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Henfil, O ORFEU DAS do Chá, com a chuva fina.

Depois fui precedentes, a história surreal de um país
caminhando até escorrer bem devagar pela inteiro. Henfil. Mineiro nascido Henrique de
GERAIS grandeza da avenida Paulista. Mundo pequeno. Sousa Filho, na Vila n¼ 21 de Neves, região
por Neusa Pinheiro Cruzei um amigo, Ademir Assunção, jornalista, metropolitana de Belo Horizonte. Henrique,
poeta. Sugeriu algumas estratégias de mesmo nome do pai, também pai do Betinho.
sobrevivência. Escrever, por exemplo. Betinho, quase substância do sonho brasileiro, o
Neste mês, Entrevistar pessoas, ora. De cara, me passou o “sociólogo esquálido”, segundo o gordo Delfim
Henfil faria número do telefone de Henfil. “Henfil? Mas ele Netto; o primeiro santo ímpio brasileiro,
aniversário, mora no Rio...” “Não, não, chegou aqui há segundo alguns amigos. Aquele que mandou às
nasceu em 5 de poucas semanas, saúde precária, complicações favas o academicismo estéril com a sua Ação da
fevereiro de da hemofilia, tratamento no Hospital das Cidadania contra a Miséria e pela Vida,
1944. Morreria Clínicas etc.” mobilizando este bruta Brasil.
de Aids, como
dois de seus oito Eu jamais havia entrevistado alguém. E agora? Bom... Henfil. Como discar o número? Dizer
irmãos, Mário e Logo o Henfil... Não podia ser o telefone da não sei que lá? Certo, eu diria que na faculdade
o Betinho. Rita Lee? Ou quem sabe o do Itamar Assunção, a turma da pesada reproduzia, conforme o
Hemofílicos, lá na Penha. Já conhecia o “nêgo Dito”, desde assunto, algumas tiras da revista O Fradim, no
receberam na Londrina, era mais acessível... Era? Bom, e a nosso boletim, Bóia Fria. Depois, diria que, na
obrigatória Rita... loveLee Rita, como disse a Ná. Mas época, revirava a imprensa alternativa em busca
transfusão a que se submetiam sangue Henfil, Henfil era um mago desequilibrista. Na das charges, das histórias da Graúna, a pássara
contaminado. Um quase homicídio de cada década de 70, num Brasil repressivo, magrinha e pretinha, síntese magistral de todas
um. Henfil morreu aos 43 anos, em 1988. desbancava consciências com seus cartuns – as mulheres, de todos os tempos. Amava a
Esta entrevista foi feita em 1983 por Neusa tanto o aspirante a uns poucos dias de Graúna, ela me humanizava, eu me sentia
Pinheiro e ficou guardada até agora com a clandestinidade, com planos cinematográficos menos culpada de existir. E ria. Mas também
intelectual e socióloga paranaense. Uma de fuga, como o mais atuante e engajado dos chorava junto. Contaria ainda sobre as cartas
entrevista confessional, instigante e,muitas democratas. Tanto os normais como os que ele escrevia de Nova York pra mãe, dona
vezes, arrepiante. patogênicos, enfim... nem o torturador mais Maria da Conceição, cartas publicadas pela
cruel (se lesse, às escondidas, uma tira que imprensa daqui. Me ensinaram muito sobre o
Ano: 1983. Sertaneja pé-vermelho, bicho do fosse, das sacadas “henfilianas”) seria o mesmo meu país, me aproximaram mais de minha
Paraná, resolvi me aventurar: Sampa, o centro no dia seguinte. própria mãe e de minhas filhas.
