A VIDA NOS MUNDOS INVISÍVEIS Poucas pessoas existirão que não tenham por vezes indagado o que acontecerá após a morte. A maioria tem idéias formadas sobre Céu e Inferno, mas para obter algo mais sólido e não convencional acerca de tão importante questão, devemos nos voltar a outras fontes mais precisas. Há muitos anos, o Monsenhor Robert Hugh Benson, filho de um ex-Arcebispo de Cantuária, escreveu um livro intitulado Os Necromantes, o qual obteve considerável fama, porém desvirtuava a realidade da comunicação dos espíritos. Em sua introdução à presente obra, o autor esclarece que, ao passar para a vida espiritual, Monsenhor Benson chegou a saber que suas idéias eram inteiramente erradas. Assim, um dos seus principais objetivos na nova esfera de existência foi, justamente, esforçar-se por corrigir a falsa noção que havia divulgado em seus escritos quando ainda na terra; para tanto,

3 entrou em comunicação com o autor, o qual fielmente registrou as mensagens recebidas. Sua principal finalidade na divulgação dessas mensagens era tentar re-mover da mente dos homens o temor da morte, através do reexame de sua experiência pessoal e a transmissão do conhecimento que havia adquirido no mundo do espírito. Neste livro o leitor passa a conhecer a vida nas regiões do Além, e essa vida é relatada nos mínimos pormenores de suas variadas esferas de atividades, dos mais baixos aos mais elevados reinos. Para aqueles que acreditam existir uma vida após a morte, a presente obra oferece um profundo interesse; e para aqueles, em dúvida, o esclarecimento e a promessa de . uma nova e superior existência no futuro. ANTHONY BORGIA

4 A VIDA NOS MUNDOS INVISÍVEIS Prefácio de Sir JOHN ANDERSON Tradução de J. ESCOBAR FARIA Titulo do original inglês: Life in the world unseen Capa de PEDRO GAMBAROTTO MCMLX Direitos Reservados EDITORA "O PENSAMENTO" LTDA. Praça Almeida Júnior, 100 São Paulo Impresso nos Estados Unidos do Brasil Printed in the United States of Brazil

5 Í N D I C E Prefácio 9 Introdução do autor PRIMEIRA PARTE ALÉM DA VIDA I — Minha Vida na Terra II — Passagem Para o Mundo do Espírito III — Primeiras Experiências IV — Lar Para Repouso V — Templos da Sabedoria VI — Várias Questões Respondidas VII — A Música VIII — Planos Para Trabalhos Futuros IX — Os Domínios Sombrios X — Uma Visita

6 SEGUNDA PARTE UM MUNDO DESCONHECIDO I — As Flores II — O Solo IH — Métodos de Construção IV — Tempo e Espaço V — Posição Geográfica VI — Os Reinos Inferiores VII — Primeiras Impressões VIII — Recreações IX — Pessoa Espiritual X — A Esfera das Crianças XI — Ocupações XII — Gente Famosa XIII— Organização XIV — Influência do Espírito XV — Os Reinos Superiores

7 PREFÁCIO SINTO-ME satisfeito em prefaciar este livro, o qual oferece um quadro pitoresco da existência vivida nas esferas espirituais por aqueles que na terra agiram de acordo com as leis divinas. A assertiva confirma tudo aquilo que positivei certo e verdadeiro em minhas investigações acerca de uma filosofia do pensamento. Esta obra tranqüiliza aqueles que no presente vivem uma existência voltada para o bem, e encoraja os outros no sentido de modificarem seus impulsos mentais, assim evitando que penetrem nas esferas sombrias do mundo espiritual, que resultam da aceitação das malignas vibrações da terra, vibrações que nos têm causado não pouca adversidade. O pensamento é a força criadora do Universo conforme as ações individuais para o Bem ou para o Mal. Enquanto vivermos na terra, es-

8 taremos instituindo a nossa própria herança no mundo do espírito, e este será exatamente o reflexo da qualidade de nossos pensamentos. Causa e efeito é lei cósmica imutável, mas o homem é livre para agir de acordo com o seu arbítrio. O que ocorre com a alma ao entrar para o mundo espiritual é justamente o resultado de sua escolha de conduta na terra. A punição do Mal é o remorso da alma eterna imposto pela reação da consciência de cada um. No passado, as responsabilidades da vida e as conseqüências das ações pessoais têm obscurecido a mente coletiva da Humanidade. Por esta razão, as religiões ortodoxas falharam em estabelecer a paz na terra segundo os ensinamentos do Grande Mestre. A Civilização vive seus últimos caminhos, e é de esperar que novas obras de informações como esta apareçam a fim de favorecer a

9 regeneração espiritual do mundo com o estabelecimento da paz e da harmonia entre os homens. Sir JOHN ANDERSON

nós devemos indagar de alguém que lá está e registrar o que esse alguém disser. Até que estes escritos se redigissem. cinco anos antes de sua passagem ao mundo espiritual. se bem que em certa ocasião fosse eu informado por outro espírito de que ele desejava corrigir certas coisas. ex-Arcebispo de Cantuária. de quem pela primeira vez tive conhecimento em 1909. Isto foi feito neste livro. O informante. especialmente se este temor diz respeito à existência após a morte. As dificuldades da co- . Para saber que espécie de lugar é o outro mundo. foi na terra conhecido como Monsenhor Robert Hugh Benson.10 INTRODUÇÃO DO AUTOR O CONHECIMENTO é o melhor antídoto para o temor. . filho de Edward White Benson. jamais se havia comunicado diretamente comigo.

anteriormente havia apenas tocado de passagem e levemente. mas ele persistiu em seu propósito. numa perspectiva geral. quando a época adequada se apresentou. Monsenhor apresenta. A primeira narrativa intitulou-se Além Desta Vida. menciona os reinos superiores e os inferiores. Por exemplo: em Além Desta Vida. trata pormenorizadamente dos fascinantes e importantes fatos e aspectos da vida do espírito. o relato de sua morte e as subseqüentes viagens através das várias regiões das terras espirituais. e a segunda O Mundo Invisível. Na segunda. tendo sido eu a privilegiada pessoa escolhida para atuar como seu intérprete. sobre os quais. foi-lhe dito que podia comunicar-se através de algum amigo de seus dias na terra. Em O Mundo Invisível realmente os visita e descre- . Assim.11 municação foram-lhe explicadas por espíritos e conselheiros. Na primeira.

12 ve o que viu e ocorreu nesses lugares. e sua passagem não interrompeu antiga amizade. Constantemente ele expressa o seu prazer de voltar numa natural normal. Somos velhos amigos. ainda assim pode falar". ficou fortalecida e proporcionou melhores oportunidades de encontro do que teria sido possível quando Monsenhor ainda vivia na terra. oferecendo informações de suas aventuras e experiências no mundo do espírito assim como quem "estando morto (segundo o consideram inúmeras pessoas). pelo contrário. sadia e agradável maneira. Se bem que cada uma das narrativas seja autônoma e completa. a segunda acrescenta nova matéria à primeira e ambas formam um todo uno e indivisível. ANTHONY BORGIA .

Quanto ao que fui. Tudo isso ficou para trás. MINHA VIDA NA TERRA QUEM sou não importa. anterior ao meu passamento e entrada no mundo em que hoje vivo. Quem fui importa menos ainda. meu bom amigo. pois jamais passei privações. a respeito do que sou. gostaria de transmitir algumas informações sobre a minha atitude mental. se bem que fosse árdua em relação aos trabalhos de ordem mental. O valor espiritual é o que importa agora. É o bastante. Nos . e esse valor está muito além do que seria ou poderia ser. Nós não trazemos conosco para o mundo do espírito as posições que ocupamos na terra. inclusive a minha importância terrena. Minha vida terrena não foi difícil.13 PRIMEIRA PARTE ALÉM DA VIDA I.

pareciam satisfazer inteiramente o meu espírito. Quando refletia sobre uma futura existência. eu acreditava totalmente em tais coisas. Eu não compreendia a proximidade . naturalmente. Os mistérios da religião expressos numa profusão de luzes. vestes e cerimoniais. eu não entendia. eu pensava — e muito vagamente — naquilo que a Igreja me havia ensinado e que era infinitamente pequeno e mais falso ainda. como tantos outros. mas a partir do momento em que passei para o mundo espiritual. Mas a esse tempo. elas deixaram de ter importância. Ensinei e preguei segundo os textos ortodoxos. e na verdade não tinham nenhuma significação no grande esquema da vida. e se algum entendimento havia.14 meus primeiros anos fui atraído para a Igreja pelo misticismo em que ela se envolve e por ter sido eu mesmo uma personalidade mística. Eram problemas religiosos provocados pela mente humana. era ínfimo. sem um vislumbre de entendimento. Muitas coisas. firmando minha reputação.

provenientes de qualquer extensão de leis naturais. O fato de ter sido um sacerdote não me impediu de receber visitas daqueles que a Igreja preferiu chamar demônios. ainda que em grau limitado. visto como se chocava contra as minhas idéias ortodoxas. — embora tivesse uma ampla demonstração disso. mas . As experiências que tive em ocultismo foram acontecimentos espontâneos. Eu considerava perturbadora essa intromissão de faculdades psíquicas em meu ministério sacerdotal. Procurei. qualquer coisa que remotamente se parecesse com tal. pensava eu.15 dos dois mundos — o meu e o vosso. devo confessar. Nunca entendi como pudesse ser e o que era afinal. aconselhar-me entre os meus colegas. na esfera terrestre. aquilo que denominam um sensitivo. julguei-os antes incidentes ocasionais. um psiquista — uma pessoa dotada de poderes de visão. então. se bem que jamais tivesse visto. e. do que ocorrências normais.

Tratando-se.16 eles sabiam menos ainda que eu e apenas decidiram rezar por mim. segundo os compreendo agora — e de caráter inteiramente individual. não foi assim. tanto no meu caso como em todos os outros. caso ocorressem com leigos. por outro lado. de um sacerdote da Santa Igreja. Mas. tratos com o diabo e. porém. na realidade. Suas preces em nada me beneficiaram. eu teria sido considerado um verdadeiro santo. pois essas experiências ocorriam com qualquer outro dotado dos mesmos poderes. a fim de afastar os demônios de meu caminho. Fossem minhas experiências desenvolvidas em alto plano espiritual. o que seria de se esperar — como agora o sei. elas eram entendidas como "tentações do demônio". e que rezar para que fossem removidos seria tão insensato como rezar para que se removesse do . como alguma forma de aberração mental. O que os sacerdotes meus colegas não entendiam era que tais poderes podiam ser considerados um dom — um precioso dom.

para que eu mesmo visse. inflexível. era. o mesmo julgamento final: "Tais atividades têm sua origem no demônio". tentando mostrar-me. Não seria apenas uma insensatez. enquanto o mundo do espírito batia à porta de minha própria existência. estreita e ignorante. divulgando seus ensinamentos. E eu estava amarrado pelas leis dessa Igreja. ainda que por caminhos longos. A grande barreira a quaisquer novas investigações a respeito dessas faculdades. recebiam. o que . Posso pelo menos regozijar-me de que jamais orei para que tais poderes me fossem retirados. mas incontestavelmente um erro. ainda que exaustivas. a atitude da Igreja: insensível. pelo contrário. administrando seus sacramentos. orei para que maior luz se fizesse em meu entendimento. As investigações. visto que esse dom de ver além do véu celeste fora outorgado para ser exercido em favor da Humanidade. invariavelmente.17 artista o dom de tocar piano ou de pintar. e é.

e não de origem maligna. acima e independente de qualquer religião ortodoxa. Num trabalho mais amplo achei que devia defender a Igreja contra os assaltos daqueles que acreditavam na sobrevivência da alma após a morte do corpo e julgavam possível a comunicação dos espíritos. muito provavelmente. uma completa revolução. a renúncia às idéias ortodoxas. um grande sacrifício material.18 não poucas vezes havia contemplado — a nossa vida futura. A verdade estava lá. torcendo porém as narrativas no sentido da religião ortodoxa. Enunciei em meus livros muitas de minhas experiências psíquicas. e. mas o sentido e a finalidade foram deformados. Para seguir as minhas próprias inclinações. Nesse trabalho atribuí ao demônio — contra o meu melhor julgamento — aquilo que eu realmente conheci como sendo a atividade de leis naturais. visto que eu possuía tam- . eu teria que infligir à minha vida.

Via que milhares de pessoas pensavam como eu. Entregara-me à Igreja. Era difícil. tratando-as como dois fatos completamente estranhos um ao outro. Tudo quanto já havia escrito iria perder o seu valor. que não era capaz de pensar que tanta gente poderia estar errada. A verdade estivera ao meu alcance e eu a deixei escapar. Assim. desde então. aos olhos dos leitores e além disso eu seria olhado como um louco ou herege. cujos habitantes já vira tantas vezes e em tão diferentes ocasiões. Quão grande foi essa oportunidade e quão grande o remorso dessa perda. mas dirigi os acontecimentos de tal modo que houve menor inquietação mental. e seus ensinamentos estavam fortemente aderidos a mim.19 bém boa reputação como escritor. Tentei separar minha vida religiosa das experiências psíquicas que sucediam comigo. eu fiquei sabendo ao transferir-me para este mundo. e isto me encorajava de tal forma. e assim prossegui até o . deixei passar a maior oportunidade da minha vida.

nem consegui saber quais as sensações experimentadas pela alma que deixava o corpo. passando para o grande mundo dos espíritos. espero a seguir dar-lhes alguns pormenores. quando. também pude observar essa libertação. vi-me no limiar daquele outro mundo. mas em parte alguma me foi possível descortinar — segundo as fontes ortodoxas — o que exatamente ocorria no momento da separação. de que já tinha visto manifestações.20 fim. PASSAGEM PARA O MUNDO DO ESPÍRITO O real processo da morte não é necessariamente doloroso. Durante minha vida terrena testemunhei muitas dessas passagens para as fronteiras do espírito. Os autores de tratados religiosos não nos informam dessas experiên- . então. Por intermédio de minha visão psíquica. Do que sucedeu comigo ao deixar de ser um habitante da terra. Tive oportunidade de observar com os meus próprios olhos a luta mantida pelo moribundo para libertar-se da matéria. II.

A resposta à minha indagação. Eu tinha um pressentimento de que os meus dias na terra se encurtavam cada vez mais. Sentia um peso na mente. Seria realmente assim? — era a indagação que sempre fazia a mim mesmo. fosse na verdade doloroso. Qualquer que pudesse ser a resposta. como tantas outras que testemunhei. Muitas vezes me sentia como que flutuando . pois. E assim foi. A morte. eu não podia acreditar que o processo físico da morte. mas tinha esperanças de que pelo menos não fosse violenta a minha morte. não obstante tudo indicasse que sim. oferece o quadro de um sofrimento extremamente doloroso. eu sabia que a teria um dia.21 cias por uma razão muito simples — eles nada sabem. se bem que demorada. algo semelhante àquele que nos invade na hora de repousar. O corpo físico dá a impressão muitas vezes de estar sofrendo intensamente de dor ou de asfixia.

Tudo quanto desejava era ir-me para bem longe. Os remorsos viriam mais tarde. E tinha ainda a sensação de uma grande animação mental. meu corpo parecia opor-se a tal estado. em meus intervalos lúcidos não sentia mal-estar físico. Podia ver e ouvir o que ocorria ao meu redor. eu caminhava rapidamente para ela. E não fui assaltado por temores. da mesma forma como acontece nos sonhos. dúvidas ou remorsos nos momentos que prenunciavam a minha partida da terra. não houve qualquer sensação física.22 ao longe e depois voltando suavemente. e fremia de impaciência por ir-me de vez. se ainda não era a morte. se bem que sentisse a mente alerta. porém. Todavia. Estava certo de que chegara a minha hora. e podia sentir as aflições que o meu estado causava nos demais. apreensões. Tão . Repentinamente senti ímpetos de levantarme. mas os relatarei oportunamente. Durante esses períodos de depressão aqueles que me tratavam sem dúvida julgavam que.

vivo. Descobri. percebi que já o tinha realizado. e bem vivo. então. Voltei-me e passei a observar o que sucedia. o eu real. a mim mesmo. Via ainda claramente o quarto ao meu redor. Examinei-me.23 logo senti esse definido estímulo para levantar-me. não obstante a névoa que o envolvia totalmente. Meu corpo material jazia sem vida. pois que me levantara de um leito de morte e não poderia estar em condições de moverme para além do próprio quarto. exatamente as mesmas que* usava quando me movimentava livremente | . a fim de verificar como estaria agora vestido. que vestia as roupas habituais. mas acabara de constatar que não poderia contar com o auxílio de ninguém. nem tentaram impedir-me que me levantasse. que todos os que me rodeavam não se apercebiam de nada. mas ali estava eu. Fiquei contemplando ainda um ou dois minutos e logo a idéia do que devia fazer a seguir penetrou minha mente. Grande foi minha surpresa ao notar. pois não procuraram auxiliar-me.

e eu estava certo de que não era um deles.. sabia ao mesmo tempo que estava vivo. Certamente nenhuma dessas espécies de manto diáfano. embora estivesse assaz interessado em saber o que viria a seguir. olhando ao redor. pois que conjecturei quais seriam as outras vestes que deveria envergar depois. Uma surpresa aliás momentânea. pois sentiame na posse de todas as minhas faculdades mentais. Contudo. que me havia libertado da moléstia e me achava de pé.. Soube logo da mudança que se operara em minha condição. em boa saúde. Em momento algum perturbei-me. . veio imediatamente em meu auxílio. por outras palavras. O conhecimento do mundo espiritual como me fora possível apreender através de minhas próprias experiências. isto é. Mantos desse gênero são comumente ligados à idéia convencional de anjos. fiquei sabendo que havia morrido. e realmente num estado físico nunca antes experimentado.24 pela casa.

deixei-o falar. percebi a meu lado um sacerdote ex-colega. Expressou seu grande prazer em reverme. Inicialmente. e tão rapidamente como tudo sucedeu. eu poderia pensar que algo estava errado. e de minha parte previ a junção de muitos fios do enigma que se haviam rompido com a sua morte. então sim. devia antes acostumar-me com as novidades que se me . na verdade tudo deve ter ocorrido em não mais que alguns minutos do tempo terrestre. cujo passamento se dera alguns anos antes. Novamente isso não me pareceu estranho: se estivesse usando roupas diferentes das minhas.25 Conquanto a narração de tais acontecimentos tenha aqui tomado algum tempo. pois desejo dar os maiores detalhes possíveis. Tão logo me vi em minha nova condição. Cumprimentamo-nos afetuosamente e notei que se vestia como eu. uma vez que sempre o conhecera em trajos clericais.

na verdade. Permiti-me acrescentar que nenhuma idéia sobre tribunal de julgamento ou dia do juízo me ocorrera durante aquele processo de transição. Os próprios conceitos de julgamento. céu e inferno pareciam totalmente impossíveis. lançando-me fora do corpo material. Deveis lembrar--vos que eu havia abandonado um leito de morte e que. deixara com ele a minha doença. que a compreensão total do fenômeno deveria levar algum tempo. Tudo era normal e natural demais para que pudesse sugerir a terrível provação ensinada pela religião ortodoxa. Eram. uma fantasia. dono de minha verdadeira mente e vestido com as roupas habituais. Meu velho amigo pareceu compreender imediatamente que eu já estava ciente da minha morte e que tudo ia bem. de pé. A nova sensação de bem-estar e libertação das mazelas do corpo era tão agradável.26 apresentavam. agora que eu me encontrava vivo e bem vivo. e à qual deveríamos nos submeter após a morte. diante de um velho .

Como já conhecia o grau de meus conhecimentos. como agora. Ambos estávamos alegres. assim. despreocupados. Tão logo tentei falar. após o silêncio inicial do encontro. e eu aguardava. o qual ninguém melhor do que ele poderia descortinarme.27 amigo que me saudava cordialmente e mostrava tudo quanto se passava no outro lado da vida. emocionado. exteriorizando o seu prazer em me ver. verifiquei que me expressava exatamente do mesmo modo como o fazia . Tal fato bastava para esclarecer o absurdo de minhas idéias sobre um julgamento da alma. mais fácil. felizes. como dois amigos após longa separação. sua tarefa seria. que me acolhia afetuosamente. toda a revelação desse novo mundo. naturais. tanto ao tempo de vida terrena. e ao qual eu retribuía. Tratava-se de um dos melhores espíritos que conheci. Disse que eu me preparasse para inúmeras e agradáveis surpresas e que havia sido enviado para encontrar-se comigo à minha chegada.

e aproximei-me então para contemplar a mim mesmo. deixei-me conduzir por suas mãos. constituía precisamente a sua missão. Não sabendo ainda como agir. ou por outras palavras. isto é. desde que ali nada mais havia a fazer. Fez referência a um lugar. usando as cordas vocais. e que ele me conduziria a um aprazível lugar preparado especialmente para mim. fato que. como ele próprio dissera. onde me sentiria imediatamente no lar. apenas notei que assim era. Então o meu amigo propôs que saíssemos. mas apressou-se em acrescentar que na realidade eu ia para a minha própria casa.28 quando materialmente vivo. Continuava envolvido na mesma névoa. Não pude resistir ao impulso de voltar-me e olhar pela última vez o quarto onde ocorrera o meu passamento. Não . nem mesmo cogitei nisso. Os que antes rodeavam o meu leito já se tinham ido. Mas não havia necessidade de pensar para dizer o que quer que fosse. como devia proceder em tais circunstâncias.

29 me impressionei com o que vi. Até então eu tinha usado minhas pernas. mas de qualquer modo melhor seria para mim se os fechasse. as pernas. na nossa forma comum de andar. Meu amigo então sugeriu que devíamos partir. Por isso. isto é. desaparecendo afinal. Poderia )u não fechar os olhos. Nesse momento o quarto se tornava aos poucos mais enevoado até esvanecer-se de minha vista. disse o meu amigo que melhor seria não usarmos esse habitual meio de locomoção. mas em virtude da moléstia e suas conseqüências necessitava de um período de descanso antes de esforçar-me demasiado. e que eu segurasse com firmeza a sua mão e não temesse o que quer que fosse. os restos mortais do meu Eu material ostentavam uma total serenidade. Segurei sua mão e deixei que ele fizesse o resto. como sempre. Imediatamente experimentei a sensa- . o que fizemos em seguida.

nada de mal poderia ocorrer. Como logo me . o meu velho lar. caso fossem possíveis condições idênticas. assim como acontece nos sonhos dos vivos... se bem que eu flutuasse de uma forma real e sem cuidados de segurança pessoal. não havia temor. A velocidade parecia aumentar à medida que o tempo passava. mas com uma diferença: fora melhorado de uma forma que ninguém teria podido fazer em sua reprodução terrestre. Após algum tempo nossa velocidade pareceu afrouxar um pouco.30 ção de flutuar. quanta gente teria fechado os olhos com toda a confiança? Aqui não havia dúvidas de que tudo corria bem. No plano terreno. É estranho que alguém possa realizar tais coisas aqui e com tanta segurança. Fui convidado a abrir os olhos. Descortinei então o velho lar em que vivi na terra. Assim o fiz. o meu amigo tinha completo domínio de tudo. e além do mais. e eu podia sentir algo sólido sob os pés. e eu ainda mantinha os olhos firmemente fechados.

pareceu-me o contrário. mas na maior parte dos casos. mas eram maravilhosamente cultivados e conservados. era a mais bela profusão de flores dispostas de maneira a mostrar uma perfeição absoluta. Não eram. as flores em si e a inacreditável sucessão de suas cores magnificentes. entretanto. mas foram os jardins à sua volta que mais me atraíram a atenção. do que restaurada. . Não havia crescimentos desordenados. Ao examiná-las mais de perto. pelo contrário.31 pareceu. quanto à regularidade. Dizendo isso não quero dar a entender que eram iguais. que mais me chamaram a atenção. das muitas que lá existem e em plena florescência. aos jardins do plano terreno. a casa estava antes rejuvenescida. nem folhagem e ervas daninhas emaranhadas. Esses jardins davam-me a impressão de ser bastante extensos e estavam em perfeita ordem e disposição. devo dizer que jamais vi outras semelhantes ou uma réplica na terra. Muitas por certo poderiam ser perfeitamente iguais às terrenas.

sobre tão belo fenômeno. Por ora. sentia fortes correntes de força energética. era os sons musicais que as envolviam. tecnicamente. as quais elevavam espiritualmente a alma e lhe davam maior estímulo. a atmosfera vital de eternidade que elas exalavam por todas as direções. ou mesmo de uma que fosse. ao mesmo tempo que os perfumes celestiais emanados eram de tal magnitude que nenhuma alma quando materializada jamais os havia sentido. Outra característica que notei quando me aproximei delas. Tratava-se de flores que viviam e respiravam. e cuja suave harmonia combinava perfeitamente com as cores deslumbrantes.32 mas sim. segundo o meu amigo. é bastante dizer que esses sons musicais das flores es- . e eram incorruptíveis. Não sou suficientemente versado em música para discorrer. mas espero em ocasião oportuna trazer alguém com conhecimentos da matéria a fim de explicá-lo. Quem quer que se aproximasse de qualquer grupo daquelas flores.

Eram . eu via a harmonia perfeita. entretanto. em companhia do meu velho amigo. — o que. Simplesmente cresciam sob condições perfeitas. livres dos ataques de insetos e de outras causas que as afligem no plano terreno. Soberbas árvores podiam ser divisadas.33 tavam em precisa consonância com tudo que eu já havia visto. flexível e macia. assim eram as árvores. e não havia uniformidade nas espécies. Se já estava ciente do efeito revitalizador dos jardins celestiais. era ainda muito pouco — e que. Do mesmo modo que as flores. pisei na estranha relva. em toda parte. caminhei pelas veredas do jardim. a quem fora confiado para ser informado e guiado. como se andasse no ar. crescia porém a minha ansiedade de conhecer mais ainda acerca de tudo aquilo. Assim. livres dos ventos tempestuosos que curvam e torcem os ramos mais tenros. mas sem as deformações das que existem na terra. e tentei compreender que toda aquela extraordinária beleza fazia parte do meu próprio lar.

De qualquer modo. O meu amigo informou-me que toda a luminosidade provinha do Doador de toda luz. esperai. eternamente emanando vida para todos os que se aproximassem delas. onde viviam aqueles que espiritualmente possuíam olhos para vê-la. Havia uma tépida e agradável temperatura sempre constante O ar permanecia na sua imobilidade. Sol brilhante. uma luz cintilante que penetrava por tudo.34 eternas. porém. em plano horizontal. mas sentia-se uma aragem de suave perfume — autêntico zéfiro — que não alterava a fragrância da tepidez envolvente. nunca. havia sim. pois coisas de que não gostais não vos acontecerão aqui. advirto- . numa grande profusão de matizes verdes. incorruptíveis. Àqueles que não apreciam perfumes de qualquer natureza posso dizer: não vos desaponteis ao lerdes estas palavras. e que esta era essencialmente divina. banhando e iluminando todo o mundo do espírito. cobertas de folhas.

portanto. sem receio de estar me intrometendo na intimidade dos outros. Não havia. mas com absoluta certeza.35 vos. Fiquei surpreso por não ver muros. embora todos estivessem abertos a quem quer que desejasse atravessá-los ou neles demorar-se. intromissão de ninguém num jardim. Eu seria sinceramente bem recebido em qualquer lugar que fosse. e ireis sentir quão diferente do que possais imaginar são estas coisas. Venho revelando esses fatos com o máximo de pormenores. Disseram-me ser essa a regra aqui. onde sua propriedade terminava. nada do que até então pude observar delimitava o meu próprio jardim. sebes ou cercas. Fui informado de que não havia necessidade de separações. instintivamente. e que eu não teria sentimentos diferentes com respeito àqueles que passas- . porque estou certo de que inúmeras pessoas muito têm indagado a respeito. porque cada um sabia.

quando então ele passaria a expor alguns . Era essa precisamente a atitude de todos — propriedade e sociedade a um só tempo.36 sem pelo meu jardim. sugeriu que. pois desejei que todos viessem gozar de sua beleza. meus sentimentos naquele momento foram justamente esses. Sim. Apreciando o belo estado de conservação dos jardins e o cuidado que recebiam. que deveríamos procurar um lugar aprazível — usou as palavras num sentido apenas comparativo. Propôs. assim. como tinha eu chegado recentemente às regiões espirituais. Eu não possuía quaisquer noções de propriedade pessoal. Antes de me responder. porque tudo era aprazível em qualquer parte — onde nos sentaríamos. era aconselhável descansar primeiro ou pelo menos não me fatigar muito com observações. indaguei de meu guia quem assídua-mente e com tão esplêndidos resultados assim os mantinha. não obstante saber que o jardim era meu para tê-lo e mantê-lo.

e eu me estirei. entre árvores e jardins. e que. estendendo-se ao longe. cuja exuberante verdura ondulava ante os nossos olhos. pois. como a minha. Eu não tinha a sensação comum do cansaço terreno. não achei . até encontrar o aprazível lugar sob os ramos de magnífica árvore. se quisesse. Naquele momento. Acomodamo-nos na relva macia. pitorescamente localizadas. e eu podia notar inúmeras casas de vários tipos. A paisagem era banhada por um belíssimo resplendor celestial. entretanto. Disse-me que essa necessidade era proveniente da minha última doença. como se deitasse num finíssimo leito. de onde podíamos dominar grande parte da campina. Meu guia perguntou-me se estava cansado. Andamos. mas sentia ainda algo como a necessidade de repouso do corpo.37 dos muitos problemas que se haviam apresentado no curto espaço de tempo da minha nova condição. podia passar por um profundo sono.

Todos os que aqui vivem ganharam por si próprios esse direito através de suas ações na terra. principalmente aquilo que mais de perto me preocupava. Essas poucas palavras descrevem exatamente o grande processo eterno pelo qual tudo que aqui vês é a conseqüência de algo. as sementes do que plantamos na esfera terrena. O meu amigo começou dizendo: — "Tudo quanto o homem semear. as casas. florestas. O fato de que ali estava deitado constituía a . Eu começava a perceber muitas coisas. Esta terra em que estamos agora vivendo é a grande colheita. que são também lares felizes de gente feliz — tudo é o visível resultado da máxima: "Tudo quanto o homem semear. Flores. ou seja. colherá". e respondi-lhe preferir que conversássemos.38 necessário dormir. colherá". a atitude inteiramente errada da Religião sobre o mundo do espírito. árvores.

isto é. O arrependimento à hora da morte . Meu guia informou-me que de onde estávamos eu poderia ver toda espécie de gente em condições diversas. Disse ainda que uma das grandes características do mundo do espírito era as almas serem exatamente as mesmas de momentos antes da passagem para o mundo espiritual. porque nada significavam. que a ortodoxia é uma criação do homem e que o Universo é uma dádiva de Deus. Podia ver agora com clareza o que antes vislumbrara indistintamente. porque não diziam a verdade e porque não se relacionavam com o que quer que fosse do eterno mundo espiritual do Grande Criador e Mantenedor de tudo. credos e doutrinas. pessoas cujos pontos de vista religiosos quando na terra também eram os mais diversos.39 mais completa refutação de tudo quanto eu havia ensinado e sustentado durante o meu ministério sacerdotal. vivendo em seus lares. Via se desfazerem inúmeros volumes de ensinamentos ortodoxos.

Os credos. mas como as pessoas trazem para ele todas as suas próprias características. portanto. não obstante apenas no aspecto religioso. com o fanatismo e os preconceitos de seus princípios. não formam qualquer parte do mundo espiritual. . o medo do inferno eterno criado pela Teologia — vantajosa arma do arsenal eclesiástico e uma das que mais sofrimentos têm causado. pois confinam-se em suas próprias crenças. e já então eu tinha visto por mim mesmo — comunidades inteiras ainda praticando suas antigas religiões terrenas. cada crente continua a praticar a sua religião até o instante em que sua mente se torne espiritualmente esclarecida. Temos aqui — informoume. A ninguém prejudicam a não ser a si mesmas.40 em nada as beneficiava. visto que em sua mor parte tais arrependimentos eram devidos à covardia e ao medo daquilo que estaria por acontecer. Não há contudo qualquer ação no sentido de conversão religiosa. entre outras muitas falsas doutrinas.

41 Sendo assim, supus então que a minha velha religião aqui também estaria representada. Estava. Os mesmos rituais, cerimônias, velhas crenças, eram conduzidos com idêntico, porém mal-orientado fervor em seus mesmos templos. Os membros dessas comunidades sabiam que tinham morrido mas julgavam que parte de sua recompensa celestial seria a continuação das formas terrenas de culto religioso. Assim prosseguirão até o instante em que despertem espiritualmente. Jamais se exerce pressão sobre essas almas; sua ressurreição mental deve partir delas próprias. Quando isto ocorre, experimentam pela primeira vez o real sentido da liberdade. Meu guia prometeu-me que, se eu quisesse, poderíamos visitar mais tarde alguns desses agrupamentos religiosos, mas expúnhamos de muito tempo, e aconselhou-me antes de mais nada que me habituasse primeiro com a nova vida. Até aqui continuava no ar a pergunta que eu lhe fizera sobre a alma que

42 tão bondosa e esplendidamente havia zelado por meu jardim, mas ele já tinha lido meu pensamento e voltou ao assunto. Tanto a casa como o jardim, disse-me, eram a messe de meus esforços terrenos. Tendo merecido o direito de possuí-los, eu mesmo os havia construído com o auxílio de generosas almas que se dedicam, em sua vida no mundo do espírito, a praticar atos de bondade em favor de seus semelhantes. Eram seu trabalho e prazer a um só tempo. Freqüentemente, essas tarefas eram empreendidas e levadas a efeito por aqueles que quando na terra foram especialistas no ofício e que o exerciam com satisfação. Aqui podiam continuar seus ofícios terrenos sob condições que apenas o mundo do espírito estaria apto a proporcionar. Tais trabalhos lhes traziam a própria recompensa espiritual, e nenhum pensamento de retribuição lhes vinha à mente. O desejo de servir aos outros é que os preocupava.

43 Aquele que me havia auxiliado a compor tão belo jardim era um amante da jardinagem quando na terra, e, como eu mesmo podia ver, era um verdadeiro artista em seu ofício. Mas, desde que o jardim fora criado, já não era necessária a incessante luta para sua conservação, como ocorre na terra. São a constante decomposição, as tempestades, os ventos e outras causas diversas que exigem solícitas atenções aos jardins terrestres. Aqui não há decomposição, e tudo que cresce assim vive, da mesma forma como nós existimos. Fui informado de que o jardim não necessitaria de nenhum cuidado, na forma usualmente entendida por nós, e que o nosso amigo jardineiro se encarregaria dele, se eu quisesse. Longe de mim desejar apenas: externei viva esperança de que ele tomasse efetivamente a seu cargo a tarefa. Disse de minha profunda gratidão pelo seu esplêndido serviço e que esperava poder encontrá-lo para expressar-lhe pessoalmente os meus mais sinceros agradecimentos. Meu guia es-

44 clareceu-me que isto seria muito simples e que se ainda não me encontrara com ele, era porque eu havia chegado há pouco, e ele não desejava apresentar-se até que me instalasse em meu lar. Minha mente voltou-se de novo à ocupação que exerci na terra, isto é, a orientação diária dos serviços religiosos e outros deveres de sacerdote. Desde que tal ocupação, pelo menos no meu caso particular, já não era mais necessária, fiquei intrigado para saber o que o futuro me reservava. Meu amigo lembrou-me de novo que muito tempo havia ainda para ponderar no assunto, e sugeriu que eu devia descansar para depois acompanhá-lo em algumas viagens de observação. Muito havia para ver, coisas que iriam me deixar atônito. Havia também numerosos amigos que me aguardavam para um novo encontro após tão longa separação. Conteve ele a minha impaciência por iniciar logo as visitas, dizendo que eu deveria descansar primeiro e que nada melhor para isso do que

45 a minha própria casa. Segui-lhe o conselho e para lá nos dirigimos. Já esclareci que ao penetrar pela primeira vez em meu lar observei ser ele semelhante ao que eu possuía na terra, mas com algumas diferenças. Logo que entrei, percebi imediatamente as diversas alterações que haviam sido introduzidas Eram principalmente relativas à estrutura, modificações essas que eu teria gostado de fazer mas que por motivos vários, inclusive de base estrutural, jamais pude levar a efeito. Não existem aqui as dificuldades terrenas, e, por conseguinte, encontrei neste meu lar espiritual, e numa disposição familiar, tudo aquilo que desejei na vida anterior. Os requisitos considerados indispensáveis a uma casa terrena eram, aqui, naturalmente, supérfluos; assim é o caso das provisões de alimentos, para citar apenas um exemplo: muitos outros podem ser facilmente imaginados.

46 Enquanto atravessávamos as várias dependências, eu ia observando as inúmeras provas de consideração e bondade daqueles que tão ativamente haviam trabalhado para auxiliar-me na reconstrução do velho lar, na nova condição. De pé no seu interior, fiquei completamente ciente de sua permanência em comparação com aquele outro que eu deixara para trás. Mas era uma permanência que eu sabia poder terminar no momento em que eu quisesse. Tratava-se tão-só de uma casa; era um porto espiritual, um remanso de paz, onde não existiam as habituais preocupações e responsabilidades domésticas. O mobiliário era em grande parte semelhante ao que adquirira para o seu similar na terra, não porque fosse particularmente belo, mas porque eu o achara prático e confortável, além de adequado às minhas poucas exigências. A maioria dos pequenos objetos de adorno estava em seus costumeiros lugares, e no todo a casa possuía aquele ar evidente de ser habitada. Na verdade, eu

47 me sentia em casa. Na sala que anteriormente havia sido meu escritório, notei amplas estantes. A princípio, surpreendi-me com o fato, mas refletindo melhor, não encontrei motivos para que, desde que tal casa existia, não existissem também livros em seu interior. Estava interessado em conhecer a natureza de tais livros e iniciei assim um exame minucioso. Entre eles, bem à vista, descobri algumas das minhas próprias obras. Ao deparar com elas, tive uma idéia nítida da verdadeira razão pela qual lá se achavam. Muitas continham as narrativas a que me referi anteriormente, ou seja, o relato das minhas experiências psíquicas, às quais procurei dar um sentido religioso. Um livro em especial parecia destacar-se em minha mente, e logo me certifiquei de que nunca deveria tê-lo escrito. Era uma narrativa deturpada em que os fatos, tais como os tinha visto na realidade, recebiam um tratamento injusto e mentiroso. Senti profundo remorso, e pela primeira vez desde que chegara a este mun-

48 do, tinha motivos para me lamentar. Não que me arrependesse de ter vindo, mas lamentava que, vendo a verdade diante de meus olhos, eu a tivesse deliberadamente evitado, para em seu lugar divulgar interpretações falsas. E eu sabia que, enquanto meu nome existisse, ou por outra, enquanto tivesse valor comercial, aquele livro continuaria a ser reproduzido, lido e considerado como verdadeiro. Vinha-me a sensação desagradável de que jamais poderia destruir o que fizera. Não havia qualquer censura a meu ato. Pelo contrário, eu podia sentir uma nítida atmosfera de profunda simpatia. De onde provinha, não o sabia; entretanto, era real, autêntica. Voltei-me para o amigo que durante a minha inspeção e descoberta havia se mantido discreta e compreensivamente à parte, e pedi-lhe auxílio. Recebi-o imediatamente. Explicou-me que sabia perfeitamente o que eu estava enfrentando em relação àquela obra, mas que lhe era vedado referir-se a ela

49 antes que eu o descobrisse por mim mesmo. Uma vez que isso acontecera, e em vista do meu pedido, podia ele agora ajudar-me. Minha primeira pergunta foi sobre como poderia sanar o erro. Disse-me que de várias maneiras, umas talvez mais difíceis, porém, mais eficazes do que outras. Sugeri que eu poderia voltar ao plano terrestre e lá difundir a verdade sobre esta nova vida e sobre a comunicação entre os dois mundos. Inúmeros o haviam tentado — respondeu-me — e ainda tentavam, mas quantos eram acreditados? Julgaria eu ser melhor sucedido? Com toda a certeza os meus leitores jamais receberiam ou dariam crédito a qualquer comunicação minha. E não percebia eu, também, que se me apresentasse a eles, imediatamente me iriam tomar pelo demônio? — Permite-me — continuou — falar a respeito da comunicação com o mundo terrestre. Que é possível, bem sabes que sim, mas tens alguma noção sobre as dificuldades

simplesmente por ter sido ele tão notável enquanto eras vivo. — tanto para nós como para os outros aqui — entre os mortais nada mais somos que lembranças. eles hesitem em aceitar o teu nome. às vezes permanentes. O primeiro obstáculo a enfrentar seria a tua própria identificação. ao passarmos para o plano espiritual somos referidos na terra apenas no tempo passado. deixando meros nomes em sua esteira. Por mais importantes que sejamos. se bem que a maioria na terra considere que não podíamos estar mais mortos. Os livros que pudemos legar são considerados mais importantes do que o próprio autor. Sabemos. todavia. É bem provável que.50 dessa tarefa? Vamos supor que descubras os meios de comunicar-te. E apesar de estarmos bem vivos. . ao dizeres quem és. nossa voz humana deixou de existir. visto que para o mundo estamos mortos. às vezes recordações que se desvanecem rápidas. que estamos muito mais vivos do que antes.

que virá depois? Desejarás explicar que estás vivo e são. por intermédio dos meios usuais. Dirão que não és tu e sim um demônio. iria imaginar que. por teres passado ao mundo do espírito.51 Poderás então fornecer certo número de informações. certamente. e que tuas palavras constituiriam declarações infalíveis. e muito menos os teus antigos leitores. Quanto aos demais. Outros. Mas se quiseres anunciar tais novidades ao mundo em geral. e isso é justo. como inúmeras vezes tem ocorrido. contanto que não te excedas. Se as pessoas com as quais estiveres em contato não forem meros amadores. nem tomarão conhecimento de ti. quem acreditará em tua palavra? Ninguém. Estás . nenhuma dúvida pairará sobre tuas declarações. vão acreditar na tua identidade só aqueles que já conhecem e praticam a comunicação com o mundo do espírito. Satisfeitas estas exigências. provavelmente. sem dúvida. Um certo número de pessoas. já terias adquirido a mais profunda sabedoria.

Ainda muito havia para ver e fazer. que ele ia retirar-se. pois. As previsões de meu amigo desalentaramme sobremaneira. Meu guia aconselhou-me a descansar. e talvez me ocorresse alguma solução. e fiquei convencido de que devia abandonar o projeto por algum tempo.52 vendo. algumas das dificuldades que terás de enfrentar na divulgação da Verdade entre aqueles que ainda vagam nas sombras do mundo terreno. embora inteira- . Quando me sentisse inteiramente repousado. Consultaríamos outros mais sábios do que nós. avaliei os inúmeros obstáculos. bastava dirigir--lhe os meus pensamentos e ele voltaria imediatamente. Não devia. afligir-me. e muita experiência para ser adquirida — o que seria valioso para mim. pois. assim. Deixei-me. Com o passar do tempo. — falando em sentido terreno — eu poderia também mudar esses planos. ficar numa confortável poltrona e entrei em agradável estado de sonolência. se resolvesse levar avante os meus projetos.

sentia-me invadido por novas energias. Lembrei-me a seguir das palavras do guia e dirigi-lhe meu pensamento. O mundo espiritual é um mundo de pensamentos: pensar é agir. para lá viajaremos com a velocidade desse pensamento. dissipandose para sempre os últimos restos de minha condição terrena. Por quanto tempo permaneci nesse estado não posso avaliar. . o que o fez rir. mas pouco a pouco um suave torpor invadiu-me. que fortaleciam todo o meu corpo.53 mente consciente do que me rodeava. Era como se me tornasse cada vez mais leve. Explicou-me que na verdade tudo era muito simples. e quando despertei foi com aquela disposição de saúde que na terra chamamos de higidez. e o pensamento é Instantâneo. entrava ele pela porta. Eu logo veria ser esse o meio usual de locomoção e breve seria capaz de utilizá-lo. Se nos imaginarmos num determinado lugar. Em poucos segundos (do tempo terrestre). Esse movimento instantâneo surpreendeu-me bastante.

fadiga. Se sentimos frio. tal sensação nos vem pela mente. nossas reações estão diretamente ligadas aos pensamentos. Por outro lado.54 Meu guia logo notou a mudança operada em mim e congratulou-se comigo porque me refizera. pelas mínimas doenças e por inúmeros outros fatores adversos. Sentimos através da mente e não de qualquer órgão físico dos sentidos. Aqui não há tais inconvenientes. imunes a influências externas. não quero dizer que somos insensíveis. sentindo o nosso corpo físico: pelo calor ou pelo frio. a paisagem. Seria impossível explicar tão magnífica sensação de completo bem-estar e vitalidade. as mora- . nossas percepções são de ordem mental e o nosso corpo espiritual é impenetrável a tudo quanto seja destrutivo. pelo desconforto. e por diversas maneiras. Nesta esfera de existência tudo se harmoniza com os habitantes: a temperatura. em qualquer circunstância especial e definida. nada sofrendo o corpo espiritual. Quando vivemos no plano terrestre estamos sempre.

Transformar-nos em fantasmas. Gostariam de nos privar de nossos belos campos. ainda na terra. Para quê? Qual a concepção que podem ter essas acanhadas mentalidades de um mundo espiritual? Pelas suas afirmações absurdas. pobres diabos? Nada! E que podem oferecer em substituição às realidades do mundo do espírito? Nada. as águas dos rios e das fontes. — muitas vezes nos divertimos — com aqueles que. Que sabem eles. flores e árvores. os próprios habitantes. é o . Podemos nos esquecer completamente do corpo e permitir que nossas mentes sejam absolutamente livres. portanto. trabalhos. e através delas usufruir as belezas que elas mesmas ajudaram a construir.55 dias. E muitas vezes podemos nos sentir tristes. Não há. dos nossos rios e lagos. e. pois nada sabem. nossas casas. prazeres e diversões. nenhuma. nada que possa provocar adversidades. lançam o ridículo e o desprezo sobre nossas informações. o que é mais importante. nossos amigos. desprazer ou desconforto.

Chegara o momento. seria uma viagem de descobrimentos. Aqueles que já percorreram o mundo à procura de novas paisagens. a este respeito.56 que desejariam. em minha perfeita saúde. Aqui. no meu entender. cheio de vitalidade. acreditei. encaminhamo-nos a uma região elevada. Para conseguir uma visão mais ampla. fantasmas sem substância nem inteligência. apartados de tudo quanto é humano. acompanhado de meu guia. e assim. em que deveria conhecer algo desse esplêndido plano de existência. sombrio e nebuloso estado. e vivendo entre as maravilhas de um mundo verdadeiramente real. meramente subsistindo num vago. sinto-me fortemente impressionado pela imensa ignorância demonstrada por certas mentes terrenas. compreenderão como eu me sentia ao partir. do qual quero dar-lhes apenas uma vaga idéia. de onde um límpido panorama se descortinou . partimos para aquilo que.

o que proporciona aos nossos amigos um especial prazer em nos acompanhar. ao chegar. Fácil era imaginar o campo. Noutra direção viase o que parecia ser uma cidade de imponentes edifícios. À nossa frente estendia-se um campo interminável. na sua opinião igual ao de um colegial. . Eu estava vivamente interessado em saber como seria uma cidade espiritual. não me ocorria uma objeção lógica a que o mundo espiritual não pudesse também construir cidades. e outros apreciam a ambos. acontece como na terra. mas a cidade sempre me pareceu essencialmente obra terrena. Não era a primeira vez. que encontrava tal entusiasmo. é tomada de idênticas emoções. Deve-se ter presente que aqui nem todos têm as mesmas predileções. em que muitos preferem a cidade ao campo e vice-versa. A maioria das pessoas. entretanto.57 ao meus olhos. Meu companheiro divertia-se muito com o meu entusiasmo. Por outro lado.

produzia um efeito eletrizante. Fomos por um caminho que acompanhava em certos pontos um riacho. ao ser tocado pela luz. certo de que. A sensação era estimulante. Assemelhava-se a um cristal líquido e. como parecia. Qual não foi a minha surpresa ao senti-la deliciosamente tépida. a água emitia notas musicais. que se propagava da mão por todo o braço. e eu pude imaginar como seria se me banhasse inteiramente nela. mas não havia suficiente profundidade para uma imer- . decidimos seguir naquela direção. Aproximamonos da margem para que eu o pudesse observar mais de perto. observando outras coisas de passagem. cuja água cristalina brilhava à luz do sol celestial. ela seria gelada.58 Via-se à distância uma igreja aparentemente construída nas linhas usuais. Além disso. Ao correr. Meu amigo disse que me sentiria revigorado. combinando-as numa rapsódia das mais suaves sonoridades. Mergulhei um pouco a minha mão na água. cintilava com todas as cores do arco-íris.

