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Histria_da_Filosofia_-_Mundo_d

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  • I. PERÍODO CLÁSSICO
  • 1.1 - Dualismo Grego
  • 1.2 - O Gênio Grego
  • 1.3 - Divisão da História da Filosofia Grega
  • 1.4 - Primeiro Período
  • 1.5 - Escola Jônica
  • 1.6 - Tales de Mileto (624-548 A.C.) "Água"
  • 1.7 - Anaximandro de Mileto (611-547 A.C.) "Ápeiron"
  • 1.8 - Anaxímenes de Mileto (588-524 A.C.) "Ar"
  • 2.1 - Vida de Heráclito
  • 2.2 - Filosofia de Heráclito
  • 2.3 - O Princípio Lógico
  • 2.4 - Os Modos da Realidade
  • 3.1 - Notas Biográficas sobre Pitágoras
  • 3.2 - O Pitagorismo
  • 3.3 - A Pátria Estelar
  • 3.4 - Salvação pela Matemática
  • 3.5 - O Escândalo dos "Irracionais"
  • 4.1 - Vida, Obras e Pensamento
  • 5.1 - Anotações sobre Demócrito
  • 5.2 - Características do Pensamento de Demócrito
  • 5.3 - Demócrito, esse Humboldt do mundo antigo
  • 6 - DEMÓCRITO E SUAS TEORIAS
  • 6.1 - Teoria do Conhecimento
  • 6.2 - Teoria do Comportamento
  • 7 - OS SOFISTAS
  • 7.1 - Período Sistemático
  • 7.2 - A Sofística
  • 7.3 - Moral, Direito e Religião
  • 7.4 - Protágoras de Abdera
  • 7.5 - Górgias de Leôncio
  • 8.1 - A Vida
  • 8.2 - Método de Sócrates
  • 8.3 - Doutrinas Filosóficas
  • 8.4 - Gnosiologia
  • 8.5 - A Moral
  • 8.6 - Escolas Socráticas Menores
  • 9.1 - Introdução à Apologia de Sócrates
  • 9.2 - Apologia de Sócrates
  • 9.3 - A Defesa de Sócrates [Primeira Parte]
  • 9.4 - Epílogo
  • 9.5 - Segunda Parte
  • 9.6 - Terceira Parte
  • 10.1 - A Vida e as Obras
  • 10.2 - O Pensamento: A Gnosiologia
  • 10.3 - Teoria das Idéias
  • 10.4 - A Metafísica
  • 10.5 - Para Entender Platão
  • 11.1 - A Vida e as Obras
  • 11.2 - O Pensamento: A Gnosiologia
  • 11.3 - Filosofia de Aristóteles
  • 11.4 - A Teologia
  • 11.5 - A Moral
  • 11.6 - A Política
  • 11.7 - A Religião e a Arte
  • 11.8 - A Metafísica
  • 11.9 - A Psicologia
  • 11.10 - A Cosmologia
  • 11.11 - Juízo sobre Aristóteles
  • 11.12 - Vista Retrospectiva
  • 12 - O EPICURISMO
  • 12.1 - O Pensamento: Gnosiologia e Metafísica
  • 12.2 - A Moral e a Religião
  • 12.3 - Ceticismo e Ecletismo
  • 13.1 - Características Gerais
  • 13.2 - O Estoicismo
  • 13.3 - O Pensamento: Gnosiologia e Metafísica
  • 13.4 - A Moral e a Política
  • II. PERÍODO LATINO
  • 1 - AS CIÊNCIAS NATURAIS DA IDADE HELENISTA
  • 1.1 - O Pensamento Latino
  • 1.2 - Ecletismo e Estoicismo
  • 2.1 - O Direito Romano
  • 2.2 - A Educação Romana
  • 2.3 - Período Religioso
  • III. PERÍODO CRISTÃO
  • 1 - O NEO-PLATONISMO
  • 1.1 - Características Gerais do Neoplatonismo
  • 1.2 - Filon de Alexandria
  • 1.3 - Plutarco de Queronéia
  • 1.4 - Plotino
  • 2 - O CRISTIANISMO
  • 2.1 - As Características Filosóficas do Cristianismo
  • 2.2 - Características Gerais do Pensamento Cristão
  • 2.3 - A Filosofia Medieval e o Cristianismo
  • 2.4 - Conflitos e Conciliação entre a Fé e Saber
  • 2.5 - Patrística
  • 2.6 - Escolástica
  • 2.7 - A Questão dos Universais: O que há entre as palavras e as coisas
  • 3 - O CRISTIANISMO
  • 3.1 - Os Precedentes do Cristianismo
  • 3.2 - Jesus Cristo
  • 3.3 - O Novo Testamento
  • 3.4 - A Solução do Problema do Mal
  • 3.5 - O Pecado Original
  • 3.6 - A Redenção pela Cruz
  • 4.1 - Ascetismo e Teísmo
  • 4.2 - Ascetismo e Cristianismo
  • 4.3 - Ascetismo e Caridade
  • 5.1 - Características Gerais
  • 5.2 - O Século II - Os Apologistas e os Controvertistas
  • 5.3 - O Século III - Os Alexandrinos e os Africanos
  • 5.4 - O Século IV - Os Luminares de Capadócia
  • 6 - SANTO AGOSTINHO
  • 6.1 - A Vida e as Obras
  • 6.2 - Pensamento: A Gnosiologia
  • 6.3 - A Metafísica
  • 6.4 - A Moral
  • 6.5 - O Mal
  • 6.6 - A História
  • 7.1 - Características Gerais
  • 7.2 - Educação e Cultura na Idade Média
  • 7.3 - A Escolástica Pré-Tomista
  • 8.1 - O Século XIII: O Triunfo de Aristóteles
  • 8.2 - Os Filósofos Franciscanos
  • 8.3 - A Escolástica Pós-Tomista
  • 8.4 - Rogério Bacon
  • 8.5 - João Duns Scoto
  • 8.6 - Guilherme de Occam
  • 9.1 - A Vida e as Obras
  • 9.2 - O Pensamento: A Gnosiologia
  • 9.3 - A Metafísica
  • 9.4 - A Natureza
  • 9.5 - O Espírito
  • 9.7 - A Moral
  • 9.8 - Filosofia e Teologia
  • 9.9 - O Tomismo
  • 9.10 - A Existência de Deus é Evidente?
  • 9.11 - A Vontade Quer Necessariamente Tudo o Que Deseja?
  • 9.12 - A Moral
  • 9.13 - Filosofia e Teologia
  • IV. PERÍODO MODERNO
  • 1 - O PENSAMENTO MODERNO
  • 1.1 - Transcendência Cristã e Imanência Moderna
  • 1.2 - Os Precedentes do Pensamento Moderno
  • 1.3 - Os Períodos do Pensamento Moderno
  • 2.1 - Características Gerais
  • 2.2 - O Renovamento das Antigas Escolas Filosóficas
  • 2.3 - O Platonismo
  • 2.4 - O Aristotelismo
  • 2.5 - O Estoicismo
  • 2.6 - O Epicurismo
  • 2.7 - O Ceticismo
  • 4 - OS PENSADORES RENASCENTISTAS
  • 4.1 - Os Pensadores
  • 4.2 - Nicolau de Cusa
  • 4.3 - Bernardino Telésio
  • 4.4 - Giordano Bruno
  • 4.5 - Tomás Campanella
  • 5 - A FILOSOFIA DE DESCARTES
  • 5.1 - Sua Vida
  • 5.2 - O Método
  • 5.3 - A Metafísica
  • 6.1 - Deus, a Ciência e o Livre-arbítrio
  • 6.2 - O Problema do Homem: a Moral
  • 6.3 - O Programa Cartesiano
  • 7.1 - A Dúvida, Exercício Espiritual
  • 7.2 - Eu Sou Uma Coisa Que Pensa
  • 7.3 - O Pedaço De Cera
  • 7.4 - A Liberdade
  • 7.5 - O Argumento Ontológico
  • 8 - O EMPIRISMO - LOCKE
  • 8.1 - John Locke
  • 8.2 - Vida e Obras
  • 8.3 - O Pensamento: A Gnosiologia
  • 8.4 - Idéias Metafísicas
  • 8.5 - Moral e Política
  • 8.6 - Idéias Pedagógicas
  • 9 - O EMPIRISMO - BACON
  • 9.1 - Francis Bacon
  • 9.2 - Vida e Obras
  • 9.3 - Os Ensaios
  • 9.4 - O Pensamento: A "Instauratio Magna"
  • 10 - O EMPIRISMO - HOBBES
  • 10.1 - Tomás Hobbes
  • 10.2 - O Estado Natural e o Pacto Social
  • 11 - O EMPIRISMO - HUME
  • 11.1 - David Hume
  • 11.2 - O Método de Hume
  • 11.3 - A Análise da Idéia de Causa
  • 11.4 - O Ceticismo de Hume
  • 11.5 - Hume e o Problema da Religião
  • 12 - TEXTOS DE HUME
  • 12.1 - O Problema da Causalidade
  • 12.2 - O Problema do Mal
  • 13 - O ILUMINISMO FRANCÊS
  • 13.1 - Condillac (1715-1780)
  • 13.2 - Montesquieu (1689-1755)
  • 13.3 - Voltaire (1694-1778)
  • 14 - JEAN-JACQUES ROSSEAU
  • 14.1 - O Iluminismo Francês
  • 14.2 - Os Homens e os Problemas
  • 14.3 - Jean-Jacques Rosseau
  • 14.4 - A Consciência segundo Rosseau
  • 15.1 - A Política Nova e a Ciência Nova
  • 15.2 - Nicolau Machiavelli
  • 15.3 - Galileu Galilei
  • 15.4 - A Ciência Nova e a Metafísica Tradicional
  • 16 - BLAISE PASCAL
  • 16.1 - Vida e Obras
  • 16.2 - Entre a Ciência e a Religião
  • 16.3 - Jansenismo e Monarquia Absoluta
  • 16.4 - Da Militância ao Recolhimento
  • 17 - LEIBNIZ
  • 17.1 - Vida e Obra
  • 17.2 - Racionalismo e Finalismo
  • 17.3 - Os Fundamentos da Monadologia
  • 17.4 - O Melhor dos Mundos Possíveis
  • 18 - BARUCH SPINOZA
  • 18.1 - Considerações Gerais
  • 18.2 - Baruch Spinoza
  • 18.3 - Vida e Obras
  • 18.4 - O Pensamento: Deus
  • 18.5 - O Homem
  • 18.6 - A Moral
  • 18.7 - A Política e a Religião
  • 19 - O CARTESIANISMO
  • 19.1 - Nicolau Malebranche
  • 19.2 - Vida e Obras
  • 19.3 - O Pensamento: A Gnosiologia
  • 19.4 - A Metafísica
  • 19.5 - A Moral
  • 19.6 - Guilherme Leibniz
  • 19.7 - Vida e Obras
  • 19.8 - O Pensamento: A Gnosiologia
  • 19.9 - A Metafísica
  • 19.10 - A Moral
  • V. PERÍODO CONTEMPORÂNEO
  • 1 - EMMANUEL KANT
  • 1.1 - Vida e Obras
  • 1.2 - A Ciência e a Metafísica
  • 1.3 - A Moral de Kant
  • 1.4 - Moral e Metafísica
  • 1.5 - A Crítica do Juízo
  • 1.6 - O Alcance da Crítica Kantiana
  • 1.7 - Crítica ao Argumento Ontológico
  • 1.8 - O Rigorismo de Kant
  • 2.1 - O Idealismo Lógico
  • 2.2 - A Dialética
  • 2.3 - A Idéia, A Natureza, O Espírito
  • 3 - TEXTOS DE HEGEL
  • 3.1 - Dialética Hegeliana: A Contradição é o Motor do Pensamento
  • 3.2 - O Absoluto Por Fim Não é Senão Aquilo Que Ele é na Realidade
  • 3.3 - O Senhor e o Escravo
  • 3.4 - Concepção Dialética da História da Filosofia
  • 4 - NIETZSCHE
  • 4.1 - Vida e Obra
  • 4.2 - O Filósofo e o Músico
  • 4.3 - Solidão, Agonia e Morte
  • 4.4 - O Dionisíaco e o Socrático
  • 4.5 - O Vôo da Águia, a Ascensão da Montanha
  • 4.6 - Os Limites do Humano: O Além-do-Homem
  • 4.7 - Uma Filosofia Confiscada
  • 4.8 - Assim Falou Zaratustra
  • 5 - KIERKEGAARD
  • 5.1 - Filósofo ou Religioso?
  • 5.2 - O Sofrimento Necessário
  • 5.3 - O Salto da Fé
  • 6 - O IDEALISMO PÓS-KANTIANO
  • 6.1 - Considerações Gerais
  • 6.2 - O Desenvolvimento do Idealismo
  • 6.3 - O Idealismo Ético: Fichte
  • 6.4 - O Idealismo Estético: Schelling
  • 6.5 - O Idealismo Religioso: Schleiermacher
  • 7 - O POSITIVISMO - COMTE
  • 7.1 - Características Gerais do Positivismo
  • 7.2 - Augusto Comte - Vida e Obras
  • 7.3 - A Lei dos Três Estados
  • 8 - KARL MARX

HISTÓRIA DA FILOSOFIA MUNDO DOS FILÓSOFOS

WWW.MUNDODOSFILOSOFOS.COM.BR

ÍNDICE
I. PERÍODO CLÁSSICO _____________________________________________________ 10
1.1 - Dualismo Grego ________________________________________________________________ 11 1.2 - O Gênio Grego _________________________________________________________________ 11 1.3 - Divisão da História da Filosofia Grega_______________________________________________ 11 1.4 - Primeiro Período ________________________________________________________________ 12 1.5 - Escola Jônica___________________________________________________________________ 12 1.6 - Tales de Mileto (624-548 A.C.) "Água" ______________________________________________ 12 1.7 - Anaximandro de Mileto (611-547 A.C.) "Ápeiron" _____________________________________ 13 1.8 - Anaxímenes de Mileto (588-524 A.C.) "Ar" __________________________________________ 13

1 - Os Pré-Socráticos ___________________________________________________________ 11

2 - Heráclito de Éfeso ___________________________________________________________ 14
2.1 - Vida de Heráclito _______________________________________________________________ 14 2.2 - Filosofia de Heráclito ____________________________________________________________ 14 2.3 - O Princípio Lógico ______________________________________________________________ 14 2.4 - Os Modos da Realidade __________________________________________________________ 16

3 - Pitágoras de Samos __________________________________________________________ 19
3.1 - Notas Biográficas sobre Pitágoras __________________________________________________ 21 3.2 - O Pitagorismo __________________________________________________________________ 22 3.3 - A Pátria Estelar _________________________________________________________________ 23 3.4 - Salvação pela Matemática_________________________________________________________ 23 3.5 - O Escândalo dos "Irracionais" _____________________________________________________ 24

4 - Zenão de Eléia ______________________________________________________________ 26
4.1 - Vida, Obras e Pensamento ________________________________________________________ 26

5 - Demócrito de Abdera ________________________________________________________ 34
5.1 - Anotações sobre Demócrito _______________________________________________________ 37 5.2 - Características do Pensamento de Demócrito__________________________________________ 37 5.3 - Demócrito, esse Humboldt do mundo antigo __________________________________________ 38

6 - Demócrito e suas Teorias _____________________________________________________ 39
6.1 - Teoria do Conhecimento__________________________________________________________ 40 6.2 - Teoria do Comportamento ________________________________________________________ 41

7 - Os Sofistas _________________________________________________________________ 44
7.1 - Período Sistemático _____________________________________________________________ 44 7.2 - A Sofística_____________________________________________________________________ 47 7.3 - Moral, Direito e Religião _________________________________________________________ 47 7.4 - Protágoras de Abdera ____________________________________________________________ 48

2

7.5 - Górgias de Leôncio ______________________________________________________________ 48

8 - Sócrates ___________________________________________________________________ 49
8.1 - A Vida________________________________________________________________________ 49 8.2 - Método de Sócrates______________________________________________________________ 49 8.3 - Doutrinas Filosóficas ____________________________________________________________ 50 8.4 - Gnosiologia ____________________________________________________________________ 51 8.5 - A Moral_______________________________________________________________________ 52 8.6 - Escolas Socráticas Menores _______________________________________________________ 52

9 - Apologia de Sócrates_________________________________________________________ 54
9.1 - Introdução à Apologia de Sócrates __________________________________________________ 54 9.2 - Apologia de Sócrates ____________________________________________________________ 57 9.3 - A Defesa de Sócrates [Primeira Parte] _______________________________________________ 58 9.4 - Epílogo _______________________________________________________________________ 70 9.5 - Segunda Parte __________________________________________________________________ 71 9.6 - Terceira Parte __________________________________________________________________ 73

10 - Platão ____________________________________________________________________ 76
10.1 - A Vida e as Obras ______________________________________________________________ 76 10.2 - O Pensamento: A Gnosiologia ____________________________________________________ 77 10.3 - Teoria das Idéias _______________________________________________________________ 78 10.4 - A Metafísica __________________________________________________________________ 78 10.5 - Para Entender Platão ____________________________________________________________ 85

11 - Aristóteles ________________________________________________________________ 89
11.1 - A Vida e as Obras ______________________________________________________________ 89 11.2 - O Pensamento: A Gnosiologia ____________________________________________________ 90 11.3 - Filosofia de Aristóteles __________________________________________________________ 91 11.4 - A Teologia ___________________________________________________________________ 91 11.5 - A Moral______________________________________________________________________ 92 11.6 - A Política ____________________________________________________________________ 93 11.7 - A Religião e a Arte _____________________________________________________________ 94 11.8 - A Metafísica __________________________________________________________________ 95 11.9 - A Psicologia __________________________________________________________________ 96 11.10 - A Cosmologia ________________________________________________________________ 97 11.11 - Juízo sobre Aristóteles _________________________________________________________ 98 11.12 - Vista Retrospectiva ____________________________________________________________ 98

12 - O Epicurismo______________________________________________________________ 99
12.1 - O Pensamento: Gnosiologia e Metafísica ____________________________________________ 99 12.2 - A Moral e a Religião___________________________________________________________ 100 12.3 - Ceticismo e Ecletismo__________________________________________________________ 102

13 - O Período Ético ___________________________________________________________ 103
3

13.1 - Características Gerais __________________________________________________________ 103 13.2 - O Estoicismo_________________________________________________________________ 103 13.3 - O Pensamento: Gnosiologia e Metafísica ___________________________________________ 104 13.4 - A Moral e a Política ___________________________________________________________ 104

II.

PERÍODO LATINO ____________________________________________________ 106

1 - As Ciências Naturais da Idade Helenista _______________________________________ 107
1.1 - O Pensamento Latino ___________________________________________________________ 108 1.2 - Ecletismo e Estoicismo __________________________________________________________ 109

2 - Direito e Educação _________________________________________________________ 111
2.1 - O Direito Romano______________________________________________________________ 111 2.2 - A Educação Romana____________________________________________________________ 111 2.3 - Período Religioso ______________________________________________________________ 113

III.

PERÍODO CRISTÃO ___________________________________________________ 115

1 - O Neo-Platonismo __________________________________________________________ 116
1.1 - Características Gerais do Neoplatonismo ____________________________________________ 116 1.2 - Filon de Alexandria_____________________________________________________________ 116 1.3 - Plutarco de Queronéia___________________________________________________________ 117 1.4 - Plotino _______________________________________________________________________ 117

2 - O Cristianismo ____________________________________________________________ 120
2.1 - As Características Filosóficas do Cristianismo________________________________________ 120 2.2 - Características Gerais do Pensamento Cristão ________________________________________ 120 2.3 - A Filosofia Medieval e o Cristianismo ______________________________________________ 121 2.4 - Conflitos e Conciliação entre a Fé e Saber ___________________________________________ 121 2.5 - Patrística _____________________________________________________________________ 122 2.6 - Escolástica____________________________________________________________________ 122 2.7 - A Questão dos Universais: O que há entre as palavras e as coisas_________________________ 123

3 - O Cristianismo ____________________________________________________________ 124
3.1 - Os Precedentes do Cristianismo ___________________________________________________ 124 3.2 - Jesus Cristo ___________________________________________________________________ 124 3.3 - O Novo Testamento ____________________________________________________________ 125 3.4 - A Solução do Problema do Mal ___________________________________________________ 126 3.5 - O Pecado Original______________________________________________________________ 127 3.6 - A Redenção pela Cruz __________________________________________________________ 127

4 - Conseqüente Praxe Ascética _________________________________________________ 129
4.1 - Ascetismo e Teísmo ____________________________________________________________ 129 4.2 - Ascetismo e Cristianismo ________________________________________________________ 130 4.3 - Ascetismo e Caridade ___________________________________________________________ 130

5 - A Patrística Pré-agostiniana _________________________________________________ 132
4

5.1 - Características Gerais ___________________________________________________________ 132 5.2 - O Século II - Os Apologistas e os Controvertistas _____________________________________ 132 5.3 - O Século III - Os Alexandrinos e os Africanos _______________________________________ 133 5.4 - O Século IV - Os Luminares de Capadócia __________________________________________ 134

6 - Santo Agostinho ___________________________________________________________ 136
6.1 - A Vida e as Obras ______________________________________________________________ 136 6.2 - Pensamento: A Gnosiologia ______________________________________________________ 137 6.3 - A Metafísica __________________________________________________________________ 137 6.4 - A Moral______________________________________________________________________ 138 6.5 - O Mal _______________________________________________________________________ 138 6.6 - A História ____________________________________________________________________ 139

7 - A Escolástica ______________________________________________________________ 141
7.1 - Características Gerais ___________________________________________________________ 141 7.2 - Educação e Cultura na Idade Média ________________________________________________ 141 7.3 - A Escolástica Pré-Tomista _______________________________________________________ 142

8 - A Escolástica ______________________________________________________________ 146
8.1 - O Século XIII: O Triunfo de Aristóteles_____________________________________________ 146 8.2 - Os Filósofos Franciscanos _______________________________________________________ 147 8.3 - A Escolástica Pós-Tomista _______________________________________________________ 148 8.4 - Rogério Bacon ________________________________________________________________ 148 8.5 - João Duns Scoto _______________________________________________________________ 148 8.6 - Guilherme de Occam ___________________________________________________________ 149

9 - Tomás de Aquino __________________________________________________________ 151
9.1 - A Vida e as Obras ______________________________________________________________ 151 9.2 - O Pensamento: A Gnosiologia ____________________________________________________ 151 9.3 - A Metafísica __________________________________________________________________ 153 9.4 - A Natureza ___________________________________________________________________ 153 9.5 - O Espírito ____________________________________________________________________ 154 9.6 - Deus ________________________________________________________________________ 154 9.7 - A Moral______________________________________________________________________ 156 9.8 - Filosofia e Teologia ____________________________________________________________ 156 9.9 - O Tomismo ___________________________________________________________________ 157 9.10 - A Existência de Deus é Evidente? ________________________________________________ 158 9.11 - A Vontade Quer Necessariamente Tudo o Que Deseja? _______________________________ 159 9.12 - A Moral_____________________________________________________________________ 161 9.13 - Filosofia e Teologia ___________________________________________________________ 161

IV.

PERÍODO MODERNO __________________________________________________ 163

1 - O Pensamento Moderno _____________________________________________________ 164
5

2 .Os Pensadores _________________________________________________________________ 178 4.3 .1 .Sua Vida _____________________________________________________________________ 182 5.De Aristóteles à Renascença__________________________________________________ 173 4 .4 .Tomás Campanella _____________________________________________________________ 180 5 .Vida e Obras __________________________________________________________________ 195 8.2 .Transcendência Cristã e Imanência Moderna _________________________________________ 164 1.René Descartes_____________________________________________________________ 186 6.O Epicurismo _________________________________________________________________ 171 2.2 .Eu Sou Uma Coisa Que Pensa ____________________________________________________ 190 7.A Liberdade __________________________________________________________________ 192 7.2 .O Problema do Homem: a Moral __________________________________________________ 187 6.Bernardino Telésio _____________________________________________________________ 179 4.4 .O Método ____________________________________________________________________ 183 5.5 .2 .O Aristotelismo________________________________________________________________ 170 2.4 .3 .3 .Os Períodos do Pensamento Moderno ______________________________________________ 166 2 .O Estoicismo__________________________________________________________________ 171 2.A Metafísica __________________________________________________________________ 184 6 .5 .1 .René Descartes_____________________________________________________________ 190 7.A Renascença______________________________________________________________ 168 2.2 .Nicolau de Cusa _______________________________________________________________ 178 4.Moral e Política________________________________________________________________ 197 6 .O Programa Cartesiano __________________________________________________________ 187 7 .2 .6 .1 .Idéias Metafísicas ______________________________________________________________ 196 8.3 .1 .A Filosofia de Descartes _____________________________________________________ 182 5.1 .Locke _______________________________________________________ 195 8.O Platonismo__________________________________________________________________ 169 2.O Pedaço De Cera______________________________________________________________ 192 7.Giordano Bruno _______________________________________________________________ 179 4.5 .Os Precedentes do Pensamento Moderno ____________________________________________ 165 1.3 .Características Gerais ___________________________________________________________ 168 2.O Argumento Ontológico ________________________________________________________ 193 8 .5 . Exercício Espiritual ____________________________________________________ 190 7.John Locke ___________________________________________________________________ 195 8.O Empirismo .O Pensamento: A Gnosiologia ____________________________________________________ 195 8.3 .7 .Deus.O Renovamento das Antigas Escolas Filosóficas______________________________________ 168 2.3 .1. a Ciência e o Livre-arbítrio__________________________________________________ 186 6.1 .Os Pensadores Renascentistas ________________________________________________ 178 4.O Ceticismo __________________________________________________________________ 171 3 .4 .1 .A Dúvida.

O Empirismo .2 .1 .4 .Tomás Hobbes _______________________________________________________________ 204 10.3 .Leibniz __________________________________________________________________ 229 7 .Nicolau Machiavelli ___________________________________________________________ 220 15.O Estado Natural e o Pacto Social ________________________________________________ 205 11 .Vida e Obras _________________________________________________________________ 224 16.2 .Hume ______________________________________________________ 207 11.O Método de Hume____________________________________________________________ 207 11.1 .Voltaire (1694-1778) __________________________________________________________ 214 14 .Bacon _______________________________________________________ 199 9.6 .4 .Jean-Jacques Rosseau __________________________________________________________ 217 14.A Ciência Nova e a Metafísica Tradicional _________________________________________ 222 16 .1 .David Hume _________________________________________________________________ 207 11.A Renascença_____________________________________________________________ 220 15.2 .Jean-Jacques Rosseau______________________________________________________ 216 14.A Consciência segundo Rosseau _________________________________________________ 218 15 .Idéias Pedagógicas _____________________________________________________________ 197 9 .4 .1 .Hobbes _____________________________________________________ 204 10.Blaise Pascal _____________________________________________________________ 224 16.A Política Nova e a Ciência Nova ________________________________________________ 220 15.O Empirismo .O Ceticismo de Hume__________________________________________________________ 209 11.1 .O Problema da Causalidade _____________________________________________________ 211 12.Entre a Ciência e a Religião _____________________________________________________ 224 16.Francis Bacon _________________________________________________________________ 199 9.2 .5 .Textos de Hume___________________________________________________________ 211 12.3 .O Iluminismo Francês__________________________________________________________ 216 14.Galileu Galilei________________________________________________________________ 221 15.3 .2 .O Problema do Mal____________________________________________________________ 211 13 .Condillac (1715-1780) _________________________________________________________ 213 13.2 .4 .2 .O Pensamento: A "Instauratio Magna"______________________________________________ 202 10 .Os Ensaios____________________________________________________________________ 199 9.1 .2 .3 .A Análise da Idéia de Causa _____________________________________________________ 207 11.3 .1 .O Iluminismo Francês _____________________________________________________ 213 13.Montesquieu (1689-1755)_______________________________________________________ 214 13.8.4 .Os Homens e os Problemas______________________________________________________ 216 14.Hume e o Problema da Religião __________________________________________________ 210 12 .1 .Jansenismo e Monarquia Absoluta ________________________________________________ 226 16.O Empirismo .3 .Vida e Obras __________________________________________________________________ 199 9.Da Militância ao Recolhimento __________________________________________________ 227 17 .

O Pensamento: Deus ___________________________________________________________ 237 18.O Cartesianismo __________________________________________________________ 240 19.A Política e a Religião _________________________________________________________ 239 19 .5 . PERÍODO CONTEMPORÂNEO ___________________________________________ 247 1.3 .A Metafísica _________________________________________________________________ 240 19.Moral e Metafísica _____________________________________________________________ 251 1.2 .Vida e Obras ________________________________________________________________ 245 19.Cristiano Wolff ______________________________________________________________ 245 19.13 .A Moral____________________________________________________________________ 244 19.Considerações Gerais __________________________________________________________ 235 18.Vida e Obras _________________________________________________________________ 240 19.5 .4 .A Metafísica _________________________________________________________________ 243 19.O Pensamento _______________________________________________________________ 245 V.9 .8 .2 .1 .6 .2 .6 .Crítica ao Argumento Ontológico___________________________ Erro! Indicador não definido. 1.Os Fundamentos da Monadologia ________________________________________________ 231 17.Crítica ao Argumento Ontológico__________________________________________________ 254 1.10 .1 .Vida e Obras _________________________________________________________________ 242 19.O Rigorismo de Kant ___________________________________________________________ 255 1.A Moral de Kant _______________________________________________________________ 250 1.1 .11 .10 .2 .Guilherme Leibniz ____________________________________________________________ 241 19.Vida e Obras __________________________________________________________________ 248 1.7 .O Alcance da Crítica Kantiana ____________________________________________________ 253 1.Nicolau Malebranche __________________________________________________________ 240 19.3 .5 .12 .Vida e Obras _________________________________________________________________ 236 18.Baruch Spinoza ___________________________________________________________ 235 18.O Pensamento: A Gnosiologia ___________________________________________________ 240 19.O Homem ___________________________________________________________________ 237 18.7 .Racionalismo e Finalismo_______________________________________________________ 230 17.O Alcance da Crítica Kantiana ______________________________ Erro! Indicador não definido.3 .1 .4 .A Moral_____________________________________________________________________ 241 19.7 .6 .A Ciência e a Metafísica _________________________________________________________ 249 1. 1 .O Melhor dos Mundos Possíveis _________________________________________________ 232 18 .4 .Baruch Spinoza _______________________________________________________________ 235 18.Vida e Obra __________________________________________________________________ 229 17.9 .8 .A Moral_____________________________________________________________________ 238 18.Emmanuel Kant ___________________________________________________________ 248 8 .3 .17.4 .A Crítica do Juízo ______________________________________________________________ 252 1.O Pensamento: A Gnosiologia ___________________________________________________ 242 19.

7 .3 .4 . a Ascensão da Montanha __________________________________________ 270 4.2 .Filósofo ou Religioso? __________________________________________________________ 275 5. 2 .Características Gerais do Positivismo_______________________________________________ 286 7.11 .O Idealismo Ético: Fichte ________________________________________________________ 280 6.Os Limites do Humano: O Além-do-Homem_________________________________________ 272 4.O Desenvolvimento do Idealismo__________________________________________________ 279 6.O Idealismo Lógico_____________________________________________________________ 257 2.8 .1 .6 . A Natureza.O Positivismo .Considerações Gerais ___________________________________________________________ 279 6.5 .Uma Filosofia Confiscada________________________________________________________ 273 4.2 .Comte ______________________________________________________ 286 7.4 .Assim Falou Zaratustra __________________________________________________________ 274 5 .O Vôo da Águia.1 .Hegel_____________________________________________________________________ 257 2.O Filósofo e o Músico___________________________________________________________ 267 4.O Senhor e o Escravo ___________________________________________________________ 263 3.Vida e Obra ___________________________________________________________________ 267 4.Concepção Dialética da História da Filosofia_________________________________________ 264 4 .3 .O Salto da Fé__________________________________________________________________ 277 6 .1 .O Sofrimento Necessário ________________________________________________________ 277 5.O Absoluto Por Fim Não é Senão Aquilo Que Ele é na Realidade ________________________ 263 3.3 .1 .O Idealismo Estético: Schelling ___________________________________________________ 281 6.2 . O Espírito ___________________________________________________ 261 3 .A Dialética ___________________________________________________________________ 259 2.1.Augusto Comte .O Rigorismo de Kant ____________________________________ Erro! Indicador não definido.2 .1 .Kierkegaard_______________________________________________________________ 275 5.3 .Solidão.A Idéia.3 .5 .O Idealismo Religioso: Schleiermacher _____________________________________________ 283 7 .A Lei dos Três Estados __________________________________________________________ 288 8 .Karl Marx ________________________________________________________________ 292 9 .O Idealismo Pós-Kantiano ___________________________________________________ 279 6.4 .Vida e Obras ____________________________________________________ 287 7.2 .Nietzsche _________________________________________________________________ 267 4.Textos de Hegel ____________________________________________________________ 262 3.1 . Agonia e Morte _________________________________________________________ 268 4.O Dionisíaco e o Socrático _______________________________________________________ 269 4.3 .Dialética Hegeliana: A Contradição é o Motor do Pensamento ___________________________ 262 3.2 .

I. PERÍODO CLÁSSICO 10 .

não é fechado em si mesmo. 1. ou seja. . porque o grego tinha conhecimento de um absoluto racional. porém. a racionalidade de Deus. o prático. Todos esses elementos vêm sendo.) . em que Deus e mundo ficam separados um do outro. assimila em parte. e o otimismo grego. em que o interesse filosófico é voltado para o mundo da natureza. de Deus. Período Naturalista: présocrático.tenham a primazia sobre o "operar" . VII-V a.) . Aristóteles). não conhece. 11 . do mundo a Deus. que a humanidade é governada pelo Fado. mas está a ele subordinado. quando o realismo impuser tal concepção. aos jônios.Problemas metafísicos. considerando-o como a solidão interior e a indiferença heróica para com tudo.VI d.a ação. nem governa. Período socrático (séc. para os gregos. no conhecimento sensível. conseqüência lógica do seu próprio racionalismo.a contemplação. a consciência do valor supremo do conhecimento racional.C.Dualismo Grego A característica fundamental do pensamento grego está na solução dualista do problema metafísicoteológico. mas nunca pode chegar até ele porque dele não deriva.1 . é apreensão (realismo).2 . realizada por meio de um desenvolvimento também harmônico.O Gênio Grego A característica do gênio filosófico grego pode-se compendiar em alguns traços fundamentais: racionalismo.Os Períodos Principais do Pensamento Grego Consoante a ordem cronológica e a marcha evolutiva das idéias pode dividir-se a história da filosofia grega em três períodos: Período pré-socrático (séc. o intelecto . pelo Destino. absoluto. sem o qual o mundo não tem explicação. aperfeiçoado mediante uma crítica profunda. ainda. sendo jônios também os atenienses. a cultura. a saber. na solução das relações entre a realidade empírica e o Absoluto que a explique. abstrato. mas estava também convicto de que ele não cuida do mundo e da humanidade. numa unidade harmônica. IV a. culminando com Aristóteles. isto é. Período Sistemático ou Antropológico: o período mais importante da história do pensamento grego (Sócrates.1 .Divisão da História da Filosofia Grega 1 .C. a transcende para o absoluto. e esse realismo não se restringe ao âmbito da experiência. Platão.Problemas morais. pelo contrário. O último remédio desse mal da existência será procurado no ascetismo.) . 1. em que fatalmente finaliza a serena concepção grega do mundo e da vida. IV a. em que o interesse pela natureza é integrado com o interesse pelo espírito e são construídos os maiores sistemas filosóficos.C. o "conhecer" . que tende para Deus como o imperfeito para o perfeito. decaindo.C. entretanto.3 . pois. embora. Período pós-socrático (séc. que não criou. o conhecimento. cederá lugar ao pessimismo. organizados numa síntese insuperável.OS PRÉ-SOCRÁTICOS 1. E a conseqüência desse irracionalismo outra não pode ser senão o pessimismo: um pessimismo desesperado. pela necessidade irracional. sobretudo. a metafísica. o teórico. esse racionalismo não é. a resignação e a renúncia absoluta. quando se manifestar toda a irracionalidade da realidade.Problemas cosmológicos. Entre as raças gregas. Conseqüência desse dualismo é o irracionalismo. mas a transpõe. entre o mundo e Deus. O mundo real dos indivíduos e do vir-a-ser depende do princípio eterno da matéria obscura. mas se integra na experiência. Período Ético: em que o interesse filosófico é voltado para os problemas morais. e pensava. não é anulado pelo primeiro.o segundo elemento todavia. mas aberto para o ser. a vontade . a filosofia são devidas.

No plano da astronomia. e procurando resolver o problema do movimento e da transformação dos corpos. pela primeira vez. os eclipses do sol e da lua. a multiplicidade. Escola Atomística. Esse primeiro período tem início no alvor do VI século a.5 . A escola jônica. e toma. porque a nascente especulação dos filósofos é instintivamente voltada para o mundo exterior. Escola Eleática. e examinou o movimento dos astros para orientar a navegação. Escola Itálica. que a razão não resolve integralmente. preocupando-se os seus expoentes com achar a substância única. mas sabemos que ele ensinava ser a água a substância única de todas as coisas. ao se aquecer transforma-se em vapor e ar. Os jônios antigos consideram o Universo do ponto de vista estático. 1. múltiplo e mutável. Segundo Tales. na sua origem e nas contínuas mudanças a que está sujeito.C. a sucessão dos fenômenos na matéria una. o segundo de apogeu. favorecido sem dúvida na sua obra crítica e especulativa pelas liberdades democráticas e pelo bem-estar econômico. o terceiro de decadência. assim chamada por ter florescido nas colônias jônicas da Ásia Menor. senão principalmente por imprimirem outra orientação aos estudos cosmológicos. Essa escola floresceu precisamente em Mileto. da Sicília. até a destruição da cidade pelos persas no ano de 494 a. para resolver o problema da vida. Cultivou também as matemáticas e a astronomia. Os jônicos julgaram encontrar a substância última das coisas em uma matéria única. que marcam uma mudança e um desenvolvimento e. outrossim.Escola Jônica A Escola Jônica. A terra era concebida como um disco boiando sobre a água. ao se resfriar. e termina dois séculos depois. do seu pensamento só restam interpretações formuladas por outros filósofos que lhe atribuíram uma idéia básica: a de que tudo se origina da água. Daí ser chamada esta doutrina hilozoísmo (matéria animada).Primeiro Período O primeiro período do pensamento grego toma a denominação substancial de período naturalista.Período Religioso: assim chamado pela importância dada à religião. entre os gregos. prolongando-se porém ainda pelo V século. fez estudos sobre solstícios a fim de elaborar um calendário. Anaximandro de Mileto. 1.. predizendo. classificam-se os filósofos que nele floresceram em quatro escolas: Escola Jônica. colônia grega do litoral da Ásia Menor. a água. fenício de origem. Os mais conhecidos são: Heráclito de Éfeso. Os mais conhecidos são: Tales de Mileto. É o mais antigo filósofo grego. a denominação cronológica de período pré-socrático. de cuja ação derivariam precisamente a variedade. Empédocles de Agrigento. compreende os jônios antigos e os jônios posteriores ou juniores. no oceano. e pensaram que nessa matéria fosse imanente uma força ativa. do Egeu (Jônia) e da Itália meridional. Anaxímenes de Mileto.C. a matéria primitiva de que são compostos todos os seres. Surge e floresce fora da Grécia propriamente dita. Os filósofos deste período preocuparam-se quase exclusivamente com os problemas cosmológicos. é a grande questão que dá a este período seu caráter de unidade.4 . por conseguinte. Provavelmente nada escreveu. porque precede Sócrates e os sofistas.. Pelo modo de a encarar e resolver. é considerado o fundador da escola jônica. mais ou menos. Tales não deixou nada escrito. que retornam 12 . é também a primeira do período naturalista.) "Água" Tales de Mileto. nas prósperas colônias gregas da Ásia Menor. O primeiro período é de formação. procurando determinar o elemento primordial. nos fins do século V.Tales de Mileto (624-548 A. a causa. o princípio do mundo natural vário.C. durante todo o VI século. Anaxágoras de Clazômenas. o começo de um novo período na história do pensamento grego.6 . julgando-se encontrar aí também o princípio unitário de todas as coisas. Por isso. 1. Os jônios posteriores distinguem-se dos antigos não só por virem cronologicamente depois. encarando o Universo no seu aspecto dinâmico. torna-se densa e dá origem à terra. Estudar o mundo exterior nos elementos que o constituem.

O ímã possui vida. Hipólito. astrônomo e político. pois atrai o ferro. mesmo apresentando qualidades diferentes entre si. Para ele. A água é a causa material de todas as coisas. Fragmentos "O contraído e condensado da matéria ele diz que é frio.Anaximandro de Mileto (611-547 A. isto é. 1. porém dando um passo a mais na direção da independência do "princípio" em relação às coisas particulares. Anaxímenes julga que o elemento primordial das coisas é o ar.a flutuação sobre a água. etc. As diversas coisas que existem. e o ralo e o frouxo (é assim que ele expressa) é quente". terra) nascem as diversas formas de vida. matemático. a introdução na Grécia do uso do gnômon (relógio de sol) e a medição das distâncias entre as estrelas e o cálculo de sua magnitude (é o iniciador da astronomia grega). que não se fixa diretamente em nenhum elemento palpável da natureza. mar.C. a pedra são formas cada vez mais condensadas do ar.7 . Tudo provém do ar.e imperecível (o ilimitado enquanto o divino) . nem palpável demais como a água. o ápeiron está em constante movimento. Esta (a natureza do ilimitado. Tales sustentava ser a água a substância de todas as coisas. Todas as coisas estão cheias de deuses. a água. Eterno. o fogo é o ar rarefeito. soberanamente nos mantém unidos.água e fogo. A cosmologia de Tales pode ser resumida nas seguintes proposições: A terra flutua sobre a água. um elemento não tão abstrato como o ápeiron. os antigos jônios professavam o hilozoísmo e o panteísmo naturalista. rio. através de seus movimentos: o ar é respiração e é vida. discípulo e sucessor de Tales e autor de um tratado Da Natureza.C. Foi o primeiro a afirmar que a Lua recebe sua luz do Sol. Física". mais denso) desse único elemento.8 . vegetal e animal. 1. foi o primeiro a formular o conceito de uma lei universal presidindo o processo cósmico total. a terra. dotado de vida e imortalidade. chuva. Ampliando a visão de Tales.. Com essa concepção. (Aécio).a geração e nutrição de todas as coisas pela água. 13 . infinito e em movimento perpétuo. quantitativamente infinita e qualitativamente indeterminada. Elemento Estático . o princípio da "physis" (natureza) é o ápeiron (ilimitado). Anaximandro julga que o elemento primordial seria o indeterminado (ápeiron). "Com nossa alma. Diz-se também.Anaxímenes de Mileto (588-524 A. assim também todo o cosmo sopro e ar o mantém". Segundo Aristóteles sobre a teoria de Tales: elemento estático e elemento dinâmico. Supõe também a geração espontânea dos seres vivos e a transformação dos peixes em homens.) "Ápeiron" Anaximandro de Mileto. o ápeiron (ilimitado). Elemento Dinâmico . Anaximandro imagina a terra como um disco suspenso no ar. geógrafo. que preveniu o povo de Esparta de um terremoto. Refutação. a arkhé (comando) que comanda o mundo é o ar. Fragmentos "Imortal. Tales acreditava em uma "alma do mundo". . (Plutarco). Deste ápeiron (ilimitado) primitivo. havia um espírito divino que formava todas as coisas da água. Anaximandro prossegue na mesma via de Tales.. põe como princípio universal uma substância indefinida. reduzem-se a variações quantitativas (mais raro. Atribuindo vida à matéria e identificando a divindade com o elemento primitivo gerador dos seres. Desse ciclo de seu movimento (vapor. Atribui-se a Anaximandro a confecção de um mapa do mundo habitado. Dedicou-se especialmente à meteorologia.Aristóteles.) "Ar" Segundo Anaxímenes. e disto resulta uma série de pares opostos . O ápeiron é assim algo abstrato. que é ar.que constituem o mundo. ele diz que) é sem idade e sem velhice. frio e calor.como chuva quando novamente esfriados. por um processo de separação ou "segregação" derivam os diferentes corpos.

B. o rio corre e toca-se outra água. como a própria dialética.a determinação 14 . porém. É o progresso necessário. em Heráclito. o infinito. misantrópico e melancólico ficou proverbial em toda a antigüidade. no dialeto jônico. E Platão ainda diz de Heráclito: "Ele compara as coisas com a corrente de um rio . Aristóteles diz que Heráclito afirma que é apenas um o que permanece. C. em prosa. A dialética é: A.1 . situando-se. Pois Heráclito diz: "Tudo flui (panta rei). de família que ainda conservava prerrogativas reais (descendentes do fundador da cidade). produzir muito sentido. Temos. Heráclito é por muitos considerados o mais eminente pensador pré-socrático.2 . que todo o resto fora deste um flui. pela primeira vez. isto é. Se ouvimos aquela frase "O ser não é mais que o não-ser". Além disso. então.Vida de Heráclito Heráclito nasceu em Éfeso. nem é menos. muito contraditório. temos apenas o entendimento abstrato. Heráclito escreveu um livro Sobre a Natureza. isto é. Desprezava a plebe. ou ser e nada são o mesmo. o absoluto enquanto nele se dá a unidade dos opostos. isto é. Isto é o primeiro concreto. Objetividade de Heráclito. não parece. Seu caráter altivo. nos eleatas. um raciocinar de cá para lá e não a alma da coisa dissolvendo-se a si mesma. porém. a essência é mudança. Dialética exterior. à primeira vista. Seus sucessores dizem até que nele nem se pode mesmo entrar. o segundo é o devir . por formular com vigor o problema da unidade permanente do ser diante da pluralidade e mutabilidade das coisas particulares e transitórias. não o ser . contra os filósofos de seu tempo e até contra a religião.uma consumação da idéia na totalidade que é o início da Filosofia ou expressa a essência da idéia. transformado. em lugar da expressão de Heráclito: O absoluto é a unidade do ser e do não-ser. na contemplação do sujeito. apenas o ser é.3 . "como a do arco e da lira". ainda uma outra expressão que aponta mais exatamente o sentido do princípio. que nada se demora. ao mesmo tempo já novamente não é. O ser é o um. ausência de pensamento. desta maneira.HERÁCLITO DE ÉFESO 2. 2. um homem de profundos pensamentos. Nele encontra-se. regedora de todos os acontecimentos particulares e fundamento da harmonia universal. Sem ter sido mestre.até esta determinação avançou ele. que nada é firme. o primeiro. o que é. mas de forma tão concisa que recebeu o cognome de Skoteinós. mas nela se pode penetrar com o conceito e assim descobrir. apenas destruição universal. Dizemos. compreender a própria dialética como princípio. 2. por isso Heráclito foi tido como filósofo profundo e obscuro e como tal criticado. O verdadeiro é apenas como a unidade dos opostos. modificado.2 . Floresceu em 504-500 a. a idéia filosófica em sua forma especulativa. o Obscuro.O Princípio Lógico O princípio universal. nem permanece o mesmo". harmonia feita de tensões. Manifestou desprezo pelos antigos poetas. Estabeleceu a existência de uma lei universal e fixa (o Lógos). o verdadeiro é o devir. nada persiste. portanto. disto todo o resto é formado. aquilo que é.que não se pode entrar duas vezes na mesma corrente". Ele é a plenitude da consciência até ele . O que nos é relatado da filosofia de Heráclito parece. Dialética imanente do objeto. pois que imediatamente se transforma. cidade da Jônia. e é aquele que Heráclito fez.Filosofia de Heráclito Heráclito concebe o próprio absoluto como processo.C. Este espírito arrojado pronunciou pela primeira vez esta palavra profunda: "O ser não é mais que o não-ser". o raciocínio de Parmênides e Zenão é entendimento abstrato. Recusou-se sempre a intervir na política.

que justamente quer isto. nela está o princípio da vida. na verdade. a morta infinitude é uma má abstração em oposição a esta profundidade que vemos em Heráclito. . que Heráclito "ligou o todo e o não-todo" (parte) . é o verdadeiro. mais exatamente. que é em si e para si. de objetivo e subjetivo. a verdade do ser é o devir. Em Heráclito. mas da unidade pela arte da música. Esta 15 . não poderia modificar sua natureza através de outra coisa e assim também para os que sofrem de icterícia seria doce. mas são idênticos. em seu Banquete. passagem absoluta para o oposto.um por limites e um sobressumir os limites. como o não verdadeiro. "o mel é doce e amargo" . por causa de sua contradição. É um grande pensamento passar do ser para o devir. dos universalmente opostos.todos estes elementos concretos estão contidos nesta determinação. em que todo o determinado é negado." Em Heráclito o momento da negatividade é imanente. ao mesmo tempo. nada vem. e de um tudo. este movimento é aqui. ao qual Zenão não chegou! "Do nada. ambos não são para si. das representações correntes dos homens. Sexto Empírico cita o seguinte que Heráclito teria dito: A parte é algo diferente do todo. do mesmo modo. da pura oposição. mas também o desaparecer. apenas este igual a si mesmo -. porém. disto trata o conceito de toda a Filosofia. Heráclito também diz que os opostos são características do mesmo. por isso é o não-ser. por exemplo. pelo contrário. Platão diz.este é o processo da vida. Os eleatas dizem: só o ser é. É esta unidade de real e ideal. que o primeiro elemento verdadeiro é o devir. "como a harmonia do arco e da lira".mais exata para este conteúdo universal é o devir. O entendimento separa a ambos como verdadeiros e de valor. a repetição de um único som não é harmonia. sobre o princípio de Heráclito: "O um. que num está contido seu outro . Dela faz parte não apenas o surgir. Sexto observa: Heráclito parte. por exemplo. pois que a harmonia se formaria de altos e baixos. reconhece um no outro. gerado seu Filho. a razão.a falta de movimento. critique o fato de a harmonia ser desarmônica ou se componha de opostos. Da harmonia faz parte a diferença.o todo se torna parte e a parte o é para se tornar o todo -. o absoluto deve ser determinado como o devir. a atividade de dirimir-se. o devir é e também não é". que fala no Banquete. este devir é o princípio. do pleno. Tomamos nós o ente em si e para si. agora mesmo. Isto está na expressão: "O ser é tão pouco como o não-ser. também Heráclito concebeu as oposições de maneira mais determinada. Deixa então que Erixímaco. e os que sofrem de icterícia que é amargo . É uma grande convicção que se adquiriu. assim o puro ser é o pensamento simples. Este um não é o abstrato. e o não-ser é. Este verdadeiro é o processo do devir. vemos o infinito como tal expresso como conceito e essência: o infinito. Mas isto não contradiz Heráclito. princípio. "o que concorda e o dissonante". como. o "que se une e se opõe". ninguém negará que os sãos dizem do mel que é doce. O simples. ser e não-ser. Com isto está preenchido o vazio que Aristóteles apontou nas antigas filosofias . a substância é o todo e a parte. mas. também é o primeiro concreto. isto é a verdade da identidade de ambos. numa forma bem imediata e universal. etc. Heráclito expressou de modo determinado este pôr-se numa unidade das diferenças. É isto que Heráclito expressou com suas sentenças. Heráclito diz: Tudo é devir. As determinações absolutamente opostas estão ligadas numa unidade. o objetivo somente é o devir subjetivo. é a unidade dos opostos e. por isso é o ser. quando se reconheceu que o ser e o nada são abstrações sem verdade. Zenão começa a sobressumir os predicados opostos e aponta no movimento aquilo que se opõe . Primeiro tivemos a abstração de ser e não-ser. a primeira unidade de determinações opostas. é preciso que haja essencial e absolutamente uma diferença. diferenciado de si mesmo. como os céticos. o absolutamente negativo . Zenão só exprimiu o infinito pelo seu lado negativo -. O não ser é. une-se consigo mesmo" . O fato de Deus ter criado o mundo Ter-se dividido a si mesmo.e assim o todo. nela temos o ser e também o não-ser. Estas estão inquietas nesta relação. é ainda abstrato. e de que de tudo (que se opõe) resulta um. não a representação do ente.ser e não-ser ligam-se ao mesmo. mas é também o mesmo que o todo é. ser é o primeiro pensamento enquanto imediato. Aristóteles diz.nada é o mesmo.se fosse apenas doce.

Na harmonia e no pensamento concordamos que seja assim. é. mas a água enquanto se transforma. De maneira alguma podia Heráclito afirmar. mas de tal maneira que também possam ser unidos . a água. a unidade essencial. pensamos a mudança. agora este. disse que o tempo é o primeiro ser corpóreo. o tempo é o primeiro que se oferece como o devir. e nisto reside sua identidade. A subjetividade é o outro da objetividade. sem outra determinação . Mas. Sua essência é ser e não-ser. porém. para o entendimento que segura para si o ser. Na medida em que Heráclito não parou na expressão lógica do devir.Processo abstrato. poderia dar motivos para mal-entendidos. que a água ou o ar ou coisa semelhante seria a essência absoluta. para o ser. nesta expressão em conceitos. Não como se o tempo fosse e não fosse. visto de maneira objetiva.ser puro e abstrato não-ser. está logo destruído. mesmo o tempo é citado. Os céticos escolhiam muitas vezes as expressões mais grosseiras ou tornavam os pensamentos grosseiros para mais facilmente liquidálos. e não o podia afirmar como um primeiro donde emanaria o outro. Enquanto intuído. A. do mesmo modo. pois ele é. mas além desta forma universal. e isto é. o real e o ideal. deduz-se disto que primeiro tinha que oferecer-se a forma do tempo. é incluído ainda na Escola Jônica. diz que ele é o primeiro ser sensível. pois as testemunhas são as melhores. é a primeira forma do devir. o não-ser. cada particular seja diferente de um outro . Da harmonia faz parte determinada oposição. O tempo é puro transformar-se. deve ser seu outro. na medida em que pensou ser como idêntico como o não-ser ou no conceito infinito. como Aristóteles e Sexto Empírico. no sensível. postos imediatamente numa unidade e ao mesmo tempo separados. o tempo é a intuição abstrata do processo.esta mudança de ser para não-ser. pode parecer obscuro. por exemplo. O tempo. enquanto é para nós. A maioria diz que ele teria posto a essência ontológica como fogo. chamar a atenção para estas diferenças e contradições. sem. O essencial é que cada diferente. . A questão é a seguinte: Como compreender esta diversidade? Não se deve absolutamente crer que se deva atribuir estas notícias à negligência dos escritores. esta mostra-se mais para uma análise superficial. deu à sua idéia também uma expressão real. não estão de acordo entre si. Assim. para não ser. assim cada coisa é o outro do outro enquanto seu outro. na qual expôs seu princípio. mas de seu outro. este e o outro. e com isto deu novos impulsos à filosofia da natureza. como nas harmonia das cores. vemos. pois precisamente. como Tales.não devir outro. Heráclito. Assim também no caso dos sons. um ser. que é harmônico a partir de absolutamente opostos. na confusão de seu modo de expressão. em sua exposição. No tempo não é o passado e o futuro. ou apenas o processo. Se tivéssemos de 16 . devem ser diferentes. mas o tempo é isto: no ser imediatamente nãoser e no não-ser imediatamente ser . Esta figura pura é precipuamente de natureza cosmológica. o subjetivo e objetivo. somente o agora. como o primeiro ser do ente. Sobre esta forma real de seu princípio os historiadores.e este não-ser passa. relação de ambos a um.mas não de um abstrato qualquer outro.Os Modos da Realidade Heráclito não ficou parado. o qual. no conceito profundo de Heráclito acha-se a verdadeira saída deste empecilho. outros dizem que antes o vapor que o ar. no entanto. no que se pode ver. O espírito relaciona-se na consciência com o sensível e este sensível é seu outro.o absurdo disto logo se mostra -. o tempo é o puro devir.e isto os sons são em si. que não falam destas formas de passagem. mas de modo bem determinado. e este é. depois aquele. este conceito abstrato. o simples. 2. na medida em que seu outro em si esteja consigo. mas é especulativo. portanto. cada um apenas é. como exprime Sexto. mas deu a seu princípio a forma de um ente. tempo. passado . esta dificuldade desaparece. É a abstrata contemplação desta mudança. em Sexto. "Corpóreo" significa sensibilidade abstrata. seu oposto. não de um pedaço de papel . contudo. a essência absoluta que é não pode surgir nele como uma determinidade existente. considerando mais detidamente. portanto. ou sua forma é mais a forma natural. Uma outra razão mais próxima parece-nos resultar da obscuridade do escrito de Heráclito. Mudança é unidade. é o puro conceito.4 . sempre obscuro. no puro lógico. por isso. Este é o grande princípio de Heráclito. "Corpóreo" é uma expressão inadequada. outros dizem que como ar.harmonia é precisamente o absoluto devir. portanto. em seu conceito. é a essência verdadeira. transformar-se .

dizer como aquilo que Heráclito reconheceu como a essência existe para a consciência, nesta pura forma em que ele o reconheceu, não haveria outra que nomear a não ser o tempo; é, por conseguinte, absolutamente certo que a primeira forma do que devém é o tempo; assim isto se liga ao princípio do pensamento de Heráclito. B. - A forma real como processo, fogo. Mas este puro conceito objetivo deve realizar-se mais. No tempo estão os momentos, ser e não-ser, postos apenas negativamente ou como momentos que imediatamente desaparecem. Além disso, Heráclito determinou o processo de um modo mais físico. O tempo é intuição, mas inteiramente abstrata. Se quisermos representar-nos o que ele é, de modo real, isto é, expressar ambos os momentos como uma totalidade para si, como subsistente, então levanta-se a questão: que ser físico corresponde a esta determinação? O tempo, dotado de tais momentos, é o processo; compreender a natureza significa apresentá-la como processo. Este é o elemento verdadeiro de Heráclito e o verdadeiro conceito; por isso, logo compreendemos que Heráclito não podia dizer que a essência é o ar ou a água ou coisas semelhantes, pois eles mesmos não são (isto é o próximo) o processo. O fogo, porém, é o processo: assim afirmou o fogo como a primeira essência - e este é o modo real do processo heracliteano, a alma e a substância do processo da natureza. Justamente no processo distinguem-se os momentos, como no movimento: 1. o puro momento negativo, 2. os momentos da oposição subsistente, água e ar, e 3. a totalidade em repouso, a terra. A vida da natureza é o processo destes momentos: a divisão da totalidade em repouso da terra na oposição, o pôr desta oposição, destes momentos - e a unidade negativa, o retorno para a unidade, o queimar da oposição subsistente. O fogo é o tempo físico; ele é esta absoluta inquietude, absoluta dissolução do que persiste - o desaparecer de outros, mas também de si mesmo; ele não é permanente. Por isso compreendemos (é inteiramente conseqüente) por que Heráclito pode nomear o fogo como o conceito do processo de sua determinação fundamental. C. - O fogo está agora mais precisamente determinado, mais explicitado como processo real; ele é para si o processo real, sua realidade é o processo todo no qual, então, os momentos são determinados mais exata e concretamente. O fogo, enquanto o metamorfosear-se das coisas corpóreas, é mudança, transformação do determinado, evaporação, transformação em fumaça; pois ele é, no processo, o momento abstrato do mesmo, não tanto o ar como antes a evaporação. Para este processo Heráclito utilizou uma palavra muito singular: evaporação (anathymíasis) (fumaça, vapores do sol); evaporação é aqui apenas a significação superficial - é mais: passagem. Sob este ponto de vista, Aristóteles diz de Heráclito que, segundo sua exposição, o princípio era a alma, por ser ela a evaporação, o emergir de tudo, e este evaporar-se, devir, seria o incorpóreo e sempre fluído. As determinações mais próximas deste processo real são, em parte, falhas e contraditórias. Sob este ponto de vista, afirma-se, em algumas notícias, que Heráclito teria determinado o processo assim: "As formas (mudanças) do fogo são, primeiro, o mar e, então, a metade disto, terra, e a outra metade, o raio" - o fogo em sua eclosão. Este é universal e muito obscuro. A natureza é assim esse círculo. Neste sentido ouvimo-lo dizer: "Nem um deus nem um homem fabricou o universo mas sempre foi e é e será um fogo sempre vivo, que segundo suas próprias leis (métro) se acende e se apaga.". Compreendemos o que Aristóteles cita, que o princípio é a alma, por ser a evaporação, este processo do mundo que a si mesmo se move; o fogo é a alma. No que se refere ao fato de Heráclito afirmar que o fogo é vivificante, a alma, encontra-se uma expressão que pode parecer bizarra, isto é, que a alma mais seca é a melhor. Nós certamente não tomamos a alma mais molhada como a melhor, mas, pelo contrário, a mais viva; seco quer dizer aqui cheio de fogo: assim a alma mais seca é o fogo puro, e este não é a negação do vivo, mas a própria vida. Para retornar a Heráclito: ele é aquele que primeiro expressou a natureza do infinito e que compreendeu a natureza como sendo em si infinita, isto é, sua essência como processo. É a partir dele que se deve datar o começo da existência da Filosofia; ele é a idéia permanente, que é a mesma em todos os filósofos até os dias de hoje, assim como foi a idéia de Platão e Aristóteles.

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"Os homens são deuses mortais e os deuses, homens imortais; viver é-lhes morte e morrer é-lhes vida". "Nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos".

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3 - PITÁGORAS DE SAMOS
Pitágoras, o fundador da escola pitagórica, nasceu em Samos pelos anos 571-70 a.C. Em 532-31 foi para a Itália, na Magna Grécia, e fundou em Crotona, colônia grega, uma associação científicoético-política, que foi o centro de irradiação da escola e encontrou partidários entre os gregos da Itália meridional e da Sicília. Pitágoras aspirava - e também conseguiu - a fazer com que a educação ética da escola se ampliasse e se tornasse reforma política; isto, porém, levantou oposições contra ele e foi constrangido a deixar Crotona, mudando-se para Metaponto, aí morrendo provavelmente em 497-96 a.C. Segundo o pitagorismo, a essência, o princípio essencial de que são compostas todas as coisas, é o número, ou seja, as relações matemáticas. Os pitagóricos, não distinguindo ainda bem forma, lei e matéria, substância das coisas, consideraram o número como sendo a união de um e outro elemento. Da racional concepção de que tudo é regulado segundo relações numéricas, passa-se à visão fantástica de que o número seja a essência das coisas. Mas, achada a substância una e imutável das coisas, os pitagóricos se acham em dificuldades para explicar a multiplicidade e o vir-a-ser, precisamente mediante o uno e o imutável. E julgam poder explicar a variedade do mundo mediante o concurso dos opostos, que são - segundo os pitagóricos o ilimitado e o limitado, ou seja, o par e o ímpar, o imperfeito e o perfeito. O número divide-se em par, que não põe limites à divisão por dois, e, por conseguinte, é ilimitado (quer dizer, imperfeito, segundo a concepção grega, a qual via a perfeição na determinação); e ímpar, que põe limites à divisão por dois e, portanto, é limitado, determinado, perfeito. Os elementos constitutivos de cada coisa - sendo cada coisa número - são o par e o ímpar, o ilimitado e o limitado, o pior e o melhor. Radical oposição esta, que explicaria o vir-a-ser e o múltiplice, que seriam reconduzidos à concordância e à unidade pela fundamental harmonia (matemática), que governa e deve governar o mundo material e moral, astronômico e sonoro. Como a filosofia da natureza, assim a astronomia pitagórica representa um progresso sobre a jônica. De fato, os pitagóricos afirmaram a esfericidade da Terra e dos demais corpos celestes, bem como a rotação da Terra, explicando assim o dia e a noite; e afirmaram também a revolução dos corpos celestes em torno de um foco central, que não se deve confundir com o Sol. Pelo que diz respeito à moral, enfim, dominam no pitagorismo o conceito de harmonia, logicamente conexo com a filosofia pitagórica, e as práticas ascéticas e abstinenciais, com relação à metempsicose e à reincarnação das almas. Para compreendermos seus princípios fundamentais, é preciso partir do eleatismo. Como é possível uma pluralidade? Pelo fato de o não-ser ter um ser. Portanto, identificam o não-ser ao Ápeiron de Anaximandro, ao absolutamente Indeterminado, àquilo que não tem nenhuma qualidade; a isso opõe-se o absolutamente Determinado, o Péras. Mas ambos compõem o Uno, do qual se pode dizer que é impar, delimitado e ilimitado, inqualificado e qualificado. Dizem, pois, contra o eleatismo, que, se o Uno existe, foi em todo caso formado por dois princípios, pois, nesse caso, há também uma pluralidade; da unidade procede a série dos números aritméticos (monádicos), depois os números geométricos ou grandezas (formas espaciais). Portanto, a Unidade veio a ser; portanto, há também uma pluralidade. Desde que se têm o ponto, a linha, as superfícies e os corpos, têm-se também os objetos materiais; o número é a essência própria das coisas. Os eleatas dizem: "Não há não-ser, logo, tudo é uma unidade". Os pitagóricos: "A própria unidade é o resultado de um ser e de um não-ser, portanto há, em todo caso, não-ser e, portanto, também uma pluralidade". À primeira vista, é uma especulação totalmente insólita. O ponto de partida me parece ser a apologia da ciência matemática contra o eleatismo. Lembramo-nos da dialética de Parmênides. Nela, é dito da Unidade (supondo que não existe pluralidade): 1) que ela não tem partes e não é um 19

todo; 2) que tampouco tem limites; 3) portanto, que não está em parte nenhuma; 4) que não pode nem mover-se nem estar em repouso, etc. Mas, por outro lado, o Ser e a Unidade dão a Unidade existente, portanto a diversidade, e as partes múltiplas, e o número, e a pluralidade do ser, e a delimitação, etc. É um procedimento análogo: ataca-se o conceito da Unidade existente porque comporta os predicados contraditórios e é, portanto, um conceito contraditório, impossível. Os matemáticos pitagóricos acreditavam na realidade das leis que haviam descoberto; bastava-lhes que fosse afirmada a existência da Unidade para deduzir dela também a pluralidade. E acreditavam discernir a essência verdadeira das coisas em suas relações numéricas. Portanto, não há qualidades, não há nada além de quantidades, não quantidades de elementos (água, fogo, etc.), mas delimitações do ilimitado, do Ápeiron; este é análogo ao ser potencial da hyle de Aristóteles. Assim, toda coisa nasce de dois fatores opostos. De novo, aqui, dualismo. Notável quadro estabelecido por Aristóteles (Metaf. I, 5): delimitado, ilimitado; ímpar, par; uno, múltiplo; direita, esquerda; masculino, feminino; imóvel, agitado; reto, curvo; luz, trevas; bom, mau; quadrado, ablongo. De um lado têmse, portanto: delimitado, ímpar, uno, direita, masculino, imóvel, reto, luz, bom, quadrado. De outro lado, ilimitado, par, múltiplo, esquerda, feminino, agitado, curvo, trevas, mau, ablongo. Isso lembra o quadro-modelo de Parmênides. O ser é luz e, portanto, sutil, quente, ativo; o não-ser é noite e, portanto, denso, frio, passivo. O ponto de partida que permite afirmar que tudo o que é qualitativo é quantitativo encontra-se na acústica. [Teoria das cordas sonoras; relação de intervalos; modo dórico.] A música, com efeito, é o melhor exemplo do que queriam dizer os pitagóricos. A música, como tal, só existe em nossos nervos e em nosso cérebro; fora de nós ou em si mesma (no sentido de Locke), compõe-se somente das relações numéricas quanto ao ritmo, se se trata de sua quantidade, e quanto à tonalidade, se se trata de sua qualidade, conforme se considere o elemento harmônico ou o elemento rítmico. No mesmo sentido, poder-se-ia exprimir o ser do universo, do qual a música é, pelo menos em certo sentido, a imagem, exclusivamente com o auxílio de números. E tal é, estritamente, o domínio da química e das ciências naturais. Trata-se de encontrar fórmulas matemáticas para as forças absolutamente impenetráveis. Nossa ciência é, nesse sentido, pitagórica. Na química, temos uma mistura de atomismo e de pitagorismo, para a qual Ecphantus na Antiguidade passa por ter aberto o caminho. A contribuição original dos pitagóricos é, pois, uma invenção extremamente importante: a significação do número e, portanto, a possibilidade de uma investigação exata em física. Nos outros sistemas de física, tratava-se sempre de elementos e de sua combinação. As qualidades nasciam por combinação ou por dissociação; agora, enfim, afirma-se que as qualidades residem na diversidade das proporções. Mas esse presentimento estava ainda longe da aplicação exata. Contentou-se, provisoriamente, com analogias fantasiosas. [Simbolismo dos números pitagóricos: um é a razão, dois a opinião, quatro a justiça, cinco o casamento, dez a perfeição, etc.; um é o ponto, dois é a linha, três a superfície, quatro o volume. Cosmogonia. O Universo e os planetas esféricos. A harmonia das esferas.] Se se pergunta a que se pode vincular a filosofia pitagórica, encontra-se, inicialmente, o primeiro sistema de Parmênides, que fazia nascer todas as coisas de uma dualidade; depois, o Ápeiron de Anaximandro, delimitado e movido pelo fogo de Heráclito. Mas estes são apenas, evidentemente, problemas secundários; na origem há a descoberta das analogias numéricas no universo, ponto de vista inteiramente novo. Para defender essa idéia contra a doutrina unitária dos eleatas, tiveram de erigir a noção de número, foi preciso que também a Unidade tivesse vindo a ser; retomaram então a idéia heraclitiana do pólemos, pai de todas as coisas, e da Harmonia que une as qualidades opostas; 20

a essa força, Parmênides chamava Aphrodite. Simbolizava a gênese de todas as coisas a partir da oitava. Decompuseram os dois elementos de que nasce o número em par e ímpar. Identificaram essas noções com termos filosóficos já usuais. Chamar o Ápeiron de Par é sua grande inovação; isso porque os ímpares, os gnómones, davam nascimento a uma série limitada de números, os números quadrados. Remetem-se, assim, a Anaximandro, que reaparece aqui pela última vez. Mas identificam esse limite com o fogo de Heráclito, cuja tarefa é, agora, dissolver o indeterminado em tantas relações numéricas determinadas; é essencialmente uma força calculadora. Se houvessem tomado emprestado de Heráclito a palavra lógos, teriam entendido por ela a proporção (aquilo que fixa as proporções, como o Péras fixa o limite). Sua idéia fundamental é esta: a matéria, que é representada inteiramente destituída de qualidade, somente por relações numéricas adquire tal ou tal qualidade determinada. Tal é a resposta dada ao problema de Anaximandro. O vir-a-ser é um cálculo. Isso lembra a palavra de Leibniz, ao dizer que a música é "exercitium arithmeticae occultum nescientis se numerare animi" (¹). Os pitagóricos teriam podido dizer o mesmo do universo, mas sem poder dizer quem faz o cálculo. (¹) O exercício de aritmética oculto do espírito que não sabe calcular. 3.1 - Notas Biográficas sobre Pitágoras A doutrina e a vida de Pitágoras, desde os tempos da antiguidade, jazem envoltas num véu de mistério. A força mística do grande filósofo e reformador religioso, há 2.600 anos vem, poderosamente, influindo no pensamento Ocidental. Dentre as religiões de mistérios, de caráter iniciático, a doutrina pitagórica foi a que mais se difundiu na antiguidade. Não consideramos apenas lenda o que se escreveu sobre essa vida maravilhosa, porque há, nessas descrições, sem dúvida, muito de histórico do que é fruto da imaginação e da cooperação ficcional dos que se dedicaram a descrever a vida do famoso filósofo de Samos. O fato de negar-se, peremptoriamente, a historicidade de Pitágoras (como alguns o fazem), por não se ter às mãos documentação bastante, não impede que seja o pitagorismo uma realidade empolgante na história da filosofia, cuja influência atravessa os séculos até nossos dias. Acontece com Pitágoras o que aconteceu com Shakespeare, cuja existência foi tantas vezes negada. Se não existiu Pitágoras de Samos, houve com certeza alguém que construiu essa doutrina, e que, por casualidade, chamava-se Pitágoras. Podemos assim parafrasear o que foi dito quanto a Shakespeare. Mas, pondo de lado esses escrúpulos ingênuos de certos autores, que preferem declará-lo como não existente, como se houvesse maior validez na negação da sua historicidade do que na sua afirmação, vamos a seguir relatar algo, sinteticamente, em torno dessa lenda. Em 1917, perto de Porta Maggiori, sob os trilhos da estrada de ferro, que liga Roma a Nápoles, foi descoberta uma cripta, que se julgou a princípio fosse a porta de uma capela cristã subterrânea. Posteriormente verificou-se que se tratava de uma construção realizada nos tempos de Cláudio, por volta de 41 a 54 d.C., e que nada mais era do que um templo, onde se reuniam os membros de uma seita misteriosa, que, afinal, averigou-se ser pitagórica. Sabe-se hoje, com base histórica, que antes, já em tempos de César, proliferavam os templos pitagóricos, e se essa seita foi tão combatida, devese mais ao fato de ser secreta do que propriamente por suas idéias. Numa obra, hoje cara aos pitagóricos, Carcopino (La Brasilique pythagoricienne de la Porte Majeure) dá-nos um amplo relato desse templo. E foi inegavelmente essa descoberta tão importante que impulsionou novos estudos, que se realizaram sobre a doutrina de Pitágoras, os quais tendem a mostrar o grande papel que exerceu na história, durante vinte e cinco séculos, essa ordem, que ainda existe e tem seus 21

porque aí é que funda o seu famoso Instituto. enquanto outros afirmam que conseguiu fugir. combatido pelos democratas de então. ademais. ainda. em todas as fontes que nos relatam a vida de Pitágoras. recomendado ao faraó Amom. tomando um rumo que permaneceu ignorado. foi iniciado nos mistérios egípcios. Foi em sua viagem a essa metrópole da Antiguidade. em sua juventude. "Com ordem e com tempo encontra-se o segredo de fazer tudo e tudo fazer bem". Dióspolis e Heliópolis. Zoroastro (Zaratustra). ou seja. que desde criança se revelava prodigioso. Inúmeras são as divergências sobre a verdadeira nacionalidade de Pitágoras. Os historiadores mostram que um dos fatores concorreram para esse fenômeno foi a linha política adotada. depois da derrota da liga crotoniata. tendo. É aceito quase sem divergência por todos que se debruçaram a estudar a sua vida. natural de Tiro. o que fez o sábio exilar-se na Magna Grécia (Itália). o assírio Zaratustra ou Zoroastro. porém. tendo voltado para Samos já com a idade de 56 anos. uma revivescência da vida religiosa.seguidores. em nossos dias. Suas lições atraíram-lhe muitos discípulos. posteriormente. onde. Segundo as melhores fontes. esta sacerdotiza vaticinou-lhe um grande papel. segundo uns. Observa-se. Relata a lenda que Pitágoras. Consta que Pitágoras. fundou o seu famoso Instituto. era filho de Menesarco e de Partêmis. que Pitágoras nasceu em Samos. tendo desaparecido quando do famoso massacre de Metaponto. inúmeras viagens e peregrinações. Afirma-se. e ouvinte das conferências de Anaximandro. desvirtuam o pensamento genuíno de Pitágoras de Samos. que este realizou. que realizou um retiro no Monte Carmelo e na Caldéia. pereceu Pitágoras. para garantir seu papel de líderes populares e para 22 . um sacerdote egípcio. nos santuários de Mênfis. em algumas regiões do mundo grego.O Pitagorismo Durante o século VI a. entre 592 a 570 antes da nossa era. outros. o qual. relata-se que esteve em contato com os órficos. pois uns afirmam ter sido ele de origem egípcia. A sociedade pitagórica continuou após a sua morte. ou Pythaia. conhecido Zaratos. cujo nome significa o Anunciador pítico (Pythios). Confúcio e Lao Tsé. Mas é na Itália que desempenha um papel extraordinário. a inimizade de Policrates. (Pitágoras) 3. irremediavelmente infectada de idéias estranhas que. a lenda que o hierofante Adonai aconselhou-o a ir ao Egito. tendo sido daí conduzido para a Babilônia. Antes de sua localização na Magna Grécia. e freqüentou as aulas ministradas por famosos mestres de então. levado o filho à Pítia de Delfos.2 . junto com os seus mais amados discípulos. também. afirma-se. Pitágoras deve ter falecido entre 510 e 480. como já esteve no passado. embora esteja. que conheceu o pensamento das antigas religiões do Oriente. verificou-se. onde. quando de sua estada nessa grande metrópole da antiguidade. em Babilônia. Tendo esta. certa vez.C. já em decadência. também. Foi depois discípulo de Sonchi. naquele mesmo século em que surgiram tantos grandes condutores de povos e criadores de religiões. então tirano de Samos. aluno de Tales. quando foi feito prisioneiro pelas tropas de Cambísis. ainda. em Crotona. tendo sido. depois Ferécides de Siros. síria ou. em seu incêndio. teve como primeiros mestres a Hermodamas de Samos até os 18 anos. o que levou a mãe a devotar-se com o máximo carinho à sua educação. mas provocaram. como foi Gautama Buda. Conta-nos. contando-nos a lenda que. no Peloponeso. pelos tiranos. foi finalmente destruído. ao nosso ver. em geral. tendo então conhecido a famosa sacerdotisa Teocléia de Delfos. em Mileto.

que. contudo. será qualificada como uma "harmonia". já que ela foi objeto de uma série de relatos tardios e fantasiosos. mas não a carregues". Da vida de Pitágoras quase nada pode ser afirmado com certeza. sustentada pela ordem e pela proporção. e que passou a constituir o núcleo da religião órfica.4 . ou seja. o pitagorismo pressupunha uma identidade fundamental.entre a alma ignea e imortal e os corpos perecíveis através dos quais ela realizava sua purificação. originário da Trácia.enfraquecer a antiga aristocracia . porque basicamente intelectual. Parece certo. recolhe. Partindo de idéias órficas. fugindo à tirania de Polícrates. 23 . na transmigração da alma através de vários corpos. e que se manifesta como beleza. Os órficos acreditavam na imortalidade da alma e na metempsicose. de natureza divina. os tiranos favoreciam a expansão de cultos populares ou estrangeiros. descobriu que há uma dependência do som em relação à extensão. A purificação resultaria do trabalho intelectual. teria sido antes de mais nada um reformador religioso. Pitágoras teria chegado à concepção de que todas as coisas são números através inclusive de uma observação no campo musical: verificou no monocórdio que o som produzido varia de acordo com a extensão da corda sonora. entre todos os seres. o homem necessitaria da ajuda de Dioniso. deus libertador que completava a libertação preparada pelas práticas catárticas (entre as quais se incluía a abstinência de certos alimentos). que primeiro teria recebido a revelação de certos mistérios e os teria confiado a iniciados sob a forma de poemas musicais .o mal seja entendido sempre como desarmonia.A Pátria Estelar Dentre as religiões de mistério. sobretudo. "Ajuda teus semelhantes a levantar sua carga.que se supunha descendente dos deuses protetores das polis. por sua própria natureza. como os referentes às suas viagens e a seus contatos com culturas orientais.3 . O que fala. Para libertar-se. Essa similitude profunda entre os vários existentes era sentida pelo homem sob a forma de um "acordo com a natureza". das divindades "oficiais" -. (Pitágoras) 3. entendido como unidade harmônica. Pitágoras criou um sistema global de doutrinas. a fim de efetivar sua purificação. pois realizou uma modificação fundamental na doutrina órfica. O orfismo . assim. (tão importante como propiciadora de vivências religiosas estáticas) em relação à matemática. que ele teria deixado Samos (na Jônia). de caráter iniciático. transformando o sentido da "via de salvação". da música. A grande novidade introduzida certamente pelo próprio Pitágoras na religiosidade órfica foi a transformação do processo de libertação da alma num esforço puramente humano. A religião órfica pressupunha. semeia .não só de natureza como também de valor . Natural que dentro de tal concepção . uma distinção . porém. cuja finalidade era descobrir a harmonia que preside à constituição do cosmo e traçar. de onde caíra. as regras da vida individual e do governo das cidades.o que escuta. garantida pela presença do divino em tudo. transferindo-se para Crotona (na Magna Grécia) fundou uma confraria científico-religiosa. a retornar à sua pátria celeste. (Pitágoras) 3.vista por alguns autores como o fundamento do "mito helênico" .era uma religião essencialmente esotérica. portanto. que descobre a estrutura numérica das coisas e torna. às estrelas. de acordo com ela. do ciclo das reincarnações.de Orfeu.C. que se tornou figura legendária na própria Antiguidade. A alma aspiraria. a alma semelhante ao cosmo. na segunda metade do século VI a.Salvação pela Matemática Pitágoras de Samos. em lugar do deus Dioniso colocou a matemática. depois do pitagórico Filolau. uma teve enorme difusão: o culto de Dioniso. Ou seja.

portanto .que descreve o cenário cósmico. vivo. Estes não seriam. usadas pelos gregos e depois pelos romanos. onde se processa a purificação da alma . Sua astronomia. (Pitágoras) 1 . enquanto o quatro produz o volume. bastavam para justificar o que há de essencial no universo: o um é o ponto.5 . quando os pitagóricos falam que as coisas imitam os números estariam entendendo essa imitação (mimesis) num sentido realista: as coisas manifestariam externamente a estrutura numérica inerente. como V¯ ². mínimo de corpo. Assim.e em grande parte por causa deles . O "escândalo" dos irracionais manifestava-se no próprio teorema de Pitágoras (o quadrado construído sobre a hipotenusa é igual a soma dos quadrados construídos sobre os catetos)."Todas as coisas são números". quanto na base mesma da matemática. a associar intimamente os aspectos numéricos e geométricos. surgem grandezas inexprimíveis naquela concepção de número. Segundo a cosmologia pitagórica . Com efeito. Pensem o que quiserem de ti. o Número A partir do próprio Pitágoras. Ou então. pressupondo o universo harmonicamente constituído por astros que desenvolvem trajetórias. a hipotenusa seria igual a V¯ ². presos a esferas homocêntricas. inalaria o ar infinito (pneuma ápeiron) em que estaria imerso. estreitamente vinculada à sua religião astral foi o ponto de partida das várias doutrinas que os gregos formulariam. O principal impasse enfrentado por essa aritmogeometria baseada em inteiros (já que as unidades seriam indivisíveis) foi o levantado pelos números irracionais.o pensamento pitagórico evoluiu e expandiu-se. o pitagorismo primitivo concebe a extensão como descontínua: constituída por unidades indivisíveis e separadas por um "intervalo". às concepções musicais também desenvolvidas pela escola: separadas 24 . Assim. a relação entre o lado e a diagonal do quadrado (que é a da hipotenusa do triângulo retângulo isósceles com o cateto) tornava-se "irracional". unidade de extensão.Em Todas as Coisas. no pitagorismo. De acordo com essa concepção. tentativas de reformulação. são essências realizadas (usando-se um vocabulário filosófico posterior). A representação figurada permitia explicitar a lei de composição dos números e torna-se um fator de avanço das investigações matemáticas dos pitagóricos. em substituição às representações literais mais arcaicas. faze aquilo que te parece justo. são entidades corpóreas constituídas por unidades contíguas e a prenunciar os átomos de Leucipo e Demócrito. os pitagóricos adotaram uma representação figurada dos números.como virão a ser mais tarde -. Mínimo de extensão e mínimo de corpo. desde que se atribuísse valor 1 ao cateto de um triângulo isósceles. (Pitágoras) 3. o que se evidenciava pelo aparecimento na tradução aritmética da relação entre elas. são a própria "alma das coisas". meros símbolos a exprimir o valor das grandezas: para os pitagóricos. influenciando praticamente todo o desenvolvimento da ciência e da filosofia gregas. quando se pressupunha que os valores correspondentes à hipotenusa e aos catetos eram números primos entre si. Já por sua própria notação figurativa evidencia-se que a primitiva matemática pitagórica constitui uma aritmo-geometria. Apesar desses impasses . representados figurativamente. Tanto na relação entre certos valores musicais (expressos matematicamente). Os primeiros números. os números são reais. acabava-se por se concluir pelo absurdo de que um deles não era afinal nem par nem ímpar. o dois determina a linha. a quantidade e sua expressão espacial. de valores sem possibilidade de determinação exaustiva. aquelas linhas não apresentavam "razão comum" ou "comum medida". o três gera a superfície.esse "intervalo" resultaria da respiração do universo que. Essa geometrização do cosmo estava aliada. as unidades comporiam os números.O Escândalo dos "Irracionais" A primitiva concepção pitagórica de número apresentava limitações que logo exigiriam dos próprios pitagóricos.

por intervalos equivalentes aos intervalos musicais. seria a própria tessitura do que o homem considera "silêncio". aquelas esferas produziram. Educai as crianças e não será preciso punir os homens. sons de acorde perfeito. permanentemente soante. Essa "harmonia das esferas". (Pitágoras) 25 . em seu movimento.

Outros narram que ele teria ferrado os dentes em seu nariz. e aquilo que é surgir e desaparecer cai fora". que os momentos e as 26 . segurando-o assim. o fez torturar de todos os modos. Considerado criador da dialética (entendida como argumentação combativa ou erística). 1) Segundo seu elemento tético. também descobrimos tal afirmar e sobressumir daquilo que o contradiz. pelo contrário. Dessa maneira. Outros ainda dizem que. Também Zenão era um eleata. é o nada para ela. Atribuiu-se-lhe orgulhosa auto-suficiência. em seu conteúdo. Explicação Crítica de Empédocles. Parmênides afirmou: "O universo é imutável. pois na mudança seria posto o não-ser daquilo que é. diz: "Afirmai vossa mudança: nela enquanto mudança. Seu pai verdadeiro chamava-se Teleutágoras. A característica de Zenão é a dialética. a filosofia de Zenão é. chamando então o tirano mesmo a peste do Estado. dando leis à sua pátria. Zenão erigiu-se em defensor de seu mestre. diante de seu povo. Quando o tirano.C. Ele é o mestre da Escola Eleática. porém. contínuo e indivisível de Parmênides contra o ser múltiplo. esta sido traída. para lhe mostrar que dele nada arrancaria. Em Zenão.1 . interveio na política. perdeu a vida. é o mais jovem e viveu particularmente em convívio com Parmênides. descontínuo e divisível dos pitagóricos.4 . mas não o vemos. pelo fato de (exceto sua viagem a Atenas) ter sua residência fixa em Eléia. Nisto consistia o movimento determinado. tranqüila em si mesma. tendo suas respostas sido seguidas de enormes torturas. pelo contrário. no entanto. as poderosas admoestações ou também as torturas horríveis e a morte de Zenão ergueram os cidadãos e levantaram-lhes o ânimo. Em sua vida não apenas era algo de muito respeito em seu Estado. ele cortou a língua com os próprios dentes e a cuspiu no rosto do tirano. mordendo-lhe. torturado e. para lá colher fama. naquilo que é afirmado como sendo sua destruição. Zenão. Ao contrário de Heráclito. a alma pura da ciência . De modo violento e furioso de sua reação.ZENÃO DE ELÉIA 4. nela seu puro pensamento torna-se o movimento do conceito em si mesmo. a fortaleza de sua alma tornou-se célebre pela sua morte. tendo. ao mesmo tempo. Este o amava muito e o adotou como filho. inteiramente igual à que vimos em Xenófanes e Parmênides. Segundo muitas lendas. Zenão delatou primeiro todos os amigos do tirano como participantes da conjuração.é o iniciador da dialética. e ao perguntar pelos inimigos do Estado. por não revelar o nome dos comparsas. Obras e Pensamento Zenão floresceu cerca de 464/461 a. ou ela não é nada". acabou preso.ela aponta.Vida. não é. negando-se a viver por mais tempo na grande e poderosa Atenas. depois disso teria sido triturado num pilão. Platão o lembra: de Atenas e de outros lugares vinham homens a ele para entregar-se à sua formação. pleno para aquela mudança. no 'não-ser é' se contradizem sujeito e predicado". Tendo conspirado contra a tirania e o tirano (Nearco?). mas também em geral era célebre e muito respeitado como professor. apenas com esta diferença fundamental. Diz-se que ele se postou como se quisesse dizer ainda algo aos ouvidos do tirano. sacrificando da seguinte maneira sua vida: Teria participado de uma conjuração para derrubar o tirano. Defendeu o ser uno. Zenão escreveu várias obras em prosa: Discussões. Ela teria salvo um Estado (não se sabe se sua pátria Eléia ou se Sicília) de seu tirano. para caírem sobre o tirano. Parmênides. Contra os Físicos. Pois até agora só vimos nos eleatas a proposição: "O nada não possui realidade. liquidá-lo e assim libertar-se. Zenão falou e voltou-se contra o movimento como tal ou puro movimento. Sobre a Natureza. é a razão que realiza o começo . Nasceu em Eléia (Itália). mas somente é ser. para arrancar-lhe a confissão dos nomes dos outros conjuradores. contra as críticas dos adversários. começar com esta afirmação. a orelha e cerrando os dentes até ter sido trucidado pelos outros. principalmente os pitagóricos.

por exemplo. portanto.ou não se distingue dele. sem que sua unidade seja concebida como a de diferentes. b) Movido. idêntico a si mesmo e esférico nem ilimitado nem limitado. Em seguida. O ilimitado é o indeterminado. pois não se parece nem com o não-ente nem com o múltiplo. o pior viesse do melhor. Do nada é imediatamente nada. não está nem em repouso nem se movimenta. possui ele a forma esférica. Em tudo isto. as partes de Deus dominariam uma sobre a outra" (uma estaria onde a outra não está. impossíveis. se houvesse mais deuses". pois. "Sendo um. O princípio da identidade lhe serve de fundamento: "O nada é igual ao nada. em tal tipo de raciocínio. ele mesmo. pois. lado a lado. o mais antigo. Como. pois ele é eterno e um." Isto foi denominado panteísmo (spinozismo). este afundar-se no abismo da identidade do entendimento. eles seriam mais poderosos e mais fracos um em face do outro. portanto." Diz ainda: "Já que é eterno." Do fato de nada poder provir. mas assim já é." Assim Zenão também mostra: "O um não se move. não seriam. Aristóteles conclui que. reprimi-la-ia. "Tampouco pode surgir o desigual do desigual. Em Zenão a desigualdade é o outro membro em oposição a igualdade. nem vai para coisa alguma. uma dialética que se pode denominar de raciocínio metafísico. "O um. originar-se-ia o não-ser do ente. ou nada existe fora de Deus. determinado como algo unilateral. "pois teria que surgir ou do igual ou do desigual. desaparece a diferença entre o que produz e aquilo que é produzido. Se. porém. nada pode provir".tal coisa é o ilimitado. b) Dar-se-ia delimitação mútua. e é assim. ele não teria poder sobre eles. Ser é a igualdade expressa como imediata. ele não é nem infinito (ilimitado) nem limitado. que repousaria sobre a proposição ex nihilo nihil fit. pois o igual não é nem pior nem melhor que o igual . é demonstrada a unidade de Deus: "Se Deus é o mais poderoso de tudo. surja" (ele relaciona isto com a divindade). Como Deus é em toda parte igual. então só há um Deus. com a falta de movimento estaria posto o não-ser ou o vazio. o imóvel é negativo. estes diferentes não são expressos como diferentes. pois um dever-se-ia mover para o outro. seria o não-ente. mas em toda parte igual. Este modo. nem em repouso nem em movimento. houvesse mais deuses." Com a aceitação da igualdade. é o não-ente. o que é impossível. até o dia de hoje. "É impossível". se houvesse diversos. quando algo é. nem fim. Deus se comporta assim. não fosse assim. espaço. porém. pelo contrário. uma parte teria determinações que faltariam às outras). portanto. assim não é o ente. "que. igualdade como igualdade pressupõe o movimento do pensamento e a mediação. o negativo. nas assim chamadas demonstrações da 27 .oposições são expressos mais como conceitos e pensamentos. nem uma parte . pois não é aqui assim. Já em seu elemento tético vemos progresso. porém. Vemos. Pois imóvel é a) o não-ente" (no não-ente não se realiza nenhum movimento. deuses. pois se do mais fraco se originasse o mais forte ou do menor o maior ou do pior o melhor. Ser e não-ser situam-se assim. Deus é e se ele é de tal natureza. pressupõe-se uma multiplicidade de tempo. a) ilimitado é o não-ente. ele já está mais avançado no sobressumir das oposições e determinações. Já que os iguais devem ter entre si as mesmas determinações. a supressão do ser. Deus é eterno. a reflexão em si. do ser. nem começo. não seria capaz de tudo o que quisesse. portanto. que dele se produza mais do que deve ser produzido. Em Xenófanes e Parmênides tínhamos ser e nada. "o que é impossível. diz ele. somente é o múltiplo. em toda parte. na medida em que dele houvesse dois ou ainda mais. pois não se pode atribuir. não passa para o ser. vê e possui também. mas como é apenas um. inversamente. o um da Escola Eleática é apenas esta abstração. mas enquanto lhe faltasse o poder sobre os outros não seria Deus. de argumentar é ainda. ser. válido. os outros sentimentos. um e esférico. por conseguinte. pois este não possui nem meio. ou se. ele não é limitado. nem é imóvel. quer do igual quer do desigual. Pois. em outra parte de outro modo. "pois para ele nenhuma outra coisa advém. ouve. ou tudo é eterno. ao igual. Se. portanto. O ser. nem vice-versa. é em toda parte igual. pois faz parte da natureza de Deus não ter acima de si nada mais poderoso. Ambas as coisas são. do igual." Movido só é o que é diferente de outro. então lhe é próprio que seja um.

é. ao menos é quem está em seu começo.conseqüência que. como o nada. os eleatas foram mais conseqüentes. Esta é a maneira comum de nós raciocinarmos. só que nós deixamos valer como ser também o finito. da multiplicidade. ou é negada enquanto finita. mas sem qualquer determinação. Para ir a esta abstração fazemos um outro caminho. que. negando-se predicados. em seu pensamento. A isto vemos ligada uma outra espécie de raciocínio metafísico: são feitas pressuposições. na negação absoluta. enquanto o ser supremo. contudo. o negativo de lado. enquanto algo negativo. O um é o mais poderoso e nisto determinado propriamente como o destruir absoluto. em nossa representação. Isto. e ao nada se atribuem os mesmos predicados que ao ser: o puro ser não é movimento. dizendo que o finito. em seu Parmênides. devendo então. terem mostrado que. no que vimos. Ou também partimos das coisas finitas para as espécies. de outro lado. e então é puramente infinita. o poder de Deus. também o ser em oposição ao não-ser é uma determinação. Em todas estas formas que nos são bem familiares está contida a mesma dificuldade da questão que se levanta no que diz respeito ao pensamento eleático: De onde vem a determinação. porque previu que o ser é o oposto do nada. assim negou ele do um o que deveria dizer-se do nada. O um é igualmente o não dos muitos: tanto no nada como no um. as coisas finitas e a mudança. de um lado temos. uma grande abstração Particularmente digno de nota é o fato de que.o especulativo tem lugar no fato de afirmarem que a mudança não é . como no modo como o infinito se manifesta no finito? Os eleatas distinguem-se. do ser. nosso caminho é trivial e mais óbvio. Do mesmo modo. ela é posta através da negação. É a mesma separação. a mudança apenas se atribui às coisas finitas (isto como que sendo uma proposição empírica). com isto não permanece verdade alguma. não utilizamos a dialética que usa a Escola Eleática. mas apenas o ser para o outro é. Esta dialética mais alta encontramo-la em Platão. também ela finita. algo incompreensível: pois do um. desta maneira. também é determinação. o que os eleatas desprezaram. gêneros. passo a passo. é o nada do movimento. parte em Heráclito e. não ser negada apenas uma determinação. a multiplicidade está sobressumida. nos sofistas. Antes é negado o movimento e a essência absoluta aparece como em repouso. raciocinando-se. e.o lado negativo da dialética. assim como se pressupõe o ser. tanto no um mesmo. já há a consciência mais alta de que uma determinação é negada de que esta negação mesma é novamente uma determinação. e deixamos. Enquanto nós deixamos valer. a realidade do mundo finito. como deve ela ser concebida. então. a partir daí. pois 28 . assim. que deixa o finito de lado. Zenão possui o aspecto importante de ser o descobridor da dialética: se não é ele propriamente. a mudança é em si contradição. ou seja.unidade de Deus. está afastada a determinação do negativo. é apenas afirmativamente. pelo fato de terem posto mãos à obra de maneira especulativa . não menos. 2) Já lembramos que também encontramos a verdadeira dialética objetiva igualmente em Zenão. Mas o mesmo deveria acontecer com o resto. devem ser mantidas afastadas do ser positivo e apenas real. mas ambas as negações que se opõem. e o gênero mais alto é então Deus. Ou passamos do finito para o infinito. avançando até a afirmação de que só o um é e de que o negativo não é . A consciência mais alta é a consciência sobre a nulidade do ser enquanto algo determinado em face do nada. ser-em-si. em Zenão. o descobridor da dialética em sua plenitude. isto se dá. ainda que deva ser por nós admirada. pois o poder é também o não-ser absoluto de um outro. Aqui isto surge apenas referido a algumas determinações não com referência às determinações do um e do ser mesmo. Nós dizemos que Deus é imutável. o vazio. de nosso modo de refletir comum. deve ter seu fundamento no infinito. por exemplo. a certeza da consciência individual e a certeza como refutação . Sendo a essência absoluta posta como o um ou o ser. No que se refere às determinações deve-se observar que elas. assim. a imutabilidade nesta unidade abstrata e absoluta consigo mesma. é determinada como o negativo e. Isto pressentiu Zenão. porém.e pelo fato de. enquanto limitado.

dever-ser. ou o igual (como diz Melisso) é a essência. mas. algo exterior. isto é. o afirmativo que nela se esconde ainda não aparece. onde encontram. pelo contrário. é a consideração imanente do objeto: ele é tomado para si. ele se demonstra a si mesmo. mas a partir da coisa mesma. Eu não devo demonstrar sua não-verdade através de um outro. A dialética verdadeira não deixa nada sobrando em seu objeto. Mas. razões. Diz que combateu aqueles que afirmam o ser do múltiplo. A dialética como tal é a) dialética exterior. antes contra aqueles que procuram tornar ridícula (komodeiñ) a proposição de Parmênides. sua nulidade não aparece nela mesma.ele nega predicados que se opõem. Zenão responde que escreveu isto. Nesta consideração. idéia. A dialética subjetiva. mas ele se dissolve segundo sua natureza inteira. por exemplo. para demonstrar que disto resultariam muito mais coisas discordantes que da proposição de Parmênides. esta somente se suprime através de um outro. De nada ajuda demonstrar meu sistema ou minha proposição e então concluir: portanto. que contenha em si uma contradição. Platão fá-lo falar assim sobre isto: faz Sócrates dizer que Zenão afirma em seu escrito o mesmo que Parmênides. Isto é a determinação mais exata da dialética objetiva. porém. O falso não deve ser apresentado como falso porque o oposto é verdadeiro. A esta dialética verdadeira pode juntar-se o que os eleatas fizeram. de tal modo que apresentaria falhas apenas de um lado. conclui-se. baseando-se em razões exteriores. levar a guerra para território inimigo. b) não é um movimento apenas de nossa intuição. porque não concorda com o meu". que ele é o nulo. No Parmênides de Platão (127-128). eu declaro isto como imediatamente verdadeiro. através dos quais se torna vacilante o que em geral vale como firme. portanto. Como movimento: Verifiquei algo e vejo que é o nulo. A outra dialética. ligação através de mediação. Portanto. esta dialética é muito bem descrita. mostra que possui determinações opostas. Como sempre é o caso quando um sistema filosófico refuta o outro. em que proposições são resultadas da demonstração. é a demonstração o movimento da convicção. Sócrates diz que Parmênides afirma em seu poema que tudo é um: Zenão. A gente se põe inteiramente dentro da coisa. a outra consciência tem razão em afirmar uma outra: coisa como imediatamente verdadeira. o outro sem importância (nulo) (parte-se de uma determinada proposição). Conforme a representação corrente da ciência. sem pressuposições. para esta proposição aquela sempre parecerá algo de estranho. que o múltiplo não é. suprimem com isto essa determinação. Xenófanes. o sistema que se opõe está errado. como a essência. Podem ser então razões bem exteriores. Zenão põem como fundamento a proposição: Nada é nada. Aquela dialética é uma mania de contemplar objetos. não de maneira que se suprima a si mesma. isto é. o oposto. fortalecido. o primeiro sistema é posto como fundamento e a partir dele se entra em debate contra o outro. que raciocina. procurando dar a impressão de que está dizendo algo de novo. através da distinção que faço de que um lado é o verdadeiro. Mas uma outra consciência não verifica aquilo. Nesta dialética não vemos afirmar-se o pensamento simples para si mesmo. eles afirmam um dos predicados que se opõem. isto é. segundo o pressuposto. Eles põem-no fixamente. demonstrei isto. numa determinação. demonstrada para o puro conceito do conteúdo. o negativo. leis. o nada não é. considera o objeto em si mesmo e o toma segundo as determinações que possui. assim. mas em si mesmo. que tudo é um: mas que nos procura enganar com uma expressão. mas ela deve ser considerada também de seu lado positivo. Este lado possui a dialética na consciência de Zenão. quando mostram quantas coisas ridículas e que contradições contra si mesmas resultam de suas afirmações. Vemos despertar esta convicção racional em Zenão. não segundo circunstâncias exteriores. isto é. mas o outro sistema tem o mesmo direito de dizer assim. de neles apontar razões e aspectos. Parmênides. que se suprime (sobressume): esta dialética encontramos precipuamente junto aos antigos. Assim a coisa é facilitada: "O outro sistema não possui verdade. no movimento. mas em si mesmo. este movimento distinto do compreender deste movimento. torna-se norma quando se concede: "No correto está o incorreto e no falso também o verdadeiro". o movimento. O resultado desta dialética é zero. através de minha afirmação. Mas junto a eles ainda não vingou 29 .

que ele é fenômeno. "Ele demonstra que. Para percorrer o todo. infinito é o negativo do múltiplo. a essência do compreender. Com isto quer ele dizer que não se Lhe deveria atribuir verdadeiro ser. assim o múltiplo é infinito. de maneira muito simples. e assim até o infinito. pois ele é contradição. de maneira que não tem mais grandeza". Mas não se deve entender isto assim como se o movimento não fosse . quando é o múltiplo. O fato de a dialética ter tido atraída sua atenção primeiro para o movimento é a razão de a dialética mesma ser este movimento ou o movimento mesmo ser a dialética de todo ente. seu questionar vai em busca de sua verdade. Pelo fato de espaço e tempo serem absolutamente contínuos. para passar para o infinito. se o professor havia discutido com argumentos. refutou tais provas da contradição do movimento. o não-ente. Os argumentos repousam sobre a infinita divisão do espaço e do tempo. o que é movido deve antes ter percorrido a metade. nunca se pode parar com a divisão. 1) Primeira forma: Zenão diz que o movimento não tem verdade alguma. o que é movido nunca atinge sua meta. A coisa tem. não se conseguiu ainda passar além dela e a questão fica esquecida no indeterminado. o Cínico. Cada grandeza . como existem elefantes. enquanto se move. deve. sua dialética mesma em si. átomos. nem massa (ónkos). não há rinocerontes. isto nem está em questão. assim o que foi acrescentado não é nada. nada poderia acrescentar ao tamanho do outro. Da mesma maneira a gente não deve satisfazer-se com a certeza sensível. 30 . não há elefantes. Agora a meta é o fim desta metade. este caminho é um todo. O mesmo aconteceria ao ser retirado. Mas a estória é continuada também assim: a um aluno que se contentara com esta refutação. Vemos desaparecer para a consciência de Zenão o simples pensamento imóvel para tornar-se ele mesmo movimento pensante. o outro não seria por isso diminuído. Os aspectos mais exatos desta dialética nos conservou Aristóteles. ele só poderia deixar valer uma refutação também com argumentos. nada". ficaram parados na idéia de que através da contradição o objeto se torna nulo. é pressuposta a continuidade do espaço. porque o movido deveria atingir primeiro a metade do espaço como sua meta. O que se move deve atingir uma determinada meta. Mas o caráter exaustivo que vemos no Parmênides de Platão não Lhe corresponde. este espaço possui assim uma metade. não é. nem espessura. o que é infinito não é maior. Zenão mostra então que a representação do movimento contém uma contradição e apresenta quatro modos de refutação do movimento. pois. estas devem ser percorridas e. A dialética da matéria de Zenão não foi até hoje ainda refutada. sempre surge este mesmo estado de coisas. "Aqui mostra ele que o que não tem tamanho. Diógenes o castigou pela simples razão de que. o movimento possui certeza sensível. Zenão nem teve a idéia de negar o movimento. também não é. então é grande e pequeno: grande. mas o movimento é não verdadeiro. de maneira objetiva e dialética. Aristóteles diz isto de maneira tão breve por ter tratado antes amplamente o objeto e tê-lo exposto detidamente.como nós dizemos. portanto.ele as refutou pela ação. levantou-se em silêncio e caminhou de cá para lá . enquanto limite indiferente. portanto. Pois se fosse acrescentado a um outro não aumentaria a este. Neste sentido. Aristóteles afirma que Zenão teria negado o movimento pelo fato de possuir contradição interna. na medida em que combate o movimento sensível. ele o dá a si. mas é preciso compreender. Pelo contrário. É conhecido como Diógenes de Sínope. portanto.e cada tempo e espaço sempre tem uma grandeza . mesmo onde colocamos um espaço o menor possível. e o movimento é: tornar-se outro.é novamente divisível em duas metades.a determinação. segundo a grandeza" (tò mégethos). se não tem tamanho e grandeza. "pequeno. sobressumir-se. o movimento foi tratado particularmente por Zenão. Mas esta metade é novamente um todo. O movimento que seria o percurso destes momentos infinitos nunca termina. Que o movimento existe. nem mais múltiplo. Isto deve ser compreendido de maneira mais universal. ter atingido antes a metade desta metade. deve-se ultrapassar a multiplicidade. Zenão toca aqui na divisibilidade infinita do espaço.

é o positivo que é posto. o ponto é. pois o rápido. B percorre numa hora duas milhas. então B chegou numa hora onde A estava no começo da hora. mas com isto novamente não é posto o limite da continuidade. Pois o movimento e a essência. se lhe for permitido ultrapassar o limite. alcançará o vagaroso. pelo contrário. portanto. mas seu conceito contradiz-se a si mesmo. mas põe o oposto nela . mais rapidamente que aquele. que trata disto. (consideramos a forma dos momentos) em suas diferenças da pura igualdade consigo mesmo e da pura negatividade . de outro modo. o momento no tempo contínuo seja posto ou que seja afirmado o agora do tempo como uma continuidade. e isto ele demonstra assim: o que segue necessita de uma determinada parte do tempo para "alcançar o lugar de onde partiu o que está em fuga". a continuidade é absoluta homogeneidade. a contradição. enquanto são divisíveis (potentia. Mas o espaço (uma milha). e. o limitado.uma consciência dele. este já avançou para mais longe. Na nossa representação não parece contraditório que o ponto no espaço ou. 2) "O segundo argumento" (que também é pressuposição da continuidade e posição da divisão) chama-se "argumento de Aquiles". A igualdade consigo mesmo. não poderiam ser divididos ao infinito . diz: "O mais vagaroso nunca poderá ser alcançado nem mesmo pelo mais rápido". Zenão. Primeiro Zenão põe o progresso contínuo de maneira tal que não se atinge nada igual a si. É para esta contradição que Zenão chama a atenção. de negatividade para continuidade. energeía).uma resposta geral para a representação.um passar além de uma determinação oposta para outra. Aristóteles. continuidade. portanto. um posto segundo sua essência. O movimento. a metade ainda é continuidade e assim até o infinito. será percorrido por B na metade de uma hora. a saber. movendo-se. dynámei. enquanto esta aparece. Destes dois momentos pode. de continuidade para negatividade. fora da representação que não pode atingi-lo. no espaço e no tempo. sabemos que o segundo alcançará o primeiro. "É algo não verdadeiro. e nele o limite que o divide ao meio. também o mais vagaroso sempre tem à sua disposição. e "com isto ele já sempre conseguiu uma vantagem". pois. deixou atrás de si novo espaço que o segundo novamente deverá percorrer numa parte desta parte do tempo. também devem estar efetivamente divididos infinitamente. um determinado nenhum espaço limitado. Desta maneira. diz brevemente sobre o mesmo: "Este argumento representa a mesma divisão infinita'' ou o infinito ser dividido através do movimento. vencido por A. primeiro em sua contradição . ou Zenão afirma o avanço neste limitar. mas é algo limitado. também é posto já o fenômeno da contradição. de todo negativo. e assim ao infinito. De dois corpos que se movem numa direção. Durante o tempo em que o segundo atingiu o ponto onde o primeiro se achava. ano). o absoluto distinguir-se e a supressão de toda igualdade e homogeneidade com outro. É um inacabado ultrapassar. pois. Mas o limite que divide ao meio não é limite absoluto ou em si e para si. Mas esta continuidade também novamente nada é de absoluto. mas apenas divisíveis. porém.limite que divide ao meio. não actu. Os antigos gostavam de vestir as dificuldades com representações sensíveis. no movimento. A. porém. no mesmo tempo. o puro ser para si. é posta. que não pode ser atingido. e assim se vai até o infinito. É a continuidade de um espaço. espaço e tempo.Vemos aqui desenvolvido o infinito aparecer. o movimento mais rápido nada ajuda ao segundo corpo para percorrer o espaço intermediário que o separa do outro. ser afirmado um deles como o essencial. de todo ser para si. é novamente continuidade. o oposto é também posto para a representação.do ponto contra a continuidade. a realidade do tempo e do espaço. Até o infinito . elas estão diante de nós. no processo. no começo desta determinada parte do tempo. o homem dos pés velozes. entretanto. dos quais um está na frente e outro o segue numa determinada distância. Parece. do mesmo modo. contudo. O mais fácil é mostrá-la no movimento. uma duração (dia. mas presente no conceito . o puro aparecer em si mesmo é o objeto e surge como um pensado. o tempo de que necessita." A 31 . A resposta geral e a solução de Aristóteles é que espaço e tempo não são divididos infinitamente.com isto nos representamos um além. uma milha. Mas estes dois estão postos numa unidade. Se estão separados entre si por duas milhas. é eliminação de toda diferença. que.

No argumento agora em questão é retido o aspecto inverso. isto é. e aqui e aqui. Para determinar qual deles se move é preciso mais de dois lugares. A continuidade. Zenão apenas faz valer o limite. um em direção do outro. ao contrário. o momento da separação de espaço e tempo em sua total determinação. e isto porque "o que se move sempre está no mesmo agora" e no aqui igual a si mesmo. o absoluto ser-limitado. O que gera a dificuldade sempre é o pensamento. a diferença é apenas aparente. no que se move e no que está em repouso. 4) "O quarto argumento" e tomado de corpos iguais que se movem no estádio ao lado de um igual. Aqui o tornar-se outro foi sobressumido. no "nãodistinguível" (en tõ nyn. é falso. mas no mundo do espírito que se manifesta a verdadeira e objetiva diferença. que deve ser atribuído inteiramente a cada parte. o comum. Não é neste estado de coisas. enquanto realiza para si apenas uma parte. mas também ressarce este prejuízo. o aqui é sempre o mesmo aqui. ao menos três. com velocidade igual. não há diferença. repousa. não são distintos entre si. porém. Esta quarta forma diz respeito à contradição no movimento oposto. nem espaço limitado. o olho repousa ou se move. em círculo. um ponto é tão bem um aqui como o outro. katà tò íson). Ou deve-se dizer da flecha que sempre está no mesmo espaço e no mesmo tempo. O erro da conclusão consiste no fato de admitir que. etc. mas apenas continuidade absoluta. Cada lugar é lugar diferente .isto é. porque separa em sua distinção aqueles momentos de um objeto. b) é apenas posto como verdadeiro (como 32 . Ou. Nos dois primeiros argumentos a continuidade no avançar é o que predomina: não existe limite absoluto. Se num navio caminho na direção oposta da direção em que se move o navio. com velocidade igual. não se pode tirar a conclusão a que Zenão chegou. O pensamento produziu a queda original. isto.. o ser limitado é posto como tal. igualmente. a divisão.portanto. porém. contudo. são limites um para o outro. são limitados. Assim que dizemos que sempre é o mesmo. por isto surge a contradição.resposta é correta e contém tudo. No espaço. o mesmo. a coisa percorre uma mesma extensão em tempo igual. No aqui agora como tais. contudo. Se. a igualdade do aqui e afirmada aqui contra a opinião da diferença. pois. surge a pergunta se um repousa ou se ambos se movem. Nesta representação são admitidos dois pontos de tempo e dois de espaço que estão separados entre si . quando o homem comeu da árvore do conhecimento do bem e do mal. nenhuma passagem para outro. no espaço absoluto. transgredir todos os limites. o mover-me é movimento com relação ao navio. a saber. na realidade unidos. 3) "O terceiro argumento" tem a forma que Zenão descreve assim: "A flecha em vôo repousa". Newton quer decidir isto por uma circunstância exterior. por exemplo. A oposição possui aqui uma outra forma: a) mas também novamente o universo. ele está aqui. os fios estendidos (tensio filorum). Mas uma coisa é correta: o movimento é absolutamente relativo. a interrupção da continuidade. na medida em que são dois também não dois . É uma dificuldade superar o pensamento e é somente ele que causa esta dificuldade. isto aqui e isto aqui e mais um outro. disto se deveria concluir que a metade do tempo é igual ao dobro. mas repouso: o que sempre está no aqui e agora. Sobre este terceiro argumento diz Aristóteles que ele se origina do fato de se aceitar que o tempo consiste de "agoras". se admite que tempo e espaço são contínuos. um momento. de maneira tal que dois pontos do tempo ou dois pontos de espaço se relacionam entre si de maneira contínua. Isto acontece também na mecânica: pergunta-se qual se move de dois corpos. conforme uma proposição de Newton: se dois corpos giram. se. então eles são. o outro a partir do meio. mas o limitar é. um em torno do outro. um a partir do fim do estádio. e.são idênticos. é inteiramente o mesmo. a isto. não chamamos movimento. se não se concede isto. não consegue ultrapassar seu espaço. um espaço maior ou menor. não conquista um outro espaço. mas repouso com relação à outra coisa.

Isto é então a grande diferença. 33 . portanto. O movimento é. em Kant. mas. tornou se universal. a atividade de nosso espírito o elemento mau é uma enorme humildade do espírito não ter confiança no conhecimento. O sentido da dialética de Zenão possui maior objetividade que esta dialética moderna. tão bons ou tão maus como os pardais. voltando-se para ele. O mundo torna-se não-verdadeiro pelo fato de lhe jogarmos em cima uma massa de determinações. Isto é então a dialética de Zenão. Só nosso conhecimento é fenômeno. ele as tinha em sua consciência e nelas mostra o aspecto contraditório. o que aparece em si que é não-verdadeiro. na distância de ambos. Em Kant é o elemento espiritual que arruína o mundo. nada verdadeiro". Segundo Kant. é o que acontece quando caminho dois pés para o leste e outro. isto que pensa Kant. Pois Zenão e os Eleatas afirmaram sua proposição com a seguinte significação: "O mundo sensível é em si mesmo apenas mundo fenomenal. todo o resto é não-verdadeiro". só nossa aplicação. com suas formas infinitamente diversas . a proposição universal da escola eleática foi. ambos são positivos. nulo. não saí do ponto em que estava. o que acrescentamos. assim estamos distantes um do outro quatro pés . Ele afirma: Voltando-se para o mundo. Não é. determinações da reflexão. caminha dois pés para o oeste. segundo Zenão. Ou avancei e retrocedi dois pés .sendo) o que cada parte faz para si. As antinomias de Kant nada mais são do que aquilo que Zenão aqui já fizera. com os sofistas. nada vale. porque é obra nossa. o mundo é em si absolutamente verdadeiro. O elemento universal da dialética. ainda que tenha andado quatro pés. portanto: "O verdadeiro é apenas o um.no mesmo ponto. fazemos dele um fenômeno. mas nisto também reside uma diferença. quando o pensamento se dirige para o mundo exterior (para o pensamento também o mundo dado no interior é algo exterior). pois pelo movimento de ir para frente e para trás há aqui coisas opostas que se suprimem.aqui ambos devem ser somados. No todo é o mesmo princípio: "O conteúdo da consciência é apenas um fenômeno. é nosso pensar. Ele captou as determinações que contém nossa representação do espaço e tempo.este lado não possui verdade em si mesmo".enquanto seres sensíveis. nosso acréscimo o arruína para nós. Na Bíblia diz Cristo: "Pois não sois melhores que os pardais?" Nós o somos enquanto pensamos . partindo do mesmo ponto. Aqui a distância de um corpo é a soma do afastar se de ambos. é o mundo. Este conteúdo também é nulo em Zenão. etc. porém. como a filosofia kantiana chegou ao resultado: "Conhecemos apenas fenômenos". A dialética de Zenão ainda se conteve nos limites da metafísica: mais tarde. é a atividade de nosso pensamento que atribui ao exterior tantas determinações: o sensível.

