Pontifícia Universidade Católica de Campinas Argumentos pela cassação de Jair Bolsonaro

Para lembrar o golpe
EM 31/3/2011

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HTTP://WWW.OBSERVATORIODAIMPRENSA.COM.BR/ARTIGOS.ASP?COD=635JDB015; ACESSADO EM 04/04/2011

Luciano Martins Costa Não poderia haver manifestação mais representativa para marcar os 47 anos do golpe de 31 de março de 1964 do que a mais recente performance pública do deputadocapitão Jair Bolsonaro (PP-RJ). Ao dar ampla publicidade aos destemperos preconceituosos do parlamentar, a imprensa ajuda os mais jovens, que não viveram o período da ditadura, a entender a mentalidade que os militares tentaram impor à sociedade brasileira durante os vinte anos do regime. Jair Bolsonaro é um representante típico daquele período, embora, para seu desgosto, não tivesse idade para assumir postos de poder. Nascido em Campinas, em 1955, ele era criança quando ocorreu o golpe, mas teve sua formação militar durante o regime autoritário. Suas referências são, portanto, de ouvir falar e das ordens do dia que recebia no quartel. Liberdade desprezada Ele parece não ter aprendido mais nada de 1984 para cá, quando o Brasil iniciou seu processo de redemocratização. A oportunidade para mais uma de suas manifestações obscurantistas foi criada pelo programa CQC, transmitido na segunda-feira (28/3) pela Rede Bandeirantes. Respondendo perguntas gravadas pela cantora Preta Gil, ele deu vazão a seus preconceitos contra homossexuais e negros. Posteriormente, ameaçado de processo por quebra de decoro, acovardou-se e tentou se justificar, dizendo que se confundiu com uma pergunta, embora ainda mantendo o tom agressivo que o caracteriza. Ele escolheu um momento emblemático para tentar se explicar: o velório de outra personalidade pública, o ex-vice-presidente José Alencar Gomes da Silva. "Estou me lixando para gays", esbravejou o parlamentar. No noticiário de quinta-feira (31/3), não há como escapar à comparação entre sua personalidade e a de Alencar, que recebe justificadas homenagens através da imprensa. O episódio envolvendo Bolsonaro é um desses casos em que a liberdade de imprensa ajuda a entender o que são as demais liberdades. Ao exercer a liberdade de expressão que, como defensor das ditaduras, sempre desprezou, o deputado inspira um debate interessante sobre os limites da tolerância democrática. Terrorismo e covardia O capitão-deputado Jair Bolsonaro é personagem patético, cujas diatribes beiram o ridículo em ambientes menos obscuros. Sua presença na Comissão de Direitos Humanos da Câmara é uma dessas provocações. Como militar, ele pertence à estirpe do hoje coronel Wilson Luiz Chaves Machado, que em 1981 foi um dos conspiradores que tentaram armar um ato terrorista durante um
Professor mestre Artur Araujo (artur.araujo@puc-campinas.edu.br) site: http://docentes.puc-campinas.edu.br/clc/arturaraujo/ ftp: ftp://ftp-acd.puc-campinas.edu.br/pub/professores/clc/artur.araujo/ Página 1 de 3

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show de música no Riocentro, e que hoje se esconde da Justiça atrás de supostos interesses de Estado. Talvez a imprensa pudesse aproveitar a grotesca manifestação do parlamentar para lembrar aos brasileiros do que são capazes personagens como esses. Para ilustrar os mais jovens sobre o padrão de covardia que se mantinha no regime militar, basta lembrar que o então capitão Wilson Machado foi um dos agentes que tentaram explodir uma bomba durante um show comemorativo do 1º de maio, em 1981, no Rio de Janeiro. A bomba acabou explodindo no colo de seu companheiro de terrorismo, o sargento Guilherme Pereira do Rosário, o episódio vazou para a imprensa mas acabou abafado pelas pressões do governo militar e por conveniência de alguns grupos de comunicação. No dia em que se registra mais um aniversário do golpe militar que remeteu a sociedade brasileira para o passado, talvez fosse o caso de rememorar um dos episódios mais representativos da mentalidade que predominava em certos setores das Forças Armadas, dos quais Jair Bolsonaro é representante no Congresso Nacional.(...)