Parecia ele um homem de meia-idade. Não me faltaria oportunidade. Soube que este senhor se orgulhava das frutas de seu pomar. À nossa chegada ergueuse e recebeu meu amigo da maneira mais cordial. a seguir. verifiquei que a água escorria em brilhantes gotas. Aprendi então que tentar predizer as idades das pessoas deste mundo seria tarefa difícil e até mesmo perigosa. fui então apresentado como um recém-chegado. convidou-me a prová-las. Caminhamos por um artístico jardim de gramados esmeradamente cuidados e chegamos até um homem sentado nas proximidades de um pomar. da qual nos aproximávamos. quando chegássemos a um curso maior. Ao retirar a mão.59 são total. Retomamos a viagem e meu guia disse que gostaria de me levar a visitar o proprietário de uma casa. deixando-a completamente seca. embora pudesse ser na realidade mais velho do que aparentava à primeira vista. É necessário saber — e permitam-me divagar .

e tornamo-nos mais jovens à medida que adquirimos mais experiência em sabedoria.60 um pouco — que a lei aqui é no sentido de que. vamos nos desfazendo daquela aparência idosa conhecida na terra. onde vi inúmeras árvores muito bem cultivadas e carregadas de frutas. conhecimento e espiritualidade. à medida que progredimos espiritualmente. Perdemos as rugas que o tempo e as preocupações imprimem nos nossos semblantes. Para resumir: nosso anfitrião introduziu-nos no pomar. O certo é que retrocedemos ou adiantamo-nos — de acordo com a nossa idade quando passamos a espíritos — em relação àquilo que em geral se conhece como a flor da idade. Mas não direi que possamos assumir um aspecto de completa juventude. Olhou-me por um instante e conduziu-nos então a uma esplêndida árvore que se parecia . assim como outras indicações do avanço da idade. Isto seria nos transformar num todo uniforme. nem perder as características externas da personalidade.

Apressaram-se então a explicar que. tudo quanto não se aproveita é imediatamente devolvido ao elemento de origem. assegurando que nos fariam bem. a polpa. escorria delas. Sendo abundante o suco. Meus dois amigos observavam-me atentamente enquanto eu comia umas ameixas. O suco das frutas que eu julgara escorrer sobre mim voltara à árvore de onde proviera. o sabor. ricas em cor e pendiam em grandes cachos. estando eu num mundo incorruptível. provocando o riso de meus amigos. As frutas eram perfeitas na forma. Colheu algumas e ofereceu-nas. Eram frescas ao tato e notavelmente pecadas para o seu tamanho. o que me maravilhou. macia. delicioso.61 bastante com uma ameixeira. ambos revelando uma expressão de jovial expectativa. mas não a manchava. eu temia que escorresse sobre a minha roupa. sem ser difícil nem desagradável de tocar. e uma quantidade de suco semelhante ao néctar. Nosso anfitrião informou-me que o tipo especial de . Escorria sim.

Disse-me que se eu não possuísse árvores frutíferas. mas estavam à disposição de quem quer que os desejasse comer pelo seu efeito estimulante. . entretanto. e que.62 ameixa que eu acabara de comer era recomendado aos recém-chegados. especialmente se o passamento se dera por moléstia. poderia servir-me das suas. Eu estivera realmente muito pouco tempo doente. possivelmente. Observou. ou mesmo que as tivesse. — As frutas estão sempre no tempo — acrescentou — e jamais encontrarás uma árvore sequer sem elas. As frutas daquele pomar não eram apenas para os que necessitassem de algum tratamento após a morte física. facilitava a restauração do espírito. o que era a verdade. o meu falecimento deveria ter sido algo repentino. que eu não parecia ter sofrido uma longa doença. a qualquer hora.

Nunca amadureciam demais. Quanto às frutas. — sem nada indagar. — Aceitamos as coisas como são e como surgem — disse ele. na . outras vinham substituí-las. havia grande probabilidade de só a entendermos quando vivêssemos também naqueles planos. tão logo eram colhidas. e. Não há realmente necessidade de aprofundar tais assuntos. como nós. assim como a inúmeras outras perguntas nestas paragens. imperecíveis. o nosso anfitrião acrescentou que tudo quanto sabia era que. pois formam elas um interminável estoque provindo de uma interminável Fonte. Convidounos a caminhar através do pomar onde vimos uma grande variedade de frutas. por serem perfeitas.63 Respondendo à minha pergunta sobre como eram cultivadas. a resposta só poderia vir dos planos mais elevados e que. e a maioria aqui se satisfaz em usufruir de tudo com os corações gratos. declarou que. mesmo que a obtivéssemos.

. Somente podemos dar indicações aos sentidos pela comparação com algo já experimentado. Experimentei algumas de espécies desconhecidas. e que não era preciso a sua presença para que eu me servisse do pomar. não há fruta terrestre que possa servir de base para uma comparação. continuamos a nossa jornada. e muitas também apenas imaginadas.64 maioria espécies conhecidas pelo homem. Após os agradecimentos. ao que ele renovou o convite para visitá-lo sempre que o desejasse. Se não tivermos tido essa experiência ficamos completamente impossibilitados de transmitir qualquer sensação nova. por intermédio de informações espirituais. seria impossível descrever seu delicioso sabor. e em nenhum campo esse fato pode ser melhor observado que no do paladar. Meu amigo explicou ao nosso cordial anfitrião que ele estava me mostrando a terra em que deveria viver desde então.

de tal modo dispostas que. embora obedecessem a certa ordem. maneiras assim extraordinárias despertaram a minha curiosidade. Viam-se grupos de pessoas às margens e algumas se banhando.65 Voltamos ao caminho ao lado do ribeirão. Sua resposta foi levarme para perto de uma jovem. Concluí que eram velhos amigos. prosseguindo em direção da igreja. não davam contudo nenhuma idéia de propriedade. até adquirir as dimensões de um lago de proporções regulares. e havia muitas flores. Notei então que aquele pequeno curso de água ia se alargando. porém me disseram: — "espera e vê". Pertenciam a todos com direitos iguais. O lago era cercado por árvores. no . Algumas pessoas podiam ser vistas com ambas as mãos em torno de algumas flores. Senti-me embaraçado pela intromissão. em atitude acariciante. naquela atitude estranha. Ninguém as maltratava. Meu amigo curvou-se ao lado dela e foi recebido com um sorriso e palavras de boasvindas. e pedi a meu guia uma explicação.

Ao dirigir as mãos para uma bela flor. nunca se haviam visto antes. constituímos uma grande e unida família. Depois de nos acostumarmos com o novo ambiente e sistema de vida. como depois me disseram. que me fez uma demonstração prática. E ao vermos gente ao ar livre podemos nos considerar bem-vindos caso nos aproximemos para conversar. percebi que ela se curvava no caule para mim! Fiz como me ensinara. simplesmente aqui não necessitamos de apresentações formais. eu poderia sentir uma força magnética subir-me pelos braços. uma recémchegada e contou--nos como alguns amigos lhe ensinaram a extrair das flores tudo quanto elas profusamente oferecem. Realmente. Aquela jovem era.66 que me enganara. como eu. Colocando as mãos em volta da flor como a formar uma taça. e incontinenti senti uma . verificamos que nunca seremos intrometidos se pudermos ler com rapidez o pensamento de uma pessoa que deseje um período de isolamento. Curvei-me ao lado dela.

e colhêlas seria como cortar as árvores frutíferas. como nós mesmos. nós três nos aproximamos do lago. Fiquei-lhe grato pelo aviso. pois elas eram eternas. outras flores existiam para serem colhidas. seria motivo de prazer. As flores eram decorativas. assim. que se destinavam a ser consumidos. ao que me respondeu afirmativamente. enquanto um delicioso perfume se exalava da flor. Advertiu-me a não colher as flores. Indaguei de minha amiga se acaso já experimentara as maravilhosas frutas. e. e quisesse nos acompanhar. faziam parte desta vida.67 corrente de vitalidade percorrer-me os braços. As que estava vendo agora serviam apenas para oferecer e renovar a vitalidade. Ela assentiu ao convite. Expliquei-lhe . Não acontecia o mesmo com os frutos. Entretanto. visto que seria a mais natural das ações apanhar flores que se viam em tamanha profusão. O guia sugeriu que nos aproximássemos da água e que se a jovem estivesse só.

E como o meu amigo também se vestisse da mesma maneira. rindo. que logo acreditara fôssemos também. havia encontrado tantas almas bondosas de disposição semelhante à sua. Desde que se tornara espírito. Ela parecia rejubilar-se pela nossa companhia. mas receei especificar o equipamento necessário para tomá-los.68 que meu amigo era um habitante já afeito a estas paragens e que me servia de guia e conselheiro. mas por ter tido raros amigos enquanto viva. que se sentia a salvo em nossas mãos! Lembrei-me do que se dissera antes acerca dos banhos. Meu a- . pois solidão é coisa inexistente nesta região. embora nunca tivesse sido indiferente às penas. a sua equivalente — foi-lhe possível identificar-me com o que eu havia sido profissionalmente. ela declarou. Forneci-lhe alguns pormenores a meu respeito e como estivesse ainda usando minha vestimenta terrena — ou melhor. não que estivesse solitária. preocupações e dores dos outros.

muito grande a minha surpresa e. só isso! Nada mais simples: entrar na água exatamente como estávamos. referindo-se. ficando totalmente submerso. ele mesmo. mais do que um líquido . pois. Devo confessar que fiquei estupefato com aquilo e. tirou-me dessa situação deveras embaraçosa. porém. Nadássemos ou não. seguindo o seu exemplo. nós também nos atiramos na água. Entretanto. ao assunto. hesitei um pouco. Tudo o que era necessário para gozar as delícias de um banho era a água. Foi. O que eu esperava de tudo isso. meu amigo entrou calmamente no lago.69 migo. quando verifiquei que a água. isso pouco importava. Pelo menos antecipava o efeito habitual da água em idênticas circunstâncias na terra. não me lembro. naturalmente. ao mesmo tempo. Seu gesto nos encorajou e. o meu alívio.

se assim se pode dizer. era como que um manto morno me envolvendo. como que uma sensação afetiva. Porém. uma regeneração vital. teria logo verificado que isso era inevitável. De minha parte. Não é fácil dar uma idéia precisa desta experiência. uma confiança dupla. abaixo da superfície. que esqueci minha hesita- . além dessa influência. confesso que experimentei uma exaltação espiritual. a tal ponto. Se eu tivesse refletido. flutuar ou afundar completamente. proveniente da água. A ação magnética da água era semelhante à do riacho em que molhara as mãos. insuflando-lhe nova vida. O espírito é indestrutível. Irradiava sua bondade pelo contato e estendia sua celestial influência a todos os que a usavam. Era a água deliciosamente quente. não se podia duvidar. Que a água era viva. aqui a força revigorante envolvia o corpo. sendo possível ficar de pé.70 penetrante. havia. magnética. sem que isso representasse qualquer perigo ou incômodo. fundamentalmente espiritual. Mas. isto é.

e sua leveza tinha a mesma qualidade da atmosfera. e a luz. Todos os nossos movimentos refletem dire- . porém sem deixar qualquer sinal visível. portanto. se refletia em suas ondas. Era excepcionalmente suave ao tato. a água escorria. Ao emergirmos. A água havia penetrado o tecido como o ar ou a atmosfera o fazem. isto é. em cores quase ofuscantes. também o é afundar na água. suportava tudo o que nela ou sobre ela se colocasse. deixando minhas roupas como se encontravam antes. Estava. Assim como é impossível aqui cair por acidente. deixando-a completamente seca. ao retirar a mão do riacho. o que pode acontecer na terra. Mais uma observação a respeito da água: era límpida como o cristal. a água escorrera.71 ção inicial e o fato de estar inteiramente vestido! Minha mente estava livre de perturbação ao lembrar-me de que. preparado para o que se seguiu quando saímos do lago.

na verdade. O revestimento de pedra com que o templo foi construído tinha a frescura própria dos prédios novos. não podemos nos machucar ou sofrer acidentes. e. Sua limpeza exterior estava de acordo com todas as coisas daqui: não há decadência. ele existia há muitos anos terrenos. que se nos afigurava mais espaçoso em virtude de não existirem grades ou muros demarcadores dos seus limites eclesiásticos. chegamos à igreja que eu avistara à distância e que alimentava o desejo de visitar. Não existe também aquele ar . assim. Receio que não consiga descrever alguns destes fenômenos sem ir além do alcance de mentalidades e experiências terrenas. Somente as testemunhas oculares podem ter uma idéia precisa das maravilhas destas paragens. de tamanho médio. Após curta caminhada.72 tamente as nossas mentes. mas. semelhante às igrejas paroquiais da terra. Tratava-se de um templo de construção gótica. Estava situado em agradável recanto.

73 enfumaçado que dá ao excursionista uma impressão desoladora. alternadamente. À entrada havia o usual quadro para afixação de avisos. é claro. ao se erigir um templo aqui. É dia perpétuo. como é conhecido no mundo. como já disse. Aqui não há noite e dia. Não havia. pelos quais o tempo possa ser medido. . Apesar de muita gente praticar ardorosamente suas religiões prediletas da terra. mas onde se mencionava apenas a natureza dos serviços da Igreja Estabelecida. O grande sol celestial brilha eternamente. Nem aquelas do envelhecer do corpo e do embotamento das faculdades mentais. é desnecessário e inútil construir também um cemitério. e pus-me a refletir como uma organização desta espécie poderia reunir-se se o tempo. não tem existência. é evidente que. como por exemplo fome e fadiga. um cemitério anexo. Não figurava ali o horário dos cultos. Não temos também as muitas outras indicações do passar do tempo.

outono e inverno.74 Aqui não há o ciclo de primavera. Não há necessidade de tocar os sinos. em lugar deles gozamos a gloria de eterno verão — e nunca nos cansamos disso! Como sempre. isto é. Os paroquianos têm apenas que esperar até que os pensamentos os alcancem para se congregarem. me disse ele. Mas onde obtém o prelado a indicação de que se aproxima a hora do culto? Essa questão. fazia surgir um problema muito maior. disse ele. se reúnem. Com a ausência do tempo terreno no mundo do espírito. nossas vidas são ordenadas por acontecimentos. Era muito simples. voltei-me para indagar de meu amigo a respeito das reuniões de congregações. pois a emissão do pensamento é muito mais completa e exata. Quem estiver encarregado delas. e aqueles que desejam vir. aqueles que são par- . tem apenas que enviar seus pensamentos para a sua congregação.

tem apenas que esperar o chamado de seu ministro. como no plano terreno. a congregação. . Não me refiro às ocorrências incidentais. como aqueles a que estamos acostumados na terra. individuais ou coletivamente. instintivo. Seria.75 te da nossa vida. mas às que na terra são consideradas acontecimentos periódicos. por assim dizer. e ao fazê-lo verão como nós sabemos que a realização de certos atos. nos são claramente lembrados. Temos aqui muitos desses acontecimentos. O prelado que trabalhava como pastor desse estranho rebanho sentiria. Assim. como espero demonstrar à medida que desenvolvo a narrativa. e tornar-se-ia mais acentuado com o hábito. a aproximação do dia e hora usuais em que os cultos eram mantidos. A igreja que agora visitávamos havia estabelecido uma ordem regular de serviços. pelos seus deveres cotidianos na terra. até que a percepção mental adquirisse absoluta regularidade.

havia certa simplicidade. e a última podia apenas significar que o batismo é desnecessário. Entramos e vimos um encantador edifício. e o altar-mor era ricamente trabalhado. que de maneira alguma afetava a beleza geral da peça de arquitetura. visto que o batizado estaria no Céu — onde se presume que esta igreja esteja situada. é claro. de desenho convencional. Providências para aquecer o prédio eram. Um ou dois itens estavam entretanto visivelmente ausentes. Fora isso. como os comunicados de casamentos e batizados. Havia um esplêndido órgão numa das extremidades. Havia sinais evidentes de cuida- . através dos quais se espargia uma luz.76 A tabuleta de avisos dava uma lista dos serviços usuais vistos geralmente numa igreja terrena da mesma denominação. A primeira omissão podia-se compreender. devido ao seu colorido. supérfluas. vinda de todos os lados da igreja e produzindo um estranho efeito no ambiente. Havia belíssimos vitrais representando cenas da vida de santos.

mas era uma alma bondosa. mas. tendo visto tudo que ali havia. gozando a paz e a calma do lugar e. que se chamava Rute. Nossa jovem amiga. assim como era fácil ver que a ausência da igreja não lhe acarretara diferença no destino. Assim como . Sentamo-nos um pouco. pelo menos dois de nós refletíamos sobre o que havíamos visto — e a sua significação. como se podia ver. Suas ações a favor do próximo tinham contribuído mais para o seu bem-estar espiritual do que toda a exibição externa de religião. LAR PARA REPOUSO Ao caminharmos. Edwin — o nome do nosso amigo que até aqui omiti — encarregar-se-ia de o fazer. IV. retomamos ao ar livre. nos fez várias perguntas. esquivei-me de respondê-las. Rute nunca fora muito freqüentadora de igrejas enquanto viva.77 doso trato por toda parte. porquanto era também eu um recém-chegado.

a completa coleção de acessórios da religião ortodoxa. tal como na terra. tendo visto um. É quando verificam que a escravidão mental as retardava. então. outro substitu- . era o mesmo que ver todos. elas se mantêm acorrentadas a suas estreitas opiniões. ela também se surpreendia de ver. até que um dia lhes vem o despertar espiritual. em espírito. é claro. e que havia muitos outros. As controvérsias religiosas são a base de toda a ignorância e falta de conhecimento que tanta gente traz para o mundo espiritual. julgando-as verdadeiras. Tal sonolência espiritual não é novidade no reino dos espíritos. desde que a mente de tais pessoas é teimosa e realmente incapaz de pensar por si só. Edwin disse-lhe que até então havia ela visto apenas um exemplo. com muito pouca diferença. como acabávamos de ver.78 eu. O mundo é o culpado disso. mantém seus próprios credos e formulários. e. Mas. E é lamentável que a cada um que deixa para sempre essas congregações mal-orientadas. Cada seita.

Compreendendo o que estão fazendo a si próprios. dão o primeiro passo firme para a frente e sua alegria é ilimitada. essas extensões de religiões terrenas ao mundo espiritual são desnecessárias. Evidentemente aqui não prejudicam a ninguém. | E ninguém é forçado a crer cegamente — ou declarar que o faz — em algo que é comple- . de doutrinas e de dogmas. Compreenderão então o tempo que aparentemente desperdiçaram.79 to apareça — até que chegue a hora de toda a terra conhecer a verdade sobre o mundo do espírito. — Absolutamente. Temos a nossa adoração comunal aqui. mas ela é purificada de todos os traços de credos sem significado. Adoramos o Grande e Eterno Pai em verdade absoluta. o que devemos colocar em seu lugar? Isto poderia parecer uma condenação à adoração comunal. é caso de se perguntar: desde que com a aquisição da verdade e do conhecimento. Agora. visto que apenas estão retardando o seu próprio progresso espiritual.

em terras bem--arborizadas. e Edwin nos contou que era um lar para repouso. Rute descobriu um imponente edifício. Apelamos para o nosso guia. Indagamos se seria possível dar uma espiada lá dentro. Poderemos progredir mais e mais sem necessidade de pensar em compreender.80 tamente incompreensível a qualquer mente. Mas não nos pedem que compreendamos. sem parecermos bisbilhoteiros. visto . ele assegurou-nos que seria muito fácil. que também despertou minha curiosidade. mas sim que as aceitemos tal como são. Isso não influi em nada no progresso de nossa alma. Aqui há muitas e muitas coisas que não compreendemos — e levaria milhões de anos antes de termos a mais leve sombra de entendimento. destinado àqueles que chegassem ao espírito depois de longa enfermidade ou que haviam tido violento passamento. Tais foram os assuntos discutidos — era Edwin que os expunha — enquanto caminhávamos pelo maravilhoso céu de Deus.

Notei que havia muitas pessoas sentadas nos gramados ou passeando. não possuía janelas. tinha dois ou três andares. Quando completamente restabelecidos para o mundo espiritual. tais como as conhecemos na terra. tínhamos suficiente simpatia para banirmos qualquer idéia de que éramos intrometidos. Isto é.81 que prestara serviços lá. Era de material branco. Eram parentes e . e era portanto persona grata. Além disso. qualquer que fosse a sua função. Q raio era doador de vida — um raio com poderes terapêuticos — mandado para os recém-chegados que ainda não haviam despertado. e era completamente aberto por todos os lados. Ao nos aproximarmos vimos que o edifício não se assemelhava em nada a um hospital. haveria um esplêndido despertar e eles seriam apresentados à sua nova terra. mas imediatamente acima dele viase uma grande réstia de luz que envolvia a casa toda numa surpreendente tonalidade azul. Construído no estilo clássico.

Ao contar-lhes nossa real intenção. eles seguiam o velho instinto terreno e preferiam esperar o feliz momento. Mas não era esse o caso. como explicou Edwin. como se podia perceber pelas expressões dos semblantes.82 amigos dos que estavam submetidos a tratamento no lar e cujo despertar era iminente. Observei que muitas das pessoas que esperavam nos jardins não estavam com suas vestimentas terrenas. Muitos também vinham ao nosso encontro para nos dar as boas-vindas julgando que ali estávamos pelas mesmas razões. e supus que já fossem espíritos há muito tempo. Estavam extremamente alegres e entusiasmados. apressavamse a deixar-nos caminho livre. ali por perto. Eles tinham o direito de usar suas roupas de espírito em virtude de serem agora habitantes perenes do reino em que estávamos. E essas roupa- . e muitos foram os sorrisos amistosos que recebemos ao passar entre eles. Embora. sem dúvida. pudessem ser chamados no instante necessário.

para os fins que tínhamos em vista. Aí não há esses materiais. Ê difícil descrevê-las porque depende de conseguirmos ou não compará-las a algum tecido terreno. Pareciam muito confortáveis. como tudo aqui. mas pela espécie e grau de luz.83 gens eram eminentemente apropriadas tanto ao lugar como à situação. Eu estava mais do que disposto a aceitar qualquer sugestão sua. poderíamos mudá-las agora. Os que víamos agora eram de vaporosa forma e compridos. não necessitam cuidados para conservarem-se em perfeito estado. sendo suficiente a própria espiritualidade do seu portador. Nós três estávamos ainda usando o estilo mundano de vestimentas. e Edwin sugeriu que. e toda aparência externa é produzida não pela consistência do tecido. e as cores — azul e rosa de vários tons — pareciam entremear-se em toda a substância do manto. e. que é a essência do manto. e Rute também parecia ansiosa por ex- .

O de Edwin também fora mudado da mesma maneira. Possivelmente há pessoas na terra prontas a acreditar que para sermos formalmente apresentados em roupagem espiritual seria necessária uma cerimônia na presença de um bom número de seres celestiais. igual aos que via em meu redor. estava encantada com esta nova manifestação do espírito. e notei que irradiava mais luz do que o meu e de Rute. elas se desvaneceram — dissolvidas — e achei-me envolto em meu especial manto espiritual. Apresso-me a dizer muito enfaticamente que não foi isso que aconteceu. mas o que nos intrigava era como ela seria feita. estava imperturbável. que já passara por tal experiência. Meu velho amigo. O que realmente sucedeu foi o seguinte: assim que expressei o desejo de desfazer-me das roupas terrenas.84 perimentar essa mudança. mas no meu . ela. vindos para testemunhar a doação dessa recompensa celestial. é desnecessário dizer.

que em sua disposição interior e acomodações. ao que nos deram as boas-vindas e liberdade para observarmos tudo o que quiséssemos. era totalmente diferente do que víramos na terra. tudo era novo. ela parecia-nos natural e de acordo com o nosso atual ambiente. interno. como velho amigo. de consideráveis dimensões. sendo idêntica a dis- . Edwin foi recebido por alguém. por assim dizer. Ao entrarmos. Explicou sua missão e nossa presença ali. Um vestíbulo externo conduzia-nos a um outro. e no entanto não sentimos o mais leve embaraço ou acanhamento diante desta. Nada seria mais incongruente do que aparências terrenas em tal moradia. e muito mais ainda.85 caso e no de Rute. quando entramos na casa de repouso. revolucionária alteração na aparência externa. Pelo contrário. O espaço que deveria ser destinado a janelas era ocupado por altos pilares um pouco afastados uns dos outros.

com os inevitáveis inconvenientes de tudo que é oficializado. Era mínima a decoração interior. O chão era coberto de macio tapete em sóbrios desenhos. e aqui e ali. nas paredes. um vulto deitado. via-se uma tapeçaria magnificamente trabalhada. que ficamos sob a influência do raio azul. Ocupando todo o espaço do chão. Nada disso. não com a atitude de quem se desincumbe de uma tarefa a esmo. imóvel e aparentemente imerso em profundo sono. Os que assistiam os adormecidos. logo ao entrar no salão. mas como se realizassem . e seu efeito era de renovação de energias e de tranqüilidade. ocupados em observar os vários leitos e seus ocupantes. Vários homens e mulheres moviam-se silenciosamente ao redor. Notei. Outra coisa notável era a completa ausência de qualquer idéia de instituição.86 posição nas quatro paredes. mas não se suponha que o aposento fosse frio como um quartel. havia leitos extremamente confortáveis e em cada um. faziam-no.

eles são postos docemente em profundo sono. de duração variável. nem febres ou delírios. mas a mente requer absoluto descanso. . conseqüentemente reage a esse tratamento. Era exatamente isso. Cada caso é tratado individualmente.87 um puro trabalho de amor e com alegria. Este último não é tão importante. J Durante o estágio a mente repousa completamente. Logo após a morte. Não há sonhos desagradáveis. que por seu turno influencia o corpo espiritual. bem como para as pessoas que os tinham vindo ver. e. O feliz despertar daquelas almas adormecidas era uma alegria repetida para eles. Fiquei sabendo que todos os pacientes deste salão tinham sofrido prolongadas doenças antes do passamento. Em alguns casos o sono é imediato — ou sem interrupção — à morte física. Longa doença anterior à entrada no espírito tem um efeito debilitante sobre a mente.

para o qual passam todas as almas ao dissolver-se. não tinham sofrido prolongada doença. sono da eternidade e muitas outras concepções. e me pus a imaginar se este sono que agora me era dado ver. Observação constante era mantida. o terrível último dia — o temido Dia do Julgamento. e lá esperam. e aos primeiros sinais de despertar da consci- . e o fim de suas vidas terrenas tinha vindo rápida e agradavelmente.88 Enquanto observava esta perfeita manifestação da Divina Providência. disseram-me eles próprios. igualmente errôneas. não teria sido deturpado por mentes terrenas. vieram-me à idéia as absurdas noções terrenas de descanso eterno. que o consideram um sono eterno. Os pacientes em seus leitos pareciam em paz. por infindáveis anos. Aqui estava a refutação visível de tão insensata crença. Nenhum dos meus dois amigos tinha despertado neste ou qualquer outro lar de descanso. Como eu.

e isto seria mais comum. talvez aos que os choram ou por quem eram responsáveis. e quando a verdade lhes é calma e docemente explicada. . Em muitos casos. Dizem-lhes que não podem voltar e que outros com experiência tomarão conta dos que os preocupam. eles freqüentemente sentem desejos de voltar à terra. não é feliz. e é então que os experientes espíritos que os assistem terão sua tarefa mais difícil. comparado com os que acordam completamente ao par do que aconteceu. outros auxiliares são chamados e tudo corre às mil maravilhas. Lembrar-se-ão geralmente da longa doença. Até esse momento. Alguns despertam parcialmente e retornam à sonolência. de fato. O despertar assim. Fosse a terra mais instruída.89 ência. foi só questão de vigilância e espera. mas alguns desconhecem que passaram ao espírito. e haveria menos desgostos para aqueles que acordam. é necessário explicar ao recém--desperto que ele morreu e está vivo. Outros sacodem o torpor.

dos muitos em que o mesmo serviço está sendo levado a efeito. mas tal opinião é fruto da ignorância. neste lar de descanso. O mundo terreno é considerado como de suma importância e o mundo espiritual é olhado como algo vago e distante. Esses casos eram geralmente mais difíceis do que os que acabá- .90 O mundo terreno se julga muito adiantado. E quando finalmente uma alma aqui chega é mais do que tempo de se começar a preocupar. onde havia pessoas cujo passamento tinha sido repentino e violento. Essa é a atitude mental de milhares e milhares de almas encarnadas. e aqui. Vimos almas bondosas e pacientes tentarem convencer essas pessoas de que realmente morreram. E este lar é apenas um. observamos quantas pessoas despertam de seu sono espiritual. Até então não havia necessidade de nos incomodarmos com esse assunto. muito civilizado. e tudo porque o mundo terreno é tão mais superior em sabedoria! Foi-nos mostrado outro salão similar.

Em vez de uma gradual transição. ou culpam o mundo que deixaram re- . posso afirmá-lo. O passamento foi tão repentino que lhes parece não haver solução de continuidade em suas vidas. E quem é o culpado por tal estado de coisas? Muitas dessas almas culpamse a si mesmas. porque fui testemunha. depois de estarem aqui o suficiente para apreciarem sua nova condição. O passamento súbito acrescentava confusão a suas mentes. o corpo espiritual em muitos casos é separado à força do corpo físico. Asseguro-vos que não é uma visão agradável a dessas pacientes almas lutarem mentalmente — e às vezes quase fisicamente — com pessoas que ignoram que estejam mortas. É até triste. aqui. podíamos ver o resultado de tal labor. E agora.91 ramos de ver. Essas pessoas são cuidadas rapidamente por grupos de almas que devotam todo o seu tempo e energia a tal trabalho. e precipitado no mundo dos espíritos.

Estava bem à mão daqueles que despertavam e. tomamos um caminho que beirava um grande pomar semelhante. Mas disse-me ele que o que fazia neste momento era. ambos. àquele onde me permitiram provar os frutos celestiais.92 centemente. sob muitos aspectos. por tolerar tal cegueira e estupidez. Ocorreu-me que Edwin estava gastando muito do seu tempo conosco. recém-chegados e não tínhamos ainda suficiente experiência para suportar espetáculos que pudessem ser penosos. Por isso passamos novamente ao ar livre. assim como ajudar os . Quando Edwin observou que já tínhamos visto o suficiente. o seu trabalho costumeiro — ajudar as pessoas a acostumarem-se em seu novo ambiente. porém mais extenso. talvez com sacrifício de seu próprio trabalho. tanto Rute como eu partimos sem lamentar. de qualquer outra pessoa que o quisesse usar. é claro. Deve-se lembrar que éramos.

submetemo-nos. declarando-se perfeitamente satisfeita assim como estava. aqui fora. Decidi então ficar como estava — em trajos espirituais. Agora. e Edwin e eu? Meu amigo havia retomado sua batina terrestre apenas para me fazer companhia e me deixar à vontade. Mas. nem quis ouvir falar em tal. ou deveríamos retornar à nossa velha indumentária? No tocante a Rute. Em face de tais argumentos. Em caminho conversávamos a respeito das várias idéias terrenas referentes à aparência pessoal dos espíritos. pois significava que ele continuaria a ser o nosso cicerone. surgiu a seguinte questão: deveríamos continuar com os mantos espirituais. Rute mencionou a pa- . Folguei em saber disso.93 que começavam a desfazer-se de suas velhas crenças religiosas e a afastar-se da sufocante mentalidade das comunidades ortodoxas. e ainda nos perguntou se haveria roupas terrenas melhores do que aquelas.

Não tendo nenhum conhecimento sobre o poder do pensamento aqui. que podíamos avistar não muito adiante. Digo "não muito adiante". Não poderia haver meio de locomoção mais desajeitado e solene do que esse.94 lavra asas. quando Edwin pensou que talvez gostássemos de ir à cidade. que conheciam então — as asas. e que o método terreno de usar pernas era mundano demais para ser admitido. Presume-se que julgavam essencial aos espíritos algum meio de locomoção. Será que ainda há pessoas na terra que crêem realmente que somos aparentados com os pássaros? Não tínhamos ido muito longe. mas não se . Creio que os artistas dos tempos antigos são os maiores responsáveis por esta noção tão diferente da realidade. eles recorriam ao único meio de locomoção através do espaço. e de sua ação direta nos nossos próprios movimentos. associando-a a seres angélicos e imediatamente concordamos que tal idéia era absolutamente absurda. mesmo como remota possibilidade.

era necessário ter confiança. como aconteceu anteriormente. lá nos achamos! No início . Surgiu então a pergunta: devíamos andar ou empregar um método mais rápido? Ambos achávamos que seria interessante experimentar o que o poder do pensamento pode fazer. É evidente que não! O que quis dizer é que a cidade estava suficientemente perto. e. visto que a cidade espiritual seria uma nova revelação para nós. não sabíamos de que maneira pôr essas forças em ação. a nossa concentração de pensamento não poderia ser feita sem vontade. para a visitarmos sem fazer qualquer desvio da nossa direção geral. Rute e eu logo concordamos que gostaríamos de partir para lá. nunca mais teríamos dificuldades no futuro. Em primeiro lugar. Para usar uma expressão terrena.95 deve pensar que a distância aqui tenha algum significado. "nós nos desejamos" lá. e em outras circunstâncias. Edwin nos informou que uma vez conseguido este simples processo de pensar. e em segundo. mas.

quando desejamos sentar-nos. e somente se o nosso progresso o permitir. quase sem pensar. . andar. Preciso.96 talvez seja necessário certo esforço consciente. mas meramente nos delimita certas direções bem definidas. podemos mover-nos para qualquer parte. e já estamos lá. O pensamento passa tão rapidamente pela nossa mente. Há muitos reinos onde não nos é dado entrar. não afeta o método de locomoção aqui. mas depois. Isso entretanto. a não ser em circunstâncias muitos especiais. podese dizer! Voltamos aos métodos terrenos. é claro. Pensamos apenas que gostaríamos de estar em tal lugar. ou executar ações já familiares e nem percebemos qualquer indício de esforço para realizar o menor dos nossos desejos. É assim precisamente o que acontece aqui. que nem nos damos conta dos muitos movimentos musculares envolvidos nesse processo: eles passam a ser uma segunda natureza. esclarecer que nem todos os lugares estão abertos a nós.

97 Uma vez que desejávamos estar juntos, perguntei a Edwin se não seria mais prático os três terem o mesmo pensamento e fixar a mente na mesma localidade. Ao que ele respondeu haver vários fatores a serem observados nesse particular. Primeiro, era que, sendo esta a nossa tentativa inicial de locomoção mental, ele ficaria de certa forma tomando conta de nós. Depois, deveríamos, automaticamente permanecer em contacto uns com os outros, visto que assim o tínhamos desejado. Esses dois fatos já eram garantia suficiente de uma chegada conjunta e a salvo ao local do nosso destino. Quando adquiríssemos suficiente prática nesses métodos não haveria mais dificuldades. Não nos devemos esquecer que o pensamento é instantâneo, e não há possibilidade de se perder em espaço ilimitado. Tive experiência disso imediatamente após o meu falecimento, mas nessa ocasião eu me havia movido relativamente devagar e com os olhos firmemente fechados. Edwin sugeriu

98 então que, para gozarmos desse divertimento agradável, tentássemos uma experiência sozinhos. Assegurou-nos que nada de mau nos adviria, em qualquer circunstância. Propôs que Rute e eu nos projetássemos a um pequeno agrupamento de árvores, cerca de um quarto de milha distante — em medidas terrenas. Sentamo-nos na grama, a contemplar o nosso objetivo, e Edwin disse-nos que se ficássemos nervosos, poderíamos dar-nos as mãos. Rute e eu devíamos ir sós, enquanto ele permaneceria no gramado. Teríamos apenas que nos imaginar ao pé daquelas árvores. Olhamo-nos divertidos, ambos imaginando o que iria acontecer, e nenhum tomava a iniciativa. Estávamos assim hesitantes, quando Edwin disse: "Parti!" Sua exclamação deve ter fornecido o necessário estímulo, pois peguei a mão de Rute, e logo depois nos achamos de pé sob as árvores! Olhamo-nos, se não com espanto, pelo menos com algo muito semelhante. Lançando o olhar para onde tínhamos deixado Edwin, lá

99 o vimos acenando com a mão. Foi então que algo estranho aconteceu. Ambos vimos à nossa frente, o que nos pareceu um clarão. Não era ofuscante, nem nos amedrontou. Apenas chamou a nossa atenção, como acontece com o sol ao surgir detrás das nuvens. Iluminou um pequeno espaço diante dos nossos olhos e ficamos imóveis, cheios de ansiedade pelo que iria acontecer. Então, claramente, e sem sombra de dúvida, ouvimos — ou com os ouvidos, ou com a mente, não posso dizer — a voz de Edwin indagando se havíamos gostado da breve viagem, e que voltássemos como tínhamos vindo. Ambos comentamos o que víramos, tentando determinar se era realmente Edwin que havia falado. Mal tínhamos demonstrado a nossa perplexidade, e ouvimos outra vez a voz de Edwin, assegurando que nos ouvira enquanto procurávamos esclarecer aquele fato! Ficamos tão jubilosos e admirados, que resolvemos voltar imediatamente para perto de Edwin e exigir uma explicação. Repetimos o

100 processo, e lá nos achamos outra vez, sentados ao lado do nosso amigo, que ria feliz com a nossa estupefação. Já ele se preparara para o ataque — e nós o bombardeamos com perguntas — e contou então, que nos reservara essa surpresa de propósito. AH estava, disse ele, outro exemplo do pensamento concreto. Se nos podemos mover pelo poder do pensamento, segue-se que também poderemos enviar os nossos pensamentos por si sós, livres de toda idéia de distância. Quando focalizamos os nossos pensamentos em alguma pessoa no mundo espiritual, sejam eles na forma de mensagem definida, ou apenas de natureza afetuosa, atingirão o seu objetivo, sem sombra de dúvida; é o que acontece no mundo espiritual. Como acontece, não estou preparado para dizer. É mais uma das coisas que aceitamos como são e nos rejubilamos com elas.

101 Até aqui, tínhamos usado os órgãos da fala para conversar com alguém. "Era quase natural e não lhe demos maior importância. Não tinha ocorrido a Rute ou a mim que houvesse aqui um meio de comunicação à distância. Não estávamos mais cerceados pelas limitações terrenas, e no entanto até agora não víramos nada que substituísse o usual método de intercomunicação terrena. Essa ausência total devia nos ter preparado para o inesperado. Apesar de podermos assim enviar os nossos pensamentos, não se deve supor que a nossa mente permaneça como um livro aberto para todos lerem. Absolutamente. Podemos, se quisermos, guardar deliberadamente os nossos pensamentos para nós mesmos; se os deixamos vagar ociosamente, então, sim, poderão ser lidos por outrem. Uma das primeiras coisas a compreender aqui, é que o pensamento é concreto, pode criar e construir, e o nosso imediato esforço, portanto, é colocar os pensamentos sob controle adequado. Mas, como tantas outras coisas

102 quado. Mas, como tantas outras coisas aqui, podemos nos ajustar logo às novas condições, se nos dispusermos a isso; e nunca nos faltarão os mais dedicados auxiliares. Estes já foram encontrados por mim e Rute, para nosso grande alívio e gratidão. A esta altura Rute já estava impaciente para ir à cidade e insistiu com Edwin para lá nos conduzir imediatamente. Desta forma, sem mais delongas, erguemo-nos da grama e a uma palavra do nosso guia, partimos. Ao nos aproximarmos da cidade, foi possível avaliar a sua enorme extensão. Nem preciso dizer que era totalmente diversa, de tudo que jamais víramos. Consistia de grande número de majestosos edifícios, rodeados de magníficos jardins e árvores, onde brilhavam, aqui e acolá, espelhos de água, límpida como cristal, refletindo, além das cores já conhecidas da terra, outras mil tonalidades jamais vistas.

103 Nem se pode imaginar que esses jardins tivessem a menor semelhança com os da terra, que por melhores e mais belos que sejam, ficam a perder de vista, em comparação com esta riqueza de perfeito colorido, e perfumes celestiais. Caminhar pelos gramados em meio a tal profusão de beleza natural, nos deixava fascinados. Nunca pensara que as belezas do campo, tais como as conhecia, pudessem ser assim ultrapassadas. Minha mente se transportara às ruas estreitas e às calçadas apinhadas da terra; prédios amontoados porque o espaço era valioso e caro; o ar, pesado e poluído, pela grande cadeia de tráfego; tinha pensado na pressa e no tumulto, em toda a agitação da vida comercial e na excitação de prazeres passageiros. Não tinha a menor idéia de uma cidade de beleza eterna, tão diferente de uma cidade terrena quanto a luz do dia o é da noite escura. Viam-se largas ruas de gramados verdes como esmeraldas, partindo, como os raios de uma roda, do edifício, que era o

104 centro de toda a cidade. Um grande raio de luz purificada descia sobre a cúpula e instintivamente sentimos, sem que Edwin o dissesse, que neste templo podíamos erguer, à Grande Fonte de todas as coisas, as nossas graças, e que ali acharíamos nada menos que a Glória de Deus na Verdade. Comparados com as estruturas terrenas, os edifícios não eram muito altos, mas apenas extremamente amplos. É impossível descrever de que materiais se compunham, por serem essencialmente espirituais. A superfície é lisa como mármore, e tem a delicada consistência e a transparência do alabastro, ao mesmo tempo que cada prédio emite uma corrente de luz da mais pálida tonalidade. Alguns eram esculpidos com desenhos de folhagens e flores, outros, quase sem adornos, usando como tal apenas seu estilo meio clássico. Sobre tudo isso derramava-se ininterruptamente a luz celestial, de maneira que não havia sombras em parte alguma.

105 Esta cidade, devotada ao cultivo do saber, ao estudo e prática das artes, e aos prazeres de todo este reino, não é exclusividade de ninguém,- mas livre para todos a gozarem, com iguais direitos. Aqui é possível prosseguir qualquer das agradáveis e profícuas ocupações começadas no plano terrestre. Aqui, também, muitas almas podem se entregar a amenas diversões que lhes tinham sido negadas por várias razões, enquanto encarnadas. O primeiro departamento era dedicado à arte da pintura. De grandes proporções, continha uma longa galeria em cujas paredes eram exibidas todas as grandes obras-primas conhecidas do homem. Estavam dispostas de tal maneira, que se poderia acompanhar cada passo do progresso terreno, a começar da Antigüidade, até os dias atuais. Todos os estilos pictóricos, colhidos em todos os pontos da terra, estavam aqui representados.

da água. muitos seguindo a própria fantasia. que. que apontavam as várias fases da história da Arte. pois que víramos seus originais. Mas aqui deparávamos com os resultados diretos dos pensamentos do pintor. nas galerias da terra. Mas havia grupos mais sérios. Qual não foi a nossa surpresa quando Edwin declarou que os que tínhamos visto na terra não eram. Reconheci muitas daquelas pinturas. eram deterioráveis sob a ação do tempo.106 Grande número de pessoas se moviam ao longo da galeria. do fogo. e suas explicações eram tão claras e interessantes que ninguém podia deixar de as compreender. absolutamente os originais. Agora é que estávamos vendo pela primeira vez os originais. ilustrada nas paredes. por sua vez. criados no etéreo antes de ele transferir essas idéias . etc. atentos às palavras de experimentados mestres. Tínhamos visto na terra apenas reproduções.

fossem paisagens ou retratos. Posso apenas sugerir uma idéia. essa exata concepção lhe escapava. Podia-se observar muitos casos em que a pintura terrena não correspondia ao que o artista tinha em mente. Havia criado em seu espírito os resultados que agora podíamos ver. o artista fora incapaz de achar ou criar a exata tonalidade desejada. ao iniciar. Outra grande diversidade — e a mais importante — era o fato de que todos esses quadros estavam vivos. sua mente sabia precisamente o que ele desejava fazer. Em alguns casos faltavam os pigmentos necessários. Essa foi a grande diferença observada nos quadros. apesar de incapaz fisicamente. para poder compreender. É impossível dar uma idéia disso. ao compará-los com os que tive oportunidade de ver na terra. Os quadros. nunca eram pla- . ao passo que na tela material havia falhado. é preciso ver. mas devido às limitações físicas. Mas.107 à tela. quando. Esforçavase por reproduzir sua concepção exata.

Veio-me à mente um problema. mesmo nas primeiras obras anteriores ao verdadeiro progresso. qualquer idéia de preferência baseada em julgamento de outros não me parecia de acordo com a lei espiritual. A resposta é que. Era o seguinte: como seria indesejável e talvez impraticável expor nas galerias todos os quadros que emanassem do plano terrestre. até que um artista. 0 tema salientava-se quase como se fosse um modelo . As cores brilhavam com vida. Sentia-se que as sombras eram verdadeiras sombras. mas possuíam toda a perfeição do relevo. projetadas por verdadeiros objetos.108 nos. bom ou mau.um modelo de onde se pudessem apanhar todos os elementos que constituem o tema de um quadro. Neste caso. para cuja solução naturalmente recorri a Edwin. que sistema seria usado para a seleção de pinturas a serem expostas? Disseram-me que essa era uma pergunta freqüente entre os visitantes das galerias. isto é. nunca pareciam pintados sobre uma tela. ou apenas me- .

ao pensarmos que éramos agora habitantes do mesmo mundo. não eram apenas meras figuras históricas das crônicas do mundo terrestre. eles estavam bem vivos. o problema é mais de escassez do que de superabundância. Quando pudemos contemplar os retratos de tantos homens e mulheres. eu e Rute experimentamos uma sensação estranha. é desprovido de qualquer ilusão terrena – se alguma vez a teve — a respeito de seu trabalho.109 díocre. Geralmente estranha timidez se manifesta. se ajuste à nossa vida. e que. estimulada pela imensidão e a superlativa beleza deste reino. livres de . A alegria desses estudantes. tivessem eles vivido em épocas longínquas ou nos dias presentes. Em outras partes do mesmo departamento havia salas onde os estudantes de arte podiam aprender tudo o que há para se aprender. como nós. de fama universal. De maneira que no fim.

e a aquisição e aplicação do saber igualmente fáceis. queríamos apenas ter uma visão geral de tudo o que havia aqui. desde que aquele espantalho da vida terrena — o tempo que voa —. os artistas estejam desfrutando das horas douradas de sua recompensa espiritual? Fazer um estudo prolongado dos quadros da galeria seria muito exaustivo. uniforme e rápida. Desaparecem todas as lutas do estudante para superar as dificuldades terrenas da mente e das mãos. Aqui. para os que desejam aprender. A felicidade de todos os estudantes que víamos. É pois para se admirar que dentro daqueles templos. conseqüentemente.110 suas limitações corporais e terrenas. se quiséssemos.e todos os pequenos empecilhos da existência foram abandonados para sempre. e a marcha para a proficiência é. pois não há mais limites para os seus esforços. mais tarde. a instrução é fácil. era contagiante. no momento. poderíamos voltar e admirar . bem como em outros da cidade. além disso. era imensa.

Assim pensávamos os três. os volumes que enchem as prateleiras desta seção seriam altamente proveitosos. por muito tempo e aceitamos a sugestão de Edwin de passar para outro imenso departamento. Desde então voltei muitas vezes àquela biblioteca e passei proveitoso tempo entre seus inúmeros livros.111 as coisas que mais nos agradaram. nas galerias. O leitor poderia ler pela primeira vez. onde estavam as histórias de todas as nações sobre a face da terra. Edwin conduziu-nos a um espaçoso recinto. Para qualquer pessoa que tenha conhecimentos da história terrestre. a verdade SL respeito da história de seu país. porque nada. menores que as das pinturas. Fingir e mentir é impossível. a não ser a verdade. Não nos detivemos pois. e continha todas as obras dignas desse nome. Aprofundei-me particular- . Seu interior era formado de salas. Era o edifício de literatura. pode ter entrada nestes reinos.

dos motivos que governavam e sustentavam esses atos — a verdade acima de qualquer dúvida. Naturalmente encontraria uma História escrita da mesma maneira conhecida por nós.112 mente em História e. durante sua jornada terrena haviam participado dos acontecimentos de seu país. de reis à frente de seus reinos. Alguns eram ví- . Paralelamente às simples citações de atos de pessoas notórias. mas havia uma diferença essencial: é que agora eu teria pela frente toda a verdade acerca dos fatos históricos. paralelamente a tais declarações. uns eram malinterpretados e outros. Isto era evidente. Gravados indelevelmente nos anais do espírito. de estadistas em cujas mãos esteve o governo de seus países. estavam as verídicas narrativas de milhares e milhares de seres humanos que. estava a verdade. mas fiz outra descoberta que a princípio me deixou atônito. e muitos eram completamente vis. Muitos desses motivos eram elevados. deturpados. nua e crua. o que vi espantoume.