São chamadas também idéai ou skhémata. poderia haver uma infinidade deles. É preciso. skhéma). portanto. táxis). não haveria movimento. Viagens extraordinárias. Temos aqui a distinção que reaparece em Locke: as qualidades primárias pertencem às coisas em si mesmas. portanto. odor. Se um átomo fosse o que o outro não é. o stereón. é definido como pleno. o que equivale a dizer que o não-ser é tão real quanto o ser. as honras que recebeu de seus concidadãos. muda quando muda a situação ou a disposição desse grupo ou quando uma parte é substituída por outra. à mesma massa. peia posição (tropé. A principal diferença está na forma. O não ser é. um ser. os corpos são idênticos a esses predicados. Se deve subsistir um pleno. não haveria mais nenhuma grandeza. Z de N pela posição. O fogo é feito de átomos pequenos e redondos. thésis). portanto. o que é uma contradição. o peso deve pertencer igualmente a todos. que indica diferença de grandeza e de peso. O pleno é aquilo que não contém nenhum Kenón. Se somente o não ser existisse. O peso pertence a cada corpo (como medida de todas as quantidades). os seres só diferem pela quantidade. Demócrito e Leucipo partem do eleatismo. pois o menor poderia acolher em si o maior. ou aperto). pois.. 2) a rarefação e a condensação só se explicam pelo espaço vazio. O ser é a unidade indivisível. dos quais são apenas as impressões: cor. dotado de uma forma. isto é. que o ser deve ser semelhante a si mesmo em todos os pontos. Demócrito afirma. AN de NA pela ordem. Pode-se. pela ordem (diathigé. não se pode fazer abstração delas. são: a extensão. Demócrito adota uma posição adversa. produzidas pela ação das qualidades primárias sobre os órgãos de nossos sentidos. rugoso. 4) em um vaso cheio de cinza pode-se ainda derramar tanta água quanta se ele estivesse vazio. como Pitágoras. pois. sua solidão. Demócrito esforçou-se por caracterizá-los a partir de seus átomos da mesma natureza. mas muitas lendas.5 . Todas as outras qualidades são secundárias. Mas. se há separação no espaço. Como todos os seres são da mesma natureza. pois o pleno não pode acolher em si nada que lhe seja heterogêneo. a forma. O ser. se dois corpos pudessem ocupar o mesmo lugar no espaço. que Empédocles foi utilizado a fundo. som.. desaparece quando esse grupo se desfaz. Mas se há movimento deve haver um espaço vazio. é preciso que a divisão não possa ir ao infinito. A difere de N pela forma. Anaxágoras reconhecia quatro elementos. haveria um não-ser. isto é. 3) o crescimento só se explica porque o alimento penetra nos interstícios do corpo. remeter todas as qualidades a diferenças quantitativas. O ser não pertence mais a um ponto do que a outro. a ruína material. Mas o movimento demonstra o ser. nos outros 34 . Mas o ponto de partida de Demócrito é acreditar na realidade do movimento porque o pensamento é um movimento.DEMÓCRITO DE ABDERA De sua vida sabemos poucas coisas seguras. gosto. Uma coisa nasce quando se produz um certo agrupamento de átomos. dureza. etc. a cinza desaparece nos interstícios vazios da água. também o pleno. Cresce quando lhe são acrescentados novos átomos. portanto. polido. Se toda grandeza fosse divisível ao infinito. fazer abstração da natureza dos corpos na medida em que é apenas a ação dos nervos sobre os órgãos sensoriais. pois este havia discernido o dualismo do movimento em Anaxágoras e recorrido à ação mágica. é preciso que sejam de natureza idêntica. Toda ação de uma coisa sobre outra se produz pelo choque dos átomos. o número. Somente nossos sentidos nos mostram coisas qualitativamente diferentes. se esses seres devem agir uns sobre os outros pelo choque. o mesmo peso. O que resta são os átomos. a impermeabilidade. tanto quanto o não-ser. Esse é seu ponto de ataque: o movimento existe porque eu penso e o pensamento tem realidade. Uma tradição tardia afirma que ele ria de tudo. pesado. Se o espaço é absolutamente pleno. não haveria mais ser. Todas as qualidades são nómo. recorre-se à teoria das aporrhoaí. Com efeito: 1) o movimento espacial só pode ter lugar no vazio. Percebe-se. nastón (de nasso. não pode haver movimento. seu grande poder de trabalho. Elas só se distinguem pela forma (rhysmós. fora de nossa representação. moleza.

como o espaço é infinito e a queda regular não há medida para essa velocidade. é este que domina todas as suas concepções fundamentais. Toma emprestado de Heráclito a crença absoluta no movimento. Quando os átomos em equilíbrio são tão numerosos que não podem mais se mover. uma hipótese cientificamente utilizável. O que é preciso dizer é que há uma causalidade sem finalidade. Demócrito pensa. temse. censurou-se desde a Antigüidade esse ponto de partida. em certo sentido. não há nem interrupção brusca nem intervenção estranha no curso natural das coisas. a realidade do movimento. o de Demócrito é o mais lógico: pressupõe a mais estrita necessidade presente em toda parte. Sinto o prazer de ver um todo bem ordenado nascer sem o auxílio de fábulas arbitrárias.. a terra e o ar podem nascer um do outro por dissociação. uma queda regular e eterna no infinito do espaço. produz-se um movimento giratório.. 48. como a hipótese do Nous ou as causas finais de Aristóteles. é antes de tudo de Parmênides que ele procede. alguns são repelidos. sem muita imprudência: 'Dai-me a matéria. Demócrito. O ponto de partida de Demócrito. sempre foi da maior utilidade. Eis como Demócrito se representa a formação de um mundo dado: os átomos flutuam. da espécie mais comum. Como os átomos vieram a operar movimentos laterais. todo esse universo cheio de ordem e de exata finalidade. Demócrito deduz todo movimento do espaço vazio e do peso. isso seria equivalente ao repouso absoluto. bem entendido. Só então o pensamento se desprende de toda a concepção antropomórfica do mito. concursu quodam fortuito.. pelo efeito de leis mecânicas bem conhecidas. que somente o semelhante age sobre o semelhante. entrelaçando-se e formando uma espécie de conglomerado. perpetuamente agitados. Epicuro. É a concepção mais terra-a-terra. com Empédocles. com o auxílio de um mecanismo cego. pelo choque. provavelmente também sua dedução a partir da realidade do pensamento. Esse turbilhão aproxima. como se fossem expulsos. p. e esse todo é tão semelhante ao universo que temos sob os olhos que não posso impedir-me de tomá-lo por ele mesmo. não procura logo de início. Não há acaso. Não contestarei então que a teoria de Lucrécio ou de seus predecessores. parte das qualidades reais da matéria. eles se encontram. e eu vos farei um mundo'". os elementos distinguem-se apenas pela grandeza de suas partes. Com Anaxágoras. no espaço infinito. pois. que o "acaso cego" reinaria entre os materialistas. seu movimento. tem em comum os ápeira ou matérias originais. Parece-me que se poderia dizer aqui. efeitos que parecem os desígnios de uma sabedoria suprema. embora não racionais. O movimento original é. tem muita analogia com a minha. Ele retorna ao primeiro sistema de Parmênides.. Leucipo. Rosenkr. enfim. É por isso que a água. a velocidade sendo desigual. mas um conjunto de leis rigorosas. A teoria dos poros e das aporrhoaí preparava a do kenón. Vejo as substâncias se formarem em virtude de leis conhecidas de atração e modificarem. não se pode indicar sua velocidade. É um grande pensamento reconduzir às manifestações inumeráveis de uma força única. Naturalmente. vertical. História Natural do Céu. a formar turbilhões na regularidade das combinações que se faziam e se desfaziam? Se tudo caía na mesma velocidade.elementos estão misturados átomos diversos. ultrapassar as forças mais simples. os outros permanecem juntos. Esta é uma maneira muito pouco filosófica de se exprimir. Os átomos pesados caem e fazem subir os átomos leves com sua pressão. De todos os sistemas antigos. anánke sem intenções. os mais leves são repelidos para o vazio exterior. segundo o qual o mundo se compunha de ser e de não-ser. lhe é comum com Anaxágoras e Empédocles. primeiramente. dizendo que o mundo teria sido movido e teria nascido por "acaso". a idéia de que todo movimento pressupõe uma contradição e de que o conflito é o pai de todas as coisas. o que é de mesma natureza.: ''Admito que a matéria de todo o universo está em um estado de dispersão geral e faço dele um perfeito caos. esta hipótese. Leia-se Kant. A matéria que se move segundo as leis mais gerais produz. Cada um desses 35 . o materialismo.

Teoria das percepções dos sentidos. a massa entra em rotação. é uma representação cômoda nas ciências naturais. mas o ar que os leva é por sua vez levado em um rápido turbilhão.conglomerados que se separam da massa dos corpos primitivos é um mundo. na verdade. as representações são falsas e o pensamento é malsão. Somente o semelhante sente o semelhante. que. A alma deve. a representação. O absurdo consiste em partir do dado objetivo. Nascimento dos seres animados. Estes se movem perpetuamente. Do mesmo modo. graças às quais se apresenta como extenso no espaço e agente no tempo. neste eles secam pouco a pouco e se inflamam pela rapidez do movimento (astros). agora. pois. no começo. Duas condições são necessárias: uma certa força da impressão e a afinidade do órgão que a recebe. todo dado objetivo é determinado de várias maneiras pelo sujeito pensante e desaparece totalmente quando se faz abstração do sujeito. em um estágio antigo de sua formação. portanto material. não passa de um dado extremamente mediato. Pouco a pouco ela tomou uma posição fixa no centro do universo. que puxava para cima. Por causa de sua sutileza e de sua mobilidade arriscam-se a serem arrancados do corpo pelo ar circundante. que nos traz constantemente de fora novos átomos de fogo e de alma para substituir os átomos desaparecidos e que prende no interior do corpo aqueles que quereriam escapar. se a alma é levada por esse movimento à temperatura conveniente. Assim. as partículas do corpo terrestre são pouco a pouco arrancadas pelos ventos e pelos astros e se acumulam em água nos ocos. o materialismo é uma hipótese preciosa e de uma verdade relativa. Disso resulta a morte. enquanto. Estes nasceram e perecerão.. aqueles que se elevam formam o céu. foram apanhados pelas massas que se moviam em torno do núcleo terrestre e desse modo viram-se atraídos para nosso sistema sideral. do espaço e da causalidade. pode ocorrer que a vida seja restaurada depois da desaparição de uma parte da alma. O contato não é imediato. O sono . sob o efeito combinado de forças opostas. Essas partículas de fogo estão espalhadas por todo o corpo. É uma prodigiosa petição de princípios. Assim a terra se solidifica. O pensamento é um movimento. o fogo interior escapa. Se o movimento a aquece ou a esfria excessivamente. A percepção é idêntica ao pensamento. disso nasce a representação das coisas. suspendia sua montaria apertando-a entre as pernas e se suspendia a si mesmo por meio de sua peruca. e todos os seus resultados 36 . é esta que move os seres animados. Tudo o que é objetivo. ser feita da matéria mais móvel. Isso não acontece em um instante. mesmo depois que se descobriu o prõton pseudos. que passou pelo mecanismo do cérebro e acomodou-se às formas do tempo. quando atravessava o rio a cavalo.. de átomos sutis. Uma e outro são modificações mecânicas da matéria da alma. de repente. É aqui que começam as verdadeiras dificuldades do materialismo. é que uma massa produzida pelo choque de átomos heterogêneos se separou. certas partes sendo atraídas para o centro pela rotação. Cada vez que nasce um mundo.. É de um tal dado que o materialismo quer. percebe exatamente os objetos. movia-se de um lado para outro. extenso. há infinitos mundos.. percebemos as coisas por meio das partes de nosso ser que lhes são análogas. comparou-se o materialismo ao Barão de Crac (sic). agente.morte aparente. deduzir o único dado imediato. porque ele próprio começa a sentir seu prõton pseudos. A essência da alma reside em sua força animadora. o último elo aparece como o ponto de partida de que já dependia o primeiro elo da corrente. os elementos repelidos para fora depositam-se no exterior como uma película. Por outro lado. quando ela era ainda pequena e leve. Se a respiração cessa. O sol e a lua. opera-se por meio das aporrhoaí. Os átomos centrais formam a terra. o ar. Estas penetram no corpo pelos sentidos e espalham-se por todas as partes. o pensamento é sadio. tudo aquilo que o materialismo considera como seu fundamento mais sólido. o fogo. Esse invólucro vai-se tornando cada vez mais fino. um concreto extremamente relativo. lisos e arredondados (de fogo). as partes mais leves são empurradas para o alto. entre todos os átomos corporais se intercala um átomo de alma. Alguns formam massas espessas. É disso que nos preserva a respiração.

37 . Não são indignos de Demócrito. Junta-se a isso a obscuridade em que nos encontramos a respeito de Leucipo.. Entretanto. como a encarnação do paganismo. Clareza. Viagens. a cada mil anos uma pedrinha é juntada às outras. introduzindo. foi reservado à nossa época negar também a grandeza filosófica do homem e atribuir-lhe um temperamento de sofista. logrou executar o enérgico desígnio de Platão. Não acreditamos nos contos. simplesmente para reparar os erros do passado para com ele. seu juízo sobre os poetas. O divino Platão chegou mesmo a considerar seus escritos tão perigosos que pretendia destruí-los em um auto-de-fé privado e só foi impedido disso por considerar que já era tarde demais. 5. para cuja produção cooperamos sempre. podemos entretanto atribuir também a Demócrito uma grande diversidade de concepções.Anotações sobre Demócrito Deveríamos a Demócrito muitos sacrifícios fúnebres. que o veneno já estava por demais alastrado.2 . por um lado. 5. Sentimento de um progresso poderoso. Arrojo poético (poesia do atomismo). Teólogos e metafísicos acumularam sobre seu nome suas acusações inveteradas contra o materialismo. sob sua marca. se o homem é infeliz. É um problema psicológico saber se foi ele que os escreveu. Assim o Sistema da Natureza começa nestes termos: "O homem é infeliz porque não conhece a natureza". o que imputou ao pai de todas as tendências racionais uma reputação de grande mágico. assim como os de Epicuro. Demócrito é perfeitamente claro. Aversão ao bizarro. mas. ele foi. Uma seqüência infinita de anos. de uma completa clareza. Sobre o problema da origem do mundo. Aitíai. Simplicidade do método. Trata-se do mundo que é o nosso. A ética de Demócrito é conservadora. "Contenta-te com o mundo tal como é". Enfim. os obscurantistas da Antigüidade se vingaram dele. igualmente. aqui e ali. é por não conhecer a natureza. Com efeito. é o cânon moral que o materialismo produziu. que considera como profetas da verdade (isso lhe parece um fato natural). Não recendem a estoicismo nem a platonismo. Mais tarde. e a terra acaba por ser o que é. Os fragmentos de Moral (= Estudos Éticos) têm. se não no absoluto. É o que prova sua própria descrição. e sem dúvida um século anticósmico devia considerar os escritos de Demócrito. um tom desenvolto de homem do mundo e uma bela forma.Características do Pensamento de Demócrito Gosto pela ciência. é raro que um escritor considerável tenha tido de sofrer tantos ataques devidos o razões diversas. O materialismo é o elemento conservador na ciência como na vida. Todos esses ataques se desenrolam em um terreno que não podemos mais defender. mas sentimos sua força poética. Se este é o inventor da idéia principal.1 .. Sobre a questão da criação do mundo. lembram Aristóteles e sua metropathía. A tradição não prova nada. ele não perde o senso da poesia.permanecem verdadeiros para nós. enfim. Uma plena virilidade do pensamento e da investigação aparece com Demócrito. Todos os materialistas pensam que. O cristianismo nascente. o contrabando de seus escritos de magia e de alquimia.

conservou. sem dúvida. O Mal excluído de seu sistema. Racionalista encarnado. esse Humboldt do mundo antigo Sente-se impelido a correr o mundo. Os problemas mais profundos lhe permanecem ocultos. pai do racionalismo. um racionalista confiante. reduzido. etc. e é isso que lhe dá sua segurança e sua confiança em si. deve igualmente ser incluído entre os melancólicos. Ele se atrela a este. Queria sentir-se no mundo como em um quarto claro. Demócrito. É na moral que está a chave da física de Demócrito. Recusam-lhe uma sepultura honrada. de seus raros predecessores. desprezado em vida. até o dia em que seus parentes tomam as dores do morto e em que se elevam monumentos em honra daquele que.Fé absoluta em seu sistema. pois deixavam subsistir um elemento irracional. É a meta de sua filosofia. Paz de espírito. Eis por que ele procurou remeter tudo àquilo que é mais fácil de compreender.. Sentir-se liberto de todo Incognoscível. quase morrera de fome. Retorna pobre e sem recursos. pois. É que sua vontade é a mola de sua investigação. e condenou sem indulgência a intrusão de um mundo mítico. Sua cidade natal o toma por um pródigo.. a viver das esmolas de seu irmão. como um mendigo. Os sistemas anteriores não lhe davam isso.3 . Ele se desempenha com excessiva rapidez dos encargos de construir o mundo e a moral. Inquietações políticas: quietismo. É. a queda e o choque.. o espetáculo dos sacrifícios. Pitágoras. resultado do estudo cientifico. Inquietações conjugais: adoção de filhos. aquilo que lhe parecia inteligível e simples. o que quer é terminá-la e atingir o conhecimento último. 38 . crê na capacidade libertadora de seu sistema e elimina dele tudo aquilo que é mau e imperfeito. acomodava à sua maneira os deuses.Demócrito. Vauvenargues diz com razão que os grandes pensamentos vêm do coração. Inquietações míticas: racionalismo. A meta é o otium litteratum: "ter a paz" 5. uma abundância infinita de pontos de vista diversos. ao passar em revista os sistemas anteriores. Ainda não havia notado. Inquietações morais: ascetismo.aquilo que lhe era homogêneo.

cedo demais. organizada em tetralogias. cumpre-nos encontrar um espaço para Leucipo entre eles [Demócrito] e Zenão. É certo. como Sócrates. entretanto. através dos seus fragmentos. que Demócrito falou nas obras das doutrinas de Parmênides e Zenão. visto estar baseado na hipótese de que tinha quarenta anos quando se encontrou com Anaxágoras. Fez menção a Anaxágoras. na biblioteca da Academia. outros aspectos do seu sistema. a de Glauco de Régio. Parece. por outro lado. Por isso.6 . quando. e a partir dai concluiu-se que nasceu em 460 a. Demais. Sabemos. Se Demócrito morreu. levantadas pelo seu concidadão Protágoras e outros. porém. detestavam qualquer tipo de estudo. são facilmente explicadas pelas influências pitagóricas que afetaram a ambos. e provavelmente nem se preocuparam em multiplicar os exemplares de um escritor cujas obras teriam sido um testemunho permanente para a carência de originalidade que caracterizou o próprio sistema deles. exatamente como sua edição dos diálogos de Platão. segundo a suposição dele. é como se não tivesse escrito quase nada. e obscurece o fato de que. sabemos menos a seu respeito do que de Sócrates. diz que tomou conhecimento por intermédio de Filolau. Mesmo a partir de fundamentos meramente cronológicos. fazer uma edição das obras de Demócrito. pois era também jônio do Norte. Havia nessa época e posteriormente diversas eras em uso. Apolodoro de Quizico. não obstante. temos apenas conjeturas para nos orientar. não sabemos. onde teriam tido a possibilidade de serem preservadas. Como Sócrates. com a idade de noventa ou cem anos. Não é certo que Platão haja conhecido alguma coisa sobre Demócrito. sob o reinado de Tibério. pois que as poucas passagens no Timeu e alhures. e. a Anaxágoras. defrontou-se com as dificuldades referentes ao conhecimento. e parece ter dito que a sua teoria do sol e da lua não era original. e sem dúvida alguma na Jonia. que era um dos maiores escritores da Antigüidade. da mesma forma que ele.C. uma cidade que nem mereceria a reputação proverbial de embotamento. Mesmo isso não foi suficiente para preservá-las. e a expressão "jovem" sugere menos que esta idade. ele tentou responder ao seu distinto concidadão Protágoras. seu contemporâneo. que as obras completas de Demócrito (que incluem as obras de Leucipo e outros. porém. Como Protágoras. de fato. quando Anaxágoras era velho. Quanto à data do seu nascimento. que tinham a obrigação de ter estudado o homem a quem deviam tanto. porquanto a escola as conservou em Abdera e Teos ao longo dos tempos helenísticos. contudo. Isto esclarece o seu conhecimento geométrico. Os epicuristas. Aristóteles. outrossim. Disse também algures que. e as suas obras na realidade nunca foram bem conhecidas em Atenas. foi possível para Trasilo. ele era jovem. Em uma das principais obras. como se diz. de qualquer maneira ainda vivia quando Platão fundara a Academia. ainda que Demócrito naturalmente estivesse ciente de ser ela pitagórica. bem como. bem como as de Demócrito) continuaram a existir. conhece bem Demócrito. considerando que pode dar origem a dois homens de tanta envergadura. que geralmente fora atribuída em Atenas. Ao contrário de Sócrates. é falso classificar Demócrito entre os predecessores de Sócrates. Um membro posterior da escola. e temos uma prova contemporânea. ao qual também os sofistas deram impulsos. afirmou que elas foram escritas 730 anos após a queda de Tróia. Isto deve-se ao fato de ele ter escrito em Abdera. Sabemos extremamente pouco sobre a vida de Demócrito. que chegou a conhecê-las através de Leucipo. Isto pode referir se à explicação dos eclipses. 39 .DEMÓCRITO E SUAS TEORIAS Demócrito fez uma tentativa bem independente de reconstrução. como aquelas de Anaxágoras e outrem. isto ocorrera. que também os pitagóricos foram seus mestres. o que parece muito provável. Para nós. Demócrito foi discípulo de Leucipo. era natural de Abdera na Trácia. e nós ainda podemos constatar. ele era um autor volumoso. deu grande atenção ao problema do comportamento. no qual parece que o reproduz.

eídola) que os corpos estão constantemente emitindo. Aristóteles afirma que Demócrito reduziu todos os sentidos ao tato. está precisamente na mesma linha que a de Sócrates. todavia. que ele parece ter exposto bem conforme a tinha recebido de Leucipo. portanto. Por outro lado. A originalidade de Demócrito. tamanho e peso. Para compreender esta questão. isto não seria assim. que acima foi descrito.1 . A verdadeira grandeza de Demócrito não está na teoria dos átomos e do vazio. A questão à qual tinha que se dedicar era a de sua própria época. Menos ainda está no seu sistema cosmológico. as cores. mas somente o vazio. Seja como for. considera falsas todas as sensações dos sentidos próprios. mas há uma certa razão para se acreditar que o fragmento onde isto é mencionado (fragmento 298 b) é apócrifo. que deriva mormente de Anaxágoras. Parmênides afirmara claramente que o paladar. ensinando e escrevendo em Abdera. Nisto. Uma vez que a alma se compõe de átomos como qualquer outra coisa. Ademais. mas as "imagens" (deíkela. e não está preocupado de modo especial em encontrar uma resposta a Parmênides. uma semelhança exata do corpo do qual provém. o problema do comportamento tornara-se premente. tais como forma. A imagem na pupila do olho era considerada como a coisa essencial em visão. A possibilidade de ciência havia sido negada. Este. skhémata) dos átomos que entram em contato com os órgãos desse sentido. embora não com os mesmos detalhes. o molhado e o seco e outros que tais. e por que. posto que elas não têm uma contrapartida real fora do objeto sensível. e o olfato explica-se semelhantemente. Este é o motivo por que vemos as coisas a distância de um modo embaraçado e indistinto. sem dúvida deu a entender que não conseguira causar uma impressão tal como o fizera o seu mais brilhante concidadão Protágoras. e era isto que exigia uma solução. apesar 40 . considerado como o sentido pelo qual sentimos o calor e o frio. Não é. que asseverou serem todas as sensações igualmente verdadeiras para o objeto sensível. Há um outro (fragmento 116) no qual ele diz: "Eu fui a Atenas e ninguém tomou conhecimento de mim". está em conformidade com a tradição eleática onde repousa a teoria atômica. pois está sujeita às distorções causadas pela interferência do ar. Chegou. Pertence inteiramente a uma outra geração que a desses homens. o tato. o som e outros semelhantes eram apenas "nomes" (onómata). e é realmente verdade se entendermos por tato o sentido que percebe qualidades. entre nós e os objetos da visão. porém. Se não houvesse ar. se a distância for grande. deve ser cautelosamente distinguido do sentido próprio do tato. ele deve ter despendido a maior parte do seu tempo no estudo. Se disse isto. temos que considerar a doutrina do conhecimento "legítimo" e "ilegítimo". 6. De modo idêntico. O som é uma torrente de átomos que jorram do corpo sonante e produzem movimento no ar entre ele [corpo] e o ouvido.Teoria do Conhecimento Demócrito procedeu como Leucipo ao fazer uma avaliação puramente mecânica da sensação. é afetado de acordo com a forma e o tamanho dos átomos chocando nele. então é possível que este fragmento também seja apócrifo.Diz-se ter visitado o Egito. Não era um sofista itinerante do tipo moderno. As diferenças de paladar são devidas às diferenças nas figuras (eide. não podemos vê-las de modo algum. bem como todo o problema do conhecimento levantado por Protágoras. As diferenças de cor devem-se à lisura ou aspereza das imagens ao tato. ao ouvido junto com aquelas porções do ar que se lhe assemelham. e os órgãos dos sentidos devem ser simplesmente ''passagens" (póroi = poros) através das quais estes átomos se introduzem. Disto decorre que os objetos da visão não são estritamente as coisas que nós mesmos presumimos ver. e é bastante idêntico a Leucipo que disse algo de parecido. É aqui que Demócrito entra nitidamente em conflito com Protágoras. Demócrito. mas sim o cabeça de uma escola regular. e é provável que ele seja o autor da doutrina minuciosa dos átomos com respeito a este assunto. portanto. naturalmente. Demétrio de Falerão afirmou que Demócrito jamais visitou Atenas. "poderíamos ver uma formiga rastejando no firmamento". a sensação deve consistir no impacto dos átomos externos sobre os átomos da alma. A audição explica-se de uma maneira similar. pelo contrário.

Defendeu. Segundo um comentário de Arquimedes. e o fato. a fazer uma separação absoluta entre os sentidos e o conhecimento.Teoria do Comportamento As concepções de Demócrito sobre o comportamento seriam até mais interessantes do que a sua teoria do conhecimento. foi-nos preservada através de suas próprias palavras. O "conhecimento legítimo" é. afirmou Demócrito (fragmento 9). Sexto Empírico e Plutarco afirmaram claramente que Demócrito argüiu contra Protágoras. por conseguinte. que é composto de círculos iguais e não desiguais. farão irregular o cone. "é por causa de nós que conseguiste as provas com as quais atiras contra nós. exatamente como fizeram os pitagóricos e Sócrates. e não há nada que os impeça de ter contato imediato com os átomos externos. "duas formas de conhecimento (gnóme): o legítimo (gnesíe) e o ilegítimo (skotíe). rejeita a sensação como fonte de conhecimento. que os átomos fora de nós poderiam afetar diretamente os átomos da nossa alma sem a intervenção dos órgãos dos sentidos. é "não mais tal do que tal" (oudèn mãllon toion è toion). Teu tiro é uma capitulação. o paladar e o tato. o que é o maior absurdo". então as partes cortadas serão iguais. na realidade (etee). é tanto amargo quanto doce. Porém. Deveras. está fora da discussão. que ele estava empenhado em problemas tais como aqueles que finalmente deram origem ao método infinitesimal do próprio Arquimedes. Na realidade. Os átomos da alma não se restringem a algumas partes específicas do corpo. "Pobre Mente". doce para mim e amargo para você. parece que Demócrito prosseguiu afirmando que o volume do cone era a terça parte do volume do cilindro sobre a mesma base e do mesmo peso. a audição. ele o confirma desta forma: "Se um cone fosse cortado por um plano em linha paralela à base. É evidente. como eles. "Por convenção (nómo)": disse ele (fragmento 125). felizmente. Ele diz que o mel. Se forem iguais. porém. as nossas sensações não representam nada de externo. mas nele penetram em qualquer direção. cuja verdadeira natureza não pode ser apreendida pelos sentidos próprios." O conhecimento "legítimo" não é. contudo. pois "a verdade jaz num abismo" (fragmento 117). Sua doutrina. e o cone terá a aparência de um cilindro. Ao ilegítimo pertencem todos estes: a visão. Não podemos conhecer a realidade deste modo. Demócrito ocupou-se com o problema da continuidade. "Pelos sentidos". por convenção há a cor". afirmando que existe uma outra fonte de conhecimento que não a dos sentidos próprios. ter 41 . com efeito. 6. mas uma espécie de sentido interno.de não haver razão de se acreditar que ele tenha elaborado uma teoria sobre o assunto. por exemplo. apesar de serem causadas por algo fora de nós. Esta é a razão por que a mesma coisa às vezes dá a sensação de doce e às vezes de amargo. É muito difícil. Vemos mais uma vez como foi importante a obra de Zenão como um fermento intelectual. ressalva a possibilidade de ciência. pensamento. se pudéssemos restabelecê-las integralmente. há os átomos e o vazio. afinal de contas. o que se deveria pensar das superfícies das duas partes cortadas? Seriam iguais ou desiguais? Se forem desiguais. Seguindo o exemplo de Protágoras. "Há". diz ele (fragmento 11). Em uma passagem digna de nota (fragmento 155). Ao mesmo tempo. Demócrito. Esta é a resposta de Demócrito a Protágoras. não se pode ignorar que Demócrito dera uma explicação puramente mecânica deste conhecimento legítimo. Demócrito foi obrigado a ser explícito com referência à questão. pois.2 . pois ele terá muitas incisões em forma de degraus e muitas asperezas. Como seria de esperar de um seguidor dos pitagóricos e de Zenão. "nós na verdade não conhecemos nada de certo. mas somente alguma coisa que muda de acordo com a disposição do corpo e das coisas que nele penetram ou lhe opõem resistência". e Demócrito recusou-se. "há o doce. imagina ele os sentidos dizerem (fragmento 125). como Sócrates. o olfato. por convenção há o quente e por convenção há o frio. cujo teorema foi demonstrado primeiro por Eudoxo. da mesma natureza do "ilegítimo". está separado daquele". chegando assim a conhecê-los como realmente são. Vê-se que esta doutrina tem muito em comum com a distinção moderna entre as qualidades primárias e secundárias da matéria. pois. como o fizera do ilegítimo. porém. por convenção há o amargo. O legítimo. apesar de tudo. e seus objetos são como os "sensíveis comuns" de Aristóteles.

que "a ignorância do melhor" (fragmento 83) é a causa do erro. mas esta é apenas uma "imagem" que inventaram para justificar a sua própria ignorância (fragmento 119). embora dê mais ênfase ao prazer e à dor. Nós somente podemos ter certeza de superar a dor pelo prazer se não procurarmos os nossos prazeres nas coisas "mortais" (fragmento 189). a alma é a moradia do daímon" (fragmento 171). De um lado. A idéia da forma esférica da Terra era amplamente difundida na época de Demócrito. Para atingi-lo. as nossas informações são extremamente escassas para possibilitar mesmo uma reconstrução aproximada do seu sistema. Ele herdara a teoria dos átomos e do vazio de Leucipo. escolhe os mais divinos. e Sócrates é descrito no Fédon tomando-a por certa. devemos ser capazes de ponderar. não podemos deixar de reconhecer que é sobretudo pelo seu mérito literário que lamentamos a perda das obras. pois. Os prazeres dos sentidos são prazeres verdadeiros tão breves como as sensações são verdadeiro conhecimento. "O melhor para o homem é levar a vida com o máximo de alegria e o mínimo de aborrecimentos" (fragmento 189). "Quem escolhe os bens da alma. mas o agradável é diferente para gente diferente" (fragmento 69). [O tratado] partia (fragmento 4) do princípio de que o prazer e a dor (térpsis e aterpsíe) são o que determina a felicidade. não é necessário discutir detalhadamente a cosmologia de Demócrito. e alguns fragmentos importantes do tratado sobreviveram. como foi dito. Ao mesmo tempo. cujo sossego deve ser procurado principalmente nos bens da alma. como Leucipo houvera feito. os prazeres dos sentidos são de duração demasiado curta para preencher uma vida. o sossego do corpo. que o seu real interesse está em outro sentido. Ele também aderiu a Anaxágoras defendendo que a Terra era sustentada no ar "como a tampa de uma tina". Além disso.certeza sobre quais dos preceitos morais a ele atribuídos são genuínos. Para compreender isto. Isto não é. "O bom e o verdadeiro são a mesma coisa para todos os homens. devemos lembrar que a palavra daímon. que é a alegria. Infelizmente. Por outro lado. O que temos dele foi preservado principalmente porque ele foi um grande criador de frases notáveis. contentou-se em adotar a crua cosmologia dos jônios. Deve ter conhecido ainda o sistema mais cientifico de Filolau. Foi utilizado livremente por Sêneca e Plutarco. a Terra era ainda um disco. porém. o corpo). a doutrina da felicidade ensinada por Demócrito é intimamente afim com a de Sócrates. É possível que tenham sido abandonadas à ruína porque Demócrito chegara a compartilhar do descrédito que o prendera aos epicureus. O que devemos nos esforçar por conseguir é o "bem-estar" (euestó) ou a "alegria" (euthymíe). Este é. e é a esta que devemos agora 42 . escolhe os humanos" (fragmento 37). e é muito duvidoso se de fato conhecemos as suas idéias mais profundas. Os homens puseram a culpa na sorte. É. julgar e discernir o valor dos diferentes prazeres. Este. Isto quer dizer fundamentalmente que a felicidade não deve ser procurada nos bens exteriores. Se aplicarmos este critério aos prazeres. A perda da edição completa das suas obras feita por Trasilo é talvez a mais deplorável das muitas perdas desse tipo. "A felicidade não reside em rebanhos. hedonismo vulgar. O grande princípio que nos deve guiar é o da "simetria" ou "harmonia". e facilmente se transformam ao contrário. e a palavra grega que traduzimos por "felicidade" (eudaimonía) baseia-se neste uso. porém. sem dúvida. que foram dignas de constar nas antologias. que é a saúde. Tem-se a impressão de que ele se situa à parte da corrente principal da filosofia grega. que significava propriamente um espírito protetor do homem. se fosse preciso uma demonstração. e este é um estado da alma. quanto ao resto. Demócrito parece ter contribuído valiosamente à ciência natural. poderemos alcançar o sossego. Não há dúvida de que o tratado Sobre a Boa Disposição ou Bem-Estar (Perí Euthymíes) era seu. como Sócrates. Para o nosso presente objetivo. e. Demócrito afirmou. não é o tipo de material que se requer para a interpretação de um sistema filosófico. Para Demócrito. nem em ouro. o aspecto individual de týkhe. Ela é totalmente retrógrada e demonstra. tem sido usada no sentido equivalente de "boa sorte". quem escolhe os bens do 'tabernáculo' (isto é. cuja concepção Sócrates rejeita enfaticamente. e o sossego da alma. que foi um verdadeiro gênio neste campo. pitagórico.

43 . o único fato importante com referência a Demócrito é que ele também sentiu a necessidade de uma resposta a Protágoras. Do nosso ponto de vista.retornar.

e através também da precedente crise cética da sofística. é falso classificar Demócrito entre os predecessores de Sócrates.Período Sistemático O segundo período da história do pensamento grego é o chamado período sistemático. Se Demócrito morreu. e provavelmente nem se preocuparam em multiplicar os exemplares de um escritor cujas obras teriam sido um testemunho permanente para a carência de originalidade que caracterizou o próprio sistema deles. o século IV a. que as obras completas de Demócrito (que incluem as obras de Leucipo e outros.C. É certo. nesse período realiza-se a sua grande e lógica sistematização. Os epicuristas. porquanto a escola as conservou em Abdera e Teos ao longo dos tempos helenísticos. especialmente a Academia por motivos éticos e religiosos. que fixam o conceito de ciência e de inteligível. sob o reinado de Tibério. culminando em Aristóteles. que Demócrito falou nas obras das doutrinas de Parmênides e Zenão. exatamente como sua edição dos diálogos de Platão. Por isso. de preferência. Sabemos extremamente pouco sobre a vida de Demócrito. quando. temos apenas conjeturas para nos orientar. quando Anaxágoras era velho. detestavam qualquer tipo de estudo. isto ocorrera. Daí ser dado a esse segundo período do pensamento grego também o nome de antropológico. precursoras. não em torno da natureza. Isto esclarece o seu conhecimento geométrico. Platão e Aristóteles. segundo a suposição dele. Mesmo a partir de fundamentos meramente cronológicos. que tinham a obrigação de ter estudado o homem a quem deviam tanto. considerando que pode dar origem a dois homens de tanta envergadura. e temos uma prova contemporânea. deles procedendo a Academia e o Liceu. pela importância e o lugar central destinado ao homem e ao espírito no sistema do mundo. Abraça. e a expressão "jovem" sugere menos que esta idade. não sabemos. com a idade de noventa ou cem anos. Mesmo isso não foi suficiente para preservá-las. cedo demais. afirmou que elas foram escritas 730 anos após a queda de Tróia. da metafísica passa-se à gnosiologia e à moral. porém. Demócrito foi discípulo de Leucipo. Um membro posterior da escola. foi possível para Trasilo. até então limitado à natureza exterior. bem como as de Demócrito) continuaram a existir. visto estar baseado na hipótese de que tinha quarenta anos quando se encontrou com Anaxágoras. diz que tomou conhecimento por intermédio de Filolau. Sabemos. que chegou a conhecê-las 44 . através de Sócrates e Platão. que também os pitagóricos foram seus mestres.depois do qual começa a decadência . Com efeito. organizada em tetralogias. Havia nessa época e posteriormente diversas eras em uso. o que parece muito provável. sendo principais a cínica e a cirenaica. Como Protágoras. do estoicismo e do epicurismo do período seguinte. uma cidade que nem mereceria a reputação proverbial de embotamento. O interesse dos filósofos gira. Demais. de qualquer maneira ainda vivia quando Platão fundara a Academia. outros aspectos do seu sistema. substancialmente. cumpre-nos encontrar um espaço para Leucipo entre eles [Demócrito] e Zenão. daí derivando as chamadas escolhas socráticas menores. e a partir dai concluiu-se que nasceu em 460 a.C. como se diz. bem como. a de Glauco de Régio. respectivamente. outrossim. como Sócrates. Quanto à data do seu nascimento. entretanto. não obstante. era natural de Abdera na Trácia.1 . e compreende um número relativamente pequeno de grandes pensadores: os sofistas e Sócrates.apesar de o aristotelismo ter superado logicamente o platonismo. Em uma das principais obras.7 . Disse também algures que.. mas em torno do homem e do espírito. Esse período esplêndido do pensamento grego . ele tentou responder ao seu distinto concidadão Protágoras. e obscurece o fato de que.OS SOFISTAS 7. fazer uma edição das obras de Demócrito. e em seus desenvolvimentos neoplatônicos em especial . que sobreviverão também no período seguinte e além ainda.teve duração bastante curta. Apolodoro de Quizico. ele era jovem. Parece.

Se não houvesse ar. Para compreender esta questão. está precisamente na mesma linha que a de Sócrates. se a distância for grande. 45 . A questão à qual tinha que se dedicar era a de sua própria época. que ele parece ter exposto bem conforme a tinha recebido de Leucipo. todavia. deve ser cautelosamente distinguido do sentido próprio do tato. tais como forma. A audição explica-se de uma maneira similar. uma semelhança exata do corpo do qual provém. a Anaxágoras. A possibilidade de ciência havia sido negada. Uma vez que a alma se compõe de átomos como qualquer outra coisa. a sensação deve consistir no impacto dos átomos externos sobre os átomos da alma. 7. Menos ainda está no seu sistema cosmológico. Isto pode referir se à explicação dos eclipses. e é realmente verdade se entendermos por tato o sentido que percebe qualidades. que deriva mormente de Anaxágoras. e é provável que ele seja o autor da doutrina minuciosa dos átomos com respeito a este assunto. "poderíamos ver uma formiga rastejando no firmamento". Por outro lado. skhémata) dos átomos que entram em contato com os órgãos desse sentido. Aristóteles afirma que Demócrito reduziu todos os sentidos ao tato. e por que. e sem dúvida alguma na Jonia. tamanho e peso. entre nós e os objetos da visão. O som é uma torrente de átomos que jorram do corpo sonante e produzem movimento no ar entre ele [corpo] e o ouvido. o tato. e o olfato explica-se semelhantemente. é afetado de acordo com a forma e o tamanho dos átomos chocando nele. e parece ter dito que a sua teoria do sol e da lua não era original. As diferenças de cor devem-se à lisura ou aspereza das imagens ao tato. embora não com os mesmos detalhes. que acima foi descrito. mas sim o cabeça de uma escola regular. Chegou. Demétrio de Falerão afirmou que Demócrito jamais visitou Atenas. Se disse isto. mas há uma certa razão para se acreditar que o fragmento onde isto é mencionado (fragmento 298 b) é apócrifo. então é possível que este fragmento também seja apócrifo. Diz-se ter visitado o Egito. mas as "imagens" (deíkela. Não era um sofista itinerante do tipo moderno. mas somente o vazio. e era isto que exigia uma solução. A originalidade de Demócrito.Teoria do Conhecimento Demócrito procedeu como Leucipo ao fazer uma avaliação puramente mecânica da sensação. portanto. Não é. pois está sujeita às distorções causadas pela interferência do ar. A verdadeira grandeza de Demócrito não está na teoria dos átomos e do vazio. ensinando e escrevendo em Abdera. ao ouvido junto com aquelas porções do ar que se Ihe assemelham. o molhado e o seco e outros que tais. portanto.através de Leucipo. Fez menção a Anaxágoras. Ademais. porém. Disto decorre que os objetos da visão não são estritamente as coisas que nós mesmos presumimos ver. considerado como o sentido pelo qual sentimos o calor e o frio. As diferenças de paladar são devidas às diferenças nas figuras (eide. Pertence inteiramente a uma outra geração que a desses homens. e não está preocupado de modo especial em encontrar uma resposta a Parmênides. eídola) que os corpos estão constantemente emitindo. ainda que Demócrito naturalmente estivesse ciente de ser ela pitagórica. que geralmente fora atribuída em Atenas. e os órgãos dos sentidos devem ser simplesmente ''passagens" (póroi = poros) através das quais estes átomos se introduzem. Seja como for. Este é o motivo por que vemos as coisas a distância de um modo embaraçado e indistinto.2 . sem dúvida deu a entender que não conseguira causar uma impressão tal como o fizera o seu mais brilhante concidadão Protágoras. ele deve ter despendido a maior parte do seu tempo no estudo. o problema do comportamento tornara-se premente. bem como todo o problema do conhecimento levantado por Protágoras. De modo idêntico. isto não seria assim. Este. A imagem na pupila do olho era considerada como a coisa essencial em visão. não podemos vê-las de modo algum. temos que considerar a doutrina do conhecimento "legítimo" e "ilegítimo". Há um outro (fragmento 116) no qual ele diz: "Eu fui a Atenas e ninguém tomou conhecimento de mim".

Seguindo o exemplo de Protágoras. que asseverou serem todas as sensações igualmente verdadeiras para o objeto sensível. É evidente. pois ele terá muitas incisões em forma de degraus e muitas asperezas. diz ele (fragmento 11). "duas formas de conhecimento (gnóme): o legítimo (gnesíe) e o ilegítimo (skotíe). o que se deveria pensar das superfícies das duas partes cortadas? Seriam iguais ou desiguais? Se forem desiguais. Sua doutrina. é tanto amargo quanto doce. e seus objetos são como os "sensíveis comuns" de Aristóteles. Ao mesmo tempo. Esta é a resposta de Demócrito a Protágoras. pois. que ele estava empenhado em problemas tais como aqueles que 46 . da mesma natureza do "ilegítimo". "Pelos sentidos". cuja verdadeira natureza não pode ser apreendida pelos sentidos próprios. e é bastante idêntico a Leucipo que disse algo de parecido. por convenção há o quente e por convenção há o frio. Ao ilegítimo pertencem todos estes: a visão. considera falsas todas as sensações dos sentidos próprios. pois. contudo. "há o doce. rejeita a sensação como fonte de conhecimento. doce para mim e amargo para você. Ele diz que o mel. Esta é a razão por que a mesma coisa às vezes dá a sensação de doce e às vezes de amargo. e não há nada que os impeça de ter contato imediato com os átomos externos. foi-nos preservada através de suas próprias palavras. o som e outros semelhantes eram apenas "nomes" (onómata). as cores. por convenção há o amargo. o que é o maior absurdo". por exemplo. chegando assim a conhecê-los como realmente são. é "não mais tal do que tal" (oudèn mãllon toion è toion). pois "a verdade jaz num abismo" (fragmento 117). Demócrito. naturalmente. porém. apesar de não haver razão de se acreditar que ele tenha elaborado uma teoria sobre o assunto. Os átomos da alma não se restringem a algumas partes específicas do corpo. não se pode ignorar que Demócrito dera uma explicação puramente mecânica deste conhecimento legítimo. apesar de tudo. por conseguinte. Segundo um comentário de Arquimedes. posto que elas não têm uma contrapartida real fora do objeto sensível. Porém. O legítimo. Parmênides afirmara claramente que o paladar. que os átomos fora de nós poderiam afetar diretamente os átomos da nossa alma sem a intervenção dos órgãos dos sentidos. "Por convenção (nómo)": disse ele (fragmento 125). felizmente. o olfato. a fazer uma separação absoluta entre os sentidos e o conhecimento. ressalva a possibilidade de ciência. então as partes cortadas serão iguais. com efeito. a audição. o paladar e o tato. farão irregular o cone. as nossas sensações não representam nada de externo. Demócrito foi obrigado a ser explícito com referência à questão. parece que Demócrito prosseguiu afirmando que o volume do cone era a terça parte do volume do cilindro sobre a mesma base e do mesmo peso. Demócrito ocupou-se com o problema da continuidade. está fora da discussão. pelo contrário. está separado daquele". Teu tiro é uma capitulação. Como seria de esperar de um seguidor dos pitagóricos e de Zenão. há os átomos e o vazio. por convenção há a cor". e o cone terá a aparência de um cilindro. mas uma espécie de sentido interno. Nisto. Não podemos conhecer a realidade deste modo. como Sócrates. mas somente alguma coisa que muda de acordo com a disposição do corpo e das coisas que nele penetram ou Ihe opõem resistência". Sexto Empírico e Plutarco afirmaram claramente que Demócrito argüiu contra Protágoras. Deveras. que é composto de círculos iguais e não desiguais. "nós na verdade não conhecemos nada de certo. na realidade (etee). Na realidade. Se forem iguais. ele o confirma desta forma: "Se um cone fosse cortado por um plano em linha paralela à base. mas nele penetram em qualquer direção. Demócrito. Em uma passagem digna de nota (fragmento 155). O "conhecimento legítimo" é. exatamente como fizeram os pitagóricos e Sócrates. pensamento. e o fato." O conhecimento "legítimo" não é. "Há". Vê-se que esta doutrina tem muito em comum com a distinção moderna entre as qualidades primárias e secundárias da matéria. "Pobre Mente". como o fizera do ilegítimo. afinal de contas. afirmou Demócrito (fragmento 9). afirmando que existe uma outra fonte de conhecimento que não a dos sentidos próprios. e Demócrito recusou-se. "é por causa de nós que conseguiste as provas com as quais atiras contra nós.É aqui que Demócrito entra nitidamente em conflito com Protágoras. imagina ele os sentidos dizerem (fragmento 125). Defendeu. está em conformidade com a tradição eleática onde repousa a teoria atômica. apesar de serem causadas por algo fora de nós. cujo teorema foi demonstrado primeiro por Eudoxo. como eles.

pois a verdadeira justiça conforme à natureza material. destruidor da ciência. em tal regime. assim é bem o que satisfaz ao sentimento. É esta. mediante graves crimes. aliás. e entendendo por natureza. O conteúdo desse ensino abraçava todo o saber. ao empirismo gnosiológico correspondem o hedonismo e o utilitarismo ético: o único bem é o prazer. em situação semelhante. Os menores foram uma plêiade. quer moral. continuando até depois de Sócrates. a Atenas de Péricles. Então a realização da humanidade perfeita. que a causa seja justa ou não. interessado. não como lei racional do agir humano. pois grandes malvados. portanto. uma enciclopédia. a única regra de conduta é o interesse particular.é concebida pelos sofistas. chefe de escola e teórico da sofística.dizem que a submissão à lei torne os homens felizes. devia ter a oratória e. 7. instintiva. ao impulso. mas como um empecilho que incomoda o homem. considerando a lei como fruto arbitrário. Górgias declara plena indiferença para com todo moralismo: ensina ele a seus discípulos unicamente a arte de vencer os adversários. superficial. Desta maneira. houve um triunfo político da democracia. a cultura. sequiosos de conquistar fama e riqueza no mundo. tornaramse mestres de eloqüência. A moral. aliás. Esse domínio violento é necessário para possuir e gozar os bens terrenos.finalmente deram origem ao método infinitesimal do próprio Arquimedes. embora sem importância filosófica. Diversamente dos filósofos gregos em geral. E tentam criticar a vaidade desta lei. Vemos mais uma vez como foi importante a obra de Zenão como um fermento intelectual. como a lei que potencia profundamente a natureza humana. portanto. A época de ouro da sofística foi . contra o império persa. não é mister justiça e retidão. uma pura convenção.Moral. E visto que o domínio pessoal. O centro foi Atenas.2 . Ao sensualismo.a segunda metade do século V a. Como é verdadeiro o que tal ao sentido. os mestres de eloqüência. atenienses. desinteressado. de repente. no domínio de si mesmo. a sua força. na justiça para com os outros. o poderoso. os sofistas estabelecem uma oposição especial entre natureza e lei.A Sofística Após as grandes vitórias gregas. mas sobejamente retribuído. Os sofistas. portanto. materiais. Seria. animal. mortificador. oprima o fraco em seu proveito. à paixão de cada um em cada momento. de retórica. não a natureza humana racional. bem como a sua utilidade comumente celebrada: não é verdade . Protágoras foi o maior de todos. o ensinamento dos sofistas não era ideal. a experiência ensina que para triunfar no mundo. destruidor da moral. mas no engrandecimento ilimitado da própria personalidade.3 . 7. como acontece todas as vezes que o povo sente. no prazer e no domínio violento dos homens. mas prudência e habilidade. mas como meio para fins práticos e empíricos e. têm freqüentemente conseguido grande êxito no mundo e. Os sofistas maiores foram quatro. não lhe interessa. a sofística sustenta o relativismo prático. a única forma de vida social possível num mundo em que estão em jogo unicamente forças brutas. 47 . quer política. Direito e Religião Em coerência com o ceticismo teórico. visto estes bens serem limitados e ambicionados por outros homens. capital democrática de um grande império marítimo e cultural. na verdade tão mutável conforme os tempos e os lugares. depende da capacidade de conquistar o povo pela persuasão. um prejuízo a igualdade moral entre os fortes e os fracos.como norma universal de conduta . segundo o ideal dos sofistas. exige que o forte. mas a natureza humana sensível. não está na ação ética e ascética.pode-se dizer . compreende-se a importância que. isto é. não para si mesma. . por conseguinte. ensinando aos homens ávidos de poder político a maneira de consegui-lo.C.

7. No Górgias de Platão. na Magna Grécia. onde morreu com setenta anos (410 a. instintiva. sutis uns. para pedir auxílio contra os siracusanos. Em suma. na qual desenvolve as três teses: Nada existe. até o ateísmo. cuja escola conheceu . Refugiou-se então na Sicília. não na sua realidade física.Protágoras de Abdera Protágoras nasceu em Abdera . servem-se da injustiça e do muito mal que existe no mundo. outros pueris. Górgias declara que a sua arte produz a persuasão que nos move a crer sem saber. a posição da sofística é extremista também. e a sua obra sobre os deuses foi queimada em praça pública. Mas este direito natural . para negar que o mundo seja governado por uma providência divina. inferiu Protágoras a relatividade do conhecimento. naturalmente. mais eloqüente que Protágoras. o homem é a medida de todas as coisas. a força e a violência podem ser o único elemento organizador. onde teve grande êxito. em Atenas. mediante o ensinamento da retórica. Ensinou na Sicília. e especialmente em Atenas.bem como a moral natural .correlacionado com Empédocles representa a maior expressão prática da sofística. em outras cidades da Grécia. em 480-375 a.C. A respeito da religião e da divindade. pois em uma sociedade em que estão em jogo apenas forças brutas.de harmonia com o ceticismo deles chegam até o extremo. A prova de cada uma destas proposições e um enredo de sofismas. como na gnosiologia e na moral. Protágoras recorre à convenção estatal. teve de fugir de Atenas.Quanto ao direito e à religião. Acusado de ateísmo. Dos princípios de Heráclito e das variações da sensação. partiu dos princípios da escola eleata e concluiu também pela absoluta impossibilidade do saber.segundo os sofistas. os sofistas não só trilham a mesma senda dos filósofos racionalistas gregos do período precedente e posterior. não é o direito fundado sobre a natureza racional do homem. e não a persuasão que nos instrui sobre as razões intrínsecas do objeto em questão. tirânico.4 . pois. conforme as disposições subjetivas dos órgãos. relativismo e sensualismo são as notas características do seu sistema de ceticismo parcial. muitas vezes arbitrário. negador dos valores teóricos e morais. na Sicília. e sim sobre a sua natureza animal. e foi honrado e procurado por Péricles e Eurípedes. Os sofistas. em nome do direito natural. que deveria estabelecer o que é verdadeiro e o que é bem! 48 . contra o direito positivo. o único sistema jurídico admissível. ensinando na sua cidade natal. Então. se alguma coisa existisse não a poderíamos conhecer. onde foi processado e condenado por impiedade. mas na sua forma conhecida. Para remediar este extremo individualismo. Esta doutrina enunciou-a com a célebre fórmula. Subjetivismo. sobretudo entre os jovens.5 . É autor duma obra intitulada "Do não ser". porém. porém. passional. e a um outro o de Górgias.pelo ano 480.).pátria de Demócrito. dos quais. Viajou por toda a Grécia. contingente.C . quarenta dedicados à sua profissão. onde teria morrido com 109 anos de idade. até estabelecer-se em Larissa na Tessália. social. exagerador dos artifícios da dialética eleática. Platão deu o nome de Protágoras a um dos seus diálogos. o direito natural é o direito do mais poderoso. teoricamente. Menos profundo. Em 427 foi embaixador de sua pátria em Atenas. Esta máxima significava mais exatamente que de cada homem individualmente considerado dependem as coisas. se a conhecêssemos não a poderíamos manifestar aos outros. A sofística move uma justa crítica.Górgias de Leôncio Górgias nasceu em Abdera. mas . é mais ou menos o que acontece com o jornalismo moderno. foi um filósofo ocasional. pelo menos praticamente. 7.

Sócrates. foi ele valoroso soldado e rígido magistrado. em contato com o que de mais ilustre houve na cidade de Péricles. filho de Sofrônico. porém. Quanto à política. com 71 anos de idade. e de Fenáreta. honestos.8 . Desempenhou alguns cargos políticos e foi sempre modelo irrepreensível de bom cidadão. mas dedicou-se inteiramente à meditação e ao ensino filosófico.SÓCRATES 8. bem como de certos elementos racionários. gravemente ferido. hostilidade popular.que se teria realizado pouco antes da morte e foi descrito por Platão no Fédon com arte incomparável. que agiam para o próprio proveito e formavam grandes egoístas. podemos dizer que Sócrates não teve. apesar de sua probidade. Aprendeu a arte paterna.o discípulo Criton preparou e propôs a fuga ao Mestre. na moldura da alta cultura ateniense da época. onde carregou aos ombros a Xenofonte. Esse estado de ânimo hostil a Sócrates concretizou-se. Formou a sua instrução sobretudo através da reflexão pessoal. que o condenou à pena capital com o voto da maioria. em Atenas.A Vida Quem valorizou a descoberta do homem feita pelos sofistas. escultor. Julgava que devia servir a pátria conforme suas atitudes.C. Declarado culpado por uma pequena minoria. orientando-a para os valores universais. Combateu a Potidéia. Tinha ele diante dos olhos da alma não uma solução empírica para a vida terrena. por certo. não se deixou distrair pelas preocupações domésticas nem pelos interesses políticos. E preferiu a morte.C. sem recompensa alguma.2 . É que o deus da medicina tinha-o livrado do mal da vida com o dom da morte. capazes unicamente de se acometerem uns contra os outros e escravizar o próximo. recusou. depois de ter sorvido tranqüilamente a cicuta. para a imortalidade. concluíram 49 . foi Sócrates. onde salvou a vida de Alcebíades e em Delium.diversamente dos sofistas. temperados . Insistindo no perpétuo fluxo das coisas e na variabilidade extrema das impressões sensitivas determinadas pelos indivíduos que de contínuo se transformam. na acusação movida contra ele por Mileto. Nasceu Sócrates em 470 ou 469 a. E passou o tempo preparando-se para o passo extremo em palestras espirituais com os amigos.. assentou-se com indômita fortaleza de ânimo diante do tribunal. Entretanto. Quanto à família. tomou forma jurídica. mas também ela não teve um marido ideal no filósofo. que contrastavam com o seu temperamento crítico e com o seu reto juízo. humilhando-se e desculpando-se mais ou menos. a feição austera de seu caráter. 8. declarando não querer absolutamente desobedecer às leis da pátria. segundo a via real do pensamento grego. foram: "Devemos um galo a Esculápio". Mas. Especialmente famoso é o diálogo sobre a imortalidade da alma . Diante da tirania popular. Morreu Sócrates em 399 a.1 . Anito e Licon: de corromper a mocidade e negar os deuses da pátria introduzindo outros. vivendo justamente e formando cidadãos sábios. uma mulher ideal na quérula Xantipa. irônica e a conseqüente educação por ele ministrada. não obstante sua pobreza. conservou-se afastado da vida pública e da política contemporânea. e sim o juízo eterno da razão.Método de Sócrates É a parte polêmica. Sócrates desdenhou defender-se diante dos juizes e da justiça humana. Suas últimas palavras dirigidas aos discípulos. ocupado com outros cuidados que não os domésticos. parteira. em geral. Tendo que esperar mais de um mês a morte no cárcere . Inteiramente absorvido pela sua vocação. a sua atitude crítica. a liberdade de seus discursos. aparecia Sócrates como chefe de uma aristocracia intelectual.pois uma lei vedava as execuções capitais durante a viagem votiva de um navio a Delos . criaram descontentamento geral. inimizades pessoais.

foi filósofo grande demais para nos dar o preciso retrato histórico de Sócrates. Xenofonte. se personificava na voz interior divina do gênio ou demônio. que facilitava a parturição das idéias. No segundo caso. na exposição polêmica e didática destas idéias. a teodicéia de estímulo à virtude e de natural complemento da ética. de feição intelectual muito diferente. O perfeito conhecimento do homem é o objetivo de todas as suas especulações e a moral. multiplicava ainda as perguntas. identificando a vontade com a inteligência.Doutrinas Filosóficas A introspecção é o característico da filosofia de Sócrates. o particular. cabe-lhe a glória e o privilégio de ter sido o grande historiador do pensamento de Sócrates. As notícias que temos de sua vida e de seu pensamento devem-se especialmente aos seus dois discípulos. em memória da profissão materna. A este processo pedagógico. Xenofonte e Platão. 8. Platão.isto é. Este conceito ou idéia geral obtém-se por um processo dialético por ele chamado indução e que consiste em comparar vários indivíduos da mesma espécie. permanente. Sócrates não deixou nada escrito. Por onde se vê que a indução socrática não tem o caráter demonstrativo do moderno processo lógico. Em teodicéia. distingue as duas ordens de conhecimento. Seja como for. em seus Ditos Memoráveis. E alcançava em Sócrates intensidade e profundidade tais. denominava ele maiêutica ou engenhosa obstetrícia do espírito. E exprime-se no famoso lema conhece-te a ti mesmo . mas não define o livre arbítrio. torna-te consciente de tua ignorância . não entendeu o pensamento filosófico de Sócrates. pode-se dizer que Sócrates é o protagonista de todas as obras platônicas embora Platão conhecesse Sócrates já com mais de sessenta anos de idade. que vai do fenômeno à lei. mas é um meio de generalização. não obstante a sua devoção para com o mestre e a exatidão das notícias. autor de Anábase. é o inteligível. sendo mais um homem de ação do que um pensador. tratando-se de um discípulo (e era muitas vezes o próprio adversário vencido). o centro para o qual convergem todas as partes da filosofia. um conceito. bem como o seu biógrafo genial. o indivíduo que passa.os sofistas pela impossibilidade absoluta e objetiva do saber. conforme se tratava de um adversário a confutar ou de um discípulo a instruir.como sendo o ápice da sabedoria. Sócrates restabelece-lhe a possibilidade. formulando claramente o princípio: tudo o que é adaptado a um fim é efeito de uma inteligência. determinando o verdadeiro objeto da ciência. É a ironia socrática. "Conhece-te a ti mesmo" . as qualidades mutáveis e reter-lhes o elemento comum. pelo contrário. Sócrates professa a espiritualidade e imortalidade da alma. O objeto da ciência não é o sensível. uma definição geral do objeto em questão. estabelece a existência de Deus: a) com o argumento teológico. mas sem profundidade. por indução dos casos particulares e concretos.3 . nem sempre é fácil discernir o fundo socrático das especulações acrescentadas por ele. A psicologia serve-lhe de preâmbulo. Praticamente. que é o desejo da ciência mediante a virtude. Sócrates adotava sempre o diálogo. assumia humildemente a atitude de quem aprende e ia multiplicando as perguntas até colher o adversário presunçoso em evidente contradição e constrangê-lo à confissão humilhante de sua ignorância. eliminarlhes as diferenças individuais. a natureza.o lema em que Sócrates cifra toda a sua vida de sábio. b) com o 50 . Em psicologia. sensitivo e intelectual. estável. No primeiro caso. Xenofonte. o conceito que se exprime pela definição. legou-nos de preferência o aspecto prático e moral da doutrina do mestre. Com efeito. dirigindo-as agora ao fim de obter. Como é sabido. que revestia uma dúplice forma. a essência da coisa. que se concretizava. de estilo simples e harmonioso. que remonta do indivíduo à noção universal.

para construir uma ética é necessário uma teoria.argumento. governa o mundo com sabedoria e o homem pode propiciá-lo com sacrifícios e orações. Sócrates reconhece também. é a prática da virtude. sentimentalismo. para realizar o próprio fim. Mas. cumpre desembaraçar o espírito dos conhecimentos errados. Sócrates. 8. que declara auxiliar os partos do espírito. no sentido de que o homem tanto opera quanto conhece: virtuoso é o sábio. o ignorante. Antes de tudo.que não é absolutamente subjetivista. a respeito da metafísica. donde é preciso extraí-la. que se concretizava no seu ensinamento dialógico. trata-se. da crítica. ignorância. malvado. no entanto.bem como o conhecer humano . no pensamento de Sócrates. O fim da filosofia é a moral. racionalismo. pragmatismo. definição. Deus não só existe. no dizer de Sócrates. este é o momento da ironia. em prática. também inteligente deve ser a causa que o produziu. morais. apenas esboçado. Vale dizer que o agir humano . com finalidades práticas. em geral. a favor da reflexão livre e da convicção racional. universal. 51 . antes. Apesar destas doutrinas elevadas. sugere quase sempre a utilidade como motivo e estímulo da virtude. não de direito. totalmente. que a promulgou e sancionou. o prático depende. A filosofia socrática. a ciência. mediante a razão. expressão da vontade divina promulgada pela voz interna da consciência.patenteiam-se no famoso dito socrático "conhece-te a ti mesmo" que. um legislador. Esta doutrina. Esta interioridade do saber. se o fim da filosofia é prático. Sócrates aceita em muitos pontos os preconceitos da mitologia corrente que ele aspira reformar. indução. a qual é um valor universal. dos preconceitos. com ela se identifica. sem metafísica. ainda que com finalidade diversa. Esta feição utilitarista empana-lhe a beleza moral do sistema. a gnosiologia deve preceder logicamente a moral. portanto. ele é cético a respeito da cosmologia e. A seguir será possível realizar o conhecimento verdadeiro. introspecção. maiêutica. do teórico. como sua mãe auxiliava os partos do corpo. A única ciência possível e útil é a ciência da prática. mas dirigida para os valores universais. ativismo. porém. pela razão imanente e constitutiva do espírito humano.se baseia em normas objetivas e transcendentes à experiência. ignorância e vício são sinônimos. mas é a certeza objetiva da própria razão . A virtude adquiri-se com a sabedoria ou. justo será o que sabe a justiça". "Se músico é o que sabe música. de um ceticismo de fato. esta intimidade da ciência . limita-se à gnosiologia e à ética. acima das leis mutáveis e escritas. dada a sua revalidação da ciência. Como os sofistas. espiritual. pode-se esquematicamente resumir nestes pontos fundamentais: ironia. É a parte culminante da sua filosofia. c) com o argumento moral: a lei natural supõe um ser superior ao homem. Conclusão: grandeza moral e penetração especulativa. isto é. fim supremo do homem. a existência de uma lei natural independente do arbítrio humano. da causa eficiente: se o homem é inteligente. Isto quer dizer que a instrução não deve consistir na imposição extrínseca de uma doutrina ao discente. é conseqüência natural do erro psicológico de não distinguir a vontade da inteligência. é mister conhecê-lo. É a famosa maiêutica de Sócrates. Sócrates. reivindica a independência da autoridade e da tradição. mas o mestre deve tirá-la da mente do discípulo. mas é também Providência. O moralismo socrático é equilibrado pelo mais radical intelectualismo. não particulares. fonte primordial de todo direito positivo. que está contra todo voluntarismo. O meio único de alcançar a felicidade ou semelhança com Deus. por sua vez. de par com os sofistas. significa precisamente consciência racional de si mesmo. pedreiro o que sabe edificar. virtude e ciência. Sublime nos lineamentos gerais de sua ética. Moral.Gnosiologia O interesse filosófico de Sócrates volta-se para o mundo humano. opiniões. A gnosiologia de Sócrates.4 . uma das mais características da moral socrática. Sócrates ensina a bem pensar para bem viver.

da opinião à ciência. precisa . desenvolveram exageradamente algumas de suas partes com detrimento do conjunto.realizando-se o bem mediante a virtude. razão. mediante o pensamento socrático. valoriza o pensamento dos pré-socráticos desenvolvendo-o em sistemas vários e originais.assim a ética socrática carece de um conteúdo racional. como a gnosiologia socrática carece de uma especificação lógica. Fora desta escola começa a decadência e desenvolver-se-ão as escolas socráticas menores. no agnosticismo filosófico por falta de uma metafísica. não sentimento. alguns. pois. o vértice e a conclusão da grande metafísica grega. portanto. ação racional. saídos das escolas anteriores não lograram assimilar toda a doutrina do mestre. esta felicidade. superado. antes de tudo. partindo dos pressupostos socráticos. logo. Sócrates achou apenas a forma conceitual da ciência. além de simples amadores. consciência da própria ignorância inicial e. embora o pensamento socrático fique. Estes dois filósofos. de fato.mesmo diferenciando-se bastante entre si . além dos vulgarizadores da sua moral (socratici viri). no entanto. Entre os seus numerosos discípulos. nem pode precisar este bem. enfim. como Xenofonte. Estas . ciência. depois. em particular da ciência moral. tradição. não descendo até à animalidade .Escolas Socráticas Menores A reforma socrática atingiu os alicerces da filosofia. Entretanto. dele depende. toda a especulação grega que se seguiu. a indução: isto é. científico.concordam todas pelo menos na característica doutrina socrática de que o maior bem do homem é a sabedoria. da experiência ao conceito. necessidade de superá-la pela aquisição da ciência. lei positiva. Este conceito é. remontar do particular ao universal.Sócrates não sabe. que será percorrido por Platão e acabado. conceitual é. mediante a doutrina do conceito. Sócrates não elaborou um sistema filosófico acabado. Esta ignorância não é. por conseguinte. 52 . Virtude é inteligência. uma moral. 8.juntamente com o elemento vital do pensamento precedente. mediante a doutrina de que eticidade significa racionalidade. como Alcibíades e Eurípedes. precisamente porque lhe falta uma metafísica. consciência de si mesmo quer dizer. identificando conhecimento e virtude . pela novidade de suas idéias. por Aristóteles. mas apenas metódico. rotina. nem deixou algo de escrito.para organizar racionalmente a própria vida. e a virtude mediante o conhecimento . um poderoso impulso para o saber. descobriu o método e fundou uma grande escola.A Moral Como Sócrates é o fundador da ciência em geral. Não é. subindo até à razão. ceticismo sistemático. A escola socrática maior é a platônica.afora a teoria geral de que a ciência está nos conceitos . Se o fim do homem for o bem . Traçou.bem como ignorância e vício .5 . opinião comum. pela ausência de uma metafísica. costume. a qual. pois. desenvolverão uma gnosiologia acabada. Isto aparece imediatamente nas escolas socráticas. todavia. já aureolado pela austera grandeza moral de sua vida. havia verdadeiros filósofos que se formaram com os seus ensinamentos. Tudo isto tem que ser criticado. O procedimento lógico para realizar o conhecimento verdadeiro. Entretanto. É sabido que Sócrates levava a importância da razão para a ação moral até àquele intelectualismo que. 8. tenha. de admirar que um homem.tornava impossível o livre arbítrio. e nos dá a essência da realidade. assim é o fundador.como ensinavam os sofistas. uma grande metafísica e. o itinerário. determinado precisamente mediante a definição. não o seu conteúdo. representa o desenvolvimento lógico do elemento central do pensamento socrático . representando o ideal e a conclusão do processo gnosiológico socrático.o conceito . antes de tudo.6 . Por isso. direta ou indiretamente. A doutrina do conceito determina para sempre o verdadeiro objeto da ciência: a indução dialética reforma o método filosófico. Dentre estes. exercido sobre os contemporâneos tamanha influência. e culmina em Aristóteles. a ética une pela primeira vez e com laços indissolúveis a ciência dos costumes à filosofia especulativa.

degenerou. fundada por Aristipo. c. Estas escolas. mais tarde recresceram transformadas ou degeneradas em outras seitas filosóficas. o herdeiro genuíno de suas idéias. que. vegetaram na penumbra. c. 425) que desenvolveu o utilitarismo do mestre em hedonismo ou moral do prazer. A escola de Megara. o seu mais ilustre continuador foi o sublime Platão. porém. exagerando a doutrina socrática do desapego das coisas exteriores. 445). que. fundada por Antístenes (n. fundada por Euclides (449-369). 2. Dentre os herdeiros de Sócrates. dominado pelas altas especulações de Platão e Aristóteles. em verdadeiro desprezo das conveniências sociais. 53 . durante o segundo período. (n. 3. por último. que tentou uma conciliação da nova ética com a metafísica dos eleatas e abusou dos processos dialéticos de Zenão.São fundadores das escolas socráticas menores. verdadeiros continuadores da tradição socrática. São bem conhecidas as excentricidades de Diógenes. das quais as mais conhecidas são: 1. A escola cirenaica ou hedonista. A escola cínica.

em janeiro de 399 a. Contudo. Meleto era o acusador oficial. contra Sócrates. filho de Sofronisco. vemos que Sócrates. a influência exercida por Ânito constituiu o elemento mais respeitável no desfecho do processo. de acordo com a própria informação de Andócides: esse Meleto foi um dos que.C. já então tido como um fanático religioso. foi a que segue: "A seguinte acusação escreve e jura Meleto. e sim escrita por Platão. também Ânito e Lícon. e. Acredito chamar-se Meleto. também.. por haver sido essa também uma acusação de impiedade.9 . que se vale do nome de Meleto. hábil ou temível. onde fora afixada a acusação por Meleto. sobra a dificuldade de explicar por que motivo Sócrates. O acusador era Meleto. além de considerar que Sócrates insiste no fato de que Meleto é desconhecido. logicamente. pouco provavelmente chamaria a atenção de Aristófanes em 405 a. podemos considerar Meleto de Sócrates o mesmo Meleto de Andócides. já que nada corrobora realmente esta pretensão. em 404 a. ao se aproximar do Pórtico do Rei. total responsabilidade. do povoado de Piteo. Exceto se reputarmos que essa defesa não seja de fato de Sócrates. seria muito conveniente. À parte o problema da mudança de lado .Introdução à Apologia de Sócrates De acordo com Diógenes Laércio.. por ordem dos Trinta Tiranos. não disse que Meleto era um desses homens. filho de Meleto. de introduzir novos cultos. ao ser inquirido pelo adivinho Eutífron a respeito de quem era aquele que o acusava. embora. de cabelos lisos. do povoado de Alópece.C.1 .C. sendo uma delas se se tratava do personagem citado por Aristófanes. se a acusação não fosse considerada procedente pelo júri. mas um cidadão podia.C. que derrotara e expulsara esses mesmos Trinta Tiranos . porém. no célebre processo por causa da mutilação da estátua de Hermes e da profanação dos Mistérios. tendo sido o único a recusar-se a obedecer. que foi por ele zelosamente preparado nas reuniões dos diversos cidadãos. E.de partidário dos Trinta Tiranos tornar-se aliado de Ânito. mas somente aquele que assinava a acusação. 54 . fique apenas no campo da suposição.. talvez porque seja um homem jovem e desconhecido. Mas não há elementos em que basear essa suposição.. assumindo. existe outro obstáculo. barba rala e nariz em forma de bico de pássaro". existem muitas dúvidas. sustentando-o com a autoridade de seu nome. No Eutífron. Desse modo. é culpado de corromper a juventude.C. com os mesmos direitos à palavra no decorrer do processo. porém nada exigia que o acusador oficial fosse o mais respeitável. assim solucionando o problema que tanta discussão tem provocado. respondeu: "Sei bem pouco a respeito dele. juntamente com outros quatro homens recebera a ordem de deter a Leon de Salamina. Pena: a morte" A cidade de Atenas não podia mover ações. mas não só ele. pois um jovem poeta de 399 a. se prestaram a deter Leon de Salamina. do povoado de Piteo. neste caso. chegou a tomar parte da acusação contra Andócides. a acusação apresentada contra Sócrates. a fim de engrandecer o mestre desaparecido.APOLOGIA DE SÓCRATES 9. Sócrates é culpado de não aceitar os deuses que são reconhecidos pelo Estado. A respeito de saber com exatidão quem era esse Meleto. Julgar tratar-se do Meleto que. que conforme ele mesmo afirma na Apologia. em 399 a.

comerciante de couro. e eu te aconselho. expulso de Atenas em decorrência de um processo parecido com o seu. as múltiplas facetas da deusa prevaleciam. condenado. um movimento reacionário em termos de culto. que com muita facilidade te dedicas à maledicência. executando os trabalhos mais necessários à sobrevivência e à defesa. e já havia exercido importantes cargos e magistraturas. A bem da verdade. que a ele alude como se Meleto fosse seu subordinado. No que concerne à condenação por motivos religiosos. isto é. Depois da restauração do regime democrático. venerada como Réia. em que Zeus era o deus-pai.O pouco que conhecemos ou podemos presumir a respeito de Lícon é que pouca importância e autoridade teve no decorrer do processo. vindo a ser. segundo comprova sua atuação no Mênon. Mas é preciso frisar que o propósito. dava a impressão de conhecer Sócrates.C. o homem que sempre se recordava de haver sido discípulo de Arquesilau. Desde a época de Sócrates. que em vez de escolher o exílio preferiu a proposta de uma multa irrisória. por sua vez. regressou de File com estes e tomou parte da expedição armada contra o governo dos tiranos. nessa época de instalação do regime democrático. da mesma maneira que se dá com condenações por motivos políticos. A opinião de Platão a esse respeito é bem clara: não foi por razões religiosas que Sócrates recebeu a condenação. que era sempre devorado pelo tempo. Tanto isso é verdade que. afirmara-se o culto patriarcal. não era matá-lo. o texto da sentença preocupa-se muito mais em esconder do que apresentar as verdadeiras causas. é aquele que. patente mostra de sua obstinada repulsa aos governos democráticos. o qual. Ânito manteve relação com Sócrates. convinha afastar de Atenas o mestre de Crísias. em seus três aspectos: lua crescente. Dessa maneira. Ânito era filho de Antemione. em sua defesa. esposa de Cronos. tornou-se um dos mais eminentes cidadãos de Atenas. poderíamos presumir que Sócrates teria adotado a defesa do culto da deusa. Se a acusação tivesse se dado em épocas mais antigas. lua cheia a lua minguante. Coloquemos a questão com mais clareza: as lendas referem a revolta patriarcal contra o matriarcado. constituindo as sacerdotisas os verdadeiros líderes das povoações e os homens. onde manifesta uma ameaça velada a este: "Afigura-se-me. Após ter sido enviado ao exílio pelos Trinta Tiranos. era a suprema deusa e gerava uma vez por ano a Dionisos Zagreus. Sócrates dera. Ânito. por conseguinte. e sim afastálo de Atenas. se quiseres me ouvir. nascera por volta de 450 a. como se deste tivesse se originado a idéia da pena de morte para persuadir Sócrates a abandonar a cidade antes que o processo tivesse seguimento. o líder máximo. fora discípulo de Anaxágoras. Portanto. mediante palavras e atos. A Tripla Deusa. seu filho. o mais importante dos acusadores. 55 . com seu nome sendo citado sempre com evidente desapreço. e se isso não ocorreu deveu-se à demasiada teimosia do próprio Sócrates. como o próprio Sócrates repete. juntamente com Trasíbulo e outros. mas sim por questões evidentemente políticas. não resta dúvida. que tenhas cuidado".C. seus instrumentos de fertilização e prazer. ó Sócrates. vemos o réu inverter a ordem das acusações e colocar em primeiro lugar a última imputação: corromper os jovens. sendo estratego em 410 a.

outro aspecto de Zeus. enquanto Sócrates pôde permanecer. que consistia em saber que não se sabe? Qual a postura dos políticos diante disso? Que direitos seriam mais opostos aos da democracia do que aqueles originados da experiência e da competência. é necessário recordar que Sócrates manteve relações com os Trinta Tiranos: estes não lhe teriam ordenado a prisão de Leon de Salamina se não o considerassem um deles. desprezando a economia doméstica e a riqueza. e não os novos fatos. portanto. isso presumindo que existisse alguma. o Deus-Agnes. em seu comentário à Apologia. que pode significar tanto o deus desconhecido quanto o deus-carneiro. representa Hécate. Era todo o ensinamento socrático que se tornava perigoso. de fato. revela-se. minianos e jônios. e a argumentação de Burnet. e a superioridade da inteligência sobre os direitos da assembléia popular e soberana? É isso que causou a condenação de Sócrates. O que significava aquela sabedoria. embora não seja verdade que permanecesse fora do âmbito do governo. pelos testemunhos que possuímos. que acabaram por fomentar a rebelião de Zagreus contra seu pai e mãe. não era possível levar em conta as culpas passadas de Sócrates para condená-lo. considerando-se a anistia garantida até mesmo pelo próprio Ânito. pois com freqüência era visto discutindo em público. seu culto tendo sido de novo extinto durante o período de estabelecimento do culto olímpico. isto é. porém. Zagreus torna-se Zeus. iriam acabar desrespeitando qualquer autoridade que não se identificasse com a inteligência e a sabedoria. Portanto. ou o Agnos-Deus. quando afirma "que esses novos deuses da cosmologia jônica eram uma antiga história e que poderia ser uma violação da anistia colocá-los de novo à luz do dia". Anfitrite é esposa de Posêidon. a superioridade do saber sobre a aclamação do povo. E mais: Sócrates menciona a seu favor sua participação no caso do exílio de Querofonte. havia sido seu discípulo. e também Alcebíades. e permanece virgem. Réia vem a ser adorada como Hera. 56 . Ártemis e Cérbero. nem participar de alguma forma do governo de sua cidade. assim. um dos aspectos de Zeus. durante o mandato dos Trinta. bem pouco confiável. insiste no fato de que. Crísias. e seus aspectos: marinho. mas à época de Sócrates tudo isso já se encontrava devidamente solidificado. que juntamente com Trasíbulo fora seu principal defensor. provocando ainda o desapreço por tudo que não buscasse a sabedoria.Numerosas revoltas começaram a eclodir com a chegada de contínuas levas de dórios. e era necessário arranjar o pretexto para executá-lo. que fosse singularmente prudente ou diplomático em sua maneira de discutir. Some-se a isto que Sócrates jamais desejou exercer nenhuma magistratura. como Anfitrite. sendo fiel guardião dos domínios de Hades. Nessa fase seria de fato correto crer que alguém sofresse um processo por questões religiosas. e os jovens. proclamada superior até mesmo pelo oráculo. lunar e noturno. Ártemis é filha de Zeus. quanto a Cérbero. em cujas culturas o patriarcalismo era arraigado. que voltara a ser assunto pela recente inclusão de seu nome entre os envolvidos na profanação dos Mistérios. As mais importantes orientações da vida eram subvertidas por seu orgulho de ter consciência da sua ignorância. Querofonte foi obrigado a se exilar. a exigência de que o piloto do barco conheça seu ofício. o mais feroz dos Tiranos. e não se pode afirmar. Ademais.

de verdades eles não disseram alguma. não corarem de me haver eu de desmentir prontamente com os fatos. que influência tiveram meus acusadores em vosso espírito. não ficaria bem a um velho como eu vir diante de vós modelar seus discursos como um rapazinho. aprimorados em substantivos e verbos. se ouvirdes. talvez melhor. Acontece que venho ao tribunal pela primeira vez aos setenta anos de idade. serão expressões espontâneas.Preâmbulo Desconheço atenienses.2 . peço-vos nesta oportunidade a mesma tolerância. porém. para a minha linguagem. nos termos que me ocorrerem. a mesma linguagem que habitualmente emprego na praça. onde tantos dentre vós me haveis escutado. me espantou das muitas perfídias que proferiram: a recomendação de precaução para não vos deixardes seduzir pelo orador formidável que sou. e que examineis com atenção se o que digo é justo ou não. o de um orador. sou um orador. eu admitiria que. ao mostrar-me um orador nada formidável. um pedido. Se eu fosse de fato um estrangeiro. junto das bancas. atenienses. que é de justiça a meu ver. Faço-vos. De verdades. tal o poder de persuasão de sua eloqüência. uma súplica premente. sobretudo. contudo. e em outros lugares. não ouvireis discursos como os deles. não a estranheis nem vos revolteis por isso. quase me fizeram esquecer quem sou. Verdadeiramente. sinto-me. Uma. na minha defesa. senhores. a mim próprio. 57 . porque deposito confiança na justiça do que digo.Apologia de Sócrates 1 . que poderia ser talvez pior. se é o que entendem. assim. repito-o. em dizer a verdade. não disseram nenhuma. Com efeito. completamente estrangeiro à linguagem do local. eis o que me pareceu a maior de suas insolências. em estilo florido. Mas não por Zeus. em contraste com eles. porém. de mim. Nisso reside o mérito de um juiz.9. Seja como for. nem espere outra coisa qualquer um de vós. salvo se essa gente chama formidável a quem diz a verdade. vós ouvireis a verdade inteira. atenienses. sem dúvida me desculparíeis o sotaque e o linguajar de minha criação.

Que tudo se passe de acordo com a vontade do Deus. e depois das mais recentes acusações e dos novos acusadores. aqueles que convivendo com a maior parte de vós. pois à lei é necessário obedecer e defender-se. sem que eu contasse com alguém para me defender. Peço que revelem 58 . Estes. por inveja ou por vício em fazer falsas acusações. que martiriza meu coração há tanto tempo. vós deveis vos certificar de que existem duas categorias de acusadores: de um lado.A Defesa de Sócrates [Primeira Parte] 1 . se é mesmo verdade que haja cientistas de tais ciências. ou os que pretenderam convencer os outros por estarem verdadeiramente convencidos e de boa fé . e então reconhecereis que devo defender-me destes em primeiro lugar. em resumo. que especula a respeito das coisas do céu. que propalaram essas coisas acerca de mim. e. e acusar de mentiroso a quem não responde. e esses me causam bem mais temor do que Ânito e seus amigos. e assim. Mas os primeiros são muito mais perigosos. Assististes a alguma coisa semelhante na comédia de Aristófanes. procurando transformar a mentira em verdade e ensinando-a às pessoas". procuraram convencer-vos de acusações não menos caluniosas contra mim: que existe um certo Sócrates. embora deva fazê-lo em tão curto prazo. nem se pode exigir que ao menos alguns deles venham até aqui. que transforma as razões mais fracas nas mais consistentes. Bem sei quanto isto é difícil e tenho plena consciência da enorme dificuldade que me espera. Não faltaria quem. possa ser extirpada. e assim descobrirei se aquela calúnia. afirmando que caminha em cima das nuvens. ao ouvi-los. fizesse contra mim uma acusação tão grave! Eu só vos asseguro. que esquadrinha todos os segredos obscuros. portanto. exceto o de um comediógrafo. acompanhando Meleto.Defesa Contra os Antigos Acusadores . Que afirmavam meus detratores? Façamos de conta que se trate de uma acusação juramentada de acusadores reais e dos quais seja preciso ler o texto: "Sócrates é réu de haver-se ocupado de assuntos que não eram de sua alçada. procuraram colocar-vos contra mim. e recorro à maioria de vós para que sirvam de testemunhas. Defender-me-ei. na qual Meleto se baseou para redigir sua acusação neste processo. na qual um certo Sócrates aparece andando de lá para cá. é legítimo que eu me defenda das calúnias das primeiras acusações que me foram dirigidas e dos primeiros acusadores. o que é mais grave. que não consigo compreender nem um pouco. e de outro. nem acusar ninguém por difamação. porém os outros os que. A acusação possui mais ou menos este teor. Pois muitos que se encontram entre vós já me acusaram no passado. homem de muita sabedoria. E se eu for bem-sucedido. e investigando o que existe embaixo da terra e no céu. acusaram-me obstinadamente. esses todos não podem ser encontrados. são os acusadores que mais receio. a fim de me defender só posso lutar contra sombras. como crianças que deviam ser educadas. E não digo isso por julgar aquelas ciências coisas vis. será excelente para vós e para mim. se conseguir acarretar-vos algum benefício com a minha defesa. os que já me acusam há bastante tempo e dos quais tenho falado a respeito. 2 . ó atenienses. os que me acusam há pouco tempo. em verdade. Portanto. E esses acusadores são muito numerosos e me acusaram há bastante tempo. caluniaram-me quando vós tínheis aquela idade em que é bastante fácil alguns de vós éreis crianças ou adolescentes dar crédito às calúnias. porque. as pessoas acreditam que quem se dedica a tais investigações não admite a existência dos deuses.3 .Diversidade Entre Duas Categorias de Acusadores: os Antigos e os Recentes Em princípio.9. ó atenienses. ó cidadãos. sempre faltando com a verdade. E o que é mais assombroso é que seus nomes não podem sequer ser citados. e outro amontoado de tolices. e. ó atenienses. Ainda mais porque esses acusadores fizeram-se ouvir por vós antes e mais demoradamente do que aqueles que vieram depois. ó atenienses. que não me ocupo desses assuntos. embora estes sejam acusadores perigosos.Calúnia a Respeito do Saber de Sócrates Vamos começar desde o início e examinar que tipo de acusação motivou essa calúnia.

que possui muita sabedoria e veio morar em Atenas. é verdade que adquiri renome por possuir certa sabedoria. não se deveu ao fato de que nada fizeste fora do comum. Escutai-me. Mesmo que. que não é meu depoimento. Peço-vos para não fazer algazarra. ou seja. uma sabedoria estritamente humana. contudo eu não sei. A pitonisa respondeu que não existia ninguém. homem que gastou mais dinheiro com sofistas do que qualquer outro ateniense.O Oráculo de Delfos Algum de vós poderia questionar-me: "Ó Sócrates. É possível que alguns entre vós creiais que eu esteja brincando. Procurarei esclarecer-vos a respeito da causa dessas calúnias contra mim. De minha sabedoria. e então compreendereis que tudo o mais que dizem sobre mim possui o mesmo valor. mais ainda. Todos vós conheceis Querefonte. de Paros. partiu no último exílio em vossa companhia e regressou também em vossa companhia. Sabeis que tipo de homem era Querofonte e de como era determinado em suas resoluções Dirigiu-se em certa ocasião a Delfos e atreveu-se a perguntar ao oráculo se existia alguém mais sábio que eu. e o soube por intermédio de Cálias. o próprio deus de Delfos. invocarei como testemunha. e eles se tomariam cavalariços ou agricultores.O Que é o Saber de Sócrates . que educação. e sem ter de gastar dinheiro. apenas com o intuito de caluniar-me. então: tencionas proporcionar-lhes? Quem entende das virtudes que lhes são necessárias. e de sua natureza. E que tipo de sabedoria é essa? Possivelmente. Ouvi também referências a outro homem. terias de contratar e pagar uma pessoa que tomasse conta deles. ó atenienses. fazer-se instruir por um de seus concidadãos. se alguém se propõe a instruir homens como fazem Górgias de Leontini. se teus dois filhos fossem dois potros ou duas vitelas. Como testemunho deste fato se prestará o irmão de Querefonte. Era meu amigo desde o tempo da juventude e pertencente ao vosso partido popular. estou falando sério. e quem diz o contrário mente. Eu mesmo me orgulharia se fosse capaz de tal coisa. se ouvistes alguém declarar que instruo os homens em troca de dinheiro. aos quais seria mais fácil. Ó atenienses. o que fazes então? Que motivo originou essas calúnias? Com certeza. Esses valorosos homens percorrem as cidades com o propósito de instruir os jovens. pois não desejamos julgar-te irrefletidamente". se me afigure coisa em absoluto nada condenável. mas o de uma testemunha que merece toda a vossa confiança. 3 . embora possais ter a impressão de que eu esteja proferindo palavras por demais fortes. E quem é ele? indaguei-lhe. 59 .publicamente quantos de vós já me ouviram falar a respeito dessas coisas. diante de vós. mas afirmo que não a conheço. que tivesse a capacidade de lhes ensinar as virtudes para serem acrescentadas à sua natureza. se é de fato possuidor dessa doutrina e a ensina a tão baixo preço. tantas vozes não teriam se erguido se tivesses te comportado como todos se comportam. parabenizei esse tal de Eveno. Existe alguém capaz de fazê-lo? Claro que sim respondeu-me. recebendo em troca dinheiro e ainda por cima gratidão. Resumindo: nada existe em tudo isso que corresponda à verdade. receio possuir esta única sabedoria. e convencem esses jovens a preferir a sua companhia à dos seus. e. E seu preço é cinco minas respondeu-me. Pródico de Ceo e Hípias de Élida. das virtudes do homem e cidadão? Acredito que pensaste a respeito disso quando puseste os filhos no mundo. portanto. E a respeito de ser sábio. Ao passo que esses. de quem vos falavam há pouco. se de fato se trata de sabedoria. No íntimo. se muitos te acusaram. talvez sejam possuidores de uma sabedoria sobre-humana. isto também não passa de mentira. ó atenienses. em virtude de este haver falecido. Perguntei a ele: Cálias. mas teus filhos são homens. de onde é e quanto cobra para ensinar? Eveno de Paros. não. Conte o que fizestes. filho de Hipônico.

Após ter ouvido a resposta do oráculo. fiz a experiência que irei descrevervos. ao arrepio de minha vontade. nem de belo. Por fim. como também muitos dos que se encontravam presentes. mas talvez não o fosse de verdade. Mas enquanto estava analisando este o nome não é necessário que eu vos revele. eu e ele. podíamos não saber nada de bom. como não sabia. não o era. nem acredito sabê-lo. Em vista disso. ao contrário. enquanto eu. e tive a impressão de que. juntamente com muitos outros. Aí procurei um outro. pois ele não pode mentir". e este homem aparentava ser sábio. analisando e raciocinando em conjunto. E longamente me mantive nesta dúvida. ó cidadãos. Afastei-me dali e cheguei à conclusão de que era mais sábio que aquele homem. entre os que possuem reputação de serem mais sábios que aqueles. também não julgava saber. 60 . Fui ter com um daqueles que possuem reputação de sábios. mas aquele acreditava saber e não sabia. a partir daquele momento. que quer dizer o deus ao afirmar que sou o mais sábio dos homens? Com certeza não mente.4 . Procurei fazê-lo compreender que embora se julgasse sábio. basta dizer que era um de nossos políticos . no entender de muitas pessoas e especialmente de si mesmo. comecei a investigar acerca disso. ao menos numa pequena coisa. refleti da seguinte maneira: "Que pretende o deus dizer? Qual é o significado oculto do enigma? Tendo em vista que eu não me considero sábio. enfim. e me ocorreu exatamente a mesma coisa. que nós. neste sentido. ou seja. porque não sei. e também este me dedicou ódio. este com que. fosse mais sábio que ele. não só ele passou a me odiar. julgando que somente assim poderia desmentir o oráculo e responder ao vaticínio: "Este é mais sábio que eu e afirmastes que era eu".Pesquisa Junto aos Políticos Saberão agora o motivo pelo qual vos relato isso: meu intento é pôr-vos a par de onde se originou a calúnia contra mim.

ambas as coisas. De forma que eu. é o que ocorre entre os poetas. ó atenienses. "Se almejas saber o que o oráculo quer dizer". mas só usa meu nome como exemplo. Porém. Resumindo. com desagrado e assombro. e ele quer dizer. diante disto. por intermédio de seu oráculo. e a partir destas inimizades surgiram muitas calúnias. tenha admitido que sua sabedoria não possui valor algum". tanto os que escreviam ditirambos e tragédias como os demais. e eles sabiam que eu os considerava conhecedores de numerosas e belas coisas. como os adivinhos e vaticinadores. que muito pouco ou nada vale a sabedoria do homem. em nome do oráculo. afigurava-se-me impossível deixar de atentar para as palavras do deus." Por isso. Sócrates. julgavam-se os mais sábios dos homens até mesmo em outras coisas em que realmente não o eram. venho em ajuda ao deus provando que não há sábio algum. e. E outros. se me afiguraram melhores e mais sábios. de acordo com a palavra do deus. de contar-vos a verdade! Mas é obrigatório que eu a diga. mas não conhecem nada do que dizem. 6 . Estou com vergonha. como eles. pelo fato de fazerem poesias. a fama de sábio. dirigi-me aos artesãos. Peguei suas melhores poesias. todas as outras pessoas presentes discorriam melhor a respeito do que os poetas haviam escrito que os próprios autores. ao afirmar que Sócrates é sábio. E não me equivoquei.5 . é outra. até mesmo em outros assuntos de maior realce e dificuldade. ó atenienses. nem sabedor de minha sabedoria nem ignorante de minha ignorância. é muito sábio entre vós aquele que. indaguei a mim mesmo se deveria permanecer tal como era. fiz numerosas e perigosíssimas inimizades. ó atenienses: quem sabe é apenas o deus. mas por uma propensão e inspiração natural que eu desconheço. juro-vos que este foi o resultado da minha pesquisa: os que eram famosos por possuírem maior sabedoria. convencido de que diante daqueles confirmaria minha ignorância e sua superioridade. as que eu considerava mais bem construídas. devo dizer-vos de novo a verdade. porque. descobri que não era por nenhum tipo de sabedoria que eles faziam versos. conforme minha pesquisa. porque dessa maneira aprenderia alguma coisa com eles. e este importante defeito deslustrava toda sua sabedoria. pareceram-me quase todos em maior erro. como se tivesse dito: "Ó homens. e respondi a mim e ao oráculo que convinha continuar tal qual eu era. não se refere propriamente a mim. se existe alguém entre os atenienses ou estrangeiros que possa ser considerado sábio e. ó atenienses. e entre as calúnias.Pesquisa Junto aos Artesãos No final. toda vez que participava de uma discussão. continuei diligentemente com minha pesquisa. Então afastei-me deles. como acho que ninguém o seja. E tomado como estou por esta ânsia de 61 .Pesquisa Junto aos Poetas Não obstante isso. com a certeza de ser mais sábio que eles. também os artesãos famosos apresentavam o mesmo defeito dos poetas: por conhecerem muito bem sua arte. cada um deles julgava-se extremamente sábio. contudo. que de sua arte tinha a consciência de não conhecer nada. E compreendi também que os poetas. que dizem de fato muitas coisas belas. e indaguei aos próprios poetas o que eles pretendiam dizer. "deves visitar todos aqueles que possuem reputação de sabedoria. as pessoas julgavam que eu fosse sábio naqueles assuntos em que somente punha a descoberto a ignorância dos demais. igualmente a Sócrates.O Verdadeiro Saber Consiste em Saber Que Não se Sabe Em virtude desta pesquisa. porém. Em seguida aos políticos. e isto eu percebi com clareza. embora notando. É por esta razão que ainda hoje procuro e investigo. dizia a mim mesmo. A verdade. e aproximadamente o mesmo. 7 . sem fama alguma. que todos passaram a me odiar e que. fui procurar os poetas. eles conheciam coisas que eu não conhecia. Mas desejo terminar de relatar-vos minhas peregrinações e as fadigas que sofri para convencer-me de que a palavra do oráculo era incontestável. e nisso eram mais sábios do que eu. pelo mesmo motivo que era mais que os políticos. conforme a palavra do deus.

seguem-me de livre e espontânea vontade. na verdade. seria de fato um verdadeiro milagre se eu tivesse a capacidade de arrancar-vos do coração esta calúnia que possui raízes tão firmes e profundas.pesquisa. é outra prova de que digo a verdade. SÓCRATES: Dize. aqueles que são analisados por eles voltam-se contra mim e não contra quem os analisou. e que também ensina a não acreditar nos deuses e apresenta como melhores as piores razões. agora ou depois. que o réu é o próprio Meleto. e então. 10 . e que esta é a calúnia contra mim e esta a causa. a verdade. nunca se preocupou. e. não querem dizer a verdade. naturalmente. aos juizes o que os torna melhores. Esta é. porém. ó atenienses. e se regozijam em assistir a esta minha análise dos homens. é que esses homens demonstraram ser pessoas que dão a impressão de saber tudo. com o intuito de fazer crer que se preocupa com coisas com as quais. homem digno e patriota. ambiciosos. como vos disse desde o início.Defesa Contra Meleto No que diz respeito aos meus primeiros acusadores. os filhos das famílias mais ricas. Ânito e Lícon: Meleto profundamente irado por causa dos poetas. dizem as coisas que comumente são ditas contra todos os filósofos. analisemos também o ato de acusação deste. e eu a revelo por completo. mostra-te e responde. Indagai quanto quiserdes. nada respondem. Meleto afirma que corrompo a juventude. como ele mesmo se define. E procurarei provar-vos que isso é a pura verdade. e todos da mesma opinião nesta difamação a meu respeito e com argumentos que podem parecer também convincentes. e recebereis sempre a mesma resposta. Vou começar desde o início e como se na verdade dissesse respeito a outra espécie de acusadores. nem mesmo esquivando-me dela.Meleto Não Sabe o Que é Educar Nem Corromper Meleto. e dos acusadores que virão depois. não me restou mais tempo para realizar alguma coisa de importante nem pela cidade nem pela minha casa. Não julgas de suprema importância que os jovens consigam se tornar os melhores possíveis? MELETO: Julgo. só para não evidenciar que estão confusos. e por este motivo citaste62 . porque o desconhecem. Contudo. sem escrúpulo algum encheram vossos ouvidos com suas calúnias. porém. declarando que Sócrates é homem por demais infame e corruptor dos jovens. 8 . e eu digo. analisar alguma pessoa. isso é o bastante para a defesa das culpas a mim atribuídas. e levo uma existência miserável por conta deste meu serviço ao deus. por sua própria conta. o que faz e o que ensina este Sócrates para corromper os jovens?". finalmente. Ânito por causa dos artesãos e dos políticos. procurarei em seguida defender-me de Meleto. A verdade. de não crer nos deuses nos quais a cidade crê e também de praticar cultos religiosos extravagantes". Logicamente. Lícon por causa dos oradores. Analisemos esta acusação minuciosamente. inúmeras vezes procuram imitar-me e tentam. Desta maneira. E se alguém indaga: "Afinal. deparam-se com numerosos homens que julgam saber alguma coisa e sabem pouco ou nada. 9 . lançaram-se contra mim Meleto. Este é o motivo pelo qual. Com certeza o sabes. porque aborda com leviandade assuntos sérios e tão inescrupulosamente leva homens diante do tribunal. dominados pela paixão e numerosos como são. ó cidadãos. Por sinal. além de afirmar que ele especula sobre as coisas que se encontram no céu e as que ficam embaixo da terra. conforme afirmas. Declarou mais ou menos isto: "Sócrates é réu de corromper os jovens. então. sem ocultar-vos nada.As Muitas Inimizades e a Acusação Vós tendes conhecimento de que os jovens que dispõem de mais tempo que os outros. pois esta é uma preocupação tua e descobriste quem os corrompe. embora saiba que sou odiado por muitos exatamente por isso.

dize aos juizes o que os faz melhores. que estes possuem a capacidade de educar os jovens e torná-los melhores? MELETO: SÓCRATES: MELETO: Afirmo. MELETO: Estes.me diante do tribunal e me acusaste. ó Meleto. já que demonstrei a contento que tu nunca te preocupaste com os jovens. e que os demais se sirvam dos cavalos e os mutilem? E não acontece assim. Mais ainda. ó Sócrates. ou alguns sim e outros não? Todos. digam Ânito e tu mesmo que sim ou não. por Hera! E grande a quantidade de bons educadores! Também estes que estão nos ouvindo tornam os jovens melhores ou não? MELETO: SÓCRATES: MELETO: Sim. que talvez aqueles das Assembléias Populares corrompam os jovens? Ou também aqueles os tornam melhores? MELETO: Também aqueles. Portanto. sou eu quem os corrompe. conforme dizes. em primeiro lugar. Meleto. todos. Vamos. também estes. SÓCRATES: Como sou infeliz! Mas responde-me a isto: também com os cavalos crês que seja assim? Que todos os homens os tornem melhores e somente um os mutile? Ou. sem saber o que dizer? E isto não te se afigura vergonhoso. Indago-te qual é o homem que. demonstrei que nunca tiveste preocupação com as coisas pelas quais me trouxeste diante deste tribunal. Seria uma grande felicidade para os jovens se correspondesse à verdade que somente um lhes causa danos e todos os outros os educam e melhoram. os juizes. que somente um os torne melhores. responde: que os faz melhores? MELETO: As leis. SÓCRATES: Todos os atenienses que te ouvem tornam os jovens bons e belos. É isto que queres dizer? MELETO: Exatamente isto. meu amigo. Vês. SÓCRATES: Dizes bem. então. Meleto. ao contrário. 63 . Crês que todos. e prova suficiente do que afirmo: que nunca te preocupaste com estes assuntos? Vamos. E os senadores? Também os senadores. prossegue. SÓCRATES: Afirmas. então. Mas. Meleto. aqueles que são peritos em cavalos. ó excelente homem. deve ter conhecimento. exceto eu. SÓCRATES: Não se trata disto. como ficas calado. SÓCRATES: Quer dizer. ou poucos. com os cavalos e com todos os seres vivos? Com certeza é assim. das leis. Meleto.

o que mais convém. ensinando-os a não acreditar nos deuses nos quais a cidade acredita. conforme dizes. se os corrompo. 11 . uma vez advertido. Pode existir alguém que prefira receber o mal? MELETO: Não. de que maneira. ó Meleto. por faltas involuntárias. 64 . mesmo que não sejam os da cidade. eu digo exatamente isto. principalmente àqueles mais próximos deles. realmente. e que os bons façam o bem. que pensas conhecer melhor do que eu que os maus sempre causam algum mal. Se eu os corrompo sem querer. tendo eu os anos que tenho. não posso ser culpado disso. eu corrompo a juventude? Não o faço. Os maus não prejudicam aqueles que lhes são próximos? E os bons não lhes fazem o bem? MELETO: Com toda a certeza. pois afirma que o sol é uma pedra e a lua é feita de terra. ó Meleto. no caso de saber disso. eu me empenhe em torná-los maus? Não me persuadirás disto. embora as leis estabeleçam que aqui sejam trazidos somente os que devem ser castigados. na tua idade. tanto para mim como para estes juizes. SÓCRATES: Quer dizer. SÓCRATES: Pode existir alguém que esteja com eles e que prefira receber o mal em lugar do bem? Responde. de acordo com tua opinião. pois se naqueles que acredito são deuses. e que eu ignore essas coisas a ponto de não saber que se se torna mau a um deles corre-se o risco de receber algo mau dele e que. faço-o sem querer. dize-nos. SÓCRATES: Ó excelente Meleto! Por que dizes que não acredito. por conseguinte. SÓCRATES: Então. não corrompo os jovens. a fim de advertir-me ou censurar-me. da mesma maneira que os outros homens. e sim outros. cidadãos de Atenas. não mais farei o que fazia sem querer. excelente homem. que o sol e a lua sejam deuses? MELETO: Com certeza. então.Meleto Acusa Sócrates de Ateísmo e se Contradiz Neste momento. é bastante evidente aquilo que eu afirmava: que Meleto nunca se preocupou com essas coisas. tua sabedoria sendo maior que a minha. Apesar disso. ensinando estas coisas que os corrompo? MELETO: Sim. é por causa disso que me trazes a este tribunal.Agora dize-me. ó Meleto. viver entre bons cidadãos ou entre maus cidadãos? Amigo. não sou ateu e. SÓCRATES: Em nome desses mesmos deuses a respeito dos quais agora falamos. porque não consigo compreender a quais deuses eu ensino que os jovens devem acreditar. Ou seja. explica-te com maior clareza. de maneira que em ambos os casos mentes. ó juizes. mas em outras divindades novas? Não é. por que são outros ou por que afirmas que não acredito de maneira alguma nos deuses e ensino isto aos jovens? MELETO: Eu afirmo que não acreditas de maneira alguma nos deuses. não é difícil o que te pergunto. ou faço isto sem querer? MELETO: Afirmo que é por querer. Nem acredito que possas persuadir a ninguém. Meleto. Também a lei deseja que respondas. Tens evitado encontrar-te comigo e advertir-me. não o quiseste fazer de forma alguma e me trazes aqui. e não censurados. como afirma com clareza a acusação que apresentaste contra mim. trouxeste-me a este tribunal porque corrompo os jovens por querer e os torno maus. responde. não existe lei alguma que possa me obrigar a vir até aqui. mas sim que faça com que seja afastado. ou. e é claro que.

embora tenhas sido obrigado pelos juizes. Mas responde ao menos à pergunta seguinte: existe quem possa acreditar em coisas demoníacas. Há quem não acredite na existência de cavalos. mas sim nas coisas relativas a cavalos? E que não acredite na existência de flautistas. a ti e aos outros que aqui se encontram. se este as apresentasse como suas. ou é necessário dizer que não sabias do que me acusar? Mas que consiga convencer quem quer que seja. afirmo a sua existência. ó atenienses. ainda mais sendo tão extravagantes? Por Zeus. e quem escreveu esta acusação foi desaforado e a escreveu por atrevimento e desrespeito juvenil. uma vez que digo existirem demônios. que tenhas escrito contra mim uma acusação como esta. creio que não consegues persuadir nem a ti mesmo. e não criai tanta agitação por causa de uma palavra. devo obrigatoriamente crer em demônios. analisai comigo de que maneira creio que ele se contradiz. já que não contestas. E vós. que o estou ridicularizando e me contradigo? Ou conseguirei enganálo e a todos aqueles que me ouvem?" Com efeito. É como se alguém desejasse pôr-me à prova compondo uma espécie de enigma: "Dar-se-á conta Sócrates. ó Meleto. E não consideramos estes demônios filhos dos deuses? MELETO: Logicamente. SÓCRATES: Ora. a ponto de não saberem que os livros de Anaxágoras de Clazomena estão repletos destes ensinamentos? E por que motivo os jovens iriam aprender de mim estas coisas que por uma simples dracma podem comprar na ágora e zombarem de Sócrates. eu mesmo respondo. Na verdade. parece-me que Meleto se contradiz na acusação. quando declaras que eu. de outra forma. Meleto. Parece-me que aceitas. ó Meleto. mas sim que existam sons de flauta? Não ha ninguém.SÓCRATES: Pensas. SÓCRATES: Quanta satisfação me proporcionou tua resposta. E isto significa desejo de se divertir. tudo isto se me afigura desaforado e atrevido. mas também de acreditar nos deuses". SÓCRATES: Ninguém acredita em ti. se estes demônios são deuses. então. quem poderá pensar que existam filhos de deuses e de deuses não? Seria disparate igual se pensasse que os mulos fossem filhos de jumentos e cavalos e que estes últimos não existissem. recordai-vos de não me interromper se continuo a raciocinar à minha maneira. não é assim? Com certeza é assim. acusas-me de acreditar em coisas demoníacas e de ensiná-las. se estes demônios são filhos dos deuses. Responde. mesmo se fraco de intelecto. nem em heróis. pensas de fato que eu não acredite em deus algum? MELETO: Em nenhum. que a mesma pessoa que acredita em coisas demoníacas possa não acreditar em coisas divinas e. Existe alguém. embora não acreditando na existência dos deuses. e naquilo que afirmas. com certeza. em acusar também Anaxágoras? E tens em tão pouca estima e reputas tão ignorantes nas letras a estes juizes. é impossível. Ó atenienses. como já vos exortei no começo. ó atenienses. meu bom Meleto. que acredite na existência de fatos humanos e não em homens? Fazei com que responda. 65 . é neste ponto que eu digo que fazes enigmas e brincadeiras. isto é impossível. Mas se acredito em coisas demoníacas. é isto que afirmas e que juraste no teu ato de acusação. De outra forma. nem em deuses. se afirmas que existem demônios. aquele grande sábio. se não queres responder. são também filhos bastardos gerados por ninfas ou outras mães. Por isso. que a mesma pessoa que acredita em coisas demoníacas possa não acreditar nem em demônios. ó Meleto. exceto que haja sido para pôr-me à prova. como se declarasse: "Sócrates é réu de não acreditar nos deuses. mas não em demônios? MELETO: É completamente impossível. Portanto.

ó atenienses. ninguém sabe se. como qualquer outro. ao menos conforme pude ouvir e interpretar essa mesma ordem. pela qual deveria viver filosofando e dedicando-me a conhecer a mim mesmo e aos outros. ao passo que em Potidéia. desde o começo. quando os comandantes que vós elegestes me designaram uma posição.A Missão Divina . mas sim este ódio. acreditar saber o que não se sabe? Ora. que meu comportamento seria anormal e excêntrico se. seus filhos prosseguindo a praticar os ensinamentos de Sócrates. ao receber ordens do deus. contudo. E não é ignorância. atenienses. por acaso. estariam 66 . acompanhando este teu raciocínio. uma vez aqui trazido. nem em outra desgraça qualquer. Declaro-vos. que onde alguém se haja instalado. nem que para isso me torne objeto de desprezo'. acredito. se vingares a morte do teu companheiro Pátroclo e matares Heitor. desde o início. uma deusa. à exceção de na desonra e na vergonha. que era impossível não condenar-me à morte. deve ficar e enfrentar os riscos e não pensar na morte. Seria algo. dado que significa pensar saber aquilo que não se sabe. atenienses. se consigo safar-me da condenação. Ao ouvir tais palavras. arriscando minha vida. e. que agora coloca em risco tua vida?" Eu responderia a este: "Não falas bem se pensas que alguém. existiriam então motivos para trazer-me aqui no tribunal como sendo um desumano que não cresse nos deuses. que um profundo ódio ergueu-se contra mim. e se algo me causará dano. ó cidadãos. como ocorre diante dos males que sei que são nefastos. isto bem sei que é coisa vergonhosa e indecente. estando ele ávido do sangue de Heitor. mesmo que me concedesses a liberdade. Anfípolis e Délio. de fato. também nada penso saber a esse respeito. Por isso. repito. logo após ter castigado a quem matou. não será nem Meleto nem Ânito. Obedecer ao Deus Chega. creio. tendo a capacidade de fazer algum bem. ou onde tenha sido instalado por quem ordena. Aquiles negligenciou o perigo e a morte. anormal e. seja homem. e declarou: 'Rapidamente eu morra. sem se envergonhar.Fazer o Que é Justo. aí. e se me atrevesse a dizer que em alguma coisa sou mais sábio que os outros.12 . somente por isto o diria. e vindo de muitas pessoas. não havendo perigo que causem somente a minha perda. vós sabeis. receiam-na como se soubessem que ela é a maior das desgraças. outros ainda irão perder. teriam sido néscios todos os heróis que morreram em Tróia. isto é o bastante para demonstrar que não sou culpado das acusações de Meleto. a mais vergonhosa das ignorâncias. Acreditas que Aquiles tenha pensado na morte e no perigo?" É assim que deve ser. contra a vontade de Ânito que. Algum de vós poderia talvez altercar-me: "Sócrates. esta calúnia e esta raiva das pessoas. digo. acredito distinguir-me por este motivo e precisamente neste ponto da maior parte dos homens. O que eu vos disse. lá fiquei. já que desobedece ao oráculo. Pessoas estas que já causaram a perda de tantos outros e valorosos homens. tamanho desdém mostrou pelo perigo. que como não sei nada de preciso a respeito das coisas do Hades. e o mais néscio de todos seria o filho de Tétis que. ó atenienses. também morrerás'. Permanecer no Lugar Adequado. tivesse desertado do posto a mim designado pelo deus. por temor à morte ou a outra desgraça semelhante. Por outro lado. é verdade. nunca acontecerá que eu fuja diante daqueles de que não sei se por acaso não são bens. quando sua mãe. pois não se faz necessária uma defesa muito longa. ela não seja o maior de todos os bens que podem ser dados ao homem e. Com efeito. não te envergonhas de haveres exercido tal atividade. que. ao contrário. receia a morte e julga ser sábio sem sê-lo. declarava não ser necessário que eu viesse até este tribunal. considerando ser aquele seu lugar mais honroso. em verdade. disse-lhe. E. deva calcular os riscos de vida ou de morte e não deva olhar o injusto e se pratica as ações de homem honesto e corajoso ou de infame e mau. ou. se bem me lembro: 'Ó filho. recear a morte não passa de julgar ser sábio e não sê-lo. porque. seja deus. aqui. receando muito mais viver miseravelmente sem vingar o amigo. Mas ser injusto e desobedecer a quem é melhor que nós. mesmo sendo pequeno. dizia. Portanto. daquele momento em diante.

mas o interrogaria. Restam-me algumas outras coisas a dizer-vos. Não promoveis algazarra. vós não desconheceis. está certo. Mas se estais irritados comigo como o que está em vias de adormecer com quem o desperta. que. morrerás". as infames. tanto para os cidadãos individualmente como para o Estado. cidadão da maior cidade e mais célebre por sabedoria e poder. fama e honras. não me causareis maior dano que podeis causar a vós mesmos. um ferrão. no decorrer de todo o resto de vossa existência. em todo lugar. mas pelo seu próprio tamanho. e se fores surpreendido a praticar ainda estas coisas. e se me afigurasse que não possui virtude mas apenas afirma possuí-la. como alguém poderia achar. espoliar-me dos direitos civis. sem te preocupar em cuidar da inteligência. e enquanto for capaz. Não penso que seja possível que um homem de bem receba o mal de um malvado. condenar-me-eis à morte. E agiria assim com qualquer um que eu quisesse: jovens ou velhos. Ânito. da verdade e da tua alma. mas. lembrai-vos de meu pedido de que não causásseis balbúrdia diante do que eu dissesse. um por um. que não necessitais pecar. pois. nunca paro de exortar-vos. eu vos responderia: "Ó atenienses. e a quem quer que eu encontrasse de vós. ateniense. nem com as riquezas. permiti que vos diga. a mim que sou como vos disse. de que não deveis vos preocupar nem com o corpo. se o deus não vos mandar algum outro para substituir-me. isto significará que minhas palavras são nocivas. eu o envergonharia demonstrando-lhe que considera infames as coisas mais estimáveis e de valor. e se desejais me ouvir. atenção a Ânito e deixamos-te livre. ou não dareis. creio que vos será útil escutar. estando a vosso lado. mas se alguém afirma que falo diferentemente e não deste modo. ó atenienses. não pararei de filosofar. que me sois mais estritamente próximos. para que se tornem tão boas quanto possível?" E se algum de vós retrucasse que cuida de fato delas. tende a certeza de que nunca agirei de outra maneira que esta. desde que não empregues mais teu tempo nessas pesquisas. não o deixaria afastar-se nem iria embora. e de que das riquezas não se origina a virtude. de maneira alguma estou falando em minha defesa. um pouco lerdo e necessitado de estímulo. em qualquer ocasião. mas obedecerei primeiro ao deus do que a vós. condenando-me à morte. nem com qualquer outra coisa antes e mais que com a alma. E nem o poderiam. Pois se me matardes. ó atenienses. mas falo por vós. de convencer-vos. agora. penso que seja um mal bem mais grave aquele que é cometido por esses que tentam condenar à morte um homem inocente. se. contra o dom do deus. A mim não causarão dano nem Meleto nem Ânito. podereis me reconhecer por isso: que não parece humano que haja descuidado 67 . Ademais. Afirmo. conversando da minha maneira habitual. Convencei-vos: se me condenardes à morte. me poreis a salvo. eu vos amo. a fim de que ela se torne excelente e muito virtuosa. mas muito mais vezes devesse morrer. de qualquer forma. Se ao falar desta maneira corrompo os jovens. o impugnaria. atenienses ou estrangeiros. então diz coisas insensatas. mas da virtude se originam as riquezas e todas as outras coisas que são venturas para os homens. Logo. não riam da comparação. e depois. ao ouvir este raciocínio de Ânito. ó cidadãos atenienses: ou dareis ouvidos a Ânito. tu. nem te ocupes mais de filosofia. como dizia. erguereis a voz. de falar-vos. Assim parece-me que o deus me colocou aos flancos da cidade. não fazei assim. e também com vós. Isto. condenar-me à morte. o analisaria. talvez. dormireis tranqüilamente. mas que vos limitásseis a ouvir. que és o melhor dos homens. não pararei de estimular-vos e censurar-vos. ou ao desterro.inapelavelmente perdidos e corrompidos. Por tudo isso. não pretendemos dar. E se for eu mesmo a pessoa indicada pelo deus para presentear a cidade. com esta condição me deixásseis em liberdade. tenha sido colocado de fato pelo deus aos flancos da cidade como aos flancos de um cavalo grande e de boa raça. com este meu caminhar não faço outra coisa a não ser convencer-vos. Poderá sim. que outro como eu não nascerá facilmente. jovens e velhos. absolver-me-eis ou não. e golpeais como a matar um inseto inoportuno. Não. tudo em que este homem crer e outros crerem serão grandes males. assim diria: "E tu. e enquanto tiver ânimo. às quais. por obediência a Ânito. não o creio eu. é ordem do deus e estou convencido de que haja para vós maior bem na cidade do que esta minha obediência ao deus. mesmo que não só uma. não encontrarão facilmente um outro igual a mim. se. não te envergonhes de pensar em acumular o máximo de riquezas. ó cidadãos. me dissésseis: "Ó Sócrates. Em verdade.

que provasse ter eu recebido uma única vez compensação ou de havê-la solicitado. cuidando das vossas. e sempre. aí sim haveria uma razão. estando por perto como estaria um pai ou irmão mais velho. eu dou: a minha pobreza. Que se desta vida tirasse algum proveito e se pelos conselhos que dou recebesse alguma compensação. desta não tiveram o despudor de me acusar.todos os meus negócios e ainda agüentar por tantos anos que tenham sido descuidadas as coisas da minha casa. mas vistes que meus detratores. 68 . E a prova cabal de que é verdade o que vos declaro. ao contrário. para convencer-vos a buscar a virtude. somente uma. que me acusaram tão despudoradamente de tantas outras culpas. pondo-me frente a frente com uma testemunha.

tanto em público. Os oradores habituais já estavam prontos para suspender-me da função e aprisionar-me. quando falo ou atendo àquilo que acredito ser meu ofício. E aquele governo. seja jovem. toda vez que eu a ouço. não possui importância alguma para mim. Mais tarde. e a mais outros quatros. e parece-me que faz muito bem em agir dessa forma. E isto ocorreu quando a cidade ainda era regida por uma democracia. pois é a verdade. e vós a intigá-los e a gritar. E naquela ocasião. por algum tempo. E não me desprezei se falo assim. mas a qualquer outra multidão. não com palavras. demonstrei que a morte. com jeito de estar se divertindo. ó cidadãos. e é também preciso que aquele que luta em defesa do que é justo. se aquele governo não tivesse sido deposto logo em seguida. tivesse lutado em defesa da justiça e tivesse considerado esta defesa. deixei-os ir e voltei para casa. ao se tratar de aconselhar a cidade e de ir à tribuna para falar ao povo. a respeito do qual. Escutai o que me sucedeu e vereis então que diante do que é justo não sou homem de ceder a ninguém por temor à morte. Nunca fui mestre de quem. se de fato pretende escapar da morte. aqueles dez capitães que não haviam recolhidos os náufragos e os mortos depois da batalha naval das Arginusas. e que. mas de não cometer injustiças ou crueldades. em toda minha existência. nem por vós nem por mim. Falarei um pouco grosseiramente. na tentativa de envolver em seus atos cruéis o maior número de pessoas possível. se a palavra não soar por demais vulgar. ó cidadãos. estou pronto a morrer. de viver de forma privada e não exercer funções públicas. de seus Pais e Irmãos Credes que eu teria vivido por tantos anos se houvesse me ocupado de assuntos públicos e. mas do que mais necessitais: fatos. 14 . e sim com fatos. não me obrigou a cometer um ato injusto. isto sim me importa acima de qualquer coisa. como é necessário. não existe homem que o tivesse conseguido! Em verdade. 69 . e em seguida acolhestes todos ao meu parecer. não digo a vós. além de não ceder. para que este viesse a morrer. os Trinta mandaram-me chamar. eu já teria morrido. depois que surgiu a oligarquia. fazendoo como homem de bem. sempre faz com que eu desista do que estou para fazer. quando saímos do Tolo e os outros quatro se dirigiram para Salamina a fim de retirar Leon. Acredito que só por causa disso. É como uma voz que possuo dentro de mim desde criança. atenienses. mas com sinceridade. E o motivo disso me haveis ouvido dizer várias vezes e em vários lugares. então me falte coragem.Repugnância e Abstenção Socrática da Política Comum É possível que pareça estranho eu me encontrar sempre próximo e me dar tanto ao trabalho de fornecer conselhos a este ou àquele em particular. de que nunca exerci em nossa cidade magistratura alguma. Então eu me opus. Sabeis perfeitamente. E davam ordens semelhantes a vários outros homens. como privadamente. um homem que diante do justo nunca cedeu a quem quer que fosse. e nem mesmo àqueles que os caluniadores chamam de meus discípulos. deseja escutar-me. nas poucas vezes que me ocupei de coisas públicas. justamente no dia em que era o vosso desejo julgar em conjunto. quer que seja. também Meleto. e não palavras. levaram-nos à sala do Tolo e ordenaram que retirássemos de Salamina o Leon de Salamina. Não existe homem que possa se salvar ao opor-se com sinceridade. ao arrepio da lei. que se eu tivesse. sempre fui o mesmo. Tendes conhecimento. exceto uma vez em que fiz parte do Conselho. se. e votei contra. lutando para que nada fosse feito contra a lei. apesar de prepotente. teria sido morto também num curto espaço de tempo e não teria realizado nada de útil. É essa voz que me impede de me ocupar das coisas do Estado. mesmo que por breve tempo. seja velho. julguei que era meu dver correr aquele risco mantendo-me ao lado do direito e do justo em vez de apoiarvos e deliberar o injusto por temer a prisão e a morte. e nunca me convence a realizar qualquer outra coisa. que existe em mim não sei que espírito divino e demoníaco. principalmente se é uma pessoa que. aponta no ato da acusação. como fazem alguns dos freqüentadores dos tribunais.O Testemunho dos Discípulos. e que. meu dever mais alto? Com certeza. e tente impedir que muitas vezes se cometam injustiças as leis na cidade.13 . E disto que relatei possuo muitas testemunhas. Daquilo que afirmo eu mesmo posso oferecer-vos provas cabais. a ninguém. e. não me atemorizou. me ocupado dos negócios de Estado.

