suas idéias. o que não é nada fácil. lá onde a maioria é tentada a evitá-lo. é uma pessoa capaz de criar redes de alianças. interdita a tentação da Unidade-Identidade. a um Estado. em vista dos movimentos de migração que se intensificam. SEGALEN. pessoas vindas de outros países. o exota é aquele que tem a percepção do diverso e o poder de conceber outro. deve ser capaz de sair dele mesmo (ek-stase). porque o sujeito deve estar cheio de furor (de hybris). serão vistos cada vez mais “exotas” reais. a uma identidade coletiva. souberam conciliar furor. há uma vocação do exílio” e essa vocação “é a dispersão. delimita também. um grupo ou um Estado. sendo assim aquele que olha o mundo como se o visse pela primeira vez. finalmente. BLANCHOT escreve: há uma verdade do exílio. O que é interessante. em seguida. o exilado. É possível ser um “exota” na sua própria sociedade. MOSCOVICI. isto é. ARISTÓTELES já o sabia e o mostra muito bem no “problema trinta”. pois sabe que se ele se encontrar sozinho. consistência e astúcia. A idéia fixa não impede a astúcia (no sentido da Mètis dos gregos) e o aproveitamento da oportunidade. Ele é. se outros não podem se identificar a ele e com sua causa. criar e sustentar um conflito com a maioria. visível e. Uma outra característica do sujeito é a de viver como um “exota”. Aqui não se trata de manipulação. igualmente. à dispersão. Ao mesmo tempo. não pode jamais estar colado a uma organização. o homem pronto a ser tomado pela surpresa e pelo inusitado. só poderá fracassar (não é à toa que a criação da Associação Internacional de Psicanálise pode tranqüilizar FREUD e que a criação da 1a Internacional era ardentemente desejada por MARX). acrescenta que um tal sujeito deve “optar por uma posição clara. da mesma forma que renega toda relação fixa entre a força e um indivíduo.Psicossociologia – Análise social e intervenção Mas essa consistência deve ser perceptível e deve poder provocar reações e discussões. diante da exigência do todo. segundo a expressão de V.

O papel do sujeito humano na dinâmica social

de outras culturas, pessoas que, assim, necessariamente, pousarão um olhar novo e surpreso sobre a sociedade que os acolhe e que, quer queiram ou não, questioná-la-ão e a influenciarão, do mesmo modo que serão influenciados por ela. Os “exotas”, entretanto, não ficarão presos no processo de idealização. Estarão, ao contrário, presos na necessidade de sublimação, como os “exotas” indígenas que teriam escolhido esse destino. Serei breve sobre o processo de sublimação, sobre o qual discorri várias vezes em textos recentes.25 Deixarei de lado o aspecto indispensável da atividade de sublimação na formação do vínculo social, na medida em que é evidente, agora, que nenhuma sociedade poderia ter sido fundada se os homens não pudessem ter passado do prazer sexual direto ao prazer da representação e da imaginação, se eles não pudessem ter passado da satisfação das pulsões egoístas àquelas obtidas pelo agenciamento de pulsões altruístas, valorizadas socialmente. Parece-me mais importante observar que a sublimação implica no reconhecimento, por cada um, de sua própria estranheza, da estranheza dos outros e no desejo de propor, sem vontade de dominação, ao conjunto dos indivíduos com os quais se vive, uma investigação conjunta e partilhada. Sublimar é aceitar sua parte de estranheza, de contradição, de remorsos, de metamorfose ou de êxtase. O fato de poder se interrogar sobre si mesmo, de se descobrir estrangeiro para consigo mesmo (porque o ser humano se constitui na clivagem), permite considerar o outro como menos estranho e mais semelhante a si mesmo. Assim, o outro (ou a coisa) não é mais um ser a dominar, a domar, por nossa atividade intelectual ou física, mas alguém com quem se pode tentar manter relações de reciprocidade, relações que podem se mostrar difíceis, conflituosas se necessário, mas que tendem a ser as mais simétricas possíveis. A sublimação não impede o ideal, mas ela luta contra a doença do ideal. O sujeito é então aquele que aceita se recolocar em questão, ser questionado, ele não tem necessidade de ligações que lhe sirvam simplesmente de apoio para existir. De fato, sublimar é difícil, porque é viver ao mesmo tempo como ser completo (homo sapiens, homo demens, susceptível de ser atravessado por afetos que não controla, que o põem em estado de desordem, sem saber se poderá aceder a uma nova ordem, homo ludens e homo viator, como evoquei precedentemente) e como ser clivado, dividido, mantendo-se em pé diante da angústia provocada pela ausência dos Deuses e pela possibilidade de que o outro não seja um apoio, mas se revele adversário implacável. A sublimação implica, igualmente, na

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

aceitação da tradição, da filiação, da dívida que temos para com os que nos precederam e para com as gerações futuras. Se a dívida não é reconhecida, se o homem cede à tentação de auto-engendramento, estará talvez em condições de se tornar um grande homem. Ele deixará apenas ruínas atrás de si. Para engendrar novidades e a vida, é preciso admitir ainda a violência mortífera que atua na fantasia de auto-engendramento. Sublimar é, portanto, estar consigo mesmo, com os outros, com seus pais e com seus filhos, em uma relação na qual a vida palpita, vida cheia de angústia e de alegria, de possível morte e de transfiguração. Essas pessoas que não cedem às ilusões, que vivem com os outros, não numa interrogação permanente, mas numa interrogação suficiente, colocam-se então numa história coletiva, sabendo que seu lugar nunca estará totalmente assegurado, sentindo-se e querendo-se, em parte, integradas, em parte, exiladas. São talvez elas que provocam as rupturas mais fundamentais, a possibilidade de um caminho para a instauração de sociedades de sujeitos mais autônomos, mesmo quando elas não o sabem e mesmo quando pensam que são apenas “zé-ninguém”, sem projeto voluntário verdadeiramente constituído (em tal caso, é a realização de uma vida guiada por suas próprias exigências e pelo reconhecimento do vínculo social que forma o projeto). Essas pessoas, definitivamente, comportam-se como verdadeiros heróis. Utilizo o termo no sentido que lhe deu FREUD: o herói, aquele que teve a coragem “de sair da formação coletiva”. Essas pessoas souberam colocar seus ideais, reconhecer a alteridade do outro, reconhecer-se a si mesmas. (O caminho para o outro passa pelo caminho para si). Esse heroísmo é um heroísmo partilhável. Basta que cada um queira tentar ser ele mesmo com os outros. Então, o mundo será composto mais por sujeitos autônomos do que por indivíduos “individualizados” e a dinâmica social será o produto do confronto de homens livres e responsáveis. Para concluir meu intento, é evidente que as condições colocadas para atingir a plena autonomia indicam que sua ocorrência é fraca. É mais fácil deixar-se guiar que conduzir sua própria vida, mais fácil imitar que inventar, mais fácil idealizar que sublimar. Mas uma outra constatação é necessária: da mesma maneira que o indivíduo totalmente heterônimo não existe, como mostrei na primeira parte de minha exposição, o sujeito inteiramente autônomo também não existe. Simplesmente porque o homem é clivado, contraditório, mistura inextricável de pulsão de vida e de morte, capaz do melhor e do pior, freqüentemente obcecado pelo poder, pelo prestígio e sentindo um desejo de segurança narcísica e, também, porque as sociedades precisam, para se manter, de um mínimo de

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O papel do sujeito humano na dinâmica social

ilusões e de crenças, de disfarces e de hipocrisia. Cada um de nós é, de fato, em certos momentos, mais um indivíduo pronto a aderir, incapaz de se colocar questões, pedindo amarras fortes, cedendo à idealização (dos Deuses, do Estado ou de um outro ser humano – caso contrário, a paixão não seria desse mundo) e, em outros, um sujeito mais autônomo, em condições de questionar o mundo e a si mesmo e de procurar, tateando, seu próprio caminho. Portanto, a idéia de uma sociedade e de um sujeito tendo acedido à autonomia se dilui. O que permanece, em compensação, é a possibilidade de cada sociedade e de cada pessoa entrever a dificuldade do caminho e de, às vezes, arriscar-se por ele. Tanto quanto é impossível chegar à verdade, é impossível atingir a autonomia. Nem por isso a busca da verdade e da autonomia devem terminar. Saber que perseguimos um fim impossível nos chama, simplesmente, para um pouco de modéstia, de humor e de ironia, em relação a nós mesmos e a nossas possibilidades de influência. Talvez seja ao atingir a consciência de nossas impossibilidades que cheguemos, mais freqüentemente, a nos conduzir de maneira autônoma e a não nos deixar prender nas ilusões que o social difunde e das quais o ser humano é particularmente ávido. Se, às vezes, os heróis ficam cansados, em outros momentos, podem se reerguer e nos surpreender. Aceitemos o augúrio e trabalhemos cotidianamente para fazer da “vida imediata” (ELUARD) mais um lugar de surpresas do que um lugar de repetição morna.

Notas
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Traduzido de ENRIQUEZ, Eugène. “Le rôle du sujet humain dans la dynamique sociale”. Revue Européenne des Sciences Sociales. Tomo XXIX, 89, 1991, p. 75-89, por Sonia Roedel. Cf. meu texto “Individu, création et histoire”. In: Connexions, n. 44, E.P.I., 1984, e o capítulo de minha tese Pouvoir et lien social, Paris: Gallimard, 1980, intitulado “O papel da conduta do indivíduo”. CASTORIADIS, C. L’institution imaginaire de la société. Paris: Seuil, 1975. VEYNE, P. Les Grecs ont-ils cru a leurs mythes? Paris: Seuil, 1975. ENRIQUEZ, E. “Le mythe ou la communauté inchangée”. L’esprit du temps, n. 11, Ed. de Minuit, 1986. Ibidem. Esse ponto será retomado mais adiante neste texto. FREUD, S. Malaise dans la civilisation (1929). Paris: PUF., 1970. CASTORIADIS, C., op. cit. WEBER, M. L’éthique protestante et l’esprit du capitalisme. Paris: Plon, 1964.

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REICH, W. Écoute, petit homme.(1948). Trad. franc. Paris: Payot, 1973. REICH, W. op. cit. DEVEREUX, G. Ethnopsychanalyse complémentariste. Paris: Flammarion, 1975. FREUD, S., op. cit. WINNICOTT, D. W. Jeu et réalité. Paris: Gallimard, 1975. Sublinhado por mim. ENRIQUEZ, E. Individu, création et histoire, op. cit. SERRES, M. “La thanatocracie”. Critique, março 1973. FREUD, S. e BULLITT, W. Le président T. W. WILSON. Nova trad. Paris: Payot, 1990. FREUD, S. e BULLITT, W., op. cit. FREUD, S. e BULLITT, W., op cit. McDOUGALL, J. Plaidoyer pour une certaine anormalité. Paris: Gallimard, 1978. MOSCOVICI, S. Psychologie des minorités actives. Paris: PUF., 1979. BLANCHOT, M. L’entretien infini. Paris: Gallimard, 1970. Citemos simplesmente o último texto publicado: Idéalisation et sublimation. Psychologie Clinique, n. 3, 1990.

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AINTERIORIDADEESTÁACABANDO?1
Eugène Enriquez

O sentimento que uma pessoa experimenta de ter uma vida interior, íntima, onde ninguém tem o direito de penetrar, a não ser por arrombamento, o sentimento de possuir um dentro que carrega sofrimento, alegria, questionamentos, interrogações e que, para ela, é “uma terra estrangeira”, nem sempre existiu. J. P. VERNANT, particularmente, sublinhou até que ponto um homem grego podia se conceber como um indivíduo, um sujeito, mas não como um eu autônomo que pudesse “esconder uma coisa em suas entranhas”, segundo a palavra de Aquiles. A vida interior obteve o direito à existência durante os séculos III e IV, quando o homem começou a tecer relações especiais com o divino e, por isso, teve de viver uma experiência de si e não apenas uma “preocupação consigo” (M. FOUCAULT, 1984). No século XVIII, século das luzes, quando foi dito que cada homem possui em si próprio os princípios da razão, foi enunciado, simultaneamente, que o homem é também um ser de paixões e de afetos, atravessado por ventos tumultuosos (“Venez, orages désirés!”), um ser que deve fazer seu exame de consciência, escrever confissões como ROUSSEAU ou manter um diário íntimo como AMIEL. Nem todos se sujeitam a essa tarefa, mas isso não impede que nasçam, simultaneamente, o homem plenamente racional e o homem totalmente emocional. Antes de mais nada, todo homem possui, ao mesmo tempo, um cérebro e um coração que ele deve sondar para se compreender e, assim, melhor guiar sua conduta. Nunca se insistirá bastante sobre a ligação íntima entre “paixões e interesses”, entre Aufklärung e o Sturm und Drang. É porque cada homem tem “dúvidas morais” e persegue a conquista de si mesmo que pode se tornar, também, um conquistador do mundo.2 Parece que essa centralização em uma interioridade (que favorece igualmente a exteriorização) está se tornando objeto de numerosas investidas por parte dos empresários, por um lado, e por parte dos fanáticos religiosos, por outro.

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de fazer calar em si suas “dúvidas morais”.Psicossociologia – Análise social e intervenção Posso apenas indicar uma pista que mereceria ser explorada mais sistematicamente. do combatente. é necessário que essas pessoas sejam movidas por um processo de idealização. com personalidades “as if” (H. DEUTSCH) serão particularmente apreciados. em demasia. desembaraçado de compromissos. Para obter tais resultados. do vencedor. para fazê-lo. então. de colocá-los. se só pensa através dela. assim. então. SERVAN-SCHREIBER). sejam quais forem. num sistema totalitário que se tornou para ele o Sagrado 46 . no sentido sadiano do termo. de sonhos e de interrogações. Minha contribuição será. Se o indivíduo se identifica com a organização. se a idealiza a ponto de sacrificar sua vida privada às metas que ela persegue. escrita num estilo lapidar que poderá chocar. conformar-se à nova ideologia do “matador frio”. Os outros serão suspeitos de se colocar problemas demais e. A cultura de empresa ou de organização. ao propor. capaz de se adaptar a todas as situações. ele entrará. aos outros. aos que dela participam. o homem capaz de ultrapassar seus limites. mostras de “apatia”? Quem é dado como exemplo é o guerreiro ou o esportista. tem como finalidade prendê-los totalmente nas malhas que ela tece. sobretudo. L. portanto. A proposição é a seguinte: A renovação do individualismo tem por fim suprimir o sujeito e a vida interior. sem o saber (e de consciência tranqüila). O que é o indivíduo de quem todo mundo fala. dando. de ficar obcecado apenas pela “excelência” e que deve. senão uma pessoa (ouso utilizar somente esse termo) “de geometria variável” (J. seus valores e seu processo de socialização. . seu imaginário enganoso – que tem como objetivo englobar todos na fantasmagoria comum proposta pelos dirigentes da organização – e seu sistema de símbolos – que fornece um sentido prévio a cada ação dos indivíduos –. de considerar os problemas em sua frieza. sobretudo. Os indivíduos com um “falso self” (WINNICOTT) ou. de ter modos de “comunicação afirmativa”. mas que deveria também ter a vantagem de provocar vivas discussões.

mas. pronta a punir os blasfemadores. mais próximos do integrismo. a voltar aos valores da família patriarcal e a se pronunciar contra a contracepção e o aborto (disso são testemunhos exemplares o sucesso de Monsenhor Lefèbvre na França. inscrevendo-se no mito coletivo da organização. ao contrário. O sagrado laicizado dá ao indivíduo o sentimento de se transcender. a importância dos movimentos Communione e Liberazione na Itália. triunfante em sua versão “chiita” (e não nos esqueçamos que. Ela nos força a admitir que muitos indivíduos precisam de “referências duras e estabilizadas” para solidificar sua psique e ter o sentimento de fazer parte do povo eleito. encarnar a “instituição divina”. xamãs. Essa volta do religioso não visa a nenhuma sublimação. uma causa a defender. pais-de-santo estão prontos a substitui-las. presas na miragem do alémAtlântico ou do além-Pacífico. o indivíduo pode se considerar como um herói dos tempos modernos. desde DURKHEIM e FREUD. um ideal a realizar. pois essa fornece a cada ser a garantia de não viver no puro arbitrário. concedendo-lhe um sistema de significações que o tranqüiliza e o faz agir. Eles também exigem a crença e anunciam a proibição de pensar livremente. atualmente. É por isso que as antigas religiões voltam sob os seus aspectos mais extremos. uma plenitude que o protege de qualquer trabalho de luto. o despertar de um integrismo judeu que se traduz pela multiplicação das yeshiva (escolas judaicas) na França e pelo papel dos partidos religiosos em Israel. O “fanatismo de empresa” pode parecer relativamente irrisório para alguns. Basta ter em mente: a renovação do Islã. exige a idealização. A empresa (ou qualquer outra organização) quer. gurus. esse último sendo apenas um avatar do chiismo3). a famosa seita dos “Assassinos” era a forma mais aguda do ismaelismo. quando as igrejas não são suficientemente atraentes. Promete-lhe alcançar um estado não conflitante da psique. de perda e de sofrimento. segura de estar em seus direitos. no mundo medieval. Sabe-se muito bem. o renovar de uma igreja dogmática. E. injustamente martirizado. As empresas americanas e japonesas de melhor desempenho funcionam dessa maneira e é sob esse regime que começam a viver as empresas européias. Mas os valores gerenciais podem não ser suficientes para responder ao déficit de identificações característico de nosso sistema social e ao malestar dele resultante. através de um projeto a concretizar. 47 . em nome da verdadeira fé. que uma sociedade não pode existir sem religião.A interioridade está acabando? transcendente legitimador de sua existência. Então. que parte à conquista do mundo (ou de uma parte do mundo). o papel central desempenhado pelo Opus Dei na Itália e na Espanha).

Quando esse processo de idealização não pode se ligar a um objeto maravilhoso exterior. que aqui apenas menciono. a expressão corporal. “tornar-se saudável”. desenvolvida pela publicidade e por certos “psicólogos” nesses últimos anos. o jogging. porque são vividos por ele como atos socialmente valorizados pela organização à qual ele adere e. nossa juventude e nos fazem acreditar em nossa imortalidade. os seminários de sobrevivência têm todos por meta nos dizer que o corpo real (e não o corpo fantasmático. esbelto. Mas basta saber que o indivíduo que não se dá conta desse controle sobre sua interioridade pode estar pronto a todos os atos. competitivo ou não (por exemplo. como a expressão da graça que lhe cabe. proferem a necessidade de cada qual descobrir a divindade em seu “foro íntimo”. as maratonas de Paris ou de Nova York). Elas querem proceder à intrusão na psique para destruí-la ou. as medicinas naturais. portanto. o “grito primal”. É nesse sentido que é preciso compreender a nova ênfase ao corpo. afastar a dor. submetê-la a ídolos não contestáveis. pode encontrar seu ponto de ancoragem num objeto maravilhoso interior: o corpo do indivíduo. O fanatismo político. em seus aspectos “idealizados” (no bom sentido do termo). cuja meta é a homogeneização do “interior”. Mas as religiões. 48 . Resulta daí uma equação simples: corpo dinâmico = energia física = energia psíquica = aptidão ao sucesso individual = aptidão à utilidade social. animado) é o nosso bem mais precioso. as diversas técnicas que têm por objetivo dar a cada qual um corpo flexível. de ser capaz de penitência e de viver tanto o sofrimento como a alegria. Reserva para si mesmo seu uso e monopólio. o desenvolvimento do esporte de massa. “Perinde ac cadaver”4 continua sendo a palavra de ordem. provar a si mesmo e aos outros que o cuidado do corpo é um cuidado vital testemunham nossas capacidades. persegue as mesmas metas e comporta os mesmos efeitos. falado e falante. as ginásticas suaves. sofredor. As técnicas de body-building. “Estar bem em sua pele”. continuamente desejável. os estágios off limits. a aeróbica. mesmo os mais repreensíveis. Voltarei adiante aos métodos empregados.Psicossociologia – Análise social e intervenção Certamente. pelo menos. todas as religiões. O fanatismo bane o pensamento e a palavra criadora. em seu lado excessivo – as seitas – não se preocupam de forma alguma com a vida interior específica dos diversos sujeitos.

Os próprios indivíduos. de criar uma cultura. assim. de uma vontade infantil raivosa de onipotência. de intervenção psicossociológica ou institucional. GREEN. que o indivíduo. deve poder se interrogar sobre si mesmo e sobre as estruturas de trabalho nas quais se encontra. na qual ele tem que desempenhar um papel social. de autoridade. Ora. Por outro lado. processo de ligação com os outros. para se tornar um sujeito falante e atuante. “a paixão pela excelência”. de evolução pessoal ou grupal. grupal e coletiva. na medida em que não se trata. devem encontrar as melhores soluções para os problemas que lhes são 49 . reconhecem que a mudança é o produto de mudanças ao mesmo tempo individual. 1983). cada um pode ser capaz de atingir o gozo mais absoluto. na qual fatalmente se perderá. ao menos. quer se tenha atingido um status social elevado ou subalterno. a ponto de “correrem” atrás de sua alienação e a buscarem sempre mais. A explicação é simples: todos os métodos de formação. reconhecem que o indivíduo é um ator preso numa história coletiva. interrogação do ser. a esfera religiosa ou política e o corpo são “irracionais”em sua essência. o paradigma individualista não quer nem mudança social nem mudança individual profunda. No narcisismo de morte. o erro não cabe à organização nem ao tipo de direção). Quer se tenha nascido rico ou pobre. únicos responsáveis (se eles fracassam. Basta querer. mas de edificar novos cultos. novos questionamentos e transformações nas relações de poder ou. suas regras de jogo e seu espaço de liberdade. que lhe devolve uma imagem idealizada de si mesmo. a busca do “erro zero”. Os métodos para conseguir sacralizar ou re-sacralizar a organização.A interioridade está acabando? Essa equação é mais atraente ainda porque está ao alcance de qualquer um. Basta que seja capaz de amar suficientemente a si próprio. que se desenvolvem as técnicas mais aberrantes. Acontece que esse narcisismo só pode ser um “narcisismo de morte” (A. Elas anunciam. porque o “narcisismo de vida” é busca de verdade. a “qualidade total”. necessariamente. mudança sempre difícil pois traz. membro de um conjunto que tem suas coerções. de fato. cada qual se mira em seu próprio espelho. sinais de uma fantasia de domínio total. O narcisismo mais total está na ordem do dia. embora alienados no mais profundo de sua psique. confronto com o sofrimento. É no momento mesmo em que no mundo se enaltece a eficácia. nas organizações sociais.

uma psique a serviço da organização. Por isso. pelo menos. nas organizações e nos indivíduos. É por essa razão que a seleção e a promoção de tais indivíduos serão particularmente severas. a mobilização total de todos. para viver e se desenvolver. para a seleção de dirigentes. tem por certo necessidade de sentir que não é um simples aglomerado mais ou menos 50 . como resultado a sua destruição ou. em reação. no quadro de normas extremamente fortes (quando não de dogmas).Psicossociologia – Análise social e intervenção colocados. instalam-se os diretores em “grandes caixas” para lhes insuflar uma nova energia. a edificação de processos identificatórios que têm como meta favorecer a segurança narcísica e fornecer certezas e orientações precisas de vida. pessoas sem rumo ou submetidas a estresses contraditórios) provoca. quer dizer. a fim de desenvolverem sua autoconfiança. Cada “conjunto humano”. de pessoas que não se sentem bem consigo mesmas. mas. do aumento dos métodos mais bizarros. como a simples lógica o exigiria. uma psique sem conflitos. com os pés amarrados a um elástico. freqüentemente com seu consentimento e com sua satisfação. pela multiplicação de indivíduos “em crise de identidade”. sejamos claros: a uniformização da psique (isto é. é impossível recorrer a métodos minimamente científicos. faz-se apelo a leitores de tarô. O reconhecimento da psique como força operante tem. a implicação. a possibilidade de todos enfrentarem uma certa complexidade e de demonstrarem capacidades criadoras não previstas e não programáveis). pede-se a eles que saltem de grandes alturas. a astrólogos. necessariamente. A conseqüência desses métodos e a criação de uma identidade compacta. não do desenvolvimento da racionalidade. perfeitamente interiorizadas. a “numerólogos” ou a provas como “andar sobre brasas”. portanto. ao contrário. O mal-estar existente nas identificações (e que se expressa pelo desenvolvimento da toxicomania. pois esses só dariam resultados aproximados como a própria vida. faz-se com que pratiquem artes marciais para que se sintam como samurais. únicos a prometerem resultados tangíveis. Não é preciso continuar essa enumeração de “técnicas” (recorre-se mesmo ao vodu) para compreender que a vontade de eficácia a qualquer preço (essa podendo emanar das empresas ou de outras organizações – os fanáticos religiosos também têm seus métodos para provocar o torpor e o entusiasmo) está acompanhada. A finalidade desses métodos é evidente: a adesão. Assim. a sua submissão. Pede-se a “gurus” ou a “xamãs” que “reenergizem” a empresa. na sociedade.

em um gênero. através dessas diversas experiências. – podendo 51 . Mas. ou vinte anos? BARTHES. escreveu belíssimas páginas. Os indivíduos evoluem. Ora. não vivo mais. que se liga a uma tradição. a necessidade de ter uma certa identidade.A constância não existe. isto é. em Barthes par lui même (1975) e em La chambre claire (1980). portanto. nacionalidade etc. Tal experiência é comum e não mereceria que nela me detivesse. Cada indivíduo. Cada um de nós teve oportunidade (com a condição de aceitar sua “interioridade”) de se perguntar: mas qual é a relação entre o que sou e essa pessoa que tem o mesmo nome que eu e que teve oito anos. classe. caso ela não permitisse colocar em termos temporais a questão das identificações múltiplas instantâneas. eles são solicitados por situações sociais diferentes ou confrontados a elas. de acordo com a idade e responsabilidades que têm de assumir. que constrói e reconstrói seu passado à luz dessa memória e que está apto a elaborar projetos para o futuro. de constância: (b) idéia de objeto separado. ou o status social a que chegaram. em uma espécie). quer dizer. se examinarmos mais de perto essa noção.A interioridade está acabando? feliz de vários fluxos de intensidades e de entroncamentos diversos e que. animado por uma coesão totalizante tendo. transformam-se de acordo com a maneira pela qual são capazes de negociar suas contradições e seus conflitos. FREUD escreveu: cada indivíduo é uma parte componente de numerosos grupos. ele é capaz de ser um “Si”. evocando o decorrer do tempo: não penso mais. Além disso. tal como foi colocada por FREUD em “Psicologia de grupo e análise do ego”. credo. uma unidade. de ser um sujeito que tem uma história. que participa de uma memória coletiva. por minha vez. essas três idéias são abaladas pela investigação psicanalítica: a. portanto. acha-se ligado por vínculos de identificação em muitos sentidos e construiu seu ideal de eu segundo os modelos mais variados. nas quais mostrou esse estranhamento: sou eu mesmo aquele que essa velha foto me devolve? E. constata-se que a identidade remete a três idéias essenciais: (a) idéia de permanência através do tempo. GREEN (1985). Caso se retome a análise de A. portanto. Cada um sente. (c) idéia de similaridade (toda identidade permite identificar o outro. partilha de numerosas mentes grupais – as de sua raça. em diferentes lugares e com múltiplas pessoas. não creio mais como esse ser que leva meu nome. ela revela características um pouco suspeitas. de referências seguras. em uma palavra. permite que se possa situá-lo em uma classe.

admitir.Quanto ao reconhecimento do mesmo. cairmos na irresponsabilidade. cada uma. então é possível questionar. de preclusão e de denegação estão operando em nós. TOROK. 1976). FREUD não deixa de lado a dimensão temporal nessa frase. com WINNICOTT (1966). b.) que visam. Se não esquecermos que o processo identificatório está em ação durante toda a vida e que ele é o único que permite ao indivíduo continuar vivo. a menos que acreditemos sermos apenas uma série de máscaras e. assim. ABRAHAM e M. a partir de um estado não integrado.5 Certamente. a idéia de permanência e de constância. No entanto. então. ilusória.Psicossociologia – Análise social e intervenção também elevar-se sobre elas. por definição. “criptas” tanto mais incrustadas quanto mais são o fruto de um silêncio (N. além disso. portanto capaz de se afirmar diferentemente de como o fez no passado. na medida em que possui um fragmento de independência e originalidade. não podemos abandonar essa idéia. pois toda construção. o qual não pode ser considerado como o sujeito da enunciação e da ação. escrevia ARNIM) e de decidir quem posso reconhecer como um outro eu-mesmo. de reconhecer em mim minha parte conhecida e minha parte estranha (“os caminhos misteriosos vão para o interior”. no entanto. que. admitimos que pode haver em nós “visitantes do eu” (A. de MIJOLLA. a sua própria finalidade.A idéia de unidade parece ainda menos sólida. implica que eu seja capaz de responder à questão “quem sou eu?”. Eu é um outro. quando sei tão pouco o que sou. mas que mantém um certo grau de 52 . 1982). que processos de clivagem. o eu etc. necessita do trabalho do tempo. Precisamos. Assim. c. em particular quando enuncia que o indivíduo “construiu seu ideal de eu segundo os modelos mais variados”. que o inconsciente tem um papel enorme em nossa maneira de viver e que ele não está submetido aos mesmos processos do nosso eu consciente. em sua pureza. Sabemos: que somos compostos de uma “pluralidade de pessoas psíquicas” (o isso. a esperança de uma bela unidade do indivíduo se estilhaça. quem está falando e por que falamos dessa maneira. Se. no momento em que falamos. tentamos continuamente criar um “si” que evolui. sob certos aspectos. mais na divisão ou mesmo na ruptura às quais todos estão submetidos a cada instante de sua vida. então. Nunca sabemos de maneira precisa. a identidade pessoal (não evoco aqui os enormes problemas colocados pela identidade cultural) é. Mas ele insiste. já dizia RIMBAUD.

muito pelo contrário). donde um desenvolvimento da xenofobia e do racismo. São. portanto sedução. de seus desejos. de “maioria compacta”. que sejam capazes de adaptar o mundo à sua vontade. da “inquietante estranheza” e. e tanto mais porque se parecem conosco. sobretudo. portanto. Os outros. O que nossa sociedade reclama. Apenas um exemplo: numa grande empresa. para o indivíduo. o trabalho sobre si. escolhendo as máscaras sociais que precisam. a possibilidade de tomada de consciência de suas falhas. a interrogação. o que o leva a evocar elementos de sua vida pessoal que nunca tinha 53 . tão apreciada por FREUD.A interioridade está acabando? coerência. O ódio inconsciente de si é projetado sobre os outros. de um narcisismo a toda prova. a dúvida. é mais facilmente projetado sobre os outros quando o indivíduo deve dar provas de seu caráter inteiriço. é ouvido um momento. adotando estratégias flexíveis e sabendo utilizar os atalhos. Os duros golpes da Psicanálise contra a noção de identidade coerente e unificada e a favor de uma reflexão sobre as identificações só podem irritá-la profundamente. como também um amor consciente por si. problemáticas. contraditórias. e a adotar as estratégias racionais que se mostrem as mais lucrativas (identidade compacta e possibilidade de utilizar identidades múltiplas não são. assim como as instituições e organizações que a compõem. mesmo se são aptos a demonstrar “teatralidade histérica”. indivíduos com uma “identidade compacta” (forjo esse termo a partir da fórmula de IBSEN. a sociedade contemporânea não precisa de uma tal concepção que implica. Porém. Um deles explicita suas dúvidas. quaisquer que sejam. segundo as circunstâncias (como o Zellig de Woody ALLEN) e que. portanto. de suas capacidades de comunicação e de persuasão. os diretores participam de um grupo. Em cada indivíduo existe um ódio inconsciente de si. podem ser o objeto no qual nos livramos do que nos assombra e nos divide. estejam em condições de chegar aonde sua ambição (ou a ambição de sua organização) os impele a ir. trazendo “temor e tremor”. contra a qual os que querem ser sujeitos de sua história só podem se opor). de suas faltas. o remorso. Esse ódio contra partes de si mesmo mal integradas. a aceitação dos processos de clivagem. é a existência de indivíduos que saibam estabelecer uma distinção nítida entre eles mesmos e os outros. de sua centralização no sucesso de seu trabalho.

eles insultam o narcisismo individual e grupal de todos os que. nem mesmo à sua esposa. serei obrigado a falar disso a meu pai e. são aprisionados em fantasias de “renascimento e de auto-engendramento de tonalidade megalomaníaca”. não se compara à intensidade das formas extremas de xenofobia ou de racismo) testemunha a capacidade dos indivíduos de utilizar as falhas dos outros para preenchê-las com suas próprias faltas. Nunca mais abriu seu “foro íntimo” a ninguém. Nessas condições. por um processo de contra-investimento. O “homem com problemas” aprendeu a lição. ENRIQUEZ. tendo uma identidade compacta. diante dessas revelações. como seres que percebem o diverso e que têm “o poder de conceber o outro” (SEGALEN. seja de novo como nós.Psicossociologia – Análise social e intervenção revelado. Transformam o mundo no qual estão. ele tem úlceras constantes. quer dizer. eles questionam sua identidade. em substância: “Não continue. Pôde obter o posto desejado. SEGALEN). até que ponto evitam-se a si mesmos. é interrompido por um de seus colegas. Esse exemplo (que. simplesmente por se comportarem como “exotas” (V. Ora. um grupo que tem uma cultura própria. o indivíduo que demonstra reflexividade ou um grupo minoritário são causas de si mesmos. mas ele dará um jeito de lhe fechar todas as portas. serão susceptíveis de levar os indivíduos com identidade compacta a transformarem o ódio de si no ódio do outro. aquele de quem se debocha e que seria eliminado brutalmente. Escolheram ser o que tinham vontade de ser e o mostram de forma visível. como mostrou Micheline ENRIQUEZ (1984). Apenas. comportou-se como o seu próprio grupo de “pares” desejava. p. Domine-se. vinda da boa burguesia. p. seu imaginário enganoso. seu simbólico. reedição de 1986. Nesse momento. Esse ódio inconsciente de si vai ser tão forte que os indivíduos não poderão se representar como causa de si próprios (eles são apenas os porta-vozes de normas fortemente interiorizadas que foram edificadas pela “maioria compacta”). filho de um grande industrial. que detestam. 54 . Pediu desculpas por seu momento de fraqueza e. Eles lhes mostram até que ponto estão enclausurados. que lhe diz. não quero saber nada de seus problemas porque. experimentam um “ódio visceral de tudo que pode se apresentar como causa de si” (M. 36). naturalmente. desde então. até que ponto estão presos na apatia (SADE). 1984. Com efeito. esquecerei o que você disse e você poderá ter o lugar que sua competência merece”. Um indivíduo que reflete sobre si mesmo e. 270). quando os indivíduos estão nessa situação. se você continua. Além disso. não somente você não poderá pretender ficar na empresa dele. comportamentos dinâmicos mas não conformistas. Ele se tornaria o fraco. em termos mais gerais. formam uma nova maioria compacta.

destruir toda possibilidade de ser tocado” (M. Basta ouvir certos discursos ou notar certos atos referentes a toxicômanos. os “parasitas” (mãos-de-obra excedentes. pessoas que se comprazem em refletir sobre sua ação etc. “com essa apatia que permite às paixões se encobrirem”. quer dizer. “em demasia”. que todos aqueles que buscam articular sentidos. “o embotamento da sensibilidade” que o levará a cometer com “fleuma” todos os atos os mais criminosos. norte-africanos que “roubam o trabalho dos outros”. se evitam a si próprios.A interioridade está acabando? Lembremo-nos de que. como igualmente por um processo de desinvestimento letal que visa. Como dizia um chefe de empresa. o homem dinâmico. só podem ser consideradas como “parasitas” que a sociedade deve excluir ou. colocar em lugares criados especialmente para eles). Sente-se tanto mais admirável quanto mais foi possível fazer desaparecer tudo o que não pode ser incluído no ideal e que se encontra.. do outro. então. “Apagar. guerreiro e sedutor. todos os “estrangeiros” que devem conseguir se situar. para nos darmos conta da violência da possibilidade de exclusão que pode atingir todos os que não são “sadios”. por si próprios. todos os “marginais”. soropositivos e. todas as “minorias ativas”. Assiste-se a passagem de uma civilização da culpabilidade a uma civilização da vergonha. em seu corpo como em seu espírito. o verdadeiro libertino deve conhecer “o repouso das paixões”. 103-104). pelo menos. para SADE. pelo menos. dando a impressão de só se ocuparem de si mesmos. 55 . tal é o ser apático que é movido não somente pelo processo de contra-investimento anteriormente assinalado. doentes de AIDS. no dizer dos racistas. ENRIQUEZ). AULAIGNER. todos os “exotas”. de desprezo por parte de todos os que vivem na certeza e não na “perturbação de pensar” (TOCQUEVILLE. pode se transformar tranqüilamente em verdadeiro matador. “fazer correr sangue”. Quem não se amolda deve ser liquidado. O “matador frio”. p. possam se tornar objeto de ódio ou. num mundo a priori hostil ou indiferente. a propósito de “cortar gorduras”: não se deve temer “cortar ao vivo”. sem emoção. reedição de 1961. os que não se assemelham aos indivíduos que. Sente-se sempre mais puro quando foi possível fazer correr sangue impuro. ainda mais. 1835. assim.. Compreende-se. como escreve P. um piolho a ser eliminado. É interessante constatar que qualquer um pode se tornar um parasita. De um lado estão os vencedores. “à destruição da atividade de ligação e de articulação de sentido”.

da agressividade. ir além de seus limites. Uma civilização da vergonha é completamente diferente.Psicossociologia – Análise social e intervenção Ruth BENEDICT. infeliz de quem trapacear. quer o ato culpável tenha sido perpetrado ou não. Se ele for conhecido. demarcada demais e a culpabilidade da criança japonesa com relação à sua mãe foi evidenciada por outros autores. escalar um paredão com as mãos nuas. Basta que não seja descoberto. chamou a atenção para uma diferença essencial entre as sociedades ocidentais e a sociedade japonesa. O esportista que vence nessas condições não se sente de forma alguma culpado. fracassar. em nível esportivo (mas tudo não está sendo cada vez mais medido pelo padrão esportivo?). em sua aparência. sem dúvida. utilizando-se produtos proibidos. seja ele qual for. mas pela vergonha. Ben JOHNSON nos Jogos Olímpicos) quando provas esmagadoras caírem sobre ele. na demonstração das capacidades de ascese e de enfrentar riscos (andar sobre brasas. Da mesma forma. Tudo está no ato e em sua visibilidade.). seria exagerado dizer que nossas sociedades não são mais guiadas pelo sentimento de culpa. Todo ato repreensível. Uma civilização da culpabilidade só é possível se existe um sentimento de culpa. Ele será perseguido pela vergonha de não ter conseguido. simplesmente. mas o toca em seu ser social. portanto. voar em asa delta etc. ela só pode se desenvolver “no universo da falta”. um estudo sobre a sociedade japonesa. L. em condições normais. SERVAN-SCHREIBER. a vergonha se abate sobre o autor da ação. a fim de que o indivíduo possa ser recompensado segundo seu mérito. é mesmo a uma tal passagem (certamente inacabada) que estamos assistindo. 56 . 1988). Mas. No entanto. no interior de si. a luta. a honra e o dinheiro serão seus sem que. Essa distinção é. além do reconhecimento dessa luta. Essa última seria uma cultura da vergonha. ele se tornará objeto de vergonha (por exemplo. A vergonha não toca o indivíduo em sua intimidade. Ela supõe. tiver medo diante de todo mundo (pois essas condutas acontecem em grupo ou sob o olhar das mídias). por isso. um ato que atesta o dinamismo do indivíduo – é realizado. enquanto aquelas seriam uma cultura da culpabilidade. ao cosmos e ao infinito (que esse último seja chamado de Deus ou outro nome) além de uma aceitação da articulação do desejo e da proibição. Ora. da inveja e do amor. em O crisântemo e a espada (1946). é preciso que seja conhecido por todos. falta e sentimento de culpa requerem um interesse pelos vínculos que nos ligam a nós mesmos. se sinta culpável. Se um ato corajoso – ou. Insiste-se também na necessidade de “volta da coragem” (J. Se não for descoberto. Assim. vemos proliferar. aos outros. pode ser perpetrado. as práticas que permitem ganhar.

que não têm o gosto pelo efêmero ou por uma 57 . nascem a cada dia sob nossos olhos e. contra o racismo. os seres mais unidos e as organizações mais dinâmicas. necessariamente. Não se deveria pensar. apesar de suas imperfeições – normais. um outro artigo seria necessário para mostrar como a interioridade resiste e porque penso que a nossa época. o fanatismo. semelhantes nisso aos povos mais arcaicos). a lavagem dos narco-dólares. senão mesmo “marginalizados” todos os sujeitos que não são obcecados pelo sucesso social. sem culpabilidade. pelo jogo de aparências. acabará como todas as que tentaram suprimir o sujeito humano. necessários à vida humana. as notas frias. privilegiando a aparência. atos dos mais contrários à moral comum. Quanto mais vivermos no mundo do fazer e da aparência. (d) que o pensamento mágico prevalecente hoje em dia (estamos à beira da “onipotência das idéias”. felizmente -. o desenvolvimento da corrupção nas esferas da sociedade que haviam sido preservadas até agora) mostraria ainda melhor a que ponto se pode tramar.A interioridade está acabando? Só dei exemplos esportivos. uma vez que se pode negociar idealização e sublimação (movimentos pelos direitos humanos. Esse movimento de desaparecimento da interioridade não é inelutável. Direi simplesmente: (a) que o corpo resiste e que as mais variadas somatizações expressam até que ponto. Essa psicologização (ligada ao crescimento da civilização da vergonha) que tende a tornar impossível uma Psicossociologia Clínica encontra seus limites no número de excluídos que ela produz. enunciando que é possível tornar os indivíduos mais performáticos. podem ser criados sem que daí decorra. contra a pobreza etc. mais a civilização da vergonha se imporá e a culpabilidade ligada à interioridade desaparecerá. nas sombras. o corpo se encarrega de fazê-lo. podem mobilizar grupos a serviço de uma ética). quando não é possível falar-se a si mesmo. postos de lado. que o jogo está feito. Com efeito. Porém. (c) que os ideais fortes. são suspeitos. (b) que os fracos ideais propostos à identificação já provocaram formas de rejeição. já começa a ser profundamente criticado. com um único passe de mágica. Mas o estudo do mundo dos “negócios” (por exemplo. (e) que a psicologização exagerada dos problemas (o sucesso depende apenas da vontade do indivíduo de superar os obstáculos) tende a fazer desaparecer tanto o sujeito humano quanto o grupo e a organização nos quais ele atua. lendo as reflexões precedentes.

a delinqüência.). ser tratadas “na interioridade”. Na realidade. eles ainda as fazem “na exterioridade”. se indagar sobre a necessidade de dar ao psíquico (esse “inquebrantável núcleo da noite”. busca de identidade. encontram-se na mesma situação todos os que. de crédito. sem dúvida. que resistem à adesão maciça a uma organização ou a uma instituição “fanatizadas”. poderão. pois sabem bem a que aberrações tal concepção pode levar. mesmo se a interioridade. além das reivindicações relativas ao reajuste do salário ou à valorização digna de seus esforços). sem lhes dar uma retribuição mais adequada (como as enfermeiras. esses “esquecidos” da sociedade. à obrigação da performance sempre a ser renovada (diretores que tiveram aposentaria antecipada ou que foram demitidos. Eles não se dão conta. Sendo assim. entretanto. governa seus discursos e seus atos. tal como tentei delineá-la. com sua carga enigmática. em termos de necessidades a serem satisfeitas imediatamente (demanda de criação de empregos. da força de seus desejos reprimidos ou recalcados nem da própria realidade de seus desejos. Esses sujeitos. trabalhadores incapazes de se readaptar. apenas o fato de fazerem perguntas “na exterioridade” e de começarem a experimentar a angústia permite-nos esperar que eles possam um dia se por à prova. evitando o Charybde da exterioridade. que desejam uma vida regida por uma ética e que buscam um ideal sem cair. aceitando as regras do novo jogo. jovens sem qualificação e que têm como horizonte o desemprego. os animadores socioculturais etc. assim como as pessoas às quais se pede uma qualificação maior. veladamente. começam a se fazer perguntas. Mas eles não podem ainda ter uma representação clara do que. Esses “excluídos”. de afirmação ou de identificação. de espaços.Psicossociologia – Análise social e intervenção cultura de relações sociais valorizadas e mutantes. pelo sofrimento. sentem freqüentemente que suas exigências são de uma outra ordem (desejo de reconhecimento. as perguntas. são esquecidos ou eliminados por responderem insatisfatoriamente (ou por não mais respondem) aos critérios de “excelência”. não desapareceu e não está 58 . reconforto narcísico) e que o caminho para obtêlo passa obrigatoriamente pela interrogação. para retomar a expressão de BRETON) a parte que lhe é devida em todos os processos de transformação. necessariamente. por isso. Podem pensar que esses serão satisfeitos se a sociedade ou a organização cederem à sua demanda explícita. a droga. Sem dúvida. Nesse momento. os ferroviários. Entretanto. Mais ainda. de indústrias. na doença da idealidade. pela alegria. deverão se precaver. assim como pela capacidade de sublimação. para não caírem na Scylla de uma interioridade tal como foi definida por Thomas MANN – qualidade suprema do homem alemão que leva ao abandono do mundo objetivo e político6 –.

como diz Lutero.Topique. (N. “expressão pela qual Sto. descreve “os sofrimentos do jovem Werther” e inicia.). Le Verbier de l’homme aux loups. na qual o mundo objetivo. Cf. 1976. Considérations d’un apolitique. os “diários de bordo”. Segundo o Larousse. Rio de Janeiro: Imago. o mundo político. assim. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. assim. Entre la marionnette et Dieu. em suas constituições. pela emoção. do culto do inconsciente e dos instintos. p. por Sonia Roedel. o romantismo. é a absorção em si ou introspeção. com a formação. e TOROK. sem dúvida o mais apaixonado dos românticos e que sanciona sua vida por um suicídio. Eugène. Paris: Seuil. é necessário ter consciência de que a sociedade atual criou relações sociais suficientes para permitir aos homens evitarem a si mesmos e aos outros e. 3 Cf. 135. as autobiografias. é uma consciência cultural individualista.A interioridade está acabando? perto de desaparecer (como atestam a volta dos registros íntimos. Quanto a KLEIST. 61-76. 38-53. E. sobre KLEIST: E. 34. ENRIQUEZ. 2 Grandes escritores alemães. 1989-2. da poetização do universo. é sentido como profano e abandonado com indiferença pois. contribuindo para a onda de suicídios que pontua o princípio do século XIX. deseja escrever (e redige em parte) uma Enciclopédia. o homem dos Hinos à noite. com o aprofundamento do eu puro ou. S. Individualisme apolitique. 1987. da T. prescreve aos jesuítas a disciplina e a obediência a seus superiores. 1 6 Thomas MANN escreveu: “A interioridade. N. ENRIQUEZ. em termos religiosos. 89-112. v. reserva feita dos casos nos quais a consciência proíbe”. ABRAHAM. M.). não se confrontarem com o problema crucial da existência: o da alteridade dos outros e o da sua própria alteridade. a Bildung do homem alemão. p. GOETHE. Inácio de Loyola. seu oposto. p. da T. p. nunca se contenta de por ordem na vida e de dizer que é impossível viver sem “um projeto de existência”. p. NOVALIS e KLEIST testemunham esse movimento de ligação entre razão e paixão. 5 FREUD. Paris: Aubier. espírito racional e humanista por excelência. então. é. 163. Referências ABRAHAM. 1985. 1976. Notas Traduzido de ENRIQUEZ. é a inquietação com o cuidado. “Psicologia de Grupo e Análise do Ego” (1921). citado por L. ‘essa ordem exterior não tem importância’”. N. L’écorce et le noyau. 4 Como um cadáver (em latim no original). (N. involuntariamente. “Vers la fin de l’intériorité?” Psychologie Clinique. o gosto pelo mórbido. DUMONT. da salvação e da justificação da vida pura. Topique. 59 . com suas difusões amplas). “Immuable et changeante illusion: l’illusion nécessaire”. um subjetivismo espiritual apreciador da autobiografia e da confissão. NOVALIS. Paris: Aubier. XVIII. 1976. In: Sur l’individu. tão diversos quanto GOETHE. 37. 1962.

Notes sur l’exotisme (1908). L. “Ego distorsion in terms of true and false self (1966)”. J. Les visiteurs du moi. Trad. R. BENEDICT. 1984. francesa In: Processus de maturation chez l’enfant. L. M. L’identité. 1961. P. E. GREEN. Le sabre et le chrysanthème. 1980. S. narcissisme de mort. “Individualisme apolitique”. 25. Paris: Grasset. ps. Picquier. 1946. C. 11. Biblio-Essais. Paris: Seuil. Trad. “Psychologie des foules et analyse du moi (1921)”. Paris: Seuil. 1982. franc. Psychoanalitic quaterly. MIJOLLA. Histoire de la sexualité 3: Le souci de soi. In: Sur l’Individu. Trad. 1981. Paris: Les Belles Lettres. Paris: Gallimard. P. 1942. E. “L’Individu dans la cité”. 1984. de Minuit. 37. Paris: Seuil. 311-321. GREEN. A. 1985. D. 1975. Hogarth Press. nova. Topique. R. VERNANT. Topique. “Heinrich von Kleist: entre la marionnette et Dieu”. 1983. ENRIQUEZ. M. FOUCAULT. V. DUMONT. WINNICOT. J. n. “Immuable et changeante illusion: l’illusion nécessaire”. Le retour du courage. 1982. H. A. 309-330. BARTHES. A. 1987. Paris: Payot. Paris: Gallimard/Seuil.Psicossociologia – Análise social e intervenção AULAIGNER. “Some forms of emotional disturbance and their relationship to schizophrenia”. Paris: Payot. Nouvelle Revue de Psychanalyse. R. p. EPI. 20-37. FREUD. In: LEVI-STRAUSS. In: Essais de Psychanalyse. R. 1965. SERVAN-SCHREIBER. “Atomes de parenté et relations oedipiennes”. 60 . reedição. Paris: Gallimard. DEUSTCH. W. ENRIQUEZ. ENRIQUEZ. “Condamné à investir”. retomado em Nevroses and character types. 1962. In: Sur l’individu. Narcissisme de vie. p. 1987. La chambre claire. 1987. 1986. BARTHES. 1985. 1970. Barthes par lui-même. 34: 89112. Tomo I. Aux carrefours de la haine. de. Paris: Ed. SEGALEN.

então. Vamos um pouco adiante. neste texto. à primeira vista.OVÍNCULOGRUPAL1 Eugène Enriquez São numerosos os estudos sobre os mecanismos ou processos de grupos já constituídos. em um imaginário social comum. O projeto comum Um grupo só se constitui em torno de uma ação a realizar. enquanto não for possível responder às questões que se seguem. que têm uma história (mesmo que limitada a algumas horas. sem dúvida. Um projeto comum significa. no entanto. que o grupo possui um sistema de valores suficientemente interiorizado pelo conjunto de seus membros. no entanto. O que parece. as análises dos grupos em estado nascente. Tal sistema de valores. o que permite dar ao projeto suas características dinâmicas (fazê-lo passar do estágio de simples plano ao estágio da realização). Por imaginário social entendo que só podemos 61 . pois pode-se. O primeiro ponto que vou salientar – e que apresenta. mas não se está à altura de compreender. para existir. de levantar algumas hipóteses referentes aos elementos em jogo na formação dos grupos e na perenidade de sua ação. como os grupos de seminários ditos de dinâmica de grupo) e que tentam formar para si um futuro. fazer constatações e descrições finas da vida dos grupos. deve se apoiar em alguma (ou mais de uma) representação coletiva. a base sobre a qual são elaborados os princípios que presidem à instauração de todo grupo e que permanecem decisivos ao longo de sua história: O que favorece o vínculo grupal? Por que indivíduos se reúnem e chegam a funcionar como uma comunidade? O que permite diferençar um simples amontoado de sujeitos de um grupo consciente de sua existência e de seus valores? Eu gostaria. de início. esse problema é capital. de um projeto ou de uma tarefa a cumprir. São mais raras. Todos sabem e reconhecem isso. um caráter de evidência – é a necessidade de um projeto comum. menos evidente são as implicações e as conseqüências de tal axioma. Ora.

nos fazer sair de nossa cotidianidade e nos unir aos outros que partilham da mesma ilusão. é necessário que. sagrado.Psicossociologia – Análise social e intervenção agir quando temos uma certa maneira de nos representar aquilo que somos. correndo esse risco intelectual e social. Um dispositivo simbólico que funciona encobrindo toda dúvida. Ora. inatacável: assim. ele pode nos atrair. A idealização está presente na elaboração de um projeto comum.2 Se FREUD criticou tanto a ilusão religiosa é porque. mas afetivamente sentidas. nos fortificamos (reforçando simultaneamente o eu ideal e o ideal do eu). vigor e “aura” excepcional. Somente um projeto tido como objeto ideal e somente nós mesmos tidos como seres idealizados (mais puros. ele se apresente sob um aspecto religioso. trata-se de sentir coletivamente. só pode emergir e ter força de lei quando ligado a um sistema de idealização de nós mesmos e de nossa ação. transforma-se logo em um sistema de crença. pois ela é o elemento que dá consistência. tentando nos situar a uma altura que nos parecia antes inatingível. Não se trata unicamente de querer coletivamente. mais belos que os outros) podem ser elementos suficientemente mobilizadores para fazer-nos sair da apatia ou da simples expressão de nossa boa vontade. Pois o ato de crer permite a certeza e elimina a questão da verdade. de experimentar a mesma necessidade de transformar um sonho ou uma fantasia em realidade cotidiana e de se munir dos meios adequados para conseguir isso. Ela é um dispositivo simbólico que permite a canalização de nossos desejos. aquilo que queremos fazer e em que tipo de sociedade ou organização desejamos intervir. tanto ao projeto quanto a nós mesmos que. para que um projeto comum possa verdadeiramente nos mobilizar. nela. a passagem é rápida. ele via o protótipo de uma Weltanschauung que tinha a pretensão de dizer a verdade sobre a verdade e de incluir o indivíduo. com uma força particularmente viva. Mas esse sentimento. que nos poupa toda interrogação sobre o valor desses desejos e que fornece uma solução pronta para os possíveis conflitos entre esses. aquilo que queremos vir a ser. consciente e inconscientemente. a nossos próprios olhos. num grau maior ou menor. A ilusão deixa igualmente sua marca. Um grupo que queira fazer alguma coisa deve acreditar nela 62 . da ilusão e da crença. Da ilusão à crença. tais representações devem não só ser intelectualmente pensadas. motor de nossa conduta. Todo grupo funciona à base da idealização. nos inspirar. todo trabalho de interrogação sobre si. Para serem operantes. em um sistema de pensamento e em um sistema social que lhe tiravam toda possibilidade de pensar por si mesmo e de “trabalhar” as Condições e as conseqüências de seus comportamentos.

assimilando. pois esse não pode escamotear a questão da verdade. missão a cumprir. É verdade que algumas distinções finas se impõem aqui. bem à vontade. pois. ilusão e crença não funcionam de maneira maciça. toda a dúvida sobre os limites de seu poder. Mas isso não impede que esses três elementos estejam presentes. todos esses termos têm uma ressonância religiosa.O vínculo grupal (deve. na formação de todo grupo. idealização. que eles exerciam o militantismo psicossociológico). A causa pode ser sublime ou irrisória. Todo membro de um grupo é. Assim. Todo militante político pensa do mesmo jeito.). abusivamente sem dúvida. possa perder parte de suas ilusões. esse não é o problema. 63 . Idealização. pois esse não pode se estruturar se algum desses três elementos vier a faltar. o porta-voz e o guardião de “alguma coisa” que o ultrapassa e que legitima sua ação e sua vida (os primeiros psicossociólogos na França diziam. sua vida). verdadeiramente. grandiosa ou pueril. ilusão e crença levam-nos à noção de causa a defender. Para que um grupo se cristalize e crie seus meios de ação. Crê que deve ser capaz de se sacrificar pela causa que o motiva (a nação. consequentemente. de maneira mais ou menos forte. para se desenvolver. a revolução etc. suas práticas à da Psicanálise como um todo). o militante político arrisca. FREUD já pensava que a Psicanálise. o mesmo não se passa com um grupo no momento de se instituir. a fim de poder arregimentar toda a sua energia para o sucesso de seu projeto. Embora um grupo. A crença de um militante político revolucionário não é assimilável à crença de um pesquisador no objeto de sua ciência. Sua presença é indispensável e as modalidades de seu aparecimento são contingentes e arbitrárias. Causa a defender. eliminar toda inquietação relativa aos fundamentos do que quer realizar). em certa medida. é preciso que se refira a um grande propósito que lhe garanta sua onipotência e que encubra. à qual se agarraria com todas as fibras de seu ser (certos psicanalistas atuais não hesitaram em chamar sua escola de Escola da Causa Freudiana. deixando de considerar o que faz como visando ao ideal mais elevado ao qual pode aspirar e deve se referir. sobre a possibilidade de sua impotência. Todo membro de um grupo sente-se investido de uma missão (mesmo se ele mesmo se designou essa missão) à qual deve consagrar seu tempo e sua vitalidade. existente há muito tempo. E isso não acontece gratuitamente. Eles assinalam que o projeto pertence a um mundo transcendental e sagrado que assegura a seu portador a certeza de estar com a verdade e de ser tanto mais admirável quanto mais brilhante for o projeto. sacrifício da própria vida (às vezes no sentido preciso do termo: em certos países. deveria ser defendida como uma causa.

mas direi que. faz parte do bem comum ou se tornou mesmo um lugar comum. Pouco importa. propagar-se como uma mancha de óleo e. queira triunfar. “A dissidência de um só” (retomando a bela expressão de MOSCOVICI4 sobre SOLZHENITSYN) pode. a causa que ela representa já triunfou anteriormente. Essas pessoas sabem que. no caso de sucesso. isto é. ela só tem interesses a conservar e uma organização a consolidar. a manifestar uma conduta desviante em relação às normas da instituição ou da sociedade. encarnação da ordem estabelecida e das idéias esclerosadas e enrijecidas. caso uma minoria. IBSEN acreditava nos que diziam que “é a minoria que tem sempre razão”. membros do grupo. Do contrário. algumas vezes de uma só3 . geralmente. são sobretudo os seus discípulos e seguidores que ganharão com esse avanço. Para isso. de uma profissão ou de uma disciplina). talvez mesmo. são o feito de um número muito pequeno de pessoas. o da conjuração tramada no segredo e assegurada pela fé 64 . A maioria não tem jamais um grande propósito. lutando contra o que IBSEN já denominara “a maioria compacta”. a proclamar uma visão nova do mundo (ou. As idéias novas. sem exceção. imperativamente. Só um grupo minoritário (como os psicanalistas – e FREUD em primeiro lugar –. Toda minoria tem. um grupo que tem a comunicar uma mensagem nova. se representa e quer se definir como uma minoria atuante. progressivamente. vocação majoritária: mas. utilizado nos dias de hoje por todos os partidos políticos. ela deve. (Pensemos na afirmação da liberdade de todo cidadão no momento do sobressalto revolucionário de 1789 e no empobrecimento desse termo. A maioria tem por objetivo o de bem gerir o patrimônio coletivo e manter uma ideologia favorável à ordem social que ela instituiu. antes de chegar a seus fins. pode ser capaz de se arriscar para fazer triunfar o que presidiu sua fundação. sua luta não terá alma nem razão de ser. Eu serei menos afirmativo. mais modestamente. os primeiros psicossociólogos e numerosos outros exemplos).Psicossociologia – Análise social e intervenção Um grupo minoritário Se o grupo tem uma causa a defender e a promover. ela deve primeiro. A maioria não tem jamais uma causa a defender. mesmo pelos mais sedentos de combatê-la). atingir o grau de adesão que permite aos indivíduos se sentirem. isso significa que ele se pensa. nós o sabemos. têm poucas chances de serem bem sucedidas e as mais conscientes pressentem que. pois. se tornar a dissidência de muitos. um dia. acreditar que está com a razão. para se reforçar. triunfar. antes de tudo e contra tudo. só existe um caminho: o do complô contra os valores instituídos.