OAB-RJ entra com representação por quebra de decoro contra Bolsonaro
EM 30/3/2011

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O presidente da OAB do Rio de Janeiro, Wadih Damous, protocolou na Câmara representação por quebra de decoro parlamentar contra o deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), na tarde desta quarta-feira, 30. O pedido de processo é em razão das declarações de Bolsonaro ao programa CQC, exibido na segunda-feira, 28, no qual classificou como „promiscuidade‟ um filho seu se apaixonar por uma mulher negra. Na terça-feira, 29, questionado sobre a repercussão da entrevista, o deputado disse ter entendido errado a pergunta feita pela cantora Preta Gil. “Eu entendi que a pergunta era se meu filho tivesse um relacionamento com gay, por isso respondi daquela forma”, afirmou. No requerimento de sete folhas apresentado à Mesa Diretora da Câmara, a OAB-RJ considerou que as respostas violam leis e a Constituição Federal. “Além da esperada defesa de posições conservadoras por parte do representado (o que é legítimo direito seu), algumas de suas respostas extrapolaram a olhos vistos a liberdade de expressão”, afirma o texto. Para a OAB, as declarações têm teor homofóbico e racista, e as explicações dadas pelo deputado às respostas dadas ao programa não servem como justificativa “crível”. “Mesmo em se aceitando a tal escusa, o deputado, no mínimo, acabou confessando seu repúdio discriminatório contra os homossexuais.” Ao fim do texto, a OAB-RJ solicita a apuração da quebra de decoro e que a Câmara avalie a aplicação das sanções cabíveis. Pelo regimento, o deputado pode ser advertido ou até ter o mandato cassado. Nessa terça, o próprio deputado afirmou ter protocolado requerimento na Casa para se explicar sobre o episódio. Disse ainda que já foi processado pelo Conselho de Ética cerca de 20 vezes ao longo dos seus seis mandatos e foi absolvido em todas elas.
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O preconceito e sua voz
EM 1/4/2011

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Jair Bolsonaro (PP-RJ) vive em um eterno 1º de abril. Seu auto-engano é um estado mental. Sua “revolução” é permanente. Seu preconceito racial e homofobia, indeléveis. Mas ele não é o único. Eleito por seis mandatos consecutivos, Bolsonaro gasta pouco em suas campanhas eleitorais. Declarou menos de R$ 200 mil em despesas no ano passado, cerca de R$ 1,63 por eleitor. Renderam-lhe 120.646 votos. Sai barato porque o eleitorado é cativo. Grande parte das proposições de Bolsonaro na Câmara dizem respeito a militares, especialmente da reserva e seus pensionistas, além de policiais militares e bombeiros. É sua retribuição ao eleitor. O deputado não perde oportunidade de questionar ações contra a homofobia (como a distribuição de material condenando o preconceito em escolas públicas), e criticar regimes como o cubano. Não porque são ditatoriais, mas porque são de uma ditadura com ideologia diferente da sua. Também combate as tentativas de reparação aos crimes cometidos pela ditadura militar no Brasil. De olho no eleitorado que se impressiona com esse tipo de ação, Bolsonaro compra polêmicas, como quando propôs mudar o regimento da Câmara para fixar um crucifixo no plenário, logo atrás da mesa diretora, dentro do enquadramento das câmeras de TV. Bolsonaro parece às vezes transtornado, ao estilo Jânio Quadros, mas é um gesto calculado. Ele é fiel a seu público e coerente em suas ações. Por isso, se não for cassado, é bem capaz de aumentar sua votação em 2014 às custas de quem tem preconceito contra negros e homossexuais. O eleitorado de Bolsonaro é crescente. Ele teve 20 mil votos a mais em 2010 em comparação a 2006 (quando já tinha somado 11 mil novos eleitores em comparação a 2002). Seu patrimônio e ajuda financeira do partido também crescem. O PP, através do seu comitê financeiro único e do diretório nacional, foi o único mantenedor da campanha eleitoral de Bolsonaro no ano passado, além do próprio deputado. Em campanhas passadas, nenhuma empresa aparece nos registros de doadores. Apenas raras pessoas físicas, como o senador Francisco Dornelles (PP-RJ). É possível que os doadores interessados em elegê-lo tenham doado o dinheiro ao partido para não serem identificados. Isso combinaria com o tipo de preconceito velado que predomina no Brasil. Bolsonaro serve de porta-voz a um grupo que comunga muitas das suas convicções. Embora nem todos tenham coragem de expressá-las. Mais importante do que discutir a pessoa, é condenar as ideias que ela propaga. Sozinho, Bolsonaro é apenas um bufão. Em conjunto, os “bolsonaros” representam a intolerância e a incapacidade de aceitar as diferenças, o que é sempre uma ameaça à democracia.
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