nervoso espasmódico desta América. Talvez A partir do Nordeste (zona de refinada alquimia,
quisesse me diluir, Acabei por não dizer nada disso. Aguardei
onde miséria sempre se transmuta em arte),
me dissolver um pouco. Saber mais sobre o alguns dias, noites de insônia. E, num repente,
Henfil criou personagens extraordinárias para
desamparo. Comecei chorando sobre o viaduto liguei. Ele, ele próprio atendeu. Não sei como,
retratar, com uma riqueza e um humor sem
nem sei de onde, fui incisiva, direta: meu nome Como aquelas igrejas sozinhas, perto de alguma para te ajudar, o lago da memória.” Com sua
é fulana, peguei seu telefone com beltrano e cidade interiorana. Caminhei pé ante pé, a uma brancura quase transparente, poderoso na voz e
quero entrevistá-lo com tal objetivo. Alguns distância mínima dele, talvez um palmo aquém, nas palavras, Henfil me lembrou o mito de
segundos de silêncio. Então, ouvi apenas: sentidos a mil. Henfil ia vagaroso pelo corredor; Orfeu, que, a bordo da “branca nave” (Argo),
“Quando?” “Amanhã... (eu mal respirava)... andava com dificuldade (um tigre/quando partiu em busca de uma consciência mais
pode ser amanhã às 9?” “Tudo bem”, ele disse. caminha pelas pedras/vai/como pisando pétalas elevada e ampliada, passando por duras provas.
Anotei o endereço, consultei o guia. Era – o poema saiu de algum lugar dentro de mim, Com seus companheiros (heróis e filhos de
próximo ao HC. bem ali). Entramos num compartimento claro, heróis, semideuses – que, numa rápida
sol batendo na janela. “Com licença.” (A voz transposição, bem poderiam encarnar a nós
dele soou como minidecreto lapidar e, num próprios, esses argonautas, personagens da arte
gesto simultâneo, quase imperceptível, retirou de Henfil), Orfeu foi à procura do Velocino de
do meu rosto os óculos escuros. Até aquele Ouro, a essência da alma. Mas esta é uma longa
momento, sem me dar conta, eu me escondia.) história.
Imóvel, fixou o olhar no meu, um olhar
percussor, operação atômica ligando fios, Henfil, um alquimista. No seu trabalho, o
compondo algum novo sistema de mágico e o fantástico eram aliados do real,
reconhecimento. Claro, não se pode penetrar na revelações desse sentido plural da alma
natureza do outro sem que a nossa própria se dê brasileira, que carnavaliza as próprias penas,
a conhecer. Teoria quântica, visão mística, que paga a peso de plumas o chumbo que leva.
intuitiva... não importa. A entrevista se perdia Cada movimento negado a si por conta da
como significante e entrava em cena uma outra hemofilia, ele o forjou e modulou em figuras
dimensão, um estado inusitado de sincronismo, resplandecentes e ilimitadas, figuras
a certeza de um encontro com jeito de completamente apaixonadas pela vida .
predestinação.
Eu não saberia concluir o que escrevo agora. Na
Ele se sentou com certo desconforto, inchaço, despedida, levei o Diário de um Cucaracha
dores fortes num dos joelhos. Mas o rosto era como presente. Na dedicatória, o desenho, em
sereno, desarmado, os olhos já antecipando caneta Bic, de uma barata imensa e abusada.
O amanhã seria no dia 26 de outubro de 1983.
revelações. Liguei o gravador. E teve início uma Voltei pra casa sem saber muito bem o que
Manhã limpa, ensolarada. Fui a pé, andando
estranha viagem. Henfil, o criador, o visionário, sentia. Sabia apenas que era uma vez. Uma só.
rápido, respirando forte (havia me instalado em
fez o retorno e veio trazendo a si mesmo. Desde E eu era outra coisa.
Pinheiros, na Capote Valente). Pronto. Havia
quando? Me veio um sentimento imperioso de
chegado. O dedo indicador mal tocou a
responsabilidade, como uma prova. “Atenção, e Ao me aproximar da minha rua, ouvi uma
campainha. Ele abriu a porta. Não me lembro do
toma antes o caminho da direita, no qual está, gargalhada endoidecida e fui me aproximando.
teor do cumprimento. Mas havia muito silêncio.
