I FÓRUM INTERNACIONAL DE

;

DIDÁTICA MUSICAL

FAMES, Faculdade de Música do Espírito Santo Vitória, 7 a 12 de Agosto de 2006

Apostila do Curso de Harmonia Funcional Palestrante: Professor Turi Collura

Parte I

Enquanto a primeira é uma definição geral. então. em nossos dias. Para isso. e não as de dois. nas proporções numéricas da tradição pitagórico-platoniana>>3 . O tratado de harmonia referencial dessa época é o do italiano Gioseffo Zarlino. À base de sua teoria. A explicação e o fundamento da harmonia foram buscados. Em um artigo de 1969. entender quais são os pressupostos à teoria. No século XVI se estabelece definitivamente a harmonia composta por terças sobrepostas. uma discussão sobre esse tema.<< Com o termo harmonia. É importante ressaltar que o conceito de Harmonia foi algo mutável no decorrer das épocas. . Na Idade Média. fundamentada em um fenômeno físicoacústico (a divisão aritmética da corda do instrumento chamado monocordo) propicia um modelo metafísico de representação racional do universo. definindo os critérios sintáticos que regulam os encontros simultâneos do discurso “musicalmente significante”.HARMONIA FUNCIONAL: UMA DEFINIÇÃO O termo Harmonia Funcional tem apresentado uma utilização variada. para fazer parte da prática musical. Se faz necessária. a ciência harmônica.<< A Harmonia é o resultado da combinação simultânea de sons diferentes>>1 . A partir desse período. porém. O objetivo é o de definir o campo. para melhor entender o termo. a meu ver. << Gaffurio admite como harmonias somente as consonâncias de três sons. Algumas definições: . rigorosamente matemática. o conceito de harmonia foi aplicado. graças ao trabalho de teóricos como Tinctoris e Gaffurio. 1 . de 1558. uma antecipação do conceito de harmonia “em sentido moderno”>> 4. a segunda já introduz o termo função. o teórico e musicólogo alemão Carl Dahlhaus escreveu: << “Harmonia” significa combinação entre diferentes ou entre contrários. se indica a área da teoria musical que estuda o encadeamento dos acordes e suas função dentro da tonalidade>>2 . tratando das consonâncias e dissonâncias entre os intervalos melódicos. de consonância perfeita e imperfeita. está a definição dos modos maior e menor. HARMONIA 1. apresentarei aqui uma panorâmica sobre as palavras: Harmonia e Função. Na tradição pitagórica. Sem dúvida. Essa limitação não significa. Institutioni Harmoniche. Somente no final do século XV. aos aglomerados verticais. A. essa é uma definição recente e mais “técnica”. a harmonia pára de se relacionar às esferas do universo. o conceito de harmonia era aplicado à melodia. até o século XVII.

sobrepostos ao baixo. definida pela sucessão dos acordes de “dominante”. indicando assim a existência de uma teoria de encadeamento de acordes. acordes compostos por uma tríade mais uma sexta adjunta (sixte ajoutée) constituem os acordes de “sousdominante”. Aqui. é uma sucessão de acordes que seguem as leis da modulação”. 2 . O conceito de baixo contínuo indica três aspectos: a) uma técnica compositiva. baixo numerado (ou cifrado. portanto. de 1722. de “subdominante” e de “tônica”. composta pela somatória dos acordes que participam de sua constituição. não se trata de uma verdadeira “teoria da harmonia”. já que não considera a sucessão e o encadeamento entre os acordes. Só que para Rameau. b) uma praxe executiva. Essa “teoria” indica. Na verdade. formam o acorde. 2. somente o aspecto quantitativo. que era a notação do baixo contínuo feita colocando números e alterações que indicavam a formação do acorde a ser realizado). o ponto de partida é a nota mais grave. e a sexta maior para obter as subdominantes>>5 . a esse se acrescenta a sétima para obter as dominantes. A “teoria” não explica o significado de cada nota em relação a um acorde. Rousseau escreve que “Harmonia. aprender as estruturas compositivas para a própria atividade criativa. 3. mas sim a uma tipologia de acorde. Testemunho disso é o nome dos tratados alemães. para um estudante da época de Bach. Do século XVIII até os nossos dias. <<Somente a tônica leva a um acorde perfeito. A revolução O fundador da moderna ciência da harmonia é o francês Jean-Philippe Rameau. Nesse último caso.Já no século XVIII. na verdade. e não explica nada sobre o acorde considerado como tal. ou natural. há o aspecto da didática. assim chamado. c) uma teoria. junto ao termo harmonia. ele introduz a idéia de uma Tonart. estudar a harmonia e. a estrutura intervalar do acorde em relação ao som do baixo. A Primeira teorização da harmonia A primeira tentativa de teorização da harmonia se refere ao. Podemos traduzir o conceito de Tonart como Tonalidade. segundo os modernos. No seu Traité de l’harmonie réduite à sés príncipes naturels. “estudar o baixo contínuo” significa. Parigi 1767). por exemplo: Harmonielehre = Teoria da Harmonia. (Rousseau. e a numeração serve para indicar os intervalos que. A idéia de Rameau é que os acordes de sétima (por exemplo ré-fá-lá-dó) constituem acordes de “dominante”. Subdominante e Dominante não estão vinculados ao IV e V graus dos acordes da escala. Dictionnaire de musique.