Diante disso. eu os vejo. e aí está Parálio. não é desagradável. filho de Aríston. não afirmo categoricamente que há. É possível que alguém entre vós. tomassem consciência de que quando eram jovens eu os aconselhei a praticar o mal. embora. atenienses. trouxe ao tribunal os filhos e vários de seus parentes e amigos. se deixe influenciar pelo amorpróprio ferido e. suplicou clemência aos juizes. ó atenienses. se recebo dinheiro. desta forma. ao passo que eu não me porto desta maneira. e algumas mais. filho de Teozótides. e que me fizessem pagar por isso. são estas. que enviassem hoje para cá as pessoas de sua família. E não é por orgulho que me comporto assim. irmão de Teódoto. que talvez esteja entre vós. que se manifeste. seria ainda necessário que estes. e não é verdade que. se ele se esqueceu disso. Ali está Críton. nem por desprezo. E estas coisas. Talvez esses. que. fico calado. se não quisessem fazê-lo diretamente. e que viessem à tribuna para acusar-me e para exigir minha punição. e outros. em defesa daquele que causa o mal de seus familiares. Nicóstrato. poderei responder da seguinte maneira: "Meu estimado amigo. e também Lisânias de Esfeto. ó atenienses. de quem ali se encontra o irmão Platão. eu também trouxe alguém da minha família. irmãos. Eu também possuo família. ao pensar em si mesmo. que eu disse toda a verdade: têm prazer de ouvir-me quando submeto à prova aqueles que pensam serem sábios e não o são.de quem era irmão Teages. esteja arriscando a vida. ao que parece. ó cidadãos. com seu filho Ésquino. mas de criaturas humanas'. E conseguiria indicar vários outros que Meleto poderia apresentar como testemunhas na sua acusação. Porém. todos falarão a favor do corruptor. enraivecido com minha atitude. Se de fato eu corrompo os jovens. eu falo e se não recebo. cujos irmãos viveram comigo familiarmente. Com efeito.4 . mas não os trouxe aqui para despertar vossa misericórdia e absolver-me". mas pela 70 . e. nem para provar que sou corajoso diante da mote. se entre os homens que me freqüentam. quem quer que me indague e deseje ouvir as minhas respostas. que outra razão podem ter para me defender exceto esta. enfim. nem nunca ensinei coisa alguma. que é verdadeira e justa: a certeza de que Meleto mente e eu digo a verdade? 9. possa irritar-se comigo se.Sócrates não quer Misericórdia Cidadãos. emita seu voto com raiva. além disso. pobres e ricos. como afirmam Meleto e Ânito. dadas por intermédios de vaticínios e sonhos. mas aqueles que não foram corrompidos. tenho três filhos. e. algum dia. se existe alguma testemunha deste tipo.nunca me refutaram. e Aantodoro. que os apresente agora. um se torne de boa formação moral ou não. um já crescido e dois ainda crianças. tenham alguma razão para me defender. cedo-lhe o lugar. e ainda Antífon de Cefísia. nem de pedra nasci. em particular. filho de Demódoco. Por conseguinte. são bem poucos diferentes destas. os corrompidos. ao fazer intimamente esta comparação. de quem temos aqui o irmão Apolodoro. pai de Epígeno. tenhais a certeza de que este não diz a verdade. as razões que posso apresentar em minha defesa. Ao fazer isso. Muitos destes estão presentes. e ali Adimanto. cumpro as ordens do deus. ao ter de enfrentar um processo menos arriscado do que este. ao envelhecerem. pais. e aqui caberia aquele dito de Homero: 'Que não de carvalho. se já corrompi algum. como é possível que a alguns agrade estar comigo tanto tempo? Vós ouvistes. porque estou da mesma maneira à disposição de todos. E poderia nomear muitos outros. já que não prometi ensinamento algum a ninguém. repito-vos. É possível que alguém. não poderá falar com o irmão a meu favor. e por outros meios de que se serve a providência divina para ordenar ao homem que faça alguma coisa. meu contemporâneo e conterrâneo com sei filho Critóbulo. e como Teódoto faleceu. e ali estão outros. não será justo que eu receba elogios ou impropérios. vereis que todos farão o contrário.Epílogo 1 . que são agora anciãos. são verdadeiras e demonstráveis. porém. E se há quem diga que aprendeu ou ouviu alguma coisa de mm. se os que lhe são caro sofreram algum mal por mim causado. A uma pessoa assim. alguma coisa que todos os outros não tenham aprendido ou ouvido.

o que é bastante evidente. Não considero justo. e que vos esforçásseis ao máximo para 71 . e por ter desprezado aquilo que atrai a maioria. não é necessário que vos habitueis a isso. mas sim mostrar a todos que julgais com maior rigor quem encena esses dramas lastimosos e cobre a cidade de ridículo do que quem suporta com serenidade o próprio destino. não nos portamos dessa maneira é o que compete a nós. pois acreditava que seria condenado por muito mais votos.minha reputação. então. como se achassem que iriam sofrer sabe-se lá que tortura se devessem morrer e como se tornassem imortais se não fossem condenados à morte por vós. ou por outra virtude qualquer. têm atitudes excepcionais. desta acusação. me causa mais estranheza é o grande número de votos favoráveis a mim. se Ânito e Lícon não tivessem vindo para me acusar. 9. não me pareceu honroso agir dessa maneira. não faremos coisas boas e piedosas. Acredito nos deuses mais do que qualquer um dos meus acusadores. Por isso. E eu. e não só haver escapado delas. mas sim infomá-los e convencê-los. Os juízes não se encontram aqui para favorecer o justo. Ao que me parece. seria vergonhoso. que eu cometesse diante de vós atos que reputo desonestos. ao longo da minha existência. pensa que mereço a pena capital. se aquele que entre vós possuem fama de se distinguirem pela sabedoria e coragem. que pena apresentarei em oposição à vossa. nem vos nem eu. interesses particulares. quando eram réus em um processo. livrar-me da condenação. pela vossa e de toda a cidade. o de terem votado pela minha condenação. que temos fama de sermos ainda alguma coisa. e eu menos ainda. seria culpado de não crer nos deuses. tentando convencer-vos de que. antes de qualquer coisa e de vós mesmos. ao fato de não haver sido apanhado de surpresa. e não por tão poucos. E é justamente o contrário que sucede.A Pena Do Esperado da Pena Se eu não estou abalado. em quaisquer aspectos. mediante súplicas. porque corre pela cidade que. e pessoas desse tipo. Estes. Ora. se nos comportássemos assim. ó atenienses. tentar influir nos juízes e. injustos e vis. mas para julgar o justo. envergonham a toda a cidade. por não haver usufruído em paz. Nem vos conviria. eu que sou acusado por Meleto. e porque sempre acudi rapidamente aonde quer que eu reputasse poder proporcionar o maior bem a cada um de vós em particular. Este homem. de impiedade. embora possuíssem alguma boa reputação. Não iríeis querer então. aqui presente. ó atenienses. eu vos ensinaria que. Porque é evidente que se eu. com apenas mais trinta votos a meu favor teria sido absolvido. no entanto. deixar-nos fazê-lo. julgar o que será para vós e para mim o melhor. O que. se procedessem dessa maneira. eu mesmo presenciei muitas vezes. e ao do deus. penso haver escapado das mãos de Meleto. tanto que qualquer forasteiro poderia imaginar que aqueles atenienses que se distinguem por sua virtude e que seus concidadãos elegem à magistratura e outras honras não são em nada melhores que as mulheres. entre outras razões. ainda mais na minha idade e com o meu nome. e as agitações e conspirações que acontecem nas cidades. mas. riquezas. Portanto. nem juraram que favorecerão a quem lhes paga. sim. isso deve-se.Segunda Parte 1 . por meio de súplicas procurasse convencer-vos e obrigar-vos a violar o juramento. pois sempre me considerei por demais honesto para conseguir salvar-me se me dedicasse a tais coisas e convencido de que não teria sido útil nem para mm nem para vós. ó atenienses? Não é evidente que seja a mesma que me foi imposta? Qual será então? Que pena merecerei ou que multa.5 . mas que farão justiça de acordo com as leis. e deixo a vosso critério. eu teria sido multado em mil dracmas por não haver conseguido um quinto dos votos. verdadeiro ou falso que seja. procurásseis ser os melhores e mais sensatos possível. com o que acaba de ocorrer. o que aprendi. Portanto. ó cidadãos. cargos militares e políticos e todas as outras magistraturas. Sócrates se distingue da maioria dos homens.

aquilo a que faço jus. convencendo os mais velhos. e. poderia ter-me aplicado uma multa que conseguisse pagar. mesmo assim. não teria me infligido mal algum. Portanto. como aqui. ó Sócrates. de acordo com o direito. E acredito que se houvesse leis entre nós. serei perseguido por seus pais e demais parentes. Mas não possuo dinheiro e não posso fazer isso. que outros a agüentariam de bom grado? E ainda. Contudo. ó atenienses. devo pedir. peço se alimentado no Pritaneu. se vos dissesse que significaria desobedecer ao deus e que. e.trabalhar em prol da cidade. tivemos muito pouco tempo para nos entendermos. não é isso. Se eu possuísse dinheiro. mesmo nestas minhas palavras de agora. perseguido em todos os lugares. nesta idade. serão estes mesmos que me farão perseguir. eu teria de estar imbuído de uma bem ingênua vontade de viver se fosse assim tão irracional a ponto de não poder nem mesmo fazer este raciocínio. embora sendo meus concidadãos. ó atenienses. estaríeis convencidos. que enquanto vós. se eu os repelir. porque. E esses homens. como as que há entre outros povos. que Platão. ó cidadãos. se vos dissesse isto. que proíbem que uma pena de morte seja aplicada em apenas um dia. não fostes capazes de agüentar minha companhia e os meus discursos. e mesmo assim não logrei convencer-vos. E também pensa em prejudicar a mm mesmo ao declarar que sou merecedor da pena e pedir que esta pena seja aplicada a mim. Se. Porque estes vos proporcionam felicidade. e mais. não poderias viver após ter saído de Atenas?" Isso seria simplesmente impossível. por conseguinte. então. assim. mudando sempre de país para país. 72 . que minha companhia foi tão desagradável que procuras agora livrar-vos dela. biga ou quadriga. Se vos dissesse que esse é o maior bem para o homem. meditar todos os dias sobre a virtude e acerca dos outros assuntos que me ouvistes discutindo e analisando a meu respeito e dos demais. porque não possuo dinheiro para pagá-la. Algum de vós talvez pudesse contestar-me: "Em silêncio e quieto. com cavalo. não acreditaríeis e pensaríeis que estivesse sendo sarcástico. Multo-me então em trinta minas. e não precisam ser sustentados como eu precioso. talvez julgais notar quase o mesmo sentimento de ofensivo orgulho que acreditáveis ter percebido quando falava a respeito de suplicar e despertar comiseração. porém é difícil convencer-vos. Porém. não é fácil livrar-se em tão breve espaço de tempo de acusações tão graves. Mas vedes. em verdade. os jovens acorrerão a fim de me ouvir. Penso nunca haver prejudicado ninguém por querer. tenham conseguido triunfos nos Jogos Olímpicos. dignos de crédito e confiança. e que uma vida desprovida de tais análises não é digna de ser vivida. Porque sei muito bem que aonde quer que eu vá. exilado. Que mereço por sempre haver agido desta forma? Algum grande bem. exceto se desejeis multar-me de uma quantia que eu tenha a possibilidade de pagar. Contudo. Não. serão garantes dessa quantia. ó atenienses. ó atenienses. que excelente vida seria a minha. E por temer o que eu deveria agir dessa forma? Talvez por temer sofrer aquilo que Meleto exige para mim e que eu declaro não saber se é bom ou mau? E em troca desta pena devo escolher outra entre aquelas que eu sei serem más? Deverei solicitar a prisão? E por que motivo deverei viver preso. e se não os repelir. atenienses não seria mantê-lo no Pritaneu com muito maior razão do que aqueles que. Que será apropriado para um pobre benfeitor que precisa de tempo para aconselhar-vos nos vossos assuntos? O que mais seria conveniente a esse homem. Por outro lado. a serviço da eterna magistratura dos Onze? Uma pena em dinheiro e permanecer enjaulado enquanto não for paga? Mas é exatamente a mesma coisa que a anterior. Críton. atenienses. Poderei pagar-vos apenas uma mina de prata. Porque. não estou habituado a considerar-me merecedor de mal algum. Pedirei o exílio? Sim. é isto que vos digo. que eles mesmos garantirão. se é que devo ser recompensado como mereço. multo-me em uma mina de prata. mas algo bastante diferente. talvez seja precisamente esta pena que desejastes para mim. acreditar-me-iam menos ainda. e também a mim. Critóbulo e Apolodoro querem que eu me multe em trinta minas. e sim em mais. não seria possível que eu vivesse em silêncio.

porque muito mais difícil é escapar à maldade. meus condenadores. gostaria de conversar com respeito ao que se acaba de suceder. não de discursos. que me perdi por falta de discursos com que vos poderia persuadir. adito o seguinte: talvez imagineis. eles igualmente. em vez de tapar a boca dos outros. foi algo prodigioso. Sim. despeço-me de vós que me condenastes. Quer no tribunal. nas batalhas. aqueles que desejarem injuriar a cidade vos impingirão a fama e a acusação de terdes matado Sócrates. Por certo.Após a Condenação Aos que Votaram Contra Por não haverdes aguardado mais um pouco. nada obsta que nos entretenhamos enquanto dispomos de tempo. estais enganados. vamos partir. de fato. eu. os que vos quiserem censurar. Acerca do futuro. fomos apanhados. ao contrário. um sábio. quando estão para morrer. Com este vaticínio.9. preparar-se para ser o melhor possível. homens que me mandais matar. Eu vos afianço. porém. ela corre mais ligeira que a morte. quando eu ia cometer um erro. quero fazer-vos um vaticínio. Com efeito. não devo eu. apesar de que eu não o seja. muito mais folgo em morrer após a defesa que fiz. por me recusar a proferir o que mais gostais de ouvir. lamentos e gemidos. muito mais duro que a pena capital que me impusestes. eis-me chegado àquele momento em que os homens vaticinam melhor. essa não é uma forma de libertação. pela mais lenta das duas. Agora. ficai comigo mais um pouco. tais como costumais ouvir dos outros. A usual inspiração. como a amigos. fazendo e dizendo uma porção de coisas que declaro indignas de mim. eu vo-lo asseguro. sim. Engano! Perdi-me por falta. do que folgaria em viver após fazê-la daquele outro modo. senhores. Serão mais numerosos os que vos pedirão contas. Bem sabeis a minha idade. a vós é que chamo com tino de juízes. eu e os meus acusadores. Para esses mesmos. que sou um velho vagaroso. mas de atrevimento e descaramento. se na minha opinião se devesse tudo fazer e dizer para escapar à justiça. Não dirijo essas palavras a todos vós. em cada perigo. a própria natureza satisfaria o vosso desejo. a malvadez. enm é inteiramente eficaz nem honrosa. Por conseguinte. o que se 73 . chamar-me-ão de sábio. e vossa irritação será maior. condenados pela verdade a seu pecado e a seu crime. Aos que o Absolveram Com os que votaram pela absolvição. no entanto. O que me ocorreu senhores juízes. atenienses. por Zeus. esta outra. Neste momento. sempre foi rigorosamente assídua em opor-se a ações mínimas. Se imaginais que. ágeis e velozes. Ora.Terceira Parte 1 . quer na guerra. condenado por vós à morte. pela mais ligeira. a da divindade. eles serão tanto mais importunos quanto são mais jovens. matando homens. Eu aceito a pena imposta. muitas vezes se pode escapar à morte arrojando as armas e suplicando piedade aos perseguidores. acaba de me ocorrer o que vós estais vendo. Vós o fizestes supondo que vos livraríeis de dar boas contas de vossa vida. já distante da vida e próxima da morte. não deve ninguém lançar mão de todo e qualquer recurso para escapar à morte. Não se tenha por difícil escapar à morte. eles. é evidente que. é a mais honrosa e mais fácil. eu. mas aos que votaram pela minha morte. se antes achei que o perigo não justificava indignidade alguma. tem muitos outros meios de escapar à morte quem ousa tudo fazer e dizer. Quero explicar-vos. mas o resultado será inteiramente oposto. que o castigo os vos alcançará logo após a minha morte e será. enquanto os magistrados estão ocupados e antes de ir para onde devo morrer. tampouco me pesa agora da maneira por que me defendi. senhores. agora. Se esperásseis mais algum tempo. tinha de ser assim e penso que não houve excessos.6 . evitareis que alguém vos repreenda a má vida. o sentido exato de que me aconteceu agora. até agora eu os continha e vós não os percebíeis.

Se. se é como um sono em que o adormecido nada vê nem sonha. não o sendo. bem posso imaginar que. não me seria desagradável comparar com os deles os meus sofrimentos e. entre outros motivos. nem quando ia dizer alguma coisa. segundo consta. do lugar deste mundo para outro lugar. por serem imortais pelo resto do tempo. digo que é uma vantagem. se isso é verdade.¹ Radamanto. o que é mais. sem ter nenhum. O meu não é conseqüência do acaso. a ver quem deles é sábio e quem. Não me insurjo absolutamente contra os que votaram contra mm ou me acusaram. cuida que é. se a tradição está certa. porque. castigai-os. senhores juízes. eu terei recebido de vós justiça. mas a advertência divina não se me opôs de manhã. ao chegar ao Hades. Por isso é que a advertência nada me impediu. contrapondo a essa as demais noites e dias de nossa vida. como o maior dos males. e meus filhos também. Morrer é uma destas duas coisas: ou o morte é igual a nada. com quem seria uma felicidade indizível estar junto. sujeitando-os a exame! Os de lá absolutamente não matam por uma razão dessas! Os de lá são mais felizes que os de cá. atormentai-os com os mesmíssimos tormentos que eu vos infligi. se devêssemos identificar uma noite em que estivéssemos dormindo tão profundamente que nem mesmo sonhássemos e. e há quem o faça. A que devo atribuir isso? Vou dizer-vos: é bem possível que seja um bem para mim o que aconteceu e não é forçoso acreditar que a morte seja um mal. Se não há nenhuma sensação. que tenham morrido por um sentença iníqua. que maravilhosa vantagem seria a morte! Bem posso imaginar que. assim sendo.poderia considerar. Quanto não se daria. Triptólemo e outros semideuses que foram justiceiros em vida. repreendei-os. mas o próprio rei da Pérsia acharia fácil enumerar tal noite entre as outras noites e dias. quer na morte. como vos fiz eu. do outro lado. senhores juízes? Se. Éaco. se não fosse uma ação boa o que eu estava para praticar. toda a duração do tempo se apresenta como nada mais que uma noite. quer na vida. em nenhuma ação ou palavra. Se vós assim agirdes. Logo. homens e mulheres. uma emigração da alma. ou Sísifo? Milhares de outros se poderiam nomear. e não sente nenhuma sensação d coisa nenhuma. então. quantas vezes ela me conteve em meio de outros discursos! Mas hoje não se me opôs vez alguma no decorrer do julgamento. eu de modo especial acharia lá um entretenimento maravilhoso. para sujeitar a exame aquele que comandou a imensa expedição contra Tróia. conversando com eles. quando encontrasse Palamedes. mal algum. nem enquanto subia aqui para o tribunal. vejo claramente que era melhor para mim morrer agora e ficar livre de fadigas. que maior bem haveria que esse. ou. lá distribuem a justiça. a morte é como a mudança daqui para outro lugar e está certa a tradição de que lá estão todos os mortos. livre dessas pessoas que se intitulam juízes. Façamos mais esta reflexão: há grande esperança de que isto seja um bem. pensar e dizer quantos dias e noites de nossa existência vivemos melhor e mais agradavelmente do que naquela noite. Ajax de Telamon e outros dos antigos. Hesíodo e Homero? Por mim. Disso tenho agora uma boa prova. senhores juízes. estou pronto a morrer muitas vezes. e os deuses não descuidam de seu destino. trata-se duma mudança. a gente vai encontrar os verdadeiros juízes que. no entanto. passar o tempo examinando e interrogando os de lá como aos de cá. porque a usual advertência não poderia deixar de opor-se. ao sair de casa. só tenho um pedido a lhes fazer: quando meus filhos crescerem. Minos. Verdade é que não me acusaram e condenaram com esse modo de pensar. já não digo um homem comum. deveis bem esperar da morte e considerar particularmente esta verdade: não há. como se costuma dizer. se estiverem supondo ter um valor que não tenham. por não cuidarem do que devem e por suporem méritos.² Museu. ou Ulisses. se a morte é isso. 74 . No entanto. não valeria a pena a viagem? Quanto não daria qualquer de vós para estar na companhia de Orfeu. mas na suposição de que me causavam dano: nisso merecem censura. eu. se achardes que eles estejam cuidando mais da riqueza ou de outra coisa que da virtude. Vós também. para o homem bom.

se eu. se vós. vós para a vida. é chegada a hora de partirmos. eu para a morte.Bem. exceto para a divindade. 75 . é segredo para todos. Quem segue melhor destino.

Voltando para Atenas. No fundador da Academia. em Mégara. onde conheceu Dionísio o Antigo. Foi assim que o filósofo. com oitenta anos de idade. estando. que era filho do povo.A Vida e as Obras Diversamente de Sócrates. ao contrário de Sócrates. entretanto isto prejudicou sem dúvida a precisão e a ordem do seu pensamento. então. Morreu o grande Platão em 348 ou 347 a. onde levantou um templo às Musas. de pais aristocráticos e abastados.em 366 e em 361 . Platão nasceu em Atenas. esperando poder experimentar o seu ideal político e realizar a sua política utopista. Aos vinte anos. a Sicília. Em Atenas.. pelo ano de 387. atividade que não foi interrompida a não ser pela morte. perto de Colona. que correm sob o seu nome. na segunda. Platão travou relação com Sócrates .PLATÃO 10. voltou a Atenas. que o acompanhou durante a vida toda. muitos são apócrifos.mais velho do que ele quarenta anos . tomou o nome famoso de Academia. Daí deu início a suas viagens.C. o método.).C. porém.e gozou por oito anos do ensinamento e da amizade do mestre.C.10 . em 428 ou 427 a. Temperamento artístico e dialético manifestação característica e suma do gênio grego . outros de autenticidade duvidosa. Caído. Platão estudou também os maiores pré-socráticos. Quando discípulo de Sócrates e ainda depois. Platão. a precisão. porém. cunhado daquele. Esta veio operar aquela libertação definitiva do cárcere do corpo. Libertado graças a um amigo. Platão fundava a sua célebre escola. após a morte de Dionísio o Antigo. até o tempo do imperador Justiniano (529 d. ao ensino filosófico e à redação de suas obras. a terminologia científica que tanto caracterizam os escritos do sábio estagirita. que.não é senão uma assídua preparação e realização no tempo. da qual a filosofia . livre curso ao seu talento poético. onde teve ocasião de travar relações com os pitagóricos (tal contato será fecundo para o desenvolvimento do seu pensamento). Adquiriu. Platão é o primeiro filósofo antigo de quem possuímos as obras completas. Faltam-lhe ainda o rigor. que se tornou propriedade coletiva da escola e foi por ela conservada durante quase um milênio. povoado da Ática. voltou duas vezes . A forma dos escritos platônicos é o diálogo. a Itália meridional. dos jardins de Academo. e foi libertado por Arquitas e pelos seus amigos. manifestando-se na expressão estética de seus escritos.deu. Estas duas viagens políticas a Siracusa. Platão dedicou-se inteiramente à especulação metafísica.como lemos no Fédon .1 . de antiga e nobre prosápia. 76 . onde surgiu. e fez um vasto giro pelo mundo para se instruir (390-388). tirano de Siracusa e travou amizade profunda com Dion. Arquistas no governo do poderoso estado de Tarento. transição espontânea entre o ensinamento oral e fragmentário de Sócrates e o método estritamente didático de Aristóteles. interessou-se vivamente pela política e pela filosofia política. Platão foi preso por Dionísio. Dos 35 diálogos.à Dion. porém. Platão retirou-se com outros socráticos para junto de Euclides. o mito e a poesia confundem-se muitas vezes com os elementos puramente racionais do sistema. na desgraça do tirano pela sua fraqueza. não tiveram melhor êxito do que a precedente: a primeira viagem terminou com desterro de Dion. Depois da morte do mestre.. de que admirou a veneranda antigüidade e estabilidade política. Visitou o Egito. tanto assim que várias partes de suas obras não têm verdadeira importância e valor filosófico. foi vendido como escravo. uma herdade. na mocidade.

chegar à contemplação do inteligível. não pode explicar o conhecimento intelectual. sabe que o é. não sabe que o é. o saber sensível. que estão efetivamente presentes no espírito humano.se possa de algum modo tirar o conceito universal. da desordem que se manifesta em especial no homem. que tem por sua característica a universalidade. imutável. Platão como Sócrates. onde o corpo é inimigo do espírito. universal. idênticas. tem o caráter científico. exagerando. A diferença essencial entre o conhecimento sensível. O conhecimento sensível deve ser superado por um outro conhecimento.O Pensamento: A Gnosiologia Como já em Sócrates. e se distinguem diametralmente de seus opostos. 10. errôneo. lógica e formal. ao campo antropológico e moral . a paixão contrasta com a razão. absoluto. imutável. para chegar ao conhecimento intelectual. pela viva sensibilidade do filósofo em face do universal vir-a-ser. a toda a realidade. relativa . Este caráter íntimo.2 . pois. particular. fealdade. isto é. A gnosiologia platônica. como também Platão. porém. racional em geral.Platão estende tal indagação ao campo metafísico e cosmológico. porquanto no conhecimento humano. donde pode passar indiferentemente o conhecimento diverso. do socratismo ao aristotelismo. Poder-se-ia também dizer que o primeiro sabe que as coisas estão assim.A atividade literária de Platão abrange mais de cinqüenta anos da sua vida: desde a morte de Sócrates. no entanto. mutável e relativo. e sim a ocasião para fazê-los reviver. mutável e relativo. absoluto. todavia. universal e imutável. é a grande ciência que resolve o problema da vida. sensível. ao passo que o segundo. pelo eros platônico. diz que os conceitos são a priori. que falta a gnosiologia socrática. cair no erro sem o saber. assim em Platão a filosofia tem um fim prático. através da especulação. Deve. que ilumina o primeiro conhecimento. mutável. o conhecimento humano integral fica nitidamente dividido em dois graus: o conhecimento sensível. além de ser um conhecimento verdadeiro. em Platão é tornado especialmente vivo. mas julgava. nascer e perecer de todas as coisas. Segundo Platão. isto é. não podendo de modo algum ser substituído por um conhecimento diverso. do conhecimento da ciência. precisamente porque é ciência. a imutabilidade. que representa a evolução do pensamento platônico. para o qual é atraído por um amor nostálgico. não admite que da sensação . donde têm de ser oportunamente tirados. ao contrário. conceitual. exasperando a doutrina da maiêutica socrática. apresentam-se elementos que não se podem explicar mediante a sensação.particular. A parte mais importante da atividade literária de Platão é representada pelos diálogos . Platão. a opinião verdadeira e o conhecimento intelectual. o absoluto (do conceito). que limitava a pesquisa filosófica. O conhecimento sensível. ao passo que o segundo sabe que as coisas devem estar necessariamente assim como estão. os valores de beleza. o sentido se opõe ao intelecto. mais ou menos. religioso da filosofia.em três grupos principais. está nisto: o conhecimento sensível. conhecimento das coisas pelas causas. moral. humano. parte do conhecimento empírico. considera Platão o espírito humano peregrino neste mundo e prisioneiro na caverna do corpo. Este fim prático realiza-se. da opinião. da opinião do vulgo e dos sofistas. transpor este mundo e libertar-se do corpo para realizar o seu fim. em face do mal. Sócrates estava convencido. e o conhecimento intelectual. e ainda menos pode o conhecimento sensível explicar o dever ser. Assim. E. verdade e bondade. 77 . relembrar conforme a lei da associação. Mas . no seu valor.diversamente de Sócrates. filosófico. intelectualmente. ainda que as conclusões sejam. angustioso. embora verdadeiro. sem saber porque o estão. mas que dele não se pode derivar. conceitual. desenvolvendo. até a sua morte. isto é. segundo certa ordem cronológica. poder construir indutivamente o conceito da sensação. de que o saber intelectual transcende. e sustenta que as sensações correspondentes aos conceitos não lhes constituem a origem. como efetivamente. o conhecimento conceitual. particular. erro e mal-posição e distinção que o sentido não pode operar por si mesmo. inatos no espírito humano.

em geral.3 .opinião verdadeira . 10. se impõe ao lado e acima do conhecimento sensível. A ciência é objetiva. no máximo. e estas se contrapõem a matéria obscura e incriada. dá ao conhecimento racional. Estas realidades chamam-se Idéias. situado na esfera celeste.A Metafísica 1 . o mundo ideal é provado pela necessidade de justificar os valores. como as concebiam Heráclito e os sofistas. personalizados. científico. Esse conhecimento. um objeto próprio: as idéias eternas e universais. aliás. não há ciência. uma base real.Teoria das Idéias Sócrates mostrara no conceito o verdadeiro objeto da ciência. Este mundo ideal.no dizer de Platão . além do fenomenal. imutáveis. pois. que se 78 . no sentido platônico. racional . Todas as idéias existem num mundo separado. formas abstratas do pensamento. os nossos conceitos são universais. são realidades objetivas.4 . dá ao conhecimento empírico.que é precisamente o conhecimento adequado à sua natureza inferior. conceitual. uma base e um fundamento reais. 10. de que este nosso mundo imperfeito participa e a que aspira. Deste mundo material e contigente. para poder explicar verdadeiramente o conhecimento humano na sua efetiva realidade. Visto serem as idéias conceitos personalizados. A certeza da sua existência funda-a Platão na necessidade de salvar o valor objetivo dos nossos conhecimentos e na importância de explicar os atributos do ente de Parmênides. que são os conceitos. alma de toda filosofia platônica. Assim a idéia de homem é o homem abstrato perfeito e universal de que os indivíduos humanos são imitações transitórias e defeituosas. sensível. as idéias terão aquela mesma ordem lógica dos conceitos. um conhecimento sensível verdadeiro . existir. ao conhecimento certo deve corresponder a realidade. Tal a célebre teoria das idéias. que está no vértice.Aqui devemos lembrar que Platão. tudo no mundo é individual. negar a existência do fieri. diversamente de Sócrates. necessários. ou alguns conceitos da mente. transferidos da ordem lógica à ontológica. centro em torno do qual gravita todo o seu sistema. de um lado. modelos e arquétipos eternos de que as coisas visíveis são cópias imperfeitas e fugazes. do outro. o dever ser. sem. portanto. terão consequentemente as características dos próprios conceitos: transcenderão a experiência. mas apenas é possível. à opinião verdadeira. Entre as idéias e a matéria estão o Demiurgo e as almas. imutáveis e eternos (Sócrates). com ele.As Idéias O sistema metafísico de Platão centraliza-se e culmina no mundo divino das idéias. o mundo dos inteligíveis. Do mesmo modo. contigente e transitório (Heráclito). As idéias não são. um objeto adequado ao conhecimento conceitual. serão universais. E. O divino platônico é representado pelo mundo das idéias e especialmente pela idéia do Bem. logo. um outro mundo de realidades. A existência desse mundo ideal seria provada pela necessidade de estabelecer uma base ontológica. objetivamente dotadas dos mesmos atributos dos conceitos subjetivos que as representam. Pode haver conhecimento apenas do mundo imaterial e racional das idéias pela sua natureza superior. material. em que vivemos. através de que desce das idéias à matéria aquilo de racionalidade que nesta matéria aparece. Ora. devido à sua natureza inferior. Platão aprofunda-lhe a teoria e procura determinar a relação entre o conceito e a realidade fazendo deste problema o ponto de partida da sua filosofia. Além disso.transcende inteiramente o mundo empírico. representações intelectuais. um objeto próprio: as coisas particulares e mutáveis. Deve.

religiosos e místicos. e a concupiscível (apetite). que devem ser trabalhosamente relembradas. de superioridade. dependentes e inferiores. princípio de movimento e de ordem. a idéia do Bem. que desvencilha para sempre a alma do corpo. o seu instrumento adequado.O Mundo O mundo material. e é o devir ordenado. unida a um corpo. como de um cárcere. Assim é que considera ele a alma humana como um ser eterno (coeterno às idéias. é o ser sem o qual não se explica o vir-a-ser.As Almas A alma. Segundo Platão. dos homens. embora superior à matéria. é inferior às idéias. separando-se. o homem realiza a sua verdadeira natureza: a contemplação intuitiva do mundo ideal. que é papel da dialética (lógica real.ser. é a realidade suprema. em dependência de uma ação do Demiurgo sobre a alma. isto é. E. dotado o Demiurgo o qual. estando no vértice a idéia do Bem. são ordenadas em sistema hierárquico. O mundo. todavia. transcendental: contemplação em que se realiza a natureza humana. Assim. Logo. No entanto. antes de tudo. pois. etc. quer dizer. partes da alma. tanto no homem como nos outros seres. à qual comunica o movimento e a vida. Conforme a cosmologia pampsiquista platônica. portanto. e é a opinião verdadeira. as idéias e a matéria. e se realiza com a morte. ordenadora . a união da alma espiritual com o corpo é extrínseca. introduzindo no caos a alma. O Demiurgo plasma o caos da matéria no modelo das idéias eternas. Deve. sendo que a alma racional é. haveria. Desta personalidade e atividade criadora . ao Demiurgo e à matéria). as almas dos astros. como o adequado conhecimento sensível está entre o saber e o nãosaber. uma alma do mundo e. resulta da síntese de dois princípios opostos. dotado de atividade sensitiva e vegetativa.ou partes da alma: a irascível (ímpeto).obtém mediante a divisão e a classificação. que é separação espiritual da alma do corpo. melhor. Ele. de natureza espiritual. de fato. Portanto. durante a vida terrena. o intelecto é impedido pelo sentido da visão das idéias. 2 . a alma do corpo. apenas mediante uma disciplina ascética do corpo. verdade. então. inteligível. que residiria no peito. no sistema platônico. porquanto Platão é um pampsiquista. pelo contrário. e todos os valores (éticos. em vista dos seus impelentes interesses morais e ascéticos. assim como o Demiurgo. Entretanto. lógicos e estéticos) que se manifestam no mundo sensível. segundo Platão. Como a multiplicidade dos indivíduos é unificada nas idéias respectivas.ou. A alma não encontra no corpo o seu complemento. beleza 79 . deveria ser.é. anima toda a realidade. até violenta. que o mortifica inteiramente. o cosmos platônico. a saber. caído no mundo material como que por uma espécie de queda original. e da qual depende totalmente a ação moral. a alma humana. falta-lhe a personalidade e a atividade criadora. que aparecem no mundo. bondade. essencial da alma é a de conhecer o mundo ideal. deve existir um princípio de uma e outra. libertarse do corpo. deveria representar o verdadeiro Deus platônico. está entre o ser (idéia) e o não-ser (matéria). a ordem e a harmonia. do bem e do mal. de cujo modelo se serve para ordenar a matéria e transformar o caos em cosmos. ontológica) esclarecer. Mas a alma está no corpo como num cárcere. para ser verdadeiramente tal. E diga-se o mesmo da vontade a respeito das tendências. 3 . de um mal radical.assim como a alma racional residiria na cabeça. tais funções seriam desempenhadas por outras duas almas . Da idéia . e mediante a morte libertadora. desempenha papel de mediador entre as idéias e a matéria. esta libertação. que residiria no abdome . da ordem e da desordem. depois. donde dependem todas as demais idéias. assim a multiplicidade das idéias é unificada na idéia do Bem. dá à alma humana um lugar e um tratamento à parte. Naturalmente a alma sensitiva e a vegetativa são subordinadas à alma racional. A faculdade principal. O dualismo dos elementos constitutivos do mundo material resulta do ser e do não-ser. começa e progride mediante a filosofia. Logo. na realidade.

os astros. mas no da decadência. o universo sensível. um ciclo de dez mil anos. informe. são esféricos. ao redor. explicando-se deste modo o movimento circular deles. tudo que há de negativo na experiência. de racional no vir-a-ser da experiência. passiva. conexa ao clássico dualismo grego. tudo recomeça de novo. 80 . irracional. as estrelas e os planetas. não no sentido do progresso. Consoante a astronomia platônica. que domina também a grande concepção platônica. terminados os quais.depende tudo quanto há de positivo. o mundo físico percorre uma grande evolução. mutável. No seu conjunto. Da matéria indeterminada. transparentes. o mundo. cravados em esferas ou anéis rodantes. A terra está no centro. É a clássica concepção grega do eterno retorno. em forma de esfera e.depende. chegado o grande ano do mundo. ao contrário. espacial .

destarte. o Político e as Leis. a filosofia.sobre a base da metafísica platônica da alma. em especial. distingue ele três categorias de alma: 1. fortaleza. por conseqüência. uma dedução das famosas quatro virtudes naturais. justiça . chamadas depois cardeais . pois. As que cometeram pecados inexpiáveis. em chocante contraste com os estados e a política deste mundo. unida ao corpo e aos sentidos.A Política Os escritos em que Platão trata especificamente do problema da política são a República. que é. embora a esta naturalmente inferior. eis o pensamento de Platão: em geral. A essência do estado seria então. As almas destas últimas duas categorias nascem de novo. a contemplação.4 . As que cometeram pecados expiáveis. Entretanto. 5 . pois. em castas. a obra fundamental de Platão sobre o assunto. da razão. morrer aos sentidos. deve principiar a sua vida moral sujeitando o corpo ao espírito. da razão. a distinção em classes. dos mistérios órficodionisíacos. a alma concupiscível. Agir moralmente é agir racionalmente. não uma sociedade de indivíduos semelhantes e iguais. é necessário que a alma racional domine. e. traça o seu estado ideal. para impedir que o primeiro seja obstáculo ao segundo. Então a realização da natureza humana não consiste em uma disciplina racional da sensibilidade. ao mundo. Tal especificação e concretização da divisão do trabalho seria representada pela instituição da escravidão. por conseqüência. Em geral. Tal harmônica distribuição de atividade na alma conforme a razão constituiria. Temos. condenadas eternamente. e agir racionalmente é filosofar. virtude fundamental. e filosofar é suprimir o sensível. na separação da alma do corpo. mas um obstáculo . felicidade e virtude. uma classificação. mas dessemelhantes e desiguais. as dos filósofos. Noutras palavras. seria mister acrescentar uma quarta categoria de almas. que representam um desenvolvimento social e uma sistematização estável da divisão do trabalho no âmbito de um estado. depende da religião. antes de tudo. mas na sua final supressão. o destino da alma depende da sua filosofia. a única virtude verdadeiramente humana e racional. porquanto cada homem precisa do auxílio material e moral dos outros. videntes de idéias. 3. e domine também a alma irascível. para que se realize a sabedoria. 2. a virtude suma.Moral Segundo a psicologia platônica. esta natureza racional do homem encontra no corpo não um instrumento. na morte. Na República. neste mundo. na razão realiza o homem a sua humanidade: a ação racional realiza o sumo bem. As que viveram conforme à justiça. libertados da vida temporal para sempre. a idéia. encarnam-se de novo. consoante 81 . juntamente com a sapiência. à espera de que a morte solte definitivamente a alma dos laços corpóreos. a justiça. e assim por diante. ao corpo. derivando daí a virtude da temperança. para receber a pena ou o prêmio merecidos. a justificação da sociedade e do estado? Platão acha-a na própria natureza humana. dos filósofos. para o espírito. Qual é. Desta variedade de necessidades humanas origina-se a divisão do trabalho e. Em todo caso. donde a virtude da fortaleza. o reino do espírito. a natureza do homem é racional. de fato. a vontade no impulso. Segundo o pensamento que lemos no Fédon. temperança. tal instituição. segundo Platão. Quanto ao destino das almas depois da morte. o inteligível. visto que a alma humana racional se acha. ao mesmo tempo.que Platão explica mediante um dualismo filosófico-religioso de alma e de corpo: o intelecto encontra um obstáculo nos sentidos.prudência.

como veículo dos valores transcendentais da Idéia. consequentemente. Deveria ela equilibrar. mas pela grande importância e função moral por ele atribuída ao estado.é. a família. em geral. domésticos. mas. À classe dos guerreiros cabe a defesa interna e externa do estado. espiritual. a dos produtores. servis. o estado em nada se interessa . porquanto representa precisamente . a ordem ideal do mundo e. antes de tudo. Platão foi levado a esta concepção política . etc. as quais. Entretanto. pelo desprezo com que era considerado por Platão . a ordem da sociedade humana. . conhecem a realidade das coisas. Com efeito. pois.ao menos positivamente . que Platão propugna para as classes superiores. À classe dos produtores. pode causar impressão. materialismo. estatais. cuja formação é inteiramente material e subordinada. ética. a direção da república. a dos trabalhadores ocupa o ínfimo lugar. e. é necessária porquanto os trabalhos materiais. e ocupar-se com o seu bem estar material apenas secundária e instrumentalmente. cabe a conservação econômica do estado. à altura de orientar racionalmente o homem e a sociedade para o fim verdadeiro. O estado deve. consistindo sua virtude apenas na obediência. o bem espiritual dos cidadãos. estão efetivamente em contraste com os interesses coletivos. a educação deve. ascética do estado platônico. então. à primeira vista. irascível e concupiscível no organismo humano. econômicos e. e. O grande. e. não. Na hierarquia das classes. sendo estes naturalmente superiores àqueles . Tal atividade política constitui um dever para o filósofo. e estão.especialmente aos filósofos. música e ginástica. são incompatíveis com a condição de um homem livre em geral. por isso. todavia. sobretudo. respectivamente. portanto. estas classes: a dos filósofos. o indivíduo ao estado. Os guerreiros representam a força a serviço do direito. a dos guerreiros. a sua finalidade primordial é pedagógico-espiritual. Platão tende a desvalorizar a grandeza militar e comercial. promover. À classe dos filósofos cabe dirigir a república.agricultores e artesãos .não certamente por estes motivos. como única e total expressão da eticidade transcendente.eticamente considerados. ateísmo . todas as atividades presididas pelas Musas . E não hesita em sacrificar totalmente os interesses inferiores aos superiores. a história. de conformidade com a ordem estabelecida pelos filósofos. contemplam eles o mundo das idéias. pelo vulgo. por conseguinte. porém. portanto. dos quais e juntamente com os quais. visto a alma concupiscível estar sujeita à alma racional. Desta maneira é concebido o estado educador de homens virtuosos. o verdadeiro político não é . segundo as virtudes que se referem a cada classe. privados. essencialmente. com a sua natureza 82 . a dominação e a riqueza. os guerreiros receberam a educação. pela plebe. a riqueza.um altíssimo valor moral terreno.o trabalho material. o fim supremo. idolatrando a grandeza moral. Na concepção ideal. também das outras duas classes. Ao contrário.submetida às duas precedentes. o estado ideal deveria ser dividido em classes sociais.diz Platão . sociais. a de organismo ético-transcendente.o homem prático e empírico.Platão. o comunismo dos bens. enfim. mas o sábio. Segundo Platão. o pensador. corresponderiam respectivamente às almas racional. se preocupa com espiritualizar os homens. no organismo do estado. A música abrangendo também a poesia. das mulheres e dos filhos. político-religioso. educá-los para a virtude. cultivada apenas para fins práticos e morais. estar substancialmente nas mãos do estado. Se a natureza do estado é. fundamentalmente.pelo povo.tornada depois sinônimo de imanentismo.. Esta educação é dispensada essencialmente às classes superiores . a quem cabem as virtudes mais elevadas. não realiza tanto as obras exteriores. pois este fim supremo é unicamente a contemplação das idéias.consoante seu pensamento . especialmente. inteiramente entregues à conservação moral e física do estado. Três são. A educação das classes superiores importa. Tinha ele compreendido bem que os interesses particulares. representado pelos filósofos.e pelos gregos em geral .

A Academia A escola filosófica fundada por Platão. A ela pertencem homens insignes e de grande doutrina. média e nova.deveria ser um itinerário especial do espírito para o Absoluto e o inteligível. ou seja. porquanto deveria atingir intuitivamente.embora transcendente. de mania. bem como à idéia do Bem e às outras idéias. no conjunto do seu pensamento. 6 . deuses eternos. impura fonte gnosiológica . Costuma-se dividi-la . Daí a sua aversão ao culto idolátrico dos exercícios físicos. estão as demais idéias. O motivo teórico é que a arte resultaria como cópia de uma cópia: cópia do mundo empírico. Chegamos assim ao princípio da era vulgar..gentil e civilizadora. portanto. fortificadora. a Academia. uma espécie de revelação superior. quase um século. até querer banidos de seu estado ideal os poetas. É governada por discípulos. denominadas por Platão. animados e racionais. É um politeísmo estranho. teórico um. reitores. Por conseqüência. mas não passa de uma importância instrumental e parcial. prevalece a desvalorização por dois motivos.reformada e purificada . prevalecendo simpatias pitagóricas. mas de fenômenos. isto é. este absoluto . Em todo caso. pelos mitos fantásticos e imorais. para o bem como para o mal. mais ou menos. inferior à ciência. A antiga academia dura até o ano de 260 a. como também uma tendência para uma sempre maior sistematização do pensamento platônico. Atuando cegamente sobre o sentimento. conceitual. O motivo prático é que a arte . 7 . dadas a sua impersonalidades e inatividade a respeito do mundo.A Religião e a Arte A idéia do Bem seria o centro da religião platônica.). até o VI século d. Platão pode. prático outro. encarnada em formas sensíveis. aceita francamente o politeísmo. a arte deveria ser. pois o prevalecer da cultura física do corpo torna os homens grosseiros e materiais. gnosiologicamente. Vai-se acentuando a importância da experiência. e subordinadas a esta espécie de Deus supremo. os assim chamados deuses visíveis. pois. cujas divindades são os astros e o cosmo. que toma uma orientação cética. sendo considerada a arte como uma espécie de loucura divina. pela virtude que deriva necessariamente da ciência.C.em antiga. sobretudo graças a Carnéades (213128 a. subordinados ao Demiurgo. que tem por objeto a Beleza eterna e os graus que levam até ela . A arte. cópia não de essências. Seja como for. que é já uma cópia do mundo ideal.torna-se outro tanto danosa no campo moral. que foi um dos indícios da decadência grega. Quanto à avaliação da religião positiva. na sua pureza lógica. espiritual e ético.cronologicamente e logicamente . Platão reconhece a importância da ginástica. aquele mesmo ideal inteligível que a filosofia atinge abstratamente. Seu culto essencial é representado pela ciência e. semelhante à religião e ao amor. Platão hostiliza o antromorfismo. como a ciência.dada esta sua inferior natureza teórica. pois .como o amor. segundo os interesses do último Platão.o Bem e as idéias . sobreviveu-lhe por quase um milênio. No 83 . encontramos em Platão uma tentativa de valorização da arte em si. a arte nos atrai para o verdadeiro. como para o falso. As doutrinas estéticas de Platão são algo oscilantes entre uma valorização e uma desvalorização da arte. Apesar de repelir os deuses da mitologia popular e poética. algo como que uma filosofia.a religião helênica. Ao lado. em oposição ao seu gênio e ao gênio artístico grego.C. a ação oposta. depois. provavelmente também pela influência de Aristóteles. Finalmente.C. a nova academia volta ao antigo dogmatismo e. narrados em torno dos deuses e dos heróis. Entretanto. sucessores de Platão. orienta-se para o ecletismo. não pode tornar-se objeto de religião. inclusive Homero. conservar . Segue-se na média academia. da ginástica. nem sequer da religião assim chamada natural. como religião do seu estado ideal.

entanto. que Platão já tinha valorizado no mito. a academia platônica sobreviverá ainda e tomará uma última forma e feição com o neoplatonismo. É este o último esforço grandioso do pensamento grego para resolver o problema filosófico. e valorizando o elemento religioso positivo. 84 . desenvolvendo o dualismo no panteísmo emanatista.

A morte anuncia o renascimento num outro corpo até que a alma. o Nous. imóvel. dissimulam relações numéricas que constituem o fundo das coisas: idéia capital. Para Heráclito de Éfeso. segundo o testemunho de Platão. elementos eternos.com inigualável poder marítimo -.Para Entender Platão Platão. mereça ser finalmente libertada de toda materialização. dizia. Protágoras de Abdera. a uma brilhante carreira política. acha que os elementos constitutivos do mundo são ordenados por uma Inteligência cósmica. anteriores e contemporâneos . que "o homem é a medida de todas as coisas". a vigília ao sono.. Duas doutrinas se opõem radicalmente entre si.5 . pelo abuso da retórica (um orador hábil pode demonstrar o que quiser) e. portanto. que viveu no século V antes de nossa era e que sabemos ter sido um ilustre matemático. É um jovem aristocrata que une aos seus dons intelectuais e físicos (duas vezes coroado nos jogos atléticos nacionais. torna-se prisioneira de um corpo (soma = sema. a obra de Platão só pode ser entendida em função de outros pensamentos. só reencontra a filosofia a partir de preocupações de caráter político. o nascimento mais prestigioso: sua mãe descendia de Sólon. "Planta rei". Muitas outras doutrinas dessa época tentam explicar o mundo. Anaxágoras. A doutrina pitagórica da salvação está muito próxima dos mistérios do orfismo. o não-ser é a mudança (mudar é deixar de ser o que se é para ser o que não se é). Tratemos. delicioso para o amador. tudo muda infinitivamente. enquanto o ódio que dissocia e o amor que unifica seriam os princípios motores do universo. o não-ser não é". Em outras palavras: não existe verdade absoluta. inicialmente. como também o pensamento dos filósofos anteriores. pelo incremento do individualismo e decadência dos costumes após Péricles. que foi professor de Péricles. infinitamente diversas. Demócrito tenta conciliar as duas doutrinas por intermédio de sua filosofia de átomos. Estava destinado. Pitágoras (que teria inventado a palavra filosofia. mas tão somente opiniões relativas ao homem (este vinho. precisamente denominados pré-socráticos. o pensamento de seu mestre Sócrates. cujas combinações mutáveis são infinitas. a noite ao dia. O fluxo que faz do universo uma torrente é constantemente produzido e destruído por um Fogo cósmico.de saída. também é um místico. é belo e vigoroso: apelidam-no "Platão" em virtude de seus ombros largos). que por ocasião do nascimento de Platão se encontra no apogeu . Empédocles vê na matéria quatro elementos (terra. Mas Atenas. assim como a natureza do som é função do comprimento da corda que vibra. A alma. seus ancestrais paternos. A destruição da 85 . Os pitagóricos acreditam na metempsicose. no entanto. as aparências coloridas do universo. mas que está na origem da ciência moderna. Platão tinha quatro anos quando começaram as guerras do Peloponeso e trinta e um quando eles terminaram. amor à sabedoria). A encarnação é tão somente um encarceramento provisório para a alma. Todavia. de evocar Pitágoras de Samos. ar e fogo). a mobilidade não passa de uma ilusão que engana nossos sentidos.C. que não só reencontramos em Platão. Um dos mais célebres. segundo um ritmo regular. Platão. de um modo geral. já que Pitágoras acredita que os números são o princípio e a chave de todo o universo. é amargo para o enfermo). "O Ser é. simultaneamente purificada pela virtude e pela prática de ritos iniciáticos. fundador de sociedades iniciáticas que visam à salvação de seus membros. é o primeiro grande filósofo da tradição ocidental a deixar uma obra escrita considerável. eterno.10. Diremos uma palavra sobre os sofistas. o real é o Ser único. como punição de faltas passadas. A esta filosofia da mobilidade universal se opõem Parmênides e seu discípulo Zenão de Eléia: para eles. com a capitulação de Atenas. Na realidade. "Não nos banhamos duas vezes no mesmo rio". sua matemática desemboca numa metafísica. água. cujo ceticismo é engendrado pela multiplicidade de doutrinas contraditórias. esboroa-se na época em que Platão atinge a idade adulta. tudo flui: a morte sucede à vida. do último rei de Atenas. corpo = túmulo). nascido em 428 a.

isto é. filósofo puramente contemplativo que nem sabe onde se reúne o Conselho e cujo corpo está apenas presente na Cidade). Tal é a ironia. Talvez a solução seja a evasão do filósofo que "foge daqui debaixo" para se refugiar na meditação pura (tal é o filósofo cujo retrato nos é traçado no Teeteto. caracterizar os grandes traços da filosofia de Sócrates: 1. Seu método é. aristocrata jovem e belo. a idéia geral que contém os caracteres constitutivos da justiça. Se conhecessem verdadeiramente a justiça. "Conhece-te a ti mesmo". Devemos agora. portanto. aos quais traiu para assumir a liderança do outro partido). que era parteira. Sócrates fá-lo compreender que. E isto é significativo e simbólico. de preferência. em 407. Por exemplo: partindo dos aspectos os mais diversos da justiça. Acontecimento político: é o partido popular. Sócrates tem sessenta e três anos quando. Ao mesmo tempo que convida o interlocutor a tomar consciência de seu próprio pensamento. Platão a ele se une. a tomar consciência dos nossos próprios pensamentos. ele se retrai. recordemos o acontecimento fundamental da juventude de Platão. ele funda todas as suas esperanças na verdade tão somente. segundo ele. o arrasamento dos famosos muros (uniam a cidade ao Pireu) pelos esparciatas vencedores. uma cidade que seja a encarnação da Justiça. Na realidade. ajudá-los a trazer à luz o que já trazem em si mesmos. Nada ensinava e limitava-se a partejar os espíritos. Tal é a maiêutica socrática. ignora o que acreditava saber. Sócrates não pretende. pois ninguém é "mau voluntariamente". que. Ajuda-nos tão somente a refletir. e constata que os Trinta acumulam injustiças e violências. porém. torna-se discípulo de um cidadão de origem modesta. É somente pela filosofia que se pode discernir todas as formas de justiça política e individual". a peste. ao pé da letra. antes de tudo. não quer nos comunicar um saber que não possuiríamos. devemos nos interessar. todavia. significa a arte de interrogar. ele procura depreender o conceito de justiça. dos problemas que eles colocam. Sócrates possui tal confiança no saber e na verdade que está firmemente persuadido que os injustos e os maus não passam de ignorantes. "Reconheço que todos os Estados atuais. Sócrates. Para compreender isto. ele se comparava à sua mãe. elaborar uma cosmologia. sem exceção. se Sócrates é o primeiro a reconhecer sua própria ignorância. mas uma cidade cuja potência é antes moral e espiritual do que material. o jovem Platão é convocado por parentes e amigos a participar do governo autoritário dos Trinta. E as perguntas feitas por Sócrates levam o interlocutor a descobrir as contradições de seus pensamentos e a profundidade de sua ignorância. pertencem a um mundo que não o das aparências. Na Atenas vencida. Daí as resoluções que Platão nos apresenta na sétima carta. Muitas vezes. é a palavra-chave do humanismo socrático. de fato. 2. são mal governados. Aborda com humildade fingida os sofistas inflados de falso-saber. na verdade. deve-se deixar aos deuses o cuidado de se ocupar com o universo. Platão vai sonhar com a reconstrução de uma cidade. condena Sócrates a beber a cicuta como corruptor da juventude e adversário dos deuses da cidade. Sócrates. eles a praticariam.C. 3. assinalam a importância da catástrofe.frota. O verdadeiro ponto de partida da filosofia de Platão é a morte de Sócrates em 399 a. um esforço de definição. como Empédocles ou Heráclito. só há salvação pelo saber. não pretende ensinar coisa alguma sobre a natureza humana. Esta máxima gravada no frontão do templo de Delfos. 4. Mas uma outra solução seria o próprio filósofo 86 . Alain falou a propósito desse "choque dos contrários": Platão. velho e muito feio (seus olhos salientes e seu nariz achatado são célebres). Condenação injusta e escandalosa que exprime uma incompatibilidade trágica entre o poder político e a sabedoria do filósofo. seu encontro com Sócrates. faz perguntas e sempre dá a impressão de buscar uma lição no interlocutor. por iniciativa de um certo Anytos (filho de um rico empreiteiro e antigo amigo dos Trinta. que. de novo no poder. A verdade e a justiça (das quais Sócrates será o símbolo) não possuem bom aspecto. Segundo sua perspectiva racionalista. por aquilo que nos concerne diretamente.

Platão dá realidade ao conceito socrático. eternas. finalmente. o único mundo verdadeiro. uma escola de filosofia às portas da cidade. É no mundo invisível que a justiça e a verdade triunfam". diz Platão. as Idéias. porém. b) Mas é. filosofia e a arte de governar as cidades segundo a justiça. secreto. o Timeu. a República. restam-nos. Platão morre em 348 a. a obra escrita de Platão. pela tranqüilidade quase contente de sua morte. um mundo de pernas para o ar". Este último. para que haja. reconcilia Parmênides e Heráclito ao admitir a existência de dois mundos: o mundo das idéias imutáveis. Desse modo. por exemplo. o Político. fê-lo expor no mercado de escravos para ser vendido. mais exatamente. O ensino esotérico (isto é. 87 . Dionísio I prendeu Platão e. Tal é o sonho que Platão tentaria realizar em Siracusa. só é belo porque participa da Beleza em si. Devemos representar a Academia como uma espécie de Universidade onde se ensina matemáticas (não entra aqui quem não for geômetra). A ascensão dialética. no dia em que os filósofos forem reis ou no dia em que os reis forem filósofos). poderíamos dizer que ela é fundamentalmente um dualismo. Platão retornou a Atenas. e o mundo das aparências sensíveis. o pensamento intuitivo. todavia. as Idéias contam mais que a vida. o Sofista. o pensamento discursivo (dianoia) que constrói o raciocínio partindo de figuras. Podemos mostrar de duas maneiras que a intuição fundamental de Platão se prende ao ensinamento de Sócrates: a) Recordemos o ensinamento socrático sobre a definição. por exemplo. a iluminação direta pela Idéia (noesis). A morte de Sócrates feriu-o mortalmente. Acrescenta-se que o mundo das Idéias é. na ilha de Egina. seus diálogos célebres tais como o Górgias. no fundo. não se revelou muito adequado para se tornar o rei filósofo que Platão quisera fazer dele. É então que ele funda. por exemplo. mas ele só existe porque participa do mundo das idéias do qual é uma cópia ou. mostra que. sobretudo. é preciso que exista algo além dos homens particulares e diferentes entre si que nós reconhecemos. nos jardins de Academos. uma essência universal do homem. a cidade que condena Sócrates à morte. a vida e a morte de Sócrates que suscitam o idealismo platônico. Platão. E Sócrates. isto é. a Justiça em si. as simples impressões sensíveis (eikasia). Em suma. como fazem os geômetras. o Parmênides. para ele. é o itinerário pelo qual nos levamos do mundo sensível ao mundo das Idéias: no mais baixo grau. Os temas principais do platonismo podem ligar-se à distinção entre o mundo das Idéias eternas e o mundo das aparências mutáveis. perto de Colona. atesta a existência desse mundo invisível. Se quiséssemos resumir a filosofia de Platão em uma palavra. o idealismo platônico "traz a marca de um grave traumatismo. no mais alto grau. as opiniões estabelecidas (pistis). um outro mundo onde exista o Homem em si. e. Resgatado por Anikeris de Cítera por vinte minas. Um belo efebo. o Fédon. sobre o conceito. A idéia platônica é uma promoção ontológica do conceito socrático.encarregar-se do governo da cidade (a Justiça reinará. perpetuamente mutáveis. um pouco mais acima. Encontrara aí um discípulo estusiasta na pessoa de Dion. o Fedro. reservado aos iniciados) dado por Platão a seus discípulos só nos é conhecido atualmente pelas críticas de Aristóteles. como Sócrates o estabeleceu. uma sombra. Dionísio I. a cidade que vê triunfar a injustiça e a mentira é "um mundo ao inverso.C. cunhado do novo tirano. aos quarenta anos. em seguida. o Banquete. uma definição do homem em geral. Como diz muito bem André Bonnard. Platão concede ao mundo sensível uma certa realidade. as Leis. Esses trabalhos esotéricos de Platão constituem a mais pura jóia da filosofia de todos os tempos. o Teeteto. de certo modo.

c) O mito indica que o pensamento filosófico vem se abeberar nas fontes das crenças religiosas tradicionais. contra Trasímaco e Gláucon (na República) o valor absoluto da Idéia de justiça. Platão pensa igualmente que a emoção amorosa. mas Deus é que é a medida de todas as coisas. os chefes cuja Justiça é. A poesia mítica é uma mensagem metafísica. a vontade e o espírito. Finalmente. Entre todas as formas de governo. isto é. segundo Platão. Platão sustenta contra Cálicles (no Górgias). A justiça política é uma harmonia semelhante à justiça do indivíduo. antes de tudo. pois a inteligência abstrata só compreende o eterno e não pode bastar para evocar o que pertence à história. A justiça é a hierarquia harmônica das três partes da alma . Depois.A teoria platônica da alma está ligada à doutrina das Idéias. três classes sociais: os artesãos dos quais a Justiça exige a temperança. As almas outrora contemplaram às Idéias à vontade. Uma vez que a alma é feita para as Idéias . numa linguagem de imagens uma verdade filosófica estranha ao mundo sensível! É o mundo das Idéias eternas transposto em imagens sensíveis.de todas as idéias a mais fácil de reconhecer . Assim.visto que sua união com o corpo é acidental e monstruosa . Ela também se encontra em cada uma das virtudes particulares: a temperança nada mais é que uma sensibilidade regulamentada segundo a justiça. traduz uma espécie de narração poética legendária. Todavia.por que não seria eterna como as Idéias que ela tem por vocação contemplar? Do mesmo modo. elas foram aprisionadas no corpo. uma vez que guardaram uma lembrança obscura .é preciso renunciar do oportunismo e à imoralidade dos sofistas. os militares nos quais a Justiça será coragem. uma vez que as Idéias constituem absolutos referenciais . segundo a doutrina órfico-pitagórica.a sensibilidade. "esse belo risco a ser corrido". pode ser redespertada . 88 . em seguida pelos belos corpos. o belo não é senão o "esplendor do verdadeiro" e a arte está em segundo lugar em relação à filosofia. sugerido pelo mundo das imagens! b) O mito é o único meio de exposição para os problemas de origem (acontecimentos sem testemunhos) e dos fins últimos (que ainda não existem!). existem entre a poesia e a verdade. por punição de alguma falta. a emoção que rebata a alma diante da Beleza . podemos ligar à distinção dos dois mundos algumas observações sobre o mito platônico: a) O mito.que. A política de Platão distingue.de seu antigo contato com as Idéias.não o homem.. é preciso tomar a palavra em seu sentido etimológico: governo dos melhores. mas "escritas em caracteres mais fortes" na escala do Estado. o mito ressalta as relações que. objeta Platão a Protágoras .. o jovem escravo que Sócrates interroga no Mênon descobre propriedades geométricas quase sem ajuda. Sabedoria e que são filósofos longamente instruídos. Platão prefere a aristocracia e. no entanto. elas continuam capazes de reminiscência.é o meio de uma conversão dialética: o amor por um belo corpo. procedimento pedagógico paradoxal. À doutrina das Idéias também se correlaciona a esperança da imortalidade da alma. nele. depois pelas belas almas e pelas belas virtudes conduz à redescoberta do Belo em si (leia-se o Banquete). d) Finalmente. a coragem é a justiça da vontade e a sabedoria é a justiça do espírito. à imagem de todas as sociedades indo-européias primitivas.

treze anos depois da morte de Platão. como preceptor do Príncipe Alexandre. "Assimilou Aristóteles escreve magistralmente Leonel Franca todos os conhecimentos anteriores e acrescentou-lhes o trabalho próprio. por certo. até à famosa expedição asiática. temos naturalmente muito menos a revelar do que em torno do caráter de Platão. social e política. Aristóteles faleceu. de pesquisas.A Vida e as Obras Este grande filósofo grego. A respeito do caráter de Aristóteles.C. Aí ficou três anos. salvo uns apócrifos e umas interpolações. tendo presente a edição de Andronico de Rodes. poder-se-á avaliar a sua prodigiosa atividade literária". para se dedicar à investigação científica. malvisto pelos atenienses. Pelo elenco dos principais escritos que dele ainda nos restam. perto do templo de Apolo Lício. estéticos e místicos tiveram grande influência. Preveniu ele a condenação. como a sua cultura e seu gênio universal. a sua escola. Escreveu sobre todas as ciências. inteiramente recolhido na elaboração crítica do seu sistema filosófico. no litoral setentrional do mar Egeu. A atividade literária de Aristóteles foi vasta e intensa. Nesse período estudou também os filósofos pré-platônicos. O nome. Aristóteles. que se foi isolando da vida prática. em 384 a. também chamada peripatética devido ao costume de dar lições. faculdade de criação e invenção aliados a uma vasta erudição histórica e universalidade de conhecimentos científicos. entretanto. variada e romanesca a de Platão. Aqui classificamos as obras doutrinais de Aristóteles do modo seguinte. Aristóteles foi essencialmente um homem de cultura. organizando outras em corpo coerente de doutrinas e sobre todas espalhando as luzes de sua admirável inteligência. que lhe foram úteis na construção do seu grande sistema. corresponde muito bem à intenção do autor. filho de Nicômaco. no ano seguinte. constituindo algumas desde os primeiros fundamentos. onde ficou por vinte anos. vigor de raciocínio. foi acusado de ateísmo. foi para Atenas e ingressou na academia platônica. dependem também as vicissitudes exteriores das duas vidas. e pertencentes à filosofia teórica. De volta a Atenas. Aos dezoito anos. até à morte do Mestre. no verão de 322. Escritos sobre a física: abrangendo a hodierna cosmologia e a antropologia. colônia grega da Trácia. nasceu em Estagira. em amena palestra. então jovem de treze anos. os motivos políticos. que Platão não conseguiu. conseguindo um êxito na sua missão educativo-política. A primeira edição completa das obras de Aristóteles é a de Andronico de Rodes pela metade do último século a. Tinha pouco mais de 60 anos de idade. Esta escola seria a grande rival e a verdadeira herdeira da velha e gloriosa academia platônica. II. agudeza de penetração. Aristóteles fundava. substancialmente autêntica.1 .ARISTÓTELES 11. em 335. Escritos lógicos: cujo conjunto foi denominado Órganon mais tarde. fruto de muita observação e de profundas meditações. Morto Alexandre em 323. estourando uma reação nacional. rei da Macedônia. desfez-se politicamente o seu grande império e despertaram-se em Atenas os desejos de independência. após enfermidade.11 . poder admirável de síntese. chefiada por Demóstenes. 89 . que considerava a lógica instrumento da ciência. I. mais uniforme e linear a de Aristóteles. médico de Amintas. em que. em Siracusa. Do diferente caráter dos dois filósofos. ao contrário. não por Aristóteles. em 367. de pensamento. sem se deixar distrair por motivos práticos ou sentimentais.C. Em 343 foi convidado pelo Rei Filipe para a corte de Macedônia. de estudo. Não lhe faltou nenhum dos dotes e requisitos que constituem o verdadeiro filósofo: profundidade e firmeza de inteligência. Daí o nome de Liceu dado à sua escola. juntamente com a metafísica. O grande estagirita explorou o mundo do pensamento em todas as suas direções. retirando-se voluntariamente para Eubéia. passeando nos umbrosos caminhos do ginásio de Apolo. éticos.

portanto. portanto. É uma compilação feita depois da morte de Aristóteles mediante seus apontamentos manuscritos. porquanto o primeiro elemento depende do segundo. Trata Aristóteles os problemas lógicos e gnosiológicos no conjunto daqueles escritos que tomaram mais tarde o nome de Órganon. a filosofia é essencialmente teórica: deve decifrar o enigma do universo. a poética em estética e técnica. sobre a base socrático-platônica. o 90 . A lógica aristotélica. o universal. Escritos metafísicos: a Metafísica famosa. conceitual como a de Platão. abrangendo. devido a Eudemo. 11. pois não pode haver ciência em torno do individual e do contingente. a filosofia aristotélica é dedução do particular pelo universal. exposição e expressão breve e aguda. provavelmente publicada por Nicômaco. em geral. ao contigente. perfeição maravilhosa da terminologia filosófica. conhecidos sensivelmente. matemática e filosofia primeira (metafísica e teologia). ao sensível: mas. que corresponde a uma derivação real. O objeto próprio da filosofia. portanto.reminiscência.2 . divide-se em física. Segundo Aristóteles. em catorze livros. de cujo sistema é banida toda forma de inatismo. é o silogismo. Também aqui se segue a ordem da realidade. bem como segundo Platão . as formas e suas relações. O erro começa de uma falsa elaboração dos dados dos sentidos: a sensação. que. é essencialmente dedutiva. Foi dito que. em dez livros.conforme Aristóteles. onde o fenômeno particular depende da lei universal e o efeito da causa. A teórica. metafisicamente.devem ser. O nome de metafísica é devido ao lugar que ela ocupa na coleção de Andrônico. pois. referentes à metafísica geral e à teologia. segundo Aristóteles.manifestam um grande rigor científico. realistas: tudo que se pode aprender precede a sensação e é independente dela.III. o objeto da ciência aristotélica é a forma. é dedutiva. também os elementos primeiros do conhecimento . em oito livros. Sob o ponto de vista metafísico. de um modo e de outro.mediante o intelecto da experiência. A filosofia aristotélica é. mas parte da experiência.O Pensamento: A Gnosiologia Segundo Aristóteles. inacabada. que a colocou depois da física. isto é. a Política. da representação sensível. são fruto de uma visão imediata. A ciência platônica e aristotélica são. No sentido estrito. psicologicamente existe primeiro o particular. ambas objetivas. a Poética. destarte. refazimento da ética de Aristóteles. por sua vez. entretanto. Os elementos primeiros. em dois livros. tirados da experiência. em relação com a sua doutrina do contato imediato da alma com as idéias . Entretanto. compêndio das duas precedentes. a ciência. são as essências imutáveis e a razão última das coisas. Escritos retóricos e poéticos: a Retórica. não o problema da vida. de que constituem a essência. a filosofia . o universal e o necessário. como o conceito. clara e ordenada. o inteligível. as formas são imanentes na experiência. IV. como ciência especial. é sempre verdadeira. ao qual é dedicada. é apenas uma parte da obra de Aristóteles. nos indivíduos. a Ética a Eudemo. ontologicamente. Escritos morais e políticos: a Ética a Nicômaco. em face do qual a atitude inicial do espírito é o assombro do mistério. apodíctica. O seu processo característico. prática e poética. o necessário. porquanto os sentidos por si nunca nos enganam. sem enfeites míticos ou poéticos. As obras de Aristóteles as doutrinas que nos restam . seu filho. a filosofia prática divide-se em ética e política. clássico. consoante Platão. no seu estado atual. dividir-se-ia em teórica. incompleta. O seu problema fundamental é o problema do ser. Limitar-nos-emos mais especialmente aos problemas gerais da lógica de Aristóteles. como idéia era o objeto da ciência platônica. bem como a platônica.conceito e juízos . mas o ponto de partida da dedução é tirado . racional. de que foi ele o criador. é denominada por ele analítica e representa a metodologia científica. intuição intelectual. V. em que está a solução do seu problema. todo o saber humano. em três livros. as verdades evidentes. porque aí está a sua gnosiologia. os princípios supremos. demonstrativa. Por certo. explicação do condicionado mediante a condição. em especial da segunda.tem como objeto o universal e o necessário. cuja verdade imediata ele defende. é anterior ao particular. gnosiologicamente. Aristóteles é o criador da lógica. Objeto essencial da lógica aristotélica é precisamente este processo de derivação ideal. A filosofia. a Grande Ética.

Como é que se formam os princípios da demonstração. da representação sensível. 2.Platão. 91 . do movimento. colhido imediatamente pelo intelecto humano mediante a sua evidência. ao lado e em conseqüência da doutrina de dedução. um motor já em ato. Pode considerar-se como o autor da metodologia e tecnologia científicas. enquanto é vir-a-ser. Por certo. a coisa parece simples: a indução nada mais é que a abstração do conceito. Deus. as sentenças contrárias. porém. indiscutível. o processo dedutivo e indutivo aplica-os. que não tem princípio e fim no tempo. ato puro. é aquilo que move sem ser movido. é a priori. do inteligível. e que é o elemento constitutivo da ciência. que constituem precisamente o objeto próprio do nosso conhecimento sensível. no sentido de que os elementos do juízo os conceitos são tirados da experiência. tirada da experiência. necessidade objetiva. a posteriori. mesmo admitindo que o mundo seja eterno. o pensamento do pensamento. Os caracteres desta grande síntese são: 1.contigente. contraditório. Então só resta possível uma indução incompleta. em que unicamente temos ou não temos a verdade. uma resenha de todos os casos os fenômenos particulares para poder tirar com certeza absoluta leis universais abrangendo todas as essências. os juízos imediatamente evidentes. de outra forma teria que ser movido por sua vez. em todas as suas obras. mas pode-se integrar logicamente segundo o espírito profundo da sua filosofia. A necessidade deste primeiro motor imóvel não é absolutamente excluída pela eternidade do vir-a-ser. isto é. passagem da potência ao ato. é aquilo que é movido. passagem da potência ao ato. realidade do vir-a-ser. d) indica. causa absoluta. o sensível. o real puro. Todas as partes se compõem.3 . ela não está efetivamente acabada.Sua vasta obra filosófica constitui um verdadeiro sistema. os conceitos. fica eternamente inexplicável. 3. a matéria. toma sempre o fato como ponto de partida de suas teorias. a "desindividualização" do universal do particular. Assim sendo. pois. por último. sem se mover a si mesmo. requer finalmente um não-vir-a-ser. sem um primeiro motor imóvel. Este vir-a-ser.A Teologia Objeto próprio da teologia é o primeiro motor imóvel. do mundo. idealista. b) passa a enumerar-lhes as soluções históricas. a saber. donde temos a ciência? Aristóteles reconhece que é impossível uma indução completa. Aristóteles constrói um sistema inteiramente original. Observação fiel da natureza . se correspondem. Unidade do conjunto . A formação do conceito é. Quanto ao juízo. com rara habilidade. Rigor no método . 11. um ato puro enfim. mas certíssima. uma verdadeira síntese. que é o nosso primeiro conhecimento. compreende-se que Aristóteles. isto é. em seguida. Com efeito. analítico. baseada sobre a imediata experiência. buscando na realidade um apoio sólido às suas mais elevadas especulações metafísicas.Filosofia de Aristóteles Partindo como Platão do mesmo problema acerca do valor objetivo dos conceitos. mais positivo. a quem Aristóteles chega através de uma sólida demonstração. Deus. isto é. em que o universal é imanente.Depois de estudas as leis do pensamento. uma doutrina da indução. entretanto. a própria solução. o possível puro. se confirmam.4 . Quanto aos elementos primeiros do conhecimento racional. da passagem da potência ao ato. 11. Geralmente. c) propõe depois as dúvidas. isto é. Aristóteles. razão metafísica de todo devir. motor imóvel. em estilo lapidar e conciso e criando uma terminologia filosófica de precisão admirável. a posteriori. seu nexo. no estudo de uma questão. Aristóteles procede por partes: a) começa a definir-lhe o objeto. rejeitara a experiência como fonte de conhecimento certo. substituindo à linguagem imaginosa e figurada de Platão. a coisa parece mais complicada. na lógica. mas abandonando a solução do mestre. origem extra-temporal. seja constrangido a elaborar. e) refuta.

consegue a felicidade mediante a virtude. a prática. pensamento de pensamento. por natureza. voltando-se para ele. De Deus depende a ordem. todo ser tende necessariamente à realização da sua natureza. conhecer a si próprio e pensar em si mesmo. afetivo. uma disposição constante. conquistado através do precedente raciocínio. mais precisamente é ela um hábito segundo a razão. nem providência do mundo.5 . as diversas paixões predominantes dos vários indivíduos. Deus é. Deus não pode agir e querer. mas concreto. Pelo que diz respeito à virtude. mas adquiri-se mediante a ação. como pensamento de si mesmo. pode deduzir logicamente a natureza essencial de Deus. e só assim. permanece o dualismo. de que se falou quando das obras dele. que exige o conhecimento absoluto. relativo a cada qual. metafísico. atividade teórica. pois. a que é necessária à virtude. Se Deus é mera atividade teórica. A virtude ética não é. não conhece o mundo imperfeito. a vida. no dizer de Aristóteles. não as aniquila e destrói. um costume moral. auto-suficiente. concebido. morais. como não é inata a ciência. incompatível com o ser perfeito. ser completamente resolvido na razão. não é criador. e a esta é necessária a razão. com o pensamento e a vontade. que é precisamente uma atividade conforme à razão. isto é. Se a virtude é. embora se apresente especulativamente assaz discutível é aquela pela qual a virtude é precisamente concebida como um justo meio entre dois extremos. atraente. não é abstrato. Se o agir. E nesta autocontemplação imutável e ativa. como as virtudes intelectuais. maior valor uma outra doutrina aristotélica: precisamente a da virtude concebida como hábito racional. que é pensamento puro. uma atividade segundo a razão. teóricas. A razão aristotélica governa. isto é. o fim do homem é a felicidade. não é unicamente ciência. como causa eficiente e formal (exemplar). domina as paixões. mas unicamente conhecer e pensar. consequentemente. portanto. e. este justo meio. não são mera atividade racional. da natureza e do universo. As virtudes éticas. mas unicamente como o fim último. pensamento de si. passional. isto é. para dar uma explicação filosófica da relatividade do mundo pondo ao seu lado esta realidade independente dele. como queria o ascetismo platônico. tendo como objeto unicamente a própria perfeição. popular. e. e não pode. e menos ainda opera sobre ele. por conseqüência. certamente. a sua felicidade. Uma doutrina aristotélica a respeito da virtude doutrina que teve muita doutrina prática. antes de tudo. mas uma aplicação da razão. mas. Deus não atua sobre o mundo. ao contrário. E assim consegue ele a felicidade e a virtude. e variável conforme as circunstâncias. natureza segundo a qual e na qual o homem deve operar. igual para todos e sempre. no mesmo tempo. uma atividade que pressupõe o conhecimento racional. a virtude não é inata. todavia. que vem anular aquele mesmo Absoluto a que logicamente chegara. Aristóteles. o seu bem.A Moral Aristóteles trata da moral em três Éticas. como causa final. Naturalmente. visto ser a virtude ação consciente segundo a razão. uma vez 92 . o exercício e. está a beatitude divina. tem. e. o querer têm objeto diverso do sujeito agente e "querente". como ato puro. reta. enquanto qualquer outra atividade teria fim extrínseco. entre duas paixões opostas: porquanto o sentido poderia esmagar a razão ou não lhe dar forças suficientes. fundamentalmente.Da análise do conceito de Deus. Logo. que deve ser governado pela razão. à atualização plena da sua forma: e nisto está o seu fim. ele. Em Aristóteles o pensamento grego conquista logicamente a transcendência de Deus. razão pura. mas implicam. A característica fundamental da moral aristotélica é. o racionalismo. realiza ele a sua natureza vivendo racionalmente e senso disto consciente. a racionalidade do mundo. concebido como primeiro motor imóvel. da vontade. a sua lei. isto é. um elemento sentimental. isto é. Consoante sua doutrina metafísica fundamental. porém. Visto ser a razão a essência característica do homem. na ação de um homem. Deus é unicamente pensamento. por conseqüência. 11. mas uma ação com ciência. portanto.

assim como estas se compõem de muitos indivíduos. logo. não pode realizar a sua perfeição sem a sociedade do estado. Vejamos. além de um fim educativo. que constituem propriamente o objeto da moral. para tanto. do chefe a que pertence a direção da família. defesa e segurança. condena o estado que. as materiais. ao invés de se preocupar com uma pacífica educação científica e moral. Daí a escravidão. E. conseqüentemente. A política. a política. o bem comum superior ao bem particular. os bens. é superior ao indivíduo. O fim da educação é formar homens mediante as artes liberais. Deve ele guiar os filhos e as mulheres. antes de tratar propriamente do estado será mister falar da família. Visto que o estado se compõe de uma comunidade de famílias. da filosofia.6 . e não máquinas. Aristóteles sustenta o primado do conhecimento. práticas. a formação moral dos cidadãos e o conjunto dos meios necessários para isso. Aristóteles não nega a natureza humana ao escravo. condição e complemento da atividade moral individual. a vontade. tempo e liberdade. porquanto esta tem como objetivo o indivíduo. isto é. porque o fim último do estado é a virtude. O estado é um organismo moral. torna-se de fácil execução . isto é. os escravos. Desta ciência trata Aristóteles precisamente na Política. de que acima se falou. Noutras palavras. importantíssimas a poesia e a música. pois os homens têm necessidades materiais. a política é a doutrina moral social. sobre a ação. excluídas pelas próprias características qualidades materiais de tais indivíduos. intelectuais e. sendo naturalmente animal social. subordinadamente. são necessários instrumentos inanimados e animados. negativas e positivas. torna-se quase uma segunda natureza e. No entanto. mediante um treinamento profissional. que têm uma importância essencial em relação a toda a filosofia e especialmente à moral. a família compõe-se de quatro elementos: os filhos. O estado surge. como seja tarefa essencial do estado a educação. contemplativas. político. que deve desenvolver harmônica e hierarquicamente todas as faculdades: antes de tudo as espirituais. naturalmente. Aristóteles distingue duas categorias fundamentais de virtudes: as éticas. Unicamente no estado efetua-se a satisfação de todas as necessidades. é distinta da moral. porquanto a coletividade é superior ao indivíduo. como Platão. A ética é a doutrina moral individual. Deve fazer frutificar seus bens. Compreende-se. O estado. em razão da imperfeição destes. pelo fato de ser o homem um animal naturalmente social. para que a propriedade seja produtora. porquanto a família. a satisfação daquelas necessidades materiais. aquela a coletividade. o estado em particular. que precede cronologicamente o estado. bem como aptas qualidades espirituais. 11. então. de outro modo irrealizáveis. tem também um fim econômico. são superiores às virtudes éticas.como o vício. ativas. estabiliza-se. Segundo Aristóteles. mas constata que na sociedade são necessários também os trabalhos materiais. físicas. a felicidade dos súditos mediante a ciência. como ao estado.adquirida. Mas o seu fim essencial é espiritual. O estado provê. agora. é-lhe essencial a propriedade. mecaniza-se. dessa forma. a 93 . Eis porque Aristóteles. teóricas. Como já foi mencionado. político. a mulher. além. que exigem indivíduos particulares. e as dianoéticas. então. pois o homem. conservação e engrandecimento. visa a conquista e a guerra. como as partes precedem o todo. É uma distinção e uma hierarquia. As virtudes intelectuais. E critica. visto ser necessário. do intelecto. estes últimos seriam os escravos. que a transcendem. inicialmente. a que fica assim tirada fatalmente a possibilidade de providenciar a cultura da alma. e fundamento primeiro da suprema atividade contemplativa.A Política A política aristotélica é essencialmente unida à moral. deve promover a virtude e. contudo.

são apenas meios para a paz e o lazer sapiente. concretizado num sensível. e sim concreta: deve ser relativa.A Religião e a Arte Com Aristóteles. O estado não é uma unidade substancial. isto é. que é o governo de muitos. Aristóteles admite a religião positiva do povo. até sem correção alguma. não está em condições de se tornar objeto de religião. de conformidade com o fundamental realismo grego. pelo seu efetivo isolamento do mundo. este Deus. os deuses astrais. a forma de governo clássica da Grécia. e cuja degeneração é a oligarquia. cujo caráter e valor estão na unidade. Se se quiser a unidade absoluta. No entanto. cujo caráter e valor estão na liberdade. do inteligível imanente no sensível. e cuja degeneração é a tirania. e não diz que ela teria um fundamento racional na verdade filosófica da existência da divindade. imitação da forma imanente na matéria. destarte. tornando intuitivo. graças ao artista. acomodada às situações históricas. acontecer. e põe a conquista acima da virtude. mais do que as transcendentes idéias platônicas. o imutável. como superior à história e mais filosófica do que a história de Heródoto que tem como objeto o particular. Também Aristóteles. com o seu profundo realismo.educação militar de Esparta. tradicional. Por isso. ao lado do Ato Puro e a ele subordinado. a que o homem se teria facilmente elevado através do espetáculo da ordem celeste. De qualquer maneira a condição indispensável para uma boa constituição. o sensível. 11. a propriedade particular e a família. salva o direito privado. Quanto à forma exterior do estado. 94 . é que o fim da atividade estatal deve ser o bem comum e não a vantagem de quem governa despoticamente. porém. considera a arte como imitação. O comunismo como resolução total dos indivíduos e dos valores no estado é fantástico e irrealizável. mas o que por natureza deve. será mister reduzir o estado à família e a família ao indivíduo. admite que os corpos celestes são animados por espíritos racionais. necessária e universalmente. e cuja degeneração é a demagogia. Aristóteles considera a arte a poesia de Homero que tem por conteúdo o universal. e. esse inteligível. universal é encarnado. ainda que encarnado fantasticamente num particular. a dos cidadãos e a dos escravos. Na arte. particularmente de Atenas. o mutável. e sim uma síntese de indivíduos substancialmente distintos. Aristóteles distingue três principais: a monarquia. não governa. a aristocracia. Aristóteles. Deste seu conteúdo inteligível. platônicos. possuidores. e como fruto da tendência humana para as representações antropomórficas. não exclui uma espécie de politeísmo. duas classes reconhece: a dos homens livres. como obra política para moralizar o povo. às circunstâncias de um determinado povo. dos trabalhadores. a democracia. imitação de uma imitação.7 . Explica e justifica a religião positiva. O objeto da arte não é o que aconteceu uma vez como é o caso da história. como Platão. se exclui filosoficamente o antropomorfismo. Não obstante a sua concepção ética do estado. mítica. como o trabalho. que faz da guerra a tarefa precípua do estado. diversamente de Platão. e sim imitação direta da própria idéia. que é o governo de um só. que ele não conhece. Reconhece Aristóteles a divisão platônica das castas. isto é. E não fica nenhum outro objeto religioso. Não. seja embora real. como é o fenômeno. Aristóteles. não cria. que é o governo de poucos. reconhece Aristóteles que a melhor forma de governo não é abstrata. como Platão. num particular e. cujo caráter e valor estão na qualidade. depende a eficácia espiritual pedagógica. só este último possui aquela unidade substancial que falta aos dois precedentes. universal. e admite. purificadora da arte. sem direitos políticos. No entanto. Não obstante esta concepção filosófica da divindade. precisamente. Entretanto. enquanto a guerra. afirma-se o teísmo do ato puro. As preferências de Aristóteles vão para uma forma de república democrático-intelectual. esses seres divinos não parecem e não podem ter função religiosa e sem física.

portanto. especificadora da matéria -. vamos logo falar. a forma aristotélica não é separada da matéria. tem esta como objeto o mundo que vem-a-ser . Desta doutrina da matéria e da forma. já iniciada pelos últimos pré-socráticos e grandemente aperfeiçoada por Demócrito e Platão. ingrediente necessário para a existência da realidade material. forma concretizada da matéria.natureza e homem . propriamente. a pura matéria. conforme o grau de perfeição. pois ela é também condição indispensável para concretizar a forma. esta passagem da potência ao ato é atualização de uma possibilidade. imperfeição. na natureza em que vivemos. o universal. e a diferença entre as várias artes é estabelecida com base no objeto ou no instrumento de tal imitação.por Aristóteles especialmente quando da doutrina da matéria e da forma. mas em seus aspectos universais e necessários. eternas. imutáveis.o sinolo . A síntese . a essência. Todo ser. portanto. que é intuitiva. As leis da obra de arte serão. princípio dos movimentos e das formas do mundo. a forma. o segundo forma (substancial). é um mero possível. mas une-os em uma síntese conclusiva. causa concomitante de todos os seres reais.um sínolo .Se bem que a arte seja imitação da realidade no seu elemento essencial. II. I. passando da potência ao ato. Então não existe. ou dos princípios e das causas do ser e de seus atributos essenciais". em que a mudança se realiza. Um ser desenvolve-se. Esta doutrina fundamental da potência e do ato é aplicada . e ato significa realidade. que não seja o Ser perfeitíssimo. capacidade de ser. e as determinações que se realizam neste substrato. é um absolutamente interminado. Exporemos. Ao contrário. de realidade dos vários seres. que representam a potência e o ato no mundo.e culmina no que não pode vir-a-ser. A matéria aristotélica. perfeição. as qualidades acidentais. ainda que a forma seja princípio de atuação e determinação da própria matéria. consiste ou na sucessão de várias formas na mesma essência. de uma potencialidade anterior. Um substrato comum. deve ser encarnado. é portanto uma síntese . Segundo Aristóteles. a mudança. A matéria sem forma. isto precisamente porque o inteligível. as formas aristotélicas são universais. aperfeiçoa-se. como as idéias platônicas. princípio de ordem e finalidade. elemento imutável da mudança.e desenvolvida . a forma é. 95 . portanto. 11. racional. o segundo é atualidade realizadora. para depois chegarmos àquela que foi chamada. o inteligível. Diversamente da idéia platônica.8 . Ela abrange ainda o ser imóvel e incorpóreo. Podem-se reduzir fundamentalmente a quatro as questões gerais da metafísica aristotélica: potência e ato.de potência e de ato. pois. porém. não existe por si. em diversas proporções. a segunda e a terceira todo o ser em que está presente a matéria. isto é. O primeiro é potência. movido e motor. A mudança. que constitui precisamente a substância. mero princípio de decadência. a natureza que ele assume. mais tarde. evidência e vivacidade de expressão. O primeiro elemento é chamado matéria (prima). não é o puro não-ser de Platão. pressupõe uma realidade imutável. por sua vez. num particular. Aristóteles não nega o vir-a-ser de Heráclito. e sim imanente e operante nela. possibilidade de assumir várias formas. a forma sem a matéria. e esta. não-ser atual.da matéria e da forma constitui a substância. além de imitação do universal verossimilhança e necessidade coerência interior dos elementos da representação artística. concretizado pelo artista num sensível. bem como o mundo mutável e material. A arte é. Deus. ser efetivo. íntimo sentimento do conteúdo. antes de tudo. em que se sucedem os acidentes. as questões gerais da metafísica. inteligível. particular e universal. é o substrato imutável. nem o ser de Parmênides. perfeição. este inteligível recebe como que uma nova vida através da fantasia criadora do artista. portanto. A primeira e a última abraçam todo o ser. produção mediante a imitação. em que a forma introduz as determinações. que é de duas espécies. matéria e forma. metafísica especial. Com respeito à matéria. chamada matéria-prima. A doutrina da potência e do ato é fundamental na metafísica aristotélica: potência significa possibilidade.A Metafísica A metafísica aristotélica é "a ciência do ser como ser.

em geral. Mediante esta doutrina é explicado o problema do universal e do particular. é composta de indivíduos. a única realidade efetiva no mundo. produzindo esta síntese o indivíduo. segundo Aristóteles diversamente de Platão todo ser vivo tem uma só alma. a forma e a matéria. portanto. depois de ter eficazmente criticado o dualismo platônico. mas instrumento da alma racional.igual em todos os indivíduos de uma mesma espécie . De sorte que. pode ser levada a efeito unicamente por um ser que já está em ato. deve operar para um fim. a alma humana. por sua vez. potência realizada. que são uma síntese . que tem por objeto específico o homem. A essência .a idéia .um sínolo . isto é. a alma é que move o corpo. III. tem várias faculdades. que é a forma do corpo. Mas a alma humana desempenha também as funções da alma sensitiva e vegetativa. Aqui nos limitamos à psicologia racional. mas vice-versa. A característica da vida animal.deriva da forma. As faculdades fundamentais do espírito humano são duas: teórica e 96 . doutrina que culmina no motor primeiro. matéria. vivente. é o pensamento. O que caracteriza a alma humana é a racionalidade. Aristóteles faz o primeiro . isto é.9 . deve ser composto de um motor e de uma coisa movida. forma. a causa eficiente. que fazia os dois elementos transcendentes e exteriores um ao outro. O motor pode ser unicamente ato. que tem por princípio a alma sensitiva. Aristóteles explica o indivíduo. ato puro.imanente no segundo . universal particularizado. portanto. em que a primeira cumpre as funções de forma em relação à matéria. O homem é uma unidade substancial de alma e de corpo. Mesmo que um ser se mova a si mesmo.de matéria e de forma. o princípio superior cumpre as funções do princípio inferior. a individualidade. a substância física.pode ser unicamente potência. Por conseqüência. Enfim. forma do corpo. que tem por princípio a alma vegetativa. diversamente de Platão. Deus. porém. aquilo que move deve ser diverso daquilo que é movido. que é constituída pelo segundo. A mudança é. estes dois princípios não são suficientes para explicar o surgir dos indivíduos e das substâncias que não podem ser atuados .Os elementos constitutivos da realidade são. Da relação entre a potência e o ato. sendo embora uma e única. a inteligência. Por exemplo. visto ser impossível que o menos produza o mais. Daí a necessidade de um terceiro princípio. que é precisamente síntese . a potência o ato. 11. Mediante a doutrina da matéria e da forma. e. a realização do possível. a mudança.bem como a matéria não pode ser atuada . para poder explicar a realidade efetiva das coisas. Daí uma quarta causa. matéria enformada. Todas estas três almas são objeto da psicologia aristotélica. que possui já o que a coisa movida deve vir-a-ser. é precisamente a sensibilidade e a locomoção.a matéria. visto que a alma racional cumpre no homem também as funções da vida sensitiva e vegetativa. pela qual toda substância é original e se diferencia de todas as demais. o imperfeito o perfeito. A causa eficiente. o ser vivo diversamente do ser inorgânico possui internamente o princípio da sua atividade. sendo superior a estas. o pensamento. potência.A Psicologia Objeto geral da psicologia aristotélica é o mundo animado. porém. que tem por princípio a alma racional. o corpo humano não é obstáculo. que dirige a causa eficiente para a atualização da matéria mediante a forma. isto é. Esta realização do possível. surge o movimento. porquanto se manifesta efetivamente com atos diversos. depende da matéria. conforme Aristóteles. Eis a grande doutrina aristotélica do motor e da coisa movida. pois. absolutamente imóvel. A realidade. que é precisamente a alma. portanto. substâncias. O indivíduo é. por uma substância em ato. a coisa movida . IV. funções.a não ser por um outro indivíduo. o vir-a-ser. que tanto atormenta Platão.de matéria e forma. E assim. ainda que haja nele funções diversas faculdades diversas porquanto se dão atos diversos. Assim. que tem por princípio a alma e se distingue essencialmente do mundo inorgânico. é a nutrição e a reprodução. a característica da vida do homem. a que é submetido tudo que tem matéria.sínolo . A característica essencial e diferencial da vida e da planta. entre a matéria e a forma.enquanto tal . a causa final. que é precisamente a síntese da forma e da matéria. pelo que ela é espírito.

que já sabemos ser passagem da potência ao ato. pressupõe um fato físico.mudança de forma. isto é. do "antes" e do "depois". mudança. Movimento qualitativo . Aristóteles aceita a essencial distinção platônica entre sensação e pensamento. O sensível comum. Movimento quantitativo . duas são as atividades práticas da alma: apetite e vontade. O tempo é definido como sendo o número . não é um espírito puro. Mas o fato físico transforma-se num fato psíquico. deve ser imperecível. as formas das coisas e os princípios primeiros do ser. repouso. a medida . no grau sensível bem como no grau inteligível. isto é. deve ser espiritual e. pois. Movimento espacial . ativa. e dessa depende a prática. por isso. as qualidades gerais das coisas tamanho. o apetite guiado pela razão. imediata ou à distância.mudança de propriedade. cognoscitiva. as essências. nascimento e morte. Objeto do intelecto é o universal. Como se vê. 4. como a cera recebe a impressão do selo sem a sua matéria. percepções. O sensível próprio é percebido por um só sentido. ainda que rejeite o inatismo platônico. e se tornam. Admitidas as precedentes concepções de espaço e de tempo 97 . contrapondo-lhe a concepção do intelecto como tabula rasa. na sensação propriamente dita. através do movimento de um meio. se se tiver presente que o homem é um animal racional. o aspecto. Esse apetite é concebido precisamente como sendo um movimento finalista. é objetiva. o necessário. o material. Movimento substancial . é a análise dos vários tipos de movimento. O espaço é definido como sendo o limite do corpo.acrescimento e diminuição. o limite imóvel do corpo "circundante" com respeito ao corpo circundado. Objeto do sentido é o particular. em virtude da específica faculdade e atividade sensitivas da alma. por sua vez depende do conhecimento sensível. a sensação. se desdobra em dois graus.do movimento segundo a razão. as sensações específicas são percebidas respectivamente pelos vários sentidos. O conhecimento sensível. etc. figura. a falsidade. e é próprio da alma animal. sem idéias inatas. o ser absoluto. o imutável. cognoscitiva e operativa. A vontade é o impulso. Por conseqüência. tendo a função de coordenar. que. Outra especial e importantíssima questão da física aristotélica é a concernente ao espaço e ao tempo.mudança de lugar. quanto a tal. movimento. com o juízo. e é própria da alma racional. isto é. unificar as várias sensações isoladas. conhecendo o imaterial. contemplativa e ativa. são percebidas por mais sentidos.isto é. o imaterial. Cada uma destas.A Cosmologia Uma questão geral da física aristotélica. Analogamente às atividades teóricas. A sensação. como filosofia da natureza. embora limitada. que a ele confluem.prática. a alma humana. 11. dependente do sentimento. a saber. condicionando todas as demais espécies de mudança. começa com a síntese. o mutável. O senso comum é uma faculdade interna. em torno dos quais fez ele investigações profundas. Acima do conhecimento sensível está o conhecimento inteligível. representações. a atividade fundamental da alma é teórica. mas um espírito que anima um corpo animal. a ação do objeto sensível sobre o órgão que sente. sempre verdadeira com respeito ao próprio objeto. 2. O apetite é a tendência guiada pelo conhecimento sensível. especificamente diverso do primeiro. O sentido recebe as qualidades materiais sem a matéria delas. o contingente. Aristóteles distingue quatro espécies de movimentos: 1. 3. sensitivo e intelectivo. segundo Aristóteles. ou a possibilidade da falsidade. quer dizer. realização de uma possibilidade.10 .

como sendo relações de substâncias, de fenômenos - é evidente que fora do mundo não há espaço nem tempo: espaço e tempo vazios são impensáveis. Uma terceira questão fundamental da filosofia natural de Aristóteles é a concernente ao teleologismo - finalismo - por ele propugnado com base na finalidade, que ele descortina em a natureza. "A natureza faz, enquanto possível, sempre o que é mais belo". Fim de todo devir é o desenvolvimento da potência ao ato, a realização da forma na matéria. Quanto às ciências químicas, físicas e especialmente astronômicas, as doutrinas aristotélicas têm apenas um valor histórico, e são logicamente separáveis da sua filosofia, que tem um valor teórico. Especialmente célebre é a sua doutrina astronômica geocêntrica, que prestará a estrutura física à Divina Comédia de Dante Alighieri. 11.11 - Juízo sobre Aristóteles É difícil aquilatar em sua justa medida o valor de Aristóteles. A influência intelectual por ele até hoje exercida sobre o pensamento humano e à qual se não pode comparar a de nenhum outro pensador dá-nos, porém, uma idéia da envergadura de seu gênio excepcional. Criador da lógica, autor do primeiro tratado de psicologia científica, primeiro escritor da história da filosofia, patriarca das ciências naturais, metafísico, moralista, político, ele é o verdadeiro fundador da ciência moderna e "ainda hoje está presente com sua linguagem científica não somente às nossas cogitações, senão também à expressão dos sentimentos e das idéias na vida comum e habitual". Nem por isso podemos deixar de apontar as lacunas do seu sistema. Sua moral, sem obrigação nem sanção, é defeituosa e mais gravemente defeituosa ainda que a teodicéia, sobretudo na parte que trata das relações de Deus com o mundo. O dualismo primitivo e irredutível entre Deus, ato puro, e a matéria, princípio potencial, é, na própria teoria aristotélica, uma verdadeira contradição e deixa subsistir, como enigma insolúvel e inexplicável, a existência dos seres fora de Deus. 11.12 - Vista Retrospectiva Com Sócrates entre a filosofia em seu caminho definitivo. O problema do objeto e da possibilidade da ciência é posto em seus verdadeiros termos e resolvido, nas suas linhas gerais, pela doutrina do conceito. Platão dá um passo além, procurando determinar a relação entre o conceito e a realidade, mas encalha, dum lado, nas dificuldades insolúveis de um realismo exagerado; de outro, nas extravagâncias dum idealismo extremo. Aristóteles, com o seu espírito positivo e observador, retoma o mesmo problema no pé em que o pusera Platão e dá-lhe, pela teoria da abstração e da inteligência ativa, uma solução satisfatória e definitiva nos grandes lineamentos. Em torno desta questão fundamental, que entende com a metafísica, a psicologia e a lógica, se vão desenvolvendo harmoniosamente as outras partes da filosofia até constituírem em Aristóteles esta grandiosa síntese do saber universal, o mais precioso legado da civilização grega que declinava à civilização ocidental que surgia.

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12 - O EPICURISMO
Epicuro, fundador da escola que tomou o seu nome, nasceu em Atenas, provavelmente, em 341 a.C., do ateniense Néocles, e foi criado em Samos. A mãe praticava a magia. Cedo dedicou-se à filosofia, sendo iniciado por Nausífanes de Teo no sistema de Demócrito. Em 306 abriu a sua famosa escola em Atenas, nos jardins da sua vila, que se tornaram centro das reuniões aristocráticas dos seus admiradores, discípulos e amigos. Epicuro expôs a sua doutrina num grande número de escritos, pela maior parte perdidos. Faleceu em 270 a.C. com setenta anos de idade. O epicurismo teve, desde logo, rápida e vasta difusão no mundo romano, onde encontramos, sobretudo, Tito Lucrécio Caro - I século a.C. - o poeta entusiasta, autor de De rerum natura, que venerava Epicuro como uma divindade. A ele devemos as melhores notícias sobre o sistema epicurista. A escola epicurista durou até o IV século d.C., mas teve escasso desenvolvimento, conforme o desejo do mestre, que queria os discípulos fiéis até a letra do sistema. A originalidade deveria manifestar-se na vida. Epicuro foi pessoa fidalga e refinada, o ideal da fidalguia antiga: fazer da formosura o princípio inspirador da vida, e fruir dessa formosura na própria existência pessoal. E foi um mestre eficaz de sabedoria aristocrática, feita de nobreza de sentimentos, senso refinado, gosto para a formosura, para a cultura superior. Em seus jardins, num sereno lazer, semelhante ao dos deuses, deu vida a uma sociedade genial, em que dominava o vínculo da amizade. As amizades dos epicuristas ficaram famosas como as dos pitagóricos. A associação espalhou-se depois, mas conservou-se fortemente organizada, mediante uma estável constituição, ajudas materiais, cartas, missões. O mestre pareceu aos discípulos como que um redentor; a sua filosofia foi considerada como uma religião, a sua doutrina, resumida em catecismos, a sua imagem, gravada nas jóias, em sua honra celebravam-se festas comemorativas, mensais e anuais. Se não houve pensadores epicuristas notáveis depois de Epicuro no mundo clássico nem depois, houve todavia, em todos os tempos e lugares, homens famosos, pertencentes a classes sociais elevadas, os quais aplicaram a sua doutrina à vida e dela fizeram a substância de sua arte. 12.1 - O Pensamento: Gnosiologia e Metafísica Também o epicurismo - como o estoicismo - divide a filosofia em lógica, física e ética; também subordina a teoria à pratica, a ciência à moral, para garantir ao homem o bem supremo, a serenidade, a paz, a apatia. A filosofia é a arte da vida. Precisamente, é tarefa do conhecimento do mundo, da física - diz Epicuro - libertar o homem dos grandes temores que ele tem a respeito da sua vida, da morte, do além-túmulo, de Deus e fazer com que ele atue de conformidade. Portanto, recorre Epicuro à física atomista, mecanicista, democritiana, pela qual também os deuses vêm a ser compostos de átomos, e - habitadores felizes de intermundos - desinteressam-se por completo dos homens. Aliás, não é excluído o fato de que a necessidade universal oprimiria o homem ainda mais do que o arbítrio divino. Igualmente, a alma - formada de átomos sutis, mas sempre materiais perece com o corpo; daí, nenhuma preocupação com a morte, nem com o além-túmulo: seria igualmente absurdo preocupar-se com aquilo que se segue à morte, como com aquilo que precede o nascimento. A gnosiologia (lógica, canônica) epicurista é rigorosamente sensista. Todo o nosso conhecimento deriva da sensação, é uma complicação de sensações. Estas nos dão o ser, indivíduo material, que constitui a realidade originária. O processo cognoscitivo da sensação é explicado mediante os assim chamados fantasmas, que seriam imagens em miniatura das coisas, arrancar-se-iam destas e chegariam até à alma imediatamente, ou mediatamente através dos sentidos. Dada tal gnosiologia coerentemente sensista, é natural que o critério fundamental e único da verdade seja a sensação, a percepção sensível, que é imediata, intuitiva, evidente. Como a sensação, a evidência sensível é o único critério de verdade no campo teórico, da mesma forma o sentimento (prazer e dor) será o critério supremo de valor no campo prático. 99

Como a gnosiologia epicurista é rigorosamente sensista, a metafísica epicurista é rigorosamente materialista: quer dizer, resolve-se numa física. Epicuro, seguindo as pegadas de Demócrito, concebe os elementos últimos constitutivos da realidade como corpúsculos inúmeros, eternos, imutáveis, invisíveis, homogêneos, indivisíveis (átomos), iguais qualitativamente e diversos quantitativamente - no tamanho, na figura, no peso. Também segundo Epicuro, os átomos estão no espaço vazio, infinito, indispensável para que seja possível o movimento e, consequentemente, a origem e a variedade das coisas. Os átomos são animados de movimento necessário para baixo. Entretanto, no movimento uniforme retilíneo para baixo introduz Epicuro desvios múltiplos, sem causa, espontâneos (clinamen); daí derivam encontros e choques de átomos e, por conseqüência, os vórtices e os mundos. Estes, de fato, não teriam explicações se os átomos caíssem todos com movimentos uniforme e retilíneos para baixo - como pensava Demócrito. Mediante o clinamen Epicuro justifica ainda o livre arbítrio, que é uma simples combinação da contingência, do indeterminismo universal. O universo não é concebido como finito e uno, mas infinito e resultante de mundos inúmeros divididos por intermundos, espalhado pelo espaço infindo, sujeitos ao nascimento e à morte. Nesse mundo o homem, sem providência divina, sem alma imortal, deve adaptar-se para viver como melhor puder. Nisto estão toda a sabedoria, a virtude, a moral epicuristas. 12.2 - A Moral e a Religião A moral epicurista é uma moral hedonista. O fim supremo da vida é o prazer sensível; critério único de moralidade é o sentimento. O único bem é o prazer, como o único mal é a dor; nenhum prazer deve ser recusado, a não ser por causa de conseqüências dolorosas, e nenhum sofrimento deve ser aceito, a não ser em vista de um prazer, ou de nenhum sofrimento menor. No epicurismo não se trata, portanto, do prazer imediato, como é desejado pelo homem vulgar; trata-se do prazer imediato, refletido, avaliado pela razão, escolhido prudentemente, sabiamente, filosoficamente. É mister dominar os prazeres, e não se deixar por eles dominar; ter a faculdade de gozar e não a necessidade de gozar. A filosofia toda está nesta função prática. Este prazer imediato deveria ficar sempre essencialmente sensível, mesmo quando Epicuro fala de prazeres espirituais, para os quais não há lugar no seu sistema, e nada mais seriam que complicações de prazeres sensíveis. O prazer espiritual diferenciar-se-ia do prazer sensível, porquanto o primeiro se estenderia também ao passado e ao futuro e transcende o segundo, que é unicamente presente. Verdade é que Epicuro mira os prazeres estéticos e intelectuais, como os mais altos prazeres. Aqui, porém, se ele faz uma afirmação profunda, está certamente em contradição com a sua metafísica materialista. Em que consiste, afinal, esse prazer imediato, refletido, racionado? Na satisfação de uma necessidade, na remoção do sofrimento, que nasce de exigências não satisfeitas. O verdadeiro prazer não é positivo, mas negativo, consistindo na ausência do sofrimento, na quietude, na apatia, na insensibilidade, no sono, e na morte. Mas precisamente ainda, Epicuro divide os desejos em naturais e necessários - por exemplo, o instinto da reprodução; não naturais e não necessários - por exemplo, a ambição. O sábio satisfaz os primeiros, quando for preciso, os quais exigem muito pouco e cessam apenas satisfeito; renuncia os segundos, porquanto acarretam fatalmente inquietação e agitação, perturbam a serenidade e a paz; mas ainda renuncia os terceiros, pelos mesmos motivos. Assim, a vida ideal do sábio, do filósofo, que aspira a liberdade e à paz como bens supremos, consistiria na renúncia a todos os desejos possíveis, aos prazeres positivos, físicos e espirituais; e, por conseguinte, em vigiar-se, no precaver-se contra as surpresas irracionais do sentimento, da emoção, da paixão. Não sofrer no corpo, satisfazendo suas necessidades essenciais, para estar tranqüilo; não ser perturbado no espírito, renunciando a todos os desejos possíveis, visto ser o desejo inimigo do sossego: eis as condições fundamentais da felicidade, que é precisamente liberdade e paz.

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Em realidade, Epicuro, se ensina a renúncia, não tem a coragem de ensinar a renúncia aos prazeres positivos espirituais, estéticos e intelectuais, a amizade genial, que representa o ideal supremo na concepção grega da vida. E sustenta isto em contradição com a sua ascética radical, bem como contradiz a sua metafísica materialista com a sua moral, que encontra precisamente a mais perfeita realização nestes bens espirituais. O mundo e a vida são um espetáculo: melhor é ser espectadores e atores, melhor é conhecer do que agir. No entanto, o bem espiritual não consiste unicamente na contemplação (cfr. a virtude dianoética de Aristóteles), mas também na ação (cfr. a virtude ética de Aristóteles), e precisamente em uma vida curta e refinada, esteticamente, a maneira grega, no isolamento do mundo, do vulgo, na unidade da amizade, na conversa arguta e delicada: numa palavra, vivendo ocultamente. É de fato, nos jardins de Epicuro, a vida se inspirava nos mais requintados costumes, preenchida com as mais nobres ocupações - como na Academia e no Liceu. Almejava, no entanto, dar uma unidade estética e racional à vida, mais do que ao mundo. O epicurismo, portanto, considerado vulgarmente como propulsor de devassidão e sensualidade, representa, inversamente, uma norma de vida ordinária e espiritual, até um verdadeiro pessimismo e ascetismo, praticamente ateu. A serenidade do sábio não é perturbada pelo medo da morte, pois todo mal e todo bem se acham na sensação, e a morte é a ausência de sensibilidade, portanto, de sofrimento. Nunca nos encontraremos com a morte, porque quando nós somos, ela não é, quando ela é nós não somos mais, Epicuro, porém, não defende o suicídio que poderia justificar com maior razão do que os estóicos. Dado este conceito da vida concebida como liberdade, paz e contemplação, é natural que Epicuro seja hostil ao matrimônio e à família, aliás, geralmente desvalorizado no mundo grego. Epicuro é também hostil à atividade pública, à política considerando a família e a pátria como causas de agitações e inimigos da autarquia. Não obstante o seu materialismo teórico e o seu ateísmo prático, Epicuro admite a divindade transcendente, diversamente do imanentismo estóico. A prova da existência da divindade estaria no fato de que temos na mente humana a sua idéia, que não pode ser senão cópia de realidade. Os fantasmas dos deuses proviriam dos próprios deuses - como os fantasmas de todas as outras coisas desceriam até nós dos intermundos, especialmente durante o sono. Os deuses de Epicuro são muitos, constituídos de átomos etéreos, sutis e luzentes, dotados de corpos luminosos, tendo forma humana belíssima, imortais - diversamente dos deuses estóicos - beatos, contemplados - segundo ideal grego da vida - sempre acordados e sentados em jovial convívio, sorvendo ambrósia, conversando em grego! Mas - como as idéias transcendentes de Platão e ato puro de Aristóteles não atuam sobre o mundo e a humanidade, para não serem contaminados, perturbados. Vivem, portanto, fora do mundo e dos mundos, nos espaços entre mundo e mundo, na beata solidão dos intermundos, escapando destarte a fatal destruição dos mundos. É uma teologia refinada de ateniense e de artista, que vive no mundo de estátuas divinas, encarnando na serenidade do mármore o ideal grego contemplativo e estético da vida. Epicuro venera os deuses, não para receber auxílio, mas porque eles encarnam o ideal estético grego da vida, ideal que tem uma expressão concreta precisamente nas belas divindades do panteão helênico. Então, se os deuses não proporcionam ao homem nenhuma vantagem prática, proporcionam-lhe contudo o bem da elevação, que importa na contemplação do ideal. É preciso venerá-los para imitá-los. Deste modo, Epicuro, proclamado ateu, teria praticado - entre os limites impostos pelo pensamento grego e pelo seu pensamento - o mal da religião, uma religião desinteressada, uma espécie de puro amor de Deus dos ascetas e dos místicos.

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12.3 - Ceticismo e Ecletismo O ceticismo apresenta-se mais coerente do que as escolas precedentes, especialmente do que o estoicismo, com os fins práticos de uma filosofia da renúncia, da indiferença, do sossego. É o ceticismo a última palavra da sabedoria antiga, desesperada por não ter podido resolver o problema da vida mediante a razão. O estoicismo procura realizar a apatia ainda mediante uma metafísica positiva, embora imperfeita, incoerente. O epicurismo tende a realizar o mesmo fim com uma metafísica negativa, negando todo absoluto e transcendente. O ceticismo visa sempre um fim último ético-ascético, sem qualquer metafísica, mesmo negativa. Através da mais absoluta indiferença, prática e teórica, procura-se realizar finalmente tão almejada paz. A felicidade não é mais uma coisa positiva, nem está no saber e não se pode alcançar mediante o saber, mas pode ser alcançada unicamente negando o saber. Chega-se, destarte, à destruição de todos os valores. Substancialmente, a grande metafísica platônico-aristotélica é posta de lado, mas não é atacada pelo ceticismo. Persiste nos céticos uma fé nostálgica e realista e o conceito da objetividade da ciência: o ser, o objeto, existem, mas não se podem conhecer por falta de meios. Diz Argesilau: "Deus unicamente conhece a verdade, que é inacessível ao homem". O ceticismo clássico começa com Pirro de Elis (365-275 a.C., mais ou menos), cuja escola terminou pouco depois do seu discípulo Timon. Encarna-se na média academia com Argesilau e Carnéades. E, enfim, surge de novo na forma pirroniana com Enesidemo e Sexto Empírico, em princípios da era vulgar. O ceticismo critica o conhecimento sensível, bem como o intelectual, e também a opinião. A primeira escola cética serve-se, geralmente, do relativismo sofista; a segunda afirma-se de modo original graças a Carnéades; a terceira, de tendência pirroniana, faz uso da dialética eleática, da tese e da antítese. O ecletismo apresenta-se como um sistema afim, embora imensamente inferior ao ceticismo. Também o ecletismo, como o ceticismo, substitui ao critério da verdade o da verossimilhança, embora acriticamente. O nem-nem dos céticos é mudado em e-e pelos ecléticos; se nada é verdadeiro, tudo vale igualmente. E isto basta aos fins ético-empíricos dos ecléticos, semelhantes e diversos ao mesmo tempo dos fins éticos-ascéticos dos céticos. É o ecletismo filosofia de espíritos pragmáticos ou decadentes, não filosóficos, que concebem a filosofia popularmente, moralisticamente, ou não têm a força da crítica, nem a da afirmação, que implica sempre numa crítica, pois a filosofia é escolha, construção, sistema, organismo especulativo, e não justaposição mecânica de peças sem vida. O advento de uma semelhante filosofia foi favorecido pela permanência e pela coexistência, no período helenista e depois ainda, de várias escolas filosóficas, que surgiram em tempos diferentes, e por demais despersonalizadas, esvaziadas do seu conteúdo original, característico - como acontece nos períodos de decadência especulativa - de sorte que se torna fácil a síntese eclética, feita de abstratas generalidades ou de particularidades secundárias. O pragmatismo eclético foi, enfim, favorecido pelo contato do pensamento grego com a romanidade dominante, inteiramente voltada para a prática e para a ação, cuja grande obra, portanto será não a filosofia, e sim o jus. O ecletismo apresenta-se como uma síntese prática ou, melhor ainda, como uma suma de elementos estóicos, acadêmicos e também peripatéticos. Contém muito menos elementos céticos e epicuristas, dada a natureza crítica do ceticismo, e a coerência materialista do epicurismo. Temos precisamente, em ordem cronológica, um ecletismo estóico, depois acadêmico e, enfim, peripatético, segundo os elementos de uma ou de outra escola na síntese prática do próprio ecletismo.

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antes de tudo. Os motivos desta filosofia pragmatista devem ser procurados na decadência espiritual e moral da época. voltando-se para a sofística. por conseqüência. a cultura helenista reduz-se à erudição e ao virtuosismo. e anacrônica. 13. Os dois últimos.perdidos seus bens . Do contingente e do temporal. consequentemente. do temor de além-túmulo. porém. como no precedente. em terceiro lugar. uns tratados socráticos. o segundo a forma Graecia capta ferum victorem cepit. o helenismo. em que a metafísica tem apenas uma função negativa. faltando ao homem interesse e a força para a especulação pura. este período toma o nome de helenismo.C. anula-se toda metafísica e. entre os quais o cínico 103 . como opina Aristóteles. Primeiramente (estoicismo e epicurismo). freqüentando por algum tempo várias escolas e mestres. O interesse teórico. física. o qual. anuladas. a filosofia torna-se uma preparação para a morte. medicina. Em conclusão. bastante divergentes do estoicismo clássico. depende de cultura grega. Trataremos. porquanto o interesse filosófico é voltado para os problemas morais. o homem volta-se para o transcendente e para o eterno. e precisamente desse terceiro período . leva para ele. em que ainda há uma metafísica.2 .13 . da escola epicuréia. isto é. ciência e técnica. bem como à moral das escolas socráticas menores. em que não há mais metafísica alguma. ao passo que a metafísica esmorece. o vigor especulativo. bem como na profunda tristeza dos tempos e na profunda sensibilidade diante do mal. desenvolve-se naturalmente a técnica. história. menosprezando o grande desenvolvimento filosófico platônico-aristotélico. restringem-se ao particular. mercador. Tudo isto torna dolorosa a vida do homem. no mundo civilizado. uma orientação moral. em contradição consigo mesma e com a moral.. e. o jus e a política dos romanos. a saber. O fundador da antiga escola estóica é Zenão de Citium (334-262 a. que lhe despertam o entusiasmo para com os estudos filosóficos. mas afirmações dogmáticas. nem moral. mas filologia. o estoicismo pode-se dividir em três períodos: um período antigo ou ético.O Estoicismo Em seu conjunto. um período médio ou eclético. helênica.1 . à erudição e às ciências especiais que se desenvolvem. da escola cética. e a sabedoria é desapego da ação.ecletismo e estoicismo. aí . pelo que diz respeito à filosofia. depois (ceticismo e ecletismo). retorna-se à metafísica naturalista dos présocráticos.Características Gerais O terceiro período do pensamento grego abrange os três séculos que decorrem da morte de Aristóteles ao início da era vulgar. encontrando-a na renúncia ao mundo e à própria vida. E. A arte resolve-se no virtuosismo e na imitação. que procura na filosofia um conforto. ciências naturais. como julga Platão. matemática. filosofia moral e moral prática. na história da filosofia denomina-se período ético. como na escola eclética. cínica e cirenaica. toda moral. valor universal como a filosofia grega. portanto. Aos vinte e dois anos vai para Atenas. Não filosofia teórica. Na história da civilização e da cultura. Seu pai. de Atenas. significando a expansão da cultura grega. mais ou menos). libertar o homem das preocupações transcendentais. No terceiro período do pensamento grego não se encontram mais alguns poucos e grandes pensadores. enfim exporemos o pensamento latino. com relação às ciências especiais. O primeiro valor dá o conteúdo. não sistemas críticos. em segundo lugar. A grandeza verdadeira e original do pensamento latino é o jus. o direito romano. Nesta civilização cosmopolita encontram-se dois valores universais: o pensamento e a arte dos gregos. em que a metafísica e moral são sincretistas. geografia. da escola estóica. como na idade moderna. literatura.dedicase à filosofia. um período recente ou religioso. elementar.O PERÍODO ÉTICO 13. astronomia. e. mas vastas orientações e escolas.

funda a sua escola. No dizer dos estóicos. naturalmente. moralizadoras. fazendo emergir todas as qualidades da matéria. Na lógica trata-se da gnosiologia. a física iguala a metafísica. juntamente com a atividade didática. Em seus escritos já se encontram a clássica divisão estóica da filosofia em lógica. mecanicismo. em outras palavras. o conhecimento é limitado ao âmbito dos sentidos. Iniciou. Finalmente. a filosofia é cultivada exclusivamente em vista da moral. uma necessidade mecânica. diversamente de Aristóteles. pois. A escola estóica média ou eclética surge pela influência de outras escolas e para responder às objeções dessas escolas. providência. logo. todavia. 13. não é concebida como necessária condição para alcançar a felicidade. devem-se conceber materialisticamente também Deus. a de escritor. não obstante as repetidas e múltiplas declarações estóicas em louvor da razão. inclusive da política e da religião. Não obstante esse absorvente moralismo. não como ciência. para firmar a virtude e. Como em Aristóteles. que se chamou estóica. contraditória. à maneira de Demócrito. mas. e a lei desse princípio material só pode ser. por conseguinte. segundo uma ordem teológica. a tarefa essencial da filosofia é a solução do problema da vida. sacerdotal. pois. Como se vê. em correspondência com o discurso interior e exterior. A mente humana é concebida como uma tabula rasa. do lugar onde ele costumava ensinar: pórtico em grego. toda atividade é movimento. mas a virtude. os estóicos distinguem na filosofia uma lógica. mas sim uma turma bastante uniforme de pensadores medíocres. destino. O conceito. física e ética. E compreende-se o seu vasto êxito em todos os tempos. e dar uma explicação à razão. na ética. uma ética. moralistas. espírito. Devendo os estóicos. porquanto é radicalmente materialista: se tudo é material. A metafísica estóica reduz-se à física. também da moral. Esta matéria está em perpétuo vir-a-ser. para assegurar ao homem a felicidade. ordem são afirmados ao lado dos conceitos opostos de fado.O Pensamento: Gnosiologia e Metafísica O estoicismo não apresenta o fenômeno de um grande filósofo. e os estóicos não são filósofos. o estoicismo. incoerentemente declaram racional o fogo . seguido por uma série de discípulos mais ou menos originais. todavia. uma complicação quantitativa de elementos sensíveis. Deus. stoá. não é o prazer. que se manifesta no mundo. atribuem-lhe arbitrariamente os atributos divinos da sabedoria e da providência. em especial no homem. pois. necessidade. metafísica. o conhecimento parte dos dados imediatos do sentido. as propriedades das coisas. decadente. acaba não sendo mais filosofia. o fim supremo. a felicidade. como o Sol faz brotar da semente a planta. a ética é o fim último e único de toda a filosofia. como a filosofia estóica chega a ser substancialmente pragmatista e. e sim como sendo ela própria um bem imediato. a alma. metafísicos. Com o desenvolvimento do estoicismo. seguindo-se o aniquilamento da ciência. da metafísica e. agrupar na escola estóica nova ou religiosa os que entendiam absolutamente a filosofia. rigoristas. mas como uma missão e uma prática religiosa. a virtude 104 . logo. inteiramente absorvidos na prática. Entende-se. conforme a concepção de Heráclito. amiúde apresentando-se como a filosofia dos não filósofos que têm pretensões filosóficas. a primazia da ética e a união de filosofia e vida. a metafísica dos estóicos é uma metafísica elementar. Podem-se.Crates. uma física. razão da vida. é destruído. o único bem do homem. 13. pelo ano 300. fornecer alguma base à sua ética do dever. O conhecimento intelectual nada mais pode ser que uma combinação. no fundo. Os estóicos dividem a lógica em dialética e retórica. imaginam-no como espírito ordenador. mas pragmatistas.substância metafísica da realidade -.A Moral e a Política No pensamento dos estóicos.3 .4 .

Não Deus. ao repouso e à fadiga. há o vício quando à indiferença se ajunta a paixão. sentimento este inteiramente desconhecido ao mundo antigo. pode tornar-se bem se for unido com a virtude. O ideal ético estóico não é o domínio racional da paixão. como geralmente acontece. de perdão. mas apenas indiferença. Daí a guerra justificada do estoicismo contra o sentimento.quer se trate de ódio. virtude corrosiva. de lei racional. ao prazer e ao sofrimento . ainda que se acabe por repudiá-lo como perturbador da indiferença. nada lhe acontece que não seja por ele querido. com a virtude da fortaleza que o estoicismo reconhece e louva. quando o homem se torna indiferente a tudo. político por natureza. é uma pura palavra. que existe. sem dúvida. O estóico pratica esta indiferença e renúncia para não ser perturbado. no fundo. quanto pela sua irracionalidade e desordem intrínseca.acaba por se tornar meio para a felicidade da tranqüilidade. a paixão. 105 . Com efeito. à riqueza e à pobreza. conceitos que deveriam ser deduzidos da natureza racional do homem. Abre-se caminho a um sentimento de caridade. a que os estóicos não podem fornecer uma base racional e metafísica. clássico. morte moral. Dada a indiferença estóica do suicídio como voluntário e moral afastamento do mundo. salvo e pensamento. a serenidade. a autarquia. e a tudo renuncia. às honras e à obscuridade. para dar lugar unicamente à razão: maravilhoso ideal de homem sem paixão. se a ordem do universo é racional. pois sabe que tudo é efeito de um determinismo universal. e para não perder. A virtude estóica é. em definitivo. de direito natural. até para os infelizes e os escravos. único bem da alma. pois é movimento irracional. inteiramente fechado na sua torre de marfim. da serenidade. apenas para os concidadãos. Tudo aquilo que não é virtude nem vício. e cujo curso é fatalmente determinado. E até começam a nascer instituições caritativas para com os pobres e os doentes.pois o prazer é julgado insana vaidade da alma. A sabedoria estóica é ação negadora da expansão das forças espirituais. Pelo que diz respeito à política. de tal maneira. pois no sistema estóico. da indiferença universal. a emoção. que são o verdadeiro. indiferença e renúncia a tudo. A felicidade do homem virtuoso é a libertação de toda perturbação. até a apatia. morbo e vício da alma . o sossego. esta mesma renúncia -. não a alma. a virtude. supremo. é sempre e substancialmente má. Diz o estóico Musônio: "O mundo é a pátria comum de todos os homens". Como o bem absoluto e único é a virtude. De tal forma. porque. mal se for ligado ao vício. manifesta-se na filosofia estóica um racionalismo cosmopolita radical a propósito da sociedade estatal: o homem. o vício. em civilização humana e moral. os estrangeiros e os inimigos. A paixão. sem saudades e sem esperanças.cujo conteúdo é. onde campeia solitária uma justiça. Mas é uma virtude absolutamente negativa. que constituem os únicos bens verdadeiros: indiferença e renúncia à vida e à morte. à saúde e à doença. porém. esse cosmopolitismo. como precisamente afirmam os estóicos. A serenidade. a sabedoria. salvo o seu pensamento . que anda como um deus entre os homens. a apatia dos estóicos seria. não é nem bem nem mal. livres e íntegros. Tal cosmopolitismo foi fecundo em progresso. E não tanto pelo dano que pode acarretar ao vicioso. que nasce da virtude negativa da apatia. a única atitude do sábio estóico deve ser o aniquilamento da paixão. na filosofia estóica. a tranqüilidade da alma. quer se trate de piedade. da serenidade. de uma dura virtude. isto é. a paz. porém. Por conseguinte. donde derivam o desejo. torna-se cosmopolita por natureza. e se conforma com os demais. a dor. não lhe resta efetivamente mais nada. uma emoção. da autarquia do sábio. a independência interior. que devem ser aniquilados. O sábio é beato. assim o mal único e absoluto é o vício. numa palavra. a indiferença e a renúncia a todos os bens do mundo que não dependem de nós. destinada a resolver-se na matéria. em virtude da doutrina que afirma a identidade da natureza humana. uma tendência irracional. Destarte. promove todavia os conceitos de sociedade universal. magoado pela possível e freqüente carência dos bens terrenos. fruto de uma fatigosa conquista. mas a sua destruição total. isto não se concilia. e nem se pode explicar racionalmente o suicídio.

II. PERÍODO LATINO 106 .

em dezessete livros.C. Apesar de ter o cônsul Marcelo ordenado aos soldados poupar a vida ao grande sábio. mas aderiu. Em Alexandria havia o famoso Museu.séculos II e II d.30 d. O centro principal dessa cultura científica é Alexandria .63 a. geometria e mecânica. Dos dois ramos da matemática floresceu. ao geocentrismo. voltando depois à pátria. jardins zoológicos. "Noli turbare circulos meos". Estrabão . Ásia. Natural de Siracusa. ciência no sentido estrito como a filosofia. por sua vez. As ciências particulares. primeiro a geometria .C. máquinas hidráulicas.) discípulo de Platão. gabinetes. ciências naturais. rico de recursos científicos . que serão valorizadas e sistematizadas na ciência moderna. porquanto é impossível a consistência teórica dessas ciências sem a filosofia. Lembre-se a escola mecânica de Alexandria. É o autor dos afamados Elementos de Geometria. prevaleceram interesses práticos.e que teve uma longa e gloriosa vida desde o III século a. física.bibliotecas. em geral. em que foram inventados relógios de água.C. estudou em Alexandria.C. incentivado também pela descoberta de países novos.. até o IV século d. O geocentrismo foi elaborado por Eudóxio de Cnido (408355 a.1 . após um interesse teórico para com esta ciência.particularmente em relação com o saber enciclopédico. A hipótese heliocêntrica é devida a Aristarco de Samos. que chega até as Índias. No presente parágrafo examinamos brevemente as principais ciências naturais cultivadas nesta época . teriam sido as suas últimas palavras. pouco posterior a Aristóteles e de pouco anterior a Arquimedes .C. e se despedaça. A matemática e a física tiveram grandes cultores em Euclides e Arquimedes. no mundo antigo. em defesa de Siracusa cercada pelos romanos durante a II guerra púnica. para a satisfação das necessidades imediatas da vida empírica. aí dedicando-se por toda a vida a estudos e pesquisas de matemática.C. floresceu antes e mais viçosamente aquela do que esta. atingindo esta cidade seu maior esplendor nos séculos III e II a. aritmética e estereogrande matemático e físico. África . A geografia começou a ser cultivada no seu aspecto astronômico-matemático. na idade helenista declina o vigor especulativo filosófico até ao ceticismo. etc. só com Estrabão afirmou-se o caráter antrópico da geografia. . Escreveu uma grande obra de Geografia. A contribuição da filosofia clássica. o sistema 107 . onde se trata com grande clareza e rigor científico de geometria plana. máquinas de guerra acionadas por ar comprimido.como Atenas foi o grande centro da especulação filosófica. e por Aristóteles no sistema das esferas homocêntricas. salas anatômicas. astronomia. as regiões então conhecidas . já famosa no III século a. repreendido pelo grande sábio porque perturbava seus estudos. graças às expedições de Alexandre.III e II séculos a.C. vão terminar fatalmente na prática. Em Alexandria congregavam-se.C. observatórios. Euclides viveu em Alexandria no III século a. tal contribuição limita-se essencialmente à matemática.C. técnicos.. a sistematização das descobertas matemáticas de seus predecessores e as suas pesquisas originais. Quanto à física. . fenômenos e fatos novos. (Ptolomeu). tornando-se empírico nas ciências particulares.III século a. na técnica.AS CIÊNCIAS NATURAIS DA IDADE HELENISTA Como já salientamos. A astronomia antiga conheceu a hipótese heliocêntrica. Hiparco) e no II século d. Quanto à astronomia e à geografia. durante o saque da cidade foi morto por um soldado ignorante. geografia.C.pondo especialmente em foco a influência do clima sobre o temperamento e o caráter humanos e sobre a organização social e política.nascido no Ponto. medicina . (Euclides..C.C. estudou em Alexandria e em Roma. mais ou menos . etc. onde passou a vida toda entre o ensino.e depois a aritmética .matemática. onde descreve sistematicamente. jardins botânicos. . e daí partiam cientistas de todo o mundo civilizado.Europa. e a um certo complexo de observações empíricas. De suas descobertas aproveitou-se também para a construção de máquinas de guerra. Arquimedes. Concretiza-se nestas ciências o interesse teórico da época.

afirma o valor da experiência direta. 1.que coisa é o sumo bem. por meio das expedições militares de Alexandre. que dominaram a cultura médica européia até além da Idade Média. na idade helenista. porquanto também o pensamento romano depende . a contemplação . a umidade. entretanto. para explicar a formação e o funcionamento dos órgãos. Ptolomeu julgou que devia integrar a astronomia com a astrologia. de caráter pragmatista e moral. finalista. eclético com tendências dogmáticas e hipocráticas Cláudio Galeno (131-210 d. otia. aristotelismo. particularmente como ciências auxiliares da medicina . vivido em Alexandria no II século d. como acima já dissemos. inversamente. nesta época fez grandes progressos. em Alexandria outras escolas. por Hiparco de Nicéia do II século a. tiveram incremento na idade helenista. já cultivadas por Aristóteles (zoologia) e Teofrasto (botânica). por exemplo. especulativos. representavam a mais alta tarefa da vida . não podendo o médico fazer outra coisa senão auxiliar esta força medicatrix. Tenta ele sintetizar a doutrina hipocrática dos quatro humores com a física aristotélica dos quatro elementos e das quatro qualidades fundamentais da matéria . a qual explicava o organismo animal mediante a relação dos quatro humores fundamentais e é chamada escola dos dogmáticos.o calor. Temos. Tendo Galeno procurado coligar os fatos particulares observados no mundo biológico aos princípios da física e da metafísica. da atividade.C. o sistematizador definitivo do geocentrismo é Ptolomeu. autor do assim chamado Almagesto. viveu longamente em Roma na qualidade de médico imperial e deixou numerosos escritos. estoicismo e. esta escola fez descobertas importantes sobre a circulação do sangue e sobre o sistema nervoso. o maior médico da Antigüidade. e precisamente depende da filosofia grega do terceiro período. do negotium (nos campos. Natural de Pérgamo. da observação dos sintomas do mal e do efeito dos remédios.O Pensamento Latino 1 . apesar de ambos os povos se originarem do mesmo tronco indo-europeu. que seria o estudo dos influxos astrais sobre os fenômenos terrestres e.. a escola que tenta explicar os fenômenos da vida pelas quatro forças fundamentais.. que colimava com o temperamento prático dos romanos.os romanos se interessaram propriamente apenas pelo segundo.C. As ciências naturais propriamente ditas.anatomia e fisiologia . por sua vez.como passatempos. Mais importante é a escola médica chamada empírica que.da filosofia grega. reconhece a vis medicatrix como fator essencial da terapia. Alicerça a medicina na fisiologia e na anatomia. afirma uma fisiologia teleológica. sobretudo. O gênio romano cultua a primazia da prática. mediante a teoria dos excêntricos.Características Gerais Julgamos seja preciso tratar do pensamento romano juntamente com a filosofia grega. sobre as vicissitudes humanas. metafísicos . Ao lado da antiga escola de Hipócrates. e também. o frio. mediante o qual a astronomia antiga foi transmitida e seguida até à Renascença.1 .que. Primeiro. dos dois quesitos fundamentais da filosofia moral grega . considerando o estudo.C. no foro). particularmente.C. a especulação. A seguir foi desenvolvido e corrigido por Apolônio de Perga (260-200 a. e como se realiza . As ciências naturais progrediram. nos quartéis. as quais levaram ao conhecimento da flora e da fauna das regiões novas.que. afirmam-se no século III a. para poder explicar melhor e mais simplesmente os movimentos celestes. A sua filosofia é uma síntese do platonismo.). O gênio romano é oposto ao gênio grego. depois pelas grandes coleções do Museu de Alexandria. segundo os gregos. segue-se que foi também um filósofo.). dotada de jardins botânicos e zoológicos. Entretanto.C.em seus motivos teóricos. o qual viveu em Alexandria e em Rodes. Antes. Foi. Esta teoria desloca a terra do centro das órbitas astrais para a circunferência. em oposição à orientação teórica e especulativa das escolas precedentes. a secura. lazeres. 108 . firmadas em princípios diferentes. que ensinou em Alexandria e em Pérgamo e foi um grande geômetra da Antigüidade juntamente com Euclides e Arquimedes.astronômico era composto de cinqüenta e seis esferas concêntricas.

Aliás. Começa. elemento indispensável da alta cultura romana. a qual segundo Plutarco. de crítica e de sistema. peripatético e Diógenes.C. Daí uma superioridade do 109 . pessimista. o segundo condiz com o pragmatismo negativo. sendo critério de verdade o útil moral. Com meios coativos. a última vitória dos conservadores. às vezes a única fonte. favorecidas pelo partido iluminado chefiado por Cipião Emiliano. É esta uma das maiores obras da literatura latina. a famosa embaixada dos filósofos gregos ao senado romano em 155 a. criando um verdadeiro dicionário filosófico latino. 1.estando à frente Catão. norma e fundamento de uma vida civilizada ideal. também a filosofia grega dirige-se para Roma. porém. justa. o Antigo .. em oposição a todos os desvios passados e presentes. vedava a morada em Roma aos filósofos. o epicurista foi o primeiro romano que nos deixou um escrito filosófico: Lucrécio Caro. começados geralmente na pátria sob direção de educadores gregos. um ecletismo com tendências acadêmicas e para finalidades morais . dada a sua cultura vasta e eclética. que constituem o caráter essencial do estoicismo. porém. base e germe de toda sólida construção especulativa e de toda verdadeira obra artística.. políticos. por conseqüência. assim a obra-prima do gênio romano é o jus. é impedida pelos conservadores . Ambos correspondem à índole prática do gênio romano: o primeiro condiz com o pragmatismo positivo. portanto. e. acelerada pelo contato com a refinada civilização helenista.os quais justamente percebiam o perigo da perversão dos costumes na vida romana. Paulo Emílio. de Possidônio. Roma procede fatalmente para o Império. que sobrevivem imperecíveis ao empírico fim político do império romano . O epicurismo teve imediata. juntamente com Critolaus. mas porque o helenismo é considerado bom gosto. descuidando quase que completamente dos problemas teóricos.). a idéia imperial. da idade republicana. estóico. o sistema filosófico de Cícero é uma forma de pragmatismo eclético. estóico. assim. Antes de tudo. otimista. a influência grega sobre o mundo romano. O mais destacado expoente da primeira corrente é Marco Túlio Cícero (106-43 a. humana. universal. que no estoicismo são resolvidos segundo uma metafísica elementar e contraditória.C.limita-se quase exclusivamente aos problemas morais. composta de Carnéades.segundo a índole prática do gênio romano . Após a conquista romana da Macedônia (168 a.ainda que a obra lucreciana seja desprovida de importância especulativa. é. Entre Roma e a Grécia estabelecem-se e desenvolvem-se intensas relações culturais. O seu pensamento é.). Atenas e Rodes. de que representa uma fonte essencial. a Grécia tornava-se efetivamente parte do império romano. e de Fedro epicurista.C. autor de De rerum natura. moda. acadêmico. Quíncio Flamínio. da idade imperial. razoável. Um senatus-consulto. em 161 a. traduzindo-o para a língua latina. o direito. porquanto . rápida e grande influência em Roma. jurista e homem político literato e orador famoso. acadêmico. E fazem isto não por interesses científicos.do Ocidente e do Oriente -. elegância. igualmente ilustre no mundo filosófico. testemunho do entusiasmo vivo e sincero com que foi aceito em Roma o epicurismo por um determinado grupo cultural . O estoicismo romano difere do estoicismo grego.Ecletismo e Estoicismo As duas correntes mais importantes do pensamento romano são o ecletismo e o estoicismo. Não é. Cícero tem mérito também como historiador da filosofia antiga. para se aperfeiçoarem nos estudos. Os jovens mais conspícuos das famílias aristocráticas romanas vão à Grécia e à Ásia Menor. despertou grande contrariedade no velho Catão.C.conforme a segunda escola estóica grega. Seu mérito principal está no fato de que ele fez ampla e eficazmente conhecer a Roma o pensamento helênico.E como as obras primas do gênio grego foram a filosofia e a arte. que sobrevivem imperecíveis ao acontecimento empírico da queda política da Grécia.2 . Carece de interesse especulativo. Em Atenas e em Rodes. Cícero foi discípulo de Filo. de permeio a toda a barbárie antiga e moderna.

tendo renunciado a todo o resto. jurídico. aliás. toda grande casa terá um filósofo. que fazem parte da oposição e se apegam à liberdade espiritual do pensamento. . -. moral.deixando na sombra as questões teóricas . Entre os numerosos estóicos da idade imperial. Não é de admirar.pertencentes ao primeiro e segundo século d. E. como mais tarde terá o seu capelão. 110 . podem considerar-se quase naturalmente estóicos. têm uma personalidade própria. político. Musônio Rufo. realista. moralista e escritor epigramático. Procurar-se-á um filósofo. Os romanos. entre estes. Sêneca e Epicteto pertencem a esta classe de diretores espirituais. Sêneca é o maior como pensador. como os cristãos procurarão um padre. quase religiosa. apenas Sêneca.terem os estóicos romanos exercido uma função prática. qual era a mentalidade romana. Epicteto e Marco Aurélio . uma confirmação de alto valor. aonde não pode chegar o poder exterior. por conseguinte.estoicismo romano sobre o estoicismo grego. portanto. pelo menos os romanos da idade imperial. pela sua aceitação por parte de uma mentalidade positiva. a profunda praxe ascética do estoicismo recebe.C. prática.

O Direito Romano A obra universal e imperecível. Primeiro são traduzidas para o latim as obras literárias e poéticas gregas . mas a codificação de uma longa e vasta prática. Essencialmente práticos e sociais são os meios: o exemplo. para chegar à construção de um direito universal.2 . cuja irresistível fascinação também Roma sofreu. a tradição doméstica e política . o treinamento ministrado pelo pai que faz o filho participar na sua atividade agrícola. 111 . depois estudam-se os autores gregos no texto original. desenvolve-o. Educador é o pai. o direito romano no corpus juris justiniano é o lógico desenvolvimento do original germe jurídico. helenista-republicana. econômica.veio em contato com a nova civilização helênica. do guerreiro . O pensamento grego serviu à codificação do direito romano próprio e verdadeiro. . concisas e conceituosas . especialmente nos primeiros anos e no concernente aos primeiros cuidados dos filhos. entre os romanos. Do direito civil chega até ao direito das gentes. do cidadão. desenvolvendo-se e expandindo-se para a nova forma do estado imperial . através do pensamento. em Roma. paralelamente. em Roma. racional. nos ideais práticos e sociais. O direito romano não é uma filosofia do direito. O fim da educação é prático-social: a formação do agricultor.que regulavam os direitos e os deveres recíprocos naquela elementar. a princípio é a literatura grega que se difunde em Roma. todavia. segundo a índole prática do gênio romano. e afinal. E. expande-se através da cidade e do estado. Sentiu-se então a exigência de um novo sistema educativo. enfim se forma pouco a pouco uma literatura nacional romana sobre o modelo formal da grega. Na história da educação romana podem-se distinguir três fases principais: pré-helenista.A Educação Romana O espírito prático romano manifesta-se também na educação. natural. e culmina no Império.1 . quando o antigo estadocidade. A primeira e fundamental instituição romana de educação é a família de tipo patriarcal. implica numa concepção filosófica. sumamente pobre de arte e de pensamento. militar e civil.salus reipublicae suprema lex esto.entendida como prática litúrgica. diversamente do que era na Grécia.pietas .C. mas realiza-o. humano. mas uma sistematização jurídica. numa filosofia do direito.porquanto estava pelo menos nas possibilidades do caráter latino.paterfamilias. em que a instrução. Esta instrução literária partiu precisamente da cultura helênica. sendo. que. deste modo. Certamente.mos maiorum. até aquele direito natural. valoriza-o. surgindo na família. que na sociedade familiar romana desempenha também as funções de senhor e de sacerdote . Enfim. mediante a literatura. E tudo isso sob uma disciplina severa. Roma teve que superar a própria nacionalidade. sociedade agrícola-político-militar.entre o terceiro e o segundo século a. mas forte. num direito natural.DIREITO E EDUCAÇÃO 2. depois. helenista-imperial. Roma não desnatura o seu gênio político original. que se reduzia a uma aprendizagem mnemônica de prescrições jurídicas. E. e a religião . Tal sistematização jurídica. que se inspirou.2 . tivesse o seu lugar. sendo a religião. prático-social era o próprio conteúdo teórico da educação. que vai da cidade ao império: os patres governam a coisa pública. mais considerada a mulher do que na Grécia. a Odisséia -. é o pensamento grego que penetra e se difunde. 2.por exemplo. que no Oriente foi a religião.as leis das doze tábuas . se bem que os grandes jurisconsultos romanos teriam chegado sozinhos a esta codificação. A educação romana sofreu necessariamente uma profunda modificação. caput mundi. antes. a que chega a filosofia pelos caminhos da razão. em Roma foi o direito. Instaurado o Império. não é uma construção teórica. do mesmo modo que Roma sozinha construiu o seu império. dadas as suas predominantes qualidades práticas. Nesta obra educativa colaborava também a mãe. germe de uma sociedade mais vasta. pois Roma era naturalmente feita para se tornar a capital do mundo. especialmente literária. entra e se espalha a concepção grega da vida . a instrução propriamente dita. na Grécia a filosofia. que o pensamento grego pode deduzir da sistematização jurídica romana.

As famílias das mais altas classes sociais hospedam em casa um mestre. em doze livros. se estudavam os autores das duas literaturas. porquanto a carreira política representava. Por certo. por ser "novidade contrária aos costumes e aos preceitos dos maiores". aos poucos. os censores publicavam um decreto que condenava a escola latina de retórica (92 a. foi professor de retórica em Roma. nos grandes institutos universitários. Na reação dos conservadores contra a helenização da vida romana. um meio. a família não estava mais à altura de ministrar esta nova e mais elevada instrução.negotium e. E. relativamente ao espírito prático-social romano. Na Instituição Oratória. constituindo escolas . vem a faltar o interesse político da cultura. o primeiro docente pago pelo estado. o ideal supremo.a escola do grammaticus . províncias danubianas. as escolas de retórica perdem a função prática e social. preparadora dos esplêndidos renascimentos posteriores. especialmente em Atenas. enfim são fundadas cátedras imperiais. o estado romano mostra agora apreciar a cultura. No curso de gramática ensinam-se a língua latina e a língua grega. embora modestamente. propondo programas e métodos que foram em grande parte adotados sucessivamente nas escolas do império. Gália. Essas escolas são de dois graus: elementares . que muitas sobreviveram à queda do império romano ocidental. transformando-se em escolas eclesiásticas graças ao monaquismo cristão. Um dos principais motivos de interesse imperial pela cultura e a sua difusão foi o fato de se ver nela um eficaz instrumento de romanização dos povos. coisa muito séria.otium. vão-se.Vergílio 112 . médias . uma espécie de institutos universitários. transformando-se em meios de ornamento intelectual entre os lazeres de uma aristocracia cultural. depois o estado passa a favorecer e promover a instituição de escolas municipais de gramática e de retórica nas províncias. enquanto a elite dos jovens romanos vai se aperfeiçoar nos centros de cultura helenista. especialmente de direito. e não simples distração . e é definida até como ludus impudentiae. em suma. que surgem com uma diferenciação e uma especialização superior da escola de gramática. para o espírito prático romano. em que a cultura é instrumento de ação . para atender às exigências culturais e pedagógicas das famílias menos abastadas. do político culto. através das quais se aprendia a cultura helênica em geral. África setentrional .ludi .Espanha. quando Vespasiano era imperador. portanto. geralmente grego pedagogus ou litteratus. a interpretação dos poetas . todavia. E o resultado foi fecundo também para a cultura como tal.. por triunfar os inovadores. enfim. Faz Quintiliano uma exposição completa.). grego. absolutamente falando. para o engrandecimento do império. aqueles povos . o ensino da eloqüência abrangia toda a cultura. logo. dianoético.C. para os romanos. O teórico da pedagogia romana pode ser considerado Quintiliano. Um terceiro grau será.onde se ensinava a língua latina e a grega. um instrumento de penetração e de expansão da língua e dos jus romano. em relação com a seriedade da ação. Começam os imperadores romanos por conceder imunidade e retribuições aos mestres de retórica ainda docentes em casas particulares. mas. e conservaram acesa na noite barbárica a chama da cultura clássica. e a cultura helênica e os mestres gregos afluem a Roma sempre mais numerosos e bem acolhidos.a que o helenismo não pudera chegar. Germânia. Nasceu na Espanha no II século d. significa uma decadência para o diletantismo. do direito até à filosofia. vindo a faltar a liberdade. Acabam. porquanto foi ela levada. constituído mediante as escolas de retórica.Evidentemente. Tais escolas municipais foram tão vitais nas províncias. O orador romano será o tipo do homem de ação.a escola do litterator onde se aprendia a ler. escrever e calcular. representa uma purificação da cultura no sentido especulativo.de instituição privada sem ingerência alguma do estado. Grã-Bretanha. expõe o processo de formação do orador cuja figura ideal já delineara Cícero no De Oratore. A instituição escolástica compreende os dois graus tradicionais de gramática e retórica. A sua finalidade era formar o orador. Juntamente com a organização do império organizam-se também as escolas romanas. o que. E. Seja como for.C.

segundo o espírito prático-político romana.oriental. II . em Filo de Alexandria. em uma característica espécie de trindade divina. cujo maior expoente é Plutarco de Queronéia. ao contrário. do logos racional aristotélico. que sistematizou definitivamente e transmitiu aos pósteros o pensamento neoplatônico. Com a escola ateniense acaba. com a sua religiosidade e o seu misticismo.e as noções necessárias para este fim.Características Gerais O quarto e último período do pensamento grego denomina-se religioso. para a revelação. No curso de retórica ensinam-se a interpretação dos historiadores . absolutamente incapaz. . o direito e a filosofia. O sistema metafísico predominante no período religioso é o neoplatonismo. olímpica. humanistas. cuja mais notável expressão é Proclo. especialmente propensas a estes problemas e fecundas em soluções do mais vivo interesse.Cícero -. de que a filosofia religiosa neoplatônica forma como que a estruturação ideal. E também teve o neoplatonismo desenvolvimento nos últimos séculos do império romano: 1°. religiosa do mundo cosmopolita helenista-romano. O neoplatonismo. da dor. com que o neoplatonismo tem contatos. uma explicação plena. homérica. . interpretada à luz do pensamento grego.na chamada escola ateniense. Tentar-se-á a síntese filosófica do dualismo platônico. se recorre à concepção de uma queda arcana. pelo fato de ser profundamente sentido o problema do mal. cuja vida e pensamento nos foram transmitidos pelo discípulo Porfírio. e de uma purificação e libertação ascética e mística. racionalmente. todavia. O centro deste movimento filosófico é Alexandria do Egito. da realidade absoluta. Deste problema não se acha. tem rumos precursores nos primeiros séculos da era vulgar: I . A desconfiança do conhecimento racional impede à evasão para um conhecimento supra-racional. e a demoliu paulatina e criticamente nos grandes sistemas clássicos. que tenta a síntese do pensamento grego com a revelação hebraica. e. No período religioso permanecem os problemas do período ético.Período Religioso 1 . com a sua extrema transcendência da divindade. com a sua radical separação entre o mundo sensível e inteligível. que partiu de uma religião positiva -. de um conseqüente encarceramento do espírito no corpo. terminará no monismo emanatista. intercâmbio e polêmicas. original. também historicamente. imediato. Assim. o êxtase. o pensamento grego.3 . e também a idade da patrística cristã. místico. mas singularmente acentuados.e Homero . Nesta síntese metafísica prevalece o platonismo.C.tal transcendência.e dos oradores . volta. de resolver os grandes problemas transcendentes . para a religião. e exerceu também certa influência política com o imperador Juliano Apóstata. com a sua doutrina de uma queda original. da morte. mas a este supra-ordenada. procura-se-lhes a solução mediante uma metafísica completada pela religião. por conseguinte. porque o espírito humano procura a solução integral do problema da vida na religião ou nas religiões. 2. cultural. místicas.do mal. e o seu maior expoente é Plotino (III século d. e no platonismo religioso. políticos. Um lugar de destaque ocupam as normas e as exercitações de eloqüência. Trata-se. cujo maior representante é Apolônio de Tiana. sede do famoso Museu.que nem sequer se propõe. Já não se trata. da velha religião grega. O problema da vida é agudamente sentido. o 113 . encruzilhada entre o Ocidente e o Oriente.na assim chamada escola siríaca. no seu término. intuitivo. no novo pitagorismo. 2°. Mas na metafísica neoplatônica . O último período do pensamento grego abrange os primeiros cinco séculos da era vulgar: substancialmente.ocidental. semitas. do racionalismo aristotélico. a idade do império romano. característica do clássico dualismo grego. da alma estóica do mundo. do espírito. em uma forma de triteísmo.). capital comercial. do monismo estóico.Lívio . misteriosóficas. das religiões orientais. enquanto fornecem o conteúdo essencial à arte oratória. e mais precisamente do transcendente divino platônico. do pecado .obra-prima deste período religioso . o fim supremo da educação romana. devido aos seus limites naturalistas. porém. cuja mais notável expressão é Jâmblico.

pelo menos . Entretanto. 114 .já tinha sido assimilado pelo pensamento cristão patrístico. o pensamento grego . e a sua parte vital tinha sido transfundida e valorizada no cristianismo.C. pelo encerramento dessa escola ordenado por Justiniano imperador (529 d.pensamento grego.).o pensamento platônico.

PERÍODO CRISTÃO 115 .III.

de Platão e de Zenão de Citium. elaborando uma moral ascética e mística. que tinha encontrado um obstáculo intransponível no dualismo e racionalismo gregos . mediante o monismo estóico.) é bem representativo dos meios judeus helenizados que só sabiam ler a Bíblia na versão grega denominada dos Setenta (segundo a tradição. por um lado. 1. a qual.numa síntese muito original . Platão traz a mesma mensagem sob forma filosófica. entre matéria e espírito. em relação com tal metafísica. Tal é a atmosfera que vamos encontrar envolvendo tanto Filon de Alexandria.Filon de Alexandria Filon de Alexandria (nascido por volta de 25 a. estaria fadada a uma grande existência. o culto de Mitra.2 . a matéria com o mal. fazendo com que da substância do Absoluto seja gerado todo o universo até a matéria obscura. Para ele. entre finito e infinito. cidade cosmopolita na qual vivem egípcios. em seu último período. Apesar das denegações dos céticos e da propaganda materialista dos epicuristas. Os filósofos. a Bíblia diz a verdade. mas sob forma alegórica. então se desenvolvem. em Alexandria). é uma herança legada por Filon (é nesse sentido que Wolfson dirá que a filosofia medieval é inteiramente filoniana). ou sintético. da filosofia neoplatônica. Seus correligionários tinham-no encarregado de uma missão junto ao imperador Calígula (para serem dispensados do culto ao imperador. todavia. Todavia. É o local privilegiado de todos os intercâmbios. proporcionando o racionalismo grego especialmente a forma. de Ísis. judeus. em segundo lugar. nunca os homens foram tão famintos de Deus quanto nessa época. Para Filon. se esforçará por unificar os pólos opostos da realidade. Preocupações filosóficas e religiosas se unem estreitamente. A idéia de Filon de harmonizar a revelação e a razão.O NEO-PLATONISMO 1. o próprio Deus é inefável. Já Platão não 116 . integrar a filosofia mediante a religião. o da concordância entre razão e fé. na qual o aristotelismo fornece sobretudo os quadros lógicos. Será acentuado o dualismo platônico entre sensível e inteligível. e o misticismo oriental o conteúdo. completar. buscam a salvação. a Bíblia e Platão. quanto Plutarco ou Plotino. O racionalismo lúcido dos gregos se une . Como dirá mais tarde um discípulo de Filon. o grande problema da escolástica medieval. incompatível com o monoteísmo judaico). Os homens piedosos querem fundamentar suas crenças filosoficamente. Filon pretende fazer uma síntese entre os ensinamentos de Moisés. por outro lado. A cidade é povoada de pensadores que dispõem de uma admirável biblioteca. identificando. O neoplatonismo julga poder superar o dualismo. "Platão é um Moisés que fala grego". além da verdade suprema. entre o mundo e Deus: primeiro. o racionalismo grego mediante o misticismo oriental. O cristianismo tomará impulso. cidade grega por excelência.C. particularmente os intelectuais. Num sentido.Características Gerais do Neoplatonismo O neoplatonismo pode ser considerado como o último e supremo esforço do pensamento clássico para resolver o problema filosófico. e elevando. O centro do pensamento então se estabelece em Alexandria. inacessível às nossas abordagens.dualismo e racionalismo que nem sequer o gênio sintético e profundo de Aristóteles conseguiu superar.aos fervores do misticismo oriental. a Bíblia hebraica teria sido traduzida para o grego por setenta sábios.1 . gregos e romanos. A filosofia antiga. não tem mais sua capital tradicional em Atenas.1 . e julga poder superar. Isto nos ajuda a compreender o caráter sincrético. As religiões de salvação. o vértice da realidade inteligível ao suprainteligível e. podemos nos aproximar d'Ele por intermédio da renúncia ao mundo e do recolhimento da alma.

destinada a transformar inteiramente a alma. do conhecimento dos dois princípios rivais. Mas Tifon. Ísis simboliza a matéria e Osíris o Logos. mas escola de vida espiritual.nem o Ser. a traduzi-lo. A união dos dois explica a criação no que ela tem de bom.houvera dito que é preciso morrer para o sensível. onde abriu uma escola. psyche organon theou!" 1. e. Plutarco encontra simbolização de sua doutrina nos mitos da salvação comuns em sua época. pode participar do Inteligível . das causas que fizeram triunfar o princípio do mal. e purificá-la. Aí.Plutarco de Queronéia O autor da Vida dos Homens Ilustres também é um pensador religioso. ao menos. que o "converteu" à filosofia (pois. dos meios que permitiriam a vitória do princípio do bem. isto é. das três substâncias. O conjunto compreende cinqüenta e quatro tratados agrupados em seis Enéadas (isto é. Isto porque. que o admirou. dirigiu-se para Alexandria onde seguiu as lições do platônico Amônio Sacas. divina por essência. Dezoito séculos antes do Pe. o qual não é o conhecimento (uma vez que este supõe a dualidade do sujeito cognoscente e do objeto cognoscível . isto é. Ele é todas as coisas e nenhuma delas. cuja exegese ele propõe: á Apolo que. no Alto Egito. .Plotino Plotino nasceu em Licópolis. a fim de nascer para o inteligível? Se Deus é inacessível..3 . na escola neoplatônica. 1. Plutarco aceita tornar-se sacerdote de Apolo Pítico em Delfos. seu filho primogênito (protógonos). Verbo eterno de Deus. à maneira dos estóicos. temos um primeiro esboço da teoria dos gêneros literários e das mentalidades! É com relação à inspiração sagrada da Pítia que Plutarco formulará sua célebre expressão: "O corpo é o instrumento da alma e a alma o instrumento de Deus. A doutrina fundamental de Plotino é a das três hipóstases. A.4 . ao princípio transcendente do Bem se opõe um princípio do mal. A idéia essencial (já presente em Platão e Plutarco) é a de que somos formados de uma alma. identificar Deus com o universo. que é a lei do nosso mundo.. Leva a sério as profecias de Pítia. em termos plotinianos. assim como entre os estóicos. que levou Joseph de Maistre. Em 243. uniu às práticas ascéticas ("Tinha vergonha de estar num corpo". Essa filosofia dualista provém de Platão e a encontraremos em todos os sistemas denominados "gnósticos". a filosofia não era simples disciplina teórica.A realidade suprema. diretamente. mas antes a fonte inefável de todo ser e de todo pensamento. estabeleceu-se definitivamente em Roma. Plotino engajou-se no exército do imperador Giordano. embora elas procedam uma das outras. o princípio do mal. com os seus hábitos de linguagem.embora elas derivem. o espírito humano.ao qual Filon denomina Logos. Porfírio anotou e publicou seus cursos. grupos de nove). aos 28 anos. sobrevivendo aos seus desastres. não podemos. Para Plutarco. É aquilo de 117 . envolvida por uma potência malfazeja num corpo radicalmente vicioso (a encarnação é uma encarceração) e de que a salvação provém do verdadeiro conhecimento (gnosis em grego). das três realidades eternas . Lagrange. dirá seu discípulo Porfírio a seu respeito) um ensino muito brilhante. é o Uno. a voltá-la para as realidades sublimes). A concepção que São João faz do Verbo divino muito deve às fórmulas e às idéias de Filon de Alexandria. Colocou em particular o problema do mal e da Providência em seu ensaio sobre as Dilações da Justiça Divina. mas esta exprime a Revelação segundo sua mentalidade e sua cultura. trabalha da melhor maneira possível para o renascimento do culto délfico. ilumina o espírito de Pítia. introduz a desordem e a perturbação: dispersa os membros divinos de Osíris que Ísis tenta reunir. a fim de conhecer a filosofia dos persas. o Deus de Plotino.

obscureceu-se. é só o procurado pelo reflexo do bem que fracamente ainda brilha nele. generosidade sublime. de toda virtude e. abismou-se no múltiplo. rival do mundo do bem. uma luz mergulhada na bruma. Assim como de um fogo ardente as chamas se irradiam. por que o Uno não é único. as trevas do mal. enquanto o Uno dispersou-se. e ele é plenitude. de toda beleza. C. obscurecida no mal. livrar-se do mal. como para os gnósticos. Essa Inteligência é o princípio de toda justiça. não existe um mundo do mal. para Plotino. O próprio Plotino escreveu uma tratado contra as seitas gnósticas. assim como o deus cósmico dos estóicos). cuja ordem é constituída por ela. esse êxtase foi que impressionou Bergson ao ler as Enéadas. superior à 118 . Não esqueçamos que é a leitura de Plotino que. mas antes encontrar a si mesmo em sua verdade. Todavia. Abaixo das três hipóstases. destruir um universo para dar nascimento a outro. Esse arrebatamento da alma. é superior a tudo e fonte absoluta de tudo. caída no corpo. não é absolutamente nova. e o mundo sensível. B. Reservemo-nos. A Alma é a mediação entre a Inteligência. O primogênito de Deus é o Logos. não é. A sensação representa o primeiro grau de conhecimento humano. Todavia. O mal. o desejo e o esforço de uma alma que quer se encontrar e ao mesmo tempo se perder no Uno universal e inefável. a obra de Plotino possui uma tônica de misticismo que é nova. terceira hipóstase (que evoca o tema platônico da alma do mundo.Por que existem outras hipóstases? Por que esse Deus plotiniano. o que é capital para Plotino.que promana toda existência. não pode desejar coisa alguma . ainda que menores. Mas o Uno é riqueza infinita. Já no Timeu de Platão está colocada a questão de uma gênese do mundo. como até então não se sentira ainda. A alma que dizem prisioneira do mal é apenas uma alma que se ignora. A alam humana também é uma parcela do próprio Deus presente em nós. mas ele próprio é de tal ordem que nada podemos afirmar a seu respeito. A Inteligência é que faz a realidade ter uma forma. no entanto. A perfeição suprema se difunde em si mesma. As almas individuais emanam dessa alma universal. com respeito ao pensamento. é aqui que encontramos a opacidade da carne. este último aspira à reconquista da unidade. a idéia do Belo desempenha importante papel. a conversão plotiniana lembra a dialética ascendente de Platão. se assume e tenta se elevar até o Princípio original.Da Inteligência procede a Alma. opinião. sente-se aí. toda vida e todo valor. na medida em que ela é coerente e harmoniosa. todavia. arrancará o jovem Agostinho de suas crenças dualistas abeberadas no maniqueísmo. um dia. por que se degrada na multiplicidade? É certo que não está submetido a qualquer necessidade.A Gnosiologia A gnosiologia de Plotino é semelhante à de Platão. Nesse sentido. tende a engendrar outros seres que se lhe assemelham. por outro lado. é. da qual ela procede. para Plotino.pois. Em ambos os métodos de purificação. . . Segue-se. pela desvalorização da sensibilidade como aparência. desejar é sentir falta de algo. a Inteligência. 1 . assim ocorre com os seres emanados do Uno. à luz e ao repouso na fonte sublime. o que explica o fato de o autor das Duas Fontes Ter colocado Plotino acima de todos os filósofos. Essa filosofia. nem a essência. nem a vida. de ver no plotinismo um dualismo gnóstico. nada tem de uma substância positiva: "O mal não é senão o apequenamento da sabedoria e uma diminuição progressiva e contínua do bem". O mal não é uma substância original. Ao movimento de procedência corresponde o impulso de conversão pelo qual a alma. o peso da matéria. na medida em que ela é Beleza (nesta segunda hipóstase encontramos algo das Idéias de Platão e do pensamento que se pensa de Aristóteles). manifestando-se nela obscuros vestígios da verdade. o ponto extremo onde morre a luz. o mundo material representa o último estágio dessa "difusão" divina. Para ele. como diz Plotino.

ela procede do pensamento.A Moral Depois da descida . O pensamento absoluto. dianoéticas .segundo Plotino . como este procede do Uno. que estão entre Deus e o homem. indeterminação. em que o espírito humano se torna passivo. Deus certamente transcende o mundo.assim quatro são os graus do ser: matéria. êxtase . a inteligência. Também Plotino sustenta que as almas humanas caíram de uma vida pré-mundana para o cárcere corpóreo. Efetua-se ela através do homem. 119 . A matéria plotiniana. em que este é imaginado como o suprainteligível. que é uma fulguração divina.o intelecto . intuitiva e imutável. do corpo. que é identificação do espírito humano com o espírito absoluto.a emanação das coisas do Uno .teologia negativa. microcosmo. não por criação consciente e livre. intelecto. material. irracionalidade. para a valorização da religião positiva. É conhecimento intuitivo. A alma universal.sensibilidade. Com esta doutrina do êxtase. é inefável e pode ser atingido na sua plenitude unicamente mediante o êxtase. divino. Uno. se completa e atinge a sua perfeição no êxtase. que é autocontemplação do espírito pensante. À razão segue-se o pensamento imediato. o pensamento vem a ser intermitente e sujeito ao erro. 2 . O conhecimento humano. superior à filosofia. purificação da matéria. Deus. mas. a conversão do mundo para Deus. Com a alma termina o mundo inteligível. e por Plotino distintos em deuses invisíveis e visíveis. de sorte que é inteiramente indeterminado e inefável. não discursivo e sucessivo. o Uno. que procede de Deus degradando-se até à matéria. mas também mal. do sentido. imediato. a que são assimiladas as divindades das religiões tradicionais. está sempre em ato de conhecer. inconsciente. a alma do mundo. a si e as coisas. 3 . No entanto. nele. razão. O universo deriva de Deus. A razão é a atividade do espírito. que estão em escala decrescente do céu até os homens. transcende toda essência e todo o conhecimento. ao mesmo tempo.há a subida.arte e filosofia -. demonstrativo. que atinge as idéias. radicalmente ascética: libertação. não é apenas potencialidade. pois. o qual é superior ao espírito. tudo depende dele. por sua vez se multiplica e especifica nas várias almas individuais.A Metafísica Como os graus de conhecimento são quatro . inteligência subsistente. parece abrir-se o caminho para uma nova filosofia religiosa.A Religião O neoplatonismo afirma certa transcendência de Deus.que estão no noûs . isto é. Deus . também ensina a metempsicose e a conversão. segundo o modelo delas. compêndio do universo. 4 .é a raiz de todo ser e de todo conhecer. precisamente pelo fato de ser. E outro caminho parece abrir-se na doutrina dos intermediários. e nunca erra. dialético. pelas virtudes éticas. Nesse grau de conhecimento o espírito compreende.representa uma atividade do espírito humano participada do pensamento absoluto. finalmente. e começa o mundo sensível. discursivo. a razão: conhecimento mediato. mas o mundo é da sua mesma natureza. Por isso. no espírito humano.sensibilidade. em que é afirmada uma relação específica com a Divindade. O Uno. o noûs. Nisto consiste a moral plotiniana. em linha ascendente. as essências das coisas. A segunda emanação do Uno é a alma.e enforma a matéria. noûs. em si mesmo. culminando no êxtase. Os graus dessa libertação são representados. Também o pensamento . o conhecimento participado. que se conhece a si mesma e em si as coisas. mas por emanação inconsciente e necessária. da Inteligência noûs. A alma contempla as idéias . alma. que conhece enquanto vem iluminado pelo pensamento propriamente dito. A primeira emanação é representada pelo noûs. e em torno dele pode-se dizer apenas o que não é .

a obra da Patrística e. Esta parte. mas como uma religião. assim como há uma história da filosofia grega ou da filosofia moderna. de fato. se o cristianismo não se apresenta. o cristianismo implica uma determinação. O cristianismo fornece ainda uma . pressupõe uma precisa solução do problema filosófico. 120 . além de uma justificação histórica e doutrinal da revelação judaico-cristã em geral. no tocante à solução do problema do mal. em Aristóteles. este problema sem o poder solucionar . como uma filosofia. filosófica e moral. a saber. portanto.2 .O CRISTIANISMO 2. uma demonstração racional. É o teísmo e o cristianismo. pois no pensamento cristão. a Tomás de Aquino. sobretudo. como. a Escolástica. o interesse central. Pelo que diz respeito à solução do problema do mal. O cristianismo propaga-se por diversos povos. uma sabedoria. porquanto implicam sempre numa intervenção da razão. sistematização racional do conteúdo da mesma. não é a filosofia. Isto se realizará graças especialmente à Escolástica e. A diminuição da atividade cultural transforma o homem comum num ser dominado por crenças e superstições. mediante uma disciplina específica. 2. enquanto soluciona o problema filosófico do mal. em definitivo. criadora da filosofia cristã verdadeira e própria. a fome e as grandes epidemias. sobretudo. de Agostinho. A avalanche dos bárbaros arrasou também grande parte das conquistas culturais do mundo antigo. Assim definiu São Jerônimo o momento que marcaria a virada de uma época. historicamente. a Israel. de sorte que. isto é. têm uma importância indireta com respeito à filosofia. o pensamento cristão desde o século IX até o século XV. do cristianismo. Finalmente. que será a teologia dogmática. será.integração à filosofia. solução que constitui a integração filosófica proporcionada pelo cristianismo ao pensamento antigo .frisamos que essa representa a grande originalidade teórica e prática. e a determinação. especialmente. agora transformado num mosaico de reinos bárbaros. por exemplo. uma doutrina. pressupõe uma específica concepção do mundo e da vida. A Idade Média inicia-se com a desorganização da vida política. a saber.Características Gerais do Pensamento Cristão Foi conquistada a cidade que conquistou o universo. o pensamento cristão tomará na grande tradição especulativa grega esta justificação e a filosofia em geral. o pensamento cristão desde o II ao VIII século. enfim. Pelo que diz respeito ao teísmo. sistematização racional do próprio conteúdo sobrenatural da Revelação. salientamos que o cristianismo o deve. e sim a religião. o pensamento do Novo Testamento. dilucidação. Foi esta.1 . Mas entre os hebreus o teísmo não tem uma justificação. dedicada à história do pensamento cristão.imprescindível . E. a que é devida particularmente a construção da teologia. dividida do seguinte modo: o Cristianismo. a justificação da Revelação em geral. dramaticamente.2 . o máximo valor. elucidação. Depois vieram as guerras. Era a invasão de Roma pelos germanos e a queda do Império Romano.As Características Filosóficas do Cristianismo Não há propriamente uma história da filosofia cristã. a Patrística. Soluciona este o problema do mal precisamente mediante os dogmas fundamentais do pecado original e da redenção da cruz.que sentiu profundamente. Entretanto. da dogmática católica. mediante os dogmas do pecado original e da redenção pela cruz. econômica e social do Ocidente.

121 .O período medieval não foi. política e econômica. Apoiada em sua crescente influência religiosa. e as obras de Aristóteles são traduzidas para o latim. Restava-lhes.C. trançando um quadro intelectual em que a fé cristã era o pressuposto fundamental de toda sabedoria humana. O aristotelismo dissemina-se pelo Oriente bizantino. a Igreja exerceu amplo domínio. apenas. o Império Romano do Ocidente sofreu ataques constantes dos povos bárbaros. Verdades expressas nas Sagradas Escrituras (Bíblia) e devidamente interpretadas segundo a autoridade da Igreja. fazendo florescer os estudos filosóficos e as realizações científicas.4 . a fé representava a fonte mais elevada das verdades reveladas especialmente aquelas verdades essenciais ao homem e que dizem respeito à sua salvação. Segundo essa orientação. 2. como se acreditava.3 . os filósofos não precisavam se dedicar à busca da verdade. Em que consistia essa fé? Consistia na crença irrestrita ou na adesão incondicional às verdades reveladas por Deus aos homens. pôde estender seu manto de poder "universalista" sobre diferentes regiões européias. numa época em que a terra era a principal base de riqueza. vasta riqueza material: tornou-se dona de aproximadamente um terço das áreas cultiváveis da Europa ocidental. conciliador das elites dominantes. decorrente. toda investigação filosófica ou científica não poderia.. preservando muitos elementos da cultura pagã greco-romana. fundam-se as primeiras universidades. a função de órgão supranacional. E é nesse esforço que Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino trazem à luz reflexões fundamentais para a história do pensamento cristão. Ela consolidou sua estrutura religiosa e difundiu o cristianismo entre os povos bárbaros. afirmava Santo Ambrósio (340-397. De acordo com a doutrina católica. é do Espírito Santo. demonstrar racionalmente as verdades da fé. tentando conciliar a fé e a razão. ocorre a fusão de elementos culturais greco-romanos. Conquistou. Neste sentido. por exemplo. também. as especulações se concentram em questões filosófico-teológicas. Desempenhou. que corresponde ao período medieval. das invasões germânicas.Conflitos e Conciliação entre a Fé e Saber No plano cultural. a "Idade das Trevas". Sob a influência da Igreja. Assim.A Filosofia Medieval e o Cristianismo Ao longo do século V d. aproximadamente): Toda verdade. "A Bíblia era tão preciosa que recebia as mais ricas encadernações". de modo algum. A filosofia clássica sobrevive. a Igreja passou a exercer importante papel político na sociedade medieval. contornando os problemas da fragmentação política e das rivalidades internas da nobreza feudal. pois ela já havia sido revelada por Deus aos homens. contrariar as verdades estabelecidas pela fé católica. Do confronto desses povos invasores com a civilização romana decadente desenvolveu-se uma nova estruturação européia de vida social. a Igreja católica conseguiu manter-se como instituição social mais organizada. Em meio ao esfacelamento do Império Romano. 2. No Ocidente. porém. cristãos e germânicos. em grande parte. confinada nos mosteiros religiosos. Assim. dita por quem quer que seja.

segundo a tradição dos homens. 2. voltou a ser divulgada. Eles foram os responsáveis pelo resgate cristão das filosofias de Platão e de Aristóteles. O conjunto desses textos ficou conhecido como patrística por terem sido escritos principalmente pelos grandes Padres da Igreja.Não foram poucos. Carlos Magno resolveu organizar o ensino por todo o seu império e fundar escolas ligadas às instituições católicas.Patrística "A fé em busca de argumentos racionais a partir de uma matriz platônica" Desde que surgiu o cristianismo. Foi assim que os primeiros Padres da Igreja se empenharam na elaboração de inúmeros textos sobre a fé e a revelação cristãs. retórica e dialética (o trivium) e geometria. aqueles que dispensaram até mesmo essa comprovação racional da fé. crer para compreender". astronomia e música (o quadrivium). submetidas à teologia.6 . aritmética. para depois fazê-los aceitar a imensidão dos mistérios divinos. passando a ter uma influência mais marcante nas reflexões da época." (São Paulo). Mesmo com o estabelecimento e a consolidação da doutrina cristã. Entre os grandes nomes da filosofia católica medieval destacam-se Agostinho e Tomás de Aquino. o descaminho e a heresia (doutrina contrária ao estabelecido pela Igreja. segundo os elementos do mundo. surgiram pensadores cristãos que defendiam o conhecimento da filosofia grega. 122 . tento quanto possível. respectivamente. Tendo a educação romana como modelo. em termos de fé). O objetivo era convencer os descrentes. e não segundo Cristo. começaram a ser ensinadas as seguintes matérias: gramática. No século VIII. a dúvida. inspirada na filosofia greco-romana. Eram os religiosos que desprezavam a filosofia grega. Uma das principais correntes da filosofia patrística. o estudo da filosofia grega permitiria à Igreja enfrentar os descrentes e demolir os hereges com as armas racionais da argumentação lógica. sobretudo porque viam nessa forma pagã de pensamento uma porta aberta para o pecado. no entanto. tentou munir a fé de argumentos racionais. a Igreja católica sabia que esses preceitos não podiam simplesmente ser impostos pela força. Por outro lado.Escolástica "Os caminhos de inspiração aristotélica levam até Deus". Todas elas estavam. Esse projeto de conciliação entre o cristianismo e o pensamento pagão teve como principal expoente o Padre Agostinho. Era a renascença carolíngia. "Compreender para crer. (Santo Agostinho) 2. Eles tinham de ser apresentados de maneira convincente. porém. "Tomai cuidado para que ninguém vos escravize por vãs e enganadoras especulações da "filosofia".5 . na medida em que sentiam a possibilidade de utilizá-la como instrumento a serviço do cristianismo. mediante um trabalho de conquista espiritual. pela razão. tornou-se necessário explicar seus ensinamentos às autoridades romanas e ao povo em geral. A cultura greco-romana. somente acessíveis à fé. Conciliado com a fé cristã. guardada nos mosteiros até então.

se são corpóreos ou incorpóreos. merecendo destaques nas obras de Tomás de Aquino. e à tradução para o latim de algumas delas. Nesta fase. no entanto. Quando a flor morre. Segunda fase . é o nome de uma flor. A busca da harmonização entre a fé cristã e a razão manteve-se.A Questão dos Universais: O que há entre as palavras e as coisas O método escolástico de investigação. isto é. considera-se que a harmonização entre fé e razão pôde ser parcialmente obtida. 123 . como problema básico de especulação filosófica. caracterizada pela afirmação das diferenças fundamentais entre fé e razão. em sua obra Isagoge: "Não tentarei enunciar se os gêneros e as espécies existem por si mesmos ou na pura inteligência. Nesse sentido. nem se existem separados dos objetos sensíveis ou nestes objetos.(do século XIV até o século XVI): decadência da escolástica. o período escolástico pode ser dividido em três fases: Primeira fase . Isso se deveu à descoberta de muitas obras de Aristóteles. de uma idéia geral.A fundação dessas escolas e das primeiras universidades do século XI fez surgir uma produção filosófico-teológica denominada escolástica (de escola). Mas como isso acontece? O grande inspirador da questão foi o inspirador neoplatônico Porfírio. descobertas até então. a palavra fala de uma coisa inexistente. Esse problema filosófico gerou muitas disputas. a palavra rosa continua existindo. diretamente do grego. por exemplo. Era a grande discussão sobre a existência ou não das idéias gerais. os chamados universais de Aristóteles.(do século IX ao fim do século XII): caracterizada pela confiança na perfeita harmonia entre fé e razão. o aristotelismo penetrou de forma profunda no pensamento escolástico. privilegiava o estudo da linguagem (o trivium) para depois passar para o exame das coisas (o quadrivium). formando parte dos mesmos".7 . A partir do século XIII. marcando-o definitivamente. nem. Nesse caso. 2.(do século XIII ao princípio do século XIV): caracterizada pela elaboração de grandes sistemas filosóficos. segundo o historiador francês Jacques Le Goff. Terceira fase . Desse modo surgiu a seguinte pergunta: qual a relação entre as palavras e as coisas? Rosa. no caso de subsistirem.

ainda que poderosos e ilustres. antes de tudo. tendo adquirido. ainda que contra a sua vontade. Na revelação cristã é filosoficamente fundamental. que são próprios e originais do cristianismo. relativos à revelação cristã . No entanto. até que Israel. o conceito de uma queda original do homem no começo da sua história. enfim. o direito romano. o poder e a glória . para determinar a personalidade de Cristo.1 . sem solução alguma. racionalmente premente e racionalmente insolúvel.ascética . politeístas. Não é este o momento de fazer um exame crítico. religiosamente. De Israel toma o cristianismo. essencial e característico. filosófico e histórico. porquanto este é hebraico e cristão. o triste sentido da vaidade do mundo. é Jesus Cristo.cristã do problema do mal seria vã. mas apriorísticos. o estado autônomo e privilegiado. Quanto ao pensamento grego. Pode ele dar plena solução ao problema do mal . Daí a idéia de uma história. Os argumentos em contrário não são positivos. Idolatrou a vida longa e próspera. Basta lembrar que. as satisfações conjugais e domésticas. no máximo dualistas ou panteístas. como elemento constitutivo. os outros povos e civilizações. De Israel o cristianismo toma o teísmo. Conceitos indispensáveis para explicar o problema do mal.esta sua divindade. a Igreja. humanista e imanentista em especial. básico.Jesus Cristo -. foi submetido à sujeição e à renúncia. também. que o chamavam ao temor de Deus e à penitência.Jesus Cristo Entretanto.unicamente se é Homem-Deus. a pessoa de Cristo tornar-se-ia inteiramente ininteligível.até esquecer-se de Deus. 3.O CRISTIANISMO 3. o Verbo de Deus encarnado e redentor pela cruz. e. e também o conceito de um Messias.Novo Testamento. portanto. como a estóica e todas as demais soluções filosóficas de tal problema. deve-se dizer que entrará no cristianismo como sistematizador das verdades reveladas. o conceito de uma revelação e assistência especial de Deus.2 . em segundo lugar. A solução integral do problema do mal viria unicamente do mistério da redenção pela cruz .necessário complemento do mistério do pecado original. Diferentemente. porém. são. E. em sua novidade e originalidade. idéia peculiar ao cristianismo e desconhecida pelo mundo antigo. o pensamento grego e. os documentos fundamentais. e recalcitrou contra os flagelos com que Jeová o castigava. históricos. através de dolorosas experiências. especialmente pelo mundo grego.solução que representa o maior valor filosófico no cristianismo . por conseqüência. que é desenvolvimento providencial da humanidade.3 . em geral. obscuro e desprezado. as riquezas da natureza e a prosperidade dos negócios. um reparador. deve-se dizer que entrará no cristianismo como sistematizador do novo organismo social. não. ou. logo se segue a possibilidade de uma revelação divina e da divindade de Cristo. propriamente. uma vez admitido e firmado o teísmo. leva uma vida santa. Eis o esquema lógico da demonstração da divindade de Jesus Cristo. Devem ser examinados à luz da crítica histórica. afirma-se a si mesma como divina e comprova explicitamente com prodígios e sinais . o mundano e carnal Israel resistiu tenaz e longamente a esta idéia de uma radical miséria humana -. e como justificador dos pressupostos metafísicos do cristianismo. o verdadeiro criador do cristianismo. Perseguiu os Profetas. que ensina uma grande doutrina. E quanto ao direito romano. que ficaria. a solução . É o teísmo um privilégio único deste povo pequeno. a religião israelita. E como 124 . quer dizer.Os Precedentes do Cristianismo Os fatores históricos do cristianismo são: em primeiro lugar. dependem de uma filosofia racionalista e atéia em geral. e não como constitutivo de seus elementos essenciais e característicos.os milagres e as profecias . senão de provas históricas. um redentor. para tanto não precisando. filosóficos. à idéia de uma moral ascética. E achamo-nos diante de uma personalidade extraordinária . se ele não fosse Homem-Deus.

125 . É este o aspecto do cristianismo que mais o impressionou. o predileto do Mestre. por certo. Os Evangelhos de Mateus. convertido ao cristianismo e mudado o nome de Saulo para o de Paulo. de que acha a solução em Cristo redentor. Estas últimas. Cristo é o Verbo de Deus encarnado para a redenção do gênero humano. densas de conteúdo. Marcos e Lucas . a várias interpretações. embora fosse uma lei moral. o teólogo da Redenção. de forma incisiva e eficaz. Foi escrito em grego e destinado a um público não palestino. companheiro de Paulo. são elas as seguintes: Paulo de Tarso. os Evangelhos sinópticos e o Evangelho de São João. pode dar origem. mediante a graça de Cristo. do sofrimento.chamados evangelhos sinópticos .o Velho Testamento -.e não acharam.como o primeiro . caberá interpretar infalivelmente a revelação judaico-cristã e. de sorte que é ele. Também ele não foi discípulo imediato de Cristo. porém. Deus. também a parte que diz respeito à queda original e à relativa reparação. O terceiro dos Evangelhos sinópticos é. o de Lucas. fôra um inteligente e zeloso israelita. No Velho Testamento Deus tinha dado aos homens a lei que.O Novo Testamento Como é notório. Quanto às Epístolas . em aramaico e destinado ao ambiente palestino. É o mais amplo dos Evangelhos e relata amplamente os ensinamentos de Cristo. de sorte que o nosso conhecimento mais imediato em torno da sua personalidade se realiza através dos escritos dos seus discípulos. Paulo de Tarso. mas. tanto assim que podiam desagradar a um helenista refinado como Porfírio. originariamente. a qual. O quarto Evangelho. enfim. Não conheceu Jesus Cristo durante sua vida terrena. também se responsabiliza por uma instituição que a ele se segue . juntamente com este valor histórico. revelando-lhes em Cristo crucificado o Deus padecente. realizadas para finalidades apostólicas. e o seu evangelho foi também escrito em grego. que os torna comuns e os distingue do quarto evangelho. na Cilícia. O segundo é o Evangelho de Marcos. Destarte ele se pôs em contato com todas as formas de civilização do Oriente helenista e do mundo greco-romano. humanamente. As grandes viagens apostólicas de Paulo são três e têm como ponto de irradiação Antioquia.escritas em grego . de caráter mais especulativo e teológico.formam um grupo à parte. João pode ser considerado o teólogo da Encarnação. evidentemente. Escrito. No Novo Testamento. que não foi discípulo direto de Cristo. mas nos transmitiu o ensinamento de Pedro. A esta. que o chamava o caro médico. são fundamentais e mais do que suficientes para o nosso fim. o de João.Jesus Cristo se torna garantia de toda uma tradição que o precedeu .3 . o publicano.a Igreja católica. inversamente . que eles procuravam em suas religiões misteriosóficas . crucificado e ressuscitado. pelo contrário. O primeiro em ordem de tempo é o Evangelho de Mateus. além das testemunhas cristãs. portanto. O problema que. Atenas e Roma. testemunha da sua vida e da sua morte. teológico. A vida de Paulo é caracterizada por muitas e longas viagens. transmitido. não tirava o pecado. um dos doze apóstolos: João. preocupa Paulo é o do mal. nesta língua. O quarto evangelho. Nesta cidade encerra a sua vida mortal com o martírio. até o agradava. tocando os centros mais importantes do mundo antigo: Jerusalém. Cronologicamente. por certa característica histórica e didática. nem literariamente aprimoradas.foi escrito por um discípulo direto de Cristo. tornando o homem consciente de sua falta. Para o mesmo fim escreveu Paulo as famosas cartas às comunidades cristãs dos vários centros da Antigüidade. 3. do pecado. vítima e Salvador. foi em seguida traduzido para o grego e. tornando em seguida um dos doze apóstolos. tira o pecado do mundo. embora nos deixando na luta e no sofrimento. estas são extracanônicas e canônicas. tornou-se o maior apóstolo do cristianismo entre os gentios ou pagãos. sobretudo. tem um especial valor especulativo. Cristo não deixou nada escrito. são porém. devido à miséria do homem decaído.devemos dizer que não são cartas logicamente orgânicas e ordenadas. por excelência. Como Paulo pode ser considerado o teólogo da Redenção. Temos de Cristo testemunhas também pagãs. relacionados com ele. que Paulo sentia tão profundamente.

por certo. do material ao espiritual. metafísica. mas. que domina o mundo humano. 126 . não se quer dizer que a impassibilidade e a imortalidade sejam uma exigência da natureza humana. o chamado físico e moral. isto é. precisamente se considerar-se a natureza específica do homem. é um problema. se evidenciam como um estado inatural com respeito ao nosso ser espiritual e racional. demais vezes o sentido . isto é. espiritual. A filosofia é certamente construtiva.sobrepuja o intelecto. entretanto. Com isto. pois. já que. desta maneira. Este é o mal moral. pois. físico e moral. senão o mal. exige que o corpo humano e a natureza em geral sejam submetidos às imposições do espírito. rigorosamente.do qual o conhecimento deve no entanto partir . que nos parece desordenada. é o último dos Evangelhos e dos escritos do Novo Testamento.Deus. por ele criado? Deve-se entender. que tem o poder de tornar teoricamente inexplicável a realidade. os quais . Temos. mesmo quando a verdade é conhecida pelo intelecto. Pelo que diz respeito ao mal físico. se considerar-se. teisticamente concebido como transcendente e criador. pois esse gênero de mal. sem preconceitos. como tal. Não resta. no teísmo. naquele característico processo que é o conhecimento e a operação humana.4 . cronologicamente. a natureza humana. uma natureza. deve reconhecer os próprios limites. devida ao puro espírito. e. A filosofia conhece a essência metafísica dessa natureza humana. então. o instinto assenhoreia-se da vontade. a saber. mais freqüentemente ainda. a psicologia e a história. mas unicamente se quer frisar que a dor e a morte . a alma. é plenamente explicável. renunciar absolutamente à solução deste problema. o problema da vida. a necessária limitação de todo ser criado: porquanto esta limitação nada tira à perfeição dos vários seres a eles devida por natureza. como qualquer outra filosofia. a qual é a natureza do animal racional. o que não significa certamente lhe pertença a racionalidade pura. E bem poucos homens e só com muitas dificuldades e não sem graves erros. E.A Solução do Problema do Mal Não há dúvida de que o problema do mal foi o escolho contra o qual debalde se bateu a grande filosofia grega. Que coisa é. Com efeito. verdadeira imperfeição de um determinado ser. a coisa é ainda mais patente: basta lembrar o sofrimento e a morte. o mal físico e moral. precisamente por causa do mal. É antiga e famosa a objeção: de que modo concordar a absoluta sabedoria e poder de Deus com todo o mal que há no mundo. chegam ao conhecimento daquelas verdades racionais . e a maioria dos homens viveu e vive cegamente.bem como a ignorância e a concupiscência em sua atual intensidade. chegada ao seu vértice. O mal.podem se considerar compostos na segunda metade do primeiro século. comprometeria também a sua maior conquista: Deus. as coisas serão bem diferentes.Também o Evangelho de João foi escrito em grego. naturalmente. precisamente este mal. deve tornar-se crítica. tomada com certa amplidão. naturalmente. mas apenas aquela plenitude do ser. como deveria ser em uma hierarquia racional dos valores. mas certamente exige a subordinação do sensível ao inteligível. e praticamente dolorosa a vida? Não é. o mal assim chamado metafísico. deve reconhecer-lhe também a desordem. e este propriamente em relação ao homem.no seu conjunto . indispensáveis para uma solução humana do problema da vida. Isto significa exigir que os sentidos sejam instrumentos do intelecto e o instinto seja instrumento da vontade. visto ser o mal um problema racionalmente insolúvel.que são. todavia. . 3. mas ignoralhe a causa. que pertence unicamente a Deus. Ora. porquanto é limitação da natureza. contra as exigências da própria natureza racional. o indivíduo e a humanidade. Não pode. etc. porquanto não consegue resolver plenamente o seu problema.

porventura. E evidencia-se também que devido a uma culpa de orgulho contra Deus. isto é. gratuita. assume natureza humana. por exemplo. também morais: deficiências que não dependem dos indivíduos. há. pois . pela irracionalidade. O aspecto da condição primitiva do homem. mediante uma divina dialética. o bem e até um bem maior? É o que explica um segundo dogma da revelação cristã. E. fundamentalmente.6 . como que por nova criação. a elevação à ordem sobrenatural sendo. até à vulneração da própria natureza . visto que eles a sofrem. bem como a nenhuma natureza criada. que sentido tem o mal no mundo? Conseguiu o homem. devia descender toda a humanidade . a Segunda pessoa da Trindade divina. enveredando pelo não-ser. e que deve. mas por graça. lembrar como. garantidas pela interpretação da Igreja e sistematizadas pela teologia. na privação do único fim humano efetivo. remetemos ao fato da Revelação em que é contida. frustrar o plano divino da criação? Ou o próprio mal soube Deus tirar. Há. Visto a ofensa feita a Deus pelo pecado ser infinita com respeito ao Infinito ofendido.5 . enquanto não quiserem servir-se das misérias provindas do pecado original como estímulo para a Redenção. quanto à possibilidade do mal moral.que importa na privação da ordem sobrenatural. o Verbo de Deus. a saber. o homem teria participado . pela natureza humana. logo. aqui não interessa. uma enfermidade. entende-se como o verbo de 127 . evidencia-se.bem como todo o sistema dos seus dogmas . teria gozado de uma espécie de deificação. mas teria sido igualmente elevado. Deus. desviar-se da ordem: porquanto há nele algo de não-ser. do pecado. precisamente pelo fato de ser ele um ser criado. basta lembrar que o ser criado pode. suas conseqüências naturais também. Da Escritura e da Tradição. que unicamente Deus podia dar.com uma natureza extraordinariamente dotada . de potência. 3. da racionalidade. seria culpado em seus descendentes. isto é. não por direito. a privação da mesma. essencial desde o nosso nascimento. e especialmente uma religião entre as religiões.como divinamente revelada. Com efeito.da vida de Deus. por sua natureza. Sendo.O Pecado Original Se a filosofia é impotente para resolver plenamente o seu próprio problema. Quanto à realidade de uma queda original do homem. ser herdada. uma debilitação espiritual e física na natureza humana. à ordem sobrenatural. que temos considerado insolúvel pela filosofia. outro meio a que pode o espírito humano razoavelmente recorrer para a solução de um problema tão premente? Apresenta-se a religião. Quanto à possibilidade de uma queda do espírito.A Redenção pela Cruz Mas. de que agora é privado. Noutras palavras. por mais supereminente e central que seja no cristianismo. o homem que devia pagar. Basta. por conseguinte. porém. precisamente para reparar o pecado original e. por conseqüência. não devida à natureza humana. nem a perda dos dons praternaturais. Segundo este dogma. até ao sofrimento e à concupiscência. concernente à elevação sobrenatural. praticando o Cristianismo. se podem transmitir deficiências materiais e. por conseguinte. cometida pelo primeiro homem. pela lei da hereditariedade. do qual. e afirma esta verdade . ingressando na Igreja. E o livre arbítrio proporciona-lhe o modo de realizar essa possibilidade. com um conveniente conjunto de dons preternaturais. proporciona-lhe o modo de desviar-se efetivamente do ser. como o homem primigênio não só teria possuído aquela harmonia natural. não podia causar vulneração em a natureza humana. juntamente com os dons conexos. isto é. por definição.voluntário e culpado em Adão. provinda do pecado. quer dizer. mediante o pecado. O pecado original.teria o homem perdido aquela harmonia e a dignidade sobrenatural. a qual nos fala de uma queda do homem no começo de sua história. isto é. em geral. não podia suscitar o problema do mal.3. Deus precisava de uma reparação infinita. o dogma da redenção operada por Cristo. portanto.

ele se sacrifica até à morte de cruz. é. devido à dignidade do operante. Para a Redenção. Fez isto para dar toda a glória possível à infinita majestade de Deus no reino do mal e da dor proveniente do pecado.Deus assuma em Cristo a natureza humana. tendo todo ato seu um valor infinito. a glória de Deus o fim último de toda atividade divina. 128 . teria sido suficiente o mínimo ato expiatório de Cristo. pois. Ao contrário.

embora esta já seja interiormente infinita. uma atitude de reconhecimento do próprio nada. cria o mundo do nada. logo. seria também preciso admitir em Deus uma indigência. não se pode explicar por si mesmo. Ora.CONSEQÜENTE PRAXE ASCÉTICA 4. A razão humana constata.1 . como o orgulho será o pecado essencial do estulto. que o mundo. não em si. de que temos imediatamente experiência. a saber: Deus teria necessidade do mundo que ele deve explicar. Se se admitisse para a obra de Deus uma finalidade diversa. mas também na ordem de operar.Ascetismo e Teísmo Das precedentes considerações segue-se que o cristianismo importa sempre e essencialmente numa praxe ascética com respeito ao mundo. A este segundo princípio é conexa a absoluta liberdade da criação. Além disso. por conseqüência. ter-se-ia uma contradição semelhante à precedente. dispõe uma realidade essencialmente distinta de si. portanto. a perfeição plena. nas relações práticas com Deus . exige absolutamente uma explicação.que constituem o objeto da religião em geral . para que o problema do mundo tenha verdadeiramente solução. que não tem em si a sua explicação e. com todas as conseqüências acima mencionadas. E Deus. a humildade será a virtude essencial do sábio. a relação entre Deus e o mundo deve ser concebida segundo o conceito de criação. este seu nada ser por si. logo. a procura em Deus. nem pode deixar de constatar. tal definição exclui que Deus organize uma pressuposta matéria qualquer. Então. sendo Deus a atualidade. Não Deus. mas o cria livremente e para a sua glória.e também nas relações com a remanente realidade. do bem. tomando-se esta palavra "ascética" não no sentido rigoroso de renúncia aos bens criados. portanto. como diz Agostinho. exigir de participar da natureza divina e enaltecer como tal a sua natureza. precisamente. pois. então. evidentemente. para que seja verdadeiramente a explicação do mundo. e. haveria a contradição de que Deus seria da mesma natureza do mundo. com respeito à qual Deus seria passivo e. do operar positivo. e não o tira de sua substância. pode única e absolutamente criá-lo para a sua glória . mas o homem é o autor do mal. Contrariamente a quanto pensava o dualismo grego. Deus. não mais ato-puro. entre infinitos mundos possíveis. é excluído que o mundo seja. não pode certamente ser imanente. Deus. Deus cria toda a realidade. no conceito de criação. extrínseca. Daí nada se poder levantar contra ele e proclamar a sua autonomia. Entretanto. mas por causa da desordem introduzida na ordem da natureza pelo pecado original. querendo criar o mundo. a raiz metafísica desta praxe ascética acha-se no próprio teísmo. e não pelo fato de o sobrenatural oprimir a natureza. de modo que Deus. é preciso chegar até Deus. Em verdade. porque nada de quanto é real pode escapar à absoluta causalidade de Deus. formado pela mesma natureza de Deus. pode criar este ou um outro mundo. criando. fundamental. mas no sentido de que o homem. pode ou não pode criar. Contrariamente ao que pensa o panteísmo. não mais Deus. neste caso. de modo que nenhum ser criado pode. de qualquer modo. Deus. porquanto o mal. 129 . em conseqüência do conceito de criação.4 . deve reconhecer praticamente esta sua dependência absoluta. mas deve ser transcendente e criador. mas enquanto querida por Deus. e. se ela fosse necessária. não tem causa eficiente. não mais explicação do mundo. isto é. Aqui falamos. sendo negação. como a atitude prática. Com efeito. retamente definido como uma produção das coisas do nada por parte de Deus. privação. da criatura racional deva ser. mas deficiente. não só na ordem do ser. por isso. E o homem faz parte dessa criação. Compreende-se. de modo nenhum. sendo criatura e portanto dependendo totalmente de Deus. o que equivale dizer.

a obediência. exigindo ao mesmo tempo que a sua justiça fosse dignamente satisfeita mediante uma expiação infinita por parte do Verbo humanado. mas no homem sofredor. impõe Cristo a renúncia total aos grandes bens do mundo: renúncia à riqueza. menosprezando a prudência e a fortaleza humanas. Os Gentios julgavam naturalmente loucura a renúncia cristã.que. assistido por algumas pobres mulheres. com o qual e para o qual sofremos e. na sua morte . já que não se apresenta mais como inesperado e trágico. não dispensava. os sofredores. que o mundo inveja. quis Deus que fosse juntamente realizada a sua maior glória e o maior bem do homem. ao contrário. mas os pobres.tão significativa . ao homem. conforme a sabedoria cristã. Unicamente deste modo o homem era redimido. Tornando-se ele. e exaltados não os ricos. mas apenas tornava possível a expiação por parte do homem. um dos quais . foi abandonado pelos próprios e mais chegados discípulos. Esta expiação divina. a verdade e a vida.realizando a sua obra . como condição necessária para a salvação . para gozarmos a vida em sua companhia. e de uma felicidade que transcende toda aspiração e capacidade humana. E esta a chamada via dos conselhos evangélicos. os gozadores. em contraposição com a vida comum dos preceitos. portanto. Cristo não apenas realizou na sua pessoa o sacrifício redentor. mas já é a única via de salvação e de santificação. a consecução da felicidade na vida eterna.não no homem feliz.praxe ascética tem a sua primeira e perfeita realização em Cristo.4. para o mundo.até o renegou.Ascetismo e Caridade Esta moral ascética cristã é racionalmente fundada sobre o teísmo e a Revelação. Mas. destarte. Antes. E.o que devia ser seu vigário . assim. Deste modo Cristo dirá que o busquemos . o sermão das bemaventuranças. os poderosos. a imitação de Cristo crucificado .diversamente embora. pois. renuncia-se a si mesmo. Aí são invertidos os valores terrenos. a sua imitação . unicamente através da justiça se manifestava a misericórdia de Deus. que se pode considerar o compêndio do espírito do Cristianismo. à perfeita imitação dele. Este ensinamento. através do sacrifício mais completo por parte de Cristo. A vida cristã será. Esta . os mesquinhos.2 . unicamente desta maneira se realizava a glória de Deus e a redenção do homem em toda a sua plenitude. proveniente do pecado. E morreu abandonado sobre a cruz. pois não fica certamente dispensado da dor quem neste 130 . acharemos alimento ascético. Garante. precisamente através dos sofrimentos provenientes da desordem decorrida do pecado.se alguém quer vir após mim. esta praxe ascética será loucura e escândalo. 4.em abstrato se acha em toda a sua doutrina. envereda pelo caminho da cruz. em especial. e um outro o traiu de morte. a castidade. e confirmou a doutrina com o exemplo. mas também apontou aos homens este caminho como sendo o caminho único para a salvação e a perfeição. sempre idêntica e imutável na substância.Ascetismo e Cristianismo Deus quis remir o homem. dada sempre a desordem das coisas. que procuremos a sua imagem. embora variável nas aplicações concretas. segundo os graus de perfeição cristã e as concretas diferenças individuais. Na vida temporal esta moral ascética apresenta-se também como a mais sábia. à liberdade. mas não lhe foi feita justiça pela majestade do direito. E realiza-se na clássica praxe cristã dos votos religiosos. redentor pela cruz. porém. aos que aspiram à santidade. Entretanto. tome a sua cruz e siga-me. porquanto torna conformada e voluntária a aceitação do sofrimento. para abraçar a pobreza. propondo-se como modelo de todos os cristãos: Eu sou o caminho. Tal ensinamento ascético de Cristo . à família. Cristo. deste modo.isto é. o modelo e o ideal da vida cristã. Cristo . Humanamente e também racionalmente falando.foi julgado justo. mas especialmente no sermão da montanha. Cristo dirige a todos os seus seguidores. o que à orgulhosa razão humana parece estultícia.3 . foi condenado pelo povo que ele viera remir. que repugna à natureza. em concreto. Os próprios israelitas sonhavam o Redentor cercado de grandeza e poder. se acha em toda a sua vida e. à plenitude da vida cristã. e não de humildade e sofrimento. bem como por parte do homem.

em seus termos atuais. é uma pena. cada qual realizando este ascetismo cristão com diversa intensidade. E.pelos santos. mas uma oportunidade de engrandecimento mediante o sacrifício. ascético. mesmo razoáveis. então. que é o caminho mais perfeito do que o dos preceitos. que os santos se tornam os grandes benfeitores da humanidade. como divina. Este será o caminho percorrido . nacional. não fica senão a obediência no sentido cristão. os velhos. motivos de altruísmo. da escravidão. apesar das aparências contrárias. Antes de tudo. . Tal renúncia não é imoral. conforme os tempos. E isto acontece não apenas na sociedade civil. no heroísmo. todavia. nem pode objetivamente. E os santos mais facilmente florescem nas Ordens Religiosas.isolar fatalmente os homens dos seus semelhantes? E este isolamento não é ainda mais acentuado. universal. barbárie que se repete. mas assim não é. valorizando a dor. a humildade. 131 . a violência. ou não parece. racional. é disposto. renunciando a si mesmo e dando-se em holocausto a Deus. precisamente porque é característica das Ordens Religiosas a via dos conselhos. tal egoísmo está em franco contraste com o conceito de caridade. em lugar do clássico conceito de justiça. Precisamente pelo fato de que o homem. e nem sequer quem entende de gozar livremente dos bens da terra. De fato. a questão econômica e o problema da autoridade. não é possível nas atuais condições de egoísmo e malvadez humana. especialmente o orgulho. A ética cristã da renúncia perfeita ao mundo é a mais proveitosa para a sociedade familiar. A caridade cristã purificou a civilização antiga da barbárie da exposição das crianças. mas conforme à transcendente vontade de Deus. e isto é evidente se se examinam as paixões humanas. não é argumento suficiente para que todos obedeçam à autoridade. como claramente o prova a dura experiência. Provê igualmente esta moral ascética o bem dos outros. imensamente capaz. E também não se pode resolver naturalmente o problema árduo da sujeição à autoridade. freqüentemente mais fortes em quem domina. a humanidade como fim último. a caridade.prescindindo do fato de que o trabalho. a prescindir dos demais. dominante na moral cristã. até desejoso.não somente a justiça não consegue abolir a pobreza.por causa da renúncia ao mundo devastado pelo mal . moral. de modos muito diferentes. e a Revelação disto dá explicação e justificação . que criou o homem à sua imagem. Não considera. mas o contrário. E é mediante e através desta renúncia ascética. a convivência social. exaltando o sofrimento: bem-aventurados os pobres. e o remiu com a Paixão do seu Verbo encarnado. os temperamentos pessoais e as necessidades sociais. transpor os confins da ética. até solícito dos mais miseráveis. mais ou menos intensamente. ao contrário. bem como em toda civilização mundana em geral. de modo nenhum. a renúncia ascética não é estéril egoísmo. que preocupam tão profundamente a sociedade humana. porquanto formada de homens. como renúncia à própria vontade. Resolve isto verdadeiramente só a ascética cristã. A questão econômica não se pode resolver naturalmente. O fato de a autoridade ser necessária à existência da sociedade. os pobres. a própria caridade cristã. no egoísmo de toda civilização puramente humana. os doentes. mas o ofício. cheio de boa vontade para sacrificar-se inteiramente para com todos. não encontra limites no altruísmo. Menos ainda conseguem isto a filantropia e os demais equivalentes humanistas. no entanto necessária para que a sociedade possa sustentar-se. a fraude.embora de modos diferentes . porque tem como objeto não a pessoa. mas faz-se mister a ascética cristã para vencer este egoísmo mediante a paciência. os super-homens do cristianismo: o caminho dos conselhos evangélicos. unicamente quem é indiferente às qualidades alheias.mundo entende de viver apenas moralmente e não heroicamente. das lutas dos gladiadores. Em segundo lugar. Com efeito . da renúncia ao mundo. Finalmente. por exemplo. consegue tirar a humilhação do receber. os lugares. quando a perfeição se eleva dos preceitos aos conselhos? Poderia assim parecer. mas nem sequer a caridade. mas também na religiosa. Considere-se. mais ou menos desprezados e negligenciados na civilização antiga. A caridade cristã favoreceu ainda obras numerosas e fecundas para os infelizes.

e se esforçam por defender a fé mediante a filosofia. e chega até ao começo da Escolástica: isto é. por em focos os pontos de contato existentes entre o cristianismo e a razão. ou os conheceram diretamente.A PATRÍSTICA PRÉ-AGOSTINIANA 5. teses. desde o fim do primeiro século até a metade do segundo. E é também contemporâneo do império romano. Suas obras são duas Apologias . interessa assaz menos à história. Chamam-se apostólicos os escritos não canônicos. guias. Depois de Ter peregrinado pelas mais diversas escolas filosóficas . Imitando os filósofos. sobretudo. quando conhecidos. ou foram discípulos imediatos deles. porquanto representa o pensamento dos Padres da Igreja.Características Gerais Com o nome de patrística entende-se o período do pensamento cristão que se seguiu à época neotestamentária. Os apologistas. E apresentavam o cristianismo como uma sabedoria. mais cultos do que os padres apostólicos. Ufana-se ele de ser filósofo e cristão.ainda que não apresentem uma unidade sistemática.5 . porquanto floresceram no templo dos Apóstolos. filosoficamente. aliás.contra os 132 . Justino dedicou sua vida à difusão e ao ensino do cristianismo. os apologistas e os controversistas. que são os construtores da teologia católica. obras de controvérsia. e provar do outro lado o valor da religião cristã para lhe granjear discípulos. até à conversão os pagãos. entrou no cristianismo. sobretudo como o teísmo se diferencia do panteísmo. Os padres deste período podem-se dividir em três grupos: os chamados padres apostólicos. pitagórica .O Século II . por vezes. são. para levarem. último estádio da sua peregrinação filosófica.Os Apologistas e os Controvertistas A Patrística do século II é caracterizada pela defesa que faz do cristianismo contra o paganismo.em busca da verdade para a solução do problema da vida. período em que. leigo embora. pela defesa racional do cristianismo contra o paganismo. Para bem compreendê-lo. portanto. Seus autores. continuam filósofos também depois da conversão. os séculos II-VIII da era vulgar. logo após a sistematização. O maior dos apologistas é certamente São Justino. abriu em Roma uma escola para o ensino da doutrina cristã. no âmbito do próprio cristianismo. onde encontrou a paz. Flávio Justino Mártir nasceu em Siquém na Palestina em princípios do segundo século. depois de Agostinho vem o período que. estóica. em que terá importância fundamental a Escolástica. entre o cristianismo e a filosofia. que nos legaram as duas primeiras gerações cristãs. recebem o apelido de padres apostólicos. ao passo que os primeiros e os últimos têm uma importância religiosa. freqüentemente são filósofos por exemplo. São Justino Mártir .peripatética. apologias propriamente ditas. A Patrística é contemporânea do último período do pensamento grego. como a sabedoria mais perfeita. dogmática.1 . visto ser o maior dos Padres. representa a decadência da Patrística. a Patrística será dividida em três períodos: antes de Agostinho. Agostinho. Costuma-se designar como o nome de apologistas os escritores cristãos dos fins do segundo século. mestres da doutrina cristã.2 . outras vezes contra os hebreus. Dada a culminante grandeza de Agostinho. Seus escritos. Portanto. gradualmente. às vezes. que merece um desenvolvimento à parte. 5. E são dirigidas às vezes contra os pagãos. com o qual também polemiza. por vezes. interessam especialmente os chamados apologistas e os padres alexandrinos. com o qual tem fecundo contato. Este período da cultura cristã é designado com o nome de Patrística. é mister lembrar que o escopo por eles visado era. e que terminará por se cristianizar depois de Constantino. que procuram de um lado demonstrar a inocência dos cristãos para obter em favor deles a tolerância das autoridades públicas. Interessam-nos particularmente os segundos. entretanto dele diferenciado-se profundamente. abandonando o platonismo. o hebraísmo e as heresias. se a Patrística interessa sumamente à história do dogma. e morreu mártir no ano 170. o período religioso.

Retirou-se para a Ásia Menor. Depois de ter visitado a Magna Grécia. o Pedagogo. uma filosofia. sobretudo.bem como os padres latinos em geral . para Alexandria do Egito. em três livros. entretanto. Este gnosticismo cristão se afirmou especialmente em Alexandria do Egito. 133 . ao Egito. encarnado pessoalmente em Cristo. empreendeu uma série de viagens em busca de mestres cristãos. valoriza ele também. Embora as preocupações de Clemente sejam. pragmatista. latina. O cristianismo filosófico é próprio e característico dos padres alexandrinos.Os Alexandrinos e os Africanos O terceiro século apresenta um interesse particular pelo que diz respeito ao pensamento cristão. foram luminares Clemente e Orígenes. Devido às perseguições anticristãs do imperador Setímio Severo. pertencentes não à África oriental. Converteu-se ao cristianismo talvez levado por exigências filosóficas. 5. moralista latino . Naquele famoso didascaléion. foi. onde o seu espírito achou finalmente paz junto do eminente mestre Panteno. que já ia afirmando mesmo culturalmente. junto de um seu antigo discípulo. que os cristãos devem evitar. do espírito prático. que se ressentem. levados a estimarem seus adversários. O cristianismo. está em condições de desenvolver do seu seio um pensamento. entre filosofia e revelação. sem mudar a sua fisionomia original. que representarão a sua essência doutrinal.nasceu no ano 150.em oposição ao gênio grego. como por exemplo Tertuliano. Daí a distinção que então se afirmou entre os simples fiéis e os gnósticos . perfeitamente acabada na forma e no conteúdo.pequena apologia em doze capítulos.e um Diálogo com o judeu Trifão .que produziu os estóicos e os cínicos romanos .especialmente Platão . o grande centro cultural da época.Tito Flávio Clemente . cabendolhe a glória de ter o grande Orígines entre seus discípulos. fundidos numa característica síntese filosófico-religiosa em oposição ao cristianismo. desejoso de um conhecimento mais profundo do cristianismo. graças a Orígenes. Clemente teve de suspender o seu ensino alguns anos depois. em tempo oportuno. na crença de que os filósofos clássicos . o Verbo promotor da vida cristã . E julga achá-la. o primeiro sistema orgânico de teologia cristã. hostilizado pelos padres chamados africanos. É. e grandemente. os Strômata . considerações.dependem de Moisés e dos profetas. que vivem na tradição cultural helenista. Clemente foi chamado para dirigir a famosa escola catequética. Tentou-se um renovamento do paganismo com bases no panteísmo neoplatônico e nos cultos orientais.O Século III . a filosofia. Se bem que entres os padres africano-latinos apareçam vulto notáveis. teóricos. a Síria e a Palestina. enaltecedora e potenciadora dos valores intelectuais. de família pagã. e os meios empregados. satisfatoriamente. a conciliação entre paganismo e cristianismo. especulativos. Falecido este no ano 200. primeiro.isto é. Justino procura a unidade.cristãos. morais e pedagógicas. mesmo do ponto de vista católico. dos quais teremos.pagãos . de interesse especialmente ético. Os Padres deste período polemizam filosoficamente com os pensadores pagãos. à maneira de Justino. e indicando nos demais dois livros os vícios mais graves. Escreveu suas obras nos meados do segundo século. que mandou fechar a escola. mas África ocidental. morais e religiosas.não apresentam interesse particular para a história da filosofia. apresentado no primeiro o Verbo como educador das almas. mas difundidos mais ou menos em todos os filósofos antigos.tapetes que é uma coleção de pensamentos. depois da doutrina famosa dos germes do Verbo. sendo ademais dotado de uma erudição prodigiosa e de uma cultura incomparável. dissertações filosóficas.contra os hebreus. jurídico.sábios . o bispo Alexandre de Capadócia. religiosos e cristãos sobretudo. pelo ano 180. por conseguinte.3 . espécie de faculdade teológica. metafísicos. As obras principais de Clemente são: o Protréptico . e morreu nessa cidade entre 211 e 216. provavelmente em Atenas. os padres africanos . Clemente Alexandrino . naquela celebrizada escola catequética. uma teologia.

Aos vinte e cinco. que tinha estudado as fontes do cristianismo. devido também a algumas opiniões heterodoxas contidas na sua grande obra Sobre os Princípios. acentuava demasiadamente a última. Os maiores dentre eles são solidamente formados na solidão monástica e ascética e pertencem. chamado adamantino por sua energia incomparável. A igreja católica. o malho do arianismo. isto é. Os padres dessa época se exprimem em aprimorada forma clássica e possuem uma profunda cultura filosófica.O Século IV . Retirou-se então Orígenes para a Palestina. A atividade literária de Orígenes não conhece igual. O precoce menino recebeu do pai. os luminares de Capadócia Basílio. pela sua força e virtude para a reforma moral dos homens e pela sua difusão universal. Aí lecionou ainda durante vinte anos. sobretudo. e as verdades primordiais deduzidas mediante a razão teológica das premissas reveladas. bem como uma fé inabalável. dos milagres e das afirmações solenes de Cristo. Basta lembrar. de volta à pátria. Ambrósio de Milão e Jerônimo. justificando-a e organizando-a racionalmente. Demétrio. A obra Sobre os Princípios nos proporciona a ciência baseada na Revelação. a primeira grande síntese doutrinal da Igreja. apesar dos ataques dos adversários. A obra Contra Celso é a mais célebre de Orígenes sob o aspecto apologético. sábios. perfeitos. Por princípios Orígenes entende os artigos principais do ensino da Igreja. A maior parte do escrito é. Granjeou ao autor grande nomeada e contém o origenismo. Nesta obra. isto é. Prescindindo dos escritos exegéticos e as céticos. e representa uma suma teológica verdadeira e própria. Ordenado sacerdote no ano 230 pelos bispos de Cesaréia e de Jerusalém. todavia. e João Crisóstomo. Durante a perseguição de Septímio Severo.as lições de Amônio Saca. e também por ciúme. contra a vontade de seu bispo.Filosoficamente importante e característica é a distinção que faz Clemente dos cristãos em simples fiéis e gnósticos. e para atender aos desejos de grandes personagens que queriam consultá-lo. 5. sobretudo. foi encarregado pelo bispo de Alexandria. que depois suscitou a grande polêmica origenista. bem como o primeiro sistematizador do pensamento cristão em uma vasta síntese filosófica. filosoficamente. é consciente de sua fé. para a igreja oriental. diversamente do simples fiel ou crente. especialmente a Segunda metade. mencionamos a obra Sobre os Princípios e os oito livros Contra Celso. por falta de revelação formal. Tinha então Orígenes dezoito anos. que não nos interessam. geralmente. escutou . falecendo em Tiro pelo ano 254. que superou a de Alexandria pelo seu caráter científico. o mais celebrado representante da escola de Antioquia. religiosa. Atanásio. da direção da famosa escola didascaléion. Leônidas. Orígenes. talvez.como Plotino . religiosamente. negligenciando um tanto a Sagrada Escritura e a Tradição". que o seu mestre Clemente teve que abandonar. talvez. Antes de tudo. filósofo pagão. Empreendeu então longas viagens para se instruir. desprezando os mais graves perigos. dedicada ao exame atento e pormenorizado das profecias. declarada livre pelo Edito de 134 . representa a idade de ouro da Patrística. Gregório Nazianzeno e Gregório de Nissa -. às altas classes sociais. atribuindo-se-lhe milhares de obras. é o maior expoente filosófico da escola alexandrina. segundo a tendência metafísica dos doutores orientais. no dizer de São Jerônimo. pelo ano 185. sentindo a necessidade de conhecer profundamente as doutrinas que desejava combater e querendo completar a sua formação.4 . visto que Celso. "Querendo harmonizar a doutrina cristã com a filosofia pagã. de família cristã. Orígenes pode ser considerado o verdadeiro fundador da teologia científica. Orígenes ostenta uma erudição extraordinária. Orígenes. Representa. abrindo em Cesaréia uma escola teológica ( chamada depois neo-alexandrina -. para a igreja ocidental. Nasceu em Alexandria do Egito. o ataca em todos os pontos.Os Luminares de Capadócia O século quarto. O gnóstico cristão. uma serenidade nobre e inigualável. declara Orígenes que a melhor apologia do cristianismo é constituída pela vitalidade divina da Igreja. É uma resposta à obra Sermão Verdadeiro de Celso. Discípulo de Clemente. a primeira formação literária e. foi proibido por este de ensinar e foi condenado.

o estudo. Entretanto. pelo ano 344. que. Grande admirador de Orígenes.foi condenada pelo concílio de Nicéia (325). mas se harmonizam reciprocamente. valorizou cristãmente na solidão e no ascetismo. e organizador da vida monástica na Capadócia. o método. quanto dogmática. provavelmente. Em seguida. de regras morais. à lógica aristotélica. sendo Atanásio o mais destacado e forte opositor. em 395. a doutrina católica. Bispo de Sásima antes e. pouco afeito à vida prática.Milão. talvez. em conformidade com o seu ideal ascético e contemplativo. Estas condições de paz e de privilégio. retirou-se para a vida ascética contemplativa. As grandes heresias da época obrigaram os padres a defender racionalmente. abandonando a cátedra de retórica. Também os grandes representantes da escola neo-alexandrina. concebido como ascética. Possui. em seguida. torna-se religião do estado com Teodósio. Esforça-se para mostrar que os dados da razão e os ensinamentos da fé não se hostilizam. 135 . aperfeiçoando-se em Atenas. foram grandes testemunhas do caráter fundamentalmente ascético do Cristianismo. teológica. filosofia. São Basílio. padre alexandrino oriundo da Líbia. atacada especialmente por Ário (256-336). foi feito bispo de Nissa. e a grande estima do cristianismo. cidadezinha da Capadócia. Também São Gregório. entretanto. pelo que será considerado o legislador do monaquismo oriental. até que afinal. depois de batizado. destinadas a um monaquismo culto. Também ele admirou e praticou a vida ascética com o amigo Basílio. e escrevendo uma Grande Regra e uma Pequena Regra. de todos os padres gregos sob o aspecto especulativo e filosófico. retirou-se depois para a solidão. insigne promotor da beneficência cristã quando bispo de Cesaréia. em 407. aristocrático. e não jurídicas. compartilhando com ele a admiração para com Orígenes. que proporcionam o instrumento. Recebido o batismo. eram certamente favoráveis à cultura cristã. foi destinado ao estado eclesiástico. As exortações do irmão e de Gregório Nazianzeno persuadiram-no da vaidade do mundo. deixou-se desviar da sua vocação. Aristocrático e delicado. o gosto das definições claras e das classificações metódicas. Recebeu uma educação clássica aprimorada. São Gregório de Nissa foi o maior dos luminares de Capadócia e. Padre em Antioquia. em que a atividade dos monges é distribuída entre o trabalho. abandona o mundo e se retira para a vida ascética. primando pela sua cultura teológica e filosófica. fez longos e aprofundados estudos. sobretudo graças aos luminares de Capadócia.arianismo . São João Crisóstomo. A heresia ariana . degredado pela fé. nasceu pelo ano 355 em Cesaréia e recebida uma informação cultural aprimorada. e depois bispo de Constantinopla. nascido em Cesaréia de Capadócia pelo ano de 330 de família rica e cristã. inflamou os fiéis com a sua pregação brilhante e comovedora. em filosofia é neoplatônico. que aperfeiçoou em Atenas. a oração. direito. falecendo pelo ano 390. nasceu pelo ano 330 em Capadócia. fez estudos aprofundados. faleceu em 379. estudando retórica. de família cristã. Gregório de Nissa é o maior filósofo dos padres gregos. É significativo neste grande prelado o senso profundo da vaidade do mundo. devido naturalmente à filosofia. para a precisão e a organização do dogma. no quarto século. organizando a vida solitária dos que o seguiram. Faleceu. de Constantinopla. protegida por Constantino. faleceu. os luminares de Capadócia. para a vida monástica. torna-se uma construção intelectual sistemática. foi professor de retórica e casou-se. Irmão de Basílio. porém. A teologia. não é tanto científica. a grandeza da Patrística. filosoficamente. Como em teologia é origenista. nasceu de família ilustre. Tratase. de Antioquia. negador da divindade do Verbo. como verdadeiro filósofo. chamado Nizianzeno. imponente.

no mês de setembro do ano 386. sobreveio a conversão moral e absoluta. Sobre as duas almas. Aurélio Agostinho nasceu em Tagasta. cidade da Numídia. da teologia revelada. donde partiu para Roma e. que. cuja doutrina e eloqüência muito contribuíram para a sua conversão. desviou-se moralmente. e. Aí escreveu seus diálogos filosóficos. de uma família burguesa. entre as quais têm lugar de destaque as filosóficas. a 28 de agosto do ano 430. especialmente: Da Verdadeira Religião. dominou-o longamente. Dada. porém. para Milão. ao matrimônio. Tinha setenta e cinco anos de idade. era pagão. Do livre arbítrio. mais ainda. recebeu o batismo em Milão das mãos de Santo Ambrósio. em seguida. Da Trindade. moral e intelectualmente. a fim de aperfeiçoar seus estudos. por razões de luxúria. perto de Milão. Indo para Cartago. durante alguns meses. A Cidade de Deus. era uma cristã fervorosa. abriu uma escola em Cartago. 136 . Afastou-se definitivamente do ensino em 386. Finalmente. Entretanto a conversão moral demorou ainda. à carreira. pelo contrário. por razões de saúde e. Mônica. que atribuía realidade substancial tanto ao bem como ao mal. Entrementes .no começo do ano 386. pela profundidade do seu sentir e pelo seu gênio compreensivo. começados na pátria.abandonara o maniqueísmo. e exercia sobre o filho uma notável influência religiosa. Destarte chegara a uma concepção cristã da vida . Sobre a imortalidade da alma. Aí vendeu todos os haveres e. e consagrado bispo em 395. a graça. Da vida beata. Após a sua conversão. distribuído o dinheiro entre os pobres. como por uma fulguração do céu. sua mãe. falecida a mãe em Óstia. segundo ele. retira-se. Tinha trinta e três anos de idade. a mentalidade agostiniana. no neoplatonismo. sobretudo. a predestinação. E como Tomás de Aquino se inspira na filosofia de Aristóteles. Sobre a música. Agostinho inspira-se em Platão. Sobre o mestre. Interessam também à filosofia os escritos contra os maniqueus: Sobre os costumes. compreendese que interessam à filosofia também as obras teológicas e religiosas. Sobre a quantidade da alma. os diálogos filosóficos: Contra os acadêmicos. e.6 . Agostinho. volta para Tagasta.1 . Patrício. fazendo com que aderisse ao maniqueísmo. Depois da conversão. Agostinho dedicou-se inteiramente ao estudo da Sagrada Escritura. As obras de Agostinho que apresentam interesse filosófico são. na Páscoa do ano 387. e à redação de suas obras. Da natureza do bem. e será o maior vulto da filosofia metafísica cristã. por conseqüência. aos trinta e dois anos. em que a filosofia e a teologia andam juntas. para a solidão e o recolhimento. fundiu em si mesmo o caráter especulativo da patrística grega com o caráter prático da patrística latina. em companhia da mãe. juntamente com o filho Adeodato e o amigo Alípio. Agostinho renuncia inteiramente ao mundo. governou a igreja de Hipona até à morte. Seu pai. do filho e dalguns discípulos. funda um mosteiro numa das suas propriedades alienadas. julgando achar neste dualismo maniqueu a solução do problema do mal e. uma justificação da sua vida. que se deu durante o assédio da cidade pelos vândalos. recebido o batismo pouco antes de morrer. Agostinho abandona Milão. ainda que os problemas que fundamentalmente o preocupam sejam sempre os problemas práticos e morais: o mal. Caiu em uma profunda sensualidade. Tendo terminado os estudos. a 13 de novembro do ano 354. Ordenado padre em 391. é uma das maiores conseqüências do pecado original. ou melhor. por razões de ordem espiritual. As Confissões.depois de maduro exame crítico . abraçando a filosofia neoplatônica que lhe ensinou a espiritualidade de Deus e a negatividade do mal. a liberdade.A Vida e as Obras Aurélio Agostinho destaca-se entre os Padres como Tomás de Aquino se destaca entre os Escolásticos. Os solilóquios. Da Mentira.SANTO AGOSTINHO 6.

o mal é. porquanto a matéria não pode ser essencialmente má. moralmente. Permanece. circunscrito aos problemas de Deus e da alma. isto é. para o qual são transferidas as idéias platônicas. Quanto. como o intelecto.3 . pessoa. como na concepção aristotélico-tomista. espírito. ele conquista uma certeza: a certeza da própria existência espiritual. Todo o seu interesse central está portanto. as idéias. são fontes de conhecimento. amor. mas é mister uma particular e direta iluminação de Deus. que distingue a gnosiologia platônica da aristotélica e tomista. dependendo o tempo da existência de coisas que vem-a-ser e são.A Metafísica Em relação com esta gnosiologia. é necessária a luz física. porém moral. aberrante de Deus. Inicialmente. saber. enfim. negação. as espécies. o que era excluído pelo platonismo. a característica fundamental. o conhecimento sensível em relação ao conhecimento intelectual. no animal é instinto. de certo modo. as forças naturais do espírito. a priori. preferindo o mundo a Deus. Entretanto. Deus não é no tempo. imutável. consciência. sendo criada por Deus. Embora desvalorizando. e é atribuída a primazia à vontade. se a alma é criada diretamente por Deus. pois. No pensamento clássico grego. não bastam. Agostinho possui uma noção exata. criadas. como todas as demais. do mesmo modo. e são os modelos dos seres criados. pela sua simplicidade.6. metafisicamente. superando o ceticismo acadêmico mediante o iluminismo platônico. e dependente dela. platonicamente. é a transformação do inatismo. porém. cristã: Deus é poder racional infinito. simples. para que se realize o conhecimento intelectual humano. Deus é ainda ser. ou provém da alma dos pais.2 . Certo é que a alma é imortal. portanto. da reminiscência platônica. acidental: alma e corpo não formam aquela unidade metafísica. eterno. Ao lado desta prova a priori. ortodoxa. Como se vê. que fez boas todas as coisas. é a Verdade de Deus. seria necessária uma luz espiritual. sensitiva e intelectiva. às relações com o mundo. é o das relações entre Deus e o tempo. a existência de Deus é provada. tínhamos um dualismo metafísico. A alma nasce com o indivíduo humano e. distingue. insurgidos orgulhosamente contra Deus e. platonicamente. Agostinho fica indeciso entre o criacionismo e o traducionismo. pois. o Verbo de Deus. tem uma realidade na vontade má. privação. o corpo não é mau por natureza. em virtude da doutrina da forma e da matéria. Antes da criação não há tempo. nos seres inferiores cego apetite. condição e origem de toda verdade particular. Também a psicologia agostiniana harmonizou-se com o seu platonismo cristão. visto serem os mais importantes e os mais imediatos para a solução integral do problema da vida. No Verbo de Deus existem as verdades eternas. o qual é uma criatura de Deus: o tempo começa com a criação. 137 .agostiniano . portanto. imutável. para o conhecimento intelectual.temos ainda um dualismo. Esta vem de Deus. Mas a união do corpo com a alma é. E como para a visão sensível além do olho e da coisa. fundamentalmente. e conhecemos as verdades eternas e as idéias das coisas reais por meio da luz intelectual a nós participada pelo Verbo de Deus. não nega Agostinho as provas a posteriori da existência de Deus. como solucionadora do problema da vida. absolutamente. em sentido teísta e cristão. O problema que Agostinho tratou. segundo a gnosiologia platônica-agostiniana. ao qual só o cristianismo pode dar uma solução integral. os princípios formais das coisas. mas afirma que elas são fundidas em uma substância humana. Deus é concebido exatamente como livre criador. 6. Quanto à natureza de Deus. porém. No homem a vontade é amor. Agostinho. enquanto no espírito humano haveria uma presença particular de Deus. em especial a que se afirma sobre a mudança e a imperfeição de todas as coisas. a alma em vegetativa. No cristianismo. Por certo. é uma específica criatura divina. pelo pecado dos espíritos livres. extrínseca. substancial.Pensamento: A Gnosiologia Agostinho considera a filosofia praticamente. A inteligência é divina em intelecto intuitivo e razão discursiva. em especial. que o resolve. admite Agostinho que os sentidos. daí tira uma verdade superior. O problema gnosiológico é profundamente sentido por Agostinho. platonicamente. no pensamento cristão .

pouco temos a dizer. também um interesse filosófico.própria do pensamento latino -. prejudica a si mesma. O mal não é ser. Como já mais acima se salientou. nega a realidade metafísica do mal.Quanto à cosmologia. como dizia Aristóteles. pode ser superada sobrenaturalmente. se o mundo terminasse por causa do celibato. mas privação de ser. Antes de tudo. Mencionaremos a sua famosa doutrina dos germes específicos dos seres . tende a descurar o segundo. portanto. que lhe impediu o conhecimento do justo conceito de Deus e da possibilidade da vida moral. a saber. mas conseqüência do pecado original. asceticamente. hábito conforme à razão. pois é um ser limitado. Agostinho. Quanto à política. por exemplo. enquanto criado. 138 . limitado. ele alegrar-se-ia. E deve-se considerar não causa eficiente. se não houvesse pecado e os homens fossem todos justos. como da passagem do tempo para a eternidade. como alguns erroneamente pensaram.A Moral Evidentemente. porquanto a natureza humana já é corrompida. mas uma ordem do amor. contra a vontade de Deus. Nota característica da sua moral é o voluntarismo. A vontade não é determinada pelo intelecto. Foi também longamente desviado pela solução dualista dos maniqueus. mas deficiente da sua ação viciosa. mas precede-o.que tanto preocupa Agostinho . Esta concepção nada tem que ver com o moderno evolucionismo. que perturbou a natureza humana. Tal privação é imprescindível em todo ser que não seja Deus.tem.é: poder não pecar. fim último das criaturas. porquanto Agostinho admite a imutabilidade das espécies. como Paulo apóstolo. nos bem-aventurados será: não poder pecar. preso pelos problemas éticos. Entretanto a vontade é livre. Ela não pode ser superada naturalmente. a primazia do prático. 6. Como é sabido. podendo agir desordenadamente. criou alguns seres já completamente realizados. Deus. desenvolvendo-se. A solução deste problema por ele achada foi a sua libertação e a sua grande descoberta filosófico-teológica. Não obstante. de outros criou as causas que. deram origem às existências dos seres específicos. da ação . mais tarde. imoralmente. o Estado seria inútil. quando afirma que Deus. A virtude não é uma ordem de razão. contrariamente ao primado do teórico. individual e social. Destarte é explicado o assim chamado mal metafísico. a princípio. do conhecimento . O problema da graça . A vontade humana. depois do pecado original é: não poder não pecar. a natureza não entra nos interesses filosóficos de Agostinho. mediante a conformação cristã de quem é escravo e a caridade de quem é amo. Agostinho. Agostinho procura justificá-lo mediante um velho argumento. Nem a escravidão é de direito natural. e marca uma diferença fundamental entre o pensamento grego e o pensamento cristão.de que dá uma vasta e viva fenomenologia. Quanto à família. O pecado.4 . não podendo lesar a Deus. que atinge também a perfeição natural dos seres. a propriedade seria de direito positivo. a moral agostiniana é teísta e cristã e. tem em si mesmo imanente a pena da sua desordem. racionalmente. é possuído por um ato de inteligência. Deus e a alma. porquanto a criatura.próprio do pensamento grego. como a obscuridade é ausência de luz. porquanto não tira aos seres o lhes é devido por natureza. já é impotente sem a graça. Agostinho tem também atitudes teóricas como. transcendente e ascética. considera o celibato superior ao matrimônio. Quanto ao mal físico. porquanto o mal não tem realidade metafísica.O Mal Agostinho foi profundamente impressionado pelo problema do mal . logo.antes do pecado original . Consoante Agostinho. determinando a dilaceração da sua natureza. que não é verdadeiro mal. religiosos. e não natural. e pode querer o mal.rationes seminales. além de um interesse teológico. porquanto se trata de conciliar a causalidade absoluta de Deus com o livre arbítrio do homem. pois. ele tem uma concepção negativa da função estatal. A fórmula agostiniana em torno da liberdade em Adão . 6.5 . negada pelo moderno evolucionismo. para salvar o primeiro elemento.

Remediou este mal moral a redenção de Cristo. de pecado original e de Redenção. mas supera todas as sociedades políticas na universal unidade dos homens e na unidade dos homens com Deus. E a explicação última de tudo isso . este conceito de providência é. sendo o mal não-ser. físico e moral. desde Abraão. onde parece que Satanás e o mal têm o seu reino. 6. e pela Igreja depois de seu advento. Mas é esta a parte menos afortunada da doutrina agostiniana do mal. e profetizado também. Nesta obra é contida a metafísica original do cristianismo. visto que todos. que é uma visão orgânica e inteligível da história humana. A Igreja.6 . se o bem é devido nasce o verdadeiro problema do mal. ainda. com a diferença. Na Segunda descreve Agostinho a história da cidade de Deus. e chega até a Abraão. Esta história. não é causa eficiente. estético: o contraste dos seres contribuiria para a harmonia do conjunto. o maior monumento da antigüidade cristã e. Quanto ao mal moral. que culmina no império romano. moral (pecado original e Redenção) para o mal moral (e físico). A primeira concerne à história das duas cidades. Como se vê. a fim de que a história seja suscetível de racionalidade.do mal moral e de suas conseqüências . o mal físico tem. conseqüência do pecado. plenamente.ainda que só na unidade dialética das 139 . após o pecado original. privação de bem (de ser). e resolve-o ainda com os conceitos de criação. livre e limitado. este bem pode ser não devido (mal metafísico) ou devido (mal físico e moral) a uma determinada natureza. do que não permitir o mal.A História Como é notório. a solução deste problema é estética para o mal físico. pois. Esta não é limitada por nenhuma divisão política.estaria no fato de que é mais glorioso para Deus tirar o bem do mal. pois. finalmente existe realmente a má vontade que livremente faz o mal. é representada pelo povo de Israel antes da sua vinda sobre a terra. por isso. Homem-Deus. em separado. necessário. representa. porém. deste modo. ela. além de o ter sido com a perda dos dons gratuitos de Deus. por causa do basilar dualismo metafísico. de Abraão até Cristo. a obra prima de Agostinho. Agostinho trata do problema da história na Cidade de Deus. de que já não é mais união caótica. certamente. lhe preparavam diretamente o caminho. consciente ou inconscientemente. que. Cristo tornara-se o centro sobrenatural da história: o seu reino. recolhida e configurada em Israel. fragmentária e dividida. satânica. além do qual está a pátria verdadeira. é acessível. Este não-ser pode unicamente provir do homem. que restituiu à humanidade os dons sobrenaturais e a possibilidade do bem moral. a seu modo. a humanidade foi punida com o sofrimento. que é o governo divino do mundo. por sua vez. talvez. mas configurada na unidade da Igreja. se encontram empiricamente confundidos na Igreja . até que ficaram confundidas em um único caos humano. A Igreja transcende. Entretanto. é mister a Redenção. fundamentalmente. pelos povos pagãos. no fundo. O mal moral entrou no mundo humano pelo pecado original e atual. O conceito de criação é indispensável para o conceito de providência. o plano da história. uma unidade e um progresso. os confins do mundo terreno. mundana. Agostinho distingue em três grandes seções a história antes de Cristo. invisivelmente. uma outra explicação mais profunda. mas deficiente. sempre mais claramente. também às almas de boa vontade que. A terceira retoma. e não de Deus. exteriormente. que será absolutamente separada e eternamente punida nos fins dos tempos. É o progresso para Cristo. Depois de Cristo cessa a divisão política entre as duas cidades. mas deixou permanecer o sofrimento. época em que começou a separação. Contra este cidade se ergue a cidade terrena. que é puro ser e produz unicamente o ser. elas se confundem como nos primeiros tempos da humanidade. Entretanto. como meio de purificação e expiação. a narrativa do ponto em que começa a história da Cidade de Deus separada. para entender realmente. isto é. A Cidade de Deus representa. graças aos quais é explicado o enigma da existência do mal no mundo e a sua função. diremos: o mal é. Resumindo a doutrina agostiniana a respeito do mal. porém. dela não podem participar. O conceito de providência era impossível no pensamento clássico.digamos assim. predestinados e ímpios. para tratar paralela e separadamente da Cidade do mundo. a cidade de Deus. conscientemente e divinamente esperado e profetizado em Israel.

realizar-se-á nos fins dos tempos. mas teológica: é uma teologia. não é uma visão filosófica. absoluta. para o triunfo da Cidade de Deus . 140 . eterna.a divisão definitiva. não uma filosofia da história. É uma grande visão unitária da história. justíssima. depois do juízo universal. no paraíso e no inferno.duas cidades. depois da morte.

O segundo. Este primeiro período da escolástica vai do começo do século IX (Carlos Magno) até à metade do século XIII (Tomás de Aquino).gramática. acima e contra a razão e o intelecto.2 .manifesta-se não apenas na corrente chamada mística. porquanto era a filosofia ensinada nas escolas da época. e o clero se apresentava como o mais apto e preparado 141 . o escopo não era reduzir a religião aos limites da razão humana. por isso. século XIII (o triunfo do aristotelismo). em conformidade com as tendências positivas e práticas do espírito anglo-saxônio. Guilherme de Occam -. a uma espécie de intuição mística. pelo contrário.1 . de experiência do Divino: o sentimento. proveniente da ignorância da verdadeira natureza e dos verdadeiros limites da razão. da constituição do sacro romano império bárbaro. colocando o período central da escolástica a figura soberana de Tomás de Aquino. A falta dessa distinção .aritmética. e pode ser assim dividido: séculos IX e X (Scoto Erígena e a questão dos universais). Duns Scoto. Este período do pensamento cristão se designa com o nome de escolástica. Depois de Tomás de Aquino. é devido em especial aos franciscanos ingleses de Osford . música. que se assinala geralmente com a descoberta da América (1492). A tendência mística.A ESCOLÁSTICA 7. Para tanto. um racionalismo inconsciente. escolásticos. embora parta da revelação e do sobrenatural. espiritual. tendências novas para a experiência e a concretidade. As matérias ensinadas nas escolas medievais eram representadas pelas chamadas artes liberais. o meio natural eram as escolas. porém. no êxtase. chamados. moral e religiosamente os povos bárbaros que o constituíam. divididas em trívio .específica do pensamento agostiniano . ao fim da Idade Média. toma-os como dados e pretende penetrá-los mediante a filosofia. A escolástica surge. retórica. a vontade. a escolástica declina como metafísica (séculos XIV e XV). assim. isto é. historicamente. com efeito. o Aristóteles do pensamento filosófico cristão. devido a um anacrônico e ilógico retorno ao agostinianismo. a cultura clássica e o catolicismo e lhes daria incremento. até procurar as razões necessárias dos mistérios. mesmo que os resultados lógicos pudessem ser os mesmos do racionalismo verdadeiro e próprio. séculos XI e XII (místicos e dialéticos). se diferenciam profundamente entre si. do especial desenvolvimento da dialética.Educação e Cultura na Idade Média Carlos Magno pretendia dar uma unidade interior. a fé.Características Gerais A Escolástica representa o último período do pensamento cristão. mas também na orientação denominada dialética do pensamento medieval pré-tomista. Afirmam-se. Tal desenvolvimento da escolástica no sentido da experiência e da concretidade. O segundo período da escolástica é dominado pela figura soberana de Tomás de Aquino. geometria. dialética . E. que vai do começo do século IX até o fim do século XVI.Rogério Bacon. astronomia. Misticismo e dialeticismo.e quadrívio . ao seu vasto e vário império e.7 . portanto. todavia. pelos mestres. culminando na união mística. o amor. Depois destas premissas. 7. representando como que o prelúdio do pensamento moderno. um período prétomista em que persiste a tendência teológica-agostiniana. entretanto. (São Pedro Damião e São Bernardo de Claraval) põe. É. ao mesmo tempo. educar intelectual. Teremos. uma outra forma de conhecimento. mas levantar esta à compreensão do supra-inteligível. finalizando uma espécie de racionalismo (Anselmo de Aosta e Pedro Abelardo). Deste modo restauraria a civilização e a religião. este período coincide com a Segunda metade do século XIII. podemos dividir a escolástica em três períodos.

de que acima falamos. temos na Idade Média uma educação militar.que surgem nas cidades. bastante elementar: leitura.visavam. e. Sob a direção de Alcuíno. a partir do ano 787. E sob a sua inspiração. o quadrívio abraçava as disciplinas reais: aritmética. 7. destinadas a ensinar ao povo os primeiros elementos do saber. ademais. a formação dos monges futuros (escolas internas). mais tarde. foram emanados os decretos capitulares para a organização das escolas. geometria. Na intenção de Carlos Magno. as escolas paroquiais. As escolas monásticas dos mosteiros visavam. durante toda a Idade Média. em seguida. isto é. donde o nome de Scoto Erígena. o teólogo Paulino de Aquiléia. depois. Mencionamos também como.3 . repartidas no trívio e no quadrívio. em seguida. João Scoto Erígena nasceu na Irlanda. antes de tudo. quer pela cultura de que era dotado. O trívio abraçava as disciplinas formais: gramática. música. aprender a escrever. Carlos Magno chamou à corte Alcuíno (735804. os príncipes e os jovens da nobreza. Outras escolas surgiram. surgidas da própria exigência de uma observância adequada da Regra de São Bento. um clero culto. para a vida civil. a massa popular. ao mesmo tempo. complexo devia ser o papel das escolas.A Escolástica Pré-Tomista 1 . canto orfeônico e um tanto de aritmética. a formação do clero secular e também de leigos instruídos. que veio da Inglaterra. por conseguinte. imprimiu também a esta educação uma orientação ética. donde o nome de escolástica à doutrina e. fundará junto da corte imperial a assim chamada escola palatina. o ensino religioso e os rudimentos das ciências profanas. política. podemos dizer. a medicina. dita Scotia maior. que se espalhou pelo vasto império e perdurou invariado. econômica. quer pelo seu imanente caráter de mestre do povo. em especial. Os docentes eram também eclesiásticos e denominados também scholastici. os funcionários do império. à filosofia ensinadas. retórica. como. Freqüentavam esta escolas o próprio imperador. foi constituída junto da corte de Carlos Magno a famosa escola palatina. Carlos Magno dará muito incremento a ambas as escolas e. Presidia a estas escolas um eclesiástico chamado scholasticus. inicialmente. inicialmente baseada na força. no âmbito das paróquias. proporcionando.Os Séculos IX e X: Scoto Erígena e o Problema dos Universais A história da filosofia escolástica começa propriamente com o nome de Scoto Erígena. o feudalismo é uma organização social. por exemplo.docente. a Igreja. Eriu em língua céltica. Ao lado desta instrução e educação eclesiásticas. que ele ia fundando e desenvolvendo: formar. em especial. seu escopo final. imitações atualizadas das escolas catequéticas do cristianismo primitivo. mais tarde. o historiador Paulo Diácono. religiosa. ministrada por militares e a militares. ministradas por eclesiásticos e. sobretudo. mais ou menos). especialmente na França. antes de tudo. astronomia. enquanto o douto inglês ditava-lhes o programa relativo. que pode ser considerada como a primeira universidade medieval. o viveiro da cultura naquela época. militar. O programa de ensino era. Havia nos mosteiros beneditinos escolas monásticas. católica. dialética. bem cedo. preparar uma classe dirigente em geral e. a eclesiásticos. As escolas episcopais . a formação dos leigos cultos (escolas externas). e. Pelo ano de 874 é chamado à corte culta e brilhante de Carlos o Calvo. para presidir e 142 . o gramático Pedro de Pisa. ao passo que as escolas monásticas surgem nos mosteiros afastados das cidades . Paulatinamente espalharam-se também as escolas episcopais. segundo o espírito dos bárbaros dominadores. modeladas na escola palatina. educar. esta última desenvolvendo-se. mestres adequados para as escolas. O programa de Alcuíno abraçava as sete artes liberais. Como é sabido. Nela ensinaram os homens mais famosos da época. na filosofia. com o correr do tempo. dependente diretamente do bispo. Para elaborar o seu vasto plano de política escolar.

contra os filósofos. 2°. por mais ortodoxa que fosse a intenção do autor. mas é imanente nos objetos singulares de que é essência. aos indivíduos. não existe apenas fora da mente. depois. problema que tão cedo e tão longamente interessou a escolástica. mas apenas mental (universal post rem). e. Eminentemente neoplatônico é o esquema especulativo de Da Divisão da Natureza: a descida da Unidade à multiplicidade. 4°. exemplares e causas das coisas). Tal pretensão de penetrar racionalmente os mistérios revelados devia acabar logicamente no racionalismo e. estóicos. bem como coincidem as fases Segunda e terceira (mundo = criado). A sua obra principal é Da Divisão da Natureza (847). com a doutrina da forma que determina a matéria. Como se vê. isto é. e vice-versa. que são universais. não apenas lógica e dialética. o universal tem em si uma realidade objetiva. O problema dos universais. e pode-se dizer que representa a falência definitiva das tentativas de síntese entre neoplatonismo emanatista e criacionismo cristão.corresponde à posição aristotélica. 2 . . da realidade. na supressão do sobrenatural. porém. em cinco livros.Os Séculos XI e XII: Místicos e Dialéticos Depois da decadência cultural que se seguiu à renascença carolíngia. . Segundo a solução do realismo moderado. portanto. concebido. A solução conceitualista-nominalista sustenta que o universal não tem nenhuma existência objetiva.A natureza que é criada e não cria (as coisas. epicuristas. fim da realidade. Que valor têm os conceitos. aos gêneros. do valor dos conceitos. que são. ao contrário. mas também fora do objeto (universal ante rem): . De Deus desce-se às idéias supremas. é um diálogo entre mestre e discípulo e se inspira no neoplatonismo do pseudo Dionísio Areopagita. que Erígena traduziu do grego para o latim. As soluções desse problema oferecidas pela escolástica são substancialmente. em que são contidas as idéias eternas. imanente. pelas gnosiologias empirista e sensitista. contra a ciência (a filosofia) por eles considerada um resíduo pagão. princípio ativo (universal in re): . mas também gnosiológica e metafísica. Deste modo. fora da mente. teve uma solução radical no pensamento escotista. às espécies. geralmente adotada pela escolástica incipiente. Segundo a solução do realismo transcendente. em relação e enquanto representativos das coisas. fica assim configurada: 1°.A natureza que não é criada e cria (Deus Padre). imanente (aristotélica). termo. a idéia de uma realidade em si. . vaidade e orgulho. começa e se manifesta nos séculos XI e XII um renascimento especulativo. E isto não obstante a luta dos teólogos.A natureza que é criada e cria (o Verbo de Deus. dos místicos. particulares? O problema tem uma importância fundamental filosófica. Os 143 . e os dialéticos que a cultivavam. . e não como alfa. penetrar os mistérios mediante a razão iluminada por Deus. três: a solução chamada do realismo transcendente (platônica). ou até puramente nominal (nominalismo) . a solução nominalista. das idéias.no mundo clássico esta posição é defendida pelos sofistas. isto é. uma distração mundana. céticos.lecionar na escola palatina. a solução do realismo moderado. Erígena parte da revelação divina para. e retorno da multiplicidade à Unidade. realizadas mediante o Espírito de Deus). forma. Parece ter falecido em França pelo ano 877. 3°. por conseqüência. o universal. a divisão da natureza. Deus. princípio). as fases primeira e Quarta coincidem (Deus = não criado).é a solução platônica. como ômega. Foi condenada pela Igreja (1225).A natureza que não é criada e não cria (isto é.

coleção de sentenças contrastantes dos padres sobre assuntos da Escritura e da teologia . (século XII). O conceito que temos de Deus é o de um ser perfeitíssimo e. asceticamente. professor famoso em Paris. escreveu Da Divina Onipotência. Em conclusão. na contemplação de Deus. São Bernardo de Claraval no século XII. intencional. até colocá-la acima de toda lei racional. dos divinos mistérios. após uma aventura amorosa com Heloísa. Os livros das sentenças eram coleções sistemáticas . meios de salvação. para demonstrar a existência de Deus. queda. Também interessante é a sua posição crítica na pesquisa filosófica: a dúvida nos leva para a investigação. Pretende ele demonstrar a existência de Deus. dos autores dos libri sententiarum entre os quais o mais famoso é Pedro Lombardo. Na obra Sic et non . com um grande pendor para a crítica e a dialética. ainda que objetivamente mau. ao mesmo tempo. São Bernardo de Claraval rejeita. este argumento é contido no Proslogium. isto é. filósofo e teólogo. do contrário não mais seria perfeitíssimo. na vida moral. Em realidade. mas com intenção má. a fim de que haja ação plenamente moral. Nesta obra enaltece a onipotência de Deus. que lhe acarretou trágicas conseqüências. capaz de convencer imediatamente o ateu. Santo Anselmo (1033-1109) nasceu em Aosta.Abelardo se integra nas fileiras dos sentenciários. passar da ordem lógica para a ordem ontológica.elemento descurado na Idade Média em confronto com o elemento objetivo. centro cultural do mundo católico. Também ele é um platônico-agostiniano. redenção. o elemento subjetivo. ordenadas segundo o esquema: Deus. da fé e não da razão. foi condenado por dois concílios. a investigação nos leva à ciência. daí a vaidade da ciência. Dialética. arcebispo de Canterbury na Inglaterra. cardeal e arcebispo ostiense. da filosofia para entender Deus e as suas obras. natural de Bretanha. no nosso conhecimento. conselheiro do monge Hildebrando.mais ou menos críticas . grego e cristão. O seu lema é: creio para compreender. da ordem real à ordem ideal. Escreveu as obras seguintes: História das Calamidades. depois. Acusado de heresia. do que um ato executado conforme a lei. Pedro Abelardo (1097-1142). que são construções sistemáticas elaboradas criticamente. de Cristo crucificado. e culmina no êxtase. após Scoto Erígena. chamado precisamente magister sententiarum. onde se propõe demonstrar a existência de Deus com um argumento simples e evidente. São Pedro Damião. mais tarde Papa Gregório VII. Reconhecendo embora que são necessários os dois elementos. O caminho da sabedoria é a humildade. o argumento ontológico não vale: porquanto não podemos. As suas obras principais são: O Monologium. das idéias aos fatos. Conhece-te a ti mesmo.das doutrinas das Padres. mesmo faltando-lhe a profundidade e a capacidade sistemática de Santo Anselmo. A verdadeira sabedoria consiste no conhecimento da própria miséria. Abelardo é. 144 . Anselmo de Aosta é o primeiro grande filósofo medieval. estudante e. tornou-se religioso e foi peregrinando por muitos mosteiros e cátedras. da corrente dialética os maiores expoentes são: Santo Anselmo de Aosta no século XI e Pedro Abelardo no século XII. Abelardo sustenta ser mais moral um ato executado com reta intenção.maiores representantes da corrente mística são: São Pedro Damião no século XI. conto biográfico da sua aventura com Heloísa. foi monge prior e abade do mosteiro beneditino de Bec na Normandia e. Sic et non. Preparam as grandes sumas medievais. Abelardo é uma das mais originais figuras do mundo medieval. legal. mais tarde. partindo do mero conceito de Deus. logo. inclusive o princípio de contradição. o saber profano como um perigo e um luxo. O nome de Anselmo de Aosta é ligado ao famoso argumento ontológico. criação. Deus deve também existir realmente. especialmente as tomistas. o que significa partir da revelação divina. cético e sistemático. mas deve-se passar das coisas às idéias. No ensaio ético Conhece-te a ti mesmo valoriza. na compaixão para com a miséria do próximo. . faltando-lhe a existência. mas é preciso penetrar depois a fé mediante a razão. a priori.

145 . o século de ouro da escolástica e do pensamento filosófico cristão.Encerra-se assim o século XII e está nos albores o século XIII.

Este movimento cultural e filosófico se desenvolveu especialmente no âmbito das universidades. intensa e penetrante. inspirando-se na mentalidade aristotélica. foram os árabes . em princípios do século XII. após terem conquistado o oriente helenista. mas em harmonia hierárquica com a fé (Tomás de Aquino). mas crítica e racional. então surgidas e organizadas eficientemente. à revelação cristã.afirmava ao invés a subordinação da religião a filosofia quando as argumentações delas fossem contrastantes. que salvaram das invasões bárbaras durante as trevas medievais do Ocidente latino. que representa o ápice do pensamento helênico. foram as universidades de Paris e de Oxford. Foi o que fez. 146 . A atitude do mundo latino-cristão perante Aristóteles foi tríplice: uma decidida aversão à filosofia que queria constituir-se unicamente com meios racionais. Os maiores filósofos árabes conhecedores de Aristóteles e que influíram profundamente sobre o Ocidente latino-cristão. E assim. no fundo. Averroés. Como dissemos. que proporcionou aos latinos o conhecimento do genuíno pensamento do Estagirita. devido à importância que tinha naquele estabelecimento do ensino superior universitário a teologia.8 . Em seguida. Desta sorte. que foi identificado com a própria razão humana e preferido. foram civilizados pelo pensamento grego. uma universitas única. trouxeram-lhe a própria cultura impregnada de aristotelismo. por sua vez. a mais ilustre universidade da Idade Média. logo. Especialmente os papas protegeram a universidade de Paris. na Espanha. Era preciso traduzir do árabe para o latim as obras de Aristóteles e os comentários árabes. e considerava a religião como uma filosofia simbólica para o vulgo. ao passo que a universidade de Oxford dedicou-se especialmente às ciências naturais. nos meados do século XII. originariamente bárbaros eles mesmos. Mais tarde sentiu-se a necessidade de traduzir diretamente do grego as obras de Aristóteles.e secundariamente os hebreus . inspirando-se na mentalidade agostiniana.A ESCOLÁSTICA 8.O Século XIII: O Triunfo de Aristóteles A atividade filosófica da escolástica pré-tomista foi essencialmente lógico-dialética e. O conjunto dos professores e dos alunos da universidade de Paris. as grandes universidades medievais. o seminário dos filósofos e dos teólogos de todo mundo. . constituiu um corpo único. estendendo suas conquistas até o ocidente europeu. escolástico. depois de conhecido Aristóteles através da cultura árabe. E tal conteúdo lhe foi proporcionado pela descoberta do sistema aristotélico integral. um culto idolátrico para com o Estagirita. Ao mesmo tempo se desenvolveram as universidades. pelo qual se chegou à construção de uma filosofia distinta e autônoma. surgidas geralmente das escolas episcopais. e um retorno ao agostianismo (São Boaventura). uma sociedade de homens cultos surgida em Toledo. salvo à ciência e à caridade. os árabes. os quais a tudo renunciaram. desenvolveu especialmente a filosofia e a teologia. Guilherme de Maerbeke (falecido em 1286) fez essa tradução. O mundo latino-cristão. foram Avicena e Averroés.que levaram ao conhecimento do mundo latino-cristão a filosofia de Aristóteles. que estudou intensamente. e obteve das autoridades civis e religiosas reconhecimento jurídico e grandes privilégios. Os árabes. por conselho de Tomás de Aquino.1 . graças aos pensadores pertencentes às ordens religiosas. especialmente na Síria.o famoso comentador de Aristóteles . quando não concordava com a razão (averroísmo latino). uma aceitação e valorização do sistema aristotélico. famosas mais que todas as outras. apaixonou-se pela filosofia aristotélica. A universidade de Paris. Avicena tentou harmonizar a filosofia aristotélica com a religião islâmica. tal universidade se tornou como que a cidadela cultural da ortodoxia católica. formal. racional. e. esperava um conteúdo adequado. entraram em contato com a cultura grega. filosófico. Os árabes foram admiradores de Aristóteles e da sua filosofia. aristotélico. Esta atividade formal.

contra a vontade dos leigos e por desejo dos papas.Nessas universidades recém-organizadas. e também certa liberdade a respeito das obrigações conventuais.que haja teses filosóficas em contraste com o teísmo da religião. a tarefa da filosofia não é teórica e racional.2 . ao contrário. para tanto. foi geral da sua ordem e depois cardeal de Albano. que aceita o sistema aristotélico sem crítica nenhuma. é o aristotelismo exagerado averroísta.como admitia Averroés . por conseqüência. sobre a Redução das Artes à Teologia. estudou em Paris e. que lhe sugeriu a prova intuitiva da existência de Deus. enquanto ele é imediatamente presente ao espírito humano. professor na universidade parisiense. pois. A sua obra principal é Da Alma Intelectiva. As teses mais notáveis de Siger em contraste com o cristianismo são: a negação da providência divina. tantas quantas são as suas propriedades essenciais. inspirando-se no pensamento aristotélico. 8. Diametralmente oposto a este aristotelismo agostiniano. composta de forma e matéria. a afirmação da eternidade do mundo. A psicologia de Boaventura. Entre estas duas posições extremadas . se prestasse o agostinianismo. Os dominicanos dedicaram-se mais ao estudo. espanhol. e não chegar até subordinar a religião à filosofia. A característica nova e comum destas duas ordens religiosas foi a pobreza individual e coletiva.a respeito de Aristóteles. A metafísica de Boaventura. o Itinerário da Mente para Deus. Esta orientação filosófica é chamada averroísta. que realizará a justificação da filosofia e da teologia. inspirando-se na mentalidade agostiniana. a filosofia deve levar a Deus. e os Franciscanos. a afirmação da unidade do intelecto na espécie humana e a conseqüente negação da imortalidade pessoal do homem. Suas obras principais são: os Comentários a Pedro Lombardo. fundados por São Domingos de Gusmão. sustenta que a alma humana é uma substância completa independentemente do corpo. inclusive as essências angélicas e as almas humanas. donde o nome de mendicantes a elas atribuído. ainda que pareça limitar-se a sustentar a existência de duas verdades paralelas e contrastantes. sentimental do Pobrezinho de Assis que entrevia Deus e Jesus Cristo em todas as coisas. medeia Tomás de Aquino. como ele descreve no Itinerário. destarte. à ciência. 147 . pois. afetiva.Os Filósofos Franciscanos Os filósofos franciscanos julgaram fosse mister dar uma forma teórica à atitude prática. isto é. porquanto admite . com o seu misticismo e voluntarismo . sua maior influência entre as classes sociais elevadas.julgando inapto para esse fim o racionalismo. porque todos os seres são compostos de matéria e de forma. nasceu na Itália. E julgaram os filósofos franciscanos que. Segundo São Boaventura. a pluralidade das formas em um mesmo ser. italiano. auto-suficiente. O maior representante do agostinianismo antiaristotélico foi São Boaventura (1221-1274). será inteiramente infecundo. que se atinge imediatamente em todas as coisas e se possui pela união mística. os franciscanos. afirma três princípios diretamente opostos ao aristotelismo tomista: a existência de uma matéria geral sem as formas específicas. condenado mais tarde pela Igreja. e. fundados por São Francisco de Assis. O maior representante do averroísmo latino é Siger de Brabante (falecido pelo ano de 1284).de idolatria ou de irredutível hostilidade . entraram e tiveram preponderância professores pertencentes as duas ordens religiosas surgidas no século XIII: os Dominicanos. exercendo. para melhor facultar o cultivo do estudo e a pregação apostólica entre o povo. mais tarde. bem cedo. mas prática e religiosa. a universalidade da matéria fora de Deus. o empirismo e o intelectualismo aristotélicos. propuseram-se como finalidade principal a caridade ativa e tiveram uma enorme influência sobre o povo. A gnosiologia de Boaventura inspira-se no iluminismo agostiniano.

Houve. A gnosiologia iluminista-intuicionista agostiniana firma-se no escotismo não tanto como participação da inteligência humana na luz divina.5 . foi um temperamento genial e original. a Obra Parisiense.A Escolástica Pós-Tomista O tomismo era. João Duns Scoto. a fé não porém a ciência. donde surgirão a história e a ciência modernas . Segundo Bacon. Entretanto esse movimento terminará nas posições fideístas do pré-tomismo. Crítico agressivo das maiores autoridades da sua época. que Tomás tinha distinguido. da filosofia. o tradicional comentário das sentenças de Pedro Lombardo. mas também a experiência proporcionada pela iluminação interior de Deus. entendida como instrumento para entender a fé e não como obra autônoma do espírito. Faleceu em 1308. antes de tudo. 8. Bacon aceita também a unidade entre filosofia e teologia. cujas características tendências empiristas. positivas. não consegue distinguir o sofisma da demonstração verdadeira. inglês e franciscano. O agostinianismo de Scoto manifesta-se. as Questões Várias. Suas obras principais são: a Obra Oxoniense. indubitavelmente negligenciado pela escolástica clássica. sentiu profundamente o problema da concretidade e da experiência. foi obrigado a deixar a cátedra. um movimento excessivamente novo e arrojado. consequentemente. foi aluno e professor nas universidades de Oxford e de Paris. publicou ainda a Obra Menor e a Terceira Obra. como se vê. no entanto.que constituem o valor do pensamento moderno. como julga Tomás de Aquino. um vestígio do agostinianismo tradicional. e terminará. Após Ter lecionado algum tempo em Oxford. a teologia não é . a experiência.disciplina essencialmente especulativa como julga Aquinate .João Duns Scoto O maior expoente da escolástica pós-tomista é. contudo.Rogério Bacon Rogério Bacon (1210-1294). A ciência experimental constitui a fonte mais sólida da certeza. os Teoremas Sutilíssimos. a razão. acentuadas e tornadas piores após a poderosa construção crítica e racional do Aquinate. É.mas unicamente prática. são conhecidas. sem dúvida. experimentais. talvez.8. o doutor sutil. logo depois de uma reação violenta contra o tomismo. Do agostinianismo. Também ele. isto é. três são as fontes do saber: a autoridade. da ciência. Em todo caso. O centro desta escolástica pós-tomista é a universidade de Oxford. Nestas obras revela-se um crítico e um pensador de muito superior a São Boaventura. Estabeleceu-se então em Paris. na ruína da metafísica. na Inglaterra. tentando uma superação do racionalismo tomista. quer dizer. nascido na Inglaterra. A escolástica pós-tomista. no mesmo século XIII. a ciência. enciclopédico e místico. que julgou encobrir o seu anacronismo. um retorno especulativo ao agostinianismo. A razão proporciona essa compreensão. 8. onde levou uma vida agitada e foi condenado à prisão pelos próprios superiores da sua ordem. cientista e supersticioso. todavia.com suas técnicas . A autoridade dános a crença. deve-se entender por experiência não apenas a que se alcança pelos sentidos externos e nos oferece o mundo corpóreo. por sua vez. A sua obra mais importante é a chamada Obra Maior. E. Conforme Bacon. portanto. entrou na ordem franciscana e estudou nas universidades de Oxford e de Paris. se não achar fundamento e confirmação na experiência. em conformidade com o espírito do voluntarismo agostiniano.3 .4 . práticas. porquanto não nos fornece a compreensão das coisas que formam o objeto da crença. no conceito de filosofia. para poder súbita e definitivamente impor-se no âmbito do pensamento cristão medieval. está contra o chamado 148 . quanto como sendo a espontaneidade e a independência do intelecto com respeito ao sentido.segundo Scoto .

além do Comentário às Sentenças de Pedro Lombardo: Sete Várias Questões. Scoto concede. em linha de fato. conhecer diretamente as essências. pela vontade. por conseguinte. Suma de Toda a Lógica. o primeiro dá-nos a realidade. segundo Scoto. E isso seria devido . Centilóquio Teológico. princípio de todos os demais conhecimentos. mas tem uma realidade sua própria. mas unicamente porquanto é querida por Deus. Com efeito. são compostos de matéria e de forma. ao passo que o segundo nos dá apenas as semelhanças entre seres reais (as idéias gerais). que poderia impor uma ordem moral oposta. e. em que. É a doutrina do conhecimento intuitivo da essência da alma. a existência de Deus é demonstrável apenas com argumentos a posteriori.empirismo aristotélico-tomista. estudou e lecionou na Universidade de Oxford. uma substância completa. um opositor e um discípulo de Scoto: discípulo. a mentira. etc. ao passo que o conhecimento intelectual nos proporciona conhecer as relações lógicas entre conceitos abstratos. Em conclusão. o homicídio. que ele fez reviver no ambiente experimental da universidade de Oxford. a forma não é única.6 . destarte. seria a alma. porquanto o primeiro é intuitivo. decorrente do pecado. A tarefa do homem é conhecer para querer e amar. Scoto (contra a corrente agostiniana e em harmonia com o tomismo) ensina que Deus não é conhecido por intuição. Scoto põe também em Deus esse primado de vontade sobre o intelecto. a sensação é o sinal de um objeto na alma. mas o intelecto depende da vontade. seriam ações morais. a priori. Pelo contrário. Segundo Occam. e sim da vontade divina. Na teodicéia. O conhecimento sensível dá-nos as relações reais entre as coisas reais (o nexo causal. o adultério. não só as materiais mas também as espirituais. como exige o tomismo. Quanto à natureza divina. Guilherme nasceu em Occam na Inglaterra pouco antes do ano de 1300. sem nada nos dizer em torno da realidade das coisas. o conceito é sinal de mais objetos percebidos 149 . Na psicologia escotista aparece ainda uma doutrina inspirada no agostinianismo. ao mesmo tempo. o indivíduo se tornaria intelectualmente cognoscível. refugiou-se junto do Imperador.segundo o doutor sutil . o atributo essencial de Deus seria a infinidade. concreta e individual.Guilherme de Occam Guilherme de Occam é. Deus seria atingido. ao passo que o segundo é abstrato. deveria a alma. o conhecimento sensível é superior ao conhecimento intelectual. mas há multiplicidade de formas em cada indivíduo.. Contra o intelectualismo tomista. por natureza. e imorais as ações opostas. pelo amor e não pelo intelecto. o empirismo do nosso conhecimento. Desse modo. todos os seres.à escravidão da alma com respeito ao corpo. A matéria não é mera potência. na vida eterna. depois do realismo imanente aristotélico-tomista. as coisas criadas por Deus não dependem fundamentalmente da razão divina. mas de um elemento formal individual. então em luta contra o Papa. na visão beatífica. no sentido de que desenvolve o individualismo de haecceitas escotista no nominalismo. não o admite em linha de direito. Processado por heresia pela Santa Sé. fez-se franciscano. Faleceu pelo ano 1350. E também inspira-se no agostinianismo a doutrina de certa independência da alma com respeito ao corpo. por sua natureza. inexistente sem a forma. mesmos os espirituais. chamado haecceitas (que se sobrepõe à matéria por si subsistente e à hierarquia das formas). que não nos permite distingui-los um do outro. A individuação não depende da matéria (pelo que o indivíduo fica incognoscível intelectualmente). e escreveu várias obras para defender o imperador contra a Santa Sé. E a própria ordem ética não é intrinsecamente boa por motivo racional. um conhecimento vago e confuso deles. conforme o qual o nosso conhecimento começa pela sensibilidade. embora procure também combinar esta demonstração com o argumento ontológico. por exemplo. o furto. que se conhece só pela experiência). Suas obras especulativas são. 8. Scoto sustenta a primazia da vontade: a vontade não depende do intelecto.

etc. Estamos na linha do experimentalismo inglês da Universidade de Oxford. mas logo declina. pois. válido empiricamente. Portanto. nenhuma metafísica: o conhecimento de Deus. 150 . e deste deriva logicamente a ruína do conceito e. que nos faz conhecer os seres materiais. um sinal artificial. se Deus quisesse. da alma.. O ocamismo tem um êxito vasto e imediato nos séculos XIV e XV. é abandonado inteiramente à Revelação. da ciência. termina a escolástica medieval. historicamente. Esta absoluta divisão entre a razão e a fé. coloca o ocamismo em uma posição afim à do averroísmo da dupla verdade. degenerando num formalismo lógico. Com ele declina e. à fé (fideísmo). bem cedo a razão se porá contra a fé e a substituirá. representado pelo nome que é. da filosofia. é um sinal natural. sensíveis. indispensáveis à própria ciência natural. o Verbo poderia Ter-se encarnado num burro). a vontade de Deus é absolutamente livre para criar uma moral mesmo oposta à presente. e dado outrossim o voluntarismo divino escotista. a lógica que nos ilustra as relações entre os conceitos. a ciência humana reduz-se à física. e também não se pode provar . variável segundo as diversas línguas. de que é impossível demonstrar cientificamente a imortalidade.pela via de causalidade . da moral.como semelhantes.a alma. O conceito. segue-se que não são cognoscíveis. porquanto essas noções de substância e causa não são experimentáveis. Pelo fato de a alma e Deus não serem sensíveis. e para estabelecer uma outra ordem sobrenatural (por exemplo. conseqüentemente. Deus não se pode provar a posteriori mediante o princípio de causalidade. etc. Dado que em torno de Deus nada conhecemos filosoficamente. E deriva também a ruína das próprias noções de substância e causa. porém. desse experimentalismo deriva o empirismo. Com o diminuir da fé medieval e com o firmar-se do humanismo moderno. da moral. Destarte.

começada em 1265. que culminou com Agostinho. a escolástica chega ao seu ápice com Tomás de Aquino. salvo à ciência. exegese. onde lecionou teologia. entretanto. no castelo de Roccasecca.TOMÁS DE AQUINO 9. Sumas: Suma Contra os Gentios. quando regressou à Itália. Assim. em 1272. à metafísica. na sistematização imponente de Aristóteles. Sicília e Aragão. entrou na ordem dominicana. Da alma. ascética. em 1274. Era unido pelos laços de sangue à família imperial e às famílias reais de França. Adquire plena consciência dos poderes da razão. Tinha apenas quarenta e nove anos de idade. à ética de Aristóteles. bem mais importante. porém. Estrasburgo. passando a mocidade em Nápoles como aluno daquela universidade. 4. Também Alberto. aonde Alberto foi chamado para lecionar no estudo geral de sua ordem. Friburgo. onde teve entre os seus discípulos também Tomás de Aquino. O pensamento de Aristóteles. chamado à corte papal. Em 1269 foi de novo à universidade de Paris. converge para Tomás de Aquino não apenas o pensamento escolástico. As obras do Aquinate podem-se dividir em quatro grupos: 1. Para Tomás de Aquino. para resolver o problema do mundo. filosofia. tendo como mestre Alberto Magno. Dois anos depois. aos quatro livros das sentenças de Pedro Lombardo. que o acompanhou a Colônia. chega a Tomás de Aquino enriquecido com os comentários pormenorizados.ciências naturais. por ordem de Gregório X. abandonou o mundo e entrou na ordem dominicana.O Pensamento: A Gnosiologia Diversamente do agostinianismo. Questões: Questões Disputadas (Da verdade. pois. Depois de ter estudado as artes liberais. Da Eternidade do Mundo. Em 1252 Tomás voltou para a universidade de Paris. converge diretamente o pensamento helênico. 2. faleceu no mosteiro de Fossanova. 3. viajando para tomar parte no Concílio de Lião. entre Nápoles e Roma.1 . Comentários: à lógica. etc. 9. e em harmonia com o pensamento aristotélico. na Campânia. especialmente árabes. 151 . Opúsculos: Da Unidade do Intelecto Contra os Averroístas. Ensinou em Colônia. e proporciona finalmente ao pensamento cristão uma filosofia. a Dionísio pseudo-areopagita. Tomás triunfou da oposição e se dedicou ao estudo assíduo da teologia.). primeiro na universidade de Paris (12451248) e depois em Colônia. baseada substancialmente em demonstrações racionais. onde lutou contra o averroísmo de Siger de Brabante. da família feudal dos condes de Aquino. lecionou teologia na universidade de Paris.2 . mas também o pensamento patrístico.9 . Tal acontecimento determinou uma forte reação por parte de sua família. além do patrimônio de revelação judaico-cristã. onde ensinou até 1269. Nasceu Tomás em 1225. rico de elementos helenistas e neoplatônicos. teologia. Do mal. Recebeu a primeira educação no grande mosteiro de Montecassino. Suma Teológica. filho da nobre família de duques de Bollstädt (1207-1280). etc. voltou a Nápoles.A Vida e as Obras Após uma longa preparação e um desenvolvimento promissor. Tomás considera a filosofia como uma disciplina essencialmente teórica. A atividade científica de Alberto Magno é vastíssima: trinta e oito volumes tratando dos assuntos mais variados . ficando inacabada devido à morte prematura do autor. Questões várias. renunciando a tudo. à Sagrada Escritura. à física.

sem a materialidade do ouro. entre o objeto conhecido e o sujeito que conhece. julgar. o objeto sem a matéria: como a impressão do sinete na cera. O intelecto que propriamente entende o inteligível. ademais. mas transcende-o. é a evidência.é empírica e racional. e. sem a materialidade do sinete. feita explícita. Como no conhecimento sensível.intus legit . desindividualizada pelo intelecto agente. a essência das coisas é contida apenas implicitamente.Considera também a filosofia como absolutamente distinta da teologia. visto que muitos conhecimentos nossos não são evidentes. sem inatismos e iluminações divinas. é o intelecto passivo. a forma do objeto material na alma. sensível e intelectual. é preciso extraí-lo. é mister um intelecto agente que abstraia. atual. E. e o segundo pressupõe o primeiro. Mas. O conceito tomista de verdade é perfeitamente harmonizado com esta concepção realista do mundo. a cor do ouro percebido pelo olho. que nos garante conhecermos coisas e não idéias. a forma. realiza-se mediante a assim chamada espécie sensível. a representação da coisa (id quod intelligitur). no fenomenismo. sobre os quais exerce a sua atividade. mas na adequação entre a coisa e o intelecto: veritas est adaequatio speculativa mentis et rei. Esta é a impressão. Tem-se. desindividualize o inteligível do fantasma ou representação sensível. destarte. formam uma unidade mediante a espécie sensível. quer dizer. a forma universal das coisas. O conhecimento sensível do objeto.visto ser o conteúdo da teologia arcano e revelado. A gnosiologia tomista . tornam-se verdadeiros quando levados à evidência mediante a demonstração. o universal. a imagem. . compreendendo-lhes as essências. sem conceitos diferentemente de quanto pretendia o inatismo agostiniano. desmaterialize. no entanto. possui em si. Este intelecto agente é como que uma luz espiritual da alma. O sinal pelo qual a verdade se manifesta à nossa mente. O conhecimento humano tem dois momentos. id quo intelligitur). 152 . o espírito se torna todas as coisas. representando precisamente o elemento essencial. e não noa advém de fora. as formas. acontece no conhecimento intelectual. logo. potencialmente. isto é. a idéia. o da filosofia evidente e racional. desindividualizá-lo das condições materiais. Para que tal inteligível se torne explícito. mas as coisas podem ser conhecidas apenas através das espécies e das imagens. espacialidade. a espécie inteligível é o meio pelo qual a mente entende as coisas extramentais (é. O intelecto vê em a natureza das coisas .o inteligível. conheceríamos não as coisas. deste modo. na filosofia de Tomás de Aquino. É preciso claramente salientar que. temporalidade. O conhecimento intelectual depende do conhecimento sensível. E isto corresponde perfeitamente aos dados do conhecimento. que está fora de nós. etc. e é justificado experimentalmente e racionalmente. a essência. tem em si mesmo imanentes todas as coisas. a coisa sentida e o sujeito que sente. que contêm um elemento inteligível. mas os conhecimentos das coisas. mediante a qual ilumina ela o mundo sensível para conhecê-lo.que representa o objeto material na sua individualidade. A verdade lógica não está nas coisas e nem sequer no mero intelecto.não oposta . e não podem entrar fisicamente no nosso cérebro. a essência. a espécie inteligível não é a coisa entendida.diversamente da agostiniana e em harmonia com a aristotélica . Pelo fato de que o inteligível é contido apenas potencialmente no sensível. intuitivos. elaborar as ciências até à filosofia. mediante a espécie inteligível. é absolutamente desprovido de conteúdo ideal. Compreendendo as coisas.. Na espécie sensível . raciocinar. a idéia. neste caso. a que pertencem as operações racionais humanas: conceber. acabando. pois. é uma faculdade da alma individual. isto é. mas sem a matéria . como pretendiam ainda i iluminismo agostiniano e o panteísmo averroísta. E tal adequação é possível pela semelhança entre o intelecto e as coisas. abstraí-lo.mais profundamente do que os sentidos. do mesmo modo e ainda mais perfeitamente. a espécie inteligível.

para o mundo físico. 9. e chama-se matéria. universal e necessária. consistindo em uma falsa passagem na demonstração. toda substância corpórea é um composto de duas partes substanciais complementares.A Metafísica A metafísica tomista pode-se dividir em geral e especial. A ciência tem como objeto esta essência das coisas. A metafísica geral . É neste processo demonstrativo que se pode insinuar o erro. mas imperfeição relativa de mente e capacidade de conseguir uma determinada perfeição. Este princípio vale unicamente para a realidade material. é o princípio da matéria e de forma. porém. uma passagem necessária do universal para o particular. vidro) e é universal. e levando. para distingui-la da teologia revelada. pela qual é determinada. A individuação.A Natureza Uma determinação. essência. uma passiva e em si mesma absolutamente indeterminada (a matéria). A metafísica especial estuda o ser em suas grandes especificações: Deus. este ouro. e interessa portanto especialmente à cosmologia tomista. Os conhecimentos não evidentes são reconduzidos à evidência mediante a demonstração. perfeição. São certamente evidentes os princípios primeiros (identidade. Daí temos a teologia racional . a saber. destarte. as idéias. A forma é a essência das coisas (água. por si.ou ontologia . irrealidade absoluta. A causa eficiente é a que faz surgir um determinado ser na realidade. Não significa. Além destas duas causas constitutivas (matéria e forma). porém. este vidro). que colhe a essência das coisas. mediante a indução.Todos os conhecimentos sensíveis são evidentes. capacidade de concretizar-se. poucos são os nossos conhecimentos evidentes. a psicologia racional (racional. a concretização da forma. não-ente. a cosmologia ou filosofia da natureza (que estuda a natureza em suas causas primeiras. mas se tiram fundamentalmente da experiência. porquanto é filosofia e se deve distinguir da moderna psicologia empírica. Tal passagem da potência ao ato é o vir-a-ser. todos os conhecimentos sensíveis são. válida para toda a realidade.). a fim de que possa existir um ser completo e real (substância). é nada. os conceitos. como a potência é determinada pelo ato.assim chamada. mas pode tornar-se todas as coisas. No entanto. os seres materiais têm outras duas causas: a causa eficiente e a causa final. etc. ao passo que a ciência experimental estuda a natureza em suas causas segundas). Pelo contrário. como já dissemos. como a potência é determinada. contradição. que só realmente existem (esta água. e. A demonstração é um processo dedutivo. devidas ao intelecto. especificação do princípio de potência e ato. ouro.tem como objeto o ser em geral e as atribuições e leis relativas. imperfeição.3 . O princípio básico da ontologia tomista é a especificação do ser em potência e ato. É necessária para a forma. naturalmente é irreal. os universais.4 . 9. é a que realiza o sínolo. o espírito. isto é. que portanto representa o princípio de individuação no mundo físico. irreal sem a forma. é. Opõe-se ao ato puro a potência pura que. potência quer dizer não-realidade. intuitivos. A matéria não é absoluto. outra ativa e determinante (a forma)". verdadeiros. depende da matéria. o mundo. a síntese daquela determinada matéria com a forma que a especifica. este não muda e faz com que tudo exista e venha-a-ser. não são inatas na mente humana. Os chamados erros dos sentidos nada mais são que falsas interpretações dos dados sensíveis. é esta causa final que determina a ordem observada no universo. A causa final é o fim para que opera a causa eficiente. por conseqüência. que depende do ser que é ato puro. de per si. Ato significa realidade. no campo intelectual. à discrepância entre o intelecto e as coisas. em vários indivíduos. como pretendia o agostinianismo. Resume claramente Maritain esta doutrina com as palavras seguintes: "Na filosofia de Aristóteles e Tomás de Aquino. que é ciência experimental). e nem sequer são inatas suas relações lógicas. Em conclusão: todo ser material existe pelo concurso de quatro 153 .

não é composta de partes e. a vontade não pode ser senão a faculdade de um princípio imaterial.e mais intimamente ainda . isto é.material. Assim. que é precisamente a alma racional. que diz respeito ao homem.da doutrina da potência e do ato. de que é a forma. que pode ser a constatação do movimento. das causas. ainda mais limitado é o conhecimento que temos da essência divina. mas unicamente a posteriori. 9. como o ato do intelecto e o ato da vontade. espiritual embora. A atividade intelectiva é orientada para entidades imateriais. não tem uma vida plena sem o corpo. que são materiais. por conseqüência. o contingente ao necessário. a ordem à inteligência ordenadora".que é fundamental e como que norma para as outras . têm uma alma as plantas (alma vegetativa: que se alimenta. mas é cognoscível unicamente por demonstração. estas causas constituem todo ser na realidade e na ordem com os demais seres do universo físico. e a alma superior cumpre as funções da alma inferior. interessa apenas a alma racional. portanto. é imortal. chama-se alma. formal. e uma aplicação do princípio de causalidade. como a mais contém o menos.causas . por conseguinte. cresce e se reproduz).O Espírito Quando a forma é princípio da vida. pois segundo Tomás de Aquino. e os animais (alma sensitiva: que. Tomás sustenta que a alma. com relação ao respectivo corpo já formado. E. assim transcende a origem material do corpo e é criada imediatamente por Deus. se manifestam nele também atividades espirituais. diversamente do dualismo platônicoagostiniano. ainda que imortal. E a primeira dessas provas . espiritual. final. a psicologia racional. e também a alma. indeterminada . que sem Deus seria contraditória. Desse modo o corpo não pode existir sem a alma. Contrariamente à doutrina agostiniana que pretendia ser Deus conhecido imediatamente por intuição. a alma racional entende e quer. que a individualiza. as causas segundas à causa primeira. a mais da alma vegetativa. Portanto. As provas tomistas da experiência de Deus são cinco: mas todas têm em comum a característica de se firmar em evidência (sensível e racional). por sua vez. 9. da alma racional. "Cada uma delas se firma em dois elementos. ou seja. cuja solidez e evidência são igualmente incontestáveis: uma experiência sensível.5 .ao passo que o mundo material é regido por leis necessárias. No homem existe uma alma espiritual . que suspende o movimento ao imóvel. que pelo fato de ser imaterial. espiritual.Deus Como a cosmologia e a psicologia tomistas dependem da doutrina fundamental da potência e do ato. é imortal. Mas. o imperfeito ao perfeito. por conseguinte. para proceder à demonstração. não recorre a argumentações a priori.porquanto além das atividades vegetativa e sensitiva. que é o seu instrumento indispensável.unida com o corpo. nem viver. mas transcendendo-o . isto é. assim a teologia racional tomista depende . Tomás sustenta que Deus não é conhecido por intuição. esta atividade tem que depender de um princípio imaterial. e. existe uma forma só e. a existência de Deus. mediante a doutrina da matéria e da forma. Entretanto. Como a alma espiritual transcende a vida do corpo depois da morte deste. que é uma atividade cuja origem está dentro do ser.6 . é unida substancialmente ao corpo material. como os conceitos. eficiente. como sendo a que transcende infinitamente o intelecto 154 . Além de desempenhar as funções da alma vegetativa e sensitiva. sente e se move). a vontade humana é livre. partindo da experiência. uma alma só em cada indivíduo. do contingente. Se conhecermos apenas indiretamente. espiritual. pelas provas. dos graus de perfeição das coisas ou da ordem que entre elas reina. entretanto esta demonstração é sólida e racional. como a lógica exige.baseia-se diretamente na doutrina da potência e do ato.

as imperfeições. total. tirando. 155 . e não é falso. toda limitação e toda potencialidade. isto é. graças precisamente à famosa doutrina da analogia. antes de tudo sabemos o que Deus não é (teologia negativa). portanto. Esta doutrina é solidamente baseada no fato de que o conhecimento certo de Deus se deve realizar partindo das criaturas. um conjunto de negações e de analogias. livre e do nada. O que conhecemos a respeito de Deus é. A doutrina da analogia consiste precisamente em atribuir a Deus as perfeições criadas positivas. Segundo o Aquinate. é resolvido com base no conceito de criação.humano. que consiste numa produção do mundo por parte de Deus. Quanto ao problemas das relações entre Deus e o mundo. porém. entretanto conhecemos também algo de positivo em torno da natureza de Deus. mas apenas incompleto. porquanto o efeito deve Ter semelhança com a causa.

portanto. ao passo que a moral agostiniana é voluntarista. a vontade seria determinada por este bem infinito. não com argumentos intrínsecos. e o elemento subjetivo.A Moral Também no campo da moral. Segundo Tomás de Aquino. transcendentes à razão. Desta sorte. que Deus quis realizar no mundo. logo. a vontade não é condição de conhecimento. o estado não tem apenas função negativa (repressiva) e material (econômica). 156 . é finalmente conquistada a consciência do que é conhecimento racional e demonstração racional. etc. de que depende o bem comum dos indivíduos. Se o intelecto tivesse a intuição do bem absoluto. porém. em tudo quanto diz respeito à religião e à moral.9. de Deus. inseparável da natureza humana. A vontade tende necessariamente para o bem em geral. agir moralmente significa agir racionalmente. a lei. essencial. mas o estado um meio para o indivíduo. resulta que o homem é um animal social (político) e portanto forçado a viver em sociedade com os outros homens. que não é possível demonstração racional em matéria de fé. que tem como escopo o bem eterno das almas. 9. que se atinge mediante a razão. quer dizer. 2. mediante argumentos prováveis. em harmonia com a natureza racional do homem. pois. A primeira forma da sociedade humana é a família. E. agostiniana. Embora o estado seja completo em seu gênero. e sim da necessidade racional da divina essência. para nós. não evidentes. o que é impossível. subordinado. mas tem como fim o conhecimento. Entretanto. Em todo caso. E compreende-se. à Igreja. ao passo que o estado tem apenas como escopo o bem temporal dos indivíduos. no mundo a vontade está em relação imediata apenas com seres e bens finitos que. isto é. Destarte. não depende da vontade arbitrária de Deus. que garantem a autenticidade divina da Revelação. Ao invés. são necessários dois elementos: o elemento objetivo. fica. que levava inevitavelmente a uma confusão da teologia com a filosofia. Com base no sólido sistema aristotélico. se compreende como o indivíduo não é um meio para o estado. Tomás afirma e demonstra a liberdade da vontade. Tomás se distingue do agostinianismo. ciência e filosofia: é um lógico procedimento de princípios evidentes para conclusões inteligíveis. se a vontade não determina a ordem moral. segundo o sistema tomista. é a vontade todavia que executa livremente esta ordem moral. onde os princípios são. de evidência. milagres. para a integridade do ato moral. é livre. mistérios. razão e revelação. e igualmente ininteligíveis suas condições lógicas. que depende da vontade. Tomás de Aquino dá uma solução precisa e definitiva mediante uma distinção clara entre as duas ordens. a razão não é estranha à fé. que é uma determinada imagem da essência divina. isto é.7 . pois a moral tomista é essencialmente intelectualista. A demonstração da fé. é eliminada a doutrina da iluminação.).8 .Filosofia e Teologia Em torno do problema das relações entre filosofia e teologia. a Segunda forma é o estado. Analisando a natureza humana. não podem determinar a sua infinita capacidade de bem. Não é mister acrescentar que. com relação à fé. deve a razão desempenhar os papéis seguintes: 1. recorrendo a um argumento metafísico fundamental. mas também positiva (organizadora) e espiritual (moral). ciência e fé. A ordem moral. de que depende a conservação do gênero humano. conhecido intuitivamente pelo intelecto. mas com argumentos extrínsecos. Sendo que apenas o indivíduo tem realidade substancial e transcendente. a intenção. a ordem moral é imanente. portanto. porquanto procede da mesma Verdade eterna. A demonstração da não irracionalidade do mistério e da sua conveniência. e mais precisamente em torno do problema da função da razão no âmbito da fé. de credibilidade (profecias.

ainda que destinada a sobreviver-lhe pela sua natureza racional. tem o seu ponto de partida nos sentidos. portanto. Terceira característica do agostinianismo é o assim chamado voluntarismo. Sabemos que. Essa forma é enucleada. unida extrinsecamente a um corpo.como faz o agostinianismo . a alma é concebida como a forma substancial do corpo. o corpo é um instrumento indispensável ao conhecimento humano. de sorte que a bem-aventurança não consiste no gozo afetivo de Deus. uma espécie de natureza angélica. o espírito humano está em relação imediata com o inteligível. a Revelação e. como o início do pensamento moderno. pelo que a sacra teologia é ciência. este intelecto atinge. por conseguinte. A esta gnosiologia inatista. que conhecem mediante as espécies impressas. o conhecimento humano depende de uma particular iluminação divina. mas distingue-as e as harmoniza. é essencialmente prática. mas na visão beatífica da Essência divina. esta determinação tomista do conceito metafísico de natureza humana tornou possível a averiguação das reais. Acima do sentido há. por conseguinte. com a primazia do intelecto sobre a vontade. Por isso a alma era concebida quase como um ser autônomo. E demandam. racionalmente. O conhecimento. segundo a famosa expressão . e tem. precisamente. e a materialidade do corpo era-lhe mais de obstáculo do que instrumento. com todas as conseqüências de correntes da primazia da vontade sobre o intelecto. e ciência em grau eminente. em virtude da qual o campo do conhecimento humano verdadeiro e próprio é limitado ao mundo sensível. ao contrário. pois. precisamente como as inteligências angélicas. ao misticismo agostiniano.3. sem idéias inatas . sobre a base metafísica geral da grande doutrina da forma.como faz o averroísmo razão e fé. porquanto essencialmente especulativa. o conhecimento humano se realizava não através dos sentidos. ao passo que. de certo modo. e o inteligível nada mais é que a forma imanente às coisas materiais. por conseqüência. é o intelectualismo. efetivas vulnerações da natureza humana. é mais perfeito do que a ação. Tomás opõe francamente a gnosiologia empírica aristotélica. Viceversa. ao passo que a vontade o persegue sem conquistá-lo. A alma é. intuição do inteligível. no homem. portanto. enquanto a filosofia é concebida qual construção autônoma e crítica da razão humana. segundo a antropologia aristotélico-tomista. porquanto o intelecto possui o próprio objeto.9 . no campo católico. em especial. Ademais. assim como a gnosiologia platônico-agostiniana era conexa a uma correspondente metafísica e antropologia. estas vulnerações são filosoficamente. enucleação e sistematização das verdades de fé. não confunde . que. De modo que nasce uma unidade dialética profunda entre a razão e a fé.O Tomismo O tomismo afirma-se e caracteriza-se como uma crítica que valoriza a orientação do pensamento platônico-agostiniano em nome do racionalismo aristotélico. A característica do tomismo. Tomás. os dogmas do pecado original e da redenção pela cruz. 9. o tomismo se afirma e se caracteriza como o início da filosofia no pensamento cristão e.. abstraída pelo intelecto das coisas materiais sensíveis. mas é um intelecto concebido como uma faculdade vazia. segundo esta doutrina. idéias inatas. Esta doutrina é aplicada tanto na ordem natural como na ordem sobrenatural. para os agostinianos. incompleta sem o corpo. mediante contato direto com o mundo inteligível. um inteligível. com todas as relativas conseqüências. Por conseguinte.é uma tabula rasa. a uma antropologia. mas ao lado e acima dos sentidos. 157 . portanto. inexplicáveis. sim. logo. sim. um intelecto. que pareceu um escândalo. A determinação. tal unidade dialética nasce da determinação tomista do conceito metafísico de natureza humana.nem opõe . segundo a concepção platônico-agostiniana. Essa gnosiologia é naturalmente conexa a uma metafísica e.

estabelece-se. uma proposição é evidente quanto o atributo está incluído no sujeito. concorda que a verdade não existe. Mas como não sabemos o que é Deus. uma vez que o atributo é idêntico ao sujeito. Por conseguinte. a verdade e a vida". de fato. Daí resulta que o objeto designado pela palavra Deus. pelos princípios das demonstrações. 1: "O insensato diz em seu coração que não há Deus". que os termos são coisas gerais que todos conhecem. ela não é evidente para nós. 158 . de fato. ela o pode ser em si mesma e por nós. tem necessidade de ser demonstrada pelas coisas que. também existe na realidade. a verdade existe. como o ser e o não-ser. É por isso que Boécio diz: "Certos juízos só são conhecidos pelos sábios.Além disso. eu afirmo que a proposição "Deus é". Animal. Logo. considerada em si mesma. De fato. a existência de Deus é evidente. como é o caso dos primeiros princípios. Mas. a não-existência da verdade é uma afirmação verdadeira. Deus é a própria verdade. etc. 10). Deus. aquele que nega a existência da verdade. Ela pode ser demonstrada? 3. conforme diz o salmo 52. todos sabem o que são o sujeito e o atributo de uma proposição. Ora. sabemos. I.9. Mas se a verdade não existe. essa proposição será conhecida de todos. aquele segundo o qual os seres incorpóreos não estão num mesmo lugar". Por conseguinte. Com efeito. de imediato. menos conhecidas na realidade. Ora. Mas. que o todo é maior que a parte. é evidente por si mesma. pertence à noção de homem. ninguém pode pensar o oposto do que é evidente.A Existência de Deus é Evidente? Sobre a existência de Deus. Ora. que existe no pensamento. chamamos verdades evidentes aquelas cujo conhecimento está em nós naturalmente. que Deus existe. 3. É o que o Filósofo (Últimos Analíticos. Resposta . . essa palavra designa uma coisa de tal ordem que não podemos conceber algo que lhe seja maior. por exemplo. são ditas evidentes as verdades que conhecemos desde que compreendamos os termos que as exprimem. de imediato. Ela o pode ser em si mesma e não por nós. pelos efeitos. desde que se compreenda a palavra. I.Parece que a existência de Deus é evidente. conforme nos mostra o Filósofo (Metafísica. a existência de Deus é evidente. o são mais para nós. . a propósito dos primeiros princípios da demonstração. De fato. De fato. a existência de Deus é evidente. A existência de Deus é uma verdade evidente? 2. portanto. desde que tenhamos compreendido o sentido da palavra "Deus". 4 e Últimos Analíticos. . Ora. Se.Temos duas maneiras para dizer que uma coisa é evidente.10 . segundo o que diz São João. Ora. 6: "Eu sou o caminho. 14. em compensação. o oposto da existência de Deus pode ser pensado. É verdadeiro. a existência da verdade é evidente. o que existe na realidade e no pensamento é maior do que o que existe apenas no pensamento. Por conseguinte. a existência de Deus não é evidente. por exemplo: o homem é um animal.Por outro lado. Pois. se alguns não sabem o que são o atributo e o sujeito de uma proposição. de acordo com o que diz Damasceno: "O conhecimento da existência de Deus é inato em todos". mas não para aqueles que ignoram o que são sujeito e atributo. isto é. três questões se colocam: 1. 3) atribui aos primeiros princípios da demonstração. é certo que a proposição será evidente em si mesma. Por conseguinte. é seu ser. quando sabemos o significado de todo o significado da parte. E se alguma coisa há de verdadeira. o todo e a parte. Deus existe? 1. 2.

Mas a vontade daquele que vê Deus 159 . existem verdades que não possuem relação necessária com os primeiros princípios. Assim como o que é conhecido pelos sentidos é objeto da afetividade sensível. E não se pode concluir sua existência real salvo se se admite que essa coisa existe realmente. outros alhures. O mesmo acontece com relação à vontade.11 . quando é o próprio Pedro que chega. Alguns. por necessidade. devemos responder que a existência da verdade indeterminada é evidente por si mesma. necessariamente. exatamente como se pudéssemos saber que alguém chega. a vontade não adere necessariamente a Deus nem aos bens que a ele se relacionam. Desse modo. necessariamente. segundo Santo Agostinho. Ora. outros o colocam nos prazeres. Entretanto: Santo Agostinho diz que a vontade é a faculdade pela qual pecamos ou vivemos segundo a justiça. De fato.À primeira objeção devemos responder que. no sentido de uma coisa tal que não se possa conceber algo que lhe seja maior. ela não quer. o assentimento não é necessário. propriamente falando. Mas existem outros bens que implicam nessa relação. Mesmo que sustentemos que todos entendem a palavra Deus nesse sentido. tudo o que deseja. Faltando isto. pois é só nele que se acha a verdadeira felicidade. necessária e naturalmente. À segunda. assim o que é conhecido pela inteligência é objeto do apetite intelectual ou vontade. A tais bens. Existem bens particulares que não possuem relação necessária com a felicidade. Ora. 9. na medida em que reconhece a conexão das conclusões com os princípios por meio de uma demonstração. isto não significa que todos representam a existência dessa coisa como real e não como representação da inteligência. necessariamente. acreditaram que Deus fosse um corpo. o impulso do motor. assim a vontade adere ao fim último. com efeito. o objeto da vontade move-a necessariamente. Por conseguinte. Assim como a inteligência adere. O objeto está para a vontade assim como o motor está para o móvel. a vontade não adere necessariamente. mas que a existência da primeira verdade não é evidente em si mesma para nós. ele conhece naturalmente. os animais são arrastados pelo que vêem. o homem deseja naturalmente a felicidade e. isso não é admitido por aqueles que rejeitam a existência de Deus. A estas últimas a inteligência concede seu assentimento necessariamente. ela é capaz de desejar coisas contrárias. Por conseguinte. colocam o supremo bem do homem nas riquezas. aos primeiros princípios. Por conseguinte. aquilo que ele deseja naturalmente. em estado vago e confuso. são aqueles pelos quais o homem adere a Deus. a afetividade sensível. Conclusão: Eis como podemos prová-lo. À terceira. Muitos. ela tende necessariamente para o bem que lhe é proposto. conhecer a existência de Deus. seu assentimento a tais verdades. antes que essa conexão seja demonstrada como necessária pela certeza da visão divina. Mas existem proposições necessárias que possuem esta relação necessária. uma vez que Deus é a felicidade do homem. tais são as proposições contingentes cuja negação não implica na negação desses princípios. o conhecimento da existência é naturalmente inato em nós. Por conseguinte. isto é. visto que se pode ser feliz sem eles. Mas o objeto dos sentidos move. Mas isto não é. de fato Dionísio diz que o mal está fora do objeto da vontade. sem conhecer Pedro. Ora. tais são as conclusões demonstrativas cuja negação significa a negação dos princípios. Todavia. o movimento do móvel segue. podemos responder que aquele que ouve pronunciar a palavra Deus pode ignorar que essa palavra designa uma coisa tal que não se possa conceber algo que lhe seja maior. de fato.A Vontade Quer Necessariamente Tudo o Que Deseja? Dificuldades: Isso parece exato. parece que o objeto conhecido pela inteligência move a vontade necessariamente. A inteligência não concede.

se este não se lhe apresenta como um bem. Desse modo. ela não é. no caso em que a força dessa causa ultrapassa de tal maneira o móvel que toda capacidade que este tem de agir fica submetida à causa. Mas a capacidade da vontade. do mesmo modo como agora nós queremos. Por conseguinte. na medida em que se dirige para o bem universal e perfeito.em sua essência adere necessariamente a Ele. ser felizes. necessariamente. A causa motora produz. não pode estar inteiramente subordinada a qualquer bem particular. ela não é necessariamente determinada por um só. por necessidade. acionada por ele. é evidente que a vontade não quer. necessariamente. o movimento do móvel. 160 . tudo o que deseja. Solução: A vontade não pode tender para nenhum objeto. necessariamente. Mas como existe uma infinidade de bens.

de que depende o bem comum dos indivíduos. que levava inevitavelmente a uma confusão da teologia com a filosofia. agir moralmente significa agir racionalmente. mistérios. mediante argumentos prováveis. recorrendo a um argumento metafísico fundamental. que depende da vontade. deve a razão desempenhar os papéis seguintes: 1. não podem determinar a sua infinita capacidade de bem. em tudo quanto diz respeito à religião e à moral. ao passo que a moral agostiniana é voluntarista. Entretanto. de que depende a conservação do gênero humano. E. são necessários dois elementos: o elemento objetivo. E compreende-se. A primeira forma da sociedade humana é a família. que se atinge mediante a razão. e sim da necessidade racional da divina essência. quer dizer. a lei. milagres. que é uma determinada imagem da essência divina. e o elemento subjetivo. se compreende como o indivíduo não é um meio para o estado.12 . de Deus. A demonstração da não irracionalidade do mistério e da sua conveniência. transcendentes à razão. mas também positiva (organizadora) e espiritual (moral). à Igreja. para nós. Ao invés. mas com argumentos extrínsecos. para a integridade do ato moral. e mais precisamente em torno do problema da função da razão no âmbito da fé. onde os princípios são. que Deus quis realizar no mundo. se a vontade não determina a ordem moral. a ordem moral é imanente. de evidência. conhecido intuitivamente pelo intelecto. a vontade não é condição de conhecimento. essencial. Tomás de Aquino dá uma solução precisa e definitiva mediante uma distinção clara entre as duas ordens. porquanto procede da mesma Verdade eterna. agostiniana. mas tem como fim o conhecimento. que tem como escopo o bem eterno das almas. A ordem moral. Em todo caso. razão e revelação. Segundo Tomás de Aquino. A demonstração da fé.). a intenção. 2. a Segunda forma é o estado. Tomás se distingue do agostinianismo. em harmonia com a natureza racional do homem. pois a moral tomista é essencialmente intelectualista. Embora o estado seja completo em seu gênero. ciência e fé. logo. que garantem a autenticidade divina da Revelação. Destarte. porém. de credibilidade (profecias. no mundo a vontade está em relação imediata apenas com seres e bens finitos que. o estado não tem apenas função negativa (repressiva) e material (econômica). com relação à fé. mas o estado um meio para o indivíduo. é eliminada a doutrina da iluminação. resulta que o homem é um animal social (político) e portanto forçado a viver em sociedade com os outros homens. isto é. etc. Analisando a natureza humana. portanto. Com base no sólido sistema aristotélico.9. a razão não é estranha à fé. não com argumentos intrínsecos. ciência e filosofia: é um lógico procedimento de princípios evidentes para conclusões inteligíveis. A vontade tende necessariamente para o bem em geral. não depende da vontade arbitrária de Deus. Desta sorte. Não é mister acrescentar que. 161 . é finalmente conquistada a consciência do que é conhecimento racional e demonstração racional. portanto. subordinado. que não é possível demonstração racional em matéria de fé. isto é. Sendo que apenas o indivíduo tem realidade substancial e transcendente. é a vontade todavia que executa livremente esta ordem moral. segundo o sistema tomista. 9. ao passo que o estado tem apenas como escopo o bem temporal dos indivíduos. é livre.Filosofia e Teologia Em torno do problema das relações entre filosofia e teologia.A Moral Também no campo da moral. pois. fica. o que é impossível. inseparável da natureza humana. a vontade seria determinada por este bem infinito. Se o intelecto tivesse a intuição do bem absoluto. Tomás afirma e demonstra a liberdade da vontade.13 . e igualmente ininteligíveis suas condições lógicas. não evidentes.

é essencialmente prática. mas distingue-as e as harmoniza. estas vulnerações são filosoficamente. porquanto essencialmente especulativa. portanto. ao passo que. 162 . pelo que a sacra teologia é ciência. efetivas vulnerações da natureza humana. os dogmas do pecado original e da redenção pela cruz. a Revelação e. por conseguinte. De modo que nasce uma unidade dialética profunda entre a razão e a fé. E demandam. enucleação e sistematização das verdades de fé. A determinação. tal unidade dialética nasce da determinação tomista do conceito metafísico de natureza humana. Tomás. e ciência em grau eminente.como faz o agostinianismo . não confunde . inexplicáveis. precisamente.nem opõe .3. para os agostinianos.como faz o averroísmo razão e fé. esta determinação tomista do conceito metafísico de natureza humana tornou possível a averiguação das reais. racionalmente.

PERÍODO MODERNO 163 .IV.

não teve dificuldade alguma em aceitar toda a ciência natural moderna. É evidente que a passagem da concepção dualista (clássica) à concepção teísta (cristã) é um desenvolvimento lógico. especulativo. representa teoricamente uma ruptura. todavia. pois "ser" e "dever ser" são a mesma coisa. o do domínio natural do homem sobre a natureza: contanto que o homem reconheça. especialmente o pensamento da Renascença. não cria.1 . a história.1 . era escasso na mentalidade medieval o senso da concretidade e da individualidade. A historiografia medieval é. Mestre Eckart. que afirmava ser o objeto da ciência não as essências metafísicas das coisas. mas são separados entre si: Deus não conhece. helênico-escolástico. mas incapaz de resolver os problemas máximos da vida. insuficiente. morais. indiferente à filosofia. Além disso. mas Deus é resolvido num mundo natural e humano. metafísico.permanece através de todo o pensamento cristão em tentativas mais ou menos ortodoxas de síntese entre cristianismo e neoplatonismo (Pseudo Dionísio. imanentista. e.).capaz apenas de resolver os problemas da vida material. se. a técnica. Existem o mundo e Deus. como tal. mas empírico e técnico. Pelo contrário. ao contrário. por outra parte. mas desenvolvido no pensamento cristão mediante o conceito de criação. Não se julgue demolir a filosofia medieval. pois não é a ciência natural .após ter-se afirmado como extrema expressão do pensamento clássico . à concepção moderna. religiosos e políticos. religiosos . o novo tomismo. aristotélico-tomista. opondo à sua elementar e fantástica ciência da natureza a ciência moderna com suas grandes aplicações técnicas. Galileu Galilei. O pensamento moderno. naturalmente. acima de si e de tudo. E a ciência natural da Idade Média não está absolutamente em conexão com o pensamento filosófico medieval. teísta. a passagem da concepção tradicional. o próprio Tomás de Aquino julgava logicamente que a filosofia podia ser uma só. espirituais. alimentou suspeitas e combateu longamente contra a nascente ciência moderna. em virtude da qual é ainda afirmada a realidade e a distinção entre o mundo e Deus. tem seu precedente lógico no panteísmo neoplatônico. como tal. ao passo que admitia a possibilidade de uma ciência natural diversa daquela do seu tempo.O PENSAMENTO MODERNO 1. experimentalmente provados e matematicamente conexos. não governa o mundo. a escolástica pós-tomista.Transcendência Cristã e Imanência Moderna Achamos a característica específica do pensamento clássico na solução dualista do problema metafísico. que é a cristã e já teve a sua expressão clássica na Cidade de Deus 164 . de fato. sem o qual não é possível a história verdadeira e própria. pois. descuidada. a metafísica tomista. E. Aplicações técnicas que possuem também um valor espiritual. Tal dualismo não será negado. a favor da velha ciência natural aristotélica. Deus. podemos dizê-lo analogamente da história. não se pode mais falar em transcendência de valores teóricos e morais. encontrará nos grandes valores da civilização moderna (a ciência natural. em adequação à realidade. e. mas Deus é feito criador e regedor do mundo: o mundo não pode ter explicação a não ser em um Deus que transcende o mundo. etc. à metafísica. O valor da ciência moderna não é teórico. o pensamento tradicional. que se manifesta especulativamente no desenvolvimento tomista de Aristóteles. finaliza em uma concepção monista-imanentista do mundo e da vida: não somente Deus e o mundo são a mesma coisa. porquanto esta representa uma valor infrafilosófico. O que dissemos da ciência. e sim os fenômenos naturais. Consequentemente. sem dúvida. a política) sua integração lógica.que pode decidir do valor de uma civilização. Tal era também o pensamento do grande fundador da ciência moderna. Mas a concepção medieval da história. ingênua. E destes conhecimentos experimentais e matemáticos de fenômenos naturais derivava ele as primeiras grandes aplicações técnicas da ciência moderna. Scoto Erígena. a nova escolástica. que . decadente. O pensamento moderno. isto é. o "dever ser" coincide com o "ser".

na alta Idade Média. em seguida. praticamente liberal. compreensiva e ativa com respeito ao Estado. cristão). Mas cumpre ter presente que. devendo esta última fornecer à primeira a sua rica contribuição de fatos. as comunicações. foi. mas apenas práticas e morais. teologia e filosofia. mas não leigo. Igreja e Estado. imanentista. que será constituída por todo o pensamento moderno em seu desenvolvimento lógico. Este pensamento começa com a prevalência dada aos interesses e aos ideais materiais e terrenos. a atitude da Igreja. Em seguida virá a justificação teórica da nova atitude espiritual. com que se acham em oposição. Tais precedentes especulativos podem ser resumidos desta forma: o panteísmo neoplatônico. destruído pelo humanismo imanentista. E é na Idade Média que se formam as grandes nações modernas. com o conseqüente esquecimento dos interesses e ideais espirituais e religiosos. o seu interesse pela concretidade. No entanto. O grandioso edifício ideal da Idade Média.o exílio avinhonês e o cisma do ocidente. a indústria. etc. Basta lembrar. nos séculos de ferro. orgânico.a prescindir-se das intenções dos homens e de suas fraquezas fatais . especialmente tomista. o seu profundo senso histórico.. e foi conservada para a idade moderna. clero e laicado.Os Precedentes do Pensamento Moderno Dada a ruptura lógica entre o pensamento tradicional. valorizados pela nova atitude espiritual. isto não foi senão uma expressão exterior daquela estrutura profunda que se chama a cristandade: equivalente civil da igreja católica. e o pensamento moderno. quando os homens e os tempos estivessem maduros. católico. a igreja romana e o clero católico desempenharam funções também leigas e profanas. capaz de abraçar os mais diversos organismos políticos. como o Sacro Império Romano. Poder-se-ia fazer notar que tal efetiva distinção e relativa autonomia do Estado (e do laicado) com respeito à Igreja (e ao clero) foram alcançadas através de uma longa luta contra o predomínio e a invasão destes últimos. se não há causas lógicas do pensamento moderno. há. o comércio. interiormente organizado e politicamente soberano. no período bárbaro. 165 . mas cristão. por exemplo. Costuma-se inculpar a civilização medieval por ter aniquilado o estado nacional concreto. os quais foram-se afirmando contemporaneamente a uma gradual decadência do genuíno pensamento escolástico (racional. estavam harmonizados na transcendente unidade cristã. É precisamente o que acontece com os homens inteiramente entregues aos cuidados mundanos: primeiro se esquecem das coisas transcendentes. a este respeito. para construir uma unidade política grandiosa. de fato. não se podem achar causas racionais dessa mudança. o aristotelismo averroísta e o nominalismo ocamista. Entretanto. pelo fato de que ninguém estava em condições de fazê-lo. que. porém. desde os comunas medievais até às grandes monarquias européias do século XVII e ainda além. e até a agricultura. e torna-se completo com a justificação dos primeiros e a exclusão dos segundos. bem como o laicado distinto do clero e organizado civilmente em graus de corporações. E tal decadência cultural é acompanhada. é na Idade Média que se formou o Estado distinto da Igreja. e. em que a religião e civilização. como. imanentista. teísta. querendo ser coerentes. 1. Aliás. a assistência hospitalar. E é devido a isso que a civilização não pereceu. ateu. uma utopia universalista. romano.a livrar-se desses cuidados estranhos gravosos e perigosos para o seu ministério transcendente e sobrenatural.de Agostinho é perfeitamente conciliável com a indagação histórica moderna. se tornarão fontes especulativas do próprio pensamento moderno. precedentes especulativos. pela decadência da Igreja e do Papado . Noutras palavras. Nem se deve esquecer que precisamente na comuna medieval se encontra a primeira origem do estado moderno. a instrução cultural. por sua vez. teísta. mas abstrata. que constitui o espírito característico do pensamento moderno. a Igreja católica estava apta e disposta .2 . negam-nas.

porquanto não se pode provar racionalmente a existência de Deus. naturalmente não se manifesta na sua significação imanentista senão na plenitude do seu desenvolvimento. Após a revolução renascentista e protestante. segundo Occam. portanto. sensível. Occam procurará salvar-se do ceticismo . Trata-se. ao mesmo tempo. 3. que abrangem os séculos XVII e XVIII. Este. Mas ruirá quando a fé vier a faltar. consequentemente. deixando o terreno livre ao empirismo. gnosiológicas.conclusão do seu sistema. da Reforma e também do pensamento posterior. O occamismo marca a conclusão lógica da decadente escolástica pós-tomista. que não pouco deve aos precedentes. nos sistemas deles. ao naturalismo.sendo desconhecida a essência de Deus e destruída a do homem .torna-se uma adesão cega.A este primeiro período do pensamento moderno. torna-se impossível a ética racional. que transcende o mundo empírico. de Nicolau de Cusa. ao ceticismo. ao nominalismo.E outro tanto fará e empirismo em relação ao conhecimento sensível. Telésio. O averroísmo latino afirmara na Idade Média a sua famosa doutrina das duas verdades: o que não é verdadeiro em filosofia pode ser verdadeiro em religião e vice-versa. pelo mesmo motivo. não para demolir aquelas intuições revolucionárias. opostas entre si. . como a gnosiologia sensista está certamente em oposição à gnosiologia intelectualista. que é o pensamento moderno. É o que fará especialmente o racionalismo em relação ao conhecimento racional. de uma afirmação ainda não plenamente consciente e sistemática. porquanto a fé . e tem como seu equivalente religioso a reforma protestante. com Giordano Bruno. manifesta-se através de uma série de períodos. com todas as conseqüências práticas . Em época de religiosidade ainda viva. que. Nicolau de Cusa. bem como da ciência. ao contrário. no âmbito do cristianismo. é potentemente afirmada e vivida.mediante a fé. que é entretecida de conceitos. Tentará afirmar-se de novo na própria época de Tomás de Aquino com Mestre Eckart. o qual depende. em que a concepção imanentista.Antes de tudo a Renascença. A Renascença é preparada pelo Humanismo. . porém. Portanto. substancialmente. de sorte que se esvai da teodicéia. aristotélica ou não. abrange os séculos XV e XVI. esse fideísmo ocamista pôde praticamente ficar de pé. apresenta um elemento fundamental da filosofia moderna com o seu empirismo e nominalismo. e que constituirão tão grande parte do pensamento da Renascença. que o homem tem que observar por fé. o maior pensador da Renascença. Em uma idade cristã. em que o novo é misturado com o velho. imanentes ao ocamismo. muitas vezes. Campanella serão também herdeiros do nominalismo empirista de Occam. sente-se a necessidade de uma séria indagação crítica. que se combina. a afirmação religiosa podia Ter a prevalência sobre a negação filosófica. prevalece. 1. como a Idade Média. concordam em um comum 166 . devia prevalecer uma concepção anti-cristã. nem conhecer a sua natureza. e.O panteísmo neoplatônico teve a sua primeira grande manifestação. sobretudo.3 . por sua vez. se seguem o racionalismo e o empirismo.Os Períodos do Pensamento Moderno Este grande movimento especulativo.não podendo mais ser um racional obséquio . o conhecimento humano é reduzido ao conhecimento sensível do singular e. Conseqüência lógica e consciente é a destruição da metafísica. humanista ou naturalista. Entretanto. E. porque . E. Bruno.a moral fica reduzida a um conjunto de preceitos arbitrários de Deus. . Como é sabido. impossíveis de nominalismo. ao nominalismo. o iniciador da mística alemã. com uma metafísica aventurosa de cunho particularmente neoplatônico. Entretanto é uma posição insustentável. como na Renascença. ao menos na exterioridade da forma lógica e literária. e a psicologia racional. apesar de seus partidários se comprazerem em denominá-la via modernorum. que se podem historicamente (e dialeticamente) indicar assim: 1. E receberá uma nova original elaboração do Humanismo com Nicolau de Cusa. com Scoto Erígena. obscurecendo-se a fé. para dar-lhes uma sistematização lógica. mas. 2. Empirismo e racionalismo são tendências especulativas.

moral. encontrarão uma saída prática. social. triunfa na França e se espalha. em ambos.Empirismo e racionalismo. esta representa a concreta realização do pensamento moderno na civilização moderna.fenomenismo. gradual e silenciosa maturação. Esse movimento começa na Inglaterra. pois. 167 . em seguida. na Alemanha e na Itália. após uma lenta. religiosa no iluminismo e. . política. na revolução francesa (Segunda metade do século XVIII). portanto. Não se conhecem as coisas e sim o nosso conhecimento das coisas. o sujeito é isolado do ser e fechado no mundo das suas representações. 4.

o velho persiste ao lado do novo. gregas. na Idade Média. e de que parece um retorno. tão característica dos homens da época. o ideal da vida daquela época. Esses elementos são essencialmente formais e estéticos porque a grande valorização cristã da civilização clássica . do Humanismo e da Renascença: uma alma pagã. pois. Essa é a alma. dominar. E os elementos novos do humanismo . não é obra dos séculos XV e XVI. de fato.como já aconteceu no paganismo antigo. a história. É uma multiplicidade de motivos indiscutivelmente dominada pelo espírito panteísta do neoplatonismo.O Renovamento das Antigas Escolas Filosóficas Uma das manifestações características da Renascença é o renovamento das antigas escolas filosóficas. particularmente no campo da prática. em geral. O Humanismo pode. Dar uma documentação formal desse caráter pagão. entretanto. não o valor. pelo seu naturalismo que diviniza o homem material . dando origem àquela duplicidade especulativa e prática. que . livre de si mesmo. mas procurará alimento no ativismo agitado e sem meta. mera obra do homem.2 . se se tiver presente Nicolau Machiavelli.A RENASCENÇA 2. 2. celebrado. imanentista. mas tem consciência de que a sua doutrina . em que se poderá claramente conhecer a árvore pelos frutos. o significado. estando acima da religião e da moral transcendente. que atravessou toda a Idade Média. o que é manifestado pelo seu individualismo. um humanismo cristão. definir-se pela palavra: o homem potenciado. pelo seu estetismo. em si mesmos. e. apela. logo. senhor do mundo. são infrafilosóficos.Características Gerais A Renascença é uma poderosa afirmação. porquanto espiritual e interior. Na Idade Média o pensamento clássico foi bem conhecido e 168 . pela teologia católica e. É uma dualidade composta de velho e de novo. indiferentes a qualquer concepção da realidade.2 . mas do século que se abre com Inocêncio III e se encerra com Dante. o qual parece reconhecer a obscuridade e a incoerência do seu pensamento. de humanismo e de imanentismo. a unidade real e potencial dos grandes valores da civilização no valor sumo da religião. e enaltecia não o Pobrezinho de Assis e sim o Príncipe Valentino. se se pensar em Giordano Bruno.sem possuir uma metafísica consciente .está persuadido de que o Estado. dominador da natureza. pelo seu ardente interesse pelo mundo a conquistar.do pensamento grego e do jus romano . Não há. em que se entretecem motivos multíplices. do Humanismo e da Renascença não é coisa fácil. pois trata-se de um período inicial. portanto. falta ao Humanismo moderno a espontaneidade e a serenidade do paganismo antigo: o Humanismo moderno não descansará em um tranqüilo gozo da vida. característico da idade moderna.1 . clássicas. racionalmente. a política . tal espírito era corrigido. exaltado até à divindade. religiosamente. um paganismo ainda mais radical que o antigo. imanentista.racionalista. é o vértice da humanidade. e viu Francisco de Assis e Antonio de Lisboa. Domingos de Gusmão e Tomás de Aquino.a ciência. Mas o início do Humanismo e da Renascença é rico de todos os germes que se desenvolverão no sucessivo período moderno. para o qual o Humanismo. que seria uma contradição em termos.era já um fato consumado. o maior filósofo da época. e prefere o paganismo ao cristianismo. É. pela escolástica tomista. gozar com meios humanos. a técnica. Entretanto. em que não será difícil separar o elemento interior do elemento exterior: se se considerar. que chamava virtude a força.não se podem dizer imanentistas antes que cristãos. O renascimento cristão. sobretudo. e. monista e humanista . com razão. ao lado do humanismo pagão.é um crepúsculo preludiando o dia e não a noite.

valorizado. No entanto, tal conhecimento e valorização diziam respeito aos maiores filósofos gregos, em especial a Aristóteles. Na Renascença, ao contrário, volta-se à sancta antiquitas, em oposição ao espírito cristão. E valorizam-se as antigas escolas filosóficas, realçando-lhes o conteúdo de humanidade, presente em todas elas, não obstante a variedade de suas orientações. Naturalmente não são, nem podiam ser, as escolas filosóficas clássicas em sua espontaneidade original, pois, entre a classicidade e a Renascença, medeiam quinze séculos, profundamente influenciados pela mensagem cristã. E, após o aparecimento da Cruz, já não é mais possível o retorno à serenidade clássica de Aristóteles ou ao ascetismo imanentista dos estóicos. Na Renascença são representadas, mais ou menos, todas as escolas filosóficas antigas: o platonismo, o aristotelismo, o estoicismo, o epicurismo, o ceticismo e o ecletismo. Especialmente as duas primeiras e, entre estas, precipuamente a primeira. O aristotelismo da Renascença exclui, naturalmente, a interpretação de Aristóteles dada por Tomás de Aquino, e sustenta ou a interpretação naturalista de Alexandre de Afrodísia, ou a panteísta de Averroés. O platonismo é, mais propriamente, neoplatonismo: já porque assim se tinha fixado na antigüidade e neste sentido influenciara toda a Idade Média (pseudo Dionísio Areopagita, Scoto Erígena, Mestre Eckart); já porque a sua fundamental concepção panteísta e o seu potenciamento do espírito humano podiam melhor corresponder ao imanentismo e humanismo da Renascença. 2.3 - O Platonismo O ídolo da Renascença é Platão: artista e dialético, teórico do amor e da beleza, iniciador da ciência matemática da natureza. Em 1404 Leonardo Bruni aretino (1369-1440) publicava a primeira tradução parcial de Platão, iniciando, destarte, a renascença platônica. Em 1429 o camaldulense frei Ambrósio Traversari, de volta de Constantinopla, levava para a Itália o conjunto completo dos escritos platônicos. Entretanto foi o Concílio de Florença (1439) que deu um impulso decisivo aos estudos platônicos na Itália ¾ bem como aos estudos aristotélicos e dos filósofos clássicos, em geral. Esse Concílio foi convocado para a união da igreja grega com a igreja latina, e chamou para a Itália vários doutores orientais, conhecedores profundos de Platão. Outros vieram pouco depois, devido à queda de Constantinopla (1453) em mãos dos turcos. Famoso é Jorge Gemistos Pleton (1355-1450), autor da obra Sobre a Diferença da Filosofia Platônica e Aristotélica, que, realmente, é uma polêmica antiaristotélica. Esse escrito provocou uma resposta violenta ao aristotélico Jorge de Trebizonda (Comparatio Platonis et Aristotelis). Este filósofo - apelando também para Tomás de Aquino - sustenta a superioridade de Aristóteles sobre Platão pelo seu espírito científico, pela sua doutrina em torno de Deus e da alma, e pela conseqüente possibilidade de concordar a sua filosofia com o cristianismo. Da parte platônica, replicou contra Jorge de Trebizonda o seu concidadão Basílio Bessarione (14031472) com o escrito In calumniatorem Platonis. Bessarione, eminente prelado da igreja oriental, veio para a Itália com o séqüito do imperador João VII Paleólogo, para tratar da unificação da igreja grega com a igreja latina. Foi feito cardeal pelo Papa Eugênio IV e permaneceu na Itália, cooperando eficazmente para o incremento do ressuscitado helenismo. Depois desse platonismo de importação oriental, na Segunda metade do século XV surge e firma-se um platonismo italiano. O centro foi precisamente Florença, onde foi celebrado o famoso Concílio. Seu principal representante foi Marsílio Ficino, animador da célebre academia platônica florentina. Esta academia nasceu graças a um cenáculo de literatos, artistas e pensadores, amigos da casa De 169

Médicis. Fizeram parte deste cenáculo Poliziano, Pulci, João Pico della Mirandola e o próprio Lourenço, o Magnífico. Marcílio Ficino nasceu em 1433 em Figline Valdarno. Protegido por Cosme De Médices, que o presenteou com uma Quinta, onde teve sua sede a academia platônica, pode consagrar toda a sua vida aos prediletos estudos filosóficos. Em 1473 foi ordenado padre e a sua vida foi muito austera no meio de Florença do século XV. Faleceu em 1499. Sua atividade principal foi traduzir. Traduziu elegantemente, para o latim, Platão (1477) e Plotino (1485), além de outros neoplatônicos. Expôs o seu pensamento em uma grande obra (Theologia platonica de immortalitate animorum - 1491), em que procura concordar o platonismo, de que era entusiasta, com o cristianismo, em que acreditava seriamente. Entretanto não foi um metafísico, mas um eclético e suas finalidades eram morais. Sua idéia animadora é a exaltação do homem como microcosmo, síntese do universo: conceito antigo, neoplatônico, mas que teve no humanismo do Renascimento um valor e um significado particulares. Outra idéia sua inspiradora é o conceito de uma continuidade do desenvolvimento religioso, que vai desde os antigos sábios e filósofos Zoroastro, Orfeu, Pitágoras, Platão - até o cristianismo: expressão do universalismo religioso da Renascença. Depois de Marsílio Ficino, o mais famoso platônico pode ser considerado João Pico della Mirandolla (1463-1494), autor de De dignitate hominis, que professa verdadeiramente um ecletismo baseado no platonismo e no cabalismo. Dotado da mais vasta e heterogênea cultura, após várias peregrinações, estabeleceu-se em Florença junto de Lourenço, o Magnífico. Aí entrou em contato com Marsílio Ficino, que influiu no seu temperamento exuberante e passional, equilibrando-o filosófica e religiosamente. "Blasonava de poder disputar de omni rescibili - escreve Franca - e foi tido por seus contemporâneos como um prodígio de memória. Aos 18 anos sabia 22 línguas"! 2.4 - O Aristotelismo Não é sempre fácil distinguir o aristotelismo do platonismo da Renascença, porquanto, freqüentemente, aparecem confusos no sincretismo neoplatônico, que é a tendência especulativa dominante na época. Também o aristotelismo, como o platonismo, teve impulso, graças aos sábios gregos vindos para a Itália, tradutores de Aristóteles e dos seus comentadores, entre os quais lembramos, no século XV, Teodoro de Gaza e o já mencionado Jorge de Trebizonda. Como já foi dito, o aristotelismo da Renascença se distingue em duas correntes principais: a naturalista inspirando-se em Alexandre Afrodísio, e a panteísta-neoplatônica, inspirando-se em Averroés, ambas contrárias à interpretação tomista-cristã. Prevalece a escola alexandrina, cujo imanentismo naturalista é mais conforme ao espírito do Renascimento. A escola averroísta, entretanto, considerando o intelecto humano como sendo a atividade de uma essência transcendente e divina, contrasta o humanismo imanentista da mesma Renascença. O mais famoso entre esses novos aristotélicos é Pedro Pomponazzi, alexandrista, nascido em Mântua em 1462, professor de filosofia nas universidades de Pádua, Ferrara e Bolonha, onde faleceu em 1525. É célebre o seu opúsculo Sobre a Imortalidade da Alma, publicado em Bolonha em 1516. Neste opúsculo conclui em favor da mortalidade da alma, sustentando que esta realiza o seu fim último na vida terrena. Para conciliar, pois, esse seu racionalismo com a religião cristã, recorre a certas distinções que relembram a velha teoria averroísta das duas verdades: a religião é, no fundo, justificada como sendo a filosofia do vulgo, para finalidade prática e pedagógica. Respondiam a Pomponazzi, Nifo (averroísta) e Contarini (tomista) com dois ensaios tendo o mesmo título (Sobre a Imortalidade da Alma); e Pomponazzi replica como uma Apologia (contra Contarini) e com um Defensorium (contra Nifo). Nem a morte pôs termo àquela polêmica. 170

O aristotelismo teve, na Renascença, uma fortuna especial no campo da estética, da poética, em torno de que se disputou longa e fervidamente, em especial por parte dos literatos. Parte-se da Poética de Aristóteles, cuja primeira tradução remonta ao ano de 1498, por obra de Jorge Valla. Aristóteles sustentara ser a arte - bem como a história - uma imitação da realidade. Entretanto, a arte é superior à história, porquanto tem como objeto o universal, o necessário, a essência das coisas; ao passo que a história tem como objeto o particular, o contingente, o acidental. Em torno deste tema se travam as disputas mais variadas. 2.5 - O Estoicismo O espírito autônomo da Renascença devia provar viva simpatia para o sábio estóico, impassível, dominador das coisas e dos eventos. O estoicismo não foi apenas objeto de admiração cultural, literária, mas tornou-se ideal de vida moral em lugar do cristianismo, escola de energia e de conforto. O estoicismo da Renascença, porém, é preso pela ação, diversamente do estoicismo clássico, negador da ação, considerada causa de perturbação. O estoicismo renascentista enaltece o homem, a vida, o mundo, contra a concepção transcendente e ascética cristã. Seja como for, a moral estóica, mais ou menos ajustada ao cristianismo, desfrutou de grande favor junto dos filósofos das mais diferentes tendências nos séculos XVI e XVII. O estóico mais notável da Renascença foi o belga Justo Lípsio (1547-1606), professor em Lovaina, autor de De Constantia, e de Manuductio ad stoicam philosophiam. 2.6 - O Epicurismo O epicurismo, melhor do que o estoicismo, condizia com o espírito humanista, imanentista e mundano da Renascença, em especial na vida gozadora e requintada, voluptuosa e artística da cortes esplêndidas da época, e também na literatura e no pensamento. João Boccaccio, autor do Decamerone, em o século XIV, e Lourenço, o Magnífico, no século XV, são duas expressões práticas desse espírito epicurista. O expoente mais notável dessa tendência epicurista é Lourenço Valla (1407-1459), autor do famoso livro De voluptate ac de vero bono, onde o autor compara a moral estóica e a epicurista, simpatizando, naturalmente, com esta última. Quanto à vida futura, Valla oscila entre a sua negação e uma representação no sentido hedonista, e tente, uma certa conciliação entre epicurismo e cristianismo; mas fica decididamente hostil ao ascetismo, quer cristão, quer estóico. 2.7 - O Ceticismo Também o ceticismo da Renascença foi inspirado pelo ceticismo clássico. E também este novo ceticismo renascentista surgiu mais por fins práticos do que por motivos teóricos. Os motivos mais específicos que deram origem ao ceticismo da Renascença foram: a sede do individual, da concretidade; a paixão pela observação detalhada própria do pensamento moderno em geral, em oposição ao pensamento antigo e medieval, voltados para o universo e o abstrato; a variedade e o contraste das diversas escolas e tradições (filosóficas e religiosas); a mentalidade literária da época, apaixonada pela estética, e incapaz de levantar grandes construções sistemáticas; a religiosidade persistente, que julgava salvar a fé deprimindo a razão, tendo esta atacado, freqüente e violentamente, a religião; o contraste entre a exigência religiosa e o paganismo da vida que surgia de novo. O ceticismo da Renascença tem seus maiores expoentes fora da Itália, e o maior é Montaigne.

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Miguel de Montaigne (1533-1592), francês, é o autor dos famosos Essais: "Que sais-je"? O seu interesse é voltado para o estudo do eu, não como substância espiritual, e sim como caráter, centro unitário das mais variadas experiências humanas. Tudo o mais lhe parece incerto: os sentidos enganam-nos, a razão perde-se num labirinto infindo, a moral varia conforme os tempos e os lugares. Daí a necessidade da fé, mas de uma fé em que Deus serve ao homem. Este - como já pensavam os céticos antigos - atinge a paz abandonando-se à diretriz da natureza. O que especialmente emerge em Montaigne é o individualismo da Renascença.

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3 - DE ARISTÓTELES À RENASCENÇA
Quando Esparta bloqueou e derrotou Atenas em fins do século V a.C., a supremacia política saiu das mãos da mãe da filosofia e da arte gregas, e o vigor e a independência da inteligência ateniense decaíram. Quando, em 399 a.C., Sócrates foi executado, a alma de Atenas morreu com ele, sobrevivendo apenas em seu orgulhoso discípulo, Platão. E quando Felipe da Macedônia derrotou os atenienses em Queronéia em 388 a.C. e Alexandre incendiou a grande cidade de Tebas por completo três anos depois, nem mesmo o fato de a casa de Píndaro ter sido ostensivamente poupada conseguiu encobrir a realidade de que a independência ateniense, no que se referia a governo e pensamento, estava destruída de maneira irrevogável. O domínio da filosofia grega pelo macedônio Aristóteles refletia a sujeição política da Grécia pelos povos viris e mais jovens do norte. A morte de Alexandre (323 a.C.) acelerou esse processo de decadência. O menino-imperador, ainda que continuasse bárbaro depois de toda educação recebida de Aristóteles, havia aprendido a reverenciar a rica cultura da Grécia e sonhara em divulgar essa cultura pelo Oriente, na onda de seus exércitos vitoriosos. O desenvolvimento do comércio grego e a multiplicação dos postos de comercialização gregos por toda a Ásia Menor haviam proporcionado uma base econômica para a unificação daquela região como parte de um império helênico; e Alexandre tinha a esperança de que, a partir daqueles movimentados postos, tanto o pensamento grego como os produtos gregos fossem irradiar-se e conquistar o mundo. Mas ele subestimara a inércia e a resistência da mentalidade oriental, e a massa e a profundidade da cultura oriental. Não passava de um sonho juvenil, afinal, supor que uma civilização tão imatura e instável quanto a da Grécia pudesse ser imposta a uma civilização incomensuravelmente mais dufundida e enraizada nas mais veneráveis tradições. A quantidade da Ásia mostrou-se demasiada para a qualidade da Grécia. O próprio Alexandre, na hora de seu triunfo, foi conquistado pela alma do Oriente; casou-se (dentre várias damas) com a filha de Dario; adotou o diadema e o manto de gala persas; introduziu na Europa a idéia oriental do divino direito dos reis; e por fim assombrou uma Grécia cética ao anunciar, num magnífico estilo oriental, que ele era um deus. A Grécia caiu na gargalhada; e Alexandre bebeu até morrer. Essa sultil infusão de uma alma asiática no corpo fatigado do senhor dos gregos foi seguida rapidamente da abundante entrada de cultos e fés orientais na Grécia, pelas mesmas linhas de comunicação que o jovem conquistador havia aberto; os diques rompidos deixaram o oceano do pensamento ocidental inundar as terras baixas da ainda adolescente mente européia. As crenças místicas e supersticiosas que haviam adquirido raízes entre os povos mais pobres de Hélade foram reforçadas e divulgadas; e o espírito oriental de apatia e resignação encontrou um solo pronto na Grécia decadente e abatida. A introdução da filosofia estóica em Atenas, pelo mercador fenício Zenon (cerca de 310 a.C.), foi apenas uma das inúmeras infiltrações orientais. Tanto o estoicismo como o epicurismo - a apática aceitação da derrota e o esforço para esquecer a derrota nos braços do prazer - eram teorias sobre como o indivíduo ainda poderia ser feliz, embora subjugado ou escravizado; precisamente como o pessimista estoicismo oriental de Schopenhauer e o desalentado epicurismo de Renan foram, no século XIX, os símbolos de uma Revolução despedaçada e uma França quebrada. Não que essas antíteses naturais da teoria ética fossem de todo novas para a Grécia. Nós a encontramos no sombrio Heráclito e no "filósofo que ri", Demócrito; e vemos os discípulos de Sócrates dividindo-se em cínicos e cirenaicos sob a chefia de Antístenes e Aristipo e exaltando, uma escola, a apatia, e a outra, a felicidade. No entanto, mesmo naquela época tratava-se de modos quase exóticos de pensamento: a Atenas imperial não aderiu a eles. Mas quando a Grécia havia visto Queronéia em sangue e Tebas em cinzas, passou a ouvir Diógenes; e quando a glória havia partido de Atenas, ela estava no ponto para Zenon e Epicuro.

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disse o estóico romano Sêneca (m. forneceu-o. porque ele nunca se cansa de dizer a seus leitores que não existe inferno.Zenon ergueu sua filosofia da apatheia sobre um determinismo que um estóico posterior. 174 .. o escravo alegou como atenuante que. previne contra os prazeres que excitem e disturbem a alma.) Era delicado e afável para com todos os homens.C. ele exalta os prazeres do intelecto. sua pena nervosa está eternamente compondo orações à tranqülidade e à paz. e que o prazer embora não necessariamente o prazer sensual . então. diz Fenelon.. juntamente com outros produtos do seu saque. mas a ataraxia .tranqülidade. Nós o imaginamos como uma alma tímida cuja juventude havia sido obscurecida por temores religiosos. e. 65 d.. exceto deuses cavalheirescos. e concluiu sua vigorosa pregação do prazer cometendo suicídio. No fim. de acordo com a mesma filosofia. os estóicos alegavam que a indiferença filosófica era a única atitude razoável para com uma vida na qual a luta pela existência está tão injustamente condenada a uma derrota inevitável. "Não devemos evitar os prazeres. por toda a aternidade. e morrem com a sua morte. Alma e mente desenvolvem-se com o corpo. a paz do espírito. a cometer aquela falta. ao contrário. o escravo. da escola de Zenon. e a lei das leis é a da evolução e da dissolução em toda parte Coisa alguma perdura." Epicuro. ao que Zenon replicou. o imperador. tendem a estados de espírito estóicos: é difícil ser senhor ou servo se a pessoa for sensível. que. Assim como Schopenhauer achava inútil a vontade individual lutar contra a vontade universal. segundo a filosofia de seu senhor. não é epicurista. as coisas crescem assim. Sobre a Natureza das Coisas. ele. mas baixar nossos desejos ao nível de nossas realizações. "A natureza faz com que cada organismo prefira o seu próprio bem a qualquer outro". e Epicuro. sem terem tempo nem sutileza para especulações. mesmo que você possua o mundo. tinha sido destinado a bater nele por causa dela. O segredo da paz não é tornar nossas realizações iguais aos nossos desejos. e até Lucrécio difundia estoicamente o epicurismo (como o inglês de Heine. levaram de volta para Roma essas filosofias. a filosofia que Roma adotava era.(. Crisipo. mas selecioná-los. que ele mesmo cultivava. exceto aqui. mas todas as coisas fluem. deveriam acalmar e tranqülizar. Os romanos. Zenon. Quando Zenon. Sua nobre epopéia. quando foram saquear Heléia em 146 a.). e perfeitamente legítima. com a calma de um sábio. deve ser desdenhada. em sua maioria.C. encontraram essas escolas rivais dividindo o campo filosófico. ou em Epíteto. sofrem com seus sofrimentos. divertindo-se melancolicamente). "Se o que você possui lhe parece insuficiente. todos os quais oscilam à beira da "apatia" de Zenon. da vida e da atividade. achou difícil distinguir do fatalismo oriental. ele opõe um materialismo implacável. "comprou um belo jardim. Os grandes organizadores. embora tão estóico em vida quanto Zenon. seja em Marco Aurélio. Afirmava que nada havia de mais nobre do que uma pessoa dedicar-se à filosofia". Um princípio desses bradava aos céus pelo seu oposto. tanto quanto os escravos inevitáveis.é a única finalidade concebível. e que não existem deuses. Nada existe a não ser átomos. Por isso. cresem com o seu crescimento. Se a vitória for inteiramente impossível. Ao crescente culto do céu e do inferno entre o povo de Roma. mais do que os dos sentidos. ele viveu em meio a torverlinhos e alarmes. Quase contemporâneo de César e Pompéia. propõe que se procure não o prazer no seu sentido usual. ainda irá sentir-se infeliz". Seu ponto de partida é uma convicção de que a apatia é impossível. até mesmo o estóico sente um prazer sutil na renúncia. ele tinha sido destinado. estava batendo num escravo seu por causa de algum delito. Epicuro. que vivem em um jardim de Epicuro nas nuvens e nunca se intrometem nos negócios dos homens. Foi lá que instalou sua escola. e ali vivia uma vida tranqüila e agradável com seus discípulos. Fragmento se agarra a fragmento... à qual. espaço e lei. equanimidade. que não acreditava na escravidão. acompanha Epicuro em condenar o prazer ao elogiá-lo sem entusiasmo. então. aos quais ensinava enquanto andava e trabalhava.

Muitos monstros também a Terra de antigamente tentou produzir. passam adiante a lâmpada da vida". nunca foi tão brincalhona como quando deu a esse abstêmio e épico pessimista o nome de epicurista. como aquelas também tu Irás. e um espírito quase exótico toca uma lira quebrada.. "Não procure fazer 175 . mas em vão. Englobados por átomos. a cada hora. Nada.) e muitas raças de coisas vivas devem ter se extinguido. E se for esse o espírito do adepto de Epicuro. com tuas estrelas. crescem lentamente e.teus impérios. Estás indo. terras e mares A menor. nem procurar comida. com toda certeza. como corredores. como os indivíduos. E onde estão. não há sabedoria a não ser a ataraxia . Englobada da deriva como aquelas. até que a natureza extinguisse a sua espécia. outras decaem. como aquelas.. Desaparecem. vejo os sistemas erguerem Suas formas. toda a velha alegria pagã de viver desapareceu. coisas de estranhas caras e membros.. em toda a literatura. Aqui. de todas as galáxias.Até que ficamos conhecendo-as e lhes damos nomes. evidentemente. Porque no caso de todas as coisas que vós vedes respirando o sopro da vida. Também as nações. (.. porque a natureza proibiu o aumento do número deles. A história. e até os sistemas e seus sóis Irão voltar lentamente à eterna deriva. Diante da guerra e da morte inevitável. outros mares irão. Teus mares."encarar todas as coisas com serenidade de espírito". imaginem o inebriante otimismo de estóicos declarados como Aurélio ou Epíteto.) alguns sem pés. Vejo os sóis.. morrem: "algumas nações prosperam... (. é tão deprimente quanto as Dissertações do escravo.) Aqueles aos quais a natureza não concedeu nenhuma dessas qualidades ficavam expostos para servirem de vítima e presa de outros. À evolução e à dissolução astronômicas. Cortar com suas alvas foices outras baías. ficado impossibilitadas de procriar e continuar e continuar a linhagem. que nada é a não ser humorista. Tu também. e em pouco tempo as raças das coisas vivas são alteradas e. outros mais sem olhos.) Mais e mais monstros (. nem ser unidos em casamento.) desse tipo a Terra tentou produzir. ó Terra . alguns sem mãos. a coragem ou a velocidade vêm desde o início protegendo e preservando cada raça. a menos que se trate das Meditações do imperador. Aos poucos Elas se dissolvem e já não são mais as coisas que conhecemos.. outros sem bocas. eles não podiam alcançar a cobiçada flor da idade. caindo devagar ou depressa.. a astúcia. (. acrescentem a origem e a eliminação das espécies. por sua vez. Nada perdura. (. aquelas areias lunares abandonam seu lugar. em suave neblina..

já possuía um terço do solo da Europa. que o tratava com uma crueldade inalterável. o solo voltou a florescer. 'eu restituí tal coisa'. Depois de mil anos de cultivo. uma organização tão difundida e tão pacífica. uma fé comum exaltada por sanções sobrenaturais acima das mudanças e das corrosões do tempo. Cidades voltaram a fundir-se com o interior sem distinção. mas se trabalharem consigo mesmo. toda a cristandade ficou assustada e estimulada por traduções árabes e judaicas de Aristóteles. não eram a ética cristã da abnegação. Seja qual for a causa. "A inteligência e a mentalidade do homem". e assim viverá com prosperidade. Enquanto isso. O papel. foi colocado como uma concha sobre a mentalidade adolescente da Europa medieval. mas o poder da Igreja ainda era suficiente para garantir. Perdeste os teus bens? Também não foram restituídos?" Em trechos assim. Durante mil anos. o poder e o orgulho em decadência e apatia. A Igreja. a fronteira. a alma greco-romana perdeu o seu paganismo e está pronta para uma nova fé. As Cruzadas abriram os caminhos para o Oriente e permitiram a entrada de uma torrente de artigos de luxo e heresias que condenaram à morte e ascetismo e o dogma. o ideal político cristão de uma fraternidade quase comunista do homem. Dessas Dissertações e das Meditações de Aurélio há apenas um passo para A Imitação de Cristo. num desconcertante circuito de pressupostos não criticados e conclusões pré-ordenadas. Era dentro dessa concha que a filosofia escolástica se deslocava acanhadamente entre fé e razão e vice-versa. e o comércio em suas encruzilhadas voltou a construir grandes cidades nas quais os homens podiam cooperar para estimular a cultura e reconstruir a civilização. estourou como 176 . chegava barato do Egito. o intelecto da Europa iria irromper de dentro dessa concha. de fato. com a magia de uma crença invariável. em número. Tua filha morreu? Foi restituída. serão intermináveis e produzirão realmente teias de saber. a cultura pagã cedeu aos cultos orientais. disse Epíteto com calma. ditar o futuro e fingir que dominamos o universo. definitivo e definido. que durante muito tempo esperava por um meio barato. O resultado foi a sutileza. a organização em desintegração. Mas essa unidade exigia. "que o senhor iria quebrar minha perna?" No entanto. trabalham segundo a substância desta e por ela ficarão limitados." Mais cedo ou mais tarde. assim'. pelos vigorosos alemães sem instrução que cruzavam. criando excedentes que levaram ao comércio. portanto. e seus cofres estavam inchados com donativos de ricos e pobres." Não há dúvida de que é possível assim. há uma certa nobilidade mística nessa filosofia. admiráveis pela delicadeza do fio e do trabalho. No século XIII. quase que imperceptivelmente. como na tranqülia coragem de um pacifista dostoievskiano. o império se transformou em papado. teve um aumento rápido no número de adeptos. antes ou depois. os bens se multiplicaram. No século XIII. "vai quebrar a minha perna. mas não a sabedoria. e sim. a riqueza de Roma transformou-se em pobreza. Há um notável trecho em Lucrécio que descreve a decadência da agricultura no Estado romano e a atribui à exaustão do solo. de qualquer modo. como disse Bacon. apoiada nos primeiros séculos pelos imperadores cujos poderes ela absorveu aos poucos. através de Tomás de Aquino e outros. ela uniu. a maior parte dos povos de um continente. o dogma. mas prefira que elas aconteçam como têm de acontecer. Tua mulher morreu? Foi restituída. a transformação de Aristóteles em um teólogo medieval. na riqueza e no raio de influência. Segundo consta o senhor de Epíteto. e a escatologia cristã da conflagração final do mundo inteiro. ano após ano. as pequenas famílias dos romanos de instrução eram ultrapassadas. 'perdi isso assim. "Eu não lhe disse". e a perna se quebrou. fragmentos da doutrina estóica flutuando na corrente do pensamento? Em Epíteto. e. observou Epíteto mansamente. sentimos a proximidade do cristianismo e seus intrépidos mártires. agora." O senhor continuou. "Se continuar". a imprensa. mas sem substância ou proveito. "se trabalharem com a matéria. nunca houve. o ambiente histórico derretia-se para formar cenas mais novas.com que as coisas aconteçam segundo a sua preferência. certo dia decidiu torcer-lhe a perna para passar o tempo. as estradas ficaram sem manutenção e já não ecoavam a agitação do comércio. substituindo o caro pergaminho que tornara o saber um monopólio dos sacerdotes. como pensava a Igreja. "Nunca diga. Seu livro teve a distinção de ser adotado como manual religioso pela primitiva Igreja Cristã.

mosteiros e retiros escondidos. 177 . O despertar começou com Roger Bacon (m. armados de telescópios. barreiras foram derrubadas. diminuía o medo. e das fábulas dos animais que falavam veio a ciência da zoologia. 1294). aventuraram-se na imensidão dos mares e conquistaram a ignorância do homem a respeito da Terra. de novos começos e empreendimentos em todos os campos. era uma era que esperava por uma voz. Foi Francis Bacon. "O fato de pequenos navios. da astrologia. Esta época pode usar. plus ultra" (mais além) "onde os antigos usavam non plus ultra. homens deixaram de disputar e começaram a investigar. para o que o homem poderia fazer. navegarem à volta do mundo inteiro. Aqui e ali. graças aos esforços no sentido de transformar metais inferiores em ouro.um explosivo libertado e espalhou sua influência destruidora e esclarecedora por toda parte. não havia limites. e mais em dominá-lo. alcançou sua plenitude na astronomia de Copérnico (1473-1543) e Galileu (1564-1642). observadores pacientes. armados agora de bússolas. À medida que aumentava o conhecimento. a alquimia foi transformada em química. aumentou com o ilimitado Leonardo (1452-1519). como os corpos celestes. os homens pensavam menos em adorar o desconhecido. Bravos navegantes. "a mais poderosa inteligência dos tempos modernos. aventuraram-se para além dos confins do dogma e conquistaram a ignorância do homem quanto ao céu. com toda justiça. em universidades. nas pesquisas de Gilbert (1544-1603) sobre magnetismo e eletricidade. por via indireta. e de Harvey (1578-1657) sobre a circulação do sangue. agora. Todo espírito vital foi estimulado por uma nova confiança. uma alma sintética para resumir o seu espírito e decidir. esperança e vigor. que tocou a sineta que reuniu as inteligências" e anunciou que a Europa havia atingido a maioridade. os homens foram tateando com tímida ousadia para a astronomia. é a felicidade da nossa era." Foi uma era de realizações. de Vesálio (1514-1564) em anatomia.