Era Teresa, uma negra imensa de voz trovejante Viver é uma tarefa urgente porque amanhã é uma tarefa pra profissional, equivalente à de
(cantava o tempo todo) que morava ali, numas uma coisa que não dá pra pensar, não dá pra qualquer pessoa que participe de uma batalha,
caixas de papelão. Teresa estava sentada sobre fazer planos, hoje é urgente, o amanhã é a na guerra; então, eu tinha que saber rastejar,
uma caixa de maçã ao lado de uma banca de morte, ontem, graças a Deus teve ontem! Claro tinha que parar de respirar, tinha que perder
revistas. Tinha nas mãos um velho Fradim e, que isso desenvolve um comportamento que nas meu cheiro às vezes para não me denunciar e
quando cheguei perto, vi. Era a Graúna. universidades eles chamam de psicologia: de sofrer represália e a morte. Tudo isso fazia parte
sensibilidade e de vigilância total. Andar é uma de uma criança; a sensibilidade vem daí. Se na
Como você chegou até aqui? É difícil ser tarefa para profissionais, o mesmo preparo que nossa sociedade a perda dos sentidos – audição,
Henfil? o Nelson Piquet tem pra pilotar eu tinha que ter olfato, visão – é uma coisa que “não prejudica”
pra andar, não podia falhar. A (todo mundo perde isso em função da
O por que fazer, o que fiz... como aconteceu... a convivência civilização), se a pessoa continua sua vida
palavra que vem é morte, é a palavra-chave; na também normalmente, adquire erudição, vive através dos
maioria das pessoas, a consciência da morte era livros, do cinema, da orientação de um líder, de
vem aos poucos. Tem a morte de alguém, evita- um pai/mãe, de uma religião, pra mim isso
se falar de morte; para crianças, tem os não bastava, eu tinha que ter o
simbolismos: “foi pro céu”, “vovô foi prum país controle manual nas minhas mãos e
muito distante”, a morte não é uma coisa não deixar nunca no piloto
presente para as crianças em geral, se bem que automático da orientação externa,
criança pobre tem essa consciência muito porque minha orientação era
rápido. Pra mim, apesar de não ter nascido na especial, logo, eu tinha que ter
favela, não ter nascido no Nordeste, a o meu próprio controle. Por
consciência da morte era muito precisa isso eu desenvolvi uma visão
porque todo mundo olhava aquela criança maior que o normal, uma visão de
que nascia e dizia: “Coitadinha, vai morrer, índio, um olfato de índio, uma audição
nossa, que sofrimento vem aí”. Quer dizer, de índio. Vamos exemplificar melhor:
mesmo que não entendesse, eu sentia a barra se você ouve um barulho atrás de
e a barra era: “Vai morrer por causa da você, você simplesmente vira o rosto e
hemofilia”. Naquela época, em 1944, ninguém olha pra constatar o que é. Eu pulo. Me
sabia direito o que era isso nem que o nome coloco primeiro fora do alcance daquele
era esse; era apenas uma criança que nascia barulho e depois olho. Um dia eu estava sentado
com uma deficiência no sangue, qualquer tipo na banheira, lá no Rio, fazendo a barba, quando
de machucado o sangue ia saindo até a pessoa senti o início de um chiado que prenunciava
morrer. O fruto disso foi que peguei uma uma explosão, pulei e atrás de mim explodiu o
consciência de morte, ou seja, de urgência. aquecedor, que não me atingiu. Outra vez, tô
dirigindo e tem uma lombada e, sem que eu pelos índios, quer dizer, eu tô mais ou menos conhecimento de como nós somos tratados
perceba, jogo o carro no acostamento e desse jeito. E aí, todo um trabalho, que no caso pelos Estados Unidos, pelas multinacionais, de
atravesso a lombada no acostamento, quando foi escrever, desenhar, fazer televisão, ele é como somos baratas, de como somos
chego em cima do acostamento vem vindo um muito é exato, é muito rápido, é muito sensitivo, cucarachas, de como eles não nos respeitam.
