URL original: http://www.expresso.pt/guiaestudante/ge15.asp, consultado em Junho de 2002.

Manual de sobrevivência
Na corrida para a Universidade, os exames são o ponto alto de todas as angústias da vida de um estudante, o momento fatal em que se pode ganhar ou deitar tudo a perder. Os sonhos que se construíram para a vida futura, as imagens de si que se idealizaram, os planos traçados para o caminho a seguir, tudo isto parece jogar-se no momento decisivo do exame, donde se pode sair vencedor ou derrotado. Aos olhos do próprio, dos pais e da sociedade, onde se quer conquistar um lugar. Uma expectativa pesada face a este momento de combate vai crescendo, nos alunos, pelo menos a partir do 10º ano, com a pressão real das médias de entrada no Ensino Superior. O excesso de consciência sobre esta responsabilidade pode tornar-se uma verdadeira doença, gerando uma ansiedade descontrolada que transtorna a preparação para os exames, e pode prejudicar o desempenho na hora da avaliação. Todos os estudantes nesta fase se sentem em «stress» e é importante que percebam que, na medida certa, isso não só é natural como desejável. Este é um estado que um organismo saudável desenvolve, numa situação em que todas as suas energias se devem mobilizar. A ansiedade, se for bem doseada, torna um aluno mais eficaz, apurando a concentração e a rapidez de resposta. Batalhar contra a tensão só faz crescer a ansiedade, o que, a partir de certos níveis, transforma um potencial bom resultado num fracasso. Nas semanas que antecedem os exames é essencial dar o braço à ansiedade para pôr em marcha um método de estudo eficaz, que aproveite o tempo e as capacidades de aprendizagem. Aprender a estudar, criando condições favoráveis, estabelecendo objectivos, métod os e técnicas de estudo, é a melhor garantia para a boa assimilação da matéria. Durante o exame propriamente dito há também algumas técnicas que podem beneficiar o seu resultado, mas um aluno que se sente confiante do que sabe dificilmente se sairá mal da prova.

«Maldita ansiedade»
A ansiedade em excesso faz com que a pessoa vá adiando o início do estudo, com uma descontracção artificial e a ideia auto-enganadora de que «tenho de esperar pela vontade de começar» . Quase todos os estudantes, em maior ou menor grau, já terão experimentado este processo e o problema existe quando o evitamento do estudo persiste no tempo, contribuindo para um crescendo de tensões e angústias que leva a um círculo vicioso: ansiedade - adiamento - mais ansiedade - mais adiamento. Vários exemplos podem ser dados:

y Ir adiando o momento de se sentar à secretária, dando asas à normalvontade de fazer tudo menos estudar: ver televisão, fazer a listagem dos CDs, jogar no computador, ir ver um filme imperdível, dar apoio a um amigo em crise, acabar um namoro, apaixonar-se assolapadamente, etc. Pode andar-se neste sistema dia após dia, com a ansiedade sempre a aumentar na proporção inversa do tempo que falta para o exame. y

Sentar-se mas estar constantemente a interromper o estudo, sem chega r a concentrar-se. Levantar-se de dez em dez minutos para beber água, comer qualquer coisa, ir à casa de banho, sair para comprar revistas, tomar mais um café, etc. Pode acontecer neste caso o aluno não saber por onde começar, mudar de disciplina e entrar num ciclo de desorientação e perda de tempo, em vez

de começar por planear aquilo que tem que estudar.
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Dedicar-se obsessivamente aos planos, passar horas a fazer horários de estudo às cores, ou a alterar os planos já feitos. Ou passar muito tempo em arruma ções para criar condições de estudo. Pode-se, deste modo, chegar às vésperas do exames com lindos planos de estudo, ou condições ambientais ideais para assimilar a matéria. Mas sem tempo. Estar sentado em frente aos livros mas divagar compulsivamente, sem sair da mesma página, ou ir folheando sem atenção. O pensamento teima em desviar-se, para um problema qualquer da vida, de repente muito urgente. Pode fixar -se no tempo depois do exame, sonhando -se acordado com a grande vida futura que se terá terminado o curso, imagina-se o prazer que será dizer à mãe que se teve um 19. Pode-se inventar toda uma vida, não percebendo que se está a adiá -la. Sentir uma enorme lassidão e não «forçar a barra», fazer de conta que se estuda estendido no sofá a ver televisão, folhas espalhadas por todo o lado, a atenção dispersa, sem se concentrar nem, muito menos, compreender e memorizar a matéria. Ter um sono como nunca e não acordar de manhã, adiar o momento de enfrentar o dia, ou ir só dormir uma horita para depois acordar mais fresco e perder toda a tarde na cama. Achar que se está cansado e que se precisa de repousar para depois estudar melhor e não sair da fase do descanso.
y Não aguentar estar sozinho e sentir uma necessidade inadiável de procurar companhia.