Assim. ao idêntico e à reprodução das relações sociais é. no passado. mas também que práticas sociais novas são possíveis e que representações coletivas renovadas devem guiar a ação. Ela não visa a propor outra coisa. o falo triunfante ou a mãe arcaica devoradora. Para que a vitória seja possível. Toda instituição. mas que um novo saber apareceu. mas pela luta. maneiras inovadoras de ser. A transgressão. o grupo vai tentar destruir as instituições. Como essas representam a ordem paterna. pois se funda em instituições sólidas. novas maneiras de ser ou de se conduzir. ser claro como a neve e se sentir irmão dos outros transgressores. enfim. mas propõe novas idéias.O vínculo grupal jurada (juramento que faz de todos os membros do grupo ao mesmo tempo cúmplices e irmãos). é preciso se definir pela intransigência e pela intolerância. mas enunciou uma nova teoria da psique e uma concepção da cura que coloca os fenômenos transferenciais e contratransferenciais entre o psicanalista e seu paciente no próprio centro da cura. que as práticas sociais e as representações coletivas não apenas não têm mais eficácia. não tentou apenas desarticular a antiga ordem psiquiátrica e a visão organicista da doença mental. Tal transgressão só pode ocorrer pela expressão de uma certa violência. a transgressão diz não apenas que o saber antigo é obsoleto. A contestação. ela é. visando à repetição. tirânico e conservador que se quer derrubá-lo. por exemplo. tornando claro o “nãodito” e o “não-pensado” da ordem social. Assim fazendo. não somente interroga de maneira virulenta as instituições e as condutas estabelecidas. E na maior parte das vezes ele o é. sintoma do trabalho da pulsão de morte (compulsão à repetição. 65 . vista como pulsão agressiva). que as idéias tradicionais tenham um fundo de verdade. Todo o dispositivo contra o qual se luta é percebido como fortemente hierarquizado. Não se ataca a antiga ordem com um debate cortês. Pouco importa que o ambiente seja menos repressivo do que se pensa. a sedimentação das relações de poder e das estratégias que. com efeito. contra um exterior percebido como tão obscuro. enquanto elemento da regulação social. Ela é o que impede a tomada de consciência das relações sociais reais e das relações humanas autênticas. ao contrário. sob certos aspectos. A Psicanálise. tem por objetivo questionar o sistema vigente. mas à sua transgressão. o grupo só pode lhes opor a ordem fraterna e igualitária. Luta empreendida em nome da verdade e da pureza. deram certo. desmistificando-o e desmitificando-o. visando não à contestação da ordem existente. na cristalização de desejos passados e de poderes estabelecidos. explicitando o implícito dos comportamentos.

não é só porque quer realizar um projeto coletivo. deve criar um acontecimento irreversível. O reconhecimento do desejo Em um grupo. isto é. fazer-se aceito em sua 66 . Se ele faz parte do grupo. Sem essa vontade de destruição. mas também favorece a emergência de um narcisismo grupal e evita todo conflito interno. não ser rejeitado. são essas as condições de constituição do vínculo grupal. todo grupo. não obstante. mediado por uma violência que substituirá a violência instituída e insuportável aos novos irmãos. porém sem sucesso. manterem essa confiança recíproca que não apenas os transforma em membros de um grupo. aliás. viu mais longe: ele se deu conta de que é o complô que torna os indivíduos. É o ódio ao exterior que vai favorecer o amor fraterno e fazer circular o fluxo libidinal que permite a passagem dos sentimentos egoístas aos sentimentos altruístas. graças a esse imaginário comum e não a outro. sem esses sentimentos de serem perseguidos pelos detentores da ordem antiga. tornar seus sonhos reais. Esse problema é o do conflito entre o desejo e a identificação ou. permitindo-lhes formar entre si uma verdadeira comunidade. violência fundadora de um novo mundo. sentimento de serem minoritários e portadores da verdade. O desejo e a identificação O grupo assim formado vai se encontrar diante de um problema estrutural que tentará tratar continuamente. mas sobretudo porque pensa que é com essas pessoas e não com outras. que pode chegar a tornar seu desejo reconhecido em sua originalidade e em sua especificidade. Ele quer se fazer amado pelo que é ou. seria impossível aos indivíduos reunidos trabalharem juntos ou se amarem. conquistar prestígio ou uma certa posição social e quer realizar o que sente como se fosse a própria essência de seu ser. sentimento de serem irmãos e de formarem uma comunidade de iguais. amor ao grupo enquanto grupo. Se nem todo grupo tem que matar o pai da horda. a não ser entre irmãos. irmãos uns dos outros. entre o reconhecimento do desejo e o desejo de reconhecimento. Não há complô verdadeiro. ao menos.Psicossociologia – Análise social e intervenção FREUD compreendeu isso bem. a priori estranhos ou rivais entre si. FREUD. cada sujeito procura exprimir seus desejos e fazer com que os outros os considerem. Ódio ao exterior. identificados uns aos outros (tendo trocado sua diferença e sua provável rivalidade por um amor mútuo e maior semelhança). amor mútuo. em outras palavras.

não teria podido fazer parte da conjuração. ele apenas é o irmão mais velho e mais experiente) pode resultar na formação de indivíduos uniformes. O desejo de reconhecimento ou a identificação Mas. Essa semelhança buscada. igualmente. ser reconhecido como um de seus membros. inventores de normas rígidas e profundamente interiorizadas. Para que os diversos membros do grupo se reconheçam entre si. Aliás. não poderia ter sido aceito por seus semelhantes. o sujeito não quer apenas expressar seu próprio desejo. às quais cada um deverá se submeter.O vínculo grupal diferença irredutível. nesse caso. essa igualdade insensata (mesmo quando um sujeito se destaca. querendo formar uma comunidade. não devem ser muito diferentes uns dos outros. em um grupo. diferenciação A MASSA Num tal caso. colocando um mesmo objeto de amor (a causa) no lugar de seu ideal do eu. uma sociedade secreta com seu ritual e seu código). em seu ser insubstituível. pode caminhar ou na direção de se tornar massa ou na direção da diferenciação. cada sujeito (e cada grupo) será enredado nesse conflito estrutural entre o reconhecimento do desejo e o desejo de reconhecimento. como ameaça real e não como elemento da ordem simbólica. eles se tornarão semelhantes. Cada sujeito tentará então amealhar os outros nas redes de seus próprios desejos. De todo jeito. um corpo social completo. Tal perspectiva comporta cinco séries de conseqüências: 67 . estar a par do “segredo” (um grupo em estado nascente é sempre. quer. formarão um verdadeiro corpo social e não um aglomerado de indivíduos. Assim sendo. eles devem se identificar uns aos outros. manifestar no real suas fantasias de onipotência e denegar a castração que é vivida. para que possam se amar. se não o desejasse. Assim. é o desejo de reconhecimento que predomina. em maior ou menor grau. O grupo não tolera a diversidade de condutas e de pensamentos. homogêneos. basta pensar no aspecto estereotipado das atitudes de certos psicossociólogos não diretivos ou de psicanalistas “lacanianos”. O único problema é a mais estrita identificação. O grupo. Mais ainda – e aqui também FREUD nos abre o caminho –. cada grupo terá a tendência a resolver o problema escolhendo uma dessas duas direções. Para se dar conta de até que ponto uma ideologia vivida conjuntamente pode dar lugar a uma linguagem hermética e a condutas normalizadas.

então. o emprego de uma linguagem de clichês e de uma “ideologia de granito” (Cl.O grupo completo vai progressivamente se autonomizar e suplantar seus membros. despertar as fantasias mais arcaicas – medos de fragmentação. 68 . à primeira vista.6 de um grupo onde dominarão as imagens arcaicas e no qual os comportamentos serão de tipo pré-edipiano. no grupo. de indivíduos os mais emocionais. narcisismo individual e narcisismo de grupo coincidem. Ocorrerão comportamentos regressivos. o grupo tem o sentimento de euforia por se constituir como massa. capaz de nos devorar ou de nos englobar totalmente e ao qual devemos necessariamente obediência e submissão. Ao contrário. progressivamente. avança cego. face a um grupo “sorvedouro. pensando dar satisfação ao seu próprio eu ideal. angústias de explosão.A compacidade do corpo formado vai.A semelhança pode. senão os mais perturbados. tentativa de destruição do outro ou de autodestruição do grupo. sem-fundo”. por ser o mais forte e o mais belo. de tipo defensivo: suspeita mútua. abismo. Cada qual se perde na construção do eu ideal do grupo. em tal caso (como no do indivíduo perfeitamente couraçado que vive uma angústia insuportável de brechas). sabemos que as mercadorias criadas pelo homem acabam por revestir o aspecto de “seres independentes em comunicação com os homens e entre si” e por tomar a “forma fantástica de uma relação de coisas entre si”. 4. Nenhum conflito intra-individual ou inter-individual parece possível. tomando as características de um corpo todo-poderoso. LEFORT). delação. coberto de certezas. a degradação da reflexão e da inventividade. igualmente. predomínio de fenômenos afetivos nas tomadas de decisão. desenvolver condutas que. a falta de inovação e. Assim como. mas que. sabemos agora que toda criação humana acaba por se desligar de seus criadores. O grupo. Estamos. Aliás. influência. 3. foi antecipando a emergência desse sentimento que a comunidade se dirigiu para essa via. de devoração e de destruição – que são apanágio de todo grupo. a partir de MARX. que será particularmente dura de suportar. Que ele se guarde da desilusão. portador da “verdade” (!).5 2.A falta de diferenças provoca. O grupo se torna objeto de todos os investimentos.Psicossociologia – Análise social e intervenção 1. não parecem defensivas. com efeito. sem que se perceba. tomam um vigor particular. crédito a rumores e às palavras mais aberrantes. sentimento de um meio hostil.

em um seminário para diretores de um centro de jovens inadaptados. ele esquecerá os objetivos que deve perseguir. A DIFERENCIAÇÃO Certos grupos admitem. mesmo se as posições de cada um são defendidas com clareza e determinação. acreditará que um projeto tem tanto mais chance de ser pertinente. cada qual reconhece a competência do outro (ou de um outro subgrupo) em domínios específicos que utilizam abordagens e técnicas adequadas (assim. Teme-se mesmo que o grupo se desagregue em subgrupos ou em partidos. ao contrário. A aceitação do conflito institucional como modo normal de regulação do grupo pode acarretar. então. Todo mundo. irmãos em sua capacidade própria de pensar e de agir. em certos momentos. (Assim. No entanto. então. de argumentações contraditórias.Se. tive a surpresa de 69 . os educadores. uma maximização das contradições e pode orientar a maior parte da energia do grupo para a resolução desses conflitos. todo mundo concorda com a idéia de que a cooperação nasce da expressão e do tratamento de conflitos. cada qual acreditando deter a verdade. Se não se trata de questionar o projeto comum. serão excluídos do grupo. No limite. o grupo acabará por esquecer o seu projeto e passará a maior parte de seu tempo tentando analisar e compreender o que se passa.O vínculo grupal 5. eficaz e de suscitar adesão ou mesmo entusiasmos. A tolerância existe. alguns membros do grupo suportam mal essa situação de massa. quanto mais ele se apresentar como o resultado de discussões finas. chegando ao abandono de toda identidade pessoal. de negociações rigorosas. o psicólogo e o psiquiatra poderão trabalhar em conjunto e não um contra o outro). como frouxos ou traidores. a concepção que tais grupos têm desse projeto não apresenta nenhum aspecto monolítico. como a cooperação idílica não existe mas. Em tal caso. a administração. uma diferenciação dos indivíduos e uma variedade dos desejos expressos. O grupo se centrará em si mesmo. “níveis insuportáveis” (FREUD). orgulhoso de suas prerrogativas e seguro de estar no bom caminho. Se aceitaram durante longo tempo o processo de uniformização. é possível e mesmo provável que o grupo viva momentos de desacordos e tensões que podem mesmo atingir. em um centro de jovens inadaptados. ao contrário. por acaso. Os membros do grupo são. em seu interior. A vontade operatória desaparecerá para dar lugar a uma expressão afetiva superabundante. encontrarão as maiores dificuldades para se reinventar uma nova identidade e para não reagirem simplesmente como “homens de ressentimento”.

por isso. no qual a referência ao novo pai e a seus ideais se tornará o elemento essencial que permite a identificação mútua e a coesão do conjunto. investindo-o então como chefe capaz de encarnar a vontade e os desejos do grupo. rivalidade entre os discípulos para serem o eleito do mestre. nos países ocidentais. Esse. Para não chegar a esse ponto. uma influência que vem do domínio das idéias. enquanto professor. Nesse caso. vê-los reclamar da perda de tempo ocasionada por eles). os grupos que admitem a diferenciação e que querem se gerir de maneira democrática. acabam por reconhecer em um de seus membros um poder que vem de sua experiência. crença cega no caráter de verdade daquilo que ele disse. Um super-eu coletivo surgirá e o chefe será seu portavoz e seu guardião. as grandes ausentes de seus discursos eram as crianças de quem se encarregavam. Fenômenos regressivos do tipo submissão. “personalização do poder”. Entretanto. insistirão na uniformidade ou na diferenciação (o momento final dessa consistindo na restauração de um líder. Essa vítima pode ser alguém que não é de modo algum responsável pela situação atual ou a pessoa que se revela mais frágil e. Em qualquer caso. os processos de grupo girarão em torno da pessoa central. mestre do pensamento e da ação). A paranóia nos grupos De acordo com cada caso. tentativas escusas de fazê-lo cair de seu pedestal. se torna um grupo edipiano. é freqüente. e no domínio da Psicossociologia conhecemos como liderança. Quando o grupo não consegue resolver seus problemas. de suas relações com o conselho de administração e da amplitude de seus poderes. eu deveria ter ficado menos surpreso. repetição da palavra do mestre. assim transformado. novos complôs para tentar tomar o seu lugar ou para ridicularizar seus atos. 70 . tudo isso corre o risco de aflorar e de monopolizar uma grande parte das capacidades do grupo.Psicossociologia – Análise social e intervenção constatar que esses diretores tratavam apenas de problemas da organização de seus centros. pois ninguém tem medo de fazê-lo e cada qual pode exteriorizar sua agressividade. a única que o grupo pode sacrificar levianamente no altar de seus problemas. aquela que é considerada como tendo e sendo o falo. ao contrário. os grupos serão então do tipo pré-edipiano ou do tipo edipiano. será tentado a achar um bode expiatório. com toda impunidade e sem temer medidas de retaliação. encontra aqui sua razão de ser e seu campo de aplicação. É raro ouvir professores falarem de estudantes. O que em política se chamou “culto da personalidade” ou.

pois um grupo minoritário. os membros do grupo estão condenados ao amor. Se o grupo é bem sucedido. os grupos não podem se esquivar. a única digna de ser respeitada. se nós nos damos muito ou nem tanto ao grupo. Correlativamente. em maior ou menor grau. é o de saber se nos amamos bastante (se amamos bastante o grupo). para existir. A situação minoritária obriga os indivíduos a se sentirem solidários e a se amarem. Com efeito. eles estão também condenados à suspeita contínua e aberta. O problema não é mais saber o que devemos fazer juntos. isto é. só pode ter sucesso em sua tarefa se estiver possuído por uma fantasia de onipotência. de todo modo. o grupo corre o risco do fracasso. E não serão só os inimigos que serão perseguidos. tornar-se majoritário. Os raros inimigos que lhe restam serão perseguidos tanto mais duramente quanto mais tiverem se recusado a se submeter à nova lei. podem. se os indivíduos não se entregam ao jogo ou o revertem a seu favor. Correntes de amor e de ódio percorrem o grupo. Uma tal paixão tem pesadas conseqüências. mas quem são os amados e os rejeitados. impôs a seus membros que investissem libidinalmente nele e também uns nos outros. se consegue impor os seus ideais ou transformar. dos processos paranóicos que os atravessam constantemente. os discípulos eleitos e os indivíduos excluídos. em sua vontade de mudar a ordem na qual intervém. inscrever seu sonho na realidade. ele não pode mais duvidar de estar com a verdade. O amor desemboca no ódio. se alguns se aproveitam da situação refreando seu amor. o campo social. Assim. mas também a se defenderem contra o exterior e a se entre-devorarem. mas também os fracos. querer estabelecer vínculos privilegiados com outros membros. rendemse ao discurso de amor proferido pelo chefe ou ao discurso de amor comum. se somos suficientemente amados. como já constatamos. o grupo minoritário que. do mesmo modo que estão condenados à crença. tende a desenvolver relações fortemente erotizadas entre seus membros e a fazer emergir um discurso passional. Ora. para afirmar a primazia de sua posição fálica.O vínculo grupal Mas. Essas questões não podem ser elucidadas. Os membros do grupo podem indagar se alguns dentre eles jogam bem o jogo do amor. A tentação paranóica está pois sempre presente e acompanha o processo libidinal. as pessoas conformistas e os traidores potenciais. sendo bem sucedidos ou não. a fantasia de onipotência desemboca no sentimento de ser perseguido por inimigos exteriores (pela maioria compacta) e também por inimigos internos que utilizam o fluxo de amor em função de sua grande glória. 71 . transformado muitas vezes em processo de erotização. igualmente.

Confia-se na linguagem (como na cura analítica) para esclarecer os problemas. particularmente quando o grupo é composto por pessoas (psicólogos.Psicossociologia – Análise social e intervenção os indiferentes. de outro lado. assim como todos aqueles que dão testemunho de outra possível verdade ou de um sentido que não é o sentido do grupo triunfante. mas gostaria de sublinhar que ele não é uma panacéia. isto é. mas ela não atua com a mesma intensidade em todos eles. no entanto. Ora. se ele não provoca impacto social. deixar claro: A paranóia é constitutiva de todo grupo. mas outro que está ainda para ser encontrado. O grupo é incapaz de se interrogar sobre as verdadeiras raízes de seu fracasso. serão inventados segundo as necessidades e. pois o triunfo revolucionário deverá ser sustentado. Ele os acossará internamente e agirá ruidosamente no exterior. isto é. é o contrário que seria de espantar. 72 . Com efeito. Para ele só existem os perseguidores ativos ou potenciais. com o fato de uma revolução devorar seus próprios filhos. Ela representa uma tentação constante. Se. É preciso. educadores. psiquiatras. qualquer um é sempre o frouxo ou o traidor para alguém ou para alguma facção). E elas não são difíceis de encontrar: são os inimigos exteriores que fecharam as portas para a vitória e são os inimigos internos que sabotaram os esforços comuns. Quem não se enquadra no discurso de amor comum deve se submeter ou desaparecer. Muitos observadores se espantam. em sessões conduzidas por um analista interno ou externo. De fato. psicanalistas e psicólogos pregam habitualmente a necessidade de uma análise aprofundada e de uma regulação do grupo. mas não é um resultado inelutável. além disso. é a ação (o projeto comum) e não a linguagem. Para tratar esse elemento constitutivo e desativar sua estrutura mortífera. o grupo fracassa. em um processo de análise: 1. o organizador do grupo. os marginais. para dizer que ele ainda subsiste. trabalhadores sociais) habituadas a se interrogar sobre suas motivações e que acreditam ter uma certa proximidade com seu inconsciente. se seu ideal parece ridículo e sem interesse para os outros. por exemplo. Com efeito. Eu não quereria desacreditar o interesse de tal trabalho. havendo sempre os frouxos e os traidores em potencial (se esses não existirem. ele vai procurar as causas de seu fracasso. o elemento em torno do qual o grupo se constitui. esse canto de morte nada mais é que um canto de cisne e sintoma de sua decomposição lenta e inevitável.

o grupo levantará as mesmas questões durante anos. 2. há muito tempo atrás. Deveríamos. não será possível tomar consciência do todo (o sentido permanecerá para sempre velado). às custas do mal que nutrem com gosto. e o disse muito bem. que se traduziria em uma erradicação ainda mais radical. Aí também há muita ilusão. no entanto. Outras vezes.O vínculo grupal Nessas sessões trabalha-se com a hipótese de que a linguagem e a ação são forçosamente complementares e que. isso seria amenizar as funções e o alcance de uma análise. sem jamais chegar ao menor esboço de solução.A tomada de consciência é tida como um elemento central da regulação e da capacidade de mudança do grupo. Além disso. quando esse perde os motivos para se apegar a um projeto que não reforça mais o narcisismo individual e coletivo. Na própria medida em que ela interpela os processos de idealização. de maneira recorrente. FREUD disse isso. ter em conta que o grupo não se suicida facilmente e que retira benefícios consideráveis do mal que pensa sofrer. A análise pode dar um sentido mas pode também desarticular. tendo a possibilidade de exprimir seu poder e seus sentimentos. Muitos atos e condutas só ganharão sentido muito tempo depois. Se. a linguagem (a análise) pode e deve acompanhar a ação. ao invés de tentarem o inferno de uma elucidação radical. Ela pode levar à dissolução do grupo. 73 . os problemas serão evocados sem serem tratados a fundo. pois a tomada de consciência levaria a tamanhos perigos que tudo concorre para impedi-la. Ficar-se-á perplexo ao constatar que. ela pode agir como função de desconhecimento e obscurecer os problemas. de crença e de ilusão. arriscar-se a ser amado. em muitas circunstâncias. a tomada de consciência se produz. ela pode atacar o fundamento mesmo do grupo e abalar as certezas mais enraizadas. De fato. as pessoas se entregarão a descargas emocionais. Isso não é sem importância e os grupos freqüentemente preferem viver dolorosamente. em certos casos. O grupo corre pois o risco de fazer a análise pelo prazer da análise. para adquirir uma competência interpretativa ou para se atribuir uma consciência boa. em vez de favorecer o seu esclarecimento. assim. É importante não nos esquecermos. serão feitas análises superficiais. Viver na angústia e na violência é se sentir viver. quando não mais for possível fazer o que quer que seja para evitar suas conseqüências.

p. pois aquilo que ele trabalha é a própria razão de sua existência. Psychologie des minorités actives.” (FREUD. Cf. MOSCOVICI. Ma vie et la psychanalyse. J. mas é preciso não querer ir muito longe. se dar conta de que tal tarefa é limitada. Bulletin de Psychologie. 1983. por dez anos. 2 3 4 5 6 74 . uma solução. A elucidação do grupo por ele mesmo é uma exigência que não pode ser. um grupo deve reconhecer e trabalhar suas clivagens. S. Seuil. LEFORT. fui o único a me ocupar dela e. P. Segundo os termos de C. CASTORIADIS. Tomo XXXVI. C. n. suas angústias e. lá mesmo onde se havia pensado vê-la desaparecer. 4. por José Newton Garcia de Araújo. “L’illusion mantenue”. PONTALIS.F.Psicossociologia – Análise social e intervenção Nada resta então a fazer? Há ainda algo a se fazer. Por dez anos. Gallimard). Eugène. suas relações de poder. ao mesmo tempo. S. seus antagonismos. Um homme en trop. Acreditar nela é ir em direção a novas decepções e ressuscitar a ilusão. Nouvelle Revue de Psychanalyse. B. Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. “Le lien groupal”. FREUD podia escrever com orgulho: “A Psicanálise é minha criação. 631-637.U. em caso algum. foi sobre minha cabeça que se abateram as críticas pelas quais os contemporâneos expressaram seu descontentamento e seu mau humor em relação à Psicanálise. no 360.

os acontecimentos que se produzem atualmente. 1985). se me detive a explicitar tal proposição. então. mesmo que essas considerações preliminares possam parecer um pouco longas. experimentadas por um número cada vez maior de nossos contemporâneos. em Grenoble. que o presente estudo é muito diferente (apesar de não o contradizer) de um primeiro texto meu respondido por Jean-Léon BEAUVOIS. a fazer uma exposição intitulada “Mal-estar nas identificações”. (Malraux) As dificuldades relativas às referências de identificação. constituem um fenômeno bastante forte para terem me levado. na verdade. passar despercebida (ela provoca mais impacto que a tentativa de “reinventar a democracia”) e porque ela tende a ser reforçada nos próximos anos.OFANATISMORELIGIOSOEPOLÍTICO1 Eugène Enriquez Mas nós. quem somos nós? (Plotino) O século XXI será religioso ou ele não existirá. tanto no Leste da Europa. Essa exposição se encontra na obra coletiva dirigida por BAREL (1985). atualmente. Devo acrescentar. convincente e inquietante. Creio não ser o caso de retomar aqui os argumentos desenvolvidos ou evocados naquela ocasião. 75 . que meu discurso seja recebido como suficientemente coerente. Ele não pretende eliminar as outras vias de solução nem designar a solução que ora apresento como a mais freqüente. por ocasião de um colóquio organizado por Yves BAREL. Entretanto. 1983. Com efeito. mas simplesmente de assinalar que citei a tendência a reencontrar certas “referências duras” entre as condutas desenvolvidas pelos indivíduos e pelos grupos para sair de uma situação “onde tanto a perda das referências quanto a multiplicação dessas nos fazem penetrar em um universo no qual as potencialidades persecutórias são inumeráveis” (ENRIQUEZ. O texto que proponho aqui tem a finalidade de explicar o que entendo por “referências duras”. Espero. não deve. quanto nos países do Norte da África e no Oriente-Próximo. é porque me parece que essa tendência. de modo algum.

Psicossociologia – Análise social e intervenção trazem argumentos complementares à minha tese e tendem a torná-la ainda mais radical do que era em sua primeira versão. ela nos religa uns aos outros. como o pensavam DURKHEIM e FREUD. Assim. às custas da própria vida – encontrou pouco sustento para crescer. necessariamente. Ao contrário. como indivíduos que dependem da existência de um Sagrado transcendente e obrigados. A religião produz então o “ser-junto”. às vezes com reticência. seja como ser coletivo). elas não colocavam mais problemas particulares. Pois bem. A César o que era de César. A religião nos institui como seres heterônimos (segundo a expressão de CASTORIADIS). Não existe corpo social nem orientação normativa desse corpo sem religião (sem culto dos ancestrais. além de nos sentir para sempre em dívida. desde a entrada na modernidade) souberam deixar um espaço ao religioso. pode-se dizer que. *** Tratar conjuntamente do fanatismo religioso e político significa que a religião. as religiões no mundo moderno ocidental desempenharam. a lhe render uma homenagem constante pelos dons recebidos. 1989). mais exatamente dos) fanatismo religioso e político (cf. As crenças. o fanatismo religioso – isto é. no entanto. um ritual compartilhado que é preciso defender. está na própria base da instauração da comunidade (e mais tarde da sociedade) e de seus modos de gestão política. sustentadas por rituais 76 . ao longo do tempo. No conjunto. com relação a ele. sem totens. a Deus o que era de Deus. a se apresentar sob a máscara do fanatismo. ela nos protege da angústia do caos primordial e de uma interrogação que poderia apontar o aspecto arbitrário de nossa presença no mundo (seja como ser individual. sem lhe outorgar. o papel que lhes estava destinado. sem deuses ou sem Deus único). ou seja. um dogma. apesar de todas as diferenças possíveis de se observar em seus modos de existência social). enquanto as sociedades (desde a Revolução Francesa. de maneira privilegiada. dizer que a religião é consubstancial a todo corpo social e a toda forma de governar esse corpo. A referência dura se exprime para mim. no renascimento do (ou. sob pena de exclusão da comunidade. isso não a obriga. deixando ao Estado e ao seu aparelho educativo o cuidado de completar ou de contradizer seus próprios ensinamentos. as grandes religiões monoteístas foram. um domínio completo sobre as consciências e um papel central na organização política (esse foi o caso tanto nas sociedades arcaicas como nas sociedades do antigo regime. igualmente ENRIQUEZ. a crença exacerbada em um mito. se depurando.

As ideologias que me interessam não são os sistemas mais ou menos formalizados de idéias que buscam uma coerência e que orientam a ação dos homens. salvo ao aparelho da Igreja que começava a se dar conta das conseqüências. É necessário precisar o significado que dou a esse termo.O fanatismo religioso e político pouco numerosos e pouco restritivos. Entretanto. o Proletariado como Salvador messiânico da humanidade. porque é 77 . ENRIQUEZ). transformada apenas em uma religião enfeitada com seus últimos esplendores. dos padres operários. que se assumiam cada vez mais como operários e cada vez menos como padres. mas à criação de religiões substitutas. a longo prazo. o Trabalho como grande integrador (segundo a ótica de Yves BAREL). sem se dar conta disso na maior parte do tempo. permitindo-lhes se situar e dar razão à sua existência e às suas condutas. venha a lhes aliviar “a angústia de pensar” (TOCQUEVILLE) e lhes assegure. colocando-os num lugar de submissão a um imperativo de conduta que. a longo prazo. um estado psíquico onde o conflito não aparece. Essas religiões substitutas nada mais são que as ideologias. ARON. como acreditaram grandes autores (em particular Max WEBER). como desejava DURKHEIM. mas foram se laicizando. quando as religiões estabelecidas passaram a não ter mais a mesma força de convicção e se tornaram assuntos privados (o homem dotado de razão. “introduzindo a unidade na diversidade” (HEGEL). tendo por missão engendrar uma sociedade sem classes. laicas (E. como medida de todas as coisas. a tornar-se um Deus para os outros homens – homo homini DEUS). tendo como papel levar os indivíduos a idealizarem a sociedade atual (ou futura) e seus mestres (presentes ou futuros). O episódio. a Sociedade ela mesma se admirando na sua capacidade de se transformar e de desenvolver a ciência e a tecnologia. Todos os homens. uma sociedade da transparência e da reciprocidade. é um bom exemplo desse desvio tranqüilo que não incomodava a ninguém. o Estado como aparelho separado. tornando-se mestre de si mesmo e de seu destino. do declínio de uma fé sincera e manifesta. se resumiam em uma ordem moral geral bastante branda. não assistimos. profanas (MOSCOVICI). em todas as sociedades (modernas) seriam então ideólogos. aspirando assim. que alguns autores vão denominar religiões seculares (R. J. quando o reino de um Sagrado transcendente foi se acabando. Algumas religiões. a qualquer preço. STOETZEL). além de assumir o progresso indefinido do espírito humano (segundo a fórmula de CONDORCET). na França. ao “desencantamento do mundo”. Novos Sagrados vão aparecer: o Dinheiro. regulando e freqüentemente dominando a Sociedade civil. baseadas mais ou menos nesses diversos Sagrados. Elas continuavam a assegurar um papel de estabilização das relações sociais. passam a se desenvolver.

pois. na França. Quando falo de religiões substitutas. quer sejam os pais. de fato. de ideologias totais (LYPSET. eu falo de Weltanschauung (de uma concepção de mundo). Mesmo quando a ideologia se apresenta sob aspectos menos totalizantes. 1963). e que favorecem a unidade do eu ou do corpo social. O termo designa então um modo de funcionamento tão comum da psique individual e coletiva que não apresenta nenhuma qualidade particular. depois. isso não impede que ela tente dar uma boa forma aos indivíduos. A ideologia pode. como um conjunto de idéias e de valores ao qual também podem ser opostos outras idéias e outros valores.Psicossociologia – Análise social e intervenção impossível viver sem ser regido. racional e calculador dos custos ou vantagens que ele pode esperar de seus comportamentos. por um conjunto de idéias nas quais acreditamos. eu falo então de um conjunto de valores que têm força de lei. saber que é indispensável exportar aos países que ainda vivem na barbárie 78 . por ENGELS e. após a morte de MARX. mas como um corpus científico do qual se pretende que só podemos escapar por má fé. A ideologia capitalista-liberal é então uma ideologia. os chefes de guerra ou os chefes de Estado. apóia-se sempre em um sistema articulado de crenças) ser discutida cientificamente e se apresentar. de votos etc. a boa forma da obediência aos que detêm o saber. não como uma ideologia (quer dizer. para conduzir sua vida cotidiana de maneira justa e científica. plenamente possível dizer o mesmo da ideologia marxista (tal como ela foi recolocada. governado por uma lei fundamental: a lei da oferta e da procura. É. mas que atribui a si o ajuste definitivo de leis objetivas da natureza e do social. permitindo compreender o funcionamento e a evolução da humanidade. os mestres. Os sucessores de LENIN levarão tal proposta muito mais longe: um bom comunista deve conhecer as obras de STALIN ou o pequeno livro vermelho de MAO. por LENIN) que recusa levar o nome de ideologia. pois. tal como a ideologia republicana. um homem agindo em um mundo transformado num imenso mercado (de bens. (mesmo se. 1976). da ideologia de granito (LEFORT. porque ele se designa a si mesmo como expressão de uma verdade científica que não seria posta em dúvida e que fornece aos indivíduos e aos grupos a resposta única e definitiva às questões que a vida leva-os a se colocar. de modo que a escolha a ser feita dependa unicamente das preferências individuais ou coletivas). na medida em que ela se funda sobre uma representação do homem (homo oeconomicus). sob a IIIa República. ou mesmo quando ela pode admitir certas contradições trazidas pelas instituições específicas que dividem entre si as funções de regulação da sociedade.). conscientemente ou não. mais ou menos fortemente. então. de serviços.

ideologias “compactas” que. Uma religião só existe quando “a comunidade de crentes” (e não é por acaso que eu utilizo as mesmas palavras. não pode estar na origem de nenhuma religião. cheia de calor para com seus adeptos e cheia de ódio contra os indivíduos livrespensadores. que ela pode livrar os homens do ódio inconsciente de si. representaram um papel menor na dinâmica social. impor sua intolerante visão de mundo sobre as outras visões. a negar. Uma religião. Ela então regula essa questão central da alteridade. sozinhos. que já mencionei. Essa concepção da ideologia me obriga a retomar a questão religiosa. antes mesmo que seja colocada. reunidos em comunidade. sob pena de desaparecerem ou de serem predestinados às piores torturas. heréticos ou descrentes. pelo sacrifício de seus mártires. as religiões tinham uma face muito diferente daquela – boazinha –. têm por função fundar “uma comunidade de crentes”. provocando a submissão e a admiração de povos inteiros. É assim que ela pode formar uma cultura. vão se impor como lei. 79 . conseguiu se desenvolver. na época moderna. que produzem uma cultura própria. em maior ou menor grau. então. por seu caráter absolutista. como uma Igreja com seus templos. pelo ferro e pelo fogo.O fanatismo religioso e político (colonização). indica que a seita. As ideologias que eu evoco são. a “minoria ativa” (MOSCOVICI. Eu havia dito acima que religião não significava fanatismo e que as religiões. que ela assegura sua identidade. devem estabelecer com o Sagrado. como as religiões. Uma religião é uma mensagem sobre a transcendência e sobre as Relações íntimas que os seres humanos. quando as religiões se enfraquecem. 1979). elegendo dogmas e rituais violentos que são o sinal de sua força conquistadora. Mas é preciso observar que. jacente em todo ser humano. no cerne mesmo da sociedade. projetando-o nos outros. constituindo-se. Essa mensagem é sempre anunciada por um indivíduo cercado de discípulos e que forma uma seita. Um grupo minoritário. e foi capaz de se designar os inimigos “ideais” a excluir. Toda religião se alimenta da idealização e do ódio contra o outro. é assim que ela fornece a seus adeptos o sentimento de formar um “nós”. quando evoco a religião e a ideologia) soube recalcar certos desejos e certas fantasias. por sua força de convicção. a converter ou a destruir. Um tal sucesso só tornase possível se ela souber. desejando continuar minoritário e sendo tolerante com outros grupos. substituindo-os por outros que. as ideologias (que pretendem ser a encarnação da cientificidade) asseguram sua continuidade porque. estabelecida e difundida (eu me refiro aqui somente às religiões nascidas no Oriente-Próximo).

“poetas”. já que as informações sobre esses tempos longínquos são raras). no “sentimento oceânico” (R.Psicossociologia – Análise social e intervenção Uma tal descrição da religião chocará os “crentes” que insistirão. porque a morte santifica e promete o paraíso. seres ao mesmo tempo humildes e gigantescos. Se a religião judia pôde não se revestir desse aspecto destruidor (isso dito com bastante reservas. discurso de amor que induz a uma união entre os seres humanos (“amai-vos uns aos outros”) e entre esses e o cosmos. A pulsão de morte tem então um imenso campo social à sua disposição: que os impuros desapareçam e com eles a impureza que eles espalham. em certos casos – como no Norte da África – a religião judia. mas como a única via de abertura do mundo terrestre ao reino de Deus. A única tese que eu defendo é que essa maneira de viver a religião acontece com um pequeno número de pessoas e que. enquanto que a vida sem certezas só permite a infelicidade. assim como a religião muçulmana não triunfaria sem a destruição do paganismo e sem a guerra santa conquistadora. A religião católica não teria podido se impor sem a caça aos heréticos (basta mencionar a maneira como foram subjugadas a heresia dos albigenses e as práticas da Inquisição). Eles não vivem sua crença como uma ilusão. Isso seria dar prova de uma arrogância insuportável. Não é meu propósito dizer que esses indivíduos estão errados e que é pouco provável que a crença religiosa seja vivida desse modo. de seu lado. É verdade que os grandes místicos. Eles insistirão na possibilidade de transcendência que a religião oferece ao indivíduo. É de fato mais belo morrer sem sentir dúvidas do que viver com interrogações. apto assim a se desembaraçar de seu narcisismo protetor e de suas mesquinharias cotidianas. ROLLAND) que a mensagem religiosa provoca neles. ao contrário. 80 . é porque os judeus. Em outras palavras. desenvolveu uma política de conversão). como heróis (no sentido freudiano do termo). porque eles correram o risco de se desviar da formação coletiva dominante e de fazer do amor de Deus o único amor que vale a pena. os eremitas e os santos se mostram a nós como “sábios”. a multidão só pode viver ou aderir a uma religião (principalmente quando ela está se formando e pretende se estabelecer duradouramente) quando essa é intolerante e apela ao sacrifício e à destruição. não tinham razão alguma para ampliar o número de seus adeptos. apesar de tudo. tendo contraído com Deus uma aliança privilegiada que os instituía como povo eleito. além de ver a vida sob a forma de uma ascese e de uma interrogação permanente. (Entretanto. as religiões monoteístas (as religiões politeístas sabiam fazer composições entre si e trocar seus deuses) só puderam se impor por sua capacidade de desenvolver sentimentos fanáticos.

Foi a ruína progressiva das religiões de caráter absolutista que permitiu a progressão das ideologias “compactas” e. eles não podem. de ENGELS ou de LENIN é impensável – representando os santos e os heróis). Ora. obsessão da modernização que tem por corolário uma alienação e uma exploração mais sutil e também mais severa. São sociedades: a. mas somente possível e previsível. ser totalmente dissociados. tudo se vende”. substituição da racionalidade de fins pela racionalidade instrumental. pelo menos no que diz respeito às religiões monoteístas. as liberais e as “socialistas”. 2.As sociedades ocidentais continuaram o trabalho começado no século XIX e o levaram a um ponto de incandescência: prioridade total do econômico (“tudo se compra. embora religião e fanatismo religioso não devam ser confundidos e embora a passagem da religião ao fanatismo não seja imediata nem constante. Não é o caso aqui de traçar um diagnóstico desse declínio (cf. levando a uma opacidade nas identificações e na eclosão de um universo onde tudo se mistura. segundo a terminologia weberiana). 81 . (Não existe. o texto de J. intensificação da produção não somente de objetos úteis. entretanto. Entretanto. PALMADE). segundo o axioma de WALRAS). na verdade. por conseguinte. que são religiões da revelação. sem toda uma iconografia – um Marxismo sem retratos de MARX. a invenção de novas transcendências com seu cortejo de dogmas e de ícones. 1971). viram o declínio progressivo tanto das ideologias duras (o desmoronamento atual dos regimes políticos dos países da Europa do Leste nada mais faz que levar ao seu apogeu esse declínio que toma um ar de derrocada).que não são mais organizadas em torno da diferença primordial dos sexos e das gerações. de novas características. idealização da técnica e da tecnologia que pode dar um senso preestabelecido a todas as condutas humanas. quanto de certas ideologias mais leves e menos dogmáticas. mas de afetos que podem entrar no circuito de troca e de distribuição. sem emblemas. nossas sociedades ocidentais contemporâneas. ideologia sem porta-voz. se certas condições são preenchidas. (O sexual torna-se então uma mercadoria como uma outra qualquer – KLOSSOWSKI. é conveniente fazer algumas observações. além disso.Elas se enriquecem. substituição das questões por quê? pelas questões como? (ou seja. 1. que admitem certas contradições ou elementos de incoerência. como a ideologia republicana.O fanatismo religioso e político Concluindo.

sociedades que. por isso mesmo. c. no fim das contas. realizáveis. (Assim. não propõem mais interdições estruturantes mas apenas interdições repressivas (para que cada um não tente realizar seu desejo de onipotência. Se não há mais pais ou se só existem pais terrificantes. ligadas a certas imagens de mãe arcaica devoradora. sua legitimidade desaparece. seu valor se corrói. 1967. ao mesmo tempo. Assim também. o que favoreceria tanto a metaforização quanto o acesso progressivo a um certo grau de autonomia e de reconciliação com o pai. b. “mãe das cloacas e dos brejos. para os homens e para as mulheres. além do furor de não poder satisfazê-los. já havia observado isso). o capitalismo tinha uma certa legitimidade. o trabalho perde seu significado. 1967). Sociedades sem pais e. enquanto criação e distribuição das riquezas. se desembaraçar. A partir do momento em que apenas a especulação permite fazer dinheiro sem produção de mercadoria. Restam apenas algumas fantasias de onipotência.sociedades que não mais propõem ideais elevados (salvo ideais satânicos: destruir o outro. a partir do momento em que o pai e os filhos passassem pelos caminhos da castração.sociedades que. quando o socialismo real não implica senão privações e o açambarcamento de magras riquezas pelos potentados nacionais ou locais. HEGEL escrevia: “As crianças vivem a morte dos pais”. LAPLANCHE. pensar e querer o apocalipse) e. 1989). concebê-lo como um inimigo ideal.Psicossociologia – Análise social e intervenção onde a indiferenciação reina absoluta. d. sem possibilidade do assassinato simbólico do pai. Nesse momento. assim. da qual é necessário. O que resta nada mais é que a necessidade de consumo e de gozo imediato. os valores são intercambiáveis ou desaparecem. mãe das estepes e grande portadora de morte” (DELEUZE. de imortalidade. as crianças não se tornarão jamais seres autônomos. já que ele compreendia a privação como uma etapa indispensável à construção de um futuro radioso). não pense e não aja como se tudo fosse possível no imediato) que são vividas como fruto do mais puro arbitrário – a vontade de coerção – e que acabam parecendo tanto mais irrisórias quanto mais se multiplicam ao infinito (J. 82 . caem num desinvestimento letal e encorajam os comportamentos perversos (o sucesso da noção de estratégias no mundo dos negócios é um testemunho evidente disso) e histéricos (ENRIQUEZ.

Daí se seguem três conseqüências. A religião reclamada é a religião absolutista. tendo se enfraquecido no conjunto do mundo e. de um budista. só há salvação na paranóia partilhada. da exclusão. da ausência de um fundamento. O que desejam os deserdados. Essa citação dispensa comentário. se sacrificar. da apatia. da miséria.O fanatismo religioso e político Diante dessa perda de sentido. no limite. em um universo laicizado que não se preocupa com a salvação do homem. “os humilhados e ofendidos” (DOSTOIEVSKY) é um sistema que lhes dê um ideal a realizar. formar uma cultura. Eles querem se tornar um “Nós”. um projeto a sustentar. nutrido por uma atmosfera individualista ou coletivista (sem se preocupar com os custos humanos: aumento dos suicídios. de um capitalista. os esquecidos. do desaparecimento de referência a toda transcendência. não oferecem mais interesse. O indivíduo desaparece. de um proletário. os irmãos e os adversários. Contra o mundo perverso. os indivíduos nada mais fazem senão tentar se retirar desse mundo instável onde a angústia se torna o destino comum. em particular. construindo uma sociedade que se deixa levar pelo equívoco da Unidade-Identidade. aquela que designa claramente os aliados. da corrupção). O aparecimento do “narcisismo” das pequenas diferenças. uma causa a defender. 1930) 83 . Como explica admiravelmente DEVEREUX (1973): “O ato de formular e de assumir uma identidade coletiva maciça e dominante – qualquer que seja essa identidade – constitui o primeiro passo à renúncia ‘definitiva’ da identidade real. no Ocidente. aquela que cria uma identidade coletiva. tragado pela espiral do desenvolvimento e dos excessos da guerra econômica. nós estamos bem próximos de não ser nada ou então de não ser de jeito nenhum”. da loucura. os excluídos. permanecer na certeza e. Com a falência das ideologias e supondo-se que elas ajudaram a gerar esse “pesadelo climatizado”. Se não somos nada além de um espartano. Mas as religiões. é normal que muitas pessoas e grupos tentem reencontrar seu equilíbrio e se assegurarem uma identidade estável recorrendo àquilo que foi o próprio fundamento de todo corpo social: a religião. os “desgarrados”. (FREUD.

O desenvolvimento do fanatismo. Não esqueçamos. além de permitir atenuar as feridas narcísicas” (M. tais como as descrevi acima.Psicossociologia – Análise social e intervenção FREUD mostrou que era sempre possível “unir uns aos outros. livre do mal. anunciador de um mundo novo. nos diversos países. Ele é possuído por uma fantasia de redenção e de ressurreição do social. da sedução ou da coerção). Esse desaparecimento do indivíduo em um grande todo que não suporta a diferença faz ressurgir as condutas religiosas fanáticas. Eu acrescentarei apenas que elas vão assumir a função de “dissimular as fraquezas do eu ideal e do ideal do eu. pelos vínculos do amor” (e nós acrescentaremos: pelos vínculos da fascinação. CASTORIADIS (1987) escreve: “Como uma cultura poderia admitir que existem outras que lhe são comparáveis e para as quais. ENRIQUEZ. sua conversão. Os outros tornam-se “piolhos” a destruir. tanto mais ela se torna intolerante e mais deseja a morte das outras ou. o bloqueio ou o desaparecimento progressivo da interioridade. além disso. É certo que. as diferentes religiões não se comportam todas da mesma maneira e não buscam os mesmos objetivos. o que é um alimento. como seres a eliminar. O fanatismo visa. a vontade de salvar o mundo se situa deliberadamente em um imaginário enganoso. dos “grandes e dos pequenos Satãs”. 1984). que esse “narcisismo grupal” pode levar à xenofobia exacerbada e ao racismo. Quanto mais uma cultura quer se unificar. Esse “narcisismo das pequenas diferenças” permite uma “satisfação cômoda do instinto agressivo e é através dela que a coesão da comunidade se torna mais fácil aos seus membros”. para isso. É por isso que “grupos étnicos estreitamente aparentados se repelem reciprocamente: a Alemanha do Sul não pode suportar a Alemanha do Norte. elas exigem a super-identificação à causa. ou seja. a criar um mundo novo. liberado finalmente do mal. Ela é impelida pelo ódio e por uma alucinação coletiva que aponta a imagem dos estrangeiros (ou dos desviantes) como perseguidores todo-poderosos. É certo também que o fanatismo é apenas uma das respostas possíveis para 84 . pelo menos. uma imensa massa de homens. no entanto. o super-investimento no projeto. o espanhol despreza o português”. então. com a única condição de “que alguns outros fiquem de fora para serem alvo dos ataques”. para ela é uma impureza?”. o inglês fala tudo de ruim do escocês.

sem dúvida. É preciso. em relação à Armênia) ou para tentar chegar à sua independência. ele é a resposta daqueles que têm necessidade de “referências duras” para viver e que são “inaptos” para reinventar a democracia e se confrontar com a sua solidão. O fanatismo se aplica aos Estados outrora dominados que aspiram. ainda. grupos sociais minoritários e outrora desprezados. é preciso lembrar que. regiões ou grupos sociais bem definidos que utilizam a fé para exercer seu poder ou seu terror. um instrumento a serviço do fanatismo político. a se tornar dominantes (por exemplo. para unificar os corações e os espíritos.O fanatismo religioso e político o mal-estar da identificação. o Azerbadjão. O fanatismo religioso é. não basta que existam tais indivíduos (e grupos) em nossa sociedade perversa e histérica. o que é a base do “barroco degenerado” no qual nós vivemos). Síria). O fanatismo religioso. É por essa razão que meu texto tem esse título. Ou seja. o sinal de seu enfraquecimento. o retorno de um religioso absolutista não é o sinal de uma renovação religiosa verdadeira. E nós tocamos. 2) que a religião tem sempre necessidade de se apresentar de maneira integrista. para que o fanatismo se fortaleça. resulta. primeiro e antes de tudo. assim. na hora atual. Retomemos esses dois pontos: 1. Estados que utilizam o fanatismo para assegurarem o domínio sobre outros países (Iraque.Se é mais fácil recrutar fanáticos entre os “esquecidos” que entre os combatentes e os vencedores de um sistema. o Irã). em seu objetivo de controle ou de direção da sociedade ou do mundo. o essencial: a dimensão política. Uma tal explicação não pode entretanto ser suficiente. São Estados. sozinho. Ela poderia fazer crer: 1) que se trata apenas dos problemas de indivíduos ou de grupos sociais excluídos e que tentam resolver seus problemas dessa maneira. Regiões de um império que emprega a religião para humilhar e deixar famintas outras Regiões tão submissas quanto elas (por exemplo. fundamentalista. mas. onde a mídia desempenha um papel considerável e onde todas as ações devem ser vistas em seu esplendor. no máximo. certas de seu direito e partes do folclore de toda nação. que desejam ter um dia o domínio sobre os destinos de um Estado do qual eles 85 . que essa renovação fanática traga proveito a alguns. por sua vez. em pequenas seitas fechadas sobre si mesmas. Não foi isso que aconteceu quando se constituíram as grandes religiões monoteístas. simultaneamente (a histeria sendo uma característica essencial de toda sociedade “teatral”. é a resposta de indivíduos levados pela onda da história e não de indivíduos criadores da história.

Se a aliança persiste.Psicossociologia – Análise social e intervenção são membros (por exemplo. seitas que conseguiram se implantar e têm o desejo de exercer uma influência política. se ela se extingue. na França. certos grupos religiosos em Israel). Irlanda do Norte. Alguns exemplos heterogêneos – a reação fraca e ambivalente de Monsenhor LUSTINGER ao incêndio que arrasou o cinema que projetava o filme ligeiramente iconoclasta de SCORCESE2 .manifestar as diferenças irredutíveis de cada comunidade (o indivíduo só existindo em relação à comunidade). que querem fazer valer sua palavra. conseguindo-o freqüentemente (Opus Dei. o convite a alguns líderes protestantes.redourar o brasão das religiões tradicionais. a ação empreendida por certas instituições judias para o 86 . lepenistas. interdição de pensar (Polônia. das comunidades islâmicas. diferentes “igrejas” americanas) ou que se iludem na possível conquista de um poder. Loja P2. Basta constatar o papel cada dia mais importante que desempenham as autoridades religiosas (católica. Nesse caso. 2.A religião não se apresenta. Armênia – não importa quão diferentes sejam os exemplos). O fanatismo religioso tem então uma relação direta com o problema da tomada de poder. grupos racistas minoritários que esperam um dia tomar o poder em nome de uma raça regenerada (neonazistas.fortalecer a ação de indivíduos e de grupos contra as ideologias (as religiões leigas) às quais eles estão sujeitos e que só lhes trouxeram miséria. b. forçosamente. a fim de re-instaurar territórios nacionais e de repensar a questão das nacionalidades que as ideologias marxistas e liberais tenderam a esquecer ou a tratar de maneira uniforme. c. destruição cultural. Alemanha do Leste. Países Bálticos. muçulmana) na vida cotidiana da França. ela permitirá aos diversos cleros se apoiarem. judia. na regulação dos Estados modernos. cristãs. antes talvez de desaparecerem um dia num enfrentamento direto (é o caso. sob uma forma fanática. nos quais não existe senão um fraco consenso. Eglise de Scientologie). Communione e Liberazione. judias). protestante. coabitando umas com as outras dentro de uma grande tolerância ou senão de uma grande conivência. do qual eles não saberiam o que fazer. ela designará os vencedores e os vencidos. ela pode ter como papel: a. em nossos dias. na retomada das negociações na Nova-Caledônia.

laborioso. ele visa também a desenvolver ainda mais os processos de idealização. O fanatismo se alimenta dos descaminhos e da corrupção de nossas sociedades. nascida desse trabalho árduo. finalmente. desde o início dos tempos modernos. antes de tudo. Os homens aprenderiam. com a ajuda de seu Deus –. sem fim. a falta de sentido. fazendo desaparecer ou tornando silenciosa a vida interior com suas emoções. O retorno do religioso se mostra então mais ambíguo do que aparentava ser.Se a ameaça do fanatismo religioso e político é real. não é o caso de superestimá-la. tomado como regresso à origem cultural ou nacional e o religioso fanático são. De fato. de reflexão e de reflexividade. paralisar a atividade de mentalização. em vez de afirmação da necessidade de transcendência. a intervenção da Grande Mesquita para tentar resolver o “famoso” problema do uso do véu (tchador) – nos mostram que as Igrejas não são mais separadas do Estado. para terminar. o religioso sempre visa a identificar o indivíduo com seu grupo e inserilo totalmente nele (algumas vezes absorvendo-o no potentado que encarna o poder político e espiritual em sua pessoa. mas que. que são eles que criam a história a cada momento e que é pela tomada de consciência. que surge um processo de desalienação e uma vida democrática. qualquer que seja sua intenção profunda – um mundo onde o reino de Deus (qual Deus?) existiria sobre a Terra ou um mundo onde uma nova classe política tomaria o poder.O fanatismo religioso e político desenvolvimento das escolas religiosas na França. às suas competências ou se mostra sensível aos seus pontos de vista. cujo objetivo é constituir “comunidades de denegação”. de precisar meu objetivo. o religioso. o caos e o abismo. Talvez seja isso que quase sempre vem acontecendo. nesse caso. como no exemplo de KHOMEINY). Se essas são capazes de inventar novos projetos. suas dúvidas. cada vez mais freqüentemente. Eu gostaria. 87 . Mas. um sinal da transformação da vida política e dos modos de dominação política. 1. mas também construir com outros uma ação que possa ter sentido para a coletividade. ele tenta. a tendência ao superinvestimento religioso e nacional será barrada. seus conflitos (embora proclamando o contrário de tudo isso) e impedindo a criação de sujeitos individuais e coletivos que buscam não apenas sua autonomia – criadores de história. o Estado leigo faz apelo. ao invés de processos de sublimação. prontos a afrontar o absurdo. ao contrário. sem recorrer a referências seguras –.

tão fácil e prazerosamente. nos fenômenos sociais.) 2 88 . se ele não faz esse trabalho. por Leila de Melo Franco S. sob pena de cair. devem ser levados em consideração. Eu não quis dizer. Thanatos ocupa todo o campo espiritual e social. 137-149. naturalmente. no outro. Por outro lado. “Le fanatisme religieux et politique”.O que me parece crucial é que não se interrompa a reflexão filosófica sobre o homem e sobre as sociedades. na medida em que favorecem uma relação com um sagrado transcendente não colocado a serviço de uma vontade política de dominação. a política da cidade ou da nação nada mais são do que perversões do espírito. então a reflexão desaparece. 1990-1. o fundamento mesmo da instauração de toda vida social. a perversão ou a paranóia triunfam. ela lhes permite tomar iniciativas. Todos nós cremos em certos valores e é impossível decidir racionalmente que valores são preferíveis a outros. quando o religioso se põe a serviço do político. Ora.Psicossociologia – Análise social e intervenção 2. a religião pode levar os grupos sociais a se darem conta da situação de dominação na qual eles vivem. a ideologia. 3. que a religião. em nenhum momento. nos seus interlocutores e. do fato nacional. em certos casos (eu penso na Teologia da Libertação. na América do Sul). uma vez que elas são. O que eu quis enfatizar em meu texto são os aspectos mais negativos do fato religioso.No mundo não existe ninguém que seja não-crente. Também o papel de todo intelectual e de todo homem prático é dar caça a esse desejo de homogeneização e de morte do pensamento. o que eu quis sublinhar – e isso com bastante ênfase – é que. ideológicos e nacionais. tanto quanto outros tipos de valores. T. p. Araújo. quando uma cidade ou uma nação desenvolvem uma cultura na qual elas se fecham e fecham seus membros. a tentação totalitária está continuamente presente nos processos religiosos. Os valores religiosos. na armadilha que denuncia. 55. quando a ideologia dura impede o livre pensar. Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. n. Ela assume então o papel de desalienação. antes de tudo. (N. do fato ideológico. Se. habitualmente reservado à Filosofia ou à Sociologia. Connexions. Eugène. “A última tentação de Cristo”. Ela lhes é consubstancial. efetivamente. em si mesmo. ter uma outra visão do mundo e conceber Ações coletivas.

S. Connexions. ENRIQUEZ. In: La NEF. 48. E. E. Editions de Minuit. KLOSSOWSKI. L’homme et la politique. MOSCOVICI. n. 1985. sobre o fanatismo hoje. “La défense et l’Interdit”. G. Connexions. 1976.). S. E. 1985. 1967. 1984. 1989. 1987. . P.(1930) Malaise dans la civilisation. LEFORT. LYPSET. Epi. FREUD. Cl. CASTORIADIS. In: Autonomie sociale. 1973. ENRIQUEZ. PUG. 1963. “Malaises dans les identifications”. S. Entrevista à revista “L’événement du jeudi”. PUF. Y. G. L’autonomie sociale. “L’individu pris au piège de la structure stratégique”. DEVEREUX. Essais d’ethnopsychiatrie générale. Présentation de Sacher-Masoch. Un homme en trop. ENRIQUEZ. Eres. Épi. 1979. 1967. PUF. J. 1971. La monnaie vivante. M. Au carrefour de la haine. 89 . C. Psychologie des minorités atives. PUG. janeiro. Seuil. 1971.O fanatismo religioso e político Bibliografia BAREL. DELEUZE. 54. LAPLANCHE. (org. 1989. “Notations sur le racisme”. ENRIQUEZ. n. Seuil.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 90 .

O contraste existente entre esse dinamismo industrial e comercial. e o conservadorismo social e cultural da região.CONJUNÇÃO. alimentação. como elas podem morrer. já havia sido notado por vários pesquisadores. em domínios tão variados quanto o têxtil e os da madeira. os diferentes níveis de realidade e de experiência de uma instituição concreta. Resumindo: a história revela um trabalho psíquico. seus produtos. DE UM PROJETO PESSOAL E FAMILIAR. que 91 . em plena Vendée. individual e coletivo. Esse texto trata das instituições – como elas se criam. por ocasião de entrevistas exaustivas e sucessivas. de uma tecnologia freqüentemente muito sofisticada. assim como revela as Contradições que se manifestam em todos os níveis de funcionamento da empresa.. de outro lado.2 Tais reflexões mostram. sobretudo. são exportados para todo o mundo (iates. por exemplo). de um lado. vividas pelos dirigentes. NA EMPRESA. Caracterizando-se por um notável dinamismo industrial. A escolha da região do Cholet. para nela desenvolver esse estudo sobres as PMEs. mas também sua família e as comunidades locais no seio das quais ela existe e encontra sua razão de ser. incessante. se impôs por ser ela bem conhecida como uma microcultura que tem suas raízes na história da Vendée. vestuário. calçados etc. como uma empresa é o produto de uma criação coletiva envolvendo não apenas o dirigente que a fundou e seus sucessores. A história das empresas que estudamos a partir do que nos disseram seus dirigentes. Ele se apoia em reflexões suscitadas por um estudo realizado em algumas Pequenas e Médias Empresas (PME) situadas na região de Cholet. revela claramente o modo como elas nascem e vivem em função do aparecimento. do exame e de uma resolução relativa de tensões permanentes. como elas se desenvolvem. COM A HISTÓRIA DE UMA REGIÃO: O PROCESSO DE CRIAÇÃO INSTITUCIONAL1 André Lévy Descrever um fato psicossocial – tendo como referência o fato social total de Marcel MAUSS – é compreender como estão imbricados. uns nos outros.

Não se trata. é. a partir de suas lembranças. de seus projetos. mas permanecendo fiel às representações das quais ele é a metáfora. feito às custas de rupturas e da intervenção de mediações que provocam divisões. entretanto. depois. sua história. de estudar a empresa como objeto sociológico – tal como poderia ocorrer pela combinação dos discursos e dos pontos de vista de todos os seus atores –. em função das quais os depoimentos estavam estruturados – constantes definindo o processo de desenvolvimento das empresas. Se as entrevistas e a maneira como foram conduzidas respondiam sobretudo a exigências de ordem metodológica definidas em relação a nossos objetivos de pesquisa. que envolve todos os grupos ligados ao futuro da empresa. o qual é vivido como o fundamento da empresa. geralmente pertencentes à mesma família ou a famílias aparentadas. convidados a falar a respeito. como objeto no discurso dos dirigentes. respondessem a um autêntico desejo de rememoração e de melhor compreensão. para nós. Cada um desses depoimentos cobria o espaço de várias gerações sucessivas de dirigentes. 92 . Ou seja. que são ao mesmo tempo seu principal tema. num primeiro momento e. um trabalho que consiste em passar de um “real” mítico universal a uma espécie de realidade mais abstrata – a empresa moderna –. indispensável – para que elas tivessem um sentido – que fossem também para os dirigentes uma ocasião de refletirem em voz alta. sobretudo aquela que seus sucessivos dirigentes vivem e se confunde em grande parte com a história pessoal desses dirigentes. com efeito. ou ainda. à antigüidade. evocava neles. e também fazer um levantamento de questões relativas ao presente e ao futuro próximo. pudemos pôr em evidência certas constantes. Assim. de suas dúvidas. ainda que solicitadas por nós. desde sua origem até o momento atual. seu futuro. mas a empresa como objeto psicossocial. suas dificuldades.Psicossociologia – Análise social e intervenção consiste em passar de identificações imaginárias a um “real” mítico. era. em presença de interlocutores supostamente neutros e atentos. Uma tal aventura. sobre aquilo que a empresa. Em outras palavras. que tais entrevistas. clivagens. caso a caso (empresa a empresa). a partir de sua criação. entretanto. segundo um método comparativo. ao produto. para si próprios. Tendo analisado esses depoimentos. enquanto existindo e tendo sentido para seus dirigentes. pudemos recolher o depoimento detalhado descrevendo a história de uma dezena de empresas diferentes quanto à dimensão. diferenciações. isto é.

Conjunção. quer dizer. com freqüência até mesmo joint families. histórias de famílias (nucleares ou ampliadas. quer dizer. o que tem relação com o trabalho e com seu objeto. argila. ou ainda. a terra ou a região. sociais (ou mesmo econômicas) e a valores (ou a representações simbólicas). nota-se que. aquilo que é ligado aos locais físicos. podem ser resumidas da seguinte maneira: . conceitos verbais.a terra ou a região. cuja combinação constitui o sistema de sustentação. cujas diferentes significações e modalidades se desdobram à medida em que evolui a história das empresas e o discurso dos dirigentes. a partir do qual elas podem se desenvolver.o ofício ou o produto. a regiões de Mauges. famílias reunidas por relações de alianças ou de parentesco. com a história de uma região: o processo de criação institucional Assim. com a região (no caso. parece-nos ser possível afirmar que as empresas são fundadas sobre a base de três entidades imaginárias de importância variável. Todos os casos ilustram perfeitamente a conjunção entre um projeto e uma competência individual. no seio da qual e para a qual a empresa se desenvolve. . da ação de um indivíduo (o fundador) possuidor de um ofício e de um projeto. locais e regionais. Nesse último sentido. na empresa. geográficos. de um projeto pessoal e familiar. quer se exprima pela relação com o solo. suas tradições e a 93 . quer dizer. grão etc. quer dizer. conjugadas a relações econômicas) e de estratégias de sobrevivência ou de desenvolvimento de comunidades locais. A terra Essa referência é onipresente. Essas três entidades. também. de maneira mais abstrata. sua cultura. De maneira mais geral. .) que se trabalha ou. que correspondem ao mesmo tempo a realidades materiais. aquilo que se relaciona aos vínculos de consangüinidade e de parentesco por aliança. de maneira mais extensa. É importante sublinhar o fato de que essas três realidades se traduzem por expressões faladas. embora todas tenham dependido. sua realização efetiva e seu desenvolvimento apoiaram-se sobre um conjunto de solidariedades ativas familiares e. ruas ou áreas) que define o campo de atividade onde a empresa está implantada. com o território (nome das cidades. histórica e sociológica. com a propriedade do camponês que fornece diretamente as matérias primas (fibras. designa não apenas um lugar geográfico mas também seus habitantes. ou então o Oeste) que constitui uma unidade geográfica. de Bocage.a família. na origem.