ônibus na contramão... Os meus sentidos são é como se eu tivesse me transformado num Então, hoje, qualquer brasileiro sabe o que é ser
mais desenvolvidos que o normal. Se você sai radar; inclusive acho que não existo como a cucaracha, mas isso foi uma vivência minha
comigo de carro vai levar um susto, tomo maioria das pessoas poderia dizer: “Eu sou isso, anos atrás, e o livro fica atualíssimo. Outro dia
determinadas atitudes bruscas no volante que aquilo etc. e tal” – eu não sei o que é que eu me escreveu um cara, um adolescente. Tinha
pra você são atitudes inexplicáveis, mas logo sou. Nesse exato momento, por exemplo, tô uns 15 anos, morava no Rio de Janeiro, logo,
depois você vê que alguém fez alguma coisa ali tranqüilo porque há exatos dois anos atrás senti era um adulto, e ele lia o Fradinho, adorava,
na frente que nem eu nem você vimos, mas o as emissões de conturbações até na área política achava muito engraçado mas não entendia nada,
corpo sente, que é a coisa de precisar dar o pulo internacional, fico detectando o que os Estados e guardava, e hoje, dez anos depois, ele resolve
antes. Observo as pessoas, interpreto as pessoas Unidos vão ou não fazer, se houve uma invasão ler e fala: meu Deus do Céu, tudo que falava lá
e procuro computar todos os dados rapidíssimo, ontem eu já sabia, já estava previsto pelas agora eu tô entendendo: o que está acontecendo,
para prever o comportamento delas, porque, se emissões que eu havia captado. E, se por um inclusive a mudança de atitude das oposições no
houver alguma coisa agressiva, eu já tô na acaso o general Newton Cruz se comporta dessa Brasil, as táticas diferentes mais abertas para
defesa há muito tempo, já tô fora do alcance do ou daquela maneira no estado de emergência em uma ação, vamos dizer, dialética ou mais
ataque. Então, essa é a infância, essa é a Brasília, eu já captava porque já sigo as contraditória, mais imprevisível, as oposições
adolescência e, quando você chega a adulto e emissões do general Cruz há muitos anos. Se hoje no Brasil não têm mais aquela
que, óbvio, não há tantas ameaças e você tem o vem uma onda boa, eu também já estou mais ou previsibilidade de antigamente e o Fradinho
conhecimento do teu lado e você vai trabalhar, menos preparado pra ela. Daí se explica por que propunha isso dez anos atrás. Foi como quando
isso tudo passa pro teu trabalho. Então, quando a maioria das coisas que eu faço está com dez bolei um filme em 1973 em Nova York, que se
vou desenhar, vou criar, a minha percepção das anos na frente, não na frente em termos de chamava Deu no New York Times e que contava
pessoas me parece mais disciplinada que a de vanguarda, não na frente do que aconteceu, mas o papel da imprensa na criação de fatos que não
qualquer outro artista. Quando vou escrever é a quase como profecia. Por exemplo, fui pros existiam mas que passavam a existir porque ela
mesma coisa, as palavras pra mim não são Estados Unidos entre 1973 e 1975. Senti uma publicou; e só hoje, dez anos depois, tenho
gratuitas, não consigo usar nenhuma palavra de série de coisas lá, todas em relação ao Brasil. condições de realizar esse filme porque os
forma gratuita. Estamos conversando aqui, eu Volto, dez anos depois sai Diário de um produtores estão vendo que o filme é
vou escolhendo. É como se eu estivesse lá na Cucaracha, um livro que está vendendo paca. atualíssimo. Essas campanhas que eles vão
frente puxando as palavras. Claro que isso vem Lista dos mais vendidos, primeiro lugar na lista criando sobre fatos que não existem, mobilizam
dessa deformação de alguém que foi treinado da Veja, mas acho interessantíssimo como as a opinião pública pra cantar determinada coisa
pra andar no meio da selva e de repente anda na pessoas só agora descobrem algo como o que que nem passava pela cabeça do povo cantar,
cidade e fica feito aquele vovô Fracolino, do está escrito no Diário que pra mim já tem dez mas aí a imprensa diz que é o que o povo está
Bolinha/Luluzinha, que está sempre cercado anos, já passou. Só hoje elas estão tomando cantando e o povo passa a cantar. Então acho
que qualquer outra explicação sobre por que saí televisão como se fosse informação de alta mundo, que, no caso, é uma coisa irreversível,
por onde saí e faço o que faço da maneira que precisão e importância, lêem jornal com não há nada que possa evitar isso que é o gerar
faço tem que passar por entender isto: a morte, o cuidado como se estivessem lendo documentos filhos. Ela é mais preparada numa série de
sentimento de urgência e a sensibilidade egípcios, decifrando pedras como Champolion, coisas. O filho do homem é a bomba atômica, é
ultradesenvolvida para se proteger da morte. e não percebem o ridículo das suas roupas, dos o plástico, quer dizer, ele tem que arrumar uma
seus hábitos, das suas casas, dos seus carros, outra forma. Tanto que Deus, que é homem,
Você se salvou fazendo o que sempre quis. E cargos. Eles me constrangem muito e me fazem arrumou barro pra brincar de fazer a Terra, os
as pessoas de que você fala, as pessoas da sua adoecer. Tenho muitos amigos que eu gosto seres humanos, deu o sopro, aquelas coisas...