Até aqui só me referi à história política. que nossa mente. e as revelações nesse setor não foram muito melhores. de certo modo. Lá estava tudo para se ver — a verdade sem atenuantes. prelado ou leigo. tal como era. mas aprofundei-me também na da igreja. Não se recorreu a enfeites. está preparada para receber tais revelações.113 timas de traição e vileza de outros. — nem a comentários. por homens que. eram . Ninguém foi poupado ou omitido. fosse rei ou plebeu. agora. Ela falava por si só. sem supressões. Eram de fato. considerando-se em Nome de quem tantas ações diabólicas foram cometidas. e. E fiquei profundamente grato por algo: que essa verdade nos tivesse sido poupada até agora. externamente professando servir a Deus. Os historiadores tinham apenas registrado a história verídica. alguns também eram os causadores dessa traição e vileza. Os arquivos não respeitavam ninguém. quando aqui estamos. piores.

também testemunhavam ações nobres e elevadas. Passamos através de muitas outras salas. Não estavam lá especificamente para atacar ou defender. Os supostos motivos apresentados pelos nossos livros de história na terra estavam bem longe dos verdadeiros. Se há prazer em ler.114 apenas instrumentos de outros tão baixos quanto eles mesmos. obras sobre todo e qualquer assunto i- . Apesar desses volumes testemunharem contra os perpetuadores de tantos feitos escusos na História. mas estão de acordo com tudo o mais aqui. mas porque a literatura se tornou parte do material da vida humana. mas nunca julgara a que ponto de veracidade chegariam os fatos. não deve haver então livros para esse fim? Podem não ser exatamente iguais aos livros terrenos. onde estavam. Edwin havia me prevenido disso. à disposição de quem quisesse.

115 maginável. . Pedi de novo informações a Edwin e foi-me explicado que o processo de reprodução de livros no mundo espiritual não é o mesmo que no setor da pintura. Fiquei boquiaberto com a riqueza da literatura sob essa. com o material em que eram impressos e com o estilo da impressão. Eu mesmo vira como a verdade fora suprimida naqueles volumes. Ficamos muito impressionados com as belíssimas encadernações dos livros. Nas prateleiras havia livros negando a existência de um mundo espiritual e negando também a realidade da volta do espírito. E talvez um dos mais importantes assuntos fosse o que se chama de ciência psíquica. Muitos desses autores tiveram desde então a oportunidade de rever suas próprias obras — mas com sentimentos bem diferentes! Eles mesmos haviam se tornado testemunhas vivas contra o conteúdo de seus próprios livros. denominação. ou com intenção deliberada ou por verdadeira ignorância dos fatos.

aqui. Não há necessidade de dissimular. escreve um livro com as verdades. dentro da verdade. desta vez. Quanto à impressão de livros. pelo contrário. não perpetuou inverdades. não há na terra máquinas impressoras? É claro que sim! E o mundo espiritual não pode estar menos aparelhado a esse respeito do que os seres . aqui no espírito? O seu próprio autor — quando vem para o mundo espiritual. se bem que não por sua própria culpa. mas. Um autor dificilmente escreveria um livro com intenções diametralmente opostas às que ele expressa. E ele se sente feliz por poder fazê-lo. Fica sendo o seu trabalho. visto que eles. sua mente tinha anotado o que era absolutamente real. Não terá dificuldades em relação aos fatos.116 No caso dos quadros o artista tinha desejado retratar a verdade. o que de fato seria inútil. estão em sua frente e prontos a serem registrados. Portanto. Quem. pois. e por meio dele pode ganhar a melhoria de sua alma. mas fora incapaz de o fazer.

O método de reprodução aqui é somente um processo mental. belíssimas criações que.117 terrestres. Os livros que resultam desta cooperação são verdadeiras obras de arte. A encadernação é outro processo de peritos. Apanhar uma obra e começar a lêla significa também perceber com a mente — num processo impossível na terra — todo o fato narrado. Vivem tanto quanto os quadros que vimos anteriormente. instantaneamente responde. uma vez nas mãos do leitor. quase da mesma ma- . e o autor e impressor trabalham juntos em completa harmonia. como todo o resto. realizado também por artistas. história ou arte. Mas os livros assim produzidos não são coisas mortas que requeiram uma concentração de toda a mente sobre eles. só que aqui os métodos são totalmente diversos. à parte o conteúdo literário. seja ciência. O livro. com materiais jamais encontrados sobre a terra. são encantadoras à vista. Temos peritos que são artistas no seu trabalho -e um trabalho que é feito com amor.

assegurou-nos que não nos devíamos assustar com isso visto que tínhamos à frente toda a eternidade. Edwin porém. e Rute sentiu o mesmo. de transitório. fiquei abismado com a minha própria ignorância. A intenção é diferente. mas os . regras impertinentes ou regulamentos. que associamos à vida terrena. ao departamento de tecidos. Leva tempo para se perder aquela sensação de instabilidade. Tendo toda essa riqueza de sabedoria à nossa volta. é claro. embora o fator tempo tenha deixado de existir. Em conseqüência. pois era um fato de que sempre nos esquecíamos. assim. Essa lembrança foi confortadora.118 neira como as flores ao nos aproximarmos delas. A esta altura Edwin achou que devia mostrar a Rute algo que a interessasse em particular e levou-nos. Era igualmente espaçoso. A imensa quantidade de livros que havia era para o uso de todos. julgamos que é necessário ver tudo. o mais depressa possível. sem restrições.

Era possível admirarmos então. o mundo terreno tem perdido suas cores e torna-se cada vez mais sombrio e melancólico. a julgar pelo que víamos. e em ocasiões festivas. assim como tecidos executados há milhares de séculos. nas descrições de cerimônias de gala.119 compartimentos eram de maiores proporções do que aqueles que acabáramos de ver. E. e dos quais pouca coisa restou na terra. por mais que se falem da mudança de estilo e gostos que se vêm sucedendo através das idades. eles aqui são eternos. Novamente podíamos observar o progresso gradual conseguido no desenho e fabricação dos tecidos e devemos admitir que. tecidos sobre os quais lemos nas histórias e crônicas. Aqui existe uma infinidade de belos materiais. enquanto que os magníficos desenhos nos revelaram artes há muito desaparecidas da terra. O colorido de muitos dos tecidos era simplesmente soberbo. esse progresso se verificou até certo . Mesmo perecíveis na terra.

E precisam ser protegidos contra o próprio homem. os museus são lugares bem tristonhos. Falo. de modo geral. amostras magníficas. Ao passo que aqui não há restrições. Todas as coisas dentro destas paredes são livres e ao alcance de todas as mãos. para aumentar a glória das manufaturas dos homens. estamos cônscios das graças . evidentemente. nos quais nós. visto que os objetos devem ser protegidos da deterioração e extinção. por meio de insípidas redomas de vidros. são templos. espíritos. Não existe ar bolorento. longe disso. Entretanto. o que não os impedia de continuar a ser museus. estes não são museus. enquanto jorra de todos os lados a luz celeste.120 ponto. que emitem sutis perfumes. na terra. quando então se deu um movimento de regressão. Não. é verdade. a beleza dos objetos. Pode-se pensar que o que víramos até então não passava de museus celestiais. mas sim. contendo. Têm aroma de bolor e preservativos químicos. impossíveis de serem encontradas na terra.

e que nós no espírito nada temos! Talvez seja outra das razões por que somos tão lamentados quando passamos a espíritos: porque deixamos para trás tudo que era lindo. é perfeitamente voluntária. Eles substituiriam tudo isso com o quê? Não o sabem! Dizem que há muitas e muitas belezas na terra. portanto. exclusivamente ao mundo. num mundo de que tantos na terra negam a existência. quando ele aqui chega. para entrar no nada — um vácuo celeste. realizada apenas pelo simples desejo de a fazer e nunca com .121 estamos cônscios das graças eternas que elevemos ao Senhor. pois que nada há em que ocupá-la! Apenas vazio! Não nos admiramos que as realidades e a imensa riqueza do mundo espiritual provoquem um choque de revelação para aqueles que esperavam uma eternidade do Nada celestial! É essencial compreender que toda tarefa ou ocupação dos habitantes destes reinos. Tudo que é belo pertence. a inteligência do homem nada vale. por nos dar tão ilimitada felicidade.

122 uma atitude de obrigação. se devemos começar a nossa tarefa ou suspendê-la por enquanto. para acertar alguns assuntos referentes à minha vida. Menciono isto para que se compreenda bem o salão especial onde Edwin nos levou. de tentar uma comunicação com a terra. Podemos lembrar minha própria sugestão. Era. onde as almas que não tiveram o bem terreno de . — mas se nós não podemos. uma escola. "quer queiram. Mas isso não quer dizer que se deseje o impossível. Podemos ver o resultado de uma ou outra ação. há outros mais sábios que podem — e saberemos então. quer não"! Não há coisas. no início. como essa de ser forçado a algum serviço! Nunca a má vontade é sentida ou expressa. É pois a verdade dizermos que o traço predominante aqui é o desejo de fazer e de servir. para todos os efeitos. tendo Edwin aconselhado que procurasse mais tarde orientação a respeito. Nunca nos faltam conselho e ajuda. depois do de tecidos.

sem auxílio material de palavras impressas? A mesma pergunta pode ser feita a respeito de quadros e de tudo o mais. e a incapacidade de ler e escrever não significa falta de qualidades. vê também que o saber a ajudará no caminho espiritual. Por que a necessidade de algo tangível? Se seguirmos esta linha de critério ela nos . agora que tem a oportunidade de ler. Neste caso. Mas quando uma alma passa para esta vida. conquanto lhe falte habilidade? Talvez deva-se perguntar: mas não disseram que não é preciso saber ler no mundo espiritual? Não há aqui uma espécie de percepção mental a ser colhida dos livros. Saber e aprender. quando ela vê a grande e larga estrada espiritual abrir-se-lhe à frente. Poderá não saber ler. educação ou erudição. aqui. com oportunidades múltiplas. devem esses esplêndidos livros permanecer para sempre fechados a alguém.123 aprender. pudessem se equipar intelectualmente. não representam valores espirituais.

não se deram ao trabalho de preencher essa lacuna. Deparamos nesta escola com muitas almas ocupadas em seus estudos e divertindo-se bastante. Não é necessário poder escrever. ou de outra maneira qualquer. que há algo dentro do livro que tem nas mãos.124 levará até aquele estado de vacuidade que acabei de mencionar. O que sabe ler. Adquirir conhecimentos aqui não é enfadonho. e o livro. O homem incapaz de ler sentirá. mas não ficará sabendo. assim. se achará imediatamente en rapport com as idéias que o autor escreveu. o seu conteúdo. porque a memória trabalha perfeitamente — isto é. instintivamente. . pela mente. se comunica com aquele que o lê. e muitos que não o sabiam antes de chegar aqui. infalivelmente — e os poderes da percepção mental não são tolhidos ou confinados por um cérebro físico.

terminava. por razões já bem nossas conhecidas. mais interessado e fascinado se tornava. é claro. quanto mais se aprofundava nos estudos. começava o que queria. Alguns não tiveram tempo. ou então a luta pela vida tinha absorvido os meios necessários. para a maioria dos estudantes. Posso falar disto por experiência própria. e. A escola é o lar das ambições realizadas. . Conversei com vários deles e cada um me contou que estudava agora o que sempre ambicionara na terra e cuja oportunidade lhe havia sido "negada no mundo. visto que tanto estudei na enorme biblioteca. não havia nem sombra de regulamentos. ou nos esplêndidos jardins. devido a atividades comerciais. A escola era organizada muito confortavelmente e. Sentado confortavelmente. desde que aqui cheguei.125 Nossas faculdades de compreensão são aguçadas e a expansão intelectual é firme e certa. Cada estudante seguia seu curso independente de qualquer outra pessoa.

para contar ao mundo as maravilhas daqui. visto que aqui não se sofre fadiga corporal. assim que passam a espírito. . Mas Edwin conhecia as emoções contraditórias que surgem nas mentes dos recém--chegados. Entretanto. VÁRIAS QUESTÕES RESPONDIDAS Edwin nos contou que um grande número de pessoas.126 Ao deixarmos a escola. VI. infindavelmente. não temos. coisa que não há aqui. antes de novas explorações. a mesma ocupação: isto significaria monotonia. Edwin sugeriu um descanso à sombra das árvores. mas isso foi apenas uma maneira de dizer. e assim fizemos uma pausa. sentem arder dentro de si tamanho entusiasmo ao lhes ser revelada a nova vida. que querem voltar imediatamente à terra. Explicoume ainda algumas das dificuldades que se opunham à minha intenção de voltar também.

e isto já por si era maravilhoso. mas a dificuldade estava por onde começar. para serem solvidos por Edwin. que. já que tocara no assunto. neste particular. poderíamos vê-lo com os próprios olhos? . Alongavase a perder de vista. mas havia considerações de natureza geral que surgiam à contemplação da terra espiritual como um todo.127 Outra tendência muito natural é fazer inúmeras perguntas a respeito desta vida em geral. Tínhamos deixado que os nossos passeios apresentassem seus próprios problemas. Uma das primeiras que me vieram à mente foi a extensão deste reino. havia muita coisa que eu e Rute desejávamos saber. Mas haveria um limite? Estendia-se ele muito além do que os nossos olhos podiam alcançar? Se havia um fim. tanto Rute como eu havíamos demonstrado uma moderação fora do comum! Confessei entretanto. e notou que.

Porém. Cada pessoa. Edwin já vira várias delas. aqui. Descobriríamos que há muitas infinitamente melhores. apesar de não podermos lá entrar. e visitar-nos. Além deste. esperávamos também fazê-lo. as almas gloriosas. entrava no reino para o qual se preparara na terra — a este apenas. e. para dar con- . Podíamos julgar por nós mesmos. ao passar a espírito. explicou Edwin. e a nenhum outro. havia ainda outros reinos. quer como habitantes. e outras piores. Vinham freqüentemente. muito mais belos do que aquele em que estávamos agora vivendo.128 Certamente que havia um limite. se a colheita era boa ou má. podem vir a reinos de menor beleza celestial. seus habitantes. Enfim. há outros reinos. felizes. E Edwin começou por descrever--nos esta terra como a terra da grande colheita — a colheita daquilo que cada um semeou na terra. e podíamos vê-lo a qualquer hora que quiséssemos. quer como visitantes. reinos de infinita beleza onde só poderemos penetrar quando alcançarmos esse direito.

o segundo. Mas era a maneira de celebrá-las e não as festas em si. o primeiro. Neste reino as duas celebrações coincidem com as da terra. nos . Nos reinos espirituais. tanto o Natal como a Páscoa são considerados aniversários. esses seres transcendentais fazem visitas especiais. por exemplo. visto que há um elo espiritual maior entre os dois mundos. que são exclusivas da terra. Em certas ocasiões. conceder recompensas e louvores. Não é assim. entretanto. quando o reino todo celebra um grande acontecimento. do nascimento para o mundo terreno. e não havia dúvida de que o meu problema podia ser submetido à orientação de uma dessas almas-mestres. Rute e eu ficamos surpresos com isto. tal como o Natal e a Páscoa. também. do nascimento para o mundo espiritual. ajudar. o que não aconteceria se as festividades fossem realizadas independentemente de estação. visto termos julgado ambas as datas essencialmente da terra.129 selhos.

Não somos de maneira alguma dependentes da terra nestes assuntos. As outras são em geral eclesiásticas e sem significado espiritual. mas cooperamos com a terra em nossas celebrações conjugadas. e .130 reinos superiores onde leis de diferente natureza estão agindo. visto que às vezes a data escolhida não tem relação alguma com a original. e é impossível determinar agora. Os reinos superiores têm suas razões boas para se afastarem dessa ordem. Tais razões não nos dizem respeito. durante muitos séculos. No plano terrestre fixou-se uma certa data para o Natal. uma vez que já se estabeleceram a tradição e a prática. A época exata do primeiro Natal já se perdeu. com precisão. até que passemos a esses elevados reinos. Além destas duas festas pouco temos em comum com a terra. quando se deu. Mesmo que fosse possível. A festividade da Páscoa é móvel — um costume estúpido. é tarde demais para fazer alterações.

mas sempre. a festa da Natividade se transformou num negócio secular. visto que na terra. E não numa ocasião específica. A festa de Pentecostes é outro exemplo da cegueira da Igreja. A festa da Epifania.131 provêm de doutrinas religiosas sem aplicação no mundo dos espíritos. é baseada numa colorida história. seu característico principal era o excesso de comidas e bebidas. Tanto eu como Rute estávamos muito interessados em saber como o Natal era celebrado nestes reinos. Edwin nos contou que em espírito podemos experimentar o mesmo grau de felicidade que na terra. O Espírito Santo — para usar a frase da Igreja — tem descido e estará descendo sobre todos os que são dignos de o receber. Agora é apenas religiosa e de pouquíssima importância aqui. nos velhos tempos. além de alguns serviços religiosos. por exemplo. quando por exemplo a felicidade é o resultado ou ex- . e era celebrada pelo povo. de maneira secular e religiosa.

que perdura longo tempo. onde está o Ser cujo nascimento festejamos. . mesmo depois que elas voltam ao seu alto reino. de que já falei. quando nossas festividades são misturadas com a lembrança dos grandes dias que estamos celebrando. e. para delícia dos mais exigentes? Mas falei apenas do lado mais pessoal da festa. por que não teríamos também uma superabundância das mais perfeitas frutas. como foram acostumados na terra. — e há muitos — podem decorar suas casas com folhagens. E basta vermos essas belas almas passarem. Unimo-nos a alegres companhias. para nos sentirmos cheios de exaltação espiritual. Os que desejam. se se considera que a comemoração não estará completa sem haver algo para comer.132 pressão de bondade. é nesta época que recebemos a visita daqueles seres perfeitos das regiões superiores.

é de maior significação. Tais indivíduos estarão um dia nas nossas condições. sem nos apercebermos que estamos distantes do início. quando deixamos o plano mundano tendemos a esquecer o nosso aniversário terreno. Somos humanos. mas é que a nossa conversa vai de um assunto a outro. apesar de tantas pessoas na terra julgarem o contrário.133 Na Páscoa temos visitas similares. De fato. porque para nós a passagem para o mundo espiritual. Detive-me um pouco neste assunto para tentar mostrar que não vivemos num estado febril de emoção religiosa por toda a eternidade. e nada causa mais humildade do que ver a realização daquilo que um dia foi a nossa firme e decidida opinião. Afastei-me um pouco do nosso primeiro tópico. que nos recordamos dele. e é novamente por meio de ligações com a terra. pela própria natureza das coisas. . mas há um muito mais alto grau de júbilo. se é que as temos.

Pode-se sempre ir a reinos inferiores ao nosso. Estamos acostumados à idéia da redondeza da terra e a ver diante dos olhos o horizonte distante. Edwin aconselhou-nos a conhecer primeiro a nossa agradável terra. E que dizer das esferas inferiores a que Edwin se referiu.134 Mencionei apenas de passagem os reinos superiores. ou antes de receber ensinamentos adequados. Mas não era aconselhável vagar por essas esferas baixas sem guia capaz. Qualquer sugestão de planura terrestre é dissipada . mas nunca a um mais elevado. vamos ao que constitui os limites precisos deste reino. E agora. Antes de nos informar melhor sobre esse assunto. visto que ela desaparece. pela rapidez dos meios de locomoção. Ao contemplar o mundo espiritual devemos abandonar a idéia de distância que se pode calcular com os olhos. quando falei dos limites deste reinado? Podíamos visitá-las a qualquer hora que desejássemos.

e quando me ergui do leito em . mas até com prazer. eu estava perfeitamente consciente. Rute não expressou desejo muito grande de o fazer — por enquanto. Preferia esperar. então. até estar mais aclimatada. Assim como nos podemos mover lateralmente. E isto não nos tinha ainda ocorrido. Não somos obrigados a manter os pés no chão. Onde está o limite entre a terra e o mundo espiritual? No momento em que faleci. Se podíamos afundar na água sem perigo. o que divertiu muito o nosso bom amigo. como devem lembrar-se. Sendo a atmosfera cristalina.135 pela quantidade de colinas e planícies onduladas. como Edwin nos disse. podemos fazê-lo verticalmente. nossa visão não é limitada. Eu também partilhava seus sentimentos. disse ela. poderíamos subir ao ar com a mesma segurança e prazer. também. Ainda estávamos acostumados aos nossos hábitos e limitações terrenas.

Edwin mais tarde me informou que eu passei através das esferas inferiores — e desagradáveis — mas que. Parecem fundir-se quase que imperceptivelmente um no outro. certamente que havia. Movimento. A transição de um reino para outro é gradual. se interpenetrar. Os dois mundos devem. nesse mesmo instante já me achava no mundo dos espíritos. de fato. tanto no que se refere à aparência externa. pois. Éramos. . completamente invisíveis a todos os que não pertencessem ao nosso plano ou aos mais altos. como em outros aspectos.136 resposta a um apelo fortíssimo. de maneira que é difícil fixar em alguma localidade os limites deles. devido a autoridade de sua missão para ajudar-me a passar ao meu reino. não tinha noção de estar me movendo em alguma direção definida. estávamos ambos protegidos de toda e qualquer influência desagradável. Mas ao afastar-me sob o apoio e orientação de Edwin.

de fato. fôssemos ver um desses limites que tanto nos intrigavam. e tudo parecia desaparecer debaixo dos nossos pés. Não havia sinal de vida humana. árvores ou habitações. quando lhe falta água. ao mesmo tempo que a grama desaparecia e pisávamos solo seco e duro. O lindo verde-esmeralda desaparecia e tomava uma aparência de amarelo sombrio.137 Edwin propôs agora que. Assim colocamo-nos sob sua orientação experiente. a título de ilustração prática. Imediatamente nos achamos numa imensa planície gramada. Notamos também que a temperatura havia caído consideravelmente. e partimos. Sumira todo o colorido belo e genial. e tudo parecia triste e árido. Havia no ar . Não se viam flores. mas ambos notamos que a grama aqui não era tão macia sob os pés. similar à grama terrestre depois de ser escaldada pelo sol. à medida que avançávamos tornava-se mais dura.

docemente. Tínhamos ido apenas ao limiar das esferas inferiores. Sabia que levaria . e eu não tenho acanhamento de admitir que fiz o mesmo. Entretanto. A pobre Rute agarrava-se ao braço de Edwin. e.138 umidade e frio que parecia grudarem-se a nós e às nossas almas. segurando-nos pela cintura. ele podia bem ver a profunda depressão e opressão que se apossara de nós. e uma vez mais nos achamos sentados sob as belas árvores. visto que ele tinha o poder de nos proteger. Edwin passou os braços ao redor de nossos ombros assegurando-nos que nada devíamos temer. É supérfluo acrescentar que tanto eu como Rute ficamos satisfeitos por estar de volta. por isso. fez-nos voltar. para bálsamo das nossas aflições. implorando que não fôssemos adiante. mas fora suficiente para nos dar idéia do que havia além. e com grande prazer. Rute tremia visivelmente e parou de súbito. rodeados de flores maravilhosas e envolvidos numa atmosfera morna.

Sabia que nada de desagradável podia haver em relação a eles e sugeri que. ultrapassava tudo que jamais encontráramos. Achamo-nos de novo em gramados. O próprio ar parecia impregnado de tintas do . Não tendo havido objeções. à guisa de contraste e para apagar a nossa enregeladora experiência anterior. perfume e poder vivificante. mas com notável diferença. as flores mais abundantes e a intensidade de cores. A grama era infinitamente mais macia do que a do interior do nosso reino. pudéssemos talvez visitar a fronteira pela qual passam os nossos visitantes. partimos. Como estávamos falando dos limites espirituais.139 tempo antes de poder entrar lá. O verde era ainda mais brilhante. apesar de termos suspenso temporariamente nossas explorações. e pude perceber a sabedoria dos conselhos de Edwin. não pude deixar de indagar a respeito dos limites dos reinos superiores.

Havia poucas residências no local.140 arco-íris. depois de termos visto a cidade. Edwin prometeu-nos voltar a esse lugar. . sentíamosnos agora presas de tal êxtase que quase não falávamos. Assim como sentíramos frio e opressão nas fronteiras das esferas sombrias. Ao caminharmos. estavam. em contacto com os reinos elevados. em várias ocasiões. sentimos tamanha exaltação que me veio à mente a descrição de Edwin. apesar de nominalmente pertencerem ao nosso próprio reino. e lá poderíamos discutir o meu trabalho futuro e o de Rute. em virtude do seu progresso espiritual. Nelas viviam almas maravilhosas que. mas atrás de nós podiam-se vislumbrar algumas das mais belas casas que jamais víramos. de seus dons particulares e trabalho. para os quais tinham inteira autoridade e poder de passar. Tinha várias vezes indagado a mim mesmo em que espécie de trabalho espiritual me ocuparia quando me familiarizasse com a nova vida e a nova terra. banhados em esplendor.

envolvidas nas mais tênues vestimentas. mas flutuar à roda dos tecidos — se é que se podia chamá-los de tecidos.141 das visitas dos seres dos reinos superiores. Podíamos ver muitas almas. não poderíamos respirar. e tivemos por fim que retroceder. Ali. que sabíamos não estarmos sendo intrusos. Caminhamos um pouco mais. Não havia barreiras visíveis. . cujas cores suaves nem pareciam pertencer-lhes. a cujas portas agora estávamos. A atmosfera estava se tornando rarefeita. mas não pudemos ir muito longe. e eu quase pude sentir o que deveria experimentar quando recebesse uma dessas visitas. Os mais próximos sorriam-nos de maneira tão amistosa. de pé. mas sentíamos que. tinha-se o desesperado desejo de lutar pelo progresso que nos daria o direito de servir um daqueles habitantes da esfera. Alguns até acenavam. se prosseguíssemos.

e logo nos achamos em nosso primitivo lugar. e tenho a certeza que até . e quando afinal o fizemos foi para crivar o bom Edwin de perguntas. o que se refere às esferas inferiores. Sentíamo-nos mais leves depois daquela visita. cujo limiar nos havia deprimido. Primeiramente. embaixo das árvores. Afinal. relutantemente voltamos. há tanto tempo espírito. absortos em nossos próprios pensamentos. por isso darei as suas respostas como um todo. Seria enfadonho enumerá-las. e fiz excursões por lá. Por uns momentos não falamos. deixando-nos sozinhos gozar daquela experiência e absorver calmamente as belezas e esplendores daquela terra limítrofe. Visitei-as depois em companhia de Edwin e Rute. como fazemos .142 Meu amigo explicou que todos estavam a par do nosso intuito e por isso não se aproximavam.Edwin. o sentia também.

Neste caso. que Edwin nos mostrou em seu poder. Ê verdade que não vimos ninguém quando lá estivemos. Os que o fazem sem autorização. cujo trabalho nessa região é justamente desviar os outros dos perigos. concedida a ela ou à alma que lhe serve de guia. essas almas caridosas movem-se rapidamente. são logo mandados de volta por almas bondosas. é sempre munido de autorização. a quem será . Para visitar os planos inferiores é necessário possuir — para nossa proteção — certos poderes ou símbolos. Portanto. dados ao viajante. e ninguém faria a tolice de ir lá sem um fim determinado. Quando alguém de um plano inferior viaja para o alto. No limite dos reinos superiores não há necessidade de tais sentinelas. Tais lugares não são para os meros curiosos. não quero antecipar o que terei de relatar mais tarde. mas. tal autorização toma a forma de símbolos ou sinais. como nós.143 agora aqui. pois a lei natural impede-nos de o atravessar.

. o que não acontece nos reinos superiores. passou seus braços protetoramente à nossa volta. Esta não afetaria a alma. num plano inferior. No caso do sol terreno. Aí não há tal poder de adaptação. da mesma maneira que Edwin. Muitos desses símbolos têm em si o poder de preservar o viajante dos efeitos sobrenaturais da atmosfera espiritual superior. mas uma pessoa desprevenida nessas regiões se acha na mesma situação de alguém na terra que enfrente a luz do sol ofuscante. porém.144 sempre dedicada toda a assistência que possa necessitar. Quando se tem de fazer uma viagem a esferas superiores é imprescindível. voltar ao normal mesmo sob a claridade ofuscante. pode-se. que um habitante destes reinos coloque um manto protetor sobre seu protegido. em muitos casos. O efeito perturbador será contínuo. depois de prolongada permanência em completa escuridão. é claro. depois de certo tempo.

Assim era o departamento a que Edwin nos conduziu a seguir. VII. Na terra. e tinha escassa experiência de música orquestral. Muito do que ouvi nesse departamento da música era novo para mim. mas apreciava essa arte. ao ensino e ao incentivo de toda espécie de música. nunca me considerei um musicista. e . A MÚSICA Sendo a música um elemento vital no mundo do espírito. sem entretanto a compreender bem. não é de surpreender que um edifício imponente fosse devotado à prática.145 Isso é em substância o que Edwin nos contou em resposta às múltiplas perguntas. Ouvi música vocal esplêndida durante breves estadas em diferentes catedrais metropolitanas. Sentíamo-nos agora suficientemente descansados e acedemos ao convite de Edwin para continuarmos nossa inspeção da cidade. num sentido ativo.

era muito técnico. mais ele me ajudava a compreender fatos da vida aqui. e sentia-se por isso mais à vontade neste grande colégio. por compositores agora no plano espiritual. efetivamente o que eu fiz. Mas a maioria dos indivíduos tem algum inato instinto musical e encorajando-o serão mais felizes aqui. essa imposição não estaria de acordo com as leis naturais daqui. porque descobri que quanto maior o conhecimento da música. ou por outros ainda sobre a . A biblioteca continha obras referentes à música. É isso.146 outro tanto. Rute já possuía certo treino musical. A biblioteca continha obras referentes à música bem como grande quantidade de músicas escritas na terra dos outros. Desde então aumentei consideravelmente os meus pequenos conhecimentos. O templo da música seguia o mesmo amplo sistema dos outros. onde a música exerce papel tão importante. Não digo que todas as criaturas espirituais devam tornar-se musicistas para compreenderem a existência.

e formas excêntricas de expressão muitas vezes obstruíram o seu caminho. e é interessante observar que não havia uma sequer que já não tivesse sido alterada pelo autor ao se tornar espírito. As razões desses melhoramentos. Ainda na biblioteca havia livros e obras musicais que há muito desapareceram da terra. A biblioteca fornece a história completa da música. mas que estão familiarizados com as notas impressas — podem ver os grandes impulsos que a arte sofreu durante a passagem dos anos. desde os tempos mais remotos. como em outras artes. explicarei depois. e os que sabem ler música — não necessariamente executando-a. O que aí é chamado obras-primas estava bem representado naquelas prateleiras. que vai modificar a sua obra. É escusado dizer que esses problemas não existem para o compositor em espírito. ou então que são raros e fora do alcance . O progresso foi na verdade lento.147 terra.

em efeitos exteriores. Descobrem também que a música do mundo espiritual é muito diferente. Como todos os demais. Daí descobrirem que seu conhecimento musical deve passar por mudanças radi- . O colecionador musical aqui achará todas aquelas por que suspirava na terra. aqui poderá consultar livremente obras que. Deve-se lembrar que. como os pintores. em todos os seus ramos. depois que aqui chegam. Pensarão alguns que tais pessoas famosas nunca dedicariam o seu tempo ao ensino da música para simples principiantes. Muitos compartimentos são reservados para estudantes de música. e lhe haviam sido negada. devido à sua preciosidade.148 popular. sob a orientação de mestres cujos nomes são conhecidos em todo o mundo. da música realizada na terra. nunca lhe fora possível obter na terra. os músicos têm uma avaliação diferente para os frutos de seus cérebros. da teoria até a prática. começam a ver as coisas tais como são — inclusive suas composições.

porque o mundo espiritual é do espírito. até que os tímpanos dos ainda encarnados sofram uma alteração fundamental. Os inúmeros tipos de instrumentos musicais tão familiares à gente da terra. mas o resultado além de bárbaro é infantil. porque lá a música não está suficientemente adiantada. que é essencialmente dos reinos espirituais. existem no colégio da música. mas nunca conseguirão.149 cais antes que eles possam se expressar musicalmente. pode-se dizer que o mundo espiritual começa onde o terreno acaba. Ê duvidoso que o plano terrestre se torne um dia etéreo bastante para poder ouvir muitas das formas musicais destes reinos mais elevados. Há leis musicais aqui que não têm aplicação na terra. enquanto que o mundo terreno é da matéria. Na música. Por um estranho acaso. os terrestres têm tentado produzir esse tipo de música espiritual. Tentaram-se inovações. como me foi explicado. onde os estudantes po- . Os ouvidos terrenos não estão afinados para a música.

Ficamos novamente interessados nos muitos instrumentos que não têm similares no mundo. e todos eles se destinam. a tarefa de ganhar proficiência não é nem árdua nem cansativa. E aqui também. muito mais complicados.150 dem aprender a executá-los. Não se deve estranhar que os estudantes prefiram a primeira alternativa. em colaboração com os colegas musicistas. quando então muito mais pessoas podem usufruir desses. e são por esse motivo. a uma forma especial de músi- . ou pode limitar as suas audições ao círculo de amigos. o estudante pode reunir-se a uma das inúmeras orquestras existentes aqui. em que a destreza manual é tão essencial. e é muito mais rápida do que na terra. São. assim. o tangível efeito da música em grande escala. Tais instrumentos são executados somente em conjunto com outros de sua categoria. efeitos. visto que podem produzir. Ao adquirir o domínio do instrumento. na maioria especialmente adaptados às formas musicais exclusivas daqui.

mas era tão grande .151 ca. e é natural que continuemos a tê-las aqui. que consistia num vasto anfiteatro. Para a música costumeira da terra. nestes reinos — como é o caso das nossas residências. Na parte posterior do prédio estava o grande centro de concertos. constituía-se de poltronas que saíam do solo em fileiras perfeitas. na verdade. mas nos acostumamos a elas na terra. Era natural que esse departamento tivesse um salão de concertos. é claro. Era imenso. Não existe. por exemplo. capaz de acomodar confortavelmente muitos milhares de espíritos. mas algumas práticas simplesmente seguem outras. De forma circular. são suficientes os instrumentos comuns. Já observamos que o templo da música estava em terrenos muito mais extensos que os outros já vistos. tal uma grande concha enterrada abaixo do nível do chão. Não as necessitamos. e a razão nos foi explicada. real necessidade de tal salão ser coberto.

mesmo nos lugares mais distantes. Como deveria haver um concerto dentro em pouco.152 que sua profundidade era imperceptível. enquanto que a área externa do templo da música. a uma certa distância dele. Edwin sugeriu-nos que ouvíssemos um concerto dos espíritos. . Apesar dos assentos se distribuírem num vasto espaço. e sentamo-nos na grama. seguimos sua misteriosa sugestão. a considerável distância do anfiteatro. Deve ser lembrado que aqui nossa visão não é tão restrita como na terra. Os lugares mais distantes dos executantes estavam exatamente no nível da rua. e fez então uma estranha proposta: que não tomássemos lugares no anfiteatro mas sim. A explicação disso viria assim que o concerto começasse. não se tinha a impressão de estar muito longe dos executantes. Imediatamente atrás desses lugares circundavamnos amontoados de flores das mais lindas tonalidades. com um espaçoso gramado mais além. ao ar livre. era cercada de árvores magníficas e graciosas.

Edwin nos pedia que caminhássemos até o anfiteatro novamente. e nosso amigo assegurou-nos que sim. ao lado de dois companheiros dos mais agradáveis.153 Indaguei com os meus botões se poderíamos ouvir de tão longe. alguns minutos antes nem uma só pessoa havia. Estava em perfeita saúde e perfeita felicidade. O lugar que estivera vazio quando Edwin nos trouxe. cheio de árvores e flores. E de fato. Qual não foi o nosso espanto ao ver a imensa sala completamente lotada. Os músicos em seus postos . e além disso tínhamos pessoas agradáveis à nossa volta. e eu nunca senti tanto e tão intenso prazer como naquele momento. livre das restrições impostas pelo tempo e clima. quando. estava agora repleto de gente. Era um lugar delicioso. fomos logo cercados de outras pessoas. que sem dúvida. passeando ou sentada confortavelmente na grama. tinham vindo para o mesmo fim. ou de qualquer das outras limitações comuns à vida terrestre. e observássemos os assentos.

é claro. ficamos sabendo que o concerto ia começar. Assim que a música começou. por isso consegui apreciar o que ouvia..154 esperavam a entrada do regente. e ele logo se reunia. Assim que Rute e eu mostrássemos interesse pelos concertos. . Não podíamos. os organizadores precisavam apenas enviar seus pensamentos ao povo em geral. Voltamos para perto de Edwin e em resposta à nossa indagação de como o auditório se enchera tão rapidamente. assim que fossem emitidos. ele nos relembrou o método de reunir as congregações da igreja que visitamos no começo. quando se fez um grande silêncio. um elo se estabeleceria e sentiríamos aqueles pensamentos nos atingirem.No caso do concerto. especialmente interessado nessas execuções. e era óbvio que o concerto estava prestes a começar. A orquestra era composta de uns duzentos músicos que tocavam instrumentos bem conhecidos na terra. e por isso. ver os executantes de onde estávamos colocados.

formando como que uma firme base. Estava cônscio de seu som. pareceu erguer-se na direção da orquestra uma luz brilhante. Tão atento estava eu nessa extraordinária formação que mal posso dizer como era a música. o equilíbrio e a harmonia perfeitos. como uma cobertura iridescente do anfiteatro. Ao prosseguir a música.155 pude notar uma acentuada diferença da que eu me acostumara ouvir na terra. como uma superfície plana. quanto ao volume de som. mas isso era tudo. onde permaneceu. Daí a pouco. esse amplo lençol de luz aumentou em brilho e densidade. para o que devia acontecer a seguir. Os sons eram iguais aos antigos. A obra executada era bem extensa e fui informado que seria tocada sem interrupção. e notamos que no instante em que a música começou. mas a qualidade do som era imensamente mais pura. ao nível do lugares mais altos. . que flutuou. a espaços iguais. ao redor da circunferência do teatro. O movimento de abertura era de natureza suave.

até que assumiram a aparência de quatro torres circulares. Os sons musicais emitidos pela orquestra estavam criando sobre suas cabeças esta imensa forma de pensamento. Podia agora compreender por que Edwin sugerira que nos sentássemos fora do teatro. cada uma terminada em cúpula. Nesse meio tempo. da pureza da . de proporções perfeitas. a área central de luz tinha se tornado mais espessa ainda e estava começando a erguerse vagarosamente no formato de um dossel imenso. aumentando de espessura à medida que desciam. Permaneceram imóveis por um instante e depois desceram vagarosamente. pude ver também por que os compositores se sentem impelidos a alterar suas obras terrenas depois que passam a espíritos. cobrindo o teatro todo. Continuou a subir até que parecia mais alta que as quatro torres. e a forma e perfeição da cúpula dependiam inteiramente da pureza dos sons musicais.156 quatro jatos de luz subiram até os céus em longos raios delgados de luminosidade.

nem os executantes. A esta altura a grande forma musical tinha assumido o que parecia seu limite de altura. nem o próprio edifício. A música ainda era ouvida. segundo o tema ou o movimento da música. . Isto tomou pouco tempo para se descrever. a cúpula mudava ora para um tom. e de acordo com ela. É difícil dar uma idéia adequada da beleza desta maravilhosa estrutura musical. Sendo o anfiteatro construído abaixo da superfície da terra. nada era visível para o auditório. e a cúpula de luz e cor parecia pousar no mesmo solo firme em que nos achávamos. ora para outro. A forma da música deve ser pura para produzir uma forma pura. mas a formação musical levou tanto tempo para formar-se quanto um concerto inteiro . e muitas vezes para uma delicada mistura de cores. e ficou estacionaria e firme.157 harmonia e da libertação de qualquer dissonância.

Ficamos imaginando quanto tempo duraria essa estrutura musical. embora as formas variassem de aspecto e tamanho. uma nova forma se chocaria com a última. onde a música pode apenas ser ouvida. Tínhamos ouvido uma composição extensa. O auditório lá dentro estava gozando de seu esplendor e ainda do maior benefício dos seus raios purificadores. Fosse a forma de maior duração. o efeito e a duração seriam os mesmos. podíamos senti-la. e . A música chegou ao seu finale. nós a tínhamos visto. As cores irisadas continuavam a entrelaçar-se. Na próxima vez tomaríamos lugar no imenso auditório. mas se várias peças curtas fossem executadas. Ao contrário da terra.158 na terra. e estávamos inspirados não só pela execução orquestral. apesar de estarmos fora do teatro. e nos disseram que se desvaneceria mais ou menos com a mesma rapidez do arco-íris — em alguns minutos. mas pela beleza da imensa forma criada pela influência espiritual sobre aqueles que a presenciaram.

O estudante estuda música não só acusticamente. sabendo exatamente qual seria o resultado. o instrumentista individual ou o cantor pode . O que tínhamos testemunhado fora produzido numa escala de determinada magnitude. ele pode construir uma forma tão imponente quanto uma catedral gótica. Por meio de cuidadoso ajustamento de seus temas e harmonias. mas aprenderá a fazê-lo arquiteturalmente.159 o resultado seria para os olhos o mesmo que duas peças musicais diferentes e separadas seriam para os ouvidos. Isto é um delicioso aspecto da arte musical no espírito. quando a música fosse executada ou cantada. e esta é uma das facetas mais absorventes dos estudos. Na verdade. e é considerada como arquitetura musical. ele pode construir magníficos edifícios sobre o seu manuscrito musical. O músico hábil pode planejar suas composições conhecendo as formas que os vários sons melódicos e harmoniosos irão produzir.

Se nós como indivíduos nos tornássemos mais perfeitos do que o reino em que vivemos. nos tornaríamos . Pode não tomar uma forma definida como a que víramos. por causa dos doces sons que as cores emitem? A resposta é negativa. Não pode haver conflito. então. porque os sons estão em completo acordo com as cores e a exata combinação de ambos é uma perfeita harmonia. Harmonia é a lei fundamental aqui. Na verdade. ipso facto. Não se deve imaginar entretanto. logo por que se cansariam os ouvidos.160 obter. que só existe nos reinos superiores. que com todas essas galáxias de cor haja continuamente um pandemônio de música no mundo espiritual. pois isso requer mais experiência. em escala menor. Não digo que haja um estado de perfeição. suas próprias formações musicais. seria impossível emitir qualquer forma de som musical sem a formação dessa arquitetura. Os olhos não se cansam com a riqueza de cores.

mas. vivemos num estado de perfeição de acordo com os limites desse plano. mas porque é parte da existência naturalmente. a grama e a água. um agradável complemento. uma necessidade. por causa da alta posição da música em nossa vida no reino atual. não porque a façamos assim. Aqui. grande parte da alegria seria roubada de nossa vida. as colinas e os vales. como um mero divertimento agradável. Demorei-me mais nas nossas experiências musicais. de forma nenhuma. A música é considerada por muitos na terra. como as flores. neste reino ou num mais elevado.161 dignos de passar a um plano mais elevado. Sem ela. ela é parte de nossa vida. É um elemento da natureza espiritual. sofre uma grande transformação quando chegam ao espírito. Não é preciso tornarmo-nos mestres em música para apreciar a riqueza de . as árvores. A atitude de muita gente quanto à música na terra. Mas enquanto estamos onde estamos.

que não é um lugar assustador. O regente era uma pessoa bem real. Quando tomam conhecimento disso. . muito se lembram de ter visto. conduzindo a sua orquestra com uma batuta bem material! Mas a bela formação do pensamento musical não era tão material quanto suas adjacências ou os meios de a criar.162 sons e o maravilhoso colorido que nos rodeiam. e que podem se sentir em casa. Que choque para muita gente ao chegar aqui! E quão imensamente aliviados e contentes ficam. ao descobrir como aqui é agradável. mas como sendo material. E que alegria quando descobrem que ela é realmente assim! que aqui nada é etéreo e imaterial! Os músicos que ouvimos tocavam instrumentos reais e sólidos e música verdadeira. na nova habitação. que não é um imenso templo de religião de hinos. descrições sobre esta vida. assim como o arco-íris não é tão material quanto a umidade e o sol que o produzem. uma vez ou outra.

então está livre para se abster de tais gozos. e os outros mil e um encantos. indo para algum lugar árido. especialmente o mundo espiritual. É esquisito que alguns tentem sempre banir do mundo do espírito cada árvore e cada flor. Há um defeito — entre outros — que a Terra possui: o julgar-se superior a qualquer outro mundo. . e lá ele pode entregar-se ao estado beatífico de contemplação. que ele supõe ser próprio do céu. Podemos nos rir agora. flores (e até seres humanos. Ao mesmo tempo. Há algo de convencimento nisto — fazer coisas exclusivas do mundo terreno. onde suas suscetibilidades não sejam ofendidas por objetos tão terra-a-terra como árvores. se alguém pensa que tais coisas não devam. existir no mundo espiritual. Ninguém aqui é forçado a tarefas em ambiente que considere desagradável. rodeado pelo nada.163 Correndo o risco de me tornar enfadonho. voltei uma vez mais a esta estranha ilusão de que o mundo em que estamos vivendo agora é vago e sombrio.

É então que a humildade se faz presente! mas nunca censuramos. sejam recém-chegados apenas. maravilhava-se com tudo aqui.164 embora a nossa alegria se transforme em tristeza quando presenciamos a aflição das almas que aqui chegam. apesar de nada mais ser novidade para ele. que preferiam viver perto de seus lu- . Rute sempre fez eco às minhas idéias. Edwin nos apontou as moradias de muitos professores. depois do concerto. com as nossas experiências musicais? Apenas o seguinte: que após cada uma delas eu tive os mesmos pensamentos. ou já antigos habitantes. e ainda assim. pois cada alma já traz dentro de si a própria censura. e quase as mesmas palavras foram usadas para comentá-los com Rute e Edwin. Ao caminharmos. sem possibilidade de pergunta ou dúvida. direis. e Edwin sempre concordava comigo. como todos fazemos. e compreendem que finalmente enfrentam a verdade eterna. E o que tem isto a ver.

por causa de vários sinais externos evidentes. e transmitindo aos alunos o que assimilaram. . era fácil adivinhar a ocupação dos moradores. de certa forma. Mas já gastamos muito tempo neste assunto e Edwin está esperando para levar-nos a outros lugares de importância na cidade. mas ainda retêm seu interesse na esfera anterior. Edwin nos disse que seríamos sempre bemvindos se desejássemos visitar os mestres. Todos os valores são drasticamente alterados a esse respeito. Os mestres não cessam seus estudos só porque estão lecionando. Estão sempre investigando e aprendendo. A exclusividade que necessariamente rodeia tais pessoas na terra desaparece quando se tornam espíritos. Eram na maioria casas despretensiosas e.165 gares de trabalho. Alguns já passaram a reinos superiores. e visitam-na continuadamente — e a seus amigos — para prosseguirem seu ensino.

segundo fomos informados. por causa do seu insuficiente progresso. logo iríamos aprender muitas coisas. poderia ter lugar no mundo espiritual. Tanto minha bela companheira como eu estávamos perplexos. Nem Rute nem eu tínhamos muita inclinação para ciência ou engenharia. E levará anos antes que muitas descobertas revolucionárias possam ser enviadas para a terra. e a principal delas é que o mundo deve agradecer aos espíritos todas as principais descobertas científicas que têm sido feitas através dos séculos. conhe- . era o departamento da ciência. Entretanto. PLANOS PARA TRABALHOS FUTUROS Uma curta caminhada nos levou a um prédio retangular que. sem saber de que forma a ciência. Os laboratórios daqui estão muitas dezenas de anos mais adiantados do que os da terra.166 VIII. tal como a compreendemos na terra. e Edwin.

o homem pode . em carne e osso. De si próprio. Seguese que com tal reunião de sábios. E não existem mais coisas desagradáveis.167 cedor de nossos gostos. Neste edifício podem eles resolver os mistérios que os intrigavam na terra. como a rivalidade pessoal. e que. propôs que dedicássemos apenas uns momentos a esta seção. estudo e descobertas. passando a espíritos continuaram suas atividades com os colegas de ciência. e desta vez manejando completas e imensas fontes de recursos. os resultados devem ser evidentemente grandes. com tais recursos à sua disposição. Não precisam mais fazer nome profissional e muitas desvantagens materiais são abandonadas para sempre. e de engenharia. Em idades passadas todas as descobertas que marcaram época vieram do mundo espiritual. são incentivados e podiam-se ver também muitos daqueles homens cujos nomes se tornaram famosos. Aqui todos os campos de investigação científica.

se em muitas circunstâncias a Humanidade é tão favorecida. aquele que já é espírito estará muito mais adiantado que o seu confrade ainda da terra. e o resultado é uma descoberta. Muita gente se contenta em considerar o mundo autosuficiente. mentes pervertidas usam essas mesmas descobertas para a destruição do . Se. para benefício da Humanidade. Mas não o é! O cientista é fundamentalmente um homem de visão. dores e tribulações lhe advêm. Todas foram enviadas do mundo espiritual para vantagem e progresso do homem. Uma sugestão do primeiro é freqüentemente o bastante para pôr o segundo na pista certa. Contudo. Nos casos em que há dois homens trabalhando no mesmo problema. E nossos próprios cientistas do espírito podem — e o fazem — impressionar seus colegas com o fruto de suas investigações. em muitas outras. porém. pela perversão diabólica daquelas descobertas.168 fazer muito pouco. não obstante. ela pode ser limitada mas existe.

o plano terrestre pode esperar uma avalanche de novas invenções e descobertas. o trabalho dos nossos cientistas continua. elas seriam deturpadas por pessoas inescrupulosas. Enquanto isso. Creio já ter . Mas a terra tem um longo e doloroso caminho a trilhar antes dessa hora. O povo da terra tem obrigação de cuidar que os modernos inventos sejam empregados unicamente para seu bem espiritual e material.169 homem este só a si mesmo deve culpar. É por isso que afirmei que a terra ainda não progrediu o suficiente para receber mais algumas dessas esplêndidas invenções aqui aperfeiçoadas. Quando chegar a hora em que verdadeiro progresso espiritual for alcançado. do espírito. Estão prontas a serem usadas. proveniente dos engenheiros e cientistas do mundo do espírito. mas se fossem enviadas à terra em seu atual estado de espírito. não necessitamos das muitas invenções do plano terrestre. Nós. então.

mais segura. Mas neste templo da ciência. mais confortável e aprazível. porque a nossa vida já é tudo isso. e ficamos atônitos ante o adiantamento que se tem alcançado. Quando o homem exerce sua vontade na direção certa. Não temos necessidade de centenas de invenções que tornam a vida mais fácil. e lamentavam que nem tudo ainda pudesse ser dado à terra por não ser seguro fazê-lo. porque somos indestrutíveis. Nosso próprio método de transporte é tão rápido quanto o pensamento. por meio de suas pesquisas.170 dito que nossas leis são totalmente diversas das do mundo. e mais ainda. não há limites para . Mas isso não é nada. muitos e muitos homens devotados estavam trabalhando para o melhoramento do plano terrestre. Foi-nos permitido ver o progresso que tem sido feito nos transportes. comparado com o que está para vir. Não achamos utilidade para as invenções que aumentarão a velocidade de locomoção. Não temos necessidade de poupar a vida.