Antes de ser um projeto pessoal. físicas e morais. de dependências múltiplas que limitam as margens de manobra e as capacidades de iniciativa e de inovação. Desse ponto de vista. mas também no metafórico. um conjunto de obrigações e de restrições. 94 . A identificação do dirigente a esse imaginário cultural alimenta com efeito não apenas um sentimento de orgulho (“orgulho de ser dirigente chalotês”). constituem então. a região de Cholet é vivida como uma espécie de cidadela cercada de estranhos dos quais devemos desconfiar (“entre as pessoas de Cholet há uma certa moralidade. de seriedade e de fidelidade (“palavra é palavra”). em nome de uma certa ética. em caso de dificuldade. A “região”. atividades e lucros organizam-se em torno dela. “é preciso revirar a terra com vontade antes da colheita. vira tudo uma máfia”). bem como uma fonte de riquezas. Essa é aqui entendida como um nome próprio – com freqüência o mesmo que empresa. assim que ultrapassamos a fronteira. mas também e sobretudo como a história de gerações sucessivas cujas relações. não se pode fingir”. “a terra”. eis nosso jeito fazendeirão”. a certeza de poder contar com uma rede de solidariedades ativas extremamente eficazes. as relações com os empregados pressupõem vínculos recíprocos de solidariedade comunitária que transcendem as relações de poder e as diferenças de status social. “não ficar falando abobrinhas. de empresas familiares. contribuindo para o renome da cidade ou da região. a empresa é um projeto de família. o lugar dessa é aí dominante. as relações comerciais privilegiam os clientes “fiéis”. simultaneamente. independência (“as pessoas daqui mandam no lugar”) e perseverança (“ir até o fim com o que começamos”). no sentido concreto. como traduzem diferentes fórmulas como: “temos quer ir fundo”. tanto no imaginário quanto no real. o próprio modo de gestão pode também ser orientado pelos valores comuns. na maior parte dos casos. mas também um sentimento de segurança. A família Tratando-se. A identificação com a “região” inscreve-se concretamente no funcionamento da empresa. a política industrial tende a favorecer o desenvolvimento de uma produção local beneficiando as “pessoas da gema”. em nome de um patriotismo regional que cria obrigações.Psicossociologia – Análise social e intervenção consciência de compartilhar um passado comum e aquilo que é sentido como uma mesma “mentalidade” – caracterizada aqui por valores de ajuda mútua. nas relações e atitudes: assim.

seja pelas mulheres (as filhas e seus maridos). sendo também imagem das relações de parentesco. substituindo as regras informais que reproduzem as relações intra-familiares. os postos-chaves sendo ocupados por membros dela. num primeiro tempo. “sociedade de família”. descartado. como uma herança da qual ele nada mais é do que um depositário transitório e da qual deverá prestar contas a seus próprios descendentes. Naturalmente. As estruturas e as relações de poder são. Da mesma maneira. e o capital e os salários. Afora alguns poucos casos acidentais (ligados a falências ou a conflitos graves). seja pelos homens (os filhos). na empresa. de outro. fortemente personalizadas. então. com a história de uma região: o processo de criação institucional Ela é. ainda. de papéis e de procedimentos formais. mas também nos fatos reais. como “a realização de seus antepassados”. de acordo com a posição que ocupam no seu seio (a não ser por incompetência notória ou situação de conflito). de um projeto pessoal e familiar. a transmissão da herança é sempre assegurada em linha direta. “sociedade familiar” ou. Como se pode notar. de fato. até o dia em que a extensão das atividades torna necessária a mudança para locais mais apropriados. sendo um dos dois sexos. se essas diferentes expressões marcam um deslocamento progressivo da “família” do centro para a periferia (a preposição “de” podendo ser interpretada como designando o pertencimento ou a origem). o capital da empresa se confunde com o patrimônio familiar (“os bens da família”). onde empregados e patrões podem comer juntos. nas representações e valores que dão sentido à empresa e ao papel do dirigente. “empresa familiar”. a empresa é freqüentemente alojada na “casa familiar”. essa distinção é acompanhada por uma modificação no estatuto jurídico (LTDA. quer dizer. 95 .Conjunção. elas traduzem a idéia de que a empresa é um lugar “de trabalho em família” e um bem privado (um patrimônio). COOP) que estabelece uma distinção entre a posição de patrão e a de acionista e acarreta a instauração de regras. geralmente. A presença da família e de seu passado se traduz. até a introdução de uma contabilidade que estabelece uma distinção formal. no início. inclusive para outras aglomerações. que para o dirigente ela seja concebida como um “prolongamento de si próprio e de suas raízes”. designada como “negócio de família”. na sua origem. por um lado. Compreende-se. entre os bens e os dividendos pessoais. é certo. inclusive com empregados. ainda que apenas para atender a exigências do fisco. então. SA. uma reprodução bem fiel das estruturas da família. as relações de autoridade. Assim.

tudo isso é sempre ocasião de um prazer intenso. Está diretamente associado às mãos do artesão. Produzir e vender (até mesmo exportar) um lenço de Cholet ou uma rosca da região de Vendée é tornar conhecido e apreciado um objeto 96 . com os acontecimentos familiares – mortes. Mais do que um produto com valor de troca num lugar qualquer ou para cliente qualquer. porque são percebidos como estrangeiros intrometendo-se no que é considerado negócio privado. confundida com a história familiar e as etapas de seu desenvolvimento coincidem. Apalpar essa matéria. a maior parte das vezes. pois esse restitui a ancoragem do homem na natureza e a transformação que ele nela provoca. –. o produto Em função de sua origem artesanal. uma inspiração. Ele exprime também o reconhecimento da herança recebida. principalmente por ocasião de mudanças de direção e na repartição de tarefas e poder. transmitidos de geração em geração. um conflito com membros do pessoal é facilmente sentido como uma insuportável falta de respeito em relação à pessoa do dirigente e àquilo que ela representa. numerosas PMEs definem-se em relação ao ofício de seu fundador. Um ofício é uma maneira de trabalhar uma matéria – madeira. lenços da região do Cholet. o ofício exprime o orgulho do trabalho cumprido e sua utilidade social para seus próximos. couro etc. O ofício. no seu corpo-a-corpo com uma terra e seus produtos.Psicossociologia – Análise social e intervenção Assim. Nessas condições.. freqüentemente. Todos os dirigentes têm consciência disso e multiplicam as precauções destinadas a reduzir e a prevenir as repercussões sobre a vida da empresa das problemáticas familiares – rivalidades etc. casamentos. rupturas. uma fonte de problemas e de conflitos. O resultado é que se torna difícil para o dirigente definir perspectivas futuras para a empresa que se distingam das finalidades concebidas em termos de fidelidade com o passado e manutenção de vínculos e bens da família. Assim como para a referência à região. Esse empresta um valor emblemático ao produto que é a sua razão social. da receita ou do jeitinho de fazer. A história da empresa é assim. um elemento de coesão e também uma limitação. evocar sua origem terrena ou seu significado cultural e mítico – receita caseira. os sindicatos independentes são mal tolerados. frangos que a gente destrincha de maneira especial etc. – e de lhe imprimir uma marca pessoal. seus vizinhos. a identificação à família é ao mesmo tempo uma fonte de força.

constatou-se. transmitido de geração em geração. o ofício. a maior parte das empresas estudadas dão testemunho do dinamismo que habitualmente se atribui ao meio industrial da região de Cholet. ele supõe a adoção de atos concretos. em desligar aquilo que estava ligado. sangue ou mãos). Esse processo não se realiza sem problemas. cujas partes. políticos e em utilizar os serviços de especialistas de todo tipo. para o dirigente. elas desenvolvem um dinamismo comercial na França e no estrangeiro. o marketing etc. elas são ligadas entre si – a família às comunidades locais e à região. em introduzir distâncias e divisões ali onde havia 97 . Elas integram de maneira notável as tecnologias mais recentes – a informática. e a convicção de que deve se desembaraçar deles. é se inscrever nelas e não apenas pôr em circulação no mercado uma produção anônima. que asseguram sua identidade e a base da empresa. profissionais. com a história de uma região: o processo de criação institucional impregnado de história e tradições. estão imbricadas umas nas outras. pelo menos em parte. Juntos. com efeito. trata-se de um conjunto extremamente coerente. No que concerne àquilo que constitui a empresa em sua origem. Sua história. Entretanto. eles formam então como um bloco compacto. vêse então que. nós constatamos também que essa solidez aparente mascara contradições que fragilizam o conjunto: as dependências e as restrições podem se traduzir em rigidez que ameaça gravemente a empresa de esclerose e de imobilismo. Consiste.Conjunção. na empresa. O dirigente que percebe bem esses riscos fica dividido entre a necessidade de permanecer fiel a esses objetos de identificação. permite de maneira precisa compreender: como elas conseguiram efetuar essa passagem do arcaísmo de suas origens àquilo que caracteriza uma empresa moderna. para garantir as evoluções indispensáveis. tal como aparece no discurso de seus dirigentes. de um projeto pessoal e familiar. não em negar. –. De fato. de decisões dolorosas implicando escolhas difíceis que o dirigente deve assumir pessoalmente. como os dirigentes puderam ultrapassar as contradições com as quais eles se confrontaram. encarnada na pessoa do fundador. essas três bases – ou instituições primárias –. que remetem cada qual a uma realidade física (terra. não são entidades independentes. mas em reduzir a influência desses objetos imaginários. à terra. elas não hesitam em estabelecer vínculos numerosos com os meios financeiros. como elas conseguiram fazer coexistir um passado sempre presente e as complexidades da organização socioeconômica atual. no qual a empresa e seus dirigentes estão solidamente ancorados e cuja solidez reside na potência do imaginário cultural do qual é a expressão manifesta.

ela tem também por efeito torná-las mais autônomas entre si. de valores ou modos e redes relacionais. da proximidade ao distanciamento. a evolução pode ser descrita em função dos cinco grupos de variáveis definidas por T. de produções. num deslocamento das finalidades da empresa em direção à produção e à venda de objetos que têm um valor de troca universal.Psicossociologia – Análise social e intervenção uma unidade mítica e em decompô-la e recompô-la a partir de seus elementos liberados e capazes de se unir de uma outra maneira. portanto. essencialmente. PARSONS. Isso influencia todos os planos da empresa: racionalização das técnicas de fabricação. elaboração de uma organização e. O ponto de chegada de tal processo. isto é. com efeito. é realizando-os que as tensões anteriormente evocadas são deslocadas ou tratadas de maneira indireta. Esses três movimentos resumem. assim como a aprendizagem e a utilização de técnicas transmissíveis. De maneira mais precisa.a industrialização. investimentos em máquinas e em locais especializados. A industrialização: do ofício ao produto A passagem do artesanato à indústria consiste.o deslocamento. Nos termos de T. b. PARSONS: do particular ao universal. consiste em passar de um sistema social a um outro. da afetividade à separação. exigindo. do herdado (ou do dado) ao adquirido. mas a evolução que eles traduzem não modifica apenas as significações particulares que cada uma delas tem. as principais dificuldades que os sucessivos dirigentes têm a enfrentar. Cada um deles está presente nas três instituições primárias que mencionamos no início.a passagem do negócio de família à sociedade anônima. seu objetivo. isto é. podemos descrever esse processo desenvolvendo-se em três direções distintas: a. independente da pessoa que os fabricou ou do lugar onde foi produzido. 98 . c. ao longo de toda a história da empresa. de estatutos e tarefas diferenciadas e hierarquizadas. é a criação de uma instituição tendo sua organização e suas finalidades auto-referidas. a substituição do ofício pelo produto e meios de produção. quer se trate de papéis ou de expectativas de papéis. de estruturas de necessidades e de motivações. à medida que a empresa adquire os atributos de uma identidade própria. a transferência física da empresa para outros locais. do pessoal ao impessoal. principalmente.

máximo. Um outro índice de evolução da empresa diz respeito às transformações que ocorrem na composição do grupo de acionistas. que põe as contas em ordem. freqüentemente. A implantação de um estatuto jurídico preciso é um corolário dessa reforma. bem como na composição do Conselho de Administração. O envolvimento da família é. mas também porque a estrutura de pessoal se transformou. ou ainda: “das famílias na sociedade. sua principal razão de ser – ele deve. ao mesmo tempo em que respeita suas obrigações”. obrigado a repartir o poder com outros. então. se 99 . a partir de então. unida por vínculos de consangüinidade com os ancestrais fundadores que ocupam igualmente todos os postos de responsabilidade. bem como uma administração capaz de a gerenciar. regidas segundo técnicas e métodos importados. quando essas instâncias reagrupam apenas membros da família restrita. Do negócio de família à sociedade anônima Um dos primeiros indícios da institucionalização da empresa é. a entrada em cena de um contador. as relações mais diversificadas com a clientela são estruturadas segundo a problemática da oferta e da procura. Enfim. toda confusão entre ganhos e bens de família e entre o capital ou os salários. adquirir as competências ligadas à gestão –. Já mencionamos antes os perigos dessa situação que. de um projeto pessoal e familiar.. Mesmo quando o dirigente conserva o monopólio de uma ou de outra dessas responsabilidades. na empresa.Conjunção. pode-se dizer (.. não somente porque seu ofício não está mais no centro da empresa.) que elas são ao mesmo tempo sua condição e sua negação. Esse fato ilustra perfeitamente a relação paradoxal que existe entre a família e a empresa e confirma a observação de LÉVI-STRAUSS segundo a qual a sociedade não pode existir a não ser se opondo à família. além de requerer especialistas suscetíveis de aplicá-las. elas implicam no estabelecimento de uma organização e de uma política comercial orientadas para um mercado. com a história de uma região: o processo de criação institucional traduzindo diferentes níveis de competência. em contrapartida. de acordo com regras precisas que excluem. tendo como conseqüência relações de autoridade mais formalizadas e mais impessoais. segundo técnicas menos automáticas e mais agressivas. com efeito. O próprio dirigente vê seu papel se transformar profundamente. ele não pode assumi-las todas e é.

segundo os termos de LÉVI-STRAUSS. Progressivamente. transformando as relações de poder e os modos de pensar. –. o que permite. Esses estão. melhor formados) e a da clientela. de ajudar a empresa a percorrer esse mesmo caminho. mas. principalmente entre os (jovens) dirigentes. pela instauração de regras explícitas e. geralmente fora da empresa. pela definição de papéis e critérios decisórios. pois.Psicossociologia – Análise social e intervenção não forem evitados. e que lhes permitem mais facilmente romper com modos de fazer e de pensar herdados e. Esse processo não se realiza de uma só vez. podendo implicar até em falência. sócios etc. separar de maneira mais efetiva sua vida pessoal privada da profissional. o centro de gravidade da empresa encontra-se deslocado para fora do círculo familiar. podem se traduzir em dificuldades muito grandes. mostra-se assim sempre indispensável. freqüentemente. Aqui também isso se traduz por estruturas e procedimentos formalizados. por conseguinte. É mais freqüente que caiba aos sucessores a tarefa de operar as rupturas necessárias. eles devem encarar tensões e mesmos conflitos agudos. “a recusa de reconhecer na família uma realidade exclusiva”. muito raro que essas evoluções possam ter lugar durante uma só geração. Eles são. A ampliação do Conselho de Administração e/ou do grupo de acionistas. como para qualquer chefe de empresa. mesmo que essas já tenham sido delineadas há muito 100 . portanto. Na medida em que seus conhecimentos e suas convicções os encaminham a posições radicalmente opostas àquelas que os inspiram à fidelidade e ao respeito que devem a seus mais velhos. portanto. Sua legitimidade enquanto dirigentes não se baseia mais sobre o direito que seu lugar no seio da família lhes atribui nem na lenta iniciação sob a condução e o olhar de um idoso. colocados numa situação extremamente conflitiva. no centro do processo que os afeta mais do que a qualquer outro membro da empresa. quer a um conjunto de famílias aliadas (joint families). quer sobretudo a terceiros não tendo nenhuma ligação familiar – quadros ou representantes dos empregados (no caso de cooperativas). em várias gerações e sempre por decisões – das quais uma das mais significativas é o deslocamento concreto da empresa para um lugar apropriado – onde o peso dos modos de vida e dos hábitos de pensar das relações antigas é menos forte. a estrutura de pessoal (mais jovens. com efeito. garantindo o distanciamento de pressões afetivas de origem familiar e traduzindo. ela se baseia em competências que eles adquiriram. É.

Alguns escolhem deliberadamente reivindicar e reforçar suas raízes locais. É no momento da passagem progressiva do poder que o filho ou o genro é levado a negociar as mudanças. encontramos respostas extremamente diversas. renunciando a uma expansão possível. Se o deslocamento para outra região.Conjunção. nesse caso. – e o questionamento de vínculos anteriores. portanto. 101 . de um projeto pessoal e familiar. é importante para reduzir. na medida em que ele traduz de maneira mais direta a ruptura com o local de origem. Para essa questão. manter uma qualidade de vida e de trabalho. o estabelecimento de vínculos mais ou menos institucionais com outros parceiros – industriais. isto é. uma tomada de distância em relação à terra natal. mas permitindo a sobrevivência da empresa. na empresa. O deslocamento O deslocamento está carregado de conotações essencialmente negativas. o custo de mão-de-obra e encarar uma certa concorrência. pois. preservar uma base local. outros modos de relação. o deslocamento é conotado por um sentimento de infidelidade face àquilo que constitui a especificidade da empresa e a identidade de seus dirigentes. outras exigências. outras aspirações. a empresa adotar uma estratégia de exportação. Mesmo tratando-se de uma simples mudança (mas elas não são jamais “simples”) da unidade fabril. isso será vivido como algo em detrimento da preferência pelo local e. ela se traduzirá por obrigações novas face a outras populações com outros estilos de vida. Se. Mas o deslocamento pode também significar a inserção numa rede industrial e comercial mais ampla. necessariamente. mas evitando que essa se torne uma limitação ou obstáculo à criação de novos vínculos abertos a outras perspectivas. ou mesmo para o estrangeiro. graças a constantes esforços no plano da inovação: “permanecer pequeno”. bancos etc. permitindo administrar as contradições. no entanto. E. por exemplo. o solo no qual a empresa se situa. para si próprio como para o ambiente é. uma estratégia de desenvolvimento e de crescimento implica sempre. além disso. Outros se orientam para soluções. como uma espécie de traição. ser-lhe-á necessário adaptar-se a um mercado regido por outras normas. evitando ao máximo que isso leve a rupturas irreversíveis. Em todos os casos. de um problema nevrálgico para as empresas e para seus dirigentes. Trata-se. considerado preferível a uma expansão sem significado. com a história de uma região: o processo de criação institucional tempo.

portanto nitidamente diferenciados e interligados. ou ainda. ilusório acreditar que esse processo de criação institucional possa ser terminado. e é igualmente nele e por ele que elas podem se desligar. quem encarna por mais tempo as três bases sobre as quais a empresa se funda. As relações diretas. as identificações a objetos são substituídas por identificações a símbolos (faturamento. criar vínculos de dependência com eles. Como conseqüência de decisões. estabelecer vínculos com outras empresas e participar de uma rede industrial.Psicossociologia – Análise social e intervenção Essas soluções podem. a rachar. taxa de crescimento. entretanto. mais ou menos importantes. no sentido pleno do termo. uns em relação aos outros. com efeito. Esse trabalho deverá ser essencialmente assumido pelo dirigente. e de rupturas que essas provocam com o lugar. desenvolver uma rede de sub-contratantes. conscientemente tomadas ou impostas pelas circunstâncias. e mais a unidade mítica do tríptico terra-ofício-família tende a se quebrar. margem de lucro. por exemplo. mais eles se autonomizam. por regras ou por técnicas. Um tal processo pode ser. uns sobre os outros. indiretas. produtividade. evitando. na SUA cabeça que elas se ligam e tomam sentido. São interligados no sentido de que apresentam efeitos. emerge assim uma organização. traduzem uma participação em pelo menos dois desses três movimentos. ao mesmo tempo. Quanto mais eles se ampliam. consistir em dividir a empresa em várias unidades relativamente autônomas. etc). no entanto. assimilado a um trabalho de luto. São diferentes no sentido de que eles não se implicam mutuamente de maneira total. cobrindo um ciclo completo de fabricação e distribuição sobre toda uma região (o Oeste. face a face. é pois. que a instituição possa se reduzir a essa 102 . SUA terra. no entanto. é ele. as relações de poder pessoal são substituídas por regras e estatutos. admitindo divisões e separações. que manifestam um crescimento sensível. algumas das quais podendo se situar alhures. Seria. são substituídas por relações secundárias. situadas em regiões economicamente mais propícias. as pessoas ou os hábitos de pensar. por exemplo). que supõem prazos e contatos (redes etc. Os três movimentos que constituem o processo de institucionalização são. onde as relações são mediatizadas pelos saberes. é SUA família. então. ou ainda. Todas as empresas. mercados. SEU ofício que dá corpo a ele.).

sua ancoragem biológica. existindo para e por si mesma. Essa angústia é mais difícil de ser suportada quando. Mourão. para ingressar na linguagem e na ordem simbólica que se abre à história e ao futuro.Conjunção. Toulouse. sob pena de perder o contato com o real biológico. despregar-se. com o título Inconscient. “Conjonction dans l’entreprise d’un projet personnel et familial. apenas se o trabalho de luto está sempre ocorrendo e se a angústia que o acompanha está sempre presente. sua fonte energética. constitutivo do sujeito. (Publicado também em “Actes du Colloque de l’Invention Freudienne”. A instituição é um processo. O social nunca é estabelecido de uma vez por todas. desprender-se inteiramente.T. por Júlio M. Paris. é necessário desligar-se das identificações a “objetos” imaginariamente reais. além de traduzir o risco de perder os objetos de identificação primária. Se. na empresa.(mimeogr. é impossível.). do clã.) 2 103 . collectif). de negar aquilo que é. André. (N. de sua consistência. ficando na ilusão de sua existência. 1990. uma tensão permanente. no entanto. de sua unidade. de um projeto pessoal e familiar. organisation sociale. Notas 1 Traduzido de: LÉVY. Região situada no oeste da França. ele deve sempre compor com o nível primário. et de l’histoire d’une région: le procès de création institutionnelle”. Uma instituição está viva apenas na medida em que essa tensão é mantida. traduz também a ameaça de destruição do núcleo do real. com a história de uma região: o processo de criação institucional ordem preestabelecida. 1991. que é o seu fundamento.

Parte II A psicossociologia em exame .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 106 .

enfrentar suas dificuldades e buscar superá-las. Todavia. então. quais são os problemas realmente essenciais. No espaço até então ocupado por ela. mais eficazes e mais rápidos. Ela pode ajudá-los a analisar melhor as estratégias de ação que podem desenvolver. LÉVY. LÉVY) que querem inovar e criar novas modalidades sociais. No momento atual (e esse é um dos pontos abordados nos estudos de A. na atualidade? Aos olhos do psicossociólogo. mas ela pode auxiliar os atores e os autores sociais (segundo a terminologia de A. etnias. assim como compreender as conseqüências de suas tomadas de decisão. o recrudescimento do “narcisismo das pequenas diferenças” (FREUD). os “intermináveis adolescentes” citados por A. verdadeiramente. Entretanto. que acarreta as disputas inevitáveis entre nações. É certo que a Psicossociologia não tem poder para tratar dessas questões no âmbito da sociedade global. os mais importantes entre eles parecem ser o crescimento do individualismo. NICOLAÏ) ou os sujeitos (segundo A. LÉVY e A. sobretudo. Pode-se mesmo perguntar se a civilização não estaria passando por um processo involutivo (como já o temia FREUD). responsáveis por um incontestável mal-estar nas identificações e nas identidades. uma vez que ignoram a angústia inerente a toda transformação e a toda ação de caráter irreversível. com o seu corolário. as mudanças essenciais 107 . surgiram diferentes métodos de intervenção que se mostraram. NICOLAÏ). No momento atual. NICOLAÏ.PSICOSSOCIOLOGIAEMEXAME Teresa Cristina Carreteiro Muitos teóricos acreditaram que a era da Psicossociologia chegara ao fim. possível. finalmente. podemos nos perguntar (e é essa a questão colocada por A. aparentemente. o triunfo da racionalidade experimental. como o evidencia Nicolaï. de forma responsável. Essas transformações devem. pois. grupos religiosos etc. a fim de que as sociedades possam. capazes de levar em consideração as dificuldades inerentes a tais situações. um trabalho de tal monta é necessário e. ser pensadas e acompanhadas por intervenções de pesquisadores. nos seus dois textos) se esses novos métodos não minimizam a possibilidade de mudanças reais e duradouras. as sociedades são afetadas por consideráveis rupturas e mudanças. a busca desenfreada pelo êxito econômico e financeiro e.

como o fez Touraine. isso só adquire sentido se pensarmos que as modificações devem ser acompanhadas por mudanças no psiquismo do ator (autor. ela estará atenta à exigência de verdade e poderá ajudar os indivíduos a tentarem superar seus medos. os diferentes sujeitos devendo analisar sua própria implicação.Psicossociologia – Análise social e intervenção surgem em níveis locais e em regiões periféricas. levantada por A. através da crítica efetiva e da transformação de nossas práticas sociais. na atual crise pela qual passa o Brasil. Mas. com freqüência. sujeito). É verdade que a Psicossociologia deve evoluir. e que não se pode dissociar mudança individual e coletiva. desde a sua criação. levando-os assim a se tornarem progressivamente mais autônomos. No entanto. elas ocorrerão a partir da elaboração das dificuldades e da criação de novas modalidades de busca da verdade. interessar-se mais pelos movimentos sociais. além de auxiliar na pesquisa de questões relativas a como queremos e podemos nos transformar. pelas interações entre sujeitos. Ao contrário. LÉVY: as verdadeiras mudanças. seja para a sua involução. faz-se necessário o reconhecimento do mal-estar que perpassa todos os campos de nossa sociedade. Lidar com tais situações tem sido a tarefa da Psicossociologia. e não a nível global e em regiões centrais. LÉVY). seja para a evolução social. realizando um genuíno trabalho psíquico. Seguindo essa via. Será. ajudá-los a acreditarem nas suas próprias palavras. como têm sido feitas. prováveis de ocorrerem na sociedade. antes de mais nada. Essa disciplina deverá. Nesse sentido. conhecendo mesmo um certo prazer na criação individual e coletiva. não surgirão de tomadas de decisões formais. podendo auxiliar os vários atores a aprofundarem a reflexão sobre as suas organizações. na prática social. para tanto. quando afirmava que é na vida cotidiana que as transformações ocorrem. na relação e pela relação. atingindo mesmo as diferentes dimensões da cidadania. por tudo aquilo que poderíamos chamar de forças instituintes. Só assim pode-se proceder a um verdadeiro aprimoramento ético. Os sociólogos não se enganaram. dar atenção especial à conversação e ao debate. suas instituições e seus diversos grupos sociais. igualmente. capazes de contribuir. Ela poderá. Esse processo é longo. assim como por mudanças no modo do funcionamento dos grupos (A. É importante ainda mencionar outra questão. também. o “retorno do ator”. a Psicossociologia tem algo de positivo a oferecer. ritualizadas. 108 . quando anunciaram. a partir do reconhecimento de nosso lugar de atores sociais (enquanto sujeitos individuais ou coletivos). portanto. pois requer que se ultrapasse o nível da exterioridade. que poderemos reconhecer nossas possibilidades instituintes.

ainda. E isso se traduz em um interesse. – tudo isso parece indicar. forçosamente. em tantos setores da vida social? Sua influência no tratamento dos problemas de mudança individual e coletiva. presente em muitos meios. que a Psicossociologia não é mais um lugar vivo de criação intelectual e de inovação nem está presente em questões dominantes das organizações atuais. a receptividade reduzida das produções escritas recentes. as preocupações às quais a Psicossociologia tentou trazer respostas não perderam em nada sua acuidade e que nada leva a pensar que elas devam um dia desaparecer. muito marcadas por transformações profundas na organização do trabalho e nas relações com ele e por reviravoltas devidas à informática e às novas técnicas de comunicação. e observando-se toda uma série de sinais. é porque me parece que. de equipes e instituições tradicionalmente associadas a ela. Se me decidi a escrever esse texto. malgrado as aparências. seríamos tentados a pensar que. da socioterapia e da Escola de Palo Alto. nas condições de uma evolução das pessoas e das práticas organizacionais está atualmente em decadência? A Psicossociologia foi suplantada. com efeito. na acepção forte do termo. tornada obsoleta pelas novas doutrinas e metodologias que apareceram a partir daquela época e que se inspiraram tanto nela? Caso se acredite no que se diz a esse respeito. as tendências por demais freqüentes a reduzi-la a uma espécie de novo humanismo misturado a um rogerianismo neolewiniano. no início dos anos 60.APSICOSSOCIOLOGIA:CRISEOURENOVAÇÃO?1 André Lévy O que se passa hoje com a Psicossociologia e com as práticas que ela introduziu. por uma verdade da qual só é possível aproximar-se considerando-se a relação com o outro e por meio de uma pesquisa rigorosa que 109 .2 o envelhecimento. nem sempre bem sucedido. as coisas se passam assim: o número restrito de manifestações. no modo de compreender as organizações e as instituições e. posto ao gosto da moda pelas contribuições da Sociologia das organizações.

Mas importa. ou. da renúncia a certas ilusões para as quais ela criou espaço. em um determinado momento. Entretanto. retomando termos de E. que evidentemente não é exaustiva. os métodos centrados na expressão corporal. a partir das quais não é tão arriscado prever que ela possa tomar um novo impulso. elas tenham podido ser a referência principal.3 por um trabalho de análise que visa não ao simples questionamento. A decadência aparente da Psicossociologia Sem pretender realizar um inventário completo das novas metodologias que surgiram. uma após outra. uma gama extremamente considerável de meios que eles podem escolher. senão a única. de viver de outra forma. como todo fenômeno de moda. não apenas a inquietude e a interrogação. elas foram sendo substituídas muito rapidamente nessa função por alguma outra metodologia mais promissora.. constituem. Parece-me igualmente que. em seu conjunto. primeiro. o que tem como conseqüência que. do reexame sem complacência de algumas de suas metodologias (dinâmica de grupo e intervenção psicossociológica. desde o início dos anos 70. mais recentemente.. a análise transacional e. a partir de interrogações relativas ao papel da Psicossociologia na sociedade. em função do que lhes parece ser necessário. pode-se citar a análise institucional. elas têm em comum o fato de terem pretendido. É certo que a maior parte delas não desapareceu. 110 . tentar captar as razões e os significados da aparente decadência da Psicossociologia e do sucesso de métodos e técnicas que parecem tê-la suplantado. uma após outra. por exemplo). as abordagens sistêmicas da Escola de Palo Alto – a “comunicação nova” –. Embora durante alguns anos. as metodologias inspiradas em novas pesquisas em Psicologia cognitiva. mas que favorece a transformação da ação e suscita nos homens implicados. elas conheceram também um fenômeno de desgaste rápido.Psicossociologia – Análise social e intervenção exclui radicalmente toda relação ou desejo de submissão e de dominação. a análise organizacional. oferecer respostas globais a questões deixadas em suspenso pelas práticas psicossociológicas. ENRIQUEZ. de ter prazer. para os atores engajados na ação. Em outras palavras. Essa enumeração. reagrupa abordagens extremamente diversas e dificilmente comparáveis. para os atores sociais e para muitos práticos. mas a vontade de inovar. enfim. ela é hoje o lugar de pesquisas que têm como objeto renovar suas formas de abordagem e suas bases teóricas.

efeitos espetaculares em uma instituição. a outros métodos mais longos. O mesmo ocorre com a bioenergia e com outros métodos de reeducação sexual. incertos e custosos. meios que ele controla. eles se comparam. LEWIN e C. então. dentro de um limite de tempo (dez sessões no máximo). com vantagens. à medida que os psicossociólogos tomavam consciência das leis do inconsciente (limites da “autonomia”. deveriam ter sido consideravelmente reduzidas. na verdade. Podem-se fazer duas observações suplementares que contribuem para explicar o sucesso – comercial. 111 . pelo menos – desses métodos: a. auto-realização. eles estão prontos a se ajustarem a um requisito de resultados e não apenas de procedimentos. eles apenas retomam as intenções das primeiras experiências popularizadas por K.. elas consistiam em tratamentos visando a “objetivos concretos e acessíveis”. podendo escolher o local e o momento de aplicação ou combiná-los à vontade. eles “funcionam” a um custo relativamente reduzido de tempo e dinheiro.) e das intransigências instituídas nas estruturas e relações sociais e à medida que elaboravam metodologias acentuando a duração e um nível de investimento muito mais radical e.. tudo isso tem uma conseqüência de importância tão grande que modifica radicalmente a relação do ator com as técnicas: essas passam a ser. desse ponto de vista. em um breve lapso de tempo – da ordem de alguns dias –. ao mesmo tempo.A psicossociologia: crise ou renovação? Em si. no quadro sugestivo do brief therapy center – “centro de terapia breve”. ROGERS (resolução de conflitos sociais. com ambições mais limitadas e incertas. impõe-lhe regras às quais ele deve se submeter sob pena de torná-la inoperante ou de mudar seu significado. Quanto às terapias preconizadas pela Escola de Palo Alto. intenções que. por exemplo. emergência de personalidades mais autônomas e congruentes etc.eles se apresentam como respostas susceptíveis de fornecerem soluções eficazes e rápidas a problemas imediatos e delimitados.). isso é totalmente diferente da relação que ele deve manter com uma metodologia que. É praticamente certo que a análise institucional.4 contrapondo-se a tratamentos longos que perseguiam objetivos considerados como “utópicos” (tais como a busca de causas e origens dos sintomas). Em outras palavras. fazendo assim. ganhou grande parte de sua reputação devido à sua capacidade de provocar. Dessa forma. Certamente. por não lhe deixar escolha.

instrumentos e técnicas susceptíveis de serem utilizadas sem a participação de um sujeito. há que se lembrar. pelo instrumento e pela instrumentalização – que.Um segundo traço que nos parece caracterizar bem as novas orientações é o interesse muito particular que elas manifestam pelos mecanismos lógicos. automaticamente a problemas delimitados. reduzido. condenado a ser rejeitado. obriga-a a retornar às suas fontes e a se definir com mais rigor. Nessa perspectiva. aparecendo em utensílios. a um “ator” ou a um “agente”. a “crise” ou a decadência relativa da Psicossociologia pode ter um caráter relativamente saudável. 112 . Abandonar a outros um território no qual ela não poderia lutar no plano da eficácia. Tal fascinação pelo que “funciona”. na análise institucional que queria reduzir o papel do analista ao dos analisadores (“isso” analisa).5 não é possível daí deduzir que a concepção de mudança tenha se tornado puramente instrumental. dominada por relações mercadológicas e seus valores. tendo como corolário a colocação entre parênteses do sujeito enquanto ser de desejo e de projeto. concomitantemente. “enquadramentos”. Embora ocorram desvios. então. especialmente a necessidade de tempo. Tudo o que se apresenta como uma exigência do sujeito. CROZIER) que regulamentam as relações entre homens e o funcionamento dos grupos e das organizações de maneira quase automática e sem intervenção humana. se possível. tudo isso é. e que. não está muito distante de uma fascinação pelo poder –. deve ser compreendida no contexto de nossa sociedade altamente tecnológica. pelos “utensílios” que permitem responder rápida e. então. não garante nem assegura nada. o sistema de ação concreto de M.Psicossociologia – Análise social e intervenção b. mas parece ser verdade que o objetivo das metodologias assim desenvolvidas é a aquisição de um controle sobre os homens e sobre os processos. “sistemas” (por exemplo. colocada sob o signo da urgência (ou do sentimento de urgência) – sociedade que é fonte da angústia diante da ausência de um ponto de referência estável e central e pelo sentimento contrário de estar presa num feixe de determinações que escapam a todos. Isso ocorre não apenas nas diferentes orientações sistêmicas (de Palo Alto a CROZIER) que enfatizam a importância dos jogos e das regras do jogo. evidentemente. Essa tendência já estava presente. mas também nas orientações cognitivas.

implicando um bem. tal distinção não nos parece desejável pois. necessariamente. Para evitar a ambigüidade desse último termo e reservar-lhe apenas o segundo significado (psicológico). está próxima à noção de encomenda. especialmente. ao contrário. inscritos em uma história coletiva que. isso os levou a aprofundar o significado complexo das demandas que lhes eram endereçadas. Entretanto. isto é. mais ou menos explícitas. toda história singular. seu caráter paradoxal e a impossibilidade de reduzi-las. Primeiramente. Se. reciprocamente. mesmo se ela resolve de maneira artificial a ambigüidade do termo demanda. demanda de encomenda – LOURAU. um objeto. pode-se observar que o termo demanda comporta significados que se situam em dois registros diferentes: um de ordem econômica. uma perspectiva segundo a qual todo acontecimento psíquico. Assim. assimilá-la a uma encomenda. A demanda expressa. no limite. Nesse sentido. No que nos diz respeito. nesse caso. exigindo a submissão daquele a quem ela se dirige. é eco de acontecimentos sociais. há quem quis diferenciar.A psicossociologia: crise ou renovação? Se ela parece estar muito ausente do “mercado” é porque muitos psicossociólogos renunciaram. é a partir de uma reflexão exaustiva sobre a noção de demanda que a Psicossociologia se construiu. com efeito. Colocando como premissa a importância do psicológico no social e. endereçada a um outro. ato pelo qual a demanda (potencial) é feita. a fazer com que a crença em sua capacidade de ser “performático” fosse compartilhada. ela foi levada à idéia de uma “demanda social”. a articulação íntima entre o individual e o coletivo. a demandas por respostas e soluções. Assemelha-se. à noção complementar de oferta – demanda e oferta devem se equilibrar. uma grande parte de sua riqueza. no registro econômico. a noção de “demanda social” é ainda ambígua e necessita ser esclarecida. uma demanda de objeto. então. que podem. sem risco. entre a demanda e a encomenda. no sentido de ordenar ou encomendar. indo do pedido e da sugestão (que supõem o reconhecimento da liberdade do outro e sua adesão voluntária) à ordem (que supõe. “existe” e se desenvolve apenas se “vivenciada” por pessoas. assim como uma relação de troca. combinada então a pressões mais ou menos fortes. O conceito de demanda social Com efeito. retira-lhe. por isso mesmo. uma 113 . progressivamente. podem-se percorrer todos os graus. a demanda é. reciprocamente.

. seja de reconhecimento ou de amor. é que. trata-se de uma demanda de amor. Mas as coisas se passarão de forma inteiramente diferente caso o destinatário seja reconhecido e se reconheça a si próprio. na Psicossociologia. a questão da demanda – sua escuta. Seja qual for o registro – econômico ou psicológico –. freqüentemente ou sempre. aplica-se a todas as relações ditas de ajuda. necessário indagar a respeito de seu significado. durante um processo de consulta ou de intervenção. toda demanda de objeto revela também um apelo indizível a ser decifrado. pelo menos em um segundo plano. mas a expressão de um desejo. uma certa relação de poder e de dominação. então. pois o qualificativo “social” tende. a demanda é considerada não como individual. sua interpretação é sempre problemática. mas seria um processo permanente que daria sentido a todo o trabalho realizado. a “demanda” só tem sentido e só existe. 114 . inversamente. marido e mulher etc. inclusive e sobretudo por quem a formula. Certamente. no primeiro registro. disfarçando-se. objeto material etc. principalmente. dirigida a quem se estima seja capaz de supri-la. Ela se torna real por essa e nessa relação. solução. seu tratamento – é. na acepção própria do termo. em um trabalho social ou nas diversas outras relações cotidianas – entre pais e filhos. em demanda de outra coisa – conselho. a demanda é facilmente interpretável. ajuda.Psicossociologia – Análise social e intervenção relação de dominação hierárquica). uma das dificuldades da problemática da transferência e da contra-transferência na situação analítica. em contrapartida. seja em um quadro terapêutico. ainda é verdade que o termo demanda inclui sempre. No limite. no segundo. Ele não é evidente. tudo isso não é específico da Psicossociologia. Entretanto. na relação com aquele a quem ela se dirigiu e apenas se foi ouvida por ele. Se. dificilmente é formulada como tal. Outra vertente de significado do termo situa-se no registro psicológico. É. sua interpretação. de uma falta. a tirar da acepção corrente de demanda toda conotação psicológica. Enquanto é apelo ao outro. como capaz de dar uma resposta adequada (o objeto solicitado) ou caso diga ou seja incapaz de fazê-lo. mas como social. precisamente. o que lhe dá riqueza e complexidade. a “análise da demanda” não poderia ser um preâmbulo. Por essa razão. Nesse caso. o que dá um sentido e uma configuração particular a essa questão. explicitada pelo objeto que designa. aí. Toda demanda se situa ao mesmo tempo no dois registros. não é uma demanda de objeto.

as demandas sociais podem e devem ser analisadas e tratadas de maneira igualmente coletiva. das quais resultam vivências compartilhadas que. o psicossociólogo está sempre submetido a pressões que visam a colocá-lo em uma relação hierárquica (de mando).). Análise da demanda: a ética da Psicossociologia Fazer emergirem demandas não consiste em adotar uma atitude de escuta passiva simples. mesmo que seja de maneira difusa. nas quais elas podem ser avaliadas. compreendidas e interpretadas. as quais. o acesso a essas demandas e às situações problemáticas em relação às quais elas adquirem sentido se dá de forma privilegiada em situações de interação coletiva. de outro. manifestações agressivas ou angustiantes etc. reflexo interpretante. testemunhado através de seus escritos. não há nada em comum com a posição de simples espelho. Como conseqüência. atos e palavras. Mesmo quando essas expressões coletivas manifestam-se em microsituações – grupos e organizações particulares –. especialmente se ele próprio ocupa uma posição na hierarquia da organização na qual intervém. às quais é difícil resistir. Porém. uma demanda só existe quando escutada por seu destinatário e. podem ter efeitos nas situações que as originaram. ela é endereçada apenas àquele que se pensa esperá-la e que. mas também de permitir interpretá-las. a solicitou. Ao contrário. transformadas em atos. refere-se ao fato de que as demandas emergem em situações coletivas. Em outras palavras. De um lado.A psicossociologia: crise ou renovação? O conceito de “demanda social” não significaria que grupos e instituições se incorporariam em sujeitos portadores de desejos inconscientes. quis ou “demandou”. exprimem-se sob formas coletivas (greves. Assim. estão sempre ligadas a condições macrossociológicas que elas expressam. meios de resolver um conflito etc. é necessário que ele tenha se manifestado. de uma maneira ou de outra. por sua vez. há sempre o risco de reduzi-las ao objeto que elas anteciparam (reivindicação. de dependência ou de submissão. mobilizadas. Para que uma demanda seja dirigida a um consultor.) e de levá-las assim para um registro mercadológico. eventualmente. que sua prática não é aplicação de uma 115 . É em relação a esses dados que o trabalho do psicossociólogo pode ser definido: fazer emergir demandas através de situações preparadas com objetivo não apenas de permitir uma expressão menos difusa delas.

desde LEWIN. cujas respectivas demandas só adquirem sentido umas em relação às outras. de fixar um nível de rigor mínimo que permita ao psicossociólogo resistir a pressões e superar os riscos nos quais incorre: não através de uma filosofia abstrata. não podem ser considerados como tendo uma “demanda” analisável em si. ao contrário. no espaço desse artigo. mas que traduzem um desejo. um serviço administrativo. corresponde a uma representação da sociedade como composta de uma pluralidade de atores. Tal projeto reduziria a Psicossociologia a uma ideologia cujas metamorfoses certamente não seriam estranhas à “crise” que ela conheceu e que tentamos analisar acima. enigma. alguns pontos nos parecem determinantes: 1. a noção de sistema é bastante útil. DUBOST. Assim. Desse ponto de vista. que foi particularmente desenvolvido por Jean DUBOST. Evidentemente. consequentemente. ao mesmo tempo. uma empresa. Estar disposto a receber demandas sociais com toda sua dimensão intersubjetiva e a reconhecê-las como tais – e não como simples reivindicações –. que suas teorias não se reduzem a um quadro conceitual neutro. ela evita a tentação antropomórfica que consiste em atribuir a um grupo atributos de um sujeito individual e sua unidade imaginária.. um grupo. interagindo entre eles.6 como oportunamente evocado por J. não deveria ser identificada a um projeto de sociedade.Psicossociologia – Análise social e intervenção técnica posta ao dispor de atores sociais. individuais e coletivos. entretanto. com uma preocupação ecumênica de bom quilate – sob pena de trair o que dá sentido à sua ação. Tal representação exclui. tudo isso expressa bem o que. não é possível. mas através de princípios regendo procedimentos. cujo sentido e destinatário verdadeiro ainda têm que ser decifrados (renunciar. a reduzi-las a problemas específicos susceptíveis de terem uma solução externa). uma concepção da sociedade e das relações humanas. principalmente. parece-nos ser uma ética. de ser interpretada em toda a sua complexidade e com todos os seus paradoxos. na falta de outro termo. uma classe de atores etc. Entretanto. incitar assim também os solicitantes a reconhecê-las como questão. com a condição. independentemente das outras com as quais ela se articula. uma ética. afirmar que elas são. confessáveis e tratáveis. Trata-se. uma perspectiva – que. toda análise em termos de relações bipolares. da mesma forma. desenvolver esses princípios ou os procedimentos que os sustentam. BRADFORD antecipava tal perspectiva de 116 .Analisar a demanda social implica que se considere sua heterogeneidade. Esse ponto. princípios que não poderiam ser transigidos – inclusive.

trata-se de tentar definir. em especial. igualmente. conceitualizar as situações das quais emergem as demandas e compreender os processos que governam sua evolução. do conceito de “pesquisa-ação” contribuiu para precisar as formas como ela poderia se manifestar na prática. em especial. a perspectiva lewiniana de pesquisa-ação pode ir além. sem o perceber. os objetos de pesquisa comuns aos interventores e aos solicitantes e.Por outro lado. todo interventor ou consultante que aspira a exercer um papel de análise situe sua ação em relação a uma perspectiva de pesquisa e. tal mediação frente ao saber é a principal condição que permite ao ator social munir-se. a um trabalho teórico centrado em objetos de saber. dessa forma. não pode pretender submeter os processos de produção teórica apenas aos critérios de racionalidade e objetividade. A desconexão pregada pelos defensores da ciência positivista – Max WEBER. desde o início da ação de intervenção. então. aplica-se também à Psicanálise.A psicossociologia: crise ou renovação? análise desde os anos 50. como uma ação e como um modo de desenvolvimento de novos conhecimentos. FAVRET-SAADA8 deu ênfase a que o fato de falar e fazer falar nunca é neutro. antecipadamente. instrumental. Em suma. o interventor-pesquisador contra o risco de.Não importando qual seja o interesse dos preceitos positivistas da ciência experimental. (de forma relativa) contra os riscos de reduzir sua relação com o outro a uma relação de poder dual. J. 3. Sem dúvida. tal perspectiva não se restringe à Psicossociologia. A introdução. Desse ponto de vista. é importante que todo ator e. Evidentemente. O pesquisador etnógrafo está necessariamente 117 . por K. por exemplo –. incluindo tanto atores quanto interventores e analistas. a fortiori. Assim. a demanda à sua vertente econômica ou mercadológica). em uma relação de colaboração. ao mesmo tempo. LEWIN.7 Porém. a intervenção junto a um grupo deve ser vista. identificar os dados. para garantir a independência do pesquisador em relação às influências de poder e às ideologias. condicionada a uma preocupação de eficácia ou de utilidade (reduzindo. ter sua atividade mais ou menos afetada por sua posição de sujeito e de ator social. propondo os termos “sistema-cliente” e “sistema-interventor”. e sendo breve. 2. eles serão sempre incapazes de proteger o pesquisador e.

“o que pode ter sido através de seu próprio desejo de saber”. e não condutas estritas às quais o interventorpesquisador deve se conformar. FAVRET-SAADA. consagraremos a elas as últimas páginas desse texto. aceitar sua implicação e a subjetividade dela resultante. elas expressam antes uma perspectiva. brevemente.9 O “desprendimento” implicado em um trabalho de pesquisa não pode. é impossível. de “re-apreensão” teórica das situações observadas. de qualquer jeito. É indispensável.Psicossociologia – Análise social e intervenção “preso” pelo seu objeto. então. ele o é não tanto para prescrever uma tarefa que. implicam sempre em estar inscrito numa relação de forças. algumas tendências atuais. nos termos de J. 118 . essas diversas indicações não deveriam ser interpretadas como normas rígidas. “saber como se foi apreendido”. uma orientação. O “desprendimento” só pode resultar de um movimento duplo: em primeiro lugar. mas para levar os que se engajam nela a descobrirem seus limites. Perspectivas para o futuro A Psicossociologia ocupa. então. Da mesma forma. nem que seja apenas para legitimar sua própria posição de sábio em relação às “crenças” de “indígenas atrasados” cujos ritos estuda. um lugar específico no conjunto das ciências humanas e esse lugar diz respeito a necessidades duráveis. Entretanto. Igualmente. FAVRET-SAADA. investigar. embora não suficiente. da sociedade e das ciências do homem. dos discursos sustentados (incluindo o seu próprio) e dos processos realizados – “re-apreensåo” quer dizer. em seguida. tentando identificar. de apreensão – deixar-se prender pelos discursos dos outros e participar deles. consideráveis nas últimas décadas. A Psicossociologia é a instância de tal renovação ou ela se limita à reprodução de práticas antigas? Ela tem um futuro? Em caso afirmativo. parafraseando J. com tudo o que isso comporta de inconsciente e de cumplicidade consciente. reafirmar essa posição e manter-se nela. questionar. assim como observar. quais são seus pontos fortes? Sem pretender responder a essas questões. ser estabelecido antecipadamente como um princípio normativo. é importante que esse lugar seja interpretado em função de evoluções. Embora seu enunciado seja necessário. tal princípio apenas levaria pesquisadores e atores “a se mirarem no espelho que cada um mostra ao outro”.

com alguns trabalhos da Psicossociologia e contribuem para esclarecer. a problemas de mudança social. A pretensão da Psicossociologia de monopolizar a questão da mudança social. hoje. de intervenção ou de consulta sem referência a trabalhos de inspiração psicanalítica. Mostram também que tais articulações não são feitas facilmente e que elas se chocam com diversas 119 . dedicaram-se. etnometodologia. é impossível. de ordem geral.11 principalmente aquelas orientadas para a análise das instituições e dos movimentos sociais.A psicossociologia: crise ou renovação? Uma primeira observação. falar de orientações da Psicossociologia e de psicossociólogos. Finalmente. Por outro lado. convergências. Assim. de análise de grupo. a retrocessos ou mesmo que violaram objetivos e princípios fundamentais. não é mais aceitável. É certo que essas indicações sintéticas mereceriam um desenvolvimento bem mais amplo. Mostram. contribuindo sobretudo para a compreensão das dimensões institucionais e culturais. orientam-se cada vez mais para o estudo da linguagem como lugar de produção e de transformação de estruturas e de relações sociais. e se possa dizer que eles freqüentemente conduziram a impasses. rogerianas e morenianas. Não é mais possível considerar o trabalho de formação. com uma perspectiva bem global. elas acentuam a necessidade de uma abordagem pluridisciplinar e a impossibilidade da Psicossociologia renovar-se sem contribuições externas. cada vez mais evidentes. Em todo caso. dominados principalmente. no início do texto. assiste-se a uma multiplicação de pesquisas orientadas para a análise de discursos coletivos e para as interações lingüísticas – interlocuções. assim. sem evocar seus vínculos com outras disciplinas e outros atores sociais.12 embora em sua origem tais trabalhos tenham sido feitos com objetivos puramente descritivos e de pesquisa.10 Mais recentemente. até então. embora se possa ser crítico com relação aos desenvolvimentos recentes que revisamos. desde os anos 60. de uma forma diferente. impõe-se: qualquer que seja o domínio. por perspectivas lewinianas. certas correntes de Sociologia Clínica. talvez rapidamente demais. uma profunda reavaliação de seus métodos e objetivos. mesmo que apenas em uma perspectiva microssociológica. análise conversacional. os processos de intervenção e de mudança e para fornecer conceitos e métodos novos para analisá-los. a influência crescente da Psicanálise tornou necessária. é forçoso admitir que não podem ser ignorados e que se deve reconhecer que também eles contribuíram para abrir novos campos e formas de pensar. há alguns anos.

DUBOST. e BAREL. paradoxes et psychothérapies. 1983. Seuil. “La psychosociologie: crise ou renouvau?” Cahiers d’Etude du CUFCO. 1984. muitos outros atores apareceram: formadores. 7 Cf. L’Harmattan. 1973. In: Du discours à l’action. Connexions. nos anos 60 e 70. grupal ou institucional não é monopólio do psicossociólogo. “La recherche-action: une autre voie pour les sciences humaines”. Paris: Seuil. 1985. arquitetos etc. e CAMUS-MALAVERGNE. Como exemplos: BARUS. Connexions. LECLERC. 1978. Minuit. E. Gallimard. Paris: Seuil. com os quais novas formas de colaboração devem ser inventadas. 1984. 1975. 1972. Situations de groupe et relations langagières. TROGNON. E. Desde a colaboração intensa – freqüentemente conflitiva e não de todo desprovida de ambigüidade – que foi estabelecida. sindicalistas. La voix et le regard. 1981. André. 1990. 2:87. O. DUBOST. C. Le sujet social. 1980. L’intervention psychosociologique. 1965. “Connexions”. 10 120 . LÉVY. e de representações específicas de objeto. “L’analyse sociale”. 1987. W. 1987. Por exemplo: ANZIEU. R. Y. 2 4 5 WATZLAWICK et al. RAPOPORT. L’observation de l’homme. Connexions.. Entre le cristal et la fumée. com os psicanalistas e psiquiatras empenhados em reformas da instituição psiquiátrica. Sociologie du Travail. J. Seuil. In: ARDOINO et al. 12 BORZEIX. J. 11 TOURAINE. “Les trois dilemmes de la recherche-action”. L. Seuil. O problema da mudança individual. 1989. Dunod. 1978. Recherches sur les petits groupes. A. Payot. por vezes fundamentais. H. La parole intermédiaire. O que é verdadeiro no plano teórico também o é no terreno da prática. responsáveis políticos locais. E. Changements. JAQUES. 7. por Eliana Vianna Soares e Marília Novais da Mata Machado. Intervention et changement dans l’entreprise. 17. A. J. 1987. J. Em especial. 9-18. D. “Eloge de la psychosociologie”. G. 1987. Dunod. la mort. J. les sorts. PUF. BION. “Coopération et analyse des conversations”. GOFFMAN. trabalhadores sociais. e LÉVY. R. Petit traité de manipulation à l’usage des honnêtes gens. 43. “Une analyse comparative des pratiques dites de recherche-action”. A. La société du vide. p. Le groupe et l’inconscient. 6 8 9 FAVRET-SAADA. FLAHAULT.Psicossociologia – Análise social e intervenção dificuldades advindas de diferenças epistemológicas. Façons de parler. Dunod. ATLAN. “Ce que parler peut faire”. A.N. J. 53. CHABROL. Tese de Doutorado. Notas 1 Traduzido de: LÉVY. A. 1977. PUG. 42. Paris X. Les mots. DUBOST. 3 ENRIQUEZ. 1979. PUF. 1979. e JOULE. L’intervention institutionnelle. BEAUVOIS.

contribuíram de forma decisiva para a compreensão dos processos de mudança nas organizações. é significativa desse estado de coisas: se o primeiro reduz a mudança ao desenvolvimento de processos de regulação e de negociação permanentes nas organizações. se faz referência aos trabalhos dos psicossociólogos que. em nenhuma das duas. poder-se-ia ser surpreendido ao constatar que. tendência. essas obras trazem a marca das inflexões que o pensamento sobre a mudança conheceu. a abordar a mudança em suas manifestações cotidianas. resultam também da desilusão com a capacidade explicativa e preditiva das teorias gerais relativas à mudança. da crise das ideologias e das doutrinas que pregam uma transformação radical e revolucionária da sociedade.2 Mas. do efeito das decepções ligadas às evoluções políticas e sociais desde o início dos anos 70.3 sobretudo nas Ciências Humanas. Entretanto. em contrapartida. de forma mais ou menos clara. certamente. também. o segundo 121 . o ano de 1984 teria sido rico com a publicação de duas obras sobre esse assunto. mais do que como fenômeno excepcional. desde há dez ou quinze anos: desapreço às teorias gerais que oferecem modelos explicativos das mudanças sociais globais e. A importância que os trabalhos de CROZIER e de TOURAINE ganham hoje. retorno a uma problemática do indeterminismo. depois de LEWIN. no campo que nos interessa. interesse crescente pela análise e mesmo pela descrição de processos concretos de mudança nos grupos e instituições. relacionados com o desenvolvimento de práticas sociais de intervenção.4 Essas evoluções.A MUDANÇA: ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO1 André Lévy Para quem se interessa pela questão da mudança social. não podem ser atribuídas apenas aos psicossociólogos. em detrimento da problemática da sobredeterminação que havia dominado as pesquisas durante muitos anos.

preparadas em grupos pertencentes a movimentos sociais virtuais. estabeleceu que o lugar desse processo não era forçosamente o indivíduo sozinho. talvez por se terem situado no terreno das mudanças em vias de ocorrer. teve o grande mérito de abordar essa questão diretamente. foge à apreensão – pois só se poderia falar dele após sua ocorrência –. de uma leitura psicológica. muito fecundo. como demonstramos num texto anterior). compreendê-la como tal.5 Além disso. não é menos verdade que eles foram os primeiros a pressenti-las e a desenvolver suas implicações. definitivamente. que aparece necessariamente em toda reflexão sobre mudança. deslocamento. por isso. porém algumas observações prévias: a. Assim. no grupo (na relação e pela relação. do interior e não de um ponto de vista exterior. O conceito de interação pela linguagem7 parece-nos. e porque toda observação ou análise que se poderia fazer. fornecer alguns elementos de forma a precisar e complementar essas reflexões já antigas – mesmo que isso só possa ser feito de maneira aproximada e sugestiva. parece-nos possível. iria reificá-lo. LEWIN. com efeito. Se os psicossociólogos não podem ser considerados como os únicos responsáveis por essas evoluções. hoje. mas que ela poderia se realizar. mas participar do momento e do lugar nos quais ela se efetua e. aqui. K. participando delas diretamente. fez notar que se tratava não de uma simples passagem de um estado a outro. 122 .6 Apesar da extrema dificuldade que existe para se entender um fenômeno que se assemelha à criação poética ou à invenção científica e que.Estabelecer a mudança como processo grupal e não como resultado de uma série de interações entre indivíduos significa que o grupo constitui uma realidade fenomênica e que esse termo não define apenas um nível de análise. de súbito. para as constatar. designar como lugar desse processo a realidade intersubjetiva que constitui o discurso – atos de escrita ou de palavra – e se livrar. necessariamente. necessitando ser aprofundada. com efeito. dirigir ou combater. que a mudança social não resulta sempre da acumulação de mudanças individuais. recristalização). prever. ele permite. mas de um processo que podia ser descrito segundo três fases distintas (descristalização. aquém ou além. por definição. a questão que se coloca não é tanto a de explicar uma mudança já realizada. Nesse terreno. Antes. isto é.Psicossociologia – Análise social e intervenção ressalta as mudanças futuras.

que é a morte) – reprodução das espécies. No entanto. tem “o poder de transformação das representações” e o de “tratar situações insolúveis 123 .. não se reduz a esse processo evolutivo. Ele se traduz. a um processo de mudança..). reprodução das idéias..Se o discurso pode ser tomado como o lugar da mudança.). assim.) mudar não é submeter-se inteiramente à lei da repetição (. à aventura. elas mantêm entre si relações dialéticas e complementares que é preciso compreender. freqüentemente não isentos de violência. legitimamente. Antes de ser um acontecimento objetivo. lento e ininterrupto. tecnológico –. porém. Como já dissemos. a mudança no sistema e a mudança do sistema: se essas duas dimensões parecem contraditórias.8 Com efeito. O termo mudança poderia. por momentos de descontinuidade que marcam fraturas no destino. entretanto..A mudança: esse obscuro objeto do desejo b. econômico. é se abrir a uma história. é acontecer. a vida se conserva reproduzindo-se (termo que não deve ser confundido com a repetição do mesmo. o desenrolar de uma existência. Com efeito. a mudança é um acontecimento psíquico.. pois.. Toda vida é “repetição de ciclos”. eles não podem ser previamente enunciados. é um acontecimento ou um fato que introduz uma ruptura na vida do sujeito. ela é um acontecimento subjetivo. ao risco (. do pensamento Antes de ser um acontecimento material – biológico.. físico. reorientações bruscas. designar tudo o que está vivo. A teoria dos sistemas distingue. seja a de um indivíduo ou de um grupo. Isso nos obriga a precisar a que “mudança” nos referimos. Mesmo se posteriormente esses acontecimentos pareçam ter sido inelutáveis. A mudança é um trabalho do espírito.. como observou Paul VALÉRY.. tal definição é geral demais para ser útil. como ruptura. “exceto do corpo que se usa”.9 a mudança. é sobre essa segunda significação de mudança. nem todo processo discursivo se identifica. que queremos nos centrar aqui. (. também. escrevia Paul VALÉRY. é o espírito que. reprodução das instituições. desse ponto de vista. Com efeito. redirecionamentos.. mutações.) pelo aparecimento e exame de elementos de significação verdadeiramente inéditos (.

em todos os níveis.10 O psiquismo (o mental) e sua dinâmica são. tanto dos que as concebem quanto dos que as utilizam. que essas últimas constituem racionalizações de condutas instituídas e de situações objetivas. a emergência de instituições e de novas práticas sociais se realizam. Nosso propósito vai além: ele consiste em dizer que as mutações. 124 . a história do desenvolvimento da informática mostra como suas inovações mais técnicas e suas aplicações industriais mais espetaculares traduzem. de organização ou de poder do que como um problema psicológico. exceto numa perspectiva organizacional ou de teoria dos jogos. no qual o psicológico teria todo o seu lugar. só têm valor de mudança quando elas são apropriadas mentalmente. As condições materiais. depois de LEWIN. lugar e modelo da mudança Paradoxalmente. se o ato é fundador. segundo FAYOL) seria inconseqüente se não fosse recolocado no processo complexo do qual ele é apenas um dos momentos – se ele não fosse preparado por uma longa elaboração e seguido por um trabalho de apropriação. antes de tudo. da possibilidade de desligamentos e de novas combinações.Psicossociologia – Análise social e intervenção por meio da atividade de reflexão. ainda. objetivas. As inovações técnicas podem certamente ser consideradas como as manifestações mais gritantes de mudanças marcantes nas sociedades modernas e como o fator mais determinante da subversão dos valores. um trabalho de pensamento. por um trabalho do espírito. representações ou intenções e os que estimam. então. ao nível de suas significações. pode-se não duvidar da eficácia dos novos métodos de terapia comportamental ou das aplicações da abordagem sistêmica à terapia familiar. das instituições. isto é. mas essas seriam certamente ilusões perigosas se supusessem que se pode poupar um trabalho do pensamento. o lugar da mudança. Ou. ao contrário. Não estamos interessados na polêmica que opõe os que julgam que as condutas são determinadas pelas idéias. todos os esforços para acentuar o fato de que o ato de decidir (uma das principais funções do dirigente. o único capaz de desfazer relações antigas e elaborar novas e que. ele o é apenas se fizer sentido. Fazemos. A decisão tem sido encarada mais como um problema de lógica. A decisão: momento. os psicossociólogos. favorecendo o estado de disponibilidade de recursos próprios. dos modos de pensamento. por excelência. Por exemplo. Para entender bem essa proposição. ao contrário. é necessário se livrar de toda perspectiva em termos de causalidade. a liberdade”. interessaram-se pouco pelos problemas de decisão.