geração, como estão? deles, eles gostam de mim, mas as nossas Nossa Senhora não precisou fazer nada disso.
relações estão cortadas por essa situação. Eles Simplesmente gerou Jesus Cristo, só isso e já
Olha, cada vez mais percebo que, na realidade, ameaçam a minha saúde, fico muito fez tudo. O fato de ter um filho torna a mulher
eu não estava fugindo da escola, não, eu estava constrangido. Se a Graúna, quando fica um ser adulto desde que nasceu, inclusive ela
fugindo da idade, talvez por isso tenha tomado constrangida, tem desarranjo intestinal, eu fico está pronta pra ter o filho, as meninas desde
tantas bombas, pra ficar junto dos que estavam doente também. Não com desarranjo intestinal, criança são especiais, você nota. Uma menina é
vindo ainda e não tinham feito nenhuma opção. mas me dá dores, eu fico com artrite! muito mais viva, muito mais rápida, muito mais
Eu me sentia muito bem com 17 anos, agressiva, muito mais inteligente do que um
convivendo com a turma de 11, 12 anos, não A Graúna é meio sacana às vezes. Mas a menino. Depois, como a disparidade é muita, o
lembro de me tratarem como mais velho, era gente se apaixona por ela... a Graúna tem que a sociedade faz através das mães, da
igualzinho. E hoje, por exemplo, não consigo alguma coisa a ver com o seu lado mulher? mulher? Ela paralisa o desenvolvimento da
conviver com os da minha idade, com os de 39 menina. Como? Desviando pra tarefas menores,
anos. Ou convivo com os de 70. Meu maior Não. Inclusive, outra coisa em que não como cozinhar, lavar, varrer chão, que é uma
diálogo no momento é com Teotônio Vilela, que embarquei foi esse negócio do lado mulher. coisa obrigatória pra qualquer menina, ou
está com sessenta e poucos anos, mas Descobri que realmente existem homem e desenvolver uma outra sensibilidade, mas fora
poderíamos dar duzentos, porque de cabeça ele mulher, duas coisas, completamente distintas. da convivência social, como balé, piano,
tem uns duzentos anos. Tem muitos amigos Os homens que se fazem mulheres, no caso dos violino, quer dizer, paralisam a menina. O
assim. Agora, só consigo conviver com a turma travestis, são bem diferentes delas, são como menino, por outro lado, é superativado porque
de 20, 22. Minhas relações acabam sendo fáceis homens vestidos de mulher, tomam a forma de em geral ele é muito bobo, é muito devagar, é
mesmo com a turma entre 16 e 20 anos. Então mulher mas são homens, não adianta, isso faz mais burrinho; ele não é agressivo, é chorão, é
tem um outro mistério nesse negócio: de novo parte de uma coisa que a natureza nos dá a superdevagar. Então, o que fazem? Esporte pra
tô eu na 3» série ginasial, apesar de o meu todos, mas com muita diferença. Por exemplo, que ele fique mais rápido porque, se deixar, o
grupo já estar na universidade! Eles, pra mim, esse comportamento infantil é típico do homem fica mais fraco do que a mulher. O
estão mortos, chego lá, nem entro na casa, já sei homem... é... a criancice é típica do homem. A homem não tem estrutura física nenhuma; só
como é a casa dele, a relação com a mulher, mulher nunca foi criança, nunca será criança. tem osso, mas é através do esporte que ele fica
com o filho, com a profissão... ficam vendo Ela vem preparada pra ser algo especial no mais forte, tanto que o intelectual, aquele que
não teve uma atividade física, é muito frágil, cumpre as suas funções, mas jamais deixará de mulher no mercado de trabalho produzindo
magrinho, aquela coisa desprotegida, qualquer ser menino... Ah, sim, a parte mulher, então esse riquezas etc., essas mulheres começam a deixar
mulher com um tapa derruba ele. Então, o homem se transforma, se embrutece, é morto de ser infantis, a deixar de ter sensibilidade e,
homem vai desenvolvendo, através do esporte, como ser humano e é capaz inclusive de virar apesar de estarem preparadas biologicamente
através do jogo, através do exército, um Fleury, vira um cara esquadrão da morte. pra ser mulheres, elas se transformam