o fato dele contribuir grandemente para que se fixasse a idéia que um acorde e suas inversões contêm a mesma fundamental. Mas será necessário chegar à época clássica para que se tenha uma univocidade de interpretação e de utilização desse acorde –a de acorde invertido. Bach começou a utilizar o acorde de terça e sexta como inversão do acorde. O seu sistema teórico é caracterizado pela motivação de progressões de acordes através das dissonâncias. A teoria de Rameau oferece muitas outras considerações interessantes. A Teoria dos Graus Ao alemão G. Ele foi o primeiro que ligou o Baixo Fundamental com a sobreposição de terças das tríades e tétrades sobre cada grau das escalas maiores e menores. dominante e subdominante significa. Versuch einer geordneten Theorie der Tonsetzkunst. Weber se deve o tratado de composição referencial do período romântico. 4. E a tese que uma Tonart seja composta através de tonica. ou função tonal. ou seja “Baixo Fundamental”. de 1817. para s e constituírem em uma progressão. o “accord parfait” da “note tonique>>”6. devem formar um encadeamento de dis sonâncias que termina em uma consonância. e não simplesmente uma combinação de intervalos resultante do encontro das linhas melódicas. formas acordais. 2) a “Teoria Funcionalista” de Hugo Riemann. por exemplo. em maiúsculo para as tríades maiores e em minúsculo para as tríades menores. uma “entidade dada”. como. então. tanto a sixte ajoutée quanto a sétima (que adicionada a uma tríade. Antigamente. Os graus foram indicados com os algarismos romanos. Uma indicação particular indicava a tríade diminuta. que constituem as teorias que tratam de Função harmônica. tem uma sua função dentro de um determinado contexto. Para Rameau. no sistema de Rameau. por si mesmo. Da teoria de Rameau nascem duas linhas diferentes. no sentido moderno: 1) a “Teoria dos Graus”. A grande revolução desse período foi a idéia que um acorde constitui. O acorde como “entidade”. o acorde de terça e sexta era considerado um acorde composto por três notas independente da primeira inversão. com um baixo diferente da sua fundamental. com o qual indica o “baixo real” de um acorde invertido. que os acordes. não graus ou funções. Dó I ré ii mi iii FÁ IV SOL V lá vi si °vii 3 . Rameau coloca o conceito de “Basse Fondamentale”. para Rameau.Dahlhaus explica que: <<Dominante e subdominante são. compõe uma tétrade) são dissonâncias.