Ressentem-se de qualquer invasão em seus terrenos. Os que assim fizeram terão de pagar um alto preço por este breve período de prosperidade. quando a comunicação entre ambos for um fato corriqueiro . ou naquilo que presunçosamente chamam suas reservas. Em geral as pessoas da terra são muito teimosas. mas este precisa caminhar a par com o progresso espiritual. Dia virá em que os nossos dois mundos serão intimamente entrelaçados. Quando qualquer pesquisa de nossos cientistas é comunicada à terra.171 os enormes benefícios que ganhará em progresso material. tão distantes em contato e idéias. com a exclusão de todos os outros. Nem se pretendeu também que os dois mundos — o nosso e o vosso — ficassem como estão agora. nunca pretendemos que ela seja monopolizada por alguns. E até então não será permitido que eles possuam as inúmeras invenções prontas para serem enviadas.

para uso e benefício de toda a raça humana. Nosso velho amigo não ficou nada surpreso por nos ver dessa forma. um pouco inquietos. Era uma sensação comum a todos. porém. ao que parece. e quando a grande riqueza de recursos do mundo espiritual estiver aberta ao mundo terreno. que gostaría- . Rute. Não tinha ainda opinião definida sobre o assunto. A visão de tanta atividade por parte de meus companheiros de reino. mais tarde ou mais cedo. Sentíamos. estava preocupada com o mesmo problema. ambos. e que forma tomaria. e que ninguém criticaria ou comentaria as nossas ações. sentíamo-nos. por isso expus minha dificuldade a Edwin. Edwin assegurou-nos que continuaríamos em nossas explorações indefinidamente se assim o desejássemos. Seria tratado como assunto de nosso único interesse. o anseio de estar fazendo algo para o bem do próximo. tinha-me feito pensar a respeito de meu próprio futuro. pela primeira vez desde a chegada.172 da vida.

Ê estranho mas nunca havíamos perguntado onde era e ele propositadamente manteve nossas mentes afastadas desse assunto. com toda a liberdade. e nos deu as boas-vindas. e apelamos para a orientação do nosso bom amigo. A atmosfera era mais rarefeita e creio que estávamos mais ou menos no mesmo lugar da nossa primeira visita aos limites. Fomos conduzidos a uma belíssima casa.173 mos de resolver a questão do nosso futuro trabalho. onde. ele próprio havia declarado ser possível resolver esse assunto. que pela aparência era muito mais iluminada do que as outras situadas mais para o interior. Sugeriu ele que fôssemos aos limites dos reinos superiores. deveis estar lembrados. Rute ficou encantada com tudo o que viu e ralhou . Edwin conduziu-nos para dentro. Assim deixamos o edifício da ciência e nos achamos nos arredores do nosso reino. Assim que entrei compreendi instintivamente que ele nos levara à sua própria casa.

Mas o meu trabalho terminara — pelo menos num aspecto — quando minha vida terminou. Havia muitas cadeiras confortáveis e estantes de livros bem fornecidas. As salas não eram grandes. e por conseguinte era muito ocupado. emanava certa amizade de cada canto. Enquanto na terra tinha tido sorte de seguir minhas inclinações. Edwin fez sentar e ficar à vontade. se achavam incapazes ainda de compreender a verdade da mudança por que . e apesar de ser meio nua à vista. Já de começo admiti francamente não ter idéia do que poderia fazer.174 com ele por não nos ter falado dela mais cedo. Não havia pressa e podíamos discutir o nosso problema com calma. Edwin propôs então se eu gostaria de me unir a ele em seu trabalho relacionado com os recém-chegados que. Era uma construção inteiramente de pedra. como nós. "Mas a sensação de calma e paz que dela se recebia é que nos chamou a atenção. mas apropriadas às necessidades de Edwin.

175 tinham passado. poderia continuar sozinho se quisesse. e da irrealidade de tanta coisa de suas religiões. disse Edwin ao . O peso dos números parecia exercer grande poder de convicção sobre aqueles que se mostrassem particularmente teimosos em apegar-se às suas convicções terrenas. Apesar de gostar muito da proposta de meu amigo não me sentia competente para realizar tal trabalho. dependendo é claro de^sua aprovação. Edwin disse que duas ou mais pessoas — e aqui lançou o olhar para Rute — podiam ser de mais ajuda a um indivíduo do que este trabalhando completamente só. Eu trabalharia com ele. | ao que Edwin refutou minhas objeções. Falando com experiência. pelo menos no começo. Havia muita coisa. Uma vez que Edwin achava que eu lhe seria útil. tive prazer em unir minhas forças às deles. Rute ofereceu-se também para trabalhar com ele. e quando me acostumasse ao trabalho.

e nós três trabalhando em tão completa harmonia e amizade. Havia. e assim acomodar a questão do meu trabalho no futuro. Fiquei contente que Rute se unisse a nós. e referia-se a um livro especial que desejaria não ter escrito na terra. que uma moça pode fazer. entretanto.176 aceitar. Sem dúvida que o meu novo trabalho me traria eventualmente aquela completa paz de espírito. Edwin sabia o que eu estava querendo. . Não que a idéia dele me tornasse infeliz. poderíamos realizar bastante. visto que assim nosso feliz grupo não seria desfeito. Mas ele também havia mencionado que podíamos pedir orientação ao plano mais elevado: Se eu ainda quisesse tentar a comunicação poderíamos pedir conselhos agora. outro assunto em minha mente. e lembrou-me o que antes já havia dito a respeito das dificuldades de comunicação com a terra. mas ainda assim gostaria de tratar do assunto de uma maneira mais direta. mas queria livrar-me dela.

Nesse ínterim eu devia aceitar apenas a sua . entretanto. quando ele voltou acompanhado de um homem cujo aspecto logo me fez compreender que tinha vindo de um plano mais elevado. pudesse remediar essa situação que me causava remorsos. mais tarde vim a saber que era egípcio. e. Edwin apresentou-nos e explicou o meu desejo e as possíveis dificuldades em realizá-lo. Só me seria possível. Mal tinha conversado um pouco com Rute. Sentamo-nos confortavelmente e o egípcio fez algumas considerações. fazer o que queria. de fato. Falava a nossa língua perfeitamente. e dava uma impressão de calma e placidez. Nosso visitante tinha forte personalidade. eu acreditava firmemente que voltando ao plano terrestre para falar. Não parecia nosso compatriota. em resposta ao chamado de Edwin. disse ele. então ele faria tudo para me auxiliar neste empreendimento. Se.177 Edwin deixou-nos então e retirou-se para outro aposento. dentro de alguns anos.

Era uma tarefa que não podia ser realizada num momento. enquanto isso.178 afirmação de que um dia eu me poderia comunicar. O que escrevera nunca poderia apagar. O bondoso egípcio ergueu-se e apertou-nos as mãos. mas poderia aliviar a minha mente. Felicitou-nos pela maneira como nos acostumáramos às novas condições de vida. abririam mais caminho e forneceriam a ambicionada oportunidade. O tempo — para usar uma expressão da terra — logo passaria. tudo seria como desejava. Eu deveria deixar o assunto em suas mãos e tudo correria bem. Se tivesse paciência. e certos acontecimentos. dizendo a verdade como a conheço agora àqueles ainda no plano terrestre. Deveis vos lembrar que eu estava querendo desfazer algo que desejava nunca ter feito. desejou-nos alegria em nosso novo trabalho. e finalmente repetiu-me a promessa de que meus desejos íntimos seriam reali- . e aceitei a promessa.

mas nem me quis ouvir e com um aceno de mão. ao passarem da terra para cá. no sentido que os terrenos dão a essa palavra.179 zados. de tal forma. Muitas pessoas não se conformam com o fato de que. Nem gastamos o nosso tempo por aí a evangelizar as pessoas. Não interferimos nas crenças de cada um. Não se deve julgar que fazíamos parte de uma campanha para converter as pessoas. sofreram a morte do corpo físico. partiu. que ele se vê na contingência de se voltar para o caminho certo. Resoluta- . Mas chega uma hora em que um desassossego espiritual se manifesta no homem cuja alma esteve comprimida e restringida por idéias erradas. nem em seus pontos de vista: só damos nossas opiniões quando pedidas ou quando vemos que podem ser de alguma utilidade. que eu desejava logo iniciar. Ainda continuamos discutindo nossos planos. Tentei expressar minha gratidão pelo seu auxílio. Longe disso.

outros são teimosos e só se convencem depois de prolongados argumentos. e eu. depois de explicações — e até demonstrações — chegam a avaliar o que realmente aconteceu. apesar de eu usar a palavra cansativo em seu sentido terreno. Alguns. Em vista de nossas decisões de cooperar com Edwin em seu trabalho. assim que sentirem o poder dos nossos argumentos. como ha- . para permitir-lhes uma ligeira contemplação do próprio caminho. Sabemos que seremos imediatamente procurados. também ao egípcio. não sabem. Rute e eu estávamos mais do que gratos a Edwin pela sua ajuda em nossos casos. Sentem vagamente que houve alguma mudança. Neste último caso somos às vezes obrigados a abandonar essas almas por algum tempo. Em muitos aspectos é trabalho cansativo.180 mente não querem acreditar que são o que no mundo chamam de mortos. mas em que consiste. pela excelente perspectiva de me comunicar com a terra. ele sugeriu que.

poderíamos agora proveitosamente fazer uma visita aos reinos sombrios. Deixamos a bela casa de Edwin. Estaríamos. Rute e eu concordamos. Edwin nos avisou que sentiríamos aquela sensação de frio. bem como as de Edwin. e Rute e eu nos apoiamos em seus braços. mesmo que nos fosse permitido. mas com algum esforço podíamos expeli-la. ele se voltou para nos olhar. e ficou aparentemente satisfeito com o que viu. e vi também que as minhas .181 víamos visto um pouco — e muito pouco até — do nosso reino. haviam tomado uma tonalidade cinza. é claro. É escusado dizer que sem ela não tentaríamos ir. acrescentando que tínhamos agora suficiente autoconfiança para suportar qualquer coisa de natureza desagradável que nos fosse mostrada. e de novo nos achamos nas fronteiras dos reinos inferiores. atravessamos rapidamente o nosso próprio reino. Colocou-se entre nós. Ao olhar para Rute notei que suas vestes. sob a imediata proteção e guia do nosso velho amigo.

contando das . O céu era sombrio e plúmbeo. e este nos apresentou. Ao reconhecer Edwin. A terra era dura e o verde das árvores desaparecera. e a temperatura tinha caído consideravelmente.182 tinham passado por igual alteração. Essa lei era para que não chamássemos a atenção em lugares estranhos. onde poderia cegar os seus habitantes. De repente surgiu da neblina uma figura. Isto nos deixou perplexos. nem levássemos a luz do nosso reino para aqueles planos obscuros. Caminhávamos ao longo de terreno árido. mas podíamos sentir um calor interno. Diante de nós. Rodopiava à nossa volta e parecia esmagar-nos. mas o nosso amigo explicou que este esmaecer de cores era apenas uma lei natural. que a combatia. víamos apenas uma grande massa de neblina. até que nos sentimos envolvidos por ela. acolheu-o com cordialidade. que avançou em nossa direção. que se adensava cada vez mais à medida que avançávamos. e não significava que perdêssemos o que já havíamos ganho.

ela existia por si só.183 nossas intenções. inteiramente desprovida de ornamentos e pouco convidativa. apesar de sua simplicidade. A paisagem era extremamente árida. porque ao chegar à porta da frente. Não havia sinal de vida nas janelas ou ao redor dela. Tinha até certo aspecto sinistro. com apenas uma habitação aqui e acolá. Não havia jardins em suas adjacências. Era pequena e baixa. Ao nos aproximarmos de uma delas. Edwin e o nosso novo amigo evidentemente conheciam bem o seu morador. Retomamos a jornada e depois de passarmos novamente pelo nevoeiro. e parecia nos repelir à medida que nos aproximávamos. e assim mesmo de ínfima categoria. solitária e tristonha. e aceitamos prontamente a oferta. Podíamos agora ver claramente o nosso novo ambiente. pudemos examiná-la. Edwin deu . ele disse que se uniria a nós e talvez nos fosse de alguma utilidade. este começou a clarear um pouco e por fim desvaneceu-se.

e a esqualidez. sem esperar resposta. Tinha um certo quê de prosperidade em decadência e as roupas que usava eram mal cui- . ve essa de ínfima categoria. Passamos a um quarto dos fundos e encontramos o seu único ocupante sentado numa cadeira. Não fez menção de se levantar ou nos dar as boas-vindas. O frio parecia maior ainda. para a qual o auxílio material de nada adianta. Mas aos nossos olhos a pobreza era da alma. entrou. e nos disseram que ele provinha do próprio dono da casa. Pouca mobília. Ao fazê-lo. Dir-se-ia à primeira vista que a pobreza reinava aqui. do espírito. e qualquer pessoa ficaria naturalmente penalizada e inclinada a oferecer auxílio. fazendo-nos sinal para o seguirmos. Era um homem de meia-idade. era uma piedade de outra espécie.184 uma rápida batida e. lá dentro. Rute e eu ficamos para trás enquanto os outros dois se adiantavam para falar ao nosso pouco acolhedor anfitrião. achamo-nos na mais pobre espécie de moradia. e apesar de causar piedade.

visto que Edwin conservou-se calmo e ponderado e na verdade maravilhosamente bondoso. Recebeu a mim e a Rute de sobrecenho carregado e não falou imediatamente. mantendo com Edwin uma conversa particular. acompanhou-nos até a porta e reparei que . Muitas vezes ele olhou para Rute.185 dadas. Por fim disse a Edwin que iria pensar no assunto. Uma argumentação acalorada se seguiu. e eu também dirigi meu olhar para ela. mas quando o fez. Ao dizer isso ergueu-se de sua cadeira. foi para esbravejar conosco incoerentemente e consegui compreender que se julgava vítima de uma injustiça. Edwin disse-lhe cruamente que era tolice. 'podia fazê-lo. porque não há injustiça no mundo do espírito. Por fim ele se acalmou e pareceu mais tratável. e que se ele o quisesse visitar outra vez. se mostrava imperturbável. com seus amigos. cujo rosto suave parecia iluminar o quarto sombrio. que agarrada ao meu braço. ou pelo menos por parte dele.

Sentia-se um ornamento da igreja e era muito estimado por seus correligionários. Ficou à porta nos observando até nos perder de vista. regularidade e fervor. Dava generosamente esmolas quando disso era provável retirar alguma vantagem e crédito. nunca tinha praticado . e uma capela foi batizada com o nome do seu doador. Era impiedoso com os outros e dava à eficiência a estatura de um deus. contanto que fossem legais. e era espírito havia já alguns anos. Edwin parecia contente com a visita e nos deu alguns particulares a respeito desse estranho personagem.186 estava quase afável. Apoiava sua religião e sua igreja com vigor. Fora um homem bem sucedido nos negócios. Em sua casa tudo e todos eram-lhe subservientes. Mas pelo que Edwin pôde aquilatar. Ajudava na construção. Era como se estivesse relutando em se tornar cortês. Não pensava em mais nada a não ser nos negócios. e sempre achou que qualquer meio justificava seus fins.

depois de ter tido vida tão exemplar — a seus olhos — fosse condenado a ambiente tão esquálido. e acreditava por isso que seus donativos pesariam na balança do Além. constrói um maior edifício em espírito. E agora suas lamentações eram que. à glória de Deus. . Um pequeno serviço. Recusava-se a reconhecer que ele próprio se condenara. visto que sua generosidade fora aceita.187 uma ação decente e desinteressada em toda a sua vida. Não podia perceber que o que importa é o motivo. do que grandes somas gastas em argamassa e pedra clericais erigidas à glória do homem. voluntária e generosamente feito por um mortal. a não ser ele mesmo. e não podia culpar ninguém. Queixava-se de que a Igreja o enganara. e que um estado de espírito feliz não pode ser comprado.

na companhia de nós três. A princípio não eram evidentes. Não estava acostumado a circunstâncias tão ínfimas como aquelas em que vivia. porque as repelia. Acreditava firmemente que se o . Recebia poucas visitas. e apesar de Edwin o ir ver freqüentemente. Parecia não haver aconselhar. Não tinha feito verdadeiros amigos. Mas desde a última visita. mas ao aproximar-se o fim de nossa visita ele tinha dado mostra de ceder nessa atitude. Edwin havia tentado argumentar. sua atitude era sempre a mesma — sólida aderência ao senso de injustiça. já havia alguns sintomas de uma mudança próxima. Suas dificuldades eram acrescidas pela circunstância de não saber a quem culpar. Esperando uma alta recompensa. E Edwin tinha a certeza que era mais devido à presença de Rute do que aos seus argumentos.188 O atual estado de espírito daquele homem era a ira. mas de nada adiantara. tanto maior porque nunca lhe havia sido negado nada na terra. tinha sido lançado às profundezas.

se não fizera alguma ação externa.189 fôssemos ver no caminho de volta das nossas explorações. entre- . Estava ainda relutante em admitir que a culpa era sua. fora a de ser simples espectadora! Edwin porém lhe fez ver que. Este foi o nosso primeiro contato com os desafortunados das esferas inferiores. Isso explicava os freqüentes olhares dele em sua direção. Por enquanto. Sentira sua consideração e isso lhe fizera bem. já o acharíamos em disposição diferente. de alguma utilidade. e me estendi um pouco nos pormenores. Rute ficara naturalmente contente por ser tão cedo. embora não o soubesse ainda. mostrara entretanto uma sincera piedade e simpatia por aquele homem infeliz. Fi-lo porque foi uma espécie de introdução para o nosso futuro trabalho. mas a perseverança faz maravilhas. apesar de afirmar que se alguma coisa fizera.

Os arredores todos estavam vazios. nem sinais de vida.190 tanto. e incolores. e para lá nos encaminhamos. e logo alcançamos as habitações divisadas de longe. IX. e parecíamos vagar num outro mundo. A luz desaparecia velozmente de um céu pesado e negro. Os DOMÍNIOS SOMBRIOS . aparentemente inanimadas. nada deveríamos fazer nesses planos além de observações. de cabeça baixa. nem casas. mas na realidade mergulhadas em desespero e tristeza. Não reparavam em nós ao passarmos. O terreno era agora de rochas e nada mais. Mal podíamos ver. e o solo estava se tornando de formação rochosa. algo com a aparência de casas. Não havia vivalma. à nossa frente. Não havia caminho para se andar. Nós quatro retornamos à nossa jornada. e viam-se aqui e acolá pessoas sentadas.

Não entramos em nenhum dos casebres — já eram bastante repulsivos por fora. Se este não demonstra uma centelha de luz em sua mente. ou em suas redondezas.191 A certa distância podia-se notar que aquelas habitações não passavam de cortiços. Algumas tinham sido bem sucedidas. disse ele. ano após ano. Alguns dos habitantes. outras não. mas do que se procura salvar. Edwin nos forneceu alguns detalhes. viviam ali. Era uma desolação vê-las. Muitas almas caridosas tinham entrado naqueles reinos para tentar efetuar uma salvação das sombras. Em vez disso. Eles próprios não tinham noção de tempo. e mais ainda era pensar que elas eram os frutos da vida dos homens sobre a terra. O sucesso depende não do salvador. e por sua própria culpa. — como é contado o tempo na terra. nem desejo de dar um passo à . e de nada adiantaria irmos aos seus interiores. e sua existência era uma interminável continuidade de escuridão.

literalmente nada. se pode fazer! A necessidade deve vir de dentro da própria alma caída. cuja missão religiosa designada por um colarinho romano foi tomada como sinônimo de espiritualidade da alma. onde viveram uma existência de exibição de bondade e santidade. são almas dignas. Mas o Deus que ludibriaram durante tanto tempo não castiga. Muitas não fracassaram: na verdade. Aqui são mostradas como realmente são. Por outro lado. há aquelas cuja vida terrena foi espiritualmente horrível. cuja esplêndida recompensa as aguarda aqui. então. . apesar de exteriormente sublime.192 frente na estrada espiritual. Elas mesmas ficam encarregadas disso. Tais pessoas zombaram de Deus através de uma vida santarrona na terra. nada. E quão profundamente algumas caíram. Nunca se deve supor que aquelas que pelo julgamento terreno hajam falhado espiritualmente são as que mais baixo caíram.

Está ao alcance de cada uma. Não havia luz. Assim como os reinos superiores tinham criado todas aquelas belezas. Havia muitas pessoas que. Poderá levar infindáveis anos para subir espiritualmente uma polegada. nunca tinham feito o bem a um único mortal sobre a terra. a não ser ela própria. Tais almas vivem martelando a mesma tecla de que não fizeram mal a ninguém.193 As pessoas que habitam essas enxovias que víamos. Mas fizeram-no a si próprias. mas é um passo na direção certa. sem pensar nos outros. sem fazerem o mal. nem beleza. Mas há esperança — esperança de que uma alma possa progredir. e nada a impede. não são necessariamente aquelas que na terra cometeram algum crime aos olhos terrenos. Pessoas que vivem inteiramente para si. nem calor. . os moradores destes planos inferiores tinham edificado as condições atrozes de sua vida espiritual. nem vegetação.

Se este lugar em que estávamos então pode ser chamado inferno. porque é contra as próprias leis da existência. a falta de espiritualidade significa frieza. A doutrina fantástica do fogo do inferno — que queima mas nunca consome — é uma das mais absurdamente estúpidas e ignorantes inventada pelos menos esclarecidos homens da igreja. tão ao gosto das religiões ortodoxas. mas ainda é sustentada rigorosamente como doutrina da igreja. nada havia a não ser uma atmosfera fria e deprimente.194 Inevitavelmente pensei na doutrina da maldição eterna. A espiritualidade significa calor no mundo espiritual. Quem a inventou ninguém sabe. — e sem dúvida o seria pelos teólogos — não há contudo evidência nenhuma de fogo ou calor de qualquer espécie. O menor contato com a vida espiritual revela instantaneamente a sua completa impossibilidade. . Pelo contrário. e dos fogos sempiternos do assim chamado inferno.

que é inextinguível. O Deus da igreja é um Deus de mutáveis dis- . As igrejas — de qualquer denominação — fabricaram uma monstruosa concepção do Pai Eterno do Céu. uma montanha de corrupção. de um lado. o Pai do Universo. Fizeram d'ele. Nunca houve mais grosseira falsificação desse Deus que os ortodoxos dizem adorar. realmente castiga as pessoas condenando-as a arder no fogo do inferno por toda a eternidade. É-nos ensinado pedir piedade a Deus. temos o quadro de um Deus que. atira pobres almas humanas ao fogo eterno. Rute e eu estávamos na terra. castiga.195 Isto quanto ao seu sentido literal. nos incitavam a acreditar que Deus. — a ele que é todo amor! Por outro lado. E que dizer da chocante blasfêmia que acarreta? Quando Edwin. sem a menor compunção. gastando enormes somas de dinheiro para erguer igrejas e capelas em Sua glória fingindo uma humilde contrição porque o ofenderam. professando temê-lo.

mesquinhas. Que sabem essas mentes tolas. e ousa desacreditar Seu nome atribuindo-lhe qualidades que ele não pode possuir. É vingativo e não perdoa. não uma grande. que poucas. e dogmas que imediatamente revelam. Não é de maneira alguma certo que. fez os portais da Salvação tão estreitos. Precisa ser continuamente aplacado.196 posições. mas uma bem ínfima mentalidade. e não sabemos quando nos atingirá. tendo-se pedido piedade. e ousa dizer o que vai pela mente do Grande Pai Universal. ele deve ser temido. do Grande Todo Poderoso Deus . possamos consegui-la. porque pode desencadear Sua vingança a qualquer momento. Recomenda trivialidades que estão anexas às doutrinas da igreja. pouquíssimas almas poderão passar por ele. Construiu na terra uma vasta organização conhecida como a Igreja que é a única depositária da verdade espiritual — uma organização que praticamente nada conhece da vida no mundo espiritual e no entanto ousa decretar leis às almas encarnadas.

Tudo isso é criado pelos habitantes desses reinos. E que dizer dos planos inferiores. e é confirmado pelo Pai do Céu em Seu amor por toda a Humanidade. e contemplem isto: um Céu onde tudo é beleza. e de que as altas esferas do céu estão ao alcance de toda alma mortal. As potencialidades da progressão são ilimitadas. porque aqui na escuridão estou perfeitamente cônscio da grande realidade da vida eterna. pensem de novo em todos os horrores que enumerei. nascida ou por nascer sobre a terra. O homem se . maior do que a mente do homem encarnado pode compreender. esses lugares sombrios que hora visitávamos? É o próprio fato de os estarmos visitando que me levou a falar deste modo. e boa vontade.197 Todo Poderoso Deus do Amor? Reparem nisso — de Amor! Depois. e são o direito de toda alma. e amor entre os companheiros mortais. onde tudo é paz. um céu cujo minúsculo fragmento tentei descrever. Deus não condena ninguém.

Esta. E esse trabalho continuará através de eras infindáveis. Aqui nestas regiões sombrias é o oposto. oriundos das flores e que flutuam pelo ar. que lembravam a decomposição da carne no mundo terrestre. Eram nauseantes e eu temia serem mais fortes do que pudéssemos suportar. Devem lembrar-se dos muitos perfumes celestiais que mencionei. até que toda alma seja trazida daqueles lugares horríveis. É por isso que temos aqui grandes organizações. receio. destinadas a ajudar essas almas que o habitam a se erguerem até a luz.198 condena a si próprio. por isso voltemos às nossas viagens. Cada espírito odeia o reino inferior por causa da infelicidade que lá existe — por nenhuma outra razão. mas não eternamente: depende dele mesmo. Nossas narinas eram assaltadas pelos mais horríveis odores. quando se deverá mover para a frente espiritualmente. quando então tudo ficará como o Pai do Universo deseja. eu . foi uma longa digressão.

lança uma névoa sobre toda a região. tênue. a besta humana. mostrando a vida de vício que haviam levado sobre a terra. Alguns eram inequivocamente maus. desde os tempos presentes até as eras mais remotas. e com sucesso. o miserável. simplesmente fechando-lhes a mente.199 e Rute. assim ignoraríamos a sua existência. £ aqui encontrei uma relação com nomes que se podiam ler nas histórias verídicas das nações. bem como da convivência feliz de seus habitantes. na biblioteca que haví- . mas Edwin nos disse para os tratarmos da mesma maneira que o frio. Aqui nestes sombrios reinos tudo é triste e desolado. Nas viagens pelo nosso reino podíamos gozar de todas as suas inúmeras belezas e encantos. Apressamonos a fazê-lo. Ocasionalmente podíamos ver de relance os rostos de alguns infelizes que passavam por nós. Não é apenas a santidade que exala odores. alguns revelavam o avarento. Havia aqui pessoas de quase todas as categorias sociais. A própria luz.

por pouco que fosse. Seus corpos apresentavam externamente as mais horripilantes e repulsivas deformidades. ou em favor de seus próprios desprezíveis interesses materiais. Muitos pareciam velhos. Muitos desses infelizes estavam incomunicáveis. Tanto Edwin como o seu amigo nos disseram que ficaríamos estupefatos com a lista de nomes. na direção da luz do progresso espiritual.200 amos visitado em nosso reino. mas me disseram que apesar de estarem ali há muitos séculos. a caminho de intentos maléficos. Podíamos ver. e assim ficariam — talvez por infindos séculos — até que por vontade e esforço próprios. o absoluto reflexo de suas mentes malsãs. bandos inteiros de almas aparentemente enlouquecidas. eles se movessem. ao caminharmos. não era tanto a passagem dos anos que as- . de pessoas que estavam enfurnadas nessas pestilentas regiões — homens que haviam perpetrado vis e maldosos atos em nome da religião sagrada. bem conhecidos na História.

mas os que trabalham na salvação dos infeli- . mas sim a maldade de suas mentes. Ficaram contentes em nos ver e poder falarnos. preocupações e penas. varre os sinais de cuidados terrenos. Uma ou duas vezes dirigiu-se a nós uma alma corajosa que lá se achava na sua tarefa de ajudar aqueles aflitos mortais. devido à proteção de que vínhamos munidos ao entrar nesses reinos sombrios. mas éramos todos invisíveis para os demais. era Edwin que cuidava de nós coletivamente como recém-chegados. No nosso caso.201 sim os desfigurava. Podiam ver-nos na escuridão e nós a elas. Os múltiplos sons que se ouviam estavam de acordo com o ambiente. Nas esferas superiores a beleza da mente rejuvenesce os traços. desde o roufenho riso louco até aos gritos de alguma alma em tormento. e apresenta aos olhos esse estado de desenvolvimento físico que se costuma designar como flor da idade.

202 zes. Entidades das . sim. o Pai de Amor. Se algum prelado — ou teólogo — pudesse ver as coisas que eu. e que seria considerada o Rei do Mal. Mesmo o padre vendo estas paragens não condenaria ninguém a viver nelas. Será que há realmente uma entidade como esse Príncipe das Trevas? Poderia haver. e que não há salvação depois que se entra em seu reino. uma alma infinitamente pior do que as outras. possa condenar algum mortal a tais horrores. Rute e Edwin víamos. cujo único fito é prender as almas em suas garras. Edwin nos contou que não existe qualquer evidência de tal personagem. Quanto mais víamos no reino das sombras mais compreendíamos quão fantástico é o ensinamento ortodoxo da igreja à qual eu pertencia quando na terra: que o lugar que se chama inferno eterno é governado pelo Príncipe das Trevas. nunca mais diria que Deus. dispõem cada um de seu próprio meio de proteção.

Temos senso de humor. É esta fraternidade. e cuja função direta é oposta à do Rei do Céu. na realidade. as quais. Os povos do espírito têm costas largas. sem descobrir tal ser. mas uma alma má pode ser um diabo. O Diabo. é estúpida. não existe. protestando conhecer as coisas do espírito. de acordo com os ensinamentos da igreja ortodoxa. e podem suportar o . são bem piores do que seus colegas das sombras. há inúmeros diabos. Podemos nos dar ao luxo de rir de tais absurdos. Indubitavelmente há os que. Também os sábios afirmam positivamente não conhecerem a existência de tal coisa. e. nesse caso. e nos diverte às vezes ouvir algum padre ignorante. que constitui o único elemento do regresso do espírito. A idéia de que um Rei das Trevas exista. primitiva e bárbara. ele desconhece totalmente.203 esferas superiores tinham viajado por toda parte aqui. espiritualmente cego. como indivíduo solitário. coletivamente.

Fizemos uma pequena consulta e achamos que gostaríamos de voltar aos nossos reinos. Voltamos assim das sombras.204 peso de tais tolices sem experimentar nada a não ser piedade. Achei que era tempo de dar uma olhadela em minha casa. Pelo menos por enquanto. Depende de cada uma. Ela ainda . atravessando rapidamente as névoas e uma vez mais nos achamos em nosso reino celestial. O método de a igreja assustar pessoas não é o método do mundo espiritual. mas como não desejava me separar de Rute e Edwin. individualmente. o possuí-las mais cedo ou mais tarde. pedi-lhes que me acompanhassem. envolvidos em seu ar cálido. por almas tão cegas. Não é minha intenção entrar em pormenores a respeito dessas esferas sombrias. Preferimos nos deter nas belezas do mundo espiritual e tentar mostrar algo das glórias que esperam cada alma que termina sua vida na terra.

E achei que algumas frutas do pomar. como se alguém cuidasse dela permanentemente. . são aqui inexistentes. visto que aqui nada fenece. que muitas vezes se havia perguntado como seria. tais como tapeçarias e cortinas. depois daquela nossa jornada. A necessidade de prover nosso corpo com alimento foi esquecida quando deixamos de ser um corpo físico. Os adornos do lar.205 não vira o meu lar. nunca necessitavam de ser removidos. Rute expressou sua admiração por tudo o que viu e felicitou-me pela escolha. Ao inquirir quem era responsável pela boa ordem da casa durante a minha ausência. Tudo na casa estava em perfeita ordem. Edwin respondeu-me com outra pergunta: — Que há aqui para perturbar-lhe a ordem? Não existe pó porque não há destruição de forma alguma. Não há sujeira porque em espírito não pode existir tal coisa. seriam bem-vindas. As obrigações domésticas tão conhecidas e enfadonhas na terra.

ou qualquer outro sinal de amizade. Assim. Podemos descobrir. o que resta para exigir o nosso cuidado? Temos apenas que sair de nossas casas deixando todas as portas e janelas abertas — não há fechaduras — e podemos voltar quando bem quisermos. que enquanto estivemos fora algum amigo nos deixou um mimo. disse ela. pude então sentir sobre mim a força de . Daí a pouco atingiu a minha biblioteca e ficou interessada em ver minhas próprias obras na estante. disse-lhe que ficasse à vontade. só. e ela absorviase nos painéis e esculturas de madeiras do passado. como aqui não temos formalidades estúpidas. encontrando tudo como deixamos. Rute vagueara por toda a casa. alguma melhoria. Um livro em especial a atraiu e o estava folheando quando entrei. por exemplo. flores talvez. Podemos achar alguma diferença. O título já por si revelava-lhe muito. O estilo antigo da arquitetura atraía a sua natureza artística.206 Duram até que os queiramos trocar por outros.

ofereceu-me toda ajuda possível para a sua realização. Em breve caminhávamos ao longo de um maravilhoso trecho de campo aberto recoberto de grama. uma profusão de flores por toda parte. e como ela conhecia a minha grande ambição. e é claro. Rute insistiu em vêlo e para lá nos dirigimos. Assim que completou a inspeção da casa. mas havia muitos agrupamentos de arbustos. A resposta encheu-a de alegria: é claro que havia um mar. De fato. como um tapete de veludo verde sob nossos pés. sob a orientação de Edwin.207 toda sua simpatia. reunimo-nos na sala de estar e Rute indagou de Edwin uma coisa que já havia me ocorrido: havia um mar algures? Se havia lagos e rios. ali terminava o prado e logo em seguida estendia-se o mais lindo pano- . e muito bonito. Por fim subimos a uma pequena elevação e senti que o mar devia estar além dela. talvez devesse haver um oceano. Não havia árvores.

e além disso. A superfície da água era calma. mas não uma calma desprovida de vida. estavam os mais lindos barcos — mas não creio estar-lhes fazendo justiça ao chamá-los barcos. A coloração era o mais perfeito reflexo do céu acima dele. em cada ondazinha rebrilhavam miríades de tonalidades do arco-íris. outros mais distantes. se . alguns. Flutuando sobre a água. mas nem sombra de multidões se acotovelando. ilhas que nos pareciam bem atraentes e que devíamos visitar. ele me respondeu que nós também as poderíamos possuir. bem perto de nós.208 rama que se pode imaginar. Aqui não há coisas tais como água estagnada ou sem vida. Nunca tínhamos contemplado um mar tão maravilhoso. podiam-se ver ilhas de considerável tamanho. Abaixo de nós estendia-se esplêndida faixa de praia e havia muita gente sentada à beira da água. Navio seria mais apropriado. De onde estávamos. Ao perguntar a Edwin quem poderia possuir tão belas embarcações.

Uma pequena descida por um caminho tortuoso nos levou à praia. e apesar de ter a aparência comum. A areia em que caminhávamos não tinha características desagradáveis como as da terra. Edwin informou-nos que era um mar sem marés e não muito profundo.209 as desejássemos. Os proprietários não tinham outra moradia a não ser os barcos. visto que aqui o verão é eterno. é de temperatura sempre morna e não oferece aos banhistas nenhuma sensação de frio. De fato. tão unidos são . Não era cansativo andar sobre ela. era macia ao tato. a água é sempre plácida e. esta peculiaridade fazia-a semelhante a um gramado bem tratado. como as outras águas deste reino. Não existindo tempestades aqui. em comparação com o do mundo terrestre. onde podiam passar o ano todo. Banhar-se nessas águas é experimentar uma perfeita manifestação de força espiritual.

no qual têm que começar novas pesquisas.210 os seus grãos. E mesmo assim ter-se-ia revelado aos nossos olhos uma pequena idéia — apenas uma pequeníssima idéia — da magnitude da Grande Mente — da Maior Mente do Universo — que mantém este e todos os outros mundos. mas Edwin observou que era apenas porque aqui nós tínhamos feito um exame mais minucioso do que das outras coisas. descobrem um mundo completamente novo. viveríamos em constante estado de surpresa. com a terra sobre que caminhamos. ficamos surpresos ao sentir que não deixava as mãos ásperas. com a substância de que é feita a nossa casa. Se fôssemos fazer isso com tudo que vemos. Era um dos mais estranhos fenômenos que já encontráramos. ou com os milhares de outros objetos que podem formar o mundo do espírito. quando os cientistas da terra aqui vêm viver. mas parecia mais um pó macio. Pegamos alguns punhados dessa areia e deixamo-la correr entre os dedos. Não . Realmente.

ao catalogarem novos conhecimentos. ao fato de não haver sol para dar-lhe apenas um quarto de luz e causar-lhe aquelas mutações de aspectos quando ele muda de direção. Sob todos os outros aspectos assemelhava-se aos ribeirões e aos lagos. de uma fonte central. mas sua surpresa foi grande ao verificar que tal não era verdade. devido. entre outras coisas. mas isso não quer dizer que essa imobilidade se torne monótona. Aqui a luz é espalhada uniformemente. Há va- . Temos dia perpétuo. devido à quantidade de areia. E que alegria ao compararem seus dados em companhia de seus colegas. Rute esperava sentir gosto de sal.211 perderam contudo aquela grande experiência terrena. Era mar apenas no nome. que é imutável e constante. e às características das terras adjacentes. trabalharem em benefício de novas descobertas. Depois de apalparmos a areia quisemos mergulhar nossas mãos no mar. Na aparência geral o efeito de conjunto era inteiramente diverso do oceano da terra.

e prometia ser veloz e possante. mas Edwin. Em resposta à mensagem de Edwin. Mesmo que assim não fosse seríamos bem-vindos a qualquer um. lembrou que um deles pertencia a um amigo. Desejávamos muito visitar uma das ilhas que se viam ao longe. enviada através das águas. ao ver a ansiedade de Rute. Edwin chamou nossa atenção para um belo iate ancorado perto da praia. e Rute achou que seria uma experiência agradável viajar pelo mar numa daquelas esplêndidas embarcações próximas da praia. com que o homem jamais sonhara. Surgiu a dificuldade de como poderiam ser usadas. bastando nos apresentar a quem se achasse a bordo — isto se quiséssemos respeitar essa formalidade. uma vez que eram particulares. mudanças de cores. e que só os olhos espirituais podem apreciar.212 riações o tempo todo. Era de linhas graciosas. por serem olhos psíquicos. recebemos imediato con- .

Mas Rute estava desapontada por não ter deparado com nenhuma evidência de força motriz para impelir a embarca- . sem o qual não acham suas embarcações completas. por exemplo. Não havendo ventos. Sabedores de que éramos recém--chegados estavam ansiosos por nos mostrar o barco. correntes ou marés. nas águas espirituais. Embaixo. e uma copiosa provisão de confortáveis cadeiras. Ela era encantadora e podia-se ver que ambos formavam um par ideal. Coisas indispensáveis. uma âncora é supérflua. o que fizemos sem perda de tempo. como a âncora. Fomos recebidos com grande alegria pelo proprietário que nos levou a conhecer sua esposa. Havia enorme espaço no tombadilho. salões bem decorados.213 vite para subirmos a bordo. Às primeiras observações reparamos que faltavam muitos dos aparelhos e partes essenciais aos barcos da terra. apesar de nos dizerem que alguns proprietários de barcos as possuem apenas como ornamento.

Não havia engano. e aumentando a velocidade à medida que avançávamos. Nosso anfitrião. tinha captado nossos pensamentos e imediatamente nos levou à casa do leme. e naturalmente concluiu que o iate era incapaz de movimento independente. Retornamos à casa do leme e solicitamos a explicação imediata daquele aparente passe de mágica. UMA VISITA Nosso hospedeiro nos contou que o poder do pensamento é quase ilimitado no mundo dos espíritos. e corremos para a amurada para vermos o movimento na água. e que quanto maior o esforço de . Qual não foi nosso espanto ao ver que estávamos nos afastando da praia.214 ção. Eu partilhava seu desapontamento. mas Edwin tinha um brilho malicioso no olhar. X. lenta e suavemente! Os outros riam alegremente do nosso embaraço. estávamos de fato em movimento. o que já me devia ter feito ver que aqui as coisas não são como na terra.

e podemos aplicar esses mesmos métodos ao que o mundo chama de objetos inanimados. e por isso nossos pensamentos podem ter uma influência direta sobre as inúmeras coisas que compõem o mundo espiritual. elas são animadas pela força viva que anima todas as coisas aqui e. É claro que nestes reinos nada é inanimado. maiores os resultados. As embarcações podem flutuar e mover-se sobre as águas. para fazê-la . com essa intenção. pedir aos amigos cientistas que nos fornecessem esplêndidas máquinas geradoras de força motriz. temos apenas que focalizar nossa mente nessa direção. e nossos pensamentos produzem o resultado desejado de movimento. se desejamos mover-nos sobre a água. e eles teriam prazer em nos atender. Nossos meios de locomoção pessoal são feitos através de pensamentos. se desejássemos.215 concentração de idéias. Mas teríamos então que focalizar nossos pensamentos sobre a máquina. Poderíamos.

o movimento de um objeto tão grande como este barco ilustra e aumenta a maravilha da vida espiritual. fazer todos esses rodeios para produzir o mesmo resultado. Uma vez atingida essa habilidade. Perfeito como tudo o mais neste reino. Seu en- .216 gerar a necessária força. e não apenas de poder. só com o pensar. e nosso anfitrião nos disse que em pouco tempo dominou a questão. quando podemos fazê-lo diretamente e com a mesma eficiência? Mas não se deve concluir disso que alguém possa mover um barco através das águas. a sabedoria necessária. mas de poder de pensamento. e não devia ser tomado como axioma. pois. A aptidão natural ajuda muito nesses casos. de maneira única e talvez inacreditável. sua aplicação em linhas bem ordenadas e a prática da arte. Nosso anfitrião explicou que • isto era apenas seu ponto de vista pessoal. Isso requer. Por que. sentimos uma enorme sensação de poder bem aplicado. como tantas outras coisas.

Uma vez dado o movimento ao navio. pelo prazer que o trabalho físico lhe proporcionava. Se o desejasse poderia combinar as duas ações em uma só. e movíamo-nos na direção de uma . Edwin estava entretido em conversar com a esposa do hospedeiro. e sem perigo algum de acidentes. Enquanto ele nos explicava isto a mim e a Rute. Nossa velocidade havia aumentado até um andamento estável. fosse repentina ou gradualmente. que não podem existir nestas paragens. Ao simples desejo de parar. com um leme operado por uma roda do tombadilho. Notamos que ele manobrava o barco da maneira usual.217 tusiasmo era aumentado pelo seu amor à água e aos navios. o barco parava imediatamente. Já achava bastante ter que prover a força para mover o barco. podia esquecer-se disso até desejar parar. Mas preferia o velho método de guiar à mão.

no ardor de suas novas experiências. mas podia se perceber o movimento das águas. ela disse que nunca deixava de se admirar. partilhava seu contentamento. Observamos que na nossa esteira a água rapidamente voltava à posição antiga. não deixando sinais de que tivéssemos passado por ela. mesmo familiarizada com o navio-lar. Esta. enquanto as ondas apartadas pela quilha produziam os mais harmoniosos sons.218 das ilhas. Estávamos então suficientemente próximos da ilha para poder vê-la completamente. e o barco alterou seu ramo para bordejá-la. com as gloriosas belezas e prazeres dispensados aos moradores das terras espirituais. De- . e as mais belas tonalidades surgiam da água agitada. que compreendia bem o entusiasmo da jovem amiga. O iate deslocava-se sem oscilação. Apesar de nada aqui lhe ser novidade. Rute ficou simplesmente extasiada e correu para nossa hospedeira.

219 pois de assim navegar por algum tempo. os menores se empoleiravam nos dedos. e saber que seria absolutamente impossível que os maltratássemos. E não se atemorizavam conosco. Pareciam conhecer-nos. Não tinham que viver em constante busca de alimentos nem se defender contra o que na terra seriam os seus inimigos naturais. como nós. Viam-se nos galhos os mais belos pássaros. Eram. nenhuma alta. cuja plumagem era uma orgia de cores. parte do . outros passeavam majestosamente pelo chão. Não havia muitas habitações. e se estendíamos os braços. A ilha correspondeu à nossa expectativa em beleza cênica. as que podiam ser vistas eram apenas residências de verão. Acompanhavam-nos se estivéssemos andando. Alguns voavam. entramos numa pequena baía que formava um pitoresco porto natural. Mas a principal característica do lugar era a quantidade de árvores. mas todas de vigoroso desenvolvimento.

e a compreensão entre nós e os pássaros era recíproca. e raramente vistos. pode-se dizer. todos pertencíamos a um só mundo livre. até chegarmos ao mundo espiritual. numa verdadeira sinfonia. E. porém. Quando lhes falávamos sentíamos que . de maneira extraordinária. com todos os outros. Aqui. não eram estridentes embora o canto de alguns passarinhos fosse bastante alto. como nós o fazíamos. cantavam e chilreavam. em grande harmonia. e mesmo assim. pois na terra os pássaros vivem. Mas o que mais nos embevecia era a amizade pura e verdadeira que demonstravam em relação a nós — fato inédito.220 mundo eterno do espírito. gozando sua vida eterna. Pela perfeita adaptação de temperatura podiam eles viver tão bem quanto os de aparência menos espetacular. Os pássaros de mais colorida plumagem eram evidentemente da espécie que vive na floresta tropical. num mundo diferente do dos homens. Nunca se ouvira tamanha exaltação sonora: cada som se confundia.

mas para mim e Rute. desperta para o fato de que na realidade nunca viu ainda quão grande pode ser a beleza. Nossos amigos. o . se tivesse raciocinado logo perguntaria: por que haveria Deus de criar pássaros e coisas belas apenas para uso da terra? E por que fazê-los sempre perecíveis? Deveriam ser negadas ao grande mundo do espírito as coisas belas que a terra desfruta? Tínhamos a resposta diante dos olhos. Ê uma lição salutar. e torna-se então humilde e silencioso. Quando morre. talvez pela primeira vez na vida. é claro. É próprio da presunção e auto-importância do homem pensar que a beleza seja criada para seu exclusivo prazer na terra. vi que. era uma nova e maravilhosa experiência. já haviam passado por tudo isso anteriormente. Julga ele ter o monopólio da beleza.221 compreendiam o que dizíamos. Quando ponderei sobre essa questão. da mesma sutil maneira que nós podíamos compreender o que eles diziam.