agressividade que não tem. Ele é treinado tanto, Devido a esse treinamento, mataram o menino violentamente, elas se transformam em seres
que os primeiros dias no exército são um terror que ele vai ser até o fim... se deixassem, a gente que têm a mesma brutalidade dos chamados
pra qualquer homem, mas depois ele é teria um bando de homens meninos por aí e as homens. Por exemplo, Golda Meir em Israel fez
condicionado. À escola, só o homem ia, só o mulheres cuidando de tudo. Bem, quando você todas as guerras; Indira Ghandi fez todas as
homem tinha conhecimento, lia pra que, quando disse que existe a parte mulher, não é guerras e continua com o poder na Índia;
chegasse aos 30 anos, fosse igual a uma menina justamente essa coisa a parte menino, essa parte guerras, massacres incríveis em cima daquelas
de 15. Tanto que, antigamente, homens de 30 se que dizem feminina só existe naqueles meninos tribos. A mulher mais perigosa na política
casavam com mulher de 15, porque, se que não viraram homem, que não foram internacional, hoje, é a Margaret Thatcher na
casassem com mulher de 30, eles estavam transformados, torneados, exercitados para Inglaterra, que invadiu as Malvinas, que invade
esmagados. Quando eles chegavam nos 50 anos, serem homens, homens fortes, homens o que for, que tem uma política agressivíssima,
a mulher estava chegando nos 30, e eles soldados, homens músculos, homens atletas, está rearmando a Inglaterra internamente, leis
estavam iguais, o homem era capaz de perceber. homens massa. Só terão essa parte chamada de exceção etc. E temos no Brasil uma série de
É por isso que os casamentos davam mais certo, mulher ou chamada menino os homens que mulheres muito mais perigosas, em todas as
porque não havia tanta distância de inteligência escaparam do treinamento. E as mulheres áreas, do que os homens; e os homens, como
entre o homem e a mulher. No entanto, ainda permanecem nas suas funções normais, que é foram dispensados disso, tem muitos homens
assim a mulher efetivamente é mais adulta. O menina que vai ter criança e que, portanto, vai meninos aí. Então, o homem que está surgindo,
homem endurece o corpo à força dos exercícios continuar convivendo com os meninos e o novo homem, é muito mais frágil fisicamente
físicos, através de um comportamento que a meninas dentro dessa convivência de do que o homem de dez anos atrás, e temos aí
mãe influencia; se vê ele brincando de boneca, sensibilidade, de ter de perceber tudo pra saber uma série de mulheres fortes fazendo cooper,
de casinha, vai dizer “mariquinha” – a mãe é se vai chorar ou não vai chorar. O homem que musculação; a dança é praticamente um
que fala, o pai nem passa isso pela cabeça, o pai permanece menino, dizem que isso é a parte treinamento físico, talvez mais rigoroso que o
é o meninão que está no bar dando cuspe na feminina, não tem nada a ver, apenas eles se exército. São mulheres fortíssimas fisicamente e
parede, bebendo, se exibindo feito qualquer salvaram. Agora, os homens estão sendo vão virando aquilo que o povo na sua ignorância
criancinha. Todos os pais são meninos, vão pra dispensados gradativamente dessa tarefa de e sabedoria diz, a mulher está virando homem e
campo de futebol, ficam torcendo, gritando e, na lutar, porque as armas estão substituindo os é neste sentido: endurecimento,
hora do gol, carregam os jogadores... isso é o homens, o soldado não está com nada; hoje, o embrutecimento, rigidez, está tendo enfarte, vão
pai. Mas a mãe está ali vigilante, endurece o míssil substitui milhões de soldados, então não ficar carecas, está tendo todos os problemas que
jogo com o menino, então esse menino vira o precisa preparar o homem pra ser soldado, e o homem tinha quando passava por isso. E diz o
que eles chamam de homem, esse homem com a entrada, por fatores econômicos, da povo, na sua sabedoria, que os homens estão
virando mulher e, então, sim, aquilo que se existir no homem o lado feminino. a indústria farmacêutica fizesse o seguinte, e
chamava mulher, que é menina, a sensibilidade, faz: cria o remédio, depois cria a doença.