[. constitui o paradigma para a completa realização da tonalidade. Esse é reconduzido aos sons fundamentais. ele parece ser um salto muito mais forte do movimento IV-VII ou VII-III. assim como ainda menos o III-VI [. 4 . Será necessário esperar a Teoria Funcional para que se coloquem como tríades principais somente a maior e a menor. A Teoria dos Graus atribui a maior importância à escala. O peso.. As cifras dos graus são confrontáveis com os números algébricos.]>>7 etc. A progressão de quintas [I-IV-VII-III-VI-II-V-I] que passa por todos os graus da escala. historicamente. que junta algarismos romanos e arábicos. menores.] O salto V-I é maximamente decisivo. Outro problema apresentado pela Teoria dos Graus é que ela não faz distinção entre a “importância” das tríades maiores. até chegar ao salto IV-VII. em cima da qual está fundamentada a tonalidade. constituindo um salto (ou cadência) forte. A Teoria dos Graus põe a atenção nos graus da escala e apresenta duas vantagens.. Foi uma idéia de E. em comparação à Teoria do Baixo Contínuo: 1) A descrição harmônica é independente do movimento do baixo. diminutas.. medida por quintas. foi a adotada por Schöenber e Schenker. de 1853. Richter a de combinar a numeração romana da Teoria dos Graus com os algarismos arábicos do Baixo Contínuo. 2) A descrição harmônica é sempre válida sem que se precise notar um determinado som no baixo. Simon Sechter escreve o Die Grundsätze Der Musikalischen Komposition. que nunca acolheram a terminologia Funcionalista proposta por Hugo Riemann. a “importância” de um salto fundamental e dos graus que ele liga. cujas fundamentais estão ligadas por quintas descendentes: I-IV-VII-III-VI-II-V-I <<O quanto mais próximo à Tônica conclusiva acontece um salto na progressão.F.. A grande contribuição de Sechter foi a de ter traçado um “modelo ideal” de progressão harmônica. muito presente na literatura. foi a de que o movimento IV-I sempre foi. mais ele será decisivo. A simbologia de Richter.. em 1853-54. em seu Lehrbuch der Harmonie. dependeria da sua vizinhança com a tônica. que é o mais fraco de todos. o II-V um pouco menos.A distinção entre maiúsculo e minúsculo foi sucessivamente esquecida. o VI-II menos ainda. passando a se indicar tudo com maiúsculo. Dentro da linha da Teoria dos Graus. A crítica principal que foi movida à Teoria dos Graus organizada por Sechter.

Primeiro e mais importante axioma dessa teoria é o da existência de três únicas categorias de acordes (T-S-D). Brien Hyer. recorrendo à idéia da existência dos harmônicos inferiores. Sol-Si-Re = Do-Re-Mi-Fa-Sol-La-Si]. veja a tradução do artigo de Ernst Kunst. localizando o grau de um acorde dentro dela e estabelecendo. sua primeira finalidade é a de construir um sistema capaz de entender e codificar a linguagem harmônica sempre mais complexa que. por Riemann. na visão de Riemann. Esse último é explicado. o Harmonielehre (Manual de Harmonia) de Diehter De La Motte de 1976. 6. Conseqüências da evolução da linguagem a partir da metade do século XIX A Teoria dos Graus. representada por autores como David Lewin. assim. Mooney. passa a ser substituída pelo conceito de Tonalität. A partir dos anos 80 se assiste a uma retomada da corrente riemanniana. Schenker não seguem a simbologia riemanniana. a antiga Tonart. Inovadora é. essa acha novos seguidores até os nossos dias. a equivalência e especularidade dos modos maior e menor. que se estende a todos os acordes diretamente reconduziveis às três harmonias principais (para ter uma idéia de como a teoria funcional consegue dar símbolos a todos os acordes. Assim. se acham em dificuldade diante da linguagem musical da metade do século XIX. Kropp. M. Todos os acordes de uma composição podem ser reconduzidos a uma das três funções. a estrutura desse acorde. Nessa época o aumentar das implicações cromáticas e o progressivo enfraquecimento do sentido tonal implicam na busca de novas teorizações. a partir da época clássica. veio se desenvolvendo. não recusando ele o uso de outros instrumentos nas circunstâncias em que se fazem necessários. Por exemplo. Os acordes e suas relações são dados. agora denominada neo-riemanniana. Richard Cohn. as escalas resultam derivadas por eles. também.5. Fa-La-Do. 5 . mais a frente). é importante ressaltar que a utilização da simbologia riemanniana é usada por De la Motte no seu manual somente a partir da época de Bach e até a Ópera. Todavia. A teoria funcional tenta reconduzir a análise harmônica a uma só tonalidade. A Teoria Funcional A Teoria Funcional surge com Riemann em 1887. D. A teoria funcional se propõe a explicar todos os acordes através de afinidades de quintas e de terças. sucessivamente. Pelas notas dos três acordes é possível deduzir a escala [Do-Mi-Sol.. assim como a Teoria Funcional de Riemann. Se Schoenberg e.