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Quando isto acontece, as pessoas têm tendência, nos intervalos de «lucidez», para julgar que estão a ser preguiçosas. Sentem -se permissivas, «baldas», e vão aumentando os sentimentos de culpa. Como atrás da culpa vem o castigo, aumentam a severidade consigo próprios e rec riminam-se, num processo de auto-flagelação psicológica, com medidas que só tornam maior a ansiedade e, por conseguinte, maior o sono e todos os outros processos de fuga. Começam, por exemplo, a fazer planos de estudo cada vez mais exigentes, impossíveis de cumprir mesmo em condições normais, programando poucas horas de sono, fazendo logo directas para começar, ou estabelecendo ler 300 páginas por hora. Tomam cafés a mais para estimular, duches frios para acordar, passam a dormir de luz acesa, põem três despertadores para acordar. E estão a fazer exactamente o contrário do que deveriam: encontrar soluções para acalmar, uma vez que o problema é excitação a mais. A primeira atitude certa a adoptar será assumir a ansiedade comonatural e benéfica, começando o mais cedo possível a atacar a preparação para o exame, com metas realistas para que se cumpram desde o início. Assim, o aluno sentir -se-á satisfeito consigo próprio e entrará num bom círculo vicioso: trabalhar ficar confiante - trabalhar mais e melhor - ficar mais confiante. Seja como for, é preciso não esquecer que toda a gente já fez exames.Não se morre nem se enlouquece. O perigo é limitado.

Aprender a aprender
Se é verdade que «toda a gente» já fez exames, não tendo morridopor isso, não o é menos que todos os estudantes podem melhorar os resultados do seu trabalho. Vai tudo de uma questão de método, como já diziam os nossos avós. Eis algumas receitas para pôr em prática:

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Ter objectivos estabelecidos. Para se ser eficiente no estudo, éimportante ter objectivos claramente definidos, a curto, médio e longo prazo, que o aluno acredite poder atingir. Trata -se de construir imagens mentais do que se quer, motivando e orientando as acções. É ter uma finalidade, um sentido para a vida que enquadre aquilo que se faz, tendo em mente a célebre frase de Edison:«O génio é 1% de inspiração e 99% de transpiração» . Os objectivos a longo prazo (a carreira e a realização dos ideais e ambições) são essenciais no momento das escolhas de áreas escolares e dão temas de conversa muito estimulantes, mas, nesta fase pré-exame, é conveniente que não ocupem o pensamento. Os objectivos a médio prazo (a atingir num ano lectivo: uma determinada média, a entrada na Universidade, etc.) devem ser fixados na consciência logo no princípio do ano, para ir aferindo os resultados e o esforço para os conseguir. Mas também nesta fase do exame, já não se ganha nada em ocupar a cabeça com eles. Os objectivos a curto prazo são os que, neste período, se devem manter em mente. É o que se quer realizar hoje, amanhã e na próxima semana: concluir a matéria que se planeou estudar hoje; dedicar amanhã de manhã três horas ao estudo daquele assunto; ter terminada aquela disciplina até sexta-feira e passar para a outra, etc. Importa é decidir o que se quer fazer agora e trabalhar nesse sentido. O que interessa é concentrar se na tarefa presente. O futuro resolver-se-á por si.

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Criar condições de trabalho. Apesar dos gostos de cada um, há regras gerais sobre o ambiente de trabalho, benéficas à concentração, evitando factores de cansaço estranhos ao estudo, que devem, se possível, reunir se. * Ter um canto só seu, uma mesa e um assento firme. * Nunca estudar com luz fraca ou em locais pouco venti lados. * Evitar estudar em locais que possam ter grandes pólos de distracção. * Manter ordem no espaço em que se trabalha. Embora a necessidade de arrumação varie de pessoa para pessoa, é fundamental saber onde está o material para começar logo a trabalh ar. * Estudar em grupo pode ser a solução para quem não aguente estar muito tempo sozinho, mas é essencial ter-se antes um plano de estudo individual.

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Programar o estudo. Com um plano de estudo por matérias ganha -se em tempo e eficácia. É essencial, nestas ultimas semanas, saber sempre em quê e quando trabalhar. Deve-se, por isso, elaborar um horário de estudo regular e tê-lo à vista. Períodos de trabalho intenso separados por pequenas pausas (duas horas de estudo, seguidas de 15 minutos para descontrair) são mais eficientes do que longos períodos seguidos. Essas pausas são mais proveitosas se forem ocupadas com uma actividade de lazer agradável, em vez de o aluno se estende r num sofá a curtir o tédio. O horário pode ser ajustado à medida que se avança. Por exemplo, se uma pessoa tem dificuldade em concentrar -se no estudo por duas horas seguidas, pode começar por uma, e, desde que a cumpra, a capacidade de atenção dirigida aumenta e os períodos poderão ser alargados.

Para este trabalho intensivo são precisas boas condições físicas: dormir 8 horas; deitar -se e levantar-se mais ou menos à mesma hora; ter uma alimentação equilibrada e evitar o excesso de cafés. Algum exercício físico pode ajudar a descontrair durante as pausas, mas sem exageros. Quem sinta necessidade de exercícios mais vigorosos, para extravasar excessos de energia, deve executá-los num curto espaço de tempo. Reservar os últimos cinco minutos do dia para rever o plano para o dia seguinte é outro hábito a adquirir. Como o que custa mais é o arranque, é bom que no início de cada dia se saiba por onde começar.
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Técnicas de estudo. A leitura de uma dada matéria deve começar por uma abordagem geral, e só depois por unidades de pensamento. Um exemplo: Tem -se um capítulo de um livro para estudar. Em vez de se sentar e lê-lo simplesmente, faz-se primeiro uma análise geral (alguns minutos): lê-se o título, o primeiro parágrafo, os subtítulos e, numa leitura rápida, apreendem -se as ideias mais importantes. Fica-se assim com a ideia principal do capítulo e surgem, na cabeça, algumas perguntas por responder. Pode agora ler-se atentamente o texto e ir respondendo às questões levantadas, sublinhando -se os conhecimentos essenciais a extrair. Deve-se investir em compreender bem. Não é muito conveniente perder tempo a decorar coisas que não se percebem. Estes sublinhados são muito úteis para, mais tarde, se resumir a matéria em apontamentos. A organização de apontamentos pessoais é muito vantajosa para uma boa assimilação e memorização, porque quando se escreve tem de se seleccionar o significado essencial do que se está a ler. A escrita parece ser a melhor forma de inscrever o que se estuda na memória mais permanente. Na hora do exame o estudante lembra -se mais depressa destes apontamentos do que das leituras gerais e nas vésperas, os apontamentos podem ser usados para revisões, deixando -se os livros de lado, uma vez que para o fim se deve reduzir ao máximo a dispersão. Se se sentir a concentração a falhar, ou seja, a atenção a desviar-se do assunto, em momentos de menor interesse pela matéria, pode ser útil recordar -se os objectivos e tentar manter uma atitude positiva em vez de se ficar encalhado a pensar «detesto esta matéria». Sempre que se entrar em divagações, deve -se fazer «stop» a si próprio. Se for caso disso, pode -se pedir ajuda a alguém ou ir estudar com um colega que se interesse mais por aquele assunto. Ninguém deve é desesperar. Estranho seria se isto não se passasse nunca.

O exame
Já se percebeu que a grande fórmula para evitar ataques de pânico no dia do exame, é a pessoa sentir-se confiante daquilo que aprendeu, com antecedência, saúde e método. Os exames podem provocar «dores de barriga» a toda a gente, mas não aterrorizam quem se tenha preparado bem. Vamos, no entanto, aproximar a objectiva dessas horas de maior aflição e tentar prever o que pode ou deve acontecer.
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A Véspera Na véspera do exame, se o estudante se sente «a rebentar de nervos» , deverá recordar-se de que o organismo está a reagir saudavelmente para melhorar o desempenho durante a prova: os

«nervos» apuram a concentração e fazem escrever mais depressa. Deve aproveitar-se essa tensão para «queimar os últimos cartuchos» do estudo, embora de forma moderada, acordando cedo, para que à noite se tenha sono. Não se recomenda ir atrás de sugestões do tipo «hoje descansa, vai à praia» . São maus conselhos, porque a ansiedad e tenderá a crescer. A memória e, sobretudo, a confiança, pedem um último reforço. Alguma contenção no ritmo de trabalho, com boas pausas e não estudar até tarde, são regras desejáveis. Deve-se ser capaz de dizer que já chega, parar e arrumar as coisas de que se precisa para o dia seguinte, pôr despertador para uma hora razoável e... dormir bem.
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O Dia Do Exame Chega «o grande dia» . Não seria desejável começar por dar um salto da cama e bater logo com a cabeça, tropeçar na roupa e espalhar-se no meio de fotocópias e cadernos a voar, entornar o café com leite nas calças, queimar a mão com a torrada, levar uma palmada nas costas do pai que com os nervos sai forte demais, e dirigir-se para a rua sem abrir a porta, encavalitado no «skate» do irmão mais novo. Ao contrário, é de tentar tratar de si com calma e alguns mimos, sem atrapalhações de maior. Não convém também chegar cedo demais ao local de exame, porque estão lá sempre colegas superexcitados a rever alto a matéria, gritando coisas que, preocupantemente, não correspondem ao que a pessoa estudou. Já à mesa do exame, pode acontecer entrar-se num estado desemi-transe, com a alma a escapar para a estratosfera, ou simplesmente começar a imaginar partidas da memória, antecipando a passagem no ecrã do cérebro de um filme da cor do papel que os olhos vêem à sua frente. É conveniente resistir-se à tentação de desatar a correr para a porta como se houvesse fogo, e não ceder à urgência de embarcar clandestinamente para África. Em vez disso o aluno deve, com vantagem, descer à terra, executando tarefas triviais como arrumar o material necessário para a prova e ir preenchendo o cabeçalho. Quando se enfrenta o enunciado, à primeira vista este pode parecerque está escrito em chinês. Não se deve acreditar nesta primeira impressão, uma vez que em Portugal é pouco provável que isso seja real. Respire-se fundo e inche-se o peito, pedindo ajuda ao corpo para se crer que se é bom e que se tem algo a dizer. Com a visão mais bem focada, comece-se por dar uma olhadela geral ao enunciado, antes de se ler com atenção, seleccionando as perguntas a que se quer responder. É prudente dividir o tempo pelas perguntas e manter o relógio sob vigilância porque, ao contrário do que possa parecer, o tempo não pára. Para começar o ataque, uma receita segura: escolher a pergunta que sesabe melhor. À medida que se vai respondendo, a tensão dissolve-se, a confiança cresce e ganha-se embalagem. Podem fazer-se rascunhos das respostas escrevendo todos os pontos quese quer referir, pela ordem que vem à cabeça, para não perder tempo. Planeia -se então a resposta, e cada um destes pontos pode dar um parágrafo, depois de uma primeira frase de resposta geral à questão. Se o tempo tiver corrido depressa demais e já faltar para redigir uma última pergunta é preferível enunciarem-se os tópicos estruturados do que dar uma resposta inacabada. Quand o, ao invés, se acaba cedo, o tempo de sobra serve para rever o que se escreveu e fazer clarificar a resposta com correcções ou acrescentos.

Com a prova deve entregar-se também toda a angústia que acompanhou a caminhada para o exame. O que está feito, está feito, não é bom entrar no massacre das recriminações. Fez -se com certeza o que se pôde, mais tarde pode-se aprender com algum erro cometido, mas agora é tempo de gozar o alívio. Porque a vida, e os exames, continuam. ANA CRISTINA MARTINS Psicóloga

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