222 despertar do espírito. que ao ver-nos cumprimentavamnos amistosamente. Mostravam-se felizes entre os pássaros. Encontramos no caminho várias pessoas. Disseram-nos que esta parte da ilha era dedicada exclusivamente aos pássaros. Passeamos através de bosques deliciosos. Estávamos curiosos para saber . Ultrapassa qualquer descrição. como num verdadeiro reino encantado. e seríamos incapazes de dá-la. e que nenhuma outra forma de vida animal se intrometia aqui. e acredite. às vezes é um choque para muita gente. A profusão de cores de todos os pássaros à nossa volta era demais para ser vista de uma só vez. passamos por murmurantes riachos. Não porque seja perigoso — isso é impossível — mas porque as aves são mais felizes com a própria espécie. Afinal retornamos ao iate e fizemo-nos ao mar de novo. através de clareiras de veludo verde. meu amigo.

como meio de vida ou como passatempo? Neste último caso principalmente. precisam ser dominados. quando na terra. ou qualquer outro edifício. e os métodos do mundo espiritual.223 onde nosso anfitrião havia adquirido seu lar flutuante. quer por trabalho. teremos sempre o auxílio dos amigos na construção do edifício atual. Disse--nos ele que um barco dependia das mesmas condições que nossas casas espirituais. O que acontece porém às pessoas que na terra desenhavam e construíam botes. Tal engenho náutico requer peritos para planejá-lo e outros tantos para construí-lo. quer por prazer. o formato daquilo . Podemos criar em nossas mentes. no mundo espiritual. O requisito é que ganhemos o direito de possuí-lo. A arte de construir uma embarcação é altamente técnica. aqui todos têm meios e motivos para continuá-las. Mesmo que adquiramos o direito de possuir. diferentes dos da terra. Isso já sabíamos. eles teriam que abandonar suas tarefas prediletas? Não.

Será então um pensamento-forma. Quando chegamos à terra. um jardim. Edwin nos fez lembrar do grande prédio no centro da cidade. sempre que o desejássemos. e por isso grande concentração se formaria no templo que terminava em cúpula. com o auxílio de peritos. ou o que quer que seja. Imedia- .224 que ambicionamos ter — uma casa. dizendo-nos que em breve haveria uma visita dos planos superiores. Nossa volta foi tão aprazível quanto a ida. nosso anfitrião nos fez um convite para irmos visitá-lo a bordo. Quando caminhávamos pela praia. Coisas como adoração não requerem esforço consciente (vêm espontaneamente do coração) mas o nosso visitante traria consigo não só sua própria radiação. como a radiação das esferas celestiais que ele honrava. Gostaríamos de ir com ele? Não era de forma nenhuma um ato específico de adoração a esse visitante. e será convertido naquilo que desejamos.

Não era isto suficiente para afastar toda sensação de inquietação e desconforto? . Temíamos o costumeiro empurrar e acotovelar das multidões na terra.225 tamente expressamos o desejo de acompanhar Edwin. notamos que fazíamos parte de um grande número de pessoas que caminhavam numa mesma direção e aparentemente com as mesmas intenções. Sentimos que nos aguardavam. visto que não nos aventuraríamos a ir sós. Sentimos que tudo estava em perfeita ordem. Era uma sensação extraordinária. que Rute compartilhava comigo. Ao longo da larga avenida arborizada. pelo apoio que lhes daríamos. e além disso estávamos sob a direção do nosso amigo. mas não havia a confusão própria das grandes aglomerações terrenas. e que boas-vindas pessoais nos esperavam. É estranho. por um momento sequer. que todos sabiam o que fazer e aonde ir. mas logo caímos em nós e nos rimos de que pudéssemos ter tido aqui tal idéia.

Aqui temos templos onde podemos receber os grandes mensageiros dos reinos superiores. uma unidade de pensamento entre nós. Não adoramos cegamente como na terra. . ou para adorá-lo. Acha-se essencial na terra que. formulários e cerimônias dos quais há tanta diversidade de opiniões. quantas são as religiões. além disso. deve haver um ritual complexo. e de onde esses mensageiros podem enviar graças e petições à Grande Nascente de tudo. que não é possível na terra. lugares apropriados para receber os representantes do nosso Pai. Que religião existe em que todos os adeptos são inteiramente da mesma opinião? Nenhuma.226 Havia. para dar graças ao Ente Supremo. Ao aproximarmo-nos do templo já podíamos nos sentir carregados de força espiritual. mesmo entre aqueles que têm as mesmas crenças religiosas. Edwin nos contou que isso acontecia sempre.

estendendo-se a perder de vista. O edifício em si era magnífico e grandioso. Pilares maciços brilhavam ao sol. cujo efeito era a mais pura exaltação de espírito. como a terra jamais pôde ver. e apresentando tal abundância de cores brilhantes. E de tudo emanavam os mais celestiais sons de música e os mais delicados perfumes. Sentimo-nos elevados acima de nós mesmos. e num outro mundo. Parecia feito do mais fino cristal. . mas não era transparente. porque as superfícies polidas não só refletiam a luz comum. sem outras construções nas proximidades. Era por esta razão que ele se achava isolado. Apenas jardins o rodeavam — um mar de flores. ao mesmo tempo que as esculturas cintilantes espargiam por toda parte miríades de reflexos brilhantes. Nunca julguei possível haver semelhantes brilhos.227 porque o imenso poder trazido pelos altos visitantes permanecia intacto dentro de um amplo círculo ao redor do templo.

Não se viam músicos. maravilhosamente trabalhada. eu não sabia. Mas o foco das atenções era o santuário de mármore — palavra que uso. mas a melodia era evidentemente produzida por uma grande orquestra — de cordas somente. Acima de nós erguia-se a cúpula enorme.228 mas emanava delas também uma luz espiritual. que era de dimensões espaçosas. mas de onde vinham. como alguma poltrona predileta em nosso lar. na falta de melhor — no fim do templo. de ouro. Tinha um balaustrada baixa com uma saída central no topo de uma escada que conduzia ao solo. O santuário. e que já nos pareciam familiares. estava repleto de seres dos planos supe- . Podiam-se ouvir notas musicais. que refletia as cores das outras partes do edifício. Edwin conduziu-nos aos lugares que deviam ser nossos.

mas. concentrando o olhar. Estávamos todos sentados. que poderíamos dizer ofuscante. Então. apareceu primeiro uma luz. a luz é que se adaptava a nós. sem sentir desconforto. isto é. seguido de perto — para grande surpresa minha — pelo bondoso egípcio que encontráramos na casa de Edwin. Para aqueles que já haviam testemunhado tais visitas. Nas extremidades era quase dourada. e conversava-se calmamente. tornando-se mais brilhante à medida que se aproximava do centro. com exceção de um espaço no centro. Dali a pouco apercebemo-nos da presença da majestosa figura de um homem de cabelos cor de azeviche. vagarosamente. e portanto todos se puseram de pé. E no meio. que eu supunha reservado ao nosso visitante. Na verdade. perante nossos olhos.229 riores. imediatamente nos acostumamos a ela. como descobri mais tarde. ela tomou a forma do . diminuía de intensidade de acordo com nosso reino. a chegada de ambos foi a indicação da vinda da alta personalidade.

Seu semblante irradiava transcendente beleza. e em torno de sua cabeça brilhava um diadema de luz. Permanecemos de pé e silenciosos. Não sei . enquanto dos ombros caía um manto de azul cerúleo. Suas vestimentas eram da mais diáfana qualidade. Para mim. e fi-lo. os cabelos eram dourados. — juventude espiritual — mas sabíamos que ele arcava com os três atributos de Sabedoria. preso no peito por uma grande pérola rósea. Conhecimento e Pureza.230 nosso visitante. daquele nosso hóspede. embora distante. Não me é possível descrever a exaltação de espírito que eu sentia na presença. Seus movimentos eram majestosos ao erguer os braços para nos abençoar. Enviamos graças e petições. Ao ganhar corpo podíamos ver que era um homem de aparência jovem. enquanto nossos pensamentos se elevavam para Aquele que nos enviava tão maravilhoso ser. e consistia em alva túnica bordada com uma larga barra dourada. eu tinha um pedido a fazer.

e gradualmente o templo começou a esvaziar-se. Eu não sentia vontade de me mover e Edwin disse que podíamos ficar quanto quiséssemos. muito ínfimo.231 quanto tempo eu pude permanecer naquele templo sem sentir a esmagadora consciência de que eu era muito. E no entanto eu sabia que ele me enviava. e que havia útil trabalho para eu prestar aos homens. Agradeci-lhe o inte- . Com uma bênção final aquele resplendente ser desapareceu de nossas vistas. na escala da evolução espiritual. quando vi o egípcio se aproximar de nós. Permanecemos sentados um pouco. O recinto estava. pensamentos de encorajamento. Cumprimentou-nos efusivamente e pediu-me para o acompanhar. visto que me queria apresentar ao seu Mestre. portanto. de boa esperança. quase vazio. de bondade no mais alto grau. como a todos. o que me fez sentir que nunca devia desesperar de atingir o reino espiritual mais elevado.

e nunca serão. e qual não foi o meu espanto quando me conduziu à presença do homem com quem estava no santuário. a despeito da possível desaprovação deles. e também de grande senso de humor. não tinham a intensidade das do visitante principal.232 resse. embora muitos queiram reclamar para si o seu monopólio. prerrogativa dos habitantes da terra. e negar nossa alegria jovial. É preciso nunca se esquecer de que graça e humor não são. o que era verdade. e apesar de serem de qualidade superior. e este me tomou a mão e sorriu de tal maneira que afastou de mim. As cores de sua vestimenta eram azul.) O amável egípcio apresentou-me a seu mestre. branco e ouro. Só o vira de meu lugar. e que eram mais acentuados pelo contraste com a palidez de sua cútis. Tive a impressão de estar na presença de um homem muito sábio. mas perto dele podia admirar um par de olhos negros coruscantes que combinavam com seus cabelos. Continuaremos a rir. completamen- .

Deu-me. então. O tempo logo passaria. e vossos desejos realizados. sua bênção. cujas orientações estariam ao meu dispor. só com meus pensamentos. Se alguma vez desejasse conselhos. me manda dizer que vossa oração foi atendida. Não temais. e achei-me sozinho. Disse-me então que me seria pedido um certo tempo de espera. e com a . e enquanto isso eu podia continuar meu trabalho com os amigos. porque era necessário que uma corrente de acontecimentos tivesse lugar antes de as exatas circunstâncias serem realizadas. sem desrespeito. meu bom amigo Edwin poderia visitar o amigo egípcio. Suas palavras me encheram de alegria e ao mesmo tempo de espanto: — "Meu bem-amado Mestre. Na verdade ele irradiava autoconfiança e nos deixava inteiramente à vontade.233 te. qualquer acanhamento. Podia-se chamá-lo. Quando me falou. que acabais de ver. porque aqui as promessas feitas são sempre cumpridas". de perfeito anfitrião. sua voz era agradavelmente modulada e suave.

Numa das prateleiras havia um livro especial que eu escrevera ainda na terra.234 recordação duradoura da fragrância celestial do nosso resplendente visitante. o produto de minha mente após ter visto a verdade. deixando o espaço vazio. escrito depois de ser espírito. e fomos diretos à biblioteca. a quem contei da minha felicidade. De acordo com a minha oração eu deveria preencher aquele espaço com outro livro. e perguntei a eles se me acompanhariam. . e que desejaria nunca ter escrito. Reuni-me a Rute e Edwin. De braços dados. caminhamos para o ensolarado jardim — e para o celestial sol da eternidade. Removi o volume da prateleira. Para lá nos dirigimos. Ambos rejubilaram-se às minhas boas notícias. Sentia agora vontade de voltar à minha casa.

mas dos outros. e era causada pela dor do meu passamento.235 SEGUNDA PARTE UM MUNDO DESCONHECIDO I. porque me sentia supinamente feliz. uma das minhas primeiras experiências foi a consciência de uma sensação de tristeza. portanto. Eu. As FLORES Depois de ter passado a espírito. se não existia antes. A descoberta. Edwin me contou que essa tristeza se elevava do mundo terreno. dava pouca importância à popularidade. Esta experiência só. não minha. Logo cessou. e ficava intrigado por saber de onde provinha. asseguro-lhes. é de molde a produzir sentimentos de humildade. e ele me informou que o esquecimento já principiava a chegar. de que a minha memória se apagava rapidamente . entretanto. meu bom amigo.

mas conseguira certa posição entre meus correligionários. Minha transição fora calma e pacífica. descobriram.236 das mentes de pessoas da terra. Edwin me falou . Minha própria reputação terrena não fora muito grande. Naturalmente que entristecera essas pessoas o deixar para trás sua importância e isso davalhes uma sensação de solidão. e sem circunstâncias inesperadas. Não foi um golpe ter que deixar o mundo. era microscópico. Não tivera ligações a não ser com meu trabalho. que a fama e o prestígio não os acompanharam ao mundo espiritual. não me magoou nem um pouco. via agora. e esse. Disseram-me que muitas pessoas que estavam nas graças do público quando vivas. além disso. o mundo rapidamente se esquecia delas. quando se desfizeram de seus corpos. Eu havia escrito e pregado para que fizessem o bem. Desaparecera a admiração que havia sido sua experiência diária. tanto mais que.

e cujo estado espiritual à chegada aqui era mais infeliz ainda. E muitos.237 a respeito de outros cuja morte foi extremamente infeliz. e pô-los no caminho da luz e do progresso espiritual. para tentar arrancar esses infelizes à sua miséria. Existem muitos que passam sua eternidade visitando essas obscuras regiões. Já lhes dei uma idéia dos reinos da obscuridade e semi-obscuridade. É meu privilégio ir com Edwin e Rute a essas regiões além da névoa que as separa da luz. Muitos. que eram grandes na terra. se acharam diminuídos em espírito. que estão destinados aos belos reinos do sol e verão eternos. Não são todos. aqui se viram espiritualmente tão famosos que ficaram estupefatos. onde tudo é árido e triste. Não tenho a intenção de os levar ainda a . de maneira nenhuma. onde habitam as almas que podem se elevar acima das trevas. se assim o desejarem e lutarem. desconhecidos na terra.

e que quando chegarmos a espíritos saberemos tudo.238 essas regiões de miséria e infelicidade. teorias que com o correr do tempo podem vir a constituir grandes verdades. Mas há também pessoas que recusam pensar por si sós e que firmemente mantêm a crença de que enquanto são encarnadas não precisam saber coisa alguma da vida que está à sua espera. . são meramente tolices. Afirmam que não é intenção de Deus que saibam tais coisas. Algumas dessas hipóteses são tão remotas da verdade como é possível imaginar. Por enquanto há outros e mais agradáveis assuntos de que prefiro falar. outras. Mais tarde espero contar-lhes algumas das minhas experiências. Há muitas almas no plano terrestre que tentam aprofundar os inúmeros mistérios da vida. Propõem teorias das mais diversas. tentando explicar isso ou aquilo.

239 Há dois extremos de idéias — as dos teoristas e as dos partidários da porta fechada. vêem-nas demolidas pelo simples fato de encararem agora a absoluta verdade. ele faz afirmativas tão dogmáticas quanto as que emanam da religião ortodoxa. tanto como o estudante de assuntos religiosos. quando entram nas terras espirituais para todo o sempre. Em muitos casos é bem mais simples do que na terra. O estudante de ciências ocultas está arriscado a cair em erros. que através dos tempos têm causado revoluções sociais que ainda têm repercussão no mundo terreno do momento presente. . Descobrem que a vida no espírito não é tão complexa como diziam. Ambas as escolas recebem duros golpes. porque não temos os problemas que constantemente preocupam e afligem os terrenos. por exemplo. Indivíduos com estranhas teorias. problemas de religião e política. afirmações essas que estão bem longe da verdade.

Têm elas algum significado simbólico? A resposta a ambas é Não! As flores são dadas m . De resto. Alguns dirão: por que flores? Qual o seu significado ou fim? Têm elas alguma significação simbólica? Façamos a mesma pergunta aos terrestres referente às flores que crescem na terra. Mas elas mostraram-me algo das suas vastas reservas de conhecimentos. Um assunto que causa alguma perplexidade refere-se às flores que temos no mundo dos espíritos. eu — assim como milhões de outros — estou perfeitamente satisfeito em esperar pelo dia em que minha inteligência esteja suficientemente adiantada para receber as maiores verdades. coisas que minha mente era incapaz de compreender.240 O período em que vivi no mundo espiritual é nada — absolutamente nada — em comparação com algumas das grandes almas com quem tive o privilégio de falar.

mas todas são soberbas. . Teremos nós que . são a alegria perpétua daqueles a quem elas rodeiam. exibindo-nos sua coloração. São criações divinas. pelo amor que lhe ofertamos. As flores são essencialmente belas. seus formatos. algumas.241 à terra para auxiliar a embelezá-la e para deleite e encantamento daqueles que as admiram. cada uma exalando o puro hálito espiritual e sustentadas pelo seu Criador e por nós todos. Vocês têm esta glória no plano terrestre. conhecidas apenas no mundo espiritual.ser privados delas no mundo espiritual porque são consideradas terrenas ou porque nenhum significado profundo e abstruso pode ser dado à sua existência? Temos aqui as mais lindas flores. numa expressão infinitesimal da Grande Mente. como as familiares e queridas da terra. e perfumes. alimentadas pelo Supremo Criador. dadas a nós como um dom precioso. outras. O fato de que elas servem outros fins úteis é mais uma razão para a sua existência.

As flores terrenas. além disso. Mas aqui é diferente. quando seguramos a mais minúscula flor entre as mãos e sentimos ta- . uma inteligência inerente dentro de todas as coisas que crescem. percebemos imediatamente algo que a natureza terrena nunca pareceu possuir. As flores espirituais são imperecíveis e isso deveria imediatamente sugerir que há mais do que vida dentro delas.242 Se não as quiséssemos — suposição impossível — elas seriam varridas da terra. a toda a sua luxuriante natureza espiritual. lhes dedicamos. Essa corrente nunca cessa nem diminui e é. não se manifestam imediatamente quando nos pomos em contato com elas. continuamente alimentada pela admiração e amor que nós. gratamente. apesar de vivas. São parte da imensa corrente de vida que flui diretamente d'ele. isto é. E que teríamos em seu lugar? E quem forneceria a riqueza de cores que vem delas? Quando somos apresentados pela primeira vez às flores e árvores. Não podemos deixar de ficar maravilhados.

é destruir o contato direto com o Criador. Isso é destruí-las. Tal seria sua . nenhuma calamidade desastrosa nos advém por isso. tanta força revigorante. embora a perda pudesse ser insignificante. por certo. isso é bastante. que essas forças reanimadoras nos vêm diretamente da Fonte de todos os bens. e quando ficamos sabendo. tal refortalecimento de todo o nosso ser. e pensem depois em destruí-lo deliberadamente. em verdade. É possível colhê-las. ele não deu nenhum estranho simbolismo às suas criações impecáveis. certamente. Não.243 manho influxo de poder magnético. Pensem em algum pequeno objeto que possuam e prezem acima de tudo. e. não há outro significado por detrás das flores espirituais além daquela beleza exprimida pelo Pai do Universo. Mas quem quer que as apanhe certamente o lamentará profundamente. Por que o faríamos nós? A maioria das flores não se devem apanhar. Causaria extrema tristeza fazê-lo.

porque não pode haver morte na terra da vida eterna. . Não haverá restos murchos desagradáveis à vista. e no qual se erguem nossas casas e edifícios. expressamente para serem colhidas. Mas há flores. e pelas mesmas razões. Quando nosso interesse por elas começa a desvanecer. Simplesmente notamos que nossas flores desapareceram e podemos trocá-las então por outras. O SOLO Para se ter uma idéia adequada do solo sobre o qual caminhamos. II. e muitos o fazem.244 emoção quando impensadamente destruísse flores que não devem ser apanhadas. rapidamente se desintegram. se o desejarmos. e muitas. precisam-se varrer da mente todas as concepções mundanas. Essas flores apanhadas sobrevivem por quanto tempo quisermos conservá-las. levandoas para suas casas como fazemos na terra.

não temos estradas como são conhecidas na terra. Temos largas ruas em nossas cidades. e onde a grama não seria adequada. Pode-se dizer que é de pedra. As cores va- . mas não são pavimentadas com substância composta que lhes dê dureza e durabilidade para suportar o movimento constante de tráfego. tão macia ao pisar como um canteiro de musgo fresco. de que a maioria dos prédios são construídos. A grama nunca vai além do estabelecido para uma boa ornamentação e no entanto ela continua viva. Parece muito com alabastro. e nossas estradas são cobertas da mais espessa grama.245 Em primeiro lugar. a característica cor cinza opaca. vê-se então a pavimentação costumeira do mundo terreno. sem. É nesse tapete que caminhamos. mas de material diferente. perfeita para caminhar e perfeita na aparência. Não temos trânsito. Nos lugares em que caminhos menores são necessários. porém. Mantém-se sempre no mesmo nível prático.

Muitas vezes os pavimentos revelam um emaranhado de magníficos desenhos formados pelo uso de diferentes materiais coloridos e que combinam harmoniosamente com o ambiente. mas todas possuem delicados tons pastel. qualquer descoloração feia na superfície dos calçamentos. Ao aproximarmo-nos dos limites dos reinos superiores. embora. se assim podemos dizer. naturalmente. não seja esta tão macia. Como sobre a grama. Não há. é muito agradável andar sobre a pedra. Esta é a única maneira de dar uma idéia sobre a diferença entre a pedra terrena e a pedra espiritual. é claro. certa elasticidade. o chão se torna mais translúcido e parece perder a aparência sólida. Mas existe aí certa propriedade. algo como a consistência mole de algumas madeiras terrenas utilizadas para os assoalhos. apesar . Conservam sempre sua beleza inicial.246 riam.

Terra nua. À volta de nossas casas temos gramados e árvores entremeados de caminhos de pedra. porque aqui não há desleixo. Quanto mais atenção e reconhecimento lhe dermos maior será sua resposta. vê-se muito pouco ou nenhuma. indiferença ou indolência. e parecem-nos de extrema solidez. Na verdade não me lembro de ter visto algum terreno baldio. Quando ganhamos o direito de possuir nosso lar espiritual. começam a perder a antiga cor até ficarem opacos e plúmbeos. a . passamos a ter também dentro de nós o constante desejo de manter e melhorar sua beleza. os pavimentos tornam-se de aparência pesada. E isso não é muito difícil de realizar visto que a beleza responde e floresce de acordo com a apreciação que se faz dela. semelhante à que acabei de descrever.247 de continuar a ser sólido ainda. porém. quase como o granito terreno. Mas ao aproximarmo-nos dos reinos inferiores.

O solo varia na cor e densidade em diferentes localidades da mesma maneira que na terra. de maneira que a paisagem toda é um deslumbramento de cor. Mas em parte alguma se vêem terras áridas ou nuas. Cada polegada que se vê é cuidada. A vista de meu lar é de campos verdejantes. e com uma vista longínqua da cidade. é claro. Não a investiguei pormenorizadamen- . desde o brilhante verde-esmeralda da grama. casas encantadoras situadas entre aprazíveis bosques e jardins. coroando todo o azul celestial acima de nós. até as multicoloridas flores dos jardins.248 beleza espiritual não é abstrata mas uma força real e viva. mas não tem o mesmo conteúdo mineral que constitui o solo terreno. Perguntamo-nos de que é composto o solo no qual as flores e árvores estão crescendo — é alguma espécie diferente de terra? O solo existe. porque é preciso compreender que a vida aqui deriva diretamente da Grande Fonte.

nem profunda razão simbólica para este estado de coisas. Mas aqui também não há especial significado. quando não tocado permanece inteiramente ligado. ela é perfeitamente seca — não pude achar nenhum traço de umidade. mas posso entretanto dar uma pequena idéia de sua aparência e características. relativamente. Uma das propriedades inesperadas deste solo é o fato que. suportando tão firmemente quanto a terra comum tudo quanto é cultivado nela. embora possa correr macia e livremente pela mão. A cor da terra é governada pela cor da vida botânica que nutre. enquanto noutros é mais grossa — isto é.249 te. Em primeiro lugar. Em alguns lugares é de formação granular mais fina. Descobri que escorre por entre os dedos da mesma maneira que a areia. Simplesmente a cor do solo é complemento da . Sua cor varia mas nunca se aproxima da pesada cor escura do solo terreno.

como não podia deixar de ser. Certamente que este mundo do espírito não é constituído de uma série de profundos e complexos mistérios. Há mistérios. aqui também os há. desde que nossos intelectos estejam prontos para recebê-las e compreendê-las.250 cor das flores e árvores. de inspiradora harmonia. cada átomo de que é composto o grande mundo espiritual. Mas muita gente na terra acredita sinceramente que nós no espírito vivemos em contínuo estado de fervorosa emoção religiosa. e o resultado é. de encontrar idéias as- . deve ter algum significado devocional e piedoso. e que cada forma e grau de atividade pessoal. e muito maiores. que podem dar explicações. como os há no plano terrestre. sim. Procure através do mundo terreno: é capaz. explicáveis apenas a alguns. Tal idéia é tola e muito aquém da verdade. E assim como lá existem grandes cérebros que podem solver esses problemas.

Miríades de tarefas a serem executadas — e miríades de almas para executá-las — mas há sempre lu- . para nosso maior gozo e felicidade? Há ainda muitos outros na terra que solenemente afirmam. Há sempre uma razão sã e um fim para tudo.251 sim tão absurdas ligadas à multiplicidade da vida que jaz dentro dele? Não há significado religioso num maravilhoso pôr do sol. O tédio não tem lugar aqui. como o chamam. mas isso não altera a verdade. Nada seria mais fantástico. um magnífico dom do nosso Pai. que o paraíso. um mundo de utilidade e não um mundo inútil. não de indolência. isto é. Por que haveriam nossas flores espirituais de ter qualquer outra razão de existir senão a que eu já dei. será um contínuo cantar de hinos e cânticos espirituais. Nem a razão nem o fim podem ser visíveis a todos desde o começo. como uma cláusula de fé. O mundo espiritual é um mundo de atividade.

dedicando-lhe um dia especial e esquecendo-o o resto da semana. Não vivemos nós num inundo ilimitado? Não vivemos num país que tem aparência de um Eterno Domingo! Na verdade.252 gar para mais uma. e tanto como o mundo terreno. com sua . Não temos semana. Não temos necessidade de sermos forçados a nos lembrar do Grande Pai do Universo. Domingo não tem lugar nem razão de ser neste plano de coisas. Eles acham que é material demais. porque muitas almas na terra ficam chocadas ao saber que o mundo espiritual é um mundo sólido e substancial. e nossas mentes estão sempre inteiramente cônscias d'ele. Desviei-me um pouco do que me propunha contar-lhes mas é imperativo dar ênfase a certos aspectos da minha narrativa. Entre nós é dia eterno. e será sempre assim. na verdade está distante dele apenas um passo. com pessoas reais e vivas. e podemos ver Sua mão e Sua mente em tudo que nos rodeia.

253 paisagem e sol espirituais. suas casas e edifícios. e habitados por gente sensível. mas quando o repouso lhes devolveu o vigor e saúde. Mas voltemos às características do solo espiritual. perde sua qualidade granular e sua cor. A pouca grama que existe é amarela e chamuscada. volta-lhes o desejo de realizar algo de sensato e útil. pesado e úmido. e não faltam as oportunidades. o solo. Torna-se espesso. Há descanso bastante para aqueles que dele necessitam. rios e lagos. até que finalmente dá lugar inteiramente a pedras e depois a rochas. como descrevi. por seres inteligentes! Esta não é a terra do descanso eterno. Ao chegarmos perto dos reinos mais elevados as partículas do solo tornam-se mais fi- . Ao aproximarmo-nos das regiões escuras.

como se estivesse caindo sobre algum minúsculo instrumento musical.254 nas. Um ouvido apurado poderá captar muitos sons musicais nas praias terrestres. rio avançar e retroceder das ondas sobre a areia. mas observam um plano geométrico definido. mas não é necessário ouvido aguçado para . a terra revela qualidades de uma quase jóia. assim que nos aproximamos dos umbrais desses reinos. Observada de perto. As partículas nunca são mal formadas. Ao cair produzia sons musicais dos mais doces. fazendo as teclas produzirem ondas sonoras. em suave corrente. com aspecto translúcido. Maior grau de maciez é imediatamente observado debaixo de nossos pés. as cores mais delicadas. tanto em cor como em forma. Rute e eu mergulhamos nossas mãos no chão deixando que a terra escorresse por entre nossos dedos.

Os sons emitidos desta maneira variam tanto quanto as cores e os elementos que os produzem.255 ouvir essas ricas harmonias. Uma virtuose quando toca seu instrumento está criando sobre si mesmo as mais lindas formas-pensamento musicais. Um cantor pode criar semelhante efeito em relação à pureza da voz e à qualidade da música. Produzir cor é produzir também som musical. e cada criação é governada e limitada pela habilidade e proficiência do instrumentista ou cantor. é criar cor. Executar um instrumento musical. f quando é o solo espiritual que as produz. que variam em cores e matizes de sombra. Como se realiza isso. direis vós? Cor e som — isto é som musical — são termos interrelacionados. ou cantar. Estão lá para serem ouvidos e podem ser produzidos por aquela simples ação que descrevi. de acordo com a música executada. A .

É uma forma em miniatura. cada uma delas está restringida a uma forma resultante. nossos ouvidos sejam constantemente assaltados por sons musicais. por assim dizer. em si. não é muito ampla. Embora a música possa produzir a cor. que vivamos. nenhum som. uma unidade independente. pela mesma lei. governada. uma grande orquestra ou um coral. e é.256 forma-pensamento. e a cor possa produzir a música. Não se deve imaginar que com a vasta galáxia de cores. por conseguinte. em uma eternidade de música soando e ressoando sem parar. interminável ou que diminua gradualmente. podem construir uma imensa forma. certamente. Entretanto. entre cor e som. É o resultado de sons. de fato. A forma-pensamento musical não produz. Não há uma alternância. constante. das milhares de fontes no mundo espiritual. Há poucas mentes — se as houver — que pudessem suportar tal pletora contínua .

Podemos nos isolar completamente de todo som. Voltemos à experiência que eu e Rute fizemos com o olo. u ainda. ouvir apenas aquilo que nos apraz.257 de som por mais belo que fosse. Suspiraríamos por paz e sossego. ouvi-la-á naturalmente mais do que uma pessoa que não a aprecia. pelo contrário. Ambos temos grande prazer em ouvir música. Mas há uma grande diferença entre os nossos dois mundos — nossas potencialidades para a música elevada são muito maiores do que a daqueles sobre a terra. . nosso céu deixaria de ser céu. ou nos abrir inteiramente aos sons. mas é inteiramente da nossa vontade ouvi-la ou não. achamo-los agradáveis e calmantes. Não. ela mais ainda do que eu. a música existe. A mente de uma pessoa espiritual cujo amor à música é profundo. Assim também é aqui no espírito. Há ocasiões na terra em que podemos ouvir acordes distantes de música sem sermos incomodados por eles.

noras e lugares possíveis. mal ouviria qualquer som. tudo que cresce. As flores. Não! . Como já disse. por mais intensos.o mundo espiritual é organizado em linhas melhores do que essas. Este estado de . Seria terrível imaginar que o mundo espiritual fosse um imenso pandemônio musical. Há pessoas na terra que têm a habilidade de se isolar mentalmente de seu ambiente de tal maneira que podem se abstrair de todos os sons. assim que o solo deixa nossos dedos podem-se ouvir encantadores sons emitidos por ele. respondem imediatamente àqueles que as amam e apreciam. Outra pessoa realizando a mesma ação. mas sem possuir a mesma susceptibilidade musical. inevitavelmente.258 visto que foi educada para a arte musical e tem portanto um poder mais profundo de apreciar e compreender a técnica musical. e em todas as ocasiões. continuando incessantemente. A música que eles emitem existe precisamente sob a mesma lei.

não precisamos usar de grande força de concentração. No mundo espiritual somos livres. É apenas outro processo de pensar. seja para nos movermos com a rapidez do pensamento. São parte de nossa própria natureza e estamos apenas aplicando. e depois de um breve estágio em espírito. num pesado mundo físico. assim como usamos nossas mentes para nos locomovermos. métodos mentais simples de aplicar.259 alheamento completo serve de analogia — um pouco elementar — do efeito que podemos produzir em nós mesmos em espírito. cedo podemos realizar essas variadas funções mentais sem qualquer esforço aparente. Na terra nossos corpos físicos. com a exclusão de sons que não desejamos ouvir. seja para nos abstrairmos . e essas ações mentais mostram um instantâneo e direto resultado. impediam similares processos mentais de produzir qualquer resultado físico. Ao contrário do mundo terreno. sem as limitações e restrições da terra.

mas não nos são impostos: apenas os tomamos se desejarmos. porque a mesma lei e ordem ajudam a prover as incontáveis belezas e maravilhas deste reino celestial.260 de qualquer aspecto ou som que não desejamos experimentar. entre as características físicas ao reino em que eu vivo. MÉTODOS DE CONSTRUÇÃO Ao menos importantes. são os numerosos edifícios devotados ao processo . Devemos ter em mente que as regiões espirituais são baseadas na lei e na ordem. Mas a lei nunca é opressiva nem cansativa. III. Por outro lado. Podemos abrir nossas mentes — ou fechá-las ~ aos muitos deleites que a natureza nos prodigaliza para nossa felicidade e contentamento. Eles agem sobre a mente como tônico. podemos — e o fazemos — abrir nossas mentes e absorver os inúmeros sons maravilhosos que se erguem à nossa volta.

Nada há para as poluir. Os materiais de que são construídos são imperecíveis. nenhuma atmosfera carregada de fumaça para corroê-las. Contemplem. O mundo espiritual não é estático. por um momento. É sempre vibrante de vida e movimento. Apesar de essas esplêndidas mansões do saber terem toda a aparência de estabilidade. Estes magníficos edifícios apresentam todos os sinais de eternidade. As superfícies de pedra são tão limpas e frescas como no dia em que foram erguidas. poderiam ser demolidas se fossem consideradas dispensáveis. e isso já tem acontecido. as condições normais do . nem ventos e chuvas para desgastar as obras de decoração externa. Alguns edifícios foram removidos e outros tomaram seu lugar. Os materiais de que são feitos pertencem ao mundo espiritual e portanto têm uma beleza que não é terrena.261 de aprendizagem e fomentação das artes conhecidas no plano terrestre.

262 mundo terreno. Que dizer então do mundo espiritual? Não haverá mudanças no mundo em que vivo? Certamente que sim! Não "evoluímos com os tempos" propriamente — para usar uma frase da terra — porque estamos sempre muito adiante dos tempos. para fazer face às pesadas exigências impostas a nós pelo mundo terreno. Em lugar de centenas de mortos em batalhas como . Algumas dessas mudanças nem sempre foram consideradas melhoramentos. Contudo são feitas e o processo é estimado como progresso. a alteração do campo. com as constantes mudanças que sempre ocorrem — a gradual reconstrução de cidades. Tomemos um exemplo específico — apenas um. E precisamos estar. Quando o mundo terreno progride em civilização os métodos de guerra tornam-se mais e mais devastadores e completos.

O mundo terreno passou-o para nós. Cada uma dessas almas acabou com a sua vida terrena. no mundo espiritual. O indivíduo pode sobreviver como uma memória para aqueles que acabou de deixar. — mas não com as conseqüências dela — e em muitos casos o mundo também acabou com elas.263 nos velhos tempos. muitas vezes sem se importar com o que lhe aconteceu. O mundo em sua ignorância cega. é que teremos que cuidar dessa alma. pois aqui encaramos a estrita realidade. Mas sua presença espiritual permanece inalterável entre nós. atira centenas de milhares de almas ao nosso reino. sua presença física foi-se. Nós. mas o mundo terreno nada pode fazer por ele — assim pensam — nem por aqueles que o pranteiam. . ele deixará para traz aqueles que amou e que o amaram. | Entre nós não podemos alijar essa responsabilidade para outros ombros. o morticínio agora é contado em centenas de milhares.

Às vezes um grande número de almas expressa o desejo de ampliar uma dessas mansões do aprendizado. e um fiat é ordenado aos mais próximos reinos da terra a fim de que se preparem para o que vai acontecer. e mais agradáveis. ele me contou que uma nova ala deveria ser acrescentada à . Mas há outras ainda. Essas calamidades do mundo requerem a construção de mais e mais mansões de repouso no mundo espiritual. Essa é a ocasião —talvez a maior — para as mudanças que estão constantemente ocorrendo aqui.264 mas aqueles que habitam as regiões superiores estão a par. Não há nenhuma dificuldade em aceder a tal desejo. do que ocorre no plano terrestre. Em resposta a uma questão que propus a Edwin. visto que não é egoísta. visto que ela estará lá para todos usarem e gozarem. bem antes de acontecer.

Desta grande alma e de outras similares em caráter espiritual e capacidade só falarei mais tarde. sem ser atendido. Edwin nos deu alguns pormenores preliminares. Conhecendo. tão profundamente os desejos e necessidades de todos os do.265 grande biblioteca. o governante do reino é consultado. enquanto esperávamos o início das operações. Assim que se deseja algum novo edifício. Foi-nos sugerido que talvez Rute e eu gostássemos de testemunhar o erguimento de um edifício espiritual. . onde passei tantos momentos agradáveis e proveitosos desde que me transformara em espírito. como conhece. Havia já grande número de pessoas reunidas quando chegamos. e com o mesmo propósito que lá nos levara. seu reino. nunca houve o caso em que algum novo edifício fosse pedido para o uso de todos.

esse processo aparentemente complicado. Nessas ocasiões . onde somos recebidos por aquele cuja palavra é lei. e a permissão -. de transmitir nosso pedido de um para outro. por seu turno. o transmitem a outros mais elevados. pode sugerir à mente os tortuosos métodos da burocracia com suas delongas e adiamentos. mas o tempo gasto é uma coisa muito diferente. a grande alma. Não é exagerado dizer que no espaço de alguns minutos terrenos.acompanhada de uma bênção — é concedida. que há muitos anos terrestres tornou minha comunicação com o mundo terreno possível. Reunimo-nos então no templo central da cidade.266 O governante então transmite o pedido aos seus superiores em autoridade. Ora. que. nossos pedidos já são feitos. O método pode parecer semelhante.

em prejuízo das dos outros. Cada um tem mais alegria e orgulho de servir do que o outro. O passo seguinte é consultar um arquiteto. e. ou limitados pela mesquinhez da inveja. e o fazemos com grande prazer. e nunca há discórdias e choques no esforço de introduzir ou impor idéias individuais. Aqui não são tolhidos pela ética profissional. Direis talvez que tal unidade completa está longe e acima da natureza humana e que tais pessoas não seriam humanas se não discordassem ou por qualquer outra maneira mostrassem sua individualidade. . Esses bons homens trabalham e colaboram de uma maneira que seria quase impossível sobre a terra. Trabalham pela mera alegria que lhes advém da criação de algum grandioso edifício a ser usado para o bem de seus concidadãos. temos um número inesgotável que nos pode auxiliar. como se pode imaginar.267 é que temos razões para nos rejubilarmos.

con amore. sem convencimento. onde não temos idéias presunçosas sobre o poder ou a excelência desses dons. É isto. em substância. com nossos colegas ao serviço do Grande Inspirador.268 Antes de rejeitardes meu argumento como altamente improvável ou de me acusardes de pintar um quadro de perfeição impossível a não ser nos mais elevados reinos. gratos pela oportunidade de trabalhar. Quaisquer dons que possamos possuir em espírito. são parte da essência deste reino. deixai-me expor o simples fato de que discórdia a respeito de assuntos como agora discutimos não poderia existir nestes planos que ora habito. Reconhecemo-los e com humildade. eu declaro que Não: é perfeitamente natural. o que um dos grandes arquitetos me disse em referência a seu próprio trabalho. . despretensiosamente e sem egoísmo. E se ainda insistirdes que isto é impossível.

porque o trabalho lhes agrada como* acontecia quando eram encarnados. Fazem-no é claro. Outros que não eram pedreiros de profissão. há uma reunião dos empreiteiros-mestres. aprenderam aqui os métodos espirituais de construção e. Nossa luz provém de grande fonte central de luz e o calor é uma das características do reino. pela pura alegria de o fazer. tais como iluminação e aquecimento. Os pedreiros são as únicas pessoas ligadas à construção. Estes eram na maioria pedreiros na terra. .269 Depois de os planos de novos edifícios serem traçados com orientação do governante do reino. dão valiosa ajuda a colegas mais experimentados. Fazem-no com a grande liberdade de ação que lhes era negada na terra. e continuam a exercer suas atividades aqui. visto que os edifícios espirituais não requerem tantas minúcias como os da terra. mas que aqui é a sua herança. e aqui têm condições impecáveis nas quais podem prosseguir o seu trabalho.

e requeria o auxílio de apenas alguns trabalhadores. porque não só temos cópias dos livros terrenos em nossas estantes. . e que pertencem às esferas superiores. consistindo de dois ou três salões de tamanho médio. o que se chamaria um esforço maior. e ensinamentos espirituais escritos por autoridades que possuem conhecimentos infalíveis sobre o assunto. o excesso tende a ser maior. Vem a época em que a quantidade de livros excede o espaço em que abrigá-los e. O edifício deste anexo não era portanto. Nossa biblioteca tem pelo menos um traço em comum com as terrestres.270 O acréscimo que estava sendo feito à biblioteca consistia em um anexo e não era de grandes proporções. mas também volumes escritos apenas em espírito. Incluídos entre eles há obras referentes à vida espiritual. Era simples no traçado. aos fatos da vida aqui. no nosso caso.

porque desde minha chegada ao mundo espiritual eu não vira sinais de qualquer movimento de construção em parte alguma. encabeçados pelo legislador do reino. é claro. Todos os edifícios e templos já estavam construídos e nunca me ocorreu que precisassem de mais algum. Pensando um pouco. Notei que todos tinham a aparência de extrema felicidade e alegria. tão completas. As mansões do saber pareciam tão permanentes aos meus olhos inexperientes.271 Estávamos mais ou menos perto do grupo de arquitetos e pedreiros. Era estranho para mim e Rute — e Edwin já o notara antes — pensar que um edifício ia ser erguido dali a pouco. que nunca imaginara fosse necessário fazerlhes acréscimos. e as piadas circulavam no meio deste grupo jovial. enquanto outras são demolidas desde que não sejam mais necessárias. . veríamos que as casas espirituais estão sempre sendo construídas.

que eu diga que não se via por ali a usual confusão de apetrechos ligados às contrações terrenas. O governante do reino deu alguns passos à frente e de costas para nós. Em linguagem simples pediu auxílio ao Grande Criador para a obra que iria ser iniciada. portanto. os andaimes. tijolos e vários outros objetos familiares. Não é de surpreender. houve sinais de que se aproximava o início. Estávamos para testemunhar. Deve-se lembrar que o ato de construir no mundo espiritual é essencialmente uma operação de pensamento. um ato de criação — criação pelo pensamento — e como tal não há necessidade de equipamento físico. cimento. pronunciou uma breve mas apropriada oração.272 Por fim. de fato. mas olhando para o local onde se iria erguer a nova ala. .

mas era apenas isso por enquanto.273 Sua breve prece trouxe imediata resposta. |j . Podíamos ver agora que combinava exatamente com a estrutura original. Todos os olhos se voltaram para o espaço vazio ao lado do edifício principal. Era idêntico em cor ao edifício principal. mas parecia que ainda lhe faltava algo de substancial. Assim que isto se deu os arquitetos e pedreiros se moveram para perto dele. e para o qual se dirigia um segundo raio de luz que emanava do governante e dos pedreiros. Lentamente a forma ganhou volume até alcançar a altura requerida. Ao atingir o espaço vazio o raio de luz formou um tapete coruscante sobre o solo. Este aumentou gradualmente de intensidade. largura e altura. na forma de um vivido raio de luz que desceu sobre ele e os que se reuniam à volta. até nos menores ornamentos esculpidos.

à medida que a concentração de pensamentos acrescentava camada sobre camada de progressiva densidade sobre o simulacrum. os arquitetos aproximaram-se e examinaram-na detalhadamente. Podia-se perceber que a forma meio nebulosa. por um curto espaço de tempo.274 Enquanto estava neste ponto. até que voltaram ao governante com a declaração de que tudo estava em ordem. . Agora o raio de luz descendente tornou-se muito mais intenso. Podíamos vê-los andando á dentro e finalmente desapareceram de nossas vistas. que correspondem ao apelo direto ao Grande Arquiteto. agora adquiria uma inequívoca aparência de solidez. ele na verdade agia como agente distribuidor da força magnética que descia sobre ele. parecia caber ao governante fornecer a cada pedreiro a quantidade de força requerida pela sua tarefa. Pelo que pude observar. Esta se dividia em um número de raios de diferentes cores e intensidade.

o prédio cessou de adquirir mais intensidade. Depois do que me pareceu um curto espaço de tempo. Aproximamo-nos para examinar de perto os resultados do feito que acabara de ser realizado. perfeita em todos os detalhes. ao mesmo tempo que o edifício atingia sua total solidez com notável grau de igualdade. visto que havia outras pessoas que testemunhavam isso pela . uma exata réplica do edifício principal.275 Não havia o menor sinal perceptível de falhas ou diminuição na aplicação da substância-pensamento. e digno do alto fim a que seria devotado. Rute e eu não éramos os únicos a fazer tal coisa. belíssimo em cor e forma. Passamos nossas mãos sobre a macia superfície para convencermo-nos de que era realmente sólido. e eis perante nós a ala terminada. os raios foram interrompidos. Os pedreiros pareciam trabalhar em completa unanimidade de concentração.

O que conseguimos foi o direito de construir. Diz-se muitas vezes que construímos nossos lares espirituais durante nossas vidas na terra — ou depois. nada nos impede de ter tal residência. O requisito indispensável para se possuir uma casa espiritual é o direito de possuí-la. Uma vez ganho esse direito. Minha própria casa foi construída durante minha vida terrena por construtores tão efi- . se o desejarmos. e por nosso progresso espiritual depois da transição para este mundo. O processo que regula a construção de nossas casas particulares e bangalôs difere um pouco do que agora acabei de descrever. porque demanda um perito a construção de uma casa que justifique o seu nome. um direito que é ganho unicamente pela espécie de vida que levamos quando encarnados.276 primeira vez. Isto num sentido mais amplo. e com igual surpresa e espanto.

TEMPO E ESPAÇO Julga-se em geral na terra que no mundo espiritual nem o tempo nem o espaço existem. É costume. doá-la ao governante do reino que poderá dela dispor em favor de outros à sua escolha. . mas não temos idéia do que está realmente sugerido por essa frase. deixarei minha casa.277 cientes quanto aqueles que ajudaram a construir o anexo da biblioteca. disseram-me. mas isso é um erro. Mas dependerá de mim o deixá-la para outros ou demoli-la. IV. mas nossa concepção sobre eles difere da terrena. Temo-los ambos. Quando raiar o dia em que pelo progresso espiritual eu me veja obrigado a prosseguir. Às vezes usamos a expressão antes da aurora do tempo para dar a idéia da passagem dos eons do tempo.

é puramente relativa. teríamos necessidade da marcação do tempo? Temos duas concepções do tempo.278 No plano terrestre a medida do tempo tem sua origem na revolução do globo sobre seu eixo. Mas não é. dando a divisão do tempo conhecido como noite e dia. não temos aqueles lembretes físicos comuns aos mortais. Não temos estações. e fadiga. de agudo sofrimento sentido pelo corpo físico afetará a mente . ao alcance de todos. A invenção de relógios e calendários nos deu meios convenientes. No mundo espiritual não temos relógios ou outros engenhos mecânicos para indicar a passagem do tempo. digamos. além do envelhecer do corpo. nem a alternância de luz e escuridão como indicações externas do tempo. da fome e sede. pois. e além disso. se isso fosse necessário. Cinco minutos. de medir o tempo. Seria a coisa mais simples no mundo espiritual os cientistas nos presentearem com alguns. uma das quais. Para quê. como na terra.

Mas cinco minutos de intensa alegria e felicidade desfilarão com a rapidez de um segundo. Nos reinos sombrios acontece exatamente o contrário. Eles é que devem dar o primeiro passo em direção à luz que os espera nos reinos mais elevados. Se. parecerá uma eternidade para os sofredores. ela. Um período de existência dentro das regiões escuras. no entanto. que não vai além de um ano ou dois do tempo terreno.279 de tal maneira que os momentos passageiros parecerão uma eternidade. O período de escuridão parecerá interminável àqueles que aí vivem. Aqueles dentre nós que vivem nos reinos de felicidade e verão perpétuo não terão motivo para achar que o tempo não passa. normalmente. Por mais que tais almas anseiem pela vinda da luz. não temos os meios usuais de medir o tempo porque não os necessitamos. podemos — e o fazemos — voltar a ter . jamais vem.

ano. Falando por mim. que me recebeu no limiar do mundo espiritual. portanto. observado com agudo interesse. eu achei que o tempo passava rapidamente. voltaram à terra com o simples intuito de satisfazer sua curiosidade quanto ao número de anos que haviam estado no mundo espiritual. Em meu caso a razão era que me fora prometido um dia me comunicar com o mundo terreno. qual era o ano da Era Cristã. Edwin. através de todo esse período. mas sempre soube.280 contato com a terra onde nos podemos certificar da exata hora do dia. Tinha. etc. que de outro modo não o fariam. Algumas pessoas. . à realização do meu desejo. e todos ficavam atônitos ao descobrir os muitos anos que se passaram desde sua transição. e me conduziu ao meu novo lar. Falei com alguns que fizeram esta jornada. entre outras coisas. a concatenação dos eventos que conduziriam.