tem escrito a respeito da Função Tonal em Schoenberg. ou pode significar a tendência de um acorde em se dirigir a outro11. Por exemplo. D >>14. que tenta reduzir as funções de todos os acordes de uma determinada tonalidade a apenas três principais: T. Algumas vezes estas são consideradas contraditórias mas na realidade são complementares13. Geralmente. são identificadas duas teorias distintas na sua concepção e que se ocupam da questão da função tonal. tendo as fundamentais dos acordes assinaladas com algarismos romanos relacionando-os desta maneira com a tônica. 6 . Envolve sim uma rede de relacionamento bastante complexo entre notas. servindo como a fundamental de uma gama variada de acordes10. FUNÇÃO TONAL Vejamos. Norton Dudueque. que diz respeito a redução de acordes a sua posição fundamental. adquirindo deste modo sua função tonal. dois termos que têm apresentado um uso variado. Notas individuais atuam como elemento melódico capaz de expressar uma tonalidade. função significa sentido harmônico ou ação9. <<Função tonal para Schoenberg envolve mais do que simples relações entre acordes. a "teoria funcional" de Hugo Riemann. A segunda. Seu uso tem sido vago a medida que foi ganhando uma maior freqüência. Os acordes por sua vez. Segundo ele. Ambos elementos.B. S. notas individuais e acordes. expressam sua função através da sua fundamental. o que é Função Tonal 8: <<O termo "função tonal". acordes e regiões. sentido harmônico ou função tonal. A questão principal é resumida na identificação destes elementos que expressam uma determinada tonalidade. está longe de ser definido de forma clara e definitiva. Basicamente. pesquisador sobre a teoria schoenberguiana. pelas palavras de Norton Dudeque. O uso mais freqüente do termo função tem sido o de relacionar o sentido harmônico de um elemento capaz de expressar uma tonalidade a um centro tonal. ou ainda pode ser associado às tendências de notas individuais de um acorde12. pode significar o uso de um grau da escala e suas variações. normalmente associado com o sentido de "função harmônica". são incluídos na noção de região tonal que considera segmentos escalares para estabelecer a relação entre duas ou mais tonalidades15>>. A primeira refere-se a teoria tradicional. herdada de teóricos do século XVIII e XIX (por exemplo de Gottfried Weber e Georg Joseph Vogler).

SECHTER. DUDUEQUE. 1995. 171 e seg. Cf. 43-72. Artigo contido em La teoria Funzionale dell’Armonia. Bologna. 53. Simon. 6. “SCHOENBERG E A FUNÇÃO TONAL”. 51-53. 15. “Harmony”.1/Outubro de 1997.wikipedia. Sem nº de página. “Die Grundsätze der musikalischen Komposition”. 2ª edição. Cf. Maio. “Génération harmonique. Tradução nossa. pág. Music Theory Online. Milano.org/wiki/Armonia_%28musica%29 3. “Studies on the Origin of Harmonic Tonality”. “Theorie der harmonischen Tonalität”. 1853. p. "O IV tem três funções. Clueb. 182 7.. Departamento de Artes da UFPR. 2. 103. Kassel. o IV é relacionado ao II. Ibidem. Carl. Revista Eletrônica de Musicologia. Ibidem.NOTAS 1. Cf. p. 1737. 8.(ou ele pode ir diretamente) ao V. J. apud “La teoria Funzionale dell’Armonia”. Leipzig. IV).Ph. 5. 13. DAHLHAUS. Cit. Stefan Kostka e Dorothy Payne. Barenreiter. Jahrunderts. ou Traité de musique théorique et pratique”. Vol. Clueb. 9. Volume 1. Tradução nossa.. 2. em Untersuchungen über die Entstehung der harmonischen Tonalität. Em alguns casos. Ibidem. 126 7. 7 . o IV vai em direção ao I_mais freqüentemente. pág 22. "On the Function of Function". 12. Cf. Esta distinção é bem resumida por Robert Wason em “Viennese Harmonic Theory from Albrechtsberger to Schenker and Schoenberg”. http://it. Citado em KOPP. sua função tonal". 1988. Cf.. vol. “La nuova enciclopédia della musica”.. Este conceito é utilizado por Daniel Harrison em “Harmonic Function in Chromatic Music: A Renewed Dualist Theory and Account of its Precedents”. Walter e DeVOTO. Carl. parte II. David. p.. Nota de rodapé nº 2. Cf. David. 11. 14. Op. "Cada grau da escala tem sua parte no esquema da tonalidade. 1968 (Studien zur Musikgeschichte dês 19. p. Mark. enciclpoedia libera. KOPP. 10. Norton. Cf. Paris. Wikipedia. Bologna. Grazanti. RAMEAU. p. DAHLHAUS.". PISTON. 5ª edição.. p. 4. Cf. nº 3. “Tonal Harmony”.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful