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C.S.Lewis - Cristianismo Puro e Simples

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Começo este capítulo pedindo que vocês visualizem uma imagem: a de dois livros
sobre uma mesa, um em cima do outro. E óbvio que o livro que está em baixo eleva e
sustenta o que está em cima. E por causa do livro de baixo que o de cima fica, digamos,
uns cinco centímetros acima da superfície da mesa, e não encostado nela. Vamos
chamar o livro de baixo de A, e o de cima, de B. A posição de A é a causa da posição de
B, certo? Agora vamos imaginar — isto não poderia acontecer, é claro, mas servirá para
nós como ilustração —, vamos imaginar que os dois livros estejam em suas respectivas
posições desde toda a eternidade. Nesse caso, a posição de B seria causada desde
sempre pela de A. Mas, por outro lado, a posição de A não teria existido antes da posição
de B.

Em outras palavras, o efeito não teria ocorrido depois da causa. E claro que, em geral,
os efeitos sucedem-se às causas: primeiro você come a salada de pepinos e só depois
tem a indigestão. No entanto, isso não ocorre com todas as causas e efeitos. Você verá
num instante por que penso que isto é tão importante.
Algumas páginas atrás, eu disse que Deus é um Ser que contém três pessoas sem
deixar de ser um único Ser, da mesma forma que o cubo contém seis quadrados e não
deixa de ser um único corpo. Contudo, quando eu começar a explicar como essas
pessoas estão relacionadas entre si, terei de usar palavras que dão a impressão de que
uma delas existe antes das outras. A primeira pessoa é chamada de Pai, e a segunda, de
Filho. Dizemos que o primeiro gera, ou produz, o segundo; usamos a palavra gera, e não
faz, porque o que foi gerado é da mesma espécie do que o gerou. Assim, a palavra "Pai"
é a única apropriada. Infelizmente, porém, ela dá a entender que o Pai é anterior ao Fílho
— como um pai humano existe antes de seu filho. Mas isso não é verdade. Nesse caso,
não existe antes e depois. E por isso que considero importante deixar o mais claro
possível que uma coisa pode ser a fonte, a causa ou a origem de outra sem
necessariamente existir antes dela. O Filho existe porque o Pai existe, mas nunca houve
um tempo em que o Pai não houvesse ainda gerado o Filho.

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Talvez a melhor maneira de entender o assunto seja a seguinte: pedi agora há pouco
que vocês imaginassem dois livros, e provavelmente a maioria de vocês imaginou. Ou
seja, vocês produziram um ato de imaginação que resultou numa imagem mental. Salta à
vista que o ato de imaginação foi a causa, e a imagem mental, o efeito. Isso, porém, não
significa que você primeiro fez o esforço imaginativo e depois chegou à imagem. As duas
coisas aconteceram simultaneamente. Sua vontade retinha a imagem diante dos olhos
de sua mente. Não obstante, o ato de vontade e a imagem se manifestaram no
mesmíssimo momento e terminaram igualmente num mesmo momento. Se houvesse um
Ser que sempre tivesse existido e tivesse imaginado algo desde a eternidade, seu ato
teria produzido desde sempre uma imagem mental; mas a imagem seria tão eterna
quanto o ato.

Da mesma maneira, temos de conceber que o Filho, por assim dizer, desde sempre
fluí do Pai, como a luz flui da lâmpada, ou o calor do fogo, ou os pensamentos da mente.
Ele é a auto-expressão do Pai — o que o Pai tem a dizer. E nunca houve um tempo em
que o Pai ficou calado. Mas veja só o que aconteceu: todas essas imagens de luz e de
calor fazem com que o Pai e o Filho acabem se parecendo com duas coisas, e não com
duas pessoas. Assim, no fim das contas, a imagem de um Pai e de um Filho, que o Novo
Testamento nos dá, revela-se muito mais exata que qualquer outra pela qual tentarmos
substituí-la. E isso que sempre acontece quando nos afastamos das palavras da Bíblia.
Não há nada de errado em nos afastarmos delas por certo tempo para esclarecermos
uma questão específica. No entanto, sempre devemos voltar. Naturalmente, Deus sabe
descrever-se a si mesmo muito melhor do que nós poderíamos descrevê-lo. Sabe que a
relação entre Pai e Filho, aqui descrita, se parece muito mais com a da Primeira e da
Segunda Pessoa que qualquer outra que pudéssemos conceber. A coisa mais importante
a saber é que ela é uma relação de amor. O Pai se compraz no Filho; o Filho, cheio de
admiração, modela-se no Pai.
Antes de seguirmos adiante, perceba o quanto isso é importante do ponto de vista
prático. Pessoas de todos os tipos gostam de repetir a afirmação cristã de que "Deus é
amor". Elas não se dão conta de que essas palavras só podem significar alguma coisa se
Deus contiver pelo menos duas pessoas. O amor é algo que uma pessoa sente por outra.
Se Deus fosse uma única pessoa, não poderia ter sido amor antes da criação do mundo.
E claro que, em geral, o que essas pessoas querem dizer é algo bastante diferente: "O
amor é Deus." Querem dizer, na realidade, que nossos sentimentos amorosos, como quer
e onde quer que surjam, e quaisquer que sejam seus efeitos, devem ser tratados com
todo o respeito. Pode até ser, mas trata-se de algo bem diferente do que os cristãos
entendem pela afirmação "Deus é amor". Eles acreditam que a atividade vivida e
dinâmica do amor sempre esteve presente em Deus, desde toda a eternidade, e criou
todas as outras coisas.