Poder-se-á julgar que o tempo não tem muita influência além do mundo terrestre. por seu lado.281 também estava ao corrente do passar dos anos. Muitas pessoas. O que importa é que as duas celebrações. Tomemos a festa do Natal como o exemplo mais fácil. porque ele. isso não vem ao caso. esquecidas . E no ponto em que esses eventos atingem o mundo espiritual. são sincronizadas e periódicas. a vossa e a nossa. mas isso não é bem verdade. estivera me observando. Em tempos . essa época do ano dá lugar a uma grande onda de bondade e boa vontade. nós no espírito também sofremos a influência do tempo. Todos os acontecimentos terrestres referentes a indivíduos ou nações estão sujeitos ou governados pelo tempo. Celebramos esta festividade ao mesmo tempo que na terra.normais na terra. Se o dia 25 de dezembro é a data correta historicamente.

este seria infalível para indicar a passagem do tempo. Não há dificuldades nem mistérios. Nestas ocasiões somos sempre visitados por grandes almas. Os que estão em constante contato com a terra conhecem é claro. mês e ano em que estamos. Se nada mais houvesse para nos guiar.282 em outras ocasiões. lembram-se § de seus amigos e parentes já falecidos e lhes enviam pensamentos que nós no espírito ficamos felizes de receber e retribuir. Sabemos também as horas exatas. eles apenas seriam suficientes para nos lembrar que a época festiva se aproxima. A celebração do Natal é sempre precedida por pensamentos de agradável antecipação. Este exemplo particular do Natal mostra que não dependemos inteiramente do plano terrestre para sabermos da aproximação das festividades. e se falhassem todos os outros meios. o dia. Quando descemos às vossas condições podemos fazer uso dos muitos meios emprega- .

como regra. Quando cooperamos ativamente convosco. Cito-vos aqui simples fatos do conhecimento derivado da minha própria experiência. podemos perder todo sentido de continuidade temporal.283 dos por vós — e o que pode ser mais simples? — Não precisamos. e o . é para o evento que lançamos o pensamento. os vossos pensamentos em direção a nós são indicação suficiente de que decorreu um certo momento. e não para o ano em que ele vai ocorrer. É na natureza comum das coisas em espírito que. ou então tomar conhecimento deles. falando de maneira geral. estar constantemente atentos ao dia e hora exatos. Quando antecipamos a chegada de algum parente ou amigo ao mundo espiritual. porém. Deixamos que tudo permaneça assim até que tenhamos de fazer algo que exija atitude diferente. Tais pensamentos são tudo de que necessitamos. enquanto nos pusemos a trabalhar ou conversar. nos espaços medidos como conheceis.

sobre o tempo nas esferas superiores é que nesses elevados estados atingimos reinos onde o conhecimento. Tudo o que posso dizer. É suficiente lembrar que isso é assim mesmo. é de uma ordem muito mais elevada. . entre muitos outros atributos.284 que falei. em conseqüência. pois. e o cabedal de informações que recolhi das conversas com os seus habitantes tem sido governado e limitado pela minha capacidade de compreensão. Seus métodos para adquirir essas informações estão além de nossa compreensão. Os personagens desses reinos é que me espantam mais com a exatidão de sua previsão de acontecimentos que têm lugar no plano terrestre. e que o tempo. portanto. deveis aplicar estritamente ao reino em que vivo. não é limitado aos reinos de um não menos exaltado estado de progresso espiritual. Dos reinos superiores nada conheço diretamente.

eu podia alongar a vista por distâncias infindas onde se espalham casas e imponentes edifícios. De pé à janela de um dos aposentos do andar de cima. e todos eles ocupam espaço. há mais e mais reinos que constituem a infinidade de espaço.285 Quando chegamos ao assunto sobre o espaço descobrimos que. Sei que posso viajar ininterruptamente através de enormes áreas de espaço. ao olhar da minha janela. Tomemos meu reino por exemplo. E eu sei. rios. que além do alcance da minha vista. exatamente como na terra. pelas mesmas leis do plano terrestre. vales. Espalhados por todo o amplo panorama há bosques. Temos a eternidade do tempo. muito além ainda. e temos também a infinidade do espaço. geralmente falando. O espaço deve existir no mundo espiritual. À distância eu podia ver a cidade com muito mais prédios. áreas muito maiores do que o mun- . até um certo ponto. e pomares. Cada um preenche o seu espaço reservado. jardins. nós somos governados.

meu campo de movimento é gigantesco. e requer muito tempo se meios de transporte mais vagarosos são usados. Mas no mundo espiritual o pensamento altera toda a . assim como de outros fatores. potencialmente. visto que o movimento através de tais distâncias na terra. Mesmo pelo mais rápido método. Mil milhas de espaço terrestre é uma distância bem considerável. essa imensa região estaria. de maneira que. Disseram-me os amigos dos reinos superiores que eu poderia mesmo ir àqueles estados. se o desejasse. seria dependente dos meios de transporte. fora do alcance da maioria das pessoas. mas posso fazê-lo quando bem o entender. é claro.* ou ainda maiores.286 do terrestre triplicado. Ser-me-iam dadas facilidades e o manto protetor necessários para tal jornada. um certo tempo deve passar antes de se chegar ao término dessa jornada de mil milhas. Eu ainda não atravessei senão uma fração da extensão completa do meu reino. Olhado por olhos terrenos somente.

Fiz o meu corpo espiritual — e esse é o único que possuo! — viajar através do espaço com a rapidez do pensamento. O pensamento pode anular o tempo em sua relação com o espaço. .287 situação. E que fiz eu? Cobri o espaço intermediário instantaneamente. e isso equivale a ser instantâneo. Temos espaço. mas ele ainda aí permanece com todas as coisas que contém. apesar de eu não tomar conhecimento do tempo ou da passagem do tempo. Quando completei a minha visita à biblioteca encontrei na escadaria alguns amigos que sugeriram irmos até à casa de um deles. mas não pode anular o espaço. Nem bem a idéia passou com precisão pela minha mente e eu já me acho — se o desejar — perante as estantes que desejo consultar. Posso estar em minha casa e imaginar que gostaria de ir à biblioteca na cidade que diviso a milhas de distância. e temos certo conhecimento do tempo em relação a ele.

decidimos passear através dos jardins e bosques. Caminhamos juntos. porque nunca sofremos de fadiga física. Nós aqui temos o dia interminável. A casa fica a certa distância. e podemos caminhar vagarosamente a pé ou transportarmonos instantaneamente pelo pensamento. mas isso não importa. depois de percorrer o caminho a pé. No mundo espiritual o tempo pode parar. dizendo-nos que estais . O tempo — em seu sentido espiritual — e o espaço são relativos.288 Com essa agradável idéia em mente. Mas quando recebemos os vossos pensamentos do mundo. Mas a nossa concepção deles difere da vossa — sendo que esta é restringida pelas considerações terrenas do amanhecer e anoitecer. E podemos restaurar nossa sensação de tempo descansando calmamente ou caminhando. e pelos vários modos de transitar. conversando. e depois de um certo tempo chegamos à casa do meu amigo. felizes. como também o são no mundo terrestre.

Já disse como.289 prontos para vir a nós. ao ceder a esse desejo fi-lo facilmente e com sucesso. uma vez mais ficamos cientes da passagem do tempo terrestre. senti por fim um desejo ardente de me erguer e. E deveis admitir que invariavelmente somos pontuais em nossos encontros com os seres terrestres! V. ao chegar ao ponto crítico em que jazia em meu leito de morte. Nesse caso particular a linha de . POSIÇÃO GEOGRÁFICA Qual é a posição geográfica do mundo espiritual em relação ao mundo terrestre? Muita gente perguntou isso em diferentes épocas — e eu me incluo entre esses muitos! Isso leva a mais uma questão referente à disposição de outros reinos além daqueles de que escrevi acima.

relembrando que houve um momento em que as sensações físicas de minha ultima doença me deixaram subitamente. Mas quando isso se deu. parte pelo menos do mundo espiritual teve de interpenetrar o mundo terrestre. e. portanto. e o desaparecimento de todas as sensações físicas. eu ainda estava em meu quarto na terra. O impulso de erguerme do leito. Mas posso resumir mais ainda. porque eu estava de pleno poder dos meus sentidos. Senti vontade de respirar profundamente e o fiz. marcaram o instante da morte física e o nascimento para a vida espiritual. Esta experiência vos dará um ponto de partida para nossas explorações geográficas. A própria transição de um mundo para o outro era perceptível.290 demarcação era muito tênue entre a minha vida terrena e o começo da espiritual. e consciente. e em lugar delas me envolvi numa deliciosa sensação de calma corporal e paz de espírito. .

Edwin propôs que partíssemos do atual ambiente.291 O evento seguinte da minha transição. Pegou-me pelo braço. nessas circunstâncias. apenas senti que estava viajando. ordenou-me que fechasse os olhos. Nossa velocidade aumentou e finalmente me ordenaram que abrisse os olhos e achei-me diante do meu lar espiritual. e senti-me mover suavemente através do espaço. era ligeiramente tristonho. para cima ou horizontalmente. que. Depois de nos termos cumprimentado e proseado por algum tempo. e uma das primeiras lições foi a arte de locomoção própria por outros meios sem ser o andar. O encontro teve lugar aparentemente em meu quarto. Há aqui imensas distâncias a percorrer e às vezes precisamos cobri-las rapida- . Não tive percepção clara da direção. Desde aquele dia aprendi muitas coisas. foi a chegada de meu bom amigo Edwin e o nosso encontro depois de um bom número de anos. mas se era para baixo. impossível dizer.

foi o fato de que quando me movia através do espaço. Descobri que é normal a todos essa ausência de percepção direcional . pomos nossos pensamentos em função e eles.292 mente. e o fazemos pelo poder do pensamento que já descrevi. Mas o que mais me intrigou a princípio. põem nossos corpos espirituais em movimentos. eu apenas não via a paisagem. Podia-se quase dizer que não se precisa pensar! Já falei com outras pessoas a esse respeito e comparamos nossas notas. Uma vez determinada a viagem para um certo lugar. descobri que não tinha senso de direção. o que é comum logo que se chega aqui. ou o que quer que seja que me rodeasse. com maior velocidade do que o andar. Não se deve imaginar que é possível perder-se o caminho. Isso seria absurdo! A ausência do senso de direção não interfere em absoluto com o nosso pensamento inicial de locomoção. Se preferia fechar os olhos enquanto viajava com velocidade moderada. por sua vez. mas apenas de movimento.

Mas nosso caso é diferente. não há tempo para se observar qualquer objeto. Notemos que dar uma precisa localização ao mundo espiritual em relação ao terreno é muito difícil. nem se dão ao trabalho de imaginar. É evidente que quando viajamos instantaneamente. mas quanto à posição em que se acham no universo. duvido que algum recém-chegado aqui tenha arriscado adivinhar sua posição geográfica. Quebraram todos os liames com o mundo terreno e sabem apenas que estão vivos espiritualmente. O mundo espiritual está dividido em esferas ou reinos.293 quando nos movemos rapidamente. e creio que seria de interesse tentar dar uma idéia exata onde estão situadas as terras espirituais. Essas duas palavras passaram a ser correntes entre a maioria daqueles que . Na verdade. Mas há centenas de pessoas que nem se preocupam com tal coisa. Eu estou em ativa comunicação com a terra.

Esses círculos alcançam o espaço infinito e estão invisivelmente ligados com o mundo terrestre na sua evolução menor sobre seu eixo. A idéia. em maior revolução à volta do sol. A essas esferas foram dados números. O sol não tem qualquer influência sobre o mundo espiritual. por alguns estudantes. segundo me disseram. e vão desde o primeiro. Não tomamos .294 na terra conhecem e praticam a comunicação com o nosso mundo. que é o mais alto. usei as palavras acima. suficientes para o nosso fim. e é claro. Ao falar-vos assim. e é um método conveniente de dar informações de nossa posição na escada da evolução espiritual. Ê costume entre nós seguir este sistema de numeração. As esferas do mundo do espírito estão colocadas numa série de zonas formando um número de círculos concêntricos à volta da terra. teve origem aqui entre nós. que é o mais baixo. até o sétimo.

Ele está relativamente acima de nós. visto que é puramente material. e com a terra aproximadamente no centro. Eu estava suficientemente alerta — até mesmo demais. as esferas são subdividi- . e penetram na sua parte mais baixa. Os reinos inferiores da escuridão estão situados perto da terra. tanto espiritual como espacialmente. e foi por essa razão que me recomendou mantivesse os olhos fechados até que me ordenasse abri-los. Sendo o mundo espiritual constituído de círculos concêntricos. porque estava plenamente consciente — ou teria visto algo dos horrores que a terra lançou a essas zonas escuras.295 conhecimento dele. Um exemplo de círculos concêntricos nos é dado quando nos dizem que um visitante de uma esfera mais elevada vai descer a nós. Foi através desta que passei com Edwin quando ele me veio buscar para o meu lar espiritual.

é claro. cada subdivisão estando situada imediatamente sobre sua nação irmã. Não há fronteiras territoriais físicas aqui para separar as nações. Os povos fazem suas próprias fronteiras invisíveis com temperamentos e costumes. Quando se considera a enorme variedade de temperamentos nacionais e características distribuídas através do plano terrestre. mas os membros de todas as nações da terra têm liberdade de se misturar no mundo espiritual e de gozar relações sociais irrestritas. a escolha individual. é livre e aberta para todas as almas: elas podem viver em qualquer parte que lhes agrade de seu próprio reino.296 das lateralmente para se corresponderem largamente com as várias nações da terra. Podemos transmitir nossos pensamentos uns aos outros com a intei- . A questão da linguagem não oferece dificuldade porque não somos obrigados a falar alto. não é de surpreender que os povos de cada nação desejem gravitar para aqueles de sua própria espécie no mundo espiritual.

Assim. Mas isso é natural. tais como a cor da pele. as línguas não constituem barreiras. Nossos lares não têm mais uma aparência . Meu próprio lar está situado em cercanias que me são familiares e que são uma cópia de meu lar terreno na aparência geral. As redondezas não são uma réplica exata das da terra. mas o que quero dizer é que meu lar espiritual está localizado no tipo de campo com o qual eu e meus amigos estamos acostumados. Além deles a nacionalidade cessa de existir. Esta divisão das nações se estende apenas a um certo número de reinos. Cada uma das subdivisões nacionais do mundo espiritual leva as características de sua réplica terrena.297 ra certeza de que eles serão recebidos pela pessoa a quem nos dirigimos mentalmente. Lá retemos apenas nossas diferenças exteriores e visíveis. seja ela amarela. negra ou branca. Deixamos de ser cônscios da nacionalidade como somos na terra.

Esta posição requer altos atributos por parte de seu ocupante. visto que dá azo a interpretações erradas.298 nacional definida. Seria melhor e muito mais exato dizer que ele preside o reino. se o fosse haveria muitas almas que poderiam ocupar tal cargo com distinção. Apesar de cada reino ter seu governante. apesar do termo governante não ser apropriado. eu vos apresentei o governante do reino. Grande espiritualidade apenas não é suficiente. mas partilham do espírito puro. todos eles pertencem a um plano mais elevado do que aquele que presidem. Deveis recordar-vos como. Cada reino tem tal personagem. ao construir o anexo da biblioteca. Mas um governante precisa possuir muito conhecimento e experiência da humanidade e além disso deve ser capaz sempre de . e ela somente pode ser ocupada por aqueles que já estão há muito tempo no mundo espiritual.

299 capaz sempre de exercer sábia discrição ao lidar com os variados assuntos que se lhe deparam. Falando por mim mesmo. ao mesmo tempo que a bondade e infinita paciência estão sempre em evidência. Esta grande alma é sempre acessível a quem . compreensão e simpatia estão sempre à disposição dos habitantes de seu reino. Temos os nossos problemas. como vós na terra.quer que o deseje consultar ou lhe traga seus problemas para solução. Os nossos nunca são daquela natureza aflitiva e preocupante dos da terra. foi como acertar o que eu considerava um erro que fizera quando encarnado. E toda essa experiência e sabedoria. ele — sem eu o saber — havia procurado o conselho do reinante. apesar de nossos problemas serem muito diferentes dos vossos. Quando falei com Edwin a esse respeito. Havia escrito um livro em que tratava a verdade da comunicação com o mundo terreno com grande injustiça. logo depois da transição. e o resultado foi que outra grande . meu primeiro problema.

Mas leva tempo. Foi o conhecimento em primeira instância dos meus negócios pelo governante que eventualmente trouxe um final feliz à minha confusão. Para que não se julgue que é humanamente impossível a uma mente possuir conhecimento dos afazeres de tanta gente que deve haver em um reino.300 tado foi que outra grande alma viera discutir o assunto comigo. Pode-se ver por isso que o conhecimento do governante em relação ao povo que preside é vasto. e é por isso que os governantes passam muitos e muitos milhares de anos no mundo . e nossas mentes são inteira e completamente capazes de reter todo conhecimento que nos vem. como se costuma dizer. Não esquecemos as coisas que se aprendem no mundo espiritual. e oferecer-me ajuda e conselhos nessa dificuldade. sejam elas lições espirituais ou simples fatos. a aprender. basta compreender que a mente humana é limitada em seu raio de ação pelo cérebro físico. No mundo espiritual não o temos a prejudicarnos.

Quando viajamos . Não há infelicidade nestes planos. e isso pelo menos é que forma os nossos limites. e unir-se a eles nas horas de recreação. e isso forma uma barreira natural para aqueles entre nós que ainda não progrediram suficientemente para se tornarem habitantes desse reino. ser-lhes uma inspiração e agir sob todos os sentidos como um devotado pai. antes de serem colocados à testa do governo. Cada esfera é completamente invisível a todos os habitantes das suas inferiores. e ajudá-los em seu trabalho. com tais almas aqui prontas a afastar todos os percalços. Porque os governantes têm que guiar e dirigir os povos. mais pura. Mas ao aproximarmo-nos dos reinos mais elevados acontece o oposto: vê-se a terra à nossa volta tornar-se mais etérea. .301 espiritual. pela simples razão de que seria impossível.para os planos inferiores vemos o terreno gradualmente degenerar.

onde podíamos imaginar toda espécie de coisas horríveis nos aguardando na escuridão. enquanto que nós parecemos estar completamente em outro mundo. então. se passa de um para o outro.302 Ora. conduzindo a escuras cavernas. Como. uns acima dos outros. e um distinto declive para o outro. brilha o sol. úmidas. e pouco convidativas. Apesar de parecer simples. seja acima ou abaixo? Deve haver algum ou alguns pontos em cada reino onde exista uma sensível inclinação para um. é esse exatamente o caso. eu já contei como os reinos se colocam. frias. Podemos lembrar nossas experiências terrenas e certos lugares rochosos que visitamos. Podemos então lembrar que acima de nós. Não é difícil imaginar talvez uma gradual descida a regiões menos salubres. apesar de longe da vista. Poderemos vaguear por essas grutas subterrâneas até nos perdermos da terra acima de nós. de piso traiçoeiro. Mas sabemos que há . espalhando calor e luz sobre a terra.

mas o processo e o princípio são os mesmos. a transição de um reino para o outro é literal — tão literal quanto o passar de uma caverna escura para o sol lá em cima. A analogia terrena é. Ao adiantar-me verei e sentirei todos os inconfundíveis sinais de um reino de maior refinamento espiritual.303 uma saída pelo menos. podemos ver como cada um dos reinos é ligado com o reino imediatamente acima dele. logicamente. Para passar do reino onde estou ao próximo mais elevado. Se começamos nossa vida espiritual nos mais baixos recessos deste quadro terreno das cavernas subterrâneas. No espírito. muito elementar. Chegará o ponto em que . tão literal quanto caminhar de um aposento para outro em sua casa. se a pudermos achar e perseverarmos em nossos esforços para escalar o perigoso caminho. me acharei andando suavemente ao longo de um chão em aclive.

Mas estejamos nós num desses limites ou bem dentro dos nossos limites. Vemos assim que outra lei natural opera para o nosso próprio bem.304 não poderei avançar mais sem forto espiritual. somente atrás. e é portanto invisível e inaudível aos que vivem abaixo. há um certo trecho na ponte entre os reinos onde o reino mais alto se torna invisível a olhos menos espirituais. Se cometesse atentar desafiar essa lei. Se cometesse a tolice de desconforto espiritual. E a razão é que cada reino possui uma vibração de maior intensidade do que o seu inferior. descobriria no fim que não poderia dar nem mais um passo sem passar por sensações que não me seria possível suportar. e certos sons e notas musicais são inaudíveis a ouvidos mortais. assim também os reinos mais elevados são invisíveis aos habitantes inferiores. . Assim como certos raios de luz são invisíveis a olhos terrenos. Nada poderia ver à minha frente.

a lei da causa e efeito. a colheita espiritual que procede da sementeira terrena. As regiões escuras podem ser chamadas de Inverno Eterno. enquanto que tudo é abominável nas camadas inferiores do mundo espiritual. para mostrar que escapar . levando--vos apenas ao seu limiar. Até aqui mencionei apenas de leve essas regiões. a não ser pelo fato de que o inverno terreno possui uma grandiosidade toda sua. a que foi dado o título pitoresco de Verão Eterno. mas me foi aconselhado que se devem apresentar os fatos não com intenção de assustar as pessoas — não é esse o método nem o alvo do mundo espiritual — mas para mostrar que tais lugares existem unicamente pela virtude de uma lei inexorável. mas com Edwin e Rute já cheguei a penetrar profundamente nelas.305 Há uma belíssima e brilhante esfera no mundo espiritual. Não é assunto agradável.

dando a aparência de que lutam pela existência. Nossas visitas nos levaram ao que creio ser o mais ínfimo plano da existência humana. As flores escasseiam e são subnutridas.306 terrena. a não ser que seja vitalmente necessário revelar sua presença. mas impenetrável apenas para os que são espiritualmente cegos. para mostrar que escapar à justiça no mundo é o mesmo que achar justiça estrita e impiedosa no mundo espiritual. acharemos uma gradual deterioração surgir na paisagem. Ao caminharmos lentamente de nossos próprios reinos para aquelas terras sombrias. A luz diminui continuamente até ficarmos em terras cinzentas e vem então a escuridão — profunda. . negra e impenetrável. A grama é ressequida e amarela até que finalmente desaparece por completo para ser substituída por áridas rochas. Visitantes de planos superiores podem ver nessa obscuridade sem serem vistos pelos habitantes.

e não se via vivalma. é claro. Não havia. Grandes trechos de rochas se estendiam à nossa frente e a estrada que seguíamos era rude e cheia de precipícios. É uma experiência bem estranha esta de enxergar no escuro. de cor verde e malcheirosa.307 Começamos a descida passando através de um cinturão de névoa no trecho onde o solo se tornou árido e duro. mas podíamos ver ainda nosso ambiente perfeitamente. mas na verdade é bem real. Isso seria impossível a qualquer dos habitantes desses lugares. e quando se passa por ela pela primeira vez sentimos um ar de irrealidade. A luz diminuiu rapidamente e as moradias eram cada vez mais raras. perigo de cairmos. Ao descermos pelas rochas eu podia sentir e ver o limo horrível que cobria a sua superfície. Depois de viajarmos sempre para baixo pelo que me pareceu um longo tempo — calculo . Agora a escuridão já nos envolvia.

como um vulcão a ponto de entrar em erupção. Em nossa atual posição estávamos bem acima desse mar de rochas e podíamos ver surgir delas uma nuvem sombria de vapor venenoso. como se alguma enorme avalanche ou cataclismo as tivesse arrancado da borda superior e atirado às profundezas. Como estávamos. pudemos ver através do miasma.308 que deve ter sido uma milha pelas medidas terrestres — achamo-nos numa cratera gigantesca de muitas milhas de circunferência. mas podíamos perceber com nossas faculdades intuitivas o grau de malignidade do ambiente. sentíamonos perfeitamente a salvo. Não estivéssemos nós bem protegidos e sua emanação nos seria sufocante e mortal. rastejando . para lá se espalharem formando cavernas e túneis. cujos lados ameaçadores e traiçoeiros se erguiam bem alto acima de nós. o que parecia serem seres humanos. Vagamente. Toda a área era pontilhada de imensas rochas.

haviam passado à sua verdadeira habitação. Como eu havia expressado o desejo de ser levado por Edwin aonde quer que ele achasse de bom proveito para os meus fins.309 como animais pela superfície das rochas. aproximamo-nos de algumas dessas criaturas de horror. . respirando e caminhando como nós. O vapor ascendente parecia envolvê-los numa mortalha que os escondia um pouco aos nossos olhos. e como eu sabia que seria capaz de suportar quaisquer visões. mas Edwin nos assegurou que um dia já foram homens na terra. de acordo com seu estado de espírito. | Mas viveram uma vida de impureza espiritual e pela morte física. nunca lhe seria permitido fazê-lo se não fosse do conhecimento geral que ela estava apta a enfrentar os aspectos mais horrendos com coragem e autodomínio. não é necessário dizê-lo. Rute nos acompanhava e. andando. Não podíamos crer fossem pessoas. Na verdade.

Os olhos eram pequenos e penetrantes. tão deformada e horrível. enorme e repugnante. e imaginamos que ações terrenas o haviam reduzido a esse estado de degeneração.310 fiquei admirado da sua atitude e até reconhecido por ter sua companhia. Aproximamo-nos de uma das formas subhumanas que jazia sobre umas das rochas. A face desse monstro nem era humana. visto que consistia apenas de imundos trapos. . O que restava de suas roupas podia ser facilmente dispensado. ao contrário. e mal escondiam dentes quase caninos. através de cujos rasgões se via a carne com aparência inanimada. com grossos lábios que salientavam o queixo prognático. Fitamos longamente esse destroço humano. mas a boca era. Os membros eram tão magros que se esperava que a pele se rasgasse sobre os ossos salientes. Mãos em formato de garras de aves de rapina mostravam unhas incrivelmente crescidas.

Não haveria necessidade de abordá-las para decifrar a história de sua vida porque ela estava gravada em seus semblantes. já experimentado em tais espetáculos. Suas feições mostravam que. Estava muito estonteado com a perda de sua energia física para compreender o que havia acontecido. Que já estava há várias centenas de anos no mundo espiritual. nos disse que com o tempo ganharíamos prática em nossos trabalhos e poderíamos ler nos rostos e formas dessas criaturas o que as havia transformado em frangalhos. ele continuaria as práticas infames que aqui o haviam lançado. pois que estava ainda imerso em sua iniqüidade. podia-se ver pelos restos .311 Edwin. e obviamente não mostrava o menor sinal de arrependimento por sua vida anterior. A aparência também nos avisaria se necessitavam auxílio ou se estavam satisfeitos com o presente estado de coisas. disse Edwin. não valia a nossa simpatia. O objeto que agora contemplávamos. dada a oportunidade.

usara de falsos argumentos para administrar a justiça.312 esfarrapados de sua roupa que indicava pertencer a eras passadas. ele se julgara. E sua condição é agravada pela raiva de se sentir como animal numa jaula. a recordação indelével de todos os males que perpetrara contra seus semelhantes. terá sempre que recordar. Nosso grupo de três não conseguia sentir o menor vestígio de pena por esse monstro desumano. mas essa nada mais fora que uma paródia. como já o vinha fazendo há centenas de anos. ele recebia sua paga. e enfrentava agora. Nunca poderá esquecer. Quando na terra. nada mais nada menos. se condenara. e agora é que ele estava vendo o que é de fato a verdadeira justiça. Não só encarava continuamente a sua vida passada de maldades. Cada crime cometido contra outros tinha revertido contra ele. e agora sofria o castigo que merecia e que . mas as feições de suas inúmeras vítimas estavam sempre perante seus olhos.

Afastamo-nos e Edwin nos conduziu através de uma abertura para terreno mais ou menos nivelado. Mas tal como era. Aqui não havia o caso de um Deus vingador infringindo castigo sobre um pecador. Pudemos ver de repente que essa parte da cratera era mais densamente habitada — se é que se podia usar o termo habitantes para aquela espécie de gente. Os habitantes estavam ocupados de diversas maneiras: alguns sentavam-se sobre peque- . sua vida espiritual. Este. A causa era sua vida terrena e o efeito. ali estava de fato. poderíamos ter feito algo por ele. Seu chamado seria então atendido sem falta. mas era a manifestação visível das causas e efeitos. Tivéssemos vislumbrado o menor raio de luz — aquela luz verdadeira que se vê — que é um sinal inconfundível de vibração espiritual interna. nada podíamos fazer a não ser esperar que um dia esse ser horrível pedisse por auxílio com sinceridade.313 quisera.

e em alguns casos os rostos e cabeças. Outros. haviam retrocedido a meras caricaturas de configurações humanas. Outros eram vistos estendidos no solo como se exaustos de suportar torturas. Intercaladas por essa enorme área horrível. ou de as infringir. infringiam inomináveis torturas aos seres mais fracos da sua espécie. antes de reunir forças para recomeçar suas barbaridades. em pequenos grupos. Seus gritos eram insuportáveis. e por isso fechamos os ouvidos a eles. que de alguma maneira lhes havia caído nas mãos. e seguimos o seu conselho à risca. e incrivelmente imundo.314 nas pedras e pareciam conspirar. Seus membros incrivelmente deformados. que parecia grosso e viscoso. como de fato era. era impossível dizer. havia lagoas de uma espécie de líquido. Edwin nos contou que a fedentina que emanava dos charcos estava de acordo com tudo o mais aqui e aconselhou-nos a não prová-las. . mas que diabólicos planos.

já viveu na terra. mas já lhes dei suficientes pormenores do que se encontra no reino das sombras. Não podem se afogar porque são indestrutíveis como nós.315 Ficamos horrorizados de ver sinais de vida em alguns dos charcos e adivinhamos sem ele nos contar. de fato. como não podíamos suportar. Não pensem que exagerei minha breve des- . Testemunhamos toda espécie de bestialidades e baixezas. barbaridades e crueldades. que freqüentemente os habitantes escorregavam e ali caíam. A idéia é horrível mas a verdade não se pode alterar. Não tínhamos. E agora perguntais: como acontece tudo isso? Como se permite que tais lugares existam? Talvez o assunto se esclareça quando eu disser que cada alma que vive nesses lugares horríveis. Não é minha intenção nem desejo dar uma descrição detalhada do que vimos. alcançado a profundeza do poço.

pois asseguro que não o fiz. magníficos prédios para a alegria e gozo de todos nós. Essas regiões existem em virtude das mesmas leis que governam os estados de beleza e felicidade.316 crição dessas regiões. rios. Assim podemos dizer que nós criamos a nós mesmos. Beleza de mente e ação. árvores. e gozar as delícias do feliz convívio com nossos iguais. A beleza do mundo espiritual é externa e visível expressão do progresso espiritual e seus habitantes. e mares de pura e cristalina água. e nossos lares individuais onde nos podemos rodear com ainda mais beleza. Na verdade. As sementes de horror semeadas no plano terrestre . Mas a fealdade da mente e da ação nada pode produzir a não ser fealdade. e daí termos flores de beleza celestial. nada podem produzir a não ser beleza. nem carreguei nas tintas. Quando tivermos ganho o direito de possuir coisas belas. elas nos serão dadas através do poder criador.

portanto. Somos um grupo unido e extremamente feliz e vivemos juntos em completa harmonia. tão certo como a noite seguir-se ao dia na terra. ao estado em que agora se acham. assim como elas construíram os reinos de beleza. por suas vidas na terra. Os habitantes dos reinos de escuridão. a piedade não nos é dispensada . Nenhuma alma é forçada a entrar nos reinos escuros ou nos da beleza. se sentir deslocado. Por mais sincera e inteiramente que possamos perdoar o mal que nos foi feito. Ninguém poderia. uma justiça com que não se pode brincar e de que todos nós nos servimos. É a lei inevitável da causa e efeito. se condenaram. De que adianta implorar piedade? O mundo do espírito é um mundo de estrita justiça. Justiça inflexível e piedade não se podem misturar.317 inevitavelmente conduzirão à colheita de horrores no mundo espiritual. Esses reinos escuros foram construídos pelas pessoas da terra.

Precisa fazer esse esforço individual por si só. . É um assunto pessoal que deve ser resolvido sozinho. Cada palmo do caminho é arduamente ganho e não há piedade aguardando-a no fim. Ninguém a substitui. mas cada alma que habita nestas terríveis regiões escuras tem dentro de si mesma o poder de se elevar da sordidez até a luz. precisa trabalhar pela própria redenção.318 no mundo espiritual. Mas a oportunidade dourada da recuperação espiritual está pronta a esperá-la. que a auxiliarão a ganhar a herança a que tem direito. Ninguém o pode fazer por nós. assim como a morte do corpo físico deve ser enfrentada a sós. Ela tem que mostrar sincero desejo de se adiantar uma fração de polegada na direção do reino da luz que está acima dela. e lá achará um sem-número de amigos desconhecidos. mas severa justiça. Cada má ação deve ser debitada à pessoa que a cometeu. mas que na sua loucura jogou fora.

portanto. Nossas descrições têm que ficar aquém da realidade. Aumentai cem vezes essas belezas e ainda estaremos muito longe da verdadeira avaliação. Aqueles que voltaram à terra para contar sobre nossa nova vida. E difícil imaginar uma concepção de beleza maior do que aquelas que já experimentamos na terra. enfrentam a dificuldade de descrever em termos terrenos o que é essencialmente espiritual. ainda resta um número ilimitável de surpresas para cada alma.319 VII. em nosso cérebro a questão seguinte: o que nos impressionou mais forte . PRIMEIRAS IMPRESSÕES Achar-se de repente transformado em habitante permanente do mundo espiritual. Surge. é uma experiência espantosa. Por mais que se leia a respeito das condições de vida no mundo espiritual.

realizava seus deveres e. e um dos poucos que não me atirava em rosto os ensinamentos ortodoxos. ele era um dos poucos que realmente se condoía de mim em minhas dificuldades psíquicas. éramos sacerdotes quando na terra. a vida futura era um completo mistério para ele. além daquele que eu tentava dar-lhe através das minhas próprias experiências. Conformava-se naturalmente com as normas da igreja. obedecia os seus mandamentos. como deve ser para muitos outros. como depois admitiu com franqueza. .320 e agradavelmente ao chegarmos aqui pela primeira vez. Mais tarde me disse que se alegrava bastante por não o ter feito. esperava pelo melhor — fosse o que fosse. Edwin e Rute. e quais foram as primeiras impressões? Permiti-me colocar-me como repórter e entrevistar nossos velhos amigos. Quando ainda na terra. como devem se lembrar. Edwin não tinha o menor conhecimento a respeito do assunto volta do espírito. Ele e eu.

321 Mas sua vida terrena não consistiu unicamente de exercícios religiosos. Suas primeiras impressões ao despertar no mundo espiritual foram — para usar suas próprias palavras — de grande emoção. esse serviço. ele havia ajudado muita gente em todas as ocasiões em que o auxílio era necessário. ele havia imaginado. Ao despertar achou-se num mundo de inexprimível beleza. talvez subconscientemente. expurgada da sua materialidade. era lançar dúvidas sobre a veraci- . tão obscuramente realizado. achar-se no meio de tais glórias sem noção do que lhe estava reservado. com enormes riquezas à volta dele. já refinada e eterizada. com toda a glória da natureza terrena. ajudou-o imensamente quando chegou a hora de deixar o mundo. o encanto das residências e a grandiosidade dos templos e das casas de ensino. Essas boas ações o transportaram à terra da beleza e eterna luz. Ver a pureza cristalina de rios e ribeirões. algo de vago e enevoado e onde haveria muita reza.

do qual logo despertaria para se achar no seu velho ambiente. e aguardava ansiosamente que algo acontecesse para inter- . Ele havia visto como um sonho tudo que se passara antes. A princípio ele tomou seu amigo e suas explicações como parte do mesmo sonho. mas apenas um sonho. sentado ao lado do velho amigo. e como se achara. e tudo que o conduzira até àquele ponto. num confortável leito. numa encantadora casa. ele não podia acreditar que não estava no meio de algum belo mas fantástico sonho.322 dade de seus olhos. Considerou como seria esse sonho recebido: belo. Achou que devia relatar o sonho quando voltasse à consciência. Seu amigo conduziu-o para fora a fim de ver o novo mundo e aí surgiu sua maior dificuldade — convencer Edwin que ele havia morrido e no entanto ainda vivia. que se desincumbia da mesma tarefa que Edwin agora realizava comigo. ao despertar.

verdadeira e permanentemente no mundo espiritual. viu-se numa encantadora casa.323 rompê-lo e voltar à consciência terrena. O que mais impressionou Rute ao despertar no espírito foi a profusão de cores. Edwin confessa que custou a se convencer. pronto a aju- . Como aconteceu com Edwin. pequena. Sua transição fora plácida e havia conseqüentemente despertado. mas que seu amigo fora infinitamente paciente com ele. No momento em que ele teve a certeza de que estava real. Um velho amigo se achava ao seu lado. seu coração não podia conceber maior alegria e ele começou a fazer o que eu mais tarde fiz na companhia de Rute — viajar através das terras da nova vida com a deliciosa liberdade de corpo e alma que é a própria essência da vida espiritual nestes reinos. asseada e funcional e toda sua. calma e suavemente. depois de breve sono.

mas meio aterrador quadro do mundo que viria. o terrível Dia do Juízo constantemente afirmado . Rute. não porque a desprezasse. que era fácil decifrá-lo. eu não a havia visto antes de nos encontrarmos à beira do lago. mas porque suas opiniões a respeito do depois não combinavam com o que sua igreja ensinava. Nunca fora muito de ir a igreja. Depois de muita persuasão consegui arrancar dela um ou dois pormenores de sua vida terrena. e já havia encontrado tantos aborrecimentos e aflições na vida cotidiana de tanta gente. Rute é reservada por natureza. eu sabia tanto a respeito de sua vida.324 dá-la nas inevitáveis perplexidades que acompanham tantos despertares. No caso de Edwin. que sentia instintivamente que o vago. porém. Ela via que se exigia muita fé. e se davam poucos fatos. especialmente no que se refere a si mesma.

declarou. De muitas pessoas que conhecia. portanto. que ela pudesse ser mais caridosa do que Deus. não podia lembrar nenhuma que pudesse ser estigmatizada e condenada no sentido religioso. com a condenação por atacado de todo o mundo. ela também achava errado. Não era tola. iriam parar todos depois de morrer? Ela nunca se poderia imaginar julgando e condenando essas almas. estava errado. para acreditar que todos somos santos. Falariam do perigo em que sua alma imortal se encontraria ao abrigar tais idéias. como pecadoras.325 perante seus olhos. Por isso construíra para si própria uma fé simples — uma prática que os teólogos diriam. perigosa e que não deve ser encorajada. Mas Rute nem por um instante achou que sua alma se achava em perigo. acrescentou Rute. A ênfase posta sobre a palavra pecador. Na verdade continuou a viver sua vida de . mas ao mesmo tempo nem todos somos pecadores. de imediato. Onde. Seria absurdo imaginar.

e sentia-se.326 acordo com os ditames de sua natureza meiga. Não tinha base para essa crença. A atmosfera era tão livre do mínimo traço de névoa. que a enorme gama de cores era duplamente viva. Nada semelhante havia na terra. Não temia a morte física. ajudando os outros em sua vida diária. . o que mais impressionou Rute foi a espantosa claridade da atmosfera. Rute possuía um dom para as cores e tivera considerável treino musical quando ainda na terra. e trazendo um pouco de sol à vida árida dos seus semelhantes.' assim. nem podia imaginá-la como a experiência aterradora que tanta gente antecipa e teme. atraída pela experiência da morte intuitivamente. E estava firmemente convencida de que quando sua hora chegasse ela levaria para a nova vida a afeição de seus muitos amigos. À parte as cores maravilhosas de que se achou rodeada.

a cor e a música da nova terra. Foi no processo desse último estado que nos encontramos pela primeira vez. disse ela. vimos subindo o jardim. haviam-na deslumbrado com toda a sua soberba beleza. A princípio mal podia crer em seus sentidos. Depois de ter compreendido o significado de sua nova vida. quando nós três discutíamos agradavelmente toda sorte de coisas. . e que toda a eternidade jazia à sua frente. Uma vez. em que nos encontrávamos.327 Quando passou a espírito. levou muitos dias antes de absorver e compreender inteiramente todas as maravilhas à sua volta. pôde então refrear o seu entusiasmo e levar as coisas com mais calma. mas seus amigos tinham logo explicado o que acontecera. essas duas qualidades combinadas. Mas. e como tinha poucas idéias fixas sobre a vida futura. assim também tinha pouco a desaprender.

essas roupagens estavam plenamente de acordo com o lugar e as circunstâncias. não por causa da anterior posição eclesiástica. ao comparar opiniões. O estilo e colorido das roupagens pareciam se harmonizar com tudo à nossa volta. assim o fazia. Havia sido nosso superior eclesiástico ainda na terra. apesar de sua alta posição ter sido mantida com distinção na terra. e era conhecido como um príncipe da igreja. e como tinha inteira liberdade de usar suas roupas aqui. mas devido ao longo hábito. e porque ele sentia que assim ajudava a aumentar a colorida beleza de sua nova habitação. mas não obstante era bem conhecido aqui. Nada de anacrônico havia nela.328 uma figura que Edwin e eu conhecíamos bem. ela não tinha eco no mundo espiritual. de nome e de . Agora. e como todos nós concordamos depois. Ainda estava paramentado como de costume.

e em muitas ocasiões uniu-se a Edwin. Fora muito amado quando encarnado e é natural que aqueles que o conheciam continuassem a mostrar-lhe o mesmo respeito. mas a relação entre ele e a . ele a havia rejeitado ao chegar aqui. O que o impressionou mais fortemente foi não somente a beleza e imensidade do mundo espiritual. porque todos nos respeitamos aqui.329 reputação. Nosso primeiro encontro nos levou a outros. Isso contribuía para que ele mantivesse suas roupas coloridas. mas deferência é outra coisa completamente diferente. quando nos encontrávamos no jardim ou saíamos. Respeito é uma coisa. a Rute e a mim. Foi durante uma dessas peregrinações juntos que pedi ao nosso antigo superior que nos esboçasse suas primeiras impressões do mundo espiritual. como nos disse com sua inata humildade. Mas a deferência que sua posição sempre provocava na terra. ele logo descobriu isso.

Abandonar as velhas e aceitar as novas. como por exemplo: esquecer os ensinamentos religiosos da vida terrena e pôr-se a par da lei da vida espiritual. Primeiro veio a sensação quase esmagadora de ter desperdiçado sua vida anterior em futilidades. que atrairia sua mente ávida. Varreu de sua . irrelevâncias e grande número de inúteis formalidades. Por mais que esses fatores fossem preponderantes. ele não havia se deixado absorver por eles e dessa reflexão agora tirava muito consolo. Mas alguns amigos vieram em seu socorro intelectualmente e asseguraram-lhe que esse tempo não fora perdido. Mas o que achou mais perturbador mentalmente foi a nulidade das doutrinas que havia mantido e que agora via caírem em ruínas a seus pés. E o fizeram de uma maneira simples e direta.330 vida deixada para trás. Mas aqui novamente achou amigos que o guiaram. apesar de sua vida ter sido cercada pela pompa e cerimonial de seu cargo. ele tinha feito isso e com completo sucesso.

finalmente. disse ele. Em resumo. Podia afinal voltar a falar livremente deixando de se prender à palavra da Igreja. A mera sugestão de divertimento aqui. gozava de absoluta liberdade espiritual. VIII. Achou muito mais fácil obedecer às leis do mundo espiritual do que aos mandamentos da igreja e era agradável libertar-se das formalidades de sua anterior posição. considerava sua maior impressão a completa sensação de liberdade tanto da mente como do corpo.331 mente o que não tinha base na verdade e fez a agradável descoberta de que. RECREAÇÕES Já usei esta palavra uma ou duas vezes. mas não dei pormenores a respeito deste importante assunto. liberdade essa aumentada pelo contraste com a ausência dela no mundo terreno. deve ser um choque desagradável para certas .

e porque o mundo espiritual deve ser considerado como um estado mais alto. isto é. porque a idéia é forçada e artificial.332 mentalidades. portanto. . por ser pouco santificado. estamos na presença de Deus e. Transplantar coisas tão fundamentais como essas para um mundo de puro espírito seria inconcebível talvez. um estado em que deixaremos para trás todos os nossos hábitos terrenos e viveremos perpetuamente numa condição de êxtase. Fazer tais suposições a respeito desta vida é sugerir que ao nos tornarmos espíritos. voltados somente àquelas coisas imateriais e vagas que nossa religião insinuava serem a recompensa dos bons. tudo que seja remotamente sugestivo de costumes terrenos deve ser banido. Essas pensarão imediatamente nos muitos e variados esportes e passatempos útil e agradavelmente gozados na terra.

podemos ver mais claramente a Mão Divina neste plano e a expressão de sua Mente. uma tolice. é um assunto mais profundo e que não nos cabe analisar agora. Isso. podemos nos ocupar em estu- . mas ao mesmo tempo delimitamos com uma nítida linha o nosso período de trabalho. podemos parar de trabalhar por completo. e passar o tempo reclinados em nossos lares ou em qualquer outro lugar.333 Tal idéia é. visto que Deus não está mais perto de nós aqui do que na terra. entre outras coisas. mas continuar sempre em nossas ocupações ininterruptamente acabaria por produzir sentimento de insatisfação e inquietação. Trocamos nossa presente tarefa por outra forma de trabalho. porque. e não vamos além. porém. Muitos de nós acham a recreação em outra forma de trabalho. Somos nós que estamos mais próximos dele. Nosso poder de aplicação a qualquer tarefa é imensa. Neste mundo não sofremos fadiga corporal nem mental. evidentemente.

ser uma distração. Assim também aqui. visto que o estudo pode.334 dos ou gozar das abundantes recreações que existem nestes reinos. tomamos uma daquelas belas embarcações. em si. e fomos visitar uma ilha. Que fazeis para vos divertir? Deveis sentir necessidade de descanso físico. mas já houve inúmeras ocasiões em que sentimos necessidade de algo mais violento. é amplamente fornecida pelos centros de estudo. Quando interrompemos o nosso trabalho por um momento. Já contei como nossos barcos são impulsionados puramente pelo processo de pensamento. que pode assumir diversas formas. e fomos até a praia. e já disse como se leva pouco tempo para se tornar proficiente na arte de aplicar . Esse tipo de recreação. Rute e eu já passamos muitas horas na biblioteca e na sala de artes. dá-se o mesmo que na terra. e portanto vos inclinais à recreação intelectual.

335 tal propulsão. e os arquitetos que os desenharam. Não há qualquer lucro. . como sempre. mas podemos atestar o nosso progresso e receber auxílio valioso em nossos esforços. Temos belos teatros situados nos arredores. tomando parte em competições aquáticas. Aqui. além da experiência e a aquisição de maior perícia. fizeramno com o mesmo cuidado meticuloso usado em tudo aqui. e não há prêmios a disputar e a ganhar. No final de cada corrida teremos certeza de que nos ajudaram a adquirir mais experiência no manejo da embarcação. e o resultado. Essa proficiência é alcançada finalmente. Deve-se notar a grande diferença entre as competições no plano terrestre e aqui. temos a certeza de que a rivalidade é puramente amistosa. Uma espécie de diversão que aqui desfruta considerável favor é a representação dramática de diferentes espécies.

porque deixei o mundo terreno e tornei-me habitante do es- . Não posso alterar a verdade para me pôr de acordo com as opiniões religiosas de certas pessoas. Há pessoas na terra que desaprovam inteiramente os teatros e tudo que se relaciona com eles. juntamente com milhares de pessoas. Falo de coisas de que tive provas. de modo algum prova que tais fatos não existam e muito menos que minhas afirmações são falsas.336 revela o grau de ativa cooperação que existe entre os artesãos. A minha posição de observador é incomparavelmente superior à deles. e o fato de haver uma violenta desaprovação por parte de terrenos contra o que descrevi como pertencente ao mundo espiritual. A guarnição interior é feita por exímios artistas do Edifício das Fábricas. Em muitos casos essa aversão é o resultado da educação religiosa. os jardins de fora mostram o mesmo cuidado devotado de sempre. O resultado está tão longe de um teatro terreno quanto se possa imaginar.