As obras fundamentais de Nicolau de Cusa são três: De docta ignorantia. foi ele acusado de panteísmo emanatista. esta iluminação é sobrenatural e nada tem que ver com a filosofia. e no panteísmo metafísico. Pseudo Dionísio. onde faleceu em 1464. uno e infinito. Apologia doctae ignorantiae. que a razão não nos dá a realidade.Nicolau de Cusa Nicolau Krebs nasceu em 1401 em Cusa. não têm clara consciência. Deus. legado pontifício. ortodoxo. cujas deficiências são supridas pelo intellectus. e na de Pádua. e forma. As fontes prediletas e principais são o misticismo alemão (Mestre Eckart). não pode certamente ser conhecido pela ratio. cuja série começa com Nicolau de Cusa e termina com Giordano Bruno. teísta. o direito e a astronomia. São Boaventura).4 . Viveu seus últimos anos na Itália. corrigido pelo fideísmo e pelo misticismo. onde sofreu a influência do misticismo alemão. católico. Entretanto. Foi educado junto dos Irmãos da vida comum em Deventer. a seguir. ele. No entanto. Por certo. É uma nova concepção filosófica do mundo e da vida. 4. germina o pensamento moderno. Admitindo. acima dos sentidos. Scoto Erígena.é a faculdade que abstrai das noções particulares os conceitos universais. cujo objeto é o multíplice e o finito.1 . nem é de modo nenhum fundamentada por Cusano. debaixo dessas aparências. As intuições e afirmações naturalistas. 178 . cujo objeto próprio é o Uno e o infinito. Os sistemas filosóficos da época conservam a linguagem (latim) e a estrutura (silogística) da idade precedente. cardeal. Ordenado padre.ou intelecto discursivo . feitas por motivos práticos. É uma época de transição. pois. O seu objeto próprio é o conhecimento da multíplice e do finito. Acima da ratio está o intellectus. a ratio e o intellectus. teve parte notável no concílio de Basiléia (1432). foco de nominalismo. também a coisas finitas são imperfeitamente representadas pela ratio. ainda não bem claramente esboçada. foi. portanto. o piedoso cardeal foi. segue-se logicamente que a sua filosofia deve finalizar no agnosticismo gnosiológico. em geral. Entretanto. bispo. na intenção. os juízos e os raciocínios. dois graus do saber humano. o seu sistema encerra fatalmente uma tendência para o panteísmo.2 . em seguida. A docta ignorantia consiste precisamente na consciência dos limites e da relatividade da ratio. humanistas e imanentistas estão ao lado das profissões de fé católica. Deus. De conjecturis. às vezes. A ratio . o platonismo e o neoplatonismo cristão (Santo Agostinho. Entretanto. ao passo que a realidade é constituída por seres individuais. onde aprendeu a matemática. cujo conhecimento se realiza mediante conceitos universais. em seguida estudou na Universidade de Heidelberg. Nicolau de Cusa admite. quando ainda vivia.OS PENSADORES RENASCENTISTAS 4. De fato. atividade supra-racional iluminada pela fé ou pela mística.Os Pensadores Do fundo eclético-neoplatônico do pensamento da Renascença se destacavam algumas figuras de maior vulto. O agnosticismo de Nicolau de Cusa é. em que novo e velho se entretecem mutuamente. É o crepúsculo que prenuncia a alvorada de um novo dia. de família modesta. éticos e utilitários. de que seus próprios autores. e os autores de tendência neoplatônica.

Nasceu em 1509 em Cosenza. De volta a Veneza. trata-se. é também naturalizada a vontade. A metafísica de Bruno é decididamente monista. apreendido só por fé. A sua obra fundamental é De rerum natura iuxta propria principia. de uma fé imanente naturalista. Como é naturalizado o pensamento. bem diversa da fé cristã. iniciou uma vida giróvaga através da Europa. ativo um . O mundo natural é constituído de matéria e de força. e dominar com a vontade livre as tendências naturais. criada e infundida por Deus. pois. que tem a intuição imediata da verdade.em Bernardino Telésio. o naturalismo telesiano. em ordem hierárquica ascendente. estudou especialmente em Pádua e faleceu em 1588.Giordano Bruno Giordano Bruno é a maior expressão do imanentismo renascentista. A matéria é homogênea. recusou qualquer retratação e foi condenado à morte. o atomismo democríteo.4 . De l'infinito. e sim imanente ao mundo. penetra. 4. uma tentativa para explicar a natureza mediante os princípios universais imanentes à mesma natureza. São eles: Os Sentidos. Entretanto. sucessivo. ordenadora do mundo. O Intelecto. também Bruno afirma a existência de um Deus transcendente.quatro graus.neoplatonicamente . desta vez.a alma do mundo -. transforma continuamente toda a matéria. Nasceu em Nola em 1548. cujo objeto é o sensível. O Deus de Bruno é. O pensamento de Telésio representa uma sistematização do naturalismo da Renascença: a saber. Com a metafísica de Bruno estão em conexão a sua gnosiologia e a sua moral.4. De immenso et innumerabilibus. mas não é transcendente.a matéria. haveria no homem também uma alma que transcende a natureza e o mundo material.em seu aspecto naturalista . o eterno. O intelecto é reduzido aos sentidos. Eroici furori. A Razão. A força anima. bem como o conceito universal é reduzido à sensação. o panteísmo estóico. A alma do mundo é concebida como sendo inteligente. preenche o espaço (que existe antes da matéria) e é por si mesma inerte.Bernardino Telésio Mais claramente manifesta-se o imanentismo da Renascença . no sentido materialista e hedonista.3 . esta alma do mundo. discursivo. gerando eternamente o mundo finito e que se acha em perpétuo vir-a-ser. acima da ciência é posta e justificada a fé e a revelação. Desse modo. de que é precisamente a alma. pampsiquista e pan-materialista. o homem pode pensar e querer o supra-sensível. Acima desse Deus imanente. 179 . mediante a qual a verdade é atingida por processo dialético. porém. universo e mondi. entrou na Ordem dos Dominicanos aos 15 anos. como o motor primeiro de Aristóteles e o Deus do cristianismo. que lhe foi infligida em 1600. Na sua teoria do conhecimento Bruno distingue . mas. São dois aspectos da mesma substância. move. concebida como imutável e infinita. Por conseguinte. o emanatismo neoplatônico. foi de novo processado. e a verdade que manifesta é mera aparência. passivo o outro . A realidade é una e infinita. constituída por dois princípios fundamentais. As obras principais de Bruno são: De la causa principio e uno. foi processado pelo tribunal da Inquisição e reconheceu os seus erros. Entregue à Inquisição romana. As fontes de Bruno são: o monismo eleático e heraclíteo. As almas particulares não passam de individuações passageiras dessa alma cósmica. Acusado de heresia e afastado de sua ordem.

Propriamente. As fontes principais do seu pensamento são: o naturalismo telesiano e o idealismo neoplatônico. porque ainda mais se afastam do sensus inditus. racional. o conhecimento do eu. Para Campanella. históricas. De sensu rerum et magia libri X. porém. a saber. e não como uma revelação supra-racional de um Deus transcendente. Campanella diz o seguinte: Admite ele um sensus inditus e um sensus additus.5 . Campanella. são eles o poder. que Bruno considere toda religião histórica. pelo sensus additus que nos dá um conhecimento mediato das coisas. Tais princípios são absolutos e puros em Deus. atinge a sua perfeição no furor heróico. sustenta que o homem realiza a sua natureza. É. A razão. absolvido. Ainda inferiores ao sensus additus. Quanto à gnosiologia. devido ao fato de que se acha ele já no clima espiritual da contra reforma católica. é um conhecimento fundamental. o pampsiquismo telesiano. o amor. ao passo que Deus é puro ser (ser infinito). visto que o objeto coincide com o sujeito. relativos e imperfeitos nas criaturas. O primeiro oferece um conhecimento imediato de si mesmo. positiva (inclusive o cristianismo).A Mente. Bruno.Tomás Campanella Tomás Campanella nasceu em Stilo. útil para dirigir moralmente o vulgo ignorante. libertado. e também ele entrou ainda moço na ordem dos Dominicanos. Pois não é isto possível no seu sistema imanentista. ao lado e acima deles. a saber. Sobre essa nossa limitação ontológica. salientamos que Campanella afirma de novo e acentua a animação universal. cujo valor é unicamente prático. Suas obras principais são: Civitas solis. Quanto à moral deve-se dizer o seguinte: na moral de Bruno. o poder de inferir o semelhante do semelhante. É o maior continuador de Telésio. natural. condenaram-no por motivos políticos e passou no cárcere 27 anos. Malenbranche e Leibniz. o intelecto. revela imediatamente as limitações do eu e. simbólico. que atinge a verdade na sua unidade e simplicidade absoluta. como Telésio. desvaloriza a razão e o intelecto e admite. pois. Quanto à metafísica. certíssimo. Universalis philosophia seu metaphisicarum rerum iuxta propria dogmata partes tres. em 1568. que é aspiração do ser limitado para o ser infinito. marcando destarte a passagem da Renascença à Idade Moderna. enfim. como um saber infraracional. é um sentido imperfeito. que desempenha a função de garantir o nosso conhecimento e libertar-nos do ceticismo. Várias vezes processado por heresia. são o intelecto e a razão. da imediata intuição de si mesmo. Mais do que os pensadores precedentes. a religião fundamental é a religião natural. a consciência. cômodo para resumir vários particulares. logo. porém. seriam expressões empíricas da religião natural. A característica essencial da própria revelação cristã e da igreja católica seria a restauração da religião natural. a sabedoria. Entretanto. a saber. as religiões positivas. e sim o sujeito modificado pelas coisas. pela certeza. assim Campanella prenuncia a Descartes. foi. Campanella parece oscilar entre imanentismo e catolicismo. E como Giordano Bruno prenuncia a Spinoza. o conhecimento do universal é um sentido elanguescido. não nos revela a natureza das coisas. Este. pois o universal é uma noção genérica e confusa. na sua imanente e jubilosa participação racional na vida do Todo-um. um princípio divino. Daí as coisas e o espírito serem uma mistura de ser e de não-ser (ser limitado). a existência as coisas que limitam o eu. 180 . mítico. uma mente. entretanto. Campanella alicerça a religião. aparece de um modo característico o imanentismo e o humanismo do pensador. Estas coisas são conhecidas pela percepção externa. o pensamento. em oposição à moral ascética e transcendente do cristianismo. isto é. sendo. a metafísica de Campanella é a doutrina dos primeiros princípios do ser. na Calábria. 4.

Tal concepção filosófico-religiosa de Campanella teve uma expressão prática. ao mesmo tempo. monarca e sacerdote.escreve Leonel Franca . utópica.a obra de Campanella encerra não poucas idéias aproveitáveis. escritas no cárcere. na Cidade do Sol (Civitas solis). idealista. Campanella viveu longamente na prisão. obscurecida pela ignorância e pela concupiscência. com o papa à frente. o sábio é.racional. Imagina ele uma república ideal. do que como chefe de uma religião positiva e sobrenatural. afastado da vida real. Mais tarde. atribuídas depois a Descartes e Bacon". 181 . o cristianismo seria reduzido à religião natural. essa sua utopia teocrático-filosófica tomará uma forma teocrático-católica. em que é exposta a sua utopia teocrático-comunista. Cabe-lhe a prioridade de várias teorias. a que a Renascença em geral aspira. política e pedagógica. em que falta a experiência de uma vida social-concreta. manifestam uma mentalidade fantástica. Portanto. suas obras. Entretanto. professando uma religião natural. como o cristianismo. o papa é concebido mais como chefe concreto de uma religião natural. à maneira de Platão. governada por leis universais. em que. "Tumultuária e aventurosa em muitos pontos . universal.

Eis por que o jovem Descartes. ele quer preparar os espíritos 182 . a cuja publicação ele renuncia visto que em 1633 toma conhecimento da condenação de Galileu. hoje perdido). inspirado nas matemáticas. abandonei inteiramente o estudo das letras. Apesar de apreciado por seus professores. Mas as matemáticas são uma exceção. Segundo Pierre Frederix. Aí gozará de um regime de privilégio. ele se decide a publicar três pequenos resumos de sua obra científica: A Dióptrica. Em 1619. estuda no colégio jesuíta de La Flèche. que quase não são lidos atualmente. de outro. a saber. Na Holanda. Finalmente. Em virtude do inverno. ele se declara. Desse modo. decepcionado com o ensino que lhe foi ministrado: a filosofia escolástica não conduz a nenhuma verdade indiscutível. mas um povoado da Touraine. Ele faz ver que o seu método. "Não encontramos aí nenhuma coisa sobre a qual não se dispute". Mas ele aguardará até 1628 para escrever um pequeno livro em latim. onde se ocupa com equitação e esgrima (chega mesmo a redigir um tratado de esgrima. ocupa-se sobretudo com matemática. A 10 de novembro de 1619. Descartes quer apenas significar que é um jovem sábio disfarçado de soldado.terá o título de senhor de Perron. sonhos maravilhosos advertem que está destinado a unificar todos os conhecimentos humanos por meio de uma "ciência admirável" da qual será o inventor. o Tratado do Mundo. numa família nobre . Eu caminho mascarado.5 . nascido em 1596 em La Haye .Sua Vida René Descartes. que mantém seus equipamentos e suas despesas e que se declara menos um "ator" do que um "espectador": antes ouvinte numa escola de guerra do que verdadeiro militar. decepcionado com a escola. país protestante. A idéia fundamental que aí se encontra é a de que a unidade do espírito humano (qualquer que seja a diversidade dos objetos da pesquisa) deve permitir a invenção de um método universal. é capaz de provar rigorosamente a existência de Deus e o primado da alma sobre o corpo. e resolvendo não procurar outra ciência que aquela que poderia ser encontrada em mim mesmo ou no grande livro do mundo. É certo que ele nada tem a temer da Inquisição. isto é. a experiência da vida e a reflexão pessoal: "Assim que a idade me permitiu sair da sujeição a meus preceptores. vamos encontrá-lo na Holanda engajado no exército do príncipe Maurício de Nassau. num quarto bem aquecido por um desses fogareiros de porcelana cujo uso começa a se difundir. em 1637. ele vive na Holanda. Descartes prepara uma obra de física. É dessa época (tem cerca de 23 anos) que data sua misteriosa divisa "Larvatus prodeo". o que o leva a adquirir um hábito que o acompanhará por toda sua vida: meditar no próprio leito. de um lado é católico sincero (embora pouco devoto). no "Discurso sobre o Método". pequeno domínio do Poitou. ei-lo a serviço do Duque de Baviera. ele antes de tudo quer fugir às querelas e preservar a própria paz.A FILOSOFIA DE DESCARTES 5. longe dos livros e dos regentes de colégio. Esses resumos.não a cidade dos Países-Baixos. pois levanta-se quando quer. empreguei o resto de minha juventude em viajar. Os Meteoros e A Geometria. daí o aposto "fidalgo poitevino". Podemos facilmente imaginá-lo alojado "numa estufa". Mas é um estranho oficial que recusa qualquer soldo. Entre 1629 e 1649. em ver cortes e exércitos. Em seguida. parte à procura de novas fontes de conhecimento. ao lado de Isaac Beeckman. De 1604 a 1614. Só as matemáticas demonstram o que afirmam: "As matemáticas agradavam-me sobretudo por causa da certeza e da evidência de seus raciocínios". aquartela-se às margens do Danúbio. as "Regras para a direção do espírito" (Regulae ad directionem ingenii). servido por um criado e inteiramente entregue à meditação. conviver com pessoas de diversos temperamentos e condições". são acompanhados por um prefácio e esse prefácio foi que se tornou famoso: é o Discurso sobre o Método.1 . Mas Descartes. Após alguns meses de elegante lazer com sua família em Rennes. uma vez que ainda não se tentou aplicar seu rigoroso método a outros domínios.

como diz bem Jankélévitch. Em 1644.embarca para Amsterdã e chega a Estocolmo em outubro de 1649. 3. é a regra da síntese: "concluir por ordem meus pensamentos. alguns anos mais tarde. . Por conseguinte. ascender. 5. evitar toda "precipitação" e toda "prevenção" (preconceitos) e só ter por verdadeiro o que for claro e distinto. que sofre atrozmente com o frio. Não. sua obra-prima. de quem ele é. começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer para. o filósofo. de ter vindo "viver no país dos ursos. Após muitas tergiversações. apesar de todos os resíduos. "uma evidência juvenil. não antes de encarregar seu editor de imprimir. Luís XIV proibirá os funerais solenes e o elogio público do defunto: desde 1662 a Igreja Católica Romana. ele publica uma espécie de manual cartesiano. Esta última chama Descartes para junto de si.A primeira regra é a evidência: não admitir "nenhuma coisa como verdadeira se não a reconheço evidentemente como tal". colocará todas as suas obras no Index. É ao surgir da aurora (5 da manhã!) que ele dá lições de filosofia cartesiana à sua real discípula. Muito pelo contrário! Em 1641. Descartes encontra o embaixador da frança junto à corte sueca. isto é. como que por meio de degraus. ele que "nasceu nos jardins da Touraine". .. para Descartes. Seu ataúde. foi porque os séculos posteriores viram nele uma manifestação do livre exame e do racionalismo.O Método Descartes quer estabelecer um método universal. Os Princípios de Filosofia. Em 1644.inclusive o movimento da Terra em torno do Sol! Isto não quer dizer que a metafísica seja. senhores"). Em outras palavras. 1. um dia. será transportado para a França. é importante ressaltar. aparecem as Meditações Metafísicas. o que "eu não tenho a menor oportunidade de duvidar". aos mais complexos". logo se arrepende. Contrai uma pneumonia e se recusa a ingerir as drogas dos charlatões e a sofrer sangrias sistemáticas ("Poupai o sangue francês. Se esse método tornou-se muito célebre. morrendo a 9 de fevereiro de 1650.para. aos poucos. que o põe em contato com a rainha Cristina. a evidência é o que salta aos olhos. Chanut. à qual ele parece Ter-se submetido sempre e com humildade. a ponto de estar certo de nada ter omitido".. o produto do espírito crítico. acompanhadas de respostas às objeções. Mas é demasiado tarde.A segunda. o excluiu expressamente: o político e o religioso (Descartes é conservador em política e coloca as "verdades da fé" ao abrigo de seu método). . para antes do outono. aceitarem todas as conseqüências do método .A última á a dos "desmembramentos tão complexos. o diretor de consciência e com quem troca importante correspondência. Descartes. seu Tratado das Paixões . inspirado no rigor matemático e em suas "longas cadeias de razão". 183 . é o que resiste a todos os assaltos da dúvida. é aquilo de que não posso duvidar. 4. . dedicado à princesa palatina Elisabeth. um simples acessório. Os filósofos do século XVIII estenderão esse método a dois domínios de que Descartes. 2.A terceira. é a regra da análise: "dividir cada uma das dificuldades em tantas parcelas quantas forem possíveis". mas quadragenária". entre rochedos e geleiras".2 . por ocasião da rápida viagem a Paris. em certo sentido. apesar de todos os meus esforços. a) Ele não afirma a independência da razão e a rejeição de qualquer autoridade? "Aristóteles disse" não é mais um argumento sem réplica! Só contam a clareza e a distinção das idéias.

por conseguinte. Não posso têla tirado de mim mesmo. de uma ascese. Compreenda-se que. Descartes é solipsista. a evidência intuitiva das "naturezas simples". os instrumentos de um verdadeiro "exército espiritual". mas uma intuição. Eu. de seu ser pensante (pois. Duvidemos dos sentidos. "Penso. só posso tê-la recebido de um Ser perfeito que me ultrapassa e que é o autor do meu ser. mas a descoberta do domínio ontológico (estes objetos que são as evidências matemáticas remetem a este ser que é meu pensamento). na verdade. a evidência sensível e empírica. nesse momento de seu itinerário espiritual. por mais frágil que seja. não é. Mas é necessário compreender que essa dúvida tem um outro alcance que a dúvida metódica do cientista. porém. "estava despido em meu leito"). diz Descartes nesse sentido.° . portanto. o ato de nascimento do que. em filosofia. logo existo. tão imperfeito. uma vez que eles freqüentemente nos enganam. suas indicações são confusas e obscuras.que 2 + 2 = 4? Mas se um gênio maligno me enganasse. Os sentidos nos enganam. visto que sou finito e imperfeito. mesmo que o demônio queira sempre me enganar. Ego cogito (e o ego. Duvidemos também das próprias evidências científicas e das verdades matemáticas! Mas quê? Não é verdade . ergo sum". diz Descartes. É pelo aprofundamento de sua solidão que Descartes escapará dessa solidão. nunca tenho certeza de estar sonhando ou de estar desperto! (Quantas vezes acreditei-me vestido com o "robe de chambre". Descartes pensa sobretudo na ciência. do ergo). 2. e mais sólida que a do matemático. E nota-se que se trata de um Deus perfeito. Mesmo que tudo o que penso seja falso. A dedução limita-se a veicular. 3. mas de um ser. cogito. ° . uma coisa de que não posso duvidar. Não é um raciocínio (apesar do logo. chamamos de idealismo (o sujeito pensante e suas idéias como o fundamento de todo conhecimento).Existe. Para bem compreender sua metafísica. eu então posso crer na existência do mundo. que tenho a idéia de Perfeição.quer eu sonhe ou esteja desperto . é todo bondade. Descartes duvida voluntária e sistematicamente de tudo. ele não pode ter querido enganar-me e todas as minhas idéias claras e distintas são garantidas pela veracidade divina. para tanto. O cogito de Descartes. ao longo das belas cadeias da razão. Por conseguinte. É a idéia de perfeição. Uma vez que Deus existe. de modo algum. Eu penso. que. é necessário ler as Meditações. é muito mais que um simples acidente gramatical do verbo cogitare). "é mais fácil de ser conhecida que o corpo"). Por conseguinte. 5. Ela trata não de um objeto. ocupado em escrever algo junto à lareira. os instrumentos da dúvida nada mais são do que os auxiliares psicológicos.3 . Só posso crer no que me é claro e distinto 184 . pois. pois é uma intuição metafísica. não tenho o direito de guiar-me pelos sentidos (cujas mensagens permanecem confusas e que só têm um valor de sinal para os instintos do ser vivo). sempre posso duvidar do objeto (permitam-me retomar os termos do mais lúcido intérprete de Descartes. Ele só tem certeza de seu ser. metamatemática. O ato da razão que percebe diretamente os primeiros princípios é a intuição. Se Deus é perfeito. 1. A dedução nada mais é do que uma intuição continuada. como já se disse. Nenhum objeto de pensamento resiste à dúvida. entretanto. resta a certeza de que eu penso. ° . só as idéias da razão são claras e distintas. O caminho é exatamente o inverso do seguido por São Tomás. Eis o fantasma do gênio maligno exorcizado. Dentre as idéias do meu cogito existe uma inteiramente extraordinária. desde que possa encontrar um argumento. sempre duvido desse objeto que é meu corpo. de infinito. Ferdinand Alquié). se Deus fosse mau e me iludisse quanto às minhas evidências matemáticas e físicas? Tanto quanto duvido do Ser.b) O método é racionalista porque a evidência de que Descartes parte não é. a alma. isto é. mas o próprio ato de duvidar é indubitável. sem aborrecer Brunschvicg.A Metafísica No Discurso sobre o Método. eis demonstrada a existência de Deus.Nesse nível.Todos sabem que Descartes inicia seu itinerário espiritual com a dúvida.

que tenho a idéia de Deus. 185 . a extensão e o movimento).(por exemplo: na matéria. o argumento de Santo Anselmo que Descartes (que não leu Santo Anselmo) reencontra: trata-se. A evidência ontológica que. Não mais se trata de partir de mim. Por conseguinte. ° . mas antes da idéia de Deus que há em mim. Alguns acham que Descartes fazia um circulo vicioso: a evidência me conduz a Deus e Deus me garante a evidência! Mas não se trata da mesma evidência.A Quinta meditação apresenta uma outra maneira de provar a existência de Deus. a metafísica tem. de uma experiência espiritual (a de um infinito que me ultrapassa) do que de um raciocínio. É o argumento ontológico. ainda aqui. não pode ser geômetra!). Apreender a idéia de perfeição e afirmar a existência do ser perfeito é a mesma coisa. É ela que fundamenta a ciência (um ateu. para Descartes. me conduz a Deus fundamenta a evidência dos objetos matemáticos. o que existe verdadeiramente é o que é claramente pensável. isto é. 4. dirá Descartes. Pois uma perfeição não-existente não seria uma perfeição. mais de uma intuição. uma evidência mais profunda que a ciência. pelo cogito.

° . 1. Quando Descartes declara que os animais são máquinas. por intermédio de seu livre-arbítrio. 2. o Deus criador transcende radicalmente a natureza. Descartes fala da liberdade esclarecida. para Descartes. Esses textos esclarecem a teoria do juízo presente na Quarta meditação. que é possível explicar as funções fisiológicas por intermédio de mecanismos semelhantes àqueles que fazem mover os autômatos que vemos "nos jardins de nossos reis". o poder de recusar a Verdade e o Bem até mesmo na presença da evidência que se manifesta. Desse modo. dispõe. Na medida em que a natureza é despojada de toda profundidade metafísica. O homem. Deus criou o mundo instante por instante (é a "criação contínua"). assim.° . Toda finalidade desaparece e a natureza é reduzida a um mecanicismo inteiramente transparente para a linguagem matemática. uma autonomia que será perdida no sistema panteísta de Spinoza.Do mesmo modo. pode dizer sim ou não às ordens de Deus. Mas nos Princípios e sobretudo nas cartas ao Pe. O detalhe das explicações não passa de um sonho. Deus propõe e o homem. Mas o espírito dessa física e da fisiologia cartesiana . Em virtude do poder de seu livre-arbítrio. Descartes pode eliminar as noções aristotélicas e medievais de forma. mais como uma possibilidade racional do que como a verdade certa) não passa de um romance. O homem é livre. b) Nem tudo tem o mesmo valor na obra científica de Descartes. As leis da natureza só são o que são a cada momento. a) A natureza. Eis por que Deus quer que a soma dos ângulos de um triângulo seja igual a dois ângulos retos. em princípio. por conseguinte. simples criatura ultrapassada por seu criador (concebo Deus porque descubro em mim a marca de sua infinitude. alma. situada além de todas as razões. a transcendência de Deus vai tornar possível uma ciência puramente racional e mecanicista da natureza. Descartes afirma radicalmente o livrearbítrio. Mas a direção tomada é a ciência moderna. É certo que. a Ciência e o Livre-arbítrio Para Descartes.Deus.que não passa de um capítulo da física . Não se submeteu a nenhuma verdade prévia. ele coloca. na rejeição de todo naturalismo pagão (a natureza não é uma deusa) e na fundamentação metafísica do racionalismo científico. Mesland. sou eu que peco. A natureza nada tem de divino. O tempo é descontínuo e a natureza não tem nenhum poder próprio. juntamente com Fermat. Se sua ótica e suas considerações sobre a expressão algébrica das curvas (ele é. recebo. dessa liberdade que não pode tratar da verdade ou do bem. ao mesmo tempo. segundo Descartes. criou as verdades. Sou eu que me engano.6 .nada mais é do que o espírito do mecanicismo. O entendimento concebe a verdade e é a vontade que dá as costas a ou afirma essa verdade. já o vimos. Isto consiste.1 . e. aliás. O livre-arbítrio humano e a independência da ciência.RENÉ DESCARTES 6. Para 186 . sua física (dada. mas não o compreendo). É importante compreender que essa transcendência radical de Deus possui duas conseqüências fundamentais. em virtude da vontade do criador. Meu livre-arbítrio me faz merecedor ou culpado. o inventor da geometria analítica) constituem incontestável contribuição científica. de 2 de maio de 1644 e 9 de fevereiro de 1645. situado no mesmo plano da inteligência humana. A transcendência do criador afasta qualquer panteísmo. Deus não é o culpado dos meus erros nem dos meus pecados. Todo dinamismo pertence ao criador. na Quarta Meditação.O homem não é uma parte de Deus. dessa liberdade que é antes um estado de libertação do que uma decisão pura. Acrescentemos que. Deus foi "inteiramente indiferente ao criar as coisas que criou". inteiramente entregue à sua exploração. é um objeto criado. não possui dinamismo próprio. ato e potência.

então. que nada tem de asceta. para Descartes. Na medida em que Descartes considera o homem no que ele tem de essencial. e em parte no sentimento de uma firme e constante resolução de bem usá-la. a epífise. que é um fato de experiência. sua moral assume aspectos diferentes: a) Consideremos o homem enquanto espírito. o pensamento está preso a esse fragmento de extensão. o ponto de aplicação da alma ao corpo é a glândula pineal.O Programa Cartesiano "De acordo com o prefácio dos Princípios" Gostaria de explicar aqui a ordem que. 2. adota uma direção qualquer e nela se mantém! (O cartesianismo. o mundo físico não possui mistérios.. ou quando se ocupa do composto humano. alma e corpo: a essência da alma é pensar. isto é..) Mas isso não esclarece a união da alma e do corpo. enquanto liberdade: o valor supremo é a generosidade. Descartes separa claramente as duas substâncias. somos obrigados a levar em conta as paixões. de nunca lhe faltar vontade para empreender e executar todas as coisas que julgar melhores. nessa técnica. é uma filosofia da vontade). isto é. como uma técnica de felicidade e. puramente vivido e ininteligível. O bom funcionamento do corpo. ao invés de ficar fazendo voltas.2 . Mas. na consciência de que nada lhe pertence verdadeiramente. por contato direto. antes de ser uma filosofia da inteligência. porque 187 . a medicina desempenha importante papel. Primeiramente. A moral surge aqui como uma aplicação direta ao mecanicismo cartesiano.° . no ponto máximo em que ele pode legitimamente estimar-se.O Problema do Homem: a Moral 1. "A verdadeira generosidade que faz com que um homem se estime. Paixão é. encarregar-se de formar uma moral que seja suficiente para ordenar as ações da vida. Isso porque ele se coloca do ponto de vista da felicidade. a afetividade em sentido amplo. A alma age sobre o corpo e este age sobre ela. na realidade. As coisas se determinam reciprocamente (leis do choque). E Ele. o homem que ainda só possui conhecimento vulgar e imperfeito. Influências estóicas. b) Se considerarmos o homem enquanto espírito unido a um corpo.Descartes. parece-me. acha que devemos antes dominá-las do que desenvolvê-las.° . tudo o que o corpo determina na alma. o que é seguir a virtude perfeitamente".pois a ação não pode esperar que a filosofia cartesiana engendre uma nova moral! Recordemos seus três preceitos: a) Submeter-se aos usos e costumes de seu país. a do corpo é ser um objeto no espaço. deve. 6. E no entanto. num espaço em que não existe o vazio.3 . essa complexidade reflete a própria complexidade da condição humana. à semelhança do viajante perdido na floresta que. as ligações harmoniosas entre os espíritos animais e os pensamentos humanos são altamente desejáveis. A moral surge. enquanto espírito. b) Antes mudar os próprios desejos que a ordem do mundo e vencer-se a si próprio do que à fortuna. em parte.É certo que a moral definitiva de Descartes não apresenta uma unidade perfeita. 6. saber decidir-se mesmo na ausência de toda evidência. exceto essa livre disposição de suas vontades. c) Ser sempre firme e resoluto em suas ações. Descartes adota uma moral provisória . isto é. consiste.No Discurso dobre o Método. devemos seguir para que nos instruamos. (Para Descartes. antes de tudo. No plano das idéias claras e distintas. epicuristas e cristãs estão presentes nela.

dividi o livro em quatro partes. dessa forma. enquanto ainda não se estabelece algo de melhor. Depois disso. sem julgamento. as estrelas fixas.que são os corpos que podemos encontrar mais comumente em torno dela . ela antes corrompe o bom-senso do que o desenvolve . eu acho que a mais elevada e mais perfeita moral. é preciso ler antes as Meditações que escrevi sobre o mesmo assunto. fazer acreditar que ainda podemos. prevendo a dificuldade que muitos teriam para conceber os fundamentos da metafísica. entre as quais está a explicação dos principais atributos de Deus. dos animais e. do ar. todos os homens a procurarem a verdade. sobre as que não se sabe. da água. pela Geometria.isso não deve ser adiado e porque devemos sobretudo procurar viver bem.pois ela nada mais é do que uma dialética que ensina os meios para fazer entender a outrem as coisas que já se sabe ou então de emitir opiniões. descobrir várias outras. assim a principal utilidade da filosofia depende das utilidades de suas partes. é uma das mais difíceis das que já foram procuradas. depois. a saber: a medicina. não a da Escola . do fogo e do ímã . em particular. Depois. é bom que ele se exercite. Desse modo. é o último grau da sabedoria. Após isso. penso ter começado a 188 . depois. a fim de que se seja capaz de. nesse campo. encontrar as outras ciências que lhe são úteis. desse modo. que eu aí explico. o tronco a física e os ramos que daí saem todas as outras ciências. o ímã e outros minerais. ao conhecimento das artes que são úteis à vida e porque a invenção das lunetas de aproximação. o zelo que sempre tive no sentido de prestar algum serviço ao público levou-me a publicar. na qual. As outras partes foram três tratados: um da Dióptrica. os planetas.e de todas as qualidades que observamos nesses corpos como o são a luz. a saber. Pela Dióptrica. examinamos em geral como o universo é composto. Ora. em particular. Finalmente. do homem. a fim de bem compreendê-la. a natureza desta terra. na qual apresentei sumariamente as principais regras da lógica e de uma moral imperfeita que pode ser seguida provisoriamente. também deve estudar lógica. incitando. Após o que também é necessário examinar em particular a natureza das plantas. por meio disso. Mas. por seu intermédio. embora eu as ignore quase todas. a mecânica e a moral. há uns dez ou doze anos. que contém os princípios do conhecimento. pretendi mostrar que se pode avançar bastante em filosofia para se chegar. o peso e semelhantes. depois. outro dos Meteoros e o último da Geometria. eu os publiquei então. mas da extremidade dos ramos. o calor. Eis por que. na prática de regras pernitentes a questões fáceis e simples como as da matemática. desse modo. mas cujo volume foi aumentado e cuja matéria foi muito clarificada pelas objeções que várias pessoas muito doutas me enviaram sobre o assunto e pelas respostas que lhes dei. após ter encontrado os verdadeiros princípios das coisas materiais. por muito tempo. das quais a primeira contém os princípios do conhecimento e que podemos denominar filosofia primeira ou metafísica. os cometas e o universo em geral são compostos. a filosofia é como uma árvore cujas raízes são a metafísica. o fogo. procurei explicar seus pontos principais num livro de Meditações que não é grande. E porque ela depende muito do uso. Finalmente. procurei fazer com que se reconhecesse a diferença existente entre a filosofia que eu cultivo e aquela ensinada nas escolas em que se tem o hábito de tratar da mesma matéria. da imaterialidade de nossas almas e de todas as noções claras e simples que estão em nós.mas aquela que ensina a bem conduzir a razão na descoberta de verdades que se ignora. quando já tiver adquirido o hábito de encontrar a verdade nessas questões. A primeira parte desses ensaios foi um discurso sobre o método de bem conduzir a razão e procurar a verdade nas ciências. A segunda é a física. quando me pareceu que esses tratados procedentes haviam preparado bem o espírito dos leitores para receber os Princípios da Filosofia. a explicação das primeiras leis ou princípios da natureza e a maneira pela qual os céus. as quais só podemos aprender por último. ele deve começar a aplicar-se à verdadeira filosofia cuja primeira parte é a metafísica. a água. Pelos Meteoros. que pressupõe inteiro conhecimento das outras ciências. As outras três partes contêm tudo o que há de mais geral na física. pretendi demonstrar que eu descobrira várias coisas ignoradas até então e. sobretudo. alguns ensaios sobre as coisas que me parecera ter aprendido. que se reduzem a três principais. assim como não é das raízes nem do tronco que colhemos os frutos. qual a natureza da terra e de todos os corpos que se encontram mais comumente em torno dela como o ar.

explicar toda a filosofia ordenadamente. 189 . sem ter admitido nenhuma das coisas que devem preceder as últimas sobre as quais escrevi.

se ele me engana. os sons. no entanto. nem carne. mas somente de meditar e de conhecer. Suporei. tendo de tal modo avaliado meus preconceitos. de maneira que se tenha mais razão em acreditar nelas do que em negá-las. que não havia nenhum céu. não um verdadeiro Deus. não estiver em meu poder atingir o conhecimento. exatamente como o escravo que se comprazia no sonho de uma liberdade imaginaria e que. ao invés de propiciarem alguma luz ou alguma clareza no conhecimento da verdade. E. Mas esse desígnio é árduo e trabalhoso. enganador muito poderoso e astucioso. teme ser despertado e conspira com essas agradáveis ilusões para ser mais longamente enganado. e todas as coisas exteriores que vemos não passam de ilusões e enganos de que ele se serve para surpreender minha credulidade. as figuras. isto é. temendo que as vigílias laboriosas que se sucederiam à tranqüilidade de tal repouso. por mais poderoso e astucioso que seja. como não tendo nenhum dos sentidos. Exercício Espiritual 1. nunca poderá fazer com que eu nada seja. se por esse medo. mas certo gênio maligno. quando começa a suspeitar que essa liberdade é apenas um sonho. E nunca me desacostumarei a essa aquiescência e a confiar nelas. pois essas antigas e comuns opiniões freqüentemente revivem em meu pensamento. dominado por maus usos e afastado do caminho reto que o pode conduzir ao conhecimento da verdade. 7. e. se é que me persuadi ou somente pensei alguma coisa. espíritos alguns. no momento.ª Meditação Eu me persuadi de que nada existia no mundo.2 . e. retorno invisivelmente às minhas antigas opiniões e receio despertar dessa sonolência. nenhuma terra. mas acreditando falsamente possuir todas essas coisas. de nenhuma verdade. Pensarei que o céu. tomando um partido contrário. até que. Permanecerei obstinadamente apegado a esse pensamento. no entanto. não há a menor dúvida de que sou. assim eu. também não me persuadi de que eu não existia? É certo que não. e meu julgamento não mais seja.Descartes resolve duvidar de todas as suas opiniões: Mas não basta ter feito essas observações. corpos alguns.RENÉ DESCARTES 7. eu existia sem dúvida. empregar todos os esforços no sentido de enganar-me a mim mesmo.1 . fingindo que todos esses pensamentos são falsos e imaginários. De 190 . que é a soberana fonte da verdade. Considerar-me-ei a mim mesmo como não tendo mãos. as cores. eles não possam fazer com que minha opinião tenda mais para um lado do que para outro. pelo menos estará em meu poder fazer a suspensão de meu juízo. e. a longa e familiar convivência que tiveram comigo.Eu Sou Uma Coisa Que Pensa 2. que emprega toda a sua indústria em enganar-me sempre. Eis por que cuidarei zelosamente de não receber em minha crença nenhuma falsidade. enquanto eu pensar ser alguma coisa. que há. nem olhos. que empregou toda sua indústria em enganar-me. não se trata d agir. o ar. nunca poderá impor-me coisa alguma. o que lhes dá o direito de ocupar o meu espírito sem que eu o queira e de quase se tornarem senhoras de minha crença. não fossem suficientes para aclarar as trevas das dificuldades que acabam de ser tratadas. enquanto eu as considerar tais como efetivamente são. daqui por diante. e prepararei tão bem meu espírito em face de todos os ardis desse grande enganador que. então. por mim mesmo. nem sangue. como acabei de provar. a terra. não menos ardiloso e enganador do que poderoso. é preciso ainda que eu cuide de não me esquecer delas. uma vez que. Por conseguinte.ª Meditação . de certo modo duvidosas. muito prováveis. e certa preguiça arrasta-me insensivelmente para o ritmo de minha vida comum. Pois estou certo de que. Eis por que penso que as utilizarei mais prudentemente se.7 . Mas há um não sei quem. por mais que ele queira enganar-me. não pode haver perigo nem erro nesse caminho e de que eu hoje não poderia conceder muito à minha desconfiança.A Dúvida.

cairíamos insensivelmente numa infinidade de outras mais difíceis e embaraçosas. isto é. não por si mesmo. de maneira a só permanecer precisamente o que é inteiramente indubitável. que não as sentira efetivamente. malicioso e astucioso. que emprega todas as suas forças e toda a sua indústria em enganarme? Poderei ter a certeza de possuir a menor de todas as coisas que acima atribuí à natureza corpórea? Detenho-me a pensar nisso em meu espírito. Por outro lado. tal como ela aparece num cadáver e a qual eu designava pelo nome de corpo. "Eu sou. primeiramente. relacionando todas essas ações à alma. senão uma coisa que pensa. que estava insinuado e disseminado nas minhas partes mais grosseiras. somente ele não pode ser separado de mim. ou pela audição. como tendo um rosto. eu existo. que estou certo de que sou. para não tomar imprudentemente alguma outra coisa por mim e assim não me equivocar nesse conhecimento que sustento ser mais certo e mais evidente do que todos os que tive até o momento. é preciso que eu atente cuidadosamente. se quisesse explicá-la segundo as noções que tinha dela. que é que eu acreditava ser até aqui? Sem dificuldade. além disso. de agora em diante. Ora. No que se referia ao corpo. mas por algo alheio pelo qual seja tocado e do qual se pudesse atribuir à natureza corpórea vantagens como a de ter o poder de mover-se a si própria. que são termos cuja significação me era desconhecida anteriormente. e eu não gostaria de abusar do pouco tempo e do lazer que me resta. isso é certo. uma chama ou um ar muito tênue. se aí me demorava. que andava. Por conseguinte. um entendimento ou uma razão. espantava-me antes ao ver que semelhantes faculdades se encontravam em certos corpos. eu existo". e constato aqui que o pensamento é um atributo que me pertence.maneira que. e não encontro nenhuma que possa dizer que existe em mim. Mas ainda não conheço bastante o que sou. Um outro é pensar. Por conseguinte. mãos. precisamente falando. é necessariamente verdadeira. braços e toda essa máquina composta de osso e carne. como um vento. eu não duvidava de modo algum de sua natureza. de uma só questão. Um outro é sentir. eu não sou. Eu sou. ou pelo paladar. mas não se pode sentir também sem o corpo. Não é necessário que me demore a enumerá-las. de maneira que. há que concluir finalmente e ter por constante que esta proposição. então. que sentia e que pensava. mas que coisa? Já o 191 . Mas. ao contrário. Agora eu nada admito que não seja necessariamente verdadeiro: portanto. pois eu pensava conhecê-la mui distintamente e. antes. ou pela visão. que pode ser movido por diversas maneiras. considerava que eu me alimentava. se eu deixasse de pensar. imaginava que ela era algo de extremamente raro e sutil. mas não me detinha em pensar o que era essa alma ou. que pode ser sentido pelo tato. eu pensei que era um homem. eu. mas por quanto tempo? A saber. após ter pensado bastante nisto e ter cuidadosamente examinado todas as coisas. agora que suponho que há alguém que é extremamente poderoso e. um espírito. antes de penetrar nesses últimos pensamentos. Considerava-me. Mas que é um homem? Direi que é um animal racional? Não. certamente. ou pelo olfato. eu sou uma coisa verdadeira e verdadeiramente existente. ao despertar. que sou eu. entendo tudo o que pode ser limitado por alguma figura. Eis por que considerarei de novo o que acreditava ser. pois seria necessário que em seguida pesquisasse o que é animal e o que é racional e assim. Os primeiros são alimentar-me e andar. Mas eu. deter-me-ei em considerar aqui os pensamentos que anteriormente nasciam por si mesmos em meu espírito e que eram inspirados apenas por minha natureza quando eu me empenhava na consideração de meu ser. passemos aos atributos da alma e vejamos se há alguns que existam em mim. outrora eu pensei sentir várias coisas durante o sono e verifiquei. se ouso dize-lo. e de minhas antigas opiniões abolirei tudo o que pode ser combatido pelas razões que há pouco aleguei. pois poderia ocorrer que. empregando-o em desvendar semelhantes sutilezas. eu deixaria ao mesmo tempo de ser ou de existir. mas se é verdade que não tenho corpo algum. por todo o tempo em que eu penso. tê-la-ia descrito da seguinte maneira: por corpo. também é verdade que não posso andar nem me alimentar. todas as vezes em que a enuncio ou em que a concebo em meu espírito. que pode ser compreendido em qualquer lugar e preencher um espaço de tal maneira que todo outro corpo seja dela excluído.

ou à visão. pouco antes. esquenta-se. no entanto. Mas eis que. principalmente que me faz conhecer que trago a imagem e a semelhança de Deus.4 . por exemplo. a saber. ou à audição se encontram modificadas e. sem modificar tal suposição. essa concepção que tenho da cera não se realiza pela faculdade de imaginar. uma vez que todas as coisas que se apresentavam ao paladar.3 . não sou um vento. este pedaço de cera que acaba de ser tirado da colmeia: ele ainda não perdeu a doçura do mel que continha. afastando todas as coisas que não pertencem à cera. ou ao tato. ainda que ela seja 192 . A mesma cera permanece após essa transformação? Cumpre confessar que sim. e segundo a verdade. não sou um ar tênue e penetrante. de flexível e mutável. se não pensasse que é capaz de receber mais variedades segundo a extensão do que nunca imaginei. Talvez fosse o que penso a atualmente. exala-se. Mas o que será. sua grandeza aumenta.A Liberdade 4. ele se torna líquido. para verificar ainda se não sou algo mais. nem esse agradável perfume das flores. ainda que batamos nele. é preciso que eu concorde que não poderia mesmo conceber pela imaginação o que é essa cera. Tomemos. nem esse som. visto que na cera que se funde ela aumenta e fica ainda maior quando aquela está inteiramente fundida e muito mais ainda quando o calor aumenta mais? E eu não conceberia claramente. então. alguém o aproxima do fogo: o que nele restava de sabor. agora. uma vez que a concebo capaz de receber uma infinidade de transformações semelhantes e. precisamente falando. vejamos o que resta. e saber. produzirá algum som. Enfim. se apresentava sob essas formas e que agora se faz notar sob outras. ainda retém algo do odor das flores de que foi recolhido. mas apenas um corpo que. e. sendo redonda. e que só meu entendimento é quem o concebe. constato que não deixo de estar certo de que sou alguma coisa. que não concebo de modo algum a idéia de nenhuma outra mais ampla e mais extensa: de maneira que é ela.ª Meditação O que existe unicamente é a vontade que sinto ser tão grande em mim. enquanto falo. um sopro. Pois. é capaz de se tornar quadrada e de passar do quadrado para uma figura triangular? É certo que não. não é isso. que é isso: flexível e mutável? Não estarei imaginando que esta cera. Eu não sou essa reunião de membros que se chama corpo humano. É certo que não permanece senão algo de extenso. sua cor. ou ao olfato. disseminado por todos esses membros. que eu imagino quando a concebo dessa maneira? Consideremo-la atentamente e. nem essa brancura.ª Meditação Comecemos pelas considerações das coisas mais comuns e que julgamos compreender mais distintamente. mal podemos tocá-lo. Não pretendo falar dos corpos em geral. Ora. 7.disse: uma coisa que pensa. um vapor nem nada que possa fingir e imaginar. a mesma cera permanece. e ninguém o pode negar. mas de qualquer corpo em particular. que conhecíamos nesse pedaço de cera com tanta distinção? Certamente não pode ser nada do que observei nela por intermédio dos sentidos. encontram-se neste.O Pedaço De Cera 3. os corpos que tocamos e que vemos. E que mais? Excitarei ainda minha imaginação. nem essa figura. o odor se desvanece. E. uma vez que supus que tudo isso não era nada e que. que a cera não era essa doçura do mel. todas as coisas que podem distintamente fazer conhecer um corpo. sua figura e sua grandeza são evidentes: ele é duro e frio quando o tocamos e. Que é. eu não poderia percorrer essa infinidade com minha imaginação e. sua cor se modifica. se nele batermos. 7. uma vez que essas noções gerais comumente são mais confusas. Por conseguinte. o que é a cera. não produzirá som algum. consequentemente. que é essa extensão? Não será também desconhecida. no entanto. sua figura se perde.

pois aqui há um sofisma escondido sob a aparência dessa objeção. não posso tirar daí um argumento e uma prova demonstrativa da existência de Deus? É certo que não encontro menos em mim sua. nunca teria dificuldade em deliberar qual juízo e qual escolha deveria fazer. agora. antes a aumentam e a fortalecem. para que eu seja livre. agimos de tal modo que não sentimos de maneira alguma força exterior que nos obrigue a isso. perseguir ou fugir as coisas que o entendimento nos propõe. ela não me parece todavia maior se eu a considero formal e precisamente em si mesma. sem nunca ser indiferente. se eu sempre conhecesse claramente o que é verdadeiro e o que é bom.O Argumento Ontológico 5. Mas. não pareça inteiramente manifesto. é o mais baixo grau de liberdade. ainda que Deus nenhum existisse.ª Meditação Ora. quando não sou de maneira alguma impelido mais para um lado do que para outro pelo peso de alguma razão. tanto mais livremente o escolherei e o abraçarei. e como só depende de mim imaginar um cavalo alado. estando habituado em todas as outras coisas a fazer distinção entre existência e essência. Pois. na verdade. pois. e. seja porque Deus disponha assim o interior do meu pensamento. portanto. isso. de início. a idéia de um ser soberanamente perfeito. encontrando-se juntos aí. verifico claramente que a existência não pode ser separada da essência de um triângulo retilíneo não pode ser separada a grandeza de seus três ângulos iguais a dois retos ou. que só dizem respeito aos números e às figuras: se bem que. pois. de maneira que não há menos repugnância em conceber um Deus (isto é. antes. que se afigure com alguma aparência de sofisma. somente em que. não se segue que 193 . ou. do mesmo modo. persuado-me facilmente de que a existência pode ser separada da essência de Deus e que. bem longe de diminuírem minha vontade. meu pensamento não impõe necessidade alguma às coisas. quanto mais eu tender para um. e faz antes parecer uma carência de conhecimento do que uma perfeição na vontade. ainda que efetivamente eu não possa conceber um Deus sem existência. a tornam mais firme e mais eficaz . eu seria inteiramente livre. E. antes. mas. assim eu talvez pudesse atribuir existência a Deus. um ser soberanamente perfeito) ao qual falta a existência (isto é. pois. Pois. De modo que essa indiferença que sinto. pertence-lhe efetivamente. seja em virtude do conhecimento e do poder que. ainda o que tudo que concluí nas Meditações precedentes não fosse absolutamente verdadeiro. assim. todavia. assim. a idéia de um vale. da idéia de uma montanha. 7. seja porque eu conheça evidentemente que o bem e o verdadeiro aí se encontram. assim como uma montanha sem vale. não é necessário que eu seja indiferente na escolha de um ou outro dos dois contrários. É certo que a graça divina e o conhecimento natural. parece que isso não implica em que haja algum Deus existente. embora não exista nenhum dotado de asas. para afirmar ou negar. do fato de eu não poder conceber uma montanha sem vale.seja em virtude do objeto. Pois ela consiste somente em que podemos fazer uma coisa ou deixar de fazê-la (isto é. se possa conceber Deus como não existindo atualmente. afirmar ou negar. embora eu conceba Deus com existência. E não conheço menos clara e distintamente que uma atual e eterna existência pertence à sua natureza do que conheço que tudo o que posso demonstrar de qualquer figura ou de qualquer número pertence verdadeiramente à natureza dessa figura ou desse número.incomparavelmente maior em Deus do que em mim. como do simples fato de eu conceber uma montanha com um vale não se segue que haja qualquer montanha no mundo. ao qual falta alguma perfeição) do que em conceber uma montanha que não tenha um vale. na medida em que ela se dirige e se estende infinitamente a mais coisas. isto é. a existência de Deus deve apresentar-se em meu espírito pelo menos como tão certa quanto considerei até aqui todas as verdades da matemática. do que a idéia de qualquer figura ou de qualquer número que seja. se do simples fato de que posso tirar de meu pensamento a idéia de alguma coisa. quando penso nisso com mais atenção. Todavia. perseguir ou fugir). Mas não é assim. seguese que tudo o que eu reconheço pertencer clara e distintamente a essa coisa.5 .

quer não existam. como me é dada a liberdade de imaginar um cavalo com ou sem asas. quer existam. um ser soberanamente perfeito sem uma soberana perfeição). 194 . do simples fato de eu não poder conceber Deus sem existência. ele existe verdadeiramente. nem vale algum. não podem. mas apenas que a montanha e o vale. a existência de Deus. determina meu pensamento a concebê-lo dessa maneira. portanto. ao contrário. Pois. estar separados um do outro.haja no mundo montanha alguma. ao passo que. de maneira alguma. a saber. não que meu pensamento possa fazer com que isso seja assim e que ele imponha alguma necessidade às coisas. e que. porque a própria coisa. mas. segue-se que a existência lhe é inseparável. não está em minha liberdade conceber um Deus sem existência (isto é.

Limita-se a nos oferecer. De volta à pátria. Entretanto . junto de Sir Francisco Masham.1 .diversamente de Bacon. que o fim da filosofia é prático. Estudou na Universidade de Oxford filosofia. E. ele sente. para logo passar a uma filosofia moral (e política. antes de mais nada. 195 . portanto. Foi. mesmo aceitando a metafísica tradicional. do ser. e sim. porquanto é baseada na razão. que procurou completar com elementos racionalistas (o que. cujo centro famoso era Oxford. em seguida. os Pensamentos sobre a Educação (1693). Locke professa a tolerância e o respeito às religiões particulares. filosoficamente. realisticamente. aí participando no movimento político que levou ao trono da Inglaterra Guilherme de Orange. 8. o empirismo inglês da época. futuro conde de Shaftesbury. antes da experiência o espírito é como uma folha em branco. onde conheceu as personalidades mais destacadas da cultura francesa do "grand siècle". Locke viajou fora da Inglaterra. uma tabula rasa. entrou em contato com movimentos filosóficos diversos. o Ensaio sobre o Intelecto Humano (1690). derivam da experiência. Com relação à religião natural. para a França. o racionalismo cartesiano e a filosofia de Malebranche. ciências naturais e medicina. sem uma adequada e intermédia metafísica. fenomenisticamente. Passou seus últimos anos de vida no castelo de Oates (Essex). Tornouse mais consciente do seu empirismo. onde ampliou o seu horizonte cultural. à moral e à religião.O Pensamento: A Gnosiologia Locke julga. em 1632.2 . Locke representa um progresso em confronto com os precedentes: no sentido de que a sua gnosiologia fenomenista-empirista não é dogmaticamente acompanhada de uma metafísica mais ou menos materialista. quer dizer: a filosofia deve proporcionar uma norma racional para a vida do homem. Faleceu em 1704. entretanto.3 . ao serviço de Loed Ashley. do pensamento. históricas. Em 1683 refugiou-se na Holanda. uma teoria do conhecimento. procedente de Bacon até Hume). As dontes principais do pensamento de Locke são: o nominalismo escolástico. como os seus predecessores empiristas.LOCKE 8. Em 1665 foi enviado para Brandenburgo como secretário de legação. à alma. que julgava fim da filosofia o conhecimento da natureza para dominá-la (fim econômico) .Locke pensa que o fim da filosofia é essencialmente moral. representa um desvio na linha do desenvolvimento do empirismo. a quem ficou fiel também nas desgraças políticas.8 . como Bacon. morais. não muito diferente do deísmo abstrato da época. elaborar uma gnosiologia. em especial com o racionalismo. religiosa). o poder político tem o direito de impor essa religião. especialmente em França. 8. Locke não parte. Passou. a necessidade de instituir uma investigação sobre o conhecimento humano.O EMPIRISMO . Podemos dizer que a sua filosofia se limita a este problema gnosiológico. políticos.Vida e Obras João Locke nasceu em Wrington. No nosso pensamento acham-se apenas idéias (no sentido genérico das representações): qual é a sua origem e o seu valor? Locke exclui absolutamente as idéias e os princípios que deles se formam. para achar um critério de verdade. As suas obras filosóficas mais notáveis são: o Tratado do Governo Civil (1689). pedagógica. positivas.John Locke Sobre a linha do desenvolvimento do empirismo. e do senso comum pelo que concerne a Deus. recusou o cargo de embaixador e dedicou-se inteiramente aos estudos filosóficos.

uma propriedade semelhante em muitas coisas. ainda fechados no mundo subjetivo. sem mostrar. mais ou menos. e nos proporciona a representação dos objetos (chamados) externos: cores. a mais importante é a substância: que nada mais seria que uma coleção constante de idéias simples. a experiência é dúplice: externa e interna. Locke julga também inaplicável à natureza a matemática . têm um valor e um escopo práticos: auxiliar os homens a se conduzirem na vida. para ele. A primeira realiza-se através da sensação. Podemos nós sair desse mundo subjetivo e atingir o mundo objetivo. Até aqui foram analisados e descritos os conteúdos de consciência. fenomênico. O nosso ser seria intuitivamente percebido através da reflexão.o espírito é puramente passivo. pode ser precisamente falsa ou verdadeira. imediata e evidentemente. lembrar. porém. afirmada ou negada. Em todo caso. "a verdade e a falsidade pertencem às proposições". e as qualidades secundárias. os nomes que designam uma idéia abstrata. que designam caracteres comuns a muitos indivíduos. Nas idéias proporcionadas pela sensibilidade externa. querer. ao raciocínio. mesmo que a ciência da natureza não nos desse senão a probabilidade. isto é. Perante as idéias simples . de relações positivas ou negativas. Às idéias de ralação pertencem as relações temporais e espaciais e de idéias simples dos complexos a que pertencem e da universalização da idéia assim isolada. E esta relação. segundo Locke. e nas análises que são as idéias gerais. finalmente. melhor seria chamá-las "justas ou erradas". até agora. como: conhecer. referida pelo espírito a um misterioso substrato unificador. entretanto. desse modo.No entanto. A existência de Deus seria racionalmente demonstrada mediante o princípio de causa. etc. Entre estas últimas. o nosso ser. depois o de Deus. forma. É mister agora propor a questão do seu valor lógico. e as idéias gerais não passam de nomes. não acredita na físico-matemática. isto é. As idéias ou representações dividem-se em idéias simples e idéias complexas. nominalista: existem. de fato. e. à maneira de Galileu. a demonstração é inferior à intuição. partindo do 196 . Locke distingue as qualidades primárias. No primeiro caso a relação é colhida intuitiva. mas tem ainda saudade desse ser do qual se isolou. a idéia abstrata (por exemplo. O espírito é também ativo nas sínteses que são as idéias de relação. É a sólita posição de um fenomenismo ainda não plenamente consciente de si mesmo. subjetivas (objetivas apenas em sua causa). Por exemplo: a existência de Deus demonstrada pela nossa existência e pelo princípio de causalidade. em que se afirma ou se nega uma relação entre duas idéias. só indivíduos com uma essência individual. crer. podemos conhecê-lo imediatamente ou mediatamente na sua existência e na sua natureza? Locke afirma-o. que são uma combinação das primeiras. o das coisas. etc.que constituem o material primitivo e fundamental do conhecimento . a brancura). tratou-se. A segunda realiza-se através da reflexão. 8. movimento. é impossível a ciência verdadeira da natureza. concordes ou desacordes com as idéias. No segundo caso a relação é colhida mediatamente. Naturalmente. extensão. seria útil enquanto prática. como este conhecimento do mundo externo possa concordar com a sua geral (fenomenista) concepção e definição do conhecimento. pelo contrário. de dois tipos: intuitivo e demonstrativo. considerada como conhecimento das leis universais e necessárias. propriamente.Idéias Metafísicas Estamos. a opinião. Locke é. Dado o nominalismo de Locke. compreende-se como. Por exemplo: 3 = 2 + 1. duvidar. propriamente. Entretanto. sons.reconhecendo-lhe embora o caráter de verdadeira ciência isto é. sabores. odores. Locke acredita poder atingir. Corta as relações com o ser e vai para o fenomenismo absoluto. absolutamente objetivas. que nos proporciona a representação das próprias operações exercidas pelo espírito sobre os objetos da sensação. O conhecimento da relação positiva ou negativa entre as idéias é. obtendo-se.4 . recorrendo às idéias intermediárias. Costuma-se dizer que as idéias são "verdadeiras ou falsas". é ele ativo na formação das idéias complexas. porque. Entretanto. antes de tudo.

Locke deriva a lei civil da lei natural. moral. idéias e princípios inatos nem sequer no campo da moral. que precisamente lhe impedem tal realização. E professa a tolerância a respeito das religiões particulares. sem renunciar à própria dignidade. faz-se mister uma obrigação moral. Entretanto. Entretanto. em virtude do qual cada um sente o dever racional de respeitar nos outros a mesma personalidade que nele se encontra. no primeiro. todavia. no sentido brutal e egoísta de inimizade universal. os indivíduos não renunciam a todos os direitos. isto é.Moral e Política Locke não admite. porquanto nós nos inclinamos necessariamente para um bem determinado e devemos desejar o bem maior. escrevendo os Pensamentos sobre a Educação. o livre arbítrio. e. não podem renunciar a estes direitos. De fato. históricas. Antes. a prova da sua existência vale. que deveriam ser causadas por seres externos a nós. racional. que existe no segundo. não sabemos se as idéias da natureza das coisas correspondem à realidade das coisas. é muito mais intelectualista do que empirista. graças à autoridade do superior. se o estado violasse esses direitos inalienáveis. seria sentida invencivelmente. mas em um sentido moral. embora racional. que se imponha à nossa vontade.tal prova vale apenas pelo que concerne à existência das coisas. segundo a filosofia de Locke. a tendência para o próprio bem-estar. é natural que ele seja atingido pelas penas. Locke admite um originário estado de natureza antes do estado civilizado. Não. os indivíduos teriam o direito e o dever de a ele resistir e de se revoltar contra o poder usurpador. Quanto à política. entretanto na vida política. no homem. Locke toma uma atitude racionalista moderada. e não pelo que concerne à natureza delas. A sua moral. bens). é mister ter presente que nós não conhecemos intuitivamente a substância da alma. naturalmente. são inalienáveis. exigível também politicamente. porém. para conseguir que os direitos inalienáveis sejam melhor garantidos. alfim.são livre iguais. É preciso torná-la praticamente eficaz. visto que é natural. mas renunciam unicamente ao direito de defesa e de fazer justiça. Locke interessou-se especialmente pelos problemas pedagógicos. A existência das coisas. porquanto. positivas.conhecimento imediato de uma outra existência (a nossa). Admite uma religião natural. e sim as suas atividades. propriamente. contida no seu Tratado sobre o Governo Civil. liberdade. A doutrina política de Locke. Ora. é a expressão teórica do constitucionalismo liberal inglês. Entretanto.6 . pois ele lhe reconhece o caráter de verdadeira ciência. em virtude da qual todos os homens . 8. pelo que diz respeito às coisas externas. Enfim. pelas sanções. em contraste com a doutrina do absolutismo naturalista de Hobbes. mesmo admitida a prova aduzida por Locke segundo a confissão do próprio filósofo . têm direito à vida e à propriedade. universal e necessária.Idéias Pedagógicas Com respeito à religião. Pelo que diz respeito a Deus. porquanto fundamentada na razão. Também Locke admite a passagem do estado de natureza ao estado civilizado. porquanto os direitos que constituem a natureza humana (vida. Aí afirma a nossa passividade. estipulando este contrato social. 8. Que parte tem a liberdade da vontade em tudo isto? Locke nega.o que Locke não demonstrou. não basta ter construído uma moral em abstrato. se vale absolutamente o princípio de causa .como seres racionais . falta a certeza e a regularidade da defesa e da punição. à natureza humana.5 . como dizia Hobbes. pelo que diz respeito ao nosso ser. pois nascemos todos ignorantes e recebemos tudo da 197 . porque nos sentimos passivos em nossas sensações.

livres. mas implica a educação. erudita. da razão. que devem ser desenvolvidos de conformidade com o temperamento de cada um. que é. enquanto o intelecto constrói a experiência. A formação educacional consiste. mas como o meio para o domínio de si mesmo. Esta educação individual não exclui. a educação deve ser formativa. ao mesmo tempo. pois trata-se da formação do intelecto. Por conseguinte. para ampliar. Tem muita importância a obra do educador. senhores de si mesmos. mas é fundamental a colaboração do discípulo. todos temos temperamentos diferentes. precisamente pelo fato de que se trata de formar seres conscientes. mas. fundamentalmente. no desenvolvimento do intelecto mediante a moral. mas. ao mesmo tempo. necessariamente. mnemônica. desenvolvendo o intelecto. afirma a nossa parte ativa. 198 . portanto. Igualmente Locke é fautor de educação física. e não informativa. a formação social. elaborando as idéias simples. dotados de razão. Afirma-se que todos nascemos iguais. autônoma. enriquecer a própria personalidade.experiência.

continua a considerar a filosofia como esclarecedora da essência da realidade.BACON 9. tanto mais quanto esta é menos elaborada. para lançar as bases lógicas da nova ciência.o mundo transcendente e cristão. sustentáculo e causa dos fenômenos sensíveis. A obra principal de Bacon é a Instauratio magna scientiarum. e mais ainda pelo conteúdo.bene vixit qui bene latuit. O pai dela tinha sido o tutor-chefe do rei Eduardo VI. Bacon freqüentou a Universidade de Cambridge. Não conseguia chegar a uma conclusão sobre se gostava mais da vida contemplativa ou da ativa. convencido da sua missão de cientista. Albano. Porque. Faleceu em 1626. Como se vê pelos títulos. Perdoado pelo rei. a metafísica tradicional persiste neles todos histórica e praticamente ao lado da nova filosofia. residência de seu pai sir Nicholas Bacon. que o transcendente e a razão acabam por desaparecer na sombra. segundo o espírito positivo e prático da mentalidade anglosaxônia. acabada e consciente de si mesma. "É difícil dizer". diz Maucaulay. Tornou-se instrutora do filho e não poupou esforços para que ele tivesse instrução. e o que acontecerá a muitos outros pensadores do empirismo e do racionalismo: isto é. Mas sir Nicholas não era um homem comum. das formas.De dignitate et argumentis scientiarum.2 . antes sob a rainha Isabel.Francis Bacon O iniciador do empirismo é Francis Bacon. que foi tesoureiro-mor de Elizabeth e um dos homens mais poderosos da Inglaterra. e. grega e escolástica. Bacon continua afirmando . sob Jaime I.Os Ensaios Sua ascensão parecia tornar realidade os sonhos de Platão de um rei-filósofo. no entanto. ela mesma era lingüista e teóloga. Mas terminou apenas duas. É uma posição filosófica que apela para a metafísica tradicional. "foi ofuscada pela do filh". As duas partes acabadas são precisamente: I . retirou-se para as suas terras. aristotélica e tomista." A mãe de Bacon foi lady Anne Cooke. passo a passo com a sua subida para o poder político.mais ou menos logicamente .3 . trata-se de pesquisas gnosiológicas. a consciência crítica do empirismo. depois.9 . Falta-lhe.Vida e Obras Francis Bacon nasceu no dia 22 de janeiro de 1561 na York House. também. 9. subindo até aos mais altos cargos: advogado geral em 1613. da nova filosofia. Entretanto. escreve ele. II .1 . acontece em Bacon o que aconteceu a muitos pensadores da Renascença. embora desconfiasse de que essa dupla direção de sua vida fosse encurtar o seu alcance e reduzir suas realizações. antes.O EMPIRISMO . lorde Burghley. cunhada de sir William Cecil. chanceler do reino em 1618. que nos primeiros vinte anos do reinado de Elizabeth tinha sido o Guardião do Sinete. Teve uma inteligência muito esclarecida. como Sêneca. e viveu também em Paris. críticas e metodológicas. Ademais. vasta síntese que deveria ter compreendido seis grandes partes. e "se a mistura de contemplações com uma vida ativa ou o retiro inteiramente dedicado a contemplações é o que mais incapacita ou prejudica a 199 . Entretanto foi acusado de concussão e condenado pelo Parlamento a uma multa avultuada. Sua esperança era de ser filósofo e estadista. Londres. que foram aos poucos conquistando os seus sucessores e discípulos até Hume. Foi agraciado por Jaime I com os títulos de Barão de Verulamo e Visconde de S. Enalteceu ele a experiência e o método dedutivo de tal modo. Era seu lema que se vivia melhor na vida oculta . É quase inacreditável que o imenso saber e as realizações literárias desse homem fossem apenas os incidentes e as digressões de uma turbulenta carreira política. "A fama do pai". Começou a sua carreira de homem político e jurista. que deveria dar ao homem o domínio da realidade. dedicando-se inteiramente aos estudos. e não tinha dificuldade em se corresponder em grego com bispos.Novum organum scientiarum. 9. deixando sobre o resto esboços e fragmentos. Bacon estivera escalando os píncaros da filosofia. membro do Conselho particular em 1616.

(. por um instante. e culmina no pragmatismo. e levado por algum destino. obtida graças à observação. um homem é apenas aquilo que ele sabe. porque ali se acha uma linguagem de tão alta qualidade na prosa quanto é a de Shakespeare em verso. cada um desses ensaios fornece. Bacon abomina os recheios e detesta desperdiçar uma palavra. "Dedicar-se em demasia aos estudos é indolência. são o bem soberano das naturezas humanas." Eis uma nova nota que marca o fim da escolástica .) Não são os prazeres das afeições maiores do que os prazeres dos sentidos. produzir efeitos dignos e dotar a vida do homem com uma infinidade de coisas úteis?" Sua mais bela produção literária. contra a inclinação de seu gênio" (isto é caráter).isto é.) Os homens astutos condenam os estudos. se soubermos escolher os nossos livros. o conhecimento da verdade. "um homem naturalmente mais propenso à literatura do que a qualquer outra coisa. e não são os prazeres do intelecto maiores do que os prazeres das afeições? Não se trata. ele dá todos os graus de honra a realizações políticas e militares.. e que o conhecimento não aplicado em ação era uma pálida vaidade acadêmica. Mas no ensaio Da Verdade. afinal de contas. em palavras que lembram Sócrates. Isto é. "Certos livros são para serem provados". "conversamos com os sábios.. se a matéria ou o estilo. Não há dúvida de que os Ensaios devem ser incluídos entre os poucos livros que merecem ser mastigados e digeridos. felicidade igual à possibilidade da mente do homem elevar-se acima da confusão das coisas de onde ele possa ter uma atenção especial para com a ordem da natureza e o erro dos homens? De contentamento e não de benefício? Será que não devemos perceber tanto a riqueza do armazém da natureza quanto a beleza de sua loja? Será estéril a verdade? Não poderemos. os homens simples os admiram. todos esses grupos formam. e alguns poucos para serem mastigados e digeridos". envenenado e afogado. tão admiravelmente preparada e temperada. a destilada sutileza de uma mente de mestre sobre um importante aspecto da vida." Achava que os estudos não podiam ser um fim ou a sabedoria por si sós. e o conhecimento é a mente. é tão fértil em comparações significativas e substanciosas.. usá-los em demasia como ornamento é afetação. (. apenas. ele nos oferece uma infinita riqueza numa pequena frase. e a crença na verdade.e coloca aquela ênfase na experiência e nos resultados que distingue a filosofia inglesa. É um estilo como o do vigoroso Tácito.. através dela.ment. são as nuvens do erro que se transformam nas tempestades das perturbações. Existirá. que é gozá-la. outros para serem engolidos. o divórcio entre o conhecimento e o uso e a observação . então. na literatura inglesa. o entusiasmo do trabalho pela filosofia nos obriga a uma citação. como na ação conversamos com tolos". sem dúvida. nenhum a literárias e filosóficas. que é namorá-la ou cortejá-la. ele escreve: "A indagação da verdade. A excessiva sucessão dessas comparações constitui o único defeito do estilo de 200 . e na verdade uma parte de sua concisão se deve a uma habilidosa adaptação do idioma e do frasear latinos. a política e a filosofia. em um prato tão pequeno. "a vida ativa". "Meu elogio será dedicado à própria mente. uma porção infinitesimal dos oceanos e cataratas de tinta nos quais o mundo é diariamente banhado. e os homens sábios se utilizam deles. e descreve a si mesmo como." Nos livros. ele escreve: "sem filosofia. essas avaliações desproporcionadas. deixado de amar os livros e a meditação. A mente é o homem. Quase que a sua primeira publicação recebeu o título de O Elogio do Conhecimento (1592). No Ensaio sobre a Honra e a Reputação. mostram-no ainda indeciso entre dois amores. nenhum homem. Não que Bacon tivesse. Mas a sua riqueza no que se refere a metáforas é caracteristicamente elizabetana e reflete a exuberância da Renascença. É difícil dizer o que é mais excelente. de um verdadeiro e natural prazer do qual não há saciedade? Não é só esse conhecimento que livra a mente de todas as perturbações? Quantas coisas existem que imaginamos não existirem? Quantas coisas estimamos e valorizamos mais do que são? Essas vãs imaginações. que é o elogio a ela. não quero viver". fazer julgamentos seguindo inteiramente suas regras é o capricho de um scholar. em uma ou duas páginas. Raramente se encontrará uma refeição tão substanciosa. compacto mas refinado. os Ensaios (1597-1623).

ou exame. Apesar disso. o debate. porque se o combustível estiver preparado. suave et facile illud faciet consuetudo" . pois é nessa fase que eles são mais flexíveis. apesar de tudo.) Tampouco se segue que a supressão dos rumores" (isto é. (. reconhece a importância das matérias-primas: "Sólon disse a Creso (quando...) A substância da sedição é de dois tipos: muita pobreza e muito descontentamento. arriscam-se muito pouco." Ele é um militarista confesso.Bacon: as intermináveis metáforas.. claro. as modificações de leis e costumes. que só o do meio fique a cargo de muitos. a eficiência de um Estado varia com a concentração do poder.. não se importam em "(isto é. é difícil dizer de onde virá a fagulha que irá atear-lhe fogo. É verdade que se os pendores ou a aptidão dos filhos forem extraordinários. Porque "o hábito é o principal magistrado da vida do homem. mas em geral.escolha o melhor. e tudo aquilo que. é bom o preceito" dos pitagóricos: "Optimum lege.. porque a experiência da idade em coisas que estejam ao alcance dessa idade os dirige. "Os jovens são mais aptos para inventar do que para julgar. e em geral. o cancelamento de privilégios. e lamenta uma paz prolongada. e as providências para reprimi-los só fazem dar vida longa à especulação.. "Que os pais escolhem cedo as vocações e os cursos que pretendem que seus filhos sigam. mas se contentam com uma mediocridade de sucesso. perseguem absurdamente alguns princípios com que toparam por acaso. em como)" inovar. da discussão) "com demasiada severidade deva ser o remédio para os problemas. as privações. pensando que estes irão dedicar-se melhor àquilo para que estejam mais inclinados. facções desesperadas. Creso lhe mostrou o seu ouro): "Senhor. "Se quiserdes presteza. e os que estão contra ele estão inteiros e unidos. "Deve haver três pontos essenciais nas atividades" do governo: "a preparação. os maltrata. é dividir e enfraquecer todas as facções (. o progresso de pessoas indignas. que a juventude e a infância podem ter uma liberdade demasiada e. estranhas. o que provoca transtornos desconhecidos. (. constituem o melhor alimento intelectual. se chegar qualquer outro que tenha melhor ferro do que vós. deplora o crescimento da indústria por considerar que isso deixa os homens despreparados para a guerra. abraçam mais do que podem segurar." A política dos Ensaios prega um conservantismo natural em que aspira ao governo. ou pelo menos semear a desconfiança entre elas. demoram-se demais em consultas.) é afastar a causa. e mais aptos para novos projetos do que para atividades já estabelecidas. o hábito irá torná-lo agradável e fácil.) As causas e motivos das sedições são as inovações na religião.. e que não se concentrem demais no pensor dos filhos. não é um dos piores remédios.) Os jovens. a opressão generalizada.. Bacon dá alguns conselhos para se evitarem revoluções.) contrárias ao Estado. ao ofender um povo. porque as virtudes de qualquer um deles poderão corrigir os defeitos dos dois. "O meio mais seguro de evitar sedições (.. (. (.. ele será dono de todo esse ouro. soldados desmobilizados. porque é desesperador o caso em que aqueles que apóiam o governo estão cheios de discórdia e cisões. mais aptos para a execução do que para o assessoramento." Bacon acha. por ostentação. alegorias e alusões caem como chicotes sobre os nossos nervos e acabam por nos exaurir." Uma receita melhor para evitar as revoluções é uma 201 ." A sugestão de todos os líderes. No ensaio "Da Juventude e da Idade" ele condensa um livro em um parágrafo. por aplacar o guerreiro que existe no homem. porque muitas vezes o desprezo é a melhor forma de contê-los. assim. que não pode ser digerido em grandes quantidades de uma só vez. crescer desordenadas e relaxadas..). é bom não contrariá-los.. com o primeiro e o último ficando a cargo de uns poucos. Bacon quer um forte poder central. Não há dúvida de que é bom forçar o emprego de ambos (. mas tomados quatro ou cinco de cada vez.. faz com que ele se una em uma casa comum.. os impostos. voam para o fim sem consideração para com os meios e os graus." Tal como Aristóteles. "De modo geral.. arrependem-se cedo demais e raramente levam o empreendimento até o fim. A monarquia é a melhor forma de governo. na conduta e na administração dos atos.. Os Ensaios são como um alimento rico e pesado. mas em coisas novas. (.) Os homens maduros fazem objeções demais. e colocá-las longe uma das outras. agitam mais do que podem acalmar. é dividir seus inimigos e unir os amigos. e a conclusão" (ou execução).

o que interessa mais a Bacon não é esta ciência dos princípios comuns. A ciência do homem divide-se em ciência do homem individual (philosophia humanitatis). A parte negativa consiste." Ele cita Sêneca. o verdadeiro porquê). um rei-filósofo. A primeira. se divide em física especial ("que procura a causa eficiente e material"). 9. só é bom se for espalhado. uma aristocracia para a administração. que na sua época praticamente não tinha acesso à educação. Bacon não confia no povo. e em metafísica ("que procura a causa final e a forma"). em alertar a mente contra os erros comuns. espírito e matéria. 2) Poesia.e os divide em quatro grupos fundamentais. por sua vez. do homem e da natureza. a saber. Na sua linguagem imaginosa Bacon chama as causas destes erros comuns. portanto." Mas isso não significa socialismo ou. e.O "Novum Organum" Entretanto. Antonio Pio e Aurélio. e sim a ciência da natureza. e em ciência da sociedade humana (philosophia civilis). conhecimento racional de Deus. entretanto a eles interessavam muito mais as causas do que a experiência. Aristóteles e Tomás de Aquino afirmaram claramente este método. 3) Ciência ou filosofia. pois. A teologia natural de Bacon não exclui. e sim no sujeito que conhece. denominando-a philosophia prima. depois. Essa classificação é baseada não no objeto do conhecimento. quando procura a conquista da ciência verdadeira. Acima das ciências filosóficas particulares.4 . fantasia.5 . que registra (memória) os dados de fato. divide-se em especulativa e operativa. elaboração imaginativa desses dados. o verdadeiro método da indução científica compreende uma parte negativa ou crítica. e uma parte positiva ou construtiva. mas prescinde da revelação cristã e da religião positiva. "Quando não há exemplos de que um governo não tenha prosperado com governos cultos. o Novum organum. A segunda diz respeito à arte de governar e às relações sociais e aos negócios. "a mais baixa das lisonjas é a lisonja do homem do povo". A primeira diz respeito ao homem todo. portanto. que deveria conter precisamente as regras para a construção da ciência da natureza. segundo o novo ideal humano e prático e imanentista. Começa-se. 1) Idola tribus. baseada no respectivo predomínio das três faculdades que presidem à organização do saber: memória. muito mais a metafísica do que a ciência. com a classificação geral das disciplinas humanas. A filosofia natural ou física. 9. tinha a esperança de que aos nomes deles a posteridade acrescentasse o seu. contra Aristóteles e a Escolática. democracia. e acima de todos. Bacon põe uma ciência filosófica comum. antes de tudo. os erros da raça humana "fundamentados em a natureza como tal" (não se sabe. mesmo. ao ser aplaudido pela multidão. Como é sabido. razão.distribuição eqüitativa da riqueza: "O dinheiro é como o esterco. Pertencem pois à física operativa as artes mecânicas. 1) História tanto civil quanto natural." O que Bacon quer é. Esta não é a ontologia tradicional. deveria ter constituído a summa philosophica dos tempos novos. fantasmas .idola . Segundo Bacon. a ciência do ser em geral. mas a ciência dos princípios comuns às várias ciências. o que transcende a experiência do que a experiência. primeiro. perguntou o que tinha feito de errado. uma pequena burguesia de proprietários rurais. 202 . e até o reconheceram como único procedimento inicial do conhecimento humano. isto é. tão audazmente iniciado pela ciência e pela política da Renascença. o método indutivo.O Pensamento: A "Instauratio Magna" A Instauratio magna scientiarum deveria ter precisamente representado a reforma do saber. e "Fócion compreendeu bem quando. Essa obra deveria ter abraçado a enciclopédia das ciências e compreendido também as técnicas. Bacon reivindica. e lançado o fundamento do regnum hominis.

que será. Têm-se. construtiva. desconhecido dos predecessores. aí se encontrará também a sua causa e lei. o mesmo fenômeno não aparece. 3) Idola fori. objeto da física especial (luz. aí aumentará ou diminuirá também a sua causa e lei. pêso. Bacon passa a tratar da natureza positiva.2) Idola specus (por alusão à caverna de Platão) determinados pelas disposições subjetivas de cada um. desta maneira. nas famosas tabulae baconianas. que substituem o mundo real por um mundo fantástico. da genuína interpretação da natureza para dominá-la. bastante semelhante à de Demócrito. três espécies de registros ou tabelas: 1) tabelas de presença. causa e lei da ação e da ordem das naturezas. isto é.). dos fenômenos às essências . 4) Idola theatri. ter-se tabelas completas e isolar as naturezas simples. a princípio. e nos casos onde o fenômeno aumenta ou diminui. calor. em seguida.bem conhecida pela filosofia tradicional . que constituem as formas baconianas. não sendo fácil. 2) tabelas de ausência. o maior número possível de exemplos. os erros provenientes das escolas filosóficas. O mundo material é constituído de corpúsculos. esta passagem das naturezas às formas. Essa gnosiologia. uma física materialista e. as formas das naturezas . em que um determinado fenômeno aparece. Mas. Enfim registra o aumentar ou o diminuir do fenômeno em questão. Desembaraçado o terreno destes erros. em virtude da qual se agrupam em determinados complexos. averiguada pelas experimentações. para tanto. 3) tabelas de gradações. depois enumera os casos que mais se assemelham às primeiras. 203 . por um jogo cênico. quer em objetos diferentes. forma e posição. aí faltará também a sua causa e lei. segundo um método preciso. é mister estabelecê-la por hipótese. em que.é determinada por Bacon. As naturezas são precisamente os fenômenos experimentais. nos casos em que o fenômeno não se manifesta. Esta pesquisa. É evidente que nos casos onde uma determinada natureza ou fenômeno aparecem. as essências ou causas formais. e desta maneira pôr em evidência a causa. quer no mesmo objeto. isto é. diversos apenas por grandeza. os princípios imanentes. com base nos fenômenos presentes na primeira tabela. porém. Estes corpúsculos são animados por uma força. provenientes do comércio social ou da linguagem imperfeita. objeto da metafísica de Bacon. A causa (forma) dos fenômenos (naturezas) será procurada. erros da praça. portanto. Para determinar de um modo certo as causas e as leis dos fenômenos . é mister conhecer as que Bacon chama de formas. atomista. etc. as formas são leis genéticas e organizadoras das naturezas. mais precisamente.isto é. metodologia (empírica) é baseada em uma metafísica. qualitativamente idênticos.Bacon recolhe. antes de tudo.

A filosofia de Hobbes é materialista e mecanicista. por isso. the trayan of imagination). Mas a essa lógica só concernem símbolos. de um raciocínio demonstrativo muito rigoroso. que da experiência passada conclui.1 . ao justificar o poder absoluto do soberano. Em 1642. O Leviatã será traduzido para o latim em 1688. basta descrever o que se passa no estado natural.HOBBES 10. isto é. mas sobretudo as 204 . Ao lado de uma indução empírica aproximativa. Hobbes admite a existência de uma lógica pura. procura ultrapassar todos os seus semelhantes: ele não busca apenas a satisfação de suas necessidades naturais. Durante toda sua vida. Ele não é sociável por natureza e só o será por acidente. em 1651. o poder de cada um é medido por seu poder real. Hobbes crê na possibilidade de uma lógica pura. palavras (Hobbes é nominalista). Para Hobbes. o homem não possui instinto social.10 . estranho às realidades concretas. mas nunca foi integralmente traduzido para o francês. idênticas aos princípios de que partimos. perfeitamente racional. Para compreender como o homem se resolve a criar a instituição artificial do governo. o instinto de conservação ou. Hobbes. A origem de todo conhecimento é a sensação. ele publica em Paris o De Cive e. há o que Hobbes denomina endeavour. reduz-se à força.O EMPIRISMO . por natureza. de afirmação e de crescimento de si próprio. forma e autoridade de uma comunidade eclesiástica e civil. Na fonte de todos os nossos valores. mais exatamente. em latim. em 1588. Todavia. em 1608. assim a moral se reduz ao interesse e à paixão. notadamente pela Itália (encontrará Galileu em Florença) e sobretudo pela França (encontrará o padre Mersenne em Paris). O absolutismo da época de Hobbes geralmente se apóia na teologia (Deus teria investido os reis de seu poder absoluto). e conatus. em todos os casos. Antes mesmo da revolução de 1648. onde se sente ameaçado por causa de suas convicções monarquistas. Retornará à Inglaterra por ocasião da restauração de Carlos II em 1660. esforço próprio a todos os seres para unir-se ao que lhes agrada e fugir do que lhes desagrada (esse tema do conatus será reencontrado no spinozismo).Tomás Hobbes Tomás Hobbes nasceu em Westport. o que se passará amanhã (e que não tem outro fundamento além da associação de idéias. faz publicar em Londres o Leviatã ou matéria. Filho de clérigo. sem prova decisiva. Para ele. Se definirmos rigorosamente as palavras e as regras do emprego dos signos. podemos chegar a conclusões rigorosas. descobre-lhe uma origem natural. Viajará por diversos países da Europa. Assim como a percepção é explicada mecanicamente a partir das excitações transmitidas pelo cérebro. o direito. em Amsterdam. como as abelhas e as formigas. ele será o amigo devotado dos Stuarts. que vai suprimir o poder real. o homem se distingue dos insetos sociais. Hobbes. em inglês. Hobbes é um empirista inglês e nele encontramos os temas fundamentais que serão sempre os da escola. sai da Universidade de Oxford e se torna preceptor do filho de Lord Cavendish. Mas trata-se de um jogo do pensamento. princípio original do conhecimento dos próprios princípios: a imaginação é um agrupamento inédito de fragmentos de sensação e a memória nada mais é do que o reflexo de antigas sensações. o homem. ele foge da Inglaterra. No estado natural. mas distingue dois momentos na história da humanidade: o estado natural e o estado político. isto é. cada um tem exatamente tanto de direito quanto de força e todos só pensam na própria conservação e nos interesses pessoais. É partindo de tais fundamentos psicológicos que Hobbes elabora sua justificação do despotismo.

o estado natural é. em última instância mais poderoso do que o orgulho. uma vez que o soberano terá. em Hobbes. Simplesmente o medo é maior do que a vaidade e os homens concordam em transmitir todos os seus poderes a um soberano. para todos. Assim é que ele exclui o "papismo" e o "presbiterianismo" por causa "dessa autoridade que alguns concedem ao papa em reinos que não lhe pertencem ou que alguns bispos. a força é a única medida do direito.alegrias da vaidade (pride). é a paixão que vai dar a palavra à razão. Quanto a este último. de fato. Este último . ninguém está protegido. ao menos a sujeição do outro. para todos.apesar de prudentes reservas . Assim sendo. esse poder absoluto permanece um poder de fato que encontrará seus limites no dia em que os súditos preferirem morrer a obedecer. O efeito comum do poder consistirá. é um estado extremamente infeliz. como no de natureza. portanto. o maior interesse em fazer reinar a ordem se quiser permanecer no poder. é a guerra de todos contra todos. como diz Halbwachs.ª parte: Do Homem Cap. vão se encarregar de estabelecer a paz e a segurança. No estado social. ao herdar os direitos de todos. ele é o senhor absoluto desde então. que vai obrigar os homens a fundarem um estado social e a autoridade política. esta á a origem psicológica que Hobbes atribui ao poder despótico. em suas dioceses.O Estado Natural e o Pacto Social Leviatã. As expressões pelas quais Hobbes o descreve são célebres: "Homo homini lupus". Apesar de tudo. 10.) É o medo. Seu direito não tem outro limite que seu poder e sua vontade. antecipando aqui os temas hegelianos . ao invés de uma desigualdade. Não existe aí a intervenção de uma exigência moral. querem usurpar".2 . Aquele que possui grande força muscular não está ao abrigo da astúcia do mais fraco. o homem é o lobo do homem. em definitivo. Ele chama de Leviatã ao seu estado totalitário em lembrança de uma passagem da Bíblia (Jó XLI) em que tal palavra designa um animal monstruoso. Por conseguinte.o poder religioso ao poder político. o que houve.por maquinação secreta ou a partir de hábeis alianças . foi "uma alienação e não uma delegação de poderes". é uma espécie de igualdade dos homens no estado natural que faz sua infelicidade. É claro que esse estado.comumente não deseja a morte de seu adversário e deseja seu cativeiro a fim de poder ler. na segurança. 1. Isto só será possível se cada um abdicar de seus direitos absolutos em favor de um soberano que. notemo-lo bem. Mas não houve pacto nem contrato. Os homens.observa Hobbes. mas . O maior sofrimento é ser desprezado. um estado de insegurança e de angústia. Em todo caso. o homem sempre tem medo de ser morto ou escravizado e esse temor. Houve. No estado de sociedade. portanto. uma espécie de laicização da oposição teológica entre o orgulho espiritual e o temor a Deus ou humildade. mas não possui o menor compromisso em relação a seus súditos. o monopólio da força pertence ao soberano. Finalmente. cruel e invencível que é o rei dos orgulhosos. Pois. o ofendido procura vingar-se. em seu olhar atemorizado e submisso. uma atemorizada renúncia do seu próprio poder. em que cada um procura senão a morte. (Essa psicologia da vaidade e do medo é. o reconhecimento de sua própria superioridade. Só haverá paz concretizável se cada um renunciar ao direito absoluto que tem sobre todas as coisas. terá um poder absoluto. o totalitarismo de Hobbes submete . Assim sendo. da parte de cada indivíduo. XIII 205 . "Bellum omnium contra omnes".sempre é o suficientemente forte para vencer o mais forte. Não pensemos que mesmo os homens mais robustos desfrutem tranqüilamente as vitórias que sua força lhe assegura.

onde não há lei. não há lei. não pode existir para nenhum homem (por mais forte ou astucioso que seja) a menor segurança. nessa situação. para garantirlhes a propriedade do que adquirem por Contrato mútuo em substituição e no lugar do Direito universal que perdem. não ao homem solitário.. E porque a condição humana é uma condição de guerra de cada um contra cada um. para salvaguardar sua própria natureza... quando nada é próprio. se apóia na Paixões e.. E a Razão sugere artigos de paz convenientes sobre os quais os homens podem ser levados a concordar. XIV .. possibilidade que. 206 . inicialmente. nesse caso. ou seja. essa guerra de todos contra todos tem por conseqüência o fato de nada ser injusto. XV . pois.. em sua Razão... em outras palavras. não há Propriedade e cada homem tem direito a todas as coisas. O Estado de natureza. mas apenas no fato de que a cada um pertence aquilo que for capaz de o guardar. nada há que seja Injusto. por outro.. Justiça e injustiça não pertencem à lista das faculdades naturais do Espírito ou do Corpo. justiça e injustiça são qualidades relativas aos homens em sociedade. cada um tem direito sobre todas as coisas. As noções de certo e errado. que a justiça é a vontade de atribuir a cada um o que lhe cabe pertencer. Enquanto dura esse direito natural de cada um sobre tudo e todos. por um lado. isto é.. Cap. e por muito tempo. mesmo até o corpo dos outros.. de sair dela. e onde não há Poder Constrangedor estabelecido. Antes que se possa utilizar das palavras justo e injusto... Na realidade. Por conseguinte.. As paixões que inclinam o homem para a paz são o temor à morte violenta e o desejo de tudo o que é necessário a uma vida confortável. Onde não há Poder comum. A mesma situação de guerra não implica na existência da propriedade. É o que também resulta da definição que as Escolas dão geralmente da justiça. a triste condição em que o homem é colocado pela natureza com a possibilidade. a saber. onde não há Estado. quando não há propriedade. não há injustiça: força e astúcia são virtudes cardeais na guerra. de justiça e de injustiça não têm lugar nessa situação. Eis então. E não existe tal poder constrangedor antes da instituição de um Estado.. elas poderiam ser encontradas num homem que estivesse sozinho no mundo (como acontece com seus sentidos ou suas paixões). é bem verdade. para forçar os homens a executar seus pactos pelo temor de uma punição maior do que o benefício que poderiam esperar se os violassem. não há injustiça. em seguida. O direito natural que os escritores comumente chamam de Jus naturale é a Liberdade que tem cada um de se servir da própria força segundo sua vontade. sua própria vida. Cap... é preciso que haja um Poder constrangedor. enquanto não há Estado. daí resulta que. pois. nem na distinção entre o Meu e o Teu.

Hume se esforça por simplificar e vulgarizar a filosofia de seu tratado e publica então os Ensaios Filosóficos sobre o Entendimento Humano (1748). seu Tratado da Natureza Humana. dos dados empíricos: impressões de sensação. vivo. de causas e efeitos etc. ir da idéia à impressão consiste em apenas perguntar qual é o conteúdo da consciência que se oculta sob as palavras. em nome desse princípio de causalidade. em 1779. Sua filosofia coloca. diz Laporte.1 . cujo título definitivo surgirá em edição seguinte (1758): Investigação (Inquiry) sobre o Entendimento Humano. e Hume vê lhe recusarem uma cadeira de filosofia na Universidade de Glasgow. Hume pertencia a uma família abastada. à primeira vista. Stewart. publicou uma Investigação sobre os Princípios Morais (1751). passa alguns anos na França.HUME 11. isto é. exatamente como Hume nos ensina a retornar das idéias para as impressões". que se precisa redescobrir sob as palavras (no empirismo de Hume. O jovem Hume. De 1763 a 1765 ele é secretário da Embaixada em Paris e festejado no mundo dos filósofos. o método de Hume pode ser apresentado de maneira mais moderna. não cessamos de ultrapassar a experiência imediata. Nesse meio tempo. Em 1766 ele hospeda Rosseau na Inglaterra. Em 1768.11 . a noção de causalidade é muito enigmática porque. 11. em seguida transformado em universidade -.3 . "já nasceu morta para a imprensa". Que existe verdadeiramente no pensamento quando se discorre sobre isso? As quais impressões vividas correspondem todas essas palavras? Aquilo que Hume chama de impressão e que ele caracteriza pelos termos "vividness".David Hume David Hume nasceu na Escócia. ele é Secretário de Estado em Londres. de princípios. Ele parte do princípio de que todas as nossas "idéias" são ópias das nossas "impressões". Por exemplo. aos vinte e três anos. à intuição direta e concreta da idéia.2 . mas não deixa de inquietar os cristãos. onde compõe. Gaton Berger escrevia: "É preciso ir dos conceitos vazios. editado em Londres. diz-nos o autor. a todo momento afirmamos mais do que vemos. brilhantes.A Análise da Idéia de Causa Aos olhos de Hume. sob o nome de "impressões". nesse sentido. muito próxima da de Locke. Ele acabará por fazer uma bela carreira na diplomacia.um dos melhores da Escócia. indispondo-se com ele em seguida. Fez bons estudos no colégio de Edimburgo . em nome do princípio de causalidade (as mesmas causas produzem os mesmos efeitos ou o aquecimento da água é causa da ebulição). Seus Ensaios Morais e Políticos (1742) conhecem vivo sucesso. Não é este o ponto de vista tradicional do empirismo que vê na experiência a fonte de todo saber? Na realidade. de física e ciências naturais. que sonha tornar-se homem de letras e filósofo célebre. aquilo que Bergson mais tarde denominará os dados imediatos da consciência e que os fenomenologistas denominarão a intuição originária ou o vivido. isto é. A obra. seus Diálogos sobre a Religião Natural. Para Hume. mas. Fala-se de substância. em Edimburgo em 1711. pelos quais uma idéia é apenas visada. afirmo que a água que 207 . "liveliness" é o pensamento atual. A obra obtém sucesso. notadamente em La Flèche. cujo professor de "filosofia". em 1739. A análise psicológica do entendimento operada por Hume parece. acessíveis ao público mundano.O EMPIRISMO . há que ver "antes o ódio ao verbalismo do que o preconceito do sensualismo"). 11. também. impressões de reflexão (emoções e paixões). era um cientista discípulo de Newton.O Método de Hume Hume quis ser o Newton da psicologia. uma volumosa História da Inglaterra (1754-1759) e uma História Natural da Religião (1757). rapidamente renuncia aos estudos jurídicos e comerciais. Somente após sua morte (1776) é que foram publicados. bastante esclarecedor: "Uma tentativa de introdução do método de raciocínio experimental nas ciências morais. O subtítulo de seu Tratado da Natureza Humana é. Esse fracasso deu a Hume a idéia de escrever livros curtos. Ao falar de fenomenologia contemporânea.

mas ele retém a análise psicológica do grande filósofo francês. mas não vejo conexão necessária entre os dois fatos. elas ocorrem melhor do que à tarde (em alguns) e melhor antes da refeição do que após. para surpresa sua. na esperança de que sua boa sorte irá orientá-las no sentido do objeto de suas buscas". essa hipótese é extravagante. não me dá a origem do porquê. cuja língua ou cujos dedos se movem segundo minha vontade. Lembramo-nos como a sucessão de meu querer e de meus movimentos espantava Malebranche a tal ponto que ele via em minha vontade apenas uma ocasião a partir da qual Deus produzia o movimento de meu corpo. B aparece. Todo raciocínio experimental. Mas isto não esclarece nada. Um paralítico. Mas não constato o porquê. vasculham todos os lugares vizinhos sem visão nem propósitos determinados. o fenômeno B se segue ao fenômeno A. c) Quer dizer enfim da esperiência puramente interior da sucessão de minhas próprias idéias? Deve admitir que minha reflexão atenta é causa das idéias que me ocorrem? Mas. de saída. Permanece enigmática a ação da alma sobre o corpo: "Se tivéssemos o poder de afastar as montanhas ou controlar os planetas. Vejamos para onde nos conduzirá essa busca filosófica. Se quero levantar o braço. De onde me vem esse princípio? A qual impressão corresponde essa idéia? A "investigação" filosófica vai se apresentar aqui como uma pesquisa em todas as direções: "Nós devemos proceder como essas pessoas que. quer levantar o braço e. em seguida. que o fenômeno A é seguido do fenômeno B. Mas não constato que B aparece porque A se mostra. filósofo do século XVIII. essa experiência não é menos clara do que a precedente. A experiência externa apenas me fornece o e depois. Não terei aqui a chave do princípio de causalidade. assim como vejo que o aquecimento é seguido da ebulição: vejo. Constato que A se mostra e que. uma impressão concreta de causalidade que torne legítima essa idéia de causa que pretendemos ter: a) Consideremos. que quero levantar o braço.). portanto. a experiência externa: vejo que o movimento de uma bola de bilhar é seguido do movimento de outra bola com que a primeira se chocou. a barra de metal vai se dilatar. entre os fenômenos A e B. que faço a todo momento em que sinto o poder da minha consciência sobre meu corpo. repousa nesse princípio de causalidade. simultaneamente interna e externa. mas não vejo conexão necessária. em nenhum setor da experiência. há uma conjunção constante. não tenho o menor poder sobre meu coração ou sobre meu fígado. Não sei absolutamente por meio de que engrenagem neuromuscular complexa se opera o movimento de meu braço. A repetição constante de um enigma não é o mesmo que sua solução. constata que nenhum movimento se segue ao seu desejo. como eu. E eu. esse poder não seria mais extraordinário". se refletirmos bem. pelo qual do presente se conclui o futuro (a água vai ferver. de início. Hume não encontrará. Mas o que não vejo é o porquê dessa sucessão. Ainda aqui. Pela manhã. segundo os casos ou os momentos. Não é evidente que minha vontade é a causa do movimento de meu corpo? Mas. então. tiro "de um objeto uma conclusão que o ultrapassa". constato com surpresa que quero efetuar certos movimentos e depois que esses movimentos se realizam. depois. Constato duas coisas: inicialmente. as idéias ocorrem ou não. levanto-o. b) Examinemos agora essa experiência. Aos olhos de Hume. 208 . É certo que posso repetir a experiência e que. ao procurarem um objeto que lhes está oculto e quando não o encontram no lugar que esperavam. que ele se levanta. prevejo a ebulição dessa água. não tenho experiência de uma conexão necessária. amanhã fará dia etc. cada vez em que a repito. Ainda aqui constato a existência de uma sucessão entre meu esforço de atenção e minhas idéias.acabo de pôr no fogo vai ferver. Vejo bem que.

não tem o menor valor de verdade. que facilmente desliza de um estado psíquico a outro e constrói o mito da personalidade. ou eu sou meus "estados" e minhas "qualidades" e não sou eu mesmo. "após três ou quatro horas de diversão. dirá Hegel mais tarde. A teoria de Hume. Por conseguinte.Por conseguinte. na verdade." 11. por mais absoluto que seja. explicar psicologicamente a crença no princípio de causalidade é recusar todo valor a esse princípio. cedo a uma tendência criada pelo hábito. A não pode ser não-A. diz Hume. coleção de haveres heteróclitos que é dado como um ser. suas "conclusões filosóficas parecem desvanecer-se como os fantasmas da noite ao nascer do dia". que duvida sobretudo dos sentidos para preparar a conversão do espírito ao mundo das verdades eternas.é ilusória para ele. idéias e sonhos do mesmo modo que tenho esta roupa ou esta casa. O que acontece é que eu acredito na causalidade e Hume explica essa crença. a conclusão se impõe. está persuadido de que ela vai ferver. não nos objetos. é natural. a necessidade causal não existe realmente nas coisas. o ser e o ter. Ninguém mais do que ele separou filosofia e vida. diz ele curiosamente. os rios se tornavam tão duros que se podia fazer deslizar trenós sobre os mesmos!!). é porque a imaginação. em seu gabinete. Em todos os princípios do conhecimento ele descobre as ilusões da imaginação e do hábito. inteiramente explicado por uma ilusão psicológica. Por que será que espero ver a água ferver quando a aqueço? É porque. opõe-se um ceticismo moderno . De fato. em virtude de poderoso hábito: vai ferver. portanto. tão forçadas e ridículas que não poderia encontrar coragem e retomá-las por pouco que fosse". Em última instância.que nega apenas as afirmações da metafísica e fundamenta. poderia ocorrer . responde Hume. mas segundo os níveis do pensamento. solidamente. ou então sou eu mesmo e nada mais." No domínio das proposições lógicas. Pascal. que já esboçara essa análise psicológica da indução. Se. instintiva. senão o peso do meu hábito e da minha expectativa. Mas nas "matters of fact". surge-nos. é simultaneamente um dogmatismo instintivo e um ceticismo reflexivo. Só que Hume é o primeiro a reconhecer que seu ceticismo. Mas essa expectativa não tem fundamento racional. tudo pode acontecer. absurda no plano da reflexão.4 . Quando mergulha na vida corrente. como um ceticismo absoluto. ao ceticismo antigo. O ceticismo de Hume. Ele filosofa ceticamente segundo uma reflexão rigorosa e dissolvente. as verdades da ciência experimental. Aquele rei de Sião. não existe. errara muito ao negar um fato contrário à sua experiência. Quando reflete como filósofo. o ceticismo de Hume. ele é cético. "A necessidade é algo que existe no espírito. Segundo Hume. Não existe nenhuma impressão autêntica da causalidade. Para Hegel. O princípio de causalidade.de que Hume seria o corifeu .que essa água aquecida se transformasse em gelo! "Qualquer coisa. Até a unidade do eu . 209 . anula-o". pode produzir qualquer coisa. eu quisesse retornar às minhas especulações. estas me pareceriam tão frias. eu tenho reputação e mesmo lembranças. Aparento antecipar a experiência quando. como dizemos. quando coloca a água no fogo. é artificial. na idéia de causalidade. por conseguinte. ao abolir o princípio de causalidade. Em suma. Pois. hábil em mascarar a descontinuidade de todas as coisas. no inverno. lança a suspeita em toda ciência experimental. É simplesmente a imaginação.sem contradição . aquecimento e ebulição sempre estiveram associados em minha experiência e essa associação determinou um hábito em mim. Se estabeleço "uma conclusão que projeta no futuro os casos passados de que tive experiência". como todo mundo. resvala de um evento dado àquele que comumente o acompanha. A crença no princípio de causalidade.que se nos apresenta ingenuamente como uma evidência . irresistivelmente arrastada pelo peso do costume. é também a imaginação que identifica o eu com o que ele possui ou. que condenara à morte o embaixador norueguês em sua corte (porque este último zombara dele ao afirmar que em seu país. Coloco a água no fogo e afirmo. partindo do hábito e da associação das idéias. Espero invencivelmente a ebulição da água que coloquei no fogo. dizia em fórmula surpreendente: "Quem reduz o costume a seu princípio. Ceticismo e dogmatismo não se apresentam nele segundo os domínios do saber. Na realidade. Hume.O Ceticismo de Hume O empirismo de Hume surge então como um ceticismo.