a brincadeira, você pega qualquer grupo de Henfil, como é que você imagina, hoje, o
rapazes, parecem meninos indefesos. Eu vou encontro entre um punk e um hippie da Até fiz um cartum que é assim: um cientista
fazer conferências e descubro que 99 por cento década de 60? chegando pro dono do laboratório, falando: “O
da platéia são mulheres; lançamento de livros, seu remédio foi aprovado, agora o nosso
mulheres; quem lê os livros, mulheres; quem Um encontro entre o shopping e o departamento de marketing está estudando a
está no comando médio das empresas hoje, MacDonald’s. Os dois são produtos fabricados, criação da doença”. É isso que a gente vê por aí.
mulheres; daqui a pouco elas estão no comando fabricações de laboratório. Não vejo o menor Meu filme Deu no New York Times é
total. E veja como esse negócio de lado conteúdo político, social ou econômico nesses exatamente sobre isso, como é que você cria
feminino é uma brincadeira dos meninos dois fenômenos. Eles só existiram porque são alguma coisa que não existe e as pessoas
cantores que inventaram isso pra serem mais inofensivos e portanto interessam, podem ser passam a se comportar a partir daquilo. No caso,
agradáveis à platéia musical, que é constituída veiculados pela imprensa, pela televisão... eu já vou criar uma notícia sobre um fato político,
de mulheres. São elas que compram discos, tenho algum tempo de vida pra ter assistido a uma nação inteira passa a adotar o que é dito.
então eles ficam paparicando as mulheres com fenômeno semelhante, como o ator James Dean, Você veja como de repente a Sony lança o
isso “ser menino e menina”, “o meu lado de Juventude Transviada – surge um walkman e todo mundo passa a usar o walkman.
feminino”, e vem o Gil, o Caetano, todas essas comportamento padrão para que determinados Bem, resolveram criar a discothèque. Bolaram
pessoas que são fisicamente frágeis são meninos tipos de pessoas possam se enquadrar. Você todo um plano, depois criaram alguns filmes.
brincalhões, daí as mulheres fortes musculadas veja que, de um lado, aqueles que se enquadram Aqui no Brasil juntaram alguns compositores,
ficam adorando e até incentivando isso, porque como punks usam roupas iguais às de seus pegaram As Frenéticas e criaram o Dance,
o homem vai ser desarmado. A mulher percebeu idealizadores americanos porque qual é o punk Dance sem Parar... veio a Rita Lee e entrou,
– a mulher especial chamada mãe – que aquele brasileiro, por exemplo? É o trombadinha. veio Gil e entrou, veio Caetano e entrou, todo
menino que era inofensivo e brincalhão e que Então, o produto estrangeiro veio, os caras mundo entrou, prepararam e todo mundo saiu
ela ajudou a transformar em soldado perigoso, adaptam. Agora, nós temos a grande massa que dançando, e pra isso precisava um tipo de
esse homem ameaçava a vida das mulheres, se identifica com um outro modelo que é o do sapato que era meio de saltinho alto, meia
então parece que elas resolveram desativar isso corredor que usa Adidas, esportista, aquelas colorida comprida, um tipo de saia, um tipo de
e só vamos ter homens frágeis, pianistas. Os coisas. Enfim, o que nós temos são fábricas, os bustiê, um tipo de coisa amarrada na cabeça,
homens ficam estudando estrelas e as mulheres criadores se sentam em volta de uma mesa, e a óculos multicoloridos; e os homens, a camiseta,
vão trabalhar, vão dominar o esquema partir do zero criam alguma coisa, fazem o com os braços de fora, um cintão, um botinão,
financeiro, econômico e vão à guerra, inclusive produto e as pessoas vão lá e se enquadram no uma calça superjusta e colorida, enfim, como o
porque vão estar mais preparadas fisicamente. produto, consomem o produto até que uma nova Travolta aparecia no filme. E aí todo mundo
Quer dizer, há uma questão aí, que falo em fábrica tenha no seu departamento de criação saiu consumindo isso. E muito dinheiro foi
termos caricaturais, mas isso que é muito uma nova idéia... as pessoas largam aquela e ganho pelos produtores dessa cultura dita
próximo do real e que não há condições de passam a adotar essa. É mais ou menos como se universal. Você pode, inclusive, comprar ações
dessa cultura, você vai na bolsa de valores e serve a tecnologia, pra aproximar do se distraem, não prestam atenção, se perdem e aí
pede: “Eu quero ações dessa nova cultura que primarismo que a gente está vivendo. Então não não fecundam! Eu quero fecundar alguma coisa,
vem aí”. Então eles falam: “A nova cultura é existe ano 2000, não adianta computador, se ele então tô com muita pressa e tô prestando muita
Rhodia”. Você compra ações da Rodhia e aí vai computar quantas pessoas, quantas crianças atenção porque a minha morte vai se dar no dia
você vê grandes nomes da música, da literatura morrem em mil de fome, de sede, quer dizer, em que eu fecundar alguma coisa.