Tenho visto dessas pessoas. a salvo de qualquer espécie de coisas terrenas e vivendo no lugar que elas sempre pensaram ser o paraíso. que é o trabalho da Suprema Mente. teríamos que interromper a cada instante para fazer descrições.337 piritual. e não faz muito tempo. Se nossas descrições do mundo que ora habito mudassem de acordo com cada gosto individual ou cada preconceito sobre o que possa ser o mundo do espírito. geralmente antes de deixarem o seu lar-paraíso em direção de um paraíso mais perfeito. é que poderemos encontrar essas pessoas morando em pequenas comunidades à parte. maior. E uma vez que eu não vá transmitir nenhuma falsa impressão ao dizer isso. após tantas interferências elas estariam já sem valor. jamais seria chamado a participar delas. visto que. quem quer que demonstrasse desagrado a certas recreações. . deixai-me acrescentar que. Outra observação semelhante.

mas ao contrário das terrenas. Podemos ver comédias em que. tínhamos de encarar com seriedade. No espírito podemos nos dar ao luxo de rir de coisas que. aqui damos uma solução a cada problema — o que às vezes a cegueira dos terrenos impede de ver. Mas certamente o mais impressionan- . Já testemunhamos grandes desfiles históricos mostrando os grandes momentos de uma nação. e os autores não insistem em atormentar suas platéias. Podem-se ver muitas peças onde problemas sociais são debatidos. quando encarnados. e vimos a história como foi realmente e não fantasiosamente escrita nos livros. assegurolhes. As peças em si são completamente diferentes daquelas a que nos acostumaram na terra. Não temos nada de sórdido.338 Cada teatro neste reino é-nos conhecido pelo tipo de peça que apresenta. o riso é muito mais intenso e espontâneo do que na terra.

é estar presente a esses desfiles onde os participantes originais revivem os acontecimentos em que se envolveram. é criada . mas aos poucos nos acostumamos. e isso se torna parte de nossa existência normal. Nem são mostradas cenas onde haja batalhas. violência e morticínio. representaram os papéis dos tipos famosos que agora vêem em carne e osso. A mais notável diferença entre os dois mundos no que se refere a distrações. e não há auditório mais atento e apaixonado que os atores que durante suas vidas terrenas. pois seriam repugnantes à assistência. A princípio sentimos uma sensação estranha ao depararmos com os portadores de nomes famosos do mundo.339 te. Em tais espetáculos os incidentes baixos e mais sórdidos são omitidos inteiramente. e ao mesmo tempo o mais interessante. Essas representações estão entre as mais procuradas aqui.

Mas aqui esta- . tudo que significasse impelir uma bola por meio de batidas. onde as leis de gravidade agem de maneira diferente. deve-se observar que aqui. quando este está em condições de saúde perfeita. vigoroso e também não necessitamos de ar livre. redundaria em uma inutilidade. Não temos necessidade de fazer exercício corporal. Como a maioria dos jogos ao ar livre no mundo terreno requerem o uso de uma bola. Seria impossível tornar-se viciado ou contaminado. É de esperar portanto que nossas recreações sejam mais do lado mental do que do físico. Nossos corpos espirituais estão sempre em perfeitas condições.340 pelas nossas condições espaciais. não sofremos distúrbios de espécie alguma e o ar penetra em todos os recantos de nossos lares e edifícios onde retém completamente a sua pureza. No plano terrestre a perícia em jogos é adquirida pelo domínio da mente sobre os músculos do corpo.

mas adições a uma vida já agradável. e nossos músculos estão sempre sob completo controle de nossas mentes. Nunca ficam doentes ou com fome. Poder-se-á ver portanto que a maioria dos jogos comuns não teria razão de ser aqui. A eficiência é rapidamente assimilada. Nunca sentimos necessidade de uma rápida marcha para melhorar a circulação do sangue. Deve-se lembrar que o exterior ou interior é exatamente o mesmo para nós. Não temos mudanças de temperatura. seja para tocar um instrumento musical. ou com necessidade de coisa alguma. Nossos lares e casas não são necessidades. O grande sol central brilha eternamente e faz sempre um delicioso calor. . e a temperatura é eternamente agradável. visto que há sempre sol. Acharemos muitas pessoas aqui que não possuem lares. porque não o querem.341 mos sempre em forma. pintar um quadro ou qualquer outra especialização que requeira o uso dos membros.

tanto trabalho agradável a fazer. O que considerávamos muito importante em vida. Descobrimos que temos muito a aprender. porque nossa energia está sempre em nível constante com nossas necessidades. tantas maravilhas a descobrir. Temos infinita música para ouvir. O fato de que podemos nos mover através do espaço instantaneamente é bastante para fazer nossas antigas proezas atléticas parecerem insignificantes. e o aprendizado é em si um prazer tão grande que não precisamos da variedade de esportes que a terra precisa. que não há motivo para lamentar a escassez de esportes terrenos e passatem- . em comparação com as nossas forças mentais grandemente aumentadas.342 Deve-se lembrar que os pontos de vista mudam completamente ao chegar aqui. Nossas recreações pertencem mais à mente e nunca sentimos necessidade de despender energias supérfluas. aqui achamos de menor importância e muito de nossos antigos jogos terrenos nos parecem meio triviais e insossos.

porque tendo sido encarnados já deveríamos saber.343 pos no mundo espiritual. as recreações terrenas parecem meras\ trivialidades. perguntássemos: como se sentem as pessoas da Terra?. Mas antes de ser afastada a questão. estaríamos inclinados a responder que a pergunta é meio tola. ele pode sofrer tormentos e dores por meio de uma grande variedade de doenças. IX. sente fome e sede e deve ser provido de alimento e bebida. vamos ver o que se pode dar como resposta. pode perder seus membros através de acidentes ou por . Ao lado da abundância de coisas absorventes a serem feitas e vistas. pelo que é necessário ter descanso. Antes de mais nada consideremos o corpo físico. Pessoa Espiritual Como nos sentimos ao tornarmo-nos espíritos? Essa é uma questão já suscitada em mentes de muita gente. ao contrário. ele sofre fadiga. Se.

temos que ser cuidados por outros. Agora eliminemos completa e inteiramente cada uma dessas incapacidades. mas qualquer um pode ser vítima de pelo menos uma infelicidade. . a sede e a fadiga. O cérebro físico pode ser afetado tornando-nos incapazes de ações sadias e.344 outras causas. excluamos infalivelmente e para sempre suas causas. ou então o corpo físico pode vir ao mundo privado de algum sentido ou incapaz de falar. Que tenebroso quadro. conseqüentemente. e teremos a idéia do que significa ser uma pessoa espiritual. Pelo menos três são comuns a toda alma na terra — a fome. dessa lista de limitações que mencionei. direis! Assim é. Os sentidos podem tornarse embotados pela idade ou acidentes. podem causar a perda da vista ou da audição.

É muito difícil explicar essa sensação de perfei- . Além dessas dores. sofrimentos que não são sérios e devemos encarar como naturais: dores pequenas que conseguimos suportar. apesar do fato de que acabava de deixar um leito de doença. A doença final — a mais séria — foi demais para o pobre corpo e sobreveio a minha transição.345 Quando eu estava na terra sofri alguns dos padecimentos comuns a nós. Com o passar do tempo senti-me melhor ainda. estava cônscio de meu corpo físico pela manifestação da fome. Ao deparar com Edwin sentia-me fisicamente um gigante. Não tinha a mínima sombra de dor e sentia-me leve como se na verdade não tivesse corpo algum. e fadiga. Minha mente estava completamente alerta e eu me dava conta de meus membros somente quando precisava mover-me. Imediatamente senti o que é ser uma criatura do espírito. aparentemente sem nenhuma das ações musculares que me eram até então familiares. sede.

Deve ser experimentado. cada incidente testemunhado. Esse estado pertence ao espírito apenas. tudo isso descobri estar indelevelmente registrado em meu subconsciente. porque é uma coisa impossível na terra. Não julguem que somos continuamente assombrados por uma louca fantasmagoria de uma miscelânea de idéias e impressões. e desafia por completo qualquer descrição em termos terrestres. cada fato sobre que eu lesse. Já disse que minha mente estava alerta mas isso não diz tudo. cada impressão recebida. Se- . e portanto não há nada com que eu possa traçar uma comparação ou formar uma analogia.346 ta saúde. E isso é comum a toda pessoa espiritual que já teve vida encarnada. Cada ação que eu realizara e cada palavra emitida. Descobri que minha mente era um verdadeiro depósito de fatos referentes à minha vida passada. e isso é impossível até que nos encontremos aqui.

para consultarmos e meramente recordarmos os incidentes. não é difícil de compreender quando nos detemos para considerar nossa memória média na terra. arrumado em ordem e onde não se omite coisa alguma. Um incidente desencadeará uma corrente de pensamentos em que a memória participará. A descrição que vos dei dessa especial memória da alma. Essa memória enciclopédica de que somos dotados.347 ria um verdadeiro pesadelo. mas eles estão simplesmente à mão para se recordar. sempre à mão. querendo. como já tentei mostrar. mas está ali. Não se é continuamente incomodado pelos incidentes de toda a nossa vida. Não estou preparado para explicar como. O livro está fechado. Às . traz à tona outras leis. Nossas mentes são como uma biografia completa da vida terrena. onde está anotado cada pormenor referente a nós mesmos. se o desejarmos. apenas posso dizer o que acontece. Não.

É claro que quando estamos no mundo espiritual. Quando fazemos um curso de estudos sobre qualquer assunto. reteremos esses co- . E se estão escritas em caracteres maiores e mais enfeitadas do que os fatos que lamentamos. vemos que aprendemos facilmente e rapidamente porque estamos livres das limitações que o corpo físico impõe à mente. os bons pensamentos e tudo de que possamos justamente nos orgulhar. porque nessas anotações estão também as boas ações. Lá estão para todo o sempre. sem esforço e sem falhas. sem necessariamente nos perseguir.348 vezes não se pode solicitar o que há na memória. de acordo com a nossa vida terrena. As anotações sobre as placas da verdadeira mente não podem ser apagadas. mas no mundo espiritual isso é imediatamente possível. nossas memórias são persistentemente retentivas. O subconsciente nunca esquece e assim nosso passado se torna censura ou não. Se estamos adquirindo conhecimentos. tanto melhor.

isto é. Porque não somos dotados de aguda inteligência no momento em que nos desfazemos do corpo físico. tanto quanto nos permitir nossa inteligência. A mente tem ilimitados recursos para expansão intelectual e melhoria. e na verdade está longe disso! Mas a nossa inteligência pode ser aumentada. Aprender a pintar um quadro ou tocar algum instrumento musical. Se assim fosse. isso é parte do nosso progresso. imediata e exatamente. veremos que nossos corpos espirituais respondem aos impulsos de nossas mentes. sem dúvida nenhuma. Se nos estamos aperfeiçoando em algo que requer destreza manual. para mencionar apenas duas atividades comuns. são tarefas que levam apenas uma fração do tempo que nos tomariam quando ainda encarnados. veremos que a perícia exigida é atingida com igual facilidade e rapidez. por . estes reinos seriam habitados por super-homens e supermulheres.349 nhecimentos. Ao aprender a fazer um jardim espiritual ou a construir uma casa.

E ao longo de todos os estudos seremos assistidos por nossas memórias infalivelmente receptivas. como os chamamos na terra. e todos os outros sentidos funcionando perfeitamente. Na verdade os cinco sentidos. geralmente falando. Mas deixamos para trás todas as nossas incapacidades físicas. Não há esquecimento. tal como excessiva gordura e magreza. Temos membros. . Agora passemos ao corpo espiritual em si. E o nosso progresso intelectual se adiantará certa e firmemente. a réplica do corpo terreno. sob a orientação de capazes mestres de todos os ramos de ciências. vista e audição. de acordo com o nosso desejo ou prazer de o fazer. Quando chegamos aqui. ele é. Qualquer supernormal ou anormal condição do corpo físico. desaparece quando chegamos a estas paragens. somos reconhecidamente nós mesmos.350 mais atrasados que possamos ser quando aqui chegamos. tornam-se vários graus mais agudos quando desencarnamos.

351 Há uma fase em nossas vidas na terra que se chama a flor da idade. Outros que são jovens se adiantam até essa fase. ou que nos advieram com o correr dos anos. não terão alguma sugestão a fazer no sentido de melhorar nosso corpo. O corpo espiritual está sujeito à mesma coisa. Mas descobrimos que muitos traços menores. bem formadas porque não há tempestades ou ventos para lhes curvar os jovens galhos e deformá-los. voltarão a esse período. e todos nós preservamos as nossas naturais características que nunca nos abandonarão. que podemos muito bem dispensar. As tempestades da vida po- . se fosse possível. ao passarem a espírito. gostaria eu de saber. Já vos disse como as árvores aqui crescem em absoluta perfeição — direitas e limpas. são eliminados juntamente com nossos corpos físicos — certas irregularidades do corpo com que tenhamos nascido. Quantos de nós. É nessa direção que todos nós nos encaminhamos. Aqueles que são idosos.

Mas no mundo espiritual se revela a verdade a respeito de todos. Aqui ela é sempre perfeita. assim como há almas más dentro de corpos bem formados. perguntareis? É exatamente a mesma que a vossa da terra. não existe aqui. no sentido em que é conhecida na terra. Como é a aparência anatômica do espírito. Mas se a vida terrena foi sã. certamente existe. Não sofremos indisposições — isso seria impossível aqui. da alma. . e se essa vida foi espiritualmente feia o corpo espiritual será similarmente torcido. ossos. Mas subnutrição espiritual. Temos músculos. são puramente do espírito. isto é. Portanto nossos corpos não requerem cuidados constantes para se manterem em boa saúde. porque temos um grau de vibração tão elevado que gérmens causadores de doenças não podem entrar. Subnutrição. o corpo espiritual será correspondentemente são. mas não são da terra. Há muitas belas almas habitando um corpo terreno disforme. nervos.352 dem distorcer o corpo.

E assim permanece até que o queira. Seus amigos lhe dirão do seu verdadeiro estado de ser. Como é o corpo espiritual coberto? Muita gente. . Muitos se alegram de o fazer. se o desejar. vestida com a cópia das vestimentas que usava na terra na época de sua transição. especialmente quando a pessoa não tem previsão das condições do mundo espiritual. visto que o antigo estilo usado na terra lhes parece triste e sem cor nestes risonhos reinos. Não demorei muito a pôr de lado o meu velho hábito religioso. e ela poderá assim mudar a roupa. mas é às vezes necessário dar voz ao elementar. É razoável que isso aconteça porque tal vestimenta é costumeira.353 Será estranho pensar que um corpo espiritual possua cabelos e unhas? Como queríeis que fôssemos? Não seríamos repugnantes sem os traços anatômicos usuais? Isto parece uma afirmação elementar. desperta nestes reinos. para não dizer a maioria. visto que o preto é sombrio demais para esta galáxia de cores.

e montadas em engastes maravilhosos. São geralmente adornadas com as mais belas pedras preciosas. Aqueles que per- . Todas as roupas espirituais são compridas quase até os pés.354 Ás vestimentas espirituais variam tanto quanto variam os reinos. São suficientemente largas. tão brilhantes como os cintos. de modo que caem em pregas graciosas e estas pregas é que oferecem os mais lindos matizes de cores e luzes. às vezes de fazenda. de maneira que há uma variedade infinita tanto na cor como na forma. outras de rendas de ouro ou prata. tanto na cor como na forma. Seria impossível dar uma idéia do que são. de vários formatos. Vêem-se muitas pessoas usando uma faixa ou cinto à cintura. constituem recompensas por serviços prestados. Os entes superiores são vistos usando os mais magníficos diademas. Em qualquer dos casos. Parece sempre haver alguma sutil diferença entre as roupas de um espírito e de outro.

Há uma grande riqueza de sabedoria espiritual atrás de cada adorno. Isso não provoca comentários porque é natural e comum.355 tencem a graus inferiores podem usar tal adorno mas de formas menos imponentes. os moradores dessas elevadas esferas adquirem uma incrí- . e. Podemos usar o que quisermos nos pés. mas um fato precisa ficar bem claro: tais enfeites precisam ser conseguidos. O material que usamos nas roupas não é transparente como alguns julgam. Já vi inúmeras pessoas que preferem andar descalças. E a razão pela qual não é transparente é que nossa roupa possui o mesmo grau vibracional que o possuidor. É bem compacto. e a maioria prefere usar algo que os proteja e geralmente é um sapato leve ou sandália. conseqüentemente. Quanto mais alto progredimos maior se torna esse grau. Os prêmios são dados apenas por mérito.

Essa transparência é mais visível a nós do que a eles. — como é o caso dos planos superiores — o contraste é incomensuravelmente maior. Creio já terdes concluído a esta altura que ser uma pessoa espiritual pode ser algo bem agradável. Quando se aumenta a luz mil vezes.356 vel fragilidade no espírito e nas roupas. pela mesma razão que uma luz pequena parecerá mais luminosa em virtude da escuridão reinante em volta. externamente visível. . isto é. Não recordo ter visto nenhum por aqui pois não necessitamos proteção contra os elementos. Raramente usamos cobertura para a cabeça. Em minhas andanças pelos reinos da luz ainda não encontrei um único indivíduo que quisesse trocar esta bela vida por aquela velha da terra.

depende inteiramente delas. tornar-se-ão mais jovens na aparência apesar de amadurecerem espiritualmente. e é na direção desse período que todas as almas ou voltam ou se adiantam. de que para os jovens este período seja geralmente mais curto. apesar. A ESFERA DAS CRIANÇAS Uma das inúmeras perguntas que fiz a Edwin logo após minha chegada referia-se ao destino dado às crianças que passavam a espírito.357 Experto crede! X. Quanto tempo leva. Há um período de nossa vida terrena a que estamos acostumados a chamar Flor da idade. visto que é apenas uma questão de progresso espiritual e desenvolvimento. sejam eles idosos ou de meia-idade. Não se deve concluir com isso que . Há uma também aqui. conforme a idade em que tem lugar seu passamento. Aqueles que passam a espírito depois da flor da idade.

portanto. Mas nossas mentes tornam-se mais velhas ao ganharmos conhecimento e sabedoria e maior espiritualidade. Se. e. vimos o radiante visitante que viéramos honrar. o que se dará com as almas dos que morreram crianças ou dos que morreram ao nascer? . à distância. e essas qualidades da mente são manifestas a todos com quem entramos em contato. em vários graus. Acontece o mesmo. Externamente parecemos jovens: perdemos aqueles sinais que a passagem dos anos causa e que tanto nos perturbam quando mortais. Quando visitamos o templo da cidade. No entanto o grau de sabedoria e espiritualidade que difundia e que podíamos sentir com nossas mentes. com aqueles que vêm dos mais altos planos para nos visitar.358 nós todos chegamos a um nível estático de vulgar uniformidade. era avassaladoramente grande. ele apresentava o aspecto perfeito e eterno da juventude. verificamos este rejuvenescimento de pessoas adultas.

presidido por almas igualmente belas. Encaminhamo-nos para o limite entre os reinos superiores e o nosso. Já podíamos sentir a atmosfera rarefeita. Mas às crianças daqui — de todas as idades — é dado um tratamento e cuidado que nunca seria possível na terra. O reino destas crianças chama-se o berçário do céu e quem quer que tenha a fortuna de visitá-lo sabe que não há termo mais adequado. A criança cuja mente ainda não está completamente formada e não está contaminada pelos contatos terrenos.359 A resposta é que crescem como o fariam na terra. e voltamo-nos na direção da casa de Edwin. Notei que essa atmosfera tinha . ao passar a espírito acha-se num reino de extrema beleza. E foi em resposta à minha pergunta que Edwin propôs levar Rute e eu para o conhecermos. embora não o bastante para nos causar desconforto.

Eram extremamente repousantes e também cheios de vitalidade. Esses raios de luz estavam sempre em movimento. entrelaçando-se e produzindo as mais delicadas misturas de cores com sucessivos arco-íris. e derivava. Mas havia uma estranha e sutil diferença que intrigava o visitante na sua primeira visita. da espiritualidade das crianças que aqui vivem. Era como se um grande número de focos luminosos se encontrassem e espalhassem seus largos raios por toda a paisagem. e. as árvores não tão altas mas bem formadas como todas as outras aqui. Algo como isso se encontra . Depois de algum tempo a atmosfera clareou e. O campo era mais verde. como nos disse Edwin. sem os raios coloridos já era mais semelhante à nossa. de alegria e despreocupação.360 bem mais cor do que as profundezas do reino. como pareceu a Rute e a mim. Tristeza e infelicidade. sentíamos ser inteiramente impossível aqui.

361 quando se tem o privilégio de viajar por reinos mais elevados. cresciam em abundância nos canteiros artísticos e em grandes agrupamentos nas encostas e sob as árvores. e que as próprias do mundo do espírito acham-se separadas das primeiras. Dissemos que não há significação especial nesta segregação. é desnecessário dizer. Já expliquei. Tão belas quanto na terra são as. que suas semelhantes da terra crescem por si mesmas. a respeito das flores. à parte o notável efeito de elevação da mente. Vimos vários esplêndidos edifícios ao caminharmos pela grama macia. E . flores que aqui crescem. mas que ela existe para mostrar simplesmente a distinção entre duas classes de flores: a espiritual e a terrena. Flores. e todos agradavelmente situados entre jardins floridos. Não eram muito altos mas largos e extensos. e não pode haver comparação com as que pertencem ao espírito. É quase como se houvesse maior grau de beleza no ar.

Longe disso. aliada à força e variedade de seus perfumes imediatamente afastaria a idéia de raridade. Mas não se deve supor que essas magníficas flores sejam de estufas. Não são de cores mais ricas do que as da terra. Todas possuem a qualidade comum a todas as coisas que crescem aqui. ou seja. pois não conhecemos nenhum exemplo na terra que lhe possa servir de comparação. .362 aqui ainda estamos limitados pela experiência terrena ao descrevermos suas belezas. Não houve nenhum caso em que o cultivo da beleza de uma flor prejudicasse o seu perfume. a de verter força energética não só através de seu aroma. mas também através do contato pessoal. Já experimentei segurar uma flor com as mãos em forma de concha — Rute assim me instruiu — e senti uma corrente de força vital fluir para os meus braços. A superabundância delas. mas a conformação e folhagem são de beleza sem paralelo.

mas não . e cada uma com o seu encantador jardim ao redor. tais como costumamos ver em livros de fadas. o estilo da arquitetura lembrava os de nossa própria esfera.363 Podiam-se também ver deliciosos reservatórios de água e lagoas. Havia minúsculas casas de vigas recurvas. as mais engraçadas casinhas de campo. confundidas no meio dos bosques. e de tonalidades as mais delicadas. Noutra direção viam-se uma série de lagos maiores. nessas criações fantasistas para a alegria das crianças. em cuja superfície floresciam as mais belas flores aquáticas. com inúmeros barquinhos vogando serenamente. Os prédios leiam construídos de uma substância semelhante ao alabastro. Pode-se pensar que o mundo espiritual tenha se inspirado na terra. Mas o que nos provocou maior surpresa foi o ver. telhados vermelhos e janelas de minúsculos vidros.

Grande número de crianças vivem nessas minúsculas habitações.364 foi o caso. cada uma presidida por uma criança mais velha. estavam de acordo com seus pequenos habitantes. perdeu-a na terra através dos anos. Essas casinhas eram grandes o bastante para permitir a entrada de um adulto sem bater a cabeça. que assim não se sentiam diminuídos por eles. Esse artista é conhecido aqui. Qualquer artista que tenha recebido nossa impressão original. Por essa mesma razão é que todos os grandes edifícios aqui não são muito altos. Na verdade. e elas não tinham a impressão de se perderem lá dentro. Para as crianças pareciam ser de tamanho exato. toda essa concepção de casas em miniatura emanou do próprio mundo espiritual. onde vai continuar sua obra na esfera das crianças. perfeitamente . Não os construindo muito altos nem de salas grandes demais.

Imediatamente nos deram as boas--vindas e a professora teve a bondade de responder a algumas perguntas. Como tivera filhos na terra e como se interessasse muito por crianças resolveu encarregar-se desse trabalho. Outras ouviam atentamente as explicações sobre flores numa aula de botânica. Seu entusiasmo pelo trabalho aumentava o prazer de nos contar o que desejássemos. outras sentadas na grama enquanto uma professora lia para elas. . Ao andarmos víamos grupos de crianças felizes. no que se refere às flores essencialmente espirituais. Ela estava aqui havia um bom número de anos. Edwin levou-nos a uma das professoras e explicou-lhe a razão de nossa visita. algumas jogando. Mas era uma botânica muito diferente da da terra.365 capaz de enfrentar qualquer situação que surja entre os habitantes.

o que é mais importante. Nesta esfera. e. ao jovem de dezesseis ou dezessete anos. Irradiando encanto e confiança. cuja existência na terra não foi além de alguns minutos ou que nem chegou a ter existência própria. mostrava-se a pessoa mais feliz que já vi até hoje. compreendia a mente infantil. permanecem na mesma esfera e elas mesmas se tornam professores por .366 Nem era necessário dizer quão admiravelmente ela se desincumbia desta tarefa. há crianças de todas as idades. já que na verdade era quase uma criança grande. bondade e alegria. nos disseram. especialmente das que atraem as crianças. Acontece freqüentemente que as crianças. ela atraía todas as crianças. desde o bebê. tinha uma fonte inesgotável de histórias. Possuía amplo conhecimento das mais interessantes coisas. ao crescerem.

Os mestres são sempre almas de grande experiência. segundo nos disse nosso informante. E os pais? Foram eles alguma vez os professores de seus próprios filhos? Raramente ou nunca. É uma prática que raras vezes dá certo. .367 algum tempo. eles aqui têm de submeter-se a um extenso curso antes de se julgarem aptos a preencher o cargo de mestre de crianças. para manter os rígidos padrões de trabalho. visto que o pai estaria inclinado a favorecer o seu próprio filho e poderia haver embaraços. e não há muitos pais na terra que seriam capazes de orientar a educação do espírito infantil imediatamente após o passamento. ou até que seu trabalho as leve a outros lugares. Se os professores foram pais ou não no plano terrestre.

e todas as crianças. e isso acontece bem cedo. mas exige uma multiplicidade de atributos especiais. mas muitas das disciplinas do curriculum terreno são omitidas como supérfluas. o consideram como pai. em geral. porque a mente jovem absorve conhecimentos facilmente. Vós vos lembrais da retenção da memória de que já vos falei? Ela começa assim que a mente seja capaz de aprender algo. a julgar pelo padrão terreno.368 O trabalho não é árduo. in loco parentis. na verdade. A aparente precocidade é perfeitamente natural. O crescimento mental e físico da criança no mundo espiritual é mais rápido do que no mundo terrestre. Elas aprendem a ler. O governante do reino age. O ensino das crianças é muito vasto. O temperamento é cuidadosamente estudado pelas linhas espirituais e as crianças são treinadas primeiro a respeito de assuntos espirituais e depois é que são instruídas acerca do mundo. .

A resposta é um enfático sim. tornam-se perfeitamente aptas para desenvolver a atividade escolhida. por exemplo. Algumas. Tais visitas têm a vantagem de aumentar suas experiências. aprofundando sua compreensão das atribuições e prazeres dos seres encarnados.369 Ao crescer. . — "Mas como? se eles cresceram no mundo espiritual e longe de nossas vistas?" Para responder. fora de qualquer dúvida. especializando-se. com referência a crianças que já morreram: "Poderemos nós reconhecer nossos filhos quando chegarmos ao mundo espiritual?'. Surge sempre esta pergunta na mente de pessoas da terra. preferem voltar à terra temporariamente para trabalhar no exercício das comunicações e se tornam altamente eficientes. as crianças podem escolher sozinhas o tipo de trabalho que prefiram e. é necessário conhecer um pouco mais a respeito de nós mesmos.

e assim observar seu crescimento. é também nessas visitas que os pais podem encontrar seus filhos. Lembrando o que eu disse sobre a retenção da memória subconsciente. E é nestas visitas que encontramos parentes e amigos que morreram antes de nós. portanto. vereis que. O espírito passa. Na maioria dos casos os pais não podem penetrar na esfera dos próprios filhos.370 Deveis saber que. assim liberto. porque o pai viu o filho e observou seu crescimento da . mas há inúmeros lugares onde tais encontros podem ocorrer. se bem que permaneça ligado a ele por um fio magnético. parte da sua existência em terras espirituais. em tais casos não pode haver problema para reconhecer um filho. ou permanece nas vizinhanças do corpo ou gravitará para a esfera que seus atos terrenos lhe terão dado direito de freqüentar. quando dormimos. o espírito se retira temporariamente do corpo físico. Esta ligação é o fio da vida entre o espírito e o corpo. O espírito.

Deve haver. Os templos do saber estão equipados com todo o necessário para a difusão do saber. Isto se refere a crianças que morre- . é claro. a conclusão é óbvia. a não ser ocasional e fortuitamente. seja entre marido e mulher. conforto. Onde eles não existem. educação. prazer e felicidade de seus jovens habitantes. Sem ele é problemático que as pessoas se encontrem. podem fornecer para o bem-estar. inspiradas pela Mente Suprema. daqueles que não o possuem ainda no menor grau. suficientes laços afetivos entre os dois. do contrário esta lei não funciona. e que portanto precisam começar pelo começo. contendo tudo que grandes mentes.371 mesma maneira que o teria feito se a criança permanecesse na terra. pai e filho ou entre amigos. O laço de afeição e interesse deve também existir entre todas as relações humanas no mundo espiritual. O reino das crianças é uma cidade em si.

Para o bom. E elas têm. como os temos todos. E todos fixamos o mesmo alvo — a felicidade perfeita e perpétua. Crianças que deixam o mundo nos seus primeiros anos continuarão seus estudos onde os largaram. eliminando todos os que não lhes serão de utilidade futura. Espero . OCUPAÇÕES O mundo espiritual é não só uma terra de oportunidades idênticas para todos. mas essas oportunidades são de uma escala tão vasta que nenhuma pessoa encarnada pode ter a menor idéia de sua magnitude. os mesmos direitos à herança espiritual. Assim que alcançam idade adequada podem escolher seu futuro e estudar de acordo com suas preferências. as mesmas oportunidades. como era de esperar. o útil e o interessante trabalho. velhos ou novos. e acrescentando os espiritualmente necessários. Oportunidades para quê? — perguntareis. XI.372 ram muito cedo.

assim . Vossos pensamentos se voltarão imediatamente para as muitas modalidades de ocupações do mundo. Há uma corrente. oferecendo formalmente louvores e orações ao Grande Trono. a esta altura. roupa e habitação de alguma qualidade.373 que. com certeza. Bem. Surge dos corações de todos que estão felizes e gratos por se acharem aqui. um lugar onde seus habitantes passam a existência numa atmosfera de super-êxtase religioso. mas atrás delas há sempre a necessidade urgente de se ganhar a vida. de prover o corpo físico com comida e bebida. já tenha feito notar que o mundo espiritual não é uma terra de ociosidade. visto que alimento e bebida não são necessários. numa corrente ininterrupta. Quero tentar dar uma leve idéia da imensa variedade de ocupações a que podemos nos dedicar aqui. mas de maneira muito diferente. já sabeis que essas considerações não existem entre nós.

Imaginai isso e começareis a compreender algo da nossa vida. e por causa disso o trabalho é um prazer aqui. O que acontece então às pessoas que as praticam? Descobrirão imediatamente que deixaram suas vocações terrenas para trás porque a necessidade de subsistência física não mais existe. e em lugar disso tais pessoas sentem-se gloriosamente livres para se ocuparem em algum novo trabalho. pois. mental. Imaginemo-nos num mundo onde ninguém trabalha para viver. Não precisam mais indagar do que são capazes: .374 como roupas e habitações. assim serão nossas roupas e domicílios quando aqui chegamos. Embora úteis e necessários. mas onde todos trabalham pela pura alegria de fazer algo útil aos outros. pertencem a um período essencialmente terreno da vida. Conforme foram nossas vidas na terra. necessidade física de trabalho. Não temos. Muitas ocupações não têm razão de ser nestes reinos. mas sim.

visto que não há ninguém para impor-lhes sua vontade. considerando alguns dos seus aspectos físicos. E não demorarão muito a se unir a seus companheiros para aprenderem alguma ocupação nova. Que poderia haver de melhor do que continuar aqui com seu trabalho.375 logo acharão algo que lhes atrairá a atenção e interesse. livres e despreocupadas. porque ao criarem uma bela obra . digamos. está o primeiro meio de atividade. fora das exigências físicas. E qual é o resultado? Felicidade para si próprios. Em caminho atravessamos belíssimos jardins que foram algum tempo desenhados e criados. Milhões de pessoas na terra amam os jardins e o seu trato. Sejamos mais específicos. Aqui. e com os inesgotáveis recursos do mundo espiritual às suas ordens? Podem parar quando bem entendem e retomar o trabalho quando desejam. Até aqui só me referi ao trabalho abstratamente. e para isso vamos à cidade.

e outros tinham que construir o templo. propriamente. reformando. com seus vários assistentes técnicos.376 de arte horticultura eles aumentaram a beleza de um lugar já belíssimo. alterando. e que atividade podemos achar lá. Já falei a respeito da construção do anexo da biblioteca. Agora vejamos o templo da música. está entre uma das mais importantes do mundo espiritual. e assim trouxeram felicidade aos seus semelhantes. Mas é surpreendente ver quão rapidamente se ganha eficiência pelo estímu- . Assim continuam sua tarefa. planejando. Alguém. mas aqui ele tem de ser aprendido. ou até que seu progresso espiritual os leve para novos campos. é claro. construindo e sempre adquirindo mais e mais perícia. tinha que planejar. e a obra de arquitetos e construtores. embelezando. Em todas as construções grandes o método seguido é o mesmo. Toda espécie de atividade está aberta a qualquer um que goste dela. Assim continuam até que desejem mudar de trabalho.

nem por força das circunstâncias. agora podemos observar que uma existência inteira passada na terra a exercer uma especialidade seria mais do que suficiente para a maioria. e o fato de que ninguém é obrigado. com sua interminável rotina seria a última coisa que se desejaria. A maioria está aprendendo a ser musicista.377 lo da vontade. Bem. e que retomar essa mesma atividade. E alguém tem que fornecer-lhe os necessários instrumentos. aprendendo a tocar um ou mais instrumentos. A vontade de fazer é transformada em habilidade de fazer em muito pouco tempo. Na seção de música temos bibliotecas onde os alunos se ocupam em seus estudos. se desejam continuar a exercê-la. nem por mera . por isso os fabricantes de instrumentos da terra se acham à vontade em sua arte. Mas lembrai-vos do que já disse acerca da liberdade nestas paragens. isto é.

a fazer qualquer trabalho no mundo espiritual. e pelo desejo de ser útil a outros habitantes do reino. Em muitas casas há — e não como mero ornamento — um belo piano construído por mãos destras que aprenderam os métodos espirituais da criação. devo mencionar que não é imperativo adquirir um instrumento musical por intermédio do templo da música. juntamente com vários solos para instrumentistas. Têm . olhemos a biblioteca. são recompensas espirituais. por simples amor e orgulho de criar algo. Incidentalmente. Lembrai-vos de que todo trabalho é voluntário. Antes de prosseguirmos. Essas coisas não se podem criar. Seria inútil tentar possuir aquilo a que não temos direito. A maioria das grandes orquestras obtêm suas músicas do templo da música. Aqui há partituras musicais aos milhares.378 necessidade de subsistência. Qualquer pessoa o pode fabricar para uma outra que o necessite.

recreação. os pormenores podem ser multiplicados. indo da pessoa que apenas ama a música àquelas que são instrumentistas e regentes. em parte. que meu interesse está noutro setor.379 liberdade de pedi-las emprestado sempre que o desejar. Rute entretanto. em parte estudo e ocupação. E assim. E essa é outra importante e produtiva ocupação. É para ela. dá-se o mesmo. posso juntar-me aos estudantes que aprendem a tecer os mais encantadores tecidos. e minhas visitas aqui são puramente de recreio. e que atendem às necessidades do público. preenchem outra tarefa útil. em nossas paredes. A qualquer momento que desejar. Na seção de tecidos. como . mas alguém tem que duplicar as partes musicais. Acontece. Os bibliotecários que cuidam das músicas. Pode-se obter qualquer material que se deseja. porém. das quais Edwin e eu possuímos duas belíssimas. Já teceu algumas belas tapeçarias. passa certo tempo estudando e já é perita em tapeçaria. ou.

e ridicularizaria qualquer insinuação de que está recebendo auxilio de uma fonte desconhecida. Não que necessitemos deles como tais. O médico terreno provavelmente nem se dá conta do fato. O médico espiritual contenta-se em auxiliar. mas porque aqui podem trabalhar com colegas que investigam as causas das doenças e moléstias na terra. dei apenas uns dois ou três exemplos do que é possível a uma pessoa fazer aqui. que formam um grande campo de atividades. É o resultado final que lhe interessa e não o crédito. Bem. pode-se pedir a algum artesão para fazer o que se deseja. Em tais casos. e podem ajudar a aliviá-las. sem reconhecimento algum do auxiliado. Muito médico espiritual já guiou a mão de um cirurgião da terra enquanto este realiza uma operação.380 no caso da música. Imaginai os médicos que aqui continuam sua obra. Nunca se ouve uma recusa. Há outros milhares. nem se tem de esperar longo tempo para receber o que se quer. .

Qualquer que seja o ramo de ciência que lhes interesse. ser modelado. Assim também. seria impossível. ou criado — e isso exige alguém que o faça. Na realidade. Mas por ora podeis ter uma idéia do que pode oferecer o mundo do espírito.381 o médico da terra faz interessantes descobertas. em nossos edifícios e jardins. Tudo o que temos em nossas galerias. . aqui acharão mais do que o suficiente para ocupar sua atenção por bastante tempo. ou pelo menos um tanto enfadonho talvez. tem de ser feito. percorrer a longa lista de ocupações já tão conhecidas da terra. ao chegar finalmente ao mundo espiritual. Os cientistas também continuam suas pesquisas ao chegar aqui. A necessidade é constante e o suprimento constante. em nossas casas. o engenheiro e muitos outros. e será sempre assim.

382 Há. Nas mansões de repouso há enfermeiras e médicos para tratar daqueles cuja última enfermidade na terra foi longa e dolorosa. Todas essas inúmeras almas precisam ser ajudadas e sua perplexidade. A porcentagem de pessoas que chegam aqui sem conhecimento de sua nova vida e do mundo espiritual é baixa. Esses lugares de re- . Há muitas dessas casas que são um monumento perene de vergonha para o mundo. É certo que a morte possa ser repentina e violenta — isso é inevitável no presente — mas é uma vergonha para a terra que tantas almas aqui cheguem inteiramente ignorantes do que lhes virá no após. ou cujo passamento foi violento e repentino. Rute e eu estamos ocupados e que atrai muitos ministros de Deus. cuidada. Esse é o tipo de trabalho em que Edwin. deploravelmente baixa. outra seção da indústria vitalmente necessária e inerente ao mundo espiritual. porém.

para contar aos que ficaram. em conseqüência disso houve necessidade de mais enfermeiras e médicos. temos escolas especiais para aqueles que. Essas almas. cuja atenção está sem- . Como tal trabalho pertence exclusivamente ao mundo espiritual. Eles terão que aprender os fatos da intercomunicação entre o nosso mundo e o vosso. ao mesmo tempo que têm de transmiti-lo a pessoas que geralmente nada sabem do seu novo estado. gostando dessa atividade. Adquirem um conhecimento geral dos caminhos da vida espiritual. a grande descoberta de estarem em outro mundo. Muitos requerem um longo repouso após a morte. Ali. eles aprenderão muito do que se refere ao tratamento científico do corpo em si e da mente espiritual. É surpreendente ver quantas pessoas que aqui chegam querem voltar correndo.383 pouso se multiplicaram consideravelmente desde que aqui cheguei. desejam se aperfeiçoar.

384 pre dividida por igual entre a terra e o espírito. Escolhi uma ou duas por terem a aparência tão material e para sublinhar o que já tentei demonstrar repetidamente — que vivemos num mundo prático onde nos ocupamos em tarefas úteis e individuais. nem fazer crer que os que acabei de mencionar tenham precedência sobre os outros. . assim como tato e discrição por parte das enfermeiras e médicos. exigem uma alta proporção de saber espiritual. Mas que dizer das pessoas que nunca fizeram algo útil durante a vida? Tudo que posso dizer é que tal pessoa não chegará até estas paragens até ter merecido a entrada por meio de trabalho. perpetua-mente imersos em meditação. e não passamos o tempo todo num êxtase de religiosidade. Ao mencionar uma ocupação não quero prejudicar outra.

mas para vós — quando chegar o tempo. Na verdade. mas aplica-a na direção errada. Daí ser mantido oculto muito que lhe pode ser prejudicial. Esses não são para nós. até o dia em que alcançar maior de- . milhares e milhares de pessoas dedicam-se. A terra tem dado pobres evidências do que se tem feito por ela no mundo espiritual.385 Fazer relação de todas as atividades seria longo demais e exaustivo. por causa da minha incapacidade de fazer justiça a todas. A mente do homem está apenas na infância. e isso ainda não é agora. muito felizes. e uma criança torna-se perigosa se tem livre uso do que a pode destruir. fico com a mente tolhida só em pensar em contar tal número. têm feito longínquas descobertas e aperfeiçoado inventos. Ciência e engenharia sendo co-aliadas. o que por fim acarreta a sua destruição. Nas esferas científicas de puro labor. O homem tem usado sua vontade livremente. ou às provas dos segredos da terra. ou às investigações dos do mundo espiritual.

por mais modesto que pareça ao lado de outros aparentemente mais importantes. nem transtornos domésticos. investigações. e uma avalanche de novas invenções se despencará sobre o vosso mundo. para descansar ou para seguir outra linha de trabalho. Não há ninguém aqui que não confirme minhas palavras com todo o coração e sem reservas! . nem rivalidades para produzir insatisfação ou desagrado. o trabalho constituído de pesquisas. O mais humilde de nós sente que seu trabalho significa algo. No mundo espiritual. que já vos citei. podemos nos afastar um pouco. Nesse meio tempo. Nada quebra a ordem rotineira das nossas atividades. Não temos disputas.386 senvolvimento. O dia virá certamente. E enquanto elas continuam. trabalhar é ser profundamente feliz pelas inúmeras razões. descobertas e invenções continua: é um trabalho que absorve muita gente.

Os encontros com parentes e amigos são algo que precisa ser experimentado a fim de que se possa apreender o completo significado e alegria da reunião. numa vida nova. Esses encontros continuarão por algum tempo depois da chegada do novo morador. todos os laços terrenos são cortados. completamente à parte. mas quando passamos para o mundo espiritual encontramos novamente aqueles parentes e amigos que morreram antes de nós.387 XII. Nesse ponto iniciamos um novo capítulo em nossa existência. tanto do ambiente . Gente Famosa Deixar o mundo e fixar residência permanente no mundo espiritual não é tão grande transformação como muitas pessoas poderiam imaginar. Ê verdade que para muitos. É natural que na novidade. Tais encontros tomam lugar onde há simpatia mútua e afeto. que começa com a entrada no mundo do espírito. Não consideraremos outra coisa por ora.

que aqui também aconteça isso. portanto. o médico. O mesmo se dá com o pintor. e logo se verá em casa e se sentirá encantado ao saber das pesquisas científicas que se exibem na sua frente. Quando se tocar no assunto de trabalho ele se achará entre seus velhos colegas que aqui o precederam. poder-se-ia dizer que na terra a maioria de nós possui uma dupla existência — a vida do lar e a dos negócios ou ocupações. Eventualmente chegará a hora em que o recém--chegado começará a considerar sobre o que fazer em sua vida espiritual. O cientista.388 como das condições. associamo-nos talvez com um grupo inteiramente diferente. o escritor. por exemplo. encontrará primeiro suas ligações familiares. se perca grande tempo na troca de opiniões. o engenheiro. É natural. e em ouvir tudo a respeito do que se passou na vida espiritual daqueles que nos precederam na morte. o jardineiro. Nesta. Bem. o pedreiro. ou o homem que tecia tapetes para uma fábrica. para mencio- . o músico.

mas é assim mesmo e nada o pode alterar. aqueles nomes tão familiares dos livros de .389 nar apenas uma fração das inúmeras ocupações. Mas nada desperta mais curiosidade do que as celebridades da História. é natural. pois é bastante o mero fato de terem sido famosas. tanto da terra como do espírito. Parece até simples demais. Onde estão aqueles mestres da sabedoria. Se os personagens famosos residirão ou não nos reinos de luz imediatamente após sua morte. Uma certa curiosidade referente ao destino de pessoas bem conhecidas na terra. Ver-se-á então que a pergunta que intriga muita gente — "Que fim tiveram as pessoas famosas?" — está praticamente respondida. sem levar em conta a posição terrena. A fama no mundo espiritual é enormemente diversa da do mundo terreno. A lei se aplica a todos. A celebridade espiritual se consegue unicamente de uma maneira — em serviço a outros. depende só deles.

Neste caso em particular já sabíamos de antemão que esse personagem estava para chegar. Darei um exemplo para o qual reuni alguns pormenores. A própria família. Outros estão nos reinos de luz e beleza porque suas nobres vidas sobre a terra mereceram esse prêmio. Mas há muitos e muitos que se acharão dentro daqueles reinos intermediários que já tentei descrever. e assim . apesar de extremo. Refere-se ao passamento de um personagem real. Tomei este exemplo porque.390 História? Devem estar algures. Uma curta enfermidade ocasionou seu passamento. demonstra mais claramente do que qualquer outro os princípios que governam a vida em geral. como todas daqui. estava aguardando sua chegada. Seus compatriotas naturalmente estavam interessados no que ia acontecer. Grande número deles se encontra nos reinos escuros. onde estão já há séculos e onde provavelmente continuarão por outros tantos.

mas não o viram ainda. mas foi ainda mais honrado e homenageado pelo que era agora. ele foi trazido para a casa de sua mãe. Quando passeava foi reconhecido pelo que havia sido e respeitaram-no. saiu a ver as maravilhas da nova vida. Reteve em grande parte sua antiga e costumeira aparência pessoal. . gozando a liberdade de ação e simplicidade de vida que lhe fora negada na terra. Houve uma enorme reunião da família e assim que se achou suficientemente repousado. Inúmeros conhecidos já vieram indagar dele. mas sim uma felicidade como a que se sente à chegada de qualquer ente querido. E ali ele permaneceu por algum tempo. Não houve júbilo universal como se daria na terra. que já tinha tudo pronto. é igual a tantas outras daqui. A casa nada tem de excepcional. Os sinais de doença e cansaço mental e corporal tinham desaparecido e ele parecia muitos anos mais jovem.391 que este se deu. A notícia de que ele ia chegar se espalhou.

desejoso de se reunir a seus irmãos de felicidade. não sentiu em si nem nos outros qualquer sentimento de desconforto mental. Mas durante o período de recuperação muito lhe foi explicado a respeito das condições de vida. Tais revelações o encheram de felicidade. ou curiosidade ignorante. . tal como aconteceria no plano terrestre.392 Direis agora que assim que ele encontrou seus compatriotas estes poderiam talvez ter manifestado algum embaraço e uma vaga desconfiança. portanto. pois sabia que tão logo deixasse o retiro da casa de sua mãe. suas leis e costumes agradáveis. andou por estes reinos numa viagem de descoberta. seus métodos. e assim não havia suspeita de propósitos inquisitoriais. onde os habitantes o considerariam apenas um homem simples. Sabia que seria tratado como igual. em companhia de membros da família. ele o poderia fazer com a liberdade só achada nas paragens espirituais. Ninguém se referia à sua posição terrena a menos que ele próprio o fizesse. Quando.

aos ainda encarnados. Não revivemos nossas memórias com o intuito de autoglorificação ou para impressionar os ouvintes. que nos darão nossa futura colocação. Eles. sem considerar a posição social. é o valor espiritual que nos dá o direito a um lugar no mundo espiritual. Perspectivas e pontos de vista se alteram completamente ao chegar aqui. pelas nossas próprias experiências. o que se deve evitar. A posição é esquecida. e são as ações de nossa vida. pela simples razão de que não há ocasião para tal. na realidade. Por mais poderosos que fôssemos na terra. mas ações e pensamentos .393 Podereis pensar que alguém que já ocupou tão elevada posição na terra provocaria nas mentes de outrem idéias de pena. diante de tamanha mudança de posição. não se impressionariam e reconhecemos que é apenas o valor espiritual que vale. Mas tais sentimentos não são desejados nem permitidos nestes reinos. Deixamos para trás nossa importância terrena e não nos referimos a ela senão para mostrar.

mesmo remotamente. se aproxime da adora- . e eles severamente repudiam tudo o que. toda situação parecia simplificar-se e dar a sua própria solução. Mas como reage diante disso um cientista famoso. o que se dá com este personagem aplica-se igualmente a todos os que foram famosos na terra. e assim tornamo-nos nossos próprios juizes. Seus nomes. Pelo contrário. ou um compositor. por mais famosos que tenham sido. Bem. não querem dizer mais nada. quando aquele personagem real chegou ao mundo espiritual. Aqui. digamos. não teve que enfrentar dificuldades ou situações embaraçosas. Não é difícil ver que. ou pintor? São nomes famosos e quando temos ocasião de nos referirmos a eles usamos os nomes pelos quais eram conhecidos.394 são testemunhas por nós ou contra nós. preferem não ser chamados de mestres ou gênios. como outros de sua família antes dele. no mundo espiritual.