GRARANOFF salienta o fato de que toda decisão é. sublinhara a importância crucial do momento da decisão coletiva que. quanto é falso considerar negligenciável esse momento “decisivo” – no qual o sujeito que oscilava entra bruscamente e de maneira irreversível em um futuro imprevisível – ou considerá-lo como sendo de uma outra ordem. podem parecer distantes da decisão histórica analisada por FREUD da crença em um só Deus todo poderoso. Em um comentário sobre esse famoso texto de FREUD. então. a partir do enunciado de regras que não se apoiam em nenhuma legitimidade anterior. LEWIN. o psicanalista W. por exemplo). o “golpe de força” na origem de toda organização social. modifica as representações e leva os indivíduos a adotar novas condutas. em suas opções e em seus desejos fundamentais. em um trabalho anterior.13 acentuamos o ato arbitrário. da ordem do real-concreto-sensível. os que a tomaram e aqueles em relação aos quais ela é tomada. Os processos de decisão analisados por LEWIN. renunciando. a fundamentá-las no que até então parecia “evidente” (as sensações de repulsa. um salto para o desconhecido. 125 . A noção de processo não pode mascarar o fato de que a decisão marca uma descontinuidade no curso da história: só o fato de “tomá-la” cria.12 A decisão seria. só pode ocultá-lo. a divisão. afastando-se da certeza “baseada no testemunho dos sentidos” (do processo primário e das fantasias). Por isso. da continuidade sem hiatos. negligenciar ou considerar secundário todo o trabalho de análise e de elaboração psicológica que o prepara e o acompanha. inicialmente.11 incluindo os hábitos de compras das donas de casa de Ohio.A mudança: esse obscuro objeto do desejo Mas tanto é absurdo reduzir a decisão ao momento único da escolha. o tempo. uma situação nova e envolve inteiramente. de se dar um pai e de nomeá-lo (Moisés e o Monoteísmo). esse ato arbitrário pelo qual o sujeito se retifica. por si própria. algumas continuam sempre desconhecidas e o momento da decisão é sempre. para baseá-las em uma escolha voluntária que se apoia em uma aposta feita coletivamente em uma outra verdade. necessariamente. sem rede de proteção nem garantia de espécie alguma. a organização social. Somente a decisão pode fundá-lo”. por si. para chegar ao processo secundário e criar o real. com o risco de sua própria desagregação”. do feminino. da duração (bergsoniana). “operando uma disjunção violenta. em sua época. Qualquer que seja o grau de sofisticação dos estudos de probabilidades. a decisão de “não se apoiar no testemunho dos sentidos” e a de se opor à fantasia de que: “quem não pode chegar a se apoiar no real. ao mesmo tempo.

mas porque é um ato público. qualquer que ela seja... só é concluída quando tiver sido dita e ouvida. mas também emergência no seu próprio real – a ordem do discurso – da mudança evocada. isso significa que uma escolha. modificações na realidade. tomados como testemunhas. os termos nos quais a situação será doravante encarada e as condições nas quais ela é susceptível ou não de ser mudada. evidentemente. assim. as situações institucionais. por seu conteúdo informativo e prescritivo. apenas por seu enunciado. ele não compromete nem seu autor nem ninguém. nem que a palavra seja onipotente. não muda nada. Um ato. que o enunciado de uma decisão seja suficiente para transformar. esse se exprime aí e se expõe aí (nos dois sentidos do termo: mostrar-se.14 a enunciação de uma decisão: “eu decido então que. que uma decisão necessariamente modifica. não pode significar uma mudança. Isso não significa. econômicas ou sociais. Mas. como que por mágica. De acordo com as definições de FLAHAULT ou de TROGNON. pois. arriscar-se) – quer os destinatários estejam implicados diretamente na decisão. pois ele pode sempre ser desmentido. no sentido de que ele é um ato “que se realiza quando é falado” – à semelhança de uma declaração de amor ou de um insulto. ao mesmo tempo.Psicossociologia – Análise social e intervenção A decisão: ato de palavra Assim. A decisão: ato solitário e coletivo Como todo ato de palavra. a decisão é. simplesmente. nas relações pessoais dá-se o mesmo (o que é o amor sem sua declaração?). Mas. Toda decisão é. Uma decisão que não expõe nominalmente seu ator (nos dois sentidos indicados) não é uma decisão no sentido próprio e. em si mesmo. O sujeito de tal enunciado. simplesmente. assim. de forma mais importante ainda. um ato de palavra. explicitamente designado. manifestação da vontade de produzir. É a razão pela qual todas as instituições insistem tanto no reconhecimento explícito de atos realizados por seus autores – seu testemunho assinado. decisão tem essa significação não apenas porque não se reduz a uma resolução íntima. quer sejam.” é um ato “ilocucionário explícito”. dando assim sentido aos atos que a traduzem – sem o que tudo se passa como se nada tivesse verdadeiramente acontecido. é o mesmo sujeito da enunciação. a enunciação de uma escolha e o começo de sua realização: anúncio de um futuro. ao mesmo tempo um ato eminentemente individual e um ato coletivo. retomado ou reinterpretado. Se o sujeito que 126 .

Fazer crer que ela possa resultar mecanicamente da contabilidade das escolhas individuais é a fraude que todo poder utiliza para tentar se tornar invisível. rituais ou emblemáticos. e de abandonar o terreno do possível. O caráter coletivo de uma decisão é tanto mais manifesto quanto mais ela se traduz por uma palavra proclamada por um único homem frente à coletividade. a definição usual (segundo FAYOL) do chefe como aquele que decide contém uma parte da verdade apontada por FREUD. talvez mais do que em qualquer outro momento. força-os a se reconhecerem no futuro que ele traça ou a rejeitá-lo. compromete-se também por conta de outros e diante deles: ele os toma como testemunhas. e da obrigação de assumir sozinho as contradições coletivas. A indignação manifestada por alguns com relação a PISANI. como diante da morte –. em “Psicologia de Grupo e Análise do Ego”. interpretação e prática de análise social No entanto. entre as possibilidades. Porque uma decisão é de qualquer forma inevitável. do imaginário. o risco que ele assim corre estando na proporção daqueles aos quais ele convida. esconde mal. Decisão. os desafia. para fundar o real. efetivamente. sob a má fé dos argumentos. vazios de sentido e sem conseqüências. É mais comum tratarem-se de atos formais ou simbólicos. formal e. para um processo de mudança. a respeito do herói. ele é investido da vontade do grupo diante do que é necessário. Nesse sentido. eles próprios. inelutável. o despeito resultante de uma decisão contrária à dos que protestavam. a uma atividade lúdica ou de encantamento. Aqui. em que condições adquirem sua plena significação e apreendem o real? A prática da análise social permite esclarecer essa questão? Em que as reflexões precedentes permitem compreender as condições nas quais essa prática é susceptível de contribuir. como muitas vezes ocorre. conscientes ou inconscientes. bem antes do livro sobre Moisés. não se reduzindo. o jogo de hipóteses. igualmente. que preferiu propor um futuro às comunidades da Nova Caledônia. as decisões tomadas nas organizações apenas raramente têm a significação que lhes demos aqui. sem apreender o real? 127 .A mudança: esse obscuro objeto do desejo decide se compromete sozinho – nenhuma solidariedade pode evitar que se experimente um intenso sentimento de solidão diante de uma decisão importante. Então. as censuras que lhe foram feitas por fazer a escolha em vez de ficar como árbitro neutro e deixar os oponentes escolherem.

ainda que não tenham conhecimento disso. pedagógicas ou manipuladoras da mudança social. termo que. um levantamento de dados no contexto de uma intervenção psicossociológica pode. serve para designar ações reais bem como o relato dessas ações. a luta interminável contra os efeitos do recalque e o instinto de morte constituem. para se imporem como necessárias e para se traduzirem concretamente em condutas. contribuir para reificar os sistemas de racionalização e de explicação que justificam as condutas. escapar dessa eventualidade. Assim. para fazer a história. ajudar a fazer emergir conteúdos recalcados ou censurados e provocar trocas e um trabalho de análise susceptíveis de facilitar certas tomadas de decisão. sendo difícil. como toda decisão. eles têm a pretensão de “dizer a verdade” (“o narrador é aquele que sabe”) e contribuem. Na medida em que esses sistemas explicativos se apresentam habitualmente como uma re-escritura da história da organização. certamente. permitindo um salto qualitativo e a passagem sem transição de um nível de compreensão a outro. Mas a insistência sobre essa dimensão contribuiu para fazer esquecer que o trabalho de perlaboração só não cai no vazio se for ajudado por interpretações feitas no momento oportuno. certamente. nenhuma interpretação está assegurada ou completa. ela é necessariamente parcial e partidária. E é insistindo nesses aspectos que a prática de análise psicossociológica conseguiu adquirir sua identidade e se diferenciou das abordagens tecnológicas. tais como J. P. igualmente. remontando ao passado e interpretando “fatos” ou eventos que cada um pode ver ou experimentar. uma porta essencial para o que chamamos de trabalho de mudança. eles têm pretensões a uma objetividade que mascara interesses e jogos subjacentes à trama e aos efeitos que esses “relatos” buscam produzir. Seria importante. incontestavelmente. com efeito. Esses sistemas. O trabalho sobre as resistências. senão impossível. feita pelos psicossociólogos. implica um risco e um custo.Psicossociologia – Análise social e intervenção Uma certa leitura da Psicanálise. como observa FAYE. mas. levou a associar a mudança sobretudo a um trabalho de elaboração e de perlaboração (working-through). possuem as características do relato histórico. 128 . sublinhar que as mudanças sociais e as decisões levam tempo para amadurecerem e serem preparadas. Certamente. mais vale uma interpretação equivocada do que nenhuma interpretação. Mas ele pode. processo longo e contínuo – oposto aos atos que afetam diretamente a realidade ou à transmissão de saberes. FAYE15 as analisou. ao mesmo tempo.

muitas vezes. Esse contra-exemplo da pesquisa inscrita no contexto de uma intervenção psicossociológica permitiu-nos apreender. sobretudo. essas diferentes visões e o que elas ocultam.17 O ato de palavra que a pesquisa inaugura se transforma. É aqui que uma concepção por demais rígida. diz-nos LEGENDRE. ao contrário. que deveriam se abster de tomar o partido de uma significação mais que o de outra. subtraído do tempo”.16) O fato de colocar em evidência essas construções não somente não favorece a concretização de mudanças. impedindo qualquer possibilidade de palavra nova e fazendo com que os conflitos. e o desconhecimento dos interesses materiais ou psicológicos que eles promovem e que são relativos às posições ocupadas na estrutura por aqueles que os detêm (“A verdade dogmática visa a retirar do escrito seu traço de história”. bem como o lugar que ocupam na organização – e ocultar. assim. mas sua coerência. que eles constituem visões diferentes. mas complementares. de antemão ou posteriormente e em nome de uma pseudo – ”realidade”. longe de se fundamentarem no “real”. a pensar que lhes seria suficiente descrever os discursos. que preserva o analista social da decisão. mais ainda. “nascendo. então. em um processo de reificação de enunciados fechados. justificando. das condutas às quais elas se referem. de uma mesma “realidade”. fundamentam o real através de um ato de pensamento arbitrário. moral e “não-diretiva” da regra de abstinência induziu os psicossociólogos. visto que essas. do risco de uma interpretação verdadeira. a necessidade de uma atividade interpretativa para que um trabalho de análise se articule a um processo de mudança ao invés de tender a enrijecer 129 . atuem diretamente no real. contentando-se em esclarecê-los e. no inconsciente dos sujeitos. Essa vontade de imparcialidade e de objetividade.A mudança: esse obscuro objeto do desejo Os discursos que podem ser coletados durante essas pesquisas participam. uma parte da verdade comum. contribui para reforçar seu caráter dogmático. tende também a fazer acreditar que os diferentes discursos contêm. ela tem como efeito fazer esquecer o que constitui. cada um. os conflitos revelados pelas contradições entre seus discursos. ideológico. mas tende a afastá-las. práticas contestadas ou abordadas. o texto. Trata-se de um movimento contrário àquele subjacente às condutas de decisão. não podendo ser traduzidos em decisões. que as análises de conteúdo tendem a destacar com mais força ainda. bem claramente. pois.

Psicossociologia – Análise social e intervenção

os sistemas de representação e contribuir, reforçando-os, para condutas de evitação dos problemas e de negação das contradições. Em exemplos desenvolvidos anteriormente,18 estabelecemos, em compensação, como uma atividade de interpretação pode se articular com uma atividade de decisão e de mudança, na trama dos discursos e nas condutas concretas. Se pareceu surpreendente colocar “a decisão”, habitualmente associada a um ato de autoridade, no centro de nossa reflexão sobre mudança e se pareceu arriscado associá-la ao trabalho analítico e interpretativo, que exclui, por princípio, todo exercício de poder sobre outrem, esperamos, entretanto, através dessas páginas, ter apreendido melhor, com a própria ajuda dessa contradição aparente, o motivo pelo qual a mudança se situa, precisamente, na interface dessas atividades de pensamento, conjugadas uma à outra. Juntas, e somente juntas, elas permitem aos homens se protegerem “da luz brilhante do não questionável e organizar de outro modo o campo das significações”.19 O que a interpretação realiza no espaço analítico, a decisão realiza no campo da organização social, sem que jamais, porém, essa realização se traduza em conclusão, em enunciado de uma certeza; elas ficam, uma e outra, sob a dependência dos efeitos que engendram e, especialmente, daqueles que retornam sobre si mesmos: uma decisão é sempre submetida à prova da realidade, da mesma forma que uma interpretação, sempre suspensa na sua possível verificação, é sempre “fundamentada no amor à verdade, isto é, no reconhecimento da realidade que exclui todo engano ou simulacro”.20 Se a decisão, pelo que ela prescreve ou sugere, abre um novo espaço de condutas, a interpretação, pelo que ela enuncia, abre um novo espaço de palavras. Mas, como BATESON mostrou há bastante tempo,21 toda palavra se situa ao mesmo tempo nos dois registros da informação e da sugestão – ato de palavra, análise em ato. Elas definem o lugar da mudança na medida exata em que, tomadas em um campo de conflito no qual contribuem para deslocar os termos, nunca instituem uma relação de forças. Contudo, elas parecem facilmente contraditórias; mas isso não se daria por que essa contradição permitiria mascarar a realidade paradoxal das organizações sociais – elas sendo, ao mesmo tempo, projeto de continuidade, de previsão e de unidade, bem como instituição da divisão, da ruptura e de limites a todo desejo de onipotência? Do mesmo modo, esse

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A mudança: esse obscuro objeto do desejo

paradoxo inerente a todo sistema organizado, vivo,22 dura apenas o tempo em que acontece uma atividade decisória e analítica (ou interpretativa), seu desaparecimento coincidindo com a instauração de um Estado totalitário e cristalizado.

Notas
Traduzindo de: LÉVY, André. “Le changement: cet obscur objet du désir”. Connexions. 45, p. 173-184, 1985, por Maria Lívia do Nascimento e Sílvia C. Josephson. 2 BOUDON, R. La place du désordre. Paris: PUF, 1984. MENDRAS, H. e FORSI, M. Le changement social. Paris: Colin, 1983. 3 POPPER, K. L’univers irrésolu, plaidoyer pour l’indéterminisme. Paris: Hermann, 1984. 4 ALTHUSSER, L. Pour Marx. Paris: Maspero, 1966; BAUDELOT, C., ESTABLET, R. e MALEMORT, J. L’école capitaliste em France. Paris: Maspero, 1971. 5 LEWIN, K. “Décision de groupe et changement social”. In: LÉVY, André. Textes fondamentaux de psychologie sociale. Paris: Dunod, 1964. 6 LÉVY, A. “Le changement comme travail”. Connexions, 7, 1973. 7 TROGNON, A. Situations langagières et processus de groupe. Tese de Doutorado de Estado, 1980. 8 VALÉRY, P. Réflexions simples sur le corps. Variété V. Paris: Gallimard, 1945. 9 LÉVY, A., ibid. 10 VALÉRY, P., ibid. 11 LEWIN, K., ibid. 12 “A decisão de se restituir o pai, de reinstitui-lo depois de tê-lo descartado, é, como em Totem e Tabu, o ponto essencial que terá seu fechamento no livro sobre Moisés”. “Isolar o nome do pai é renunciar a se fundamentar no testemunho dos sentidos, é decidir que a paternidade é mais importante que a maternidade, decisão que, em si própria, é um dilaceramento, um distanciamento que se torna o seu próprio (...), é, para FREUD, a aventura da humanidade que cada homem deve refazer, pessoalmente, em seu destino”. GRANOFF, W. Filiations. Paris: Minuit, 1974. 13 LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations. Tese de Doutorado de Estado, 1978. 14 TROGNON, A., ibid.; FLAHAULT, F. La parole intermédiaire. Paris: Le Seuil, 1978. 15 FAYE, J.-P. Théorie du récit. Paris: Hermann, 1972. 16 LEGENDRE,P. L’amour du censeur. Paris: Le Seuil, 1974. 17 Essa vontade apoia-se também numa concepção relativista e subjetiva da verdade, excluindo a possibilidade de diferir o verdadeiro do falso. Como demostra FAYE, tal concepção está na origem do pensamento totalitário. 18 LÉVY, A. e DUBOST, J. “L’Analyse social”. In: ARDOINO et al. L’intervention institutionnelle. Paris: Payot, 1980; igualmente, LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations, tese citada; LÉVY, A. e ENRIQUEZ, E. “Évolution technologique et perspectives psychologiques”. Connexions 35, 1982. 19 CASTORIADIS-AULAGNIER, P. “Savoir et certitude”. Topique 13. 20 BATESON, G. e RUESCH. Communication. The social matrix of psychiatry. Norton, 1942. 21 Ibidem. 22 BAREL, Y. Le paradoxe et le système. PUG, 1979; ou, igualmente, LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations, op. cit.
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Psicossociologia – Análise social e intervenção

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RUPTURAS,MUTAÇÕESE COMPLEXIFICAÇÃOEMECONOMIA1
André Nicolaï

O objetivo da maioria dos economistas é o de equiparar o funcionamento da Economia ao de uma sociedade animal. Isso significaria: 1- Que existe uma perfeita determinação do comportamento dos atores (para os seguidores de PARETO, advinda da realização de um nível ótimo único; para os seguidores de KEYNES, da queda necessária na tendência ao consumo; para os marxistas, dos papéis dos “funcionários do capital”): assim, cada uma dessas correntes teria, à sua disposição, apenas um modelo de comportamento possível; 2- Que existe entre esses atores uma perfeita complementaridade de papéis e, por conseguinte, de comportamentos que visam ao seu desempenho; 3- Que daí resulta, necessariamente, um equilíbrio: equilíbrio ótimo para WALRAS, de subemprego para KEYNES, de lucro-zero para RICARDO. Na melhor das hipóteses, admitir-se-á um crescimento equilibrado (SOLOW) ou, na pior delas, um declínio a um estado estacionário (RICARDO). Poder-se-ia mesmo admitir que o equilíbrio é raramente atingido mas que, em tal caso, emergem mecanismos de regulação que atuam como fator de reequilibro do sistema. São raros os economistas que tratam da mudança por rupturas e mais raros ainda os que trabalham do ponto de vista de uma eventual complexificação após cada crise profunda do sistema. Somente alguns autores fundadores e algumas correntes ortodoxas ousaram atacar o problema: SMITH, no livro III da Riqueza das Nações (“variações do progresso da opulência nas diferentes nações”); MARX, em toda a sua obra; Schumpeter (Teoria da evolução econômica e Capitalismo, Socialismo e Democracia); PERROUX (A Economia do século XX); os historicistas alemães (que, aliás, jamais chegaram a um acordo sobre a sucessão dos estágios

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

históricos da evolução econômica); os institucionalistas americanos (de VEBLEN a GALBRAITH, passando por ROSTO, que se recusam a deixar unicamente por conta dos historiadores e sociólogos o tema da mudança). Existem várias razões para essa situação de carência teórica: inicialmente, o medo dos economistas de serem percebidos como influenciados por MARX; em seguida, o alinhamento da principal corrente de pensamento (o dos neoclássicos) com a física do século XIX (a do equilíbrio e da reversibilidade); a lição tirada de KEYNES (as interrogações sobre a longa duração só interessam aos subdiplomados e, além disso, “a longo prazo, todos nós estaremos mortos”); o receio de cair no domínio da não-formalização e de que a Economia deixe de ser “a mais dura das ciências moles”; o misoneísmo em relação a descobertas ou hipóteses elaboradas em décadas recentes pelas “ciências duras” (as “catástrofes” dos matemáticos, as estruturas dissipativas ou os atratores estranhos dos físicos, o não-evolucionismo dos biólogos: assim, por exemplo, foram necessários cinqüenta anos para a Economia se apropriar do conceito de regulação). Mais fundamental ainda foi a dificuldade (lógica, mas também afetiva) de se admitir, nas sociedades humanas e, por conseguinte, na esfera das atividades econômicas, que os agentes são simultaneamente: a) agidos pela lógica de reprodução-mudança das relações (das estruturas) do sistema, lógica e relação que preexistem aos agentes, impondo-se a eles; b) atores do sistema, uma vez que, por seus comportamentos, eles são o suporte de suas estruturas; c) autores, mesmo que involuntários, das mudanças que aí se produzem. Daí também as dificuldades em admitir: que a determinação dos comportamentos não é total e que cada agente dispõe de um leque de modelos possíveis; que a complementaridade entre esses agentes não é perfeita, o que pode dar lugar ao aparecimento de crises, mas também de estratégias, nas zonas de complementaridade imperfeita; que as crises, quando profundas, repetidas e duráveis, permitem justamente rupturas e mudanças. Todas essas hipóteses contradizem, termo a termo, aquelas enunciadas acima sobre a determinação dos agentes, da perfeita complementaridade dos papéis e do equilíbrio. Do exposto, duas conseqüências podem ser tiradas: 1- A teoria econômica depende sempre, para a renovação de suas hipóteses de base, das descobertas ou hipóteses enunciadas pelas ciências duras. Entretanto, ela precisa de algumas décadas para poder se aclimatar e tornar familiares essas idéias advindas de um outro lugar. 2- Quando, por fim, a adoção das hipóteses acontece, prevalece o raciocínio por analogia: os novos conceitos ou hipóteses são utilizados
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Mas já aí é preciso assimilar e divulgar a seguinte hipótese: no campo econômico (e em geral no campo social). Nesses períodos. cujos elementos. autogeração etc. isto é. os conceitos de dinâmica dos sistemas e de auto-regulação (a homeostase dos biologistas dos anos vinte). são simultaneamente (cf. que poderiam ser transpostos para o campo econômico? 1. existiam no globo cerca de 50 000 sociedades diferentes. 2. eles não são transformados a fim de se tornarem aplicáveis a um campo. mas também um deslocamento da coesão entre os agentes. a tradução conjuntural de uma imperfeição repetitiva na complementaridade dos papéis dos agentes.Rupturas. por serem produzidos pelo próprio funcionamento do sistema. as crises econômicas foram. O ambiente natural e mesmo o corpo natural dos agentes são. ou seja. químicos ou biológicos.Inicialmente. *** Quais são. uma recusa em manter a adesão aos “compromissos 135 . capazes de se auto-regularem. o que não é o caso dos elementos físicos. colocam outros problemas. não restavam mais que 10 000). as regulações espontâneas ou voluntaristas reequilibram o sistema. constituindo-se. “desnaturalizados” pela extensão do mercado. os novos conceitos e hipóteses. Em um período de crises simplesmente conjunturais (as crises do ciclo Juglar). oriundos de outras áreas. os atores. de sua capacidade de fazer frente a um leque amplo de disfunções. enquanto que as “diferentes sociedades” (outro componente do meio ambiente) desaparecem de modo acelerado (calculava-se que. em 1950. autocriação. Assim. verifica-se não apenas um deslocamento da coerência entre os papéis. face a “ruídos” provenientes do exterior. como crises momentâneas de coerência. em 1900. por isso. O resultado disso é um aumento da “variedade” do sistema. os “ruídos” são cada vez mais endógenos.Os conceitos de auto-organização. supra) agidos. mutações e complexificação em economia tais quais formulados. mas abertos ao seu meio ambiente e. a partir do século XIX. inicialmente. visto se referirem a soluções eventualmente encontradas (o êxito não é certo) para as crises estruturais e para as crises-ruptura. atores e autores do seu sistema. pois. literalmente. graças aos comportamentos de adaptação de certos atores. Eles se referem a sistemas autônomos. isto é. autopoieses. então.

É certo que essa escolha é aleatória. Nesse ínterim.I..P. mas isso deixa de lado os fatores 136 . Certamente não é falso explicar o ativismo do empresário-inovador pela “vontade de poder” (SCHUMPETER) ou pelo temperamento sangüíneo (KEYNES). Essas crises-ruptura. em especial. apenas as de DUPUY e PASSET) sobre o que poderia ser o equivalente econômico das estruturas dissipativas e. nesse momento. ligadas a um esgotamento da variedade própria a esse estágio do sistema. que existem muitas sociedades fechadas – ou que voltaram a se fechar – e. sobre os respectivos papéis do esgotamento da variedade própria a esse estágio do sistema. segundo CROZIER) e. No entanto. e só poderá ser verdadeiramente explicada a posteriori. de inovadores potenciais. exigidos por uma complementaridade necessariamente conflitante (pois não igualitária) entre os papéis desempenhados (exemplos de compromissos mal sucedidos: a aliança camponeses-indústria.2 por exemplo). de outro lado. por conseguinte. sob o protecionismo de MÉLINE. a partir do século XI até as atuais contestações periféricas do império econômico americano) pareçam mostrar. encontramos poucas reflexões (na França. ora entre as malhas muito frouxas ou esgarçadas desse Centro (a economia subterrânea da Lombardia ou a economia “bismarkiana” da Baviera). sob a égide do Estado. o compromisso fordista empresários-assalariados. logo não previsível. o que sabemos é que esse tipo de crise aumenta as zonas de complementaridade imperfeita (as “zonas de incerteza”. experimentam de modo disperso as várias soluções possíveis para essa crise. durante a inflação-crescimento dos Trinta Anos Gloriosos). Sua presença é vista como consolidada.Psicossociologia – Análise social e intervenção históricos”. de um lado. embora vários exemplos históricos (a estagnação árabe. exigem que se leve em conta a “flecha do tempo”: a irreversibilidade da “escolha” que será efetuada nas ramificações oferecidos pela bifurcação (ou a “polifurcação”?) onde nos encontramos. entre os economistas. amplia a margem de manobra dos inovadores que. na sociedade ou numa área econômica dada. costuma-se esquecer que tais inovações dependem da presença ou não. A mutação estrutural depende igualmente do “conjunto de inovações” que se revelarem dominantes. na França. assim como do próprio acaso na escolha que será feita entre as possibilidades apresentadas. Mas. que a reserva de desviantes potencialmente inovadores se constitui ora na periferia do Centro (os N.

E seria esquecer também os milhões de atores marginalizados ou mesmo “eutanasiados” pelas mudanças ocorridas na complementaridade de papéis. nesse quadro. elas correriam o risco de cair na armadilha do evolucionismo ingênuo. 137 . Mas a razão do mais forte deve se inscrever em uma lógica clandestina. da designação. MORISHIMA) que permitem ou não a presença desses tipos de agentes e sobretudo a aceitação – e. entre a mão invisível e o punho de ferro. Mas ainda continua faltando. ao nível dos detalhes. nessas mutações estruturais. Isso leva talvez à expansão das ocasiões de inovação e à multiplicação de experimentações inovadoras.Rupturas. Continua também faltando uma articulação entre os respectivos papéis. em cinqüenta anos. a complementaridade dos papéis: trata-se do ajustamento. mutações e complexificação em economia culturais (MAX WEBER. a difusão ou não – de suas inovações. Há outro problema não estudado. por conseguinte.I. Talvez a crise de coerência estivesse mascarada por uma persistência anacrônica da antiga coesão: a descrença em relação ao antigo compromisso histórico só pode surgir da nova geração. passando pela revolução dos costumes de 1968): é o fato de que as rupturas favorecem os conflitos de gerações. Em épocas de crises-ruptura. Mesmo se essas teorizações existissem. inerente ao sistema. CASTORIADIS). Isso significa que é preciso acrescentar às duas primeiras condições para a saída da crise (ampliação das possibilidades e a presença dos inovadores) uma terceira condição: a existência de um imaginário social que dê lugar a essas possibilidades e a esses agentes. junto à qual também se verifica o desaparecimento da adesão. uma teoria do fracasso. do mercado e das estratégias (públicas e privadas). desde os Goliardos da Idade Média até os jovens lobos dos N. assim como aos fatores culturais.. aparecendo assim como conflitos “trans-classes”. julgamento de Deus face à incerteza “não-probabilizável” (KNIGHT). ele se torna o ordálio.000 sociedades. pois “é preciso dar tempo ao tempo” (apesar da repetição do fenômeno. da predestinação do mais forte. Em período de não-crise (ou de crises reguladas) o mercado nada mais faz que aperfeiçoar. Já aludimos à localização na periferia ou nas malhas frouxas da rede. Isso seria esquecer o fato já mencionado do desaparecimento de 40. da linearidade (doravante descontínua) do “progresso”. Mas ainda permanece inteiro o problema da coincidência bem sucedida do shake-hand. ou seja.P. tornando possível viver em perspectiva (C.

outras referências. não poderemos jamais predizer em que direção ele se desloca. mesmo que saibamos.Uma última hipótese a ser ajustada em Economia: o aumento da complexidade. .fenômenos de recuo sobre as características locais e fenômenos de “identificações maciças” (E. diminuição do número de agentes que têm um poder real de ação. “mercantilização” generalizada do globo e de atividades que outrora eram não-mercantis (a cultura. à extensão do capitalismo (os N. poderes oligopolíticos em escala internacional.fenômenos de extensão truncada: o mercado se expande mas não necessariamente o capitalismo (o mercado + a acumulação + a “destruição criadora” + a relação salarial). antes de eventuais mutações e complexificações bem sucedidas (o equivalente da neotínea): o recurso ao mercado-ordálio (como nos tempos do capitalismo selvagem). podemos constatar: . que o Centro se desloca. 138 . polimorfismo das intervenções do Estado. da cultura.). ENRIQUEZ): nacionalismos. após dessacralização. 3. devido à extensão atual do mercado e.Psicossociologia – Análise social e intervenção Enfim. integrações regionais (Mercado Comum Europeu etc. por exemplo). integrismos. .aumento do número dos agentes aí implicados. BOYER. sectarismos (com suas conseqüências sobre os próprios comportamentos econômicos). após a solução eventual da ruptura. . a família e a escola).aumento da quantidade de informações emitidas e do número de conexões entre os agentes implicados. embora ainda não totalmente. o lúdico.fenômenos de regressão a formas mais simples.P. às vezes. . . desde BRAUDEL.). Mas. despolitização. por exemplo): concorrência. des-sindicalização e mesmo des-identificações. GROU. Ela se define (P.fenômenos de simplificação: diminuição do número de sociedades diferentes. fenômenos de “autonomização” e de assimilação lúdica de alguns subconjuntos econômicos (as “bulas financeiras”. homogeneização da linguagem. ao mesmo tempo.enfim. por exemplo) como “um aumento do número de elementos em jogo e um aumento dos vínculos existentes entre eles”. . o sagrado e. 3 .I. Certamente podemos multiplicar as referências atuais: .conjugação crescente dos mecanismos de regulação (R.

quando da sua transgressão e. um deslocamento das identificações laterais (o mais distante. uma época de crise-ruptura supõe não somente um deslocamento da coerência. Contrariamente. Podemos sugerir algumas hipóteses sobre as especificidades próprias aos sistemas sociais antropológicos (incluindo a Economia). para serem fecundas. o leque dos comportamentos não é. a fim de poderem ser transpostas ao novo campo de aplicação. tão caro aos marxistas de outrora.Rupturas. por outro. não se dá somente através do “interesse bem esclarecido”. para poderem inovar. as sociedades animais). contrariamente a todos esses sistemas (por exemplo. a complementaridade que os une (através do mercado e dos poderes) é sempre imperfeita e potencialmente conflituosa. a complementaridade entre os papéis e grupos de agentes detentores desses papéis nunca é perfeita. para cada grupo de agentes. dos quais recebemos hipóteses e conceitos novos. introduzir normas. químicos. mutações e complexificação em economia No que diz respeito à complexificação. Essa adesão. biológicos e mesmo etnológicos. ao invés do mais próximo) e verticais (do establishment aos inovadores). regras ou convenções para lhe dar suporte. D. É preciso. por outro lado. 1. além das imposições do mercado e dos demais poderes. pois. por um lado. 139 . Do mesmo modo. informáticos. devem inicialmente ser especificadas. REYNAUD). é preciso também questionar o antigo problema da relação entre o aumento das quantidades (dos elementos. a desculpabilização em relação ao desejo de infração e. mas também um deslocamento da coesão: o que acarreta. Ela supõe. identificações laterais (em relação ao semelhante) e verticais (em relação ao superior). uma interiorização das normas e uma culpabilização. Apesar da necessidade econômica ser reforçada pela coerção social (o controle social e as normas interiorizadas) e mesmo pelo prazer oriundo do jogo econômico (político etc. mecânicos. como afirma o individualismo antropológico. por um lado. completamente fechado. das conexões) e do “salto qualitativo”. *** Tudo isso tem por objetivo nos lembrar que as analogias.4 Mas essas regras só têm valor à medida que são (aproximativamente) respeitadas pela maioria dos agentes: a coesão deve ser o suporte da coerência e supõe a adesão às regras do jogo (J. por seu lado.Nos sistemas sociais. E esses.). objetivando marcar suas diferenças do estudo dos sistemas físicos.

em seguida. devendo encontrar. um New Deal dos poderes e uma modificação das regras do jogo. Por outro lado – apesar de KEYNES –. Existe então. por exemplo). as exclusões e eutanásias – violentas ou suaves – que tal fenômeno implica. então. de sua unicidade histórica. mais nitidamente. há geralmente mudança do número e da qualificação dos atores. Daí resulta a mudança no funcionamento da complementaridade e. de sentir um prazer lúdico em transgredir as regras do jogo e “reposicionar” os antigos atores. 2. sem haver forçosamente o desaparecimento do papel que era desempenhado pelos jogadores contestados (os agricultores substituem os camponeses. entre rupturas e mudanças no interior de um sistema (as mutações estruturais = as transcrições necessárias da identidade do sistema: relação salarial. estaremos lidando com os avatares de um mesmo sistema. por fim. as ocasiões de experimentar. dos fatos de regressão (por exemplo. 3. O imaginário da destruição pode. enquanto que. por isso mesmo. pelos golpes das OPA. muito numerosos e/ ou muito obsoletos. os profissionais da informática e da automação substituem os trabalhadores desqualificados. acumulação. pelo fato de que a longa duração se introduz e se choca com o cotidiano. inovações. sem esquecermos ainda as marginalizações. 140 . No primeiro caso. os economistas não deveriam continuar excluindo de seu campo de estudos as transformações de um sistema (o atual) que une o futuro ao presente. no segundo. esperar desfazer o imaginário da conservação e situar o sistema em um dos troncos da “polifurcação”. seria preciso distinguir. a modificação do tipo de conjuntura.5 o pessoal patronal). Dada a imprevisibilidade das mutações sistêmicas. os outsiders e os parvenus substituem. lidamos com a passagem de uma lógica de reprodução econômica e social a uma outra lógica. modalidades de mercado) e a passagem de um sistema a outro (as mutações sistêmicas: a passagem de escravo a assalariado.Para não cair no modelo do fator explicativo único e que se aplica a tudo. da sedentarização ao nomandismo). cria-se um conjunto em que varia o número de jogadores (os agricultores são menos numerosos que os camponeses) e da distribuição das cartas (deslocamento das formações exigidas e realocação das informações necessárias).Psicossociologia – Análise social e intervenção devem inicialmente figurar no conjunto de desviantes. No total. em período de crise.Quando há ruptura. é mais prudente deixar aos historiadores a explicação retrospectiva dessas mudanças. de se expandir e.

OPA: offre publique d’achat (oferta pública de compra. a adesão às normas e. representações. Ruptures. 141 . existirem na sociedade considerada e puderem se aproveitar de um abrandamento das imposições da coerência e da coesão. “esgotamento da relação salarial fordista”).).Apesar da necessidade e das normas (eventualmente o prazer). normas. V. mutations et complexification en économie (mimeogr. A continuação do funcionamento implica. março 1989. 1990. a complementaridade entre os papéis continua imperfeita e pode gerar a disfunção (crises conjunturais). um esquema ideal típico. Paris: ERES. 2. por conseguinte. “L’économie des conventions”. mutações e complexificação em economia Poderíamos talvez propor. Notas 1 Traduzido de: NICOLAÏ. André. A modificação espontânea ou orientada dos comportamentos de certos atores permite regulações e reequilíbrios do sistema. uma nova transcrição das relações que identificam o sistema e implica. em um determinado estado (sua capacidade de “variedade” e de regulação) encontra limites (existe. 2 3 4 5 Nouveaux Pays Industrialisés – Países recém-industrializados (N. por exemplo. de coerência) + a cultura (os conhecimentos.As estruturas (as relações de complementaridade e. a aquisição de conhecimentos e de representações.).Mas a adaptabilidade do sistema. 40. emergindo de reservatórios clandestinos ou periféricos de desviantes. então. tal como: 1. 2.T. por Teresa Cristina Carreteiro. Essa só será possível (pois o sucesso não está assegurado) se certos agentes. Cf. Revue Économique. por conseguinte.Rupturas. n. tornando-se então os emissários da renovação do imaginário social. 3. uma mutação estrutural. portanto. 55. a coesão) + o comportamento dos atores que fazem funcionar esses papéis e essas normas – explicam a lógica de funcionamento e de reprodução do sistema. então.).T. Connexions. “Malaise dans l’identification”. N. para experimentar as inovações. n. Cf.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 142 .

Esses se tornam “zonas de incertezas” onde algumas estratégias podem nascer e se desenvolver: a ocasião faz o ladrão.Introduzindo o “jogo” na coerência instrumental dos papéis e na coesão (adesões complementares). 143 . MARADONA. condições de “saída da crise”: l. jogando. talvez anuncie o fim delas. (Heráclito. só conservando o papel tranqüilizador das figuras de tio (W. todas se deslocaram para o Terceiro Mundo e para os países do Leste. precedeu uma crise econômica. e os transforma em autores das mudanças. a qual. E. então. a crise distende as complementaridades sociais e suscita falhas e interstícios. de incertezas). “desfusão das pulsões”. Atualmente. reorganização das personalidades e reciclagem da ação. Fragmentos. TAPIE e outros). precedeu uma crise política.Ela mobiliza atores em potencial. porém robusta. de rupturas) mas sim de mal-estar (isto é. Do mesmo modo. na imprecisão das referências e também no mal-estar das identificações. Assim. 4. (Hobbes) Tempo é criança brincando. ela mobiliza em cada “conformista” o lado desviante que persiste nele: há. a introdução de novas referências. Pois essas “perturbações”. nos anos 60. se bem que o mal-estar é conseqüência das crises. GORBATCHEV) ou de irmão mais velho (SOUCHON. criam. na reserva de desviantes que existem em toda sociedade. no 52) A crise das identificações. João Paulo II. o Estado-Providência perde ao mesmo tempo sua eficácia e sua credibilidade. No Ocidente.A crise enfraquece a capacidade dos poderes vigentes de controlar e de orientar o social. 3. por exemplo. quando não destroem a sociedade em questão.IDENTIFICAÇÕESEXPERIMENTAISEINOVAÇÕESSOCIAIS1 André Nicolaï O malvado é uma criança. BRANDT. 2.Ela confunde a hierarquia das referências culturais (o direito à diferença concebido como a dignidade equivalente das culturas) e permite. não se trata mais de crises (isto é. por sua vez. ROCCARD. de criança o reinado. MITTERAND. de algum modo.

Os recursos e os recuos: a manuntenção Essas tentativas de manutenção comportam muitas variantes. desses imaginários de projeto. as “intermináveis adolescências” que. que podem arrastar atrás deles certos “conformistas” que parecem certamente obedecer à regra: muda-se mais facilmente de práticas do que de idéias e de idéias do que de personalidade. “O narcisismo das pequenas diferenças” Ele consiste. com todas as posições intermediárias possíveis. assim. levados pela incerteza das situações e do futuro. O resultado é que. é claro. Mas quando se é obrigado a chegar a esse extremo. Consideremos três delas com suas subdivisões: o “narcisismo das pequenas diferenças”.No final de contas. Mas esses agentes inovadores ou reciclados coexistem e estão em relação com outros que. a tipos de personalidade diferentes. aparentemente dizem respeito a faixas etárias. por um lado. de modos diferentes. a grupos étnicos. ou como geradoras de pânico e de abandono por outros. essas recomposições implicam também a experimentação de novas identificações e a exploração de transformações suportáveis da identidade. inúmeros imaginários de projetos que se apropriam. 6. os elementos culturais e os meios de ação disponíveis. mas também versátil: essas duas características vão ser percebidas como fonte de vantagens ou de prazeres potenciais por alguns. para todos. São pois simultaneamente experimentadas atitudes e estratégias de recuo e de acomodação.Psicossociologia – Análise social e intervenção 5. tentativas de reconstrução. localizadas e transitórias. perplexidades face às alternativas e buscas de orientação. Quer se tratem de agentes inovadores ou reciclados. Daí os recuos ou as experimentações que implicam que o local substitua o global e o precário o durável. por outro. ao mesmo tempo. ela permite uma multiplicação de experimentações sociais.Ela libera. Esse movimento aciona inicialmente indivíduos ou pequenos grupos atípicos. de assimilação e de inovação. O “mal-estar na identificação” traduz. o individualismo ilusório ou de oportunismo. assimilam e transformam. angústias de identidade. recorrem e se agarram a referentes e modelos tradicionais (existentes. a categorias socioprofissionais e. ao contrário. não apenas a realidade parece incerta. reativados ou mesmo imaginados). diz FREUD. pode-se reciclar também a identidade. em um movimento de retorno libidinal a “um grupo cultural mais reduzido” e uma orientação da agressividade para os 144 .

Fenômeno que ilustra 145 .Os mais clássicos desses recuos dizem respeito às diferenças raciais. E a acentuação dessa depreciação segue as mesmas etapas que a necrose da organização que a emite: passa-se da organização ao serviço de um projeto exterior (a palavra para convencer e seduzir). A identificação que não se desvencilha do partido. na Polônia ou mesmo no Ocidente podem certamente corresponder a ressacralizações visando à sobrevivência: mas elas são também a reativação de um pai ideal e discriminador. podemos talvez perguntar se essa curiosidade não mascara um voyeurismo: assim o turismo é talvez a face iluminada. por uma dupla referência às diferenças tradicionais ou consideradas como tal e a uma escala de idealização-rejeição. em vista da emancipação para o societário e a individuação. do racismo. a. é paralela à involução identificatória de seus membros. nos dois sentidos do termo. finalmente. da empresa etc. O global deixa de ser área comum de confrontos ritualizados entre complementares para se tornar a arena de combate entre “tribos”. organizacionais etc. gorros cristãos etc. sobre a cumplicidade e a solidariedade dos companheiros ou do grupo familiar. profissionais. nacionais. é claro.3 A família. regionais.Identificações experimentais e inovações sociais grupos estrangeiros ou excluídos. as reativações religiosas atuais no Irã. e a aparência NAP) pelo simbólico. O que é mais importante: esse tipo de retorno narcísico leva à substituição do semiótico (véus islâmicos. Por exemplo. à organização que prefere “escolher” sua própria morte a renunciar aos seus “princípios” e despedir seus membros fixos obsoletos (os “clichês” combinando com o salário e com o estatuto de membros fixos).Esse retorno pode se dar sobre unidades sociais mais fechadas e. c. de classe.2 A valorização dos signos e da agressividade desvaloriza a linguagem. a regra e as sublimações. à organização que se toma por objeto de reprodução (o domínio da gíria do grupo como teste de recrutamento: assim o domínio das gírias universitárias) e. Assim. solidéus – kipas – hebraicos. b.O recurso de certas organizações a “clichês” traduz também essa depreciação da palavra significante em benefício da voz. religiosas. talvez estejamos passando do casal associativo “moderno” ao casulo pós-moderno. E mesmo quando as pequenas diferenças do outro são exploradas e valorizadas. torna-se uma contra-sociedade nos dois sentidos do termo. que é geralmente lugar de violência necessária e legítima. invólucro de incubação afetiva de ninfas à espera de seus imagos indecidíveis. da igreja.

Do primeiro diremos pouca coisa. Ela é. as afirmações de FREUD sobre a complementaridade antagônica dos vínculos familiares e dos vínculos sociais. sendo aliás esse que permite aquele. uma aclimatação cultural tardia da perversidade obsessiva do capitalismo (domínio da natureza e autoridade sobre os agentes) onde o prazer lúdico envolvido reforça a virtude puritana e anal que. pinta com falsas aparências a face pública de sua mônada: o efêmero da moda como garantia de sua própria eternidade e da fidelidade do Cavalheiro à Rosa. revelando assim a ilusão da satisfação ilimitada. Mesmo quando se eleva acima do nível elementar das práticas obsedantes do bodybuilding para atingir o brilho cintilante do vestuário ou da linguagem. E isso. pois ele reduz o espaço àquele que o separa de sua imagem e. b. a que impede a obesidade: nós não saímos da expressão corporal). fortalece as exigências da necessidade econômica. especialmente na França. não há narcisismo que se satisfaça unicamente com o olhar interior ou especular. O “sempre mais” do período 1945-1974 dos “Trinta Anos Gloriosos” foi transformado pela crise em “sempre mais alto”. primeiramente.Psicossociologia – Análise social e intervenção bem.6 Essa idealização do sucesso pecuniário. entre 1983 e 1988. por sua vez. o narcisismo individual. às avessas. O “novo individualismo” e a mônada com janelas falsas4 Com exceção talvez do autista. com o dinheiro. justamente porque mais na moda. são o narcisismo e o hedonismo do sucesso individual que ocorrem e se mostram de duas formas: a consumação insaciável e rápida de objetos simbólicos (uma bulimia vomitória. salvo que ele é a negação da realidade espacial e temporal. é.5 até que alguns craques na bolsa tivessem nivelado a trajetória dos golden boys. a ascensão profissional provada e marcada pelo ganho pecuniário. exatamente como Deus. isto é. uma conseqüência da crise econômica que transforma o mercado em ordália e desvaloriza o status adquirido. ipso facto. O retorno pode ir ainda mais longe. “tem necessidade dos homens”. Mas o mercado-ordália tem também o mérito de reintroduzir a binaridade (como se sabe. porque ele denega a passagem do tempo e o conseqüente envelhecimento. principalmente. de alguns yuppies e dos numerosos poupadores populares miméticos do esquilo de FOUQUET. além disso. a cenoura e o bastão são a mesma coisa) num mun146 .Mais interessantes. Quer dizer que o narcísico. quer opte pelo narcisismo de aparências corporais ou por aquele de aparências do sucesso individual. a.

induz não ao 147 . em substituição ao “Mudar de vida”). se autodestruiria. os assassinatos psíquicos (aqui pecuniários) são sempre menos punidos que os assassinatos físicos (SEARLES). se não for provido de códigos e rituais duráveis e respeitados. manter ou criar os meios de aumentá-la. O dinheiro. é mais simples escolher a binaridade. caso se propagasse a todos os agentes. acrescentando a atração lúdica que faltava à fórmula de GUIZOT. Assim. posto que mensurável e mesmo conversível – mesmo que seja só em imaginação – em bens equivalentes. Na verdade. essa acumulação pecuniária permite. atualizava o “Enriqueçam-se pelo trabalho e pela poupança”. de junho de 68. o prestígio etc.Identificações experimentais e inovações sociais do onde as referências de identidade e de identificação se tornam imprecisas. as identificações da concepção materna com as do priapismo paterno. simultaneamente. uma certa renovação do empresariado e o rejuvenescimento das figuras identificatórias. mesmo o perdedor “sabe a que se ater”. assim como com as regras precisas dos jogos lúdicos. exatamente como os pequenos narcisismos da diferença religiosa ou étnica. o mercado. Além disso. Entre a binaridade e a injunção contraditória. A monetarização. mas é ao mesmo tempo reconfortante: com a binaridade do jogo do dinheiro. A diferença na conta bancária é um indicador mais preciso que a multiplicação das diferenças de vestuário ou de status ou a contabilização fastidiosa de mártires da fé ou da revolução. Mas todas essas fantasias econômicas são ao mesmo tempo auto-realizadoras pois incitam os agentes a se darem os meios de realizá-las. uma erotização e uma “tanatização” brutais porque justamente binárias. se ela for realizada. em prêmio de Schadenfreude. Enfim. o festivo. tomado como “medida de todas as coisas” (inclusive do que antes não era mercadoria: o serviço público. Por enquanto. A palavra de ordem premonitória de Raymond BARRE. Isso é talvez patológico. notemos que o modelo do sucesso individual. numa androgeneidade fecunda. a mercantilização e a acumulação respondem às ameaças de perda de identidade e permitem uma identificação pelo menos tão abstrata quanto a que se pode fazer à lei e. mais tranqüilizadora. talvez. A vantagem da acumulação sobre as formas qualitativas do narcisismo é dupla: ela permite não apenas transformar – no imaginário – o qualitativo em quantitativo (o “Pompidou dos tostões” cúmplice do poder. o sucesso dos outsiders permite também e. “Criem sua própria empresa”.) permite. mas também efetuar (período 1983-1988) sua própria transformação sublimante do quantitativo ao qualitativo (o que ganha mais é o melhor). “O empresário competitivo” ou o candidato a empresário podem então fantasiar de copular.

(T. os barroquismos arquiteturais diferenciadores do urbanismo “pós-moderno” e até mesmo as escolhas narcísicas de objetos afetivos. uma crise da progressão das identificações e do trabalho do luto que essas etapas da constituição da identidade implicam. No caso de fraqueza delas.Psicossociologia – Análise social e intervenção risco calculável mas à incerteza e. E o “passageiro clandestino” vai se encontrar sem meio de transporte. necessariamente. adolescência e pós-adolescência -. A incerteza das regras e das referências tradicionais e. a adolescência se estende agora de doze a trinta anos. ele será levado a construir regras fictícias (por exemplo. nas três etapas – puberdade. a nítida binaridade do mercado. esse narcisismo manipulador. na época atual.É como se a incorporação do aleitamento e os investimentos iniciais sobre os pais não fossem transformados em identificações e 148 . que opta pelo oportunismo e conta com o “acaso moral”. na qual os próprios pais entram no modelo irmãos-irmãs. ANATRELLA) Podemos resumir em poucas frases essa pesquisa: a invenção da infância e depois da adolescência são fenômenos recentes. daí resulta. Intermináveis adolescências. instaura-se uma sociedade “adolescêntrica”. do adolescente revoltado e membro de um grupinho ao adolescente intimista e que convive numa microssociedade. a programação dos computadores das Bolsas) que. 1. entretanto. logo. cada um será. servir de modelo a outras esferas: a moda do kit que permite individualizar as diferenças. ao insolúvel. por sua automaticidade arbitrária e movimentos miméticos que suscitam. tudo isso torna altamente provável e muito facilmente explicável a estratégia do far-niente e o prolongamento de “intermináveis adolescências” por parte de numerosos jovens. Se cada um desempenhar o papel do “Cavaleiro Livre”. Se os outros também se recusam a entrar nas regras e abolem a culpabilidade de infringi-las. provocam a sanção do craque das bolsas ou dos OPA selvagens. a partir de elementos de vestuário comuns. um cavaleiro solitário.7 Isso que vale principalmente para as esferas econômicas pode. a individualização extrema dos novos modelos. Acrescentaremos apenas algumas observações. Porque a perversidade obsessiva do dinheiro e do sucesso pecuniário. como antecipar-se a eles e manipulá-los? Lembremos que o perverso tem necessidade de regras sociais e do sucesso dos outros para satisfazer seu narcisismo. tem necessidade que outros respeitem as regras para que ele possa obter seu ganho e seu prazer do ganho. passa-se rapidamente. em contrapartida.

Identificações experimentais e inovações sociais

como se essas não fossem constituintes da identidade e, por isso mesmo, da diferenciação. 2- Essa fuga do real e de suas oposições naturais (gerações, sexos, prazer, saúde) ou sociais (pais-filhos, trabalho-lazer, sagrado-profano) e suas expressões simbólicas instrumentais (útil-inútil, eficaz-ineficaz etc.), cognitivas (semelhante-diferente, verdadeiro-falso, culto-analfabeto), normativas (bem-mal, bonito-feio etc.) e relacionais (amistoso-hostil etc.), essa fuga é compensada, como ressalta essa obra, pela constituição de identificações e de microgrupos horizontais, a partir do modelo irmãos-irmãs. É necessário acrescentar: a substituição da imago confusa do pai pela figura avuncular, em lugar da necessária complementaridade dos status do pai e do tio, ressaltada já há muito tempo por LÉVI-STRAUSS. 3- A inversão da “chantagem afetiva” (das crianças em relação aos pais, em vez do inverso habitual) é um bom indício do mal-estar na identificação que, ainda por cima, remete à forma elementar da tentativa de inversão da chantagem: o período anal. Tudo isso é racionalizado nesse paralogismo: agora as crianças são desejadas; ora, eu não pedi para nascer; logo, se você quer que eu continue a optar por gostar de você, amamente-me e deixe-me brincar com seu dinheiro. (Em contrapartida, essa inversão institui a família como um dos lugares privilegiados da experimentação das transgressões e das inovações). 4- A apatia, a abulia e a paralisia se tornam os meios de manter uma situação de dependência alimentar, corporal e afetiva, associada a gratificações que a versatilidade das despesas e a impossibilidade de antecipar os comportamentos fornece. Criamse e mantêm-se, assim, personalidades “sem genealogia” (M. ENRIQUEZ), isto é, sem assimilação e superação das identificações. E a substituição atual, nos casais, dos amores flutuantes de até pouco tempo, por amores que fazem seu ninho, mantém a incerteza na diferenciação das figuras parentais e na diferença entre semiótico e simbólico, perpetuando, pois, as condições dessas intermináveis adolescências. 5- Se as figuras do tio (tia) e do irmão (irmã) mais velho(a) substituem as imagos parentais do pai ausente ou desvalorizado e da mãe ambígua ou “dominadora”, as identificações verticais serão transitórias (a rápida obsolescência dos ídolos o prova) sem se tornarem transicionais. Essa fragilidade e essa precariedade das identificações verticais será compensada pela solidez e estabilidade das

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

identificações horizontais entre pares amicais, nos quais procurase mais a semelhança narcísica de solidariedade que o questionamento das diferenças entre modelos educativos (J. PIAGET). O grupo de pares se torna, assim, confirmação da semelhança e da permanência, em vez de ajudar na superação, por lutos repetidos, das identificações parentais. A individuação é, então, adiada sem cessar.

As experimentações: inovações e identificações
Narcisismos de pequenas diferenças e intermináveis adolescências são retornos ou pausas em posições preexistentes. Mas, paralela e simultaneamente, experimentam-se outras estratégias que se ligam mais à assimilação e à inovação e que privilegiam mais os processos que os estados. Mas, como se tratam de experimentações, elas serão múltiplas, parciais, locais, precárias, contraditórias. Por isso, elas terão mais de “remendos próprios do pensamento selvagem” (Cl. LÉVI-STRAUSS) e de improvisações astuciosas da Métis que da experiência intelectual antecipante e preparatória para a ação, característica do Logos. Elas mobilizam atores novos ou reciclados. Elas redistribuem o emprego dos lugares e do tempo. Elas supõem a experimentação de novas formas e de novos objetos de identificação e a exploração de novas constituições e transformações de identidade. Elas provocam mudanças onde não se esperava e trabalham, assim, na reconstituição dos vínculos sociais.

Os novos atores
Entre os desviantes que toda sociedade necessariamente comporta, há os que são atores potenciais das mudanças. Se uma crise abre falhas (na periferia) e interstícios (no centro), esses poderão pôr em andamento estratégias de assimilação-inovação nas zonas de complementaridade imperfeita. Eles serão recrutados não somente nos meios geralmente marginalizados (um recente major na Escola normal é filho de Harki e as filhas de imigrados norte-africanos se saem melhor na escola que seus irmãos). Mas também nas famílias de classe média que têm uma estratégia de ascensão social, ou mesmo nos micromeios do establishment que privilegiam mais a adaptabilidade que o conformismo. A isso é necessário acrescentar que o fato de pertencer a uma sociedade só define e abre leques de possibilidades às personalidades e que é o futuro agente, através de identificações aceitas ou rejeitadas, que vai realizar, na sua biografia, uma dessas trajetórias possíveis.8 Sem esquecer também que certos adultos “estabelecidos” são capazes de reciclagem.
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Identificações experimentais e inovações sociais

Esses portadores de mudança assimilaram e ultrapassaram, assim, suas identificações para se construírem uma identidade inovadora e adaptável. A constatação de que, em período de mutação, muitas das transgressões inovadoras e construtivas são possíveis sem penalidades excessivas permite essa construção de personalidades em pessoas nas quais existem traços de perversão. Mas, diferentemente do perverso obsessivo pecuniário de agora mesmo, “não é ainda o ganho como tal, mas a paixão de ganhar que é essencial para ele”.9 Há, pois, aí um componente lúdico que ainda não se tornou obsedante, permitindo a busca da novidade e a colocação em andamento do polimorfismo da “Razão astuciosa”. Aqueles mesmos que contribuem para o obsoletismo dos ideais, dos códigos, das ordens estabelecidas, das organizações, põemse, por necessidade e por prazer, a criar projetos, regras, poderes e agrupamentos. Eles se tornam, assim, os autores de “Revoluções minúsculas”10 que modificam:

O emprego dos lugares, o emprego do tempo
E isso nas diferentes esferas do social 1- No lúdico, inicialmente, pois é aí, por volta de 1968, que as derrisões e os projetos começaram e, além disso, porque as outras esferas (a empresa com suas brincadeiras de empresa; a universidade com o disparate prometido na pluridisciplinaridade etc.) tentaram depois se apropriar da festividade para se tornarem mais atraentes. Mas, no domínio próprio do lúdico, constata-se, por exemplo, o lugar cada vez mais importante dos esportes e espetáculos esportivos de competição como oportunidades de identificação e como ocasião para descarregar agressividade. Da mesma forma, a consumação apressada de grupos musicais efêmeros tomou o lugar da fidelidade às vedetes coletivas ou individuais estáveis. Finalmente, um último exemplo: a popularidade e a renovação crescente dos jogos de simulações, de papéis e mesmo “de empatia”, aumentadas ainda mais pela introdução da informática. Todas essas experimentações tornam o lúdico atual mais próximo da Paidia espontânea que do Ludus regulamentado (R. CAILLOIS). 2- Em Economia, o hedonismo do sucesso pecuniário e social e as exigências da crise puseram em contradição os objetivos de mobilidadeflexibilidade com os de lealdade-identificação. A segmentação do mercado de trabalho faz coexistirem a ameaça de desemprego (para os recalcitrantes que podem ser substituídos) e as várias tentativas de sedução e de indução à fidelidade em relação aos executivos
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considerados excessivamente inconstantes e, ainda por cima, com a informática e a espionagem industrial, excessivamente tendentes à sabotagem ou à traição. Mesma oposição, entre os jovens, entre a precariedade dos empreguinhos e a motivação pelas empresas-juniors11 . E a um nível mais global, coexistência de uma economia oficial que, às vezes, perde o fôlego e de uma economia subterrânea, clandestina ou até mesmo mafiosa que, articulandose em redes regionais e familiares, chega em certos países a produzir 20% (Itália) a 50% (Marrocos, Colômbia) do PIB. 3- Se, em política, o número de militantes, de aderentes e mesmo, às vezes, de eleitores continua a baixar, isso não significa indiferença e ainda menos rejeição das instituições e dos partidos, como foi o caso depois das crises de 1921 e de 1929. A perda das ideologias não leva à desmobilização total mas, ao contrário, a lutas ativas de tendências, a tentativas de “renovação” e à emergência de outsiders (atualmente os Verdes). Sob a égide de um “consenso fraco” e avuncular, numa aparente ausência de gravidade e na adesão de quase todos à “economia social de mercado”, tecem-se novas redes entre novos atores e explodem, às vezes, arrebatamentos na defesa da Escola (ou de sua laicidade) ou nas campanhas humanitárias pelo Terceiro ou Quarto Mundo. Assim, “o coração à esquerda, a carteira à direita” e o trocado no centro restabelecem as referências que pareciam ultrapassadas. 4- A esfera da reprodução física e social dos agentes, apesar dos atrasos habituais em relação a uma realidade em mutação, é também o lugar de experimentações simultâneas e sucessivas, embora freqüentemente inábeis (a sucessão de reformas escolares). A coexistência e a rivalidade dos modelos patriarcal, conjugal, associativo (G. MÉNAHEM) e, agora, que fazem ninhos, assim como a coexistência de referenciais corporais (das belas produzidas às belas sensuais) ou emblemáticos (do herói ao anti-herói) já chamam a atenção para a diversidade dos “familiogramas” que aí se poderiam revelar. Mas também, do seio dos adolescentes intermináveis, emergem, de tempos em tempos, líderes estudantis, festivos, políticos (mas não ainda religiosos). 5- Isso não coloca o sagrado livre de qualquer mudança, apesar da predominância atual de efervescências religiosas. Se a prática dominical católica caiu na França abaixo de 10% (cf. Le Monde de 27 de outubro de 1989) e se a mediação dos prelados ou dos teleevangelistas e dos Tios (Abbé Pierre) ou Tias (Madre Tereza) deixam de lado as organizações e as instituições intermediárias, aparecem, entretanto, práticas e grupos de oração ou de reflexão que,

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Identificações experimentais e inovações sociais

por vezes, chegam a se organizar em redes para sustentar organizações não governamentais (e não episcopais) caritativas, educativas e, às vezes, mesmo no Terceiro Mundo, produtivas. Sem falar das seitas, do recurso ao horóscopo, aos advinhos e às loterias. Em todos esses casos, trata-se por certo mais de religiosidade que de religião: até o Estado é abandonado pela Providência, sendo o luto pelo pai que não chegou a ser reverenciado, substituído pela nostalgia persistente do “gigante sagrado”. Mas essa religiosidade talvez prepare a retomada de movimentos realmente religiosos (pensamos, é claro, na predição de MALRAUX para o século XXI), se entrementes o Sagrado não tiver se fixado sobre um objeto profano menos totalitário e obsessivo do que podem ser, às vezes, respectivamente, a política e o dinheiro. Esse percurso das esferas do social permite pôr em evidência algumas características comuns: o resfriamento do global compensado pela mediação de uma figura central avuncular (ou de irmão mais velho); a coexistência de experimentações locais, parciais, múltiplas, precárias e, freqüentemente contraditórias; os tateamentos de veleidade de passagem do semiótico ao simbólico; e finalmente: o desaparecimento de corpos e organizações intermediárias entre o local e o global.

A passagem ao local marca o recurso “às pequenas unidades sociais” (WINNICOTT desde 1971) e instaura “o tempo das tribos”. No cume, os “ídolos” sem veneração ou com entusiasmos efêmeros; na base, grupos de debate. No meio, apenas algumas instituições estimadas (sem ilusão excessiva: a escola) ou sempre fascinantes (as Grandes Escolas) parecem se manter. A prática religiosa dos católicos franceses reduz-se à metade em trinta anos, porém numerosos são os grupos carismáticos. A CGT perde mais de 55% de seus efetivos entre 1977 e 1987, mas as reivindicações dos assalariados se exprimem através de “coordenações” fugazes, porém decididas. Poderíamos também constatar a simultaneidade da mundialização do mercado (até nos países do Leste) e a transferência dos poderes econômicos nacionais, quer para firmas multinacionais cada vez mais “apátridas”, quer para a nova região asiática dos “Cinco Tigres” e, mais dificilmente, para a CEE. E, no interior de um país, é o Estado que se julga obrigado a incentivar os “núcleos duros” ou a conservar os golden shares para impedir o esfacelamento ou as pilhagens selvagens e sem sedentarismo.
É que os novos atores não têm nenhum interesse e não obteriam nenhum prazer se as zonas de incerteza se reduzem excessivamente, por codificações precisas ou por organizações invasivas. Em período de
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a secreção de regras precede a transformação de redes em organizações distintas.Psicossociologia – Análise social e intervenção experimentação é necessário preservar a margem de manobra: assim sendo. por exemplo. cada um é favorável às regras para os outros e à liberdade para si. 154 . Pode-se. Aí o nomadismo errante se transforma em migração periódica orientada. fora do controle exercido pelo Centro. A flexibilidade-mobilidade atual talvez seja tanto um desejo quanto uma constatação do que existe. Com a condição. mesmo que sejam minúsculas. “surpresas”. que os investimentos lábeis de objetos desse nomadismo só se concentrem nos meios de ação. cujo dinamismo se apoia no nacionalismo local. É por isso que as revoluções. por historiadores como BRAUDEL ou I. Além disso. porque as primeiras podem ser modificadas mais facilmente do que as segundas que. WALLERSTEIN: as mutações de desenvolvimento jamais se produzem no país momentaneamente dominante. Essa atração pela mobilidade e pela flexibilidade tem como conseqüência a necessária aceitação da precariedade eventual dos resultados da ação. Além disso. Nesse caso. antigamente atrasadas. uma vez instaladas. prever que as turbulências continuarão a afetar por muito tempo esses níveis intermediários porque elas são favoráveis à emergência de “minorias ativas” (S. pois. O deslocamento dos centros e o nomadismo dos atores Esse é um fenômeno bem esclarecido. no que tange à história do capitalismo. o que é um dos signos importantes da passagem do princípio de prazer ao da realidade. pois. as pressões econômicas iriam ao encontro de desejos pessoais. como. a efemeridade das identificações e dos prazeres dos intermináveis adolescentes se transforma em tomada em consideração da existência do tempo. em certas regiões. é necessário que os atores periféricos ou intersticiais tenham traços comuns de personalidade que os predisponham para isso. conjugada com a manutenção dos objetivos. mas nas zonas periféricas onde as aquisições instrumentais e culturais podem ser reordenadas e desenvolvidas sob um novo imaginário. pelo menos em muitos jovens. Assim. entretanto. não podem ser reorganizadas e reorientadas. do norte da Itália onde se desenvolvem redes de PME (pequenas e médias empresas). MOSCOVICI) e às suas tentativas de deslocamento dos poderes e de ocupação do espaço. inclusive jovens executivos12. os quais estão a serviço de objetivos determinados e realizáveis. produzem-se onde não se espera e constituem. E as impaciências do “tudo imediatamente” cedem o lugar à procura de atalhos no adiamento da realização do desejo.

a conformidade e.. É claro que a contaminação generalizada é própria de uma situação de crise em que o desaparecimento das referências deixa o campo livre para injunções contraditórias. no adulto não é a repetição mas. constitutivas da personalidade e. Em contrapartida. as sociedades fundadas sobre a relação fusional (Gemeinschaft). Todas essas mudanças disseminadas no emprego do tempo. ao contrário. Se esses aspectos importados de outros domínios aumentam.) pelas outras. unicamente confirmadoras da identidade. mas existem. podemos contrapor. do político (mudanças de poder) e mesmo do doméstico (a suposta excelência de certas “grifes”) pelo econômico é importação de motivações próprias para as outras esferas e. por sua superação. mas é também uma dimensão de todas as outras (M. as referências são apenas evanescentes: são imprecisas e inconstantes. a mudança de situações e de escolha de objetos que aguça o prazer. o conformismo dos agentes denotam identidades inacabadas. ainda mais. idealmente. E como se sabe. cujos agentes perdem suas identidades quando se encontram em um outro agrupamento.. dos valores. jogo de empresas. cujas identificações seriam. o tipo ideal seria aquele de um agente individualizado (capaz de ser ele mesmo com os outros. as identificações são.Identificações experimentais e inovações sociais Um outro signo dessas reconstruções dispersas aparece no investimento de cada uma das esferas de atividade (econômica. GODALIER). do espaço. logo. MC DOUGALL). aumento da variedade e da intensidade das motivações com objetivos econômicos. Assim.). a personalidade arrisca-se a desmoronar). Cada esfera de atividade tem seu campo próprio. das idéias. Mas. colocam o problema do papel desempenhado pelas identificações. O papel das identificações Um pouco paradoxalmente. política etc. a captação do lúdico (jogo de papéis. E essa mobilidade pode produzir inovações e novas implicações dos atores. das coisas. a mudança de cada uma das esferas crescerá paralelamente aos prazeres obtidos. diz WININICOTT). Paralelamente. no início. substitutivas (a vida por procuração) e arcobotantes (sem contrafortes.. e as sociedades baseadas na troca (com suas diversas variantes fundando a Gesellschaft) onde os agentes sublimam os vínculos familiares em 155 . principalmente por aqueles agentes que são felizmente tocados por “uma certa anormalidade” (J. numa situação de mal-estar. dos prazeres. aí.. em seguida. desde bem antes de FREUD (FOURIER já tinha observado).

Psicossociologia – Análise social e intervenção vínculos societários (TONNIES revisto por FREUD). DUPUY. E o que permite essa simultaneidade está talvez indicado no divã ou nos hospitais psiquiátricos. Desse modo. as esferas atualmente se interpenetram) e a uma figura representativa (mas a única figura gratificante de identificação de prospeção é a do irmão mais velho. a fonte da atenção atual para as autopoieses e as auto-organizações (VARELA. .a dificuldade está. O atual mal-estar na identificação não seria proveniente da passagem por um barroco (inédito desde o período que precede o rapto das Sabinas): a constituição tateante de um vínculo social por uma “sociedade de irmãos” sem referentes paternais plausíveis? Poderíamos sugerir a seguinte seqüência: . Essa é. em identificações hierárquicas. retornos aos vínculos familiares verticais ou aos dos sósias desses. então. é um problema de escrita que obriga a ler o programa e a obedecê-lo. em transformar as identificações laterais. por exemplo). é o fracasso que sanciona e não a falta que culpabiliza. por uma dicotomia bem marcada entre os distúrbios decorrentes da predominância das referências ao ideal do eu sobre as referências ao censor e os distúrbios estritamente inversos. situam-se todos os barrocos das sociedades concretas. entre esses tipos extremos e opostos. com o 156 . . tipos de vínculos laterais (de tipo irmãosirmãs) ou colaterais (de tipo tios-sobrinhos) que propõem identificações menos estruturantes que as precedentes.13 Fundamentalmente. Resta ainda ligar o ideal do eu a uma esfera de realização (mas. . imprecisas e transitórias. A autocriação da sociedade é recriação de seus agentes. mas constata-se ser isso impossível ou de novo decepcionante. como vimos.experimentam-se. então.tentam-se. Mas. sem dúvida.os vínculos sociais anteriores (constituídos evidentemente pela emancipação e superação dos vínculos familiares) se revelam caducos e decepcionantes. onde o censor só interviria para condenar os distanciamentos entre a realização e o eu ideal.isso explicaria a diversidade das experimentações e também a predominância atual da Métis e dos semióticos sobre o simbólico e o Logos. então. representadas e transicionais. ao mesmo tempo que se escreve. Se se quiser caricaturar: narcisismo atual contra neurose obsessiva de outrora. . Mas há formas de narcisismo bem mais numerosas do que aquelas já mencionadas aqui. Salientemos uma que poderá ser encontrada como traço de personalidade nos inovadores de que tratamos: um ideal do eu nascido quase sem pai.

Algumas conseqüências 1. das utopias (“mudar a vida”. Mas também o aumento do prazer obtido na substituição rápida das identificações com as figuras múltiplas e fugazes do referente fraternal. que apesar de HEGEL. a “estrutura dissipativa” de orientação se tornaria: ser melhor sucedido.O tipo de conseqüência mais marcante é o das apropriações: desde 1968 há apropriação pelos poderes políticos sucessivos de projetos (modernizar a universidade) e mesmo. das coordenações pelos sindicatos etc. a diversidade e a flutuação das experimentações de saída da crise social. outsiders ou reciclados. Essas apropriações podem. em concorrência). no fim de contas. a idade ou a condição de estrangeiro colocam em situação de espectadores ou de vítimas: nenhum deles pode antever o resultado. Mas também apropriação da tendência lúdica pela empresa e pela Bolsa. apesar de tudo. Mas essas reconstituições permanecem parciais e. diferentemente e alhures que o referido irmão mais velho. na Colômbia ou alhures. de Daniel BELL e de FUKUYAMA. Mais surpreendente ainda seria o caso da ligação dos movimentos carismáticos com redes nacionais e mesmo internacionais que tendem a escapar da autoridade episcopal e mesmo pontifical. por isso..Identificações experimentais e inovações sociais qual se está. 2. e das intermináveis adolescências. em 1981). de fetos ou de liberdade de viajar. pois. quanto para aqueles que o desemprego. reconstituições múltiplas do tecido social: passa-se das ilhas ao arquipélago. das motivações de poder pelos agenciadores de OPA. às vezes. da maioria dos marxistas. dos indivíduos e da identificações 157 .. permitir a certos herdeiros enfeitar o cadáver sob o disfarce da renovação. Chegando à encruzilhada. o fim da história só concerne a cada indivíduo). o mal-estar subsiste. experimentações e prazer que só se estabilizam quando se acentua o afastamento e se afirma a diferença em relação a esse referente.Mais interessantes são as criações de novas redes e de novas regras de jogo. tanto para os autores das mudanças. Enquanto isso. como na tectônica as placas entram em fricção. aliás. Poder-se-ia também tomar o exemplo da organização progressiva dos movimentos ecologistas ou o da proliferação das PME (pequenas e médias empresas). Esses conflitos e fricções permitem acertos de contas e seleção das experimentações de inovações e de seus atores. Já mencionamos o desempenho das economias paralelas e mesmo mafiosas na Itália. com a eliminação das organizações. de passagem. podem entrar em conflito. de bandeiras. (O que prova. Há. em oposição ou em encavalamento: daí alguns tremores da sociedade em torno de véus. Daí a multiplicidade.

encontramo-nos. sob a aparente homogeneização da aparência dos indivíduos. Os signos (o sol. um aumento da variedade e da complexidade das identidades (e pois das identificações constitutivas e confirmativas)? Adaptabilidade e criatividade dos autores evidenciariam isso. suas reconstituições passam pela invenção da linguagem e pela sublimação horizontal da afetividade (E. amanhã. um momento dessa ascensão. as únicas referências ainda fidedignas. então. como alguns dizem. pedidores de emprego. as gerações.Psicossociologia – Análise social e intervenção obsoletas ou impossíveis. por um momento denegadas (entre os sexos. necessariamente. Isso impõe a questão: “Será que Ulisses falava quando as sereias cantavam?” Se a estratégia adequada para esse tempo é o polimorfismo obstinadamente orientado. portanto. as culturas etc. 3. sobre as superfícies marítimas de águas inquietas onde a linguagem tanto pode se desmonetarizar (IVG. talvez. mesmo se as referências são modificadas e as ramificações deslocadas. Ora. mesmo essas autopoieses contribuam para aumentar a variedade. equívocos no lugar das palavras corretas) como se tornar canto de apelo ao desvario (pensemos na voz dos discursos hitlerianos). Quanto às metamorfoses contemporâneas da “transcendência horizontal” em direção às outras que CAMUS projetava. E a que corresponderia. uma escala num porto cosmopolita onde a única língua possível seria um pidgin das palavras. os tempos. esperando a nova fundação de uma Focéia em Massalia e a volta do Logos grego. principalmente). O barroco societário atual é. para retomar uma distinção aprofundada por Julia KRISTEVA. ENRIQUEZ. Talvez.). Até mesmo os novos empresários que experimentam todas as formas de sedução para obter de seus especialistas e executivos carreiristas-oportunistas (e mesmo. E aquele que sobrevive restabelece as diferenças evidentes e banais. das normas e das formas. e a complexidade progressiva do sistema. as experimentações de inovação social são também um bordejar contra o vento para ascender do semiótico ao simbólico. pois se destinam a prepará-los para as metamorfoses do sistema. ao mesmo tempo agradável e funcional. os espaços. todo mundo notou “o silêncio dos intelectuais” (os conhecidos) no auge da crise (1981-1983) e mesmo no momento em que a retomada econômica e as mudanças sociais tornavam-se mais patentes. a estrela polar) são. Daí o reaparecimento de referências e de inteligibilidade das ramificações.Mas sabe-se também que o vínculo social e. todo mundo sabe passar pelas identificações libidinais. de seus “técnicos de superfície”?) a adesão que eles sabem necessária à coerência funcional. 158 . Por isso.

Tomo 1. p. do econômico ao sagrado.]. “Zur Kritik. os atores (Individualismo). MARX acrescenta: É a superioridade dos yankees sobre os ingleses”. MARX. RUBEL. então. 61-78. Auteuil. 1990-1. no adulto que eles se tornariam. para outros? Mas. Os períodos de estabilidade (inclusive crescimento harmonioso) oficializam a predominância do Todo (Holismo) sobre as Partes (os agentes).. 239. 40. logo. da criança-rei perversa que eles foram e o exercício de um domínio efetivo que lhes permitiria manobrar realmente os peões no seu tempo social. 1981.T. p. [OPA: Offre Publique d’Achat = oferta pública de compra. Temos assim uma alternância de interpretações. os novos atores hesitam entre a perenização imaginária. 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Autrement. simultaneamente. assim como os signos da diferença pelo dinheiro. Pléiade. com a divisa: “Onde ele não subirá?”. Já o estado de ninfa faz lembrar o que FREUD diz do “bem-estar morno” que provoca a persistência de uma situação desejada inicialmente pela pulsão. N. O problema: em época de “destruição criativa”.” In: M. naturalmente). W. MILLS (L’imagination sociologique) propunha para as ciências do homem “articular história e biografias. 2 de março. Estaria a saída. ao contrário. n. 55. 159 . Petit Larousse. centro de denegação da incerteza para uns e refúgio temporário contra os riscos de suas inovações. “L’économie des conventions”. As épocas de crise e reconstrução valorizam. NAP: Neuilly. das coesões) não parece ainda inventada. É por isso que. Mais dura foi a queda. edição de 1963. escrito: “dos japoneses sobre os yankees”. onde se escondem os “vínculos sociais”? Michel ROCARD acaba de propor o “sempre melhor”: mudança de máscara ou mudança de projeto? O esquilo aparecia nas armas do Superintendente. Passy. nas diferentes esferas do social. Oeuvres: Économie. “Identifications expérimentales et innovations sociales”. Connexions. 1989. Revue Economique. por Eliana de Moura Castro. Gallimard. “não conjeturemos à toa sobre as coisas supremas” (HERÁCLITO ainda.. sem dúvida. na formação de ninho familiar.Identificações experimentais e inovações sociais De qualquer modo. a receita das identificações complementares novas (e. Tende a substituir: BC-BG (bon-chic bon-genre). Hoje ele teria. no mal-estar. sociedade e personalidades”. “Imago: estado do inseto que chegou ao seu completo desenvolvimento e à capacidade de reproduzir”. C. André. Notas 1 Traduzido de: NICOLAÏ. 29. Essa moda de aparência de NAP reintroduz a diferença de vestuário entre os sexos.

M. 1979. Tese. DETIENNE. 1982. Grenoble: PUG. 1982. 1984. Paris: Gallimard. Paris: Grasset. 1975. Paris: des Femmes. Paris: Seuil. Paris: Flammarion: 1974. Quanto aos jovens empresários: se antes o fundador “não tinha filhos”. Paris: Fayard. A.. Winnicott en pratique. La distinction. Paris: Seuil. 1976. n. DE CLOSETS. 1960. J. G. BELL. 51. Autrement. 1983. Si tu m’aimes. a oposição entre a moral do trabalho e as incitações da sociedade de consumo (D. ENRIQUEZ. DUPUY. CAILLOIS. Uma pesquisa de MCS de setembro de 1988: morosidade. Paris: Minuit. Paris: PFNSP. BAREL. Connexions. The end of ideology. Connexions. Toujours plus. Ordres et désordres. 1950. a oposição entre a incitação à fidelidade à empresa e a da idealização do sucesso pecuniário individual. Les révolutions minuscules. Paris. 29. 1974. Paris: Gallimard. 1981. por outro lado. Paris: Epi. New York: Collier.. Le désordre. Cujas.-P. P. Paris: Seuil. Cf. ARMANDO. CERISY (Actes du Colloque de). Freud et l’éducation. “Les représentations sociales”. Les contradictions culturelles du capitalisme.Psicossociologia – Análise social e intervenção 11 Os jovens executivos estão submetidos a duas injunções contraditórias: por um lado. FRIEDBERG. F. E. R. 1989. 1989. P. CASTORIADIS. BALANDIER. M. P. 1989. J. n. é “uma verdadeira dissociação de pais e filhos [. 1979. 1982. L’institution imaginaire de la société. Autonomie et systèmes économiques. De la horde à l’Etat. Les ruses de l’intelligence: la Métis. 1988. Les destins du plaisir. BELL). 12 13 Bibliografia ANATRELLA. Les deux arbres du jardin. E. Paris: Seuil. J. BOURDIEU. Paris: PUF. D. Paris: Seuil. T. “Le changement en question”. L’individualisme. DENOYELLE. Le lien social. mobilidade. ANREP. M. LECA. ne m’aime pas. Paris: Cerf. 1988. Y. J.] uma não-imitação de exemplos paternais”. oportunismo. n. 1988... J. L’acteur et le système. n. Le paradoxe et le système. Interminables adolescences. BELL. Paris: PUF. agora são os novatos que são levados a não precisarem do pai. ELKAIM. L’homme et le sacré. 160 . M. 1987. Paris X. 1977. 1988. AULAGNIER. CROZIER. CHASSEGUET-SMIRGEL.. C. Aux carrefours de la haine. 4. D. Paris: ESF. VERNANT. para TARDE. Bulletin de l’AISLF. Uma mudança social. L’auto-organisation. 1985. P. 1979. BIRNBAUM. 1988. 45. ENRIQUEZ.

A. 1988.” Connexions. Psychologie des minorités actives. F. de la vertu et de plaisir. Le déclin du complice d’Oedipe. M. G. G. 26 jan. LE GENDRE. 51-54. 15 nov. J. 1989. TOURAINE. Jeu et réalité. “La nation disparaît au profis des tribus”. “L’économie des conventions”. LASH. 1979. Anthropologie structurale I. n. Forum de Delphes. L’empire de l’éphémere. “La fin de l’histoire?” Commentaire.Identificações experimentais e inovações sociais L’expansion... 40. Paris: Maspéro. FREUD. 1983. 1979. WINNICOTT. “La politique en apesanteur”. MOSCOVICI. “Les Français et l’argent”. Paris: Gallimard. 1978. G. Le complexe de Narcisse. 1980. S.. Paris: Laffont. TARDE. junho 1987. Paris: RFP. Paris: Plon.. Paris: PUF. 1971. 1981. 3. Le Monde. Paris: CNRS. 1971. 1934. Malaise dans la civilisation. Revue Economique. MITSCHERLICH. D. 27. Le Monde. Freud et le problème du changement. Les enfants de Jocaste. Les lois de l’imitation. H. 2 de março. Les infortunes tiers-mondiales de la nécessité. 18 mai/7 jun. 1970. Revue française de psychanalyse. Le Monde. Ressources. 161 . 1951. 1973. Paris: Gallimard. L’effort pour rendre l’autre fou. A. FINKIELKRAUT. 20. S.. LÉVI-STRAUSS. 1987. Paris: Gallimard. SEGALEN. Paris: PUF. Paris: Seuil.” L’homme et la société. Paris: Payot. Paris: Gallimard. Cl. S. “La voix écoute”. FREUD. Paris: PUF. Paris: Payot. GODELIER. NICOLAÏ. Paris: PUF. n. NICOLAÏ. n. et al. Névrose. nov. out. Cl. n. Paris: Minuit.. NICOLAÏ. G. A. outono. Paris: Denoël. 1971. La pensée sauvage. 1958. Reedição GEX. 1989.” Peuples méditerranéens. A. 1977. MENAHEM. n. psychose et perversion. A. In: Essais. 10. 25 de out. Mc DOUGALL. 1980. 47. MENDEL. L’autre et le semblable. nov. 1981. 1989. n. GOFFMAN. Idéaux. LIPOVETSKY. LÉVI-STRAUSS. FREUD. n. “Penser le chômage”. Ch.1974. 1989. Inhibition. Paris: Fayard. A. WIDLOCHER. M. FUKUYAMA. 1984. Nauplie.. KRISTEVA. “Vous n’auriez pas une valeur?” Le Monde. FREUD. Les rites d’interaction. S. 1982. SIBONY. Playdoyer pour ume certaine anormalité. Paris: Plon. “Psychologie des foules et analyse du moi”. J. Pour décoloniser l’enfant. 1989. Pouvoirs de l’horreur. D. S.. “Les mutations de la famille. 1989. angoisse. SEARLES. 1980. symptôme. 1989. “Et mourir de plaisir. S. D. 18 julho. 1989. D. Paris: Gallimard. Cl. W. Paris: PUF. 38-39. Vers la société sans père. “Et le poussent jusqu’au bout.. B. SIBONY. 1980. 1974. 1966. FREUD. OLIVIER. Le retour de l’acteur. n. Rationalité et irracionalité en économie. Traverses. E.

Parte III Intervenção psicossociológica .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 164 .

“A respeito das origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais”. sem dúvida. contribuir. Pelo que eles mesmos nos contam. ela tomará formas próprias. 1987). em fins de 50/início de 60.INTERVENÇÃOPSICOSSOCIOLÓGICA Regina D. por exemplo. de A. As décadas de 60/70: Movimentos sociais e produção teórica A Europa de pós-guerra defronta-se com experiências que convocam um repensar sócio-político. essa parece ter sido. instigante a tarefa de tomar o tema da “Intervenção Psicossociológica” e trazê-lo a público através de textos de alguns de seus principais pensadores. No Brasil. entretanto. ENRIQUEZ (“A respeito da formação e da intervenção psicossociológicas”. 1980. Benevides de Barros É. que o trabalho de Paulo FREIRE e alguns desenvolvidos. DUBOST (“Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica”. 1980) e de E. mais tarde. em uma espécie de “crise das instituições”. nas décadas de 60/70. LÉVY (“Intervenção como processo”. 1976) trazem-nos a instituição da intervenção em faces e recortes polêmicos. em cada lugar. mas a construção de ferramentas de ruptura com o cotidiano. realizar práticas nas quais pesquisa e ação não são dois pólos que se interligam. lançar um olhar novo sobre o mundo. Assim. sem vê-lo como algo já dado. instrumentalizada então. trazer também nossas histórias e implicações com o “Movimento Institucionalista”. a partir da divisão não-saber x saber. na maioria das vezes. os textos de J. uma das características marcantes de suas próprias histórias: estimular a crítica. vivíamos experiências de educação popular que colocavam no centro da cena a instituição da Pedagogia. É bem verdade. também. desembocando. que essa “crise” também eclode em vários países e que. criando em nós uma vontade de entrar no debate. Poderíamos dizer. pelas Comunidades 165 .

O mês de maio de 68 francês. As instituições são analisadas. inserem-se. 166 . designa a crítica à naturalização das instituições. político e social. do conservadorismo universitário. fossem mais ligados à Psicossociologia (M. LÉVY. Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Por aí. Vemos. o contato com as correntes francesas institucionalistas se dá em fins dos anos 60/início de 70. ao Chile e ao Uruguai. J. Ainda que marcados por grandes diferenças. o trabalho com grupos e comunidades como dispositivos-alvo privilegiados. à recente corrente que então se desenvolvia – a esquizoanálise (F.Psicossociologia – Análise social e intervenção Eclesiais de Base. o país. as experiências que vinham sendo desenvolvidas desde o pós-guerra e que apenas timidamente caminhavam. questionamento de seus modos de instrumentalização. através do contato com os “institucionalistas” franceses. Os fins do anos 60/década de 70 serão. quando tomado em seu sentido amplo. convulsionado pelo golpe militar. crítica das experiências instituídas. palco de uma produção expressiva. analisador histórico do status quo vigente. HESS. desde essa época. de modo generalizado. chegar também até nós o eco dessas produções. DUBOST. A. de um lado. a análise (no sentido do olhar/escuta que decompõe) como modo básico de funcionamento. No Brasil. pois procuravam construir uma teoria-prática desnaturalizadora. por outro. uma certa psicossociologia se faz intervenção. DELEUZE). principalmente. havia certos pontos que ligavam os “institucionalistas”: a critica relativa à separação investigação-intervenção. ARDOINO) ou. colocou em cheque. R. abandonando seus laços experimental-adaptacionistas. LOURAU. então. no que viríamos a denominar “Movimento Institucionalista”. ENRIQUEZ). E. Em meados de 60. fica claro que “Movimento Institucionalista”. PAGES. GUATTARI e G. vive a extirpação de muitas das experiências “alternativas” de organização social e política. uma entrada maciça de trabalhos com influência da Psicologia Social norte-americana (de caráter adaptacionista) e. então. à Socioanálise (R. presenciamos. LAPASSADE. na interseção dos campos filosófico. por causa da situação política e social de repressão impingida tanto ao Brasil. éramos tocados pelo pensamento latino-americano – em função não só da proximidade geográfica mas. da burocracia partidária. J. a recusa a uma psicologização dos conflitos sociais e a uma Sociologia abstrata. No campo da Psicologia. de maneira diferenciada e com focos de penetração mais localizados em São Paulo. ainda. como à Argentina. G.

como grupo. entretanto “uma vertente de articulação entre teoria e prática” MATA-MACHADO. 3-4). Ambos haviam participado. (MATA-MACHADO. a influência do pensamento institucionalista francês.... (MATA-MACHADO.. mas há algumas produções importantes que já apontam. MATA-MACHADO (1992) faz uma história do que foi e de como está hoje o desenvolvimento da corrente psicossociológica em Belo Horizonte.) sofremos [também a influência] do trabalho de Georges LAPASSADE. para as influências e os efeitos que esses pensamentos aqui exerceram. Com PAGES. quando se estabelece um convênio entre a UFMG e a Embaixada da França. p. a história da Psicologia Social no Curso de Psicologia da UFMG.. voltado à pesquisa e à prática. os professores Max PAGÈS e André LÉVY. portanto.). Lévy apresentou-nos. segundo a autora.) Em 1971. professor que esteve em missão cultural em Belo Horizonte durante três meses em 1972. A entrada se dá. a partir de 1968. respectivamente. em 1959. (Association pour la Recherche et l’Intervention Psycho-sociologiques)..). além de seus próprios escritos.. 1992. tivemos entre nós. via Universidade e. Em 1967. mantinha.).. 2) O pensamento institucionalista atravessa.)”... É marcante. p. 1992.R. 1992.) havia formulado a teoria da Anáse Institucional. alguns de Enriquez.. que congregou pesquisadores práticos (. foi formado o Centro de Psicologia Social Aplicada (CEPSA). através do Curso de Psicologia. sobretudo. sob a liderança de Garcia. Como ela nos diz: “Em 1968 e 1969. “(..(.. Lapassade (. o texto de Dubost: “Os métodos de intervenção psicossociológica” (. segundo M. com a qual logo rompemos (. mais especialmente..P.I. participou: a implantação da Reforma Universitária de 1968 em diferentes escolas da UFMG. cuja prática foi denominada Socioanálise”. de forma mais pontual. 167 .) Atendíamos sobretudo a demandas advindas de meios educativos e religiosos (.Intervenção psicossociológica Uma história a respeito dos cruzamentos do movimento institucionalista com as práticas desenvolvidas no Brasil ainda está por ser feita. 2). p. Junto com René Lourau (.. de Rouchy e.. da formação da A. iniciou-se o que veio a ser talvez a maior intervenção psicossociológica da qual o Setor de Psicologia Social. O recente trabalho de M. MATA-MACHADO. fomos lançados numa perspectiva rogeriana. Se no início a orientação era claramente norte-americana.

em fins de 70/início de 80. construindo-se práticas singulares. na Europa. GUATTARI. passou-se “a intervir usando os dispositivos propostos por Lapassade e Lourau” (MATA-MACHADO. por um certo tempo. trazido pelos psicanalistas argentinos no início dos anos 70. Encontramos. p. em favor de intervenções com perspectivas mais modestas. Digo isso porque chama a atenção o fato de que. J. no Rio de Janeiro. F. atentas às características da realidade brasileira. fez com que. O que se percebe é que. cujos interlocutores privilegiados são A. a fundação do IBRAPSI – Instituto Brasileiro de Psicanálise. enquanto que. No Rio de Janeiro. ainda que tenha mantido a característica de ter sido difundido através do “meio psi”. MENDEL). no Brasil.)” (MATA-MACHADO. Hoje. Grupos e instituições – que inclui a Análise Institucional como uma das suas áreas de formação. LEITÃO e BARROS. além dos autores já citados. DELEUZE. G. DUBOST e E. 1992). entre outros).. R. o tema começa a ser ministrado em disciplinas de algumas universidades. mas estendendo-se até hoje. segundo a autora. são primordialmente esses últimos que desenvolvem tais propostas. absorveu a influência de alguns teóricos vindos da França (R. assim. o percurso do pensamento institucionalista toma outras formas. LAPASSADE traz influências novas sobre os processos de intervenção em curso e. “parcialmente abandonada. 4). 6). 1986). É também na década de 80. FOUCAULT. LAPASSADE. a partir de então. psiquiatras e psicólogos.Psicossociologia – Análise social e intervenção A chegada de G. que um certo número de intervenções com esses enfoques ganha destaque. Algumas são objeto de publicações: Análise Institucional no Brasil (KAMIKHAGI e SAIDON. Na década de 80. G. o movimento institucionalista tivesse um viés grupalista que.. há alguns projetos em andamento. LÉVY. Essa perspectiva é. Ao mesmo tempo. p. pedagogos. CASTEL. outros centros de estudos e pesquisas se constituem em torno de propostas institucionalistas: o núcleo Psicanálise e Análise Institucional (1984) e o Centro de Estudos Sociopsicanalíticos (CESOP. menos desejosas de mudar o mundo (. 1987). somou-se a influência do pensamento de outros (M. O pensamento pichoniano. Grupos e instituições em Análise (RODRIGUES. 1992. G. 168 . o movimento institucionalista inclui sociólogos. ENRIQUEZ. mais tarde. aliado a algumas críticas às instituições de formação em Psicanálise. 1992. entretanto. LOURAU.

(mimeogr. mais tarde. desembocando em algumas traduções e publicações. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos. Marília N. Heliana B.). ROLNIK. KAMKHAGI. em São Paulo. Félix e ROLNIK. já toma contornos bastante diferenciados. 327p. Cartografias do desejo. Rio de Janeiro: Vozes.. hoje. C. nas intervenções e práticas sociais. sobretudo. 164p. em alguns casos. Mas. difundiram-se os pensamentos de F. se a difusão inicialmente se deu através do eixo Rio de Janeiro-Belo Horizonte-São Paulo. B. 1986. Regina D. 175p. e BARROS. 1992. RODRIGUES. 169 . Atualmente.). Petrópolis: Vozes. DELEUZE. em suas várias vertentes. Osvaldo (orgs). 1992. e SAIDON. Análise institucional no Brasil. tendo incluído outras influências teórico-práticas. Belo Horizonte. (coord. 1986. LEITÃO. Grupos e instituições em Análise. o Núcleo de Estudos da Subjetividade. Suely. de obras desses autores. MATA-MACHADO. Regina D. 22p. na universidade – PUC/SP –.Intervenção psicossociológica Em São Paulo. (orgs). Gregório F. 1987.). História do Movimento Institucionalista. encaminhou-se para a formação de centros de estudos. à instituição de formação e à de pesquisa. pesquisas e intervenções. Os textos que se seguem trazem dados históricos mas. O inconsciente institucional. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo. o “pensamento institucionalista”. do Curso de Pós-graduação em Psicologia Clínica da PUC/SP é um dos centros que congregam. Rio de Janeiro. M. Sua leitura e reflexão são um convite irrecusável. diversificado seus modos de intervenção e expandido por outras áreas do Brasil. 1984. (mimeogr. Heliana B. Vida R. as contribuições da socioanálise. GUATTARI. algumas pesquisas realizadas sob essa influência. Referências bibliográficas BAREMBLITT. Micropolítica. e BARROS. a inquietação dos autores frente aos efeitos da intervenção psicossociológica. bem como na entrada. A década de 60: seus efeitos no pensamento. RODRIGUES. incluindo. Intervenção psicossociológica. sente-se também a influência do pensamento grupalista argentino que. C. Especialmente através dos trabalhos de S. B. GUATTARI e de G.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 170 .

o status e a posição social. b. os princípios e as modalidades de sua intervenção. mais ou menos livremente. Por mais banais que sejam.I. implicando opções e esforços de imaginação e que..as condições gerais que engendram. que os traços que caracterizam uma prática concreta de intervenção resultam. Limitamo-nos entretanto.2 hoje estando quase todos na faixa dos cinqüenta anos. e tendo conhecido o mesmo meio – o das grandes e médias empresas industriais ou comerciais – e por intermédio do mesmo tipo de 171 . em uma determinada sociedade e em um determinado momento de sua história.NOTAS SOBRE A ORIGEM E A EVOLUÇÃO DE UMA PRÁTICADEINTERVENÇÃOPSICOSSOCIOLÓGICA1 Jean Dubost Os agentes sociais chamados a realizarem práticas novas de pesquisa e de ação podem ter o sentimento de que escolhem e inventam. Parece-me ser verdade que sua atividade comporta uma dimensão criativa. a algumas observações. em uma determinada situação. 1945-1950 Reflito sobre as primeiras ações de intervenção às quais estivemos associados. c. a interação entre essas variáveis.P. essas hipóteses podem guiar uma reflexão retrospectiva sobre a evolução de nossa prática e de nossas idéias. além dos desejos de terceiros. finalmente.R.as condições particulares desse ator que o levam a esperar um resultado positivo da ajuda de um terceiro. principalmente.a formação. em primeiro lugar. no período que se seguiu à Liberação (éramos diversos membros fundadores da A. Mas creio. a natureza do “saber-fazer”. aos quais as demandas e as encomendas são endereçadas e. as dificuldades sentidas por um ator social. os indivíduos e as diferentes equipes não se comportam de uma forma idêntica. aqui. de variáveis como: a.

comportava. à imagem de seu homólogo americano e segundo os exemplos dados pelas forças militares engajadas no conflito mundial. nos mesmos organismos3). formas de autoridade mais compatíveis com um ideal democrático. quanto no domínio da “simplificação” do trabalho nas oficinas e escritórios. inspirada mais ou menos diretamente pelos Estados Unidos (plano MARSHALL. da conjuntura. econômica e social. tanto contribuições no plano de métodos contábeis. ênfase a métodos estatísticos. esse período foi igualmente dominado por conflitos políticos e decepções que não chegaram a prejudicar um certo consenso nacional. de investigação psicológica (técnicas projetivas) e. A intensidade das dificuldades alimentares e de habitação. comissões especializadas de organizações internacionais nascidas da ONU etc. do 172 . mas as “aplicações” precedem largamente o reconhecimento acadêmico das correntes teóricas: criação dos primeiros centros de consultas psicopedagógicas. essas esperanças tinham sido tecidas durante os anos de ocupação alemã pelos que tinham pertencido à Resistência. da recuperação econômica do país e por esperanças de restruturação política.). freqüentemente com a estrutura jurídica de associações. o ensino de Psicologia e de Sociologia é ainda limitado a dois certificados de licenciatura em filosofia que quase ignoram a Psicanálise. pelo problema da reconstrução. Nesse contexto.. evidentemente. o engenheiro sentia a necessidade de associar “especialistas do fator humano” à sua prática de intervenção. o Marxismo. desenvolvimento de novos métodos de psicoterapia. simultaneamente.Psicossociologia – Análise social e intervenção organismo: os gabinetes privados de engenheiros consultores organizacionais. de reeducação. A ajuda proposta às empresas para acelerar sua reconstrução. da formação em habilitações. em períodos diferentes. uma vontade geral de reconstrução das forças e dos meios de produção. de estruturas de direção. do recrutamento de pessoal. o funcionalismo etc. então. de gestão. missões de produtividade. suas aplicações no domínio da economia. Muitos dentre nós trabalharam. inflação. O período imediatamente após-guerra foi dominado. Na Sorbonne. entre 1945 e 1959. a busca de participação. movimentos reivindicatórios e formas de repressão mobilizadas diante das greves operárias não impediam nem o estabelecimento do primeiro plano de modernização e de aparelhamento nem o desenvolvimento simultâneo da ideologia racionalizadora – a organização científica do trabalho – e da ideologia que levava em conta o “fator humano”. estabelecidos na capital. a passagem rápida de um período de desemprego a um mercado de trabalho caracterizado pelo excesso de empregos.

nessa época. Nossos primeiros anos de profissionalização são divididos entre as atividades de estudos e aplicações psicotécnicas – seleção e orientação –. em 1961. segundo o esforço que fazem para integrar a contribuição freudiana – e as práticas psicossociológicas inspiradas sobretudo por MORENO – ou denunciá-las como fortalecedoras de tecnologias capitalistas de manipulação. a partir dos anos 40. da gestão etc. na França. então. a aquisição de numerosas habilitações e a descoberta de trabalhos da Psicologia Social norte-americana (LEWIN. lembremos. MORENO e depois ROGERS). Les Vases communicants) de familiarizar uma parte da intelligentsia com a problemática freudo-marxista. especialmente. O espaço microcultural no qual uma parte de nós se forma é. MAYO de ROETHLISBERGER e de DICKSON. pouco conhecidas na França. levantamentos de dados com amostras – opinião pública. da demografia. as obras de G. PALMADE aborda o problema das condições teóricas de uma concepção unitária das ciências do homem através da busca de conceitos transespecíficos no sentido de BACHELARD (essa tese só seria publicada dez anos depois de sua defesa. guiada pela busca de uma concepção mais unitária das Ciências Humanas. Essa irrupção de atividades e ações inovadoras tem por resultado. o movimento surrealista se encarrega logo (cf. que os psiquiatras de orientação marxista que suscitaram. POLITZER desenvolveu com a Psicanálise dos anos trinta constitui uma referência viva nas discussões da época. a partir de 1952. em seguida. desenvolvendo uma abordagem mais global. tentativas de reeducação de adolescentes em tratamento etc. Essas atividades e ações provocavam também o desejo de ultrapassar os estudos pontuais e aplicações de técnicas. vista particularmente como a complementaridade necessária entre a liberação individual e a liberação coletiva. por exemplo. é o momento também no qual G. FRIEDMANN fizeram com que se conhecesse as de E. onde milito durante esse período. Em relação a esse último ponto. é ele próprio dividido entre tendências “defensistas da URSS” – reformistas com 173 . estudos de mercado –. pela Dunod). a relação crítica e complexa que G. na qual FREUD e MARX não seriam nem excluídos um pelo outro nem apenas superpostos. no plano das práticas.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica planejamento. pesquisas sobre a “moral” civil – do tipo de experimentação de campo –. se as tentativas de Reich são. separam-se em duas tendências. André BRETON. é também a época em que LAGACHE escreve L’Unité de la psychologie etc. o movimento trotskista. monografias sobre empresas industriais – sobretudo sob a égide da UNESCO –. marcado por esses dois “faróis” (como diz BRETON): MARX e FREUD. o movimento que iria ser denominado “institucional”.

E. WILLIAMS. as consultas nas quais o estudo desemboca são apresentadas de maneira esquemática em relatório escrito. e que esse efeito será reforçado se as decisões tomadas considerarem suficientemente os elementos expressos pelo pessoal entrevistado. em 1949. Entre essas últimas. dirigido por C. ROGERS e a postura não-diretiva) ou formas de conceituação (recorrendo à linguagem sistêmica). separa-se da IVa Internacional. sociólogo industrial que conduziu duas intervenções junto a empresas francesas. durante a ocupação. a idéia de que as ações de pesquisas de campo têm por si mesmas um efeito positivo sobre o estado psicossocial. como esses podem ser explicados?) e prognóstico (o que poderia acontecer a médio e longo prazo se não forem tomadas novas medidas?). com o restante do relatório. Uma missão americana de pesquisa coordenada por PARSONS dedicou-se a estudar o fenômeno do nazismo na Alemanha imediatamente após-guerra. sobre a “moral” da empresa. no qual se encontra B. em 1947-1948. esse procurando encorajar aquela a encontrar modalidades operatórias que traduziriam as orientações de solução preconizadas. Mas o tempo gasto nessas reuniões representa apenas uma pequena parte do tempo total do trabalho e o sociólogo não tenta obter a divulgação de seu relatório a outros leitores além dos que a própria direção espontaneamente propõe.G. LEFORT. 174 . CASTORIADIS4 e Cl. desde sua origem. Antes de sua volta aos Estados Unidos.5 retém. de apoio às reuniões-discussões propostas pelo consultor à Direção.S. servem. Perret. a C.Psicossociologia – Análise social e intervenção relação ao stalinismo – e “derrotistas” – revolucionárias. o que dificulta que esses grupos e os ligados mais estreitamente ao anarquismo tenham audiência. por essas correntes e idéias fourieristas que as precedem. em função do problema da burocracia operária. Entretanto. mas elas permanecem muito próximas. R. é freqüentemente colocada pelo sociólogo consultor. Igualmente um outro. o grupo “Socialismo ou Barbárie”. enfraqueceu a influência do grupo dirigido por BRETON. das práticas de consulta em organização: o essencial da prestação de serviço se refere a um trabalho de estudo com função de diagnóstico (quais são os pontos fortes e os pontos fracos da firma enquanto organização social?. um dos colaboradores dessa equipe. As intervenções de WILLIAMS inovam em matéria de métodos de pesquisa (por exemplo. mas o fato de que surrealistas tenham se refugiado nos Estados Unidos. mas parece-me certo que uma parte do projeto psicossociológico foi influenciada. na relação que elas estabelecem com o cliente.O. O debate ideológico que domina em grande extensão a França é muito marcado pela influência do PCF e pela defesa incondicional da URSS. utilizando um tipo de entrevista inspirada em C.

175 . Da mesma forma. elas colocam. as que são conduzidas por equipes francesas. sobretudo como uma aplicação de uma técnica de levantamento de dados mais ou menos estruturada. parece cada vez mais interessante.W. a capacidade da Direção de escutar as críticas expressas aparece como uma das variáveis importantes nessa fase. as reuniões que se seguem à apresentação dos resultados não são numerosas e os agentes do estudo não estão mais presentes. em empresas maiores. de início. Ao contrário. À medida que se desenvolvem certas formas de trabalho com perspectiva de formação – desde os “círculos de aperfeiçoamento” até os primeiros seminários de dirigentes. porém. e eles devem ter acesso aos resultados. depois eventualmente coletivas –. passando pelas reformulações européias do T. que permitem uma transcrição exaustiva de entrevistas aprofundadas – primeiro individuais. aplicadas ao estudo de opiniões ou de escalas de atitude. a idéia de articular a conduta das operações de pesquisa a um trabalho de confronto e de reflexão em grupo. são menos inovadoras no plano das técnicas de entrevista e de elaboração de resultados. As hesitações ou conflitos que são expressos nessa ocasião fazem com que as reuniões preparatórias do estudo propriamente dito ou que acompanham as diferentes etapas (especialmente as de controle do respeito aos princípios negociados inicialmente) representem uma parte do orçamento-tempo e ainda um momento importante do processo de consulta. junto a pessoal assalariado de uma empresa. uma nova etapa é vencida quando as técnicas de pesquisa psicossocial. facilitada pelo desenvolvimento de registros em fitas magnéticas. Os anos 50 Esses primeiros casos (conhecemos pessoalmente oito entre 1946 e 1951 ou 1952) aparecem. como por exemplo na elaboração do questionário de pesquisa. em última análise.I. da mesma forma que a direção. e pela passagem da simples codificação de respostas a questões abertas a uma análise de conteúdo bem mais apurada dos discursos registrados. elas tendem mesmo a se restringir a uma “consulta de pessoal” do tipo levantamento de opiniões sobre um certo número de temas que parecem problemáticos e importantes. uma exigência nova: os representantes de pessoal no Comitê de fábrica (ou uma comissão ad hoc de delegados sindicais) devem ser ouvidos na escolha de métodos de estudo. se abrem a uma abordagem mais clínica.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica Paralelamente a essas intervenções conduzidas em empresas de tamanho médio (200 ou 300 pessoas). apoiando-se nos resultados. ou dos métodos de educação popular do tipo “treinamento mental” –.

grupos de mais velhos. modos de remuneração. absenteísmo. em pesquisar verdadeiramente como se poderia resolvêlos. de pagar o preço por sua solução. a passagem de instrumentos de pesquisa com perspectiva métrica – correspondendo ao método de desempenhos psicotécnicos –. que habitualmente não têm a possibilidade de falar. ele estabelece uma ruptura com o papel do perito e procura destacar sua especificidade. dão mais ênfase ao trabalho de confronto que acompanha o feedback dos resultados do que à expressão de opiniões. ou aos que decidem – Direção Geral. favorecendo de maneira suficientemente progressiva a circulação das 176 . inspiradas pelas práticas de aconselhamento. ainda marcam representações e atitudes para com a direção. as dificuldades que estão na origem da demanda que lhe é endereçada são devidos a uma recusa mais ou menos consciente (em particular da Direção ou dos quadros elevados) em ver quais são os problemas. para uma orientação mais clínica. higiene. De perito ou agente ligado aos promotores do estudo – engenheiroconsultor –. relacionados a uma metodologia experimentalista ou diferencialista. levam a não se considerar apenas o conteúdo manifesto das opiniões. Direção de Pessoal –. as crises. mas levam também ao interesse pelo conteúdo latente. e essa não sendo a conseqüência menos importante. sua natureza real. a se expressarem. características da pirâmide hierárquica e da estrutura de qualificações. à análise estatística dessas e à elaboração do diagnóstico dos problemas de funcionamento psicossocial. feita pelos encarregados da pesquisa. técnicas de entrevista e animação de reuniões-discussões.Psicossociologia – Análise social e intervenção As mudanças na concepção de intervenção. queixas e reivindicações relativas a dados fatuais (condições de trabalho. ele se pergunta se os bloqueios. turn-over. retomando as palavras usuais do consultor organizacional. provocou a transformação da representação dos papéis do psicossociólogo. Ele faz da relação de consulta um problema em si. algumas vezes antigos. e tenta inventar. e diferenciando-se por meio do adjetivo psicossociológico. pela maneira como certos acontecimentos da empresa foram vividos por diferentes categorias do pessoal.). induzidas pela aquisição de novos saberes práticos. que fala sobre seu campo e suas intervenções. Em outros termos. cujos conflitos. os papéis que permitiriam assegurar uma função de ajuda à maneira de um catalizador. o psicossociólogo procura se tornar consultor da organização enquanto uma unidade. pirâmide de idade. segurança etc. um objeto de trabalho. as disfunções. as relações intercategorias e as microculturas da organização. Por outro lado. no interior desse quadro de atitudes. pelos sentimentos coletivos. Ajudando todas as pessoas. Enfim.

além dos arranjos menores concedidos. mesmo nesse caso. de fato. que recortavam mais ou menos amplamente os conflitos sociais globais. em especial dos inconscientes. 177 . ele descobrirá ainda que essa expressão e o trabalho que a acompanha apenas excepcionalmente conduzem a mudanças de estrutura e que. Nessa perspectiva. do especialista em uma técnica de produção. os sistemas de comunicação na empresa. isto é. isto é. de ver com melhor conhecimento de causa quanto se está decidido a investir e a pagar o preço por um funcionamento melhor. de fato. criando novas estruturas de comunicação e novas formas de trabalhar os problemas. acaba totalmente reforçada.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica informações e os confrontos. à medida que esses são identificados. não nos impedia de nos sentir comprometidos com uma espécie de guerra de culturas onde se confrontavam diferentes modelos de organização. dá efetivamente a palavra a categorias que não a exercem na vida cotidiana. se aceita. ele crê que. ele exerce uma pressão que. ele dá força para que sejam escutadas e consideradas as dimensões sócio-emocionais e os interesses não reconhecidos. ajuda as categorias vítimas da repressão. sem dar conselho. permitindo a expressão do reprimido. ele recoloca os aspectos técnicos como dependentes da capacidade de todos e não mais de um subconjunto interno ou externo. para separar a esfera das atividades da organização da esfera das comunicações sociais e das relações humanas. ele próprio contribui. gestão ou organização. o psicossociólogo tende a separar seu papel daquele do engenheiro. sem nunca ocupar o lugar dos atores implicados. as mais altas instâncias conservam seu poder intacto e que a estrutura da organização. de perceber direções de solução. constituía uma situação de descoberta e de aprendizagem. a idéia de que a intervenção. inscrevendo-se na relação de consulta – na qual os psicossociólogos intervêm como agentes de facilitação e catalizadores de fenômenos de tomada de consciência –. Querendo colocar sua relação de consultor em nível global e não apenas no plano de uma instância de direção. sem dúvida. nos anos cinqüenta e no início dos anos sessenta. os processos de preparação e tomada de decisões. considerando a empresa sobretudo como um sistema social unitário. mesmo desejando o contrário. mais tarde. a necessidade de uma evolução de concepções e de formas de autoridade. Concebendo-se a si próprio como um agente que facilita a regulação da firma através de uma ação sobre as comunicações. o psicossociólogo espera aumentar a capacidade do conjunto de reconhecer a origem de certas dificuldades. Porém. estávamos sobretudo preocupados em fazer o público reticente reconhecer a importância dos fenômenos afetivos coletivos.

que a passagem ao socialismo – para os que são antigos militantes decepcionados com a estrutura e o funcionamento das organizações operárias. (1959). Tenho a impressão de que. mesmo se as organizações do movimento operário se recusam a tomar a iniciativa no que lhes diz respeito. então. que algumas vezes demoram a ser identificados e que em outros casos surgem subitamente. em uma empresa nacional. das estruturas organizacionais e que não é cedo demais para uma reflexão e experiências sobre esse tema. atividades de formação psicossocial no nível de dirigentes e intervenções em unidades regionais. nessa época. aceitamos considerar que o significado político de nosso trabalho era reformista. as formas pelas quais as correntes políticas que falam em nome do Marxismo denunciam toda ação psicossociológica como antioperária são tão radicais e violentas que não facilitam um verdadeiro trabalho de crítica interna. já que tendia a atrasar o momento de manifestação de um conflito aberto. mas também em uma transformação cultural profunda. do psicodrama analítico etc. mas pensamos que os problemas sobre os quais trabalhamos se colocam também nos regimes não capitalistas.. Uma dessas equipes saía do organismo de consulta onde ela trabalhava em ligação estreita com engenheiros organizacionais. ambos preocupados em criar uma estrutura de trabalho que permitisse realizar diversos projetos sem as limitações conhecidas anteriormente. como para os que mantêm um engajamento político ou sindical – não implica apenas na abolição da propriedade privada e na planificação centralizada.I. era bem mais claramente marcado pelas atividades que ele iria desenvolver. A outra continuava a realizar.R. não poderiam ter lugar no interior de uma empresa nem ser tolerados em um organismo cuja vocação continuava a ser a organização científica do trabalho. os limites das ações de intervenção.Psicossociologia – Análise social e intervenção Além disso. No momento da criação. Da mesma forma. Mas a organização e a animação de estágios do tipo Grupos de Evolução. das formas de autoridade. mais do que acelerar tal processo.P. sua equipe agrupava essencialmente dois grupos de práticos. são mais relacionados aos dados locais – e/ou à natureza do regime capitalista – do que ao próprio princípio da tentativa. utilizando os métodos derivados do Grupo T de Bethel. Os anos sessenta No momento de criação da A. O caráter clínico do novo grupo. que essa transformação das relações sociais em direção à verdadeira democracia e à liberdade passa também por uma evolução das pessoas. a 178 .

de inspiração rogeriana. a referência a uma pedagogia ativa e ao lugar ocupado pela animação dos grupos. HERBERT. de sociologia das organizações. de formação de adultos. A organização e a condução de seminários representa. ROGERS à França e a descoberta (ou a confirmação) da distância nos separando desse autor.P. e ainda agora. grupos abertos de análise etc. a continuidade no tempo. a proporção era aproximadamente de nove décimos. a metade das atividades da A. alguns membros ficam completamente ocupados com análises (grupos semanais de psicodrama. tenta-se trabalhar na articulação do psicossociológico. Os seminários derivados do Grupo T e cada vez mais marcados pela abordagem psicanalítica tornam-se objeto de discussões sérias e de diversas publicações. desde 1959 (data do primeiro seminário de longa duração). dez anos depois. malgrado a influência já sensível da Psicanálise – incluindo as abordagens britânicas introduzidas desde o primeiro ano pela presença de L. os grupos de evolução tendem a aumentar sua duração e a priorizar.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica proporção de membros que tinham buscado uma cura analítica pessoal ou tinham-na já terminado.6 No começo dos anos sessenta. do sócio-técnico e mesmo do econômico. dominou os primeiros anos de funcionamento. esse esforço produzirá apenas resultados parciais (cf. o registro de sessões é feito num programa de pesquisas que permanece dividido entre as perspectivas experimentalista e clínica: a despeito de numerosas reuniões de trabalho que balizam todo o processo. ou mesmo com um ponto de vista adaptativo mais claramente afirmado. durante todo esse período. antigo membro do Tavistock e primeiro tradutor de BION na França –.-C. a metade já era. Ao mesmo tempo em que os estágios se diversificam em direção a questões de pedagogia. outras vezes apenas três psicossociólogos.I.R.7 Paralelamente. ou iria finalmente se tornar. era de um terço. reunindo às vezes toda a equipe. sobretudo as publicações de Max PAGES e de J. ROUCHY). A orientação não diretiva.). se podemos dizê-lo. de metodologia psicossocial. uma longa intervenção em uma empresa implanta. uma estrutura de análise de grupo no seio de um subconjunto da sociedade. feita dentro de uma perspectiva de estudo de problemas. terapeutas ou analistas. Essa evolução está ligada também à da clientela desses 179 . em lugar de fórmulas intensivas concentradas em cinco ou dez dias. reduz-se ao trabalho de perlaboração de fenômenos afetivos coletivos e. atuando diretamente no campo. neles. até 1966 (marcado pela vinda de C. algumas vezes mesmo de introdução à economia. nesses. tanto no plano teórico e ideológico quanto prático). trabalhos mais próximos de uma orientação sócio-pedagógica são conduzidos por outros membros da equipe: queremos dizer que.

Ao mesmo tempo. Psicossociologia e Política etc. então. 180 . movimentos educativos. a participação de um número crescente de membros da equipe no ensino universitário ou na pesquisa.P. Entretanto. que o trabalho em meio industrial acusa uma redução contínua.F. de trabalhadores sociais. em 1961. de maneira ainda mais geral. junto a um Centro de Produtividade. a demanda se estende a associações. as condições ideológicas próprias da França. Mas creio que é necessário evocar também.8 Isso quer dizer que as demandas provenientes de meios industriais diminuem. É sobretudo na França. por volta de 1965. por exemplo. de padres e religiosos. na equipe. que inova a metodologia que será a da intervenção em GeigyFrança. diversos membros da A. a tendência que iria colocar a maioria no seio da U. os números especiais de Arguments sobre a Autogestão. os anos 60 conduzem uma parte da equipe a intervir no estrangeiro.N.R. o despontar do clima de consenso nacional que marcou o período de reconstrução após-guerra e. a integração. os últimos anos da revista Socialisme ou Barbarie. de psiquiatras e de psicoterapeutas. a guerra da Algéria. é uma intervenção no México. É certo que umas tantas razões podem explicar o fenômeno: as opções tomadas pela equipe (sua orientação mais clínica. intervirão na Itália (sobretudo na Fundação Agnelli) e ajudarão na constituição de uma associação de psicossociólogos italianos com os quais a colaboração prossegue. mesmo quando a freqüência a estágios pelos diretores permanece relativamente estável. o que reduz o potencial de intervenção do grupo etc. em Paris.Psicossociologia – Análise social e intervenção estágios incluindo cada vez mais uma proporção maior de professores. embora o número de intervenções de longa duração permaneça sempre reduzido. durante vários anos. de estrangeiros francofones (Maurice JEANNET na Suíça. desenvolvimento organizacional).I. sua atitude crítica com relação à escola lewiniana e póslewiniana: mudança planejada. o fato de que certas bases ideológicas discerníveis na constituição da própria disciplina psicossocial se articulavam às do movimento estudantil que iria explodir em 1968 (assim. para explicá-lo.).E. Paul NINANE na Bélgica) está ligada a atividades em empresas desses países. institutos religiosos e hospitais psiquiátricos. denomina-se “psicossociológica”) ou às de certos meios intelectuais (cf. junto a organizações com função econômica. sua recusa em fazer pesquisas de mercado. de atendentes. sua ambivalência ou seu ceticismo com relação a demandas susceptíveis de provir desses meios (que se traduzirá depois de 1968 inclusive no domínio da formação permanente).

mas também a abandonar a esperança de analisar a instituição. que a “Comuna Estudantil” (MORIN) ficou sendo uma “revolução antecipada” (CASTORIADIS). mesmo que modesta.integração de novos membros trabalhando em disciplinas diferentes ou praticando abordagens diferentes.O.I.10 . As instituições não se analisam. experimentamos a desilusão de constatar que o que nos parecia ser bem mais que uma revolta cultural. vivemos os acontecimentos de maio como uma “intervenção”. nas ações de movimentos como a F. a todos os tipos de temas presentes de maneira mais ou menos explícita no projeto psicossociológico e.E. por exemplo. trabalhava desde 1964. ao considerarem suas relações e vida psicológica.R..P. consideradas em seus papéis sociais e modos de inserção.E. o período que se seguiu a maio mostra. por pesquisa-ação entende-se aqui projetos integrando uma dupla perspectiva (heurística e de mudança) na realização de uma intervenção 181 . que o reconhecimento desses esforços pelos autores da nova lei de orientação significava antes uma oposição à mudança. enquanto o projeto previa a multiplicação de intervenções em todos os estabelecimentos onde uma proporção suficientemente grande de professores já estava comprometida com um trabalho de evolução a nível de sua sala de aula. no domínio do Aperfeiçoamento das Condições de Trabalho. uma direção susceptível de provocar.as atividades de caráter clínico se tornam cada vez mais especializadas.N. uma evolução global do sistema educativo. de uma audácia espantosa. um “movimento revolucionário sem revolução” (TOURAINE). com os quais a A. .V. como muitos outros. que dava uma direção totalmente imprevista. Limites e impedimentos percebidos no confronto com a realidade das instituições levam não apenas a renunciar a produzir uma mudança global. Embora alguns dentre nós víssemos. como o fazem os indivíduos ou os grupos. a despeito de sua repercussão no conjunto do país. centrando-se na evolução das pessoas. não desembocou no político. através do desenvolvimento de ações locais.9 evoquemos ainda alguns aspectos da evolução da equipe desde 1970: . ao contrário. por parte da instituição. Antes de prosseguir no desenvolvimento desse último ponto. desproporcional a tudo o que poderíamos ter esperado desde a Liberação. simultaneamente política e cultural.elaboração de projetos de pesquisa-ação. por meio de atividades do tipo intervenção psicossociológica. antes de 68. dentro de certo prazo.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica 1968 e depois Como tantos outros. a tendência foi retomar atividades de formação visando a uma mudança pessoal.

no campo social. o psicossociólogo considera a si mesmo como um ator social participando da vida econômica. ou melhor. ele participa desse clima de consenso que marca para nós o período após-guerra. exigindo um esforço de abstração não só da situação específica na qual o prático das ciências sociais se encontra. ele deve ser buscado em outro nível. seu modo de intervenção refere-se cada vez mais ao modelo da relação de consulta saído da psicologia clínica e sobretudo da prática psicanalítica.12 . relativa ao modo de implicação social do psicossociólogo.11 Estudando (por três vezes: 1963. a “socioanálise” ilustra. afastando-se dela em seguida. tende a se ver como um analista com funções de elucidação.nos anos que se seguem à Liberação e. tal opção. 1972) o trabalho de JAQUES na Glacier Metal. sob a influência do pensamento psicanalítico. progressivamente. mesmo quando se esforça em separar seu papel de cidadão e militante de seu papel profissional. durante os quinze primeiros anos (de 1948 a 1963).A partir dos anos 60. . parece que se pode observar uma volta a uma representação mais próxima da do início. noções como transferência e contratransferência não podem ser transpostas da Psicanálise para a análise social.Psicossociologia – Análise social e intervenção cuja iniciativa é tomada pelo psicossociólogo e não pelo agente de uma demanda de consulta. a ROGERS ou mesmo a certas posições políticas saídas do trotskismo (cf. devendo ser afastado ou suspenso. ele arriscava ocupar o lugar de ideal do eu. parece-me que. quando as referências à pedagogia ativa. Esse último aspecto leva à questão mais geral. mesmo quando. mas também de seu objeto de trabalho. como dizem alguns dentre nós retomando o termo utilizado por LEWIN e seus alunos. na prática.Porém. se há na obra freudiana um paradigma relevante para a sociologia clínica. em especial lacaniano. o grupo Socialismo ou Barbárie) começam a ganhá-lo. ou quando se sente mais um agente de estudo e pesquisador. sem dúvida. “agente de mudança”. até o começo dos anos 60. no último período. e permite resumir um aspecto da evolução que me parece importante: . bem problemático. O modelo do analista pareceu sempre. Como o mostra André LÉVY. 1967. 182 . no plano das idéias. da mesma forma que o desejo de curar o paciente no tratamento individual (a cura. todo ponto de visto adaptador – ou contestatório – parece-lhe antinômico a uma verdadeira atividade elucidadora. ou “indutor de mudança”. relativo primeiramente à natureza das relações sociais. benefício a mais).

uma posição de autoridade ou de poder totalmente particular – por exemplo.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica O analista pode esperar. ou que se tenta ocupar. que ainda me parece pertinente para caracterizar tal abordagem. Toda intervenção psicossociológica. ação que é também uma intervenção que não pôde atingir suficientemente seus objetivos e cuja existência – e fracasso – 183 . é sempre ligada a uma ação que a precede ou que a engloba. lugar onde se está. considerar sua implicação não se reduz a procurar saber quanto a situação lhe diz respeito. ou satisfazendo o próprio exibicionismo. na referência ao próprio lugar ocupado. que faz com que se seja chamado e que se responda a tal apelo etc. no campo. a esse respeito. um esforço exemplar para tentar extrair da Psicanálise um paradigma epistemológico relevante para um trabalho sociológico. ainda menos a revelar coisas a respeito de si próprio.) conduz-me a propor nesse parágrafo uma última observação. O trabalho de Jeanne FAVRET-SAADA em Bocage13 parece-me representar. porque ocupa. como pesquisador ou consultor social. nunca é independente. com todos os riscos que isso comporta. por exemplo. sob pretexto de dar a reconhecer àqueles junto aos quais intervém o direito de saber quem lhes fala e de que matéria são feitos os agentes de intervenção. pertencente ao campo estudado. os fenômenos transferenciais não são mais da alçada da análise. A consideração da implicação parece-me aqui se situar primeiramente na análise do sistema de lugares. Simetricamente. comparáveis à função que têm na situação dual – ou grupal – de uma cura. toda pesquisa-ação – quer seja resposta a uma demanda ou resulte de uma iniciativa do prático – tem sempre como origem uma outra intervenção de qualquer natureza – psicossocial ou não. Essa consideração sobre a implicação do prático (ou sobre lugar daquele que solicita algo no campo onde ele próprio se encontra e sobre as relações que ele mantém com os outros agentes do sistema. se tornar o objeto privilegiado dos fenômenos transferenciais de grupos e coletividades. é certamente oposta à acepção lewiniana. ao que lhe é atribuído e que ele recusa ou aceita. a posição de médico chefe em um estabelecimento psiquiátrico – e é evidente que tal lugar induz uma relação social que se encontra primeiro na realidade antes de poder ser situada no espaço imaginário que reproduziria uma relação vivida em outra parte. cedendo a pressões de que se é objeto. tendo em vista sua própria história. por exemplo. Se ele se encontra em uma posição menos central. presente nele. sobretudo. A expressão pesquisa-ação. habitualmente caladas e cuja expressão pode ser psicologicamente difícil. nem a se considerar parte da ação. e.