5 . Mas como Hume pode apoiar-se no determinismo. no momento da redação de seus Diálogos. como a forca essencial da crença! Finalmente.Podemos então qualificar. na finalidade.pela pesquisa de origem psicológica da crença. a crença popular nos milagres . Cleanto. fundamentava-se precisamente numa crítica análoga à de Hume para afirmar a possibilidade do milagre. Enquanto muitos filósofos do século das luzes reservam sua ironia crítica para a religião revelada e encontram na ordem do mundo.Hume e o Problema da Religião Essa complexidade da filosofia de Hume torna mais difícil a elucidação de sua filosofia religiosa. ele declara que. ao invés de admitir uma inverossímil violação das leis da natureza". ele substitui a pesquisa de um fundamento lógico . Os três personagens são: um deísta racionalista. não estará julgando "popularmente"? Seu combate pelas luzes situar-se-ia então no plano da reflexão filosófica que justamente anula o prestígio do costume e do bom-senso indutivo.que se apresenta impossível . para o filósofo.é muito natural! "A velhacaria e a idiotice humanas são fenômenos tão correntes. o papel de Filon e Demea estão sempre de acordo quando se trata de demolir o racionalismo. Em compensação. e o cético Filon. numa carta de 1751 a Gilbert Elliot of Minto. Hume afirma que está mais próximo de Cleanto. Por outro lado. a crítica da razão teológica tem. o próprio Hume afirma ter "querido evitar esse erro vulgar que consiste em só colocar absurdos na boca dos adversários". por exemplo. Demea. tem-se a impressão de que Hume multiplica suas críticas "céticas" à religião natural. Mas. em que cada personagem sustenta seu ponto de vista com argumentos sérios. sua falta torna o outro impossível: popular maneira de julgar" Quando Hume rejeita o milagre. 210 . não é mais misterioso do que nascer. Ao fim da obra. Em ambos os casos.. argumentos para a religião natural. é precisamente esse sofrimento que conduz o povo a buscar as consolações da religião. 11. não estará pensando ao nível da imaginação e do costume. dizia. A noção de um Deus-Providência parece-lhe pouco compatível com os sofrimentos e os males de que os homens são vítimas neste mundo. Os Diálogos sobre a Religião Natural são difíceis de interpretar porque se trata de verdadeiros diálogos. o mesmo sentido que a crítica da razão experimental.perfeitamente explicável pelas leis que governam a imaginação crédula dos homens . místico anti-racionalista. surge.. ousou dizer que convinha a um cavalheiro pensar como os whigs. portanto. Em suma. por outro lado. Consideremos. no povo. Ressuscitar. "O costume torna um fácil. se a verdade do sofrimento humano é. O mesmo fato. Ele parece ter sido escrito sob a ótica da filosofia das luzes: o milagre é impossível porque contraria a experiência. uma vez que sua crítica da causalidade fez desse próprio determinismo uma ilusão psicológica? Pascal. observa Hume sutilmente. um argumento decisivo contra a Providência. as leis da natureza. o célebre Ensaio Sobre os Milagres. que demonstra a existência de Deus partindo das maravilhas do universo. O ceticismo de Hume é um psicologismo. de certo modo. que para o filósofo é uma objeção maior à religião. o antropomorfismo e o otimismo de Cleanto. em Hume. e votar como os tories. como "humorístico" o ceticismo desse filósofo inglês que. Hume se apóia no determinismo físico para rejeitar a realidade do milagre e no determinismo psicológico para explicar sua ilusão tenaz. que eu antes acreditaria que os acontecimentos mais extraordinários nascem do seu concurso.

com toda sua experiência. e não é por nenhum progresso de raciocínio que ele é obrigado a chegar a esta conclusão. na medida em que tenta limitar nossas pesquisas à vida corrente. por meio de algum raciocínio. Se as diversas forças e princípios do universo fossem 211 . seja subitamente transportado por este mundo. Esse princípio é o costume. todas a vezes que a repetição de uma operação ou de um ato particular produz uma tendência no sentido de renovar o mesmo ato ou a mesma operação sem o impulso de qualquer raciocínio ou progresso do entendimento.12 . aquele homem. Pois. Numa palavra. por exemplo. e. certamente ele observaria de imediato uma contínua sucessão de objetos. ele seria incapaz. e se os animais fossem dotados de uma ampla provisão de forças e de faculdades. Não existe razão para se inferir a existência de um pela aparição do outro. unicamente porque um acontecimento precede outro em um único caso. de atingir a idéia de causa e efeito. A natureza desse princípio bem merece que nos entrguemos ao esforço de investigar sobre ela. o hábito.1 . um acontecimento seguir-se a outro.O Problema do Mal (Discurso de Filon nos Diálogos sobre a Religião Natural. Suponha-se que um homem. Mas ele sempre se acha determinado a tirá-la. dos quais depende quase todo conhecimento. A natureza sempre manterá seus direitos e. universalmente reconhecido e bem conhecido por seus efeitos. Mesmo que concluamos. pois os poderes particulares que concretizam todas as operações naturais nunca se apresentam aos sentidos. nenhuma idéia. nenhum conhecimento do poder oculto pelo qual um dos objetos produz o outro. Ao empregar esta palavra não pretendemos ter dado a razão última de tal tendência. Se o espírito não está obrigado a dar esse passo por meio de um argumento.2 . Todavia. tal princípio conservará sua influência por tanto tempo que a natureza humana permanecerá a mesma. dizemos sempre que essa tendência é o efeito do costume. e não é razoável concluir. capítulo XI) Se todas as criaturas vivas fossem incapazes de sofrer ou se o mundo fosse administrado por volições particulares. nunca faria conjecturas ou raciocínios sobre qualquer questão de fato. o mal nunca teria acesso ao universo. sejam afetados por tal descoberta. Existe um outro princípio que o determina a estabelecer tal conclusão. De saída. ele deve ser conduzido por outro princípio igual em peso e em autoridade.TEXTOS DE HUME 12. Suponha-se ainda que este homem tenha adquirido mais experiência e que tenha vivido por muito tempo no mundo para que tenha observado a conjugação constante de objetos e de acontecimentos familiares. não há nenhum perigo que esses raciocínios. ele continuaria a ter o mesmo pensamento. que resulta dessa experiência? Ele imediatamente infere a existência de um dos objetos pela aparição do outro. mesmo que o convencêssemos que seu entendimento de modo algum participa na operação. mas seria incapaz de descobrir outra coisa. nunca destrua os raciocínios de vida corrente e leve suas dúvidas tão longe a ponto de destruir toda ação como toda especulação. Apenas designamos um princípio de natureza humana. dotado das mais poderosas faculdades de razão e de reflexão. que em todos os raciocínios tirados da experiência o espírito dá um passo que não é sustentado por nenhum progresso do entendimento. no fim. que um seja a causa e o outro o efeito. sem mais experiência. só estaria certo do que está imediatamente presente em sua memória e em seus sentidos. 12. ele não adquiriu. prevalecerá sobre os raciocínios abstratos. Sua formação pode ser arbitrária e acidental.O Problema da Causalidade (Segundo a Investigação sobre o Entendimento) Não temos necessidade de temer que esta filosofia.

por mais deploráveis que fossem. se considerarmos a uniformidade e a concordância perfeitas das partes do universo. Vejam este universo em torno de vocês. A uniformidade e a firmeza das leis gerais parecem se opor ao terceiro. Que diremos então nesta ocasião? Diremos que tais circunstâncias não são necessárias e que facilmente poderiam ter sido mudadas no arranjo do universo? Tal decisão parece demasiado presunçosa para criaturas tão cegas e ignorantes como nós. podem ser compatíveis com tais atributos. mas todas as operações da natureza não se realizam por uma oposição de princípios como quente e frio. para sua própria felicidade! Quão desprezíveis ou odiosas para o espectador! O todo só suscita a idéia de uma natureza cega. É certo que existe uma oposição entre dores e prazeres nas afecções das criaturas sensíveis. necessariamente teria havido muito pouco mal em comparação ao de que nos ressentimos efetivamente. as únicas que vale a pena considerar. impregnada por um princípio vivificante e que deixa cair de seu regaço. 212 . afirmamos que. Mas. por outro lado. num certo sentido. Tal conclusão não poderia resultar do ceticismo: é preciso que ela provenha dos fenômenos e de nossa confiança nos raciocínios que deles deduzimos. Sejamos mais modestos em nossas conclusões. Mas examinem um pouco mais de perto essas existências vivas. mas poderiam facilmente. o quarto parece muito mais provável. Fenômenos mistos nunca poderiam provar os dois primeiros princípios. Por conseguinte. que possuem perfeita maldade. quando existem tantos males no universo. como essa bondade não é previamente estabelecida. se a bondade divina .entendo uma bondade tal qual a do homem . não obstante todos os meus raciocínios. Convenhamos que. mas deve ser inferida segundo os fenômenos. sensíveis e agentes! Vocês admiram esta variedade e esta fecundidade prodigiosa. Sou suficientemente cético para convir que as más aparências. Que imensa profusão de seres animados e organizados. sem dúvida. que são isentos de mistura. Todavia. não pode haver nenhum motivo em favor de tal inferência. não descobriremos aí qualquer marca do combate de um ser malfazejo contra um ser benfazejo. que são opostas e ao mesmo tempo possuem bondade e maldade e que não possuem bondade nem maldade. úmido e seco. tanto quanto são. seus filhos estropiados e abortados! Aqui o sistema maniqueu se apresenta como uma hipótese adequada para resolver a dificuldade. e que teria sido tão fácil remediar isto para tanto que o entendimento humano possa ser admitido a julgar em tal assunto. e.pudesse ser estabelecida por razões a priori admissíveis. de algum modo desconhecido. Existem quatro hipóteses possíveis no que se refere às primeiras causas do universo: que são dotadas de perfeita bondade. não bastariam para perturbar o dito princípio. se conciliar com ele. esses fenômenos. leve e pesado! A verdadeira conclusão é que a fonte original de todas as coisas é inteiramente indiferente a todos esses princípios e prefere tanto o bem ao mal quanto o quente ao frio. o seco ao úmido ou o leve ao pesado.exatamente construídos para sempre conservar o temperamento justo e o justo meio. na medida em que dá uma explicação plausível da estranha mistura de bem e de mal que surge na vida. ele é mais especioso e apresenta mais probabilidades do que a hipótese comum. Como são hostis e destruidoras umas para as outras! Como são insuficientes. sem discernimento nem cuidados maternos.

preceptor. na trapaça de uns e na credulidade de outros. privada de toda sensação (tabula rasa) e que.sem reflexão . Ele desenvolveu o empirismo de Locke num sentido francamente sensista. dir-se-ia hoje. não forjo imagens metafísicas. isto é. mas que é regido pelas leis de todo o universo. A obra filosófica mais importante de Condillac é o Traité des sensations. de atividade do espírito. O século XVIII caracteriza-se por uma tendência empírica e analítica: procura-se explicar as idéias complexas a partir das simples e as idéias a partir dos fatos. e os do século XIX . em que desenvolve a sua concepção sensista. nasce a 213 . devido ao fato de ter ele sido. milagres. como os de Spinoza. explicação suficiente e perfeitamente natural.13 . (É o século das luzes. Tem-se. a) Já na metade do século. "Newton criou a física e Locke a metafísica". a memória o segundo. ao descrever o "como" dos fenômenos. possantes e originais. durante um decênio (17581767). Comparando a sensação atual com a sensação lembrada. profecias. os pensadores do século XVIII farão suas armas: eles são.toda a experiência. e marca o triunfo da inteligência crítica. isto é. por exemplo. as grandes "visões do mundo". a idéia de que o motor de todos os sêres é o desejo. na corte de Parma. "o esforço de perseverar em seu ser". ela ignora as grandes sínteses. Consideram-se os artífices da felicidade humana e se empenham na destruição dos preconceitos e na difusão das "luzes". Newton não faz o romance da matéria. Aufklärung.1 . afastada a primeira sensação e sobrevindo outra. da ciência do espírito humano. Condillac exerceu uma influência particular sobre a cultura italiana. De sua doutrina evidenciar-se-á sobretudo o naturalismo. c) Sem dúvida. "Hypotheses non fingo". ele explica o movimento dos planetas. b) Locke passa por ser o criador da "metafísica". Deus é identificado com a natureza . as marés. derivando da mera sensação . Malebranche. simultaneamente racionalista e experimental. constituindo a sensação o primeiro grau. e também de Descartes (cuja "visão"metafísica é rejeitada. segundo d'Alembert. orientando-a paa o sensismo. a idéia de que o homem não é "um império num império". a imaginação o terceiro. mas cujo método racionalista é bem acolhido).e as leis ditas eventos sobrenaturais. de Fernando de Bourbon. herdeiro daquele trono. do racionalismo. A substância doutrinal de quase todos os filósofos desse século provém de sistemas anteriores. mas exprime os fatos realmente dados na linguagem rigorosa da matemática. encontram. prodígios. A sensação odorosa (de uma rosa) torna-se memória.) Daí o tom particular desses filósofos que fazem panfletos contra o poder.doutrinas de Hegel ou de Auguso Comte . Com as idéias de Newton. e que querem criar movimentos de opinião: a ironia e a clareza do estilo adquirem eficácia particular para tais empreendimentos. de Locke. renunciando a imaginar o longínquo "por que" metafísico.Deus sive natura . a primeira permanece com uma intensidade atenuada. de Spinoza. a gravidade.O ILUMINISMO FRANCÊS Entre os grandes sistemas do século XVII. há que acrescentar a influência capital de Spinoza. uma série de três graus de atenção. ao relatar os fatos reais em linguagem matemática. em dado momento. Leibnitz. Podemos dizer que a física de Newton contribuiu largamente para a formação do espírito moderno. 13. Uma lembrança vivaz torna-se imaginação. deste modo.a filosofia do século XVIII ocupa um lugar original. a física de Newton destrona a de Descartes. Condillac imagina o homem como uma estátua.Condillac (1715-1780) O filósofo mais notável do iluminismo francês é Estevão Bannot de Condillac (1715-1780). quando. dizia Newton. filósofos engajados. A matemática do infinitesimal descreve adequadamente as variações contínuas dos fenômenos. contra a Igreja. começa a ter uma sensação de olfato.

a consciência. Da sensação (agradável ou dolorosa) nasce o sentimento (de prazer ou de dor). "a variável aqui é a forma de governo de que as legislações políticas. necessariamente. pela disposição das coisas. esta ou aquela psicologia para com os cidadãos: a democracia da cidade antiga só é viável em função da "virtude". 13. a justiça ideal preexistem às leis escritas. a distinção entre atividade (na memória) e passividade (na sensação). "A verdadeira lei da humanidade é a razão humana enquanto governa todos os povos da terra. antes que se tivesse traçado os círculos. sendo que as melhores pertencem a este ou aquele governo. isto é. possui. em toda parte. estas ou aquelas instituições. Todavia. de certo modo. que é o mais pobre dos sentidos. Ela se caracteriza pela busca de um justo equilíbrio entre a autoridade do poder e a liberdade do cidadão. a existência. o juízo. o mundo externo é afirmado dogmaticamente. todos os raios eram desiguais". O "direito natural". isto é. entre certos tipos de governo e certas leis possíveis. Isto não prova. Montesquieu. por exemplo. este ou aquele tipo de lei. tornam-se desejo.idéia ou relação. a abstração. a capacidade de noções gerais. Paralelamente ao desenvolvimento teórico do espírito procede o desenvolvimento prático. O espírito. que é uma coleção de sensações atuais e lembradas. o poder detenha o poder". Montesquieu. isto é. do mundo externo. cabendo ao legislador descobri-las e aplicá-las. a reflexão. o desejo estável torna-se vontade. que é comparação entre sensações presentes e passadas.3 . A monarquia tradicional repousa num sistema hierárquico de suseranos e vassalos que só funciona a partir de uma moral da honra. a realidade. Para que ninguém possa abusar da autoridade. mas são "relações necessárias que derivam da natureza das coisas". Só os maus legisladores favorecem os vícios do clima. o eu.Voltaire (1694-1778) Voltaire. Assim é que cada forma de governo determina. Como diz muito bem Brehier. 13. exposta no Espírito das Leis (1748). ao passo que o despotismo só subsiste com a manutenção. surge como essencialmente racionalista. mais harmonioso. de sorte que. dizer que só o que as leis positivas ordenam ou proíbem é que constitui o que há de justo e injusto. é o tipo acabado do "filósofo" do século XVIII. necessariamente. É preciso encontrar em cada clima. filosoficamente. pelo espírito cívico da população. estamos perante um ceticismo metafísico. mediante um só sentido. harmônica. porém. mediante o tato. a separação de uma idéia de outra. na situação considerada. o exercício de todas as suas faculdades.2 . porquanto se trata sempre de sensações. de que fala Montesquieu. o desejo preponderante torna-se paixão. A lembrança de sensações agradáveis e a comparação com as presentes. contudo.distinção entre presente e passado. 214 . quais aquelas que. "é preciso que. em cada circunstância em que se está colocado. do próprio corpo e dos demais corpos. entretanto. da força do medo. a direção voluntária de atenção sobre uma determinada sensação . em cada forma de governo. Não vemos como na Inglaterra a liberdade política conduz à existência de leis particulares que não encontramos em outros regimes? As leis obedecem a um determinismo racional. as "relações necessárias". são muito menos a expressão de um determinismo sociológico de tipo materialista do que a afirmação de uma ligação ideal. poder executivo e poder judiciário. realizarão o conjunto mais justo. Daí a separação entre poder legislativo.em uma série de idéias e juízos. civil e outras são as funções". concepção racionalista das leis que não resultam dos caprichos arbitrários do soberano. pela resistência que o nosso esforço encontra no mundo externo. nunca afirmou que o clima determina. uma vez que lhes servem de guia. assim. significa dizer que. e a generalização. isto é. o olfato. quais as leis melhor adaptadas. juízo . adquire consciência do mundo físico. O espírito adquire. sobretudo.Montesquieu (1689-1755) A política de Montesquieu.

pode estabelecer uma certa justiça sobre a terra e alcançar uma certa felicidade. ele rejeita as idéias evolucionistas que começam a se difundir. no entanto. E Fontenelle já colocara (Conversações sobre a pluralidade dos mundos) a nova astronomia ao alcance dos marqueses. tirada de Locke e de Newton. É certo que esse Deus policial é sobretudo requisitado para manter a ordem social e as vantagens econômicas aproveitadas por Voltaire e os outros grandes burgueses. que Voltaire crê na ordem do mundo. só se explicam pela existência de um Criador inteligente ("Este mundo me espanta e não posso imaginar / Que este relógio exista e não tenha relojoeiro"). (Ele também teme que esses fósseis marinhos nas montanhas só sirvam para os cristãos provarem a história do dilúvio!). Em seus Pensamentos sobre o cometa. Voltaire. Voltaire. sua finalidade interna. as espécies vivas são fixas. em nome desse finalismo estático. é um deísta convicto: a organização do mundo. mantém o princípio de um Deus justiceiro. que a história se explica mais pelo jogo das paixões humanas do que pelo decreto da Providência. no entanto. para ser bem compreendido. Bayle já apresenta ardis tipicamente voltairianos para comprometer. Pierre Bayle (1647-1707). não são originais. em sua crítica aos prodígios e superstições populares.As idéias filosóficas de Voltaire. O célebre verso de Voltaire "Se Deus não existisse precisaria ser inventado" deve. ser citado com seu comentário: "e teu novo arrendatário / Por não crer em Deus. Apesar de negar o pecado original. opor os sistemas metafísicos entre si. a fim de ressaltar de suas contradições a necessidade da tolerância (o Dicionário histórico e crítico de Bayle. reduzido apenas aos seus recursos. permanece otimista. numa finalidade providencial. 215 . é uma prodigiosa colocação de teses que testemunha sua incomparável erudição e que será possuído por todos os intelectuais do século XVIII). Para ele. Fontenelle (1657-1757) mostrou. a fé nos milagres do cristianismo. a estrutura geográfica da terra. Criticou Leibnitz e seu "melhor dos mundos possíveis" que. antes de Voltaire. pagar-te-á melhor?" É certo. ele acha que o homem. seria negar a estabilidade e a finalidade da ordem atual do mundo. inimigo encarniçado do cristianismo. possuía a arte de. contra Pascal. O próprio espírito voltairiano teve seus precursores. Recusa-se a crer nos fósseis de animais marinhos descobertos nas montanhas por aquela época. "misantropo sublime". 1697. protestante francês exilado em Roterdam. após o terremoto de Lisboa. Admitir que as montanhas outrora estiveram submersas. antes de Voltaire.

Métaphysique de Newton (1740). porque a razão é universal. Entre as suas obras. por Locke e Newton. No campo social. A razão (humana) deve dominar acima de tudo e acima de todos. Dictionnaire Philosophique (1764). no homem primitivo para o qual se deverá. em geral. julga. à fantasia. à paixão. daí dominando o mundo da cultura européia. autor do Dictionnaire Historique et Critique. é a Enciclopédia: Enciclopédie ou dictionaire des sciences. religioso. Assim. e aí escreveu as famosas Lettres sur les Anglais. à história e à tradição em geral. E se ele demole toda religião positiva. a esta religião a religião humanista e imanentista da razão. 14. em que a razão certamente não domina. e por Denis Diderot (1713-1784) autor também de alguns escritos filosóficos . em definitivo. foi acolhido (17501753) por Frederico II. cujo reino. É o que fez desabusadamente e desapiedadamente a revolução francesa. substitui. a deusa razão da revolução francesa. inclusive o cristianismo. Entretanto colaboraram na enciclopédia os iluministas mais famosos. as que mais interessam à filosofia.Os Homens e os Problemas A obra fundamental do iluminismo francês e europeu. o iluminismo francês adere ao empirismo de Locke desenvolvido no sensismo de Condillac. Foi dirigida por João D'Alembert (1717-1783). porém. pelo livre pensamento. Caído na desgraça do Rei e da Corte da França. A figura dominante do iluminismo francês é Francisco Maria Arouet.JEAN-JACQUES ROSSEAU 14. Réponse ou Système de la nature (1777).O Iluminismo Francês Voltaire traz o iluminismo da Inglaterra para a França. Éléments de la Philosophie de Newton (1741). tudo isto levará à demolição. retirou-se para Ferney. Viveu em Londres entre 1726 e 1729.1 . são: Lettres sur les Anglais (1734). O movimento dos enciclopedistas foi um poderoso meio para a difusão e vulgarização das idéias iluministas. e. em 1755.14 . também a religião natural de um Deus transcendente. se a terra de origem do iluminismo é a Inglaterra. econômico. trazendo para a França o iluminismo. escrevendo as famosas Lettres sur les Anglais. ou até no ceticismo. às divisões nacionais e à guerra. a sua terra clássica é a França. Pertence a esta última tendência Pedro Bayle (1647-1706). autor do famoso Discours préliminaire. Bayle propagou a incredulidade pela Europa toda. quando conculca os direitos naturais do indivíduo. já bem disposta para assimilá-lo e valorizálo. ao sentimento. voltar. político. todavia. Aí assumirá aquele caráter extremado e difusivo pelo qual o iluminismo ficará definitivamente individuado. E logo se desperta na França uma verdadeira anglomania: pelo constitucionalismo inglês. Daí a guerra a qualquer atividade e instituição que não sejam puramente racionais.2 . Entre eles Voltaire e Rosseau. realizado o seu ideal racional no começo da humanidade. se encontra neste mundo e na vida terrena. etc. que pretendia mostrar a necessidade de se apoiar na Fé em face dos máximos problemas. Candide ou de L'optimisme (1756). ao estado. perto de Genebra. todavia. sustentando a irracionalidade da Revelação: mesmo contra a própria intenção do autor. na França e no estrangeiro. Pelo que diz respeito ao problema filosófico em geral. à destruição da ordem constituída. dito Voltaire (1694-1778). às desigualdades sociais. Se o iluminismo demole toda a história. des arts et des métiers. Foi publicada entre 1751 e 1780. pela ciência nova. 216 . em 34 volumes. chamados por isso enciclopedistas. meio eficaz de difusão do iluminismo antes da grande enciclopédia. ou mais ou menos. O traço específico do iluminismo francês é o culto da razão.Pensées sur l'interprétation de la nature (1754). déspota absoluta. sendo a razão humana impotente para solucioná-los.

manifestam-se também duas atitudes: a do assim chamado despotismo iluminado. deve ser uma resposta"). segundo o ideal deísta (Voltaire). Freqüentemente se resume a tese de Rosseau aos seguintes termos: o homem é bom por natureza. com quem. um mês apenas após sua publicação. e do Esprit des lois. desses filósofos do "conventículo holbáquico" que ele destacava e pelos quais era odiado. a corrente iluminista chefiada por Cláudio Helvetius (1715-1771). mas não no povo que se quer elevar. Daí a necessidade da força a serviço da razão. Nestes escritos se manifesta um racionalismo iluminista temperado. onde o materialismo se manifesta em cheio. A obra será solenemente queimada. o mecanismo (empirista e racionalista) é levado até o materialismo por La Mettrie e D'Holbach. se desentenderá pouco depois). na imortalidade da alma. Mas seria um grave erro confundir o "naturalismo" de Rosseau com o dos filósofos das luzes. executivo e juduciário. É censurado por escolher a religião natural (aquela que o homem encontra no próprio coração) e rejeitar a religião revelada. desenvolvido em sentido historicista. É certo que a profissão de fé do Vigário suscitou as iras dos poderes públicos e das igrejas constituídas. ao invés de submetê-la a constrangimentos difíceis? (Nesse sentido. peça mestra do Emílio (1762). Em seu primeiro livro. Esta corrente.3 . como. Discurso sobre as Ciências e as Artes. dirá Dewey em nossos dias. aliás. para os quais o iluminismo tinha naturalmente um interesse especial. na realidade representa uma reação espiritualista contra a filosofia das luzes e o otimismo dos enciclopedistas. na burguesia. um alemão que viveu em Paris. É o autor das Lettres persanes. no Emílio. o progresso das ciências e das artes tornou o homem vicioso e mau. autor do livro De l'Esprit. 14. o campeão de uma pedagogia naturalista que confia nas tendências espontâneas da criança. Acerca do problema religioso. a pedagogia da chamada Escola Nova. Julião Offrai de La Mettrie (1709-1751) é o autor do famoso livro L'homme machine. o barão Teodorico D'Holbach (1723-1789). a sociedade o corrompeu.Assim.Jean-Jacques Rosseau A obra de Rosseau (1712-1778) que foi mal compreendida e que ainda o é nos meios do catolicismo tradicional. junto a Hume. é uma pedagogia rousseauniana: "Toda lição. corrompendo sua natureza íntima. das Considérations sur les causes de la grandeur des Romains et de leur décadence. por exemplo. melhor. em Paris e em Genebra. nas sanções ultraterrenas. O maior expoente dessa corrente é Carlos de Secondat. Rosseau só encontra refúgio na Inglaterra. recaem nos temas do espiritualismo mais tradicional. para o bem dos povos e da humanidade acredita-se na razão. isto é. manifesta confiança no povo ou. enfim. concreto. Não há dúvida de que ele 217 . Característica desta concepção política é a divisão absoluta dos poderes supremos: legislativo. a moral e a filosofia de Rosseau. ele escreve para responder a uma questão que a Academia de Dijon colocara em concurso: Rosseau declara-se inimigo do progresso. pelo contrário. O arcebispo de Paris condena-lo-á em célebre ordenação (perseguido por toda parte. tais como se encontram em seu romance A Nova Heloísa (1761) e na Profissão de fé do Vigário saboiano. fundada nas tendências e nos centros de interesse espontâneos da criança. do absolutismo racional. Não se fará. quer chegue até ao ateísmo e ao hedonismo. pelo sentido de variedade das leis em relação às condições dos povos. a atitude iluminista é decididamente hostil à igreja católica e se propõe a si mesma esmagá-la (écraser l'infâme): quer admita uma religião natural. Barão de Montesquieu (1689-1755). Para ele. Na realidade. é o autor do não menos famoso Système de la nature. Pelo que concerne aos problemas sociais e políticos. A outra atitude ou tendência é a que deriva do liberalismo constitucional. como sendo necessárias para a conservação da ordem moral e política. com a crença em Deus. que atende às suas necessidades mais profundas. atacados por Voltaire. desejosa e capaz de liberdade.

Encontraremos aí. quantas vezes a voz interior nos diz que. vendo que eu ia interrompê-lo: esperai que eu me detenha um pouco mais a esclarecê-lo. etc. das idéias dos filósofos racionalistas. os maus triunfam neste mundo. a regra da consciência. Rosseau pesquisa as condições de um Estado social que fosse legítimo. A consciência é a voz da alma. o desejo de felicidade. como homem. A moralidade de nossas ações está no juízo que delas fazemos. fazemos o mal! Acreditamos seguir o impulso da natureza e lhe resistimos. Rosseau adota o dualismo moral popular. diz. ele o deve ser tanto no fundo de nossos corações quanto em nossas obras. ao passo que o justo é infeliz. "Somos tentados pelas paixões e detidos pela consciência". na época. 14. unindo-se a todos. assim como o lobo para devorar 218 .A Consciência segundo Rosseau (Profissão de Fé do Vigário Saboiano) Não tiro dessas regras. segundo ele. os princípios de uma alta filosofia. escutando o que ela diz dos nossos sentidos. Esta última faz abstração dos interesses divergentes e das paixões de cada um para só cuidar do bem comum. ao fazer nosso bem a expensas de outrem. esse juízo inato do bem e do mal que cada um descobre em si mesmo. nem bem constituído. dessa "lei divina do dever e da virtude" em nome da qual a paixão amorosa se sacrifica heroicamente. senão a si próprio e permaneça tão livre quanto antes. cujos atos. O problema que ele coloca recai no de Locke ou de d'Holbach: "Encontrar uma forma de associação que defenda e proteja de toda força comum a pessoa e os bens da cada associado e pela qual cada um. Todavia.declara que todas as religiões são boas e que cada crente pode conseguir a salvação na sua (o que é contrário ao que. porém. obedece a natureza e não teme se perder. no fundo do meu coração. que não mais corrompesse o homem. ete. nos debates do povo reunido) uma vontade geral. tudo o que sinto ser bem é bem e tudo o que sinto ser mal é mal: o melhor de todos os casuístas é a consciência. aparentemente ao menos. Entenda-se bem: "cada indivíduo pode. Este ponto é importante. O primeiro de todos os cuidados é o consigo mesmo: todavia. Para Rosseau. desprezamos o que diz aos nossos corações. as paixões são a voz do corpo. a justiça divina recompensará os bons ("a vida da alma só começa com a morte do corpo") e punirá os maus que são culpados de serem assim ("dependia deles não se tornarem maus"). Se é verdade que o bem seja bem. e o maior prêmio da justiça é sentir que a praticamos. Se não concorda. era pensado nas igrejas católicas e protestantes). escritas pela natureza em caracteres indeléveis. Feito para prejudicar seus semelhantes. exposta no Contrato Social. é o verdadeiro guia do homem: ela está para a alma assim como o instinto está para o corpo(¹). Todavia. e só quando se comercia com ela é que se recorre às sutilezas do raciocínio. o reflexo do costume. A Nova Heloísa apresenta-se como uma apologia da religião e da moral. mas a consciência nunca engana. o ser ativo obedece e o ser passivo ordena. No entanto. o pacto social não tem por fim conciliar todos os interesses egoístas. são melhores atestados do que os da vida de Sócrates. proseguiu meu benfeitor. aproxima-se bastante. Nessa obra. é uma exigência inata em nós e não. Basta-me consultar-me sobre o que quero fazer. a bondade não seria senão um vício contra a natureza. A teoria política de Rosseau. Se a bondade moral concorda com nossa natureza. o homem não poderia ser são de espírito. prende-se ao ensinamento de Jesus. o problema fundamental cuja solução é dada pelo contrato social". nessa vontade geral descobriremos outra coisa que não o interesse.4 . mas antes depreender (o que é possível com a maioria das vozes. no fundo. Também é certo que ele desconfia das interpretações que a Igreja possa dar dos Evangelhos ("quantos homens entre mim e Deus!"). não obedeça. É espantoso que muitas vezes essas duas linguagens se contradigam? A qual delas se deve ouvir? A razão freqüentemente nos engana. ter uma vontade particular contrária ou dessemelhante da vontade geral que ele tem como cidadão". essa consciência moral que. então o homem é naturalmente mau e não o pode deixar de ser sem se corromper. como dizia Montaigne. não temos senão o direito de recusá-la. se não fosse bom. Por conseguinte. mas as encontro. quem a segue. quando dissipa seus desejos egoístas "no silêncio das paixões".

que só admite o que explica. que tirareis todo o encanto da vida. por que. Aquele cujas paixões vis sufocaram esses sentimentos deliciosos em sua alma estreita. jogando-as por terra no momento em que saltam. queiram explicar esse fato apenas pelo jogo das sensações e dos conhecimentos que elas nos fazem adquirir. a maneira pela qual ele explica esse progresso obriga-nos a concluir que as crianças refletem mais do que os adultos. não vive mais. à força de se concentrar dentro de si. quando. postura em que não permaneceria se. um ato benfazejo ou um ato malfazejo? Por quem vos interessais mais em vossos teatros? É com a maldade que vos divertis? É com seus autores punidos que derramais lágrimas? Tudo nos é indiferente. dizem eles. à paciência com que as guarda. no sentido de algum fim. aquele que. e nada falo aqui que não possa ser verificado por todos. e mesmo em nossos prazeres. Penetremos em nós mesmos. na primeira vez em que ameacei esse mesmo cão.sua presa. Que os filósofos. Pergunto ainda. nada mais é do que um hábito privado de reflexão. não mais tem transportes e seu coração congelado não mais palpita de alegria. ele se atirou de costas no chão. Quê?! meu cão. exceto nosso interesse. o homem humano seria um animal tão depravado quanto um lobo desprezível. paradoxo muito estranho para valer a pena ser examinado. estaríamos demaisados sós e seríamos demasiados miseráveis se não tivéssemos com quem os dividir. de onde. sem me deixar dobrar. assim como uma doce ternura nunca umedece seus olhos. mas adquirido por reflexão. (Nota de Rosseau) 219 . abandonando-se assim à minha discrição? Todos os cães do mundo fazem quase o mesmo no mesmo caso. numa atitude suplicante e mais própria para me comover. do que César triunfante? Tirai de nossos corações esse amor ao belo. Sem entrar aqui nessa discussão. Esse entusiasmo da virtude. eu lhe batesse. que tão desdenhosamente rejeitam o instinto. já teria adquirido idéias morais? Sabia o que era clemência e generosidade? Em virtude de que luzes adquiridas esperava me acalmar. e a virtude só nos deixaria remorsos. pergunto que nome devo dar ao ardor com que meu cão faz guerra às toupeiras que não come. segundo um de nossos mais sábios filósofos (Condillac). então não teria mais nada a dizer e não mais falarei de instinto. O instinto. já está morto. para onde nossas tendências nos conduzem. ao contrário. esses transportes de amor pelas grandes almas. não deixa de admitir essa obscura faculdade chamada instinto que parece guiar os animais. e isso é mais importante. Qual o espetáculo que mais nos envaidece. pequenino. as doçuras da amizade humana nos consolam em nossas penas. sem que jamais alguém o tenha dirigido para essa caça ou lhe ensinado que existem toupeiras. acaba por amar apenas a si mesmo. o dos tormentos ou o da felicidade de outrem? Que é que nos é mais doce fazer e que nos deixa agradável impressão após o ter feito. sem qualquer conhecimento adquirido. provêm esses transportes de admiração pelas ações heróicas. deixando à parte qualquer interesse pessoal. o infeliz não sente mais. (¹) A filosofia moderna. Se nada existe de moral no coração do homem. então. qual a relação que ele tem com nosso interesse privado? Por que eu preferiria ser Catão. oh. que rasga as entranhas. que o expliquem de maneira satisfatória para todo homem sensato. meu jovem amigo! Examinemos. as patas dobradas. não goza mais nada. matando-as em seguida para deixá-las ali. mal acabado de nascer.

15 .Nicolau Machiavelli Nicolau Machiavelli nasceu em Florença em 1469. Foi secretário e historiador da república florentina. mas sem a explicação (o pecado original) e sem o remédio (a redenção pela cruz). e sim teórico da técnica política. mundanas.A RENASCENÇA 15. o que é verdade. ao passo que o cristianismo é uma concepção e uma praxe transcendentes e ascéticas. Daí derivam. mesmo que tenha veleidades e faça afirmações de alcance metafísico. cuja solução. concluindo em favor da superioridade (política) do segundo. ficando no âmbito da experiência. Indivíduos e valores devem servir unicamente como instrumentos de governo. em seguida. Precisamente pelo fato de que o paganismo representa uma concepção e uma praxe humanistas. quase que desconhecidos do pensamento clássico e do pensamento medieval. O fim último é o estado. 15. está na história humana. inteiramente absorvidos pelo universal e pela transcendência. como é a teísta e a cristã. a ciência política e a técnica científica (ciência aplicada) que tiveram. mas teórico e técnico da renovada ciência da natureza. nem podem resolver o problema filosófico. como. A expressão clássica da nova ciência política é Nicolau Machiavelli. Daí a máxima famosa: o fim justifica os meios. o do príncipe e do estado. É preciso constituir uma ciência política sobre a base de um utilitarismo rigoroso. Destituído e exilado. ainda que o seu pensamento seja alicerçado na metafísica do humanismo e do imanentismo renascentista. e sim transcendentes (como todos os valores absolutos). e na ciência natural. o seu grande início. obscuro e abandonado. A experiência histórica lhe diz que a natureza do homem é profundamente egoísta e malvada. Ele tem do homem uma concepção pessimista. a que tudo deve ser subordinado. não é o estado e sim Deus. chamado pelos amigos. aliás. Estas duas grandes conquistas . E a maior expressão da ciência nova é Galileu Galilei. e os meios para atingir o fim último não são substancialmente variáveis conforme as circunstâncias dos 220 . que o cristianismo oferece. de imoralidade. necessariamente. É o fruto do vivo interesse e da penetrante observação da experiência e da concretidade. voltou ainda à pátria. A este propósito é característica e intuitiva a comparação que Machiavelli faz entre o cristianismo católico e o paganismo antigo. Ele também não foi filósofo. em que tudo é subordinado ao estado. A política de Machiavelli foi acusada. tanto os indivíduos como todos os valores. a maior conquista do pensamento da Renascença. até os morais e religiosos. Entre seus escritos têm particular interesse filosófico Il Principe e os Discorsi sopra la prima deca di Tito Livio. o grande valor. muitas vezes.embora se apresentem em conexão com a filosofia imanentista. tem que transcender o próprio campo da experiência. se se confrontar com uma concepção transcendente e ascética do mundo e da vida. humanista. Faleceu em 1527.1 . e podem ser aniquilados pelo estado. e não reconhece poder algum humano superior a ele. Então é preciso organizar naturalisticamente e subordinar mecanicamente um complexo de paixões e de egoísmos a um egoísmo maior. são independentes de qualquer filosofia: porquanto. história e ciência. não resolvem. ético e religioso.história e ciência . de direito são dela independentes.A Política Nova e a Ciência Nova A prescindir da arte e da literatura. não filósofo. partindo do terreno realista da experiência e prescindindo de qualquer valor espiritual e transcendente. na Renascença. naturalista da época. semelhante à cristã.2 . Machiavelli propõe-se o problema: como constituir um estado.

Por isso. técnico e teórico da ciência. ao domínio da natureza. Ensinou nas universidades de Pisa e de Pádua. para a concretização dessa concepção transcendente da vida. terá de agir com força decidida e com refinada prudência. Leonardo fez uma notável quantidade de pesquisas e de invenções preciosas no campo das ciências: em matemática. as seguir. por vezes.tempos e dos lugares. anatomia. porquanto a moralidade. de conformidade com o espírito católico e concreto da Contra-Reforma. o Diálogo sopra i due massimi sistemi del mondo (1632).Galileu Galilei As ciências físicas e naturais. Entretanto. que seria a razão que governa o mundo natural. a instintiva ferocidade humana. Entre suas obras são famosas: O Saggiatore (1623). tendo defendido com persistência o supradito sistema. valorizar os homens efetivamente egoístas e inclinados ao mal. deverá ser leão ou raposa . astronomia. Passou seus últimos anos de vida na vila de Arcetri. aconselha ele ao Príncipe ocultar prudentemente suas fraquezas eventuais. pisar na realidade concreta. fisiologia. em geral. ainda que deva mirar a um ideal superior e imutável. Não nos interessa como artista. 15. seus princípios teóricos. aliás. tem que ter os pés sobre a terra. dependem todos os valores e todo o ser. com base na profunda experiência humana. variável. que condenou aquele sistema (1616). geologia. publicados mais tarde. que foi causa do segundo processo. convencido de que era mister partir da experiência. têm na Renascença a sua maior expressão em Leonardo da Vinci e. nascido perto de Florença em 1452. perto de Florença. e sim uma grande quantidade de apontamentos e bosquejos preciosos. onde faleceu em 1642. nascido em Tosacana (Pisa) em 1564. na sua essência. mas como cientista. exercitou a sua profissão de artista e técnico em Milão. E. aconselha-o a respeitar plenamente a religião (católica). conserva um grande valor também para a concepção transcendente do mundo e da vida. pois o estado. em Roma e na França onde faleceu em 1519. aliás. em Florença. deriva da natureza racional do homem. Galileu. etc. embora receba de Deus a sua eticidade transcendente. pelo que diz respeito em especial à astronomia. em Florença. como matemático e filósofo. é indispensável a fim de que o homem realize a sua natureza racional: é ético o estado. acontece também na moral individual no caso do assim chamado conflito dos deveres). será preciso subordinar um princípio moral a outro princípio superior da moral (como. disciplinar. foi processado e condenado novamente em 1633. em Copérnico e Kepler. botânica. Leonardo da Vinci. mecânica. essencialmente imutável. o grande metodólogo da ciência natural é Galileu Galilei. Neste sentido conceberá a política o piemontês João Botero (1540-1617) na sua obra Della ragione di stato.3 . sobretudo em Galileu Galilei. livro polêmico contra os aristotélicos. Entretanto. Deve organizar. Aplicou a matemática à física. por exemplo. Leonardo não deixou obras sistemáticas e editadas. e o Diálogo delle scienze nuove (1638). histórica. que não tem fins transcendentes e leis morais estáveis. Pela sua defesa do sistema astronômico de Copérnico (heliocêntrico) foi para Roma onde foi processado pelo Santo Ofício. bem como o aconselha a encaminhar para a milícia e para a guerra. isto é. à matemática. em que se revela um gênio soberano e um teórico genial. Nesta obra. para chegar à razão. como de Deus. física. Entretanto. Aplicou ele imediatamente à técnica. instrumento precioso. em harmonia com os ideais e as conquistas da idade nova. 221 . a política de Machiavelli não está em contraste com uma ética humanista e imanentista. para conservar a reputação real. indispensável para tornar politicamente dóceis os homens. todavia. o estado. inclinados profundamente para o mal.no dizer de Machiavelli. A doutrina política de Machiavelli.

porquanto constitui sempre uma filosofia da natureza. Galileu distingue três momentos principais: a) a observação. Esta. E destarte será ela inteiramente valorizável e conciliável com a metafísica tradicional aristotélico-tomista. pois. Galileu estuda o mundo não para conhecê-lo metafisicamente. mesmo no seu aspecto racional-matemático. em 1473. Como é sabido. portanto. para colher as essências imutáveis das coisas. e será tão fecundo em resultados práticos. Nicolau Copérnico nasceu em Thorn. especialmente na Itália.A Ciência Nova e a Metafísica Tradicional O atomismo mecânico.que serão mais tarde chamadas qualidades primárias. esferas. contrariamente ao afirmado agnosticismo galileiano sob este aspecto cientificamente fecundo. isto é. que explica o equilíbrio dos corpos celestes. Esta. transforma-se em lei. mas fisicamente. a alma nem sequer o elemento qualitativo da realidade empírica. anual em volta do Sol. diversamente daqueles dois filósofos que partem da experiência para transcendê-la e construir uma metafísica geral e especial.que se manifestará claramente no racionalismo de Descartes. quantitativa. é mister a experiência e a razão. e não pretenda tornar-se metafísica. quadrados. o frio.de reduzir a metafísica à física. portanto. O seu sistema astronômico pode ser assim resumido: o mundo é esférico.Como Aristóteles e Tomás de Aquino. onde era cônego. ao passo que considera subjetivas (transformação das objetivas por obra dos nossos órgãos sensoriais) as propriedades qualitativas: a cor. todos os corpos celestes são esféricos.que serão mais tarde chamadas qualidades secundárias. sejam as matemáticas. que Galileu pressupôs para a sua gnosiologia empirista-matemática. o som. cones. Galileu está convencido de que o conhecimento humano deve firmar-se na experiência. ibi geometria. a posição. isto é. Deus. para colher os fenômenos e suas leis. o livro da natureza é escrito com caracteres que são "triângulos. o tamanho. mas. quando confirmada experimentalmente. Pretensão evidentemente infundada. o movimento. O que é irredutível à quantidade é considerado como subjetivo. escapando ao alcance da físico-matemática. Será mister. a doutrina astronômica heliocêntrica chama-se copernicana. Estudou em vários lugares. adquira consciência da sua limitação. o movimento dos corpos celestes é circular e uniforme. etc. a saber. pela pretensão de explicar tudo matematicamente e considerar a ordem matemática como a ordem ideal da realidade. permanecendo entre os limites da experiência. b) a hipótese. está evidentemente em contraste com o seu fenomenismo. retirou-se para Frauenburg. o número . Quanto ao procedimento metódico e particular para construir a ciência. por 222 . . publicada em 1543 e dedicada ao papa. universal e necessário da ciência moderna. Galileu fica no âmbito da própria experiência. cujo resultado publicou na famosa obra De obrium coelestium revolutionibus. o Sol está imóvel no centro do sistema e giram-lhe em volta os planetas e também a Terra que tem duplo movimento: diurno em volta do próprio eixo. c) a experimentação. Galileu considera objetivas as propriedades geométrico-mecânicas: a figura. A ciência galileiana é. Spinoza. sendo seu verdadeiro fundador Copérnico. pois o atomismo mecânico implica evidentemente uma concepção materialista da realidade. mecânica. finito. que é a verificação da hipótese. o calor . círculos. o sabor. Leibniz. porquanto não se podem reduzir à quantidade o espirito.4 . Para constituir a ciência. Com Galileu começa a tendência da filosofia moderna . Tais leis. que a ciência moderna. na Polônia. De volta à pátria. E tal atomismo mecânico está logicamente em contraste com a convicção religiosa de Galileu. e dedicou-se às meditações astronômicas. Caberá mais tarde a Newton completar o sistema com a grande lei da gravitação universal. resultando assim a físico-matemática: o que constituirá o elemento verdadeiramente racional. por conseguinte. Ele também segue o princípio de que a natureza é governada por leis matemáticas: ubi materia. como diz Galileu. julga Galileu. técnicos. Daí a explicação da matemática à física. o seu princípio racional é matemático: é físico-matemática. 15. pirâmides e outras figuras matemáticas muito aptas para tal leitura". sentido e discurso.

como ficou evidente também pelo famoso processo de Galileu. conseqüentemente pode-se e deve-se compor a filosofia tradicional com a ciência nova. julgava-se erroneamente. E se compreenderá então historicamente o processo e a condenação de Galileu. da ciência. heliocêntrico. cuja ruína. de um lado. católico convicto. por parte da igreja católica. se permanecer nos limites da experiência .como deve ser . por parte de Galileu. metafísica. uma sólida filosofia. com suas inevitáveis conseqüências materialistas. não pode vir a estar em contraste com a filosofia e a teologia. erradamente. e não os homens e suas intenções. pessoais. cessaria no dia em que se adquirisse consciência da natureza infrafilosófica. historicamente. para ajustá-la à nova astronomia. poderá logicamente separar-se da física aristotélica e da astronomia ptolomaica. o temor da crítica demolidora. entre os quais se destaca São Roberto Belarmino. indiferente. terá de se libertar de igualmente infundada pretensão de que também a ciência natural seja filosofia. liame este que. que constituía a base racional da religião. os sistemas. Em todo caso devemos prescindir de tais questões práticas. se julgava derivar do sistema copernicano. sobremaneira prejudicou à metafísica tradicional na idade moderna. uma ciência prodigiosa. e a outra tese da infinidade dos mundos. que. Tenha-se. que.temor confirmado pela veleidade de interpretação da Sagrada Escritura. e se julgava de direito. do outro lado. conexa necessariamente com a ciência da época. que se julgava. que teve tão grave manifestação no livre exame protestante . 223 . que não concernem à história da filosofia. cujo objeto próprio são as idéias. presente a tese geral do matematismo universal. Deste modo. acarretaria consigo a ruína da filosofia. acima de tudo. sem razão. Neste processo não há duvidar da boa fé de Galileu. A oposição entre sistema ptolomaico e sistema copernicano. entre a filosofia tradicional e a ciência nova. afilosófica. Temos. nem da dos seus juizes. ligada.sua parte. Acrescenta-se a tudo isso. E temos. erradamente. cujo objeto é metafísico.e se tivesse consciência da sua relatividade. portanto. A ciência. se punha em contradição com a filosofia tradicional e em conexão com a nova filosofia humanista e imanentista. com que estava de fato.

Além das línguas. Perdeu a mãe aos três anos de idade. mas com segurança infalível. evitou por muito tempo que o filho a conhecesse. Aos onze anos. que permitia que se fizesse nenhuma operação sem lápis nem papel. ensinou-lhe como haviam sido reduzidas as gramáticas sob certas regras. no entanto. depois de propor axiomas relativos às figuras. sabendo como a matemática é apaixonante e absorvente. não só pelas respostas que dava a certas questões. Tudo isso aguçava ainda mais a curiosidade do menino. ciência que reside inteiramente no espírito. pois transformava uma máquina em ciência. não o largava até resolvê-lo plenamente. para que aprendesse com maior facilidade. Diante de uma explicação insuficiente. Essa precaução serviu apenas para aumentar a curiosidade de Blaise. denominada "a experiência do vácuo". sem que se soubesse qualquer regra de aritmética. nunca o enviando a colégios. por sua própria vontade. todavia. Blaise recebeu os livros dos Elementos de Euclides e pôde dedicar-se à vontade ao estudo da geometria. não foi impresso na época. presidente da Corte de Apelação. A partir de então. o pai apegou-se muito a ele e encarregou-se de sua instrução. Durante esse intervalo não o deixou ocioso. provando que os efeitos 224 . Com isso chegou até a 32ª proposição do livro I de Euclides. o pai verificou que o filho descobrira sozinho a matemática. e de Antoinette Bégon. que passou a se divertir com as figuras geométricas que o pai lhe havia mostrado. O invento de Pascal foi considerado uma verdadeira revolução. a família Pascal mudou-se para Paris. e que por esses meios todas as línguas haviam podido ser comunicadas de um país para outro. era o único filho do sexo masculino. Estarrecido. considerado muito bom para sua idade. afinal. que se tornou muito frágil daí por diante. Mesmo quando. Étienne Pascal ensinava outras coisas ao filho: dava-lhe rudimentos sobre as leis da natureza e sobre as técnicas humanas. Aos 23 anos. a educação de Blaise permaneceu ao encargo do pai.16 . Mostrava-lhe de um modo geral o que eram as línguas. Segundo sua irmã e biógrafa. prometendo-lhe que a ensinaria quando ele já soubesse grego e latim.2 . Como queria que Blaise estudasse línguas e. Os avanços foram rápidos: aos dezesseis anos escreveu Tratado Sobre as Cônicas. dedicou-se a fazer demonstrações exatas. Nas demais ciências realizou surpreendentes progressos e aos dezenove anos inventou a máquina aritmética. pois o ocupava com todas as coisas de que o julgava capaz. Essa idéia geral esclarecia-lhe o espírito e fazia-o compreender o motivo das regras da gramática. que tais regras tinham exceções assinaladas com cuidade. mas sobretudo pelas questões que ele próprio levantava a respeito da natureza das coisas. Assim. a 19 de junho de 1623. que queria saber a razão de todas as coisas e não se satisfazia diante de explicações incompletas ou superficiais. tomou conhecimento da experiência de Torricelli (1608-1647) referente à pressão atmostérica e realizou outra. por esse motivo só deixou que aprendesse latim aos doze anos. que.Vida e Obras Nascido em Clermont-Ferrand. Procurava tracá-las corretamente. Gilberte Périer. de sorte que quando veio a aprendê-las sabia o que fazia e dedicava-se aos aspectos que lhe exigiam maior dedicação". depois passou a buscar as proporções entre elas e.BLAISE PASCAL 16. em 1631. muito complicada e Pascal levou dois anos trabalhando com os artesãos. A irmã Gilberte escreverá mais tarde: "A máxima dessa educação consistia em manter a criança acima das tarefas que lhe eram impostas. quando se defrontava com um problema. suas experiências sobre os sons levaram-no a escrever um pequeno tratado. passava a pesquisar por conta própria até encontrar uma resposta satisfatória e. Essa fadiga comprometeu definitivamente sua saúde.1 .Entre a Ciência e a Religião Não apenas na matemática revelou-se o gênio precoce de Pascal. Blaise Pascal era filho de Étienne Pascal. 16. A construção da máquina foi. Étienne Pascal era matemático e sua casa era muito freqüentada por geômetras. Pascal revelou desde cedo um espírito extraordinário.

e reconhecido pelo juízo solene da Igreja". Blaise e outros jovens. Blaise conheceu Jacques Forton. Jacqueline Pascal. quando ele se une aos jansenistas do Port-Royal. esse milagre foi a ocasião para que nele se produzissem muitos pensamentos importantes sobre milagres em geral". Pascal dirigiu seu interesse para as questões da Igreja e da Revelação. O chamado Triângulo de Pascal foi um dos resultados dessas pesquisas sobre jogos de azar: trata-se de uma tabela numérica que. obra mística. perante a qual todos os homens seriam culpados pela transmissão do pecado original. pois determinam o centro de todas as suas reflexões religiosas e filosóficas: a figura de Cristo. Começou mudando de bairro e. cujo sacrifício infunde a graça 225 . Em Ruão. para onde se havia mudado a família Pascal. O método aplicado por Pascal para estabelecer essa área abriu caminho à descoberta.. sob a influência de sua irmã. permite calcular as combinações possíveis de m objetos agrupados n a n. A alegria que experimentou foi tão grande que se sentiu completamente penetrado por ela. Começa então a fase apologética da obra de Pascal. realizada por Leibniz (16461716) e Newton (1642-1727). quando "resolveu desistir dos compromissos sociais. foi morar no campo. A essa questão voltará mais uma vez em 1658. o Novo revelaria a misericórdia de Deus. depois do período em que procurou a verdade científica e a glória humana no domínio da natureza e da razão. dos dogmas e da Igreja católica e da teologia em geral. resultantes do peso do ar. e esse milagre foi atestado por vários cirurgiões e médicos. O fato é narrado pela irmã de Pascal. Pascal tinha então trinta anos.comumente atribuídos ao vácuo eram. passou a se interessar pelos problemas matemáticos relacionados aos jogos de dados. ele ficou emocionado com o milagre porque nele Deus era gloorificado e porque ocorria num tempo em que a fé da maioria era medíocre. A cura de sua sobrinha e afilhada repercuriu profundamente em Pascal: ". que determinou a mudança de sua trajetória espiritual: o "milagre do Santo Espinho". onde tanto fez para abandonar o mundo que o mundo afinal o abandonou". Na verdade. Um dos últimos trabalhos científicos de Pascal nesse período é o Tratado Sobre as Potências Numéricas. e enfim Deus permitiu que ela se curasse tocando o Santo Espinho que existe em Port-Royal.a partir de 1652 -. com quem teve as primeiras discussões a respeito da Bíblia. em que aborda a questão dos "infinitamente pequenos". Pascal estabelece a verdadeira relação entre os dois Testamentos: o Antigo revelaria a justiça de Deus. que o leva a descer entre os homens por intermédio de seu Filho. senhor de Saint-Ange-Montcard. As pesquisas que fez a esse respeito conduziram-no à formulação do cálculo das probabilidades. Em função de Cristo. As análises sobre o milagre são fundamentais no pensamento de Pascal. seus amigos.. mediador entre o finito (as criaturas) e o infinito (Deus criador). Essa fístula era maligna e os maiores cirurgiões de Paris consideravam incurável. logo consideraram SaintAnge-Montcard um herético pernicioso. do cálculo integral. acalentando o projeto de reunir a sociedade laica e a cristã e de combater a corrupção que teria sido causada pela evolução dos últimos séculos. que havia entrado para o convento. para melhor romper com seus hábitos. entre outras propriedades. curva descrita por um ponto da circunferência que rola sem deslizar sobre uma reta. e. Jacqueline conseguiu persuadir o irmão de que "a salvação devia ser preferível a todas as coisas e que era um erro atentar para um bem passageiro do corpo quando se tratava do bem eterno da alma". como seu espírito ocupava-se de tudo com muita reflexão. Segundo o relato de Gilberte. Pascal foi decisivamente marcado por um acontecimento. Nesse período escreve o Memorial. que ele denominou Aleae Geometria (Geometria do Acaso). Gilberte Périer: "Foi por esse tempo que aprouve a Deus curar minha filha de uma fístula lacrimal que a afligia havia três anos e meio. e os trabalhos de cunho apologético Colóquios com o Senhor de Saci Sobre Epicteto e Montaigne e as Províncias. na verdade. num derradeiro estudo científico sobre a área de ciclóide. Assim. Mais tarde .

Jansênio.uniu-se a Jean Duvergier de Hauranne. que o arrastou para o mal. que também pretendia o retorno so catolicismo à disciplina e à moral religiosa dos primórdios do cristianismo. arrastados para a condenação ou para a salvação. E a ideologia que vai diversificar o interior desse grupo apresenta como núcleo a afirmação da impossibilidade radical de se realizar uma vida válida neste mundo.Saint-Cyran. Somente aquele que chega ao fundo da miséria e da indignidade e que sabe do mediador (Cristo). Jansênio . O jansenismo expandiu-se principalmente na França. pois só o mediador poderia reparar a miséria do homem. passava de monarquia temperada do Antigo Regime (caracterizada pela primazia da realeza sobre os senhores. mas a abandonar toda e qualquer função social. que o orienta infalivelmente para o bem. que faz com que eles sintam interiormente a miséria em que vivem e a infinita misericórdia de quem os criou. que logo foi atingido pelos anátemas do papa. Em conseqüência disso.doutor em teologia pela universidade de Louvain e bispo de Ypres . buscando nas obras de Santo Agostinho (354-430) elementos que permitissem conciliar as teses dos partidários da Reforma com a doutrina católica. Arnauld d'Andilly. está na felicidade. Os jansenistas dedicaram-se particularmente à discussão do problema da graça. a de que sem Cristo o homem está no vício e na miséria. declarava que a razão filosófica era "a mãe de todas as heresias". a não ser que intervenha a caridade (amor celeste). independentemente das ações que comete. instalaram-se em PortRoyal. antes de pecar. Antes do início do movimento. os judeus e os cristãos: os pagãos (isto é. Submetidos à lei férrea desse dúplice amor. Ali o jansenismo assumiu forma ascética e polêmica. chegando por intermédio dele a conhecer o verdadeiro Deus. o holandês Cornélio Jansênio (1585-1638) deu início a um movimento que abalou a Igreja caatólica durante os séculos XVII e XVIII.pertenciam à nobreza togada e em especial a um grupo desses nobres que esperavam passar à condição de comissários do rei. o homem estaria predestinado para o céu ou para o inferno. os filósofos) seriam aqueles que acreditam num Deus que é simplesmente o autor das verdade geométricas e da ordem dos elementos. Era uma época de profundas transformações políticas na França. os judeus seriam os que acreditam num Deus que exerce sua providência sobre a vida e os bens dos homens a fim de dar-lhes um seqüência de anos felizes. que. na obra Augustinus. graças ao apoio do Terceiro Estado. já os cristãos seriam os que crêem num Deus de amor e de consolação. Antoine Le Maître . apresentando-se como um verdadeiro cisma. graças à atuação do abade de Saint-Cyran e de Antoine Arnauld (1612-1694). A figura de Cristo permite ainda a Pascal distinguir os pagãos. A monarquia. isso leva homens e mulheres não apenas a abandonar a vida mundana. do corpo de legistas. juntamente com outros intelectuais. os mais destacados integrantes do grupo de Port-Royal eram amigos e companheiros do cardeal Richelieu. era livre. A idéia central de Pascal sobre o problema religioso é. de adminstradores e de oficiais) à monarquia absoluta.3 . embora dele discordassem quanto a alguns pontos 226 . na qual as atribuições dos oficiais e das cortes são transferidas para o corpo de comissários do rei. sustentava que Adão. Desse modo. o homem não pode deixar de pecar. pelo pecado perdeu a liberdade e tornou-se escravo da concupiscência. no sentido corrente do termo. Baseando em Santo Agostinho sua doutrina do dúplice amor. portanto. Descontente com o exagerado racionalismo dos teólogos escolásticos. os seres humanos tornaram-se escravos da Terra ou do Céu. Os indicadores do movimento jansenista na França . em sua evolução. 16. futuro abade de Saint-Cyran.santificante no coração dos homens e os redime. na virtude e na luz.Jansenismo e Monarquia Absoluta Com o intuito de reformular globalmente a vida cristã. com Cristo.

que se incompatibilizaram com a política de Richilieu. A vocação religiosa de Pascal encontra no jansenismo o solo favorável para sua expansão. ideologicamente. Pascal volta a dedicar-se à ciência (estudos sobre a ciclóide e sobre a roleta.Da Militância ao Recolhimento O jansenismo podia propor uma atitude abstencionista em relação à política porque estava constituído por pessoas que pertenciam a um grupo social cuja base econômica dependia diretamente do Estado. será ainda entre os jansenistas que Pascal chegará à conclusão de que é importante retirar-se definitivamente do mundo e até mesmo da militância religiosa. não se manterá. Pascal participa de ambas as correntes. porém. que estivessem dentro ou fora do país. Até 1637. assim.e isso significa que a militância religiosa não mais pode ser efetuada. através da militância religiosa que procura o triunfo da verdade (ciência) na Igreja e o triunfo da fé (religião na sociedade laica. Esta última é que terá maior sucesso depois da Fronda e é ela que prossegue.importantes: preconizavam uma aliança com a Espanha católica e luta mortal contra os huguenotes. à religião. Jacqueline Pascal). embora. Esse acordo. assim. Enquanto nobreza togada. desgostosos com o poder dos comissários do rei. mas seus escritos 227 .4 . que se estendeu de Paris às províncias. O centro da trajetória espiritual de Pascal reside no seu encontro com o jansenismo. seguidos de discussões com vários sábios da época). paradoxal: exprime o descontentamento em face da monarquia absoluta. oficiais. Esse encontro permite a Pascal estabelecer o acordo entre a consciência e a vida. em momentos diversos de sua vida. dele se afastassem e a ele se opusessem. Mas jansenismo aapresentou duas vertentes: uma preconizava o retiro completo. à monarquia e que contará com maior número de adeptos depois da Fronda (sublevação contra o primeiro-ministro Mazarin. em princípio. Todavia.e por isso afirmam tragicamente a vaidade essencial do mundo e a salvação pelo retiro e pela solidão. O "milagre do Santo Espinho" reforçou-lhe a tendência mística e a certeza de que "há alguma coisa acima daquilo que chamamos natureza" . A partir de então é que nasce o jansenismo propriamente dito: afirmação de que é impossível para o verdadeiro cristão e para o verdadeiro eclesiástico participar da vida política e social. dependiam economicamente do Estado. A vanguarda jansenista era constituída por advogados e suas famílias. 16. que passaram a exercer as antigas funções dos oficiais e das cortes.como escreve sua irmã Gilberte. em geral. A situação dos jansenistas é. a luta contra a monarquia absoluta. durante dez anos. os membros das Cortes. na prisão do castelo de Vincennes. e a realidade prática de uma vida consagrada ao mundo. na época. mas sim qual era a política cristã. sem. A oposição dos jansenistas constituía apenas uma das modalidades de oposição que se fazia. Pascal transita. Deve-se notar que o pai de Pascal era membro da Corte Suprema de Clermont-Ferrand. Pascal acaba submetendo-se ao poder papal . que lhe permitiu exprimir melhor sua sede de absoluto e de transcendência. advogados e membros das cortes supremas. no século XVIII. Os jansenistas são trágicos porque vivem uma situação trágica . poder desejar sua destruição ou sua transformação radical. A vitória de Richilieu desencadeou a ruptura com o grupo e um de seus membros (Saint-Cyran) permaneceu. os simpatizantes do movimento eram. À fase apologética daas Proncinciais segue-se então a fase dos Pensamentos. contudo. Nicole) passa ao retiro (Barcos. a oposição entre o grupo e Richilieu não consistia em indagar se a vida cristã era ou não compatível com a política. os oficiais. a segunda optava pela militância religiosa. Nessa terceira fase de sua vida. Essa mudança é determinada pela condenação do jansenismo pelo papa Alexandre VI. de 1648 a 1652). Até o encontro com o jansenismo havia na vida de Pascal uma contradição entre a primazia atribuída. entre as duas atitudes que já existiam entre os próprios jansenistas da militância (Arnauld.

à uma hora da madrugada.que para o homem é certo e incerto. Na fase final de sua vida e de sua obra. Pascal descobre a tragédia". esperança e risco . Pascal morreu em 29 de agosto de 1662. "a incerteza radical e certa. Pascal exprime uma só certeza: a de que a única verdadeira grandeza do homem reside na consciência de seus limites e de suas fraquezas.religiosos perdem o tom apologético para se tornar trágicos. Tinha 39 anos de idade. Os Pensamentos revelam ser os escritos de um homem a quem "o silêncio eterno dos espaços infinitos apavora". E é estendendo o paradoxo até o próprio Deus . o paradoxo. a recusa intramundana do mundo e o apelo de Deus.que Pascal pôde escrever os Pensamentos e abrir um capítulo novo na história do pensamento filosófico". 228 . escreve Lucien Goldmann. presente e ausente.

a fim de seguir os cursos do matemático Ehrard Wigel. Hobbes (1588-1679). teve contato. introduzindo a noção de quantidades infinitamente pequenas. Leibniz descobriu o cálculo diferencial. 229 . embora sob ponto de vista diferente. a 1° de julho de 1646. em 1672. Em 1670. Em 1676. um novo método de cálculo. Leibniz encontra-se em Amsterdam com Espinosa. que inventaria ao mesmo tempo que Newton. realizando pesquisas em bibliotecas e arquivos destinadas a fundamentar suas missões diplomáticas. Desde essa época.C.). mas os três anos de estada em Paris não lhe foram inúteis. depois foi para Iena. Huygens (1629-1695).) e Virgílio (c. doutorou-se em direito na Universidade de Altdorf e. foi nomeado conselheiro da Alta Corte de Justiça de Mogúncia. precedido por Newton. filho de um professor de filosofia moral. Fora. assim. Com esse título. Leibniz dedicou ao príncipe-eleitor de Mogúncia um trabalho no qual mostrava a necessidade de uma filosofia e uma aritmética do direito e uma tabela de correspondência jurídica. e com a filosofia e a teologia escolásticas. já inventara. Desde muito cedo.C. ao contrário. apresenta muitas semelhanças com a de Bacon: Leibniz sabia mover-se agilmente em meio às intrigas da corte a fim de realizar seus grandes planos. Ainda aluno da Universidade de Leipzig. Aos quinze anos começou a ler Bacon (1561-1626). Leibniz se preocupou em vincular a filosofia às matemáticas escrevendo uma Dissertação Sobre a Arte Combinatória. com o qual tudo poderia ser descoberto. que. segundo o historiador Windelband. com quem discute problemas metafísicos. Em 1676.17 . no entanto. Leibniz encontrou os elementos que o levaram à idéia de uma análise combinatória filosófica. Em Newton. o que o leva a empregar o algoritmo. a idéia de velocidade que fundamentava seu cálculo. filiou-se à Sociedade Rosa-Cruz.1 . Entrou em contato com alguns dos mais conhecidos intelectuais da época: Arnauld (1612-1694). Esperava. Em 1667. vislumbrando a possibilidade de cria um alfabeto dos pensamentos humanos. em Nuremberg. Leibniz foi encarregado de uma missão em Paris. o método das fluxões. parte de uma colocação metafísica. Pretendia convencer o rei Luís XIV a conquistar o Egito. Por outro lado. ao que tudo indica. a vida de Leibniz. Leibniz. com filósofos e escritores antigos. em 1663. a Alemanha e a Itália. Galileu (1564-1642) e Descartes (1596-1650).). Nesse trabalho procurou encontrar para a filosofia leis tão certas quanto às matemáticas e esboçou as premissas do cálculo diferencial. escreveu. como Platão (428-347 a. cidade na qual passaria os restantes quarenta anos de sua vida. A partir de então. um trabalho sobre o princípio da individuação. Seu projeto foi rejeitado. na biblioteca paterna.Vida e Obra Gottfried Wilhelm Leibniz nasceu em Leipzig. situando-se entre os maiores matemáticos da época. sendo. a Turquia e protegendo a Europa das invasões "bárbaras". desviar as atenções do rei e evitar que ele utilizasse sua potência militar contra a Alemanha. Nos anos seguintes. desde 1665. portanto. aniquilando. as variações das funções são comparadas ao movimento dos corpos. sendo dotado também daquela "ardente ambição que levara Bacon à ruína". O ingresso nessa Sociedade valeu-lhe uma pensão e. no estudo da lógica aristotélica.LEIBNIZ 17. 70-19 a. permitiu que ele se iniciasse na vida política. durante três anos. Saiu de Hanôver apenas para percorrer. Por causa desse trabalho. desse modo.C. No mesmo ano torna-se bibliotecário-chefe em Hanôver. passando a dedicar-se às matemáticas. Aristóteles (384-322 a. foi convidado para fazer a revisão do "corpus juris latini".

De volta a Hanôver. aparecendo unificadas na concepção de Deus. Para Leibniz. Discurso de Metafísica. Sobre as Noções de Direito e de Justiça. onde conheceu o príncipe Eugênio de Savóia. pode-se tomar para ponto de partida da compreensão da sua filosofia dois temas provenientes de fontes distintas: um da filosofia de Descartes. Leibniz deixou uma obra extensa. Dilthey. pois estas constituem Sua natureza imutável.Em 1711. Acrescentando-se a essa dupla face de seus escritos o fato de que muitos deles sequer foram concluídos. acontece para cumprir determinados fins. ao contrário. Sobre a Liberdade e Correspondência com Padre Bosses. um plano de organização civil e moral para o país. De qualquer modo e embora Leibniz tenha criado um amplo sistema de idéias dotado de "múltiplas entradas" . Em seguida. Considerações Sobre o Princípio da Vida. viajou para a Rússia a fim de propor ao czar Pedro. apesar de ter sido um dos maiores responsáveis para que Hanôver se transformasse em eleitorado e para que fosse criada a Academia de Ciências de Berlim. Correspondência com Clarke. Leibniz veio a falecer a 14 de novembro de 1716. com os quais segundo muitos historiadores tentava apenas obter favores dos governantes. a partir dessa idéia. 17. científicos e filosóficos de seu tempo. Cálculo Diferencial e Integral. Leibniz encontrou diminuído seu prestígio. Novos Ensaios Sobre o Entendimento Humano. espécie de cálculo filosófico que lhe permitiria encontrar o verdadeiro conhecimento e desvendar a natureza das coisas. em que trata de quase todos os assuntos políticos. Descartes forneceu-lhe o ideal de uma explicação matemática do mundo. De Aristóteles e da escolástica. considera que Leibniz perseguia um sincero ideal de síntese de todos os conhecimentos e das diferentes confissões religiosas de seu tempo. esteve em Viena. Sobre a Sabedoria. Dentre seus escritos destacam-se: Sobre a Arte Combinatória. Ensaio de Teodicéia. com a morte de sua protetora. o mundo criado por Deus estaria impregnado de racionalidade. tudo aquilo que acontece. Correspondência com Arnauld. Nessa época. Essa síntese entre o racionalismo cartesiano e o finalismo aristotélico apresenta como núcleo uma série de princípios de conhecimento. Relativamente esquecido e isolado dos assuntos públicos. Sobre o Verdadeiro Método em Filosofia e Teologia. ao qual dedicaria a Monadologia. Conseqüentemente. Outra parte (a volumosíssima correspondência e os trabalhos publicados somente após sua morte) revela segundo Russel e outros um pensador bastante diferente do Leibniz público. Monadologia. Deus não pode romper Sua própria lógica e agir sem razões. 230 . cumprindo objetivos propostos pela mente divina. Parte considerável da obra de Leibniz e constituída por escritos de circunstância. torna-se bastante difícil uma interpretação da filosofia leibniziana que não dê margem à dúvida e não suscite polêmica. As duas doutrinas foram sintetizadas pela filosofia de Leibniz.2 . a princesa Sofia. ou seja. a vontade do Criador (na qual se fundamenta o finalismo) submete-se ao Seu entendimento (racionalismo). O que é Idéia. Característica Universal.Racionalismo e Finalismo Apesar de sua intensa e agitada vida pública. Leibniz conservou a concepção segundo a qual o universo está organizado de maneira teleológica. fazendo todas as conciliações possíveis. outro de Aristóteles e da escolástica medieval. Sobre a Origem Radical das Coisas. o Grande. dos quais se poderiam deduzir uma concepção do mundo e uma ética dotada inclusive de implicações políticas. realizou seus principais trabalhos filosóficos. Leibniz pretendia lançar as bases de uma combinatória universal.

Leibniz faz com que intervenham também os princípios da continuidade e dos indiscerníveis. segundo a qual a origem das idéias encontra-se na experiência. A primeira funda-se no caráter nãocontraditório daquilo que é explicado ou demonstrado. O princípio da continuidade afirma que a natureza não dá saltos. O princípio de razão afirma. o otimismo leibniziano do melhor dos mundos possíveis. A segunda exigência consiste em que. Nesse sentido. explica os seres não como máquinas que se movem. boa e perfeita de Deus. Leibniz afirma que não há no universo dois seres idênticos e que sua diferença não é numérica nem espacial ou temporal. além de não ser contraditória. Leibniz completa a fórmula de Locke "Nada há no intelecto que não tenha passado primeiro pelos sentidos" com o adendo "a não ser o próprio intelecto". O finalismo é que sustenta o princípio do melhor: Deus calcula vários mundos possíveis. O princípio dos indiscerníveis daria conta da multiplicidade e individualidade das coisas existentes. uma folha de papel em branco. houver uma causa que a faça existir. Enquanto Descartes formula uma concepção geométrica e mecânica dos corpos. sem esforços e sem pesquisa. portanto. é a razão necessária ou princípio de nãocontradição. como o édito do pretor é lido em seu caderno. assim também não existem descontinuidades na hierarquia dos seres. a coisa em questão também existe realmente. revelam-se não como extensão. possível sua existência). mas errariam ao esquecer o papel do espírito. Por isso. intervém também nessa produção a causa final. mas faz existir o melhor desses mundos. desse modo. A diferença é de essência e manifesta-se no plano visível das próprias coisas. além de explicado ou demonstrado não ser contraditório (e sendo.O primeiro desses princípios é o de razão. é a razão suficiente. Leibniz afirma. inatos. O finalismo sustenta. Os empiristas teriam razão ao afirmar que as idéias surgem do contato com o mundo sensível. assim como não há vazios no espaço. que as plantas não passam de animais imperfeitos. Os princípios do melhor. a experiência indica que o que se conserva num ciclo de movimento não é como pensava Descartes a quantidade do movimento. que deseja essa produção. 231 . por exemplo. mas é bastante que as descubramos em nós por um esforço de atenção. mas como forças vivas: "Os corpos materiais. da razão suficiente. mas como forças. portanto.Os Fundamentos da Monadologia Os princípios do conhecimento formulados por Leibniz levaram-no a uma concepção do mundo oposta à cartesiana. mas intrínseca. O critério do melhor é sobretudo moral. Leibniz constrói uma concepção dinâmica. mas a quantidade de força viva". O fim da produção das coisas é a vontade justa. Para Leibniz. da continuidade e dos indiscerníveis são considerados. 17. com ele Leibniz pretende demonstrar que o mal é a simples sombra necessária do bem. que uma coisa só pode existir necessariamente se. Para Leibniz. por outro lado. além da causa eficiente que produz as coisas segundo o princípio de razão (nãocontadição e suficiência). da não-contradição. A partir da noção de matéria como essencialmente atividade. essas eternas leis da razão. Nos Novos Ensaios Sobre o Entendimento Humano. portanto. por sua resistência e impenetrabilidade. apenas uma "tabula rasa". a experiência só fornece a ocasião para o conhecimento dos princípios inatos ao intelecto: "Não se deve imaginar que se possa ler na alma. a Segunda é dinâmica e moral. A primeira é de tipo matemático e mecânico. constitutivos da própria razão humana e. Além dos princípios de razão (não-contadição e suficiência) e do princípio do melhor. cada ser é em si diferente de qualquer outro. Leibniz rejeita a teoria empirista de Locke (1632-1704).3 . ao contrário. que dão conta da produção das coisas. isto é. embora apenas virtualmente. O princípio de razão consiste em submeter toda e qualquer explicação ou demonstração a duas exigências. por Leibniz. uma vez que as ocasiões são fornecidas pelos sentidos".

Finalmente. a mônada é a consciência. para Leibniz. em Leibniz. e o inconsciente da imitação. Pela percepção as mônadas representam as coisas do universo. não tendo "portas sem janelas". de refletir.Leibniz chega à idéia de que o universo é composto por unidades de força. sua posição. os estados sucessivos da alma estariam ligados uns aos outros e a todo universo. A apercepção é a capacidade que a mônada espiritual tem de autorepresentar-se. O corpo humano. com consciência e vontade. toda mônada. o conjunto todo organiza-se numa topologia. próprio das simples mônadas enquanto são apenas "espelhos do universo". assim como a realidade dos sonhos. esse grande ruído que se escuta perto do mar". enquanto toda a substância. isto é. a alma também tem algum pensamento de todos os movimentos do universo. Isto se deve ao fato de que o universo é múltiplo e infinito. o trabalho da imaginação nos "bastidores da consciência". A apetição consiste na tendência de cada mônada de fugir da dor e desejar o prazer. cada ponto de uma das séries é definido. mas têm o poder interno de exprimir o resto do universo. encontra-se no fato de que as mônadas não possuem o mesmo grau de perfeição: acima das "mônadas nuas" (corpos brutos que só têm percepções inconscientes e apetições cegas) existem "mônadas sensitivas" (animais dotados de apercepções e desejos) e as "mônadas racionais". Leibniz chega também à noção de mônada mediante a experiência interior que cada indivíduo tem de si mesmo e que o revela como uma substância ao mesmo tempo una e indivisível. a continuidade existente entre os seres não anula a diferença de natureza entre as simples mônadas e os espíritos. a apetição e a expressão. passando de uma percepção para outra. é afetado. O pluralismo das séries convergentes que constituem o universo 232 . não recebem seus conhecimentos de fora. pertencente apenas aos espíritos enquanto não são apenas espelhos. A noção de ordem. de uma mathesis universalis.. Isso explicaria a conservação das lembranças. jamais havendo consciência clara de todas as impressões. mesmo quando esquecidos no estado de vigília. Dessa forma. "É verdade". a mônada é um ponto de vista. Portanto. não é possível "que nossa alma (mônada superior) possa atingir tudo em particular".4 . por conseguinte.O Melhor dos Mundos Possíveis O racionalismo leibniziano tende à constituição de um saber globalizador.. por seu lugar. a fim de poder me aperceber daquilo que resulta de seu conjunto. de alguma forma. Essa noção. A percepção consciente (apercepção) resulta do conjunto das "pequenas percepções". assume feição diferente da que possuía em Descartes: desliga-se da de nexo linear e passa a se vincular à noção de "situação" (as situações resultantes das diversas séries que se entrecruzam). a partir de si mesmas. mas é preciso que eu tenha alguma percepção do movimento de cada vaga de um rio. como por exemplo o da linfa (. pela mudança de todos os outros. como o ruído do choque de duas gotas de água. assim estruturado. 17. não se esgota na adição do atributo força ao conceito da matéria. formulado por Descartes. contudo. A razão dessa diferença. todos os seus movimentos correspondem certas "percepções" ou pensamentos mais ou menos confusos da alma. as mônadas. cada uma de per si espelha o universo todo. "que não nos apercebemos distintamente de todos os movimentos de nosso corpo.). Assim. a apercepção. com exceção de Deus. é necessariamente finita. as mônadas. isto é. Cada representação por parte das mônadas é um reflexo obscuro. o sistema de Leibniz estrutura-se como um conjunto de múltiplas séries que convergem e se entrecruzam. Do ponto de vista lógico. conduz à possibilidade de tradução de uma ordem em outra. noção fundamental de sua metafísica. mas espelhos dotados de reflexão. Leibniz afirma ainda que existem dois tipos de inconscientes: o inconsciente de percepção. que se deve ouvir mesmo sem ter consciência. diz Leibniz. O sistema todo. As notas que caracterizam as mônadas leibnizianas são a percepção. isto é. dentro da complexa teia. O inconsciente seria inerente a todas as substâncias criadas e seus diferentes graus seriam paralelos aos graus de perfeição dessas substâncias.

assim. O mal metafísico seria a fonte do mal moral. tão rigorosa quanto as dos máximos e mínimos matemáticos ou as leis do equilíbrio. isto é.. pois se ela não fosse imperfeita. isto é. físico e moral. uma conseqüência física da limitação original e uma conseqüência ética. Ao mesmo tempo. ou mecânica metafísica. da mesma forma que existem linhas que avançam sempre. a dor física seria expressão da dor metafísica. Deus autoriza o sofrimento porque este é necessário para a produção de um Bem Superior: "Experimenta-se suficientemente a saúde. exatamente ao de todas as outras. assim como a correnteza é a causa do movimento do barco. contudo. Maior?" A teoria do Mal. Na própria origem das coisas. se existem aquelas que realizam períodos no final dos quais percebem não ter ganho nem perdido. sem possibilidade de erro. deixam uma réstia de dúvida sobre seu otimismo: "Pode-se duvidar se o mundo avança sempre em perfeição ou se avança e recua por períodos. apenas como uma não-perfeição. Deus escolhe o melhor dos mundos dentre todos aqueles que se apresentam como possíveis. cujas partes convivem numa harmonia natural e onde tudo é análogo a tudo. que a alma experimenta por causa de sua imperfeição. outras que voltam sem avançar 233 . ou. A doutrina leibniziana da harmonia preestabelecida sustenta que Deus cria as mônadas como se fossem relógios. ao menos no final de seus períodos. mas não de seus defeitos. todavia. deixando em seguida que seus mecanismos operem sozinhos. exerce-se uma certa matemática divina. O mal físico é entendido por Leibniz como conseqüência do mal moral. organiza-os com perfeição de maneira a marcarem sempre a mesma hora e dá-lhes corda a partir do mesmo instante. no instante da criação. os pontos de vista de cada mônada sobre o universo concordariam entre si. Algumas passagens das obras do próprio Leibniz. Para Leibniz. criando-as de tal modo que cada uma se desenvolve como se estivesse só.. revive o modelo estóico: o universo é concebido à semelhança de um organismo pleno. enfim. corresponde. O mal metafísico é a raiz do mal moral. responsabilizar o criador pela existência do mal. como a reta. Em decorrência da harmonia preestabelecida. diz Leibniz.pode assim apresentar-se como pluralismo conciliado e harmônico. sem nunca se ter estado doente? Não é preciso que um pouco de Mal torne o Bem sensível. mas não de seu atraso. Assim. seu desenvolvimento. seria o próprio Deus. Deus teria colocado em cada mônada. podendo ser considerado. Segundo Leibniz. porque Deus proporciona a todos as mesmas graças. a cada instante. mas cada um pode se beneficiar delas de acordo com sua limitação original. os atos de cada mônada foram antecipadamente regulados de modo a estarem adequados aos atos de todas as outras. metafísica original se definiria. um não-ser. Em Leibniz. Deus escolheu o menor dos males. ao mesmo tempo. ou se existem também aquelas que perdem e recuam sempre. isso constituiria a harmonia preestabelecida. Ao produzir o mundo tal como ele é. assim. tem percepções inadequadas e se deixa envolver pelo confuso. todas as suas percepções. Não se deveria. punição do pecado. retomando Leibniz a concepção neoplatônica e agostiniana. concluiria assim sua tentativa de síntese sistemática de uma filosofia que concebe o mundo como rigorosamente racional e como o melhor dos mundos possíveis. Leibniz afirma que. contudo. mas uma substância imperfeita não é capaz de aprender o todo. (. apenas como uma não-perfeição. afirmando inicialmente que o mal se manifesta de três modos: metafísico. assim também Deus é a causa da perfeição da Natureza. responsável pela determinação do máximo de existência. A imperfeição metafísica original de definiria. pois aquilo que é perfeito pode contemplar o Bem. Graças a essa harmonia preestabelecida. de tal forma que o mundo comporta o máximo de bem e o mínimo de mal. formulada por Leibniz. Coloca-se então a questão: como explicar a presença do mal no mundo? Leibniz tentou responder a esse problema. e deste decorreria o mal físico.) Pode-se pois questionar se todas as criaturas avançam sempre. O mal metafísico é a imperfeição inerente à própria essência da criatura.

outras. como a espiral. 234 . que recuam depois de terem avançado. finalmente. como as ovais". ou avançam depois de terem recuado.ou recuar. como a circular. outras que voltam e avançam ao mesmo tempo.

1 . Em geral.Baruch Spinoza O racionalismo cartesiano é levado a uma rápida. Entretanto. lógico-geométrico. nas suas preocupações práticas. religiosas e políticas. limitações ao desenvolvimento lógico e despreocupado do racionalismo. diretamente até Kant e indiretamente até Hegel. para a construção do seu 235 . Spinoza é a mais coerente e extrema expressão do racionalismo moderno depois do fundador e antes de Kant. Os dois centros principais desse sincretismo são representados pelo Jansenismo e pelo Oratório.2 . Daí surgiram o ontologismo e o ocasionalismo de Malebranche. sobre a poética de Boileau. fazendo da matéria e do espírito dois atributos da única substância divina. pode-se dizer que Descartes fornece a Spinoza o elemento arquitetônico. pois.18 . Descartes teve numerosos adversários e críticos no campo filosófico. Nesses ambientes houve a intuição de um perigo revolucionário para a religião e a ordem social. uma animação universal. as oposições maiores contra o cartesianismo surgiram evidentemente no ambiente eclesiástico e político. desenvolvendo o conceito de substância cartesiana. mas de um profundo sentimento religioso e cristão. À razão matemática. grande físico e matemático. o pensamento de Bayle. sobre a arte de Racine e de La Fontaine. a saber: a relação entre substância finita de um lado. ao contrário. quanto especialmente pelo espírito crítico. Malebranche e Leibniz encontram. O problema das relações entre Deus e o mundo é por ele resolvido em sentido monista: de um lado. pelo método racionalista. particularmente na França na segunda metade do século XVII.Considerações Gerais O pensamento de Descartes exercerá uma influência vasta no mundo cultural francês e europeu. Leibniz. E também propôs os grandes problemas em torno dos quais girou a especulação desses filósofos. porém (se bem que. mecanismo e infinidade do universo.BARUCH SPINOZA 18. a divina. quer católico quer protestante. em parte. Malebranche. mais ou menos ortodoxos. científica . próprios daquela filosofia. por causa do criticismo. de outro lado introduzindo na corrente racionalista-cartesiana uma preformada concepção neoplatônica de Deus. uma concepção panteísta-emanatista. Une os dois na mesma substância segundo um paralelismo psicofísico. a harmonia preestabelecida de Leibniz e o panteísmo psicofísico de Spinoza. o cartesianismo forjou a mentalidade (racionalista-matemática) dos maiores filósofos até Kant.esprit de finesse . pelo que há uma só verdadeira e própria substância.que leva até o cristianismo. lógica. Descartes teve seguidores também em determinados meios religiosos de orientação platônicoagostiniana. o século de ouro da civilização francesa. extrema conclusão por Spinoza. contrapõe a razão integral . a saber. O problema. no entanto.que vale para o mundo natural mas não chega até Deus. uma forma de pampsiquismo. Ladeia estes três pensadores uma turma numerosa de cartesianos mais ou menos ortodoxos. implícito nas premissas do sistema e realizado apenas parcialmente pelo filósofo. Significativa é a influência que o criticismo e o racionalismo cartesianos exerceram sobre a cultura do século de Luís XIV.espírito geométrico . Brás Pascal. entre os quais Hobbes. das relações entre o espírito e a matéria é resolvido por Spinoza. e entre espírito e matéria do outro. parece ter tido intuição da falha da filosofia cartesiana. O desenvolvimento lógico do cartesianismo é representado por alguns grandes pensadores originais: Spinoza. E exerceu tal influência não tanto como sistema metafísico. a ética de La Bruyère. 18. jansenista). E.

cronologicamente. em parte deriva da tradição neoplatônica. que não se encontram em Spinoza. e nos meios religiosos holandeses aprendeu um cristianismo sem dogmas. Deixou uma notável biblioteca filosófica. Para não comprometer a sua independência especulativa e a sua paz. nada encontramos de notável exteriormente na breve vida de Spinoza. médico e livre pensador. Além destes fatos exteriores. sem saúde. se acha também isolado religiosamente. como solucionadora última do problema da vida. pois não têm a ousadia . 18. Provia. Os demais racionalistas de maior envergadura da corrente cartesiana se seguem. Recebeu uma educação hebraica na academia israelita de Amsterdam. Uma tuberculose enfraquecera seu corpo. não se excluem os desenvolvimentos idealistas do fenomenismo racionalista por parte de Leibniz. depois de Spinoza.de chegar até as extremas conseqüências e conclusões racionalista-monista. E. mas a sua herança mal chegou para pagar as despesas do funeral e as poucas dívidas contraídas durante a enfermidade. exigidas pelas premissas cartesianas. a sua firme convicção de que a solução desse problema não é possível senão teoreticamente. Os outros acontecimentos mais notáveis na formação espiritual especulativa de Spinoza são: o contato com Francisco van den Ende. de conteúdo essencialmente moralista. Após alguns meses de cama. através do conhecimento e da contemplação filosófica da realidade. às suas limitadas necessidades materiais. Um traço característico e fundamental do caráter de Spinoza é a sua concepção prática. Também as autoridades protestantes o desterraram como blasfemador contra a Sagrada Escritura. Van den Ende iniciou-o no pensamento cartesiano. sem pátria. inteiramente dedicada à meditação filosófica e à redação de suas obras. intelectualmente. Por exemplo. em 1677. cujo conteúdo monista. Demonstrando muita inteligência. 236 . nas línguas clássicas. entretanto. foi excomungado pela Sinagoga em 1656.sistema. arte que aprendera durante a sua formação rabínica. preparando lentes ópticas para microscópios e telescópios. sem riqueza. na cultura da Renascença. Mas. com base especialmente nas Sagradas Escrituras. que constitui precisamente o seu sistema filosófico. detidos por motivos práticos-religiosos e morais. Com isto não se excluem. de modesta condição social. emigrados para a Holanda. moral. em Haia. e também aceitando alguma ajuda do pequeno grupo de amigos e discípulos. as relações travadas com alguns meios cristão-protestantes. logicamente. eleitor palatino. filho de hebreus portugueses. desenvolvimentos em outro sentido. recusou uma pensão oferecida pelo "grande Condé" e uma cátedra universitária em Heidelberg. As obras filosóficas principais de Spinoza são: a Ethica (publicada postumamente em Amsterdam em 1677). foi iniciado na filosofia hebraica (medieval-neoplatônico-panteísta) e destinado a ser rabino. depois de se manifestar o seu racionalismo e tendo ele recusado qualquer retratação.Vida e Obras Baruch Spinoza nasceu em Amsterdam em 1632. sem família. por parte deles. Spinoza faleceu aos quarenta e quatro anos de idade. de filosofia. que contém a sua filosofia religiosa e política. ao mesmo tempo. para os arredores de Amsterdam. Spinoza reitrou-se. estão antes dele. em parte do próprio Descartes. primeiro.em especial Malebranche . o Tractatus theologivo-politicus (publicado anônimo em Hamburgo em 1670). Aos vinte e cinco anos de idade esse filósofo.3 . em seguida para perto de Leida e enfim refugiou-se em Haia. pois. que lhe propusera Carlos Ludovico.

Cada corpo tem uma alma. ou. tudo é necessitado. estamos em cheio no panteísmo. e no monismo spinoziano descem à condição de simples atributos da substância única. elementares. Desses atributos. Não nos esqueçamos de que o Deus spinoziano é a substância única e a causa única. do atributo extensão da mesma substância. 18. o intelecto humano conhece dois apenas: o espírito e a matéria. a saber: a cada modo de ser e de operar na extensão corresponde um modo de ser e de operar do pensamento. 18. mesmo que a alma e o corpo não possam agir mutuamente uma sobre o outro. Schelling. o pensamento de Spinoza acabou por interessar e influenciar particularmente a cultura moderna depois de Kant (Lessing. este corpo constituiria o conteúdo fundamental do conhecimento da alma. Nenhuma ação é possível entre a alma e o corpo .O Pensamento: Deus A teologia de Spinoza é contida. graças à doutrina spinoziana do paralelismo psicofísico. o homem integral. regem naturalmente todo o mundo dos modos. substancialmente. A substância e os atributos constituem a natura naturans.4 .O Homem Do primeiro livro da Ethica . em que. Não é preciso repetir que. Deus não somente é racionalmente necessitado na sua vida interior. por sua vez. o intelecto e a vontade. mas se manifesta necessariamente no mundo. Spinoza quereria deduzir de Deus racionalmente. o homem não é uma substância. Como tudo é necessário na natura naturans. os modos. corresponde um estado ou mudança do corpo. no segundo livro (De mente). é resolvido num complexo de fenômenos psicofísicos. isto é.A princípio desconhecido e atacado. As leis do paralelismo psicofísico. corpo e alma. o intellectus infinitus é um modo primitivo do atributo do pensamento. isto é. geometricamente toda a realidade. Eles são modificações dos atributos. mas nela unificadas e correspondentes. elementares.). Hegel.cujo objeto é Deus . Os modos primitivos representam as determinações mais imediatas e universais dos atributos e são eternos e infinitos: por exemplo. Goethe. Schleiermacher. entretanto. E. A lei suprema da realidade única e universal de Spinoza é a necessidade. quer primitivos quer derivados. A assim chamada alma nada mais é que um conjunto de modos derivados. etc.como dizia também Descartes . alma e corpo. E igualmente necessário é o liame que une entre si natura naturans e natura naturata.Spinoza passa a considerar. como já se viu. naturalmente filtrado através da crítica kantiana. para Spinoza. Pensamento e extensão são expressões diversas e irredutíveis da substância absoluta. proporcionando ao idealismo o elemento metafísico monista. como aparece pela própria estrutura exterior da Ethica ordine geometrico demonstrata. Descartes diminuiu estas substâncias. do atributo pensamento da substância única. está fora do tempo e se desdobra em número infinito de perfeições ou atributos infinitos. melhor. e o motus infinitus é um modo primitivo do atributo extensão.e como Spinoza sustenta até o fundo. como cada alma tem um corpo. Os modos distinguem-se em primitivos e derivados. o espírito humano. igualmente o corpo nada mais é que um complexo de modos derivados.5 . que governam o mundo dos atributos. 237 . a cogitatio e a extensio. O homem. a matéria e o espírito. e Spinoza chama-os natura naturata (o mundo). A cada estado ou mudança da alma. A substância divina é eterna e infinita: quer dizer. logicamente. Da natura naturans (Deus) procede o mundo das coisas. assim tudo também é necessário na natura naturata. no primeiro livro da Ethica (De Deo).

A respeito da imortalidade da alma. aí chegado. No V e último livro da Ethica. as superfícies.6 . mas pela relação de adequação da mens do sujeito que conhece a mens do objeto conhecido. abrange ela. amará necessariamente a Deus. entretanto. os atributos infinitos e os infinitos modos que a determinam. cientificamente. no sentido de que tem conhecimento eterno do eterno. non lugere.o sábio. no sistema spinoziano. dada a universal correspondência spinoziana entre teórico e prático. e sim da natureza particular de que somos dotados. e as paixões podem ser tratadas com a mesma serena indiferença que as linhas. Então a libertação das paixões dependerá do conhecimento racional. isto é. O filósofo deve humanas actiones non ridere. por conseguinte. derivam necessariamente a felicidade e virtude supremas. A respeito do conhecimento sensível (imaginatio). mas oferece uma representação em que são fundidas as qualidades do objeto conhecido e do sujeito que conhece e dispõe tais representações numa ordem fragmentária. IV e V da Ethica. mas no sentido de que o homem é idêntico panteisticamente a Deus. O sábio realiza a felicidade e a virtude simultânea e juntamente com o conhecimento racional. que é. A ordem oferecida pelo conhecimento racional particular nada mais é que a substância divina.A Moral Como é sabido. Deus. pelo que o homem considera as coisas finitas como absolutas e.que é. Spinoza dedica ao problema moral e à sua solução os livros III. é claro que o conhecimento. pois. as figuras geométricas. considera as paixões teoricamente. logo. Tal amor intelectual de Deus é precisamente o júbilo unido com a causa racional que o produz. Essa escravidão depende do erro do conhecimento sensível. Spinoza distingue. é favorecida pela concepção universalmente determinista da realidade. verdadeiro. em definitivo. em choque entre si e com ele. Chegado ao conhecimento e à vida racionais. místico. pois a personalidade é excluída da metafísica spinoziana. na sua unidade racional. em Spinoza. do nosso livre-arbítrio. o sábio vive já na eternidade. este conhecimento racional não depende. sed intelligere. o conhecimento das coisas em Deus . do conhecimento racional intuitivo . pois. em especial. a condição do sábio. sustenta Spinoza que é ele inteiramente subjetivo: no sentido de que o conhecimento sensível não representa a natureza da coisa conhecida. E desse conhecimento racional intuitivo. neque detestari. Tal atitude rigidamente científica. libertado da escravidão das paixões e da ignorância. o amor dos homens para com Deus é idêntico ao amor de Deus para com os homens. em virtude da qual o mecanismo das paixões humanas é necessário como o mecanismo físico-matemático. não é um amor como o que existe entre duas pessoas. Visto que a felicidade depende da ciência. não é constituído pela relação de adequação entre a mente e a coisa. o conhecimento racional em dois graus: conhecimento racional universal e conhecimento racional particular. Das limitações do conhecimento sensível decorrem o sofrimento e a paixão. cada uma tendo um grau sensível e um grau racional. causa da sua felicidade e poder. 18. Depois de nos ter oferecido um sistema do mecanismo das paixões no IV livro da Ethica. e não moralisticamente. Spinoza esclarece. Este amor do homem para com Deus. No livro III faz ele uma história natural das paixões. irracional e incompleta. é retribuído por Deus ao homem. devemos dizer que é excluída naturalmente por Spinoza como sobrevivência pessoal porquanto pessoa e memória pertencem à 238 .Mesmo negando a alma e as suas faculdades. entretanto. Spinoza reconhece várias atividades psíquicas: atividade teórica e atividade prática. E. o amor de Deus para consigo mesmo (por causa precisamente do panteísmo). Spinoza esclarece precisamente e particularmente a escravidão do homem sujeito às paixões. Visto o paralelismo psicofísico de Spinoza. assim se exprime Spinoza energicamente no proêmio ao II livro da Ethica.

os homens não cessam de ser. de sorte que será a razão a norma suprema da vida humana. Por conseguinte. o soberano podem fazer tudo o que querem: para isso têm o poder e.7 . em uma luta de todos contra todos. porquanto o direito sem a força não tem eficácia. No entanto. antes da organização política. não basta o pacto apenas: precisa o homem do arrimo da força para sustentar-se. simbolicamente. a saber.em vista das penas ou dos prêmios temporais e eternos. a religião. mais ou menos. pois o conhecimento filosófico de Deus decairia em uma revelação mítica. violariam. como que limitados ao conhecimento e à vida sensíveis. faltar-lhe-á também o direito. de um modo apto para a mentalidade popular. é racional. que representaria um sucedâneo da filosofia para o vulgo. os homens se encontravam em uma guerra perpétua. o estado. irracionais e. portanto. E de suas ruínas deverá surgir um estado mais conforme à razão.imaginação. De fato. não é dominador supremo. então. a se acordarem entre si numa espécie de pacto social. sem mais. os súditos . O estado. porquanto não é o fim supremo do homem. decairia no mandamento divino heterônomo. Só então o estado e verdadeiramente constituído. pondo obstáculos ao desenvolvimento racional da sociedade. o que vale nos dogmas não seria a sua formulação exterior. revelada. Spinoza deduz do estado naturalista o estado racional. ou eternas. isto é. ameaçados ou prometidos pelo estado e pela igreja. serão as almas ou os pensamentos dos sábios. dependem do temor e da esperança. Faltando-lhe a força. porém. representaria sensivelmente. O papel do estado é auxiliar na consecução racional de Deus.ou não feitas . que. é destinado o quase total aniquilamento no sistema racional da substância divina. O conteúdo da religião positiva. na unificação final de tudo e de todos em Deus. e sim o conteúdo moral. revelada. e se acham eles ainda no estado de pura natureza. Seu fim supremo é conhecer a Deus por meio da razão e agir de conformidade. logo. As ações feitas . o governo. quando lhes fosse cômodo e tivessem a força. segundo Spinoza. Então os componentes devem confiar a um poder central a força de que dispõem. o pacto. pelo qual prometem renunciar a toda violência. mesmo depois do pacto social. Elas. dando-lhe a incumbência e o modo de proteger os direitos de cada um. nem se deveria procurar neles sentidos metafísicos arcanos. E. ao passo que às almas e aos pensamentos dos homens vulgares. auxiliando-se mutuamente. do qual os súditos saíram. Entretanto. Portanto. mas é a forma que seria absolutamente irracional. mais poderosos do que ele .A Política e a Religião Spinoza tratou particularmente do problema político e religioso no Tractatus theologico-politicus. são paixões irracionais. a religião positiva. tais verdades podem aproveitar ao bem desse último. e o estado cairá fatalmente. ou pela máxima parte imortais. 18. servem para a tranquilidade do sábio e para o treinamento do homem vulgar. portanto. que deveria derivar do conhecimento racional com a mesma necessidade pela qual a luz emana do sol. Considera ele o estado e a igreja como meios irracionais para o advento da racionalidade. quando encarnadas nos dogmas. De sorte que imortais. O outro grande instituto irracional a serviço da racionalidade é. 239 . as verdades racionais. se o estado se mantivesse na violência e irracionalidade primitivas. a não ser uma força superior. a ação racional. não poderá ser entendida senão como a eternidade das idéias verdadeiras. porque o escopo dos dogmas é essencialmente prático a saber: induzir à submissão a Deus e ao amor ao próximo.quando mais racionais e. É o próprio egoísmo que impede os homens a se unirem.rebelar-se-ão necessariamente contra ele. No estado de natureza. o direito. filosóficas acerca de Deus e do homem. Nem há quem possa opor-se a eles. assim. entretanto. que pertencem à substância divina. A imortalidade. segundo Spinoza.

pois nós não temos uma idéia clara e distinta do infinito. e também ele recorre a Deus para explicar as relações entre o espírito e a matéria. 19.O CARTESIANISMO 19. Foi profundamente influenciado pelo agostinianismo dominante no Oratório. entretanto não ousa afirmá-lo como substância única. As idéias. nada mais são que o próprio objeto inteligível presente ao nosso pensamento: são idéias ontológicas. Estas são as duas fontes principais do seu pensamento. Esta visão é possível porque Deus está intimamente presente ao nosso espírito e lhe pode revelar a sua essência porquanto é comunicável. Pisando as pegadas de Agostinho e de Descartes.4 . em 1660. verdadeiras objetivamente. sente ele a necessidade de provar a existência de Deus na sua realidade subsistente e de determinar-lhe a natureza. julga ele que seja essencialmente incognoscível. Mas.como Descartes e Spinoza . Para demonstrar a existência de Deus. claras e distintas e. Estudou filosofia no colégio "De la Marche" e teologia na Sorbona. especialmente os sentidos externos e atribui às idéias todo o valor do conhecimento. não só não podem derivar da sensação. A única idéia clara e distinta que temos é a de extensão 240 . Visto essas idéias serem necessárias e universais. 19. Com Malebranche. Spinoza resolvera o primeiro mediante o seu rígido monismo da substância. Faleceu em 1715.19 . é particular e contingente. Entrando jovem na Congregação do Oratório.toda interação entre espírito e matéria. sobre a base de um inicial platonismo comum.A Metafísica Se bem que Malebranche afirme que Deus está intimamente presente ao nosso espírito como revelador das idéias. como a sensação. o racionalismo cartesiano entra em síntese com o panteísmo neoplatônico. foi ordenado padre em 1664.Nicolau Malebranche Com Spinoza. Méditations chrétiennes et métaphysiques (1683). Traité de morale (1684). declara as idéias eternas e imutáveis. necessários e universais. mas apenas o que há nele de imitável. Malebranche. ao mesmo tempo. nega também ele . mas nem sequer ser produzidas pelo espírito humano. exteriores ao sujeito que conhece. devido ao teísmo e ao cristianismo que Malebranche se esforça por conciliar com o cartesianismo. entre espírito e matéria). tais idéias estão na mente de Deus e nele nós temos a intuição delas (ontologismo). As obras de Malebranche tiveram grande êxito e levaram-no a várias polêmicas. chega a conceber Deus como causa única. e pelo cartesianismo. Malebranche recorre substancialmente ao sólito argumento ontológico.O Pensamento: A Gnosiologia Como Descartes e o conseqüente racionalismo. Noutras palavras: nós vemos. Entretiens sur la métaphysique et sur la religion (1688). pelo que diz respeito ao segundo.1 . pois. pelo que diz respeito ao primeiro problema. caro aos platônicos e aos agostinianos. a gnosiologia de Malebranche desvaloriza o conhecimento sensível. sofre um regresso sobre a linha do seu lógico desenvolvimento panteísta e racionalista.2 . o segundo. das coisas. As principais obras são: Recherche de la vérité (1674-1675).Vida e Obras Nicolau Malebranche nasceu em Paris em 1638. são os arquétipos eternos e imutáveis. mediante o famoso paralelismo dos atributos extensão e pensamento na substância. A respeito da natureza de Deus. não propriamente a Deus. a saber.3 . Dos dois problemas fundamentais deixados em herança por Descartes (relações entre Deus e mundo. portanto. procurando conciliá-las no seu sistema filosófico. o cartesianismo entra em síntese com o agostinianismo. 19.

Temos dele uma idéia clara. e. Aspecto característico da moral de Malebranche é o apelo para o cristianismo e. tanto assim que é mister a revelação cristã. também o panteísmo. Temos. Malebranche teística e cristãmente afirma Deus criador dos espíritos e da matéria: quer dizer. para o pecado original. produzir alguma coisa. e as assim chamadas causas segundas não passam de ocasiões para o operar da causa única divina (ocasionalismo). assim não temos uma idéia clara da nossa alma.dependem de Deus e são produzidas diretamente por ele segundo a doutrina do ocasionalismo. procurará compor a necessidade racionalista-matemática com a contingência e a liberdade. um sentimento confuso da existência atual do mundo material. Assim. E chegará também à negação da realidade material. precisamente. Diversamente de Spinoza e de acordo com Malebranche. logo. 241 . Deus opera diretamente em todas as criaturas. para que estejamos propriamente certos da sua existência. ele só é causa e atividade. entre alma e corpo . isto é. A respeito das relações entre Deus e o mundo. isto é. causalidade ativa nem dos corpos entre si. trata-se de uma percepção sensível inferior à da existência do espírito. As relações . a fim de explicar plena e verdadeiramente o homem na sua realidade atual. O resultado é que a necessidade universal permanece. material. e que. livre embora. bem como o erro no conhecimento.Guilherme Leibniz Spinoza tentara a síntese do racionalismo cartesiano com o panteísmo neoplatônico.inteligível (e de seus modos).a interação entre as coisas materiais de um lado e os espíritos humanos do outro. nem da alma sobre o corpo. com a supressão do mundo físico. que nos diz ter Deus criado o mundo. o que as idéias não podem fazer. inércia natural da extensão. não é causa produtora. os filósofos "são obrigados à religião (revelada). encontram só no pecado original a causa única que os explica. único elemento constitutivo das coisas materiais. quer dizer. porém. Como não temos uma idéia clara de Deus. o racionalismo abre as portas ao idealismo.6 . pois só ela pode tirá-los do embaraço em que se encontram". da sua natureza. a impossibilidade de uma interação entre corpo e alma. 19.ao contrário das idéias .é racionalmente confuso. Malebranche baseia esta doutrina em duas teses de origem cartesiana: em física. a vontade. Temos uma intuição da sua existência. O homem é livre não no sentido de que seja capaz de fazer. em todo caso. Malebranche tentara a síntese do racionalismo com o platonismo agostiniano. porque temos a idéia clara de extensão inteligível. a do pensamento aristotélico-tomista com o empirismo moderno. mas. ele só atinge a existência contingente. que . A desordem das paixões. logo. Toda energia produtora de ser e de atividade pertence propriamente a Deus.5 . vemos a extensão inteligível em Deus. Não há. em psicologia. Leibniz tentará uma síntese mais vasta. impulso e vontade. Sem o pecado haveria perfeita harmonia entre corpo e espírito.A Moral Malebranche procura conciliar essa atividade universal divina com o live arbítrio humano. Dessa maneira. da res extensa. mas no sentido de que é capaz de suspender a ação divina em si: suspensão (antes de que produção) de efeitos. um sentimento. porquanto não há causas segundas. resolvendo a realidade material em uma aparência fenomênica do espírito. admite uma pluralidade de substância. e tal idéia se torna representativa de Deus pelo seu caráter de infinidade. 19. nem do corpo sobre a alma. espírito e matéria. Acontece o contrário a respeito do mundo físico. sensibilidade e pensamento. Diversamente afirma a unidade da causa.

Mais profundamente ainda. Indo de Paris para a sua nova sede. que ele procurou conciliar com uma concepção dinâmica da realidade. Estudou Suarez e Tomás de Aquino. Roma e Nápoles. mas publicada postumamente em 1765). Spinoza influiu sobre Leibniz. em 1646. Estudou também o empirismo. Leibniz distingue. Eis as principais: Novos Ensaios sobre o Intelecto Humano (crítica ao Ensaio de Locke.8 . Seu sistema é uma afirmação do monismo spinoziano.convertido ao catolicismo . chamada. Durante uma viagem Londres. Realizou outras viagens a Viena e Berlim. Entretanto. para os quais teve estima no que concerne ao pensamento. não constituem uma elaboração sistemática e completa do seu pensamento. em especial o neoplatonismo renascentista. Florença. onde fundou a Sociedade das Ciências. correspondendo-se com Bossuet para este fim. matemática e jurisprudência. visitando Veneza. que pode ser considerado spinoziano de fato se não de intenção. Conheceu certamente o pensamento da Renascença. escrita em francês para o príncipe Eugênio de Sabóia em 1714 e publicada postumamente. estudou filosofia e história da filosofia. conheceu também Newton. Entretanto foi o cartesianismo o sistema filosófico que influiu mais profundamente sobre Leibniz. Foi um autodidata desejoso de tudo conhecer.7 . em seguida. escrevendo contra o Ensaio sobre o Intelecto Humano de Locke os seus Novos Ensaios sobre o Intelecto Humano. São ensaios ocasionais e esporádicos. Faleceu em Hannover em 1716. também antigas e medievais. Entre outros. tanto assim que do ocasionalismo de Malebranche surgirá a harmonia preestabelecida de Leibniz. ocupando-se com escrever a história da casa Brunschwig foi à Itália. esta deve proporcionar o método para inventar e demonstrar todas as ciências. Ficou até a morte naquele emprego. como conselheiro áulico e bibliotecário. Deve-se ainda acrescentar uma copiosa correspondência filosófica. ainda que sobre um plano mais rico e superior. tomou contacto com Malebranche. Também Malebranche influenciou profundamente Leibniz. devido sobretudo ao racionalismo matemático. criticando entretanto a forma deles. chefiou uma missão diplomática junto de Luís XIV. e o outro diverso. do cálculo infinitesimal. A realidade apresenta-se indiscutivelmente sob dois aspectos: um idêntico. inventor. Leibniz travou relações com os maiores filósofos cientistas da época. Teodicéia. As obras de Leibniz. Monadologia. parou na Holanda e visitou Spinoza. portanto.O Pensamento: A Gnosiologia A gnosiologia de Leibniz é fundamentalmente representada pela ciência geral ou lógica universal. a a e a Em 1676 foi convidado por João Frederico de Brunschwig para a corte ducal de Hannover. as verdades de razão (juízos 242 . formando-se em direito em Altorf em 1666-1667. 19.Vida e Obras Guilherme Leibniz nasceu em Leipzig. Aristóteles influiu nele sobretudo pelo que diz respeito à lógica. escritas pela maior parte em francês e em latim. que ele fundiu em um ecletismo superior. As fontes culturais e filosóficas de Leibniz são muitas e várias. como ele. A missão fracassou. Entre 1672 e 1676. Academia Prussiana. para induzir o Rei Sol dirigir contra os turcos a sua atividade de expansão. professor de moral na universidade. Fez tentativas para a união das igrejas protestante e católica e para a federalização política das nações cristãs. Entre os filósofos antigos preferiu Platão e Plotino. universal. Pádua. contingente. composta em 1701.iniciou-o no conhecimento da igreja católica e introduziuo na Corte eleitoral de Mogúncia. mas de grande penetração e agudeza crítica. necessário. particular. Seu pai era um jurista. escrita para resolver o problema do mal e publicada em 1710. O barão de Boinebourg .19. que constituía um perigo contínuo contra Alemanha.

Os elementos primeiros. e são concebidos como átomos espirituais dotados de atividade. Não apenas o homem é um microcosmo.A Metafísica A Metafísica de Leibniz é a doutrina das mônadas (monadologia).recorda a tão combatida Substância spinoziana. representativa: cada uma representa. Para Leibniz.ª) mônada suprema. teria. que Deus introduziu na criação. Mas. da realidade. Elas não têm relações recíproca: "as mônadas são sem janelas" . porém. Conforme o seu conteúdo representativo. o mundo físico. que colheriam o primeiro aspecto da realidade. Então Leibniz procura conciliar a necessidade do racionalismo com as exigências da contingência: as verdades de fato seriam contingentes quoad nos. mais ou menos. capazes de representação consciente ou apercepção. dotadas de representação insconsciente (pampsiquismo). reflete todo o universo de um determinado ponto de vista. ativa.ª) mônadas sensitivas. Deus seria a mônada suprema. em que o predicado tem identidade com o sujeito. As verdades de razão fundamentam-se sobre o princípio de indentidade.realidade única informada por uma alma côsmica . porque o predicado é contido na noção adequada do sujeito. Este Absoluto . enriquecidas de conhecimento científico e consciência reflexa. da ínfima mônada até à suprema. a corporeidade. feita por Leibniz dinâmica. 3. A natureza das mônadas é espiritual. constituindo a alma. e as verdades de fato (juízos da existência contingente). Isto quer dizer. regularizou todas as ações das 243 . com respeito a nós. "Nesta escala. seria verdadeiramente o antecendente lógico infalível de cada um dos predicados.ª) mônadas nuas. unem-se mônadas subconscientes e mônadas inconscientes. A definição do sujeito. Negada às mônadas a faculdade de agirem transitivamente. mas cada ser é um microcosmo. imediatamente evidente. a matéria. para quem a penetrasse até o fundo. Deus. de um ponto de vista absoluto. mais ou menos elevado. inúmeras. Leibniz distingue quatro grandes ordens: 1.necessários de essência). isto é. o conceito tradicional de Deus. que constituem o reino mineral e as plantas. Deus. devido à nossa ignorância. a sua imensa série se dispõe em escala hierárquica ascendente. ou Deus. o princípio de razão suficiente na realidade criada. estes juízos escapam às pretensões da necessidade racionalista. em virtude da qual a uma modificação física corresponde uma modificação psíquica e vice-versa. uma aparência da psiquicidade. ou almas humanas. Entretanto. criadora e ordenadora de todas as outras. A ordem entre elas é explicada pela harmonia preestabelecida. as mônadas são dotadas de propriedade de perceber (pampsiquismo). contínua.9 . As verdades de fato seriam representadas por juízos de experiência. o indivíduo humano. um fundamento. em que o predicado não se pode extrair analiticamente do sujeito.diz Leibniz. fundamentais. como explicar a ordem do universo? Leibniz responde com a célebre teoria da harmonia preestabelecida. Afirma Leibniz. "A substância é um ser capaz de ação". pois o corpo não atua diretamente sobre a alma. substâncias-forças. ab aeterno.ª) mônadas racionais. que constituem o corpo. Leibniz chama-os mônadas. seriam necessárias como as outras. consciente. A uma mônada central. não há duas mônadas perfeitamente iguais. absolutamente perfeita. é um fenômeno. entretanto. uma sobre as outras. O homem. seria um conjunto de mônadas de grau diverso. A matéria. causa eficiente de todas as outras". dotada de percepção. nem todas percebem conscientemente. 4. mas também finalisticamente. tais verdades reduzíveis a juízos. nem esta sobre o corpo. não tem existência real. constituem as almas dos brutos. desenvolvendo-se não apenas matematicamente. quoad se. também as proposições contingentes verdadeiras seriam racionais e demonstráveis. Este todo é regulado pela harmonia preestabelecida. que colheriam o segundo aspecto. 2. se pode ser tirado analiticamente dele. As mônadas são eternas. 19.

mônadas de tal forma que se correspondessem como se realmente houvesse entre elas um influxo mútuo de causalidade recíproca. "Assim, um hábil relojoeiro constrói dois relógios, que, sem se influenciarem mutuamente, marcam ao mesmo tempo as mesmas horas". 19.10 - A Moral A moralidade é reconduzida à atividade, que, no homem, é consciente e racional. No campo da moral, Leibniz interessou-se especialmente pelo problema do mal e da liberdade. Afirma ele a liberdade; e, por certo, no seu sistema subsiste a liberdade metafísica, a espontaneidade racional. Mas vem fenecer o livre arbítrio, a livre escolha, devido à sua tese da ação necessariamente dirigida para o melhor, quer no homem quer em Deus. Pelo que diz respeito à solução do problema do mal, Leibniz - como é sabido - distingue o mal em metafísico, moral e físico. O primeiro não é verdadeiro mal, porquanto constitui a limitação necessária dos seres criados; pois a natureza destes seres é necessariamente limitada, enquanto são criados. Sem esta limitação não haveria sequer o mundo. O mal moral, ao contrário, é devido à resistência voluntária dos entes criados, humanos, à ação de Deus. Também o mal moral é uma privação de ser, como o mal metafísico: tem uma causa deficiente e não eficiente, na resistência humana à ação de Deus. Leibniz explica o mal físico mediante a estética. O mal dos vários seres se torna um bem para o conjunto; as desarmonias particulares realçam a harmonia do todo. Entretanto, esta explicação não serve no caso do homem, pois cada homem não é um meio e sim um fim, sendo um ser racional.

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20 - CRISTIANO WOLFF
O racionalismo moderno toma uma sistematização rígida, formal, com Cristiano Wolff, vulgarizador do pensamento de Leibniz. Em Wolff, o racionalismo moderno manifesta explicitamente o seu caráter fenomenista abstrato. A filosofia, a metafísica deveria ser construída a priori, partindo dedutivamente, analiticamente, da idéia inata de ser. Compreende-se, portanto, a reação kantiana e a acusação de dogmatismo movida contra essa orientação filosófica, que pretendia ser válido para a realidade concreta um sistema construído a priori: um mundo de idéias para um mundo de coisas, sem uma relação real entre as duas ordens. A reação é facilmente compreensível, se se considerar que os manuais de Wolff invadiram a cultura alemã da época, e Kant lecionava na universidade servindo-se da Metaphysica de Baumgarten, que tinha condensado e ordenado em mil parágrafos o prolixo sistema de Wolff. Dado esse caráter apriorístico, racionalista-matemático, do pensamento de Wolff, compreende-se como ele se diferencia profundamente da escolástica clássica, aristotélico-tomista, a qual concebe, sim, a ciência como uma dedução necessária de elementos e princípios primeiros, mas estes se baseiam no terreno sólido da experiência. Se é que Wolff teve algum conhecimento particular da escolástica aristotélico-tomista, certamente não compreendeu o espírito íntimo desse sistema. 20.1 - Vida e Obras Cristiano Wolff nasceu em Breslau em 1679. Dedicou-se aos problemas morais e religiosos, estudando também matemática. Formou-se em filosofia em Leipzig em 1703. Entrou, desde logo, em relações com Leibniz, graças ao qual teve em 1707 uma cátedra de matemática e filosofia na Universidade de Halle. O seu ensino claro e metódico, racionalista, sistemático teve um êxito imenso. No entanto, em 1723, foi demitido sob acusação de ateísmo em religião e determinismo em moral. A primeira acusação tem um fundamento na afirmação de Wolff de que a moral estaria de pé igualmente, mesmo prescindindo da existência de Deus. A segunda explica-se pela sua adesão ao determinismo racionalista de Leibniz, em que a liberdade de Deus e do homem vêm fornecer, porquanto ambos atuam necessariamente, do modo melhor. Wolff retirou-se então para a Universidade de Marburgo, voltando, em seguida, para a Universidade de Halle, aí ensinando até à morte (1754). As obras filosóficas de Wolff são constituídas por duas séries de manuais, uma em latim, e a outra em alemão. A série dos manuais em latim, compreende precisamente: Philosophia rationalis sive logica; Philosophia prima seu ontologia; Cosmologia generalis; Psychologia empirica; Psychologia rationalis; Psychologia practica universalis; Jus naturae; Jus gentium; Philosophia moralis seu ethica; Oeconomia. Tais manuais tiveram um grande êxito. 20.2 - O Pensamento Wolff divide a filosofia em lógica, especulativa e prática. A filosofia especulativa é, fundamentalmente, a metafísica, abrangendo a ontologia, a cosmologia geral, a psicologia, a teologia natural. A filosofia prática abrange, antes de tudo, a filosofia prática geral e o direito natural e, logo, a ética, a política, a economia. É notável o critério de verdade segundo Wolff: a verdade consiste exclusivamente na coerência entre as idéias. É a revelação completa so fenomenismo racionalista, pelo qual não há relação entre pensamento e ser. É bem diverso o critério de verdade do sistema aristotélico-tomista, pelo qual a verdade é, ao contrário, a adequação especulativa da mente com a coisa. Quanto à idéia de ética, Wolff diz justamente que a lei moral não pode depender ao arbítrio divino; mas é absoluta, necessária, primitiva (isto é, diríamos, tomisticamente, derivante da própria 245

natureza de Deus e das coisas por ele criadas). Diversamente, admite a obrigação absoluta da lei moral, mesmo no caso do ateísmo (como se a negação de Deus não implicasse necessariamente na negação de todos os valores). Em todo caso, Wolff não nega Deus, nem a religião natural. Separa, porém, a filosofia que conhece a religião natural, da religião positiva, ou revelada. Desta o filósofo prescinde. Wolff é o pai do Aufklärung, do iluminismo racionalista alemão, que sustenta o divórcio entre a religião natural e a religião positiva, e finaliza na negação desta última.

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V. PERÍODO CONTEMPORÂNEO

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1 - EMMANUEL KANT
1.1 - Vida e Obras Kant nasceu, estudou, lecionou e morreu em Koenigsberg. Jamais deixou essa grande cidade da Prússia Oriental, cidade universitária e também centro comercial muito ativo para onde afluíam homens de nacionalidade diversa: poloneses, ingleses, holandeses. A vida de Kant foi austera (e regular como um relógio). Levantava-se às 5 horas da manhã, fosse inverno ou verão, deitava-se todas as noites às dez horas e seguia o mesmo itinerário para ir de sua casa à Universidade. Duas circunstâncias fizeram-no perder a hora: a publicação do Contrato Social de Rosseau, em 1762, e a notícia da vitória francesa em Valmy, em 1792. Segundo Fichte, Kant foi "a razão pura encarnada". Kant sofreu duas influências contraditórias: a influência do pietismo, protestantismo luterano de tendência mística e pessimista (que põe em relevo o poder do pecado e a necessidade de regeneração), que foi a religião da mãe de Kant e de vários de seus mestres, e a influência do racionalismo: o de Leibnitz, que Wolf ensinara brilhantemente, e o da Aufklärung (a Universidade de Koenigsberg mantinha relações com a Academia Real de Berlim, tomada pelas novas idéias). Acrescentemos a literatura de Hume que "despertou Kant de seu sono dogmático" e a literatura de Russeau, que o sensibilizou em relação do poder interior da consciência moral. A primeira obra importante de Kant - assim como uma das últimas, o Ensaio sobre o mal radical consagra-o ao problema do mal: o Ensaio para introduzir em filosofia a noção de grandeza negativa (1763) opõe-se ao otimismo de Leibnitz, herdeiro do otimismo dos escoláticos, assim como do da Aufklärung. O mal não é a simples "privatio bone", mas o objeto muito positivo de uma liberdade malfazeja. Após uma obra em que Kant critica as ilusões de "visionário" de Swedenborg (que pretende tudo saber sobre o além), segue-se a Dissertação de 1770, que vale a seu autor a nomeação para o cargo de professor titular (professor "ordinário", como se diz nas universidades alemãs). Nela, Kant distingue o conhecimento sensível (que abrange as instituições sensíveis) e o conhecimento inteligível (que trata das idéias metafísicas). Em seguida, surgem as grandes obras da maturidade, onde o criticismo kantiano é exposto. Em 1781, temos a Crítica da Razão Pura, cuja segunda edição, em 1787, explicará suas intenções "críticas" (um estudo sobre os limites do conhecimento). Os prolegômenos a toda metafísica futura (1783) estão para a Crítica da Razão Pura assim como a Investigação sobre o entendimento de Hume está para o Tratado da Natureza Humana: uma simplificação brilhante para o uso de um público mais amplo. A Crítica da Razão Pura explica essencialmente porque as metafísicas são voltadas ao fracasso e porque a razão humana é impotente para conhecer o fundo das coisas. A moral de Kant é exposta nas obras que se seguem: o Fundamento da Metafísica dos Costumes (1785) e a Crítica da Razão Prática (1788). Finalmente, a Crítica do Juízo (1790) trata das noções de beleza (e da arte) e de finalidade, buscando, desse modo, uma passagem que una o mundo da natureza, submetido à necessidade, ao mundo moral onde reina a liberdade. Kant encontrara proteção e admiração em Frederico II. Seu sucessor, Frederico-Guilherme II, menos independente dos meios devotos, inquietou-se com a obra publicada por Kant em 1793 e que, apesar do título, era profundamente espiritualista e anti-Aufklärung: A religião nos limites da simples razão. Ele fez com que Kant se obrigasse a nunca mais escrever sobre religião, "como súdito fiel de Sua Majestade". Kant, por mais inimigo que fosse da restrição mental, achou que essa promessa só o obrigaria durante o reinado desse príncipe! E, após o advento de FredericoGuilherme III, não hesitou em tratar, no Conflito das Faculdades (1798), do problema das relações entre a religião natural e a religião revelada! Dentre suas últimas obras citamos A doutrina do direito, A doutrina da virtude e seu Ensaio filosófico sobre a paz perpétua (1795).