e do cinema que passam a ser empregados dessa nós não temos água garantida pra todo mundo,
Sociedade Anônima Cultural. apesar de ter água. Então, isso de milênio é mais Você tem medo da morte?
uma promoção do departamento de marketing
Com tudo isso, fala-se em final dos tempos, da Sociedade Anônima Cultural, é uma farsa. Não. Eu tenho medo é de avião.
final de milênio... como é que você faria um Não entro nessa sociedade anônima, não
cartum sobre isso? compro ações do shopping center, não pertenço Obras do Henfil, além das histórias em
ao shopping center; as pessoas entram, eu saio. quadrinhos
Eu não aceito esse negócio de milênio. De Tem esse negócio chamado década, década de
repente, nós aqui, a partir do nascimento de 60, década de 70... que década o cacete! Não Teatro - A Revista do Henfil (em co-autoria
Cristo, comemorando o ano 2000 depois de existe isso. E eu não tenho 39 anos. Eu tenho com Oswaldo Mendes)
Cristo. Ora, ora, ora, os orientais estão milhões de anos, já tenho conhecimento mínimo Cinema - Tanga - Deu no New York Times
comemorando o ano 20000, os judeus suficiente hoje pra saber que sou fruto genético Televisão - TV Homem, do programa
comemoram não sei se o ano 4000, por aí. Os de uma ameba. Não sou filho de dona Maria da TV Mulher, na Rede Globo
índios comemoram o quê? Um milhão? As Conceição. Sou filho de uma ameba há trilhões Livros - Hiroshima, meu Humor (1976) Diário
pedras comemoram o quê? O ano 1 trilhão? As de anos. Não tenho 39 anos, tenho trilhões de de um Cucaracha (1983)
águas, que ano estão comemorando? Ora, ora, anos. Dez em Humor (coletiva, em 1984)
ora, diria o Teotônio Vilela quando fica irritado, Diretas Já (1984)
não há milênio coisa nenhuma! Como é que há E tem planos? Quais são seus planos? Henfil na China (1984)
milênio se neste exato momento nós temos um Planos? Tenho. Esticar a minha vida o máximo Fradim de Libertação (1984)
satélite, maravilha da tecnologia, girando em possível – e é possível – desde que eu viva Como se Faz Humor Político (1984)
torno da Terra, que possibilita as comunicações intensamente os meus segundos, então tenho Cartas da Mãe (1986)
por telefone a distância, o DDI, o DDD; pois urgência. Meu plano é: se vou morrer, não tenho
bem, vamos pegar um telefone desses, vamos tempo a perder. E, como sou herdeiro de uma
levar esse telefone, como já está sendo levado, simpática ameba há trilhões de anos, tenho que
como a maravilha da tecnologia, e vamos ao dar seguimento a isso rapidinho porque não
sertão do Piauí e colocamos na boca do quero ser como a gente vê no Fantástico,
sertanejo pra que ele dê testemunho dessa aqueles milhões de células, milhões de
maravilha, dessa tecnologia. O que é que ele vai espermatozóides querendo fecundar alguma
falar? Ele vai falar: “Socorro!” É pra isso que coisa; e uns vão parando no meio do caminho,