O. “L’intervention psychosociologique dans l’entreprise”. LEFORT em Eléments d’une critique de la bureaucratie. 29 de Connexions. Intervention et changement dans l’entreprise. Association pour la Recherche et l’Intervention Psycho-sociologiques. 3. contra.. 29 (Vers une psychosociologie psychanalytique). ROUCHY em Connexions. a partida de Max PAGES. les Sorts.P.Psicossociologia – Análise social e intervenção tenta-se mais ou menos claramente esconder. 4 Cf. nunca é fácil elucidar completamente a natureza exata da relação. 1332 etc. “Une intervention psychosociologique”. André. jan. 1971. Ecrits (por exemplo. 50-68. n. 1980. n. 2.S. esse organismo tinha então relações estreitas com o I. mas essa observação sugere uma pista de trabalho a seguir desde o início. o capítulo “Variantes de la cure-type”. no qual são avaliadas as transformações das práticas psicossociológicas nos últimos 10 ou 20 anos (N.”. 13 Les Mots. desde sua criação. Gallimard. responder a essa questão. 825. ou quando o utilizam para esconder os acontecimentos que provocaram o processo. sobretudo quando estão absorvidos em seu novo trabalho. L’intervention institutionnelle.O. 1977. Paris: Payot. 857. “L’Analyse social”. Psychosociologies.) e dos de Cl. evidentemente. Connexions. Les paradoxes de la liberté dans un hôpital psychiatrique. presidido por Jean STOETZEL e. com universitários como Georges FRIEDMANN. 1972. 1967. por Marília Novais da Mata Machado. 12 Cf. 1978. 1303. meu texto de introdução em Elliott JAQUES. sobre esse último ponto. mais recentemente. sobre.E. André. Droz.-C. 11 Cf. ou mesmo depois de terminar. 9 Cf. 5 Compagnie Générale d’Organisation. 1969. Jean e LÉVY. Continuando. Épi.. LACAN. n. não se pode. Paris: Dunod. Paris: Epi. In: ARDOINO et al.. Jean-Claude ROUCHY.). 8 Cf. secretário geral da associação. In: Fondation Royaumont. 1963. e de A. de forma mais livre. n. 1331. Uma boa parte do problema do significado que vai tomar uma intervenção psicossocial está na relação que ela manterá com aquela que a precedeu: é ela intervenção para (a serviço de). seu vice-presidente. 2 3 184 . J. Notas 1 Traduzindo de: DUBOST. quatro anos depois. a retomada recente desses textos na coleção 10/18 (Nos 751. 17.F. acontece até que os agentes de intervenção – e os grupos junto aos quais eles intervêm – perdem facilmente de vista essa relação. de PERETTI. 806. LÉVY. 10 Cf. 1980. 7 Max PAGÈS. Sociologie du Travail. 6 O distanciamento progressivo com relação à corrente rogeriana provocou. Le psychosociologue dans la cité. la Mort. no sistema de intervenção que a gerou? Caso se despreze essa origem. 1972. A C.G.T. n. Connexions. que era animada por Jean MILHAUD e Noël POUDEROUX. 1304. p. “Dire la loi. de 1955). por exemplo o artigo de J.-março. “Une intervention psychosociologique dans un service d’hôpital psychiatrique”.

devido a fatores circunstanciais e à necessidade de se criar uma identidade visível ou uma demarcação. Parafraseando HEGEL. tudo isso não me leva a entregar-me ao prazer da renúncia doutrinária e da autocondenação. “dar conta de sua prática” – é uma tarefa cada vez mais difícil de ser feita seriamente. renunciei às ilusões da mudança social planejada ou ao otimismo rogeriano com relação aos homens e aos grupos. o agravamento de diferenças doutrinárias ou ideológicas. tem qualquer coisa de suspeita. como Jean-Claude ROUCHY2 propõe. Tal afirmação. pela fidelidade a alguns princípios e valores essenciais – em resumo. 185 . bem ou mal resolvidos. Esclarecer sua posição em relação às situações. uma vez sustentada pelas pulsões de morte. porém. pelo desprezo e pelo ódio que ela tenta conjurar. sobretudo porque permite aos que a enunciam afirmar sua superioridade sobre os que vivem diretamente essa negatividade. à crença em sua positividade fundamental e. está na moda hoje celebrar a importância do “trabalho do negativo”. além disso. permitindo esclarecimentos progressivos. há muito tempo. entretanto. No que me diz respeito.INTERVENÇÃOCOMOPROCESSO1 André Lévy Se as diferenças entre as diversas correntes da Psicossociologia se afirmaram e se aperfeiçoaram nos últimos anos. freqüentemente ocupa o lugar de uma elucidação das diferenças teóricas ou dos postulados epistemológicos. Porém. Porém. sobredeterminado por uma profunda lógica. esses ainda são muito relativos. Tomaram consciência da enorme distância que existe entre a complexidade das situações e suas metodologias e teorizações. através das contradições de suas condutas profissionais. mesmo que artificial. à maneira de se definir diante dos conflitos de todo tipo. quando é apenas verbal. mostrar seu itinerário3 sinuoso e. a experiência adquirida tornou os psicossociólogos mais prudentes. descobri como essa mesma crença pode ser suspeita.

reciprocamente. o que lhe dificulta acomodar-se a uma perspectiva com caráter analítico e chegar a resultados diferentes da atividade decisória.5 as primeiras intervenções psicossociológicas conhecidas. as aquisições de conhecimento ou de compreensão resultantes do trabalho analítico que se desenvolve nesse contexto têm sentido apenas em função de seus efeitos concretos na história do grupo. Mas tal metodologia ainda depende em excesso do modelo epistemológico da pesquisa científica. científica. instituindo. penso que uma atitude voluntária e falsamente objetiva. Ela repousa. mais lúcida ou. junto aos grupos envolvidos. longe de chegar a um ceticismo. Como evocado por Jean DUBOST nas páginas precedentes. face a face. nos quais os conflitos e as contradições são trabalhados concretamente por cada um. aos grupos de pessoas em seu devir coletivo. mas ainda assim tem acesso ao real apenas por intermédio de estruturas hierárquicas de poder. feito paulatinamente com grupos relativamente pequenos. em relações diretas. dizem respeito. um processo de feedback dos resultados e acarretando um trabalho de interpretação e resolução coletivas dos problemas evidenciados. ela é. desapaixonada. a reconhecer. As práticas de intervenção. cuja meta é a transparência cada vez maior da organização. no mínimo. o significado da análise (no sentido freudiano) em grupos e sociedades humanas. ainda hoje.Psicossociologia – Análise social e intervenção O essencial de minha atividade de interventor está centrado em um trabalho psicológico. Toda a minha experiência. pode ser apenas uma máscara para o desprezo profundo com relação ao outro e representar apenas ações tecnocráticas a serviço de um desejo de poder mais ou menos oculto. diretamente. ou mesmo a um nihilismo. penso que só é possível realizar um trabalho que valha a pena com grupos e organizações quando se tem um interesse afetivo verdadeiro pelas pessoas que fazem parte deles4 . Embora com uma posição totalmente diversa da de ROGERS. visavam a compensar os efeitos objetivantes e idealizantes da pesquisa. na França. com freqüência. diferentemente lúcida.6 por esse rótulo. cada vez mais claramente. a intervenção psicossociológica foi associada a essa metodologia. ela desconhece 186 . no postulado de que o conhecimento representa um valor ou um bem e que sua conquista é um elemento determinante de uma estratégia de mudança. As tomadas de consciência. Durante muito tempo e. diferentemente das ações de formação e de pesquisa. leva-me. fundamentalmente. ao contrário. sem dúvida.

que a técnica só tem pertinência e eficácia quando é susceptível de ser mobilizada em situações e relações concretas. criando condições para que um início de confronto entre os membros da organização fosse feito durante nossa pesquisa e por ocasião de seu relato. melhor coordenação administrativa. seja possível uma leitura vertical da expressão coletiva. apropriada para demonstrar as bases sólidas das soluções preconizadas: adaptação dos antigos dirigentes a novos mercados e às novas tecnologias. data de 1972. ainda se tenha que demonstrar essas ilusões. 35 ou 40 anos depois de LEWIN. ela implica na reificação de palavras em “dados” de informação. com vistas a decisões e ações.8 Fomos obrigados a efetuar um levantamento de dados como primeira etapa de nossa intervenção. de um lado. supõe.Intervenção como processo não apenas que o acesso ao saber não é um simples problema técnico. que. Porém. então. tais precauções foram vãs: a metodologia de levantamento pressupõe. visto como ligado demais ao responsável comercial.7 A última intervenção da qual participei. esclarecimento das funções. de outro lado. reequilibro do poder em favor da produção e mudança de atitude do proprietário. O fato de escutar cada pessoa isoladamente. por sua vez. considerado como um diagnóstico e. mas. de forma alguma. seu amigo. Para dar conta das clivagens existentes entre as diferentes maneiras de se representar a empresa. os problemas atuais da empresa. Cada uma dessas representações era formulada de maneira muito coerente. que se considere cada entrevista como um objeto isolado. implicitamente. fomos conduzidos a distinguir diversos discursos concorrentes. de uma forma histórica. quase narrativa. a colocação de todas as entrevistas em um mesmo conjunto. Mas tomamos uma série de precauções para garantir que tal pesquisa não bloqueasse o processo de análise coletiva ao qual pretendíamos chegar. de quem dependia bastante. sobretudo. cada um se referindo ao passado da empresa para explicar. à expectativa de uma objetivação e de uma organização dos problemas. 187 . caso contrário. Tal metodologia induz. De toda forma é surpreendente que. é apenas um simples instrumento ideológico. supõe que seu pensamento possa ser “apreendido” e resumido a um objeto – o objeto-entrevista. com efeito. permitindo seu tratamento e sua captação ulterior. que adotava aproximadamente esse modelo. uma única vez. isto é. A reunião desses diferentes objetos na análise. em determinado momento. pois a direção da empresa fazia disso uma condição. que nosso relatório (que seria comunicado a todos) não pudesse ser. cuidando.

enquanto que os outros tinham o sentimento de serem. particularmente por meio de nosso relatório oral. reconstituído graças a nossos cuidados. O que era então uma realidade contraditória e clivada foi transformado em pontos de vista divergentes. no limite. a coexistência desses diferentes discursos. então. e de passar assim. um de cada vez. Tais implicações se tornaram muito claras durante a leitura e a discussão de nosso relatório: a esperança de um discurso único dissolveu-se logo. uma crise ideológica – mais aguda ainda por se desdobrar em uma crise de poder. à medida que cada discurso. cada um estruturado segundo sua própria racionalidade (econômica ou tecnológica. sobretudo. traduzia também. que pressupunha a possibilidade (ao menos para nós) de escutar e compreender todos os discursos. Mas teria sido preciso que assumíssemos pressupostos contrários à nossa posição: teríamos de nos esforçar para articularmos o discurso comum. de um a outro. Uma outra análise de conteúdo dos dados de pesquisa teria sem dúvida evitado esse desenlace.Psicossociologia – Análise social e intervenção Entretanto. repousando sobre pressupostos certamente divergentes. sem dificuldade. para apreender a “realidade”. teríamos de apresentar cada discurso como se fosse a expressão parcial de uma mesma realidade objetiva. A perda da esperança acarretou. e. algumas vezes insuportável para uma parte do grupo). inevitavelmente. surgiu como a expressão totalitária de um lugar de interesses específicos na empresa. em outras palavras. ideológico-afetiva. negados (o que se traduziu em movimentos diversos durante a leitura. o término definitivo da intervenção e a renúncia ao trabalho de grupo previsto (malgrado uma preparação inicial já feita para a constituição de grupos). organizacional). teria sido preciso fazer de conta que achávamos que era suficiente. expondo cada um com a mesma objetividade. Em outras palavras. mas potencialmente articuláveis entre si. e sobretudo. a esperança de se chegar a reuni-los em um único discurso e de se resolver assim o que era vivido por todos como uma crise de sentido. excluir de cada expressão o que a tornava particular 188 . impondo uma interpretação única da realidade na qual uma parte do grupo se reconhecia. como se esperava de nós. porém situados no mesmo plano. A pesquisa havia fortificado essa esperança. a ausência de uma referência única traduzia-se no sentimento de um poder diluído e inapreensível. complementares. A esperança desfeita era também a de uma comunidade no seio da qual as contradições e as oposições se resolveriam por si mesmas.

escutada ou recusada. excessiva demais) e conservar. o fato de serem recuperadas em um discurso único leva a crer na possibilidade de ultrapassá-las ou. que não se reconhecem como um discurso. em seguida. mas se apresentam como um saber sobre – saber ou sentido cuja função principal é a de fundamentar. assim. isto é. cujos pressupostos “científicos” kantianos simplesmente traduzem de outra forma essa crença do senso comum. o “real”. o levantamento de dados. Tal é o contrato implícito do levantamento de dados. associa-se necessariamente à busca de um sentido. aliada à consciência da relatividade de cada um dos princípios que. Longe de favorecer um processo de análise. qualquer que seja a maneira como é conduzida. é a função das representações. no mínimo. não aceitamos seus pressupostos. perceber o quanto a prática da pesquisa. assim. a partir de diversos “pontos de vista”. transferindo para o pensamento as clivagens e contradições resultantes das divisões intra-organizacionais (particularmente da divisão do trabalho). reduzidas a enunciados fechados. articulá-las. estão na base de toda sociedade “harmoniosa”. Essa experiência possibilitou-nos. o levantamento inscreve-se necessariamente no projeto de dar um sentido. embora imperfeitamente. em contrapartida. desejaríamos. ações ou decisões (saber para). Gostaríamos também de compreender como essa palavra poderia testemunhar o lugar ocupado pelos que falavam e o que lhe permite ser mantida. sabemos. legitimamente. então. constrangidos. Mas essa crença implica na possibilidade de apreender diretamente. que cada discurso fosse reconhecido como expressão real de um vivido.Intervenção como processo (subjetiva demais. em discursos que as pessoas expressam. Mesmo quando as contradições são explicitadas e acentuadas. a pesquisa contribui. de uma explicação geral. ao contrário. a um princípio de tolerância de pontos de vista diferentes. desconectados das condutas e estratégias. 189 . por menos que ela fosse levada a sério e que se tentasse compreendê-la. levando a acreditar na reunião imaginária dessas representações divergentes. o que poderia completar e “enriquecer” o discurso comum – e tanto pior (ou tanto melhor) se certos discursos parecessem mais “objetivos” que outros. Essa crença conduz. pois o “real suposto” de cada discurso é concebido como uma parcela. como uma palavra destinada a ser perseguida e retomada. Mas se aceitamos. segundo a qual apreende-se melhor a “realidade” quando se somam diferentes visões que se pode ter dela. para o recalque: primeiramente.

Só é possível. moral ou corpórea. Os grupos face a face aparecem. 190 . com efeito. se articulam e se transformam. pode ocorrer. reciprocamente. na qual uma resposta instantânea. O obstáculo mais sério a uma “Psicanálise de grupo” é a impossibilidade para o “analista” de se constituir como um terceiro. só pode ter um resultado: o recalque da palavra. enunciados interpretativos que fazem sentido para eles. mas. nem que seja por estar associado apenas temporariamente ao grupo e por buscar objetivos diferentes. então. no sentido pleno do termo. na enunciação. essa só pode. falar de análise social em situações de grupo nas quais os sujeitos podem inserir. independentemente das maneiras como se atualizam. reproduzidos em lugares separados do lugar e do momento de sua emissão. a negação dos conflitos e das clivagens e o desenvolvimento de uma relação normativa e pedagógica falsamente denominada de analítica. como lugares privilegiados de análise: constituem o que forma a espessura do social. de considerar análogos seus quadros e settings respectivos. de comparar particularmente as relações de transferência/ contratransferência entre um psicanalista e um analisando com as relações que se passam entre um ou mais interventores com um grupo ou organização. na qual o imediatismo do risco é sensível. sua posição de exterioridade é apenas relativa. esses processos não podem ser compreendidos nem podem evoluir. é grande a tentação de abandonar o modelo heurístico do levantamento e recorrer ao modelo psicanalítico. se há um resultado do qual estou seguro. colocando em jogo pessoas em sua integridade intelectual. O fato de querer transpor as regras e as técnicas da Psicanálise para a análise social. a opacidade de uma palavra que não se reduz a um conteúdo e nunca coincide perfeitamente com os discursos construídos. Crítica da Psicanálise aplicada aos grupos Não me deterei aqui nesse assunto complexo. então. instituídos. A não ser que se idealize o processo de análise social. ser feita em uma experiência de comunicação.Psicossociologia – Análise social e intervenção Então. Os processos sociais não se reduzem evidentemente ao que pode ser apreendido nos grupos face a face. a fim de aplicá-lo aos grupos e organizações. esse não é o mesmo feito no quadro da cura individual. sob forma falada ou atuada. tendo acumulado experiência de análise de grupo por 15 ou 20 anos. embora ele ocupe incontestavelmente uma posição especial. este é o seguinte: se um certo trabalho analítico pode ser feito nos grupos. Porém.

desde o início. pressões. essas relações implicariam particularmente. Não desenvolverei aqui o que já escrevi anteriormente10 e que me levou a concluir que esses grupos não poderiam ser outra coisa senão situações de aprendizagem disfarçada. não podem ser estabelecidas ou desenvolvidas. cuja existência postulada como objeto transferencial (desejante) é necessária para instituí-lo como analista. Nas situações de intervenção. apontando que um dos limites da análise social era a necessidade de um poder no qual o lugar do analista pudesse se apoiar – poder cujo exercício é contraditório com todo trabalho analítico. Podem ocorrer aí fenômenos de deslocamento ou de projeção com relação ao interventor. mas relações de transferência.Intervenção como processo Qualquer que seja o discurso que ele mantenha a respeito de sua independência ou suposta neutralidade. Tudo isso aparece claramente nas situações de formação (grupo de diagnóstico. O analista não pode estar em uma situação de exterioridade radical relativa ao grupo ou à organização. por parte do analista. tudo se passaria diferentemente se fosse possível situar os grupos ou as organizações “naturais” definindo suas fronteiras e sua história. pois variáveis da mesma natureza condicionam seu lugar e o dos outros membros. em função de uma “demanda”. o mesmo não se passa nas relações com um grupo cujas identidade e unidade são definidas arbitrariamente. no sentido preciso desse termo. das quais necessariamente é parte. uma vez que. com a participação do analista-interventor. 191 . por exemplo). no próprio ato que o institui como analista. cuja existência ele postula (ou mesmo contribui para estruturar). A própria expressão “transferência do grupo” ou “transferência institucional” parece-me um absurdo ou até mesmo um embuste. do não agir. grupo do outro. pois tal afirmativa não se refere a uma diferença irredutível – física. cuja existência depende inteiramente do ato fundador (programa) do analista e do seu reconhecimento pelo “grupo”. FREUD9 já havia destacado essa dificuldade. ele se insere no mesmo sistema de alianças. material ou simbólica. corpo a corpo. isso é apenas uma petição de princípios. “fenômenos” abstratos de “grupo” em geral. isolados de toda historicidade. estratégias. caracterizados ainda por serem uma realização do fantasia do animador-genitor. o respeito à regra de abstinência. Se isso é possível nas relações de pessoa a pessoa. e o desenvolvimento de uma relação entre os dois sujeitos – analista de um lado.

atravessada por clivagens internas e prisioneira de imposições institucionais e econômicas. não é o único pólo transferencial em torno do qual se ordenariam e se desenvolveriam as relações susceptíveis de serem interpretadas. preso em diversas alianças (que ele aliás nunca pode recusar totalmente sob pretexto de uma neutralidade ilusória). concebidas de maneira a assegurar seu lugar como analista de fantasias inconscientes. ele elimina. Mesmo com a ficção do “grupo em análise”. O interventor pode. assim. seu objeto. graças às relações de “transferência” que se estabelecem e se desenvolvem entre o grupo e ele próprio. no mesmo ato. de termos como o “grupo” ou a “demanda”). ser tentado a definir um quadro de trabalho análogo ao de uma situação de formação. por antecipação. isto é. o trabalho sobre as diferentes maneiras pelas quais o interventor tende a ser utilizado em estratégias.12 e a legitimar sua interpretação. tudo aquilo que pode fazer a especificidade dessa situação e que a sobredetermina no plano organizacional e institucional. então. o grupo ou equipe como unidade diferenciada. quanto para as relações internas. tendo uma existência e uma história separadas (pelo emprego.13 mostrei que a modalidade de pagamento de meus honorários. fora da situação de análise. traduzia o desejo de tirar 192 . Tal crítica da “Psicanálise aplicada” leva-nos a concluir que o interventor tem sempre uma posição de exterioridade relativa. tendo que tomar decisões e executá-las. por exemplo. do “aparelho psíquico grupal”. não unificada. sua redução a dimensões interpessoais ou a fenômenos grupais gerais. ele continua a atuar como uma instância organizacional (uma equipe. Um dos objetos de análise pode ser. Em uma intervenção efetuada em um hospital-dia. fragmentada. Reconstruindo de forma fictícia tal situação. essas clivagens e divisões são apagadas na representação segundo a qual todos compartilhariam da mesma demanda de análise coletiva e se situariam de forma idêntica como participantes ou membros do mesmo grupo.Psicossociologia – Análise social e intervenção Tentei demonstrar11 que o próprio fato de alguém se definir e se posicionar como analista leva a postular. um serviço). Essas limitações são ainda agravadas pelo fato de que ele também omite a consideração dos efeitos que a instauração dessa situação pode ter tanto para a organização. feito diretamente por cada membro da equipe e igualitariamente. por meio de regras explícitas e implícitas. ele encontra claramente os limites que evidenciei a respeito do grupo de diagnóstico: a psicologização do conflito. realizando coletivamente transferências para o mesmo analista.

e o grupo de suas restrições externas. essas sendo também pagas pelos doentes e não submetidas ao orçamento do hospital. Um dos resultados. por razões que ele gostaria que fossem metodológicas ou de melhor garantia de sua posição. quando o interventor. mesmo quando essas evoluções se tornam difíceis ou improváveis. podendo o interventor trabalhar com outras pessoas e outros grupos. que não se tem de preocupar com os efeitos do trabalho sobre o devir da organização (“sua cura”) ou com as relações internas dela. merece ao menos uma explicação. assim. o abandono de tabus. Certamente. o próprio fato de se colocar a questão da avaliação situa o problema em termos que podem ser contraditórios com a significação de uma experiência. a não ser provisoriamente. que a emergência dos conflitos latentes. as resistências internas na organização tendem. É por isso que. que continuaria submetido às regras administrativas.). especialmente do médico-chefe. essa modalidade se constituía.Intervenção como processo o processo terapêutico do controle institucional da hierarquia. Não se pode escapar disso dizendo. Se isso é em parte verdadeiro. como o fazem certos psicanalistas. mas também para o gozo sexual ou estético. a presença. pesquisaação etc. segundo outras modalidades que não a análise de reuniões (entrevistas. do trabalho de análise. nunca se pode ignorar totalmente a questão da avaliação do ato profissional efetuado na intervenção psicossociológica. de uma terapêutica localizada. o que vale não só para a análise. Como posicionar tais experiências de acordo com 193 . numa colocação em ato do desejo. Isso permitia assimilar a intervenção a atividades de ergoterapia. Nessa perspectiva. à medida em que o trabalho progride. Como avaliar a intervenção psicossociológica Mesmo sendo possível se defender. a composição do grupo pode evoluir. foi então o de evidenciar o caráter ilusório desse desejo de autonomia da terapia e a maneira como ele contribuía para reforçar a divisão do trabalho no seio da equipe no hospital. paradoxal. institui tal quadro. por exemplo. como. de tornar a psicoterapia autônoma e de acentuar a diferença entre essas atividades e o trabalho das enfermeiras. ele entra em conluio com as resistências. com efeito. o acesso aos processos psíquicos inconscientes são metas que se justificam por si mesmas. observações. a desmistificação de certas crenças. o interventor não está ligado a nenhum grupo em particular. a congelar o trabalho de análise em um lugar determinado. a enquadrá-lo e a controlá-lo até lhe retirar todo o significado que não coincida com o de uma pedagogia ativa.

uma peça retirada de um edifício em equilíbrio”. a significação de uma intervenção ou de uma análise não pode ser concebida independentemente do ato de transgressão envolvido e da crise ideológica e política que atravessa a organização e que a questiona. Em um texto anterior. uma certeza a mais. vivida como o fim ou a morte da organização tal qual era imaginada. um acontecimento marcado pelo advento. Tal concepção da análise social implica também a necessidade de rearranjar a idéia que se faz de uma organização. A questão é: a quê e a quem cada teoria serve? 194 . do negativo ao positivo? E como não o fazer? Assim. em face à eventualidade de uma ruptura. de uma ruptura com um ciclo de repetições e. do menos ao mais. a necessidade de defini-la com conceitos distintos dos utilizados quando ela é captada do ponto de vista do ator. Com efeito. a mudança representa para nós. um jogo mais livre se torna possível.Psicossociologia – Análise social e intervenção coordenadas de um esquema pragmático ou utilitarista. orientadas para a resolução de problemas e para metas práticas subentendidas. dependente da sua importância para determinadas situações e metas. centrada no sistema de regras etc. Não é uma soma. uma questão onde havia uma afirmação. Nenhuma dá conta de uma “verdade” geral relacionada à natureza da organização em si. isto é. ou como o reconhecimento de clivagens internas. com noções e representações úteis à ação. Graças a esse vazio repentinamente desvelado. É por isso que se poderiam analisar significações comparadas: a da teoria das organizações que as vê essencialmente como sistemas de estratégias e de alianças. do pior ao melhor. um novo pleno. toda teoria organizacional é relativa. centrada nos problemas de produção racional. uma certeza a menos. as peças começam a circular. na vida de um sujeito ou de uma comunidade. para o qual seria necessário abrir espaço e ajustar ao que já estava lá. ao desconhecido.14 descrevemos essa experiência como “a descoberta de um vazio aí onde se acreditava haver plenitude. de acordo com eixos orientados. à incerteza. conseqüentemente. então. irredutíveis. inclusive nas pessoas.. um possível onde havia certeza. o acesso a uma história.. Essa se encontra então em seu ponto de ruptura ou. O novo que aparece não é. organização é apenas um conceito relativo que se refere a finalidades que variam de acordo com o lugar onde ele foi elaborado e onde ele supostamente é útil. a da burocracia. mas uma subtração. ao risco. Com efeito. a da organização científica do trabalho. no mínimo. antes de tudo.

tenta explicar. em remetê-las aos lugares de onde são enunciadas e às diferentes formas como cada um. de acordo com a posição que ocupa no sistema de divisão do trabalho. ordenado. mas ao preço de um esforço de simplificação e de redução intelectuais. são discursos destinados a legitimar. que representações podem ser consideradas como algo diferente de um conjunto ou de um sistema de idéias e de juízos estruturado. então. Quando se tenta apreendê-las sob a forma em que efetivamente atuam. com efeito. sociológicas sobre as quais a organização se baseia. a análise não alcança objetivamente um real suposto. que permite às pessoas implicadas se desligarem da fascinação exercida por seus próprios discursos. Assim. hierarquizado. nos quais está subentendida a busca de significações comuns (graças às quais a organização poderia ser apreendida como UMA). permanecem divididos os discursos de representação. dar um sentido ao lugar que elas ocupam e atribuir um sentido às divisões espaciais. uma elaboração teórica a respeito dos processos organizacionais. essa é bem a forma sob a qual elas freqüentemente se apresentam. tendo sua própria pertinência. também ela. mas em apreendêlas como discursos incompletos. o processo de análise não pode. Pareceu-nos. procurando indefinidamente e de maneira nunca acabada a busca de um sentido. eles reproduzem essas mesmas divisões e contribuem para reforçá-las. fornecendo explicações e tornando as divisões e as clivagens organizacionais mais toleráveis. somos levados a percebê-las como séries de discursos entrecruzados. Nessa perspectiva. Nesse sentido. o que dá no mesmo. desde 195 . mas ainda a leva a cair na armadilha do levantamento de dados (para ver ou para saber) ou. desenvolvendose segundo atos referenciais múltiplos – cadeias de significados freqüentemente contraditórios. são discursos que as pessoas enunciam nas situações em que se encontram. mas ela própria é uma produção de discursos16 que permite abrir o caminho do grupo a uma história. as ações e as divisões. na pedagogia demonstrativa (para fazer saber ou para convencer – postulando que as condutas podem ser modificadas por meio de representações). explicamos por que15 o fato de assinalar e de interpretar representações e fantasias não apenas é insuficiente para justificar uma intervenção. para os outros e para si próprios. consistir em assinalar e decodificar as significações existentes. temporais. enfrentar e ocultar as contradições que vive. então.Intervenção como processo A prática de intervenção psicossociológica produz. com a finalidade de construir referências. Entretanto.

reificaria significados. Embora eu tivesse trabalhado no passado. A preocupação das pessoas que me procuraram era evitar que. 196 . tanto quanto pude analisála. Mas as pessoas sentiam uma grande dificuldade. citarei o caso de uma intervenção muito breve. em especial. aliás muito rapidamente. centrado no trabalho do grupo (denominado Comissão da Assembléia Geral) durante todo o período de preparação da Assembléia. talvez tivesse mesmo o inverso. Esclarecemos. aceitei. por diversas vezes. dado o mal-estar existente no interior da comunidade. Essa Assembléia Geral deveria ocorrer alguns meses mais tarde. nesse lugar eminentemente político que seria a Assembléia Geral. essa não implicação de minha parte com seus problemas ou sua ideologia. nem para ajudar na sua animação nem como observador ligado à Comissão. que deveria ser. a fuga dos problemas se traduzisse em voto de moções muito gerais e imprecisas. A razão de minha determinação. isso não apenas não os inquietou mas. mas a demanda. de algumas sessões ao longo de quatro ou cinco meses. ao contrário. chegamos logo a um acordo a respeito do meu papel. intervir nas orientações futuras da comunidade e nos problemas que não me diziam respeito. como ocorrera na assembléia anterior. pareceu-me simpática. colocaram a possibilidade de contratarem os serviços de um psicossociólogo. Depois de uma breve hesitação. em sua maior parte. endereçada agora a mim. sem me sentir comprometido de qualquer forma que fosse com a comunidade e seus valores. Assim. por sua vez. com pessoas pertencentes a esses meios. Para ilustrar o que precede. a ocasião da eleição do próximo Conselho ou direção da comunidade. encarregadas de preparar e conduzir uma assembléia geral próxima. Igualmente. apenas depois do primeiro dia de trabalho decidi não participar de forma alguma. não tinha nenhuma afinidade particular com relação a comunidades religiosas. destinadas a serem engavetadas. o problema que eles colocavam parecia-me interessante e eu sentia que poderia trabalhar com eles para resolvê-lo. Buscavam essencialmente um “técnico”. pareceu-lhes uma garantia para realizarem o que se haviam proposto. A questão de minha participação ou presença durante o desenrolar da própria Assembléia foi deixada em aberto. Ela tomou a forma de uma consulta junto a um grupo de seis a sete pessoas pertencentes a uma comunidade religiosa. era o sentimento de que não poderia. como condição para aceitarem sua missão.Psicossociologia – Análise social e intervenção que não proponham outro sistema de interpretação superior que. com interesse e prazer. ela pretendia ser.

em relação à Assembléia Geral e à Comunidade. diversas sessões haviam sido previstas. depois dos debates. eu próprio em relação à Comissão e à Comunidade Tendo visto essas diferentes posições respectivas como extremamente articuladas umas às outras. Tudo isso permitiu o posicionamento dos respectivos lugares: o meu. em relação à Comissão e. à noite. pela Comissão) como um ponto de transição. na história da Comunidade. no final da assembléia anterior que havia deixado as pessoas insatisfeitas e com o desejo de enfrentar os problemas mais diretamente. pelo menos. A comissão em relação à Assembléia Geral e em relação à Comunidade. dois encontros no local da Assembléia Geral. por diferentes razões (acentuação da distância entre gerações. era considerado por muitos (ou. A Assembléia Geral e a Comunidade Essa Assembléia Geral em preparação veio a ser. se nas primeiras trocas não excluíra a priori uma participação nos trabalhos da Assembléia Geral. de fato. decidi depois do primeiro dia de trabalho não participar de forma alguma nem assistir à Assembléia Geral. cuja forma seria definida? 197 . parece-me mais interessante examiná-las conjuntamente do que separá-las uma a uma. Para isso. oposições cada vez mais marcadas entre as diferentes concepções da Comunidade. Como já mostrei. à Comunidade em seu conjunto e à Assembléia Geral. que não podia ser perdido. vencimento dos prazos para decisões importantes). a fim de ajudá-los a esclarecer o que havia se passado durante o dia e de preparar o dia seguinte. aproximadamente um encontro a cada mês (sempre que ela se reunia em Paris) e. de um lado. Tratava-se então de um momento que. o lugar deles. isso me parecia necessário para preservar a minha não implicação nos problemas diretamente políticos da Comunidade e para esclarecer as posições da Comissão e minha em relação à Assembléia Geral. Ela havia sido decidida no ano precedente. em seguida. Como cheguei lá. em especial durante a eleição do novo Conselho ou Direção. a Assembléia Geral em relação à Comunidade. uma Assembléia Geral extraordinária.Intervenção como processo Minha participação se limitou então a alguns encontros de um dia ou de metade de um dia com a Comissão. e enfim. atendendo expressamente à sua demanda. de outro lado.

a lista dos membros da Comunidade e as diversas posições sociais entre as quais se distribuíam. Apoiando-me no contrato que havíamos feito. tendo em vista a Assembléia Geral. talvez também meu próprio sobrenome judaico. pareciam garantir a seus olhos (com uma certa ingenuidade. parecia-me que não havia confusão entre os nossos respectivos papéis. então. eu próprio me sentia um estranho. Eu era calorosamente acolhido. sem implicação com o grupo.Psicossociologia – Análise social e intervenção É importante. com amizade e com confiança. então. da organização complexa da Comunidade: a existência de comunidades descentralizadas na região. tomei conhecimento. esquivando-se dos conflitos e divergências. a fim de levantar suas opiniões. O fato de que eu estava lá como um profissional.I. Espantei-me. evitando toda aspereza. a passar sobre elas e a generalizá-las apressadamente demais. sem dúvida) que eu não buscava nenhum interesse pessoal relativo a seus assuntos internos. Nessa ocasião. ao ver-me reagir rapidamente e com muita vivacidade diante da maneira deles se situarem nessa tarefa. os textos definindo seu funcionamento. Embora a expectativa com relação a mim fosse muito grande – eles estavam bastante prontos a escutar e a levar em conta as minhas observações –. Eles absolutamente não procuravam se apoiar em mim. como um estranho mas não como um intruso.R. que essa mesma brutalidade respondia a uma demanda inconsciente da parte deles. o grupo havia se empenhado em uma tarefa consistindo em reunir todas as informações de que dispunha sobre os pontos de vista e as proposições das diferentes comunidades regionais. que me autorizava a intervir em tudo o que me parecia ir no sentido de evitar problemas e conflitos. examinar o que se passou durante esse primeiro dia: Nesse momento. de sair de um estilo de relações muito corteses. com a ajuda deles. eles haviam visitado pessoalmente cada uma das comunidades.P. intervim bastante brutalmente para criticar as tendências deles a se esquivarem das dificuldades. pertencente a uma organização evidentemente leiga (a A.). as regras às quais se submetiam etc. o tipo de atividades nas quais estavam empenhadas e as diferenças existentes entre elas – inclusive no plano econômico -. ao mesmo tempo. Nossas relações começaram igualmente a se tornar mais precisas. Parecia-me. as relações entre elas. ou mesmo ser influenciados na decisão que deveriam tomar e em relação às suas responsabilidades. 198 .

mas também político: eles não podiam deixar de influenciar nas orientações que seriam definidas na Assembléia Geral ou mesmo na eleição.Intervenção como processo No nível do conteúdo. periodicamente. que eles deveriam.Que ele exigiria igualmente que trabalhassem o funcionamento de seu próprio grupo. Caçoei da maneira como alguns deles justificavam. seu papel de porta-vozes puros. para a maneira como os problemas seriam colocados etc. relatar o resultado de seus trabalhos e proposições a um Comitê Permanente e 199 . sem dúvida. a meu ponto de vista. essa expressão estaria fortemente condicionada à maneira como fora buscada e tratada. não eram apenas procuradores de votos e opiniões. mas representavam também. se efetivamente o desenrolar da assembléia geral fosse determinado. declarei-lhes: 1. Declarei-lhes que não poderiam recusar o poder que lhes havia sido confiado de orientar e contribuir para a organização dos debates da próxima Assembléia Geral. sem deixar de observar. com relativa facilidade. Eles aderiram. tendências que estavam encarregados de confrontar e esclarecer. então. para a escolha dos temas que seriam então tratados. A maneira como confrontariam e analisariam ou não suas divergências tinha toda a chance de prefigurar o que se passaria na Assembléia Geral. observei. Pareceu-me. diferentes tendências existentes no seio da Comunidade.Que esse trabalho exigiria muito tempo e investimento da parte deles e. assim. com bastante veemência. pelas vontades expressas pela “base”. que eles estavam errados ao se considerarem como simples emissários ou portavozes das comunidades que cada um havia visitado e ao limitarem seu trabalho a um simples cotejo ou colocação em ordem das informações que haviam recolhido. em última análise. será que eles pretendiam se limitar a estabelecer um simples catálogo de dados de informação e de questões a tratar ou se empenhar em um trabalho de análise da situação a partir desses elementos? Perguntei-lhes em que medida estavam prontos a fazer esses investimentos. encontros mais numerosos do que os previstos no começo. 2. O papel que tinham era não apenas técnico. entretanto. demonstrei que. em nome de valores democráticos. que eu lhes recusava o papel de “técnicos” que atribuía a mim próprio! Analisando o trabalho deles como se fosse um levantamento de dados e uma pesquisa-ação na Comunidade e em seus problemas e analisando a disposição de tratar esses problemas. ao contrário.

Eles funcionariam então dentro de limites relativamente estreitos. análise e interpretação dos dados coletados) e políticos (como apresentar e traduzir essas análises em ações). a de que eu participasse da Assembléia Geral 200 . com o conhecimento e o acordo da Comunidade). exceção feita à maneira como eles se apresentavam na Comissão. eventualmente. Caso eu participasse da Assembléia Geral. colaborando no objetivo supostamente comum de favorecer a expressão e a elucidação dos debates. sem implicar posições táticas e políticas. isso não excluía em nada minhas conclusões relativas ao papel político deles mas. ao contrário. permitia-me manter meu papel junto à Comissão e permitia à Comissão manter o seu junto à Assembléia Geral e à Comunidade (e. tornava-as mais precisas: uma das preocupações deles era a de preparar seus encontros com o Comitê de maneira a evitar se atolarem em problemas menores ou técnicos. Paradoxalmente.Psicossociologia – Análise social e intervenção que todas as decisões concernentes à Assembléia Geral próxima deveriam ser submetidas a essa instância. a veemência com que me manifestara no sentido de que a Comissão não evitasse sua implicação na tarefa e assumisse mais integralmente sua missão teve como efeito permitir-me tomar a decisão de recusar uma participação direta na Assembléia Geral (como me havia sido proposto. Essa discussão permitiu-me esclarecer meu próprio papel: o de um consultor junto a um grupo empenhado em uma pesquisa-ação na comunidade da qual emanava. Isso apenas provocaria confusão e a ilusão de que esse objetivo era puramente técnico (um problema de organização e de relações). o esclarecimento dos problemas e o seu tratamento. Com efeito. esse grupo encontrava problemas que eram ao mesmo tempo teóricos e técnicos (coleta de informações. Isso pareceu-me indispensável para diferenciar nossos lugares respectivos de implicação. isso poderia contribuir para esvaziar a Assembléia Geral de todo conteúdo político! (Quanto à eventualidade evocada em certo momento. seria necessariamente confundido com a Comissão. No limite. O fato de ficar totalmente sem implicação com a Assembléia Geral e seus problemas políticos e táticos. com alguma hesitação). à Assembléia Geral preencher sua função junto à Comunidade). minha posição com relação à da Comissão e também a da Comissão com relação à Assembléia Geral. isso permitiu que eu me situasse como consultor para a Comissão e apenas para ela (naturalmente.

com o agravante de tornar a situação ainda mais obscura). essa era uma proposta que ia no mesmo sentido. Mas isso resultava não de uma diferença de natureza.17 A análise que precede sobre nossa posição em relação à Comissão mostra bem o que se deve entender como qualificando uma relação que só adquire sentido em relação a outras.a Assembléia Geral era o lugar político da Comunidade. sem direito à palavra. nosso sobrenome (LÉVY) – e o fato de que não tínhamos nenhum vínculo institucional com a Comunidade nem com qualquer organização semelhante – faziam de nós um interlocutor válido para o que se esperava. O termo relativo não deve evidentemente ser compreendido como equivalente ao adjetivo parcial ou imperfeito (relativamente quente. enquanto as comunidades estavam implicadas nesse trabalho. sobre o caráter relativo de exterioridade do interventor enquanto terceiro. Deveria representar um tempo de análise coletiva. através de minha inesperada implicação afetiva. Certamente. por meio das quais eles nos davam uma referência simbólica.. Assim. membro da A. a partir dessas diferenças em status 201 . b. durante o primeiro dia de trabalho. (Já assinalamos a ingenuidade que consiste em crer. mas do efeito de sentido que as qualificações (psicossociólogo.Intervenção como processo como observador. ficou claro que: a. nossa posição profissional e inserção institucional. mas também de escolha de orientação política. c. não em trocas prévias. mas no calor da discussão.P.a Comissão era o instrumento dessa vontade política da Comunidade e das comunidades regionais. Devemos acrescentar que esses diversos esclarecimentos de papéis foram feitos simultaneamente. sobretudo. judeu) tinham para eles. durante um vazio de poder). a Comissão constituiria o corpo executivo delas (ela foi aliás. existente no real. uns em relação aos outros. para ajudar a tomar consciência de sua responsabilidade (política) e implicação do grupo e de cada um de seus membros. entre nós e os membros da Comissão.I. formalmente.quanto a mim. por exemplo): o interventor não é “um pouco” exterior. ligado à Comissão. isto é. eu era o meio que a Comissão tinha para realizar sua missão e. Pode-se aqui recolocar e aprofundar a questão evocada anteriormente.R. até a eleição do próximo Conselho. o Conselho provisório da Comunidade enquanto durou a Assembléia Geral.

fazer com que se ficasse mais tempo examinando detalhadamente os textos. a partir desse primeiro dia. que não visávamos nenhum interesse – ideológico. a partir desses documentos. tornava muito difícil uma escuta atenta do conteúdo dos textos. Não é necessário lembrar que esse trabalho tinha representações prévias subjacentes: representações de cada membro da Comissão a respeito do que era a Comunidade e do que ela deveria ser. Tudo isso. nosso trabalho centrou-se na maneira pela qual os membros da Comissão liam e escutavam os documentos – cartas. Na sua maior parte. 202 . assim. sem que nossa posição social distinta seja associada a outras diferenças no interior da Comunidade – entre os diferentes status sociais. aliado a uma tendência intelectual de globalizar os problemas. às instituições ou às atividades). Nesse sentido. em conseqüência. por sua vez. não se produz. entre a Comissão e o Conselho. e sobre o que pôde ser produzido. como terceiro. suas análises da situação sob forma de textos preparatórios da Assembléia Geral. entre o que havia sido a última Assembléia Geral e o que seria a próxima.Psicossociologia – Análise social e intervenção e posição social. o desenvolvimento de um certo trabalho. relatórios de reuniões. da importância atribuída às pessoas. nossa alteridade. estatísticas – que lhes chegavam (alguns dentre eles haviam mesmo. era “relativa”. sem que isso excluísse – antes pelo contrário – o fato de que estivéssemos implicados em todo um sistema de relações e sem que isso nos diferenciasse radicalmente de outros membros da Comunidade. entre outros escalões – e. como membros dessas comunidades regionais. destinados a serem comunicados à Comunidade. Não queremos fechar esse exemplo de intervenção sem dizer algumas palavras sobre a seqüência do trabalho que pudemos realizar com a Comissão. particularmente. lutar para tornar o trabalho mais lento. que se traduziam em diferentes maneiras de hierarquizar os problemas e de definir as linhas de clivagem ou de oposição (dependentes. Foi preciso. que se traduzia em um contrato implícito regendo nossas respectivas relações e tornando possível. Esse efeito de sentido. entretanto. assim como um trabalho de elaboração de hipóteses interpretativas. por exemplo. esquemas de análise de problemas a serem submetidos à Assembléia Geral. por exemplo – em nossa associação com eles e em nossa implicação em seus problemas). de associá-los a opções teóricas ou ideológicas abstratas. entre as comunidades regionais. participado da redação de uma parte desses textos) e sobre a maneira como formulavam.

sem dar muita importância. refletindo situações particulares diferentes. encontrava-se talvez aí o problema do lugar das pessoas e da experiência individual na Comunidade.. Isso implicava o abandono da busca de uma definição geral na qual alguns termos-fetiche representariam de maneira fictícia a unidade da Comunidade e. da idade. não em relação a princípios gerais e mutuamente exclusivos. as questões a serem submetidas a voto etc. era uma representação cada vez mais complexa e contraditória da Comunidade. ou de análises feitas em termos de escolhas dicotômicas com base em princípios gerais.”). algumas vezes concorrentes e eventualmente incompatíveis. sob forma de propostas contraditórias para se organizar o trabalho da assembléia (por exemplo. assim. na Assembléia Geral. interrogar sobre a importância e extensão de certas caracterizações muito apressadas. carregadas de subentendidos (por exemplo. Essa dificuldade surgiu durante o trabalho com o grupo.). suas regras de vida e suas instituições seriam colocadas em eixos – seja a crença em certos valores.. mas em relação às diferentes posições ocupadas pelas pessoas e grupos coexistentes na Comunidade – do ponto de vista do dinheiro. seja a coabitação em um mesmo lugar. as cartas que exprimiam uma opinião muito pessoal ou muito particular e as opiniões mencionadas nos relatos como sendo de uma única pessoa (“Um padre disse. o “projeto sacerdotal” ou o “projeto espiritual”). 203 .18 Um exemplo: havíamos observado que o grupo tinha tendência a considerar superficialmente. seja o conjunto de atividades –. aparentemente menores. sobre palavras fetiches. a principal dificuldade foi a de situar as verdadeiras clivagens. a definição da pauta dos diferentes dias. o que significava não considerá-los? O que se elaborava. ou mesmo. algumas vezes. Fizemos com que se notasse que todas essas expressões tinham em comum serem apresentadas como emanando de uma única pessoa. segundo os quais as definições da Comunidade. implicava também o reconhecimento e aceitação de discursos múltiplos. por meio desse trabalho preparatório e.Intervenção como processo considerando questões particulares... em contrapartida. que elas estavam marcadas por esse signo: “um padre disse”. diferenciando-se assim daquelas que se apresentavam como produto de uma elaboração coletiva. talvez certos conteúdos não pudessem ser expressos senão sob essa rubrica. em seguida. da segurança. No curso desse processo. ou ainda. antes da Assembléia Geral e no seu decorrer. da expressão individual particularizada em relação à experiência geral.

melhorar seu funcionamento. facilitando a escolha de futuras estratégias. justamente antes de cessar o vazio de poder assumido pela Comissão cujo compromisso fora o de conduzir o trabalho de análise coletiva. elas podem contribuir para esclarecer os processos organizacionais em geral. permitindo revelar conflitos latentes e facilitando a continuação da discussão. o processo organizacional? A análise é antiorganizacional. criar uma situação nova. Uma primeira abordagem da questão é fornecida pelo conceito de pesquisa-ação. permitindo-lhe aumentar sua força. de comum acordo. de outro. de um lado. Nessa perspectiva. isto é. reflexivo e crítico. fazer uma sondagem. quando aplicado a um processo de intervenção. além do sentido que as interpretações e tomadas de consciência podem ter em relação a situações específicas e a problemas concretos. suscitadas por textos formulados de formas diferentes: fazer brutalmente o contraste entre duas opções mutuamente exclusivas e igualmente absolutas – com o efeito provável de impedir toda escolha verdadeira e de criar uma unanimidade factícia sobre um texto suficientemente abstrato para conciliar as contradições (por exemplo. a intervenção não se limita a uma prática de mudança cujo único objetivo seria o de favorecer a evolução de uma situação e sua compreensão por atores nela implicados. de outro. Mas o conceito de pesquisa-ação (se não o tomamos em um sentido estritamente lewiniano) não corresponde a uma simples relação de dois 204 . Para concluir. visto então como desenvolvendo-se em dois planos – empírico e acionador. a intervenção e o processo de análise que ela instaura e. tais questões vão de encontro àquelas que tratamos sob o ângulo das relações entre o analista e o grupo junto ao qual ele intervém. na véspera do dia em que deveria ocorrer a eleição do próximo conselho. mas seria também um meio de produzir um saber específico a respeito das organizações.Psicossociologia – Análise social e intervenção Pôde-se assim. ela constitui uma terapêutica dessa última. opõe ao desenvolvimento da organização? Ou. seu rendimento? Ou situa-se em outro plano. de um lado. o “serviço concreto do Homem”). ao contrário. por exemplo: analisar as diferentes funções possíveis de um voto. Intervenção e organização Essa última observação permite-nos introduzir uma questão final: que relações há entre. assinalarei que minha colaboração na Comissão terminou. a-organizacional? Bem entendido.

em uma modificação das relações de poder. o que é expresso implicitamente em afirmações como: “quanto mais se sabe a respeito disso. Com efeito. conseqüentemente. uma colocada a serviço da outra.Intervenção como processo processos: a pesquisa ou produção de conhecimentos de um lado. leva a menosprezar a maneira como os saberes assim produzidos dependem de sua importância prática. podemos acentuar o fato de que a ação supõe. de normas e de valores próprios às situações nas quais são elaborados e utilizados. assim como em reforço das representações da organização como um conjunto sem conflito. à medida que as experiências evidenciavam que os conhecimentos que surgiam. como o fato de ignorar as contradições no subsistema da pesquisa. que a própria relação leve a uma redefinição profunda de cada um deles – ao mesmo tempo. Ora. isto é. susceptível de evoluir em direção a uma racionalidade crescente e a uma transparência cada vez maior de seus processos internos (particularmente dos processos de tomada de decisão). A análise dos limites e das contradições da pesquisa-ação lewiniana desemboca assim em uma crítica epistemológica do saber e da ação e de suas relações recíprocas. antes. mais a ação é eficaz e pertinente”. o fato de relacionálas é visto essencialmente como o estabelecimento de uma relação de aliança. a perspectiva lewiniana da pesquisa-ação parece-nos limitada pelo fato de não realizar essa revolução epistemológica. necessariamente. que a inserção dos interventores-pesquisadores em uma organização traduzia-se em alianças de poder e. “quanto mais houver saber. essas afirmações estão longe de serem verificadas. traduzindo-se pela postulação de uma ausência de contradição e de uma complementaridade entre a lógica da ação e a lógica da pesquisa. ao contrário. melhor se fica”. Assim. ela também não é. sendo marcada pelas concepções tradicionais do saber e da ação. longe de terem um valor geral ou intransitivo. uma dose de desconhecimento. com precisão. como alguns às vezes pretenderam. Em um trabalho anterior. a outra concepção da ação e a outra concepção de organização do saber. tivemos a oportunidade de demonstrar. uma afirmação da identidade desses dois processos. a ação de outro. senão de cegueira. a concepção segundo a qual as ações-pesquisas estariam a serviço do conjunto de uma organização pareceu cada vez mais ilusória. ela implica. entre o quadro experimental de uma estrutura de intervenção e o conjunto do sistema organizacional no qual essa estrutura se insere. eram sempre escolhidos em função de interesses particulares e contingentes. 205 .

em instâncias não controladas pelo investigador e fora de sua presença. mas também modificar as linhas de clivagem entre o dizível e o indizível. como experiência. cujo significado é apenas parcialmente simbolizável. na condição de que essa seja considerada não como um agrupamento (uma empresa. entre o que pode ou não ser escutado. em uma organização ou em uma sociedade. 206 . uma escola). discursos produzidos paralelamente ao levantamento. Mas esse saber-objeto (ou conteúdo do saber) representa apenas a parte mais visível. por exemplo. efeitos produzidos sobre as pessoas entrevistadas devido à própria situação de palavra etc.Psicossociologia – Análise social e intervenção Ao se pensar a realidade e a ação. é a parte que permite trocas e manipulações. pelas restrições impostas por estruturas sociológicas e psicológicas. em um processo de escrita. do plano da experiência e do trabalho designado pelo termo. Assim. o saber-objeto é necessariamente considerado dentro de uma perspectiva utilitarista e de controle – ilusão que é desmentida pela irracionalidade das condutas. sobre seu passado. Os efeitos “secundários” dessas entrevistas podem ser bem mais importantes (em termos de efeitos de sentido) que os resultados informativos – efeitos de decisões tomadas durante a organização das entrevistas. ocorre muito mais do que a transmissão de conteúdos prévios: o ato de escrever os faz existir e. O saber. tratando dos processos de pesquisa. já assinalamos que eles não se reduzem a uma coleta (objeto-entrevista mais objeto-entrevista) de “material” informativo ou de dados a respeito da situação. entre as zonas de saber assumidas e as que não o são. um sistema de ação. entre sua apropriação ou não por alguns em detrimento de outros. com o mundo. a mais simbolizável. pela existência de conflitos e contradições irredutíveis.19 Por isso. as linhas de clivagem entre o saber e o nãosaber. A pesquisa representa processos de produção de conhecimentos e de sua elucidação que têm como efeito não apenas modificar. ao mesmo tempo. Com efeito. os transforma. entre os lugares de palavra e os de não-palavra. mas como um processo. e tem sentido apenas para o trabalho e no trabalho. os conteúdos do saber se desenvolvem e adquirem sentido na experiência de relação na qual o sujeito está implicado. Por essa tendência e não por uma afirmação de princípio é que se pode apreender o vínculo entre esse processo e o da organização. implica todo um trabalho sobre si. sobre seu presente e sobre suas relações com os outros.

de limitar. clivagens e limites. sem o qual se formariam apenas vínculos episódicos. por exemplo. mas. especialmente do desejo de onipotência. no nível do pensamento. permite aos homens escapar do ciclo da repetição. As regras e proibições que materializam essa negação instauram um funcionamento regido pelo “princípio secundário”. o desejo de tudo controlar. As regras dividem e separam. de realizarem sua meta de dar sentido. de uma racionalidade criadora. enquanto que as representações visam a dar um sentido unitário e homogêneo a essas divisões. Ela repousa na idéia central de que o desenvolvimento de um processo organizacional consiste na instauração de uma perspectiva temporal nas atividades e relações. essa. em uma negação do inconsciente. a necessidade de dividir. fixar horas e lugares de reuniões para que nasça um embrião de organização. produtora da história e não de um estado de coisas mortífero. assim. tem subjacentes uma afirmação e uma negação: aqui e não lá. de outro. de separar. O termo requer então as noções de lugar e de tempo. 207 . para perdurar. Daí o hiato persistente entre. Se a existência de regras e proibições funda uma organização. dito de outra forma. o desejo de tudo compreender e. está subjacente e resulta de intervenções psicossociológicas. de um lado. já foi evocada anteriormente. e sem o qual nenhuma ação consecutiva seria possível. para essas representações – esses discursos de representações –. O processo organizacional funda-se. é precisamente a impossibilidade. ao contrário. a racionalidade que elas introduzem permite o desenvolvimento de uma atividade criadora e sua inserção na história. visam a introduzir. instalando-as nas coordenadas de tempo e espaço. ao mesmo tempo. é a condição de toda vida social.Intervenção como processo Tal concepção de organização. Esse golpe de força. De alguma forma. de toda construção material. espiritual ou mesmo afetiva. Não se trata então de uma racionalidade mecânica. supõe igualmente o desenvolvimento e a circulação de representações. que não exclui nem dúvida nem incerteza. uma organização funda um campo temporal – um antes e um depois – e divide o espaço material geográfico: é suficiente. O que faz com que uma organização seja uma atividade viva e criadora. que. de suprimir as contradições que as atravessam (já observamos como elas reproduzem e contribuem para reforçar as divisões e as clivagens e são pegas em estratégias e alianças). contabilizável ou informática. que pretenderia circundar o sentido.

a intervenção participa do processo organizacional e não da reificação de uma “Organização”. então. I/1980. já é um ato que contribui para deslocar os limites e as linhas de clivagem. dar a palavra ou contribuir para a sua manifestação não é suficiente. que supõe a história acabada e que é o oposto tanto da organização – processo dinâmico que cria a história –. perseguir o projeto enfrentando seus limites e esclarecer as relações entre as significações contraditórias que assim se engendram e se encadeiam aos mitos e às fantasias inconscientes que as ligam a seu passado. ou. Connexions. é importante. ao menos. In: ARDOINO et al. Porém. “Vers une psychosociologie psychanalytique”. ela se choca assim. assim. Dessa forma.Psicossociologia – Análise social e intervenção Paralelamente aos discursos escritos – enunciados de significações fechadas –. L’Analyse social. quando seus efeitos se fazem sentir na vida cotidiana através de acontecimentos imprevistos. até então bloqueada ou proibida. a se desenvolver. da emergência de novos atores ou de decisões que rompem com um certo passado e abrem outras possibilidades. 69-100. de ignorar as implicações dessa inversão. 2 208 . a despeito dos obstáculos e temores que ela provoca. p. dar de novo às representações sua posição de discurso e fazer com que sujeitos que falam as assumam. as que dizem respeito ao dizível e ao indizível. Paris: Payot. que a organização exprime e realiza apenas uma das dimensões do sujeito. quanto da análise que a torna possível. por Marília Novais da Mata Machado. acompanhá-la e ajudá-la a se desenvolver. ela implica uma reviravolta de perspectiva: se ela é possível apenas como uma resposta ao que é vivido como crise de sentido. 29. Respondendo a uma demanda de palavra. com o desejo de reencontrar o sentido perdido e. Jean e LÉVY. os sujeitos podem então assumir o desejo e a impossibilidade de dar sentido. uma palavra continua. Colocar de novo em circulação as significações imobilizadas. a intervenção psicossociológica contribui então para fazer reconhecer que nem tudo é organizável. André. Notas 1 Traduzido de: DUBOST. na qual os lugares ocupados por cada um teriam como referência uma lei imanente e onde todos os desejos seriam considerados e explicados:20 “Organização” totalitária. ao mesmo tempo em que rompe com a fascinação que ele exerce. fazendo isso. 1980. L’intervention institutionnelle. em seu primeiro esforço. mantendo vivo o passado. sobretudo.