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são a priori. necessários e universais? É porque. ao mesmo tempo. Mas por que a demonstração se opera tão bem em minha folha de papel quanto no quadro negro. é a priori. simultaneamente anterior à experiência e condição da experiência). ao pretender que o hábito é a causa de nossa crença 249 . As verdades da ciência newtoniana. Eis um conhecimento sintético a posteirori que nada tem de necessário (pois sei que a régua poderia não ser verde) nem de universal (pois todas as réguas não são verdes). no entanto. enquanto transcendental significa a priori. são necessárias (não podem não ser) e universais (valem para todos os homens e em todos os tempos). Como se explica que tais juízos sintéticos e a priori sejam possíveis? Eu demonstro o valor da soma dos ângulos do triângulo fazendo uma construção no espaço. O próprio Hume. então. é um quadro que faz parte da própria estrutura de meu espírito. responde Kant. antes de toda experiência concreta. Mas. a análise reflexiva. Faço-o por intermédio de uma demonstração rigorosa. é preciso que eu constate. todos os bons espíritos. ainda. Também em física. Consiste em remontar do conhecimento às condições que o tornam eventualmente legítimo. Tomo conhecimento dela sem ter necessidade de medir os ângulos com um transferidor. eu digo que o aquecimento da água é a causa necessária de sua ebulição (se não houvesse aí senão uma constatação empírica. nos quais a experiência vem se depositar.. Aqui. isto é. as regras. os juízos sintéticos. os juízos do físico podem ser a priori. eles próprios. denominada Estética transcendental. parece evidente que esses juízos a priori são juízos analíticos. para mim. que a coragem vale mais do que do que a covardia. necessários e universais de minha percepção (o que Kant mostra na primeira parte da Crítica da Razão Pura. aqueles cujo atributo enriquece o sujeito (por exemplo: esta régua é verde). Juízo analítico é aquele cujo predicado está contido no sujeito. isto é. estaria anulada). são naturalmente a posteriori. como acreditou Hume. O espaço e o tempo são quadros a priori. sempre particular e contigente. Eis um juízo sintético (o valor dessa soma de ângulos acrescenta algo à idéia de triângulo) que.. uma exigência de unificação dos fenômenos entre si. À primeira vista. necessários e universais. ou quanto no solo em que Sócrates traçava figuras geométricas para um escravo? É porque o espaço. Os fenômenos.. Mas o caso da física é mais complexo. O espaço e o tempo não são. assim como do valor das regras morais que sua mãe e seus mestres lhe haviam ensinado. mas. etc. Não estão. eu falo não só do quadro a priori da experiência. Como. Por que esse fracasso? Os juízos rigorosamente verdadeiros. Em nenhum momento Kant duvida da verdade da física de Newton. Entretanto. aquisições da experiência. só sei que a régua é verde porque a vi. pelas quais unificamos os fenômenos esparsos na experiência. De fato eu não tenho necessidade de uma constatação experimental para conhecer essa propriedade. Os maiores pensadores estão em desacordo quanto às proposições da metafísica. também existem (este enigma é o ponto de partida de Kant) juízos que são. toda ciência. Estética significa teoria da percepção. as categorias. de acordo quanto à verdade das leis de Newton? Do mesmo modo todos concordam que é preciso ser justo. por mais sintéticas que sejam. que não se deve mentir. as verdades da metafísica são objeto de incessantes discussões. assim como o tempo. são a priori.A Ciência e a Metafísica O método de Kant é a "crítica". Em compensação. necessárias e universais. isto é independentes dos azares da experiência. Um triângulo é uma figura de três ângulos: basta-me analisar a própria definição desse termo para dizê-lo.2 . Eis por que as construções espaciais do geômetra. assim como as verdades morais.1. Essas categorias são necessárias e universais. isto é.. são dados a posteriori. enquanto verdade necessária e universal. São quadros a priori de meu espírito. dos próprios fenômenos que nela ocorrem. sobre que se fundam tais verdades? Em que condições são elas racionalmente justificadas? Em compensação. uma exigência de explicação por meio de causas e efeitos. mas o espírito possui. Para dizer que o calor faz ferver a água. são exigências a priori do nosso espírito. sintéticos e a priori! Por exemplo:a soma dos ângulos de um triângulo equivale a dois retos.

Mas privada de qualquer ponto de apoio na experiência.. Só conhecemos os fenômenos e não as coisas em si ou noumenos. que se limita a por em ordem. a razão não deixa de construir sistemas metafísicos porque sua vocação própria é buscar unificar incessantemente.o objeto do seu saber. manifestar-se em toda sua pujança. O conhecimento. Kant se interroga sobre o valor do conhecimento metafísico. Não se apercebia que. Sem as categorias. não é o reflexo do objeto exterior. na dialética transcendental. limitam o seu alcance. tudo que seja sensível ou empírico. os materiais que lhe são fornecidos pela intuição sensível. convite à descoberta. dissera Copérnico. Assim sendo. Pretender como Platão. deve ao contrário. As únicas intuições de que dispomos são as intuições sensíveis. é por isso que não conhecemos o fundo das coisas. graças às suas estruturas a priori. por outro. como louca. o metafísico abusa da causalidade na medida em que se afasta deliberadamente da experiência concreta (quando imagino um Deus como causa do mundo. isto é. poderia imaginar que voaria ainda melhor no vácuo. mas é nosso espírito que. perde-se nas antinomias. dispõe a experiência em seu quadro espacio-temporal (o que Kant mostrará na Estética transcendental) e. não teriam nada para unificar. No entanto. constrói a ordem do universo. graças às categorias. Aquilo a que denominamos experiência não é algo que o espírito. Não é o Sol. não emprega necessariamente a categoria a priori de causa na crítica que nos oferece? "Todas as intuições sensíveis estão submetidas às categorias como às únicas condições sob as quais a diversidade da intuição pode unificar-se em uma consciência". afasto-me da experiência. não abria nenhum caminho. por um lado. para ser ela própria. que gira em torno da Terra. pois so o mundo é objeto de minha experiência).na causalidade. As análises precedentes. que em seu vôo livre fende os ares de cuja resistência se ressente. diz Kant. diz Kant. Na terceira parte de sua Crítica da Razão Pura. tal como cera mole. legitimamente. demonstrando.A Moral de Kant É só no domínio da moral que a razão poderá. Não. mas é esta que gira em torno daquele. ética. tanto a tese quanto a antítese (por exemplo: o universo tem um começo? Sim pois o infinito para trás é impossível. É o próprio espírito que. a experiência nos fornece a matéria de nosso conhecimento. mas sem as intuições sensíveis concretas as categorias seriam "vazias". A razão teórica tinha necessidade da experiência para não se perder no vácuo da metafísica. 1. Só conhecemos o mundo refratado através dos quadros subjetivos do espaço e do tempo. 250 . que ele emprega para unificar fenômenos dados na experiência (aquecimento e ebulição). É o próprio espírito humano que constrói .. O princípio da causalidade. Enquanto o cientista faz um uso legítimo da causalidade. Foi assim que Platão se aventurou nas asas das idéias. Ela inventa o mito de uma "alma-substância" porque supõe realizada a unificação completa dos meus estados d'alma no tempo e o mito de um Deus criador porque busca um fundamento do mundo que seja a unificação total do que se passa neste mundo. contrária e favoravelmente. não deve servir de permissão para inventar. apesar de todos os seus esforços. imprime-lhe ordem e coerência por intermédio de suas categorias (o que Kant mostra na Analítica transcendental). isto é. as intuições sensíveis seriam "cegas". mesmo além de toda experiência possível. foi relacionado pelo espírito humano. isto é. desordenadas e confusas. uma vez que não tinha ponto de apoio em que pudesse aplicar suas forças". ultrapassar. receberia passivamente. daí a necessidade de um ponto de partida.com os dados do conhecimento sensível .3 . a razão. O que é fundamentado é o conhecimento científico. nos espaços vazios da razão pura. É a isto que Kant chama de sua revolução copernicana. Tudo o que nos aparece bem relacionado na natureza. Descartes ou Spinoza que a razão humana tem intuições fora e acima do mundo sensível. A razão prática. Entretanto. é passar por "visionário" e se iludir com quimeras: "A pomba ligeira. pois eu sempre posso me perguntar: que havia antes do começo do universo?). ao fundamentar solidamente o conhecimento.

O único sentimento que tem por si mesmo um valor moral nessa ética racionalista é o sentimento do respeito. amanhã. ao preço de grande esforço. mesmo que me diga: e se todos fizessem o mesmo? A mentira de todos para com todos é contraditória. exprime sua desconfiança com relação à natureza humana. O mérito moral é medido precisamente pelo esforço que fazemos para submeter nossa natureza às exigências do dever. mas o imperativo categórico: Cumpre teu dever incondicionalmente. proibída. Com efeito. portanto. por conseguinte. pelo fato de ser puramente formal. A razão fala sobre a forma severa do dever porque é preciso impor silêncio à natureza carnal. passivo. às tendências de tudo o que é empírico. há o que Hegel mais tarde denominará uma visão oral do mundo que afasta a ética dos equívocos da natureza. O respeito pela razão estende-se ao sujeito racional: "Age sempre de maneira a tratares a humanidade em ti e nos outros sempre ao mesmo tempo como um fim e jamais como um simples meio" (segunda regra). meus cálculos e meus sentimentos espontâneos poderiam levar-me a atos contrários. como diz Kant. receber um conteúdo da experiência e que devem exprimir a autonomia da razão pura prática. mesmo que a alma seja mortal. Ela não possui outro fundamento além da consciência humana. Por exemplo: se me empenho por alguém por cálculo interessado ou mesmo por afeição. Kant se opõe não só ao naturalismo dos filósofos iluministas. A moral formal. ou então. Por exemplo. ele me engrandece.Toda ação que toma seus móveis da sensibilidade. Vimos que. para quem a felicidade é o fim legítimo de todas as nossas ações. à ontologia otimista de São Tomás. "Age sempre de tal maneira que a máxima de tua ação possa ser erigida em regra universal" (primeira regra). como diríamos hoje. o princípio do dever. A moral de Kant. Ela simplesmente autoriza ou proíbe este ou aquele ato que tenho vontade de praticar. apresenta-se como essencialmente negativa. efetivamente. fica submetida às flutuações de minha natureza. mas. vejo de imediato que não tenho o direito de mentir. aos instintos. para ser absolutamente rigoroso. ou. como diz Kant. pois não é anterior à lei. Como diz Jan Kélévitch. os homens só têm que obedecer às exigências de sua própria razão: "Age como se fosses ao mesmo tempo legislador e súdito na república das vontades" (terceira regra). o imperativo categórico é um "proibitivo categórico". se teus sentimentos espontâneos a ele te conduzem). ele me realiza como ser racional que obedece à lei moral. Para se unirem numa justa reciprocidade de direitos e obrigações. as regras morais só podem consistir na própria forma da lei. também. a felicidade. passional. o domínio da moral não é o da natureza (submissão animal aos instintos) nem o da santidade (em que a natureza. Tal é o rigoríssimo kantiano. Desse modo. essa consciência que é essencialmente razão. minha conduta não é moral. patológico. mas é a própria lei moral que o produz em mim. porque é preciso. Nesse ponto. transfigurada pela graça. Em que consiste esse dever? Uma vez que as leis que a Razão se impõe não podem. o discípulo de Kant se sabe obrigado a respeitas as máximas da razão.4 . ao privilegiar a razão humana. 1. O imperativo moral não é um imperativo hipotético que submeteria o bem ao desejo (cumpre teu dever se nele satisfazes teu interesse. Por conseguinte. em nenhuma "heteronomia". não implica em nenhuma "alienação". dos desejos empíricos. é estranha à moral. A vontade que tem por fim o prazer.Moral e Metafísica A moral de Kant é o que chamamos de uma moral independente. submeter a humana vontade à lei do dever. essa moral não me propõe. Em Kant. 251 . Mesmo que o universo não tenha o menor sentido. sentiria uma atração instintiva e irresistível pelos valores morais). um ato concreto a realizar. em nenhum caso. mesmo que essa ação seja materialmente boa.

5 . igualmente nos oferecem uma espécie de reconciliação entre a razão e a imaginação. isto é. já que afirma simultaneamente a necessidade da natureza (na Crítica da Razão Pura) e a exigência de uma liberdade absoluta (na Crítica da Razão Prática). esconde-se a realidade numenal de minha liberdade. mas também o da finalidade que aparece notadamente na organização harmoniosa dos seres vivos. fora de todo móvel exterior à obra de arte). ele vai estabelecer os fundamentos de uma metafísica na moral. etc. Os valores de beleza. Finalmente. é nas profundezas do ser inacessível ao saber científico. do que hoje denominamos ciência psicológica. o homem se sente responsável. Kant se esforça por mostrar a possibilidade de uma reconciliação entre o mundo natural e o da liberdade.Todavia. Por exemplo: o dever me prescreve a realização de certa perfeição moral que não consigo atingir na vida presente (posto que não chego a purificar totalmente a determinação de querer dos móveis sensíveis). o princípio de finalidade permanece facultativo. "Tu deves. eu vejo que meus atos. A originalidade de Kant está no fato de que. pelo qual o mundo se me apresenta no conhecimento. do determinismo. seríamos totalmente livres em nossa realidade numenal: daí se segue que nenhum pecado poderia ser escusável. ao contrário. segunda a crítica da razão pura. é fora do tempo. Totalmente determinados nas aparências fenomenais. partindo da consciência da obrigação moral. Por conseguinte. os maus são muito prósperos. por conseguinte. harmonia pura. Kant constata que a virtude e a felicidade quase não estão juntas. mas uma coisa apenas é certa: o pássaro voa porque é constituído de tal maneira. o exemplo único de uma satisfação ao mesmo tempo sensível e pura de todo egoísmo. no mundo kantiano. que o mau escolheu livremente o seu caráter de mau. a obrigação moral exclui a necessidade dos atos humanos. a título de "postulados da razão prática". isto é. A natureza não seja talvez não seja apenas o domínio do determinismo. Em sua terceira grande obra.. 1. da experiência. Ser moralmente obrigado é ter o poder de responder sim ou não à regra moral. livre. Finalidade sem fim (isto é. a bela aparência que admiramos parece inteiramente penetrada dos valores do espírito. no entanto. são determinados uns pelos outros no tempo. então podes. é ter a liberdade de escolher entre o bem e o mal. A Crítica do Juízo.essa metafísica cuja demonstração era impossível. a beleza oferece à nossa imaginação a oportunidade de uma satisfação inteiramente desinteressada. Tudo se passa como se o pássaro fosse feito para voar. Kant vai reerguer a metafísica . por intermédio de um sistema de recompensa e punições. presentes na obra de arte. a filosofia de Kant nos surge como uma filosofia essencialmente trágica. Kant vai postular a liberdade humana. Ela é. restabelecerá no além a harmonia entre virtude e felicidade. No plano dos fenômenos." Esta liberdade não poderia ser demonstrada. Em tal sistema. não existe liberdade parcial nem meia-responsabilidade. Aquele crime pode ser explicado pelas paixões de seu autor. ao invés de buscar os fundamentos de sua moral na metafísica. Todavia. neste mundo em que.A Crítica do Juízo Desse modo. portanto. Ele então postula que um Deus justiceiro. Não esqueçamos que o mundo dos fenômenos. de um modo geral. é um mundo de aparências. E.. A obrigação não teria o menor sentido se minha conduta fosse automaticamente determinada por minhas tendências ou pelas influências que sofri. na contemplação estética. se o princípio de causalidade (determinismo) é constitutivo da experiência (não posso dispensá-lo para explicar a natureza). Por trás desse determinismo aparente. puramente regulador (posso interpretar o agrupamento de certas condições como a manifestação de um fim). já que. pela deplorável educação que recebeu. o momento privilegiado 252 . diz Kant. Com efeito. Kant então postula a imortalidade da alma. Por outro lado.

chegaríamos à absurda proposição de que existem fenômenos ou aparências sem que haja nada que apareça. por conseguinte. porém. à lei física. por exemplo. porque sua função consiste unicamente em fechar as portas à violência que os cidadãos poderiam temer uns aos outros. tem uma utilidade positiva da mais alta importância. sem para isso ter necessidade do auxílio da razão especulativa. entretanto. é o que será provado na parte analítica e daí resultará que todo conhecimento especulativo possível da razão se reduz unicamente aos objetos da experiência. como se diz muito bem. o que é preciso marcar bem. por conseguinte. isto é. essa crítica. sem cair em evidente contradição. Que o espaço e o tempo só sejam formas da intuição sensível e. além disso. mas.6 . como uma coisa em geral (como objeto em si) e. quaisquer elementos para o conhecimento das coisas. bem negativa. mas apenas como objeto da intuição sensível. eu não poderia dizer do próprio ser. conseqüentemente. Por conseguinte. da qual propriamente dependem. conseqüentemente. Mas logo se perceberá também que sua utilidade é positiva. para se aventurar fora de seus limites. dele me liberta e. É o que se reconhecerá logo que se esteja convencido de que a razão pura tem um uso prático absolutamente necessário (quero significar o uso moral). o princípio da causalidade e. como estando necessariamente submetida.ª edição da Crítica da Razão Pura) Um rápido olhar lançado nesta obra levará a pensar. pelo fato mesmo de os princípios sobre os quais se apóia a razão especulativa. como fenômeno. a mesma vontade pode ser concebida. ao prestar-nos esse serviço. podemos ao menos pensá-los como tais. isto é. É que. mas.O Alcance da Crítica Kantiana (Prefácio da 2. sem as advertências da crítica. portanto. o princípio da causalidade só se aplica às coisas no primeiro sentido. Se assim não fora. nas duas proposições. a fim de que cada um possa realizar seus negócios tranqüilamente e em segurança. e é isso que lhe dá sua primeira utilidade. Negar que a crítica. enquanto faz parte das coisas em si. de um lado. embora sob esse último ponto de vista eu não possa conhecer minha alma por 253 . do ponto de vista fenomenal (em seus atos visíveis). Mas se a crítica não se enganou ao ensinar-nos a considerar o objeto em dois sentidos diferentes. como não sendo livre e. sem que uma intuição correspondente nos seja dada. É que. quer estar assegurada contra toda oposição de sua parte. que sua utilidade é inteiramente negativa ou que ela só serve para nos impedir de conduzir a razão especulativa além dos limites da experiência. se não podemos conhecer esses objetos como coisas em si. que sua vontade é livre e que. ao passo que no segundo sentido essas mesmas coisas não mais lhe estejam submetidas. como livre. com efeito. a fim de não cair em contradição consigo mesma. não tenhamos conceitos do entendimento e. de outro. Ora. Mas. uma crítica que limita a razão em seu uso especulativo é. esses princípios ameaçam de tudo enfeixar nos limites da sensibilidade. ao suprimir com um mesmo golpe o obstáculo que restringe seu uso prático ou que até ameaça anulá-la. o mecanismo natural que ele determina. das condições da existência das coisas como fenômenos. e que. por esse lado. que não é livre. olhando mais de perto. tomei a alma no mesmo sentido. se a dedução dos conceitos do entendimento é exata e se. será preciso então que se estenda a todas as coisas em geral. me "arrebata". e assim reduzir a nada o uso puro (prático) da razão.em que uma emoção. sem contradição. Ora. como fenômeno e como coisa em si. que. tenha uma utilidade positiva. consideradas como causas eficientes. como escapando a essa lei. da alma humana. não poderia encarála de outro modo. longe de manifestar meu egoísmo dominador. isto é. de início. está submetida à necessidade física. surge aí uma reserva: é que. 1. no qual ela se estende inevitavelmente além dos limites da sensibilidade e no qual. na realidade terem por conseqüência inevitável não a extensão. a restrição do uso de nossa razão. não possamos conhecer nenhum objeto como coisa em si. de fato. conseqüentemente. a razão prática. conseqüentemente. Quando se supõe que nossa crítica não tenha feito a distinção que ela estabelece necessariamente entre as coisas como objetos de experiência e essas coisas como objetos em si.

não há necessidade de se lhe ter um conhecimento mais amplo. conseqüentemente. sem que os cem táleres concebidos sejam aumentados por este ser que está situado fora do meu conceito. quando não se supõe a liberdade previamente). pode-se mostrar essa mesma utilidade dos princípios críticos da razão pura relativamente à idéia de Deus. a realidade que lhe falta não lhe será acrescentada por isto. mas não no tempo (o que é impossível.intermédio da razão especulativa (e ainda menos pela observação empírica) e. no entanto.Crítica ao Argumento Ontológico (Crítica da Razão Pura. do ponto de vista da moral. mas algo além do que pensei no conceito. e com ela a moralidade (cujo contrário não implica em contradição. pois. desaparecem no mecanismo da natureza. Se. isto é. exceto uma. por conseguinte. conseqüentemente. Se numa coisa eu concebo toda realidade. de outro modo. pois aqui nenhuma intuição pode ser submetida ao meu conceito) . mas ela existe precisamente tão defeituosa quanto a concebo. e só por isso eu acrescente que essa coisa existe. não existiria mais a mesma coisa. desde que admita nossa distinção crítica dos dois modos de representação (o modo sensível e o intelectual). assim como a restrição que daí deriva relativamente aos conceitos puros do entendimento e. a moral pode manter sua posição enquanto a física conserva a sua. pensar a liberdade. Desse modo. por conseguinte. a liberdade e a imoratalidade segundo a necessidade que minha razão tem em seu uso prático necessário. eu concebo uma coisa. Todavia. a liberdade não seja contraditória e que. Se assim fora. e como. De fato. Mas sou mais rico com cem táleres reais do que com sua idéia (isto é. como os táleres possíveis exprimem o conceito e os reais o objeto e sua posição em si mesma. Tive então que suprimir o saber para substituí-lo pela crença. eu concebo um ser como a suprema realidade (sem falhas). quaisquer que sejam e por mais numerosos que sejam os predicados por meio dos quais eu a concebo (mesmo que a determine completamente). que sua idéia não contém a menor contradição. caso o objeto contivesse mais do que o conceito. Pois. seriam absolutamente impossíveis. e eu não mais poderia dizer que é exatamente o objeto do meu conceito que existe. é o que não teríamos descoberto se a crítica não nos houvesse previamente instruído sobre nossa inevitável ignorância relativamente às coisas em si e se ela não houvesse limitado aos simples fenômenos todo nosso conhecimento teórico.eu posso. o objeto na realidade não está simplesmente contido de uma maneira analítica em meu conceito. isto é. colocando a priori como dados da razão princípios práticos que dela se originam e que. que a liberdade. existiria outra coisa diferente do que concebi. então. para chegar aí. sem essa suposição. e pelo fato de dizer que essa coisa defeituosa existe. como é suficiente que. Quando.posto que seria necessário que eu a conhecesse de uma maneira determinada em sua existência. sempre resta saber se esse 254 . lhe é necessário empregar princípios que na realidade só se aplicam a objetos da experiência sensível e que sempre transformam em fenômenos aquilo a que se aplicam. ela possa ser concebida. mas ele enriqueceu sinteticamente meu conceito (que é uma determinação do meu estado). Ora.7 . Dialética Transcendental) Cem táleres reais não contêm mais do que cem táleres possíveis. mas admitamos também que a razão especulativa tenha provado que a liberdade não fosse de modo algum concebida. pois. se eles são simplesmente possíveis). eu não estarei acrescentando absolutamente nada à coisa. meu conceito não exprimiria o objeto inteiramente e conseqüentemente não estaria de acordo com ele. aos princípios decorrentes desses conceitos. desde que não se coloque como obstáculo ao mecanismo natural da própria ação (tomados num outro sentido). e desse modo declaram impossível toda extensão prática da razão pura. 1. será preciso então que necessariamente a suposição moral dê lugar àquela cujo contrário implica em evidente contradição. Admitamos agora que a moral supõe necessariamente a liberdade (no sentido mais estrito) como uma propriedade de nossa vontade. mesmo que esse algo não possa ser um objeto de experiência. sem rechaçar ao mesmo tempo as pretensões da razão especulativa em suas visões transcendentes. eu também possa conhecer a liberdade como a propriedade de um ser ao qual atribuo efeitos no mundo sensível .

Ora. Qualquer que seja a natureza e a extensão do conteúdo de nosso conceito de um objeto. não será de espantar que não possamos indicar nenhum critério que sirva para distingui-la da simples possibilidade.ser existe ou não.O Rigorismo de Kant (Fundamento da Metafísica dos Costumes) Conservar a própria vida é um dever e. mas. e. posto que as realidades não nos são dadas especificamente. Em compensação. é uma coisa para a qual todos possuem uma inclinação imediata. É certo que o caráter analítico da possibilidade . Com relação a objetos sensíveis. o caráter da possibilidade dos conhecimentos sintéticos que deve ser sempre buscado na experiência. à qual o objeto de uma idéia não pode pertencer. além disso. ele é inteiramente incapaz de estender a si só nosso conhecimento com relação ao que existe. mesmo que isso acontecesse. perde. quer resulte de raciocínios que unem alguma coisa à percepção) pertence inteiramente à unidade da experiência. 1. como a ligação de todas as propriedades reais numa coisa é uma síntese cuja possibilidade não podemos julgar a priori. ao contrário. ela também não deixa de ser uma suposição que nada pode justificar. com o pensamento de aumentar sua fortuna. não por inclinação ou temor. não é menos desprovida de todo valor intrínseco e é por isso que sua máxima não possui nenhum valor moral. O conceito de um ser supremo é uma idéia muito útil com relação a muitas coisas. no entanto. mas. todo seu valor e não nos tornaremos mais ricos em conhecimentos com simples idéias quanto um comerciante não se tornaria em dinheiro se. já que seria preciso reconhecê-la inteiramente a priori. se o conceito do objeto não é de modo algum aumentado para sua ligação com o conteúdo de toda experiência. De fato. com que a maior parte dos homens se dedica a isso. com ânimo forte. a saber. chegar a conhecer a priori a possibilidade de um ser ideal tão elevado. E aqui se mostra a causa da dificuldade que reina nesse ponto. Nem pode mesmo nos instruir o suficiente com relação à possibilidade. De fato. mas não por dever. o conceito só me faz conceber o objeto como concordante com as condições universais de um conhecimento empírico possível em geral. não existe nenhum meio de reconhecer sua existência. conserva a vida sem amá-la. eu não poderia confundir a existência da coisa com seu simples conceito. e. alguma coisa com relação a todo meu estado intelectual. Se. Se se tratasse de um objeto dos sentidos. a passagem se faz por meio do encadeamento que liga o conceito a alguma de minhas percepções. É certo que eles conservam sua vida de acordo com o dever. é por isso que a solicitude. e se uma existência fora desse campo não deve ser tida por absolutamente impossível. se deseja a morte e.não lhe pode ser contestado. ele acrescentasse alguns zeros em seu livro de caixa. 255 . enquanto a existência me faz concebê-lo como compreendido no contexto de toda experiência. ainda falta. segundo as leis empíricas. precisamente porque é apenas uma idéia. somos obrigados a sair desse conceito para lhe atribuir a existência. então. quando contrariedades ou uma aflição sem esperança tenha roubado de um homem todo gosto de viver e se o infeliz. quisermos pensar a existência unicamente por intermédio da pura categoria. mas. para os objetos do pensamento puro. que não resultaria daí nenhum juízo. porém. Essa prova ontológica (cartesiana) tão glorificada. nosso pensamento dele recebe em acréscimo mais percepção possível. isto é. faz-se muito necessário que o ilustre Leibnitz tenha feito aquilo de que se orgulhava. que pretende demonstrar por meio de conceitos a existência de um ser supremo. freqüentemente inquieta. que o conhecimento de um objeto seja possível a posteriori. nossa consciência de toda existência (quer ela resulte imediatamente da percepção. então sua máxima possui um valor moral. fica muito mais indignado com sua sorte do que desencorajado ou abatido. embora em meu conceito não falte nada do conteúdo real possível de uma coisa em geral. mas por dever.8 .que consiste no fato de que simples posições (realidades) não engendram contradição .

pois. precisamente nessa idéia de felicidade. Mas eu acho que no caso de uma ação desse tipo. E digo mais: se a natureza tivesse colocado no coração deste ou daquele um pouco de simpatia. por mais de acordo com o dever e mais amável que seja. Ocorre apenas que o preceito que ordena o tornar-se feliz muitas vezes assume tal caráter. uma lei que ordena trabalhar para a própria felicidade não por inclinação. ele porém se arranque dessa insensibilidade mortal e aja. Assegurar a própria felicidade é um dever (indireto. sem pensar no dever. do gozo do momento presente. e mesmo que uma aversão natural e invencível a isto se oponha. eis aí um amor prático e não patológico. como em todos os outros casos. por conseguinte. e que nessas condições em que nenhuma inclinação não mais o leve a isso. mas fazer o bem precisamente por dever. mas não respeito. que. existem certas almas tão capacitadas para a simpatia que. seria uma lei. que traz grande prejuízo a algumas inclinações. esse amor é o único que pode ser ordenado. e é por isto somente que sua conduta possui um verdadeiro valor moral. determinada quanto ao que promete e quanto à época em que pode ser satisfeita. por exemplo. poderia facilmente tornar-se uma grande tentação de violar seus deveres. mas que não seja tocado pelo infortúnio dos outros. 256 . por eles próprios. Suponha-se então que a alma daquele filantropo esteja ensombrada por um desses desgostos pessoais que sufocam toda simpatia pela sorte de outrem e que ele sempre ainda tenha o poder de fazer bem a outros infelizes. possa levar vantagem sobre uma idéia flutuante. com o viver pressionado por inúmeros cuidados em meio de necessidades não satisfeitas. contudo. só então sua ação terá verdadeiro valor moral. pois falta a essa máxima o valor moral. quando se pode. que. se atendência universal não determinasse sua vontade. é honorável. se a natureza não tivesse formado esse homem particularmente o que na verdade não seria sua obra pior) para fazer dele um filantropo. por causa da talvez enganosa esperança de uma felicidade a ser encontrada na saúde. Assim. em si próprio o meio de se dar um valor muito superior ao que possa ter um temperamento naturalmente bonsoso? Certamente! E á aqui precisamente que surge o valor do caráter. nesse caso igualmente. o que restaria ainda aqui. Mas. ora. que reside na vontade e não na tendência da sensibilidade. segundo seu cálculo. pois. a inclinação para a felicidade mais duradoura e mais íntima. com o que. valor moral e incomparavelmente o mais elevado. o amor como inclinação não pode ser ordenado. merece louvor e encorajamento. mas por dever. é um dever e. ou deles exija as mesmas qualidades. em princípios da ação e não numa compaixão debilitante. não encontraria ele. por estar demasiado absorvido pelo seu próprio. se aquele homem (honesto de resto) fosse frio por temperamento e indiferente aos sofrimentos de outrem. aqui ainda. talvez porque. para ela ao menos. a ambição. desse modo. ao menos nessa circunstância ela não se privou. tendo para com seus próprios sofrimentos um dom especial de resistência e de paciente energia. se a saúde. Pois. todos os homens já têm. livre da influência de qualquer inclinação. uma pessoa que sofre de gota possa gostar mais de saborear o que é de seu gosto e sofra em seguida. as inclinações se unificam numa totalidade. e. isto é. na medida em que ele é obra sua. ainda que inimigo. não fosse coisa tão importante de fazer entrar em seus cálculos. devem ser certa e igualmente compreendidas as passagens da Escritura em que é ordenado amar ao próximo. então. ele suponha que também nos outros. pois. o fato de que essas ações sejam feitas não por inclinação.Ser bom. mas por dever. mesmo sem qualquer motivo de vaidade ou de interesse. ao menos). por exemplo. elas experimentam uma satisfação íntima em irradiar alegria em torno de si e vivem o contentamento de outrem. Mas. o fato de não estar contente com a própria situação. na medida em que não há inclinação que nos conduza a isso. mas por dever. ademais. unicamente por dever. o homem não pode fazer um conceito definido e certo dessa soma de satisfações a ser dada a todas a que chama de felicidade. então. não possui porém verdadeiro valor moral. já que ela se coloca no mesmo plano de outras inclinações. quando coincide com o que realmente está de acordo com o interesse público e o dever. não há por que se surpreender que uma inclinação única. que provém daquele que faz o bem não por inclinação.

o futuro mostraria amplamente que a filosofia do pensador oficial da monarquia escondia um grande poder explosivo! Como a filosofia de Spinoza. Renunciara. corre o boato de que ele duvida da imortalidade da alma. alguns o ridicularizaram (apelidando-o de Absolutus von Hegelingen). A Enciclopédia das Ciências Filosóficas. o idealismo fenomênico kantiano alcança logicamente o seu vértice metafísico. subvertidas no decurso da história. em definitivo.2 . Aproximou-se dos sistemas de Fichte e de Schelling. com relação à crítica kantiana do conhecimento. afastando-se deles em seguida até combatê-los quando professor nas universidades de Jena. Em seus últimos anos. para ele. porém. Heidelberg e Berlim. sua cultura foi vastíssima. Estudou teologia e filosofia. A Filosofia do Direito. A razão aqui não é apenas. uma vez que. para favorecer as tendências absolutistas e intransigentes do estado prussiano. elevado a processo dialético. Podemos. o entendimento humano. um dia. Ela é não só um modo de pensar as coisas. Faleceu em 1831 vítima de cólera. No entanto. muito meditou sobre a Revolução Francesa. a essência do próprio Ser. a idéia se manifesta como processo histórico: "A história universal nada mais é do que a manifestação da razão". e este processo dialético não é um movimento a quo adi quod. concebendo a realidade como vir-aser. portanto.HEGEL 2. respondeu bruscamente a um estudante que lhe falava do Paraíso: "O senhor então precisa de uma gorjeta porque cuidou de sua mãe enferma e porque não envenenou ninguém!" Em todo caso. para ele. emanentista. ao mesmo tempo. É o ser em sua totalidade que é significativo e cada acontecimento particular no mundo só tem sentido finalmente em função do Absoluto do qual não é mais do que um aspecto ou um momento. aos ideais revolucionários e críticos. Este vir-a-ser. da imanência absoluta. podem ser modificadas. assim como os pensamentos dos homens. um retorno à ontologia. mas o próprio modo de ser das coisas: "O racional é real e o real é racional". o mundo que manifesta a Idéia não é uma natureza semelhante a si mesma em todos os tempos. adquirindo grande renome e exercendo vasta influência. Nessa última universidade lecionou até há morte. tanto assim que se pode considerar o Aristóteles e o Tomás de Aquino do pensamento contemporâneo. entrementes. Idéia. O que há de original em seu idealismo é que. é racionalizado por Hegel. e esta lhe mostra que as estruturas sociais. a de Hegel é uma filosofia da inteligibilidade total. em seguida se dedicou ao historicismo romântico. o fundo do Ser (longe de ser uma coisa em si inacessível) é.1 . o conjunto dos princípios e das regras segundo as quais pensamos o mundo. torna-se suspeito de panteísmo. As principais obras de Hegel são: A Fenomenologia do Espírito. Interessou-se pelos problemas religiosos e políticos. considerar Hegel como o filósofo idealista por excelência. Jorge Guilherme Frederico Hegel nasceu em Stutgart. como todos os seus contemporâneos. Hegel. Sua filosofia representa. que seguiu seus cursos de 1821 a 1823.O Idealismo Lógico Com o idealismo absoluto de Hegel. Foi um gênio poderoso. Hegel era ao mesmo tempo suficientemente prudente e sufucientemente hermético para que se tornasse muito difícil fazer-lhe acusações precisas dessa ordem! O poeta Heinrich Heine. Na realidade. se distingue de Spinoza e surge para nós como um filósofo essencialmente moderno. Ela é igualmente a realidade profunda das coisas. desenvolvimento. pois. A Lógica. e sim um processo circular. que dizia que a leitura dos jornais era "sua prece matinal cotidiana". como em Kant. Espírito. conta. bem como a sua capacidade sistemática. porém. Hegel fica fiel ao historicismo romântico. simpatizando-se pelo criticismo e pelo iluminismo. no entanto. freqüentemente deforma os fatos para 257 . para Hegel. em 1770. que ele.

não ser. a história. ele procede por meio de contradições superadas. Cada povo cada civilização. De fato. Enfim. Deus não é o que é . é o domínio do mutável. já que esta última não é senão o Pensamento que se realiza. depois. um espírito puramente subjetivo. O pensamento não é mais estático. ao contrário. a lógica clássica considera que uma proposição fica demonstrada quando é reduzida. A lógica vai do idêntico ao idêntico. cada vez mais autônomos surgem no Universo? O Espírito. a plena posse. mas que o exprime. Não temos a impressão de que seres cada vez mais complexos. em suma. a história. Desse modo. abusivamente atribuída a Bismarck. O panteísmo hegeliano identifica Deus com a História. Por conseguinte. Hegel é daqueles que acham que a força não "oprime" o direito (essa fórmula. em virtude do qual uma coisa não pode ser e. a plena consciência de si mesmo. em todo caso.o processo dialético . ele consegue encarnar-se. ao contrário. daí. a forma de civilização que triunfa a cada etapa da história é aquela que. é a sensação imediata. identificada a uma proposição já admitida. de instituições organizadas. a filosofia é o saber de todos os saberes: a sabedoria suprema que. Depois. no final. que aquele que é vitorioso na História é. É preciso compreender também que a história é um progresso. o mais dotado de valor e que a virtude. mas.no qual a contradição não mais é o que deve ser evitado a qualquer preço. De início só existem minerais. simultaneamente. Aplicar a razão à história seria negar a história. Como isso é possível? É possível porque Hegel concebe um processo racional original . que no fundo tudo permanece idêntico. como ele diz. O panteísmo de Spinoza identificava Deus com a natureza: Deus sive natura. para Hegel. totaliza todas as obras da cultura (é só no crepúsculo. como liberdade. surge cada vez mais manifestamente como ordem. se nos permitem o jogo de palavras. essa identificação da Razão com o Devir histórico é absolutamente paradoxal. de início adormecido. O acontecimento de hoje é diferente do de ontem. Tal é o espírito objetivo que se realiza naquilo que Hegel chama de "o mundo da cultura". objetivar-se sob a forma de civilizações. "alienado" no universo. contrariando tudo isso. da tese à antítese e.enquadrá-los no esquema lógico do seu sistema racionalista-dialético. Hegel põe a contradição no próprio núcleo do pensamento e das coisas simultaneamente. "O absoluto. em seguida. O vir-a-ser de muitas peripécias não é senão a história do Espírito universal que se desenvolve e se realiza por etapas sucessivas para atingir. é uma odisséia do Espírito Universal". seria mostrar que a mudança é aparente. Deus só se realiza na história. Por conseguinte. diz Hegel. diz Hegel. Segundo as normas da lógica clássica. dissimulado e como que estranho a si mesmo. no final. Ele o contradiz.Deus é o que se realizará na História. (Neste sentido. Repudiando o princípio da contradição de Aristóteles e de Leibnitz. de certo modo. ao mesmo tempo em que é o motor da história. tem por missão realizar uma etapa desse progresso do Espírito. recusar o tempo. que. se transforma no próprio motor do pensamento. o racionalismo de Hegel coloca o devir. Hegel verá no estado prussiano de seu tempo a expressão mais perfeita do Espírito Absoluto. Compreendemos bem. ainda há algo de hegeliano na filosofia de Teilhard de Chardin). como num diálogo em que a verdade surge a partir da discussão e das contradições. em primeiro plano. bem como altera este por interesses práticos e políticos. Consideremos a história da terra. ao mesmo tempo. o Espírito se descobre mais claramente na consciência artística e na consciência religiosa para finalmente apreender-se na Filosofia (notadamente na filosofia de Hegel. que o pássaro de Minerva levanta vôo). que pretende totalizar sob sua alçada todas as outras filosofias) como Saber Absoluto. à sintese. Uma 258 . O Espírito humano é de início uma consciência confusa. Esse progresso do Espírito continua e se concluirá através da história dos homens. por conseguinte. Após ter saudado em Napoleão "o espírito universal a cavalo". cada vez mais organizados. Aplicar a razão à história. Ora.ao menos só é parcial e muito provisoriamente o que atualmente é . nada significa). melhor exprime o Espírito. só no final será o que ele é na realidade". A história. nessa filosofia puramente imanentista. uma "teodisséia". logo como consciência. naquele momento. Em outras palavras. animais. "exprime o curso do mundo". vegetais e.

O outro. não ser absolutamente nada. em última análise. O senhor. Ser. nada mais podemos dizer). aprende a se afastar de todos os eventos exteriores. Por uma conversão dialética exemplar. sem qualquer qualidade ou determinação . é vencido. Desse modo. mostrando assim que é um homem livre. equivale ao não-ser (eis a antítese). Dois homens lutam entre si. Hegel parte. essa noção simultaneamente a mais abstrata e a mais real. fundamentalmente. porque lê o reconhecimento de sua superioridade no olhar submisso de seu escravo. aquele que. que não ousa arriscar a vida. como o conceito fundamental de ser se enriquece dialeticamente. Um deles é pleno de coragem.A Dialética A dialética para Hegel é o procedimento superior do pensamento é. ao mesmo tempo. que condiciona a sua. vai encontrar uma nova forma de liberdade. não faz cozer seus alimentos. conserva-o cuidadosamente como testemunha e espelho de sua vitória. Assim. o escravo incessantemente ocupado com o trabalho. transcender a experiência. ao passo que ele próprio goza os prazeres da vida.é. o "servus". uma vez que interpôs um escravo entre ele e o mundo. O senhor não cultiva seu jardim. entre as duas precedentes. é livre. repetimo-la. reconciliados. não acende seu fogo: ele tem o escravo para isso. ao contrário. o do senhor e o escravo. Mas. puro e simples. ele é uma espécie de escravo de seu escravo. desenvolvendo uma consciência pessoal. o escravo. ao pé da letra. que era mais ainda o escravo da vida do que o escravo de seu senhor (foi por medo de morrer que se submeteu).proposição (tese) não pode se pôr sem se opor a outra (antítese) em que a primeira é negada. é não ser! O ser. de modo nenhum. o escravo. essa situação vai se transformar dialeticamente porque a posição do senhor abriga uma contradição interna: o senhor só o é em função da existência do escravo. Tal é o escravo. o trabalho servil devolve-lhe a liberdade. 2. O conceito de ser é o mais geral. transformado pelas provações e pelo próprio trabalho. transforma-se em outra coisa? É em virtude da contradição que esse conceito envolve. sobretudo. Os dois contrários que engendram o devir (síntese). em que o espírito é constituído substancialmente como sendo o construtor da realidade e toda a sua atividade é reduzida ao âmbito da experiência. a liberdade estóica se apresenta a Hegel como a reconciliação entre o domínio e a servidão. Aceita arriscar sua vida no combate. A primeira proposição encontrar-se-á finalmente transformada e enriquecida numa nova fórmula que era. numa situação de submissão absoluta. a libertar-se de tudo o que o oprime. uma ligação. Vejamos um exemplo muito célebre da dialética hegeliana que será um dos pontos de partida da reflexão de Karl Marx. O senhor só o é porque é reconhecido como tal pela consciência do escravo e também porque vive do trabalho desse escravo. Vejamos. Trata-se de um episódio dialético tirado da Fenomenologia do Espírito.2 . ensina a seu senhor a verdadeira liberdade que é o domínio de si mesmo. da síntese a priori de Kant. aí se reencontram fundidos. de sorte que Hegel se achava fatalmente impelido a um monismo 259 . "a marcha e o ritmo das próprias coisas". foi conservado. O senhor não conhece mais os rigores do mundo material. É fácil ver que essa contradição se resolve no vir-a-ser (posto que vir-a-ser é não mais ser o que se era). c) De fato. O vencedor não mata o prisioneiro. Colocado numa situação infeliz em que só conhece provações. a mais vazia e a mais compreensiva (essa noção em que o velho Parmênides se fechava: o ser é. a) O senhor obriga o escravo. b) Entretanto. ao passo que este último se vê despojado dos frutos de seu trabalho. por exemplo. mas também o mais pobre. Nesse sentido. superior à sua vida. aprende a vencer a natureza ao utilizar as leis da matéria e recupera uma certa forma de liberdade (o domínio da natureza) por intermédio de seu trabalho. uma "mediação" (síntese). Como é que o ser. transformada em outra que não ela mesma ("alienada"). porquanto é da íntima natureza da síntese a priori não poder.

que nega e o qual integra. Podemos resumir assim: 1. enquanto apreende o ser imutável. cujo objeto é o particular e o mutável. a negação. logo. Dispensa-se acrescentar como. enquanto o ser é vir-a-ser. deviam se achar na realidade única da experiência as características divinas do antigo Deus transcendente. portanto. A nova lógica hegeliana difere da antiga. 3. Estamos. dialético.° . e sim dinâmico. a necessidade da invenção de uma nova lógica. para poder racionalizar o elemento potencial e negativo da experiência. igualmente não é preciso salientar como o conceito concreto. a qual. é levado às suas extremas conseqüências metafísicas imanentistas. idêntico a si mesmo e excluindo o seu oposto. o grande crítico do idealismo racionalista e otimista. da história. não podia. destruído por Kant.através do idealismo absoluto . Apresentava-se. 2. a história em geral se valoriza na filosofia.° . Isto é.A lógica tradicional afirma que o conceito é universal abstrato. em que o próprio objeto já não é mais o ser. 4. cujo objeto é o universal e o imutável. chegar ao panteísmo imanentista. e onde a limitação.o monismo. onde tudo é essencialmente conexo com tudo. No entanto. Hegel devia.mas também porquanto a nova lógica é considerada como sendo a própria lei do ser.como faz o pensamento de Deus. ao passo que a lógica hegeliana sustenta que o conceito é universal concreto. portanto. Mas essa racionalidade absoluta da realidade da experiência devia ser concebida mediante o vir-a-ser absoluto (de Heráclito). sendo o mundo da experiência limitado e deficiente.° . cuja característica fundamental é a negação. declarará nada mais ser que ateísmo imanentista. mas o devir absoluto. onde um elemento gera o seu oposto.° . para daqui começar de novo o processo dialético. para poder elevar a realidade da experiência à ordem da realidade absoluta. a experiência sendo a realidade absoluta. em uma realidade mais rica (síntese). tudo que há no mundo de arracional e de irracional.A lógica tradicional afirma que o ser é idêntico a si mesmo e exclui o seu oposto (princípio de identidade e de contradição). devir.A lógica tradicional distingue-se da ontologia. físico e moral. isto é. coincide com a ontologia. Essa dialética dos opostos resolve e compõe em si mesma o elemento positivo da tese e da antítese. E por isso Hegel inventou a dialética dos opostos. passagem de um elemento ao seu oposto. do ritmo famoso de tese.imanentista. e sendo também vir-a-ser. e a negação e o mal são condições de positividade e de bem. que representa o elemento universal e comum dos particulares. que Hegel considerava panteísmo. em que . por certo. ao passo que a lógica hegeliana 260 . divina. não o esgota totalmente . Quer dizer. por causa do assim chamado mal metafísico.A lógica tradicional distingue substancialmente a filosofia. conexão histórica do particular com a totalidade do real. perante um panlogismo.como eram concebidos na lógica antiga . Assim. ao passo que a lógica hegeliana assimila a filosofia com a história. o particular conexo historicamente com o todo. em que a positividade se realiza através da negatividade. isto é. ainda que não totalmente. não estático. estabelecendo-se a si mesmo absolutamente (tese) e não esgotando o Absoluto de que é um momento. gerar naturalmente valores positivos de bem verdadeiro. o mal. demanda o seu oposto (antítese). toma o lugar do conceito abstrato. que Schopenhauer. isto é. que devia necessariamente tornar-se panlogista. enquanto o nosso pensamento. antítese e síntese. todo elemento da realidade. se apreende o ser. Hegel se achava obrigado a mostrar a racionalidade absoluta da realidade da experiência. não podem. realmente. não somente pela negação do princípio de identidade e de contradição . ao passo que a lógica hegeliana sustenta que a realidade é essencialmente mudança. de modo nenhum. ser concebida mediante o ser (da filosofia aristotélica). como o de Spinoza.

em uma possível assimilação do devir empírico do desenvolvimento lógico . A idéia. a idéia torna-se natureza. O espírito subjetivo é estudado. adquirindo consciência de si mesma. no espírito humano. plena do absoluto). viria a ser negada a própria essência da filosofia hegeliana. filosofia (expressão conceitual. anterior a estes. isto é. o espírito individual em condição de alcançar. antítese e síntese. síntese). Visto que a realidade é o vir-a-ser dialético da Idéia. dinamicamente. O espírito subjetivo compreende três graus dialéticos: consciência. segundo o processo dialético. em arte (expressão do absoluto na intuição estética). autoconsciência e razão. fenomenologia do espírito. isto é. volta para si. a idéia. segundo a conhecida tríade de tese. mas apenas logicamente. o espírito é o retorno da idéia para si mesma. este último se desenvolve. Esta hierarquia dinâmica é estudada. a natureza. os fins do espírito. Em a natureza a idéia perde como que a sua pureza lógica. Chegada ao fim de seu desenvolvimento abstrato. portanto. Hegel julgou dever deduzir a priori o desenvolvimento lógico da idéia. o espírito. que é precisamente a idéia. pois. É. pela Filosofia da natureza. nos momentos essenciais. passa da fase em si à fase fora de si. 2. a autoconsciência racional de Deus. que se divide em antropologia. mas em compensação adquire uma concretidade que antes não tinha. a natureza é a exteriorização da idéia no espaço e no tempo. que representam os esquemas do mundo natural e do espiritual. A primeira grande fase no absoluto devir do espírito é representada pela idéia. surge e se afirma a fase do espírito objetivo. a qual é estudada em seus desenvolvimentos pela Filosofia do Espírito. que. não só nos aspectos gerais. esta fase representa a grande antítese à grande tese. o pensamento. para a qual o ser.A Idéia. a moralidade (que subordina 261 . a idéia é o sistema dos conceitos puros. antítese. deveria desenvolver-se mais ou menos. todavia. segundo o sólito esquema triádico (tese. que é precisamente a idéia por si: a grande síntese dos opostos (idéia e natureza). em sentido vasto. no seu complexo. enfim. pela psicologia.coincide com a ontologia. nasce a consciência do mundo. A Natureza. O Espírito Os três grandes momentos hegelianos no devir dialético da realidade são a idéia. Mas. O espírito desenvolve-se através dos momentos dialéticos de subjetivo (indivíduo). da sua divindade. das formas ínfimas do mundo físico até às formas mais perfeitas da vida orgânica. se desenvolve interiormente em um processo dialético. No espírito objetivo. A idéia constitui o princípio inteligível da realidade. tendo a natureza esgotado a sua fecundidade. no seu isolamento. objetivo (sociedade). cujo complexo é objeto da Lógica. nada mais é que o infinito vir-a-ser dialético. a sociedade. mas pode regular apenas a conduta externa dos homens). por sua vez. mas em toda particularidade da história. E. terminar com o advento da filosofia hegeliana. arbitrariamente potenciada segundo a não menos arbitrária lógica hegeliana. também na ordem da natureza. com efeito. a saber. psicologia propriamente dita. a realidade deveria transformar-se rigorosamente na racionalidade em um sistema coerente de pensamento idealista e imanentista. porquanto a realidade é o desenvolvimento dialético do próprio "logos" divino. Finalmente. como absoluto. absoluto (Deus). toma consciência se si no espírito. de realizar a plena consciência e liberdade do espírito. desse modo. e demonstrar a necessidade racional da história natural e humana. nas concretizações da sociedade. a individualidade empírica. isto é. por sua vez. Hegel distingue ainda três graus dialéticos: o direito (que reconhece a personalidade em cada homem. Não é mister dizer que essa história dialética nada mais é que a história empírica. que no espírito humano adquire plena consciência de si mesmo. religião (expressão do absoluto na representação mítica).3 . lógica.ainda que entendido dialeticamente. Com o espírito subjetivo. Tal história dialética deveria. em que a Idéia teria acabado a sua odisséia. Não estando. com esta última é atingida a consciência da unidade do eu e do não-eu. assim concretizada.

A história do mundo . a guerra. que não passa de uma história das mesmas. mas em forma sentimental. deus terreno. um valor ético superior ao valor particular e privado das sociedades precedentes. ele vê. Na filosofia o espírito se torna inteiramente autotransparente. da sua natureza divina. mas em forma racional. o espírito realizaria finalmente a consciência plena da sua infinidade. Portanto. . ao contrário. tem razão sobre o vencido unicamente porque é vencedor.Dialética Hegeliana: A Contradição é o Motor do Pensamento Para o senso comum. imaginativa. ele só admite uma ou outra dessas atitudes. em que. o belo é a idéia concretizada sensivelmente. Não concebe a diferença entre os sistemas 262 . imanente no primeiro. tem ele mesmo uma realidade metafísica. razão encarnada.com todo o mal. Na arte o espírito tem intuição. as injustiças. os diversos sistemas filosóficos. pelo contrário. isto é. O estado transcende estas sociedades. não porque seja um instrumento mais perfeito para a realização dos fins materiais e espirituais da pessoa humana (a qual unicamente tem realidade metafísica). e necessária. a um povo eleito sucede um outro. quando se faz coincidir o "ser" com o "deve ser". racional e progressiva é a luta.seria destarte o tribunal do mundo. os crimes de que está cheia . Na religião. que seria o idealismo absoluto de Hegel. bem-mal. Como as várias religiões representam um processo dialético para a religião absoluta. Segundo a dialética hegeliana.são nivelados. Acima da religião e do cristianismo está a filosofia.1 . naturalmente a sucessão e o predomínio dos vários estados na história da humanidade são necessários. segundo Hegel. daí derivando uma concepção ético-humanista do estado. etc. assim. na sociedade civil. que se encontram na história da filosofia. segundo o seu sólito método dialético. a eticidade ou moralidade social (que atribui uma finalidade concreta à ação moral. enquanto no ministério da encarnação do Verbo. Hegel traça uma classificação das religiões. denominada por Hegel espírito vivente. e se determina hierarquicamente na família. 3 . da sua essência absoluta.interiormente o espírito humano à lei do dever).verdadeiro-falso. põe dialeticamente acima do espírito objetivo o espírito absoluto. devido precisamente à sua maior universalidade e amplitude. religião. autoconsciente. através de uma última hierarquia ternária de graus (arte. em um objeto sensível. Se bem que no sistema hegeliano a vida do espírito culmine efetivamente no estado. segundo a metafísica monista-imanentista de Hegel. e. como acontece de fato no sistema hegeliano. porquanto igualmente necessários para a realização da idéia). é uma superior objetivação do espírito.TEXTOS DE HEGEL 3. em que os valores . e aquele tem culpa unicamente porque é vencido. graças à dialética dos opostos. filosofia). lógica. conceitual. conquista a sua absoluta liberdade. Este. numa explicação sobre tal sistema. grças à qual. a consciência que o espírito (humano) adquire da sua natureza divina. ao predomínio de um estado se segue o predomínio de um outro. (O que se compreende. racionais e progressivos. quer dizer. se efetua a unidade do finito e do infinito. infinidade. em uma plena adequação consigo mesmo. mítica. habitualmente ele espera que se aprove ou se rejeite em bloco um sistema filosófico existente. no momento estético. da humanação de Deus. Nessa classificação das religiões o cristianismo é colocado no vértice como religião absoluta. a oposição entre verdadeiro e falso é algo de fixo. mas porque. A sociedade do estado transcende a sociedade familiar bem como a sociedade civil. que é um conjunto de interesses econômicos e se diferencia em classes e corporações. representariam os momentos necessários para o advento da filosofia absoluta. no estado). que tem o mesmo conteúdo da religião. no fundo. o infinito é visto como finito.

3. é a serena igualdade e a unidade consigo que nada têm a fazer com o ser-outro e a alienação. em-si.2 . Há que dizer do absoluto que ele é essencialmente resultado. momentos mutuamente necessários. isto é. essa idéia cai no nível da edificação e mesmo da insipidez. Mas o todo não é senão a essência que se conclui por seu desenvolvimento. Essa luta prova que nada existe na consciência que não seja perecível para ela. nem com a superação dessa alienação. que o conhecimento possa se satisfazer com o em-si ou a intuição absoluta da primeira dispensam o acabamento da primeira e o desenvolvimento da segunda. É inexato crer. a paciência e o trabalho do negativo. objeto do apetite. é relação imediata do ser para-si. ser definidos como um jogo de amor para consigo mesmo. a luta entre duas consciências de si é determinada do seguinte modo: elas se experimentam a elas próprias e entre si por meio de uma luta de morte. Mas comumente não é assim que se compreende a contradição entre sistemas filosóficos. do mesmo modo.filosóficos como o desenvolvimento progressivo da verdade. enquanto conceito da consciência de si. Só arriscando a própria vida é que se conquista a liberdade. Uma vez que o senhor (a). sua certeza de existir para si.O Absoluto Por Fim Não é Senão Aquilo Que Ele é na Realidade A vida e o reconhecimento divinos podem. portanto. não se deve apreendê-la ou exprimila apenas como essência. Precisamente porque a forma é tão essencial à essência quanto a essência a si própria. mas também como forma e em toda riqueza da forma desenvolvida. prova que ela. como substância imediata ou pura intuição de si do divino.3 . ao declarar a forma como igual à essência. o fruto declara que a flor é uma falsa existência da planta e a substitui enquanto verdade da planta. mas não atingiu a verdade desse reconhecimento como consciência de si independente. Não podem evitar essa luta. mas (b) é simultaneamente mediação. cada uma deve experimentar essa certeza em si mesma e na outra. e. diversidade significa unicamente contradição. a dor. então. Só assim é que alguém se assegura de que a natureza da consciência de si não é o ser puro. mas se suplantam como incompatíveis.(¹) O senhor é a consciência que é por si mesma. mas essa consciência. 3. aqui. não é senão puro ser para-si. por isso. O broto desaparece na eclosão da flor e poder-se-ia dizer que aquele é refutado por esta. e essa igual necessidade faz a vida do conjunto. que ele não é senão por fim o que ele é em verdade. Essas formas não só se distinguem. Mas esse em-si é universalidade abstrata caso negligenciemos sua natureza de ser para-si e. notadamente por uma consciência cuja natureza implica no fato de ela estar unida a um ser independente ou às coisas em geral. para ele. O senhor tem. uma relação mediata em virtude da existência 263 . O senhor está em relação com esses dois momentos: com a coisa enquanto tal. ele se relaciona (a) imediatamente com os dois e (b) imediatamente com cada um por intermédio do outro. em outras palavras. A verdade é o todo. o espírito que apreende a contradição habitualmente não sabe liberá-la ou conservá-la livre de sua unilateralidade. não é sua imersão no oceano da vida. está além de seu puro conceito: ela é consciência para-si que é mediada consigo mesma por uma outra consciência(²). Por conseguinte. O indivíduo que não arriscou sua vida pode certametne ser reconhecido como pessoa. se lhe retirarmos a seriedade. No entanto. o movimento espontâneo da forma. e reconhecer na forma. com o escravo.O Senhor e o Escravo Buscar a morte do outro implica em arriscar a própria vida. um ser para-si que só o é por meio do outro. pois são forçadas a elevar ao nível da verdade sua certeza de si. não é a forma imediata de sua manifestação. e é nisto precisamente que consiste sua natureza de ser sujeito atual ou Devir de si. sua natureza cambiante faz delas momentos da unidade orgânica em que não só não estão em conflito mas onde tanto um quanto outro é necessário. ademais. do que parece se combater e se contradizer. Só então é que ela é concebida e exprimida como atual. Essa vida. e com a consciência cujo caráter essencial é a coisa externa. se se quiser.

graças a essa mediação. O vencido. Secundariamente. aquele que é vitorioso no combate. assim como a noção geral de fruto só se explicita quando efetivamente se trata de "cerejas.4 . substituído por outra coisa". que transforma os objetos materiais em objetos de consumo e de fruição para o senhor. seu fim é a verdade. aquele que se rendeu. deixa o aspecto independente da coisa para o escravo que a trabalha. Hegel examina simultaneamente a relação de dois "eu" e a relação de cada eu com sua própria vida. de início. Ele inspirou amplamente as análises de nossos contemporâneos sobre as relações do eu com o outro. posto que possuía sua independência numa coisa externa. o senhor domina os objetos da necessidade. domina a coisa e se satisfaz na fruição. Por conseguinte. este último. por meio de sua negação. a relação imediata torna-se a pura negação da coisa ou o seu gozo. Entretanto. ele é a potência que domina esse ser externo. escravo da vida e de seus objetos empíricos. Por conseguinte. uma vez que ele domina esse ser e que esse ser domina o escravo. por sua coragem colocou-se acima dos objetos comuns da necessidade e da existência empírica. ele é. relaciona-se negativamente com a coisa e a ultrapassa. enquanto consciência de si. a uma etapa na conquista do espírito absoluto.Concepção Dialética da História da Filosofia Em suas lições sobre a história da filosofia. "a filosofia quer conhecer o imperecível. cada filosofia corresponde a um momento da história. pois é precisamente a ela que o escravo está preso. Na realidade. ao colocar o escravo contra ela e si próprio. para o senhor. mas o senhor. a filosofia encontra-se toda nos sistemas dos filósofos. "ela não penetra na esfera do que passa e não tem história". pois provou na luta que o considera como puramente negativo. ele o consegue. Mas a história conta o que foi numa época e que desapareceu em outra. tem medo de perder a vida. isto é. Com efeito. A idéia geral de filosofia permanece abstrata se não se confunde com os diversos sistemas dos filósofos no decurso da história. O senhor se define por sua relação com o escravo (e por sua relação com os objetos que depende. (²) Hegel quer dizer que o senhor não é senhor "em-si". Cada filosofia é "o espírito da época existente como 264 . ela é sua cadeia e da qual não pode se desprender na luta. Hegel assinalava que a noção de História da Filosofia "envolve uma contradição interna". No ponto de partida. a relação do senhor com a coisa é uma relação de simples gozo que equivale à negação da coisa. o senhor domina os objetos por mediação do escravo que trabalha. ele é mais do que ela.(³) (¹) Este difícil texto de é característico do método hegeliano. mas por meio de uma mediação. Se a verdade é eterna. portanto. Torna-se tembém escravo do senhor que o conserva (servus = conservado) a fim de ler em seu olhar temeroso e submisso o reflexo de sua vitória. ele só faz trabalhar. Pensamos nos versos de Valéry: Como o fruto se funde em fruição Como em delícias ele muda sua ausência Numa boca em que sua forma se extingue. o senhor também o domina. aceitou arriscar a vida. aquilo que o apetite não conseguiu. mas ao mesmo tempo a coisa é para ele independente e o escravo não pode. (³) Graças ao trabalho do escravo. Quanto ao senhor. superior à sua vida. isto é. ela própria. fruindo-a puramente. uma relação. o que o levou a mostrar-se dependente. Desse modo o senhor se relaciona com a coisa por mediação do escravo. ameixas ou uvas". aos objetos das necessidades. posto que no campo de batalha ele se mostrou corajoso. O "senhor". a fim de se fazer reconhecer como consciência. O apetite não chega a isso por causa da independência da coisa. 3.independente. o eterno. da relação com o escravo). Na luta de duas consciências. chegar a suprimi-la. só entra em contato com o aspecto dependente da coisa. Em compensação.

são o modo de existência mais elevado da planta. o princípio das concepções subseqüentes é superior ou. citaremos um excerto das lições sobre a História da Filosofia: A razão é una e essa racionalidade una. para a categoria de um momento. todos os princípios são conservados. Não se refuta uma filosofia. uma após outra. apenas sua posição é que é refutada. por exemplo. Sua união é a verdade. O mesmo espírito fabrica as teorias filosóficas na mente 265 . cujas forças mais sutis e mais ocultas se traduzem em idéias filosóficas. Somente sua reunião constitui a totalidade da noção e o homem.. O ceticismo é o princípio negativo que se eleva contra os dois precedentes. portanto..espírito que se pensa". é o fundamento de tudo. de maneira que o seguinte é uma nova determinação do precedente. A história da filosofia oferece momentos privilegiados ou... uma união em uma viva unidade do pensamento. num nó. a unidade. o Uno. é preciso ver a verdade que ela contém. aliás. Se se for mais adiante. mas se só se vê a negação. As folhas. As filosofias são as formas do Uno. em seguida. a evolução das determinações do pensamento é igualmente racional. "nós" em que vêm se reconciliar dialeticamente os contraditórios. ignora-se o conteúdo que. É importante. do geral e do particular. (¹) Encontramos essa idéia em Marx. o individual: para o primeiro. como diz Hegel. Limitar-se a refutar uma filosofia é não compreendê-la. mas as novas filosofias mostram as anteriores como verdades parciais passíveis de serem integradas numa síntese mais ampla que se elabora com o tempo. eles são os frutos de seu tempo. ele sim. pois ambos são necessários. mas engana-se quando acredita os ter eliminado. As filosofias sucessivas não se refutam. do pensamento e da sensibilidade. mas o epicurismo proclama vedadeiro o princípio diretamente oposto: o sentimento. Desse modo. Conhecer verdadeiramente um sistema é tê-lo justificado em-si. A filosofia de Platão.. de suas deficiências. Desse modo. de seu povo. é o geral e para outro o particular. opondo-se. é a síntese do imóvel ser parmenídico com a mobilidade heracliteana. A dificuldade consiste em ver o que os sistemas filosóficos contêm de verdadeiro. Assim. A história de Platão não é um ecletismo. Ela surge "no devido momento. conhecer os princípios dos sistemas filosóficos e em seguida reconhecer cada um deles como necessário.. ela é assumida sem ser rejeitada. A posição dos precedentes é determinada pelo que se segue. antes de tudo. Nada mais fácil do que criticar. O princípio de uma filosofia passa. nenhuma ultrapassou seu tempo" (¹).. do que ver em alguma parte o caráter negativo. em elementos concretos e se conservam. um sistema e. para o segundo. compõe-se dos dois elementos. depois é o botão e o cálice que. se transformam em envoltório a serviço do fruto. por assim dizer. de início. supera-se-o sem que se encontre no interior. é o homem pensante. é afirmativo. o prazer para um. Um estudo mais avançado mostrar-nos-á como progridem seus princípios. ele se apresenta em sua época como superior. o homem sensível. Mas ambas se manifestam. mais profundo. é assim que o primeiro elemento é colocado numa categoria inferior pelo seguinte. Os princípios gerais surgem segundo a necessidade da noção fundamental. na seguinte. aquilo que se desenvolve na razão progride na unidade dessa razão.. a essência da história da filosofia consiste em que princípios exclusivos transformamse em momentos. só quando são justificados em si próprios é que se pode falar de seu limites. mas uma reunião das filosofias precedentes que então formam um todo vivo. ele afasta o caráter exclusivo de um e outro. isto é sobretudo gosto característico dos jovens. por isso. num contexto materialista: "Os filósofos não brotam da terra como cogumelos. a determinação precedente torna-se apenas um ingrediente da nova. o que dá no mesmo. O estoicismo faz do pensamento um princípio. sendo necessário. Nesse sentido.

266 . A filosofia não é exterior ao mundo".dos filósofos e constrói as estradas de ferro com as mãos dos operários.

onde Nietzsche cresceu. 4.O Filósofo e o Músico Em 1870. a Alemanha entrou em guerra com a França. em obra posterior. a respeito da qual se costuma dizer que o verdadeiro Nietzsche fala através das figuras de Schopenhauer e de Wagner. de Schopenhauer (1788-1860). Em 1871. tornou-se para Nietzsche lugar d "refúgio e consolação". Karl Ludwig. mas um acidente em exercício de montaria livrou-o dessa obrigação. professor de filologia em Basiléia. Criança feliz. Na mesma época. desistiu desses estudos e passou a residir em Leipzig. alemão e latim. e seus dois avós eram pastores protestantes. Nietzsche foi atraído pelo ateísmo de Schopenhauer. dócil e leal. mas. o próprio Nietzsche pensou em seguir a mesma carreira. Nessa época teve início sua amizade com Richard Wagner (1813-1883). Datam dessa época suas leituras de Schiller (1759-1805). entre os clássicos. seus colegas de escola o chamavam "pequeno pastor". Durante o último ano em Pforta.C. onde Wagner morava. VI a.2 . seu pai. por causa disso a mãe mudou-se com a família para Naumburg. A filosofia somente passou a interessá-lo a partir da leitura de O Mundo como Vontade e Representação. principalmente com Tristão e Isolda e com Os Mestres Cantores. que viria a ser.).C. Ritschl considerava a filologia não apenas história das formas literárias. influenciado por seu professor predileto.). a "sonhada Ariane". dedicando-se à filologia. duas tias e da avó. Ritschl. III). onde permaneceu por dez anos. Nietzsche obteve uma bolsa de estudos na então famosa escola de Pforta. Em 1858. em 1869. seus autores favoritos. esboçando seu livro O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música.4 . Nessa obra. escrevia: "Minha Itália chama-se Tribschen e sinto-me ali como em minha própria casa". Na universidade.) e Ésquilo (525-456 a. Em cartas ao amigo Erwin Rohde. onde se dedicou aos estudos de teologia e filosofia. Em 1867. com eles criou uma pequena sociedade artística e literária.1 . Hesíodo (séc. pequena cidade às margens do Saale. aluno modelo. filha de Liszt (1811-1886). Voltou então aos estudos na cidade de Leipzig. em companhia da mãe. VIII a.) e Homero.NIETZSCHE 4. sob essa influência e a de alguns professores.C. Essa doença parece ter sido a origem das dores de cabeça e de estômago que acompanharam o filósofo durante toda a vida. A partir desses trabalhos foi nomeado. para a qual compôs melodias e escreveu seus primeiros versos. Em 1849. pois logo adoeceu. contraindo difteria e disenteria. apaixonou-se por Cosima. pessoa culta e delicada. escreveu um trabalho sobre o poeta Teógnis (séc. assim como pela posição essencial que a experiência estética ocupa em sua filosofia. onde haviam estudado o poeta Novalis o filósofo Fichte (1762-1814). Nietzsche serviu o exército como enfermeiro. Nietzsche foi chamado para prestar o serviço militar.Vida e Obra Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu a 15 de outubro de 1844 em Röcken. sobretudo pelo significado metafísico que atribui à música. Excelente aluno em grego e brilhante em estudos bíblicos. que tinha quase 55 anos e vivia então com Cosima. Hölderlin (1770-1843) e Byron (1788-1824). Nietzsche seguiu-lhe as pegadas e realizou investigações originais sobre Diógenes Laércio (séc. Nietzsche restabeleceu-se lentamente e voltou a Basiléia a fim de prosseguir seus cursos. foram Platão (428348 a.C. às margens do lago de Lucerna. Partiu em seguida para Bonn. localidade próxima a Leipzig. nessa ocasião. Nietzsche começou a afastar-se do cristianismo. publicou O Nascimento da Tragédia. seu pai e seu irmão faleceram. considera Sócrates 267 . mas estudos das instituições e do pensamento. A casa de campo de Tribschen. mas por pouco tempo. Nietzsche encantou-se com a música de Wagner e com seu drama musical. passou a tratar das relações entre a música e a tragédia grega.

de "eterno" e "verdadeiro". coisa tão querida pelos gregos. Ao mesmo tempo. uma nova forma de disputa (ágon). ele dissimula o mais negro obscurantismo nos orbes luminosos do ideal. dizia Nietzsche. Para ele a Grécia socrática. isso lhe parecia necessário para destruir os obstáculos da moral e da metafísica. Nietzsche pergunta como. iniciou sua grande crítica dos valores. Interrompeu assim sua carreira universitária por um ano. Dioniso. Ele acaricia todo o instinto niilista (budista) e embeleza-o com a música. e tornou-se necessário que a vida ameaçada de dissolução lançasse mão de uma "razão tirânica".(470 ou 469 a. de Dioniso e Apolo. Nietzsche estabeleceu uma distinção entre o apolíneo e o dionisíaco: Apolo é o deus da clareza. Irritado com o antigo amigo. entre o cidadão e o político. Erwin Rohde nem chegou a agradecer-lhe o recebimento da obra. quando os valores não são mais do que algo "humano. O homem. mudou de opinião. Seu livro foi mal acolhido pela crítica. Para Além de Bem e Mal (1886). a recusa do cristianismo e de Schopenhauer. aos poucos.) um "sedutor". da harmonia e da ordem.3 . achando que Wagner inclinava-se ao pessimismo sob a influência de Schopenhauer. foram separados pela civilização. Nietzsche publicou O Andarilho e sua Sombra: um ano depois apareceu Aurora. sob a influência "decadente" de Sócrates. o apolíneo e o dionisíaco. o que o impeliu a refletir sobre a incompatibilidade entre o "pensador privado" e o "professor público". Nietzsche responde que isso aconteceu porque a existência grega já tinha perdido sua "bela imediatez". A tragédia grega. entre Eros e Logos. para Nietzsche. nada que calunie o mundo no reino do espírito.Solidão. 4. que até então interpretara a música de Wagner como o "renascimento da grande arte da Grécia". num povo amante da beleza.-399 a. nada de perigoso para a vida. da fraqueza e da negação. demasiado humano". Mesmo doente foi até Bayreuth. seus amigos não o compreenderam. ambos são parentes porque são a manifestação da decadência. isto é. pediu demissão do cargo. Demasiado Humano. esperava-se com seu estado de saúde: dores de cabeça. Em 1882. Mas sua voz agora era tão imperceptível que os ouvintes deixaram de freqüentar seus cursos. ao mesmo tempo. depois Assim falou Zaratustra (1884). com a qual se empenhou "numa luta contra a moral da auto-renúncia". Mais uma vez. que não tenha encontrado secretamente abrigo em sua arte. Nessa época Wagner voltara-se. Rompeu as relações de amizade que o ligavam a Wagner e. nem respondeu à carta que Nietzsche lhe enviara. Nietzsche escreveu: "Não há nada de exausto. Em 1879. veio à luz A Gaia Ciência. foi invadida pelo racionalismo. nada de caduco. assinalou o fim da Grécia antiga e de sua força criadora. recusando sua noção de "vontade culpada" e substituindo-a pela de "vontade alegre". Agonia e Morte Em 1880. acaricia toda a forma de cristianismo e toda expressão religiosa de decadência". ao mesmo tempo. Nietzsche voltou à cátedra. Nietzsche trata da Grécia antes da separação entre o trabalho manual e o intelectual. Assim. entre o poeta e o filósofo. complementares entre si. Terminada a licença da universidade para que tratasse da saúde. escrevendo Humano. dificuldades na fala. depois de ter atingido sua perfeição pela reconciliação da "embriaguez e da forma". por ter feito triunfar junto à juventude ateniense o mundo abstrato do pensamento. Segundo Nietzsche. seu trabalho não foi bem acolhido por seus amigos. afastou-se da filosofia de Schopenhauer. Nietzsche. O Caso Wagner. Mas o "entusiasmo grosseiro" da multidão e a atitude de Wagner embriagado pelo sucesso o irritaram. é o criador dos valores. diz Nietzsche.C. da desordem e da música. isto é. Crepúsculo dos 268 . Sócrates pôde atrair os jovens com a dialética. a da cidade-Estado.C. Nessa ocasião. de Wagner. o deus da exuberância. outrora tão brilhantes. a do Logos e da lógica. perturbações oculares. começou a declinar quando. a fim de dominar os instintos contraditórios. mas esquece sua própria criação e vê neles algo de "transcendente". para assistir à apresentação de O Anel dos Nibelungos.

o que o amargurou profundamente. onde permaneceu por insistência de Fräulein von Meysenburg. em companhia da mãe e da irmã. ora "o Crucificado" e acabou sendo internado em Basiléia. a avaliação tentaria determinar o valor hierárquico desses sentidos. Lou Andreas Salomé. No outono de 1883 voltou para a Alemanha e passou a residir em Naumburg. onde veio a conhecer o intelectual alemão Paul Lanzky. não conseguindo influenciar a irmã. talvez pretendendo ser o mediador para que Nietzsche não publicasse seu ataque contra Wagner. que pretendia fundar uma empresa colonial no Paraguai. no entanto. Assim. Nietzsche propôs-lhe casamento e foi recusado. partindo depois para a Suíça. publicado em um jornal de Leipzig e na Revista Européia de Florença. sem. Isso trouxe como conseqüência uma nova concepção da filosofia e do filósofo: não se trata mais de procurar o ideal de um conhecimento verdadeiro. assim. Nietzsche transferiu-se para Gênova. Além disso. o aforismo nietzschiano é. agitador anti-semita. o avaliador seria o artista que considera e cria perspectivas. abandonou Naumburg. Nietzsche viu no rapaz um discípulo capaz de compreender o seu Zaratustra. viajou para Nice. Provavelmente de origem sifilítica. não houve a esperada adesão à filosofia nietzschiana e. acabaram por se afastar definitivamente. De Silvaplana. da alegria e do sofrimento. na pequena aldeia de Silvaplana. O intérprete seria uma espécie de fisiologista e de médico. simultaneamente. veio a falecer muito cedo. e. porém. a 25 de agosto de 1900. Ecce Homo. O Anticristo e Vontade de Potência só apareceram depois de sua morte. a moléstia progrediu lentamente até a apatia e a agonia. Nietzsche passou a escrever cartas estranhas. totalizando os fragmentos. porém. mas Lou Andreas Salomé desejou continuar sua amiga e discípula. como reduto da cristandade teutônica. no outono de 1881. mas sim de interpretar e avaliar. no entanto. Um ano mais tarde. e. aquele que considera os fenômenos como sintomas e fala por aforismos. em Turim. Durante o verão de 1881. que lera Assim falou Zaratustra e escrevera um artigo. "foi durante o inverno e no meio desse desconforto que nasceu o meu nobre Zaratustra". Em Rapallo. Em 1885. redigido logo depois. teve a intuição de O Eterno Retorno. Lanzky se dirigiu a Nietzsche tratando-o de "mestre" e Nietzsche lhe respondeu: "Sois o primeiro que me trata dessa maneira". sentia-se cada vez mais só. Von Stein esperava que o filósofo o acompanhasse a Bayreuth para ouvir o Parsifal. falando 269 . e o poema constitui a arte de avaliar e a própria coisa a ser avaliada. Apesar da companhia dos familiares. escrevia cartas ora assinando "Dioniso". Nietzsche não se encontrava bem instalado. do bem e do mal. Em seguida. Nietzsche contra Wagner (1888). A interpretação procuraria fixar o sentido de um fenômeno. sucedendo-se alternâncias entre euforia e depressão. 4. atenuar ou suprimir a pluralidade. o autor só encontrou sete pessoas a quem enviá-la.4 . jovem discípulo de Wagner. Nietzsche faleceu em Weimar. onde foi diagnosticada uma "paralisia progressiva". Nietzsche desprezava o anti-semitismo. cada vez mais isolado. Nietzsche residiu em Haute-Engandine. veio a público a Quarta parte de Assim falou Zaratustra. pois sua irmã tencionava casar-se com Herr Foster. retornou à Itália. Por seu lado. enfrentou o auge da crise. Depois disso. Em princípio de abril de 1884 chegou a Veneza. durante um passeio. e depois para Roma. Nessa obra defendeu a tese de que o mundo passa indefinidamente pela alternância da criação e da destruição. Encontraram-se mais tarde na Alemanha. mostrava-se muito contrariado.Ídolos. a arte de interpretar e a coisa a ser interpretada.O Dionisíaco e o Socrático Nietzsche enriqueceu a filosofia moderna com meios de expressão: o aforismo e o poema. Em 1882. passando o inverno de 1882-1883 na baía de Rapallo. sempre parcial e fragmentário. Certa vez. Depois de 1888. que pretendia casá-lo com uma jovem finlandesa. onde recebeu a visita do barão Heinrich von Stein. Ditirambos Dionisíacos. Von Stein.

condenando-a. o "homem teórico". formula que. porém. verdadeira natureza da realidade. segundo Nietzsche. teria surgido um tipo de filósofo voluntário e sutilmente "submisso". esse tipo de conhecimento não tarda a encontrar seus limites: "esta sublime ilusão metafísica de um pensamento puramente racional associa-se ao conhecimento como um instinto e o conduz incessantemente a seus limites onde este se transforma em arte". inaugurando a época da razão e do homem teórico. a única atividade digna do homem. algo que apresenta efeitos sem causas e causas sem efeitos. lógico. Sócrates. Mas Sócrates interpretou a arte trágica como algo irracional. tudo de maneira tão confusa que deveria ser ignorada. diz Nietzsche. fazendo da vida aquilo que deve ser julgado. Com Sócrates. a grande tragédia grega apresenta como característica o saber místico da unidade da vida e da morte e. o Belo. inacessível ao conhecimento dos sentidos. Sócrates "inventou" a metafísica. para Sócrates. retirando do mundo supra-sensível todo e qualquer valor eficiente. o aspecto lógicoracional. é a aparência e seu reverso não é mais o Ser. possuído que foi pelo instinto irrefreado de tudo transformar em pensamento abstrato. Com tal concepção. e a consciência uma força crítica e negativa. faltou-lhe a visão mística. medido. e. corresponde ao aforismo "só o homem que concebe o bem é virtuoso". constitui uma "chave" que abre o caminho essencial do mundo. Reunindo as duas capacidades. racional. Assim. Para Nietzsche. na medida em que abandonou o fenômeno do trágico. e a única coisa permitida é sua interpretação. Para Nietzsche. limitado. foi o único verdadeiro contrário do homem trágico e com ele teve início uma verdadeira mutação no entendimento do Ser. Com ele. distinguindo o verdadeiro do aparente e do erro era. opondo a ela valores pretensamente superiores. o homem se afastou cada vez mais desse conhecimento.O Vôo da Águia. quando se estabeleceu a distinção entre dois mundos. um tipo de filósofo encontra-se entre os pré-socráticos. Essa degeneração. Segundo Sócrates. que se opôs ao sentido místico de toda a tradição da época da tragédia. 4. mediando-a por eles. restou a Sócrates apenas um aspecto da vida do espírito. mas como "sinais". inteligível e sensível. esta "estimulando" o pensamento.pelo poema. nesse sentido. verdadeiro e falso. em lugar de uma vida ativa e de um pensamento afirmativo. Para Nietzsche. a Ascensão da Montanha A crítica nietzschiana à metafísica tem um sentido ontológico e um sentido moral: o combate à teoria das idéias socrático-platônicas é. Perdendo-se a sabedoria instintiva da arte trágica. o homem está destinado à multiplicidade. 270 . pela oposição entre essencial e aparente. crítico de todos os valores estabelecidos e criador de novos. A única existência. nos quais existe unidade entre o pensamento e a vida. segundo Nietzsche. e entendendo as idéias não mais como "verdades" ou "falsidades". o Verdadeiro. ao mesmo tempo. Em lugar do filósofo-legislador. afirma Nietzsche. a filosofia ter-se-ia proposto como tarefa "julgar a vida". isto é. o filósofo do futuro deveria ser artista e médicolegislador. Penetrar a própria razão das coisas. uma verdadeira oposição dialética entre Sócrates e Dioniso: "enquanto em todos os homens produtivos o instinto é uma força afirmativa e criadora. segundo Nietzsche. apareceu claramente com Sócrates. criou-se. em nome de valores "superiores" como o Divino. Esse bem ideal concebido por Sócrates existiria em um mundo suprasensível. no "verdadeiro mundo". Nietzsche combateu a metafísica. e o pensamento "afirmando" a vida. para Nietzsche. uma luta acirrada contra o cristianismo. Mas o desenvolvimento da filosofia teria trazido consigo a progressiva degeneração dessa característica. os quais só revelariam o aparente e irreal. impondo-lhes limites. em Sócrates o instinto torna-se crítico e a consciência criadora".5 . ao mesmo tempo. o Bem. a arte da tragédia desvia o homem do caminho da verdade: "uma obra só é bela se obedecer à razão". Por isso Sócrates colocou a tragédia na categoria das artes aduladoras que representam o agradável e não o útil e pedia a seus discípulos que se abstivessem dessas emoções "indignas de filósofos". Por essa razão. surgiu o filósofo metafísico.

diz Nietzsche. repousando em dogmas e crenças que permitem à consciência fraca e escava escapar à vida. o sensível. diz Nietzsche. é a forma acabada da perversão dos instintos que caracteriza o platonismo. implica resignação. o corpo. antes mesmo de serem signos. bonus significa também o "guerreiro". deve centralizar-se no problema de saber o que existe para ser interpretado. criar". um significado esquecido da palavra "bom". logo eu sou bom". "Este ódio de tudo que é humano". ao percorrer os signos para denunciá-las. Assim como esse. Do ponto de vista do intérprete que desça até os bas-fonds da consciência. A etimologia nietzschiana mostra que não existe um "sentido original".. em oposição ao mundo da felicidade eterna do além. mas impõem uma interpretação. a ascensão da montanha e todas as imagens de verticalidade que se encontram em Assim falou Zaratustra representam a inversão da profundidade e a descoberta de que ela não passa de um jogo de superfície. segundo Nietzsche. diz Nietzsche. o cristianismo concebe o mundo terrestre como um vale de lágrimas. que é preciso desmistificar. Nietzsche traz à tona. levo uma claridade intensa aos subterrâneos do ideal". entende o terrestre. "de tudo que é 'animal' e mais ainda de tudo que é 'matéria'. o Bem é a vontade do mais forte. na fórmula "tu és mau. forjaram o mito da salvação da alma porque não possuíam o corpo. à luz das idéias do outro mundo. de uma vulgarização da metafísica. o método filológico. O trabalho do etimologista. dizem-se culpadas e voltam-se contra si mesmas). autêntico e verdadeiro. este horror da felicidade e da beleza.. significado este que foi sepultado pelo cristianismo. neles tudo é invertido: os fracos passam a se chamar fortes. portanto. esforço. este temor dos sentidos. e o intérprete-filólogo. 271 . hostilidade à vida. a baixeza transforma-se em nobreza. Nietzsche propôs a si mesmo a tarefa de recuperar a vida e transmutar todos os valores do cristianismo: "munido de uma tocha cuja luz não treme. hipocrisia e máscara. sempre foram inventadas pelas classes superiores e. Essa concepção constitui uma metafísica que. interpretação. morte. avaliação. e se elas só significam porque são "interpretações essenciais". no pensamento de Nietzsche. dançar. o inautêntico e o aparente. por exemplo. do "guerreiro". criaram a ficção do pecado porque não podiam participar das alegrias terrestres e da plena satisfação dos instintos da vida. pois procura "fazer falar aquilo que gostaria de permanecer mudo". com isso se poderia constituir uma genealogia da moral que explicaria as etapas das noções de "bem" e de "mal". a vontade de potência torna-se vontade de nada e a vida transforma-se em fraqueza e mutilação. vontade de aniquilamento. A "profundidade da consciência" que busca o Bem e a Verdade. por ele concebido como um método crítico e que se constitui no nível da patologia. e impondo a resignação e a renúncia como virtudes. é como Dioniso. Zaratustra. dever. Fazer isso é "aliviar o que vive. Para Nietzsche essas etapas são o ressentimento ("é tua culpa se sou fraco e infeliz"). do super-homem. desejo mesmo. outros significados precisariam ser recuperados.Segundo Nietzsche. triunfando o negativo e a reação contra a ação. continua Nietzsche. de "um platonismo para o povo". Nietzsche vê o triunfo da moral dos fracos que negam a vida. Quando esse niilismo triunfa. diz Nietzsche. Trata-se. como o provisório. e o ideal ascético (momento de sublimação do sofrimento e de negação da vida). não indicam um significado.. entendida esta expressão no sentido de um ser humano que transpõe os limites do humano. é o além-do-homem. portanto. à dor e à luta. inventaram falsos valores para se consolar da impossibilidade de participação nos valores dos senhores e dos fortes. São os escravos e os vencidos da vida que inventaram o além para compensar a miséria. na medida em que tudo é máscara. Assim.. pois as próprias palavras não passam de interpretações. eu negam a "afirmação". do arauto de um apelo perpétuo à verdadeira ultrapassagem dos valores estabelecidos. essa é a maneira como o escravo a concebe. o intérprete por excelência. a vontade de potência deixa de querer significar "criar" para querer dizer "dominar". recusa em se admitir as condições fundamentais da própria vida". o vôo da águia. tudo isso significa. A imagem da tocha simboliza. O cristianismo. A partir daqui. assim. mudança. Em latim. a consciência da culpa (momento em que as formas negativas se interiorizam. As palavras. Assim. este desejo de fugir de tudo que é aparência. deve ser um escavador dos submundos a fim de mostrar que a "profundidade da interioridade" é coisa diferente do que ela mesma pretende ser.

Se se interpreta vontade de potência. mas o Crucificado. Dessa forma. pelo amor ao distante. que lhe parecem "imorais". Esse super-homem nietzschiano não é um ser. o sofrimento. assim. Vontade de potência. pelo risco. e a transmutação dos valores traz consigo o novo homem que se situa além do próprio homem. cuja vontade "deseje dominar". fazendo dela uma ação. Em dois momentos de Assim falou Zaratustra (Zaratustra doente e Zaratustra convalescente). à moral da compaixão. uma instância a serviço daquele que cria. concebendo o primeiro como o triunfo da afirmação da vontade de potência e o segundo como símbolo do mundo como vontade. o "homem pequeno". o verdadeiro oposto a Dioniso não é mais Sócrates. aí está a causa de meu cansaço e de toda a existência. Zaratustra. a arte trágica é concebida por Nietzsche como oposta à decadência e enraizada na antinomia entre a vontade de potência. e que ele faria tudo voltar. e o "eterno retorno". Oposta. uma repulsa e um medo intoleráveis que desaparecem por ocasião de sua cura. piedade. da piedade. Compreende-se. a vontade de potência do super-homem nietzschiano o situa muito além do bem e do mal e o faz desprender-se de todos os produtos de uma cultura decadente. como desejo de dominar. A moral do além-dohomem. da ressurreição e da volta. é a pura afirmação. Para Nietzsche. no entanto. bondade. primeiramente. aberta para o futuro. a afirmação do devir e do múltiplo. impondo-se sua substituição pela virtù dos renascentistas italianos. desconhece-se a natureza da vontade de potência como princípio plástico de todas as avaliações e como força criadora de novos valores. de um lado. portanto. o profeta do além-do-homem. para Nietzsche. mesmo na dilaceração dos membros dispersos de Dioniso. e apenas ele. o eterno retorno causa ao personagem-título. aí está o que me sufocou e que me tinha entrado na garganta e também o que me tinha profetizado o adivinho: tudo é igual.6 . o testemunho contra a vida e o empreendimento de vingança que consiste em negar a vida. faz-se dela algo dependente dos valores estabelecidos. diz Nietzsche. "os homens não têm de fugir à vida como os pessimistas". o homem descobre no eterno retorno a plenitude de uma existência ritmada pela alternância da criação e da destruição. mesmo do mais pequeno. como a crítica total que acompanha a criação. assim. objetividade. esta. como alegres convivas de um banquete que desejam suas taças novamente cheias. não significa uma volta do mesmo nem uma volta ao mesmo. a um ciclo. "dar" e "avaliar". pois impossibilitam que se pense a diferença entre os valores dos "senhores e dos 272 . diz Nietzsche. que afirma. Nietzsche responde ao pessimismo de Schopenhauer: em lugar do desespero de uma vida para a qual tudo se tornou vão. Com isso. de outro. amoral e superior ao lógico. porque Nietzsche desacredita das doutrinas igualitárias. a verdadeira oposição é a que contrapõe. mesmo o homem. que vive esse constante perigo e fazendo de sua vida uma permanente luta. pois o que o tornava doente era a idéia de que o eterno retorno estava ligado. humildade. pelo orgulho. diz Nietzsche. amor ao próximo. constituem valores inferiores. como um deus artista. diz Zaratustra. significa "criar". Assim. a morte e o declínio são apenas a outra face da alegria. Por outro lado. da doçura feminina e cristã. do bem e do mal. se Zaratustra se cura é porque compreende que o eterno retorno abrange o desigual e a seleção. da alegria e do sofrimento. diz Nietzsche. Nietzsche assimila Zaratustra a Dioniso.Os Limites do Humano: O Além-do-Homem Em Ecce Homo. "mas. O forte é aquele em que a transmutação dos valores faz triunfar o afirmativo na vontade de potência.4. Com essa concepção. o eterno retorno nietzschiano é essencialmente seletivo. oferece. dirão à vida: uma vez mais". O negativo subsiste nela apenas como agressividade própria à afirmação. E o eterno retorno. apesar de tudo. uma "saída fora da mentira de dois mil anos". é a moral oposta à do escravo e à do rebanho. O grande desgosto do homem. pela personalidade criadora. que faz do futuro numa repetição. O eterno retorno. Em outros termos. Por isso. portanto. totalmente irresponsável. Nesse sentido. que leva a negação a seu último grau. Para Dioniso.

Elisabeth. que fracassara em um projeto colonial no Paraguai. afirmou Nietzsche. Nietzsche levou até a caricatura seu desprezo pelos alemães. seus alicerces encontram-se na máxima que diz: "o poder dá o primeiro direito e não há direito que no fundo não seja arrogância. fazendo publicar Vontade de Potência como a última e a mais representativa das obras de Nietzsche. até o anti-semitismo". e.escravos". que não se coaduna com o nacionalismo e o racismo germânicos. "A democracia é a forma histórica de decadência do Estado". Por outro lado. A principal responsável por essa deformação foi sua irmã Elisabeth. Em Considerações Extemporâneas essa tese é reforçada: "estamos sofrendo as conseqüências das doutrinas pregadas ultimamente por todos os lados. O Estado. Jacob Burckhardt (1818-1897). reuniu arbitrariamente notas e rascunhos do irmão. sobretudo um Estado que pensa em si em lugar de pensar na cultura. feita por Nietzsche. para ele. de sua própria filosofia. segundo as quais o estado é o mais alto fim do homem. homens "que introduziram no lugar da cultura a loucura política e nacional. Esta obra constitui uma interpretação. o Estado tem uma origem "terrível". essas teorias seriam apenas "fantásticas". desde sua participação na guerra franco-prussiana (1870-1871). pois. escrita em 1888. disciplinados como uma cifre oculta em um número". diz Nietzsche. Ambos foram combatidos pelo filósofo. quando confiou ao "louro" a tarefa de "virilizar a Europa". não há mais elevado fim do que servi-lo. aplaudia as palavras de seu colega em Basiléia. a vitória da Alemanha sobre a França teria como conseqüência "um poder altamente perigoso para a cultura". tornando-a estática e estereotipada. organizando o Nietzsche-Archiv.. por causa do nacionalismo e anti-semitismo do autor de Tristão e Isolda: "Wagner condescende a tudo que desprezo.7 . Por ocasião desse conflito. de tal forma que se passou a ver no autor de Assim Falou Zaratustra um percursor do nazismo. retendo até 1908 Ecce Homo. desenvolveu-se um pensamento nacionalista e racista. que. Nietzsche caracterizou os heróis wagnerianos como germanos que não passam de "obediência e longas pernas". Por outro lado. Nietzsche revela o desejo de uma Europa unida para enfrentar o nacionalismo ("essa neurose") que ameaçava subverter a cultura européia. mas em Vontade de Potência exorta os operários a reagirem "como soldados". usurpação e violência". Ao contrário disso.. 4. para ele. Nietzsche não aceitava as considerações de que a origem do Estado seja o contrato ou a convenção. Nietzsche alistou-se no exército alemão. mas seu ardor patriótico logo se dissolveu. Em Para Além de Bem e Mal. purificá-lo de todos os desvios posteriores que foram cometidos em seu nome. tendência a impedir o desenvolvimento da cultura livre. como conseqüência. entendendo por decadência tudo aquilo que escraviza o pensamento. ao contrário. Nietzsche foi ao mesmo tempo um antidemocrático e um antitotalitário. é necessário. Para compreender corretamente as idéias políticas de Nietzsche. E acabou rompendo definitivamente com Wagner. que só sabem obedecer pesadamente. está sempre interessado na formação de cidadãos obedientes e tem. Nessa época. assim. que insistia junto a seus alunos para que não tomassem o triunfo militar e a expansão de um Estado como indício de verdadeira grandeza. em sua teoria da vontade de potência e no seu elogio do super-homem. No mesmo sentido. depois do suicídio do marido. portanto. 273 . sendo criação da violência e da conquista e. Considero tal fato não um retrocesso ao paganismo mas um retrocesso à estupidez".Uma Filosofia Confiscada Apoiado na crítica nietzschiana aos valores da moral cristã. Nietzsche recusa o socialismo. o Estado deveria ser apenas um meio para a realização da cultura e para fazer nascer o além-do-homem. ao assegurar a difusão de seu pensamento. tentou colocá-lo a serviço do nacionalsocialismo. portanto. em Weimar.

rompendo os costumes e as superstições veneradas e constituindo uma verdadeira subversão dos valores. é necessário colocar-se dentro do próprio núcleo de sua concepção da filosofia: Nietzsche inverteu o sentido tradicional da filosofia. Essa opinião. aos "filósofos além de bem e mal". que se deve compreender a presença da loucura na obra de Nietzsche.8 . ainda que para outros signifique doença. A técnica utilizada pelas classes sacerdotais para a cura da loucura é a "meditação ascética".Assim Falou Zaratustra Em Ecce Homo. cuja decifração cabe à filosofia.. a fisiologia e a patologia são uma única coisa. Mas. revela um superficial entendimento de seu pensamento. como tal. Para ele. as oposições entre bem e mal. portanto. alguma coisa de divino: "Pela loucura os maiores feitos foram espalhados foram espalhados pela Grécia". "Por que sou tão sábio?". As últimos cartas de Nietzsche são o testemunho desse momento extremo e. A filosofia foi. nem a doença são entidades. pertencem ao conjunto de sua obra e de seu pensamento. assim. Em suma. diz Nietzsche. no entanto. Para Nietzsche. Nietzsche intitulou seus capítulos: "Por que sou tão finalista?". não há fato patológico. fazendo dela um discurso ao nível da patologia e considerando a doença "um ponto de vista" sobre a saúde e vice-versa. Sua crise final apenas marcou o momento em que a "doença" saiu de sua obra e interrompeu seu prosseguimento. sob o travestimento da loucura. a arte de deslocar as perspectivas. aos emissários dos novos valores e da nova moral não resta outro recurso. a não ser o de proclamar as novas leis e quebrar o jugo da moralidade. esconde um saber fatal e "demasiado certo". "Por que escrevo livros tão bons?". Não fui um doente nem mesmo por ocasião da maior enfermidade". nem a saúde. verdadeiro e falso. a sensualidade e o livre florescimento do eu são considerados "manifestações diabólicas". "Por que sou tão inteligente?". sendo a doença um desvio interior à própria vida. a vontade de potência. 274 . É dentro dessa perspectiva. pois é a loucura que torna mais plano o caminho para as idéias novas. e a loucura deveria cumprir a tarefa de fazer a crítica escondida da decadência dos valores e aniquilamento: "Na verdade. Há uma continuidade. entre a doença e a saúde e a diferença entre as duas é apenas de grau. da saúde à doença. os homens do passado estiveram mais próximos da idéia de que onde existe loucura há um grão de gênio e de sabedoria. A loucura não passa de uma máscara que esconde alguma coisa. diz Nietzsche.4.. que consiste em enfraquecer os instintos e expulsar as paixões. doença e saúde são apenas jogos de superfície. aniquilar as paixões é uma "triste loucura". para ele. para Nietzsche. Para entendê-lo corretamente. a doença pode ser útil a um homem ou a uma tarefa. com isso. Isso levou muitos a considerarem sua obra como anormal e desqualificada pela loucura.

tinha 56 e a mãe 44 . O noivado. que sua vida mudou. cabe verificar o que ela pode trazer de esclarecedor acerca do estilo de pensamento de Kierkegaard. a vida social. chamava a si mesmo de "filho da velhice" e teria seguido a carreira de pastor caso não houvesse se revelado um estudante indisciplinado e boêmio. descobre a necessidade da solidão e do distanciamento mundano. Em 1849. Temor e Tremor e A Repetição. viajou. razões da ordem da reforma do conhecimento. incluindo a relação de angústia e sofrimento que ele manteve com o cristianismo herança de um pai extremamente religioso. o caráter socrático do autoconhecimento e o esclarecimento reflexivo da posição do indivíduo diante da verdade cristã. Estamos habituados a ver. foi aluno de Schelling e esboça alguns de seus textos mais importantes. Assim. A partir daí seus textos tornaram-se mais profundos e seu pensamento. Pra elas. ao optar pelo compromisso radical com a transcendência. Esse é o momento da segunda grande mudança em sua vida. por exemplo. Foi só em 1837. para a Alemanha. 5. Isso fica bem evidenciado quando ele reage às filosofias de sua época em especial à de Hegel. Para além das minúcias que essa distinção envolveria. tratar-se-ia muito mais de um pensador religioso do que de um filósofo. Kierkegaard criticou a Igreja oficial da Dinamarca.5 . Pode-se perguntar. Um ano depois. Kierkegaard escolheu a solidão.KIERKEGAARD Kierkegaard é um dos raros autores cuja vida exerceu profunda influência no desenvolvimento da obra. e em 1843 publica A Alternativa. essa era a única maneira de vivenciar sua fé. Volta a Copenhague em 1842. Em vez de pastor e pai de família. onde entrara em 1830 para estudar filosofia e teologia. a filosofia assume. A maior parte desses textos constitui uma tentativa de explicar a Regina. na raiz das tentativas filosóficas que se deram ao longo da história. a um só tempo. qual a finalidade que ele intencionalmente deu à sua obra. em 1850. sua tese de doutorado. Em Kierkegaard não encontramos. Sétimo filho de um casamento que já durava muitos anos nasceu em 1813. A crise vivida por um homem que. quando o pai. exerceria uma influência decisiva em sua obra.1 . Escola do Cristianismo. mais religioso. Para ele. e a ele mesmo. em 1846. o Post-scriptum a Migalhas Filosóficas. os teatros. e foi execrado pelo semanário satírico O Corsário. Kierkegaard elabora seu pensamento a partir do exame concreto do homem religioso historicamente situado. rico comerciante de Copenhague. Polemista por excelência. da política. Morreu em 1855. Em 1844 saem Migalhas Filosóficas e O Conceito de Angústia. Rompido o noivado. com a qual travou um debate acirrado. com a morte do pai e o relacionamento com Regina Oslen (de quem se tornaria noivo em 1840). em particular. Também em 1840 ele conclui o curso de teologia. ou. então. os paradoxos da existência religiosa. é editado As Etapas no Caminho da Vida e. e um ano depois apresentava "Sobre o Conceito de Ironia". As inquietações e angústias que o acompanharam estão expressas em seus textos. Não se trata de questionar as 275 . que cultuava a maneira exacerbada os rígidos princípios do protestantismo dinamarquês. publicou Doença Mortal e. pelos cafés da cidade. nenhuma dessas motivações tradicionais. está em Diários. Trocou a Universidade de Copenhague. quais as questões fundamentais que lhe motivam a reflexão. religião de Estado. de Copenhague. ainda em 1841. em que analisa a deterioração do sentimento religioso. estritamente.Filósofo ou Religioso? A posição de Kierkegaard leva algumas pessoas a levantar dúvidas a respeito do caráter filosófico de seu pensamento. da moral. Na Alemanha.

mas como a solidão característica do homem que se coloca como finito perante o infinito. no mundo e perante aquilo que o ultrapassa. 276 . sim. Foi a mediação do paradoxo e do absurdo que recolocou o homem em comunicação com Deus. De onde provém. porque a vê como uma etapa de algo maior. definitivamente. é o mediador entre o homem e Deus. É por meio de Cristo que o homem se situa existencialmente perante Deus. na afirmação radical da própria individualidade. comprazer-se na finitude é admitir a necessidade lógica de nossa condição. A individualidade define a existência. Somente dessa maneira nos colocamos no caminho da recuperação de uma certa afinidade com o absoluto. A individualidade não deve portanto ser entendida primordialmente como um conceito lógico. no entanto. o particular pelo geral. Se permanecesse a distância infinita que separa Deus e o homem. um modo de existir. naquilo que São Paulo já havia chamado de "loucura". Aqui se situam as circunstâncias que fazem do advento da Verdade um absurdo: a Verdade não nos foi revelada com as pompas do conceito e do sistema. essa defesa arraigada daquilo que é único? Não de uma contraposição teórico-filosófica a Hegel. O paradoxo de Deus feito homem e o absurdo das circunstâncias do advento da Verdade. histórico. enquanto ser individual. cujo sentido é infinito. A mediação é o Cristo vivo. outro caminho para a Verdade a não ser o da interioridade. mas de uma concepção muito profunda da situação do homem. ele encontra sua realização. e o fato igualmente incompreensível do sacrifício na cruz.incorreções ou as inconsistências do sistema hegeliano. jamais nos situaremos verdadeiramente perante o fato da redenção e. o aprofundamento da subjetividade. Cristo. Ora. este jamais teria acesso à Verdade. o homem que se reconhece finito enquanto parte e momento da realização de uma totalidade infinita se compraz na finitude. Em Kierkegaard há um forte sentimento de irredutibilidade do indivíduo. de sua especificidade e do caráter insuperável de sua realidade. Não há portanto uma mediação conceitual. da mediação do Cristo. No entanto. dotado. mas. Mas o próprio Cristo é incompreensível. a divindade. algum tipo de prova racional que me transporte para a compreensão da divindade. dá coerência ao sistema e aplaca as vicissitudes do tempo. O acesso à Verdade suprema depende pois da crença no absurdo. O individual se explica pelo sistema. a partir de uma dimensão sobre-humana. enquanto Deus tornado homem. conseqüentemente. Para Kierkegaard. Não há. Cristo é portanto o fato primordial para a compreensão que o homem tem de si. é o absurdo que possibilita a Verdade. É. mais precisamente de um fato fundamental que nenhuma lógica pode explicar: a fé. o infinito. portanto. Para Hegel. Trata-se muito mais de rebelar-se contra a própria idéia de sistema e aquilo que ela representa. Isso porque a individualidade autêntica supõe a vivência profunda da culpa: sem esse sentimento. o indivíduo é um momento de uma totalidade sistemática que o ultrapassa e na qual. Por isso devemos dizer: creio porque é absurdo. Não devemos buscar o sentido do indivíduo numa harmonia racional que anula as singularidades. tampouco é um estágio provisório que dure apenas enquanto não se completam e fortalecem as luzes da razão. ao mesmo tempo. Ela foi encarnada por um homem obscuro que morreu na cruz como um criminoso. é dissolver a singularidade do destino humano num curso histórico guiado por uma finalidade que. Esta não é o sucedâneo afetivo daquilo que não posso compreender racionalmente. E esse modo me põe imediatamente em relação com o absurdo e o paradoxo. Mas o homem que se coloca frente a si e a seu destino desnudado do aparato lógico não se vê diante de um sistema de idéias mas diante de fatos.

ou seja. como no caso da tragédia grega. da mesma forma como os deuses testavam a sabedoria de Édipo ou de Agamenon. Não se trata. A fé representa um salto. 5. Abraão ilustra na sua radicalidade a situação de homem religioso.O Sofrimento Necessário A subjetividade não significa a fuga da generalidade objetiva: ao contrário. O cristão é aquele que se sente continuamente em presença de Deus pela mediação do Cristo.3 . exceto a relação com Deus. A força de sua fé fez com que Abraão optasse pelo infinito. com uma concepção de existência que torna todos os homens contemporâneos de Cristo. Por tudo o que a existência envolve de afirmação de fé. de conceituação filosófica que esconde a brutalidade do fato religioso. principalmente o protestantismo dinamarquês. insuperável modo de existir. Por isso é que Kierkegaard critica o cristianismo de sua época. A subjetividade de Kierkegaard não é tributária apenas da atmosfera romântica que envolvia sua época. penetrado. A crença é inseparável da angústia. Continuaria sendo o assassino de seu filho. precisamente porque não pode haver transição racional entre o finito e o infinito. estaria ilustrada no episódio do sacrifício de Abraão. caso o sacrifício se tivesse consumado. E a compreensão irradia luz sobre a redenção e a graça. Nada está em jogo. O que Deus pede a Abraão que ele sacrifique o único filho para demonstrar sua fé é absurdo e desumano segundo a ética dos homens. o temor de Deus é inseparável do tremor. nesse caso. no entender de Kierkegaard. Abraão é colocado diante do incompreensível e diante do infinito.5. mais do que com essa característica do Romantismo. o paradoxo de ser o pecado ao mesmo tempo a condição de salvação. O fato da redenção. Mas. Do ponto de vista humano. Por isso a religião só tem sentido se for vivida como comunhão com o sofrimento da cruz. segundo ele. embora histórico. Este jamais daria conta das tensões e contradições que marcam a vida individual. somente aprofundando a subjetividade e a culpa a ela inerente é que nos aproximaremos da compreensão original de nossa natureza: o pecado original. de posse da verdade humana do cristianismo. Abraão ainda assim não teria como justificá-lo à luz de uma ética humana. que faz com que a existência cristã se consuma num instante e ao mesmo tempo se estenda pela eternidade. igualmente fundamentais para nos sentirmos verdadeiramente humanos. de optar entre dois códigos de ética.2 . a ausência de mediação humana.O Salto da Fé Abraão não está na situação do herói trágico que deve escolher entre valores subjetivos (individuais e familiares) e valores objetivos (a cidade. Esse relato bíblico indica a solidão e o abandono do indivíduo voltado unicamente para a vivência da fé. ou entre dois sistemas de valores. Seu profundo significado a-histórico tem a ver. Não se pode apreender racionalmente a contemporaneidade do Cristo. ela não pode ser elucidada pelo conceito. âmbito em que o entendimento é cego. e a incompreensibilidade da infinitude divina faz com que a consciência vacile como diante de um abismo. a comunidade). a dúvida permaneceria para sempre. se realiza na vivência da religiosidade cristã. a procura infindável e a visão instantânea da Verdade. No entanto Abraão não hesitou: a fé fez com que ele saltasse imediatamente da razão e da ética para o plano do absoluto. A fé reúne a reflexão e o êxtase. possui uma dimensão que o torna referência intemporal para se vivenciar a fé. Ele não possui razões para medir ou avaliar qual deve ser sua conduta. Existir é existir diante de Deus. minimiza a distância entre Deus e o homem e sufoca o sentimento de angústia que acompanha a fé. Deus não está testando a sabedoria de Abraão. Tudo está suspenso. A autêntica subjetividade. Essa angústia. a não ser ele mesmo e a sua fé. já que foi por causa do pecado 277 . Poderia permanecer durante toda a vida indagando acerca das razões do sacrifício e não obteria resposta.

A filosofia deve ser imanente à vida. que afinal são derivadas de estar o finito e o infinito em presença um do outro. 278 . não constituirá fundamento adequado da vida e da ação.original que Cristo veio ao mundo. Qualquer filosofia que não leve em conta essas tensões. mas por alternativas e saltos. muito simplesmente porque as decisões humanas não se ordenam por conceitos. A especulação desgarrada da realidade concreta não orientará a ação.

ao mesmo tempo que o seu próprio. em face dos quais o espírito é passivo: o mundo dos noumenons. se ordenado pelas categorias do espírito? E por que Kant mantém essa coisa em si que. Nessas condições. no mundo empírico. Hegel. e. por conseguinte. Kant deixara ainda uns dados. Esse mundo de coisa em si. é representado especialmente de um lado por aquela misteriosa matéria. este é transcendental . bem como dele dependem artistas.6 . Schopenhauer) dependem. pois. mais para a arte e a poesia. 6. é uma criação inconsciente do espírito.O IDEALISMO PÓS-KANTIANO 6. para o qual já fora orientado por Kant. e de outro lado por aquele mundo inteligível. a menos que não seja seu pecado original) visa à inteligibilidade perfeita e à unidade total. de Schelling. por conseguinte. propende. segundo afirma. ou coisa em si. filósofos idealistas. pela íntima unidade espiritual do romantismo e do idealismo. de síntese a priori.O Desenvolvimento do Idealismo Apesar do seu conceito de criatividade do espírito. são eles. e reduz tudo à mais absoluta imanência do espírito. e portanto nega o transcendente mundo kantiano dos noumenons. de Spinoza. com Goethe à frente. de modo diferente. e com o idealismo tem em comum o historicismo. de autonomia do espírito. ao definir em uma palavra os sistemas de Fichte. idealismo objetivo e idealismo absoluto. Este filósofo é arrancado do desprezo e do esquecimento em que jazia. em que toda realidade se resolve nos limites da experiência. ao passo que se deu o contrário com o racionalismo precedente. O mundo da matéria. Ora.Considerações Gerais A maior parte dos filósofos (é sua vocação mais preciosa. a valorização da nacionalidade e da religião. Hegel. do que para as ciências e a matemática. o conceito de desenvolvimento. como o idealismo. em geral. Paralelo e correspondente ao movimento filosófico do idealismo pode ser considerado o romantismo. Este. propriamente. que são produtos históricos. donde derivaria toda a atividade organizadora e criadora do espírito. mais ou menos. particularmente o idealismo clássico alemão. Com efeito. Além de Kant. esse mundo de dados. poetas. Schelling. especialmente alemão. literatos. mas pertencem também ao movimento romântico. a empresa kantiana só pode deixar os filósofos insatisfeitos: para Kant. Para ele convergem e nele se compõem em um fenomenismo absoluto o fenomenismo racionalista e o fenomenismo empírico. fenômeno artístico e literário. que o espírito não consegue conhecer. de síntese a priori. a outra fonte essencial do idealismo alemão é Spinoza. para uma forma de monismo imanentista. Todos os filósofos idealistas (Fichte. a irredutível oposição entre a coisa e o espírito será eliminada. também o romantismo é denominado pelo conceito de criatividade e liberdade do espírito. Dele depende todo pensamento posterior. e esta é totalmente produzida pelo espírito. Kant representa o centro do pensamento moderno. Schleiermacher. Os maiores românticos alemães são Schlegel e Novalis. o entendimento não pode conhecer o fundo das coisas e se limita a "soletrar os fenômenos". caracteriza-os sucessivamente como idealismo subjetivo.e não transcendente . e o seu pensamento encaminha decisivamente o idealismo para a trilha do monismo imanentista. da natureza. das sensações. A estes podem-se acrescentar Schelling e Schleiermacher. Como é então que o mundo sensível se deixa organizar. que desenvolve o conceito de criatividade do sujeito. vão propor sistemas em que.2 . perante o qual o espírito é passivo.1 . o idealismo clássico nega todo dado. não podemos conhecer nem designar? Os sucessores de Kant.com respeito à multiplicidade e ao vir-a-ser 279 .

criado pelo espírito para se realizar a si mesmo como eticidade e liberdade. onde pronunciou os famosos Discursos à Nação Alemã. este motivo prático. e a realidade cairia do nada. Sustenta Fichte que o motivo fundamental. apagar-se-ia a vida do espírito. porquanto em um sistema de idealismo absoluto deveria ser tudo racionalmente justificado . como uma produção do eu. Assentado isto. absoluto.como mais tarde. é Fichte. que . tal produção do não-eu por parte do eu. é necessário que a natureza seja conhecida pelo espírito. Fichte concebe idealisticamente toda a realidade. no dizer de Kant. de que o eu empírico. posse de si mesmo. acomodação. pois. fraqueza. originária do eu seja atividade.protestantes embora . da natureza. Faleceu em Berlim. a principal é Fundamentos da doutrina da ciência. que encaminhou decididamente o criticismo pela senda do idealismo imanentista. minerais. em que está a sua divindade infinita. Nesses eus empíricos. uma questão de caráter. significaria atividade. naturalmente. o Eu puro vive. Mas. Eu puro. moral. moral. seria prático. enfim teve Fichte que deixar o ensino universitário. para incitar os seus patrícios contra Napoleão que humilhara e vencera a Alemanha. desenvolve-se. tanto espiritual quanto material. João Amadeu Fichte nasceu em 1762. isto é. estabeleceu-se definitivamente. e não em uma metafísica transcendente e teísta. precisamente no conceito do espírito como eticidade. era um dado e inexplicável. do eu cognoscitivo e do eu ativo. debilidade.do mundo empírico. E. Daí uma terceira duplicação do eu. o espírito seria passivo. moralidade. opera. Fichte pensa que a natureza íntima. se concretiza a si mesmo indefinita e livremente. procurará fazer Hegel. portanto. na universidade de Berlim. porque. Resolve ele o mundo kantiano da sensibilidade. isto é. que. julga Fichte ter justificado. no mundo da natureza. 6. Mas. Entre as suas obras. o obstáculo a superar para realizar a sua eticidade. para Kant. ficou sendo a base do idealismo posterior. eticidade. se terminasse. mundo que. e ter travado relações com um círculo romântico. Aí teve que enfrentar a oposição das autoridades religiosas e políticas. para que seja superado e vencido esse mundo natural. Primeiro estudou teologia na universidade de Jena. em 1810. ao passo que idealismo.3 . Trata-se. o espírito se realiza. destarte. imanentismo. Desenvolvendo a doutrina kantiana do primado da razão prática. depois dedicou-se entusiasticamente à filosofia kantiana. procurou a sua justificação teórica em uma metafísica monista-imanentista. Temos o eu 280 . de fato. Em 1794 foi convidado a lecionar na universidade de Jena. todavia. do realismo. a dualidade do eu teórico e do eu prático. oporia a si mesmo o não-eu. pelo qual se decide e