Aliás, talvez seja essa a diferença fundamental entre o cristianismo e todas as outras
religiões: no cristianismo, Deus não é um ente estático - nem mesmo uma pessoa
estática -, mas uma atividade pulsante e dinâmica; é uma vida dotada de grande
complexidade interna. E quase — por favor, não me julguem irreverente - como uma
dança. A união entre o Pai e o Filho é algo tão vivo e concreto que ela mesma é também
uma pessoa. Sei que isso é quase inconcebível, mas tente compreender a questão sob
este ponto de vista: você sabe que, entre os seres humanos que se unem numa família,
num clube ou num sindicato, as pessoas falam do "espírito" dessas agremiações. Falam
desse "espírito" porque os membros individuais, quando estão juntos, desenvolvem
maneiras particulares de conversar e de se comportar que não desenvolveriam se não
estivessem juntos24

. E como se uma personalidade comunal ganhasse existência. E claro
que, nesse exemplo, não se trata de uma pessoa real: é apenas algo que se parece com
uma pessoa. Mas essa é somente uma das diferenças entre Deus e nós. Aquilo que nasce

24

Esse comportamento corporativo pode ser, evidentemente, melhor ou pior que o comportamento individual.

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da vida conjunta do Pai e do Filho é uma pessoa real; é, com efeito, a terceira das três
pessoas de Deus.

Essa Terceira Pessoa é chamada, em linguagem técnica, de Espírito Santo ou "Espírito
de Deus". Não se preocupe nem se surpreenda se acontecer de você achar essa pessoa
mais vaga e misteriosa que as outras duas. Penso que existe uma razão para que isso
aconteça. Na vida cristã, nós não costumamos olhar para ele. Ele está sempre agindo
através de nós, Se você imagina o Pai como algo que está "fora", à sua frente, e imagina
o Filho como alguém que está ao seu lado, ajudando-o a orar, tentando fazer de você
também um filho de Deus, então tem de conceber a terceira pessoa como algo dentro de
você, ou atrás de você. Talvez algumas pessoas achem mais fácil começar pela terceira
pessoa e fazer o caminho inverso. Deus é amor, e esse amor opera através dos homens
— especialmente através de toda a comunidade cristã. Mas esse espírito de amor é,
desde toda a eternidade, um amor que se dá entre o Pai e o Filho.
Bem, e qual a importância disso? É a coisa mais importante do mundo. A dança, o
enredo dramático ou a complexidade interna dessa vida tripessoal deve se desenrolar
dentro de cada um de nós. Vendo a questão do outro lado, cada um de nós tem de
penetrar nessa complexidade interna, assumir seu lugar nessa dança. Não existe outra
maneira de se alcançar e usufruir a felicidade para a qual fomos criados. Saiba você que
não só as coisas más, mas também as boas, são contraídas como uma espécie de
infecção. Se você quer se aquecer, tem de se aproximar do fogo; se quer se molhar, tem
de entrar debaixo d'água. Se quer a alegria, o poder, a paz e a vida eterna, tem de se
aproximar ou mesmo penetrar naquilo que as contém. Essas coisas não são prêmios que
Deus poderia, se quisesse, simplesmente conceder a qualquer pessoa. São uma grande
fonte de energia e de beleza que jorra a partir do próprio centro da realidade. Se você
estiver próximo da fonte, as rajadas de água o molharão; se se mantiver afastado,
continuará seco. Quando o homem está unido a Deus, como poderia não viver para
sempre? Quando está separado de Deus, o que pode fazer senão definhar e morrer?
Mas como pode ele se unir a Deus? Como podemos ser atraídos para dentro da vida

trinitária?

Lembre-se do que eu disse no Capítulo 2 sobre a geração e a criação. Nós não fomos
gerados por Deus, mas apenas criados: em nosso estado natural, não somos filhos de
Deus, mas apenas (por assim dizer) estátuas. Não possuímos zoé, a vida espiritual, mas
apenas bíos, a vida biológica, que em breve definhará e morrerá. A oferta que o
cristianismo faz se resume no seguinte: se deixarmos Deus agir, poderemos vir a
compartilhar da vida de Cristo. Então, partilharemos de uma vida que foi gerada, não
criada; uma vida que sempre existiu e sempre existirá. Cristo é o Filho de Deus. Se
participarmos desse tipo de vida, também seremos filhos de Deus. Amaremos o Pai
como o Filho o ama, e o Espírito Santo despertará em nós. Cristo veio a este mundo e se
fez homem a fim de disseminar nos outros homens o tipo de vida que ele possui - por
meio daquilo que chamo de "boa infecção". Todo cristão deve tornar-se um pequeno
Cristo. O propósito de se tornar cristão não é outro senão esse.

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