de E. em Topique. esse é o sentido corrente do termo “relativo”. FREUD. Connexions. inédita. pp. L’amour du censeur. quando o projeto sacerdotal era apresentado como englobando o espiritual e não o inverso. LAPASSADE. ilustrado pelo exemplo: ele é de uma honestidade bastante relativa. Traduzido de: DUBOST. In: ARDOINO et al. Paris: Payot.. um individual e outro grupal. Descrita e analisada mais detalhadamente em A. introduzido por R... 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 209 . Cf. de P. 29. “Dire la loi. Em termos mais sofisticados. Les Mots. Jean e LÉVY. Segundo o Petit Robert. André. “L’acteur et le système”.”. Connexions. Cf. “Dire la loi. 21. também “Le pouvoir et la mort”. les Sorts de J. 21. “Sens et crise du sens dans les organisations”. I/1980. Connexions. KAES. LÉVY. “L’interprétation de discours”. LEGENDRE. Gallimard. Esse conceito. especialmente o capítulo sobre intervenção de M. L’intervention institutionnelle. isso implicava a exclusão de um certo número de atividades que eram objeto de contestações. Cf.. “Une intervention psychosociologique sur les structures et les communications sociales”. a análise desses dois termos permitiu evidenciar que. Paris: Seuil. ENRIQUEZ. Nesse exemplo. trabalhando com a própria contratransferência. 1980. la Mort. postula dois aparelhos psíquicos distintos. Seuil. “L’Analyse social”. Thèse d’Etat. Mal-estar na civilização. “Le changement comme travail”. Particularmente em “Analyse et critique du groupe d’évolution” e “ L’analyse dans les groupes de formation”. cit. Sociologie du Travail. S. Connexions. cf. Por exemplo: Max PAGES. Connexions. op. 7.”. Como toda análise de conteúdo. Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica. 1978. CROZIER. “Sens et crise du sens dans les organisations”. Connexions. 196l. 49-68.3 4 5 Inspirado em G. FAVRET-SAADA.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 210 .

por que ser tolerante? Como dizia CLAUDEL: a tolerância.O que ocorre de essencial no ato formador. como a maior parte das indagações a respeito da formação. 2. sobre um possível papel que têm na reprodução das relações sociais? É que esse ativismo formador e seu possível denegrimento ocultam dois problemas fundamentais: l. multiplicaram-se consideravelmente nos últimos anos. as práticas de formação. assim como os discursos gerais sobre seus fundamentos. de toda atividade de formação. reinvestimento de energias de outra forma e em outro lugar. mas também a formação como processo de preclusão da mudança social e da transformação das relações sociais.DAFORMAÇÃOEDAINTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAS1 Eugène Enriquez As práticas de formação permanente. há casas para ela). sem dúvida. o procedimento de exclusão do real e. de forma concisa e injusta (mas. possibilidade e multiplicidade das comunicações. Por isso. toda educação carregando a marca do impossível e deixando o gosto amargo do inacabado. Esse número de revista testemunha bem o fato. isto é. Dizendo o mesmo com outras palavras. mais precisamente.E também o que é o próprio sentido desse movimento. o que nos interpela e fascina no seu próprio movimento: a quase certeza de seu fracasso inelutável. que o discurso dos psicólogos centrado no encontro interindividual e que os discursos dos 211 . uma dúvida me invade. Por que realizar tantas atividades de formação? Por que indagar a respeito da incidência de uma escola ou de métodos de formação. ou. ainda. de intervenção sobre as estruturas e os sistemas. nesse breve artigo. tendem a ocultar não apenas a experiência do vivido da formação. e mais violentamente. Entretanto. as interrogações a respeito de seu valor e de suas significações explícitas ou latentes. tentaremos mostrar que o discurso e as práticas dos formadores que acreditam nos efeitos benéficos de toda formação. e. a repetição do discurso infinito e sempre a ser retomado.

mas também têm. o progresso dos conhecimentos. alguns métodos de formação são preferíveis a outros. para um sistema onde.a dos formadores e educadores. quais são as vias que favorecem a experiência vivida e a recolocação em ato das relações sociais. resistências. onde toda a sociedade é dirigida por uma vontade educativa) para uma sociedade educativa. então. A perspectiva formadora Ela se baseia em uma análise exata do mundo atual: as transformações tecnológicas. O problema é unicamente operatório.a dos psicólogos. mesmo se a noção de operação implica que se seja obrigado a ter em conta motivações. de reciclagem e. Será preciso empreender uma experimentação de diferentes métodos e técnicas. assim como aperfeiçoar os sistemas de avaliação dos resultados. as mudanças nas disciplinas e a necessidade de interdisciplinaridade tornam rapidamente obsoleto o saber que cada um dispõe. a todo momento.Psicossociologia – Análise social e intervenção sociólogos perdidos na crítica das ideologias e das conseqüências da formação são não apenas perfeitamente aborrecidos e freqüentemente inúteis. Assim. de uma nova oportunidade oferecida aos que não puderam tirar proveito da escolarização à qual tiveram acesso. todo crescimento no domínio das informações. o mesmo objetivo: impedir os atores sociais reais de se soltarem das malhas nas quais eles se encontram e ser capazes de tentar assumir seu devir. advindo a necessidade. situando a prática que buscamos promover. Certamente. ainda mais. Trata-se. então. cada um à sua maneira. a formação permanente torna-se indispensável. um efeito positivo para o formado. 2. Orienta-se (e não apenas na China. 212 .a dos sociólogos críticos. sua vontade e sua imaginação. cada um deverá atualizar seu saber e questioná-lo. de tempo. Análise dos discursos atuais sobre a formação Três perspectivas serão consideradas: l. temores do formado e condicionamentos sociais. Toda formação. 3. a fim de se chegar a uma formação verdadeiramente pertinente para os objetivos propostos. de um lado. para desejá-las e provocá-las. de outro. a fim de poder seguir as mudanças e. toda aprendizagem de técnicas teria. Gostaríamos também (pois só o discurso crítico assinala sua pertinência ao discurso criticado) de indicar. de investimento pensado. que estaria mais à vontade para viver e compreender o mundo técnico e social no qual está. de paciência.

que se torna assim excluído). como uma coisa a ser tomada e a ser controlada. sobre qualquer outro pensamento (o da criança. inesgotável. as brechas repentinas. ele chegaria necessariamente ao ininterpretável. através da ordem. que o homem está sempre por nascer. que é próprio do desejo ser deslocado infinitamente. O real não está lá. é o que excede toda análise. Falar do real é simplesmente submeter-se às estruturas tais como elas são reveladas no discurso dos donos do poder. da mesma forma. mesmo se toda análise visa a circunscrevê-lo e defini-lo. sabemos agora que há um “umbigo do real” que nunca se deixará decifrar e que a única esperança de abalá-lo um pouco é fazê-lo falar por meio de golpes de força. Todos os teóricos da Sociologia e da História sabem bem. Quantos pressupostos! Tentemos demonstrá-los: o real é definido estritamente pelas estruturas atuais. ela tem por finalidade fazer calar o desejo inconsciente. além de toda interpretação. hoje. estritamente falando. do cálculo. o do louco. armá-lo solidamente para que ele seja capaz de se comportar de maneira adulta. cartesiano. que falar de comportamento adulto é nomear simplesmente o comportamento perverso do técnico e do tecnocrata que crêem na virtude de seu logos e de seus instrumentos. sem paixão. os “documentos” que buscam seus caminhos e seus objetos e reforçar a ilusão do eu sólido (“sou senhor de mim mesmo como do universo”). sempre a serem melhoradas. da medida. o real é o que escapa a toda definição. ela tende a fazer crer que é preciso reforçar o eu consciente voluntário dos indivíduos. os blocos erráticos.2 que o sentido descoberto reenvia sempre a um outro sentido possível ou a um não-sentido. Talvez comecemos a nos dar conta (e LAPASSADE já o demonstrou muito bem em seu livro L’entrée dans la vie) que não há comportamento adulto. Ora. que as causas determinantes não existem. Freud sabia que podia interpretar os sonhos de seus pacientes mas que. que a libido é turbulenta.3 referindo-se ao racional e ao controle. Quanto à vontade de reforçar o eu consciente voluntário. o do primitivo e. portanto. na transformação e ele é. que as reconstituições são parciais. ao umbigo dos sonhos. o do outro. O comportamento adulto é o comportamento refletido. quando não se trata simplesmente de aceitar a superioridade do pensamento ocidental. vendo exatamente o que ele pode fazer no mundo tal como ele é. ele se revela na ação. além de anularem toda diferença e toda dispersão. que os acontecimentos que fizeram os povos passar de uma epistéme (FOUCAULT) a outra não são apreensíveis. sem sonho nem loucura”. mestre das leis e da morte. obtido apenas 213 .Da formação e da intervenção psicossociológicas Essa visão nos parece radicalmente falsa e acentua a ideologia tecnocrática de direita ou de esquerda (do poder).

Esse voto de MALLARMÉ não tem espaço algum nessa concepção. a alegria da certeza e. Como viver o desejo do pleno. emblemáticas e carregadas com a submissão de cada um a seu status e a seu papel social. embora não se possa crer na impossibilidade teórica de casar essa água com esse fogo. Aliás. a energia que se desprende. como uma água calma.4 isto é. se for atravessado pela ideologia do senhor. desenvolvendo-se progressivamente. falando dos signos da 214 . ao mesmo tempo. do questionamento do saber obtido. Como é o funcionamento desses dois princípios? l. seguindo etapas pedagógicas rigorosamente definidas e afogando – lenta. Temos de um lado o conhecimento. Ela parece derivar dessa máxima terrível (deformação do pensamento de FREUD): “O eu deve desalojar o id”.O primeiro é o princípio fundamental de toda Pedagogia e não tem nenhuma originalidade. a humanidade estará. a cada dia. Ela visa a reforçar o que denominamos imaginário enganoso (em relação ao imaginário criador). as ações formadoras são sustentadas sub-repticiamente por dois princípios que não têm o mesmo peso nem o mesmo sentido: l. Ora. a ruptura e a falta? Nossa experiência de vinte anos como formador e de dez anos como professor universitário nos fornece. o seu contrário. então. mas seguramente – tudo o que não entra nas normas e na edificação de uma boa cabeça pensante. 2. não se trata aqui de uma simples metáfora. o confronto com a finitude.A ação de formação visa principalmente à adaptação a um real cotidiano e não tem. como diziam os alquimistas. as imagens engendradas pela complementaridade dos papéis sociais. imagens protetoras. a opacidade. cuja única saída é o aniquilamento mútuo. as provas de sua impossibilidade. De outro lado. do que dá poder sobre o trabalho e outras coisas. de hábito.Psicossociologia – Análise social e intervenção com a supressão de todo excesso e de toda novidade.5 Certamente. a angústia de se perder no turbilhão de questões. as variações de temperatura. Quando houver apenas Eus fortes. Sempre foi dito que era preciso que as cabeças fossem bem feitas e não apenas preenchidas e que era preciso aprender a dúvida metódica enquanto procedesse à acumulação de conhecimentos. E nunca esse programa foi mantido. temos a bola de fogo. “Que se exploda de carne humana e perfumada”. por isso.Toda ação de reforço do eu controlador é acompanhada por uma aprendizagem da dúvida. pois ele não pode sê-lo. do que tranqüiliza. plenamente livre para encarar as onipotências narcíseas e para o conflito generalizado. as conseqüências que acabam de ser enunciadas.

” Pensamento mítico e pensamento científico mostram. a dúvida sendo dissipada como uma eflorescência vaga.6 Ora. Conclusão: o que permanece são as certezas.Da formação e da intervenção psicossociológicas água e do fogo: a água apaga o fogo. Igualmente. o lugar que aí vêm ocupar a nostalgia de uma certeza perdida e a de um primeiro modelo de atividade psíquica no qual saber e certeza coincidem. os psiquiatras aliados do poder. mas somente o saber útil e rentável para quem o distribui. Essa falsa formação assinala o desprezo que os dirigentes têm por seus subordinados. mas uma relação angustiada com o saber.Quanto ao segundo princípio. Se os migrantes aprendem a língua do país é para que se integrem melhor aos hábitos e costumes do país que os acolhe e para que se comportem melhor como trabalhadores. querer a certeza implica na recusa em reconhecer que todo saber de um movimento contínuo. Como escreveu Piera CASTORIADIS: “saber exige renúncia à certeza do sabido. Então. Os tecnocratas.. se os operários especializados podem aprender certos ofícios é por que nos faltam profissionais. os sociólogos conselheiros do príncipe não nos desmentirão. Se os dirigentes são formados em técnicas de gestão é para que a empresa seja mais competitiva. permanece ainda o fato de que esse último só pode conquistar seu lugar deixando-se atribuir um objetivo semelhante ao de seu predecessor: prometer ao sujeito que renuncia à certeza do mito e do discurso sagrado um saber que se oferece como uma possível via de acesso a uma certeza futura e sempre diversa”. se a formação tem como perspectiva fornecer aos formandos o meio de ficarem mais seguros de si mesmos em seus postos de trabalho.. sem que eles possam se perguntar por que eles e não outros ocupam esse posto ou por que esse posto existe e em que estrutura ele 215 . pode haver dúvida apenas se ela estiver no ensino como o verme no fruto e apenas se não houver certeza. 2. ele exprime o fato de que não está em questão distribuir o conjunto do saber a todo mundo. a despeito de suas diferenças. Isso é testemunhado a cada dia nos discursos dos mestres do saber que preenchem com suas palavras o vazio de suas vidas ou mesmo utilizam instrumentos que forjaram para dominar os outros. Se o efeito dessa nostalgia parece decrescer quando se passa de um discurso mítico para o discurso científico. É como lhes dar migalhas de saber que lhes permitirão ser ainda mais submissos ao trabalho e ao respectivo papel na divisão do trabalho. toda formação com objetivo científico acrescenta a dúvida às certezas.

grupos de encontro. rejeitar totalmente essa perspectiva como perfeitamente alienante (como “privação de consciência”. o homem. alienada na sociedade contemporânea. em um congresso de chefes de empresa. não porque ela apresente menos interesse ou porque nos mostremos mais tímidos ao criticá-la. gestalt-terapia. impacto social menor (estamos. assim como as experiências de bio-energética. passaram a ter um sucesso que parece inquietante para quem “não faz grupo” na hora atual. O que existe são indivíduos de uma dada sociedade. a mulher. mas de peso. é ela que mais freqüentemente dirige os métodos educativos escolares e universitários e a maior parte das técnicas dos formadores da indústria. A perspectiva fundamenta-se na idéia de que a pessoa. no momento. Acrescentemos que. inseridos em instituições e tendo um certo lugar no processo de produção e de reprodução. além do mais. como o escreveu TOURAINE7) e como reforçadora do processo de esquizofrenia social. com seu corpo e com seus desejos. liberação corporal e sexual. estar em situação de tomar consciência de seus comportamentos e do efeito que eles têm sobre o outro. que relações de poder ele pressupõe. é que a pessoa. não existe. algumas vezes.Psicossociologia – Análise social e intervenção ocorre. esses mesmos estágios. ter um outro modo de relação com os outros. não chega a ser considerado nem como um cachorro? Que quer dizer reconhecer seu corpo com seus poderes aterrorizadores em estágios onde o corpo é entregue aos outros como elemento de manipulação? Como viver a dolorosa confrontação com esse corpo. Horizonte grande e enaltecedor. então. aliás. tendo recebido um certo tipo de educação. há alguns anos. mas porque apresenta. o cachorro ou com o estrangeiro que. Um importante dirigente internacional não dizia. enquanto há vinte anos os estágios de dinâmica de grupo encontravam obstáculos (os participantes tendo medo de se questionarem). ao qual muitos poderiam se subscrever. no momento em que ela começa a ter o direito de ser citada). vivendo em uma cultura ou em uma subcultura precisa. é preciso. A perspectiva psicológica (inter-relacional) Seremos mais breves a respeito dessa perspectiva. O que quer dizer aprender a comunicar? Trata-se de comunicar-se com o patrão. no qual se inscreve toda 216 . que era necessário que esses chefes seguissem grupos conduzidos por psiquiatras para serem capazes de tolerar a ansiedade inerente à direção das grandes empresas modernas? O único inconveniente. deve ensaiar novas comunicações com os outros e consigo mesma. É talvez por essa razão que.

eles não se explicam. subsiste um problema intransponível: o da linguagem (palavra ou gesto) em um lugar fechado. Comunicamo-nos sempre através de um conteúdo. Não se aprende o amor. renasço.Da formação e da intervenção psicossociológicas uma história. de uma luz na qual me banho. ocorre-me dizer a uma mulher: ‘eu te amo’. a seu cheiro. tudo seria mentiras e ilusões nesse tipo de estágio? Respondemos tranqüilamente que sim. que dá a cada parte de seu corpo. O que se troca não é o projeto comum ou projetos diferentes. Sua beleza desencadeia esse prodígio. sujeito e objeto de desejos contraditórios do outro. a quem falo. mas não explicá-lo e ainda menos provocá-lo. feito de uma explosão que me fascina. num momento de estado de graça. contentando-se a brincar com ele como se se tratasse de um instrumento controlável? Isso chega ao máximo nas inépcias dos sexólogos atuais e de seus miseráveis manuais que tendem a sistematizar um saber sobre a sexualidade. pois são apenas seguidores) para acreditar nisso. que sofre e que ama. que desejos elas retomam ou reprimem?. por que falo dessa maneira. Então. como tais. como se a relação passional entre dois seres pudesse ser colocada em fórmulas. justamente. complementares ou antagônicos. que podem ser atuados. testados no mundo. compreender-se melhor e se ele visa à plenitude. LECLAIRE: Quando. mesmo nesse último caso. pois ele é o choque de duas verdades que lutam contra a (e a partir da) morte. por quem e por que sou falado. à sua pele e às suas palavras um atrativo que nada pode desmentir. Temse que ser tão débil quanto os sexólogos americanos e seus discípulos franceses (esses sendo ainda mais estúpidos que os primeiros. à sua voz. não temos nada a dizer. alguma coisa explode em mim. Em contrapartida. sujeitas a serem apropriadas pelo discurso ideológico e pelo discurso passional imaginário. Ele é apenas uma das fabulações que o mundo moderno encontrou para mascarar sua frieza e a generalização da separação que ele instituiu. durante um tempo determinado. dos quais podemos experimentar a boa base e 217 . permite colocar a questão: de que lugar eu falo. Como escreve S. Entretanto.8 Pode-se apenas descrever tal estado. então. pode-se considerá-lo uma propedêutica a uma análise social onde cada um é ao mesmo tempo ator e analista. Trata-se unicamente de relações faladas e. em técnicas e em posturas. que instituições me sustentam. Mas. que barra o acesso aos outros e que é demanda de amor. de um dispositivo e enquanto não questionamos esse conteúdo e esse dispositivo. Certamente o amor-paixão e a ternura estão além das palavras. se ele tem como finalidade aprender a se comunicar melhor.

Eles podem fazê-lo: nada os obriga somar o ato à palavra. definido como um lugar no qual se deve comunicar. entrará em jogo um sentimento “autêntico”. favorecendo os processos regressivos. para que entrem em uma relação de transferência. um ato-falho. As pessoas são entregues diretamente umas às outras e. vai querer se fazer amar por todos. tomar o lugar do líder. surgirá um acontecimento que é um advento de alguma coisa. definirá a maneira como trabalhar (fora de lá) para a mudança social. Os mais belos discursos e os mais paranóicos (ou. as manifestações sem seqüências. estará pronto a largar mulher e filhos. não porá nada em movimento. questionará as instituições. de todo esse bricabraque rápido e mal-controlado. essas paixões desaparecerão ou serão sublimados. fazer triunfarem suas fantasias. do aumento do grau de irrealidade da situação. Como fazer com que essa experiência possa ser verdadeiramente 218 . seu rigor. terão sido apenas o delírio breve de pessoas que não poderão nem quererão se reencontrar depois. pois as palavras trocadas. Eles. ser trocados: alguém vai querer transformar o mundo. da necessidade de que essa experiência se passasse num prazo relativamente breve (entre uma e duas semanas). arriscam tudo e nada arriscam. os choros e os gritos de alegria. onde a graça valia o peso: da impossibilidade de sair do local do seminário (mesmo quando o que se passava fora tornava-se objeto de análise). pelo menos. de tempos em tempos. o fazer ao dizer. os mais narcíseos) podem. Ei-lo. tomar o grupo em seus desejos. ou. embora plenas. chorará (o próprio ROGERS. super-ativo. surgirá uma palavra verdadeira que será dita verdadeiramente a alguém. as fantasias invasoras. o tempo ao momento. onde tudo era diferente. para fazê-las sair de suas tocas. não se definia como o psicólogo do olho úmido?). a não ser que queiram ou possam. mostrando assim sua potência. então. as proibições. declarará sua paixão por uma estagiária. as transferências maciças. a fim de viverem sentimentos intensos. no medo e tremor. um sintoma que engendrará o desconhecido que os participantes arrebatarão para trabalhá-lo profundamente. O lento trabalho do negativo. e ele é um bom juiz. esse irromper não ocorrerá. assim. Mas. seu “saber-fazer”. única fonte de mudança. ao mesmo tempo. esses discursos. essa explosão. não pode ser feito. analisando com toda a sua força. Outro deixará se levar por suas emoções. certificando-se de que nada lhe escapa. E talvez. não se entregam. Uma vez de volta às suas instituições. Ficará apenas a lembrança de um momento único. São palavras (ou gestos) em um lugar específico. irromperá um lapso. os tabus. Mas o psicólogo está lá para as acossar. no caso de práticas aberrantes (tendo por objetivo quebrar as resistências). na maior parte do tempo. como os weekends e as maratonas.Psicossociologia – Análise social e intervenção a carga afetiva.

-B. o sentido social do desenvolvimento da Psicanálise e alguns de seus aspectos repressivos (CASTEL. Afinal. é essa troca de palavra. Sem dúvida. toda educação serve apenas para veicular a ideologia dominante.Da formação e da intervenção psicossociológicas uma abertura para novos comportamentos e a irrupção do imaginário motor? Essa questão será retomada mais tarde. é a tomada de consciência de sua determinação e de sua vontade de fazer. é a capacidade inventiva dos participantes. a experiência que nela se faz) é apenas uma máquina para reproduzir as desigualdades sociais. o papel do analista como a última e a mais forte personagem médica. evidenciando o conjunto de significações das condutas sociais. O único senão é que. eles têm razão (mesmos se considerarmos os excessos de seus discursos). assim. falemos sério: se a educação fosse apenas transmissão da ideologia dominante. “A Psicanálise é o que se passa em Psicanálise”. Quanto a seu conteúdo. em sua aridez. é esse turbilhão do amor e da morte. é o encontro indefinidamente repetido do desejo e da lei. que se apoia em uma massa de trabalhos notáveis e que permitiu colocar em perspectiva e questionar duramente o conjunto de métodos educativos. Não é nossa intenção buscar desmentir essa conclusão. é o veículo privilegiado da dominação social. ou atento e vivido como o dos psicólogos. Toda formação (qualquer que seja seu programa. parece-nos aliás exata e corresponde a nossa própria experiência. O discurso dos sociólogos críticos Aqui temos que lidar com um outro tipo de discurso. Igualmente. na formação. é a sua descoberta de si próprios e do mundo que os rodeia. A mensagem dada. PONTALIS. Mas. como os sociólogos – criados pelo sistema educativo – seriam capazes 219 . então? Vemos que o que é dito é. Além disso. Por que periférico? Uma comparação permite situar nosso pensamento. ele é chocante e desesperante. como muito bem o diz J. aquele que dita a norma (M. em muitos aspectos. divulgá-la nas massas dominadas e. Esse discurso se pretende totalizador e sistemático. simultaneamente. que não se pretende voluntarista e criativo como a dos formadores. DELEUZE e GUATTARI). exato e periférico (não tocando no essencial). seus métodos. da falta e do gozo que se passam no espaço onde dois seres se encontram. FOUCAULT). o que é essencial é o que se passa no campo formador. Muitos autores (inclusive nós) mostraram a influência da instituição analítica na prática da Psicanálise. mas científico. para expressá-las ou mesmo provocá-las.

não teria mais necessidade de existir e de ter seus arautos e seus porta-vozes. não de uma formação (a rigor.9 as palavras inovadoras e as ações sociais. É o de permitir que pessoas situadas sexualmente. Para que não reste nenhuma ambigüidade relativa à nossa intenção. O objetivo não é o de formar indivíduos para serem ou fazerem alguma coisa. Os impactos reais e os limites da formação psicossociológica Agora é o momento de deixar de lado nossa perspectiva crítica.Psicossociologia – Análise social e intervenção de criticar essa ideologia dominante? Se eles haviam interiorizado plenamente essa ideologia. ela não chega a ser totalmente dominante. a transformação das relações sociais. de um processo. É preciso abandonar definitivamente o termo formação Trata-se de uma experiência. em filigrana. cruzar os braços ou desejar mudar o conjunto do sistema. Encontramos aqui o que sustenta o discurso dos sociólogos e o que lhe falta: o que o sustenta é a crença em um mundo unificado. homogêneo. explicável por um único tipo de lei. 220 . mesmo se. isto é. É por isso que o discurso dos sociólogos provoca ao mesmo tempo esse duplo sentimento de exatidão e de aborrecimento mortal. crença da qual decorre a tendência que eles têm a simplificar seus enunciados. de um trabalho de mudança. o que não se pode esperar dela. se ela o fosse. a partir de que poderiam questioná-la? Além do mais. depois de tê-los escutado. Seus enunciados são tão gerais. tão sistemáticos. que só nos resta. que elas possam pensar de forma diferente a respeito de Questões novas. profissionalmente e socialmente se mexam. os movimentos sociais emergentes. exporemos uma série de proposições que nos permitirão mostrar o que a formação não pode fazer e. isto é. o que ela esconde em seu próprio movimento. a vida. se a ideologia dominante tem necessidade de se exprimir é que. em uma palavra. tenha sido possível ler. ao mesmo tempo. o que tem como conseqüência deixar-nos estupefatos diante do tamanho da tarefa. quais eram os princípios que guiavam nossa ação. pode-se falar de de-formação e de trans-formação). o que lhes falta é considerar o que se passa no concreto cotidiano. nas Questões propostas. com outros tipos de relação com o outro e tendo um acesso menos temeroso a seus desejos e interditos. de constatação aguda e de desmobilização geral. justamente.

suas interrogações e também suas paixões. seus entusiasmos. mas. a criação de negentropia (isto é. por isso mesmo. Mesmo quando faz uma exposição (e por que. organizacionais. As instituições fazem parte do campo de análise Os participantes que estão presentes existem. ele deveria se calar?). assim. suas descobertas e suas resistências. Ele está lá sem desejo e sem compreensão particular. dessa desordem-ordem. para provocar as pessoas a dizerem ou a falarem. provocando a vontade de respirar. fazem surgir formas da sombra. ele não quer que as pessoas se tornem isso ou aquilo ou cheguem a um objetivo específico predeterminado.Da formação e da intervenção psicossociológicas O dispositivo (integrando o papel do psicossociólogo) deve ser coerente com esse projeto Quer se trate de favorecer o movimento. uma movimentação de energias. um jogo de luz sobre certos pontos que. o que ele exprime não é resposta às Questões que o grupo se coloca. Quando ele intervém. um encadeamento de Questões. Ausente. indicando. que ele não pode portanto ser situado num lugar determinado. o lugar do psicossociólogo deve ser um lugar vazio. ele oferece não um saber. Ele está lá vivendo. Por meio dessa ausência-presença. ele acompanha o movimento das pessoas no grupo. ele não é o portador do sucesso da experiência. ele próprio preso à desordem e à procura de uma ordem. ele não está lá para apontar as inibições e os bloqueios. que ele está sempre deslocado (como o próprio desejo). através dessa ausência. aliás. ele é a testemunha de que o dito será escutado e não será esquecido. Ele está lá simplesmente como uma referência. mas sua relação com o saber. que também ele é possuído pela palavra e pelo desejo. um terceiro garantindo o vínculo social e questionando a relação dual. suas falhas. desse lugar desocupado e fugidio. as correntes de informação. mas uma problemática. em suas diferentes dimensões: culturais. ele está sempre deslocado em relação ao que se está a ponto de viver. de uma nova ordem vivendo a partir da desordem). São homens e mulheres que têm papéis sociais (membro de um quadro de pessoal. Ele não está lá como alguém que possui o saber (e que o distribuirá). resvalando. e que ele não é alfinetável nem tentará alfinetar ninguém ou atribuir lugar a um outro. na situação. 221 . ele o faz de forma diferente e de outro lugar que não o esperado. o retorno do recalcado social ou uma experiência de mudança. instituído como o portador da lei sobre a qual os desejos se escoram. políticas. suas idas e vindas.

tendo um passado. os participantes hesitavam em falar a respeito de si próprios. mas naquilo que as relações vividas nessa situação exprimem. as diferenças são apagadas. entre cem. que sua palavra e suas decisões “valiam ouro”. teria podido fazer como interpretação em termos de liderança espontânea. quando se pôs a evocar seus problemas afetivos. com relação a esse personagem. 222 . de suas relações afetivas. praticamente nunca era contradito e. refletem ou transformam nas relações vividas em outro lugar. uma atitude de deferência e de sedução. Os participantes desejam falar de si próprios e de seus problemas. para não falar de sua situação econômica. de seus corpos e. usando os nomes próprios sem os títulos e posição social.Psicossociologia – Análise social e intervenção enfermeiras. permitirá precisar esse ponto: em um estágio com os responsáveis hierárquicos de uma empresa. a relação com o saber é suspensa no vazio. de relação de identificação ou de submissão homossexual! Essa perspectiva parece-nos mais importante ainda porque. Como interpretar tal situação. caso não se saiba que o homem respeitado era um dos grandes dirigentes industriais do país. projetos sociais. Um outro participante manifestava. a resistência se deslocou. na medida mesmo em que esse outro lugar está presente no grupo (é bem por causa desse outro lugar que eles vieram viver essa experiência). No caso contrário. não há muito tempo. com as instituições que lhes falam e que eles fazem falar. hoje. pedindo que as pessoas do grupo se dirijam umas às outras informalmente. por isso é essencial que se trabalhe suas relações concretas com as respectivas vidas e com os outros. de seu lugar no processo de produção e na estrutura de dominação social. além de estar sempre pronto a antecipar seus desejos e a satisfazer suas mínimas vontades. vivem em organizações específicas.). caso não se saiba que esse homem sedutor acabava de perder o seu emprego em um escalão superior e esperava fazer boa figura para conseguir um emprego ou para estabelecer uma relação com uma pessoa poderosa que lhe permitisse reencontrar trabalho. o resto do grupo o seguiu em bloco. um dos membros do grupo era particularmente escutado. tal funcionamento é profundamente mistificador. Ora. as escutas recíprocas são apenas fruto das simpatias e das antipatias espontâneas. o mais rápida e seguramente possível? Pode-se já imaginar o que um especialista de relações humanas. não nas relações aqui e agora entre indivíduos sem passado e sem futuro. Um exemplo. os conflitos não têm mais espessura social. Por isso o trabalho do grupo será centrado. formadores etc. tomando certos caminhos e não outros. Não são pessoas ou seres desencarnados.

a 223 . O lugar fechado. imaginam soluções. lugar de análise. de breve duração. de 15 a 40 dias (distribuídos em seis meses. os participantes falam do que fizeram. outras palavras sociais. mais exatamente. fecundarão novas atitudes. Para que os participantes possam estar verdadeiramente lá é indispensável que os estágios sejam distribuídos no tempo e que um trabalho de maturação possa ocorrer nos intervalos (que são os momentos da vida cotidiana) nos quais os participantes se reencontrem consigo mesmos e com as estruturas nas quais vivem. imaginário instituinte. de seus sucessos. não há mais dicotomia entre ato e palavra.Da formação e da intervenção psicossociológicas Tal trabalho deve reintroduzir a dimensão temporal Quanto mais o estágio for curto. da mesma forma que as condutas vividas no lugar habitual “trabalharão” as condutas surgidas no estágio e poderão provocar novas rupturas no indivíduo. Não estão lá como pura presença. o mundo exterior (o do cotidiano) está presente no estágio. ação real e ideologia. As palavras trocadas nesse lugar definido engendrarão outras palavras. o desenvolvimento de fantasias de onipotência e a manutenção de máscaras sociais. sentiram em seu ambiente de trabalho ou em seu meio social. intensivo. novas faltas sobre as quais se articularão outras demandas. Esse trabalho de mudança não passa mais por um lugar fechado privilegiado nem pela simples palavra Esse princípio resulta necessariamente do anterior. O estágio “bloqueado” por um período curto favorece fenômenos irreais. a imersão na vida aqui e agora. retomadas. Os membros do grupo trabalham sobre esse material. nos quais cada sessão é continuamente reinvestida pelo que as pessoas viveram. realizaram. um ou dois anos). em que as palavras se transformam em ações e em que as ações são analisadas. o foco em relações afetivas imediatas. experimentaram. aprofundadas. A partir do momento em que o desejo circula. fazem propostas. experimentam comportamentos que tentarão prolongar. conduta e gesto. o imaginário que aí está torna-se imaginário motor. de suas tentativas. é aberto sobre o mundo exterior ou. os desejos emergentes e reconhecidos poderão fazer surgir novos desejos. Em cada sessão. confrontadas. O processo de mudança é descentralizado Enquanto toda formação visa ao reforço do eu consciente e toda perspectiva estritamente psicológica tem como finalidade a plenitude afetiva. outros atos sociais. mas como portadores de suas angústias. menos tal processo pode ocorrer. É por isso que somos partidários de estágios longos. construíram ou destruíram em seu meio real.

irrupções vulcânicas. ter efeitos. Momentos de mutismo e de temor. impossibilidades totais. que o amor inexiste sem a experiência da morte. o que é excluído tenta (freqüentemente com muitas dificuldades e resistências) se manifestar. mesmo se ela pode se tornar criativa. nesse processo que. Não nos enganemos entretanto. momentos de embotamento. um temor do esfacelamento e da dissolução definitiva e que solicitarão. Enumeremos rapidamente algumas dentre elas. somos ainda obrigados a chamar de formação psicossociológica. Resistência igualmente das instituições e organizações que delegaram participantes às sessões e que querem vê-los retornar mais bem adaptados. expressão gráfica etc. ao contrário. naturalmente. então. em questão visar à dissolução pela dissolução. a compreensão autêntica ou o reencontro de um “Eu e Você”.. ver surgir em seu seio outras linguagens ou mesmo um além da linguagem. direito de atuarem. do gozo). que a lei e o desejo reciprocamente se fundamentam. a colocação em movimento de forças de desconstrução e de reconstrução. Aqui. Não está. por enquanto. possa. sair com certezas e instrumentos de ação comprovados. períodos de análise refletida. Essa experiência da heterogeneidade. com o outro. com o saber) são descentradas. E é a própria ausência de previsão que faz com que o grupo tenha uma história. mais dinâmicos. a periodicidade desses momentos. uma angústia diante do desconhecido. de necessidade de alimento. a precluir certos registros (da paixão. Daí os momentos tão diferentes na vida da sessão. ter caminhos balizados.. o aparecimento da desordem no organismo estabilizado. Eles dirão também que não querem a vacilação da neurose. ser protegidos. Toda formação e toda educação visam a recalcar certas pulsões. falar. viva paixões. o processo de mudança que tentamos descrever visa à dissolução da personalidade organizada. que poderão manifestar um “medo da liberdade”. É em direção a essa experiência originária que tentamos avançar. a loucura e o sonho possam ter. do fogo e mesmo do caos. reencontra muitos obstáculos ou. talvez. mas cada um tendo uma relação específica com os outros e consigo mesmo. a fim de que a energia livre. do excesso. O que está em jogo é que sabemos que a ordem se constitui a partir da desordem. de uma situação na qual todas as relações (consigo mesmo. depois de terem liquidado 224 . Resistência vinda de indivíduos em formação. discursos ideológicos desenfreados.Psicossociologia – Análise social e intervenção comunhão. se interrogue sobre si mesmo. evidentes para todos os que têm alguma experiência nesse domínio. mas que a perversão (a manipulação das técnicas) lhes assenta melhor. sua cronologia e sua importância não podendo absolutamente serem previstas. do saber alegre.. de novo. todos juntos. algumas vezes. Trata-se.

não tendo a intenção de transformar a instituição na qual vivem. Intervenção psicossociológica. tentar descrever os diversos aspectos da intervenção. as numerosas escolas. E eis que o psicossociólogo que queria se lançar ousadamente em uma nova experiência. a dificuldade intransponível. o que ela não poderá jamais realizar.Da formação e da intervenção psicossociológicas seus problemas e. vivido e experimentado por grupos que têm certas zonas de liberdade e de responsabilidade. entre as sessões. se transformará em um simples prestador de serviços. o espanto e o desprezo de seus colegas. É a isso que a intervenção psicossociológica tenta responder. que deveria transformar o que está no centro. por formas mais ativas de trabalho no interior do social. um contabilista escrupuloso do progresso ou das dificuldades de seu grupo. Na intervenção. seu modo de existência. então. provocar mudanças. avançando uma série de proposições. mas simplesmente precisar os contornos das razões de ser. resistência também da parte da instituição de formação e do psicossociólogo. tentar experimentar novas condutas. deliberadamente. Procederemos como nos parágrafos que trataram da formação. suas metodologias e seus objetivos freqüentemente contraditórios. que arriscam ser colocados dolorosamente em questão. da intervenção. seu possível devir Não está em questão aqui. é necessário que ele seja evocado. o psicossociólogo encontra grupos reais Para que um processo de mudança possa ser inaugurado. torna-se uma experiência de marginalização e de exclusão progressivas. pela experiência de viver uma viagem na qual eles também podem descobrir não a terra incognita. O que é demandado é a formação de melhores administradores (melhores formadores. senão abandonando progressivamente todo projeto formador (mesmo se ele se assemelha ao que descrevemos) e optando. de trabalhar 225 . sobretudo. E que. senão a violência simbólica da organização. o que ela busca induzir. naturalmente. Naturalmente. Enfim. Essa experiência da margem. há ainda o maior obstáculo: o fato de que essa “formação” é dirigida a indivíduos e não a grupos reais existindo em organizações específicas. mesmo se os participantes podem. eles reencontram a inércia das estruturas. para nós. mas a confusão. a utopia e a inquietante finitude. quando retornam às suas organizações. Trata-se. É por isso que não é possível tentar ultrapassar esse obstáculo. empregados ou assistentes sociais) e não o nascimento de atores sociais que tenham projetos sociais e estejam prontos a neles investir.

de melhoria de condições de trabalho. mas. numa primeira análise. Tudo se passa como se essas pessoas não existissem ou. existissem como executantes da máquina. A intervenção. para se expressar. de seus sofrimentos e de suas esperanças e de se assumirem. uma certa fissura no organograma da organização. isto é. um certo modo de linguagem e de relações com os outros. mas ela deve facilitar a expressão dos excluídos e suscitar o nascimento de novos grupos sociais que provocam. mas porque sabemos que toda organização recalca não apenas certos desejos. na hierarquia interna. que têm problemas concretos (de decisões. Essa recusa. nas estruturas tais quais são dadas e que representam para eles 226 . Não por razões morais. no processo de trabalho. não como atores sociais tendo alguma coisa a dizer sobre o andamento da organização (assim. a fim de explorarem as vias que favorecerão a resolução de seus problemas. como na formação. atraso e sabotagem da produção nas fábricas).Psicossociologia – Análise social e intervenção com grupos reais. grupos que têm um certo lugar na estrutura da organização. os participantes estão aprisionados em seu vivido imediato. a discussão entre os que têm o direito reconhecido sobre o controle da linguagem (o que apenas manteria a segregação social na organização). mas. então. A palavra é tomada progressivamente pelos novos atores sociais No próprio processo de intervenção é importante que todos possam se expressar. uma situação irreal. como submissos. A palavra reprimida. durante muito tempo. recusa a alguns o próprio direito de falar. assim. antes de tudo. permite às pessoas falarem de sua vida cotidiana. desordem nas salas. impede de ver e de sentir outra coisa. é vivida como uma forte restrição (uma repressão) e induz fenômenos de resistência implícita (barulho. ao contrário. de definições de tarefas etc. absenteísmo. mais exatamente. além do mais. os estudantes não tiveram nada a dizer sobre o funcionamento da universidade e os operários especializados sobre o andamento da fábrica e de seu trabalho). consciente ou inconsciente. desperdício. só pode fazê-lo de formas selvagens que remetem à impossibilidade para essas pessoas de se sentirem como tendo uma palavra e um desejo que podem ser reconhecidos e ouvidos.) e que desejam resolvê-los. É por isso que a intervenção não pode se contentar em favorecer a reflexão. O que está presente não é. toda a violência do cotidiano que. A palavra se desloca em direção a novos campos e a novos objetos sociais No começo.

para imaginarem algo que para eles é da ordem do inimaginável e do impossível. é a subversão da ordem simbólica reinante que se exprime pelo organograma. transcrevendo os desejos na ordem organizacional e aí introduzindo rupturas. Numa pesquisa efetuada pela C. Tratase aqui de dar uma olhada naquilo que não pode ser visto (por essas pessoas). É imiscuindo-se nos assuntos dos outros que cada um poderá descobrir que o que está em jogo lhe diz também respeito. Isso quer dizer que as pessoas terão aprendido a sonhar. transformador do mundo. Colocá-la em causa seria um salto mental. para que possa interrogar o oculto. na medida em que as relações se desestruturam e se restruturam de outra 227 . progressivamente. do imaginário instituinte das relações novas entre si e as coisas. pai-filho ou ele-outros. pelas relações codificadas. talvez seja preciso que ele se interrogue sobre a distinção homem-mulher. pensamento-execução. entre si e o outro. de falar sobre aquilo que não se deve dizer. Para que um trabalhador se interrogue a respeito da distinção patrãoempregado. relações de poder e separações instituídas. É a busca de uma nova ordem simbólica que só pode existir na medida em que ocorrem atos novos. “ruídos”.T. para que o olhar se desloque. a aceitar sua parte de loucura. O imaginário e o simbólico A experiência a ser promovida é bem a do imaginário motor.F. a deixar seus desejos serem expressos. Essa distinção instituída está perfeitamente interiorizada. Sua imaginação é pobre e eles se contentam com imagens estereotipadas. que faz surgir um real além do real percebido. Nenhum coloca em questão a distinção chefes-trabalhadores. Mas. Não se trata de sonhar por sonhar. mas de poder reintroduzir essa parte de sonho ativo. ou que possa pensar de fora da fábrica. afetivo e político que os trabalhadores seriam incapazes de dar pois nada os preparou. mas que possam também (e talvez mais tarde) evocar tudo aquilo que habitualmente não lhes diz respeito.Da formação e da intervenção psicossociológicas praticamente a natureza das coisas. examinar os vínculos entre a fábrica e o sistema econômico. a não se deixarem aprisionar pelas representações habituais. um real rasgando os véus da realidade tal como ela é sempre mostrada pelos guardiães do poder.D. então. É por isso que o trabalho com os grupos deveria ter como objetivo não apenas que os grupos tratem finalmente dos problemas que lhes dizem respeito diretamente. nota-se que vários trabalhadores criticam o autoritarismo dos chefes e pedem bons chefes que considerem suas qualidades de seres humanos e que possam igualmente respeitar a si mesmos. ele é obrigado a se tornar um outro olhar lançado por uma outra pessoa. O que resulta.

à sua maneira. decepção. dessa maneira. é necessário que os modos de pensamento. cada um se tornando. deve se encontrar e se confrontar com um modo de pensamento associativo. outras formas de relação e outros modos de estruturação. pode sair a surpresa. Ele distingue. o inesperado. Certamente o pensamento dito racional é também aquele do controle das coisas e da natureza. Mas sabemos muito bem com que facilidade pode-se passar do controle e da administração das coisas à dominação dos homens. a linguagem utilizada e as problemáticas que eles instauram possam ser desviados. ator e analista social. dessa ruidosa confusão. transformada e garantida por cada um. a médio prazo. além das crianças. sua cronologia e suas articulações. isto é. O que significa que o imaginário faz surgir uma capacidade maior de análise do conjunto dos participantes. pessoal de cozinha e de limpeza. Isso quer dizer que o modo de pensamento lógico. Pois o modo de pensamento lógico é o modo de pensamento do senhor. a própria idéia 228 . sem análise. levam o pessoal a também intervir na gestão do estabelecimento. Assim. promete apenas. subvertidos ou. enquadra e fecha as pessoas nessa moldura que ele lhes prepara. que o surgimento do imaginário. Já foi mostrado acima que o sonho poderia ter lugar nos grupos. no qual as relações de equivalência (mesmo absurdas à primeira vista) possam ser colocadas. interrogados. no mínimo. As posições. os psiquiatras. então. onde a lei. na evidenciação de que tudo está sujeito a questionamento e que. em lugar de ser transcendente aos seres e encarnada em um único. os educadores chefes e especialistas.Psicossociologia – Análise social e intervenção forma. Essas relações não podem mais ser escritas na ordem em que acabam de ser enunciadas e que é bem a ordem hierárquica. Aliás. é o que permite a troca e a reciprocidade. os psicólogos. ele exclui e. ele classifica. mas em uma maior fluidez. no qual as coisas e seus contrários possam ser considerados. numa decodificação das relações. angústia sem freio e desejo por parte de todos de retornar um dia à ordem antiga. igualmente. uma nova forma de educação. é lei retomada. analógico. ou. numa análise em ato da organização. O que significa. Os modos de pensamento e a linguagem são questionados Para que o imaginário abra seu caminho e para que a análise possa tomar corpo. imaginativo. a mudança em um estabelecimento educativo para as crianças especiais passa por uma quebra das relações codificadas entre o diretor. com seus argumentos e suas demonstrações. fazem da criança também um educador. metafórico. o diretor se torna pedagogo e é questionado em sua função de direção. Esses deslocamentos não desembocam na confusão. ao se deslocarem.

Ora. isto é. do bom estilo. o roubo da língua espontânea. vinda das tripas que RABELAIS elevou à quintessência. dissimula. pelo contrário. da criatividade diária dos grupos sociais. de intimidade. um elemento de mascaramento do sistema social. ele é apenas o apanágio de alguns e que o discurso científico é também o discurso que exclui de seu campo a experiência diária. sob certos aspectos. na realidade. Assim. antes. Mas aí também sabemos que. não nos propomos fazer pouco caso do pensamento lógico. mas também da linguagem utilizada. o homo demens no homo sapiens. utilizando suas qualidades de erudito e sua exigência de rigor. Mas. As pessoas se submetem. é como o dinheiro. colorida. a verdadeira 229 . apenas daquilo que os que modelam e mostram a realidade querem deixá-las falar.Da formação e da intervenção psicossociológicas de controle da natureza. de fazer. submetem-se ao princípio do prazer. da Psicanálise uma arte de construção.11 Queremos dizer que a verdade. Essa perspectiva não o impedirá. na França. A língua. visão de um combate a empreender e de um adversário a submeter. Quando. pede que cada um pense e viva na contracorrente. Se as pessoas deixam unicamente seus desejos e inconsciente falarem. inversamente. a língua. então. à língua (a parte social da linguagem) dominante. falarão. FREUD proclama em bom som essa idéia quando escreve (na “Interpretação dos Sonhos”): “O autor da interpretação dos sonhos ousou tomar o partido dos antigos e da superstição popular diante do ostracismo da ciência positiva”. se elas querem se definir apenas em relação à realidade. da ortografia necessária. a invenção popular. recusam o princípio da realidade e tornam-se incapazes de pensar o limite. por sua vez. muitos trabalhadores dizem que não possuem o vocabulário que lhes permite se expressarem e numerosos chefes de empresa utilizam tal situação para propor como “palavra de ordem” uma formação com base na expressão escrita e oral que visa a conseguir que cada um fale e escreva como se deve falar e escrever. Naturalmente. isto é. isto é. Não se trata apenas do modo de pensamento. o repertório de saberes práticos e de imaginação de culturas inteiras. as “estórias de comadres”. reintroduzir a poiesis (criação)10 nas formas de fazer e na teoria. para ser expressa ou reencontrada. atrás da imagem de falar bem. de calor e de dádiva que o homem pode manter com a natureza deixam lugar para tendências predadoras? Certamente também o pensamento racional permite a comunicação universal e o desenvolvimento científico e técnico. já não indica que as relações de cumplicidade. Buscamos. como ele próprio o diz. o sistema de exploração e de apropriação da mais-valia do trabalho. nas organizações. rejeita-se definitivamente uma linguagem viva. MARX mostrou como o dinheiro mascara a natureza do sistema capitalista. divertida. a língua se torna sofisticada com MALHERBE e a academia.

as idéias e opiniões dos que não sabem falar (ou. É indispensável que essa língua do poder possa ser recolocada em seu lugar: não o da necessidade e da natureza das coisas. da tecnologia que ela utiliza e que a faz existir. então. A mesma coisa ocorre hoje. de modalidade de comando. Veja-se bem a dificuldade. A instância política (o poder) está no campo da intervenção Essa longa passagem por modos de pensamento e pela língua nos permite caminhar agora mais rapidamente e chegar ao próprio centro da questão: o poder instituído. dessa forma. todo mundo. Quando se vê a maneira como os jovens se exprimem. não tendo mais nenhum elo com as esperanças. que são os que podem traduzir. confusamente. para culpabilizá-los por não saberem se exprimir.Psicossociologia – Análise social e intervenção linguagem popular. para se protegerem dos outros atores sociais. de seus mandamentos. em boa linguagem. antes de mais nada. reencontrar sua língua. para obrigá-los. É também por essa razão que todos os movimentos de contestação cultural reivindicam. argumentada. mais exatamente. do mundo adulto (e o atacam). dos porta-vozes e também dos especialistas que protegem seu saber (ou o seu simulacro de saber) sob a alta tecnicidade das palavras que utilizam. dos que não sabem falar como se deve falar em uma sociedade tecnocrática). os porta-vozes mascaram e os especialistas reduzem. a literatura estará reservada aos salões e às suas cabalas miseráveis. Por isso. as frases que inventam. Mas os tradutores traem. pode-se constatar que eles se protegem. Não apenas de autoridade. inventar um falar. É por isso que atacar a língua dominante. a pensar como eles e para surgirem como os únicos e bons tradutores de suas vontades e de suas esperanças. os guardiães do poder têm uma língua é bem para se constituírem em classe dirigente. os sonhos e os sofrimentos da gente miúda. Aliás. a dos tecnocratas. experimentar o seu calor. mas de poder: da lei. mas o da dominação que ela instaura. fazê-la viver. É também por essa razão que cada vez que é possível explicar as coisas na modalidade da linguagem habitual o saber dos especialistas se cinde12 . quando se escutam as palavras que eles utilizam. Eis que chegou o tempo dos tradutores. precisa e cifrada. a partir do Século XVII. Há uma língua dominante. se dá conta disso. reencontrar a língua perdida. Se. mudar o sentido das palavras eqüivale a colocar a nu a problemática de dominação-submissão que é constitutiva do falar dominante. Isso quer dizer que toda intervenção é uma questão de poder. pois o 230 . fazendo-os aprender a falar. Se os mendigos têm sua gíria é porque toda língua é constitutiva de um grupo social e é uma membrana que o protege contra os outros.

se uma demanda lhe foi feita. Então. diretor de hospital ou auxiliares de enfermagem). nunca solicita que o poder que ele representa seja questionado. A intervenção. quem quer que seja (dono de empresa. FREUD dizia em “Os chistes e sua relação com o inconsciente”: “Penso que resistências emocionais fundamentais obstam o caminho da aceitação do inconsciente. (mesmo se sua ação está além do poder) experimentar seu próprio poder. Ela destrói as certezas e introduz o novo e o descontínuo. então. mas também quando o poder está em jogo. Na própria medida em que leva as pessoas e grupos a se interrogarem. foi porque os solicitadores experimentavam dificuldades e aceitavam. Entretanto. agradece-se ao interventor. dentro de certos limites. quando estão no campo de análise não apenas as relações. mas. mas sim questionamento infinito. a se informarem. o interventor ultrapassou o limite. assim. permitindo a novos atores se expressarem em novos campos. que não atrapalha ninguém e que permite ao interventor facilitar algumas tomadas de consciência de problemas periféricos. terá necessariamente de questionar qualquer forma de poder. sua vontade instituinte e. nunca é resposta a um problema (responder é controlar. fundadas no fato de que não se quer conhecer o próprio inconsciente. introduzindo uma falha nos poderes constituídos. então. ao contrário. ele cheira a enxofre e deve ser sancionado. interminável. o fracasso inelutável ou só a possibilidade de um trabalho superficial. com uma outra linguagem. sendo inauguração de uma palavra nova. o plano mais conveniente a negação completa de tal possibilidade. os hábitos. pois foi através dele que o escândalo ocorreu. então. a intervenção pára. Interesse e limites da intervenção psicossociológica Resta apenas. o senhor das respostas é simplesmente o senhor). colocar-se em questão. Assim. favoreceu o conflito assumido às custas do consenso que mascarava os antagonismos. chocase violentamente com as estruturas. sendo. Porque ela não pode estar a serviço de um poder nem de um sistema de poder. a se comunicarem em suas diferenças e conflitos reais.” É possível deslocar essa frase de FREUD e dizer que ninguém quer conhecer todo o poder de que dispõe. Mas. nem renunciar a seu poder. quer que ele seja reforçado. De qualquer maneira.Da formação e da intervenção psicossociológicas solicitador de uma intervenção. permitindo-lhe ter uma consciência tranqüila e assegurando-lhe um ganho substancial e uma posição social invejável? Achamos que essa 231 . membros do comitê de empresa. justamente. ele lhes permitiu. a menos que ela seja simplesmente uma ação de apoio estratégico de alguns contra outros. as comunicações interpessoais e intergrupais. os estilos de autoridade. as resistências.

mas permite ao outro querer modificar as estruturas de acordo com sua vontade. das funções elucidativas. em meio a oscilações constantes e bruscas entre a onipotência e a impotência. esses resultados (que podem ser estimados como muito fracos) só podem ser considerados se forem acompanhados por certas características das situações em que ocorrem: 1. que só poderá viver. Quanto ao valor e à importância desse movimento. dispersões a se operarem. mas favorece o desejo de mudança. então. O que ele sabe bem. Ele apenas lhes entreabre caminhos que eles desejam buscar. sendo alguém que incomoda. daquilo que está “ocupado por uma mentira” (LACAN). em contrapartida. Ele não realiza nenhuma mudança. eus a se abalarem. Ele não é nem o revolucionário nem o reformista. Não deve esperar triunfo nem sacrifício: sabe apenas que um movimento começou a existir. se ela se coloca. de uma tentativa de desvelamento de relações sociais. 232 . ele terá uma idéia somente muito mais tarde. palavras a serem ditas. que. a tomada da palavra e outros modos de relações sociais. quando se viu excluído por ter permitido que a questão do poder fosse colocada (para todos e por todos). pólo de identificação ou bode expiatório. O que ele é: simplesmente o avalista de uma possível análise. Ele não transforma as estruturas. energias começaram a circular. sem muita hierarquização interna e sem opacidades devidas a problemas de status social e de sucesso econômico. Pois. não lhe cabe questionar os poderes. seu trabalho só pode ser lento. O que ele traz: a possibilidade para o outro de ter acesso à sua própria palavra. de se dar orientações normativas e inaugurar outros modos de relacionamento. procedendo por deslocamentos e rodeios. mas cuida que as funções de análise existam e se exerçam no grupo. Porém. Ele não analisa sozinho.Psicossociologia – Análise social e intervenção alternativa não tem nenhum sentido. à sua linguagem e de tentar traduzi-las em ações significativas. se houver uma germinação ao invés de um fechamento. é em referência a uma vontade instauradora de poder por parte do interventor. Também não se pode dizer que ele fracassou. é aos atores sociais reais. Não sabe pelos outros.Quanto mais o interventor for chamado por grupos compostos por voluntários. é que. encontrar resistências vivas e não satisfazer a ninguém. colocando-se como um shaman ou um mártir. mais poderá efetuar um trabalho de análise que será completado e aprofundado por esses grupos. não os conduz em direção a nenhum resultado. os movimentos sociais. através de ações. aos grupos sociais existentes ou emergentes que cabe promover (nos outros e em si mesmos).

desde o início. que rearranjos mínimos favorecidos por ele provocarão contra-ações. manipulado (mais ou menos) pelos diferentes grupos. provocando mudanças notáveis nas relações e na própria textura das relações de poder. mas que ele deve saber. quanto mais ele intervier em organizações fortemente estruturadas e hierarquizadas.Em contraposição. Suspeito por todos. mais nos aproximamos de um processo cumulativo. sua posição nada tem de confortável.Da formação e da intervenção psicossociológicas 2.Quanto mais intervier em meio aberto (e não em organizações mais ou menos fechadas): grupos de responsáveis por diferentes empresas. 3. Sabem pouco a respeito dos grupos e das organizações e têm desejos de mudança que não sabem como operacionalizar. onde cada um deve defender sua identidade social e seu sucesso econômico. agricultores tendo interesses em comum.Quanto mais seu trabalho tiver efeitos de treinamento e for multiplicado em diferentes grupos e organizações por aqueles com quem ele colaborou. ao contrário. havíamos dito que era preciso não ter grandes ilusões a respeito da formação psicossociológica tal qual tentamos descrever. As maiores dificuldades parecem ser (indo das menos importantes às mais essenciais): 1. Anteriormente. mais sua ação será limitada a certos grupos. mais ele arriscará ser atado pelos desejos contraditórios dos participantes. Pode. Entretanto.A falta de formação dos interventores. inclinar-se à rigidez ou. A prova são as numerosas demandas de formação 233 . mais seu trabalho será suspeito e provocador de resistências. questionamento do seu valor e da pertinência de suas ações. há da parte de alguns deles um certo desejo de aumentar sua capacidade profissional. traidor em potencial. mais será possível que sua ação de elucidação seja prolongada por intervenções de pessoas colocadas estrategicamente em diferentes pontos do poder. podemos ter ainda as mesmas dúvidas quanto ao desenvolvimento das intervenções. então. Isso não significa que ele não deva intervir em tal contexto. Se existe um número bastante grande de psicossociólogos capazes de conduzir grupos de base e de sensibilização. professores de diferentes estabelecimentos da educação nacional. os psicossociólogos dedicados à prática da intervenção são menos numerosos. 4. a conluios que retirarão toda a eficácia de sua atividade ou que farão dele outro agente do poder local ou da contestação instituída.

não a desejam com freqüência para si mesmos. Um dia. um maior controle consciente. da mulher. Quem quer conhecer a dúvida. com outras relações. justamente ao lado dos liberadores de todo tipo (do corpo.) que têm todas as mensagens a levar aos outros e que se apresentam como mercadores da felicidade. do desejo da alienação etc. que já nem se permitem mais o autoquestionamento. já estão tão ansiosos por trilharem uma nova via. mesmo se nos ocorre perguntar se eles não se preparam algumas desilusões. a demanda acaba. o que nos parece mais importante. 3. mas o que lhes interessa é o aumento de sua própria zona de poder ou a cegueira a respeito do sentido de sua ação. 2. sobretudo.Enfim. Quanto aos grupos que tentam viver de outra maneira. Como escutar ainda uma palavra que cochicha. Isso é compreensível. pois tornam-se insuportáveis para todos os grupos com os quais colaboram. ser retomado. comunicações melhores e. eles se preparam para uma vocação de mártir. onde as ideologias prontas cruzam-se sem se influenciarem. Aparentemente. tendo uma única palavra permitida que é a palavra técnica (técnica de fabricação como técnica do corpo) ou produtiva (produção de bens ou produção desejante). A razão é evidente: a partir do momento em que os grupos e as organizações se dão conta de que a intervenção não permitirá uma restruturação. 234 . uma redistribuição mais aceitável da autoridade. quando não se misturam em um magma sem nome? FREUD dizia: “O eu é apenas um palhaço de circo que. em uma sociedade tecnocrática. por seus gestos. a questão e a angústia da finitude? Mesmo os que a pregam para os outros. em um soberbo isolamento psicótico. que assim buscam empreender atos significativos. eles desabarão.Mais grave parece ser a “vontade de revolução” e o delírio megalomaníaco de alguns interventores que pensam transformar as estruturas e destruir as instituições através de sua implicação vigorosa na intervenção que conduzem. efetuado por eus fortes. Deixemos que se esgotem em seus jogos perversos. busca persuadir a assistência de que todas as mudanças que se produzem no picadeiro são efeitos de sua vontade e de suas ordens13” Os palhaços se tornaram legiões e ocupam a frente da cena. é a fraqueza (e a diminuição constante) das demandas de intervenção. que busca a si própria e que não promete amanhãs que cantam.Psicossociologia – Análise social e intervenção e intervenção endereçadas aos organismos e aos indivíduos que têm prática nesse domínio. então. E o lento trabalho do negativo (o único que é portador da vida e da verdade) poderá. onde estão os mestres da ciência e os instrumentos de gestão.

fazem com que as coisas não sejam mais percebidas. mesmo que ela deva ser analisada minuciosamente. Ela é um acontecimento radical que se estende por toda a superfície visível do saber.Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 235 . “Razão do encaminhamento do não ser ao ser” diz PLATÃO. cf. refoulemente et répression dans les organizations”. La nature humaine. CASTORIADIS-AULAGNIER. 1972 (Imaginário social. Le Seuil (A instituição imaginária da sociedade. CASTORIADIS. no 3. 1977). repentinamente. não pode ser “explicada” nem reduzida a uma única palavra. descritas. 1974). “A propos de la réalité: Savoir ou certitude”. Quando esses elementos lhes foram explicados de forma direta e clara. L’institution imaginaire de la société. “De la formation et de l’intervention psychosociologiques”. Piera. 13. 17. FOUCAULT. Connexions. Seuil. DESCARTES baseia a descoberta do “verdadeiro” na exclusão necessária da loucura. Segundo J. Cf.-M. Na primeira meditação. Le Seuil. do sonho e do gênio maligno. não caem nesse erro. Paz e Terra). os trabalhadores acreditavam que não poderiam compreender nada de contabilidade e de problemas de gestão de empresa. Tempo Brasileiro 36/37: 53-94. LECLAIRE. Serge. TOURAINE. essa abertura profunda na superfície das continuidades. p. “Imaginaire social. enunciadas. cujos signos. classificadas e sabidas da mesma maneira? Para uma arqueologia do saber. C. recalcamento e repressão em organizações. Eugène. Essa falta fundamenta a perspectiva dos sociólogos que pensam em termos de sistemas e de modos de produção: quando os sociólogos (como TOURAINE) pensam o socius em termos de relações sociais.” Le sauvage et l’ordinateur. caracterizadas. A. pois o centro de seu pensamento é a ação social e não as normas sociais. Pour la Sociologie. Topique. o Eu tudo destrói. Epi. FREUD. por Marília Novais da Mata Machado. E. Le Seuil. abalos e efeitos podem ser seguidos passo a passo. E. MORIN. “Points”. n. M. Points. A qual acontecimento ou a qual lei obedecem essas mutações que. DOMENACH: “Para não ser destruído. Les mots et les choses. Gallimard. 137-159. 1976. 1974. Connexions. Le paradigme perdu. Cinco lições de Psicanálise. eles disseram: “mas era apenas isso!”. Le Seuil. On tue un enfant. 1975 (Mata-se uma criança. Em Lip. Rio de Janeiro: Zahar. ENRIQUEZ.