É . qualquer um está sujeito. e muitos dos que passaram para cá há milhares de anos estão felizes por não terem ocasião de relembrar sua vida na terra. São apenas um de nós. misturando-se a pessoas que viveram há centenas de anos atrás. Deixaram-no para trás. quanto as daquelas que foram mundialmente famosas. não tem nenhum apego ao mundo terreno. e como tal são tratados. e a ela estão sujeitas. a encontrar pessoas cujos nomes são famosos na terra.395 ção de heróis que a terra costumava lhes conceder. porém. Essa gente célebre. e deixaram a marca do passado fora da memória. As pessoas da terra poderão achar estranho caminhar por aqui. tanto as almas das pessoas que viveram obscuramente na terra. A lei de causa e efeito sempre existiu no mundo do espírito. cedo ou tarde. Sofreram tão violenta transição que agora ficam satisfeitos em considerar apenas o presente. Nestes reinos.

Cada novo rosto que entra nestes reinos recebe a . e está em nós nunca bisbilhotar os fatos e circunstâncias da vida de outras pessoas. mas só se a iniciativa partir da pessoa que se tem em vista. apenas para os recém--chegados. que nossa vida terrena é estritamente nossa. intelectualmente. Somos um só. nestes reinos somos unidos espiritualmente. A discrição é algo que aprendemos cedo a usar. temperamentalmente. pois. tanto em nossos gostos como desgostos. A discrição que temos é universal — demonstramo-la e recebemo-la. e nessas características humanas.396 um encontro do passado com o presente eterno. atingimos o mesmo estado e o mesmo plano de existência. Estais vendo. Se ela quiser falar a alguém sobre sua vida terrena sempre encontrará ouvidos pacientes e compreensivos. mas para nós não é estranho. Isso não impede que se discuta a nossa vida anterior. E qualquer que tenha sido a nossa posição formal na terra.

e entregue a toda espécie de ocupação. Os grandes. se consideram apenas os humildes seres de uma vasta organização. isto é. sem qualquer referência ao que era na terra. Poder-se-á encontrar muita gente famosa. Todos são acessíveis sem formalidades de qualquer espécie. Todos lutam pelo mesmo propósito. Ficam reconhecidos por qualquer ajuda em direção a esse objetivo e sentem-se felizes por dá-la o máximo possível. em toda parte.397 mesma acolhida cordial. E estão ao inteiro alcance de . Não há necessidade de apresentações a homens e mulheres que foram famosos. Seus dons estão à disposição de todos. que atingiram essa grandeza por meio do gênio. As riquezas e honrarias da terra parecem vulgares e baratas em comparação com as riquezas e honras que estão prontas a serem ganhas aqui. progresso e desenvolvimento espiritual.

398 cada alma no instante em que aqui chega. e ficamos sendo o que valemos. de que ninguém a pode privar. São seu direito de nascença. Mas muitas vezes a grandeza da posição terrena anda a par com a grandeza da alma e assim o progresso espiritual e desenvolvimento continuam sem intermissão para todo o sempre. Mas descobrimos ao morrer como a grandeza espiritual é concreta e permanente. Nossa proeminência terrena desvanece-se ao chegarmos. e me disseram do choque da revelação de veremse pela primeira vez como realmente eram. A grandeza terrena pode parecer muito tangível quando estamos no meio dela. e não o que fomos. XIII. Vários personagens famosos me têm falado do seu despertar no mundo espiritual. Organização .

Já contei como. Entre vós. e me perguntei quem seria o responsável por isso. o mundo corrupto está em constante guerra com a decadência material e a degeneração. e enquanto eu tivesse afeição pelas flores.399 Já deveis ter compreendido que o mundo espiritual é um vasto lugar e. ao ver meu jardim espiritual pela primeira vez. Queria dizer que. Mas isso não acontece em nosso incorruptível mundo. gramas e árvores. Mas é um estado em que o pensamento é seu elemento básico. mas nossas necessidades não são como as vossas. desde que meu desejo de ter um jardim permanecesse inalterável. com isso em mente. me admirei de sua ordem e excelente conservação. Edwin me disse que isso quase não requeria esforço na manutenção. O nosso estado está bem longe da Utopia em qualidade. o jardim res- . podereis concluir que ele possui uma organização administrativa proporcional às suas exigências. |É exato. onde não temos nem um nem outro.

podia facilmente pedir a um técnico que viesse me auxiliar. consultando obras e discutindo-as com os compositores. É quando chegamos à cidade e viajamos através de seus edifícios que essa organização se torna mais evidente. Isto quanto ao jardim.400 ponderia aos meus pensamentos e floresceria. o que ele faria com todo o gosto. . outros em pesquisas musicais. outros arranjando músicas para concertos. Minha casa é governada pelas mesmas leis. E é assim com todos os jardins e casas daqui. Os pensamentos reunidos de todos os habitantes do reino manterão tudo que cresce dentro dele. Se eu desejasse alterar o arranjo dos canteiros. Há muitos mestres. rebuscando antigos livros. achamos muitos estudantes absorvidos pelos estudos. No salão da música. por exemplo. gente capaz de nos prestar toda a assistência e fornecer solução a nossos problemas.

mas nomeia gente competente e dá-lhe carta branca em suas decisões. Está sempre por ali. De vez em quando necessitam mudança e divertimento e assim são revezados. Os trabalhadores dessas casas de estudo não são diferentes de outros nesse aspecto. Cada departamento tem seu chefe direto. mas não se deve imaginar que é oficial. visto apenas em ocasiões relativamente raras. É exatamente o oposto. inatingível e oculto dos olhos de todos. Alguns se retiram e . Já contei como continuamos o nosso trabalho por um período em que desfrutamos prazer ou utilidade. No momento em que sentimos necessidade de mudar de trabalho. dando as boas--vindas a qualquer um que apareça. como aprendiz ou como mero apreciador da música. voltamo-nos para qualquer outro.401 Nominalmente o governante do reino é o reitor de todos os departamentos e as decisões maiores são tomadas por ele.

Tão devotados são a seu trabalho que. Teremos todo o auxílio que necessitarmos. mas voltam para retomar suas tarefas. O trabalho funciona incessantemente: os trabalhadores descansam e trocam de lugar. de todo. E isto aplicase a todos os setores. mas o trabalho não . seu cargo para residir permanentemente em sua própria esfera. Muita gente que trabalha nesses departamentos estão aí há muitos anos. e se for preciso consultar o que está ausente. Chegará o momento em que abandonarão.402 outros tomam seus lugares. preferem permanecer onde estão. um instantâneo pensamento responderá a nossa pergunta. e então. Não precisamos temer que ao procurar um determinado especialista não o encontremos. outros igualmente capazes tomarão seus lugares. ou com igual rapidez podemos visitar sua casa. apesar de terem progredido e virtualmente pertencerem a esferas superiores. Podem afastar-se de tempo em tempo para sua própria esfera.

403 cessa. a ele só. porque durante as festividades os ilustres visitantes dos reinos superiores fazem visitas especiais aos sanatórios de descanso. Quando temos grandes celebrações e festivais. Toda essa administração pertence ao mundo espiritual. o nosso e o vosso. e nesse tempo haverá uma apreciável diminuição das atividades. Sua devoção ao dever é imediatamente premiada. Nas alas de descanso porém os médicos e enfermeiras estão sempre de plantão. Tal como por exemplo a chegada ou . Há outros serviços que abrangem os dois mundos juntos. apesar do que estiver acontecendo noutros pontos da esfera. como aí na terra. O ritmo do trabalho pode variar. onde cumprimentam pessoalmente cada um dos membros do pessoal. durante os quais somos honrados pela presença de visitantes de outras esferas superiores. acontece que grande numero de pessoas estarão presentes.

404 próxima chegada de uma alma a estas paragens. A regra é que todas as almas ao chegar aqui terão seu quinhão de atenção. Depende delas quanta terão. Algumas estão tão afundadas moralmente que afastam qualquer aproximação que possa ser afetiva. Não consideraremos estas por enquanto, mas somente as destinadas à luz. Sem antecipar o que desejo dizer a respeito da inter--relação entre o mundo terreno e o espiritual, podemos, por nossos objetivos atuais, examinar o problema da transição, que afeta grande número de pessoas aqui. Suponhamos que vós mesmos estejais no mundo espiritual, e que além de saberdes a verdade sobre a comunicação com a terra, não tendes experiência dos laços existentes entre os dois mundos. Tereis deixado, suponhamos, para trás um amigo por quem tínheis e ainda tendes uma profunda afeição, e gostaríeis de saber se ele virá residir permanentemente no mundo espiritual.

405 Uma vez ou outra recebestes seus pensamentos de afeição erguendo-se da terra, pelo que ficou visto que ele não vos esqueceu. Nunca tentastes vos comunicar com ele porque sabeis que ele não gostaria. É possível saber exatamente quando ele se reunirá ao mundo espiritual? E como? A resposta a esta pergunta revela a existência de uma das grandes organizações destas terras. Na cidade há um imenso edifício que exerce a função de escritório de pesquisas. Aqui, uma enorme quantidade de pessoas está pronta a responder a toda sorte de perguntas que surgirem tanto dos recém-chegados, como dos moradores antigos. Ocasionalmente necessitamos uma solução para algum problema. Podemos consultar amigos sobre o assunto, mas descobrimos que eles estão tão malinformados quanto nós. Poderíamos, é claro, apelar a algum personagem superior e receberíamos todo o auxílio necessitado. Mas

406 eles têm seu trabalho a fazer e hesitamos em perturbá-los. Assim, levamos nossos problemas a este grande edifício da cidade. Entre seus importantes deveres está o de guardar o registro dos recém-chegados, o que é um útil serviço e muita vantagem é conseguida por muita gente. Mais importante ainda é o de saber de antemão aqueles que virão paira cá. A informação é sempre precisa e infalível. É coligida por meio de um complicado processo de transmissão de pensamento. Em tempos normais na terra quando os pensamentos mantêm um nível estável, já é inestimável, mas em tempo de guerra, quando as almas aqui chegam aos milhares, as vantagens desse serviço são incalculáveis. Amigo pode encontrar amigo e juntos podem se unir para ajudar outros. O pressentimento dos acontecimentos terrestres, tanto nacionais como particulares, per-

407 tence a certa classe de seres espirituais, que por sua vez transmitem esse conhecimento a outros, e estes a outros ainda, e assim por diante. Entre os primeiros a receber o pré-conhecimento de uma guerra estão os lares para descanso. O escritório de pesquisas também será informado. Se estais ansiosos por saber quando o vosso amigo virá aqui morar, vosso primeiro passo será ir a esse escritório. Tudo o que há a fazer é dar o nome de vosso amigo, e pedirão que focalizeis vossa atenção sobre ele para estabelecer o necessário elo de pensamento. Quando isto foi feito, pedirão que espereis um curto espaço de tempo (pelo vosso tempo serão apenas alguns minutos). As forças necessárias serão postas em ação com espantosa rapidez, e sereis presenteado com a hora exata da chegada do vosso amigo. A organização que existe por detrás deste serviço deverá dar uma idéia da vastidão de

408 todo o departamento de auxílio e pesquisa. Há muitos outros. Este mesmo edifício abriga pessoas que podem fornecer respostas a inúmeras perguntas que surgem na mente dos recém-chegados. E abriga e emprega milhares de pessoas úteis e felizes. Muitos pedem para trabalhar ali, mas é necessário ter primeiro algum treino, pois que, por mais apropriados que sejam nossos atributos, exige-se conhecimento perfeito em qualquer departamento em que desejemos trabalhar. Passemos agora ao departamento da ciência. Há inúmeras pessoas que possuem inteligência mecânica e que seguem como profissão um dos ramos da engenharia. As oportunidades nesse campo são vastíssimas e tal trabalho é levado a efeito sob condições semelhantes a qualquer outro trabalho — sem restrição, livremente, e com as fontes inesgotáveis e a perfeita administração do mundo espiritual a apoiá-los. Esta modalidade de trabalho atrai milhares de pessoas, jovens e

409 velhos. Todos os grandes cientistas e engenheiros continuam suas investigações e pesquisas apoiados por grande número de entusiásticos auxiliares de todas as classes. A maioria de nós, aqui, se contenta com um tipo de trabalho. Por mais pequeno que seja esse trabalho, é-lhe dado valor. E cada forma de trabalho tem sua organização separada, onde tudo desliza com suavidade. Não se deve concluir daí que somos infalíveis. Isso seria uma estimativa errada, mas sabemos que quaisquer que sejam os erros, podemos ter a certeza de que os superiores virão em nosso auxílio para corrigir o erro. Nunca somos surpreendidos por ineficiência, mas os erros são considerados como boas lições para nós. Mas nem por isso seremos descuidados, porque temos o nosso orgulho natural no trabalho, que nos instiga a fazer sempre o melhor possível — sem erros.

410 Para conseguir dar uma idéia mais ou menos clara da organização administrativa do mundo espiritual, teríamos que fazer um trabalho gigantesco e muito além do meu poder descritivo, sem contar com a impossibilidade de se pôr em linguagem material o que só pode ser entendido por um habitante daqui. Talvez um dos traços mais característicos da vida no mundo espiritual é que a organização da vida é tão perfeita que não há sombra de pressa e confusão, apesar de podermos realizar ações de natureza material com a rapidez do pensamento. Isto é uma segunda natureza para nós, e mal a notamos. É uma quase bravata da terra declarar que alcançou a era da velocidade. Em comparação com a nossa rapidez de movimento, vós quase não vos moveis! Esperai até estar aqui e então sabereis o que é velocidade e o que é verdadeira eficiência e organização.

411 Nada existe semelhante na terra. XIV. INFLUENCIA DO ESPÍRITO É hábito da maioria dos homens considerar o mundo terreno e o mundo espiritual como dois planos à parte, separados e distintos. Consideram os dois mundos como independentes um do outro, um desconhecendo o outro. Que o mundo espiritual possa ter alguma influência sobre a terra, para vantagem desta, está demonstrado ser falso, pelo estado de completa desordem que existe pelo mundo inteiro. Há outra corrente de pensamento integrada por aqueles que fizeram um estudo superficial do que chamam Ocultismo. Essas pessoas acreditam que, sendo a terra muito terrena, e o mundo espiritual muito elevado, os dois mundos estão automaticamente impedidos de fazerem intercomunicação.

412 Ambas as idéias são indubitavelmente erradas. Os dois mundos estão em constante e direta comunicação e estamos bem ao par do que está ocorrendo na terra em todos os tempos. Nem por um minuto digo que todos nós sabemos do que se está passando aí. Alguns dentre nós estão em comunicação com a terra porque ligados aos seus negócios particulares. Enquanto o restante, que não tem mais interesse na terra desde que a deixou, fica ignorante de muitas coisas a ela ligadas. Os sábios dos reinos superiores estão de posse de todo o conhecimento que transpira a respeito da terra. Gostaria de indicar um ou dois canais através dos quais a influência do espírito é exercida sobre a terra. Primeiro, tomemos essa influência de uma maneira pessoal. A toda alma que nasceu ou está para nascer sobre a terra, foi concedido um guia espiri-

por assim dizer. aproximar-se demais do protegido. Essa concepção sugere uma grande separação entre o anjo da guarda e a alma que ele deve guardar. Em eras passadas algo dessa idéia deve ter passado pela mente dos antigos homens da igreja. por causa da sua extrema espiritualidade e da repulsiva grosseria do homem terreno.413 tual. Os guias do espírito constituem uma das principais ordens em toda a organização e . Os anjos já se introduziram na arte contemporânea. O primeiro não poderia. Deixemos esta ficção do cérebro do artista e passemos a algo mais prático. onde artistas os desenham como personagens vestidos de roupas alvas e suportando nos ombros um par de enormes asas. visto que adotaram a idéia piedosa de darem a cada pessoa um anjo da guarda.

Eles habitam um reino particular e lá vivem há séculos. Grande número dos que praticam a comunicação com o mundo espiritual já encontraram seus guias espirituais. visto que é comum esses povos serem dotados de poderes psíquicos. o que torna sua .414 administração do mundo espiritual. A maioria dos guias são semelhantes em temperamento a seus protegidos. muitos entre os orientais e entre os índios norte-americanos também. Grande parte dos guias espirituais fazem seu trabalho sem que os protegidos estejam a par. tiveram-nas quando encarnados. mas o que é mais importante é que aqueles compreendem e desculpam as fraquezas de seus protegidos. na verdade. e por isso podem ajudá-los mais a lutar contra as mesmas. O guia principal é escolhido. de conformidade com um plano fixo. São escolhidos entre todas as nacionalidades. para cada indivíduo na terra. Muitos.

Nem por um momento se deve pensar que a influência do guia viola a expressão da livre vontade. Se. esses guias são obrigados a ficar afastados.415 tarefa mais pesada e difícil. Mas ainda há outros cuja vida sobre a terra toma praticamente impossível a seus guias aproximaremse. despertam para a realização do que perderam durante suas vidas. porque mesmo nas piores almas há uma ocasião. Tais almas. e. quando a consciência fala. quando chegam ao mundo espiritual. Entristece-os naturalmente vê-los fazer tolices e erros. e é usualmente o guia espiritual que implanta os melhores pensamentos dentro do cérebro. devido ao espesso muro de impenetrável materialismo que constroem ao seu redor. Em tais casos o trabalho do guia não será inteiramente vão. o fato de que estendestes a mão para impedi-lo não significa que lhe impusestes vossa . embora transitória. vedes alguém dar um passo em falso no meio do trânsito. sobre a terra.

esse dia será aquele em que encontrarão o seu guia. o guia espiritual não existe para viver a vida do seu encarregado. unicamente para seu próprio bem. tentará guiá-lo na direção certa. Nós. e grande será o remorso — e em muitos casos as lamentações — daqueles que em suas supostas sabedor ias foram tão tolos. . e compete ao protegido aceitar ou rejeitá-la. Este mesmo precisa fazê-lo. Virá o tempo em que eles amargamente lamentarão sua loucura.416 vontade. que sabe muito mais a respeito da vida. do mundo espiritual podemos ignorar tais caçoadas. porque sabemos que chegará o dia inevitavelmente em que eles virão para cá. Ao mesmo tempo. Tornou-se um hábito entre certa classe de pessoas da terra ridicularizaria instituição dos guias espirituais. Um guia espiritual tentará dar conselhos quando estes podem chegar até seu protegido. só pode culpar a si mesmo dos desastres ou aborrecimentos que venham a sobrecarregá-lo. Se rejeitá-la.

pretende pôr suas invenções a serviço de maus fins. Em muitos outros planos da vida a inspiração é levada dessa maneira. pode manejar máquinas. Já disse. por exemplo. O homem pode realizar certas ações mecânicas com precisão. há outra prolífica fonte de influências que deriva do mundo espiritual. então pode receber o crédito das calamidades que se seguirão. pode tocar um instrumento. O homem encarnado pouco pode fazer de per si. e de nenhum outro lugar. então sua fonte é indubitavelmen- . Se o homem. ao realizar uma operação. pode pintar um quadro. Se for para o bem da Humanidade a fonte é igualmente boa. pelas mãos espirituais. e ele é o primeiro a compreendê-lo quando vem morar aqui. usando a livre vontade. como as mãos terrenas dos médicos podem ser guiadas.417 À parte os guias espirituais. A inspiração devotada a boas causas vem do mundo do espírito. mas todas as maiores descobertas são obras do mundo espiritual. se a inspiração não vem para bem dela.

As igrejas. Nenhuma mudança instantânea se dará para transformar uma existência terrena de má em boa. . Estareis lembrados de como contei que uma pessoa é exatamente a mesma do ponto de vista espiritual imediatamente depois da morte. breve as forças do mal se poriam em fuga. são demônios! É pena que a igreja seja tão cega. ignorantes. sejam elas quais forem. Através das eras. Uma igreja ortodoxa é de opinião que aqueles que voltam ao plano terrestre e fazem sua presença notada. até o presente. enquanto ignoram as forças do mal. O homem tem em suas mãos a escolha da fonte em que beberá — boa ou má.418 te ruim. continuaram seu cego caminho. disseminando fantásticos ensinamentos em lugar da verdade. Se encorajassem as boas forças a virem a eles. sofrem de infinita ignorância. pois pode se dizer que estão tentando — sem resultado — abafar as forças do bem.

Mas sugerir que o mundo espiritual não tenha qualquer influência. Se fosse interrogado a respeito do assunto responderia que crê na inspiração. por meio da ignorância. Um ministro da igreja realiza serviços e missas prescritas pela sua crença e abafa toda inspiração. para as forças do mal operarem. No final das contas ele acharia menos trabalhoso pedir emprestado as idéias religiosas de qualquer outra pessoa encarnada e confiar em sua própria esperteza para qualquer idéia original.419 e abrindo caminho. É um estranho hábito que têm os terrenos de crer que são sempre as forças do mal que tentam influenciar o mundo. seria totalmente contra seus princípios. a não ser perniciosa. sobre o mundo terreno. Por quê? E por que têm as igrejas medo mortal de mexer com os espíritos como advertem em qualquer livro que recomen- . agarrando-se a dogmas e credos inteiramente falsos. Às forças do mal são atribuídos poderes negados às do bem.

É possível dizer que não há problema sobre a terra que não possa ser solvido pela ajuda. são vastos. mas para o bem de nações e da política internacional. e experiência dos seres que acabei de mencionar. seja nos negócios do governo de nações. Muitos líderes. enchem-se de . conselho. Pensei nos males que podiam ser varridos da face da terra sob a orientação imensamente apta de sábios professores do mundo espiritual. Mas isso envolveria uma coisa — uma implícita adesão a tudo que aconselhassem ou advogassem. cujo alcance de visão e cuja sabedoria. Mas tão pouco se pode fazer. porque em geral a porta está fechada aos mais altos seres do mundo espiritual. seja em idéias religiosas. não só a respeito de questões pessoais. que já estão no mundo espiritual. compreensão e conhecimento. força e poder sentidos no mundo inteiro.420 dam? Eles ignoram. O mundo espiritual trabalha constantemente para fazer sua presença. e apontam um dedo de censura para a suposta mulher de Endor.

Essas almas lamentam o estado a que se degradou a Humanidade. Direis que minha opinião é pessimista.421 pena quando olham para trás. e que gozam de felizes encontros com os mestres e amigos das esferas superiores são acusados de lidar com o demônio. Os homens que praticam a comunhão conosco. Os verdadeiros diabos estão muitos ocupados em outros lugares. Confessarão que tinham em mente a idéia — não sabendo ainda que ela havia sido semeada pelo guia espiritual — mas que tinham permitido ser demovidas de suas boas intenções. a sério. Esta. têm aparecido de direções diferentes daquelas que as igrejas alegam como suas origens. que realmente. tão queridas pelas igrejas. Mas tais forças. no final das contas. na verdade. em lugares onde podem produzir melhores resultados. Isso é tolice. para as oportunidades desperdiçadas de fazer mudanças radicais para a melhoria de seus compatriotas. permitiu às forças do mal que ditassem ordens. o mundo não .

A razão é que o homem julga que pode caminhar muito bem sem nós. nem é bom pensar. Mas por pequeno que seja o mundo.422 é tão mau como o descrevo. É verdade. Quanto àquela do mundo espiritual. mas só porque conseguimos enviar à terra uma ou duas de nossas idéias e preceitos. vêem sua própria pequenez e a do mundo que deixaram. E quando chegam a um lugar que antes desprezaram. o homem ainda necessita ajuda para conduzir seus proble- . se retirássemos toda a nossa influência. Mas pode-se dizer que a despeito da desordem universal. é bom começar a pensar nele quando alguém chegar aqui. Se há um tal lugar como o mundo espiritual. os homens são tão superiores que sabem tudo. sem a ajuda das sombras do mundo espiritual. e podem cuidar de seus negócios perfeitamente. a terra ficaria em pouco tempo reduzida a um completo estado de caos e barbarismo. Tem o convencimento de imaginar que não requer ajuda de qualquer fonte. Por enquanto.

423 mas — e essa é outra descoberta que faz ao chegar aqui. ainda falta muito e muito. O mundo espiritual é infinitamente mais belo. XV. A segunda. Quando isso acontecer. Há duas maneiras e somente duas. é por convite especial de algum morador dessas regiões. é por meio de nosso desenvolvimento e progresso espiritual. mas ainda tem que ser aumentada. Já tentei dar-vos uma idéia dele. . Mas até lá. mas o homem se interpõe e impede que isso se dê. nossa influência sentida. Tentamos fazer nossa presença conhecida. de penetrar nessas alturas. Os Reinos Superiores Já vos falei em várias ocasiões. O mundo terreno é lindo e a vida nele podia ser bela. Nossa influência é grande. Mas vosso mundo nos parece escuro e tentamos dar-vos um pouco de luz. A primeira. das esferas superiores. vereis como pode ser a vida na terra.

Rute ainda não se recuperara de sua inicial surpresa ao ver um piano em sua casa. de onde podíamos ver com perfeição todas as belezas ao redor. podiase ver a cidade à distância.424 Qualquer outra maneira é-nos vedada por invisíveis barreiras de impenetrabilidade espiritual. Edwin e eu conversávamos enquanto Rute. e nos descreveu o momento emocionante em que se sentou ao seu instrumento espiritual. tocava algo agradável. Gostaria de vos falar sobre um convite especial que recebemos para visitar esses reinos elevados. não só com nosso ambiente. Através de uma brilhante e colorida paisagem. Estávamos sentados numa das salas térreas de minha casa. como o . Ela era uma virtuose na vida terrena. mas também com nossa disposição. sentada ao piano. que parecia harmonizar-se. tão claramente como se estivéssemos perto.

Espantados. Nós três trabalhávamos juntos e ainda o fazemos — e geralmente descansamos e nos divertimos juntos. Na verdade. e tirou o primeiro acorde. auxiliando-nos a descansar. seguimo-la e fica- . Descobriu ainda que as mãos deslizavam ao longo do teclado. e que sua memória era como se tivesse a música aberta perante os olhos. Descobriu que sua destreza tinha aumentado cem vezes ao abandonar o corpo físico.425 chamou. Disse que ficou espantada porque o tom do seu piano era algo que nunca pudera imaginar. tão perfeito em qualidade e de sonoridade ilimitável. Neste momento ela enchia o ar com doces sons. pois havíamos concluído uma pesada tarefa durante o curso de nossa obra. Rute parou de tocar e correu para a porta. porém. sem o menor esforço. mas que conservara a sua técnica terrestre. Rute e Edwin passam mais tempo em minha casa do que na deles. Sua surpresa não terminou aqui. De repente.

O Mestre do egípcio era um homem de cabelos negros como o azeviche. Ficamos logo sabendo que era caldeu. naquela ocasião. no templo. que tinha acompanhado o grande visitante celestial.426 mos surpresos ao ver duas maravilhosas personagens atravessando o gramado. Conversamos sobre vários assuntos e Rute foi persuadida a terminar a peça que tocava quando tinham chegado. e se interessara tanto pelo meu bem-estar. . depois de a elogiarem. Adiantamo-nos para recebê-los e eles demonstraram todo o prazer nessa visita. o caldeu abordou o assunto que o trouxera. No final. Uma era o egípcio que me dera tão bons conselhos ao chegar aqui. combinando com um par de olhos que traía grande senso de humor e alegria. O outro era seu Mestre.

Edwin veio em nosso auxílio e agiu como nosso intérprete. O caldeu estava divertido com o nosso embaraço e apressou-se a assegurar-nos que nada tínhamos a temer. Nós três guardamos silêncio por um momento. ou melhor. Quanto à nossa primeira pergunta. era a razão do convite. pelo menos quanto a mim. o caldeu disse que se encarregava de nos fazer chegar ao nosso destino. Creio que Rute e Edwin tiveram mais sucesso. sem o conseguirmos. nem sabíamos onde era o lar.427 Vinha trazer o convite da Grande Alma — em honra de quem nós nos tínhamos congregado naquele dia — para uma visita em seu lar das esferas superiores. Rute e eu não sabíamos o que dizer para exprimir a gratidão de receber tão grande privilégio. Menciono isto porque parece . e como iríamos chegar até lá. Tentamos expressar nossos sentimentos em palavras. nos intrigava. O que mais nos preocupava. Creio sinceramente que o caldeu é a criatura mais alegre destas paragens. creio. De fato.

mas o caldeu logo assumiu o comando. Tal idéia é inteiramente falsa. e tal alegria é encorajada e aceita no mundo espiritual. ordenando-nos para irmos embora. não é usada em detrimento de ninguém. acontece justamente o contrário. Alegria sã vem do coração e não ofende ninguém. perguntei ao egípcio se ele me podia . Eu estava calmo — todos estávamos — na ignorância do processo de se fazer tal viagem. E fomos em direção aos limites dos nossos reinos. Ao caminharmos através de bosques e prados. Não há nenhuma inscrição gravada nos portais destes reinos como: "Abandonai toda a alegria para aqui entrar!" Edwin indagou de quando deveríamos empreender a jornada e o caldeu replicou que ele e seu amigo egípcio haviam vindo para nos levar agora.428 haver uma idéia em algumas mentes de que quanto mais alta a personagem do espírito tanto mais séria deve ser.

assim como a função particular de governos individuais. e ele reteve mais informações. apesar de eu ter certeza de que sabia muito mais do que revelou. era conhecido de vista por todas as almas. unia os reinos e soldava-os em um só. Milhares o chamavam de Bem Amado Mestre. portanto.429 dizer algo sobre o grande ser que íamos visitar. e ele. sendo um destes o caldeu. sabedoria e espiritualidade. Quanto à sua função especial. Todos os outros governantes. o branco e o dourado de sua vestimenta revelavam o estupendo grau de seus conhecimentos. Seu desejo era uma ordem. O que me contou foi muito pouco. que era seu braço direito. O ilustre personagem na direção de cuja casa nos encaminhávamos. O azul. eram subordinados a ele. sua palavra. por assim dizer. Provavelmente eu não entenderia o que me poderia adiantar. fa- . ele era o governante de todos os reinos do mundo espiritual e exercia coletivamente essa função. lei.

por assim dizer. porque não há a mais leve causa para ele. que anexam vastos territórios.430 zendo deles um vasto universo. nem poderia existir na menor fração. Tais poderes não têm equivalente ou comparação com qualquer dos poderes administrativos sobre a terra. E seu reino é governado pela lei universal da verdadeira afeição. Mesmo que o fizesse. nem jamais haverá. falharia a compreensão. o Criador do Universo e seus Filhos. Mentes terrenas podem apenas evocar esses indivíduos que governam grandes reinos sobre a terra. . Tentar definir a imensa magnitude de seus poderes seria tentar o impossível. O medo não existe. como este personagem de quem falo. criado e mantido pelo Grande Pai de todas as coisas. por meio do medo e que dominam seus inferiores. ele é o grande Elo invisível entre o Pai. Nenhum rei mortal jamais presidiu sobre tão vasto estado. como servos ou escravos.

não obstante a suprema elevação da sua posição espiritual. ir visitá-lo em sua casa. ele baixa do seu lar celestial para nos visitar. embora não o sabeis. E é permissível a outros. Muita alma destes reinos já foi abordada por esses grandes seres. Dizse comumente que esses seres estão tão acima de nós que se passarão eternidades antes que os possamos ver. irreal acerca dele. Mas isso é absolutamente errado. e que são completamente intangíveis. tão concreta quanto a realidade que nós somos — e somos mais reais que vós na terra. sem .431 Mas. Há noções erradas de que os seres superiores são tão etéreos que chegam a ser invisíveis. um grande soerguimento da alma produzido dentro de nós por algo invisível. Já o vimos em grandes dias festivos. como já disse. vago. exceto aos outros da mesma espécie. ele é uma pessoa real. Nada há de não-substancial. Ele não é apenas uma experiência espiritual. que nenhum mortal inferior o pode ver e sobreviver. de grau muito inferior.

Logo ela nos causaria desconforto se prosseguíssemos. mas receio que com esta explicação ficastes na mesma! E não compete a mim tentar explicar! O egípcio forneceu-me esses detalhes e acrescentei-lhes algumas explicações de meu próprio saber. nos passos progressivos do nosso desenvolvimento espiritual. Nada há de mágico a respeito disso. A esta altura estávamos perto da casa de Edwin e passando à atmosfera rarefeita. No mundo espiritual chamamos isso de equalização de nossa porcentagem vibracional.432 res. E um desses poderes é ajustarmo-nos ao nosso ambiente. Nós todos temos certos poderes que são aumentados ao passarmos para esferas mais elevadas. Instintivamente paramos e sen- . que na verdade é bem pequeno. sem estar absolutamente a par do fato. É altamente técnico — muito mais do que os científicos mistérios do mundo terrestre.

e. e sentimo-nos tornar mais leves. ele aproximou-se por trás de nós e pousou suas mãos por um breve momento sobre nossas cabeças. O caldeu colocou Rute entre mim e Edwin e pôs-se bem atrás dela. Isto. Colocou a mão direita sobre o ombro de Edwin e a outra sobre o meu. Sentimos uma sensação estranha imediatamente sob suas mãos. disse ele. E prosseguimos normalmente. Isso era meramente o efeito do poder.433 timos que o momento crucial de nossa jornada havia chegado. . Podíamos também sentir um suave calor que corria pelo nosso organismo. era para nos dar poder extra para movermo-nos através do espaço. Primeiro. se bem que isso parece impossível. que era ao mesmo tempo agradável e exaltadora. e nada em si. Era exatamente como o caldeu dissera: nada tínhamos a temer. como usava um manto — que vimos ser ricamente bordado — ele formava um perfeito abrigo para os três.

Neste ajustamento nossa visão não era embaçada de dentro. meus amigos. "Agora. mas uma espécie de película era superposta de fora. ajustava nossa visão à intensidade extra de luz que iríamos encontrar. da mesma maneira que na terra vocês usam vidros protetores contra a luz e o calor do sol. Em seguida ele pegou nossas mãos nas dele e recebemos mais força na corrente assim transmitida. Sem essa precaução nos veríamos em apuros.434 Esta visita deveria ser maravilhosa para nós. Partamos!" . além de nos dar força para viajar. e portanto deveríamos mostrar a alegria de que estávamos embebidos. O caldeu disse-nos que ao colocar suas mãos sobre nós. Pediu-nos para nos tornarmos completamente passivos e lembrar que estávamos a caminho do gozo e não para um teste de sofrimento. nossa chegada é aguardada. e nenhuma seriedade era necessária. como disse ele.

Estendendo-se perante nós havia um largo rio. Ocupando o centro do quadro. Ao desaparecer. tomando cada minúscula ondulação uma miríade de tons. e em seguida não houve mais sensação de movimento. aparentemente calmo. . Uma larga escadaria conduzia ao mais deslumbrante edifício que a mente pode imaginar.435 Imediatamente nos sentimos flutuar. sentimos o chão sólido sob os pés e tivemos a nossa primeira visão do reino supremo. Nenhuma imaginação pode visualizar tal deslumbramento. Uma luz brilhou perante nossos olhos. na margem esquerda. mas essa sensação cessou abruptamente. Entráramos num domínio de inimitável beleza. pacífico e singularmente belo ao ser tocado pelo sol. pelo que nos pareceu uma fração de segundo. à beira da água. havia um espaçoso terraço que parecia ser de alabastro.

436 Era de vários andares. O edifício inteiro era composto de safira. Mas são compactos e pesados. segundo nos disse o caldeu. em comparação com os daqui. de maneira que cada um ocupava uma área menor. Em nossos reinos os edifícios são opacos. postos em degraus. mas meio translúcidos na superfície. Seu interior era simples e sem adornos. até chegarmos nestas. As pedras preciosas eram próprias do reino que visitávamos. Nossa primeira pergunta referia-se à razão ou significado do material específico do prédio. Não havia significado algum. até atingir o cume. mas tivéssemos nos detido para observar as regiões por que passamos. diamantes e topázios. Essas três pedras constituem o correspondente às três cores que víramos nas vestimentas do visitante celestial. Viajamos através de muitas outras esferas. e teríamos visto a gradual transformação que se efetua até que os nossos materiais relativamente pesados transmu- .

Nossa vista se espraiava por milhas de milhas. e espalhadas por elas.437 dam-se em substância cristalina. algo como pérola. Mas o caldeu docemente chamou a nossa atenção para o restante. Cada uma colocada no meio de jardins graciosos onde cresciam árvores de inimitável beleza e de formas grandiosas. Podíamos ver. lá veríamos o brilho dos edifícios e jóias. dos quais mal podíamos desviar a vista. muitos acres dos mais deslumbrantes jardins. As cores porém tinham certamente um significado especial. as miríades de flores. ametistas etc. magníficas mansões construídas de esmeraldas. Para onde quer que lançássemos os olhos. e ao longe. . sobre a qual nossos olhos estavam pregados. cercando o palácio. a cintilação da água do rio.

Pela mesma maneira que viéramos. O pavimento deste era branco puro. onde o nosso anfitrião nos aguardava. . Nossa presença no reino já era conhecida. Nossos passos não faziam ruído.438 Enquanto olhávamos tudo. Não dávamos entrada no mundo silencioso. que parecia veludo sob nossos pés. Tal era o significado dos raios emitidos. caso contrário. e nos surpreendeu a maciez do solo. mas nossas vestimentas farfalhavam ao caminharmos. e depois de apreciarmos a beleza do panorama. e este respondeu com outro raio de luz. houve um repentino clarão de luz que pareceu vir direto do palácio para o caldeu. O ar inteiro estava cheio de harmonias desprendidas dos volumes de cor que abundavam por toda parte. o nosso caminhar teria sido silencioso. nós nos achamos rapidamente no terraço acima do rio. fomos convidados a caminhar até ao Palácio. embasbacados. Mas havia muitos outros sons.

teria me demorado a admirar os materiais de que era feito. e à intensidade da luz. Tão belamente proporcionados eram os aposentos e galerias. Ao adiantarmo-nos para a entrada. de bom grado. eu. mas o tempo urgia. Nas paredes havia quadros com cenas pastorais. se é que se pode usar essa expressão. Nossa estada não podia ser prolongada além de nossa capacidade de resistência à atmosfera rarefeita. que não sentíamos aquela sensação de sufocante altitude. Essas pinturas davam uma impressão de luz líquida. como seria de esperar num edifício de tais proporções. feitas de todas as pedras preciosas conhecidas. De cores encantadoras e de .439 A temperatura nos parecia bem mais elevada que a do nosso reino. não obstante a força e proteção espiritual do caldeu.

440 muito mais variadas tonalidades do que há na terra. Não me sentia exatamente nervoso. Entramos. Primeiro agradeceu ao egípcio e ao caldeu por nos terem trazido. Assim que nos viu. desde a entrada. Pareceu inconcebível que pedras preciosas pudessem fornecer tal variedade de cores. Finalmente paramos perante um pequeno salão e o caldeu nos contou que havíamos chegado ao fim de nossa jornada. mas imaginei que formalidades seriam exigidas. . Nosso anfitrião estava sentado a uma janela. Ao caminhar sentíamo-nos. o que era aumentado pelas boasvindas calorosas dadas por seres encantadores. rodeados de uma atmosfera de calor e amizade. O caldeu porém nos assegurou que devíamos meramente observar as regras ditadas pelo bom gosto. e fiquei hesitante. levantou-se e veio nos cumprimentar.

mas aqui parecia de clara luz dourada. visto assim notei diferenças do que ele me parecera à distância. eram suas flores favoritas. nos disse. para nos dar as boas-vindas. Rosas brancas. avistamos um canteiro das mais magníficas rosas brancas. de juventude eterna. parecia ser dourado quando nos visitara. por exemplo. Seu cabelo. Diferenças que eram quase uma questão de intensidade de luz. tão puras quanto um campo de neve. Havia vários assentos vagos perto do que ele ocupara e sugeriu que nos sentássemos para gozar de sua vista predileta. mas podia-se sentir a incontável eternidade de tempo que jazia por trás dela. .441 Depois tomou cada um pela mão. Ao aproximarmo-nos da janela. Sentamo-nos e tive a oportunidade de observá-lo de perto enquanto falava. Parecia jovem. e que exalavam um aroma maravilhoso.

442 Quando falava, sua voz era pura música, seu riso como água cascateante, e nunca imaginei possível poder emitir tanta bondade, afeição e consideração, e nunca julguei que um indivíduo pudesse possuir tal imensidão de sabedoria como ele. Sentia-se que, abaixo do Pai do Céu, ele é que tinha a chave de todo o conhecimento. Mas, por estranho que pareça, apesar de termos sido transportados a distâncias incomensuráveis à presença deste ser transcendente e maravilhoso, nos sentíamos contudo perfeitamente à vontade em sua presença. Ria conosco, brincava, falava de suas rosas, dirigindo-se a cada um de nós individualmente, exibindo exato conhecimento de todos os nossos assuntos, coletiva ou pessoalmente. Finalmente abordou a razão de seu convite para o visitarmos. Com meus amigos eu visitara os reinos sombrios e contara o que vira lá. ele achava que seria um agradável contraste se visitássemos os planos superiores e suas belezas. Se mos-

443 trássemos que os habitantes de tais lugares não são sombras irreais, mas pelo contrário, como nós, capazes de sentir e mostrar as emoções de suas naturezas esplêndidas, capazes de compreensão humana, susceptíveis de riso fácil e alegria pura, como nós mesmos. Convidara-nos para essa visita para nos dizer que estes reinos estão ao alcance de toda alma nascida sobre a terra, e cujo direito ninguém nos pode roubar; e que apesar de levar-se anos infindos para alcançar esse fim, havia meios ilimitados para nos auxiliar. Esse, disse ele, é o grande e simples fato da vida espiritual. Não há mistérios; é tudo simples, direito e desimpedido de crenças complicadas, religiosas ou não. Não é preciso ser adepto de qualquer religião, que em si não tem autoridade nenhuma para assegurar às almas o poder de garantir a salvação. Nenhum grupo religioso, que alguma vez tenha existido, pode fazê-lo.

444 E assim, este reino de beleza incomparável está livre e acessível a todos que trabalham na mais ínfima condição. Poderá levar eternidades para se realizar, mas esse será o grandioso epílogo da vida de milhões. Nosso bom amigo, o caldeu, mencionou então que nossa estada chegava a seu limite. Quando nos erguemos, não pude resistir à tentação de olhar as rosas pela janela, uma vez mais. Nosso anfitrião disse que nos acompanharia até à colina de onde tivéramos nossa primeira visão de seu reino. Seguimos um caminho diferente dessa vez, e qual não foi o nosso prazer quando ele nos conduziu diretamente ao canteiro das rosas brancas. Curvou-se e colheu três das mais perfeitas flores que jamais vira, e presenteou-nos a cada um com uma rosa. Nossa alegria era maior ainda por saber que com a afeição que sentíamos por elas, nunca murchariam e morreriam. Minha

445 preocupação era apenas que, em caminho para casa, fossem amassadas pela desusada densidade de nossa atmosfera mais pesada. Mas ele assegurou-nos que isso não aconteceria, porque seriam amparadas pelo seu pensamento. Finalmente alcançamos o ponto de partida. Palavras não exprimiriam o nosso sentimento, mas os nossos pensamentos passaram a ele, que nos havia dado essa suprema felicidade, esta antecipação do nosso destino — o destino de todos os entes da terra. Com uma bênção para todos, desejou-nos, sorrindo, uma boa viagem, e nós partimos. Tentei descrever algo do que vi, mas as palavras são poucas porque não posso traduzir o espiritual em termos terrenos.

446 Para dar-vos uma descrição exata eu levaria uma existência enchendo volumes, e portanto escolhi o que achei que seria de mais interesse e benéfico. Meu sincero desejo é que tenha despertado vosso interesse, vos tenha afastado por uns momentos da vida terrena, e dado uma idéia do mundo que jaz além daquele em que agora viveis. Se voz trouxe uma partícula de conforto, e boa esperança, então minha recompensa é grande e eu diria: Benedicat te omnipotens Deus.

447 Leia este livro HISTÓRIA DO ESPIRITISMO CONAN DOYLE A pena de um escritor de renome mundial foi fiel aos impulsos de um grande cérebro, que não podia ficar indiferente diante de uma doutrina que, de longa data, agitava os meios religiosos, literários e científicos da Europa e da América. Por certo, quando Allan Kardec codificou o Espiritismo, lançando a público O Evangelho Segundo o Espiritismo, o Livro dos Médiuns e vários outros, muitas mentes sequiosas de saber teriam indagado qual a origem da doutrina que, naquela época, tomava corpo e conquistava terreno até nos mais humildes lares; que atraía a atenção dos meios aristocráticos e que surpreendia sábios como Willi-

448 am Crookes, com suas notáveis experiências com Katie King. Sem querer remontar às tenebrosas eras primevas da Humanidade, já encontramos no Egito o Livro dos Mortos e os misteriosos hieróglifos, cuja chave Champollion legou à Humanidade, que revelam a firme crença do povo egípcio numa vida post-mortem, dedicando, aos que se foram, um culto especial. Vários volumes seriam, portanto, necessários para um empreendimento de tal vulto, isto é, a História do Espiritismo, desde as suas primeiras manifestações no mundo. Entretanto, esse trabalho gigantesco não veria colunado o seu objetivo, por falta de fontes históricas que o alicerçassem, e teríamos de ingressar no domínio das lendas ou de insustentáveis tradições. Foi por isso que Conan Doyle, como Presidente da Federação Espírita Internacional, além de outros honrosos títulos que exorna-

449 ram a sua personalidade, empreendeu o estudo da História do Espiritismo, a partir do célebre vidente Emanuel Swedenborg, e trouxe-nos, a mancheias, os relatos dos mais emocionantes episódios provocados pelo Espiritismo na Europa e na América, satisfazendo a nossa curiosidade com fatos verdadeiramente inéditos. Como primeiro livro que se publica em língua portuguesa, a História do Espiritismo, de Conan Doyle, vem preencher uma lacuna de há muito existente nas bibliotecas dos aficionados do assunto, que têm agora, à sua disposição, uma obra que prima pela seriedade e pelo valor de seu autor. EDITORA O PENSAMENTO

450 A VIDA NOS MUNDOS INVISÍVEIS Anthony Borgia A idéia da sobrevivência .da alma é tão velha como, a própria Humanidade. Entre os povos mais antigos, já encontramos tal crença, de tal modo arraigada na consciência humana, que pomposos rituais eram feitos, por ocasião da morte, a fim de garantirem à alma liberta uma vida feliz nos planos invisíveis. Assim é que os egípcios tinham para a morada da alma o Amenti, os gregos tinham o Hades, os hebreus, o Sheol, os tibetanos, o Devacã etc. De todos os rituais conhecidos, o mais célebre é o chamado LIVRO DOS MORTOS, escrito pelos sacerdotes egípcios e que era colocado ao lado da múmia do defunto, para lhe servir de passaporte nas numerosas regiões celestes. Champollion chamava esse livro de Rituais Funerários; todavia o nome de

quanto à intervenção de forças inteligentes. O fato é que. as conhecidas comunicações mediúnicas e o estudo dos fenômenos parapsicológicos não deixam dúvida. Seria supérfluo! falarmos de Kardec. William Crookes e vários outros. Flammarion. Ora. Oliver Hodge. mas é oportuno lembrarmos que cientistas de renome mundial. o que distingue a Religião da Ética é a crença em um outro mundo e o empenho em manter intercurso com ele.451 LIVRO DOS MORTOS foi adotado posteriormente por todos os arqueólogos. o homem repele a idéia de uma completa aniquilação após a morte. que 'estabelecem relação entre o mundo visível e o invisível. muito embora a corrente materialista sustente o contrário. considerado o codificador da Doutrina Espírita. dedicaram longo tempo ao estudo de tão . instintivamente. tais como Lombroso. No dizer de George Tyrrell.

. de soubermos o que somos. O conteúdo da presente obra a todos interessa. principalmente aqueles demonstravam ser um fato a continuidade da existência indefinida após a morte. pois que a teremos que passar para o Além e nada perderemos se. para onde iremos e qual a correta que devemos assumir. para gozarmos uma vida melhor.452 fascinantes fenômenos.

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