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ASORIGENSTÉCNICASDAINTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAEALGUMASQUESTÕESATUAIS1
Jean Dubost

Os problemas humanos criados pelo uso das máquinas e pelo desenvolvimento das sociedades industriais são respondidos por atores que se defrontam diretamente com esses problemas, bem como pelos responsáveis políticos – no nível de sistemas de ação institucionais – e, também, pela intelligentzia que produz os discursos legitimadores e que arma ora a classe dirigente, ora seus adversários. As Ciências Sociais emergem, primeiramente, como força de pesquisa e estudos e, em seguida, contribuem mais diretamente para a formação de agentes específicos de intervenção. Para intervir, o patronato, seus quadros de direção, seus gerentes e seus organizadores, bem como o movimento operário, suas organizações e seus militantes jamais esperaram os agentes formados pelas Ciências Sociais; porém, o surgimento dessas foi acompanhado por práticas sociais novas que, há mais de meio século, continuam a buscar sua verdadeira face. Ligado a elementos teóricos e ideológicos, um modelo de papel diferente daquele exercido pelo professor, pelo especialista, pelo formador, pelo mediador, pelo advogado, pelo sectário ou pelo militante tende a se afirmar, contribuindo para inventar e analisar os modos de funcionamento coletivo e as relações sociais. Antes mesmo que os empregos de psicólogo e sociólogo do trabalho ou das organizações tenham sido realmente reconhecidos (eles são ainda um pouco objeto de críticas e de apreensões, na França, em todo caso), o nível político tentou intervir, através da legislação do trabalho, dentro de uma perspectiva que mantém alguma relação com os processos e os princípios propostos pelos psicossociólogos (cf. Leis AUROUX). Paralelamente, o contexto de crise e de guerra econômica tendeu a “psicossociologizar”, se é possível falar assim, as estratégias dos administradores (cf. rejeição ao taylorismo, círculos de qualidade, grupos de progresso, projetos de empresa etc.).

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

Do ponto de vista dos práticos, não se sabe muito bem se se trata de uma convergência que os psicossociólogos devem considerar como um avanço de suas teses ou tratar como uma oportunidade conjuntural ou, ainda, como uma “reciclagem”, uma nova forma de resistência ou de defesa, induzindo a uma regressão de seu projeto. Independentemente do fato de que as duas hipóteses não são forçosamente exclusivas, a situação atual aumenta o mercado de consulta. Por razões econômicas evidentes, muitas empresas de serviços tentam aí penetrar, sem escrúpulos excessivos, sejam de ordem teórica, metodológica ou ideológica, e chegam mesmo a rejeitar, em nome do pragmatismo ou da eficácia, qualquer referência científica. Há quarenta anos atrás, especialmente através de Elliott JAQUES, o Tavistok Institute of Human Relations já colocava claramente a distinção entre as abordagens “tecnocrática” (intervenção sobre) e “colaboradora” (intervenção com). Essa oposição e a opção resultante apoiavam-se parcialmente nos trabalhos de LEWIN, MORENO, ROETHLISBERGER e seus predecessores; correspondem a uma teoria da organização que é compartilhada tanto pelos experimentalistas quanto pelos clínicos, tanto pelos behavioristas quanto pelas correntes da fenomenologia e da Psicanálise, tanto pelos promotores da mudança voluntária (planned change) quanto pelos pesquisadores da Sociologia Industrial norte-americana: nessa concepção, as perspectivas democráticas e a eficácia organizacional são objetivos transitivos, não antagônicos. Retomando, por exemplo, os termos de KATZ e KAHN, é em nome da produtividade industrial que é preciso lutar contra o modelo “ditatorial” dentro da empresa. Embora tal tese, em seguida, tenha sido matizada pela consideração de fenômenos de ordem econômica e pelos do inconsciente, da cultura e da história, assistiu-se a um desvio, nos Estados Unidos, no nível das práticas de intervenção. Considerando-se garantidos pelo conjunto de trabalhos de laboratório realizados em um subconjunto restrito de empresas, os partidários da planned change e da action research partiram para a conquista de um mercado, adotando uma perspectiva de aplicação, propondo uma forma de serviços apresentada explicitamente como uma tecnologia social. De fato, no início, geralmente toda prática nova de intervenção, em um espaço no qual surgiram problemas humanos, aparece como aplicação de conhecimentos e de um “saber-fazer” criados em outro lugar e mais ou menos arranjados para a circunstância. Porém, enquanto algumas correntes de consulta parecem se satisfazer com essa perspectiva de aplicação ou de transferência, outras tentaram continuamente se desligar

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As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais

dela, não apenas para criar elementos teóricos e de “saber-fazer” mais específicos, a partir de uma base socioclínica que lhe é própria (mantendo, em conseqüência, a referência à noção de pesquisa ação), mas também para manter as metas que a constituem como práxis, recusando a redução a uma forma de atuação puramente instrumental. Reencontram-se aqui, aparentemente, as duas abordagens distinguidas por JAQUES; na primeira, a referência à idéia da democracia torna-se o modelo de funcionamento, teoria normativa da organização, dispositivos técnicos; a segunda guia a maneira de estruturar o processo de intervenção, deixando aberta a questão de um modelo de funcionamento, recusando-se a estabelecer normas ou evitando fazê-lo, considerando a teoria sempre inacabada, sempre a ser construída e esclarecida a cada nova intervenção. Haveria, então, para os adeptos da abordagem colaboradora, mais do que uma aporia na maneira pela qual se apresenta o desenvolvimento organizacional, contradição que seria compartilhada, justamente, com a concepção tecnocrática. Porém, na prática, se o desvio assinalado pela mudança de rótulo (de “planned change” para “DO”2), na maior parte das vezes, corresponde a um abandono de uma perspectiva de pesquisa pelos consultores que querem promover, em grande escala, a expansão de suas atividades e a uma tendência a autonomizar o “cultural” (isto é, a abandonar a concepção sociotécnica), não é certo que, sob a proteção de uma terminologia tranqüilizadora para os clientes potenciais, esses consultores, na condução de suas intervenções, não estejam mais próximos do que admitem das perspectivas iniciais da planned change. Paralelamente, está claro que não é suficiente estar resolutamente engajado ao lado da abordagem colaboradora, manter uma ligação forte entre os pontos de vista psicológico e sociológico e entre pesquisa e ação para escapar ao risco, continuamente presente, de ser instrumentalizado por um ator às custas de um outro. Embora, na prática, não possamos, então, identificar sempre o DO à abordagem tecnocrática, ainda assim a distinção que evocamos parecenos sempre bastante pertinente para esclarecer a oferta dos práticos e as condições de possibilidade de uma intervenção que se recusa a ser reduzida a engenharia. Efetivamente, a conjuntura econômica e a ideologia atual, evocada acima, abrem de novo, na França, o mercado da consulta e da intervenção em meio industrial, ao mesmo tempo em que as demandas são, na maior parte das vezes, de ordem instrumental:

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- “O senhor, que tem a reputação de saber formar, venha ensinar a nossos dirigentes como mobilizar o pessoal para os objetivos de nosso projeto de empresa”; - “Vocês, especialistas em comunicação, venham fazer um estudo do tipo ‘retrato’, a fim de sensibilizar os agentes para seus papéis comerciais e para as relações entre os serviços”; - “Vocês, com experiência em círculos de qualidade, venham nos ajudar a implantá-los em nossas fábricas”... Assim, é tentador, para quem escuta uma encomenda desse tipo, aceitar o papel de prestador de serviço, sem um convite a refletir sobre a pertinência da operação decidida, sobre as relações entre essa solução e os problemas e dificuldades vividas pela unidade etc. Está claro que a oferta de “tecnologias sociais” parece corresponder a uma demanda. Ela mantém a ilusão de que uma técnica de intervenção de um agente externo poderá resolver as contradições da realidade, sem outros custos, para quem a encomenda, que o dos honorários e o do tempo concedido, além de um apoio superficial da hierarquia à realização da operação; isto é, sem que o processo mude as posições respectivas dos atores, a divisão do poder, a distribuição dos esforços e dos ganhos em diferentes domínios. Essa crença mágica dos responsáveis no poder da técnica relativa a problemas humanos (no próprio momento em que a literatura empresarial demanda o reconhecimento das dimensões irracionais do comportamento dos assalariados) pode, evidentemente, ser interpretada como função de defesa do empresário pouco desejoso de pagar por sua própria implicação; não é respondendo à sua encomenda que se facilitará o estabelecimento de condições que permitam analisar tal processo. Embora o fato de encorajar a ilusão possa parecer, ao mesmo tempo, bem mais rentável a curto prazo e confortável para o psiquismo do consultor (pois uma posição de prestador de serviço permite economizar a análise da demanda, simplificando a vida e tranqüilizando todo mundo – ou quase todo mundo –, ao menos no início...), não podemos acreditar que o fato de aderir aos partidários de operações de mobilização psico-ideológica seja, a longo prazo, uma boa estratégia: pode-se prever que elas se revelarão incapazes de operar as mudanças esperadas e que serão também recusadas e denunciadas pelos atores envolvidos, como ações de doutrinação. Assim, parece-nos ser especialmente importante que o psicossociólogo continue presente no mercado de consulta em meio industrial e, de uma maneira mais geral, nas organizações que desenvolvem esforços de melhoramento de seu funcionamento coletivo; ao mesmo tempo, que

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As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais

mantenha, tão firmemente quanto possível, o que nos parece constituir as condições não mistificadoras da intervenção e, principalmente: - o fato de considerar as teorias utilizadas como sempre inacabadas, sempre infiltradas por elementos ideológicos, jamais apropriadas a fundar uma Autoridade; - o fato de manter explicitamente a referência às ciências do homem e da sociedade, isto é, entre outras coisas, considerar que toda intervenção deve ser habitada por um projeto de pesquisa cujos objetos são, em primeiro lugar, o próprio processo de consulta, o sistema no qual a demanda emerge e a categoria de fenômenos sobre a qual o trabalho é feito; - o fato de manter a interrogação sobre o sentido de nossas práticas, sobre as funções sociais que elas garantem, sobre as condições que favorecem sua emergência, seu desenvolvimento ou seu abandono. Pensamos conhecer bem as dificuldades frente às quais se debate a sustentação de tais exigências; é o preço que os consultores têm a pagar por tentarem escapar à única lógica da relação mercantil e de seus efeitos perversos, à influência das correntes ideológicas que sofremos, da mesma forma que nossos parceiros, a fim de conservar as perspectivas de existência e de progresso a médio e a longo prazo. Dito isso, a sustentação de uma práxis de intervenção local, associando ao processo todos os atores envolvidos e opondo-se à perspectiva tecnológica de produção de instrumentos de doutrinação e de mobilização psico-ideológica, não deve levar a negligenciar os aspectos técnicos e o exame de nossa própria relação com eles. Em primeiro lugar, abordemos o problema a partir da noção de método. Refletindo a respeito dos termos de base de toda intervenção, não mantive esse substantivo, mas reagrupei sob a noção de processo os atos do agente, o trabalho resultante de seus encontros com os atores, seus efeitos sobre o sistema, os fatores que geraram o problema e a demanda de consulta, as representações que os interventores e os atores se fazem das qualidades desse trabalho, as regras e princípios que eles se impõem, a fim de que essas qualidades existam. Evidentemente, minha abordagem conceitual não ignora a noção de método e sabe reconhecer o lugar que diferentes correntes e autores lhe concedem; mas, quando aplicada à minha própria prática, ela tem em conta, especialmente, o fato de que a palavra método designa o caminho pelo qual se passa e que esse nunca é totalmente conhecido antes de ser alcançado (e mesmo depois). Creio ser útil e necessário interrogar-se, freqüentemente,

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em excesso. porém. meus conhecimentos e habilitações. numa dada situação concreta. adquiridos durante minha formação e minhas experiências anteriores. por razões que só aparecerão quando já se estiver a caminho. de não responder cedo demais com uma proposição saída de um modelo prévio que se tentaria padronizar – ou de uma gama de modelos entre os quais seria necessário escolher. sua participação no trabalho. hipóteses. tento fixar as modalidades de trabalho e um quadro técnico com os quais tanto participantes quanto consultores se empenharão durante uma duração determinada. que pode ser feito fora de um universo técnico.Psicossociologia – Análise social e intervenção sobre o caminho a seguir. parece importante aos solicitadores. creio também na necessidade de deixar aberta a questão do método no momento em que uma demanda começa a surgir. deve ser o objeto de uma pesquisa em comum que comporte também momentos de negociação. Ao mesmo tempo. abordando concomitantemente o sistema. justamente. Reconheço que minha atitude comporta uma certa suspeita a respeito de tudo o que diz respeito a técnicas. porque se atribuem a mim competências em um domínio que. isso se dá. A questão do método parece-me fazer parte do trabalho de colaboração. como também uma posição crítica a respeito daqueles que têm tendência a autonomizar ou a privilegiar esse aspecto. não poder sê-lo. que meu comportamento não é orientado por meus recursos técnicos. regras. a examinar princípios. sobre a maneira como se afastou do previsto. acredito ser ingênuo pensar que todo trabalho induzido por uma intervenção não se apoia em técnicas. fazendo dele um objeto fetiche ou atribuindo-lhe. os atores envolvidos. pode. 242 . mas pode. o objeto (O que se quer fazer? O que se quer mudar? Por quê?). Caso um apelo seja feito a mim. algumas vezes. esclarecer todos os fatores acessíveis que podem explicar esses afastamentos. a partir de um determinado momento. Ao mesmo tempo. dimensões ideológicas. além disso. ser transposto sem grandes mudanças a uma outra. de preferência. mas tomo iniciativas e faço propostas. tendo a não apresentar um método definido de maneira unilateral. mas. dada a natureza dos problemas que eles se colocam e desejam tratar. também. perspectivas. Assim. justamente. firmemente. representações iniciais que trazem em si opções metodológicas que se esclarecem à medida que se caminha através de um trabalho de análise e reflexão. de forma alguma proíbo-me de contribuir para a estruturação metodológica e técnica do processo. O que se revelou como um “bom método” – a partir da opinião de diferentes atores envolvidos –. os fatores geradores do problema.

Cada uma comporta pressupostos. Na medida em que se considera a intervenção como uma estratégia de pesquisa que permite o acesso a fenômenos inacessíveis por métodos convencionais. para tratá-lo. ecologia etc. rapidamente. tentarei responder à questão: quais são as origens nas quais os práticos de intervenção psicossociológica se nutrem? Parece-me que é possível distinguir três categorias de origens: os métodos de pesquisa das Ciências Sociais. não apenas objeto de trabalho para os participantes. a seguir. É nessa perspectiva que é preciso. suas orientações teóricas. os fenômenos de moda.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Por outro lado. tamanho. Poderíamos. formas de autoridade. um objeto de trabalho. PALMADE chama de dispositivo “modelador” dos fenômenos estudados. as funções externas almejadas pelos atores. Independentemente da relação que cada corrente de intervenção tem com a questão técnica e com o objetivo de esboçar uma via de reflexão a respeito das escolhas que são feitas pelos práticos e/ou seus comandatários. constituindo. a natureza dos objetos.). as práticas sociais de intervenção e de ação já existentes nos diferentes campos de nossa cultura. os custos etc. mas objeto de pesquisas diferenciadas para os interventores. Evocaremos. por exemplo. a técnica de estruturação do processo se torna um dispositivo de inserção – o que G. conservando sempre uma perspectiva de pesquisa. O modo de estruturação do processo pode se tornar. então. compreendo bem a opção por estabilizar um dispositivo técnico. então. princípios estratégicos. tal vantagem deve ser abandonada. considera que o dispositivo tem que ser inventado e construído a cada vez. dentro de uma perspectiva comparada e diferencial. para o prático que pretende permanecer disponível a demandas muito diversas e para o que. Porém. tentar. no final desse artigo. as propriedades do sistema (grau de centralização. a influência respectiva de variáveis como a natureza do local (intra ou transorganizacional). na determinação das técnicas. considerar os aspectos técnicos da intervenção sociológica de TOURAINE ou da sociopsicanálise de MENDEL. então. tolerância à diferenciação. tornar mais inteligível. a questão de saber em que medida as práticas se diferenciam. os recursos da equipe de consultores escolhidos. 243 . os que foram constituídos pelas atividades da formação e da psicoterapia. na esperança de constituir um corpus de observações socioclínicas homogêneo. tolerando apenas uma gama restrita de variações. uma lógica própria e apresenta propriedades diferentes. em função do campo no qual elas aparecem. em si mesmo.

ela aparece ainda em intervenções do tipo pesquisa-ação (cf. de devolução aos participantes e de interação dos atores. bem cedo. a propensão dos práticos de intervenção. a observação participante. Em um outro pólo dos métodos de pesquisa. em especial.Psicossociologia – Análise social e intervenção Os métodos de pesquisa das Ciências Sociais como origens técnicas A noção de experimentação: se consideramos as primeiras pesquisas de J. uma origem técnica importante. permanecem sendo uma condição técnica ou um auxílio importante para o trabalho de análise. COCH e FRENCH). Quanto às estratégias de pesquisa. FAVRET-SAADA retomou e transformou essa abordagem no campo da etnologia. em algumas práticas. combinados ou não a estudos monográficos e históricos. na maneira como J. Não é de se espantar que a abordagem colaboradora acarrete uma opção por uma orientação clínica. de maneira bem menos acentuada. pode-se dizer que a idéia de experimentação de campo constituiu. MAYO como predecessores da intervenção psicossociológica. forneceram um ponto de partida para as práticas de intervenção: estudos qualitativos e/ou quantitativos de amostras ou por meio de recenseamento. É espantoso ver quantos psicossociólogos estiveram interessados. parece-me. utilizando a análise de documentos disponíveis ou de instrumentos mais especializados como os testes sociométricos. Entretanto. Entre esses dois pólos. eles podem ser levados a planejar uma parte de sua démarche com uma perspectiva que permite uma exploração experimental ou diferencial de seus resultados. Em seguida. depois de LEWIN. ela alimentou uma parte dos trabalhos da escola lewiniana (cf. B. estão as técnicas de pesquisa de campo que. 244 . os utensílios de registro (do gravador ao vídeo) foram largamente utilizados e. mas também nos campos da saúde e social ou mesmo em meio industrial. nas de TOURAINE. é a de situá-las mais aquém e além de uma démarche teórico-experimental do que no nível de operações visando à administração de provas. algumas vezes. tal qual utilizada por certos sociólogos e etnólogos. a partir da prática psicanalítica. a partir do momento em que os práticos integram à sua ação uma dimensão de pesquisa. representa uma origem técnica que foi utilizada não apenas em meio aberto. seus discípulos americanos utilizaram muito pouco as técnicas experimentais. por exemplo. certos ensaios de TAYLOR e os trabalhos de E. GODIN. Algumas vezes. isso se passa sobretudo porque. os social experiments no campo urbano ou em certas empresas) e. mesmo que apenas para conhecer melhor as propriedades de suas técnicas.

quem escolherá as opções. Em um campo bem diferente. por exemplo. no papel de especialistas. permitindo aos atores elaborarem por si mesmos um diagnóstico e se empenharem em um trabalho de análise e interpretação. pela encomenda de um estudo “Retrato”. o significado das condutas etc. quem conduzirá esse trabalho. e que a comunicação dos resultados os ajudará a fazer o recuo necessário. nas próprias operações das fases de estudo). o de intervenções em coletividades camponesas de países do Terceiro Mundo. de fato. Em todos os casos. a compreender os fenômenos que entravam o progresso em direção às metas. em todos os casos. a identificar os problemas.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais A estratégia geral de intervenção que fundamenta o recurso a essas técnicas de pesquisa e estudo repousa na idéia de que faltam aos atores informações objetivas. quem reterá as soluções etc. de prestadores de pesquisa e de estudo) ou a acompanhar o processo até que os efeitos desejados sejam atingidos. na França. Igualmente. quem participará do trabalho de exploração dos resultados. é comum. Vistos como capazes de realizar as pesquisas necessárias para informar sobre o estado de funcionamento vivido como insatisfatório. Pode-se observar que. freqüentemente. ora a produzir uma análise descritiva ou um conjunto de observações e esclarecimentos. produzindo dados válidos. considera-se racional separar (ou alternar) as fases de estudos e as fases de ação. a escolher as variáveis de ação. Entretanto. os responsáveis por um estabelecimento industrial demandem a um serviço exterior ajuda para a instituição do “projeto de empresa”. a origem das disfunções. é dessa maneira que elas se estruturam. há muito tempo. as respostas às questões de saber quem terá acesso às informações resultantes da pesquisa. determinarão o caráter da intervenção (mais ainda do que o modo de divisão do trabalho entre consultores e atores. é sobretudo dessa origem técnica que brotaram as primeiras intervenções-consultas conduzidas depois da guerra. como em outros lugares. a caracterizar melhor as situações. a obra de G. os interventores são convidados ora a fazer um diagnóstico (combinado ou não a recomendações). ainda hoje. a natureza das resistências. os limites desse modo 245 . Le BOTERF (1981) mostra a importância dessa origem técnica. que os consultores têm meios de aumentar o nível de conhecimento do sistema e dos atores a respeito deles próprios. a isolar os objetivos. no começo. as razões dos bloqueios. quer os resultados se apoiem em uma perspectiva demonstrativa ou sejam apresentados apenas como sendo a percepção de um agente exterior. Os consultores podem ser convidados a colaborar apenas nas primeiras (o que tende a mantê-los. que. a atuação dos conflitos. atualmente.

cólera. fazer economia de um trabalho verdadeiro de expressão cara a cara. ao menos. por exemplo. significativa e “representativa” inspira uma lógica para a elaboração 246 . em especial. restaurando a coesão. no caso de intervenções-consultas intra-organizacionais. nas quais a fase de estudo fora concebida como um ponto de partida. escolhe-se. os participantes têm a impressão de que se lhes despeja um relatório que tem valor de avaliação. freqüentemente com espanto. constróem. um conjunto de compromissos aceitáveis por todos e permitindo. 1980). . o inventário. a idéia de mandar realizar um levantamento de dados do conjunto do pessoal pode se dar devido a uma esperança. caso se decida reiniciá-lo. Se muitas intervenções. então. a não ser esquecê-lo.A preocupação legítima em obter uma informação bastante completa. a descrição minuciosa permitirão fazer emergir uma palavra unificadora. já citado.O trabalho é conduzido por uma equipe externa. um retrato eventualmente objetivo e fiel. do exterior. apresentaremos rapidamente três observações: . depois de um certo tempo no qual ninguém ousa tomar iniciativa relativa ao projeto inicial. por exemplo. enterrá-lo. sem associação suficiente com os atores envolvidos: os pesquisadores ou responsáveis pelo estudo trabalham fenômenos ou discursos coletados junto a indivíduos ou pequenos grupos. A respeito dos riscos nos quais se incorre e pensando. . de fato. O texto de André LÉVY. de que a explicitação de sentimentos e de posições antagônicas. malgrado seus esforços para se expressarem de forma suficientemente prudente e pouco agressiva (ou para administrarem uma demonstração convincente). muito freqüentemente é porque o relatório funcionou como uma operação de interpretação selvagem. desenvolve muito claramente esse aspecto. denegação. iniciar uma ação de formação desligada da etapa inicial e com uma outra equipe de consultores. os resultados afastam-se muito das representações que habitavam o campo de consciência dos atores para poderem ser aceitáveis.Psicossociologia – Análise social e intervenção de estruturação técnica do processo foram percebidos (LÉVY. com a apresentação dos resultados. conseguindo uma solução de síntese ou. Sociólogos como CROZIER e SAINSAULIEU evocam. sobretudo. a violência das reações que eles provocam quando apresentam seus resultados: rejeição. são interrompidas.Há um risco ligado à análise insuficiente da demanda e das ilusões a ela relacionadas. o trabalho de recenseamento. depressão etc. de caráter mágico. Poder-se-ia dizer que a célebre experiência de Hawthorne já apontava alguns deles. Não se sabe mais o que fazer. de confronto e de evolução das diferentes partes envolvidas.

com o trabalho sobre os resultados. pertinência. parece-me. assim. De meu lado. Quaisquer que sejam as técnicas de pesquisa utilizadas. o que provoca aumento dos temas de estudo. reprodutividade) em função dos princípios específicos da relação de consulta. a atividade interpretante é conduzida aonde as interações estão favorecidas.preferir. e apesar das reservas expressas. se sente um interesse suficientemente grande de conceber o trabalho de estudo ou de pesquisa como uma mediação oportuna e necessária. dando o tempo necessário ao trabalho de reconhecimento e de apropriação. adiamentos de realizações importantes. o debate. 247 . quando se quer a associação de todos os parceiros envolvidos –. na medida em que isso for compatível com suas possibilidades efetivas de participação. os critérios de cientificidade: validade. que dependem mais da segunda origem técnica da intervenção que propomos distinguir. o que aumenta o risco de decalagem entre a fase de pesquisa e o momento em que se deveria investir no trabalho de exploração dos resultados. inevitáveis e lembro-me de casos nos quais eles ofereceram um começo muito positivo (ou apoios muito preciosos durante o percurso) para um trabalho de colaboração de longa duração. os interventores não devem se deixar levar pela lógica própria ao campo científico do qual elas saíram. transformando-as para que se adaptem à perspectiva da intervenção.associar todos os parceiros envolvidos. durante o trabalho de análise da demanda. . da diversidade e tamanho da amostra (em grandes unidades).As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais do projeto – particularmente. pode-se tentar: . preferir as opções que procedem por meio de pequenas etapas sucessivas. essa meta de associação máxima leva também a alargar o leque de técnicas. Entre as formas de reduzir esses riscos e quando. . às relações elaboradas e conceituadas demais. não opto por uma posição radicalmente hostil aos recursos dessa primeira origem. como o próprio relatório. ela resulta de um esforço coletivo que permite a contradição. essa atividade interpretante submete-se às regras da interpretação clínica. algumas vezes. a uma solução que exige uma equipe e. então. por categoria de ator etc.fracionar a investigação (por tema. as devoluções que estão próximas da expressão espontânea. em outras palavras. correspondentes a atuações mais modestas.) e alternar fases curtas de levantamento de dados ou de pesquisa. eles me parecem. mas repensar essa lógica (por exemplo. a perlaboração. chega-se. sobretudo.

esse último exemplo encoraja-nos a reagrupar. numa escala pequena. todas as técnicas de desenvolvimento organizacional (DO) originam-se do campo da formação e. é necessário lembrar que. de uma fórmula aperfeiçoada em um centro especializado ou originária de experimentos de laboratório de Psicologia Social ou de Pedagogia. de aperfeiçoamento e. As técnicas originárias das práticas de formação e de psicoterapia Toda vez que uma nova fórmula de formação. a partir de 1964. BRIDGER e outros) elaboravam as bases da 248 . Considerando a importância dada à referência psicanalítica nessa orientação e a dupla formação dos membros fundadores do Instituto Tavistock. apresentam-se como a aplicação simples. de 1948. algumas vezes. com muita freqüência. que pode ser assim simplificado: “É suficiente estabelecer certas verdades e comunicá-las às pessoas. social analysis. a uma perspectiva de intervenção. TRIST. JAQUES. o artigo de E.Psicossociologia – Análise social e intervenção porém. sobre a possibilidade de contorná-los. A escola lewiniana escolheu essa via com o NTL – National Training Laboratories (a palavra laboratory designando bem a idéia de experimentar. cujos efeitos de mudança social resultariam da transferência das aquisições do estudante a respeito do seu lugar de trabalho ou de vida. ao mesmo tempo em que outros membros do mesmo grupo (RICE. de consulta psicológica (counselling) e de psicoterapia. evoluiriam. métodos de mudança susceptíveis de serem aplicados. 1972). em seguida. os grupos. assim. Uma das concepções iniciais do Tavistock caminhava no mesmo sentido (cf. na Glacier Metal Company. nessa segunda categoria de origens técnicas. a equipe de JAQUES não parou de transformar essa base técnica para chegar ao que ele denominou. de uma perspectiva de formação. traduzido para o no 3 de Connexions. Passar-se-ia. pôde-se estar tentado a fazê-la sair da escola ou do centro onde nasceu para aplicá-la diretamente aos grupos naturais. as organizações e as “instituições” supostamente se aperfeiçoariam. em diferentes lugares da sociedade). adquiririam novas propriedades. porém. sempre útil interrogar-nos sobre o seu grau de relevância. De uma maneira geral. ao mesmo tempo que os indivíduos que os compõem. comparar as vantagens e as desvantagens das técnicas oriundas dessa primeira origem com as das duas outras e ter em mente a ingenuidade do postulado implícito nelas. em um plano concreto. as práticas de formação. Logo. de ensino provocou o sentimento de que se tinha descoberto uma pedagogia fecunda no plano dos indivíduos. na qual. a fim de que elas mudem”.

ao mesmo tempo. os métodos do grupo de base experimentado nos anos precedentes (J. Payot). ROUCHY. um dispositivo de análise admitindo poucas variações e buscando sempre se distinguir – sem chegar a fazêlo. consistia em transpor. utilização da autóptica. as intervenções que se seguiram. LÉVY e. MENDEL e sua equipe. de se diversificarem em função da natureza das demandas. com uma perspectiva de intervenção intra-organizacional. com uma perspectiva de tratamento da organização hospitalar. C. C. nem todos os métodos de intervenção que tecnicamente se equipam com as práticas de formação psicossociais têm as mesmas referências teóricas e. o movimento de democracia industrial. Um critério de diferenciação importante das práticas de intervenção-consulta e de suas técnicas pode ser encontrado 249 . passando pelos estudos de caso. nos quais a ARIP interveio. no 1 a 10. em pedagogia do projeto. a fortiori. Certos autores franceses que se nutrem das mesmas origens teóricas não seguiram. no plano teórico. um equivalente simbólico da segunda tópica freudiana. KAES). ROUCHY e E. tal grupo nunca foi tentado pela idéia de estabilizar um ou mais dispositivos técnicos do tipo DO. para o seio da cúpula. na França e em países estrangeiros. D. as práticas de formação e de psicoterapia constituíram sempre a origem dominante de sua prática. tecnicamente.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais abordagem sociotécnica. em uma estrutura técnica inspirada pela noção de aparelho psíquico grupal (R. das quais surgiram numerosas pesquisas-ação e. inscrevendo-se. em pedagogia institucional. em seguida. especialmente. seria evidentemente necessário diferenciá-los em função das orientações pedagógicas e das teorias de aprendizagem às quais eles se referem: técnicas de condicionamento. ANZIEU transpôs. conceberam diretamente. o processo de elaboração do dispositivo (sua instalação e as reiterações eventuais durante o percurso) como um objeto de trabalho integrado ao processo de colaboração com os solicitadores. ENRIQUEZ consideram. tanto em meio industrial quanto no campo social e da saúde. das orientações específicas a cada um dos membros da Associação. se quiséssemos ser menos esquemáticos. sua prática de psicodrama analítico. J. ao mesmo tempo em que se reforçava. essa evolução. ao contrário. na empresa Geigy. 1972). a importância da referência à Psicanálise. o que representaria. A. Mas se. por exemplo. grupos de análise de prática profissional. Pode-se fazer o paralelo com a evolução de uma associação como a ARIP: sua primeira intervenção psicossociológica de duração longa. em nossa opinião – de qualquer intenção educativa (cf. das estruturas de organização. não pararam. Sociopsychanalyse. de reforço ou de treinamento em métodos ativos. Evidentemente. no plano organizacional. G. jogos de simulação.

é mais rápido. no espaço organizacional. a palavra de ordem. PALMADE no campo da formação e das reuniões: funções externas das atividades empenhadas. aplicando o método ao qual nos referimos à totalidade ou a uma proporção significativa de agentes. mas que ela produz outros resultados além dos esperados no interior de sua localização inicial. Com efeito. então. Na lógica do modelo médico que funciona de maneira subjacente. 250 . mais racional e menos caro. o risco. entre os próprios serviços de uma organização. de acompanhamento ou dinâmica). De uma maneira geral. o princípio estratégico subentendido durante a oferta e demanda de tais intervenções postula que já se conheça a solução do problema vivido pelo sistema envolvido (diferentemente dos casos evocados anteriormente). os meios de verificar a validade das hipóteses. as que se nutrem da formação surgiram. as atividades de formação representam um precedente que permite conhecer consultores potenciais. é que se engane sobre a causa das dificuldades. para os quais já se inscreveram individualmente N agentes. é falsa a idéia de que uma fórmula de formação psicossocial – concebida e experimentada pelos indivíduos que não se conhecem e dos quais se espera que transfiram suas aprendizagens para as suas respectivas unidades – conserva as mesmas propriedades quando é dirigida a um grupo natural. Não se quer dizer com isso que esse deslocamento a torna. pensa-se atingir a massa crítica que permitirá alcançar. é a descentralização. sobre a pertinência do remédio ou sobre os dois e que não se tenha. estágios existentes fora dela. durante um tempo que pode ser apreciável.Psicossociologia – Análise social e intervenção nos conceitos elaborados por G. os responsáveis pela unidade fizeram seu diagnóstico e prescreveram o tratamento que delegam a interventores externos. ao mesmo tempo. os aspectos econômico-práticos nem sempre estão ausentes de uma demanda orientada para práticos da formação. é necessário providenciar a formação do responsável local. Em relação às situações descritas a respeito da primeira origem técnica. irrelevante. Além disso. funções internas asseguradas ou não pelos consultores no campo da produção. da regulação (hetero – ou auto –. sua eficácia e seu grau de adaptação às expectativas da unidade ou do serviço em pauta. a mudança social desejada. Evidentemente. desde há algum tempo. em especial. sob pressão de demandas dirigidas a interventores. da facilitação e. Enfim. freqüentemente. esperando-se que se aumentará assim. Como para as intervenções que se equipam tecnicamente com os métodos das Ciências Sociais. na medida em que instituir. ela continua subjacente a muitas demandas desse tipo. embora ninguém pense seriamente em conservá-la. forçosamente. localmente.

dispor de uma teoria das condições nas quais uma dada 251 . os consultores. seguros demais dos próprios diagnósticos ou temendo muito vê-los questionados e temerosos em embarcar num processo psicologicamente mais custoso para eles. a condução e a animação das atividades de formação psicossocial em um dado lugar – ou apenas a formação dos formadores internos – não se reduz. Esse risco pode ser reduzido apenas se. aliás. confrontá-la à dos outros atores. do qual se espera a responsabilidade.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Deixando de lado a qualidade das intuições dos que tomam as decisões. inclinados demais a satisfazer imediatamente o cliente ou dependentes demais da autoridade que esse representa. A competência de um interventor. é função do tipo de formação da qual se esperam efeitos: quanto mais os programas são estruturados e estruturantes. na elaboração dos programas. manter essa dimensão presente durante todo o processo. de uma maneira progressiva. primeiro. ele deverá poder substituir o tipo de formação demandada por outras. a uma pesquisa prévia junto aos atores envolvidos e aos outros estratos hierárquicos do estabelecimento considerado. tal risco. na construção pedagógica da ação e na condução dos estágios e sessões etc. de um lado e de outro. evidentemente. Tal dispositivo técnico é insuficiente. Esse recurso às técnicas do primeiro grupo não tem somente por função alargar a composição do agente do diagnóstico prévio. por demais impacientes em preencher seus carnês de solicitações. houver disposição para investir em um trabalho satisfatório de análise da demanda. os voluntários para se associarem na preparação de decisões. já foi institucionalizado há mais de vinte anos em um grande serviço público) para tentar reduzir esse risco consiste em não assumir uma intervenção sociopedagógica sem proceder.. na própria perspectiva da engenharia (ou na metáfora médica). Paralelamente. desenvolver a análise da demanda dos responsáveis. além disso. Um meio técnico (que. então. ao desempenho eficaz da prática de formador. ele pode não resolver as dificuldades que o consultor escolhido pode encontrar para assumir esse papel. ele oferece aos interventores uma fonte de mediações para. arriscam encomendar uma ação incapaz de obter os efeitos de mudança esperados. deixar-se-ão cair na armadilha da prestação de serviço. menos o trabalho empenhado autorizará as derivações necessárias a um novo enunciado do problema inicial e a uma maneira mais adequada de se perceberem as dimensões reais. Ainda assim. entre os dirigentes. não é suficiente substituir o adjetivo “psicossocial” por “sócio-profissional” para reduzir suas dificuldades. descobrir. os solicitadores. em assegurar “suas tarefas”. transformar as pessoas envolvidas em atores de sua própria formação.

que as características das tecnologias de produção e o modo de funcionamento coletivo também o são e que uma formação não associada a mudanças.Psicossociologia – Análise social e intervenção ação é susceptível de provocar efeitos sobre o sistema – e que tipos de efeitos –. 252 . é interessante observar que. dois atores ou diversas instâncias em interação.) –.. nunca se evoca o recurso a atividades de formação (a não ser a partir do décimo quinto ano de intervenção-consulta. de agentes de comando ou de pessoal de execução. em problemas de remuneração etc. Por exemplo. numa crítica aos limites do staff and line. para comunicar aos responsáveis de outras empresas o que se aprendeu no trabalho socioanalítico). o desenvolvimento técnico e científico. Porém.. as estruturas internas das organizações se complexificam. incorporar um cuidado permanente de acompanhamento e avaliação etc. com a corrente sociotécnica e a maioria dos sociólogos da organização. a convicção de que as condutas das pessoas. a extensão permanente da escala de mudanças são alguns dos fatores próprios a acentuar sua importância. um grupo. Entretanto. as estruturas da organização e a cultura da empresa são interdependentes. As práticas sociais de intervenção já presentes na sociedade O fato de intervir – de vir entre (uma pessoa. a prática permanente de intervenção socioanalítica desemboca em uma teoria da burocracia. Ela compartilha. a serviço de que funções materiais ou simbólicas ele se desenvolveu e inventariar os diferentes papéis correspondentes a ele em um dada cultura. Sem poder preparar aqui tal reflexão. a emergir como práticas e como papéis diferenciados. e não em técnicas de ação formadora de diretores. mesmo na abundante literatura produzida pelo caso Glacier. em resposta ou não a um apelo. um sistema e seu problema. criando sempre mais serviços encarregados de intervir junto ao pessoal de operação. pode-se simplesmente observar que o crescimento e a diferenciação funcional e os processos de divisão do trabalho. é fenômeno tão geral nas sociedades humanas e na sua história que é passível de desencorajar uma abordagem teórica. negociar os procedimentos técnicos que permitirão produzir as informações que faltam. Essa última observação leva-nos a examinar a terceira categoria de origens técnicas. afetando a estrutura e as instituições internas. talvez seja interessante descobrir em que campos sucessivos esse fenômeno foi progressivamente institucionalizado. é incapaz de obter uma verdadeira evolução. em data. e os fenômenos de consulta e de intervenção psicossociológicas não são mais os últimos.

esses já tomavam emprestado do ambiente cultural os elementos susceptíveis de equipá-los tecnicamente. intervinha em fenômenos de preconceitos raciais e de violência urbana. mas também aproveitou as técnicas da arte dramática para inventar sucessivamente o axiodrama. Essas trocas podem não apenas contribuir para enriquecer e diversificar os elementos técnicos tirados das duas primeiras origens. Mesmo a história da intervenção de E. acompanhamento permanente e pesquisas aprofundadas a respeito dos acontecimentos) quando. os “organizadores de comunidades”. Mais recentemente. Com uma perspectiva de pesquisa de lutas sociais e culturais atuais. sistematicamente. as técnicas de ação direta dos sindicatos americanos. ao mesmo tempo em que essas evoluíam por meio de experiências socioanalíticas. evidentemente. assim. No campo das empresas de produção. aproximaram-se dos modos de intervenção “naturais” dos atores.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Em suas primeiras manifestações. seria absurdo e falso nos limitarmos às duas primeiras origens técnicas de intervenção. JAQUES na Glacier Metal Company permitiria observar como as técnicas iniciais. de defesa ou de negociação. não sem as enriquecer também com novas formas de contestação e de pressão. retomaram. L. correntes tão diferentes quanto a advocacy planning e a análise institucional nutriram-se de fontes desse tipo. vir a substituílas completamente. freqüentemente. inscrevendo-se mais diretamente em suas práticas espontâneas. adquirindo uma nova especificidade através da maneira como são utilizadas e integradas na práxis. no fim dos anos 20. são chamados. 253 . em Nova Iorque. Então. eventualmente. existem. Em países como o Canadá. por exemplo. em sua prática de intervenção junto a populações migrantes desprivilegiadas. a práticas de debate. as pesquisas-ação originárias da corrente sociotécnica e as intervenções do movimento da democracia industrial tomam emprestado. os psicossociólogos. as técnicas dos organizadores do trabalho e mesmo as dos gerentes. durante os motins do Harlem. como mediadores – um papel que a cultura francesa tem dificuldade em desempenhar. Freqüentemente ligados à ação das igrejas. mas. MORENO não se nutriu apenas das duas primeiras origens. a metodologia de intervenção desenvolvida por A. o sociodrama. o psicodrama e os jogos de papel e de jornalismo (reportagem. ALINSKY. nos conflitos entre direção e sindicatos. renovando-as. progressivamente. J. fluxos de trocas recíprocas entre os aspectos mais familiares da vida cotidiana – que continuam a constituir o ambiente cultural no qual as práticas psicológicas e sociológicas se desenvolvem – e as duas origens. TOURAINE recorre também. como o sociólogo S. enriquecendo-as.

de assegurar a publicidade dos resultados dos estudos. Embora não ilustre especialmente esse risco. e renunciar. para a primeira origem. de formação. os dispositivos de proteção. de coletar e tratar o conjunto de informações relativas aos acidentes. há uma 254 . Da mesma forma que. o exemplo seguinte pode contribuir para que sejamos compreendidos. Um risco das orientações que tendem a privilegiar essa terceira origem técnica seria. em conseqüência. talvez possamos propor duas observações antes de evocar rapidamente um exemplo concreto. tanto no plano material quanto no legal.Psicossociologia – Análise social e intervenção Se fosse oportuno. de fato. de sensibilização (por exemplo. Pode-se dizer que esse serviço central cria um conjunto imponente de instituições de segurança. a idéia estratégica repousa na capacidade pressuposta dos atores de aproveitarem as informações mais objetivas a respeito de seu próprio funcionamento coletivo e. as prescrições) e funcional (no campo técnico. para a segunda. apenas. da magistratura. instalação de “monitores de segurança” escolhidos pela hierarquia. de coordenar uma rede de especialistas funcionais da prevenção. a luta contra os acidentes está a cargo de um serviço central de técnicos encarregados a um só tempo de produzir a regulamentação interna. educativo. da polícia. e que. os dispositivos de encontro ou as garantias de mudança. para a terceira. de estudar as instalações da fábrica. Parece-nos que. sem que ele próprio tenha autoridade no que diz respeito a sanções. de propaganda. então. as oportunidades. A variedade e a heterogeneidade dos elementos que reagrupamos nessa terceira categoria são grandes demais. de alguma forma. deixando de lado os requisitos que permitem estabelecer e manter as condições de análise. dirigidas à prevenção de acidentes de trabalho. concurso de segurança) etc. a toda especificidade. audiovisual. ele acumula um papel legislativo interno (fixar as leis. das lutas militantes etc. como por exemplo no campo da imprensa escrita. o pressuposto poderia ser o de que os atores já possuem um conhecimento e um potencial suficientes de transformação e que lhes faltam. de organizar as ações de inspeção. No começo. poder-se-ia ilustrar também como as práticas sociais parecem evoluir sob a influência das técnicas e métodos da Psicossociologia. tratam-se de intervenções desenvolvidas em um espaço industrial de tamanho grande. o material e os utensílios do ponto de vista dos riscos. pode-se mudar esse funcionamento apenas por meio de aquisições e evoluções das pessoas. difusão das estatísticas de acidentes. Entretanto. tornando fácil arriscar comentários um pouco gerais. o de não repensar suficientemente os empréstimos influenciados pelas precedentes. das relações pastorais. social).

mas mediados por dispositivos de estudos ou por situações de formação. Mais precisamente e sempre com a animação dos consultores. colocar cara a cara um grupo natural e seu escalão direto. No caso da intervenção psicossociológica. algumas vezes desenvolvendo. em outros países. certas unidades sentem que o nível obtido é ainda insuficiente em relação ao alcançado. Depois de uma fase de informação-consulta dos atores envolvidos (comitê de higiene. concomitantemente. Os confrontos entre atores (por exemplo. Poder-se-ia dizer que a condução do processo é prudente. geralmente. cujo acordo é considerado como uma condição de possibilidade. no começo. que abandona os dispositivos de estudo e de formação. combinando as técnicas derivadas das duas primeiras origens aqui distinguidas. progressiva e que ela se passa em um lapso de tempo que se mede em anos. Elas procedem geralmente – exceto nas fases de levantamento de dados e de observação – descendo a linha hierárquica e trabalhando em especial junto ao escalão médio. o grupo ou os grupos dispõem de uma seqüência de duas jornadas para analisar a situação. a base trabalhadora foi convidada a cooptar voluntários para participar de um grupo de trabalho. por uma intervenção psicossociológica. No fim desses dois dias. pessoal de execução). gerentes. na iniciativa de um responsável local decidido a desenvolver um esforço particular em matéria de prevenção. ela é acompanhada por mudanças que afetam certos aspectos das estruturas das instituições locais e não apenas as atitudes e comportamentos de atores. evitase. por exemplo. a abordagem escolhida não teria chegado a considerar todas as dimensões psicossociais do problema. ou comandos e direção) não são feitos diretamente. propor as medidas. é passível de ilustrar o recurso à terceira origem. O apelo dirigido por algumas unidades a consultores externos ao serviço central ou a agentes de serviços de formação pode ser traduzido. então. ou por uma intervenção apenas formadora. o aperfeiçoamento dos estratos mais baixos dos agentes de comando. produzir os diagnósticos. evidentemente. Uma vez estabelecida a composição. no interior de um estrato ou entre comandos e escalões. Uma abordagem mais recente. De acordo com os resultados.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais coerência com uma concepção burocrática – no sentido de WEBER – de uma organização fortemente centralizada. com a colaboração de consultores externos à sua unidade. fundamenta-se também. planeja-se uma ou diversas seqüências 255 . de segurança e de condições de trabalho. Embora essas realizações permitam registrar progressos incontestáveis. contramestres. eles apresentam coletivamente o resultado de seu trabalho ao escalão direto. eles defendem seus relatórios diante de seus contramestres.

Como no caso anterior. em teoria. esse explicita as ações e organiza as situações de confrontos de maneira bem mais direta. então. permite evocar aspectos que ultrapassam largamente as questões de segurança num sentido estrito e leva a considerar os acidentes (ou os comportamentos de risco) como resultante de um grande número de variáveis (ou.Psicossociologia – Análise social e intervenção suplementares ou passa-se diretamente à etapa seguinte que consiste em apresentar ao responsável local e a seus gerentes o relatório a respeito do qual o grupo inicial e o comando entraram em acordo. A última negociação consiste. o choque de pontos de vista pode ser mais brutal. segundo o duplo princípio do voluntariado individual e da cooptação por pares. demitir-se ou deixar o outro – ou os outros – conservar sua vantagem. de múltiplas forças antagônicas). instituídos pela lei Auroux. Em relação ao processo das intervenções precedentes. tal 256 . como na teoria dos equilíbrios quase estacionários de LEWIN. Um dos pontos importantes desse processo é o de saber se os executantes voluntários e cooptados por seus colegas se empenharão ou não em um papel de “conselheiro segurança” no interior de suas respectivas equipes e segundo quais princípios esse papel será estruturado. todas as etapas que balizam a criação de um novo papel (do tipo “conselheiro-segurança”) são animadas por uma equipe de interventores externos à unidade. ligada às diferenças de status e/ou de poder. a intensidade emocional mais forte. O primeiro ponto (a iniciativa de um escalão ou de uma direção decididos a se empenharem em um diálogo verdadeiro) e o último ponto são. Porém. em especial. Se a situação mobiliza práticas sociais muito familiares aos assalariados e. Três aspectos o distinguem: ele é demandado expressamente por um escalão da linha hierárquica e não imposto por ela. Ela permite. entre outras coisas. ele não reúne todos os agentes da unidade envolvida. produz uma frustração muito forte no ator. decisivos. em saber em que medida e em que pontos as mudanças demandadas pela execução e seu comando serão adotadas pelo responsável local e se os membros do grupo ou dos grupos de executores confirmarão sua participação e segundo que modalidades. aos delegados do pessoal e aos militantes sindicais. mas um subconjunto (da ordem de um quarto a um décimo) composto. estende-se numa duração que se mede em meses. ultrapassar conseqüências e retroceder no momento em que uma assimetria muito grande. para nós. Tal dispositivo relaciona-se com o de grupos de expressão direta dos assalariados. a ponto dele renunciar. a presença ativa de um terceiro nos parece indispensável. os mecanismos de defesa que protegem habitualmente cada categoria de ator mais prontamente atacados e reconstruídos por ocasião dos sucessivos encontros.

Enfim. cada ator envolvido e ele próprio percebem a existência de metas suficientemente compartilháveis e a virtualidade de uma mudança eqüitativa. aliás. além de serem percebidos como tendo condições de guardar uma distância ótima e resistir às pressões que podem ocorrer. o referencial teórico na Sociologia da ação de TOURAINE não impede que uma abordagem intervencionista atravesse necessariamente os fenômenos relacionais da Psicologia. mal consegue considerar o grau de intricação e interdependência das dinâmicas grupal e social. O objeto “relações sociais” é tomado em uma fantasmática organizacional das relações interpessoais e dos fenômenos de grupo como o minério em sua ganga. mesmo se essas qualidades requeridas podem e devem se desenvolver através da experiência de práticas relacionadas à segunda origem (da condução dos grupos de estudo de problema aos grupos de evolução). mesmo se a orientação evocada não persegue meta formadora nem meta de estudo (os resultados obtidos nesses dois domínios sendo considerados como benefícios secundários). bem cedo. claro que elas ainda se situam no campo microssociológico. Está claro também que. uma importância acentuada. sempre pluridimensional. em todos os níveis. para guiar a análise. sensíveis às causas pelas quais os atores lutam. ancorar. Por isso. O fato de que a realidade dos sistemas de ação concretos e das condutas sociais seja. Escolher. mas também em encontros do mesmo estrato. por exemplo. caso se considere tais intervenções mais “sociológicas” do que “psicossociais”. evidentemente. mas têm. Essa dimensão de positividade corresponde a um dos limites da neutralidade evocada: a presença do interventor só é possível se. capazes de empatia e de domínio intelectual dos problemas.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais fenômeno pode-se produzir não apenas no interior de um dos estratos envolvidos. senão à primeira. e. é necessário que os interventores sejam percebidos como suficientemente independentes de cada parte. Tais requisitos. não deve de forma alguma levar a renunciar ao projeto 257 . tecido com fios múltiplos. tal metáfora. elas não dependem apenas da técnica. evidentemente. Em outros termos. a fim de fornecerem enunciados que não são gerais e abstratos demais nem tão “pé no chão” ou neutros. que se experimente bastante confiança em suas capacidades de catalisarem um progresso que poderá ser aproveitado por cada parte. aqui. está. sem dúvida. é preciso que se lhes reconheça bastante autoridade para serem escutados e ouvidos por todos. na medida em que elas tentam ter um acesso mais direto às relações sociais. entretanto. não são específicos de situações que retiram seus elementos técnicos da terceira origem.

particularizando-se por um trabalho técnico que lhe é próprio. uma evolução das relações que caraterizam seus modos de funcionamento). malgrado os fluxos que renovam sua composição e os outros fenômenos internos ou externos que o afetam. para o pessoal de um estabelecimento. Com efeito. elas dizem respeito a uma práxis distinta daquelas do educador. a natureza dos dispositivos técnicos e os modos de intervenção que podem. Assim. antes. Não é fácil. ele contribui mais ou menos ativamente para lhe dar forma. três ou quatro anos no mesmo exemplo acima evocado). do terapeuta. distribuídos por uns poucos meses) não deve permitir que se esqueça seu lado efêmero (dois. em uma intervenção-consulta com perspectiva demonstrativa. ela me leva. nenhuma estrutura técnica de intervenção pode constituir uma peneira perfeita. Nem ciência nem tecnologia. estabilizar uma mudança desse tipo (de fato. sem chegar a lhe dar um molde. capazes de contribuir em processos de pesquisa. no entanto. enquanto dispositivo de inserção. ela só pode ser ela mesma ao preço de uma integração suficiente das abordagens da Psicossociologia. retomando a distinção de PALMADE (1977). elas seriam. a Sociologia que opta por tal abordagem não pode mais excluir a Psicologia Social nem ignorar a vida psicológica dos grupos nos quais penetra. as escolhas iniciais arriscam. uma posição de disciplina científica organizada em torno de um objeto específico e exclusivo. a resistir à tentação de considerar as práticas de intervenção psicossociológicas como passíveis de adquirir. por si só. privilegiando processos decisórios ou elucidações de sentido. quer esteja empenhado. enquanto não se tenta atingir as estruturas intrapsíquicas individuais nem as estruturas globais 258 . a mim. caso se esteja inscrito em uma relação de consulta. do gerente ou do político. depois de dez ou vinte dias de intervenção. permitindo isolar. não é suficiente dizer que é a escolha do referencial teórico. o interventor é um clínico. enquanto pesquisador. mas. Tal situação pode desencorajar um pesquisador.Psicossociologia – Análise social e intervenção de análise (de decomposição em seus elementos) que caracteriza toda démarche de conhecimento. fundamentar tal distinção. filtrar com segurança um objeto teórico. O caráter algumas vezes espetacular de seus efeitos (não é raro ver a freqüência dos acidentes de trabalho em uma unidade ser reduzida a um quarto. até o ponto em que a distinção entre intervenções psicossociológica e sociológica não mais seja fácil de ser feita. quer atribua prioridade aos problemas de ação e de existência. com o tempo. ser atropeladas pelos acontecimentos presentes no processo e é apenas no desfecho que se pode concluir de que vertente disciplinar os objetos que foram trabalhados realmente dependem. em cada momento.

Anunciamos. vigiar a maneira como a sociedade institucionaliza sua atividade. se relacionamos os campos e os tipos de intervenção-consulta que distinguimos (decisória. Entretanto. para mim. demonstrativa) ou ainda se examinamos essa classificação em função das origens técnicas. de maneira mais ou menos difusa. em função do campo social em que aparecem. o reconhecimento de uma posição suficientemente independente para estar em condições de contribuir concretamente para explorar. por mais importante que ela seja para as pessoas envolvidas. a criação de “conselheiros segurança”) é o único meio.. malgrado sua fragilidade no tempo. se a inovação local exprime e reúne novidades aspiradas. sem subterfúgios. o comércio. os espaços urbanos. pode-se observar que. exemplos que tomam emprestados elementos técnicos a cada uma das três origens que distinguimos nesse texto. adquirir um sentido menos restrito. assim. um ponto que vamos agora abordar rapidamente: o de saber em que medida as práticas de intervenção se diferenciam. tal resultado não se reduz a uma estatística de acidentes. os setores de saúde. por certos setores da sociedade. isso tem pouca importância diante de um novo chefe determinado a orientar seus esforços em uma direção inteiramente diferente. na literatura especializada. 259 . A inserção na universidade. podem-se encontrar. o aperfeiçoamento permanente que pode garantir um nível de competência aceitável. as que asseguram a qualidade da formação inicial dos práticos. a invenção de instituições locais (por exemplo. tais acontecimentos podem inspirar outros e. Porém. social e educativo ou os campos de estudo como o meio rural. analítica. analisar e experimentar as vias de democratização etc. assim como a manutenção de uma vida associativa que não seja só de função corporativista são. o mesmo se passa. seria natural levantar tal hipótese. lutar por estabelecer e manter as condições de possibilidade de seu papel (por exemplo. é da responsabilidade dos psicossociólogos que optam por uma estratégia de “forçar entrada” afirmar. de tentarem inscrever seu esforço na história da unidade. Por outro lado. a administração. sua identidade social e a natureza de seu projeto. Enquanto atores sociais. no começo desse artigo. Se nos restringirmos ao caso da perspectiva “colaboradora” – que corresponde ao que denominamos intervenção-consulta – e se entendermos por campos os domínios de atividade como a indústria. para os atores. a colaboração ativa com os laboratórios de pesquisa. os movimentos sociais ou culturais etc. diante de cada um dos campos que acabamos de enumerar.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais do espaço social considerado. e se surgem conjunturas favoráveis.). importantes sob esse ponto de vista.

-C. sua própria experiência no campo da saúde. 7-28. posição central ou periférica etc. ainda. autoridade. não chegaria a evidenciar as diferenças significativas de acordo com os campos. . não coincidiriam. o espaço urbano). de colaboração profissional. pode-se aplicá-la a outros campos. . Porém. evocando.o lugar dos agentes que instituem o projeto no sistema em questão (status social.).as opções epistemológicas e as perspectivas ideológicas dos pesquisadores e de seus parceiros (suas relações com os modelos dominantes em sua região e em sua subcultura). voluntária ou militante etc. Os critérios que me parecem mais eficazes para evidenciar as especificidades seriam antes: . os resultados quantitativos estabelecidos por C. 2 260 . nesse número. “Sur les sources techniques de l’intervention psychosociologique et quelques questions actuelles”.). a variância devida às condutas pessoais do consultor e de seus parceiros.o caráter do lugar: espaço intra-organizacional ou trans-organizacional. lidando com uma amostra bastante numerosa de casos. se tentamos elaborar uma taxionomia das práticas de pesquisa-ação no interior de um determinado setor (no caso. a partir de um corpus de uma centena de intervenções no campo social (1986) e. 1987-l. . 49. com o que se observaria em outros lugares.a natureza dos objetos (as categorias de fenômenos) a respeito dos quais tenta-se produzir uma certa forma de conhecimento e obter mudanças. por Marília Novais da Mata Machado. Notas 1 Traduzido de DUBOST. Não quero ir tão longe a ponto de dizer que uma análise comparativa. de dependência hierárquica. Jean.T.a relação pesquisador-ator (relação mercantilista. o grau de nossa capacidade de indentificá-los. DO – Desenvolvimento Organizacional (N.Psicossociologia – Análise social e intervenção Já observamos que. p. pensamos que a raridade relativa do fenômeno deixa-o ainda fragilmente institucionalizado e que isso favorece. sem operar modificações importantes e sem que ela perca sua pertinência. as conclusões às quais J. a estruturação dos papéis recíprocos. Connexions. conceitualizá-los e a maneira como os apreendemos teoricamente. Por exemplo. a divisão do trabalho. necessariamente. MARTIN em uma pesquisa recente. .). poder. até um determinado ponto. ROUCHY chegou.

Les recherches-actions sociales. Paris: Payot. “Une intervention psychosociologique”. Interdisciplinarité et idéologies.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Bibliografia DUBOST. G. Théories et pratiques de l’éducation permanente. Paris: LFEEP. 3. L’intervention psychosociologique. Connexions. In: L’intervention institutionnelle. G.-C. J. La Documentation française. 1981. LE BOTERF. J. C. MARTIN. PALMADE. 1977. 1987. 1980. Paris: PUF. Paris: Anthropos. L’enquête participation en question. ROUCHY. 261 . 1972. LÉVY. 1986. A.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 262 .

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autenticaeditora.com. fax.br ou ligue gratuitamente para 0800-2831322 .br Visite a loja da Autêntica na Internet: www. telefone ou pela Internet a: Autêntica Editora Rua Januária.com.Qualquer livro da Autêntica Editora não encontrado nas livrarias pode ser pedido por carta. 437 – Bairro Floresta Belo Horizonte-MG – CEP: 31110-060 PABX: (0-XX-31) 3423 3022 e-mail: autentica@autenticaeditora.

finalmente.“Quais são os problemas realmente essenciais. o recrudescimento do ‘narcisismo das pequenas diferenças’ que acarreta as disputas inevitáveis entre as nações. o triunfo da racionalidade experimental. na atualidade? Aos olhos do psicossociólogo. ISBN 978-85-7526-022-7 9 788 575 26 022 7 www. os mais importantes entre eles parecem ser o crescimento do individualismo. a busca desenfreada pelo êxito econômico e financeiro e. grupos religiosos etc. É certo que a Psicossociologia não tem poder para tratar dessas questões no âmbito da sociedade global.autenticaeditora.br 0800 2831322 . mas ela pode auxiliar os atores e os autores sociais ou os sujeitos que querem inovar e criar novas modalidades sociais”. etnias. os ‘intemináveis adolescentes’.com.

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